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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O COLECIONADOR DE OSSOS / Jeffery Deaver
O COLECIONADOR DE OSSOS / Jeffery Deaver

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O COLECIONADOR DE OSSOS

 

                                                            REI POR UM DIA

    

     Sexta-feira, das 10:30 da noite até sábado, 3:30 da manhã.

     Ela só queria mesmo dormir.

     O avião tinha chegado com duas horas de atraso e ainda houve toda aquela maratona de espera da bagagem. E, então, o serviço de transporte para a cidade entrou em colapso total e a limusine só saiu uma hora depois. Nesse momento, eles esperavam um táxi.

     Na fila de passageiros, seu corpo magro fazia um esforço para compensar o peso do laptop. John continuava a falar ininterruptamente sobre taxas de juros e novas maneiras de reestruturar a operação, mas tudo em que ela conseguia pensar era: sexta-feira, 10:30 da noite. Só quero mesmo é vestir meu traje de moletom e cair no sono.

     Olhou para a fila enorme de táxis Yellow Cab. Alguma coisa na cor e semelhança dos táxis lembrou-lhe insetos. E arrepiou-se com aquela sensação do tempo de criança, de coisa se arrastando pela pele, quando ela e o irmão encontravam um texugo morto ou passavam por cima de um formigueiro e olhavam para a massa úmida de corpos e pernas que se contorciam.

     T.J. Colfax dirigiu-se lentamente para o táxi, que encostou e parou com um chiado.

     O motorista abriu de dentro a mala do carro, mas permaneceu sentado. Eles mesmos tiveram que colocar a bagagem na mala, o que irritou John. Ele estava acostumado a que fizessem coisas para ele. Tammie Jean não se importou. Às vezes, ainda se espantava quando se lembrava de que tinha uma secretária para datilografar e arquivar coisas para ela. Jogou a valise na mala, fechou-a e entrou no carro.

     John subiu em seguida, bateu a porta com estrondo e enxugou o rosto gorducho e a careca, como se o esforço para colocar a valise na mala o tivesse deixado esgotado.

     - Primeira parada, rua 72 leste - murmurou através da divisória que o separava do motorista.

     - Em seguida, Upper West Side - acrescentou T.J.

     A divisória de plexiglas estava muito arranhada e ela mal conseguiu enxergar o motorista.

     O táxi deixou o meio-fio em alta velocidade e logo depois descia a via expressa na direção de Manhattan.

     - Olhe - disse John -, esse é o motivo dessa multidão toda.

      Apontava nesse momento para um cartaz que dava as boas-vindas aos delegados à conferência de paz das Nações Unidas, marcada para a segunda-feira. A cidade esperava dez mil visitantes. T.J. olhou fixamente para o cartaz - negros, brancos, asiáticos, todos acenando e sorrindo. Mas havia alguma coisa errada no trabalho de arte-final. As proporções e as cores não combinavam. E todos aqueles rostos pareciam descorados.

     - Ladrões de corpos - murmurou T.J.

     O táxi ia em disparada pela larga via expressa, que brilhava com um tom amarelo desagradável sob as luzes da estrada. Passaram pelo velho estaleiro naval e deixaram para trás os ancoradouros do Brooklyn.

     John parou finalmente de falar, puxou sua calculadora e começou a teclar alguns números. T.J. recostou-se mais no assento, olhando para as calçadas quentes, de onde subia vapor, e para os rostos mal-humorados de pessoas sentadas nas escadarias de pedra cinzenta que davam para a via expressa. Elas pareciam em semi-coma em meio àquele calor.

      Estava quente também no táxi. T.J. estendeu a mão para o botão que abaixaria a janela. Não se surpreendeu ao descobrir que o botão não funcionava. Estendeu a mão para o botão ao lado de John. Quebrado, também. Só então notou que faltavam as fechaduras das portas.

     E as maçanetas, também.

     Desceu a mão pela porta, procurando o encaixe da maçaneta. Nada... Era como se alguém o tivesse cortado com uma serra.

     - O quê? - perguntou John.

     - As portas.... Como é que podemos abri-las?

     John olhava de uma porta para a outra quando uma tabuleta indicando o Túnel Midtown apareceu e desapareceu.

     - Ei! - disse ele, batendo na divisória. - Você errou a entrada. Para onde é que está indo?

     - Talvez ele vá pegar o retorno em Queensboro - sugeriu TJ.

     A ida pelo túnel implicaria caminho mais longo, mas evitaria a cobrança de pedágio. T.J. inclinou-se à frente e bateu na divisória, usando o anel.

     - Você vai pela ponte?

     O motorista ignorou-os.

     - Ei!

     Um momento depois, passaram em alta velocidade pelo desvio de Queensboro.

     - Merda! - exclamou John. - Para onde está nos levando? Harlem. Aposto que está nos levando para o Harlem.

     T.J. olhou pela janela. Um carro corria paralelo a eles, ultrapassando-os lentamente.

     Ela bateu com força na janela.

     - Socorro! - gritou. - Por favor...

     O motorista do carro lançou-lhe um rápido olhar, voltou a olhar, franzindo as sobrancelhas. Diminuiu a marcha e passou para trás deles, mas, com um solavanco forte, o táxi derrapou por uma rampa de saída para o Queens, virou para um beco e penetrou velozmente no distrito dos armazéns abandonados. Naquele momento, eles deviam estar correndo a uns 90 km por hora.

     - O que é que você está fazendo?

     T.J. bateu com força na divisória.

     - Mais devagar. Aonde é que você...?

     - Oh, Deus, não - murmurou John. - Olhe.

     O motorista havia coberto o rosto com uma máscara de esquiador.

     - O que é que você quer? - gritou T.J.

     - Dinheiro? Nós lhe daremos.

     Ainda assim, silêncio do assento dianteiro do táxi.

     T.J. abriu a pasta Targus e puxou para fora o laptop preto. Inclinou-se para trás e bateu com toda força com o computador na janela. O vidro aguentou, embora o som da batida parecesse ter apavorado o motorista. O carro guinou para um lado e quase atingiu o muro de tijolos do prédio por onde passavam nesse momento em alta velocidade.

     - Dinheiro? Quanto? Eu posso lhe dar um bocado de dinheiro - gaguejou John, lágrimas escorrendo pelo rosto gordo.

     T.J. bateu novamente com toda força na janela. A tela do computador voou com a força do impacto, mas a janela permaneceu intacta.

     Tentou mais uma vez e o corpo do computador abriu-se em dois e caiu de suas mãos.

     - Merda...

     Os dois foram sacudidos violentamente para a frente quando o carro parou deslizando em um beco sujo e escuro.

     O motorista saltou do táxi, com uma pequena pistola na mão.

     - Por favor, não... - implorou ela.

     O motorista veio até a parte traseira do táxi, inclinou-se à frente e ficou olhando pelo vidro sujo e engordurado. Permaneceu ali por longo tempo, enquanto ela e John recuavam e se encostavam na porta oposta, seus corpos suados muito unidos.

     O motorista fez uma pala com as mãos para evitar o ofuscamento da luz causado pela iluminação pública e olhou-os atentamente.

     Um estalo súbito ressoou no ar e T.J. encolheu-se. John soltou um pequeno grito.

     Ao longe, por trás do motorista, o céu encheu-se de listras ígneas vermelhas e azuis. Mais explosões e assovios. Ele se virou e olhou para o alto, enquanto uma imensa aranha alaranjada cobria a cidade.

     Fogos de artifício, lembrou-se T.J. de ter lido no Times. Um presente do prefeito e do secretário-geral da ONU aos delegados à conferência, dando-lhes as boas-vindas à maior cidade da terra.

     O motorista voltou-se para o táxi. Com um som alto e seco, puxou a tranca e abriu lentamente a porta.

    

     O telefonema foi anônimo. Como sempre.

     Por isso mesmo não havia como rastrear a chamada e descobrir a qual beco vazio se referia o denunciante. A Central enviara uma mensagem pelo rádio: Ele disse rua 37, perto da Onze. Só isso.

     Denunciantes anônimos não eram nada notórios por dar a localização exata de cenas de crimes.

     Já suando, embora fossem apenas nove da manhã, Amélia Sachs cruzou um trecho de grama alta. Estava dando uma busca no terreno - como dizia o pessoal da Cena do Crime -, fazendo um percurso em forma de S. Nada. Inclinou a cabeça para o fone/microfone pregado na blusa azul-marinho do uniforme.

     - Radiopatrulheira 5885. Não encontrei nada, Central. Mais alguma informação?

     Através da estática, o despachante respondeu:

     - Nada mais sobre a localização, 5885. Mas tem uma coisa... o denunciante disse que tinha esperança de que a vítima estivesse morta. Câmbio.

     - Repita, Central.

     - O denunciante disse que tinha esperança de que a vítima estivesse morta. Para o bem dela. Câmbio.

     - Desligo.

     Tinha esperança de que a vítima estivesse morta?

     Sachs passou por cima de um alambrado arruinado e deu uma busca em outro lote vazio. Nada.

   Teve vontade de desistir, de enviar um 10-90, informação sem fundamento, e voltar para o Deuce, que era sua ronda regular. Os joelhos lhe doíam e ela se sentia tão quente quanto um guisado nesse horrível tempo de agosto. Teve vontade de ir até a Autoridade Portuária, conversar um pouco com os rapazes e emborcar uma grande lata de chá gelado. Em seguida, às 11:30 - dentro de umas duas horas - esvaziaria o armário em Midtown South e iria para o centro da cidade, para a sessão de treinamento.

     Mas não ignorou - não podia ignorar - a ordem recebida. Continuou a andar ao longo da calçada quente, passando pelo espaço entre duas casas de cômodos desabitadas, através de outro campo coberto de vegetação.

     Introduziu o dedo indicador comprido entre a cabeça e o quepe do uniforme, passando por camadas de cabelos ruivos longos, enrodilhados no alto. Coçou-se com força e, em seguida, a mão entrou por debaixo do quepe e coçou-se um pouco mais. O suor descia pela testa e dava-lhe comichão. Coçou também a sobrancelha.

     Minhas duas últimas horas na rua, pensou. Posso sobreviver a isso.

     Mergulhando mais fundo nas moitas, sentiu a primeira inquietação naquela manhã.

     Alguém está me espionando.

     O vento quente agitava as moitas secas e carros e caminhões passavam barulhentos, entrando e saindo do Túnel Lincoln. Pensou no que o pessoal da radiopatrulha freqüentemente pensava: a porra desta cidade é tão barulhenta que alguém poderia vir bem atrás de mim, à distância de uma facada, e eu nem desconfiaria.

     Ou apontar a mira de uma arma para minhas costas...

     Virou-se rapidamente.

     Nada, apenas folhas, maquinaria enferrujada e lixo.

     Subiu, contorcendo-se, um monte de pedras. Amélia Sachs, 31 anos de idade - apenas 31 anos de idade, diria sua mãe -, sofria de artrite. Herdada do avô, tão certo quanto tinha herdado a silhueta flexível da mãe e a boa aparência e a carreira do pai (quanto aos cabelos ruivos, a especulação era livre). Outra pontada de dor, ao passar por uma alta cortina de moitas moribundas. E teve a sorte de parar a um passo de uma queda de sete metros até o chão.

     Abaixo, um escuro desfiladeiro - um corte profundo no leito rochoso do West Side. Por aí passavam os trilhos dos trens da Amtrack que se dirigiam para o norte.

     Apertou os olhos, examinando o chão do desfiladeiro, a uma pequena distância do leito da ferrovia.

     O que era aquilo?

     Um círculo de terra revirada, um pequeno galho de árvore projetando-se na parte de cima? Aquilo parecia uma...

     Oh, meu bom Deus...

     Sentiu um arrepio ao ver aquilo, uma náusea subindo, pinicando a pele como uma onda de fogo. Conseguiu pisar firme naquela parte minúscula dentro de si que queria dar as costas à cena e fingir que não a vira.

     Ele tinha esperança de que a vítima estivesse morta. Para o bem dela.

     Correu para uma escada de ferro que descia da calçada para o leito da ferrovia. Estendeu a mão para o corrimão, mas parou exatamente a tempo. Merda. O criminoso poderia ter escapado por ali. Se ela a tivesse tocado, poderia pôr a perder quaisquer impressões digitais que ele houvesse deixado. Muito bem, vamos fazer isso da forma difícil. Tomando uma profunda inspiração para amortecer a dor nas juntas, começou a descer pela face da rocha, os sapatos do uniforme escorregando - lustrados como prata para o primeiro dia de seu novo trabalho - em fendas na pedra. Saltou o último metro para o chão e correu até a cova.

     - Meu Deus...

     Não era um galho que se projetava do chão. Era a mão de alguém. O corpo tinha sido enterrado na vertical e a terra fora empilhada apenas até o antebraço, o pulso e a mão. Olhou para o dedo anular. Toda carne fora arrancada e um anel de diamante da mulher brilhava enfiado em volta do osso sangrento e descarnado.

     Sachs caiu de joelhos e começou a cavar.

     Enquanto a terra voava sob as mãos, que faziam um movimento de cachorrinho, notou que os dedos que não haviam sido cortados estavam ainda abertos, estirados além do ponto em que poderiam ser normalmente dobrados. Esse detalhe disse-lhe que a vítima estivera viva quando a última pá de terra fora lançada em cima de seu rosto.

     E talvez ainda estivesse.

     Sachs continuou a cavar furiosamente a terra frouxamente batida, cortando a mão em um caco de garrafa, seu sangue escuro misturando-se com a terra mais escura. Em seguida, chegou aos cabelos e à testa embaixo, a um cinzento-azulado cianótico por falta de oxigênio. Cavando mais, viu os olhos vidrados e a boca, que tinha se contorcido em uma careta horrenda, enquanto a vítima tentara, nos últimos poucos segundos, ficar acima da maré crescente de terra preta.

     Não era uma mulher. A despeito do anel. Era um homem corpulento, na casa dos cinquenta anos. Tão morto quanto o solo onde jazia enterrado.

     Recuando, não conseguiu tirar os olhos de cima dos olhos da vítima e quase caiu ao tropeçar em um trilho. Durante um minuto inteiro, não conseguiu pensar em coisa nenhuma. Exceto no que deveria ter sido morrer daquela maneira.

     Em seguida: Controle-se, amor. Você está na cena de um homicídio e é uma policial.

     Você sabe o que tem de fazer.

     ADAPTAR

     A significa Apanhar [prender] um perpetrador conhecido.

     D significa Deter testemunhas ou suspeitos relevantes.

     A significa Analisar a cena do crime.

     P significa ...

     O que é mesmo que P significa?

     Baixou a cabeça para o microfone:

     - Radiopatrulheira 5885 para Central. Adicionais. Encontrei um 10-29 junto aos trilhos ferroviários, no cruzamento da 38 com a Onze. Homicídio. Preciso de detetives, CC, rabecão e o legista de serviço. Câmbio.

     - Recebido e entendido, 5885. Perpetrador preso? Câmbio.

     - Nenhum sujeito.

     - Cinco-oito-oito-cinco. Câmbio.

     Sachs olhou para o dedo, o que tinha sido afinado até o osso. O anel absurdo. Os olhos. E o sorriso... aquele horrível sorriso. Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Amélia Sachs havia nadado entre serpentes em acampamentos à beira de rios e bravateado, honestamente, que não teve problema em se jogar de uma ponte a trinta metros de altura, amarrada em um elástico. Mas só de pensar em confinamento... pensar em estar numa armadilha, imóvel, e um ataque de pânico a acometia como se fosse um choque elétrico. O que era o motivo por que andava rápido e guiava um carro como a velocidade da própria luz.

     Quando está em movimento, eles não podem pegá-la...

     Ouviu um som e inclinou a cabeça para um lado.

     Um murmúrio profundo, tornando-se mais alto.

     Farrapos de papel soprados pelo vento ao longo dos trilhos. Redemoinhos de poeira girando em volta dela como fantasmas irados.

     Em seguida, um gemido baixo...

     A patrulheira Amélia Sachs, l,75m de altura, descobriu que olhava de frente para uma locomotiva da Amtrak, de 35 toneladas, uma laje vermelha, branca e azul de aço que se aproximava a uns resolutos 15 km horários.

     - Pare, aí! - berrou ela.

     O maquinista ignorou-a. Sachs saltou para o leito da estrada e se plantou bem no meio dos trilhos, as pernas abertas, sinalizando com os braços para que ele parasse. A locomotiva parou com um rangido. O maquinista enfiou a cabeça pela janela.

     - Você não pode passar por aqui - disse ela.

     Ele perguntou o que ela queria dizer com aquilo. Amélia pensou que ele parecia horrivelmente jovem demais para dirigir um trem tão grande.

     - Isto aqui é uma cena de crime. Por favor, desligue a máquina.

     - Moça, não estou vendo nenhum crime.

     Sachs, porém, não o estava escutando. Olhava nesse momento para o buraco no alambrado, no lado oeste do viaduto, no alto, perto da Avenida Onze.

     Aquele teria sido o caminho para trazer o corpo até ali sem ser visto - estacionando na Onze e arrastando o corpo através do beco estreito até o paredão. Na 37, onde a rua fazia esquina, ele poderia ter sido visto das janelas de dezenas de apartamentos.

     - O trem, senhor. Simplesmente deixe-o parado onde está.

     - Não posso deixar o trem aqui.

     - Por favor, desligue a máquina.

     - Ninguém desliga a máquina de um trem dessa maneira. Ela funciona o tempo todo.

     - Ligue para o despachante. Ou para alguém. Diga para deterem também os trens que vêm na direção sul.

     - Não podemos fazer isso.

     - Ouça aqui, moço, eu anotei o número desse seu veículo.

     - Veículo?

     - E sugiro que faça isso agora - disse secamente Sachs.

     - O que é que você vai fazer, moça? Me multar?

    Amélia Sachs, porém, estava mais uma vez subindo o paredão de pedra, as pobres juntas estalando, os lábios provando o pó de pedra calcária, barro e seu próprio suor. Foi se arrastando até o beco que tinha visto do leito da estrada e, em seguida, girou sobre si mesma, olhando para a Avenida Onze e o Javits Center, do outro lado. O saguão do prédio fervilhava de gente - espectadores e pessoal da imprensa. Uma grande faixa dizia, Sejam Bem-Vindos, Delegados, às Nações Unidas! Mais cedo naquela manhã, quando a rua estava deserta, o assassino poderia facilmente ter encontrado um local de estacionamento por ali e puxado o corpo para os trilhos, sem ser visto. Sachs foi devagar até ali, passou a vista pela avenida de seis pistas, nesse momento congestionada pelo tráfego.

     Mãos à obra.

     Penetrou no mar de carros e caminhões e parou, imóvel, no meio das pistas por onde corria o tráfego na direção norte. Vários motoristas tentaram ultrapassá-la. Teve que multar uns dois e, finalmente, puxou latões de lixo para o meio da rua, formando uma barricada, para ter certeza de que os bons residentes do local cumpririam seu deveres de cidadania.

     Sachs se lembrou por fim do item seguinte das regras de ADAPTAR.

     P significa Proteger a cena do crime.

     O som de sirenes iradas começou a encher o céu matutino coberto de névoa seca, logo acompanhado pelos berros ainda mais zangados de motoristas. Um momento depois, ouviu as sirenes se juntarem à cacofonia quando chegou o primeiro dos veículos de emergência.

     Quarenta minutos depois, a cena borbulhava de policiais uniformizados e investigadores, dezenas deles - muito mais do que um assassinato no Hell's Kitchen, por mais horripilante que fosse a causa da morte, podia justificar. Mas ela soube por outro policial que aquele era um caso quente, um banquete para a mídia - a vítima era um de dois passageiros que haviam chegado ao JFK na noite anterior, tomado um táxi e se dirigido para a cidade. Eles jamais chegaram em casa.

     - A CNN está aqui - murmurou um guarda.

     Por isso mesmo, Amélia não ficou surpresa ao ver o louro Vince Peretti, chefe da Divisão de Investigação e Recursos Criminais, DIRC, que supervisionava a unidade de processamento de cena de crime, subir para o alto do paredão e parar por um momento, enquando espanava a poeira do terno de dois mil dólares.

     Ficou no entanto surpresa quando ele a notou e, com um leve sorriso no rosto bem escanhoado, disse-lhe com um gesto que subisse até ali. Ocorreu-lhe que ia receber uma inclinação de cabeça, numa indicação de gratidão por seu papel naquele trabalho de rotina. Havia resguardado as impressões digitais naquela escada, rapazes. Talvez, até mesmo um elogio no seu currículo. Na última hora de seu último dia como patrulheira. Saindo aclamada.

     Ele fitou-a de alto a baixo.

     - Patrulheira, você não é nenhuma recruta, é? Estou certo em fazer essa suposição?

     - Desculpe, não entendi, senhor.

     - Você não é uma recruta, suponho.

     Ela não era, pelo menos não tecnicamente, embora só tivesse três anos de serviço, ao contrário da maioria das colegas de sua idade. Elas eram veteranas de nove a dez anos. Sachs havia sido reprovada em vários anos, antes de conseguir finalmente ingressar na Academia de Polícia.

     - Não entendo bem o que o senhor está perguntando.

     Ele pareceu exasperar-se e o sorriso desapareceu.

     - Você foi o primeiro policial a chegar?

     - Fui, sim, senhor.

     - Por que fechou a Avenida Onze? No que era que estava pensando ?

     Amélia olhou para a larga rua, ainda bloqueada com a barreira de latões de lixo. Havia se acostumado ao som das buzinas, mas, nesse momento, deu-se conta de que elas faziam um barulho insuportável. O congestionamento se estendia por quilômetros.

     - Senhor, o primeiro trabalho do policial é prender um criminoso, deter quaisquer testemunhas, proteger...

     - Conheço a regra ADAPTAR, guarda. Você fechou a rua para proteger a cena do crime?

     - Sim, senhor. Não achei que o criminoso fosse estacionar na rua transversal. Ele poderia ser visto com a maior facilidade daqueles apartamentos. Está vendo, ali? A Onze me pareceu a melhor opção.

     - Foi uma opção errada. Não havia pegadas naquele lado dos trilhos, mas havia dois conjuntos delas na direção da escada que leva à 37.

     - Fechei também a 37.

     - E justamente esse o meu argumento. Aquela era a única que precisava ser fechada. E o trem? - perguntou. - Por que parou o trem?

     - Bem, senhor achei que o trem, passando pela cena, poderia perturbar a prova. Ou alguma coisa assim.

     - Ou alguma coisa, policial?

     - Não me expressei muito bem, senhor. O que eu queria dizer...

     - O que me diz do Aeroporto de Newark?

     - Sim, senhor. - Amélia olhou em volta, à procura de ajuda.

     Havia outros policiais por perto, mas muito ocupados e ignorando a espinafração que ela estava recebendo.

     - O que, exatamente, sobre Newark? Por que não fechou também esse aeroporto?

     Oh, maravilhoso. Uma professora de escola primária. Seus lábios de Julia Roberts fecharam-se com força, mas conseguiu dizer razoavelmente:

     - Senhor, segundo meu julgamento, pareceu provável que...

     - A New York Thruway teria sido também uma boa opção. E também a Jersey Pike e a Long Island Expressway. A Interesta dual 70, o caminho todo até St. Louis. Todas elas são prováveis rotas de fuga.

     Amélia baixou um pouco a cabeça e olhou de volta para Peretti. Os dois tinham exatamente a mesma altura, embora os saltos dos sapatos dele fossem mais altos.

     - Recebi telefonemas do chefe de polícia - continuou ele -, do diretor da Autoridade Portuária, do gabinete do secretário-geral das Nações Unidas, do administrador daquela exposição... - inclinou a cabeça na direção do Javits Center. - Bagunçamos toda a programação da conferência, o discurso de um senador dos Estados Unidos, e o tráfego em todo o West Side. Os trilhos ficam a quinze metros da vítima e a rua que você fechou está a setenta metros de distância e a dez metros de altura. O que quero dizer é que nem mesmo o furacão Eva bagunçou tanto o Corredor Nordeste da Amtrak.

     - Eu apenas pensei...

     Peretti sorriu. Uma vez que Sachs era uma bela mulher - suas “reprovações” antes de ingressar na academia tinham coincidido com trabalho regular para a Agência de Modelos Chantelle, na Madison Avenue -, o chefe resolveu perdoá-la.

     - Patrulheira Sachs - lançou um olhar ao crachá pregado no peito da policial, achatado castamente pelo colete à prova de balas American Body Armor -, uma lição objetiva. O trabalho numa cena de crime é uma questão de equilíbrio. Seria ótimo se pudéssemos fechar com um cordão de isolamento toda a cidade após cada homicídio e prender cerca de três milhões de pessoas. Mas não podemos fazer isso. Digo isso construtivamente. Para seu aprimoramento.

     - Na verdade, senhor - retrucou bruscamente Amélia -, esto sendo transferida da radiopatrulha. Com vigência a partir de hoje ao meio-dia.

     Ele inclinou a cabeça e sorriu alegremente.

     - Então, já falamos o bastante. Mas, para que conste, foi decisão sua parar o trem e fechar a rua.

     - Sim, senhor, foi - respondeu ela prontamente. - Nenhum erro a esse respeito.

     Com penadas rápidas da caneta suada, ele tomou notas em uma caderneta preta. Oh, por favor...

     - Agora, tire de lá aqueles latões de lixo. Dirija o tráfego até que a rua fique novamente desimpedida. Entendeu o que eu disse?

     Sem qualquer sim, senhor, não, senhor, ou qualquer outro sinal de que havia entendido, Amélia foi até a Avenida Onze e, lentamente, começou a retirar os latões de lixo. Todos os motoristas que passaram por ela fecharam a cara ou murmuraram alguma coisa. Sachs olhou para o relógio.

     Uma hora, ainda.

     Posso sobreviver a isso.

      

     Com um seco rufar de asas, o falcão peregrino desceu até o peitoril da janela. A luz no lado de fora, em meados da manhã, era brilhante, e o ar, horrivelmente quente.

     - Aí está você - disse ele baixinho.

     Em seguida, inclinou a cabeça na direção do som da campainha da porta, no térreo.

     - É ele? - perguntou na direção da escada. - É?

     Nada ouvindo em resposta, Lincoln Rhyme voltou-se outra vez para a janela. A cabeça da ave balançou de um lado para o outro, em um movimento rápido, sacudido, mas que o falcão, ainda assim, conseguia tornar elegante. Rhyme observou que as garras do falcão estavam manchadas de sangue. Um pedaço de carne amarela pendia do bico preto. O falcão estendeu o pescoço curto e entrou no ninho, em movimentos que lembravam não os de uma ave, mas os de uma serpente. O falcão deixou cair a carne no bico virado para cima da companheira, de cor azul esmaecida. Estou olhando, pensou Rhyme, para a única criatura viva na cidade de Nova York que não tem um predador. Exceto o próprio Deus.

     Ouviu passos de alguém que subia lentamente a escada.

     - Era ele? - perguntou a Thom.

     O jovem respondeu:

     - Não.

     - Quem era? A campainha tocou, não?

     Thom olhou para a janela.

     - A ave voltou. Olhe, manchas de sangue no peitoril. Dá para você ver?

     O falcão fêmea apareceu lentamente, azul-acinzentada como um peixe, iridescente. A cabeça da ave vasculhou o céu.

     - Eles estão sempre juntos. Eles se acasalam por toda a vida? - especulou Thom em voz alta. - Como os gansos?

     Os olhos de Rhyme voltaram a Thom, que se inclinava para ele a partir da cintura esguia, juvenil, olhando para o ninho, seguindo os pingos de sangue pela janela.

     - Quem era? - repetiu Rhyme.

     O rapaz estava ganhando tempo e isso o irritou.

     - Uma visita.

     - Uma visita? Ah - resmungou Rhyme.

     Tentou lembrar-se de quando tivera uma visita pela última vez. Isso devia ter acontecido há uns três meses. Quem? Aquele repórter, talvez, ou algum primo distante. Bem, Peter Taylor, um de seus especialistas em medula espinhal. E Blaine esteve ali várias vezes. Mas ela, claro, não era uma vi-si-ta.

     - Está congelando aqui - queixou-se Thom.

     A reação dele era abrir a janela. Satisfação imediata. Juventude.

     - Não abra a janela - ordenou Rhyme. - E me diga quem foi que esteve aqui.

     - Está congelando.

     - Você vai espantar a ave. Pode diminuir o ar-condicionado. Eu vou diminuir o ar.

     - Nós chegamos aqui primeiro - retrucou Thom, erguendo um pouco mais o enorme painel da janela. - As aves chegaram sabendo perfeitamente que você estava aqui. - Os falcões olharam na direção do ruído, raiva nos olhos. Mas eles sempre olhavam assim. Permaneceram no peitoril, vigiando seu domínio, de nogueiras-do-japão anêmicas e de arborização alternada ao longo da rua.

     Rhyme repetiu a pergunta:

     - Quem era?

     - Lon Sellitto.

     - Lon?

     O que estaria ele fazendo ali? Thom passou a vista pelo cômodo.

     - Este lugar está uma bagunça.

     Rhyme não gostava da agitação de uma faxina. Não gostava da movimentação, do barulho do aspirador de pó - que considerava especialmente irritante. Sentia-se contente ali, do jeito como estavam as coisas. Essa sala, que chamava de seu escritório, ficava no segundo andar de sua casa, em estilo gótico, no Upper West Side, de frente para o Central Park. A sala era grande, de sete por sete metros, e virtualmente cada espaço ali estava ocupado por alguma coisa. Às vezes fechava os olhos, fazendo um jogo, e tentava detectar o cheiro dos diferentes objetos espalhados por ali. Os milhares de livros e revistas, as pilhas de fotocópias formando torres de Pisa, os transistores quentes da TV, as lâmpadas elétricas empoeiradas, os painéis de cortiça para pregar bilhetes. Vinil, peróxido, látex, acolchoados.

     Três tipos diferentes de uísque escocês, de uma única espécie de malte.

     Merda de falcão.

     - Não quero conversar com ele. Diga que estou ocupado.

     - E também um policial novo. Ernie Banks. Não, esse era jogador de beisebol, certo? Você devia realmente deixar que eu fizesse uma faxina por aqui. A gente jamais nota como um lugar está imundo, até que chega uma visita.

     - Uma visita? Ora, isso parece fino. Vitoriano. O que você acha? Diga a eles que se mandem, porra. O que acha disso como etiqueta de fin-de-siècle?

     Uma bagunça...

     Thom estava falando da sala, mas Rhyme achava que talvez estivesse se referindo também a ele, ao patrão.

     Os cabelos de Rhyme eram pretos e cheios como os de um rapaz de vinte anos - embora tivesse duas vezes essa idade -, mas com os fios emaranhados e enrolados, precisavam desesperadamente de uma lavagem e de um corte. No rosto, uma barba preta por fazer de três dias e aparência suja. Havia acordado com uma coceira incessante nas orelhas, o que significava que aqueles pêlos precisavam também ser aparados. As unhas, das mãos e dos pés, eram compridas e ele vinha usando as mesmas roupas há uma semana - pijama de bolinhas, horrendo. Os olhos eram estreitos, de um castanho profundo, e engastados em um rosto que, como lhe dissera Blaine em várias ocasiões, em tom apaixonado ou não, era bonitão.

     - Eles querem falar com você - continuou Thom. - Disseram que é muito importante.

     - Faça uma grosseria com eles.

     - Você não vê Lon há quase um ano.

     - Por que isso tem de significar que quero vê-lo agora? Você assustou o falcão? Vou ficar uma fera, se tiver assustado.

     - É importante, Lincoln.

     - Muito importante, eu lembro que você disse isso. Onde está aquele médico? Ele pode ter telefonado. Eu estava cochilando. E você tinha saído.

     - Você está acordado desde as seis da manhã.

     - Não. - Rhyme calou-se por um momento. - Acordei, sim. Mas em seguida voltei a dormir. Dormi a sono solto. Verificou as mensagens na secretária eletrônica?

     - Verifiquei - respondeu Thom. - Nenhuma dele.

     - Ele disse que viria aqui no meio da manhã.

     - Passa apenas um pouco das onze. Talvez a gente ainda espere um pouco, antes de notificar o serviço de socorro aéreo e marítimo. O que é que você acha?

     - Você andou falando ao telefone? - perguntou bruscamente Rhyme. - Talvez ele tenha tentado ligar quando você estava batendo papo.

      - Eu estava falando com...

     - Eu disse alguma coisa? - perguntou Rhyme. - Agora você está zangado. Eu não disse que você não deve dar telefonemas. Pode dar. Você sempre pôde fazer isso. O que eu quis dizer é que ele pode ter telefonado quando você estava na linha.

     - Não, o que você quer esta manhã é encher o saco.

     - Lá vem você. Sabe, os telefones têm essa coisa... chamada à espera. A gente pode receber dois telefonemas ao mesmo tempo. Eu gostaria que tivéssemos isso. O que está querendo o meu velho amigo Lon? E o amigo dele, o jogador de beisebol?

     - Pergunte a eles.

     - Estou perguntando a você.

     - Eles querem falar com você. E tudo que sei.

     - Sobre alguma coisa m-u-i-t-o im-por-tan-te,

     - Lincoln.

     Thom suspirou. O jovem bonitão passou a mão pelos cabelos louros. Usava calça esporte marrom, camisa branca, uma gravata com motivos florais, com um nó imaculado. Quando o contratou, há um ano, Rhyme lhe disse que podia usar jeans e camiseta, se quisesse. Ele, porém, sempre se vestia de maneira impecável desde aquele dia. Rhyme não sabia por que isso contribuía para sua decisão de conservar o jovem a seu serviço, mas contribuía. Nenhum dos antecessores de Thom havia durado mais de seis semanas. O número dos que tinham pedido as contas era exatamente igual ao dos que tinham sido mandados embora.

     - Muito bem. O que foi que você disse a eles?

     - Disse que me dessem alguns minutos, para verificar se você estava vestido para recebê-los, e que, em seguida, eles poderiam subir. Em curtas palavras.

     - Você fez isso. Sem me perguntar. Muito, muito obrigado.

     Thom deu alguns passos para trás e gritou pela escada estreita, que descia até o térreo:

     - Podem subir, cavalheiros.

     - Eles lhe disseram algo, não foi? - perguntou Rhyme. - Você está me escondendo alguma coisa.

     Thom deixou essas palavras sem resposta, enquanto Rhyme observava a chegada das duas visitas. No momento em que entraram, Rhyme foi o primeiro a falar, dirigindo-se a Thom:

     - Feche as cortinas. Você já perturbou demais os falcões.

     O que realmente significava apenas que ele estava cheio de toda aquela luz barulhenta.

    

     Muda.

     Com o esparadrapo sujo e pegajoso sobre a boca, ela não podia pronunciar uma única palavra, e essa situação fazia com que se sentisse ainda mais impotente do que com as algemas nos pulsos. Mais impotente do que com os dedos curtos e fortes dele em seu bíceps.

     O motorista do táxi, usando ainda a máscara de esquiador, levou-a pelo corredor imundo e molhado, passando por fileiras de dutos e canos. Os dois se encontravam no subsolo de um prédio de escritórios. Ela não fazia a menor idéia de onde.

     Se eu pudesse falar com ele...

     T.J. Colfax era uma jogadora, a vaca do terceiro andar do Morgan Stanley’s. Uma negociadora.

     Dinheiro? Você quer dinheiro? Eu lhe arranjo dinheiro, dinheiro à vontade, rapaz. Barris de dinheiro. Pensou nisso uma dezena de vezes, tentando atrair seu olhar, como se pudesse realmente imprimir as palavras nos pensamentos daquele homem.

     Pooooor faaaavoor, implorou em silêncio e começou a pensar na mecânica de transformar seu fundo de aposentadoria em dinheiro e dar todo a ele. Oh, por favor...

     Lembrou-se da noite anterior: o homem dando as costas aos fogos de artifício, arrastando-os para fora do táxi, algemando-os. Havia trancado os dois na mala do carro e, em seguida, voltado a rodar, inicialmente sobre calçamento irregular de lajes e asfalto cheio de buraco, em seguida sobre asfalto liso e, finalmente, asfalto ondulado. Ela ouviu o zumbido das rodas em uma ponte. Mais voltas, mais estradas acidentadas. Finalmente, o táxi parou, o motorista desceu e pareceu que abria um portão ou algum tipo de porta. Ele entrou em uma garagem, pensou ela. Todos os sons da cidade desapareceram e o borbulhante cano de descarga do carro aumentou de volume, reverberando de paredes próximas.

     Em seguida, a mala do carro foi aberta e o homem puxou-a para fora. Arrancou o anel de brilhante de seu dedo e enfiou-o no bolso. Em seguida, levou-a ao longo de paredes de faces fantasmagóricas, pinturas desmaiadas de olhos vazios fitando-a, um açougueiro, um demônio, três crianças chorosas - pintadas sobre reboco que se desmanchava. Arrastou-a para um porão bolorento e soltou-a como um fardo no chão. Em seguida, subiu a escada e deixou-a na escuridão, cercada por um cheiro nauseante - carne podre, lixo. Ali ficou durante horas, dormindo um pouco, chorando muito. Acordou subitamente ao ouvir um som forte. Uma violenta explosão. Próxima. Em seguida, mais sono agitado.

     Meia hora antes, ele tinha voltado. Levou-a para a mala do carro e rodaram por mais vinte minutos. Aqui. Onde quer que fosse aqui.

     Em seguida, entraram na sala escura de um porão. No centro, ela viu um grosso cano preto. Ele a algemou ao cano e amarrou seus pés, puxando-os retos para a frente e colocando-a sentada. Agachou-se e prendeu suas pernas com uma corda fina - o que levou vários minutos. Ele usava luvas de couro. Levantando-se, olhou-a durante um longo momento, curvou-se e rasgou e abriu a blusa dela. Passou para as costas, e ela arquejou, sentindo as mãos nos ombros, tenteando, apertando as omoplatas.

     Chorando, implorando através do esparadrapo.

     Sabendo o que ia acontecer.

     As mãos desceram, ao longo dos braços e sob eles, passando para a frente do corpo. Mas ele não tocou os seios. Não, enquanto as mãos passavam leves pela pele, parecia que estava procurando as costelas. Cutucou-as e alisou-as. T.J. arrepiou-se e tentou afastar-se. Ele a agarrou com violência, acariciou-a um pouco mais, pressionando com força, sentindo a flexibilidade do osso.

     Ele se levantou. Ela ouviu passos que se afastavam. Durante um longo momento, só silêncio, quebrado pelos gemidos dos condicionadores de ar e dos elevadores. Em seguida, ouviu um grunhido assustado bem às suas costas. Um ruído que se repetia. Wsssh. Wssh. Um som muito conhecido, mas algo que não conseguiu identificar. Tentou virar-se para ver o que ele estava fazendo, mas não pôde. O que era aquilo? Escutando o som rítmico, repetindo-se, repetindo-se. O som levou-a diretamente de volta para a casa da mãe.

     Wsssh. Wsssh.

     Manhã de sábado em um pequeno bangalô em Bedford, Tennessee. Era o único dia em que a mãe não trabalhava fora e ela ocupava a maior parte do tempo fazendo faxina na casa. T.J. acordava com o sol forte e descia trôpega a escada para ajudá-la. Wsssh. Enquanto chorava com essa recordação, escutou o som e se perguntou por que, em nome de Deus, ele estava varrendo o chão, com movimentos cuidadosos, seguros, de uma vassoura.

    

     Ele notou a surpresa e o constrangimento nos rostos dos dois.

     Algo que não é encontrado com muita frequência em policiais do Esquadrão de Homicídios de Nova York.

     Lon Sellitto e o jovem Banks (Jerry, não Ernie) sentaram-se nos lugares que Rhyme lhes indicou com um aceno da cabeça cabeluda: cadeiras iguais de vime, empoeiradas e incômodas.

     Rhyme havia mudado muito desde que Sellito esteve ali pela última vez e o detetive não conseguiu disfarçar muito bem o choque que sentiu. Banks não tinha um indicador com que comparar o que via naquele momento, mas, ainda assim, ficou chocado. A sala desarrumada, aquele homem olhando-os desconfiado. O cheiro, com certeza - o cheiro visceral que cercava a criatura em que Lincoln Rhyme se transformara.

     Rhyme sentiu grande arrependimento por tê-los deixado subir.

     - Por que não ligou antes, Lon?

     - Você nos teria dito para não vir.

     Verdade.

     Thom apareceu no alto da escada e Rhyme dispensou-o:

     - Thom, não vamos precisar de você.

     Lembrou-se de que o rapaz sempre perguntava às visitas se queriam beber ou comer alguma coisa.

     Um verdadeiro Martha Stewart.

     O silêncio continuou durante um momento. O alto e amassado Sellitto - um veterano de vinte anos de serviço na polícia olhou para uma caixa ao lado da cama e fez menção de falar. O que quer que estivesse prestes a dizer foi cortado pela visão de fraldas descartáveis de adulto.

     Jerry Banks tomou a palavra:

     - Li seu livro, senhor.

     O jovem policial tinha mão pesada quando o trabalho era barbear-se, e Rhyme viu uma infinidade de pequenos cortes. E que topete encantador! Deus do céu, ele não pode ter mais de vinte anos. Quanto mais velho fica o mundo, pensou Rhyme, mais jovens parecem tornar-se seus habitantes.

     - Qual?

     - O seu manual sobre cena de crime, claro. Mas estou me referindo ao livro ilustrado. O que publicou há uns dois anos.

     - Nele havia também palavras. Na verdade, é constituído principalmente de palavras. Você as leu?

     - Ora, claro - respondeu rapidamente Banks.

     Uma pilha imensa de volumes encalhados do The Scenes of the Crime podia ser vista encostada numa parede da sala.

     - Eu não sabia que o senhor e Lon eram amigos – acrescentou Banks.

     - Lon não lhe mostrou aquele anuário? Não lhe mostrou a fotos? Não subiu a manga da camisa e mostrou as cicatrizes, dizendo que havia recebido esses ferimentos quando trabalhava com Lincoln Rhyme?

     Sellitto, porém, não estava achando graça. Bem, eu posso dar a ele ainda menos motivo para um sorriso, se é isso o que ele quer. O detetive mais velho estava procurando alguma coisa na maleta 007. O que é que ele tem aí dentro?

     - Por quanto tempo vocês parceiraram juntos? – perguntou Banks, tentando dar início à conversa.

     - Ah, isso é que é um verbo para você - retrucou Rhyme e olhou para o relógio.

     - Nós não fomos parceiros - explicou Sellitto. - Eu trabalhava em Homicídios e ele era o chefe da DIRC.

     - Oh - disse Banks, ainda mais impressionado.

     Chefiar a Divisão de Investigação e Recursos Criminais era um dos cargos de mais prestígio do Departamento de Polícia.

     - Isso mesmo - disse Rhyme, olhando para a janela, como se seu médico pudesse chegar via falcão. - Os dois mosqueteiros.

     Em voz paciente, que o enfureceu, Sellitto disse:

     - Durante sete anos, com intervalos, nós trabalhamos juntos.

     - E foram anos bons - cantarolou Rhyme.

     Thom fez uma carranca. Sellitto, porém, não percebeu a ironia. Ou o que era mais provável, ignorou-a. E continuou:

     - Estamos com um problema, Lincoln. Precisamos de um pouco de ajuda.

     Snap. A pilha de papéis foi posta com força sobre a mesinha-de-cabeceira.

     - Um pouco de ajuda? - A risada explodiu do nariz estreito, que Blaine sempre desconfiou ter sido produto da visão de um cirurgião, mas que não era. Ela também tinha achado que os lábios dele eram perfeitos demais. (Acrescente uma cicatriz, disse ela em tom de brincadeira e, durante uma das brigas dos dois, quase fizera isso.) E por que, perguntou ele a si mesmo, a aparição voluptuosa de Blaine continuava a surgir à sua frente? Acordou pensando em sua ex e se sentiu obrigado a lhe escrever uma carta, que nesse momento se encontrava na tela do computador. Aproveitou a ocasião e salvou-a no disco rígido. O silêncio encheu a sala, enquanto ele dava os comandos com um único dedo.

     - Lincoln? - disse Sellitto.

     - Sim, senhor. Uma pequena ajuda. Minha. Ouvi.

     Banks manteve um sorriso impróprio nos lábios, enquanto mexia, pouco à vontade, o traseiro na cadeira.

     - Tenho um encontro a qualquer minuto agora - disse Rhyme.

     - Um encontro.

     - Com um médico.

     - Mesmo? - perguntou Banks, provavelmente para assassinar o silêncio que os ameaçava, mais uma vez.

     Sellitto, sem saber para onde a conversa se encaminhava, perguntou:

     - E você, como é que está indo?

     Banks e Sellitto não haviam perguntado sobre sua saúde quando chegaram. Era o tipo de pergunta que pessoas tendiam a evitar quando viam Lincoln Rhyme. A resposta acarretava o risco de ser muito complicada e, quase com certeza, desagradável.

     Rhyme respondeu simplesmente:

     - Bem. Obrigado. E você? E Betty?

     - Nós nos divorciamos - respondeu rapidamente Sellitto.

     - Mesmo?

     - Ela ficou com a casa e eu com a metade de um filho. – O policial respondeu com uma alegria forçada, como se tivesse usado a mesma frase antes. Rhyme achou que deveria haver uma história dolorosa por trás do rompimento. História que não tinha o menor desejo de ouvir. Ainda assim, não se surpreendia que o casamento tivesse naufragado. Sellitto era um burro de carga no trabalho. Era um dos cento e tanto detetives de primeira classe do Departamento e isso durante anos - e obtinha promoções quando as notas eram dadas por mérito e não por tempo de serviço. Trabalhava quase oitenta horas por semana. Rhyme nem mesmo sabia que ele era casado nos primeiros meses em que haviam trabalhado juntos.

     - Onde é que você está morando agora? - perguntou Rhyme, com esperança de que um pouco de conversa social conseguisse tirá-los dali.

     - Brooklyn. Nos Heights. Às vezes vou para o trabalho a pé. Lembra-se daquelas dietas que eu andava sempre fazendo? O macete não é fazer dieta. E exercício.

     Ele não parecia nem mais gordo nem mais magro do que o Lon Sellitto de três anos antes. Ou, por falar nisso, o Sellitto de quinze anos antes.

     - De modo que - interrompeu-os Banks -, é um médico, foi o que o senhor estava dizendo. Para uma...

     - Uma nova forma de tratamento? - respondeu Rhyme, completando a pergunta que ia murchando. - Exatamente.

     - Boa sorte.

     - Muito, muito obrigado.

     Eram 11:36. Bem além de meados da manhã. Atraso é imperdoável em um médico.

     Observou os olhos de Banks examinarem suas pernas duas veres. Flagrou pela segunda vez o jovem, ainda com espinhas no rosto, e não ficou surpreso quando notou que ele enrubescia.

     - De modo que - continuou Rhyme -, lamento muito, mas realmente não disponho de tempo para ajudá-los.

     - Mas ele não chegou ainda, não é, o médico? - perguntou Lon Sellitto, no mesmo tom à prova de bala que usava para abrir buracos em álibis de suspeitos de homicídio.

     Thom apareceu à porta, trazendo um bule de café. Escroto, disse Rhyme movendo a boca, mas sem emitir nenhum som.

     - Lincoln esqueceu de oferecer alguma coisa aos senhores, cavalheiros.

     - Thom me trata como se eu fosse uma criança.

     - Se a carapuça cabe... - respondeu o ajudante.

     - Muito bem - retrucou Rhyme secamente. - Sirvam-se de café. Vou tomar um pouco do leite da mamãe.

     - Cedo demais - cortou-o Thom. - O bar não abriu ainda. – E aguentou muito bem o olhar irado de Rhyme.

     Mais uma vez, os olhos de Banks percorreram o corpo de Rhyme. Talvez estivesse esperando ver apenas pele e ossos. O processo de atrofia, porém, tinha parado pouco depois do acidente e seu primeiro fisioterapeuta o esgotara com tantos exercícios. Thom, que podia ser um chato às vezes e uma velha galinha cacarejante em outras, também era um fisioterapeuta muito bom. Todos os dias submetia Rhyme a exercícios passivos de recuperação. Fazia medições rigorosas da goniometria - medições da amplitude do movimento que aplicava a cada junta do corpo de Rhyme. Examinava com todo cuidado a espasticidade, enquanto mantinha os braços e as pernas dele em um ciclo constante de abdução e adução. O trabalho de recuperação não era nenhum milagre, mas produzia um certo tônus muscular, reduzia as contraturas debilitantes e mantinha o sangue fluindo. Para alguém cujas atividades musculares haviam sido limitadas aos ombros, cabeça e dedo anular da mão esquerda durante três anos e meio, Lincoln Rhyme não estava numa forma tão ruim assim.

     O jovem detetive desviou a vista do complicado controle ECU ao lado do dedo de Rhyme, ligado por fios a outro painel de controle, de onde saíam um conduíte e cabos, ligados ao computador e a uma tela de parede.

     A vida de um tetraplégico é feita de fios, disse um terapeuta a Rhyme, muito tempo antes. A dos ricos, pelo menos. Dos que têm sorte.

     - Esta manhã - disse Sellitto -, houve um assassinato no West Side.

     - Temos recebido relatos de homens e mulheres sem-teto que desapareceram no último mês - acrescentou Banks. - No início, pensamos que poderia ser um deles. Mas não era - disse em tom dramático. - A vítima da noite passada foi uma daquelas pessoas cujo paradeiro é desconhecido.

     Rhyme olhou, o rosto sem expressão, para o jovem de rosto espinhento.

     - Daquelas pessoas?

     - Ele não assiste ao noticiário - explicou Thom. - Se estão falando sobre o sequestro, ele nada ouviu a esse respeito.

     - Você não assiste aos noticiários? - Sellitto soltou uma risada. - Você era o CDF que lia quatro jornais por dia e gravava os noticiários para assisti-los quando voltava para casa. Blaine me disse que você a chamou de Katie Couric certa noite, quando estavam fazendo amor.

     - Agora só leio literatura - respondeu Rhyme pomposa e falsamente.

     Thom explicou:

     - Literatura é notícia que continua a ser notícia.

     Rhyme o ignorou.

     - Um homem e uma mulher - continuou Sellitto. – Estavam voltando de uma viagem de negócios à Costa Oeste. Tomaram um Yellow Cab no JFK. Nunca chegaram em casa. Recebemos uma informação às onze e meia da noite. Esse táxi estava descendo a BQE, no Queens. Como passageiros, um homem e uma mulher, brancos, no assento traseiro. Parecia que estavam tentando quebrar uma janela do carro. Batendo no vidro. Ninguém anotou a placa.

     - Essa testemunha... a que viu o táxi, conseguiu ver o motorista?

     - Não.

     - A passageira?

     - Nenhum sinal dela.

     Já eram 11:41. Rhyme estava furioso com o Dr. William Berger.

     - Coisa ruim - murmurou, distraído.

     Sellitto soltou um longo e ruidoso suspiro.

     - Continue, continue - disse Rhyme.

     - Ele estava usando o anel dela - explicou Banks.

     - Quem estava usando o quê?

     - A vítima. Foi encontrada esta manhã. Ele estava usando o anel da mulher. Da outra passageira.

     - Tem certeza de que o anel era dela?

     - Tinha as iniciais dela no lado de dentro.

     - De modo que vocês têm um ED - continuou Rhyme - que quer que saibam que está com a mulher e que ela continua viva.

     - O que é um ED? - quis saber Thom.

     Vendo que Rhyme ignorava a pergunta, Sellitto explicou:

     - Um elemento desconhecido.

     - Mas quer saber como foi que ele conseguiu que coubesse no dedo? - perguntou Banks, um pouco esbugalhado demais para o gosto de Rhyme. - O anel?

     - Desisto.

     - Arrancou a pele do dedo do cara. Toda ela. Até o osso.

     Rhyme sorriu levemente.

     - Ah, ele é sabido, não?

     - Por que sabido?

     - Para ter certeza de que não ia aparecer ninguém e tirar o anel. Estava sujo de sangue, não?

     - A maior sujeira.

     - Para começar, era difícil ver o anel. Depois, a questão da AIDS, hepatite. Ainda assim, mesmo que alguém notasse, um bocado de pessoas iria tentar pegar o troféu. Qual é o nome dela, Lon?

     O detetive mais velho inclinou a cabeça para o colega, que abriu a caderneta de notas.

     - Tammie Jean Colfax. Conhecida com T.J. Vinte e oito anos. Trabalha para a Morgan Stanley.

     Rhyme observou que Banks também usava um anel. Um anel de formatura de algum tipo. O rapaz era educado demais para ter apenas a escola secundária e ser formado pela Academia de Polícia. Nada havia nele que sugerisse o Exército. Não ficaria surpreso se a jóia tivesse o nome Yale gravado. Detetive de homicídios? Para onde estava indo o mundo?

     O jovem policial segurou com as duas mãos a xícara de café, que sacudia vez por outra. Com um pequeno gesto do dedo anular no painel de controle Everest & Jennings, ao qual a mão esquerda estava ligada, Rhyme clicou várias configurações, reduzindo o ar-condicionado. Geralmente, não desperdiçava tempo controlando coisas como aquecimento e ar-condicionado. Reservava-o para coisas absolutamente necessárias, como iluminação, o computador e o dispositivo que virava páginas de livro. Mas, quando a sala ficava fria demais, o nariz começava a escorrer. E isso era uma tortura insuportável para um tetraplégico.

     - Nota pedindo resgate? - perguntou Rhyme.

     - Nenhuma

     - Você é o detetive encarregado do caso? - perguntou Rhyme a Sellitto.

     - Sou. Subordinado a Jim Polling. E queremos que você passe em revista o relatório da CC.

     Outra risada.

     - Eu? Eu não leio um relatório de CC há três anos. O que poderia dizer a vocês?

     - Poderia dizer toneladas de coisas, Linc.

     - Quem é atualmente o diretor da DIRC?

     - Vince Peretti.

     - O filhinho do deputado - lembrou-se Rhyme. - Peça a ele para ler.

     Sellitto hesitou por um momento.

     - Nós preferiríamos ter você.

     - Nós, quem?

     - O chefe. Sinceramente.

     - E como é que o capitão Peretti - perguntou Rhyme, sorrindo como uma colegial - se sente com esse voto de desconfiança?

     Sellitto levantou-se e andou pela sala, olhando para as pilhas de revistas. Forensic Science Review. Catálogo da Harding & Boyle Scientific Equipment Company. The New Scotland Yard Forensic Investigation Annual. American College of Forensic Examiners Journal. Report of the American Society of Crime Lab Directors. CRC Press Forensics. Journal of the International Institute of Forensic Science.

     - Olhe só para elas - disse Rhyme. - As assinaturas foram suspensas há anos. E todas as revistas estão empoeiradas.

     - Tudo aqui está horrivelmente empoeirado, Linc. Por que você não se mexe e faz uma faxina neste chiqueiro?

     Banks deu a impressão de estar horrorizado. Rhyme abafou a explosão de riso, o que lhe pareceu estranho. Havia baixado a guarda e a irritação tinha se dissolvido e transformado em divertimento. Por um momento, lamentou que ele e Sellitto tivessem se afastado um do outro. Em seguida, matou esse sentimento. Rosnou:

     - Não posso ajudá-lo. Sinto muito.

     - Nós temos aquela conferência de paz que começa na segunda-feira. Nós...

     - Que conferência?

     - Nas Nações Unidas. Embaixadores, chefes de Estado. Haverá uns dez mil caras importantes na cidade. Ouviu falar naquela coisa que aconteceu em Londres há dois dias?

     - Coisa? - repetiu ironicamente Rhyme.

     - Alguém tentou explodir com uma bomba o hotel onde a UNESCO realizava uma reunião. O prefeito está se cagando de medo de que alguém tente fazer a mesma coisa na conferência aqui. Ele não quer nada de manchetes desagradáveis no Post.

     - E há também o pequeno problema - observou secamente Rhyme - de que a Srta. Tammie Jean talvez não esteja gostando de sua volta para casa.

     - Jerry, dê a ele alguns detalhes. Desperte o apetite dele. - Banks desviou a atenção das pernas de Rhyme para a cama, que era - e Rhyme reconheceu prontamente isso - algo mais interessante. Especialmente o painel de controle. O aparelho parecia saído de um ônibus espacial e ter custado quase o mesmo preço.

     - Dez horas depois de terem sido sequestrados, encontramos o passageiro, John Ulbrecht, baleado e enterrado vivo no leito da Amtrak, nas proximidades do cruzamento da rua 37 com a Onze. Bem, quando o encontramos, ele já estava morto. Mas tinha sido enterrado vivo. A bala era de calibre .32. - Banks ergueu a vista e acrescentou: - Segundo o Catálogo Honda de Projéteis.

     Isso significava que não haveria deduções astuciosas, baseadas em uso de armas exóticas pelo elemento desconhecido. Esse Banks parecia um rapaz esperto, pensou Rhyme, e ele só sofre mesmo de juventude, que poderá ou não superar. Lincoln Rhyme acreditava que ele mesmo nunca tinha sido jovem.

     - Marcas no projétil? - perguntou.

     - Seis endentações e estrias, giro para a esquerda.

     - De modo que ele usou um Colt - observou Rhyme e olhou novamente para o diagrama da cena do crime.

     - Você disse “ele” - continuou o jovem detetive. - Na verdade, são “eles”.

     - O que?

     - Elementos desconhecidos. Houve dois deles. Encontramos dois conjuntos de pegadas entre a cova e a base de uma escada de ferro que leva à rua - explicou Banks, apontando para o diagrama da CC.

     - Alguma pegada na escada?

     - Nenhuma. Havia sido apagada. Fizeram um bom trabalho nisso. As pegadas vão até a cova e voltam à escada. De qualquer modo, teve de haver dois deles quando mataram a vítima. Ela pesava mais de cem quilos. Um homem só não podia ter feito isso.

     - Continue.

     - Levaram-no à cova, jogaram-no dentro dela, atiraram e o enterraram, voltaram à escada, subiram e desapareceram.

     - Atiraram quando já estava na cova? - perguntou Rhyme.

     - Isso mesmo. Não havia trilha de sangue em lugar nenhum em volta da escada ou no caminho até a cova.

     Rhyme descobriu que estava levemente interessado, mas limitou-se a dizer:

     - Para que é que vocês precisam de mim?

     Os dentes amarelos de Sellitto apareceram quando ele sorriu.

     - Temos um mistério nas mãos, Linc. Um bocado de indícios que não fazem absolutamente sentido.

     - E daí?

     Eram raros os crimes em que todos os tipos de prova material faziam sentido.

     - Bem, isso tudo é realmente esquisito. Leia o relatório. Por favor. Vou colocá-lo aqui. Como é que esse troço funciona?

     Sellitto olhou para Thom, que colocou o relatório no dispositivo que virava páginas.

     - Não tenho tempo, Lou - protestou Rhyme.

     - Isto é uma geringonça e tanto - disse Banks, olhando para o dispositivo. Rhyme não respondeu. Relanceou para a primeira página e depois leu cuidadosamente. Moveu o dedo anular um exato milímetro para a esquerda. Uma vareta de borracha virou a página.

     Lendo. Pensando. Bem, isso é estranho.

     - Quem foi encarregado de processar a cena?

     - O próprio Peretti. Quando soube que a vítima era uma das pessoas do táxi, apareceu e assumiu o comando.

     Rhyme continuou a ler. Durante um minuto, as palavras rotineiras e sem imaginação do relato mantiveram seu interesse. Em seguida, a campainha da porta tocou c seu coração disparou em galope com um grande estremecimento. Olhou para Thom. Olhos frios e que deixavam claro que o tempo de brincadeira acabara. Thom inclinou a cabeça c desceu imediatamente para o térreo.

     Todos os pensamentos sobre motoristas de táxi, provas e banqueiros sequestrados desapareceram da mente poderosa de Lincoln Rhyme.

     - O Dr. Berger - anunciou Thom pelo telefone interno.

     Até que enfim. Finalmente.

     - Sinto muito, Lon, mas vou ter que pedir que se retire. Foi bom revê-lo. - Um sorriso. - Interessante, esse caso.

     Sellitto hesitou por um momento, mas em seguida se levantou.

     - Mas você lê o relatório até o fim, Lincoln? E depois diz o que pensa do caso?

     - Pode apostar que digo - prometeu Rhyrae. E voltou a reclinar a cabeça no travesseiro. Tetraplégicos como Rhyme, com todos os movimentos da cabeça e pescoço, podiam ativar uma dezena de controles, usando apenas os movimentos tridimensionais da cabeça. Rhyme, porém, evitava descansos de cabeça. Eram tão poucos os prazeres sensuais que lhe restavam que não estava disposto a abdicar do conforto de repousar a cabeça em seu travesseiro de duzentos dólares. As visitas o haviam deixado cansado. Não era ainda nem meio-dia e tudo o que queria era dormir. Os músculos do pescoço latejavam de dor.

     No momento em que Sellitto e Banks chegaram à porta, chamou-os:

     - Lon, espere.

     O detetive voltou-se para ele.

     - Há uma coisa que você não sabe. Você só encontrou metade da cena do crime. A importante é a outra metade... a cena primária. A casa dele. É nela que ele estará. E vai ser difícil como o diabo encontrá-la.

     - Por que acha que há outra cena?

      - Porque ele não atirou na vítima quando ela estava na cova. Ele atirou nele lá... na cena primária. E é lá que ele provavelmente conserva a mulher. Deve ser um local subterrâneo ou em uma parte muito deserta da cidade. Ou as duas coisas... Porque, Banks – Rhyme evitou dessa maneira a pergunta do jovem detetive -, ele não se arriscaria a atirar em alguém e manter uma prisioneira, a menos que o local fosse tranquilo e privado.

     - Talvez ele tenha usado um silenciador.

     - Não há traços de borracha ou algodão abafante no projétil - lembrou secamente Rhyme.

     - Mas como a vítima poderia ter sido baleada ali? – retrucou Banks. - Quero dizer, não havia absolutamente manchas de sangue na cena.

     - Suponho que a vítima foi baleada no rosto - disse Rhyme.

     - Ora, foi, sim - respondeu Banks, um sorriso estúpido aparecendo nos lábios. - Como foi que o senhor soube?

     - Muito doloroso, profundamente incapacitante, pouquíssimo sangue com uma bala .32. Raramente letal, se o cara erra o cérebro. Com a vítima nesse estado, o elemento desconhecido podia levá-lo para onde quisesse. Digo elemento desconhecido no singular porque foi um só.

     Houve um momento de silêncio.

     - Mas... mas havia dois conjuntos de pegadas - quase murmurou Banks, como se estivesse desarmando uma mina terrestre.

     Rhyme deixou escapar um suspiro.

     - Os solados são idênticos. Foram deixados pelo mesmo homem, que fez o percurso duas vezes. Para nos enganar. E as pegadas na direção norte têm a mesma profundidade que as que seguem para o sul. Em vista disso, ele não estava levando uma carga de cem quilos de um lado para o outro. A vítima estava descalça?

     Banks folheou as notas.

     - De meias.

     - Bem, neste caso, o perp estava usando os sapatos da vítima para fazer seu pequeno e inteligente percurso até a escada e de volta.

     - Se ele não desceu pela escada, como foi que ele chegou à cova?

     - Ele conduziu o homem ao longo dos próprios trilhos, em ambas as direções.

     - Não há outras escadas descendo para o leito da estrada em qualquer direção, por vários quarteirões.

     - Mas há túneis paralelos à estrada - continuou Rhyme. – Eles se ligam aos porões de alguns velhos armazéns ao longo da Avenida Onze. Durante a Lei Seca, um gângster chamado Owney Madden mandou escavá-los, de modo a enviar partidas de uísque contra bandeado para os trens da New York Central que seguiam para Albany e Bridgeport.

     - Mas por que simplesmente não enterrar a vítima perto do túnel? Por que correr o risco de ser visto, levando o cara o caminho todo até a passagem de nível?

     Impaciente agora, Rhyme voltou a falar:

     - Você compreende o que ele está nos dizendo, não?

     Banks fez menção de falar, mas, em seguida, sacudiu a cabeça.

     - Ele tinha que deixar o corpo em um local onde fosse visto - continuou Rhyme. - Ele precisava que alguém o encontrasse. Foi por isso que deixou a mão alta no ar. Ele está acenando para nós. Para chamar nossa atenção. Desculpe, vocês podem ter apenas um elemento desconhecido, mas ele é suficientemente inteligente por dois. Em algum local nas proximidades, há uma porta de acesso a um túnel. Vão até lá e procurem impressões digitais. Não vão encontrar nenhuma. Mas vão ter que fazer isso, apesar de tudo. A imprensa, vocês sabem. Quando a história começar a ser divulgada... Bem, boa sorte, cavalheiros. Agora, queiram me desculpar. Lon?

     - Sim?

     - Não esqueça a cena primária do crime. O que quer que aconteça, você vai ter que encontrá-la. E rápido.

     - Obrigado, Linc. Simplesmente, leia o relatório.

     Rhyme respondeu que, claro, o leria, e observou que eles acreditaram na mentira. Inteiramente.

    

     Ele tinha o melhor jeito de tratar um paciente que Rhyme jamais havia visto. E se alguém conhecia a maneira como médicos tratavam pacientes, essa pessoa era Lincoln Rhyme. Certa vez, calculou que tinha consultado 78 médicos nos últimos três anos e meio.

     - Bonita vista - comentou Berger, olhando pela janela.

     - Não é mesmo? Bela.

     Embora, por causa da altura da cama, Rhyme nada pudesse ver, exceto um céu coberto de névoa seca, brilhando acima do Central Park. Isso - e as aves - tinham constituído a essência da paisagem para ele desde que foi para ali, de volta do último hospital de reabilitação, há dois anos e meio. E conservava as cortinas cerradas durante a maior parte do tempo.

     Thom, nesse momento, rolava o patrão na cama - uma manobra que ajudava a manter limpos seus pulmões - e, em seguida, cateterizava-lhe a bexiga, o que tinha que ser feito a cada cinco ou seis horas. Após trauma na medula espinhal, os esfíncteres podem ficar travados abertos ou fechados. Rhyme teve a sorte de eles ficarem inteiramente fechados - sorte, isto é, contanto que houvesse alguém por perto para abrir, quatro vezes por dia, com um cateter e geléia KY, o pequeno tubo que não cooperava.

     O Dr. Berger observou com distanciamento clínico o procedimento e Rhyme nenhuma atenção deu à falta de privacidade. Uma das primeiras coisas que paralíticos superam é a vergonha. Embora, às vezes, façam um esforço pouco convincente para manter o decoro - pedindo que lhe cubram o corpo com um lençol quando são banhados, evacuam ou urinam -, paralíticos graves, aleijados de verdade, aleijados machos, não dão bola para isso. No primeiro centro de reabilitação em que se internou, quando um paciente ia a uma festa ou voltava de um encontro na noite anterior, os outros doentes empurravam suas cadeiras até a cama do indivíduo, para lhe observar a produção de urina, o que era um barômetro do sucesso da noite fora do hospital. Certa vez, Rhyme despertou a admiração imorredoura de seus colegas paralíticos ao registrar a marca impressionante de 1.430cc.

     - Dê uma olhada no peitoril da janela, doutor - disse ele a Berger. - Eu tenho meus próprios anjos da guarda.

     - Ora, ora. Falcões?

     - Falcões-peregrinos. Geralmente, eles fazem ninho em maior altura. Não sei por que resolveram morar comigo.

     Berger lançou um olhar às aves, deixou a cortina cair e voltou-se para o quarto. O aviário não o interessava. Não era um homem alto, mas parecia em bom estado físico, era um corredor, pensou Rhyme, arriscando um palpite. Parecia estar em fins da casa dos quarenta anos. Os cabelos pretos, porém, brilhavam pela ausência de fios brancos e ele tinha uma aparência tão boa quanto qualquer âncora de noticiário de televisão.

     - Isso aí é uma cama e tanto.

     - Gostou?

     A cama era uma Clinitron, uma imensa laje retangular. Era uma cama de apoio de ar fluidificado e continha quase uma tonelada de contas de vidro revestidas de silicone. Ar pressurizado fluía entre as contas, que lhe suportavam o peso do corpo. Se pudesse sentir alguma coisa, a sensação seria de estar flutuando no ar.

     Berger bebia nesse momento o café pedido por Rhyme e que Thom trouxe rolando os olhos e murmurando baixinho, antes de se retirar:

     - Nós não ficamos subitamente bem-educados?

     O médico virou-se para Rhyme:

     - Pelo que me disse, você foi policial.

     - Fui. Eu era o chefe da Polícia Técnica, do DPNY.

     - O senhor foi baleado?

     - Não. Isso aconteceu quando eu dava uma busca na cena de um crime. Uns operários encontraram um cadáver num canteiro de obras, em uma estação do metrô. Era de um jovem patrulheiro desaparecido seis meses antes... Nós tínhamos nessa época um assassino que andava matando policiais. Recebi o pedido de me encarregar pessoalmente do caso e, quando estava dando uma busca no local, uma viga caiu. Fiquei soterrado durante quase quatro horas.

     - Alguém andava realmente por aí matando policiais?

     - Matou três e feriu outro. O criminoso era um policial. Dan Shepherd. Um sargento da radiopatrulha.

     Berger lançou um olhar à cicatriz cor-de-rosa no pescoço de Rhyme, o sinal revelador de tetraplegia - o corte de entrada do tubo de ventilação que permanecia implantado na garganta da vítima durante meses após o acidente. Às vezes, durante anos, quando não para sempre. Rhyme, porém, graças à sua própria natureza obstinada e aos esforços hercúleos de terapeutas, havia se desmamado do ventilador. Nesse momento, possuía um par de pulmões que poderiam mantê-lo debaixo d'água por cinco minutos.

     - De modo que houve um trauma cervical.

     - C4.

     - Ah, sim.

     A C4 é a zona desmilitarizada de ferimentos na medula espinhal. Um trauma acima da quarta vértebra cervical poderia tê-lo matado. Abaixo da C4, ele poderia ter recuperado parcialmente o uso dos braços e das mãos, mas não das pernas. Um trauma na mal-afamada quarta vértebra mantinha-o vivo, embora virtualmente como tetraplégico total. Perdera o uso das pernas e dos braços. Os músculos abdominais e intercostais haviam se atrofiado na maior parte e ele respirava basicamente a partir do diafragma. Podia mover cabeça e pescoço e os ombros ligeiramente. A única sorte era que a esmagadora viga de carvalho poupara uma única e minúscula fibra de um neurônio motor, o que lhe permitia mover o dedo anular da mão esquerda.

      Rhyme poupou ao médico a novela do ano que se seguiu ao acidente, o mês de tração no crânio: garras em orifícios abertos no crânio, puxando a espinha para endireitá-la, doze semanas do dispositivo chamado auréola - o babador de plástico e um andaime de aço em volta da cabeça para manter o pescoço imóvel. Para conservar os pulmões bombeando ar, usou durante um ano um grande ventilador e, em seguida, um estimulador do nervo frênico. Os cateteres. A cirurgia, o íleo paralítico, as úlceras de tensão, a tensão e a braquicardia, as escaras que se transformavam em ras de decúbito, as contraturas quando o tecido muscular começou a encolher e ameaçar acabar com a preciosa mobilidade do dedo, a enfurecedora dor fantasma - queimaduras e dores em extremidades que não podiam experimentar qualquer sensação. Falou a Berger, contudo, sobre o último problema:

     - Disreflexia autônoma.

     Esse problema vinha acontecendo com maior frequência nos últimos tempos. Batidas fortes do coração, pressão arterial que extrapolava os limites, dores de cabeça lancinantes. Esses sintomas podiam ser provocados por algo tão simples como uma prisão de ventre. Explicou que nada podia ser feito para prevenir essas crises, exceto evitar estresse e constrição física.

     O especialista em recuperação de Rhyme, Dr. Peter Taylor, estava preocupado com a frequência dos ataques. O último - ocorrido um mês antes - tinha sido tão grave que Taylor se sentiu obrigado a dar instruções a Thom sobre como tratar aquele estado sem esperar por ajuda médica e insistiu em que programasse seu número de telefone na discagem automática. Taylor avisou que uma crise muito forte poderia transformar-se em um ataque cardíaco ou num derrame cerebral.

     Berger ouviu o relato com certo interesse e disse em seguida:

     - Antes de passar para minha atual linha de atividade, eu era especialista em ortopedia geriátrica. Principalmente em prótese da articulação de quadril. Não conheço muita coisa sobre neurologia. Quais são suas possibilidades de recuperação?

    - Nenhuma, meu estado é permanente - respondeu Rhyme, talvez um pouco rápido demais. E acrescentou: - O senhor compreende meu problema, não, doutor?

     - Acho que sim. Mas eu gostaria de ouvi-lo em suas próprias palavras.

     Sacudindo a cabeça para afastar um fio renegado de cabelo, Rhyme respondeu:

     - Todos têm o direito de cometer suicídio.

     - Acho que discordaria disso - retrucou Berger. - Na maioria das sociedades, o senhor pode ter o poder de fazer isso, mas não direito. Há uma diferença.

     Rhyme soltou uma risada amarga.

     - Não sou lá grande coisa como filósofo, mas eu diria que nem mesmo tenho o poder. E por isso que preciso do senhor.

     Lincoln Rhyme tinha pedido a quatro médicos que o matassem. Todos haviam recusado. Muito bem, disse ele a si mesmo, vou fazer isso sozinho. E deixou de comer. O processo de autofagia até a morte, porém, transformou-se em pura tortura. Deixou-o com violentas cãibras no estômago e dores de cabeça insuportáveis. Não conseguia dormir. Em vista disso, desistiu desse método e, no curso de uma conversa imensamente difícil, pediu a Thom que o matasse. O rapaz prorrompera em lágrimas - a única vez em que tinha demonstrado tanta emoção - e disse que desejava poder fazer isso Ele se sentaria ao lado e o observaria morrer, ia se recusar a iniciar os processos de ressuscitação. Mas não o mataria pessoalmente.

     Então, aconteceu um milagre. Se podia ser chamado assim.

     Tão logo foi publicado o The Scenes of the Crime, repórteres apareceram para entrevistá-lo. Uma matéria - no The New York Times - continha uma rígida citação do autor Rhyme:

     “Não, não estou pensando em escrever mais livros. O fato é que meu próximo grande projeto consiste em me suicidar. É um grande desafio. Nos últimos seis meses, ando à procura de alguém que me ajude a fazer isso.”

     Essa lancinante linha final chamou a atenção do serviço de aconselhamento psicológico do Departamento de Polícia da Cidade de Nova York, e de várias pessoas de seu passado, principalmente de Blaine (que lhe disse que ele estava maluco em pensar nisso, que tinha que deixar de pensar apenas em si mesmo - exatamente como fazia quando estavam juntos - e, nesse momento, já que esta va ali, achou que podia dizer que ia voltar a casar.)

     A citação chamou também a atenção de William Berger que, certa noite, ligou inesperadamente de Seattle. Após alguns momentos de conversa agradável, Berger explicou que tinha lido o artigo no jornal. Seguiu-se uma pausa e ele perguntou:

     - Já ouviu falar na Sociedade Lethe?

     Rhyme tinha ouvido. Era um grupo pró-eutanásia que há meses ele vinha tentando localizar. Era um grupo mais decidido do que o Passagem Segura ou a Sociedade da Cicuta.

     - Nossos voluntários são citados para prestar depoimento em dezenas de casos de suicídios auxiliados em todo o país – explicou Berger. - Por isso temos que agir em surdina.

     E disse que queria atender ao pedido de Rhyme. Mas se recusou a agir imediatamente e eles haviam tido várias conversas nos últimos sete ou oito meses. Aquele era o primeiro encontro de ambos.

    - Não há nenhuma maneira como você possa fazer a passagem sozinho?

     Passagem...

     - A exceção do método de Gene Harrod, não. E mesmo isso é um pouco difícil.

     Harrod era um rapaz de Boston tetraplégico que resolveu que queria se matar. Não tendo encontrado quem o quisesse ajudar, cometeu finalmente suicídio da única maneira que podia. Com o pouco controle de movimentos de que dispunha, provocou um incêndio no apartamento e quando as chamas pegaram para valer entrou nelas com a cadeira de rodas, tocando fogo em si mesmo. Morreu de queimaduras de terceiro grau.

     O caso foi mencionado inúmeras vezes por indivíduos que achavam que tinham o direito de morrer quando quisessem e como exemplo da tragédia que as leis contra a eutanásia podiam provocar.

     Berger conhecia bem o caso e sacudiu a cabeça, num gesto de simpatia.

     - Não, essa não é a maneira de ninguém morrer. - Deu uma olhada no corpo, fios e painéis de controle de Rhyme. - O que me diz de suas habilidades mecânicas?

     Rhyme explicou o que sabia sobre o ECU - o dispositivo de controle fabricado pela E&J que ele operava com o dedo anular, o controle de sugar e soprar que usava na boca, as varetas de sustentação do queixo, e a unidade de ditado do computador, que podia digitar na tela as palavras à medida que as pronunciava.

     - Mas tudo isso teria que ser iniciado por alguém, não? - perguntou Berger. - Por exemplo, alguém teria que ir a uma loja de armas, comprar uma, montá-la, preparar o gatilho e ligá-lo a seu controlador, certo?

     - Certo.

     O que tornaria a pessoa culpada de cumplicidade para cometer assassinato, bem como de homicídio culposo.

     - O que me diz de seu equipamento? - perguntou Rhyme. – É eficaz?

     - Equipamento?

     - O que o senhor usaria? Para, hã, praticar o ato?

     - É muito eficiente. Nunca tive queixa de um paciente.

     Rhyme pestanejou. Berger riu e Rhyme juntou-se a ele na risada. Se você não pode rir da morte, do que é que pode rir?

     - Dê uma olhada.

     - Trouxe-o consigo?

     A esperança floresceu no coração de Rhyme. Era a primeira vez em anos que sentia uma sensação agradável.

     O médico abriu uma maleta 007 e - de uma forma muito cerimoniosa, pensou Rhyme - tirou uma garrafa de conhaque. Um pequeno frasco de comprimidos. Um saco plástico e um elástico.

     - Qual é a droga?

     - Seconal. Ninguém a receita mais. Nos velhos tempos, o suicídio era muito mais simples. Estes bebês aqui farão o serviço, sem a menor dúvida. Atualmente, é quase impossível matar-se com os tranquilizantes modernos. Halcion, Librium, Dalmane, Xanax... O indivíduo pode dormir por muito tempo mas, no fim, acaba acordando.

     - E o saco?

     - Ah, o saco. - Berger o levantou no ar. - Este é o emblema da Sociedade Lethe. Extra-oficialmente, claro... Isso não quer dizer que temos um logotipo. Se os comprimidos e o conhaque não forem suficientes, usamos o saco. Cobrimos a cabeça, com o elástico em volta do pescoço. Juntamos um pouco de gelo, porque o saco fica muito quente depois de alguns minutos.

     Rhyme não conseguiu despregar os olhos do trio de implementos. O saco, de plástico grosso, como um avental descartável de pintor. O conhaque era barato, observou, e a droga de nome genérico.

     - Esta é uma bela casa - observou Berger, olhando em volta. - Central Park Oeste... O senhor vive de aposentadoria por invalidez?

     - Em parte. Faço também serviço de consultoria para a polícia e o FBI. Após o acidente... a companhia de construção que estava fazendo a escavação concordou em juízo em me pagar uma indenização de três milhões de dólares. A empresa jurou que não tinha culpa alguma, mas, aparentemente, há uma jurisprudência segundo a qual um tetraplégico ganha automaticamente qualquer ação intentada contra empresas de construção, pouco importa de quem seja a culpa. Pelo menos, o queixoso vem ao tribunal babando pela boca.

     - E o senhor escreveu aquele livro, certo?

     - Recebo alguns direitos autorais pelo livro. Não muita coisa. O livro teve uma boa venda. Não foi um sucesso de venda.

     Berger apanhou um exemplar do The Scenes of the Crime e folheou-o.

     - Cenas de crimes famosos. Olhe só pra isso. - Soltou uma risada. - Há aqui... quantas?, quarenta, cinquenta cenas?

     - Cinquenta e uma.

     Rhyme tinha revisitado - em pensamento e imaginação, uma vez que havia escrito o livro após o acidente - tantas velhas cenas de crimes em Nova York quantas pôde relembrar. Alguns crimes solucionados, outros, não. Escreveu sobre a Velha Cervejaria, a mal-afamada casa de cômodos em Five Points, onde haviam sido praticados treze assassinatos sem relação entre si em uma única noite de 1839. Sobre Charles Aubridge Deacon, que assassinou a mãe no dia 13 de julho de 1863, durante distúrbios motivados pela convocação para o serviço militar ao tempo da Guerra Civil. Ele alegou que ex-escravos a haviam matado, açulando a ira pública contra os negros. Sobre o assassinato do triângulo amoroso do arquiteto Stanford White em um crime no alto do Madison Square Garden original e sobre o desaparecimento do juiz Crater. Sobre George Metesky, o bombardeador louco da década de 1950, e Murph, o Surf, que roubou o diamante Estrela da Índia.

     - Suprimentos de construção civil no século XIX, correntes subterrâneas, escolas para mordomos - leu Berger, folheando o livro -, banhos de gays, prostíbulos de Chinatown, igrejas ortodoxas russas... Como foi que descobriu tudo isso sobre a cidade?

     Rhyme encolheu os ombros. Em seus anos como diretor da DIRC estudou tanto a cidade quanto os métodos científicos de investigação, incluindo sua história, política, geologia, sociologia, infra-estrutura. E explicou:

     - A criminalística não existe em um vácuo. Quanto mais sabemos sobre o ambiente, melhor podemos aplicar...

     No exato momento em que sentiu o entusiasmo insinuando-se na voz, parou bruscamente.

     Ficou furioso consigo mesmo por ter sido enganado com tanta facilidade.

     - Boa tentativa, Dr. Berger - disse secamente.

     - Ah, pare com isso. Pode me chamar de Bill. Por favor.

     Rhyme não ia ser descarrilado outra vez.

     - Ouvi tudo isso antes. Pegue uma grande folha de papel, limpa e em branco, e escreva todas as razões por que deve se suicidar. Em seguida, pegue outra folha de papel grande, limpa, em branco, e escreva todas as razões por que não deve fazer isso. Palavras como produtivo, útil, interessante surgem em nossa mente. Palavras impressionantes. Que dão na vista. Mas elas não significam merda nenhuma para mim. Além do mais, eu não poderia pegar a porra de um lápis nem para salvar minha alma.

     - Lincoln - disse bondosamente Berger -, preciso ter certeza de que é um candidato apropriado para o programa.

     - “Candidato”? “Programa”? Ah, a tirania dos eufemismos - comentou Rhyme amargo. - Doutor, eu tomei uma decisão. Gostaria de fazer isso hoje. Agora, para dizer a verdade.

     - Por que hoje?

     Os olhos de Rhyme voltaram ao frasco de comprimidos e ao saco. E respondeu baixinho, em voz chorosa:

     - Por que não? Que dia é hoje? Vinte e três de agosto? Este dia é tão bom quanto qualquer outro.

     O médico bateu com os dedos nos lábios finos.

     - Vou ter que passar algum tempo conversando com você, Lincoln. Se ficar realmente convencido de que você quer ir em frente...

     - Eu quero - disse Rhyme, notando, como frequentemente acontecia, como as palavras soam fracas sem gestos corporais para acompanhá-las. Ele queria desesperadamente pôr a mão no braço de Berger ou erguer as palmas das mãos em uma expressão de súplica.

     Sem perguntar se incomodava, Berger tirou do bolso um maço de Marlboro e acendeu um cigarro. Puxou também um cinzeiro dobrável e abriu-o. Cruzou as pernas magras. Parecia um rapaz tímido em uma reunião de fumantes num círculo de alunos de uma universidade de prestígio.

     - Lincoln, você entende o problema que temos aqui, não?

     Claro que entendia. Era a própria razão por que Berger estava ali e por que um de seus médicos tinha se recusado a “praticar o ato”. Apressar uma morte inevitável era uma coisa: quase um terço dos médicos praticantes que tratam de pacientes terminais receita ou administra doses fatais de medicamentos. A maioria dos promotores públicos faz vista grossa, a menos que o médico bote a coisa a perder - como aconteceu com Kevorkian.

     Mas um tetraplégico? Um paraplégico? Um aleijado? Oh, isso era diferente. Lincoln Rhyme tinha quarenta anos de idade. Tinha se libertado do ventilador. Excluindo algum gene insidioso em sua constituição, não havia razão médica para que ele não chegasse aos oitenta.

     Berger voltou a falar:

     - Deixe que eu seja curto e grosso, Lincoln. Tenho também de me certificar de que tudo isto não é uma armação.

     - Armação?

     - Promotores públicos. Eu me meti em frias antes.

     Rhyme soltou uma risada.

     - O procurador-geral de Nova York é um homem muito ocupado. Ele não vai instalar um grampo para flagrar um defensor da eutanásia.

     Rhyme olhou distraído para um relatório que descrevia uma cena de crime.

     ...a uns três metros a sudoeste da vítima, encontrada enrodilhada em cima de um pequeno monte de areia branca: uma bola de fibra, de aproximadamente seis centímetros de diâmetro, de cor branca desmaiada. Uma amostra da fibra foi submetida a uma unidade de raios X dispersara de energia e descobriu-se que consistia em A2, B5,(SI, AL)8 O22 (OH22)-

     Nenhuma origem foi indicada e as fibras não puderam ser individuadas. Amostra enviada à sede do FBI PERT para análise.

    

     - Eu simplesmente tenho que ser cuidadoso - continuou Berger. - Esta, atualmente, é toda minha vida profissional. Desisti inteiramente da ortopedia. De qualquer modo, é mais do que um trabalho. Resolvi dedicar minha vida a ajudar outras pessoas a acabar com a vida delas.

    

     Ao lado dessa fibra, a aproximadamente 7,5 cm de distâcia, foram encontrados dois pedaços de papel, um de papel de jornal comum, onde estavam impressas as palavras “três da tarde”, em fonte Times Roman, em tinta compatível com a usada em jornais comerciais. O outro pedaço parecia ser o canto de página tirada de um livro, com o número da página, “238” impresso. A fonte usada era Garamond e o papel calendrado. O ALS e a análise subsequente de ninhidrina não revelaram cristas latentes de marcas de impressão digitai em qualquer um deles... A individuação não foi possível.

     Várias coisas incomodavam Rhyme. A fibra, por exemplo. Por que Peretti não tinha entendido o que ela significava? Uma coisa tão óbvia. E por que estavam essas provas - os pedaços de jornal e a fibra - todas juntas? Havia ali alguma coisa errada.

     - Lincoln?

     - Desculpe.

     - Eu estava dizendo... Você não é uma vítima de queimaduras que sofredores insuportáveis. Nem uma pessoa que não tenha onde morar. Você tem dinheiro, tem talento. Seu trabalho de consultoria para a polícia... isso ajuda um bocado de pessoas. Se você quiser, sim, poderá ter uma vida produtiva pela frente. Uma longa vida.

     - Longa, sim. Aí é que está o problema. Uma vida longa. - Estava cansado de seu bom comportamento. E disse secamente: - Mas não quero uma vida longa. É simples assim.

     Berger respondeu em tom pausado:

     - Se houver a menor possibilidade de que você possa lamentar sua decisão... bem, eu seria o homem que teria de viver com isso. Não você.

     - Quem jamais teria certeza sobre uma coisa como essa?

     Os olhos de Rhyme voltaram ao relatório:

    

     Um parafuso de ferro foi encontrado em cima dos pedaços de papel. Era um parafuso comum, tendo gravadas em cima as letras “CE”. Cinco centímetros de comprimento, giro para a direita, 15/16” de diâmetro.

    

     - Vou ter uma agenda muito ocupada nos próximos dias - disse Berger, consultando o relógio. Um Rolex. Bem, a morte sempre foi lucrativa. - Vamos conversar agora por uma hora, mais ou menos. Fale por algum tempo e, em seguida, tire um dia para esfriar a cabeça e voltarei depois.

     Alguma coisa incomodava Rhyme. Uma coceira enfurecedora - a maldição de todos os tetraplégicos -, embora, neste caso, fosse uma coceira intelectual. Do tipo que o atormentou a vida inteira.

     - Escute, será que poderia me fazer um favor? Esse relatório aí. O senhor poderia virar as páginas para mim? Veja se pode achar a fotografia de um parafuso.

     Berger hesitou por um momento.

     - Uma foto?

     - Uma polaróide. Deve estar colada a alguma página, lá para o fim. Virar as páginas uma por uma demora muito.

     Berger tirou o relatório do dispositivo e virou as páginas para Rhyme.

     - Aí. Pare.

     Enquanto olhava para a foto, Rhyme foi tomado por uma pontada de urgência. Oh, não aqui, não agora. Por favor, não.

     - Sinto muito, o senhor poderia virar as páginas para o lugar onde eu estava?

     Berger fez o que ele pediu.

     Rhyme nada disse e continuou a ler com toda atenção o relatório.

    

     Os pedaços de papel...

     Três da tarde... página 238.

    

     O coração de Rhyme batia forte e a testa cobriu-se de suor. Ouviu um zumbido frenético nos ouvidos...

     Que manchete para os tablóides, HOMEM MORRE EM CONVERSA COM O DR. MORTE. Berger pestanejou.

     - Lincoln, está sentindo alguma coisa?

     Os olhos astuciosos do médico examinaram-no com todo cuidado.

     Da maneira mais casual que pôde assumir, Rhyme respondeu:

     - Sabe, doutor, sinto muito. Mas há uma coisa que tenho de fazer.

     Berger inclinou a cabeça, sem saber bem o que dizer:

     - Os seus assuntos, afinal de contas, não estão ainda em ordem?

     Sorridente. Despreocupado.

     - Eu estava simplesmente me perguntando se podia lhe pedir que voltasse aqui dentro de algumas horas.

     Cuidado aí. Se ele desconfiar de finalidade de sua parte, irá classificá-lo como não-suicida, pegará os frascos e o saco plástico e voará de volta para o lugar de onde veio.

     Abrindo uma agenda, Berger respondeu:

     - No resto do dia não dá. Neste caso, amanhã... Não. Sinto muito, a data mais próxima tem que ser a segunda-feira. Depois de amanhã.

     Rhyme hesitou por um momento. Deus... O desejo de sua alma estava finalmente a seu alcance, aquilo com que tinha sonhado todos os dias no ano anterior. Sim ou não?

     Decida.

     Finalmente, Rhyme ouviu sua própria voz respondendo:

     - Tudo bem. Segunda-feira. - E afivelou um sorriso impotente nos lábios.

     - Qual é exatamente o problema?

     - Um homem com quem trabalhei. Ele pediu alguns conselhos e não prestei a devida atenção. Vou ter que telefonar para ele.

     Não, não era disreflexia, absolutamente... nem um ataque de ansiedade.

     Lincoln Rhyme sentia alguma coisa que não sentira durante anos. E estava com uma pressa danada.

     - Eu poderia lhe pedir que mandasse Thom subir? Acho que ele está lá embaixo, na cozinha.

     - Sim, claro, será um prazer.

     Rhyme notou alguma coisa estranha nos olhos de Berger. O que era? Cautela? Talvez. Mas parecia quase um desapontamento. Nesse momento, porém, não havia tempo de pensar no assunto. Quando os passos do médico morreram escada abaixo, Rhyme berrou numa forte voz de barítono:

     - Thom? Thom!

     - O quê? - ouviu o jovem responder.

   - Ligue para Lon. Diga a ele para vir aqui. Agora!

     Lançou um olhar ao relógio. Passava do meio-dia. Eles tinham menos de três horas.

    

     - A cena do crime foi montada - disse Lincoln Rhyme.

     Lon Sellitto havia jogado o paletó para um lado, revelando uma camisa horrivelmente amassada. Nesse momento, inclinou-se para trás, os braços cruzados, apoiando-se em uma mesa coalhada de papéis e livros.

     Jerry Banks também tinha voltado e seus olhos azul-claros estavam pregados nos de Rhyme. A cama e o painel de controle não o interessavam mais.

     Sellitto franziu as sobrancelhas.

     - Mas qual é a história que o elemento desconhecido está tentando nos vender?

     Em cenas de crime, especialmente em casos de homicídio, os criminosos frequentemente bagunçavam as provas para desorientar os investigadores. Alguns eram inteligentes nesse trabalho; outros, não. Como aquele marido que espancou a esposa até a morte e tentou fazer com que a coisa parecesse latrocínio - embora ele pensasse apenas em roubar as jóias dela, deixando seus próprios braceletes de ouro e anel com um diamante cor-de-rosa em cima da penteadeira.

     - Isso é que torna o caso tão interessante - continuou Rhyme

     - Não é sobre o que aconteceu, Lon. É sobre o que vai acontecer.

     Sellitto, o cético, perguntou:

     - O que o leva a pensar assim?

     - Os pedaços de papel. Eles significam três horas, hoje.

     - Hoje?

     - Olhe! - Rhyme indicou o relatório com um gesto impaciente da cabeça.

     - Nesse pedaço de papel está escrito “três horas” - disse Banks, apontando. - Mas o outro é um número de página. Por que pensa que significa hoje?

     - Não é um número de página. - Rhyme ergueu uma sobrancelha. Eles continuavam sem compreender. - Lógica! A única razão para ele deixar pistas era que queria nos dizer alguma coisa. Se é isso, então 238 tem que ser alguma coisa mais do que um simples número de página, porque não há pista de que livro veio. Bem, se não é um número de página, o que é?

   Silêncio.

     Exasperado, Rhyme continuou, seco:

     - É uma data Vinte-e-três-oito. Vinte e três de agosto. Alguma coisa vai acontecer hoje, às três da tarde. E agora, a bola de fibra?

     - É asbesto.

     - Asbesto? - perguntou Sellitto.

    - No relatório? A fórmula? É homblenda. Dióxido de silício. Isso é asbesto. Não entendo por que Peretti enviou-a para o FBI. Muito bem, temos asbesto em um leito de ferrovia, onde não devia haver nenhum. E temos um parafuso de ferro com ferrugem na parte superior, mas nenhuma nas roscas. Isso significa que ele esteve preso a algum lugar durante muito tempo e que só recentemente foi tirado.

     - Talvez tenha aparecido na areia - sugeriu Banks. – Quando ele estava cavando a cova.

     - Não - respondeu Rhyme. - No centro da cidade, a camada rochosa fica próxima da superfície, o que significa que acontece o mesmo com os lençóis freáticos. Todo o solo da rua 34 até o Harlem contém umidade suficiente para enferrujar ferro em questão de dias. A peça estaria inteiramente enferrujada, e não apenas a parte superior, se estivesse enterrada. Não, foi arrancada de algum lugar, levada para a cena do crime e deixada lá. E aquela areia... O que uma areia branca estava fazendo em um leito de estrada de ferro no centro de Manhattan? A composição do solo ali é greda, limo, granito, terra compacta e argila mole.

     Banks fez menção de falar, mas foi interrompido bruscamente por Rhyme:

     - E o que essas coisas faziam ali, todas juntas? Oh, ele está nos dizendo alguma coisa, o nosso elemento desconhecido. Podem apostar que está. Banks, o que me diz da porta de acesso?

     - O senhor tinha razão - respondeu o jovem. – Descobriram uma porta a uns trinta metros ao norte da cova. Arrombada e aberta pelo lado de dentro. O senhor também tinha razão sobre as impressões digitais. Nada. E nenhuma marca de pneus de carro ou qualquer vestígio de prova.

     Uma bola de asbesto suja, um parafuso, um pedaço de jornal...

     - A cena? - perguntou Rhyme. - Intacta?

     - Liberada.

     Lincoln Rhyme, o paralítico com pulmões de assassino, exalou um forte silvo de ar, enojado.

     - Quem cometeu esse erro?

     - Não sei - respondeu Sellitto, desajeitado. - O comandante do turno, provavelmente.

     Peretti, compreendeu Rhyme.

     - Nesse caso, você está entalado com o que tem nas mãos.

     Quaisquer pistas sobre quem era o seqüestrador e sobre o que ele tencionava fazer estavam ou no relatório ou desaparecidas para sempre, pisoteadas pelos pés dos policiais, espectadores e operários da estrada de ferro. O trabalho preliminar - uma busca nas vizinhanças da cena do crime, interrogatório de testemunhas, o desenvolvimento de pistas, o trabalho tradicional do detetive - tinha sido feito de forma displicente. Cenas de crimes deviam ser processadas “como a rapidez de um relâmpago”, era o que Rhyme ordenava a seus subordinados na DIRC. E tinha demitido muitos técnicos que não se moveram com rapidez suficiente para seu gosto.

     - Peretti vistoriou pessoalmente a cena? - perguntou.

     - Ele e um grupo inteiro.

     - Um grupo inteiro? - perguntou ironicamente Rhyme. - O que é um grupo inteiro!

     Sellitto olhou para Banks, que respondeu:

     - Quatro técnicos da unidade de fotos, quatro de impressões digitais latentes. Oito encarregados de busca. O médico-legista do necrotério.

     - Oito encarregados de busca na cena do crime?

     No processamento de uma cena de crime ocorre o que é chamado de curva campanular. No caso de um único homicídio, dois policiais são considerados o grupo mais eficiente. Sozinho, um policial pode deixar passar certas coisas; com três ou mais a tendência é deixar passar ainda mais. Lincoln Rhyme sempre tinha dado buscas sozinho. Deixava que o pessoal de levantamento de impressões digitais latentes fizesse o trabalho de coleta de amostras e que a turma da foto filmasse e fotografasse o quanto quisesse. Mas sempre vasculhava sozinho o terreno.

     Peretti. Ele mesmo admitira Peretti, filho de um político rico, em seu grupo, mais ou menos há sete anos, e o rapaz tinha mostrado ser um detetive competente, aplicado. A Cena do Crime era considerada um maná e havia sempre uma lista de espera de gente que queria fazer parte da unidade. Rhyme extraía um prazer perverso em diminuir a fila de candidatos, oferecendo-lhes um olhar no álbum de família - uma coleção de fotos de crime particularmente horripilantes. Alguns policiais ficavam lívidos, outros soltavam um risinho safado. Uns tantos devolviam o livro, as sobrancelhas erguidas, como se perguntando: E daí? E havia aqueles que Lincoln Rhyme contrataria. Peretti tinha sido um deles.

     Sellitto fez uma pergunta. Rhyme notou que o detetive o fitava. E repetiu a pergunta:

     - Você vai trabalhar conosco neste caso, não vai, Lincoln?

     - Trabalhar com vocês? - Rhyme soltou uma risada explosiva. - Eu não posso, Lon. Estou simplesmente atirando umas idéias para vocês. Agora elas estão com vocês. Ponha-as em prática. Thom, ligue-me com Berger.

     Nesse momento, lamentava a decisão de ter adiado a conversa com o Dr. Morte. Talvez não fosse tarde demais. Não podia suportar o pensamento de esperar mais um ou dois dias para sua passagem. E na segunda-feira... Não queria morrer na segunda-feira. Pareceria comum demais.

     - Diga que vai, por favor.

     - Thom!

     - Tudo bem - respondeu o jovem ajudante, as mãos para o alto num gesto de rendição.

     Rhyme olhou para o lugar na mesinha-de-cabeceira onde haviam estado antes a garrafa, os comprimidos, e o saco plástico - tão perto, mas, como tudo mais em sua vida, inteiramente fora de seu alcance.

     Sellitto deu um telefonema, inclinando a cabeça quando a chamada foi respondida. Identificou-se. O relógio na parede tocou 12:30.

     - Sim, senhor. - A voz do detetive desceu para um murmúrio respeitoso. O prefeito, arriscou Rhyme. - Quanto ao sequestro no Kennedy. Estive conversando com Lincoln Rhyme... Sim, senhor, ele tem algumas idéias sobre o caso.

     O detetive foi até a janela, olhou fixamente, sem ver, para o falcão e tentou explicar o inexplicável ao homem que administrava a cidade mais misteriosa da terra. Desligou e voltou-se para Rhyme.

     - Ele e o chefe querem sua ajuda, Linc. Pediram isso, especificamente. O próprio Wilson.

     Rhyme soltou uma risada.

     - Lon, olhe para esta sala. Olhe para mim. Dou a impressão de que posso me encarregar de um caso?

     - Não de um caso normal. Mas este não é um caso normal, ou é?

     - Sinto muito. Simplesmente não tenho tempo para isso. Aquele médico... O tratamento. Thom, você ligou para ele?

     - Ainda não. Vou ligar num minuto.

     - Agora! Faça isso agora!

     Thom olhou para Sellitto. Foi até a porta e saiu. Rhyme sabia que ele não ia ligar. Que mundo de merda!

     Banks tocou em um ponto cortado pela lâmina de barba e disse impulsivamente:

     - Apenas algumas idéias. Por favor. Esse elemento desconhecido, o senhor disse que...

     Com um gesto, Sellitto mandou que se calasse. Continuou a olhar para Rhyme.

     Oh, seu escroto, pensou Rhyme. O velho silêncio. Como as pessoas odiavam o silêncio e como corriam para preenchê-lo com alguma coisa. Quantas testemunhas e suspeitos haviam entregado os pontos sob um silêncio quente e espesso como aquele. Bem, ele e Sellitto haviam formado uma boa equipe. Rhyme conhecia provas; Lon Sellitto conhecia pessoas.

     Os dois mosqueteiros. E se havia um terceiro, era a pureza da ciência séria.

     Os olhos do detetive voltaram ao relatório sobre a cena do crime.

     - Lincoln. O que é que você acha que vai acontecer hoje, às três da tarde?

     - Não tenho a menor idéia - respondeu Rhyme.

     - Não tem?

     Golpe baixo, Lon. Você me paga por isso. Finalmente, disse:

     - Ele vai matá-la... a mulher que estava no táxi. E de uma maneira particularmente horripilante. Isso eu lhe garanto. De alguma maneira que rivalizará com ser enterrado vivo.

     - Jesus! - murmurou Thom à soleira da porta.

     Por que eles simplesmente não podiam deixá-lo em paz? Haveria algum proveito em lhes falar sobre a terrível dor que sentia no pescoço e nos ombros? Ou sobre a dor fantasma - muito mais fraca e muito mais sobrenatural - que lhe percorria o corpo? Sobre a exaustão que sentia com a luta diária para... bem, fazer tudo? Sobre o mais esmagador cansaço de todos - de ter que depender de outra pessoa?

     Talvez pudesse lhes contar sobre o mosquito que havia penetrado no quarto na noite passada e lhe picado a cabeça durante uma hora. Ficara tonto de cansaço, espantando-o com movimentos de cabeça, até que o inseto finalmente aterrissou em sua orelha, onde Rhyme deixou que ele o picasse - uma vez que este era um lugar que podia esfregar no travesseiro para aliviar a comichão.

     Sellitto ergueu uma sobrancelha.

     - Hoje. - Rhyme soltou um suspiro. - Um dia. É isso.

     - Obrigado, Linc. Eu lhe devo mais uma. - Sellitto puxou uma cadeira para mais junto da cama e inclinou a cabeça para Banks, dizendo-lhe que fizesse o mesmo. - Agora, conte o que está pensando. Qual é o jogo desse sacana?

     - Não tão rápido assim - advertiu-o Rhyme. - Eu não trabalho sozinho.

    - Bastante justo. Quem é que você quer na equipe?

     - Um técnico da DIRC. O melhor no laboratório. Quero-o aqui, com o equipamento básico. E precisamos também de alguns rapazes para emprego tático. Serviços de Emergência. Oh, quero também alguns telefones - disse Rhyme, olhando para a garrafa de uísque na penteadeira.

     Lembrou-se do conhaque que Berger trouxera no kit. De maneira nenhuma ia tomar um troço barato como aquele. O número de sua Passagem Final seria cortesia de um Lagavulin de dezesseis anos ou de um opulento MaCallan, envelhecido durante décadas. Ou por que não ambos?

     Banks tirou do bolso o telefone celular.

     - Que tipos de linhas? Simplesmente...

     - Linhas convencionais.

     - Aqui?

     - Claro que não - retrucou Rhyme, irritado.

     - O que ele está dizendo é que quer pessoas que façam as ligações - explicou Sellitto. - Do Grande Edifício.

     - Oh.

     - Ligue para o centro - ordenou Sellitto. - Dê um jeito para que nos consigam uns três ou quatro despachantes.

     - Lon - perguntou Rhyme -, quem está fazendo o trabalho rotineiro sobre a morte desta manhã?

     Banks abafou uma risada.

     - Os Irmãos Hardy.

     Um olhar de Rhyme e o sorriso desapareceu do rosto de Banks.

     - Detetives Bedding e Saul, senhor - acrescentou rapidamente o jovem.

     Sellitto, porém, sorriu também.

     - Os Irmãos Hardy. Todos os chamam assim. Você não os conhece, Linc. Eles são da Força-Tarefa de Homicídios, do centro.

     - Eles se parecem muito, é isso - explicou Banks. - E, bem, o produto que entregam é um bocado engraçado.

     - Eu não quero comediantes.

     - Não, eles são competentes - garantiu Sellitto. - Os melhores levantadores de pistas que temos. Lembra-se do caso daquele animal que sequestrou uma menininha de oito anos no Queens no ano passado? Bedding e Saul fizeram o levantamento. Entrevistaram toda a bandidagem... fizeram dois mil e quinhentos interrogatórios. Foi por causa deles que a salvamos. Quando soubemos que a vítima desta manhã era o passageiro do JFK, o chefe Wilson incluiu-os pessoalmente na equipe.

     - O que é que eles estão fazendo agora?

     - Procurando testemunhas, principalmente. Ao longo dos trilhos do trem. E farejando o que for possível sobre o motorista e o táxi.

     Rhyme gritou para Thom, que se encontrava no corredor:

     - Ligou para Berger? Não, claro que não ligou. A palavra “insubordinação” lhe diz alguma coisa? Pelo menos, torne-se útil. Traga para mais perto aquele relatório sobre a cena do crime e comece a virar as páginas. - Indicou com a cabeça o dispositivo. - Essa droga de coisa é um Edsel.

     - Mas hoje não estamos um bocado bem-humorados? – cuspiu de volta o ajudante.

     - Ponha isso mais alto. Estou ficando ofuscado.

     Leu o relatório durante um minuto. Em seguida, ergueu a vista.

     - O que quer que aconteça hoje às três, se pudermos descobrir o lugar sobre o qual ele está falando, esta será a cena do crime. Vou precisar de alguém para trabalhar nisso.

     - Ótimo - concordou Sellitto. - Vou ligar para Peretti. Jogue um osso para ele. Sei que ele está uma fera, porque nós todos o estamos ignorando.

     - Eu pedi Peretti? - rosnou Rhyme.

     - Mas ele é o menino de ouro da DIRC - lembrou Banks.

     - Não quero nada com ele - murmurou Rhyme. - Quero outra pessoa.

     Sellitto e Banks trocaram olhares. O detetive mais velho sorriu, coçando distraído a camisa amassada.

     - Quem quer que você queira, Linc, já conseguiu. Lembre-se, você é rei por um dia.

    

     Olhando para o olho escuro.

     T.J. Colfax, refugiada morena das colinas do leste do Tennessee, formada pela Escola de Administração de Empresas da Universidade de Nova York, trader habilíssima em moedas estrangeiras, emergiu de um sonho profundo. Os cabelos emaranhados estavam colados ao rosto, o suor descia em veios pela face, o pescoço e o peito.

     Quando deu por si, olhava para o olho negro - um buraco em um cano enferrujado, de uns 15cm de diâmetro, do qual uma pequena placa de visita tinha sido removida.

     Sugou pelo nariz o ar bolorento... uma vez que a boca continuava fechada com esparadrapo, com gosto de plástico, quente, azedo.

     E John?, pensou. Onde estaria ele? Recusou-se a pensar no estalo alto que tinha ouvido no porão na noite anterior. Havia crescido no leste do Tennessee e sabia como era um som de tiro.

     Por favor, disse mentalmente, rezando pelo seu chefe. Que ele esteja bem.

     Fique calma, ordenou furiosa a si mesma. Vai começar a chorar novamente, lembrando-se do que aconteceu. No porão, após o tiro, tinha perdido inteiramente o controle de si mesma, soluçando em pânico, e quase morreu sufocada.

     Certo. Calma.

     Olhe para o olho preto do cano. Finja que ele está piscando para você. O olho de seu anjo da guarda.

     T.J. estava sentada no chão, cercada por centenas de canos, dutos e serpentes de conduítes e fios. Mais quente do que o jantar que o irmão insistia em querer, mais quente do que o assento traseiro do Nova de Jule Whelan, há dez anos. Água pingava, estalactites pendiam das vigas antigas acima de sua cabeça. Uma meia dúzia de minúsculas lâmpadas amarelas forneciam a única iluminação. Acima de sua cabeça - diretamente acima - havia um letreiro. Não conseguiu lê-lo com clareza, embora lhe distinguisse a margem vermelha. Ao fim do que quer que pudesse ser a mensagem havia um gordo ponto de exclamação.

     Lutou mais uma vez para se soltar, mas as algemas a mantiveram presa, machucando o osso. De sua garganta subiu um grito de desespero, um grito de animal. O grosso esparadrapo na boca e o ruído insistente de maquinaria engoliram o som. Ninguém poderia tê-la ouvido.

     O olho negro continuou a fitá-la. Você vai me salvar, não vai?, pensou.

     Subitamente, o silêncio foi quebrado por uma batida forte, um sino de ferro, muito longe. Como se fosse uma porta de navio fechando-se com um estrondo. O som vinha do buraco no cano. De seu olho amigo.

     Encostou as algemas no cano e fez um esforço para se levantar. Mas não conseguiu mover-se mais do que alguns centímetros.

     E foi nesse momento que conseguiu ver o letreiro acima de sua cabeça. Ao tentar levantar-se, havia se espigado ligeiramente e movido a cabeça para um lado. A posição deu-lhe uma visão oblíqua das palavras.

     Oh, não... Oh, Jesus do meu coração...

     As lágrimas recomeçaram.

     Lembrou-se da mãe, os cabelos puxados para trás do rosto redondo, usando seu vestido caseiro azul, com enfeite de espigas de milho, murmurando: “Vai dar tudo certo, querida. Não se preocupe.”

     Mas ela não acreditava nessas palavras.

     Acreditava no que o letreiro dizia.

     Perigo de Vida! Vapor superaquecido sob Alta Pressão. Não retire a placa de visita do cano. Telefone para a Consolidated Edison para obter acesso. Perigo de Vida!

     O olho negro fitou-a, o olho que se abria para o coração de um cano de vapor. E que olhava diretamente para a carne rosada de seu peito. De algum lugar nas profundezas do cano veio outro estalo de metal sobre metal, de operários batendo com martelos, apertando velhas juntas.

     Enquanto chorava e chorava, Tammie Jean Colfax ouviu outro estalo. Em seguida, um gemido distante, muito baixo. E lhe pareceu, através das lágrimas, que o olho negro finalmente piscou.

    

     - A situação é a seguinte – começou Lincoln Rhyme. – Temos uma vítima de sequestro e um prazo fatal às três da tarde.

     - Não houve pedido de pagamento de resgate – disse Sellitto, suplementando a sinopse feita por Rhyme. Em seguida, virou-se para atender, ao ouvir a campainha do celular.

     - Jerry – ordenou Rhyme a Banks –, passe para ele os dados sobre a cena do crime esta manhã.

     Na sala escura de Lincoln Rhyme havia mais gente do que na memória recente das paredes. Bem, depois do acidente, os amigos haviam aparecido às vezes, sem se anunciar (as probabilidades eram muito boas de que ele estivesse em casa, claro), mas ele havia desencorajado essas visitas. E tinha deixado também de retornar os telefonemas, tornando-se cada vez mais recluso, mergulhando aos poucos em profunda solidão. Passou as horas escrevendo o livro e, quando lhe faltou inspiração para escrever outro, lendo. E quando a leitura se tornava maçante, havia filmes de aluguel e TV a cabo e música. Em seguida, desistiu da TV e do estéreo e passava as horas olhando fixamente para fotos de arte, que o empregado obedientemente colava com fita na parede em frente à cama. No fim, elas também haviam sido retiradas.

     Solidão.

     Isso era tudo que queria, e como sentia falta dela nesse momento.

     Andando de um lado para o outro, parecendo tenso, viu Jim Polling. Lon Sellitto era o encarregado do caso, mas um incidente como esse precisava de um comandante a bordo e Polling se ofereceu para o trabalho. O caso era uma bomba de tempo e poderia acabar com carreiras num abrir e fechar de olhos, de modo que o comissário-chefe e o vice-comissário estavam muito felizes por ele estar ali para interceptar o fogo antiaéreo. Eles estariam praticando a fina arte do distanciamento e, quando a imprensa chegasse para as entrevistas, poderiam usar palavras como responsabilidade delegada, designado fulano, e de acordo com as informações de... e olhariam rápido para Polling, quando a conversa passasse ao campo das perguntas difíceis. Rhyme não podia compreender por que qualquer policial no mundo se ofereceria para encarregar-se de um caso como aquele.

     Polling era um tipo esquisito. O homenzinho havia aberto caminho à força através da Delegacia Norte do centro da cidade e se transformado em um dos mais bem-sucedidos e famosos detetives especializados em homicídios. Conhecido por seu temperamento inflamável, ele tinha se metido em sérios problemas ao matar um suspeito desarmado. Mas conseguiu, surpreendentemente, recompor a carreira ao obter a condenação no caso Shepherd – o caso do assassino em série, aquele em que Rhyme foi ferido. Promovido a capitão após a prisão, noticiada com estardalhaço pela imprensa, Polling passou por uma das mudanças mais embaraçosas da meia-idade trocar as calças jeans e os ternos da Sears por ternos da Brooks Brothers (nesse dia ele usava um casual Calvin Klein azul-marinho) - e iniciou uma obstinada ascensão para um luxuoso escritório em um andar alto da One Police Plaza.

     Outro policial encostou-se numa mesa próxima. Cabelos cortados rentes, alto, magro, de pernas compridas, Bo Haumann era também capitão e chefe da unidade Operações Especiais, a equipe SWAT do DPNY.

     Banks encerrou a sinopse no momento em que Sellitto desligava e fechava o celular.

     - Os Irmãos Hardy.

     - Mais alguma coisa sobre o táxi? - perguntou Polling.

     - Nada. Eles estão ainda procurando.

     - Algum indício de que ela estivesse trepando com quem não devia? – perguntou Polling. – Talvez um namorado psicopata?

     - Nada, nenhum namorado. Ela simplesmente saía uma vez ou outra com alguns caras. Ninguém que a andasse seguindo, ao que parece.

     - E ainda nenhum telefonema pedindo resgate? – perguntou Rhyme.

     - Nenhum.

     A campainha da porta tocou nesse momento. Thom saiu para atender.

     Um momento depois, o empregado subiu a escada com uma policial uniformizada. A distância ela parecia muito jovem, mas ao aproximar-se Rhyme notou que ela provavelmente tinha uns trinta anos, ou por aí. Era alta e tinha aquela beleza equina, mal-humorada, de mulheres que nos olham fixamente das páginas de revistas de moda.

     Nós vemos os outros como nos vemos e, desde o acidente, Lincoln Rhyme raramente pensava nas pessoas em termos de corpo. Observou-lhe a altura, os quadris enxutos, os cabelos cor de fogo. Outra pessoa notaria esses aspectos e diria: Que avião! No caso de Rhyme, esse pensamento não lhe ocorreu. Mas o que, de fato, ficou registrado foi a expressão nos olhos da moça.

     Não a surpresa – obviamente, ninguém tinha dito a ela que ele era um inválido –, mas outra coisa. Uma expressão que ele jamais tinha visto antes. Era como se o estado dele a deixasse à vontade. O oposto exato de como a maioria das pessoas reagia. No momento em que entrou no quarto, ela parecia estar relaxando.

     - Policial Sachs? – perguntou Rhyme.

     - Sim, senhor – respondeu ela, controlando-se no momento em que ia lhe estender a mão.

     - Detetive Rhyme.

     Sellitto apresentou-a a Polling e Haumann. Ela tinha ouvido falar também nos dois, se não por outra coisa, pelo menos pela reputação, e, nesse momento, seus olhos se tornaram mais uma vez cautelosos.

     Relanceou os olhos em volta da sala, para a poeira, a escuridão. Deu uma olhada rápida em um dos cartazes de arte. Estava parcialmente desenrolado, sob uma mesa. Nighthawks, de Edward Hopper. Pessoas solitárias em um jantar à noite. Aquele quadro foi o último que ele pintou.

     Rhyme explicou em rápidas palavras o que significa o prazo fatal de três da tarde. Sachs inclinou calma a cabeça, mas Rhyme percebeu um lampejo – de quê? medo? repugnância? – em seus olhos.

     Jerry Banks, com os dedos atrapalhados por um anel de formatura, mas não uma aliança, sentiu-se imediatamente atraído pelo brilho da beleza da moça e lhe endereçou um sorriso particular. O único olhar de resposta de Sachs, porém, deixou claro que dali não ia sair namoro. E, provavelmente, jamais sairia.

     - Talvez seja uma cilada – sugeriu Polling. – Nós encontramos o lugar para onde ele está nos atraindo, entramos e uma bomba explode.

     - Duvido – disse Sellitto, encolhendo os ombros. – Por que ele se daria a esse trabalho todo? Se alguém quer matar um policial, tudo que tem a fazer é procurar um e meter bala nele.

     Silêncio constrangido durante um momento, enquanto Polling olhava rapidamente de Sellitto para Rhyme. O pensamento coletivo ali era de que tinha sido no caso Shepherd que Rhyme sofreu aquele acidente.

     O faux pas, porém, nenhuma importância teve para Lincoln Rhyme. Ele continuou a falar:

     - Concordo com Lon. Mas eu diria a quaisquer equipes de Busca e Vigilância e do HRT que ficassem de olho para uma emboscada. Parece que nosso rapaz está redigindo suas próprias regras.

     Sachs olhou mais uma vez para o pôster com o quadro de Hopper. Rhyme seguiu-lhe o olhar. Talvez as pessoas naquele jantar não fossem realmente solitárias, refletiu. Pensando bem, elas pareciam para lá de contentes.

     - Temos aqui dois tipos de prova material – prosseguiu. – A prova padrão. Aquilo que o elemento desconhecido não quis deixar na cena do crime: cabelo, fibras, impressões digitais, talvez sangue, pegadas de pés calçados. Se pudermos descobrir um número suficiente delas... e se tivermos sorte, esse fato nos levará à cena primária do crime.

     - Ou ao esconderijo dele – sugeriu Sellitto. – Alguma coisa temporária.

     - Uma casa segura? – disse Rhyme pensativo, inclinando a cabeça. – Aposto que você tem razão, Lon. Ele precisa de um lugar de onde possa operar. – Parou por um momento, antes de recomeçar. – E há também a prova plantada no local. À parte os pedaços de papel... que nos dizem a hora e a data... temos o parafuso, a bola de asbesto e a areia.

     - Uma merda de caçada de lixeiro - rosnou Haumann e passou a mão pelos cabelos à escovinha.

     Era sem tirar nem pôr o sargento-instrutor de que Rhyme se lembrava.

     - Se é assim, posso dizer ao chefe que há uma possibilidade de chegarmos em tempo à vítima? - perguntou Polling.

     - Acho que pode, sim.

     O capitão deu um telefonema e se dirigiu para um canto da sala, enquanto falava. Ao desligar, grunhiu:

     - O prefeito. O chefe está com ele. Vai haver uma entrevista coletiva dentro de uma hora e vou ter que estar lá para ter certeza de que o pau deles está dentro da calça e com o fecho corrido. Alguma coisa mais que eu possa dizer aos garotões?

     Sellitto olhou para Rhyme, que sacudiu a cabeça.

     - Ainda não – disse o detetive.

     Polling deu a Sellitto o número de seu celular e passou literalmente correndo pela porta.

     Um momento depois, um homem magro, começando a ficar careca, de uns trinta anos de idade, subiu vagarosamente a escada. Mel Cooper tinha uma aparência tão esquisita como sempre, do vizinho chato que passa o dia assistindo a novelas. Era seguido por dois policiais mais jovens que traziam um baú de viagem e duas valises, que pareciam pesar quinhentos quilos cada. Os policiais arriaram a pesada carga e foram embora.

     - Mel.

     - Detetive.

     Mel aproximou-se de Rhyme e segurou-lhe a mão direita inútil. O único contato físico naquele dia com um dos visitantes, notou Rhyme. Ele e Cooper haviam trabalhado juntos durante anos. Com diplomas em química orgânica, matemática e física, Cooper era um especialista em identificação – impressões digitais, DNA e reconstrução de indícios, de acordo com métodos científicos de investigação criminal - e análise de provas materiais.

     - Como é que vai o maior criminalista do mundo? – perguntou Cooper.

     Rhyme respondeu com uma bem-humorada e muda expressão de pouco caso. Esse título lhe fora dado pela imprensa anos antes, após a notícia surpreendente de que o FBI o havia escolhido – um policial municipal – como conselheiro para organizar o PERT, Physical Evidence Response Team (Equipe de Análise de Prova Material). Não satisfeitos com “cientista forense” e “especialista em assuntos criminais”, os repórteres haviam-no batizado como “criminalista”.

     A palavra estava realmente em circulação há anos, inicialmente aplicada ao lendário Paul Leland Kirk, diretor da Escola de Criminologia de Berkeley, da Universidade da Califórnia. A escola, a primeira no país, fora fundada pelo ainda mais lendário chefe de polícia August Vollmer. O título tinha recentemente se tornado chique e, quando técnicos criminais em todo o país conheciam louras em coquetéis, eles se descreviam como criminalistas, e não como cientistas forenses.

     - O pesadelo de todo mundo – comentou Cooper –, a gente toma um táxi e descobre que há um psicopata ao volante. E o mundo inteiro de olho na Grande Maçã por causa daquela conferência. Eu andava me perguntando se eles não iriam suspender sua aposentadoria para cuidar deste caso.

     - Como vai sua mãe? – perguntou Rhyme.

     - Ainda se queixando de todas as dores e incômodos possíveis. E ainda mais sadia do que eu.

     Cooper morava com a senhora idosa no mesmo bangalô do Queens onde tinha nascido. Sua paixão era dança de salão – e o tango, a sua especialidade. Sendo as fofocas entre policiais o que são, houve especulações na DIRC sobre as preferências sexuais do homenzinho. Embora não sentisse interesse pela vida pessoal dos funcionários, Rhyme ficara tão surpreso como todo mundo ao finalmente conhecer Greta, a namorada firme de Cooper, uma escandinava deslumbrante que ensinava matemática avançada em Columbia.

     Cooper abriu a grande mala, forrada de veludo. Retirou as peças de três grandes microscópios e começou a montá-los.

     - Oh, eletricidade caseira.

     Olhou para as tomadas, parecendo desapontado. Empurrou para o alto do nariz os óculos de aro de metal.

     - É porque isto aqui é uma casa, Mel.

     - Eu pensava que você vivia em um laboratório. Eu não teria ficado surpreso.

     Rhyme olhou para os aparelhos, em tons cinzentos e pretos, com muito sinal de uso, semelhantes àqueles que haviam sido seus companheiros constantes durante quinze anos: um microscópio composto padrão, um microscópio de contraste de fase, e um modelo operado à luz polarizada. Cooper abriu as valises, onde estava guardado o grande estoque dos frascos, potes e instrumentos científicos do Sr. Gênio. Num relâmpago, palavras voltaram à mente de Rhyme, palavras que haviam feito parte de seu vocabulário diário. Tubos de ensaio de coleta de sangue, ácido acético, ortololidina, reagente luminol, pincel Magna, contraste púrpura de Ruhemann...

     O homenzinho magrelo olhou em volta da sala.

     - Parece igualzinho ao que era seu gabinete, Lincoln. Como é que você encontra alguma coisa nesta bagunça? Ei, vou precisar de um pouco de espaço por aqui.

     - Thom - Rhyme indicou com a cabeça a mesa menos atravancada.

     Revistas, papéis e livros foram afastados para um lado, pondo à vista um tampo que Rhyme não via há um ano.

     Sellitto lançou um olhar no relatório sobre a cena do crime.

     - Que nome vamos dar ao elemento desconhecido? Não temos ainda um número de caso.

     Rhyme lançou um olhar a Banks.

     - Escolha um número. Qualquer número.

     - O número da página – sugeriu Banks. – Quero dizer, a data.

     - Elemento desconhecido 238. Tão bom como qualquer outro.

     Sellitto anotou esse dado no relatório.

     - Hummm, queira desculpar? Detetive Rhyme?

     Foi a patrulheira quem falou. Rhyme voltou-se para ela.

     - Eu devia estar no Grande Edifício ao meio-dia.

     Era a gíria policial para designar a One Police Plaza.

     - Policial Sachs... – Ele se esquecera momentaneamente dela. - Você foi o primeiro policial na cena esta manhã? Naquele homicídio nos trilhos da estrada de ferro?

     - Exatamente. Fui eu que recebi o aviso. - Ao falar, ela se dirigiu a Thom.

     - Eu estou aqui, policial – lembrou-lhe severamente Rhyme, mal controlando a irritação. – Bem aqui. – Enfurecia-se quando as pessoas falavam com ele através de outras, através de pessoas sadias.

     Ela girou rapidamente a cabeça e ele notou que a lição havia sido bem aprendida.

     - Sim, senhor – respondeu ela, com um tom macio na voz, mas gelo nos olhos.

     - Estou aposentado. Simplesmente me chame de Lincoln.

     - Quer, por favor, me dizer logo o motivo?

     - O que foi que você disse? – perguntou ele.

     - A razão por que me mandou vir aqui. Sinto muito. Eu não estava pensando. Se quiser um pedido de desculpas por escrito, faço isso. Só que estou atrasada para minha nova missão e não tive oportunidade de telefonar para meu comandante.

     - Desculpas? – perguntou Rhyme.

     - A coisa é a seguinte: eu não tinha qualquer experiência real com cenas de crime. O que fiz foi mais ou menos improvisar.

     - Do que é que você está falando?

     - De ter parado os trens e fechado a Avenida Onze. Foi culpa minha que o senador não tenha podido fazer seu discurso em Nova Jersey e que alguns delegados graduados às Nações Unidas não tenham podido chegar a tempo do aeroporto de Newark para as sessões.

     Rhyme ria nesse momento.

     - Você sabe quem eu sou?

     - Ouvi falar no senhor, claro. Eu pensava que o senhor...

     - Estivesse morto? – perguntou Rhyme.

     - Não. Não foi isso o que eu quis dizer. – Embora fosse. Rapidamente, ela continuou a falar: – Todos nós estudamos em seu livro na Academia. Mas não ouvimos nada sobre o senhor. Pessoalmente, quero dizer... – Olhou para o alto da parede e disse formalmente: – Em meu julgamento, como primeiro policial a chegar à cena do crime, achei que seria melhor parar o trem e fechar a rua a fim de proteger o local. E foi isso o que fiz, senhor.

     - Chame-me de Rhyme. E você é...

     - Eu...?

     - Seu primeiro nome?

     - Amélia.

     - Amélia. O mesmo nome da aviadora?

     - Não, senhor. Nome de família.

     - Amélia, não quero um pedido de desculpas. Você fez o que era certo e Vince Peretti errou.

     Sellitto ficou constrangido com essa indiscrição, mas Lincoln Rhyme não lhe deu bola. Ele era, afinal de contas, uma das poucas pessoas no mundo que poderia ficar com a bunda numa cadeira quando o próprio presidente dos Estados Unidos entrasse numa sala.

     - Peretti administrou a cena do crime como se o prefeito estivesse olhando por cima do ombro dele, e essa é a maneira número um de botar as coisas a perder. Ele chamou gente demais, errou inteiramente ao restabelecer o tráfego de trens e carros e nunca deveria ter liberado a cena tão cedo, como fez. Se tivéssemos mantido seguros os trilhos, quem sabe poderíamos justamente ter achado um recibo de cartão de crédito com um nome. Ou uma grande e bela impressão digital de polegar.

     - Pode ser que sim – disse delicadamente Sellitto. – Mas vamos simplesmente manter esse dado entre nós.

     Dando ordens silenciosas, seus olhos giraram na direção de Sachs, Cooper e do jovem Jerry Banks.

     Rhyme soltou uma risadinha irreverente. Em seguida, voltou-se para Sachs, que flagrou, como fizera com Banks naquela manhã, olhando fixamente para suas pernas e o corpo sob o cobertor cor de damasco. Dirigiu-se a ela:

     - Pedi que viesse aqui para processar para nós a próxima cena do crime.

     - O quê?! – Dessa vez ela não falou através de intérpretes.

   - Processar para nós - repetiu ele sucintamente. – A próxima cena do crime.

     - Mas... – Ela riu – eu não sou da DIRC. Sou patrulheira. Nunca realizei trabalho de cena de crime.

     - Este caso é incomum. Como o próprio detetive Sellitto vai lhe dizer. É realmente sobrenatural. Certo, Lon? Verdade, se fosse uma cena clássica, eu não a chamaria. Mas vamos precisar de um par de olhos novos na cena de que estou falando.

     Amélia lançou um olhar a Sellitto, que nada disse.

     - Eu, simplesmente... Eu não seria competente nisso, tenho certeza.

     - Muito bem – disse pacientemente Rhyme. – Quer saber a verdade?

     Amélia inclinou a cabeça.

     - Preciso de uma pessoa que teve peito para parar um trem, a fim de proteger a cena, e aguentar depois a pressão.

     - Obrigada pela oportunidade, senhor. Lincoln. Mas...

     - Lon - disse secamente Rhyme.

     - Policial Sachs – grunhiu o detetive, dirigindo-se a Amélia –, ninguém aqui está lhe dando qualquer opção. Você foi designada para este caso, a fim de prestar serviços na cena do crime.

     - Senhor, devo protestar. Estou me transferindo da Radiopatrulha. Hoje. Consegui transferência por motivos médicos. Em vigor há uma hora.

     - Motivos médicos? – perguntou Rhyme.

     Amélia hesitou, olhando novamente para as pernas dele.

     - Tenho artrite.

     - Tem? – perguntou Rhyme.

     - Artrite crônica.

     - Sinto muito ouvir isso.

     Rapidamente, ela continuou:

     - Só recebi aquele rádio esta manhã porque havia alguém doente. Não planejei isso.

     - Sim, entendo. Eu também tinha outros planos – retrucou Lincoln Rhyme. – Agora, vamos dar uma olhada nas provas.

      

     - O parafuso.

     Lembrando a regra clássica sobre cena de crime: Examine em primeiro lugar a prova mais incomum.

     Thom girou repetidamente nas mãos o saco de plástico, enquanto Rhyme examinava o pino de metal, uma metade enferrujada, a outra, não. Rombudo. Usado.

     - Tem certeza sobre as impressões digitais? Tentou o reagente a partículas pequenas? Esse é o melhor, no caso de provas materiais expostas aos elementos.

     - Tenho – garantiu Mel Cooper.

     - Thom – ordenou Rhyme –, tire este cabelo de cima de meus olhos! Bote-o para trás com um pente. Eu disse a você esta manhã para penteá-lo.

     O empregado suspirou e penteou para trás os fios emaranhados.

     - Tome cuidado – murmurou ele ameaçador para o patrão.

     Rhyme sacudiu a cabeça, despedindo-o, e emaranhando ainda mais os cabelos. Sentada a um canto, Amélia Sachs tinha uma expressão de mau humor, as pernas sob a cadeira, na posição de um corredor de alta velocidade e, realmente, dava a impressão de estar justamente à espera do tiro de partida.

     Rhyme voltou a examinar o parafuso.

     No tempo em que estava na DIRC, começou a montar bancos de dados, semelhantes ao catálogo federal de lascas de pintura de automóveis e aos arquivos sobre tipos de tabaco do BATE criou uma pasta de modelos de projéteis, fibras, tecidos, pneumáticos, sapatos, ferramentas, óleo de motor, fluido de transmissão. Passou centenas de horas compilando listas, com índices e remissões recíprocas.

     Mas, mesmo no tempo de trabalho obsessivo de Rhyme, a DIRC jamais chegou a catalogar peças de metal. Nesse momento perguntou-se por que e ficou zangado consigo mesmo por não ter reservado tempo para fazer isso, e ainda mais com Vince Peretti por tampouco ter pensado nesse assunto.

     - Vamos ter que telefonar para todos os fabricantes de parafusos e empreiteiros do nordeste do país. Não, do país inteiro. Perguntar se fabricam um modelo como este e a quem o venderam. Mande por fax uma descrição e uma foto do parafuso aos nossos despachantes, em Comunicações.

     - Diabos, poderia haver um milhão deles – disse Banks. – Todas as Ace Harware e Sears do país.

     - Não acho – respondeu Rhyme. – O parafuso tem de ser uma pista viável. Ele não o deixaria se fosse inútil. Há uma fonte limitada desses parafusos. Aposto com você.

     Sellitto deu um telefonema e ergueu a vista alguns minutos depois.

     - Consegui os despachantes que você queria, Lincoln. Quatro. Onde é que conseguimos arranjar uma lista de fabricantes?

     - Mande um patrulheiro até a rua 32 – respondeu Rhyme. – A Biblioteca Pública. Lá eles têm catálogos de empresas. Até conseguir um deles, ponha os despachantes para trabalhar nas Páginas Amarelas, seção Negócios.

     Sellitto repetiu as instruções ao telefone.

     Rhyme lançou um olhar ao relógio. Uma hora e meia.

     - Agora, o asbesto.

     Por um momento, a palavra brilhou na mente de Rhyme. Sentiu uma pontada – em lugares onde nenhuma pontada podia ser sentida. O que era que ele sabia tanto sobre asbesto? Era alguma coisa que tinha lido ou ouvido - recentemente, ao que parecia, embora não confiasse mais em seu senso de tempo. Quando uma pessoa fica deitada de costas, no mesmo lugar, um mês após outro, após outro, o tempo passa a correr lentamente, em um estado de quase morte. Bem que poderia estar pensando em alguma coisa que tinha lido dois anos antes.

     - O que é que sabemos sobre asbesto? – perguntou baixinho.

     Ninguém respondeu, mas isso pouco importava. Respondia a si mesmo. Aliás, de qualquer modo, preferia que fosse assim. O asbesto era uma molécula complexa, um polímero de silicato. Não queima porque, como o vidro, já está oxidado.

     Quando processava cenas de crimes de velhos assassinatos – trabalhando com antropólogos e dentistas especializados em assuntos criminais -, muitas vezes fazia isso em prédios isolados com asbesto. Lembrou-se do gosto peculiar das máscaras faciais que os operários eram obrigados a usar durante uma escavação. Na verdade, lembrou-se nesse momento, foi durante a remoção de asbesto em uma linha do metrô da cidade, realizada três anos e meio antes, que equipes encontraram, em uma sala de geradores, o corpo de um policial assassinado por Dan Shepherd. No momento em que se curvou lentamente para tirar uma fibra da túnica azul-clara do policial, ouviu o estalo e o gemido da viga de carvalho. A máscara o havia provavelmente salvo de morrer por sufocação na poeira e areia que caíram e o cercaram por todos os lados.

     - Talvez ele a tenha levado para um local de remoção de asbesto – sugeriu Sellitto.

     - Poderia ser isso - concordou Rhyme.

     Sellitto voltou-se para o jovem assistente:

     - Ligue para a EPA e para o Departamento de Defesa do Meio Ambiente, da prefeitura. Descubra se há lugares onde estão fazendo atualmente obras de remoção de asbesto.

     O detetive deu o telefonema.

     - Bo – perguntou Rhyme –, você tem equipes que possamos usar?

     - Prontas para entrar em ação – confirmou o comandante da UOE –, embora tenha que dizer que metade da força está a serviço desse troço das Nações Unidas. Foi emprestada ao Serviço Secreto e à segurança das Nações Unidas.

     - Consegui umas informações da EPA.

     Banks chamou Haumann com um gesto e os dois se dirigiram para um canto da sala. Tiraram do lugar várias pilhas de livros. No momento em que Haumann desenrolava alguns mapas táticos da UOE cobrindo a cidade de Nova York, alguma coisa caiu com um estalo no chão.

     Banks sobressaltou-se.

     - Jesus!

     Do ângulo onde se encontrava, Rhyme conseguiu ver o que havia caído. Haumann hesitou por um momento, curvou-se em seguida, pegou uma vértebra descorada de coluna vertebral e recolocou-a na mesa.

     Rhyme sentiu o peso de vários pares de olhos focalizados nele, mas nada disse. Hauman curvou-se sobre o mapa, enquanto Banks, ao telefone, lhe passava informações sobre locais onde era feita remoção de asbesto. O comandante marcou-os com um lápis de cera. Parecia haver um grande número desses locais, espalhados por todos os cinco bairros da cidade. Era desanimador.

     - Temos que limitar mais a busca. Vejamos, a areia – disse Rhyme a Cooper. – Examine-a no microscópio e diga o que acha.

     Sellitto passou ao técnico o envelope que continha a prova. Cooper derramou o conteúdo em uma placa esmaltada de exame. O pó brilhante soltou uma pequena nuvem de poeira. Havia também uma pedra, tornada lisa por desgaste, que ficou no centro da placa.

     Lincoln Rhyme sentiu um aperto na garganta. Não com o que via - não sabia ainda para o que estava olhando –, mas com o impulso nervoso defeituoso que partiu de seu cérebro e morreu a meio caminho do braço direito inútil, em uma ânsia para pegar um lápis e usá-lo. Era a primeira vez em um ano, mais ou menos, que sentia essa ânsia. O desejo ardente encheu-lhe os olhos de lágrimas e seu único consolo foi a lembrança do pequeno vidro de Seconal e o saco plástico que o Dr. Berger levava consigo – imagens que pairaram na sala como se fossem as de um anjo salvador.

     Pigarreou.

     - Examine-a.

     - O quê?

     - A pedra.

     Sellitto fitou-o, curioso.

     - A pedra não devia estar aí – disse Rhyme. – Maçãs e laranjas. Quero saber por quê. Examine-a.

     Usando um fórceps com pontas de porcelana, Cooper pegou a pedra e examinou-a. Colocou óculos de trabalho e tocou a pedra com o feixe de uma PoliLight – um dispositivo do tamanho de uma bateria de carro, com uma vareta luminosa.

     - Nada – disse.

     - DMV?1

     Cooper, porém, não tinha trazido equipamento de DMV.

     - O que é que você tem aí? - perguntou Rhyme, irritado.

     - Preto Sudão, revelador físico estabilizado, iodo, preto de amido, DFO e violeta genciana, pincel Magna.

     Trouxera também ninhidrina para tirar impressões digitais de superfícies porosas e Super-Cola para usar em superfícies lisas. Rhyme lembrou-se da notícia sensacional que tinha varrido a comunidade de polícia especializada alguns anos antes. Um técnico que trabalhava no laboratório de criminalística do Exército dos Estados Unidos no Japão usou Super-Cola para consertar uma câmera quebrada e descobrira, espantado, que a fumaça do adesivo provocava o aparecimento, com mais nitidez, de impressões digitais latentes do que a maioria dos produtos químicos elaborados para esse fim.

     Esse era o método que Cooper empregava no momento. Usando o fórceps, colocou a pedra em uma pequena caixa de vidro e acrescentou uma pitada da cola na placa quente que havia no interior da caixa. Minutos depois, tirou a pedra do recipiente.

     - Conseguimos alguma coisa – disse.

     Borrifou a pedra com pó UV de comprimento de onda longo c iluminou-a com um facho da vareta PoliLight. Uma impressão digital apareceu com grande clareza. Bem no alvo. Cooper fotografou-a com uma polaróide CU-5, uma câmera 1:1. Passou a foto a Rhyme.

     - Mais perto. – Rhyme apertou os olhos enquanto a examinava. - Isso mesmo! Ele rolou-a.

     Impressões digitais roladas – passar um dedo sobre uma superfície – produziam uma imagem diferente das que eram deixadas quando alguém pegava em um objeto. Era uma diferença sutil – na largura das cristas de atrito em vários pontos no total da impressão –, mas que Rhyme reconheceu claramente nesse momento.

     - Olhe aí, o que é isso? - perguntou baixinho. - Essa linha.

     Viram uma marca desmaiada, em forma crescente, na impressão digital.

     - Até parece...

     - Isso mesmo – concordou Rhyme. – A unha dela. Normalmente não obteríamos isso. Mas aposto que ele inclinou a pedra justamente para ter certeza de que ela seria apanhada. O gesto deixou uma impressão oleosa. Como uma crista de atrito.

     - Por que ele faria isso? – perguntou Sachs.

     Mais uma vez irritado porque ninguém ali parecia estar notando esses pontos com a mesma rapidez que ele, Rhyme explicou secamente:

     - Ele está nos dizendo duas coisas. A primeira: está providenciando para que saibamos que a vítima é uma mulher. No caso de não termos feito a conexão entre ela e o corpo achado esta manhã.

     - Por que ele faria isso? – perguntou Banks.

     - Para aumentar a aposta - retrucou Rhyme. - Para nos fazer suar mais. Ele está nos dizendo que uma mulher corre perigo. Ele dá valor às vítimas exatamente como fazemos, embora a gente alegue que não faz isso.

     Rhyme olhou por acaso para as mãos de Sachs. E ficou surpreso ao descobrir que, no caso de uma mulher tão bela, os dedos dela eram um horror. Quatro deles terminavam em Band-Aids cor de carne e vários outros pareciam roídos até a cutícula. A cutícula de um deles estava coberta de sangue pardo. Notou também a inflamação vermelha na pele embaixo das sobrancelhas, por puxá-las, supôs. E uma marca de arranhão ao lado da orelha. Todos eles hábitos autodestrutivos. Há milhões de maneiras de uma pessoa fazer mal a si mesma, além de tomar comprimidos e beber Armagnac.

     - Quanto à outra coisa que ele está nos dizendo, já avisei vocês sobre ela – continuou Rhyme. – Ele conhece provas. Está dizendo: Não percam tempo com técnicas comuns de levantamento de provas materiais. Não vou deixar nenhuma. Isso é o que ele pensa, claro. Mas vamos encontrar alguma coisa. Podem apostar que vamos. – Subitamente, fechou a cara. – O mapa. Precisamos do mapa. Thom!

     - Que mapa? – perguntou espantado o empregado.

     - Você sabe de que mapa estou falando.

     Thom soltou um suspiro.

     - Nem desconfio, Lincoln.

     Olhando pela janela e falando em parte para si mesmo, Rhyme continuou, em tom pensativo:

     - O viaduto sobre a linha da estrada de ferro, os túneis dos contrabandistas de bebida e as portas de acesso, o asbesto... todos eles são coisas antigas. Ele gosta da Nova York histórica. Eu quero o mapa Randel.

     - Qual e onde?

     - Nas pastas com as pesquisas que fiz para meu livro. Onde mais?

     Thom mexeu em pastas e tirou a fotocópia de um comprido mapa horizontal de Manhattan.

     - Este?

     - Esse mesmo !

     Era o mapa Randel, desenhado em 1811 para que os comissários da cidade pudessem planejar a grade de ruas de Manhattan. O mapa tinha sido impresso horizontalmente, com o Battery Park, sul, à esquerda, e o Harlem, norte, à direita. Mostrada dessa maneira, a ilha parecia o corpo de um cão no momento do salto, a cabeça estreita erguida para um ataque.

     - Pregue-o aí no alto. Ótimo.

     Enquanto o empregado cumpria a ordem, Rhyme disse explosivamente:

     - Thom, nós vamos alistá-lo provisoriamente na polícia. Dê a ele um distintivo lustroso ou alguma outra coisa, Lon.

     - Lincoln... – murmurou o rapaz.

     - Nós precisamos de você. Ora, vamos. Você não quis sempre ser um Sam Spade ou um Kojak?

     - Só quis ser Judy Garland – respondeu o empregado.

     - Jessica Fletcher, então! Você vai escrever o perfil. Vamos, pegue aquela Mont Blanc que você sempre mostra vaidosamente no bolso da camisa.

     O jovem rolou os olhos para cima, enquanto puxava uma caneta Parker e pegava um bloco empoeirado de papel amarelo em uma pilha sob uma das mesas.

     - Não, tenho uma idéia melhor – anunciou Rhyme. – Pendure um desses pôsteres. Esses pôsteres de arte. Pregue-o virado e escreva nas costas com uma caneta marcadora. Com letras grandes, para que eu possa vê-las.

     Thom escolheu o de nenúfares de Monet e pregou-o na parede.

     - No alto – ordenou o crimininalista –, escreva “Elemento Desconhecido 238”. Em seguida, quatro colunas: “Aparência, Residência, Veículo, Diversos.” Lindo. Agora, vamos começar. O que é que nós sabemos sobre ele?

     - O veículo... – começou Sellitto -, ele tem um Yellow Cab.

     - Certo. E, sob “Diversos”, escreva que ele está familiarizado com procedimentos relativos à cena do crime.

     - O que – acrescentou Sellitto – pode significar que ele já foi ao pote outras vezes.

     - Como assim? – perguntou Thom.

     - Ele pode ter ficha na polícia - explicou o detetive.

     - Devemos acrescentar que ele está armado com um Colt .32?

     - Droga, sim - confirmou o chefe do rapaz.

     - E ele conhece CAs...

     - O quê ?- perguntou Thom

     - Cristas de atrito... impressões digitais. É isso o que elas são, como você sabe, as cristas em nossas mãos e pés que nos dão tração. E anote aí que provavelmente ele está operando a partir de uma casa segura. Bom trabalho, Thom. Olhem para ele. Ele é um policial nato.

     Thom alegrou-se todo e afastou-se da parede, espanando a camisa, onde se havia grudado uma pegajosa teia de aranha.

     - Aí estamos, pessoal - disse Sellitto. - Nossa primeira olhada no Sr. 238.

     Rhyme virou-se para Mel Cooper.

     - Agora, a areia. O que é que você pode dizer sobre ela?

     Cooper levantou os óculos de segurança para a testa pálida.

     Derramou uma amostra em uma placa e introduziu-a sob a objetiva do microscópio de luz polarizada. Ajustou os botões.

     - Hummm. Isso é curioso. Nada de birrefringência.2

     - De modo que isso não é areia – murmurou Rhyme. – É alguma coisa tirada do fundo... Pode individuar3 a coisa?

     - Talvez - respondeu o técnico -, se eu puder descobrir o que é isso.

     - Vidro triturado? – sugeriu Rhyme.

     Vidro é basicamente areia fundida. O processo de fabricação de vidro, porém, altera a estrutura cristalina. Não se consegue birrefringência com vidro comum. Cooper examinou atentamente a amostra.

     - Não, não acho que seja vidro. Não sei o que é. Como eu gostaria de ter aqui um EDX 4.

     - Consiga um para ele – ordenou Rhyme a Sellitto. Em seguida, olhou em volta da sala. - Precisamos de mais equipamento.

     Quero também uma unidade de levantamento de metal de impressões digitais em vácuo. E um GC-MS.

     O cromatógrafo de gás decompõe substâncias em seus elementos componentes, enquanto a fotoespectrometria usa luz para identificar cada um deles. Esses instrumentos permitem que criminalistas submetam a testes amostras desconhecidas de apenas um milionésimo de grama e as comparem com um banco de dados de cem mil substâncias conhecidas, catalogadas por identidade e nome de marca.

     Por telefone, Sellitto passou a lista ao laboratório da Polícia Técnica.

     - Mas não vamos poder esperar por esses instrumentos sofisticados, Mel. Você vai ter que fazer isso à velha maneira. Diga mais alguma coisa sobre essa areia de araque.

     - Está misturada com um pouco de sujeira. Temos aqui argila mole, um pouco de quartzo, feldspato e mica. E fragmentos mínimos de folhas e plantas em decomposição. E pontinhos do que poderia ser bentonita.

     - Bentonita. – Rhyme pareceu satisfeito. – Isso é uma cinza vulcânica que os construtores civis usam em pasta de perfuração, quando estão escavando fundações em áreas tímidas de cidade onde o leito rochoso é profundo. Evita desabamentos. De modo que estamos procurando uma área urbanizada que está junto ou perto de água, provavelmente ao sul da rua 32. Ao norte desse local, o leito rochoso fica muito mais perto da superfície e os construtores não precisam de pasta de perfuração.

     Cooper moveu a placa.

     - Se tivesse que dar um palpite, eu diria que isto aqui é principalmente cálcio. Espere, há aqui alguma coisa fibrosa.

     Cooper girou o botão. Rhyme teria pago qualquer preço para poder dar uma espiada através daquela ocular. Lembrou-se em um relâmpago de todas as noites que passara com o rosto colado à esponja de borracha cinzenta, observando fibras, fragmentos de humo, células sanguíneas ou aparas de metal entrando e saindo de foco.

     - E aqui há mais uma coisa. Um grânulo maior. Três camadas. Uma semelhante a tecido ceratótico e duas de cálcio. Cores ligeiramente diferentes. A outra é translúcida.

     - Três camadas? – disse irritado Rhyme. – Droga, é uma concha marinha!

     Ficou furioso consigo mesmo. Devia ter pensado nessa possibilidade.

     - Certo, é isso mesmo – concordou Cooper com uma inclinação de cabeça. – Ostra, acho.

     Os leitos de ostras em volta da cidade eram encontrados principalmente nas costas de Long Island e Nova Jersey. Rhyme tivera esperança de que o elemento desconhecido limitasse a Manhattan a área geográfica de busca - onde havia sido encontrada a vítima daquela manhã. Murmurou:

     - Se ele está abrindo toda a área do metrô, a busca vai dar em nada.

     - Estou vendo agora outra coisa – disse Cooper. – Acho que é limo. Mas muito antigo. Granular.

     - De concreto, talvez? – sugeriu Rhyme.

     - Possivelmente. Sim. Mas, neste caso, não entendo o motivo das conchas – acrescentou Cooper pensativo. – Em volta de Nova York, os leitos de ostras estão cheios de vegetação e lama. Esta está misturada com concreto e nela não há virtualmente qualquer matéria vegetal.

     - Bordas! – disse subitamente Rhyme. – Com que se parecem as bordas da concha, Mel?

     O técnico voltou a espiar pela ocular.

     - Fraturadas, não desgastadas. Isto foi pulverizado por pressão seca. Nenhum sinal de erosão por água.

     Os olhos de Rhyme passearam pelo mapa Randel, escaneando-o à direita e à esquerda e concentrando-se nas ancas do cachorro.

     - Entendi! - exclamou.

     Em 1913, F.W. Woolworth construiu a estrutura de sessenta andares que ainda leva seu nome, revestida de terracota e adornada com gárgulas e esculturas góticas. Durante dezesseis anos, foi o prédio mais alto do mundo. Uma vez que o leito rochoso naquela parte de Manhattan se situava a mais de trinta metros abaixo da Broadway, os operários tiveram que abrir profundas chaminés para ancorar o prédio. Não muito depois do início das obras, os operários descobriram os restos mortais de Talbott Soames, industrial de Manhattan, que tinha sido sequestrado em 1906. O corpo foi encontrado enterrado em uma espessa camada do que parecia ser areia branca, mas que na realidade eram conchas pulverizadas de ostras, fato este que foi um carnaval para os tablóides, mencionando a obsessão do rico magnata por comidas suculentas. As conchas eram tão comuns na ponta leste da baixa Manhattan que passaram a ser usadas para aterros. E foram elas que deram nome à Pearl Street.

     - Ela está em algum lugar no centro da cidade – anunciou Rhyme. – Provavelmente, no East Side. E talvez perto da Pearl. E estará em um subterrâneo, possivelmente a uma profundidade de um e meio a quatro metros e meio. Talvez em um canteiro de obras, talvez em um porão. Em um velho prédio ou em um túnel.

     - Faça uma checagem cruzada no diagrama da EPA, Jerry – ordenou Sellitto a seu auxiliar. – Onde é que andam fazendo remoção de asbesto?

     - Ao longo da Pearl? Nada. – O jovem policial ergueu o mapa em que ele e Haumann estavam trabalhando. – Há umas três dezenas de locais de limpeza: em Midtown, no Harlem, e no Bronx.

     Mas nada no centro.

     - Asbesto... asbesto... – disse mais uma vez Rhyme em voz baixa, pensativo. O que era tão conhecido sobre o asbesto?

     O relógio marcava nesse momento 2:05.

     - Bo, temos que começar a agir. Mande sua gente para lá e inicie uma busca. Todos os prédios ao longo da Pearl Street. Na Water Street também.

     - Homem – suspirou o policial –, isso é um bocado de prédios.

     Mas dirigiu-se para a porta.

     Rhyme voltou-se para Sellitto:

     - Lon, é melhor você ir também. Isso vai ser como um final de corrida decidido apenas por foto. Eles vão precisar de todas as pessoas que puderem arranjar para a busca. Amélia, quero que você também vá para lá.

     - Escute, estive pensando...

     - Policial Sachs – cortou-a secamente Sellitto –, você recebeu suas ordens.

   Um leve rubor cobriu o belo rosto da moça. Rhyme dirigiu-se nesse momento a Cooper:

     - Mel, você veio até aqui de ônibus?

     - Em um VRR - respondeu ele.

     Os grandes ônibus empregados em cenas de crime eram enormes caminhões cobertos – cheios de instrumentos e suprimentos para coleta de prova, mais bem equipados do que laboratórios completos de muitas pequenas cidades. Quando chefiou a DIRC, porém, Rhyme encomendou veículos menores para uso nas cenas de crimes - basicamente, caminhonetes -, contendo o equipamento essencial para coleta e análise. Os Veículos de Resposta Rápida (VRR) pareciam ter uma aparência bem comum, mas Rhyme conseguiu, na base da carteirada, mandar equipá-los com os motores turbinados dos carros de interceptação da polícia. Não raro, eles chegavam à cena do crime antes das radiopatrulhas. Muitas vezes, o primeiro policial a chegar à cena do crime era um veterano técnico de laboratório. O que constituía o sonho de todo promotor público.

     - Dê as chaves do veículo a Amélia.

     Cooper entregou-as à moça, que olhou por um momento para Rhyme, girou sobre si mesma e desceu correndo a escada. Até os passos dela pareciam furiosos.

     - Muito bem, Lon. No que é que você está pensando?

     Sellitto lançou um olhar para o corredor vazio e aproximou-se de Rhyme.

     - Você quer realmente F.P. neste caso?

     - ER?

     - Ela, Sachs. ER é o apelido dela.

     - Significando o quê?

     - Não diga isso quando ela estiver presente. Ela explode. O pai dela foi patrulheiro de ronda a pé durante quarenta anos. Por isso, chamam-na de Filha do Patrulheiro.

     - Você acha que eu não devia tê-la escolhido?

     - Não, acho que não devia. Para que você a quer?

     - Porque ela subiu um aterro de dez metros para não contaminar a cena. Porque fechou uma avenida muito movimentada e uma linha da Amtrak. Isso é iniciativa.

     - Ora, vamos, Linc. Conheço uma dezena de policiais que fariam alguma coisa como essa.

     - Bem, ela é a pessoa que eu quero.

     Rhyme lançou um olhar solene a Sellitto, lembrando-lhe sutilmente e sem discussão quais haviam sido os termos da combinação de ambos.

     - Tudo que vou dizer é o seguinte: acabei de falar com Polling. Peretti está uma fera porque foi passado para trás – disse Sellitto. – E se... não, quero dizer, quando... os chefões descobrirem que alguém da Radiopatrulha está dando busca na cena, vai haver um arranca-rabo daqueles.

     - Provavelmente – disse Rhyme baixinho, os olhos no pôster do perfil do elemento desconhecido. - Mas eu tenho a impressão de que esse vai ser o menor de nossos problemas hoje.

     E deixou a cabeça cansada recair no grosso travesseiro.

    

     A caminhonete partiu em alta velocidade na direção dos escuros e fuliginosos canyons de Wall Street, no centro de Nova York.

     Os dedos de Amélia Sachs dançavam de leve no volante, enquanto tentava imaginar onde T.J. Colfax poderia estar sendo mantida em cativeiro. Encontrá-la parecia um trabalho sem esperança. O distrito financeiro que ora se aproximava jamais pareceu tão enorme, tão cheio de becos, tão cheio de bocas-de-lobo, vãos de portas e janelas escuras.

     Tantos lugares para esconder um refém!

     Mentalmente, reviu a mão projetando-se da cova no leito da estrada de ferro. E o anel de brilhante no osso sangrento do dedo. Ela conhecia aquele tipo de jóia. Chamava-os de anéis de consolo - o tipo de jóia comprada por moças ricas e solitárias.

     Continuou a acelerar na direção sul, esquivando-se de mensageiros em bicicletas e de táxis.

     Mesmo nessa tarde clara, sob um sol forte, aquela parte da cidade era fantasmagórica. Os prédios lançavam sombras escuras e estavam cobertos pela sujeira escura como sangue coagulado.

     Fez uma curva a 65 por hora, derrapando no asfalto esponjoso, e pisou no acelerador para trazer a caminhonete de volta aos 85 por hora.

    

     ELEMENTO DESCONHECIDO (238)

     Aparência Residência Veículo Diversos

     Prov. tem casa segura

     Táxi Yellow Cab

     Conhece proc. de CC

     Possivelmente tem antec. criminais

     Conhece levantamento de impressões digitais

     Arma = 32 Colt

    

     Um motor excelente, pensou. E resolveu descobrir qual era o comportamento da caminhonete a 120.

     Anos antes, enquanto o pai dormia – ele em geral fazia a ronda das três às sete da manhã –, a adolescente Amie Sachs pegava as chaves do Camaro do velho e dizia à mãe, Rose, que ia às compras. Ela queria alguma coisa do açougue de suínos Fort Hamilton? E antes que a mãe pudesse dizer “Não, é melhor você pegar o trem. Não você não vai dirigir”, ela desaparecia pela porta, ligava o motor e partia corno uma bala na direção oeste.

     Voltando para casa três horas depois, sem trazer carne de porco Amie subia em passos leves a escada e encontrava uma mãe nervosa e furiosa que – para divertimento da filha – lhe passava um sermão sobre os riscos de engravidar, e como isso lhe arruinaria as possibilidades de usar aquele belo rosto para ganhar um milhão de dólares como modelo profissional. Mas quando finalmente descobriu que a filha não andava trepando por aí, mas simplesmente dirigindo o carro a 160 por hora nas estradas de Long Island, voltou a ficar nervosa e enfurecida e passou-lhe sermões sobre o perigo de amassar aquele belo rosto e arruinar suas possibilidades de ganhar um milhão de dólares como modelo profissional.

     As coisas ficaram ainda piores quando tirou a carteira de motorista.

     Sachs, nesse momento, espremeu-se entre dois caminhões parados em fila dupla, alimentando a esperança de que nem o motorista nem o passageiro abrissem uma porta. Em um chiado que só seria captado por um medidor Doppler, passou por eles.

     Quando você está em movimento eles não podem pegá-la...

     Massageando o rosto redondo com os dedos curtos e rombudos, Lon Sellitto nenhuma atenção prestava naquela maneira tipo Indy 500 de dirigir. Falava com o parceiro sobre o caso, como se fosse um contador discutindo um balancete. Quanto a Banks, embora não estivesse mais lançando olhares esperançosos para os olhos e lábios de Sachs, tinha passado a conferir o velocímetro a cada dois minutos.

     Derraparam em uma curva furiosa do outro lado da Ponte do Brooklyn. Amélia pensou novamente na prisioneira, imaginando as unhas longas e elegantes de T.J., enquanto batia com seus próprios dedos roídos no volante. Mais uma vez, ocorreu-lhe a imagem que se recusava a desaparecer: o galho branco de bétula que era uma mão, projetando-se da cova úmida. E o único osso, sanguinolento.

     - Esse cara é meio louco - disse, de repente, para mudar a direção dos pensamentos.

     - Quem? – perguntou Sellitto.

     - Rhyme.

     - Eu acho – disse Banks, entrando na conversa - que ele se parece com o irmão mais moço de Howard Hughes.

     - Sim, bem, eu também fiquei surpreso - reconheceu o detetive mais velho. – Ele não estava parecendo nada bem. E ele era um cara bonitão. Mas, bem, vocês sabem, depois de tudo aquilo por que passou... Como é que você, Sachs, pode estar na radiopatrulha dirigindo dessa maneira?

     – Foi para onde me designaram. Ninguém me perguntou, simplesmente me deram ordens. – Exatamente como você fez, pensou ela. – Ele era realmente tão competente assim?

     - Rhyme? Melhor ainda. A maioria dos caras da Polícia de Nova York lida com duzentos cadáveres por ano. Os melhores. Rhyme fazia o dobro disso. Mesmo quando dirigia a DIRC. Veja o caso de Peretti, ele é competente, mas sai em campo apenas uma vez a cada duas semanas, mais ou menos, e apenas em casos que despertam atenção da mídia. Você não está ouvindo isso de mim, policial Sachs.

     - Não, senhor.

     - Rhyme, porém, ia pessoalmente às cenas de crime. E quando não estava fazendo isso, andava por aí.

     - Fazendo o quê?

     – Simplesmente andava. Olhando para coisas. Andava quilômetros. Por toda cidade. Comprando coisas, apanhando coisas, colecionando coisas.

     - Que tipo de coisas?

     - Tipos de provas. Areia, restos de comida, revistas, calotas de carro, sapatos, livros de medicina, drogas, plantas... Diga qualquer coisa e ele andava por aí procurando-as, catalogando-as. Você sabe como é... Quando aparecia uma prova material, ele formava uma idéia melhor de onde o perpetrador poderia ter estado ou o que estava fazendo. A gente ligava para ele pelo teletrim e ele estava no Harlem, no Lower East Side ou na Hell's Kitchen.

     - Ele tinha o trabalho de polícia no sangue?

     - Não. O pai dele era uma espécie de cientista em um laboratório de fama nacional ou alguma coisa assim.

     - Foi isso o que ele estudou? Ciências?

     - Foi. Estudou na Champaign-Urbana e conquistou uns dois diplomas de prestígio. Química e História. Por que escolheu isso, não faço a menor idéia. Os pais dele já haviam falecido quando o conheci, o que vai fazer agora uns quinze anos. E nem tem irmãos nem irmãs. Cresceu em Illinois. Esse é o motivo do nome dele, Lincoln.

     Ela quis saber se ele era ou tinha sido casado, mas não perguntou. Ficou no “Ele era realmente tão competente assim?”.

     - Pode perguntar.

     - Um merda?

     Banks riu.

     - Minha mãe tinha uma expressão para isso – respondeu Sellitto. – Ela dizia que alguém era “meio esquisito”. Essas palavras descrevem Rhyme. Ele é esquisito. Certa ocasião, um técnico de laboratório imbecil borrifou luminol... um reagente para identificar amostras de sangue... em cima de uma impressão digital, em vez de ninhidrina, e inutilizou a impressão. Rhyme demitiu-o na hora. Em outra ocasião, um policial urinou em uma cena de crime e deu descarga no toalete. Cara, Rhyme subiu nas tamancas como se fosse um foguete balístico, disse ao babaca que fosse até o porão e trouxesse o que houvesse na peça de retenção da fossa. – Sellitto soltou uma risada. – O policial, um oficial, respondeu: “Eu não vou fazer isso. Sou um tenente.” E Rhyme: “Que bom saber disso. Agora, você é bombeiro.” Eu podia contar casos como esses indefinidamente. Porra, você está indo a 130 por hora!

     Passaram como um relâmpago pelo Grande Edifício e ela pensou, sentindo-se mal: Era aí que eu devia estar neste exato momento. Conhecendo outros companheiros em Informações, assistindo à sessão de treinamento, saturando-me do ar-condicionado.

     Manobrou habilmente em volta de um táxi que nesse momento furava um sinal vermelho.

     Jesus, que calor. Poeira quente, fedor quente, gasolina quente. As horas feias da cidade. O mau humor subia alto como a água cinzenta nos hidrantes do Harlem. Dois Natais antes, ela e o namorado haviam feito uma curta celebração de feriado – das onze à meia-noite, o único tempo comum de folga que suas escalas de serviço permitiam – numa noite de quatro graus centígrados. Ela e Nick, sentados em frente ao Rockefeller Center, perto do rinque de patinação, tomando café e conhaque. E os dois haviam concordado que preferiam uma semana de frio a um único dia quente de agosto.

     Finalmente, descendo como uma bala a Pearl, ela descobriu o posto de comando de Neumann. Deixando no asfalto marcas de 2,5m de deslizamento de freada, Sachs enfiou o VRR em uma vaga entre o carro dele e um ônibus do SEM.

     - Poxa, você dirige bem paca - comentou Sellitto, descendo.

     Por alguma razão, Sachs ficou muito feliz ao ver as suadas impressões digitais de Jerry Banks bem visíveis no vidro da janela quando ela abriu a porta traseira.

     Policiais do SEM e patrulheiros uniformizados enchiam o local, uns cinquenta ou sessenta deles. E mais estavam a caminho. Até parecia que toda a atenção da Police Plaza tinha se concentrado no centro de Nova York. Quando deu por si, Sachs pensava distraidamente que se alguém quisesse tentar um assassinato ou invadir a Gracie Mansion ou um consulado, este seria o momento mais conveniente.

     Haumann aproximou-se rápido da caminhonete. Dirigiu-se logo a Sellitto:

     - Estamos fazendo diligências de porta em porta, examinando todas as obras em construção na Pearl. Ninguém sabe de nada sobre trabalho com asbesto e ninguém ouviu gritos de socorro.

     Sachs fez menção de descer da caminhonete, mas foi detida por Haumann:

     - Não. Suas ordens são de ficar aqui com o veículo da cena de crime.

     Ela desceu, de qualquer maneira.

     - Sim, senhor. Quem foi exatamente que disse isso?

     - O detetive Rhyme. Acabei de falar com ele. Você deve ligar para a Central quando chegar ao posto de controle.

     Mal terminou de falar, Haumann começou a afastar-se. Sellitto e Banks apressaram os passos na direção do posto.

     - Detetive Sellitto – gritou Sachs.

     Ele se virou.

     - Desculpe, detetive - disse a moça. - O negócio é o seguinte: quem é meu comandante de turno? A quem estou subordinada?

     - Você está subordinada a Rhyme - retrucou ele secamente.

     Amélia soltou uma risada.

     - Mas não posso ficar subordinada a ele.

     Sellitto fitou-a, sem entender.

     - Quero dizer, não há questões de hierarquia, coisas assim? De jurisdição? Ele é um paisano. Eu preciso de alguém, de um escudo, a quem possa ficar subordinada.

     Conservando a calma, Sellitto respondeu:

     - Escute aqui. Todos nós estamos subordinados a Lincoln Rhyme. Não me importa se ele é paisano, se é o chefe, ou se é a porra do Cruzado Capado. Entendeu bem?

     - Mas...

     - Se quiser se queixar, faça isso por escrito, mas amanhã.

     E deu-lhe as costas. Sachs fitou-o por um momento, voltou ao volante da caminhonete e ligou para a Central, informando que estava 10-84 na cena do crime. E que aguardava instruções.

     E riu sombriamente quando a mulher respondeu:

     - Dez-quatro, radiopatrulha 5885. Fique de prontidão. O detetive Rhyme entrará em contato brevemente, câmbio.

     Detetive Rhyme.

     - Dez-quatro, câmbio - retrucou Sachs e olhou para os fundos de caminhonete, especulando indolentemente sobre o que havia dentro daquelas valises pretas.

    

     Eram 2:45 da tarde.

     O telefone tocou na casa de Rhyme. Thom atendeu.

     - É o despachante da Central.

     - Complete a ligação.

     O telefone ganhou vida:

     - Detetive Rhyme, o senhor não se lembra de mirn, mas trabalhei na DIRC quando o senhor foi o chefe lá. Paisana. Fazia serviço de telefonista. Emma Rollins.

     - Claro que me lembro. Como é que vão as crianças, Emma:

     Rhyme lembrava-se de uma negra grandalhona e alegre que sustentava cinco filhos com dois empregos. Lembrava-se dos dedos grossos dela cutucando os botões com tanta força que, certa vez, quebrou de fato um dos telefones oficiais.

     - Jeremy vai entrar na faculdade dentro de umas duas semanas e Dora continua dando uma de atriz, ou pensa que está. Os menores estão indo muito bem.

     - Lon Sellitto recrutou-a, foi isso?

     - Não, senhor. Ouvi dizer que o senhor estava trabalhando nesse caso e devolvi as crianças para o 911. Emma vai aceitar esse trabalho, eu disse a ela.

     - O que é que você tem para nós?

     - Estamos trabalhando com um catálogo de companhias que fabricam parafusos. E com um livro que contém uma lista de firmas que os vendem por atacado. O que descobrimos foi o seguinte. O que resolveu foram as letras. As que estão gravadas no parafuso. As letras CE. Eles são fabricados especialmente para a Con Ed.

     Diabo! Claro.

     - São marcados dessa maneira porque têm comprimento diferente da maioria dos parafusos fabricados pela companhia... quinze, dezesseis de polegada e com muito mais roscas do que a maioria dos outros parafusos. A fabricante é a Michigan Tool and Die, de Detroit. Os parafusos são usados em velhos canos e apenas em Nova York. Canos fabricados há sessenta, setenta anos. Pela maneira como as partes dos canos se engatam, eles têm que ter uma vedação muito boa. Se encaixam mais fundo do que o noivo e a noiva na noite do casamento, foi isso o que me disse o homem da companhia. Estava querendo me deixar encabulada.

     - Emma, eu amo você. Fique de sobreaviso, sim?

     - Pode apostar que fico.

     - Thom! – berrou Rhyme. – Este telefone não vai funcionar. Eu mesmo preciso fazer as ligações. Use aquela coisa de ativação de voz no computador. Posso usá-la?

     - Você nunca mandou instalar isso.

     - Não mandei?

     - Não.

     - Estou precisando disso.

     - Nós não a temos.

     - Faça alguma coisa. Eu quero poder dar os telefonemas.

     - Acho que há um ECU manual em algum lugar por aqui.

     Thom deu uma busca em uma caixa encostada na parede. Descobriu um pequeno painel eletrônico e ligou uma de suas extremidades ao telefone e a outra a um controle próximo do pescoço de Rhyme.

     - Isso é desajeitado demais!

     - Mas é tudo que temos. Se tivéssemos ligado o infravermelho acima de sua sobrancelha, como sugeri, você poderia ter feito ligações de sacanagem nos dois últimos anos.

     - Fios demais – disse Rhyme, enojado.

     O pescoço entrou em espasmo súbito e jogou o controle fora de seu alcance.

     - Merda!

     Subitamente, essa tarefa insignificante – quanto mais a missão – pareceram-lhe impossíveis. Estava exausto, o pescoço doía, a cabeça doía. E doíam principalmente os olhos. Ardiam – o que para ele era mais doloroso – e sentiu uma grande necessidade de passar as costas dos dedos sobre as pálpebras fechadas. Um minúsculo gesto de alívio, uma coisa que o resto do mundo fazia todos os dias.

     Thom recolocou o joystick no encaixe. Rhyme extraiu confiança sabe-se lá de onde e perguntou ao empregado:

     - Como é que isso funciona?

     - Aí está a tela. Está vendo no controlador? Simplesmente mova o stick até ficar sobre o número, espere um segundo e o número é programado. Para ligar para o número seguinte, faça a mesma coisa. Quando tiver digitado todos os sete números, empurre o stick até aqui para discar.

     - Não está funcionando - disse secamente Rhyme.

     - É só praticar.

     - Não temos tempo para isso!

     - Venho atendendo ao telefone para você por um tempo longo demais - rosnou Thom.

     - Tudo bem – disse Rhyme, baixando a voz, o que era sua maneira de pedir desculpas. – Eu pratico depois. Poderia, por favor, me ligar com a Con Ed? E vou precisar falar com um supervisor.

    

     A corda doía, as algemas doíam, porém o que mais a assustava era o barulho.

     Tammie Jean Colfax sentiu todo o suor que havia em seu corpo descer pelo rosto, peito e braços, enquanto lutava para serrar os elos das algemas, de um lado para o outro, no parafuso enferrujado. Embora os punhos estivessem dormentes, achou que estava conseguindo gastar um pouco a corrente.

     Parou, exausta, e movimentou os braços de um lado para o outro a fim de evitar uma cãibra. Voltou à escuta. Aquilo era, pensou, o som de operários apertando parafusos e encaixando peças a golpes de martelo. Batidas finais dos martelos. Pensou que eles estavam justamente acabando o trabalho nos canos e pensando em ir para casa.

     Não se vão, gritou para si mesma. Não me deixem. Enquanto houvesse operários trabalhando ali, ela estaria segura.

     Uma batida final e, em seguida, silêncio tonitruante.

     Acabe com isso, menina. Vamos.

     Mamãe...

     T.J. chorou durante vários minutos, pensando na família lá no Tennessee. As narinas entupiram, mas, quando começou a sufocar, assoou-se violentamente e sentiu uma explosão de lágrimas e muco. Mas voltou a respirar. Ficou mais confiante. Resistir. Recomeçou a serrar.

    

     - Compreendo a urgência, detetive, mas não sei como posso ajudá-lo. Nós usamos parafusos em toda a cidade. Canalizações de petróleo, condutos de gás...

     - Tudo bem – disse Rhyme secamente, falando com a supervisora da Con Ed na sede da companhia, na rua 14. – Vocês isolam fios com asbesto?

     Hesitação.

     - Nós removemos noventa por cento desse material – respondeu a mulher em tom defensivo. – Noventa e cinco por cento.

     As pessoas podiam ser tão irritantes!

     - Compreendo. Preciso simplesmente saber se algum asbesto ainda é usado para isolamento.

     - Não – respondeu ela, inflexível. – Bem, nunca no caso de eletricidade. Usamos asbesto apenas no caso de vapor, e isso representa a menor porcentagem de nossos serviços.

     Vapor!

     Era o menos conhecido e o mais perigoso serviço de utilidade pública da cidade. A Con Ed aquecia água a mil graus e em seguida enviava-a através de uma rede de 160km de canos que passavam por baixo de Manhattan. O próprio vapor causticante era superaquecido - a cerca de 380 graus - e disparado como um foguete pela cidade a 120 quilômetros por hora.

     Rhyme lembrou-se nesse momento de um artigo de jornal.

     - Vocês tiveram algum rompimento na linha recentemente?

     - Tivemos, sim, senhor. Mas não houve vazamento de asbesto. Esse local foi submetido à limpeza há anos.

     - Mas há asbesto em volta de alguns dos canos no sistema do centro da cidade ?

     A mulher hesitou.

     - Bem...

     - Onde foi o rompimento? - perguntou Rhyme depressa.

     - Na Broadway. Em um quarteirão ao norte da Chambers.

     - A Times não publicou um artigo sobre esse assunto?

     - Não sei. Talvez. Sim.

     - O artigo mencionava asbesto?

     - Mencionava - reconheceu ela -, mas dizia simplesmente que, no passado, a contaminação por asbesto havia sido um problema.

     - O cano que se rompeu... por acaso cruza a Pearl Street, mais ao sul?

     - Um momento, deixe-me ver. Sim, cruza. Na Hanover Street. No lado norte.

     Ele viu a imagem de T.J. Colfax, a mulher de dedos finos e unhas longas que estava prestes a morrer.

     - E o vapor será religado às três da tarde?

     - Isso mesmo. A qualquer minuto, agora.

     - Vocês não podem fazer isso! - berrou Rhyme. - Alguém mexeu na linha. Vocês não podem religar agora o vapor!

     Cooper levantou a vista do microscópio constrangido. A supervisora voltou a falar:

     - Bem, não sei...

     Rhyme gritou para Thom.

     - Ligue para Lon. Diga a ele que a moça está em um porão na esquina da Hanover e Pearl. No lado norte. – Falou-lhe sobre o vapor. – Mande para lá também o corpo de bombeiros. Com equipamento de proteção contra calor.

     E voltou a gritar no microfone-telefone:

     - Chame as equipes de manutenção! Agora! Elas não podem religar aquele vapor. Não podem!

     Repetiu distraído as palavras, detestando sua imaginação estranha, a mostrar em um loop interminável as carnes da mulher tornando-se rosadas, em seguida vermelhas e finalmente se rompendo sob as nuvens abrasadoras do vapor branco que escapava em golfadas.

    

     Na caminhonete, o rádio estalou. Faltavam três minutos para as três, pelo relógio de Sachs. Respondeu à chamada:

     - Radiopatrulha 5885. Câmbio...

     - Esqueça o linguajar oficial, Amélia - disse Rhyme. – Não temos tempo para isso.

     - Eu...

     - Nós achamos que sabemos onde ela está. No cruzamento da Hanover e Pearl.

     Amélia olhou por cima dos ombros e viu dezenas de policiais da UOE correndo a toda velocidade para um velho prédio.

     - Você quer que eu...

     - Eles vão procurá-la. Você tem que se preparar para trabalhar na cena do crime.

     - Mas eu poderia ajudar...

     - Não. Quero que volte à caminhonete. Há nela uma valise com a etiqueta zero dois. Leve-a com você. E em uma pequena caixa preta há uma PoliLight. Você viu uma delas em minha sala. Mel estava usando-a. Leve-a, também. Na valise marcada zero três você vai encontrar fones de ouvido e um microfone de lapela. Ligue-o ao seu celular Motorola e siga para o prédio para onde foram os policiais. Canal trinta e sete. Estarei em uma linha convencional, mas você será transferida para mim.

     Canal trinta e sete. A frequência especial de operação que cobria toda a cidade. A frequência da prioridade.

     - O quê? - perguntou, mas o rádio silenciou.

     No cinto, ela levava uma comprida lanterna de halógeno. Deixou por isso o volumoso equipamento de doze volts nos fundos da caminhonete e pegou a PoliLight e a valise. Ela devia pesar uns 25 quilos. Exatamente o que as drogas de minhas juntas precisam.

     Ajustou a empunhadura, rilhou os dentes para combater a dor e correu para o cruzamento.

     Sellitto, arquejante, corria também para o prédio. Banks juntou-se a ele.

     - Você ouviu? – perguntou o detetive mais idoso.

     Sachs inclinou a cabeça.

     - É esse lugar aí? – indagou.

     Sellitto indicou o beco com um movimento da cabeça.

     - Ele teve que trazê-la por aqui. A portaria do prédio tem uma estação de vigilância.

     Nesse momento, os dois caminharam rapidamente pelo canyon escuro de lajes, horrivelmente quente, de onde saía um cheiro forte de urina e lixo. Por perto, caixas de lixo amassadas.

     - Ali - gritou Sellitto. – Aquelas portas.

     Os policiais se separaram em leque, correndo. Três das quatro portas estavam fechadas por dentro.

     A quarta havia sido forçada e agora estava fechada por uma corrente. A corrente e o cadeado eram novos.

     - É essa aí!

     Sellitto estendeu a mão para a porta, mas hesitou. Pensando provavelmente em impressões digitais. Mas em seguida pegou a maçaneta e deu um puxão. A porta abriu-se por alguns centímetros, mas a corrente aguentou. Deu ordem a três guardas uniformizados para irem para a frente do prédio e tentarem chegar ao porão pelo lado de dentro. Um dos guardas soltou uma pedra do chão do beco e começou a bater na maçaneta da porta. Meia dúzia de golpes, uma dúzia. Contorceu-se quando a mão bateu na porta, sangue escorrendo de um dedo ferido. Um bombeiro chegou correndo com uma Halligan - uma combinação de picareta e pé-de-cabra. Enfiou a ponta da peça na corrente e quebrou o cadeado. Sellitto olhou para Sachs, esperando orientação. Ela retribuiu o olhar.

     - Ora, entre! – berrou ele.

     - O quê?

     - Ele não lhe disse?

     - Quem?

     - Rhyme.

     Droga, ela se esquecera de ligar o fone de ouvido ao celular. Mexeu nos dois e finalmente conseguiu fazer a ligação. Ouviu logo:

     - Amélia, onde...

     - Estou aqui.

     - Está no prédio?

     - Estou.

     - Entre. A companhia desligou o vapor, mas não sei se a tempo. Leve um paramédico e um patrulheiro da UOE. Vá até a sala das caldeiras. Você provavelmente vai vê-la logo, a moça, a Colfax. Dirija-se para ela, mas não diretamente, não em uma linha reta da porta até ela. Não quero que você estrague quaisquer pegadas que ele possa ter deixado. Entendeu?

     - Entendi.

     Amélia inclinou enfaticamente a cabeça, sem pensar que ele não podia vê-la. Chamando com um gesto um paramédico e um policial da Unidade de Operações Especiais e dizendo que a seguissem, entrou no corredor escuro, sombras por toda parte, gemido de máquinas, som de água gotejando.

     - Amélia - disse Rhyme.

     - Sim?

     - Nós conversamos antes sobre a possibilidade de uma emboscada. Pelo que sei a respeito dele agora, não creio que esse seja o caso. Ele não está aí, Amélia. Seria ilógico. Mas mantenha livre a mão com que atira.

     Ilógico.

     - Tudo bem.

     - Agora, vá! Depressa!

    

     Uma caverna escura. Quente, preta, úmida.

     Os três desceram rapidamente o imundo corredor na direção da única porta visível. Uma tabuleta advertia: Sala de Caldeiras. Ela se encontrava atrás de um policial da UOE, equipado com colete à prova de bala completo e capacete. O paramédico fechava a retaguarda.

     As articulações da mão direita e o ombro lhe doíam com o peso da valise. Passou-a para a mão esquerda, quase a deixou cair e reajustou a empunhadura. Continuaram a avançar para a porta.

     Ao chegar à porta, o policial da SWAT empurrou-a para dentro e girou a submetralhadora em volta da sala fracamente iluminada. A lanterna presa ao cano da arma lançou um feixe de luz fraca sobre tiras de vapor que flutuavam por ali. Sachs sentiu cheiro de umidade, de mofo. E outro cheiro, repugnante.

     Click.

     - Amélia? – A explosão de estática na voz de Rhyme pegou-a de surpresa e a deixou apavorada. - Onde está você, Amélia?

     Com mão trêmula, ela baixou o volume.

     - Dentro – arquejou.

     - Ela está viva?

     Sachs vacilou sobre os pés, olhando para aquilo. Apertou os olhos, insegura sobre o que estava realmente vendo. Em seguida, compreendeu.

     - Oh, não.

     Falou em um murmúrio, sentindo vontade de vomitar.

     O cheiro enjoativo de carne cozida a envolveu. Mas isso não era o pior. Nem a visão da pele da mulher, vermelha brilhante, quase alaranjada, despelando em enormes escamas, o rosto inteiramente descascado da pele. Não, o que lhe causou o maior pavor foi ver o ângulo em se encontrava o corpo de T.J. Colfax, a torção impossível dos membros e do torso, quando ela tentara fugir do borrifo do calor abrasador.

     Ele tinha esperança de que a vítima estivesse morta. No seu interesse...

      - Ela está viva? - repetiu Rhyme.

     - Não – sussurrou Sachs. – Não vejo como... Não.

     - A sala está segura?

     Sachs lançou um olhar para o policial, que também ouvira a transmissão e inclinou a cabeça.

     - Cena do crime segura.

     - Quero que o policial da UOE saia daí e que, em seguida, você e o paramédico examinem a mulher.

     Sachs engasgou-se mais uma vez com o cheiro e se obrigou a controlar esse reflexo. Ela e o paramédico tomaram um caminho oblíquo até o cano. Ele se inclinou para a frente, sem demonstrar emoção, e apalpou o pescoço da mulher. Sacudiu a cabeça.

     - Amélia? - perguntou Rhyme.

     Seu segundo cadáver no cumprimento do dever. Ambos no mesmo dia.

     - MCCC - disse o paramédico.

     Sachs inclinou a cabeça e, formalmente, disse ao microfone:

     - Temos uma pessoa morta: morte confirmada na cena do crime.

     - Morta por queimadura de vapor? – perguntou Rhyme.

     - É o que parece.

     - Amarrada à parede?

     - A um cano. Algemada, mãos nas costas. Pés amarrados com corda de varal de roupa. Mordaça. Ele abriu o cano de vapor. Ela estava a apenas uns 60cm do cano. Deus!

     - Acompanhe o paramédico até a saída, pelo mesmo caminho por onde vieram. Até a porta. Cuidado com o lugar onde pisam.

     Ela obedeceu às instruções, olhando para o cadáver. Como pele podia ficar tão vermelha? Como a casca de um caranguejo cozido.

     - Muito bem, Amélia. Você vai processar a cena do crime. Abra a valise.

     Sachs nada respondeu. Continuou a olhar para o corpo.

     - Amélia, você está à porta?... Amélia?

     - O quê? – gritou ela.

     - Você está à porta?

     A voz dele estava tão horrivelmente calma! Tão diferente da voz escarninha, exigente, do homem de que se lembrava naquela sala. Calma... e alguma coisa mais. Ela não sabia o quê.

     - Estou, estou à porta. Sabe, isto é loucura.

     - Inteiramente insano – concordou Rhyme, quase alegre. – A valise está aberta?

     Sachs levantou a tampa da valise e olhou para dentro. Alicates e fórceps, um espelho com cabo, bolas de algodão, colírio, pinças, pipetas, espátulas, bisturis...

     O que significa tudo isso?

     ...um espanador, um pedaço de tecido grosseiro de algodão, envelopes, peneiras, pincéis, tesouras, sacos de papel e de plástico, latas de metal, garrafas... ácido nítrico a cinco por cento, ninhidrina, silicone, iodo, suprimentos para levantamento de impressões digitais.

     Impossível. Falando ao microfone, disse:

     - Acho que o senhor não acreditou em mim, detetive. Não sei realmente coisa alguma sobre trabalho em cena de crime.

     Os olhos continuavam presos ao corpo destruído da mulher, água gotejando do nariz despelado. Um pedaço branco de osso aparecia no rosto. E o rosto estava contraído em uma espécie de sorriso angustioso. Tal como a vítima daquela manhã.

     - Eu acreditei em você, Amélia - disse ele, encerrando o assunto. - Agora, a valise está aberta? - Ele estava calmo e parecia... o quê? Sim, era esse o tom. Sedutor. Ele parece um amante falando.

     Eu o odeio, pensou Amélia. E errado odiar um paralítico. Mas, com todos os diabos, eu o odeio.

     - Você está no porão, certo?

     - Sim, senhor.

     Rhyme, porém, ao contrário de Peretti naquela manhã, não deu atenção a isso. E continuou:

     - Então é isso. Ele varreu o local depois.

     Amélia ficou surpresa.

     - Sim, é isso! Marcas de vassoura. Como foi que soube?

     Rhyme soltou uma risada - um som irritante para Sachs, ali naquela tumba malcheirosa. Rhyme continuou:

     - Ele foi sabido o bastante para cobrir suas pegadas esta manhã. Não há razão para ficar parada agora. Oh, esse rapaz é competente, lá isso é. Mas você também é competente. Continue.

     Sachs inclinou-se à frente, as articulações em fogo, e iniciou a busca. Cobriu cada centímetro quadrado do chão.

     - Nada aqui. Nada, absolutamente.

     Ele notou o tom definitivo na voz de Amélia.

     - Você apenas começou, Amélia. Cenas de crime são tridimensionais. Lembre-se disso. O que você está dizendo é que nada há no chão. Agora, dê uma busca nas paredes. Comece com o local mais longe do vapor e cubra cada centímetro.

     Lentamente, ela descreveu um círculo em volta da boneca horripilante que estava no centro da sala. Lembrou-se de uma brincadeira de Mastro de Maio, de que participara ao tempo de criança, quando tinha uns cinco ou seis anos de idade, em alguma festa de rua no Brooklyn, enquanto o pai a filmava orgulhosamente. Fazendo círculos lentos. Aquilo ali era uma sala vazia, mas, ainda assim, havia milhares de lugares diferentes para examinar.

     Não tinha como... Impossível.

     Mas não era. Em uma beirada, a cerca de l,80m do chão, descobriu o conjunto seguinte de pistas. Soltou uma risada alta.

     - Descobri alguma coisa aqui.

     - Muitas?

     - Isso mesmo. Uma lasca grande de madeira preta.

     - Pauzinhos para comer.

     - O quê? – perguntou ela.

     - Os lápis. Use-os para apanhar a prova. Está molhada?

     - Tudo por aqui está molhado.

     - Certo, tinha que estar. O vapor. Coloque-a em um saco de papel para guardar provas. O plástico conserva a umidade e, nesse calor, bactérias destruirão as provas vestigiais. O que é que há mais aí? - perguntou ele ansiosamente.

     - Hã, não sei bem, cabelos, acho. Curtos, aparados. Uma pequena pilha deles.

     - Soltos ou presos à pele?

     - Soltos.

     - Há um rolo de fita gomada de duas polegadas na valise. 3M. Pegue-os com a fita.

     Sachs apanhou a maior parte dos cabelos e enfiou-os em um envelope de papel. Estudou a beirada em volta dos cabelos.

     - Estou vendo algumas manchas. Parecem ser de ferrugem ou sangue. - Iluminou o local com a PoliLight. – Elas estão ficando fluorescentes.

     - Você sabe fazer um teste de presunção de sangue?

     - Não.

     - Então vamos supor que seja sangue. Poderia ser sangue da vítima?

     - Não parece. Está longe demais e não há nenhuma trilha até o corpo dela.

     - A beirada vai até algum lugar?

     - Parece que sim. Até um tijolo no muro. O tijolo está solto. Não há impressões digitais nele. Vou movê-lo para um lado. Eu... oh, Jesus

     Amélia arquejou, recuou tropeçando uns trinta ou sessenta centímetros, e quase caiu.

     - O que foi? - perguntou Rhyme.

     Ela deu um passo para a frente e ficou olhando, incrédula.

     - Amélia. Fale comigo.

     - É um osso. Um osso ensanguentado.

     - Humano?

     - Não sei - respondeu ela. - Como é que eu poderia...? Não sei.

     - Morte recente?

     - Parece que sim. De mais ou menos cinco centímetros de comprimento por cinco de diâmetro. Nele há sangue e carne. Foi serrado, meu Deus. Quem faria uma porra dessas...

     - Não perca a calma.

     - E se ele o arrancou de outra vítima?

     - Nesse caso, vamos ter que encontrá-lo o mais rápido possível, Amélia. Guarde-o. Saco plástico para o osso.

     Enquanto ela o fazia, Rhyme perguntou:

     - Qualquer outra prova plantada aí? - Ele parecia preocupado.

     - Não.

     - Isso é tudo? Cabelos, um osso, e uma lasca de madeira. Ele não está facilitando as coisas para nós, está?

     - Devo levar as provas a seu... escritório?

     Rhyme ria nesse momento.

     - Ele gostaria que a gente se satisfizesse com isso. Mas não. Não acabamos ainda. Vamos descobrir mais alguma coisa sobre o Elemento Desconhecido 238.

     Embora furiosa com o tom professoral usado por ele, Amélia ficou calada.

     - Você tem uma lanterna elétrica?

     - Tenho minha lanterna regulamentar de halógeno...

     - Não - resmungou ele. - O feixe é estreito demais. Você vai precisar de um feixe largo de doze volts.

     - Eu não o trouxe - retrucou ela secamente. - Devo voltar lá e pegá-lo?

     - Não há tempo para isso. Examine os canos.

     Amélia examinou-os durante dez minutos, subindo até o teto e com a luz forte, examinou locais que talvez não tivessem sido iluminados nos últimos cinquenta anos.

     - Não, não encontrei nada.

     - Volte para a porta. Rápido.

     Amélia hesitou e avisou quando chegou ao local.

     - OK, estou aqui.

     - Agora, feche os olhos. Que cheiro está sentindo?

     - Que cheiro estou sentindo? Você disse cheiro? – Será que ele está louco, pensou.

     - Sempre cheire o ar numa cena de crime. Isso pode lhe dizer uma centena de coisas.

     Ela manteve os olhos abertos, inspirou, e disse:

     - Bem, eu não sei o que estou cheirando.

     - Essa resposta não é aceitável.

     Amélia exalou em desespero e teve esperança de que o silvo estivesse chegando alto e claro ao telefone de Rhyme. Apertou os lábios, inalou, lutou novamente contra a vontade de vomitar.

     - Mofo, bolor. O cheiro da água quente do vapor.

     - Você não sabe de onde vem o perfume. Simplesmente descreva-o.

     - Água quente. O perfume da mulher.

     - Tem certeza de que é o perfume dela?

     - Bem, não.

     - Você está usando algum perfume?

     - Não.

     - Que tal loção após barba? Do paramédico? Do policial da UOE?

     - Acho que não. Não.

   - Descreva-o.

     - Seco. Como gim.

     - Dê um palpite, loção após barba de homem ou perfume de mulher?

     O que Nick tinha usado? Arrid Extra Dry.

     - Não sei – confessou ela. –– Perfume de homem.

     - Vá até o corpo.

     Ela olhou uma vez para o cano e, em seguida, para o chão.

     – Eu...

     - Faça isso – ordenou Lincoln Rhyme.

     Ela fez. A pele que se soltava parecia casca de bétula preta e vermelha.

     - Cheire o pescoço dela.

     - O pescoço todo está... Quero dizer, não sobrou muita pele.

     - Sinto muito, Amélia, mas você vai ter que fazer isso. Temos que saber se é o perfume dela.

     Vou vomitar, pensou Amélia. Exatamente como Nick e eu naquela noite no Pancho's, derrubados por aquelas drogas de frozen daiquiris. Dois policiais traquejados, emborcando bebidas malucas, nas quais nadavam peixes-espada azuis de plástico.

     - Está sentindo o cheiro do perfume?

     Lá vem de novo... Engasgando-se novamente.

     Não. Não! Fechou os olhos, concentrando-se nas juntas doloridas. Na mais dolorosa - a do joelho. E, milagrosamente, a onda de náusea passou.

     - Não é o perfume dela.

     - Ótimo. De modo que nosso rapaz é vaidoso o suficiente para usar um bocado de loção após barba. Isso poderia ser um indicador de classe social. Ou, quem sabe, ele quer disfarçar algum outro cheiro que poderia deixar. Alho, charuto, peixe, uísque. Vamos ter que descobrir isso. Agora, Amélia, ouça com toda atenção.

     - O quê?

     - Eu quero que você seja ele.

     Oh, psicomerda. Exatamente o que eu precisava.

     - Acho que realmente não temos tempo para isso.

     - Nunca há tempo suficiente em uma cena de crime – disse Rhyme em tom apaziguador. - Mas isso não vai nos deter. Simplesmente ponha isso na cabeça. Você esteve pensando da maneira como nós pensamos. Quero que pense da maneira como ele pensa.

     - Tudo bem, mas como é que faço isso?

     - Use a imaginação. Foi por isso que Deus nos deu imaginação. Agora, você é ele. Você a algemou e amordaçou. Trouxe-a para essa sala. Algemou-a ao cano. Apavorou-a. E está gostando disso.

     - Como é que você sabe que ele estava gostando?

     - Você está gostando. Não ele. Como é que eu sei? Porque ninguém se dá a esse trabalho todo para fazer alguma coisa de que não gosta. Agora, você sabe se mexer por aí. Esteve aí antes.

     - Por que é que pensa assim?

     - Você precisava examinar o local antes... descobrir um lugar abandonado, com um cano alimentador ligado ao sistema de vapor. E para reunir as pistas que ele deixou no leito da estrada.

     Sachs ficou hipnotizada pela voz fluida, baixa, que ele usava. Esqueceu-se inteiramente de que o corpo dele era uma ruína.

     - Oh. Certo.

     - Você retira a tampa do cano de vapor. No que é que você está pensando?

     - Não sei. Que quero acabar logo com isso. Quero ir embora daqui.

     Mal dissera essas palavras, porém, pensou: errado. E não ficou surpresa quando ouviu a língua de Rhyme clicar nos fones de ouvido:

     - Você quer, realmente?

     - Não. Quero que isso dure.

       - Isso mesmo! Acho que é exatamente isso o que você quer. Você está pensando no que é que o vapor vai fazer com ela. O que mais você sente?

     - Eu...

     Um pensamento vago formou-se em sua mente. Viu a mulher lutando para se soltar. Viu outra coisa... viu alguém. Ele, pensou. O Elemento Desconhecido 238. Mas o que era que havia com ele? Estava perto de compreender. O que... o quê? Subitamente, porém, o pensamento desapareceu. Sumiu.

     - Não sei - murmurou.

     - Você sente qualquer sensação de urgência? Ou está muito fria sobre o que está fazendo?

     - Estou com pressa. Tenho que ir embora. A polícia pode chegar a qualquer minuto. Mas eu ainda...

     -O quê?

     - Psiu... - ordenou ela e escaneou novamente a sala, à procura do que quer que fosse que havia plantado em sua mente a semente do pensamento desaparecido.

     A sala estava rodando, uma noite escura, estrelada. Redemoinhos de escuridão e luzes distantes, ictéricas. Senhor, por favor, não deixe que eu desmaie!

     Talvez ele...

     Ali! É isso. Os olhos de Amélia seguiam o cano de vapor. Estava olhando para outra placa de visita na alcova escura da sala. Aquilo teria sido um local melhor para esconder a moça – não se podia vê-la da porta, se alguém passasse por ali – e a segunda placa só tinha quatro parafusos, e não oito, como o que ele havia escolhido.

     Por que não aquele cano?

     Nesse momento, compreendeu.

     - Ele não quer... Eu não quero ir embora exatamente agora, porque quero manter um olho nela.

     - Por que você pensa isso? - perguntou Rhyme, repetindo-lhe as palavras, como momentos antes.

     - Há outro cano ao qual eu podia tê-la acorrentado, mas escolhi este que está à vista de todos.

     - De modo a poder vê-la?

     - Acho que sim.

     - Por quê?

     - Talvez para ter certeza de que ela não vai fugir. Talvez para ter certeza de que a mordaça está segura... Não sei...

     - Ótimo, Amélia. Mas o que é que isso significa! De que maneira podemos usar esse fato?

     Sachs olhou em volta da sala à procura do lugar onde ele teria a melhor visão da moça, sem ser visto. Achou que seria um lugar escuro entre dois grandes tanques de óleo de aquecimento.

     - Isso mesmo! – exclamou, excitada, olhando para o chão. – Ele estava aqui! – disse, esquecendo que estava representando um papel. - Ele varreu o lugar.

     Vasculhou a área com a luz cor de bile da PoliLight.

     - Nenhuma pegada - continuou, desapontada.

     Mas, quando ergueu a lanterna para apagá-la, uma mancha brilhou em um dos tanques.

     - Consegui uma impressão digital! - anunciou.

     - Uma impressão?

     - Conseguimos uma vista melhor da moça se nos inclinamos para a frente e nos apoiamos no tanque. Foi isso o que ele fez, tenho certeza. Apenas, é sobrenatural isso, Lincoln. Ela... é deformada. A mão dele. - Arrepiou-se toda olhando para a palma de mão monstruosa.

     - Na valise, há uma garrafa de aerossol rotulada DFO. Torna uma mancha fluorescente. Borrife a impressão digital, acenda a PoliLight e fotografe a imagem com uma polaróide 1:1.

     Amélia avisou-o quando concluiu a operação e ele disse:

     - Agora, limpe o chão entre os tanques com o aspirador de pó. Se tivermos sorte, ele coçou a cabeça e perdeu um fio de cabelo ou roeu uma unha.

     Meus hábitos, pensou Sachs. Essa era uma das coisas que acabou arruinando sua carreira de modelo – as unhas manchadas de sangue, as sobrancelhas em um ângulo de preocupação. Tentou, vezes sem conta, acabar com isso. Finalmente, desanimada, desistiu, sem entender bem como um pequeno hábito podia mudar de forma tão dramática a vida de uma pessoa.

     - Ponha num saco a poeira recolhida.

     - Saco de papel?

     - Sim, de papel. Agora, o corpo, Amélia.

     - O quê?

     - Ora, você vai ter que processar o corpo.

     O coração de Amélia caiu para o estômago. Outra pessoa, por favor. Mande alguém fazer isso. Respondeu:

     - Não, só depois que o legista terminar. A regra é essa.

    - Hoje as regras não estão valendo, Amélia. Estamos fazendo as nossas. O legista receberá o corpo, mas depois de nós.

     Sachs aproximou-se da mulher.

     - Você conhece a rotina? – disse Rhyme.

     - Conheço.

     Aproximou-se mais do corpo mutilado.

     Não posso fazer isso. Estremeceu. Disse a si mesma para continuar. Mas não conseguiu: os músculos não respondiam ao comando.

     - Sachs? Você ainda está aí?

     Ela não conseguiu responder.

     Eu não posso fazer isso... A questão é tão simples assim. Impossível. Não posso.

     - Sachs?

     Mas, nessa ocasião, olhou dentro de si mesma e, sem saber por que, viu o pai, uniformizado, abaixando-se sobre a calçada quente e esburacada da rua 42 oeste, passando o braço por baixo de um bêbado imundo a fim de ajudá-lo a voltar para casa. Em seguida, viu-se em companhia de Nick, bebendo cerveja em um bar do Brooklyn, em companhia de um seqüestrador, que o mataria instantaneamente se soubesse que um jovem policial estava ali trabalhando à paisana. Os dois homens em sua vida, fazendo o que tinham que fazer.

     - Amélia?

     As duas imagens apareceram repentinamente em seus pensamentos. Não soube por que a acalmaram. E sequer podia começar a desconfiar de onde veio a calma.

     - Estou aqui - respondeu a Lincoln Rhyme e iniciou o trabalho, da maneira como tinha sido ensinada, verificando se havia alguma coisa sob as unhas ou entre os cabelos, passando um pente através de pêlos - incluindo os pubianos. E dizendo a Rhyme o que estava fazendo, enquanto fazia.

     Ignorando as órbitas cegas dos olhos.

     Ignorando a carne escarlate. Fazendo força para ignorar o cheiro.

     - Pegue as roupas dela – ordenou Rhyme. – Corte tudo. Ponha uma folha de jornal embaixo delas para recolher qualquer vestígio que cair.

     - Devo examinar os bolsos?

     - Não, faremos isso aqui. Embrulhe as roupas no jornal.

     Sachs cortou e tirou a blusa e a saia, a calcinha. Estendeu a mão para o que pensou que fosse o sutiã, pendurado no peito. A sensação foi curiosa, e a peça desintegrou-se em seus dedos. Em seguida, como se tivesse levado uma bofetada, compreendeu o que era que estava segurando e soltou um pequeno grito. Não era pano, era pele.

     - Amélia? Você está bem?

     - Estou – respondeu ela, ofegante. – Estou bem.

     - Descreva as peças que foram usadas para imobilizá-la.

     - Veda-juntas para a mordaça, de duas polegadas de largura. Algemas tipo padrão para as mãos, corda de varal de roupa para os pés.

     - Passe a PoliLight pelo corpo dela. Ele pode tê-la tocado com mãos limpas. Procure impressões digitais.

     Amélia fez o que ele ordenou.

     - Nada.

     - Nós vamos precisar das algemas - disse Rhyme.

     - Certo. Eu tenho uma chave de algemas.

     - Não, Amélia. Não as abra.

     - O quê?

     - O mecanismo de fechamento da algema é uma das melhores maneiras de descobrir alguma coisa sobre o perpetrador.

     - Bem, como é que vou tirar as algemas sem a chave? - perguntou e soltou uma risada.

     - Há uma serra na valise.

     - Você quer que eu serre a algema?

     Houve uma pausa. Rhyme finalmente respondeu:

     - Não, não a algema, Amélia.

     - Então, o que é que você quer que eu faça... Oh, não, você não pode estar falando sério. As mãos dela?

     - Você vai ter que cortá-las. - Rhyme estava irritado com a relutância.

     Tudo bem, é isso. Sellitto e Polling escolheram um doido varrido como parceiro. Talvez a carreira deles esteja afundando, mas não vou afundar com eles.

     - Esqueça.

     - Amélia, isso é simplesmente outra maneira de reunir prova.

     Por que ele parecia tão razoável? Em desespero, ela procurou desculpas.

     - Elas vão ficar todas ensanguentadas se eu as cortar...

     - O coração dela não bate mais. Além disso - acrescentou ele como se fosse um cozinheiro dando entrevista na TV -, o sangue foi cozido e se tornou sólido.

     A ânsia de vomitar, novamente.

     - Continue, Amélia. Vá até a valise. Pegue a serra. Está na tampa da valise. - E acrescentou, gélido: - Por favor.

     - Por que você me mandou raspar embaixo das unhas dela? Eu poderia simplesmente lhe ter levado as mãos!

     - Amélia, nós precisamos das algemas. Temos que abri-las aqui e não podemos esperar pelo legista. Isso é uma coisa que tem de ser feita.

     Amélia voltou à porta. Abriu a valise, tirou do estojo a serra de aspecto sinistro. Olhou para a vítima, imóvel em uma pose de pessoa torturada, no centro daquela sala horripilante.

     - Amélia? Amélia?

     No lado de fora, as nuvens ainda continuavam paradas, o ar amarelado e os prédios próximos estavam cobertos de fuligem, como se fossem ossos calcinados. Ela, porém, nunca tinha se sentido tão feliz na vida em estar na rua, envolvida pelo ar da cidade. Com a valise da Polícia Técnica em uma das mãos, a serra afiada na outra, os fones em volta do pescoço, ignorou a grande multidão de policiais e curiosos que a fitavam e dirigiu-se em linha reta para a caminhonete.

     Ao passar por Sellitto, entregou-lhe a serra, sem parar sequer, praticamente jogando-a na direção dele.

     - Se ele quer tanto assim que isso seja feito, que venha aqui e o faça pessoalmente.

      

                                               O PRINCÍPIO DE LOCARD

    

     Sábado, das 4:00 da tarde às 10:15 da noite

     - Estou numa enrascada, senhor.

     O homem do outro lado da escrivaninha parecia a idéia de um programa de TV do que era um vice-comissário de polícia de uma grande cidade. O que, por acaso, era o cargo dele. Cabelos brancos, uma carranca aceitável, óculos de aros de ouro, uma postura para defender até a morte.

     - Muito bem, qual é o problema?

     O vice-comissário Randolph C. Eckert olhou-a, através do nariz comprido, com um tipo de olhar que Sachs reconheceu imediatamente: seu aceno para o princípio de igualdade seria tão severo com mulheres policiais quanto com seus colegas homens.

     - Tenho uma queixa, senhor – disse ela formalmente. – O senhor ouviu falar naquele caso do sequestro no táxi?

     O VC inclinou a cabeça.

     - Ah, aquele caso que causou o maior transtorno na cidade.

     Amélia achou que aquilo se parecia com a brincadeira infantil de pular corda, mas não se arrogou o direito de corrigir o vice-comissário.

    - Aquela droga de conferência das Nações Unidas – continuou ele – e o mundo todo olhando. Isso é injusto. Ninguém fala sobre crimes em Washington. Ou em Detroit. Bem, em Detroit, falam. Digamos, Chicago. Nunca. Não, é em Nova York que as pessoas viram presuntos. Richmond, Virgínia, teve mais assassinatos per capita do que nós no ano passado. Conferi esse dado. E preferia descer em qualquer dia de pára-quedas, desarmado, em Central Harlem do que dirigir por South East, Washington, D.C., com os vidros do carro levantados.

     - Sim, senhor.

     - Sei que encontraram a moça já morta. Deu em todos os noticiários. Aqueles repórteres...

     - No centro da cidade. Agora mesmo.

     - Bem, isso é uma pena.

     - Sim, senhor.

     - Ela foi simplesmente assassinada? Nenhum pedido de resgate ou qualquer outra coisa?

     - Não ouvi falar em qualquer resgate.

     - Qual é a queixa?

     - Fui a primeira policial a chegar à cena de um homicídio relacionado com esse.

     - Você trabalha na radiopatrulha? - perguntou Eckert.

     - Trabalhava. Eu devia estar me transferindo esta manhã para Assuntos Públicos. Para uma sessão de treinamento. – Ergueu as mãos, cobertas com Band-Aids cor de carne, e deixou-as cair em seguida no colo. – Mas eles me sequestraram.

     - Quem?

     - O detetive Lon Sellitto, senhor. E o capitão Haumann. E Lincoln Rhyme.

     - Rhyme?

     - Sim, senhor.

     - Não é o cara que chefiou a Polícia Técnica há alguns anos?

     - Sim, senhor. Ele mesmo.

     - Eu pensava que ele havia falecido.

     Egos como aquele não morrem nunca.

     - Está para lá de vivo, senhor.

     O vice-comissário olhou pela janela.

     - Ele não pertence mais à Força Policial. O que está fazendo, metido nesse caso?

     - Como consultor, acho. O encarregado do caso é Lon Sellitto. O capitão Polling está supervisionando as investigações. Estive esperando por essa transferência durante dezoito meses. Mas eles me obrigaram a trabalhar na cena do crime. Eu nunca trabalhei em cenas de crime. Isso não faz nenhum sentido e, para ser franca, não gostei de ser transferida para um trabalho para o qual não fiz treinamento.

     - Cena de crime?

     - Rhyme me deu ordem para me encarregar de tudo na cena do crime. Sozinha.

     Eckert não compreendeu o que ela estava dizendo. As palavras não faziam sentido para ele.

     - Por que um paisano está dando ordens a policiais uniformizados para fazer alguma coisa?

     - O que quero dizer, senhor - e Amélia preparou a isca -, bem, o que quero dizer é que estou pronta para ajudar, até certo ponto. Mas não estou preparada para esquartejar vítimas...

     - O quê?!

     Ela pestanejou, como se espantada por ele não ter ouvido falar nisso. Contou a história das algemas.

     - Deus do céu! Que diabo eles estão pensando? Perdoe meu linguajar. Será que eles não sabem que o país inteiro está olhando? O assunto esteve na CNN o dia todo, esse sequestro. Amputar as mãos dela? Ei, você não é a filha de Hermann Sachs?

     - Sou, sim.

     - Bom policial. Excelente policial. Concedi a ele uma das condecorações que recebeu. O homem que um policial de ronda deve ser. Midtown South, certo?

     - Hell's Kitchen. Minha ronda.

     Minha antiga ronda.

     - Herman Sachs provavelmente impediu mais crimes do que toda a divisão de detetives soluciona em um ano. Simplesmente acalmando as pessoas, você sabe como é.

     - Esse era o papai. Com certeza.

     - As mãos dela? - rosnou Eckert. - A família da moça vai nos processar, tão logo descubram isso. Somos processados por tudo. Há um estuprador agora que está nos processando por ter sido baleado na perna ao atacar com uma faca o policial. Os advogados dele estão defendendo a teoria de que o policial deveria ter usado “a alternativa menos mortal”. Em vez de atirar, devemos levar a coisa no bico ou usar um spray imobilizador. Ou falar delicadamente com eles. Não sei. Talvez eu deva conversar com o chefe e com o prefeito sobre isso que está me contando. Vou dar uns telefonemas. - Olhou para um relógio de parede. Passava um pouco das quatro da tarde. – Encerrou seu turno pelo dia de hoje?

     - Tenho que apresentar relatório na casa de Lincoln Rhyme. É de lá que estamos operando. – Lembrou-se da serra e disse friamente: – Na verdade, o quarto dele. Esse é o nosso posto de comando.

     - O quarto de dormir de um paisano é o posto de comando de vocês?

     - Eu ficaria muito grata pelo que o senhor pudesse fazer, senhor. Espero há muito tempo essa transferência.

     - Amputar as mãos da moça! Meu bom Deus!

     Amélia levantou-se e dirigiu-se à porta, saindo por um dos corredores do prédio que, muito em breve, seria seu novo local de trabalho.

    

     A sensação de alívio demorou apenas um pouco mais para chegar do que esperava.

     Ele estava em pé a uma janela fechada por vidro azulado tipo garrafa, observando uma matilha de cães selvagens à caça no terreno do outro lado da rua.

     Encontrava-se no primeiro andar desse velho prédio, uma estrutura revestida de mármore, dos idos do século XIX. Cercado por lotes vazios e casas de cômodos – algumas desertas, outras ocupadas por inquilinos, embora a maioria invadida por sem-tetos – a velha mansão ficou vazia durante anos.

     O colecionador de ossos pegou mais uma vez um pedaço de lixa e continuou a usá-lo. Olhou para o que estava fazendo. E em seguida novamente pela janela.

     As mãos executavam um movimento circular, preciso, o pequeno pedaço de lixa sussurrando shhhh, shhhh... Como uma mãe pedindo ao filho para calar a boca.

     Uma década antes, em dias promissores em Nova York, um artista louco qualquer tinha se mudado para ali. Enchera o prédio úmido de dois andares de antiguidades quebradas e enferrujadas: grades de ferro trabalhado, pedaços de enfeites de gesso e metros quadrados de vitrais, colunetas descascadas. Algumas obras do artista continuavam penduradas nas paredes. Afrescos em reboco velho: murais, jamais completados, mostrando operários, crianças, amantes consumidos pela angústia. Faces redondas, destituídas de emoção -os temas usados por aquele homem –, olhavam sem ver para a frente, como se a alma tivesse sido seccionada dos corpos lisos.

     O pintor nunca teve muito sucesso, mesmo depois de pôr em prática sua idéia de marketing mais original - seu próprio suicídio - e o banco executou a hipoteca do prédio muitos anos antes.

     Shhhh...

     O colecionador de ossos achou aquele prédio por acaso um ano antes e imediatamente teve certeza de que aquele era o seu lar. A desolação do bairro era certamente importante para ele - e obviamente prática. Mas havia outro motivo de interesse, mais pessoal: o terreno no outro lado da rua. Durante uma escavação alguns anos atrás, uma enxada havia desenterrado um bocado de ossos humanos. Descobriu-se que aquele terreno tinha sido um dos velhos cemitérios da cidade. Artigos de jornal sugeriram que as sepulturas podiam conter não só os restos de nova-iorquinos do tempo da colônia, mas também de índios das tribos manate e lenape.

     Nesse momento, ele pôs de lado o que estava polindo com a lixa - um osso cárpico, delicado, de palma de mão - e pegou o punho, que havido soltado cuidadosamente do rádio e do cúbito na noite passada, pouco antes de dirigir-se ao Aeroporto Kennedy para pegar as primeiras vítimas. O osso ficou secando durante mais de uma semana e a maior parte da carne tinha desaparecido, mas ainda precisou fazer um pouco de força para separar o complicado conjunto de ossos. Eles se soltaram com pops baixos, como peixes rompendo a superfície de um lago.

     Oh, os policiais, eles eram muito mais competentes do que esperava. Observou-os na busca ao longo da Pearl Street, especulando consigo mesmo se eles algum dia descobririam onde tinha deixado a mulher que pegara no aeroporto. Ficou atônito quando os viu correr subitamente para o prédio certo. Achava que seriam necessárias duas ou três vítimas para que desenvolvessem sensibilidade para as pistas. Eles não a salvaram, claro. Mas poderiam ter conseguido isso. Um ou dois minutos mais cedo teriam feito toda diferença.

     Como acontece com tantas outras coisas na vida.

     O navicular, o lunato, o hamato, o capitato... os ossos, entrelaçados como um quebra-cabeça grego, separaram-se sob seus dedos fortes. Tirou deles fragmentos de carne e tendão. Escolheu o maior multangular - na base onde se encaixava antes o polegar - e voltou a lixar.

     Shhhhh, shhhhhh.

     O colecionador de ossos apertou os olhos enquanto olhava para fora e imaginou que via um homem de pé ao lado de uma das velhas sepulturas. Isso devia ser sua imaginação, porque o homem usava chapéu-coco e estava vestido com uma capa cor de mostarda. Ele depositou algumas flores escuras ao lado da lápide e em seguida virou-se, evitando os cavalos e carruagens, a caminho da ponte que formava um arco elegante sobre o tubo de descarga Collect Pond, na Canal Street. Quem ele estava visitando? Os pais? Um irmão? Filhos que haviam falecido de tuberculose ou de uma das terríveis epidemias de gripe que vinham assolando recentemente a cidade...

     Recentemente.

     Não, recentemente, não, claro. Há cem anos - era isso o que tinha em mente.

     Apertou os olhos e dirigiu novamente a vista para o local. Nenhum sinal de carruagens ou cavalos. Nem do homem de chapéu-coco. Embora tivessem parecido tão reais como se tivessem sido de carne e osso.

     Como quer que eles fossem reais.

     Shhhhh, shhhhh.

     O passado, mais uma vez, estava se intrometendo. Estava vendo coisas que haviam acontecido antes, que haviam acontecido naquelas ocasiões, como se fossem agora. Poderia controlar isso. Sabia que poderia.

     Mas enquanto olhava pela janela, compreendeu que, claro, não havia nem antes nem depois. Não para ele. Ele ia e voltava no tempo, um dia, cinco anos, cem ou duzentos anos, tal como uma folha seca em um dia ventoso.

     Olhou para o relógio. Hora de sair.

     Deixando o osso na cornija da lareira, lavou as mãos com todo cuidado - como se fosse um cirurgião. Em seguida, durante cinco minutos, passou uma escova redonda pela roupa, para pegar quaisquer fragmentos de poeira, sujeira ou cabelos corporais que pudessem trazer os policiais até ele.

     Entrou na garagem de carruagens do outro lado de um quadro semiterminado de um açougueiro, de uma pessoa com cara de lua cheia, vestida com um avental sanguinolento. O colecionador de ossos pensou em usar o táxi, mas mudou em seguida de idéia. Imprevisibilidade é a melhor defesa. Dessa vez, tomaria uma carruagem... a sedã, a Ford. Deu partida no carro, entrou na rua, fechou e trancou a porta da garagem.

     Nem antes nem depois...

     Ao passar pelo cemitério, a matilha de cães levantou os focinhos para o Ford e, em seguida, voltou a fuçar as moitas, procurando ratos e cavando loucamente em busca de água no calor insuportável.

     Nem naquela época nem agora...

     Tirou do bolso a máscara de esquiador e as luvas, colocou-as no assento ao lado e saiu em alta velocidade do velho bairro. O colecionador de ossos saía novamente à caça.

    

     Alguma coisa tinha mudado na sala, mas ela não conseguiu descobrir o quê.

     Lincoln Rhyme notou a curiosidade nos seus olhos.

     - Sentimos falta de você, Amélia – disse ele, fazendo-se de tímido. – Outras atividades?

     Amélia desviou a vista.

     - Parece que ninguém informou a meu novo comandante que eu não ia comparecer ao trabalho hoje. Acho que alguém devia ter feito isso.

     - Ah, é.

     Amélia olhava para a parede, procurando lentamente descobrir o que era aquilo. Além dos instrumentos básicos trazidos por Mel Cooper, havia nesse momento um microscópio de escaneamento de elétrons, equipado com unidade de raios X, e aparelhos de alta temperatura para testar amostras de vidro, um microscópio de comparação, um tubo de gradiente de densidade para examinar amostras de solo e centenas de copos de boca larga, potes e vidros de produtos químicos.

     E, no meio da sala, o orgulho de Cooper - o cromatógrafo computadorizado de gás e espectômetro de massa. E outro computador, ligado on-line ao do próprio Cooper na DIRC.

     Sachs passou por cima dos grossos cabos que desciam pela escada - a corrente doméstica funcionava, sim, mas as amperagens exigidas eram demais para as tomadas do quarto. E, naquele pequeno passo para o lado, uma manobra elegante e treinada, Rhyme observou como ela era realmente bonita. Certamente a mulher mais bela que já tinha visto nas fileiras do Departamento de Polícia.

     Durante um momento, julgou-a imensamente atraente. Dizia-se que o sexo estava todo na cabeça e ele sabia que era verdade. Cortar os cabos não diminuía a ânsia. Lembrou-se, ainda com uma sensação de horror, de uma noite, seis meses após o acidente. Ele e Blaine haviam tentado. Apenas para ver o que acontecia, esforçando-se para serem displicentes a esse respeito. Nada.

     Mas tinha sido um grande nada. Para começar, sexo é um assunto complicado e quando se acrescentam cateteres e sacos à equação, é preciso um bocado de resistência e senso de humor, além de uma base mais sólida do que eles possuíam. Na maior parte, porém, o que liquidou com aquele momento, e rápido, foi a cara que ela fez. Viu no sorriso duro, proposital, de Blaine Chapman Rhyme que ela estava fazendo aquilo por piedade e constatar isso foi para ele uma punhalada no coração. Pediu divórcio duas semanas depois. Blaine protestou, mas assinou os documentos na primeira entrevista de conciliação.

     Sellitto e Banks, de volta nesse instante, organizavam a prova coletada por Sachs. Ela observou-os, levemente interessada.

     - A Unidade de Provas Latentes encontrou apenas oito outras impressões parciais e elas pertencem aos dois empregados de manutenção do prédio.

     - Oh.

     Ele inclinou generosamente a cabeça.

     - Só oito?

     - Ele está fazendo um elogio a você – explicou Thom. – Aproveite-o. Isso é o máximo que conseguirá dele.

     - Traduções não são necessárias, por favor, e obrigado, Thom.

     - Gostei de ter podido ajudar – respondeu ela, na entonação mais agradável que pôde dar à voz.

     Bem, o que era isso? Rhyme esperava realmente que ela entrasse na sala como um furacão e jogasse os sacos de prova em cima de sua cama. Talvez a própria serra e até mesmo o saco de plástico com as mãos amputadas da vítima. Estava esperando um arranca-rabo daqueles, demorado. As pessoas raramente tiram as luvas quando lutam com um paralítico. Estivera pensando naquela expressão nos olhos dela quando a conhecera, talvez prova de alguma relação ambígua entre eles.

     Mas, não. Nesse momento notou que tinha errado. Amélia Sachs era igual a todo mundo – dando-lhe uma palmadinha na cabeça e procurando a saída mais próxima.

     Com um estalido, seu coração transformou-se em gelo. Ao falar, foi como se estivesse se dirigindo a uma teia de aranha no alto na parede mais distante:

     - Estivemos conversando sobre o prazo fatal da próxima vítima. Aparentemente, não há uma ocasião específica.

     - O que achamos – disse Sellitto –, é que o que quer que esse escroto tenha planejado para a próxima, a coisa está em andamento. Ele não sabe exatamente quando será o momento da morte. Lincoln pensou que talvez ele tenha enterrado algum pobre filho da puta em algum lugar onde não haja muito ar.

     Os olhos de Sachs apertaram-se ligeiramente ao ouvir essas palavras. Rhyme notou o movimento. Enterrar uma pessoa viva. Se você vai ter uma fobia, essa é tão boa quanto qualquer outra.

   Foram interrompidos por dois homens usando ternos cinzentos, que subiram a escada e entraram no quarto como se morassem ali.

     - Nós batemos à porta - disse um deles.

     - Tocamos a campainha - disse o outro.

     - Ninguém respondeu.

     Estavam ambos na casa dos quarenta anos, um era mais alto do que o outro, mas tinham os dois os mesmos cabelos cor de areia. Sorriam da mesma maneira e, antes que o sotaque do Brooklyn destruísse a imagem, Rhyme pensou: gente do interior. Um deles tinha uma autêntica coleção de sardas ao longo do nariz pálido.

     - Cavalheiros.

     Sellitto apresentou os Irmãos Hardy: detetives Bedding e Saul, a equipe do trabalho pesado. O talento deles era procurar pessoas - conversar com pessoas que residiam perto de uma cena de crime, à procura de testemunhas e pistas. Embora esta fosse uma das belas artes, era algo que Rhyme jamais tinha aprendido, nem sentido desejo de aprender. Sentia-se contente em desencavar fatos sólidos e passá-los a policiais como esses, que, armados com os dados, transformavam-se em detectores de mentiras vivos, que podiam reduzir a migalhas os melhores álibis de suspeitos. Nenhum dos dois parecia achar que houvesse algo estranho em ter de prestar contas a um paisano entrevado.

     Saul, o mais alto e que não tinha sardas, começou:

     - Nós encontramos trinta e seis...

     - ...oito, se contarmos uns dois usuários de crack. O que ele não faz, eu faço.

     - ...elementos. Conversamos com todos eles. Não tivemos muita sorte.

     - A maioria é de cegos, surdos e sofrendo de aminésia. O senhor sabe, o habitual.

     - Nenhum sinal do táxi. Passamos um pente fino no West Side. Zero. Fim.

     - Mas conte a eles a melhor notícia - disse Bedding.

     - Encontramos uma testemunha.

     - Uma testemunha? – perguntou Banks, entusiasmado. – Fantástico.

     Rhyme, muito menos entusiasmado, disse:

     - Continue.

     - Na esquina da TOD esta manhã, no leito da estrada de ferro.

     - Ele viu um homem descer a Avenida Onze, virar...

     - Subitamente – acrescentou Bedding, o sem sardas – e entrar em um beco que leva a uma passagem subterrânea do trem. Ele simplesmente ficou ali durante um momento...

     - Olhando para baixo.

     Rhyme ficou aborrecido com a história.

     - Isso não parece coisa de nosso rapaz. Ele é sabido demais para se arriscar a ser visto dessa maneira.

     - Mas... - prosseguiu Saul, erguendo um dedo e olhando para o parceiro.

     - Só havia uma única janela em toda a vizinhança de onde se podia ver o local.

     - Que era o lugar onde estava nossa testemunha.

     - Ele acordou cedo, Deus o abençoe.

     Antes de lembrar-se de que estava zangado com ela, Rhyme perguntou:

     - Bem, Amélia, o que é que você acha disso?

     - Como disse? - Sua atenção desviou-se da janela.

     - Que estava certa - disse Rhyme. - Você fechou a Onze. Não a rua 37.

     Ela não soube o que responder. Rhyme, porém, voltou-se imediatamente para os gêmeos:

     - Descrição.

     - Nossa testemunha não pôde contar muita coisa.

     - Estava bêbado. Já a essa hora.

     - Ele disse que foi um cara baixote. Não deu a cor dos cabelos. Raça...

     - Possivelmente branco.

     - Usando? - perguntou Rhyme.

     - Alguma coisa escura. Foi o melhor que ele conseguiu dizer.

     - E fazendo o quê? - perguntou Sellitto.

     - Vou citar o que ele disse: “Ele simplesmente ficou ali, olhando para baixo. Pensei que ele fosse saltar. Vocês sabem, na frente do trem. Olhou para o relógio umas duas vezes.”

     - E depois foi finalmente embora. Disse que continuou a olhar em volta. Como se não quisesse ser visto.

     O que ele estaria fazendo?, perguntou Rhyme a si mesmo. Observando a vítima morrer? Ou isso teria acontecido antes de colocar o corpo ali, checando para ver se o leito da estrada estava deserto?

     - Ele chegou dirigindo ou andando? – perguntou Sellitto.

     - Andando. Demos uma conferida cm todos os pátios de estacionamento...

     - E garagens.

     - ...do bairro. Mas isso foi perto do centro de convenções, de modo que havia manobreiros que levavam os carros. Havia um bocado de pontos de manobreiros com bandeiras alaranjadas, chamando os carros.

     - E, por causa da exposição, metade dos pátios estavam cheios por volta das sete horas. Pegamos uma lista de uns novecentos tíquetes de estacionamento.

     Sellitto sacudiu a cabeça.

     - Trabalhem nessa lista... – disse.

     - Já mandamos alguém fazer isso – explicou Bedding.

       - ...mas pode apostar que esse elemento desconhecido não ia deixar seu carro em um estacionamento - continuou o outro detetive. – Ou receber tíquetes de estacionamento.

     Rhyme inclinou a cabeça em um gesto de concordância e perguntou:

     - Que prédio na Pearl Street?

     Um deles – ou ambos os gêmeos – respondeu:

     - Esse é o item seguinte em nossa lista. Estamos a caminho.

     Rhyme notou que Sachs consultava o relógio, bem junto do punho branco e dos dedos vermelhos. Rhyme deu instruções a Thom para acrescentar as novas características do elemento desconhecido à tabela do perfil.

     - Quer conversar com esse cara? - perguntou Banks. - O que estava junto da estrada de ferro?

     - Não. Eu não confio em testemunhas - respondeu Rhyme bombasticamente. – Quero voltar ao trabalho. – Lançou um olhar a Mel Cooper. - Cabelos, sangue, osso e uma lasca de madeira. O osso, primeiro – disse.

    

     Morgen...

     A jovem Monelle Gerger abriu os olhos e, lentamente, sentou-se na cama meio arriada. Em seus dois anos no East Greenwich Village, nunca se acostumou às manhãs.

     O corpo roliço, de 21 anos de idade, moveu-se para a frente e ela recebeu nos olhos vermelhos o golpe de um implacável sol de agosto.

     - Mein Gott...

     Deixara o cabaré às cinco, chegou em casa às seis, fez amor com Brian até as sete...

     Que horas seriam?

     O início da manhã, disso tinha certeza.

     Apertou os olhos para ver melhor o relógio. Quatro horas e trinta minutos da tarde.

     Não tão früh morgens assim, afinal de contas.

     Tomar café ou ir lavar a roupa?

     Era por volta dessa hora do dia que ela ia vagarosamente até o Dojo's para um desjejum de hambúrguer e três xícaras do café forte que serviam ali. Ali encontrou as pessoas que conhecia agora, frequentadores de cabarés como ela - gente do centro da cidade.

     Mas ultimamente havia negligenciado um bocado de coisas, coisas domésticas. Nesse momento, vestiu duas camisetas para esconder o corpo roliço e o jeans, pendurou cinco ou seis colares no pescoço, pegou a cesta de roupa suja e jogou dentro uma caixa de sabão.

     Soltou as três cavilhas da fechadura da porta. Levantou a cesta de roupa e desceu a escura escada da casa de cômodos. Parou ao chegar ao nível do porão.

     lrgendwas stimmt hier nicht.

     Sentindo-se inquieta, Monelle olhou em volta da escada deserta, para os corredores escuros.

     O que há aqui de diferente?

     A luz, é isso! As lâmpadas na entrada estão queimadas. Não - olhou com mais atenção -, foram tiradas. Esses garotos escrotos roubam tudo. Tinha vindo morar aqui, a Deutsche Haus, porque, ao que se dizia, era um oásis para pintores e músicos alemães. E acabou descobrindo que era simplesmente outro prédio sem elevador, sujo, de East Village, caro demais, como tantas outras casas de cômodos por ali. A única diferença é que podia espinafrar o zelador em sua própria língua.

     Atravessou a porta do porão e entrou na sala do incinerador, que estava tão escura que teve de tatear ao longo da parede, para ter certeza de que não ia tropeçar no lixo espalhado no chão.

     Empurrando e abrindo a porta, entrou no corredor que dava para a sala da lavanderia.

     Um arrastar de pés. Movimentos leves e rápidos.

     Virou-se rápido, mas nada viu, exceto sombras imóveis. Tudo que ouviu foi o som do tráfego e os gemidos de um prédio velho, velhíssimo.

     Na escuridão, distinguiu pilhas de caixas e cadeiras abandonadas. Sob fios com uma capa de sujeira engordurada. Continuou a andar na direção da lavanderia. Nada de lâmpadas também ali. Sentiu-se nervosa, lembrando-se de algo que tinha lhe ocorrido durante anos, quando ia em companhia do pai por um estreito beco que saía da Langer Strasse, perto de Obermain Brücke, a caminho do zoológico. Nessa época, devia ter uns cinco ou seis anos. O pai a agarrou subitamente pelo ombro e apontou para a ponte, dizendo-lhe em tom de voz comum que um ogro esfomeado vivia ali embaixo. Quando a cruzassem de volta para casa, avisou ele, teriam que andar rápido. Nesse momento, ela sentiu um calafrio de pânico subir pela espinha até os cabelos louros cortados rentes.

     Estúpido. Ogros...

     Continuou a descer o corredor úmido, escutando o zumbido de algum equipamento elétrico. Bem longe, ouviu uma canção dos irmãos inimigos do Oasis.

     A sala da lavanderia estava às escuras.

     Bem, se haviam tirado as lâmpadas, tinha que ser assim. Subiria a escada, bateria com força na porta de Herr Neischen, até que ele viesse correndo. Diria a ele o diabo por causa dos ferrolhos quebrados nas portas da frente e dos fundos e dos garotos bebedores de cerveja que ele nunca expulsava a pontapés da escada do prédio. E lhe diria também o diabo por causa das lâmpadas que haviam desaparecido.

     Entrou e apertou o comutador.

     Luz branca, brilhante. Três grandes lâmpadas refulgiam como sois, revelando uma sala vazia, mas imunda. Monelle foi até as quatro máquinas de lavar e jogou as peças brancas na mais próxima. Contou moedas, deixou-as cair nas fendas e empurrou as alavancas para a frente.

     Nada.

     Sacudiu a alavanca. Em seguida, bateu na própria máquina. Nenhuma resposta.

     - Merda. Este prédio gottverdammte.

     Nesse momento, viu o fio. Algum idiota tinha desligado as máquinas. Sabia quem. Neischen tinha um filho de doze anos que era responsável pela maioria das confusões que acontecia no prédio. Quando se queixou de alguma coisa no ano anterior, o pestinha tentou lhe dar um pontapé.

     Pegou o fio e agachou-se, estendendo a mão para trás da máquina, à procura da tomada. Fez a ligação.

     E sentiu a respiração do homem na nuca.

     Nein!

     Ele estava espremido entre a parede e a parte traseira da lavadora. Soltando um grito agoniado, ela vislumbrou uma máscara de esquiador e roupas escuras e, em seguida, a mão dele desceu sobre seu braço como se fosse a boca de um animal. Ela perdeu o equilíbrio e ele virou-a para a frente facilmente. Monelle caiu no chão, batendo no concreto áspero com o rosto e engolindo o grito que lhe subia à garganta.

     Ele saltou sobre ela no mesmo momento, prendendo seus braços contra o concreto e tapando-lhe a boca com um peça grossa de fita preta. Hilfe!

     Nein, bitte nicht. Bitte nicht.

     Ele não era grandalhão, mas era forte. Rapidamente, virou-a sobre o estômago e ela ouviu o tinido de algemas fechando-se em volta de seus punhos.

     O homem levantou-se. Durante um longo momento, nenhum som, só o gotejar de água, os arquejos da respiração de Monelle, o clique de algum pequeno motor em algum lugar do porão.

     Ficou à espera de mãos em seu corpo, rasgando-lhe o vestido. Ouviu quando ele foi até a porta, a fim de certificar-se de que estavam a sós ali.

     Oh, ele tinha privacidade completa, disso ela sabia, furiosa consigo mesma: ela era uma das poucas moradoras que usavam a lavanderia. A maioria a evitava porque o local era deserto demais, perto demais das portas e janelas dos fundos, longe demais de qualquer ajuda.

     Ele voltou e rolou-a outra vez, colocando-a de costas. Murmurou alguma coisa que ela não conseguiu entender. Em seguida: “Hanna.”

     Hanna? É um engano. Ele pensa que sou outra pessoa. Sacudiu com força a cabeça, tentando fazer com que ele compreendesse isso.

     Mas, olhando-o nos olhos, parou. Mesmo que usasse máscara de esquiador, era claro que havia nele alguma coisa errada. Ele estava nervoso. Ele examinou-lhe o corpo de alto a baixo, sacudindo a cabeça. Fechou os dedos enluvados em volta de seus grossos braços. Apertou-lhe os ombros carnudos, agarrou uma dobra de gordura. Ela estremeceu de dor.

     E foi isso o que ela viu: desapontamento. Ele a havia capturado e, nesse momento, não tinha certeza se, afinal de contas, a queria.

     Ele enfiou a mão no bolso e, lentamente, retirou-a. O estalido do canivete se abrindo foi como um choque elétrico. E deu início a uma crise de soluços.

     Nein, nein, nein!

     Um silvo escapou dos lábios dele como se fosse de vento através de árvores no inverno. Ele agachou-se sobre ela, como se estivesse debatendo alguma coisa consigo mesmo.

     - Hanna – murmurou. – O que é que vou fazer?

     Subitamente, ele tomou uma decisão. Guardou o canivete, levantou-a com um puxão e levou-a pelo corredor, passando pela porta dos fundos – a porta com o ferrolho quebrado, o motivo por que tinha batido à porta de Herr Neischen durante semanas, pedindo-lhe que mandasse consertá-lo.

      

     O criminalista é um homem da Renascença.

     Tem que conhecer botânica, geologia, balística, medicina, química, literatura, engenharia. Se está a par dos fatos – se sabe que aquela cinza com alto teor de estrôncio provavelmente veio de uma sinaleira flamejante de estrada de rodagem, que faca é uma palavra portuguesa que corresponde a knife em inglês, que etíopes não usam talheres e comem apenas com a mão direita, que um projétil com marcas e estrias produzidas por cano de arma, com giro para a direta, não poderia ter sido disparado por uma pistola Colt – se conhece essas coisas, pode estabelecer a conexão que coloca o elemento desconhecido na cena do crime.

     Mas se há um assunto que todos os criminalistas conhecem, este é anatomia. E esta certamente era uma especialidade de Lincoln Rhyme, porque tinha passado os três últimos anos e meio mergulhado na lógica estranha dos ossos e nervos.

     Nesse momento, olhava para o saco, nas mãos de Jerry Banks, que continha as provas coletadas na sala das caldeiras. E disse:

     - Osso de perna. Não humano. De modo que não pertence à próxima vítima.

     Era um anel de osso de cerca de 5,5cm de circunferência, serrado com perfeição. Havia sangue nos riscos deixados pela lâmina da serra.

    

     ELEMENTO DESCONHECIDO 238

     Aparência Residência Veículo Diversos

     Branco,homem,estatura baixa

     Roupa escura

     Prov. tem casa segura

     Táxi Yellow Cab

     Conhece proc.de CC

     Possivelmente tem antec. criminais

     Conhece levantamento de impressões digitais

     Arma = .32 Colt

 

     - Um animal de tamanho médio - continuou. - Um cão, ovelha ou cabra, grande, acho, pesando cerca de 65 quilos. Mas vamos tirar a limpo se o sangue pertence realmente a um animal.

     Ainda assim, poderia pertencer à vítima.

     Mel Cooper preparou um teste de difusão em geléia para descobrir a origem do sangue.

     - Vamos ter que esperar pelos resultados - explicou, em tom de desculpa.

     - Amélia - disse Rhyme -, você talvez possa nos dar uma mãozinha aqui. Use a lupa e examine com todo cuidado o osso. E diga o que vê.

     - Não o microscópio? – perguntou ela.

     Ele pensou que ela fosse protestar. Amélia, porém, pegou o osso e examinou-o, curiosa.

     - Ampliação demais - explicou Rhyme.

     Amélia pôs os óculos de proteção e curvou-se sobre a placa branca esmaltada. Cooper torceu um abajur de pescoço longo para iluminar a amostra.

     - As marcas de corte – disse Rhyme. – São irregulares ou uniformes?

     - Bastante uniformes.

     - Uma serra elétrica.

     Rhyme ficou pensando se o animal estava vivo quando o elemento fez aquilo.

     - Está vendo alguma coisa diferente?

     Ela concentrou-se no osso por mais um momento e murmurou:

     - Não sei. Acho que não. Isso parece apenas um pedaço de osso.

     Nesse momento, Thom passou por ali e lançou um olhar à bandeja.

     - Essa aí é sua pista? Que coisa engraçada.

     - Engraçada – repetiu Rhyme. – Engraçada?

     - Você tem alguma teoria? – perguntou Sellitto.

     - Nenhuma teoria. – Curvou-se e cheirou o osso. – É osso bucco.

     - O quê?

     - Canela de vitela. Preparei uma para você um dia desses, Lincoln. Osso bucco. Canela de vitela refogada. – Olhou para Sachs e fez uma careta. – Ele disse que o prato precisava de sal.

     - Droga! – exclamou Sellitto. – Ele a comprou em um mercado.

     Cooper confirmou que o teste de precipitina tinha dado negativo quanto a sangue humano nas amostras recolhidas por Sachs.

     - Provavelmente, bovina – disse.

     - Mas o que é que ele está tentando nos dizer com isso? – perguntou Banks.

     Rhyme não fazia a menor idéia.

     - Vamos continuar. Oh, alguma coisa na corrente e no cadeado?

     Cooper deu uma olhada nas peças de metal, guardadas em um saco plástico.

     - Ninguém mais põe nome de marca em correntes. De modo que, neste particular, não temos sorte. O cadeado é um Secure-Pro, modelo de meio de linha. Não é muito seguro e, definitivamente, não profissional. Quanto tempo foi preciso para quebrá-lo?

     - Três segundos inteiros – respondeu Sellitto.

     - Está vendo? Nenhum número de série e são vendidos em todas as lojas de ferragens e bazares do país.

     - Chave ou segredo? – perguntou Rhyme.

     - Segredo.

     - Ligue para o fabricante. Pergunte se podemos desarmá-lo e reconstruir a combinação à vista das tranquetas, se pode dizer em que remessa estava o cadeado e para onde foi.

     Banks hesitou.

     - Homem, isso é uma possibilidade muito remota.

     O olhar de Rhyme provocou-lhe uma forte vermelhidão no rosto.

     - E o entusiasmo em sua voz, detetive, está me dizendo que você é justamente a pessoa indicada para fazer esse trabalho.

     - Sim, senhor - respondeu o jovem, levantando defensivamente o telefone celular. – Já estou trabalhando.

     - Isso aí na corrente é sangue? – perguntou Rhyme.

     - De um de nossos rapazes – explicou Sellitto. – Deu um corte sério na mão quando tentava quebrar o cadeado.

     - Nesse caso, a peça está contaminada – comentou Rhyme, fechando a cara.

     - Ele estava tentando salvar a moça – desculpou-o Sachs.

     - Compreendo. Bonito gesto da parte dele. Mas a peça está contaminada. – Voltou-se para a mesa ao lado de Cooper. – Impressões digitais?

     Cooper respondeu que a havia examinado e encontrado apenas as impressões digitais de Selitto nos elos da corrente.

     - Muito bem, agora a lasca de madeira encontrada por Amélia. Procure impressões digitais.

     - Já procurei – disse rapidamente Sachs. – Na cena do crime.

     ER, Rhyme pensou por um momento. Ela não parecia ser o tipo de pessoa que a gente trata por apelido. Mulheres belas raramente são.

     - Vamos experimentar a artilharia pesada, apenas para termos certeza – resolveu e deu instruções a Cooper. – Use DFO ou ninhidrina. E, em seguida, aplique o nit-yag.

     - Aplicar o quê? - perguntou Banks.

     - Um laser de granada de neodimiomitrio de alumínio.

     O técnico umedeceu a lasca com o líquido de um borrifador plástico e apontou o feixe de laser para a peça. Colocou óculos de proteção escuros e examinou atentamente o material.

     - Nada.

     Desligou a luz e submeteu a lasca a um exame visual cuidadoso. Ela media aproximadamente 15cm, e era de madeira escura. Notou umas manchas pretas, como se fossem de alcatrão, impregnadas de sujeira. Segurou-a com o fórceps.

     - Sei que Lincoln gosta do método dos pauzinhos para comer – disse Cooper –, mas sempre peço um garfo quando vou ao Ming Wa's.

     - Você pode esmagar as células dessa maneira – resmungou o criminalista.

     - Eu poderia, mas não estou – respondeu Cooper.

     - Que tipo de madeira? – perguntou Rhyme. – Vai precisar fazer um espodograma?

     - Não. Carvalho. Nenhuma dúvida.

     - Marcas de serra ou de plaina?

     Rhyme inclinou a cabeça para a frente. Imediatamente, o pescoço entrou em espasmo e foi insuportável a cãibra que lhe percorreu os músculos. Arquejeou, fechou os olhos e torceu o pescoço, estirando-o. Sentiu as fortes mãos de Thom massageando-o. A dor passou, finalmente.

     - Lincoln? - perguntou Sellitto. - Você está bem?

     Rhyme tomou uma respiração profunda.

     - Ótimo. Não foi nada.

     - Aqui.

     Cooper trouxe a peça de madeira à cama, baixou a lente para que Rhyme pudesse ver o espécime. Rhyme examinou-o.

     - Cortado na direção dos veios com uma serra de arco. Há uma grande variação nos cortes. De modo que acho que era de um pilar ou viga fabricados há mais de um século. Uma serra a vapor, provavelmente. Aproxime mais a peça, Mel. Quero cheirá-la.

     Cooper pôs a bandeja embaixo do nariz de Rhyme.

     - Creosoto... um destilado de alcatrão. Usado para proteger madeira contra os efeitos do tempo, antes que as madeireiras começassem a usar tratamento sob pressão. Cais, docas, dormentes de estrada de ferro.

     - Talvez a gente tenha aqui um maníaco por trens – sugeriu Sellitto. – Lembre-se do leito ferroviário nesta manhã.

     - Poderia ser. Procure compressão celular – ordenou Rhyme.

     O técnico estudou a lasca com o microscópio composto.

    - Madeira comprimida, sem a menor dúvida. Mas a favor dos veios, não contra. Não é de dormente. Isto foi tirado de um pilar ou coluna. A direção do peso.

     Um osso... um velho pilar de madeira...

     - Estou vendo terra impregnada na madeira. Isso nos diz alguma coisa?

     Cooper colocou um grande bloco de papel de imprensa em cima da mesa, tirou a capa do bloco, pôs a lasca em cima e puxou com um pincel um pouco da terra inserida na lasca. Examinou os pontinhos no papel branco – uma constelação ao avesso.

     - Você tem aí o suficiente para fazer um teste de gradiente de densidade? - perguntou Rhyme.

     Nesse teste, a areia é posta em um tubo contendo líquidos de gravidade específica diferentes. O solo se separa e cada partícula fica suspensa de acordo com sua própria gravidade. Rhyme reunira uma extensa biblioteca de perfis de gradientes de densidade da areia de todos os cinco bairros da cidade. Infelizmente, o teste só funciona com um volume razoável de solo. Cooper não achava que tivessem o suficiente.

     - Poderíamos tentar, mas teríamos que usar toda a amostra. E se não funcionar, nada mais teremos para outros testes.

     Rhyme instruiu-o para fazer um exame visual e, em seguida, analisá-la com o GC-MS – cromatógrafo-espectrômetro a gás.

     O técnico pincelou uma lâmina com um pouco de areia. Examinou-a durante alguns minutos sob o microscópio composto.

     - Isso é estranho, Lincoln. É de camada de solo de superfície.

     Com um nível incomumente alto de vegetação. Mas numa forma curiosa. Muito deteriorada, profundamente decomposta.

     Ergueu a vista e Rhyme notou rugas profundas sob os olhos que o técnico retirou das oculares. Lembrou-se de que, após horas de trabalho de laboratório, as marcas eram muito visíveis e que, às vezes, um técnico que emergia do laboratório da Polícia Técnica era recebido por um coro que o aclamava como Guaxinin.

     - Queime-o – ordenou Rhyme.

     Cooper montou uma amostra na unidade de GC-MS. A máquina acordou com um zumbido, seguido de um silvo.

     - Mais um ou dois minutos.

     - Enquanto esperamos - disse Rhyme –, o osso... Continuo a pensar nesse osso. Passe-o pelo microscópio, Mel.

     Com todo cuidado, Cooper pôs o osso no estágio de exame do microscópio composto. Curvou-se com todo cuidado sobre a peça.

     - Epa, temos alguma coisa aqui.

     - O quê?

     - Muito pequena. Transparente. Passe-me o hemostato – disse Cooper a Sachs, indicando com a cabeça uma pinça de garras.

     Ela lhe entregou o instrumento, que ele usou sondando com cuidado a medula do osso. Puxou alguma coisa.

     - Uma pequena peça de celulose regenerada – anunciou Cooper.

     - Celofane – identificou-a Rhyme. – Dê mais detalhes.

     - Marcas de estiramento e pressão. Eu diria que ele não a deixou intencionalmente. Não há aqui bordas cortadas. Não é incompatível com papel celofane para trabalho pesado – observou Cooper.

     - Não incompatível. – Rhyme franziu as sobrancelhas. – Não gosto das apostas que ele faz.

     - Temos que pagar para ver, Lincoln – retrucou Cooper, alegre.

     - “Associado com”. “Sugere”. Odeio especialmente esse “não incompatível com”.

     - Muito versátil o material - esclareceu Cooper. – O máximo que ouso dizer é que se trata provavelmente de celofane usado em açougue comercial ou em mercados. Nada de especial. Definitivamente não é material de embrulho de marca conhecida.

     Jerry Banks entrou nesse momento, vindo do corredor.

     - Más notícias. A companhia Secure-Pro não mantém quaisquer registros dos segredos dos cadeados. Uma máquina escolhe aleatoriamente os segredos.

     - Ah.

     - Mas, interessante... Os fabricantes dizem que recebem telefonemas da polícia o tempo todo, com perguntas sobre seus produtos, e você foi o primeiro a pensar em descobrir a origem de um cadeado através do segredo.

     - Até que ponto isso pode ser “interessante”, se é um beco sem saída? – resmungou Rhyme e voltou-se para Mel Cooper, que nesse momento sacudia a cabeça, enquanto olhava a tela do computador GC-MS. –O quê?

     - Consegui o resultado da amostra de solo. Mas lamento dizer que a máquina pode estar biruta. O conteúdo de nitrogênio não combina com as tabelas. Vamos ter que fazer o teste novamente, usando mais amostras desta vez.

     Rhyme ordenou-lhe que fosse em frente e voltou os olhos para o osso.

     - Quanto tempo, desde a morte do animal?

     Cooper examinou alguns raspas no microscópio eletrônico.

     - Conglomerados mínimos de bactérias. O Bambi aqui provavelmente morreu há pouco tempo, é o que parece. Ou saiu da geladeira há umas oito horas.

     - Então nosso criminoso comprou-o recentemente – observou Rhyme.

     - Ou comprou-o há um mês e congelou-o – sugeriu Sellitto.

     - Não – disse Cooper. – A peça não foi congelada. Não há prova de dano aos tecidos ocasionado por cristais de gelo. E não foi refrigerado por tanto tempo assim. E não está seco. Refrigeradores modernos desidratam os alimentos.

     - É uma boa pista – comentou Rhyme. – Vamos trabalhar nisso.

     - Trabalhar? – repetiu Sachs com uma risada. – Você. está dizendo que devemos visitar todos os mercados da cidade e descobrir quem vendeu ossos de vitela ontem?

     - Não – corrigiu-a Rhyme. – Nos dois últimos dias.

     - Quer os Irmãos Hardy?

     - Deixe que eles continuem a fazer o que estão fazendo. Ligue para Emma, no centro, se ela ainda estiver trabalhando. E se não estiver, chame-a de volta à sede com as outras despachantes e coloque-as em regime de trabalho extraordinário. Consigam uma lista de todos os mercados da cidade. Aposto que nosso rapaz não está comprando gêneros para uma família de quatro pessoas, de modo que limite a lista a fregueses que compram cinco artigos ou menos.

     - Ordens de busca? – perguntou Banks.

     - Se alguém se recusar, conseguiremos a ordem - resolveu Sellitto. – Mas vamos ver se conseguimos sem isso. Quem sabe? Alguns cidadãos poderiam mesmo cooperar. Disseram-me que isso, às vezes, acontece.

     - Mas como é que os mercados vão saber quem comprou canela de vitela? – perguntou Sachs.

     Ela não estava mais tão indiferente como antes. Havia uma pontada de irritação em sua voz. Rhyme especulou se a frustração da moça não poderia ser um sintoma do que ele mesmo frequentemente sentia – o peso incômodo da prova. O problema básico do criminalista não é que haja prova de menos, mas que haja demais.

     - Verifiquem os scanners – lembrou Rhyme. – Eles salvam as vendas nos computadores. Para fins de levantamento de estoque e reabastecimento. Vá em frente, Banks. Vejo que alguma coisa lhe passou pela cabeça. Fale. Desta vez não vou mandá-lo para a Sibéria.

     - Só cadeias de mercados é que possuem scanners, senhor – sugeriu o jovem detetive. – Há centenas de mercados independentes e açougueiros que não os possuem.

     - Bom argumento. Mas acho que ele não iria a um pequeno estabelecimento. O anonimato é importante para ele. Ele deve estar fazendo suas compras em grandes mercados. Impessoais.

     Sellitto ligou para Comunicações e explicou a Emma o que precisavam.

     - Vamos tirar uma foto polarizada do celofane – disse Rhyme a Cooper.

     O técnico colocou o minúsculo fragmento em um microscópio polarizado, ajustou uma câmera polaróide à ocular do aparelho, e tirou uma foto. Era uma foto colorida, um arco-íris riscado por listras cinzentas. Rhyme examinou-a. A configuração em si nada lhes dizia, mas poderia ser comparada com outras amostras de celofane para verificar-se se provinha de uma origem comum.

     Um pensamento ocorreu a Rhyme:

     - Lon, chame aqui uma dezena de policiais da Unidade de Operações Especiais. Em acelerado.

     - Aqui? - perguntou Sellitto.

     - Nós vamos montar juntos uma operação.

     - Tem certeza a respeito disso?

     - Tenho! Quero eles aqui, agora.

     - Tudo bem.

     Inclinou a cabeça na direção de Banks, que ligou para Haumann.

     - E agora, a respeito daquela outra pista deixada de propósito... os pêlos encontrados por Amélia?

     Cooper separou-os com um bastonete e, em seguida, colocou vários deles sob a ocular de um microscópio de contraste de fase. Esse instrumento dispara duas fontes de luz contra um único objeto, o segundo feixe ligeiramente retardado – fora de fase –, de modo que a amostra é simultaneamente iluminada e lança uma sombra.

     - Não é humano – disse Cooper. – Isso eu posso dizer agora mesmo. E são pêlos de proteção, não de baixo.

     Pêlos da pelagem de um animal, era o que ele queria dizer.

     - Que tipo? De cão?

     - De vitela? – sugeriu Banks de novo juvenilmente entusiasmado.

     - Verifique as escamas – ordenou Rhyme.

     Com essas palavras, ele se referia às escamas microscópicas que formam a bainha externa de um fio de cabelo.

     Cooper digitou alguma coisa no computador e, segundos depois, imagens pequenas de bastonetes escamados surgiram na tela.

     - Isso, graças a você, Lincoln. Lembra-se do banco de dados?

     Na Polícia Técnica, Rhyme organizara uma enorme coleção de microfotografias de diferentes tipos de pêlos.

     - Lembro-me, sim, Mel. Mas na última vez em que os vi, eles estavam organizados em cadernos de três furos. Como foi que você conseguiu baixá-los no computador?

     - ScanMaster, claro. JPEG compactado.

     Jay-peg. O que isso significava? Em uns poucos anos, a tecnologia o havia deixado para trás, e como. Espantoso...

     Enquanto Cooper examinava as imagens, Lincoln Rhyme especulava novamente sobre o que estava pensando durante todo o dia - a pergunta que continuava a emergir na superfície de sua mente: por que as pistas? A criatura humana é imprevisível, mas devemos pensar, antes de qualquer outra coisa, que ela é apenas isso – uma criatura. Um animal que ri, um animal perigoso, inteligente, assustado, mas que sempre age por uma razão – um motivo que fará com que a besta se mova na direção de seus desejos. O cientista Lincoln Rhyme não acreditava em acaso, aleatoriedade, frivolidade. Até mesmo psicopatas obedeciam a uma lógica própria, deformada como fosse, e ele sabia que havia uma razão por que o Elemento Desconhecido 238 só lhes falava dessa maneira cifrada ou codificada.

     - Descobri – gritou Cooper. – De roedor. Provavelmente, de rato. E os pêlos foram raspados.

     - Que droga de pista! – exclamou Banks. – Há um milhão de ratos nesta cidade. Essa prova não nos leva a lugar nenhum. Do que adianta ele nos dizer isso?

     Sellitto fechou por um momento os olhos e disse alguma coisa entre dentes. Sachs não notou o olhar. Olhou para Rhyme, curiosa. Rhyme ficou surpreso por ela não ter descoberto o que significava a mensagem do seqüestrador, mas nada disse. Não via razão para, por ora, contar aos outros o que significava esse horripilante dado de conhecimento.

    

     A sétima vítima de James Schneider, ou a oitava, caso se queira incluir entre elas a pobre, angelical e pequenina Maggie O'Connor, foi a esposa de um imigrante esforçado, que tinha escolhido uma modesta habitação para sua família nas proximidades da Hester Street, no Lower East Side.

     E foi graças à coragem dessa infeliz mulher que os guardas municipais e policiais descobriram a identidade do criminoso. Hanna Goldschmidt era de origem judaico-alemã e altamente considerada na comunidade fechada na qual residiam ela, o marido e os seis filhos (o sétimo falecera no parto).

     O colecionador de ossos dirigiu lentamente pela cidade, com todo cuidado para permanecer abaixo do limite de velocidade, embora soubesse perfeitamente que os guardas de trânsito de Nova York não deteriam ninguém por uma infração tão banal como correr demais.

     Parou em um sinal e lançou um olhar a outro cartaz das Nações Unidas. Viu faces vazias, sorridentes – tais como as faces sobrenaturais pintadas nas paredes da mansão – e, em seguida, estendeu a vista para mais longe, para a cidade em volta. Ocasionalmente, ficava surpreso quando erguia os olhos e descobria prédios tão maciços, de cornijas de pedra tão altas, de vidro tão liso, de carros tão elegantes, de pessoas tão bem ensaboadas. A cidade que conhecia era escura, baixa, fumacenta, cheirando a suor e a lama. Cavalos pisavam nos transeuntes, bandos errantes de malfeitores – alguns de não mais de dez ou onze anos – derrubavam a pessoa com um golpe de um porrete ou saco cheio de chumbo na cabeça e corriam para longe, levando o relógio e a carteira de notas... Essa era a cidade do colecionador de ossos.

     Às vezes, porém, descobria que estava numa situação como aquela – dirigindo um reluzente Taurus XI, por uma rua lisa, asfaltada, escutando a WNYC, e irritado, como todos os nova-iorquinos, quando perdia um sinal verde, perguntando-se por que, com todos os diabos, as autoridades municipais não permitiam uma curva para a direita num sinal vermelho.

     Inclinou a cabeça, escutou várias batidas surdas vindas da mala do carro. Mas havia tanto barulho no ambiente que ninguém ouviria os gritos de Hanna.

     A luz mudou.

     Claro que é incomum, mesmo nestes tempos avançados, que uma mulher se aventure sozinha pelas ruas da cidade à noite, sem a companhia de um cavalheiro. E, naqueles dias, isso ainda era mais incomum. Ainda assim, nessa noite infeliz, Hanna não teve outra opção senão deixar a casa por um curto período de tempo. O filho mais jovem estava com febre e, enquanto o marido rezava devotamente na sinagoga próxima, saiu para comprar uma compressa e colocá-la na testa em fogo da criança. Ao fechar a porta, disse à filha mais nova:

     “Feche bem o ferrolho quando eu sair. Vou voltar logo.”

     Infelizmente, porém, ela não cumpriria essas palavras. Isso porque, apenas alguns momentos depois, encontrou por acaso James Schneider.

     O colecionador de ossos olhou em volta para as ruas maltratadas nesse local. Essa área – perto do local onde tinha enterrado a primeira vítima – era a Hell's Kitchen, no West Side, outrora a cidadela das gangues irlandesas e, nesse momento, cada vez mais preferida por jovens profissionais liberais, agências de publicidade, estúdios de fotógrafos e restaurantes elegantes.

     Sentiu o cheiro de esterco e não ficou absolutamente surpreso quando, de repente, um cavalo empinou à sua frente.

     Mas, em seguida, notou que o animal não era uma aparição do século XIX, mas que estava atrelado a um dos coches abertos que cruzavam o Central Park, cobrando preços muito século XX. As cocheiras dos animais se situavam nas proximidades.

     Riu consigo mesmo. Embora fosse um som oco.

     Podemos apenas especular sobre o que aconteceu, porque não houve testemunhas. Mas podemos imaginar com uma clareza até grande demais o horror. O bandido puxou a mulher que esperneava para um beco e golpeou-a com uma adaga, com a intenção cruel não de matá-la, mas de subjugá-la, como era seu costume. Mas tal era a força da alma da boa Sra. Goldschmidt, pensando, como sem dúvida aconteceu, nos seus pintinhos no ninho, que ela surpreendeu o monstro, atacando-o furiosamente - esmurrando-lhe repetidamente o rosto e arrancando-lhe cabelos.

     Libertou-se momentaneamente e de sua boca saiu um grito horripilante. O covarde Schneider apunhalou-a várias outras vezes e fugiu.

     A corajosa mulher cambaleou até a calçada e perdeu os sentidos, morrendo nos braços de um guarda municipal que tinha ouvido o alarme dado pelos vizinhos.

     A história foi contada em um livro, nesse momento no bolso traseiro da calça do colecionador de ossos: Crime in Old New York. Não conseguia explicar a atração irresistível que sentia pelo volume fino. Se tivesse que descrever sua relação com esse livro, seria obrigado a dizer que era viciado nele. Setenta e cinco anos de idade e ainda em um estado notável, uma jóia de encadernação. O livro era seu amuleto e talismã. Ele o havia descoberto em uma das pequenas filiais da biblioteca pública e tinha cometido um dos poucos pequenos crimes de sua vida enfiando-o certo dia no bolso da capa de chuva e saindo do prédio.

     Leu centenas de vezes o capítulo sobre Schneider e virtualmente o sabia de cor.

     Continuou a dirigir lentamente. Estavam quase chegando.

     Quando o pobre e choroso marido de Hanna curvou-se sobre o corpo sem vida, fitou-lhe o rosto - pela última vez antes de ela ser levada à funerária (porque, de acordo com a fé judaica, os mortos devem ser enterrados com a maior rapidez possível). E notou no rosto de porcelana da mulher uma contusão em forma de um curioso emblema. Era um símbolo redondo, parecendo uma lua crescente, e um grupo formado do que pareciam ser estrelas acima da lua.

     O guarda municipal disse que aquilo devia ter sido uma marca deixada pelo anel do hediondo assassino quando atacou a pobre vítima. Detetives pediram ajuda de um pintor e ele fez um esboço da marca. (O bom leitor é remetido à prancha XXII.) Visitas foram feitas a joalheiros na cidade, tendo sido obtidos os nomes e endereços de homens que haviam comprado recentemente anéis como aquele. Dois dos cavalheiros que os haviam adquirido estavam acima de qualquer suspeita, sendo um deles diácono em uma igreja, e o outro, um culto professor de universidade renomada. O terceiro, porém, era um homem do qual os guardas desconfiavam como autor de atividades nefárias, ou seja - um certo James Schneider.

     Em seguida ao horrendo assassinato de Hanna Goldschmidt, uma busca pelos antros duvidosos da cidade nenhum sinal revelou do local onde Schneider poderia ser encontrado. Os guardas colocaram cartazes no centro da cidade e nas zonas próximas ao rio, contendo a descrição do bandido, mas ele não pôde ser preso – uma verdadeira tragédia, para sermos exatos, à luz da carnificina que logo depois aconteceria na cidade às suas mãos vis.

     As ruas estavam desimpedidas. O colecionador de ossos entrou no beco. Abriu a porta do armazém e desceu uma rampa de madeira até um longo túnel.

     Depois de certificar-se de que o lugar estava deserto, foi até a traseira do carro. Abriu a mala e puxou Hanna para fora. Ela era pelancuda, gorda, como um saco de adubo mole. Ficou novamente zangado e levou-a com violência por outro largo túnel. O tráfego da West Side Highway corria célere por cima da cabeça deles. Ouviu-a espirrar e ia justamente estender a mão para afrouxar a mordaça, quando lhe apalpou o ombro e ela desmaiou. Arquejando com o esforço de carregá-la, soltou-a no chão do túnel e afrouxou a mordaça. O ar penetrou debilmente pelas narinas da mulher. Teria ela simplesmente desmaiado? Verificou os batimentos cardíacos. O coração parecia estar funcionando normalmente.

     Cortou a linha de varal de roupa que lhe prendia os pés, inclinou-se para a frente e murmurou:

     - Hanna, kommen Sie mit mir miti, Hanna Goldschmidt...

     - Nein - murmurou ela e a voz morreu no silêncio.

     Ele se aproximou mais e esbofeteou-a de leve.

     - Hanna, você tem que vir comigo.

     - Mein name ist nicht Hanna – gritou ela. E deu-lhe um pontapé bem no queixo.

     Uma explosão de luz amarela relampejou através da cabeça do criminoso e ele saltou quase um metro para o lado, tentando manter o equilíbrio. Hanna levantou-se de um salto c correu cegamente pelo corredor escuro. Mas ele veio rápido em seu encalço. Pegou-a antes que tivesse corrido dez metros. Ela caiu com força no chão, ele também, grunhindo ao perder o fôlego.

     O colecionador de ossos ficou deitado sobre um lado do corpo durante um minuto, sentindo forte dor, lutando para respirar, agarrando-lhe a camiseta, enquanto ela se debatia. Deitada de costas, ainda algemada, a moça usou a única arma que tinha – um dos pés, que ergueu no ar e desceu com força na mão do homem. Uma pontada de dor percorreu o corpo dele e a luva voou para longe. A moça ergueu novamente a perna forte e só a sua má pontaria salvou-o do salto do sapato, que bateu com tanta força no chão que teria quebrado ossos, se acertasse o alvo.

     - So nicht! – exclamou ele furioso. Agarrou-a pelo pescoço com a mão nua e apertou até que ela estrebuchou, gemeu e parou de estrebuchar e gemer. Sacudiu-se várias vezes e ficou imóvel.

     Ao tomar-lhe a pulsação, o coração batia muito de leve. Nada de macetes desta vez. Pegou a luva no chão, calçou-a e arrastou-a pelo túnel até o poste. Mais uma vez, amarrou-lhe os pés e pôs um novo pedaço de fita colante na boca. No momento em que ela recuperou os sentidos, as mãos dele exploravam-lhe o corpo. Ela arquejou no início e procurou afastar-se, enquanto ele lhe acariciava a carne atrás da orelha. O cotovelo, o queixo. Não havia muitos outros lugares onde quisesse tocá-la. Ela era tão acolchoada... e isso o repugnava.

     Ainda assim, embaixo da pele... Segurou-lhe com força a perna. Os grandes olhos dela se esbugalharam quando ele meteu a mão no bolso e o canivete de mola apareceu. Sem um momento de hesitação, ele cortou-lhe a pele, descendo até o osso branco-amarelado. Ela gritou através da fita, um uivo de louca, e escoiceou com toda força. Está gostando disso, Hanna? A moça soluçou e gemeu alto. Por isso, ele teve que baixar a orelha para a perna da moça a fim de escutar o som delicioso da ponta da lâmina raspar o osso de um lado para o outro. Skrisss.

     Em seguida, pegou-lhe o braço.

     Seus olhos se prenderam durante um momento e ela sacudiu pateticamente a cabeça, implorando em silêncio. O olhar dele desceu para o antebraço gordo e, mais uma vez, o corte foi profundo. O corpo da moça ficou rígido com a dor. Outro grito selvagem, mudo. Mais uma vez, ele baixou a cabeça, como se fosse um músico, para ouvir o som da lâmina raspando o osso cúbito. Skrissss, skrissss... Um momento depois, ele se deu conta de que a moça tinha desmaiado.

     Finalmente, saiu de cima dela e voltou para o carro. Plantou as pistas seguintes, pegou uma vassoura na mala do carro e varreu com todo cuidado as pegadas. Subiu a rampa, estacionou, deixou o motor em funcionamento e desceu mais uma vez, varrendo com todo cuidado as marcas dos pneus.

     Parou e olhou de volta para o túnel embaixo. Olhando para ela, simplesmente olhando. De repente, um raro sorriso passou pelos lábios do colecionador de ossos. Ficou surpreso ao notar que o primeiro dos convidados já tinha aparecido. Uma dúzia de pares de minúsculos olhos vermelhos, duas dúzias, em seguida três dúzias... Parecia que eles estavam olhando curiosos para a carne do corpo de Hanna... e com o que poderia ser fome. Mas isso podia ser imaginação dele. Mas Deus sabia, era uma imagem mais do que vívida.

    

     - Mel, examine as roupas da Colfax. Amélia, você poderia ajudá-lo?

     Ela fez outra gentil inclinação de cabeça, o tipo usado na sociedade educada. Rhyme reconheceu estar realmente furioso com ela.

     Seguindo instruções do técnico, calçou luvas de látex, abriu com cuidado as roupas e passou uma escova de crina pelo tecido, tudo isso em cima de grandes folhas limpas de papel de imprensa. Caíram pequenos fragmentos. Cooper recolheu-os com a fita colante e examinou-os no microscópio composto.

     - Não há muita coisa aqui - comunicou. - O vapor eliminou a maior parte dos vestígios. Estou vendo um pouco de solo. Não o suficiente para fazer um D-G. Espere... Excelente. Peguei uns dois fragmentos de fibra. Olhe para eles...

     - Ora, eu não posso - retorquiu Rhyme, irado.

     - Azul-marinho, uma mistura de acrílico e lã, acho. Não é grosso o suficiente para ser material de tapete e não é fio torcido. De modo que é de pano.

     - Neste calor, ele não vai usar meias grossas ou suéter. Máscara de esquiador?

     - Essa seria minha aposta - disse Cooper.

     Rhyme pensou por um momento.

     - De modo que ele está sendo sério ao nos dar uma oportunidade de salvá-las. Se estivesse decidido a matá-las, pouca diferença faria se elas o vissem ou não.

     Sellitto entrou na conversa:

     - Isso significa também que o canalha pensa que pode safar-se. Não pensa em suicídio. Poderá nos dar algum poder de barganha, se tiver reféns quando o localizarmos.

     - Gosto desse seu otimismo, Lon - disse Rhyme.

     Thom atendeu nesse momento a campainha da porta e um momento depois Jim Polling subiu a escada, parecendo desgrenhado e preocupado. Bem, ir de uma para outra de duas entrevistas à imprensa, no gabinete do prefeito e no edifício federal, fazia isso com um cara.

     - É uma pena a respeito da truta - disse-lhe Sellitto. Em seguida, explicou a Rhyme: - Jimmy é um desses pescadores de verdade. Põe no anzol suas próprias iscas e tudo mais. Quanto a mim, saio num barco com um grupo e com caixas de latinhas de cerveja e me sinto feliz.

     - Vamos pegar esse escroto e depois nos preocuparemos com o peixe - retrucou Polling, servindo-se do café que Thom tinha deixado no peitoril da janela.

     Olhou para fora e pestanejou, surpreso, ao ver duas grandes aves fitando-o. Virou-se para Rhyme e explicou que, por causa do sequestro, tinha sido obrigado a adiar a pescaria em Vermont. Rhyme jamais havia pescado - nunca teve tempo nem inclinação para hobbies - mas deu-se conta de que sentia inveja de Polling. A serenidade da pescaria agradava-o. Era um esporte que se podia praticar sozinho. Esportes de paralíticos tinham que ser de outro tipo. Competitivos. Provando coisas ao mundo... e a si mesmos. Basquete, tênis, maratona em cadeira de rodas. Rhyme resolveu que, se fosse praticar um esporte, seria pesca. Embora jogar a linha com um único dedo estivesse provavelmente além da tecnologia moderna.

     - A mídia deu a ele o título de seqüestrador em série – disse Polling.

     Se a carapuça der nele, pensou Rhyme.

     - E o prefeito está ficando maluco. Quer chamar os federais. Convenci o chefe a resistir a isso. Mas não podemos perder outra vítima.

     - Faremos o melhor que pudermos - retrucou causticamente Rhyme.

     Polling tomou um gole do café preto e aproximou-se mais da cama.

     - Você está bem, Lincoln?

     - Ótimo - respondeu Rhyme.

     Polling fitou-o por mais um momento e, em seguida, inclinou a cabeça para Sellitto.

     - Passe as informações. Vamos ter outra entrevista coletiva dentro de meia hora. Assistiu à última? Ouviu o que o repórter perguntou? O que achávamos da maneira como a família da vítima se sentia por ela ter sido cozida até a morte?

     Banks sacudiu a cabeça.

     - Cara...

     - Eu quase derrubei o filho da puta com um murro – disse Polling.

     Três anos e meio antes, lembrou-se Rhyme, durante a investigação do matador de policiais, o capitão havia quebrado a câmera de uma equipe de TV, quando o repórter perguntou se Polling estava sendo agressivo demais na investigação simplesmente porque o suspeito, Dan Shepherd, era membro da força policial.

     Polling e Sellitto retiraram-se para um canto da sala e o detetive o pôs a par das últimas novidades. Quando ele desceu a escada, Rhyme notou que o capitão não estava tão animado quanto antes.

     - Muito bem - disse Cooper. - Temos um cabelo. Estava no bolso dela.

     - O cabelo inteiro? - perguntou Rhyme sem muita esperança e não ficou surpreso quando Cooper respondeu:

     - Sinto muito. Nada de bulbo capilar.

     Sem o bulbo, cabelo não é prova individuada, mas meramente prova de um tipo de classe. Não se pode fazer com ele um teste de DNA e ligá-lo a uma pessoa específica. Ainda assim, tem bom valor probatório. O famoso estudo da Polícia Montada do Canadá, realizado anos antes, concluíra que se um fio de cabelo encontrado em uma cena de crime corresponde ao do suspeito, as probabilidades são de um para 4.500 de que foi ele quem o deixou ali. O problema com o cabelo, porém, é que não se pode deduzir muita coisa sobre a pessoa a quem pertencia. É quase impossível determinar o sexo, e a raça tampouco pode ser estabelecida com confiança. A idade pode ser calculada apenas no caso de cabelo de bebês. A cor engana por causa de grandes variações na pigmentação e do uso de tinturas cosméticas e, uma vez que todas as pessoas perdem dezenas de fios por dia, não se pode nem dizer que o suspeito está começando a ficar careca.

     - Compare-o com os cabelos da vítima. Faça uma contagem de escamas e uma comparação de pigmentação da medula – ordenou Rhyme.

     Um momento depois, Cooper levantou a vista do microscópio.

     - Não é dela, da moça Colfax.

     - Descrição? - pediu Rhyme.

     - Castanho-claro. Nada de enroladinho, de modo que eu diria que não é negróide. A pigmentação sugere que tampouco é mongolóide.

     - Neste caso, é branco - concluiu Rhyme, indicando com a cabeça a tabela na parede. - Confirma o que a testemunha disse. Cabelo da cabeça ou do corpo?

     - Há pouca variação de diâmetro e uma distribuição uniforme da pigmentação. E cabelo de cabeça.

     - Comprimento?

     - Três centímetros.

     Thom perguntou se podia acrescentar ao perfil que o seqüestrador tinha cabelos castanhos. Rhyme respondeu que não.

     - Vamos esperar por corroboração. Simplesmente escreva que achamos que ele usa uma máscara de esquiador, azul-marinho. Raspas de unhas, Mel?

     Cooper examinou os vestígios, mas nada encontrou de útil.

     - A impressão digital que você encontrou. A da parede. Vamos dar uma olhada nela. Você poderia mostrá-la, Amélia?

     Sachs hesitou por um momento e, em seguida, lhe levou a foto polaróide.

     - O seu monstro - disse Rhyme.

     Era uma palma de mão grande e deformada, na verdade, grotesca, não com os redemoinhos e bifurcações elegantes de cristas de atrito, mas uma configuração confusa de linhas minúsculas.

     - É uma foto maravilhosa... Você é uma virtual Edward Weston, Amélia. Mas, infelizmente, não é uma mão. Isso aí não são cristas. É uma luva. De couro. Velha. Mão direita, Mel?

     O técnico confirmou com um aceno de cabeça.

     - Thom, escreva que ele tem um velho par de luvas. – Rhyme voltou-se para os outros presentes: - Estamos começando a reunir algumas idéias sobre ele. Ele não vai deixar suas impressões digitais na cena do crime. Mas está deixando impressões de luvas. Se encontrarmos a luva com ele, ainda poderemos colocá-lo na cena do crime. Ele é sabido. Mas não brilhante.

     - E o que é que criminosos brilhantes usam? - perguntou Sachs.

     - Camurça forrada com algodão - explicou Rhyme. Em seguida, perguntou: - Onde está o filtro? Do aspirador de pó.

     O técnico esvaziou o filtro em forma de cone - parecido com um coador de café - sobre uma folha de papel branco.

     Prova vestigial...

     Promotores públicos, repórteres e jurados adoram pistas óbvias. Luvas sangrentas, facas, armas recém-disparadas, cartas de amor, sêmen e impressões digitais. A prova favorita de Lincoln Rhyme, porém, era a vestigial - poeira e efluentes nas cenas de crime, tão facilmente esquecidas por perpetradores.

     O aspirador, porém, nada recolhera de útil.

     - Muito bem - disse Rhyme -, vamos em frente. Agora, uma olhada nas algemas.

     Sachs enrijeceu-se quando Cooper abriu o saco de plástico e deixou as algemas caírem em cima de uma folha de papel de imprensa. Como previra Rhyme, era mínima a quantidade de sangue. O médico de plantão do serviço do legista tinha feito as honras da casa com uma serra, depois que um procurador do Departamento de Polícia de Nova York enviou uma autorização ao Instituto Médico Legal.

     Cooper examinou com todo cuidado as algemas.

     - Boyd & Keller. O fundo da linha. Nenhum número de série. - Borrifou o aço cromado com DFO e acendeu a PoliLight. - Nenhuma impressão digital, apenas uma mancha deixada pela luva.

     - Vamos abri-las.

     Cooper pegou uma chave genérica de algemas para abri-las. Usando uma seringa com proteção, jogou ar dentro do mecanismo.

     - Você ainda está furiosa comigo, Amélia - disse Rhyme. - Sobre as mãos.

     A pergunta pegou-a de guarda baixa.

     - Eu não fiquei furiosa - respondeu ela, após um momento. - Achei que aquilo era antiprofissional. O que você sugeriu.

     - Você sabe quem foi Edmond Locard?

     Amélia sacudiu a cabeça.

     - Um francês. Nascido em 1877. Ele fundou o Instituto de Criminalística da Universidade de Lyon. E estabeleceu a única regra que me orientou enquanto dirigi a Polícia Técnica. O Princípio da Troca, de Locard. Ele pensava que, em todas as ocasiões em que dois seres humanos entram em contato, algo de um é trocado com algo do outro, e vice-versa. Talvez poeira, sangue, células da pele, sujeira, fibras, resíduos metálicos. Pode ser difícil descobrir exatamente o que foi trocado e ainda mais difícil descobrir o que isso significa. Mas uma troca de fato ocorre... e por causa dela podemos prender nossos elementos desconhecidos.

     Esse fragmento de história não a interessou nem um pouco.

     - Você tem sorte - disse Mel Cooper a Sachs, sem levantar a vista. - Ele ia pedir a você e ao paramédico que fizessem uma autópsia no local e que examinassem o conteúdo do estômago dela.

     - Isso não teria sido útil - disse Rhyme, evitando os olhos de Amélia.

     - Eu o convenci a não pedir isso - continuou Cooper.

     - Autópsia - repetiu Sachs, suspirando, como se nada que viesse da parte de Rhyme pudesse surpreendê-la.

     Ora, ela nem está aqui, pensou Rhyme zangado. A mente dela está a milhares de quilômetros de distância.

     - Ah! - exclamou Cooper. - Encontrei alguma coisa. Acho que é um pedaço da luva.

     Cooper montou um pontinho na lâmina do microscópio composto. E examinou-o.

     - Couro. Cor avermelhada. Polido num dos lados.

     - Vermelha. Isso é bom - disse Sellitto. E explicou para Sachs: - Quanto mais esquisitas as roupas deles, mais fácil descobrir os perpetradores. Ninguém ensina isso na Academia, pode apostar. Em alguma ocasião, vou lhe contar como foi que prendemos Jimmy Plaid, que era da turma de Gambino. Lembra-se disso, Jerry?

     - A gente podia ver aquelas calças a quilômetros de distância - lembrou-se o detetive mais jovem.

     - O couro está esturricado - continuou Cooper. - Não há muita coisa na textura. Você tinha razão quando disse que as luvas eram velhas.

     - De que tipo de animal?

     - Eu diria que de pele de cabrito. Alta qualidade.

     - Se fossem novas, isso poderia significar que ele é rico - resmungou Rhyme. - Mas já que são velhas, ele pode tê-las achado na rua ou as comprado de segunda mão. Nada de deduções rápidas a partir dos acessórios usados por 238, ao que parece. Muito bem. Thom, adicione simplesmente ao perfil que as luvas são de pele de cabrito, avermelhadas. O que mais temos?

     - Ele usa loção após barba - lembrou-lhe Sachs.

     - Eu havia esquecido isso. Talvez para disfarçar outro cheiro. Elementos desconhecidos fazem isso, às vezes. Escreva isso também, Thom. Repetindo, como era o cheiro, Amélia? Você o descreveu.

     - Seco. Como gim.

     - O que me diz sobre a corda de varal de roupa? – perguntou Rhyme.

     Cooper examinou-a.

     - Já vi isso antes. Plástico. Várias dezenas de fios internos, compostos de seis a dez tipos diferentes de plástico e um... não, dois... filamentos metálicos.

     - Eu quero o nome do fabricante e a origem.

     Cooper sacudiu a cabeça.

     - Impossível. Genérico demais.

     - Droga! - murmurou Rhyme. - E o nó?

     - Bem, isso é estranho. Muito eficiente. Está vendo como enlaça duas vezes? PVC é a corda mais difícil de dar nó e este nó pára aqui.

     - A Polícia Técnica tem lá no centro um arquivo de nós?

     - Não.

     Imperdoável, pensou Rhyme.

     - Senhor?

     Rhyme virou-se para Banks.

     - Eu velejo um pouco...

     - Baseado em Westport - sugeriu Rhyme.

     - Bem, para dizer a verdade, sim. Como foi que soube?

     Se houvesse um teste de Polícia Técnica para localização da origem de Jerry Banks, o resultado seria positivo no tocante a Connecticut.

     - Um palpite de sorte

     - Não é um nó de marinheiro. Nunca vi um desses.

     - É bom saber isso. Pendure-o ali. - Rhyme, com um movimento de cabeça, indicou a parede, ao lado da foto polaróide do papel de celofane e o pôster de Monet. - Voltaremos a ele mais tarde.

     A campainha da porta tocou nesse momento e Thom desceu a escada para atender. Rhyme passou por um mau momento, pensando que talvez fosse o Dr. Berger, voltando para lhe dizer que não estava mais interessado no “projeto” de ambos.

     O som pesado das botas, porém, disse-lhe quem era que estava chegando.

     Os policiais da Unidade de Operações Especiais, todos eles grandalhões, todos de fisionomia séria, usando uniforme de combate, entraram educadamente na sala e inclinaram a cabeça para Sellitto e Banks. Todos eles eram homens de ação e Rhyme apostaria que, por trás de dez olhos imóveis, havia dez reações muito desfavoráveis à vista de um homem deitado para sempre de costas.

     - Cavalheiros, os senhores ouviram falar do sequestro na noite passada e da morte da vítima esta tarde. - E continuou, após ouvir o murmúrio de assentimento: - Nosso elemento desconhecido tem em seu poder outra vítima. Temos uma pista no caso e preciso que vocês procurem locais na cidade e consigam provas. Imediata e simultaneamente. Um homem, uma localização.

     - O senhor quer dizer - um policial bigodudo perguntou, em dúvida -, nada de apoio tático?

     - Os senhores não vão precisar disso.

     - Com todo devido respeito, senhor, não gosto de entrar em qualquer situação tática sem reforço. De um parceiro, pelo menos.

     - Não acredito que vá haver qualquer fogo de artifício. Os alvos são as maiores cadeias de mercados da cidade.

     - Mercados?

     - Não todos. Apenas um de cada cadeia. J&G's, ShopRite, For Warehouse...

     - O que exatamente vamos fazer?

     - Comprar canelas de vitela.

     - O quê?!

     - Um pacote em cada mercado. Lamento dizer que vou ter que lhes pedir que paguem a compra de seu próprio bolso, cavalheiros. Mas a Prefeitura os reembolsará. Oh, e precisamos delas com urgência.

    

     Ela estava deitada de lado, imóvel.

     Tendo acostumado os olhos à escuridão do velho túnel, podia ver os pequenos sacanas aproximando-se mais. Mantinha os olhos em um, em especial.

     A perna lhe doía horrivelmente, embora a maior dor fosse no braço, onde ele cortara fundo a pele. Como estava algemada com as mãos atrás das costas, não podia ver o ferimento, não sabia o quanto havia sangrado. Mas devia ter perdido muito sangue. Estava muito tonta e podia sentir o líquido pegajoso escorrendo pelos braços e lados do corpo.

     Som de atrito - garras afiadas como agulhas no concreto, corcovas cinzento-pardacento correndo pelas sombras. Os ratos continuavam a se aproximar lentamente. Devia haver uma centena deles.

     Ela se obrigou a ficar inteiramente imóvel e manteve a vista no grande rato preto. Schwarzie, foi o nome que lhe deu. Ele estava à frente dos outros, movendo-se para a frente e para trás, estudando-a.

     Aos dezenove anos de idade, Monelle Gerger já tinha feito duas viagens em volta do mundo. Pegando carona, fora até Sri Lanka, Camboja e Paquistão. Passou pelo Nebraska, onde as mulheres olharam fixamente e com desprezo para os anéis em torno das sobrancelhas e seios sem sutiã. Pelo Irã, onde os homens olhavam para seus braços como se fossem cães no cio. Dormiu em parques públicos na Cidade da Guatemala e passou três dias com as forças rebeldes na Nicarágua, após perder-se a caminho de um santuário de vida silvestre.

     Mas nunca teve tanto medo quanto naquele momento.

     Mein Gott.

     Mas o que mais a assustava era o que estava prestes a fazer consigo mesma.

     Um rato correu perto dela, o corpo marrom adiantando-se rápido, recuando, aproximando-se mais alguns centímetros. Os ratos estavam com medo, pensou ela, porque se pareciam mais com répteis do que com roedores. Nariz e cauda de serpente. E aqueles horríveis olhos vermelhos.

     Atrás deles viu Schwarzie, do tamanho de um gato pequeno. Ele se levantou sobre as ancas e olhou para aquilo que o fascinava. Vigiando. Esperando.

     Nesse momento, o pequenino atacou. Correndo a toda com os pés finos como agulhas, ignorando-lhe o grito abafado, ele veio rápido e direto. Rápido como uma barata, arrancou um pedacinho de sua perna cortada. A mordida doeu como se fosse fogo. Monelle soltou um uivo - de dor, sim, mas também de raiva. Eu não quero porra nenhuma com você! Bateu com toda força do calcanhar nas costas do rato, ouvindo um som surdo de coisa esmagada. O rato estremeceu uma vez e ficou imóvel.

     Outro correu para seu pescoço, arrancou um pedaço e saltou para trás, fitando-a, torcendo o nariz como se estivesse passando a língua em volta da pequena boca, saboreando o petisco.

     Dieser Schmerz...

     Estremeceu com a dor lancinante que se irradiava da mordida. Dieser Schmerz! A dor! Monelle obrigou-se a ficar novamente imóvel.

     O pequenino atacante preparou-se para outra corrida, mas, de repente, deu uma volta e se afastou. Monelle viu por quê. Schwarzie finalmente assumira a frente do grupo. Tinha vindo buscar o que queria.

     Ótimo, ótimo.

     Era por ele que ela estava esperando. Porque ele não parecera interessado em seu sangue ou carne. Chegara bem perto vinte minutos antes, fascinado pela fita prateada que lhe tapava a boca.

     O rato menor correu para dentro do grupo, enquanto Schwarzie vinha devagar para a frente, seus pés obscenamente minúsculos. Em seguida, tornou a avançar. Um metro e oitenta, um metro e cinquenta.

     Chegou a um metro.

     Monelle permaneceu absolutamente imóvel, respirando tão superficialmente quanto ousava, receando que uma inalação mais profunda o assustasse.

     Schwarzie parou. Adiantou-se novamente. E parou. A sessenta centímetros de sua cabeça.

     Não mova nenhum músculo.

     O lombo dele estava encurvado alto e os beiços continuavam a retrair-se sobre os dentes marrons e amarelos. Ele se moveu mais trinta centímetros, parou, os olhos virando rápidos de um lado para o outro. Sentou-se, esfregou uma pata na outra e adiantou-se outra vez.

     Monelle Gerger fingiu-se de morta.

     Mais quinze centímetros. Vorwãrts!

     Venha!

     Ele chegou a seu rosto. Monelle sentiu cheiro de lixo e óleo no corpo do rato, de fezes, de carne podre. Ele farejou e ela sentiu a coceira insuportável dos bigodes do rato no nariz quando os pequenos dentes emergiram da boca e começaram a roer a fita.

     Durante cinco minutos, ele roeu em volta da boca. Outro rato aproximou-se e fincou os dentes em seu tornozelo. Ela fechou os olhos para a dor e fez força para ignorá-la. Schwarzie expulsou-o dali e em seguida ficou em pé nas sombras, estudando-a.

     Vorwãrts, Schwarzie! Venha!

     Lentamente, ele veio em pés macios. Com lágrimas lhe escorrendo pelo rosto, Monelle relutantemente baixou a boca para ele.

     Roendo, roendo...

     Venha!

     Monelle sentiu a respiração imunda, quente, na boca, quando ele rompeu o plástico e começou a rasgar e puxar grandes pedaços do plástico brilhante. O rato puxou os pedaços da boca e apertou-os gulosamente com as garras dos pés dianteiros.

     Já é suficiente?, pensou ela.

     Teria que ser. Ela não podia aguentar mais.

     Devagar, levantou a cabeça, um milímetro de cada vez. Schwarzie pestanejou e inclinou-se curioso para a frente.

     Monelle abriu a boca e ouviu o som maravilhoso da fita se rasgando. Sugou profundamente ar para os pulmões. Podia respirar de novo!

     E podia gritar, pedindo socorro.

     - Bitte, helfen Sie mir! Por favor, me ajudem!

     Schwarzie recuou, espantado com o uivo desarticulado, deixando cair a preciosa fita prateada. Mas não foi muito longe. Parou, voltou-se e levantou-se sobre as ancas gordas.

     Ignorando-lhe o corpo preto, encurvado, ela chutou o pilar onde estava amarrada. Poeira e sujeira desceram flutuando como se fossem neve, mas a madeira resistiu. Gritou até sentir a garganta em fogo.

     - Bitte. Ajudem-me!

     O barulho pegajoso do tráfego engoliu o som.

     Silêncio por um momento. Em seguida, Schwarzie aproximou-se dela novamente. E não estava sozinho dessa vez. O bando repugnante o acompanhou indo e vindo, nervosos. Mas atraídos irresistivelmente pelo cheiro tentador de seu sangue.

     Osso e madeira, madeira e osso.

    

     - Mel, o que é que temos aí?

     Rhyme indicava com a cabeça o computador ligado ao cromatógrafo-espectrógrafo. Cooper submetera a novo teste a areia encontrada na lasca de madeira.

     - Continua rica em nitrogênio. Não combina com as tabelas.

     Três testes separados e os mesmos resultados. Um exame na unidade mostrou que ela estava funcionando perfeitamente. Cooper pensou um pouco e disse:

     - Esse excesso de nitrogênio... talvez de um fabricante de armas ou munições.

     - Isso seria Connecticut, não Manhattan.

     Rhyme olhou para o relógio. Seis horas e trinta minutos. Como o tempo corria rapidamente naquele dia. E como tinha corrido lentamente nos três últimos anos e meio. Sentia-se como se tivesse ficado acordado durante dias e dias.

     O jovem detetive examinou atentamente o mapa de Manhattan, afastando para um lado a vértebra esbranquiçada que tinha caído mais cedo no chão.

     O disco foi deixado ali pelo especialista de Rhyme em recuperação, Peter Taylor. Ele foi um dos primeiros que consultou. O médico examinou-o como bom conhecedor, recostou-se em seguida na cadeira de vime e tirou alguma coisa do bolso.

     - Hora de mostrar e dizer - começou o médico.

     Rhyme olhou para a mão aberta.

     - Esta aqui é a quarta vértebra cervical. Exatamente igual à existente em seu pescoço. A que se partiu. Está vendo essas pequenas caudas na extremidade? - O médico revirou-a várias vezes durante um momento. - No que é que você pensa quando a vê?

     Rhyme respeitava-o - um homem que não o tratava como se ele fosse uma criança, um débil mental ou um grande chato -, mas naquele dia, como não estava com vontade de fazer o jogo de inspiração, não respondeu.

     Taylor, ainda assim, continuou:

     - Alguns de meus pacientes pensam que ela se parece com uma arraia. Outros dizem que lembra uma nave espacial. Ou um avião. Ou um caminhão. Sempre que faço a pergunta, as pessoas geralmente a comparam com alguma coisa grande. Ninguém jamais diz: “Oh, com um pedaço de cálcio ou magnésio.” Entenda, elas não gostam da idéia de que alguma coisa tão insignificante transformou sua vida em um verdadeiro inferno.

     Rhyme voltou a olhar ceticamente para o visitante, mas o tranquilo médico de cabelos grisalhos era um veterano no tratamento de paraplégicos e disse bondosamente:

     - Não me desligue, Lincoln.

     Taylor tinha aproximado mais o disco do rosto de Rhyme.

     - Você está pensando que é injusto que esta coisinha lhe cause tanto sofrimento. Mas esqueça isso. Esqueça. Quero que você se lembre como ela era, antes do acidente. O bom e o ruim na sua vida. Felicidade, tristeza... Você pode sentir isso novamente. - O rosto do médico se tornara imóvel. - Mas, para ser franco, tudo que eu vejo agora é alguém que desistiu de lutar.

     Taylor deixou a vértebra na mesinha-de-cabeceira. Por acaso, ao que parecia. Mas Rhyme veio a pensar depois que aquele ato tinha sido deliberado. Nos últimos meses, enquanto tentava decidir se iria se suicidar ou não, olhou fixamente para o pequeno disco. E ele tinha se tornado um emblema do argumento de Taylor - um argumento em favor da vida. Mas, no fim, esse lado perdeu. As palavras do médico, por mais válidas que fossem, não podiam superar o peso da dor, da exaustão e do sofrimento que Lincoln Rhyme sentia, dia após dia.

     Nesse momento, desviou a vista do disco... olhou para Amélia Sachs, e disse:

     - Quero que você pense novamente na cena do crime.

     - Eu lhe contei tudo que vi.

     - Não o que você viu. Quero saber o que foi que você sentiu.

     Rhyme lembrou-se das milhares de vezes em que tinha processado uma cena de crime. Às vezes, acontecia um milagre. Olhava em volta quando, de algum lugar, surgiam idéias sobre o elemento desconhecido. Não podia explicar como isso acontecia. Os behavioristas falavam em elaboração de perfil como se o tivessem inventado. Os criminalistas, porém, vinham fazendo isso há centenas de anos. Percorra a grade, ande pelo lugar onde ele andou, descubra o que ele deixou no local e o que ele levou - e você sairá da cena do crime com um perfil tão nítido quanto um retrato.

     - Diga-me - insistiu ele. - Como foi que você se sentiu?

     - Inquieta. Tensa. - Amélia encolheu os ombros. - Não sei. Realmente, não sei. Lamento.

     Se tivesse podido se mover, Rhyme teria saltado da cama, agarrado Amélia pelos ombros e lhe dado umas boas sacudidas. E gritado: Mas você sabe do que é que estou falando! Sei que você sabe. Por que você não colabora comigo?... Por que está me ignorando?

     Nesse momento, compreendeu uma coisa... Que ela estava lá, no porão cheio de vapor. Olhando para o corpo arruinado de T.J. Sentindo aquele cheiro nauseante. Viu isso na maneira como o polegar de Amélia soltou uma cutícula sangrenta, viu isso na maneira como ela mantinha a polidez da terra de ninguém entre os dois. Ela detestou ficar naquele porão nojento e odiava-o por lhe lembrar que uma parte sua ainda continuava lá.

     - Você está cruzando o porão - disse ele.

     - Realmente não acredito que possa ajudar em mais alguma coisa.

     - Vamos continuar o jogo - disse ele, lutando para controlar a impaciência. Sorriu. - Diga o que foi que você pensou.

     O rosto da moça tornou-se imóvel e ela respondeu:

     - São... apenas pensamentos. Impressões que todos têm.

     - Mas você estava lá. Todos não estavam. Diga.

     - Era assustador ou alguma coisa assim...

     Ela pareceu lamentar a palavra desajeitada.

     Antiprofissionl.

     - Eu senti...

     - Alguém espionando-a? - perguntou ele.

     As palavras dele surpreenderam-na.

     - Sim, foi exatamente isso.

     O próprio Rhyme sentira isso antes. Muitas vezes. Havia sentido isso três anos e meio antes, curvado sobre o corpo em decomposição do jovem policial, tirando uma fibra do uniforme. Teve certeza de que havia alguém por perto. Mas não havia ninguém - apenas uma grande viga de carvalho que escolheu aquele exato momento para soltar-se com um chiado, partir-se e descer sobre o ponto onde se localizava sua quarta vértebra cervical, com todo o peso da terra.

     - O que foi que você pensou, Amélia?

     Ela não resistia mais. Os lábios estavam relaxados, os olhos se dirigiram para o pôster enrolado de Nighthawks - pessoas sentadas para jantar, solitárias, ou se sentindo contentes por estarem sozinhas. Respondeu:

     - Eu me lembro de ter dito a mim mesma: “Cara, que lugar mais velho.” Era como uma das fotografias que a gente vê de fábricas e coisas assim do início do século. E eu...

     - Espere - cortou-a Rhyme. - Vamos pensar nisso. Velhas...

     Seus olhos moveram-se para o mapa do Levantamento Randel.

     Antes, ele tinha comentado o interesse do elemento desconhecido pela Nova York histórica. E o prédio onde T.J. Colfax morreu era velho, também. E também o túnel da estrada de ferro onde haviam encontrado o primeiro corpo. Os trens da New York Central costumeiramente corriam pela superfície. Mas tinha havido tantas mortes de gente cruzando a linha que a Avenida Onze ganhou o nome de Avenida da Morte e a estrada foi finalmente obrigada a desviar as linhas para o subsolo.

     - E a Pearl Street - disse Rhyme pensativo para si mesmo – era uma importante linha auxiliar na velha Nova York. Por que ele está tão interessado em coisas antigas? - Voltou-se para Sellitto e perguntou: - Terry Dobyns ainda trabalha para nós?

     - O psiquiatra? Ainda. Trabalhamos juntos em um caso no ano passado. Falando nisso, ele perguntou por você. Disse que ligou umas duas vezes e que você nunca...

     - Certo, certo, certo - interrompeu-o Rhyme. - Chame-o aqui. Quero saber o que ele pensa sobre os hábitos mentais do 238. Agora, Amélia, o que foi mais que você pensou?

     Ela encolheu os ombros, mas com uma indiferença grande demais.

     - Em nada.

     - Nada?

     E onde era que ela escondia seus sentimentos?, especulou ele, lembrando-se de alguma coisa que Blaine dissera certa vez, vendo uma mulher deslumbrante descendo a Quinta Avenida: Quanto mais belo o pacote, mais difícil desembrulhado.

     - Não sei... Tudo bem, lembro-me de uma coisa em que pensei. Mas ela não significa coisa alguma. Não é nada como se fosse uma observação profissional.

     Profissional...

     É uma merda quando você estabelece seus próprios padrões, não é, Amélia?

     - Vamos ouvi-la.

     - Quando você estava querendo que eu fingisse que era ele? E quando eu descobri onde ele ficou para olhar para ela?

     - Continue.

     - Bem, eu pensei... - Durante um momento, pareceu que lágrimas ameaçavam encher seus belos olhos. Eles eram de um azul iridescente, notou Rhyme. Mas, no mesmo instante, ela se controlou. - Eu me perguntei se ela teria um cachorro. A moça, a Colfax.

     - Um cachorro? Por que pensou nisso?

     Amélia hesitou por um momento e, em seguida, respondeu:

     - Uma amiga minha... há alguns anos. Estávamos combinando comprar um cachorro quando, bem, quando fôssemos morar juntas. Eu sempre quis ter um cachorro. Um collie. Foi engraçado. Essa era a raça que minha amiga também queria. Mesmo antes de a gente se conhecer.

     - Um cachorro. - O coração de Rhyme bateu como besouros se chocando em uma porta de tela no verão. - E...?

     - Eu pensei que aquela mulher...

     - T.J. - disse Rhyme.

     - T.J. - continuou Sachs. - Simplesmente pensei como aquilo era triste... se tivesse um bicho de estimação, ela não voltaria mais para casa e para ele e não brincaria mais com ele. Não pensei em namorados ou marido dela. Pensei em bichos de estimação.

     - Mas por que esse pensamento? Cachorros, bichos de estimação? Por quê?

     - Não sei.

     Silêncio.

     Finalmente, Amélia disse:

     - Acho que, vendo-a amarrada ali... E pensei nele ali, de pé, vigiando-a. Simplesmente ali, entre os tanques de óleo. Era como se estivesse observando um animal numa gaiola.

     Rhyme olhou para as ondas sinoidais na tela do computador do GC-MS.

   Animais... Nitrogênio...

     - Merda! - exclamou ele.

     Cabeças voltaram-se para ele.

     - É merda! - disse Rhyme, olhando para a tela.

     - É, claro! - disse Cooper, excitado, penteando os cabelos com as mãos. - Todo esse nitrogênio. É esterco. E esterco velho, por falar nisso.

     De repente, Lincoln Rhyme teve um daqueles momentos em que havia pensado antes. O pensamento simplesmente explodiu em sua mente. A imagem era de cordeiros.

     - Lincoln, você está bem? - perguntou Sellitto.

     Um cordeiro, andando tranquilamente pela rua.

     Era como se ele estivesse observando um animal...

     - Thom - perguntou Sellitto nesse momento -, ele está bem?

     ...numa gaiola.

     Rhyme imaginou o animal, confiante. Um chocalho no pescoço, dezenas de outros vindo atrás dele.

     - Lincoln - disse Thom, preocupado -, você está suando. Está se sentindo bem?

     - Psiu - ordenou o criminalista.

     Sentiu a coceira do suor descendo pelo rosto. Inspiração e ataque do coração. Os sintomas são estranhamente semelhantes. Pense, pense...

     Ossos, postes de madeira e esterco...

     - Isso mesmo! - disse baixinho. Um cordeiro judas, levando o rebanho para o abate. - Currais - disse ele para a sala. - Ela está sendo mantida em cativeiro em um curral.

    

     - Não há currais em Manhattan.

     - No passado, Lon - lembrou Rhyme. - Coisas antigas excitam nosso rapaz. Dão tesão nele. Temos que pensar em velhos currais. Quanto mais antigos, melhor.

     Ao relizar pesquisas para seu livro, Rhyme leu sobre um assassinato de que fora acusado Owney Madden, um bandido refinado: de ter matado a tiros um contrabandista rival em frente à sua casa na Hell's Kitchen. Madden nunca foi condenado - pelo menos, não por esse crime em particular. No banco das testemunhas, falando com sua voz melodiosa, de sotaque britânico, ele deu ao tribunal uma aula sobre traição. “Todo esse caso foi inventado por meus rivais, que estão contando mentiras a meu respeito. Meritíssimo, sabe o que é que eles me lembram? No meu bairro, na Hell's Kitchen, rebanhos de cordeiros eram levados pelas ruas, dos currais para os matadouros na rua 42. E sabe quem ia à frente deles? Não um cachorro, não um homem. Mas um deles. Um cordeiro judas, com um chocalho em volta do pescoço. Ele ia à frente do rebanho, subindo aquela rampa. Mas parava aí e o resto entrava. Eu sou um cordeiro inocente e essas testemunhas que depõem contra mim são os judas.”

     - Ligue para a biblioteca, Banks - continuou Rhyme. - Eles devem ter lá um historiador.

      

     EMENTO DESCONHECIDO 238

     Aparência Residência Veículo Diversos

     Branco, homem, estatura baixa

     Roupa escura

     Luvas velhas, pelica, avermelhadas

     Loção após barba: para encobrir cheiro?

     Máscara de esquiador? Azul-marinho?

     Prov. tem casa segura

     Táxi Yellow Cab

     Conhece proc. de CC

     Possivelmente tem antec. criminais

     Conhece levantamento de impressões digitais

     Arma = .32 Colt

     Amarra vít. com nós incomuns

     O “Antigo” o atrai

        

     O jovem detetive abriu o telefone celular e fez a ligação. A voz baixou um tom ou dois enquanto falava. Depois de explicar o que necessitavam, parou de falar e olhou para o mapa da cidade.

     - E então? - perguntou Rhyme.

     - A biblioteca está procurando alguém. Conseguiram... - baixou a voz enquanto alguém respondia do outro lado e ele repetia o pedido. Começou a balançar a cabeça para baixo e disse às pessoas na sala: - Consegui duas localizações... não, três.

     - Quem é? - perguntou Rhyme. - Com quem você está falando?

     - Com o curador dos arquivos da cidade... Ele disse que houve três grandes áreas de currais em Manhattan. Uma no West Side, perto da rua 60... Outra no Harlem, nas décadas de 1930 e 1940. E, finalmente, no Lower East Side durante a Revolução.

    

     - Precisamos de endereços, Banks. Endereços.

     Banks voltou à escuta.

     - Ele não tem certeza.

     - Por que ele não pode verificar isso? Diga a ele para fazer uma pesquisa!

     - Ele ouviu o que o senhor disse, senhor - respondeu Banks. - E perguntou: onde? Verificar onde? Naquela época não havia ainda as Páginas Amarelas. Ele está examinando velhos...

     - Mapas demográficos de bairros comerciais, sem nomes de rua - especulou Rhyme. - Obviamente. Diga a ele para dar um palpite.

     - É isso que ele está fazendo. Está pensando.

     - Precisamos que ele dê um palpite logo.

     Banks continuou a escutar, inclinando a cabeça.

     - O que, o que, o que, o quê?

     - Perto da rua 60 com a Décima - respondeu o jovem policial. E um momento depois: - Lexington, perto do rio Harlem.... E em seguida... onde ficava a fazenda Delaney. Isso fica próximo da Delaney Street?

     - Claro que fica. A partir de Little Italy, o caminho todo até o East River. Um bocado de território. Quilômetros. Pergunte a ele se não pode ser mais preciso.

     - Nas imediações da Catherine Street. Lafayette... Walker. Ele não tem certeza.

     - Perto dos prédios das cortes de justiça - sugeriu Sellitto e voltou-se para Banks: - Ponha as equipes de Haumann em ação. Divida-as. Diga-lhes para visitar todos esses três bairros.

     O jovem detetive fez a ligação e em seguida levantou a vista:

     - E agora, o quê?

     - Odeio essa merda de esperar - murmurou Sellitto.

     Sachs virou-se para Rhyme:

     - Posso usar seu telefone?

     Rhyme indicou com a cabeça o aparelho na mesinha-de-cabeceira.

     Ela hesitou por um momento.

     - Vocês têm um lá fora?

     E apontou para o corredor.

     Rhyme confirmou com um aceno de cabeça.

     Com uma postura perfeita, ela saiu da sala. Pelo espelho do corredor, ele pôde vê-la, solene, dando o precioso telefonema. Para quem?, perguntou a si mesmo. Namorado? Marido? Creche? Por que tinha hesitado ao mencionar a “amiga”, quando lhes falou sobre o collie? Havia uma história por trás disso, apostava.

     Quem quer que ela estivesse procurando não estava no número chamado. Rhyme notou que seus olhos se transformaram em dois seixos azul-escuros quando não recebeu resposta. Ela ergueu a vista e surpreendeu Rhyme observando-a do vidro empoeirado. Virou as costas. Repôs o telefone no gancho e voltou para a sala.

     Houve silêncio durante cinco minutos inteiros. Rhyme carecia do mecanismo que a maioria das pessoas usa para aliviar tensão. Quando tinha os movimentos, fora um maníaco em andar de um lado para o outro, o que deixava loucos os funcionários da Polícia Técnica. Nesse momento, seus olhos vasculhavam energicamente o mapa Randel da cidade, enquanto Sachs enfiava a mão sob o quepe de patrulheira e coçava o couro cabeludo. O invisível Mel Cooper catalogava provas, calmo como um cirurgião.

     Todos, menos uma pessoa na sala, saltaram quando o telefone de Sellitto deu sinal. Ele escutou e os lábios se abriram num sorriso.

     - Ouvi!

     Era de um dos homens de Haumann, que se encontrava no cruzamento da Onze com a rua 60. Tinham ouvido gritos de mulher vindo de algum lugar por ali. Não sabiam com certeza onde. Estavam fazendo investigação de porta em porta.

      

     - Calce seus sapatos de corrida - ordenou Rhyme a Sachs.

     Notou seu ar de frustração. Ela olhou para o telefone de Rhyme, como se o aparelho pudesse tocar a qualquer momento com uma ordem do governador de sua retirada daquele caso. Em seguida, olhou para Sellitto, que examinava nesse momento um mapa tático da Unidade de Operações Especiais cobrindo a área do West Side.

     - Amélia - disse Rhyme -, nós perdemos uma vítima. Foi uma pena. Mas não temos que perder mais outra.

     - Se você a tivesse visto - murmurou ela. - Se apenas tivesse visto o que ele fez com ela...

     - Mas eu vi, Amélia - disse ele tranquilamente, os olhos implacáveis e desafiadores. - Eu vi o que aconteceu com T.J. Vi o que aconteceu com corpos deixados em malas quentes durante um mês. Vi o que meio quilo de C4 faz com braços, pernas e rostos. Processei a cena do crime no clube social Happy Land. Mais de oitenta pessoas queimadas até a morte. Tiramos fotos polaróide do rosto das vítimas, ou do que restava delas, para que fossem identificadas pelas famílias... porque não há maneira de um ser humano passar por aquelas fileiras de corpos e permanecer em seu juízo. Exceto nós. Não tínhamos opção. - Tomou uma profunda respiração para tentar combater a dor lancinante que lhe percorreu o pescoço. - Entenda, se vai ter sucesso neste trabalho, Amélia... Se quer ter sucesso na vida, vai ter que aprender a esquecer os mortos.

     Um após outro, todos ali na sala haviam interrompido o que estavam fazendo e olhavam para os dois.

     Nada de palavras gentis nesse momento da parte de Amélia Sachs. Nada de sorrisos polidos. Ela tentou por um momento manter o rosto impassível. Mas o rosto era transparente como vidro. A fúria que sentia contra ele - desproporcional ao comentário que ele tinha feito - fervia dentro dela, o rosto longo contraído sob a força de uma sombria energia. Empurrou para o lado um cacho dos cabelos ruivos e agarrou na mesa os fones de ouvido. No alto da escada, parou e lançou-lhe um olhar de secar pimenteira, lembrando a Rhyme que nada havia de mais frio que o sorriso frio de uma bela mulher.

     E, por alguma razão, Rhyme se descobriu pensando: Que bom ter você de volta, Amélia.

      

     - O que foi que conseguiu? Você tem mercadoria para entregar, tem uma história para contar, tem fotos?

     Malandro estava sentado em um bar no East Side de Manhattan, na Terceira Avenida - que para a cidade era o que os shopping centers são para os subúrbios grã-finos. Aquele bar de segunda classe logo estaria agitado com candidatos a yuppies. Nesse momento, porém, era o refúgio de moradores locais malvestidos, que faziam refeições de peixe duvidoso e saladas amolecidas.

     O homem magro, com uma pele que lembrava ébano, usava uma camisa muito branca e um terno muito verde. Inclinou-se mais para Malandro.

     - Você tem notícias, tem códigos secretos, tem cartas? Tem alguma merda?

     - Cara... Ah...

     - Você não está rindo quando diz “Ah” - observou Fred Dellray, na realidade, D'Ellret, mas isso fora há gerações. Tinha l,88m de altura, raramente sorria, a despeito de falar em gíria, e era um agente especial de primeira-classe da Superintendência do FBI em Manhattan.

     - Não, cara. Não estou rindo.

     - Então, o que foi que você conseguiu!

     - A coisa demora, cara.

     Malandro, um homem de pequena estatura, coçou o cabelo seboso.

     - Mas você não tem tempo. Tempo é precioso, o tempo voa, e tempo é uma coisa que você não tem. Entendeu?

     Dellray pôs a mão enorme sob a mesa, na qual havia duas xícaras de café, e apertou a coxa de Malandro até que ele gemeu.

     Seis meses antes, aquele cara magrelo tinha sido flagrado tentando vender M-16s automáticos a uma dupla de tipos fanáticos da direita que - fossem isso na verdade ou não - eram também agentes do BATF.

     Os federais, claro, não queriam o próprio Malandro, aquela coisa pequenina, de olhos esbugalhados, sebosa. Queriam quem quer que estivesse fornecendo os fuzis. A ATF obteve algum sucesso, mas não eram esperados estouros de depósitos clandestinos de armas, de modo que o entregaram para Dellray, o Número Uno do FBI para tratar desses casos, e descobrir se o homenzinho podia ter alguma utilidade. Até esse momento, porém, ele tinha provado que era apenas um rato irritante, que aparentemente não tinha nem informações confidenciais, nem códigos secretos e nem mesmo merda nenhuma para passar aos federais.

     - A única maneira de a gente evitar fazer uma acusação contra você, qualquer acusação, é você nos passar alguma coisa bela e nojenta. Estamos entendidos neste particular?

     - Não tenho nada para vocês agora, é isso o que estou dizendo. Simplesmente agora.

     - Mentira, mentira. Você tem alguma coisa pra contar. Posso ver isso nas suas fuças. Você sabe de alguma coisa, seu sacana.

     Um ônibus parou do lado de fora, com um silvo do freio a ar Um grupo de paquistaneses cascateou pela porta.

     - Cara, essa merda de conferência das Nações Unidas - murmurou Malandro -, para que diabos eles vieram para cá? Esta cidade já está atravancada demais. Todos eles são estrangeiros.

     - “Merda de conferência”. Seu safadinho, seu bostinha – disse Dellray. - O que é que você tem contra a paz mundial?

     - Nada.

     - Agora me conte alguma coisa boa.

     - Não sei de nada bom.

     - Com quem você estava conversando? - Dellray sorriu diabolicamente. - Eu sou o Camaleão. Posso rir e ficar feliz, ou posso fazer cara feia e apertar.

     - Não, cara, não - guinchou Malandro. - Merda, isso dói. Pare com isso.

     O garçom do bar lançou a vista sobre eles. Um rápido olhar de Dellray e ele voltou a enxugar os copos.

     - Tudo bem, eu sei de uma coisa. Mas preciso de ajuda. Preciso...

     - Hora de apertar, de novo.

     - Vá se foder, cara. Simplesmente, vá se foder!

     - Oh, isso é o que eu chamo de um diálogo esperto – retrucou Dellray. - Você até parece que está trabalhando nesses filmes ordinários, você sabe, o bandido e o mocinho finalmente se encontram. Talcomo Stallone e qualquer outro cara. E tudo que um consegue dizer ao outro é: “Foda-se, cara.” “Não, foda-se você.” Agora, você vai me contar alguma coisa que valha a pena. Estamos entendidos?

     E simplesmente olhou para Malandro, até que ele pediu arrego.

     - Tudo bem, o negócio é o seguinte. Estou confiando em você, cara, estou mesmo.

     - Sei, sei, sei. O que foi que descobriu?

     - Eu estava conversando com Jackie. Conhece Jackie?

     - Conheço.

     - E ele estava me contando.

     - O que era que ele estava contando?

     - Ele me disse que tinha ouvido uma coisa, que alguém estava indo e vindo esta semana, fazendo isso nos aeroportos.

     - O que era que estava entrando e saindo? Mais fuzis M-16?

     - Eu lhe disse, cara, não foi nada que eu fiz. Estou contando o que Jackie...

     - ...lhe disse.

     - Certo, cara. Apenas de modo geral, sabia? - Malandro virou os grandes olhos castanhos para Dellray. - Eu ia mentir pra você?

     - Jamais perca sua dignidade - avisou solenemente o agente, apontando um dedo severo para o peito de Malandro. - Agora, que história é essa sobre aeroportos? Kennedy? La Guardia?

     - Não sei. Tudo que sei é que alguém ia a um aeroporto aqui. Alguém que era muito mau.

     - Dê um nome.

     - Não soube de nome.

     - Onde está Jackie?

     - Não sei, droga. África do Sul, acho. Talvez, Libéria.

     - O que é que tudo isso significa?

     Dellray apertou novamente o cigarro.

     - Acho que havia uma chance de alguém se ferrar, você sabe, de modo que ninguém ia receber as remessas que vinham.

     - Dê um palpite.

     Malandro se encolheu todo de medo, mas Dellray não estava pensando em atormentar mais o homenzinho. Estava ouvindo sinos de alarme: Jackie - um traficante de armas que os dois departamentos conheciam há anos - podia ter ouvido alguma coisa de um de seus clientes, soldados que estavam na África, na Europa Central, em células de milícias na América, sobre algum ataque terrorista em aeroportos. Normalmente, Dellray não pensaria em coisa alguma sobre um assunto como esse, exceto por aquele sequestro no JFK na noite passada. Não deu muita atenção ao caso - era um caso do DPNY. Mas, nesse momento, estava pensando também naquele ataque a bomba frustrado na reunião da UNESCO em Londres, num desses dias.

     - Seu amigo lhe disse mais alguma coisa?

     - Não, cara. Nada. Ei, estou com fome. A gente não pode comer alguma coisa?

     - Lembra-se do que eu lhe disse sobre dignidade? Pare de gemer. - Dellray levantou-se. - Vou ter que dar um telefonema.

    

     O VRR derrapou e parou na rua 60.

     Sachs tirou do veículo a valise usada nas cenas de crime, a PoliLight e a grande lanterna de doze volts.

     - Vocês chegaram a ela a tempo? - gritou Sachs para um membro da Operações Especiais. - Ela está bem?

     Ninguém respondeu, no início. Em seguida, ela ouviu gritos.

     - O que é que está acontecendo? - disse ela em voz baixa, correndo arquejante para a grande porta, que havia sido derrubada pelos homens da Operações Especiais. A porta abria para uma grande entrada de automóveis que descia para um prédio de tijolos abandonado.

     - Ela ainda está lá?

     - Está tudo bem.

     - Por quê? - perguntou uma chocada Amélia Sachs.

     - Recebemos ordens de não entrar.

     - Não entrar? Ela está gritando. Não estão ouvindo?

     Um policial da UOE respondeu:

     - Eles nos disseram para esperar por você.

     Eles. Não, não eles, absolutamente. Lincoln Rhyme. Aquele filho da puta.

     - É você quem deve encontrá-la - disse o policial. - Você é quem deve entrar.

     Amélia ligou os fones de ouvido.

     - Rhyme! - disse secamente. - Você está na linha?

     Nenhuma resposta... O covarde escroto.

     Esquecer os mortos... Filho da puta! Furiosa como se sentiu ao descer como um pé-de-vento a escada da casa dele há alguns minutos, nesse momento ela estava duplamente furiosa.

     Olhou para trás e notou um paramédico ao lado do ônibus da UOE.

     - Você, venha comigo.

     Ele deu um passo à frente e viu que ela sacava a arma. Parou.

     - Estou fora - disse o paramédico. - Não sou obrigado a entrar

     até que a área esteja segura.

     - Agora! Mova-se!

     Ela girou na direção dele e ele deve ter visto mais boca de arma de fogo do que queria. Fez uma careta e correu atrás dela. Ouviram um grito que vinha do subsolo.

     - Aiiii! Hilfe! - Depois soluços.

     Jesus! Sachs começou a correr para a porta enorme, de uns quatro metros de altura, e para a escuridão esfumaçada no lado de dentro.

     Dentro da cabeça, ouviu uma voz: Você é ele, Amélia. O que é que você está pensando?

     Vá embora, disse ela mudamente.

     Lincoln Rhyme, porém, recusou-se a desaparecer.

     Você é um assassino e um seqüestrador, Amélia. Por onde você andaria, no que é que tocaria?

     Esqueça! Eu vou salvá-la. Foda-se a cena do crime...

     - Mein Gott! Por favooor! Al... guém! Por favooor, me ajudem!

     Vá, gritou Sachs consigo mesma. Corra! Ele não está aqui.

     Você está em segurança. Vá até ela, vá...

     Acelerou, a valise de material chocalhando enquanto corria. Em seguida, já uns sete metros dentro do túnel, parou. Não queria saber que lado tinha ganho a parada.

     - Oh, foda-se - cuspiu. Pôs a valise no chão e abriu-a. Bruscamente, perguntou ao paramédico: - Você, qual é o seu nome?

     O jovem, nervoso, respondeu:

     - Tad Walsh. Quero dizer, o que é que está acontecendo?

     E olhou para dentro da escuridão.

     - Oh... Bitte, helfen Sie mir!

     - Dê-me cobertura - disse Sachs baixinho.

     - Cobertura? Espere aí, isso não é minha atribuição.

     - Pegue a arma, certo?

     - Eu devo dar proteção a você contra o quê?

     Enfiando a automática na mão do rapaz, ela caiu de joelhos.

     - Puxei a trava de segurança. Tenha cuidado.

     Amélia pegou dois elásticos e passou-os em volta dos sapatos. Retomando a pistola, disse a ele que fizesse o mesmo com os elásticos.

     Com mãos trêmulas, o rapaz fez o que ela mandou.

     - Estou justamente pensando...

     - Calado. Ele ainda pode estar aqui.

     - Espere aí, madame - disse baixinho o paramédico. - Essa não é a descrição de minhas funções.

     - Nem das minhas. Segure esta luz. - E entregou a lanterna ao rapaz.

     - Mas se ele ainda estiver aqui, provavelmente vai atirar na luz. Quero dizer, era nisso que eu atiraria.

     - Neste caso, mantenha a luz alta. Acima de meu ombro. Eu entro na frente. Se alguém levar um tiro, serei eu.

     - Nesse caso, o que é que faço?

     Tad parecia um adolescente falando.

     - Eu mesma vou correr como o diabo - disse Sachs baixinho. - Agora, siga-me. E mantenha firme esse facho de luz.

     Levando a valise preta da Polícia Técnica na mão esquerda, com a arma apontada para a frente, olhou para a porta e os dois entraram na escuridão. Ela viu novamente as conhecidas marcas de vassoura, exatamente como na outra cena de crime.

     - Bitte nicht, bitte nicht, bitte... - Um curto grito e depois silêncio.

     - O que diabo está acontecendo lá embaixo? - murmurou Tad.

     - Shhhhh - silvou Amélia.

     Andaram devagar. Sachs soprou os dedos que empunhavam a Glock - para secar o suor pegajoso - e, com todo cuidado, olhou para possíveis alvos, como pilares de madeira, sombras, maquinaria abandonada, iluminados pela lanterna mantida oscilante nas mãos de Tad.

     Não encontrou pegadas.

     Claro que não. Ele é sabido.

     Mas nós também somos sabidos, ouviu Lincoln Rhyme dizer em sua mente. E ela lhe disse que calasse a boca.

     Mais devagar nesse momento.

     Mais um metro e meio. Parada. Novamente movendo-se devagar. Fazendo força para ignorar os gemidos da moça. Sentiu aquilo novamente - aquela sensação de estar sendo espionada, o arrastamento suave do aparelho de mira de uma arma seguindo-a. O colete, pensou, não deteria uma bala de metal. A metade dos bandidos, de qualquer modo, usava Black Talons - de modo que um tiro numa perna ou braço matava o cara com tanta eficiência quanto um tiro no peito. E com muito mais dor. Nick tinha lhe contado que uma dessas balas podia abrir em dois um corpo humano. Um de seus parceiros, atingido por dois desses projéteis, havia morrido em seus braços.

      Acima e atrás...

     Pensando nele, lembrou-se de uma noite, deitada sobre o sólido ombro de Nick, olhando para a silhueta de seu belo rosto italiano no travesseiro, enquanto ele lhe contava sobre a invasão de um local para salvar um refém. “Quem quiser pegá-la quando você entrar, vai fazer isso de cima e de trás...”

     - Merda. - Deixou-se cair em um agachamento, girando em volta de si mesma, apontando a Glock para o teto, pronta para esvaziar todo o carregador.

     - O quê? - murmurou Tad, acovardando-se. - O quê?

     O vazio escancarou-se para ela.

     - Nada. - Respirou fundo e levantou-se.

     - Não faça isso.

     Os dois ouviram um som de engasgamento à frente.

     - Jesus! - disse Tad novamente. - Odeio esta coisa.

     Esse cara é bicha, pensou ela. Sei disso porque ele está dizendo tudo que eu queria dizer. Parou.

     - Ilumine aquele lugar lá em cima. A frente.

     - Oh, meu bendito...

     Sachs, finalmente, compreendeu os pêlos que tinha encontrado na última cena de crime. Lembrou-se do olhar trocado entre Sellitto e Rhyme. Ele soube na ocasião o que o elemento desconhecido havia planejado. Ele soube que era isso que estava acontecendo com ela - mas, ainda assim, ordenou à UOE que esperasse. E por isso odiou-o ainda mais.

     À frente deles, viu uma moça gordinha estendida no chão, em uma poça de sangue. Ela virou para a luz os olhos vidrados e desmaiou, exatamente no momento em que um rato preto enorme - do tamanho de um gato doméstico - rastejou por cima da barriga da moça e dirigiu-se para a garganta carnuda. E arreganhou os dentes imundos para morder-lhe o queixo.

     Em movimentos suaves, Sachs ergueu a pesada Glock preta, a palma da mão esquerda embaixo do cabo para lhe dar um apoio firme. Fez pontaria com todo cuidado.

     Atirar é respirar.

     Inale, exale. Aperte o gatilho.

     Pela primeira vez no cumprimento do dever, Sachs usou a arma. Quatro tiros. O rato imenso que estava em cima do peito da moça praticamente explodiu. Ela acertou em outro no chão atrás da moça e em outro que, em pânico, correu para ela e para o paramédico. Os outros desapareceram silenciosamente, tão rápidos como água sobre areia.

     - Jesus! - exclamou o paramédico. - Você podia ter atingido a moça.

     - De dez metros de distância? - resmungou Sachs. – Dificilmente.

     O rádio explodiu em sons e Haumann perguntou se eles estavam sob fogo.

     - Negativo - respondeu Sachs. - Eu estava apenas atirando em alguns ratos.

     - Ouvido e entendido.

     Amélia tomou a lanterna das mãos do paramédico e, apontando o facho para o chão, deu um passo à frente.

     - Está tudo bem, moça - disse em voz alta. - Você vai ficar bem.

     Os olhos da moça se abriram, a cabeça balançou frouxamente de um lado para o outro.

     - Bitte, bitte...

     Ela estava muito pálida. Os olhos azuis colaram-se em Sachs, como se tivesse medo de perdê-la.

     - Bitte, bitte... Por favoor...

     A voz subiu para um alto ganido e ela começou a soluçar e a debater-se em pavor, enquanto o paramédico aplicava ataduras nos ferimentos.

     Sachs aninhou nos braços a cabeça loura, sussurrando:

     - Você vai ficar bem, querida, vai ficar bem, vai ficar bem.

      

     O escritório, no alto de um edifício no centro de Manhattan, tinha vista para Nova Jersey. A poeira que pairava no ar transformava o pôr-do-sol em beleza perfeita.

     - Temos que fazer isso.

     - Não podemos.

     - Temos que fazer isso - repetiu Fred Dellray e tomou um gole de café... ainda pior do que o servido no restaurante onde ele e Malandro estavam, não muito tempo antes. - Tirar o caso das mãos deles. Eles sobreviverão.

     - É um caso local - disse o agente assistente especial chefe da Superintendência do FBI em Nova York. O AECS era um homem meticuloso, que jamais poderia trabalhar clandestinamente. Porque, quando se olhava para ele, todo mundo pensava: Oh, um agente do FBI.

     - Não é local. Eles o estão tratando como caso local. E é um caso importante.

     - Estamos com um desfalque de oitenta agentes por causa dessa coisa das Nações Unidas.

     - E o caso tem relação com ela - retrucou Dellray. - Tenho certeza disso.

     - Se é isso, vamos informar à Segurança da ONU. Deixar que todos... Oh, não me olhe desse jeito.

     - Segurança das Nações Unidas? Segurança das Nações Unidas? Escute aqui, você já ouviu alguma vez a palavra oximoro?... Billy, está vendo esta foto? Da cena, esta manhã? A mão saindo da terra, toda a pele arrancada desse dedo? Foi uma merda o que fizeram lá.

     - O DPNY está nos mantendo informados - respondeu o superintendente. - Temos a Divisão de Comportamento Criminal ligada conosco, se as Nações Unidas quiserem alguma outra informação.

     - Oh, Jesus Cristo. Comportamento ligado conosco? Temos que pegar esse estripador, Billy. Pegá-lo. E não perder tempo com burocracia.

     - Diga de novo o que lhe disse seu informante.

     Dellray reconhecia uma rachadura numa pedra, quando a via. Não ia deixar que ela se fechasse de novo. Fogo rápido nesse instante: sobre Malandro, Jackie em Joanesburgo ou em Monróvia, e a conversa à boca pequena no tráfico de armas de que alguma coisa ia acontecer no aeroporto de Nova York naquela semana e que era melhor evitar esse lugar.

     - É ele - garantiu Dellray. - Tem que ser.

     - O DPNY tem uma unidade de operações especiais.

     - Mas não antiterrorismo. Dei uns telefonemas. Ninguém na AT sabe de coisa alguma a esse respeito. Para o DPNY, turista morto é péssimo para relações públicas. Eu quero esse caso, Billy. – E Fred Dellray pronunciou uma palavra que jamais tinha dito em seus oito anos como agente secreto: - Por favor.

     - Sobre que fundamentos você está falando?

     - Oh, oh, que pergunta mais boba - respondeu Dellray, apontando-lhe o dedo indicador como uma professora rigorosa. - Vamos ver. Conseguimos aquela lei antiterrorismo novinha em folha. Mas isso não é suficiente para você. Quer que seja observada a questão de jurisdição? Eu lhe dou jurisdição. Um crime contra a Autoridade Portuária, que administra os aeroportos. Sequestro, que é crime da alçada federal. Posso mesmo argumentar que esse sacana está usando um táxi e, portanto, afetando o comércio interestadual. Mas não queremos fazer esses jogos, queremos, Billy?

     - Você não está me ouvindo. Posso recitar as leis federais até dormindo, obrigado. Quero saber se vamos assumir a solução do caso, o que é que vamos dizer às pessoas e tornar todo mundo feliz. Porque, lembre-se, quando esse elemento desconhecido for preso e acusado, vamos ter que continuar a trabalhar com o DPNY. Não vou mandar meu irmão mais velho para bater no irmão mais velho dele, mesmo que eu possa fazer isso quando eu quiser. Lon Sellitto está encarregado das investigações e ele é um cara competente.

     - Um tenente? - resmungou Dellray. - Puxou o cigarro de trás da orelha e colocou-o embaixo das narinas por um momento.

     - Jim Polling é quem está supervisionando o caso.

     Dellray recuou com fingido horror.

     - Polling? O pequeno Adolph? O “você-tem-o-direito-de-ficar-calado-porque-vou-bater-em-você-nessa-sua-cabeça-de-merda”? Polling? Ele?

     O AECS não tinha resposta para essas palavras. Disse apenas:

     - Sellitto é competente. Um verdadeiro burro de carga. Trabalhei com ele em duas forças-tarefa da OC.

     - Esse elemento desconhecido está sequestrando gente à esquerda e à direita, e este rapaz aqui aposta que ele vai ficar ainda mais ambicioso.

     - Significando o quê?

     - Temos senadores na cidade. Temos deputados, temos chefes de Estado. Acho que esses caras que ele está sequestrando agora são apenas para fins de treinamento.

     - Você esteve conversando com Comportamento e não me disse?

     - É o que ando farejando por aí.

     Dellray não pôde evitar de tocar no nariz fino. O AECS soprou o ar de dentro das bochechas de agente federal bem escanhoado.

     - Quem é o IC?

     Dellray teve problema para descrever Malando como informante confidencial, o que parecia alguma coisa saída dos romances de Dashiell Hammett. A maioria dos ICs era composta de esqs., abreviatura de esqueletos, significando sacaninhas magrelos, repugnantes. Uma carapuça que cabia perfeitamente na cabeça de Malandro.

     - Ele é um mentiroso - reconheceu Dellray. - Mas, Jackie, o cara de quem ele ouviu a coisa é um tipo que merece fé.

     - Sei que você quer esse caso, Fred. Compreendo isso.

     O chefe disse essas palavras com certa simpatia. Isso porque sabia exatamente o que havia por trás do pedido de Dellray.

     Desde o tempo de menino no Brooklyn, Dellray queria ser policial. Não importava muito que tipo de policial, desde que pudesse passar 24 horas por dia fazendo esse trabalho. Mas, logo depois de ingressar no FBI, encontrou sua vocação - trabalho secreto.

     Trabalhando com seu parceiro visível e anjo da guarda, Toby Dolittle, Dellray foi responsável por tirar de circulação, por muito tempo, um grande número de criminosos - em sentenças que totalizavam mil anos. “Podem nos chamar de 'O Time do Milênio', Toby-O”, dissera ele certa vez a seu parceiro. A pista para o sucesso de Dellray podia ser encontrada em seu apelido: “Camaleão”, título que lhe foi concedido depois de ter representado - durante um período de 24 horas - o papel de um doidão imbecil em uma boca de crack do Harlem e de dignitário haitiano em um jantar no consulado panamenho, desta vez com uniforme completo, incluindo uma faixa diagonal de condecoração no peito e um sotaque inquestionável. Os dois agentes eram regularmente emprestados ao ATF ou ao DEA e, às vezes, a departamentos de polícia municipal. Drogas e armas eram a especialidade de ambos, embora tivessem boas notas em “mercadorias contrabandeadas”.

     A ironia do trabalho clandestino estava no fato de que, quanto mais competente o cara, mais cedo a aposentadoria. Palavras se espalham e os caras importantes, os criminosos dignos de ser caçados, tornam-se mais difíceis de enganar. Dolittle e Dellray descobriram que trabalhavam menos nesse campo e mais como contatos com informantes e outros agentes clandestinos. E apesar de esse trabalho não ter sido a primeira opção de Dellray - nada o excitava tanto quanto bater as ruas -, ele, ainda assim, arranjava pretexto para sair mais da Superintendência do que a maioria dos outros agentes do FBI. Nunca lhe ocorreu solicitar transferência.

     Isso até dois anos antes - até uma quente manhã de abril em Nova York. Dellray ia justamente deixar a Superintendência para pegar um avião no La Guardia, quando recebeu um telefonema de um diretor-assistente do FBI em Washington. O FBI é um ninho de hierarquias e Dellray não podia imaginar por que o figurão estava, em pessoa, lhe telefonando. Até que ouviu a voz sombria do figurão dar a notícia de que Toby Dolittle, juntamente com um promotor federal-assistente, lotado em Manhattan, estavam no térreo do prédio federal de Oklahoma City naquela manhã, preparando-se para prestar depoimento em uma sessão à qual o próprio Dellray iria comparecer.

     Seus corpos seriam enviados de avião para Nova York no dia seguinte.

     Que foi também o dia em que Dellray preencheu o primeiro dos formulários RFT-2230, solicitando transferência para a Divisão Antiterrorismo do FBI.

     Aquele ataque com bomba foi o maior de todos os crimes para um Fred Dellray que, quando ninguém estava olhando, devorava livros sobre política e filosofia. Acreditava que nada havia de basicamente antiamericano em cobiça ou avidez - ei, essas qualidades são estimuladas em toda parte, de Wall Street à Colina do Capitólio. E se pessoas que faziam de cobiça ou avidez um negócio ultrapassavam a linha da legalidade, Dellray tinha todo prazer em identificá-las - embora nunca o fizesse por animosidade pessoal. Mas assassinar pessoas por causa de suas crenças - merda, assassinar crianças antes mesmo de elas saberem no que acreditavam -, oh, meu Deus, isso era uma punhalada no coração do país. Sozinho em seu apartamento de dois cômodos escassamente mobiliado no Brooklyn, após o enterro de Toby, Dellray concluiu que era esse o tipo de crime em que queria trabalhar.

     Infelizmente, porém, a reputação do Camaleão o havia precedido. O melhor agente clandestino do FBI era nesse momento o melhor contato, lidando com agentes e ICs em toda a Costa Leste. Seus chefes simplesmente não podiam dar-se ao luxo de perdê-lo para um dos departamentos mais mudos do FBI. Dellray era uma pequena lenda, pessoalmente responsável por alguns dos grandes sucessos mais recentes do FBI. Por isso mesmo, com grande pena, seus insistentes pedidos eram indeferidos.

     O chefe conhecia bem toda essa história e, nesse momento, acrescentou, com sinceridade:

     - Eu gostaria muito de poder ajudá-lo, Fred. Sinto muito.

     Tudo que Dellray ouviu nessas palavras, porém, foi a pedra rachando um pouco mais. E, por isso, o Camaleão puxou um personagem do cabide e olhou fixamente para o chefe. Desejou ter ainda aquele falso dente de ouro. O urbano Dellray era um hombre durão com a merda de um olhar maldoso. E naquele olhar estava a mensagem inequívoca que todos os que andavam pelas ruas reconheceriam imediatamente. Eu fiz uma por você, agora você faz uma por mim.

     Finalmente, o agoniado AECS disse, desajeitado:

     - A questão é que precisamos de alguma coisa.

     - Alguma coisa?

     - De um gancho - continuou o chefe. - Não temos um gancho.

     O que ele queria dizer era que precisava de uma razão para tirar o caso da jurisdição do DPNY.

     Política, política, politimerda.

     Dellray baixou a cabeça, embora os olhos, castanhos como verniz, não se afastassem um único milímetro do superintendente.

     - Esta manhã, ele cortou a pele do dedo daquela vítima, Billy. Cortou até o osso. Em seguida, enterrou-o, ainda vivo.

     Duas mãos bem lavadas de agente federal se encontraram sob uma mandíbula tensa. Em voz pausada, o AECS disse:

     - Um pensamento para você. Sobre um vice-comissário no DPNY. O nome dele é Eckert. Conhece? Ele é amigo meu.

    

     A moça, estirada na maca, olhos fechados, embora consciente, estava tonta. Ainda pálida. Um quarto de litro de soro era injetado nesse momento em seu braço. Em seguida, reidratada, ela ficou coerente e notavelmente calma, considerando-se tudo que acontecera.

     Sachs voltou novamente aos portais do inferno e ficou olhando para o outro lado da soleira escura da porta. Ligou o rádio e chamou Lincoln Rhyme. Desta vez, ele respondeu.

     - Qual é o aspecto da cena? - perguntou ele, em tom casual.

     A resposta de Amélia foi seca:

     - Conseguimos tirá-la de lá. Se estiver interessado...

     - Ah, ótimo. Como está ela?

     - Não está ótima.

     - Mas viva, certo?

     - Quase.

     - Você está nervosa por causa dos ratos, não, Amélia?

     Ela ficou calada.

     - Porque não deixei que o pessoal de Bo a tirasse de lá imediatamente. Você ainda está aí, Amélia?

     - Estou.

     - Há cinco contaminadores em cenas de crime – explicou Rhyme. Amélia notou que ele tinha voltado ao tom baixo, sedutor.

     - O tempo atmosférico, a família da vítima, o suspeito, os caçadores de lembranças. O último é o pior de todos. Adivinhe qual é?

     - Diga você.

     - Outros policiais. Se eu tivesse deixado que a turma de Operações Especiais entrasse, eles poderiam ter destruído todos os vestígios. Você sabe agora como processar uma cena de crime. E aposto que preservou tudo que foi uma beleza.

     Sachs teve que dizer:

     - Acho que ela nunca mais será a mesma, depois de tudo isto. Os ratos estavam por toda parte em cima dela.

     - Sim, imagino que estavam. Essa é a natureza deles.

     A natureza deles...

     - Mas cinco ou dez minutos não iam fazer qualquer diferença. Ela...

     Amélia desligou o rádio e dirigiu-se a Walsh, o paramédico.

     - Quero conversar com ela. Está grogue demais?

     - Ainda não. Aplicamos nela anestesia local... para costurar as lacerações e as mordidas. Mas ela vai precisar de um pouco de Demerol dentro de meia hora, mais ou menos.

     Sachs sorriu e agachou-se ao lado da vítima.

     - Oi, como é que você se sente?

     A moça, gorda mas bonita, inclinou a cabeça, dizendo que estava lúcida.

     - Posso lhe fazer algumas perguntas?

     - Sim, por favor. Quero que vocês o prendam.

     Sellitto chegou e aproximou-se delas em passos lentos. Sorriu para a moça, que o fitou com uma expressão vazia. Ele mostrou um distintivo, pelo qual ela não demonstrou qualquer interesse, e identificou-se.

     - Você está bem, moça?

     Monelle encolheu os ombros.

     Suando horrivelmente no calor pegajoso, Sellitto, com um aceno de cabeça, chamou Sachs para um lado.

     - Polling esteve aqui?

     - Não o vi. Talvez ele esteja na casa de Lincoln.

     - Não, não está. Acabo de ligar para lá. Ele tem de ir à Prefeitura, rápido.

     - Qual é o problema?

     Sellito baixou a voz, o rosto redondo e amassado contorcido.

     - Uma cagada... Nós pensávamos que nossas transmissões eram seguras. Mas os putos desses repórteres conseguiram um decodificador ou coisa parecida. Descobriram na escuta que não invadimos imediatamente o local para resgatá-la.

     E inclinou a cabeça na direção da moça.

     - Bem, nós não entramos - retrucou asperamente Sachs. - Rhyme disse ao pessoal de Operações Especiais que esperasse até eu chegar.

     O detetive contraiu-se todo.

     - Cara, tomara que não tenham gravado isso em fita. Precisamos de Polling para controle de avarias. - Com um gesto de cabeça, indicou novamente a moça. - Já conversou com ela?

     - Não. Ia justamente fazer isso.

     Com certa pena, Sachs ligou o rádio e ouviu a voz de Rhyme, falando em tom urgente:

     - ...você está aí? Esta droga de coisa não...

     - Estou aqui - respondeu friamente Sachs.

     - O que foi que aconteceu?

     - Interferência, acho. Estou com a vítima.

     A moça pestanejou ao ouvir essas palavras e Sachs sorriu-lhe.

     - Não estou conversando comigo mesma. - Mostrou o microfone. - Chefia da Polícia. Seu nome?

     - Monelle. Monelle Gerger.

     A moça olhou o braço mordido, levantou uma atadura e examinou o ferimento.

     - Tome rápido o depoimento dela - instruiu-a Rhyme. – Em seguida, vá processar a cena do crime.

     Com a mão cobrindo o microfone, Sachs murmurou ferozmente para Sellitto:

     - É um pé no saco trabalhar com esse cara, senhor.

     - Faça a vontade dele.

     - Amélia! - berrou Rhyme. - Responda!

     - Estamos conversando com ela, tudo bem? - retrucou ela secamente.

     - Você pode nos contar o que aconteceu? - perguntou Sellitto.

     Monelle começou a contar uma história desconjuntada, de estar na lavanderia de uma casa de cômodos, no East Village. Ele ficou escondido, à espera dela.

     - Que casa? - perguntou Sellitto.

     - A Deutsche Haus. Os moradores são, na maioria, expatriados e estudantes alemães.

     - O que foi que aconteceu? - continuou Sellitto.

     Sachs notou que, embora o detetive grandalhão parecesse mais áspero, mais genioso do que Rhyme, ele era na realidade o mais compassivo dos dois.

     - Ele me jogou na mala do carro e me trouxe para cá.

     - Conseguiu dar uma olhada nele?

     A mulher fechou os olhos. Sachs repetiu a pergunta. Monelle disse que não. Ele estava, como Rhyme tinha adivinhado, usando uma máscara azul-marinho de esquiador.

     - Und luvas.

     - Descreva-as.

     Eram escuras. Ela não se lembrava de que cor.

     - Quaisquer características incomuns? Do seqüestrador?

     - Não. Ele é branco. Isso eu posso dizer.

     - Viu a placa do táxi? - perguntou Sellitto.

     - Was? - perguntou a moça, passando para sua língua nativa.

     - Você viu...

     Sachs deu um salto quando foi interrompida por Rhyme:

     - Das nummernschild.

     E Sachs, pensando: Porra, como é que ele sabe tudo isso? Repetiu a palavra, a moça sacudiu a cabeça, dizendo não, e em seguida apertou os olhos.

     - O que é que você quer dizer? Táxi?

     - Ele não estava dirigindo um Yellow Cab?

     - Táxi? Nein. Não. Era um carro comum.

     - Ouviu isso, Lincoln?

     - Ouvi. Nosso rapaz arranjou outro jogo de rodas. E, como ele a colocou na mala, não é uma caminhonete nem um hatchback.

     Sachs repetiu as palavras de Rhyme. A moça inclinou a cabeça, confirmando.

     - Como um sedã.

     - Alguma idéia da marca ou da cor? - continuou Sellitto.

     - Clara, acho - respondeu Monelle. - Talvez prateado ou cinza. Ou aquela, vocês sabem, como é? Marrom-claro.

     - Bege?

     A moça confirmou com um aceno.

     - Talvez bege - acrescentou Sachs, para que Rhyme soubesse.

     - Havia alguma coisa mais na mala do carro? – perguntou Sellitto. - Qualquer coisa? Ferramentas, roupas, valises?

     Monelle respondeu que não. Estava vazia. Rhyme tinha uma pergunta a fazer:

     - Que cheiro tinha ela? A mala.

     Sachs retransmitiu a pergunta.

     - Não sei.

     - Óleo ou graxa?

     - Não. A mala tinha cheiro de... coisa limpa.

     - De modo que, talvez, um carro novo - refletiu Rhyme.

     Durante um momento, Monelle dissolveu-se em lágrimas. Em seguida, sacudiu a cabeça. Sachs segurou-lhe a mão e ela finalmente voltou a falar:

     - Nós rodamos por muito tempo. Pareceu um longo tempo.

     - Você está se saindo muito bem, querida - disse Sachs.

      Foi interrompida pela voz de Rhyme.

     - Diga a ela para se despir.

     - O quê?

     - Tire as roupas dela.

     - Isso eu não faço.

     - Diga aos paramédicos para lhe darem um robe. Precisamos das roupas dela, Amélia.

     - Mas - sussurrou Sachs - ela está chorando.

     - Por favor - disse Rhyme em tom de urgência. - É importante.

     Sellitto inclinou a cabeça. Sachs, os lábios duros, explicou à moça a importância das roupas e ficou surpresa quando Monelle inclinou a cabeça. Ela estava, como descobriram, ansiosa para, de qualquer modo, livrar-se daquelas roupas sujas de sangue. Dando-lhe privacidade, Sellitto afastou-se para conversar com Bo Haumann. Monelle vestiu o robe entregue pelo paramédico. Um dos detetives à paisana cobriu-a com seu casaco esporte. Sachs enfiou numa sacola o jeans e as camisetas.

     - Consegui a roupa - disse ao microfone.

     - Agora ela tem que ir andando com você até a cena do crime - disse Rhyme.

     - O quê?!

     - Mas ela sempre atrás de você, não se esqueça. De modo a evitar que contamine qualquer prova material.

     Sachs olhou para a jovem, enrodilhada em cima de uma maca de rodas, ao lado de dois ônibus da Unidade de Operações Especiais.

     - Ela não está em condições de fazer isso. Ele a cortou. Até o osso. Ela sangrou muito e os ratos a atacaram.

     - Ela pode se mover?

     - Provavelmente. Mas você sabe o que foi que ela teve que suportar?

     - Ela pode lhe dizer qual foi o caminho que seguiram. E onde ele ficou também, observando-a.

     - Ela vai agora para o pronto-socorro. Perdeu muito sangue.

     Hesitação. Em um tom agradável de voz, ele disse:

     - Simplesmente, pergunte a ela.

     Mas essa jovialidade era falsa c Sachs ouviu somente um tom de impaciência. Dava para ver que Rhyme não era um homem acostumado a mimar pessoas, que não tinha que fazer isso. Era um homem acostumado a ver obedecida sua vontade.

     Ele insistiu:

     - Apenas uma vez, em volta da grade.

     Por que não vai se foder, Lincoln Rhyme?

     - É importante. Eu sei.

     Nada do outro lado da linha.

     Amélia olhava nesse momento para Monelle. Em seguida, ouviu uma voz, não, ouviu a sua voz dizer à moça:

     - Vou descer até lá embaixo à procura de provas. Quer vir comigo?

     Os olhos da moça feriram fundo Sachs, no coração. E ela se desfez em lágrimas.

     - Não, não, não. Não vou fazer isso. Bitte nicht, oh, bitte nicht...

     Sachs inclinou a cabeça, apertou-lhe o braço num gesto de carinho. Começou a falar ao microfone, preparando-se para a reação dele. Rhyme, porém, surpreendeu-a ao dizer:

     - Tudo bem, Amélia. Deixe as coisas como estão. Simplesmente pergunte a ela o que foi que aconteceu quando chegaram lá.

     A moça explicou que havia dado um pontapé nele e fugido por um túnel vizinho.

     - Chutei ele novamente - disse ela com certa satisfação. - Arranquei a luva. Então, ele ficou furioso e começou a me estrangular. Ele...

     - Sem as luvas? - interrompeu-a Rhyme.

     Sachs repetiu a pergunta e Monelle confirmou:

     - Sim, sem a luva.

     - Impressões digitais. Excelente! - berrou Rhyme, a voz distorcendo-se no microfone. - O que foi que aconteceu? Há quanto tempo?

     Monelle calculou uma hora e meia.

     - Droga - murmurou Rhyme. - Impressões digitais na pele duram uma hora, noventa minutos no máximo. Você sabe tirar impressões digitais de pele, Amélia?

     - Nunca fiz isso antes.

     - Pois vai fazer agora. Mas rápido. Na valise CS deve haver um pacote com a etiqueta Kromekote. Tire um cartão.

     Amélia encontrou uma pilha de cartões de cinco por sete polegadas, semelhantes a papel fotográfico.

     - Peguei o cartão. Borrifo o pescoço dela?

     - Não. Aperte o cartão contra a pele, com o lado lustroso para baixo, no lugar onde ela acha que ele a tocou. Aperte por uns três segundos.

     Sachs fez o que ele mandava, enquanto Monelle olhava estoicamente para o céu. Em seguida, seguindo instruções de Rhyme, pulverizou o cartão com um pó metálico, usando um pincel Magna-Brush fofo.

     - E aí? - perguntou ansiosamente Rhyme.

     - Nada bom. Uma forma de dedo. Mas nada de cristas visíveis. Devo jogá-la fora?

     - Jamais jogue fora qualquer coisa encontrada em uma cena de crime, Sachs - disse ele severamente. - Traga-a de volta. Eu quero vê-la, de qualquer maneira.

     - Uma coisa que estou pensando que esqueci - disse Monelle. - Ele tocou em mim.

     - Você quer dizer, ele a molestou? - perguntou suavemente Sachs. - Estupro?

     - Não, não. Não de maneira sexual. Ele tocou meu ombro, rosto, atrás de minha orelha. Cotovelo. Apertou. Não sei por quê.

     - Ouviu isso, Lincoln? Ele a apertou. Mas não parecia que isso o estava excitando.

     - Sim.

     - Und... E mais uma coisa de que me esqueci – continuou Monelle. - Ele falou em alemão. Não em bom alemão. Como se só o tivesse estudado na escola. E me chamou de Hanna.

     - Chamou-a do quê?!

     - Hanna - repetiu Sachs ao telefone. - Sabe por quê? - perguntou à moça.

     - Não. Mas foi disso que ele me chamou. Parecia que ele gostava de dizer esse nome.

     - Ouviu isso, Rhyme?

     - Ouvi. Agora, processe a cena. O tempo está se esgotando.

     No momento em que Sachs se levantou, Monelle estendeu subitamente a mão e segurou-lhe o punho.

     - Srta... Sachs, você é alemã?

     Amélia sorriu e respondeu:

     - Há muito tempo. Há umas duas gerações.

     Monelle inclinou a cabeça. Apertou a mão de Amélia contra seu rosto.

     - Vielen Dank. Obrigada, Srta. Sachs. Danke schón.

    

     Ao serem acesas, as três lanternas de halógeno da Unidade de Operações Especiais encheram o túnel escuro com um fulgor branco.

     Sozinha na cena do crime nesse momento, Sachs olhou para o chão durante um momento. Alguma coisa havia mudado. O quê?

     Sacou novamente a arma e caiu em agachamento.

     - Ele está aqui - murmurou ela, escondendo-se atrás de um dos pilares.

      - O quê? - perguntou Rhyme.

     - Ele voltou. Havia aqui alguns ratos mortos. Agora não há mais nenhum. Desapareceram.

     Amélia ouviu a risada de Rhyme.

     - O que é que há de tão engraçado?

     - Nada, Amélia. Os amigos deles levaram os corpos.

     - Os amigos deles?

     - Certa vez, trabalhei em um caso no Harlem. Corpo esquartejado, em decomposição. Muitos ossos escondidos em um grande círculo em torno do torso da vítima. O crânio, em um barril de óleo, os pés sob uma pilha de folhas... Aquilo pôs o bairro em polvorosa. A imprensa falou em satanistas, assassinos seriais. Adivinhe quem se descobriu que fora o criminoso?

     - Não faço a menor idéia - respondeu ela em tom formal.

     - A própria vítima. Foi suicídio. Guaxinins, ratos e esquilos levaram o resto. Como se fossem troféus. Ninguém sabe por que, mas ele adoram esses suvenires. Agora, onde é que você está neste momento?

     - Ao pé da rampa.

     - O que está vendo?

     - Um túnel largo. Dois túneis laterais, mais estreitos. Teto plano, sustentado por pilares de madeira. Os pilares estão muito estragados e escalavrados. O chão é de concreto antigo, coberto de areia.

     - E esterco?

     - É o que parece. No centro, bem na minha frente, o pilar onde ela estava amarrada.

     - Janelas?

     - Nenhuma. Nem portas. - Olhou para o comprido túnel, o chão desaparecendo em um universo negro a milhares de quilômetros de distância. Sentiu o arrepio da impotência. - Isso aqui é grande demais! Há espaço demais para cobrir.

     - Amélia, relaxe.

     - Jamais vou encontrar alguma coisa aqui.

     - Sei que parece impossível. Mas simplesmente não se esqueça de que existem apenas três tipos de provas materiais que nos interessam. Objetos, materiais corporais e impressões digitais. Só isso. A coisa fica menos difícil se você pensa nela dessa maneira.

     Para você, é fácil dizer isso.

     - E a cena do crime não é tão grande quanto parece. Simplesmente, concentre-se nos lugares por onde eles andaram. Vá até o pilar.

     Sachs seguiu o caminho. Olhando para baixo.

     As luzes da Unidade de Operações Especiais eram brilhantes, mas tornavam também as sombras mais nítidas, revelando dezenas de lugares onde o seqüestrador poderia esconder-se. Um calafrio desceu-lhe pela espinha. Fique perto, Lincoln, pensou, relutante. Estou morta de medo, certo, mas quero ouvi-lo. Respire ou faça alguma coisa.

     Parou e iluminou o chão com a PoliLight.

     - Está todo varrido? - perguntou ele.

     - Está. Exatamente como antes.

     O colete à prova de balas irritava os seios, a despeito do sutiã e da calcinha esporte que usava, e, quente como estivesse lá fora, o calor era insuportável ali embaixo. A pele coçava e ela sentiu um desejo quase irresistível de coçar-se sob o colete.

     - Cheguei ao pilar.

     - Passe o aspirador na área, à procura de vestígios.

     Sachs passou o aspirador pelo chão. Odiando aquele barulho, que abafava qualquer som de passos que se aproximassem, o estalido de uma arma sendo engatilhada, canivetes sendo abertos. Involuntariamente, olhou para trás duas vezes. Quase deixou cair o aspirador quando a mão desceu para a pistola.

     Olhou para a marca na poeira onde estivera estendido o corpo de Monelle. Eu sou ele. Eu a estou puxando. Ela me dá um pontapé. Eu tropeço...

     Monelle só podia tê-lo chutado em uma única direção, para longe da rampa. O elemento desconhecido não caíra, segundo ela dissera. O que significava que ele devia ter aterrissado sobre os pés. Sachs deu um ou dois passos escuridão adentro.

     - Bingo! - gritou.

     - O quê? Diga!

     - Pegadas. Ele esqueceu um lugar ao varrer.

     - Não é dela?

     - Não. Ela usava tênis de corrida. Essas solas são lisas. Como sapatos sociais. Duas boas pegadas. Vamos saber o tamanho do pé dele.

     - Não, a pegada não vai nos dizer isso. Solas podem ser maiores ou menores do que a parte superior do sapato. Mas podem nos dizer alguma coisa. Na valise da Polícia Técnica você vai encontrar uma impressora eletrostática. Nela há uma pequena caixa, com uma vareta em cima. Deve haver também junto algumas folhas de acetato. Pegue o papel, ponha o acetato sobre a pegada e passe a vareta por cima.

     Amélia achou o aparelho e tirou duas imagens da pegada, guar-dando com todo cuidado as folhas em um envelope de papel. Voltou ao pilar.

     - E há aqui um pouco de palha da vassoura.

     - Da...?

     - Desculpe - disse rapidamente Sachs -, não sabemos de onde. Um pedaço de palha. Vou pegá-lo e guardá-lo.

     Ela estava ficando competente com aqueles lápis. Ei, Lincoln, seu filho da puta, sabe o que vou fazer para comemorar minha aposentadoria permanente da unidade de cena de crime? Vou jantar num restaurante chinês.

     Os halógenos da UOE não chegavam ao túnel lateral por onde Monelle tinha corrido. Sachs parou diante da linha dia-noite e mergulhou em seguida nas sombras. A luz da lanterna varreu o chão à frente.

     - Fale comigo, Amélia.

     - Não há muita coisa para ver. Ele varreu também por aqui.

     Jesus, ele pensa em tudo.

     - O que é que você está vendo?

     - Simplesmente marcas no chão.

     Eu a agarro. Derrubo. Estou zangado. Furioso. Tento estrangulá-la.

     Sachs olhou fixamente para o chão.

     - Aqui há uma coisa... marcas de joelho! Quando estava tentando estrangulá-la, ele deve ter ficado escanchado sobre ela, na altura da cintura. Ele deixou aqui marcas do joelho e se esqueceu delas quando varreu.

     - Tire imagens eletrostáticas delas.

     Amélia fez o que ele mandava, mais rápido desta vez. Aprendendo a mexer no equipamento. Estava enfiando a foto num envelope quando alguma coisa lhe chamou a atenção. Outra marca na poeira.

     O que é isso?

     - Lincoln... Estou olhando para o local onde... parece que a luva caiu aqui. Quando eles estavam lutando.

     Ligou a PoliLight. E não pôde acreditar no que viu.

     - Uma impressão digital. Consegui uma impressão digital.

     - O quê? - perguntou Rhyme, incrédulo. - Não é dela?

     Não, não pode ser. Posso ver a poeira no lugar onde ela estava estendida. As mãos dela ficaram algemadas o tempo todo. E no lugar onde ele apanhou a luva. Ele provavelmente pensou que varreria esse lugar, mas esqueceu. É uma impressão grande. E linda!

      - Aplique nela o contraste, ilumine-a e fotografe a filha da puta numa razão um por um.

     Ela precisou de apenas duas tentativas para obter uma polaróide nítida. Sentiu-se como se tivesse achado na rua uma nota de cem dólares.

     - Passe o aspirador na área e, em seguida, volte ao pilar. Um pé de cada vez.

     Ela andou com cuidado, de um lado para o outro, um pé de cada vez.

     - Não se esqueça de olhar para cima - lembrou-lhe ele. – Certa vez peguei um elemento desconhecido por causa de um único fio de cabelo no teto. Ele havia posto um projétil de calibre .357 em um .38 e o coice da arma colou um fio de cabelo da mão no teto.

     - Estou olhando. É um teto de telha. Sujo. Nada mais. Nenhum lugar para esconder alguma coisa. Nem ressaltos nem vãos de porta.

     - Onde estão as pistas plantadas no local? - perguntou ele.

     - Não estou vendo nada.

     De um lado para o outro. Cinco minutos passaram. Seis, sete.

     - Talvez ele não tenha deixado nenhuma, desta vez – sugeriu Sachs. - Talvez Monelle seja a última.

     - Não - disse Rhyme, categórico.

     Atrás de um dos pilares de madeira, um brilho lhe chamou a atenção.

     - Há alguma coisa naquele canto... Isso mesmo. Aqui estão elas.

     - Fotografe-as, antes de tocá-las.

     Ela tirou a foto e, em seguida, levantou do chão, usando os lápis, um pedaço de pano branco.

     - Roupa de baixo de mulher. Úmida.

     - Sêmen?

     - Não sei - respondeu Amélia, perguntando a si mesma se ele ia lhe pedir que a cheirasse.

    Rhyme, porém, ordenou:

     - Tente a PoliLight. Proteínas ficam fluorescentes.

     Amélia foi buscar a lanterna e ligou-a. A luz iluminou o tecido mas o líquido não brilhou.

     - Não.

     - Ponha em um saco. De plástico. O que mais? - perguntou ele, ansioso.

     - Uma folha. Comprida, fina, pontuda numa extremidade.

     Tinha sido cortada algum tempo antes, estava seca e ficando marrom.

     Ouviu o suspiro de frustração de Rhyme.

     - Há cerca de oito mil variedades de plantas decíduas em Manhattan - explicou ele. - Isso não vai ajudar muito. O que é que há embaixo da folha?

     Por que é que ele pensa que pode haver alguma coisa nesse lugar? Mas havia. Um pedaço de jornal. Branco em um lado. No outro, um desenho impresso das fases da lua.

     - Da lua? - disse Rhyme pensativo. - Alguma impressão digital? Borrife-a com ninhidrina e faça um escaneamento rápido com a luz.

     O feixe da PoliLight nada revelou.

     - Só isso.

     Silêncio durante um momento.

     - As pistas estavam em cima do quê?

     - Oh, não sei.

     - Você tem que saber.

     - Ora, no chão - respondeu ela secamente. - Na poeira. Onde mais elas poderiam estar?

     - A poeira é igual ao resto do que há por aí?

     - Bem, não exatamente. É de uma cor diferente.

     Ele estaria sempre certo?

     - Ponha-a em um saco - instruiu-a Rhyme. - De papel.

     Enquanto ela recolhia os grãos de poeira, ele disse:

     - Amélia.

     - Sim?

     - Ele não está aí - disse, tranquilizador.

     - Acho que não.

     - Ouvi alguma coisa em sua voz.

     - Estou bem - respondeu ela, seca. - Estou cheirando o ar. Sinto cheiro de sangue. De mofo e fungos. E, novamente, da loção após barba.

     - A mesma de antes?

     - A mesma.

     - De onde vem o cheiro?

     Farejando o ar, Sachs andou em espiral, o Mastro de Maio, novamente, até que chegou a outro pilar de madeira.

     - Aqui. Aqui o cheiro é mais forte.

     - O que significa “aqui”, Amélia? Você representa minhas pernas e meus olhos, lembre-se.

     - Uma dessas colunas de madeira. Igual àquela onde ela esteve amarrada. A uns cinco metros de distância.

     - De modo que ele pode ter descansado encostado nela. Algumas impressões?

     Amélia borrifou a coluna com ninhidrina e iluminou-a.

     - Não. Mas o cheiro é muito forte.

     - Tire uma amostra do pilar no lugar onde o cheiro é mais forte. Há uma MotoTool na valise. Preta. Uma furadeira portátil. Pegue uma ponteira de perfuração... uma ponteira parecendo oca... e ajuste-a à ferramenta. Há aí uma coisa chamada chave. É uma...

     - Eu tenho uma furadeira - respondeu ela, áspera.

     - Oh! - exclamou Rhyme.

     Ela tirou um fragmento da coluna e em seguida limpou o suor da testa.

     - Ponho a amostra num saco plástico? - perguntou.

     Ele respondeu que sim. Ela sentiu uma sensação de desmaio, baixou a cabeça e prendeu a respiração. Não havia quase ar ali.

     - Alguma coisa mais? - perguntou Rhyme.

     - Nada que eu possa ver.

     - Estou orgulhoso de você, Amélia. Volte para cá e traga seus tesouros.

    

     - Cuidado! - gritou Rhyme.

     - Eu sou especialista nisso.

     - Nova ou velha?

     - Psiu - fez Thom.

     - Oh, pelo amor de Deus. A lâmina, ela é velha ou nova?

     - Prenda a respiração... Ah, lá vamos nós. Liso como bunda de bebê.

     Esse procedimento nada tinha de criminalística. Era apenas cosmético.

   Thom estava fazendo a primeira barba em Rhyme naquela semana. Havia também lavado sua cabeça e penteado os cabelos para trás.

     Meia hora antes, esperando a chegada de Amélia e das provas, Rhyme tinha mandado Cooper sair da sala, enquanto Thom introduzia um cateter com K-Y e usava o tubo. Terminada essa parte, Thom o olhou e disse:

     - Você está com uma aparência de merda. Reconhece isso?

     - Não me importo. Por que deveria me importar?

     E compreendeu subitamente que se importava.

     - Que tal fazer a barba? - perguntou o rapaz.

     - Não temos tempo para isso.

     A grande preocupação de Rhyme era que, se o Dr. Berger o visse todo arrumado, ficasse menos disposto a ir em frente com a idéia de suicídio. Paciente desgrenhado é paciente deprimido.

     - E uma lavagem de cabeça.

     - Não.

     - Nós agora temos companhia, Lincoln.

     Finalmente, Rhyme resmungou:

     - Tudo bem.

     - E vamos jogar fora esse pijama, certo?

     - Não há nada de errado com ele.

     Mas essas palavras significavam também “tudo bem”.

     Nesse momento, esfregado e barbeado, usando jeans e camisa branca, Rhyme ignorou o espelho que o empregado lhe colocou à frente.

     - Tire isso daqui.

     - Melhoramento notável.

     Lincoln Rhyme rosnou, em tom de desprezo:

     - Vou sair para dar um passeio, até que eles voltem – anunciou e recostou de novo a cabeça no travesseiro.

     Mel Cooper virou-se para ele, uma expressão de perplexidade no rosto.

     - Na cabeça dele - explicou Thom.

     - Na sua cabeça?

     - Eu imagino o passeio - disse Rhyme.

     - Isso é um macete e tanto - observou Cooper.

     - Posso andar por qualquer bairro que quero e nunca sou assaltado. Passeio pelas montanhas e nunca fico cansado. Escalo uma montanha, se quiser. Vou olhar as vitrines na Quinta Avenida. Claro, as coisas que vejo não estão necessariamente lá. Mas e daí? As estrelas também não estão.

     - O que foi que você disse? - quis saber Cooper.

     - A luz estelar que vemos é velha de milhares ou milhões de anos. Quando chega à Terra, as próprias estrelas mudaram de lugar. Elas não estão onde as vemos. - Rhyme suspirou ao sentir uma onda de exaustão. - Acho que algumas delas já queimaram por completo e desapareceram.

     Fechou os olhos.

     - Ele está tornando as coisas mais difíceis.

     - Não necessariamente - respondeu Rhyme a Lon Sellitto.

     Sellitto, Banks e Sachs acabavam de voltar da cena do curral.

     - Roupa de baixo, lua e uma planta - disse Banks, alegremente pessimista. - Isso não é exatamente um mapa rodoviário.

     - Areia, também - lembrou-lhe Rhyme, sempre um apreciador de solos.

     - Tem alguma idéia do que significam? - perguntou Sellitto.

     - Ainda não - reconheceu Rhyme.

     - Onde está Polling? - murmurou Sellitto. - Ele ainda não respondeu à mensagem no pager.

     - Não estive com ele - disse Rhyme.

     Uma figura apareceu à porta.

     - Quem está vivo sempre aparece - ribombou a suave voz de barítono do estranho.

     Com uma inclinação de cabeça, Rhyme mandou entrar o homem alto, magro e desconjuntado. Tinha uma aparência sombria, mas o rosto fino subitamente abriu-se em um sorriso caloroso, como lhe acontecia em estranhos momentos. Terry Dobyns era a soma total da Divisão de Ciências do Comportamento, do DPNY. Tinha estudado com os behavioristas do FBI em Quântico e tinha diplomas em criminalística e psicologia.

     O psicólogo adorava ópera e futebol e, quando Lincoln Rhyme acordou no hospital após aquele acidente, três anos e meio antes, Dobyns estava sentado a seu lado, escutando Aída em um walkman. Em seguida, passara as três horas seguintes realizando o que acabou por ser a primeira de muitas sessões de aconselhamento sobre o ferimento de Rhyme.

     - Agora, o que é que me lembro sobre o que os livros dizem sobre “pessoas que não retornam telefonemas”?

     - Analise-me depois, Terry. Ouviu falar em nosso elemento desconhecido?

     - Um pouco - respondeu Dobyns, examinando Rhyme de alto a baixo. Não era médico, mas conhecia psicologia. - Você está bem, Lincoln? Estou achando você um pouco alterado.

     - Estou fazendo um bocado de exercícios hoje – reconheceu Rhyme. - E bem que poderia tirar um bom cochilo. Você sabe que filho da puta preguiçoso eu sou.

     - Sei, mesmo. Você era o cara que me ligava às duas da manhã com uma pergunta sobre um elemento e não podia entender por que eu estava dormindo. Por isso pergunto: o que está havendo? Está querendo um perfil?

     - Tudo que você puder nos dizer vai ajudar.

     Sellitto passou as informações para Dobyns que - como Rhyme se lembrava dos dias em que trabalharam juntos -, embora jamais tomasse notas, conseguia arquivar tudo que ouvia em uma cabeça coroada por uma cabeleira ruiva escura.

     O psicólogo andou de um lado para o outro em frente à tabela na parede, erguendo ocasionalmente a vista, enquanto ouvia a voz monótona do detetive.

     Levantou um dedo, interrompendo Sellitto.

     - As vítimas, as vítimas... Todas elas foram encontradas embaixo da terra. Enterradas, num porão, no túnel de um curral.

     - Isso mesmo - confirmou Rhyme.

     - Continue.

     Sellitto continuou, explicando como havia sido o resgate de Monelle Gerger.

     - Ótimo, muito bem - disse Dobyns em tom distraído. Parou de medir passos e virou-se novamente para a parede. Abriu as pernas, mãos nos quadris, e examinou os fatos esparsos sobre o Elemento Desconhecido 238. - Fale mais sobre essa sua idéia, Lincoln, de que ele gosta de coisas antigas.

     - Não sei como entender isso. Até agora, as pistas que ele deixou têm alguma coisa a ver com a Nova York histórica. Materiais de construção do início do século, os currais, o sistema de aquecimento.

     Subitamente, Dobyns deu um passo à frente e bateu no perfil.

     - Hanna. Fale sobre Hanna.

     - Amélia? - pediu Rhyme.

     Ela contou a Dobyns que, sem razão aparente, o elemento desconhecido havia chamado Monelle Gerger de Hanna.

     - Ela disse que ele parecia gostar de pronunciar o nome. E de falar com ela em alemão.

     - E ele se arriscou um pouco para sequestrá-la, não? – observou Dobyns. - O táxi, o aeroporto, isso foi seguro para ele... Mas esconder-se em uma lavanderia... Ele devia estar muito motivado para sequestrar uma alemã.

     Dobyn enrolou em um dedo alguns fios de cabelos avermelhados e deixou-se cair em uma das cadeiras de vime, estirando as pernas.

     - Muito bem, vamos experimentar isso para ver se dá. O subsolo... aí é que está a chave. Isso me diz que ele é alguém que está escondendo alguma coisa e, quando ouço isso, começo a pensar em histeria.

     - Ele não está agindo de maneira histérica - comentou Sellitto.

     - Ele é muito calmo e calculista.

     - Não histeria nesse sentido. É uma categoria de distúrbio psíquico. Esse estado se manifesta quando alguma coisa traumática aconteceu na vida do paciente e o subconsciente converteu o trauma em alguma outra coisa. E uma tentativa do paciente de proteger-se. No caso da conversão histérica tradicional, ocorrem sintomas físicos: náusea, dor, paralisia. Aqui, porém, acho que estamos lidando com um problema correlato. Dissociação... é assim que a chamamos quando a reação ao trauma afeta a mente, e não o corpo físico. Amnésia histérica, estados de fuga. E personalidades múltiplas.

     - Jekyll e Hyde? - Mel Cooper se adiantou, passando à frente de Banks nessa observação.

     - Bem, não acho que ele tenha autênticas personalidades múltiplas - continuou Dobyns. - Esse diagnóstico é muito raro e a personalidade múltipla clássica é jovem e tem um QI mais baixo do que o de seu rapaz. - Indicou a tabela com um movimento de cabeça. - Ele é escorregadio e esperto. Evidentemente, um criminoso organizado. - Durante um momento, olhou pela janela. - Isso é interessante, Lincoln. Acho que seu elemento desconhecido veste a outra personalidade quando lhe é conveniente... quando quer matar... e isso é importante.

     - Por quê?

     - Por duas razões. Em primeiro lugar, isso nos diz alguma coisa sobre sua principal personalidade. Ele é alguém que foi treinado... talvez no emprego, talvez por criação... para ajudar pessoas, não para machucá-las. Padre, conselheiro, político, assistente social. E, em segundo, acho que significa que ele achou um projeto. Se descobrir o que é, talvez possa chegar a ele.

     - Que tipo de projeto?

     - Ele pode, há muito tempo, ter desejado matar alguém. Mas não agiu até que descobriu um modelo de papel a imitar. Talvez em um livro ou filme. Ou alguém que ele conhece realmente. É alguém com quem pode identificar-se, alguém cujos crimes, na prática, lhe dão permissão para matar. Bem, aqui estou improvisando...

     - Continue - disse Rhyme -, continue...

     - A obsessão dele com história me diz que sua personalidade é de um personagem do passado.

     - Vida real?

     - Isso não posso dizer. Talvez de ficção, talvez não. Hanna, quem quer que seja, figura em alguma parte da história. A Alemanha também. Ou germano-americanos.

     - Alguma idéia do que deve ter provocado essa manifestação?

     - Freud achava que ela era causada por... o que mais?... conflito sexual no estágio edipiano. Atualmente, o consenso é que problemas na fase de desenvolvimento são apenas uma das causas... qualquer trauma pode provocá-los. E não tem de ser um único fato. Poderia ser uma falha de personalidade, uma longa série de desapontamentos pessoais ou profissionais. É difícil dizer. - Os olhos brilhavam enquanto ele examinava o perfil: - Mas tenho grande esperança de que consiga prendê-lo vivo, Lincoln. Eu adoraria a oportunidade de deitá-lo em um divã por algumas horas.

     - Thom, você está anotando isso?

     - Estou, bwana.

     - Mais uma pergunta... - começou Rhyme.

     Dobyns girou para ele.

   - Eu diria que essa é a pergunta, Lincoln: por que ele está deixando pistas? Certo?

     - Certo. Por que as pistas?

     - Pense no que ele fez... Ele está falando com você. Não falando incoerentemente, como o Filho de Sam ou o matador do Zodíaco. Ele não é um esquizofrênico. Ele está se comunicando... em sua linguagem. Na linguagem da criminalística. Por quê? - Mais passos de um lado para o outro, olhos de vez em quando voltando-se para a tabela. - Só consigo pensar mesmo em que ele quer dividir a culpa. Entenda, é difícil para ele matar. A coisa se torna mais fácil se ele nos transforma em cúmplices. Se não salvamos a vítima a tempo, a morte dela é, em parte, culpa nossa.

     - Mas isso é bom, não? - perguntou Rhyme. - Isso significa que ele continuará a nos fornecer pistas que podem ser decifradas. De outra maneira, se o enigma for complicado demais, ele não estará dividindo a culpa conosco.

     - Bem, isso é verdade - disse Dobyns, já sem sorrir. - Mas há em ação outro fator.

     Sellitto forneceu a resposta:

     - A atividade em série aumenta exponencialmente.

     - Isso mesmo - confirmou Dobyns.

     - De que maneira ele poderá atacar com mais frequência? - murmurou Banks. - A cada três horas não é tempo suficientemente rápido?

     - Ele encontrará uma maneira - continuou o psicólogo. – Com maior probabilidade, começará a visar múltiplas vítimas. - Os olhos do psicólogo se estreitaram. - Ei, você está bem, Lincoln?

     Gotas de suor cobriam a testa do criminalista e ele estava apertando com força os olhos.

     - Simplesmente cansado. Excitação demais para um velho paralítico.

     - Uma última coisa. O perfil das vítimas é vital em crimes em série. Mas aqui temos sexos, idades e classes econômicas diferentes. Todos brancos, mas ele vem agindo em uma população predominantemente branca, de modo que isso não é estatisticamente significante. Com o que sabemos até agora, não podemos descobrir o motivo por que ele escolheu essas pessoas em particular. Se puder, você poderá justamente chegar à frente dele.

     - Obrigado, Terry - disse Rhyme. - Fique mais um pouco.

     - Claro, Lincoln, se você quiser.

   Em seguida, Rhyme deu as ordens:

     - Agora, vamos examinar a prova material recolhida na cena do curral. O que foi que conseguimos? As roupas de baixo?

     Mel Cooper juntou os sacos que Sachs trouxera da cena do crime. Olhou para o que continha a roupa íntima.

     - Coleção Katrina Fashion's D'Amore - anunciou. - Cem por cento algodão, elástico na cinta. Tecido fabricado nos Estados Unidos. Cortado e costurado em Taiwan.

     - Você pode saber isso só de olhar para a peça? – perguntou Sachs, incrédula.

     - Não, eu estava lendo - respondeu ele, apontando para a etiqueta.

     - Oh.

     Os policiais riram.

     - Ele então está dizendo que sequestrou outra mulher? - perguntou Sachs.

     - Provavelmente - disse Rhyme.

     Cooper abriu o saco.

     - Não sei o que é o líquido. Vou fazer um teste com o cromatógrafo.

     Rhyme pediu a Thom que segurasse o pedaço de papel com as fases da lua. Estudou-o atentamente. Um fragmento como esse era uma prova individuada maravilhosa. Podia ser ajustada à folha de onde tinha sido rasgada e ligar os dois com tanta perfeição como se fosse uma impressão digital. O problema, porém, é que não tinham a peça original de papel. E se perguntou se algum dia a encontrariam. O elemento desconhecido poderia tê-la destruído logo que rasgou aquele pedaço. Ainda assim, preferiu pensar que não. Gostava de imaginá-la em algum lugar, esperando simplesmente para ser encontrada. Era assim que sempre imaginava fontes de prova: o automóvel de onde saiu aquela lasca de pintura, o dedo que perdeu a unha, o cano de arma que disparou a bala com marcas de raias encontrada no corpo da vítima. Essas fontes - sempre perto do elemento desconhecido - adquiriam personalidade própria em sua mente. Elas podiam ser imperiosas ou cruéis.

     Ou misteriosas.

     Fases da lua.

     Perguntou a Dobyns se o elemento poderia sofrer de compulsão de agir ciclicamente.

     - Não. A lua não está em grande fase agora. Passamos quatro dias da lua nova.

     - Então, a lua significa alguma outra coisa.

     - Se, para começar, são luas iguais - disse Sachs.

     Satisfeita consigo mesma, e com razão, pensou Rhyme.

     - Boa observação, Amélia - disse ele. - Talvez ele esteja falando sobre círculos. Sobre tinta. Sobre papel. Sobre geometria. O planetário...

     Rhyme notou que ela o olhava fixamente. Talvez reparando, só naquele momento, que ele tinha sido barbeado, penteado e mudado de roupa.

     E qual era o estado de espírito dela nesse momento?, especulou. Zangada com ele ou desinteressada? Não podia saber. Nesse momento, Amélia Sachs era tão misteriosa como o Elemento Desconhecido 238.

     A máquina de fax no corredor escolheu esse momento para dar sinal. Thom saiu para pegar a mensagem e voltou um momento depois com duas folhas de papel.

     - De Emma Rollins - explicou. - Pôs as páginas em uma posição em que Rhyme pudesse vê-las. - Nossa pesquisa de scanners de mercados. Onze mercados em Manhattan venderam canelas de vitela a clientes que compraram menos de cinco artigos nos dois últimos dias. - Thom preparou-se para escrever no pôster, mas parou e lançou um olhar a Rhyme. - Os nomes das lojas?

     - Claro. Vamos precisar deles para referência cruzada mais tarde.

     Na tabela do perfil, Thom escreveu os nomes:

 

     B'way & 82nd,

     ShopRite B'way & 96th,

     Anderson Foods Greenwich & Bank,

     ShopRite 2nd AVe., 72nd-73rd,

     Grocery World Baterry Park City,

     J&G's Emporium 1706 2nd AVe.,

     Anderson Foods 34th&Lex.,

     Food Warehouse 8th Ave. & 24th,

     ShopRite Houston & Lafayette,

     ShopRite 6th Ave. & Houston,

     J&G's Emporium Greenwich & Franklin Grocery World

    

     - Isso aí abrange toda a cidade - disse Sachs.

     - Paciência - advertiu-a o implacável Rhyme.

     Mel Cooper examinava nesse momento a palha encontrada por Amélia.

     - Nada de excepcional aqui.

     Jogou-a para um lado.

     - Ela é nova? - perguntou Rhyme.

     Se fosse, poderiam fazer um cruzamento de informações com mercados que tinham vendido vassouras e canelas de vitela no mesmo dia.

     - Pensei nisso - disse Cooper. - Essa aí tem seis meses de idade ou mais.

     Começou a derramar em uma folha de papel de jornal a prova vestigial encontrada nas roupas de Monelle.

     - Há várias coisas aqui - disse, examinando atento a folha de papel. - Areia.

     - O suficiente para um teste de gradiente de densidade?

     - Não. Na realidade, só poeira. Provavelmente, da cena do crime.

     Cooper examinou o resto dos vestígios que havia retirado das roupas manchadas de sangue.

     - Pó de tijolo. Por que há tanto tijolo?

     - Dos ratos que matei. A parede era de tijolo.

     - Você atirou neles? Na cena do crime? - Rhyme estremeceu.

     - Ora, atirei - respondeu Sachs, em tom defensivo. – Eles estavam por toda parte, em cima do corpo dela.

     Ele ficou zangado, mas deixou passar, acrescentando apenas:

     - Com tiros, aparecem todos os tipos de contaminadores. Chumbo, arsênico, carbono, prata.

     - E aqui... outro pedaço de couro avermelhado. Da luva. E... Temos outra fibra aqui. Diferente.

     Criminalistas adoram fibras. Esta era um minúsculo tufo cinzento, quase invisível a olho nu.

     - Excelente - disse Rhyme. - E o que mais?

     - A foto da cena - acrescentou Sachs - e as impressões digitais. A que tirei da garganta dela e a que havia no lugar onde ele apanhou a luva.

     E mostrou-as.

     - Ótimo - disse Rhyme, e examinou-as cuidadosamente.

     Havia um leve vestígio de triunfo relutante no rosto da moça - a emoção da vitória, que é o reverso de odiar-se por ter sido antiprofissional.

     Rhyme estudava as polaróides das impressões digitais quando ouviu passos na escada. Jim Polling entrou, deu uma dupla olhada no recondicionado Lincoln Rhyme e dirigiu-se a Sellitto.

     - Estou vindo diretamente da cena do crime - disse. – Vocês salvaram a vítima. Grande trabalho, caras. - Inclinou a cabeça para Sachs, indicando que o substantivo a incluía também. – Mas o sacana sequestrou outra?

     - Ou está para fazer isso - murmurou Rhyme, olhando para as impressões digitais.

     - Estamos trabalhando nas pistas agora mesmo – explicou Banks.

     - Jim, andei procurando entrar em contato com você - começou Sellitto. - Liguei até para o gabinete do prefeito.

     - Eu estava com o chefe. Tive praticamente que suplicar que ele me fornecesse mais gente para usar nas buscas. Consegui que mais cinquenta homens fossem retirados do destacamento de segurança nas Nações Unidas.

     - Capitão, há uma coisa sobre a qual temos que conversar. Estamos com um problema. Aconteceu uma coisa na última cena...

     Uma voz até então não ouvida ali trovejou através da sala.

     - Problema? Quem é que está com um problema7. Não temos problema aqui, temos? Nenhum... absolutamente.

     Rhyme ergueu a vista para o homem alto e magro que apareceu à soleira. Preto retinto, usava um ridículo terno verde e sapatos que brilhavam como espelhos marrons. O coração de Rhyme caiu para o estômago.

     - Dellray.

     - Lincoln Rhyme. O próprio bamba de Nova York. Ei, Lon. E Jim Polling, como é que andam as coisas, amigão?

     Atrás de Dellray, meia dúzia de homens e uma mulher. Rhyme teve certeza, entre uma e outra batida do coração, do motivo por que os federais estavam ali. Dellray passou a vista pelos policiais reunidos na sala, a atenção parando por um momento em Sachs e, em seguida, voando para longe.

     - O que é que você quer? - perguntou Polling.

     - Será que nem desconfiaram, cavalheiros? Vocês estão acabados. Viemos fechar suas portas. Sim, senhor. Exatamente como se fosse uma casa de apostas clandestina.

    

     Um de nós.

     Era assim que Dellray olhava para Lincoln Rhyme, enquanto andava em volta da cama. Algumas pessoas fazem isso. A paralisia é um clube e elas entram como bicões em festas, dizendo piadas, fazendo inclinações de cabeça, piscando um olho. Você sabe que eu o adoro, cara, é por isso que estou fazendo troça com você.

     Lincoln tinha aprendido que essa atitude cansa, com muita rapidez.

     - Olhem só para isso - disse Dellray, tateando a cama Clinitron. - Isso é uma coisa saída de Jornada nas estrelas. Comandante Riker, entre no ônibus espacial.

     - Caia fora daqui, Dellray - cortou-o Polling. - Este caso é nosso.

     - E como está indo nosso paciente, Dr. Quebra-Ossos?

     O capitão estava dando um passo à frente, um galinho de briga superado muito em altura pelo magro agente do FBI.

     - Dellray, você ouviu o que eu disse? Caia fora daqui.

     - Cara, vou comprar uma dessas, Rhyme. Descansar meu rabo nela, assistir ao jogo. Falando sério, Lincoln, como vai você? Há anos que a gente não se vê.

     - Eles bateram à porta? - perguntou Rhyme a Thom.

     - Não, não bateram.

     - Vocês não bateram - disse Rhyme. - Posso sugerir que se retirem?

     - Tenho uma ordem judicial - murmurou Dellray, tirando papéis do bolso do paletó.

     A unha do indicador da mão direita de Amélia Sachs coçava o polegar, que estava a ponto de sangrar.

     Dellray olhou em volta da sala. Ficou evidentemente impressionado com o laboratório improvisado, mas abafou logo essa impressão.

     - Vamos assumir o comando. Sinto muito.

     Em vinte anos de atividade policial, Rhyme nunca tinha visto um ato de tomada de poder tão peremptório como esse.

     - Não fode, Dellray - começou Sellitto -, vocês deixaram passar esse caso.

     O agente virou o lustroso rosto negro até poder olhar de cima para baixo na direção do detetive.

     - Passar? Passar? Nunca recebi um único telefonema a esse respeito. Você ligou para mim?

     - Não.

     - Nesse caso, quem foi que pisou na bola?

     - Bem...

     Sellitto, surpreso, lançou um olhar a Polling, que disse:

     - Vocês receberam um boletim. Isso era tudo que precisávamos fazer com vocês. - Na defensiva também, nesse momento.

     - Um boletim. Sim. E... ei, exatamente como foi enviado esse boletim? Teria sido pelo correio a cavalo? Pelo correio comum, tarifa de livros? Diga-me uma coisa, Jim: para que serve um boletim da noite anterior, quando há uma operação em andamento?

     - Nós não vimos necessidade - disse Polling.

     - Nós? - perguntou rapidamente Dellray. Como um cirurgião que descobre um tumor microscópico.

     - Eu não vi a necessidade - respondeu secamente Polling. - Disse ao prefeito para conservar este caso como uma operação local. E nós a temos sob controle. Agora, tire seu rabo daqui, Dellray.

     - E você pensou que podia solucioná-lo a tempo de sair no noticiário das onze.

     Rhyme ficou atônito quando Polling berrou em resposta:

     - O que nós pensamos não era nada da sua maldita conta. A porra desse caso é nosso. - Ele conhecia o lendário mau humor do capitão, mas nunca o havia visto em ação.

     - Na verdade, a porra do caso agora é nosso.

     Dellray passou por ele, indo em direção à mesa onde se encontravam os equipamentos de Cooper.

     - Não faça isso, Fred - disse Rhyme. - Nós estamos conseguindo entender esse cara. Trabalhe conosco, mas não nos tome o caso. Esse elemento desconhecido não se parece com qualquer coisa que você já tenha visto na vida.

     Dellray sorriu.

     - Vejamos. Qual foi a última notícia que ouvi a respeito dessa porra de caso? Que vocês têm um paisano fazendo toda a parte da polícia técnica. - O agente lançou um olhar à cama Clinitron. - Vocês mandaram uma patrulheira fazer o processamento da cena do crime. Mandaram soldados comprar gêneros alimentícios.

     - Padrões de coleta de provas, Frederick - lembrou-lhe Rhyme, falando em tom estridente. - Isso é rotina.

     Dellray pareceu desapontado.

     - Mas e a Unidade de Operações Especiais, Lincoln? Gastando todos aqueles dólares dos contribuintes? E, em seguida, retalhando pessoas como no massacre da serra elétrica?

     Como essa notícia havia vazado? Todo mundo jurou segredo em relação à questão do esquartejamento.

     - E o que foi que ouvi sobre os rapazes de Haumann terem encontrado a vítima, mas não invadido o local para resgatá-la imediatamente? O Canal Cinco tinha um microfone ultra-sensível ligado. Durante uns bons cinco minutos, gravou os gritos dela, antes de vocês mandarem alguém entrar. - Olhou para Sellitto com um riso irônico. - Lon, meu homem, teria sido esse o problema de que vocês estavam justamente falando?

     Eles tinham ido tão longe, pensou Rhyme. Estavam desenvolvendo sensibilidade para o elemento, começando a entender sua linguagem. Começando a vê-lo. Com um choque de surpresa, deu-se conta de que estava, mais uma vez, fazendo aquilo que adorava. Depois de todos esses anos. E, nesse momento, alguém chegava e lhe tomava o caso. Sentiu a raiva borbulhar no seu íntimo.

     - Assuma o caso, Fred - murmurou. - Mas não nos deixe de fora. Não faça isso.

     - Vocês perderam duas vítimas - lembrou-lhe Dellray.

     - Nós perdemos uma - corrigiu-o Sellitto, olhando constrangido para Polling, que continuava a fumegar de raiva. - Não houve nada que pudéssemos ter feito sobre a primeira. Ela foi o cartão de visita.

     Dobyns, braços cruzados, apenas observava a discussão. Jerry Banks, porém, entrou na briga:

     - Nós descobrimos agora qual é a rotina dele. Não vamos perder mais nenhuma vítima.

     - Vão, se a Unidade de Operações Especiais ficar sentadinha, ouvindo as vítimas se esgoelarem até a morte.

     - Foi minha... - começou Sellitto.

     - Minha decisão - disse Rhyme em voz alta. - Minha.

     - Mas você é um paisano, Lincoln. Desse modo, não pode ter sido decisão sua. Pode ter sido sugestão sua. Ou recomendação sua. Mas não acredito que tenha sido decisão sua.

     A atenção de Dellray voltou-se novamente para Sachs. Fitando-a, disse a Rhyme:

     - Você disse a Peretti para não processar a cena do crime? Isso é muito estranho, Lincoln. Por que foi que você fez uma coisa dessas?

     - Porque sou melhor do que ele - retrucou Rhyme.

     - Peretti não é um escoteiro feliz. De jeito nenhum. Ele e eutivemos um bate-papo com Eckert.

     Eckert? O vice-comissário? Como é que ele se meteu nisso?

      Com um olhar de relance a Sachs, aos olhos azuis evasivos, emoldurados por cachos de cabelos ruivos emaranhados, ele soube como.

     Perfurou-a com um olhar, que ela imediatamente evitou, e disse a Dellray:

     - Vejamos... Peretti? Não foi ele quem mandou abrir o tráfego no local onde o elemento desconhecido estava observando a primeira vítima? Não foi ele quem liberou a cena do crime antes que tivéssemos oportunidade de coletar quaisquer indícios importantes? A cena que a minha própria Sachs, aqui presente, teve a previsão de interditar? A minha Sachs entendeu a situação corretamente, enquanto Peretti e todo mundo mais meteram os pés pelas mãos. Isso mesmo, ela fez isso.

     Amélia olhava para o polegar, um olhar que indicava que estava vendo uma coisa muito conhecida. Tirou um Kleenex do bolso e enrolou-o em volta do dedo sangrento.

     Dellray resumiu a situação, dizendo:

     - Vocês deviam ter nos chamado desde o começo.

     - Simplesmente, caia fora daqui - murmurou Polling. Alguma coisa rompeu-se nos olhos dele e a voz subiu de tom. – Desinfete daqui! - berrou.

     Até o próprio frio Dellray piscou e recuou quando o cuspe partiu da boca do capitão.

     Rhyme franziu as sobrancelhas na direção de Polling. Havia uma possibilidade de que pudessem salvar alguma coisa do caso, mas não se Polling tivesse uma crise de mau humor.

     - Jim...

     O capitão ignorou-o.

     - Fora! - berrou novamente. - Você não vai tomar nosso caso!

     E, surpreendendo todos os presentes, Polling saltou para a frente, agarrou o agente pelas lapelas verdes do paletó e empurrou-o contra a parede. Após um momento de atordoado silêncio, Dellray simplesmente empurrou o capitão para trás com a ponta dos dedos e pegou o telefone celular. Ofereceu-o a Polling.

     - Ligue para o prefeito. Ou para o chefe Wilson.

     Instintivamente, Polling afastou-se de Dellray - um homem baixo pondo alguma distância entre si e um homem muito mais alto.

     - Você quer o caso, então enfie naquele lugar.

     O capitão dirigiu-se à escada e começou a descê-la. Em seguida, ouviu-se a batida forte da porta.

     - Jesus, Fred - pediu Sellitto -, trabalhe conosco. Nós podemos prender esse safado.

     - Nós vamos precisar do AT do FBI - disse Dellray, parecendo nesse momento a própria voz da razão. - Vocês não estão preparados para o ângulo terrorista.

     - Que ângulo terrorista? - perguntou Rhyme

     - A conferência de paz das Nações Unidas. Um informante meu disse que andava circulando por aí que alguma coisa ia acontecer no aeroporto. No lugar onde ele sequestrou as vítimas.

     - Eu não faria um perfil dele como terrorista - disse Dobyns. - O que quer que esteja acontecendo com ele, ele é psicologicamente motivado. Não é nada ideológico.

     - Bem, o fato é que Quântico e nós o estamos vendo assim. Entendo que você possa pensar de outra maneira. Mas é assim que estamos tratando do caso.

     Rhyme desistiu. A fadiga estava acabando com ele. Como desejou que Sellitto e seu assistente, de rosto marcado por pequenas cicatrizes de barba, nunca tivessem aparecido naquela manhã. Como desejava jamais ter conhecido Amélia Sachs. Como desejava não estar usando essa ridícula camisa branca engomada, que sentia dura no pescoço e nada sentia embaixo dela.

     Notou que Dellray se dirigia a ele.

     - Como disse?

     Rhyme virou para ele uma vigorosa sobrancelha.

     - Quero dizer, política não poderia ser também um motivo? - perguntou Dellray.

     - O motivo não me interessa - retrucou Rhyme. - A prova me interessa.

     Dellray olhou mais uma vez para a mesa de Cooper.

     - Muito bem. O caso é nosso. Estamos entendidos a esse respeito?

     - Quais são nossas opções? - perguntou Sellitto.

     - Vocês nos dão apoio tático com turmas de busca. Ou podem sair inteiramente do caso. Isso é praticamente tudo que resta. Vamos levar agora a prova material, se não se importarem.

     Banks hesitou.

     - Entregue a eles - ordenou Sellitto.

     O jovem policial reuniu os sacos de prova da cena de crime mais recente, colocou-os dentro de uma grande sacola de plástico. Dellray estendeu as mãos. Banks olhou para os dedos finos, jogou a sacola em cima da mesa e se dirigiu para o lado mais distante da sala - o lado dos policiais. Lincoln servia de zona desmilitarizada entre eles. Amélia Sachs permaneceu rebitada ao pé da cama.

     Dellray dirigiu-se a ela:

     - Policial Sachs?

     Após uma pausa, os olhos pregados em Rhyme, ela respondeu:

     - Sim?

     - O comissário Eckert quer que você venha conosco para prestar conta de missão a respeito das cenas de crime. E ele disse alguma coisa sobre o início de sua nova designação na próxima segunda-feira.

     Amélia inclinou a cabeça.

     Dellray voltou-se para Rhyme e disse, sinceramente:

     - Não se preocupe, Lincoln. Nós vamos pegá-lo. Quando menos esperar, a cabeça dele estará enfiada em um pau nos portões da cidade.

     Inclinou a cabeça na direção de seus colegas, que reuniram a prova e desceram a escada. No alto da escada, Dellray perguntou:

     - Vai com a gente, moça?

     Amélia levantou-se, mãos juntas como uma escolar em uma festa à qual lamentava ter comparecido.

     - Em um minuto.

     Dellray desapareceu pela escada.

     - Aqueles putos - murmurou Banks, lançando a caderneta de notas em cima da mesa. - Vocês acreditam numa coisa dessas?

     Sachs balançou-se sobre os pés.

     - É melhor você ir, Amélia - disse Rhyme. - Sua carruagem a espera.

     - Lincoln.

     Aproximou-se mais da cama.

     - Está tudo bem - retrucou ele. - Você fez o que tinha de fazer.

     - Não tenho nada a ver com trabalho em cena de crimes – disse ela impetuosamente. - Eu jamais quis isso.

     - E não vai fazer mais isso. Assim, tudo acabou bem, não?

     Ela começou a dirigir-se para a porta, voltou-se impulsivamente e disse:

     - Você não se importa com coisa nenhuma, exceto com provas, não é?

     Sellitto e Banks se levantaram, mas ela ignorou-os.

     - Thom, quer fazer o favor de acompanhar Amélia?

     Amélia continuou:

     - Tudo isso para você é simplesmente um jogo, não? Monelle...

     - Quem?

     Os olhos de Amélia relampejaram.

     - Aí! Está vendo? Você nem mesmo se lembra do nome dela! Monelle Gerger. A moça naquele túnel... ela era para você simplesmente uma peça de um quebra-cabeça. Havia ratos andando por cima de todo o corpo dela e você disse: “É a natureza deles.” É a natureza deles? Ela nunca mais vai ser a mesma pessoa e tudo que o interessava eram suas preciosas provas.

     - Em vítimas vivas - disse ele em tom monótono, de professor dando uma aula - mordidas de roedores são sempre superficiais. Logo que a primeira pequena criatura babou em cima dela, ela passou a necessitar de vacina anti-rábica. O que mais algumas poucas mordidas podiam significar?

     - Por que não perguntamos a opinião dela?

     O sorriso de Amélia, nesse momento, era diferente. Tornou-se maldoso, como o daquelas enfermeiras e ajudantes de terapeutas que odeiam paralíticos. Andam em volta de enfermarias de reabilitação com sorrisos iguais àquele. Bem, ele não se sentia feliz com a Amélia Sachs educada. Queria a Amélia irascível...

     - Responda uma coisa, Rhyme. Por que você, realmente, me quis aqui?

     - Thom, nossa convidada passou da hora. Você poderia fazer o favor...

     - Lincoln... - começou a dizer o empregado.

     - Thom - disse secamente Rhyme -, acho que lhe pedi para fazer uma coisa.

     - Porque eu não sabia merda nenhuma disso - explodiu Sachs.

     - Foi por isso! Você não queria um verdadeiro especialista em cena de crime, porque, neste caso, não estaria no comando. Mas eu... você poderia me mandar para aqui, para ali. Eu faria exatamente o que você quisesse e não me acovardaria nem reclamaria.

     - Ah, motim das tropas... - comentou Rhyme, levantando a vista para o teto.

     - Mas eu não sou um de seus soldados. Para começar, jamais quis isso.

     - Eu também não queria. Mas aqui estamos. Juntos na cama. Bem, um de nós está.

     E ele teve certeza de que seu frio sorriso era muito, muito mais frio, do que qualquer um que ela pudesse pôr nos lábios.

     - Ora, você não passa de um menino mimado, Rhyme.

     - Ei, policial, tempo de ir embora - disse secamente Sellitto.

     Amélia, porém, continuou:

     - Você não pode percorrer mais uma cena de crime e sinto muito por isso. Mas está pondo em risco uma investigação simplesmente para massagear seu ego e eu digo: isso que se foda.

     Pegou o boné de patrulheira e saiu furiosa da sala.

     Ele esperou ouvir o estrondo da porta lá embaixo, talvez o som de vidro quebrado. Mas escutou apenas um baixo clique e, em seguida, silêncio.

     Enquanto Jerry Banks pegava a caderneta de notas e folheava-a com mais concentração do que era necessário, Sellitto disse:

     - Lincoln, sinto muito. Eu...

     - Não importa - respondeu Rhyme, bocejando exageradamente, na vã esperança de que isso lhe acalmasse o coração apertado. - Não importa, absolutamente.

     Os policiais ficaram por alguns momentos ao lado da mesa parcialmente vazia, em um silêncio constrangedor. Cooper falou, finalmente:

     - É melhor arrumar as malas.

     Colocou a caixa preta do microscópio em cima da mesa e começou a desaparafusar uma ocular com o cuidado amoroso de um músico desmontando seu saxofone.

     - Bem, Thom - disse Rhyme -, já anoiteceu. Sabe o que é que isso me diz? O bar está aberto.

    

     A sala de planejamento de operações deles era impressionante. Dava de dez a zero na de Lincoln.

     Metade de um andar do edifício federal, três dezenas de agentes, computadores e painéis eletrônicos de um filme de Tom Clancy. Os agentes pareciam advogados ou banqueiros de investimento. Camisas brancas, gravatas. Nos trinques, era a palavra que subia à mente. E, no centro de tudo aquilo, ela, Amélia Sachs, bem visível em seu uniforme azul-marinho, manchado de sangue de rato, poeira e merda granulada de gado morto há cem anos.

     Não tremia mais, como após sua explosão com Rhyme, e embora a mente continuasse em velocidade vertiginosa com as centenas de coisas que queria dizer, desejava ter dito, obrigou-se a concentrar-se no que estava acontecendo em volta.

     Um agente alto, usando terno cinza imaculado, conferenciava com Dellray - dois homens grandalhões, cabeças baixas, solenes. Pensou que ele era o agente especial que dirigia a Superintendência do FBI em Manhattan, Thomas Perkins, mas não tinha certeza. Um policial de radiopatruha tem tanto contato com o FBI quanto um empregado de lavanderia ou um vendedor de seguros. Ele parecia sério, eficiente, e continuava a lançar olhares para um grande mapa de Manhattan pendurado na parede. Perkins inclinou a cabeça várias vezes, enquanto Dellray lhe passava os dados. Em seguida, levantou-se, dirigiu-se a uma mesa coberta de pastas de papel manilha, olhou para os agentes e começou a falar.

     - Se fizerem o favor de me dar atenção... Acabei de entrar em contato com o diretor e o AG em Washington. Por esta hora, todos vocês ouviram falar no elemento desconhecido do Aeroporto Kennedy. Ele tem um perfil incomum. Sequestro, ausência do componente sexual, raramente constituem as bases de atividade serial. Na verdade, este é o primeiro elemento desconhecido desse tipo que tivemos no Distrito Sul. A luz da possível conexão com os eventos que ocorrem nas Nações Unidas nesta semana, estamos coordenando nossas atividades com a sede, com Quântico, e com o gabinete do secretário-geral. Recebemos ordens de nos dedicarmos inteiramente a este caso. Que tem a mais alta prioridade possível.

     O chefe olhou para Dellray, que começou a falar:

     - Tiramos o caso das mãos do DPNY, mas vamos usar o departamento no apoio tático e como mão-de-obra. Temos aqui conosco a policial que processou as cenas dos crimes e que nos vai dar as informações pertinentes a esse respeito.

     Dellray, nesse ambiente, parecia uma pessoa inteiramente diferente. Nem o mínimo sinal do Supermosca.

     - Você preencheu os cartões de custódia das provas? - perguntou Perkins.

     Amélia admitiu que não tinha.

     - Estávamos trabalhando para salvar as vítimas.

     O superintendente ficou um tanto perturbado ao ouvir isso. Em juízo, casos, acusações de outras maneiras sólidas, faziam água por causa de desleixo em registrar a cadeia de custódia de prova material. Era a primeira coisa que os advogados dos criminosos exploravam.

     - Não se esqueça de fazer isso antes de deixar o prédio.

     - Sim, senhor.

     Que expressão aquela no rosto de Rhyme, quando ele adivinhou que eu havia me queixado a Eckert e ele mandou encerrar a operação. Que expressão...

     Minha Sachs solucionou isso, minha Sachs preservou a cena.

     Mexeu novamente numa unha. Pare com isso, disse a si mesma, como sempre fazia, e continuou a cavoucar a carne. A dor lhe fez bem. Isso era uma coisa que os terapeutas jamais compreenderiam.

     - Agente Dellray, poderia fazer o favor de informar à sala que tipo de enfoque vamos adotar? - disse o superintendente.

     Dellray olhou do superintendente para os outros agentes e retomou a palavra:

     - No momento, temos agentes de campo invadindo todas as grandes células terroristas da cidade e desenvolvendo quaisquer pistas que possamos encontrar que nos levem à residência do elemento desconhecido. Todos os informantes, todos os agentes clandestinos. Isso vai implicar prejudicar algumas operações em andamento, mas chegamos à conclusão de que vale a pena correr esse risco.

     - Nosso trabalho aqui é o de reação rápida. Os senhores se dividirão em grupos de seis agentes cada, prontos para se mexerem ao aparecimento de qualquer pista. Terão apoio completo no que interessa a resgate de reféns e entrada em áreas interditadas.

     - Senhor... - disse Sachs.

     Perkins ergueu a vista, franzindo as sobrancelhas. Aparentemente, ninguém interrompia sessões de instruções, até o tradicional tempo de perguntas e respostas.

     - Sim, o que, policial?

     - Bem, eu estava apenas pensando, senhor. O que é que o senhor diz sobre a vítima?

     - Quem? Aquela moça alemã? Você acha que devemos entrevistá-la novamente?

     - Não, senhor. Estou me referindo à próxima vítima.

     - Certamente - respondeu o chefe da agência – continuamos a saber que outros casos podem ocorrer.

     - Ele está com outra vítima, agora.

     - Está? - O chefe olhou para Dellray, que encolheu os ombros. Perkins voltou-se para Sachs: - Como é que você sabe?

     - Bem, eu não sei exatamente, senhor. Mas ele deixou pistas na última cena de crime e não teria feito isso se não tivesse outra vítima. Ou estava prestes a sequestrar outra.

     - Anotado, policial - continuou o chefe. - Vamos nos mobilizar com toda rapidez possível para nos certificarmos de que nada lhe acontecerá.

     Dellray virou-se para Sachs:

     - Achamos que é melhor nos concentrarmos no próprio animal.

     - Detetive Sachs... - começou Perkins.

     - Não sou detetive, senhor. Estou lotada na radiopatrulha.

     - Sim, bem... - o superintendente olhou para a pilha de pastas. - Se pudesse nos apresentar alguns de seus melhores argumentos, isso seria útil.

     Trinta agentes a observavam. Duas mulheres entre eles.

     - Simplesmente, diga-nos o que viu - sugeriu Dellray, segurando um cigarro apagado entre os dentes.

     Amélia fez um resumo de suas buscas nas cenas dos crimes e das conclusões a que Rhyme e Terry Dobyns haviam chegado. A maioria dos agentes ficou perturbada com a curiosa motivação do elemento desconhecido.

     - Parece um jogo muito complicado - murmurou um agente.

     Outro perguntou se as pistas continham alguma mensagem política que pudessem decifrar.

     - Bem, senhor, realmente, não pensamos que ele seja um terrorista - insistiu Sachs.

     Perkins voltou para ela sua atenção de alta voltagem.

     - Quero lhe fazer uma pergunta, policial Sachs, você admite que ele é esperto, esse elemento desconhecido?

     - Muito esperto.

     - Ele não poderia estar fazendo um duplo blefe?

     - Não estou entendendo.

     - Você... eu deveria dizer, o DPNY pensa que ele é simplesmente um louco. Quero dizer, uma personalidade criminosa. Mas não será possível que ele seja suficientemente esperto para fazer com que vocês pensem isso? Quando alguma outra coisa está em andamento?

     - Tal como?

     - Veja essas pistas que ele deixou. Elas não poderiam ser ações diversivas?

     - Não, senhor, elas são indicações - respondeu Sachs. – Que levam às vítimas.

     - Compreendo - disse logo Thomas Perkins -, mas, ao fazer isso, ele também está nos levando para longe de outros alvos, certo?

     Ela não havia pensado nisso.

     - Acho que é possível.

     - E o chefe Wilson vem retirando efetivos do destacamento de segurança nas Nações Unidas e os usando para trabalhar no sequestro. Esse elemento desconhecido pode estar mantendo todos nós distraídos com outra coisa, o que o deixa livre para sua verdadeira missão.

     Sachs lembrou-se de que ela mesma teve um pensamento semelhante no começo do dia, observando todos aqueles investigadores percorrendo a Pearl Street.

     - E o alvo seria o prédio das Nações Unidas?

     - Achamos que sim - respondeu Dellray. - Os responsáveis pela tentativa de ataque com bomba à UNESCO em Londres poderiam querer tentar novamente.

     Significando isso que Rhyme estava seguindo numa direção inteiramente errada. Essa possibilidade aliviou de certa maneira o peso que sentia.

     - Agora, policial Sachs, poderia detalhar para nós, ponto por ponto, a prova encontrada?

     Dellray lhe entregou a folha com o inventário de tudo que ela tinha encontrado e Amélia começou a explicar, item por item. Enquanto falava, Sachs tornou-se consciente de grande atividade à sua volta - alguns agentes recebendo telefonemas, alguns em pé, falando em voz baixa a outros, uns tantos tomando notas. Mas quando, olhando para o papel, disse “Em seguida, descobri as impressões digitais dele na última cena de crime”, percebeu que a sala caiu em completo silêncio. Ergueu a vista. Todos ali olhavam-na fixamente com uma expressão que poderia passar por choque - se agentes federais fossem capazes disso.

     Sem saber o que fazer, ela olhou para Dellray, que inclinou a cabeça para um lado.

     - Você está dizendo que conseguiu uma impressão digital?

     - Bem, consegui. A luva dele caiu na luta com a última vítima e, quando ele a apanhou, a mão tocou o chão.

     - Onde está ela? - perguntou rapidamente Dellray.

     - Jesus! - exclamou um agente. - Por que você não disse nada?

     - Bem, eu...

     - Procure-a, procure-a! - gritou alguém.

     Um murmúrio varreu a sala.

     As mãos tremendo, Sachs procurou nos sacos de prova e entregou a Dellray a polaróide da impressão digital. Ele ergueu-a bem alto e examinou-a atentamente. Mostrou-a a alguém que, imaginou Amélia, era o perito em cristas de atrito.

     - Ótimo - disse o agente. - Ela é definitivamente classe A.

     Sachs sabia que impressões digitais eram classificadas como A, B e C, sendo a categoria mais baixa inaceitável para a maioria dos órgãos mantenedores da lei. Mas qualquer orgulho que sentisse pela sua perícia em descobrir provas foi esmagado pelo desalento coletivo por ela não ter falado nisso antes.

     Logo em seguida, tudo começou a acontecer ao mesmo tempo. Dellray entregou a foto a um agente, que correu para um computador incrementado num canto do escritório e colocou a polaróide no leito curvo, grande, de alguma coisa denominada Opti-Scan. Outro agente ligou o computador e começou a digitar comandos, enquanto Dellray agarrava um telefone. Ele bateu nervoso o pé e, em seguida, baixou a cabeça quando, em algum lugar, alguém respondeu.

     - Ginnie, Dellray. Isso vai ser um verdadeiro chute no saco, mas preciso que suspenda o atendimento de todos os pedidos da Região Nordeste AFIS e dê prioridade máxima à que estou enviando... Perkins está aqui. Ele aprovará e, se isso não for suficiente, eu ligo para o próprio homem em Washington... E aquela coisa das Nações Unidas.

     Sachs sabia que o Sistema de Identificação Automatizado do FBI era usado por departamentos de polícia em todo o país. E era isso que Dellray ia parar naquele momento.

     O agente ao computador informou:

     - Foto escaneada. Estamos transmitindo agora.

     - Quanto tempo isso vai levar?

     - Dez, quinze minutos.

      

     Crianças. Estudantes em cursos de verão. Skatistas. O ambiente era festivo, estranho. Cantores, malabaristas, acrobatas. A visão lembrou-lhe os “museus” do Bowery, muito populares na década de 1800. Não eram absolutamente museus, claro, mas arcadas, fervilhando com espetáculos burlescos, exibição de tipos deformados e engolido-res de fogo, camelôs que vendiam tudo, desde postais pornográficos franceses a lascas da Verdadeira Cruz.

     Diminuiu a marcha uma ou duas vezes, mas ninguém queria um táxi ou não podia pagar pela corrida. Virou para o sul.

     Schneider amarrou tijolos aos pés do Señor Ortega e rolou-o para baixo de um píer no rio Hudson, de modo que a água suja e os peixes pudessem reduzir-lhe o corpo à condição de um mero esqueleto. O corpo foi encontrado duas semanas após ele ter desaparecido, e assim nunca se soube se a infeliz vítima estava viva ou se tinha pleno domínio de seus sentidos quando foi jogado na água. Desconfia-se, porém, que foi o que aconteceu. Isso porque Schneider, cruelmente, encurtou a corda, de modo que o rosto do Señor Ortega ficou a apenas cinco centímetros abaixo da superfície da eclusa Davy Jones. As mãos dele, sem a menor dúvida, bateram em desespero enquanto olhava para o ar que teria sido sua salvação.

     O colecionar de ossos viu um rapaz de aparência doentia em pé ao meio-fio. AIDS, pensou. Mas seus ossos são sadios - e tão visíveis. Seus ossos durarão para sempre... Mas não queria um táxi e ele seguiu em frente, olhando esfomeado, pelo espelho retrovisor, para o corpo magro do rapaz.

     Voltou a olhar para a rua exatamente a tempo de manobrar para não bater em um idoso que havia descido do meio-fio, o braço magro erguido para chamar um táxi. O homem saltou para trás tanto quanto pôde e o táxi parou com um rangido de pneus logo adiante.

     O homem abriu a porta traseira e inclinou-se para dentro.

     - Você devia prestar mais atenção por onde anda. - Disse isso em um tom de quem dá um conselho. Não com raiva.

     O idoso senhor hesitou por um momento, olhou rua acima e não viu outros táxis. Entrou.

     Bateu a porta.

     O colecionador de ossos pensou: Velho e magro. A pele cobre seus ossos como se fosse seda.

     - Para onde? - perguntou.

     - East Side.

     - Estamos indo - disse ele, enquanto punha em volta do rosto a máscara de esquiador e virava rapidamente o volante para a direita. O táxi correu em alta velocidade na direção oeste.

 

                                        A FILHA DO PATRULHEIRO

   

     De sábado, 10:15 da noite, a domingo, 5:30 da manhã

     - Repita, Lon.

     Rhyme bebia em um canudinho, Sellitto em um copo. Ambos tomavam a bebida escura pura. O detetive afundou-se na cadeira de vime, que rangeu, e Rhyme concluiu que ele se parecia um pouco com Peter Lorre, no filme Casablanca.

     Terry Dobyns tinha ido embora - depois de passar para eles algumas acerbas introvisões psicológicas sobre narcisismo e aqueles indivíduos contratados pelo governo federal. Jerry Banks tinha ido embora também. Mel Cooper continuava laboriosamente a desmontar e embalar o equipamento.

     - Este é dos bons, Lincoln - comentou Sellitto, bebericando o uísque escocês. - Droga, não tenho mesmo condições financeiras para beber um troço como este. Que idade?

     - Acho que da década de 1920.

     O detetive examinou o líquido castanho-amarelado.

     - Diabos, se isto aqui fosse uma mulher, ela seria legal, e mais alguma coisa.

     - Quero saber uma coisa, Lon. E Polling? Aquela pequena crise de mau humor que ele teve. Qual o motivo de tudo aquilo?

     - O pequeno Jimmy? - Sellitto riu. - Ele está agora numa enrascada. Foi ele quem influiu para tirar Peretti do caso e para mantê-lo longe das mãos dos federais. Realmente se esforçou muito. Meteu-se por isso em apuros. Pedir sua colaboração custou também certo esforço. Um bocado de gente torceu o nariz por causa disso. Um paisano num caso “quente” como este.

     - Polling pediu que eu fosse chamado? Pensei que tinha sido o chefe.

     - Isso mesmo, mas, para começar, foi Polling quem pôs a pulga na orelha dele. Ele ligou tão logo ouviu dizer que tinha havido um sequestro e que havia umas provas materiais esquisitas na cena do crime.

     E queria minha ajuda?, pensou Rhyme. Esse fato era curioso. Não teve qualquer contato com Polling durante anos - não desde o caso do policial assassino, no qual tinha sido ferido. Polling esteve à frente das investigações e acabou prendendo Dan Shepherd.

     - Você parece surpreso - observou Sellitto.

     - Que ele tenha pedido minha ajuda? Estou. Não estávamos nos melhores termos. De qualquer modo, nunca estivemos.

     - Por quê ?

     - Porque taquei um 14-43 nele.

     O código era de um formulário de queixa do DPNY.

     - Há cinco, seis anos, quando ele era tenente, flagrei-o interrogando um suspeito bem no centro de uma cena segura. Contaminou-a. Fiquei uma fera. Citei o fato em um relatório, que constou de uma das avaliações rotineiras do trabalho dele... aquela em que ele baleou um suspeito desarmado.

     - Acho que tudo foi perdoado, porque ele queria muito sua colaboração.

     - Lon, dê um telefonema por mim, sim?

     - Claro.

     - Não - disse Thom, tomando o telefone da mão do detetive. - Deixe que ele mesmo faça isso.

     - Não tive tempo de aprender como essa coisa funciona - protestou Rhyme, inclinando a cabeça na direção do ECU de discagem, que Thom havia instalado antes.

     - Você não passou nisso o tempo necessário. Há uma grande diferença. Quer ligar para quem?

     - Berger.

     - Não, não vai - disse Thom. - Já está tarde.

     - Estou aprendendo a ver as horas já há algum tempo - respondeu friamente Rhyme. - Ligue para ele. Está hospedado no Plaza.

     - Não ligo.

     - Eu lhe pedi que ligasse.

    - Olhe aqui. - O empregado pôs com um estalo um pedaço de papel em cima da mesa. Rhyme, porém, leu-o facilmente. Deus podia ter tirado muito de Lincoln Rhyme, mas lhe deu a vista de um garoto. Rhyme executou o processo de discagem, com o rosto sobre a vareta de controle. A coisa foi mais fácil do que pensava, mas, de propósito, demorou muito, resmungando o tempo todo. E, o que foi enfurecedor, Thom ignorou-o e desceu para o térreo. Berger não se encontrava em seu quarto no hotel. Rhyme desligou, furioso por não poder bater com o telefone no gancho.

     - Problema? - perguntou Sellitto.

     - Não - rosnou Rhyme.

     Onde está ele?, pensou irritado. Era tarde. Por essa hora, Berger devia estar no quarto do hotel. Foi tomado por um sentimento estranho - o ciúme de que seu Dr. Morte estivesse fora, ajudando alguma outra pessoa a morrer.

     De repente, Sellitto soltou uma risadinha. Ergueu a vista. O policial estava comendo uma barra de chocolate. Esqueceu que comida lixo tinha sido a peça de resistência da dieta daquele homenzarrão, no tempo em que trabalhavam juntos.

     - Eu estava pensando... Lembra-se de Bennie Ponzo?

     - O OC da Força-Tarefa 10, há doze anos?

     - Ele mesmo.

     Rhyme gostava do trabalho do crime organizado. Os criminosos eram profissionais. As cenas de crime, um desafio. E as vítimas raramente eram inocentes.

     - Quem foi ele? - perguntou Mel Cooper.

     - Um pistoleiro de Bay Ridge - respondeu Sellitto. - Lembra-se, depois que o pegamos, do sanduíche de chocolate?

     Rhyme soltou uma risada, lembrando-se.

     - Qual é a história? - perguntou Cooper.

     - Bem, estávamos na Central, Lincoln, eu e mais uns dois outros caras. E Bennie, você se lembra, era um cara grandão, estava sentado, todo encurvado, apalpando o estômago. De repente, ele disse: “Estou com fome. Quero um sanduíche de chocolate.” Ficamos nos entreolhando, sem saber o que era aquilo. Então, perguntei: “Como é um sanduíche de chocolate?” Ele me olhou como se eu fosse um homem de Marte, e perguntou: “Que merda você pensa que é? Você pega uma barra de Hershey, põe entre duas fatias de pão e come. Isso é uma merda de sanduíche de chocolate.”

     Eles riram. Sellitto estendeu a barra de chocolate a Cooper, que recusou com um movimento de cabeça, e em seguida a Rhyme, que sentiu uma vontade súbita de dar uma dentada. Fazia mais de um ano desde que comera chocolate pela última vez. Evitava comidas assim - açúcar, balas. Comida trabalhosa. As pequenas coisas da vida eram os fardos mais pesados, os fardos que mais entristeciam e esgotavam um cara. Certo, você nunca fez pesca submarina ou passeou a pé pelos Alpes. E daí? Um bocado de gente tampouco faz isso. Mas todo mundo escova os dentes. Visita o dentista, faz uma obturação, toma o trem para voltar para casa. Todo mundo tira um pedaço de amendoim de trás de um molar quando ninguém está olhando.

     Todo mundo, menos Lincoln Rhyme.

     Sacudiu a cabeça na direção de Sellitto e tomou um grande gole do uísque. Os olhos voltaram à tela do computador, lembrando-se da carta de adeus a Blaine, que estivera escrevendo quando Sellitto e Banks o interomperam naquela manhã. E havia também algumas outras cartas que queria escrever.

     A que estava adiando era a que seria endereçada a Peter Taylor, o especialista em traumas da coluna vertebral. Na maior parte das vezes, conversara com Taylor não sobre seu estado, mas sobre morte. O médico era inimigo declarado da eutanásia. Achou que lhe devia uma carta, explicando por que resolvera pôr em prática a idéia de suicídio.

     E Amélia Sachs?

     A patrulheira receberia também um bilhete, resolveu.

     Paralíticos são generosos, paralíticos são bondosos, paralíticos são ferro...

     Paralíticos nada são, se não perdoam.

      

     Querida Amélia:

     Minha Querida Amélia:

     Amélia:

     Querida Policial Sachs:

     Na medida em que tivemos o prazer de trabalhar juntos, eu gostaria de aproveitar esta oportunidade para declarar que, embora a considere uma judas traidora, eu a perdôo. Além disso, desejo-lhe todo sucesso em sua futura carreira como baba-ovo da mídia...

    

     - Qual é a história dela, Lon? De Sachs?

     - A parte o fato de que tem um mau gênio que enche o saco de qualquer um e que eu não sabia disso?

     - Ela é casada?

     - Não. Com um rosto e um corpo como aqueles, a gente pensaria que algum gostosão já a teria papado. Mas ela nem mesmo namora. Ouvimos dizer há alguns anos que ela estava firme com alguém, mas ela nunca fala sobre isso. - Baixou a voz. - O boato que rola por aí é que ela é sapatão. Mas não sei nada disso. Minha vida social se resume em arranjar mulheres nas lavanderias nos sábados à noite. Ei, isso funciona. O que é que posso dizer?

     Você vai que ter que esquecer os mortos...

     Rhyme pensou na expressão no rosto da moça quando lhe dissera isso. O que significava aquilo? Mas depois ficou com raiva de si mesmo por estar perdendo tempo pensando nela. E tomou um bom gole do uísque escocês.

     A campainha tocou nesse momento e ouviram passos na escada. Rhyme e Sellito olharam de soslaio para a porta. O som era dos sapatos de um homem alto, usando culote e capacete azul. Um membro da Polícia Montada, um corpo de elite do DPNY. Ele entregou um grosso envelope a Sellitto e voltou à escada.

     O detetive abriu-o.

     - Olhem só o que temos aqui.

     E esvaziou em cima da mesa o conteúdo do envelope. Rhyme levantou a vista, irritado. Três ou quatro dezenas de sacos plásticos de prova, todos etiquetados. Todos continham um pedaço de celofane, tirado dos pacotes de canela de vitela que eles haviam mandado o pessoal do UOE comprar.

     - Um bilhete de Haumann. - Leu-o: “Para: L. Rhyme. L. Sellitto. De: B. Haumann, TSRE”

     - Que diabo é isso? - perguntou Cooper.

     O Departamento de Polícia é um ninho de abreviaturas e acrônimos. PMR - patrulha móvel remota - é um carro de radiopatrulha. DEI - dispositivo explosivo improvisado - é uma bomba. Mas TSRF era coisa nova. Rhyme encolheu os ombros.

     Sellitto continuou a ler, rindo ao mesmo tempo:

     - “Força Tática de Resposta de Supermercado. Ref.: Canelas de vitela. Uma busca em toda a cidade descobriu 46 elementos, todos os quais foram presos e neutralizados com emprego mínimo de força. Lemos para eles os seus direitos e os transportamos para uma instalação de detenção na cozinha da mãe do policial T.P. Giancarlo. Quando terminados os interrogatórios, uma meia dúzia de suspeitos serão transferidos para a custódia dos destinatários deste memorando. Aqueça-os a 350 graus durante 30 minutos.”

     Rhyme soltou uma risada. Bebericaram mais uísque, apreciando-lhe o sabor. Isso era uma coisa que lhe fazia falta, o cheiro fumacento do uísque. (Embora, na paz de um sono inconsciente, como era que alguém podia sentir falta de alguma coisa? Exatamente igual à prova: retire-se o padrão básico e nada temos com que julgar a sua perda e estamos em segurança por toda eternidade.)

     Cooper espalhou algumas das amostras.

     - Quarenta e seis amostras de celofane. Uma de cada rede de supermercados e dos grandes mercados independentes.

     Rhyme olhou para as amostras. As probabilidades eram boas de identificação por classe. A individuação do celefane seria dificílima - o fragmento encontrado na pista do osso de vitela não corresponderia exatamente, claro, a qualquer um desses. Mas, uma vez que as matrizes compram suprimentos idênticos para todas as suas lojas, seria possível descobrir em que cadeia de supermercados 238 tinha comprado a vitela e reduzir o número de bairros onde ele poderia morar. Talvez ele devesse ligar para a equipe de exame de prova física do FBI e...

     Não, não. Lembre-se: agora a porra do caso pertence a eles.

     Rhyme deu uma ordem a Cooper:

     - Embrulhe tudo isso e envie o pacote aos nossos irmãos federais.

     Rhyme tentou desligar o computador e tocou a tecla errada com o dedo anular às vezes genioso. O alto-falante-telefone reagiu com um alto gemido.

     - Merda - murmurou irado. - Porra de máquina.

     Inquieto com a súbita raiva de Rhyme, Sellitto olhou para o copo e brincou:

     - Ei, Linc. Todo mundo espera que uísque bom assim torne o cara mais jovial.

     - Entendi - respondeu azedamente Thom. - Ele é jovial.

    

     Ele estacionou perto do enorme cano de esgoto.

     Descendo do táxi, sentiu o cheiro da água fétida, lodosa, podre. Ele se encontrava no beco que levava ao grande cano de escoamento que começava na West Side Highway e descia para o rio Hudson. Ninguém podia vê-los ali.

     O colecionador de ossos foi até a parte traseira do táxi, saboreando o prazer de olhar para o idoso cativo. Da mesma maneira que tinha gostado de olhar para a moça que amarrara em frente ao cano de vapor. E também para a mão que acenava dos trilhos, em princípios da manhã.

     Examinou os olhos assustados. Aquele homem era mais magro do que pensava. Mais grisalho. Cabelos despenteados.

     Velho no corpo, mas jovem nos ossos...

     Acovardado, o homem afastou-se dele, os braços cruzados em um gesto de defesa sobre o peito estreito.

     Abrindo a mala, o colecionador de ossos encostou o cano da pistola no esterno da vítima.

     - Por favor - disse baixinho o cativo, a voz tremendo. - Eu não tenho muito dinheiro, mas você pode levar tudo. Nós podemos ir a um caixa automático. Eu...

     - Desça.

     - Por favor, não me machuque.

     O colecionador gesticulou com a cabeça. A vítima frágil olhou em volta, amedrontada, e inclinou-se subitamente para a frente, os braços ainda cruzados, tremendo, a despeito do calor.

     - Por que você está fazendo isso?

     O colecionador deu um passo para trás e as algemas brilharam quando as tirou do bolso. Como estava usando grossas luvas, precisou de alguns segundos para encontrar os elos cromados. Enquanto os puxava para fora, achou que via um barco de quatro mastros subindo o Hudson. A corrente contrária não era tão forte quanto no East River, onde barcos a vela enfrentavam a maior dificuldade para navegar vindo de leste, de Montgomery e dos ancoradouros do Out Ward ao norte. Apertou os olhos. Não, espere... não era um barco a vela, mas apenas uma lancha cabinada. Yuppies preguiçosos no longo tombadilho da proa.

     Quando ele se aproximou com as algemas, o cativo agarrou sua camisa com força e disse:

     - Por favor. Eu estava indo para o hospital. Foi por isso que o mandei parar. Ando sentindo dores no peito.

     - Cale a boca.

     O homem subitamente atacou o rosto do colecionador, as mãos cheias de cloasmas segurando-lhe o pescoço e ombro e apertando com força. Uma pontada de dor irradiou-se do local onde as unhas amarelas penetraram no corpo. Com uma explosão de raiva, o sequestrador afastou as mãos da vítima e algemou-a violentamente.

     Pregando um pedaço de fita adesiva na boca do homem, o colecionador o arrastou pelo aterro de cascalho na direção da boca do cano, de l,20m de diâmetro. Parou e olhou atentamente para o velho.

     Seria tão fácil reduzi-lo a osso.

     O osso... Tocá-lo. Ouvi-lo.

     Levantou a mão da vítima. Olhos apavorados fitaram-no, lábios tremendo. O colecionador acariciou os dedos do homem, apertando-lhe as falanges entre as suas (adoraria tirar as luvas, mas não ousava). Em seguida, ergueu a palma da mão do homem e pressionou-a com força contra sua própria orelha.

     - O quê...

     Sua mão esquerda se fechou em volta do dedo mínimo da confusa vítima e puxou-o lentamente, até ouvir o thonk profundo do osso quebradiço se partindo. Um som muito agradável. O homem gritou, um grito abafado e trêmulo através da mordaça. E desabou no chão.

     O colecionador levantou-o com um safanão e levou a trôpega vítima para a boca do cano. Empurrou-a para a frente.

     Saíram embaixo do píer antigo e arruinado. Era um lugar repugnante, coberto de corpos em putrefação de animais e peixes, lixo acumulado nas pedras molhadas, uma lama esverdeada de algas. Um bolo de sargaço subia e descia na água como se fosse um homem gordo fazendo amor. A despeito do calor da tarde no resto da cidade, fazia frio ali, como num dia de março.

     Señor Ortega...

     Empurrou o homem para o rio, algemou-o a uma coluna do píer e prendeu novamente o bracelete no punho da vítima. O rosto lívido do cativo ficou a cerca de 90 cm acima da água. O colecionador foi pisando com cuidado sobre as pedras escorregadias até o cano de esgoto. Virou-se e parou por um momento, observando, observando. Não tinha dado muita importância se os guardas municipais encontrariam ou não os outros. Hanna, a mulher no táxi. Mas este... O colecionador tinha esperança de que não o achassem a tempo. Na verdade, que não o encontrassem absolutamente. Dessa maneira, poderia voltar ali dentro de um ou dois meses e ver se o rio inteligente tinha lavado a carne e deixado apenas o esqueleto.

     De volta à passagem de cascalho, tirou a máscara e deixou, não muito longe do local onde havia estacionado, as pistas da próxima cena. Estava zangado, furioso mesmo com os guardas municipais e, por isso mesmo, dessa vez escondeu as pistas. E incluiu também entre elas uma surpresa especial. Uma coisa que estava reservando para eles. E voltou ao táxi.

     A brisa era suave e trazia o cheiro do rio azedo, o farfalhar da relva e, como sempre na cidade, o shushhh do tráfego.

     Igualzinho à lixa sobre osso.

     Parou e escutou esse som, a cabeça inclinada para um lado enquanto olhava para os bilhões de luzes dos prédios, estendendo-se para o norte como se fosse uma galáxia oblonga. Nessa ocasião, uma mulher, correndo em velocidade, apareceu em uma pista de jogging ao lado do cano de esgoto e quase colidiu com ele.

     Usando bermudas e bustiê púrpura, a morena baixinha evitou a colisão com um passo de dança para o lado. Arquejando, parou, sacudiu o suor do rosto. Ela estava em boa forma - tinha músculos rijos - mas não era bonita. Nariz adunco, lábios grossos, pele manchada.

     Mas, por baixo daquilo...

     - O senhor não devia... Não devia estacionar aqui... Isto aqui é uma pista de jogging...

     As palavras morreram e o medo lhe surgiu nos olhos, que saltaram do rosto do homem para o táxi e para o bolo formado pela máscara de esquiador que ele tinha na mão.

     Ela sabia quem era aquele homem. Ele sorriu, notando-lhe a clavícula notavelmente pronunciada.

     O tornozelo direito da moça mudou ligeiramente de posição, pronto para lhe suportar o peso quando saísse correndo dali a toda velocidade. Mas ele pegou-a antes disso. Abaixou-se para interceptá-la e, quando ela soltou um rápido grito e baixou os braços para bloqueá-lo, o colecionador de ossos arrumou-se bruscamente a partir da postura evasiva e atingiu-a na têmpora com o cotovelo. Houve um estalo, como uma correia que se rompe.

     Ela caiu, bateu com força no chão, e ficou imóvel. Horrorizado, o colecionador caiu de joelhos e segurou-lhe a cabeça nos braços.

     - Não, não, não...

     Estava furioso consigo mesmo por ter batido com tanta força, enojado no fundo do coração pela possibilidade de ter quebrado o que parecia ser um crânio perfeito sob os tentáculos dos cabelos pegajosos e rosto comum.

    

     Amélia Sachs terminou de preencher outro cartão da cadeia de custódia e resolveu fazer uma pequena pausa. Descobriu uma máquina vendedora automática e comprou um copo de papel de café horroroso. Voltou ao escritório sem janelas e olhou para a prova que tinha reunido.

     Sentiu um estranho carinho por aquela coleção macabra, talvez por causa das situações por que tinha passado para reuni-la - as juntas ficavam em fogo e ainda se arrepiava toda quando se lembrava do corpo enterrado na primeira cena naquela manhã, das carnes penduradas de T.J. Colfax. Até esse dia, prova material nada significava para ela. Provas materiais eram assunto de aulas tediosas, em tardes sonolentas de primavera, na Academia de Polícia. Prova material era matemática, gráficos e tabelas, era ciência. Era morte.

     Não, Amie Sachs ia ser uma policial de gente, fazendo ronda, apartando brigas, expulsando drogados, espalhando respeito pela lei - como fez seu pai. Ou implantando esse respeito na marra. Como o belo Nick Carelli, um veterano de cinco anos, o astro de Crimes de Rua, alegre para o mundo com aquele sorriso tipo você-está-com-algum-problema?

     E era exatamente isso o que ela ia ser.

     Olhou para a folha marrom, seca, que tinha encontrado no túnel do curral. Uma das pistas deixadas por 238. E ali estava também a roupa de baixo. Lembrou-se de que os federais haviam tomado aquela prova material antes de Cooper concluir o teste no... como era o nome daquela máquina? Cromatógrafo? Especulou sobre qual seria o líquido que umedecia o tecido de algodão.

     Esses pensamentos, porém, levaram-na a Lincoln Rhyme, e ele era a única pessoa no mundo em quem não queria pensar naquele momento.

     Voltou à burocracia de anotar nos cartões o resto da prova material. Cada cartão continha uma série de linhas em branco, onde seriam listados em sequência os nomes das pessoas que haviam manuseado a prova, desde a sua descoberta inicial na cena do crime até o julgamento na justiça. Ela tinha transportado várias vezes e seu nome constava dos cartões. Mas essa era a primeira vez em que A. Sachs, DPNY 5885, ocupava a primeira linha.

     Mais uma vez, ergueu o saco plástico que continha a folha.

     Ele havia realmente tocado naquela folha. Ele. O homem que tinha assassinado T.J. Colfax. Que havia segurado o braço gordo de Monelle Gerger e cortado até o osso. Que estava nesse exato momento à procura de uma nova vítima - se é que já não a havia sequestrado.

     Que naquela manhã tinha enterrado aquele pobre homem, a implorar com a mão por uma compaixão que jamais recebeu.

     Pensou no Princípio da Troca, de Locard, sobre pessoas que entram em contato, cada uma transferindo alguma coisa para a outra. Coisas grandes, coisas pequenas. Com a maior probabilidade, elas nem sabiam que faziam isso.

     Teria alguma coisa de 238 vindo com aquela folha? Uma célula de sua pele? Uma gota de suor? Era um pensamento intrigante. Sentiu uma pontada de excitação, como se o assassino estivesse ali, em sua companhia, na pequena sala abafada.

     De volta aos cartões. Durante dez minutos preencheu-os e estava justamente terminando o último quando a porta foi aberta bruscamente, sobressaltando-a. Girou sobre si mesma.

     Viu Fred Dellray à soleira, sem o paletó verde, a camisa engomada branca amassada, dedos beliscando o cigarro atrás da orelha.

     - Venha aqui por um minuto ou dois, policial Sachs. Tempo de recompensa. Pensei que você gostaria de estar presente.

     Sachs seguiu-o pelo curto corredor, dois passos atrás das enormes passadas.

     - Os resultados da AFIS estão chegando - explicou Dellray.

     A sala de planejamento estava ainda mais movimentada do que antes. Agentes em mangas de camisas, debruçados sobre mesas. Todos com suas armas de serviço - as volumosas automáticas Sig-Sauer e Smith & Wesson, 10mm. e .45s. Meia dúzia de agentes formavam um bolo em volta do terminal do computador, ao lado do Opti-Scan.

     Amélia não tinha gostado da maneira como Dellray lhes tomou o caso, mas tinha que reconhecer que, por baixo daquela conversa sedosa de hipster, Dellray era um policial muito bom. Agentes - velhos e moços - procuravam-no com perguntas e ele pacientemente lhes respondia. Arrancava um telefone do gancho e lisonjeava ou espinafrava quem estivesse no outro lado da linha para conseguir o que queria. Em certas ocasiões, olhou de um lado para outro da sala movimentada, rugindo: “Nós vamos pegar aquele escroto. Isso mesmo, podem apostar que vamos.”

     E os olhares diretos e contrafeitos que recebia de volta traziam o pensamento óbvio de que, se alguém podia pegar o escroto, esse alguém era Dellray.

     - Está chegando agora - disse um agente.

     - Quero linhas livres para Nova York, Jersey e Connecticut - disse em voz alta Dellray. - E também com Casas Correcionais e Livramento Condicional. E com o INS, também. Digam que fiquem de prontidão para pedido de identificação. Suspendam todas as demais operações.

     Os agentes se afastaram e começaram a telefonar. A tela do computador encheu-se nesse instante. Amélia não pôde acreditar que Dellray fez realmente figa com os dedos compridos e finos. Silêncio total na sala.

     - Pegamos o canalha! - berrou o agente ao teclado.

     - Ele não é mais um elemento desconhecido - cantarolou, entoado, Dellray, curvando-se para a tela. - Escutem. Temos o nome: Victor Pietrs. Nascido aqui, 1948. Os pais eram de Belgrado. Temos, portanto, uma conexão sérvia. Identificação fornecida por cortesia da Promotoria Pública de Nova York. Condenações por drogas, assaltos, um deles com arma mortal. Cumpriu duas penas de prisão. Ouçam só isso: história psiquiátrica, internado três vezes compulsoriamente. Internações no Bellevue e no Manhattan Psychiatric. Ultima alta há três anos. UEC Washington Heights. - Ergueu a vista. - Quem está ligado com as companhias telefônicas? Vários agentes levantaram a mão.

     - Façam as ligações - ordenou Dellray.

     Passaram-se cinco minutos intermináveis.

     - Ausente. Não está listado na New York Telephone.

     - Nada em Jersey - disse outro agente.

     - Connecticut, negativo.

     - Merda - murmurou Dellray. - Misturem os nomes. Tentem variações. E dêem uma busca em serviço telefônico cancelado por falta de pagamento.

     Durante vários minutos, vozes subiram e desceram como uma maré.

     Dellray andou de um lado para o outro como um maníaco-ob-sessivo e Sachs compreendeu por que ele era tão magro.

     De repente, um agente berrou:

     - Achei!

     Todos se viraram para ele.

     - Estou ligado com a NY DMV - disse em voz alta outro agente. - Têm o nome dele. A informação está vindo agora... Ele é motorista de táxi. Tem licença para trabalhar.

     - Por que é que isso não me surpreende? - murmurou Dellray.

     - Devia ter pensado nisso. Onde é que fica o lar, doce lar, dele?

     - Morningside Heights. A um quarteirão do rio. - O agente anotou o endereço e ergueu-o alto no ar, onde Dellray pegou-o ao passar rápido por ali. - Conheço o lugar. Muito deserto. Cheio de viciados.

     Outro agente digitou um endereço no terminal de seu computador.

     - OK, conferindo transações imobiliárias... A propriedade dele é uma casa velha. Hipotecada a um banco. Ele deve alugá-la.

     - Vocês querem a HRT? - gritou um agente do outro lado da movimentada sala. - Estou com Quântico na linha.

     - Não temos tempo - resolveu Dellray. - Ligue para a sede da SWAT. Pessoal pronto para operar, coletes à prova de bala, tudo.

     - E o que é que você me diz sobre a vítima seguinte? - perguntou Amélia.

     - Que vítima seguinte?

     - Ele já sequestrou alguém. Ele sabe que temos as pistas já há uma ou duas horas. Ele deve ter deixado a vítima há pouco tempo em algum lugar. Ele tinha que fazer isso.

     - Não há notícia de ninguém desaparecido - respondeu o agente. - E se ele as sequestrou, estão provavelmente na casa dele.

     - Não, não estão.

     - Por que não?

     - Elas captariam provas materiais demais - explicou ela. - Lincoln disse que ele tem uma casa segura.

     - Nesse caso, vamos pegá-lo e obrigá-lo a nos dizer onde elas estão.

     Outro agente comentou:

     - Nós podemos ser muito convincentes.

     - Vamos nos mexer - disse Dellray em voz alta. - Vocês, todos aqui, vamos agradecer à policial Sachs, aqui presente. Foi ela quem descobriu e revelou a impressão digital.

     Amélia ficou corada. Sentiu isso, e odiou. Mas não pôde evitar a sensação. Baixando a vista, notou estranhas linhas em seus sapatos. Apertando a vista, descobriu que ainda estava usando os elásticos.

     Ao erguer a vista, viu uma sala cheia de agentes federais de rostos sérios, checando armas e dirigindo-se à porta, enquanto lhe lançavam um olhar. Da mesma maneira, pensou ela, que os lenhadores olham para toras de madeira.

    

     Em 1911, uma tragédia de enorme dimensão abateu-se sobre nossa bela cidade.

     No dia 25 de março, centenas de moças esforçadas trabalhavam duramente em uma fábrica de vestuários, uma das muitas tristemente famosas como locais de “suor demais, paga de menos”, em Greenwich Village, no centro de Manhattan.

     Tão enamorados estavam dos lucros os donos dessa companhia que negavam às pobres moças instalações rudimentares que escravos poderiam ter possuído. Acreditavam que as trabalhadoras não mereciam a confiança de ir sozinhas ao banheiro em rápidas visitas e, assim, mantinham fechadas a sete chaves as salas de corte e costura.

     O colecionador de ossos voltava nesse momento no táxi para o prédio onde morava. Passou por um carro de radiopatrulha, mas manteve os olhos voltados diretamente à frente e os guardas municipais nem mesmo o olharam.

     No dia em questão, começou um incêndio no oitavo andar do prédio que, em minutos, espalhou-se pela fábrica, de onde as jovens empregadas fizeram tudo para fugir. Não puderam escapar, contudo, porque havia uma corrente passada pela porta. Muitas morreram ali mesmo e diversas outras, algumas com o corpo em chamas, saltaram no ar de uma altura de dezenas de metros sobre as lajes embaixo e morreram no choque com a inamovível Mãe Terra.

     Houve 146 vítimas no incêndio da Triangle Shirtwaist. A polícia, no entanto, ficou perplexa com a incapacidade de localizar uma das vítimas, uma mulher jovem, Esther Weiraub, que várias testemunhas viram saltar em desespero do oitavo andar. Nenhuma das moças que saltou da mesma maneira sobreviveu à queda. Era possível que ela tivesse, miraculosamente, sobrevivido? Pois quando os corpos foram alinhados na rua para que chorosos membros de famílias as identificassem, a pobre Srta. Weinraub não foi encontrada.

     Histórias começaram a circular sobre um violador de tumbas e devorador de cadáveres, um homem que foi visto saindo com um grande volume da cena do incêndio. Tão indignados ficaram os guardas municipais que alguém pudesse violar os restos sagrados de uma inocente vítima que iniciaram uma busca pelo tal homem.

     Após várias semanas, seus diligentes esforços produziram frutos. Dois moradores de Greenwich Village comunicaram ter visto um homem deixando a cena do incêndio levando um pesado fardo, “como se fosse um tapete”, em cima do ombro. Os guardas municipais descobriram a pista e seguiram-na até o West Side, onde conversaram com moradores e souberam que o homem correspondia à descrição de James Schneider, que continuava à solta.

     Acabaram por restringir a busca a uma residência decrépita em um beco da Hell's Kitchen, não muito longe dos currais da rua 60. Ao entrarem no beco, foram recebidos por uma fedentina repugnante...

     Nesse momento, ele estava passando pelo próprio local do incêndio da Triangle - talvez ele tivesse sido levado subconscientemente a passar por ali. O Asch Building - o nome irônico da estrutura onde funcionava a fábrica condenada - havia sido demolido e o local era nesse momento parte da Universidade de Nova York. Naquela ocasião como agora... O colecionador de ossos não teria ficado surpreso se tivesse visto moças operárias usando blusa branca, deixando um rastro de fagulhas e fumaça, caindo graciosamente para a morte, caindo em volta dele como se fossem flocos de neve.

     Ao invadir a habitação de Schneider, as autoridades descobriram um espetáculo que fez cambalear de horror até mesmo os mais empedernidos entre elas. O corpo da infeliz Esther Weinraub - (ou o que restava dele) - foi encontrado no porão. Schneider estava encurvado sobre o corpo, terminando o trabalho do trágico incêndio e lentamente removendo a carne do corpo da moça, usando meios chocantes demais para descrever aqui.

     Uma busca no horripilante local revelou a existência de um quarto secreto, ao lado do porão, cheio de ossos que haviam sido inteiramente descamados.

     Embaixo da cama de Schneider, os guardas encontraram um diário, no qual o louco tinha escrito sua história do mal. “O osso” - (escreveu Schneider) - “é o núcleo final do ser humano. Ele não se altera, não engana, não cede. Logo que a fachada de nossos dissolutos caminhos da carne, os defeitos de raças inferiores, e o sexo mais fraco são queimados ou cozidos, nós somos - todos nós - osso nobre. O osso não mente. É imortal.”

    O diário do lunático continha uma crônica de experimentação horripilante, enquanto ele procurava descobrir a maneira mais eficaz de descamar o corpo de suas vítimas. Tentara cozinhá-los, queimá-los, lixiviá-los, empalá-los em paus para serem devorados por animais e imergi-los em água.

     Em seu macabro esporte, porém, ele preferia um método a todos os outros. “Concluí que é melhor”, continuava o diário, “simplesmente enterrar o corpo na terra generosa e deixar que a Natureza se encarregue do tedioso trabalho. É o método mais demorado, porém o menos capaz de despertar suspeita, uma vez que os odores são reduzidos ao mínimo. Prefiro enterrar os indivíduos enquanto eles ainda estão vivos, embora não possa dizer com certeza o motivo.”

     Nesse quarto até então secreto foram descobertos três outros corpos nessa exata condição. As mãos abertas e expressão confusa das pobres vítimas documentavam que estavam na verdade vivas quando Schneider jogou a última pá de terra sobre suas cabeças atormentadas.

     E foram essas sinistras inclinações que levaram os jornalistas do dia a batizar Schneider com o nome pelo qual será para sempre conhecido: “O Colecionador de Ossos”.

     Continuou a dirigir, a mente voltando à mulher dentro da mala do carro, Esther Weinraub. O cotovelo fino, a clavícula delicada como uma asa de ave. Acelerou mais o táxi e arriscou-se mesmo a desobedecer dois sinais vermelhos. Não podia esperar muito tempo mais.

    

     - Não estou cansado - disse secamente Rhyme.

     - Cansado ou não, você precisa descansar.

     - Não. Eu preciso é de outro drinque.

     Valises pretas alinhavam-se ao longo da parede, à espera de policiais da 22a Delegacia, que as levariam de volta para o laboratório da DIRC. Nesse momento, Mel Cooper levava uma caixa de microscópio escada abaixo. Lon Sellitto continuava sentado na cadeira de vime, mas não falava muito. Estava justamente chegando à conclusão de que Lincoln Rhyme, afinal de contas, não era absolutamente um bêbado jovial.

     - Tenho certeza de que sua pressão arterial subiu - disse Thom. - Você precisa descansar.

     - Preciso é de um drinque.

     Diabos a levem, Amélia Sachs, pensou ele. E não soube por quê.

     - Você devia largar isso. A bebida nunca lhe fez bem.

     Bem, eu estou largando tudo, respondeu silenciosamente Rhyme. Para sempre. Segunda-feira. E nada de doze passos para mim. Vai ser um passo só.

     - Prepare outro drinque - ordenou.

     Sem querê-lo, realmente.

     - Não.

     - Prepare um drinque para mim, agora! - disse Rhyme, áspero.

     - De jeito nenhum.

     - Lon, você poderia fazer o favor de me preparar um drinque?

     - Eu...

     - Ele não vai tomar outro - declarou Thom. - Quando está num estado desses, ele se torna insuportável e não vamos tolerar isso.

     - Você vai me negar alguma coisa? Eu poderia mandá-lo embora.

     - Pois mande.

     - Maltratar um paralítico! Vou processá-lo por isso. Prenda-o, Lon.

     - Lincoln... - começou Sellitto, procurando acalmá-lo.

     - Prenda-o!

     O detetive ficou surpreso com a crueldade das palavras de Rhyme.

     - Ei, amigão, talvez você deva maneirar um pouco – aconselhou Sellitto.

     - Oh, Cristo - gemeu Rhyme. E começou a gemer em voz alta.

     - O que é isso? - perguntou Sellitto, preocupado.

     Thom permaneceu calado, olhando atentamente para Rhyme.

     - Meu fígado - O rosto de Rhyme se transformou em um sorriso cruel. - Cirrose, provavelmente.

     Thom deu-lhe as costas, furioso, dizendo:

     - Eu não vou aguentar essa merda, está bem?

     - Não, não está bem...

     Uma voz de mulher à porta:

     - Nós não temos muito tempo.

     - ...absolutamente.

     Amélia Sachs entrou e olhou para as mesas vazias. Rhyme sentiu baba na boca. Ficou alucinado de raiva. Porque ela viu a saliva. Porque ele usava uma camisa branca engomada, que vestira apenas por causa dela. E porque queria desesperadamente ficar sozinho, para sempre, sozinho na escuridão de uma paz imóvel - onde era o rei. Não rei por um dia. Mas rei por toda eternidade.

     A baba engrossou. Contraiu os músculos já doloridos do pescoço para passar a língua pelos lábios e secá-los. Habilmente, Thom tirou um lenço de papel de uma caixa e secou a boca e o queixo do patrão.

     - Policial Sachs - disse Thom. - Seja bem-vinda. Um exemplo notável de maturidade. Não estamos vendo muito disso neste exato momento.

     Amélia não usava o quepe e a blusa azul-celeste estava aberta na gola. Os cabelos ruivos longos cascateavam pelos ombros. Ninguém teria o menor trabalho para diferenciar aquele cabelo sob um microscópio de comparação.

     - Mel me deixou entrar - explicou ela, indicando a escada com um movimento de cabeça.

     - Já não passou a hora de você ir dormir, Sachs?

     Thom deu uma palmadinha no ombro do patrão. Comporte-se, era o que o gesto dizia.

     - Acabei de vir do edifício federal - disse ela a Sellitto.

     - O que é que estão fazendo com nossos dólares de imposto?

     - Eles o pegaram.

     - O quê?! - perguntou Sellitto. - Tão fácil assim? Jesus. Já sabem disso lá no centro?

     - Perkins ligou para o prefeito. O cara é um motorista de táxi. Nasceu aqui, mas o pai dele era sérvio. De modo que estão pensando que ele estava querendo se vingar das Nações Unidas, ou coisa assim. Tem antecedentes criminais. Oh, e também uma história de problemas mentais. Dellray e a SWAT federal estão a caminho agora mesmo.

     - Como foi que eles conseguiram isso? - perguntou Rhyme. - Aposto que foi aquela impressão digital.

     Ela confirmou com um aceno de cabeça.

     - Eu desconfiei que aquela impressão ia ser importante. E, diga-me uma coisa, qual a preocupação deles com a próxima vítima?

     - Eles estão preocupados - respondeu ela, honestamente. - Mas querem principalmente pegar o elemento desconhecido.

     - Bem, essa é a natureza deles. Deixe-me pensar. Eles estão achando que poderão forçá-lo a revelar o local onde deixou a vítima, depois de o prenderem.

     - Isso mesmo.

     - Isso pode demandar muito esforço - observou Rhyme. - Arrisco essa opinião sem o benefício das luzes do nosso Dr. Dobyns e dos sábios de Ciência Comportamental. De modo que mudou de idéia, Amélia? Por que voltou aqui?

     - Porque, consiga ou não Dellray agarrá-lo, acho que não temos tempo a esperar. Quero dizer, para salvar a próxima vítima.

     - Oh, mas nós fomos desmontados. Não ouviu falar nisso? Nossas portas foram fechadas, somos considerados acabados. – Rhyme olhava nesse momento para a tela escura do computador, tentando ver se seu cabelo continuava penteado.

     - Você está desistindo? - perguntou ela.

     - Policial - disse Sellitto -, mesmo que quiséssemos fazer alguma coisa, não temos mais nenhuma prova material. Esse é o único elo...

     - Eu a tenho.

     - O quê?

     - Toda ela. Está lá embaixo, no VRR.

     O detetive olhou pela janela.

     Sachs continuou:

     - Da última cena de crime. De todas as cenas.

     - Você tem as provas? - perguntou Rhyme. - Como?

     Sellitto, porém, estava rindo.

     - Ela furtou-as, Lincoln. Porra!

     - Dellray não precisa delas - observou Sachs. - Exceto para o julgamento. Eles pegaram o elemento desconhecido, nós vamos salvar a vítima. Funciona bem, não?

     - Mas Mel Cooper acaba de ir embora.

     - Não, ele está lá embaixo. Pedi a ele para esperar. - Sachs cruzou os braços no peito. Olhou para o relógio. Passava das sete. - Não temos muito tempo - repetiu.

     Os olhos de Rhyme também estavam no relógio. Deus, como estava cansado. Thom tinha razão. Estava acordado por mais tempo do que em anos. Mas estava surpreso - não, chocado - por descobrir que, embora pudesse ter se sentido furioso, embaraçado ou apunhalado por uma cruel frustração naquele dia, os minutos que se escoaram não foram pesos insuportáveis em sua alma. Como haviam sido nos três últimos anos e meio.

     - Ratos de igreja que estão no céu! - exclamou Rhyme com uma risada. - Thom? Thom! Precisamos de café. Em acelerado. Sachs, leve essas amostras de celofane ao laboratório, juntamente com a polaróide do fragmento que Mel tirou do osso de vitela. Eu quero, dentro de uma hora, um laudo de polarização-comparação. E nada dessa merda de “com a maior probabilidade”. Quero uma resposta: em qual rede de mercados nosso elemento desconhecido comprou o osso de vitela. E traga de volta para cá aquela sua pequena sombra, Lon. Aquela que tem o nome de um jogador de beisebol.

    

     As vans pretas corriam em alta velocidade pelas ruas secundárias.

     Era uma rota mais demorada para a casa do elemento, mas Dellray sabia o que estava fazendo: espera-se que operações anti-terrorismo evitem as grandes artérias urbanas, que são com frequência monitoradas por cúmplices. Dellray, na parte traseira da van que seguia na frente, apertou mais a correia do colete à prova de bala. Estavam a menos de dez minutos de distância do local.

     Enquanto seguiam em alta velocidade, olhava para os prédios de apartamentos em ruínas, para os lotes cheios de lixo. Na última vez em que esteve nesse bairro decrépito, ele era o rastafári Peter Haile Thomas, do Queens. Comprou 65kg de cocaína de um portoriquenho pequenino e mirrado, que, no último minuto, resolveu roubar o comprador. Pegou o dinheiro de Dellray e lhe apontou uma pistola para a virilha, apertando o gatilho com tanta calma como se estivesse comprando verduras na A&P. Clique, clique, clique. A pistola negou fogo. Toby Dolittle e o grupo de apoio tático pegaram o filho da puta e seus cúmplices, antes que o escroto sacasse a outra arma, deixando um chocado Dellray refletindo sobre a ironia de ser quase morto porque o elemento acreditou realmente no seu desempenho - que ele era um traficante de drogas e não um policial.

     - Tempo estimado de chegada, quatro minutos - avisou o motorista.

     Por alguma razão, os pensamentos de Dellray voltaram a Lincoln Rhyme. Lamentava ter sido um grande calhorda ao assumir o comando do caso. Mas não teve muita opção. Sellitto era um buldogue e Polling um psicopata - embora pudesse dar conta deles. Era Rhyme que o deixava constrangido. Afiado como uma navalha (droga, foi a equipe dele que encontrara a impressão digital de Pietrs, mesmo que não a tivessem aproveitado com a rapidez devida). Nos velhos dias, antes do acidente, ninguém podia derrotar Rhyme, se ele não quisesse ser derrotado. E tampouco se podia enganá-lo.

     Nesse momento, Rhyme era um brinquedo quebrado. Era uma coisa triste o que podia acontecer a qualquer homem, morrer e ainda continuar vivo. Dellray tinha entrado no quarto dele - no quarto de dormir dele, nada menos do que isso - e batido nele com força. Com mais força do que devia.

     Talvez desse um telefonema para ele. Ele poderia...

     - Hora do espetáculo - disse o motorista, e Dellray esqueceu tudo sobre Lincoln Rhyme.

     As vans entraram na rua onde Pietrs morava. A maioria das ruas por onde haviam passado estava cheia de moradores suados, as mãos ocupadas com garrafas de cerveja e cigarros, na esperança de pegar uma ou duas lufadas de ar fresco. Mas essa estava escura, vazia.

     Vagarosamente, as vans pararam. Duas dezenas de agentes desceram, usando uniformes táticos de cor preta, levando suas H&Js equipadas com lanternas e miras laser presas aos canos. Dois vagabundos olharam para eles: um deles escondeu rapidamente sob a camisa a garrafa de uísque Colt 44.

     Dellray olhou para uma janela no prédio de Pietrs, de onde saía uma pálida luz amarelada.

     O motorista da van deu marcha a ré, estacionando em um lugar escuro, e sussurrou para Dellray:

     - Perkins - e bateu no fone de ouvido. - O diretor está ao telefone. Eles querem saber quem está comandando a invasão.

     - Eu - respondeu seco o Camaleão. Virou-se para o grupo: - Quero vigilância de um lado a outro da rua e nos becos. Atiradores de elite, ali, e ali. E quero todo mundo em seus lugares em cinco minutos. Estamos entendidos sobre isso?

     Descendo a escada, a velha madeira estalando.

    

     O braço em volta do corpo da vítima, guiando-a, meio zonza com o golpe recebido na cabeça, para o porão. Ao pé da escada, jogou-a no chão sujo e fitou-a.

     Esther...

     Os olhos dela se ergueram ao encontro dos seus. Desespero, súplica. Ele nem notou. Tudo que via era o corpo. Começou a tirar-lhe a roupa, o uniforme púrpura de jogging. Era inconcebível que uma mulher saísse realmente para a rua, neste dia e tempos, usando o que nada mais era do que, bem, roupas íntimas. Não pensava que Esther Weinraub fosse uma puta. Ela tinha sido uma operária, que costurava vestidos, cinco por um níquel.

     O colecionador observou como a clavícula da mulher se destacava ao lado da garganta. E enquanto algum outro homem poderia olhar para os seios e os escuros pêlos pubianos, ele olhou para a endentação do manúbrio e as costelas que dele se projetavam como se fossem pernas de aranha.

     - O que é que você está fazendo? - perguntou ela, ainda tonta com o golpe na cabeça.

     O colecionador observou-a atentamente, mas o que viu não foi uma mulher jovem, anoréxica, nariz largo demais, lábios carnudos demais, e pele parecida com areia suja. Viu por baixo dessas imperfeições a beleza perfeita de sua estrutura.

     Acariciou-lhe a têmpora, alisou-a suavemente. Não deixe que isso seja quebrado, por favor...

     Ela tossiu e as narinas se alargaram - os vapores eram muito fortes ali embaixo, embora ele dificilmente os notasse naquele momento.

     - Não me machuque de novo - murmurou ela, a cabeça balançando solta. - Simplesmente, não me machuque. Por favor.

     Ele tirou o canivete do bolso e lhe cortou e tirou a calcinha. A mulher olhou para o corpo nu.

     - E isso o que você quer? - perguntou ela, arquejante. – Tudo bem, pode me foder. Tudo bem.

     O prazer da carne, pensou ele... simplesmente não chega nem perto...

     Ele levantou-a com um arranco. Alucinada, ela se afastou dele e começou a correr tropeçando para uma pequena porta no canto do porão. Não correndo, não tentando realmente fugir, simplesmente soluçando, estendendo uma mão à frente, andando em voltas na direção da porta.

     O colecionador de ossos observou-a, fascinado pelos passos lentos, patéticos.

     A porta, que outrora abria para uma calha de carvão, nesse momento levava a um túnel estreito ligado ao porão do prédio deserto contíguo.

     Esther foi se arrastando até a porta de metal, abriu-a e entrou.

     Não mais de um minuto depois, ele ouviu o lamentoso grito, seguido por um arquejante e dilacerante:

     - Deus, não, não, não...

     Outras palavras, também, perdidas nos uivos cada vez mais altos de pavor.

     Em seguida, ela voltou pelo túnel, movendo-se mais rápida nesse instante, batendo com as mãos no corpo, como se estivesse tentando arrancar de si o que tinha acabado de ver.

     Venha para mim, Esther.

     Ela veio tropeçando pelo chão imundo, soluçando.

     Venha para mim.

     Ela correu para os braços pacientes dele, à espera, que se fecharam em volta de seu corpo. Ele apertou-a com força, como se fosse um amante, sentiu a clavícula maravilhosa sob os dedos e, lentamente, arrastou a mulher em pânico para a porta do túnel.

    

     As fases da lua, a folha, a roupa íntima úmida, a terra. A equipe estava de volta no quarto de Rhyme - todos, exceto Polling e Haumann. Seria forçar demais a lealdade trazer capitães para o que era, não havia como sofismar, uma operação clandestina.

     - Você testou no cromatógrafo o líquido encontrado na calcinha, certo, Mel?

     - Tive que fazer isso novamente. Eles cortaram nosso barato antes de eu obter o resultado.

     Pegando uma amostra, ele injetou-a no cromatógrafo. Enquanto operava a máquina, Sachs aproximou-se para observar os picos e fossas do perfil que apareciam na tela. Tal como um índice de ações na Bolsa. Rhyme notou nesse momento que ela estava perto dele, como se tivesse se aproximado quando ele não estava olhando. Amélia disse em voz baixa:

     - Eu fui...

     - Sim?

     - Fui mais rude do que queria. Antes, quero dizer. Eu tenho mau gênio. Não sei de onde o herdei. Mas tenho.

     - Você estava certa - reconheceu Rhyme.

     Eles se entreolharam, sem problemas, e Rhyme pensou nas vezes em que ele e Blaine tiveram discussões sérias. Quando falavam, sempre focalizavam a atenção em algum objeto entre eles - um dos cavalinhos de cerâmica que ela colecionava, um livro, uma garrafa quase vazia de Merlot ou Chardonnay.

     - Eu processo as cenas de maneira diferente da usada pela maioria dos criminalistas - disse ele. - Preciso de alguém sem quaisquer idéias preconcebidas. E preciso também de uma pessoa que pense por si mesma. As qualidades contraditórias que procuramos naquele esquivo amante perfeito. Força e vulnerabilidade, em medidas iguais.

     - Quando conversei com o comissário Eckert - disse ela -, foi simplesmente para conseguir a efetivação de minha transferência. Isso era tudo o que eu queria. Nunca me ocorreu que aquilo que eu disse chegaria aos federais e que eles tomariam o caso.

     - Sei disso.

     - Eu ainda perco a cabeça. Sinto muito por aquilo.

     - Não se arrependa, Sachs. Preciso de alguém que me diga que sou um palhaço, quando me comporto como um. Thom faz isso. É por isso que o amo.

     - Não fique sentimental comigo, Lincoln - gritou Thom, do outro lado da sala.

     Rhyme continuou:

     - Ninguém mais me manda pro inferno. Todos parecem pisar em ovos. Odeio isso.

     - Aparentemente, não houve por aqui, nos últimos tempos, muitas pessoas para lhe dizer muito sobre alguma coisa.

     Após um momento, ele confirmou:

     - Isso é verdade.

     Na tela do cromatógrafo-espectrômetro os picos e fossas pararam de mover-se e se transformaram em uma das infinitas assinaturas da natureza. Mel Cooper dedilhou as teclas do computador e leu os resultados:

     - Água, óleo diesel, fosfato, sódio, minerais vestigiais... Não tenho idéia sobre o que seja isso.

     Qual era, perguntou Rhyme a si mesmo, a mensagem ali contida? A própria calcinha? O líquido?

     - Vamos continuar - disse. - Quero ver a areia.

     Sachs trouxe-lhe o saco. Continha areia rosada, misturada com pedaços de argila e seixos.

     - Fígado de boi - anunciou ele. - Mistura de pedra e areia.

     Encontrada imediatamente acima do leito rochoso de Manhattan. Na mistura há também silicato de sódio? Cooper voltou ao cromatógrafo.

     - Há. Muito.

     - Neste caso, estamos procurando uma localização no subsolo, a uns 45 metros de água. - Rhyme soltou uma risada ao notar a expressão de espanto no rosto de Sachs. - Não é magia, Sachs. Eu simplesmente fiz meu dever de casa, só isso. Os empreiteiros misturam silicato de sódio com fígado de boi para estabilizar a terra quando fazem escavações em áreas de leito rochoso profundo perto de água. Isso significa que vai ter que ser no centro da cidade. Agora, vamos dar uma olhada na folha.

     Amélia estendeu-lhe o saco.

     - Nenhuma pista sobre o que é isso - reconheceu Rhyme. - Acho que nunca vi uma folha como essa. Não em Manhattan.

     - Eu tenho uma lista de horticulturas em sites na internet - disse Cooper, olhando para a tela do computador. - Vou surfar um pouco.

     O próprio Rhyme tinha passado algum tempo on-line, rodando pela Internet. Como aconteceu com livros, filmes e pôsteres, seu interesse pelo cibermundo acabou minguando. Talvez porque parte tão grande de seu mundo fosse virtual, a Internet era, no fim, um lugar sem esperança para Lincoln Rhyme.

     A tela de Cooper piscava enquando ele continuava a clicar hyperlinks e descia mais fundo na web.

     - Estou baixando alguns arquivos. Isso deve levar dez, vinte minutos.

     - Tudo bem - concordou Rhyme. - Quanto ao resto das pistas encontradas por Sachs... Não as que foram plantadas. As outras. Elas podem nos dizer onde ele esteve. Vamos dar uma olhada em nossa arma secreta, Mel.

     - Arma secreta? - perguntou Amélia.

     - A prova vestigial.

    

     O agente especial Fred Dellray havia montado uma operação de dez homens. Duas equipes, além do pessoal de busca e vigilância. Os agentes, protegidos por coletes à prova de bala, esconderam-se nas moitas, suando horrivelmente. Do outro lado da rua, no alto de uma casa abandonada, a equipe de S&S tinha suas Grandes Orelhas e filmadoras de vídeo de infravermelho apontadas para a casa do elemento.

     Os três atiradores de elite, com suas grandes Remingtons carregadas e travadas, estavam em posição de tiro, deitados no alto de telhados; seus localizadores de alvos, munidos de binóculos, agachados ao lado,

     Dellray - usando uma jaqueta do FBI e jeans, em vez do terno verde de duende - escutava tudo em um fone de inserção na orelha.

     - Vigilância ao Comando. Sensor infravermelho apontado para o porão. Há alguém se movendo lá embaixo.

     - O que é que vocês estão vendo? - perguntou Dellray.

     - Nada. As janelas estão sujas demais.

     - Ele está sozinho, com seu humilde eu? Talvez ele tenha consigo uma vítima neste momento, hã?

     De alguma maneira, ele sabia que a policial Sachs estava provavelmente certa, que por essa hora ele já havia sequestrado alguém.

     - Não posso dizer. Localizamos apenas movimento e calor.

     Dellray tinha enviado outros agentes para guardar os lados da casa. Eles deram informações nesse momento:

     - Nenhum sinal de vida no primeiro ou segundo andar. A garagem está fechada.

     - Atiradores de elite? - perguntou Dellray. - Informem.

     - Atirador Um para Comando. Fui designado para cobrir a porta da frente.

     Os outros estavam cobrindo o corredor e um quarto no primeiro andar.

     - Arma carregada e travada - informaram pelo rádio.

     Dellray sacou a grande pistola automática.

     - Muito bem, nós temos um papel - disse ele, referindo-se a uma ordem de busca. Eles não teriam que bater à porta. - Vamos! Grupos um e dois, preparar para entrar em ação, preparar para entrar em ação, preparar para entrar em ação.

     O primeiro grupo atacou a porta da frente com um aríete, enquanto o segundo usava o método ligeiramente mais civilizado de quebrar, empurrando para dentro, a janela da porta dos fundos e abrir o ferrolho por dentro. Entraram rápido, Dellray seguindo o último dos policiais do Grupo Um pela casa velha e imunda. O cheiro de carne podre era sufocante e Dellray, nenhum novato em cenas de crime, engoliu em seco com força, lutando para não vomitar.

     O segundo grupo ocupou e tornou seguro o térreo e, em seguida, subiu pela escada em direção ao quarto, enquanto o primeiro descia correndo a escada do porão, as botas ressoando alto no ma-deirame antigo.

     Dellray entrou correndo no porão malcheiroso. Ouviu uma porta sendo fechada em algum lugar abaixo e um grito:

     - Não se mova! Agentes federais. Parado, parado, parado!

     Mas, quando chegou à porta do porão, ouviu o mesmo agente dizer em um tom de voz muito diferente:

     - Que diabo é isso? Oh, Jesus.

     - Porra - gritou o outro homem. - Isso é merda!

     - Merda em pilha fumegante! - Dellray escarrou, sufocando, ao entrar, engolindo em seco quando foi atingido pelo cheiro asqueroso.

     O corpo do homem estava estendido no chão, dele escapando um fluido preto. Garganta cortada. Os olhos mortos, vidrados, fixos no teto, embora o torso parecesse estar se movendo - inchando e mudando de lugar. Dellray arrepiou-se. Nunca desenvolveu muita imunidade à visão de uma infestação de insetos. O número de insetos e vermes sugeria que a vítima estava morta há pelo menos três dias.

     - Por que foi que conseguimos leitura positiva no infravermelho? - perguntou um agente.

     Dellray apontou para marcas de dentes de ratos e camundongos na perna e lado inchado da vítima.

     - Eles estão em algum lugar por aqui. Nós interrompemos a hora do jantar.

     - O que foi que aconteceu? Uma das vítimas pegou o criminoso?

     - Do que é que você está falando? - perguntou secamente Dellray.

     - Esse aí não é ele?

     - Não, não é ele - explodiu Dellray, olhando para um ferimento em especial no cadáver.

     Um dos membros do grupo franzia nesse momento as sobrancelhas.

     - Não, Dellray. Esse aí é o cara. Conseguimos fotos dele. Esse aí é Pietrs.

     - Claro que é o merda do Pietrs. Mas ele não é o elemento desconhecido. Não entendeu?

     - Não? O que é que você quer dizer com isso?

     Nesse momento, tudo estava claro para ele.

     - O filho da puta.

     Nesse momento, o telefone de Dellray tocou e ele sobressaltou-se. Abriu-o, escutou por um minuto.

     - Ela fez o quê? Oh, como se eu ainda precisasse de mais isso... Não, não temos o puto do perpetrador na porra de uma custódia.

     Apertou com violência o botão off e apontou um dedo irado para os agentes da SWAT.

     - Vocês vêm comigo.

     - O que está acontecendo, Dellray?

      - Vamos fazer uma visita. E o que é que a gente não vai ser quando fizer isso? - Os agentes entreolharam-se, franzindo as sobrancelhas. O próprio Dellray deu a resposta: - A gente não vai ser absolutamente delicado.

    

     Mel Cooper despejou em uma folha de papel de jornal o conteúdo dos envelopes. Examinou a poeira com uma lupa.

     - Bem, aqui há pó de tijolo. E algum outro tipo de pedra. Mármore, acho.

     Colocou a amostra em uma lâmina e examinou-a sob o microscópio composto.

     - Isso mesmo. Mármore. Cor-de-rosa.

     - Havia algum tipo de mármore no túnel do curral? No lugar onde você encontrou a moça alemã?

     - Nenhum - respondeu Sachs.

     Cooper sugeriu que o mármore podia ser da pensão onde morava Monelle, coletado quando o elemento desconhecido 238 a sequestrou.

     - Não. Conheço o quarteirão onde fica a Deutsche Haus. É apenas uma casa de cômodos convertida do East Village. A melhor pedra que poderia existir lá seria granito polido. Talvez, apenas talvez, seja um fragmento do esconderijo dele. Alguma coisa notável na poeira?

     - Marcas de cinzel - disse Cooper, curvando-se sobre o microscópio.

     - Ah, ótimo. Bem feitas?

     - Não muito. Denteadas.

     - Tal como de uma velha cortadora de pedra a vapor.

     - Acho que sim.

     - Escreva, Thom - disse Rhyme, indicando o pôster com um movimento de cabeça. - Há mármore na casa segura do elemento. E a casa é antiga.

     - Mas por que é que a gente se preocupa com a casa segura do elemento? - perguntou Banks, olhando para o relógio. - Os federais estarão lá por esta hora.

     - Nunca temos informações suficientes, Banks. Lembre-se disso. Agora, o que foi mais que conseguimos?

     - Outro pedaço da luva. Aquela de cor vermelha. E o que é isso? - perguntou ele a Sachs, mostrando um saco de plástico com uma rolha de madeira.

     - A amostra da loção após barba. No lugar onde ele se encostou em uma coluna.

     - Quer que eu faça um perfil olfativo? - perguntou Cooper.

     - Deixe que eu a cheire primeiro - decidiu Rhyme.

     Sachs trouxe-lhe o saco. Dentro havia um pequeno disco de madeira. Ele abriu o saco e inalou o ar.

     - Brut. Como foi que você não reconheceu? Thom, acrescente que nosso homem usa água-de-colônia comprada em farmácias.

     - Temos aqui aquele outro fio de cabelo - disse Cooper. O técnico montou a amostra em um microscópio de comparação. - Muito parecido com o que encontramos antes. Oh, com todos os diabos, para você, Lincoln, eu diria que é o mesmo.

     - As extremidades estão cortadas ou se quebraram naturalmente?

     - Cortadas.

     - Ótimo, estamos chegando à cor do cabelo - disse Rhyme.

     Thom escreveu castanho exatamente no momento em que Sellitto disse:

     - Não escreva isso!

     - O quê?

     - Obviamente, não é castanho - continuou Rhyme.

     - Eu pensei...

     - É tudo, menos castanho. Louro, amarelado, preto, ruivo...

     O detetive explicou:

     - É um velho macete. A gente entra em um beco atrás de uma barbearia, pega no lixo alguns fios de cabelo. Deixa-os na cena do crime.

     - Oh! - disse Banks e arquivou a informação em algum lugar em seu cérebro entusiástico.

     Cooper montou o fio no microscópio de polarização. Enquanto ajustava botões, disse:

     - Birrefringência de .053.

     - Nylon 6 - disse imediatamente Rhyme. - Com o que é que se parece, Mel?

     - Muito áspero. Vista transversal lobulada.

     - Carpete.

     - Exato. Vou verificar no banco de dados. - Um momento depois, ergueu a vista, tirando-a do microscópio. - E uma fibra HampsteadTextile 118B.

     Rhyme soltou um suspiro de nojo.

     - O quê? - perguntou Sachs.

     - O revestimento de mala de carro mais usado por montadoras americanas. Encontrado em duzentas marcas de carros fabricados nos últimos quinze anos. Inútil... Mel, há alguma coisa na fibra. Use o MEE.

     O técnico levantou o microscópio escaneador de elétrons. A tela acendeu-se com um brilho sobrenatural azul-esverdeado. O fio de fibra parecia uma grossa corda.

     - Encontrei alguma coisa aqui. Cristais. Um bocado. Os fabricantes usam bióxido de titânio para tornar opacos tapetes brilhantes. Pode ser isso.

     - Ponha no cromatógrafo a gás. Pode ser importante.

     - Não há aqui o suficiente para isso, Lincoln. Eu teria que queimar toda a fibra.

     - Queime, então.

     Delicadamente, Sellitto interveio:

     - Tomar emprestadas provas federais é uma coisa. Mas, destruí-las? Estou em dúvida, Lincoln. Se houver um julgamento...

     - Vamos ter que fazer isso.

     - Oh, cara... - disse Banks.

     Sellitto inclinou relutante a cabeça e Cooper montou a amostra. A máquina silvou. Um momento depois, a tela pestanejou e apareceram colunas.

     - Aí está, é uma molécula de polímero de cadeia longa. Náilon. Mas essa pequena onda, isso é outra coisa. Cloro, detergente... É um produto de limpeza.

     - Lembre-se - disse Rhyme - de que aquela moça alemã disse que o carro tinha cheiro de coisa limpa. Descubra de que tipo é.

     Cooper passou a informação pelo banco de dados de nomes de marca.

     - E fabricado pela Pfizer Chemicals. Vendido sob o nome de fantasia Tidi-Kleen, pela Baer Automotive Products, em Teterboro.

     - Perfeito! - exultou Lincoln Rhyme. - Conheço a companhia. Vendem por atacado a frotas de carros. Principalmente a empresas de aluguel de carros. Nosso elemento desconhecido está usando um carro alugado.

     - Mas ele não seria louco para dirigir um carro alugado até cenas de crime, seria? - perguntou Banks.

     - É roubado - murmurou Rhyme, como se o rapaz tivesse perguntado qual a soma de dois mais dois. - E deve estar com placa roubada. Emma ainda está trabalhando conosco?

     - Provavelmente, a esta hora já foi para casa.

     - Acorde-a e mande-a fazer uma busca na Hertz, Avis, National, e Budget, para saber se algum carro foi roubado.

     - Vou fazer isso - respondeu Sellito, embora contrafeito, sentindo talvez o mau cheiro fraco de prova federal que subia no ar.

     - As pegadas? - perguntou Sachs.

     Rhyme examinou as impressões eletrostáticas que ela havia recolhido.

     - Desgaste incomum nas solas. Está vendo a parte desgastada na parte externa de cada sapato, na parte arredondada da sola do pé?

     - Dedos virados para dentro? - especulou Thom em voz alta.

     - Provavelmente, mas não há desgaste correspondente no calcanhar, o que seria de esperar. - Rhyme examinou a pegada. – O que acho é que ele é um leitor.

     - Leitor?

     - Sente-se nessa cadeira aí - sugeriu Rhyme a Sachs. - E encurve-se sobre a mesa, fingindo que está lendo.

     Ela se sentou e, em seguida, ergueu a vista.

     - E...?

     - Finja que está virando páginas.

     Ela fez isso, várias vezes. Levantou novamente a vista.

     - Continue. Você está lendo Guerra e paz.

     As páginas continuaram a ser viradas, ela de cabeça baixa. Após um momento, sem pensar, ela cruzou os tornozelos. As partes externas dos sapatos eram as únicas partes que tocavam o chão.

     Rhyme chamou a atenção para esse fato, dizendo:

     - Ponha isso no perfil, Thom. Mas acrescente um sinal de interrogação.

     - Agora vamos examinar as bordas de atrito.

     Sachs disse que não tinha consigo a impressão digital boa, aquela com que os federais haviam identificado o elemento desconhecido.

     - Ela ainda está no edifício federal.

     Rhyme, porém, não estava interessado nessa prova. A que queria examinar era a outra, a Kromekote que Sachs tirou da pele da moça alemã.

     - Não escaneável - anunciou Cooper. - Não é nem mesmo de classe C. Eu não ousaria dar uma opinião sobre ela, se me pedissem.

     - Não estou interessado em identidade - esclareceu Rhyme. - Estou interessado nessa linha aí.

     Era uma linha em forma crescente e estava bem no meio da almofada do dedo.

     - O que é isso? - perguntou Sachs.

     - Uma cicatriz, acho - sugeriu Cooper. - De um velho corte. Um corte fundo. Parece que foi até o osso.

     Rhyme pensou em outras marcas e defeitos que vira em pele durante anos. Naqueles dias, antes de o trabalho tornar-se principalmente movimentação de papéis e digitação em computador, era muito mais fácil saber a profissão de um cara examinando-lhe as mãos: almofadas distorcidas de dedos com o uso de máquinas de escrever, furos de máquinas de costura e agulhas de sapateiro, endentações e manchas de tinta de canetas usadas por estenógrafas e contadores, cortes feitos por folhas de papel por máquinas impressoras, cicatrizes de cortadores de gabaritos, calos característicos dos vários tipos de trabalho manual...

     Uma cicatriz como aquela, porém, nada lhes dizia.

     Pelo menos, ainda não. Não até que tivessem um suspeito, cujas mãos pudessem examinar.

     - O que mais? A impressão do joelho. Essa é boa. Dá uma idéia do que ele estava usando. Levante-a, Sachs. Mais alto! Calça frouxa. Conservou esse vinco forte aí, de modo que é de fibra natural. Neste tempo, aposto que é algodão. Lã, não. Hoje em dia ninguém vê muita calça de seda.

     - Leve, não é jeans - disse Cooper.

     - Roupa esporte - concluiu Rhyme. - Acrescente isso ao nosso perfil,Thom.

     Cooper voltou a examinar a tela do computador e digitou mais alguma coisa.

     - Nenhuma sorte com a folha. Não corresponde a coisa nenhuma existente no Smithsonian.

     Rhyme recostou-se mais uma vez no travesseiro. Quanto tempo mais eles teriam? Uma hora? Duas?

     A lua. A areia. A salmoura.

     Olhou para Sachs, sozinha num canto. Tinha a cabeça baixa e os longos cabelos pendiam dramaticamente para o chão. Ela olhava para o saco de prova, fazendo carranca, perdida em concentração. Quantas vezes ele, Rhyme, tinha ficado naquela mesma pose, tentando...

     - Um jornal! - exclamou ela, erguendo a vista. - Onde é que há um jornal por aqui? - Os olhos saltaram nervosos, enquanto passavam de uma mesa a outra. - O jornal de hoje?

     - O que é, Sachs? - perguntou Rhyme.

     Ela tomou o The New York Times das mãos de Banks e começou a folheá-lo rapidamente.

     - Aquele líquido... na roupa de baixo - disse ela a Rhyme. - Poderia ser água salgada?

     - Água salgada? - Cooper examinou a tabela do GC-MS. - Claro! Água, sódio e outros minerais. E óleo, fosfatos. É água salgada poluída.

     Os olhos de Sachs encontraram-se com os de Rhyme e os dois disseram, simultaneamente:

     - Maré alta!

     Mostrou o jornal, aberto no boletim meteorológico. Continha um diagrama das fases da lua exatamente idêntico ao encontrado na cena do crime. Embaixo, um gráfico das marés: “Maré alta em 40 minutos!”

     O rosto de Rhyme contorceu-se de nojo. Ele nunca ficava mais zangado do que quando zangado consigo mesmo.

     - Ele vai afogar a vítima. Eles estão sob um píer no centro da cidade. - Olhou desesperado para o mapa de Manhattan, com seus quilômetros de linha de praia. - Sachs, tempo de bancar novamente o piloto de corrida. Você e Banks vão para oeste. Lon, porque você não fica com o East Side? Lá pela South Street Marina. E, Mel, descubra o que diabo essa folha significa!

    

     Uma pequena onda tocou-lhe a cabeça encurvada.

     William Everett abriu os olhos e espirrou a água que lhe enchia o nariz. Estava gelado ali e sentiu o coração fraco trepidar, enquanto lutava para enviar sangue quente pelo corpo.

     Quase desmaiou outra vez, como daquela vez em que o filho da puta lhe quebrou o dedo. Em seguida, voltou a ficar alerta, pensando na falecida esposa - e, por alguma razão, nas viagens que haviam feito juntos. Tinham ido a Gizé. A Guatemala. Ao Nepal. A Teerã (uma semana antes de a embaixada ser ocupada).

     O avião da Southeast China Airlines em que viajavam havia perdido um dos dois motores uma hora depois de terem deixado Beijing. Evelyn tinha baixado a cabeça, a posição a adotar em caso de desastre, preparando-se para morrer e olhando fixamente para um artigo em uma revista distribuída durante o vôo. A revista dizia que beber chá quente imediatamente após uma refeição era prejudicial para a saúde. Ela lhe contou isso depois, no bar do Raffles, em Cingapura, e os dois riram histericamente até que seus olhos se encheram de lágrimas.

     Pensou nos olhos frios do seqüestrador. Nos dentes dele, nas luvas volumosas.

     Nesse momento, nessa horrenda tumba líquida, a dor insuportável subiu pelo braço e penetrou na mandíbula.

     Dedo quebrado ou ataque de coração?, perguntou a si mesmo.

     Talvez um pouco das duas coisas.

     Fechou os olhos até que a dor diminuiu. Olhou em volta. A câmara onde estava algemado ficava embaixo de um píer podre. Um pedaço de madeira caiu da borda do píer na água agitada, que estava a uns 15 cm abaixo da borda. Luzes de barcos no rio e de localizações de indústrias em Jersey refletiam-se através da estreita fenda. A água lhe chegava ao pescoço e embora o telhado do píer estivesse a algumas dezenas de centímetros acima de sua cabeça, as algemas estavam já estendidas até onde podiam ir.

     A dor subiu novamente do dedo, a cabeça rugiu com o sofrimento e caiu para a água quando ele desmaiou. Um nariz cheio de água e a tosse dilacerante que se seguiu acordaram-no novamente.

     Nesse momento, a lua puxou a lâmina d'água um pouco mais para cima e, com um súbito gole, a câmara foi fechada e isolada do rio no outro lado. O lugar ficou escuro. Ouviu os sons das ondas gemendo e seus próprios gemidos com a dor.

     Sabia que estava morto, sabia que não poderia manter a cabeça acima d'água por mais de alguns minutos. Fechou os olhos e encostou o rosto na coluna preta, escorregadia.

    

     - O caminho todo até o centro, Sachs - disse a voz de Rhyme, estalando nos fones de ouvido.

     Ela apertou o acelerador do VRR, luzes vermelhas passaram como relâmpagos, enquanto eles desciam a West Side Highway. Fria como gelo, acelerou a 130.

   - Uau! - exclamou Jerry Banks.

     Contagem regressiva. Rua 23, 20, o mergulhão na doca de atracação da barcaça de lixo. Ao passar com um rugido pelo Village, pelo distrito dos frigoríficos, uma jamanta saiu de uma rua lateral e cruzou diretamente seu caminho. Em vez de frear, ela evitou o reboque articulado passando por cima do canteiro central, como se fosse um cavalo saltador de obstáculos, arrancando nomes feios de Banks e um gemido da buzina a ar do grande cavalo-mecânico White, que se dobrou espetacularmente como se fosse um canivete.

     - Pô! - exclamou Amélia Sachs e voltou à pista na direção sul. Dirigindo-se a Rhyme, acrescentou: - Repita aquilo! Não ouvi bem.

     A voz metálica de Rhyme surgiu nos fones de ouvido:

     - No centro, isso é tudo que posso lhe dizer. Até que a gente saiba o que significa aquela folha.

     - Estamos chegando a Battery Park City.

     - Vinte minutos para a maré alta - avisou Banks.

      

     ELEMENTO DESCONHECIDO 238

     Aparência Residência Veículo Diversos

  • Branco, homem, estatura baixa
  • Roupa escura
  • Luvas velhas, pelica, avermelhadas
  • Loção após barba: para encobrir cheiro?
  • Máscara de esquiador? Azul-marinho?
  • Luvas são escuras
  • Loção após barba = Brut
  • Cabelo não é castanho
  • Cicatriz profunda, dedo indicador
  • Roupa esporte
  • Prov. tem casa segura
  • Localizada perto da: B'way & 82nd, ShopRite B'way & 96th, Anderson Foods Greenwich & Bank, ShopRite 2nd AVe., 72nd-73rd, Grocery World Battery Park City, J&G'S Emporium 1709 2nd AVe., Anderson Foods 34th & Lex., Food Warehouse 8th Ave. & 24th, ShopRite 6th Ave. & Houston, J&.G's Emporium Greenwich & Franklin, Grocery World
  •     Prédio antigo, mármore cor-de-rosa
  • Táxi Yellow Cab
  • Sedã modelo recente
  • Cinza claro, prateado, bege
  • Carro de aluguel, prov. roubado
  • Conhece proc. de CC
  • Possivelmente tem antec. criminais
  • Conhece levantamento de impressões digitais
  • Arma = .32 Colt
  • Amarra vít. com nós incomuns
  • O “Antigo” o atrai
  • Chamou uma vít. de “Hanna'
  • Conhece alemão básico
  • Atraído por locais subterrâneos
  • Dupla personalidade
  • Talvez padre, assist. social, cons. psicológico
  • Desgaste incomum nos sapatos. Lê muito?

      

     Talvez o grupo de Dellray pudesse conseguir do prisioneiro a localização exata. Eles poderiam arrastar o Sr. 238 para um beco, levando um saco de maçãs. Nick lhe contou que era assim que os federais conseguiam que um elemento “cooperasse”. Atingiam-no no estômago com o saco da fruta. Realmente doloroso. Nenhuma marca. Ao tempo em que crescia, ela não teria acreditado que policiais fazem isso. Agora ela sabia que não era bem assim.

     Banks deu-lhe uma palmadinha no ombro. Um bocado de velhos píeres.

     Madeira podre, imunda. Lugares fantasmagóricos.

     Resolveram parar e descer da caminhonete. Correram para a água.

     - Você está aí, Rhyme?

     - Fale comigo, Sachs. Onde é que você está?

     - Em um píer imediatamente ao norte de Battery Park City.

     - Acabo de receber notícia de Lon, no East Side. Nada encontrou.

     - É uma busca sem esperança - disse ela. - Há dezenas de píeres. E, em seguida, todo o calçadão... E a garagem do barco dos bombeiros, as docas das barcas de passageiros e o píer de Battery Park... Precisamos da Unidade de Operações Especiais.

     - Não temos a UOE, Sachs. Ela não está mais do nosso lado.

     Vinte minutos para a maré alta.

     Os olhos de Amélia acompanharam o cais. Os ombros caíram diante da tarefa sem esperança. Com a mão na arma, correu em alta velocidade para o rio, Jerry Banks em seus calcanhares.

    

     - Diga-me alguma coisa sobre essa folha, Mel. Dê um palpite. Saque alguma coisa.

     Inquieto, Cooper olhou do microscópio para a tela do computador.

     Oito mil variedades de plantas folhudas em Manhattan.

     - Ela não se encaixa na estrutura celular de coisa nenhuma.

     - A folha é velha - disse Rhyme. - Que idade?

     Cooper olhou novamente para a folha.

     - Mumificada. Eu diria que tem uns cem anos, talvez um pouco menos.

     - Que plantas se extinguiram nos últimos cem anos?

     - Plantas não se extinguem em um ecossistema como o de Manhattan. Elas sempre reaparecem.

     Um estalo na mente de Rhyme. Estava prestes a lembrar-se de alguma coisa. Ele tanto amava quanto odiava essa sensação. Poderia agarrar o pensamento como quem pega uma mosca no ar. Ou ele poderia sumir por completo, deixando-o apenas com a pontada da inspiração perdida.

     Dezesseis minutos para a maré alta.

     Qual era o pensamento? Lutou com o problema, fechou os olhos...

     Píer, pensou. A vítima sob um píer.

     E daí? Pense.

     Píer... navios... descarga... carregamento...

     Carga sendo desembarcada!

     Abriu de súbito os olhos.

     - Mel, é uma folha de alguma cultura agrícola?

     - Ora, pombas. Estive procurando nas páginas de horticultura geral, não em plantas cultivadas, comerciais.

     E digitou durante um tempo que pareceu ser de horas.

     - Tabaco? Tente isso.

     Cooper acionou o mouse e uma imagem lentamente se desdobrou na tela.

     - É isso!

     - A World Trade Towers - anunciou Rhyme. - A terra ao norte desse local era coberta por plantações de fumo. Thom, a pesquisa para meu livro... Quero um mapa da década de 1740. E aquele mapa moderno que Bo Haumann estava usando para localizar áreas de remoção de asbesto. Pendure-os no alto ali na parede, juntos.

     O empregado encontrou o velho mapa nos arquivos de Rhyme. Pregou com fita os dois na parede, perto da cama. Grosseiramente desenhado, o mapa mais antigo mostrava a parte norte da cidade colonizada - um grupo de casas na parte mais baixa da ilha - coberta de plantações. Havia três ancoradouros comerciais ao longo do rio, que na época não era chamado de Hudson, mas de West River. Rhyme lançou um olhar para o mapa moderno. A terra agrícola tinha desaparecido, claro, como também os ancoradouros originais. O mapa, porém, mostrava um ancoradouro abandonado na localização exata de um dos velhos píeres dos exportadores de fumo.

     Rhyme forçou a vista, lutando para ver o nome da rua da qual o ancoradouro ficava próximo. Ia gritar chamando Thom para segurar o mapa mais perto de seus olhos quando, lá embaixo, ouviu o som alto de uma porta sendo arrombada. Estalido de vidros.

     Thom começou a descer a escada.

     - Eu quero falar com ele.

     Uma voz tensa encheu a entrada da casa.

     - Apenas um... - começou o empregado.

     - Não. Não em um minuto e não em uma hora. Agora, porra! Agora!

     - Mel - sussurrou Rhyme -, esconda a prova, feche o sistema.

     - Mas...

     - Faça isso!

     Rhyme sacudiu violentamente a cabeça, deslocando o conjunto fone-microfone, que caiu para o chão em um dos lados da Clinitron. Passos pesados na escada.

     Thom fez o melhor que podia para dificultar a entrada. Os visitantes, porém, eram três agentes federais e dois deles tinham armas de grosso calibre nas mãos. Lentamente, eles o forçaram a subir de costas a escada.

     Deus o abençoe. Mel Cooper desmontou o microscópio composto em cinco segundos e estava, calmamente, com meticuloso cuidado, arrumando as peças numa caixa quando o FBI apareceu no patamar da escada e invadiu o quarto de Rhyme. Os sacos de prova estavam sob uma mesa, cobertos por números atrasados da National Geographic.

     - Ah, Dellray. Encontrou nosso elemento desconhecido, não?

     - Por que você não nos disse?

     - Disse o quê?

     - Que aquela impressão digital era falsa.

     - Ninguém me perguntou.

     - Falsa? - perguntou Cooper, confuso.

     - Bem, era uma impressão digital autêntica - respondeu Rhyme, como se isso fosse óbvio. - Mas não do elemento desconhecido. Nosso rapaz precisava de um táxi para fisgar seus peixes. Ele então conheceu... como era o nome dele?

     - Victor Pietrs - murmurou Dellray e contou a história do motorista de táxi.

      

     - Um toque de mestre - comentou Rhyme, com autêntica admiração.

     - Escolheu um sérvio com antecedentes criminais e problemas mentais. Eu gostaria de saber por quanto tempo ele andou à procura de um candidato. De qualquer modo, 238 matou o pobre Sr. Pietrs e lhe roubou o táxi. Amputou-lhe o dedo. Guardou-o e pensou que, se estivéssemos chegando perto demais, ele deixaria uma impressão digital bela e óbvia em uma cena de crime, para nos fazer perder o rastro. Acho que funcionou.

     Rhyme olhou para o relógio. Ainda quatorze minutos.

     - Como é que você soube?

     Dellray olhou para os mapas na parede, mas, graças a Deus, não demonstrou interesse por eles.

     - A impressão digital mostrava sinais de desidratação e encolhimento. Aposto que o corpo estava que era uma ruína só. E encontrou-o no porão, estou certo? Onde nosso rapaz gosta de guardar suas vítimas?

     Dellray ignorou-o e andou focinhando pelo quarto como um gigantesco temer.

     - Onde foi que você escondeu nossas provas?

     - Provas? Não sei do que está falando. Ouça aqui, você quebrou minha porta? Na última vez, entrou sem bater. Agora abriu-a a pontapés...

     - Sabe de uma coisa, Lincoln? Eu estava pensando em lhe pedir desculpas, antes...

     - Muito bonito de sua parte, Fred.

     - Mas agora estou a um centímetro de encaná-lo.

     Rhyme olhou para o conjunto fone-microfone, caído no chão. Imaginou a voz de Sachs balindo nos fones.

     - Devolva-me as provas, Rhyme. Você nem imagina em que roubada está metido.

     - Thom - disse lentamente Rhyme. - O agente Dellray me deu um susto e deixei cair meu walkman. Poderia ligá-lo novamente na armação da cama?

     O empregado nem pestanejou. Pôs o microfone ao lado da cabeça de Rhyme, longe da vista de Dellray.

     - Obrigado - disse Rhyme a Thom. Em seguida, acrescentou: - Sabe, não tomei ainda o meu banho. Acho que está na hora. O que é que você acha?

     - Eu só queria saber quando era que você ia pedir o banho - retrucou Thom com a habilidade de um ator nato.

     - Fale, Rhyme. Pelo amor de Deus, onde está você?

     Em seguida, ela ouviu a voz nos fones de ouvido. A de Thom. Parecia forçada, exagerada. Alguma coisa estava errada.

     - Arranjei uma nova esponja - disse a voz.

     - Parece que é boa - respondeu Rhyme.

     - Rhyme? - disse nervosamente Sachs. - O que diabo está acontecendo?

     - Custou dezessete dólares. Tem que ser de primeira. Vou virá-lo.

     Mais vozes chegaram aos fones de ouvido, mas ela não conseguiu entender as palavras.

     Ela e Banks estavam correndo pelo cais, olhando por cima dos ancoradouros para a água cinzento-pardacenta do Hudson. Com um movimento, disse a Banks que parasse, dobrou-se com uma cãibra embaixo do esterno, escarrou no rio, tentando recuperar o fôlego.

     Através dos fones, ouviu:

     - ... não vai levar muito tempo. Os senhores terão que nos desculpar, cavalheiros.

     - ... nós simplesmente esperaremos, se não se importa.

     - Eu me importo, mesmo - replicou Rhyme. - Será que não posso ter nem um pouco de privacidade aqui?

     - Rhyme, você pode me ouvir? - perguntou Sachs em desespero.

     Que diabo ele estava fazendo?

     - Nada disso. Nada de privacidade para aqueles que roubam provas.

     Dellray! Ele estava no quarto de Rhyme. Bem, isso era o fim de tudo. A vítima está praticamente morta.

     - Eu quero aquelas provas - berrou o agente.

     - Bem, o que você vai conseguir é uma visão panorâmica de um homem tomando um banho de esponja, Dellray.

     Banks começou a falar, mas ela mandou-o calar-se com um gesto.

     Em seguida, novamente a voz calma de Rhyme:

     -... Sabe, Dellray, eu era um nadador. Eu nadava todos os dias.

     - Temos menos de dez minutos - sussurrou Sachs.

     A água batia calma no cais. Dois barcos passaram placidamente.

     Dellray murmurou alguma coisa.

     - Eu ia para o rio Hudson e nadava. Era muito mais limpa nessa época. Quero dizer, a água.

     Uma transmissão truncada.

     - ...o velho píer. Meu favorito desapareceu. Era a casa dos Hudson Dusters. Aquela gangue, já ouviu falar nela? Na década de 1890. Ao norte do lugar onde hoje está a Battery Park City. Você parece entediado. Cansado de olhar para a bunda mole de um paralítico? Não? Fique à vontade. Aquele píer ficava entre a North Moore e a Chambers. Eu mergulhava, nadava em volta do píer...

     - North Moore e Chambers! - gritou Sachs. Deram uma volta sobre si mesmos. Haviam-no perdido porque tinham seguido longe demais na direção sul. O lugar ficava a uns 400 metros do ponto onde se encontravam. Ela podia ver dali a madeira marrom despegando, um grande cano de esgoto se enchendo com a água da maré.

     Quanto tempo restava? Quase nenhum. Não havia como salvarem a vítima.

     Ela tirou os fones com um arranco e correu para o carro, Banks quase nas suas costas.

     - Você sabe nadar? - perguntou ela.

     - Eu? Uma, duas raias no Health and Racquet Club.

     Eles nunca conseguiriam.

     Sachs parou de repente, fazendo um círculo rápido, e ficou olhando para as ruas desertas.

    

     A água estava quase chegando ao nariz da vítima.

     Uma pequena onda lavou o rosto de William Everett no momento em que ele inalava e o líquido sujo, salgado, penetrou até a garganta. Começou a sufocar, soltando um ronco profundo, horrível. Tossindo. A água encheu-lhe os pulmões. Perdeu a empunhadura na coluna do píer, mergulhou sob a superfície, endureceu-se, subiu mais uma vez, e em seguida afundou.

     Não, meu Deus, não... por favor, não deixe...

     Sacudiu as algemas, bateu com força os pés, tentando mover-se um pouco, como se um milagre pudesse acontecer e seus músculos débeis conseguissem dobrar o enorme parafuso ao qual estava preso.

     Espirrando água, balançando a cabeça de um lado para o outro, em pânico. Por um momento, limpou os pulmões. Os músculos do pescoço estavam em fogo - tão doloridos quanto o dedo quebrado - com o esforço de dobrar a cabeça para trás para encontrar a fina camada de ar imediatamente acima de seu rosto.

     Teve um momento de alívio.

     Em seguida, outra onda, ligeiramente mais alta.

     E isso foi o fim.

     Não podia lutar mais. Renda-se. Reúna-se a Evelyn, diga adeus...

     E William Everett amoleceu. Flutuou sob a superfície na água imunda, cheia de lixo e de tentáculos de algas marinhas.

     Em seguida, ergueu horrorizado a cabeça. Não, não...

     Ele estava ali. O seqüestrador! Ele tinha voltado.

     Everett chutou a superfície, espirrando mais água, tentando desesperadamente afastar-se dali. O homem lançou uma luz forte em seus olhos e estendeu para ele a mão, empunhando uma faca.

     Não, não...

     Não era suficiente afogá-lo, tinha que retalhá-lo até a morte. Sem pensar, Everett chutou-o outra vez. O seqüestrador, porém, desapareceu sob a água... e, em seguida, snap, estava livre.

     O velho esqueceu as plácidas despedidas e escoiceou como o diabo para chegar à superfície, inalando ar azedo pelo nariz e arrancando a mordaça. Arquejando, cuspindo a água imunda. A cabeça bateu com força na parte inferior do píer de carvalho e riu alto.

     - Oh, Deus, Deus, Deus...

     Outro rosto apareceu... Mascarado, também, com outra lanterna cegante, e Everett conseguiu reconhecer o emblema do DPNY no traje de mergulho. Não eram facas o que aqueles homens tinham nas mãos, mas cortadores de metal. Um deles enfiou um bocal entre os lábios de Everett e ele inalou um hausto embriagador de oxigênio.

     O mergulhador passou o braço em volta dele e juntos nadaram até a borda do píer.

     - Respire fundo, nós vamos sair daqui em um minuto.

    Everett encheu os pulmões estreitos até quase o ponto de explodir e, olhos fechados, acompanhou o mergulhador até o fundo, a água iluminada sobrenaturalmente pela luz amarela da lanterna na mão daquele homem. Foi um mergulho curto mas angustiante, até o fundo e, em seguida, para cima através da água turva, cheia de fragmentos. Em certo momento, escorregou das mãos do mergulhador e se separaram por um curto momento. William Everett, porém, ficou à altura da situação. Depois daquela noite, nadar sozinho no picado Hudson seria uma gostosura.

    

     Ela não havia pensado em tomar um táxi. O ônibus do aeroporto seria ótimo.

     Pammy, porém, estava zonza por falta de sono - ambas estavam acordadas desde as cinco daquela manhã - e começava a ficar inquieta. A menininha precisava ir dormir logo, ser posta sob as cobertas com sua mamadeira de Hawaiian Punch. Além disso, a própria Carole não podia esperar para chegar a Manhattan - ela era apenas uma mulher magra do Meio-Oeste que, em todos os seus 41 anos de idade, jamais tinha viajado para mais longe na direção leste do que até o Ohio, e estava morrendo de desejo de ver pela primeira vez a Grande Maçã.

     Carole pegou a bagagem e as duas dirigiram-se para a saída. Verificou se trazia tudo com que tinha deixado a casa de Kate e Eddie naquela tarde.

     Pammy, bolsa, cobertor, valise, mochila amarela.

     Tudo no lugar onde devia estar.

     Os amigos haviam-na avisado sobre a cidade.

     - Vão assaltá-la - dissera Eddie. - Ladrões de bolsa, batedores de carteira.

     - E não se meta naqueles jogos de cartas na rua – acrescentara a maternal Kate.

     - Eu não jogo carta em minha sala de estar - lembrara-lhe Carole, rindo. - Por que vou começar a jogar nas ruas de Manhattan?

     Mas gostou da preocupação dos amigos. Afinal de contas, ali estava ela, viúva, com uma filha de três anos, dirigindo-se para a cidade mais difícil da Terra, a fim de assistir à conferência das Nações Unidas - mais estrangeiros, droga, mais gente do que ela jamais tinha visto de uma vez só.

     Carole foi até um telefone público e ligou para o hotel-residência a fim de confirmar as reservas. O gerente da noite respondeu que o quarto estava pronto e à espera delas. Ele as veria dentro de uns 45 minutos ou por aí.

     As duas passaram pelas portas automáticas e o escaldante ar de verão foi como um soco que as deixou sem respiração. Carole parou, olhando em volta. Segurou Pammy firme com uma das mãos, suspendeu a valise surrada na outra, levando a mochila pendurada no pescoço.

     Entrou na fila de passageiros à espera de um táxi, em frente ao estande do despachante.

     Carole lançou um olhar para o imenso cartaz no outro lado da estrada, Bem-Vindos, Delegados, às Nações Unidas! A arte-final era horrível, mas, ainda assim, olhou para o cartaz durante um longo momento: um dos homens no cartaz parecia-se com Ronnie.

     Durante algum tempo, após a morte dele, dois anos antes, virtualmente tudo lhe lembrava o marido bonitão, de cabelos cortados rentes. Ela passava de carro por uma loja McDonald's e lembrava-se de que ele gostava de Big Macs. Atores em filmes que não se pareciam em nada com ele podiam inclinar a cabeça da maneira como Ronnie fazia. Via um impresso sobre a venda de um cortador de grama e se lembrava de como ele adorava o pequeno gramado que tinham em Arlington Heights.

     Nessas ocasiões, as lágrimas começavam a correr. E ela voltava ao Prozac ou à Imipramina. Passava uma semana na cama. Relutantemente, aceitou o oferecimento de Kate de passar uma noite com ela e com Eddie. Ou uma semana. Quem sabe, um mês.

     Mas chega de lágrimas. Estava ali para recomeçar a vida. O sofrimento era coisa do passado.

     Sacudindo dos ombros suados a massa de cabelos louro-escuros, tocou Pammy para a frente e empurrou a bagagem com os pés, à medida que a fila para o táxi se movia. Olhou em volta, tentando pegar um vislumbre de Manhattan. Mas nada conseguiu ver, exceto tráfego, caudas de aviões e um mar de pessoas, táxis e carros. Vapor subia como se fossem fantasmas das tampas de esgotos e o céu da noite era preto, amarelo e enevoado.

     Bem, logo veria o suficiente da cidade, pensou. Teve esperança de que Pammy fosse crescida o suficiente para guardar uma primeira recordação daquela paisagem.

     - Que tal está achando até agora a nossa aventura, querida?

     - Aventura. Eu gosto de aventura. Eu quero um pouco de Waiin Punch. Posso, por favor, tomar um pouco agora?

     Por favor... Essa era nova. A menininha de três anos estava aprendendo todas as teclas e botões. Carole riu.

     - Você vai tomar, logo.

     Finalmente, chegaram ao táxi. A mala abriu com um estalo e Carole colocou lá a bagagem e bateu a tampa. Subiram para o assento traseiro do táxi e ela fechou a porta.

     Pammy, a bolsa...

     O motorista perguntou:

     - Para onde?

     Carole deu-lhe o endereço do Midtown Residence Hotel, gritando através da divisória de plexiglas.

     O motorista entrou no trânsito. Carole recostou-se e pôs Pammy no colo.

     - Vamos passar pelo prédio das Nações Unidas? – perguntou ela em voz alta ao motorista.

     O homem, porém, estava concentrado em mudar de pista e não a ouviu.

     - Estou aqui para a conferência - explicou ela. - A conferência das Nações Unidas.

     Ainda nenhuma resposta.

     Carole perguntou a si mesma se ele tinha algum problema para entender inglês. Kate a avisou que todos os motoristas de táxi de Nova York eram estrangeiros. (“Tomando empregos americanos”, tinha grunhido Eddie. “Mas não me obrigue a falar nesse assunto.”) Carole não conseguiu ver claramente o motorista por causa da divisória arranhada.

     Talvez ele simplesmente não queira conversar.

     Passaram para outra estrada - e, de repente, diante dela, a linha denteada de arranha-céus da cidade. Tal como os cristais que Kate e Eddie colecionavam. Um conglomerado imenso de prédios azuis, dourados e prateados no meio da ilha e outro conglomerado mais longe, à esquerda. Era maior do que qualquer coisa que ela já tinha visto e, por um momento, a ilha lhe pareceu um enorme navio.

     - Olhe, Pammy, é para ali que estamos indo. É beeeelo, não?

     Um momento depois, porém, a vista foi cortada quando o motorista saiu da via expressa e fez uma curva rápida ao pé da rampa de saída. Em seguida, começaram a rodar por ruas quentes, desertas, ladeadas por prédios de tijolos. Carole inclinou-se à frente.

     - Esse é o caminho certo para a cidade?

     Mais uma vez, nenhuma resposta.

     Ela bateu com força no plexiglas.

     - O senhor está indo no caminho certo? Responda. Responda.

     - Mamãe, o que é que está acontecendo? - perguntou Pammy e começou a chorar.

     - Aonde é que o senhor está indo? - gritou Carole.

     O homem, porém, simplesmente continuou a guiar - displicentemente, parando nos sinais vermelhos, nunca ultrapassando o limite de velocidade. E quando parou em um terreno vazio atrás de uma fábrica escura e abandonada, ele teve o cuidado de sinalizar corretamente.

     Oh, não... não!

     Ele pôs a máscara de esquiador e desceu do táxi. Chegando à traseira do carro, estendeu a mão para a porta. Mas hesitou e a mão caiu. Inclinou-se, o rosto contra a janela, e bateu no vidro. Uma, duas, três vezes. Despertando a atenção dos lagartos e répteis no zoológico. Durante um longo momento, ele olhou para a mãe e a filha, antes de abrir a porta.

    

     - Como foi que você conseguiu isso, Sachs?

     A margem do malcheiroso rio Hudson, ela respondeu no microfone articulado:

     - Lembrei-me de ter visto a estação dos barcos dos bombeiros no Battery Park. Eles embarcaram rapidamente uns dois mergulhadores e chegaram ao píer em três minutos. Pô, você devia ver como aquele barco voou! Qualquer dia desses, vou querer passear em um deles.

     Rhyme falou sobre o motorista de táxi com o dedo a