Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O COMPLÔ DE WHITECHAPEL / Anne Perry
O COMPLÔ DE WHITECHAPEL / Anne Perry

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Nesta ocasião, o superintendente Pitt, personagem central da saga de novelas policiais de ambientação vitoriana que fez mundialmente célebre Anne Perry, estará envolvido em uma conspiração política que ameaça derrocar a monarquia. Em meio de um clima de convulsão social e de escuros poderes movendo-se entre bastidores, um homem é assassinado e todas as suspeitas recaem em um influente militar de alta graduação.

 

 

 

 

A sala do tribunal de Old Bailey estava repleta. Todos os assentos estavam ocupados e os porteiros faziam retroceder às pessoas nas portas. Era 18 de abril de 1892, a primeira segunda-feira depois da Páscoa e o começo da temporada social de Londres. Era também o terceiro dia do julgamento do distinto soldado John Adinett pelo assassinato de Martin Fetters, viajante e arqueólogo.

A testemunha no estrado era Thomas Pitt, o superintendente da delegacia de polícia do Bow Street. O promotor Ardal Juster encarava-o.

— Comecemos pelo princípio, senhor Pitt. — Juster era um homem moreno de uns quarenta anos, alto e esbelto, de traços faciais pouco comuns. Era de aparência agradável de alguns pontos de vista, de outros um tanto felino, e se movia com uma elegância inusitada. Levantou a vista para o estrado — Que fazia exatamente no Great Russell Street? Quem o chamou?

Pitt se ergueu ligeiramente. Era também de boa estatura, mas aí acabava toda semelhança com Juster. Tinha o cabelo muito longo, os bolsos volumosos, a gravata torcida. Testemunhava ante tribunais desde seus tempos de agente de polícia, fazia vinte anos, mas nunca lhe tinha parecido uma experiência prazenteira. Sempre era consciente de que estava em jogo pelo menos a reputação de um homem, e possivelmente sua liberdade. Nesse caso concreto se tratava de sua vida. Não temia sustentar o olhar frio e desapaixonado que Adinett lhe dirigia do banquinho dos acusados. Só ia dizer a verdade. As conseqüências escapavam a seu controle. Isso tinha repetido a si mesmo antes de subir ao estrado das testemunhas, mas não lhe tinha proporcionado nenhum alívio.

O silêncio se tornou mais opressivo. Não houve nenhum movimento entre o público. Ninguém tossiu.

— O doutor Ibbs mandou me chamar — respondeu Pitt — Não estava satisfeito com as circunstâncias que rodeavam a morte do senhor Fetters. Tinha trabalhado comigo em outras investigações e confiava em minha discrição em caso de que estivesse equivocado.

— Entendo. Pode nos dizer o que ocorreu depois de receber a chamada do doutor Ibbs?

John Adinett permanecia imóvel no banquinho dos acusados. Era um homem magro, mas de constituição forte, e seu rosto traduzia uma segurança em si mesmo que derivava tanto do talento como de uma situação de privilégio. Na sala havia homens que o apreciavam e admiravam. Estavam perplexos, incapazes de acreditar que o acusasse de semelhante crime. Tinha que tratar-se de um engano. Em qualquer momento a defesa pediria que se retirassem as acusações e lhe ofereceria suas mais sinceras desculpas.

Pitt respirou fundo.

— Fui imediatamente à casa do senhor Fetters, em Great Russell Street — começou — Eram pouco mais das cinco da tarde. O doutor Ibbs me esperava no vestíbulo e subimos juntos à biblioteca, onde tinham encontrado o corpo sem vida do senhor Fetters. — Enquanto falava a cena voltou para sua mente de um modo tão vivido que poderia ter estado subindo de novo pelas escadas iluminadas pelo sol, percorrendo o patamar com seu enorme vaso chinês cheio de decorativos canos de bambu, passando diante do quadros de pássaros e flores, e das quatro ornamentadas portas de madeira com a borda esculpida, até entrar na biblioteca. A luz de última hora da tarde que entrava em torrentes pelas altas janelas salpicava de vermelho o tapete turco, arrancava brilhos das letras douradas dos lombos dos livros que enchiam as prateleiras e banhava as superfícies gastas das grandes poltronas de couro.

Juster se dispunha a insistir a continuar falando.

— No fundo do aposento havia um cadáver — prosseguiu Pitt — Na porta, a cabeça e os ombros ficavam ocultos atrás de uma das grandes poltronas de couro, embora o doutor Ibbs tivesse me dito que o mordomo a tinha afastado ligeiramente para tentar alcançar o corpo com a esperança de assisti-lo como fosse.

Reginald Gleave, o advogado defensor, ficou em pé.

— Sua Senhoria, o senhor Pitt sabe sem dúvida melhor que ninguém que não deve oferecer testemunho de algo que não sabe por si mesmo. Viu pessoalmente mover a poltrona?

O juiz parecia cansado. O julgamento prometia ser muito suado, algo do que era consciente com desagrado. Não se passaria por cima nenhuma questão, por corriqueiro que fosse.

Pitt notou que corava de indignação. Com efeito, sabia melhor que ninguém. Deveria ter sido muito cauteloso. Tinha se proposto não incorrer em nenhum engano, e já tinha cometido um. Estava nervoso. Tinha as mãos úmidas. Juster havia dito que tudo dependia dele. Não podia confiar absolutamente em ninguém mais.

O juiz olhou para Pitt.

— Vá por partes, superintendente, embora seja menos claro ao júri.

— Sim, Sua Senhoria. — Pitt ouviu sua própria voz tensa. Sabia que era o nervosismo, mas dava a impressão de estar zangado. Voltou a transladar-se mentalmente a esse aposento. — A prateleira de cima ficava fora de meu alcance, e para acessar a ele havia uma pequena escada com rodas. Estava tombada de lado a um metro dos pés do cadáver, e no chão havia três livros, um fechado, os outros dois abertos virados para baixo e com várias páginas dobradas. — Via a cena enquanto falava. — Na prateleira superior se apreciava o espaço correspondente aos livros.

— Tirou de tais fatos alguma conclusão que o fizesse continuar investigando? —perguntou Juster com tom inocente.

— Parecia como se o senhor Fetters tivesse tratado de pegar algum livro e depois de perder o equilíbrio tivesse caído no chão — respondeu Pitt — O doutor Ibbs me havia dito que tinha um hematoma na têmpora e o pescoço quebrado, o que tinha causado sua morte.

— Exato. Isso é o que atestou — concordou Juster — Coincidia com o que viu você?

— A princípio pensei que sim...

De repente despertou a atenção na sala. Já começava a perceber-se algo parecido à hostilidade.

—... Mas ao olhar com mais vagar, percebi pequenas incongruências que me fizeram duvidar e continuar investigando — concluiu Pitt.

Juster arqueou suas negras sobrancelhas.

— Quais eram? Por favor, as exponha para que compreendamos suas conclusões, senhor Pitt.

Era uma advertência. O caso se apoiava unicamente nesses detalhes, todos circunstanciais. As semanas de investigação não tinham revelado nenhum motivo pelo qual Adinett pudesse ter querido fazer mal ao Martin Fetters. Tinham sido íntimos amigos que tinham em comum tanto suas crenças como suas circunstâncias. Ambos tinham dinheiro, tinham viajado muito e estavam interessados na reforma social. Contavam com um amplo círculo de amigos comuns e eram igualmente respeitados por todos que os conheciam.

Pitt tinha ensaiado mentalmente a resposta muitas vezes, nem tanto em benefício do tribunal como de si mesmo. Tinha examinado de maneira minuciosa cada detalhe antes de considerar sequer seguir adiante com a acusação.

— A primeira foram os livros que jaziam no chão. — Recordava haver-se agachado para recolhê-los, furioso ao ver o couro prejudicado e as páginas dobradas. — Todos eram do mesmo assunto, mais ou menos. O primeiro era uma tradução para inglês de Ilíada, de Homero; o segundo, uma história do Império turco, e o terceiro tratava das rotas comerciais do Oriente Próximo.

Juster fingiu surpreender-se.

— Não entendo por que isso poderia lhe fazer duvidar. Teria a amabilidade de nos explicar isso?

— Porque os outros livros da prateleira superior eram de ficção — respondeu Pitt — O Waverley, de sir Walter Scott, várias novelas de Dickens e uma de Thackeray.

— E em sua opinião à Ilíada não correspondia a estar entre elas?

— Outros exemplares da prateleira do meio versavam sobre temas da Grécia antiga — explicou Pitt — em particular Tróia: a obra e os discursos do senhor Schliemann, objetos de arte e de interesse histórico, todos menos três volumes de Jane Austen, que teria sido mais adequado que estivessem na prateleira superior.

— Eu teria posto as novelas em um lugar mais acessível, sobre tudo as do Jane Austen — observou Juster dando de ombros com um sorriso.

— Talvez não, se já as tivesse lido — argumentou Pitt, muito tenso para lhe devolver o sorriso — E se fosse você um arqueólogo com um interesse particular pela Grécia homérica, não teria a maioria dos livros sobre esse tema nas prateleiras do meio e só três no de cima, junto com as novelas.

— Não — concedeu Juster — É um tanto excêntrico, para não dizer algo pior, e desnecessariamente pouco prático. Assim que reparou nos livros, o que fez?

— Examinei com maior cuidado o corpo sem vida do senhor Fetters e pedi ao mordomo, que era quem o tinha encontrado, que me explicasse exatamente o ocorrido. — Pitt lançou uma olhada ao juiz para ver se lhe permitia reproduzi-lo.

Este assentiu.

Reginald Gleave permanecia sentado com os lábios apertados e o corpo curvado, esperando.

— Prossiga, se vem ao caso — ordenou o magistrado.

— Disse-me que o senhor Adinett tinha saído pela porta principal, e que estava fora uns dez minutos quando soou a campainha da biblioteca e ele foi ver o que queria o senhor — explicou Pitt — Enquanto se aproximava da porta, ouviu um grito e um golpe surdo, e ao abri-la um pouco alarmado viu os tornozelos e os pés do senhor Fetters aparecendo por trás da grande poltrona de couro do canto. Aproximou-se dele imediatamente para ver se tinha feito mal. Perguntei-lhe se tinha movido o corpo. Respondeu que não o tinha feito, mas que para acessá-lo tinha afastado um pouco a poltrona.

As pessoas começaram a revolver-se nervosas em seus assentos. Tudo parecia muito pouco relevante. Nada fazia pensar em paixão ou violência, e menos ainda assassinato.

Adinett olhava dos pés à cabeça para Pitt, com as sobrancelhas juntas, os lábios ligeiramente apertados.

Juster vacilou. Sabia que estava perdendo ao júri. Refletia-se em seu rosto. Não se tratava tanto de fatos como de fé.

— Um pouco, senhor Pitt? -Sua voz soou áspera — O que quer dizer com "um pouco"?

— Foi muito específico — respondeu Pitt — Disse que até a borda do tapete, quer dizer, uns vinte e oito centímetros. — Continuou sem esperar que Juster o pedisse — Isso significava que estaria colocada em um ângulo um tanto difícil para receber a luz da janela ou do braço do abajur, e muito perto da parede para estar cômodo. Impedia de acessar a uma parte considerável da estante, onde estavam os livros de viagens e arte, livros que, conforme me assegurou o mordomo, o senhor Fetters consultava freqüentemente. —Olhava fixamente ao Juster — Cheguei à conclusão de que não era ali onde estava normalmente a poltrona e examinei o tapete para ver se havia rastros dos pés. Com efeito, havia. — Respirou fundo — Também percebi uma zona desgastada no pelo do tapete, e quando voltei a observar os sapatos do senhor Fetters, encontrei pelugem apanhada na sola. Parecia proceder do tapete.

Desta vez houve murmúrios na sala. Reginald Gleave apertou os lábios, ao parecer mais de cólera e resolução que de temor.

De novo Pitt continuou sem que o pedissem.

— O doutor Ibbs me havia dito que supunha que o senhor Fetters se inclinara tanto que tinha perdido o equilíbrio e caído da escada, de tal modo que se golpeou a cabeça contra as prateleiras do canto. A força do golpe, aumentada pelo peso de seu corpo, não só lhe causou contusões bastante graves para lhe fazer perder o conhecimento, mas lhe rompeu o pescoço, que foi o que provocou sua morte. Considerei a possibilidade de que tivesse recebido um golpe que o tivesse deixado inconsciente e depois alguém tivesse arrumado tudo de forma que parecesse que caíra. — Houve um rápido revôo de papéis na primeira fileira, o assobio de uma inalação. Uma mulher proferiu um grito abafado.

Um membro do júri franziu a testa e se voltou para frente.

Pitt prosseguiu sem trocar de expressão, mas notava as Palmas suarentas e como a tensão se acumulava em seu interior.

— Os livros que poderia ter estado lendo tinham sido jogados no chão, e os espaços vazios deixados por estes tinham sido enchidos com exemplares da prateleira superior com objetivo de explicar o uso da escada. A poltrona tinha sido empurrada para o canto, e o cadáver, colocado de modo que ficasse meio escondido por ela.

No rosto do Gleave apareceu uma expressão de cômica incredulidade. Olhou para Pitt, depois para Juster, e por último para os jurados. Como uma atuação soberba. É claro, sabia exatamente o que Pitt ia dizer.

Juster deu de ombros.

— Quem fez isso? — perguntou — O senhor Adinett já partira, e quando o mordomo entrou no aposento não havia ninguém além do senhor Fetters. Não acredita no mordomo?

Pitt escolheu com cuidado suas palavras.

— Acredito que disse a verdade tal como a entendeu.

Gleave se levantou. Era um homem corpulento, largo de costas.

— Sua Senhoria, o que pense o superintendente Pitt sobre a veracidade do mordomo não vem ao caso e está fora de lugar. Os jurados tiveram ocasião de escutar o testemunho do mordomo e julgar por si mesmos se dizia ou não a verdade, e se é ou não uma pessoa honrada e competente.

Juster dissimulou sua cólera com visível dificuldade. Tinha as faces acesas.

— Senhor Pitt, sem nos dizer por que, já que parece irritar o meu douto colega, teria a amabilidade de nos explicar o que fez você depois de elaborar tão insólita hipótese?

— Examinei se por acaso no aposento havia algo mais que pudesse ser relevante —respondeu Pitt lembrando-se. — Vi uma bandeja em uma mesinha do outro lado da biblioteca, e uma taça meio cheia de Vinho do Porto. Perguntei ao mordomo quando partira o senhor Adinett e me disse. Depois lhe pedi que voltasse a colocar a poltrona onde a tinha encontrado ao entrar e que repetisse seus movimentos com tanta exatidão como fosse capaz. — Visualizou a expressão surpreendida do homem e sua resistência. Era evidente que lhe parecia pouco receoso para com o morto. Mesmo assim tinha obedecido coibidos, com os membros rígidos, os movimentos trêmulos, o rosto com resoluto controle das emoções que experimentava — Eu fiquei atrás da porta — prosseguiu Pitt — Quando o mordomo se viu obrigado a passar por trás da poltrona para chegar à cabeça do senhor Fetters, saí do aposento, cruzei o corredor e abri a porta de frente. — Sem interromper, deixando ao Juster tempo para reagir.

Agora todos os membros do júri escutavam com atenção. Nenhum se movia. Nenhum deixava vagar o olhar.

— Chamou-lhe o mordomo? — Juster escolheu suas palavras com exatidão.

— Não em seguida — respondeu Pitt — Me chegou sua voz da biblioteca falando com um tom bastante normal, depois pareceu dar-se conta de que eu não estava, saiu ao patamar e me chamou de novo.

— De modo que deduziu você que não o tinha visto sair?

— Sim. Experimentei de novo, com os papéis trocados. Agachado atrás da poltrona, não o vi sair.

— Entendo. — Desta vez a voz do Juster gotejava satisfação. Assentiu muito levemente — E por que entrou no aposento de frente, senhor Pitt?

— Porque a distância entre a porta da biblioteca e as escadas é de uns seis metros — explicou Pitt visualizando a extensão do patamar, os brilhantes raios de sol que entravam pela janela do fundo. Recordava o vermelho e o amarelo da vidraça de cores — Se o mordomo houvesse tocado a campainha para pedir ajuda, quase com toda segurança me teria encontrado com alguém pelas escadas antes que pudesse sair da casa.

— Caso não tivesse querido que o vissem. — Juster terminou a frase por ele. — E da qual tinha saído de forma bastante visível fazia quinze minutos, para em seguida voltar a entrar pela porta lateral, subir pelas escadas às escondidas e fazer que um assassinato parecesse um acidente.

Houve um revôo na sala. Uma mulher soltou um grito abafado.

Gleave se tinha posto em pé com o rosto aceso.

— Sua Senhoria! Isto é revoltante! Me...

— Sim! Sim! — assentiu o juiz com impaciência — Sabe de sobras, senhor Juster! Se lhe permitir tanta liberdade, ver-me-ei obrigado a fazer o mesmo com o senhor Gleave, e estou certo de que não gostará!

Juster tratou de parecer arrependido, mas não o conseguiu nem remotamente. Pitt pensou que não se esforçara o suficiente.

— Viu algo estranho na habitação do outro lado do corredor? — inquiriu Juster com ingenuidade voltando-se com elegância para o júri. — Que tipo de aposento era, exatamente? — Arqueou suas negras sobrancelhas.

— Uma sala de bilhar — respondeu Pitt — Sim, vi que na borda da porta havia um arranhão recente, fino e curvado para cima, justo em cima do trinco.

— Um lugar curioso para danificar uma porta — comentou Juster — Não teria sido possível fazê-lo com ela fechada, não lhe parece?

— Não. Só se estivesse aberta — concordou Pitt — O que faria muito incômodo jogar na mesa.

Juster se deteve com os braços na cintura. Era uma postura curiosamente rígida; entretanto se mostrava relaxado.

— De modo que o mais provável é que o fizesse alguém ao entrar ou sair.

Gleave voltava a estar em pé com o rosto congestionado.

— Como já se observou, seria incômodo jogar com a porta aberta. A pergunta sem dúvida se responde, Sua Senhoria. Alguém arranhou a porta aberta com um taco, precisamente porque, como de forma tão ardilosa e inútil indicou o senhor Pitt, era incômodo! — Sorriu deixando ver uma dentadura perfeita.

Produziu-se um silêncio absoluto na sala.

Pitt levantou a vista para o Adinett, que estava inclinado no banquinho, imóvel.

Juster parecia quase um menino em sua inocência, mas suas feições pouco comuns não tinham sido modeladas para adotar tal expressão. Levantou a vista para Pitt como se até esse instante não lhe tivesse ocorrido tal pensamento.

— Investigou essa possibilidade, superintendente?

Este lhe sustentou o olhar.

— Assim é. A criada encarregada de limpar e encerar a sala me assegurou que não tinha visto tal marca essa manhã, e ninguém tinha entrado lá depois disso. – Vacilou — O arranhão estava na madeira, e não havia rastro de cera ou pó.

— Acreditou nela? — Juster ergueu uma mão com a palma volta para o Gleave — Peço desculpas. Por favor, não responda a essa pergunta, senhor Pitt. Interrogaremos à criada em seu devido tempo, e o júri decidirá por si mesmo se é uma pessoa honrada e competente. E se conhece seu trabalho. Talvez a pobre senhora Fetters também possa nos dizer se é uma boa criada.

Houve murmúrios de vergonha, cólera e hilaridade na sala. A tensão cessou. Falar nesse momento teria sido perder o tempo, e a convicção disso se refletiu no rosto sombrio do Gleave, com suas grossas sobrancelhas juntas.

Os membros do júri respiraram fundo, sem falar.

— O que fez então, superintendente? — inquiriu Juster com despreocupação.

— Perguntei ao mordomo se o senhor Adinett levava uma bengala — respondeu Pitt. Antes que Gleave pudesse objetar acrescentou: Assim era. O lacaio o confirmou.

— Entendo. — Juster sorriu — Obrigado. Agora, antes que o pergunte meu douto colega, eu o farei. Sabe de alguém que tivesse ouvido por acaso ao senhor Adinett e o senhor Fetters discutir, ter umas palavras ou uma rixa?

— Perguntei, e ninguém ouviu nada — admitiu Pitt, que recordou compungido quanto se esforçou em averiguá-lo. Até a senhora Fetters, que tinha chegado a acreditar que seu marido tinha sido assassinado, não recordava nenhuma ocasião em que ele e Adinett tivessem discutido, nem nenhuma razão pela que este pudesse lhe haver desejado algum mal. Era tão desconcertante como terrível.

— Mesmo assim, a partir desses cabos soltos você formou a opinião de que Martin Fetters tinha sido assassinado, e nada menos que pelo John Adinett — pressionou Juster, com os olhos muito abertos e um tom sereno. Levantou suas longas e esbeltas mãos para enumerá-los: O deslocamento de uma poltrona da biblioteca, três livros colocados onde não deviam na estante, um arranhão em um tapete e pelugem enganchada a uma sola de sapato, e um arranhão recente na porta de uma sala de bilhar. Apoiando-se nisso faria condenar a um homem pelo mais atroz dos crimes?

— O faria julgar — corrigiu Pitt notando que se ruborizava — Porque acredito que o assassinato é a única explicação que encaixa com todos os fatos. Acredito que o assassinou em uma discussão repentina e depois arrumou tudo para que parecesse...

— Sua Senhoria! — exclamou Gleave, de novo em pé, com os braços levantados.

— Não — disse o juiz, equânime — O superintendente Pitt é perito em provas criminais, como ficou demonstrado nos vinte anos que está na polícia. — Sorriu com tristeza e frio humor — Corresponde aos membros do júri decidir por si mesmos se é uma pessoa honrada e competente.

Pitt deu uma olhada ao júri e viu o presidente assentir levemente. Tinha o rosto sereno, inexpressivo, o olhar fixo.

Na tribuna uma mulher riu e levou em seguida as mãos à boca.

Gleave se ruborizou.

Juster inclinou a cabeça e fez gestos ao Pitt para que continuasse.

—… que parecesse um acidente — concluiu Pitt. — Acredito que depois saiu da biblioteca e fechou com chave a porta por fora. Desceu pelas escadas, despediu-se da senhora Fetters e deixou que o mordomo o acompanhasse à porta, onde também o viu partir o lacaio.

O presidente do júri se voltou para o homem que tinha ao lado e trocaram um olhar. Depois ambos concentraram de novo sua atenção em Pitt.

Este prosseguiu com sua versão dos fatos tal como os via.

— Adinett saiu, percorreu uns cem passos e voltou a entrar pela porta lateral do jardim. Há essa hora exatamente se viu um homem que correspondia a sua descrição geral. Entrou pela porta lateral da casa, subiu de novo à biblioteca, abriu a porta e tocou a campainha imediatamente para chamar o mordomo.

Reinava um silêncio absoluto na sala. Todos os olhares estavam cravados em Pitt. Era quase como se todos os assistentes tivessem contido o fôlego.

— Quando o mordomo entrou, Adinett ficou onde o tampava a porta aberta — continuou o superintendente — Quando o mordomo passou por trás da poltrona, como se viu obrigado a fazer para chegar até o senhor Fetters, Adinett saiu, cruzou o corredor e entrou na sala de bilhar, se por acaso o mordomo desse o alarme e subiam outros criados pelas escadas. Uma vez que o patamar ficou deserto, partiu, mas em sua pressa deu com a bengala contra a porta. Saiu da casa, desta vez sem que ninguém o visse.

Ouviram-se suspiros e frufrus de tecido quando o público trocou por fim de postura.

— Obrigado, superintendente. — Juster se inclinou muito levemente — Circunstancial, mas como disse você, a única resposta que encaixa com todos os fatos. — Olhou por um instante ao júri antes de voltar à carga — E embora fosse oportuno que explicássemos ao tribunal por que ocorreu tão horrível fato, não estamos obrigados a fazê-lo, mas só a demonstrar que ocorreu. O que em minha opinião você fez admiravelmente. Estamos agradecidos. — Girou muito devagar sobre seus calcanhares e convidou ao Gleave a ocupar seu lugar.

Pitt se voltou para o Gleave com o corpo tenso, esperando o ataque que Juster lhe tinha advertido que chegaria.

— Depois do almoço, se me permitir isso Sua Senhoria — disse Gleave, com um sorriso, seu gordo rosto tenso de espera — Necessitarei muito mais tempo que o quarto de hora com que contamos agora.

Pitt não se surpreendeu. Juster lhe tinha repetido uma e outra vez que o essencial do caso dependia de seu testemunho e que contasse com que Gleave faria todo o possível por jogá-lo por terra. Mesmo assim, era muito consciente do que o esperava para desfrutar do cordeiro com verduras que lhe serviram na taverna da esquina do tribunal, e deixou a metade, o que não era nada próprio dele.

— Tratará de ridicularizá-lo ou de negar todas as provas — disse Juster olhando fixamente ao Pitt, sentado frente a ele. Aquele tampouco saboreou muito a comida.

Sobre a superfície de madeira tinha pousado uma mão, que se movia inquieta, como se só a boa educação lhe impedisse de tamborilar com os dedos. — Não acredito que a criada agüente. Bastante assustada estará só ante um tribunal, com um "cavalheiro" pondo em dúvida sua inteligência e sua sinceridade. Fala-se que a pobre não sabe dizer nem que dia é, cabe a possibilidade que lhe dê razão.

Pitt bebeu um gole de cidra.

— Não poderá fazer o mesmo com o mordomo.

— Eu sei — admitiu Juster fazendo uma careta — E Gleave também sabe. Com ele tentará um enfoque totalmente diferente. Eu o adularia, ganharia sua confiança, acharia o modo de lhe dar a entender que a reputação do Fetters está pendente de um acidente, não de um assassinato. Gleave fará o mesmo, arrumado o que seja. Analisar o caráter e achar os pontos fracos é o seu modo.

Pitt teria gostado de contradizê-lo, mas sabia que estava certo. O rosto severo e perspicaz do Gleave era o de um homem que tudo via; cheirava a vulnerabilidade como um sabujo sobre a pista de algo. Sabia adular, ameaçar, minar, medir ou o que fosse preciso.

Isso o pôs furioso. O nó na boca do estômago que lhe impedia de comer era tanto de indignação como de medo ao fracasso. Estava seguro de que Martin Fetters tinha sido assassinado, e se não convencesse disso a esse júri, Adinett partiria dali não só em liberdade, mas também exonerado.

Voltou a subir ao estrado das testemunhas esperando um ataque e decidido a lhe fazer frente, conter seu gênio e não permitir que Gleave conseguisse o irritar ou o manipular.

— Bem, senhor Pitt — começou Gleave, situado frente a ele com os ombros erguidos, os pés um tanto separados — Examinemos essas suas curiosas provas à que tanta importância concede e das quais extrai uma conclusão tão atroz. — Vacilou, mas era para criar efeito e deixar que o júri saboreasse seu sarcasmo e se preparasse para ouvir mais — Mandou-o chamar o doutor Ibbs, um homem que aparentemente é uma espécie de admirador seu.

Pitt esteve a ponto de replicar, mas se deu conta de que era precisamente isso o que pretendia Gleave. Uma armadilha muito fácil.

— Um homem que aparentemente queria assegurar-se de que não lhe passava por cima nenhum fato significativo — prosseguiu Gleave assentindo muito levemente e apertando os lábios — Um homem nervoso, inseguro de suas próprias capacidades. Ou um homem que desejava fazer mal ao insinuar que uma tragédia era em realidade um crime. — Seu tom de voz dava a entender que Ibbs era um incompetente.

Juster se levantou.

— Sua Senhoria, o senhor Pitt não é um perito na moralidade e as emoções dos médicos, já seja em geral ou em particular. Não pode ter sabor de ciência certa por que o chamou o doutor Ibbs. Só sabe o que o doutor Ibbs disse e escutamos por nós mesmos. Pareceu-lhe que a explicação do acidente não encaixava inteiramente com os fatos tal como ele os via, de modo que chamou com toda razão à polícia.

— Admite-se o protesto — concordou o juiz — Senhor Gleave, deixe de conjeturar e pergunte.

— Sua Senhoria — murmurou Gleave. Logo olhou com dureza a Pitt — Comentou o doutor Ibbs que suspeitava que fosse um assassinato?

Pitt viu a armadilha. De novo saltava à vista.

— Não. Disse que estava preocupado e me pediu minha opinião.

— Você é polícia, não médico, não é certo?

— É claro.

— Alguma vez lhe pediu outro médico sua opinião médica? Sobre a causa de uma morte, por exemplo? — O sarcasmo estava aí, sob sua inocência superficial.

— Não. Só minha opinião sobre a interpretação das provas, isso é tudo — respondeu Pitt com cautela. Sabia que se tratava de novo de uma armadilha, mas desta vez não a via.

— Exato — respondeu Gleave — portanto, se o doutor Ibbs o chamou porque não estava de todo satisfeito, sem dúvida tem você suficiente inteligência para deduzir que suspeitava que a morte não tivesse sido um simples acidente, mas sim podia tratar-se de um assunto criminoso que envolveria a polícia.

— Sim.

— Então, quando disse que não lhe comentou suas suspeitas de que era um crime, foi pouco sincero, não é certo? Não me atrevo a dizer menos que franco, embora o termo acuda indevidamente a minha cabeça, senhor Pitt.

Pitt sentiu como o sangue lhe afluía ao rosto. Tinha intuído que lhe estendia uma armadilha e tinha se esquivado, mas para cair diretamente em outra que o fazia parecer evasivo e cheio de preconceitos, exatamente o propósito do Gleave. O que podia dizer agora para arrumar ou ao menos não piorar?

— A incongruência dos fatos não significa necessariamente que se trate de um crime — disse devagar — As pessoas movem objetos por muitas razões, não sempre com má intenção. — Gaguejava tratando de achar as palavras-. Às vezes é um intento de ajudar ou fazer que um acidente não pareça um descuido, para absolver aos que seguem com vida ou ocultar uma indiscrição. Até para mascarar um suicídio.

Gleave parecia surpreso. Não tinha esperado que respondesse.

Constituía uma pequena vitória. Pitt não devia baixar a guarda.

— Marcas no tapete — Gleave voltou para o ataque — Quando se fizeram?

— Em qualquer momento desde que se varreu por última vez o tapete, que conforme me disse a criada foi na manhã anterior — respondeu Pitt.

Gleave adotou um ar de inocência.

— Poderia tê-las causado algo que não fosse um homem arrastando o corpo sem vida de outro?

       Ouviram-se risinhos nervosos na sala.

— É claro — concordou Pitt.

Gleave sorriu.

— E a penugem no sapato do senhor Fetters, pode explicar-se também de outro modo? Por exemplo, que o tapete tivesse o canto enrugado e tropeçasse? Ou que estivesse sentado em uma cadeira e tirasse os sapatos? Tinha franjas o tapete, senhor Pitt?

Gleave sabia muito bem que assim era.

— Sim.

— Precisamente. — Gleave fez um gesto com as mãos — Um fio muito débil de para pendurar um homem de honra, soldado valoroso, patriota e erudito como John Adinett, não lhe parece?

Houve murmúrios na sala, e as pessoas se mexeram nervosas em seu assento, voltando-se para olhar para Adinett. Pitt viu em seus rostos respeito e curiosidade, mas não ódio. Voltou-se para os membros do júri. Estes se mostravam mais cautelosos, homens judiciosos que assumiam a responsabilidade com pavor. Estava sentado rigidamente, com o pescoço alto e branco, o cabelo bem penteado, os bigodes recortados, o olhar fixo. Não os invejava. Nunca tinha querido ser o último juiz de outro homem. Até o presidente de barba rala parecia preocupado, com as mãos ante si, os dedos entrelaçados.

Gleave sorria.

— Surpreender-lhe-ia saber, senhor Pitt, que a criada que tirou o pó e encerou a sala de bilhar já não está segura de que o arranhão que tão providencialmente percebeu você fosse recente? Agora diz que talvez já estivesse ali e não tinha reparado nele.

Pitt não tinha certeza de como responder. A pergunta tinha sido formulada com pouca elegância.

— Não a conheço o bastante para me surpreender ou não — disse com cautela — As testemunhas freqüentemente modificam seu testemunho por diversas razões.

Gleave parecia ofendido.

— Que insinua, senhor?

Juster voltou a interromper.

— Sua Senhoria, meu douto colega perguntou à testemunha se estava surpreso. A testemunha se limitou a responder à pergunta. Não fez nenhuma insinuação.

Gleave não esperou a que o juiz interviesse.

— Vejamos o que fica deste extraordinário caso. O senhor Adinett fez uma visita a seu velho amigo, o senhor Fetters. Passaram juntos uma agradável hora e meia na biblioteca. Depois o senhor Adinett partiu. Suponho que está de acordo? — Arqueou as sobrancelhas em um gesto inquisitivo.

— Sim — concedeu Pitt.

— Bem. Prossigamos. Uns doze ou quinze minutos depois soou a campainha da biblioteca, o mordomo acudiu e, enquanto se aproximava, ouviu um grito e um golpe surdo. Ao abrir a porta viu com grande aflição que seu senhor estava estendido no chão e a escada tombada de lado. Como é muito natural, chegou à conclusão de que tinha sido um acidente que resultou fatal. Não viu ninguém mais no aposento. Voltou-se e saiu para pedir ajuda. Está de acordo até aqui?

Pitt se obrigou a sorrir.

— Não sei. Como ainda não tinha atestado, não estava aqui para escutar o testemunho do mordomo.

— Encaixa isso com os fatos que você conhece? — perguntou Gleave por cima de novas gargalhadas.

— Sim.

—Obrigado. Este é um assunto da maior seriedade, senhor Pitt, não uma oportunidade para entreter aos curiosos e exibir o que talvez acredite que é seu senso de humor!

Pitt se ruborizou. Inclinou-se sobre o corrimão, furioso.

— Fez-me uma pergunta impossível de responder! — acusou — Me limitei a destacar-lhe. Se sua estupidez entretiver ao público, você tem a culpa, não eu!

O rosto do Gleave se escureceu. Não tinha contado com um contra-ataque, mas dissimulou rapidamente sua cólera. Não era senão um grande ator.

— Depois temos ao doutor Ibbs, comportando-se com exagerado zelo por razões que nos escapam — continuou como se a interrupção não tivesse tido lugar — Você foi a sua chamada e achou todos esses indícios enigmáticos. A poltrona não estava onde você a teria colocado se fosse seu esse bonito aposento. — Seu tom era zombador — Ao mordomo lhe parece que estava em outro lugar. Havia uma marca no tapete. — Olhou ao júri, sorridente — Os livros não estavam na ordem em que você os teria posto se fossem seus. — Não se incomodou em retirar o sorriso de seu rosto ­— Ainda ficava Vinho do Porto na taça e, entretanto, o senhor Fetters chamou o mordomo. Alguma vez saberemos por que, mas acaso nos incumbe? — Olhou aos membros do júri. — vamos acusar por isso John Adinett de assassinato? — Seu semblante refletia assombro — vamos fazê-lo? Eu não! Cavalheiros, temos aqui um punhado de dados irrelevantes tirados por um médico ocioso e um policial que quer dar-se a conhecer até a custa da morte de um homem e a monstruosamente equivocada acusação contra outro que era amigo do finado. Rechacem-nos como a fileira de disparates que são!

— É essa sua defesa? — perguntou Juster — Parece mais uma recapitulação!

— Pois não é! -replicou Gleave — Embora mal precise acrescentar mais. Devolvo a sua testemunha, não preciso mais.

— Não há muito que dizer — observou Juster ocupando seu lugar — Senhor Pitt, quando interrogou pela primeira vez à criada, estava certa do arranhão na porta da sala de bilhar?

— Totalmente.

— De modo que algo a fez mudar de opinião depois?

Pitt passou a língua pelos lábios.

— Sim.

— Pergunto-me o que poderia ser. — Juster deu de ombros e em seguida passou a outro assunto. - E o mordomo estava seguro de que a poltrona da biblioteca tinha sido movida de lugar?

— Sim.

— Mudou depois de opinião? — Juster estendeu as mãos no ar — Oh, é claro que não sabe. Bem, pois não o fez. O criado também está totalmente certo de que limpou as botas de seu senhor bastante a fundo para que não ficassem penugens ou fios enganchados nas solas, da felpa do centro ou das franjas. — Pareceu ter uma idéia repentina — Por certo, o que achou era uma franja ou uma suave penugem de felpa?

— Uma penugem da mesma cor que o centro do tapete — respondeu Pitt.

— Isso. Vimos os sapatos, mas não o tapete. — Sorriu — Pouco prático, suponho. Tampouco podemos ver as prateleiras da biblioteca com seus livros mal colocados. — Parecia perplexo — por que um viajante e arqueólogo, interessado particularmente em Tróia, suas lendas, sua magia e suas ruínas convocadas no centro mesmo de nosso patrimônio, ia colocar três de seus livros mais descritivos em uma prateleira onde, para alcançá-los, via-se obrigado a subir a uma escada? E era claro que os queria, ou por que teria provocado sua própria morte utilizando-a para agarrá-los? — Elevou os ombros de maneira teatral — A não ser, naturalmente, que não o fizesse!

Naquela noite Pitt não conseguiu serenar-se. Passeou por seu jardim arrancando alguma ou outra erva daninha, observando as flores abertas e os casulos por abrir, as folhas novas das árvores. Nada conseguia reter sua atenção.

Charlotte saiu e se deteve a seu lado com expressão preocupada. Os últimos raios do sol formavam um halo ao redor de seu cabelo e faziam ressaltar sua cor castanha avermelhada. As crianças estavam deitadas e a casa silenciosa. Começava a fazer frio.

Pitt se voltou e lhe sorriu. Não era preciso explicar nada. Ela seguia o caso desde os primeiros dias e sabia por que estava inquieto, mesmo que ignorasse o pressentimento que tinha nesse momento. Pitt não lhe tinha falado de quão grave seria se não declarassem culpado Adinett porque o júri o achava incompetente e considerasse que se deixara levar por emoções pessoais, criando um caso de um nada para satisfazer sua própria ambição ou preconceitos.

Conversaram de outras coisas, trivialidades, enquanto caminhavam devagar até o final da grama e voltavam. O que disseram não importava, era senti-la a seu lado o que ele valorizava o fato de que estivesse ali e não o perturbasse com perguntas nem lhe deixasse ver seus próprios temores.

No dia seguinte Gleave começou sua defesa. Já tinha feito todo o possível por desacreditar o testemunho do doutor Ibbs, assim como o de dos criados que perceberam as minúsculas mudanças que tinha mencionado Pitt, e o do homem da rua que tinha visto entrar pela porta lateral da casa do Fetters a alguém que correspondia vagamente à descrição do Adinett. Desta vez chamou as pessoas que deviam atestar sobre o caráter do John Adinett. Havia muito onde escolher, e assim o fez saber Gleave aos que se achavam na sala. Fê-loseles desfilarem, um após o outro. Procediam de diferentes condições sociais e profissões, do exército, da política e até da Igreja.

O último a comparecer, o ilustre Lyall Birkett, era um exemplo típico. Era um homem esbelto, loiro, de rosto aristocrático e inteligente, e atitude circunspeta. Até antes de falar imprimia a suas opiniões certa autoridade. Não tinha nenhuma dúvida a respeito da inocência do Adinett, um bom homem apanhado em uma rede de intrigas e má sorte.

Como já tinha prestado declaração, Pitt tinha autorização para permanecer na sala, e dado que estava no comando da delegacia de polícia do Bow Street, não devia prestar contas a ninguém se não retornasse. Decidiu ficar para ouvir o resto do julgamento de um banco.

— Doze anos. — Birkett respondeu à pergunta de Gleave sobre há quanto tempo conhecia Adinett — Nos conhecemos no clube do exército. Por regra geral pode-se estar seguro de quem conhece ali. — Sorriu de forma quase imperceptível. Não era um sorriso nervoso, nem lisonjeador, nem havia humor nele, só um gesto afável — É um mundo pequeno, compreende? Os campos de batalha põem a prova aos homens. Em seguida se intera de quem tem valor, em quem pode confiar quando há algo que perder. Pergunte por aí e encontre alguém que o conhece.

— Acredito que todos o compreendemos — disse Gleave, quem também sorriu para o jurado — Para pôr à prova a valia de um homem, sua coragem, sua lealdade e sua honra na luta não há nada como a ameaça contra sua própria vida, ou talvez algo pior, o medo a ficar aleijado e não morrer, a acabar aleijado por toda vida. – Uma expressão de grande dor apareceu em seu rosto. Voltou-se devagar para o público de modo que os membros do júri também conseguissem vê-lo — E nos diga, alguma vez ouviu dizer algo mau do John Adinett a seus companheiros do clube do exército, senhor Birkett?

— Nenhuma palavra. — Birkett seguia tratando o assunto com ligeireza. Em sua voz não havia surpresa nem ênfase. Para ele não era mais que um equívoco bastante estúpido que se esclareceria em um par de dias, possivelmente menos.

— Mas conheciam o senhor Adinett? — apressou Gleave.

— Oh, é claro que sim. Distinguiu-se em seu serviço no Canadá. Em algo relacionado com a Hudson’s Bay Company e em uma rebelião de alguma ilha. Foi Fraser quem me falou disso. Disse que tinham escolhido ao Adinett por sua coragem e seus conhecimentos da zona. Uma imensa região inexplorada, sabe? — Arqueou as sobrancelhas — É claro que sabe. Ao monte, para o Thunder Bay. De nada serve um homem ali a menos que tenha imaginação, resistência, lealdade absoluta, inteligência e coragem.

Gleave assentiu.

— O que diz sobre a sinceridade?

Birkett pareceu por fim surpreso. Abriu muito os olhos.

— Tida como certa, senhor. Não há capacidade para o homem que não é sincero. Qualquer um pode estar equivocado de uma maneira ou outra, mas a mentira é indesculpável.

— E a lealdade a seus amigos, a seus companheiros. — Gleave deixou cair o comentário com naturalidade. Não corria perigo em sua atuação. Ninguém além de Juster, Pitt e o juiz, tinha suficiente experiência em farsas judiciais para perceber suas táticas.

— A lealdade tem mais valor que a vida — se limitou a dizer Birkett — Confiaria a John Adinett tudo que possuo: minha casa, minha terra, minha mulher, minha honra, e não teria nem um momento de preocupação.

Gleave ficou tão satisfeito consigo mesmo como cabia que estivesse. Os membros do júri contemplavam ao Birkett com admiração, e alguns tinham olhado pela primeira vez ao Adinett sem pestanejar. Estava ganhando, e já saboreava a vitória.

Pitt deu uma olhada ao presidente do júri e percebeu que franzia a testa.

— Conhecia você ao senhor Fetters? -perguntou Gleave sinceramente, voltando-se para a testemunha.

— De vista. — O rosto do Birkett se escureceu e apareceu nele uma expressão de tristeza tão profunda que ninguém podia pô-la em dúvida — Um bom homem. É um tanto irônico que percorresse o mundo em busca do antigo e o formoso para desenterrar as glórias do passado, e morresse de um escorregão em sua própria biblioteca. – Exalou silenciosamente – Li seus trabalhos sobre Tróia. Abriu um novo mundo para mim, reconheço-o. Nunca achei que fosse tão próximo. Atrever-me-ia a dizer que foram suas viagens e um apaixonado interesse pela riqueza de outras culturas o que uniu Fetters e Adinett.

– Poderiam ter tido algum conflito sobre isso? – perguntou Gleave, e em seus olhos brilhou a certeza da resposta.

Birkett se sobressaltou.

– Céus, não! Fetters era um perito, enquanto que Adinett não era mais que um entusiasta, um defensor e admirador dos que faziam os achados. Falava muito bem do Fetters, mas não aspirava a emulá-lo, só a desfrutar de seus lucros.

– Obrigado, senhor Birkett – disse Gleave com uma ligeira inclinação – reforçou tudo o que já ouvimos da boca de outros homens distintos como você. Dos mais eminentes aos mais humildes, ninguém falou mal do senhor Adinett. Não sei se meu douto colega tem alguma pergunta mais, mas eu terminei.

Juster não vacilou. Estava perdendo os membros do júri, e Pitt se dava conta. Não obstante, o vislumbre de incerteza que se transpareceu em seu rosto em seguida ficou mascarado.

– Obrigado – disse com elegância antes de voltar-se para o Birkett.

Pitt sentiu no peito um puxão de ansiedade; Birkett era inexpugnável, como o tinham sido todos os testemunhos sobre o caráter do processado. Ao associar uma e outra vez ao Adinett com homens que o admiravam e estavam dispostos a lhe jurar amizade, e inclusive a comparecer em uma sala de tribunal onde o acusavam de assassinato, Gleave o tinha posto por cima das críticas. Atacando ao Birkett só conseguiria indispor os membros do júri, não os convenceria dos escassos e pouco convincentes fatos.

Juster sorriu.

– Senhor Birkett, diz você que Adinett era totalmente leal a seus amigos.

– Assim é – afirmou Birkett assentindo com a cabeça.

– Uma qualidade que admira?

– É claro.

– Acima da lealdade a seus princípios?

– Não. – Birkett parecia um tanto desconcertado – Não disse tal coisa, senhor. Ou se o fiz, não era minha intenção. Um homem deve antepor seus princípios a tudo, ou não vale nada. Isso esperaria dele um amigo. Ou ao menos todo homem ao que eu escolha como tal.

– Eu também – concordou Juster – Um homem deve fazer o que acredita que é correto, até ao terrível custo de perder uma amizade ou a estima daqueles a quem aprecia.

– Sua Senhoria! – exclamou Gleave levantando-se com impaciência – Tudo isso soa muito moral, mas não vem ao caso! Se meu douto colega tiver um argumento que expor, lhe pode pedir que o faça?

O juiz olhou ao Juster com expressão interrogante.

Juster não se alterou.

– O argumento é muito importante, Sua Senhoria. Adinett é um homem que poria seus princípios, suas convicções, por cima inclusive da amizade. Em outras palavras, teria sacrificado até a amizade, por longa ou duradoura que tivesse sido por suas crenças se tivessem estado em conflito. Demonstramos que a vítima, Martin Fetters, era seu amigo. Fico agradecido ao senhor Gleave por ter estabelecido que a amizade não fosse a principal preocupação de Adinett e que a teria sacrificado por seus princípios se houvesse se visto obrigado a isso.

Houve murmúrios na sala. Um membro do júri pareceu surpreender-se, mas em seu rosto se refletiu de repente a compreensão. O presidente deixou escapar um suspiro e algo dentro dele relaxou.

– Não demonstramos que existisse tal conflito! – protestou Gleave, dando um passo para diante.

– Nem que não existisse! – replicou Juster voltando-se para ele.

O juiz fez calar aos dois com o olhar.

Juster agradeceu ao Birkett e retornou a seu lugar, desta vez caminhando garboso com um ligeiro rebolado.

No dia seguinte Gleave empreendeu seu ataque final contra Pitt. Voltou-se para o júri.

– Todo este caso, débil e baseado em provas circunstanciais como é, depende inteiramente do testemunho de um só homem, o superintendente Thomas Pitt. – Sua voz gotejava desdém – Se passarmos por cima o que ele diz o que fica? Não é preciso que o diga: nada absolutamente! – Começou a contar com os dedos – Um homem que viu outro na rua entrando em um jardim. Esse indivíduo poderia ter sido John Adinett ou poderia não havê-lo sido. – Levantou outro dedo – Um arranhão em uma porta que poderia levar dias ali e que provavelmente o causou um taco dirigido com estupidez. – Um terceiro dedo – Uma poltrona da biblioteca apartada por um bom número de razões. – Um quarto dedo – Livros fora de seu lugar. Deu de ombros ao mesmo tempo em que agitava as mãos – Talvez o senhor Fetters os deixou fora e a criada, que não lê mitologia grega clássica, voltou a pô-los onde lhe pareceu, notando-se em que se vissem ordenados, não na classificação temática. É muito possível que não saiba ler! Um fio do tapete enganchado a um sapato. – Abriu os olhos como pratos – Como chegou ali? O que sei eu. E o mais absurdo de tudo, meia taça de Vinho do Porto. O senhor Pitt pretende que criamos que isso significa que o senhor Fetters não tinha motivos para chamar o mordomo. O que em realidade significa é que o senhor Pitt não está acostumado a ter criados... Que poderia haver-se deduzido, posto que seja da polícia. – Pronunciou a última palavra com profundo desprezo.

Produziu-se um silêncio na sala.

Gleave fez um gesto de assentimento.

– Proponho chamar várias testemunhas que conhecem bem ao senhor Pitt para que lhes digam que classe de homem é, de modo que possam julgar por vocês mesmos o valor de seu testemunho.

A Pitt lhe caiu a alma aos pés quando ouviu o nome do Albert Donaldson e viu sua conhecida figura cruzar a sala e subir ao estrado. Parecia mais corpulento e cinza que quando tinha sido seu superior, fazia quinze anos, mas a expressão de seu rosto era tal como o recordava, e soube que continuava albergando um profundo desdém por sua pessoa.

Atestou exatamente o que esperava dele.

– Aposentou-se da polícia metropolitana, senhor Donaldson? – perguntou Gleave.

– Sim.

Gleave fez um ligeiro gesto de assentimento.

– Quando era você inspetor do Bow Street, trabalhava ali um agente chamado Thomas Pitt?

– Assim é. – A expressão do Donaldson delatava já seus sentimentos.

Gleave sorriu. Relaxou os ombros.

– Que espécie de homem era senhor Donaldson? Suponho que teve ocasião de trabalhar freqüentemente com ele. De fato, ele devia lhe render contas.

– Esse não prestava contas a ninguém! – exclamou Donaldson lançando um olhar para o Pitt, sentado entre o público. Não tinha demorado nem um minuto em localizá-lo nas filas dianteiras – Fazia o que lhe dava na vontade. Sempre achava saber mais que outros e não permitia que ninguém lhe dissesse nada.

Levava anos esperando essa oportunidade para vingar-se das ocasiões em que se havia sentido frustrado pela insubordinação do Pitt, o desacato a umas regras que este considerava restrições insignificantes, os casos em que tinha seguido investigando sem ter informado a seus superiores. Pitt tinha agido mal, dava-se conta agora que estava a cargo da delegacia de polícia.

– O adjetivo "arrogante" o descreveria bem? – inquiriu Gleave.

– Muito bem – se apressou a responder Donaldson.

– Obstinado a suas idéias? – prosseguiu Gleave.

Juster se levantou pela metade, mas mudou de opinião.

O presidente do júri se curvou para diante com a testa franzida.

No banquinho dos acusados Adinett permanecia imóvel.

– Também o descreve bem – afirmou Donaldson – Se empenhava em fazer as coisas a sua maneira, sem lhe importar o procedimento oficial. Queria toda a glória para ele e isso esteve claro desde o começo.

Gleave o convidou a dar exemplos da arrogância, ambição e aberto desacato às normas do Pitt, e Donaldson obedeceu encantado, até que o advogado decidiu que era suficiente. Parecia um tanto resistente a entregar-lhe ao Juster, mas não tinha outra escolha.

Juster iniciou as reperguntas com certa satisfação.

– Não simpatizava com o agente Pitt, não verdade, senhor Donaldson? – perguntou com ar ingênuo.

Teria sido absurdo que a testemunha negasse seus sentimentos. Até ele era consciente disso. Tinha-os mostrado muito abertamente.

– Não pode simpatizar com um homem que faz impossível seu trabalho – respondeu na defensiva.

– Porque resolvia os casos de forma pouco ortodoxa, ao menos às vezes? – inquiriu Juster.

– Quebrava as regras – corrigiu Donaldson.

– Cometia enganos? – Juster o olhou no rosto.

Donaldson se ruborizou ligeiramente. Sabia que Juster podia consultar os arquivos sem dificuldade, e provavelmente o tinha feito.

– Bom, não mais que a maioria dos homens.

– Em realidade menos que a maioria – respondeu Juster – Sabe de algum homem ou mulher que tenha sido condenado pelo testemunho do senhor Pitt e que mais tarde se descobriu que era inocente?

O presidente do júri relaxou.

– Não sigo todos seus casos! – objetou Donaldson – Tenho mais coisas que fazer com meu tempo que seguir os casos de cada agente de polícia ambicioso.

Juster sorriu.

– Então o direi eu, já que faz parte de meu trabalho conhecer os homens em quem confio – afirmou – A resposta é não; ninguém foi condenado erroneamente a partir do testemunho do superintendente Pitt, em toda sua carreira no corpo.

– Porque temos bons advogados! – Donaldson olhou de soslaio ao Gleave – Graças a Deus!

Juster aceitou o argumento com um sorriso que deixava ver uma dentadura perfeita. Sabia que não devia dar amostras de cólera ante o júri.

– Pitt era ambicioso. – Deixou que soasse como uma asseveração antes que como uma pergunta.

– Já o disse. Muito! – replicou Donaldson.

Juster afundou as mãos nos bolsos com ar despreocupado.

– Suponho que deve sê-lo. Alcançou o posto de superintendente em uma delegacia de polícia muito importante, Bow Street. Um cargo bastante mais alto do que você jamais conseguiu, não é certo?

Donaldson avermelhou intensamente.

– Eu não me casei com uma mulher de família bem e com contatos!

Juster parecia surpreso; suas negras sobrancelhas estavam arqueadas.

– De modo que socialmente também o supera? E soube que a esposa do senhor Pitt não só é de boa família, mas também inteligente, encantadora e agraciada. Acredito que sabemos perfeitamente como se sente, senhor Donaldson. – Deu-lhe as costas – Obrigado. Não tenho mais perguntas.

Gleave se levantou. Decidiu que não podia salvar a situação e voltou a sentar-se.

Donaldson desceu do estrado com expressão sombria, curvado, e não olhou ao Pitt quando se encaminhou para a porta.

Gleave chamou a sua seguinte testemunha. A opinião que este tinha sobre o Pitt não era melhor, embora por diferentes motivos. Juster não conseguiu sacudi-lo tão facilmente. Sua antipatia por Pitt se devia à forma em que tinha procedido fazia tempo em um caso em que seu amigo tinha sido considerado suspeito, até que se demonstrou que não era culpado, bastante avançado o assunto. Não tinha sido uma das investigações mais hábeis levadas do Pitt.

A terceira testemunha deu exemplos que podiam interpretar-se de maneira pouco aduladora, fazendo parecer com o Pitt arrogante e cheio de preconceitos. Seus primeiros anos foram descritos com pouca amabilidade.

– Diz que era filho de um guarda-florestal? – perguntou Gleave com voz cuidadosamente neutra.

Pitt sentiu frio. Recordava ao Gerald Slaley e sabia o que ia seguir-se, mas não podia detê-lo. Não podia fazer nada mais que permanecer quieto e agüentar.

– Assim é. Deportaram o seu pai por roubar – explicou a testemunha – Se quer saber minha opinião, Pitt sempre sentiu ressentimento pela pequena nobreza. Ia atrás de nós a propósito, converteu-o em uma espécie de cruzada. Estude seus casos e o verá. Por isso os homens que o escolheram o promoveram: para levar a julgamento os casos em que estivessem envolvidos os poderosos e ricos, os casos que eles achavam políticos. E ele nunca lhes falhou.

– Sim – concedeu Gleave astutamente – examinei a folha de serviços do Pitt. – Olhou para Juster e de novo para Slaley – Percebi que se especializou em casos nos quais estão implicadas pessoas importantes. Se meu douto colega deseja refutar o argumento, não tenho inconveniente em enumerar-lhe.

Juster fez um gesto de negação. Sabia o suficiente para não permiti-lo. Muitos dos ditos casos tinham sido conhecidos, e isso poderia contrariar aos membros do júri. As pessoas nunca sabem quem eram seus amigos nem os homens que admiravam.

Gleave ficou satisfeito. Tinha apresentado Pitt como um ser ambicioso e irresponsável, que atuava movido não pela honra, mas sim por um ressentimento que albergava desde há muito tempo e uma sede de vingança porque seu pai tinha sido acusado de um crime do qual ele continuava acreditando-o inocente. Isso era algo que Juster não podia desculpar.

A acusação recapitulou.

A defesa teve a última palavra. Recordou de novo aos membros do júri que todo o caso dependia das provas apresentadas pelo Pitt.

O júri se retirou a considerar o veredicto.

Não chegaram a nenhum essa noite.

Na manhã seguinte reapareceram por fim quatro minutos antes do meio-dia.

– Chegaram a um acordo sobre o veredicto? – perguntou o juiz, sombrio.

– Sim, Sua Senhoria – anunciou o presidente. Não levantou a vista para o banquinho dos acusados nem para o Juster, sentado com rigidez, sua cabeça morena ligeiramente inclinada, nem ao Gleave, que sorria confiante. Entretanto havia tranqüilidade em seu porte, a cabeça muito erguida.

– E estão todos de acordo com o veredicto? – perguntou o juiz.

– Sim, Sua Senhoria.

– Declaram ao acusado, John Adinett, culpado ou inocente do assassinato do Martin Fetters?

– Culpado, Sua Senhoria.

Juster ergueu a cabeça de repente.

Gleave deixou escapar um grito abafado e se levantou pela metade de seu assento.

Adinett ficou petrificado, sem compreender.

A sala prorrompeu em exclamações de assombro, e os jornalistas brigaram por sair a informar a seus jornais de que tinha ocorrido o inimaginável.

– Apelaremos! – A voz do Gleave se ouviu por cima do tumulto.

O juiz chamou a ordem, e enquanto se impunha por fim na sala uma espécie de silêncio arrepiante pediu ao meirinho que lhe trouxesse o toucado negro que devia usar para pronunciar a sentença de morte contra John Adinett.

Pitt permaneceu sentado, paralisado. Era tanto uma vitória como uma derrota. Algo que tivesse acreditado o júri, sua reputação tinha ficado feita em migalhas para o público. O veredicto era justo. Não albergava dúvida alguma sobre a culpa do Adinett, mesmo que não tivesse nem idéia de por que tinha cometido o crime.

Entretanto, em todos os delitos que tinha investigado, todas as odiosas e trágicas verdades que tinha descoberto, nunca teria feito enforcar a um homem de bom grado. Acreditava no castigo; sabia que era necessário tanto para o culpado como para a vítima e a sociedade. Era o começo da cura. Não obstante, nunca tinha acreditado na extinção de um ser humano, qualquer ser humano, nem sequer John Adinett.

Saiu à rua e pôs-se a andar pelo Newgate Street sem experimentar nenhuma sensação de vitória.

 

– Lady Vespasia Cumming-Gould – anunciou o lacaio sem lhe pedir o convite.

Não havia em Londres criado de certa categoria que não a conhecesse. Tinha sido uma das mulheres mais formosas de sua geração, e a mais ousada. Talvez continuava sendo. Aos olhos de certas pessoas não tinha rival.

Entrou pelas portas duplas e se deteve no alto das escadas que desciam em uma elegante curva até a sala de baile. Três quartos da sala já estavam cheias, mas o murmúrio da conversa diminuiu por um instante. Lady Vespasia reclamava atenção, inclusive agora.

Nunca tinha sido escrava da moda, sabia bem que o que lhe favorecia era preferível ao último grito. As cinturas de vespa e as inexistentes anquinhas dessa temporada eram maravilhosas, desde que não se permitisse que as mangas fossem muito exageradas. Vestia-se de rasa cor pérola com renda de Bruxelas tanto no decote como nas mangas e, como não, pérolas, sempre pérolas no pescoço e orelhas. Seu cabelo prateado era um diadema em si mesmo, e percorreu por um instante a sala com seus olhos cinza claros antes de começar a descer para saudar e ser saudada.

Conhecia, naturalmente, à maioria dos convidados que passavam dos quarenta, do mesmo modo que estes a conheciam, embora só fosse de ouvido. Entre eles havia amigos, mas também inimigos. Não era possível defender certas crenças, ou inclusive simples lealdades, sem granjear a aversão ou a inveja de alguém. E ela sempre tinha lutado no que acreditava, nem sempre com prudência, mas de todo coração, assim como com toda sua considerável sagacidade e inteligência.

No transcurso de meio século as causas tinham mudado. A vida inteira tinha mudado. Como ia a arbitrária, adorável e pouco imaginativa jovem Vitória prever à formosa, ambiciosa e amoral Lillie Langtry? Ou como poderia o sério príncipe Alberto ter sabido o que dizer ao excêntrico e brilhante Oscar Wilde, um homem que escrevia com tanta compreensão e cujas palavras podiam ser tão deslumbrantemente frívolas?

Depois de uma época de mudanças, guerras terríveis que haviam custado à vida de inumeráveis homens e choques de idéias que provavelmente tinham acabado ainda mais. Haviam explorado os continentes, nascido e perecido sonhos de reforma. O senhor Darwin tinha posto em tecido de julgamento os fundamentos da existência.

Vespasia saudou com uma leve inclinação da cabeça uma velha duquesa, mas não se deteve para falar com ela. Fazia muito que haviam dito tudo que tinham para dizer-se, e nenhuma das duas ia incomodar em repeti-lo. Em realidade Vespasia se perguntava que demônios fazia ali essa mulher nessa recepção diplomática. Parecia um grupo singularmente eclético, e necessitou de um momento de reflexão para compreender o que podiam ter as pessoas em comum. Logo caiu na conta de que cada um possuía certo valor como entretenimento menos a duquesa.

O príncipe de Gales reconhecia-se facilmente. Além de seu aspecto, com o que Vespasia estava muito familiarizada, havia encontrado com ele tantas vezes que tinha perdido a conta, a distância quase imperceptível que mantinham as pessoas que o rodeavam fazia-o ainda mais evidente. Percebia-se certa atitude de respeito. Por mais divertida que fosse a brincadeira ou divertida a fofoca, as pessoas não podiam acotovelar-se com o herdeiro ao trono nem abusar de seu bom caráter.

Sorria Daisy Warwick ao príncipe do outro lado da sala? Um tanto descarada, sem dúvida? Ou talvez desse por feito que todos os presentes estavam à corrente da íntima relação que existia entre eles, e em realidade a ninguém importava? A hipocrisia era um defeito que Daisy nunca tinha praticado. Da mesma maneira que a discrição era uma virtude que exercia de forma seletiva. Era indiscutivelmente formosa e tinha um ar diferente digno de admiração.

Vespasia nunca tinha desejado ser a amante de um membro da família real. Pensava que os perigos superavam com acréscimo qualquer vantagem, e nem digamos os gozos. Nesse caso nem lhe agradava nem lhe desagradava o príncipe de Gales, mas preferia à princesa, pobrezinha. Era surda e estava aprisionada em seu próprio mundo, apesar do que devia estar inteirada dos excessos de seu marido.

Uma tragédia muito maior que tinha em comum com talvez menos mulheres, mas mesmo assim muitas viram a morte de seu filho primogênito no começo desse ano. O duque de Clarence também se viu afligido, como sua mãe, de surdez. Esta tinha sido um peculiar vínculo entre ambos, que os tinha unido mais em seu mundo quase silencioso. Ela chorava sozinha sua morte.

A menos de quatro metros de Vespasia o príncipe de Gales ria com vontade de algo que havia dito um homem alto de nariz robusto e ligeiramente torcido. Seu rosto denotava força, inteligência e impaciência, embora nesse momento sua expressão refletisse senso de humor. Vespasia não o conhecia, mas sabia quem era: Charles Voisey, um juiz do tribunal de apelação, homem de grande saber, muito respeitado entre seus pares, embora também um pouco temido.

O príncipe de Gales a viu e lhe iluminou o rosto de prazer. Ela era uma geração mais velha que ele, mas sempre o tinha cativado a beleza, e ainda recordava os anos mais deslumbrantes da Vespasia, quando ele era um jovem cheio de ilusões. Agora estava cansado de esperar, cansado de carregar com a responsabilidade sem o respeito e as recompensas de ser monarca. Desculpou-se ante o Voisey para aproximar-se dela.

– Lady Vespasia – disse com prazer mal dissimulado – Quanto me alegro de que tenha podido vir. Sem você a noite teria carecido de certa qualidade.

Sustentou-lhe por um instante o olhar antes de fazer uma ligeira reverência. Ainda era capaz de conseguir que esta parecesse um gesto de infinita graça, com as costas muito rígidas, o equilíbrio perfeito.

– Obrigado, Sua Alteza. É uma noite esplêndida. – Pensou em quão esplêndida era, como tantas outras ultimamente: um esbanjamento, com tanta comida, o melhor vinho, criados em qualquer parte, música, lustres e centenas de flores frescas. Não faltava nada que pudesse aumentar o glamour, não se tinha regulado em nada.

Havia assistido no passado a tantas celebrações nas quais tinha havido mais risadas, mais alegria, e por uma percentagem mínima do custo. Recordou-as com nostalgia.

O príncipe de Gales vivia muito acima de suas possibilidades, levava anos fazendo-o. Já ninguém se surpreendia das desmesuradas festas que organizava em sua casa, dos fins de semana de caça, dos dias nas corridas onde se apostavam e se faziam e perdiam fortunas, de seus banquetes ou seus presentes excessivamente generosos a favoritos de uma ou outra classe. Muitos já nem o comentavam.

– Conhece o Charles Voisey? – perguntou ele. O juiz estava a seu lado; a boa educação pedia uma apresentação – Voisey, lady Vespasia Cumming-Gould. Conhecemo-nos a mais tempo de que queríamos recordar. Deveríamos abreviá-lo. – Fez um gesto com as mãos – Tirar todas as partes tediosas do meio e deixar só as risadas e a música, as boas comidas, às conversas e talvez um pouco de dança. Então teríamos a idade adequada, não lhe parece?

Ela sorriu.

– É a melhor sugestão que ouvi em anos, senhor – disse com entusiasmo – Nem sequer me importa conservar parte das tragédias ou até das disputas... Limitamo-nos a eliminar as horas tediosas, o intercâmbio de frases que não sentimos o estar de braços cruzados, as mentiras educadas. Levar-se-iam anos.

– Isso! Isso! – concordou ele, o rosto cheio de convicção – Não me tinha dado conta até agora de quanto senti sua falta. Nego-me a permitir que volte a acontecer. Passo anos de minha vida desempenhando minhas funções. Asseguro-lhe que não estou certo de que as pessoas com quem a passo estejam mais satisfeitas com ela que eu! Fazemos comentários previsíveis, esperamos a resposta do outro e passamos a seguinte resposta igualmente previsível.

– Temo que isso faça parte dos deveres da família real, senhor – interveio Voisey – enquanto tenhamos um trono e a um monarca nele. Não me ocorre como poderíamos mudá-lo.

– Voisey é juiz do tribunal de apelação – informou o príncipe a Vespasia – o que suponho o converte em um fanático dos precedentes. Se não o tivesse feito antes, mais vale não fazê-lo agora.

– Ao contrário – respondeu Voisey – Sou partidário das novas idéias, sempre que forem boas. Resistir ao progresso é morrer.

Vespasia o olhou com interesse. Era um ponto de vista pouco comum em alguém de uma profissão tão ancorada no passado.

O magistrado não lhe devolveu o sorriso, como teria feito um homem com menos segurança em si mesmo.

O príncipe já estava pensando em outra coisa. Sua admiração pelas idéias alheias parecia extremamente limitada.

– É claro – reconheceu com displicência – É assombroso o número de inventos novos que estamos vendo. Há dez anos nos teria parecido inconcebível ter eletricidade.

Voisey esboçou um débil sorriso e cravou seu olhar em Vespasia um instante antes de falar.

– Com certeza, senhor. Alguém se pergunta o que fica ainda está por vir. – mostrava-se educado, mas Vespasia percebeu em sua voz um vislumbre de desdém. Era um homem de idéias, de conceitos amplos, de revoluções do pensamento. Os detalhes não lhe interessavam; eram para homens mais baixos de estatura, que viam o mundo de um nível inferior.

Uniram-se a eles um renomado arquiteto e sua mulher, e a conversa derivou para temas mais gerais. O príncipe dirigiu um olhar pesaroso e divertido a Vespasia, logo depois participou das trivialidades.

Vespasia conseguiu desculpar-se e se aproximou para falar com um político que conhecia há anos. Este parecia ao mesmo tempo enfastiado e divertido, seu rosto profundamente sulcado de rugas, cheio de caráter. No passado tinham compartilhado cruzadas pessoais, triunfos e tragédias, momentos divertidos.

– Boa noite, Somerset – disse ela com verdadeiro prazer. Tinha esquecido o apreço que lhe tinha. Seus fracassos tinham sido tão magníficos como seus êxitos, e tinha levado uns e outros de forma graciosa.

– Lady Vespasia! – Iluminou-se o olhar de Somerset. – Por fim um pouco de prudência! – Tomo a mão que lhe oferecia e a roçou com os lábios no que era mais um gesto que um ato – Tomara tivéssemos uma nova cruzada, mas temo que seja algo impossível inclusive para nós. – Percorreu com o olhar a suntuosa estadia e o número cada vez mais elevado de homens e mulheres que se congregavam nela rindo, o brilho dos diamantes, a luz que acariciava sedas e pele pálida, renda e brocados brilhantes.

Endureceu seu olhar. – Se destruirá se não entrar em razão nos próximos dois anos. – Em sua voz havia pesar e perplexidade – Como é possível que não se dêem conta?

– Acredita nisso? – Ela pensou por um instante que talvez falasse para causar efeito e exagerava de maneira um tanto teatral. Depois reparou em seus lábios apertados e seu olhar sombrio – Seriamente?

Somerset se voltou para ela.

– Se Bertie não recortar muito seus gastos – sussurrou inclinando por um instante a cabeça para o príncipe do Gales, que a três metros dele ria a gargalhadas de alguma brincadeira – e a rainha não voltar para a vida pública e começar a conquistar de novo a seu povo. – Houve outra gargalhada a uns metros de distância. Carlisle desceu ainda mais a voz – Muitos sofrerão penas, Vespasia. A maioria perderá algo que amamos em nossa vida. Não podemos nos permitir renunciar… deixar de trabalhar por causa disso. O país está composto de um punhado de aristocratas, centenas de milhares de médicos, advogados e padres, um par de milhões de lojistas e comerciantes de uma ou outra classe, e granjeiros. E dúzias de milhões de homens e mulheres comuns que trabalham de sol a sol porque não fica outro remédio se querem dar de comer aos que dependem deles, os anciões e as crianças. Os homens morrem, e às mulheres lhes parte o coração. Mas a vida segue.

Em alguma parte do fundo da sala começou a soar música. Ouviu-se um tinido de taças.

– Não é possível governar um povo além de uma determinada distância – prosseguiu Somerset – A rainha já não é um de nós. Permitiu que já não se contasse com ela. E Bertie é excessivamente um de nós, com seus apetites, Só que ele não os paga de seu bolso, como temos que fazer outros!

Vespasia sabia que o que dizia era verdade, mas não tinha ouvido nunca ninguém expressá-lo com tanta ousadia. Somerset Carlisle tinha um engenho irresponsável e um grande talento para coisas extravagantes que ela conhecia muito bem. Ainda experimentava uma emoção incontrolável quando pensava em suas passadas batalhas e as coisas grotescas que seu amigo tinha feito em seu esforço por acelerar a reforma. Mas o conhecia muito bem para acreditar que brincava ou exagerava.

– Vitória será a última monarca – murmurou com uma áspera nota de pesar na voz – Se certas pessoas se safarem... Pode acreditar. Há no país um mal-estar mais profundo que o que tivemos em dois séculos. Em alguns lugares a pobreza é quase incrível, por não falar dos sentimentos anticatólicos, o medo aos judeus liberais que entraram em Londres depois das revoluções européias de quarenta e oito, e é claro sempre há os irlandeses.

– Exato – concordou ela – Sempre tivemos quase todos esses elementos. Por que agora, Somerset?

Ele permaneceu calado vários minutos. Passaram várias pessoas a seu lado. Um par delas falou as demais saudaram com a cabeça, mas não se intrometeram.

– Não estou certo – respondeu por fim – Uma combinação de coisas. O tempo. Faz mais de trinta anos que morreu o príncipe Alberto. É muito tempo para viver sem um monarca efetivo. Existe uma geração que começa a dar-se conta de que nos podemos arrumar bastante bem sem um. – Levantou um tanto um ombro – Pessoalmente, não estou de acordo com eles. Acredito que a mera existência de um monarca, tanto se fizer algo como se não, é uma salvaguarda contra muitos dos abusos de poder, dos quais talvez não somos conscientes simplesmente porque tivemos muito tempo esse escudo. Um monarca constitucional é claro. O primeiro-ministro deveria ser a cabeça da nação, e o soberano, o coração. Acredito que é muito prudente não reunir ambos na mesma figura. – Dedicou-lhe um sorrisinho torcido – Isso quer dizer que podemos mudar de parecer quando descobrimos que estamos equivocados, sem suicidarmos.

– Também conta quem somos – disse ela, igualmente em voz baixa – tivemos um trono durante milhares de anos, e a noção dele muito mais tempo. Não acredito que eu gostasse de mudar.

– Eu tampouco. – Somerset sorriu de repente, e lhe iluminou o rosto de um humor desenfreado – Sou muito velho para isso! – Tinha ao menos trinta e cinco anos menos que ela.

Vespasia lhe lançou um olhar que deveria tê-lo imobilizado a vinte passos, mas que sabia que não ia conseguir.

Uniu-se a eles um homem esbelto, um pouco mais alto que Vespasia, com um cabelo negro salpicado de cãs pelas têmporas. Tinha os olhos muito escuros, o nariz largo e a boca delicada, com profundas rugas a cada lado. Parecia inteligente, irônico e enfastiado, como se tivesse visto muitas coisas na vida e se estivesse esgotando a compaixão.

– Boa noite, Narraway. – Somerset o esquadrinhou com interesse – Lady Vespasia, permita-me que lhe apresente ao Víctor Narraway. É o chefe do Ramo Especial. Não estou certo de se é um segredo ou não, mas conhece muitas pessoas a quem poderia perguntar, se lhe interessar. Lady Vespasia Cumming-Gould.

Narraway se inclinou e saudou como correspondia.

– Diria que estava muito ocupado caçando anarquistas para perder o tempo conversando e dançando – comentou Carlisle com secura – a Inglaterra está a salvo por esta noite então?

Narraway sorriu.

– Nem todo o perigo se esconde em escuros becos do Limehouse – respondeu – Para constituir uma verdadeira ameaça deveria ter os tentáculos muito mais longos.

Vespasia o esquadrinhou tratando de averiguar se acreditava no mesmo que Carlisle não foi capaz de separar a tristeza da diversão em seu olhar. Em seguida fez um comentário sobre o ministro dos Assuntos Exteriores, e a conversa passou de longe o assunto e se tornou corriqueira.

Uma hora depois, com os compassos de uma agradável e cadenciosa valsa de fundo, Vespasia desfrutava de um champanha excelente. Levava um momento sentada só quando reparou que o príncipe de Gales se achava a uns quatro metros. Conversava com um homem de meia idade, constituição robusta, rosto sério e agradável, e um topete de cabelo espaçado no alto da cabeça. Pareceu-lhe que falavam do açúcar.

– Não está de acordo, Sissons? – perguntou o príncipe. Sua expressão era educada, mas menos que interessada.

— Através do porto de Londres sobre tudo – respondeu Sissons – É claro, é uma indústria que requer muita mão de obra.

— Seriamente? Reconheço que não tinha nem idéia. Suponho que o damos por feito. Uma colherada de açúcar com o chá e demais.

— Oh, há açúcar em muitíssimas coisas – disse Sissons com paixão – Bolachas, massas, bolos, até em mantimentos que poderíamos acreditar que são salgados. Um

Pingo de açúcar melhora o sabor dos tomates mais do que você acreditaria!

— Sério? — O príncipe arqueou ligeiramente as sobrancelhas para dar a entender que lhe parecia uma informação valiosa – Haveria dito que para isso havia o sal.

— É melhor o açúcar – assegurou Sissons– É principalmente a mão de obra o que aumenta o custo, entende?

— Como diz?

— A mão de obra, senhor – repetiu Sissons– Por isso o bairro do Spitalfields é ótimo. Centenas de homens que necessitam de trabalho, um poço quase sem fundo ao qual recorrer. Volátil, é claro.

— Volátil? – O príncipe continuava aparentemente perdido.

Vespasia percebeu que haviam outras pessoas bastante perto para ouvir essa conversa sem sentido e que também escutavam. Uma delas era lorde Randolph Churchill. Ela o conhecia de vista de toda a vida, como tinha conhecido a seu pai antes dele. Sabia de sua inteligência, assim como de sua consagração a suas crenças políticas.

– Uma grande mixórdia de pessoas – explicava Sissons– De diferente procedência, religião e demais. Católicos, judeus e, como não, irlandeses. Muitos irlandeses. A necessidade de trabalho é quase a única coisa que têm em comum.

— Entendo. – O príncipe começava a ter a impressão de que já havia dito o suficiente para cumprir com as normas da boa educação, de modo que lhe podia desculpar por abandonar essa conversa extremamente tediosa.

— Tem que ser rentável – continuou Sissons com tom cada vez mais veemente, com o rosto rosado.

— Bom, suponho que por ter algumas fábricas você é quem melhor pode sabê-lo. – O príncipe sorriu com afabilidade, para resolver o assunto.

— Não! – exclamou Sissons com brusquidão avançando um passo ao mesmo tempo em que o príncipe dava outro para afastar-se – Três fábricas. O que queria dizer não é que são rentáveis, mas sim pesa sobre mim uma grande responsabilidade para conseguir que o sejam, pois do contrário um milhar de homens ficaria sem emprego, e o caos e o prejuízo que isso provocaria seriam terríveis. – As palavras saíam a tropeções a uma velocidade cada vez maior – Não atrevo a conjeturar no que poderia acabar. Não nessa parte da cidade. Como vê, não têm nenhum outro lugar aonde ir.

— Ir? - O príncipe franziu o sobrecenho – por que teriam que querer ir-se?

Vespasia se sentiu encolher. Tinha uma idéia muito gráfica da pobreza desmoralizadora em certos bairros de Londres, em concreto em East End, da qual Spitalfields e Whitechapel eram o coração.

– Quero dizer para procurar emprego. – Sissons começava a ficar nervoso. Era evidente nas gotas de suor na testa e lábio, que brilhavam a luz dos lustres. – Morrerão sem dúvida de fome. Sabe Deus o perto que já estão de fazê-lo.

O príncipe guardou silêncio. Sentia-se visivelmente desconfortável. Era um tema muito impróprio nessa maravilhosa e opulenta demonstração de prazeres. Era de mau gosto recordar a homens com uma taça de champanha na mão, e a mulheres cobertas de diamantes, que a uns poucos quilômetros de distância milhares de pessoas não tinham o que levar a boca nem onde passar a noite. Incomodava-lhes.

– É necessário que mantenha o negócio! – A voz do Sissons se ergueu um pouco por cima do murmúrio de outras conversas e a música longínqua – Tenho que me assegurar de que pago todas minhas dívidas… para poder continuar lhes pagando.

O príncipe parecia desconcertado.

– É claro. Sim, assim deve ser. Muito consciencioso, estou certo.

Sissons engoliu a saliva.

– Todas, senhor.

– Sim, é claro que sim. – O príncipe parecia decididamente desventurado nesse momento. Era evidente seu desejo de escapar dessa absurda situação.

Randolph Churchill tomou a liberdade de interrompê-los. Vespasia não se surpreendeu. Sabia que a relação deste com o príncipe de Gales era antiga e tinha evoluído. Em 1876 tinha sido de profundo ódio a propósito do assunto do Aylesford, quando o príncipe lhe tinha desafiado a bater-se em duelo em Paris, já que era ilegal na Inglaterra. Dezesseis anos atrás o príncipe se negou publicamente a entrar na casa de todo o que recebesse aos Churchill. Como conseqüência, estes tinham sido condenados ao ostracismo.

Com o tempo a inimizade se desvaneceu e Jennie Churchill, a esposa do Randolph, tinha incentivado de tal modo ao príncipe, convertendo-se aparentemente em uma de suas muitas amantes, que este comia de bom grado em sua residência de Connaught Place e dava presentes caros. Randolph voltava a gozar de seu favor. Além de ser renomado presidente da Câmara dos Comuns e ministro da Fazenda, dois dos cargos mais altos do país, era o confidente pessoal do príncipe, acompanhava-o a atos sociais e esportivos, dava-lhe conselhos e recebia elogios e confiança.

Nesse momento interveio para salvar uma situação tediosa.

– É claro que deve... Hummm Sissons – disse alegremente – É a única maneira de levar um negócio, não é certo? Mas esta é uma ocasião para nos divertir. Bebe mais champanha, que é excelente. – voltou-se para o príncipe – Devo lhe felicitar, senhor. Uma escolha deliciosa. Não sei como o faz.

O príncipe se animou grandemente. Estava com um dos seus, um homem em quem podia confiar não só em assuntos políticos, mas também sociais.

– Verdade que é? Ficou bem.

– À perfeição – coincidiu Churchill sorrindo. Era um homem bem vestido, de meia estatura, feições regulares e um bigode muito amplo e voltado para cima que lhe conferia um ar diferente. Havia um orgulho ilimitado em sua atitude – Acredito que pede algo suculento para acompanhá-lo. Posso fazer que lhe tragam algo, senhor?

– Não, não, irei com você. – O príncipe aproveitou a ocasião para escapar – Devo falar com o embaixador francês. Um bom homem. Desculpe-nos, Sissons. – E lhe dando as costas partiu com o Churchill muito depressa para que Sissons pudesse fazer algo mais que murmurar umas palavras que ninguém ouviu e despedir-se.

— Um louco — murmurou Somerset Carlisle ao lado da Vespasia.

— Quem? – perguntou ela – O homem do açúcar?

— Não, que eu saiba. – Somerset sorriu – Aborrecido em extremo, mas se isso fosse loucura então devia se prender a metade do país. Não, refiro-me a Churchill.

— Oh, certamente – concedeu com naturalidade – Não é o primeiro em dizê-lo. Ao menos tem claro o que é vantajoso para ele, coisa preferível à situação do Aylesford. Quem é esse homem de cabelo cinza e aspecto apaixonado? – Olhou ao longe para lhe indicar a quem se referia e se voltou de novo para o Carlisle – Não recordo tê-lo visto nunca, mas irradia uma classe de paixão quase evangélica.

— É o proprietário de um jornal – explicou Carlisle – Thorold Dismore. Duvido que aprovasse a descrição que fez dele. É republicano e um ateu convencido.Entretanto, tem bastante razão; tem algo de partidário.

— Nunca ouvi falar dele – comentou ela – E achava conhecer todos os donos de jornais de Londres.

— Duvido que leia o seu. É de boa qualidade, mas não é contrário a deixar que suas idéias se reflitam com bastante clareza nele.

— Seriamente? – Vespasia arqueou as sobrancelhas em um gesto inquisitivo – E por que ia isso me dissuadir de lê-lo? Nunca achei que alguém fosse capaz de informar uma notícia sem passá-la antes pelo filtro de seus próprios preconceitos. Acaso os seus são mais poderosos que o normal?

— Acredito que sim. E tampouco é contrário a defender que se combata por sua causa.

— Oh. – Ela sentiu o comentário como uma corrente de ar gélido, nada mais. Não deveria ter se surpreendido. Olhou ao homem com mais vagar. Tinha um rosto inteligente, de feições robustas, angulosas, suscetível de uma profunda emoção. Haveria dito que era um homem que não cedia terreno a ninguém e cuja manifesta afabilidade talvez mascarasse um caráter capaz de ser desagradável quando perdia o controle. Não obstante, as primeiras impressões podiam ser errôneas.

— Quer conhecê-lo? – perguntou Carlisle, intrigado.

— Talvez – respondeu ela – mas estou bastante certa de que não desejo que ele saiba disso.

— Assegurar-me-ei de que não o faça prometeu ele sorrindo – Seria terrivelmente presunçoso. Certamente, não permitirei que cresça. Se acertar uma apresentação, acreditará que a idéia foi minha e me estará muito agradecido por ter intervindo.

— Somerset, raia a impertinente – observou Vespasia, consciente do apreço que lhe tinha. Era ousado, disparatado, apaixonado em suas crenças e, sob sua fachada frívola e encantadoramente única. Sempre lhe tinha atraído pessoas excêntricas.

Era passada a meia-noite e Vespasia começava a perguntar-se se queria ficar muito mais quando ouviu uma voz que fez desvanecer o tempo, transportando-a de novo a um verão inesquecível em Roma meio século atrás: 1848, o ano das revoluções em toda a Europa. Durante um período – muito breve – de euforia e frenesi os sonhos de liberdade se propagaram como o fogo pela França, Alemanha, Áustria, Hungria e Itália. Depois, um por um, tinham-nos destruído. Tinham assaltado as barricadas, submetido às pessoas e devolvido aos papas e reis seu poder. A reforma tinha sido anulada e pisoteada pelos soldados. Em Roma tinham sido os soldados franceses do Napoleão III.

Mal se voltou para olhar. Quem quer que fosse só podia ser um eco. Era a memória que lhe jogava uma má passada, uma entonação que soava igual, a algum diplomata italiano, talvez da mesma região, até da mesma cidade. Achava havê-lo esquecido, ter esquecido aquele ano tumultuoso, com sua paixão, suas ilusões e toda a coragem e dor, e ao final a perda.

Depois tinha viajado de novo a Itália, mas nunca a Roma. Sempre tinha achado a maneira de evitá-lo sem dar nenhuma explicação. Era outra parte de sua vida, uma existência totalmente diferente da realidade de seu matrimônio, seus filhos, Londres, até de suas recentes aventuras com o extraordinário policial Thomas Pitt. Quem imaginaria que Vespasia Cumming-Gould, a aristocrata por excelência, cuja família descendia da metade das casas reais da Europa, ia fazer causa comum com o filho de um guarda-florestal que se fizera policial? Claro que a preocupação pelo que pensassem outros paralisava a metade de seus conhecidos privando os de toda classe de paixão, alegria e dor. De repente se voltou. Não foi tanto um ato premeditado como uma reação que não pôde evitar.

A menos de quatro metros viu um homem quase de sua idade. Naquela época tinha uns vinte anos, esbelto, moreno, ágil como um bailarino, com essa voz que enchia seus sonhos.

Agora tinha o cabelo cinza e estava um pouco mais robusto, mas seus ossos não tinham mudado como tampouco a forma de suas sobrancelhas ou seu sorriso.

Como se tivesse notado seu olhar, ele se voltou para a Vespasia afastando por um momento sua atenção do homem com quem falava.

Reconheceu-a no ato, sem um instante de dúvida ou indecisão.

De repente ela se assustou. Acaso a realidade podia igualar as lembranças? Permitiu-se acreditar mais do que de fato tinha ocorrido? Era a mulher de sua juventude remotamente parecida com a que era hoje? Ou descobriria que o tempo e a experiência haviam lhe tornado muito prudente para ser capaz de seguir vendo o sonho? Precisava vê-lo com a paixão da juventude, o sol romano no rosto e uma pistola na mão, em pé junto às barricadas, disposto a morrer pela República?

Ele se aproximava dela.

O pânico a deixou empapada como uma onda, mas o costume, a autodisciplina de toda uma vida e a absurda esperança impediu que se levantasse e se fosse.

Ele se deteve frente a ela.

Vespasia sentia os batimentos do coração no pescoço. Tinha amado muitas vezes na vida, as vezes com paixão, em outras com senso de humor, em geral com ternura, mas nunca tanto como tinha amado ao Mario Corena.

— Lady Vespasia – disse ele com formalidade, como se fossem simples conhecidos. Não obstante seu tom era suave, acariciava as sílabas. Depois de tudo era um nome romano, como lhe havia dito brincando fazia muito tempo.

O homem tinha empregado seu título. Devia responder ela com a mesma correção? Depois de tudo o que tinham compartilhado a ilusão, a paixão e a tragédia, parecia uma negação. Ninguém os ouvia.

— Mario... – Era estranho voltar a pronunciar seu nome. A última vez o tinha sussurrado na escuridão, com voz afogada em pranto, as faces úmidas. As tropas francesas entravam em Roma. Mazzini se tinha se rendido para salvar ao povo. Garibaldi se tinha dirigido ao norte, a Veneza, com sua mulher grávida, vestida de homem e armada como todos outros, lutando a seu lado. O Papa tinha retornado e anulado todas as reformas, cancelado a dívida, a liberdade e a alma em um só ato.

Mas tudo isso era coisa do passado. Itália já estava unida; ao menos isso se fizera realidade.

Ele esquadrinhava seus olhos, seu rosto. Ela esperava que não dissesse que continuava sendo formosa. Nunca lhe tinha importado isso.

Devia dizer algo para adiantar-se a ele? Um comentário trilhado seria intolerável. Mas se falasse, então nunca saberia. Não havia tempo para jogos.

— Freqüentemente imaginei que voltava a me encontrar com você – disse ele por fim – Nunca achei que ocorreria até hoje. Deu de ombros de forma quase imperceptível– Cheguei faz uma semana a Londres. Era impossível estar aqui sem pensar em você. Não sabia se perguntava por você ou deixava os sonhos sem tocar. Então alguém mencionou seu nome e todo o passado retornou para mim como se fosse ontem, e não tive forças para me sacrificar. Pensei que a acharia aqui. – Percorreu com o olhar a suntuosa sala, com suas colunas, seus deslumbrantes lustres, o torvelinho de música, risadas e vinho.

Ela sabia exatamente a que se referia. Esse era seu mundo de dinheiro e privilégios, todos eles herdados. Talvez em algum passado longínquo alguém os tinha ganhado, mas não esses homens e mulheres que se achavam aí agora.

Podia repreender facilmente as velhas batalhas, mas não era o que ela queria. Tinha acreditado tão desesperadamente como ele na revolução de Roma. Também tinha lutado e discutido por ela, trabalhado dia e noite em hospitais durante o sitio, levado água e comida aos soldados, e ao final até disparado armas junto aos últimos defensores. E tinha compreendido por que, quando ao final Mario tinha tido que escolher entre ela e seu amor pela República, ele tinha escolhido seus ideais. A dor que lhe tinha causado tal decisão nunca a tinha abandonado de todo, até depois de todos esses anos, mas se a escolha dele tivesse sido diferente, teria sido pior. Ela não teria podido amá-lo do mesmo modo, porque sabia no que acreditava.

Vespasia sorriu por sua vez, enquanto uma risada efervescente se erguia em seu interior.

Tem vantagem sobre mim. Eu nem em meus sonhos mais descabelados teria imaginado que o acharia aqui, se acotovelando com o príncipe de Gales.

Ele a olhou com ternura ao recordar velhas brincadeiras, que os fazia gargalhar.

— Touché – reconheceu – Mas agora o campo de batalha está em todas as partes.

— Sempre o esteve, querido — respondeu ela — Aqui é mais complicado. Poucas questões são tão simples como nos pareciam então.

Ele não pestanejou.

— Eram simples.

Vespasia pensou no pouco que ele tinha mudado Só em aspectos superficiais: a cor do cabelo, as finas rugas do rosto. Talvez por dentro fosse mais sábio, tivesse quantas cicatrizes e feridas, mas a mesma esperança ardia com idêntica força, junto com todos os velhos sonhos.

Ela tinha esquecido quão entristecedor podia ser o amor.

— Queríamos uma república — prosseguiu ele — Uma voz para o povo. Terras para os pobres, moradias para os que dormiam na rua, hospitais para os doentes, luz para os prisioneiros e os loucos. Era simples imaginar isso, simples fazê-lo quando tivemos o poder… por um breve período antes que voltasse a tirania.

— Careciam dos meios — recordou. Mario não merecia que lhe respondesse com nada mais que a verdade. Ao final, tanto se as tropas francesas tivessem entrado como se não, teria caído a República, porque os que possuíam o dinheiro não estavam dispostos a dar o necessário para manter em marcha sua frágil economia.

A dor acendeu o rosto do Mario.

— Sei. — Percorreu com o olhar a esplêndida estadia em que se achavam ainda cheia de música e conversas — Os diamantes que vejo aqui teriam bastado para nos manter durante meses. Quanto acha que se serve nestes banquetes no transcurso de uma semana? Quanto se come de mais e quanto se atira porque não se necessita?

— O suficiente para alimentar aos pobres de Roma — respondeu ela.

— E aos pobres de Londres? — perguntou ele com ironia.

— Não o bastante para isso. — Nas palavras da Vespasia subjazia a amargura da verdade.

Mario contemplou às pessoas em silêncio, o rosto fatigado pela longa batalha liberada contra a cegueira de coração. Ela o observou consciente de que tinha acreditado tantos anos em Roma, e soube sem sombra de dúvida que continuava acreditando no mesmo. Se então tinham sido O Papa e os cardeais, agora eram o príncipe e seus cortesãos, admiradores e dependentes. Era a coroa de Grã-Bretanha e seu Império, não a coroa de três pisos do Papa, mas todo o resto era igual: o esplendor, a indiferença, o uso inconsciente da pólvora, a fraqueza humana.

Que fazia ele em Londres? Seriamente queria sabê-lo? Talvez não. Era um momento íntimo. Ali, no meio do ruidoso e superficial glamour da sala de baile, Vespasia sentia o calor do sol romano no rosto, o pó, a luz deslumbrante nos olhos, sob seus pés as pedras que tinham ressoado ao ritmo dos passos das legiões que tinham conquistado até o último limite da terra e gritado "Ave César!" ao partir, as águias no alto, os brilhantes penachos vermelhos. Ali tinham arrojado aos mártires cristãos aos leões, tinham lutado os gladiadores, tinham crucificado de cabeça para baixo São Pedro, tinha pintado Michelangelo a capela Sistina.

Não queria que o passado ficasse eclipsado pelo presente. Era muito precioso, estava muito misturado com a malha de seus sonhos.

Não; não vou perguntá-lo.

Logo o momento passou e deixaram de estar sós. Um homem chamado Richmond os saudou com afabilidade e apresentou a sua esposa; pouco depois se uniram a eles Charles Voisey e Thorold Dismore, e passaram a falar de temas mais gerais. Foi uma conversa corriqueira e bastante divertida, até que a senhora Richmond fez um comentário sobre Tróia antiga e os emocionantes achados que tinha feito Heinrich Schliemann. Vespasia se obrigou a prestar atenção ao momento presente e suas banalidades.

— Assombroso — concordou Dismore — Extraordinária a persistência desse homem.

— E as coisas que descobriram — disse a senhora Richmond com entusiasmo — A máscara do Agamenon, o colar que certamente levou Helena. Isso os faz reais em um sentido que nunca teria imaginado de carne e osso como qualquer de nós. É uma sensação muito estranha tirá-los do terreno da lenda e fazê-los mortais, com vidas que deixam atrás restos físicos, objetos.

— Certamente. — Voisey se mostrou precavido.

— Oh, acredito que há pouco lugar para a dúvida! — protestou ela — Tem lido algum dos maravilhosos trabalhos do Martin; Fetters? É genial. Faz tudo parecer tão imediato.

Houve um momento de silêncio. — Sim — disse Dismore com brusquidão. — É uma grande perda.

— Oh! — A senhora Richmond se ruborizou — Tinha esquecido. Que terrível. Sinto muito. Ele... Caiu interrompeu sem saber muito bem como continuar.

— É claro que caiu! — exclamou Dismore, cortante — Sabe Deus como um júri chegou à semelhante veredicto. Não cabe dúvida de que é absurdo. Mas se apelará e será revogado. — Olhou ao Voisey.

Richmond se voltou também para ele.

Voisey lhes sustentou o olhar.

Mario Corena estava desconcertado.

— Sinto muito, Corena, mas não posso opinar — disse Voisey tenso. Estava pálido e tinha os lábios apertados — É muito provável que eu seja um dos juízes que examinem o caso quando se apresente a apelação. Só sei que esse maldito policial Pitt é um ser ambicioso e irresponsável, que está ressentido com os que nasceram em melhor berço e com mais dinheiro que ele. Está decidido a exercer o poder que lhe outorga seu posto só para demonstrar que pode fazê-lo. A seu pai o deportaram por roubo e ele nunca o superou. É uma espécie de vingança contra a sociedade. Dá pavor a arrogância do ignorante quando lhe concede certa responsabilidade.

Vespasia sentiu como se a tivessem esbofeteado. Por um momento ficou sem fala. Percebeu a cólera na voz do Voisey, viu o fogo em seus olhos. A cólera que ela experimentava era comparável.

— Não sabia que o conhecia — disse com tom gélido —, mas estou segura de que um membro da magistratura como você nunca julgaria a nenhum homem, independentemente de sua linhagem ou sua condição, a não ser apoiando-se em provas cuidadosamente demonstradas. Você jamais permitiria que lhe influísse as palavras ou atos de outros homens, e menos ainda seus próprios sentimentos. A justiça deve ser igual para todos, ou deixa de ser justiça. — Sua voz estava empapada de sarcasmo — Suponho, portanto, que você o conhece melhor que eu.

Voisey estava tão pálido que lhe ressaltavam as sardas. Respirou fundo, mas guardou silêncio.

— É parente político meu — concluiu ela. Um parente muito longínquo, mas não havia necessidade de acrescentá-lo. Seu sobrinho neto, agora morto, tinha sido cunhado do Pitt.

A senhora Richmond estava horrorizada. Isso era uma gafe descomunal. Por um instante lhe pareceu quase divertido, mas em seguida se deu conta da seriedade com que todos outros o tinham tomado; a tensão carregou o ambiente como uma tormenta iminente.

— Pouco afortunado — disse Dismore rompendo o silêncio — Certamente cumpria com seu dever tal como ele o entendia. Mesmo assim, a apelação mudará sem dúvida o veredicto.

— Ah… sim — acrescentou Richmond — Sem dúvida alguma.

Voisey se manteve cauteloso.

 

Pouco mais de três semanas depois Pitt, que tinha voltado para casa cedo de Bow Street, passeava alegremente pelo jardim. Maio era um dos meses mais formosos, cheio de pálidas flores, folhas novas e o brilhante resplendor das tulipas, a intensa fragrância dos goivos-amarelos, suntuosos como o veludo. Começavam a sair os tremoceiros, altas colunas de tons rosa, azul e arroxeado, e havia ao menos meia dúzia de papoulas orientais que se abriam frágeis e chamativas como seda colorida.

Em realidade mais que trabalhar no jardim o admirava, apesar de haver suficientes ervas daninhas para tê-lo totalmente ocupado. Esperava que Charlotte terminasse as tarefas domésticas que estivesse fazendo e se reunisse com ele, e quando ouviu abrir a porta-janela se voltou satisfeito. Entretanto, quem caminhava pela grama era Ardal Juster, seu rosto moreno sombrio.

A primeira coisa que Pitt pensou foi que os juízes do tribunal de apelação tinham achado um engano no procedimento e anulado o veredicto. Não achava que houvesse novas provas. Tinha procurado por toda parte e interrogado a todo mundo.

Juster se deteve frente a ele. Deu uma olhada aos canteiros que tinha a esquerda e direita, depois levantou o olhar para o sol que se filtrava através das folhas de um castanheiro no fundo do jardim. Inalou fundo a fragrância da terra úmida e flores.

Pitt se dispunha a pôr fim à tensão quando Juster falou.

— A apelação do Adinett foi desprezada — anunciou em voz baixa — Sairá nos jornais de amanhã. Veredicto por maioria, quatro contra um. Pronunciou-o Voisey. Ele era um dos quatro. Abercrombie foi a única voz dissidente.

Pitt não compreendia. Juster se comportava como se fosse portador de notícias de uma derrota, não de uma vitória. Aferrou-se à única explicação que lhe ocorreu, o que ele mesmo achava que enforcar a um homem era uma solução degradante, pois não deixava que este respondesse de seu pecado nem lhe dava tempo para mudar. Achava, é claro, que Adinett tinha cometido um ato de profunda maldade, mas sempre o tinha preocupado desconhecer por completo seus motivos. Se houvesse sabido toda a verdade, cabia a possibilidade de que o assunto tivesse parecido diferente.

Mesmo que esse não fosse o caso, e independentemente de quem fora Adinett, a exigência de que pagasse por isso com sua vida degradava mais aos que o exigiam que a ele mesmo.

O rosto do Juster, iluminado pelo sol da tarde, traduzia ansiedade. Em seus olhos só se via a luz refletida.

— O enforcarão — comentou Pitt.

— É claro — disse Juster. Meteu as mãos nos bolsos, com a testa ainda franzida — Não vim por isso. Lerá nos jornais de amanhã e, de todo modo, você sabe tanto como eu a respeito. Vim para lhe acautelar.

Pitt se sobressaltou. Sentiu um calafrio, apesar da tarde agradavelmente temperada.

Juster mordeu o lábio.

— Não houve nenhum engano na sentença, mas muitas pessoas resistem a acreditar que um homem como John Adinett assassinasse a Fetters. Se lhes proporcionássemos um móvel, talvez o aceitariam. — Viu a expressão do Pitt — Não me refiro ao cidadão comum, esse está satisfeito que se fez justiça, possivelmente até lhe parece bem que alguém da posição do Adinett receba a mesma justiça que ele. Não lhe é preciso compreender. — Entrecerrou os olhos por causa da luz — Me refiro aos homens de nossa classe, os que têm poder.

Pitt não estava certo de o entender.

— Se não anularam o veredicto, então a lei aceita tanto sua culpa como o julgamento se conduziu com imparcialidade. Talvez chorem sua morte, mas que mais podem fazer?

— Castigar a você por sua temeridade — respondeu Juster com um sorriso torcido — E pode ser que a mim também, segundo até que ponto acreditam que foi minha decisão acusá-lo.

O quente vento agitou as folhas do castanheiro e uma dúzia de pássaros levantou vôo formando um redemoinho.

— Achava que já me tinham arrojado todos os insultos que lhes passassem pela cabeça no estrado das testemunhas — disse Pitt, recordando com repentina cólera e dor as acusações contra seu pai. Tinha-lhe surpreendido que ainda o afetasse tanto. Achava havê-lo empurrado a um segundo plano e deixado que curasse. Assombrou-lhe que a ferida se abrisse com tal facilidade e voltasse a sangrar.

Juster parecia penalizado, com as faces ligeiramente acesas.

— Sinto muito, Pitt. Acreditava tê-lo prevenido o suficiente, mas não estou seguro de se o fiz. Isto está longe de ter terminado.

Pitt sentiu um nó na garganta, como se por um instante lhe custasse respirar.

— O que poderiam fazer?

— Não sei, mas Adinett tem amigos poderosos, não o bastante para salvá-lo, mas a quem assentará mal perder. Tomara pudesse lhe dizer o que cabe esperar deles, mas o ignoro. — A consternação estava impressa em seus olhos e em seus ombros um tanto caídos.

— Não teria mudado nada — asseverou Pitt com franqueza — Se te abstiver de iniciar um procedimento judicial porque o acusado tem amigos, a lei não vale nada, e nós tampouco.

Juster esboçou um sorriso que curvou as comissuras de sua boca para baixo. Sabia que era certo, mas o preço estava longe de ser simples, e se dava conta de que as palavras do Pitt, além de irônicas, eram uma bravata. Estendeu uma mão.

— Se posso lhe servir de algo, me chame. Sei defender tanto como acusar. Falo a sério, Pitt.

— Obrigado — respondeu este com sinceridade. Era uma corda salva-vidas que podia necessitar.

— Eu gosto de suas flores. — Juster fez um gesto de assentimento — Assim que deve ser, muita cor em todas as partes. Não suporto as fileiras retas. É muito fácil ver os defeitos, além de qualquer outra coisa.

Pitt se obrigou a sorrir.

— Assim me acredito também.

Permaneceram em silencio por uns segundos, empapando da cor na brisa da tarde, o lânguido zumbido das abelhas, as risadas de crianças ao longe e o tagarelar dos pássaros. O aroma dos goivos-amarelos quase deixava um gosto na boca.

Depois Juster se despediu, e Pitt se encaminhou para a casa.

Nos jornais da manhã Pitt achou tudo o que tinha temido. Nas manchetes se anunciava o fracasso da apelação do Adinett, que seria executado em menos de três semanas. Pitt já sabia, mas vê-lo em letra impressa o tornava mais imediato. Eliminava a última possibilidade de evasão.

Quase debaixo da notícia, onde ninguém podia passar por alto, havia um extenso artigo do Reginald Gleave, quem tinha defendido ao Adinett e declarava abertamente que continuava acreditando em sua inocência. Qualificava o veredicto de um dos grandes enganos da justiça britânica desse século, e assegurava que um dia as pessoas se envergonhariam profundamente de uma instituição que tinha cometido, em seu nome, uma injustiça tão terrível.

Não censurava aos juízes do tribunal de apelação, embora tivesse palavras pouco amáveis para o magistrado que presidiu o primeiro julgamento. Mostrava-se indulgente

Com os membros do júri, a quem considerava homens leigos no referente à lei que se deixaram enganar pelos verdadeiramente culpados. Um deles era o promotor Ardal Juster. O principal culpado era Pitt.

… Um homem perigoso e intolerante, que abusou do poder que lhe foi outorgado por seu cargo a fim de levar a cabo uma vingança pessoal contra as classes enriquecidas porque processaram o seu pai por roubo quando ele não tinha idade para compreender a necessidade e a justiça de tal medida.

Depois desafiou à autoridade de todas as maneiras que lhe ocorreram, menos ficar sem emprego e perder assim o poder que tanto deseja. E não se equivoquem, é um homem ambicioso, com uma mulher que resulta caro manter e aspirações de levar a vida de um cavalheiro.

Os agentes que velam pela observância da lei devem ser imparciais e justos para com todos, sem temer nem favorecer a ninguém. Essa é a essência da justiça e, ao final, a única liberdade.

Havia mais do mesmo, mas saltou e se limitou a ler frases soltas aqui e lá.

Sentada à mesa do café da manhã frente a ele, Charlotte o olhava fixamente, com a colher da geléia em uma mão. O que devia lhe explicar? Se ela lesse o artigo, primeiro se zangaria e depois temeria por ele. Pelo contrário, se o ocultava, ela saberia que se mostrava evasivo e isso seria ainda pior.

— Thomas? — A voz do Charlotte interrompeu seus pensamentos.

— Reggie Gleave escreveu um artigo bastante virulento sobre o caso — explicou ele— Adinett perdeu a apelação e Gleave o tomou mal. Defendeu-o ele, recorda? Talvez acredite de verdade que é inocente.

Ela o esquadrinhava, com preocupação no olhar, interpretando sua expressão antes que escutando suas palavras.

Pitt forçou um sorriso.

— Há mais chá? — Dobrou o jornal e hesitou um instante. Se o levava consigo, Charlotte era perfeitamente capaz de sair e comprar outro. E o fato de que ele o tivesse ocultado faria que ela se preocupasse mais. Deixou-o na mesa.

Charlotte soltou a colhera da geléia e serviu o chá. Não disse nada mais, mas seu marido sabia que assim que saísse da casa, ela o leria.

No meio da tarde o Sub-Inspector Cornwallis tinha enviado a procura de Pitt. Este soube assim que entrou em seu escritório que se passava algo grave. Imaginou um caso embaraçoso e extremamente complicado, talvez outro como o assassinato do Fetters no qual estaria envolta uma figura destacada. Era a classe de assuntos que levava ultimamente.

Cornwallis se achava em pé atrás de sua escrivaninha, como se tivesse estado passeando pela sala e fora resistente a sentar-se. Era um homem ágil de estatura média. Tinha passado a maior parte de sua vida na marinha e ainda dava a impressão de que o comando em alto mar ia mais com sua maneira de ser, fazendo frente aos elementos antes que à tortuosidade da política e opinião pública.

— Sim, senhor? — perguntou Pitt.

Cornwallis parecia profundamente compungido, como se levasse longo momento procurando palavras para o que tinha que dizer, mas ainda não as tivesse encontrado.

— Trata-se de um novo caso? -inquiriu Pitt.

— Sim e não. — Cornwallis o olhou fixamente — Pitt, detesto isto! Levo toda a manhã lutando contra isso e perdi. Nenhuma batalha me assentou pior. Se soubesse que mais fazer, fá-lo-ia. — Meneou a cabeça ligeiramente — Mas acredito que se continuo com isso só conseguirei piorar as coisas.

Pitt estava desconcertado, e a visível agitação do Cornwallis o encheu de fria apreensão.

— Trata-se de um caso? Quem está comprometido?

— No East End — respondeu Cornwallis — E não tenho nem idéia de quem está envolvido. A metade dos anarquistas de Londres, que eu saiba.

Pitt respirou fundo para acalmar-se. Como todos outros agentes de polícia, e a maioria das pessoas em geral, estavam à corrente das atividades anarquistas que tinham lugar na Europa, entre elas várias explosões em Londres e diversas capitais do continente. As autoridades francesas tinham feito circular um dossiê com fotos de quinhentos anarquistas procurados. Vários estavam à espera de ser julgados.

— Quem morreu? — perguntou — por que pedem que intervenhamos? O East End não é nosso território.

— Não morreu ninguém — respondeu Cornwallis — É um assunto do Ramo Especial.

— Os irlandeses? — Pitt estava surpreso. Como todo mundo, estava informado dos problemas irlandeses, dos fenianos, da história de mitos e violência, tragédia e luta que tinham assediado a Irlanda ao longo dos últimos trezentos anos. Deste modo sabia que havia distúrbios em certas partes de Londres, motivo pelo qual se apartara a um setor especial da polícia para que se concentrasse em fazer frente à ameaça de bombas, assassinatos ou inclusive pequenas insurreições. Inicialmente o tinha conhecido como o Ramo Especial Irlandês.

— Nenhum irlandês em particular — corrigiu Cornwallis — Conflitos políticos gerais; simplesmente preferem não chamá-los políticos. As pessoas não o aceitariam.

— Por que nós? — perguntou Pitt — Não o entendo.

— Será melhor que se sente. — Cornwallis indicou com um gesto a cadeira que havia ao outro lado de sua escrivaninha e tomou assento.

Pitt obedeceu.

— Não se trata de nós — acrescentou Cornwallis com franqueza — mas sim de você. — Não desviou a vista enquanto falava; ao contrário, sustentou o olhar do Pitt sem piscar — Fica dispensado do comando do Bow Street e será transferido temporariamente ao Ramo Especial a partir de hoje.

Pitt ficou atônito. Não era possível. Como foram destituí-lo de seu cargo no Bow Street? Não tinha cometido nenhuma estupidez e menos ainda um engano! Queria protestar, mas as palavras não pareciam adequadas.

A boca do Cornwallis se converteu em uma fina linha, como se lhe atormentasse uma dor física.

— A ordem vem de cima — sussurrou — Muito por cima de mim. Questionei-a, inclusive opus a ela, mas não está em minha mão revogá-la. Todos os homens implicados se conhecem entre si, e eu sou um intruso. Não sou um deles. — Esquadrinhou os olhos do Pitt tratando de julgar quanto tinha compreendido do que queria dizer.

— Um deles — repetiu Pitt. Vieram em turba a sua memória velhas lembranças, como uma maré de escuridão. Tinha visto no passado corrupção o mais sutil, homens cujas lealdades estavam acima da honra ou uma promessa, que cobriam mutuamente seus crimes, que davam prioridade aos seus excluindo ao resto. Conhecia-os como o Círculo Interior. Seus largos tentáculos o tinham alcançado antes, mas mal tinha pensado nele nos dois últimos anos. De repente Cornwallis lhe dizia que esse era o inimigo.

Talvez não devesse ter estranhado. Tinha-lhes atirado golpes duros no passado. Deveriam ter esperado o momento oportuno para vingar-se, e sua declaração ante o tribunal lhes tinha proporcionado a ocasião perfeita.

— Amigos do Adinett? — inquiriu.

Cornwallis assentiu levemente.

— Não tenho forma de saber, mas apostaria o que fosse que sim. — Ele também evitou mencionar o nome, mas nenhum dos dois duvidou de seu significado. Cornwallis inspirou fundo — Dispus tudo para que se apresente ante o senhor Víctor Narraway no endereço que lhe darei. É o comandante do Ramo Especial do East End e lhe informará de seus deveres. — interrompeu-se bruscamente.

Ia acrescentar que Narraway também pertencia ao Círculo Interior? Se esse era o caso, então Pitt estava mais só do que tinha suspeitado.

— Me tomara pudesse lhe dizer algo mais sobre o Narraway — acrescentou Cornwallis com ar penalizado — mas todo o Ramo Especial é como um livro fechado para o resto de nós. — Enrugou o rosto em uma careta de desagrado. Talvez se tivesse visto obrigado a aceitar a necessidade de criar uma força clandestina, mas, como para a maioria dos ingleses, ia contra seu modo de ser.

— Achava que o problema feniano tinha diminuído — disse Pitt com ingenuidade — O que posso fazer eu no Spitalfields que não façam melhor seus próprios homens?

Cornwallis se inclinou sobre sua escrivaninha.

— Pitt, não tem nada que ver com os fenianos ou os anarquistas, e Spitalfields é irrelevante. — Falava em voz baixa e premente — Querem tirá-lo do Bow Street. Estão decididos a acabar com você, se puderem. Ao menos se trata de outro emprego remunerado. Ingressará dinheiro para que sua mulher o retire. Se tomar cuidado e for inteligente, talvez consiga perder-se no Whitechapel e, me acredite, isso seria muito desejável por um tempo. Tomara... Tomara fosse de outro modo.

Pitt se dispunha a levantar-se, mas lhe falharam as pernas. Ia perguntar quanto tempo devia permanecer banido, perseguindo sombras no East End, privado de dignidade, de comando, do estilo de vida a que estava acostumado e que se ganhara! Entretanto, não estava seguro de ser capaz de suportar a resposta. Depois, ao observar o rosto do Cornwallis, deu-se conta de que este não tinha nenhuma resposta que lhe dar.

— Tenho que viver no East End? — perguntou. Ouviu sua própria voz seca e algo quebrada, como se levasse dias sem falar. Compreendeu que era pela comoção. Tinha ouvido o mesmo tom em outros ao lhe comunicar notícias insuportáveis.

Obrigou-se a reagir. Isso não era insuportável. Nenhum ser amado tinha sido ferido ou morto. Não podia continuar vivendo em sua casa, mas esta continuava estando ali para Charlotte, e para Daniel e Jemima. Só faltaria ele.

Mesmo assim era tão injusto! Ele não tinha feito nada de mau, nem se equivocado! Adinett era culpado. Tinha apresentado as provas ante um júri, com imparcialidade, e este as tinha examinado e pronunciado um veredicto.

Por que Fetters tinha matado John Adinett? Nem sequer Juster tinha conseguido dar um motivo. Todos tinham acreditado que existia entre ambos uma boa amizade, dois homens que não só compartilhavam a paixão por viajar e por objetos preciosos por seus vínculos com a história e a lenda, mas também muitos ideais e sonhos de mudar o futuro. Ambos queriam uma sociedade mais bondosa e tolerante, que oferecesse a todos uma oportunidade para progredir.

Juster tinha perguntado se a discussão poderia ser sobre dinheiro ou uma mulher. Ninguém sabia da menor diferença entre ambos até esse dia.

Não os tinham ouvido elevar a voz. Quando o mordomo tinha entrado meia hora antes com o Vinho do Porto, os dois homens pareciam os melhores amigos.

Entretanto, Pitt tinha certeza de não ter interpretado mal os fatos.

— Pitt — Cornwallis continuava inclinado sobre a escrivaninha, olhando-o muito sério;

Pitt voltou a prestar atenção.

— Sim?

— Farei tudo que puder — Cornwallis parecia envergonhado, como se soubesse que isso não bastava — Só espere que passe. Tome cuidado! E pelo amor de Deus, não confie em ninguém. — Juntou as mãos sobre a superfície de carvalho — Tomara estivesse em meu poder fazer algo! Mas nem sequer sei contra quem estou lutando.

Pitt se levantou.

— Não há nada a fazer — disse cansativamente — Onde posso achar ao tal Victor Narraway?

Cornwallis entregou uma folha de papel com um endereço escrito nela: o número 14 do Lake Street, em Mele End New Town. Estava nos subúrbios do bairro do Spitalfields.

— Passe antes em casa para recolher a roupa que vai necessitar e seus equipamentos pessoais. Cuidado com o que diz à Charlotte. Não... — Se interrompeu e mudou de idéia sobre o que ia dizer. — Há anarquistas — disse em seu lugar — Autênticos terroristas. Talvez pensem fazer algo aqui.

— Suponho que é possível. Depois do Domingo Sangrento no Trafalgar Square, poucas coisas poderiam me surpreender. De todo modo isso terminou faz quatro anos. — Pitt se aproximou da porta — Sei que fez todo o possível. — Não era fácil dizê-lo — O Círculo Interior é uma enfermidade secreta. Sabia que... Só o tinha esquecido. -E sem esperar que Cornwallis falasse saiu e desceu pelas escadas, alheio às pessoas que passavam a seu lado, sem ouvir sequer aos que se dirigiam a ele.

Dava-lhe pavor dizer à Charlotte, de modo que a única maneira de fazê-lo era imediatamente.

— O que foi? — perguntou ela assim que o ouviu entrar na cozinha.

Estava em pé frente ao grande fogão negro. O aposento estava totalmente iluminado pelo sol e cheirava a pão recém assado, e os lençóis que pendiam do varal do teto tinham sido içados. No aparador galês havia porcelana branca e azul, e no centro de uma bonita mesa de madeira, uma fruteira cheia. Archie, o gato laranja e branco, limpava-se deitado na cesta da roupa, enquanto seu irmão Angus deslizava esperançado pelo batente da janela para a jarra de leite que estava junto ao cotovelo de Charlotte.

As crianças estavam no colégio, e Gracie devia ter saído para fazer algum recado. Esse era o lar que Pitt adorava o que fazia a vida agradável. Depois do horror e da tragédia do crime, era voltar ali, com suas risadas e sua prudência, e saber-se querido, o que tirava o veneno das feridas do dia.

Como conseguiria arrumar-se sem isso? Como se arrumaria sem Charlotte?

Por um momento se apoderou dele uma raiva cega pelos homens secretos que lhe tinham feito isso. Era monstruoso que da segurança do anonimato lhe privassem das coisas que mais amava que invadissem sua vida e a pulverizassem como erva seca, sem dar contas a ninguém. Queria lhes fazer o mesmo, mas cara a cara, para que soubessem por que e ele pudesse ver em seus olhos que o entendiam.

— Thomas, o que aconteceu? — A voz de Charlotte soou áspera pelo medo.

Virou-se para ele, com o trapo do forno em uma mão, e o olhava com fixidez. Ele se deu conta vagamente de que Angus tinha alcançado o leite e começava a beber a goladas.

— Destinaram-me ao Ramo Especial — respondeu ele.

— Não o entendo — disse ela devagar — O que significa isso? O que é o Ramo Especial?

— Ocupa-se dos terroristas e anarquistas — respondeu ele — Fenianos em sua maioria, até o ano passado. Agora é qualquer um que quer criar distúrbios ou cometer um assassinato político.

— Por que é tão terrível? -Charlotte lhe esquadrinhava o rosto, chegando a suas emoções antes que a suas palavras. Não questionava a dor que via refletido nele, só a causa.

— Já não estarei no Bow Street. Nem com o Cornwallis. Trabalharei para um tipo chamado Narraway no Spitalfields.

— Spitalfields? -Ela franziu a testa — O East End. Quer dizer que terá que se deslocar cada dia até a delegacia de polícia do Spitalfields?

— Não, Terei que viver no Spitalfields, como uma pessoa comum.

Nos olhos do Charlotte se refletiu pouco a pouco a compreensão, seguida da solidão e a cólera.

— Isso é monstruoso! — exclamou com incredulidade — Não podem fazê-lo! É injusto! Do que têm medo? Acreditam que um punhado de anarquistas vai pôr toda Londres em perigo?

— Não tem nada que ver em apanhar anarquistas — explicou ele — Se trata de me castigar, porque John Adinett forma parte do Círculo Interior e eu prestei à declaração que o levará a forca.

Ela tinha o rosto tenso, os lábios pálidos.

— Sim, sei. Estão escutando pessoas como Gleave? Isso é ridículo! Adinett era culpado. Você não tem culpa!

Ele não disse nada.

— Está bem. — Charlotte se voltou e acrescentou com voz chorosa — Sei que não tem nada que ver com isso. Não pode ajudá-lo ninguém? É tão injusto! — voltou-se de novo — Talvez tia Vespasia...

— Não. — Pitt sentia uma dor quase insuportável. Olhou fixamente sua esposa. Tinha o rosto aceso de cólera e desespero, o cabelo desprendendo-se dos passadores, os olhos cheios de lágrimas. Como ia suportar viver só no Spitalfields sem vê-la ao final de cada jornada, sem compartilhar com ela uma brincadeira ou uma idéia, ou até discutir uma opinião, e sobre tudo sem tocá-la e sentir seu calor entre os braços?

— Não será para sempre! — Disse-o tanto para ela como para si mesmo. Tinha que olhar para um tempo no futuro fosse quando fosse. Não toleraria essa situação um dia mais do necessário. Haveria alguma maneira de lutar contra isso com o tempo.

Charlotte tratou de conter as lágrimas. Tinha os olhos úmidos e procurou um lenço nos bolsos do avental. Encontrou-o e se assuou ruidosamente.

De repente Pitt se sentiu indeciso. Antes de entrar na cozinha tinha previsto recolher suas coisas e partir imediatamente, sem alongar a despedida. Assim seria mais fácil, ao menos para as crianças. Entretanto, queria ficar o máximo tempo possível, estreitá-la em seus braços e, como a casa estava vazia, até subir e fazer amor por última vez possivelmente em muito tempo.

Seria o melhor ou só faria pior e mais difícil o momento que não ia demorar?

Ao final não pensou nisso, limitou-se a abraçá-la, a beijá-la, a estreitá-la tão forte que ela gritou e ele se afastou, mas só um par de centímetros, o justo para não machucá-la. Depois a levou para cima.

Quando ele partiu, Charlotte ficou sentada em frente ao espelho da penteadeira, escovando o cabelo. Teve que tirar os poucos grampos que ficavam e refazer o penteado. Tinha um rosto machucado, os olhos vermelhos e ainda ardidos pelas lágrimas, embora estas também eram de cólera, assim como de comoção e desamparo.

Ouviu fechar a porta da rua e os passos de Gracie pelo corredor.

Recolheu rapidamente o cabelo e voltou a prendê-lo com os grampos de maneira desordenada, depois desceu pelas escadas e entrou na cozinha.

Gracie estava no centro do aposento.

— O que aconteceu? — disse horrorizada — O pão estragou. Olhe. — A seguir se deu conta de que se tratava de algo muito mais grave — É o senhor Pitt? Está ferido? — Tinha o rosto lívido.

— Não! -apressou-se a responder Charlotte — Está bem. Quero dizer que não está ferido.

— Então o que ocorre? — exigiu saber Gracie. Tinha todo o corpo rígido, os ombros fundos da tensão, suas pequenas mãos juntas.

Charlotte se sentou com parcimônia em uma cadeira. Não era algo que pudesse explicar-se em poucas palavras.

— Tiraram-no de o Bow Street e o enviaram ao Ramo Especial, no East End. — Nunca lhe tinha passado pela cabeça não confiar em Gracie. Estava há sete anos com eles, desde que era uma menina abandonada de treze anos, mal nutrida e analfabeta, mas com língua afiada e vontade de superar-se. Para ela, Pitt era o homem mais excelente do mundo e o melhor em sua profissão. Considerava-se melhor que qualquer outra criada do Bloomsbury porque trabalhava para ele. Compadecia às que serviam a meros lordes inúteis. Em sua vida não havia emoção, e tampouco um propósito.

— O que é o Ramo Especial? — perguntou com receio — por que ele?

— Antes se ocupava dos terroristas irlandeses que punham bombas. — Charlotte explicou o pouco que sabia — Agora de anarquistas em geral, e niilistas, acredito.

— Quem são?

— Os anarquistas são pessoas que querem acabar com todos os governos e criar o caos.

— Não é preciso acabar com os governos para isso — comentou Gracie com ironia— Quem são os outros que terminam em "está"?

— Os niilistas? Gente que quer destruir tudo.

— Isso é uma tolice! Que sentido tem? Então você tampouco tem nada!

— Sim, é uma tolice — concordou Charlotte — Não acredito que tenham muito bom senso, só cólera.

— De modo que o senhor Pitt vai detê-los. — Gracie parecia um pouco mais esperançada.

— Vai tentar, mas primeiro tem que encontrá-los. Por isso deverá viver no Spitalfields.

Gracie estava horrorizada.

— Viver ali? Não podem obrigá-lo a viver no Spitalfields! Não sabem que tipo de lugar é? Caramba, é a escória do East End! É um lugar imundo e presta a Deus sabe o que! Ali ninguém está a salvo de nada, nem de ladrões, nem de assassinos, nem de enfermidades, ou de que lhe ataquem na escuridão. — Elevava cada vez mais a voz — Têm todo tipo de febres e sífilis, além de todo o resto. Quem voa com dinamite alguns desses lugares estará fazendo um favor ao mundo. Terá que lhes dizer que não está bem. O que acham que ele é? Um policial inútil?

— Sabem qual é a situação ali — disse Charlotte, embargada de novo pela tristeza — Por isso o fazem. É uma espécie de castigo por ter encontrado as provas contra Adinett e ter atestado ante o tribunal. Já não é o chefe do Bow Street.

Gracie se curvou como se tivesse recebido um golpe. Era muito miúda e magra. Tinha presenciado muitas injustiças para pôr em dúvida sua existência.

— Isso é perverso — murmurou — É um grande equívoco. Suponho que lhe pagarão nesse ramo.

— Oh, sim. Não sei quanto! — tratava-se de algo no que Charlotte não tinha pensado. Era típico de Gracie ser prática. Tinha vivido na pobreza durante muito tempo para esquecê-lo. Tinha conhecido o tipo de frio que faz adoecer, a fome que obriga a comer as sobras que outros atiram, quando ter uma fatia de pão é ser rico e ninguém pensa sequer no amanhã, e nem digamos a semana seguinte — Bastará! — acrescentou com mais energia — Talvez não possamos nos permitir luxos, mas sim comida. E se aproxima o verão, de modo que não necessitaremos tanto carvão. Simplesmente não teremos novos vestidos por um tempo, nem poderemos comprar brinquedos ou livros.

— Nem carne de ovino. Os arenques são bons, e as ostras são baratas. E sei onde conseguir bons ossos para fazer caldo e demais. Arrumaremo-nos. — Gracie respirou fundo-. De qualquer modo não é justo!

Também foi difícil explicar às crianças. Jemima, de dez anos e meio, crescia alta e magra, e seu rosto tinha perdido um pouco a redondeza. Era possível entrever a mulher em que ia converter se.

Daniel, dois anos menor, era de constituição mais robusta e decididamente mais infantil. Suas feições começavam a definir-se, e tinha a pele suave e o cabelo ondulado na nuca, como Pitt.

Charlotte tinha decidido lhes dizer que seu pai teria que ausentar-se por um tempo de tal forma que compreendessem que não tinha se despedido deles, que sentiriam muitíssimo menos.

— Por quê? — perguntou Jemima imediatamente — Se não quer ir-se, por que tem que fazê-lo? — resistia a aceitar todo seu rosto cheio de ressentimento.

— Às vezes todos nos vemos obrigados a fazer coisas que não queremos — respondeu Charlotte. Tratava de falar com voz serena, consciente de que as crianças estavam tão atentas as suas emoções como as suas palavras. Devia fazer todo o possível por dissimular sua própria aflição — É questão do que é correto, o que deve fazer-se.

— Mas por que tem que fazê-lo? — insistiu Jemima — por que não pode fazê-lo outro? Eu não quero que se vá.

Charlotte a acariciou.

— Eu tampouco. Mas se nos queixamos só lhe poremos as coisas mais difíceis. Disse-lhe que cuidaremos uns de outros e sentiremos sua falta, mas que estaremos bem até que volte.

Jemima refletiu uns minutos a respeito, sem saber se aceitava ou não.

— Está perseguindo homens maus? — Daniel falou pela primeira vez.

— Sim -se apressou a responder Charlotte — Terá que detê-los e ele é a pessoa mais adequada para fazê-lo.

— Por quê?

— Porque é muito esperto. Outras pessoas levam tempo tentando-o e não o conseguiram, de modo que enviaram a papai.

— Entendo. Então suponho que estaremos bem. — Daniel meditou um momento — É perigoso?

— Não vai enfrentar a eles — disse Charlotte com mais tranqüilidade do que sentia — Sozinho deve averiguar quem são.

— Não vai detê-los? — perguntou Daniel de modo razoável, com uma sobrancelha arqueada.

— Ele só não — explicou Charlotte — O dirá a outros policiais e o farão todos juntos.

— Tem certeza? — Daniel intuía que sua mãe estava preocupada, mesmo que não soubesse o porquê.

Ela se obrigou a sorrir.

— É claro. Você não?

Ele assentiu, satisfeito.

— De qualquer forma sentirei falta dele.

— Eu também — disse Charlotte, obrigando-se a continuar sorrindo.

Pitt foi de trem diretamente ao endereço ao norte do Spitalfields que lhe tinha facilitado Cornwallis. Era uma pequena casa situada atrás de uma loja. Víctor Narraway esperava-o. Pitt viu que era um homem enxuto, com cabelo escuro salpicado de cãs e um rosto no qual a inteligência era perigosamente evidente. Não podia passar inadvertido assim que alguém o olhava nos olhos.

Estudou ao Pitt com interesse.

— Sente-se — ordenou assinalando a simples cadeira de madeira que tinha em frente. Na sala havia muito poucos móveis, só uma cômoda com todas as gavetas bem fechadas, uma mesinha e duas cadeiras. Certamente antigamente tinha sido uma copa.

Pitt obedeceu. Vestia sua roupa mais velha, a que estava acostumado a levar quando não queria chamar a atenção nos bairros mais pobres. Tinha passado muito tempo desde a última vez que lhe tinha parecido necessário. Sentia-se incomodado, sujo e em uma situação de total desvantagem. Era como se seus anos de êxitos se desvanecessem e se converteram em nada mais que um sonho, ou um desejo.

— Não vejo que você vá ser-me de muita utilidade — disse Narraway sombrio—, mas suponho que não deveria olhar os dentes a cavalo dado. Deram-me isso, assim será melhor que lhe tire o maior proveito. Achava que era você famoso por sua forma de fazer frente ao escândalo entre a pequena nobreza. Spitalfields não parece seu território.

— Não é — disse Pitt a contra gosto — Eu era de Bow Street.

— E onde demônios aprendeu a falar assim? — Narraway arqueou uma sobrancelha. Tinha uma boa voz, e sua dicção lhe vinha tão de nascimento como por educação, mas não era melhor que a do Pitt.

— Educaram-me com o filho do dono da propriedade — respondeu recordando-o até então com clareza; o sol que entrava pelas janelas, o professor com sua vara e suas lentes, as intermináveis repetições até que ficava satisfeito. A princípio lhe tinha incomodado, mas logo o fascinou. Agora estava agradecido.

— Teve sorte — comentou Narraway com um sorriso tenso — Mas se quer servir de algo aqui terá que desaprendê-lo, e depressa. Tem aspecto de camelô ou vagabundo, e fala como um refugiado do Ateneu!

— Posso falar como um camelô se quiser — afirmou Pitt — Não um do bairro, mas seria estúpido que o tentasse. Todos se conhecem.

A expressão do Narraway se relaxou pela primeira vez e em seus olhos se vislumbrou um vislumbre de aceitação. Era um primeiro passo, nada mais. Fez um gesto de assentimento.

— O resto de Londres não tem nem idéia de quão grave é isto — assegurou com ar sombrio — Só sabem que há distúrbios. Mas é mais que isso. — Observava ao Pitt com atenção — Não se trata de um ou outro lunático com um cartucho de dinamite, embora sem dúvida também os tenha. — A ironia apareceu fugazmente em seu rosto-. Não faz nem dois meses tivemos um homem que jogava dinamite pela privada e bloqueava os canos, até que a proprietária se queixou. Os operários que levantaram os canos e a acharam não tinham nem idéia do que era. Um pobre infeliz acreditou que lhe seria útil para reparar gretas e a deixou no chão de sua água-furtada para que se secasse, e fez saltar todo o lugar pelos ares. Derrubou a metade da casa.

Era absurdo, mas também amargo e dramático. Alguém ria do ridículo que era, mas ficava a tragédia.

— Se não for algum niilista tentando fazer realidade suas ambições — perguntou Pitt— o que procuramos então?

Narraway sorriu um pouco mais relaxado. Reclinou-se na cadeira e cruzou as pernas.

— Sempre existiu o problema irlandês e duvido que desapareça, mas no momento essa não é nossa principal preocupação. Continua haver fenianos por aí soltos, mas prendemos um bom número o último ano e estão bastante silenciosos. Ainda há um forte sentimento anticatólico generalizado.

— É perigoso?

Narraway observou a expressão de dúvida do Pitt.

— Não em si mesmo — respondeu com aspereza — Tem muito que aprender. Comece por permanecer calado e escutando! Busque um emprego qualquer que justifique sua existência. Percorra as ruas por aqui. Tenha os olhos bem abertos e a boca fechada. Escute as conversas frívolas, inteire-se do que se diz e o que não se diz. No ar se apalpa uma cólera que não existia aqui faz dez ou quinze anos. Lembra-se do Domingo Sangrento de 87, e dos assassinatos do Whitechapel do outono seguinte? Passaram-se quatro anos disso e é quatro vezes pior.

É claro que Pitt recordava os outonos de 1887 e 1888. Todo mundo os tinha pressente. Entretanto, ignorava que a situação seguisse estando tão perto da violência. Tinha acreditado que se tratava de um desses estalos esporádicos que se produziam de vez em quando para, em seguida, voltar a apagar-se. Uma parte dele se perguntava se Narraway não dramatizava em excesso, talvez para dar-se importância. Havia muita rivalidade dentro dos diferentes ramos responsáveis por fazer observar a lei, cada um dos quais protegia seu próprio território e tentava ampliá-lo a custa das demais.

Narraway lhe leu o rosto como se tivesse falado.

— Não emita julgamentos apressados, Pitt. Mostre-se cético, é claro, mas faça o que lhe ordena. Não sei se Donaldson tinha razão no que disse sobre você no estrado, mas a mim terá que me obedecer enquanto estiver no Ramo Especial, ou o porei de quatro na rua tão depressa que acabará vivendo no Spitalfields ou em um lugar parecido por toda vida, e sua família com você! Falei com suficiente clareza?

— Sim, senhor — respondeu Pitt, horrivelmente consciente ainda do terreno tão perigoso no qual se achava. Não tinha nenhum amigo e muitos inimigos. Não podia permitir-se dar ao Narraway um pretexto para que o expulsasse.

— Bem. — Narraway voltou a cruzar as pernas — Então me escute com atenção e não esqueça o que lhe digo. Não importa o que você acredite, eu tenho razão, e deverá atuar de acordo com o que eu lhe diga se quer sobreviver, e não digamos me ser de alguma utilidade.

— Sim, senhor.

— E não me responda como um louro! — exclamou Narraway — Se quiser um pássaro falante, comprarei um! — Tinha o rosto tenso — No East End reina uma pobreza tão absoluta e desesperada como não é capaz de imaginar sequer o resto da cidade. As pessoas morrem de fome e de enfermidades provocadas pela fome, homens, mulheres e crianças. — A cólera contida fez que sua voz soasse áspera — São mais as crianças que morrem que os que conseguem viver. Isso tira valor à vida. Os valores são diferentes. Ponha um homem em uma situação em que não tenha nada que perder e terá problemas. Ponha a cem mil homens e terá um paiol de pólvora para a revolução. — Observava a Pitt com atenção — É aí onde seus católicos, terroristas anarquistas, niilistas e judeus representam um perigo. São a única faísca que poderia fazer explodir sem propor-lhe todo o resto. Só precisa começar.

— Judeus? — perguntou Pitt intrigado — Que problema há com os judeus?

— Não é o que esperávamos — admitiu Narraway — Há um montão de judeus bastante liberais procedentes da Europa. Vieram depois das revoluções de quarenta e oito, que foram sufocadas de uma maneira ou outra. Contávamos com que sua cólera se transbordasse aqui, mas até a data não foi assim. — Deu muito levemente de ombros — O que não é o mesmo que dizer que não vá fazê-lo. E há muito sentimento anti-semita por aí, nascido em sua maior parte do medo e ignorância. Mas quando as coisas ficam difíceis, as pessoas procuram cabeças de turco, e os que são evidentemente diferentes se convertem no primeiro alvo, porque é o mais fácil.

— Entendo.

— Duvido — respondeu Narraway com desdém — mas o fará se prestar atenção. Encontrei em um alojamento no Heneagle Street, com um tal Isaac Karansky, um judeu polonês respeitado no bairro. Cabe esperar que você esteja a salvo dentro do que cabe, e em situação de vigiar e escutar, de averiguar algo.

Suas instruções seguiam sendo muito vagas, e Pitt não sabia muito bem o que se esperava dele. Estava acostumado a ter um caso concreto que investigar algo que já tinha acontecido e que ele devia desentranhar, averiguar quem era o responsável, como se tinha feito e, se era possível. Tratar de descobrir algo sobre um fato pouco específico que podia ou não acontecer no futuro era totalmente diferente, algo muito indefinido para entendê-lo. Por onde ia começar? Não havia nada que examinar, ninguém a quem interrogar e, pior ainda, carecia de autoridade.

Uma vez mais se sentiu afligido por uma sensação de fracasso, tanto passado como por vir. Não servia para esse emprego. Requeria habilidades e conhecimentos que não possuía. Ali era um estranho, quase um estrangeiro em relação aos costumes imperantes. Não o tinham enviado a esse lugar porque pudesse ser útil, a não ser a modo de castigo por ter acusado Adinett e tido êxito. Não obstante, continuava tendo um emprego e uma fonte de ganhos para Charlotte e as crianças. Ao menos estava agradecido por isso, mesmo que nesse momento sua gratidão se achava sepultada sob o medo e a cólera.

Tinha que tentar! Precisava tirar mais informação de Narraway, mesmo que isso significasse engolir seu orgulho e obrigar-se a perguntar. Quando saísse dessa sala diminuta e insossa seria muito tarde. Sentir-se-ia mais só do que tinha estado profissionalmente em toda sua vida.

— Acredita que há alguém tratando deliberadamente de fomentar a violência, ou vai ocorrer em uma série de acidentes que nos pilharão despreparados? — perguntou.

— O segundo é possível — respondeu Narraway—. Sempre o foi. Mas acredito que desta vez será o primeiro. Embora provavelmente pareça espontâneo, e sabe Deus que há suficiente pobreza e injustiça para avivá-la, uma vez acesa. E suficiente ódio religioso e racista para que estale uma guerra nas ruas. Isso é o que devemos acautelar Pitt. Em comparação, o assassinato parece algo muito simples, não é? Quase até irrelevante, salvo para os envolvidos. — Sua voz voltava a ser áspera — E não me diga que toda a tragédia ou a injustiça é feita de pessoas individuais, já sei! Entretanto, nem sequer as melhores sociedades do mundo conseguem erradicar os pecados pessoais da inveja, da avareza e da cólera, e não acredito que o consigam nunca. Estamos falando é de uma classe de loucura em que ninguém está a salvo e que destrói tudo que tem utilidade ou valor.

Pitt não disse nada. Seus pensamentos eram tão sombrios que o assustaram.

— Leu algo sobre a Revolução francesa? — perguntou Narraway — Refiro a grande, a de 1789, não a este recente fiasco.

— Sim. — Pitt estremeceu ao pensar de novo nas lições na propriedade e a descrição das ruas de Paris, onde corria o sangue humano enquanto a guilhotina fazia seu trabalho dia após dia — O Grande Terror — acrescentou.

— Exato. — Narraway apertou os lábios — Paris está muito perto, Pitt. Não acredite que não poderia ocorrer aqui. Acredite em mim, temos suficiente desigualdade.

Apesar dele, Pitt considerou a possibilidade de que houvesse ao menos alguma verdade no que dizia Narraway. Exagerava, é claro, mas até a imagem mais pálida era terrível.

— O que necessita exatamente de mim? — perguntou controlando com cuidado sua voz-. Dê-me algo que procurar.

— Eu não o necessito absolutamente para nada! — exclamou Narraway com repentina indignação — Você me caiu de cima. Não estou muito certo do por que, mas já que está aqui, posso utilizá-lo. Além de ter um lugar onde viver tão razoável como cabe esperar do Spitalfields, Isaac Karansky é um homem de certa influência em sua própria comunidade. Observe-o, escute, averigúe quanto possa. Se inteirar-se de algo útil, me avise. Estou aqui toda semana à uma hora ou outra. Fale com o sapateiro da calçada de frente. Ele sabe como me fazer chegar os recados. Não chame a menos que seja importante, e não deixe de fazê-lo se pode ser! Se equivocar-se, prefiro que seja por pecar por prudência.

— Sim, senhor.

— Bem. Então vá.

Pitt se levantou e se encaminhou para a porta.

— Pitt!

Este se voltou.

— Sim, senhor?

Narraway o observava.

— Tome cuidado. Aí fora não tem amigos. Não esqueça nunca, nem por um momento. Não confie em ninguém.

— Não, senhor. Obrigado. — Pitt saiu sentindo frio, apesar do ambiente carregado e o aroma meio adocicado da madeira podre.

Perguntando um par de vezes chegou através de estreitas e cinzas ruelas ao Heneagle Street. Encontrou a casa do Isaac Karansky na esquina do Brick Lane, uma concorrida rua que conduzia diante da muito alta fábrica de açúcar até o Whitechapel Road. Bateu na porta. Não ocorreu nada, de modo que voltou a bater.

Foi a abri-la um homem de uns cinqüenta e cinco anos. Tinha a tez morena, claramente semítica, e o cabelo negro salpicado generosamente de cãs. Em seu olhar havia tanta amabilidade como inteligência enquanto estudava ao Pitt, mas as circunstâncias o tinham ensinado a ser cauteloso.

— Sim?

— Senhor Karansky? — perguntou Pitt.

— Sim — Tinha a voz grave, com um leve acento, e muito receosa dos intrusos.

— Meu nome é Thomas Pitt. Acabo de chegar a este bairro e estou procurando alojamento. Um amigo me comentou que você poderia ter um quarto para alugar.

— Como se chama seu amigo, senhor Pitt?

— Narraway.

— Bem, bem. Temos um quarto. Entre, por favor, e veja se é o que busca. É pequeno, mas limpo. Minha mulher é muito maníaca. — afastou-se para lhe franquear a entrada.

O corredor era estreito, e as escadas não estavam a mais de alguns metros de distância da porta. Tudo estava escuro, e Pitt supôs que no inverno haveria umidade e faria muitíssimo frio, mas cheirava a limpo, a uma espécie de cera, e chegava um aroma a ervas que não conseguiu identificar. Era agradável, uma casa onde vivia pessoas em família, onde uma mulher cozinhava, varria e lavava a roupa, e estava em geral ocupada.

— Lá em cima. — Karansky indicou as escadas.

Pitt subiu devagar, ouvindo o rangido que acompanhava cada passo que dava. No alto Karansky lhe indicou uma porta e Pitt a abriu. O quarto era pequeno, com uma janela tão suja que custava ver o que havia fora, mas talvez fosse preferível deixá-lo à imaginação. A pessoa podia criar-se seu próprio sonho.

Havia uma cama de ferro, já feita com lençóis de linho que pareciam limpos e engomados, e várias mantas, além de uma cômoda de madeira com meia dúzia de gavetas com estranhos atiradores, e uma bacia e uma jarra em cima. Da parede pendia um pedaço de espelho. Não havia armário, mas sim dois varais na porta. No chão, ao lado do leito, havia um tapete.

— Servirá — aceitou Pitt. Os anos se desvaneceram, e era como se voltasse a ser um moço, na propriedade, e a polícia acabasse de levar a seu pai; quando a sua mãe e os expulsaram da casa do guarda-florestal e se acharam nos quartos dos criados. Então se tinham considerado afortunados. O senhor Matthew Desmond os tinha acolhido. A maioria das pessoas os teria jogado à rua.

Percorreu o quarto com o olhar recordando de novo a pobreza, o frio e o medo; era como se os anos intermédios só tivessem sido um sonho e tivesse chegado o momento de despertar e seguir adiante com a realidade. O aroma lhe era curiosamente familiar; não havia pó, só a nudez e o saber quanto frio faria, os pés descalços no chão, gelo no vidro da janela, água fria na jarra.

Keppel Street parecia obra da fantasia. Ia sentir falta das comodidades a que estava acostumado. Pior ainda, ia sentir falta insuportavelmente o calor, as risadas e o amor, a segurança.

— Serão dois xelins à semana — sussurrou Karansky a suas costas — E um xelim e seis pennies mais com comida. Pode sentar-se conosco à mesa se o desejar.

Recordando o que Narraway havia dito sobre a posição do Karansky na comunidade, Pitt não vacilou em aceitar.

— Obrigado, isso estaria muito bem. — levou uma mão ao bolso e contou o dinheiro para pagar o aluguel da primeira semana. Como Narraway havia dito, devia achar algum tipo de emprego ou suscitaria suspeitas-. Qual é o melhor lugar para procurar trabalho?

Karansky encolheu expressivamente os ombros, o pesar impresso em seu rosto.

— Não existe tal lugar. Aqui a pessoa luta por sobreviver. Parece forte de costas. O que está disposto a fazer?

Pitt não tinha pensado seriamente nisso até esse momento. Só enquanto contava o dinheiro de seu aluguel caiu na conta de que devia ter uma fonte de ganhos visível, pois do contrário despertaria suspeitas desnecessárias. Tinham transcorrido muitos anos desde a última vez que tinha feito um grande esforço físico. Seu trabalho às vezes era duro para os pés, mas na maioria dos casos era a mente o que utilizava, sobre tudo desde que tinha estado a cargo do Bow Street.

— Não tenho manias — respondeu. Pelo menos não se achavam o bastante perto dos moles para ter que carregar carvão ou levantar gavetas-. O que me diz da fábrica de açúcar? Vi-a ao descer pelo Brick Lane. Cheira-se daqui.

Karansky arqueou uma sobrancelha.

— Interessa-lhe, né?

— Se me interessa? Não. Só pensei que poderia haver trabalho ali. O açúcar necessita de muitos homens, não é assim?

— Oh, sim, centenas — concordou Karansky — Uma de cada duas famílias do bairro deve ao menos parte de seus ganhos a essa fábrica. Pertence a um homem chamado Sissons. Têm três, todas por aqui; duas a esta parte do Whitechapel Road e a terceira ao outro lado.

Algo em sua expressão chamou a atenção do Pitt, uma hesitação, uma atitude vigilante.

— É um bom lugar para trabalhar? — perguntou tratando de adotar um ar de naturalidade.

— Qualquer emprego é bom — respondeu Karansky — Pagam o suficiente. A jornada é longa e o trabalho pode ser duro, mas dá o bastante para viver se andar com olho. É muito melhor que morrer de fome, e já há bastante disso por aqui. Mas não se faça ilusões a menos que conheça alguém que o coloque.

— Não conheço ninguém. Onde mais posso procurar?

Karansky piscou.

— Não vai tentar?

— Tentarei, mas você mesmo disse que não conte com isso.

Houve um movimento no patamar do outro lado da porta e Karansky se voltou. Pitt viu além dele a uma atraente mulher. Sua cabeleira era abundante e morena apesar de que devia ter quase a idade do Karansky, mas tinha o rosto sulcado de rugas de aborrecimento e ansiedade, e uma expressão angustiada nos olhos, como se o medo nunca a abandonasse. Mesmo assim suas feições eram formosas e proporcionais, e possuía um ar de dignidade que a experiência tinha polido antes que destruído.

— Parece-lhe bem o quarto? — perguntou com acanhamento.

— Já está arrumado, Leah — a tranqüilizou Karansky—, O senhor Pitt ficará conosco. Procurará emprego amanhã.

— Saúl necessita de ajuda — disse ela olhando ao Pitt — Pode levantar e carregar? Não é duro.

— Estava-me perguntando pela fábrica de açúcar — explicou Karansky — Talvez prefira isso.

A mulher pareceu surpreendida e preocupada, como se Karansky fizesse algo que a tivesse decepcionado. Franziu a testa.

— Não estaria melhor com o Saúl? — Deu a entender com sua expressão que queria dizer muito mais que essas simples palavras, e esperava que ele o entendesse.

Karansky deu de ombros.

— Pode experimentar sorte com os dois, se quiser — comentou ao Pitt.

— Você disse que não conseguirei nada na fábrica de açúcar a menos que conheça alguém — recordou Pitt.

Karansky o olhou uns segundos em silêncio, como se tratasse de decidir se Pitt era honrado, e a verdade ao respeito o evitasse.

Foi a senhora Karansky quem rompeu o silêncio.

— A fábrica de açúcar não é um bom lugar, senhor Pitt. Saúl não lhe pagará tão bem, mas é melhor trabalhar com ele, me acredite.

Pitt tratou de sopesar as vantagens da segurança e o que parecia bom senso, frente à perda de uma oportunidade para descobrir o que havia de tão perigoso nas fábricas de açúcar que mantinham a metade da comunidade, fosse direta ou indiretamente.

— A que se dedica Saúl? — perguntou.

— É tecedor de seda — respondeu Karansky.

Pitt tinha o pressentimento de que Karansky esperava que se interessasse pela fábrica de açúcar e fosse atrás desse emprego apesar de sua advertência. Recordou o conselho do Narraway de não confiar em ninguém.

— Então irei vê-lo amanhã, e se tiver sorte talvez me dê um emprego — afirmou — Algo será melhor que nada, embora seja por uns poucos dias.

A senhora Karansky sorriu.

— O direi. É um bom amigo. Buscar-lhe-á algo que fazer. Talvez não seja muito, mas é tão seguro como pode sê-lo algo nesta vida. Bom, deve ter fome. Comeremos em menos de uma hora. Sente-se conosco.

— Obrigado. — Pitt aceitou recordando o aroma da cozinha e retrocedendo ante a idéia de voltar a sair às desagradáveis e cinzas ruas, com seu aroma de sujeira e miséria — O farei.

 

Não era a primeira noite que Pitt passava fora de casa, mas Charlotte sentia um tipo de solidão que não tinha experimentado em outras ocasiões, talvez porque não tinha nem idéia de quando voltaria seu marido ou se ia fazê-lo sequer. Quando o fizesse, seria só temporariamente.

Esteve acordada muito tempo, muito zangada para conciliar o sono. Deu voltas e mais voltas no leito levando consigo a roupa de cama até que ficou em total desordem. Por fim, ao redor das duas, levantou, desfez a cama e voltou a fazê-la com lençóis limpos. Meia hora depois dormiu por fim.

Despertou em pleno dia com dor de cabeça e a determinação de fazer algo em relação à situação. Resultava-lhe intolerável limitar-se a agüentá-la. Era totalmente injusto, em primeiro lugar e acima de tudo para o Pitt, mas também para toda a família.

Vestiu-se e desceu à cozinha, onde achou Gracie sentada à mesa. A porta da copa estava aberta e um raio de sol caía no chão. As crianças já tinham ido ao colégio. Charlotte estava zangada consigo mesma por não havê-los visto, particularmente nesse dia.

— Bom dia, senhora. — Gracie se levantou e se aproximou da chaleira de água que assobiava sobre o fogão — Estou preparando o chá. — Encheu o bule enquanto falava e o levou a mesa, onde havia duas xícaras. — Daniel e Jemima estavam bem esta manhã e foram sem mais. Mas eu estive pensando. Temos que fazer algo. Isto não está bem.

— Estou de acordo — disse Charlotte imediatamente. Sentou-se frente à criada desejando que o chá estivesse logo preparado.

— Uma torrada? — ofereceu Gracie.

— Ainda não. — Charlotte meneou muito levemente a cabeça. Continuava lhe doendo muito — Eu também passei a metade da noite dando voltas, mas continuo sem saber o que podemos fazer. O senhor Pitt me comentou que o comandante Cornwallis tinha arrumado tudo, por sua segurança e para que tivesse algum tipo de emprego. As pessoas a quem desgostou se alegrariam de vê-lo sem nada e saber onde encontrá-lo. — Não queria expressá-lo em palavras, mas era preciso explicá-lo — Poderiam lhe ter preparado um acidente na rua ou algo parecido.

Gracie não se surpreendeu, talvez porque tinha visto muita morte de menina no East End. Não havia nada sobre a pobreza que não soubesse, embora partisse disso ia retrocedendo em sua memória. Entretanto, estava zangada. A expressão de sua magra carinha era severa, e tinha os lábios tensos em uma fina linha.

— Tudo porque fez bem seu trabalho e levou a forca ao Adinett? E o que queriam que fizesse? Fingir que não estava mal que assassinasse ao senhor Fetters?

Ou fazer-se de idiota, como se não se desse conta do que tinha acontecido?

— Sim, acredito que isso é exatamente o que queriam que fizesse — respondeu Charlotte-. Duvido que todos os médicos tivessem percebido que algo não encaixava. Foi má sorte que Ibbs fosse bastante rápido para dar-se conta de que ali ocorria algo estranho e chamasse o Thomas.

— Quem é esse tal Adinett? — Gracie juntou as sobrancelhas — E por que ia querer alguém que ficasse sem castigo depois de ter assassinado ao senhor Fetters?

— É um membro do Círculo Interior — explicou Charlotte com um calafrio — Ainda não está preparado o chá?

Gracie lhe dirigiu um olhar perspicaz e ao adivinhar como se sentia o serviu. Estava um pouco claro, mas cheirá-lo era relaxante, mesmo que ainda estivesse muito quente para bebê-lo.

— Significa isso que podem assassinar e ficar tão tranqüilos? — Gracie apertou os dentes de indignação.

— Sim, a menos que alguém valente ou temerário se interponha em seu caminho. Então também se desfarão dele. — Charlotte tratou de beber um gole de chá, até sabendo de que ia queimar se, mas servir-se de mais leite para melhorar.

— O que vamos fazer então? — Gracie a olhou com os olhos muito abertos, sem piscar — Devemos demonstrar que tinha razão! Não sabemos quem está nesse Círculo, mas sabemos que somos mais que eles. — Não contemplou a possibilidade de Pitt se enganar. Não valia a pena sequer negá-lo.

Charlotte sorriu apesar de como se sentia. A lealdade de Gracie era mais reconstituinte que o chá. Não podia decepcioná-la mostrando-se menos valente ou otimista que ela. Disse o primeiro que lhe passou pela cabeça, para que não se produzisse um silêncio.

— O que fez tão diferente esse julgamento foi que ninguém sabia por que Adinett poderia ter querido assassinar ao senhor Fetters. Eram amigos há anos, e ninguém sabia de nenhuma briga entre ambos, nesse dia ou em qualquer outro momento. Algumas pessoas resistiam a acreditar que tivesse um motivo, e todas as provas estavam baseadas em fatos, não em sentimentos. Havia muitas, mas cada uma por separado não parecia grande coisa. — Bebeu um gole de chá — E algumas testemunhas voltaram atrás quando chegou o momento de declarar ante o tribunal e repetir sua versão dos fatos ante o advogado defensor, que tratou de fazê-los parecer bobos.

— De modo que temos que averiguar por que o fez. — se limitou a dizer Gracie — Devia ter um motivo. Não o teria feito por nada.

Charlotte já tinha começado a lhe dar voltas. Os jornais tinham publicado pouca coisa sobre os dois homens, além de sua valia geral, sua posição social e o incompreensível de todo o assunto. Se as provas eram certas, e ela não o punha em dúvida, devia haver muito mais coisas que averiguar entre elas algo tão monstruoso e desagradável que tinha levado a assassinato de um deles e à sentença de morte do outro. Entretanto, fosse o que fosse tinha permanecido totalmente oculto.

— Por que um homem que vai ser enforcado decidiria não contar a ninguém, em defesa própria, a razão pela que matou a um amigo? — perguntou-se em voz alta.

— Porque não o justificaria. — respondeu Gracie — Senão, teria dito.

Charlotte seguiu o curso de seus pensamentos enquanto bebia de novo um gole de chá.

— Por que as pessoas matam amigos, pessoas que conhecem, mas com quem não estão aparentados, de quem é pouco provável que herdem e de quem não estão apaixonados?

— Ataca a alguém porque o odeia ou porque lhe tem medo — raciocinou Grade — Ou porque tem algo que você deseja e não lhe quer dar. Ou porque está morto de inveja.

— Não se odiavam — disse Charlotte estendendo uma mão para o pão e a faca— Fazia anos que eram amigos e ninguém os viu nunca discutir.

— Uma mulher? — aventurou Gracie— Talvez Fetters o surpreendesse fazendo algo com a senhora Fetters.

— Suponho que é possível — disse Charlotte pensativa ao mesmo tempo em que pegava a manteiga e a geléia-. Não o teria apresentado como defesa porque não o era. Isso só pioraria a opinião que as pessoas tinham dele. A menos que o negasse, dissesse que Fetters o tinha imaginado, este o acusasse, não atendesse a razões e o atacasse. — Respirou fundo e deu uma dentada no pão percebendo que tinha fome— Entretanto, dificilmente teria feito tudo isso do alto da escada da biblioteca, não? Eu não acreditaria se fosse membro do júri!

— Você nunca seria membro de nenhum júri — indicou Gracie — É mulher. E é preciso ter casa e dinheiro próprios.

Charlotte não fez comentário algum a respeito.

— E sobre o dinheiro? — perguntou.

Gracie fez um gesto de negação.

— Não me ocorre nada pelo que poderia ter discutido do alto de uma escada, e menos ainda uma com rodas!

— A mim tampouco, na verdade — concordou Charlotte-. O que significa que, fosse o que fosse Adinett teve o trabalho de ocultá-lo e fingir que não tinha nada que ver com isso. Portanto, foi algo do que se sentia envergonhado. — Voltavam a estar no ponto de partida.

— Temos que averiguar mais — afirmou Gracie — E você deveria tomar o café da manhã como é devido. Quer algo quente? Posso lhe preparar um ovo, se quiser.

— Não, é suficiente, obrigada — recusou Charlotte. Talvez daí em diante devessem ser menos esbanjadores e não comer ovos exceto como prato principal. Não eram homens trabalhadores, só mulheres e crianças.

A pobreza tinha ensinado ao Gracie a ser prática, de modo que aceitou a resposta sem falar.

— Acho que visitarei a senhora Fetters — anunciou Charlotte quando terminou a terceira fatia — Thomas disse que era uma mulher muito agradável e que estava convencida da culpa do Adinett. Talvez esteja quase tão interessada como eu em saber por que morreu seu marido. Eu estaria!

— Boa idéia. — Gracie começou a recolher os pratos e levou a manteiga e a geléia à despensa — Deve saber algo sobre o Adinett, e muitas coisas sobre seu marido, pobrezinho. Suponho que deve ser terrível estar de luto. Se eu acabasse de perder a alguém que quisesse, detestaria ter que passar os dias só em uma casa com as janelas fechadas, os espelhos tampados e os relógios parados, como se eu mesma estivesse morta! Já é bastante mal vestir-se de negro. Fiz isso para o funeral de meu avô, e tiveram que me dar uns bons socos para pôr cor em meu rosto, ou teria tido pavor de que me colocassem na fossa em lugar dele.

Charlotte não pôde evitar sorrir. Levantou-se e verteu um pouco de leite em um pratinho para Archie e Angus, depois pôs em seu pote os restos de bolo de carne da noite anterior. Os gatos se equilibraram sobre ele ronronando de prazer antecipado e lhe rodeando os tornozelos.

Depois de haver-se assegurado de que Gracie tinha tudo o que ia necessitar esse dia, subiu de novo a seu quarto. Em realidade Gracie se mostrou relaxada a respeito de seus afazeres, algo inusitado nela, como se já houvesse resolvido mentalmente e não lhe interessassem. De qualquer modo era a última coisa que preocupava à Charlotte, de forma que mal importava. Trocou de roupa depois de escolher com muito cuidado de seu vestuário um traje entalhado de cor água-marinha. Era muito favorecedor, razão pela qual o tinha escolhido, mas também discreto. Tinha-o comprado porque lhe serviria várias temporadas, mas o fato de que fosse prático também significava que não era inapropriado para visitar alguém que estava de luto. Apresentar-se de amarelo ou com estampados teria sido uma falta de tato.

Penteou-se com considerável arte. Havia lhe custado muito tempo aprender a fazê-lo ela mesma, mas quando a pessoa ia bem penteada, tinha muito terreno ganho. Uma atitude adequada e um sorriso podiam conseguir quase todo o resto.

Tomou o ônibus e depois caminhou. Devia tomar cuidado com o dinheiro, e fazia um dia muito agradável. Sabia pelo Pitt onde tinha vivido Martin Fetters, e de qualquer modo os jornais tinham feito famoso esse endereço. Tratava-se do Great Coram Street, entre o Woburn Agrada e Brunswick Square, uma bonita casa não muito diferente das vizinhas, com exceção das cortinas fechadas. Se à morte do Fetters haviam coberto a rua de palha para amortecer o ruído das carruagens que passavam, já não a havia.

Charlotte subiu pelos degraus sem vacilar e bateu na porta. Ignorava se a senhora Fetters a receberia com cordialidade ou estaria tão desconsolada que consideraria impertinente e aborrecia a visita. Em realidade não lhe importava. Era um caso de necessidade.

Abriu a porta um sombrio mordomo que a examinou com educado desinteresse.

— Sim, senhora?

Charlotte tinha preparado o que ia dizer.

— Bom dia. — Estendeu-lhe seu cartão de visita — Teria a amabilidade de entregá-lo à senhora Fetters e lhe perguntar se pode me dedicar uns minutos? Trata-se de um assunto da maior importância para mim, e acredito que poderia sê-lo também para ela. Está relacionado com meu marido, o superintendente Thomas Pitt, que investigou a morte do senhor Fetters. Ele não pôde vir pessoalmente.

O mordomo parecia sobressaltado.

— Oh, céus — balbuciou em busca de palavras adequadas. Era evidente que nunca se viu em tal situação, e ainda sofria a angústia e a ansiedade dos passados dois meses — Sim, senhora, recordo o senhor Pitt. Foi muito amável conosco. Se tiver a bondade de esperar na saleta da manhã, irei perguntar à senhora Fetters se pode recebê-la. — Não se permitiu a educada ficção de fingir que ignorava se a senhora estava em casa.

Charlotte foi conduzida a uma pequena e luminosa sala orientada para o sol matinal e decorada com estampados chineses na moda, porcelanas e crisântemos dourados sobre um biombo de seda. Ao cabo de cinco minutos o mordomo retornou e a acompanhou a outra estadia muito feminina, em tons rosa e verde, que dava ao jardim. Juno Fetters era uma mulher atraente, um pouco metida em carnes, que se conduzia com muita dignidade. Tinha a cútis muito pálida a pesar do cabelo castanho. Como era natural, nesse momento vestia-se toda de negro, e lhe assentava melhor que à maioria das mulheres.

— Senhora Pitt? — perguntou com curiosidade — Por favor, entre e fique à vontade. Deixei a porta aberta porque eu gosto que corra o ar. — Assinalou a porta do jardim — Mas se tiver frio, não tenho inconveniente em fechá-la.

— Não, obrigada — respondeu Charlotte sentando-se frente a ela — É uma delícia. O aroma da grama é tão agradável como o das flores. Há vezes que até o prefiro.

Juno a olhou com preocupação.

— Buckland me disse que o senhor Pitt não pôde vir pessoalmente. Espero que não se sinta mal.

— Não — a tranqüilizou Charlotte. Olhou o rosto inteligente e muito singular de Juno, de olhar franco e rugas que em outro tempo teriam indicado senso de humor.

Decidiu lhe dizer a verdade a respeito do Pitt, exceto onde estava pelo que pouco sabia de qualquer modo-. Obrigaram-lhe a abandonar Bow Street e o enviaram a alguma parte em uma missão secreta. É uma espécie de castigo por ter testemunhado contra Adinett.

O rosto de Juno se encheu de perplexidade e a seguir de cólera.

— Isso é monstruoso! — Sem dar-se conta tinha escolhido a mesma palavra que tinha Charlotte em mente. — Com quem podemos falar para que arrumem?

— Com ninguém. — Charlotte meneou a cabeça — Ao investigar o caso criou inimigos. Certamente é melhor que desapareça por um tempo. Vim vê-la porque Thomas falou muito bem de você e estava convencido de que achava que seu marido tinha sido vítima de um assassinato, não de um acidente. — Tratou de interpretar a expressão de Juno e ficou surpreendida ao ver em seu rosto um fugaz vislumbre de angústia. Em lugar de considerar-se perspicaz, teve a impressão de estar intrometendo-se em sua intimidade.

— Com certeza acredito — sussurrou Juno — A princípio não o fiz. Fiquei atordoada. Não podia compreender o que tinha ocorrido. Martin não é... Não era desajeitado e eu sabia perfeitamente que jamais teria posto os livros de Tróia e Grécia na prateleira de cima. Não tinha sentido. E havia outras coisas que o senhor Pitt indicou: a poltrona, que não costumava estar ali, e a penugem enganchada ao sapato. — Piscou várias vezes esforçando-se por controlar a emoção.

Charlotte falou para lhe dar tempo, talvez para distraí-la de um assunto tão pessoal como os sapatos. Mencioná-los sem dúvida lhe tinha feito evocar a imagem do Fetters estendido no chão. Devia ser insuportável.

— Se você tivesse conhecido o móvel do Adinett, havê-lo-ia dito no julgamento, ou antes. — inclinou-se um pouco — Mas teve tempo para voltar a considerá-lo depois?

-Tenho pouco mais que fazer — respondeu Juno com uma ameaça de sorriso-. Mas não me ocorre nada.

— Preciso sabê-lo. — Charlotte percebeu o apresso em sua voz. Tinha-se proposto não trair-se de todo, mas ver a angústia de Juno lhe tinha soltado a língua — É a única maneira que tenho de lhes demonstrar que o veredicto foi justo, e que Thomas não foi arrogante nem irresponsável, nem houve parcialidade em seu modo de atuar. Procurou as provas de um caso e não se equivocou. Não quero que nenhum dos envolvidos o ponha em dúvida.

— Como pensa fazê-lo?

— Averiguando todo o possível sobre o John Adinett e, se você me ajudar, sobre seu marido, para saber não só o que ocorreu, mas também demonstrar por que o fez.

Juno respirou fundo para serenar-se e olhou com gravidade para Charlotte.

— Eu também desejo sabê-lo. Nada impedirá que deixe de sentir falta de Martin, nem me consolará de sua morte, mas se o compreendesse estaria menos zangada. — Meneou levemente a cabeça — Não me sentiria tão confusa e talvez lhe achasse algum sentido. Tudo parece tão inconcluso. É absurdo dizer isso? Minha irmã não pára de me repetir que deveria partir um tempo fora, tratar de esquecê-lo, Refiro a como ocorreu. Mas não quero! Preciso saber por que!

No jardim os pássaros cantavam, e a brisa trazia o aroma da grama.

— Conhecia bem ao senhor Adinett? Visitava-o freqüentemente?

— Bastante freqüentemente. Ao menos um par de vezes ao mês, as vezes mais.

— Tinha-lhe simpatia? — Charlotte queria sabê-lo porque precisava compreender as emoções que havia em jogo. Tinha Juno à sensação de que a tinha traído um amigo ou era em certo modo um desconhecido? Zangar-se-ia se Charlotte investigasse suas vidas com atitude crítica?

Juno refletiu uns momentos antes de responder, sopesando suas palavras.

A pergunta parecia entranhar certa dificuldade.

— Não estou completamente certa. A princípio sim. Era um homem muito interessante. Além do Martin, nunca tinha ouvido falar com ninguém de suas viagens com tanto ardor. — Iluminou-se o rosto ao recordar— Era sua paixão, e descrevia as terras inexploradas do Canadá de tal modo que seus perigos e sua beleza cobravam vida até em plena Londres. Não podia a não ser admirá-lo. Surpreendi-me desejando escutá-lo, embora nem sempre quisesse lhe sustentar o olhar.

Era uma forma curiosa de expressá-lo, e para Charlotte lhe pareceu extremamente expressiva. Não tinha assistido ao julgamento, de modo que só contava com as fotos dos jornais para recrear mentalmente uma imagem do Adinett, mas até em fotografia havia certa severidade em suas feições, uma habilidade para exercitar o domínio de si mesmo e talvez mascarar suas emoções, o que suspeitava podia ser incômodo.

Que tipo de homem era? Não recordava ter tido que averiguar a verdade sobre um assassinato no qual não conhecia nenhuma das duas pessoas mais envolvidas. Sempre no passado tinha sido questão de deduzir quem de entre vários indivíduos era culpado. Nesta ocasião sabia quem era, mas não o conhecia e só podia perceber parte de sua realidade através das observações de terceiros.

Tinha lido que tinha cinqüenta e dois anos, mas a partir de uma fotografia do jornal não podia saber se era alto ou baixo, moreno ou castanho.

— Se tivesse que buscá-lo em uma multidão, como o descreveria? — perguntou.

Juno refletiu uns minutos.

— Militar — respondeu com certeza na voz — De sua pessoa emanava uma espécie de poder, como se se tivesse posto a prova contra o maior perigo que conhecesse e tivesse comprovado que estava à altura. Não acredito que temesse a ninguém. Nunca se mostrava atrevido; se entende o que quero dizer. Essa era uma das coisas que mais admirava em Martin. — Voltaram a encher-se os olhos de lágrimas e piscou indignada, tratando de contê-las — Eu também o respeitava — se apressou a acrescentar — Possuía uma espécie de fortaleza de caráter que é pouco comum e que resulta aterradora e atraente ao mesmo tempo.

— Acredito que a entendo — disse Charlotte com ar pensativo — Eles fazem parecerem invulneráveis, um pouco diferentes de nós. De mim, pelo menos. De vez em quando me surpreendo falando muito e sei que é a necessidade de impressionar.

Juno sorriu, e seu rosto se encheu de repente de calor e vida.

— Sim, não é verdade? Porque conhecemos nossas fraquezas e acreditamos que outros também podem percebê-las.

— Era alto? — Charlotte caiu de repente na conta de que falava no passado, como se já tivesse morrido, o que não era o caso. Continuava vivo em alguma parte, sentado em uma cela, certamente no Newgate, esperando os três domingos que a lei lhe concedia antes de enforcá-lo. Só a idéia a fazia adoecer! E se estavam todos equivocados e era inocente?

Juno não era consciente do que acontecia na cabeça de Charlotte, nem sequer da mudança que se operara em seu interior.

— Sim, bastante mais alto que Martin — respondeu — Claro que Martin não era muito alto, só media um par de centímetros mais que eu.

Não havia nenhuma razão que o explicasse, mas Charlotte se sobressaltou. Deu-se conta de que formara uma imagem totalmente diferente do senhor Fetters. Tinha-se aparecido uma fotografia nos jornais, não a tinha visto.

É possível que Juno percebesse sua surpresa, porque perguntou vacilante:

— Gostaria de vê-lo?

— Sim, por favor.

Juno se levantou e abriu uma pequena escrivaninha de tampa corrediça, de onde tirou uma fotografia em uma moldura de prata. Tremia-lhe a mão quando a estendeu.

Charlotte a pegou. Tinha-a guardado Juno na escrivaninha para evitar cobri-la de negro, como se continuasse vivo? Ela teria feito o mesmo. Subitamente o pensamento insuportável de que Pitt estivesse morto a assaltou com tal força que por um instante se sentiu enjoada.

Depois estudou o rosto na moldura. Era longo, de nariz robusto e grandes olhos escuros. Denotava inteligência, senso de humor e quase sem dúvida um gênio vivo. Era vulnerável, o rosto de um homem de emoções profundas. Ele e Adinett talvez tivessem compartilhado muitos interesses, mas, pelo que ela via, seus caracteres eram de qualquer ponto diferentes. Quão único os unia era sua forma de olhar diretamente à câmara e sua consagração a um objetivo. Martin Fetters talvez também tinha incomodado as pessoas, mas teria sido com sua franqueza, e imaginou que era um homem capaz de oferecer uma sincera amizade.

Devolveu a fotografia à Juno com um sorriso. Era um homem extraordinário. Não lhe ocorreu nada que dizer para aliviar a dor de sua perda.

Juno devolveu a fotografia a seu lugar.

— Quer ver a biblioteca? — Era uma pergunta com muitas camadas de significado. Ali era onde Fetters tinha trabalhado, onde estavam seus livros, a chave de sua mente. Também era onde o tinham matado.

— Sim, por favor. — Charlotte se levantou e seguiu Juno pelo corredor e escada acima.

Juno ficou rígida ao aproximar-se da porta, os ombros erguidos e rígidos, mas pegou a maçaneta e a abriu com um empurrão.

Era uma estadia masculina, cheia de couro e cores fortes, com três paredes forradas de livros. A lareira tinha uma tela de latão revestida de couro verde.

Na mesa junto à janela havia um móvel bar e três taças limpas.

O olhar de Charlotte se deslocou da grande poltrona mais próxima à esquina oposta para a esquerda, antes de deter-se na escada de madeira lavrada e polida que estava apoiada contra as prateleiras. Tinha só três degraus, e uma longa vara central a que segurar-se. Era necessário utilizá-la para alcançar as prateleiras superiores até sendo um homem alto. Se Martin Fetters só superava em uns centímetros a sua esposa, teria tido que subir ao degrau superior para ver os títulos da prateleira de cima. Isso fazia do mais improvável que tivesse guardado ali os volumes que consultava mais.

Charlotte se voltou para a grande poltrona, que estava colocada a quase dois metros do canto e olhava para o centro do aposento. Dada a posição tanto da janela como do braço do abajur da parede, essa era a localização mais lógica da poltrona para ler.

Juno seguiu seus pensamentos.

— Estava aqui — disse apoiando todo seu peso contra ela e arrastando-a até que esteve a apenas um metro da estante e a parede — Ele jazia no chão, com a cabeça atrás. A escada estava ali. -Assinalou o outro canto.

Charlotte se aproximou do lugar onde devia ter estado a cabeça do Fetters e passou engatinhando por trás da poltrona. Voltou-se para olhar para a porta e não viu nada de toda essa parede. Levantou-se de novo.

Juno a observava com expressão grave. Não foi preciso que dissessem que achavam que tinha ocorrido tal como o tinha explicado Pitt e aceito o júri. Qualquer outra posição teria sido torpe e pouco natural.

Charlotte examinou o aposento com mais vagar, lendo os títulos dos livros. Todos os que se achavam nas prateleiras mais acessíveis tratavam de temas que, conforme percebeu ao cabo de uns minutos tinham uma série de características em comum.

Nas prateleiras mais afastadas da gasta poltrona estavam as obras de engenharia, siderurgia e navegação, assim como sobre a língua, costumes e topografia da Turquia em particular e Oriente Próximo em geral. Depois havia livros sobre algumas das grandes cidades: Éfeso, Pérgamo, Izmir e Bizâncio, sob todos os nomes que tinham recebido do imperador Constantino até esse dia.

Havia outros livros sobre a história e a cultura do islã turco: suas crenças, sua literatura, sua arquitetura e sua arte desde Saladino e as Cruzadas, passando pelos grandes sultões, até o precário estado político atual.

Juno a observava.

— Martin começou a viajar quando construía vias de ferrovia na Turquia — murmurou — Foi ali onde conheceu John Turtle Wood, que o iniciou na arqueologia, e descobriu que tinha talento para ela. — Havia orgulho em sua voz e afeto em seu olhar — Fez achados maravilhosos. Mostrava-me isso quando os trazia para casa. Ficava em meio da sala segurando-os nas mãos. Tinha umas mãos muito bonitas, fortes e ao mesmo tempo delicadas. E lhes dava voltas devagar, percorrendo as superfícies, me dizendo de onde procediam a sua antigüidade, que tipo de pessoas utilizava esses objetos. — Respirou fundo e continuou — Me descrevia tudo o que sabia de sua vida cotidiana. Lembro uma peça de cerâmica. Talvez fosse imaginativa, mas ao olhá-lo, ao observar seu rosto cheio de emoção, eu cheguei a ver a Helena de Tróia de verdade, uma mulher que avivava a fantasia dos homens com tal paixão que duas nações liberaram uma guerra por ela e alguém ficou em ruínas.

Charlotte estava furiosa pelo Pitt, pela injustiça de que homens cujo nome nem sequer sabia tivessem poder para lhe arrebatar tanto. Nesse momento comoveu-a a perda de uma pessoa que tinha sido amada, que tinha estado cheia de vida, sonhos e metas.

— Onde conheceu seu marido Adinett? — perguntou. A arqueologia era interessante, mas não havia tempo que perder.

Juno se recordou da tarefa que tinham entre mãos.

— Isso foi muito depois. Martin aprendeu muito do Wood, mas seguiu seu caminho. Conheceu o Heinrich Schliemann e trabalhou para ele. Aprendeu dos alemães todo tipo de métodos novos, sabe? — Seu rosto transparecia entusiasmo — Eram os melhores em arqueologia. Traçavam mapas de uma jazida e desenhavam tudo, e não só por partes ou talvez um elemento, como um templo ou um palácio. — Sua voz se apagou — A isso Martin adorava.

— Quando foi isso? — perguntou Charlotte sentando-se em uma cadeira.

Juno tomou assento em frente.

— OH! Temo que não saiba quando conheceu Martin ao senhor Wood, mas sim sei que começaram a trabalhar juntos em Éfeso no ano sessenta e três. Acredito que foi em sessenta e nove quando o Museu Britânico comprou a jazida e começaram a trabalhar no templo de Diana, e deve ter sido no ano seguinte quando Martin conheceu senhor Schliemann. — Tinha o olhar perdido ao recordar — Foi então quando se apaixonou por Tróia e pelo projeto de encontrá-la. Recitava páginas inteiras do Homero, sabe? — Sorriu —. A tradução inglesa, não o original. A princípio eu pensei que me aborreceria, mas não foi assim. Importava-lhe tanto que não pude evitar que me interessasse também.

— E Adinett era um especialista nesses temas — disse Charlotte.

Juno pareceu sobressaltar-se.

-OH, não! Não. Acredito que nunca esteve no Oriente Próximo, e não lhe interessava a arqueologia, que eu saiba; do contrário Martin o teria mencionado.

Charlotte estava desconcertada.

— Achava que eram bons amigos que passavam muito tempo juntos...

— Com certeza — confirmou Juno — mas o que tinham em comum eram os ideais e a admiração por outros povos e culturas. Adinett mostrava interesse pelo Japão desde que seu irmão mais velho foi destinado ali como membro da delegação britânica do Yedo, a capital. Acredito que foi atacado por alguma das novas autoridades reacionárias que tratavam de expulsar a todos os estrangeiros.

— Viajava a Extremo Oriente? — Charlotte não via o valor dessa informação, mas, dado que não tinha a menor idéia de qual podia ser o móvel do assassinato, recolhia toda a que podia.

Juno fez um gesto de negação.

— Acredito que não. Só lhe fascinava sua cultura. Viveu muito tempo no Canadá e tinha um amigo japonês na Hudson's Bay Trading Company. Eram muito unidos. Não sei como se chamava. Sempre se referia a ele como Shogun. Era assim como o chamava.

— Falava dele?

— É claro que sim. — A expressão de Juno era sombria — Era realmente muito interessante. Eu mesma não perdia sílaba do que dizia. Vejo-o sentado do outro lado da mesa, nos contando suas viagens por essas grandes extensões cobertas de neve, como era a luz, o frio, o enorme céu polar, os animais e, acima de tudo, a beleza. Havia nisso algo que amava, e isso transparecia em sua voz. Pelo visto houve um breve levante em Manitoba em 1870 encabeçado por um franco-canadense chamado Louis Trilho. Não perdoavam que os britânicos tivessem ocupado todo o país e executado a vários dos seus. — Franziu a testa — Os britânicos enviaram uma expedição militar, com o coronel Wolseley à cabeça. Adinett e Shogun se ofereceram como voluntários para exercer de guias e introduzi-los no interior; reuniram-se com a força expedicionária no Thunder Bay, a uns seiscentos e cinqüenta quilômetros ao norte de Toronto. Guiaram-na outros mil quilômetros. Era do que estava acostumado a falar.

Charlotte não via nisso nada útil em relação com o assassinato do Fetters, embora parecesse uma conversa muito mais interessante que as que costumavam manter-se na sobremesa. O que tinha ocorrido para provocar uma rixa tão violenta que terminou em assassinato?

— Foi sufocada a rebelião? — Supunha que assim tinha sido, mas não tinha ouvido falar disso.

— OH, sim, ao que parece com êxito. — Juno reparou na expressão confusa de Charlotte — Adinett se identificava muito com os franco-canadenses — explicou — Falava deles freqüentemente e com grande afeto. Admirava o republicanismo francês e sua paixão pela liberdade e igualdade. Viajava com bastante freqüência a França, na última vez não faz nem dois meses. Isso era o que ele e Martin compartilhavam em realidade, a paixão pela reforma social. — Sorriu ao recordar — Falavam durante horas a respeito, comentando as maneiras em que poderia levar-se a cabo. Martin aprendeu sobre ela da Grécia antiga, a primeira democracia, e Adinett do idealismo revolucionário francês, mas seus objetivos eram muito parecidos. — Voltaram a encher-se os olhos de lágrimas — Simplesmente não compreendo por que puderam discutir! — Piscou várias vezes e lhe tremeu a voz — Poderíamos estar equivocados?

Charlotte não estava disposta a considerá-lo.

— Não sei. Por favor, trate de recordar se o senhor Fetters lhe falou de alguma rixa ou aborrecimento por algo. — Parecia uma possibilidade muito remota. Quem, além de um lunático, discutiria até chegar aos punhos pelas virtudes de uma forma de democracia em lugar de outra em um país estrangeiro?

— Aborrecimento não — disse Juno com segurança olhando ao Charlotte — Mas o preocupava algo. Diria que o notava inquieto, nada mais. Mas sempre estava distraído quando se metia em seu trabalho. Era muito brilhante, sabe? — Havia apresso em sua voz — Encontrava peças de antiquário que ninguém mais era capaz de localizar. Via o valor dos objetos. Ultimamente se dedicava mais a escrever para diversas publicações e participar de reuniões e demais. Era um grande orador. Às pessoas adoravam escutá-lo.

Charlotte o visualizava sem dificuldade. O rosto da fotografia refletia inteligência e entusiasmo.

— Sinto tanto... — Saíram-lhe as palavras antes que pensasse no efeito que iriam ter.

Juno afogou um soluço e demorou uns segundos em dominar-se de todo.

— Desculpe-me — disse meneando a cabeça — Preocupava-o algo, mas não me falou disso e eu não podia pressioná-lo; com isso só conseguia fazê-lo zangar-se. Eu não tinha nem idéia do que se tratava. Supunha que era algo relacionado com uma das sociedades de antiquários a que pertencia. Brigam bastante entre si. Há muitíssima concorrência, sabe?

Charlotte estava confundida. Tudo parecia tão simples, tão inocente...

— Mas ao Adinett não interessavam as antiguidades — observou.

— Absolutamente. Escutava ao Martin, mas só porque era um amigo; eu às vezes notava que lhe aborreciam. — Juno a olhou com tristeza — Não ajuda muito, não é?

— Não era uma pergunta.

— Não vejo como pode fazê-lo — admitiu Charlotte — Entretanto deve haver alguma razão! Só que não sabemos ainda onde procurar. — levantou-se. Não conseguiria averiguar nada mais de momento e já tinha roubado muito tempo à Juno Fetters.

Esta também ficou em pé, mas devagar, como se experimentasse um cansaço que a debilitava.

Charlotte vislumbrou a cansativa solidão em que sumia o luto, mas não tinha nem idéia de como ajudá-la. Fazia menos de duas horas que a tinha conhecido. Dificilmente podia oferecer-se para lhe fazer companhia. Por outro lado, talvez preferisse chorar a sós. A necessidade de mostrar-se cortês com desconhecidos talvez fosse a última coisa que queria... Ou a primeira. Ao menos lhe obrigava a dominar-se e a ocupar um momento a mente, sem permitir que as lembranças a consumissem. As convenções que mantinham a uma viúva recente fora da sociedade provavelmente pretendiam ser consideradas, assim como guardar os bons costumes, mas com muita dificuldade poderia haver-se desenhado melhor para intensificar sua dor. Talvez estivessem feitas para todos os outros, a fim de lhes economizar o desconforto de ter que pensar em algo que dizer e não se vissem muito obrigados a recordar a morte e que ao final chegava a todos.

— Permite-me que a visite outro dia? — perguntou. Sabia que se arriscava a ser rechaçada, mas ao menos deixava a decisão à Juno.

O rosto desta se encheu de esperança.

— Por favor, não hesite em fazê-lo. — Respirou fundo — Quero saber o que ocorreu realmente, além dos fatos físicos. E desejo fazer algo mais que estar sentada de braços cruzados!

— Obrigada. — Charlotte lhe devolveu o sorriso — Assim que me ocorra algo o mais remotamente prometedor que seguir, virei vê-la. — E se voltou para a porta, consciente de que de momento não tinha feito nada para ajudar Pitt.

Gracie tinha seus próprios planos. Mal Charlotte partiu, abandonou o resto de seus afazeres, pôs seu xale e seu melhor chapéu — só tinha dois — e, depois de pegar o dinheiro justo para uma viagem de ônibus, também saiu.

Demorou pouco mais de vinte minutos para chegar à delegacia de polícia do Bow Street, onde Pitt tinha sido superintendente até o dia anterior. Subiu com resolução pelos degraus e entrou como se fosse à guerra, que era como se sentia. Em sua infância as delegacias de polícia tinham sido lugares que deviam evitar-se a toda custa, assim como seus ocupantes, fossem quem fossem. Agora entrava em uma de propósito, mas era em pró de uma causa pela qual teria ido até as portas do inferno se fosse o único caminho. Estava tão furiosa que teria enfrentado a qualquer um.

Encaminhou-se diretamente para o sargento da recepção, quem a olhou com escasso interesse.

— Sim, senhorita? Posso ajudá-la em algo? — Não se incomodou em deixar de mordiscar seu lápis.

— Sim, por favor — disse ela com educação — Queria falar com o sargento Tellman. É muito urgente e está relacionado com um caso no qual está trabalhando. Tenho informação para ele. — Tinha inventado isso, naturalmente, mas precisava vê-lo e qualquer mentira que o conseguisse serviria. Explicaria quando o visse.

O sargento não se deixou impressionar.

— Claro senhorita. E do que se trata?

— É muito importante — afirmou ela — O sargento Tellman não achará nenhuma graça que não lhe diga que estou aqui. Meu nome é Gracie Phipps. Vá dizer o e deixe que ele resolva.

O sargento observou longo momento seu rosto, os olhos que não piscavam, e concluiu que apesar de seu aspecto miúdo era bastante decidida para converter-se em uma perturbação considerável. Somou a isso o fato de que sabia muito pouco da vida pessoal ou a família do Tellman. Este era um homem singularmente taciturno, e o sargento não estava certo de quem podia ser essa garota. A prudência é a mãe da ciência. Tellman podia ser desagradável quando se zangava.

— Espere aqui, senhorita. Irei dizer-lhe.

Tellman demorou menos de cinco minutos em aparecer. Como sempre, parecia fraco, sério e tão belamente vestido para estar incômodo com o colarinho apertado. Tinha o cabelo, liso e brilhante, penteado para trás, e suas faces afundadas estavam ligeiramente acesas. Sem prestar a menor atenção ao sargento da recepção se dirigiu diretamente para onde estava Gracie.

— O que acontece? — perguntou quase sem fôlego — O que faz aqui?

— Vim para saber o que você está fazendo. — replicou ela.

— Eu? Estou investigando roubos.

Gracie arqueou as sobrancelhas.

— Está investigando um roubo insignificante quando jogaram ao senhor Pitt e o enviaram a Deus sabe onde. A senhora Pitt está quase fora de si, as crianças estão sem pai e você perseguindo um maldito ladrão!

— Não é um ladrão! — replicou ele zangado, mas sem elevar a voz — Estamos perseguindo um autêntico perito.

— E essa é sua desculpa, né? — O desprezo do Gracie era prejudicial — Uma maldita caixa forte é mais importante que o que fizeram ao senhor Pitt!

— Não! — Tellman estava pálido de fúria, tanto contra a jovenzinha e o fato de que o julgasse mal como contra a injustiça do ocorrido — Mas não há nada que eu possa fazer! — assegurou com indignação — A mim não vão escutar. Já puseram a outro em seu lugar enquanto sua cadeira seguia quente. A um tipo chamado Wetron, que me disse que o deixasse correr, que não pensasse nisso sequer. Já aconteceu e se acabou.

— E como não, você foi a obediência personificada e fez exatamente o que ele lhe disse — o desafiou ela lançando faíscas pelos olhos — Já vejo que terei que tratar de solucioná-lo eu sozinha. — mordeu o lábio para que deixasse de lhe tremer — Deixa que lhe diga que me decepcionou. Contava com que me ajudasse porque pensava que, apesar de que passa a metade do tempo choramingando e fazendo caretas, ainda havia certa lealdade em você para ser justo pelo menos. E isto não é justo!

— É claro que não! — O sargento tinha o corpo rígido, e quase lhe quebrou a voz — É perverso, mas é o poder o que faz estas coisas. Não sabe como nem quem são, ou não falaria assim, como se só fosse questão de que eu dissesse: "Façamos justiça ao senhor Pitt", e eles respondessem: "OH, sim, é claro!", e tudo mudasse. O senhor Wetron me disse que deixe o assunto, e sei que me tem vigiado para assegurar-se de que o faço. Que eu saiba, poderia ser um deles!

Gracie olhou fixamente ao Tellman. Em seus olhos percebeu autêntico medo e por um momento ela também se assustou. Sabia que sentia por ela mais que afeto, por muito que quisesse negar-se a si mesmo, e que lhe custaria lhe deixar ver seus sentimentos. Decidiu mostrar-se um pouco mais amável.

— Bom, pois temos que fazer algo. Não podemos permitir que isto ocorra. Nem sequer está agora em casa. — Tremeu-lhe a voz — Enviaram ao Spitalfields, não só para trabalhar ali, mas também para viver.

O rosto do Tellman se crispou como se o tivessem esbofeteado.

— Não sabia.

— Bom, pois agora já sabe. O que vamos fazer? — Olhou-o com expressão suplicante. Custava-lhe muito lhe pedir um favor, com todas as diferenças que havia entre ambos e as lutas contra qualquer admissão de amizade. Entretanto, não tinha vacilado em ir a ele. Era o aliado natural. Só então se maravilhou da tranqüilidade com que o tinha abordado. Não tinha dúvida de que era o correto.

Se Tellman reparou no uso do plural e se perguntou por que Gracie se incluía no plano, não deu demonstração disso. Notava-o profundamente penalizado. Deu uma olhada por cima do ombro ao sargento da recepção, que os observava intrigado.

— Saiamos — disse com aspereza agarrando ao Gracie pelo braço. Conduziu-a quase a rastros através da porta e escada abaixo até a rua, onde pudessem falar sem que os ouvisse ninguém além de desconhecidos indiferentes — Não sei o que podemos fazer! — prosseguiu — É o Círculo Interior! Se por acaso não sabe, é uma sociedade secreta de homens poderosos que se favorecem uns aos outros em tudo, até se protegem da lei se puderem. Teriam salvado ao Adinett se o senhor Pitt não se houvesse interposto e nunca o perdoarão. Não é a primeira vez que se cruzam com ele.

— Mas quem são? — Gracie resistia a demonstrar quanto lhe assustava esse pensamento. Qualquer pessoa que tinha superado ao Pitt em astúcia tinha que estar aparentada com o próprio diabo.

— Essa é a questão! Não me escuta? — perguntou Tellman desesperado — Olha alguém que está no poder, e poderia sê-lo ou não. Ninguém mais sabe.

Gracie estava tremendo.

— Quer dizer que poderia ser o próprio juiz?

— É claro. Só que desta vez não o era, ou teria achado o modo de libertar o Adinett.

Gracie endireitou os ombros.

— Bom, é igual, temos que fazer algo. Não podemos deixar ao senhor Pitt em um buraco imundo do qual nunca será capaz de sair. Está dizendo que Adinett não matou a esse tipo? Como se chamava?

— Fetters. Não. Não disse isso. Ele o fez. Só que não sabemos por que!

— Então será melhor que o averigüemos, e logo, não? — respondeu ela — Você é detetive. Por onde começamos?

Uma mescla de expressões desfilou pelo rosto de Tellman: reticência, ternura, cólera, orgulho, medo.

Com uma pontada de vergonha Gracie se deu conta do muito que lhe pedia. Ela pouco tinha que perder em comparação com o que lhe custaria o fracasso. Se o novo superintendente lhe tinha ordenado que não seguisse investigando o assunto e se esquecesse do Pitt, e depois Tellman o desobedecia, ficaria sem emprego. E ela sabia o tempo e o esforço que tinha investido em conseguir esse posto. Não tinha pedido favores a ninguém nem os tinha recebido. Não tinha nenhum parente vivo e contava com poucos amigos. Era um homem orgulhoso e solitário que esperava pouco da vida e controlava sua própria cólera ante os atos injustos, conservando seu próprio sentido da justiça.

Levou muito mal que promovessem Pitt de posto. Este não era um cavalheiro, mas um tipo comum, filho de um guarda-florestal, nem melhor nem pior que o próprio Tellman e outras centenas de agentes como eles. Entretanto, à medida que trabalhavam juntos, tinha nascido uma lealdade não admitida, e traí-la ia contra seu sentido da decência. Não poderia viver em paz consigo mesmo, e Gracie sabia disso.

— Por onde começamos? — perguntou ela de novo — Se o fez foi por algo. A menos que se seja imbecil, ninguém mata a alguém sem uma razão tão boa como uma montanha que não se pode esquivar.

— Sei. — Ele estava no meio da calçada, absorto em seus pensamentos, enquanto as carruagens e os coches circulavam pelo Bow Street, e os transeuntes se viam obrigados a descer ao meio-fio para rodeá-los — Em seu momento fizemos todo o possível para averiguá-lo. Ninguém tinha visto nunca nada que parecesse remotamente uma briga. — Meneou a cabeça — Não havia dinheiro no meio, nem mulheres, nem rivalidade nos negócios ou esportes. Até concordavam em política.

— Bom, pois não procuraram o suficiente! — Gracie estava plantada frente a ele — O que faria Pitt se estivesse aqui?

— O mesmo fez então — respondeu Tellman — Analisou tudo o que tinham em comum os dois homens para ver sobre o que podiam ter discutido. Falamos com os amigos e conhecidos de ambos, com todo mundo. Revistamos a casa, lemos todos seus papéis. Não havia nada.

Gracie estava ao sol, mordendo o lábio inferior e olhando ao sargento dos pés à cabeça. Tinha o aspecto de uma menina cansada e zangada, a ponto de chorar. Continuava sendo muito magra e tinha que colocar prega em quase todas as saias para que não lhe enredassem nos pés.

— Ninguém mata a alguém sem nenhuma razão — repetiu com obstinação-. E o fez de repente, de modo que se passou algo pouco antes de matá-lo. Tem que averiguar o que aconteceu cada dia da semana anterior. Teve que ocorrer algo! — Não estava disposta a rebaixar-se a dizer "por favor".

Tellman hesitou, não porque se mostrasse remisso a atuar, a não ser simplesmente porque não lhe ocorria nada útil que fazer.

Gracie o olhava fixamente. Ele tinha que lhe dar uma resposta, e não suportava a idéia de que fosse um não. Ela não o entendia. Não tinha nem idéia das dificuldades, de tudo o que ele e Pitt já tinham feito então. Para Gracie era só uma questão de lealdade, de lutar pelos que amava, os que formavam parte de sua vida.

Tellman não queria fazer parte da vida de ninguém e não estava disposto a admitir que lhe importava Pitt. Importava a injustiça, é claro, mas o mundo estava cheio de atos injustos. Podia lutar contra alguns, contra outros não. Era estúpido perder o tempo e as forças em batalhas impossíveis de ganhar.

Gracie continuava esperando, negando-se a acreditar que ele não fosse aceitar.

O sargento abriu a boca para dizer que era inútil, que ela não o entendia, e se surpreendeu dizendo o que sabia que Gracie queria ouvir.

— Investigaremos os últimos dias do Adinett antes que matasse Fetters. — Era absurdo! Que classe de polícia permitia que uma menina o coagisse para fazer ridículo — Não sei quando! — acrescentou à defensiva — Em meu tempo livre! Não ajudará a ninguém que Wetron me expulse da polícia!

— É claro que não — concordou ela, razoável. A seguir lhe dedicou um repentino e deslumbrante sorriso que o encheu de felicidade. Ele sentiu que o sangue afluía às faces e se odiou por ser tão vulnerável.

— Irei vê-la se averiguar algo — anunciou — Agora vá embora e me deixe trabalhar! — E sem voltar a olhá-la virou sobre seus calcanhares, subiu com resolução pelos degraus e entrou na delegacia de polícia. Gracie aspirou ruidosamente pelo nariz e, com a moral levantada, dirigiu-se para a parada do ônibus para voltar para o Keppel Street.

Tellman começou essa mesma noite. Saiu do Bow Street, comprou uma porção de bolo de carne a um mascate, como fazia a maioria das noites, e o comeu enquanto subia pelo Endell Street. Fizesse o que fizesse, devia arrumar-se para não deixar rastro, não só por sua própria segurança, mas sim pela prática razão de que, se o surpreendiam, não poderia continuar.

Quem podia saber o que tinha feito Adinett, a quem tinha visto, aonde tinha ido justo antes da morte do Fetters? O mesmo Adinett tinha declarado sob juramento que não tinha feito nada extraordinário.

Tellman deu outro bocado ao bolo com cuidado de não esmiuçá-lo.

Adinett contava com recursos próprios e não tinha necessidade de ganhar a vida. Podia gastar o tempo como tivesse vontade. Ao que parecia estava acostumado a dedicá-lo a visitar diversos clubes, muito deles relacionados com as forças armadas, a exploração, a Sociedade Geográfica Nacional e outros de similar natureza. Essa era a pauta de quem tinha herdado dinheiro e podiam permitir-se permanecer ociosos. Tellman a desprezava com toda a indignação do homem que tinha visto muitos matar-se a trabalhar e mesmo assim ir-se à cama com frio e fome.

Passou junto a um menino que vendia jornais.

— O jornal, senhor? — ofereceu o guri — Tem lido sobre o senhor Gladstone? Insultou aos trabalhadores do país, ou isso diz lorde Salisbury. Tê-los-á que conseguem a jornada de oito horas, com sorte! — Sorriu — Ou sobre a nova edição do Darkness and Dawn, tudo a respeito da corrupção da Roma antiga? — acrescentou esperançado.

Tellman lhe pagou e pegou a última edição, não pelas notícias sobre as eleições, a não ser para inteirar-se das últimas informações em relação aos anarquistas.

Apertou o passo enquanto se concentrava de novo no problema. Produzir-lhe-ia mais que satisfação averiguar por que Adinett tinha cometido um assassinato e demonstrar o de tal modo que toda Londres se visse obrigada a inteirar-se, tanto se quisesse como se não.

Estava muito habituado a rastrear as idas e vindas das pessoas, mas sempre com a autoridade que lhe outorgava sua condição de policial. Fazê-lo com discrição seria muito diferente. Teria que servir-se de alguns favores emprestados no passado e talvez de uns quantos por fazer.

Decidiu que começaria pelo lugar mais claro, com os condutores de carruagens de aluguel que conhecia. Estes estavam acostumados a freqüentar sempre os mesmos bairros, e se Adinett tinha pegado uma — e dado que não tinha veículo próprio, era muito provável—, havia possibilidades de que tivesse encontrado mais de uma vez com o mesmo cocheiro.

Se tivesse utilizado o ônibus ou inclusive a ferrovia metropolitana, seria virtualmente impossível averiguar seus movimentos.

Os primeiros dois cocheiros de aluguel que Tellman achou não puderam lhe ajudar. O terceiro só soube lhe indicar o endereço que tinham tomado outros.

Eram nove e meia. Estava cansado, doíam-lhe os pés e estava furioso consigo mesmo por ter cedido a um estúpido impulso quando falou com o sétimo cocheiro, um homem miúdo de cabelo grisalho e com uma tosse áspera. Recordava a seu pai, que de dia tinha trabalhado de porteiro no mercado de peixe do Billingsgate e de noite conduzia uma carruagem de aluguel, chovesse ou trovejasse, para alimentar a sua família e lhe proporcionar um teto. Talvez fosse a lembrança o que lhe fez falar com homem com amabilidade.

— Tem um pouco de tempo? -perguntou.

— Quer ir a alguma parte? — inquiriu por sua vez o cocheiro.

— A nenhum lugar em particular — respondeu Tellman — Necessito certa informação para ajudar a um amigo que está em apuros. E tenho fome. — Não era certo, mas era uma desculpa diplomática — Dispõe de dez minutos para comer um pedaço de bolo de carne e tomar uma cerveja comigo?

— Mau dia. Não posso permitir-me a isso — explicou o cocheiro.

— Necessito ajuda, não dinheiro — disse Tellman. Albergava poucas esperanças de averiguar nada útil, mas continuava visualizando o rosto receoso de seu pai, e era como uma dívida com o passado. Não queria saber nada desse homem, só lhe dar de comer.

O cocheiro deu de ombros.

— Como quiser. — Dito isto, apressou-se a deixar o cavalo e pôs-se a andar ao lado do Tellman até o mascate mais próximo, e aceitou sem pigarrear um pedaço de bolo de carne — O que quer saber?

— Passa freqüentemente pelo Marchmont Street?

— Sim. Por quê?

Tellman levava consigo uma foto do Adinett que não tinha jogado fora depois da investigação. Tirou-a do bolso e a mostrou.

— Recorda ter levado a este homem?

O cocheiro entrecerrou os olhos.

— É o tipo que matou ao que escavava procurando vasilhas antigas e demais, não é?

— Sim.

-É policial?

— Sim, mas não estou de serviço. Faço-o para ajudar a um amigo. Não posso lhe obrigar a me dizer nada, e ninguém mais vai interrogá-lo. Não é uma investigação e certamente me despedirão se descobrirem que reatei as pesquisas.

O cocheiro lhe olhou com renovado interesse.

— Por que o faz então?

— Já o disse, meu amigo está em apuros — repetiu Tellman.

O cocheiro o olhou de esguelha, com as sobrancelhas arqueadas.

— De modo que se lhe ajudo você me ajudará quando estiver de serviço?

— Poderia — concedeu Tellman — Depende de você se pode me ajudar.

— Subiu em minha carruagem três ou quatro vezes. Um senhor de aspecto elegante, como um velho soldado ou algo assim. Sempre andava rígido, com a cabeça erguida. Mas era bastante educado. Dava boas gorjetas.

— Aonde o levou?

— A muitos lugares. Ao oeste a maioria das vezes, a clubes de cavalheiros e coisas assim.

— Que tipo de clubes? Recorda algum endereço? -Tellman não sabia por que se incomodava em averiguá-lo. Embora soubesse o nome dos clubes, do que serviria? Carecia de autoridade para entrar neles e perguntar com quem tinha falado Adinett.

E mesmo que o descobrisse, continuaria sem significar nada. Mas ao menos poderia dizer a Gracie que tinha tentado.

— Não exatamente. As pessoas estavam num lugar que nunca tinha visto algo relacionado com a França. Com Paris, para ser exato. Era um ano, que eu recorde.

Tellman não compreendeu.

— Um ano? O que quer dizer?

— Como mil e setecentos e algo. — O cocheiro coçou a cabeça, dando-se batidinhas no chapéu torcido — O 1789… é isso.

— Algum lugar mais?

— Comeria- outro pedaço.

Tellman lhe deu, mais por ele que a modo de suborno. Essa informação era inútil.

— A um jornal — continuou o cocheiro depois de ter escondido a metade da segunda parte-. O que sempre fala de reformas e demais. Saiu dele com o senhor Dismore, que é o dono. Sei porque o vi no jornal.

Não era surpreendente. Tellman já sabia que Adinett conhecia o Thorold Dismore.

O cocheiro franziu a testa.

— Por isso me pareceu muito estranho que um senhor como ele me pedisse que o levasse a além do Spitalfields, a Cleveland Street esquina com Mele End Road. Estava emocionado, como se tivesse averiguado algo estupendo. Não há nada estupendo no Spitalfields, nem no Whitechapel nem em Mele End, asseguro.

Tellman estava perplexo.

— Levou-o a Cleveland Street?

— Sim, já o disse. Duas vezes!

— Quando?

— Justo antes de ir ver esse tal senhor Dismore, o dono do jornal. Todo entusiasmado. Um par de dias depois disso se matou a esse pobre tipo. Estranho, não?

— Obrigado -disse Tellman com repentina emoção — Muitíssimo obrigado. Deixe que de caminho convide-o a um copo de cerveja.

— Não tenho inconveniente. Obrigado.

 

Para Pitt era terrivelmente difícil viver no Heneagle Street, não porque Isaac e Leah Karansky não lhe fizessem a vida todo o confortável que lhes permitiam seus meios. De fato se mostravam amáveis com ele o tempo que passavam juntos, como durante as refeições que compartilhavam. Leah era uma cozinheira excelente, mas a comida era diferente dos pratos simples e abundantes aos quais ele estava acostumado. E só podia comer a horas fixas. Não havia xícaras de chá quando queria, nem pão elaborado em casa com manteiga e geléia, tampouco bolacha. Tudo era desconhecido, e ao final da jornada dormia de puro esgotamento, mas não relaxava.

Tinha saudades de Charlotte, das crianças, até de Gracie, mais do que tivesse acreditado possível, embora fosse uma tranqüilidade saber que toda semana Charlotte recebia dinheiro.

Ver Isaac e Leah juntos, olhares que se cruzavam e que falavam de anos de entendimento, alguma ou outra risada, a forma em que ela se preocupava com sua saúde, a delicadeza com que ele a tocava, tudo isso lhe recordava com mais intensidade sua solidão.

Por volta do final da primeira semana descobriu a outra emoção que o consumia lhe formando um nó no estômago e lhe produzindo dor de cabeça.

Tinha aceitado o oferecimento de Isaac de ajudá-lo a conseguir emprego com o Saúl, o tecedor de seda. Tratava-se de um trabalho que não requeria nenhuma destreza, é claro; só era questão de agachar-se para levantar gavetas e fardos, varrer o chão, levar e trazer tudo o que se necessitava, fazer recados. Era a tarefa mais manual da oficina e certamente exigia menos esforço físico que trabalhar na fábrica de açúcar. Além disso, lhe dava muito mais oportunidades para sair à rua, escutar e observar sem chamar a atenção, embora pouco sentido lhe via nisso: a captura dos anarquistas Nicoll e Mowbray era prova de que os detetives do Ramo Especial dominavam seu ofício e não necessitavam a ajuda de um estranho como ele no bairro.

Naquele dia, retornava ao Heneagle Street — não podia pensar naquela casa como seu lar — quando ouviu um grito um pouco mais adiante. A cólera que continha era inconfundível. Seguiram-se vozes altas e ásperas, depois um estrépito, como se tivessem arrojado à calçada uma garrafa e esta se quebrara em pedaços. A seguir se ouviu um grito de dor seguido de uma corrente de insultos. Uma mulher gritou.

Pitt pôs-se a correr.

Houve mais gritos e o estrondo de um carregamento de barris que caíam em cascata ao chão, alguns dos quais arrebentavam ao se chocar contra outros. Por cima do barulho geral se ergueu um alarido de indignação.

Pitt dobrou a esquina e viu umas vinte pessoas um pouco mais adiante na rua, a metade meio ocultas por uma carruagem aberta por trás. Os barris caíam rodando a calçava e bloqueavam a circulação em ambas as direções. Os homens já tinham começado a brigar com fúria.

Das lojas e oficinas saíram outras pessoas, e pelo menos a metade dos homens se incorporou à briga. As mulheres ficaram à margem, incentivando-os a gritos.

Alguém se agachou para agarrar uma pedra e a jogou descrevendo um amplo círculo com o braço, enquanto formavam redemoinhos suas saias marrons e rasgadas.

— Vá para casa, porca papista! — replicou a outra espectadora — Volte para sua Irlanda com os seus!

— Tenho de irlandesa o mesmo que você, maldita pagã! — exclamou a outra, e lançou uma vassoura com tal força que, ao alcançar à primeira mulher nas costas, partiu-se em duas e a fez cair na sarjeta, onde jazeu ofegante uns momentos antes de sentar-se devagar e começar a soltar maldições.

— Papista! — vociferou alguém mais — Rameira!

Outra meia dúzia de pessoas, homens e mulheres, uniu-se à multidão, todos proferindo insultos a pleno pulmão. Várias crianças de aspecto desalinhado davam saltos e incentivavam a gritos aos que lhes agradavam entre a multidão.

Ouviu-se o apito de um policial, fraco e estridente. Seguiu-se um momento de trégua durante o qual se ouviu o tamborilar de pés correndo.

Pitt virou sobre seus calcanhares. Não lhe correspondia deter a briga, mesmo que estivesse em suas mãos. Viu um agente de polícia correr para os combatentes e retrocedeu até o arco de entrada do pátio de um trabalhador de pedreira. Narraway esperava dele que observasse, embora ignorasse o que podia lhe dizer que tivesse a mínima utilidade. Isso não era mais que uma das infinitas cenas de rua deploráveis que deviam produzir-se com regularidade, sem surpreender a ninguém.

Chegaram mais policiais que tentaram separar aos homens que brigavam e viram recompensados seus esforços convertendo-se eles mesmos em vítimas. O ódio à polícia parecia a única coisa que essa gente tinha em comum.

— Malditos policiais inúteis! — vociferou um homem agitando os punhos no ar, dispostos a golpear a todos quantos se achassem a seu alcance— Não podiam pegar um resfriado, bodes! Porcos!

Um agente tratou em vão de alcançá-lo com seu porrete.

Pitt permaneceu oculto. Contemplou os edifícios que o rodeavam de aspecto lastimoso e meio arruinado, enegrecidos pela fumaça de centenas de lareiras, as janelas com emplastros, os paralelepípedos dos meio-fios quebrados, as bocas-de-lobo entupidas. O aroma de podre e a águas residuais estava em toda parte. A briga guia de ruas era atroz. Não se tratava de uma repentina explosão de cólera, mas sim da lenta erupção de anos de ódio e cólera desatados antes que a polícia voltasse a silenciá-los a base de medo e golpes… Até a próxima vez.

Pitt se afastou antes que se fixassem nele e ficassem com seu rosto. Manteve a cabeça encurvada, com o chapéu inclinado, as mãos nos bolsos. Dobrou a primeira esquina apesar de se afastar do Heneagle Street. Desde que tinha chegado era consciente de um ressentimento a ponto de explodir, um nervosismo na voz das pessoas, uma predisposição para ofender-se. Desta vez tinha visto o perto que estava a raiva da superfície. Bastava um insulto, um comentário desagradável, para que emergisse.

Nesta ocasião a polícia tinha acudido em seguida e se restaurara algum tipo de ordem, mas não se resolveu nada. Tinha-lhe surpreendido o intenso sentimento anticatólico que tinha surgido em questão de segundos. Devia estar escassamente contido todo o tempo. Ao passar por diante de uma fileira de pequenas lojas, vitrines estreitas com montanhas de caixas e produtos, recordou outros comentários que tinha ouvido palavras de jargão que significavam “papistas”, pronunciadas não por diversão, mas com afã de vingança.

E as haviam devolvido com acréscimo.

Também recordou fragmentos de conversa sobre um negócio que não ia materializar se por motivos religiosos; negava-se toda hospitalidade, até a ajuda razoável a uma pessoa em apuros, não por cobiça, mas sim porque o necessitado era de outra religião.

Os insultos anti-semitas não o surpreendiam menos simplesmente porque os tinha ouvido antes: a desumanização, o ressentimento, a recriminação.

Entrou na primeira taverna que viu e se sentou a uma mesa próxima a balcão com uma jarra de cidra.

Dez minutos depois entrou um jovem estreito de ombros com um dedo envolvido em um trapo ensangüentado.

— Né, Charlie! O que fez? — perguntou o garçom, intrigado.

— Mordeu-me um maldito rato, isso é o que me aconteceu — respondeu Charlie furioso — me Dê uma dose. Se me pagassem a metade do que mereço por meu trabalho, tomaria um gole de uísque, mas a que desgraçado do Spitalfields lhe pagaram alguma vez o que vale?

— Tem emprego, está melhor que alguns — comentou com amargura um homem de rosto pálido olhando-o por cima de sua meia dose de cerveja — Não sabe quando tem dinheiro, esse é seu problema.

Charlie se voltou para ele com indignação as faces acesas.

— Meu problema é que uns tipos avaros me fazem trabalhar noite e dia, e levam o que faço, vendem-no e engordam nos deixando a todos na miséria. — Respirou emitindo um ruído áspero — E os malditos covardes sem garra como você não se unem a mim para lutar por justiça. Esse é meu problema! Esse é o problema de todos os que estamos aqui! Atiram vocês ao chão e os fazem mortos cada vez que alguém os olhar de esguelha!

— Conseguirá que acabemos todos no arroio, estúpido! — replicou o outro aferrando sua jarra como se fora uma espécie de amparo. Lançava faíscas pelos olhos enquanto lutava por vencer o medo que o atormentava dia e noite: o medo à fome, ao frio, a que lhe fizessem mal, a ver-se desprezado e marginalizado.

Um homem loiro olhava a um e a outro, sem reparar aparentemente em Pitt.

— O que quer Charlie? Se todos lhe apoiássemos, então o que? — perguntou na defensiva.

Charlie o fulminou com o olhar enquanto estudava com cuidado a resposta, o rosto enrugado de cólera.

— Então, Wally, veríamos algumas mudanças por aqui — respondeu — Veríamos o dia em que a cada homem lhe paga o que vale, não o que um porco seboso decide lhe pagar, porque não serve de nada se morrer de fome.

Wally tossiu sobre sua cerveja.

— Continua sonhando! — replicou com ironia. Seu tom denotava seu cansaço ante palavras vazias que tinha ouvido muitas vezes.

Charlie deixou sua jarra vazia no balcão com tanta força que fez um arranhão na madeira.

— Ah, sim? — disse beligerante — Bom, pois se tivéssemos mais homens com coragem em lugar de um montão de papistas e judeus chorões arrastando-se por aí, levantaríamo-nos e lutaríamos pelo que nos pertence. Como fizeram os malditos gauleses em Paris! Cortaram alguns pescoços. Então veríamos quão depressa esses bodes elegantes trocam de parecer a respeito de quem é o que!

Um homem moreno estremeceu levemente, mordendo-os lábios.

— Não deveria dizer isso! Não sabe quem está escutando. Só conseguirá piorar as coisas.

— Piorar! — bradou Charlie — O que é pior que isto? Estão esperando que venham esses malditos tipos e nos levem a todos em carruagens à Torre de Londres? A todos? — Levantou a voz, a frustração vibrante em suas palavras-. Somos centenas de milhares os pisoteados por um punhado de bodes ambiciosos e ociosos que vão ao oeste caçoar e comem até adoecer, tão gordos que não podem nem abotoar as calças. E têm aos policiais metidos em seus malditos bolsos — acrescentou voltando-se e desafiando a qualquer um a contrariá-lo — Por isso nunca agarraram ao assassino do Whitechapel que matou a essas fêmeas no oitenta e oito. Digo-lhes isso, é um deles… e Deus é testemunha!

Entrou um repentino frio no lugar. Na mesa seguinte a do Pitt três homens deixaram de falar. Até quase quatro anos depois, não estava bem visto falar do assassino do Whitechapel. Ninguém fazia brincadeiras sobre ele, nem havia canções ou referências nos teatros de variedades.

— Não deveria dizer essas coisas! — Um homem de cabelo grisalho foi o primeiro em falar, com voz rouca e semblante pálido e gasto.

— Digo o que tenho vontade! — replicou Charlie, com as faces acesas.

Alguém se pôs a rir, logo parou tão repentinamente como tinha começado.

Um homem corcunda se levantou e segurou sua jarra no alto.

— Brindo por nada — disse com um sorriso — Por ontem, porque amanhã poderíamos estar mortos. — Esvaziou a jarra de um gole sem afastá-la a dos lábios para respirar.

— Cale-se, estúpido! — replicou com um chiado o homem mais próximo com a cólera impressa em seu rosto e os punhos fechados sobre a mesa.

O outro se deixou cair em sua cadeira com expressão carrancuda;

Tinha se apagado o sorriso.

— Nunca disse nada! — grunhiu — vai chegar o dia. E logo.

— Então veremos quanto açúcar são capazes de tomar! — resmungou seu companheiro.

— Volta a dizer a palavra "açúcar" e eu mesmo lhe romperei a cabeça! — ameaçou o primeiro homem com um olhar de ódio — Treinarei com você para estar preparado para todos os estrangeiros que envenenam esta cidade e nos tiram o que deveria ser nosso.

Desta vez não houve resposta.

Pitt detestava tudo nessa taverna: o aroma, a repentina cólera que se apalpava no ambiente, o derrotismo, a luz do lampião de gás refletida nas amolgadas jarras de estanho, a serragem rançosa, mas sabia que seu trabalho consistia em escutar o que se dizia. Encurvou-se e bebeu outro gole de cidra.

Meia hora depois entraram duas mulheres de má vida em busca de clientes. Estavam exaustas e sujas, e excessivamente ansiosas, e por uns instantes Pitt se enfureceu tanto como Charlie pela pobreza e o desespero que obrigavam às mulheres a passear-se sós pelas ruas e os botequins tratando de vender seu corpo a desconhecidos.

Era um modo precário e freqüentemente perigoso de ganhar um pouco de dinheiro. Também era rápido, em geral assegurado, mais suportável que ser explorado em uma fábrica e, em curto prazo, muito melhor remunerado.

Houve uma explosão de risadas ásperas, muito fortes.

Na mesa seguinte a do Pitt um homem afogava suas penas, temeroso de retornar a casa e dizer a sua mulher que tinha perdido seu emprego. Certamente estava bebendo o pouco dinheiro que ficava o aluguel da semana próxima, a comida do dia seguinte. Havia um desespero cinza em seu rosto.

Um jovem chamado Joe contava a seu amigo Percy seus planos de economizar bastante dinheiro para comprar uma carreta e começar a vender escovas mais para o oeste, uma zona menos perigosa, onde podiam obter-se mais lucros. Um dia partiria dali e buscaria uma habitação em outra parte, talvez Kentish Town ou inclusive no Pinner.

Pitt se levantou para ir embora. Tinha averiguado tudo que tinha que averiguar nada que Narraway não soubesse já. O East End era um lugar cheio de cólera e miséria, onde bastaria um incidente para desatar uma rebelião. Esta seria sufocada pela força e centenas morreriam. A cólera voltaria a inundar-se até a próxima vez.

Apareceriam uns poucos artigos nos jornais. Os políticos fariam declarações pesarosas e logo voltariam para sério assunto de certificar-se de que tudo continuasse mais ou menos como antes.

Pitt retornou ao Heneagle Street caminhando com os ombros afundados e a cabeça encurvada.

Os comentários sobre o açúcar não tinham guardado aparentemente nenhuma relação com o resto da conversa, ao menos a primeira vista, e entretanto se pronunciaram com tal amargura que permaneceram gravados em sua mente nos dias que seguiram. A partir de fragmentos soltos de conversas ouvidas por acaso nos diversos lugares aonde lhe levavam suas obrigações, deu-se conta de quantas pessoas dependiam de um modo ou outro das três fábricas de açúcar do Spitalfields. O dinheiro que ganhava nelas se gastava nas lojas, nas tavernas e nas ruas.

Tinham sido tais comentários só uma expressão da amargura ante tal dependência, e o medo a que pudesse lhes falhar sua única fonte de ganhos? Ou havia algo mais específico? A referência a um dia futuro em que haveria justiça, era uma mera bravata, fruto da cólera, ou se apoiava em fatos?

Vieram a sua memória as palavras do Narraway sobre um perigo crescente, não só o ressentimento subjacente de sempre. As circunstâncias tinham mudado a estas se somou a mixórdia de pessoas, e havia mais instabilidade que no passado.

Mas o que indicava isso? Que tinha razão? Nesse caso a solução estava na reforma, não na manutenção da ordem. A sociedade tinha gerado sua própria destruição; os anarquistas iriam limitar se a acender a mecha.

Talvez, pensou Pitt, deveria olhar mais de perto a fábrica de açúcar do Brick Lane, averiguar mais coisas desse lugar e dos homens que trabalhavam ali, formar uma idéia do caráter desses homens.

Considerou que a melhor maneira era fingir que lhe interessava trabalhar nela. Não tinha experiência no processo de elaboração do açúcar, mas devia haver algo simples que pudesse fazer.

Na manhã seguinte desceu cedo pelo Brick Lane até o edifício de sete andares, com suas janelas pequenas de onde se dominava toda a cidade e o aroma de xarope de cana de açúcar, semelhante ao das batatas podres, que flutuava no ar.

Foi bastante fácil cruzar as portas do pátio. Havia grandes barris empilhados e carroças recém chegadas dos moles que estavam sendo descarregadas. Os homens arrastavam e levantavam caixas que eram colocadas em seu lugar.

— Quem é você? — perguntou bruscamente um homem muito robusto Vestia umas calças gastas de cor castanha e uma jaqueta de couro que brilhava do roçar contínuo. plantou-se frente a Pitt lhe cortando o passo.

— Thomas Pitt. Estou procurando um trabalho extra. — Era quase certo.

— Ah, sim? E o que sabe fazer? — Olhou ao Pitt de cima abaixo com desdém- — Não é daqui, né? — Era uma acusação, não uma pergunta — Aqui temos tudo o que precisamos — concluiu.

Pitt deu uma olhada às altas paredes do edifício, o pátio pavimentado, as portas amplas que se abriam ao andar térreo, os homens que iam e vinham.

— Trabalham toda a noite? — perguntou intrigado.

— Fazem-no as caldeiras. Terá que as manter acesas. Por quê? Quer trabalhar de noite?

Pitt não queria nem por sinal trabalhar de noite, mas sua curiosidade lhe obrigou a continuar com o assunto.

— Por quê? Há trabalho?

-Pode ser. — O homem entreabriu os olhos- — Quer fazer substituições se algum vigilante noturno ficar doente?

— Sim — respondeu Pitt em seguida.

— Onde vive?

— No Heneagle Street, esquina com o Brick Lane.

— Sim? Bom, pode ser que o chamemos ou pode ser que não. Deixe seus dados no escritório. -Assinalou uma pequena porta no lado do edifício.

— De acordo — aceitou Pitt- — Obrigado.

Não teve notícias da fábrica de açúcar em vários dias, mas o trabalho na oficina do Saúl era mais interessante do que tinha esperado. Surpreendeu-se admirando as brilhantes e delicadas fibras e, sem haver-lhe proposto, contemplando como as teciam para convertê-las em brocados, a sutil mescla de cores dos estampados.

Saúl o observava divertido, com seu rosto moreno e magro relaxado para variar.

— Não é daqui, não é verdade? — disse no meio da tarde de uma segunda-feira de princípios de junho — O que faz aqui? Não é seu ofício!

— É uma forma de ganhar a vida — respondeu Pitt voltando o rosto. Agradava-lhe Saúl, que se tinha comportado com ele melhor que bem, mas recordou a advertência do Narraway de não confiar em ninguém — Isaac disse que não era fácil conseguir emprego nas fábricas de açúcar a menos que conhecesse alguém.

— E assim é — confirmou Saúl — Todo mundo quer trabalho. E é duro vender pelas ruas. Não custa nada fazer-se inimigos. Todo mundo tem seu território, e lhe cortam o pescoço se meter-se no de outro.

Pitt se perguntou que pressões tinha utilizado Narraway para convencer Saúl de que o aceitasse. Tinha percebido que a maioria dos outros judeus que via contratava a pessoas de seu grupo, igual a todas outras comunidades identificáveis.

— Não o duvido. — Sorriu — E quem se ocupa no Spitalfields de varrer as ruas?

Saúl soltou um grunhido.

— Há lugares piores.

Pitt o olhou com incredulidade.

— Acredite! — exclamou Saúl com repentina intensidade, os olhos brilhantes — Pode ser que Spitalfields seja um bairro sujo e pobre, e cheire mal, mas é mais seguro que outros lugares onde estive ao menos por agora. Aqui pode dizer o que pensa, ler o que quer sair à rua sem que o detenham. — inclinou-se com os ombros afundados, o rosto tenso-. Talvez o roubem. Ou o ataque um grupo de vândalos ou fanáticos religiosos — Deixou escapar um pequeno grunhido — Mas provavelmente isso ocorra em quase todas as partes. Aqui ao menos é algo fortuito, não é organizado pelo Estado. — Dedicou-lhe um sorriso torcido — Alguns dos policiais estão corrompidos e quase todos são incompetentes, mas com a exceção de algum não são relaxados.

— Corrompidos? — não pôde evitar perguntar Pitt. A palavra lhe tinha saído sem poder conter-se.

Saúl meneou a cabeça.

— Está claro que não é daqui.

Pitt guardou silêncio.

— Aqui acontece todo tipo de coisas — continuou Saúl com gravidade — Não levante a cabeça, se ocupe de seus assuntos e olhe por você. Se descerem uns senhores do oeste, não os vê, não os conhece. Entendido?

— Quer dizer em busca de mulheres? — Pitt estava perplexo. Havia um montão de prostitutas de melhor classe desde o Haymarket ao parque, e em qualquer outra parte. Não havia necessidade de ir até esse bairro escuro e sujo, e certamente também perigoso.

— E outras coisas. — Saúl mordeu o lábio, com olhar preocupado — Coisas pelas quais não deveria perguntar. Como disse, é melhor não saber.

Para Pitt amontoavam-se as idéias na cabeça. Falava de vícios pessoais ou dos planos de insurreição que temia Narraway?

— Se for me afetar, é meu assunto — respondeu Pitt.

— Não o será se olha para outro lado. — Saúl estava sério, a urgência de seu conselho muito evidente para rechaçá-lo.

— Os terroristas afetam a todo mundo — murmurou Pitt, e assim que o disse temeu ter ido muito longe.

Saúl se sobressaltou.

— Terroristas! Estou falando de cavalheiros do oeste que percorrem Spitalfields de noite em grandes carruagens negras e deixam a sua passagem uma esteira de destruição, — Tremia-lhe a voz — Você se concentre em seu trabalho, faz seus recados e olhe por si, e não lhe acontecerá nada. Se a polícia lhe fizer perguntas, não sabe nada. Não ouviu nada. Melhor ainda, não estava ali.

Pitt não continuou discutindo, e essa noite, sentado à mesa com os restos do jantar, absorveu sua atenção um amigo do Isaac que foi à porta machucado e ensangüentado, com a roupa rasgada.

— O que lhe aconteceu, Samuel? — perguntou Leah horrorizada, levantando-se de um salto de sua cadeira enquanto Isaac o fazia entrar. — Parece que uma carruagem o atropelou. — Olhou-o com preocupação, considerando o que fazer para ajudá-lo.

— Tive um pequeno problema com um grupo de homens do bairro — respondeu Samuel enquanto levava ao lábio um lenço manchado de sangue e fazia uma careta ao tratar de sorrir.

— Tira! Não faça isso! — ordenou Leah- — Deixa que lhe olhe isso. Isaac... Traz água e o ungüento.

— Roubaram-lhe? — perguntou Isaac sem mover-se.

Samuel deu de ombros.

— Continuo vivo. Poderia ter sido pior.

— Quanto? — inquiriu Isaac.

— Não importa quanto — disse Leah com severidade — Depois nos ocuparemos disso. Traz água e o ungüento. Este homem está sofrendo! E está manchando toda a camisa de sangue. Sabe o que custa tirar o sangue de um bom tecido?

Pitt sabia onde estavam a bomba de água e a jarra. Saiu pela porta traseira e voltou ao cabo de cinco minutos com a jarra cheia de água. Ignorava até que ponto esta estava limpa.

Encontrou Leah e Isaac juntos, com a cabeça inclinada, cochichando. Samuel estava recostado na cadeira, com os olhos fechados. A conversa se interrompeu assim que Pitt entrou.

— Bem, bem — se apressou a dizer Isaac agarrando a jarra de suas mãos — Muito obrigado. — Deixou-a e jogou perto do meio litro em uma panela limpa, que pôs ao fogo. Leah já tinha o ungüento.

— Isto é muito — sussurrou a mulher com tom exaltado, reatando sem dúvida a conversa que a presença do Pitt tinha interrompido, sem cair na conta de que este continuava ali — Se lhe der todo isso desta vez, o que se passará na próxima? E haverá uma próxima, pode estar certo!

— Ocuparemo-nos disso na próxima vez que ocorra — asseverou Isaac com firmeza — Deus proverá.

Leah soprou de impaciência.

— Já lhe proveu de cérebro! Utiliza-o! — moveu-se um pouco, voltando as costas ao Pitt — Cada vez é pior, e é o primeiro em vê-lo — apressou ela — Com os católicos e os protestantes, que sempre estão como o cão e o gato, e os terroristas por toda parte, cada qual mais louco, e agora falam em explodir a fábrica de açúcar.

Samuel estava sentado, entre ambos, paciente e calado. Pitt se apoiou contra o aparador.

— Ninguém vai explodir a fábrica de açúcar! — exclamou Isaac tenso, lançando a sua mulher um olhar de advertência.

— Ah, sim? Você sabe, não? — ela o desafiou com as sobrancelhas arqueadas, os olhos muito abertos.

— Por que tinham que fazer tal coisa? — Ele manteve a voz serena.

— Acaso necessitam de uma razão? — perguntou Leah com assombro. Levantou os ombros com dramatismo — São anarquistas. Odeiam a todo mundo.

— Isso não tem nada que ver conosco — indicou ele — Cuidamos de nós mesmos.

— Voarão a fábrica de açúcar. Isso terá que ver com todo mundo! — replicou ela.

— Basta, Leah! — exclamou seu marido para pôr fim à conversa. Desta vez era uma ordem — Encarregue-se do Samuel. Procurarei um pouco de dinheiro para lhe emprestar. Todos ajudarão. Ponha sua pedrinha de areia.

A mulher o olhou com gravidade por uns segundos, a ponto de prosseguir a discussão, mas algo no rosto dele a deteve e, sem dizer nada mais, obedeceu.

A água pôs-se a ferver e Pitt a aproximou para que lavasse a ferida do Samuel.

Uma hora depois, na privacidade do aposento onde Isaac fazia suas contas, Pitt ofereceu uma contribuição de uns poucos centavos para o fundo do Samuel. Ficou irracionalmente encantado quando este a tomou. Era uma amostra de que o aceitavam.

Tellman não comentou com ninguém seu interesse por John Adinett nem sua conversa com o cocheiro de aluguel. Passaram-se três dias até que teve oportunidade de reatar suas pesquisas. Wetron havia tornado a falar com ele. Havia lhe perguntado com mais vagar sobre o caso que tinha entre mãos, esperando que desse contas minuciosamente de seu tempo.

Tellman lhe respondeu com exatidão, obediente e solene. Esse homem tinha ocupado o posto do Pitt e não tinha direito a ele. Talvez não o tivesse decidido, mas isso não o desculpava. Tinha-lhe proibido ficar em contato com o Pitt ou interessar-se mais pelo caso Adinett. Isso sim era culpa sua. Tellman olhou fixamente seu rosto redondo e bem barbeado, cheio de branda e calada insolência.

No meio da tarde da terça-feira voltou a dispor de tempo para si e o primeiro que fez ao sair do Bow Street foi comprar um sanduíche de presunto e um refresco a um mascate. Depois se pôs a andar devagar para Oxford Street, refletindo.

Tinha consultado as notas que tinha tomado durante a investigação e percebido que havia vários períodos de tempo, freqüentemente de até quatro e cinco horas, durante os quais não sabiam onde tinha estado Adinett. Então não lhes tinham concedido importância, porque estavam absortos nos fatos físicos. Onde tinha estado Adinett não parecia vir ao caso, só era questão de captar todos os detalhes. Agora era a única coisa que Tellman tinha.

Diminuiu o passo. Não tinha nem idéia de aonde ir, só sabia que devia dar com algo definitivo, pelo Pitt e porque não tinha intenção de voltar para a Gracie com as mãos vazias.

Por que um homem como John Adinett ia três vezes a um lugar como Cleveland Street? Quem vivia ali? Era possível que tivesse gostos estranhos em seus vícios e se Fetters os tivesse descoberto?

Até enquanto se perguntava não acreditou. Depois de tudo, o que podia importar isso a Fetters? Se não era um delito, ou mesmo que o fosse, a ninguém mais incumbia.

Entretanto, talvez Fetters tivesse averiguado algo sobre o Adinett que não podia permitir-se saber! Teria que ser algo delitivo. O que podia ser?

Apertou um pouco o passo. Talvez a resposta estivesse em Cleveland Street. Era o único que ficava por explicar até a data.

Em Oxford Street pegou um ônibus para o este, mudou no Holbom e seguiu até o Spitalfields e Whitechapel, sem deixar de dar voltas à pergunta.

Cleveland Street era uma rua muito normal — não havia mais que casas e lojas desmanteladas e imundas — mas de aspecto respeitável até certo ponto. Quem vivia ali que Adinett tinha visitado três vezes?

Tellman entrou no primeiro comércio, uma loja de ferragens.

— Sim, senhor? — Um homem meio calvo e de aspecto cansado levantou a vista da chaleira de água que estava reparando — Que deseja?

Tellman comprou uma colher, mais por boa vontade que porque a necessitasse.

— Minha irmã está pensando em comprar uma casa por aqui — mentiu com naturalidade — Lhe prometi que daria uma olhada antes ao bairro. Que tal é? Tranqüilo, não?

O ferrageiro refletiu uns momentos, com o emplastro metálico em uma mão, a chaleira na outra.

Tellman esperou.

O ferrageiro suspirou.

— Era-o antes — disse com tristeza — mas as coisas mudaram nos últimos cinco ou seis anos. Tem filhos sua irmã?

— Sim — se apressou a responder Tellman.

— Então é melhor que vá algumas ruas mais à frente. — Moveu a cabeça na direção a que se referia. — Experimente um pouco mais ao norte, ou ao este. Mantenha-se longe da cervejaria. E de Mele End Road. Muito tráfego.

Tellman franziu o sobrecenho.

— Ela estava pensando em Cleveland Street. As casas lhe parecem bem. Têm um preço razoável, diria eu, e estão em bastante bom estado. Mas há muito tráfego, não?

— Você verá. — O ferrageiro deu de ombros — Eu não viveria aqui se não o fizesse já.

Tellman se inclinou para ele e baixou a voz para perguntar:

— Não haverá casas de má reputação?

O ferrageiro pôs-se a rir.

— Havia-as, mas já não as há. Por quê?

— Só por curiosidade. — Tellman retrocedeu — O que é todo esse tráfego então? Disse que há muito ultimamente.

— Não sei. — O ferrageiro tinha mudado obviamente de parecer a respeito de mostrar-se tão franco — Gente de visita suponho.

— Carruagens e demais? — Tellman tratou de adotar um ar de inocência.

Não deve ter conseguido, porque o ferrageiro não tinha intenção de lhe informar de nada mais.

— Não mais que em outros lugares. — Voltou a concentrar-se na chaleira, evitando o olhar do Tellman — É mais tranqüilo agora. Só esteve bastante concorrido faz um tempo. Esqueça o que disse. Não sei de nenhuma casa que esteja em venda, mas se o preço lhe parece correto vá a por ela.

— Obrigado — disse Tellman com educação. Não tinha sentido granjear um inimigo. Não sabia se precisaria falar de novo com ele.

Saiu do estabelecimento e pôs-se a andar devagar pela rua, olhando a ambos os lados, perguntando-se o que tinha chamado a atenção ao Adinett e por que.

Havia várias casas, um par de lojas mais, o estúdio de um artista, um pequeno pátio onde se vendiam barris, um fabricante de pipas de cerâmica e um sapateiro.

Poderia ter sido qualquer das milhares de ruas dos bairros pobres de Londres. No ar flutuava o aroma doce e rançoso da cervejaria que não ficava muito longe.

Deteve-se e comprou um sanduíche a um mascate ao final da rua, onde se convertia no Devonshire Street.

— Que alegria achar você — disse com a intenção de entabular conversa — Muito movimento por aqui? Não vi uma alma.

— Normalmente estou em Mele End Road — explicou o vendedor — Volto para casa. Leva o último. — Sorriu mostrando uma dentadura trincada.

— Mudou-me a sorte — disse Tellman com amargura — Levo toda a tarde procurando um amigo de meu chefe. Meu chefe veio aqui faz umas quantas semanas e lhe caiu a corrente de seu relógio de bolso. "Vá procurar", disse-me. "Devo ter deixado em sua casa." Escreveu-me o endereço em um papel, mas o perdi.

— Como se chamava? -perguntou o vendedor olhando de marco em marco ao Tellman com seus azuis olhos muito abertos.

— Não sei. Perdi-o antes de lê-lo.

— Disse a corrente de um relógio?

— Isso. Por quê? Sabe onde poderia estar?

O vendedor deu de ombros e voltou a sorrir.

— Nem idéia. Que aspecto tem seu chefe?

Tellman descreveu imediatamente ao Adinett.

— Um senhor alto, de aspecto militar, muito bem vestido e com um bigode. Caminha com a cabeça muito erguida e os ombros jogados para trás.

— Vi-o. — O vendedor estava agradado consigo mesmo — Faz semanas que não o vejo — acrescentou.

— Mas esteve aqui? — Tellman procurou que não o delatasse sua impaciência, mas não pôde eliminar a de sua voz — O viu?

— Já lhe disse. Não diz que é seu patrão e que o enviou a procurar sua corrente?

— Sim. Sim, já sei. Mas se o viu, talvez saiba em que casa entrou. — Tellman mentiu para encobrir seu engano — É um ogro. Se voltar sem uma boa explicação me acusará de ter ficado com ela!

O vendedor meneou a cabeça com expressão compassiva.

— Às vezes me alegro de não trabalhar para ninguém. Há dias bons e dias maus, mas não tem ninguém em cima. — Apontou para a rua — Era essa de lá abaixo, desse lado. O número 6. Tabacaria e confeitaria. Entra e sai muita gente dela. É ali onde houve toda a confusão há quatro ou cinco anos.

— Que confusão? — perguntou Tellman com tom despreocupado, como se não tivesse verdadeiro interesse.

— Carruagens que iam e vinham a todas as horas, e essa espécie de briga que houve — respondeu o vendedor — Não foi para tanto, suponho. Foi muito pior depois no Spitalfields e por aqui. Mas pareceu bastante desagradável na época. Muitos gritos, insultos e demais. — Fez uma careta — Foi estranho. Todos eram de fora! Nem as pessoas eram do bairro. — Observou ao Tellman com atenção — Por que iam querer vir aqui um montão de forasteiros só para brigar uns com outros? Depois, tão depressa como tinham vindo, foram-se todos.

Tellman sentia que o coração lhe pulsava com força.

— Na loja de tabaco? — Tinha um nó na garganta. Isso era absurdo. Certamente não significava nada.

— Acredito que sim. — O vendedor assentiu sem deixar de observá-lo — Enfim, ali foi onde entrou seu patrão. Perguntou-me o mesmo, e quando lhe respondi partiu como um menino com sapatos novos.

— Entendo. Muito obrigado. — Tellman meteu uma mão no bolso e tirou uma moeda de seis peniques. Tremiam-lhe os dedos. Era um tanto generoso, mas de repente se sentia otimista e agradecido — Toma, tome uma dose a minha saúde. Certamente me economizou uma dinheirama.

— Obrigado. — O vendedor aceitou a moeda, que desapareceu imediatamente — A sua saúde.

Tellman assentiu e pôs-se a andar depressa para onde o homem lhe tinha indicado. Por fora era como qualquer outra: uma pequena loja de caramelos e tabaco, com uma moradia no piso de cima. Que demônios havia ali dentro que John Adinett tinha achado tão emocionante? Teria que voltar quando estivesse aberta. Talvez houvesse algo pelo que voltar. Acharia o modo de fazê-lo no dia seguinte, às custas do Wetron.

Pôs-se a andar com brio para Mele End Road.

Quando retornou a Cleveland Street no meio da tarde do dia seguinte, depois de consideráveis dificuldades e tendo distorcido tanto a verdade ao falar com seu inspetor que pouco tinha que ver com os fatos, a loja parecia exatamente igual a outras mil.

Tellman comprou três peniques de caramelos de hortelã e tratou de entabular conversa com o dono, mas havia pouco do que falar além do tempo. Começava a se desesperar quando fez um comentário sobre o calor, as febres e o pobre príncipe Alberto, que tinha morrido de tifo.

— Suponho que ninguém está a salvo — concluiu, sentindo-se estúpido.

— Por que eles estariam? — disse o homem com tristeza mordendo o lábio — Os membros da família real não são melhores que você ou que eu quando se trata de certas coisas. Comem melhor, suponho, e certamente vestem-se melhor. — Acariciou o fino tecido de sua jaqueta-. Mas caem doentes como nós e morrem os pobres diabos.

— Havia em sua voz uma nota de profunda compaixão que ao Tellman pareceu extraordinária em um homem de semelhante bairro, que evidentemente tinha pouco e trabalhava muito. Era o último lugar onde teria esperado achar compaixão para os que pareciam ter tudo.

— Acredita que têm problemas como os nossos? — perguntou tratando de manter um tom inexpressivo.

— Você é livre de ir e vir a seu gosto, não? — disse o tabaqueiro olhando ao Tellman. Seus olhos eram de um cinza surpreendentemente claro — De ter a fé que queira católica, protestante, feijão, ou nenhuma se o preferir. Um deus com seis braços se tiver vontade. E casar-se com uma mulher da religião que seja se assim o deseja.

Imediatamente foi à mente de Tellman o rosto de feições angulosas de Gracie, os olhos brilhantes e o queixo cheio de determinação. Logo se enfureceu consigo mesmo por sua debilidade. Era absurdo. Discrepavam em tudo. Ela se teria identificado com esse tabaqueiro e sua compaixão. Não via nada mau em servir, enquanto que lhe indignava que alguém, homem ou mulher, levasse e trouxesse coisas a outra pessoa, chamasse-a "senhor" ou "senhora" e limpasse atrás dela.

— É claro que o sou! — Soou muito mais cortante do que era sua intenção — Mas não me casaria com uma mulher que não acreditasse no mesmo que eu. Não me refiro tanto à religião como ao que está bem ou mau, o que é justo e o que não.

O homem sorriu paciente e fez um gesto de negação.

— Se apaixonar-se, não lhe importará de onde ela venha ou no que crie, só quererá estar a seu lado. — Falou com suavidade — E se senta a discutir do que é justo e injusto, é que não está apaixonado. Tenha-a por amiga, mas não se case com ela. — Meneou a cabeça, e sua voz deixou clara sua opinião sobre tal decisão — A menos que tenha dinheiro ou algo que você quer.

Tellman se ofendeu.

— Não me casaria jamais por dinheiro! — exclamou zangado — Só acredito que é importante o sentido da justiça que tem cada um. Se for compartilhar toda sua vida e tiver filhos com alguém, deve estar de acordo no que é decente e que não.

O tabaqueiro suspirou e seu sorriso desapareceu.

— Talvez você tenha razão. Sabe Deus que o amor pode nos trazer bastante aflição se nossas crenças e nossa situação na vida são diferentes das da pessoa amada.

Tellman levou um caramelo à boca enquanto se abria a porta da loja a suas costas. Voltou-se de forma instintiva para ver quem era. Reconheceu ao homem que entrou, mas não sabia de onde.

— Boa tarde, senhor. — O tabaqueiro se afastou de sua mente ao Tellman e olhou ao novo cliente — No que posso lhe servir senhor?

O homem vacilou, olhou ao Tellman e a seguir ao tabaqueiro.

— Este cavalheiro chegou primeiro — disse cortês.

— Já está atendido — respondeu o dono da loja — Que deseja?

O homem voltou a olhar ao Tellman antes de responder.

— Nesse caso, queria meia libra de tabaco.

O tabaqueiro arqueou as sobrancelhas.

— Meia libra? Em seguida, senhor. De que classe? Tenho de todos os tipos. Da Virginia, turco...

— Da Virginia — o interrompeu o homem, ao mesmo tempo em que colocava uma mão no bolso em busca de dinheiro.

Foi a voz o que Tellman reconheceu. Demorou uns minutos em recordar onde a tinha ouvido. Esse homem era um jornalista chamado Lyndon Remus. Tinha seguido Pitt, fazendo perguntas e medindo, durante o assassinato do Bedford Square. Era ele quem tinha escrito o artigo que tanto prejuízo tinha causado.

Que fazia em Mele End? Não para comprar tabaco, certamente, e menos ainda meia libra! Não distinguia o da Virginia do turco, nem lhe importava. Tinha vindo para algo mais, mas ao ver o Tellman tinha mudado de idéia.

— Obrigado — disse Tellman ao tabaqueiro — Boa tarde.

Uma vez na rua deu uns quarenta passos até um amplo saguão onde esperou quase oculto a que Remus saísse.

Ao cabo de dez minutos começou a se perguntar se o estabelecimento dispunha de outra saída. O que podia estar fazendo o jornalista durante tanto tempo ali dentro? Só havia uma resposta que tivesse algum sentido; tinha vindo pela mesma razão que ele: intuía uma notícia, um escândalo, talvez a explicação de um assassinato. Devia ser algo relacionado com o John Adinett. Não era possível que houvesse dois assassinatos relacionados com a mesma pequena loja de tabaco.

Transcorreram os minutos. As carruagens passavam pela rua, algumas para Mele End Road, outras em sentido contrário. Ao cabo de outros dez minutos Remus saiu por fim. Olhou a esquerda e direita, cruzou a rua e pôs-se a andar para o sul, passando a um metro do Tellman. Depois, ao dar-se conta de quem era, deteve-se em seco.

— Anda atrás de uma grande noticia Remus? — perguntou Tellman com um sorriso.

O sardento rosto de feições angulosas do Remus delatou perplexidade por uns segundos; depois recuperou a serenidade.

— Não estou certo — respondeu com tom despreocupado — Muitas idéias, mas de momento todas desconexas. Talvez signifique algo que esteja aqui.

— Bobagens — disse Tellman sorridente.

— OH, não, eu não... — balbuciou Remus.

— Bobagens como caramelos de hortelã — esclareceu Tellman — É o que comprei.

Remus relaxou a expressão.

— OH, sim, é claro.

— É melhor que o tabaco — prosseguiu Tellman — Não distingue um de outro. E você tampouco.

— Não é seu terreno, né? — Remus evitou a pergunta — Continua com o caso Adinett, não é? Um tipo interessante. — Entreabriu os olhos — Mas por que se incomoda? Já o condenaram. Que mais quer?

— Eu? — Tellman fingiu surpreender-se — Nada absolutamente. Por quê? Que mais acha que há?

— Um móvel — disse Remus de modo razoável — Fetters veio aqui alguma vez?

— O que o faz pensar que o fez? O tabaqueiro disse isso?

Remus arqueou as sobrancelhas.

— Não o perguntei.

— Então não anda atrás de Fetters — deduziu Tellman.

O jornalista pareceu surpreso por um instante. Tinha-lhe escapado mais do que tinha querido dizer. Recuperou-se e olhou ao Tellman com um sorriso forçado.

— Fetters e Adinett… todo é o mesmo, não?

— Não disse que foi atrás de Adinett — indicou Tellman.

Remus meteu as mãos nos bolsos e pôs-se a andar devagar em direção a Mele End Road, deixando que Tellman o alcançasse.

— Já não é exatamente a mesma coisa, não? — disse pensativo — Nem para você nem para mim. Para que eu me incomodasse em escrever sobre isso teria que ter um motivo realmente interessante para morte do Fetters. E suponho que teria que estar relacionado com outro crime, a pessoas bastante importantes, para que você seguisse investigando. Não lhe parece?

Tellman não tinha intenção de lhe falar sobre Pitt.

— Isso soa razoável — admitiu — Caso eu não tivesse vindo aqui só pelos caramelos de hortelã.

— Bobagens talvez — disse Remus com um sorriso torcido, e apressou ligeiramente o passo. Caminharam um momento em silêncio, cruzando um beco que levava a fábrica de cerveja — Tome cuidado. Há um montão de pessoas importantes que tentará detê-lo. Suponho que o senhor Pitt o enviou aqui.

— E o senhor Dismore te enviou? — contra-atacou Tellman ao recordar o que o cocheiro havia dito sobre a visita do Adinett ao jornal do Dismore depois de partir por última vez de Cleveland Street.

Remus ficou perplexo por um instante, mas em seguida conseguiu encobrir suas emoções e respondeu com despreocupação:

— Sou independente. Não dou contas a ninguém. Pensei que um detetive tão sagaz como você saberia!

Tellman grunhiu. Não sabia o que pensar, só que Remus acreditava estar atrás da pista de uma notícia que não tinha intenção de compartilhar.

Chegaram a Mele End Road, e Remus se despediu e se perdeu na enchente de pessoas que se dirigia ao oeste.

Tellman decidiu impulsivamente segui-lo. Foi mais difícil do que esperava, em parte pela quantidade de tráfego, carretas e carruagens de vendedores ambulantes antes que carruagens, mas sobre tudo porque era evidente que Remus não queria que ninguém o seguisse e era consciente de ter atrás à polícia.

Custou-lhe várias corridas, alguns subornos e um pouco de sorte não perdê-lo, mas meia hora mais tarde Tellman cruzava a ponte de Londres em uma carruagem de aluguel. Pouco além da estação de trem Remus desembarcou da sua, pagou ao cocheiro, subiu correndo pela escadaria do Guy's Hospital e desapareceu atrás das portas.

Tellman também se apeou, pagou ao cocheiro, subiu pela escadaria e entrou no hospital.

Mas não se via o Remus em nenhuma parte. Aproximou-se do porteiro e lhe descreveu o jornalista para lhe perguntar que direção tinha tomado.

— Pergunte pelos escritórios — respondeu o homem — por aí — indicou solícito.

Tellman lhe agradeceu e seguiu suas indicações, mas por muito que procurasse não conseguiu localizar Remus. Quase meia hora depois de vagar pelos corredores saiu do hospital e tomou o trem ao norte do rio. Pouco antes das seis da tarde se achava no Keppel Street.

Permaneceu vários minutos frente à porta traseira tratando de reunir suficiente coragem para bater. Desejou que houvesse um modo de ver Gracie sem ter que encontrar-se com Charlotte. Envergonhava-lhe o fato de não ter feito nada por ajudar ao Pitt. Não lhe cabia dúvida de que Charlotte estaria consternada, mas não tinha nem idéia do que dizer ou fazer.

Tão só o imaginar-se vividamente o desdém do Gracie impediu que desse meia volta e se afastasse pressuroso dali. Teria que enfrentá-la algum dia. Adiá-lo só tornaria ainda mais difícil. Respirou fundo, sem bater ainda à porta. Talvez devesse averiguar algo mais antes de falar com ela. Depois de tudo não tinha descoberto grande coisa. Não tinha nem idéia de por que tinha ido Remus ao Guy's Hospital, nem sequer uma hipótese.

A porta se abriu e Gracie deixou escapar um grito e quase se estatelou contra ele. A frigideira lhe escorregou das mãos e caiu com estrépito no degrau.

-Será estúpido! -exclamou furiosa-. O que acha que está fazendo aqui em pé com cara de estúpido? O que tem?

Ele se agachou para recolher a frigideira e a entregou.

— Vim para lhe contar o que averigüei — disse ele, cortante — Não deveria deixar cair as frigideiras boas como esta. Descascá-las-á e já não servirão.

— Não o teria feito se não me tivesse dado um susto de morte — replicou ela — por que não chamou como as pessoas normais?

— Ia fazê-lo. — Não era de todo mentira. É claro que o teria feito, em qualquer momento.

Gracie o olhou de cima abaixo.

— Bom, será melhor que entre. Suponho que o que tem que contar é algo mais do que pode dizer-se na soleira. — voltou-se rapidamente, com as saias formando redemoinhos, e entrou de novo.

Tellman a seguiu através da copa até a cozinha fechando as duas portas atrás de si. Se Charlotte estava na casa, não a viu.

— E fala baixinho! — advertiu Gracie, como se lhe lesse os pensamentos — A senhora Pitt está em cima, lendo um conto ao Daniel e Jemima.

— Jemima já sabe ler — recordou-o, desconcertado.

— É claro — respondeu ela esforçando-se por ser paciente — mas seu papai já não está em casa e não voltamos a saber dele. Ninguém sabe o que é dele, se o cuidarem bem ou o que! Reconforta-lhe que lhe leiam! — Fungou e voltou o rosto, decidida a não lhe deixar ver as lágrimas que deslizavam por suas faces — O que averiguou? Suponho que quer uma xícara de chá. E bolacha.

— Sim, por favor. — Tellman se sentou à mesa da cozinha enquanto ela se ocupava da chaleira, do bule, duas xícaras e vários pedaços de bolacha recém feita, lhe dando as costas todo o tempo.

Ele observava seus rápidos movimentos, os magros ombros sob o vestido de algodão, a fina cintura, que poderia abranger com as mãos. Ardia em desejos de consolá-la, mas era muito orgulhosa e irritável para permitir-lhe. De qualquer modo o que podia dizer ele? Gracie nunca acreditaria mentiras de que tudo acabaria por solucionar-se. Seus quase vinte e um anos de vida lhe tinham ensinado que a tragédia era uma realidade. E às vezes prevalecia a justiça, mas nem sempre.

Ele devia dizer algo. Transcorriam os minutos. A chaleira começou a assobiar. A cozinha era o mesmo aposento quente e bem cheiroso de sempre. Nele se havia sentido ridiculamente feliz e muito a gosto, mais que em nenhum outro lugar que recordasse.

Gracie deixou o bule com brusquidão, correndo o risco de descascá-lo.

— Bom, me vai contar ou não? — perguntou.

— Claro que sim — respondeu ele, furioso consigo mesmo por desejar tocá-la, ser delicado, rodeá-la com os braços e estreitá-la com força. Clareou a voz e quase se engasgou — Adinett foi a Cleveland Street, em Mele End, ao menos três vezes, e a última parecia muito entusiasmado por algo. Dali foi ver o Thorold Dismore, o dono do jornal que sempre se está colocando com a rainha e dizendo que o príncipe de Gales gasta muito.

Gracie ficou imóvel, com as sobrancelhas juntas e uma expressão de desconcerto no olhar.

— O que tinha que fazer um cavalheiro como o senhor Adinett em Mele End? Se o que procurava era uma rameira, há muitas mais perto, e mais limpas! Poderiam lhe ter matado ali.

— Sei. Mas isso não é tudo. Não ia a um bordel, mas a uma tabacaria.

— Ir a Mele End comprar tabaco? — perguntou ela com incredulidade.

-Não — a corrigiu ele — à loja de tabaco por alguma outra razão, mas ainda não sei qual. O caso é que voltei hoje ali e quando entrei na loja, apareceu nada menos que Lyndon Remus, o jornalista que esteve tratando de tirar todos esses trapos sujos quando o senhor Pitt trabalhava no assassinato do Bedford Square. — inclinou-se com obrigação, apoiando os cotovelos na mesa de madeira — Não disse uma palavra enquanto estive ali, mas ficou outros vinte minutos depois de que parti; sei por que o estive esperando. E quando saiu falei com ele.

Gracie tinha ficado paralisada, com os olhos arregalados; tinha esquecido o bule. Só os assobios da chaleira a fizeram voltar para a realidade. Limitou-se a tirar a tampa.

— E? — perguntou — O que queria? O que tem de especial Cleveland Street?

— Ainda não sei — admitiu Tellman — Suponho que vai atrás de um escândalo e acha estar sobre a pista de algo. Tratou de me surrupiar que fazia ali. Quase se emocionou ao ver-me. Pensou que isso demonstra que não estou errado. Tem que haver com o Adinett; chegou a reconhecê-lo.

Gracie se sentou na cadeira frente a ele.

— Segue! — apressou-o.

— Quando se foi segui. Tratou de me despistar, mas não o conseguiu.

— Aonde foi? — Gracie não afastava a vista do rosto do Tellman.

— Ao sul do rio, ao Guy's Hospital… aos escritórios. Mas ali o perdi.

— O Guy's Hospital… — repetiu ela devagar. Finalmente se levantou e preparou o chá, que deixou na mesa para que repousasse — E por que demônios não ia querer que tivesse sabido aonde ia?

— Porque é algo relacionado com Adinett — respondeu ele — E com Cleveland Street. Mas que me pendurem se souber que o é.

— Bom, só tem que averiguá-lo — respondeu ela sem vacilar — Porque devemos demonstrar que o senhor Pitt tem razão ao acreditar culpado ao Adinett, e que este tinha um móvel perverso. Quer um pouco de bolacha?

— Sim, por favor. — Tellman pegou o pedaço maior do prato que lhe estendeu. Fazia tempo que tinha deixado de fingir ser educado quando o oferecia. Gracie preparava a melhor bolacha que jamais tinha provado.

Ela o olhava com ansiedade.

— Vai averiguar o que é, não é verdade? Refiro-me ao que aconteceu realmente e por que.

Tellman gostaria que Gracie sentisse por ele uma milésima parte da admiração que sentia pelo Pitt. Entretanto, a fé que via em seu rosto, embora nascesse do desespero, era tão maravilhosa como aterradora. Estaria ele à altura de tal fé? Não lhe ocorria o que fazer a seguir. O que teria feito Pitt se trocasse os papéis?

Este lhe agradava, tinha que admiti-lo embora não quisesse, e mesmo que não estivesse de acordo com ele em numerosas coisas. Entretanto, a maior parte do tempo era um tipo razoável. Era excêntrico e levava muito tempo acostumar-se a ele, mas, para bem ou para mau, Tellman formava parte da vida do Pitt. Sentou-se muitas vezes a sua mesa, trabalhado com ele em muitos casos, bons ou maus. E, além disso, havia Gracie.

— Sim, é claro que o farei — disse com a boca cheia.

— Vais seguir o tal Remus? — pressionou ela — Está sobre a pista de algo, seja o que for. A senhora Pitt está tratando de averiguar mais sobre o senhor Fetters, mas ainda não tem nada. Avisá-lo-ei se inteirar-se de algo. — Parecia cansada e assustada — Não o deixará, verdade? Aconteça o que acontecer! Ninguém mais vai fazer o além de nós.

— Já lhe disse — afirmou ele olhando-a com fixidez — Averiguarei! Agora come um pouco de bolacha. Parece um coelho de quatro pennies! E serve o chá!

— Ainda não está preparado. — Não obstante, Gracie o serviu.

 

Charlotte abriu o jornal da manhã, mais porque se sentia sozinha que porque tivesse verdadeiro interesse pelos sucessos políticos que enchiam suas páginas conforme os partidos se preparavam para as eleições. Eram muito duros com o senhor Gladstone, a quem censuravam por passar por cima todos os assuntos exceto a Lei de Autonomia Irlandesa e abandonar aparentemente todo esforço por conseguir a jornada trabalhista de oito horas. Em todo caso ela não esperava que os jornais fossem imparciais.

Havia uma trágica notícia de um acidente de trem no Guiseley, ao norte. Duas pessoas tinham perecido e várias tinham ficado feridas.

A New Oriental Bank Corporation se vira obrigada a retirar recursos e suspender certos pagamentos. O preço da prata descia de maneira preocupante. Tinham sofrido perdas no Melbourne e Singapura. A liquidação da Gatling Gun Company os tinha afetado muito. Um furacão em Mauricio tinha sido o golpe supremo.

Charlotte não leu o resto. Deslizou o olhar pela página e não pôde evitar que lhe atraíssem as letras negras que anunciavam a execução do John Adinett as oito dessa manhã.

De maneira instintiva olhou o relógio da cozinha. Eram as oito menos quarto. Desejou não ter aberto o jornal até mais tarde. Meia hora teria bastado. Por que não tinha pensado nisso, contado os dias e tomado cuidado de não olhá-lo?

Adinett não tinha pensado duas vezes antes de matar ao Martin Fetters, e quanto mais averiguava deste, mais se convencia de que lhe teria se agradado. Tinha sido um homem entusiasta, que se aferrava à vida com coragem e desfrutava de seu colorido e sua variedade. Apaixonava-lhe aprender de outros e, a julgar por seus escritos, parecia estar igualmente ansioso por compartilhar seus conhecimentos de modo que todos vissem o mesmo encanto que ele via. Sua morte tinha sido uma perda não só para sua mulher, a arqueologia e a recuperação de objetos antigos, mas para quem o conhecia, o entusiasmo do mundo em geral.

Mesmo assim, pôr fim a vida do Adinett não arrumava nada. Charlotte duvidava que dissuadisse alguém de cometer um crime no futuro. O que detinha às pessoas era a certeza de um castigo, não sua severidade. Todos davam por assentado que sairiam impunes, de maneira que o castigo carecia de importância.

Gracie entrou pela porta traseira, pela qual tinha saído para recolher os arenques que trazia o menino da peixaria.

— Será nosso jantar — disse com tom enérgico percorrendo a cozinha para deixar a bandeja na despensa. Seguiu falando consigo mesma absorta no que ia preparar para cada comida, quantas batatas ou farinha sobravam, e se dispunha de suficientes cebolas. Tinham utilizado um montão destas ultimamente para dar sabor a pratos muito simples.

Nos últimos dias Gracie se mostrava abstraída. Charlotte achava que tinha que ver com o Tellman. Sabia que tinha estado ali outra noite, embora não o tivesse visto. Tinha ouvido sua voz e não os tinha incomodado a propósito. Ter ao Tellman sentado na cozinha, exatamente como se Pitt estivesse ali, fazia ainda mais entristecedora a sensação de solidão.

Alegrava-se pela garota, e era muito consciente, bastante mais que a mesma Gracie, de que Tellman estava liberando uma batalha perdida contra seus sentimentos por ela. Entretanto, nesse momento lhe era difícil fingir que se congratulava de algo. Já era bastante duro sentir falta de Pitt. As tardes pareciam eternas agora que não estava pendente de se o ouvia chegar. Não tinha a ninguém a quem contar como lhe tinha ido o dia, embora não tivesse ocorrido nada de extraordinário. Poderia ter sido algo tão corriqueiro como uma flor recém aberta no jardim, uma intriga ou talvez uma brincadeira. E se por alguma razão as coisas se torciam, talvez não o mencionasse, mas saber que poderia havê-lo feito fazia que toda a irritação parecesse temporária, algo que podia passar-se por alto. Era estranho como a felicidade que não se compartilhava era a metade de grande e, entretanto, qualquer classe de infortúnio se multiplicava por dois quando a pessoa estava só.

Contudo, muito pior que a solidão era sua inquietação pelo Pitt, a preocupação diária habitual de se comia bem, não passava frio, se tinha a alguém que lhe lavava a roupa! Tinha encontrado um lugar bastante confortável e agradável onde viver? O que realmente a angustiava era se estava fora de perigo, não só de anarquistas, dinamiteiros ou quem fosse que procurasse, mas sim de seus inimigos secretos e muito mais poderosos do Círculo Interior.

O relógio deu a hora e Charlotte foi vagamente consciente disso. Gracie esvaziou a cinza da estufa e jogou mais carvão.

Charlotte tratava de não pensar, de não imaginar, e durante o dia quase o conseguia. Entretanto de noite, assim que tinha a mente em branco, os medos vinham em turba. Estava emocionalmente exausta, e fisicamente não o bastante cansada. Nunca tinha estado no Spitalfields, mas não lhe custava imaginá-lo: ruelas estreitas e escuras com figuras escondidas nos saguões, tudo úmido e mortiço, como à espera de jogar-se sobre o incauto.

Despertava muitas vezes no meio da noite, consciente de cada rangido, do espaço vazio que havia a seu lado na cama, perguntando-se onde estava Pitt, se também estava acordado, sentindo-se só.

Às vezes o fato de ter que fingir que se sentia bem, para não preocupar as crianças, lhe parecia muito uma tarefa impossível; em outras ocasiões era uma disciplina que agradecia. Quantas mulheres ao longo dos séculos tinham fingido enquanto seus homens lutavam na guerra, exploravam terras desconhecidas, cruzavam oceanos transportando mercadorias ou simplesmente tinham fugido por ser imprudentes e desleais. Ao menos ela sabia que Pitt não era nada de tudo isso e retornaria assim que pudesse. Ou quando ela descobrisse por que Adinett tinha assassinado Martin Fetters, encontraria uma resposta bastante convincente para que até os membros do Círculo Interior tivessem que acreditar e ao mundo não ficasse nenhuma dúvida.

Fechou o jornal e afastou a cadeira da mesa no preciso momento em que Daniel e Jemima entravam na cozinha, impacientes por tomar o café da manhã antes de ir ao colégio. Havia muito que fazer nesse dia, e se não já acharia algo ou o inventariaria.

O relógio deu o quarto. Já tinham batido as badaladas das oito e não o tinha percebido. John Adinett já devia estar morto, seu corpo, com o pescoço quebrado — como o do Martin Fetters — estaria preparado para ser jogado a uma tumba pouco profunda, e sua alma para responder por seus atos ante o Juiz que tudo sabe.

Sorriu para as crianças e começou a preparar o café da manhã.

Pouco depois das dez, enquanto ordenava o armário da roupa branca pela segunda vez essa semana, Gracie subiu para lhe anunciar a presença da senhora Radley, só que era desnecessário porque Emily Radley, a irmã de Charlotte, estava um passo atrás dela. Tinha um aspecto esmagadoramente elegante, com um traje de montar verde escuro, um chapeuzinho escuro de aba dura e copa alta, e uma jaqueta de corte tão excepcional que realçava cada linha de sua esbelta figura. Estava um pouco tinta do esforço, e o cabelo loiro se tinha soltado e encaracolado com o ar úmido.

— O que está fazendo? — perguntou olhando as montanhas de lençóis e capas de travesseiros estendidos ao redor do Charlotte.

— Separando a roupa branca para remendar — respondeu esta, consciente de repente do aspecto tão desalinhado que tinha ao lado de sua irmã — esqueceu como se faz?

— Não tenho certeza se alguma vez soube — respondeu Emily com ares de grandeza. Se Charlotte se casou com um homem social e economicamente por baixo de sua classe, Emily pelo contrário tinha escolhido um de condição muito superior. Seu primeiro marido havia possuído tanto título como fortuna. Tinham-no matado fazia bastante tempo, e depois de um período de luto e solidão Emily havia tornado a contrair matrimônio, desta vez com um bonito e encantador homem sem posses. Era a ambição de Emily que o tinha empurrado a apresentar-se como candidato para ocupar uma cadeira no Parlamento, que tinha acabado conseguindo.

Gracie voltou a desaparecer escada abaixo.

Charlotte deu as costas a sua irmã e continuou dobrando capas de travesseiro, empilhando-as com esmero onde tinham estado previamente.

— Thomas continua fora? — perguntou Emily baixando um pouco a voz.

— É claro que sim — replicou Charlotte com certa aspereza-. Já lhe disse isso; estará fora muito tempo. Não sei quanto.

— A verdade é que me disse muito pouco — indicou Emily agarrando uma capa e dobrando-a com cuidado — Andou com tanto mistério e parecia tão afetada que vim ver se estava bem.

— O que pensa fazer se não estiver? -Charlotte começou com um dos lençóis.

Emily pegou o outro extremo.

— Te dar a oportunidade de iniciar uma briga e te comportar de forma cruel com alguém. Parece que é o que necessita neste momento.

Charlotte a olhou fixamente, esquecendo o lençol. Emily dava de engenhosa, mas atrás de sua glamorosa fachada havia inquietação, e em seu engenhoso comentário não havia nem pingo de humor.

— Estou bem — disse Charlotte com mais suavidade — É Thomas quem me preocupa. — Ambas tinham compartilhado muitos dos casos do Pitt no passado, e Emily conhecia a paixão e a perda que podia haver em jogo. O medo não lhe era desconhecido, e já estava à corrente da existência do Círculo Interior. Charlotte não podia lhe dizer onde estava Pitt, mas sim por que estava ali.

— O que acontece? — Emily percebeu que havia mais do que lhe tinha feito acreditar, e desta vez sua voz deixou transparecer ansiedade.

— O Círculo Interior — murmurou Charlotte — Acredito que Adinett era um deles, de fato estou certa. Não perdoarão ao Thomas por havê-lo condenado. — Sua voz soava trêmula-. Enforcaram-no esta manhã.

O semblante de Emily era sombrio.

— Sei. Os jornais tornaram a falar se era realmente culpado. Ninguém parece ter idéia de por que ia querer fazer tal coisa. Thomas não tem nenhuma pista?

— Não.

— E não está tentando averiguá-lo?

— Não pode — respondeu Charlotte com voz muito baixa, descendo a vista para o linóleo do chão — Afastaram-no de Bow Street e foi enviado ao East End… em busca de anarquistas.

— O que? — Emily estava horrorizada — Isso é monstruoso! A quem acudiu?

— Ninguém pode fazer nada a respeito. Cornwallis fez tudo que estava em sua mão. Se Thomas estiver em alguma parte do East End… e ninguém sabe onde, permanece no anonimato, ao menos está a salvo deles.

— No anonimato no East End? — O rosto de Emily refletia com muita clareza seu pavor, e todos os perigos que previa sua imaginação.

Charlotte desviou o olhar.

— Sei. Poderia lhe passar algo e demoraria dias em me inteirar sequer.

— Não lhe acontecerá nada — se apressou a dizer Emily — E está mais a salvo lá que aqui, onde ainda podem encontrá-lo. — Entretanto, em sua voz havia mais coragem que convicção — O que podemos fazer para ajudá-lo? — acrescentou.

— Entrevistei a senhora Fetters — explicou Charlotte imitando sua atitude positiva — mas não sabe nada. Estou tratando de descobrir que mais fazer. Entre os dois homens tem que existir alguma conexão pela qual brigaram, mas, quanto mais averiguo do Martin Fetters, mais parece um homem insolitamente decente, incapaz de fazer mal a ninguém.

— Então não está procurando onde deve — afirmou Emily com franqueza — Suponho que descartaste todo o claro: dinheiro, chantagem, uma mulher, rivalidade por algum cargo. — Parecia desconcertada — por que eram amigos, por certo?

— Viagens e reforma política, que sua mulher saiba. — Charlotte dobrou o último lençol. — Quer uma xícara de chá?

— Não — respondeu Emily — mas prefiro me sentar na cozinha que seguir junto ao armário da roupa branca. Discute alguém a sério sobre viagens?

— Duvido-o. Além disso, nem sequer viajavam aos mesmos lugares. O senhor Fetters ia ao Oriente Próximo, enquanto que Adinett preferia a França e tinha estado no Canadá no passado.

— Então é um assunto político. — Emily a seguiu escada abaixo e passou pelo corredor que conduzia à cozinha. Elogiou a Gracie pela bolacha, cujo aroma enchia o lugar. Em nenhuma outra casa se teria dirigido à criada, mas sabia o carinho que Charlotte professava à menina abandonada.

Charlotte pôs água a ferver.

— Os dois queriam uma reforma — continuou.

Emily se sentou colocando-se habilmente as saias para que não lhe enrugassem.

— Não a quer todo mundo? Jack diz que a situação está se tornando bastante desesperada. — Baixou a vista para suas mãos, pequenas, elegantes e surpreendentemente fortes — Sempre houve mostras de descontentes, mas agora é muito pior que há inclusive dez anos. Chegam a Londres muitíssimos estrangeiros, e não há suficiente trabalho. Suponho que faz anos que há anarquistas, mas agora há mais, e são muito violentos.

Charlotte sabia. Aparecia bastante freqüentemente nos jornais, incluído o julgamento de um anarquista francês chamado Ravachol que tinha tentado voar um restaurante. E sabia que em Londres a maioria dessas pessoas se achavam no East End, onde a pobreza era pior e mais profunda a insatisfação. Esse era o pretexto para enviar ao Pitt ali.

— O que ocorre? — perguntou Emily ao ver sua expressão.

— Acha que de verdade são um perigo? Quero dizer mais que os loucos que andam soltos por aí.

Emily refletiu uns instantes antes de responder. Charlotte se perguntou se o fazia para procurar as palavras adequadas, para analisar o que sabia ou, pior ainda, se era questão de tato. Se tratava-se do último, então a resposta instintiva devia ser muito desagradável. Não era próprio de Emily andar-se com rodeios, o que era muito diferente de ser matreira, que tão bem lhe dava.

— Em realidade — sussurrou quando Gracie serviu por fim o chá — acredito que Jack está muito preocupado, nem tanto pelos anarquistas, que não são mais que uns loucos, mas sim pelos sentimentos que percebe em todas as partes. Verá, a monarquia é muito impopular, e não só entre a classe de pessoas que esperaria, mas entre algumas que são muito importantes e talvez não imaginasse.

— Impopular? — Charlotte estava desconcertada — Em que sentido? Sei que as pessoas pensam que a rainha deveria fazer muito mais, mas levam anos dizendo-o. Acha Jack que agora é diferente?

— Não sei se diferente. — Emily estava muito séria. Escolheu com cuidado as palavras, sopesando-as antes das pronunciar — Mas afirma que é muito mais grave. O príncipe de Gales gasta muitíssimo, como sabe, e quase tudo é emprestado. Deve dinheiro em todas as partes e a toda classe de pessoas. Não parece capaz de refrear-se, e se dá conta do prejuízo que está causando, não lhe importa.

— Prejuízo político? — perguntou Charlotte.

— Em longo prazo, sim. — Emily baixou a voz — Há certas pessoas que acreditam que quando morrer a velha rainha será o fim da monarquia.

— Sério? — Charlotte estava perplexa. Era um pensamento surpreendentemente desagradável. Não estava muito certa porque lhe importava tanto. Tiraria cor à vida, parte de seu glamour. Embora pessoas nunca vissem as condessas e as duquesas, se deixassem de existir e no mundo não houvesse modo de ser algum dia uma dama, e muito menos uma princesa, as coisas pareceriam um pouco mais cinzas. A pessoa sempre teria heróis, verdadeiros ou falsos. Na aristocracia não havia nada intrinsecamente nobre, mas os heróis que a substituiriam não seriam escolhidos forçosamente por sua virtude ou seus lucros; poderia ser por sua riqueza ou beleza. Então a magia desapareceria sem nenhum motivo e sem benefício algum.

Era um argumento bobo, sabia. O que importava era a mudança, e uma mudança nascida do ódio assustava porque com muita freqüência se realizava de forma irrefletida e ignorante. Tantas coisas podiam passar-se por alto.

— Isso é o que diz Jack. — Emily a observava com atenção, sua xícara de chá esquecida — E o que mais lhe preocupa é que há interesses poderosos que são monárquicos e fariam algo para que tudo continuasse como está. Algo! — mordeu o lábio — Quando me disse isso, pressionei-lhe para que me explicasse o que queria dizer, mas não me respondeu. Calou-se e ficou pensativo, como faz quando algo o inquieta. Parecer-lhe-á estranho que lhe diga isso, mas acredito que está assustado. — interrompeu-se bruscamente e baixou de novo a vista para suas mãos, como se houvesse dito algo do que se envergonhava. Talvez não tivesse previsto revelar tantas intimidades.

Charlotte sentiu frio. Já havia muitas coisas das que estar assustado. Queria saber mais, mas não tinha sentido pressionar ao Emily. Se tivesse sabido expressá-lo em palavras, o teria feito. Era um pensamento desagradável e difícil de comunicar.

— Uma pessoa não se dá conta de quanto valoriza o que tem, com todos seus problemas, até que alguém ameaça destruí-lo e introduz suas idéias em seu lugar — comentou compungida — Não me importariam umas poucas mudanças, mas não quero muitas. Acha que poderia introduzir-se só umas poucas? Ou tem que ser ou tudo ou nada? Terá que destruir tudo para mudar as coisas?

— Isso depende das pessoas — respondeu Emily com um sorriso tenso e triste — Se ceder, então não. Mas se não o faz e se dá de Maria Antonieta, então talvez seja a coroa ou a guilhotina.

— Era tão estúpida?

— Não sei. Só era um exemplo. Ninguém vai decapitar a nossa rainha. Ao menos me custa imaginá-lo.

— Não acredito que os franceses imaginassem tampouco — respondeu Charlotte com secura — Tomara não o tivesse pensado!

— Nós não somos franceses. — A voz de Emily soava firme, inclusive furiosa.

— Isso diga ao Carlos I — observou Charlotte visualizando o genial e triste retrato de Van Dyck desse homem pouco afortunado, fiel as suas crenças até a alma.

— Isso não foi uma revolução. — Emily se refugiou no sentido literal.

— Foi uma guerra civil. Acaso é melhor? — disse Charlotte.

— Não são mais que palavras! Os políticos e seus pesadelos. Se não fosse por isso, seria pelo de mais à frente, a Irlanda, os impostos, a jornada de oito horas ou as bocas-de-lobo. — Emily deu de ombros com elegância — Se não houvesse um problema terrível que solucionar, para que os necessitaríamos?

— Certamente não os necessitamos… a maioria das vezes ao menos.

— É isso o que lhes dá medo. — Emily se levantou — Quer vir conosco a ver a exposição da National Gallery?

— Não, obrigada. Programei visitar de novo à senhora Fetters. Acredito que tem razão, O mais provável é que seja um assunto político.

Charlotte chegou ao Great Coram Street pouco depois das onze da manhã. Era uma hora menos apropriada para fazer visitas, mas não se tratava de uma visita social, e tinha a vantagem de que era muito improvável que encontrasse com alguém mais e se visse obrigada a justificar sua presença.

Juno se alegrou de vê-la e não se incomodou em dissimulá-lo.

Encheu-se o rosto de alívio por ter companhia.

— Entre! — exclamou entusiasmada — Tem notícias?

-Não, lamento — Charlotte se sentiu culpada por não ter averiguado nada mais. Depois de tudo, a perda dessa mulher era muito maior que a sua — pensei muito, mas a única coisa que tirei clara foram mais idéias.

— Posso ajudá-la?

— Talvez. — Charlotte aceitou o assento que lhe oferecia, na mesma encantadora sala que dava ao jardim. Esse dia estava mais fresco e a porta estava fechada — O desejo de uma reforma política parece ser o assunto evidente que tinham em comum o senhor Fetters e Adinett, sobre o que ambos estavam profundamente preocupados.

— OH, a Martin preocupava muitíssimo — confirmou Juno — Discutia por isso e escreveu muitos artigos. Conhecia muita gente que pensava como ele, e achava que algum dia chegaria. — Guarda algum desses artigos? — perguntou Charlotte. Não tinha certeza de se serviriam de algo, mas não lhe ocorreu nada melhor.

— Devem estar entre seus papéis. — Juno se levantou — A polícia os revistou, é claro, mas continuam estando na escrivaninha de seu gabinete. Eu não tive a coragem de lê-los de novo — explicou em voz baixa, de costas para Charlotte. Depois saiu e cruzou o corredor até o gabinete, no qual a fez entrar.

Era uma estadia menor que a biblioteca, sem as janelas altas nem a luz do sol, apesar do que era agradável, e saltava à vista que se utilizara muito. Havia uma só estante cheia e, em cima da escrivaninha, dois livros encadernados em couro. Nas prateleiras de trás havia montões de papéis e folhas.

Juno se deteve, com o rosto apagado.

— Não sei o que vamos achar aqui — disse indecisa — A polícia não achou nada além de alguma estranha nota sobre uma reunião, e dois ou três escritos quando John... O senhor Adinett, foi à França. Não eram absolutamente pessoais, só descrições muito vividas de certos lugares de Paris, a maioria relacionados com a Revolução. Martin tinha escrito muitos artigos sobre esses mesmos lugares, e Adinett dizia que estes significavam muito mais para ele agora que contava com a visão do Martin. — emocionou-se ao recordar uma época não tão longínqua em que as coisas tinham sido tão diferentes. Aproximou-se das prateleiras que havia atrás da escrivaninha e tirou algumas publicações periódicas, que folheou — Aqui há todo tipo de artigos. Gostaria de lê-los?

— Sim, por favor — respondeu Charlotte, de novo porque não tinha um ponto de partida melhor. Dar-lhes-ia uma olhada e ponto.

Juno as estendeu. Charlotte observou que as tinha editado Thorold Dismore. Abriu a primeira e começou a ler. Martin Fetters escrevia desde Viena, enquanto passeava pela cidade e se detinha nos lugares onde os revolucionários do levantamento de 1848 tinham lutado para obrigar ao governo do pouco vivo imperador Fernando a fazer algum tipo de reforma das leis opressoras, dos onerosos impostos e das desigualdades.

Charlotte se tinha proposto folheá-las unicamente, para formar uma idéia dos ideais do Fetters, mas foi incapaz de saltar uma frase. O artigo adquiria vida com uma paixão e uma angústia que a cativaram por completo, e esqueceu o gabinete do Great Coram Street e Juno, sentada a uns metros de distância. Imaginou a voz do Martin Fetters e visualizou seu rosto, cheio de entusiasmo ante a coragem dos homens e das mulheres que tinham lutado. Sentiu sua indignação ante a derrota final e um vivo desejo de que algum dia suas ambições se cumprissem.

Passou ao artigo seguinte. Tinha sido escrito em Berlim e devia ser o mesmo tema. Percebia-se o amor pela beleza da cidade e a individualidade de sua gente, a história de seus esforços por reduzir o poder militar da Prússia e, ao final, seu fracasso.

Em outro escrevia de Paris, talvez o artigo ao que se referiu John Adinett nas cartas que tinha encontrado Pitt. Era mais longo que os anteriores, cheio de um amor profundo por uma cidade magnífica presa do terror, uma esperança tão intensa que doía até através das palavras impressas. Fetters tinha estado onde viveu Danton, feito seu último percurso em carreta até a guilhotina, o momento mais grandioso do Danton, quando já tinha perdido tudo e visto como a Revolução destruía a seus próprios filhos no corpo, e ainda mais terrível, na alma.

Fetters tinha estado na rua St. Honoré, frente à casa do carpinteiro que tinha agasalhado ao Robespierre, quem enviou a uma morte tão sangüenta a tantos milhares de pessoas e, entretanto, nunca viu a máquina da destruição até que ele mesmo foi a seu encontro, pela última vez.

Fetters tinha passeado pelas mesmas ruas onde os estudantes levantaram as barricadas durante a revolução de 1848, que tão poucas coisas obteve e tão caro custou. Charlotte tinha um nó na garganta quando terminou de ler e se obrigou a iniciar a leitura do seguinte artigo. Entretanto, se Juno a tivesse interrompido e pedido que os devolvesse, teria tido a impressão de que lhe arrebatavam algo e se sentiria de repente muito sozinha.

Fetters escrevia desde Veneza, que lhe parecia a cidade mais formosa do mundo, até sob o jugo austríaco, e de Atenas, antigamente a maior cidade república, o berço da democracia, hoje esqueleto de sua antiga glória, o espírito profanado.

Escrevia, por último, de Roma, de novo sobre a revolução de 1848, a breve glorifica de outra república romana, sufocada pelos exércitos do Napoleão III, e a volta do papa, o esmagamento de todo o amor pela liberdade e justiça, por uma voz pelo povo. Escrevia sobre Mazzini, que vivia no palácio papal, em uma sala, comendo passas, e sobre suas flores frescas diárias. Escrevia sobre as façanhas do Garibaldi e sua apaixonada e feroz mulher, que tinha morrido ao terminar o sítio, e sobre Mario Corena, o soldado republicano que estava disposto a dar tudo que possuía pelo bem comum: seu dinheiro, suas terras, sua vida se fosse necessário. Se tivesse havido mais homens como ele, não teriam perdido.

Charlotte deixou o último artigo em cima da escrivaninha. Tinha a cabeça cheia de heroísmo e tragédia, o passado e o presente unidos, e acima de tudo a presença inevitável da voz do Martin Fetters, suas convicções, sua personalidade, seu profundo e sacrificado amor pela liberdade individual dentro de um tudo civilizado.

Se John Adinett o tinha conhecido tão bem como todos afirmavam, devia ter tido uma razão esmagadora para tirar a vida a semelhante homem, algo tão poderoso que era capaz de vencer a amizade, a admiração e o carinho que compartilhavam por uns ideais. Não lhe ocorria qual podia ser essa razão.

De repente lhe assaltou um pensamento, como uma nuvem que atravessa o sol: podiam haver-se equivocado, depois de tudo, sobre o assassinato? Havia dito Adinett a verdade todo o tempo?

Manteve o olhar baixo para ocultar à Juno seus sentimentos. Sentia-se como se tivesse traído ao Pitt por ter tido sequer tal pensamento.

— Escrevia de uma forma extraordinária — afirmou — Não só tenho a impressão de ter estado ali e visto tudo que ocorreu nessas ruas, mas me importa quase tanto como a ele.

Juno esboçou um leve sorriso.

— Assim era Martin tão cheio de vida que nunca me passou pela cabeça que pudesse morrer, não de verdade. — Falava com voz doce, distante. Parecia quase surpreendida — Parece ridículo que para todos outros a vida continua como se nada... Parte de mim quer cobrir as ruas de palha e pedir às pessoas que conduzam devagar. Outra parte quer fazer como se não tivesse acontecido nada; tornou a partir e voltará em alguns dias.

Charlotte levantou a vista e percebeu a luta em seu rosto. Compreendia-a tão bem. Sua solidão só era uma mínima parte da dela. Pitt estava bem, só se achava a uns poucos quilômetros, no Spitalfields. Se retirasse-se do corpo de polícia, poderia retornar a casa qualquer dia. Entretanto, isso não responderia nenhuma pergunta. Charlotte tinha que saber que ele não se equivocara com respeito ao Adinett, e por que, e devia demonstrara todos.

Talvez Juno precisasse sabê-lo com a mesma urgência e seu rosto sombrio se devesse ao medo ao que podia descobrir a respeito de seu marido. Devia tratar-se de algo enorme e, para o Adinett ao menos, intolerável.

E secreto! Tinha preferido ir à forca a falar disso, embora só fosse para justificar-se.

— Será melhor que continuemos procurando — disse por fim — Talvez o que necessitamos não esteja nesta sala, mas é o melhor lugar para começar. — Era o único, no momento.

Juno se agachou obediente e abriu as gavetas da escrivaninha. Para abrir uma delas mandou trazer da cozinha uma faca, que utilizou para fazer alavanca, com o que estilhaçou a madeira.

— Uma lástima — disse mordendo o lábio — Não acredito que possa reparar-se, mas não tinha chave.

Começaram por ela, posto que tivesse sido protegida especialmente contra intrusos.

Charlotte tinha lido três cartas quando começou a perceber nelas certas pautas. Todas tinham sido cuidadosamente redigidas: um olhar superficial não teria descoberto nelas nada fora do normal; de fato, eram bastante sóbrias. O tema era teórico: a reforma política de um estado que não tinha nome, de cujos líderes se falava pessoalmente em lugar do cargo que desempenhavam. Não havia dramatismo nem paixão, só ideais; como se tratava de um exercício mental, algo que se escreve em um exame.

A primeira carta era do Charles Voisey, o juiz do tribunal de apelação.

 

Estimado Fetters:

Li seu artigo com supremo interesse. Propõe muitas questões nas quais concordo, algumas das quais não tinha considerado antes, mas ao ponderar o que você diz acredito que sua opinião é correta.

Em outros terrenos não posso ir tão longe como você, mas compreendo as influências que recebeu, e se estivesse em seu lugar talvez compartilhasse sua opinião, embora não em todo seu extremismo.

Obrigado pela cerâmica, que chegou sem incidentes e agora adorna meu gabinete. É uma peça muito deliciosa, que me recorda as glórias do passado e o espírito de grandes homens com quem tão em dívida estamos uma dívida da qual, como afirmou você, a história nos fará responsáveis, mesmo que nós não o façamos.

Tenho muita vontade de conversar mais extensamente com você.

Seu aliado na causa, CHARLES VOISEY

 

A seguinte, de tom similar, era do Thorold Dismore, o dono do jornal. Também se desfazia em elogios para com o trabalho do Fetters e lhe pedia que escrevesse uma nova série de artigos. Tinha data muito recente, de modo que certamente os artigos não se chegaram a escrever. Havia um rascunho do Fetters no qual aceitava a proposta. Não havia forma de saber se a carta definitiva tinha sido enviada ou não.

Juno lhe estendeu uma missiva do montão que tinha pegado, com o olhar cheio de inquietação. Era do Adinett. Charlotte a leu:

 

Meu querido Martin:

Que artigo mais maravilhoso escreveu. Não posso elogiar bastante a paixão que demonstra. Só um homem desprovido de tudo que distingue a civilização da barbárie não se sentiria acalorado por suas palavras, e resolvido a empregar todas suas forças e fortuna em criar um mundo melhor, custe o que custar.

Mostrei-o a várias pessoas, que não nomeio por razões que bem conhece, e estão tão cheias de admiração como eu.

Acredito que há verdadeiras esperanças. Já é hora de que deixemos de sonhar.

Vê-lo-ei sábado.

JOHN

 

Charlotte levantou a vista.

Juno a olhava com os olhos muito abertos, cheios de dor. A seguir lhe passou um maço de rascunhos de novos artigos.

Charlotte os leu com crescente receio, depois com alarme. Cada vez se mencionava de forma mais específica a reforma. Aludia-se com apaixonados elogios à revolução romana de 1848. A antiga república romana se considerava um ideal, e os reis, modelo de tirania. O convite a constituir uma república moderna depois da derrocada da monarquia era inconfundível.

Havia referências tangenciais a uma sociedade secreta cujos membros estavam consagrados a manter como fosse a casa real em todo seu poder e riqueza, e se dava a entender que o derramamento de sangue não era impossível se a ameaça fosse bastante séria.

Charlotte deixou a última folha e olhou para Juno, que estava sentada, o semblante pálido, os ombros afundados.

— É possível? — perguntou Juno com voz rouca — Acredita que tinham realmente previsto instaurar uma república aqui, na Inglaterra?

— Sim, — Parecia uma resposta brutal, mas negá-lo teria sido uma mentira que nenhuma das duas teria acreditado.

Juno permaneceu imóvel em seu assento, apoiada ligeiramente contra a escrivaninha, como se necessitasse que a força desta a sustentasse.

— Depois que morresse a rainha?

— Talvez.

— Isso é muito logo. — Juno meneou a cabeça — Poderia ser qualquer dia. Já completou setenta anos. O que será do príncipe de Gales? O que vão fazer com ele?

— Não se menciona aqui — sussurrou Charlotte — Acredito que se guardariam muito bem para pô-lo por escrito se de verdade houver um plano e não se trata de um mero sonho. Sobre tudo se existir, como dizem uma sociedade secreta.

— Compreendo a necessidade de uma reforma. — Juno tratava de achar as palavras — Eu também a quero. Há uma pobreza e uma injustiça intoleráveis. É curioso que não mencionem às mulheres! — Tentou sorrir, mas era muito difícil — Não dizem nada sobre que tenhamos mais direitos ou mais voz nas decisões, embora só seja por nossos filhos. -Meneou a cabeça, com os lábios trêmulos. — Mas eu não quero isto! -Fez um gesto para afastá-lo de si-. Sei que Martin admirava as repúblicas, seus ideais e sua igualdade, mas ignorava que a ambicionasse para nós. Não quero, Não quero tantas mudanças. — Engoliu a saliva — Não de uma forma tão violenta. Eu gosto muito do que temos. É o que somos... O que sempre fomos. — Olhou ao Charlotte com expressão suplicante, desejando que a compreendesse.

— Nos contamos entre os afortunados — indicou Charlotte — E somos uma minoria insignificante.

— Por isso o mataram? — Juno formulou em alto a pergunta que se abatia sobre ambas.

— Era Adinett membro dessa outra sociedade, a secreta, e assassinou Martin por este plano de instaurar a república?

— Isso explicaria por que não disse nada, embora só fosse em sua própria defesa. — A Charlotte lhe amontoavam as perguntas na cabeça. Era monárquico o Círculo Interior? Disso se tratava, e Adinett tinha descoberto o que planejava seu amigo, que seu idealismo não ficava nas glórias do passado ou as tragédias de 1848, mas sim era urgente e imediato respeito ao futuro?

Se isso era certo, de que modo podia ajudar ao Thomas?

Juno seguia sentada com o olhar perdido. Algo em seu interior se derrubara. O homem a quem tinha amado durante tantos anos se moveu de repente e deixou à vista outra dimensão que alterava a imagem que tinha tido dele, que o fazia radicalmente diferente, violento, talvez até perigoso.

Charlotte o lamentava muitíssimo; queria dizer-lhe, mas teria mostrado condescendente, como se tivesse descoberto ela sozinha essa situação, relegando Juno ao papel de espectadora que sofre, em lugar de protagonista.

— Tem cofre? -perguntou.

-Não. Acredita que haveria mais papéis nela? — inquiriu por sua vez Juno com ar abatido.

— Não sei, mas acredito que deveria guardar estas cartas e papéis, agora que essa gaveta já não fecha. Não deveria destruí-las ainda, porque só estamos fazendo conjeturas sobre o que significam. Poderíamos estar equivocadas.

Nos olhos de Juno não havia luz.

— Você não acredita, e eu tampouco. Martin estava profundamente interessado pela reforma. Recordo o que dizia sobre as repúblicas em comparação com as monarquias. Ouvi-o criticar o príncipe do Gales e à rainha. Disse que se a rainha tivesse tido que prestar contas ao povo britânico, como qualquer outro titular de um cargo, faz anos que teria sido destituída. Quem além dela pode permitir-se abandonar suas funções porque perdeu a seu marido?

— Ninguém — concordou Charlotte — Há muita gente que diz o mesmo. Acredito que eu mesma o faço. Isso não significa que prefira uma república ou que, embora a preferisse, faria algo para instaurá-la.

Juno reuniu os papéis com expressão carrancuda.

— Não há provas neles — sussurrou como se as palavras lhe doessem e tivesse que obrigar-se a pronunciá-las.

Charlotte esperou indecisa, procurando o modo de expressar a conclusão que se seguia disso. Antes de encontrá-la Juno falou:

— Deve haver outros papéis em alguma parte, uns mais específicos. Tenho que encontrá-los. Preciso saber o que se propunha fazer se era isso quão único queria.

Charlotte percebeu a tensão em seu interior.

— Tem certeza?

— Não quereria você sabê-lo? — perguntou Juno.

— Sim, Acredito que sim. Referia a se tem certeza de que há mais papéis.

— OH, sim! — Na voz de Juno não havia rastro de dúvida — Estes não são mais que fragmentos, notas. Talvez estivesse totalmente equivocada sobre no que trabalhava Martin, mas sei como trabalhava. Era meticuloso. Nunca confiava só na memória.

— Onde poderiam estar?

— Não o...

Viram-se interrompidas pela criada, que entrou para anunciar a presença do senhor Reginald Gleave, quem rogava que o desculpasse pela inconveniência da hora; desejava vê-la e uns compromissos inadiáveis lhe faziam impossível ir a uma hora convencional.

Juno parecia desconcertada. Voltou-se para Charlotte.

— Esperarei onde me indique — se apressou a dizer.

Juno engoliu a saliva.

— Recebê-lo-ei na sala de estar — disse à criada — Espere cinco minutos, depois o faça entrar. — Assim que a criada saiu, voltou-se para Charlotte — Que demônios quer? Defendeu Adinett!

— Não tem por que o receber. — -Charlotte falou movida pela compaixão, mas sabia que era desperdiçar uma oportunidade única para averiguar mais. Juno estava exausta, aterrorizada pelo que podia descobrir, e se sentia profundamente só — irei dizer lhe que não se sente bem, se o desejar.

-Não... Não. Mas lhe agradeceria que ficasse comigo. Acredito que isso seria o apropriado, não?

Charlotte sorriu.

-É claro.

Gleave se mostrou surpreso quando o fizeram entrar e viu as duas mulheres. Em seguida se fez evidente que não conhecia Juno, já que por um instante não esteve seguro de quem era quem.

— Sou Juno Fetters — disse com frieza — E esta é minha amiga, a senhora Pitt. -Havia desafio em sua voz, em seu queixo elevado. Ele sem dúvida recordaria o nome e o associaria sem falta.

Charlotte percebeu reconhecimento no olhar do Gleave, seguido de um brilho de cólera.

— Encantado, senhora Fetters. Senhora Pitt? Não sabia que se conheciam. — inclinou-se muito levemente.

Charlotte o estudou com interesse. Não era particularmente alto, mas seus poderosos ombros e seu grosso pescoço davam a impressão de corpulência. Seu rosto não lhe era agradável, mas denotava inteligência ou uma grande força de vontade. Era um simples advogado apaixonado que tinha perdido um caso, em sua opinião injustamente? Ou era um membro de uma sociedade violenta e secreta, disposto a cometer um assassinato em privado, ou a protagonizar uma revolta e uma insurreição em público para tornar realidade seus ideais?

Observou seu rosto, seus olhos, e não soube dizê-lo.

— O que posso fazer por você, senhor Gleave? — perguntou Juno com voz ligeiramente trêmula.

O olhar do Gleave se deslocou dos olhos de Charlotte aos seus.

— Em primeiro lugar, permita que lhe dê meus mais sentidos pêsames, senhora Fetters. Seu marido era um grande homem em todos os sentidos. Nenhuma aflição pode igualar-se à sua, é claro; mesmo assim, todos saíram perdendo com seu falecimento. Era um homem de moralidade irrepreensível e grandes faculdades intelectuais.

— Obrigado — respondeu ela cortês, com uma expressão que raiava a impaciência. Ambos sabiam que não tinha vindo para dizer isso. Teria sido preferível fazê-lo por carta, que se recorda melhor e é menos perturbador.

Gleave baixou o olhar, como se sentisse perturbado.

— Senhora Fetters, tenho muito interesse em que saiba que defendi ao John Adinett porque o acreditava inocente. Jamais teria inventado qualquer desculpa para justificar o que fez. — Levantou rapidamente o olhar — Continua me sendo quase impossível acreditar que fosse capaz de fazer algo assim. Não havia nenhuma razão!

Charlotte se deu conta com um calafrio de que observava ao Juno com tanta atenção que devia perceber o mais mínimo tremor ou piscada. Observava-a como observa um animal a sua presa. Tinha vindo para averiguar quanto sabia Juno, se tinha averiguado, deduzido ou suspeitado de algo.

Charlotte desejou com todas suas forças que Juno não dissesse nada, que se mostrasse insossa, inocente, até estúpida se fosse preciso. Devia intervir e fazer-se encarregada pela situação? Ou isso daria a entender que estava assustada, o que só podia dever-se a que sabia algo? Respirou fundo.

— Não — disse Juno devagar — É claro que ele não o fez. Reconheço que eu tampouco o entendo. — Relaxou o corpo, começando pelas mãos. Até sorriu levemente — Sempre achei que existia entre ambos uma grande amizade. — Não acrescentou nada mais.

Não era o que ele tinha esperado. Por um instante se vislumbrou indecisão em seu rosto, mas em seguida desapareceu e sua expressão relaxou.

— É assim como você o vê? — Devolveu-lhe o sorriso, evitando o olhar de Charlotte — Me perguntava se talvez tivesse alguma idéia do que pôde ter ido tão tragicamente mal entre os dois, Provas não, é claro — se apressou a acrescentar — ou teria ido às autoridades pertinentes, só idéia ou alguma intuição, fruto do conhecimento que você tinha de seu marido.

Juno guardou silêncio.

Gleave falava com voz enjoativa, mas Charlotte voltou a perceber um vislumbre de dúvida. O advogado não esperava que a conversa fosse por esses roteiros. Não a controlava como tinha sido sua intenção. Juno o obrigava a falar mais da conta porque oferecia menos. Agora tinha que explicar a razão de seu interesse.

— Desculpe-me por voltar a trazer o assunto, senhora Fetters, mas o caso segue me preocupando porque parece sem resolver. Eu... — Meneou a cabeça ligeiramente — Tenho a sensação de ter fracassado.

— Acredito que todos o fizemos na hora de compreendê-lo, senhor Gleave — respondeu Juno — Tomara pudesse lhe esclarecer algo, mas temo que não possa.

— Deve ser muito penoso também para a senhora. — A voz do Gleave destilava compaixão — É parte da dor tentar entender.

— É muito amável — se limitou a dizer ela.

No olhar do Gleave houve um brilho de interesse, quase imperceptível, e Charlotte se deu conta de que Juno tinha cometido um engano. Tinha sido mais cautelosa que sincera. Devia intervir? Ou só conseguiria piorar as coisas? De novo esteve a ponto de tomar a palavra. Quem era Gleave? Um mero advogado que tinha perdido a um cliente a quem achava inocente, ou do que talvez lhe pedisse contas seus colegas? Ou um membro de uma poderosa e terrível sociedade secreta, que tinha ido para averiguar quanto sabia a viúva, se havia papéis ou provas que era preciso destruir?

— Reconheço — continuou Juno de repente — Eu gostaria de saber por que... O que... — Meneou a cabeça e os olhos se encheram de lágrimas — por que morreu Martin. E não sei! Não tem nenhum sentido.

Gleave respondeu da única maneira possível.

— Lamento-o muitíssimo, senhora Fetters. Não era minha intenção afligi-la. Foi uma estupidez de minha parte tocar no assunto. Perdoe-me.

Ela fez um gesto de negação.

— Compreendo-o, senhor Gleave. Você acreditava em seu cliente. Também deve estar consternado. Não há nada que perdoar. Em realidade teria gostado de lhe perguntar se sabe a razão, mas, é claro, embora soubesse, não me poderia dizer, Ao menos me deixou claro que sabe tanto como eu. Agradeço. Talvez agora consiga superá-lo e pensar em outras coisas.

— Sim, sim, isso seria o melhor — concordou ele, e pela primeira vez olhou Charlotte abertamente, esquadrinhando-a com seus olhos escuros e perspicazes, talvez a acautelando. — Encantado de conhecê-la, senhora Pitt. — Não acrescentou mais, mas no ar ficou flutuando o que tinha querido dizer e não tinha expressado.

— O mesmo digo senhor Gleave — respondeu ela, encantada.

Mal Gleave saiu e a porta se fechou atrás dele, Juno se voltou para Charlotte. Estava pálida e tremia.

— Queria averiguar o que descobrimos! — disse com voz rouca — Por isso veio, não é?

— Sim, acredito que sim — assentiu Charlotte — O que significa que tem razão ao suspeitar que haja algo mais. E ele tampouco sabe onde está, mas é importante!

Juno estremeceu.

— Então temos que encontrá-lo! Vai ajudar-me?

— É claro.

— Obrigada. Pensarei onde procurar. Enfim, quer uma xícara de chá? Eu sim!

Charlotte não tinha explicado a Vespasia o que tinha ocorrido a Pitt. A princípio lhe tinha dado vergonha, embora não cabia atribuí-lo a uma negligência de seu marido, mas bem ao contrário. Entretanto, via-o como um golpe que preferia que ninguém mais soubesse e menos alguém como Vespasia, cuja opinião importava a Pitt tanto como a ela a dele.

Entretanto, todo o assunto se converteu em uma carga que não se via capaz de levar sozinha, e não tinha a ninguém a quem confiar-se, salvo a Vespasia, não só por sua lealdade, mas sim por sua capacidade para compreender os problemas e saber o que aconselhar.

Daí que Charlotte aparecesse em sua porta na manhã seguinte de sua visita à Juno Fetters. A criada a fez entrar. Vespasia estava tomando o café da manhã e convidou Charlotte a sentar-se com ela na sala de café da manhã amarela e dourada, e tomar pelo menos um chá.

— Parece nervosa querida — observou com suavidade, passando uma pequena quantidade de manteiga e uma grande colherada de geléia de damasco em uma fina torrada. — Suponho que veio me falar disso.

Charlotte se alegrou de não ter que fingir.

— Sim. Em realidade ocorreu faz três semanas, mas até ontem não compreendi quão grave é. Na verdade não sei o que fazer.

— Não tem Thomas uma opinião? — Vespasia franziu a testa e deixou de prestar atenção à torrada.

— Afastaram-no de Bow Street e o transferiram ao Ramo Especial para trabalhar no Spitalfields. — Charlotte deixou brotar as palavras com toda a angústia que sentia: a incerteza e o medo que tinha que ocultar das crianças, em parte até ao Gracie — Pior ainda, deve viver ali. Não tornei a vê-lo. Nem sequer posso lhe escrever, porque não sei onde está! Ele me escreve, mas não posso lhe responder!

— Sinto muito, querida — disse Vespasia, a tristeza impressa em seu rosto. Se também estava zangada, isso vinha depois. Tinha visto muita injustiça para continuar surpreendendo-se.

— É em vingança por seu testemunho contra John Adinett — explicou Charlotte.

— Entendo. — Vespasia deu uma delicada dentada à torrada. A criada trouxe chá recém feito e serviu Charlotte.

Assim que a criada saiu, Charlotte prosseguiu. Explicou a Vespasia que se propusera averiguar o motivo da morte do Martin Fetters, e que com tal propósito tinha visitado Juno. Reproduziu com tanta exatidão como foi possível o que tinha lido nos papéis da escrivaninha do Fetters, e depois a visita do Gleave.

Vespasia guardou silêncio durante vários minutos.

— Isto é extremamente desagradável — disse por fim — É lógico que esteja assustada. É algo muito perigoso. Inclino-me a compartilhar sua opinião sobre o propósito da visita do Reginald Gleave à senhora Fetters. Devemos supor que tem um interesse pessoal no assunto, e é possível que esteja disposto a investigá-lo por todos os meios.

— Inclusive a violência? — Charlotte o perguntou pela metade.

Vespasia não dissimulou.

— Sem dúvida, se não restar outra possibilidade. Deve ser extremamente discreta.

Charlotte não pôde evitar sorrir.

— Qualquer outra pessoa me teria aconselhado que o deixasse estar!

— E o teria feito? — Os olhos prateados da Vespasia se iluminaram.

— Não.

— Bem. Se houvesse dito que sim, ter-me-ia mentido, e eu não gosto que me mintam, ou me haveria dito a verdade e então me teria decepcionado muito. — inclinou-se um pouco por cima da mesa de madeira polida — A advertência vai a sério, Charlotte. Não estou certa do que há em jogo, mas acredito que muito. O príncipe de Gales é imprudente, no melhor dos casos. No pior, é um esbanjador que não se importa com sua fama de pouco honrado do ponto de vista econômico. Vitória faz tempo que perdeu seu sentido do dever. Entre ambos deixaram o campo livre para que aflore o sentimento republicano, e isso é o que ocorreu. Não me tinha dado conta do perto que estava da violência, nem que contasse com homens tão admirados como Martin Fetters. Mas o que averiguaste explicaria sua morte como não o fez nada até a data.

Charlotte caiu na conta de que tinha esperado pela metade que Vespasia lhe dissesse que estava equivocada, que tinha que haver alguma outra resposta, mais pessoal, e que a sociedade tal como a conheciam não corria perigo. O fato de que lhe desse razão acabou com todo fingimento.

— São os membros do Círculo Interior os que apóiam a monarquia a todo custo? — perguntou baixando a voz apesar de que ninguém pudesse ouvi-las.

— Não sei — admitiu Vespasia — Não sei o que se propõem, mas não me cabe a menor duvida de que estão dispostos a consegui-lo a custa de todos nós. Considero que é melhor que permaneça calada — acrescentou muito séria — Não fale com ninguém. Acredito que Cornwallis é um homem de honra, mas não estou totalmente certa. Se o que me deu a entender é verdade, topamos com algo de enorme poder, e um assassinato mais ou menos careceria de importância salvo para a vítima e seus seres queridos. Espero que a senhora Fetters faça o mesmo.

Charlotte estava pasmada. O que tinha começado como um sentimento íntimo de ultraje ante a injustiça cometida com o Pitt se convertera em uma conspiração que ameaçava tudo o que conhecia.

— O que vamos fazer? — perguntou, olhando fixamente a Vespasia.

-Não tenho nem idéia — reconheceu esta — Pelo menos ainda não.

Depois que Charlotte partiu, confundida e profundamente abatida, Vespasia permaneceu sentada longo tempo na sala dourada, contemplando através da janela a esplanada de grama. Tinha vivido ao longo de todo o reinado de Vitória. Quarenta anos atrás, Inglaterra parecia o lugar mais estável do mundo, o único país onde todos os valores eram seguros, o dinheiro conservava seu valor, os sinos das igrejas repicavam nos domingos, os párocos pregavam sobre o bem e o mal, e poucos desconfiavam deles. Todo mundo sabia qual era seu lugar e em geral o aceitavam. O futuro se estendia ante eles interminável.

Esse mundo tinha desaparecido como as flores do verão.

Surpreendeu-lhe a indignação que lhe tinha produzido a notícia de que tivessem arrebatado ao Pitt seu cargo e sua vida em família, que o tivessem enviado a trabalhar ao Spitalfields, certamente para nada. Se Cornwallis era o homem que ela achava que era, então Pitt estava ao menos todo o a salvo que podia estar da vingança do Círculo Interior; isso era algo positivo.

Mas o que podia fazer ela? Já não recebia o elevado número de convites que antigamente, mas ainda tinha onde escolher. Nesse dia, podia assistir a uma festa de jardim em Astbury House se o desejasse. Tinha decidido declinar o convite, e assim o tinha comunicado no dia anterior a lady Weston. Entretanto, conhecia várias pessoas que iriam, entre outras Randolph Churchill e Ardal Justen Aceitaria, depois de tudo. E talvez visse ali ao Somerset Carlisle, um homem em quem confiava.

Era uma tarde cálida e agradável, e os jardins se achavam em plena floração. Não poderia ter feito um dia melhor para uma festa ao ar livre. Vespasia chegou tarde, como era seu costume ultimamente, e achou a esplanada de grama reluzente das sedas e musselinas dos formosos vestidos, e as rodas dos chapéus cobertos de flores, envolvidos em gaze e tule, e como todos outros se viu em contínuo perigo de ser atravessada com a ponta de alguma sombrinha dirigida com descuido.

Exibia um vestido de dois tons, de azul lavanda e cinza, e um chapéu, inclinado com desenvoltura, cuja aba se curvava para cima como a de um pássaro. Só uma mulher a que trazia sem cuidado o que outros pensassem dela se teria atrevido a escolher tal modelo.

— Maravilhoso, querida — disse lady Weston com frieza — É verdadeiramente único, estou certa. — Com o que queria dar a entender que o conjunto estava passado de moda e não veria ninguém mais com ele.

— Obrigado — respondeu Vespasia com um sorriso deslumbrante — É muito generoso de sua parte. — Observou de cima abaixo o pouco imaginativo vestido azul de lady Weston, com uma expressão de rechaço — Um dom tão maravilhoso.

— Como diz? — Lady Weston estava confundida.

— A modéstia de admirar a outras pessoas — explicou Vespasia.

Depois, com outro sorriso, recolheu a saia e deixou lady Weston soltando fumaça, sabendo que Vespasia a tinha vencido e dando-se conta disso só então.

Passou junto ao Thorold Dismore, dono de um jornal, cujo rosto inteligente estava cheio de profunda emoção. Falava com o Sissons, o fabricante de açúcar. Nesta ocasião Sissons parecia também transbordante de entusiasmo e energia. Mal se reconhecia nele ao chato que tinha torturado ao príncipe do Gales.

Vespasia observou com interesse a mudança operada nele e se perguntou do que podiam estar falando que os absorvia tanto. Dismore era apaixonado e excêntrico, um cruzado em busca de causas nobres, apesar de ter nascido com fortuna e posição. Era um orador brilhante, às vezes até engenhoso, embora não sobre o tema da reforma política.

Sissons tinha chegado a sua posição graças a seus próprios esforços, e tinha parecido falto de inteligência e socialmente inepto ao tratar com um membro da família real. Talvez fosse dos que se sentiam intimidados em presença de alguém da linha direta de sucessão ao trono. A certas pessoas paralisava o gênio, a outras a beleza, a umas poucas o status.

Entretanto, intrigava-lhe saber o que tinham esses dois homens em comum que os absorvia tanto.

Jamais o averiguaria. Achou-se cara a cara com Charles Voisey, que a contemplava divertido com os olhos entrecerrados para protegê-los do sol. Ela não soube interpretar a emoção que refletia seu rosto. Não tinha nem idéia se a agradava ou não, se a admirava ou a desprezava, ou inclusive se a expulsava de sua mente assim que a perdia de vista. Não era uma sensação que lhe fosse agradável.

— Boa tarde, lady Vespasia — a saudou ele cortês— Um jardim lindo. — Percorreu com o olhar a profusão de cores e formas, as sebes escuras e lindamente cortadas, a grama uniforme e um canteiro, de luminosos lírios arroxeados cujas curvadas pétalas deixavam atravessar a luz — Tão inglês — acrescentou.

Com certeza, era. Enquanto permaneciam ali parados, Vespasia recordou o calor de Roma, os ciprestes escuros, o ruído da água ao cair das fontes, como música que reverbera em pedra. De dia tinha que entreabrir os olhos para protegê-los do sol deslumbrante, mas pela tarde a luz ocre e rosada era tênue, e banhava tudo de uma beleza que sanava as feridas de violência e abandono.

Mas isso tinha que ver com o Mario Corena, não com o homem que tinha adiante.

— Há algo particularmente intenso nestas semanas escassas de pleno verão. Talvez porque são muito curtas, e muito incertas. Amanhã poderia chover.

O olhar dele não se afastava dela.

— Está pensativa, lady Vespasia, e um pouco triste. — Não era uma pergunta.

Ela esquadrinhou seu rosto à luz do sol implacável. Este revelava cada defeito, cada rastro deixado pela paixão, o temperamento ou dor. Até que ponto lhe tinha doído que tivessem enforcado Adinett? Tinha percebido uma nota de cólera em sua voz quando tinha falado com ele no vestíbulo, antes da apelação. Entretanto, tinha sido um dos juízes que tinham integrado a maioria que o tinha condenado. Dado que tinham sido quatro contra um, se tivesse votado em contra teria delatado sua lealdade sem mudar o resultado. Isso devia tê-lo mortificado! Tratava-se de amizade pessoal ou de paixão política? Ou simplesmente de fé em sua inocência? A acusação não tinha conseguido dar com nenhum motivo, e menos ainda provar algum.

— É claro — disse ela sem comprometer-se — Parte do prazer está em saber que durará pouco, e na certeza de que retornará embora nem todos o vejamos.

Ele a observava com muita atenção, esquecida toda pose de despreocupada cortesia.

— Nem todos o vemos agora, lady Vespasia.

Ela pensou no Pitt no Spitalfields, no Adinett em sua tumba, nos milhões de pessoas sem nome que não estavam ao sol entre as flores. Não havia tempo para jogar.

— Muito poucos de nós o fazemos, senhor Voisey, mas ao menos existe e há esperança. É preferível que as flores se abram para uns poucos que para ninguém.

— Desde que nos contemos entre esses poucos! — exclamou ele com veemência, e desta vez não pôde dissimular a paixão de seu rosto.

Vespasia sorriu muito devagar; não se zangou por sua grosseria. Tinha sido uma acusação.

No olhar dele se vislumbrou a dúvida de que talvez tivesse cometido um engano. Ela tinha querido que lhe mostrasse seu jogo e Voisey o tinha feito. E lhe havia custado um esforço. Não era um homem que sorrisse à ligeira, mas desta vez relaxou o rosto e lhe dedicou um amplo sorriso que deixava ver uma dentadura excelente.

— É claro, ou como poderíamos falar delas a não ser em sonhos? Mas sei que lutou como eu para implantar reformas e também se rebela ante a injustiça.

Desta vez foi ela quem pareceu vacilar. Voisey não era um homem simples, mas talvez o que o fazia tão complexo era uma integridade pouco comum. Não era impossível.

Adinett tinha matado Martin Fetters para impedir uma revolução republicana na Inglaterra? Isso era muito diferente de introduzir a reforma a base de mudar a lei ou de persuadir a quem estava no poder de que agisse.

Vespasia lhe devolveu o sorriso, desta vez com sentimento.

Um momento depois se reuniu com eles lorde Randolph Churchill, e a conversa abandonou o âmbito pessoal. Com as eleições tão próximas, era natural que saísse o tema da política: Gladstone e o preocupam-se assunto da Lei de Autonomia Irlandesa; o aumento da anarquia em toda a Europa, e os terroristas de Londres.

— Todo o East End é um paiol de pólvora — sussurrou Churchill ao Voisey, tendo esquecido aparentemente que Vespasia ainda podia ouvi-los — Só é preciso a mecha adequada para que tudo exploda.

— O que estão fazendo vocês? — perguntou Voisey carrancudo, com tom preocupado.

— Preciso saber em quem posso confiar e em quem não! — afirmou Churchill com amargura.

Voisey adotou uma expressão cautelosa.

— O que precisa é que a rainha saia de seu retiro e comece a agradar de novo ao povo, e que o príncipe de Gales salde suas dívidas e deixe de viver como se não existisse o amanhã nem o Julgamento Final.

— Dá-me tudo isso e acabaram meus problemas! — respondeu Churchill — Conheço o Warren, e Abbertine até certo ponto, mas não estou seguro do Narraway. É um homem inteligente, não me cabe dúvida, mas não sei onde estaria sua lealdade no caso.

Voisey sorriu.

Um grupo de jovenzinhas passou junto a eles rindo, olharam-nos de esguelha e adotaram rapidamente uma atitude mais decorosa. Eram bonitas, de tez pálida e sem imperfeições, vestidas com rendas e musselina de tons bolo, com as saias formando redemoinhos.

Vespasia não tinha nenhum desejo de voltar a ter sua idade, apesar de toda sua ilusão e inocência. Tinha vivido intensamente e se arrependia de poucas coisas, algum ou outro ato egoísta ou néscio, mas nunca de algo que não tivesse sabido compreender, nada que tivesse deixado de fazer por covardia; embora talvez devesse.

Não achou ao Somerset Carlisle e se sentiu decepcionada, consciente de repente de que levava muito tempo em pé. Dispunha-se a desculpar-se e ir-se quando do outro lado de uma pérgola de rosas lhe chegou a voz de Churchill. Falava tão depressa que mal entendia o que dizia.

—… referir-se de novo a isso! Já nos ocupamos do assunto. Não voltará a ocorrer.

— -Mais os vale, maldita seja! — disse outra voz em apenas um sussurro, a emoção tão intensa que a fazia irreconhecível — Outra conspiração como essa poderia significar o fim e não o digo à ligeira!

— Estão todos mortos, Deus nos livre — replicou Churchill com voz rouca-. O que esperava que fizéssemos? Chantageá-los? E onde acredita que tivesse acabado tudo?

— Na tumba — chegou a resposta — Como deve ser.

Vespasia se afastou por fim. Não tinha nem idéia do que significava o que tinha ouvido por acaso.

Um pouco mais adiante, lady Weston falava com um admirador da última peça de teatro do Oscar Wilde, O leque de lady Windermere. Os dois puseram-se a rir.

Vespasia saiu ao sol e se reuniu com eles, intrometendo-se por uma vez em uma conversa alheia. Esta era amena, corriqueira e divertida, e necessitava desesperadamente participar dela. Era familiar, calma e espontânea. Aferrar-se-ia a ela todo o tempo que fosse possível.

 

A paciência do Tellman quase tinha chegado ao limite em seu esforço por concentrar-se na série de roubos que lhe tinham atribuído. Enquanto interrogava e examinava fotos de jóias, não podia deixar de pensar no Pitt, no Spitalfields, e no que tinha feito Adinett em Cleveland Street que tanto tinha interessado ao Lyndon Remus.

Era bastante inteligente para saber que, se não se concentrasse nos roubos, nunca resolveria, e com isso não faria senão aumentar seus problemas. Entretanto, não podia evitar que lhe voasse a imaginação e, algo inusitado nele, mal chegou a hora de dar por terminada a jornada, fez isso. Sem esperar que alguém lhe dissesse algo, saiu de Bow Street e começou a investigar a sério os costumes do Remus: onde vivia, onde comia, que botequins freqüentava e a quem vendia a maior parte de suas notícias. No transcurso do último ano esta pauta tinha mudado, já que tinha havido um aumento sustentado do número de colaborações para o Thorold Dismore, até que nos meses de maio e junho tinha escrito exclusivamente para ele.

Tellman levou várias horas, até quase meia-noite, depois de fecharem as tavernas, averiguar o suficiente sobre Remus para convencer-se de que podia encontrá-lo quando o necessitasse. Na manhã seguinte mentiria a seu superior imediato, algo que nunca tinha feito. Não havia evasiva que pudesse encobrir a situação, ou a necessidade imperiosa que sentia de investigar esse mistério muito mais urgente. Teria que procurar uma desculpa logo, se o pilhavam.

Dormiu mal, apesar de que sua cama era bastante cômoda. Despertou cedo, em parte porque tinha a cabeça cheia de toda sorte de segredos ou vícios íntimos que podia ter descoberto Adinett em Mele End, e pelos que Martin Fetters o tinha ameaçado. Nada do que lhe ocorria parecia encaixar com a impressão que lhe tinha causado a pequena loja de tabaco em uma rua tão normal.

Bebeu apressadamente uma taça de chá na cozinha e comprou um sanduíche ao primeiro mascate que achou enquanto se dirigia a bom passo à habitação de Remus, junto ao Pentonville Road, para segui-lo aonde fosse que se dirigisse.

Teve que esperar quase duas horas, e se sentia abatido e furioso quando Remus saiu por fim recém barbeado, com o colarinho branco elevado e bastante rígido para ser incômodo. Tinha o cabelo penteado para trás, ainda molhado, e uma expressão alerta e ansiosa quando se pôs a andar a passo rápido para o Tellman, plantado com a cabeça encurvada sob o arco de um portal. Era evidente que estava concentrado no lugar aonde se dirigia e alheio a qualquer pessoa que se cruzasse pela calçada.

Tellman se voltou e o seguiu a uns quinze metros de distância, mas preparado para aproximar-se mais se as ruas se tornassem mais freqüentadas e se visse ante a possibilidade de perdê-lo.

Depois de quase um quilômetro teve que pôr-se a correr e só pelos cabelos pegou o mesmo ônibus, onde se deixou cair em um assento junto a um homem gordo com um casaco raiado que o olhou divertido. Tratando de recuperar o fôlego, Tellman amaldiçoou sua exagerada cautela. Remus não tinha olhado atrás nenhuma só vez. Era evidente que estava absorto no que trazia entre mãos, fosse o que fosse.

Tellman sabia perfeitamente que podia não guardar a menor relação com o caso do Pitt. Remus podia ter dado por terminada essa notícia, e ter averiguado algo ou nada. Tellman folheava toda manhã os jornais em busca de artigos relacionados com Adinett ou Martin Fetters, ou até um de autor do Remus, e não tinha encontrado nada. As primeiras páginas se concentravam nos horrores dos envenenamentos do Lambeth. Aparentemente já tinham morrido sete prostitutas jovens. Das duas uma, ou a notícia de Cleveland Street tinha sido eclipsada por essa recente atrocidade, ou Remus ainda andava atrás dela, aparentemente em direção ao Saint Pancras.

Remus desembarcou do ônibus e Tellman o fez depois dele, com cuidado de não aproximar-se muito. Entretanto, Remus seguia sem olhar atrás. Já era meia amanhã, as ruas estavam lotadas de pessoas e cada vez mais congestionadas de tráfego.

O jornalista cruzou a rua, deu uma gorjeta ao menino que varria os excrementos do meio-fio e, uma vez na outra calçada, apertou o passo. Pouco depois subia pelos degraus do Saint Pancras Infirmary.

Outro hospital! Tellman seguia sem ter nem idéia de por que tinha ido ao Guy's, do outro lado do rio.

Correu escada acima atrás dele, se alegrando de ter trazido consigo um gorro de tecido que podia encasquetar-se para diante para cobrir o rosto. Remus voltou a perguntar algo ao porteiro do vestíbulo para, em seguida, encaminhar-se a passo rápido para os escritórios da administração, com os ombros jogados para diante e balançando os braços. Procurava o mesmo que no Guy's? Não tinha encontrado o que procurava na primeira vez? Ou havia algo que comparar?

Os passos do Remus ressoavam no chão mais adiante, e os do Tellman pareciam uma má imitação atrás. Perguntou-se por que Remus não se voltava para ver quem o seguia.

Cruzaram-se com duas enfermeiras que andavam em sentido contrário, mulheres de meia idade e rosto cansado. Uma levava um balde abafado que, a julgar por seu corpo inclinado, pesava. A outra tinha nas mãos um fardo de lençóis manchados e se detinha continuamente para recolher os extremos que arrastava pelo chão.

Remus virou à direita, subiu por um breve lance de escadas e bateu numa porta. Quando esta se abriu, entrou. Um pequeno rótulo indicava que era o escritório de registros.

Tratava-se de uma espécie de sala de espera onde havia um homem calvo apoiado sobre um balcão. Atrás dele havia prateleiras cheias de pastas e fichários. Outras três pessoas procuravam informação de algum tipo. Dois eram homens vestidos com trajes escuros que não lhes assentavam bem; por sua semelhança era possível que fossem irmãos. A terceira era uma mulher entrada em anos com um chapéu de palha estragado.

Remus se incorporou à fila e esperou sua vez trocando de perna o peso do corpo, impaciente.

Tellman se deteve perto da porta e tratou de passar inadvertido. Olhou ao chão, com a cabeça encurvada para que o gorro lhe caísse de maneira natural para diante e lhe ocultasse o rosto.

Conseguiu ver as costas do Remus, os ombros elevados e rígidos, os punhos fechando-se e abrindo-se a suas costas. Tão importante era o que procurava que não se dava conta de que o seguiam? Percebia a excitação nele, mas ignorava a que se devia; só suspeitava que fosse algo relacionado com o John Adinett.

Os dois irmãos tinham averiguado o que queriam e saíram juntos. A mulher se aproximou do balcão.

Passaram vários minutos mais antes que se desse também por satisfeita e lhe chegasse por fim a vez de Remus.

— Bom dia — disse alegremente — Soube que é a você a quem devo me dirigir se quero perguntar algo sobre os pacientes do hospital. Dizem que ninguém sabe mais desta instituição que você.

-Dizem isso? — O homem não se deixava abrandar tão facilmente — E que deseja saber? — Avançou o lábio inferior — Intuo que não tem que ver com sua família ou o teria dito. Nem com os preços de ingresso, que pode averiguar sem o menor problema. Parece-me um cavalheiro muito preparado para necessitar ajuda para algo tão simples.

Remus ficou desconcertado, mas se apressou a aproveitar-se disso.

— É claro — reconheceu — Estou tratando de dar com um homem que poderia ser bígamo, ou ao menos isso é o que me disse certa senhora. Eu não estou tão certo.

O empregado se dispunha a fazer um comentário, mas pensou melhor.

— E acredita que poderia estar ingressado aqui? — perguntou — Pelo contrário-. Tenho arquivos do passado, não dos que estão agora aqui.

— Não; agora não — esclareceu Remus — Acredito que morreu aqui, o que acaba o assunto de qualquer modo.

— Como se chamava?

— Crook. William Crook — respondeu Remus com voz um tanto trêmula. Parecia lhe faltar o fôlego. Tellman conseguia lhe ver a nuca, onde o colarinho branco e duro lhe beliscava a carne — Morreu aqui no final do ano passado?

— Então como se fez? — inquiriu o empregado de escritório.

— Se fez? — Remus se inclinou sobre o balcão e ergueu a voz, com o corpo rígido, para acrescentar — Preciso, preciso sabê-lo!

— Sim, morreu aqui, o pobre homem — respondeu o empregado, receoso — Como outras muitas pessoas cada ano. Poderia tê-lo averiguado consultando os arquivos públicos.

— Já sei! — Remus não se deixou desalentar — Que dia morreu?

O outro não se moveu.

Remus deixou uma moeda em cima do mostrador.

— Consulte os arquivos e me diga de que religião era.

O empregado de escrivaninha olhou a moeda — era uma quantidade de dinheiro considerável — e decidiu que era uma maneira bastante fácil de ganhá-la. Voltou-se para as prateleiras que havia a suas costas, pegou um grande livro encadernado em azul e o abriu. Remus não afastou o olhar dele. Continuava sem reparar no Tellman, em pé junto à porta, nem no homem magro de cabelo loiro avermelhado que entrou um momento depois.

Tellman espremia os miolos. Quem era William Crook, e por que era tão importante que tivesse morrido em um hospital? Ou sua religião? Dado que havia falecido no ano anterior, que relação podia ter tido com o Adinett ou Martin Fetters? Cabia a possibilidade de que Adinett o tivesse assassinado e Fetters se inteirara? Isso seria motivo para matá-lo.

O empregado de escritório levantou a vista.

— Em 4 de dezembro. Católico romano, segundo sua viúva, Sarah, que o ingressou.

Remus se inclinou e falou com voz cuidadosamente contida, mas mais alta:

— Católico romano. Tem certeza? É isso o que põe em sua ficha?

— Acabo de dizer-lhe não? — O empregado de escritório se irritou.

— E seu endereço antes de ingressar aqui?

O empregado de escritório consultou a página e titubeou. Remus entendeu e tirou outro xelim, que deixou no balcão com um ruído metálico.

— No número 9 do Saint Pancras Street — respondeu o empregado de escritório.

— Saint Pancras Street? — Remus estava perplexo, sua voz cheia de incredulidade — Tem certeza? Não vivia em Cleveland Street?

— No Saint Pancras Street — repetiu o empregado de escritório.

— Quanto tempo fazia que vivia ali? — inquiriu Remus.

— Como quer que saiba? — replicou-o o empregado com razão.

— O número 9?

— Isso.

— Obrigado. — Remus se voltou e saiu com a cabeça inclinada em atitude pensativa. Nem sequer se deu conta de que Tellman saiu atrás dele, perdendo sua vez.

Tellman o seguiu a certa distância enquanto o jornalista voltava sobre seus passos, ainda imerso no desconcerto e decepção. Entretanto, não vacilou em mesclar-se com a multidão e andar com brio até o final do Saint Pancras Street, onde procurou o número 9. Bateu na porta e, retrocedendo um passo, esperou.

Tellman permaneceu na calçada de frente. Se tivesse cruzado a rua a fim de aproximar-se bastante para escutar a conversa, até o Remus em seu estado abstraído teria reparado nele.

Abriu a porta uma mulher corpulenta, realmente alta — Tellman calculou que media mais de metro e oitenta — e de expressão desanimada.

Remus a tratou com muita deferência, como se lhe tivesse o maior respeito, e ela pareceu abrandar-se um pouco. Falaram uns minutos, depois o jornalista se inclinou pela metade e, depois de tirar o chapéu, voltou-se e partiu muito depressa, tão entusiasmado que até desceu de um salto um par de degraus. Tellman teve que pôr-se a correr para alcançá-lo.

Remus foi direito à estação do Saint Pancras e entrou pela porta principal.

Tellman procurou em seus bolsos e apalpou três moedas de meia coroa, um par de xelins e uns poucos pennies. O mais provável era que Remus só viajasse um par de paradas. Seria bastante fácil segui-lo, mas valia a pena o risco? A mulher alta do número 9 devia ser a viúva do William Crook, Sarah. O que havia dito ao Remus para dissipar sua confusão e desalento? Certamente que se tratava do mesmo William Crook que tinha vivido em outro tempo em Cleveland Street ou tinha alguma outra relação estreita com essa rua. Tinham falado vários minutos, de modo que devia lhe haver dito o que ele queria saber. Algo sobre o Adinett?

Remus se aproximou do guichê de venda de bilhetes.

Tellman decidiu averiguar pelo menos aonde ia. Havia mais pessoas no vestíbulo, de forma que conseguiu aproximar-se mais a ele sem chamar a atenção. Manteve-se atrás de uma jovem com uma bolsa de tecido e uma ampla saia azul celeste.

— Ida e volta em segunda classe a Northampton, por favor — pediu Remus com tom premente e alterado — Quando sai o próximo trem?

— Não há nenhum antes de uma hora, senhor — respondeu o empregado — São quatro xelins e oito peniques. Tem que baldear em Bedford.

Remus lhe entregou o dinheiro e pegou o bilhete.

Tellman se voltou rapidamente, saiu da estação e desceu pelos degraus até a rua. Northampton? Isso estava a quilômetros de distância! O que podia haver ali que estivesse relacionado? Deslocar-se até esse lugar lhe custaria tanto tempo como dinheiro, e não dispunha nem do um nem do outro. Era um homem prudente, não impulsivo. Seguir Remus até lá entranhava um risco terrível.

Sem tomar uma decisão voltou sobre seus passos e se encaminhou de novo para o hospital. Dispunha de uma hora antes que o trem partisse; calculou que demoraria uns quarenta minutos pelo menos e ainda ficaria tempo para retornar, comprar um bilhete e pegar o trem, se quisesse.

Quem era William Crook? Que importância tinha sua religião? O que tinha perguntado Remus a sua viúva, além de se tinha alguma relação com Cleveland Street? Tellman estava furioso consigo mesmo por seguir com o caso, e com o resto do mundo porque Pitt se achava em apuros e ninguém pensava fazer nada a respeito. Em todas as partes havia injustiça, mas as pessoas se ocupavam de seus assuntos e olhavam para outro lado.

Pensou em como diria ao Gracie que tudo isso tinha muito pouco sentido e certamente nada que ver com o Adinett. Cada vez que tratava de achar as palavras adequadas, lhe pareciam muito meras desculpas. Visualizou seu rosto com tanta clareza que se sobressaltou. Era como se estivesse vendo-a, a cor de seus olhos, a luz refletida em sua tez, a sombra que projetavam suas pestanas, a forma em que sempre se estirava umas mechas de cabelo deixando-os um pouco suspensos junto a sua sobrancelha direita. Conhecia tão bem a curva de sua boca como a sua própria no espelho que utilizava para barbear-se.

Gracie não se daria por vencida. Desprezá-lo-ia se ele o fizesse. Imaginava a expressão de seus olhos e lhe doía muito. Não podia permitir que isso ocorresse.

Deu meia volta e se encaminhou para o oeste, ao número 9 do Saint Pancras Street. Se parava-se a pensar o que estava fazendo lhe faltaria a coragem, de modo que não pensou. Dirigiu-se para a porta e bateu com os dedos, com a placa de polícia preparada na mão.

Abriu a mesma mulher gigantesca.

— Sim?

— Bom dia, senhora — saudou ele sem fôlego. Mostrou-lhe a placa.

Ela a examinou com atenção, com expressão impassível.

— De acordo, sargento Tellman, o que quer?

Devia tentar mostrar-se encantador ou autoritário? Era difícil ser autoritário com uma mulher desse tamanho e esse aspecto. Nunca tinha tido menos desejo de sorrir. Devia falar, ela começava a perder a paciência, era evidente em sua expressão.

— Estou investigando um crime muito grave, senhora — disse com mais segurança do que sentia — Faz meia hora segui a um homem até aqui, de estatura média, cabelo avermelhado, feições angulosas. Acredito que lhe perguntou algo sobre o finado senhor William Crook. — Respirou fundo — Preciso saber o que lhe perguntou e o que lhe disse.

— Seriamente? E por que, sargento? — A mulher tinha um marcado acento escocês, da costa oeste, surpreendentemente agradável.

— Não posso dizer-lhe senhora. Isso seria violar a confidencialidade. Só preciso saber o que lhe disse.

— Perguntou-me se tínhamos vivido em Cleveland Street. Parecia ir a vida nisso. Estive tentada de não dizer-lhe — Suspirou — Mas do que serviria? Minha filha Annie trabalhava na loja de tabaco dali. — Havia tristeza em seu rosto, que por um momento se crispou como se sentisse uma grande dor.

Depois desapareceu.

Tellman ouviu a si mesmo insistir.

— Que mais lhe perguntou, senhora Crook?

— Perguntou-me se estava aparentada com o J. K. Stephen — respondeu ela. Falava com voz lenta, como se não ficassem forças para lutar contra o inevitável — Eu não, mas meu marido sim estava. Sua mãe era prima sua.

Tellman estava desconcertado. Nunca tinha ouvido falar do J. K. Stephen.

— Entendo. — Unicamente sabia que essa informação tinha tanto interesse para o Remus que este tinha ido direto à estação e comprado um bilhete para Northampton — Obrigado, senhora Crook. Isso é tudo o que lhe perguntou?

— Sim.

— Disse-lhe por que queria sabê-lo?

— Disse que era para corrigir uma grande injustiça. Não perguntei qual. Seria uma entre um milhão.

— É claro que sim. Ele tem razão, — Inclinou a cabeça — bom dia, senhora.

— Bom dia. — A mulher fechou a porta.

O trajeto até o Northampton foi tedioso, e Tellman passou o momento dando voltas às possibilidades que lhe ocorreram a respeito do que podia andar procurando Remus. Estas se tornaram cada vez mais fantasiosas. Talvez fosse uma empresa desatinada, e o da injustiça possivelmente não tinha sido senão sua maneira de suscitar a compaixão da senhora Crook. Ou acaso só andava atrás de algum escândalo. Isso era o único que lhe tinha interessado no caso do Bedford Square, porque os jornais se apressavam a comprar um escândalo se isso aumentava o número de leitores.

Entretanto, certamente não era isso porque Adinett tinha ido a Cleveland Street e partira dali entusiasmado para, continuando, ir ver o Dismore. Ele não andava atrás dos infortúnios de outras pessoas.

Não, havia uma razão atrás disso. Se ele pudesse averiguá-la...

Ao chegar ao Northampton Remus desembarcou do trem. Tellman saiu atrás dele da estação à ensolarada rua, onde o viu parar uma carruagem de aluguel. Subiu ao atrás e deu instruções ao cocheiro de segui-lo. Permaneceu inclinado no assento, impaciente e desconfortável, enquanto percorriam a grande velocidade as ruas até que se detiveram por fim ante um lúgubre hospital psiquiátrico.

Tellman esperou junto à grade, onde poderia passar despercebido. Quando Remus saiu quase uma hora depois com o rosto aceso de emoção e os olhos brilhantes, fez a tal velocidade, caminhando com os ombros erguidos e balançando os braços, que poderia ter se chocado com o Tellman e não dar-se conta.

Deveria segui-lo de novo para averiguar aonde ia, ou entrar no hospital psiquiátrico e descobrir do que se inteirara? Decididamente o segundo. Dispunha de um tempo limitado para retornar à estação e tomar o último trem a Londres. Já seria bastante difícil explicar ao Wetron sua ausência.

Entrou no escritório e apresentou sua chapa de identificação. Tinha uma mentira preparada.

— Estou investigando um assassinato. Segui de Londres a um homem de minha estatura, uns trinta anos, cabelo avermelhado, olhos castanhos e uma expressão ansiosa. Necessito que me diga o que lhe perguntou e o que lhe respondeu.

O homem piscou surpreso, seus olhos de um azul esvaído fixos no rosto do Tellman, a mão detida no ar a meio caminho do tinteiro.

— Não perguntou sobre nenhum assassinato! — protestou — O pobrezinho morreu de morte natural, se for natural deixar morrer de fome.

— Deixar morrer de fome? — Tellman não tinha sabido o que esperar, mas não contava com um suicídio — Quem?

— O senhor Stephen, é claro. A pessoa pela qual perguntou.

— O senhor J. K. Stephen?

— Isso. — O homem fungou — O pobrezinho estava como um regador. Claro que do contrário não teria estado aqui, não?

— Morreu de fome? — repetiu Tellman.

— Deixou de comer. — O outro assentiu com expressão sombria — Se negou a tomar nada, nem um bocado.

— Estava doente? Talvez não pudesse comer — aventurou Tellman.

— Podia, mas deixou de fazê-lo de repente. — O homem voltou a fungar. — Em 14 de janeiro. Recordo-o porque foi o mesmo dia que nos inteiramos de que havia falecido o pobre duque do Clarence. Suponho que foi isso o que acabou com ele. Conhecia muito ao duque; Falava dele. Ensinou-lhe a pintar, ou isso dizia.

-Sério? — Tellman estava totalmente desconcertado. Quanto mais averiguava, menos sentido tinha tudo. Parecia pouco provável que o homem que se negara a comer até morrer nesse lugar conhecesse o filho maior de príncipe do Gales — Tem certeza?

— É claro! Por que quer sabê-lo? — O outro entreabriu os olhos. Percebia-se certo receio em sua voz. Voltou a fungar e procurou em seus bolsos um lenço.

Tellman se conteve com esforço. Não devia desperdiçar essa oportunidade.

— Só quero me certificar de que tenho ao homem adequado — mentiu esperando soar convincente.

O homem achou o lenço e se assuou energicamente.

— Era o preceptor do príncipe, não? — explicou — Suponho que quando se inteirou de que o pobre tinha morrido, tomou muito mal. Não estava bem da cabeça, pobrezinho.

— Quando morreu?

— Em 3 de fevereiro — respondeu o homem guardando o lenço — É uma morte horrível. — Havia compaixão em seu rosto — Pareceu significar algo para o tipo ao que você segue, mas que me pendurem se souber o que. Um pobre louco decide morrer… de pena, que eu saiba, e ele se vai correndo daqui. Foi como um menino com sapatos novos. Tremendo de emoção, não exagero. Não sei nada mais.

— Obrigado. Foi-me de grande ajuda. — Tellman foi de repente desagradavelmente consciente do horário de trens — Obrigado! — repetiu, e pôs-se a correr pelo corredor para a saída, onde procurou uma carruagem que o levasse de novo à estação.

Pegou o trem pelos cabelos, e se recostou com muito gosto em seu assento. Passou a primeira hora anotando tudo que tinha averiguado, e a segunda, tratando de inventar uma desculpa para o dia seguinte que se parecesse algo à verdade e, mesmo assim, convencesse ao Wetron de que se tratava de um assunto policial justificado. Não o conseguiu.

Por que o pobre Stephen tinha decidido morrer de fome ao inteirar do falecimento do jovem duque do Clarence? E que interesse tinha esse dado para o Remus? Era trágico. De todo modo o homem tinha sido aparentemente declarado louco, ou não o teriam encerrado no hospital psiquiátrico do Northampton.

E o que tinha isso haver com o William Crook, que tinha morrido em dezembro passado no hospital do Saint Pancras, de causas totalmente naturais? Que relação tinha com a loja de tabaco de Cleveland Street? Sobre tudo, por que ia importar ao John Adinett?

Quando chegaram a Londres, Tellman desembarcou de um salto e olhou a um lado e a outro da plataforma em busca do Remus. Quase tinha renunciado quando o viu descer devagar dois vagões mais adiante. Devia ter ficado adormecido. Deu um pequeno tropeção e se encaminhou para a saída.

Tellman voltou a segui-lo, correndo o risco de que o visse antes que expor-se a perdê-lo. Por fortuna estavam quase em meados de verão, e as tardes eram tão longas que as nove continuava com luz suficiente para não perder de vista a alguém a uma distância de uns quinze ou vinte metros, até indo por uma rua bastante freqüentada.

Remus se deteve em uma taverna, onde jantou algo. Parecia não ter pressa. Tellman estava a ponto de deixá-lo, depois de ter chegado à conclusão de que o jornalista tinha terminado a jornada e breve se iria a sua casa, quando este consultou seu relógio e pediu outra taça de cerveja.

De modo que lhe importava que hora fosse. Fazia tempo para ir a alguma parte ou esperava a alguém.

Tellman aguardou.

Ao cabo de um quarto de hora Remus se levantou e saiu à rua. Subiu a uma carruagem de aluguel, e Tellman quase o perdeu tratando de achar outra para ele. Apressou o cocheiro para que o seguisse a toda custa.

Pareciam ter tomado a endereço do Regent's Park. Sem dúvida não ficava perto do domicílio do Remus. Ia ver alguém com quem se citou. Tellman olhou seu relógio ao passar junto a uma luz. Eram quase às nove e meia, e começava a escurecer.

De repente, sem prévio aviso, o cocheiro se deteve e Tellman desceu.

— O que aconteceu? — perguntou bruscamente, olhando para diante.

Havia várias carruagens de aluguel ao longo da rua, junto ao parque.

— É Esse! — O cocheiro indicou mais adiante — Esse é o que busca. Serão um com três pennies, senhor.

Estava-se convertendo em um exercício realmente caro. Amaldiçoou-se por sua estupidez, mas se apressou a pagar e pôs-se a andar para a figura que via vagamente ante si. Reconheceu-a por seu andar pressuroso, como se estivesse a ponto de fazer um grande descobrimento.

Achavam-se no Albany Street, a poucos passos da entrada do Regent's Park. Tellman via claramente Outer Circle, que rodeava o perímetro, e a grama mais à frente, que se estendia uniforme na escuridão até as árvores dos Parques zoológicos Reais, a meio quilômetro de distância.

Remus pôs-se a andar para o parque. Voltou-se uma vez para olhar atrás, e Tellman deu um tropeção. Era a primeira vez que Remus mostrava algum interesse em se o seguiam. Tellman não podia fazer outra coisa que continuar caminhando como se fosse o mais natural do mundo.

Remus seguiu avançando, desta vez olhando ao redor. Esperava a alguém, ou temia que estivessem observando-o?

Tellman se escondeu entre as sombras das árvores e ficou um tanto atrasado.

Havia várias pessoas, algumas passeando em grupos de dois e três, outras não muito longe, um homem só. Remus titubeou e olhou com atenção à frente, mas pareceu ficar satisfeito e continuou andando com passo pressuroso.

Tellman o seguiu tão perto quanto se atreveu.

O jornalista se deteve junto ao homem.

Tellman morria por saber o que diziam, mas falavam quase em sussurros. Até aproximando uns três metros, inclinado para eles e com o chapéu bem encasquetado, não entendeu nenhuma palavra, mas viu suas expressões. Remus estava muito excitado e escutava com toda atenção a seu interlocutor, sem sequer olhar ao redor quando Tellman passou pelo outro lado do caminho.

O outro homem, de estatura mais que mediana, ia muito bem vestido. Levava seu chapéu de coco tão jogado para diante e a gola do casaco tão subida que meio rosto ficava oculto. A única coisa que Tellman conseguiu ver com clareza foi que suas botas eram de couro brilhante, de desenho elegante, e que o casaco lhe assentava à perfeição. Devia lhe ter custado mais do que um sargento de polícia ganhava em vários meses.

Tellman continuou andando pelo Outer Circle até a porta que dava ao Albany Street e se encaminhou para a seguinte parada de ônibus para pegar um que o levasse a casa. A cabeça lhe dava voltas. Nada do que tinha averiguado encaixava em um patrão, mas agora estava certo de que havia um. Só tinha que encontrá-lo.

Na manhã seguinte dormiu mais do que tinha previsto, e chegou ao Bow Street bem a tempo. Esperava-lhe uma nota em que lhe informava que devia apresentar-se no escritório do Wetron. Subiu triste.

Era o escritório de Pitt, mesmo que seus livros e pertences tinham sido retirados e substituídos pelos livros encadernados de couro do Wetron. Da parede pendia um taco de beisebol que certamente tinha um significado pessoal, e ainda por cima da escrivaninha havia uma fotografia, em uma moldura prateada, de uma mulher loira. Seu rosto era formoso e doce, e usava um vestido de renda.

— Sim, senhor? — disse Tellman sem esperança.

Wetron se recostou em sua poltrona, com suas sobrancelhas incolores elevadas.

— Teria a bondade de me dizer onde esteve ontem, sargento? Parece que está Acima de sua capacidade informar ao inspetor Cullen…

Tellman já tinha decidido o que dizer, mas continuava sem lhe ser fácil. Engoliu a saliva.

— Não tive oportunidade de informar ainda ao inspetor Cullen, senhor. Segui a um suspeito. Se me tivesse entretido o teria perdido.

— O nome do suspeito, sargento? — Wetron o olhava fixamente. Seus olhos eram de um azul muito pálido.

Tellman resgatou um nome de sua memória.

— Vaughan, senhor. É um conhecido negociante de objetos roubados.

— Sei muito bem quem é Vaughan — replicou Wetron com secura — Tinha as jóias do Bratbys? — Sua voz deixava transparecer um profundo cepticismo.

— Não, senhor. — Tellman tinha considerado adornar o relato, mas decidiu que com isso só se exporia a que o pilhassem. Era pouco afortunado que Wetron conhecesse o Vaughan. Não tinha contado com isso. Rezou para que ninguém pudesse demonstrar que Vaughan tinha estado em outra parte ou detido em outra delegacia de polícia!

A boca do Wetron se converteu em uma fina linha.

— Surpreende-me. Quando viu pela última vez o superintendente Pitt, sargento Tellman? E mais vale que sua resposta seja a verdade.

— No último dia que esteve aqui, no Bow Street, senhor — se apressou a responder Tellman, permitindo uma expressão ofendida — Tampouco lhe tenho escrito nem me comuniquei de outro modo com ele, antes que me pergunte isso.

— Espero que seja verdade, sargento. — Wetron falava com tom gélido — Suas instruções eram muito claras.

— Assim é — confirmou Tellman com rigidez.

Wetron não se alterou.

— Talvez queira me explicar por que o agente que estava de ronda o viu entrar em casa do superintendente Pitt faz dois dias à última hora da tarde.

Tellman sentiu um calafrio.

— Certamente, senhor — respondeu com firmeza, confiando em não ter trocado de cor — Tenho relações com a criada dos Pitt, Gracie Phipps. Fui vê-la. O agente o terá informado sem dúvida de que entrei pela porta da cozinha. Tomei uma xícara de chá e parti. Não vi a senhora Pitt. Acredito que estava em cima com as crianças.

— Não o estão vigiando, Tellman! — replicou Wetron, ligeiramente ruborizado — Viram-no por acaso.

— Sim, senhor — disse Tellman inexpressivo.

Wetron o olhou, depois baixou a vista para os papéis que tinha ante si.

— Bem, será melhor que vá informar ao Cullen. Os roubos são importantes. As pessoas espera que mantenhamos suas propriedades a salvo. Para isso nos pagam.

— É claro, senhor.

— Está sendo sarcástico, Tellman?

Este o olhou com os olhos arregalados.

— Não, senhor. Não. Estou certo de que para isso nos pagam os cavalheiros que se sentam no Parlamento.

— É você um maldito insolente! — replicou Wetron — Tome cuidado, Tellman. Você não é indispensável.

Tellman foi prudente e desta vez não disse nada. Limitou-se a pedir permissão para ir ver o Cullen e tentar deixá-lo contente lhe dizendo onde tinha estado e por que não tinha nenhuma parte que dar.

Foi um dia longo, quente e extremamente duro, a maior parte do qual o passou de um interrogatório infrutífero a outro. Até as sete da tarde não pôde escapar de suas obrigações e pegar por fim um ônibus em direção ao Keppel Street. Estava esperando desde a noite anterior para informar ao Gracie do que tinha averiguado.

Por sorte Charlotte tornava a estar em cima com as crianças. Ao que parecia tinha tomado o costume de lhes ler a essa hora.

Gracie dobrava o jogo de mesa, que desprendia um aroma maravilhoso. O algodão recém lavado, uma das coisas que Tellman mais adorava, estava seco, preparado para ser engomado.

— E então? — perguntou ela assim que entrou, antes que ele se sentasse sequer à mesa.

— Estive seguindo ao Remus. — ficou confortável, desabotoando os cordões das botas e esperando que ela pusesse em seguida água a ferver. Tinha fome. Cullen lhe tinha tido sem comer desde o meio-dia.

— Aonde foi? — Gracie o olhava com atenção; tinha esquecido as últimas toalhas.

— Ao hospital do Saint Pancras para comprovar se tinha morrido um homem chamado William Crook — respondeu ele recostando-se na cadeira.

Ela o olhou sem compreender.

— E quem era esse senhor?

— Não tenho certeza — admitiu ele — Pelo visto morreu de morte natural a finais do ano passado. Ao que parece ao Remus interessou muito o dado de que fora católico romano. O único que me parece importante sobre ele é que tinha uma filha que trabalhava na tabacaria de Cleveland Street, e sua mãe era prima do senhor Stephen, que deixou de comer até morrer de fome no manicômio do Northampton.

— O que? — Gracie estava atônita — Do que está falando?

Tellman descreveu brevemente sua viagem em trem e o que tinha averiguado no hospital psiquiátrico. Ela permaneceu sentada em silêncio absoluto com o olhar cravado nele.

— E diz que era o preceptor do pobre príncipe Eddy, que acaba de morrer?

— Isso disseram — respondeu ele.

— O que tem que ver isto com Cleveland Street? — Gracie franziu a testa — Que fazia ali Adinett?

— Não sei — reconheceu o sargento— O caso é que Remus está seguro de que tudo está relacionado. Se tivesse visto seu rosto saberia. Era como um sabujo rastreando. Quase tremeu de emoção e lhe iluminou o rosto, como um menino no Natal.

— Algo passou em Cleveland Street que desencadeou todo o resto — aventurou ela com ar meditabundo e o gesto torcido— Ou passou depois a conseqüência do que ocorreu em Cleveland Street. E Fetters e Adinett estavam inteirados disso.

— Isso parece — concordou ele — E me proponho descobrir do que se trata.

— Tome cuidado! — acautelou-o Gracie, pálida, com expressão assustada. Estendeu uma mão para ele de maneira inconsciente.

— Não se preocupe — respondeu Tellman — Remus não sabe que o segui. — Agarrou sua mão entre as suas. Ficou assombrado de quão pequena era, como a de uma menina. Ela não a afastou, e nesse momento foi tudo no que ele pôde pensar — Tomarei cuidado — prometeu. Sentia frio por dentro. Não podia permitir-se que Cullen voltasse a queixar-se dele ou que alguém o visse onde não devia estar. Tinha trabalhado desde os quatorze anos para chegar ao cargo que agora ocupava, e se o jogavam do corpo não só perderia seus ganhos, mas sim se veria em apuros quando necessitasse referências para achar outro. Embora não havia nenhum outro emprego que suscitasse seu interesse ou para o que estivesse qualificado. Toda sua vida se veria prejudicada, todos os valores de acordo com os quais tinha vivido se derrubariam. E sem emprego, e em seguida sem alojamento, como conseguiria ser algum dia o homem que aspirava a ser, um homem como Pitt, com um lar e uma esposa? Como ia ser o homem que Gracie queria que ele fosse?

Continuou falando para afastar esses pensamentos. Comprometeu-se, custasse o que lhe custasse. Devia averiguar a verdade, pelo Pitt, pela Gracie, pela honra.

— Quando Remus voltou do Northampton, não foi a sua casa. Jantou em uma taverna e se dirigiu em uma carruagem de aluguel ao Regent's Park, para reunir-se com um homem com quem devia ter combinado, porque não deixou de olhar o relógio.

— Que tipo de homem? — perguntou Gracie com um fio de voz, sem afastar ainda a mão das dele, mas sem movê-la, como para não lhe recordar que a tinha ali.

— Muito bem vestido — respondeu Tellman enquanto sentia os pequenos ossos entre seus dedos e desejava estreitá-los com mais força — um pouco mais alto do que o normal, com um casaco com a gola levantada até nesta época do ano e o chapéu bem encasquetado. Não pude lhe ver bem o rosto, e apesar de só estar a uns metros deles, não consegui entender uma só palavra do que disseram.

Ela assentiu sem o interromper.

— Depois Remus partiu a toda pressa, alterado e ansioso.

Anda atrás de algo tão gordo que mal pode conter-se, ou isso acredita. Se estiver relacionado com o Adinett, poderia ser a prova de que o senhor Pitt tinha razão.

— Sei — respondeu ela em seguida — O seguirei. Nenhum policial se fixará em mim ou pensará nada se o fizer.

— Não pode — começou ele.

— Claro que posso. — Gracie afastou a mão — Ou ao menos posso tentá-lo. Não me conhece e, embora me visse, não significaria nada para ele. De qualquer modo não pode me deter.

— Posso dizer à senhora Pitt que lhe proíba — indicou ele voltando-se para recostar na cadeira.

— Não o fará! — A expressão de horror no rosto de Gracie foi momentaneamente cômica — O que há do senhor Pitt, obrigado a viver no Spitalfields, e de todas as mentiras que se estão divulgando sobre ele?

— Então tenha muitíssimo cuidado! — exclamou ele— Não o siga muito de perto. Memoriza todos os lugares aonde vai. E volta para casa assim que anoiteça! Não entre em nenhuma taverna. — Procurou em seus bolsos, um após o outro, e tirou todo o dinheiro solto que tinha. Deixou-o na mesa — O necessitará para as carruagens de aluguel ou os ônibus.

Ficou claro no rosto de Gracie que não tinha pensado nisso. Olhou-o, sem saber se aceitava.

— Pegue! — ordenou ele — Não pode segui-lo a pé. E se voltar a sair da cidade, levanta o campo. Entendido? — Olhou-a com intensidade, com um nó no estômago — Nem te ocorra tomar um trem! Ninguém saberia onde está! Poderia lhe acontecer algo, e onde começaríamos a procurar?

Ela engoliu em seco.

— Está bem — disse com docilidade — Assim o farei.

Ele não sabia se acreditava nela. Estava surpreso por quão profundo era seu temor a que lhe acontecesse algo. Respirou fundo para dizer algo que a detivesse, mas se deu conta do ridículo que soaria. Não tinha autoridade para lhe ordenar nada, como ela seria primeira em indicar. Além disso, delataria seus sentimentos e não estava preparado para isso. Não sabia sequer como atuar ante eles, e menos ainda explicar-lhe como levava a amizade com muita dificuldade. Até isso exigia dele coisas às quais não estava acostumado e lhe expunha a sofrer. Era uma perda da independência que sempre lhe tinha infundido segurança.

Admirou Gracie por estar disposta a seguir Remus em seu lugar. Em seu foro interno se enterneceu ao pensar nisso. Isso também era uma espécie de segurança, uma amostra de confiança.

— Tome cuidado! — limitou-se a dizer.

-É claro que o terei! — Gracie tratou de parecer indignada, mas não podia afastar a vista dele e ficou vários minutos imóvel antes de levantar-se por fim para preparar algo de comer.

Na manhã seguinte pediu o dia livre ao Charlotte com o pretexto de que tinha um recado urgente que fazer. Tinha preparado uma explicação se por acaso Charlotte a pedisse, mas esta parecia contente de entreter-se com as diferentes tarefas domésticas. Distrair-lhe-iam de suas inquietações, e se tinha novos planos de seguir investigando o caso, não os compartilhou.

Gracie aproveitou a primeira oportunidade para partir. A última coisa que queria era ter uma conversa em que podia facilmente delatar suas intenções.

Tinha pouca idéia de onde achar ao Lyndon Remus a essa hora do dia. Já eram quase dez da manhã. Pelo contrário, sabia como ir a Cleveland Street em ônibus e esse era um bom ponto de partida.

Foi um trajeto longo, e se alegrou de ter aceitado o dinheiro do Tellman. Havia-se sentido perturbada, mas não cabia dúvida de que era um caso de necessidade. Algo devia fazer para ajudar ao senhor Pitt, e os sentimentos pessoais deviam deixar-se de lado. Já teriam tempo ela e Tellman de resolver sua relação mais tarde e, se lhes fosse difícil, não ficaria mais remédio que arrumar-se.

Chegou à última parada do ônibus, em Mele End Road, e se apeou. Eram às onze e cinco. Pôs-se a andar até Cleveland Street e virou à esquerda. Não tinha nada especial, só era muito mais longa e limpa rua que a tinha visto nascer e crescer; em realidade, tinha um aspecto bastante respeitável. Não se comparava com o Keppel Street, é claro, mas estava no East End.

Por onde começar? Devia adotar um enfoque direto e ir direto à loja de tabaco, ou um indireto e perguntar antes a outras pessoas sobre eles? O indireto parecia melhor. Se fosse primeiro à tabacaria e fracassasse, teria estragado tudo por tratar de ser discreta.

Percorreu com o olhar as calçadas desgastadas, os paralelepípedos desiguais, os lúgubres edifícios de fachada de tijolo, em alguns dos quais as janelas do piso superior apareciam quebradas e fechadas com tábuas. De umas poucas lareiras saíam volutas de fumaça. As entradas dos pátios ou becos eram escuras.

Que lojas havia? Um fabricante de cachimbos de argila e a oficina de um ourives. Não entendia de prata e não sabia muito mais de pipas, mas ao menos sobre estas podia improvisar algo. Aproximou-se da porta e entrou com uma história preparada.

— Bom dia, senhorita. Que deseja? — Atrás do balcão havia um jovem uns anos mais velho que ela.

— Bom dia — respondeu Gracie alegremente — ouvi dizer que têm os melhores cachimbos ao leste do St. Paul. Questão de gosto, é claro, mas quero algo especial para meu pai. O que tem?

O menino sorriu. O cabelo lhe formava um redemoinho sobre a fronte, o que lhe conferia uma expressão descarada e despreocupada.

— Serio? Pois quem o disse tinha toda a razão!

— Já faz tempo isso — explicou ela — Agora está morto, pobrezinho. William Crook. Recorda-o?

— Mentiria se dissesse que sim. — O jovem deu de ombros — Mas passam centenas de pessoas por aqui. Que tipo de cachimbo deseja?

— Talvez fosse sua filha quem o comprou — aventurou ela — Trabalhava na loja de tabaco. — Apontou com um gesto para o outro extremo da rua — Conhecia-a, não?

O rosto do jovem ficou tenso.

— Annie? É claro que sim. Era uma garota decente. Viu-a recentemente? Refiro a este ano. -Olhou ao Gracie com ansiedade.

— Não a viu você? — contra-atacou ela.

— Ninguém sabe dela há mais de cinco anos — respondeu ele com tristeza — Um dia houve uma grande bronca. Um grupo de forasteiros, autênticos rufiões, de repente começaram a bater-se. Uma briga de revide. Chegaram duas carruagens, um foi ao número 15, onde vivia o artista, e o outro aos 6. Lembro-me porque estava na rua. Os dois homens entraram na casa do artista e uns momentos depois voltaram a sair arrastando consigo o tipo, que lutava e gritava como um louco, mas de nada lhe serviu. Subiram-no à carruagem e foram embora como se o diabo os perseguisse.

— E os outros? — perguntou Gracie sem fôlego.

Ele se inclinou sobre o balcão.

— Foram ao número 6, como lhe disse. Depois saíram com a pobre Annie e a levaram. Depois não a vi. Nem eu nem ninguém, que eu saiba.

Gracie franziu a testa. Tinha passado muito tempo para que Remus ou John Adinett se interessassem por ela.

— Quem era o tipo ao que levaram? — perguntou.

— Não sei. — Ele deu de ombros — Um cavalheiro, isso sim sei. Muito dinheiro e verdadeira classe. Bastante calado a maior parte do tempo. Boa aparência, alto, com uns olhos bonitos.

— Era o amante de Annie? — conjeturou ela.

— Suponho. Ele vinha muito freqüentemente. — O rosto do jovem se escureceu e adotou um tom defensivo — Mas ela era uma garota decente. Católica, assim não se faça uma idéia equivocada dela, porque não tem direito.

— Talvez um amor trágico? — aventurou Gracie ao perceber compaixão em seu rosto — Se ele não era católico, talvez suas famílias quisessem mantê-los separados.

— Suponho. — O ajudante assentiu com um olhar triste e remoto — É uma lástima. Que tipo de cachimbo quer para seu pai?

Gracie não podia permitir-se o luxo de comprar um. Devia devolver ao Tellman todo o dinheiro que fosse possível, e ele certamente não queria um cachimbo de cerâmica, Além disso, ela preferia que não fumasse.

— Acredito que será melhor que o pergunte — disse com pesar — Não é o tipo de coisa que pode se devolver se não acertar. Obrigada. — E antes que o jovem tentasse convencê-la do contrário, deu meia volta e saiu.

Uma vez na rua, voltou sobre seus passos em endereço a Mele End Road, simplesmente porque lhe era familiar e estava concorrido; além disso, não tinha muita idéia do que podia achar no outro endereço.

Aonde ir a seguir? Remus podia estar em qualquer parte. Quanto sabia ele do assunto? Provavelmente tudo. Pelo visto essa informação era do domínio público, além de bastante fácil de conseguir. Entretanto, Remus parecia saber o que significava. Mostrou-se eufórico e em seguida tinha ido investigar a morte do William Crook.

De Cleveland Street tinha ido primeiro ao Guy’s Hospital para perguntar algo. O que? Acaso também procurava então ao William Crook? Só havia uma forma de averiguá-lo e era ir pessoalmente. Teria que inventar algo engenhoso para explicar seu interesse!

Demorou o trajeto de ônibus de novo para o oeste, e a seguir para o sul, cruzando a ponte de Londres em direção ao Bermondsey e ao hospital. Postos a mentir, por que não fazê-lo com consciência?

Comprou um bolo de frutas e uma limonada a um mascate e comeu em pé contemplando o rio. Era um dia limpo e ventoso, e muita gente tinha saído para desfrutar dele. Na água havia navios de recreio com bandeiras ondeando e pessoas que seguravam o chapéu. De algum lugar não muito longínquo chegava a música alegre e algo discordante de um realejo. Um punhado de crianças perseguiam umas às outras, gritando e rindo. Um casal passeava muita junto, agarrado pela mão; as saias da garota acariciavam as calças do jovem.

Gracie acabou o bolo e endireitou os ombros antes de encaminhar-se para o Borough High Street e ao hospital.

Uma vez dentro, dirigiu-se diretamente para os escritórios com cara de circunstâncias e fazendo o possível por adotar um ar patético. Tinha-o tentado fazia muitos anos, antes de ficar a servir em casa dos Pitt. Então era miúda e fraca, com uma carinha angulosa, normalmente suja, e tinha funcionado. Desta vez não seria tão fácil. Era uma pessoa de certa categoria. Trabalhava para o melhor detetive de Londres, o que equivalia a dizer o mundo, embora estivesse temporariamente pouco reconhecido.

— O que posso fazer por você? — perguntou o ancião atrás do balcão olhando-a por cima de seus óculos.

— Olá, senhor, estou tratando de averiguar o que foi feito de meu avô. — A idade de William Crook fazia com que esse fosse o parentesco mais plausível, calculou.

— O trouxeram doente? — perguntou o homem com amabilidade.

— Acredito que sim. — Gracie fungou. — Dizem por aí que morreu, mas eu não estou segura.

— Como se chamava?

— William Crook. Faz bastante tempo disso, mas é que acabo de me inteirar. — Voltou a fungar.

— William Crook — repetiu ele desconcertado, colocando bem os óculos — Assim, a bote logo, não lhe recordo. Está certa de que o trouxeram aqui?

Ela tratou de adotar um ar desamparado.

— Isso me disseram. Não têm a ninguém chamado Crook? Não tiveram alguma vez a ninguém com esse nome?

— Não sei se nunca. -Ele franziu o sobrecenho — Sim tivemos a uma tal Annie Crook, faz muito tempo. Trouxe-a sir William em pessoa. Estava louca, pobrezinha. Fizemos tudo o que pudemos por ela, mas foi inútil.

— Annie? — Gracie conteve um grito, tratando de não delatar sua emoção — Esteve aqui?

— Conhece-a?

— É claro. — Fez um rápido cálculo mental — Era minha tia. Em realidade eu não a conheci. Ao que parece desapareceu faz anos, em oitenta e sete ou o oitenta e oito. Ninguém me disse nunca que estivesse louca, pobrezinha.

— Sinto muito. — O homem meneou a cabeça devagar — Pode ocorrer a toda classe de pessoas. Isso mesmo disse ao outro jovem quando perguntou por ela. Mas ele não era da família. — Sorriu — Esteve melhor atendida aqui, posso assegurar-lhe Ainda quer que busque a seu avô?

— Não, obrigado. Devo ter entendido mal.

— Sinto-o — repetiu ele.

— Sim. Eu também. — Gracie se voltou, e se apressou a sair do escritório fechando a porta atrás de si sem fazer ruído antes que o homem notasse seu entusiasmo.

De novo na rua, com o vento robusto e o sol, pôs-se a correr para a parada de ônibus. Devia voltar para casa e recuperar o tempo perdido. Com sorte, Tellman a visitaria essa noite e poderia lhe contar o que tinha averiguado. Ficaria impressionado, muito impressionado. Cantarolou uma canção enquanto esperava.

— Aonde diz que foi? — perguntou Tellman; tinha seu magro rosto muito branco e as mandíbulas apertadas.

— A Cleveland Street — respondeu Gracie servindo o chá — Amanhã seguirei Remus.

— Nem pensar! Ficará aqui fazendo o trabalho que se supõe que deve fazer e onde não corre nenhum perigo! — replicou ele com voz áspera inclinando-se sobre a mesa. Estava com olheiras e tinha uma face suja. Nunca o tinha visto tão cansado.

Tellman não era ninguém para lhe dizer o que devia fazer ou deixar de fazer, naturalmente, mas lhe produzia uma sensação agradável, quase reconfortante, que se preocupasse com sua segurança. Percebia o medo em sua voz e sabia que era real. Talvez se enfurecesse, e era muito capaz de negá-lo, mas lhe importava muitíssimo o que pudesse acontecer a ela. Refletia-se em seus olhos, e Gracie o reconheceu com prazer.

— Não quer saber do que me inteirei? — perguntou, ardendo no desejo de dizer-lhe.

— Do que? — disse ele a contra gosto depois de beber um gole de chá.

— Havia uma garota chamada Annie Crook, que era filha do tal William Crook que morreu no Saint Pancras. — As palavras saíam a tropeções. — A seqüestraram da loja de tabaco de Cleveland Street, há uns cinco anos, e a levaram ao Guy's Hospital, onde disseram que a pobre estava louca, e ninguém voltou a vê-la. — Tinha tirado a bolacha, mas com a emoção tinha esquecido cortar uma porção para o Tellman — Foi alguém chamado sir William quem disse que estava louca e que não podia ajudá-la mais. E alguém mais perguntou por ela, suponho que Remus. Mas isso não é tudo! Seqüestraram ao mesmo tempo a um jovem em um estúdio de pintura de Cleveland Street, um tipo atraente e bem vestido, um senhor. O pobrezinho dava pontapés e lutava enquanto o levavam.

— Sabe quem era? — Tellman estava muito eufórico pela informação para lembrar-se de sua cólera ou da bolacha — Alguma idéia?

— O menino dos cachimbos achava que era o amante de Annie — respondeu ela — mas não estava certo. Depois disse que ela era uma garota decente, católica, e que não divulgaria nenhum escândalo sobre ela porque não seria verdade nem estaria bem — Respirou fundo — Talvez o fizessem as famílias, porque ela era católica e ele não.

— Que relação poderia ter tudo isto com o Adinett? — Tellman franziu a testa e apertou os lábios.

— Ainda não sei! Dê-me tempo! — protestou ela — Há muita gente má da cabeça, pobrezinhos. Assim como o tipo que morreu no Northampton. Não lhe parece que há loucura onde realmente importa? Talvez o senhor Fetters também soubesse.

Tellman guardou silêncio por uns minutos.

— Pode ser — disse ao cabo em um sussurro.

— Tem medo, verdade? — murmurou ela — De que não tenha nada que ver com o senhor Pitt e não lhe estejamos ajudando. — Teria gostado de acrescentar algo que o reconfortasse, mas essa era a verdade e estavam juntos nesse assunto, sem fingimentos.

Tellman se dispunha a negá-lo, ela o viu em seu rosto. Logo mudou de parecer.

— Sim — admitiu — Remus acredita estar atrás de uma grande noticia e eu gostaria de acreditar que se trata de dizer que Adinett matou ao Fetters. Mas não consigo ver como encaixa Fetters em tudo isto.

— Conseguiremos! — exclamou ela com resolução, rompendo a norma que acabava de impor-se a si mesma — Porque teve que fazê-lo por uma razão, e não pararemos até averiguá-la.

Ele sorriu.

— Gracie, não sabe do que está falando — sussurrou, mas seu olhar iluminado contradizia suas palavras.

— Sim sei — afirmou ela, e inclinando-se deu um beijo; depois retrocedeu rapidamente e pegou a faca para cortar um pedaço de bolacha.

De costas a Tellman, não percebeu que ele se ruborizou, nem que lhe tremia tanto a mão que teve que deixar a xícara na mesa para não derramar o chá.

 

Pitt continuava trabalhando para o tecedor de seda e fazendo tantos trabalhos como lhe era possível, observando e escutando. De vez em quando, de noite, fazia guarda na fábrica de açúcar e à sombra do enorme edifício ouvia o contínuo barulho do vapor das caldeiras, que permaneciam em funcionamento as vinte e quatro horas do dia, e o pouco freqüente ruído de passos sobre os paralelepípedos. O aroma dos resíduos extraídos do suco de cano enchia a escuridão com o fedor muito adocicado do putrefato.

De vez em quando patrulhava dentro do edifício, percorrendo com uma lanterna os corredores de teto baixo, perseguindo as sombras, atento aos milhares de pequenos movimentos. Intercambiava uma ou outra fofoca, mas era um intruso. Teria que trabalhar anos ali se quisesse que o aceitassem e confiassem nele sem vacilar.

Cada vez mais freqüentemente percebia a ameaça da cólera oculta sob o que pareciam conversas corriqueiras. Estava em todas as partes, na fábrica, ruas, lojas e tavernas. Uns anos atrás se teria manifestado em forma de queixas amáveis; agora havia nela um acento de violência, uma fúria a ponto de emergir.

Entretanto, o que mais o assustava era a esperança que aparecia de vez em quando entre os homens que se sentavam a refletir com um copo de cerveja, os murmúrios de que logo mudariam as coisas. Não eram vítimas do destino, mas protagonistas de suas próprias vidas.

Também era consciente de quantas classes diferentes de pessoas conviviam no Spitalfields, refugiados procedentes de toda a Europa que fugiam de algum tipo de perseguição, fosse econômica, racial, religiosa ou política. Ouvia falar um monte de idiomas diferentes, via rostos de todas as formas e cores.

Em 15 de junho, o dia seguinte a uma série de envenenamentos no Lambeth que monopolizaram todas as manchetes, Pitt voltou tarde e cansado ao Heneagle Street, e achou Isaac esperando-o. Este tinha o rosto tenso de preocupação e estava com olheiras, como se tivesse dormido pouco ultimamente.

Pitt lhe tinha tomado bastante afeição, à margem do fato de que Narraway lhe tinha confiado a ele sua segurança. Era um homem inteligente e culto, com quem gostava de conversar. Talvez porque Pitt não fosse do Spitalfields, desfrutava do tempo que passavam juntos depois de jantar, quando Leah estava na cozinha ou se deitara já. Falavam sobre toda classe de crenças e filosofias. Pitt tinha aprendido dele muito da história de seu povo na Rússia e Polônia. Às vezes Isaac falava com ironia, zombando de si mesmo. Freqüentemente era incrivelmente trágico.

Era evidente que essa noite tinha vontade de falar, mas não de temas gerais.

— Leah saiu — disse dando de ombros, esquadrinhando-o com seus olhos negros — Sarah Levin está doente e Leah foi lhe fazer companhia. Deixou-nos o jantar pronto, mas está frio.

Pitt sorriu e o seguiu até o pequeno aposento onde já estava posta a mesa. A madeira encerada, esses aromas únicos já lhe eram familiares. O jogo de mesa bordado por Leah, a foto do Isaac de jovem, a maquete de uma sinagoga polonesa construída com fósforos que só se torcera ligeiramente com os anos.

Apenas tinham sentado quando Isaac começou a falar.

— Me alegro de que trabalhe com o Saúl — comentou cortando uma fatia de pão para o Pitt e outra para ele — Mas não deveria ir à fábrica de açúcar às noites. Não é um lugar seguro.

Pitt conhecia Isaac bastante para saber que não era senão uma tática para iniciar conversa. Ia seguir-se algo mais.

— Saúl é um bom homem. — Pitt pegou o pão — Obrigado. E eu gosto de passear pelo bairro. Mas na fábrica vejo as coisas outra perspectiva.

Isaac comeu um momento em silêncio.

— Vai haver problemas — disse por fim, sem levantar o olhar de seu prato — Muitos problemas.

— Na fábrica de açúcar? — Pitt recordou o que tinha ouvido comentar nos botequins.

Isaac assentiu, depois ergueu a cabeça e o olhou fixamente.

— É inquietante, Pitt. Não sei do que se trata, mas estou assustado. Poderiam nos jogar a culpa.

Pitt não precisava perguntar a quem se referia "nós". Aludia à população judia imigrante, facilmente reconhecível, os cabeças de turco lógicos. Já estava informado pelo Narraway das suspeitas que o Ramo Especial tinha a respeito deles, e entretanto ele tinha observado que eram, em todo caso, uma influência estabilizadora no East End. Cuidavam dos seus, abriam lojas e negócios, davam às pessoas motivos pelo que trabalhar. Assim o havia dito ao Narraway. Não lhe tinha mencionado as coletas de dinheiro que faziam para os que se achavam em apuros. Tinha calado isso como uma questão de honra.

— Só é um rumor — continuou Isaac — mas não são falatórios. Isso é o que me faz pensar que é verdade. — Observava ao Pitt com atenção, com o rosto enrugado de angústia — Há algo planejado, não sei o que, mas não são os anarquistas loucos de sempre. Nós sabemos quem são assim como os fabricantes de açúcar.

— Os católicos? — perguntou Pitt com pouca convicção.

— Não. — Isaac meneou a cabeça — Estão furiosos, mas são gente normal e comum, como nós. Querem moradias, empregos, uma oportunidade para seguir adiante, um futuro melhor para seus filhos. O que iriam ganhar explodindo a fábrica de açúcar?

— Disso se trata a dinamite? — perguntou Pitt com um repentino calafrio, imaginando como as chamas arrasavam a metade do Spitalfields. Punham-se fogo às três fábricas, todas as ruas arderiam.

— Não sei — admitiu Isaac — Não sei do que se trata nem quando ocorrerá só que planejam algo definitivo e que, ao mesmo tempo, acontecerá algo grande em outro lugar, mas relacionado com o Spitalfields. As duas coisas acontecerão ao mesmo tempo, apoiando se uma na outra.

— Alguma idéia de quem está por trás? — pressionou Pitt — Algum nome?

Isaac meneou a cabeça.

— Só um, e não estou certo da conexão.

— Qual?

— Remus.

— Remus? — Pitt se sobressaltou. O único Remus que conhecia era um jornalista que costumava especializar-se em escândalos e conjeturas. Entre os habitantes do Spitalfields não havia escândalos que pudessem atraí-lo. Talvez Pitt lhe tivesse julgado mal e lhe interessava a política, depois de tudo — Obrigado. Obrigado por tudo.

— Não é muito. — Isaac lhe tirou importância com um gesto — a Inglaterra me tratou bem. Aqui me sinto bem. — Sorriu — Até falo bem inglês, não?

— É claro que sim — confirmou Pitt com afeto.

Isaac se recostou em sua cadeira.

— Agora me fale do lugar onde nasceu, os bosques e os campos.

Pitt olhou os restos da comida, que continuavam na mesa.

— O que fazemos com isto?

— Deixe-o. Leah o fará. Gosta de transportar. Zangar-se-á se me surpreende na cozinha.

— Pisou-a em alguma vez? -perguntou Pitt cético.

Isaac pôs-se a rir.

— Não... — Dedicou-lhe um sorriso torcido — Mas estou certo de que ela se zangaria. — Apontou o montão de roupa branca que havia em uma mesa lateral — Ali tem suas camisas limpas. Leah trabalha bem, não é verdade?

— Sim — concordou Pitt pensando nos botões que tinha encontrado costurados, e o tímido e agradável sorriso que tinha recebido quando tinha agradecido à mulher — Muito bem, a verdade. É você um homem afortunado.

— Sei meu amigo, sei. Agora se sente e me fale desse lugar no campo. Descreva-me isso Que aspecto tem a primeira hora da manhã? Como cheira? Os pássaros, o ar, tudo! Assim poderei sonhar com ele e acreditar que estou ali.

Foi na manhã seguinte muito cedo, ao dirigir-se à fábrica de seda, quando Pitt ouviu ruído de passos a suas costas. Voltou-se e viu o Tellman a menos de dois metros de distância. Encolheu-se o coração ao pensar que pudesse ter ocorrido algo a Charlotte ou às crianças. Depois viu o rosto de Tellman, cansado, mas não assustado, e soube que pelo menos não era nada terrível.

— O que acontece? — perguntou quase entre dentes — O que faz aqui?

Tellman o alcançou e o fez dar meia volta para continuar andando.

— Estive seguindo ao Lyndon Remus — sussurrou. Pitt se sobressaltou ao ouvir o nome, mas o sargento não o notou — A pista tem algo relacionado com o Adinett — continuou — Ainda não sei do que se trata, mas está que não cabe em si. Adinett esteve neste bairro, bom, um pouco mais ao este, em Cleveland Street.

— Adinett? — Pitt se deteve em seco — Para que?

— Pelo visto investigava uma notícia de há cinco ou seis anos — respondeu Tellman voltando-se para ele — Sobre uma garota seqüestrada em uma tabacaria a que levaram ao Guy’s Hospital e declararam louca. Aparentemente foi direito ao Thorold Dismore para lhe dar conta do assunto.

— O tipo do jornal? — perguntou Pitt, que se pôs a andar de novo e se desviou de uma montanha de escombros para em seguida voltar a subir à calçada bem a tempo de impedir que o atropelasse uma carroça carregada de tonéis precariamente colocados.

— Sim — respondeu Tellman alcançando-o — Remus recebe ordens de alguém com quem fica no Regent’s Park. Alguém que viu muito bem. Com muito dinheiro.

— Alguma idéia de quem poderia ser?

— Não.

Pitt percorreu outros vinte metros em silêncio, enquanto as idéias se amontoavam em sua cabeça. Tinha decidido não pensar mais no caso Adinett, mas este lhe tinha acossado até o ponto de analisar cada fato para tentar dar sentido a um crime que parecia contrário à razão ou a natureza. Queria compreender e, por cima de tudo, demonstrar que tinha tido razão.

— Esteve na Keppel Street? — perguntou.

— É claro — respondeu Tellman caminhando a seu passo — Estão todos bem. Sentem sua falta. — Desviou o olhar — Foi Gracie quem averiguou o dessa garota em Cleveland Street. Era católica, e tinha um amante que parecia um cavalheiro. Ele também desapareceu.

Pitt percebeu na voz do Tellman a mescla de emoções, o orgulho e o acanhamento. Em outro momento teria sorrido.

— O Avisarei se averiguar algo mais — acrescentou Tellman sem deixar de olhar à frente — Agora devo ir. Temos um novo superintendente, se chama Wetron. — Sua voz destilava desdém — Não sei onde dará tudo isto, mas não confio em ninguém, e será melhor que você tampouco o faça. Faz este percurso cada manhã?

— Quase sempre.

— Contar-lhe-ei tudo o que averigúe. Onde estará?

Pitt lhe deu o endereço. Tellman se deteve de repente e se voltou para ele, seu rosto alongado com olheiras à luz cinza, o olhar triste.

— Tome cuidado. — Em seguida, como se houvesse dito muito e lhe envergonhasse dar amostras de preocupação, virou sobre seus calcanhares e se foi por onde tinha vindo.

Gracie continuava decidida a seguir ao Lyndon Remus, mas não tinha intenção de informar a Charlotte nem a Tellman. Isso significava que era preciso dar alguma desculpa para explicar que queria sair tão cedo e estar fora talvez todo o dia. Requeria uma imaginação considerável inventar pretextos, e ela detestava mentir.

Se não fosse absolutamente necessário para resgatar Pitt da injustiça e devolvê-lo a seu lar, não o teria exposto sequer. Levantou-se pouco depois do amanhecer para ter o fogão aceso, a água fervendo e a cozinha esfregada e impecável antes que alguém descesse. Até os gatos se assustaram ao vê-la em pé às cinco e meia, não muito certos se gostavam da novidade, sobre tudo porque os tinha despertado tirando os da cesta da roupa suja sem lhes oferecer o café da manhã.

Quando Charlotte desceu às sete e meia, Gracie já tinha uma mentira preparada.

— Bom dia, senhora — disse alegremente — Uma xícara de chá?

— Bom dia — saudou Charlotte enquanto observava a cozinha com expressão surpreendida — Passou levantada a metade da noite?

— Madruguei muito. — Gracie falava com tom bastante despreocupado ao mesmo tempo em que voltava a pôr água a ferver — É que queria lhe pedir um favor, se lhe parecer bem. — Sabia que Charlotte estava a par do interesse de Tellman por ela porque no passado tinham conspirado para aproveitar-se disso, só como uma questão de necessidade. Respirou fundo. Lá ia a mentira. Permaneceu de costas a Charlotte; não se achava capaz de fazê-lo olhando-a — O senhor Tellman me pediu que fosse com ele a uma feira, se pudesse tomar o dia livre. Além disso, tenho um trabalho para fazer, umas compras. Se pudesse ir quando terminar a lavagem da roupa, o agradeceria muitíssimo. — Não soou tão convincente como tinha esperado. Sabia que para Charlotte custava cada vez mais agüentar a solidão e a preocupação, especialmente pelo pouco que podia fazer para resolver a situação.

Voltou ver a viúva do Martin Fetters ao menos duas ocasiões, mas não sabiam por onde começar a procurar os papéis que faltavam. Entretanto, a essa altura Charlotte sabia certamente mais que ninguém sobre a vida profissional do Fetters. Tinha falado a Gracie das viagens de John Adinett, seus dotes militares e suas aventuras enquanto explorava o Canadá, mas nenhuma das duas via nisso um motivo para que um homem tivesse assassinado a outro, só idéias terríveis e perigosas. Tinha comentado freqüentemente até entrada a noite, depois que as crianças se deitassem, mas sem provas nada disso servia.

Agora correspondia à Gracie descobrir o elo entre o John Adinett e as forças da anarquia ou da opressão, ou o que fosse que tivesse fazendo em Cleveland Street e que tanto entusiasmava a Remus. Mal tinha idéia do que podia ser só que Tellman estava seguro de que era um assunto desagradável e perigoso, e muito grave.

— Sim, é claro — respondeu Charlotte. Em sua voz havia certa relutância, talvez até inveja, mas não se opôs.

— Obrigada — disse Gracie desejando poder lhe contar a verdade do que se propunha fazer. Estava tentada a fazê-lo, mas, se o dissesse, Charlotte a deteria, algo que ela não devia permitir. Seria tolo e auto-compassivo. Devia acalmar-se e seguir adiante com seu plano.

Ainda restava um pouco do dinheiro que Tellman lhe tinha dado e tudo que tinha podido reunir do dela. Estava disposta a seguir a Remus aonde fosse e às oito da manhã já o esperava na rua.

Era uma manhã muito agradável e já fazia calor. As floristas estavam na calçada com flores frescas, que tinham chegado na madrugada. Gracie se alegrou de não ter que passar o dia em uma esquina, esperando vender!

Pela rua passavam vendedores de peixe, carne e verduras que batiam as portas das copas. Em um cruzamento havia uma carroça de leite. Uma mulher magra retornava a sua cozinha com um cântaro cheio. Caminhava ligeiramente inclinada por causa do peso.

O menino dos jornais, que tinha ocupado seu posto na esquina de e frente, vociferava de vez em quando as manchetes sobre as próximas eleições. Um tornado em Minnesota, Estados Unidos, que tinha cobrado trinta e três vidas. Adinett já tinha ficado esquecido.

Lyndon Remus saiu de sua casa e pôs-se a andar com brio para a via principal e a parada de ônibus, ou isso esperava Gracie com toda sua alma. As carruagens de aluguel eram caras e ela era muito de olhar o dinheiro do Tellman.

Remus caminhava com ar resoluto, a cabeça inclinada, o passo longo e cadencioso. Ia vestido com roupa comum, uma velha americana e uma camisa sem colarinho. A pessoa a que se propunha ver não era da aristocracia. Talvez tivesse intenção de voltar para Cleveland Street?

Gracie se apressou a segui-lo, correndo um pouco para alcançá-lo. Não devia perdê-lo! Podia segui-lo muito de perto; depois de tudo ele não a conhecia.

Estava certa, Remus se dirigia à parada de ônibus. Menos mal! Não havia ninguém mais, de modo que se obrigou a situar-se atrás dele para esperar. Não obstante, não tinha motivos para temer que se lembrasse dela se voltasse a vê-la. Ele parecia alheio às pessoas que o rodeavam enquanto procurava com o olhar o ônibus entre as carruagens, sustentando-se em um e outro pé com impaciência.

Gracie foi com ele até o Holbom, depois o viu subir a outro ônibus que se dirigia ao este e fez o mesmo. Pegou-a despreparada e quase ficou atrás quando ele desceu ao final do Whitechapel High Street, frente à estação de ferrovia. Propunha ir a algum outro lugar de trem?

Em lugar disso, Remus subiu pelo Court Street para o Buck’s Row, a seguir se deteve e, voltou para a direita, olhou ao redor. Gracie seguiu seu olhar, mas não viu nada nem remotamente interessante nessa direção; havia o trem que corria em direção norte, com o internato à direita e à esquerda a destilaria Smith & Company. Mais à frente havia um cemitério. Por todos os Santos, não pensaria visitar as tumbas!

Ou talvez sim. Já tinha indagado as mortes do William Crook e J. K. Stephen. Seguia a pista de uma série de mortos? Não podiam ter assassinado a todos ou sim?

Pela rua havia muito tráfego, carruagens e carretas, além de pessoas que se ocupavam de seus assuntos.

Apesar de ser um dia quente, sem uma gota de vento, Gracie tremia. O que procurava Remus? O que faria um detetive para averiguá-lo? Talvez Tellman fosse mais preparado do que ela tinha pensado. Não era uma tarefa fácil.

Remus continuava andando, olhando a ambos os lados como se tivesse em mente algo concreto, e entretanto não parecia prestar atenção aos números das casas, de modo que talvez não fosse um endereço o que procurava.

Gracie avançava muito devagar atrás dele. Se o jornalista se voltasse, ela olharia para as portas fingindo procurar também algo.

Remus deteve um homem com um avental de couro e lhe disse algo. Este negou com a cabeça e seguiu andando, apertando o passo. A seguir Remus entrou na Thomas Street, ao final da qual Gracie conseguiu ver um letreiro que anunciava o Asilo de Pobres Spitalfields, onde estes deviam trabalhar em troca de comida e alojamento. Apenas se viam seus enormes edifícios cinza, refúgio e prisão ao mesmo tempo. Ela tinha crescido temendo-os mais que o cárcere. Era a miséria extrema que aguardava os sem posses. Tinha conhecido pessoas que preferiam morrer antes de ver-se apanhada em sua tediosa regulamentação.

Remus abordou a uma anciã que levava um fardo de roupa suja.

Gracie se aproximou o bastante para ouvir o que diziam. Estava tão absorto no que perguntava que confiou em que não reparasse nela. Permaneceu de lado, olhando para o outro extremo da rua como se esperasse a alguém.

— Desculpe — começou a dizer Remus.

— Sim? — A mulher se mostrou cortês, mas nada mais.

— Vive por aqui? — perguntou ele.

— No White’s Row — respondeu ela apontando uns metros para o este, onde a rua mudava aparentemente de nome. Ficava a muito pouca distância do cruzamento, frente ao Pavilion Theatre.

— Então talvez possa me ajudar — disse ele com tom premente — Vivia aqui faz quatro ou cinco anos?

— Certamente. Por quê? — A anciã franziu o sobrecenho e entreabriu os olhos. Ficou ligeiramente rígida, enquanto segurava o fardo em equilíbrio com estupidez.

— Passam muitas carruagens por aqui? Refiro-me a carruagens, não carruagens de aluguel — perguntou Remus.

— Parece-lhe que temos carruagens por aqui? — A mulher olhou-o com expressão zombadora — Sorte terá se achar uma carruagem de aluguel. Será melhor que utilize as pernas, como fazemos.

— Não quero nenhuma agora! — Ele a pegou pelo braço — O que quero é achar alguém que viu estas ruas há quatro anos.

Olhou-o com os olhos arregalados.

— Nem sei nem quero saber. Vá embora daqui e nos deixe em paz! Vamos! Saia daqui! — soltou-se e se apressou a afastar-se.

Remus parecia decepcionado, seu rosto anguloso surpreendentemente jovem à luz matinal. Gracie se perguntou como devia ser em casa quando estava relaxado, o que lia, o que o preocupava, se tinha amigos. Por que investigava com tal ardor esse assunto? Movia-lhe o amor ou o ódio, a cobiça, o anseio de fama? Ou era simples curiosidade?

O jornalista cruzou a rua mais à frente do teatro e ao chegar ao Hanbury Street virou à esquerda. Deteve várias pessoas e lhes fez as mesmas perguntas sobre carruagens fechadas e grandes, como os que se viam recolhendo a prostitutas.

Gracie ficou muito atrasada enquanto ele percorria toda a rua até a igreja metodista livre. Quando achou por fim a alguém que lhe respondeu algo, pareceu encantado. Ergueu a cabeça, endireitou os ombros e moveu as mãos com surpreendente eloqüência.

Gracie estava muito longe para ouvir o que diziam.

Entretanto, mesmo que tivessem visto tal carruagem, o que dizia isso a ela? Nada. Algum homem com mais dinheiro que bom senso tinha ido a esse bairro em busca de uma mulher barata. Ou seja, que tinha um gosto péssimo. Ou talvez achasse emocionante o perigo que entranhava tal busca. Tinha ouvido dizer que havia pessoas assim. E se tivesse sido Martin Fetters? Se isso se tornasse público, a quem importaria, além da sua mulher?

Na realidade tratava Remus de averiguar a razão do assassinato do Fetters? Possivelmente Gracie perdia o tempo ou, para ser franca, o do Charlotte.

Tomou uma decisão.

Saiu do portal onde se ocultara, endireitou os ombros e pôs-se a andar para o Remus tratando de dar a impressão de viver ali e saber exatamente que fazia e aonde ia. Quase lhe tinha passado de comprimento quando ele por fim se dirigiu a ela.

— Desculpe!

Ela se deteve.

— Sim? — O coração lhe pulsava com força e lhe cortou de tal modo a respiração que lhe saiu voz de apito.

— Perdoe a pergunta, mas faz muito que vive aqui? Estou procurando alguém que saiba algo concreto.

Gracie decidiu modificar um pouco sua resposta, para curar-se em saúde em caso de que lhe perguntasse por fatos recentes ou a geografia do bairro, da que sabia muito pouco.

— Estive um tempo fora. — Engoliu a saliva— Vivi aqui faz anos.

— Há quatro anos? — inquiriu ele na hora, com expressão ansiosa e o rosto um pouco aceso.

— Sim — respondeu ela com cautela, olhando-o nos olhos, castanhos e penetrantes-. Vivia aqui então. Que busca?

— Recorda ter visto carruagens por aqui? Refiro a carruagens boas, não de aluguel.

Ela fez uma careta em um esforço por concentrar-se.

— Refere-se às particulares?

— Sim! Exato — disse ele com tom premente — As viu?

Gracie observou com atenção seu rosto e percebeu a emoção contida, a energia que havia em seu interior. Algo que procurava e achava extremamente importante.

— Há quatro anos? — repetiu ela.

— Sim! — Estava a ponto de acrescentar algo mais para incentivá-la, mas se refreou.

Gracie se concentrou na mentira. Devia lhe dizer o que esperava ouvir.

— Sim, lembro ter visto por aqui uma carruagem grande, de aspecto elegante. Não saberia lhe dizer nada dela porque estava escuro, mas acredito que foi por então. — E acrescentou com ar inocente — Alguém que conhece?

— Não estou certo. -Ele a olhava como hipnotizado — Talvez. Viu alguém nele?

Ela não sabia o que responder porque desta vez não estava certa do que procurava o jornalista. Era a razão pela que estava ali. Conformou-se com uma resposta vaga que podia significar algo.

— Era uma carruagem grande, negro, silencioso — explicou — Com o condutor acima, na boléia é claro.

— Um homem de aparência agradável, com barba? — Ao Remus quebrou a voz de emoção.

O coração de Gracie deu um tombo. Estava a ponto de averiguar a verdade. Devia andar com cuidado.

— Não sei se de aparência agradável. — Tratou de falar com naturalidade — Suponho que porque levava barba.

— Viu alguém dentro — Ele tratava de manter uma expressão serena, mas lhe traíam os olhos, muito abertos e brilhantes — Se pararam? Falaram com alguém?

Gracie se apressou a inventar algo. Não importava se o homem que ele procurava se deteve. Poderia ter sido por qualquer motivo, até para pedir indicações.

— Sim. — Assinalou mais adiante — Parou ali e falou com uma amiga minha. Ela me disse que lhe tinha perguntado por alguém.

— Por alguém? -repetiu Remus em voz alta e áspera.

Ela percebia a tensão nele.

— Uma pessoa em particular? Uma mulher?

De modo que era isso o que queria saber.

— Sim — murmurou ela-. Isso é!

— Quem? Sabe? O disse sua amiga?

Gracie resgatou de sua memória o único nome que conhecia relacionado com esse assunto.

— Annie não sei o que.

— Annie? — Ele conteve um grito, mas se engasgou e tragou saliva com esforço — Está segura? Annie que mais? Lembra-se? Trate de recordar!

Devia arriscar-se e dizer Annie Crook? Não. Era melhor não exagerar.

— Não. Acredito que começava por C, mas não estou segura.

Seguiu um silêncio absoluto. Ele parecia paralisado. Gracie ouviu umas gargalhadas a uns cinqüenta passos e os latidos de um cão que não estava à vista.

— Annie Chapman? -sussurrou o jornalista.

A alma lhe caiu aos pés. De repente tudo deixava de ter sentido. Ficou fria.

— Não sei — respondeu bruscamente, incapaz de dissimular — Por quê? Quem era? Um tipo que tinha saído de farra e queria que lhe saísse barata?

— Não importa — se apressou a dizer Remus tratando de ocultar a importância que tinha para ele — Me ajudou muito. Muitíssimo obrigado, seriamente. — levou uma mão ao bolso e lhe ofereceu três pennies.

Ela os aceitou. Ao menos poderia devolver ao Tellman parte do que tinha gasto. De todo modo podia necessitá-los, segundo aonde se dirigisse Remus a seguir.

Ele se afastou a grandes passadas sem olhar sequer atrás, desviando-se de uma carroça carregada de carvão. Nada parecia mais longe de sua mente que a possibilidade de que alguém o seguisse.

Percorreu o Commercio para retornar ao Whitechapel High Street. Gracie teve que correr de vez em quando para não perdê-lo. Ao chegar ao final da rua, virou a oeste e se encaminhou para a primeira parada de ônibus, mas em lugar de ir até a City, como ela tinha esperado, voltou a mudar em Holbom e se dirigiu ao sul do rio, e depois passou Embankment, até chegar aos escritórios da polícia do Tamisa.

Gracie entrou neles atrás dele, como se tivesse um assunto que resolver. Esperou atrás do jornalista, com a cabeça encurvada. Tinha tomado a precaução de soltar o cabelo e sujar o rosto. Não se parecia com a jovem a quem Remus tinha detido no Hanbury Street. De fato, semelhava um dos marotos que brigavam por restos de comida na margem do rio, e confiou que a tomassem por uma se alguém se incomodasse em olhá-la duas vezes.

Remus também deu mostras de sua criatividade e, quando o sargento que o atendeu lhe perguntou o que queria, contou uma história que Gracie estava certa tinha inventado para a ocasião.

— Estou procurando um primo meu que desapareceu — disse com ansiedade inclinando-se sobre o balcão. — Me inteirei que alguém que respondia a sua descrição esteve a ponto de morrer afogado perto da ponte do Westminster, em 17 de fevereiro deste ano. O pobre esteve comprometido em um acidente de carruagem que quase acabou com a vida de uma menina e, atormentado pelos remorsos, tratou de matar-se. É isso certo?

— Bastante certo — respondeu o sargento — É o que constava no informe. Um tipo chamado Nickley. Mas não posso lhe assegurar que tentou matar-se. — Olhou-o com um sorriso torcido — antes de saltar tirou o casaco e as botas na margem, como fazem todos os que em realidade não querem morrer. — Sua voz gotejava desdém — Nadou e o recolheram um pouco mais abaixo na ribeira, como cabia esperar. Levaram-no ao Westminster Hospital, mas não acharam nada nele.

Remus adotou de repente um tom despreocupado, como se o que se dispunha a perguntar fosse uma idéia que lhe acabava de ocorrer e pouco importante.

— E a menina? Como se chamava? Também saiu ilesa?

— Sim. — O rosto franco do sargento se encheu de compaixão — Pelos cabelos, pobrezinha. Por sorte não aconteceu nada, só ficou petrificada de medo. Disse que tampouco era a primeira vez. Uma carruagem tinha estado a ponto de atropelá-la antes. — Meneou a cabeça, com os lábios apertados — Afirmou que era o mesmo, mas não acredito que fosse capaz de distinguir uma carruagem elegante de outra.

Gracie viu como Remus ficava rígido e fechava os punhos aos flancos.

— A segunda vez? A mesma carruagem? — Não pôde evitar falar com veemência, como se o dado tivesse um significado transcendental para ele.

— Não; é claro que não! — O sargento riu — Só era uma menina, não tinha mais de sete ou oito anos. O que ia saber de carruagens?

Remus não pôde conter-se. Inclinou-se para diante.

— Como se chamava?

— Alice — respondeu sargento. — Isso eu acho.

— Alice que mais?

O sargento olhou-o com mais vagar.

— A que vem tanto interesse, senhor? Sabe algo que deveria nos dizer?

— Não! — apressou-se Remus a negar — Só é um assunto familiar. Uma espécie de ovelha negra, sabe. Quero mantê-lo em segredo, se for possível. Mas me seria muito útil saber o nome da menina.

O sargento se mostrou cético. Olhou ao Remus com um vislumbre de dúvida.

— Disse que era seu primo?

Remus tinha fechado toda escapatória.

— Isso. É uma vergonha para todos. Teve algo com essa menina, Alice Crook. Só esperava que não fosse ela.

Gracie sentiu um calafrio por todo o corpo ao ouvir o nome. Fosse o que fosse Remus ainda andava atrás disso.

— Bom, pois temo que fosse ela. — A expressão do sargento se suavizou um pouco — Sinto muito.

Remus levantou rapidamente as mãos e cobriu o rosto. Gracie, atrás dele, percebeu que ficava rígido e soube que nesse gesto não havia dor, mas euforia. Remus demorou uns minutos em recuperar-se e levantar o olhar de novo para o sargento.

— Obrigado — se limitou a dizer — Obrigado por sua ajuda. — Em seguida se voltou e saiu a toda pressa depois de passar junto à Gracie. Esta teve que pôr-se a correr para alcançá-lo. Se o sargento reparou nela, deve ter acreditado que ia com Remus.

O jornalista se afastou do rio, olhando a direita e esquerda como se procurasse algo.

Gracie permaneceu muito atrasada, mantendo-se atrás de outros transeuntes; trabalhadores, turistas, empregados que faziam recados, crianças que vendiam jornais, camelôs. Depois viu Remus trocar de sentido e cruzar a calçada para a agência de correios, em que entrou.

Seguiu-o ao interior.

Viu-o tirar um lápis e rabiscar uma nota com mãos trêmulas. Dobrou-a, comprou um envelope e um selo, e jogou a carta na caixa. Depois voltou a sair a bastante velocidade. Uma vez mais Gracie se viu obrigada a correr uns passos de vez em quando para não perdê-lo de vista.

Alegrou-se quando Remus pareceu decidir que tinha fome e se deteve em uma taverna para comer como era devido. Tinha os pés inchados e lhe doíam as pernas. Morria por sentar um momento, comer algo e vigiá-lo comodamente. Ele pediu bolo de enguias, algo que sempre lhe tinha repugnado. Observou maravilhada o apetite com que o comia, sem parar até que terminou e secou os lábios com o guardanapo. Ela pediu bolo de carne de porco, que lhe pareceu muito melhor.

Meia hora depois Remus voltou a se pôr em marcha, aparentemente cheio de determinação. Ela o seguiu, decidida a não perdê-lo. Era meio dia e as ruas estavam concorridas. Gracie jogava com a vantagem de que ele não tinha nem idéia de que alguém o seguia, e estava tão absorto que não olhou uma só vez por cima do ombro nem tomou a menor precaução para passar inadvertido.

Depois de dois trajetos em ônibus e andar um pouco mais, Remus se deteve junto a um banco do Hyde Park, na aparência esperando a alguém.

Permaneceu ali cinco minutos, e Gracie pôs a prova sua imaginação discorrendo uma desculpa que justificasse sua presença.

Remus não parava de olhar ao redor, se por acaso a pessoa que esperava vinha em direção contrária. Não podia evitar vê-la. Ao final acabaria perguntando-se que fazia ela ali.

O que teria feito Tellman em seu lugar? Ele era detetive. Devia seguir pessoas constantemente. Tratar de que não lhe visse? Não havia nada atrás do que esconder-se, nem sombras nem árvores que estivessem bastante perto. De qualquer modo, se ocultava-se atrás de uma árvore não veria com quem se reunia Remus. Inventar uma razão que explicasse sua presença ali? Sim, mas qual? Que também esperava alguém? Ele engoliria? Que tinha perdido algo? Então por que não se pôs para buscá-lo assim que tinha chegado?

Já o tinha? Acabava de dar-se conta de que lhe faltava!

Voltou sobre seus passos muito devagar, esquadrinhando o chão como se procurasse algo pequeno e muito valioso. Depois de percorrer uns dezoito metros virou sobre seus calcanhares e começou de novo. Quase tinha chegado ao ponto de partida quando por fim um homem de meia idade se aproximou do Remus pelo atalho e este foi a seu encontro.

O homem se deteve com brusquidão, depois fez gesto de rodear ao Remus e seguir seu caminho.

O jornalista lhe cortou o passo e, a julgar pela atitude do outro, disse-lhe algo, mas tão baixinho que Gracie, a dez metros de distância, não o ouviu.

O homem se sobressaltou. Olhou com mais atenção ao Remus, como se esperasse reconhecê-lo. Talvez este o tivesse chamado por seu nome.

Gracie os observou a tênue luz do entardecer, mas não se atreveu a mover-se e chamar a atenção. O homem de mais idade aparentava uns cinqüenta anos e era de boa aparência, de boa estatura, um tanto metido em carnes. Vestia roupa comum, nada chamativa, bem confeccionada, mas não cara. O tipo de roupa que Pitt poderia ter usado, se não tivesse um talento para o sujo que fazia com que qualquer roupa lhe caísse mal. Esse homem era bonito, como um funcionário ou um diretor de banco aposentado.

Remus falava acaloradamente, e ele respondia agora com certa irritação. Remus parecia estar acusando o de algo. Tinha elevado a voz, alterado, e Gracie ouviu palavras soltas.

—… sabia! Estava atrás!

O outro homem rechaçou o comentário com um rápido gesto. Tinha o rosto aceso, e seu tom indignado soava falso.

— Não tem provas! E se...! — Engoliu suas palavras, e Gracie se perdeu as seguintes frases —. … um caminho muito perigoso! — terminou.

— Então você também é culpado! — Remus estava furioso, mas desta vez a nota de medo em sua voz era inconfundível. Gracie a reconheceu, e sentiu por todo o corpo um calafrio que lhe encolheu os músculos do estômago e lhe formou um nó na garganta. Remus estava assustado, e muito.

No outro homem havia algo — talvez o ângulo de sua cabeça, ou as rugas de seu rosto que ela via entre as sombras, a débil luz dourada da tarde — que lhe revelou que ele também tinha medo. De repente agitou as mãos com movimentos furiosos e espasmódicos, negando com brutalidade. Meneou a cabeça.

— Não! Deixe como está! O advirto!

— Averiguarei! — contra-atacou Remus — Darei a conhecer até o menor detalhe e o mundo saberá! Já não nos mentirão mais, nem você nem ninguém!

O homem de mais idade levantou o braço iracundo, depois se voltou e se foi a grandes passadas por onde tinha vindo.

Remus deu um passo para ele; em seguida mudou de opinião e, passando junto ao Gracie, encaminhou-se pressuroso para a rua. Em seu rosto se apreciava uma tensa e furiosa determinação. Quase chocou com um casal agarrado pelo braço que dava um passeio ao entardecer. Murmurou uma desculpa e seguiu avançando em linha reta.

Gracie correu atrás dele, e teve que continuar fazendo-o por quão rápido andava Remus. Este cruzou Hyde Park Terrace, dirigiu-se ao norte pelo Grand Junction Road até o Praed Street e foi direito à estação da ferrovia metropolitana.

Deu um tombo o coração de Gracie. Aonde ia? Muito longe? Do que ia todo esse assunto? Quem era o homem com quem se reuniu no parque e a quem tinha acusado do que?

Subiu atrás de Remus pelas altas escadas até o guichê de venda de bilhetes, comprou um de quatro pennies como tinha feito ele e o seguiu. Tinha viajado antes na ferrovia metropolitana, e os tinha visto sair rugindo dos túneis e deter-se na plataforma. Ficou paralisada de terror e tinha necessitado toda sua coragem para entrar nesse tubo fechado e ver-se jogada através de passadiços metrôs em meio de um estrondo ensurdecedor.

Mas não ia perder Remus. Em qualquer lugar que ele fosse, ela iria também para averiguar o que estava investigando.

O trem saiu inesperadamente do buraco negro e se deteve com um chiado, e Remus subiu a ele. Gracie fez o mesmo.

O trem deu uma inclinação brusca e se precipitou para diante com um rugido. Gracie fechou os punhos e apertou os lábios para não gritar. Outros passageiros permaneciam impassíveis, como se estivessem totalmente acostumados a deslocar-se através de buracos clandestinamente, encerrados dentro de parte de um trem.

Chegaram à estação do Edgware Road. Uns desceram, outros subiram. Remus nem sequer olhou para saber onde estavam.

O trem voltou a ficar em movimento.

Deixaram para trás Baker Street, Portland Road, Gower Street. Houve um longo trecho até o King’s Cross, depois o trem deu uma inclinação brusca para a direita e seguiu adiante rugindo, ganhando velocidade.

Aonde ia Remus? Que relação existia entre as idas do Adinett a Cleveland Street e a tal Annie Crook que vivia ali e a quem levaram a força, igual a seu amante? Tinha terminado no Guy’s Hospital, atendida nada menos que pelo cirurgião da família real, que a tinha declarado louca. E o que tinha sido do jovem? Ao que parecia ninguém havia tornado a saber dele.

O que havia depois das carruagens do Spitalfields? Tinha-os conduzido o mesmo homem que atropelou à pequena Alice Crook e depois se jogou no rio depois de tirar o casaco e as botas?

O trem se deteve no Farringdon Street e muito pouco depois no Aldergate Street.

Remus se levantou de um salto.

Gracie quase caiu de sobressalto e se apressou a segui-lo.

Remus se aproximou da porta, a seguir mudou de opinião e voltou a sentar-se.

Gracie se desabou no assento mais próximo, o coração lhe pulsando com força.

O trem deixou atrás Moorgate e Bishopsgate. Deteve-se no Aldgate e Remus se aproximou de novo à porta.

Gracie desceu atrás dele, subiu pelas escadas e se apressou a entrar na escuridão onde Aldgate Street se convertia no Whitechapel High Street.

Por onde tinha ido Remus? Devia seguir o de perto. As luzes estavam acesas, mas iluminavam pouco; só se viam círculos de luz amarelada aqui e lá.

Retornava a Whitechapel? Estavam a um quilômetro e meio do Buck’s Row, que se achava ao outro extremo do Whitechapel Road, além do High Street. E Hanbury Street ficava a menos de um quilômetro ao norte, mais tinham em conta todas as estreitas e sinuosas ruelas.

Entretanto, em lugar de torcer à direita no Aldgate Street, Remus se dirigiu de novo para a City. Aonde ia agora? Esperava ver alguém mais? Gracie recordou a expressão de seu rosto quando se afastara do homem do Hyde Park. Estava mais que zangado, colérico, mas também alterado, e assustado. Tratava-se de algo de proporções monstruosas ou isso achava ele.

Pegou-a despreparada que entrasse em Duke Street. Era mais estreita e escura, e os beirais gotejavam na penumbra. Flutuavam no ar os aromas de podre e a águas residuais. Gracie se surpreendeu tremendo. Um pouco mais adiante se vislumbrava a enorme sombra da igreja do Saint Botolph. Achavam-se nos limites do Whitechapel.

Remus levava um momento andando como se soubesse exatamente aonde se dirigia. De repente titubeou e olhou a sua esquerda. A tênue luz iluminou por um instante sua pálida tez. O que esperava ver? Mendigos? Indigentes apinhados em saguões tratando de achar um lugar onde dormir? Mulheres de má vida em busca de um cliente?

Gracie pensou nas grandes carruagens negras pelos que Remus lhe tinha perguntado, o estrondo das rodas sobre os paralelepípedos, cada vez mais forte, os cavalos negros erguendo-se na noite, o enorme contorno do veículo, alto e quadrado, uma porta abrindo-se e um homem perguntando o que? Por uma mulher, uma mulher em concreto. Por quê? Que cavalheiro se deslocaria até ali de noite em uma carruagem, quando podia ficar no oeste e procurar a alguém mais limpo e divertido, e com um quarto e uma cama para ir em lugar de algum portal?

Remus cruzava a rua e entrava no beco que havia ao lado da igreja.

Estava escuro como a boca de um lobo. Gracie tropeçou ao segui-lo. Aonde diabos ia Remus? Sabia que continuava diante dela porque ouvia o ruído de seus passos sobre os paralelepípedos. Logo viu sua silhueta recortada contra um feixe de luz um pouco mais adiante. Havia uma abertura. Devia haver uma luz ao dobrar a esquina.

Chegou à esquina e saiu a uma pequena praça. Ele estava imóvel, olhando ao redor, seu rosto voltado por um instante para o resplendor amarelo de uma luz. Tinha os olhos muito abertos, os lábios separados em um espantoso sorriso, uma mescla de terror e júbilo. Tremia-lhe todo o corpo. Levantou ligeiramente a mão, com os dedos brancos à luz do lampião de gás, o punho fechado.

Gracie ergueu a vista para o imundo rótulo que havia na parede de tijolo, por cima da luz. Mitre Square.

De repente ficou gelada, como se a tivesse alcançado o fôlego do inferno. Quase lhe deteve o coração. Por fim compreendia por que Remus tinha ido ao Whitechapel, primeiro ao Buck’s Row, depois ao Hanbury Street e por último ao Mitre Square. Sabia atrás de quem ia perguntar pela grande carruagem negra, incongruente naquele bairro. Recordou os nomes: Annie Chapman, conhecida como Annie a Escura, Liz a Larga, Kate, Polly e Mary a Negra. Remus procurava o Jack, o Estripador! Continuava vivo, e o jornalista achava saber quem era! Essa era a notícia que pretendia dar a conhecer em todos os jornais e que achava o faria famoso.

Gracie se voltou e pôs-se a correr pelo beco, tropeçando e respirando com dificuldade. Falhavam-lhe as pernas e os pulmões lhe doíam como se o ar fossem machadinhas, mas não pensava ficar nem um segundo mais nesse lugar infernal. Sua imaginação se viu inundada pelo terror, o medo cegador e paralisante, o sangue, a dor, o instante em que a mulher o tinha olhado nos olhos e sabido quem era e devia ser o pior de tudo, espionar na alma da pessoa que tinha feito isso e que voltaria fazê-lo!

Chocou-se com alguém e deixou escapar um grito ao mesmo tempo em que sacudia os punhos até que sentiu algo brando e ouviu um grunhido seguido de uma maldição. Escapou e enfiou-se por Duke Street, onde se pôs a correr para o Aldgate Road. Não sabia nem importava a que tinha golpeado se Remus a seguia ou não, se sabia que o tinha seguido desde que pudesse tomar um ônibus ou um trem e fugir dali, fugir do Whitechapel, de seus fantasmas e demônios.

Gritou ao ver um ônibus que se dirigia ao oeste e desceu correndo a seu encontro, sobressaltando aos cavalos e arrancando uma maldição ao condutor. Não lhe importou o mínimo. Fazendo caso omisso de seus protestos subiu cambaleando-se e se deixou cair no primeiro assento vazio.

— O diabo a perseguia? — exclamou um homem afável, com um sorriso divertido em seu amplo rosto.

Estava mais perto da verdade do que imaginava.

— Sim — disse ela com a voz tomada — Assim é!

Eram passadas as onze quando por fim chegou ao Keppel Street e achou Charlotte passeando de cima abaixo pela cozinha, pálida e com olheiras.

— Onde esteve? — perguntou furiosa — Estava morta de preocupação! O que aconteceu?

Gracie sentiu tal alívio de estar a salvo em casa, no calor e a luz da cozinha, com seus aromas de madeira e roupa limpa, pão e ervas, e saber que Charlotte se preocupava com ela, que rompeu a chorar e disse coisas incoerentes entre soluços enquanto Charlotte a segurava em seus braços.

No dia seguinte lhe daria uma versão cuidadosamente revisada da verdade, junto com uma desculpa por ter mentido.

 

Tellman tratou de tirar da cabeça Gracie, mas não era fácil. A expressão ansiosa da jovem não cessava de irromper em seus pensamentos cada vez que se relaxava e permitia que sua atenção se afastasse do que fazia. Não obstante, o fato de saber que Wetron o observava atento a se cometia o menor equívoco, obrigava-o a esforçar-se o máximo possível em investigar esses malditos roubos. Não podia permitir-se que o surpreendessem no mínimo engano.

Sua diligência se viu recompensada com um golpe de boa sorte que lhes ajudou a ver o final do caso.

Também pensava mais freqüentemente do que gostaria, e com tanta preocupação como má consciência, em Pitt vivendo só e trabalhando no Spitalfields. Era evidente por que o tinham transferido ali. Era ridículo pensar que ia mudar algo em um sentido ou em outro no referente aos anarquistas. Esse era um trabalho especializado e já contavam com homens que o faziam bem. Do ponto de vista do Cornwallis, era um intento de afastar o de novos perigos, mas para quem tinha ordenado sua transferência constituía um castigo por ter convencido ao jurado da culpa de Adinett.

Tinha ficado em uma posição vulnerável porque não tinha sido capaz de demonstrar por que razão Adinett tinha cometido o assassinato; nem sequer tinha podido aventurar um móvel. Por isso se sentia culpado Tellman. Ele continuava sendo policial, gozando de liberdade para averiguar a verdade e dá-la a conhecer, e entretanto não tinha conseguido inteirar-se de nada além de que Adinett tinha acudido a Cleveland Street entusiasmado por algo, o que parecia ter ramificações intermináveis que escapavam a sua compreensão.

Achava-se junto ao mercado de flores, a um par de quarteirões da delegacia de polícia do Bow Street, procurando os compradores de objetos roubados que sabia que também trabalhavam ali, quando percebeu que alguém se deteve perto dele e o observava.

 

Gracie!

Sua primeira reação foi de verdadeiro prazer. Logo reparou que estava muito pálida e muito quieta, algo que não era próprio dela, e lhe encolheu o coração. Aproximou-se da jovem.

— O que foi? — perguntou com tom urgente. — O que faz aqui?

— Vim vê-lo — respondeu ela — Não acreditará que vim comprar um buquê de flores? — Falava com uma brutalidade que alarmou ao Tellman e o convenceu de que acontecia algo grave.

— Está bem a senhora Pitt? Teve notícias de seu marido? -Isso foi o primeiro que lhe passou pela cabeça. Charlotte não o via desde que Pitt partira, e isso já fazia mais de um mês. Talvez devesse ter falado com ela. Entretanto, teria sido uma indiscrição, até uma rabugice. Além disso, o que ia dizer lhe ele? Charlotte era uma senhora das de verdade, e tinha família.

O que esperava dele era que averiguasse a verdade e demonstrasse que Pitt tinha tido razão, para que o reabilitassem em seu cargo em Bow Street, que era onde lhe correspondia estar. E ele tinha fracassado por completo.

Uma carroça de flores passou com estrondo e se deteve uma dúzia de metros.

— O que acontece? — perguntou Tellman de novo, com mais brutalidade — Gracie!

Ela engoliu a saliva com esforço. Ele viu como se fazia um nó na garganta, e desta vez se assustou de verdade. Uma parte tão grande de sua vida estava unida ao Keppel Street que não podia limitar-se a dar de ombros e partir. Sentir-se-ia incompleto, prejudicado.

— Segui Remus, como me disse. — Ela o olhou desafiante.

— Nunca lhe disse que o seguisse! — exclamou ele — Disse que ficasse em casa atendendo suas tarefas!

— Primeiro me disse que o seguisse — replicou ela com obstinação.

Um casal passou junto a eles; a mulher segurava em alto um ramo de rosas recém comprado, para cheirar seu aroma.

Gracie estava assustada. Advertia-se em seu rosto e na rigidez de sua postura. Tinha o corpo duro. Isso o pôs furioso e lhe fez querer protegê-la, e sentiu como se o medo lhe houvesse tocado com seu fôlego gélido. Não queria nada disso! Sentia-se vulnerável, exposto a que o machucassem, até que o fizessem em migalhas!

— Bom, pois não devia fazê-lo! — disse — Se supõe que tem que ficar em casa, cuidando da senhora Pitt e das tarefas domésticas!

Gracie tinha os olhos sombrios e desmesuradamente abertos, e lhe tremiam os lábios. Ele não fazia mais que piorar as coisas. Não só estava irritando-a, mas também a deixava sozinha com o que fosse que tivesse visto ou acreditado.

— Bom, e aonde foi? — perguntou com mais suavidade. Pareceu falar a contra gosto, mas era consigo mesmo que estava furioso, por sua falta de tato, por sentir tantas coisas e pensar tão pouco. Não sabia como comportar-se com ela. Era tão jovem, tinha ao menos uma dúzia de anos menos que ele, e era tão valente e orgulhosa... Tratar de tocá-la era como tentar arrancar um cardo. E era tão pouquinha coisa! Tinha visto meninas de doze anos maiores! Mas nunca tinha visto ninguém, do tamanho que fosse, com mais coragem e força de vontade — E então? — apressou-a.

Gracie não afastou a vista dele, sem prestar a menor atenção aos transeuntes.

— Gastei todo seu dinheiro — informou — E também o que me deram.

— Não me diga que saiu de Londres! Disse-lhe!

— Não; não o fiz! — interrompeu-o ela, engoliu saliva, e continuou — De todo modo não tenho por que fazer o que você me diz! Remus foi ao Whitechapel… Nas ruelas que vão dar em Spitalfields. Pelo lado da Lime House. Perguntou por aí se alguém tinha visto há quatro anos uma grande carruagem, uma que não fosse do bairro. Grande tolice! Quem vai a carruagem lá? Mas sim a pé. Ou de ônibus.

Tellman estava desconcertado. Mas pelo menos não se tratava de nada sinistro.

— Procurava uma carruagem? Sabe se averiguou algo?

Por um momento acreditou que Gracie ia sorrir, mas o sorriso morreu antes de nascer. Percebia-se nela um terror subjacente que apagava todo vislumbre de alegria. Apoderou-se dele com uma dor quase insuportável.

— Sim, como não podia me reconhecer deixei que me perguntasse como perguntou a outros — respondeu — lhe disse que tinha visto uma grande carruagem negra fazia quatro anos. Perguntou-me se a pessoa que havia dentro parecia andar procurando a alguém em concreto. Disse-lhe que sim.

— A quem? — inquiriu Tellman, a voz quebrada pela tensão.

— Disse-lhe o primeiro nome que me veio à cabeça. Estava pensando nessa garota que levaram de Cleveland Street, de modo que disse "Annie". — Gracie tremia de maneira visível.

— Annie? — Tellman se aproximou mais. Queria tocá-la, segurá-la pelos ombros, mas ela poderia afastá-lo, de modo que se absteve — Annie Crook?

Gracie estava muito pálida. Meneou a cabeça de forma quase imperceptível.

— Não, Não soube até umas horas mais tarde, quando lhe segui outra vez até o Whitechapel, depois de ir à polícia do rio; depois escreveu uma carta a alguém e por último entrou no Hyde Park para encontrar-se com um senhor a quem acusou de algo horrível e com o que discutiu. Então retornou ao Whitechapel. — interrompeu-se sem fôlego, respirando agitadamente.

— Quem era? — perguntou ele com urgência — Se não era Annie Crook, o que nos importa? — Estava injustificadamente decepcionado. Só o horror refletido no rosto de Gracie lhe impediu de desviar o olhar.

Ela voltou a respirar fundo.

— Era Annie a Escura! — exclamou em um sussurro abafado.

— Annie... A Escura? — Tellman começava a compreender o horror, frio como uma tumba.

Gracie assentiu.

— Annie Chapman… A garota que Jack esquartejou!

— O Estripador? — Tellman mal pôde pronunciar a palavra.

— Sim! — Gracie estava sem fôlego — Os outros lugares que perguntou por carruagens foram Buck’s Row, onde acharam Polly Nichols; Hanbury Street, onde estava Annie a Escura, e por último Mitre Square, onde acharam Kate Eddowes, a pior parada de todas.

O horror percorreu Tellman como uma criatura primitiva e indescritível que tivesse surgido da escuridão e permanecido perto de ambos, com a morte no coração e nas mãos.

— Se sabia — disse, o tom de voz estridente por causa da histeria — não devia segui-lo até a polícia do rio e...

— Não sabia! — protestou ela — Foi primeiro à delegacia de polícia para perguntar por um cocheiro chamado Nickley que tinha tratado de atropelar a uma menina de sete ou oito anos em duas ocasiões, mas nenhuma com êxito. — Estava sem fôlego — Depois da segunda tentativa se jogou ao rio, mas antes tirou as botas, de modo que na realidade não queria matar-se; só pretendia que as pessoas acreditassem que o fazia.

— O que tem isso que ver? — perguntou ele. Agarrou-a pelo braço e a levou a um lado da calçada, afastando a de dois homens que passavam. Não a soltou.

— Não sei! -exclamou ela indignada.

Tellman se esforçava por dar sentido a essa história, ver a conexão com Annie Crook, e o que tinha que ver com o Adinett e com o Pitt. Mas surgindo do mais profundo de seu ser, e apoderando-se dele apesar de fazer todo o possível por impedi-lo, estava seu medo por Gracie, e por ele mesmo, porque lhe importava mais do que era capaz de controlar ou suportar.

— Mas ele sabe — afirmou ela observando-o — Sabe. Estava tão aceso que era possível abrir passagem por Londres com sua luz.

Tellman continuava olhando-a fixamente.

— Vi-lhe o rosto à luz do lampião do Mitre Square — explicou ela — Ali é onde Jack matou ao Kate Eddowes… E ele sabia! Remus sabia! Por isso estava ali!

De repente ele compreendeu o que implicavam suas palavras.

— Seguiu-o até ali de noite! — Estava horrorizado — Foi sozinha até o Mitre Square! — Ouviu sua própria voz subir de escala, trêmula e fora de controle — O que é do cérebro com que nasceu? Pensa no que poderia lhe ter acontecido! — Fechou os olhos com tanta força que lhe doeram, tratando de se separar de si as imagens que lhe tinham ficado gravadas. Recordava as fotos dos cadáveres de há quatro anos, odiosas deformações do corpo humano, um atentado contra o decoro da morte.

E Gracie tinha ido ali de noite, seguindo a um homem que poderia ter feito algo.

— Estúpida! — exclamou — Estúpida — Nenhuma das palavras que vieram a sua mente era adequada para descrever seu temor por ela, a raiva e ao mesmo tempo o alívio, e a fúria contra sua própria vulnerabilidade, porque se tivesse ocorrido algo à Gracie, nunca voltaria a ser feliz.

Não se preocupou com as pessoas que se detiveram olhá-lo, nem sequer de um cavalheiro entrado em anos que titubeou junto a Gracie, preocupado pela segurança desta. Pelo visto decidiu que era um assunto conjugal e se apressou a seguir seu caminho.

Tellman não queria preocupar-se tanto, nem por Gracie nem por ninguém, e menos por ela. Era uma jovem irritável, totalmente equivocada em todos os temas que importavam, e nem sequer gostava dele, como ia querê-lo? E estava decidida a seguir servindo aos Pitt! Só a idéia de estar ao serviço de alguém lhe produzia mal-estar, como o ruído de uma faca deslizando sobre vidro.

— É estúpida! — repetiu gritando ao mesmo tempo em que erguia o braço como se fosse jogar algo ao chão, só que não tinha nada que jogar. — Não pára a pensar alguma vez no que faz?

Desta vez ela também se zangou. Tinha estado assustada, mas ele a tinha insultado e não pensava tolerá-lo.

— Bom, averigüei o que anda procurando Remus, que é mais do que conseguiu você! — replicou — Se eu for estúpida, o que é você? E se estiver muito raivoso para entender o que lhe disse e utilizá-lo para ajudar ao senhor Pitt, terei que fazê-lo eu mesma! Não sei como, mas o farei! Encontrarei outra vez Remus e lhe direi que sei o que se propõe e que se não me disser...

— OH, não o fará! — Tellman a pegou pelo pulso quando ela dava meia volta para ir-se, quase chocando com uma mulher corpulenta com um vestido de listas.

— Me solte! — Gracie tratou de escapar, mas Tellman a segurava com força. Inclinou-se e o mordeu.

Ele gritou de dor e a soltou.

— Besta!

A mulher corpulenta se apressou a afastar-se, murmurando para si.

— Não me ponha as mãos em cima! — vociferou Gracie — E não trate de me dizer o que devo fazer ou deixar de fazer! Não sou propriedade de ninguém e faço o que me dá vontade! Pode nos ajudar a mim e ao senhor Pitt, ou se dedicar a me insultar, não importa. Averiguaremos a verdade e conseguiremos que volte, você verá! — Esta vez as saias formaram redemoinhos ao redor dela e partiu como um vendaval.

Tellman começou a segui-la, logo se deteve. Doía-lhe muito a mão e sem dar-se conta a levou aos lábios. De qualquer modo não tinha nem idéia do que lhe dizer. Sentia-se abatido. Queria ajudar Pitt e porque era o correto, mas também Gracie. Essa jovenzinha teria que confiar nele, e ele se faria digno dessa confiança.

Estava aterrorizado por ela; era um sentimento novo e espantoso, um medo como nenhum outro, que o paralisava e confundia.

Gracie se deteve uns passos e se voltou de novo para ele.

— Vai ficar aí parado como um maldito poste? — perguntou.

Ele se aproximou dela a grandes passadas.

— Vou procurar Remus! — anunciou com gravidade — E você irá a Keppel Street antes que a senhora Pitt te despeça por não fazer seu trabalho. Suponho que não lhe ocorreu pensar que esteve morta de preocupação por não saber onde tinha se metido, como se não tivesse suficientes preocupações! — Atribuiu a Charlotte seus próprios sentimentos — Certamente passou em claro a metade da noite, imaginando todas as coisas horríveis que poderiam lhe ter ocorrido. Está sozinha, sem saber o que fazer ou dizer, e você deveria estar ajudando-a!

Gracie o olhou, pesando suas palavras.

— Assim, vai procurar ao Remus? — perguntou desafiando-o.

— Está surda? Acabo de lhe dizer isso.

Ela fungou.

— Então acredito que lhe disse tudo. Irei a casa e prepararei algo para jantar, talvez até faça uma torta. — encolheu-se de ombros e se afastou de novo.

— Gracie!

— Sim?

— Fez muito bem, esteve genial, serio. Mas volta a fazê-lo eu lhe deixarei as nádegas tão arroxeadas que terá que conseguirá senta durante uma semana! Ouviu-me bem?

Ela sorriu e seguiu andando.

Tellman não queria sorrir, mas não pôde evitá-lo. De repente, além de medo, experimentava alegria, um intenso e prazeroso desejo que não queria que o abandonasse.

Tellman não se expôs sequer ficar junto ao mercado de flores tratando de localizar os objetos roubados. Ainda era cedo. Se punha em marcha em seguida talvez encontrasse ainda Remus, poderia enfrentar a ele e averiguar, por ameaça ou persuasão, o que sabia exatamente. Pelo bem de Pitt devia descobrir o que tinha haver tudo isso com o Adinett; pelo bem de todos, se Remus conhecia realmente a identidade do assassino mais temido que tivesse atacado em Londres, ou certamente em qualquer outra parte. Todos os nomes aterradores empalideciam ao lado de Jack, o Estripador.

Afastou-se pressuroso com a cabeça encurvada, sem olhar a direita e esquerda se por acaso atraía o olhar de alguém conhecido. Onde estaria Remus há essa hora? Mal eram nove e cinco. Talvez em casa? Tinha chegado tarde a noite anterior.

Pegou Uma carruagem de aluguel para economizar tempo e deu ao cocheiro o endereço do Remus.

Se não estivesse ali, onde encontrá-lo? Aonde tinha pensado ir essa manhã? Que peças do quebra-cabeças ficavam por achar?

O que sabia já? O assunto de Remus estava relacionado com um cocheiro chamado Nickley, que ao parecer tinha conduzido a carruagem de seu senhor pelo Whitechapel em busca dessas cinco mulheres em particular, e depois, uma vez encontradas, alguém as tinha matado com a forma mais espantosa. Por que essas mulheres, não outras? Por que se tinha contentado com cinco? Tinham sido bastante vulgares, prostitutas de alguma classe. Havia centenas de mulheres como elas. E, entretanto, segundo Gracie, quem quer que fosse tinha perguntado quando menos por uma delas pelo nome!

A carruagem o levou rangendo pela rua sem interromper sua concentração.

De modo que não era um simples louco que saía para matar! Tinha um objetivo. Por que tinham levado Annie Crook da loja de tabaco de Cleveland Street e a tinham abandonado no Guy’s Hospital? E atendida pelo cirurgião da rainha! Por quê? Quem tinha pagado por isso? Estava-se louca, dificilmente podia tratar-se de um assunto cirúrgico.

E quem era o jovem a quem levaram ao mesmo tempo de Cleveland Street, também contra sua vontade?

Ao chegar pagou o cocheiro, mas lhe pediu que esperasse cinco minutos enquanto batia na porta. A caseira lhe informou que Remus tinha saído fazia dez minutos, mas não tinha nem idéia de onde.

Tellman lhe agradeceu, voltou para carruagem e indicou ao cocheiro que o levasse a estação mais próxima. Tomaria a ferrovia metropolitana até o Whitechapel e a seguir percorreria a pé o meio quilômetro que havia até Cleveland Street.

Durante o trajeto não parou de dar voltas ao problema. Se Remus não estava ali e não conseguia dar com ele, teria que começar a perguntar ele mesmo por aí. Não lhe ocorria um ponto de partida melhor. Todo o mistério parecia começar com Annie Crook. Havia outras peças que até a data não pareciam guardar nenhuma relação, como por que tinha tanta importância o fato de que Annie Crook tivesse sido católica.

Certamente o jovem não o era e sua família, ou a dela, tinha posto objeções. E o pai da moça, William Crook, tinha acabado seus dias no hospital do Saint Pancras.

Quem era a tal Alice, a que o condutor da carruagem quase tinha atropelado não uma, mas duas vezes? Por quê? Que classe de homem tentaria assassinar uma menina de sete anos?

Havia muitas coisas mais que averiguar, e se Remus sabia algo, Tellman devia surrupiar-lhe como fosse.

E quem era o homem com quem Remus se reuniu no Regent’s Park e que parecia lhe haver dado conselhos e instruções? E quem era o homem com quem tinha discutido no Hyde Park? Pelo que Gracie havia descrito não se tratava do mesmo indivíduo!

Apeou-se no Whitechapel e pôs-se a andar a passo rápido até Cleveland Street, onde dobrou a esquina.

Desta vez a sorte o acompanhou. Distinguiu a figura do Remus a menos de cem metros de distância, quase imóvel, como sem saber aonde ir.

Tellman apertou o passo e o alcançou justo quando se dispunha a virar à esquerda e dirigir-se à loja de tabaco.

Segurou-o pelo braço.

— Antes que o faça senhor Remus, eu gostaria de falar com você!

Remus deu um bote, morto de susto.

— Sargento Tellman! Que demônios está...? — Se interrompeu bruscamente.

— Buscá-lo. — Tellman respondeu à pergunta embora esta não tivesse sido completada.

O jornalista adotou um ar de inocência.

— Por quê? -dispunha-se a acrescentar algo mais, mas pensou melhor. Sabia o que ocorria se protestava muito.

— OH, por um montão de coisas — respondeu Tellman com despreocupação, mas sem lhe soltar o braço. Sentia os músculos tensos sob seus dedos — Podemos começar por Annie Crook, seguir com seu seqüestro no Guy’s Hospital e o que foi feito dela, e a morte de seu pai, e o homem com quem se reuniu no Regent’s Park, e o outro tipo com o que discutiu no Hyde Park...

Remus tremia muito para dissimulá-lo. Estava muito pálido, e tinha o lábio superior e a fronte cheios de suor, mas não disse nada.

— Logo passaremos ao cocheiro que tratou de atropelar a menina, Alice Crook, e que mais tarde se jogou no rio, só que voltou a sair a nado — continuou Tellman — Mais importante ainda, quero saber quem era o ocupante da carruagem que circulou pelo Hanbury Street e Buck’s Row no outono de 88, e cortou o pescoço a cinco mulheres, entre elas Katherine Eddowes, a quem estripou no Mitre Square, onde esteve ontem à noite. — interrompeu-se porque acreditou que Remus ia desmaiar.

Continuou segurando-o, nem tanto para impedir que escapasse, mas para sustentá-lo em pé.

Remus tremia visivelmente. Tratou de engolir saliva e quase se engasgou.

— Sabe quem é Jack — acrescentou Tellman. Não era uma pergunta, mas uma afirmação.

Remus tinha o corpo rígido, todos os músculos tensos.

O sargento ouviu sua própria respiração como um ruído áspero.

— Continua vivo, não é verdade? — disse com voz rouca.

Remus assentiu com um brusco movimento da cabeça.

Apesar de seu medo, em seu olhar havia uma luz, quase um resplendor. Suava profusamente.

— É a notícia do século! -exclamou, e passou a língua pelos lábios com nervosismo. - Mudará o mundo, asseguro-lhe!

Tellman o duvidava, mas percebeu que Remus acreditava.

— Se capturar Jack, para mim já é suficiente — murmurou — Será melhor que me explique tudo, e agora mesmo. — Não lhe ocorreu uma ameaça bastante efetiva, de modo que não acrescentou nenhuma.

O desafio voltou a aparecer nos olhos do Remus. Afastou o braço para soltar-se.

— Não poderá provar nada sem mim! Terá sorte se conseguir prová-lo algum dia!

— Talvez não seja verdade.

— É claro que é verdade! — assegurou Remus, sua voz cheia de certeza — Só necessito umas poucas peças mais. Gull está morto, mas bastará de um modo ou outro. Stephen também está morto, pobrezinho e Eddy. Mesmo assim o demonstrarei, apesar deles.

— Iremos demonstrar — corrigiu Tellman, com semblante sombrio.

— Não o necessito!

— É claro que me necessita, ou o anunciarei a quatro ventos — ameaçou Tellman — Não me importa a notícia, isso deixo para você; o que quero é a verdade, por outros motivos, e a averiguarei tanto se consigo uma notícia como se me a nega.

— Então nos afastemos desta loja! — apressou Remus olhando por cima do ombro — Não nos convém ficar aqui e que se fixem em nós. — voltou-se enquanto falava e pôs-se a andar de novo para Mele End Road.

O ar, úmido e carregado, cheirava a tormenta.

Tellman se apressou a segui-lo.

— Explique-me isso tudo — ordenou — E nada de mentiras. Sei muito. Só que ainda não consegui relacionar tudo.

Remus seguiu avançando sem responder.

— Quem é Annie Crook? — perguntou Tellman, andando a seu lado. — E mais importante, onde está agora?

Remus passou deliberadamente por alto a primeira pergunta.

— Não sei onde está — respondeu sem olhá-lo, e antes que Tellman pudesse zangar-se acrescentou — A estas alturas, no manicômio, diria eu. Declararam-na louca e a prenderam. Não sei se ainda vive. Não há nenhuma ficha dela no Guy’s, mas sei que a levaram dali e a mantiveram presa durante meses.

— Quem era seu amante? — continuou Tellman. Ao longe retumbaram uns trovões sobre os telhados e caíram umas gotas de chuva.

Remus parou tão subitamente que Tellman deu uns passos mais antes de deter-se por sua vez.

O jornalista o olhava com os olhos arregalados; de repente se se pôs a rir, um som estridente, histérico. Várias pessoas se voltaram na rua para olhá-lo.

— Basta! — Tellman queria esbofeteá-lo, mas teria atraído ainda mais atenção sobre eles — Cale-se!

Remus engoliu a saliva e se conteve com esforço.

— Não sabe nada de nada, não é verdade? Está fazendo hipótese. Vá embora. Não o necessito!

— Sim precisa de mim — afirmou Tellman com segurança-. Ainda não conta com todas as respostas, e não pode as ter ou já as teria. Mas sabe o bastante para estar assustado. Que mais precisa? Talvez possa ajudá-lo. Sou policial. Posso formular perguntas que você não pode fazer.

— Policial! — Remus soltou uma gargalhada cheia de cólera e desdém — Policial? Abberline era policial e Warren também! Com um cargo muito importante, nada menos que inspetor.

— Sei quem são — replicou Tellman com aspereza.

— É claro — respondeu Remus assentindo, com os olhos muito brilhantes. Chovia com mais força — Sabe também o que fizeram? Porque se soubesse, logo se acharia degolado em um desses becos. — Retrocedeu um passo enquanto o dizia quase como se temesse que Tellman fora a jogar-se de repente sobre ele.

— Insinua que Abberline e Warren estavam envolvidos? — inquiriu Tellman.

O desdém do Remus se extinguia.

— Certamente! Como acha que se encobriu tudo se não?

Era absurdo.

— Isso é ridículo! — exclamou Tellman alto. Não reparava na chuva, que os impregnava até os ossos — por que alguém como Abberline tinha que encobrir um assassinato? Seu nome teria passado à história se houvesse resolvido o caso. O homem que capturasse ao assassino do Whitechapel poderia pôr um preço!

— Há coisas ainda mais importantes que isso — afirmou Remus com ar sombrio, embora seu rosto voltasse a transparecer tensão e excitação, e tinha os olhos brilhantes. A água da chuva lhe corria pelas faces e lhe colava o cabelo à cabeça. Voltaram a retumbar trovões sobre telhados. — Isto vai além da fama ou do dinheiro, me acredite, Tellman. Se não me equivocar, e posso demonstrá-lo, mudará a Inglaterra para sempre.

— Bobagens! — Tellman o negou categoricamente. Queria que fosse mentira.

Remus lhe deu as costas. Tellman voltou a segurá-lo e o fez deter-se em seco.

— Por que ia Abberline a encobrir os piores crimes que ocorreram alguma vez em Londres? Era um homem decente!

— Por lealdade — respondeu Remus com voz rouca — Há lealdades que estão acima da vida ou da morte, lealdades mais profundas que o próprio inferno. — levou uma mão ao pescoço — Certas coisas pelas quais um homem, alguns homens venderiam sua alma. Abberline é um deles. Warren outro, e o cocheiro Netley

— Netley? — perguntou Tellman — Refere a Nickley?

-Não, chama-se Netley. Mentiu quando disse chamar-se Nickley no Westminster Hospital.

— O que tem esse tipo haver com eles? Conduzia a carruagem pelo Whitechapel! Sabia quem era Jack e por que este fez o que fez!

— É claro que sabia e continua sabendo-o. Atrever-me-ia a dizer que se irá à tumba sem dizê-la ninguém.

— Por que tratou de matar a menina duas vezes?

Remus sorriu, deixando ver sua dentadura.

— Repito-lhe isso; não sabe nada.

Tellman estava desesperado. A idéia de que tivessem tirado Pitt de Bow Street porque se empenhara em defender a verdade o enfurecia. Charlotte tinha ficado sozinha, preocupada e assustada, e Gracie estava decidida a ajudar a toda custa e sem lhe importar o perigo. A monstruosa injustiça de todo isso era insuportável.

— Sei onde achar a muitos policiais aposentados — sussurrou — Não só ao Abberline ou ao inspetor Warren, a não ser a uns quantos mais, até as altas esferas, se for preciso. Pode ser que esses dois estejam aposentados, mas outros não o estão!

Remus estava branco como o papel e tinha os olhos muito abertos.

— Não, não o fará! Seria capaz de me jogar isso em cima sabendo o que fizeram? Sabendo o que encobriram?

— Não sei! — exclamou Tellman — Não a menos que me explique isso.

Remus engoliu saliva e passou o dorso da mão pela boca. Havia medo em seu olhar.

— Venha comigo. Ponhamos-nos cobertos. Entremos nessa taverna. — Assinalou ao outro lado da rua.

Tellman aceitou agradado. Tinha a boca seca e tinha percorrido a pé uma distância considerável. Não lhe preocupava a chuva. Os dois estavam molhados até os ossos.

Um relâmpago em forma de forca apareceu fugazmente no céu, seguido de um trovão que retumbou sobre suas cabeças, quase dilacerador.

Dez minutos depois estavam sentados em um tranqüilo canto do estabelecimento com jarras de cerveja, e o aroma de serragem e roupa úmida ao redor.

— Bem — disse Tellman — com quem se encontrou no Regent’s Park? Se o pego mentindo terá problemas.

— Não sei — respondeu Remus imediatamente, com expressão aflita — Essa é a verdade, e que Deus me livre. Era o homem que me meteu em tudo isto. Admito que não lhe diria quem era se soubesse, mas não sei.

— Não é um bom começo, Remus — advertiu Tellman.

— Não sei! — protestou ele com uma nota de desespero na voz.

— O que há sobre o homem do Hyde Park com quem discutiu e a quem acusou de ocultar uma conspiração? Outro misterioso informante?

— Não. Esse era Abberline.

Tellman sabia que Abberline tinha estado a cargo da investigação dos assassinatos do Whitechapel. Tinha ocultado provas ou até averiguado a identidade do Estripador e não a tinha revelado? Se fosse assim, seu crime era monstruoso. A Tellman não lhe ocorria nenhuma explicação que pudesse justificá-lo.

Remus o observava.

— Por que Abberline ia querer encobri-lo? — inquiriu Tellman de novo. Depois formulou a pergunta que não podia apagar de sua mente — O que tem que ver Adinett com tudo isto? Ele também estava ao par?

— Acredito que sim. Certamente andava atrás de algo. Esteve em Cleveland Street, perguntando na loja de tabaco e na casa do Sickert.

— Quem é Sickert?

— Walter Sickert, o artista. Era em seu estúdio onde se viam. Estava em Cleveland Street há quatro anos — respondeu Remus.

Tellman lançou uma hipótese.

— Os amantes? Annie Crook, que era católica, e o jovem?

Remus fez uma careta.

— Sim, era ali onde se viam, se quer expressá-lo assim.

Tellman assumiu por suas palavras que se tratava de algo mais que meros encontros, mas continuava escapando a essência de todo isso. O que tinha que ver isso com um assassino louco e quatro mulheres mortas e mutiladas?

— O que diz não tem sentido. — inclinou-se ligeiramente sobre a mesa que os afastava — Quem quer que fosse, ou seja, Jack procurava umas mulheres em concreto. Perguntou por elas por seu nome, ao menos no caso do Annie Chapman. Por quê? Por que perguntou pela morte do William Crook no Saint Pancras e pelo louco do Stephen no Northampton? Que relação tem Stephen com o Jack?

— Que eu saiba — Remus aferrou com suas magras mãos a jarra de cerveja, que tremeu um tanto, e agitou o conteúdo — Stephen foi preceptor do duque do Clarence e era amigo do Walter Sickert. Foi ele quem os apresentou.

— Ao duque de Clarence e a Walter Sickert? — inquiriu Tellman devagar.

A voz do Remus quase se afogou em sua garganta.

— Ao duque de Clarence e a Annie Crook, estúpido!

Tellman notou que tudo começava a lhe dar voltas, como se estivesse em alto mar em meio de uma tormenta. O futuro herdeiro ao trono com uma jovem católica do East End. Entretanto, o príncipe de Gales tinha amantes em todas as partes. Nem sequer se mostrava particularmente discreto. Pelo que Tellman sabia, provavelmente era do domínio público.

Remus deduziu pela expressão de seu rosto que não o compreendia.

— Pelo que eu sei Clarence ou Eddy, como o chamavam, era bastante torpe, e seus amigos suspeitavam que lhe atraísse tanto os homens como as mulheres.

— Stephen — disse Tellman.

— Isso. Stephen, seu preceptor, deu-lhe a conhecer uma classe de diversão mais aceitável ao lhe apresentar a Annie. Era muito surdo, o pobrezinho, tal como sua mãe, e lhe era bastante difícil ter conversa em reuniões de caráter social. — Pela primeira vez havia uma nota de compaixão na voz do Remus, e seu rosto traduziu uma repentina tristeza — Mas não saiu como esperavam. Apaixonaram-se... Apaixonaram-se de verdade. O essencial é... — Olhou ao Tellman com uma estranha mescla de piedade e euforia. Tremiam-lhe ainda mais as mãos-. O essencial é que poderiam ter se casado.

Tellman sacudiu a jarra com tal força que derramou a cerveja na mesa.

— Como?

Remus fez um gesto de assentimento, tremendo. Baixou a voz até sussurrar:

— Por isso Netley, o cocheiro do pobre Eddy, que costumava levá-lo a Cleveland Street para que visse Annie, tratou duas vezes de matar a menina, pobrezinha.

— A menina? — de repente tudo estava claro — Alice Crook… — Tellman aspirou e quase se engasgou — Alice Crook era a filha do duque do Clarence?

— É muito provável, Uma filha natural! E Annie era católica! — A seguir Remus murmurou — Recorda a Ata de Estabelecimento?

— O que?

— A Ata de Estabelecimento — repetiu Remus. Tellman teve que inclinar-se sobre a mesa para ouvi-lo. — A aprovaram em 1701, mas continua estando em vigor. Exclui a toda pessoa casada com um católico romano a herdar o trono! E o mesmo estabelece a Declaração de Direitos de 1689.

Tellman começava a compreender a magnitude de tudo isso. Era espantoso. Punha em perigo o trono, a estabilidade do governo e todo o país.

— De modo que os obrigaram a separar-se! — Era a única conclusão possível — Seqüestraram Annie e a prenderam em um manicômio E o que foi feito de Eddy? Morreu? Ou... Sem dúvida?

— Não foi capaz de dizê-lo. De repente ser príncipe se converteu em algo terrível, um ser humano desamparado, apavorado e isolado, contra uma conspiração que chegava a todas as partes.

Remus o olhava ainda com compaixão.

— Quem sabe. — Meneou a cabeça — O pobrezinho mal podia ouvir e talvez fosse um pouco simples. Ao que parece queria muitíssimo à Annie e à menina. Talvez armasse um escândalo por elas. Era surdo, estava só e confuso — Voltou a interromper-se, com o rosto cheio de comiseração por um homem a quem nunca tinha visto, mas cuja dor imaginava muito bem.

Tellman olhou os pôsteres estragados e os ganchos de ferro que havia na parede que tinha ante si, profundamente agradecido de estar ali em lugar de em um palácio, observado por cortesãos assassinos, um servidor do trono sem nenhuma autoridade.

— Por que as cinco mulheres? — perguntou por fim — Tem que haver uma razão!

— E havia a assegurou Remus — Eram as que sabiam tudo! Eram amigas de Annie. Se tivessem suspeitado o que tramavam eles, teriam se esfumado, mas não tinham nem idéia. Corre o rumor de que eram gananciosas, ao menos uma delas, e arrastou às demais. Pediram dinheiro a Sickert em troca de seu silêncio. Ele informou a seus chefes, e estes as reduziram ao silêncio; o silêncio de uma tumba banhada em sangue.

Tellman ocultou o rosto entre as mãos e permaneceu imóvel, totalmente pasmado. Era Lyndon Remus o que estava louco em realidade? Podia ser verdade algo dessa atroz historia? Levantou a vista devagar, baixando as mãos.

— Acha que estou louco? — perguntou Remus, como se lhe tivesse lido o pensamento.

Tellman fez um gesto de assentimento.

— Sim...

— Não posso prová-lo ainda, mas o farei. É verdade. Analisa os fatos!

— Estou fazendo-o e não demonstram nada. Por que se matou Stephen? De que modo estava envolvido?

— Foi o que os apresentou. O pobre Eddy pintava bastante bem. Era coisa da vista, entende? Não precisava ter ouvido para isso. Stephen o apreciava. — Deu de ombros — Talvez estivesse apaixonado por ele. De todo modo, quando se inteirou de que tinha morrido, sabe Deus o que pensou, mas se tirou a vida.

Culpabilidade, talvez. Ou talvez não. Acaso só tristeza. Isso não muda nada.

— Quem matou então às mulheres? — perguntou Tellman.

Remus meneou a cabeça levemente.

— Não sei. Suspeito que o fez sir William Gull. É o médico da família real.

— E Netley conduzia a carruagem pelo Whitechapel em sua busca, para que Gull desse muitas facadas? — Tellman se surpreendeu tremendo com um frio interno que o calor da taverna não podia fazer nada para aliviar. O pesadelo estava dentro dele.

Remus assentiu de novo.

— Na carruagem. Por isso nunca houve muito sangue, e por isso nunca o agarraram em flagrante.

Tellman afastou de si o que ficava de cerveja. A só idéia de comer ou beber algo lhe produzia náuseas.

— Só falta atar os últimos fios — continuou Remus sem tocar tampouco sua jarra — Preciso averiguar mais sobre Gull.

— Está morto — indicou Tellman.

— Sei. — Remus se inclinou para o sargento. No local o ruído aumentava e cada vez era mais difícil fazer-se ouvir — De qualquer modo isso não muda a verdade. E preciso solicitar toda a informação possível. Todas as conjeturas do mundo não servirão de nada sem fatos irrebatíveis. — Olhou ao Tellman fixamente — E você poderia acessar a coisas que me estão vedadas. Os envolvidos sabem quem sou e não me contarão nada mais. Não tenho nenhum pretexto. Mas você sim pode atuar! Poderia dizer que está relacionado com um caso, e eles falariam com você.

— O que vai fazer você? — perguntou Tellman — Que mais necessita? E por quê? O que pensa fazer com tudo isso quando o tiver, se alguma vez o tiver? É inútil ir à polícia. Gull está morto. Tanto Abberline como Warren estão aposentados. Está procurando o cocheiro?

— Procuro a verdade, em qualquer lugar que esteja — respondeu Remus com ar sombrio. Um homem corpulento se deteve indeciso perto deles e o jornalista esperou que se afastasse para continuar — O que em realidade quero é ao homem que há de trás disto, que enviou a outros a fazer estas coisas. É possível que nunca tenha estado em um raio de oito quilômetros do Whitechapel, mas é a alma e o cérebro do Estripador. Outros só eram uns mandados.

Tellman tinha que perguntar. Estavam rodeados dos ruídos da vida cotidiana: conversas, risadas, tinido de copos, arrastar de pés. Parecia tão são, tão normal, que as coisas das que falavam não podiam ser certas. E, entretanto, se abordar a qualquer desses homens da taverna e mencionava o horror de quatro anos, produzir-se-ia um repentino silêncio, o sangue abandonaria os rostos e os olhares se tornariam frios e temerosos. Até agora seria como se alguém tivesse aberto uma porta interna a uma escuridão da alma.

— Sabe quem é? — A voz do Tellman soou áspera. Precisava beber para aliviar a secura, mas só a idéia de lhe fazê-lo fez engasgar.

— Acredito que sim — respondeu Remus — mas não lhe vou dizer isso de modo que é inútil que me pergunte. É o que ando procurando. Você indaga sobre o Gull e Netley. Não se aproxime de Sickert. — Havia uma severa advertência em seu rosto — Dou-lhe dois dias, reúna-se comigo aqui.

Tellman aceitou. Não tinha outra escolha, apesar do que pudesse fazer Wetron ou outro. Remus tinha razão; se as hipóteses deste eram certas, tratava-se de um assunto muito mais importante que qualquer crime individual, mais inclusive que resolver os assassinatos mais terríveis jamais ocorridos em Londres.

Entretanto, não podia esquecer Pitt e a razão inicial que lhe tinha levado a perguntar.

— Quanto sabia Adinett de tudo isto?

— Não tenho certeza. Algo, disso não cabe dúvida. Estava informado de que levaram Annie Crook de Cleveland Street e a tinham internado no Guy’s, e que também levaram ao Eddy.

— E Martin Fetters? Onde encaixa ele? O que sabia?

— Quem é Martin Fetters? — Remus pareceu desconcertado por um instante.

— O homem a quem Adinett assassinou! — exclamou Tellman com aspereza.

— OH! — A confusão do Remus se limpou — Não tenho nem idéia. Se tivesse sido ao contrario e Fetters tivesse matado Adinett, haveria dito que Fetters era um deles.

Tellman se levantou. Algo que fora fazer, devia fazê-lo em seguida. Se Wetron o surpreendia uma vez mais faltando a suas obrigações, poderia despedi-lo. Se confiasse em Wetron ou em alguém que não fosse Pitt e lhes contasse o que sabia, dar-lhe-iam tempo e quase sem dúvida lhe ajudariam. Entretanto, ignorava até onde se estendia o Círculo Interior, ou onde estava a lealdade de cada um. Devia atuar só.

Saiu da taverna, à chuva cada vez mais ligeira.

Se tinha sido sir William Gull quem tinha cometido atos tão atrozes, então devia averiguar por si mesmo todo o possível sobre ele. Tinha a cabeça cheia de pensamentos e imagens quando se pôs a andar para a rua principal e a parada mais próxima de ônibus. Alegrou-se de que este avançasse devagar. Necessitava tempo para digerir o que Remus acabava de lhe explicar e decidir o que fazer a seguir.

Se for certo que o duque de Clarence se casara com Annie Crook, fosse qual fosse a forma que tivesse tomado a cerimônia, e havia uma filha no meio, não era de estranhar que certas pessoas tivessem sentido pânico e tratado de mantê-lo em segredo. À margem das leis de sucessão ao trono, o sentimento anticatólico que se respirava no país era bastante intenso, e a notícia de tal aliança teria bastado para sacudir a monarquia, já frágil nesse momento.

Mas se saísse à luz que os assassinatos mais horríveis do século tinham sido cometidos por simpatizantes monárquicos, talvez até com o consentimento da família real, explodiria a revolução nas ruas, e o trono seria arrasado por uma maré de indignação que poderia levar-se consigo também ao governo. O que resultaria disso seria estranho, desconhecido e dificilmente melhor.

Entretanto, fosse o que fosse Tellman pensava com consternação na violência, no peso da cólera que faria em pedaços tantas coisas boas assim como as relativamente poucas que não o eram. Quantas pessoas comuns que agora saíam adiante perderiam tudo que possuíam? A revolução mudaria para os que estavam no poder, mas não criaria mais comida, moradias, roupa, empregos dignos nem nada duradouro para fazer a vida mais próspera e segura.

Quem formaria o novo governo quando desaparecesse o velho? Seriam forçosamente mais sábios ou mais justos?

Desembarcou do ônibus e subiu pela costa para o Guy’s Hospital. Não havia tempo para sutilezas. Assim que Remus dispusera do que em sua opinião eram suficientes provas, torná-lo-ia público. Assegurar-se-ia disso o homem do Regent’s Park que o tinha apressado!

Quem era esse homem? O próprio Remus tinha afirmado que não sabia. Nesse momento não tinha tempo para averiguá-lo, mas estava claro: a revolução na Inglaterra, e com ela o fim da segurança e a paz, até com todas suas injustiças.

Tellman subiu pelas escadas do hospital e entrou pela porta principal.

Durante o resto do dia falou com meia dúzia de pessoas sobre o que recordavam do finado sir William Gull para formar uma impressão dele. O que cobrou pouco a pouco era que foi um homem dedicado à ciência da medicina, sobre tudo ao conhecimento do funcionamento do corpo humano, sua estrutura e sua mecânica. Parecia mais impulsionado por um afã de aprender que de curar. Movia-o a ambição pessoal, assim como uma visível embora limitada compaixão que o levava a tentar aliviar o sofrimento.

Inteirou-se sobre como Gull tinha dispensado a um paciente que havia falecido. Gull decidiu lhe praticar a autópsia, e a irmã mais velha do finado, preocupada para que o corpo não ficasse mutilado, insistiu em permanecer na sala durante a operação.

Gull, longe de pôr reparos, realizou todo o procedimento diante dela e, uma vez extirpado o coração, o guardou no bolso para levá-lo e ficar com ele. Isso punha de manifesto uma veia cruel nele que ao Tellman pareceu incompatível com os sentimentos dos pacientes e seus parentes.

Não obstante, era inquestionável que tinha sido um bom médico, e servido não só à família real, mas também a lorde Randolph Churchill e sua família.

Tellman comprovou que não havia nenhum expediente da estadia do Annie Crook no Guy’s, mas três membros do pessoal do hospital a recordavam bem e afirmaram que sir William lhe tinha praticado uma operação de cérebro, depois do que a mulher perdeu a escassa memória que ficava. Em opinião dessas pessoas, sofria sem dúvida de alguma forma de demência, ao menos quando a levaram ali e durante os cento e cinqüenta e seis dias de sua estadia.

Ignoravam o que tinha sido dela. Uma enfermeira entrada em anos parecia consternada por isso, e ainda se indignava ao pensar na sorte de uma jovem a que tinha sido incapaz de ajudar em sua confusão e desespero.

Tellman partiu pouco depois do anoitecer. Não podia esperar mais. Até a risco de pôr em perigo a missão do Pitt no Spitalfields, que achava em grande medida ineficaz de todos os modos, devia dar com ele e lhe explicar tudo quando tinha averiguado. Era muito mais terrível que qualquer conspiração anarquista de explodir um edifício.

Foi de trem até o Aldgate Street, depois caminhou a passo rápido pelo Whitechapel High Street e Brick Lane até a esquina do Heneagle Street. Wetron podia despedi-lo se alguma vez soubesse disso, mas havia em jogo algo mais que a carreira de um homem, fosse a sua ou a de Pitt.

Bateu na porta do Karansky e esperou.

Transcorreram vários minutos antes que um homem a quem mal via a tênue luz a abrisse uns dedos. Não via mais que o contorno da cabeça e os ombros contra o fundo. Tinha uma abundante cabeleira e era um pouco carregado de costas.

— Senhor Karansky? — sussurrou Tellman.

— Quem é você? — A voz traduzia receio.

Tellman já tinha tomado uma decisão.

— O sargento Tellman. Preciso falar com seu inquilino.

Na voz do Karansky havia medo.

— Sua família? Ocorreu algo?

— Não! — apressou-se a responder Tellman, reconfortado por uma repentina sensação de normalidade, onde o afeto era possível e a escuridão de fora, algo temporal e sob controle — Não, mas me inteirei que algo que devo lhe comunicar quanto antes. — E acrescentou — Sinto lhe incomodar.

Karansky abriu mais a porta.

— Entre, entre — convidou — Seu quarto está no alto das escadas. Quer comer algo? Temos... — A seguir se interrompeu, envergonhado.

Talvez tivessem muito pouco que oferecer.

— Não, obrigado — recusou Tellman — jantei antes de vir. — Era mentira, mas não importava.

Tinha que manter a dignidade.

Karansky possivelmente não o tinha proposto, mas transparecia alivio em sua voz.

-Então será melhor que vá procurar ao senhor Pitt. Chegou faz meia hora. Às vezes jogamos xadrez um tempo, ou conversamos, mas esta noite chegou tarde. — Estava a ponto de acrescentar algo mais, mas mudou de opinião. Respirava-se ansiedade no ambiente, como se esperassem algo inquietante e perigoso, e se protegessem contra a dor. Sempre era assim nesse lugar, o esperar que explodisse a violência, a incerteza de qual seria o seguinte desastre, só a certeza de que ia chegar?

Tellman lhe agradeceu, subiu pelas estreitas escadas e bateu na porta que Karansky lhe tinha indicado.

A resposta foi imediata, mas distraída, como se Pitt soubesse quem era e quase o esperasse.

Tellman abriu a porta.

Pitt estava sentado na cama, com os ombros jogados para diante, absorto em seus pensamentos. Tinha um aspecto mais desalinhado que de costume, o cabelo despenteado e muito longo, mas os punhos da camisa que usava estavam lindamente cerzidos, e ainda por cima da cômoda havia uma montanha de roupa limpa, bem engomada.

Quando Tellman fechou a porta sem falar, Pitt percebeu que não era Karansky e levantou o olhar. Ficou boquiaberto de assombro, logo depois de inquietação.

— Não se passa nada! — apressou-se a dizer Tellman — Me inteirei de algo e tinha que contar-lhe esta mesma noite. É... — Levou uma mão ao cabelo e o jogou como sempre para trás — Bom, na realidade sim passa algo. — deu-se conta de que tremia-. É o mais... O maior... O mais espantoso e terrível que jamais ouvi, se for certo. E vai destruir tudo!

Enquanto Tellman o explicava, os últimos restos de cor desapareceram do rosto do Pitt, que permaneceu paralisado de horror até que começou a lhe tremer o corpo de forma incontrolável, como se o frio lhe tivesse penetrado nos ossos.

 

Era quase meia-noite quando Tellman chegou ao Keppel Street, mas na manhã seguinte não teria ocasião de informar ao Gracie e Charlotte do que tinha averiguado. E deviam sabê-lo. Essa terrível conspiração era mais importante que o emprego, ou até a segurança, de qualquer indivíduo. Ocultar-lhe não as protegeria. Nada do que ele ou Pitt dissessem poderia detê-las em sua busca da verdade. Em ambas as mulheres a devoção por Pitt e seu sentido da justiça eram muito mais poderosos que qualquer noção da obediência que tivessem podido ter.

Portanto, deviam contar com o muito escasso amparo que podia lhes proporcionar uma informação de tal enormidade.

E elas talvez pudessem ajudar. Repetiu isso a si mesmo enquanto permanecia na soleira e levantava a vista para as janelas escuras. Ele era agente de polícia, cidadão de um país que corria um sério risco de ver-se imerso em uma violência da qual poderia não sair em anos, e mesmo que o fizesse grande parte de seu patrimônio e identidade poderiam ser destruídos. Não podia antepor a segurança de duas mulheres, por muito que admirasse a uma e amasse à outra.

Levantou a aldrava de latão e a deixou cair com um ruído surdo que ressoou no silêncio. Não se movia nada na rua. Bateu outra vez, e outra.

No piso de cima se acendeu uma luz, e uns minutos mais tarde Charlotte em pessoa foi abrir, com os olhos muito abertos de medo; o cabelo, uma sombra escura sobre os ombros.

— Não se alarme — disse Tellman imediatamente, consciente dos temores da mulher — Devo lhes dizer algo.

Charlotte abriu mais a porta e o fez entrar. Em seguida chamou Gracie e conduziu ao Tellman à cozinha. Esvaziou a cinza da estufa e acrescentou mais carvão. Ele se inclinou muito tarde para ajudá-la, sentindo-se incômodo. Sorriu-lhe e pôs água a ferver.

Quando Gracie apareceu, com o cabelo emaranhado e, nos olhos do Tellman, o aspecto de uma menina de quatorze anos, sentaram-se à mesa com uma xícara de chá cada um, e ele lhes explicou o que tinha averiguado através do Lyndon Remus e o que isso implicava.

Eram quase as três da madrugada quando Tellman saiu por fim às ruas escuras para voltar para sua casa. Charlotte lhe tinha oferecido para ficar a dormir na sala de estar, mas ele tinha recusado. Não lhe parecia decoroso e necessitava a amplitude e a solidão da rua para pensar.

Quando Charlotte despertou era de dia. A princípio a única coisa que recordou foi que Pitt não estava com ela. O espaço a seu lado era o tipo de vazio que alguém experimenta quando lhe cai um dente, dolorido, tenro, estranho.

Logo recordou a visita de Tellman e tudo que este lhes tinha explicado dos assassinatos do Whitechapel, o príncipe Eddy e Annie Crook, e a terrível conspiração para ocultar os fatos.

Endireitou-se e afastou os lençóis a um lado. Não tinha sentido permanecer mais tempo na cama. Nela não havia calor, nem físico nem emocional.

Começou a lavar-se e a vestir-se mecanicamente. Era curioso o muito menos agradável que era algo tão simples como se escovar e ondular o cabelo agora que não estava Pitt para vê-lo, ou inclusive para fazê-la zangar tocando-o e lhe tirando de novo as forquilhas. Tinha saudades de suas carícias ainda mais que o som de sua voz. Era uma dor física em seu interior, como o da fome.

Devia concentrar-se no problema. Não havia tempo para a auto-compaixão. John Adinett tinha matado Fetters porque este estava envolvido em uma conspiração para encobrir ao assassino de Whitechapel e o papel da família real em todo o assunto? Se fosse assim, Adinett deveria tê-lo denunciado e feito responder sobre seu crime, fosse qual fosse o grau em que tinha participado.

Entretanto, tal teoria carecia de sentido. Fetters era republicano. Teria sido o primeiro em revelá-lo. Tinha que ser ao contrario: Fetters tinha descoberto a verdade e pensava dá-la a conhecer, e Adinett lhe tinha matado para impedi-lo. Isso explicaria por que não tinha contado a ninguém, nem sequer para salvar sua vida. Tinha ido a Cleveland Street para perguntar pelo primeiro crime de 1888, mas depois das indagações que tinha efetuado Fetters esse ano. Devia haver-se dado conta de que este sabia e ia divulgá-lo indevidamente, para seus próprios fins. E além de proteger aos homens que tinham cometido os horríveis assassinatos, queria guardar o segredo pelo que estes tinham matado. Tanto se fosse monarquista como se não, não queria uma revolução, e toda a violência e a destruição que esta traria irremediavelmente.

Charlotte desceu devagar pelas escadas sem deixar de dar voltas a esse pensamento. Percorreu o corredor da cozinha e ouviu o Gracie esmurrar frigideiras e salpicar a encher a chaleira de água para ferver. Ainda era cedo. Tinha tempo para tomar uma xícara de chá antes de despertar as crianças.

Gracie se voltou ao ouvir os passos de Charlotte. Parecia cansada, com o cabelo mais desarrumado que de costume, mas ao vê-la entrar sorriu imediatamente. Em seu olhar se percebia tanta valentia e resolução que infundiu a Charlotte um raio de esperança.

Gracie colocou as mechas soltas atrás das orelhas, e deu meia volta para atiçar com vigor o fogo e avivar as chamas a fim de que a água fervesse. Brandia o atiçador como se estripasse a um inimigo mortal.

Charlotte pensou em voz alta enquanto ia à despensa a procurar leite, olhando por onde pisava porque os gatos caminhavam em círculos ao redor dela, como se estivessem decididos a fazê-la tropeçar. Serviu-lhes um pouco de leite em um prato, e arrancou um pedaço de casca de pão que deixou cair ao chão. Os animais brigaram por ele e o fizeram rodar com as patas, perseguindo-o e lançando-se sobre ele.

Gracie preparou o chá. As duas mulheres se sentaram em silencio cordial e o beberam a goles enquanto ainda estava muito quente. Depois Charlotte subiu para despertar primeiro Jemima e depois ao Daniel.

— Quando voltará papai? — perguntou Jemima enquanto lavava o rosto, sendo bastante generosa com a água — Disse que logo. — Sua voz soava acusadora.

Charlotte lhe estendeu a toalha. O que devia responder? Percebia a severidade, e sabia que era produto do medo. A vida tinha sofrido mudanças e nenhum das duas crianças sabia por que. O inexplicável tornava o mundo aterrador. Se um progenitor podia partir e não retornar, talvez o outro também o fizesse. O que era melhor, a verdade incerta e perigosa, ou uma mentira mais agradável que lhes permitiria passar-nos próximos dias, mas em que poderiam pilhá-la ao final?

— Mamãe? — Jemima não estava disposta a esperar.

— Achava que viria logo — respondeu Charlotte, ganhando tempo — É um caso difícil, mais do que se pensava.

— Por que o aceitou se era tão complicado? — perguntou Jemima, seu olhar desapaixonado e intransigente.

O que podia responder? Que Pitt não sabia? Que não tinha tido mais remédio?

Daniel entrou no aposento vestindo a camisa, o cabelo molhado sobre a fronte e por cima das orelhas.

— O que foi? — Olhou a sua mãe, depois a sua irmã.

— Aceitou-o porque era o correto — respondeu Charlotte — Porque era o que devia fazer. — Não podia lhes dizer que se achava em perigo, que o Círculo Interior tinha destruído sua carreira profissional por ter declarado contra Adinett. Tampouco podia dizer que tinha que trabalhar em algo ou perderiam sua casa, talvez até passariam fome. Era muito cedo para tanto realismo. Certamente não podia lhes dizer que tinha descoberto algo tão terrível que ameaçava destruir tudo o que conhecia e no que confiava dia a dia. Os dragões e os ogros eram coisa de contos de fadas, não da vida real.

Jemima a olhou com expressão carrancuda.

— Quer voltar para casa?

Charlotte percebeu o temor de que talvez se fora porque queria. Já o tinha percebido antes, o pensamento não expresso de que partira por alguma desobediência da Jemima, que de algum jeito não tinha estado à altura do que seu pai esperava dela, motivo pelo qual estava decepcionado.

— É claro que sim! — interveio Daniel zangado, o rosto aceso e o olhar furioso — É uma estupidez dizer isso! — Falou com voz carregada de emoção. Sua irmã tinha questionado tudo que ele amava.

Em outra ocasião Charlotte o teria repreendido em seguida por falar desse modo, mas era muito consciente de sua voz trêmula, da incerteza que tinha provocado esse contra-ataque.

Jemima se ofendeu, mas lhe assustava que seus temores fossem certos, e isso era muito mais importante que sua dignidade.

Charlotte se voltou para sua filha.

— É claro que quer voltar — afirmou com tranqüilidade, como se qualquer outra idéia não só fosse espantosa, mas também tola — Não suporta estar longe, mas às vezes cumprir com o dever é muito desagradável e implica ter que renunciar a coisas que lhe importam muitíssimo, por um tempo, não para sempre. Suponho que sente falta de nós ainda mais que nós a ele, porque nós pelo menos estamos juntos. E estamos aqui, em casa, cômodos. Ele tem que estar onde o necessitam, e não é a metade de acolhedor ou limpo que isto.

Jemima parecia grandemente reconfortada, o bastante para começar a discutir.

— Por que papai? Por que não outro?

— Porque se trata de um caso difícil e ele é o melhor — respondeu Charlotte; desta vez foi fácil — Se é o melhor, isso significa que sempre tem que cumprir com seu dever, porque ninguém mais pode fazê-lo por você.

Jemima sorriu. Essa resposta lhe agradava.

— A que tipo de pessoas está perseguindo? — Daniel não estava disposto a deixar correr — O que fizeram?

Isso era menos fácil de explicar.

— Ainda não o fizeram. Papai trata de assegurar-se de que não o façam.

— Fazer o que? — insistiu ele — O que vão fazer?

— Explodir lugares com dinamite — respondeu Charlotte.

— O que é dinamite?

— Algo que faz que as coisas saltem pelos ares — explicou Jemima antes que Charlotte tivesse tempo de procurar uma resposta — Mata a pessoas. Disse-me isso Mary Ann.

— Por quê? — Daniel não tinha em muito Mary Ann. Estava pouco disposto a ter uma opinião muito elevada das meninas de qualquer modo, especialmente sobre temas como fazer voar pessoas.

— Porque acabam feitos em pedaços, estúpido — respondeu sua irmã, satisfeita de lhe devolver a acusação de inferioridade — Não pode estar vivo sem braços, pernas nem cabeça!

Isso pareceu pôr fim à conversa no momento, e desceram para tomar o café da manhã.

Eram passado nove, e Daniel construía um navio com cartão e cola, quando Jemima abriu a porta e fez entrar Emily à cozinha, onde Charlotte cortava batatas.

— Onde está Gracie? -perguntou olhando ao redor.

— OH, fazendo compra — respondeu Charlotte, que se afastou da pia e se voltou para ela.

Emily a olhou com preocupação, suas loiras sobrancelhas ligeiramente franzidas.

— Como está Thomas? — murmurou. Não precisava perguntar como estava Charlotte; via-o na tensão de seu semblante, no peso de seus movimentos.

— Não sei — respondeu Charlotte — Escreve freqüentemente, mas, não conta grande coisa, e não posso lhe ver o rosto, de modo que não sei se diz a verdade quando assegura que está bem. Faz muito calor para tomar chá. Quer de uma limonada?

— Sim, por favor. — Emily se sentou à mesa.

Charlotte foi à despensa e voltou com a limonada. Serviu dois copos e lhe ofereceu um. Depois se sentou e lhe explicou todo o ocorrido, desde a saída de Gracie a Mitre Square até a última visita do Tellman a noite anterior. Emily não a interrompeu nenhuma só vez. Permaneceu sentada com o rosto pálido até que Charlotte deixou por fim de falar.

— Isso é mais espantoso que meus piores pesadelos — disse por fim, e a voz lhe tremeu apesar de si mesma — Quem está trás?

— Não sei — admitiu Charlotte — Poderia ser qualquer um.

— Tem alguma idéia a senhora Fetters?

— Não... Ao menos estou quase certa de que não. A última vez que estive em sua casa encontramos vários papéis do Martin Fetters, e parecia um republicano bastante ardente. Se Adinett era monarquista e estava envolvido nesse outro assunto terrível, e Fetters sabia, isso poderia explicar por que Adinett o matou.

— É claro. O que pensa fazer agora? — Emily se inclinou para frente com atitude premente — Pelo amor de Deus, Charlotte, tome cuidado! Pensa no que têm feito! Adinett está morto, mas poderia haver outros muitos vivos. E não tem nem idéia de quem são!

Tinha razão, e Charlotte não pôde contradizê-la. Entretanto, não podia deixar de pensar que Pitt continuava no Spitalfields e homens que eram culpados de crimes monstruosos ficariam impunes, como se nada tivesse acontecido.

— Devemos fazer algo — murmurou — Se não o tentamos sequer, quem o fará? E devo saber se é verdade. Juno tem direito a saber por que assassinaram seu marido. Deve haver pessoas a quem importa. Tia Vespasia saberá.

Emily considerou uns instantes.

— Pensou o que ocorrerá se for verdade e se faz público por causa de nossa intervenção? — perguntou com suma gravidade — Fará cair o governo.

— Se forem cúmplices de mantê-lo em segredo, então é preciso que caia, mas mediante um voto de censura da Câmara, não através de uma revolução.

— Não se trata só do que merecem — respondeu Emily, que estava muito séria — mas sim do que seguirá, quem os substituirá. Pode ser que sejam maus, isso não o discutirei, mas antes de destruí-los tem que pensar se o que conseguirá ao fazê-lo não será ainda pior.

Charlotte meneou a cabeça.

-O que poderia ser pior que ter no governo uma sociedade secreta que por razões particulares faz vista grossa ante um assassinato? Isso significa que não existem nem a lei nem a justiça. O que se passará na próxima vez que alguém se interponha em seu caminho? Quem será? Sobre que assunto? Matá-lo-ão também e lhes protegerá?

— Isso é um tanto extremo.

— É claro! — protestou Charlotte — Estão loucos! Perderam o sentido da realidade. Pergunte a alguém que saiba algo dos assassinatos do Whitechapel… Que saiba algo de verdade!

Emily estava muito pálida, a lembrança dos assassinatos de há quatro anos vivo em seu olhar.

— Tem razão — sussurrou.

Charlotte se inclinou para ela.

— Se nós também o encobrirmos, estaremos colaborando. Eu não estou disposta a fazê-lo.

— O que pensa fazer?

— Irei ver Juno Fetters para lhe dizer o que sei.

Emily parecia aterrorizada.

— Tem certeza?

Charlotte vacilou.

— Acredito que sim. Estou certa de que preferirá acreditar que mataram a seu marido porque sabia isto antes que porque planejava uma revolução republicana, que é o que agora acredita.

Emily a olhou com os olhos arregalados.

— Uma revolução republicana? Por causa disto? — Respirou com um calafrio — Poderia ter triunfado.

Charlotte recordou o rosto do Martin Fetters na fotografia que Juno lhe tinha mostrado, o olhar franco, inteligente, ousado. Era o rosto de um homem que seguiria suas paixões a todo custo. Tinha gostado dele de maneira instintiva, como tinha gostado dele; sua forma de descrever os lugares e a gente das revoluções de 1848. Aos olhos de Fetters tinha sido uma luta nobre, e assim o tinha feito ela ver. Parecia a causa que teria defendido toda pessoa decente, um amor pela justiça, uma humanidade comum. A idéia de que tivesse planejado uma revolução violenta na Inglaterra era surpreendentemente amarga, quase tanto como a traição de um amigo. Caiu na conta aturdida.

A voz de Emily interrompeu seus pensamentos.

— E Adinett estava contra? Por que não se limitou então a desmascará-lo? — perguntou de modo razoável — Isso o teria detido.

— Sim — concordou Charlotte — Por isso tem muito mais sentido que essa seja a razão pela qual o mataram, porque Fetters sabia sobre os assassinatos do Whitechapel e o teria feito público assim que tivesse reunido provas.

— E agora esse tal Remus vai fazer isso?

Charlotte estremeceu a pesar do calor que fazia na cozinha.

— Suponho que sim. Certamente não seria tão estúpido para tentar chantageá-los. -Era uma pergunta pela metade.

Emily falou em voz muito baixa:

— Não tenho certeza de que não seja estúpido querer saber sequer.

Charlotte se levantou.

— Eu quero saber, acredito que devemos saber. — Respirou fundo — Pode cuidar das crianças enquanto vou ver Juno Fetters?

— Certamente. Iremos ao parque — respondeu Emily. Quando Charlotte passou a seu lado, pegou-a pelo braço. — Tome cuidado! — acrescentou com medo na voz, aferrando-a com força.

— Fá-lo-ei — assegurou Charlotte. E o dizia a sério. Tudo o que tinha lhe era muito querido: as crianças, essa casa, Emily e Pitt em alguma dessas ruelas cinza do Spitalfields — O farei, prometo-lhe.

Juno se alegrou de ver Charlotte. Os dias continuavam lhe sendo forçosamente tediosos. Poucas pessoas a visitavam e não era bem visto que desfrutasse de alguma forma de entretenimento da vida pública. Em realidade não o desejava. Mas tinha mais que meios suficientes para ter a seu serviço a um exército de criados, de modo que não ficava nada por fazer. As horas transcorriam muito devagar, e só as dedicava à leitura ou o bordado, às muitas cartas que tinha que escrever, e carecia tanto do talento como do interesse para pintar.

Não perguntou a Charlotte se levava notícias ou tinha mais idéias, de modo que foi esta quem abordou o tema mal se instalaram na habitação que dava ao jardim.

— Descobri algo que devo lhe contar — informou com bastante cautela. Viu como o rosto de Juno se iluminava — Não tenho certeza se é verdade, mas se é explicará muitas coisas. Parece absurdo e ainda mais importante, talvez nunca consigamos prová-lo.

— Isso é o de menos — se apressou a tranqüilizá-la Juno — Quero sabê-lo por mim mesma. Preciso compreender.

Charlotte viu em seu rosto as profundas olheiras e as finas rugas da tensão. Vivia com um pesadelo. Todo o passado que entesourava, que deveria lhe haver infundido forças nesse momento, de repente se via ameaçado pela dúvida. Tinha existido o homem que tinha amado, ou era fruto de sua imaginação, alguém que Juno tinha construído a partir de fragmentos e ilusões, porque precisava amar?

— Acredito que Martin averiguou a verdade sobre os crimes mais terríveis que jamais se cometeram em Londres ou em qualquer outro lugar — sussurrou Charlotte. Até nessa sala ensolarada com vista ao jardim, a escuridão continuava envolvendo-a ao pensar nisso, como se a aterradora figura pudesse andar inclusive pelas ruas com sua faca manchada de sangue.

— Como? -perguntou Juno com obrigação — Que crimes?

— Os assassinatos do Whitechapel — respondeu Charlotte quase sem voz.

-Não... — Juno negou com a cabeça — Como...? — Se interrompeu — Quero dizer que se Martin o tivesse sabido então...

— O teria denunciado — disse Charlotte — Por isso Adinett teve que matá-lo, para impedi-lo.

— Por quê? — Juno a olhou horrorizada e perplexa — Não o entendo.

Em voz baixa, com palavras simples, mas carregadas de emoção, Charlotte lhe referiu tudo que sabia. Juno escutou sem interrompê-la até que ao final calou e ficou esperando.

Juno falou por fim, o rosto pálido. Era como se tivesse sentido ela mesma a carícia do terror, como se tivesse visto a carruagem negra cruzar rangendo nas estreitas ruas e olhando por um instante nos olhos do homem capaz de cometer tais atrocidades.

— Como pôde inteirar-se Martin? — perguntou com voz rouca — Ele contou a Adinett porque achava que podia confiar nele, e só no segundo último de sua vida descobriu que Adinett era um deles?

— Acredito que sim. — Charlotte assentiu.

— Então quem está por trás de Remus? — perguntou Juno.

— Não sei. Pode ser que outros republicanos...

— Então foi uma revolução...

— Não sei. Talvez fosse ou talvez fosse simples justiça. — Charlotte não acreditava, mas teria gostado que fosse assim. Não ia impedir que Juno se aferrasse a isso, se pudesse.

— Há outros papéis. — A voz do Juno soou muito firme, como se fizesse um intenso esforço — tornei a ler os diários de Martin e sei o que faz alusão a algo que não está ali. Olhei em todos os lugares que me ocorreram, mas não encontrei nada. — Observava Charlotte, e em seu olhar se refletiam a súplica, a luta por vencer o medo que sentia em seu interior. Precisava conhecer a verdade porque seus pesadelos a inventariam de todo modo, e entretanto, enquanto não soubesse haveria esperança.

— Em quem mais poderia ter confiado? — Charlotte a tirou de seu devaneio — Quem poderia guardar os papéis?

— Seu editor! -exclamou Juno com entusiasmo — Thorold Dismore! É um republicano apaixonado. Dizer tão abertamente que a maioria das pessoas o descarta por ser muito franco para representar um perigo, mas fala a sério, e não é nem a metade de cego ou excêntrico do que acreditam. Martin teria confiado nele porque sabia que compartilhava os mesmos ideais e era fiel a seus princípios.

Charlotte não estava certa.

— Pode lhe pedir os papéis que tenha do Martin ou estes pertenceriam a ele como editor?

— Não sei — admitiu Juno levantando-se — mas estou disposta a experimentar tudo para consegui-los. Rogarei, suplicarei ou ameaçarei o que me ocorra. Virá comigo? Pode apresentar-se como minha acompanhante, se o desejar.

Charlotte não desperdiçou a oportunidade.

— É claro.

Não era tão simples entrevistar-se com Thorold Dismore, e se viram obrigadas a esperar três quartos de hora em uma sala de espera pequena e incômoda, mas aproveitaram o tempo preparando o que Juno devia dizer. Quando as fizeram passar por fim ao escritório assombrosamente espartano, Juno estava bastante preparada.

Estava muito atraente de luto, muito mais espetacular que Charlotte, que não tinha previsto tal visita e ia vestida em um verde pálido bastante sóbrio.

Dismore se aproximou com cortesia espontânea. Fossem quais fossem suas crenças políticas ou sociais, era um cavalheiro tão por natureza como por berço, embora não concedia nenhuma importância a este último.

— Bom dia, senhora Fetters. Por favor, entre e sente-se. — Indicou uma cadeira, depois se voltou para Charlotte.

— A senhora Pitt — apresentou Juno — veio me acompanhar. — Não foram necessárias mais explicações.

— Encantado — disse Dismore com um vislumbre de interesse. Charlotte se perguntou se recordava o nome do julgamento ou se seu interesse era pessoal. Decantou-se pelo primeiro, embora tivesse visto antes essa repentina luz nos olhos de outros homens.

— Encantada, senhor Dismore — respondeu ela com modéstia, e aceitou o assento que lhe oferecia, voltado ligeiramente para o do Juno.

Uma vez oferecidos e recusados os refrescos, o natural foi referir-se ao motivo da visita.

— Senhor Dismore, tenho lido algumas das cartas e notas de meu marido — Juno sorriu, com a voz cálida pelas lembranças.

Ele assentiu. Era algo muito natural.

— Percebi que tinha previstos vários artigos para que você os publicasse, sobre temas muito próximos a seu coração, questões sobre a reforma social que desejava...

Dismore parecia aflito; era mais que condolência, e sem dúvida mais que boas maneiras. Charlotte juraria que era sincero. Mas enfrentavam a causas muito mais apaixonadas e entristecedoras que a amizade, por longa e profunda que esta fosse. Pelo que se referia a esses homens era uma forma de guerra, e as pessoas sacrificariam até a seus camaradas pela vitória final.

Esquadrinhou o rosto do Dismore enquanto escutava a Juno, descrever as notas que tinha encontrado. Em algumas ocasiões ele assentiu, mas não a interrompeu. Parecia profundamente interessado.

— Têm todas essas notas, senhora Fetters? — perguntou quando ela terminou.

— Por isso vim — explicou a viúva com inocência — Parecem faltar peças fundamentais, cataloga a outras obras sobre tudo — Respirou fundo e seu olhar vacilou, como se fosse voltar-se para Charlotte, mas resistisse o impulso — Cataloga a pessoas e a crenças que me parecem essenciais para lhes dar sentido.

— E? — Dismore permanecia muito quieto, de uma forma quase antinatural.

— Perguntava-me se poderia ter deixado aqui papéis, rascunhos mais completos. — Juno sorriu indecisa — Juntos poderiam bastar para compor um artigo.

Dismore tinha uma expressão ansiosa. Quando falou, sua voz soou carregada de emoção.

— Não tenho grande coisa, mas é claro que pode vê-lo. Se houver mais, senhora Fetters, devemos procurar em todas as partes até encontrá-los. Estou disposto a tomar todo o trabalho ou ao correr com todos os gastos que sejam necessários para dar com eles.

Charlotte percebeu uma débil advertência. Era uma ameaça velada?

— Era um grande homem — acrescentou Dismore — Sua paixão pela justiça brilhava como uma luz através de cada artigo que escreveu. Era capaz de conseguir que as pessoas voltassem a analisar os velhos preconceitos e expô-los novamente. — Seu rosto se encheu de novo de dor — É uma perda para a humanidade, honra e decência, e o amor ao bem. A um homem como ele pode se seguir, mas nunca substituir.

— Obrigado — disse Juno muito devagar.

Charlotte se perguntou se estava pensando o mesmo que ela. Era esse homem muito inocente, um entusiasta ingênuo, ou o mais assombroso ator? Quanto mais o observava, menos segura estava. Não havia nele a atitude deliberadamente ameaçadora que tinha percebido no Gleave, a severidade, a sensação de poder que seria utilizado sem piedade se sentisse tentado a fazê-lo. Era mais uma energia mental elétrica, quase frenética, e uma paixão e uma inteligência sem reservas.

Juno não ia dar-se por vencida tão facilmente.

— Senhor Dismore, agradecer-lhe-ia extremamente que me deixasse dar uma olhada ao que tem do Martin e me permitisse levar isso em casa. Quero acima de tudo pôr em ordem quanto deixou e lhe oferecer um último artigo, a modo de comemoração. Deseja-se publicá-lo, é claro. Talvez seja muito pretensiosa ao...

— OH, não! — interrompeu ele — Absolutamente. Naturalmente que publicarei o que tenha da melhor forma possível. — Apertou um botão de sua escrivaninha e deu ao secretário que acudiu instruções de trazer todas as cartas e papéis escritos por Martin Fetters que tinham.

Quando o secretário desapareceu para cumprir a ordem, Dismore se recostou em sua cadeira e contemplou Juno com afeto.

— Me alegro tanto de que tenha vindo, senhora Fetters. Permita-Me lhe dizer, confio que sem parecer impertinente, quanto admiro seu ânimo ao desejar escrever um artigo em comemoração ao Martin. Falava de você com tanto carinho que é um prazer comprovar que não era só a voz de um marido apaixonado, mas a de alguém que sabia julgar a outros.

A cor afluiu às faces de Juno e os olhos se encheram de lágrimas.

Charlotte ansiava consolá-la, mas não havia nada que dizer. Das duas uma, ou Dismore era inocente, ou falava com a mais deliciosa crueldade, e quanto mais o observava, menos certa estava do que era. Estava ligeiramente inclinado em seu assento, os olhos iluminados pelo entusiasmo e o rosto animado ao recordar outros artigos que Fetters tinha escrito viagens que tinha realizado a lugares que foram cenários de grandes lutas contra a tirania. Sua consagração quase fanática impregnava cada uma de suas palavras.

Era possível que seu empenho pela reforma republicana fosse uma máscara muito sutil para camuflar a um monárquico que assassinaria a fim de ocultar a conspiração do Whitechapel? Ou seu afã pela reforma da legislação encobria em realidade uma obsessão tão cruel que poria ao descoberto esse mesmo complô com fim de provocar a revolução com toda sua violência e dor?

Charlotte o observava e escutava a cadência de sua voz, mas continuava sem saber o que pensar.

Trouxeram os papéis em um pesado envelope e Dismore os entregou a Juno sem vacilar. Demonstrava isso que era honrado? Ou simplesmente que já os tinha lido?

Juno os aceitou com um sorriso rígido por causa do esforço por manter a calma. Apenas os olhou.

— Obrigado, senhor Dismore — sussurrou — Lhe devolverei tudo o que valha a pena publicar, é claro.

— Rogo-o — respondeu ele — Em realidade me interessaria muito ver o que você tem, e se descobrir algo mais. Poderia haver coisas de valor que não o parecem com simples vista.

— Como quiser — Juno assentiu com a cabeça.

Ele tomou fôlego como se fosse a acrescentar algo mais, insistir em seu pedido, mas mudou de parecer. Sorriu com repentino afeto.

— Obrigado por vir, senhora Fetters. Estou certo de que juntos conseguiremos compor um artigo que será a melhor comemoração a seu marido, que ele gostaria, e que servirá para promover a grande causa da justiça, a igualdade social e a verdadeira liberdade para todos os homens. E chegará! Era um grande homem, clarividente e brilhante, e com a coragem de utilizar ambas as qualidades. Eu tive o privilégio de conhecê-lo e participar de seus lucros. É uma tragédia que o tenhamos perdido tão jovem e quando mais desesperadamente o necessitamos. Acompanho-a no sentimento.

Juno permaneceu imóvel, com os olhos muito abertos.

— Obrigada — disse devagar — Obrigada, senhor Dismore.

Fora, a salvo na primeira carruagem de aluguel que acharam, voltou-se para Charlotte com os papéis em uma mão.

— Leu-os e não há nada neles!

— Sei — assentiu Charlotte — Algo que é o que falta, não está no que Dismore nos deu.

— Acredita que estão incompletos e guardou o resto? — perguntou Juno manuseando o envelope — Me atreveria a jurar que é republicano.

— Não sei — admitiu Charlotte. Dismore a desconcertava. Sentia-se menos segura a respeito dele agora que antes de conhecê-lo.

Retornaram a casa de Juno em silêncio e examinaram todos os papéis que lhes tinha entregado Dismore. Estavam bem escritos, cheios de paixão e ânsia de justiça. Uma vez mais Charlotte se debatia entre a simpatia instintiva que sentia por Martin Fetters, seu entusiasmo, sua coragem, seu afã por compartilhar com toda a humanidade os mesmos privilégios de que ele gozava, e uma repulsão pela destruição que traria consigo de tantas coisas que ela amava. Em nenhum papel havia nada que desse a entender que estava à corrente dos assassinatos do Whitechapel, o motivo destes ou algum plano que envolvesse ao Remus para revelá-los agora, e a raiva e a violência que desencadeariam.

Charlotte deixou Juno sentada relendo-os todos, emocionalmente exausta e, entretanto incapaz de parar.

Encaminhou-se para a parada de ônibus muito confusa. Não podia falar com o Pitt, que era o que mais desejava fazer. Tellman sabia muito pouco do mundo em que viviam pessoas como Dismore e Gleave, ou outros altos cargos do Círculo Interior. A única pessoa em quem podia confiar era tia Vespasia.

Charlotte teve sorte ao achar Vespasia em casa e sem companhia. Esta a saudou com calor, depois observou seu rosto com maior vagar e se sentou a escutar em silêncio toda a história: o que tinham averiguado primeiro Tellman e depois Gracie, e a revelação que esta tinha tido no Mitre Square.

Vespasia não se moveu. A luz que entrava pelas janelas acentuava as finas rugas de sua pele e punha de relevo tanto a energia que havia nela como sua idade. Os anos a tinham melhorado, tinham atenuado sua coragem, mas também a tinham ferido, tinham-lhe mostrado muito das debilidades e defeitos das pessoas, assim como de suas vitórias.

— Os assassinatos de Whitechapel — sussurrou com a voz rouca ante um horror que não tinha imaginado — E o tal Remus vai dar com as provas para vendê-las aos jornais?

— Sim, isso diz Tellman. Será a grande noticia do século. Certamente o governo cairá e com ele, quase com toda probabilidade o trono.

— É claro que sim. — Vespasia permaneceu imóvel, com o olhar perdido em um ponto que estava mais dentro dela que fora — Haverá violência e derramamento de sangue como não vimos na Inglaterra desde tempos de Cromwell. Meu deus, quanto mal para combater o mal! Terminarão com uma corrupção substituindo-a por outra, e todo o sofrimento terá sido inútil.

Charlotte se inclinou ligeiramente.

— Não há nada que possamos fazer?

— Não sei — reconheceu Vespasia — Precisamos averiguar quem está atrás do Remus, e que papel desempenha Dismore e Gleave. Que fazia Adinett em Cleveland Street? Tentava procurar a informação para proporcioná-la a Remus ou para detê-lo?

— Para detê-lo — respondeu Charlotte — Acredito — Se deu conta do pouco que sabia. Quase tudo eram conjeturas, medo. A conspiração envolvia Fetters e Adinett, mas continuava sem estar de todo segura de como. E não podiam permitir o menor engano. Referiu a Vespasia a visita de Gleave e o desejo do leste de achar os papéis do Martin Fetters. Descreveu como tinha percebido nele uma atitude ameaçadora, mas dito nessa sala dourada e limpa parecia coisa de sua imaginação antes que a realidade.

Vespasia não passou por cima a observação e continuou escutando com atenção.

Charlotte passou a lhe falar da convicção de Juno de que havia outros papéis, assim como da visita que tinham feito ao Thorold Dismore, e sua convicção de que era um republicano autêntico e estava decidido a utilizar tudo que pudesse achar ou inventar para conseguir seus próprios fins.

— Certamente — assentiu Vespasia. Sorriu de forma quase imperceptível, com profunda tristeza nos olhos — Não é uma causa ignóbil. Eu não a compartilho, mas entendo muitas das coisas que se esforçam por conseguir e admiro a quem a defende.

Havia nela algo que dissuadiu Charlotte de contrariá-la. Esta caiu na conta com uma sensação de desamparo dos muitos anos que se levavam, e quanto tinha vivido Vespasia que ela ignorava. Entretanto, professava-lhe um afeto que nada tinha que ver com a idade ou o parentesco.

— Deixa que pense nisso — acrescentou Vespasia ao cabo de um momento — Enquanto isso, querida, tenha muitíssimo cuidado. Averigua o que possa sem correr riscos. Estamos tratando com pessoas que não se detêm na hora de matar a homens ou mulheres para conseguir seus objetivos. Acreditam que os fins justificam os meios e que têm direito a fazer tudo que consideram que servirá para o que estão convencidos de que é o bem supremo.

Charlotte sentiu nessa sala luminosa uma escuridão e um frio gélido, como se tivesse feito de noite antes da hora. Levantou-se.

— Fá-lo-ei. Mas devo falar com Thomas. Preciso vê-lo.

— É claro. — Vespasia sorriu — Também eu gostaria, mas me dou conta de que é inviável. Por favor, lhe dê lembranças de minha parte.

Charlotte se adiantou impulsivamente e se agachou para abraçar a Vespasia. Beijou-a na face e partiu sem que nenhuma das duas voltasse a falar.

A caminho de volta a casa, Charlotte passou pela do Tellman e, com grande consternação da caseira, esperou meia hora para que ele voltasse de Bow Street. Pediu-lhe sem rodeios que a levasse no dia seguinte para ver Pitt quando este se dirigisse à fábrica de seda. Tellman protestou alegando os perigos que isso entranhava o desagradável que lhe resultaria e, acima de tudo, o fato de que Pitt não gostaria que ela fosse ao Spitalfields. Charlotte lhe pediu que não perdesse tempo com objeções inúteis. Estava disposta a ir com ou sem ele, e ambos sabiam, de modo que mais valia que o reconhecesse quanto antes para que pudessem ficar de acordo nos detalhes e ir-se cedo à cama.

— Sim, senhora — concedeu ele.

Charlotte deduziu pela expressão de seu rosto que era muito consciente da gravidade da situação para ter mais que uma discussão simbólica com que aquietar sua consciência. Acompanhou-a até a parada de ônibus.

— Estarei na porta do Keppel Street às seis da manhã — disse ele com solenidade — Iremos de carruagem até a estação da ferrovia metropolitana e pegaremos um até o Whitechapel. Vista sua roupa mais velha e botas cômodas para andar. E se pudesse pedir emprestado um lenço para cobrir a cabeça, passaria mais inadvertida entre as mulheres do bairro.

Charlotte acessou com um pressentimento e ao mesmo tempo iludida ao pensar em voltar a ver o Pitt.

Ao chegar a casa subiu pelas escadas e lavou o cabelo, embora fosse escondê-lo o sob um lenço, e o escovou até que brilhou. Propor-se não dizer a Gracie, mas não pôde manter em segredo o plano. Deitou-se cedo, mas estava tão emocionada que não conseguiu conciliar o sono até meia-noite.

Na manhã seguinte despertou tarde e teve que correr. Mal teve tempo para tomar uma xícara de chá. Bebeu-o muito quente e deixou a metade quando Tellman bateu na porta.

— Diga ao senhor Pitt que sentimos muitíssimo sua falta, senhora! — exclamou Gracie ruborizando-se ligeiramente.

— Fá-lo-ei — prometeu Charlotte.

Tellman estava na soleira, a escura forma de uma carruagem de aluguel se erguia de trás dele. Estava estreito de costas, com o rosto magro e sério, e Charlotte se deu conta pela primeira vez do muito que lhe tinha afetado a desgraça de Pitt. Talvez detestasse admiti-lo, mas era profundamente leal, tanto ao Pitt como a seu próprio sentido do justo e o injusto. Possivelmente lhe contrariava a autoridade, via suas falhas e as injustiças das diferenças de classes e de oportunidades, mas confiava que os homens que lhe davam ordens observassem certas normas dentro da lei. Acima de tudo, não tinha esperado que traíssem a um dos seus. Fosse qual fosse sua origem, Pitt tinha ganhado seu posto tanto como qualquer deles, e no mundo disso Tellman significava que deveria ter estado a salvo.

Talvez deplorasse a consciência social, ou sua ausência, entre seus superiores, mas conhecia sua moralidade, ou ao menos isso tinha acreditado, e esta era digna de respeito. Isso era o que tinha feito passível sua autoridade. E de repente já não o era. Quando começava a derrubar a ordem estabelecida, seguia uma nova e aterradora solidão, uma confusão diferente de todo o resto.

— Obrigado — murmurou Charlotte enquanto cruzavam a úmida calçada. A seguir Tellman a ajudou a subir à carruagem.

Percorreram em silêncio as ruas, enquanto a luz cinzenta da manhã se refletia nas janelas das casas e nas vitrines. Já se via muita gente, criadas, crianças dos recados, carreteiros que recolhiam produtos frescos para levá-los aos mercados. As primeiras carroças de leite esperavam nas esquinas e já começavam a formar-se filas quando o cocheiro dobrou a rua em direção à estação.

O barulho do trem ao atravessar o túnel era excessivo para que pudessem conversar, e Charlotte estava absorta desfrutando de antemão de seu encontro com Pitt. Só estavam algumas semanas separados, mas o tempo que tinha passado sem ele se estendia atrás dela como um deserto. Visualizou-o: seu rosto, sua expressão, se estaria cansado, são ou doente, se alegraria de vê-la. Quanto lhe tinha afetado a injustiça? Tinha-lhe mudado a raiva que devia sentir? Esse pensamento a transpassou como uma dor física.

Manteve-se erguida no assento, e só quando Tellman se moveu a seu lado e se levantou, lhe assinalando a porta com um gesto, deu-se conta de que tinha estado abrindo e fechando os punhos até que lhe doeram. Ficou em pé enquanto o trem se detinha com uma sacudida. Estavam no Aldgate Street e deviam fazer a pé o resto do caminho.

Já era pleno dia, mas as ruas estavam mais sujas que as do Bloomsbury, mais cheias de carruagens, carretas e grupos de homens que se dirigiam a seu lugar de trabalho, alguns andando com passo longo e cansado, a cabeça encurvada, outros gritando a seus companheiros. Respirava-se verdadeira tensão no ambiente ou ela imaginava porque conhecia a história do bairro e estava assustada?

Pegou-se a Tellman quando abandonaram a rua principal para dirigir-se ao norte. Havia-lhe dito que iriam ao Brick Lane porque Pitt passava por ali a caminho da fábrica de seda onde trabalhava. Achavam-se no Whitechapel(1). Charlotte pensou no que significava literalmente esse nome e quão absurdo era para esse bairro industrial tão lúgubre, de ruas estreitas, janelas quebradas e cobertas de pó, becos de ângulos bruscos, lareiras que lançavam fumaça, e aroma de bocas-de-lobo e excrementos. Sua horrível historia estava tão próxima à superfície que era dolorosa.

 

   1 Em inglês, "capela branca". (N. da T.)

 

Tellman caminhava a passo rápido, não o via deslocado em meio desses homens que se dirigiam pressurosos para as fábricas de açúcar, armazene e oficinas. Ela tinha que trotar a seu lado, mas talvez ali fosse o apropriado. As mulheres não andavam ao lado de seus homens a essas horas do dia como se fossem casais de noivos.

Houve um estalo de risadas roucas. Alguém tinha estatelado uma garrafa e o débil ruído do vidro ao fazer-se em pedaços soou assombrosamente desagradável. Charlotte não pensou na perda de algo útil, como teria feito em casa, a não ser na arma que seriam as partes cortantes.

Tinham chegado ao Brick Lane.

Tellman se deteve, e ela se perguntou por que. De repente lhe deu um tombo o coração ao ver Pitt. Estava na outra calçada, andando com resolução, mas a diferença de outros homens olhava a um lado e a outro, escutando, observando. Ia vestido com roupa andrajosa, um casaco rasgado por trás que lhe dava um aspecto descuidado, como sempre. Em lugar das bonitas botas que Emily lhe tinha presenteado, calçava as velhas, com a sola esquerda solta e cordas em vez de cordões. E tinha o chapéu amolgado pelo lado da aba. Só por seu andar o reconheceu antes que ele se voltasse e a visse.

Ele titubeou. Não esperava vê-la ali — certamente não tinha estado pensando nela sequer — mas talvez lhe atraísse algo em sua postura.

Charlotte se precipitou para diante, mas Tellman a segurou pelo braço. Por um instante ela se ofendeu e fez gesto de soltar-se; logo se deu conta de que ao cruzar correndo a rua teria atraído a atenção sobre ela, e, portanto sobre o Pitt, e permitiu que a detivessem. Essa gente conhecia Pitt. Perguntar-lhe-iam quem era ela. O que ia responder? Começariam os falatórios, as perguntas.

Charlotte permaneceu com um pé na sarjeta, o rosto tinto de vergonha.

Esse breve movimento pareceu bastar. Pitt a tinha reconhecido. Cruzou a rua tranqüilamente, esquivando-se dos veículos, passando por trás de uma pesada carroça e diante do carrinho de mão de um mascate. Alcançou ao casal e, depois da mais imperceptível inclinação da cabeça, falou como se dirigisse só ao Tellman.

— O que fazem aqui? — perguntou com suavidade, a voz cheia de emoção — O que aconteceu?

Charlotte olhou-o fixamente, memorizando cada ruga. Parecia cansado. Estava recém barbeado, mas tinha a pele cinzenta e os olhos afundados. Sentiu uma dor no peito pelo desejo de lhe confortar, levá-lo de novo a casa, ao calor de uma cozinha limpa, o aroma de roupa branca, a tranqüilidade do jardim com seu aroma de terra úmida e erva cortada, uma porta que se fechava umas poucas horas ao mundo, e por cima de todo o desejo de estreitá-lo entre seus braços.

Entretanto, muito mais urgente era a necessidade de demonstrar a todos que ele tinha tido razão, provar o de tal modo que se vissem obrigados a reconhecê-lo, para curar assim a velha ferida da vergonha de seu pai. Charlotte se sentia furiosa, doída e impotente, não sabia o que dizer ou como explicar-se para que ele compreendesse e se alegrasse de vê-la como ela se alegrava de estar simplesmente perto dele, ver seu rosto e ouvir sua voz.

— Ocorreram muitas coisas — dizia Tellman em voz muito baixa. Só chamava "senhor" ao Pitt quando se mostrava insolente, de modo que não teve que vigiar sua língua se por acaso o traía sem querer — Não estou à corrente de tudo, de modo que será melhor que a senhora Pitt o explique. Mas são coisas que deve saber.

Pitt percebeu o medo na voz do Tellman, e sua cólera se evaporou. Olhou ao Charlotte.

Ela queria lhe perguntar como estava se achava bem, como era sua habitação, se a família do caseiro se mostrava agradável com ele, se a cama estava limpa, se tinha suficientes travesseiros, como era a comida, se era abundante. Sobre tudo desejava que soubesse que lhe queria, e que sentir sua falta era mais doloroso e fazia sentir-se mais só do que nunca teria imaginado, em todos os sentidos; para rir, conversar, compartilhar com ele o bom e o mau de cada dia, saber simplesmente que ele estava a seu lado.

Em lugar disso começou a lhe dizer o que mentalmente tinha ensaiado e com certeza poderia lhe haver dito também Tellman. Foi muito direta e prática.

— Fui várias vezes ver a viúva de Martin Fetters… — Passou por cima a expressão de sobressalto do Pitt e se apressou a continuar antes que a interrompesse — Queria averiguar por que o mataram. Tem que haver uma razão. — Fez uma pausa quando um grupo de trabalhadoras da fábrica passaram a seu lado falando com vozes e olhando-os com curiosidade mal dissimulada.

Tellman trocou o peso do corpo de um pé a outro, incômodo.

Pitt se afastou um passo do Charlotte, dando a entender que ela estava com o Tellman.

Uma das mulheres riu e seguiram andando.

Uma carroça de verduras passou com grande estrondo pela rua.

Não podiam permanecer muito tempo ali ou se fixariam neles, o que poria em perigo ao Pitt.

— LI a maior parte de seus papéis — explicou ela brevemente — Era um republicano apaixonado, disposto inclusive a colaborar na causa da revolução. Acredito que por isso Adinett o matou, quando se inteirou do que se propunha fazer. Suponho que não se atreveu a confiar na polícia. Ninguém teria acreditado nele ou, pior ainda, poderiam ter estado mesclados.

Pitt estava perplexo.

— Fetters era... — Engoliu a saliva enquanto assimilava o que Charlotte acabava de explicar — Entendo. — Guardou silêncio uns momentos, olhando-a fixamente. Percorreu com o olhar seu rosto como se memorizasse cada detalhe dela.

Ao cabo se obrigou a voltar para o presente, à rua buliçosa, a calçada cinza e a urgência do momento.

Charlotte notou que se ruborizava, mas foi uma sensação agradável que percorreu até o mais profundo de seu ser.

— Se for assim, há duas conspirações — disse ele por fim — a dos assassinos do Whitechapel para proteger a todo custo o trono, e a dos republicanos para derrocá-lo, também a todo custo, o que talvez seja ainda mais terrível. E não estamos seguros de quem está em cada bando.

— Contei a tia Vespasia. Mandou lembranças para você. — Charlotte pensou enquanto o dizia no pouco apropriadas que eram essas palavras para transmitir as poderosas emoções que havia sentido emanar da Vespasia. Enquanto olhava para Pitt no rosto, percebeu que ele o compreendia, e voltou a relaxar com um sorriso.

— O que lhe disse? — perguntou ele.

— Que tome cuidado — respondeu ela com tristeza — De todo modo não há nada que eu possa fazer, além de seguir procurando a ver se acharmos o resto dos papéis do Martin Fetters. Juno tem certeza de que há mais.

— Não os peçam a ninguém mais! — exclamou ele com severidade. Olhou ao Tellman, mas se deu conta de que era inútil esperar que ele o impedisse Charlotte. Sentia-se impotente e frustrado, e se refletia em seu rosto, uma mescla de dor, medo e fúria.

— Não o farei! — prometeu ela. Disse-o em um impulso, para deter a ansiedade que sabia lhe consumia — Não falarei com ninguém mais. Só irei vê-la e continuaremos procurando na casa.

Ele exalou o fôlego devagar.

— Devo ir.

Charlotte ficou quieta, ardendo em desejos de tocá-lo, mas havia muita gente na rua e já tinham começado a atrair olhares. Contra todo bom senso, deu um passo para diante.

Pitt estendeu uma mão.

Um operário que passava de bicicleta tocou a campainha e gritou a Tellman algo ininteligível, sem dúvida uma obscenidade. Riu e continuou pedalando.

Tellman pegou Charlotte pelo braço e a fez retroceder. Doíam-lhe os dedos.

Pitt deixou escapar um suspiro.

— Tome cuidado, por favor — repetiu — Diga ao Daniel e a Jemima que os quero.

Ela assentiu.

— Sabem.

Ele hesitou só um instante, depois se voltou e cruzou de novo a rua, sem olhar atrás.

Charlotte observou-o afastar-se e de novo ouviu rir um par de jovens no outro extremo da rua.

— Vamos! — exclamou Tellman furioso. Desta vez a pegou pelo pulso e a obrigou a dar a volta com tal brutalidade que quase lhe fez perder o equilíbrio.

Charlotte se dispunha a protestar zangada quando se deu conta de que estava chamando a atenção. Tinha que comportar-se como as pessoas esperavam dela ou só pioraria as coisas.

— Sinto-o — disse, e o seguiu total para o Whitechapel High Street. Notou que seus passos eram mais ligeiros, e dentro dela sentia uma sensação de bem-estar. Pitt não a havia tocado, nem ela a ele, mas seu olhar tinha sido uma carícia em si mesmo, um toque que nunca se debilitaria.

Vespasia não gostava particularmente de Wagner, mas a ópera, qualquer ópera, era uma ocasião solene com certo glamour. Como o convite procedia do Mario Corena, teria aceitado mesmo que se tratasse de passear pelo High Street sob a chuva. Não o teria admitido, mas suspeitava que ele talvez já soubesse. Nem a terrível noticia que Charlotte lhe tinha comunicado podia dissuadi-la de sair com ele essa noite.

Mario passou para recolhê-la as sete, e avançaram muito lentamente na carruagem que ele tinha alugado para a noite. Era uma tarde agradável, e as ruas estavam cheias de pessoas que viam e se deixavam ver de caminho a festas, jantares, bailes, exposições ou excursões acima e abaixo do rio.

Mario sorria. Os últimos raios de sol dançavam em seu rosto à medida que avançavam. Vespasia pensou que os anos se mostraram clementes com ele. Conservava a pele firme e suas rugas não denotavam amargura, apesar de tudo o que perdera. Talvez nunca tivesse perdido a esperança e esta só tinha mudado ao morrer uma causa e nascer outra.

Recordou as longas tardes douradas em Roma, com o sol se pondo sobre as antigas ruínas da cidade, perdidas agora em séculos de sonhos posteriores e menores. Ali o ar era mais quente, e cheirava a pó. Recordava como tinham andado pelas calçadas que em outro tempo tinham sido o centro do mundo, pisadas pelos pés de todas as nações que tinham ido a lhe render comemoração.

Mas isso tinha sido na época imperial. Mario se tinha detido em uma das pontes mais velhas e simples que cruzavam o Tíber para contemplar a luz refletida na água e lhe tinha falado, com tom apaixonado, da velha república que tinha tombado aos reis, muito antes das épocas dos Césares. Isso era o que ele amava, a simplicidade e a honra com que tinham começado antes que se apoderasse deles a ambição e o poder os corrompesse.

Ao pensar em poder e corrupção Vespasia experimentou um calafrio que a cálida noite não conseguiu aliviar; nem os ecos da memória eram bastante fortes para desprender-se.

Pensou nos escuros becos do Whitechapel, nas mulheres que esperavam sozinhas, ouvindo às suas costas o estalo continuado das rodas das carruagens, talvez até voltando-se para ver seu contorno negro contra a penumbra, a porta que se abria a visão fugaz de um rosto, e a dor.

Pensou no pobre Eddy, um boneco sacudido daqui para lá, cujas emoções tinham sido exploradas e passadas por cima em um mundo que ouvia só pela metade, que talvez compreendia pela metade. E pensou em sua mãe, também surda, compadecida e freqüentemente ignorada, e em como devia ter chorado por ele e quão impotente se teria sentido por não poder ir consolá-lo sequer, e nem digamos, salvá-lo.

Aproximavam-se do Covent Cardem. Na esquina havia uma menina com um buquê de flores murchas.

Mario deteve a carruagem, o que zangou e causou aborrecimento aos condutores das carruagens que os rodeavam. Apeou-se e se aproximou da menina, comprou-lhe as flores e voltou com elas sorridente. Estavam cobertas de pó, os caules dobrados e as pétalas lânguidas.

— Não estão em seu melhor momento — disse com ironia — E paguei muito por elas. — Em seu olhar havia humor e tristeza.

Vespasia as aceitou.

— Muito apropriadas — observou lhe devolvendo o sorriso com um ridículo nó na garganta.

A carruagem voltou a se pôr em marcha em meio de consideráveis impropérios.

— Sinto que seja Wagner — comentou ele recostando-se de novo em seu assento — Nunca consigo tomá-lo com a devida seriedade. Os homens que não são capazes de rir de si mesmos me assustam ainda mais que os que riem de tudo.

Olhou-o e soube que falava a sério. Seu tom lhe fez pensar nos quentes e terríveis dias de sítio antes do final. Ao longo dessas noites sós, quando já tinham feito quanto estava em suas mãos e unicamente cabia esperar, tinham compreendido que não ganhariam. O Papa retornaria e com ele, cedo ou tarde, todas as velhas corrupções, anódinas, desumanas e impessoais.

Mas dentro deles havia paixão, além de uma lealdade que dava tudo sem pedir nada em troca, inclusive ao final. Os homens que os venciam eram mais fortes, mais ricos e mais tristes.

— Zombam porque não compreendem — respondeu ela pensando nos que mofaram a muito de suas aspirações.

Mario a olhava como sempre o tinha feito, como se não existisse ninguém mais.

— Às vezes. É muito pior quando o fazem porque compreendem, mas odeiam o que não podem ter. — Sorriu. — Lembro que meu avô me dizia que se procurasse a riqueza ou a fama sempre haveria quem me odiaria por isso, porque estas só se obtêm a custa de alguém. Pelo contrário, se unicamente aspirava a ser bom, ninguém me invejaria. Não o contradizia, em parte porque era meu avô, Mas sobre tudo porque então não me dava conta de quão equivocado estava. — Esticou a boca, e uma terrível pena inundou seus olhos — Não há ódio maior neste mundo que o que sente por alguém que possui uma virtude que você não possui e deseja ter. É o espelho que mostra o que é e o obriga a vê-lo.

Sem dar-se conta Vespasia pôs uma mão sobre as dele. Mario a pegou quase imediatamente entre as suas, cálidas e fortes.

— Em quem está pensando? — perguntou ela, consciente de que não falavam só as lembranças, por muito queridas que fossem.

Mario se voltou para ela com uma expressão solene. O trajeto chegava a seu fim, e logo seria o momento de descer e unir-se à multidão que se congregava na escadaria do teatro da ópera, as mulheres envoltas em seda e rendas, as jóias lançando brilhos sob as luzes, os cavalheiros com camisas tão brancas que brilhavam.

— Não estou pensando tanto em um homem, querida, como em uma época. — Olhou ao redor — Não podem durar muito todo este luxo, a desigualdade e o esbanjamento. Contempla a beleza e memoriza-a, porque é muito valiosa e grande parte dela desaparecerá. — Falava em voz muito baixa — Só com que tivessem sido um pouco mais prudentes, um pouco mais moderados, teriam podido conservar tudo. Esse é o problema quando a cólera acaba por explodir; destrói tanto o bom como o mau.

Antes que ela pudesse lhe surrupiar mais, a carruagem se deteve, e ele desceu e lhe estendeu uma mão adiantando-se ao lacaio. Subiram pela escadaria e abriram passagem entre as pessoas, saudando com a cabeça a algum amigo ou conhecido.

Viram Charles Voisey em plena conversa com o James Sissons. Este parecia acalorado e, cada vez que Voisey titubeava, colocava truques.

— Pobre Voisey — disse Vespasia com ironia — Acha que estamos moralmente obrigados a resgatá-lo?

— Resgatá-lo? — perguntou Mario desconcertado.

— Do homem da fábrica de açúcar — disse ela, surpreendida de ter que explicar — é um autêntico chato.

O rosto do Mario se encheu de dolorosa compaixão, de um pesar que a inundou de uma grande saudade de coisas que nunca poderiam ser que não tinham podido ser sequer tantos anos atrás em Roma, salvo em sonhos.

— Não sabe nada dele, querida, do homem que há atrás dessa torpe fachada. Merece que o julgue por seu coração, não por sua elegância ou falta dela. — Agarrou-a pelo braço e, com surpreendente força, a fezela passar junto ao Voisey e Sissons, e o grupo que havia mais à frente, e escada acima até o camarote.

Vespasia observou que Voisey se sentava quase em frente deles, mas não voltou a ver o Sissons.

Desejava desfrutar da música, deixar que a mente e o coração lhe enchessem do Mario durante esse breve período de tempo, mas não podia deixar de pensar no que lhe tinha contado Charlotte. Analisou todas as possibilidades e, quantas mais voltas lhes dava, menos duvida tinha a respeito do terrivelmente perto da verdade que estava aquilo ao qual Lyndon Remus se viu empurrado, mas este estava sendo manipulado por razões que escapavam a sua compreensão.

Confiava no coração do Mario. Até depois de tantos anos não achava que tivesse mudado muito. Seus sonhos estavam misturados com sua alma. Entretanto, não confiava em sua mente. Era um idealista; via o mundo a grandes pinceladas, como queria que fosse. Negara-se a permitir que a experiência debilitasse suas esperanças ou lhe ensinasse a ser realista.

Observou seu rosto, tão cheio ainda de paixão e esperança, e seguiu seu olhar até o camarote da família real, que essa noite estava vazio. O príncipe de Gales certamente desfrutava de algo um pouco menos sério que a deliberação dos deuses condenados de Valhala.

— Escolheu de propósito ou ocaso dos deuses? — perguntou.

Algo em sua voz chamou a atenção do Mario, uma nota grave, inclusive uma sensação de que se esgotava o tempo. Não havia rastro de senso de humor em seu olhar quando respondeu.

— Não, mas poderia havê-lo feito — sussurrou — É o ocaso, Vespasia, para os deuses cheios de defeitos que desperdiçaram suas oportunidades e esbanjaram dinheiro que não lhes pertencia, dinheiro emprestado que não devolveram. Por culpa disso morrerá de fome gente boa, e isso enfurece as vítimas. Suscita indignação no homem da rua, e isso é o que derroca aos reis.

— Duvido-o. — Não gostava de contrariá-lo. — Faz tanto tempo que o príncipe de Gales deve dinheiro que agora só fica uma cólera lânguida, não bastante explosiva para o que está dizendo.

— Isso depende de quem o tenha emprestado — respondeu Mario com gravidade — Se forem homens ricos, banqueiros, especuladores e cortesãos correram até certo ponto seus próprios riscos e cabe pensar que merecem sua sorte. Mas não se o prestamista está arruinado e se afundam outros com ele.

As luzes foram apagando-se e se produziu um silêncio no teatro. Vespasia mal se deu conta.

— E é provável que ocorra, Mario?

A orquestra tocou as primeiras notas sinistras.

Ela sentiu o toque da mão de Mario na escuridão. Continuava tendo considerável força nele. Em todas as ocasiões que a havia tocado nunca lhe tinha feito mal, só quebrado o coração.

— É claro que ocorrerá — respondeu ele — O príncipe está tão empenhado em sua própria destruição como qualquer dos deuses do Wagner, e ao afundar levará consigo todo o Valhala, aos bons assim como aos maus. Nunca soubemos impedi-lo. Essa é sua tragédia, que não escutarão até que seja muito tarde. Entretanto, desta vez contamos com homens clarividentes e práticos. Inglaterra é a última das grandes potencias a ouvir a voz do homem da rua em seu protesto contra a injustiça, mas talvez por isso aprenderá dos que fracassaram, e vocês terão êxito.

Levantou-se o pano de fundo e no cenário apareceu um complicado cenário. À luz deste Vespasia olhou ao Mario e viu em seu rosto uma profunda esperança, assim como a coragem de voltar a tentar apesar de todas as batalhas perdidas, mas ainda não a generosidade de desejar a vitória a outros.

Quase desejou que tivesse êxito, por ele. A velha corrupção tinha raízes profundas, mas em muitos casos fazia parte da vida mesma, era ignorância, não maldade deliberada, nem crueldade só cegueira. Ela compreendia os argumentos do Charles Voisey contra o privilégio herdado, mas conhecia a natureza humana o suficiente para acreditar que o abuso de poder não faz distinção de pessoas; afeta tanto ao rei como às pessoas mais comuns.

— Os tiranos não nascem, querido — murmurou — Se fazem quando se apresenta a oportunidade, seja qual for o título que dê a si mesmos.

Mario sorriu.

— Tem em muito pouco ao ser humano. Deve ter fé.

Ela engoliu a saliva para conter o nó que lhe formou na garganta, e não o contradisse.

 

Depois de deixar Charlotte Pitt continuou andando pela rua em direção à fábrica de açúcar. O intenso e enjoativo aroma se introduzia pelo nariz e garganta, mas nem a perspectiva de fazer guarda essa noite podia danificar a felicidade que o inundava ao vê-la, até por pouco tempo. Estava exatamente como a tinha recreado sua memória nas longas noites de solidão: o calor que irradiava, o contorno das faces, os lábios e, acima de tudo, os olhos ao lhe sustentar o olhar.

Encaminhou-se para as portas da fábrica e cruzou-as. O enorme edifício se erguia imponente enquanto os homens se abriam passagem a cotoveladas. Só queria averiguar se o necessitavam essa noite. Quase todas as manhãs passava para perguntar.

— Sim — respondeu alegremente o vigilante mais antigo. Aquele dia estava cansado, seus olhos, de um azul esvaído, quase ocultos atrás dobras de pele.

— Bem — respondeu Pitt com pesar. Teria preferido dormir — Como está sua mulher?

— Fraca — respondeu o vigilante noturno meneando a cabeça e tratando de sorrir.

— Sinto muito. — Pitt o dizia a sério. Sempre perguntava por ela, e a resposta variava de um dia para outro, mas a mulher piorava e ambos sabiam. Falou com ele um momento mais. Billy se sentia só e sempre necessitava a alguém com quem compartilhar suas inquietações.

Depois Pitt se dirigiu com pressa à oficina do Saúl porque se tinha feito tarde. Também chegou com atraso a seu primeiro recado, porque uma carroça de barris derrubou na rua e se deteve ajudar ao carreteiro a voltá-los para carregar. A paz que experimentava em seu interior o fazia imune às ruas cinza, a cólera e o medo que crispavam os nervos.

Essa noite, retornou ao Heneagle Street cedo. Isaac ainda não havia retornado e Leah estava atarefada na cozinha.

— É você, Thomas? — perguntou ao ouvir passos ao pé das escadas.

Pitt percebeu o intenso aroma de seus guisados, a ervas doces. Acostumara-se a elas e tinha chegado a gostar.

— Sim— respondeu — Como está?

Ela nunca respondia diretamente.

— Tem fome? Deveria comer mais e não trabalhar tão tarde nessa fábrica. Não é bom para você.

Ele sorriu.

— Sim, tenho fome, e tenho que fazer o primeiro turno esta noite.

— Então entre e coma algo!

Ele subiu antes para lavar o rosto e as mãos, e achou a roupa limpa que lhe tinha deixado sobre a cômoda. Agarrou a camisa de cima e viu que tinha dado a volta aos punhos, de tal maneira que os extremos gastos ficavam dentro.

Embargou-lhe uma sensação de nostalgia tão entristecedora que por um instante foi quase inconsciente do quarto em que se achava. Era um pequeno detalhe doméstico, o tipo de coisa que faria Charlotte. Tinha-a visto tardes inteiras remendar, dar a volta a colarinhos ou punhos, a agulha se chocando contra o dedal, a luz refletindo-se neste, prateada, com cada ponto diminuto.

Depois ficou furioso por tantas mulheres como Leah Karansky, a quem nunca perguntavam se queriam uma revolução, ou que preço estariam dispostas a pagar pela idéia que outra pessoa tinha da justiça social ou da reforma. Talvez o único que elas queriam era a sua família a salvo em casa de noite e dinheiro suficiente para pôr na mesa algo que comer.

Pitt examinou os pontos do Leah nos punhos e soube quanto tempo tinha dedicado à tarefa. Devia lhe agradecer, fazê-la saber que apreciava a amabilidade, talvez lhe falar de algo interessante ao fazê-lo. Ou melhor, escutá-la com muita atenção quando ela falasse.

Depois de jantar, sorrindo ainda ao recordar as histórias de Leah, entrou no pátio da fábrica de açúcar no preciso momento em que chegava Wally Edwards, com quem ia compartilhar a guarda.

— Ah, você outra vez! — exclamou Wally alegremente — O que faz com todo seu dinheiro, né? Com a seda todo o dia e o açúcar de noite… Alguém está vivendo muito bem graças a seu trabalho, seguro.

— Eu algum dia! — disse Pitt com uma piscada.

Wally riu.

— Ouça, contaram-me uma história muito engraçada sobre um fabricante de velas e uma anciã. — E sem esperar, passou a relatar-lhe com deleite.

Um quarto de hora depois Pitt efetuou a primeira ronda por sua zona, e Wally foi em direção contrária, ainda rindo para si mesmo. O pessoal que trabalhava de noite era o mínimo. As caldeiras nunca se apagavam, e Pitt deu uma olhada em cada sala e subiu pela estreita escada a cada andar. As salas eram pequenas, de tetos baixos para que houvesse o maior número de andares. As janelas eram diminutas; por fora, à luz do dia, o edifício não parecia ter nenhuma. Nesse momento estava iluminado por lampiões bem protegidos, porque o suco de cano era extremamente inflamável.

Cada sala pela qual passava estava cheia de tinas, barris, retortas e grandes caldeiras em forma de disco e caçarolas de vários metros de largura. Os poucos homens que ainda trabalhavam; olhavam ao redor e trocavam umas palavras com ele para seguir continuar com sua tarefa. Em toda parte havia um aroma adocicado, quase a podre. Ao Pitt parecia que nunca o tiraria da roupa e cabelo.

Meia hora depois voltou a encontrar-se abaixo com o Wally. Puseram água a ferver em um braseiro no pátio descoberto e, sentados nos velhos barris, dentro dos quais chegava sem refinar o açúcar das Antilhas, beberam o chá a goles até que estivesse bastante frio. Contaram-se piadas e histórias, algumas muito longas e só ligeiramente engraçadas, mas o importante era a companhia.

Em um par de ocasiões perceberam um movimento na escuridão. A primeira vez Wally foi investigar e voltou dizendo que achava que tinha sido um gato. A segunda foi Pitt, e achou a um dos encarregados da caldeira adormecido atrás de uma montanha de tonéis. Ao despertar tinha movido um, que rodou sobre os paralelepípedos.

Cada um efetuou outra ronda, e depois outra.

Uma vez Pitt viu sair um homem a quem não reconheceu. Pareceu-lhe de idade mais avançada que a maioria dos trabalhadores, mas a vida no Spitalfields envelhecia a seus habitantes. O que lhe chamou a atenção foram suas feições robustas, de ossos delicados, e sua tez escura. O tipo se absteve de olhá-lo, limitando-se a levantar uma mão em uma saudação rápida, e a luz arrancou um brilho de um anel com uma pedra negra. O homem transmitia uma inteligência que continuava gravada na memória do Pitt quando voltou para o pátio e achou ao Wally pondo de novo água a ferver.

— Termina o turno algum empregado a esta hora? — perguntou.

Wally deu de ombros.

— Alguns. É um pouco cedo, mas aos pobres diabos não agradecem de todo modo. Escapuliu a casa para dormir, suponho. Que sorte tem. Não me importaria me colocar na cama! — Retirou a chaleira do fogo — Contei-lhe que uma vez subi pelo canal até Manchester? — E sem esperar uma resposta, iniciou o relato.

Duas horas mais tarde Pitt estava na metade de sua ronda seguinte pelas salas do piso superior quando chegou ao final do corredor e observou que a porta do escritório do Sissons estava entreaberta. Parecia-lhe que não a tinha visto assim na ronda anterior. Tinha entrado algum empregado?

Abriu-a por completo de um empurrão, sustentando a lanterna em alto. A estadia era mais ampla que as demais e desde o sétimo piso, ao resplendor muito tênue do luzeiro da alvorada, viu por cima dos telhados, em direção sul, o reflexo prateado sobre a brilhante superfície do rio.

Sustentando a lanterna no alto, deu voltas pelo aposento.

Sissons estava sentado a sua escrivaninha, desabado sobre sua superfície brilhante. Na mão direita tinha uma pistola, e havia um atoleiro de sangue na madeira e no couro debaixo dele. Ainda mais chamativa, de um branco deslumbrante ao enfocá-la com a lanterna, era uma folha de papel que o sangue não tinha alcançado e, portanto, sem manchar. O tinteiro estava à direita da escrivaninha, na parte dianteira, colocado em sua base ligeiramente afundada, a pena em seu suporte, o canivete ao lado.

Gelado, com o estômago um tanto revolto, Pitt deu os dois passos que o afastavam do Sissons, com cuidado de não tocar nada. Não viu rastros nem gotas de sangue no chão. Tocou a face do Sissons. Estava quase fria. Devia levar duas ou três horas morto.

Rodeou a escrivaninha e leu a nota. Estava escrita com caligrafia bonita, quase pedante.

 

Fiz tudo o que pude e fracassei. Advertiram-me, mas não fiz conta. Em minha estupidez achei que um príncipe, herdeiro ao trono da Inglaterra e, portanto, de uma quarta parte do mundo, cumpriria sua palavra. Emprestei-lhe dinheiro, tudo o que consegui reunir, a prazo fixo e com um juro mínimo. Achei que ao fazê-lo aliviaria seus apuros econômicos e, ao mesmo tempo, ganharia um pouco que poderia investir de novo em meu negócio para beneficiar a meus trabalhadores.

Que cego estive. Ele negou a própria existência do empréstimo, e estou acabado. Perderei as fábricas, milhares de homens ficarão sem emprego, e todos quantos dependem delas morrerão do mesmo modo. A culpa é minha, por ter confiado em um homem sem honra. Não me sinto com forças para viver e ver o que ocorre, não posso suportar ser testemunha ou enfrentar aos homens aos quais destruí.

Estou fazendo o único que fica por fazer. Que Deus me perdoe.

JAMES SISSONS

 

Ao lado da nota havia um "pagarei" por valor de vinte mil libras, assinado pelo príncipe de Gales. Pitt ficou olhando ambos os papéis e estes dançaram ante seus olhos. A sala parecia dar voltas a seu redor como se achasse a bordo de um navio. Apoiou as mãos na escrivaninha para sustentar-se. Já não era possível ajudar Sissons. Quando entrasse o primeiro secretário e o encontrasse, e junto a ele a nota e o "pagarei", o fato causaria mais dano que meia dúzia de cartuchos de dinamite. Um empréstimo não devolvido ao príncipe de Gales, para que apostasse nas corridas de cavalos, bebesse vinho e comprasse presentes a suas amantes, enquanto no Spitalfields mil e quinhentas famílias tinham que sair para mendigar! As lojas fechariam, os comerciantes abandonariam seus negócios, as pessoas fechariam suas casas com tábuas e viveriam nas ruas.

Produzir-se-iam distúrbios ao lado dos quais o domingo Sangrento do Trafalgar Square pareceria uma briga em um pátio de recreio. Todo o East End de Londres explodiria.

E quando Remus obtivesse a última prova que necessitava para desmascarar o assassino do Whitechapel como alguém ao serviço do trono, a ninguém importaria se a rainha, o príncipe de Gales ou quem fosse tinha estado informado ou o tinha consentido; haveria uma revolução. A velha ordem desapareceria para sempre, substituída pela cólera, depois o terror e por último a destruição implacável, tanto do bom como do mau.

A lei seria primeira a sofrer, tanto a que oprimia como a que protegia, e por último toda a lei, até a que regia a consciência e a violência que levava dentro de si.

Pitt aproximou a mão à carta. Se a rasgasse, ninguém mais se inteiraria de sua existência. Podia retirar a pistola da mão do Sissons e desfazer-se dela, deixá-la cair em um tonel. Então pareceria um assassinato. A polícia nunca averiguaria quem o tinha cometido, porque ninguém o tinha feito.

Essa metade da conspiração podia deter-se. Assim, mesmo que Remus desse a conhecer a outra história, a cólera que se respirava no Spitalfields não explodiria. Suscitaria fúria, mas contra Sissons, não contra o trono.

Era isso o que ele queria? Manteve a mão no ar, sobre o papel. Se o príncipe de Gales tinha tomado emprestado dinheiro para pagar seus luxos, e não o havia devolvido, até sabendo que isso significaria a ruína para milhares de pessoas, então merecia ser destronado, despojado de seus privilégios e abandonado relativamente na indigência em que se achavam agora os habitantes do Spitalfields. Mesmo que se convertesse em fugitivo, em refugiado em outro país, sua situação não seria pior que a de muitos. Teria que começar de zero como um estrangeiro, como tinham feito Isaac e Leah Karansky, e centenas de milhares como eles. No fim de contas todas as vidas humanas eram iguais.

Onde estava a justiça se Pitt encobrisse esse monstruoso egoísmo, essa irresponsabilidade criminosa, porque o culpado era o príncipe de Gales? Isso o converteria em cúmplice do pecado.

E se não o fizesse, um número incalculável de pessoas que não tinham nem voz nem voto no assunto se veriam afetadas pela violência que viria a seguir e a destruição, que deixaria uma esteira de pobreza e perdas talvez durante toda uma geração.

Estava totalmente aturdido. Todos os princípios pelos que se regia sua vida lhe proibiam ocultar a verdade. Entretanto, até enquanto as idéias lhe amontoavam na cabeça, pegou o papel. Amassou-o, depois o desdobrou e o rasgou uma e outra vez até convertê-lo em partes diminutas. Ainda não muito seguro de por que o fazia, guardou- o "pagarei" dentro da camisa.

Tremia e notava o suor frio na pele. Comprometera-se. Já não podia voltar atrás.

Tinha-se que parecer um assassinato devia fazer que o parecesse. Sem dúvida tinha investigado suficientes assassinatos para saber o que procuraria a polícia.

Sissons estava morto ao menos duas ou três horas. Não havia perigo de que suspeitassem dele. Era preferível um roubo impessoal ao ódio ou a vingança, que dariam a entender que era alguém que conhecia o proprietário da fábrica.

Havia dinheiro na escrivaninha? Devia criar a impressão de que a tinham revistado quando menos, e depressa. Por outro lado, não devia parecer que ficara ali parado, expondo-se ao que fazer. Um homem honrado teria dado o alarme imediatamente. Já se tinha atrasado o bastante. Não era momento para titubear.

Abriu as gavetas da escrivaninha e as esvaziou no chão, e fez o mesmo com os arquivos. Encontrou um pouco de dinheiro em efetivo, mas não se viu com forças de agarrá-lo. Em lugar disso o escondeu debaixo de uma gaveta e voltou a pô-lo em seu lugar. Não ficou muito satisfeito, mas teria que servir.

Olhou rapidamente outros papéis para ver se havia mais alusões ao empréstimo do príncipe. Tudo parecia relacionado com a fábrica e seu funcionamento diário: pedidos e recibos, e umas poucas cartas de intenções. Alguma lhe chamou a atenção porque conhecia a letra. Ficou gelado enquanto a lia:

 

Querido amigo:

É um sacrifício imenso o que se dispõe a fazer pela causa. Nunca poderei expressar a grande admiração que suscita entre seus colegas. Sua ruína em mãos de certa pessoa prenderá um fogo que nunca se apagará e que se verá em toda a Europa, e lhe recordará com reverência como um herói do povo.

Muito depois que a violência e a morte tenham sido relegadas ao esquecimento, seu monumento comemorativo será a paz e a prosperidade dos homens e mulheres comuns que chegaram depois de você.

Despede-se com o mais profundo respeito.

 

Estava assinada com um gancho de ferro. Na mente de Pitt estalou como uma explosão o fato de que o autor da carta estava à corrente da falência de Sissons, e certamente até de sua morte. O texto era ambíguo, mas isso parecia intencional.

Devia destruí-la também, e em seguida. Já ouvia passos no corredor. Tinha demorado muito em voltar. Wally devia estar buscando-o para assegurar-se de que tudo estava em ordem.

Rasgou a missiva em mil pedaços. Não teve tempo de desfazer-se dela, mas ao menos seria ilegível. Teria que procurar a oportunidade de jogar em uma tina os restos de ambas as cartas e a pistola.

Aproximava-se da porta quando recordou onde tinha visto essa caligrafia. Deu um tropeção e se golpeou com a esquina da escrivaninha ao compreender o que isso implicava. Tinha sido durante a investigação da morte do Martin Fetters… Era a letra do John Adinett!

Ficou totalmente imóvel, enjoado por um instante, com a perna dolorida pelo golpe que dera contra a escrivaninha, embora só fosse vagamente consciente disso.

Os passos do Wally tinham chegado quase à porta.

Adinett não só tinha estado à corrente da falência de Sissons, tinha-o elogiado por ela! Não era monarquista como se pensara, mas justamente o contrário.

Então quem tinha matado Martin Fetters?

Abriu-se a porta e Wally apareceu; a lanterna que segurava na mão lhe iluminava o rosto de baixo, o que lhe dava um aspecto fantasmal.

— Está bem, Tom? — perguntou com nervosismo.

— Sissons está morto — informou Pitt, e se sobressaltou ao ouvir a voz tão rouca e ao ver como lhe tremiam as mãos — Parece que alguém lhe deu um tiro.

— Vou procurar à polícia. Você fique aqui e te assegure de que não entre ninguém.

— Um tiro? — Wally estava perplexo — por quê? — Olhou para a figura desabada sobre a escrivaninha — Deus! Pobre tipo. O que vai acontecer agora? — Havia medo em sua voz e em seu rosto, que estava flácido da comoção e horror.

Pitt era terrivelmente consciente da pistola que tinha no bolso, assim como das partes das duas cartas rasgadas.

— Não sei. Mas será melhor que chamemos em seguida à polícia.

— Jogar-nos-ão a culpa! — exclamou Wally com expressão assustada.

— Não o farão! — exclamou Pitt, mas só a idéia lhe produziu ardor na boca do estômago — De todo modo não temos outra escolha. — Passou junto ao Wally e saiu sustentando a lanterna no alto para ver por aonde ia. Devia achar um banheiro vazio e desfazer-se da pistola.

Na primeira sala em que entrou havia um trabalhador noturno que levantou a vista sem curiosidade; o mesmo ocorreu na segunda. Na terceira não havia ninguém, e Pitt levantou a tampa do banheiro e cheirou o espesso líquido. O papel não se afundaria só nele, teria que revolvê-lo. Não queria arriscar-se a que o encontrassem com os pedaços, pois ainda poderiam recompor as cartas com cuidado. Jogou-os sobre a superfície e utilizou a pistola para lhes dar voltas até que deixaram de ver-se; a seguir deixou cair a arma e observou como se inundava lentamente.

Mal desapareceu, saiu de novo ao corredor e, desceu correndo pelas escadas até o pátio. Foi direto às portas e percorreu Brick Lane para o Whitechapel High Street. A aurora se estendeu pelo céu, mas ainda faltava muito para que se fizesse de dia. As luzes brilhavam como luas moribundas ao longo da calçada e projetavam pálidos arcos sobre os paralelepípedos molhados.

Encontrou um agente de polícia ao dobrar a esquina.

—Eh, eh! O que se passa com você? — perguntou o policial lhe cortando o passo.

Pitt só via sua silhueta porque estavam entre dois lampiões, mas era alto e parecia robusto com a capa e o capacete. Era a primeira vez em sua vida que Pitt tinha medo da polícia, e era uma sensação fria e desagradável, nada própria dele.

— Deram um tiro no senhor Sissons — disse ofegando — Em seu escritório, na fábrica do Brick Lane.

— Um tiro? — repetiu o agente com tom dúbio — Tem certeza? Está muito ferido, gravemente?

— Está morto.

O policial emudeceu por um instante de perplexidade, logo se recuperou.

— Então será melhor irmos à delegacia de polícia procurar o inspetor Harper. Quem é você e como é que encontrou o senhor Sissons? É o vigilante noturno?

— Sim. Meu nome é Thomas Pitt. Wally Edwards está ali com ele. É o outro vigilante noturno.

— Entendo. Sabe onde é a delegacia de polícia do Whitechapel?

— Sim. Quer que vá avisar-los?

— Sim. Vá e peça que envie o agente Jenkins, e lhes explique o que encontrou na fábrica. Eu estarei lá. Entendido?

— Sim.

— Pois corre.

Pitt virou sobre seus calcanhares e pôs-se a correr.

Tinha transcorrido quase uma hora quando voltou para a fábrica de açúcar, não ao escritório do Sissons, mas a outra sala bastante ampla do piso superior. O inspetor Harper era muito diferente fisicamente do agente Jenkins, mais miúdo, de rosto embotado e queixo quadrado. Jenkins estava em pé junto à porta, e Pitt e Wally no centro da sala. Acabava de amanhecer, a luz cinzenta através da fumaça dos moles, o sol prateado sobre os lances de rio que se vislumbravam ao longe.

— Vejamos... — começou a dizer Harper — como se chama você? Pitt! Diga-me exatamente o que viu e o que fez. — Franziu a testa — Que fazia no escritório do senhor Sissons, para começar? Não lhe corresponde entrar nela, não é assim?

— A porta estava aberta — respondeu Pitt. Tinha as mãos suarentas e rígidas — Não deveria estar, de modo que pensei que talvez se tivesse passado algo.

— Bom, bom. Agora me diga o que viu exatamente.

Pitt tinha preparado a resposta com muito cuidado, e já o tinha explicado ao sargento de serviço da delegacia de polícia do Whitechapel.

— O senhor Sissons estava sentado ante sua escrivaninha, desabado sobre ele, e havia um atoleiro de sangue, de maneira que em seguida compreendi que não dormia. Algumas das gavetas da escrivaninha estavam entreabertas. Não havia ninguém mais no aposento e as janelas estavam fechadas.

— Por que o diz? Que importância tem isso? — desafiou-o Harper — Estamos em um sétimo piso, homem!

Pitt notou que lhe subiam as cores. Não devia parecer muito agudo. Era um vigilante noturno, não um superintendente de polícia.

— Nenhuma. Só observei, isso é tudo.

— Tocou algo?

— Não.

— Tem certeza? — Harper o esquadrinhou.

— Sim, tenho certeza.

Harper parecia cético.

— Bem, deram-lhe um tiro com uma arma, uma pistola de algum tipo. Onde está?

Pitt se deu conta com uma sacudida de que Harper insinuava