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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CONFESSOR / Daniel Silva
O CONFESSOR / Daniel Silva

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

No bairro em moda de Schwabing, em Munique, o edifício de apartamentos na Adalbertstrasse, n° 68, era dos poucos que ainda não fora invadido pela ruidosa elite profissional em expansão. Entre dois prédios de tijolo vermelho que reflectiam um encanto pré-guerra, este n° 68, bege e sem graça, atarracado, com uma fachada de estuque fendido, era a meia-irmã feia e mais nova. Por isso, os seus pretendentes eram uma vaga comunidade de estudantes, artistas, anarquistas e punk rockers impenitentes. Presidia-lhes uma porteira autoritária, Frau Ratzinger, que, constava, vivera no edifício de apartamentos original do n° 68 quando este fora atingido por uma bomba aliada. Activistas da vizinhança atacavam o edifício como uma visão chocante a precisar de conversão. Os seus defensores diziam que era exemplo da mesma arrogância boémia que fizera outrora de Schwabing o Montmartre da Alemanha - a Schwabing de Hesse e Mann e Lenine. E de Adolf Hitler, seria tentado a acrescentar o professor que trabalhava na janela do segundo piso, mas poucos dos habitantes do antigo bairro gostavam que se lhes recordasse que, noutros tempos, o jovem austríaco banido também encontrara inspiração, naquelas ruas pacíficas, bordejadas de árvores.

 

 

 

 

Para os seus alunos e colegas, ele era Herr Doktorprofessor Stern. Para os amigos das vizinhanças, era apenas Benjamin; para os visitantes que lhe apareciam vindos do seu país natal, era Binyamin. Num anónimo complexo de escritórios de pedra e vidro a norte de Telavive, onde ainda existia um ficheiro das suas proezas juvenis (apesar dos seus incessantes pedidos para o queimarem), seria sempre conhecido como Beni, o mais novo dos filhos desobedientes de Ari Shamron.

Oficialmente, Benjamin Stern pertencia ao quadro de professores de uma faculdade da Universidade Hebraica de Jerusalém, embora durante os últimos quatro anos tivesse sido professor convidado da cadeira de Estudos Europeus na prestigiada Universidade Ludwig -Maximilian de Munique. O convite tornara-se semelhante a um empréstimo permanente, o que na opinião do professor Stern não fazia mal. Numa bizarra reviravolta dos acontecimentos históricos, a vida na Alemanha era agora mais agradável para um judeu do que em Jerusalém ou em Telavive.

A sua mãe sobrevivera aos horrores àoghetto de Riga, o que dava ao professor Stern um estatuto bizarro entre os outros locatários do n° 68. Ele era uma curiosidade. Era a consciência deles, e eles manifestavam-se acerca da luta dos palestinianos, colocavam-lhe delicadamente perguntas que não se atreviam a fazer aos pais e avós. Era o orientador, o sábio de confiança. Iam ter com ele para aconselhamento sobre os estudos. Abriam-lhe os corações em caso de desgosto sentimental. Assaltavam-lhe o frigorífico quando tinham fome e pilhavam-lhe a carteira quando estavam sem dinheiro. Mais importante, ele servia-lhes de porta-voz em todas as disputas que envolviam a temível Frau Ratzinger. O professor Stern era a única pessoa do edifício que não a temia. Pareciam ter uma relação especial. Uma afinidade.

- É a Síndrome de Estocolmo - afirmava Alex, um estudante de psicologia que vivia no último piso. - Prisioneiro e guarda prisional. Amo e criado.

Mas era mais que isso. O professor e a velha mulher pareciam falar a mesma linguagem.

No ano anterior, quando o seu livro acerca da Conferência de Wannsee se tornara um bestsellerinternacional, o professor Stern acarinhara a ideia de se mudar para um edifício com mais estilo - talvez um com segurança adequada e vista sobre os Jardins Ingleses. Um lugar onde os outros locatários não lhe ameaçassem o seu apartamento como se este fosse o anexo deles. Isso criara pânico entre os outros. Uma noite, vieram ter com ele em massa, e pediram-lhe para ficar. Foram feitas promessas. Não lhe roubariam a comida, nem lhe pediriam empréstimos quando não houvesse esperança de devolução. Respeitariam mais a sua necessidade de silêncio. Viriam ter com ele em busca de conselho apenas quando fosse absolutamente necessário. O professor aquiesceu, mas passado um mês o seu apartamento voltou a ser, de facto, a sala comunitária do n° 68 da Adalbertstrasse. Secretamente, ficou satisfeito por eles terem regressado. As crianças rebeldes do n° 68 eram a família que restava a Benjamin Stern.

O chocalhar de um eléctrico que passava quebrou-lhe a sua concentração. Ergueu o olhar a tempo de o ver desaparecer atrás dum castanheiro, depois olhou para o relógio. Onze e meia. Estivera naquilo desde as cinco da manhã. Tirou os óculos e esfregou os olhos durante uns momentos. Que dissera Orwell a respeito de se escrever um livro? Uma luta horrível, esgotante, como um ataque prolongado de uma doença dolorosa. Por vezes, Benjamin Stern sentia que este livro poderia ser fatal.

A luz vermelha do atendedor de chamadas piscava. Habituara-se a abafar os toques para evitar interrupções indesejadas. Hesitante, como um perito em bombas a decidir que cabo cortar, inclinou-se e premiu o botão. Do pequeno aparelho ouviu-se uma explosão de heavy metal, seguida de um uivo bélico.

«Tenho boas notícias, Herr Doktorprofessor. Ao final do dia, haverá menos um judeu nojento à superfície da Terra! Wiedersehen, Herr Doktorprofessor».

CLIQUE.

O professor Stern apagou a mensagem. Já estava habituado. Ultimamente, recebia duas por semana; por vezes mais, dependendo de ter aparecido na televisão ou tomado parte nalgum debate público. Conhecia-os pela voz e dava a cada um deles uma alcunha banal, inofensiva, para diminuir o impacto nos seus nervos. Este fulano telefonava, pelo menos, duas vezes por mês. O professor Stern dera-lhe o nome de Wolfie. Por vezes, contava à Polícia. Na maior parte dos casos, não se dava a esse trabalho. De qualquer modo, não havia nada que eles pudessem fazer.

Trancou o manuscrito e as notas no cofre do soalho, enfiado atrás da secretária. Depois calçou uns sapatos, vestiu um casaco de malha, e foi buscar o saco do lixo à cozinha. O antigo edifício não tinha elevador, o que significava que tinha de descer dois lances de escada para chegar ao piso térreo. Ao chegar ao átrio, um fedor químico atingiu-o. O edifício albergava um kosmetik pequeno, mas florescente. O professor detestava o salão de beleza. Quando estava cheio, o odor rançoso da acetona erguia-se através do sistema de ventilação e envolvia-lhe o apartamento. Também tornava o edifício menos seguro do que ele teria gostado. Como o komestik não tinha nenhuma entrada independente pela rua, o átrio estava constantemente cheio das belas habitantes de Schwabing chegando para as suas pedicures, massagens faciais, e depilações.

Virou à direita na direcção da porta que dava acesso ao minúsculo pátio, e hesitou na soleira, vendo se os gatos andavam por ali. Na noite anterior, fora acordado à meia-noite por uma escaramuça devida a algum bocado de lixo. Nessa manhã não havia gatos, apenas um par de esteticistas entediadas vestindo imaculadas batas brancas, que fumavam cigarros encostadas à parede. Avançou através dos tijolos cobertos de fuligem e atirou o saco para dentro do contentor.

Voltando ao átrio de entrada, encontrou Frau Ratzinger a castigar o chão de linóleo com uma vassoura de palha gasta.

- Bom dia, Herr Doktorprofessor - disparou a mulher velha. De seguida, acrescentou acusadoramente -, Vai sair para o seu café da manhã?

- Ja, ja, frau Ratzinger- murmurou anuindo o professor Stern.

Ela olhou para duas pilhas de folhetos desarrumadas, uns anunciando um concerto gratuito no parque, os outros uma clínica de massagens holísticas na Schellingstrasse.

- As vezes que lhes peço para não deixarem aqui estas coisas, eles querem lá saber, continuam na mesma. É aquele estudante de teatro do 4B. Deixa entrar toda a gente no prédio.

O professor encolheu os ombros, como que atónito com os modos desregrados dos jovens, e sorriu bondosamente à senhora velha. Frau Ratzinger pegou nos folhetos e levou-os para o pátio. Um momento depois, ouviu-a a zangar-se com as esteticistas por deitarem as beatas dos cigarros para o chão.

Lá fora deteve-se a avaliar o estado do tempo. Não era demasiado frio para o início de Março, o Sol espreitava através de uma camada de nuvens transparente. Enfiou as mãos nos bolsos do casaco e continuou a andar. Entrando nos Jardins Ingleses, seguiu por um carreiro bordejado de árvores ao longo das margens de um canal inchado pela chuva. Gostava do parque. Era um local tranquilo para descansar a cabeça depois do esforço matinal ao computador. Mais importante, permitia-lhe ver se nesse dia o estavam a seguir. Parou de andar e, teatral, bateu nos bolsos do casaco, para mostrar que se esquecera de algo. Depois recuou e voltou atrás, observando os rostos, verificando se algum correspondia a um dos rostos armazenados na base de dados da sua prodigiosa memória. Parou numa ponte para peões, como se admirasse a pressa da água caindo sobre a pequena queda de água. Um traficante de droga com aranhas tatuadas no rosto ofereceu-lhe heroína. O professor sussurrou algo de incoerente e afastou-se com rapidez. Dois minutos depois, enfiou-se numa cabine pública e fingiu fazer uma chamada enquanto observava atentamente as cercanias. Depois pousou o auscultador.

Wiedersehen, Herr Doktorprofessor.

Virou para a Ludwigstrasse e caminhou rapidamente através do bairro universitário, de cabeça baixa, esperando evitar ser detectado por quaisquer estudantes ou colegas. No início dessa semana, recebera uma carta bastante desagradável do Dr. Helmut Berger, o pomposo presidente do seu departamento, perguntando-lhe quando é que o livro poderia estar terminado, e quando se poderia esperar que ele retomasse os seus deveres de professor. O professor Stern não gostava de Helmut Berger - as divergências, pessoais e académicas, entre os dois, eram célebres - e, convenientemente, não tivera tempo para responder.

A azáfama do Viktualienmarkt impediu-o de pensar em assuntos relacionados com trabalho. Moveu-se por entre pilhas de fruta e legumes de cores brilhantes, passando por bancas de flores e talhos ao ar livre. Comprou algumas coisas para o seu jantar, depois atravessou a rua, até ao café-bar Eduscho, para um café e um Dinkelbrot. Quarenta e cinco minutos depois, dirigindo-se a Schwabing, sentia-se revigorado, a mente leve, preparada para outro combate com o livro. A sua doença, tal como Orwell dissera.

Ao chegar ao edifício de apartamentos, uma rajada de vento perseguiu-o até ao átrio, espalhando uma pilha recente de folhetos cor de salmão. O professor virou a cabeça para conseguir ler um deles. Um novo restaurante de entregas ao domicílio, especializado em caril, abrira do outro lado da esquina. Ele gostava de um bom caril. Apanhou um dos folhetos e enfiou-o no bolso do casaco.

O vento varrera alguns dos folhetos para o pátio. Frau Ratzinger iria ficar furiosa. Enquanto subia devagar as escadas, ela espreitou pela porta do seu minúsculo apartamento e viu a confusão. Previsivelmente horrorizada, olhou-o, interrogativa. Enfiando a chave na fechadura, ele conseguiu ouvi-la a praguejar, enquanto se encarregava daquela ofensa mais recente.

Na cozinha, arrumou as compras e fez uma chávena de chá. Depois avançou pelo corredor até ao estúdio. Estava um homem de pé junto à secretária, folheando, displicente, uma pilha de papéis da pesquisa. Usava uma bata branca, semelhante às das esteticistas no kos-metik, e era muito alto, de ombros adéticos. O cabelo era loiro e raiado de cinzento. Ao ouvir o professor entrar, o intruso ergueu os olhos. Também eram cinzentos, e frios como glaciares.

- Abra o cofre, Herr Doktorprofessor.

A voz era calma, quase sedutora. O seu alemão tinha sotaque. Não era Wolfie - o professor Stern tinha a certeza disso. Ele tinha um jeito especial para línguas e um ouvido atento aos dialectos locais. O homem da bata era suíço, e o seu Schwyerdütsch tinha o sotaque amplo e cantarolado de um homem dos vales das montanhas.

- Quem raio é pensa que é?

- Abra o cofre - repetiu o intruso, olhando novamente para os papéis sobre a secretária.

- Não há nada no cofre que tenha valor. Se é dinheiro que você... Não foi permitido ao professor Sterr terminar a frase. Com um movimento rápido, o intruso enfiou a mão debaixo da bata, tirando uma arma com silenciador. O professor conhecia as armas tão bem quanto os dialectos. Era uma Stechkin de fabrico russo. A bala atravessou a rótula direita do professor. Este caiu ao chão, as mãos agarrando a ferida, o sangue brotando por entre os dedos.

- Suponho que agora terá de me dar a combinação - disse calmamente o suíço.

Benjamin Stern nunca sentira uma dor assim. Arquejava, esforçando-se para recuperar o fôlego, a sua mente um turbilhão. A combinação? Céus, ele mal se conseguia lembrar do seu nome.

- Estou à espera, Herr Doktorprofessor.

Forçou-se a respirar, numa série de inspirações rápidas que forneceram ao cérebro oxigénio suficiente para lhe permitir aceder à combinação do cofre. Recitou os números, de maxilar a tremer com o choque. O intruso ajoelhou-se perante o cofre e rodou com destreza a fechadura. Um momento depois, a porta abriu-se.

O intruso olhou para o interior, depois para o professor.

- Você tem cópias de segurança. Onde as guarda?

- Não sei de que é que está a falar.

- Como está agora, há-de ser capaz de andar com uma bengala. - Ergueu a arma. - Se eu o atingir no outro joelho, passa o resto da vida de muletas.

O professor começava a perder os sentidos. O maxilar tremia-lhe. Não tremas, raios! Não lhe dês o prazer de ver o teu medo!

- No frigorífico.

- O frigorífico?

- Para o caso de... - foi percorrido por uma guinada de dor - ... um incêndio.

O intruso ergueu uma sobrancelha. Tipo esperto. Trouxera com ele um saco, um saco desportivo de nylon preto, com cerca de dois metros de comprimento. Enfiou a mão no interior e retirou deste um objecto cilíndrico: uma lata de tinta em spray. Tirou-lhe a tampa, e com mão experiente, começou a pintar símbolos na parede do estúdio. Símbolos de violência. Símbolos de ódio. Absurdamente, o professor perguntou-se o que diria Frau Ratzinger quando visse isto. No seu delírio, murmurara certamente qualquer coisa num tom um pouco mais alto, porque o intruso deteve-se por momentos, observando-o com um olhar vago.

Quando terminou os graffiti, o intruso voltou a guardar a lata de spray no saco desportivo, depois ficou de pé, acima do professor. A dor nos ossos estilhaçados estava a deixar Benjamin Stern febril. A escuridão fechava-se nos extremos da sua visão, de modo que o intruso parecia encontrar-se no fundo de um túnel. O professor procurou os olhos cinzentos em busca de algum sinal de loucura, mas não encontrou nada para além de uma inteligência fria. Este homem não era nenhum fanático racista, pensou. Era um profissional.

O intruso continuava de pé, por cima dele.

- Gostaria de fazer uma última confissão, professor Stern?

- Está a... - fez um esgar de dor - ... falar de quê?

- É muito simples. Deseja confessar os seus pecados?

- Vocêé que é o assassino - replicou Benjamin Stern delirante. O assassino sorriu. A arma voltou a erguer-se, e ele disparou dois tiros contra o peito do professor. Benjamin Stern sentiu o corpo contorcer-se, mas foi poupado a mais dor. Permaneceu consciente durante alguns segundos, o tempo suficiente para ver o assassino ajoelhar-se a seu lado e sentir o toque frio do polegar deste contra a sua testa húmida. Murmurou algo. Latim? Sim, o professor estava certo disso.

- Ego te absolvo apeccatis tuis, in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. A.men.

O professor olhou para os olhos do seu assassino.

- Mas eu sou judeu - murmurou.

- Não interessa - disse o assassino.

Depois pousou a Stechkin num dos lados da cabeça de Benjamin Stern e disparou um último tiro.

 

A cerca de seiscentos e quarenta quilómetros para sul, numa colina no coração de Roma, um homem idoso, vestido com sotaina e manto brancos, passeava entre as sombras frias de um jardim murado. Aos setenta e dois anos de idade, já não se movia com rapidez, embora continuasse a ir aos jardins todas as manhãs e fizesse questão de andar pelo menos uma hora ao longo dos carreiros cheirando a pinho. Alguns dos seus antecessores tinham desbravado o jardim, de modo a poderem meditar sem perturbações. O homem da sotaina branca gostava de ver pessoas - pessoas verdadeiras, não apenas os aduladores cardeais da Cúria e dignitários estrangeiros que iam beijar uma vez por dia o anel do pescador. Uma escolta da Guarda Suíça pairava sempre uns passos atrás, mais como companhia do que como protecção, e ele gostava de se deter numa conversa breve com os jardineiros do Vaticano. Era um homem naturalmente curioso e considerava-se um botânico. Por vezes, pedia umas tesouras de podar e ajudava a aparar as roseiras. Uma vez, um guarda suíço encontrara-o de gatas no jardim. Pensando o pior, o guarda chamara uma ambulância e correra para ele, descobrindo que o Sumo Pontífice da Igreja Católica Romana decidira, apenas, fazer um pouco de jardinagem.

Os mais próximos do Santo Padre conseguiam perceber que algo o perturbava; perdera grande parte do seu bom humor e das sua afabilidade, que, depois da severidade dos últimos dias do polaco, se assemelhavam a uma brisa de Primavera. A irmã Teresa - a freira de Veneza com vontade de ferro que supervisionava os aposentos papais - reparara na sua nítida perda de apetite. Ultimamente até os biscoitos que ela lhe deixava com o café da tarde permaneciam intactos. A irmã Teresa entrava frequentemente no estúdio papal no terceiro piso do Palácio Apostólico e encontrava-o deitado no chão, de rosto para baixo, olhos fechados, como em agonia. Karl Brunner, o chefe do pequeno destacamento da Guarda Suíça, reparara que, muitas vezes, o Santo Padre permanecia frente aos muros do Vaticano, olhando o Tibre, parecendo perdido nos seus pensamentos. Brunner protegera o polaco durante muitos anos e vira o preço que o papado lhe custara. Fazia parte do trabalho, contara ele à irmã Teresa, a esmagadora responsabilidade que recai sobre todos os papas. «É o suficiente para fazer com que até o homem mais santo perca de vez em quando a cabeça, mas estou certo que Deus saberá dar-lhe a força de que necessitar. O velho Pietro voltará em breve.»

A irmã Teresa não estava assim tão certa. Era das poucas pessoas, no Vaticano, que sabiam o quanto Pietro Lucchesi não quisera este trabalho. Quando chegara a Roma para o funeral de João Paulo II, e para o conclave que escolheria o seu sucessor, o frágil e doce patriarca de Veneza não era nem remotamente considerado como papabile, um homem com todas as qualidades necessárias para ser papa. Nem sequer dera o mais leve sinal de estar interessado. Os quinze anos que passara a trabalhar na Cúria Romana tinham sido os mais infelizes de toda a sua carreira, e ele não sentia qualquer desejo de regressar àquela cidade intriguista, na margem do Tibre, mesmo como seu principal senhor. Lucchesi tencionara dar o seu voto ao arcebispo de Buenos Aires - do qual se tornara amigo durante uma viagem à América Latina - e regressar tranquilamente a Veneza.

Mas, no interior do conclave, as coisas não correram como esperado. Tal como os seus antecessores tinham feito diversas vezes ao longo dos séculos, Lucchesi e os seus irmãos príncipes da Igreja, cento e trinta ao todo, entraram na Capela Sistina em procissão solene enquanto cantavam em latim o hino Veni Creator Spirítus. Reuniram-se debaixo do Juízo Final de Miguel Angelo, que representa a humilhação das almas atormentadas erguendo-se para o céu para enfrentar a ira de Cristo, e rezaram para que o Espírito Santo os orientasse. Depois, os cardeais avançaram individualmente, e cada um deles, com a mão sobre os Santos Evangelhos, fez um voto de silêncio irrevogável. Só a seguir o mestre de cerimónias da liturgia papal ordenou «Extra Omnes» - Saiam todos! - e o conclave teve o seu verdadeiro início.

O polaco não quisera deixar tudo entregue ao Espírito Santo. Enchera o Colégio Cardinalício de prelados como ele, doutrinários de linha dura, determinados a preservar especialmente a disciplina eclesiástica e o poder de Roma. O seu candidato era um italiano, uma criatura consumada da Cúria Romana: o cardeal secretário de Estado, Marco Brindisi.

Os moderados tinham outras ideias. Pediam um papado verdadeiramente pastoral. Queriam que o ocupante do trono de São Pedro fosse um homem amável e piedoso; um homem que estivesse disposto a partilhar o poder com os bispos e a limitar a influência da Cúria; um homem que conseguisse ultrapassar as divisões da geografia e da fé e socorresse os recantos do globo despedaçados por guerra e pobreza. Para os moderados, só um papa não europeu seria adequado. Acreditavam ter chegado o momento de elegerem um papa do Terceiro Mundo.

Os primeiros votos revelaram que o conclave estava irremediavelmente dividido, e, em breve, ambas as facções procuravam uma saída do impasse. No último voto do dia, um novo nome emergiu. Pietro Lucchesi, o patriarca de Veneza, recebeu cinco votos. Ao ouvir ler o seu nome cinco vezes dentro da câmara sagrada da Capela Sistina, Lucchesi fechou os olhos e, visivelmente, empalideceu. Pouco depois, quando os votos foram colocados no nero NT para serem queimados, diversos cardeais repararam que Lucchesi estava a rezar.

Nessa noite, Pietro Lucchesi recusou polidamente um convite para jantar com um grupo de outros cardeais, retirando-se para o seu quarto na Casa de Santa MartaNT para meditar e rezar. Sabia como funcionavam os conclaves e sabia o que se iria passar. Tal como Cristo no Jardim de Getsémani, rogou a Deus que retirasse o fardo dos seus ombros - e que o escolhido fosse outro.

Mas, na manhã seguinte, o apoio a Lucchesi aumentou, subindo firmemente em direcção aos dois terços da maioria necessários para

 

NT Nome da estufa especial colocada na Capela Sistina, cuja chaminé se avista da Praça de São Pedro, e da qual se ergue, após a votação, o famoso fumo branco ou negro, que indica se houve ou não eleição papal.

NT A Domus Sanctae Marthae é de construção recente, e foi erigida para albergar os cardeais eleitores, bem como diversos membros da Igreja que prestam assistência e auxílio nos preparativos do conclave.

 

se ser eleito papa. No último voto lido antes do almoço, faltavam apenas dez votos. Demasiado ansioso para se alimentar, Lucchesi orou no seu quarto antes de regressar à Capela Sistina para a votação que, sabia, o elegeria papa. Observou em silêncio, enquanto cada cardeal avançava e colocava uma tira de papel dobrada em dois num cálice dourado que servia de urna, todos proferindo o mesmo voto solene: «Chamo como minha testemunha Cristo, o Senhor, que será o meu juiz, em como o meu voto é dado àquele que perante Deus eu acho que deve ser eleito.»

Os votos foram contados e recontados antes do anúncio do resultado. Cento e quinze votos foram atribuídos a Lucchesi. O Camerlengo aproximou-se de Lucchesi e colocou a mesma pergunta que fora colocada a centenas de papas recém-eleitos, durante os últimos dois milénios.

- Aceitais a eleição canónica como Sumo Pontífice?

Após um silêncio demorado que produziu muita tensão na capela, Pietro Lucchesi respondeu:

- Os meus ombros não são suficientemente largos para carregar o fardo que me destes, mas com a ajuda de Cristo, o Salvador, tentarei. Accepto.

- Por que nome desejais ser chamado?

- Paulo, o Sétimo - replicou Lucchesi.

Os cardeais formaram uma fila para abraçarem o novo pontífice e para lhe oferecerem a sua obediência e lealdade. Lucchesi foi de seguida escoltado até à sala escarlate conhecida como camera lacrimatoria - a sala das lágrimas - para uns minutos de solidão, antes de lhe vestirem a sotaina branca feita pelos irmãos Gammarelli, os alfaiates pontificais. Escolheu a mais pequena das três sotainas já preparadas, e até nessa altura parecia um rapazito vestindo a camisa do pai. Ao sair para a enorme galeria de São Pedro para saudar Roma e o mundo, a sua cabeça mal se via por cima da balaustrada. Um guarda suíço aproximou um banco, e um enorme rugido ergueu-se da atordoada multidão na praça. Sem fôlego, um comentador da televisão italiana chamou ao novo papa de «Pietro, o Improvável». O cardeal Marco Brindisi, o chefe da linha dura dos cardeais da Cúria, baptizou-o secretamente como Papa Acidental I.

O Vaticanisti disse que a mensagem transmitida pela divisão do conclave era clara. Pietro Lucchesi era um papa de compromisso. O seu mandato era para dirigir a Igreja de um modo competente, mas sem lançar grandes iniciativas. A batalha pelo coração e alma da Igreja, afirmava o Vaticanisti, fora eficazmente adiada para outro dia.

Mas os reaccionários católicos, religiosos e laicos, não ficaram com uma ideia tão generosa da eleição de Lucchesi. Para os militantes, o novo papa tinha uma semelhança incomodativa com um veneziano atarracado que se chamava Roncalli NT, e que infligira a calamidade doutrinária do Concílio do Vaticano Segundo. Passadas horas da conclusão do conclave, nos websites e nos confessionários cibernáuticos dos elementos da linha dura proliferavam os avisos e as previsões ameaçadoras sobre o que se seguiria. Vasculharam os sermões e as declarações públicas de Lucchesi, em busca de provas de heterodoxia. Os reaccionários não gostaram do que descobriram. Lucchesi era um problema, concluíram. Lucchesi teria de ser vigiado. Rigorosamente circunscrito. Caberia aos mandarins da Cúria certificarem-se que Pietro Lucchesi não seria mais do que um papa temporário.

Mas Lucchesi, mesmo sendo um papa relutante, acreditava que a Igreja se defrontava com demasiados problemas para desperdiçar um papado. A Igreja que herdara do polaco era uma Igreja em crise. Na Europa Ocidental, o epicentro do Catolicismo, a situação tornara-se tão terrível que um recente sínodo de bispos declarara que os Europeus viviam como se Deus não existisse. Menos crianças eram baptizadas; menos casais escolhiam casar pela Igreja; as vocações tinham decaído tanto que, em breve, cerca de metade das paróquias da Europa Ocidental não teria um padre a tempo inteiro. A Lucchesi bastava-lhe olhar para a sua própria diocese para ver os problemas com que a Igreja se deparava. Setenta por cento dos dois milhões e meio de católicos de Roma acreditavam no divórcio, no controlo da natalidade, e no sexo pré-matrimonial - todos oficialmente proibidos pela Igreja. Eram menos de dez por cento os que se davam ao trabalho de ir à missa regularmente. Em França, a chamada «Primeira Filha» da Igreja, as estatísticas eram ainda piores. Na América do Norte, a maior parte dos católicos nem sequer chegava a ler as suas encíclicas antes de as ridicularizar, e só um terço ia à missa. Setenta por cento dos católicos

 

NT Angelo Giuseppe Roncalli (1881-1963), foi papa entre 1958 e 1963, com o nome de João XXIII.

 

vivia no Terceiro Mundo, embora a maioria raramente visse um padre. Só no Brasil, seiscentas mil pessoas por ano abandonavam a Igreja, tornando-se protestantes evangélicos.

Lucchesi queria travar a hemorragia antes que fosse demasiado tarde. Ansiava por tornar a sua amada Igreja mais relevante na vida dos fiéis, fazer com que o seu rebanho fosse verdadeiramente católico e não apenas no nome. Mas outra coisa o preocupava, uma única questão em que não conseguia deixar de pensar desde o momento em que o conclave o elegera como papa. Porquê? Porque é que o Espírito Santo o escolhera a ele para conduzir a Igreja? Que dádiva especial, que tipo particular de conhecimento possuía ele para ser o pontífice certo para este momento na História? Lucchesi acreditava conhecer a resposta, e dera início a um estratagema perigoso, que faria estremecer a Igreja Católica Romana até às suas fundações. Se a aposta fosse bem-sucedida, revolucionaria a Igreja. Se falhasse, poderia facilmente destruí-la.

O Sol deslizou para trás de um aglomerado de nuvens, e um sopro do vento frio de Março agitou os pinheiros dos jardins. O papa apertou o manto contra a garganta. Passou pelo Colégio Etíope, depois virou para um carreiro estreito que o levou em direcção ao muro castanho escuro no recanto sudoeste da Cidade do Vaticano. Parando na base da torre da Rádio Vaticano, subiu um lance de degraus de pedra e trepou para o parapeito.

Roma estendia-se à sua frente, agitando-se na luz toldada por sombras. O seu olhar foi atraído para o outro lado do Tibre, na direcção da elevada sinagoga no coração do antigoghetto. Em 1555, o papa Paulo IV - um papa cujo nome Lucchesi utilizara - ordenou que os judeus de Roma entrassem no ghetto e obrigou-os a usarem uma estrela amarela para se distinguirem dos cristãos. A intenção dos que construíram a sinagoga era que esta fosse suficientemente alta para ser vista do Vaticano. A mensagem era de facto óbvia. Nós também aqui estamos. Na verdade, estávamos aqui há muito mais tempo que vocês. Para Pietro Lucchesi, a sinagoga falava de outra coisa. De um passado traiçoeiro. De um segredo vergonhoso. Falava-lhe directamente, sussurrando-lhe ao ouvido. Não o deixaria em paz.

O papa ouviu passos no carreiro do jardim, decididos e ritmados, como se um carpinteiro experiente pregasse uns pregos. Virou-se e viu um homem dirigir-se para o muro. Alto e esguio, cabelo negro, sotaina negra, uma linha vertical desenhada a tinta da China. O padre Luigi Donati: o secretário particular do papa. Donati estava ao lado de Lucchesi há vinte anos. Em Veneza, tinham-lhe chamado il doge pelo seu desejo de um poder implacável, e porque não recuava perante nada quando se tratava de atingir os seus objectivos ou os do seu senhor. A alcunha seguira-o até ao Vaticano. Donati não se importava. Seguia os princípios de um filósofo italiano secular chamado Maquiavel, que afirmava que é melhor para um príncipe ser temido que amado. Segundo Donati, todos os papas precisavam de um filho da mãe, um homem duro, de negro, disposto a domar a Cúria nem que fosse de chicote, submetendo-a à sua vontade. Era um papel que ele desempenhava com uma mal disfarçada satisfação.

Enquanto Donati se aproximava do parapeito, o papa apercebeu-se, pela sua expressão sombria, que algo estava errado. Voltou a olhar o rio e esperou. Um momento depois, conseguiu sentir a presença reconfortante de Donati a seu lado. Tal como habitualmente, il doge não perdeu tempo com cumprimentos ou conversa. Inclinou-se sobre o ouvido do papa e informou-o em voz baixa que ao início dessa manhã, o professor Benjamin Stern fora encontrado morto no seu apartamento de Munique. O papa fechou os olhos e baixou o queixo sobre o peito, depois estendeu a mão e apertou com força a do padre Donati.

- Como? - perguntou. - Como é que o mataram? Quando o padre Donati lhe contou, o papa vacilou e encostou-se ao braço do padre em busca de apoio.

- Deus Todo-Poderoso que Estais no Céu, por favor concedei-nos o Vosso perdão por aquilo que fizemos.

Depois olhou para o seu secretário de confiança nos olhos. O olhar do padre Donati era calmo, inteligente, e muito determinado. Deu ao papa a coragem para continuar.

- Receio que tenhamos subestimado terrivelmente os nossos inimigos, Luigi. Eles são mais poderosos do que nós pensávamos, e a sua perversidade não conhece limites. Não se deterão perante nada para proteger os seus segredos torpes.

- É verdade, Sua Santidade - disse Donati gravemente. - De facto, devemos agora presumir que eles até podem estar dispostos a assassinar um papa.

Assassinar um papa? Era difícil a Pietro Lucchesi imaginar tal coisa, mas ele sabia que o seu homem de confiança não exagerava. A Igreja fora atingida por um cancro. Fora-lhe permitido corromper-se durante o longo reinado do polaco. Agora, tinham-se formado metástases e estas ameaçavam a vida do organismo no qual viviam. Precisavam de ser removidas. Eram necessárias medidas agressivas para salvar o doente.

O papa desviou o olhar de Donati, dirigindo-o para a abóbada da sinagoga que se erguia sob a margem do rio.

- Receio que ninguém possa fazer isto, para além de mim.

O padre Donati pousou a mão no antebraço do papa e apertou-o.

- Sois o único que pode articular as palavras, Sua Santidade. Deixai o resto nas minhas mãos.

Virando-se, Donati afastou-se, deixando o papa sozinho no parapeito. Este ouviu o som dos passos do seu homem de confiança, avançando ao longo do carreiro em direcção ao palácio, crack-crack-crack-crack... Para Pietro Lucchesi, soavam-lhe a pregos que estivessem a ser pregados num caixão.

 

A chuva que caíra durante a noite inundara o Campo San Zaccaria. O restaurador estava de pé nos degraus da igreja como um náufrago. No centro da praça, um padre idoso surgiu por entre a neblina, erguendo as saias da sua simples sotaina preta e revelando um par de galochas até aos joelhos.

- Esta manhã Veneza parece o mar da Galileia, Mário - disse ele, retirando de dentro do bolso um pesado molho de chaves. - Se ao menos Cristo nos tivesse concedido o poder de caminhar sobre a água, os Invernos em Veneza seriam muito mais toleráveis.

A pesada porta de madeira abriu-se com um rangido profundo. A nave ainda estava escura. O padre acendeu as luzes e dirigiu-se de novo para a praça inundada, parando por breves instantes na pia baptismal para mergulhar os dedos na água benta, e persignar-se.

Os andaimes estavam cobertos por uma mortalha. O restaurador trepou até à sua plataforma e acendeu uma luz fluorescente. A Virgem pareceu brilhar, sedutora. Durante grande parte daquele Inverno, dedicara-se obstinadamente à restauração do Seu rosto. Nalgumas noites, Ela surgia-lhe quando dormia, entrando no seu quarto, a Sua face em farrapos, rogando-lhe que A curasse.

Ligou um aquecedor portátil eléctrico para aquecer o ar frio e serviu-se de um café do termo, o suficiente para o despertar mas não tanto que lhe fizesse tremer a mão. De seguida, preparou a palete, misturando pigmento seco num minúsculo montículo de óleo. Quando finalmente acabou, baixou o visor de ampliação e começou a trabalhar.

Durante quase uma hora, tinha a igreja só para ele. Lentamente, um a um, os restantes membros da equipa começaram a chegar. O restaurador, escondido por trás da mortalha, conhecia-os a todos pelo som que faziam. O marchar pesado de Francesco Tiepolo, chefe do projecto de San Zaccaria; o revigorante tap-tap-tap de Adriana Zinetti, famosa cleaner de altares e sedutora de homens; o arrastar conspiratório do desajeitado António Politi, propagador de intrigas e bisbilhotices.

O restaurador era uma espécie de enigma para os outros membros da equipa de San Zaccaria. Ele insistia em manter permanentemente a sua plataforma de trabalho e o altar-mor cobertos pela mortalha. Francesco Tiepolo suplicara-lhe que baixasse a mortalha de modo a que os turistas e a notoriamente maldizente classe alta de venezianos o pudesse ver a trabalhar.

- Veneza quer ver o que estás a fazer ao Bellini, Mário. Veneza não gosta de surpresas.

Relutante, o restaurador cedera, e em Janeiro, durante dois dias, trabalhara à vista dos turistas e do resto da equipa Zaccaria. A breve experiência terminara quando monsenhor Moretti, o padre da paróquia de San Zaccaria, entrara na igreja para uma inspecção surpresa. Quando ergueu o olhar para o Bellini e viu que metade do rosto da Virgem desaparecera, caiu de joelhos numa oração histérica. A mortalha voltou, e Francesco Tiepolo nunca mais se atreveu a tocar no assunto.

O resto da equipa encontrava um enorme significado metafórico na mortalha. Porque é que um homem se daria a tanto trabalho para se esconder? Porque insistia ele em se manter afastado dos outros? Porque recusava ele os inúmeros convites para almoçar, os convites para jantar e as sessões de bebida de sábados à noite no Harry's Bar? Até se recusara a ir à recepção dada pelos Amigos de San Zaccaria na Academia. O Bellini era uma das mais importantes pinturas de toda a Veneza, e era considerado escandaloso que ele recusasse passar alguns minutos com os gordos patronos americanos que tinham tornado possível a sua restauração.

Nem Adriana Zinetti conseguia penetrar a mortalha. Isso deu azo a uma desenfrada especulação segundo a qual o restaurador era homossexual, o que não era considerado crime entre os espíritos livres da equipa de Zaccaria, e aliás aumentou temporariamente a sua popularidade, que estava em queda entre alguns dos rapazes. A teoria foi posta de parte uma noite, quando uma mulher espantosamente atraente se encontrou com ele na igreja. Tinha as maçãs do rosto salientes, pele pálida, olhos de um verde felino, e um queixo afilado. Foi Adriana Zinetti quem reparou nas abundantes cicatrizes da sua mão esquerda.

- Ela é o outro projecto dele - especulou sombriamente Adriana, enquanto o casal desaparecia na noite de Veneza. - É óbvio que ele gosta mais de mulheres danificadas.

Apresentava-se como Mário Delvecchio mas o seu italiano, embora fluente, possuía um ténue mas indisfarçável sotaque. Explicava isso dizendo que fora criado no estrangeiro e que vivera em Itália apenas durante curtos períodos. Alguém ouvira dizer que ele fizera a sua aprendizagem com o lendário Umberto Conti. Outra pessoa ouvira dizer que, segundo Conti, as mãos dele eram as mais talentosas que jamais vira.

O invejoso António Politi foi o responsável pela vaga seguinte de rumores que percorreu a equipa de Zaccaria. António enfurecia-se com o ritmo vagaroso do seu colega. Em menos tempo do que levara o grande Mário Delvecchio a retocar o rosto da Virgem, António limpara e restaurara meia dúzia de pinturas. O facto de todas serem de pouco ou nenhum significado apenas aumentara a sua fúria.

- O mestre, o próprio mestre, pintou-a numa tarde - protestou António a Tiepolo. - Mas este homem levou todo o Inverno. Sempre a correr para a Academia para estudar os Bellinis. Vão-lhe dizendo que se despache! Vamos ficar aqui dez anos!

Foi António que desenterrou uma história bastante bizarra a respeito de Viena, história essa que ele partilhou com o resto da equipa Zaccaria durante um jantar de família, numa noite de Fevereiro em que nevava - por coincidência na Trattoria alla Madonna. Cerca de dez anos antes, houvera uma enorme limpeza e um projecto de restauração na catedral de Santo Estêvão em Viena. Um italiano chamado Mário fazia parte da equipa.

- O nosso Mário? - perguntou Adriana sobre um copo de ripasso.

- Claro que era o nosso Mário. A mesma arrogância. O mesmo passo de caracol.

Segundo a fonte de António, o restaurador em questão desaparecera uma noite sem deixar rastro - a mesma noite em que um carro armadilhado explodira no antigo bairro judeu.

- E a que conclusão chegaste, António? - Era, de novo, Adriana olhando para ele através do ripasso cor de rubi.

António interrompeu para uma pausa dramática, despedaçando um pedaço de polenta grelhada e erguendo-a ao alto como um ceptro.

- Não é óbvio? É claro que o homem é um terrorista. Eu diria que ele é das Brigadas Vermelhas.

- Ou talvez seja o próprio Osama Bin Laden!

A equipa Zaccaria irrompeu numa tal explosão de gargalhadas que quase lhes pediram para sair do restaurante. Nunca mais ninguém acreditou nas teorias de António Politi, excepto ele próprio. Secretamente, desejou que o silencioso restaurador atrás da mortalha repetisse a façanha de Viena e desaparecesse sem deixar rastro. Depois disso, António ocuparia o seu lugar e terminaria o Bellini. A sua reputação estaria feita.

O restaurador trabalhou bem nessa manhã, e o tempo passou com rapidez. Olhando para o relógio de pulso, ficou surpreendido por ver que já eram onze e meia. Sentou-se na extremidade da plataforma, serviu-se de mais café, e olhou para o altar-mor. Pintado por Bellini no auge da sua fama, era geralmente considerado pelos historiadores como o primeiro grande altar-mor do século XVI. O restaurador nunca se cansava de olhar para ele. Maravilhava-se com a utilização habilidosa da luz e do espaço feita por Bellini, o poderoso efeito hipnótico que atraía o olhar para cima e para o interior, a nobreza escultural da Madonna e do menino, e dos santos que os rodeavam. Era um quadro de silêncio absoluto. Mesmo após uma longa e entediante manhã de trabalho, o quadro envolvia-o numa sensação de paz.

Puxou a mortalha para o lado. Estava sol lá fora e a nave enchia-se de luz através dos vitrais. Enquanto acabava o café, despertou-lhe a atenção um movimento à entrada da igreja. Era um rapaz, com cerca de dez anos, com longo cabelo encaracolado. Tinha os sapatos ensopados da água na praça. O restaurador observou-o atentamente. Mesmo passados dez anos, não conseguia olhar para nenhum rapazito sem pensar no filho.

O rapaz dirigiu-se primeiro a António, que o enxotou sem erguer o olhar do trabalho. De seguida, percorreu a longa nave central até ao altar-mor, onde foi recebido mais amistosamente por Adriana. Esta sorriu-lhe, tocou-lhe um dos lados do rosto, depois apontou o andaime do restaurador. A criança parou na base da plataforma e, sem palavras, deu ao restaurador um pedaço de papel. Ele desdobrou-o e encontrou umas palavras rabiscadas, como o último pedido de um amante desesperado. A mensagem não estava assinada, mas a letra era-lhe tão familiar quanto as pinceladas de Bellini.

Ghetto Nuovo. Seis horas.

O restaurador amachucou o papel e enfiou-o no bolso. Quando voltou a olhar para baixo, a criança desaparecera.

Às cinco e meia, Francesco Tiepolo entrou na igreja e arrastou-se lentamente através da nave. Com a barba embaraçada, camisa branca esvoaçante, e lenço de seda envolvendo-lhe o pescoço, o enorme italiano parecia ter acabado de sair de um atelier renascentista. Era uma aparência cuidadosamente cultivada.

- Muito bem, todos - cantarolou, a voz ecoando entre as absides e as colunas. - Acabámos por hoje. Arrumem as vossas coisas. As portas fecham dentro de cinco minutos. - Com uma mão semelhante à pata de um urso, agarrou a plataforma de trabalho do restaurador e abanou-a com violência, fazendo chocalhar luzes e pincéis. - Tu também, Mário. Dá à tua dama um beijo de boa noite. Ela vai ser capaz de passar umas horas sem ti. Aguentou-se bem durante quinhentos anos.

O restaurador limpou meticulosamente pincéis e palete, e arrumou os pigmentos e dissolventes numa caixa rectangular envernizada. Depois apagou o candeeiro e saltou do andaime. Como sempre, saiu da igreja sem dizer uma palavra aos outros.

Com a caixa debaixo do braço, atravessou o Campo de San Zaccaria. Tinha um andar suave, que parecia impulsioná-lo através da praça. Sendo esguio e não muito alto, facilmente passaria despercebido. O cabelo negro era curto, com madeixas grisalhas. O rosto angular, com um queixo marcadamente dividido ao meio e lábios grossos, dava a impressão de ter sido esculpido em madeira. A mais marcante impressão do seu rosto eram os olhos, quase amendoados e com uma surpreendente tonalidade verde esmeralda. Apesar da natureza exigente do seu trabalho - e apesar de, recentemente, ter celebrado o seu quinquagésimo primeiro aniversário -, a sua visão permanecia perfeita.

Passando sob uma arcada, chegou à Riva della Schiavoni, o amplo cais sobranceiro ao Canale di San Marco. Apesar do tempo frio de Março, havia por ali muitos turistas. O restaurador conseguiu distinguir meia dúzia de línguas diferentes, a maioria das quais sabia falar. Uma frase em hebraico chegou-lhe aos ouvidos. Desvaneceu-se rapidamente, como música ao vento, mas o restaurador sentiu uma repentina ânsia por ouvir o som do seu verdadeiro nome.

Um vaporetto n° 82 estava à espera na paragem. Entrou e encontrou um lugar junto ao varandim, a partir do qual conseguia ver o rosto de cada passageiro que embarcava e que saía. Tirou a mensagem do bolso e leu-a uma última vez. Depois deixou-a cair do barco e observou-a a afastar-se nas águas aveludadas da lagoa.

No século XV, uma parcela pantanosa de terra no sestier NT de Cannaregio fora colocada de parte para a construção de uma nova fundação de bronze, conhecida no dialecto veneziano como getto. A fundação nunca fora construída, e um século mais tarde, quando os governantes de Veneza procuravam um lugar mais adequado para confinar a crescente população urbana de judeus indesejados, a remota parcela conhecida como Ghetto Nuovo foi considerada o local ideal. A área era grande e não tinha qualquer igreja nem paróquia. Os canais adjacentes formavam um fosso natural, que cortava a ilha das comunidade vizinhas, e a única ponte podia ser guardada por vigilantes cristãos. Em 1516, os cristãos do Ghetto Nuovo foram despejados e os judeus de Veneza foram forçados a tomar o seu lugar. Só podiam deixar o ghetto depois do amanhecer, quando o sino repicasse no campanário, e apenas se usassem uma túnica e chapéu amarelos. Ao cair da noite, eram obrigados a regressar à ilha, e os portões eram fechados a cadeado. Apenas os médicos judeus podiam sair do ghetto à noite. No seu pico máximo, a população do ghetto era superior a cinco mil. Agora, albergava apenas vinte judeus.

O restaurador atravessou a ponte metálica para peões. Um anel de edifícios de apartamentos, invulgarmente alto para Veneza, elevava-se perante ele. Entrou num sottoportego e seguiu-o sob os apartamentos, emergindo um momento depois numa praça, o Campo di Ghetto Nuovo. Um restaurante kosher 1, uma padaria judaica, uma livraria, um

 

NT Bairro.

1 Termo referente à forma como os alimentos devem ser vendidos, confeccionados ou ingeridos, segundo os requisitos da lei judaica.

 

museu. Também havia duas antigas sinagogas, virtualmente invisíveis, excepto para um olhar treinado. Apenas as cinco janelas do segundo piso de cada uma - o símbolo dos cinco livros do Pentateuco NT - denunciava a sua localização.

Meia dúzia de rapazes jogava futebol entre as sombras alongadas e as poças de água. A bola saltou na direcção do restaurador, que lhe deu um pontapé habilidoso com a ponta do pé direito colocando-a, com perícia, novamente em jogo. Um dos rapazes levou com a bola no peito. Era aquele que se dirigira a San Zaccaria naquela manhã.

A criança fez um aceno na direcção do pozzo, a fonte no centro da praça. O restaurador virou-se e viu aí encostada uma figura familiar, fumando um cigarro. Sobretudo de caxemira cinzenta, lenço cinzento apertadamente enrolado à volta do pescoço, uma cabeça afunilada. A pele do rosto estava muito bronzeada, seca e gretada, como uma rocha do deserto queimada por milhões de anos de Sol e vento. Os óculos eram pequenos e redondos, o que o fazia estar involuntariamente em moda. A expressão era de impaciência perpétua.

Quando o restaurador se aproximou, o velho ergueu a cabeça, e os seus lábios esboçaram algo entre um sorriso e um esgar. Agarrou no restaurador pelo braço e infligiu-lhe um aperto de mão de esmagar ossos. De seguida, ternamente, beijou-lhe a face.

- Estás aqui por causa de Benjamin, não estás?

O velho fechou as pálpebras enrugadas e anuiu. Depois com dois dedos gorduchos agarrou no cotovelo do restaurador e disse:

- Passeia comigo.

O restaurador resistiu durante um instante, mas não havia forma de lhe escapar. Houvera uma morte na família, e Ari Shamron nunca fora alguém que se sentara para shivah NT.

Passara-se um ano desde que Gabriel o vira pela última vez. Shamron envelhecera visivelmente. Enquanto davam a volta à praça na

 

NT Os primeiros cinco livros da Bíblia (Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio), aos quais os judeus chamam a Tora.

NT Palavra hebraica que significa sete, e que na religião judaica consiste num período de 7 dias de luto que se iniciam imediatamente após o enterro da pessoa falecida e termina ao entardecer do sétimo dia.

 

escuridão que caía, Gabriel teve de resistir ao impulso de lhe pegar no braço. As suas faces estavam mais cavadas, e os olhos de um azul aço - olhos que outrora tinham inspirado medo tanto nos seus inimigos como nos seus aliados - estavam enevoados e húmidos. Quando levou o cigarro turco aos lábios, a sua mão direita tremia.

Aquelas mãos tinham feito de Shamron uma lenda. Pouco depois de se ter juntado ao Gabinete na década de 1950, os superiores de Shamron repararam que ele possuía um amplexo invulgarmente forte para um homem com uma aparência física tão vulgar. Foi treinado na arte dos carteiristas de rua e dos assassinos silenciosos, e enviado para trabalho de campo. Preferia o garrote e usara-o com uma eficiência mortal desde as ruas empedradas da Europa até aos becos sujos do Cairo e de Damasco. Matara espiões e generais árabes. Matara cientistas nazis, que ajudavam Nasser a construir foguetões. E numa amena noite de Abril de 1960, numa cidade a norte de Buenos Aires, Ari Shamron saltou das traseiras de um carro e agarrou Adolf Eichmann pela garganta, enquanto este esperava por um autocarro para o levar a casa.

Gabriel era a única pessoa que sabia outro facto relevante a respeito dessa noite na Argentina: Adolf Eichmann quase escapara porque Shamron tropeçara sobre um atacador mal apertado. Esta propensão para a catástrofe iria marcar as suas muitas estadias na suite executiva da Avenida Rei Saul. Os primeiros-ministros nunca sabiam muito bem o que fazer quando Shamron aparecia à porta - notícias de um sucesso surpreendente ou a confissão secreta de outro fiasco humilhante. A sua prontidão em correr riscos era tanto uma força operacional poderosa quanto uma fraqueza política debilitante. Gabriel perdera a conta às vezes em que o velho fora lançado para o exílio, para de seguida ser voltado a chamar por entre uma enorme pompa.

A influência de Shamron na suite executiva tinha por fim terminado, embora o seu exílio nunca pudesse vir a ser permanente. Mantinha o duvidoso título de conselheiro administrativo especial, o que lhe dava apenas acesso suficiente a transformar-se num incómodo geral, e da sua villa fortificada, sobranceira ao mar da Galileia, ainda exercia um poder clandestino considerável. Espiões e generais visitavam-no regularmente para lhe beijarem o anel, e nenhuma decisão importante referente à segurança do Estado era tomada sem antes passar pelo homem velho.

A sua saúde era um segredo cuidadosamente guardado. Gabriel ouvira rumores sobre um cancro na próstata, um ataque cardíaco fraco, problemas recorrentes com os rins. Era óbvio que não lhe restava muito tempo de vida. Shamron não temia a morte - apenas que na sua ausência a condescendência pudesse florescer. E agora, enquanto passeavam lentamente à volta do antigo ghetto, a morte caminhava ao lado deles. A morte de Benjamin. E a de Shamron. A proximidade da morte tornara Shamron inquieto. Parecia um homem ansioso por ajustar contas. Um velho guerreiro, desesperado por uma última batalha.

- Foste ao funeral? Shamron sacudiu a cabeça.

- Benjamin temia que os seus feitos académicos ficassem conspurcados se alguma vez se viesse a saber que trabalhara para nós. A minha presença no funeral só teria levantado questões desconfortáveis, em Israel e no estrangeiro, por isso mantive-me afastado. Devo admitir que não estava ansioso por ir. É difícil enterrar um filho.

- Estava lá alguém? Ele não tinha outra família em Israel.

- Disseram-me que havia alguns antigos amigos do mundo clandestino e alguns membros da faculdade de Hebraico.

- Quem te mandou cá?

- O que é que isso interessa?

- Interessa-me a mim. Quem te enviou?

- Sou como um presidiário em liberdade condicional - disse Shamron com uma expressão de cansaço - não me posso mover ou agir sem aprovação do tribunal supremo.

- E quem se senta nesse tribunal?

- Um deles é Lev. Claro que se fosse por Lev, eu estaria trancado numa sala com uma cama de ferro, a pão e água. Mas, felizmente para mim, a outra pessoa do tribunal é o primeiro-ministro.

- O teu velho camarada de armas.

- Digamos apenas que partilhamos opiniões semelhantes acerca da natureza do conflito e das verdadeiras intenções dos nossos inimigos. Falamos a mesma linguagem e apreciamos a companhia um do outro. Ele mantém-me no jogo, apesar dos esforços de Lev para me embrulhar na minha mortalha.

- Isto não é um jogo, Ari. Nunca foi um jogo.

- Não precisas de me recordar isso, Gabriel. Passas aqui o teu tempo, nos recreios da Europa, enquanto diariamente os shaheeds explodem em pedaços na rua Ben Yehuda e na estrada de Jaffa.

- Eu trabalho aqui.

- Desculpa-me, Gabriel. Não quis ser tão duro quanto soou. Já agora, em que estás a trabalhar?

- Estás mesmo interessado?

- Claro que estou. Não teria perguntado se não estivesse.

- No altar-mor de Bellini da igreja de San Zaccaria. É uma das pinturas mais importantes de Veneza.

O rosto de Shamron dividiu-se num sorriso genuíno.

- Adoraria ver a expressão do patriarca se ele alguma vez descobrisse que o seu precioso altar-mor estava a ser restaurado por um simpático rapaz judeu, do vale de Jezreel.

Sem aviso, parou de andar e tossiu violentamente para um lenço. Quando inspirou profundamente algumas vezes, Gabriel conseguiu ouvir um som rouco no seu peito. O homem velho precisava de sair do frio, mas era demasiado orgulhoso para admitir fraqueza física. Gabriel decidiu fazê-lo por ele.

- Importas-te que nos sentemos nalgum lugar? Estive de pé no meu andaime desde as oito da manhã.

Shamron fez um sorriso cansado. Sabia que estava a ser enganado. Conduziu Gabriel até uma padaria na extremidade da praça. Esta estava vazia, à excepção de uma rapariga alta atrás do balcão. Ela serviu-os sem esperar pelo pedido: chávenas de espresso, pequenas garrafas de água mineral, um prato de rugelach com canela e nozes. Enquanto se inclinava sobre a mesa, uma madeixa de cabelo negro caiu-lhe para a frente sobre um ombro. As suas longas mãos cheiravam a baunilha. Cobriu-se com um lenço de uma tonalidade bronze e saiu para a praça, deixando Gabriel e Shamron sozinhos na loja.

- Estou a ouvir - disse Gabriel.

- Isso é uma melhoria. Normalmente, começas por me dizer aos gritos como te arruinei a vida.

- Estou certo que chegaremos a esse ponto.

- Tu e a minha filha deviam comparar notas.

- Já comparámos. Como é que ela está?

- Ainda a viver na Nova Zelândia, numa quinta de criação de galinhas, se é que consegues acreditar em tal coisa, e ainda a recusar-se a atender as minhas chamadas telefónicas. - Levou um longo período de tempo a acender o seu cigarro seguinte. - Ela ressente-se terrivelmente. Diz que nunca estive lá para ela. O que ela não compreende é que estava ocupado. Tinha um povo a proteger.

- Não durará para sempre.

- Para o caso de não teres reparado, nem eu. - Shamron deu uma dentada no rugelach e mastigou-o lentamente. - Como está Anna?

- Suponho que bem. Não lhe falo há quase dois meses. Shamron baixou o queixo e, com uma expressão de reprovação, espreitou sobre os óculos para Gabriel.

- Por favor, diz-me que não partiste o coração à pobre mulher. Gabriel mexeu o açúcar no café e desviou os olhos do olhar fixo de Shamron. Anna Rolfe... Era uma violinista de renome internacional e filha de um rico banqueiro suíço chamado Augustus Rolfe. Um ano antes, Gabriel ajudara-a a encontrar os homens que lhe tinham assassinado o pai. Ao longo do percurso, também a forçara a confrontar as circunstâncias desagradáveis acerca do passado do tempo da guerra do pai e a fonte da sua notável colecção de pinturas impressionistas e contemporâneas. Também se apaixonara pela virtuosa intempestiva. Depois da operação, vivera com ela durante seis meses numa villa isolada na costa de Sintra, em Portugal. A sua relação começara a deteriorar-se quando Gabriel lhe confessara que de cada vez que passeavam pelas ruas da vila, era a sombra da sua mulher Leah que ele via junto ao ombro - e que nalgumas noites, enquanto faziam amor, Leah mantinha-se no quarto, uma espectadora silenciosa da sua satisfação. Quando Francesco Tiepolo lhe oferecera o altar-mor de San Zaccaria, Gabriel aceitara sem hesitações. Anna Rolfe não se metera no seu caminho.

- Gosto muito dela, mas nunca teria resultado.

- Ela passou algum tempo contigo, aqui em Veneza?

- Actuou num espectáculo de caridade no Frari. Ficou comigo durante dois dias. Receio que ainda tenha piorado mais as coisas.

Shamron esmagou lentamente o seu cigarro.

- Suponho que tenha em parte a culpa. Levei-te a isso antes de estares preparado.

Tal como sempre fazia em ocasiões como esta, Shamron perguntou se Gabriel fora ver Leah. Gabriel ouviu-se a dizer que fora à isolada clínica psiquiátrica no sul de Inglaterra antes de ir para Veneza; que passara uma tarde com ela, empurrando-a pelos jardins; que até tinham feito um piquenique debaixo dos ramos nus de um carvalho. Mas enquanto falava, a sua mente estava noutro lado. Na pequena rua de Viena não muito distante da Judenplatz, no carro armadilhado que matara o seu filho, no inferno que destruíra o corpo de Leah e lhe roubara a memória.

- Passaram-se doze anos e ela ainda não me reconhece. Para ser honesto contigo, por vezes eu também não a reconheço. - Gabriel interrompeu-se, e depois disse -, mas não vieste aqui para discutir a minha vida pessoal.

- Não, não vim - respondeu Shamron. - Mas a tua vida pessoal é relevante. Sabes, é que se ainda estivesses envolvido com Anna Rolfe, eu não te poderia pedir para voltares a trabalhar para mim... pelo menos, não de ânimo leve.

- Quando é que deixaste que isso se metesse no caminho de algo que querias?

- Ora aí está o velho Gabriel que eu conheço e amo. - Shamron exibiu um sorriso de ferro. - O que é que sabes a respeito do homicídio de Benjamin?

- Só o que li no Herald Tribune. A Polícia de Munique diz que ele foi morto por neonazis.

Shamron resfolegou. Era óbvio que não concordava com as conclusões da Polícia de Munique, não interessando o quão preliminares estas eram.

- Suponho que seja possível. As obras de Benjamin acerca do Holocausto transformaram-no em alguém extremamente impopular entre muitos segmentos da sociedade alemã, e o facto de ele ser israelita fizeram dele um alvo. Mas não estou convencido que um skinhead o tivesse conseguido matar. Sabes, sempre que os judeus morrem em território alemão, sinto-me desconfortável. Quero saber mais do que aquilo que a Polícia de Munique nos está a contar numa base oficial.

- Porque não envias uma katsa a Munique para investigar?

- Porque se algum dos nossos agentes em campo começar a fazer perguntas, as pessoas vão ficar desconfiadas. Além disso, sabes que sempre preferi a porta das traseiras à porta de entrada.

- Que tens em mente?

- Dentro de dois dias, o detective de Munique encarregado do caso vai encontrar-se com o meio-irmão de Benjamin, Ehud Landau. Depois de informar Landau a respeito da investigação, permitir-lhe-á fazer um inventário das posses de Benjamin e arranjar um transporte de regresso a Israel.

- Se a memória não me falha, Benjamin não tem um meio-irmão.

- Agora tem. - Shamron colocou um passaporte israelita sobre a mesa e empurrou-o na direcção de Gabriel com a palma da mão.

Gabriel abriu-o e viu o próprio rosto a olhá-lo. Depois, olhou para o nome: ehud landau.

- Tens os melhores olhos que já vi - disse Shamron. - Dá uma espreitadela ao apartamento. Vê se alguma coisa está fora do lugar. Se puderes, retira qualquer coisa que o possa ligar ao Gabinete.

Gabriel fechou o passaporte, mas deixou-o pousado sobre a mesa.

- Estou no meio de uma restauração complicada. Não posso ir agora a correr para Munique.

- Demorará um dia... dois, no máximo.

- Isso foi o que disseste da última vez.

O temperamento de Shamron, sempre fervilhando sob a superfície, explodiu. Bateu com o punho na mesa e gritou a Gabriel em hebraico:

- Queres arranjar o teu estúpido quadro ou ajudar a descobrir quem matou o teu amigo?

- Para ti, é sempre muito simples, não é?

- Oh, quem me dera que o fosse. Tencionas ajudar-me, ou vais obrigar-me a usar um dos rufiões de Lev para esta missão delicada?

Gabriel fingiu meditar, mas já se decidira. Pegou no passaporte com um movimento suave da mão e enfiou-o no bolso do casaco. Gabriel tinha as mãos de um prestidigitador e a capacidade para a ilusão de um mágico. O passaporte estava ali, o passaporte desaparecera. De seguida, Shamron enfiou a mão no bolso do casaco e retirou deste um envelope acastanhado de tamanho médio. No interior, Gabriel encontrou um bilhete de avião e uma dispendiosa carteira de cabedal negro de fabrico suíço. Abriu a carteira: uma carta de condução israelita, cartões de crédito, o cartão de membro de um health club exclusivo de Telavive, um talão de um clube de vídeo local, uma substancial quantia em euros e shekels.

- Qual é a minha profissão?

- És dono de uma galeria de arte. Os teus cartões de visita encontram-se no compartimento com o fecho.

Gabriel encontrou os cartões e retirou um:

GALERIA DE ARTK LANDAU RUA SHEINKTN, TELAVIVE

- Esta galeria existe?

- Existe agora.

O último artigo dentro do envelope era um relógio de pulso de ouro com uma bracelete de cabedal preto. Gabriel virou o relógio e leu a gravação nas costas deste. para Ehud da Hannah com amor.

- Pormenor bonito - disse Gabriel.

- Sempre achei que são os pequenos pormenores que fazem a diferença!

O relógio, o bilhete de avião, e a carteira juntaram-se ao passaporte no bolso de Gabriel. Os dois homens levantaram-se. Ao saírem, a rapariga de cabelo comprido com o lenço de uma tonalidade de bronze aproximou-se rapidamente de Shamron. Gabriel apercebeu-se que ela era o guarda-costas do velho.

- Para onde vais?

- De volta a Tiberias - respondeu Shamron. - Se encontrares alguma coisa interessante, envia-a para a Avenida Rei Saul através dos canais habituais.

- Ao cuidado de quem?

- Do meu, mas isso não significa que o pequeno Lev não lhe dê uma espreitadela, por isso sê discreto.

Ao longe, o sino da igreja repicou. Shamron parou no centro da praça, junto ao pozzo, e olhou em volta uma última vez.

- O nosso primeiro ghetto. Céus, como eu odeio este lugar.

- É uma pena não teres cá estado no século XVI - disse Gabriel. - O Conselho dos Dez nunca se teria atrevido a fechar aqui os judeus.

- Mas eu estava cá - replicou Shamron com convicção. - Sempre estive aqui. E lembro-me de tudo.

 

Dois dias depois, o detective Axel Weisse da Polícia Criminal de Munique esperava-o no exterior do n° 68 da Adalbertstrasse, vestindo roupa à paisana e uma gabardina castanha. Apertou cuidadosamente a mão de Gabriel, como se estivesse a sentir o seu peso. Um homem alto com um rosto estreito e um nariz comprido, a compleição morena de Weiss e o cabelo negro e curto davam-lhe a aparência de um Doberman pinscher. Soltou a mão de Gabriel e deu-lhe uma palmadinha fraternal no ombro.

- É um prazer conhecê-lo, Herr Landau, embora lamente as circunstâncias. Venha comigo a um sítio mais confortável para conversarmos, antes de subirmos ao apartamento.

Começaram a andar pelo pavimento ensopado pela chuva. Era o final da tarde, e as luzes do Schwabing começavam lentamente a acender-se. Gabriel nunca gostara das cidades alemãs à noite. O detective deteve-se em frente de um café e espreitou através de uma janela embaciada. Chão de madeira, mesas redondas, estudantes e intelectuais debruçados sobre livros.

- Este serve - disse. De seguida, abriu a porta e conduziu Gabriel até uma mesa sossegada a um canto. - O pessoal do seu consulado disse-me que é dono de uma galeria de arte.

- Sim, é verdade.

- Em Telavive?

- Conhece Telavive?

O detective sacudiu a cabeça.

- Agora deve ser muito difícil para si... com a guerra e isso tudo.

- Sobrevivemos. Mas também sempre o fizemos.

Apareceu uma empregada de mesa. O detective Weiss pediu dois cafés.

- Quer comer alguma coisa, Herr Landau?

Gabriel abanou a cabeça. Quando a empregada desapareceu, Weiss prosseguiu:

- Tem um cartão de visita?

Conseguiu colocar a pergunta de forma natural, mas Gabriel percebeu que o seu disfarce estava a ser sondado. O seu tipo de trabalho incapacitara-o para ver as coisas como elas pareciam. Quando via quadros, via não apenas a superfície mas os esboços e as camadas de tinta da base. O mesmo se passava com as pessoas que encontrava no seu trabalho para Shamron e nas situações com as quais se defrontava. Teve a nítida impressão que Axel Weiss era algo mais do que um simples detective da Polícia Criminal de Munique. Na verdade, Gabriel conseguia sentir os olhos de Weiss a penetrá-lo enquanto metia a mão na carteira e tirava um dos cartões de visita que Shamron lhe dera em Veneza. O detective ergueu-o contra a luz, como se procurasse as marcas de um falsificador.

- Posso ficar com isto?

- Claro. - Gabriel manteve a carteira aberta. - Precisa de mais alguma identificação?

O detective pareceu achar a pergunta ofensiva e fez um grandioso gesto alemão de negação.

- Ach, não! Claro que não. Só estou interessado em arte, é tudo. Gabriel resistiu à tentação de ver o pouco que o polícia alemão sabia acerca de arte.

- Falou com o seu pessoal?

Gabriel anuiu solenemente. Mais cedo, nessa mesma tarde, fizera uma visita ao consulado israelita para uma longa reunião cerimonial. O funcionário consular dera-lhe um ficheiro contendo cópias dos relatórios da Polícia e recortes da imprensa de Munique. O ficheiro encontrava-se agora dentro da cara pasta de cabedal de Ehud Landau.

- O funcionário consular foi muito prestável - disse Gabriel. - Mas se não se importa, detective Weiss, gostaria que fosse o senhor a falar-me da morte de Benjamin.

- Claro - respondeu o alemão.

Passou os vinte minutos que se seguiram a dar a Gabriel um relato rigoroso das circunstâncias que rodeavam o homicídio. A hora da morte, a causa da morte, o calibre da arma, as bem documentadas ameaças contra a vida de Benjamin, o graffiti deixado nas paredes do seu apartamento. Falou na maneira calma mas directa que a Polícia de todo o mundo parece reservar aos parentes daqueles que foram assassinados. O comportamento de Gabriel espelhava o do detective alemão. Não fingiu dor. Não fingiu que os pormenores macabros da morte do seu meio-irmão lhe causavam dor. Era um israelita. Via a morte quase numa base diária. O tempo de luto terminara. Agora, era o tempo das respostas e de um pensamento coerente.

- Porque é que o atingiram no joelho, detective?

Weiss puxou os lábios para baixo e inclinou a cabeça estreita.

- Não temos a certeza. Pode ter havido uma luta. Ou eles talvez o quisessem ter torturado.

- Mas você disse-me que nenhum dos outros inquilinos ouviu qualquer ruído. Certamente que se ele foi torturado, o som dos seus gritos teria sido ouvido noutras partes do edifício.

- Tal como referi, Herr Landau, não temos a certeza.

Weiss estava claramente frustrado com a linha de interrogatório, mas Herr Landau, negociante de arte de Telavive, ainda não tinha acabado.

- Um ferimento no joelho é consistente com outros homicídios perpetuados por extremistas de direita?

- Não posso dizer que o seja.

- Têm alguns suspeitos?

- Estamos a interrogar um certo número de pessoas diferentes relacionadas com o assassinato. Receio ser tudo o que lhe possa dizer de momento.

- Explorou a possibilidade da sua morte estar de algum modo ligada às suas funções na universidade? Um estudante descontente, por exemplo?

O detective conseguiu sorrir, mas era óbvio que a sua paciência estava a ser testada.

- O seu irmão era muito querido. Os seus alunos adoravam-no. Também estava de licença sabática neste semestre. - O detective interrompeu-se e estudou Gabriel durante um momento. - Sabia disso, não sabia, Herr Landau?

Gabriel decidiu que seria melhor dizer a verdade.

- Não, receio que não soubesse. Já há algum tempo que não falávamos. Porque estava ele de licença sabática?

- O presidente do seu departamento disse-nos que ele estava a trabalhar num novo livro. - O detective engoliu o resto do café. - Devemos dar agora uma espreitadela ao apartamento?

- Só tenho mais uma pergunta.

- Qual é, Herr Landau?

- Como é que o assassino entrou no edifício?

- Essa é uma pergunta a que posso responder - replicou Weiss. - Apesar do facto do seu irmão receber regularmente ameaças de morte, ele vivia num edifício muito pouco seguro. Os inquilinos são muito descuidados quanto a quem deixam entrar. Se alguém tocar à campainha e disser «Publicidade», eles abrem a porta. Uma estudante que vive no andar por cima do do professor Stern tem quase a certeza de que foi ela que deixou entrar o assassino no edifício. Ainda está muito perturbada. Aparentemente, gostava muito dele.

Regressaram ao apartamento através da chuva persistente. O detective premiu um botão do painel do intercomunicador. Gabriel anotou o nome a que este correspondia, lillian ratzinger - porteira. Um momento depois, uma mulher pequena, de aspecto feroz, com olhos castanhos assustados espreitou da extremidade da porta. Reconheceu Weiss e abriu-lhes a porta.

- Boa tarde, Frau Ratzinger - disse o detective. - Este é o irmão de Benjamin, Ehud Landau. Está aqui para pôr em ordem as coisas de Benjamin.

A mulher velha olhou para Gabriel e anuiu. Depois afastou-se, como se a presença dele a perturbasse.

No átrio, um odor ácido saudou Gabriel. Fê-lo recordar-se dos dissolventes que usava para remover o verniz sujo de uma tela. Espreitou por uma esquina e viu um kosmetik. Uma mulher gorda a meio de um tratamento aos pés desviou os olhos de uma lustrosa revista de moda alemã, olhando na sua direcção. Gabriel afastou-se. «Benjamin, o eterno estudante», pensou. «Benjamin sentir-se-ia confortável num lugar como este.»

Na parede adjacente à porta, encontrava-se uma fila de caixas de correio metálicas. Aquela que correspondia ao apartamento de Benjamin ainda tinha o seu nome. Através da minúscula janela, Gabriel conseguia ver que estava vazia.

A mulher velha conduziu-os até uma escadaria fracamente iluminada, um molho de chaves-mestras a tilintar-lhe na mão. Deteve-se à porta do apartamento de Benjamin. Remanescentes rasgados da fita de cena de crime pendiam da maçaneta da porta, e um monte de rosas mortas jazia no chão. Afixado à parede estava um letreiro, rabiscado com uma letra arrebatada: uube ist stàrkhr als iwb - O amor é mais forte que o ódio. Algo acerca da ingenuidade idealista do slogan enfureceu Gabriel. Depois lembrou-se que fora a mesma coisa que Leah lhe dissera antes dele partir para a Europa para matar palestinianos, a mando de Shamron.

«O amor é mais forte que o ódio, Gabriel. O que quer que faças, não os odeies. Se os odiares, vais transformar-te em alguém como Shamron.»

A mulher velha destrancou a porta e afastou-se sem olhar para Gabriel. Ele questionou-se sobre o motivo da sua ansiedade. Talvez fosse a sua idade. Talvez pertencesse a uma geração que ainda se sentia desconfortável na presença de judeus.

Weiss conduziu Gabriel até à sala da frente, sobranceira à Aldalbertstrasse. As sombras da tarde eram pesadas. O detective iluminou a sala, acendendo o candeeiro pousado sobre a secretária de Benjamin. Gabriel olhou para baixo, e de seguida recuou um passo. O chão estava coberto pelo sangue de Benjamin. Ergueu o olhar para a parede e viu pela primeira vez o graffiti. O detective Weiss apontou para o primeiro símbolo, um diamante repousando num pedestal que se assemelhava a um V invertido.

- Este é conhecido como a Runa de Odin - explicou Weiss. - É um antigo símbolo nórdico que expressa a fé na religião pagã chamada Odinismo.

- E o segundo? - perguntou Gabriel, embora já conhecesse a resposta.

Weiss olhou para ele durante um momento antes de responder. Três setes numerais, unidos pela base, e cercados por um mar de vermelho.

- Chamam-lhe os Três Setes ou a Suástica de Três Gumes - disse o alemão. - Simboliza a supremacia sobre o diabo, tal como representado pelo número 666.

Gabriel deu um passo em frente e inclinou a cabeça para um lado, como se estivesse a inspeccionar uma tela que necessitasse de restauro. Ao seu olhar bem treinado parecia-lhe que o artista era um imitador e não um seguidor. Também se apercebeu de outra coisa. Os símbolos do ódio tinham sido provavelmente pintados na parede no momento que se seguira ao homicídio de Benjamin, mas no entanto as linhas estavam direitas e perfeitamente executadas, não revelando quaisquer sinais de stress ou ansiedade. «Um homem habituado a matar», pensou Gabriel. Um homem que se sentia confortável perto da morte.

Dirigiu-se à secretária.

- O computador de Benjamin foi levado como prova? Weiss sacudiu a cabeça.

- Roubado.

Gabriel olhou para baixo para o cofre, que estava aberto e vazio.

- Também foi roubado - disse o detective, antecipando a próxima pergunta.

Gabriel retirou um pequeno bloco de apontamentos e uma caneta do bolso do casaco. O detective sentou-se pesadamente no sofá, como se tivesse andado em ronda durante todo o dia.

- Tenho de permanecer consigo no apartamento enquanto faz o inventário. Lamento, mas estas são as regras. - Soltou um pouco a gravata. - Demore o tempo que for necessário, Herr Landau. E o que quer que faça, não tente levar nada, eh? Essas também são as regras.

Gabriel não podia fazer muito na presença do detective. Olhou para o quarto. A cama estava desfeita, e na cadeira de braços de cabedal estalado encontrava-se um monte de roupa recentemente lavada, ainda embrulhada em papel pardo e fio. Na mesinha de cabeceira, encontrava-se uma máscara preta e um par de tampões de espuma para os ouvidos. Gabriel recordava-se que Benjamin tinha um sono notoriamente leve. As cortinas eram escuras e pesadas, do tipo habitualmente usado por alguém que trabalha de noite e que dorme durante o dia. Quando Gabriel as abriu, o ar ficou subitamente cheio de pó.

Passou os trinta minutos seguintes a examinar meticulosamente o conteúdo do guarda-fato, da cómoda, e da mesinha de cabeceira. Fez notas copiosas no bloco forrado a cabedal, para o caso do detective Weiss querer dar uma olhadela ao seu inventário. Na verdade, não viu nada de invulgar.

Entrou no segundo quarto. As paredes estavam cobertas por estantes e arquivos. Era óbvio que Benjamin o transformara num quarto de arrumações. Parecia que uma bomba explodira ali perto. O chão estava coberto de livros, e as gavetas dos arquivos estavam totalmente abertas. Gabriel perguntou-se quem seria o responsável, a Polícia de Munique ou o assassino de Benjamin.

A sua busca durou quase uma hora. Folheou o conteúdo de cada um dos ficheiros e as páginas de cada livro. Weiss apareceu uma vez à entrada da porta para ver o seu progresso, depois bocejou e regressou à sala de estar. De novo, Gabriel tirou notas abundantes em proveito do detective, mas não encontrou nada que ligasse Benjamin ao Gabinete - e nada que pudesse explicar porque motivo fora assassinado.

Voltou à sala de estar. Weiss estava a ver o noticiário nocturno na televisão de Benjamin. Desligou-o assim que Gabriel entrou.

- Terminou?

- Benjamin tinha uma arrecadação no edifício? O detective anuiu.

- A lei alemã requer que os senhorios forneçam uma aos inquilinos.

Gabriel estendeu a mão.

- Pode dar-me a chave?

Foi Frau Ratzinger que levou Gabriel até à cave e que o conduziu ao longo de um corredor ladeado por portas estreitas. Deteve-se em frente de uma marcada com o número 2B, que correspondia ao apartamento de Benjamin. A velha abriu a porta com um resmungo e puxou um fio que estava ligado à luz do tecto. Uma traça voou, roçando a face de Gabriel. A mulher fez um aceno com a cabeça e recuou silenciosamente para o corredor.

Gabriel espreitou para o interior da arrecadação. Pouco mais era do que um armário, com cerca de um metro e vinte de largura e um metro e oitenta de profundidade, e fedia a óleo de linhaça e a humidade. A armação duma bicicleta enferrujada com uma roda, um par de esquis antigos, caixas de cartão sem etiquetas empilhadas até um tecto manchado pela água.

Retirou a bicicleta partida e os esquis, e começou a procurar através das caixas dos pertences de Benjamin. Em diversas caixas, encontrou montes de papéis amarelos atados e velhos cadernos de argolas, os detritos de uma vida passada em salas de aula e bibliotecas da academia. Havia caixas de livros velhos e empoeirados - aqueles que, supôs Gabriel, ele considerara de pouca importância para colocar nas estantes do apartamento. Diversas outras tinham exemplares de Conspiração em Wannsee: Uma Reavaliação, o último livro de Benjamin.

A última caixa continha artigos puramente pessoais. Gabriel sentiu-se um transgressor. Perguntou-se como se sentiria se os papéis se tivessem invertido, se Shamron tivesse enviado alguém do Gabinete para vasculhar as suas coisas. E o que é que eles encontrariam? Apenas o que Gabriel quereria que eles vissem. Dissolventes e pigmentos, os seus pincéis e a sua palete, a boa colecção de monografias. Uma Beretta na mesa de cabeceira.

Respirou fundo e prosseguiu. Dentro de uma caixa de charutos encontrou uma pilha de medalhas baças e laços rasgados, e lembrou-se que Benjamin fora uma espécie de atleta prodígio na escola. Num envelope, encontravam-se fotografias de família. Benjamin, tal como Gabriel, era filho único. Os pais tinham sobrevivido aos horrores de Riga, apenas para morrerem num acidente de viação na estrada para Haifa. A seguir, encontrou um monte de cartas. O papel de carta tinha a cor do mel e ainda cheirava a lilás. Gabriel leu algumas linhas e colocou rapidamente as cartas de lado. Vera... O único amor de Benjamin. Quantas noites passara ele acordado nalgum miserável apartamento de segurança, ouvindo Benjamin queixar-se de como a sedutora Vera o arruinara para todas as outras mulheres? Gabriel tinha quase a certeza que a odiara ainda mais que Benjamin.

O último artigo era um ficheiro de papel pardo. Gabriel abriu-o e no interior, encontrou um molho de recortes de jornal. Os seus olhos passaram sobre os cabeçalhos, onze atletas e treinadores israelitas FEITOS REFÉNS EM ALDEIA OLÍMPICA... TERRORISTAS EXIGEM LIBERTAÇÃO DE PRISIONEIROS PALESTINIANOS E ALEMÃES... SETEMBRO NEGRO...

Gabriel fechou o ficheiro.

Uma fotografia a preto e branco escorregou do interior deste. Gabriel baixou-se para a apanhar. Dois rapazes, de calças de ganga azul e mochilas. Um par de jovens alemães passando um Verão a deambular através da Europa, ou assim parecia. Fora tirada em Antuérpia, perto do rio. O que se encontrava à esquerda era Benjamin, um caracol de cabelo ondulado caído sobre os olhos, sorriso malicioso no rosto, o braço colocado à volta do jovem de pé a seu lado.

O companheiro de Benjamin era sério, taciturno, como se não pudesse ser incomodado por algo tão trivial como uma fotografia. Usava óculos de sol, o cabelo era curto, e embora não tivesse mais de vinte anos, as têmporas estavam raiadas de cinzento. «A marca de um rapaz que fez o trabalho de um homem», dissera Shamron. «Nódoas de cinza no príncipe do fogo».

Gabriel não gostou do ficheiro que continha os recortes de jornal do massacre de Munique, mas não havia maneira de poder ocultar um artigo tão grande do detective Weiss. A fotografia era diferente. Enfiou-a na dispendiosa carteira de Herr Landau e enfiou-a no bolso do casaco. Depois saiu de lado da arrecadação e fechou a porta.

Frau Ratzinger estava à espera no corredor. Gabriel perguntou-se há quanto tempo ela ali estava, mas não se atreveu a perguntar-lho. Na sua mão, encontrava-se um pequeno envelope almofadado. Conseguiu ver que estava endereçado a Benjamin e que fora aberto.

A velha estendeu-lho.

- Pensei que quisesse isto - disse ela em alemão.

- O que é?

- São os óculos de Benjamin. Ele deixou-os num hotel em Itália. O concierge foi suficientemente simpático para os devolver. Infelizmente, chegaram depois da sua morte.

Gabriel pegou no envelope, ergueu a aba, e retirou do interior os óculos. Eram os óculos de um académico: plástico e massa, roídos e arranhados. Voltou a olhar para o envelope e viu que continha um postal. Virou o envelope para o lado, e o postal caiu-lhe na palma da mão. A imagem mostrava um hotel de tonalidade ocre junto a um lago cor de safira, no norte de Itália. Gabriel virou-o e leu a nota escrita no verso:

Boa sorte com o seu livro, professor Stern. Giancomo.

O detective Weiss insistiu em conduzir Gabriel até ao hotel. Como Herr Landau nunca estivera anteriormente em Munique, Gabriel viu-se forçado a fingir um espanto respeitoso em relação à glória neoclássica, inundada de luz, do centro da cidade. Também reparou que, habilidosamente, Weiss fizera com que a viagem demorasse mais cinco minutos do que o necessário ao evitar diversos desvios óbvios.

Por fim, chegaram a uma pequena rua empedrada chamada Annastrasse no bairro Lehel da cidade. Weiss parou no exterior do Hotel Opera, entregou a Gabriel o seu cartão, e voltou a expressar as suas condolências quanto à perda de Herr Landau.

- Se houver mais alguma coisa que possa fazer por si, por favor não hesite em o pedir.

- Há uma coisa - disse Gabriel. - Gostaria de falar com o presidente do departamento de Benjamin na universidade. Tem os seus números de telefone?

- Ah, o doutor Berger. Claro.

O polícia retirou uma agenda electrónica do bolso, encontrou os números, e leu-lhos. Gabriel fez questão de os apontar nas costas do cartão do detective, embora ao ouvi-los uma vez, eles ficassem indelevelmente gravados na sua memória.

Gabriel agradeceu ao detective e subiu para se deitar. Pediu serviço de quartos e jantou apenas uma omeleta e uma sopa de legumes. Depois tomou um duche e deitou-se com o ficheiro que o funcionário consular lhe dera nessa tarde. Leu-o atentamente, depois fechou o ficheiro e olhou para o tecto, ouvindo a chuva nocturna a bater contra a janela.

Quem te matou, Beni? Um neonazi?Não, Gabriel duvidava disso. Ele suspeitava que a Runa de Odin e os Três Setes pintados na parede eram o equivalente a uma pista falsa, para a atribuição de responsabilidades. Mas porque é que ele fora morto? Gabriel tinha uma teoria. Benjamin estava de licença sabática da universidade para escrever outro livro mas, no entanto, no interior do apartamento Gabriel não conseguiu encontrar qualquer prova de que ele estava sequer a trabalhar nalguma coisa. Nenhumas notas. Nenhuns ficheiros. Nenhum manuscrito. Apenas uma nota escrita no reverso dum postal de um hotel em Itália. Boa sorte com o seu livro, professor Stern. Giancomo.

Abriu a carteira e retirou a fotografia que tirara da arrecadação. Gabriel fora amaldiçoado com uma memória que não lhe permitia esquecer nada. Conseguia ver Benjamin a estender a sua máquina fotográfica a uma bonita rapariga belga, sentir Benjamin a arrastá-lo até ao varandim sobranceiro ao rio. Até se lembrava da última coisa que Benjamin lhe dissera antes de colocar o braço à volta do seu pescoço.

- Sorri, idiota.

- Isto não tem graça, Beni.

- Consegues imaginar a cara do velho se nos visse a posar para uma fotografia?

- Ele vai dar cabo de ti por causa disto.

- Não te preocupes. Vou queimá-la.

Cinco minutos depois, na bacia da casa de banho, Gabriel fez exactamente isso.

O detective Axel Weiss vivia em Bogenhausen, um bairro residencial de Munique, na margem oposta do Isar. Não se dirigiu para casa. Em vez disso, depois de deixar o israelita no hotel, estacionou nas sombras de uma rua adjacente e observou a entrada do Hotel Opera. Trinta minutos mais tarde, marcou no seu telemóvel um número de Roma.

- Fala o chefe. - As palavras foram ditas num inglês com um pronunciado sotaque italiano. Era sempre o mesmo.

- Acho que somos capazes de ter um problema.

- Conte-me tudo.

O detective fez uma cuidadosa discrição dos acontecimentos daquela tarde e noite. Tinha experiência de falar em linhas telefónicas abertas e foi cuidadoso, não fazendo quaisquer referências específicas. Além disso, o interlocutor conhecia os pormenores.

- Tem meios para seguir o sujeito?

- Sim, mas se ele for um profissional...

- Faça-o - interrompeu-o o homem de Roma. - E tire uma fotografia.

De seguida, a ligação desligou-se.

 

- Cardeal Brindisi. Que prazer vê-lo.

- Sua Santidade.

O cardeal secretário de Estado, Marco Brindisi, inclinou-se sobre o anel do pescador. Os seus lábios não se demoraram muito. Endireitou-se e olhou directamente para os olhos do papa com uma ousadia que tocava a insolência. Magro, com um rosto chupado e pele como pergaminho, Brindisi parecia suspenso sobre o chão dos aposentos papais. A sua sotaina era feita à mão pelo mesmo alfaiate da Piazza della Minerva que fazia o vestuário dos papas. A cruz peitoral de ouro maciço demonstrava a riqueza e influência da sua família e benfeitores. O reflexo de luz branca nos óculos pequenos e circulares escondiam um par de olhos de um azul pálido e sem humor.

Como secretário de Estado, Brindisi controlava as funções internas da cidade-Estado do Vaticano bem como as relações entre governos com o resto do mundo. Era na verdade o primeiro-ministro do Vaticano e o segundo homem mais poderoso da Igreja Católica Romana. Apesar da sua exibição decepcionante no conclave, o cardeal doutrinário mantinha um núcleo de apoio na Cúria cuidadosamente cultivado, que lhe fornecia uma base de poder que rivalizava com a do próprio papa. Na verdade, o papa não tinha a certeza absoluta de quem prevaleceria num frente a frente, se ele se o taciturno cardeal.

Os dois homens tinham um almoço regular marcado para as sextas-feiras. Era a altura da semana que o papa mais receava. Alguns dos seus antecessores tinham apreciado as minundências dos assuntos da Cúria e tinham passado horas em cada dia a escravizarem-se sobre montanhas de papelada. Durante os papados de Pio XII e Paulo VI, as luzes do estúdio papal tinham-se mantido acesas até muito depois da meia-noite. Lucchesi acreditava que o seu tempo era melhor passado em assuntos espirituais, e detestava ter de lidar com os assuntos diários da Cúria. Infelizmente, ainda não tinha um secretário de Estado em quem confiar, motivo esse porque nunca perdia um almoço com o cardeal Brindisi.

Sentaram-se um frente ao outro na simples sala de jantar dos aposentos papais, o papa vestido com uma sotaina branca e um zucchetto branco, o cardeal com uma sotaina negra com uma fascia e zuechetto escarlates. Como sempre, Brindisi parecia desiludido com o jantar. Isso agradava a Sua Santidade. O papa sabia que Brindisi era um gastrónomo que gostava de passar as suas noites a participar nas delícias gastronómicas de L'Eau Vive. Como resultado, pedia sempre às freiras para lhe prepararem algo de particularmente ofensivo ao paladar. Nessa noite, o menu consistia de um consommé de origem indeterminada, seguido por veado demasiado cozinhado e batatas cozidas. Brindisi afirmou que a refeição era «inspiradora» e demonstrou-o corajosamente.

Durante quarenta e cinco minutos, Brindisi falou de vários assuntos da Cúria, cada um mais entediante do que o anterior. Uma crise de pessoal na Congregação da Divina Adoração e a Disciplina dos Sacramentos. Uma varridela no Concelho Pontifical para o Cuidado Pastoral dos Migrantes e dos Povos Itinerantes. Um relatório do encontro mensal dos funcionários do Banco do Vaticano. Alegações de que um certo monsenhor da Congregação do Clero estava a utilizar de má forma os seus privilégios relativos à frota automóvel. De cada vez que Brindisi parava para respirar, o papa murmurava, «Ah, que interessante, Eminência», perguntando-se porque estava a ser informado de um problema com a frota automóvel.

- Receio que precise de discutir um assunto ... - o meticuloso cardeal pigarreou e limpou os lábios com o guardanapo - ... digamos, desagradável, Santidade. Talvez agora seja uma altura tão boa quanto qualquer outra.

 

NT Solidéu eclesiástico da Igreja Católica Romana, preto para um padre, púrpura para um bispo, escarlate para um cardeal, e branco para um papa.

 

- Por favor, Eminência - disse rapidamente o papa, ansioso por qualquer mudança que pudesse suavizar o ritmo da monotonia da Cúria -, esteja à vontade.

Brindisi pousou o garfo como um homem rendendo-se após um longo cerco, e apertou as mãos debaixo do queixo.

- Parece que o nosso amigo do La Repubblica está de novo a causar sarilhos. No decurso da preparação de um perfil acerca de Sua Santidade para a edição de Páscoa do jornal, ele descobriu algumas... - uma pausa de reflexão, um olhar lançado ao céu em busca de inspiração - ... algumas inconsistências a respeito da sua infância.

- Que tipo de inconsistências?

- Inconsistências acerca da data da morte da sua mãe. Que idade tinha quando ficou órfão. Onde ficou. Quem tratou de si. Ele é um jornalista empreendedor, um espinho constante no flanco do secretariado. Consegue descobrir coisas que fizemos o nosso melhor para enterrar. Reiterei ao meu pessoal que ninguém deve comunicar com ele sem a aprovação do Gabinete de Imprensa, mas de algum modo...

- As pessoas estão a falar com ele.

- Parece que é esse o caso, Santidade.

O papa afastou o prato vazio e exalou pesadamente. Fora sua intenção descrever todos os pormenores da sua infância nos dias que se seguiram ao conclave, mas havia aqueles na Cúria e no Gabinete de Imprensa que pensavam que o mundo não estava preparado para um papa criado na rua, um rapaz que vivera segundo o seu próprio engenho e os seus punhos, até ter sido atraído para o seio da Igreja. Era um exemplo da própria cultura de secretismo e engano que Lucchesi tanto desprezava no que se referia ao Vaticano, mas nos dias iniciais do seu papado não estivera disposto a desperdiçar capital político valioso, por isso concordara relutantemente em omitir alguns dos pormenores menos virtuosos do seu crescimento.

- Foi um erro contar ao mundo que cresci em Pádua, num lar cheio de amor e muita devoção a Cristo e à Virgem, antes de entrar no seminário aos quinze. O seu amigo do La Republica vai descobrir a verdade.

- Deixe-me lidar com o La Repubblica. Temos formas de meter jornalistas desobedientes na linha.

- Como por exemplo?

- Banindo-os de acompanharem Sua Santidade em viagens ao estrangeiro. Revogando os seus privilégios no Gabinete de Imprensa.

- Isso parece terrivelmente duro.

- Duvido que chegue a esse ponto. Estou certo que o podemos convencer da verdade.

- Que verdade é essa?

- Que foi criado em Pádua, num lar cheio de amor e de muita devoção a Cristo e à Virgem. - Brindisi sorriu e sacudiu uma migalha invisível da sotaina. - Mas quando alguém está a batalhar este tipo de coisa, pode ser útil termos uma imagem completa do que se passa de modo a sabermos com quem nos defrontamos.

- Que sugere?

- Um pequeno memorando. Para além de mim, não será visto por mais ninguém na Cúria, e utilizá-lo-ei apenas na preparação de uma defesa... se for necessária alguma.

- Aprendeu essas tácticas estudando Direito Canónico, Marco? Brindisi sorriu.

- Algumas coisas são universais, Santidade.

- Então, será publicado o memorando.

O papa e o cardeal pararam de falar quando duas freiras levantaram a mesa e serviram o café. O papa mexeu lentamente o açúcar na chávena, e de seguida ergueu o olhar para Brindisi.

- Também tenho algo que desejo discutir. Diz respeito ao assunto de que falámos há alguns meses... a minha iniciativa de continuar o processo de colmatar a brecha entre a Igreja e os judeus.

- Que interessante, Santidade. - Um homem que passara a sua carreira subindo a escada burocrática da Cúria, o tom de Brindisi era habilidosamente reservado.

- Como parte dessa iniciativa, tenciono comissionar um estudo quanto à resposta da Igreja em relação ao Holocausto. Todos os documentos relevantes dos Arquivos Secretos do Vaticano serão disponibilizados para estudo, e desta vez não ataremos as mãos dos historiadores e dos especialistas que seleccionarmos para este projecto.

O rosto já pálido do cardeal Brindisi perdeu qualquer resquício de cor. Formou um campanário com os dedos indicadores e premiu-o contra os lábios, tentando recompor-se antes de lançar o seu repto.

- Tal como se recordará, Santidade, o seu antecessor comissionou um estudo e apresentou-o ao mundo em 1998. Não vejo qualquer necessidade de repetir o trabalho do polaco quando existem tantos outros, e ouso dizer mais importantes, assuntos com os quais a Igreja se confronta nesta altura.

- Nós Lembramo-nos? Devia ter sido chamado Nós Pedimos Desculpa... ou Nós Imploramos o Perdão. Não foi demasiado longe, nem na sua busca de almas nem na sua busca pela verdade. Foi ainda outro insulto às mesmas pessoas cujas feridas desejávamos sarar. O que dissemos? A Igreja não fez nada de mal. Nós tentámos ajudar. Alguns de nós ajudaram mais que outros. Os alemães fizeram na verdade as matanças, mas nós pedimos desculpa apesar de tudo. É um documento vergonhoso.

- Alguns podem considerar vergonhoso o facto de estar a falar desse modo a respeito do trabalho de um antecessor.

- Não tenho quaisquer intenções de condenar os esforços do polaco. O seu coração estava no sítio certo, mas suspeito que ele não tinha todo o apoio da Cúria - «De homens como você», pensou Lucchesi -, que é o motivo porque o documento acabou por dizer muito pouco, se é que dizia alguma coisa. Sem faltar ao respeito ao polaco, apresentarei o novo estudo como uma continuação do seu bom trabalho.

- Outro estudo será visto como uma crítica implícita, não interessando o modo como o tente apresentar.

- Você encontrava-se no painel que delineou o Nós Lembramo-nos, não encontrava?

- Sim, encontrava, Santidade.

- Dez anos para escrever catorze páginas.

- A delicadeza do assunto e a exactidão demoram tempo.

- Bem como o encobrimento.

- Oponho-me a...

O papa interrompeu-o.

- Opõe-se a rever o assunto porque receia que esse irá lançar a vergonha sobre a Igreja, ou porque calcula que prejudicará as suas hipóteses de tomar o meu lugar quando eu partir?

Brindisi baixou as mãos e ergueu os olhos para o tecto durante um momento, como se se preparasse para uma leitura do Evangelho.

- Oponho-me à revisão do assunto porque não fará nada para além de fornecer mais munições àqueles que nos desejam destruir.

- Os nossos contínuos subterfúgios e falsidades são mais arriscados. Se não falarmos enérgica e honestamente, o trabalho dos nossos inimigos será consumado pela nossa própria mão. Destruir-nos-emos a nós próprios.

- Se eu posso falar enérgica e honestamente, Santidade, a sua ingenuidade no que se refere a este assunto é chocante. Nada que a Igreja possa dizer satisfará alguma vez aqueles que nos condenam. De facto, apenas deitará achas para a fogueira. Não posso permitir que você pise a reputação dos papas e da Igreja com esta loucura. Pio XII merece a santidade, não outra crucificação.

Pietro Lucchesi ainda tinha de ser seduzido pelas armadilhas do poder papal, mas a insubordinação óbvia do comentário de Brindisi atiçou-lhe a ira. Forçou-se a falar com calma. Apesar disso, havia um ligeiro indício de raiva e condescendência na sua voz que era óbvio ao homem sentado do outro lado da mesa.

- Posso assegurar-lhe, Marco, que aqueles que desejam que Pio seja canonizado terão de depositar as suas esperanças no resultado do próximo conclave.

O cardeal fez correr um dedo longo e fino à volta da borda da chávena de café, preparando-se para mais um assalto. Por fim, pigarreou e disse:

- O polaco desculpou-se em inúmeras ocasiões pelos pecados cometidos por alguns dos filhos e filhas da Igreja. Outros prelados também se desculparam. Alguns, tal como os nossos irmãos em França, foram muito mais longe do que aquilo de que eu teria gostado. Mas os judeus e os seus amigos da imprensa não ficarão satisfeitos até admitirmos que estávamos errados... que Sua Santidade, o papa Pio XII, um grande e santo homem, estava errado. Aquilo que eles não compreendem, e aquilo que parece estar a esquecer, Santidade, é que a Igreja enquanto personificação de Cristo na Terra, não pode estar errada. A Igreja é a própria verdade. Se admitirmos que a Igreja, ou um papa, estava errado... - deixou a frase por concluir. De seguida, acrescentou -, seria um erro ir avante com esta sua iniciativa, Santidade. Um erro grave.

- Atrás destas paredes, Marco, erro é uma palavra armadilhada. Certamente que não é sua intenção lançar uma tal acusação sobre mim.

- Não tenho qualquer intenção de analisar as minhas palavras, Santidade.

- E se os documentos contidos nos Arquivos Secretos contarem uma história diferente?

- Esses documentos nunca poderão ser divulgados.

- Eu sou o único com poder para divulgar esses documentos dos Arquivos Secretos, e decidi que isso será feito.

O cardeal acariciou a sua cruz peitoral.

- Quando é que tenciona anunciar esta... iniciativa?

- Na próxima semana.

- Onde?

- Do outro lado do rio - respondeu o papa. - Na Grande Sinagoga.

- Está fora de questão! A Cúria não teve tempo para considerar o assunto e a preparação que este merece.

- Tenho setenta e dois anos. Não tenho tempo para esperar que os mandarins da Cúria considerem ou preparem o assunto. Receio que seja desse modo que as coisas são enterradas e esquecidas. Eu e o rabino já falámos. Vou a.o ghetto na próxima semana, com ou sem o apoio da Cúria... ou até do meu secretário de Estado. A verdade, Eminência, libertar-nos-á.

- E você, o papa de rua do Veneto, pretende conhecer a verdade.

- Só Deus conhece a verdade, Marco, mas Tomás de Aquino escreveu a respeito de uma ignorância cultivada, uma ignoratia affectata. Uma falta de conhecimento voluntária designada para nos proteger do mal. E tempo de nos livrarmos da nossa ignoratia affectata. O Nosso Salvador disse que era a luz do mundo, mas aqui no Vaticano, vivemos na escuridão. Tenciono acender as luzes.

- A minha memória pode estar a pregar-me uma partida, Santidade, mas recordo-me que no conclave elegemos um papa católico.

- E elegeram, Eminência, mas também elegeram um papa humano.

- Se não fosse por mim, ainda estaria a usar vermelho.

- É o Espírito Santo que escolhe os papas. Nós limitamo-nos a votar.

- Outro exemplo da sua surpreendente ingenuidade.

- Estará a meu lado na próxima semana em Trastevere?

- Creio que na próxima semana vou estar constipado. - O cardeal levantou-se repentinamente. - Obrigado, Santidade. Outra refeição agradável.

- Até à próxima sexta-feira?

- Isso terá de ser visto.

O papa estendeu a mão. O cardeal Brindisi baixou o olhar para o anel do pescador brilhando à luz do candeeiro, e de seguida virou-se e saiu da sala sem o beijar.

Na sala vizinha, o padre Donati ouvira a altercação entre o Santo Padre e o cardeal. Quando Brindisi saiu, entrou na sala de jantar e encontrou o papa parecendo cansado e abatido, de olhos fechados, o polegar e o indicador apertando a cana do nariz. O padre Donati sentou-se na cadeira do cardeal e afastou a meio ingerida chávena de café.

- Sei que deve ter sido muito desagradável, Santidade, mas foi necessário.

Por fim, o papa ergueu o olhar.

- Acabámos de acordar uma cobra adormecida, Luigi.

- Sim, Santidade. - Donati inclinou-se para a frente e baixou a voz. - Agora rezemos para que na sua fúria, a cobra cometa um erro e se morda a si mesma.

 

Gabriel passou grande parte da manhã seguinte a tentar encontrar o Dr. Helmut Berger, presidente do departamento de História Moderna da Universidade Ludwig-Maximiliam. Deixou duas mensagens no atendedor de chamadas da casa do professor, uma terceira no seu telemóvel, e uma quarta com uma secretária carrancuda do departamento. Durante o almoço, no sombrio pátio do hotel, considerou esperar emboscado no exterior do gabinete do professor. Depois o concierge apareceu com uma mensagem na mão. O bom professor concordara em encontrar-se com Herr Landau às seis e meia num restaurante chamado Gastátte Atzinger no Amalienstrasse.

Isso deixava-lhe cinco horas livres. A tarde estava límpida e ventosa, por isso Gabriel decidiu dar um passeio. Deixando o hotel, vagueou por uma rua empedrada e estreita que conduzia à extremidade sul dos Jardins Ingleses. Avançou lentamente ao longo do carreiro, ao lado de riachos com sombras, através de amplos relvados iluminados pelo Sol. A distância, a espiral de trinta metros da Torre Olímpia brilhava contra um céu azul cristalino. Gabriel baixou o olhar e continuou a andar.

Deixando o parque, deambulou através de Schwabing. Na Adalbertstrasse, viu Frau Ratzinger a varrer os degraus do nº 68. Não sentia qualquer vontade de voltar a falar com a velha mulher, por isso contornou a esquina e dirigiu-se na direcção oposta. De poucos em poucos minutos, olhava para cima e via a torre, elevando-se perante ele, e tor-nando-se gradualmente maior.

Dez minutos depois, encontrava-se na extremidade sul da aldeia. De muitas maneiras, o parque Olímpia era mesmo isso: uma aldeia, uma vasta área residencial, com a sua própria estação ferroviária, a sua própria estação de correios, até mesmo o seu próprio presidente. Os bungalom pré-fabricados e os edifícios de apartamentos não tinham envelhecido graciosamente. Numa tentativa de abrilhantar o lugar, em alguns tinham sido pintados motivos brilhantes.

Chegou à Connollystrasse. Esta não era na verdade uma rua, mas um caminho pedestre ladeado por pequenos edifícios de apartamentos de três andares. Deteve-se junto ao nº 31. No segundo piso, um adolescente de tronco nu saiu para a varanda para sacudir um tapete. A memória de Gabriel relampejou. Em vez do jovem alemão, viu um palestiniano usando uma balaclava NT. Depois uma mulher emergiu de um apartamento no piso térreo, empurrando um carrinho de bebé e apertando uma criança contra o peito. Por um instante, Gabriel viu Issa, líder do grupo do Setembro Negro, o rosto coberto de graxa, arrogante no seu fato de safari e chapéu de golfe.

A mulher olhou para Gabriel como se estivesse habituada a que estrangeiros parassem no exterior da sua casa com expressões descrentes no rosto. Sim, parecia ela dizer. Sim, este éo lugar onde aconteceu. Mas agora éa minha casa, por isso por favor, vá-se embora. Ela parecia sentir algo mais no seu olhar - algo que a enervava -, e colocando rapidamente a criança no carrinho, dirigiu-se para o parque infantil.

Gabriel subiu um outeiro relvado e sentou-se na relva fresca. Por norma, quando as memórias regressavam, tentava desesperadamente afastá-las, mas desta vez destrancou a porta e deixou-as entrar. Romano... Springer... Spitzer... Slavin... os rostos dos mortos dardejaram na sua mente. Onze no total. Dois mortos durante o assalto. Mais nove durante a confusa tentativa alemã de salvamento em Fürstenfeldbruck. Golda Meir queria uma vingança de proporções bíblicas - olho por olho -, e mandara o Gabinete «enviar os rapazes» para caçarem os membros do Setembro Negro que tinham arquitectado o ataque. Um desabrido oficial de operações chamado Ari Shamron ficou encarregado da missão, e um dos rapazes que surgiu foi um promissor jovem estudante da Escola de Arte Betsal'el em Jerusalém chamado Gabriel Allon.

 

1 Barrete apertado de lã que cobre toda a cabeça e pescoço, com excepção de partes do rosto.

 

De algum modo, Shamron deparara com o registo do infeliz serviço obrigatório de Gabriel no Exército. Filho de sobreviventes de Auschwitz, Gabriel era considerado arrogante e egoísta pelos seus superiores; com tendência para períodos de melancolia, mas também altamente inteligente e capaz de seguir acções independentes sem aguardar directrizes dos oficiais no comando. Falava também diversas línguas, um atributo de pouco valor numa unidade de infantaria de fronteira, mas muito procurado por Ari Shamron. A sua guerra não era travada nos montes Golã ou no Sinai. Era uma guerra secreta, travada nas sombras da Europa. Gabriel tentara resistir-lhe. Shamron não lhe deixara qualquer opção.

- Judeus estão de novo a morrer em território alemão com as mãos atadas atrás das costas - dissera-lhe Shamron. - Os teus pais sobreviveram, mas quantos não conseguiram? Os seus irmãos e irmãs? Os seus tios e tias? Avós? Desapareceram todos, não desapareceram? Vais mesmo ficar aqui sentado em Telavive com os teus pincéis e tinta, sem fazeres nada? Tens dons. Deixa-me pedir-tos emprestados durante alguns meses. Depois podes fazer o que quiseres com a tua vida.

A missão tivera o nome de código de Operação Ira de Deus. No léxico da unidade, Gabriel era aleph, um assassino. Os agentes que seguiam os membros do Setembro Negro e conheciam os seus hábitos tinham o nome de código de ayin. Um qoph era um oficial de comunicações. Benjamin Stern fora um heth, um logístico. O seu trabalho era procurar transporte e alojamento, de maneira a que nunca pudessem ser seguidos até ao Gabinete. Por vezes, fazia o papel de condutor em fugas. Na verdade, Benjamin estivera atrás do volante do Fiat verde que transportara Gabriel da Piazza Annibaliano na noite em que este assassinara o chefe do Setembro Negro, em Itália. A caminho do aeroporto, Gabriel forçara Benjamin a encostar-se à berma da estrada para poder vomitar. Mesmo agora, ainda conseguia ouvir Benjamin a gritar-lhe para voltar a entrar no carro.

- Dá-me um minuto.

- Vais perder o teu voo.

- Eu disse, dá-me um minuto!

- Que se passa contigo? Aquele filho da mãe merecia morrer!

- Não viste o rosto dele, Beni. Não viste o maldito rosto dele. Durante os dezoito meses que se seguiram, a equipa de Shamron

assassinou uma dúzia de membros do Setembro Negro. Pessoalmente, Gabriel matou seis destes. Quando tudo terminou, Benjamin regressou à sua carreira académica. Gabriel tentou voltar para Betsal'el e fazer o mesmo, mas a sua capacidade para pintar fora escorraçada pelos fantasmas dos homens que ele matara, e assim ele deixara Leah em Israel e mudara-se para Veneza para estudar restauração com Umberto Conti. Com os restauros, encontrara a cura. Conti, que nada sabia do passado de Gabriel, parecia compreender isso. A altas horas da noite, ia ao quarto de Gabriel numa pensão decrépita e arrastava-o para as ruas de Veneza para verem arte. Uma noite, perante o enorme altar-mor de Ticiano na igreja dos Frari, Umberto agarrou Gabriel pelo braço.

- Um homem satisfeito consigo mesmo pode ser um restaurador mediano, mas não pode ser um grande restaurador. Só um homem com uma tela danificada que seja sua é, de facto, um grande restaurador. É um tema sobre o qual podes meditar. Um ritual. Um dia serás um grande restaurador. Melhor que eu. Tenho a certeza.

E, embora Conti não o soubesse, Shamron dissera a Gabriel aquelas mesmas palavras, durante a noite antes de ele ter sido enviado a Roma para matar o seu primeiro palestiniano.

Às seis e meia em ponto, Gabriel estava no exterior do Gastátte Atzinger. A primeira coisa que viu do professor Helmut Berger foi o farol da bicicleta a flutuar acima da Amalienstrasse. Depois apareceu a silhueta, com as pernas pedalando ritmadamente, o cabelo cinzento ralo a flutuar acima das grandes orelhas como asas. Uma sacola de cabedal castanho a pender, atravessada nas costas.

O lado agradável da chegada do professor desapareceu imediatamente. Como muitos intelectuais alemães, Helmut Berger tinha o ar arrogante de um homem que passara o dia a debater-se com seres de inteligência inferior. Afirmou que apenas tinha tempo para uma pequena caneca de cerveja, mas convidou Gabriel a escolher algo da ementa. Gabriel pediu apenas água mineral, o que o alemão pareceu considerar profundamente escandaloso.

- Lamento muito o que aconteceu ao seu irmão. Desculpe, ao seu meio irmão. Era uma figura importante da faculdade. A sua morte foi um choque para todos nós. - Disse isto sem uma emoção genuína, como se um finalista lhe tivesse escrito um pequeno discurso. - Como o posso ajudar, Herr Landau?

- É verdade que Benjamin estava de licença sabática na altura do homicídio?

- Sim, é verdade. Estava a trabalhar noutro livro.

- Sabe de que tratava o livro?

- Na verdade, não.

- A sério? - Gabriel estava genuinamente surpreendido. - É vulgar alguém deixar o seu departamento para trabalhar num livro sem lhe dizer qual o assunto?

- Não, mas desde o início que Benjamin era muito reservado a respeito deste projecto.

Gabriel decidiu que não podia continuar a pressionar o assunto.

- Sabia alguma coisa do tipo de ameaças que Benjamin recebia?

- Havia tantas que era difícil pensar em todas. As teorias de Benjamin a respeito de uma culpa alemã colectiva do tempo da guerra tornavam-no, digamos, altamente impopular em muitos quadrantes.

- Parece-me que não partilhava o ponto de vista de Benjamin. O professor encolheu os ombros.

- Há alguns anos, escrevi um livro acerca do papel da Igreja Católica alemã durante a guerra. Benjamin discordou das minhas conclusões e disse-o de uma forma assaz pública. Não foi uma época agradável para nenhum de nós.

O professor olhou para o relógio.

- Receio ter outro compromisso. Há mais alguma coisa que lhe possa contar? Talvez algo mais relevante para a sua investigação?

- No mês passado, Benjamin fez uma viagem a Itália. Por acaso sabe o que é que ele foi lá fazer? Estava de alguma forma relacionado com o livro?

- Não faço a mínima ideia. Sabe, o Dr. Stern não tinha o hábito de me informar sobre os seus planos de viagem. - O professor terminou a cerveja e levantou-se. Aula terminada. - De novo, as minhas condolências, Herr Landau. Desejo-lhe sorte com a sua investigação.

«O raio é que desejas», pensou Gabriel, ao ver o professor, já na rua, a afastar-se pedalando.

De regresso ao hotel, Gabriel entrou numa grande livraria para estudantes na extremidade sul do bairro universitário. Olhou para a directoria da loja durante um momento, depois subiu as escadas até à secção de literatura de viagem, onde procurou num expositor cheio de mapas até encontrar um do norte da Itália.

Abriu-o numa mesa próxima, depois enfiou a mão no bolso e retirou o postal. O hotel onde Benjamin ficara era numa cidade chamada Brenzone. A julgar pela fotografia, a cidade situava-se na costa de um dos lagos setentrionais de Itália. Começou pelo lado oeste e percorreu cuidadosamente um caminho para este, lendo os nomes de cidades e vilas que rodeavam cada um dos grandes lagos setentrionais - primeiro Maggiore, depois Cosmo, de seguida Iseo, e por fim Garda. Brenzone. Ali estava, na costa oriental do lago di Garda, a meio caminho entre a protuberância da extremidade meridional e a ponta semelhante a uma adaga da extremidade setentrional.

Gabriel voltou a dobrar o mapa e levou-o consigo até ao piso térreo, onde se dirigiu à caixa. Um momento mais tarde, voltou a sair pelas portas giratórias, o mapa e o postal descansando no bolso do casaco. Instintivamente, os seus olhos varreram o pavimento, os carros estacionados, as janelas dos edifícios circundantes.

Virou à esquerda e começou a encaminhar-se de regresso ao hotel, perguntando-se porque motivo teria o detective Axel Weiss estado sentado no café do outro lado da rua durante todo o tempo em que Gabriel estivera na livraria - e porque motivo o estava agora a seguir através do centro de Munique.

Gabriel estava confiante que poderia escapar com facilidade ou expor o detective alemão, mas esse não era o momento para mostrar que era um profissional treinado. Tanto quanto Axel Weiss sabia, Gabriel era Ehud Landau, irmão de Benjamin Stern, o historiador assassinado, e mais nada - o que transformava o facto de ele o estar a seguir em algo ainda mais curioso.

Entrou num hotel na Maximilianstrasse. Fez uma chamada telefónica rápida de um telefone público no átrio, depois voltou a sair e continuou a andar. O polícia ainda ali estava, cinquenta metros atrás de si, do lado oposto da rua.

Gabriel dirigiu-se directamente para o seu hotel. Pediu a chave ao recepcionista no balcão central e subiu no elevador até ao quarto. Enfiou a roupa num porta-fatos de cabedal negro, depois destrancou o cofre do quarto, e retirou deste o ficheiro que lhe fora entregue no consulado de Israel bem como o envelope contendo os óculos de Benjamin. Colocou os artigos dentro da mala e fechou a tampa. De seguida, apagou as luzes do quarto, dirigiu-se à janela, e afastou as cortinas. Um carro estava estacionado mesmo ao fundo da rua. Gabriel conseguia ver o clarão de um cigarro atrás do volante. Weiss. Gabriel fechou a cortina e sentou-se na beira da cama, esperando que o telefone tocasse.

Vinte minutos depois:

- Landau.

- Fica na esquina da Seitzstrasse e da Unsòldstrasse, mesmo a sul de Prinzregenten. Sabes onde fica?

- Sim - replicou Gabriel. - Dá-me o número. Nove dígitos. Gabriel não se incomodou a apontá-los.

- As chaves?

- Fiscalização normal. Guarda-lamas traseiro, do lado do passeio.

Gabriel desligou, vestiu o casaco, e pegou nas malas. No átrio, explicou ao recepcionista do turno da noite que se ia embora antes da data prevista.

- Quer que chame um táxi, Herr Landau?

- Não, vêm-me buscar. Obrigado.

Uma factura deslizou pelo balcão na sua direcção. Gabriel pagou com um dos cartões de crédito de Shamron e saiu. Virou à esquerda e começou a andar rapidamente, porta-fatos numa mão, mala na outra. Vinte segundos depois, ouviu o som da porta de um carro a abrir e a fechar, seguida por passos no pavimento molhado da Annastrasse. Manteve a passada firme, resistindo ao impulso de olhar sobre o ombro.

«... esquina da Seitzstrasse e da Unsòldstrasse...»

Gabriel passou por uma igreja, virou à esquerda, e parou numa praça pequena para se orientar. De seguida, virou à direita e prosseguiu por outra rua estreita na direcção do som do tráfego, que se apressava ao longo da Prinzregenstrasse. Weiss ainda o seguia.

Avançou ao longo de uma fila de carros estacionados, lendo as matrículas, até chegar àquela que lhe fora indicada pelo telefone. Estava pregada a um Opel Omega cinzento escuro. Sem parar, inclinou-se ligeiramente pela cintura e percorreu com os dedos o guarda-lamas traseiro até encontrar as chaves. Com um movimento tão rápido quanto sereno em que Weiss não pareceu reparar, Gabriel soltou as chaves.

Premiu o botão do controle remoto. As portas destrancaram-se automaticamente. Depois abriu a porta do lado do condutor e atirou a sua bagagem para o lado do passageiro. Olhou para a direita. Weiss corria na sua direcção, pânico estampado no rosto.

Gabriel entrou para o veículo, enfiou as chaves na ignição, e ligou o motor. Engrenou e afastou-se do passeio, depois virou para a direita e desapareceu no tráfego nocturno.

O detective Axel Weiss saltara do seu carro tão depressa que deixara o telemóvel atrás de si. Correu todo o caminho de volta, depois parou para recuperar fôlego antes de marcar o número. Um momento depois, informava o homem em Roma que o israelita chamado Landau desaparecera.

- Como?

Envergonhado, Weiss contou-lhe.

- Pelo menos, tirou-lhe uma fotografia?

- Tinha tirado antes... na Aldeia Olímpica.

- A aldeia? Que raio estava ele ali a fazer?

- A olhar para um edifício de apartamentos na Connollystrasse, 31.

- Não foi aí que aconteceu?

- Sim, é verdade. Não é raro que os judeus façam aí uma peregrinação.

- É normal que os judeus detectem que estão a ser seguidos e executem uma fuga perfeita?

- Tem razão.

- Mande-me a fotografia... esta noite. Depois o homem em Roma desligou.

 

A Villa Galafina tem uma beleza desconcertante. Uma antiga abadia beneditina, ergue-se sobre uma base de granito nos montes de Lazio e olha reprovadora para a aldeia no sopé do vale florestado. No século XVII, um importante cardeal comprou a abadia e converteu-a numa exuberante residência de Verão, um local para onde Sua Eminência se poderia escapar do fervilhante calor de Roma em Agosto. O seu arquitecto possuíra o bom senso de preservar o exterior, e a sua fachada acastanhada permanece intacta até hoje tal como o denteado das suas ameias. Numa manhã de início de Março, podia ver-se um homem no alto do parapeito varrido pelo vento. Não era um arco que tinha sobre o ombro, mas uma espingarda Beretta de alta precisão. O actual proprietário era um homem que levava a sério a sua segurança. O seu nome era Roberto Pucci, um industrial e financeiro, cujo poder sobre a Itália moderna rivalizava com frequência com o de um príncipe renascentista da Igreja.

Um Mercedes blindado parou junto ao portão de ferro, onde foi saudado por um par de guardas de segurança em fatos castanhos. O homem sentado no assento traseiro baixou o vidro. Um dos guardas examinou-lhe o rosto, depois olhou para as matrículas identificativas SCV do Mercedes. Matrículas do Vaticano. O portão de Roberto Pucci abriu-se, e um caminho de asfalto bordejado por ciprestes estendeu-se à sua frente. A meio quilómetro no cimo da colina, situava-se a villa.

O Mercedes avançou pelo caminho de asfalto e parou no pátio de cascalho, sombreado por pinheiros-mansos e eucaliptos. Já aí se encontravam duas dúzias de outros carros, rodeados por um pequeno exército de homens da segurança e motoristas. O homem do assent traseiro saiu do carro, deixando o seu guarda-costas para trás, e atravessou o pátio na direcção do campanário da capela.

Chamava-se Carlo Casagrande. Durante um curto período de tempo em Itália, o seu nome fora um nome familiar, pois fora o general Carlo Casagrande, chefe da brigada antiterrorista da Uarma del Carabinieri, que esmagara as Brigadas Vermelhas. Por motivos de segurança pessoal, era notoriamente tímido com as máquinas fotográficas, e poucas pessoas fora da comunidade dos serviços secretos romanos lhe teria reconhecido o rosto.

Casagrande já não trabalhava para os carabinieri. Em 1981, uma semana depois do atentado à vida do Papa João Paulo II, demitira-se e desaparecera atrás dos muros do Vaticano. De certo modo, Casagrande estivera a trabalhar para os homens da Santa Sé durante todo esse tempo. Ficara encarregue do Gabinete de Segurança, jurando que nenhum papa voltaria a deixar a Praça de São Pedro nas traseiras de uma ambulância, rezando à Virgem Maria pela sua própria vida. Uma das suas primeiras acções fora lançar uma massiva investigação relacionada com o tiroteio, de modo a que os conspiradores pudessem ser identificados e neutralizados antes de serem capazes de montar um segundo atentado à vida do papa. Os resultados da investigação tinham sido tão delicados que Casagrande só os partilhou com o Santo Padre.

Casagrande já não era directamente responsável pela protecção da vida do papa. Durante os últimos três anos, estivera comprometido com outra função relacionada com a sua amada Igreja. Permanecera ligado ao Gabinete de Segurança do Vaticano, mas era apenas uma questão de conveniência que lhe garantia uma posição em certos quadrantes. Era agora o líder da ambiguamente chamada Divisão de Investigações Especiais. Tão secreta era a missão de Casagrande que apenas um punhado de homens dentro do Vaticano conhecia a verdadeira natureza do seu trabalho.

Casagrande entrou na capela. Ar frio, cheirando a cera de vela e incenso, acariciou-lhe o rosto. No santuário, molhou os dedos na água benta e persignou-se. Depois avançou pela nave central em direcção ao altar. Chamar-lhe uma capela era uma atenuação dos factos. Era, de facto, uma igreja bastante grande, maior que a maioria das igrejas de paróquia das cidades vizinhas.

Casagrande sentou-se na primeira fila de bancos. Roberto Pucci, vestindo um fato cinzento e uma camisa branca de colarinho aberto, fez-lhe sinal do outro lado da nave. Apesar dos seus setenta e cinco anos, Pucci ainda irradiava uma aura de invencibilidade física. O seu cabelo era branco e o rosto da cor de couro oleado. Avaliou friamente Casagrande com um par de olhos negros encobertos. O olhar Pucci. Sempre que Pucci olhava alguém, era como se estivesse a decidir se lhe cortaria a garganta ou se lhe esfaquearia o coração.

Tal como Carlo Casagrande, Roberto Pucci era um uomo dijiducia, um homem de confiança. Apenas os laicos com competências únicas valorizadas pelos homens do Vaticano eram permitidos nos seus aposentos mais secretos. A especialidade de Casagrande era a segurança e os serviços secretos. A de Pucci era o dinheiro e o poder político. Ele era a mão oculta da política italiana, um homem tão influente que nenhum governo se podia formar sem uma peregrinação à Villa Galatina para assegurar a sua bênção. Mas poucas pessoas do establishment político italiano sabiam que Pucci mantinha um poderio semelhante sobre outra instituição romana: o Vaticano. O seu poder sobre a Santa Sé derivava da administração encoberta de uma porção substancial do vasto stock e das acções imobiliárias da Igreja Católica. Sob a mão segura de Pucci, o valor total dos portfólios do Vaticano experimentara um crescimento explosivo. Ao contrário dos seus antecessores, ele conseguira este feito sem o mínimo rumor de escândalo.

Casagrande olhou por cima do ombro. Os outros estavam espalhados pelas restantes filas: o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano; um importante bispo da Congregação para a Doutrina da Fé; o chefe do Gabinete de Imprensa do Vaticano; um influente teólogo conservador de Colónia; um banqueiro de investimentos de Genebra; o líder de um partido de extrema direita francês; o proprietário de uma das maiores marcas de automóveis europeias. Mais uma dúzia, todos do mesmo molde - todos católicos doutrinários, todos exercendo um enorme poder político e financeiro, todos empenhados em restaurar a Igreja à posição de supremacia de que esta gozara antes da calamidade da Reforma. Casagrande achava vagamente divertido ouvir debates em que se discutia a localização do verdadeiro poder dentro da Igreja Católica Romana. Residia com o Sínodo dos Bispos? O Colégio dos Cardeais? Repousaria nas mãos do próprio Sumo Pontífice? Não, pensava Casagrande. O verdadeiro poder da Igreja Católica residia aqui, nesta capela numa colina fora de Roma, nas mãos desta irmandade secreta.

Um clérigo avançou até ao altar, um cardeal vestindo a casula vulgar de um padre de paróquia. Os membros levantaram-se, e a Missa começou.

- In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.

- Amen.

O cardeal conduziu-os rapidamente através dos ritos introdutórios, do rito de penitência, do Kyrie e da Glória. Celebrava a Missa TridentinaNT, pois este era um dos objectivos da irmandade, o restaurar daquilo que acreditavam ser a força unificadora da liturgia latina.

A homilia era um acontecimento habitual em reuniões como esta: uma chamada às armas, um aviso para se permanecer firme perante os inimigos, uma súplica para esmagar as forças corrosivas do liberalismo e do modernismo no seio da sociedade e da própria Igreja. O cardeal não mencionou o nome da irmandade. Ao contrário dos seus parentes próximos, a Opus Dei, as Legiões de Cristo, e a Sociedade de São Pio X, esta não existia oficialmente, e o seu nome nunca era mencionado. Entre eles, os membros referiam-se a esta apenas como «o Instituto».

Casagrande ouvira já muitas vezes o sermão, e deixou que a sua mente vagueasse. Os seus pensamentos desviaram-se para a situação em Munique e para o relatório que recebera do seu operacional a respeito do israelita chamado Landau. Pressentia mais sarilhos, uma ameaça sinistra à Igreja e à própria irmandade. Precisava da bênção do cardeal e do dinheiro de Pucci para tratar disso.

- Hic est enim cálix sanguinis mei - recitou o cardeal. - Pois este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, o mistério da fé, que será partilhado entre vós e por todos para remissão dos nossos pecados.

A atenção de Casagrande regressou à Missa. Cinco minutos depois, quando a liturgia da eucaristia terminou, levantou-se e colocou-se na fila para o altar atrás de Roberto Pucci. O financeiro recebeu o sacramento da Comunhão, depois Casagrande deu um passo em frente.

O cardeal secretário de Estado, Marco Brindisi, ergueu a hóstia ao alto, olhando directamente para os olhos de Casagrande, e disse em latim:

 

NT Nome da eucaristia litúrgica usada pela Igreja Católica Romana entre 1570 e 1964.

 

- Que o corpo do nosso Senhor Jesus Cristo mantenha a tua alma na vida eterna.

Carlo Casagrande sussurrou:

- Amém.

Os assuntos a tratar nunca eram discutidos na capela. Isso era reservado para um almoço buffet sumptuoso, servido na enorme galeria ornamentada com tapeçarias sobranceira ao terraço. Casagrande estava distraído e não tinha apetite. Durante a sua longa luta com as Brigadas Vermelhas, forçara-se a viver escondido numa série de bunkers subterrâneos e aquartelamentos militares, rodeado pela companhia rude dos oficiais que pertenciam ao seu pessoal. Nunca se habituara aos privilégios da vida luxuosa atrás dos muros do Vaticano. Nem partilhava do entusiasmo dos outros convidados pelas refeições de Roberto Pucci.

Brincou com um pedaço de salmão fumado, enquanto o cardeal Brindisi conduzia habilmente a reunião. Brindisi era um burocrata vitalício do Vaticano, mas ele odiava a lógica circular e a duplicidade que caracterizavam a maior parte das discussões dentro da Cúria. O cardeal era um homem de acção, e havia um certo cariz de reunião de conselho de administração no modo como ele presidia ao que se encontrava em agenda. Se não se tivesse tornado padre, pensou Casagrande, poderia muito bem ter sido o mais feroz opositor de Roberto Pucci.

Os homens sentados à volta da sala consideravam a democracia uma forma de governo desajeitada e ineficaz e a irmandade, tal como a Igreja Católica Romana, não era uma democracia. O poder fora confiado a Brindisi e ele empunhá-lo-ia até à sua morte. No léxico do Instituto, cada homem presente na sala era um director. Esse homem regressaria a casa e convocaria uma reunião semelhante com os homens que lhe reportavam. Desse modo, as ordens de Brindisi seriam espalhadas através da vasta organização. Não havia tolerância para a criatividade ou para acções independentes entre a administração intermédia. Os membros faziam voto de obediência absoluta.

O trabalho de Casagrande nunca era discutido entre a direcção. Ele apenas falava em sessões executivas, que neste caso consistiam de um passeio através dos magníficos jardins em socalco da Villa Galatina em companhia de Brindisi e Pucci, durante um intervalo nos procedimentos. Brindisi caminhava de queixo erguido e dedos entrelaçados sobre o abdómen, Casagrande à sua esquerda, Pucci à direita. Os três homens mais poderosos da irmandade: Brindisi, o líder espiritual; Pucci, o ministro das finanças; Casagrande, o chefe da segurança e das operações. Os membros do Instituto referiam-se privadamente a eles como a Santíssima Trindade.

O Instituto não possuía um departamento de serviços secretos. Casagrande apoiava-se num pequeno grupo de polícias do Vaticano e guardas suíços que lhe eram leais e à irmandade. O seu estatuto lendário entre as forças da Polícia e dos serviços secretos também lhe davam acesso aos recursos destes. A acrescentar a isto, construíra uma rede global de funcionários de serviços secretos e de segurança, que incluía um administrador sénior do FBI, todos dispostos a obedecerem aos seus pedidos. Axel Weiss, o detective de Munique, era membro da rede de Casagrande. Tal como o era o ministro do Interior do fortemente católico Estado da Baviera. Seguindo a sugestão do ministro, Weiss fora designado para o caso Stern. Ele retirara material sensível do apartamento do historiador e controlara a direcção da investigação. O homicídio de Stern fora associados aos neonazis, tal como Casagrande quisera. Agora, com o aparecimento do israelita chamado Landau, ele temia que a situação em Munique se estivesse a começar a revelar. Exprimiu as suas preocupações ao cardeal Brindisi e a Roberto Pucci no jardim da Villa Galatina.

- Porque não se limita a matá-lo? - perguntou Pucci na sua voz grave.

«Sim, matá-lo», pensou Casagrande, «A solução Pucci». Casagrande perdera a conta aos inúmeros assassinatos relacionados com o soturno financeiro. Escolheu cuidadosamente as palavras, pois não tinha qualquer desejo de traçar abertamente espadas com ele. Pucci mandara uma vez executar um homem por este olhar para a sua filha, e os seus assassinos eram muito mais hábeis do que os seguidores fanáticos das Brigadas Vermelhas.

- Corremos um risco calculado ao eliminar Benjamin Stern, mas fomos forçados a isso pelo material na sua posse. - Casagrande falou num tom medido e deliberado. - Baseados nas acções deste homem Landau, é agora certo concluir que os serviços secretos israelitas não acreditam que o assassinato do seu anterior operacional foi executado por extremistas neonazis.

- O que nos traz de novo à minha sugestão original - interrompeu-o Pucci. - Porque não nos limitamos a matá-lo?

- Eu não estou a falar dos serviços secretos italianos, Don Pucci. Este é o serviço secreto israelita. Como director da segurança, é minha função proteger o Instituto. Na minha opinião, seria um erro grave envolvermo-nos uma guerra de tiros com os serviços secretos israelitas. Eles têm assassinos seus, assassinos que mataram nas ruas de Roma e que se desvaneceram sem deixar rastro. - Casagrande olhou para lá do cardeal, para Pucci. - Assassinos que poderiam penetrar as muralhas desta antiga abadia, Don Pucci.

O cardeal Brindisi fez o papel de mediador.

- Então como sugere que procedamos, Carlo?

- Com cuidado, Eminência. Se ele é na verdade um agente dos serviços secretos israelitas, então podemos usar os nossos amigos dos serviços de segurança europeus para lhe tornar a vida muito desconfortável. No entretanto, devemos certificar-nos que não existe mais nada que ele possa descobrir. - Casagrande interrompeu-se, depois acrescentou -, Receio que tenhamos uma remanescente ponta solta. Após alvejar o material retirado do apartamento do professor Stern, cheguei à conclusão que ele estava a trabalhar com um colaborador, um homem que nos deu problemas no passado.

Um olhar de aborrecimento perpassou pelo rosto do cardeal - uma pedra lançada num lago sereno ao amanhecer -, depois as feições retomaram a sua compostura habitual.

- E os outros aspectos da sua investigação, Carlo? Está mais perto de identificar quais os irmãos que deram, de início, conhecimento destes documentos ao professor Stern?

Casagrande sacudiu frustrado a cabeça. Quantas horas passara ele a vasculhar o material retirado do apartamento de Munique? Blocos de apontamentos, ficheiros de computador, livros de endereços - Casagrande revira tudo, procurando pistas para identificar os indivíduos ou grupo que dera a informação ao professor. Até esse momento, não encontrara nada. O professor cobrira bem o seu rasto. Era como se os documentos lhe tivessem sido entregues por um fantasma.

- Receio que esse elemento do caso permaneça um mistério, Eminência. Se este acto de traição foi perpetrado por alguém dentro do Vaticano, podemos nunca conhecer a verdade. Acontece que a Cúria é um campo de treinos para intrigas deste género.

Esta observação extraiu a sombra de um sorriso a Brindisi. Caminharam em silêncio durante um momento. Os olhos do cardeal estavam baixos.

- Há dois dias, almocei com o Santo Padre - disse ele, por fim. - Tal como suspeitávamos, Sua Santidade tenciona ir em frente com o seu programa de reconciliação com os judeus. Tentei dissuadi-lo, mas foi inútil. Ele vai à Grande Sinagoga de Roma na próxima semana.

Roberto Pucci cuspiu para o chão. Carlo Casagrande expirou profundamente. Não estava surpreendido pelas notícias do cardeal. Casagrande e Brindisi tinham uma fonte de informações entre o pessoal do Santo Padre, um secretário que era membro da irmandade e que os mantinha informados do que acontecia dentro do appartamento. Este andava a avisá-los há semanas que algo deste género ia acontecer.

- Ele é um papa temporário - disparou Pucci. - Tem de aprender qual o seu lugar.

Casagrande susteve a respiração, esperando que Pucci sugerisse a sua solução favorita para um problema, mas nem mesmo Pucci consideraria uma tal opção.

- O Santo Padre não ficará satisfeito apenas com a divulgação de outra declaração de remorso sobre as nossas passadas divergências com os judeus. Ele tenciona abrir também os Arquivos Secretos.

- Não pode estar a falar a sério - disse Casagrande.

- Receio que esteja a falar muito a sério. A questão é, se ele abrir os Arquivos, encontrarão os historiadores alguma coisa?

- Os Arquivos foram expurgados de todas as referências à reunião no convento. Quanto às testemunhas, tratou-se delas e os seus ficheiros pessoais foram destruídos. Se o Santo Padre insistir em comissionar um novo estudo, os Arquivos não fornecerão de forma alguma nenhuma nova informação. A não ser, é claro, que os israelitas consigam reconstruir o trabalho do professor Stern. Se isso acontecer...

- ... então a Igreja, e o Instituto, encontrar-se-ão numa situação muito difícil - disse o cardeal, terminando a frase de Casagrande por ele. - Pelo bem maior da Igreja e por todos aqueles que acreditam nela, o segredo da aliança deve permanecer assim, um segredo.

- Sim, Eminência.

Roberto Pucci acendeu um cigarro.

- Talvez os nossos amigos no appartamento possam aconselhar o Santo Padre a ver o erro das suas medidas, Eminência.

- Já tentei essa via, Don Pucci. Segundo o nosso amigo, o papa está determinado a prosseguir, independentemente do conselho dos seus secretários ou da Cúria.

- De um ponto de vista financeiro, a iniciativa do Santo Padre pode ser desastrosa - disse Pucci, desviando a sua atenção do assassínio para o dinheiro. - Muitas pessoas desejam fazer negócios com o Vaticano devido ao seu bom nome. Se o Santo Padre arrastar esse bom nome pela lama da História...

Brindisi anuiu.

- Em privado, o Santo Padre expressou frequentemente o desejo de regressar aos dias de uma igreja pobre.

- Se ele não for cuidadoso - replicou Pucci -, o seu desejo será realizado.

O cardeal Brindisi olhou para Casagrande.

- Este colaborador- continuou o cardeal. - Acredita que ele constitui uma ameaça para nós?

- Acredito, Eminência.

- Que pretende de mim, Carlo? Para além da minha aprovação, é claro.

- Só isso, Eminência.

- E de Don Pucci?

Casagrande olhou para os olhos negros encobertos.

- Preciso do seu dinheiro.

 

Era o princípio do entardecer quando Gabriel chegou à extremidade norte do lago Garda. Ao fazer o seu caminho para sul ao longo da costa, o clima e a vegetação mudaram gradualmente de alpinos para mediterrânicos. Quando baixou o vidro, ar frio derramou-se sobre o seu rosto. O Sol de fim de dia brilhou nas folhas verde-prateadas das oliveiras. Mais abaixo, o lago estava calmo e plano, como uma laje de granito polido.

A cidade de Brenzone sacudia-se da sonolência da siesta, os toldos abriam-se nos bares e cafés ao longo da marginal, os donos de lojas colocavam os seus produtos nas estreitas ruas pavimentadas que se erguiam pela encosta íngreme de Monte Baldo. Gabriel avançou ao longo da margem do lago até encontrar o Grand Hotel, uma villa cor de açafrão na extremidade da cidade.

Ao estacionar no pátio, um paquete dirigiu-se a ele com o entusiasmo de um presidiário grato pela companhia. O átrio era um local de outros tempos. Na verdade, Gabriel não ficaria surpreendido se visse Kafka empoleirado na borda de uma cadeira de braços empoeirada, rasbicando um manuscrito nas sombras profundas. Na sala de jantar adjacente, um par de empregados entediados punha lentamente uma dúzia de mesas para o jantar. Se o modo lânguido como o faziam servia de indicação, a maior parte das mesas não seria ocupada naquela noite.

O empregado atrás do balcão da recepção endireitou-se formalmente à aproximação de Gabriel. Este olhou para a placa preta e prateada pregada do lado esquerdo do seu blazer: giancomo. Loiro, de olhos azuis, olhou Gabriel com uma vaga curiosidade por detrás do balcão.

 

Num italiano fluente mas esforçado, Gabriel apresentou-se como Ehud Landau de Telavive. O empregado pareceu satisfeito com isso. Quando Gabriel lhe fez perguntas a respeito do homem que visitara o hotel dois meses antes - um professor chamado Benjamin Stern que se esquecera de um par de óculos -, o empregado sacudiu lentamente a cabeça. Os cinquenta euros que Gabriel lhe enfiou na mão pareceram reavivar a sua memória.

- Ah, sim, Herr Stern! - Os olhos azuis dançaram. - O escritor de Munique. Lembro-me bem dele. Ficou três noites.

- O professor Stern era meu irmão.

- Era?

- Foi assassinado em Munique há dez dias.

- Por favor, aceite as minhas condolências, Signor Landau, mas talvez eu devesse estar a falar com a Polícia a respeito do professor Stern e não com o irmão.

Quando Gabriel disse que estava a conduzir a sua própria investigação, o concierge franziu pensativamente a testa.

- Receio não lhe poder dizer nada de interesse, excepto que estou quase certo que a morte do professor Stern não tem nada a ver com a sua estada em Brenzone. Sabe, o seu irmão passou a maior parte do tempo no convento.

- No convento?

O concierge deu à volta ao balcão.

- Siga-me.

Conduziu Gabriel através do átrio e passou por um conjunto de portas envidraçadas. Atravessaram um terraço sobranceiro ao lago e pararam junto à balaustrada. A uma curta distância, empoleirado num afloramento de rocha na extremidade do lago, encontrava-se um castelo guarnecido de ameias.

- O Convento do Sagrado Coração. No século XIX, era um sanatório. As irmãs tomaram conta da propriedade antes da Primeira Guerra e ficaram ali desde então.

- Sabe o que é que o meu irmão fazia ali?

- Receio que não. Mas porque não pergunta à madre Vincenza? É a madre superiora. Uma mulher adorável. Estou certo que ela ficará muito satisfeita por o ajudar.

- Tem o número de telefone? O empregado sacudiu a cabeça.

- Não há telefone. As irmãs levam a sua privacidade muito a sério.

Dois ciprestes elevavam-se como sentinelas de ambos os lados de um alto portão de ferro. Quando Gabriel premiu a campainha, um vento frio ergueu-se do lago e rodopiou pelo pátio, remexendo os ramos das oliveiras. Um momento depois, surgiu um homem idoso, vestindo um fato-macaco ensopado. Quando Gabriel disse que gostaria de ter uma conversa rápida com a madre Vincenza, o velho anuiu e desapareceu no interior do convento. Regressando um momento depois, tirou a corrente do portão e fez um gesto a Gabriel para o seguir.

A freira esperava-o no átrio de entrada. O seu rosto oval estava emoldurado por um hábito cinzento e branco. Um par de óculos grossos aumentava um olhar firme. Quando Gabriel mencionou o nome de Benjamin, o rosto exibiu um sorriso amplo e genuíno.

- Sim, é claro que me lembro dele - disse ela, agarrando a mão de Gabriel. - Um homem tão simpático. Tão inteligente. Gostei do tempo que passámos juntos.

De seguida, Gabriel deu-lhe as notícias. A madre Vincenza persignou-se e apertou as mãos debaixo do queixo. Os seus grandes olhos pareciam rasos de lágrimas. Pegou no antebraço de Gabriel.

- Venha comigo. Tem de me contar tudo.

As irmãs de Brenzone podiam ter feito voto de pobreza, mas decerto que o seu convento ocupava umas das propriedades mais cobiçadas de toda a Itália. A sala comum para onde Gabriel foi conduzido era uma ampla galeria rectangular, mobilada de forma a dividir o espaço em várias áreas separadas onde as pessoas se podiam sentar. Através das janelas amplas, Gabriel conseguia ver o terraço e a balaustrada, e uma brilhante Lua, semelhante a uma unha, erguendo-se sobre o lago.

Sentaram-se num par de cadeiras de braços coçados, junto à janela. A madre Vincenza tocou uma pequena campainha, e quando apareceu uma freira jovem, a madre superiora pediu café. A freira afastou-se tão suave e silenciosamente que Gabriel pensou se ela teria patins debaixo do hábito.

Gabriel contou-lhe então o homicídio de Benjamin. Fez um resumo cauteloso, de modo a não chocar a religiosa sentada à sua frente. Apesar disso, a cada nova revelação, a madre Vicenza suspirava profundamente e benzia-se devagar. Na altura em que Gabriel terminou, encontrava-se num estado de elevada perturbação. A minúscula chávena de espresso adocicado, que a silenciosa freira jovem trouxera, pareceu acalmar-lhe os nervos.

- Sabia que Benjamin era escritor? - perguntou Gabriel.

- Claro. Era por isso que ele estava aqui em Brenzone.

- Ele estava a trabalhar num livro?

- Estava.

A madre Vincenza interrompeu-se quando o caseiro entrou na sala com um molho de madeira de oliveira nos braços.

- Obrigado, Licio - disse ela, enquanto o velho colocava a madeira num cesto junto à lareira e voltava a sair.

A freira continuou.

- Se é irmão dele, porque não sabe qual o assunto do livro?

- Por algum motivo, Benjamin era muito reservado a respeito deste projecto. Manteve esse assunto escondido de amigos e família. - Gabriel relembrou a conversa em Munique com o professor Berger. - Até mesmo o chefe do departamento de Benjamin na Universidade Ludwig-Maximilian não sabia em que é que ele estava a trabalhar.

A madre Vincenza pareceu aceitar a explicação, e após um momento de cuidadosa apreciação, disse:

- O seu irmão estava a trabalhar num livro sobre os judeus que se refugiaram em propriedades da Igreja, durante a guerra.

Gabriel considerou a sua declaração por um momento. Um livro sobre judeus que se esconderam em conventos"? Ele supôs que era possível, mas na verdade não parecia um projecto que Benjamin pudesse abraçar. Nem explicaria o seu invulgar secretismo. Decidiu continuar com o jogo.

- O que o trouxe aqui?

A madre Vincenza estudou-o sobre a borda da chávena de café.

- Acabe o seu café - disse. - Depois mostrar-lhe-ei porque é que o seu irmão veio a Brenzone.

Desceram a íngreme escadaria de pedra iluminados por uma lanterna eléctrica, a mão morna da freira repousando ao de leve no antebraço de Gabriel. Na base das escadas, o cheiro a humidade saudou-os, e Gabriel conseguia ver a sua respiração. A sua frente, encontrava-se uma passagem estreita, ladeada por portais arqueados. O lugar tinha algo que recordava as catacumbas. Gabriel teve uma visão súbita de almas assombradas movendo-se perto da luz das tochas e falando em sussurros.

A madre Vicenza conduziu-o ao longo da passagem, parando em cada portal para lançar o feixe da lanterna para o interior de uma apertada câmara. O trabalho de maçonaria brilhava com a humidade, e o cheiro do lago era esmagador. Gabriel pensou ouvir a água bater sobre as suas cabeças.

- Era o único lugar onde as irmãs pensavam que os refugiados estariam a salvo - disse por fim a freira, perturbando o silêncio. - Como poderá verificar, era terrivelmente frio no Inverno. Receio que tenham sofrido muito, em especial as crianças.

- Quantos eram?

- Normalmente, perto de uma dúzia. Às vezes, mais. Outras vezes, menos.

- Porquê menos?

- Alguns continuaram para outros conventi. Uma família tentou chegar à Suíça. Foram apanhados na fronteira por uma patrulha suíça e entregues aos alemães. Disseram-me que morreram em Auschwitz. Claro que na altura eu era apenas uma rapariguinha. A minha família vivia em Turim.

- Deve ter sido muito perigoso para as mulheres que aqui viviam.

- Sim, muito. Naquela época, os bandos fascistas deambulavam pelo país à procura de judeus. Pagavam-se subornos. Os judeus eram denunciados por dinheiro. Quem quer que os escondesse era sujeito a represálias terríveis. As próprias irmãs aceitaram essas pessoas a grande risco.

- Então porque o fizeram?

Ela sorriu ternamente e apertou-lhe o braço.

- Há uma longa tradição na Igreja, Signor Landau. Os padres e as freiras sentem ter um dever especial no auxílio de fugitivos. Para ajudar aqueles injustamente acusados. As irmãs de Brenzone ajudaram os judeus por bondade cristã. E fizeram-no porque o Santo Padre lhes disse para o fazerem.

- O papa Pio instruiu os conventos para aceitarem judeus? Os olhos da freira escancararam-se.

- É verdade. Conventos, mosteiros, escolas, hospitais. O Santo Padre mandou abrir as portas de todas as instituições e propriedades da Igreja aos judeus.

O feixe da lanterna da madre Vicenza caiu sobre um rato obeso. Este afastou-se apressado, garras arranhando as pedras, olhos amarelos brilhando.

- Obrigado, madre Vincenza - disse Gabriel. - Acho que vi o suficiente.

- Como queira. - A freira permaneceu imóvel, o olhar firme pousado nele. - Não deve ficar entristecido com este lugar, Signor Landau. Devido às irmãs de Brenzone, as pessoas que se abrigaram aqui conseguiram sobreviver. Este não é um lugar para lágrimas. É um lugar de alegria. De esperança.

Quando Gabriel não respondeu, a madre Vicenza virou-se e conduziu-o pelas escadas. Ao atravessar o pátio de cascalho, o vento nocturno ergueu-lhe a saia do hábito.

- Estamos prestes a sentar-nos para a nossa refeição nocturna. Se quiser juntar-se a nós, será bem-vindo.

- É muito amável, mas não me quero intrometer. Além disso, já lhe tomei demasiado tempo.

- Nada disso.

No portão da frente, Gabriel deteve-se e virou o rosto para a freira.

- Conhece o nome das pessoas que se refugiaram aqui? - perguntou subitamente.

A freira pareceu surpreendida pela pergunta. Estudou-o durante um momento, depois sacudiu deliberadamente a cabeça.

- Receio que os nomes se tenham perdido com o passar dos anos.

- É uma pena.

- Pois é - concordou ela, anuindo lentamente.

- Posso fazer-lhe mais uma pergunta, madre Vincenza?

- Claro.

- O Vaticano deu-lhe autorização para falar com Benjamin? Ela ergueu o queixo numa expressão de desafio.

- Não preciso que um burocrata da Cúria me diga quando devo falar ou ficar em silêncio. Apenas o meu Deus me pode dizer isso, e Deus disse-me para falar com o seu irmão a respeito dos judeus de Brenzone.

A madre Vincenza tinha um pequeno escritório no segundo piso do convento, numa sala agradável sobranceira ao lago. Ela fechou e trancou a porta, depois sentou-se à modesta secretária e abriu a primeira gaveta. Aí, escondido atrás de uma pequena caixa de cartão cheia de lápis e de clipes, encontrava-se um telemóvel esguio. Tecnicamente, era contra as severas regras do convento ter um tal aparelho, mas o homem do Vaticano assegurara-lhe que, dadas as circunstâncias, esse não constituiria uma violação, moral ou de qualquer outro tipo.

Ligou o telefone, tal como ele lhe ensinara, e marcou com cuidado o número de Roma. Após alguns segundos de silêncio, conseguiu ouvir o telefone a tocar. Isso surpreendeu-a. Um momento depois, quando uma voz masculina surgiu na linha, ficou ainda mais surpreendida.

- Fala a madre Vincenza...

- Eu sei quem fala - interrompeu o homem, o seu tom brusco e atarefado. Depois ela lembrou-se das instruções dele sobre nunca dizer nomes ao telefone. Sentiu-se uma tola.

- Pediu-me para lhe telefonar se alguém viesse ao convento fazer perguntas acerca do professor. - Ela hesitou, esperando que ele falasse, mas ele não disse nada. - Alguém veio esta tarde.

- Como é que ele disse que se chamava?

- Landau - disse ela. - Ehud Landau, de Telavive. Disse que era irmão do professor.

- Onde está ele agora?

- Não sei. Talvez esteja alojado no velho hotel.

- Pode descobrir?

- Suponho que posso, sim.

- Então descubra... e depois volte a telefonar-me. A ligação desligou-se.

A madre Vicenza voltou a colocar o telefone no seu esconderijo e fechou silenciosamente a gaveta.

Gabriel decidiu passar a noite em Brenzone e regressar a Veneza logo de manhã. Depois de sair do convento, voltou para o hotel e pediu um quarto. A perspectiva de comer na sombria sala de jantar do hotel deprimiu-o, por isso voltou à margem do lago através da fria noite de Março e comeu peixe num alegre restaurante cheio de habitantes locais. O vinho branco era da região e estava muito frio.

As imagens do caso atravessaram-lhe a mente enquanto comia: A runa de Odin e a suástica de três gumes pintada na parede de Benjamin; o sangue no chão onde Benjamin morrera; o detective Weiss a segui-lo através das ruas de Munique; a madre Vicenza conduzindo-o pelas escadas abaixo até à cave húmida do convento junto ao lago.

Gabriel estava convencido que Benjamin fora morto por alguém que desejava silenciá-lo. Apenas isso explicaria porque motivo o seu computador desaparecera e porque é que o seu apartamento não continha quaisquer provas de que ele estava a escrever um livro. Se Gabriel pudesse recrear o livro de Benjamin - ou, pelo menos, o assunto do livro -, poderia ser capaz de identificar quem o matara e porquê. Infelizmente, não tinha quase nada - apenas uma mulher idosa que afirmava que Benjamin estava a trabalhar num livro acerca dos judeus que se refugiaram em propriedades da Igreja durante a guerra. Falando de um modo geral, não era o tipo de assunto que faria com que um homem fosse morto.

Pagou a conta e regressou ao hotel. Demorou algum tempo, vagueando pelas ruas silenciosas da antiga cidade, sem prestar atenção ao caminho, seguindo as passagens estreitas onde quer que estas o conduzissem. Os seus pensamentos espelhavam o seu caminho através de Brenzone. Por instinto, abordou o problema como se fosse um restauro, como se o livro de Benjamin fosse um quadro tão danificado que pouco mais se pudesse ver além de uma tela, com umas pinceladas de cor sobre o fragmento de um esboço. Se Benjamin fosse um dos antigos mestres, Gabriel teria estudado todas as suas pinturas semelhantes. Analisaria a sua técnica e as suas influências, o período em que a obra fora pintada. Em resumo, absorveria todos os pormenores sobre o artista, mesmo os que parecessem futilidades, antes de começar a trabalhar na tela.

Até ali, Gabriel não tinha muito em que basear o seu restauro, mas agora, deambulando pelas ruas de Brenzone, apercebeu-se de um facto relevante.

Pela segunda vez em dois dias estava a ser seguido.

Virou numa esquina e passou por uma fila de lojas fechadas. Olhando por cima do ombro, viu um homem a dar a volta à esquina atrás dele. Voltou a efectuar a mesma manobra, e de novo detectou o seu perseguidor, uma mera sombra nas ruas escurecidas, magra e encurvada, ágil como um gato vadio.

Gabriel deslizou para o átrio escurecido de um pequeno prédio de apartamentos e manteve-se à escuta enquanto os passos se tornavam mais ténues, e depois deixavam de se ouvir. Um momento depois, voltou à rua e dirigiu-se de novo para o hotel. A sua sombra desaparecera.

Quando Gabriel regressou ao hotel, o concierge chamado Giacomo ainda estava de serviço atrás do balcão. Fez deslizar a chave através do balcão, como se esta fosse uma relíquia de valor inestimável e perguntou que tal fora a refeição de Gabriel.

- Estava óptima, obrigado.

- Talvez amanhã à noite, possa experimentar a nossa sala de jantar.

- Talvez - disse Gabriel sem se comprometer, guardando a chave. - Gostaria de ver a conta de Benjamin durante a sua estada aqui... em especial, o registo das suas chamadas telefónicas. Podem ser úteis.

- Sim, estou a perceber, Signor Landau, mas receio que isso seja uma violação da estrita política de privacidade do hotel. Estou certo que um homem como o senhor consegue compreender isso.

Gabriel observou que como Benjamin já não estava vivo, preocupações a respeito da sua privacidade já não se colocavam.

- Lamento, mas as regras também se aplicam aos que faleceram - replicou o concierge. - Agora, se a Polícia quiser tais informações, seríamos obrigados a entregá-las.

- A informação é importante para mim - disse Gabriel. - Estou disposto a pagar uma sobretaxa de forma a obtê-las.

- Uma sobretaxa? Estou a ver. - Coçou o queixo pensativamente. - Acredito que a taxa seria de quinhentos euros. - Uma pausa para permitir a Gabriel digerir a quantia. - Uma taxa de processamento. Em adiantado, é claro.

- Sim, é claro.

Gabriel contou as notas de euro e colocou-as sobre o balcão. A mão de Giancomo passou sobre a superfície e o dinheiro desapareceu.

- Vá para o seu quarto, Signor Landau. Vou imprimir a conta e levar-lha-ei.

Gabriel subiu as escadas até ao quarto. Trancou e colocou a corrente na porta, depois aproximou-se da janela e espreitou para o exterior. O lago brilhava à luz do luar. Não havia ninguém lá fora - pelo menos, ninguém que ele pudesse ver. Sentou-se na cama e começou a despir-se.

Um envelope surgiu debaixo da porta e deslizou através do chão de terracota. Gabriel apanhou-o, abriu a aba, e retirou o que este continha. Acendeu a luz da mesa de cabeceira e examinou a conta. Durante a sua estada de dois dias, Benjamin fizera apenas três chamadas telefónicas. Duas tinham sido feitas para o seu apartamento em Munique - para verificar as mensagens do seu atendedor de chamadas, calculou Gabriel -, e a terceira era um número de telefone em Londres.

Gabriel ergueu o auscultador e marcou o número.

Respondeu-lhe um atendedor de chamadas.

- Está a falar para o escritório de Peter Malone. Lamento, mas não estou disponível para atender a sua chamada. Se quiser deixar uma...

Gabriel voltou a colocar o auscultador no descanso.

«Peter Malone? O jornalista de investigação inglês? Porque telefonaria Benjamin a um homem como ele?» Gabriel dobrou a conta e voltou a enfiá-la no envelope. Estava prestes a guardá-lo na mala de Ehud Landau quando o telefone tocou.

Estendeu a mão, mas hesitou. Ninguém sabia que ele estava aqui - ninguém para além do concierge e do homem que seguira Gabriel depois do jantar. Talvez Malone tivesse visto o número e estivesse a retribuir a chamada. «Melhor saber do que permanecer ignorante», pensou. Pegou no auscultador e aproximou-o da orelha durante um momento sem falar.

Por fim:

- Estou?

- A madre Vicenza está a mentir-lhe, tal como mentiu ao seu amigo. Encontre a irmã Regina e Martin Luther NT. Então saberá a verdade sobre o que aconteceu no convento.

- Quem fala?

- Não volte. Não é seguro para si estar aqui.

CLIQUE.

 

NT Por questão de opção, e devido à semelhança com o nome do teólogo protestante alemão, Martinho Lutero, manteve-se o nome deste personagem no original.

 

O homem que vivia na enorme vivenda à sombra do Eiger era uma pessoa reservada, mesmo para os padrões exigentes das montanhas da Suíça interior. Gostava de saber o que diziam a seu respeito, e sabia que nos cafés e bares de Grindelwald havia uma constante especulação quanto à sua profissão. Alguns pensavam que era um bem-sucedido banqueiro privado de Zurique; outros acreditavam que era o proprietário de um grande consórcio de produtos químicos sedeado em Zug. Existia a teoria de que ele nascera rico e não tinha qualquer carreira. Corriam rumores sem fundamento de que ele era negociante de armas ou um branqueador de dinheiro. A rapariga que lhe limpava a residência falava de uma cozinha cheia de caras panelas de cobre e utensílios de todos os tipos. Circulava o boato de que ele era um chef ou alguém ligado ao ramo da restauração. Era desse que ele gostava mais. Sempre pensara que poderia ter gostado de cozinhar para viver, se não tivesse caído na sua actual ocupação.

A quantidade limitada de correio que chegava diariamente à vivenda trazia o nome Eric Lange. Ele falava alemão com o sotaque de um natural de Zurique, mas com a cadência cantada dos nativos dos vales da Suíça interior. Fazia as suas compras no supermercado Migros na vila e pagava sempre em dinheiro. Não recebia quaisquer visitas e, apesar da sua boa aparência, nunca fora visto na companhia de uma mulher. Era propenso a longos períodos de ausência. Quando lhe pediam uma explicação, ele murmurava algo sobre um negócio. Quando pressionado a dar mais explicações, os seus olhos cinzentos ficavam subitamente tão frios que poucos tinham coragem de continuar a falar sobre o assunto.

Mas sobretudo, parecia um homem com demasiado tempo entre mãos. De Dezembro a Março, quando a neve estava boa, passava a maior parte dos dias nas encostas. Era um esquiador experiente, rápido mas nunca imprudente, com o tamanho e a força de um esquiador de encosta, e a rapidez e agilidade de um slalomer. Usava roupa cara mas clássica, cuidadosamente escolhida para desviar atenções em vez de as atrair. Nas cadeiras de teleférico, era notório pelo seu silêncio. No Verão, quando todos os glaciares exceptuando os permanentes derretiam, saía da vivenda todas as manhãs e subia a vertente íngreme do vale. O seu corpo parecia ter sido constituído exactamente com esse objectivo: alto e poderoso, ancas estreitas e ombros largos, coxas pesadamente musculadas, e canelas formadas como diamantes. Movia-se ao longo de carreiros rochosos com a agilidade de um felino e nunca parecia cansar-se.

Por norma, parava no sopé do Eiger para uma golada do seu cantil e para lançar um olhar de lado à face varrida pelo vento. Nunca trepava - na verdade, achava que os homens que se lançavam contra o Eiger tinham mais a natureza de grandes tolos. Nalgumas tardes, do terraço da vivenda, conseguia ouvir o bater dos helicópteros de resgate, e por vezes, com a ajuda do seu telescópio Zeiss, conseguia ver alpinistas mortos pendendo das suas cordas, retorcendo-se no John, o famoso vento do Eiger. Tinha o maior respeito pela montanha. O Eiger, tal como o homem conhecido como Eric Lange, era um assassino perfeito.

Pouco antes do meio-dia, Lange deslizou da cadeira do teleférico para a sua corrida final do dia. No fundo do percurso, desapareceu num matagal e esgueirou-se através das sombras até chegar à porta das traseiras da vivenda. Retirou os esquis e luvas, e premiu uma série de números no teclado de parede junto à porta. Entrou, tirou o blusão e calças de esqui, e pendurou os esquis num cabide de estilo profissional. No piso superior, tomou um duche e mudou para roupa de viagem: calças de bombazina, uma camisola de caxemira cinzento escura, sapatos de camurça. O seu saco de viagem já estava arrumado.

Deteve-se perante o espelho da casa de banho e examinou a sua aparência. O cabelo era uma combinação de loiro raiado pelo sol e cinzento. Os olhos eram naturalmente sem cor e adaptavam-se bem a lentes de contacto. As feições eram periodicamente alteradas por um cirurgião plástico de uma discreta clínica nos arredores de Genebra. Pôs um par de óculos de armação de tartaruga, depois colocou gel no cabelo, e penteou-o a direito e para trás. A alteração na sua aparência era notável.

Dirigiu-se ao quarto. Escondido no interior de um guarda-fato, encontrava-se um cofre com combinação. Fez funcionar a fechadura e abriu a porta pesada. No interior encontravam-se as ferramentas da sua profissão: passaportes falsos, uma grande quantia de dinheiro de diversas moedas, uma colecção de armas. Encheu a carteira com francos suíços e escolheu uma pistola Stechkin de 9 mm, a sua arma favorita. Aninhou a arma no saco desportivo e fechou a porta do cofre. Cinco minutos depois, entrou para o Audi e partiu para Zurique.

Na violenta história do extremismo político europeu, não houve terrorista suspeito de ter derramado mais sangue do que o homem conhecido por Leopardo. Um assassino freelance de aluguer, oferecera os seus serviços por todo o continente, deixando atrás de si um rastro de corpos e prejuízos causados por bombas que se estendiam de Atenas a Londres e de Madrid a Estocolmo. Trabalhara para a Facção do Exército Vermelho na Alemanha Federal, nas Brigadas Vermelhas em Itália, e na Action Directe em França. Matara um oficial do Exército inglês em nome do IRA e um ministro espanhol pelo grupo separatista basco ETA. A sua relação com terroristas palestinianos era longa e frutuosa. Cometera uma fiada de raptos e assassinatos a mando de Abu Jihad, o segundo em comando da OLP, e matara para o dissidente fanático palestiniano Abu Nidal. Na verdade, acreditava-se que Leopardo fora o cérebro por trás dos ataques simultâneos aos aeroportos de Roma e Viena em Dezembro de 1985, que deixaram dezanove pessoas mortas e 120 feridas. Tinham-se passado nove anos desde o seu último ataque suspeito, o homicídio de um industrial francês em Paris. Alguns membros da comunidade de segurança e serviços secretos da Europa Ocidental acreditavam que Leopardo estava morto - que fora morto numa disputa com um dos seus antigos empregadores. Alguns duvidavam que ele tivesse sequer chegado a existir.

A noite caíra na altura em que Eric Lange chegou a Zurique. Estacionou o carro numa rua desagradável, a norte da estação ferroviária, e dirigiu-se a pé até ao hotel St. Gotthard, mesmo junto à curva suave da Bahnhofstrasse. Tinham-lhe reservado um quarto. A ausência de bagagem não surpreendeu o recepcionista. Devido à sua localização e reputação de discrição, o hotel era com frequência usado para reuniões de negócios demasiado confidenciais para decorrerem até mesmo nas instalações de um banco privado. Dizia-se que o próprio Hitler se alojara no St. Gotthard quando estivera em Munique para se encontrar com os seus banqueiros suíços.

Lange apanhou o elevador até ao quarto. Fechou as cortinas e passou um momento a alterar o mobiliário. Empurrou uma cadeira de braços para o centro do quarto, de frente para a porta, e em frente da cadeira colocou uma mesa de centro, baixa e circular. Sobre a mesa deixou dois objectos, uma lanterna eléctrica pequena mas poderosa e a Stechkin. Depois sentou-se e apagou a luz. A escuridão era completa. Bebericou um decepcionante vinho tinto que tirara do mini-bar enquanto aguardava a chegada do seu cliente. Como uma condição de emprego, recusava-se a lidar com intermediários ou correios. Se um homem queria os seus serviços tinha de ter a coragem suficiente para se apresentar em pessoa e mostrar o rosto. Lange insistia nisso não devido ao seu ego, mas para sua protecção. Os seus serviços eram tão dispendiosos que apenas homens muito ricos se podiam dar ao luxo de o contratar, homens especializados na arte da traição, homens que sabiam como fazer com que outros pagassem o preço dos seus pecados. Às 20h15, a hora exacta que Lange marcara, ouviu-se uma pancada na porta. Lange pegou na Stechkin com uma mão e na lanterna com a outra, e deu ao visitante autorização para entrar no quarto escuro. Quando a porta se voltou a fechar, ligou a lanterna. O feixe caiu sobre um homem baixo e bem vestido, no fim da casa dos sessenta, com uma franja de monge de cabelo de um cinzento aço. Lange conhecia-o: o general Carlo Casagrande, o antigo chefe dos carabinieri do contraterrorismo, agora guardião de todas as coisas secretas do Vaticano. Quantos dos antigos inimigos do general adorariam estar agora na posição de Lange - apontando uma arma carregada ao grande Casagrande, o assassino da Brigate Rossa, salvador da Itália. As Brigadas tinham tentado matá-lo, mas Casagrande vivera na clandestinidade durante a guerra, movendo-se de um bunker para outro, de aquartelamento para aquartelamento. Em vez disso, tinham massacrado a sua mulher e filha. O velho general nunca fora o mesmo depois disso, o que provavelmente explicava porque estava aqui agora, num escuro quarto de hotel em Zurique, contratando um assassino profissional.

- Isto parece um confessionário - disse Casagrande em italiano.

- É esse o objectivo - respondeu Lange na mesma língua. - Pode ajoelhar-se, se isso o faz sentir-se mais confortável.

- Acho que vou continuar de pé.

- Tem o ficheiro?

Casagrande ergueu a pasta de executivo. Lange levantou a Stechkin para o feixe de luz, de modo a que o homem do Vaticano a pudesse ver. Casagrande movia-se com a lentidão de um homem manuseando explosivos sensíveis. Abriu a pasta, retirou desta um grande envelope acastanhado, e colocou-o sobre a mesa de centro. Lange pegou neste com a mão em que tinha a arma e sacudiu o conteúdo sobre o colo. Um momento depois, ergueu o olhar.

- Estou desiludido. Estava à espera que viesse até aqui para me pedir para matar o papa.

- Tê-lo-ia feito, não teria? Teria assassinado o nosso papa.

- Ele não é o meu papa, mas a resposta à sua pergunta é sim, eu tê-lo-ia assassinado. E se me tivessem contratado para o fazer, em vez daquele turco maníaco, o polaco teria morrido naquela tarde em São Pedro.

- Então suponho que devo estar grato por a KGB não o ter contratado. Deus sabe que você fez suficientes trabalhos sujos para eles.

- A KGB? Não o acho, general, nem você. A KGB não gostava do polaco, mas também não eram suficientemente loucos para o matar. Nem você acredita que foi a KGB. Daquilo que ouvi, você acredita que a conspiração para matar o papa teve uma origem mais próxima de casa... do interior da própria Igreja. É por isso que os resultados da sua investigação foram mantidos secretos. A perspectiva de revelar a verdadeira identidade dos conspiradores era demasiado embaraçosa para todos os envolvidos. Também era conveniente manter o dedo da culpa sem fundamento apontado para leste, na direcção de Moscovo, os verdadeiros inimigos do Vaticano.

- Os dias em que nos dedicávamos a resolver as nossas diferenças assassinando papas terminaram na Idade Média.

- Por favor, general, tais afirmações estão abaixo de um homem com a sua experiência e inteligência. - Lange deixou cair o ficheiro sobre a mesa de centro. - As ligações entre este homem e o professor judeu são demasiado fortes. Não o farei. Procure outra pessoa.

- Não existe mais ninguém como você. E não tenho tempo para encontrar outro candidato adequado.

- Então vai-lhe sair caro.

- Quanto?

Uma pausa, e de seguida:

- Quinhentos mil, pagos adiantadamente.

- Isso é um pouco excessivo, não acha?

- Não, não acho.

Casagrande fingiu pensar, e de seguida, concordou.

- Depois de o matar, quero que reviste o seu escritório e remova qualquer material que o ligue ao professor ou ao livro. Também quero que me traga o seu computador. Traga os artigos de volta a Zurique e deixe-os no cofre da mesma conta depósito, onde deixou o material de Munique.

- Transportar o computador de um homem que se acabou de assassinar não é a coisa mais sensata que um assassino possa fazer.

Casagrande olhou para o tecto.

- Quanto?

- Mais cem mil.

- Feito.

- Quando souber que o dinheiro foi depositado na minha conta, mover-me-ei contra o alvo. Existe algum deadline?

- Ontem.

- Então devia ter vindo ter comigo há dois dias. Casagrande virou-se e saiu. Eric Lange desligou a lanterna e permaneceu sentado no escuro, acabando o vinho.

Casagrande caminhou pela Bahnhofstrasse, entrando num vento rodopiante que soprava do lago. Sentiu um enorme desejo de cair de joelhos num confessionário e descarregar os seus pecados num padre. Não o podia fazer. Segundo as regras do Instituto, apenas se podia confessar a um padre que fosse membro da irmandade. Devido à natureza sensível do trabalho de Casagrande, o seu confessor era o cardeal Marco Brindisi.

Chegou à Talstrasse, uma rua tranquila bordejada de edifícios de pedra cinzenta e modernos blocos de escritórios. Casagrande andou uma curta distância, até chegar junto a uma entrada vulgar. Na parede junto à entrada, encontrava-se uma placa de latão:

BECKER & PUHL

BANQUEIROS PRIVADOS

TALSTRASSE 20

Junto à placa, encontrava-se um botão que Casagrande premiu com o polegar. Ergueu o olhar para a câmara de segurança sobre a porta, depois desviou o olhar. Um momento depois, o trinco abriu-se e Casagrande entrou numa pequena antecâmara.

Herr Becker aguardava-o. Engomado, nervoso e muito calvo, Becker era conhecido pela sua absoluta discrição, até mesmo no mundo altamente reservado da Bahnhofstrasse. A troca de informação que decorreu a seguir foi rápida e, em grande parte, uma formalidade desnecessária. Casagrande e Becker conheciam-se bem e tinham feito muitos negócios ao longo dos anos, embora Becker não fizesse a mínima ideia de quem era Casagrande ou de onde provinha o seu dinheiro. Tal como habitualmente, Casagrande teve de se esforçar para ouvir a voz de Becker, pois esta mal se erguia acima de um murmúrio mesmo numa conversa normal. Enquanto o seguia ao longo do corredor até à sala do cofre, o bater dos sapatos Bally de Becker sobre o polido chão de mármore não emitia qualquer som.

Entraram numa sala sem janelas, despida de mobiliário excepto por uma mesa alta. Herr Becker deixou Casagrande sozinho, regressando um momento depois com uma caixa metálica de depósito.

- Deixe-a sobre a mesa quando tiver terminado - disse o banqueiro. - Estarei do outro lado da porta, se precisar de mais alguma coisa.

O banqueiro suíço saiu. Casagrande desabotoou o sobretudo e abriu o forro falso. Escondidos no seu interior, encontravam-se diversos molhos atados de notas, cortesia de Roberto Pucci. Um a um, o italiano colocou os molhos de dinheiro na caixa.

Quando Casagrande terminou, chamou Herr Becker. O pequeno banqueiro suíço acompanhou-o à saída e desejou-lhe uma boa noite. Ao regressar à Bahnhofstrasse, Casagrande apercebeu-se que recitava as palavras familiares e reconfortantes do Acto de Contrição.

 

Gabriel regressou a Veneza de manhã cedo. Deixou o Opel no parque de estacionamento junto à estação ferroviária e apanhou um táxi aquático para a igreja de San Zaccaria. Entrou nesta sem cumprimentar os outros membros da equipa, depois subiu o andaime e escondeu-se atrás da sua mortalha. Após uma ausência de três dias, eram estranhos um ao outro, Gabriel e a sua virgem, mas à medida que as horas passavam lentamente sentiam-se cada vez mais à vontade na presença um do outro. Como sempre, Ela cobriu-o com uma sensação de paz, e a concentração necessária ao seu trabalho afastou a investigação da morte de Benjamin para um recanto silencioso da sua mente.

Fez um intervalo para reabastecer a sua palete. Durante um momento, a sua mente deixou o Bellini e regressou a Brenzone. Depois de tomar o pequeno-almoço naquela manhã no hotel, caminhara até ao convento e tocara à campainha do portão da frente para chamar a madre Vicenza. Quando ela apareceu, Gabriel perguntou se podia falar com uma mulher chamada irmã Regina. O rosto da freira corou visivelmente, e ela explicou que não havia ninguém no convento com aquele nome. Quando Gabriel lhe perguntou se alguma vez houvera uma irmã Regina no convento, a madre Vicenza sacudiu a cabeça e sugeriu que o Signor Landau respeitasse a natureza enclausurada do convento e nunca mais voltasse. Sem proferir mais palavras, ela atravessou o pátio e desapareceu no interior do convento. Gabriel descobriu então Licio, o caseiro, aparando as vinhas numa latada. Quando o tentou chamar, o velho olhou para cima, depois afastou-se apressado através do jardim nas sombras. Nesse momento, Gabriel concluiu que fora Licio que o seguira através das ruas de Brenzone na noite anterior, e que for a Licio que fizera a chamada telefónica para o seu quarto de hotel. Era óbvio que o velho estava assustado. Gabriel decidiu que, pelo menos, por agora, nada faria para agravar a situação de Licio. Em vez disso, focar-se-ia no próprio convento. Se a madre Vincenza lhe estava a dizer a verdade - que judeus se tinham refugiado no convento durante a guerra -, então algures por ali devia existir um registo.

Regressando a Veneza, tinha a enervante impressão que estava a ser seguido por um Lancia cinzento. Em Verona, deixou a auto-estrada e entrou no antigo centro da cidade, onde executou uma série de manobras testadas em campo e destinadas a remover a vigilância. Em Pádua, fez o mesmo. Meia hora mais tarde, acelerando através da ponte na direcção de Veneza, estava bastante confiante que estava sozinho. Trabalhou no altar-mor durante toda a tarde, até ao princípio da noite. As sete horas, deixou a igreja e deambulou até ao escritório de Francesco Tiepolo em San Marco, e descobriu este sentado sozinho numa larga mesa de carvalho que usava como secretária, trabalhando num molhe de papéis. Tiepolo era um restaurador altamente especializado por direito próprio, mas há muito que colocara de lado os seus pincéis e paletes para concentrar a sua atenção no administrar do seu florescente negócio de restauração. Quando Gabriel entrou na sala, Tiepolo sorriu-lhe através da emaranhada barba preta. Nas ruas de Veneza, os turistas confundiam-no com frequência com Luciano Pavarotti.

Sobre uma taça de ripasso, Gabriel deu-lhe a notícia de que teria de deixar de novo Veneza durante alguns dias para tratar de um assunto pessoal. Tiepolo enterrou o enorme rosto nas mãos e proferiu uma fiada de imprecações em italiano, antes de erguer um olhar frustrado.

- Mário, dentro de seis semanas está prevista a reabertura ao público da venerável igreja de San Zaccaria. Se esta não reabrir dentro de seis semanas, restaurada à sua glória original, os superintendentes levar-me-ão às caves do Palácio dos Doges para uma extirpação ritual. Estou a ser claro, Mário? Se não terminares o Bellini, a minha reputação ficará arruinada.

- Estou perto, Francesco. Só preciso de tratar de alguns assuntos pessoais.

- Que tipo de assuntos?

- Uma morte na família.

- A sério?

- Não faças mais perguntas, Francesco.

- Faz o que tiveres de fazer, Mário. Mas deixa-me dizer-te isto. Se eu achar que o Bellini está em risco de não ser terminado a tempo, não tenho outra escolha para além de te retirar do projecto e de o entregar a António.

- António não está qualificado para restaurar aquele altar-mor, e tu sabes disso.

- Que mais posso fazer? Restaurá-lo eu mesmo? Não me deixas qualquer escolha.

A fúria de Tiepolo evaporou-se depressa, tal como acontecia habitualmente, e ele deitou mais ripasso na sua taça vazia. Gabriel ergueu o olhar para a parede atrás da secretária de Tiepolo. Entre as fotografias de igrejas e scuolas restauradas pela empresa de Tiepolo, encontrava-se uma imagem curiosa: o próprio Tiepolo, passeando pelos jardins do Vaticano, ao lado do papa Paulo VI!

- Tiveste uma audiência privada com o papa?

- Na verdade, não foi bem uma audiência. Foi mais informal que isso.

- Podes explicar-me?

Tiepolo olhou para baixo e vasculhou entre o monte de papelada. Não era preciso ser-se um interrogador experiente para concluir que tinha uma certa relutância em responder à pergunta de Gabriel. Por fim, disse:

- Não é algo de que fale com frequência, mas o Santo Padre e eu somos muito bons amigos.

- A sério?

- O Santo Padre e eu trabalhámos numa grande proximidade, aqui em Veneza, quando ele era o patriarca. Na verdade, ele é um pouco um historiador de arte. Oh, costumávamos ter as mais terríveis guerras. Agora, damo-nos muito bem. Vou até Roma para jantar com ele pelo menos uma vez por mês. Insiste em ser ele mesmo a cozinhar. A sua especialidade é atum e esparguete, mas põe-lhe tanta pimenta vermelha que passamos o resto da noite a suar. É um guerreiro, aquele homem! Um gastrónomo sádico.

Gabriel sorriu e levantou-se.

- Não me vais deixar mal, pois não, Mário? - perguntou Tiepolo.

- A um amigo de ilpapá? Claro que não. Ciao, Francesco. Vejo-te dentro de alguns dias.

Um ar de abandono pendia sobre o velho ghetto - não havia crianças a brincar no campo, nem homens velhos sentados no café, e dos altos edifícios de apartamentos não vinham nenhuns sinais de vida. Nalgumas janelas, Gabriel viu luzes a brilhar, e durante um instante fugaz sentiu o odor a carne e cebola fritando em azeite, mas durante grande parte do tempo imaginou-se como um homem regressando a uma cidade fantasma, um local onde as casas e as lojas permaneciam mas os habitantes tinham há muito desaparecido.

A padaria onde se encontrara com Shamron estava fechada. Avançou alguns passos até ao n° 2899. Uma pequena tabuleta sobre a porta dizia comunità ebraica di venezia. Gabriel tocou à campainha, e um momento mais tarde chegou-lhe a voz de uma mulher pelo intercomunicador invisível.

- Sim, posso ajudá-lo?

- Chamo-me Mário Delvecchio. Tenho um encontro com o rabino.

- Só um minuto, por favor.

Gabriel virou-se de costas para a porta e observou a praça. O minuto transformou-se em dois, depois em três. Era a guerra nos territórios. Fazia com que toda a gente ficasse enervada. A segurança fora reforçada em todos os bairros judaicos, por toda a Europa. Até agora, Veneza tinha sido poupada, mas em Roma e em cidades por toda a França e Áustria, as sinagogas e os cemitérios tinham sido vandalizados e judeus atacados nas ruas. Os jornais chamavam-lhe a pior onda de anti-semitismo público a varrer o continente desde a Segunda Guerra Mundial. Em alturas como estas, Gabriel desprezava o facto de ter de ocultar a sua religião.

Soou por fim uma campainha, seguida pelo clique de um trinco automático que abriu a porta. Empurrou-a e encontrou-se numa passagem escurecida. No fim desta, encontrava-se outra porta. Enquanto Gabriel se aproximava, também esta se destrancou.

Entrou num gabinete pequeno e cheio. Devido ao ar de declínio que pairava sobre o ghetto, preparara-se para uma versão italiana de Frau Ratzinger - uma formidável mulher velha envolta no manto negro da viuvez. Em vez disso, e para sua grande surpresa, foi saudado por uma mulher alta e atraente com cerca de trinta anos. Tinha cabelo escuro e encaracolado, que brilhava com reflexos castanhos e arruivados. Mal contido por um gancho na nuca, derramava-se rebeldemente sobre um par de ombros atléticos. Os seus olhos eram da cor de caramelo e salpicados de dourado. Os lábios pareciam estar a tentar esconder um sorriso. Ela parecia extremamente consciente do efeito que a sua aparência estava a ter sobre ele.

- O rabino está na sinagoga para o Ma'ariv NT. Pediu-me para lhe fazer companhia até ele chegar. Chamo-me Chiara. Acabei de fazer café. É servido?

- Obrigado.

Ela serviu um café de uma chaleira espresso colocada sobre o fogão, deitou-lhe açúcar sem perguntar se ele o queria, e entregou a chávena a Gabriel. Quando ele pegou na chávena, Chiara reparou nas manchas de tinta nos seus dedos. Dirigira-se de imediato ao ghetto depois de sair do escritório de Tiepolo e não tivera tempo de se lavar devidamente.

- É pintor?

- Na verdade, sou restaurador.

- Que fascinante. Onde está a trabalhar?

- No projecto San Zaccaria. Ela sorriu.

- Ah, uma das minhas igrejas preferidas. Que quadro? Não o Bellini?

Gabriel anuiu.

- Você deve ser muito bom.

- Podemos dizer que Bellini e eu somos velhos amigos - disse Gabriel com modéstia. - Quantas pessoas aparecem para o Ma'ariv?

- Normalmente, alguns dos homens mais velhos. Por vezes mais, por vezes menos. Nalgumas noites, o rabino está sozinho na sinagoga. Ele acredita firmemente que no dia em que deixar de dizer as orações da noite esta comunidade desaparecerá.

Nessa altura, o rabino entrou na sala. De novo, Gabriel ficou surpreendido pela sua relativa juventude. Era poucos anos mais velho que

 

NT Um dos três serviços de adoração da liturgia judaica, e que são o Shacharit (manhã), Minchah (tarde) e Ma'ariv (noite).

 

Gabriel, vibrante e em boa forma, com uma crina de cabelo prateado sob o chapéu de abas preto, e uma barba aparada. Sacudiu a mão de Gabriel e avaliou-o através de um par de óculos de armações metálicas.

- Sou o rabino Zolli. Espero que a minha filha tenha sido uma anfitriã atenciosa durante a minha ausência. Receio que ela tenha passado demasiado tempo em Israel durante os últimos anos e tenha perdido os seus bons modos em resultado disso.

- Ela foi muito amável, mas não disse que era sua filha.

- Está a ver? Sempre a pregar partidas. - O rabino virou-se para a rapariga. - Agora vai para casa, Chiara. Fica com a tua mãe. Não demoramos. Venha, Signor Delvecchio. Acho que considerará o meu gabinete mais confortável.

A mulher vestiu o casaco e olhou para Gabriel.

- Estou muito interessada em restauração de arte. Adoraria ver o Bellini. Não se importaria que eu passasse por lá um dia para ver o seu trabalho?

- Lá está ela de novo - disse o rabino. - Tão directa, tão brusca. Já não tem maneiras.

- Ficaria feliz por lhe poder mostrar o altar-mor. Telefonar-lhe-ei quando for conveniente.

- Pode ligar-me para aqui em qualquer altura. Ciao.

O rabino Zolli escoltou Gabriel para um gabinete forrado por estantes curvadas pelo peso. A sua colecção de livros judaicos era impressionante, e a estonteante exibição de línguas representadas nos títulos sugeriam que, tal como Gabriel, ele era um poliglota. Sentaram-se num par de cadeiras de braços diferentes e o rabino retomou a conversa onde esta fora interrompida.

- A sua mensagem dizia que estava interessado em discutir os judeus que se refugiaram durante a guerra no Convento do Sagrado Coração em Brenzone.

- Sim, é verdade.

- Acho interessante que coloque a sua questão desse modo.

- Porquê?

- Porque dediquei a minha vida a estudar e a preservar a história dos judeus nesta região de Itália, e nunca vi qualquer prova que sugerisse que fora fornecido santuário aos judeus nesse convento em particular. De facto, as provas sugerem que ocorreu exactamente o contrário... que judeus procuraram aí refúgio e que este lhes foi negado.

- Tem a certeza absoluta?

- Tanta certeza quanta se pode ter numa situação como esta.

- Uma freira do convento disse-me que uma dúzia, ou perto disso, de judeus estiveram refugiados no convento durante a guerra. Até me mostrou os quartos na cave onde eles se esconderam.

- E qual é o nome dessa boa mulher?

- Madre Vincenza.

- Receio que a madre Vincenza esteja tristemente errada. Ou, pior, que o esteja deliberadamente a enganar, embora eu hesitasse em fazer uma tal acusação contra uma mulher de fé.

Gabriel pensou na chamada de fim de noite para o seu quarto de hotel em Brenzone: A madre Vicensa está a mentir-lhe, tal como mentiu ao seu amigo.

O rabino inclinou-se para a frente e pousou a mão no antebraço de Gabriel.

- Diga-me, Signor Delvecchio. Qual o seu interesse neste assunto? É académico?

- Não, é pessoal.

- Então importa-se que eu lhe faça uma pergunta pessoal? É judeu?

Gabriel hesitou, depois respondeu com a verdade à pergunta.

- O que sabe acerca do que aconteceu aos judeus daqui durante a guerra? - perguntou o rabino.

- Envergonho-me de dizer que os meus conhecimentos não são o que deveriam ser, rabino Zolli.

- Acredite, estou habituado a isso. - Sorriu meigamente. - Venha comigo. Há algo que deve ver.

Atravessaram a praça escurecida e detiveram-se perante aquilo que parecia um vulgar edifício de apartamentos. Através de uma veneziana aberta, Gabriel conseguia ver uma mulher a preparar a refeição da noite numa cozinha pequena, institucional. Na sala vizinha, três mulheres velhas aninhavam-se junto de uma televisão tremeluzente. Depois ele reparou no letreiro sobre a porta: casa israelitica di riposo. O edifício era um lar para judeus.

- Leia a placa - disse o rabino, acendendo um fósforo. Era um memorial aos judeus venezianos presos pelos alemães e deportados durante a guerra. O rabino apagou o fósforo com uma sacudidela e olhou através da janela para os judeus idosos.

- Em Setembro de 1943, não muito depois do colapso do regime de Mussolini, o Exército alemão ocupou toda a península italiana, para além da região mais meridional. Em poucos dias, o presidente da comunidade judaica em Veneza recebeu uma ordem das SS: entregar uma lista de todos os judeus que ainda viviam em Veneza, ou enfrentar as consequências.

- O que é que ele fez?

- Suicidou-se em vez de cumprir a ordem. Ao fazê-lo, alertou a comunidade para o facto do tempo estar a escassear. Centenas fugiram da cidade. Muitos refugiaram-se em conventos e mosteiros por todo o norte, ou nos lares de italianos vulgares. Alguns tentaram atravessar a fronteira para a Suíça, mas foi-lhes recusada a entrada.

- Mas nenhum se refugiou em Brenzone?

- Não tenho quaisquer provas que sugiram que a qualquer judeu de Veneza, ou de qualquer outro lado, tenha sido dado santuário no Convento do Sagrado Coração. De facto, os nossos arquivos contêm testemunhos escritos acerca de uma família desta comunidade que pediu santuário em Brenzone e que este lhe foi recusado.

- Quem ficou para trás em Veneza?

- Os mais idosos. Os doentes. Os pobres que não tinham meios para viajar ou pagar subornos. Na noite de cinco de Dezembro, a Polícia italiana e os bandos fascistas entraram no ghetto em nome dos alemães. Cento e sessenta e três judeus foram presos. Aqui, na Casa di Riposo, arrancaram os idosos das suas camas e carregaram-nos num camião. Foram primeiro enviados para um campo de internamento em Fossoli. Depois, em Fevereiro, foram transferidos para Auschwitz. Não houve sobreviventes.

O rabino pegou em Gabriel pelo cotovelo e juntos caminharam lentamente pela extremidade da praça.

- Os judeus de Roma tinham sido reunidos dois meses antes. Às cinco e meia da manhã de 16 de Outubro, mais de trezentos alemães irromperam pelo ghetto numa enxurrada; a Polícia de Campo das SS em conjunto com a unidade Comando da Morte da Waffen SS. Foram de casa em casa, arrastando judeus das suas camas e metendo-os em camiões do Exército. Levaram-nos para uma instalação temporária de detenção nos aquartelamentos do Collegio Militare, a cerca de meio quilómetro do Vaticano. Apesar da horrível natureza do trabalho naquela noite, alguns SS quiseram ver a cúpula da grande basílica, e por isso o comboio alterou o seu percurso. Ao passarem pela Praça de São Pedro, os judeus aterrorizados nas traseiras dos camiões rogaram ao papa que os salvasse. Todas as provas sugerem que ele sabia perfeitamente o que estava a acontecer no ghetto naquela manhã. Aliás, era mesmo debaixo das suas janelas. Não levantou um dedo para interferir.

- Quantos?

- Mais de mil naquela noite. Dois dias após a rusga, os judeus de Roma foram enfiados nos vagões ferroviários na estação de Tiburtina para a viagem para leste. Cinco dias depois, mil e sessenta almas morreram nas câmaras de gás em Auschwitz e Birkenau.

- Mas muitos sobreviveram, não é verdade?

- Na verdade, quatro quintos dos judeus italianos sobreviveram à guerra, o que é notável. Assim que os alemães ocuparam Itália, milhares procuraram de imediato e foi-lhes dado abrigo em conventos e mosteiros, bem como em hospitais e escolas católicas. A milhares foi concedido abrigo por italianos vulgares. Adolf Eichmann testemunhou no seu julgamento que cada judeu italiano que sobreviveu à guerra devia a sua vida a um italiano.

- Foi devido a uma ordem do Vaticano? Estava a madre Vicenza a dizer-me a verdade a respeito da directiva papal?

- Isso é o que a Igreja quer que nós acreditemos, mas receio que não existam provas que sugiram que o Vaticano tenha emitido instruções às instituições da Igreja para oferecer refúgio e conforto a judeus fugindo da rusga. De facto, existem provas que sugerem que o Vaticano não emitiu tal ordem.

- Que tipo de prova?

- Existem numerosos exemplos de judeus que procuraram abrigo em propriedades da Igreja e que lhes foi recusado. A outros foi-lhes dito para se converterem ao Catolicismo para poderem ficar. Se o papa tivesse emitido uma tal directriz para abrir as portas aos judeus, nenhuma freira ou monge se teriam atrevido a desobedecer-lhe. Os católicos italianos que salvaram judeus fizeram-no por bondade e compaixão, não porque estavam a agir segundo as ordens do Supremo Pontífice. Se tivessem esperado por uma directriz papal para agirem, receio que muitos mais judeus italianos tivessem morrido em Auschwitz e Birkenau. Não houve tal directriz. Na verdade, apesar de repetidos apelos dos aliados e líderes judaicos de todo o mundo, o papa Pio nunca teve ânimo suficiente para falar contra o assassínio em massa dos judeus europeus.

- Porque não? Porque é que ele permaneceu em silêncio? O rabino ergueu as mãos num gesto impotente.

- Ele afirmava que como a Igreja é universal, não poderia ser colocado numa posição em que escolhesse lados, mesmo contra uma força tão maléfica como a da Alemanha nazi. Se ele condenasse as atrocidades de Hitler, disse Pio, também estaria a condenar quaisquer atrocidades cometidas pelos aliados. Afirmava que se falasse, ainda agravaria mais as coisas para os judeus, embora seja difícil imaginar o que poderia ser pior que o assassínio de seis milhões. Também se via a si mesmo como um homem de Estado e um diplomata, um actor nos assuntos europeus. Queria representar um papel num acordo negociado que preservaria uma Alemanha forte e anticomunista no coração da Europa. Eu também tenho as minhas próprias teorias.

- Quais são?

- Apesar das declarações públicas de amor pelo povo judeu, receio que Sua Santidade não se importasse muito connosco. Lembre -se, ele fora criado numa Igreja Católica que pregava o anti-semitismo como uma matéria de doutrina. Igualava os judeus ao Bolchevismo, e absorveu todos os antigos ódios que afirmam que os judeus apenas estão interessados nas coisas materiais. Durante os anos trinta, enquanto era secretário de Estado, os jornais oficiais do Vaticano estavam cheios do mesmo tipo de sujeiras anti-semitas que se podiam ler no DerSturmer. Um artigo do jornal do Vaticano Lm Civiltà Cattolica discutia na verdade a possibilidade de se eliminar os judeus através da aniquilação. Na minha opinião, Pio provavelmente sentia que os judeus estavam a ter exactamente aquilo que mereciam. Porque é que ele se arriscaria e, ainda mais importante, porque é que a sua Igreja se arriscaria por um povo que ele acreditava ser culpado do maior crime da História, o assassínio de Deus?

- Então porque é que tantos judeus agradeceram ao papa depois da guerra?

- Os judeus que ficaram em Itália estavam mais interessados em entenderem-se com os cristãos do que em colocarem questões desconfortáveis acerca do passado. Em 1945, evitar outro Holocausto era mais importante do que ficar a saber-se a verdade. Para os remanescentes despedaçados da comunidade, era simplesmente uma questão de sobrevivência.

Gabriel e o rabino Zolli regressaram ao ponto de partida, a Casa Israelitica di Riposo, e mais uma vez ficaram de pé, lado a lado, a olhar pela janela para os judeus idosos sentados perante a televisão.

- O que é que Cristo disse? «O que quer que fazeis ao menor dos meus irmãos...»? Olhe agora para nós: a mais antiga e permanente comunidade judaica da Europa, reduzida a isto. Poucas famílias, algumas pessoas velhas demasiado doentes, demasiado perto da morte, para poderem alguma vez partir. Na maior parte das noites, digo o Maariv sozinho. Mesmo no Shabbat, temos apenas um punhado que se dá ao trabalho de assistir. A maior parte são visitantes que vêm a Veneza.

Virou-se e olhou atentamente para o rosto de Gabriel, como se conseguisse ver os vestígios indicadores de uma infância passada num colonato agrícola no vale de Jezreel.

- Qual é o seu interesse nesta questão, Signor Delvecchio? E antes de responder à pergunta, por favor tente lembrar-se que está a falar com um rabino.

- Receio que isso recaia na categoria de questões desconfortáveis que são melhores se não forem colocadas.

- Temi que pudesse dizer isso. Lembre-se apenas de uma coisa. As memórias são longas nesta região do mundo, e as coisas não estão assim tão boas de momento. A guerra, os bombistas suicidas... Pode não ser o melhor remexer num ninho de vespas. Por isso, ande cuidadosamente, meu amigo. Por nós.

 

L'Eau Vive era um dos poucos lugares em Roma onde Carlo Casagrande se sentia à vontade sem um guarda-costas. localizado na estreita Via Monterone, perto do Panteão, a sua entrada era apenas assinalada por um par de sibilantes candeeiros a gás. Ao entrar, Casagrande foi de imediato confrontado com uma enorme estátua da Virgem Maria. Uma mulher saudou-o calorosamente pelo nome e levou-lhe o sobretudo e o chapéu. Tinha a pele cor de café e usava um vestido de cor viva da sua nativa Costa do Marfim. Tal como todas as empregadas da L'Eau Vive, era membro das Trabalhadoras Missionárias da Imaculada Concepção, um grupo laico de mulheres ligadas às Carmelitas. A maior parte vinha da Ásia e de África.

- O seu convidado chegou, Signor Casagrande. - O seu italiano tinha um sotaque pesado, mas era fluente. - Siga-me, por favor.

A humilde entrada sugeria uma câmara romana escura e apertada com um punhado de mesas, mas a sala para a qual Casagrande foi conduzido era ampla e aberta, com alegres paredes brancas e um tecto alto de vigas abertas. Como era habitual, todos os lugares estavam cheios, embora ao contrário de outros restaurantes em Roma, a clientela fosse toda masculina e quase exclusivamente do Vaticano. Casagrande detectou quatro cardeais. Muitos dos outros clérigos pareciam-se com padres vulgares, mas o olhar treinado de Casagrande descortinou com facilidade as correntes douradas que assinalavam os bispos e o púrpura forte que revelava os monsignori. Além disso, nenhum simples padre poderia dar-se ao luxo de comer no L'Eau Vive, a não ser que estivesse a receber apoio de um familiar bem-sucedido na vida. Até o modesto salário que Casagrande recebia do Vaticano era esticado ao máximo se houvesse uma refeição no L'Eau Vive. No entanto, naquela noite tratava-se de negócios, e o custo seria coberto pela sua generosa conta de despesas operacionais.

As conversas caíram virtualmente no silêncio quando Casagrande se dirigiu à sua habitual mesa de canto. O motivo era simples. Parte do seu trabalho era reforçar o estrito código de silêncio do Vaticano. L'Eau Vive, apesar da sua reputação de discrição, era também o ninho dos mexericos da Cúria. Sabia-se que jornalistas empreendedores tinham vestido sotainas e reservado mesas no L'Eau Vive para tentarem apanhar pedaços saborosos de escândalos do Vaticano.

Achille Bartoletti levantou-se quando Casagrande se aproximou. Era vinte anos mais novo do que Casagrande, no auge do seu poder pessoal e profissional. O seu fato era conservador e cuidadosamente engomado, o rosto bronzeado e em boa forma, o aperto de mão firme e adequado na sua duração. O seu cabelo tinha apenas o cinzento suficiente para o fazer parecer sério, mas não demasiado velho. A boca apertada e as filas de dentes pequenos e desnivelados sugeriam um esgar cruel, que Casagrande sabia não estar muito longe da verdade. Na verdade, havia pouco que o chefe de segurança do Vaticano não soubesse a respeito de Achille Bartoletti. Era um homem que dedicara todos os movimentos ao progresso da sua carreira. Mantivera a boca fechada, evitara controvérsias, ficara com o crédito pertencente a outros e distanciara-se das suas falhas. Se tivesse sido um padre da Cúria em vez de um polícia secreto, teria provavelmente chegado a papa por esta altura. Em vez disso, graças em grande medida ao generoso patrocínio do seu mentor, Carlo Casagrande, Achille Bartoletti era director do Servizioper le Informazioni e la Sicuresga Democrática, os Serviços Secretos e de Segurança Democrática de Itália.

Quando Casagrande se sentou, a conversa nas mesas que os rodeavam prosseguiu cuidadosamente.

- Faz sempre cada entrada, general.

- Deus sabe de que estavam a falar quando entrei. Mas pode ficar descansado que agora a conversa será menos estimulante.

- Há muito vermelho nesta sala esta noite.

- São com esses que me preocupo mais, os prelados da Cúria que passam os dias rodeados de padres suplicantes que nada dizem para além de «Sim, Excelência. Claro, Excelência. O que quiser, Excelência.»

O chefe de segurança tomara a liberdade de pedir a primeira garrafa de vinho. Serviu uma taça a Casagrande. A comida na L'Eau Vive era francesa, tal como a lista de vinhos. Bartoletti escolhera um excelente Médoc.

- É minha imaginação, general, ou os nativos parecem mais inquietos do que é habitual?

«É assim tão óbvio?», pensou Casagrande. Suficientemente óbvio para que um estranho como Bartoletti conseguisse detectar a faísca eléctrica de instabilidade no ar de L'Eau Vive? Decidiu que qualquer tentativa para evitar a questão seria transparentemente enganadora, e desse modo uma violação às regras subtis da sua relação.

- É aquela altura incerta de um novo papado - disse Casagrande, com um tom de neutralidade judicial na voz. - O anel do pescador foi beijado e a homenagem paga. Por tradição, ele prometeu prosseguir com a missão do seu antecessor, mas as memórias do polaco estão a desvanecer-se demasiado depressa. Lucchesi redecorou os aposentos papais no terço piano NT. Os nativos, como lhes chama, estão a perguntar-se o que se seguirá.

- O que é que se vai seguir?

- O Santo Padre não me divulgou os seus planos para a Igreja, Achille.

- Sim, mas você tem fontes irrepreensíveis.

- Posso dizer-lhe isto. Ele isolou-se dos mandarins da Cúria e ro-deou-se de homens de confiança de Veneza. Os mandarins da Cúria chamam-lhes o Conselho dos Dez. Os rumores espalham-se.

- Que tipo de rumores?

- Que ele está prestes a lançar um programa de desestalinização para reduzir a influência póstuma do polaco. Esperam-se grandes alterações de pessoal no Secretariado de Estado e na Congregação para a Doutrina da Fé... e isso é apenas o início.

«Também vai tornar públicos os mais escuros segredos dos Arquivos do Vaticano», pensou Casagrande, embora não partilhasse isso com Achille Bartoletti.

O chefe de segurança italiano inclinou-se para a frente, ansioso por mais.

 

(1) Terceiro piso.

 

- Ele não vai prosseguir com os assuntos escaldantes da Santíssima Trindade, pois não? Controlo de nascimento? Celibato? Mulheres na Igreja?

Casagrande sacudiu a cabeça com gravidade.

- Não se atreveria. Isso seria tão controverso que a Cúria se revoltaria e o seu papado estaria condenado. Relevância é a palavra de ordem no Palácio Apostólico. O Santo Padre quer que a Igreja seja relevante na vida de mil milhões de católicos por todo o mundo, muitos dos quais não podem comer todos os dias. A velha guarda nunca se interessou pela relevância. Para eles, a palavra «relevância» soa a glasnost ou a perestroika, e isso torna-os nervosos. A velha guarda gosta de obediência. Se o Santo Padre for demasiado longe, será o diabo dos trabalhos para os calar.

- Falai do diabo.

A sala voltou a ficar silenciosa. Desta vez, Casagrande não era o culpado. Erguendo o olhar, viu o cardeal Brindisi a dirigir-se a uma das salas privadas nas traseiras do restaurante. Os seus olhos azul pálido mal pareciam reconhecer as saudações murmuradas pelos funcionários menores da Cúria sentados à sua volta, mas Casagrande sabia que a memória sem falhas do cardeal Brindisi registara devidamente a presença de cada um.

Casagrande e Bartoletti não tinham perdido tempo a fazerem o seu pedido. Bartoletti estudou a ementa como se esta fosse o relatório de um agente de confiança. Casagrande escolheu a primeira coisa que viu que lhe parecia remotamente interessante. Durante as duas horas que se seguiram, sobre porções sumptuosas de comida e judiciosas quantidades de vinho, trocaram mexericos, rumores e informações secretas. Era um ritual mensal, um dos enormes dividendos da mudança de Casagrande para o Vaticano há vinte anos. Tão alta era a sua posição em Roma após esmagar as Brigadas Vermelhas que a sua palavra era como o Evangelho no interior do governo italiano. O que Casagrande quer, Casagrande obtém. Os órgãos de segurança do Estado italiano eram agora braços virtuais do Vaticano, e Achille Bartoletti era um dos seus projectos mais importantes. As pepitas de ouro das intrigas do Vaticano que Casagrande lhe lançava eram como ouro puro. Eram com frequência usadas para impressionar e entreter os seus superiores, tal como as audiências privadas com o papa e os bilhetes para a fila da frente na Missa do Galo em São Pedro.

Mas Casagrande oferecia mais do que apenas os mexericos da Cúria. O Vaticano possuía um dos maiores e mais eficazes serviços secretos do mundo. Com frequência, Casagrande apanhava coisas que escapavam à atenção de Bartoletti e do seu serviço. Por exemplo, fora Casagrande que soubera que, em Florença, uma rede de terroristas tunisinos estava a planear atacar turistas americanos durante o feriado pascal. A informação fora transmitida a Bartoletti, e um alerta fora de imediato emitido. Nenhum americano sofrera sequer um arranhão, e Bartoletti ganhou amigos poderosos na CIA e até na Casa Branca.

Por fim, durante o café, Casagrande dirigiu a conversa para o tema que mais lhe interessava - o israelita chamado Ehud Landau que fora a Munique afirmando ser o irmão de Benjamin Stern. O israelita que também visitara o Convento do Sagrado Coração em Brenzone, e que conseguira sacudir a vigilância dos homens de Casagrande como se estivesse a sacudir migalhas da toalha de mesa branca no L'Eau Vive.

- Tenho um problema grave, Achille, e preciso da sua ajuda. Bartoletti reparou no tom sombrio de Casagrande e voltou a

pousar a chávena de café no pires. Se não fosse pelo apoio de Casagrande, Bartoletti ainda estaria num nível intermédio dentro do aparelho, em vez de ser o director dos Serviços Secretos italianos. Não poderia, de forma alguma, recusar um pedido de Casagrande. Apesar disso, Casagrande abordou o assunto com delicadeza e respeito. A última coisa que queria era embaraçar o seu protegido mais importante com pedidos estúpidos que comprometessem a relação entre os dois.

- Sabe que pode contar com o meu apoio e lealdade, general - disse Bartoletti. - Se você ou o Vaticano estiverem nalguma espécie de sarilho, farei tudo que puder para ajudar.

Casagrande enfiou a mão no bolso do peito do casaco e tirou deste uma fotografia, que colocou sobre a mesa e virou para que Bartoletti a pudesse ver devidamente. Bartoletti pegou na fotografia e segurou-a perto de uma vela para a ver melhor.

- Quem é?

- Não temos a certeza. É conhecido pelo nome de Ehud Landau, em certas ocasiões.

- Ehud? Israelita? Casagrande anuiu.

- Qual é o problema? - perguntou Bartoletti, os olhos ainda pousados na fotografia.

- Acreditamos que ele está a tentar assassinar o papa. Bartoletti olhou para cima subitamente.

- Um assassino?

Casagrande voltou a anuir com lentidão.

- Vimo-lo algumas vezes em São Pedro, agindo estranhamente durante as audiências gerais de quartas-feiras. Também esteve presente de outras vezes que o papa apareceu em público, tanto em Itália como no estrangeiro. Acreditamos que assistiu a uma missa papal ao ar livre em Madrid no passado mês com a intenção de matar o Santo Padre.

Bartoletti ergueu a fotografia entre dois dedos e virou-a de forma que a imagem ficasse de frente para Casagrande.

- Onde obteve isto?

Casagrande explicou que um dos seus homens detectara o assassino na Basílica na semana anterior, e tirara a fotografia na praça. Claro que era mentira. A fotografia fora tirada por Axel Weiss em Munique, mas Achille Bartoletti não precisava de saber isso.

- Recebemos diversas cartas de ameaça durante as últimas semanas, cartas que cremos terem sido escritas por este homem. Acreditamos que ele constitui uma ameaça séria à vida do Santo Padre. Obviamente, gostaríamos de o encontrar antes dele ter oportunidade de realizar as suas ameaças.

- Criarei um grupo operacional logo pela manhã - disse Bartoletti.

- Em segredo, Achille. A última coisa que este papa quer é uma ameaça pública de assassinato no início do seu papado.

- Pode ficar descansado que a caça a este homem será conduzida tão em segredo que poderá parecer que é você que a está a comandar.

Casagrande baixou a cabeça, reconhecendo o elogio do seu jovem protegido. Com um virar quase imperceptível do pulso, pediu a conta. Nessa altura, a anfitriã que saudara Casagrande ao princípio da noite avançou até ao centro da sala com um microfone na mão. Inclinando a cabeça, fechou os olhos e recitou uma oração rápida. Depois as empregadas de mesa reuniram-se à volta da estátua da Virgem e, de mãos postas, começaram a cantar «Maria Imaculada». Passado pouco tempo, juntou-se-lhes todo o restaurante. Até Bartoletti, o duro polícia dos serviços secretos, cantava.

Passado um momento, a música desvaneceu-se, e os cardeais e bispos retomaram as suas conversas, ruborizados pelo hino espiritual e pelo bom vinho. Quando a conta chegou, Casagrande pegou nela antes que o seu convidado tivesse essa oportunidade. Bartoletti emitiu um fraco protesto.

- Se a memória não me falha, este mês era a minha vez, general.

- Talvez, Achille, mas a nossa conversa tem sido especialmente frutuosa esta noite. Esta é por conta do Santo Padre.

- Os meus agradecimentos ao Santo Padre. - Bartoletti ergueu a fotografia do assassino papal. - E pode ficar descansado que se este homem estiver a menos de cem quilómetros dele, será preso.

Casagrande fixou um olhar melancólico no seu convidado.

- Na verdade, Achille, eu preferiria que ele não fosse preso. Bartoletti franziu a testa, pensativo.

- Não compreendo, general. Que me está a pedir para fazer? Casagrande inclinou-se sobre a mesa, o rosto perto da chama da

vela.

- Seria melhor para todos os envolvidos se ele simplesmente desaparecesse.

Achille Bartoletti enfiou a fotografia no bolso.

 

A segurança do ambiguamente chamado Gabinete de Reclamações e Investigações do Tempo da Guerra sempre fora estrita, muito antes da guerra nos territórios. Localizado num velho edifício de apartamentos no antigo Bairro Judeu de Viena, a sua porta não possuía virtualmente quaisquer marcas e era pesadamente fortificada, e as janelas que se abriam sobre um pobre pátio interior eram à prova de bala. O director executivo da organização, um homem chamado Eli Lavon, não era paranóico, apenas prudente. Com o passar dos anos, ajudara a encontrar o rasto a meia dúzia de antigos guardas de campos de concentração e um oficial superior nazi que vivia confortavelmente na Argentina. Pelos seus esforços, fora recompensado com um constante fluir de ameaças de morte.

Que ele era judeu era um dado adquirido. Que era de origem israelita presumia-se pelo seu apelido não germânico. Que trabalhara durante algum tempo para os serviços secretos israelitas não era do conhecimento de ninguém em Viena e apenas o sabia um punhado de pessoas em Telavive, a maioria das quais há muito reformada. Durante a operação Ira de Deus, Lavon tinha sido um ajin, um batedor. Perseguira membros do Setembro Negro, aprendera os seus hábitos, e inventara maneiras de os matar.

Sob circunstâncias normais, ninguém era admitido nos escritórios das Reclamações do Tempo da Guerra, sem uma reunião há muito agendada e uma meticulosa verificação do seu passado. Para Gabriel, todas as formalidades foram postas de lado e este foi directamente escoltado ao gabinete de Lavon por uma jovem investigadora.

A sala era estilo vienense clássico nas suas proporções e mobiliário: um tecto alto, chão de madeira polida, estantes inclinadas sob o peso de inúmeros livros e ficheiros. Lavon estava ajoelhado no chão, as costas dobradas sobre uma fila de documentos envelhecidos. Era arqueólogo de formação e passara anos a escavar na Margem Ocidental, antes de se dedicar totalmente à sua actual linha de trabalho. Nesse momento, olhava para uma folha de papel esfarrapado com o mesmo maravilhamento que sentia quando olhava para um fragmento de cerâmica com cinco mil anos.

Ergueu o olhar quando Gabriel entrou na sala e saudou-o com um sorriso malicioso. Lavon não se preocupava nada com a sua aparência, e como sempre parecia estar vestido com aquilo que estivera mais à mão quando saíra da cama: calças de bombazina cinzenta e uma camisola de decote em V com cotovelos puídos. O cabelo grisalho e despenteado dava-lhe a aparência de um homem que acabara de conduzir um descapotável a alta velocidade. Lavon não possuía carro e não fazia quase nada com rapidez. Apesar da sua preocupação com a segurança, era um utente cumpridor dos eléctricos de Viena. Os transportes públicos não o incomodavam. Tal como os homens que caçava, Lavon era perito na arte de se mover através das ruas das cidades sem ser visto.

- Deixa-me adivinhar - disse Lavon, deixando cair o cigarro numa chávena de café e esforçando-se por se levantar, como um homem sofrendo de dores crónicas. - Shamron chamou-te para investigares a morte de Beni. E agora estás aqui, o que significa que descobriste algo de interessante.

- Algo assim.

- Senta-te - disse Lavon. - Conta-me tudo.

Estiraçado no sofá verde demasiado estofado de Lavon, pés pousados sobre um dos braços, Gabriel fez-lhe um relatório cuidadoso da investigação, começando com a sua visita a Munique e terminando com a reunião com o rabino Zolli, no ghetto de Veneza. Lavon andava de um lado para o outro por toda a extensão da sala, arrastando o fumo do cigarro como um comboio a vapor. A princípio, movia-se lentamente, mas enquanto a história de Gabriel se desenrolava, a sua passada aumentava de velocidade. Quando terminou, Lavon parou de andar e sacudiu a cabeça.

- Santo Deus, tens estado mesmo ocupado.

- O que significa tudo isto, Eli?

- Voltemos à chamada telefónica que recebeste no hotel em Brenzone. Quem achas que era?

- Se tivesse de adivinhar, diria que foi o caseiro do convento, um tipo velho chamado Licio. Ele entrou na sala quando a madre Vicenza e eu estávamos a conversar, e acho que me seguiu através da cidade depois de eu ter saído.

- Pergunto-me porque é que ele deixou uma mensagem anónima em vez de falar contigo.

- Talvez estivesse assustado.

- Essa seria a explicação lógica. - Lavon enfiou as mãos nos bolsos e olhou para o tecto alto. - Tens a certeza a respeito do nome que ele te disse? Tens a certeza que era Martin Luther?

- Foi isso mesmo. «Encontre a irmã Regina e Martin Luther. Então saberá a verdade sobre o que aconteceu no convento.»

Inconscientemente, Lavon alisou o cabelo rebelde. Era um hábito quando estava a pensar.

- Existem duas possibilidades que me vêm à mente. Suponho que possamos pôr de parte um certo monge alemão que deu uma reviravolta na Igreja Católica Romana. Isso limita o campo a apenas um. Já volto.

Desapareceu na sala adjacente. Durante os segundos que se seguiram, Gabriel deleitou-se com o som familiar do seu velho amigo vasculhando através de gavetas de arquivos e praguejando em diversas línguas. Por fim, regressou com um grosso ficheiro em acordeão, preso por um fecho de metal pesado. Colocou o ficheiro na mesa de centro em frente a Gabriel e virou-o de modo a poder ler a etiqueta.

MARTIN LUTHER: GABINETE DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS ALEMÃO, 1938-1943.

Lavon abriu o ficheiro e retirou uma fotografia, erguendo-a para que Gabriel a visse.

- A outra possibilidade - disse -, é este Martin Luther. Não conseguiu acabar o liceu, trabalhava em mudanças e entrou para o partido nazi nos anos vinte. Por acaso, conheceu a mulher de Joachim von Ribbentrop durante a redecoração da villa desta em Berlim. Luther captou as boas graças de Frau von Ribbentrop, e depois as do seu marido. Quando Ribbentrop se tornou ministro dos Negócios Estrangeiro em 1938, Luther arranjou trabalho no ministério.

Gabriel pegou na fotografia que Lavon lhe estendia e olhou para ele. Um homem com a aparência de um roedor olhava para ele: um rosto mole, óculos grossos que aumentavam um par de olhos reme-losos. Voltou a entregar a fotografia a Lavon.

- Luther subiu rapidamente através das fileiras dos Negócios Estrangeiros, em grande parte devido à sua dedicação de escravo a Ribbentrop. Por volta de 1940, era chefe do AbteilungDeutschland, a Divisão Alemanha. Isso tornou Luther responsável por todos os assuntos dos Negócios Estrangeiros ligados às questões do partido nazi. Incluído no AbteilungDeutschlandde Luther, encontrava-se um departamento chamado D-Três, o secretariado judeu.

- Então o que estás a dizer é que Martin Luther estava encarregado dos assuntos judeus dentro do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

- Exactamente - disse Lavon. - O que faltava a Luther em educação e inteligência, possuía em ambição e crueldade. Só estava interessado numa coisa: aumentar o seu poder pessoal. Quando se lhe tornou claro que a aniquilação dos judeus era uma prioridade fundamental do regime, certificou-se que os Negócios Estrangeiros não ficassem fora de acção. A sua recompensa foi um convite para a mais desprezível refeição da História.

Lavon interrompeu-se por um momento para folhear o conteúdo do ficheiro. Passado um pouco, descobriu aquilo que procurava, retirou-o com um floreado, e colocou-o sobre a mesa de centro em frente de Gabriel.

- Este é o protocolo da Conferência de Wannsee, preparada e esboçada pelo seu organizador, nem mais nem menos que Adolf Eichmann. Apenas foram emitidas trinta cópias. Estas foram todas destruídas menos uma, a cópia número dezasseis. Foi descoberta depois da guerra durante a preparação dos Julgamentos de Nuremberga e reside nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros em Bona. Esta é uma fotocópia, claro.

Lavon pegou no documento.

- A reunião decorreu numa villa sobranceira a Wannsee em Berlim, a 20 de Janeiro de 1942. Durou noventa minutos. Houve quinze participantes. Eichmann serviu de anfitrião e certificou-se que os seus convidados eram todos bem alimentados. Heydrich serviu de mestre de cerimónias. Ao contrário do mito popular, a Conferência de Wannsee não foi o local onde a ideia da Solução Final foi concebida. Hitler e Himmler já tinham decidido que os judeus da Europa teriam de ser exterminados. A Conferência de Wannsee era mais como uma sessão de planeamento burocrática, um debate sobre como os diversos departamentos do partido nazi e do governo alemão podiam trabalhar em conjunto para facilitar o Holocausto.

Lavon entregou o documento a Gabriel.

- Vê a lista de participantes. Reconheces alguns dos nomes? Gabriel passou os olhos pelo nome dos participantes:

 

GAULEITER DR. MKYER E REICHSAM1EEITERDR. LEIBRANDT, MINISTÉRIO DOS TERRITÓRIOS DE LESTE OCUPADOS DO REICH

STAATSSEKRETÂR DR. STUCKART, MINISTÉRIO DO INTERIOR DO REICH STAATSSEKRETÂR NEUMANN, PLENIPOTENCIÁRIO DO VIANO DE QUATRO ANOS

STAATSSEKRETÂR DR. FREISLER, MINISTÉRIO DA JUSTIÇA DO REICH STAATSSEKRETÂR DR. BUHLER, GABINETE DO GOVERNO GERAL

UNDERSTAATSSEKRETÃR DR. LUTHER, NEGÓCIOS ESTRANGEIROS

 

Gabriel ergueu o olhar para Lavon.

- Luther esteve em Wannsee?

- De facto esteve. E obteve aquilo que queria tão desesperadamente. Heydrich mandatou que os Negócios Estrangeiros tivessem um papel essencial na facilitação das deportações de judeus de países aliados da Alemanha nazi e dos satélites alemães, como a Croácia e a Eslováquia.

- Pensei que fossem as SS a tratar das deportações.

- Deixa-me recuar um pouco. - Lavon inclinou-se sobre a mesa de centro e colocou as mãos sobre a superfície, como se esta fosse um mapa da Europa. - A vasta maioria das vítimas do Holocausto eram da Polónia, dos países bálticos, e da Rússia Ocidental, locais conquistados e directamente governados pelos nazis. Eles reuniram os judeus e chacinaram-nos à vontade, sem qualquer interferência dos outros governos, porque não existiam outros governos.

Lavon interrompeu-se, uma mão deslizando sobre o mapa imaginário até ao sul, a outra no ocidente.

- Mas Heydrich e Eichmann não estavam satisfeitos apenas com o assassínio dos judeus sob governo alemão directo. Eles queriam todos os judeus da Europa... onze milhões no total. - Lavon bateu com o indicador direito na mesa. - Os judeus dos Balcãs... - bateu com o indicador esquerdo - ... e os judeus da Europa Ocidental. Na maioria dos lugares, tiveram de lidar com os governos locais para os forçar a soltarem os judeus para deportação e extermínio. A secção de Luther dos Negócios Estrangeiros era responsável por isso. Era trabalho de Luther lidar com os governos locais numa base ministério a ministério para se certificar que as deportações decorriam suavemente e que todas as subtilezas diplomáticas eram seguidas. E era muitíssimo bom nisso.

- Suponhamos que o velho se estava a referir a este Martin Luther. Que teria ele estado a fazer num convento no Norte de Itália?

Lavon encolheu os ombros estreitos.

- Parece-me que o velho estava a tentar dizer-te que aconteceu algo no convento durante a guerra. Algo que a madre Vincenza está a tentar encobrir. Algo que Beni sabia.

- Algo que fez com que o matassem? Lavon encolheu os ombros.

- Talvez.

- Quem estaria disposto a matar um homem por causa de um livro?

Lavon hesitou, demorando um pouco para enfiar o protocolo da Conferência de Wannsee de novo no ficheiro. Depois ergueu o olhar para Gabriel, olhos semicerrados, e respirou fundo.

- Havia um governo em especial com que Eichmann e Luther estavam preocupados. Este mantinha relações diplomáticas tanto com os aliados como com a Alemanha nazi durante a guerra. Tinha representantes em todos os países onde as rusgas e deportações estavam a ocorrer, representantes que teriam transformado a tarefa mais difícil se tivessem escolhido intervir à força. Por motivos óbvios, Eichmann e Luther consideravam crítico que esse governo não erguesse objecções. Hider considerava esse governo tão fundamental que enviou o segundo oficial em comando dos Negócios Estrangeiros, o barão von Weizacker, para servir como seu embaixador. Sabes de que governo estou a falar, Gabriel?

Gabriel fechou os olhos.

- O Vaticano.

- Certo.

- Então quem são os palhaços que me andam a seguir?

- Essa é uma pergunta muito boa.

Gabriel atravessou a sala até à secretária de Lavon, ergueu o auscultador do telefone, e marcou um número. Lavon não precisou de perguntar a quem é que Gabriel estava a telefonar. Conseguia percebê-lo pela posição determinada do seu maxilar e pela tensão das mãos. Quando um homem está a ser seguido por um inimigo que não conhece, é melhor que tenha um amigo que saiba como é que se dão golpes baixos.

O homem de pé nos degraus do famoso Konzerthaus de Viena irradiava o ar de saúde campestre dos austríacos e, ao mesmo tempo, a sofisticação de Viena. Se alguém lhe tivesse dirigido a palavra, ele teria respondido num alemão perfeito, com a inflexão indolente de um jovem bem-educado que passara muitas horas felizes a deleitar-se com as delícias boémias de Viena. Não era austríaco, nem fora criado em Viena. Chamava-se Ephraim Ben-Avraham, e passara a infância num colonato empoeirado nas profundezas do Negev, um local muito distante do mundo no qual agora se movia.

Olhou com indiferença para o relógio, depois estudou a imensidão da Beethoven Platz. Estava nervoso, mais do que o habitual. Era um trabalho simples: encontrar-se com um agente, e entregá-lo em segurança na sala de comunicações da embaixada. Mas o homem com quem se ia encontrar não era um agente vulgar. O chefe da delegação de Viena tornara a situação clara para Ben-Avraham antes de o despachar.

- Se deres cabo disto, Ari Shamron encontra-te e estrangula-te com um daqueles abraços mortais que são a sua assinatura. E o que quer que faças, não tentes falar com o agente. Não é o mais abordável dos homens.

Ben-Avraham enfiou um cigarro americano entre os lábios e acendeu-o. Foi nesse momento, através da oscilante chama azul do isqueiro, que Ben-Avraham viu a «lenda» emergir da escuridão. Deixou cair o cigarro no pavimento molhado e apagou-o com a biqueira do sapato, observando o agente enquanto este dava duas voltas completas à praça. Ninguém o seguia - ninguém, para além do homem baixo e desalinhado com cabelo caprichoso e casaco amarrotado. Também ele era uma lenda: Eli Lavon, um extraordinário artista de vigilância. Ben-Avraham encontrara-se com ele uma vez na Academia, quando Lavon fora o orador convidado num seminário acerca de técnicas corpo-a-corpo de rua. Mantivera os recrutas acordados até às três da manhã, contando histórias de guerra sobre os tempos complicados da operação Setembro Negro.

Por um momento, Ben-Avraham observou o par com admiração, enquanto estes atravessavam por entre a multidão nocturna como praticantes de natação síncrona. Agiam segundo as regras, mas tinham uma certa fluidez e precisão que lhes vinha de trabalharem juntos em situações onde um passo em falso poderia custar a vida a um deles.

Por fim, o jovem oficial desceu as escadas na direcção do seu alvo.

- Herr Mueller - chamou. A «lenda» olhou para cima. - É tão bom vê-lo.

Lavon desapareceu como se passasse através da cortina de um palco. Ben-Avraham encaixou os dedos no cotovelo da lenda e puxou-o na direcção dos carreiros escurecidos do Stadt Park. Andaram em círculos durante dez minutos, verificando diligentemente o seu rastro. Ele era mais baixo do que Ben-Avraham esperara, esguio e magro, como um ciclista. Era difícil imaginar que este era o mesmo homem que liquidara metade do Setembro Negro - o mesmo homem que entrara numa villa em Tunes e atingira Abu Jihad, o segundo líder em comando da OLP, perante a sua mulher e filhos.

A «lenda» permaneceu em silêncio. Era como se estivesse a tentar ouvir os seus inimigos. Os seus passos no pavimento dos carreiros não emitiam qualquer ruído. Era como caminhar ao lado de um fantasma.

O carro esperava-os a um quarteirão do parque. Ben-Avraham sentou-se atrás do volante, e durante vinte minutos serpenteou pelo centro da cidade. O chefe da delegação estava certo - não era um homem que convidava a conversas de circunstância. Na verdade, a única altura em que falou foi para pedir delicadamente a Ben-Avraham que apagasse o cigarro. O seu alemão tinha o toque duro de um berlinense.

Satisfeito por ninguém os estar a seguir, Ben-Avraham virou para uma rua estreita no nordeste de Viena chamada Anton Frankgasse. Durante anos, o edifício no nº 20 fora alvo de diversos atentados terroristas e estava fortemente fortificado. Estava também sob constante vigilância dos serviços secretos austríacos. Enquanto o veículo deslizava pela entrada do parque de estacionamento subterrâneo, a «lenda» enfiou-se debaixo do tablier. Durante um instante, a sua cabeça pressionou ligeiramente a perna de Ben-Avraham. O seu crânio queimava, como um homem acometido por uma febre mortal.

A sala de comunicações de segurança estava localizada num cubículo de vidro à prova de som, dois pisos abaixo do chão. O operador em Telavive demorou diversos minutos a passar a chamada para a casa de Shamron em Tiberias. Com o descodificador, a sua voz soava como se fosse emitida do fundo de um bidão de aço. Ao fundo, Gabriel ouvia água a correr para uma bacia e o retinir de talheres contra loiça. Quase conseguia ver a longamente sofredora mulher de Shamron, Ge'ulah, lavando partos no lava-loiças da cozinha. Gabriel forneceu a Shamron o mesmo relato que fornecera anteriormente a Lavon. Quando terminou, Shamron perguntou-lhe o que tencionava fazer a seguir.

- Pensei ir até Londres e perguntar a Peter Malone porque é que Beni lhe telefonou de um hotel em Brenzone.

- Malone? O que te faz pensar que ele falará? Peter Malone está por sua conta. Se na verdade sabe alguma coisa, agarrar-se-á a ela ainda mais fortemente que o pobre Beni.

- Estou a tentar arranjar um modo subtil de fazer a minha abordagem.

- E se ele não estiver interessado em abrir o seu livro de apontamentos para ti?

- Então tentarei um modo menos subtil.

- Não confio nele.

- Ele é a única pista que tenho de momento.

Shamron suspirou profundamente. Apesar da distância e do descodificador, Gabriel conseguia ouvir o ruído áspero vindo do seu peito.

- Quero que a reunião corra da maneira correcta - disse Shamron. - Nada de voltar a entrar em situações às cegas e sem apoio. Ele será vigiado antes e depois. De outro modo, podes despedir-te de tudo isto e regressares a Veneza para terminares o teu Bellini.

- Se insistes.

- As sugestões úteis não fazem o meu género. Contactarei esta noite a delegação de Londres, e colocarei um homem a segui-lo. Mantém-me informado.

Gabriel desligou o telefone e saiu para o corredor. Ephraim Ben-Avraham esperava.

- Agora para onde? - perguntou o jovem oficial de campo. Gabriel olhou para o relógio.

- Leve-me ao aeroporto.

 

No seu segundo dia em Londres, Gabriel visitou ao entardecer um alfarrabista na Charing Cross Road e comprou um único livro. Enfiou-o debaixo do braço e dirigiu-se à estação de metro da Leicester Square. A entrada, tirou a gasta sobrecapa e atirou-a para um caixote de lixo. Dentro da estação, comprou um bilhete numa bilheteira automática e utilizou as longas escadas rolantes até à plataforma da linha Norte, onde aguardou obrigatoriamente dez minutos. Usou esse tempo para folhear o livro. Quando encontrou a passagem que procurava, fez-lhe um círculo a tinta vermelha e dobrou a página para a marcar.

Por fim, o metro rugiu na estação. Gabriel comprimiu-se numa carruagem cheia de gente e enfiou o braço à volta de um varão metálico. O seu destino era Sloane Square, o que requeria um transbordo de comboios no Embankment. Enquanto o comboio se sacudia para a frente, olhou para baixo para as letras douradas e desvanecidas na lombada do livro, os embusteiros: Peter malone.

Malone... um dos nomes mais temidos de Londres. Denunciador de delitos pessoais e profissionais, destruidor de vidas e carreiras. Um jornalista de investigação para o The Sunday Times, a lista de Malone era longa e diversa: dois ministros do governo, o segundo oficial do MI5, um rodopiar de homens de negócios corruptos, até o editor executivo de um jornal rival. Durante a última década, também publicara uma fiada de biografias sensacionalistas e revelações políticas. Os Embusteiros tratavam de certas façanhas do governo. Em Telavive, a obra causara algo semelhante a uma tempestade, em grande parte devido à sua exactidão. Isso incluía a revelação de que Ari Shamron recrutara um espião dos ramos superiores do MI6. A crise que se seguiu, contaria Shamron mais tarde, fora a pior que acontecera entre a Grã-Bretanha e os judeus desde o bombardeamento do hotel King David.

Dez minutos depois, Gabriel percorria as ruas de Chelsea por entre a escuridão que se adensava, o livro de Malone debaixo do braço. Atravessou a Cadogan Square e parou em frente de uma atraente residência georgiana branca. As luzes estavam acesas nas janelas do segundo piso. Subiu as escadas até à porta da frente, colocou o livro num capacho de palha entrançada, depois virou-se e afastou-se com rapidez.

Estacionada do lado oposto da praça, encontrava-se uma carrinha cinzenta de marca americana. Quando Gabriel bateu na janela escurecida da retaguarda, a porta abriu-se revelando um interior escuro apenas iluminado pelo brilho suave de um painel de instrumentos. Sentado perante a consola estava um rapaz esguio e de aparência rabínica chamado Mordecai. Estendeu a Gabriel uma mão ossuda e puxou-o para dentro. Gabriel fechou a porta e agachou-se a seu lado. O chão estava coberto por invólucros de panini manchados de gordura e copos de Styrofoam vazios. Mordecai vivera na carrinha durante grande parte das últimas trinta e seis horas.

- Quantas pessoas na casa? - perguntou Gabriel.

Mordecai estendeu a mão e girou um botão. Através dos auscultadores, Gabriel conseguiu ouvir a ténue voz de Peter Malone falando com uma das suas assistentes.

- Três - respondeu Mordecai. - Malone e duas raparigas. Gabriel marcou o número de Malone. O repicar do telefone no

escritório soava como um alarme de incêndio nos auscultadores de Mordecai. O homem da vigilância estendeu a mão e baixou o volume. Depois de três toques, o jornalista atendeu e identificou-se pelo nome com um ligeiro sotaque escocês.

Gabriel falou em inglês e não fez qualquer tentativa para ocultar o seu sotaque israelita.

- Acabei de deixar um exemplar do seu último livro, à sua porta. Sugiro que o veja. Voltarei a telefonar-lhe exactamente dentro de cinco minutos.

Gabriel desligou e limpou um bocado do vidro embaciado da janela. A porta da frente abriu-se alguns centímetros e Malone, tipo tartaruga, enfiou a cabeça fora da porta. Esta virou-se de um lado para o outro, enquanto ele procurava em vão o homem que acabara de telefonar. Depois debruçou-se e apanhou o livro. Gabriel olhou para Mordecai e sorriu. Vitória. Cinco minutos depois, premiu o botão de remarcação no telefone. Desta vez, Malone atendeu ao primeiro toque.

- Quem fala?

- Viu a passagem que circulei no livro?

- O assassínio de Abu Jihad? O que é que tem?

- Eu estava lá nessa noite.

- De que lado?

- Do lado dos bons.

- Então é palestiniano?

- Não, Abu Malone, não sou palestiniano.

- Então quem é você?

- Sou o agente cujo nome de código era Espada.

- Santo Deus - murmurou Malone. - Onde está? O que quer?

- Quero falar consigo.

- Acerca de quê?

- Benjamin Stern. Uma longa pausa.

- Não tenho nada para lhe dizer. Gabriel decidiu pressionar um pouco mais.

- Encontrámos o seu número de telefone entre as coisas dele. Sabemos que estavam a trabalhar em conjunto, no seu último livro. Pensamos que poderá saber quem o matou e porquê.

Outro longo silêncio enquanto Malone pensava na sua próxima jogada. A utilização do pronome nós que Gabriel usara era deliberada, e teve o efeito pretendido.

- E se eu souber alguma coisa?

- Gostaria de comparar notas.

- E que recebo em troca? - Malone, o jornalista sempre alerta, ia fazer com que Gabriel suasse para obter o que pretendia.

- Falar-lhe-ei daquela noite em Tunes - disse Gabriel, e de seguida acrescentou -, e noutras como essa.

- Está a falar a sério?

- Benjamin era meu amigo. Eu faria quase tudo para encontrar os homens que o assassinaram.

- Então temos um acordo. - O tom de Malone era subitamente activo. - Como é que quer tratar disto?

- Tem assistentes em sua casa? - perguntou Gabriel, embora já soubesse a resposta.

- Duas raparigas.

- Livre-se delas. Deixe a porta da frente destrancada. Quando eu as vir sair, entrarei. Nada de gravadores, máquinas fotográficas, nem brincadeiras. Compreende?

Gabriel desligou o telefone antes que o jornalista pudesse responder, depois enfiou o telefone no bolso. Dois minutos depois, a porta da frente abria-se e um par de mulheres jovens saía. Quando desapareceram, Gabriel saiu da carrinha e atravessou a praça até à casa. A porta da frente estava destrancada, tal como ele instruíra. Girou a maçaneta e entrou.

Avaliaram-se um ao outro através do átrio de entrada de mármore, como capitães de equipas oponentes de futebol. Gabriel conseguia perceber porque era difícil assistir à televisão inglesa sem ver o rosto de Malone - e porque é que este era considerado um dos mais cobiçados solteiros de Londres. Era elegante e bem constituído, imaculadamente vestido com calças de fazenda e um casaco de malha cor de vinho clarete. Gabriel, com calças de ganga e um blusão de cabedal, o rosto escondido atrás de um par de óculos escuros e de um boné de basebol, parecia um marginal. Malone não estendeu a mão a Gabriel.

- Pode tirar esse disfarce ridículo. Não tenho o hábito de trair as minhas fontes.

- Se não se importa, prefiro manter-me assim.

- Faça como quiser. Café? Algo mais forte?

- Não, obrigado.

- O meu escritório é lá em cima. Penso que o vai achar confortável.

Era um antigo estúdio, longo e rectangular, com estantes do chão ao tecto e tapetes orientais. No centro da sala, encontravam-se duas antigas mesas de biblioteca, uma para Malone, outra para as suas assistentes de pesquisa. Malone desligou o computador e sentou-se numa das poltronas de orelhas junto à lareira a gás, indicando a Gabriel que fizesse o mesmo.

- Devo dizer que é bastante bizarro estar na mesma sala consigo. Ouvi falar tanto das suas façanhas que sinto que o conheço verdadeiramente. É na verdade uma lenda. Setembro Negro, Abu Jihad, e inúmeros outros pelo meio. Matou alguém nos últimos tempos? Quando Gabriel não mordeu o isco, Malone prosseguiu.

- Embora eu o considere morbidamente fascinante, devo admitir que acho que as coisas que fez são moralmente repugnantes. Na minha opinião, um Estado que recorre ao assassínio como uma forma de política não é melhor do que o inimigo que está a tentar derrotar. Em muitos aspectos, é pior. Segundo o meu livro, você é um assassino, só para que compreenda qual é a minha posição.

Gabriel começou a perguntar-se se cometera um erro vindo ali. Aprendera há muito que nunca poderia vencer discussões como aquela. Debatia-se muitas vezes consigo mesmo por coisas assim. Sentou-se muito quieto, olhando para Peter Malone através dos óculos escuros, esperando que este chegasse à questão. Malone cruzou as pernas e sacudiu uma linha das calças. Era um gesto que traía ansiedade. Isso agradou a Gabriel.

- Talvez devêssemos finalizar os pormenores do nosso acordo antes de prosseguirmos - disse Malone. - Dir-lhe-ei o que sei a respeito do homicídio de Benjamin Stern. Em retorno, você dar-me-á uma entrevista. É óbvio que já escrevi anteriormente a respeito de serviços secretos, e conheço as regras. Nada farei para revelar a sua verdadeira identidade, nem escreverei nada que possa comprometer operações actuais. Estamos de acordo?

- Estamos.

Malone deteve-se um momento a olhar para as luzes do tecto, depois baixou o olhar para Gabriel.

- Está certo a respeito de Benjamin. Eu estava a trabalhar com ele no seu livro. Era suposto que a nossa relação fosse confidencial. Estou surpreendido por ter sido capaz de me descobrir.

- Porque é que Benjamin veio ter consigo?

Malone levantou-se e aproximou-se das estantes. Retirou de entre estas um livro e entregou-o a Gabriel, crux vera: o kgb da igreja católica.

- Benjamin tinha algo grande, algo que tinha a ver com o Vaticano e a guerra.

Gabriel ergueu o livro.

- Algo a ver com a Crux Vera?

Malone anuiu.

- O seu amigo era um académico brilhante, mas não sabia nada quanto a investigar uma história. Perguntou-me se eu trabalharia com ele como consultor e investigador em todos os assuntos relacionados com a Crux Vera. Concordei e negociámos um valor. O dinheiro seria pago metade em adiantado, e metade à conclusão e aceitação do manuscrito. É desnecessário dizer que apenas recebi o primeiro pagamento.

- O que é que sabia?

- Infelizmente, não estava a par dessa informação. O seu amigo jogava as coisas de forma muito confidencial. Se não o soubesse, teria pensado que ele era um dos vossos.

- O que é que ele queria de si?

- Acesso ao material que reuni enquanto escrevi o livro acerca da Crux Vera. Também queria que eu encontrasse dois padres que trabalharam no Vaticano durante a guerra.

- Como se chamavam?

- Monsenhores Cesare Felici e Tomaso Manzini.

- Alguma vez os encontrou?

- Tentei - respondeu Malone. - O que descobri que é tinham desaparecido ambos e presumivelmente morrido. O detective do quartel-general da Polícia di Stato em Roma, que estava a investigar os casos, foi afastado pelos seus superiores e colocado noutra missão.

- Sabe o nome do investigador?

- Alessio Rossi. Mas por amor de Deus, não lhe diga que lhe dei o nome dele. Tenho uma reputação a proteger.

- Se sabe tanto, porque não escreveu nada?

- O que agora tenho é uma série de homicídios e desaparecimentos que acredito que estejam relacionados. No entanto, não tenho uma única prova conclusiva que os associe sob qualquer forma. A última coisa que quero fazer é acusar o Vaticano, ou alguém próximo ao Vaticano, de homicídio sem ter o raio de um caso sólido. Além disso, nenhum editor decente tocaria nisso.

- Mas tem uma teoria acerca de quem poderá estar por trás disto.

- Aquilo de que tem de se lembrar é que estamos a falar a respeito do Vaticano - disse Malone. - Os homens ligados a essa venerável instituição estão envolvidos em intrigas e conspirações há quase dois mil anos. Jogaram esse jogo melhor do que ninguém, e no passado, o fervor religioso e as batalhas sobre a doutrina induziram-nos a cometer o pecado mortal do assassínio. A Igreja está cheia de sociedades e facções secretas que podem estar envolvidas em algo assim.

- Quem? - repetiu Gabriel.

Peter Malone dardejou um sorriso televisivo.

- Na minha humilde opinião, a resposta está nas suas mãos. Gabriel olhou para baixo, crux vera: o kgb da igreja católica.

Malone deixou a sala, voltando um momento depois com uma garrafa de Médoc e duas grandes taças de cristal. Serviu duas doses generosas e entregou uma a Gabriel.

- Fala latim?

- Na verdade, falamos outra antiga língua.

Malone sorriu a Gabriel sobre a taça de vinho e prosseguiu.

- Crux Vera é Verdadeira Cruz em latim. Também é o nome de uma ordem ultra-secreta dentro da Igreja Católica Romana, uma espécie de Igreja dentro da Igreja. Se olhar para o Annuario Pontifício, o livro do ano do Vaticano, não encontrará qualquer referência à Crux Vera. Se perguntar ao Gabinete de Imprensa do Vaticano, dir-lhe-ão que isso é uma invenção, uma espécie de calúnia espalhada pelos inimigos da Igreja de modo a descreditá-la. Mas se me perguntar, a Crux Vera existe, e eu provei-o no meu livro, independentemente do que o Vaticano disser. Acredito que os tentáculos da Crux Vera atingem os mais altos níveis do Vaticano, e que os seus membros ocupam posições de poder e influência por todo o mundo.

- O que é exactamente?

- O grupo foi criado durante a guerra civil espanhola por um padre anticomunista chamado Juan António Rodriguez. Monsenhor Rodriguez era muito selectivo acerca do tipo de pessoas que ele permitia juntarem-se ao grupo. A grande maioria dos seus recrutas era laica. Muitos eram ricos ou tinham ligações políticas: banqueiros, advogados, industriais, ministros governamentais, espiões, e polícias dos serviços secretos. Sabe, Rodriguez nunca esteve interessado no negócio de salvar almas. Na sua opinião, esse tipo de coisas podia ser deixada para os vulgares padres de paróquia. Rodriguez estava interessado apenas numa coisa: proteger a Igreja Católica Romana dos seus inimigos mortais.

- E quem eram?

- Os bolcheviques - replicou Malone, e de seguida acrescentou rapidamente -, e os judeus, é claro. A Crux Vera espalhou-se com rapidez através da Europa durante os anos trinta. Estabeleceu linhas da frente em França, Itália, Alemanha, os Balcãs, e a própria Cúria Romana. Durante a guerra, membros da Crux Vera trabalharam na casa papal e no Secretariado de Estado. A medida que a Crux Vera se expandia, também o fazia a missão de Monsenhor Rodriguez. Ele já não estava simplesmente satisfeito com a protecção da Igreja dos seus inimigos. Queria devolver a Igreja à posição de poder absoluto e supremacia de que esta gozara durante a Idade Média. Essa permanece a missão central da Crux Vera até aos dias de hoje. Também queriam desfazer aquilo que consideravam as reformas heréticas do Concílio do Vaticano Segundo: o Vaticano Dois.

- Como é que tencionam fazer isso?

- A Crux Vera pode ter desprezado a KGB, mas de muitas maneiras, é uma réplica exacta; daí, o título do meu livro. Trava uma guerra secreta contra aqueles que considera inimigos, e actua como uma força policial secreta no interior da Igreja, reforçando a aderência estrita à doutrina e esmagando os dissidentes. Oh, aos dissidentes e reformadores é-lhes permitido ventilarem o seu rancor de vez em quando, mas se alguma vez constituírem uma ameaça real, a Crux Vera entrará e ajudá-los-á a verem a luz.

- E se eles se recusarem a ceder?

- Digamos apenas que diversas pessoas que se opuseram à Crux Vera morreram em circunstâncias mais que dúbias. Os prelados que se atreveram a opor-se à Crux Vera caíram vítimas de ataques cardíacos súbitos. Jornalistas que tentaram investigar a ordem desapareceram ou suicidaram-se. Tal como membros da Crux Vera que tentaram sair.

- Como é que uma ordem religiosa justifica a utilização de violência?

- Os padres da Crux Vera não são aqueles que recorrem à violência. Os padres dão directrizes mas são, na verdade, os laicos que fazem o trabalho sujo. Dentro da ordem, são conhecidos como milites Christi, os soldados de Cristo. São encorajados a comprometerem-se em pillería, ou truques sujos, para alcançarem os objectivos da ordem. A pillería pode ser tudo, desde chantagem a homicídio. E quando o acto está feito, os padres fornecem a absolvição no segredo do confessionário. Já agora, não é permitido aos milites Cristi confessarem-se a ninguém, a não ser a um padre da Crux Vera. Desse modo, segredos desagradáveis ficam no interior da família.

- Como se sentem em relação ao actual papa?

- Pelo que ouvi, são neutros, para usar um eufemismo. O papa Paulo VII fala de renascimento e renovação. Para a Crux Vera, essas palavras significam reforma e liberalização, e eles ficam nervosos.

- O que o faz pensar que a Crux Vera está envolvida no homicídio de Benjamin?

- Eles podem ter tido um motivo. Se há uma coisa que a Crux Vera detesta, são as revelações acerca da roupa suja do Vaticano. Se o seu amigo tinha provas de algo perjurativo, teria caído na categoria de inimigo. E a Crux Vera teria considerado seu dever lidar com ele duramente, para o bem maior da Igreja, é claro.

Malone terminou o vinho e serviu-se de outra dose. A taça de Gabriel permanecia intacta.

- Se andou a falar com pessoas, a fazer perguntas, a meter o nariz em assuntos que não lhe dizem respeito, é bastante possível que já tenha aparecido no radar da Crux Vera. Se eles pensarem que você constitui uma ameaça, não hesitarão em matá-lo.

- Aprecio a sua sinceridade.

- E nós tínhamos um acordo. - Malone pegou num bloco de notas e numa caneta, e subitamente os papéis inverteram-se. - Agora, é a minha vez de fazer perguntas.

- Lembre-se apenas das regras. Se me trair...

- Não se preocupe. Também estou consciente do facto de que a Crux Vera não é a única organização secreta envolvida em pillería. - Malone lambeu o indicador e mudou para uma folha nova do bloco-notas. - Meu Deus, tenho tantas perguntas, que nem sei por onde começar.

Gabriel passou as duas horas que se seguiram a manter sem entusiasmo a sua parte do acordo. Por fim, viu-se a sair pela porta da frente de Peter Malone e atravessou a Cadogan Square debaixo duma chuva persistente. Na Sloane Street, tirou o telemóvel do bolso e marcou o número de Mordecai na carrinha de vigilância.

- Continua a monitorizá-lo - disse Gabriel. - Se ele for a algum lado, acompanha-o.

Peter Malone sentou-se perante o computador no escritório do piso superior, escrevendo febrilmente as suas notas. Mal conseguia acreditar na sua sorte. Aprendera há muito que o sucesso era o resultado de uma combinação volátil de trabalho árduo e pura sorte. Por vezes, as histórias boas limitavam-se a cair no colo de alguém. A diferença entre um jornalista mediano e um bom era aquilo que ele fazia de seguida.

Depois de uma hora de trabalho contínuo, os seus apontamentos escritos à mão tinham sido transformados num par de memorandos bem organizados. O primeiro referia-se às façanhas do agente com o nome de código Espada. O segundo era um relato da conversa referindo-se a Benjamin Stern. Quer fosse sua intenção ou não, o israelita acabara de dar a Malone o anzol de que ele precisava para a sua história. Os serviços secretos israelitas estavam a investigar o assassínio do proeminente historiador, Benjamin Stern. Telefonaria de manhã para Telavive, asseguraria a negação obrigatória dos zangões do quartel-general, depois colaria os outros pormenores misteriosos que ele conhecia acerca do caso. Não contara ao israelita tudo o que sabia acerca do assassinato de Stern, tal como estava quase certo que o israelita não partilhara tudo o que sabia. Era desse modo que o jogo era jogado. Era necessário um jornalista experiente para conhecer a diferença entre a verdade e a informação errada, para vasculhar pelo lodo até encontrar as pepitas de ouro. Com um pouco de sorte, talvez tivesse um artigo pronto no fim-de-semana.

Passou poucos minutos a verificar de novo as citações. Decidiu telefonar a Tom Graves, o seu editor do The Sunday 'Times, e reservar espaço na primeira página. Estendeu a mão para o telefone, mas antes de poder erguer o auscultador do descanso, foi lançado para trás por uma pancada no peito. Olhou para baixo, e viu um pequeno mas rapidamente crescente círculo de sangue na camisa. De seguida, olhou para cima e viu o homem, de pé a um metro e meio da secretária, cabelo loiro acinzentado, olhos sem cor. Malone estivera tão concentrado no seu trabalho que não o ouvira a entrar em casa.

- Porquê? - sussurrou o jornalista, a boca cheia de sangue.

O assassino inclinou a cabeça, como se confundido, e deu a volta à secretária.

- Ego te absolvo apeccatis tuis- disse, acariciando-lhe a testa com os dedos. - In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. Amen.

Depois apontou a sua arma com silenciador à cabeça de Malone e disparou um último tiro.

No léxico do Gabinete, o dispositivo que o artista de vigilância chamado Mordecai colocara no escritório de Malone era conhecido como «vidro». Escondido entre os circuitos eléctricos do telefone, este fornecia cobertura às chamadas de Malone bem como às conversas que ocorriam dentro da sala. Permitira a Mordecai seguir a conversa de Gabriel com Malone. Também ouvira Malone a sentar-se à secretária depois da partida de Gabriel, escrevendo no computador.

Pouco depois das nove horas, Mordecai ouviu murmúrios numa língua que não conseguiu compreender. Durante os cinco minutos que se seguiram, ouviu o som de gavetas de arquivos a abrirem-se e a fecharem-se. Presumiu que era Malone, mas quando a porta da frente se abriu e desta emergiu um homem alto de ombros largos, Mordecai soube de imediato que algo terrível acabara de ocorrer no interior da casa.

O homem desceu os degraus com rapidez e atravessou a praça, dirigindo-se directamente à carrinha. Mordecai entrou em pânico. A única arma que tinha era um microfone direccionável e uma máquina fotográfica Nikon de longo alcance. Pegou na Nikon. A medida que o homem se aproximava da carrinha, Mordecai ergueu calmamente a máquina até ao olho e disparou três fotografias rápidas.

A última, estava convencido disso, valia a pena guardar.

 

O Estado da Cidade do Vaticano é o país mais pequeno do mundo e também o mais escassamente povoado. Mais de quatro mil pessoas trabalham aí diariamente, mas no entanto apenas quatrocentas ou perto disso vivem realmente atrás dos seus muros. O cardeal secretário de Estado Marco Brindisi era um dos habitantes. O seu apartamento privado no Palácio Apostólico ficava apenas a um piso de distância do apartamento do Santo Padre. Alguns prelados achavam que viver no epicentro do poder do Vaticano equivalia a viver numa gaiola dourada, mas o cardeal Brindisi realmente gostava. Os seus aposentos eram magníficos, a distância até ao trabalho era desprezível e um grupo de padres e freiras encarregava-se de todas as suas necessidades. Se havia um senão, este era a proximidade com os aposentos papais. Estando dentro do palácio, pouco havia que o cardeal pudesse fazer para se proteger da bisbilhotice dos secretários do papa. A sala traseira do L'Eau Vive adequava-se a muitas das reuniões privadas do cardeal, embora outras, como a daquela noite, requeressem condições de maior segurança.

Um Mercedes estava à sua espera no Pátio San Damasco no exterior da entrada do Palácio Apostólico. Ao contrário dos cardeais menores da Cúria, Brindisi não tinha de passar por um sorteio no que se referia à frota de veículos do Vaticano. Estavam-lhe atribuídos um Mercedes e um motorista, bem como um homem de segurança da Vigilanza. Brindisi entrou para as traseiras do carro, que se afastou. Moveu-se lentamente ao longo da Via Belvedere - passando a Farmácia Pontifical e os aquartelamentos da Guarda Suíça - antes de deslizar através do Portão de Santa Ana e entrar na cidade de Roma.

O carro atravessou a Piazza della Città, depois virou para a entrada de um parque de estacionamento subterrâneo. O edifício acima deste era um complexo residencial propriedade do Vaticano, onde viviam muitos dos cardeais da Cúria. Havia diversos outros como este espalhados por Roma.

O carro travou junto a uma carrinha Fiat cinzenta. Enquanto Brindisi saía, a porta das traseiras da carrinha abriu-se e um homem saltou para o chão. Tal como Brindisi, vestia uma sotaina, com uma capa escarlate e faixa. Mas ao contrário do secretário de Estado, não tinha qualquer direito a estar assim vestido. Não era um cardeal; de facto, nem sequer era um padre ordenado. O cardeal Brindisi não sabia o nome do homem, apenas que este trabalhara durante pouco tempo como actor antes de trabalhar para a Vigilanza.

O sósia de Brindisi saiu das sombras e deteve-se um instante perante o cardeal. Como sempre, Brindisi sentiu um arrepio na nuca. Era como se estivesse a ver-se a um espelho. As feições, os óculos redondos, a cruz peitoral de ouro - o homem até aprendera a imitar o arrogante ângulo do zuccheto de Brindisi. Um sorriso fraco atravessou o rosto do homem, uma imitação exacta do do próprio Brindisi, e depois disse:

- Boa noite, Eminência.

- Boa noite, Eminência - descobriu-se o cardeal Brindisi a repetir.

O personficador anuiu tensamente, depois entrou para as traseiras do carro de Brindisi e este afastou-se. O padre Mascone, secretário privado de Brindisi, esperava nas traseiras da carrinha.

- Por favor, despache-se, Eminência. Não é seguro ficar aqui muito tempo.

O padre ajudou o cardeal a subir para as traseiras da carrinha e fechou a porta, depois conduziu-o até um banco bordado. A carrinha subiu acelerando pela rampa e virou para a rua. Um momento depois, dirigia-se através de Roma na direcção do Tibre.

O padre abriu um porta-fatos e retirou deste diversos artigos de vestuário: um par de calças cinzentas, uma camisola de gola alta, um caro blazer castanho, um par de sapatos pretos. O cardeal Brindisi soltou a capa e começou a despir-se. Passado um momento, estava nu com excepção da roupa interior e de um cilício com espigões enrolado à volta da coxa direita.

- Talvez deva retirar o cilício - disse o padre. - Pode ver-se através das calças.

O cardeal Brindisi sacudiu a cabeça.

- A minha boa-vontade no que se refere a despir o meu vestuário tem limites, padre Mascone. Usarei o meu cilício esta noite, veja-se ou não através das... - interrompeu-se - ... calças.

- Muito bem, Eminência.

Com o auxílio do padre, o cardeal vestiu rapidamente o vestuário pouco familiar. Quando estava totalmente vestido, retirou os óculos, que facilmente o identificariam, e substituiu-os por outros, de lentes um pouco mais escuras. A transformação estava concluída. Já não se parecia com um príncipe da Igreja, mas mais com um romano bem-sucedido e de má reputação, talvez um homem que se atirasse a mulheres mais novas.

Cinco minutos depois, numa praça deserta da margem oposta do Tibre, a carrinha parou. O padre abriu a porta. O cardeal secretário de Estado Marco Brindisi persignou-se e saiu.

Em muitos sentidos, Roma é uma cidade para se andar acompanhado. Em circunstâncias normais, Marco Brindisi não poderia andar pela Via Veneto sem ser reconhecido, mesmo que usasse uma simples sotaina preta de padre de paróquia. Contudo, nessa noite, passou despercebido, atravessando multidões ruidosas e passando por cafés transbordantes, como se fosse apenas outro romano em busca de uma boa refeição e de uma companhia agradável.

Os dias de glória da Via Veneto há muito que se tinham desvanecido. Ainda era uma adorável avenida bordejada por árvores simples, lojas exclusivas, e restaurantes caros, mas os intelectuais e estrelas de cinema tinham-se mudado há muito em busca de paragens por descobrir. Agora a multidão era sobretudo composta por turistas e homens de negócios, e bonitos adolescentes italianos acelerando em lambretas.

Marco Brindisi nunca fora seduzido pela dolce vita da Via Veneto, mesmo durante os anos sessenta, quando era um jovem burocrata da Cúria recém-chegado da sua vila nas colinas da Umbria, e agora ainda lhe parecia menos sedutora. Os trechos de conversas de café que lhe chegavam aos ouvidos pareciam tão terrivelmente triviais. Ele sabia que alguns cardeais - na verdade, até mesmo alguns papas - gostavam de passear por Roma à paisana para ver como vivia a outra metade. Brindisi não tinha qualquer desejo de ver como vivia a outra metade. Com poucas excepções, ele achava que esta era uma gentalha imoral e grosseira, que estaria bem melhor se ouvisse mais os ensinamentos da Igreja e menos o incessante zumbido dos seus televisores.

Uma atraente mulher de meia-idade num vestido curto lançou-lhe, da mesa de um café, um olhar admirador. Brindisi, fazendo o seu papel, retribuiu o sorriso. Ao continuar a andar, o cardeal pediu perdão a Cristo e fez pressão sobre o cilício para aumentar a dor. Ouvira as confissões de padres que tinham caído vítimas das tentações do sexo. Padres que tinham amantes. Padres que tinham executado actos inomináveis com outros padres. Brindisi nunca conhecera tais tentações. No momento em que entrara no seminário, o seu coração fora entregue a Cristo e à Virgem. Padres que não conseguiam manter os seus votos repugnavam-no. Ele acreditava que qualquer padre que não permanecesse celibatário devia ser destituído. Mas era também um pragmático, e percebia que uma tal política dizimaria certamente as fileiras do clero.

O cardeal chegou ao cruzamento da Via Veneto e do Corso dltalia, e olhou para o relógio. Chegara exactamente à hora marcada. Alguns segundos depois, um carro parou junto à berma. A porta traseira abriu-se, e Carlo Casagrande saiu do seu interior.

- Desculpe não lhe beijar o anel - disse Casagrande -, mas julgo que não seria apropriado sob estas circunstâncias. O tempo está bastante ameno esta noite. Quer dar uma volta pela Villa Borghese?

Casagrande conduziu o cardeal através da ampla avenida, expondo o segundo homem mais poderoso da Igreja Católica à luxúria de sangue dos condutores de Roma. Chegando em segurança ao outro lado, passearam ao longo de um carreiro de cascalho. No domingo, o parque estaria cheio de crianças aos gritos e de homens a ouvirem desafios de futebol em rádios portáteis. Nessa noite estava bastante silencioso, exceptuando o sibilar de tráfego ao longo do Corso. O cardeal andava como se ainda vestisse escarlate, com as mãos apertadas atrás das costas e a cabeça inclinada para baixo - um homem rico que deixara cair dinheiro e estava a fazer um esforço indiferente para o encontrar. Quando Casagrande sussurrou que Peter Malone estava morto, Brindisi murmurou uma oração rápida, mas resistiu ao impulso de a concluir com o sinal da cruz.

- Este seu assassino é bastante eficiente - disse.

- Infelizmente, tem muita prática.

- Fale-me dele.

- É meu dever protegê-lo de coisas dessas, Eminência.

- Não o pergunto por curiosidade mórbida, Carlo. A minha única preocupação é que este assunto seja tratado com a máxima eficiência.

Chegaram à Galleria Borghese. Casagrande sentou-se num banco de mármore em frente ao museu e indicou a Brindisi que fizesse o mesmo. O cardeal sacudiu o pó com grande aparato antes de se sentar cuidadosamente na pedra fria. Casagrande passou os cinco minutos que se seguiram a debitar, relutante, tudo o que sabia acerca do assassino chamado Leopardo, começando com a sua longa e sangrenta associação com a ala esquerda e grupos terroristas palestinianos, e terminando com a sua transformação num assassino profissional de alto preço. Casagrande teve a distinta impressão que o cardeal estava a gostar da sua associação temporária com o mal.

- O seu nome verdadeiro?

- Não sei, Eminência.

- A sua nacionalidade?

- A sensação prevalecente entre os funcionários de segurança europeus é que ele é suíço, embora isso também seja objecto de alguma especulação.

- Encontrou-se realmente com este homem?

- Estivemos no mesmo quarto, Eminência. Fizemos negócio, mas eu não diria que me encontrei realmente com ele. Duvido que alguém o tenha verdadeiramente feito.

- Ele é inteligente?

- Muito.

- Educado?

- Há provas que sugerem que ele estudou teologia durante um curto período de tempo na Universidade de Friburgo, antes de ser atraído pelo chamamento da violência e terror da esquerda. Também há provas que sugerem que frequentou um noviciado em Zurique quando era jovem.

- Está a querer dizer que este monstro estudou na verdade para o sacerdócio? - O cardeal Brindisi sacudiu lentamente a cabeça. - Suponho que ele ainda se considera católico?

- O Leopardo? Não estou certo se ele acredita nalguma coisa para além dele mesmo.

- E agora um homem que matou para os comunistas trabalha para Carlo Casagrande, o homem que ajudou o papa polaco a deitar abaixo o império do mal.

- A política, como costumam dizer, arranja-nos companheiros estranhos. - Casagrande levantou-se. - Venha, dêmos uma volta.

Dirigiram-se por um carreiro bordejado por pinheiros. O cardeal era mais alto que o homem da segurança por uma cabeça. O seu vestuário tinha o efeito de suavizar a sua aparência. Vestido como estava agora, com vestuário civil, Marco Brindisi era uma figura dura e ameaçadora. Um homem que instilava medo em vez de confiança.

Sentaram-se num banco sobranceiro à Piazza di Sena. Casagrande pensou na sua mulher, de se sentar com ela neste mesmo lugar e ver o desfile dos cavalos na pista de cavalos. Quase conseguia sentir o cheiro de morangos nas suas mãos. Angelina adorara comer morangos e beber spumanti na Primavera, na Villa Borghese.

O cardeal Brindisi estilhaçou a recordação perturbante de Casagrande ao abordar o assunto relativo ao homem chamado Ehud Landau. O homem de segurança do Vaticano contou ao cardeal a visita de Landau ao Convento do Sagrado Coração em Brenzone.

- Meu Deus - murmurou o cardeal, sustendo a respiração. - Como é que a madre Vincenza se aguentou?

- Aparentemente, muito bem. Ela contou-lhe o álibi que inventámos e conduziu-o à saída. Mas, na manhã seguinte, ele voltou ao convento e perguntou pela irmã Regina.

- Pela Irmã Regina! Isso eum desastre. Como é que ele pode ter sabido?

Casagrande sacudiu a cabeça. Era uma pergunta que fazia a si próprio desde a segunda chamada telefónica da madre Vicenza. Como é que ele poderia ter sabido? O apartamento de Benjamin Stern fora meticulosamente examinado. Tudo aquilo que se relacionava com o convento fora retirado e destruído. Era óbvio que algum indício deslizara através da rede de Casagrande e aterrara nas mãos do seu adversário em Israel.

- Onde está ele agora? - perguntou o cardeal.

- Receio não ter uma pista. Pus um homem a segui-lo em Brenzone, mas ele conseguiu escapar-se em Verona. É obviamente um profissional treinado. Não voltámos a ouvir nada a seu respeito desde então.

- Como planeiam tratar dele?

Casagrande desviou o olhar da antiga pista de corrida e olhou para os olhos pálidos do cardeal.

- Como secretário de Estado, deve estar consciente que o Gabinete de Segurança identificou um homem que crê ter a intenção de assassinar o Santo Padre.

- Estou informado - respondeu o cardeal formalmente. - Que medidas tomou para se certificar de que ele não é bem-sucedido?

- Meti Achille Bartoletti na história, e ele reagiu como se poderia esperar. Formou-se um grupo operacional, e decorre uma busca sem interrupções, de dia e de noite.

- Suponho que a certa altura o Santo Padre terá de ser informado acerca desta ameaça. Talvez esta informação nos sirva para influenciar a sua decisão sobre a sua ida ao ghetto na próxima semana.

- Exactamente o que eu pensei - replicou Casagrande. - O nosso assunto está concluído?

- Na verdade, há mais uma coisa. - O cardeal contou a Casagrande o que se passara com o jornalista do La Repubblica que estava a investigar a infância do Santo Padre. - Não é boa altura para se falar numa fraude no Vaticano, mesmo que se trate de uma fraude inofensiva. Veja lá se pode fazer alguma coisa para meter aquele jornalista intrometido na ordem.

- Vou tratar disso - respondeu Casagrande. - O que disse ao Santo Padre?

- Disse-lhe que poderia ser útil se ele preparasse um memorando resumindo os pormenores infelizes da sua infância.

- Qual foi a sua resposta?

- Concordou, mas não quero esperar por ele. Gostaria que prosseguisse a sua própria investigação, É importante que aprendamos a verdade antes desta ser impressa nas páginas do Im Repubblica.

- Arranjarei um homem para tratar disso de imediato.

- Muito bem - disse o cardeal. -Agora, creio que o nosso negócio está concluído.

- Um dos meus homens irá segui-lo. Neste exacto momento, a carrinha aparecerá. Levá-lo-á de volta ao Vaticano, a não ser que queira andar pela Via Veneta Podemos beber uma taça de frascati e ver Roma a passear?

O cardeal sorriu, o que nunca era algo de encorajador.

- Na verdade, Carlo, prefiro a vista de Roma das janelas do Palácio Apostólico.

Dizendo isto, virou-se e afastou-se. Pouco depois, desaparecia na escuridão.

 

Na manhã seguinte, bem cedo, Eric Lange atravessou o Canal da Mancha noferry de Newhaven para Dieppe. Estacionou o Peugeot alugado num parque público perto do terminal dos ferries e dirigiu-se a pé ao Quai Henri IV para tomar o pequeno-almoço. No café sobranceiro ao porto, comeu brioches e caféau lait, e leu os jornais da manhã. Não havia qualquer referência ao assassinato do jornalista de investigação inglês Peter Malone, nem houvera qualquer notícia no rádio. Lange estava certo que o corpo ainda não fora encontrado. Isso aconteceria aproximadamente às dez horas, hora de Londres, quando as suas assistentes de pesquisa chegassem ao trabalho. A Polícia, quando iniciasse a sua investigação, não teria falta de suspeitos. Malone fizera muitos inimigos poderosos com o passar dos anos. Qualquer um destes estaria mais que satisfeito por acabar com a vida de Malone.

Lange pediu mais brioches e outra cafeteira com café. Descobriu que não estava com pressa de partir. A longa condução nocturna deixara-o sonolento, e a ideia de passar o dia a viajar de regresso a Zurique deprimia-o. Pensou em Katrine, na sua villa isolada na extremidade de uma densa floresta normanda, nos prazeres que se podiam encontrar na sua enorme cama de colunas.

Deixou alguns euros sobre a mesa e caminhou ao longo do cais até ao Poissonnerie, o antigo mercado do peixe de Dieppe. Moveu-se de banca em banca, examinando cuidadosamente o pescado, cavaqueando à vontade com os pescadores num francês perfeito. Escolheu um belo par de percas e uma variedade de marisco. Depois deixou o mercado e dirigiu-se para a Grande Rue, a principal rua comercial de Dieppe. Comprou pão de uma boulangerie e diversos queijos frescos na charcuterie. A sua última paragem foi a cave, onde adquiriu meia dúzia de garrafas de vinho e um Calvados, o famoso brandy da Normandia.

Enfiou a comida no assento traseiro do Peugeot e afastou-se. A estrada abraçava as extremidades dos penhascos, subindo e descendo com o contorno da linha costeira. Abaixo, jazia uma praia rochosa. A distância, uma linha de barcos de pesca entrava no porto. Passou através de um fio de pitorescas cidades piscatórias, devorando uma das baguettes enquanto conduzia. Na altura em que chegava a St-Valery-en-Caux, o carro cheirava fortemente a camarões e amêijoas.

Um quilómetro antes de St-Pierre, virou para uma estreita estrada local e seguiu pelo interior através de pomares de macieiras e pinhais. Mesmo para lá da vila de Valmont, virou para uma vereda estreita bordejada por faias e seguiu-a por um quilómetro ou perto disso, até esta morrer num portão de madeira. Para lá do portão, erguia-se uma villa de pedra, escondida por entre as sombras de faias e ulmeiros altos. O jipe vermelho de Katrine estava estacionado na estrada de cascalho. Ela ainda deveria estar a dormir. Katrine raramente encontrava um motivo para sair da cama antes do meio-dia.

Lange saiu do carro, abriu o portão, depois conduziu até à propriedade. Sem bater, tentou abrir a porta da frente e descobriu que estava fechada. Tinha duas opções: bater até Katrine acordar ou começar a sua visita com um pouco de divertimento. Escolheu a última.

A villa tinha um formato em U e estava rodeada por um jardim pouco cuidado. No Verão, era uma revolta de cor. Agora, nos últimos dias de Inverno, era de um verde sombrio. Para lá do jardim, erguiam-se as extremidades exteriores da floresta. As árvores estavam nuas, e os ramos jaziam sem movimento na quietude da manhã. No centro da casa, encontrava-se um pátio de pedra. Lange atravessou-o através de um campo de minas de vasos partidos, tendo cuidado para não emitir qualquer som, e começou a tentar abrir os trincos de cada um dos conjuntos de portas envidraçadas. A quinta estava destrancada. «Tola da Katrine», pensou Lange. Ele ensinar-lhe-ia uma lição que ela não esqueceria tão depressa.

Entrou e arrastou-se através da sala de estar obscurecida até à escadaria, depois subiu até ao quarto de Katrine. Espreitou para o interior. As cortinas estavam fechadas. Lange conseguia ver Katrine na semi-obscuridade, o cabelo espalhado pela almofada, os ombros nus espreitando do cimo de um edredão branco. Ela tinha a pele cor de azeitona de uma sulista, e os olhos azuis e o cabelo loiro de uma rapariga da Normandia. Os reflexos arruivados eram o presente de uma avó bretã, tal como o seu temperamento explosivo.

Lange avançou, estendendo a mão para o lugar debaixo do cobertor onde o pé dela parecia encontrar-se. Quando estava prestes a agarrar-lhe o tornozelo, Katrine sentou-se direita na cama, olhos escancarados, mãos envolvendo uma pistola Browning de nove milímetros. Disparou dois tiros rápidos, tal como Lange lhe ensinara. Nos confins do quarto, as explosões soaram como fogo de canhão. Lange atirou-se ao chão. As balas passaram acima da sua cabeça, estilhaçando o espelho da espantosa cómoda com duzentos anos de Katrine.

- Não dispares, Katrine - disse Lange, rindo descontroladamente. - Sou eu.

- Levante-se! Deixe-me vê-lo!

Lange levantou-se lentamente, mãos à vista. Katrine acendeu a luz da mesa-de-cabeceira e lançou-lhe um olhar longo e feroz. Depois afastou o braço e atirou-lhe a arma à cabeça. Lange baixou-se e a arma caiu inofensivamente numa pilha de vidros partidos.

- Seu filho da mãe desgraçado! Tens sorte por não te ter rebentado com a cabeça.

- Não teria sido o primeiro.

- Eu adorava aquele espelho!

- Era velho.

- Era uma antiguidade, seu cretino!

- Eu compro-te um novo.

- Não quero um novo, quero aquele!

- Então mandamo-lo arranjar.

- E como é que eu explico os buracos das balas? Lange colocou a mão no queixo e fingiu pensar.

- Na verdade, isso pode ser um problema.

- Claro que é um problema. Imbecil! - Ela puxou o edredão por cima do peito, como se estivesse consciente da sua nudez pela primeira vez, e a sua fúria contra ele começou a amainar.

- De qualquer maneira, que estás aqui a fazer?

- Estava na vizinhança.

Ela olhou para o rosto dele durante um momento.

- Voltaste a matar. Consigo vê-lo nos teus olhos.

Lange apanhou a Browning, travou-a, e deixou-a cair aos pés da cama.

- Estava a trabalhar por perto - disse ele. - Preciso de um dia ou dois de descanso.

- O que te faz pensar que podes aparecer aqui sempre que te apetece? Eu podia ter aqui outro homem.

- Pois podias, mas as probabilidades eram a meu favor. Eu sei que, com poucas excepções, os homens fizeram-te chorar, não só nessa tua cama enorme como fora dela. E também sei que qualquer homem que aqui tragas não ficará por muito tempo. Assim, achei que valia a pena o risco.

Katrine tentava desesperadamente não sorrir.

- Porque haveria de te deixar ficar?

- Porque eu cozinho.

- Bom, nesse caso, vamos ver se ficamos com fome. Vem para a cama. É muito cedo para me levantar.

Katrine Boussard era possivelmente a mulher mais perigosa de França. Depois de se licenciar em literatura e filosofia na Sorbonne, ela juntara-se ao grupo extremista francês de extrema-esquerda Action Directe. Embora os objectivos políticos do grupo pudessem alterar-se selvaticamente, as suas tácticas permaneciam consistentes. Durante os anos oitenta, este executara uma investida violenta e ensopada em sangue de assassinatos, raptos, e atentados bombistas que deixaram dezenas de mortos e um país aterrorizado. Graças às instruções que recebera de Eric Lange, Katrine Boussard era uma das assassinas mais consumadas do grupo. Lange trabalhara com ela em duas ocasiões: o assassinato em 1985 de um oficial superior do Ministério francês da Defesa, e o assassinato em 1986 de um executivo do mundo automóvel francês. Em cada um destes casos, foi Katrine Boussard que aplicou o coup de grace às vítimas.

Lange trabalhava normalmente sozinho, mas no caso de Katrine, fez uma excepção. Ela era uma operacional hábil, fria e implacável em campo, e altamente disciplinada. O stress operacional aumentava o desejo de ambos por sexo, e tinham usado o corpo um do outro com grande satisfação. Não eram amantes - tinham ambos visto demasiadas coisas para acreditarem em algo tão prosaico como o amor. Eram mais como artesãos especializados em busca da perfeição.

Katrine era dotada de um corpo com inúmeros pontos erógenos. Como sempre, respondeu rapidamente ao toque de Lange. Só quando estava totalmente saciada é que usou as suas consideráveis técnicas em Lange. Ela era uma amante tortuosa, por isso em sintonia com o corpo de Lange e de cada vez que este estava prestes a perder o controlo, ela soltava-o e deixava-o sofrer sem piedade. Quando já não conseguia aguentar mais, Lange pegou no assunto entre mãos, agarrando Katrine pelas ancas e penetrando-a por trás. Estava mais perto da conquista do que aquilo que ele teria preferido, mas era exactamente o que Katrine planeara. Quando Lange atingiu o clímax, atirou a cabeça para trás e gritou como um louco para o tecto. Katrine olhava-o por cima do ombro, observando-o com um olhar de profunda satisfação, pois vencera-o mais uma vez.

Quando terminou, permaneceu deitada com a cabeça sobre o peito dele e o cabelo espalhado sobre o seu estômago. Lange olhou pelas portas envidraçadas para as árvores na extremidade da floresta. Uma tempestade viera do canal, e as árvores estavam dobradas pelo vento. Lange brincou com o cabelo de Katrine, mas ela não se mexeu. Como tinham morto em conjunto, Lange podia fazer amor com ela sem inibições e sem o medo latente de poder revelar algo de si mesmo. Não amava Katrine, mas gostava dela. De facto, ela era a única mulher de quem ele gostava.

- Sinto-lhe tanto a falta - murmurou ela.

- De quê, Katrine?

- Da luta. - Ela virou o rosto para ele. - Agora sento-me aqui no Valmont, vivendo do fundo de um pai que eu desprezava, enquanto envelheço. Não quero envelhecer. Quero lutar.

- Éramos crianças tolas. Agora somos mais sensatos.

- E tu matas para qualquer um, desde que o preço seja o certo, é claro.

Lange colocou um dedo sobre os lábios dela.

- Eu nunca tive o benefício de um fundo, Katrine.

- É por isso que és um assassino profissional?

- Tenho algumas habilidades, habilidades que o mercado exige.

- Soas a um verdadeiro capitalista.

- Não ouviste? Os capitalistas venceram. As forças do bem foram esmagadas sob o calcanhar do lucro e da cobiça. Agora, podes comer no McDonald's e visitar a Euro Disney sempre que te apetecer. Mereceste a tua vida calma e a tua bela villa. Senta-te e desfruta a satisfação de uma derrota nobre.

- És tão hipócrita - disse ela.

- Prefiro pensar em mim mesmo como realista.

- Estás a matar para quem?

«Para homens que outrora desprezámos», pensou ele. Depois disse:

- Conheces as regras, Katrine. Fecha os olhos.

Quando Katrine adormeceu, Lange deslizou da cama, vestiu-se em silêncio, e saiu. Abriu o porta-bagagens do Peugeot e retirou deste o computador portátil de Peter Malone, depois enfiou-o debaixo do casaco e regressou à villa através da chuva. No interior, fez uma lareira de lenha de macieira e sentou-se em frente de um sofá confortável na sala de estar de Katrine. Ergueu a tampa do computador, ligou-o, e esperou que este se iniciasse. Segundo o seu acordo com Carlo Casagrande, Lange era obrigado a entregar o computador e as outras coisas que tirara do escritório de Malone numa caixa depósito num banco em Zurique. Enquanto o computador ainda estava na sua posse, ele não tinha quaisquer escrúpulos em lhe dar uma espreitadela por conta própria.

Abriu o folder de documentos de Malone, e inspeccionou as datas e horas das últimas entradas. Na última hora da sua vida, o jornalista criara dois documentos novos, um intitulado assassino israelita, o segundo chamado assassínio de Benjamin stern. Lange sentiu uma leveza na ponta dos dedos. No exterior, o vento da tempestade do Canal soava como um comboio de alta velocidade a passar.

Abriu o primeiro ficheiro. Era um documento notável. Pouco antes de Lange ter entrado no apartamento de Malone, o jornalista de investigação entrevistara um homem que afirmava ser um assassino israelita. Lange leu o ficheiro com uma certa admiração profissional. O homem tinha uma carreira bastante colorida e produtiva: Setembro Negro, dois líbios, um cientista nuclear iraquiano. Abujihad...

Lange parou de ler e olhou através das portas envidraçadas para as árvores que se contorciam na tempestade. Abujihad? Teria o assassino de Abujihad realmente estado no apartamento de Malone algumas horas antes de Lange? Se fosse verdade, que raio fora ele ali fazer? Lange não era um homem que acreditasse em coincidências. A resposta, suspeitava ele, poderia ser encontrada no segundo documento. Abriu-o e começou a ler.

Cinco minutos depois, Lange ergueu o olhar. Era pior do que aquilo que temera. O agente israelita que entrara calmamente na villa de Abujihad em Tunes e o matara, estava agora a investigar o assassínio do professor Benjamin Stern. Lange perguntou-se porque é que a morte do professor judeu seria de interesse para os serviços secretos israelitas. A resposta parecia simples: o professor devia ter sido alguma espécie de agente.

Ele estava furioso com Carlo Casagrande. Se Casagrande lhe tivesse dito que Benjamin Stern estava associado aos serviços secretos israelitas, ele poderia ter recusado o contrato. Os israelitas enervavam-no. Jogavam o jogo de um modo diferente dos europeus ocidentais e dos americanos. Vinham de uma vizinhança muito dura, e a sombra do Holocausto pendia sobre cada uma das suas decisões. Fazia-os lidar com os seus adversários duma maneira implacável e cruel. Já tinham uma vez seguido Lange, depois de uma operação de rapto e resgate que ele executara em nome de Abu Jihad. Ele conseguira escapar-se por entre os seus dedos ao tomar a decisão bastante rígida de matar todos os seus cúmplices.

Lange perguntou-se se Carlo Casagrande estaria consciente do envolvimento do israelita - e se estivesse, porque é que não contratara Lange para tratar dele. Talvez Casagrande não soubesse como encontrar o israelita. Graças aos documentos no computador de Peter Malone, Lange sabia como o encontrar, e não tinha qualquer intenção de esperar pelas ordens de Casagrande para agir. Tinha uma ligeira vantagem, uma pequena brecha de oportunidade, mas tinha de se mover rapidamente ou esta fechar-se-ia.

Copiou os dois ficheiros para uma diskette, depois apagou-os do disco rígido. Katrine, embrulhada no edredão da cama, entrou na sala e sentou-se na outra ponta do sofá. Lange fechou o computador.

- Prometeste cozinhar para mim - disse. - Estou faminta.

- Tenho de ir a Paris.

- Agora? Lange anuiu.

- Não pode esperar até de manhã? Ele sacudiu a cabeça.

- Que há de tão importante em Paris? Lange olhou pela janela.

- Preciso de encontrar um homem.

Rashid Husseini não se parecia muito com um terrorista profissional. Tinha um rosto redondo e carnudo, e grandes olhos castanhos pesados de fadiga. O amarrotado fato de tweede camisola de gola alta davam-lhe a aparência de um estudante doutoral a trabalhar numa dissertação que ainda não conseguira acabar. Não estava longe da verdade. Husseini vivia em França com um visto de estudante, embora raramente conseguisse arranjar tempo para frequentar as suas aulas na Sorbonne. Ensinava inglês num centro de línguas num terrível subúrbio muçulmano a norte de Paris, fazia um ou outro trabalho de tradução, e por vezes escrevia artigos incendiários para diversos jornais da ala esquerda francesa. Eric Lange estava consciente da verdadeira fonte do rendimento de Husseini. Ele trabalhava para um dos braços da Autoridade Palestiniana que poucas pessoas conheciam. Rashid Husseini - estudante, tradutor, jornalista - era chefe das operações europeias para os serviços secretos estrangeiros da O LP. Husseini era o motivo porque Eric Lange fora a Paris.

Lange telefonara para o apartamento do palestiniano na Rue de Tournon. Uma hora depois, encontraram-se numa brasserie deserta no Bairro do Luxemburgo. Husseini, um nacionalista secular palestiniano da velha guarda, bebia vinho tinto. O álcool tornava-o falador. Pregou um sermão a Lange a respeito do sofrimento do povo palestiniano. Era virtualmente idêntico à diatribe que infligira a Lange em Tunes há vinte anos, quando ele e Abu Jihad estavam a tentar seduzi-lo para trabalhar para a causa palestiniana. A terra e as oliveiras, a injustiça e a humilhação.

- Os judeus são os novos nazis do mundo - opinou Husseini. - Na Margem Ocidental e em Gaza, operam como a Gestapo e as SS. O primeiro-ministro israelita? É

um criminoso de guerra que merece a justiça de Nuremberga. - Lange aguardou, mexendo o café com uma minúscula colher de prata e anuindo sabiamente nos momentos adequados. Não o podia evitar, mas sentia pena por Husseini. A guerra passara por ele. Outrora esta fora travada por homens como Rashid Husseini, intelectuais que liam Camus em francês e fodiam estúpidas raparigas alemãs nas praias de St. Tropez. Agora, os antigos combatentes engordavam à custa das esmolas dos europeus e americanos enquanto crianças, os preciosos frutos da Palestina, se faziam explodir nos cafés e mercados de Israel.

Por fim, Husseini ergueu as mãos num gesto impotente, como um velho que sabe que se transformou num fardo.

- Desculpa-me, Eric, mas a minha paixão acaba sempre por se sobrepor. Sei que não vieste cá hoje para falar acerca do sofrimento do meu povo. O que é? Estás à procura de trabalho?

Lange debruçou-se sobre a mesa.

- Estava a perguntar-me se estarias interessado em ajudar-me a encontrar o homem que matou o nosso amigo em Tunes.

Os olhos cansados de Husseini reavivaram subitamente.

- Abu Jihad? Eu estava lá nessa noite. Fui o primeiro a entrar no estúdio depois daquele monstro israelita ter feito o seu trabalho maléfico. Ainda consigo ouvir os gritos da mulher e filhos de Abu Jihad. Se tivesse essa oportunidade, eu mesmo o mataria.

- Que sabes a seu respeito?

- O seu verdadeiro nome é Allon, Gabriel Allon, mas usou dezenas de nomes diferentes. É restaurador de arte. Usa o seu trabalho como cobertura para os seus assassinatos na Europa. Um antigo camarada meu chamado Tariq al-Hourani colocou uma bomba debaixo do carro de Allon em Viena há cerca de doze anos, e fez explodir a sua mulher e filho. O rapaz morreu. Nunca soubemos ao certo o que aconteceu à mulher. Allon vingou-se de Tariq há coisa de dois anos em Manhattan.

- Lembro-me disso - disse Lange. - Aquele caso com Arafat. Husseini anuiu.

- Sabes onde ele está?

- Não, mas acho que sei para onde vai.

- Para onde? Lange disse-lhe.

- Roma? Roma é uma cidade grande, meu amigo. Vais ter de me dar mais que isso.

- Ele está a investigar o homicídio de um velho amigo. Vai para Roma para encontrar um detective italiano chamado Alessio Rossi. Segue Rossi e o israelita cair-te-á no colo.

Husseini rabiscou o nome num pequeno bloco de notas forrado a pele, e olhou para cima.

- Carabinieri? Policia di Stato?

- A última - respondeu Lange, e Husseini escreveu PS no bloco.

O palestiniano bebericou o vinho e estudou Lange durante um longo momento sem falar. Lange sabia as perguntas que atravessavam a mente de Husseini. Como é que Eric Lange sabia para onde é que o assassino israelita ia? E porque é que ele o queria morto? Lange decidiu responder às perguntas antes de Husseini as poder fazer.

- Ele anda atrás de mim. É um assunto pessoal. Quero-o morto, tal como tu. Nesse aspecto, temos interesses em comum. Se trabalharmos juntos, o assunto pode ser resolvido duma forma que se adeqúe aos dois.

Um sorriso espalhou-se pelo rosto de Husseini.

- Sempre foste um cliente muito frio, não foste, Eric? Nunca foste alguém para deixar que as tuas emoções tomassem conta de ti. Teria gostado de ter trabalhado contigo.

- Tens os recursos em Roma para montar uma operação de vigilância contra um oficial da Polícia?

- Posso seguir o próprio papa. Se o israelita está em Roma, encontrá-lo-emos. Mas é só isso que vamos fazer. A última coisa de que o movimento precisa neste momento é de se meter numa actividade extracurricular em solo europeu. - Piscou o olho. - Lembra-te, renunciámos ao terrorismo. Além disso, os europeus são os melhores amigos que temos.

- Limita-te a encontrá-lo - replicou Lange. - Deixa a sua morte comigo.

 

Os tempos eram difíceis para o Abruzzi. Localizado no bairro San Lorenzo, entre a estação ferroviária terminal e a igreja de Santa Maria Maggiore, a sua fachada cor de mostarda parecia ter sido atravessada por fogo de metralhadora, e o átrio cheirava a urina de gato. Apesar da sua aparência decrépita, a pequena pensione servia perfeitamente a Gabriel. O quartel-general da Polícia di Stato ficava a uma curta distância a pé, e ao contrário da maior parte das pensões em Roma cada quarto tinha o seu próprio telefone. Mais importante, se a Crux Vera andava à procura dele, o último lugar onde o procuraria seria no Abruzzi.

O gerente nocturno era um homem obeso com ombros redondos e um rosto florido. Gabriel registou-se sob o nome Heinrich Sicdler e falou com ele num italiano castigado, mas com um sotaque alemão assassino. O gerente avaliou Gabriel com uns olhos melancólicos, depois apontou o seu nome e número do passaporte no registo do hotel.

Gabriel atravessou uma atravancada sala comum, onde um par de adolescentes croatas estavam envolvidos num feroz jogo de ping-pong. Subiu silenciosamente a escadaria ensopada, entrou no quarto, e trancou a porta. Entrou na casa de banho. As manchas de ferrugem no lavatório pareciam sangue seco. Lavou o rosto, de seguida descalçou-se e caiu na cama. Tentou fechar os olhos, mas não conseguiu. Demasiado exausto para dormir, deixou-se ficar deitado de costas, ouvindo o tap-a-tap-a-tap do desafio de ténis de mesa no piso interior, revivendo as últimas vinte e quatro horas.

Viajava desde a madrugada. Em vez de voar directamente de Londres para Roma, o que teria feito com que passasse pela alfândega no aeroporto Fiumicino, voara até Nice. No aeroporto, visitara o balcão da Hertz, onde um amigo do Gabinete chamado Monsieur Henri lhe alugara um Renault de tal maneira que este nunca poderia ser relacionado com ele. De Nice, conduziu até Itália ao longo da auto-estrada A8. Perto do Mónaco, ligou a Radio Riviera falada em inglês para ouvir um pouco das notícias acerca da guerra nos territórios e em vez disso ficou a saber que Peter Malone fora encontrado morto a tiro na sua casa de Londres.

Estacionado na berma da auto-estrada, com o trânsito a passar, Gabriel ouvira o resto da notícia com as mãos estrangulando o volante, e o coração batendo contra as costelas. Como um grão-mestre do xadrez, jogara todas as jogadas e via o desastre a agigantar-se. Passara duas horas no interior da casa do jornalista. Malone tomara notas copiosas. Certamente que a Polícia Metropolitana descobrira essas notas. Devido à ligação com os serviços secretos, estes tinham provavelmente informado o MI5. Havia boas possibilidades de que cada principal força policial e serviço de segurança da Europa andasse à procura do assassino israelita com o nome de código Espada. A coisa segura a fazer?Telefonar a Shamron por uma linha de emergência, arranjar um esconderijo, e sentar-se na praia em Netanya até as coisas acalmarem. Mas isso significaria desistir da busca dos assassinos de Benjamin. E de Malone. Voltou à auto-estrada e acelerou em direcção a Itália. Na fronteira, um guarda sonolento deixou-o entrar no país com um aceno lânguido da mão.

E agora, após uma condução interminável pela península italiana, encontrava-se ali, naquele quarto de cheiro azedo no Abruzzi. No piso inferior, o desafio de ténis de mesa tinha-se tornado em algo semelhante a uma guerra nos Balcãs. Os gritos do partido melindrado encheram o quarto de Gabriel. Pensou em Peter Malone e perguntou-se se este seria responsável pela sua morte. Fora ele que conduzira os assassinos até Malone, ou estaria este já marcado para ser eliminado? Era Gabriel o próximo na lista? Enquanto era arrastado para o sono, o aviso de Malone atravessou-lhe a sua memória: «Se eles pensarem que você constitui uma ameaça, não hesitarão em matá-lo".

Amanhã, encontraria Alessio Rossi. Depois sairia de Roma o mais depressa possível.

Gabriel dormiu mal e acordou cedo ao ouvir os sinos de igreja a tocarem. Abriu os olhos e pestanejou devido à luz forte do Sol. Tomou um duche e vestiu roupa lavada, depois desceu as escadas até à sala de jantar para tomar o pequeno-almoço. Os croatas não estavam à vista, apenas um par de peregrinos americanos religiosos e um bando de ruidosos estudantes universitários de Barcelona. Havia uma sensação de excitação no ar, e Gabriel lembrou-se que era quarta-feira, o dia em que o Santo Padre saudava os peregrinos na Praça de São Pedro.

Às nove horas, Gabriel regressou ao quarto e fez a sua primeira chamada para o inspector Alessio Rossi da Policia di Stato. Uma telefonista passou-o para o gravador de mensagens do detective.

- Chamo-me Heinrich Siedler - disse Gabriel. - Tenho informações respeitantes ao padre Felici e ao padre Manzini. Pode contactar-me na pensão Abruzzi.

Desligou. E agora? Não tinha qualquer opção se não esperar e desejar que o detective lhe retribuísse a chamada. Não havia televisão no quarto. A mesa-de-cabeceira tinha um rádio embutido, mas o botão de sintonização estava partido.

Após uma hora de um tédio paralisante, voltou a marcar o número uma segunda vez. De novo, a telefonista transferiu-o directamente para o gravador de mensagens de Rossi. Gabriel deixou uma segunda mensagem, idêntica à primeira, mas com uma ténue nota de urgência na voz.

Às onze e meia, fez uma terceira chamada para o número de Rossi. Desta vez, passaram-no para um colega que explicou que o inspector estava numa missão, e que só voltaria ao gabinete ao fim da tarde. Gabriel deixou uma terceira mensagem e desligou.

Decidiu aproveitar a oportunidade para sair do quarto. Nas ruas à volta da igreja de Santa Maria Maggiore, verificou se estaria a ser seguido, mas não havia sinais disso. Depois percorreu a Via Napoleone III. O ar de Março era revigorante e límpido, e cheirava a fumo de madeira. Comeu massa num restaurante perto da Piazza Vittorio Emanuele II. Depois do almoço, passeou ao longo da elevada fachada ocidental da Stazione Termini, depois deambulou entre os edifícios clássicos do bairro governamental de Roma até encontrar o quartel-general da Polícia di Stato. Num café do lado oposto da rua, bebeu um espresso, e observou os polícias e as secretárias a entrarem e a saírem, perguntando-se se Rossi estaria entre eles.

Às três horas, regressou à pensão Abruzzi. Ao atravessar a Piazza di Republica, uma multidão de cerca de quinhentos estudantes entrou na praça vindos da direcção da Università Romana. A cabeça da procissão, encontrava-se um rapaz com a barba por fazer usando uma faixa de cabeça branca. A volta da cintura, encontravam-se paus de dinamite artificial. Atrás dele, um grupo de pseudo-carpideiras transportava um caixão feito de cartão. Ao aproximarem-se, Gabriel conseguiu ver que a maior parte dos manifestantes eram italianos, incluindo o rapaz vestido como bombista suicida. Cantavam «Libertem a terra da Palestina!» e «Morte aos judeus!» - não em árabe, mas em italiano. Uma jovem italiana, com não mais de vinte anos, enfiou um panfleto na mão de Gabriel. Este mostrava o primeiro-ministro israelita vestido com o uniforme das SS com um bigode em escova de dentes à Hitler, o salto da sua bota da tropa esmagando o crânio de uma rapariga palestiniana. Gabriel amassou o panfleto numa bola e deixou-o cair na praça.

Passou por uma banca de flores. Dois carabinieri namoriscavam desavergonhadamente com a rapariga que aí trabalhava. Ergueram por momentos o olhar quando Gabriel passou e olharam para ele com um interesse indisfarçado antes de voltarem a desviar a sua atenção para a rapariga. Podia não ser nada, mas algo na forma como o olharam fez com que o suor escorresse pelas costelas de Gabriel.

Ele demorou o seu tempo a regressar à pensão, tendo cuidado para se certificar que ninguém o estava a seguir. Ao longo do caminho, passou por um carabiniere de mota, estacionado ao sol, observando com pouco interesse a loucura do trânsito engarrafado. Gabriel pareceu intrigá-lo ainda menos.

Entrou na pensão Abruzzi. Os espanhóis tinham regressado da audiência de quarta-feira num estado de grande entusiasmo. Parecia que um deles, uma rapariga com um corte de cabelo espetado, conseguira tocar na mão do papa.

No seu quarto no piso superior, Gabriel ligou para o número de Rossi.

- Pronto.

- Inspector Rossi?

- Si.

- Chamo-me Heinrich Siedler. Telefonei hoje mais cedo.

- Ainda está na pensão Abruzzi?

- Sim.

- Não volte a telefonar para aqui.

CLIQUE.

A noite caíra e com ela chegou uma tempestade mediterrânica. Gabriel estava deitado na cama com a janela aberta, ouvindo a chuva a bater contra as pedras do pavimento na rua, enquanto a conversa com Alessio Rossi virava e revirava continuamente na sua cabeça como a repetição de uma cassete áudio.

- Ainda está na pensão Abrujgi?

- Sim.

- Não volte a telefonar para aqui.

Era óbvio que o detective italiano desejava falar com ele. Também era óbvio que não queria mais nenhum contacto com Herr Siedler pelo telefone do seu gabinete. Gabriel não tinha qualquer escolha para além de esperar por ele, e de aguardar que Rossi tomasse o próximo passo.

Por fim, às nove horas, o telefone tocou. Era o gerente nocturno.

- Está aqui um homem para o ver.

- Como se chama?

- Não disse. Devo mandá-lo embora?

- Não, descerei dentro de um minuto.

Gabriel desligou e saiu para o corredor, trancando a porta atrás de si. No piso inferior, encontrou o gerente nocturno sentado atrás do balcão da recepção. Não se encontrava ali mais ninguém. Gabriel olhou para ele e encolheu os ombros. O gerente nocturno apontou com um indicador semelhante a uma salsicha a sala comum. Gabriel entrou nesta, mas viu que a sala estava deserta, exceptuando os jogadores croatas de ténis de mesa.

Voltou à recepção. O italiano ergueu as mãos num gesto de rendição e desviou a atenção para uma miniatural televisão a preto e branco. Gabriel subiu as escadas até ao quarto. Destrancou a porta e entrou.

Viu a pancada a chegar, um relampejar de luz em metal negro, aba-tendo-se na sua direcção em arco, como uma pincelada brilhante de tinta molhada atravessando uma tela em branco. Demasiado tarde, ergueu as mãos para proteger a cabeça. A coronha de uma pistola esmagou-se contra a sua nuca, atrás do ouvido esquerdo.

A dor foi imediata. A visão desfocou-se. As pernas pareceram subitamente paralisadas, e sentiu-se cair enroscado para baixo. O seu atacante apanhou-o e arrastou-se sem ruído pelo chão de linóleo. Ouviu o aviso de Peter Malone uma última vez - «Se eles pensarem que você constitui uma ameaça, não hesitarão em matá-lo» - e depois apenas o som de um desafio de ténis de mesa no piso inferior na sala comum.

TAP-A-TAP-A-TAP...

Quando Gabriel acordou, o rosto ardia-lhe. Abriu os olhos e encontrou-se a olhar para uma lâmpada de halogéneo a não mais de um centímetro do seu rosto. Fechou os olhos e tentou virar a cabeça. A dor disparou-lhe através da nuca como uma segunda pancada. Perguntou-se quanto tempo teria estado desmaiado. O tempo suficiente para o seu atacante lhe ter tapado a boca e pulsos com fita adesiva. Tempo suficiente para o sangue secar contra o lado do seu pescoço.

A luz estava tão próxima que não conseguia ver mais nada do quarto. Tinha a sensação que não deixara o Abruzzi. Isto foi confirmado quando ouviu gritar em servo-croata. Estava na sua própria cama.

Tentou sentar-se. O cano de uma arma pareceu voar vindo da luz. Este comprimiu-se contra o seu esterno e empurrou-o de novo contra o colchão. Depois surgiu um rosto. Ombros pesados sob os olhos, barba de três dias num queixo quadrado. Os lábios moveram-se, chegou som aos ouvidos de Gabriel. No seu delírio, parecia-se com um filme dessincronizado, e o seu cérebro necessitava de um momento para processar e compreender as palavras que acabara de ouvir.

- Chamo-me Alessio Rossi. Que raio é que você quer?

 

O homem jovem sentado de lado num motorino na Via Gioberti tinha o ar de insolência entediada típica dos adolescentes romanos. Não estava entediado, nem era adolescente. Tratava-se de um oficial de trinta anos da Vigilanza destacado para a secção especial do Gabinete de Segurança do Vaticano por Carlo Casagrande. A sua aparência juvenil era uma mais-valia para a sua actual missão: a vigilância do inspector Alessio Rossi da Policia di Stato. O homem da Vigilanza sabia apenas o que precisava de saber a respeito de Rossi. Um conflituoso, o inspector. Metendo o nariz em lugares onde não era chamado. No final de cada turno, o oficial regressava ao Vaticano, depois dactilografava um relatório detalhado e deixava-o na secretária de Casagrande. O velho general lia sempre os relatórios acerca de Rossi no momento em que estes chegavam. Tinha um interesse especial no caso.

Rossi agia de forma suspeita. Duas vezes nesse dia - uma de manhã e, de novo, à tarde -, conduzira um carro sem marcas do quartel-general até à Via Gioberti e estacionara aí. O homem da Vigilanza observara Rossi a olhar para a pensão Abruzzi como um homem que desconfiasse que a sua mulher estava lá dentro com um amante. Após a segunda visita, o oficial contactou um informador do departamento de Rossi, uma jovem bonita que atendia os telefones e tratava dos arquivos. A rapariga disse-lhe que nesse dia Rossi recebera diversas chamadas telefónicas de um hóspede da pensão Abruzzi, oferecendo informações acerca de um caso antigo. O nome do hóspede? Siedler, respondera a informadora. Heinrich Siedler.

O homem da Vigilanza tinha um palpite. Desceu da mota e entrou na pensão. O gerente nocturno ergueu o olhar de uma revista pornográfica.

- Há um homem chamado Heinrich Siedler hospedado nesta pensão?

O gerente nocturno encolheu os ombros pesados. O oficial da vigilanza fez deslizar duas notas de euro através do balcão e viu-as desaparecer na mão gorda do gerente.

- Sim, creio que temos um homem chamado Siedler aqui hospedado. Deixe-me ver. - Consultou o livro de registos com grande aparato. - Ah, sim, Siedler.

O homem do Vaticano tirou uma fotografia do bolso do blusão de cabedal e colocou-a sobre o balcão. Isto produziu um franzir de testa prudente do gerente nocturno. O seu rosto iluminou-se ao ver mais dinheiro.

- Sim, é ele. Esse é Siedler.

O homem da Vigilanza agarrou na fotografia.

- Qual é o quarto?

O apartamento na Via Pinciana era demasiado grande para um homem velho que vivia sozinho: tectos abobadados, uma espaçosa sala de estar, um amplo terraço com uma vista assombrosa da Villa Borghese. Nas noites em que Carlo Casagrande estava atormentado por recordações da sua mulher e filha, este parecia-lhe tão cavernoso quanto a Basílica. Se ainda fosse um mero general dos carabinieri, o apartamento estaria muito para lá daquilo que se poderia permitir, mas como o edifício pertencia ao Vaticano, Casagrande não pagava nada. Não se sentia culpado por viver bem à custa das doações dos fiéis. O apartamento não servia apenas como um lar, servia também como o seu quartel-general. Em resultado disso, tomava precauções que os seus vizinhos não tomavam. Havia um homem da Vigilanza permanentemente à porta e outro num carro estacionado na Via Pinciana. Uma vez por semana, uma equipa do Gabinete de Segurança do Vaticano verificava o apartamento para se certificar que este estava livre de escutas.

Atendeu o telefone ao primeiro toque, e reconheceu de imediato a voz do homem da Vigilanza

destacado para o caso Rossi. Ouviu em silêncio enquanto o oficial fazia o seu relatório, depois desligou e marcou um número.

- Preciso de falar com Bartoletti. !. urgente.

- Receio que o director esteja indisponível de momento.

- Fala Carlo Casagrande. Faça com que ele fique disponível.

- Sim, general Casagrande. Por favor, aguarde.

Um momento depois, Bartoletti surgiu em linha. Casagrande não perdeu tempo em cumprimentos.

- Recebemos a informação de que o assassino papal está alojado no quarto vinte e dois da pensão Abruzzi no bairro San Lorenzo. Temos motivos para acreditar que está armado e é perigoso.

Bartoletti desligou. Casagrande acendeu um cigarro e começou a espera.

Em Paris, Eric Lange levou o telemóvel ao ouvido e ouviu a voz de Rashid Husseini.

- Acho que talvez tenhamos encontrado o nosso homem.

- Onde está ele?

- O teu detective italiano tem agido todo o dia de modo peculiar. Acabou de entrar numa pensão chamada Abruzzi, uma verdadeira espelunca perto da estação ferroviária.

- Em que rua?

- Na Via Gioberti.

Lange olhou para o relógio. Não existia qualquer maneira de estar essa noite em Roma. Teria de sair de manhã.

- Mantenham-no vigiado - disse. - Chamem-me se ele se mudar.

- Certo.

Lange desligou, depois ligou para as reservas da Air France e marcou um lugar para o voo das sete e um quarto.

 

Rossi pressionou a arma contra a testa de Gabriel e arrancou-lhe a fita adesiva da boca.

- Quem é você?

Saudado pelo silêncio, o polícia empurrou dolorosamente o cano da arma contra a têmpora de Gabriel.

- Sou amigo de Benjamin Stern.

- Céus! Isso explica o motivo porque andam à sua procura.

- Quem?

- Toda a gente! Policia di Stato. Os carabinieri. Até têm a SISDE atrás de si.

Ainda com a arma firmemente no lugar, Rossi retirou uma folha de papel de fax do bolso do casaco e ergueu-a perante os olhos de Gabriel. Gabriel semicerrou os olhos à luz forte. Era uma fotografia, granulosa e obviamente tirada com uma lente telescópica, mas suficientemente clara para ele conseguir ver que o rosto da imagem era o seu. Olhou para a roupa que vestia e apercebeu-se que era a roupa de Ehud Landau. Vasculhou a sua memória. Munique... a Aldeia Olímpica....Weiss também o devia ter seguido nessa altura.

A fotografia ergueu-se como uma cortina e Gabriel encontrou-se a olhar mais uma vez para o rosto de Alessio Rossi. O detective cheirava a suor e cigarros. O seu colarinho estava húmido e sujo. Gabriel já vira anteriormente homens sob pressão. Rossi estava de rastos.

- Esta fotografia foi enviada para todas as esquadras de Polícia num raio de cento e cinquenta quilómetros de Roma. O Gabinete de Segurança do Vaticano diz que você anda a perseguir o Santo Padre.

- Não é verdade.

Por fim, o italiano baixou a arma. O local na têmpora de Gabriel onde o cano estivera encostado latejou durante alguns segundos. Rossi virou a luz na direcção da parede e manteve a arma na mão direita, repousando contra a coxa.

- Como conseguiu o meu nome? Gabriel respondeu com a verdade.

- Eles também mataram Malone - disse Rossi. - Você é o próximo, meu amigo. Quando o encontrarem, vão matá-lo.

- Quem são eles?

- Siga o meu conselho, Herr Siedler, ou qualquer que seja o seu nome. Saia de Itália. Se puder partir esta noite, melhor.

- Não partirei até você me contar aquilo que sabe. O italiano inclinou a cabeça para o lado.

- Você não está realmente numa posição de fazer exigências, pois não? Vim aqui por um motivo, para tentar salvar-lhe a vida. Se ignorar o meu aviso, o problema é seu.

- Preciso de saber o que você sabe.

- Você precisa de sair de Itália.

- Benjamin Stern era meu amigo - replicou Gabriel. - Preciso da sua ajuda.

Rossi olhou Gabriel por um momento, o seu olhar tenso, depois levantou-se e dirigiu-se à casa de banho. Gabriel ouviu água a correr para o lavatório. Rossi voltou um momento depois segurando uma toalha molhada. Empurrou Gabriel para um lado, desatou-lhe os pulsos, e deu-lhe a toalha molhada. Gabriel limpou o sangue do pescoço, enquanto Rossi se dirigia à janela e afastava as cortinas transparentes.

- Para quem é que você trabalha? - perguntou, olhando para a rua.

- Devido às presentes circunstâncias, provavelmente é melhor que eu não responda a isso.

- Jesus Cristo - murmurou Rossi. - Em que raio é que eu me fui meter?

O detective puxou uma cadeira para junto da janela e lançou outro longo olhar à rua. Depois apagou a luz e contou a Gabriel a história desde o princípio.

Monsenhor Cesare Felici, um padre idoso e há muito reformado, desaparecera do seu quarto no Colégio de São João Evangelista numa noite de Junho. Quando o monsenhor não regressou na noite seguinte, os seus colegas decidiram que era altura de reportarem o caso à Policia. Como o colégio não tinha estatuto territorial do Vaticano, a jurisdição recaiu sobre as autoridades italianas. O inspector Alessio Rossi da Policia diStato foi destacado para o caso e partiu para o colégio ao início dessa noite.

Rossi já investigara anteriormente crimes envolvendo o clero e já vira o quarto de pacires. O de monsenhor Felici atingiu-o como invulgarmente espartano. Nenhum papel pessoal de qualquer tipo, nenhum diário, nenhumas cartas de amigos ou familiares. Apenas um par de sotainas coçadas, um par suplementar de sapatos, alguma roupa interior e meias. Um rosário muito manuseado. Um cilício.

Rossi interrogou vinte pessoas naquela primeira noite, lodos contaram histórias semelhantes. No dia do seu desaparecimento, o velho monsenhor dera o seu habitual passeio da tarde pelo jardim antes de se dirigir à capela para rezar e meditar. Quando não apareceu para jantar, os seminaristas e os outros padres presumiram que ele estava cansado ou que não se sentia bem. Ninguém se incomodou a ver como ele estava, e só mais tarde nessa mesma noite, descobriram que ele desaparecera.

O reitor do colégio deu a Rossi uma fotografia recente do monsenhor, em conjunto com uma curta biografia. Felici não era um padre pastoral. Passara virtualmente toda a sua carreira a trabalhar no interior do Vaticano como funcionário da Cúria. A sua última função, segundo o reitor, era uma posição de membro do pessoal da Congregação para a Causa dos Santos. Estava reformado há vinte anos.

Não era muito para começar, mas Rossi iniciara casos com menos. Na manhã seguinte, entrou nos pormenores privados do padre desaparecido, acedendo à base de dados da Policia di Stato e distribuiu a fotografia às forças policiais por toda a Itália. De seguida, procurou na base de dados para ver se qualquer outro clérigo desaparecera recentemente. Rossi não tinha palpites e nenhuma teoria sobre a qual trabalhar. Só se queria certificar que não havia um louco a percorrer o país assassinando padres.

O que Rossi descobriu chocou-o. Dois dias antes do desaparecimento de Felici, outro padre desaparecera - um monsenhor Manzini, que vivia em Turim. Tal como Felici, monsenhor Manzini reformara-se do Vaticano. A sua última função fora na Congregação para a Educação Católica. Vivia num lar para padres, e tal como monsenhor Felici, parecia ter desaparecido sem deixar rastro.

O segundo desaparecimento levantou um certo número de interrogações na mente de Rossi. Estariam os dois casos relacionados? Manzini e Felici conheciam-se? Teriam alguma vez trabalhado juntos? Rossi decidiu que chegara a altura de falar com o Vaticano. Abordou o Gabinete de Segurança do Vaticano e requisitou os ficheiros pessoais dos padres desaparecidos. O Vaticano recusou o pedido de Rossi. Em vez disso, deram-lhe um memorando que resumia a carreira que cada um deles tinha feito na Cúria. Segundo esse memorando, ambos os padres tinham estado ligados a uma série de missões menores, cada uma delas mais banal que a anterior. Frustrado, Rossi fez a si mesmo mais uma pergunta. Conheciam-se? Podiam ter-se encontrado socialmente, disseram a Rossi, mas nunca tinham trabalhado juntos.

Rossi estava convencido que o Vaticano escondia alguma coisa. Decidiu ignorar completamente o Gabinete de Segurança, e arranjar ele mesmo os ficheiros completos. A mulher de Rossi tinha um irmão que era um padre destacado para o Vaticano. Rossi pediu-lhe ajuda, e o padre concordou relutantemente. Uma semana mais tarde, Rossi tinha cópias completas dos seus ficheiros pessoais.

- Eles conheciam-se?

- Dir-se-ia que sim. Sabe, tanto Felici como Manzini trabalhavam no Secretariado de Estado durante a guerra.

- Em que departamento?

- No departamento alemão.

Rossi olhou longamente para a rua antes de prosseguir. Cerca de uma semana depois, recebeu uma resposta ao seu pedido original para relatórios quanto a outros clérigos desaparecidos. Este não se encaixava perfeitamente no critério, mas a Polícia local decidira enviar de qualquer modo o relatório para Rossi. Perto da fronteira com a Áustria, na cidade de Tolmezzo, uma viúva idosa tinha desaparecido. As autoridades locais tinham desistido de a procurar, e ela fora dada como presumivelmente morta. Porque é que o seu desaparecimento fora levado à atenção de Rossi? Porque durante dez anos fora freira, antes de renunciar aos seus votos em 1947 de modo a poder casar.

Rossi decidiu meter os seus superiores ao barulho. Escreveu um relatório com o que descobrira e apresentou-o ao seu chefe de departamento, depois pediu autorização para pressionar as autoridades do Vaticano para mais informações a respeito dos dois padres desaparecidos. O pedido foi recusado. A freira tinha uma filha que vivia em França, numa vila chamada Le Rouret nas colinas acima de Cannes. Rossi pediu autorização para viajar até França para a interrogar. O pedido foi recusado. De cima, informaram que os desaparecimentos não estavam relacionados, e que não não havia nada para encontrar dentro do Vaticano.

- De quem veio a informação?

- Do próprio velho - respondeu Rossi. - Carlo Casagrande.

- Casagrande? Porque é que eu conheço esse nome?

- O general Carlo Casagrande foi o chefe do contraterrorismo do Uarma del carabinieri durante os anos setenta e oitenta. Foi o homem que destroçou as Brigadas Vermelhas e transformou de novo a Itália num país seguro. Por isso, ele é um pouco uma espécie de herói nacional. Agora trabalha para o Gabinete de Segurança do Vaticano, mas dentro da comunidade dos serviços secretos e segurança italianos ainda é um deus. É infalível. Quando Casagrande fala, toda a gente ouve. Quando Casagrande quer um caso encerrado, está encerrado.

- Quem está a cometer os assassínios? - perguntou Gabriel. O detective encolheu os ombros. Estamos a falar do Vaticano, meu amigo.

- Quem quer que esteja por trás disto, o Vaticano não quer que o assunto seja investigado. O código de silêncio está a ser estritamente reforçado, e Casagrande está a utilizar a sua influência para manter a Polícia italiana sob rédeas curtas.

- A freira que desapareceu em Tolmezzo... como se chamava?

- Regina Carcassi.

Encontre a irmã Regina e Martin Lufher. Então saberá a verdade sobre o que aconteceu no convento.

- E qual era o nome do convento onde ela viveu durante a guerra, antes de ter renunciado aos seus votos?

- Acho que algures a norte. - Rossi hesitou por um momento, tentando recordar-se. - Ah, sim, o Convento do Sagrado Coração. Fica no lago Garda, numa cidade chamada Brenzone. Um belo lugar.

Algo em baixo, na rua, prendeu a atenção de Rossi. Inclinou-se para a frente e afastou a cortina, espreitando atentamente pela janela. Depois levantou-se de um salto e agarrou Gabriel pelo braço.

- Venha comigo. Agora!

Os primeiros oficiais da Polícia irromperam pela porta principal da pensão: dois polícias à paisana da Policia diStato seguidos por meia dúzia de carabinieri com armas semi-automáticas a tiracolo. Rossi com duziu-o através da sala comum, depois por um corredor curto até uma porta metálica que se abria para um escuro pátio interior. Gabriel conseguia ouvir os polícias subindo pesadamente as escadas em direcção ao seu quarto vazio. Tinham evitado com sucesso a primeira vaga. Decerto que se seguiriam mais.

Do outro lado do pátio, havia uma passagem que conduzia à rua que corria paralela à Via Gioberti. Rossi agarrou em Gabriel pelo antebraço e puxou-o nessa direcção. Atrás deles, no segundo piso da pensão, Gabriel conseguia ouvir os carabinieri a arrombarem a porta do quarto.

Rossi gelou quando mais dois carabinieri atravessaram a passagem a correr, de armas em riste. Gabriel empurrou Rossi e puseram-se de novo em movimento. Os carabinieri chegaram ao pátio, e pararam ruidosamente. As suas semi-automáticas rodaram de imediato, prontas a disparar. Gabriel percebeu que renderem-se não era uma opção. Atirou-se ao chão, aterrando pesadamente sobre o peito, quando os primeiros tiros passaram por cima da sua cabeça. Rossi não foi suficientemente rápido. Um tiro atingiu-o no ombro e atirou-o ao chão.

A Beretta caiu-lhe da mão e aterrou a pouco menos de um metro da mão esquerda de Gabriel. Gabriel estendeu os dedos e puxou a arma para si. Sem hesitar, ergueu-se sobre os cotovelos e começou a disparar. Um carabiniere caiu, depois o outro.

Gabriel rastejou até junto de Rossi. Este sangrava abundantemente de uma ferida no ombro direito.

- Onde aprendeu a disparar assim?

- Consegue andar?

- Ajude-me a levantar.

Gabriel ajudou Rossi a levantar-se, envolveu a cintura do italiano com o braço, e conduziu-o na direcção da passagem. Ao passarem pelos dois carabinieri mortos, Gabriel ouviu gritos atrás de si. Soltando Rossi um pouco, agarrou numa das semi-automáticas, depois deixou-se cair sobre um joelho, abriu fogo e varreu o lado da pensão. Ouviu gritar e viu homens a atirarem-se ao chão em busca de abrigo.

Gabriel agarrou noutro cartucho, introduziu-o na arma, e enfiou a Beretta de nove milímetros de Rossi no cós das calças. Depois encaixou o braço no cotovelo esquerdo de Rossi e puxou-o através da passagem. Quando se aproximavam da rua, surgiram mais dois carabinieri. Gabriel disparou de imediato, lançando os dois homens ao chão.

Ao chegarem ao pavimento, Gabriel hesitou. Da esquerda, um carro acelerava na sua direcção, luzes a piscar, sirenes soando. Da direita, quatro homens aproximavam-se a pé. Do outro lado da rua, situava-se a entrada de uma trattoria.

Enquanto Gabriel avançava, disparos irromperam do interior da passagem. Atirou-se para a esquerda, abrigando-se atrás de um muro, e tentou puxar Rossi para si, mas o italiano foi atingido duas vezes nas costas. Como que congelou, de braços abertos e cabeça para trás, quando um último tiro o atravessou do lado direito do abdómen.

Não havia nada que Gabriel pudesse agora fazer por ele. Precipitou-se através da rua e atirou-se contra a porta do restaurante. Ao irromper pela sala de refeições com a metralhadora nas mãos, provocou um pandemónio.

Em italiano, gritou:

- Terroristas! Terroristas! Saiam! Agora!

Toda a gente na sala se levantou ao mesmo tempo e começaram a fugir para a porta. .Enquanto Gabriel corria para a cozinha, conseguiu ouvir os carabinieri gritando aos clientes que saíssem do caminho.

Gabriel atravessou a correr a cozinha minúscula, passando por cozinheiros e empregados de mesa espantados, e abriu a pontapé a porta das traseiras. Encontrou-se num beco estreito, com menos de um metro e meio de largura, cheirando mal e escuro como o poço de uma mina. Fechou a porta atrás de si e continuou a correr. Alguns segundos depois, a porta voltou a abrir-se. Gabriel virou-se e varreu o beco com disparos. A porta fechou-se.

No fim do beco, chegou a uma avenida larga. A sua direita, encontrava-se a fachada da igreja de Santa Maria Maggiore; à esquerda, a extensão da Piazza Vittorio Emanuele. Deixou cair a semi-automática no beco e atravessou a rua, serpenteando através do trânsito. Sirenes soavam de todas as direcções.

Atravessou uma série de ruas estreitas, depois moveu-se rapidamente através de outra avenida movimentada, a Via Merulana, e encontrou-se na extremidade do vasto parque que rodeava o Coliseu. Manteve-se nos arruamentos escurecidos. Unidades de carabinieri já o procuravam com lanternas, o que os tornava fáceis de ver e evitar.

Dez minutos depois, Gabriel chegou ao rio. Numa cabine telefónica pública, marcou o número que nunca fora anteriormente forçado a usar. O telefone só tocou uma vez e foi logo atendido por uma mulher jovem, com uma voz agradável. Ela falou-lhe em hebraico. Era o som mais doce que ele alguma vez ouvira. Ele proferiu uma frase em código, depois recitou uma série de números. Houve alguns segundos de silêncio enquanto a rapariga premia os números num computador.

Depois, ela disse:

- O que se passa?

- Estou em sarilhos. Tem de me mandar buscar.

- Está ferido?

- Não com gravidade.

- Está a salvo na sua presente localização?

- De momento estou, mas não durante muito mais tempo.

- Volte a telefonar dentro de dez minutos. Até essa altura, mantenha-se em movimento.

 

A Via Gioberti parecia arder com as pulsantes luzes azuis de emergência. Achille Bartoletti saiu da pensão Abruzzi e viu o carro de Carlo Casagrande por entre a confusão. O chefe da segurança italiano aproximou-se com passo de executivo e entrou para o banco de trás do veículo.

- O seu assassino é muito bom com uma arma, general. Espero que ele nunca se aproxime do Santo Padre.

- Quantos mortos?

- Quatro carabinieri mortos, outros seis feridos.

- Santo Deus - murmurou Casagrande.

- Receio que haja outra baixa, um detective da Policia diStato chamado Alessio Rossi. Aparentemente, ele estava dentro do quarto do assassino quando os carabinieri entraram. Por algum motivo, Rossi tentou escapar com ele.

Casagrande fingiu surpresa. O tom da pergunta seguinte de Bartoletti revelava que este não achara a sua representação muito convincente.

- Há alguma coisa a respeito deste assunto que se tenha esquecido de me contar, general?

Casagrande encontrou o olhar zombeteiro de Bartoletti e sacudiu lentamente a cabeça.

- Contei-lhe tudo o que sei, Achille.

- Estou a ver.

Casagrande tentou mudar rapidamente de assunto.

- Qual é a situação de Rossi?

- Receio que também esteja morto.

- Foi o israelita?

- Não, parece que foi abatido pelos carabinieri.

- Há alguma coisa no quarto?

- Apenas uma muda de roupa. Nada de papéis, ou identificação. O seu homem é bom.

Casagrande levantou o olhar para a janela aberta no segundo piso da pensão. Ele esperara que o assunto fosse rapidamente tratado. Agora, tinha de usar as circunstâncias em seu proveito.

- Baseado no seu desempenho desta noite, é-me óbvio que este homem é um profissional.

- Não posso discutir com essa conclusão, general.

- Quanto a Rossi, talvez ele tenha estado de algum modo envolvido na conspiração.

- Talvez - replicou Bartoletti, com pouca convicção.

- Quaisquer que sejam as circunstâncias, não deve ser permitido ao israelita deixar Roma.

- Uma centena de oficiais andam à sua procura neste exacto momento.

- Ele não ficará muito tempo em Roma. Partirá na primeira oportunidade. Se fosse a si, selaria a cidade. Vigie cada estação ferroviária e terminal de autocarros.

A expressão de Bartoletti traía o facto de ele não apreciar ser tratado como um incompetente a quem tinham de explicar como montar uma busca a um fugitivo.

- Receio que neste momento este caso tenha pouco a ver com o Vaticano, general Casagrande. Afinal, cinco polícias italianos foram mortos em solo italiano. Faremos uma busca do modo que acharmos aconselhável, e informaremos o Gabinete de Segurança do Vaticano à medida que os acontecimentos se desenrolarem.

«O aluno virou-se contra o mestre», pensou Casagrande. Tal era a natureza de todas as relações como esta.

- Claro, Achille - disse ele submissamente. - Não o queria desautorizar.

- Não desautorizou, general. Mas eu não teria muita esperança que este homem se limitasse a desaparecer. Falando por mim, gostaria de saber o que é que o inspector Rossi estava a fazer no quarto dele. Pensei que também gostaria de saber isso.

Bartoletti saiu do carro sem esperar por uma resposta e afastou-se de modo decidido. O motorista de Casagrande olhou pelo espelho retrovisor.

- De volta à Via Pinciana, general? Casagrande sacudiu a cabeça.

- Il Vaticano.

Num quiosque de souvenirs perto do Fórum, Gabriel comprou uma sweatshirt azul escura com um capuz, com as palavras Viva Roma! bordadas no peito. Numa casa de banho pública, tirou a camisa e enfiou-a numa lata de lixo. Só então é que reparou que uma bala o apanhara de raspão no lado direito, deixando um sulco vermelho abaixo do sovaco. Usou papel higiénico para limpar o sangue, depois vestiu com cuidado a nova sweatshirt. A Beretta de Rossi ainda estava enfiada no cós das suas calças de ganga. Saiu e dirigiu-se para norte na direcção da Piazza Navona.

Fizera a sua segunda chamada para a linha de emergência. A mesma mulher atendera a chamada e dissera-lhe para se dirigir à igreja de Santa Maria della Pace. No interior, perto dos confessionários, estaria um homem vestindo um sobretudo castanho com um exemplar dobrado do L'Osservatore Romano. O agente diria a Gabriel onde se dirigir a seguir.

A sua primeira responsabilidade era agora para com os seus salvadores. Tinha de ter a certeza que não os estava a conduzir para uma armadilha. Enquanto atravessava um labirinto de ruas estreitas e becos no centro histórico, misturou-se com os turistas e com os romanos, mantendo-se afastado das principais vias públicas. Ainda conseguia ouvir o uivo das sirenes da Polícia à distância, mas estava confiante que ninguém o seguia.

Na Piazza Navona, carabinieri patrulhavam aos pares. Gabriel colocou o capuz sobre a cabeça e juntou-se a um grupo de pessoas que via um homem a tocar guitarra clássica junto a uma fonte. Olhou para cima e viu que a extremidade norte da praça estava livre de polícias. Virou-se, atravessou a praça, e seguiu por um beco estreito até à entrada da igreja. Um pedinte estava sentado nos degraus. Gabriel passou por ele e entrou.

O cheiro de incenso saudou-o. Pensou em Veneza. A quietude de San Zaccaria. Apenas há duas semanas, ele estava em paz, restaurando uma das mais importantes pinturas de toda a Itália. Agora estava a ser perseguido por todos os polícias de Roma. Perguntou-se se alguma vez lhe seria permitido regressar à sua antiga vida.

Deteve-se perante a pia de água benta, pensou melhor, e avançou pela nave. Uma mulher velha estava de joelhos perante uma bancada de velas. Do lado oposto das portas do confessionário, encontrava-se sentado um homem com um sobretudo castanho. No banco, estava um exemplar do L'Osservatore Romano dobrado ao meio. Gabriel sentou-se a seu lado.

- Está a sangrar - disse o homem do sobretudo. Gabriel olhou para baixo, e viu que um dos lados estava na verdade ensopado em sangue. - Precisa de um médico?

- Ficarei bem. Vamos sair daqui.

- Eu não. Sou apenas o mensageiro.

- Para onde vou?

- No exterior da igreja, está estacionada uma mota BMW O condutor usa um capacete vermelho.

Gabriel saiu da igreja. A mota estava ali. Quando Gabriel se aproximou, o condutor premiu o botão da ignição e ligou o motor. Gabriel lançou uma perna sobre a parte de trás da mota e envolveu com os braços a cintura do condutor. A mota dirigiu-se para o meio do trânsito e acelerou na direcção do rio.

Gabriel não demorou muito tempo a aperceber-se que o agente que conduzia a mota era uma mulher: as ancas de ampulheta, a cintura estreita e as esguias coxas vestidas de calças de ganga, uma madeixa de cabelo espreitando do fundo do capacete. Era encaracolado, e cheirava a jasmim e tabaco. Ele estava certo de já ter sentido aquele cheiro anteriormente.

Aceleraram em direcção ao Lungotevere. A sua direita, Gabriel conseguia ver a cúpula de São Pedro, elevando-se sobre a colina do Vaticano. Ao atravessarem o rio, lançou a Beretta de Alessio Rossi para a água negra.

Dirigiram-se para a colina Janiculum. Na Piazza Ceresi, viraram para uma rua residencial, tão íngreme que era a pique, bordejada por pinheiros e edifícios de apartamentos baixos. A mota abrandou ao aproximarem-se de um antigo palato que fora convertido num bloco de apartamentos. A mulher desligou o motor e eles rodaram sob uma arcada, parando por fim num pátio escurecido.

Gabriel desmontou e seguiu-a para o átrio, depois subiu dois lances de escadas. Ela destrancou a porta e puxou-o para dentro. No vestíbulo escurecido, desapertou o blusão de cabedal de condução e tirou o capacete. O cabelo caiu-lhe sobre os ombros. Depois, acendeu as luzes.

- Você? - exclamou Gabriel.

A rapariga sorriu. Era Chiara, a filha do rabino de Veneza.

Pela segunda vez naquela noite, o telemóvel de Eric Lange chilreou suavemente na mesa de cabeceira do seu quarto de hotel em Paris. Levou-o ao ouvido e escutou em silêncio, enquanto Rashid Husseini lhe contava o tiroteio das metralhadoras na pensão Abruzzi. Era óbvio que Carlo Casagrande sabia de Allon, e enviara uma multidão de incompetentes polícias italianos para fazerem o trabalho quando este poderia ter sido executado com bastante facilidade por um homem bom com uma arma. A oportunidade de Lange de ser ele próprio a ocupar-se de Allon poderia já ter passado para sempre.

- O que é que vocês estão a fazer agora? - perguntou Lange.

- Estamos à procura dele, bem como metade da Polícia italiana. Não há qualquer garantia de que o encontremos. Os israelitas são bons a tirar o seu pessoal de sítios complicados.

- Sim, pois são - retorquiu Lange. - De facto, eu diria que a delegação romana dos serviços secretos israelitas está muito ocupada esta noite. Têm uma grande crise entre mãos.

- Na verdade, têm.

- Identificaram algum do seu pessoal em Roma?

- Identificámos com toda a certeza dois ou três - disse Husseini.

- Pode ser sensato segui-los. Com um pouco de sorte, eles conduzir-te-ão directamente até ele.

- Fazes-me lembrar Abu Jihad - observou Husseini. - Ele também era brilhante.

- Vou para Roma de manhã.

- Dá-me os dados do teu voo. Terei um homem à tua espera.

Gabriel demorou-se um longo período de tempo no chuveiro, lavando o ferimento e esfregando o sangue do cabelo. Quando saiu, envolvido numa toalha branca, Chiara estava à sua espera. Limpou-lhe cuidadosamente os ferimentos e colocou-lhe firmemente uma ligadura grossa no abdómen. Por fim, deu-lhe uma injecção de antibiótico e entregou-lhe um par de cápsulas amarelas.

- O que é isso?

- É analgésico. Tome-os. Vai dormir melhor.

Gabriel engoliu os comprimidos com um gole de água mineral, que bebeu de uma garrafa de plástico.

- Coloquei roupa lavada na cama. Tem fome?

Gabriel sacudiu a cabeça e entrou no quarto para mudar de roupa. Ficara de repente vacilante. Enquanto fugia, alimentado pelos nervos e pela adrenalina, não sentira a dor. Agora, parecia-lhe ter uma faca espetada no flanco.

Chiara deixara um fato de treino sobre a cama. Gabriel vestiu-o cuidadosamente. Este era para um homem diversos centímetros mais alto, e teve de enrolar as mangas e a bainha das pernas. Quando voltou a sair, ela estava sentada na sala de estar a ver um noticiário na televisão. Afastou os olhos do ecrã o tempo suficiente para olhar para ele e franzir a testa quanto à sua aparência.

- De manhã, arranjar-lhe-ei roupa para o seu tamanho.

- Quantos morreram?

- Cinco - respondeu ela. - Diversos outros ficaram feridos. Cinco mortos... Gabriel fechou os olhos e lutou contra uma vaga de náusea. Uma erupção de dor disparou-lhe de lado. Chiara, sentindo a sua perturbação, colocou-lhe uma mão no rosto.

- Está a arder - disse ela. - Precisa de dormir.

- Sempre achei o sono difícil em alturas como esta.

- Acho que... compreendo. Que tal uma taça de vinho?

- Com os analgésicos?

- Pode ajudá-lo.

- Uma pequena.

Ela dirigiu-se à cozinha. Gabriel apontou o telecomando à televisão e o ecrã ficou negro. Chiara regressou e entregou-lhe uma taça de vinho tinto.

- Nada para si? Ela sacudiu a cabeça.

- O meu trabalho é certificar-me que você permanece em segurança.

Gabriel engoliu algum do vinho.

- O seu nome é mesmo Chiara Zolli? Ela anuiu.

- E é mesmo a filha do rabino?

- Sim, sou.

- Onde está destacada?

- Oficialmente estou destacada para a delegação de Roma, mas viajo muito.

- Que tipo de trabalho?

- Oh, sabe... um pouco disto, um pouco daquilo.

- E aquilo da outra noite?

- Shamron pediu-me para o vigiar a si, enquanto estivesse em Veneza. Imagine a minha surpresa quando você entrou no centro comunitário para visitar o meu pai.

- O que é que ele lhe contou acerca da nossa conversa?

- Que você lhe fez uma série de perguntas acerca dos judeus italianos durante a guerra, e acerca do Convento do Sagrado Coração no lago de Garda. Porque não me conta o resto?

«Porque não tenho forças», pensou ele. Depois disse:

- Durante quanto tempo tenho de ficar aqui?

- Pazner dir-lhe-á tudo de manhã.

- Quem é Pazner? Chiara sorriu.

- Você esteve fora do jogo durante algum tempo. Simon Pazner é o chefe da delegação de Roma. De momento, está a tentar descobrir uma maneira de o tirar de Itália e mandá-lo para Israel.

- Não vou regressar a Israel.

- Bom, não pode ficar aqui. Posso voltar a ligar a televisão? Todos os polícias de Itália andam à sua procura. Mas essa não é uma decisão minha. Sou apenas um agente de campo de baixa patente. Pazner telefonará de manhã.

Gabriel estava demasiado fraco para discutir com ela. A combinação de analgésicos e vinho deixaram-no a sentir-se apático e de pálpebras pesadas. Talvez fosse pelo melhor. Chiara ajudou-o a levantar-se e conduziu-o até ao quarto. Enquanto se deitava, a dor disparou-lhe de lado. Deitou cuidadosamente a cabeça sobre a almofada. Chiara apagou a luz e sentou-se numa cadeira de braços ao lado da cama, a Beretta no colo.

- Não posso dormir consigo aí.

- Dormirá.

- Vá para o outro quarto.

- Não me é permitido deixá-lo.

Gabriel fechou os olhos. A rapariga tinha razão. Passados alguns minutos, deslizou para a inconsciência. O seu sono foi incendiado por pesadelos. Travava pela segunda vez uma batalha de tiros de metralhadora no pátio, e viu carabinieriensopados em sangue. Alessio Rossi surgiu no quarto, mas no sonho de Gabriel, estava vestido como um padre, e em vez da Beretta foi um crucifixo que apontou à cabeça de Gabriel. Gabriel via a morte de Rossi, de braços abertos e flanco perfurado por uma bala, como um Caravaggio.

Leah apareceu-lhe no sonho. Desceu do seu altar-mor e despiu o manto. Gabriel acariciou-lhe a pele e descobriu que as cicatrizes tinham sarado. A sua boca sabia a azeitonas; os mamilos, comprimidos contra o peito dele, eram firmes e frescos. Ela conduziu-o para dentro do seu corpo e levou-o lentamente ao clímax. Enquanto Gabriel se soltava dentro dela, ela perguntou-lhe porque é que se apaixonara por Anna Rolfe. É a ti que amo, Leah, disse-lhe ele. É a ti que sempre amarei.

Acordou por breves momentos; o sonho fora tão real que esperou encontrar Leah no quarto com ele. Mas quando abriu os olhos, foi o rosto de Chiara que viu, sentada na cadeira, observando-o, uma arma na mão.

 

Shimon Pazner chegou ao apartamento de segurança às oito da manhã seguinte. Era um homem atarracado e robustamente constituído, com cabelo como palha de aço e cicatrizes de acne nas faces largas. Julgando pelo rosto por barbear e pelos círculos vermelhos à volta dos olhos, era seguro pensar que ele não dormira. Sem palavras, serviu-se de uma chávena de café e deixou cair os jornais matutinos na mesa da cozinha. O tiroteio no bairro San Lorenzo era o cabeçalho de todos os jornais. Gabriel, ainda atordoado pelos analgésicos, baixou o olhar sobre estes mas foi incapaz de fazer alguma expressão.

- Você armou uma confusão na minha cidade. - Pazner engoliu metade do café e fez uma careta. - Imagine a minha surpresa quando obtenho a notícia de que o grande Gabriel Allon está em fuga, e precisa de entrar na clandestinidade. Pensar-se-ia que alguém na Avenida Rei Saul teria o senso comum de informar o chefe da delegação local de que Gabriel está na cidade para abater alguém.

- Não vim a Roma para abater ninguém.

- Balelas! - disparou Pazner. - Isso é o que você faz.

Pazner ergueu o olhar quando Chiara entrou na cozinha. Ela vestia um roupão turco. O cabelo, ainda molhado do duche, estava penteado para trás. Serviu-se de café e sentou-se junto de Gabriel, à mesa.

- O que vai acontecer se os italianos alguma vez descobrirem quem você é? Isso destruirá a nossa relação. Nunca mais trabalharão connosco - disse Pazner.

- Eu sei - respondeu Gabriel. - Mas não vim aqui para matar ninguém. Eles tentaram matar-me.

Pazner puxou uma cadeira e sentou-se, o seu grosso antebraço repousando na mesa.

- O que estava a fazer em Roma, Gabriel? E não me venha com tretas.

Quando Gabriel informou Pazner de que estava em Roma num trabalho a mando de Shamron, o chefe da delegação inclinou a cabeça redonda para trás e esvaziou os pulmões em direcção ao ar.

- Shamron? Então é por isso que ninguém na Avenida Rei Saul sabe em que é que você está a trabalhar. Pelo amor de Deus! Eu deveria ter calculado que o velho estava por trás disto.

Gabriel afastou os jornais. Supôs que devia uma explicação a Pazner. Fora irreflectido vir a Roma depois do homicídio de Peter Malone. Ele subestimara as capacidades dos seus inimigos e deixara Pazner com uma confusão monumental para limpar. Bebeu uma chávena de café para desanuviar a cabeça e contou a Pazner a história desde o início. O olhar de Chiara permaneceu fixo nele durante todo o tempo. Pazner conseguiu manter-se calmo durante a primeira metade do relato de Gabriel, mas perto do final da história, fumava nervosamente.

- Parece que estavam a seguir Rossi - disse Pazner. - E Rossi conduziu-os até si.

- Ele parecia saber que estava sob vigilância. Nunca deixou a janela enquanto esteve no meu quarto. Ele viu-os à nossa procura, mas era demasiado tarde.

- Havia alguma coisa naquele quarto que o possa associar ao Gabinete?

Gabriel sacudiu a cabeça, depois perguntou a Pazner se ele alguma vez ouvira falar de um grupo chamado Crux Vera.

- Ouvem-se toda a espécie de rumores acerca de sociedades secretas e das intrigas do Vaticano em Itália - disse Pazner. - Lembra-se do escândalo P2 nos anos oitenta?

«Vagamente», pensou Gabriel. Por mero acaso, a Polícia italiana encontrara um documento revelando a existência de uma sociedade secreta de direita, que abrira caminho até aos ramos mais altos da comunidade governamental, militar e dos serviços secretos. E do Vaticano, aparentemente.

- Já ouvi o nome Crux Vera - prosseguiu Pazner -, mas nunca lhe dei muita importância. Isto é, até agora.

- Quando é que posso partir?

- Vamos mudá-lo de lugar esta noite.

- Para onde?

Pazner inclinou a cabeça em direcção a leste, e pela expressão de determinação nos seus olhos escuros, era óbvio para Gabriel que ele se estava a referir a Israel.

- Não quero ir para Israel. Quero descobrir quem matou Benjamin.

- Você não se pode mover por nenhum lugar da Europa. Vai para casa e ponto final. Shamron já não é o chefe. Lev é o chefe, e ele não vai ser derrubado por uma das aventuras do velho.

- Como é que me vai fazer sair do país?

- Da mesma maneira que fizemos sair Vanunu. De barco.

- Se me lembro correctamente, essa também foi uma das aventuras de Shamron.

Mordechai Vanunu fora um trabalhador descontente nas instalações atómicas de Dimona, que revelara a existência do arsenal nuclear israelita a um jornal londrino. Uma agente chamada Chervl BenTov atraíra Vanunu de Londres a Roma, onde ele foi raptado e levado por um pequeno barco até uma embarcação naval israelita que o aguardava na costa italiana. Poucas pessoas fora do Gabinete sabiam a verdade acerca do episódio: que a deserção e traição de Vanunu de segredos israelitas fora orquestrada e manipulada por Ari Shamron como um modo de avisar os inimigos de Israel de que eles não tinham qualquer esperança de alguma vez superarem o hiato nuclear, enquanto ao mesmo tempo deixava Israel com capacidade de negar publicamente que possuía armas nucleares.

- Vanunu deixou Itália de grilhetas e sob um sedativo pesado - disse Pazner. - A si, ser-lhe-á poupada tal indignidade desde que se comporte.

- De onde partimos?

- Há uma praia perto de Fiumicino que é perfeita. Apanhará aí uma lancha a motor às nove horas. A cinco milhas da costa, encontrar-se-á com um iate de partida para o alto mar, com uma tripulação de um membro. Ele pertence agora ao Gabinete, mas durante muitos anos comandou um torpedeiro da Marinha. Levá-lo-á de regresso a Telavive. Alguns dias no mar far-lhe-ão bem.

- Quem me vai levar até ao iate? Pazner olhou para Chiara.

- Ela cresceu em Veneza. É muitíssimo boa com um barco.

- E conduz realmente bem uma mota - observou Gabriel. Pazner debruçou-se sobre a mesa.

- Devia vê-la com uma Beretta.

 

Eric Lange chegou ao aeroporto de Fiumicino às nove horas daquela manhã. Depois de passar pela alfândega e pelo controlo de passaportes, descobriu o homem de Rashid Husseini de pé no átrio do terminal, segurando um letreiro de cartão castanho que dizia transeuro Technologies - sr. bowman. Tinha um carro a aguardá-los no parque de estacionamento coberto, um esmurrado Lancia bege que conduzia com uma cautela desnecessária. Apresentou-se como Aziz e falava inglês com um ligeiro sotaque britânico. Tal como Husseini, tinha o ar de um académico.

Conduziu até um edifício de apartamentos desbotado na base da colina Aventino e dirigiu Lange por uma escadaria em ruínas, que subia em espiral até à obscuridade. O apartamento estava vazio, exceptuando uma televisão ligada a um prato de satélite na varanda minúscula. Aziz deu a Lange uma arma, uma Makarov de nove milímetros com um silenciador atarraxado ao cano, depois ferveu café turco na pequena cozinha. Passaram as três horas que se seguiram sentados no chão de pernas cruzadas como beduínos, bebendo café e vendo a guerra nos territórios na estação al-Jazeera. O palestiniano fumava cigarros norte-americanos um atrás do outro. A cada ultraje televisivo, soltava uma fiada de imprecações em árabe.

Às duas da tarde, desceu as escadas para ir comprar pão e queijo à mercearia. Regressou para descobrir Lange hipnotizado por um programa de culinária num canal por cabo norte-americano. Fez mais café e voltou a mudar para o canal al-Jazeera sem pedir autorização a Lange. Lange comeu um pouco do almoço, depois fez uma almofada com o sobretudo e estendeu-se no chão nu para dormir. Acordou com o ronronar do telemóvel de Aziz. Abriu os olhos para encontrar o árabe a ouvir atentamente e a escrevinhar uma nota num saco de papel.

Aziz desligou e o seu olhar foi de novo atraído pela televisão. Um apresentador providenciava a narração afogueada de uma reportagem que mostrava soldados israelitas disparando contra uma multidão de rapazes palestinianos.

Aziz acendeu outro cigarro e olhou para Lange. - Vamos matar o filho da mãe.

 

Ao entardecer, o ferimento de Gabriel doía-lhe menos e o seu apetite regressara. Chiara cozinhou fettuccini com cogumelos e natas, e viram o noticiário da noite. Os primeiros dez minutos de emissão foram dedicados à busca do assassino papal. Sobre o vídeo que mostrava forças de segurança italianas pesadamente armadas patrulhando os aeroportos e as fronteiras do país, o correspondente descreveu-a como sendo uma das maiores caçadas ao homem na história de Itália. Quando a fotografia de Gabriel surgiu no ecrã, Chiara apertou-lhe a mão.

Depois do jantar, colocou-lhe uma ligadura limpa sobre o ferimento e deu-lhe outra injecção de antibiótico. Quando ofereceu a Gabriel algo para as dores, ele recusou. As seis e meia, mudaram de roupa. A previsão meteorológica indicava chuva e mares encapelados, e eles vestiram adequadamente roupa interior de algodão, roupa exterior à prova de água, botas de borracha sobre meias isoladoras. Pazner deixara a Gabriel um passaporte canadiano falso e uma Beretta de nove milímetros. Gabriel escondeu o passaporte num compartimento fechado do casaco e enfiou a Beretta num bolso de fácil acessibilidade.

Pazner chegou às seis horas. O seu rosto denso apresentava um olhar carrancudo, e os seus movimentos eram decididos e precisos. Enquanto bebia uma enorme caneca de café, deu-lhes calmamente instruções. Sair de Roma seria a parte mais perigosa da fuga, explicou. A Polícia montara postos volantes de verificação e faziam auto-stops aleatórios por toda a cidade. O seu comportamento dinâmico ajudou a acalmar os nervos de Gabriel.

As sete horas, deixaram o apartamento. Pazner fez questão de dizer algumas palavras num italiano excelente durante a descida pela escadaria. Estacionada no pátio encontrava-se uma carrinha de entregas Volkswagen cinzento escura. Pazner subiu para o lugar do passageiro, Gabriel e Chiara subiram pela porta lateral para o compartimento de carga. O chão estava frio ao toque. O condutor ligou o motor e o limpa-pára-brisas. Vestia um anorak azul, e as mãos pálidas que agarravam o volante eram as mãos de um pianista. Pazner apresentou-o como Reuven.

A carrinha saltou para a frente e atravessou a entrada arqueada do pátio, depois virou à direita e acelerou para o meio do tráfego. Deitado no chão da carrinha, Gabriel não conseguia ver nada para além do céu nocturno e do reflexo dos faróis que passavam. Sabia que se dirigiam para oeste. Para evitar os postos de verificação nas principais vias públicas de Roma e na auto-estrada, Pazner desenhara um percurso até ao mar consistindo de ruas laterais e estradas secundárias.

Gabriel olhou na direcção de Chiara e descobriu que ela estava a olhar para ele. Tentou aguentar o seu olhar, mas ela desviou-o. Encostou a cabeça contra a parede e fechou os olhos.

 

Aziz actualizara Lange durante o curto percurso desde a colina Aventino até ao antigo palato, no cimo da Janiculum. Durante diversos anos, os serviços secretos palestinianos tinham estado conscientes de que Shimon Pazner era um agente dos serviços secretos israelitas. Tinham-no seguido de colocação em colocação, mapeando o decurso da sua carreira. Em Roma, onde era considerado como o chefe da delegação, estava sob vigilância regular. Duas vezes nesse mesmo dia - uma ao princípio da manhã e de novo ao fim da tarde -, Pazner visitara um apartamento num palácio remodelado na Janiculum. Os serviços secretos da OLP tinham há muito suspeitado que a propriedade era um apartamento de segurança israelita. O caso era circunstancial, as ligações ténues, mas dadas as circunstâncias, as hipóteses pareciam demonstrar que Gabriel Allon, o assassino de Abu Jihad, estava no interior.

Estacionado na rua, a uma centena de metros do antigo palácio, Lange e Aziz tinham observado e esperado. Havia luzes acesas em apenas dois dos apartamentos de frente para a rua, um no segundo piso e o outro no cimo. Nesse apartamento, as venezianas estavam firmemente fechadas. Lange tomou nota dos inquilinos que chegavam: dois rapazes numa motorizada, uma mulher num minúsculo Fiat de dois lugares, um homem de meia-idade com uma gabardina apertada com um cinto que chegou num autocarro da cidade. Uma carrinha de entregas Volkswagen cinzento escura, um homem ao volante, vestido com um quebra-vento azul, que virou para o pátio central.

Lange consultou o relógio.

Dez minutos depois, a carrinha saiu da entrada do pátio e virou para a rua. Ao passar acelerando pelo local onde se encontravam, Lange reparou que agora no banco da frente se encontrava um segundo homem. Incitou Aziz a entrar em acção com uma cotovelada brusca nas costelas. O palestiniano ligou o motor, esperou um tempo razoável, depois fez uma curva em U e seguiu atrás da carrinha.

Cinco minutos depois de sair do apartamento de segurança, o telemóvel de Shimon Pazner tocou. Ele tomara a precaução de ter um carro de apoio, uma segunda equipa de agentes cujo trabalho era certificarem-se que a carrinha não estava a ser seguida. Uma chamada da equipa nesta fase só poderia significar uma de duas coisas. Nenhum sinal de que estavam a ser seguidos, continuar para a praia conforme combinado. Ou, sarilhos, proceder com acção evasiva.

Pazner premiu o botão de resposta e levou o telefone ao ouvido. Ouviu em silêncio durante um momento, e de seguida murmurou:

- Apanhem-nos na primeira oportunidade.

Premiu o botão de fim de chamada e olhou para o condutor.

- Temos companhia, Reuven. Um Lancia bege, a dois carros de distância.

O condutor assentou o pé no chão, e a carrinha disparou em frente. Gabriel enfiou a mão no bolso e com ela envolveu a forma reconfortante da Beretta.

Pela velocidade da carrinha, Lange ficou a saber que Gabriel Allon estava no interior. Também significava que tinham sido detectados, que o factor surpresa se perdera, e que matar Allon terminaria numa caçada de alta velocidade seguida de tiroteio, algo que violava quase todos os princípios operacionais de Lange. Ele matava furtivamente e de surpresa, surgindo onde era menos esperado e afastando-se silenciosamente. Batalhas com armas eram para comandos e desesperados, não para assassinos profissionais. Apesar disso, não queria deixar Allon escapar com tanta facilidade. Contrafeito, pediu a Aziz para os seguir. O palestiniano meteu a mudança e acelerou a fundo, tentando não os perder.

Dois minutos depois, o interior do Lancia encheu-se subitamente de uma ofuscante luz de halogéneo. Lange olhou por cima do ombro e viu os faróis típicos de um Mercedes a centímetros do pára-choques traseiro. O Mercedes moveu-se para a esquerda, de forma que o seu pára-choques dianteiro se alinhou com o pára-choques esquerdo do Lancia.

Lange embateu no tablier. O Mercedes acelerou com força, preenchendo o hiato entre os dois veículos. O Lancia estremeceu com o impacto, depois fez pião, em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Aziz gritou e agarrou-se desesperadamente ao volante. Lange agarrou o apoio do braço e esperou que o carro rolasse.

Isso não chegou a acontecer. Depois daquilo que se assemelhava a uma eternidade, o Lancia parou, virado de frente para a direcção oposta. Lange virou-se e olhou através do vidro das traseiras a tempo de ver a carrinha e o Mercedes desaparecerem sob o cume de uma colina.

Noventa minutos depois, a carrinha rolou até uma paragem num parque de estacionamento sobranceiro a uma praia batida pelo vento. O uivo forçado de um avião a jacto afundando-se no céu negro forneceu a prova que estavam perto da extremidade da atarefada pista de descolagem de Fiumicino. Chiara saiu e dirigiu-se até à borda de água para ver se o caminho estava livre. A carrinha estremeceu com as rajadas de vento. Dois minutos depois, enfiou a cabeça pelas portas e fez um sinal de assentimento com a cabeça. Pazner apertou a mão de Gabriel e desejou-lhe sorte. Depois olhou para Chiara.

- Nós esperamos aqui. Despacha-te.

Gabriel seguiu-a ao longo da praia rochosa. Chegaram a um barco, um Zodiac de três metros, e arrastaram-no para a rebentação gelada. O motor pegou sem hesitação. Chiara conduziu o barco experientemente para o mar, a proa baixa balançando sobre a rebentação batida pelo vento, enquanto Gabriel observava a linha da costa afastando-se e as luzes costeiras a tornarem-se ténues. Itália, um país que ele amara, um lugar que lhe dera paz depois da operação Ira de Deus. Perguntou-se se alguma vez lhe seria permitido regressar.

Chiara retirou um rádio do bolso do blusão, murmurou algumas palavras para o microfone, e soltou o botão talk. Um momento depois, as luzes pulsantes de um iate tremeluziram.

- Ali - disse ela, apontando para estibordo. - Ali está a sua boleia para casa.

Alterou a direcção e abriu o carburador, acelerando através das vagas em direcção à embarcação que os esperava. A quarenta e cinco metros do iate, desligou o motor e deslizou silenciosamente na direcção da popa. Depois, pela primeira vez, olhou para Gabriel.

- Vou consigo.

- Está a falar de quê?

- Vou consigo - repetiu ela deliberadamente.

- Eu vou para Israel.

- Não, não vai. Vai para a Provença procurar a filha de Regina Carcassi. E eu vou consigo.

- Você vai-me pôr naquele iate, e depois vai-se embora.

- Mesmo com esse passaporte canadiano, você não pode ir para lado algum na Europa de momento. Não pode alugar um carro, não pode subir a bordo de um avião. Precisa de mim. E se Pazner estiver a mentir? E se estiverem dois homens a bordo daquele barco e não apenas um?

Gabriel teve de admitir que ela tinha razão.

- Você é louca para fazer isto, Chiara. Destruirá a sua carreira.

- Não, não destruirei - disse ela. - Dir-lhes-ei que você me obrigou a acompanhá-lo contra a minha vontade.

Gabriel ergueu o olhar para o iate. Este aumentava em tamanho. Honra lhe fosse feita. Chiara escolhera a oportunidade perfeita para lançar a sua armadilha.

- Porquê? - perguntou ele. - Porque quer fazer isto?

- O meu pai contou-lhe que os seus avós se encontravam entre os judeus idosos que foram removidos daquela casa noghetto e deportados para Auschwitz? Contou-lhe que eles morreram aí, juntamente com todos os outros?

- Ele não mencionou isso.

- Sabe porque é que ele não lho contou? Porque até mesmo agora, mesmo passado todos estes anos, ele não consegue falar disso. Consegue recitar o nome de todos os judeus venezianos que morreram em Auschwitz, mas não consegue falar dos seus próprios avós. - Ela retirou a Beretta do bolso do blusão e puxou o percutor. - Vou consigo procurar essa mulher.

O Zodiac afocinhou contra a popa do iate. Acima deles, surgiu no convés uma figura que olhou para eles por cima do varandim. Gabriel prendeu o cabo e manteve o barco firme enquanto Chiara se impelia pela escada. Depois seguiu-a. Na altura em que chegou ao convés, o capitão tinha os braços no ar e um olhar de pura descrença no rosto.

- Desculpe - disse Gabriel. - Receio que tenha havido uma ligeira alteração no nosso itinerário.

Chiara trouxera uma seringa e um frasco de sedativo. Gabriel levou o capitão até um dos camarins abaixo do convés e atou-lhe os pulsos e tornozelos com um pedaço de corda. O homem debateu-se durante alguns segundos enquanto Chiara lhe enrolava a manga, mas quando Gabriel pressionou o antebraço contra a garganta do homem, este relaxou e permitiu a Chiara dar-lhe a injecção. Quando estava inconsciente, Gabriel verificou os nós - suficientemente apertados para o segurarem, não suficientemente apertados para lhe cortarem a circulação das mãos e pés.

- Quanto tempo é suposto o sedativo durar?

- Dez horas, mas ele é grande. Dar-lhe-ei outra dose dentro de oito horas.

- Mas não mate o pobre filho da mãe. Ele está do nosso lado.

- Ele ficará bem.

Chiara conduziu-o até à ponte. Uma carta das águas da costa ocidental italiana estava aberta sobre a mesa. Verificou a posição do barco no monitor GPS e delineou rapidamente um curso. Depois ligou os motores e virou o iate na direcção correcta. Um momento depois, dirigiam-se para norte, em direcção aos estreitos entre o Elba e a Córsega.

Ela virou-se e olhou para Gabriel, que a observava com admiração e disse:

- Vamos precisar de café. Acha que pode tratar disso?

- Farei o meu melhor.

- É para esta noite.

- As suas ordens.

Shimon Pazner manteve-se imóvel na praia, mãos nas ancas, sapatos cheios de água do mar, calças ensopadas até aos joelhos, como uma estátua há muito submergida sendo lentamente revelada pelas águas que recuavam. Levou a rádio aos lábios e tentou contactar Chiara uma última vez. Silêncio.

Ela deveria ter regressado há uma hora. Havia duas possibilidades, nenhuma delas agradável. Possibilidade um? Algo correra mal, e eles tinham-se perdido. Possibilidade dois? Allon...

Pazner lançou a rádio à rebentação, indignado, um olhar de puro desprezo no rosto, e arrastou-se lentamente de regresso à carrinha.

 

Havia apenas o tempo suficiente para Eric Lange apanhar o comboio nocturno de Zurique. Dirigiu Aziz até uma calma rua lateral adjacente às linhas de comboio que saíam da Stazione Termini, e disse-lhe para desligar o motor. Aziz parecia confundido.

- Porque quer ficar aqui?

- De momento, todos os oficiais de Polícia em Roma andam à procura de Gabriel Allon. Certamente estão a observar as estações de comboio e aeroportos. É melhor não mostrar aí a cara, a não ser que seja absolutamente necessário.

O palestiniano pareceu aceitar a explicação. Lange conseguia ver um comboio a entrar na estação. Esperou pacientemente para sair.

- Diga a Husseini que o contactarei em Paris quando as coisas tiverem arrefecido - disse Lange.

- Lamento não termos sido bem-sucedidos esta noite. Lange encolheu os ombros.

- Com um pouco de sorte, teremos outra oportunidade.

O comboio estava subitamente ao lado deles, enchendo o carro com um guincho metálico. Lange viu a sua oportunidade. Abriu a porta e saiu do carro. Aziz inclinou-se sobre o assento da frente e chamou-o, mas as suas palavras afogaram-se por entre o barulho do comboio.

- O quê? - perguntou Lange, levando a mão à orelha. - Não o consigo ouvir.

-A arma - repetiu Aziz. - Esqueceu-se de me devolver a arma.

- Ah, sim.

Lange retirou a Stechkin com o silenciador do bolso do casaco e apontou-a na direcção de Aziz. O palestiniano estendeu-se para ela. O primeiro tiro perfurou-lhe a palma da mão antes de despedaçar a cavidade do peito. O segundo deixou um círculo bem feito acima do seu olho direito.

Lange deixou cair a arma no assento do passageiro e entrou na estação. O comboio para Zurique estava a embarcar, encontrou o seu compartimento na carruagem-cama de primeira classe, e estendeu-se no confortável beliche. Vinte minutos depois, enquanto o comboio deslizava através dos subúrbios a norte de Roma, ele fechou os olhos e adormeceu de imediato.

 

A chamada telefónica de Lev não acordou Shamron. Na verdade, ele não fechara os olhos desde que surgira, de Roma, o primeiro aviso urgente de que Gabriel e a rapariga tinham desaparecido. Estava deitado na cama, com o telefone a uns centímetros do ouvido, escutando a histeria de Lev enquanto Ge'ulah, a dormir, se ia movendo suavemente. A indignidade da velhice, pensou. Não há muito, Lev era um recruta inexperiente, e Shamron era quem gritava. Agora, o velho não podia fazer nada além de se manter calado e ganhar tempo.

Quando a tirada terminou, a chamada desligou-se. Shamron rodou os pés para o chão, vestiu um roupão, e saiu para o terraço sobranceiro ao lago. O céu a leste começava a ficar azul pálido com o alvorecer que se aproximava, mas o Sol ainda não surgira sobre a cumeeira dos montes. Vasculhou os bolsos do roupão, procurando os cigarros, esperando contra qualquer esperança que Ge'ulab não os tivesse encontrado. Sentiu uma enorme vitória pessoal quando os seus dedos depararam com um pacote amachucado.

Acendeu um e saboreou o áspero tabaco turco na língua. Depois, ergueu os olhos e, com o olhar, percorreu a paisagem. Nunca se cansava da vista desta janela no seu recanto privado da Terra Prometida. Não era por acaso que dava para leste. Assim, Shamron, constante sentinela, podia manter um olhar vigilante sobre os inimigos de Israel.

O ar cheirava a uma tempestade próxima. Em breve, chegariam as chuvas, e mais uma vez a terra encher-se-ia com a água das inundações. Quantas inundações veria ainda? Nos seus momentos mais pessimistas, Shamron perguntava-se quantas inundações as crianças de Israel veriam ainda. Tal como a maioria dos judeus, sentia o medo constante de que a sua geração fosse a última. Um homem muito mais sensato que Shamron chamara aos judeus o eterno povo moribundo, um povo para sempre à beira do fim. Na vida, a missão de Shamron fora livrar o seu povo desse medo, envolvê-lo num cobertor de segurança e fazê-lo sentir-se seguro. Foi assombrado pela percepção de que falhara.

Fez uma careta ao relógio de pulso de aço inoxidável. Gabriel e a rapariga já tinham desaparecido há oito horas. Era um assunto de Shamron, mas estava a rebentar no rosto de Lev. Gabriel estava quase a identificar os assassinos de Benjamin Stern, mas Lev mantinha-se afastado. «Pequeno Lev», pensou Shamron ironicamente. O burocrata cobarde. Um homem tão prudente quanto Shamron era ousado e audacioso.

- Achas que preciso disto, Ari? - gritara Lev. - Os europeus acusam-nos de comportamentos nazis nos territórios, e agora um dos nossos antigos assassinos é acusado de tentar assassinar o papa! Diz-me onde o posso encontrar. Ajuda-me a trazê-lo antes que isto destrua este teu bem-amado serviço de uma vez por todas.

Talvez Lev tivesse razão, embora Shamron se sentisse magoado com essa hipótese. Israel tinha suficientes problemas de momento. Os shaheeds transformavam mercados em banhos de sangue. O ladrão de Bagdade ainda tentava forjar uma espada nuclear. Talvez aquela não fosse a melhor altura para arranjar uma batalha contra a Igreja Católica Romana. Talvez aquela não fosse a melhor altura para irem agitar águas paradas. A água estava suja e cheia de perigos invisíveis, covas e rochas, vegetação escondida onde um homem poderia ficar enredado e afogar-se.

E depois veio-lhe uma imagem à cabeça. Uma aldeia enlameada nos arredores de Cracóvia. Uma multidão violenta. As janelas das lojas estilhaçadas. Casas em chamas. Homens espancados com bastões. Mulheres violadas. Assassinos de Cristo! Porcos judeus! Matem osjudeus!Uma aldeia de infância, as memórias da Polónia de uma criança pequena. O rapaz seria enviado para a Palestina para viver com familiares num colonato da Galileia Superior. Os pais ficariam para trás. O rapaz juntar-se-ia ao Haganah, e lutaria na guerra israelita do renascimento. Na altura de o novo Estado formar um departamento de serviços secretos, o rapaz, agora um homem jovem, seria convidado. Num decrépito subúrbio a norte de Buenos Aires, transformar-se-ia numa figura quase mítica ao agarrar pela garganta o homem que enviara os seus pais, e seis milhões de outros, para os campos de morte.

Shamron descobriu que tinha os olhos firmemente fechados e que as mãos apertavam o cimo da balaustrada. Lentamente, dedo a dedo, relaxou o seu amplexo.

Uma linha de Eliot correu-lhe pela cabeça: «No meu início está o meu fim.»

Eichmann...

Como é que o mestre dos fantoches da morte, esse burocrata homicida que fizera com que os comboios do genocídio não se atrasassem - como é que acontecera que ele estivesse calmamente a viver num subúrbio miserável de Buenos Aires quando seis milhões tinham morrido? Claro que Shamron conhecia a resposta, pois cada página do ficheiro de Eichmann estava gravada na sua memória. Tal como centenas de outros assassinos, ele escapara através da «rota dos conventos» - uma cadeia de mosteiros e propriedades da Igreja que se estendiam da Alemanha ao porto italiano de Génova. Em Génova, fora-lhe concedido abrigo pelos franciscanos e, através dos auspícios de organizações de caridade da Igreja, tinham-lhe sido fornecidos documentos falsos descrevendo-o como refugiado. A 14 de Junho de 1950, emergiu do abrigo no convento franciscano durante o tempo suficiente para embarcar no Giovanna C, com destino a Buenos Aires. «A caminho de uma nova vida no Novo Mundo», pensou Shamron. O líder da Igreja não fora capaz de encontrar palavras para condenar o assassínio de seis milhões, mas os seus bispos e padres tinham dado conforto e santuário ao maior assassino em massa da História. Este era um facto que Shamron nunca poderia compreender, um pecado para o qual não havia absolvição.

Pensou na voz de Lev a guinchar pela linha de segurança de Telavive. «Não», pensou Shamron, «não ajudarei Lev a encontrar Gabriel». Antes pelo contrário, iria ajudá-lo a descobrir o que acontecera naquele convento junto ao lago - e quem matara Benjamin Stern.

Voltou a entrar em casa, a sua passada rígida e viva, e entrou no quarto. Ge'ulah estava deitada na cama a ver televisão. Shamron começou a fazer uma mala. De poucos em poucos segundos, ela desviava o olhar do ecrã e olhava para ele, mas não falava. Passava-se sempre assim há mais de quarenta anos. Quando a sua mala ficou pronta, Shamron sentou-se na cama junto dela e segurou-lhe a mão.

- Vais ter cuidado, não vais, Ari?

- Claro, meu amor.

- Não vais fumar, pois não?

- Nunca!

- Volta depressa para casa.

- Voltarei - disse Shamron, e beijou-lhe a testa.

Havia uma indignidade nas suas visitas à Avenida Rei Saul que Shamron considerava profundamente deprimente. Tinha de assinar o registo de entradas no balcão de segurança do átrio, e prender uma placa laminada ao bolso da camisa. Já não podia usar o seu antigo elevador privado - esse estava agora reservado a Lev. Em vez disso, enfiava-se no elevador comum cheio de administrativos, e de rapazes e raparigas que trabalhavam nas salas de arquivo.

Dirigiu-se ao quarto andar. A humilhação ritual não acabava ali. Lev ainda não estava satisfeito. Não tinha quem lhe levasse café, por isso era obrigado a ir buscá-lo ao refeitório, extraindo uma chávena da mistura fraca de uma máquina automática. Depois avançava pelo corredor do seu «escritório» - uma sala nua, não maior que um armário de armazenamento, com uma mesa de pinho, uma cadeira de ferro dobrável, e um telefone estalado que cheirava a desinfectante.

Shamron sentou-se, abriu a pasta, e retirou desta a fotografia de vigilância de Londres - aquela tirada por Mordecai no exterior da casa de Peter Malone. Shamron sentou-se a olhá-la durante alguns minutos, cotovelos sobre a mesa, nós dos dedos pressionando as têmporas. De poucos em poucos segundos, uma cabeça espreitava através da abertura da porta, e um par de olhos olhava para ele como se fosse alguma criatura exótica. Sim, é verdade. O velho está de novo a deambular pelos corredores do Quartel-General. Shamron não via nada disso. Só tinha olhos para o homem da fotografia.

Por fim, pegou no telefone e marcou a extensão do departamento de Pesquisa. Foi atendido por uma rapariga que soava como se mal tivesse saído da escola secundária.

- Fala Shamron.

- Quem?

- Sham-ROX - respondeu ele, irritado. - Preciso do ficheiro acerca do caso do rapto de Chipre. Foi em 1986, se é que me lembro correctamente. Isso foi provavelmente antes de você nascer, mas dê o seu melhor.

Desligou o telefone com toda a força e esperou. Cinco minutos depois, um rapaz de olhos congestionados chamado Yossi surgiu na ignóbil porta de Shamron.

- Desculpe, chefe. A rapariga é nova. - Segurava um ficheiro atado. - Queria ver isto?

Shamron estendeu a mão, como um pedinte.

Não fora um dos momentos de maior orgulho de Shamron. No Verão de 1986, o ministro israelita da justiça Meir Ben-David largara velas de Telavive para um cruzeiro de três semanas no Mediterrâneo a bordo de um iate privado, em conjunto com mais doze convidados e uma tripulação de cinco membros. No nono dia das suas férias, no porto de Larnaca, o iate fora assaltado por uma equipa de terroristas que afirmavam representar um grupo chamado as Células Palestinianas Lutadoras. Uma tentativa de salvamento foi posta de parte, e os cipriotas queriam a confusão resolvida tão rápida e silenciosamente quanto possível. Isso não deixou qualquer escolha ao governo israelita para além de negociarem, e Shamron abrira um canal de comunicações com o líder do grupo que falava alemão. Três dias depois, o cerco terminara. Os reféns foram libertados, os terroristas puderam ir-se embora em segurança, e um mês depois uma dúzia de endurecidos assassinos da OLP foram libertados de prisões israelitas.

Publicamente, Israel negou ter existido um acordo, embora ninguém acreditasse nisso. Para Shamron, fora na verdade um momento amargo, e agora, ao folhear as páginas do ficheiro, voltou a vivê-lo. Chegou a uma fotografia, a única imagem que tinham conseguido apanhar do líder do grupo. Na verdade, era inútil: uma fotografia tirada ao longe, cheia de grão e desfocada, um rosto escondido atrás de óculos escuros e um chapéu.

Colocou a fotografia ao lado da fotografia de vigilância de Londres e passou vários minutos a compará-las. O mesmo homem! Impossível dizer. Pegou no telefone e voltou a ligar para a Pesquisa. Dessa vez foi atendido por Yossi.

- Sim, chefe?

- Traz-me o ficheiro do Leopardo.

Ele era um enigma, uma suspeita constante, uma teoria. Alguns diziam que era alemão. Outros que era austríaco. Alguns suíço. Um linguista que ouvira gravações das suas conversas com Shamron, que foram conduzidas em inglês, teorizou que ele era da Alsácia-Lorena. Tinham sido os alemães ocidentais a dar-lhe o nome de código de Leopardo; eram quem mais o queria, porque cometera muitos dos assassínios na Alemanha Ocidental. Era um terrorista a soldo. Um homem que trabalharia para qualquer grupo, qualquer causa, desde que esta estivesse conforme com as suas principais crenças: comunistas, anti-ocidente, anti-sionistas. Acreditava-se que fora o Leopardo que estivera por trás do rapto em Chipre, e que fora o Leopardo que assassinara três outros israelitas na Europa em nome do comando da OLP, Abu Jihad. Shamron quisera a sua morte. O seu desejo ficara por cumprir.

Folheou o ficheiro, que era desesperadamente estreito. Aqui um relatório dos serviços franceses, aqui um despacho da Interpol, ali o rumor de um alegado avistamento em Istambul. Também havia três fotografias, embora não fosse claro se nalgumas delas era realmente ele. A fotografia do iate em Chipre, uma fotografia de vigilância tirada em Bucareste, outra no aeroporto Charles de Gaulle. Shamron colocou a fotografia de Londres junto a estas e ergueu o olhar para Yossi, que as olhava por cima do seu ombro.

- Aquela e aquela, chefe.

Shamron puxou a fotografia de Bucareste para fora do alinhamento e colocou-a junto à de Londres. O mesmo ângulo, posição de cabeça, queixo ligeiramente para a esquerda, obscurecendo-lhe metade do rosto.

- Posso estar errado, Yossi, mas acho que é possível que seja o mesmo homem.

- É difícil dizer, chefe, mas o computador poder-nos-á dizê-lo com toda a certeza.

- Fá-las passar pelo computador - disse Shamron, depois pegou nos ficheiros. - Quero ficar com estes.

- Vai ter de assinar um formulário. Shamron olhou para Yossi por cima dos óculos.

- Assinarei o formulário por si - disse Yossi.

- Bonito menino.

Shamron estendeu a mão para o telefone pela última vez e marcou Viagens. Quando acabou, colocou os ficheiros na pasta e desceu as escadas. «Vou a caminho, Gabriel», pensou. «Mas, santo nome de Deus, onde estás?»

 

As rochas do cabo corso surgiram ao amanhecer. Chiara contornou a ponta da ilha e colocou o iate virado para noroeste. Uma linha de nuvens polvorizadas elevava-se à frente deles, inchadas pela chuva. Os ventos tinham aumentado em diversos nós, e estava repentinamente muito mais frio.

- O mistral - disse Chiara. - Hoje está a soprar com força. Receio que o resto da viagem não vá ser muito agradável.

Um ferry surgiu a bombordo, fumegando ao sair de L'Ile Rousse em direcção à costa francesa.

- Aquele vai para Nice - disse ela. - Podemos segui-lo, depois virar para Cannes ao aproximarmo-nos da costa.

- Quanto tempo?

- Cinco ou seis horas, talvez mais devido ao mistral. Pegue por um momento no leme. Vou descer até à cozinha e ver se há alguma coisa para o pequeno-almoço.

- Certifique-se que a Bela Adormecida ainda está connosco.

- Farei isso.

O pequeno-almoço consistiu de café, pão torrado, e de um pedaço de queijo duro. Mal tiveram tempo para comer, porque meia hora depois de terem contornado o cabo corso, a tempestade aproximou-se. Durante as quatro horas que se seguiram, o barco foi batido por uma firme arremetida de ondulação, conduzida pelo vento que rolava de norte e por lençóis de chuva que reduziam a visibilidade a menos de cem metros. A dada altura, perderam o rasto do ferry. Não tinha importância; Chiara navegou simplesmente pela bússola e pelo GPS.

A chuva parou ao meio-dia, mas o vento soprava incessantemente. Pareceu ficar mais forte ao aproximarem-se da costa. Depois da tempestade, o ar tornou-se amargamente frio, e durante a última hora da sua viagem, o Sol entrava e saía por entre as nuvens, brilhando num minuto, escondido no seguinte. A cor da água alterou-se com o Sol, agora verde acinzentado, agora azul escuro.

Por fim, directamente à proa, Cannes. A distintiva linha de hotéis brancos e edifícios de apartamentos brilhando ao longo da La Croi-sette. Chiara conduziu-os para longe de Croisette, na direcção do velho porto na outra extremidade da cidade. No Verão, as esplanadas à volta do Vieux Port estariam cheias de turistas e o porto congestionado com iates de luxo. Agora, a maior parte dos restaurantes estavam firmemente fechados e havia muitos ancoradouros disponíveis no porto.

Chiara deixou Gabriel no barco e andou mais uns quarteirões, até à Rue d'Antibes, para alugar um carro. Enquanto ela não estava, Gabriel desprendeu as mãos e pés do capitão inconsciente. Chiara dera-lhe uma injecção quatro horas antes, o que significava que ele permaneceria inconsciente durante muito mais horas.

Gabriel regressou ao convés e esperou por Chiara. Alguns minutos depois, um Peugeot parou num lugar de estacionamento no Quai St-Pierre. Chiara saiu do carro o tempo suficiente para acenar a Gabriel e deslizar para o lado do passageiro. Gabriel desceu do barco e sentou-se atrás do volante.

- Algum problema? - perguntou. Ela sacudiu a cabeça.

- Precisamos de roupa.

- Ah, fazer compras na Croisette. Exactamente aquilo de que preciso depois de passar toda a noite e metade do dia num maldito barco. Não me consigo decidir entre Gucci e Versace.

- Eu estava a pensar em algo um pouco mais vulgar. Talvez um daqueles lugares agradáveis ao longo da Avenue Carnot, onde as pessoas normais compram roupa.

- Oh, que banal!

- Exactamente.

Gabriel atravessou a zona antiga da cidade, e alguns minutos depois dirigiam-se para norte subindo a Avenue Carnot, a principal via pública que unia a marginal de Cannes às vilas interiores. O mistral uivava; algumas almas corajosas encontravam-se no exterior, costas dobradas, mãos agarrando os chapéus. O ar estava cheio de pó e papéis. Passados alguns quarteirões, Gabriel detectou uma pequena loja junto a uma paragem de autocarro. Chiara franziu a testa. Ele parou o veículo num lugar de estacionamento vazio, deu-lhe um monte de dinheiro, e disse-lhe qual o tamanho. Chiara saiu e fez a pé o resto do caminho.

Gabriel deixou o motor a funcionar e ouviu as notícias. Ainda não havia sinais do assassino papal suspeito. A Polícia italiana aumentara a segurança nos aeroportos nacionais e nas fronteiras. Desligou o rádio.

Chiara saiu da loja vinte minutos mais tarde, um volumoso saco de plástico balouçando de cada mão. O vento batia-lhe pelas costas, soprando-lhe o cabelo sobre o rosto. Devido aos sacos de roupa, ela nada podia fazer quanto a isso.

Atirou os sacos para o assento traseiro e entrou no veículo. Gabriel conduziu pela Avenue Carnot. Dez minutos depois, chegou a um largo círculo de tráfego e seguiu os letreiros que indicavam Grass. Uma auto-estrada de quatro faixas estendia-se perante eles, subindo pela encosta dos montes na direcção da base dos Alpes Marítimos. Chiara inclinou o assento, despiu a camisola de flanela, e deslizou para fora das pesadas calças à prova de água. Gabriel manteve os olhos fixos na estrada. Ela vasculhou os sacos de compras até encontrar as cuecas e soutien novos que comprara.

- Não olhe.

- Nem sonharia com tal coisa.

- Verdade? Porque não?

- Despache-se e vista alguma coisa, por favor.

- Esta é a primeira vez que um homem me diz uma coisa dessas.

- Percebo porquê.

Ela deu-lhe uma palmadinha no braço e vestiu rapidamente umas calças de ganga, uma camisola com uma gola alta grossa, e botas à moda de cabedal preto com biqueiras quadradas e saltos grossos. Parecia-se muito com a atraente jovem que ele vira pela primeira vez no ghetto de Veneza. Quando terminou, ela sentou-se.

- É a sua vez. Encoste e eu conduzo enquanto você muda de roupa.

Gabriel fez o que ela lhe pedia. Numa perspectiva de moda, exclusivamente, não se saiu tão bem como ela: umas calças de algodão largas, de elástico na cintura, uma camisola de lã grossa, de pescadores, um par de alpergatas castanhas que lhe arranhavam os pés. Parecia-se com um homem que passava os dias a preguiçar na praça da vila jogando boule.

- Estou ridículo.

- Acho que está muito atraente. Ainda mais importante, você pode andar por qualquer vila da Provença e ninguém pensará que não é um habitante local.

Durante dez minutos, Chiara navegou pela estrada serpenteante através de oliveiras e eucaliptos. Chegaram à vila medieval de Val-bonne. Gabriel dirigiu-a para norte, para uma vila chamada Ópio, e de Ópio para Le Rouret. Ela estacionou no exterior de um tabac e esperou no carro enquanto Gabriel entrava. Atrás do balcão, encontrava-se um homem de compleição escura com cabelo cerradamente encaracolado e feições argelinas. Quando Gabriel lhe perguntou se conhecia uma mulher italiana chamada Carcassi, o empregado encolheu os ombros e sugeriu que Gabriel falasse com Marc, o empregado da brasserie vizinha.

Gabriel encontrou Marc a limpar copos com uma toalha suja. Quando lhe fez a mesma pergunta, o empregado sacudiu a cabeça. Não conhecia ninguém chamado Carcassi na vila, mas havia uma mulher italiana que vivia na estrada que conduzia à entrada do parque natural. Lançou a toalha para cima do ombro e saiu para apontar a Gabriel a direcção certa. Gabriel agradeceu-lhe e reuniu-se a Chiara.

- Por ali - disse. - Através da estrada principal, passando pela gendarmerie, depois subindo a colina.

A estrada era estreita, pouco mais que um carreiro pavimentado com uma via, e o declive da colina era íngreme. Havia villas entre as oliveiras e pimenteiras. Algumas eram propriedades modestas, pertencendo aos habitantes locais; outras eram opulentas, bem tratadas, e escudadas por vedações e altos muros de pedra.

A villa onde a mulher italiana supostamente vivia recaía na segunda categoria. Era uma antiga casa apalaçada com um torreão, que se erguia acima da entrada principal. O jardim era uma espécie de terraço, rodeado por um muro de pedra. Não havia nenhum nome no intimidante portão de ferro.

Quando Gabriel premiu o botão do intercomunicador, cães começaram a ladrar. Alguns segundos depois, dois pastores belgas galoparam das traseiras da villa, de dentes arreganhados, ladrando freneticamente. Investiram contra o portão e tentaram abocanhar Gabriel através das grades. Este deu um rápido passo atrás e colocou a mão na porta do carro. Não gostava de cães, e ainda não havia muito tivera um confronto com um lobo de Alsácia que o deixara com um braço partido e diversos pontos. Moveu-se cautelosamente em frente para não excitar mais os cães e premiu de novo o botão do intercomunicador. Desta vez, obteve resposta: uma voz de mulher, mal perceptível acima dos latidos selváticos.

- Oui!

- Madame Carcassi?

- Agora chamo-me Huber. Carcassi era o meu nome de solteira.

- A sua mãe era Regina Carcassi de Tolmezzo no Norte de Itália?

Um momento de hesitação e depois:

- Quem é, se faz favor?

Os cães, ouvindo o tom de ansiedade na voz da dona, começaram a ladrar ainda mais ferozmente. Durante a noite, Gabriel fora incapaz de decidir como fazer a abordagem à filha de Regina Carcassi. Agora, com os pastores belgas tentando abocanhar-lhe as pernas e um vento forte abatendo-se sobre ele vindo dos Alpes, tinha pouca paciência para subterfúgios e álibis. Estendeu a mão e voltou a premir o botão.

- Chamo-me Gabriel - respondeu, gritando sobre o barulho

dos cães. - Trabalho para o governo de Israel. Creio que sei quem matou a sua mãe, e creio saber porquê.

Não houve qualquer resposta do intercomunicador, apenas o rápido rosnar dos cães. Gabriel receava ter levado as coisas demasiado longe e demasiado depressa. Estendeu de novo a mão para o intercomunicador, mas deteve-se quando viu a porta da frente abrir-se e uma mulher sair para o pátio. Ela permaneceu ali durante um momento, cabelo negro voando ao vento, braços cruzados debaixo do peito, depois atravessou lentamente o pátio e observou Gabriel através das grades do portão. Satisfeita, desceu o olhar para os cães e repreendeu-os num francês rápido. Estes pararam de ladrar e afastaram-se, desaparecendo atrás da villa. De seguida, enfiou a mão no bolso do casaco, tirou o controlo remoto do portão, e pressionou-o com o polegar. O portão abriu-se lentamente, e ela fez-lhes sinal para entrarem.

Serviu-lhes café e leite servido numa sala de estar rectangular, com chão de terracota e mobiliário coberto por damasco. As portas envidraçadas batiam no mistral. Diversas vezes, Gabriel encontrou-se a olhar para as portas para ver se alguém estava a tentar entrar, mas apenas viu o requintado jardim contorcendo-se ao vento.

Ela chamava-se Antonella Huber, uma mulher italiana, casada com um homem de negócios alemão, vivendo no Sul de França - um membro daquela itinerante classe de europeus ricos que se sentem confortáveis em muitos países e muitas culturas. Era uma mulher atraente, a meio da casa dos quarenta, com cabelo escuro à altura dos ombros e pele profundamente bronzeada. Os olhos eram quase negros e irradiavam inteligência. O olhar era directo e sem receios. Gabriel reparou que as pontas das suas unhas estavam cheias de barro. Olhou à volta da sala e viu que esta estava decorada com cerâmica. Antonella Huber era uma ceramista qualificada.

- Peço desculpa pelos cães - disse ela. - O meu marido viaja devido ao seu trabalho, por isso passo uma grande parte do tempo aqui sozinha. O crime é o principal problema ao longo da Côte d'Azur. Fomos roubados meia dúzia de vezes antes de comprarmos os cães de guarda. Ultimamente, não tivemos quaisquer problemas.

- Percebo porquê.

Ela esboçou um sorriso rápido. Gabriel aproveitou a conversa de circunstância para chegar à questão. Inclinou-se para a frente na cadeira, cotovelos sobre os joelhos, e forneceu a Antonella Huber um relato seleccionado dos acontecimentos que o tinham conduzido até ali. Contou-lhe que o seu amigo, o historiador Benjamin Stern, descobrira que algo de invulgar acontecera no Convento do Sagrado Coração em Brenzone durante a guerra - o mesmo convento onde a sua mãe vivera antes de renunciar aos seus votos. Disse-lhe que o seu amigo fora assassinado por alguém que queria que esse acontecimento invulgar permanecesse um segredo. Informou-a que a sua mãe não fora a única pessoa a desaparecer sem deixar rastro em Itália. Dois padres, Felici e Manzini, tinham desaparecido aproximadamente na mesma altura. Um detective italiano chamado Alessio Rossi acreditava que os desaparecimentos estavam relacionados, mas tinha sido mandado acabar com a investigação depois da Polícia italiana ter ficado sob a pressão de um homem chamado Carlo Casagrande, que trabalhava para o Gabinete de Segurança do Vaticano. Antonella Huber permaneceu imóvel durante toda a apresentação de Gabriel, os olhos fixos nos dele, as mãos cruzadas sobre os joelhos. Ele tinha a nítida impressão que não lhe estava a dizer nada que ela já não soubesse ou suspeitasse.

- A sua mãe não renunciou apenas aos seus votos para se casar, pois não?

Um longo silêncio, depois:

- Não, não foi só por isso.

- Algo aconteceu naquele convento, algo que fez com que ela perdesse a sua fé e renunciasse aos seus votos?

- Sim, é verdade.

- Ela falou disso com Benjamin Stern?

- Roguei-lhe para ela não o fazer, mas ela ignorou o meu aviso e falou com ele de qualquer maneira.

- De que é que tinha medo?

- De que ela fosse magoada, é claro. E eu tinha razão, não tinha?

- Já falou com a Polícia italiana?

- Se percebe alguma coisa de política italiana, aperceber-se-ia que não se pode confiar na Polícia italiana numa questão como esta. Não foi Alessio Rossi um dos homens mortos há duas noites? Um assassino papal? - Ela sacudiu lentamente a cabeça. - Meu Deus, eles farão tudo para esconder os seus segredozinhos sujos.

- Sabe porque é que mataram a sua mãe? Ela anuiu e disse:

- Sim, sei. Sei o que aconteceu naquele convento. Sei porque é que a minha mãe renunciou aos seus votos, e à sua fé, e porque motivo foi assassinada por isso.

- Vai contar-me?

- Talvez seja melhor se eu lhe mostrar. - Levantou-se. - Por favor, espere aqui. Não demoro nada.

Saiu da sala e subiu as escadas. Gabriel recostou-se e fechou os olhos. Chiara, sentada junto dele no sofá, estendeu a mão e colocou-a no seu antebraço.

Quando Antonella Huber voltou, segurava um molho de papel de carta amarelecido.

- A minha mãe escreveu isto na noite que antecedeu o casamento com o meu pai - disse ela, erguendo os papéis para que Gabriel e Chiara os vissem. - Deu uma cópia a Benjamin Stern. Este é o motivo porque o seu amigo morreu.

Sentou-se, colocou os papéis no colo, e começou a ler em voz alta.

Chamo-me Regina Carcassi, e nasci em Bruuico, uma aldeia de montanha perto da fronteira austríaca, Era a mais nova de sete filhos e a única rapariga. Assim sendo, foi quase predeterminado que me tornasse freira. Em 1937, tomei os meus votos e tornei-me membro da Ordem de Santa Úrsula. Fui enviada para o Convento do Sagrado Coração, um convento ursulino na cidade de Brenzone no lago Garda, e fiquei encarregue de ensinar numa escola local católica para raparigas. Tinha dezoito anos.

Estava muito satisfeita com a minha missão. O convento era um lugar adorável um antigo castelo localizado nas margens do lago. Quando a guerra chegou, a nossa vida alterou-se muito pouco. Apesar da falta de alimentos, nós recebíamos carregamentos de abastecimentos todos os meses e tínhamos sempre o suficiente para comer. Normalmente, tínhamos sempre restos para distribuir entre os necessitados de Brenzone. Continuei a dar aulas e geria as necessidades daquelas almas desafortunadas afectadas pela luta.

Numa noite de Março de 1942, a madre superiora dirigiu-se-nos após a nossa refeição nocturna. Informou-nos que dentro de três dias, o nosso convento iria ser o local de um importante encontro entre as autoridades do Vaticano e uma delegação de alto nível vinda da Alemanha. O Convento do Sagrado Coração fora escolhido devido ao seu isolamento e a beleza das suas instalações. Disse-nos que devíamos estar muito orgulhosas por uma reunião tão importante ir decorrer na nossa casa, e nós estávamos na verdade satisfeitas. A madre superiora informou-nos que o tópico da reunião era uma iniciativa do Santo Padre para apressar o fim da guerra. No entanto, instruíram-nos a não dizer uma palavra acerca da reunião a qualquer pessoa fora do convento. Mesmo discussões entre nós foram proibidas. É desnecessário dizer que nenhuma de nós dormiu muito nessa noite, estávamos todas muito excitadas quanto àquilo que os próximos dias trariam.

Como eu crescera tão perto da fronteira austríaca, falava alemão fluentemente e sabia muito acerca dos alimentos e hábitos alemães. A madre superiora pediu-me para supervisionar as preparações para a conferência, e eu concordei avidamente. Informaram-me que os homens deviam partilhar uma refeição, depois deveriam reunir-se para debater o assunto que tinham entre mãos. Na minha opinião, a nossa sala de jantar era demasiado simples para tal ocasião, por isso decidi que a refeição e a conferência deveriam ter lugar na nossa sala comum, era uma sala adorável, com uma enorme lareira de pedra e uma bela vista do lago e dos Dolomitas - um cenário verdadeiramente inspirador. A madre superiora concordou, e permitiu que voltasse a arranjar o mobiliário da sala do modo que considerasse adequado. O jantar seria servido numa grande mesa circular junto a uma das janelas. Para a reunião, uma grande mesa rectangular com um acabamento escuro foi colocada em frente da lareira, eu queria que tudo estivesse perfeito, e quando terminei, a sala parecia na verdade muito bela. Fiquei entusiasmada pela perspectiva de que o meu trabalho pudesse ter algum papel no fim de toda a morte e destruição que a guerra tinha causado.

No dia que antecedeu a reunião, chegou um grande carregamento de alimentos: enchidos e salsichas, pães e massas, latas de caviar, garrafas de bom vinho e champanhe - coisas que a maioria de nós raramente tinha visto nas nossas vidas, e certamente que não víamos desde que a guerra começara. No dia seguinte, com o auxílio de duas das outras irmãs, preparei uma refeição que acreditei se adequaria aos paladares tanto dos homens de Roma como ao dos visitantes de Berlim.

A chegada dos delegados estava marcada para as seis da tarde, mas nevou abundantemente nesse dia, e chegaram todos atrasados. Os homens do Vaticano foram os primeiros a chegar, às oito e trinta. Eram três ao todo: o bispo Sebastiano Lorenzi do Secretariado de Estado do Vaticano, e os seus dois jovens assistentes, os padres Felici e Manzini. O bispo Lorenzi inspeccionou a sala onde a reunião iria decorrer, depois conduziu-nos até à capela onde celebrou missa. Antes de sair da capela, repetiu as instruções da madre superiora de que nunca deveríamos falar dos acontecimentos da noite ocorridos no convento. Continuou dizendo que qualquer pessoa que violasse a sua ordem o faria sob pena de excomunhão. A mim pareceu-me um aviso deveras desnecessário, pois nenhuma de nós alguma vez desobedeceria a um pedido directo de um funcionário superior do Vaticano, mas eu sabia que os homens da Cúria Romana levavam a sua obediência às regras do secretismo muito a sério.

A delegação alemã só chegou perto das dez horas. Também estes eram três: um motorista que não tomou parte na conferência, um auxiliar chamado herr Beckmann, e o chefe da delegação, um homem do Gabinete dos Negócios hstrangeiros nomeado secretário de hstado chamado Martin Luther. Nunca me esquecerei desse nome. Imaginem, um homem chamado Martin Luther, visitando o convento Católico Romano do Sagrado Coração em Brenzone! Na altura, foi um choque. Tal como a aparência do secretário de Estado, este era um homem baixo, de aspecto doente, com óculos grossos que lhe distorciam o formato dos olhos. Parecia sofrer de uma terrível constipação, porque esfregava continuamente o nariz com um lenço branco.

Sentaram-se imediatamente para jantar, herr Luther e herr Beckmann comentaram a beleza da sala, e eu senti-me muito orgulhosa pelo meu feito. Servi a refeição e abri as primeiras garrafas de vinho. Foi uma refeição agradável e houve uma grande quantidade de risadas e camaradagem entre os cinco homens sentados à mesa. Tive a impressão que Herr Luther e o bispo Lorenzi se conheciam bem. Aparentemente, a madre superiora esquecera-se de lhes dizerque eu era de Brunico no distante Norte, porque eles falavam à vontade em alemão sempre que eu estava na sala, certamente devido à impressão errónea de que eu não compreendia a língua. Ouvi uns mexericos muito interessantes acerca dos assuntos em Berlim.

A conferência começou à meia-noite. O bispo Lorenzi disse-me em italiano, «Temos muito trabalho afazer, irmã. Porfavor, faça com que não nos falte café. Se vir uma chávena vazia, encha-a». Por essa altura, já todas as outras freiras se tinham ido deitar. Sentei-me na antecâmara, no exterior da sala comum. Após alguns momentos, apareceu o nosso jovem ajudante de cozinha, de pijama vestido. Era um órfão que vivia no convento. As irmãs tinham-no alcunhado de Ciciotto, pequeno rechonchudo. A criança acordara com pesadelos. Convidei-o a sentar-se junto a mim. Para o ajudar a acalmar-se, rezámos o terço.

Na primeira vez em que entrei na sala, tornou-se-me óbvio que os homens não estavam a discutir um acordo negociado para o fim da guerra. O secretário de Estado Luther entregava aos outros homens presentes um memorando. Enquanto eu servia o café, fui capaz de o ver bastante bem. Tinha duas colunas, e as colunas estavam divididas por uma linha vertical. Do lado esquerdo, encontravam-se os nomes de países e territórios; do lado direito, encontravam-se números. No fim da folha, encontrava-se um total.

Herr Luther estava a dizer:

- O programa para chegarmos à solução final da questão judaica na Europa está em marcha. O documento que têm perante vósfoi-me apresentado numa conferência em Berlim, em Janeiro. Como podeis ver, pela nossa cuidadosa estimativa, existem de momento onze milhões de judeus na Europa. Essa estimativa inclui território controlado pelo Reich e seus aliados, e em países que permanecem neutros ou aliados com o inimigo.

Herr Luther interrompeu-se e olhou para o bispo Lorenzi.

- A rapariga fala alemão?

- Não, não, Herr Luther. É uma rapariga pobre da região de Garda. A sua única língua é o italiano, e até essa, ela fala-a como uma camponesa. Pode falar livremente à frente dela.

Virei-me e saída sala, fingindo não ter ouvido as coisas terríveis e insultuosas que o prelado acabara de dizerameu respeito ao alemão. O meu rosto deve ter mostrado o meu embaraço, porque quando entrei na antecâmara, Ciciotto perguntou:

- Passa-se alguma coisa, irmã Regina?

- Não, não, estou bem. Só um pouco cansada.

- Devemos continuar a dizer o terço, irmã?

- Di-lo tu, meu filho. Mas em voz baixa, por favor.

O rapaz recomeçou a dizer o terço, mas passados alguns momentos adormeceu com a cabeça pousada no meu colo. Abri a porta alguns centímetros de modo a poder ouvir o que estava a ser dito dentro da sala comum. Herr Luther ainda estava a falar. Isto foi aquilo que ouvi naquela noite, ou é o que a minha memória e minha capacidade me permitem recordar agora.

-Apesar dos nossos melhores esforços para manter as deportações secretas, infelizmente começa a saber-se. Consta-me que, segundo o nosso embaixador no Vaticano, alguns destes relatórios começam a chegar aos ouvidos do Santo Padre.

- Esse é realmente o caso, secretário de Estado Luther. Receio que na verdade notícias das deportações tenham chegado ao Vaticano. Os ingleses e os americanos estão a colocar uma enorme pressão sobre o Santo Padre para que ele se pronuncie sobre o assunto - respondeu o bispo Lorenzi.

- Posso falar rudemente, bispo Lorenzi?

- Foi esse o objectivo desta reunião, não foi?

- Este programa para tratar a questão judaica de uma vez por todas está a caminho. A maquinaria está no seu lugar, e não há nada que Sua Santidade possa fazer para o impedir. A única coisa que ele pode fazer é agravar a situação para os judeus, e eu sei que essa é a última coisa que o Santo Padre deseja fazer.

- Isso é correcto, Herr Luther. Mas como éque um protesto poderá agravar as coisas para os judeus?

- É imperativo que as rusgas e as deportações corram suavemente, e com um mínimo de luta e teatralidade. O elemento surpresa é um factor crítico. Se o Santo Padre emitir um protesto, acompanhado por um aviso explícito acerca do que as deportações para o leste significam verdadeiramente para os judeus, então isso tornará as rusgas complicadas e dificultará a questão. Também significará que muitos judeus entrarão na clandestinidade e escapar-se-ão às nossas forças.

- Não se pode contrapor a lógica dessa afirmação, Herr Euther. Nesse momento, achei que era altura para oferecer mais café aos delegados.

Afastei suavemente a cabeça do rapaz do meu colo, depois bati a porta e esperei que o bispo Lorenzi me convidasse a entrar na sala.

- Mais café, Sua Graça?

- Se faz favor, irmã Regina.

Houve uma pausa na conversa enquanto eu voltava a encheras chávenas e saía da sala. Depois Herr Luther prosseguiu. Mais uma vez deixei a porta entreaberta, de modo a poder ouvir o que estava a ser dito.

- Há outro motivo porque é essencial que o Santo Padre não erga a voz em protesto. Acontece que muitos daqueles que nos assistem neste empreendimento indispensável são bons católicos romanos. Se o papa condenar o seu comportamento, ou os ameaçar com a excomunhão, isso pode fazê-los pensar duas vezes acerca do trabalho que estão a fazer.

- Pode ficar descansado, HerrLuther, que a última coisa que o Santo Padre fará é excomungar católicos romanos numa altura como esta.

- Não tenho pretensões de dará Igreja conselhos quanto ao modo como deve dirigir os seus assuntos, mas existem motivos que nos levam a crer que o silêncio papal no que se refere a este assunto será o melhor para todos aqueles envolvidos, incluindo a Santa Sé.

- Estou interessado em ouvir a sua sábia opinião, herr Luther.

- Olhe para esse número que coloquei à sua frente. Imagine, onze milhões de judeus! Um número quase para lá da compreensão! Estamos a lidar com eles tão depressa e eficazmente quanto possível, mas é uma tarefa difícil que fixámos para o Reich. O que aconteceria se, que Deus o proíba, a Alemanha perdesse esta guerra para Estaline e o seu bando de judeus bolcheviques? Tente imaginar o que aconteceria se houvesse milhões de judeus deslocados na Europa no fim da guerra, vivos e desalojados, clamando pelo direito de emigrarem para a Palestina. Os sionistas mais os seus amigos em Washington e Londres ganhavam o dia. Seria impossível evitar a criação do lar nacional judeu na Palestina. O controlo judaico de Nazaré. O controlo judaico de Belém. O controlo judaico de Jerusalém. O controlo judaico de todos os lugares sagrados! Se eles tiverem o seu próprio estado, terão o direito, tal como o Vaticano o tem, de enviar diplomatas para todo o mundo. O Judaísmo, o antigo inimigo da Igreja, seria colocado num pé igual ao da Santa Sé. O Estado judaico transformar-se-ia numa plataforma de domínio global judaico. Isso seria um verdadeiro desastre para a Igreja Católica Romana, um revés de proporções inimagináveis, e começa a agigantar-se, a não ser que completemos a aniquilação da raça judia na europa.

Seguiu-se um longo silêncio. Não conseguia ver para o interior, mas na minha mente, tentei imaginar a cena. O bispo Lurenzi, imaginei, fumegava ao ouvir um discurso tão grotesco e monstruoso, estava a preparar-se, na minha imaginação, para despedaçar o homem de Berlim com uma condenação sonante dos nazis e da sua guerra contra os judeus, em vez disso, foi isto que ouvi naquela noite através da porta entreaberta.

- Como sabe, Herr Luther, nós membros da Crux Vera temos sido grandes apoiantes do Nacional Socialismo e da sua cruzada contra os bolcheviques. Trabalhámos muito silenciosamente, mas no entanto com diligência, para alinharas políticas do Vaticano de modo a que estas confluam no nosso objectivo comum: um mundo livre da ameaça bolchevique. Não posso instruir o papa quanto ao que dizer a respeito desta situação. Apenas lhe posso oferecer o meu conselho sincero, nos termos mais fortes possíveis, e esperar que ele o aceite. Posso dizer-lhe isto. De momento, ele está predisposto a nada dizer a respeito deste assunto, ele acredita que um protesto apenas tornará a situação dos católicos alemães mais ténue. Além disso, não sente amor pelos judeus, e acredita que em muitos aspectos eles fizeram com que esta calamidade caísse sobre eles. As suas considerações no que respeita à futura situação na Palestina fornecem uma arma nova e poderosa ao meu arsenal, estou certo que Sua Santidade estará muito interessado em ouvi-lo. Mas ao mesmo tempo, peço-Lhe que proceda de modo a que não force sem intenção uma tomada de atitude. A Santa Sé não quererá ser obrigada a proferir uma palavra de desaprovação.

- É óbio que estou muito satisfeito por ouvir a sua opinião, bispo Lurenzi. Provou mais uma vez Que é um verdadeiro amigo do povo alemão e um aliado de confiança na nossa luta contra o Bolchevismo e os judeus.

- E felizmente para si, Herr Luther, existe outro verdadeiro amigo do povo alemão dentro do Vaticano, um homem que me ultrapassa significativamente em categoria, ele ouvirá aquilo que tenho para lhe dizer. Quanto a mim, ficarei satisfeito por me ver livre deles.

- Creio que devemos fazer um brinde.

- Eu também. Irmã Regina?

Entrei na sala. As minhas pernas tremiam.

- Traga-nos uma garrafa de champanhe - disse-me o bispo em italiano,

acrescentando de seguida-, Não, irmã, traga antes duas garrafas, esta é uma noite para celebrar.

Um momento depois, voltei com as duas garrafas. Uma delas rebentou quando a abri, e o champanhe derramou-se sobre o chão e sobre o meu hábito.

- Eu disse-lhe que ela era uma campónia - disse o bispo. - Deve ter sacudido a garrafa quando vinha a caminho.

Os outros riram-se a bom rirás minhas custas, e mais uma vez tive que fingir que não tinha percebido. Servi o champanhe epreparei-me para sair, mas o bispo Lorenzi pegou-me no braço.

- Porque não nos faz companhia e bebe uma taça, irmã Regina?

- Não, não posso, Sua Graça. Não seria apropriado.

- Disparate! - Depois voltou-se para herr Luther e, em alemão, perguntou se acharia bem que eu bebesse uma taça de champanhe, depois de todo o meu árduo trabalho a preparar a refeição.

- Ja, Ja - gritou herr Luther. - Na verdade, insisto.

E assim mantive-me a li, no meu hábito manchado, e bebi o champanhe deles. E fingi não compreender quando eles se congratularam quanto a uma noite de trabalho muito bem-sucedida. E quando iam partir, apertei a mão do assassino chamado Luthere beijei o anel estendido do seu cúmplice, o bispo Lorenzi. Ainda consigo sentir a amargura nos lábios.

No meu quarto, transcrevi dolorosamente a conversa que acabara de ouvir. Depois mantive-me acordada, deitada na cama, até ser madrugada. Foi uma noite de verdadeira agonia.

Estou agora a escrever isto numa noite de Setembro do ano de 1947. É a véspera do meu dia de casamento, um dia que nunca desejei. Estou prestes a casar com um homem de quem gosto, mas que na verdade não amo. Vou fazê-lo porque é mais fácil desta maneira. Como lhes posso contar o verdadeiro motivo porque vou partir? Quem acreditaria em tal história?

Não tenho planos para contar a ninguém a respeito daquela noite, nenhuns planos para mostrar a alguém este documento. É um documento de vergonha. As mortes de seis milhões pesam demasiado sobre a minha consciência. Eu sabia e mantive-me em silêncio. Nalgumas noites, eles vinham até mim, com os seus corpos emaciados e vestuário de prisão esfarrapado, e perguntavam-me porque não falava em sua defesa. Não tenho uma resposta aceitável. Eu era apenas uma simples freira do Norte de Itália. Eles eram as pessoas mais poderosas do mundo. O que é que eu poderia ter feito? O que é que qualquer um de nós poderia ter feito?

Chiara dirigiu-se cambaleando à casa de banho. Um momento depois, Gabriel conseguiu ouvi-la a vomitar violentamente na sanita. Antonella Huber manteve-se sentada em silêncio, os olhos apáticos e húmidos, olhando pelas portas envidraçadas para o jardim que se contorcia ao vento. Gabriel olhou para as folhas que ela tinha ao colo; para a escrita cuidadosa e exacta da irmã Regina Carcassi. Fora uma coisa torturante de ouvir, mas ao mesmo tempo sentia-se esmagado por uma vaga de orgulho. Um documento espantoso, aquelas poucas páginas amarelecidas. Enquadrava-se na perfeição com coisas que ele ficara a saber por si mesmo. Não lhe dissera Licio, o velho do convento, para procurar a irmã Regina e Luther? Não lhe falara Alessio Rossi dos desaparecimentos misteriosos dos dois padres do departamento alemão do Secretariado de Estado, os monsenhores Felici e Manzini? Não colocara a irmã Regina Carcassi esses dois padres ao lado do bispo Sebastiano Lorenzi, oficial do Secretariado de Estado, membro da Crux Vera, amigo da Alemanha?

E felizmente para si, Herr Luther, existe outro verdadeiro amigo do povo alemão dentro do Vaticano, um homem que me ultrapassa significativamente em categoria.

Aqui estava uma explicação para o inexplicável. Porque é que Pio XII permanecera silencioso perante o maior caso de assassínio em massa da História? Fora porque Martin Luther convencera um membro influente do Secretariado de Estado, um membro da ordem secreta conhecida como Crux Vera, que uma condenação papal do Holocausto conduziria derradeiramente à criação de um Estado judaico na Palestina e ao controlo judaico dos locais sagrados cristãos? Se assim era, isso explicava porque é que a Crux Vera estava tão desesperada para manter a reunião de Brenzone secreta, pois esta associava a ordem, e por extensão a própria Igreja, ao assassínio de seis milhões de judeus na Europa.

Chiara saiu da casa de banho, os olhos húmidos e vermelhos, e sentou-se junto a Gabriel. Antonella Huber desviou o olhar do jardim, e os seus olhos escuros fixaram-se no rosto de Chiara.

- Você é judia, não é? Chiara anuiu e ergueu o queixo.

- Sou de Veneza.

- Houve uma terrível rusga em Veneza, não houve? Enquanto a minha mãe estava a salvo atrás dos muros do Convento do Sagrado Coração, os nazis e os seus amigos caçavam os judeus de Veneza. - Desviou o olhar de Chiara e olhou para Gabriel. - E quanto a si?

- A minha família veio da Alemanha. - Nada mais disse. Não havia mais nada a dizer.

- Poderia a minha mãe ter feito algo para os ajudar? - Voltou a olhar pelas portas envidraçadas. - Também sou culpada? Carrego o pecado original da minha mãe?

- Não acredito na culpa colectiva - respondeu Gabriel. - Quanto à sua mãe, não havia nada que ela pudesse fazer. Mesmo que tivesse desafiado as ordens do bispo e falado da reunião em Brenzone, nada teria mudado. Herr Luther tinha razão. A maquinaria estava no seu lugar, a matança tinha começado, e nada para além da derrota da Alemanha nazi iria impedi-lo. Além disso, ninguém teria acreditado nela.

- Talvez ninguém acredite agora nela.

- É um documento devastador.

- É uma sentença de morte - disse ela. - Eles limitar-se-ão a desmenti-lo como uma falsificação. Dirão que você tem a ideia fixa de destruir a Igreja. É isso que farão. É isso que fazem sempre.

- Tenho suficientes provas corroborativas para lhes tornar impossível considerá-lo como um embuste. A sua mãe poderia não ter quaisquer poderes para fazer alguma coisa em 1942, mas agora já tem esse poder. Deixe-me ficar com isto, com o que ela escreveu com a sua própria mão. É importante que eu fique com o original.

- Pode ficar com ele com uma condição.

- Qual é?

- Que destrua as pessoas que assassinaram a minha mãe. Gabriel estendeu a mão.

 

Gabriel conduziu para fora da villa de Antonella Huber através da escuridão que caía, acompanhado pelo ladrar selvático dos pastores belgas. Chiara sentava-se junto dele, agarrando a carta. No sopé da colina, virou para uma via rápida de duas faixas e dirigiu-se para oeste na direcção de Grasse. A última luz do dia jazia sobre a cumeeira das distantes colinas como uma ferida escarlate.

Cinco minutos depois, reparou no Fiat cinzento escuro. O homem atrás do volante era demasiado cuidadoso. Permanecia na sua própria via em todos os momentos, e mesmo quando Gabriel deixou que a sua velocidade abrandasse muito abaixo do limite, o Fiat permaneceu a diversos carros de distância do seu pára-choques traseiro. Não, pensou Gabriel, este não é o normal suicida francês atrás do rolante.

Prosseguiu pela via rápida até Grasse, depois desceu a colina, até ao antigo centro da vila. Esta fora tomada há muito por imigrantes do Médio Oriente, e durante um momento, Gabriel poderia ter imaginado estar na Argélia ou em Marraquexe.

- Guarda a carta.

- Que se passa?

- Estamos a ser seguidos.

Gabriel fez uma série de voltas rápidas e acelerações.

- Ele ainda está atrás de nós?

- Ainda.

- Que fazemos?

- Levamo-lo a dar um passeio.

Gabriel deixou a antiga vila e subiu a colina até à via rápida principal, o Fiat seguindo-o de muito perto. Acelerou através do centro da vila, depois virou para a N85, uma auto-estrada que corria elevada entre Grasse e os Alpes Marítimos. Dez segundos depois, o Fiat surgiu no espelho retrovisor. Gabriel pressionou o acelerador até ao fundo e acelerou o Peugeot com força pelo declive íngreme.

Gradualmente, Grasse ficou para trás. A estrada era serpenteante, cheia de curvas e contracurvas de cortar a respiração. A sua direita, erguia-se a encosta coberta de vegetação rasteira de montanha; à sua esquerda, uma garganta profunda, caindo na direcção do mar. O Peugeot tinha menos potência do que aquilo de que Gabriel gostaria, e por mais que ele o esforçasse, o Fiat mantinha-se facilmente atrás dele. Sempre que uma secção estreita da estrada se estendia à sua frente, ele erguia os olhos para o espelho retrovisor e verificava o Fiat: sempre ali, a alguns carros de distância. Uma vez pensou ver o condutor a falar a um telemóvel. «Para quem trabalhas? A quem estás a telefonar? E como raio nos encontraste?» Antonella Huber... Eles tinham-lhe morto a mãe. Tinham provavelmente um homem a vigiar a villa.

Dez minutos depois, a aldeia de St-Vallier surgiu perante eles, silenciosa e totalmente fechada. Gabriel estacionou no centro da aldeia, junto a uma pequena praça, e trocou de lugar com Chiara. O Fiat estacionou do lado oposto da praça e esperou. Gabriel disse a Chiara para apanhar a D5 em direcção a St-Cézaire, depois tirou a Beretta de nove milímetros que Shimon Pazner lhe dera em Roma. O Fiat continuou a segui-los.

Era uma descida longa, serpenteante e difícil nalgumas secções, direita e rápida noutras. Chiara conduzia do mesmo modo que conduzira o iate, com perícia e uma certa confiança fácil que Gabriel não podia deixar de achar atraente.

- Tiveste aulas de condução defensiva na Academia?

- Claro.

- Aprendeste alguma coisa?

- Fui a primeira do meu grupo.

- Mostra-me.

Ela meteu a embraiagem e carregou no acelerador a fundo. O Peugeot lançou-se em frente, o motor a guinchar. Ela manteve-se nessa mudança, pé no chão, até a agulha ultrapassar a zona vermelha, depois acelerou. Gabriel olhou para o velocímetro e viu-o a aproximar-se dos 180 quilómetros por hora. A sua aceleração rápida pareceu apanhar o condutor do Fiat de surpresa, mas este recuperou rapidamente e em breve estava no seu lugar habitual, a vinte metros do pára-choques traseiro do Peugeot.

- O nosso amigo voltou.

- O que é que queres que faça?

- Fá-lo trabalhar. Quero que fique com os nervos em franja.

Durante uma recta longa, e sempre a descer, Chiara puxou o Peugeot acima dos duzentos. Depois entrou num troço cheio de curvas, metendo as mudanças com perícia, e entrando e saindo de curvas. Era óbvio que aprendera bem as suas lições na Academia. O homem do Fiat estava a ter problemas para os acompanhar. Por duas vezes quase perdera o controlo nas curvas.

A velocidade a que viajavam, não demoraram muito a chegar a St-Cézaire. Era uma vila medieval, murada nalguns lugares e dividida ao meio pela D5. Chiara abrandou. Gabriel gritou-lhe para que fosse mais depressa.

- E se alguém atravessa a maldita estrada?

- Não me interessa! Vai mais depressa, raios!

- Gabriel!

Atravessaram a cidade escurecida a alta velocidade. O condutor do Fiat não teve coragem suficiente para os seguir, e abrandou ao atravessar a vila. Como resultado, surgiu atrás deles a alguns trezentos metros.

- Esta foi uma verdadeira loucura. Podíamos ter morto alguém.

- Não os deixes aproximar-se.

A estrada tornou-se uma via rápida de quatro faixas. A sua esquerda, encontrava-se uma ampla área natural, famosa pelas suas caves e grutas, e à distância encontrava-se uma cordilheira de montanhas nuas, visíveis à brilhante luz do luar.

- Vira aqui!

Chiara carregou nos travões, lançando o Peugeot numa descida tempestuosa. Depois, meteu simultaneamente as mudanças e carregou no acelerador, fazendo com que querenassem ao longo de um carreiro de terra. Gabriel virou-se e lançou outro longo olhar sobre o ombro. O Fiat fizera a curva e acelerava atrás deles.

- Apaga os faróis.

- Não verei nada.

- Apaga-os agora!

Ela desligou os faróis e abrandou instintivamente, mas Gabriel gritou-lhe para ela acelerar, e em breve mergulhavam através do brilho luminoso do luar. lintraram num matagal de carvalhos e pinheiros. O carreiro fazia abruptamente um gancho para a direita. Os faróis do Fiat não se viam.

- Pára!

- Aqui?

- Pára!

Chiara carregou nos travões. Gabriel abriu a porta. O ar estava cheio de uma poeira sufocante.

- Mantém-te em movimento - disse ele, depois saiu e fechou a porta.

Chiara fez o que ele mandou, continuando na direcção da cordilheira montanhosa. Alguns segundos depois, Gabriel conseguiu ouvir o Fiat a acelerar na sua direcção. Saiu do carreiro e ajoelhou-se atrás de um carvalho, a Beretta nas mãos estendidas. Quando o Fiat se aproximou precipitando se ao contornar a curva, Gabriel disparou diversos tiros aos pneus.

Pelo menos, dois explodiram. O Fiat perdeu de imediato o controlo, saltando e rodopiando, antes da força centrífuga da curva o atirar num violento rodopio para a esquerda. Gabriel perdeu a conta a quantas vezes o carro capotou; pelo menos, meia dúzia, talvez mais. Levantou-se e avançou lentamente na direcção da massa amachucada de aço, a Beretta de lado. Algures, um telemóvel tocava.

Encontrou o Fiat virado ao contrário, repousando no tejadilho esmagado, lnclinando-se, espreitou através de uma janela estilhaçada e viu o condutor, jazendo naquilo que fora o tecto. As suas pernas estavam grotescamente torcidas, o peito esmagado e sangrando profusamente. Apesar disso, estava consciente e a mão parecia estender-se para uma arma a alguns centímetros de distância da ponta dos seus dedos. Os olhos estavam focados, mas a mão não obedecia às ordens do cérebro. O seu pescoço estava partido, e ele não se apercebia disso.

Por fim, os olhos desviaram-se da arma e fixaram-se em Gabriel.

- Você foi um louco por nos seguir assim - disse Gabriel suavemente. - É um amador. O seu patrão enviou-o numa missão suicida. Quem é o seu patrão? Ele é que lhe fez isto, não eu.

O homem pouco mais conseguiu emitir do que um gargarejo. Bastava a olhar para Gabriel, mas o seu olhar estava noutro lado. Não tinha muito tempo de vida.

- Você não está muito ferido - continuou Gabriel com gentileza. - Alguns cortes e arranhões. Talvez um osso partido ou dois. Diga-me para quem está a trabalhar, para eu poder chamar uma ambulância.

Os lábios do homem separaram-se, e ele emitiu um som. Gabriel aproximou-se para o poder ouvir.

- Casszzzzz...

- Casagrande? Carlo Casagrande? É isso que me está a tentar dizer?

- Casszzzzzzzz....

Gabriel enfiou a mão dentro do casaco do homem moribundo e gentilmente apalpou-o até encontrar uma carteira, esta estava ensopada em sangue. Quando ele a deixou cair no bolso, conseguiu ouvir de novo o telefone a tocar, este acabara algures no assento traseiro, pelo som que emitia. Estendeu a mão e apanhou-o. De seguida, pressionou o botão sim e aproximou-o do ouvido.

- Pronto.

- O que se está a passar por aí? Onde é que ele está?

- Está mesmo aqui - respondeu calmamente Gabriel em italiano. - De facto, está a falar consigo neste exacto momento.

Silêncio.

- Sei o que aconteceu naquele convento - disse Gabriel. - Sei tudo acerca da Crux Vera. Sei que matou o meu amigo. Agora, vou atrás de si.

- Onde está o meu homem?

- De momento, não está a passar muito bem. Gostaria de falar com ele?

Gabriel colocou o telefone no chão a alguns centímetros de distância da boca do homem moribundo. Ao levantar-se, conseguia ver as luzes do Peugeot oscilando na sua direcção ao longo do carreiro. Chiara travou a poucos metros do local onde ele se encontrava. Regressando ao carro, Gabriel só conseguia ouvir um som.

- Casszzzzz...

 

Gabriel vasculhou a carteira do homem morto com o auxílio do brilho cor de jade das luzes do tablier. Não encontrou qualquer carta de condução nem nenhuma identificação oficial de qualquer tipo. Por fim, descobriu um cartão de visita, dobrado ao meio e enfiado atrás da fotografia duma rapariga num vestido sem mangas. Era tão antigo que teve de acender a luz superior para conseguir descortinar todo o nome: paulo olivero, ufficio sicurezza di vaticano. Ergueu-o ao alto para que Chiara o visse. Ela olhou para ele, depois voltou a desviar os olhos para a estrada.

- O que é que diz?

- Que existe uma grande probabilidade de eu ter acabado de matar um polícia do Vaticano.

- Óptimo.

Gabriel memorizou o número de telefone do cartão, depois rasgou-o em bocados e atirou-o pela janela. Chegaram à auto-estrada. Quando Chiara abrandou para se orientar, Gabriel dirigiu-a para oeste, em direcção a Aix-en-Provence. Ela acendeu um cigarro com o isqueiro do tablier. A sua mão tremia.

- Poderias dizer-me onde vamos a seguir?

- Vamos sair da Provença tão depressa quanto possível - respondeu ele. - Depois disso, ainda não decidi.

- É-me permitido dar uma opinião?

- Não vejo porque não.

- É altura de ir para casa. Já sabes o que aconteceu no convento e quem matou Benjamin. Não há mais nada que possas fazer, senão enfiares-te profundamente num buraco.

- Há mais - disse Gabriel. - Tem de haver mais.

- De que estás a falar?

Gabriel olhou distraído pela janela. A paisagem era agreste e varrida pelo vento, pó vermelho no ar. Não viu nada. Em vez disso, viu a madre Vincenza, sentada no exacto lugar em que Martin Luther e o bispo Lorenzi tinham selado o seu contrato de assassínio, dizendo- lhe que Benjamin fora ao Convento do Sagrado Coração para que lhe contassem sobre os judeus que aí se tinham refugiado. Viu Alessio Rossi, fedendo a medo, unhas roídas até ao sabugo, dizendo-lhe que Carlo Casagrande o forçara a abortar a sua investigação dos padres desaparecidos. Viu a irmã Regina Carcassi, ouvindo Luther e Lorenzi discutindo calmamente porque motivo o papa Pio XII deveria permanecer silencioso perante o genocídio, enquanto uma criança dormia com a cabeça pousada no seu colo, um terço enrolado na mão. E , por fim, viu Benjamin, um rapaz de vinte anos, míope e de ombros arredondados, brilhante e destinado a uma grandeza académica. Ele quisera fazer parte da equipa da Ira de Deus tanto quanto Gabriel quisera ser libertado dela. Na verdade, Benjamin quisera ser um aleph, um assassino, mas o seu cérebro metódico não lhe dava a perícia necessária para apontar uma Beretta ao rosto de um homem num beco escuro e premir o gatilho. Tinham-lhe dado todas as ferramentas necessárias para ser um brilhante agente de apoio, e nem uma única vez cometera um erro - mesmo no fim, quando o Setembro Negro e os serviços de segurança europeus lhes respiravam pelos pescoços, esse era o Benjamin que Gabriel via agora, o Benjamin que nunca colocaria em causa a sua reputação apenas com base na palavra de uma única fonte ou documento, não interessando o quanto este era envolvente.

- Com base apenas na carta da irmã Regina, Benjamin não teria escrito um livro implicando a Igreja Católica no Holocausto, ele tinha mais alguma coisa.

Chiara desviou para a berma da auto-estrada e travou.

- Então?

- Eu estive em campo com Benjamin. Sei como ele pensava, como a sua mente trabalhava, era ultra cuidadoso. Tinha planos de reserva para os seus planos de reserva. Benjamin sabia que o livro seria explosivo. Foi por isso que manteve o seu conteúdo secreto. Deve ter escondido cópias do seu material importante em locais onde os seus inimigos não pensariam em procurar. - Gabriel hesitou, acrescentando de seguida -, mas em locais onde os seus amigos procurariam.

Chiara enfiou o cigarro no cinzeiro.

- Quando estava na Academia, ensinaram-nos a entrar numa sala e a encontrar uma centena de lugares para esconder algo. Documentos, armas, qualquer outra coisa.

- Benjamin e eu fizemos o curso juntos.

- Então para onde vamos?

Gabriel ergueu a mão e apontou para a frente.

Conduziram por turnos, durante aproximadamente duas horas cada. Chiara conseguia dormir durante os seus períodos de repouso, mas Gabriel permanecia acordado, o assento reclinado, mãos atrás da cabeça, olhando através do vidro fumado do tejadilho. Passava as horas revistando mentalmente o apartamento de Benjamin pela segunda vez. Abriu livros e gavetas da secretária, armários e ficheiros. Planeou expedições a regiões inexploradas.

A madrugada chegou, cinzenta e proibitiva, agora um cerco de chuva torrencial, agora uma avalanche de um vento cortante vindo do vale do Reno. Não parecia haver propriamente luz, e os faróis do Peugeot mantiveram-se acesos durante toda a manhã. Na fronteira alemã, Gabriel sentiu uma febre súbita quando o guarda pareceu levar um pouco mais do que o habitual a examinar o falso passaporte canadiano que Pazner lhe dera em Roma.

Aceleraram através da Suábia, atravessando terrenos agrícolas ensopados, mantendo-se a par com o tráfego de alta velocidade da auto-estrada. Numa vila chamada Memmingen, Gabriel parou para meter gasolina. A curta distância, encontrava-se uma pequena loja. Mandou Chiara ao interior com uma lista. Teve mais sorte do que em Cannes: dois pares de calças cinzentas, duas camisas de botões, uma camisola preta, um par de sapatos pretos com sola de borracha, uma gabardina acolchoada de nylon. Um segundo saco continha duas lanternas eléctricas e uma embalagem de pilhas, bem como chaves de parafusos, chaves de fendas e alicates.

Gabriel mudou de roupa dentro do carro, enquanto Chiara conduzia os últimos quilómetros até Munique. Já passava do meio da tarde quando chegaram. O céu estava baixo e escuro, e chovia firmemente. Tempo operacional, ter-lhe-ia chamado Shamron. Um presente dos deuses dos serviços secretos. A cabeça de Gabriel latejava de exaustão, e os seus olhos pareciam ter areia sob as pálpebras. Tentou recordar-se da última vez em que tivera uma noite de sono decente. Olhou para Chiara e viu que ela se agarrava ao volante, como se fosse a única coisa que a conseguia manter direita. Um hotel estava fora de questão. Chiara teve uma ideia.

Mesmo para lá do antigo centro da cidade, perto do Reichenbachplatz, situa-se um edifício de aparência bastante pesada, de fachada plana de estuque. Acima das portas duplas envidraçadas, encontra-se um letreiro, judisches einkaufszentrum von munchen: centro da comunidade: judaica de munique. Chiara estacionou no exterior da entrada da frente e apressou-se para o interior. Regressou cinco minutos depois, contornou a esquina, e estacionou do lado oposto a uma entrada lateral. Uma rapariga mantinha a porta aberta. Tinha a idade de Chiara, ancas grandes, e cabelo asa de corvo.

- Como conseguiste isto? - perguntou Gabriel.

- Eles telefonaram ao meu pai em Veneza. Ele responsabilizou-se por nós.

O interior do centro era moderno e iluminado por uma luz fluorescente e crua. Seguiram a rapariga por uma escadaria até ao piso superior, onde foram introduzidos numa sala pequena com um chão de linóleo nu e duas camas gémeas com mantas beges. Para Gabriel, parecia-se com uma ala hospitalar para doentes.

- Mantemo-las para convidados e emergências - disse a rapariga. - São vossas durante umas horas. Atrás daquela porta há uma casa de banho com um chuveiro.

- Preciso de enviar um fax - disse Gabriel.

- Há um lá em baixo. Eu levo-o até lá.

Gabriel seguiu-a até um pequeno gabinete perto da principal área de recepção.

- Tem uma fotocopiadora?

- Claro. Mesmo ali.

Gabriel tirou a carta da irmã Regina Carcassi do bolso do casaco e tirou-lhe uma fotocópia. Depois escrevinhou algumas palavras numa folha de papel separada e entregou-as à rapariga. Gabriel recitou o número de memória, e ela colocou as folhas na máquina de fax.

- Viena? - perguntou ela.

Gabriel anuiu. Ouviu o guinchar ligeiro que a máquina de fax emitiu ao entrar em contacto com o fax do escritório de Eli Lavon, depois observou as páginas deslizarem uma a uma através do tabuleiro de alimentação. Dois minutos depois da transmissão estar concluída, a máquina de fax tiniu e cuspiu uma folha única com duas palavras apressadamente escrevinhadas.

Documentos recebidos.

Gabriel reconheceu a letra de Lavon.

- Precisa de mais alguma coisa?

- Apenas de algumas horas de sono.

- Com isso não o posso ajudar. - Ela sorriu-lhe pela primeira vez. - Consegue encontrar o seu caminho de regresso ao piso de cima?

- Não há problema.

Quando ele voltou ao quarto de hóspedes, as cortinas estavam firmemente fechadas. Chiara estava deitada numa das camas, joelhos junto ao peito, já a dormir. Gabriel despiu-se e deslizou debaixo do cobertor da segunda cama, assentando silenciosamente nas molas rangentes de modo a não a acordar. Depois fechou os olhos e caiu num sono sem sonhos.

Em Viena, Eli Lavon encontrava-se debruçado sobre a máquina de fax, cigarro entre os lábios, olhando de lado para o documento apertado entre as pontas dos seus dedos manchados de nicotina. Voltou ao seu gabinete, onde um homem estava sentado nas sombras profundas da tarde. Lavon acenou com as folhas.

- O nosso herói e heroína voltaram a surgir.

- Onde estão? - perguntou Ari Shamron.

Lavon olhou para o fax e procurou o número telefónico da máquina transmissora.

- Parece que estão em Munique. Shamron fechou os olhos.

- Onde em Munique?

Lavon consultou mais uma vez o fax, e desta vez sorria quando ergueu o olhar.

- Parece que o nosso rapaz encontrou o seu caminho de regresso ao seio do seu povo.

- E o documento?

- Receio que italiano não seja uma das minhas línguas, mas baseado na primeira linha, diria que ele encontrou a irmã Regina.

- Deixa-me ver isso.

Lavon entregou as folhas de fax a Shamron. Leu a primeira linha em voz alta, «Chamo-me Regina Carcassi...», depois olhou repentina mente para Lavon.

- Conheces alguém que fale italiano?

- Posso procurar alguém.

- Agora, Eli.

Quando Gabriel acordou, a escuridão era completa. Ergueu o pulso até ao rosto e focou o olhar no mostrador luminoso do relógio. Dez horas. Inclinou-se para o chão e vasculhou a roupa até encontrar a carta da irmã Regina. Voltou a respirar.

Chiara estava deitada a seu lado. A certa altura, deixara a sua cama e, como uma criança pequena, rastejara para a dele. Estava de costas voltadas para ele, e o cabelo espalhava-se sobre a sua almofada. Quando ele lhe tocou no ombro, ela rolou e olhou para ele. Os seus olhos estavam húmidos.

- Que se passa.

- Estava só a pensar.

- Em quê?

Um longo silêncio, quebrado pelo som de uma buzina no exterior da janela.

- Eu costumava aparecer na igreja de San Zaccaria quando estavas a trabalhar. Via-te lá em cima no teu andaime, escondido atrás da tua mortalha. Por vezes, espreitava pela ponta e via-te a olhar para o rosto da Virgem.

- Parece-me que vou ter de arranjar uma mortalha maior.

- É ela, não é? Quando olhas para a Virgem, vês o rosto da tua mulher. Vês as suas cicatrizes. - Quando Gabriel não respondeu. Chiara ergueu a cabeça sobre um cotovelo e estudou-lhe o rosto, passando com o indicador pela cana do nariz dele, como se fosse uma escultura. -Tenho tanta pena tua.

- Não tenho ninguém a quem culpar, para além de mim. Fui um louco em levá-la para campo.

- É por isso que tenho pena de ti. Se pudesses culpar outra pessoa, seria mais fácil.

Ela pousou a cabeça no peito dele e manteve-se calada durante um momento.

- Deus, como eu odeio este lugar. Munique. O lugar onde tudo começou. Sabias que Hitler tinha um quartel-general a algumas ruas de distância daqui?

- Sabia.

- Pensei que tinha tudo mudado para melhor. Há seis meses, alguém colocou um caixão à porta da sinagoga do meu pai. Tinha uma suástica na tampa. No interior, estava uma nota. «Este caixão é para os judeus de Veneza! Para aqueles que não apanhámos da primeira vez!»

- Não foi a sério - disse Gabriel. - Pelo menos, a ameaça não foi a sério.

- Assustou os velhos. Sabes, eles lembram-se de quando era a sério. - Ela levou a mão ao rosto e limpou uma lágrima da face. - Pensas realmente que Beni tinha mais alguma coisa?

- Apostaria a minha vida nisso.

- De que mais precisamos? Um bispo do Vaticano sentou-se com Martin Luther em 1942, e deu a sua bênção ao assassínio de milhões. Sessenta anos mais tarde, a Crux Vera mata o teu amigo e muitos outros para o manter em segredo.

- Não quero que a Crux Vera seja bem-sucedida. Quero expor o segredo, e preciso de algo mais para além da carta da irmã Regina de modo a poder fazê-lo.

- Sabes o que isto irá fazer ao Vaticano?

- Receio que isso não seja problema meu.

- Vais destruí-lo - respondeu ela. - Depois vais voltar para a igreja de San Zaccaria e acabar de restaurar o teu Bellini. És um homem de contradições, não és?

- Já mo tinham dito.

Ela levantou a cabeça, repousando o queixo no esterno dele, e olhou-o directamente nos olhos. O cabelo dela espalhou-se sobre a face de Gabriel.

- Porque é que eles nos odeiam, Gabriel? O que é que nós alguma vez lhes fizemos?

O Peugeot estava onde o tinham deixado, estacionado junto à entrada lateral do centro comunitário, brilhando sob a luz amarelada de um candeeiro de rua. Gabriel conduziu cuidadosamente através das ruas molhadas. Contornou o centro da cidade pelo anel Thomas Winner, uma ampla avenida que rodeava o coração da antiga Munique, depois dirigiu-se a Schwabing na Ludwigstrasse. Na entrada da estação da U-Bahn, viu um molho de panfletos azuis debaixo de um tijolo vermelho. Chiara saiu disparada do carro, agarrou nos papéis, e voltou com eles.

Gabriel passou duas vezes pela Adalbertstrasse 68 antes de decidir que era seguro continuar. Estacionou do outro lado da esquina, na Barerstrasse, e desligou o motor. Um eléctrico passou chocalhando, vazio à excepção de uma única mulher idosa olhando impaciente através da janela embaciada.

Ao avançarem em direcção à entrada do edifício de apartamentos, Gabriel pensou na primeira conversa que tivera com o detective Axel Weiss.

Os inquilinos são muito descuidados quanto a quem deixam entrar. Se alguém tocar à campainha e disser «Publicidade», eles abrem a porta

Gabriel hesitou, depois premiu simultaneamente dois botões. Alguns segundos depois, uma voz ensonada perguntou:

- Ja?

Gabriel murmurou a palavra chave. Uma campainha guinchou, e a porta destrancou-se. Entraram e a porta fechou-se automaticamente atrás deles. Gabriel abriu-a e fechou-a uma segunda vez para o caso de alguém estar a ouvir. Depois colocou o molho de panfletos no chão e atravessou o átrio até às escadas - rapidamente, não fosse a velha porteira ainda estar acordada.

Subiram silenciosamente as escadas até ao patamar do segundo piso. Da porta do apartamento de Benjamin ainda pendia a fita da cena do crime, bem como uma nota de aspecto oficial que declarava que estava interdito. O memorial temporário - as flores, as notas de condolências - desaparecera.

Chiara agachou-se e começou a trabalhar na fechadura com um instrumento de metal fino. Gabriel virou-lhe as costas e olhou para a escadaria. Trinta segundos depois, ouviu a fechadura a dar de si, e Chiara a empurrar a porta. Abaixaram-se sob a fita de cena do crime e entraram. Gabriel fechou a porta e acendeu a lanterna.

- Trabalha depressa - disse ele. - Não te preocupes se desarrumares alguma coisa.

Conduziu-a até à sala grande sobranceira à rua - a sala que Benjamin usara como escritório. O feixe da lanterna de Chiara incidiu no graffiti neonazi escrito na parede.

- Meu Deus - sussurrou ela.

- Começa naquela ponta - indicou-lhe Gabriel. - Procuraremos cada sala em conjunto, depois passaremos para a seguinte.

Trabalharam silenciosa mas eficientemente. Gabriel desfez a secretária em pedaços, enquanto Chiara retirava cada livro da sua prateleira e vasculhava por entre as páginas. Nada. De seguida, Gabriel começou a trabalhar no mobiliário, retirando acolchoados, afastando almofadas. Nada. Revirou a mesa de centro e desaparafusou as pernas para verificar os compartimentos ocos. Nada. Juntos, viraram o tapete e procuraram uma fenda onde pudessem estar escondidos documentos. Nada. Gabriel pôs-se de gatas e verificou pacientemente cada uma das tábuas do soalho para ver se alguma delas estava solta. Chiara tirou as tampas das grelhas de aquecimento.

Raios!

Numa extremidade da sala, encontrava-se uma passagem que conduzia a uma pequena antecâmara. Nesta, Benjamin guardara mais livros. Gabriel e Chiara procuraram juntos a sala e não encontraram nada.

Quando saíram, ao fecharem a porta, Gabriel apercebeu-se de um som ténue, algo de pouco familiar; não o guincho de uma dobradiça seca, mas uma espécie de sussurro. Pousou a mão na maçaneta, depois abriu e fechou a porta diversas vezes. Abrir, fechar, abrir, fechar, abrir...

A porta era oca, e soava como se houvesse alguma coisa no seu interior.

Virou-se para Chiara.

- Passa-me essa chave de parafusos.

Ajoelhou-se e soltou os parafusos que seguravam o trinco à porta. Quando terminou, desatarraxou o trinco. Preso a uma parte deste, encontrava-se um filamento de nylon, pendendo para o interior da porta. Gabriel agarrou gentilmente no filamento, e fez subir um saco de plástico transparente com um compartimento fechado a fecho ecler. No interior deste, encontrava-se um molho de papéis firmemente dobrados.

- Meu Deus! - exclamou Chiara. - Não acredito que os tenhas realmente encontrado!

Gabriel abriu o saco, depois retirou cuidadosamente os papéis e desdobrou-os, à luz da lanterna de Chiara. Fechou os olhos, praguejou baixinho, e ergueu os papéis para que Chiara os visse.

Era uma cópia da carta da irmã Regina.

Gabriel levantou-se lentamente. Levara-lhes mais de uma hora a encontrar algo que já tinham. Quanto mais tempo demorariam a encontrar aquilo de que precisavam? Respirou fundo e virou-se.

Foi então que viu a sombra de uma figura, de pé no centro da sala, entre a confusão. Enfiou a mão no bolso, envolveu a coronha da Beretta com os dedos, e tirou-a rapidamente. Quando ergueu o braço, preparado para disparar, Chiara iluminou o alvo com o feixe da lanterna. Felizmente, Gabriel conseguiu evitar que o indicador premisse o gatilho, porque a três metros à sua frente, com as mãos tapando-lhe os olhos, estava uma mulher velha envolvida num roupão cor-de-rosa.

Havia uma limpeza patológica em relação ao minúsculo apartamento de Frau Ratzinger que Gabriel reconheceu de imediato. A cozinha estava imaculada e esterilizada, os pratos no seu pequeno aparador de porcelana fastidiosamente colocados. Os bibelots da mesa de centro da sua sala de estar pareciam ter sido arranjados e rearranjados por um presidiário num asilo - o que em muitos aspectos, pensou Gabriel, era o caso dela.

- Onde é que você esteve? - perguntou ele cuidadosamente, numa voz que poderia ter usado com uma criança pequena.

- Primeiro em Dachau, depois em Ravensbruck, e por fim Riga. - Ela deteve-se durante um momento. - Os meus pais foram assassinados em Riga. Foram abatidos a tiro pelos Hinsatzgrupperfz NT, os esquadrões da morte itinerantes das SS, e enterrados juntamente com vinte e sete mil outros numa trincheira cavada por prisioneiros de guerra russos.

Depois ela arregaçou a manga para mostrar a Gabriel o seu número - como o número que a mãe de Gabriel tentara tão desesperadamente esconder. Mesmo no feroz Verão do vale de jezreel, ela vestia uma blusa de manga comprida para evitar que um desconhecido visse

 

(1) Unidades móveis sob o comando de Reinhard Heydrich, que acompanharam as tropas alemãs quando estas invadiram a Rússia, durante a Segunda Guerra Mundial.

 

a sua tatuagem. A sua marca da vergonha, como ela lhe chamava. O seu emblema da fraqueza judaica.

- Benjamin tinha medo de ser morto - disse ela. - Costumavam telefonar-lhe a toda a hora e dizer as coisas mais horríveis ao telefone. Costumavam ficar à noite no exterior do edifício para o assustar. Ele disse-me que se alguma vez algo lhe acontecesse, viriam homens, homens de Israel.

Ela abriu uma gaveta do aparador e tirou desta uma toalha de mesa de linho, com a ajuda de Chiara, desdobrou-a. Escondido no interior, encontrava-se um envelope de formato oficial, as extremidades e a aba seladas com uma grossa fita adesiva plástica.

- É disto que anda à procura, não é? - Ela ergueu-o para que Gabriel o visse. -A primeira vez em que o vi, pensei que pudesse ser você, mas não senti que pudesse confiar em si. Estavam a acontecer muitas coisas estranhas naquele apartamento. Homens que chegavam a meio da noite. Polícias levando os pertences de Benjamin. Tive medo. Como pode imaginar, ainda não confio em homens alemães de uniforme.

Os seus olhos melancólicos fixaram-se no rosto de Gabriel.

- Não é irmão dele, pois não?

- Não, não sou, Frau Ratzinger.

- Não pensei que o fosse. Foi por isso que lhe dei os óculos. Se você fosse o homem de que Benjamin estava a falar, eu sabia que você seguiria as pistas, e que eventualmente encontraria o seu caminho de regresso até mim. Tive de me certificar que você era o homem certo. Você é o homem certo, não é, Herr Landau?

- Não me chamo Herr Landau, mas sou o homem certo.

- O seu alemão é muito bom - disse ela. - Você é de Israel, não é?

- Cresci no vale de Jezreel - respondeu Gabriel, mudando para hebraico sem avisar. - Benjamin era a coisa mais próxima de um irmão que alguma vez tive. Sou o homem que ele quereria que visse o que está no interior desse envelope.

- Então acredito que isto lhe pertença - replicou ela na mesma língua. - Acabe o trabalho do seu amigo. Mas o que quer que faça, não volte aqui. Isto aqui não é seguro para si.

Depois colocou cuidadosamente o envelope nas mãos de Gabriel e tocou-lhe no rosto.

- Vá - disse ela.

 

Benedetto Foà apresentou-se ao trabalho no edifício de escritórios de quatro pisos perto da entrada para a Praça de São Pedro às dez e meia, hora perfeitamente razoável em Roma. Numa cidade cheia de homens vestidos com elegância, Foà era claramente uma excepção. As calças há muito que tinham perdido o vinco, as biqueiras dos sapatos de couro negro estavam raspadas, e os bolsos do casaco desportivo estavam deformados devido ao seu hábito de os encher com blocos de notas, gravadores, e molhos de papéis dobrados. Sendo correspondente do Vaticano para o Il Republica, Foà não confiava num homem que não conseguisse transportar os seus pertences nos bolsos.

Passou entre um ajuntamento de turistas enfileirados no exterior das lojas de souvenirs no piso térreo, e tentou entrar no átrio. Um guarda de uniforme azul bloqueou-lhe o caminho. Foà suspirou profundamente e vasculhou os bolsos até encontrar as suas credenciais de imprensa, era um ritual totalmente desnecessário, já que Benedetto Foà era decano do Vaticanisti, e o seu rosto era tão conhecido do pessoal de segurança do Gabinete de Imprensa como aquele pertencente ao rufia austríaco que dirigia o local. Forçá-lo a mostrar a credencial era apenas outra forma de punição subtil, como bani-lo do avião do papa durante a visita papal do próximo mês à Argentina e ao Chile. Foà fora um mau rapaz. Foà estava de castigo. Fora colocado na prateleira e fora-lhe oferecida a oportunidade de se arrepender. Mais um passo em falso e atá-lo-iam ao poste e acenderiam um fósforo.

A sala Stampa della Santa Sede, conhecida como Gabinete de Imprensa do Vaticano, era uma ilha de modernidade num mar renascentista. Foà passou por um conjunto de portas de vidro automáticas.

Depois atravessou um chão de mármore negro e polido até chegar ao seu cubículo na sala de imprensa. O Vaticano infligia um voto de pobreza àqueles que considerava dignos de credenciais permanentes.

O gabinete de Foà consistia numa minúscula secretária de fórmica com um telefone e uma máquina de fax que deixava continuamente de funcionar nas piores alturas possíveis. A sua vizinha era uma loira à Rubens da revista Inside the Vaticem chamada Giovanna. Ela pensava nele como um herético e recusava os seus repetidos convites para almoçar.

Ele sentou-se pesadamente na sua cadeira. Um exemplar do L'Osservatore Romano jazia na sua secretária, junto a um molho de recortes do Serviço Noticioso do Vaticano. A versão do Vaticano do Pravela e da Tass NT. Com o coração pesado, Foà começou a ler, como um Kremlinologista procurando significados escondidos na notícia de que um certo membro do Politburo estava a sofrer de uma severa constipação. Era a baboseira habitual. Foà afastou os jornais e iniciou uma longa deliberação quanto ao local onde haveria de almoçar.

Olhou para Giovanna. Talvez fosse o dia em que, finalmente, o estoicismo dela era abalado. Comprimiu-se para o interior do cubículo dela. Giovanna estava debruçada sobre um bolletino, um press release oficial. Quando Foà espreitou por cima do seu ombro, ela cobriu-o com o antebraço como uma rapariga da escola escondendo um teste do rapaz da secretária vizinha.

- O que é, Giovanna?

- Acabaram de o publicar. Vá buscar o seu e veja você mesmo. Ela empurrou-o para o corredor. (.) toque da sua mão na anca de

Foà prolongou-se enquanto ele se dirigia até à frente da sala, onde uma freira de aparência feroz se sentava atrás de uma secretária de madeira, esta tinha uma desconfortável semelhança com um professor que lhe costumava bater com um ponteiro. Entregou-lhe um par de bollittino, sem alegria, como um guarda prisional distribuindo uma ração de castigo. Só para a irritar, Foà leu-os de pé em frente da secretária.

O primeiro falava de uma reunião do pessoal da Congregação da Doutrina da Fé. Dificilmente algo sobre o qual os leitores do Il Repubblica se interessassem. Foà deixaria esse para Giovanna e o seu bando

 

NT A agência oficial noticiosa da antiga União Soviética.

 

do Serviço Noticioso Católico. O segundo era muito mais interessante. Fora emitido sob a forma de uma emenda ao calendário do Santo Padre na sexta-feira. Ele cancelara uma audiência com uma delegação das Filipinas e em vez disso, faria uma visita rápida à Grande Sinagoga de Roma para se dirigir à congregação.

Foà ergueu o olhar e franziu o sobrolho. «Uma viagem à sinagoga anunciada dois dias antes do evento? Impossível!» Um evento como esse deveria estar no calendário papal há semanas. Não era preciso ser-se alguém experiente em assuntos do Vaticano para saber que se passava alguma coisa.

Foà olhou ao longo do corredor de chão de mármore. No fim deste, encontrava-se uma porta aberta que dava entrada para um gabinete pomposo. Sentado atrás de uma secretária polida encontrava-se uma figura proibitiva chamada Rudolf Gertz, um antigo jornalista televisivo austríaco que era agora o chefe do Gabinete de Imprensa do Vaticano. Era contra as regras colocar pé no corredor sem autorização. Foà decidiu-se por uma corrida suicida. Quando a freira não estava a olhar, galopou pelo corredor como um antílope. A alguns passos da porta de Gertz, um padre corpulento agarrou Foà pelo colarinho do casaco e ergueu-o do chão. Foà conseguiu levantar o bolettino.

- A que é que pensa que está a brincar, Rudolf? Toma-nos por idiotas? Como se atreve a informar-nos disto apenas com dois dias de antecedência? Deveríamos ter sido informados! Porque é que ele lá vai? O que é que ele vai dizer?

Gertz olhou calmamente para cima. Tinha um bronzeado de esquiador e estava arranjado para as notícias da noite. Foà permaneceu ali desesperadamente pendurado, esperando por uma resposta que sabia que nunca viria, pois algures durante a sua viagem de Viena para o Vaticano, Rudolf Gertz parecia ter perdido a capacidade para falar.

- Você não sabe porque é que ele vai à sinagoga, pois não, Rudolf? O papa está a guardar segredos do Gabinete de Imprensa. Está a passar-se alguma coisa, e eu vou descobrir o que é.

Gertz ergueu uma sobrancelha - Desejo-lhe muita sorte. O padre corpulento considerou-o um sinal para arrastar Foà à força, de regresso à sala de imprensa e depositá-lo no seu cubículo.

Foà enfiou as suas coisas nos bolsos do casaco e dirigiu-se para o piso inferior. Caminhou em direcção ao rio ao longo da Via della Conciliazione, o bolettino ainda amachucado na mão. Foà sabia que era um sinal de acontecimentos cataclísmicos que se aproximavam. Só não sabia quais eram. Insensatamente, permitira-se ser usado num jogo tão velho como o tempo: a intriga no Vaticano opondo uma ala da Cúria contra a outra. Suspeitava que a divulgação surpresa de uma visita a grande Sinagoga de Roma era o culminar desse jogo. Estava furioso por ter sido posto de parte como todos os outros. Ele fizera um acordo. O acordo, na opinião de Benedetto Foá, fora quebrado.

Parou na praça no exterior das rampas do Castelo Sant'Angelo. Precisava de fazer uma chamada telefónica - uma chamada que não podia ser feita a partir da sua secretária na Sala Stampa. De um telefone público, marcou um número para uma extensão no interior do Palácio Apostólico. Era o número privado de um homem muito próximo do Santo Padre. Este atendeu como se aguardasse a chamada de Foà.

- Tínhamos um acordo, Luigi - disse Foà sem preâmbulos. - Quebraste esse acordo.

- Acalma-te, Benedetto. Não lances acusações de que mais tarde te arrependerás.

- Concordei em jogar o teu pequeno jogo quanto à infância do Santo Padre em troca de algo especial.

- Confia em mim, Benedetto, irá surgir-te algo de muito especial mais cedo do que pensas.

- Estou prestes a ser permanentemente banido da Sala Stampa porque te ajudei. O mínimo que podias ter feito era avisares-me que esta viagem à sinagoga estava próxima.

- Não podia fazer isso, por motivos que te serão óbvios nos próximos dias. Quanto aos teus problemas na Sala Stampa, também esses acabarão.

- Porque é que ele vai à sinagoga?

- Terás de esperar até sexta, como toda a gente.

- És um filho da mãe, Luigi.

- Por favor, tenta lembrar-te que estás a falar com um padre.

- Tu não és um padre. És um golpista implacável num fato eclesiástico.

- A lisonja não te levará a lugar algum, Benedetto. Lamento, mas o Santo Padre quer falar-me.

A chamada desligou-se. Foà bateu com o auscultador e dirigiu-se penosamente de regresso ao Gabinete de Imprensa.

A uma curta distância, num edifício diplomático barricado, na extremidade de um beco sem saída bordejado por árvores chamado Via Michele Mercati, Aaron Shiloh, o embaixador de Israel junto à Santa Sé, estava sentado atrás da secretária, folheando um molhe de correspondência matutina do Ministério dos Negócios Estrangeiros em Telavive. Uma mulher robusta com cabelo curto e escuro bateu na soleira da porta e entrou na sala sem aguardar autorização. Yael Ravona, a secretária do embaixador Shiloh, deixou cair uma única folha de papel sobre a secretária deste. Era um boletim do Serviço Noticioso do Vaticano.

- Isto acabou de chegar.

O embaixador leu-o rapidamente, depois ergueu o olhar.

- A sinagoga? Porque é que eles não nos disseram que algo assim estava prestes a acontecer. Não faz sentido.

- julgando pelo tom deste despacho, o Gabinete de Imprensa e o SNV foram apanhados desprevenidos.

- Faz-me uma chamada para o Secretariado de Estado. Diz-lhes que gostaria de falar com o cardeal Brindisi.

- Sim, embaixador.

Yael Ravona saiu. O embaixador ergueu o auscultador do telefone e marcou um número em Telavive. Um momento depois, disse em voz baixa:

- Preciso de falar com Shamron.

Nesse exacto momento, Carlo Casagrande estava sentado nas traseiras do seu carro pessoal do Vaticano, acelerando ao longo da serpenteante via rápida S4 através das montanhas a nordeste de Roma. O motivo para esta viagem não calendarizada encontrava-se na pasta diplomática fechada que repousava no assento a seu lado. Era um relatório, que lhe fora entregue mais cedo nessa mesma manhã, pelo agente que ele designara para investigar a infância do Santo Padre. O agente fora forçado a recorrer a uma operação de «saco negro» - um arrombamento do apartamento de Benedetto

Foà. Uma busca apressada aos ficheiros de Foà produzira as notas deste sobre a matéria. Um resumo dessas notas estava contido no relatório.

A Villa Galatina surgiu, empoleirada na sua própria montanha, olhando para o vale mais abaixo. Casagrande vislumbrou um dos guardas de Roberto Pucci entre as ameias, uma espingarda pendendo-lhe do ombro. O portão da frente estava aberto. Um homem da segurança de uniforme castanho olhou para as matrículas SCV e fez sinal ao veículo para entrar na propriedade.

Roberto Pucci saudou Casagrande no átrio de entrada. Estava vestido com calções e botas de montar até aos joelhos, e cheirava a pólvora. Obviamente, passara a manhã a disparar. Don Pucci dizia frequentemente que a única coisa de que gostava mais do que da sua colecção de armas era de fazer dinheiro - e da Santa Madre Igreja, é claro. O financeiro escoltou Casagrande por uma galeria longa e sombria até uma enorme sala cavernosa sobranceira ao jardim. O cardeal Marco Brindisi já aí se encontrava, uma figura magra empoleirada na borda de uma cadeira perante a lareira, uma chávena balançando precariamente na coxa coberta pela sotaina. A luz reflectia-se nas lentes dos pequenos óculos redondos do cardeal, transformando-os em discos brancos que lhe obscureciam os olhos. Casagrande caiu sobre um joelho e beijou o anel que ele lhe apresentou. Brindisi estendeu os dois primeiros dedos da mão direita e ofereceu solenemente a sua bênção. O cardeal, pensou Casagrande, tinha mãos requintadas.

Casagrande sentou-se, mexeu na combinação dos fechos da pasta, e levantou a tampa. Brindisi estendeu a mão e aceitou a única folha escrita à máquina do papel com o cabeçalho do Gabinete de Segurança do Vaticano, depois olhou para baixo e começou a ler. Casagrande cruzou as mãos no colo e esperou pacientemente. Roberto Pucci andava de um lado para o outro, um caçador impaciente procurando oportunidade de um alvo.

Um momento depois, o cardeal Brindisi levantou-se e deu alguns passos hesitantes na direcção da lareira. Deixou cair o relatório nas chamas e observou-o a enrolar-se e a desintegrar-se, depois virou-se e encarou Casagrande e Pucci, os olhos escondidos atrás de dois discos brancos de luz. Os uomini di fiducia - os homens de confiança - de Brindisi esperavam o veredicto, embora para Casagrande houvesse pouco suspense, porque ele sabia que atitude Brindisi escolheria. A Igreja de Brindisi estava em perigo mortal. Medidas drásticas iriam ser tomadas.

Roberto Pucci era um alvo perpétuo dos serviços secretos italianos, e tinham-se passado muito dias desde que a Villa Galatina tinha sido varrida em busca de dispositivos de escuta. Antes do cardeal Brindisi poder pronunciar a sua sentença de morte, Casagrande levou um dedo aos lábios e ergueu os olhos para o tecto. Apesar da chuva fria, passearam pelo jardim de Don Pucci, de guarda-chuva aberto, como um cortejo fúnebre seguindo um caixão conduzido por um cavalo. A bainha da sotaina do cardeal ficou rapidamente ensopada. A Casagrande pareceu-lhe que estavam a chapinhar ombro a ombro em sangue.

- O papa acidental está a jogar um jogo muito perigoso - disse o cardeal Brindisi. - A sua iniciativa para abrir os Arquivos é simplesmente um estratagema para lhe dar cobertura para revelar coisas que ele já sabe. É um acto de uma imprudência inacreditável. Acredito que seja bem possível que o Santo Padre esteja louco ou mentalmente desequilibrado de alguma forma. Nós temos a obrigação, na verdade, temos o mandato divino de o remover.

Roberto Pucci pigarreou.

- Removê-lo e matá-lo são duas coisas diferentes, Eminência.

- Não muito diferentes, Don Pucci. O conclave fez dele um monarca absoluto. Não podemos simplesmente pedir ao rei para se afastar. Apenas a morte pode acabar com este papado.

Casagrande olhou para a fileira de ciprestes que oscilavam no vento forte. Matar o papa? Insanidade. Desviou o olhar das árvores e olhou para Brindisi. O cardeal estudava-o intensamente. O rosto magro, os óculos redondos - era como ser avaliado pelo próprio Pio XII.

Brindisi desviou o olhar.

- «Ninguém me livrará deste padre metediço?» Sabe quem disse estas palavras, Carlo?

- O rei Henrique II, se não estou em erro. E o padre metediço a quem ele se referia era Thomas BecketNT. Não muito depois de ter

 

NT Prelado inglês e homem de Estado (c. 1118-70), arcebispo de Canterbury e amigo pessoal de Henrique II entrou em conflito directo com este, devido a conflitos inevitáveis entre a Igreja e o rei. Foi assassinado na catedral de Canterbury a 29 de Dezembro por quatro cavaleiros e o seu assassínio causou a indignação geral por toda a europa, e pouco depois começaram a surgir relatos de milagres relacionados com ele. Foi canonizado e conhecido como São Thomas Becket.

 

proferido essas palavras, quatro dos seus cavaleiros entraram intempestivamente pela catedral de Canterbury e mataram Thomas com as suas espadas.

- Deveras impressionante - disse o cardeal. - O papa acidental e São Thomas têm muito em comum. Thomas era um homem vaidoso, exibicionista, que fez muito para fazer recair sobre si a sua própria morte. O mesmo pode certamente ser dito a respeito do Santo Padre. Ele não tem qualquer direito de passar por cima da Cúria e lançar esta iniciativa sozinho, e pelos seus pecados e pela sua vaidade, deve sofrer o destino de Thomas. Mande avançar os cavaleiros, Carlo. Mate-o.

- Se o Santo Padre morrer de morte violenta, tornar-se-á num mártir, tal como São Thomas.

- Ainda melhor. Se a sua morte for devidamente coreografada, todo este assunto sórdido pode terminar de um modo que se adcqúe bastante bem aos nossos objectivos.

- Como assim, iminência?

- Consegue imaginar a ira que se abaterá sobre a cabeça dos judeus se o Santo Padre for assassinado numa sinagoga? Certamente que um assassino com a perícia do seu amigo pode executar algo assim. Assim que ele desaparecer, constituiremos um caso contra o nosso assassino papal, o israelita que se instalou no nosso seio e restaurou os seus preciosos trabalhos de arte enquanto esperava por uma oportunidade para assassinar o Santo Padre, é uma história notável, Carlo, uma a que a imprensa mundial terá dificuldade de resistir.

- Se não for difícil de acreditar, [iminência.

- Não o será se você fizer correctamente o seu trabalho.

Um silêncio pendeu sobre eles, apenas quebrado pelo ranger dos seus passos no carreiro de gravilha. Casagrandc não conseguia sentir os pés a tocarem a terra. Sentiu-se a flutuar, vendo a cena de cima: a antiga abadia, os jardins labirínticos, três homens, a Santa Trindade da Crux Vera, deliberando calmamente a possibilidade de assassinar um papa. Apertou o cabo do guarda -chuva, avaliando se este era real ou apenas um objecto num sonho. Desejou que este o pudesse levar, o pudesse transportar para outro tempo - um tempo anterior quando a sua fé e obsessão pela vingança o tinham levado a comportar-se com a mesma crueldade e depravação dos seus inimigos. Viu Angelina, sentada num cobertor à sombra de um pinheiro na Villa Borghese. Debruçou-se para a beijar, esperando sentir o sabor de morangos nos seus lábios, mas em vez disso sentiu sangue. Ouviu uma voz. Na sua memória, era Angelina, dizendo-lhe que queria passar as férias de Verão nas montanhas a norte. Na verdade era o cardeal Brindisi, expondo o motivo porque o assassinato de um papa serviria os interesses tanto da Igreja quanto os da Crux Vera. «Com que facilidade o cardeal fala de assassínio», pensou Casagrande. E depois viu tudo claramente. A Igreja em tumulto. Uma época para uma autêntica liderança. Após a morte do Santo Padre, Brindisi agarraria aquilo que o último conclave lhe negara.

Casagrande reuniu forças e prosseguiu cautelosamente.

- Se é que posso abordar o assunto de um ponto de vista operacional, iminência, matar um papa não é algo que se possa fazer no impulso do momento. Demora meses, talvez anos, para planear algo assim. - Deteve-se, esperando que Brindisi o interrompesse, mas o cardeal continuou a andar, um homem numa viagem com uma grande distância ainda a percorrer. Casagrandc continuou. - Assim que o Santo Padre deixar o território do Vaticano, estará sob a protecção da Polícia e dos serviços de segurança italianos. Neste momento, estão em pé de guerra devido ao nosso pretenso assassino papal. Haverá um muro à volta do Santo Padre que será impossível de penetrar.

- O que diz é verdade, Carlo. Mas existem dois factores importantes que pesam muito a nosso favor. O seu trabalho no Gabinete de Segurança do Vaticano. Você tem a capacidade de meter um homem perto do Santo Padre sempre que quiser.

- E o segundo?

- O homem que você colocará perto do Santo Padre será o Leopardo.

- Duvido que até mesmo o Leopardo aceite uma missão como aquela que está a propor, Eminência.

- Ofereça-lhe dinheiro. É a isso que criaturas como ele respondem.

Casagrande sentiu-se como se se estivesse a lançar contra os muros da velha abadia. Decidiu fazer um último assalto final.

- Quando cheguei ao Vaticano vindo dos carabinieri, fiz um voto sagrado de proteger o papa. Agora está a pedir-me para violar esse voto, Eminência.

- Também fez um voto sagrado à Crux Vera e a mim pessoalmente, um voto que o liga a uma obediência absoluta.

Casagrande parou de andar e virou-se para encarar o cardeal. Os óculos deste estavam manchados pela chuva.

- Tive esperança de voltar a ver a minha mulher e filha no reino do Céu, Eminência. Certamente que a única coisa que espera um homem que fizer isto é o Inferno.

- Não tem de se preocupar em se confrontar com o fogo do Inferno, Carlo. Eu dar-lhe-ei a absolvição.

- Tem realmente tanto poder? O poder para limpar a alma de um homem que assassina um papa?

- Claro que tenho! - disparou Brindisi, como se tivesse considerado a pergunta blasfema. Depois a sua atitude e tom suavizaram. - Está cansado, Carlo. Este assunto tem sido longo e difícil para todos nós. Mas existe uma forma de nos sairmos bem, e em breve estará tudo terminado.

- Com que custo, Eminência? Para nós? Para a Igreja?

- Ele quer destruir a Igreja. Eu quero salvá-la. De que lado é que você está?

Após um momento de hesitação, Casagrande respondeu:

- Estou do seu lado, Eminência. E do lado da Santa Madre Igreja.

- Tal como sabia que estava.

- Só tenho uma pergunta. Pretende acompanhar o Santo Padre até à sinagoga? Não quereria que estivesse num lugar tão próximo do Santo Padre quando este terrível feito for executado.

- Tal como disse ao Santo Padre quando ele me fez a mesma pergunta, tenciono ter um ataque de gripe na sexta-feira que não me permitirá estar a seu lado.

Casagrande agarrou na mão do cardeal e beijou-lhe febrilmente o anel. O prelado estendeu os longos dedos e fez o sinal da cruz sobre a testa de Casagrande. Não havia amor nos seus olhos; apenas frieza e uma determinação feroz. Do ponto de vantagem de Casagrande, parecia-lhe que estava a ungir um homem morto.

O cardeal Brindisi foi o primeiro a partir para Roma. Casagrande e Roberto Pucci permaneceram para trás no jardim.

- Não é preciso ser um homem terrivelmente perspicaz para ver que o seu coração não está nisto, Carlo.

- Apenas um louco poderia apreciar a oportunidade de assassinar um papa.

- Que pretende fazer?

Casagrande moveu alguma gravilha com a biqueira do sapato, depois olhou para os ciprestes que se dobravam ao vento. Sabia que estava prestes a embarcar num curso que derradeiramente conduziria à sua própria destruição.

- Vou a Zurique - disse Casagrande. - Vou contratar um assassino.

 

O gabinete de Eli Lavon parecia-se com um bunker de comando de um exército em retirada. Ficheiros abertos jaziam espalhados pelos tampos das mesas, e um mapa pendia torto da parede. Havia cinzeiros transbordando de cigarros meio fumados e um cesto de papéis cheio com os restos meio ingeridos de uma sombria refeição ao domicílio. Uma chávena de café frio equilibrava-se precariamente no cimo de uma pilha de livros. Uma televisão silenciosa tremeluzia despercebida a um canto.

Lavon estivera claramente à espera deles. Abrira a porta antes de Gabriel ter sequer pressionado a campainha e apressara-os para o interior como convidados que chegassem tarde a um jantar em sua honra. Acenara com a folha de fax da carta da irmã Regina e crivara Gabriel de perguntas enquanto o conduzia pelo corredor. «Onde encontraste isto? Que estavas a fazer em Munique? Sabes os sarilhos que causaste? Meio Gabinete anda à tua procura! Meu Deus, Gabriel, pregaste-nos cá um susto!»

Shamron nada dissera. Já sobrevivera a suficientes desastres para perceber que na devida altura ficaria a saber tudo o que precisava de saber. Enquanto Lavon repreendia Gabriel, o velho andava de um lado para o outro sobre as tábuas do soalho perante a janela sobranceira ao pátio. O seu reflexo era visível no vidro à prova de bala. Para Gabriel, a imagem espelho parecia-se com outra versão de Shamron. Mais novo e mais seguro. Shamron, o invencível.

Gabriel sentou-se pesadamente no sofá de Lavon. Com Chiara a seu lado, tirou o envelope que Frau Ratzinger lhe dera em Munique e colocou-o sobre a mesa de centro coberta por ficheiros. Lavon colocou um par de óculos graduados e retirou o seu conteúdo: uma fotocópia de duas folhas dactilografadas a um espaço. Olhou para baixo e começou a ler. Passado um momento, o seu rosto perdeu a cor e os papéis tremiam-lhe entre as pontas dos dedos. Levantou o olhar para Gabriel e sussurrou:

- Inacreditável.

Lavon ergueu-os para Shamron.

- Acho que deve dar uma vista de olhos a isto, chefe. Shamron deteve-se o tempo suficiente para ler o cabeçalho, depois continuou com a sua viagem.

- Lê-me isso, Eli - pediu ele. - Em alemão, por favor. Quero ouvi-lo em alemão.

MINISTÉRIO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS DO REICH

Para: SS-Obmturmbannführerhàotz Eichmann, RSHAIV B4

De: Utiterstaatssekretàr Marún Luther, Abteilung Deutschland, referente à política da Santa Sé relacionada com o assunto judaico.

Berlim, 30 de Março de 1942

64-34 25/1

A minha reunião com Sua Graça, o bispo Sebastiano Lorenzi, no Convento do Sagrado Coração no Norte de Itália foi um inquestionável sucesso. Tal como sabe, o bispo Lorenzi é o principal especialista nas relações entre a Alemanha e a Santa Sé, no interior do Secretariado de Estado do Vaticano. Também é membro da sociedade católica ortodoxa chamada Crux Vera, que muito apoiou o Nacional Socialismo desde o início. O bispo Lorenzi é muito próximo do Santo Padre e fala com ele numa base diária. Andaram juntos no Colégio Gregoriano, e o bispo teve um papel chave durante as negociações acerca da Concordata, acordada entre o Reich e a Santa Sé em 1933.

Trabalhei de muito perto com o bispo Lorenzi durante algum tempo. Na minha opinião ele concorda plenamente com a nossa política em relação aos judeus embora, por motivos óbvios, não o possa dizer. Ele exprime a sua posição em relação aos judeus em termos teológicos, mas em momentos de franqueza, trai as suas crenças de que eles são uma ameaça social e económica bem como heréticos e inimigos mortais da Igreja.

Durante a nossa reunião, que foi mantida no ambiente agradável de um convento situado nas costas do lago Garda, discutimos muitos aspectos da nossa política judaica e porque motivo esta deve prosseguir sem obstáculos. O bispo Lorenzi parecia muito impressionado pela minha sugestão de que a falha para lidar com os judeus de um modo oportuno e preciso poderia conduzir à criação de um Estado judaico na Terra Santa. Para apoiar os meus argumentos, citei o seu memorando de 1938 quanto ao assunto em questão, no qual você afirmava que um Estado judaico na Palestina apenas aumentaria o poder do Judaísmo a nível mundial nas relações legais e internacionais, porque um Estado miniatura permitiria aos judeus enviar embaixadores e delegados para todo o mundo para promover a sua luxúria por domínio. Nesse aspecto, os judeus seriam colocados num pé igual ao do Catolicismo político, algo que o bispo Lorenzi está ansioso por evitar a todo o custo. Nem ele, nem o Santo Padre, desejam ver os judeus a controlar os locais sagrados cristãos da Terra Santa.

Tornei claro que a nossa posição quanto a um protesto papal relacionado com as rusgas e deportações seria uma violação clara da Concordata. Também exprimir vigorosamente a minha posição de que um protesto papal teria efeitos profundos e desastrosos na nossa política judaica. Lorenzi, mais do que os outros, compreende o poder que a Santa Sé possui nesta matéria, e está empenhado em certificar-se que o papa não falará. Com a ajuda do bispo Lorenzi, acredito que o Santo Padre será capaz de refrear a tempestade de pressão colocada sobre ele pelos nossos inimigos e manterá a sua posição de estrita neutralidade. Na minha opinião, a nossa posição com o Vaticano é segura, e podemos esperar que não venha a existir qualquer resistência significativa para as nossas políticas judaicas da Santa Sé ou dos católicos romanos sob o controlo do Reich.

Shamron parara de andar e parecia estudar o rosto no vidro. Demorou muito tempo a acender o cigarro seguinte. Gabriel percebia que ele estava a tentar antecipar os acontecimentos.

- Já passou algum tempo desde que falámos pela última vez - disse. - Antes de irmos mais longe, penso que tens de me explicar como arranjaste estes documentos.

Quando Gabriel iniciou a sua história, Shamron recomeçou a sua viagem privada perante a janela. Gabriel relatou-lhe a sua reunião em Londres com Peter Malone, e como em França na manhã seguinte ficara a saber do homicídio de Malone. Falou-lhe do seu encontro com o inspector Alessio Rossi na pensão Abruzzi, e no tiroteio que deixou Rossi e mais quatro homens mortos. Contou-lhe da sua decisão de roubar o iate para continuar a sua investigação em vez de regressar a Israel.

- Mas estás a esquecer-te de algo - interpelou-o Shamron. Falava com uma gentileza incaracterística, como se se estivesse a dirigir a crianças pequenas. - Eu vi o relatório de campo de Shimon Pazner. Segundo Pazner, vocês foram seguidos assim que deixaram o apartamento de segurança, dois homens num Lancia bege. A equipa de apoio tratou do Lancia, e então continuaram sem incidentes até ao ponto de partida na praia. Isto é correcto?

- Não vi a equipa de apoio. Apenas ouvi o que Pazner me disse. Os homens do Lancia podiam ter estado a vigiar-nos, ou poderiam ser dois romanos vulgares a caminho dum jantar e que apanharam o susto das vidas deles.

- Poderiam tê-lo sido, mas duvido. Sabes, pouco tempo depois, um Lancia bege foi descoberto perto da estação ferroviária. Atrás do volante, encontrava-se um palestiniano chamado Marwan Aziz, um homem conhecido como sendo um agente dos serviços secretos da OLP. Fora atingido a tiro três vezes e estava morto. E já agora, o pára-choques esquerdo traseiro estava danificado. Marwan Aziz era um dos homens que te estava a seguir. Perguntas-te para onde foi o segundo homem. Eu pergunto-me se teria sido ele a abater Aziz. Mas divago. Por favor, continua.

Intrigado pelas revelações de Shamron, Gabriel prosseguiu. A viagem de barco até Cannes. O encontro com Antonella Huber no qual esta lhe entregara a carta escrita pela mãe, a antiga irmã Regina Carcassi. O homem moribundo que ele deixara para trás no campo, no exterior de St-Cézaire. A busca nocturna ao apartamento de Benjamin e o confronto quase fatal com a porteira, Frau Ratzinger. Shamron parou de andar apenas uma vez, quando Gabriel admitiu que tinha na verdade ameaçado Carlo Casagrande. Uma reacção compreensível, disse a expressão do rosto enrugado do velho, mas dificilmente o comportamento que se poderia esperar de um agente com o treino e experiência de Gabriel.

- O que nos leva à próxima pergunta óbvia - disse Shamron. - O documento é real? Ou é o equivalente do Vaticano dos diários de Hitler?

Lavon levantou o documento.

- Estás a ver estas marcas? São consistentes com documentos dos arquivos da KGB. Se eu me pusesse a adivinhar, pensaria que os russos encontraram isto a limparem os arquivos, depois do colapso do império. De algum modo, chegaram às mãos de Benjamin.

- Mas será uma falsificação?

- Se fosse considerado isoladamente, poderia ser posto de lado como uma falsificação inteligente concebida pela KGB, de modo a desacreditar a Igreja Católica. Afinal, andaram engalfinhados uns com os outros durante grande parte do século, em especial durante o reinado de Wojtyla e da crise na Polónia.

Gabriel inclinou-se para a frente, cotovelos sobre os joelhos.

- Mas se for lido em conjunto com a carta da irmã Regina e todas as outras coisas que fiquei a saber?

- Então é provável que seja o documento mais condenatório que alguma vez vi. Um funcionário superior do Vaticano a discutir o genocídio com Martin Luther durante um jantar? A aliança em Garda? Não é de admirar que estejam a morrer pessoas devido a isto. Se isto for tornado público, será o equivalente a uma bomba nuclear a explodir na Praça de São Pedro.

- Consegues autenticar isto?

- Tenho alguns contactos no interior da antiga KGB. Tal como o silencioso homenzito que está ali junto à janela. Não é algo de que ele goste de falar, mas ele e os seus amigos da Praça DzerzhinskyNT fizeram bastantes negócios juntos com o passar dos anos. Aposto que ele podia chegar ao fundo da questão em poucos dias, se o quisesse.

 

NT Nome da praça onde se situava o quartel-general da KGB em Moscovo, e cujo nome deriva de Feliks Dzerzhinsky, líder bolchevique russo que fundou a primeira Polícia de segurança soviética pós-revolução bolchevique, a CHRKA.

 

Shamron olhou para Lavon como se dissesse que demoraria apenas uma tarde.

- Então o que fazemos com a informação? - perguntou Gabriel. - Deixamo-la transpirar para o The New York Times? Um memorando nazi, através da KGB e dos serviços secretos israelitas? A Igreja negará que a reunião alguma vez tenha ocorrido e atacará o mensageiro. Muito poucas pessoas acreditarão em nós. Também envenenará as relações entre Israel e o Vaticano. Tudo o que João Paulo II fez para restaurar as relações entre católicos e judeus transformar-se-ia em chamas.

A frustração surgiu no rosto de Lavon.

- A conduta do papa Pio e do Vaticano durante a guerra é uma questão de preocupação do Estado para o governo de Israel. Há aqueles na Igreja que desejam declarar Pio XII um santo. É política do governo israelita que nenhuma canonização deverá ocorrer até que todos os documentos relevantes dos Arquivos Secretos sejam apresentados e examinados. Este material deve ser entregue ao Ministério dos Negócios Estrangeiros em Telavive e deverá agir-se em conformidade.

- Deverá, Elijah - disse Shamron -, mas receio que Gabriel esteja a falar verdade. Esse documento é demasiado perigoso para ser tornado público. O que achas que o Vaticano vai dizer? «Oh, céus!, como é que isto pode ter acontecido? Lamentamos imenso». Não, não será assim que eles reagirão. Atacar-nos-ão e isso rebentar-nos-á no rosto. As nossas relações com o Vaticano são no mínimo ténues. Há muitos membros do Secretariado de Estado que usarão qualquer desculpa, incluindo o nosso envolvimento neste assunto, para as cortar. Para que deste assunto saia algo de positivo, temos de lidar com isto de forma delicada e discreta, a partir do interior.

- Mas quem? Desculpa-me, chefe, mas as palavras delicada e discreta não me vêm à mente quanto penso em ti. Lev deu-te a ti e a Gabriel autorização para investigarem a morte de Beni, não para provocarem uma tempestade nas nossas relações com a Santa Sé. Devias entregar o material ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e regressar a Tiberias.

- Em circunstâncias normais, talvez seguisse o teu conselho, mas receio que a situação se tenha alterado.

- De que estás a falar, chefe?

- A chamada telefónica que recebi hoje de manhã era de Aaron Shiloh, o nosso embaixador na Santa Sé. Parece que houve uma adição inesperada ao calendário da Santa Sé.

- O que nos leva de novo aos cavalheiros que te seguiram quando deixaste o apartamento em Roma. - Shamron sentou-se em frente de Gabriel e pousou uma fotografia na mesa. - Esta fotografia foi tirada em Bucareste há quinze anos. Reconhece-lo?

Gabriel anuiu. O homem na fotografia era o assassino e terrorista a soldo conhecido apenas como Leopardo.

Shamron colocou uma segunda fotografia sobre a mesa, junto à primeira.

- Esta fotografia foi tirada por Mordecai em Londres, minutos depois do assassinato de Peter Malone. O departamento de Pesquisa fez correr um programa informático de reconhecimento de rostos. São o mesmo homem. Peter Malone foi assassinado pelo Leopardo.

- E Beni? - perguntou Gabriel.

- Se eles contrataram o Leopardo para matar Malone, é bem possível que o tenham contratado para matar Beni, mas talvez nunca o venhamos a saber com toda a certeza.

- É óbvio que tens uma teoria quanto ao palestiniano morto em Roma.

- Tenho - disse Shamron. - Nós sabemos que o Leopardo teve uma associação longa e frutuosa com grupos terroristas palestinianos. A operação em Chipre foi testemunho disso. Também sabemos que ele chegou a acordo com Abu Jihad para executar actos de terrorismo adicionais contra cidadãos israelitas. Felizmente, tu cortaste antecipadamente a carreira ilustre de Abu Jihad e as operações do Leopardo nunca chegaram a acontecer.

- Achas que o Leopardo renovou o seu relacionamento com os palestinianos de modo a encontrar-me?

- Receio que faça um certo sentido. A Crux Vera quer-te morto, tal como muitas pessoas do movimento palestiniano. É bem possível que o Leopardo tivesse sido o segundo homem naquele Lancia, e que tenha sido ele que executou Marwan Aziz.

Gabriel pegou nas fotografias e estudou-as cuidadosamente, como se fossem um par de telas, uma que fora autenticada e outra que se pensava ser pintada pelo mesmo artista. Era impossível dizê-lo a olho nu, mas ele aprendera há muito que o programa informático de reconhecimento de rostos da Pesquisa raramente cometia um erro. Depois fechou os olhos e viu rostos diferentes. Os rostos dos mortos: Felici... Manzini... Carcassi... Bem... Rossi... Por fim, viu um homem numa sotaina branca, a entrar numa sinagoga junto ao rio em Roma. Uma sotaina manchada de sangue.

Abriu os olhos e olhou para Shamron.

- Precisamos de entregar uma mensagem a este papa de que a sua vida pode correr um grande perigo.

Shamron cruzou os braços e baixou o queixo até ao peito.

- E como iremos fazer isso? Telefonar para as informações de Roma e pedir o número privado do papa? Passa tudo através de canais, e a Cúria é famosa pela sua lentidão. Se o nosso embaixador for pelo Secretariado de Estado, pode demorar semanas a conseguir uma audiência com o papa. Se eu conseguir alcançá-lo através do Gabinete de Segurança do Vaticano, correremos directamente para as mãos de Carlo Casagrande e dos seus gorilas da Crux Vera. Precisamos de alguém que nos leve pela porta das traseiras do Palácio Apostólico, para ver o papa em privado. E precisamos de o fazer antes de sexta-feira. De outro modo, Sua Santidade pode nunca deixar a Grande Sinagoga de Roma com vida, e isso é a última coisa de que precisamos.

Um longo silêncio abateu-se sobre a sala. Foi quebrado por Gabriel.

- Eu conheço alguém que nos pode levar a ver o papa - disse ele calmamente. - Mas têm de me fazer regressar a Veneza.

 

Carlo Casagrande avançou a passos largos pelo corredor iluminado por candelabros do quarto piso do hotel St. Gotthard e apresentou-se à porta do Quarto 423. Olhou para o relógio - 19h20, a hora exacta que ele lhe indicara -, depois bateu duas vezes. Uma pancada confiante, suficientemente firme para tornar a sua presença conhecida, não o suficiente para perturbar os ocupantes dos quartos vizinhos. Do outro lado da porta, ouviu-se uma voz em italiano autorizando Casagrande a entrar. Falava muito bem italiano para um estrangeiro. Faltava-lhe, até, um vago indício de sotaque alemão, o que fez com que Casagrande sentisse azia.

Empurrou a porta e entrou, detendo-se no limiar. Uma cunha de luz do candelabro do corredor iluminava uma porção do quarto, e durante um momento, Casagrande conseguiu ver o contorno de uma figura sentada numa cadeira de braços. Quando a porta se fechou, a escuridão foi completa. Casagrande avançou lentamente em frente através da obscuridade até a sua canela colidir com a mesa de centro invisível. Foi-lhe dito para permanecer onde estava, envolvido pela escuridão, durante diversos segundos dolorosos. Por fim, uma luz potente irrompeu, como um holofote numa torre de vigia, e incidiu-lhe directamente no rosto. Ele levantou a mão e tentou escudar os olhos do brilho. Parecia uma agulha espetada na sua córnea.

- Boa tarde, general. - Uma voz sedutora, como óleo quente. - Trouxe o ficheiro?

Casagrande ergueu a pasta. A Stechkin com silenciador moveu-se para a luz e incitou-o a avançar. Casagrande retirou o ficheiro e colocou-o sobre a mesa de centro como uma oferenda. O feixe de luz inclinou-se para baixo, enquanto a mão que segurava a arma erguia a capa do ficheiro. A luz...

Subitamente, Casagrande estava de pé no pavimento no exterior do seu apartamento em Roma, olhando os corpos mutilados de Angelina e da filha, iluminados pelo feixe da lanterna de um carabinieri. «A morte foi imediata, general Casagrande. Pode, pelo menos, ficar reconfortado ao saber que os seus entes queridos não sofreram.»

A luz desviou-se subitamente para cima. Demasiado tarde, Casagrande tentou escudar os olhos, mas o feixe encontrou-lhe a retina, e durante os segundos que se seguiram ele teve a sensação que estava a ser engolido por uma gigantesca e ondulante esfera laranja.

- E lá se vai a teoria de que a Idade Média terminou - ironizou o assassino. O ficheiro deslizou através da mesa na direcção de Casagrande. - Ele está demasiado bem protegido. Esta é uma missão para um mártir, não para um profissional. Encontre outra pessoa.

- Preciso de si.

- Como é que posso ter a certeza que não me vão armar uma cilada para me culpabilizarem, como aconteceu com aquele idiota de Istambul? A última coisa que quero fazer é passar o resto da minha vida apodrecendo nalguma prisão italiana, suplicando perdão ao papa.

- Dou-lhe a minha palavra que não será usado como um peão ou um joguete num jogo maior. Executará este serviço para mim, e então com a minha ajuda, ser-lhe-á permitido fugir.

- A palavra de um assassino. Que reconfortante. Porque deveria confiar em si?

- Porque não faria nada para o trair.

- Verdade? Sabia que Benjamin Stern era um agente dos serviços secretos israelitas quando me contratou para o matar?

«Meu Deus», pensou Casagrande. «Como é que ele sabe?» Pensou nas vantagens que teria se mentisse, mas reconsiderou.

- Não - disse ele. - Não sabia que o professor estava de algum modo associado a eles.

- Mas deveria ter sabido. - Havia um súbito tom cortante na voz, a lâmina de uma faca de mato. - E sabia que um agente chamado Gabriel Allon está a investigar a sua morte, bem como as actividades do seu pequeno grupo?

- Não sabia o seu nome até este momento. Obviamente, você andou a investigar por conta própria.

- Quando andam atrás de mim, o assunto passa a dizer-me respeito. Também sei que Allon se encontrava na pensão Abruzzi em Roma com o inspector Alessio Rossi, quando você enviou um destacamento de carabinieripela pensão adentro para o matar. Devia ter vindo ter comigo com os seus problemas, general. Allon já estaria morto. «Como? Como é que este monstro sabe acerca do israelita e de Rossi? Como é possível uma tal coisa? Ele é um rufião», pensou Casagrande. «Os rufiões gostam de ser apaziguados». Decidiu representar o papel de apaziguador. Não era um papel que representasse com naturalidade.

- Tem razão - respondeu, em tom conciliatório. - Devia ter vindo ter consigo. É óbvio que teria sido melhor para ambos. Posso sentar-me?

A luz demorou-se no seu rosto durante mais alguns segundos, depois caiu sobre uma cadeira de braços, a alguns centímetros do local onde Casagrande se encontrava. Ele sentou-se e pousou as mãos nos joelhos. A luz permaneceu apontada aos seus olhos.

- A questão é, general, posso confiar em si o suficiente para voltar a trabalhar para si, em especial em algo como isto?

- Talvez possa merecer a sua confiança.

- Com quê?

- Com dinheiro, é claro.

- Seria necessária uma enorme quantidade de dinheiro.

- O montante que tenho em mente é deveras substancial - disse Casagrande. - Uma quantia que a maioria dos homens consideraria suficiente para viver durante um período de tempo muito longo.

- Estou a ouvir.

- Quatro milhões de dólares.

- Cinco milhões - contrapôs o assassino. - Metade agora, metade aquando da conclusão.

Casagrande apertou as rótulas, tentando esconder a sua tensão crescente. Isto não se assemelhava a uma discussão com o cardeal Brindisi. As sanções de Leopardo tinham tendência para serem irrevogáveis.

- Cinco milhões - disse Casagrande concordando. - Mas pagar-lhe-emos apenas um milhão desse valor em adiantado. Se decidir roubar o meu dinheiro sem cumprir os termos do contrato, isso é consigo. Se quiser os restantes quatro milhões de dólares... - Casagrande interrompeu-se. - Lamento, mas a confiança terá de ser nos dois sentidos.

Seguiu-se um silêncio longo e desconfortável, o tempo suficiente para Casagrande avançar um pouco para fora da cadeira e preparar-se para se levantar. Gelou quando o assassino disse:

- Diga-me como será feito.

Casagrande falou durante a hora que se seguiu - um polícia veterano calculando calmamente a margem de tempo necessária para uma série bastante trivial de crimes de rua. Durante todo esse tempo, a luz continuou a perfurar-lhe o rosto. Estava a deixá-lo quente. O casaco do fato estava ensopado em suor, e colava-se-lhe às costas como um cobertor molhado. Desejava poder despir a maldita coisa. Preferia sentar-se às escuras com o monstro do que olhar durante mais tempo para aquela luz.

- Trouxe o primeiro pagamento?

Casagrande estendeu a mão e deu uma pancadinha num dos lados da pasta.

- Deixe-me vê-lo.

Casagrande pousou a pasta na mesa, abriu-a, e virou-a para que o assassino pudesse ver o dinheiro.

- Sabe o que lhe acontecerá se me trair?

- Estou certo que posso imaginar - respondeu Casagrande. - Mas certamente um primeiro pagamento desta magnitude é o suficiente para demonstrar a minha boa-fé.

- Fé? É isso que o leva a desempenhar este acto?

- Há algumas coisas que não lhe é permitido saber. Aceita o contrato?

O assassino fechou a pasta e esta desapareceu na escuridão.

- Só uma última coisa - disse Casagrande. - Irá precisar de uma identificação do Gabinete de Segurança para passar pela Guarda Suíça e pelos carabinieri. Trouxe a fotografia?

Casagrande ouviu o restolhar de tecido, depois surgiu uma mão, segurando uma fotografia tipo passaporte. De fraca qualidade. Casagrande reconheceu-a como tendo sido tirada por uma máquina automática. Olhou para a imagem e perguntou-se se era verdadeiramente o rosto da máquina de matar conhecida como o Leopardo. O assassino pareceu pressentir os seus pensamentos, pois alguns segundos depois, a Stechkin reapareceu. Estava directamente apontada ao coração de Casagrande.

- Deseja fazer-me alguma pergunta? Casagrande sacudiu a cabeça.

- Óptimo - replicou o assassino. - Saia.

 

A acqua alta saltou contra os degraus da igreja de San Zaccaria quando Francesco Tiepolo, vestindo um casaco de oleado e botas de borracha até ao joelhos, atravessou pesadamente a praça inundada, por entre a escuridão que caía. Entrou na igreja e sacrilegamente gritou que era altura de fechar para a noite. Adriana Zinetti pareceu flutuar para baixo do seu elevado poleiro no altar-mor. António Politi bocejou elaboradamente e fez uma série de posições contorcionistas de ioga, todas com o intuito de demonstrar a Tiepolo o esforço que o dia causara no seu corpo jovem. Tiepolo olhou para o Bellini. A mortalha permanecia no seu lugar, mas as lâmpadas fluorescentes estavam desligadas. Com grande esforço, resistiu ao impulso de gritar.

António Politi surgiu ao lado de Tiepolo e colocou uma pata manchada de tinta no seu grande ombro.

- Quando, Francesco? Quando é que vais meter na cabeça que ele não vai voltar?

«Na verdade, quando?» O rapaz não estava preparado para a obra prima de Bellini, mas Tiepolo não tinha escolha, se é que a igreja ia reabrir ao público a tempo da estação turística da Primavera.

- Dá-lhe mais um dia - disse, o olhar ainda pousado na pintura escurecida. - Se ele não voltar até amanhã à tarde, deixar-te-ei acabá-lo.

A alegria de António foi temperada pelo seu interesse evidente na criatura alta e atraente, que atravessava apreensivamente a nave. Tinha olhos negros e uma cabeça cheia de cabelo escuro, abundante e descontrolado. Tiepolo conhecia rostos. Estruturas ósseas. Ele apostaria os honorários que iria receber pelo projecto de San Zaccaria em como ela era judia. Parecia-lhe familiar. Pensou que a deveria ter visto uma ou duas vezes na igreja, observando os restauradores a trabalhar.

António dirigiu-se a ela. Tiepolo estendeu um braço grosso, bloqueou-lhe o caminho, e esboçou um sorriso insípido.

- Há alguma coisa em que a possa ajudar, signorina?

- Ando à procura de Francesco Tiepolo. Decepcionado, António afastou-se. Tiepolo colocou uma mão no peito. «Encontraste-o, meu tesouro.»

- Sou amiga de Mário Delvecchio.

O olhar namoriscador de Tiepolo ficou subitamente frio. Cruzou os braços à frente do peito maciço e olhou para ela por entre olhos semicerrados.

- Onde está ele, em nome de Deus?

A mulher não respondeu, limitando-se a estender a mão e a entregar-lhe um pedaço de papel. Ele desdobrou a nota e leu o que este continha:

O teu amigo no Vaticano corre um grave perigo. Preciso da tua ajuda para lhe salvar a vida.

Ergueu o olhar e fixou-a descrente.

- Quem é você?

- Não é importante, Signor Tiepolo. Ele levantou a nota na sua grande mão.

- Onde é que ele está?

- Ajudá-lo-á a salvar a vida do seu amigo?

- Ouvirei o que ele tiver para me dizer. Se o meu amigo estiver na verdade nalgum tipo de problema, é claro que ajudarei.

- Então, tem de vir comigo.

- Agora?

- Por favor, Signor Tiepolo. Receio que não tenhamos muito tempo.

- Onde vamos?

Mas ela agarrou-o pelo cotovelo e puxou-o em direcção à porta.

Cannaregio cheirava a sal e à lagoa. A mulher conduziu Tiepolo por uma ponte que atravessava o rio di Ghetto Nuovo, depois para a obscuridade húmida do sottoportego. Uma figura surgiu na extremidade oposta da passagem, um homem baixo com as mãos enfiadas nos bolsos de um blusão de cabedal, rodeado por um halo de luz amarela, do sódio. Tiepolo parou de andar.

- Podes dizer-me que raio se está a passar?

- É óbvio que recebeste a minha mensagem.

- Interessante. Mas tens de admitir que era um pouco sucinta em detalhes, bem como uma peça crítica de informação. Como é que tu, um restaurador de arte chamado Mário Delvecchio, sabes que a vida do papa está em perigo?

- Porque a restauração é uma espécie de passatempo para mim. Tenho outro trabalho, um trabalho que muito poucas pessoas conhecem. Compreendes o que estou a tentar dizer-te, Francesco?

- Para quem trabalhas?

- Para quem trabalho não é importante.

-É lixadamente importante se queres que te ajude a chegares junto ao papa.

- Trabalho para um serviço secreto. Nem sempre, apenas sob circunstâncias especiais.

- Como uma morte na família.

- Na verdade, sim.

- Para que serviço secreto é que trabalhas?

- Prefiro não responder a essa pergunta.

- Estou certo que sim, mas se queres que eu fale com o papa, vais ter de responder às minhas perguntas. Repito, para que serviço secreto é que trabalhas? SISDE? Serviço secreto do Vaticano?

- Não sou italiano, Francesco.

- Não és italiano! Essa é muita engraçada, Mário.

- Não me chamo, Mário.

Caminharam pelo perímetro da praça, Gabriel e Tiepolo lado a lado, Chiara alguns passos atrás. Tiepolo demorou um longo período de tempo a processar a informação que ele acabara de lhe dar. Era um homem astuto, um veneziano sofisticado, bem relacionado social e politicamente, mas no entanto a situação com que agora se confrontava estava muito para lá de algo que ele tivesse alguma vez experimentado. Era como se lhe tivessem acabado de dizer que o altar-mor de Ticiano no Frari era uma reprodução pintada por um russo. Por fim, respirou fundo, um tenor preparando-se para a passagem em crescendo de uma ária, e torceu a cabeça na direcção de Gabriel.

- Lembro-me que quando vieste para aqui ainda eras um rapaz. Foi em setenta e quatro ou setenta e cinco, não foi? - Os olhos de Tiepolo estavam pousados em Gabriel, mas a sua memória estava fixa em Veneza, vinte e cinco anos mais cedo, uma pequena oficina cheia de jovens rostos ansiosos. - Lembro-me quando fizeste a tua aprendizagem com Umberto Conti. Eras dotado, mesmo nessa altura. Eras melhor que toda a gente. Um dia serias grande. Umberto sabia-o. Tal como eu. - Tiepolo acariciou a barba embaraçada com uma enorme mão. - Umberto sabia a verdade a teu respeito? Ele sabia que eras um agente israelita?

- Umberto não sabia de nada.

- Tu enganaste Umberto Conti? Devias ter vergonha. Ele acreditava em Mário Delvecchio. - Tiepolo interrompeu-se, controlou a sua fúria, baixou a voz. - Ele acreditava que Mário Delvecchio seria um dos maiores restauradores de sempre.

- Eu sempre quis contar a verdade a Umberto, mas não podia. Tenho inimigos, Francesco. Homens que destruíram a minha família. Homens que me desejam matar hoje por coisas que aconteceram há trinta anos. Se pensas que os italianos têm uma memória longa, devias passar algum tempo no Médio Oriente. Fomos nós que inventámos a vendetta, não os sicilianos.

- Caim chacinou Abel, e foi banido para leste do Paraíso. E tu foste banido para aqui, para a nossa pantanosa ilha na lagoa, para curares quadros.

Era uma oferta de paz. Gabriel aceitou-a com um sorriso conciliador.

- Percebeste que na minha profissão acabei de cometer um pecado capital? Revelei-me a ti, porque receio que o teu amigo esteja a correr um grande perigo.

- Achas mesmo que tencionam matá-lo?

- Já mataram muitas outras pessoas. Mataram o meu amigo. Tiepolo olhou à volta para o campo vazio.

- Eu também conheci o papa João Paulo I, Albino Luciani. Ele ia limpar o Vaticano. Vender os bens da Igreja, dar o dinheiro aos pobres. Revolucionar a Igreja. Morreu passados trinta e três dias. Um ataque cardíaco, disse o Vaticano. - Tiepolo sacudiu a cabeça. - Não havia nada de errado com o seu coração. Ele tinha um coração de leão. E também a coragem de um. As mudanças que estava a planear levar a cabo na Igreja iriam zangar muitas pessoas. E assim...

Encolheu os ombros maciços, depois enfiou a mão no bolso, retirou um telemóvel, e premiu rapidamente um número de memória. Levou o telefone ao ouvido e esperou. Quando por fim alguém atendeu, identificou-se e pediu para falar com um homem chamado padre Luigi Donati. Depois tapou o bocal e sussurrou a Gabriel:

- O secretário privado do papa. Esteve durante anos com o papa, aqui em Veneza. Muito discreto. Ferozmente leal.

Evidentemente foi Donati que surgiu na linha, porque durante os cinco minutos que se seguiram, Tiepolo prosseguiu com uma conversa animada, cheia de comentários condescendentes acerca de Roma e da Cúria. Era óbvio para Gabriel que Tiepolo aprendera uma boa dose de política da Igreja com o seu amigo, o papa. Quando por fim conduziu a conversa até ao assunto em questão, fê-lo com uma subtileza e graça que a Gabriel lhe parecia simultaneamente inocente e urgente. A intriga artística de Veneza ensinara a Tiepolo muitas lições valiosas. Ele era um homem capaz de manter duas conversas ao mesmo tempo.

Por fim, desligou a chamada e voltou a enfiar o telefone no bolso.

- Então? - perguntou Gabriel.

- O padre Donati vai falar com o papa.

O padre Luigi Donati olhou para o telefone durante um longo momento antes de decidir qual o curso de acção a tomar, as palavras de Tiepolo ecoando-lhe nos ouvidos. Preciso de ver o Santo Padre. É importante que eu veja o Santo Padre antes de sexta-feira. Tiepolo nunca falava assim. A sua relação com o Santo Padre era estritamente colegial - massas e vinho tinto, e uma série de histórias bem humoradas que faziam o papa recordar-se dos bons tempos em Veneza, antes de ter sido feito prisioneiro no Palácio Apostólico. E porquê antes de sexta-feira? O que é que sexta-feira tinha a ver com alguma coisa? Sexta-feira era o dia em que o Santo Padre iria visitar a sinagoga. Estava Tiepolo a tentar dizer-lhe que havia um problema?

Donati levantou-se repentinamente e dirigiu-se aos aposentos papais. Passou por duas freiras do pessoal doméstico do papa sem proferir uma palavra e entrou na sala de jantar. O Santo Padre conversava com uma delegação de bispos da costa oeste americana, e a conversa chegara a um tópico que Sua Santidade considerava revoltante. Pareceu aliviado por ver Donati entrar na sala, embora a expressão deste fosse sombria e grave.

O padre parou junto do seu senhor e inclinou-se ligeiramente pela cintura, de modo a poder falar-lhe directamente ao ouvido. Os bispos aperceberam-se da expressão tensa de Donati e desviaram o olhar. Quando Donati terminou, o papa pousou a faca e o garfo, e fechou os olhos por um momento. Depois ergueu o olhar, anuiu uma vez, e desviou a atenção para os seus convidados.

- Agora, onde é que nós íamos? - perguntou o papa, enquanto Donati saía da sala.

Calcorrearam toda a extensão da praça meia dúzia de vezes esperando que o telefone tocasse. Tiepolo preencheu os minutos vazios e ansiosos crivando Gabriel com uma centena de perguntas - acerca do seu trabalho nos serviços secretos israelitas, acerca da sua vida e família, acerca do que era para um judeu ver-se rodeado dia e noite pelas imagens do Cristianismo. Gabriel respondeu àquelas a que podia responder e desviou gentilmente aquelas que remexiam em águas turvas. Ainda céptico por Gabriel não ser na verdade um italiano, Tiepolo incitou-o a dizer algumas palavras em hebraico. Durante os diversos minutos que se seguiram, ele e Chiara mantiveram uma conversa animada, sobretudo à custa de Tiepolo, até serem interrompidos pelo toque do telemóvel do italiano. Este levou-o ao ouvido, escutou em silêncio durante um momento, depois murmurou:

- Compreendo, padre Donati.

Desligou a chamada e voltou a enfiar o telefone no bolso.

- Ele deu-te uma resposta? - perguntou Gabriel. Tiepolo sorriu.

Na zona norte de Roma, numa curva ociosa do Tibre, fica uma pequena praça, muito limpa, onde os turistas raramente se aventuram. Existe ali uma igreja antiga com um campanário rachado e uma paragem de autocarro que poucas pessoas usam. Há um café e uma pequena padaria que prepara o pão nas instalações, e assim, ao início da manhã, o cheiro da farinha e do fermento mistura-se com o odor pantanoso do rio. Directamente do lado oposto da padaria, encontra-se um edifício de apartamentos vacilante com um par de laranjeiras envasadas marcando a entrada. No piso superior, existe um apartamento enorme, de onde é possível ver à distância a cúpula da Basílica de São Pedro. O apartamento é alugado a um homem que raramente o usa. Ele fá-lo como um favor aos seus chefes em Telavive.

O edifício não tinha elevador, e para chegar ao apartamento era necessário subir quatro sombrios lances de escadas. Chiara subiu primeiro, seguida por Gabriel e por Francesco Tiepolo. Antes de poder enfiar a chave na fechadura, a porta abriu-se e o físico quadrado de Shimon Pazner encheu a soleira da porta. A recordação da fuga de Gabriel e de Chiara da praia era visível na expressão do seu rosto. Se Ari Shamron e Eli Lavon não se encontrassem seis passos atrás dele, cada um fumando um cigarro turco, Gabriel tinha quase a certeza que Pazner o teria esmurrado. Em vez disso, viu-se forçado a manter silenciosamente o seu terreno, quando Gabriel passou por ele sem uma palavra e saudou Shamron. Nessa noite, não haveria quezílias familiares, não em frente de um estranho. Mas um dia, quando Shamron tivesse partido, Pazner vingar-se-ia. Era sempre desse modo que as coisas aconteciam no Gabinete.

Gabriel encarregou-se das apresentações.

- Este é Francesco Tiepolo. Francesco, são estes os tipos. Não te insultarei apresentando-os pelos seus nomes, porque de qualquer maneira não seriam verdadeiros.

Tiepolo pareceu aceitar estas notícias de bom humor. Shamron deu um passo em frente e prosseguiu as apresentações. Apertou a mão a Tiepolo e olhou-o nos olhos durante um longo momento. Tiepolo percebeu que o que estava a ser avaliado era se ele merecia confiança, mas não deu mostras de perturbação com o óbvio escrutínio de Shamron.

- Não lhe posso agradecer o suficiente por nos ajudar, Signor Tiepolo.

- O Santo Padre é um amigo muito querido. Se alguma vez lhe acontecer algum mal, nunca me poderei perdoar, em especial se estiver numa posição de o evitar de alguma forma.

- Pode ficar descansado que os nossos interesses neste assunto estão em perfeita sintonia. - Shamron soltou, por fim, a mão de Tiepolo e olhou para Shimon Pazner. -Tragam-lhe café. Não vêem que foi uma longa viagem?

Pazner lançou um olhar gelado a Gabriel e dirigiu-se à cozinha. Shamron apressou Tiepolo para a sala de estar. O veneziano sentou-se na extremidade do sofá, e os outros reuniram-se à sua volta. Shamron não desperdiçou mais tempo com conversas de circunstância.

- A que horas entra no Vaticano?

- Sou aguardado nas Portas de Bronze às seis da tarde. Habitualmente, o padre Donati recebe-me aí e escolta-me até ao terceiro piso, aos aposentos papais.

- Tem a certeza que se pode confiar nesse Donati?

- Conheço o padre Donati há tanto tempo quanto conheço o Santo Padre. Ele é profundamente leal.

Shimon Pazner entrou na sala e entregou a Tiepolo uma chávena de café.

- É importante que o papa e os seus assistentes se sintam confortáveis - continuou Shamron. - Encontrar-nos-emos com Sua Santidade sob quaisquer circunstâncias que ele escolha. É óbvio que preferimos um local seguro, um local onde a nossa presença não seja notada por certos elementos da Cúria. (Compreende o que lhe estou a tentar dizer, Signor Tiepolo?

Tiepolo levou o café aos lábios e anuiu vigorosamente.

- A informação que desejamos transmitir ao Santo Padre é de natureza sensível. Se necessário, encontrar-nos-emos com um auxiliar de confiança, mas acreditamos que será melhor para o papa ouvi-lo com os seus próprios ouvidos.

Tiepolo engoliu o café de uma única golada e pousou gentilmente a chávena no pires.

- Ser-me-ia útil se eu tivesse alguma ideia da natureza dessa informação.

Shamron permitiu que o seu rosto registasse desconforto, depois debruçou-se para a frente.

- A informação diz respeito às acções do Vaticano durante a Segunda Guerra Mundial, e a uma reunião que ocorreu num convento no lago Garda há muito tempo. Vai perdoar-me, Signor Tiepolo, se não lhe digo mais.

- E a natureza da ameaça à sua vida?

- Acreditamos que a ameaça à vida do Santo Padre tem origem em forças no interior da Igreja, e que, por isso mesmo, ele tem de dar uns passos adicionais para se proteger e àqueles que o rodeiam.

Tiepolo encheu as faces e expeliu lentamente o ar.

- Tem uma coisa a seu favor. O padre Donati disse-me em diversas ocasiões que está preocupado com a segurança que rodeia o Santo Padre. Assim isto não será para ele nenhuma surpresa. Quanto à guerra... - Tiepolo hesitou, escolhendo clara e cuidadosamente as palavras. - Digamos apenas que é um tópico sobre o qual o Santo Padre se tem debruçado muito. Ele chama-lhe uma nódoa da Igreja. Uma nódoa que ele está determinado a limpar.

Shamron sorriu.

- Obviamente, Signor Tiepolo, que estamos aqui para ajudar.

As 17h45, um Fiat preto estacionou no exterior da entrada do edifício de apartamentos. Francesco Tiepolo sentou-se no banco de trás. Shamron e Shimon Pazner surgiram por breves instantes no terraço e observaram o carro a distanciar-se ao longo do rio na direcção da cúpula à distância.

Quinze minutos depois, o Fiat depositou o veneziano na entrada da Praça de São Pedro. Tiepolo deslizou através da barreira metálica de guarda e avançou ao longo da colunata de Bernini enquanto os sinos da Basílica batiam as seis horas. Junto às Portas de Bronze, disse o seu nome e mostrou o seu bilhete de identidade italiano ao guarda suíço. O guarda consultou uma prancheta, depois comparou o rosto de Tiepolo com a fotografia do bilhete de identidade. Satisfeito, permitiu a Tiepolo entrar no Palácio Apostólico.

O padre Donati esperava-o ao fundo da Scala Regia. Tal como habitualmente, tinha uma expressão sombria, como um homem que se preparasse sempre para más notícias. Apertou friamente a mão de Tiepolo e conduziu-o aos aposentos papais no piso superior.

Como sempre, Tiepolo ficou surpreendido com a aparência do estúdio papal. Era uma sala simples - demasiado austera para um homem tão poderoso - pensou -, mas no entanto totalmente em sintonia com o clérigo humilde que ele conhecera e começara a admirar em Veneza. O papa Paulo VII estava de pé junto à janela sobranceira à Praça de São Pedro, uma figura branca de pé contra os cortinados escarlate. Este virou-se quando Tiepolo e o padre Donati entraram na sala, e esboçou um sorriso fatigado. Tiepolo caiu de joelhos, beijando o anel do pescador. Depois o papa segurou os ombros de Tiepolo e ajudou-o a levantar-se. Agarrou o veneziano pelos bíceps e apertou-o, parecendo estar a retirar forças do homem maior.

- Pareces estar bem, Francesco. Obviamente que a vida em Veneza continua a tratar-te bem.

- Até ontem, Santidade, quando tomei conhecimento de uma ameaça à sua vida.

O padre Donati sentou-se, cruzando cuidadosamente uma perna sobre a outra, e alisou o vinco das calças - um executivo atarefado, ansioso por prosseguir com os assuntos na ordem do dia.

- Tudo bem, Francesco - disse Donati. - Já chega de dramatismos. Sente-se e diga-me exactamente o que se passa, em nome de Deus.

O papa Paulo VII tinha um jantar marcado para aquela noite com uma delegação de bispos visitantes da Argentina. O padre Donati telefonou ao chefe da delegação, um prelado de Buenos Aires, e disse-lhe que infelizmente Sua Santidade estava indisposto e que não poderia presidir à refeição. O bispo prometeu rezar pela recuperação rápida do Santo Padre.

As nove e meia, o padre Donati saiu para o corredor no exterior do estúdio papal e confrontou o guarda suíço que se encontrava de guarda.

- O Santo Padre deseja passear nos jardins para meditar - disse Donati bruscamente. - Sairá dentro de poucos minutos.

- Pensei que Sua Santidade estava indisposto esta noite - respondeu inocentemente o guarda suíço.

- Como Sua Santidade se sente não é da sua competência.

- Sim, padre Donati. Notificarei os guardas do jardim que Sua Santidade está a caminho.

- Não fará semelhante coisa. O Santo Padre gostaria de meditar em paz.

O guarda suíço endireitou-se.

- Sim, padre Donati.

O padre regressou ao estúdio, onde encontrou Tiepolo a ajudar o papa a vestir um longo sobretudo fulvo e um chapéu de abas. Com o casaco abotoado, apenas a bainha da sua sotaina branca ficava visível.

Há um milhar de salas no Vaticano e inúmeros quilómetros de corredores e escadarias. O padre Donati empenhara-se em conhecer tudo, centímetro por centímetro. Conduziu o papa passando pelo guarda suíço, depois passou os dez minutos que se seguiram a percorrer um caminho que serpenteava através das passagens labirínticas do antigo palácio - aqui um túnel à altura dos ombros com um tecto arqueado que pingava, ali um lance de degraus de pedra, arredondados pelo tempo, escorregadios como gelo.

Por fim, chegaram a uma garagem subterrânea escurecida. Um pequeno Fiat esperava-os. As matrículas SCV do Vaticano tinham sido substituídas por vulgares matrículas italianas. Francesco Tiepolo ajudou o papa a entrar para o assento traseiro e juntou-se a ele. O padre Donati sentou-se atrás do volante e ligou o motor.

O papa não conseguiu ocultar o seu alarme quando isso aconteceu.

- Quando foi a última vez que conduziste um carro, Luigi?

- Para ser franco, Santidade, não me lembro. Foi certamente antes de irmos para Veneza.

- Isso foi há dezoito anos!

- Que o Espírito Santo nos proteja na nossa viagem.

- E todos os santos e anjos - acrescentou o papa.

Donati forçou o carro e conduziu-o timidamente pela rampa serpenteante e escurecida. Um momento depois, o carro emergiu na noite.

O padre premiu hesitantemente o acelerador até ao chão, acelerando ao longo da Via Belvedere na direcção do Portão de Santa Ana.

- Baixe-se, Santidade.

- Isso é realmente necessário, Luigi?

- Francesco, por favor, ajude Sua Santidade a esconder-se!

- Lamento, Santidade.

O grande veneziano agarrou no papa pelas lapelas do sobretudo e empurrou-o contra o seu colo. O Fiat acelerou passando pela Farmácia Pontifical e pelo Banco do Vaticano. Enquanto se aproximavam do Portão de Santa Ana, o padre Donati ligou os faróis e tocou a buzina. Um espantado guarda suíço saltou para fora do caminho do carro acelerado. O padre Donati fez o sinal da cruz enquanto o veículo saía disparado através do portão, e entrava na cidade de Roma.

O papa ergueu o olhar para Tiepolo.

- Posso-me sentar, Francesco? Isto é muito pouco digno.

- Padre Donati?

- Sim, acho que agora é seguro.

Tiepolo ajudou o papa a sentar-se e endireitou-lhe o sobretudo.

Foi Chiara, de pé no terraço do apartamento, que detectou o Fiat a entrar na praça. O carro estacionou em frente do edifício e deste saíram três homens. Chiara voltou para a sala de estar.

- Chegou alguém - disse ela. - Tiepolo mais outros dois homens. Penso que um deles pode ser ele.

Um momento depois ouviu-se uma pancada brusca. Gabriel atravessou rapidamente a sala e escancarou a porta. Foi saudado pela visão de Francesco Tiepolo e um padre vestindo um fato clerical, flanqueando um homem baixo num sobretudo longo e um chapéu de abas. Gabriel desviou-se do caminho. Tiepolo e o padre apressaram o homem para o interior do apartamento.

Gabriel fechou a porta. Quando se virou, viu o homem baixo tirar o chapéu e entregá-lo ao padre. No cimo da sua cabeça, encontrava-se um zucchetto branco. De seguida, retirou o sobretudo fulvo, revelando uma sotaina de um branco brilhante.

- Disseram-me que vós, cavalheiros, têm algumas informações importantes que gostariam de partilhar comigo. Sou todo ouvidos - disse Sua Santidade, o papa Paulo VII.

 

A porta do apartamento abriu-se ao toque de Lange, tal como o italiano lhe dissera que aconteceria. Voltou a fechá-la e empurrou o trinco para o seu lugar antes de acender as luzes. Foi saudado pela visão de uma única sala com um chão nu e paredes manchadas pela humidade. Havia uma cama de ferro - mais um beliche do que uma verdadeira cama - com um colchão fino. Nenhuma almofada, um cobertor de lã que arranhava dobrado aos pés da cama, manchas. «Urina? Sémen?» Lange apenas o podia calcular. Não era muito diferente do quarto em Tripoli, onde passara uma vez uma quinzena febril esperando pelo seu guia dos serviços secretos líbios para o levar aos campos de treino a sul. No entanto, existiam diferenças significativas neste lugar, nomeadamente o enorme crucifixo de madeira esculpida pendurado por cima da cama, ornamentado com um rosário e um bocado de palma seca.

Junto à cama encontrava-se uma pequena arca. Lange, enfadado, abriu as gavetas. Encontrou roupa interior, meias pretas enroladas, e um breviário com os cantos das páginas dobrados. Com alguma intrepidez, aventurou-se até à casa de banho: uma bacia manchada pela ferrugem com torneiras gémeas, um espelho que mal conseguia lançar um reflexo, uma sanita sem assento.

Abriu o armário. Dois fatos clericais pendiam do varão. No chão, encontrava-se um par de sapatos pretos, muito gastos mas engraxados, os sapatos de um homem pobre que tratava da sua aparência. Lange empurrou os sapatos para o lado com a biqueira do pé e viu a tábua do soalho solta. Debruçou-se e levantou-a.

Enfiando a mão no espaço apertado, encontrou um embrulho envolto em oleado. Desenrolou o pano: uma pistola Stechkin, um silenciador, dois cartuchos com munição de nove milímetros. Lange enfiou um cartucho na coronha e enfiou a Stechkin no cós das calças. Voltou a embrulhar o silenciador e o segundo cartucho no oleado.

Meteu pela segunda vez a mão no compartimento e encontrou mais dois artigos: um conjunto de chaves para a mota estacionada no exterior do edifício de apartamentos, e uma carteira de cabedal. Abriu-a. No interior, encontrava-se um distintivo de identificação do Gabinete de Segurança do Vaticano, de aparência verdadeira. Lange olhou para o nome - manfred beck, divisão de investigações especiais -, depois para a fotografia. Era aquela que dera a

Casagrande no quarto de hotel em Zurique. Claro que não era ele, mas a vaga semelhança podia ser facilmente realçada com um pouco de preparação.

Manfred Beck, Divisão de Investigações Especiais...

Voltou a colocar a carteira no compartimento, depois desceu a tábua e cobriu-a com os sapatos. Olhou à volta para o quarto nu e solitário. Este era um quarto de padre. De súbito, uma recordação invadiu-o: uma serpenteante rua empedrada em Friburgo, um homem jovem numa sotaina preta caminhando através da neblina que se erguia do rio Saane. Um homem jovem em crise, lembrou-se Lange. Um homem atormentado. Um homem que não conseguia aguentar a solidão aguda do caminho que se encontrava à sua frente. Um homem que queria estar na linha da frente. Que estranho que o caminho que ele escolhera tivesse resultado numa vida mais solitária do que a de um padre de paróquia. Que estranho que o tivesse conduzido de regresso aqui, a este quarto desesperado em Roma.

Dirigiu-se à janela e abriu-a. O ar húmido e nocturno derramou-se sobre o seu rosto. A Stazione Termini elevava-se à distância, a cerca de meio quilómetro. Directamente do outro lado da rua encontrava-se um parque esparso e mal tratado. Uma mulher caminhava ao longo do passeio molhado. Um candeeiro de rua apanhou por breves instantes os reflexos de um vermelho bretão do seu cabelo. Algo fê-la olhar para a janela aberta. Treino. Instinto. Medo. Ao ver o rosto dele, ela sorriu, e preparou-se para atravessar a rua.

 

Ari Shamron decidira que não iriam enganar o Vigário de Cristo. Gabriel iria contar-lhe tudo, sem a necessidade de proteger fontes ou métodos. Também ordenara a Gabriel para lhe fornecesse o relato cronologicamente pois Shamron, um homem que instruíra meia dúzia de primeiros-ministros, conhecia o valor de uma boa história. Acreditava que os pormenores sórdidos sobre como as informações tinham sido obtidas tornavam, com frequência, as conclusões mais credíveis para o público alvo - neste caso o Supremo Pontífice da Igreja Católica Romana.

Sentaram-se na sala de estar. O papa sentou-se numa confortável cadeira de braços, de joelhos juntos, mãos cruzadas. O padre Donati sentou-se junto dele, um bloco de apontamento aberto no colo. Gabriel, Shamron, e Eli Lavon comprimiram-se ombro a ombro no sofá, separados do papa e do seu secretário por uma mesa de centro baixa e uma chaleira de chá na qual ninguém tocara. Chiara e Shimon Pazner vigiavam do terraço. Francesco Tiepolo, o seu trabalho concluído, beijara o anel papal e regressara a Veneza nas traseiras dum carro do Gabinete.

Gabriel falou com o papa na sua língua nativa, enquanto o padre Donati escrevia furiosamente. De poucos em poucos minutos, Donati interrompia Gabriel erguendo a caneta prateada e olhando para ele por cima dos óculos em meia-lua. Depois forçava Gabriel a voltar atrás, de modo a poder clarificar alguns pormenores aparentemente banais, ou argumentar com Gabriel nalgum ponto da tradução. Se esta entrava em conflito com aquilo que ele estava a escrever no bloco de apontamentos, apagava a passagem ofensiva com grande dramatismo.

Quando Gabriel contou a conversa que tivera com Peter Malone - e as palavras «Crux Vera» foram mencionadas pela primeira vez -, Donati lançou um olhar conspirador ao papa, que o pontífice ignorou propositadamente.

Pela sua parte, o papa permaneceu silencioso. Por vezes, o olhar fixava-se nos seus dedos entrelaçados; por vezes, os olhos fechavam-se, como se estivesse em oração. Apenas as mortes pareciam arrancado do seu devaneio. A cada morte - Benjamin Stern, Peter Malone, Alessio Rossi, e os quatro carabinieri em Roma, o operacional da Crux Vera no Sul de França -, o papa benzia-se e murmurava algumas palavras de oração. Não olhou uma única vez para Gabriel ou para o padre Donati. Apenas Shamron conseguia captar a sua atenção. O papa parecia identificar-se com o homem velho. Talvez fosse a proximidade das suas idades, ou talvez o papa visse algo de tranquilizador nas fissuras e ravinas do rosto enrugado de Shamron. Mas de poucos em poucos minutos, Gabriel reparava que eles se fixavam sobre a mesa de centro, como se esta fosse um abismo de tempo e História.

Gabriel entregou a carta da irmã Regina ao padre Donati, que então a leu em voz alta. O papa exibia uma expressão de pena no rosto, os olhos firmemente fechados. A Gabriel parecia-lhe uma dor recordada - a dor de uma velha ferida a ser reaberta. Apenas uma vez abriu ele os olhos, no ponto em que a irmã Regina escrevera a respeito do rapaz que dormia no seu colo. Olhou através da divisão para Shamron, fixando o seu olhar por um momento, antes de voltar a fechar os olhos e regressar à sua agonia privada.

O padre Donati devolveu a carta a Gabriel quando terminou. Gabriel contou ao papa a sua decisão de regressar a Munique para revistar uma segunda vez o apartamento de Benjamin, e o documento que Benjamin confiara à velha porteira, Frau Ratzinger.

- Está em alemão - disse Gabriel. - Gostaria que eu o traduzisse, Sua Santidade?

O padre Donati respondeu à pergunta em vez do papa.

- Tanto o Santo Padre como eu falamos fluentemente alemão. Por favor, esteja à vontade para ler o documento na sua língua original.

O memorando de Martin Luther a Aldof Eichmann pareceu causar ao papa uma dor física. A meio da leitura, estendeu a mão e pegou na do padre Donati em busca de apoio. Quando Gabriel terminou, o papa inclinou a cabeça e uniu as mãos debaixo da cruz peitoral.

Quando voltou a abrir os olhos, olhou directamente para Shamron, que segurava o relato da irmã Regina acerca da reunião no convento.

- Um documento notável, não acha, Sua Santidade? - perguntou Shamron em alemão.

- Receio usar uma palavra diferente - respondeu o papa, respondendo-lhe na mesma língua. - «Vergonhoso» é a primeira palavra que me ocorre.

- Mas é um relato exacto da reunião que ocorreu naquele convento em 1942?

Gabriel olhou primeiro para Shamron, depois para o papa. O padre Donati abriu a boca para protestar, mas o papa silenciou-o colocando gentilmente uma mão no antebraço do seu secretário.

- É exacto apenas quanto a um pormenor - disse o papa Paulo VII. - Eu não estava realmente a dormir no colo da irmã Regina. Já não estava capaz de dizer outra vez o rosário.

E, de seguida, contou-lhes a história de um rapaz - um rapaz de uma aldeia pobre das montanhas do Norte da Itália. Um rapaz que se encontrava órfão aos nove anos, sem parentes para quem se virar em busca de apoio. Um rapaz que fizera o seu caminho até um convento nas margens de um lago, onde trabalhava na cozinha e fizera amizade com uma mulher chamada irmã Regina Carcassi. A freira tornara-se a sua mãe e professora. Ensinara-o a ler e a escrever. Ensinara-lhe a apreciar arte e música. Ensinara-lhe a amar Deus e a falar alemão. Chamava-lhe Ciciotto - pequeno gorducho. Depois da guerra, quando a irmã Regina renunciou aos seus votos e deixou o convento, o rapaz também partiu. Tal como Regina Carcassi, a sua fé na Igreja fora abalada pelos acontecimentos da guerra, e ele dirigiu-se para Milão, onde mal conseguiu sobreviver nas ruas, roubando carteiras e lojas. Muitas vezes foi preso e espancado por oficiais da Polícia. Uma noite foi quase espancado até à morte por um bando de criminosos e deixado a morrer nas escadas de uma igreja paroquial. Foi descoberto de manhã por um padre e levado ao hospital. O padre visitava-o todos os dias e tratava das contas hospitalares. Descobrira que o sujo rapazito de rua passara algum tempo num convento, que sabia ler e escrever, e que sabia muito acerca das Escrituras e da Igreja. Convenceu o rapaz a entrar num seminário e a estudar para padre como modo de fuga a uma vida de pobreza e prisão. O rapaz concordou, e a sua vida alterou-se para sempre.

Durante o relato do papa, Gabriel, Shamron, e Eli Lavon permaneceram imóveis e hipnotizados. O padre Donati baixou o olhar para o bloco de apontamentos, mas as suas mãos estavam paradas. Quando o papa terminou, um silêncio profundo pendeu sobre a sala, por fim quebrado por Shamron.

- Aquilo que deve compreender, Sua Santidade, é que não é nossa intenção revelar a informação acerca da aliança de Garda ou o seu passado. Só queríamos saber quem matou Benjamin Stern e porquê.

- Não estou zangado consigo por me ter trazido esta informação, Sr. Shamron. Por mais dolorosos que estes documentos sejam, devem ser tornados públicos, de modo a poderem ser examinados por historiadores bem como por judeus e católicos normais, e considerado no seu contexto adequado.

Shamron colocou os documentos perante o papa.

- Não temos qualquer desejo de os tornar públicos. Deixamo-los nas suas mãos para que faça com eles o que quiser.

O papa baixou a cabeça para os papéis, mas o seu olhar estava distante, os olhos perdidos em pensamento.

- Ele não era tão mau quanto os seus inimigos o fizeram parecer, o nosso papa Pio XII. Mas infelizmente, também não era tão virtuoso quando os seus defensores, a Igreja incluída, afirmam. Teve os seus motivos para o silêncio, medo de dividir os católicos alemães, medo da retaliação alemã contra o Vaticano, o desejo de representar um papel diplomático como pacificador, mas temos de enfrentar o facto doloroso de que os aliados queriam que ele falasse contra o Holocausto e de que Adolfo Hider queria que ele se mantivesse silencioso. Qualquer que fosse a razão (o seu ódio pelo Comunismo, o seu amor à Alemanha, o facto de estar rodeado por alemães no seu ambiente papal), Pio escolheu o percurso que Hitler queria, e a sombra dessa escolha pende sobre nós até ao dia de hoje. Ele queria ser um estadista quando aquilo de que o mundo mais precisava era de um padre, de um homem de sotaina que gritasse a plenos pulmões a sua oposição aos assassinos para que parassem com aquilo que estavam a fazer, em nome de Deus e de tudo o que era correcto fazer.

O papa ergueu o olhar e estudou os rostos à sua frente - primeiro Lavon, depois Gabriel, e por fim Shamron, onde o seu olhar se demorou mais tempo.

- Temos de encarar o facto de que o silêncio foi uma arma nas mãos dos alemães. Permitiu que as rusgas e as deportações ocorressem com o mínimo de resistência. Houve centenas, talvez milhares, de católicos que tomaram parte no salvamento dos judeus. Mas se os padres e as freiras da Europa tivessem recebido instruções ou apenas a bênção do papa para resistir ao Holocausto, muitos mais católicos teriam abrigado judeus, e muito mais judeus teriam sobrevivido à guerra em resultado disso. Se o episcopado alemão tivesse falado contra o assassínio de judeus logo no início, é possível que o Holocausto pudesse nunca ter atingido o seu culminar febril. O papa Pio sabia que o assassínio total e mecanizado dos judeus europeus estava a decorrer, mas escolheu manter em grande parte para si mesmo essa informação. Porque é que ele não disse nada ao mundo? Porque é que ele nem sequer falou aos bispos nos países onde as rusgas estavam a decorrer? Estava ele a honrar a aliança do mal, acordada nas margens de um lago?

O papa estendeu a mão para pegar na chaleira da mesa de centro. Quando o padre Donati se inclinou para a frente para o ajudar, ele ergueu a mão, como se para dizer que Sua Santidade ainda se sabia servir de uma chávena de chá. Passou um momento a mexer distraidamente o leite e açúcar antes de prosseguir.

- Receio que o comportamento de Pio seja apenas um aspecto da guerra que precisa de ser examinado. Temos de enfrentar a verdade desconfortável de que, entre católicos, houve muito mais assassinos que salvadores. Os capelões católicos ministraram àquelas mesmas forças alemãs que cometeram o assassinato de judeus. Ouviram as suas confissões e concederam-lhes o sacramento da Sagrada Comunhão. Na França de Vichy, os padres católicos, na verdade, auxiliaram as forças alemãs e francesas a reunir os judeus para as deportações e morte. Na Lituânia, a hierarquia proibia que os padres salvassem judeus. Na Eslováquia, um país governado por um padre, o governo pagou realmente aos alemães para levarem os judeus para os campos de morte. Na Croácia católica, o clero tomou verdadeiramente parte nas próprias matanças. Um franciscano alcunhado como irmão Satã geria um campo de concentração croata onde vinte mil judeus foram assassinados. - O papa deteve-se para bebericar o chá, como se precisasse de retirar o sabor amargo da boca. - Também devemos encarar a verdade de que após a guerra, a Igreja procurou obter clemência para os assassinos e ajudou centenas a fugir à justiça.

Shamron remexeu-se inquieto no assento, mas nada disse.

- Amanhã, na Grande Sinagoga de Roma, a Igreja Católica começará pela primeira vez a confrontar com honestidade essas questões.

- As suas palavras são muito convincentes, Sua Santidade - disse Shamron -, mas pode não ser seguro para si aventurar-se por esse caminho e dizê-lo em voz alta na sinagoga para todo o mundo ouvir.

- Uma sinagoga é o único local onde estas palavras devem ser ouvidas, em especial se for a sinagoga do ghetto de Roma, onde os judeus foram reunidos sob as janelas do papa sem um único sussurro de protesto. O meu antecessor foi aí uma vez para iniciar esta viagem. O seu coração estava no lugar certo, mas receio que muitos segmentos da Cúria não estivessem com ele, e assim a sua viagem não chegou ao seu destino. Amanhã terminá-la-ei por ele, no local onde ele a iniciou.

- Parece que tem algo em comum com o seu antecessor, Santidade - retorquiu Shamron. - Existem elementos no interior da Igreja, muito provavelmente aqui em Roma, que não apoiam um exame inocente do papel do Vaticano no Holocausto. Estes demonstraram estar dispostos a cometer assassínio para manter o passado secreto, e você deve agir segundo a presunção de que a sua vida também se encontra em perigo.

- Está a referir-se à Crux Vera?

- Existe uma tal organização no seio da Igreja?

O papa e o padre Donati trocaram um olhar prolongado. Depois o olhar do papa fixou-se mais uma vez em Shamron.

- Receio que a Crux Vera exista na verdade, Sr. Shamron. Foi permitido à sociedade florescer durante os anos trinta, e durante toda a Guerra Fria porque demonstrou ser uma arma eficaz na luta contra o Bolchevismo. Infelizmente, muitos dos excessos cometidos em nome dessa luta podem ser directamente deitados aos pés da Crux Vera e dos seus aliados.

- E agora que a Guerra Fria terminou? - perguntou Gabriel.

- A Crux Vera adaptou-se aos tempos. Demonstrou ser um instrumento útil para manter a disciplina doutrinária. Na América Latina, a Crux Vera batalhou os aderentes da teologia da libertação NT, recorrendo

 

NT Movimento da religião cristã iniciado nos anos de 1960, em especial entre os católicos romanos da América Latina. A teologia da libertação tenta dirigir-se às questões da pobreza e da injustiça social bem como aos assuntos espirituais. Interpreta a libertação da opressão social, política e económica como uma antecipação da salvação derradeira. Esta teologia atraiu um enorme número de críticas por parte do papa João Paulo II e outras autoridades católicas.

 

por vezes a uma violência atroz para manter os padres rebeldes na linha. Foi travada uma luta incessante contra o liberalismo, relativismo, e os dogmas do Concílio do Vaticano Segundo. Como resultado disso, muitos daqueles no interior da Igreja que apoiaram os objectivos da Crux Vera viraram a cara a alguns dos seus métodos mais inconvenientes.

- A Crux Vera também está empenhada num esforço para evitar que os segredos desagradáveis da Igreja venham a lume?

- Sem qualquer dúvida - respondeu o padre Donati.

- Carlo Casagrande é um membro da Crux Vera?

- Suponho que na vossa linha de trabalho, ele seria conhecido como o chefe das operações.

- Existem outros membros dentro do próprio Vaticano? Desta vez foi o papa que respondeu à pergunta de Gabriel.

- O meu secretário de Estado, o cardeal Marco Brindisi, é o líder da Crux Vera - replicou sombriamente o papa.

- Se sabe que Brindisi e Casagrande são membros da Crux Vera, porque permite que eles mantenham as suas funções?

- Não foi Estaline que disse para mantermos os nossos aliados por perto, mas os inimigos ainda mais perto? - Um sorriso atravessou o rosto do papa, depois desvaneceu-se rapidamente. - Além disso, o cardeal Brindisi é intocável. Se eu me tentasse mover contra ele, os seus aliados na Cúria e no Colégio dos Cardeais revoltar-se-iam e a Igreja ficaria desesperadamente dividida. Receio que, por agora, esteja agarrado a ele e aos seus homens de confiança.

- O que nos leva ao nosso ponto de partida, Santidade. A sua segurança está a ser manipulada por homens que se opõem a si e à sua missão. Sob estas circunstâncias, penso que seria sensato adiar a sua visita à sinagoga até surgir um momento mais oportuno.

De seguida, Shamron colocou sobre a mesa um ficheiro e abriu-o - o dossier respeitante ao assassino chamado Leopardo que ele tirara da Avenida do Rei Saul.

- Acreditamos que este homem está a trabalhar para a Crux Vera. Ele é, sem dúvida, um dos assassinos mais perigosos do mundo. Estamos quase certos que foi ele o homem que matou Peter Malone em Londres. Suspeitamos que também matou Benjamin Stern. Devemos presumir que agora o tentará matar.

O papa olhou para as fotografias, e depois para Shamron.

-Aquilo de que se deve recordar, Sr. Shamron, é que me encontro sob a protecção destes homens onde quer que esteja, dentro dos muros do Vaticano ou para lá deles. A ameaça à minha pessoa é a mesma quer eu esteja nos aposentos papais ou na Grande Sinagoga de Roma.

- Tem razão, Santidade.

O padre Donati inclinou-se para a frente.

- Assim que o Santo Padre sair dos muros do Vaticano, e entrar em solo italiano, a sua segurança será reforçada pela Polícia italiana. Graças à falsa intriga do assassínio papal orquestrada por Carlo Casagrande, a segurança para o evento a decorrer amanhã na sinagoga será sem precedentes. Acreditamos que será suficientemente seguro para Sua Santidade fazer um aparecimento público.

- E se este homem fizer parte do contingente de segurança do papa?

- O Espírito Santo proteger-me-á durante esta viagem - replicou o papa.

- Com todo o respeito, Santidade, sentir-me-ia melhor se outra pessoa também estivesse a olhar por cima do seu ombro.

- Tem alguma sugestão, Sr. Shamron?

- Tenho, Sua Santidade. - Shamron pousou uma mão áspera no ombro de Gabriel. - Gostaria que Gabriel o acompanhasse e ao padre Donati até à sinagoga. Ele é um oficial experiente que sabe uma coisa ou duas acerca deste tipo de assuntos.

O papa olhou para o padre Donati.

- Luigi? Certamente que isso pode ser conseguido, não pode?

- Pode, Santidade. Mas há um problema.

- Estás a referir-te ao facto de Carlo Casagrande ter retratado o Sr. Allon como um assassino papal?

- Estou, Santidade.

- É óbvio que teremos de tratar da situação com cuidado, mas se existe uma pessoa a quem a Guarda Suíça dê ouvidos, essa pessoa sou eu. - Olhou para Shamron. - Farei esta peregrinação ao ghetto tal como agendado, e você estará a meu lado, protegendo-me, como nós deveríamos ter estado ao vosso lado, há sessenta anos. Bastante adequado, não concorda, Sr. Shamron?

Shamron fez um aceno breve e um sorriso de ferro. Na verdade, concordava.

Vinte minutos depois, os arranjos para a manhã completos, o padre Donati e o papa deixaram o apartamento e aceleraram ao longo do rio em direcção ao Vaticano. No Portão de Santa Ana, o carro estacionou. O padre Donati baixou o vidro quando um guarda suíço saiu do seu posto de sentinela.

- Padre Donati? Mas que raio...?

O guarda ficou silencioso quando o papa Paulo VII surgiu no seu campo de visão. O guarda suíço postou-se imediatamente em sentido.

- Santidade!

- Ninguém deve saber disto - disse o papa calmamente. - Compreende?

- Claro, Santidade!

- Se disser a alguém, mesmo aos seus superiores, que me viu esta noite, terá de me prestar contas pessoalmente. E prometo-lhe que não será uma experiência agradável.

- Não direi uma palavra, Santidade. Juro.

- Espero bem que sim, jovem... para seu bem.

O papa recostou-se no assento. O padre Donati subiu o vidro e acelerou em direcção ao Palácio Apostólico.

- Não tenho a certeza se aquele pobre tipo alguma vez se irá recompor disto - disse, reprimindo uma gargalhada.

- Isso foi realmente necessário, Luigi?

- Receio que sim, Santidade.

- Que Deus nos perdoe - disse o papa. Depois acrescentou -, Por tudo o que fizemos.

- Em breve estará terminado, Santidade.

- Rezo para que estejas certo.

 

Eric Lange não dormiu bem naquela noite. Um raro ataque de consciência? Nervos? Talvez o excessivo calor do corpo de Katrine aninhado contra o seu na minúscula cama. Fosse qual fosse a razão, acordou às três e meia e permaneceu deitado, de olhos escancarados, com Katrine a pressionar-lhe as costelas, até os primeiros raios de luz cinzenta entrarem pela janela do odioso quarto de Carlo Casagrande.

Baloiçou as pernas para fora da cama e, atravessando nu o soalho até à janela, afastou as cortinas de rede e espreitou para a rua. A mota estava ali, estacionada no exterior da entrada do edifício de apartamentos. Não havia sinais de vigilância. Soltou a cortina e esta caiu no seu lugar. Katrine remexeu-se, lutou com o cobertor, depois rolou para o outro lado e continuou a dormir.

Lange fez uma chaleira de café no fogão eléctrico, e bebeu diversas chávenas antes de entrar na casa de banho. Passou aí a hora que se seguiu, tratando e alterando cuidadosamente a sua aparência. Escureceu o cabelo com tinta, transformando os seus olhos cinzentos em castanhos com um par de lentes de contacto. Por fim, acrescentou óculos graduados, de armações pretas e de aparência barata, os óculos dum padre. Quando terminou, o rosto que olhava para ele no vidro embaciado era o de um estranho. Comparou-o com o da fotografia do distintivo que Casagrande lhe preparara: Manfred Beck, Divisão de Investigações Especiais, Gabinete de Segurança do Vaticano. Satisfeito, voltou ao quarto principal.

Katrine ainda estava a dormir. Lange arrastou-se através do chão, uma toalha à volta da cintura, e abriu uma gaveta da cómoda. Vestiu roupa interior e um par de meias puídas, depois dirigiu-se ao guarda-fato e abriu a porta. Uma camisa preta e um colarinho romano, calças pretas, um casaco preto. Por fim, calçou os sapatos e atou cuidadosamente os atacadores.

Regressou à casa de banho e olhou-se ao espelho durante um longo período de tempo, transformando-se lentamente num homem num fato preto, um actor personificando um papel. Um assassino, envolvido no vestuário de um padre; o homem que ele poderia ter sido, escondendo o homem que era. Enfiou a Stechkin no cós das calças e olhou-se uma última vez. Padre. Revolucionário. Assassino. «Qual deles és, velho amigo?»

Serviu-se de uma última chávena de café e sentou-se na beira da cama. Katrine abriu os olhos e recuou, as mãos procurando por instinto uma arma. Quando Lange lhe tocou gentilmente na perna, ela gelou, uma mão sobre os seios enquanto se tentava recompor.

- Meu Deus, Eric. Não te reconheci.

- É esse o objectivo, minha querida. - Lange entregou-lhe a chávena de café. - Veste-te, Katrine. Não temos muito tempo.

 

Chiara estava a fazer café na cozinha do apartamento de segurança quando o telefone tocou. Ela reconheceu a voz do padre Donati.

- Estarei aí dentro de um minuto ou dois. Mandem-no descer. Chiara desligou quando Gabriel entrou na sala. Ele vestia um fato

cinzento, camisa branca, e gravata escura, todos presentes da delegação romana da parte de Shimon Pazner. Chiara escovou-lhe um fio da manga.

- Estás muito atraente. - Depois acrescentou -, um pouco como um cangalheiro, mas atraente.

- Esperemos que não. Quem é que telefonou?

- O padre Donati. Vem a caminho.

Gabriel engoliu uma chávena de café e vestiu uma gabardina castanha. Depois beijou Chiara na face e abraçou-a durante um momento.

- Vais ter cuidado, não vais, Gabriel?

Uma buzina soou no exterior. Quando Gabriel se tentou afastar, Chiara segurou-o firmemente por um momento, recusando-se a deixá-lo partir. Quando o padre Donati voltou a tocar a buzina, desta vez com uma urgência maior, ela libertou-o. Gabriel beijou-a uma última vez.

Enfiou a Beretta no coldre do ombro e desceu as escadas. Um Fiat cinzento com matrícula do Vaticano encontrava-se junto à entrada. O padre Donati estava sentado atrás do volante, vestindo um fato clerical e uma gabardina preta. Gabriel subiu para o lugar do passageiro e fechou a porta. Donati virou na direcção da margem do Tibre.

Era uma manhã cinzenta, pesada, de nuvens escuras, um vento forte formando cúmulos brancos sobre o rio. O padre estava debruçado sobre o volante, olhos escancarados, pé pesando no acelerador. Gabriel apertou o apoio do braço, pensando que era um milagre o papa ter regressado vivo ao Vaticano na noite anterior.

- Conduz com frequência, padre Donati?

- Ontem à noite foi a primeira vez em cerca de dezoito anos.

- Nunca o teria imaginado.

- É um mentiroso terrível, Sr. Allon. Pensei que as pessoas com o seu tipo de trabalho eram supostamente boas na arte do engano.

- Como está o Santo Padre esta manhã?

- Na verdade, está bastante bem. Apesar dos acontecimentos de ontem à noite, conseguiu dormir algumas horas. Está ansioso pela sua viagem até ao outro lado do rio.

- Ficarei satisfeito quando estiver tudo terminado e ele estiver de novo em segurança nos aposentos papais.

- Já somos dois.

Enquanto aceleravam ao longo do Tibre, o padre Donati instruiu Gabriel quanto aos arranjos de segurança. O papa viajaria até à sinagoga na sua habitual limusina Mercedes à prova de bala, acompanhado por Donati e Gabriel. Rodeando imediatamente o papa, estaria um círculo de guardas suíços à paisana. Como sempre, a Polícia italiana e as forças de segurança forneceriam um segundo cordão de protecção. O percurso do Vaticano até ao velho ghetto seria flanqueado por unidades de tráfego de carabinieri e fechado ao restante trânsito.

A cúpula quadrada da Grande Sinagoga erguia-se perante eles, uma estrutura elevada de pedra cinzenta pálida e alumínio, com uma arquitectura persa e babilónica. A elevada altura da estrutura conjugada com a sua fachada única, fazia-a sobressair entre os circundantes edifícios barrocos de cor ocre. O efeito era intencional. A comunidade que construíra a sinagoga cem anos antes desejara torná-la facilmente visível aos homens do outro lado do Tibre - os homens atrás dos antigos muros do Vaticano.

A uns cem metros da sinagoga, chegaram a um posto de verificação da Polícia. O padre Donati baixou o vidro, mostrou a sua identificação do Vaticano, e trocou algumas palavras em italiano com um oficial. Um momento depois, entraram no pátio perante a sinagoga e estacionaram. Antes do padre Donati conseguir desligar o motor, foram confrontados por um carabiniere com uma arma automática pendendo à bandoleira. Gabriel gostou do que vira até aquele momento.

Saíram do Fiat. Gabriel não conseguiu evitar sentir uma sombra de História pendendo sobre o local. Roma era a mais antiga colónia da Diáspora na Europa Ocidental, e os judeus viviam no seu centro há mais de dois mil anos. Tinham vindo para este lugar muito antes do pescador da Galileia chamado Pedro. Tinham assistido ao assassinato de César, testemunhado a ascensão do Cristianismo e a queda do império romano. Difamados por papas como assassinos de Deus, tinham sido colocados no ghetto nas margens do Tibre, humilhados e ritualmente degradados. E numa noite de Outubro de 1943, um milhar deles fora reunido e enviado para as câmaras de gás e fornos crematórios de Auschwitz, enquanto um papa do outro lado do rio se mantinha calado. Em poucas horas, o papa Paulo VII, uma testemunha dos pecados dos homens no Vaticano, viria até aqui para se redimir pelo passado. «Se viver o tempo suficiente para cumprir a sua missão.»

O padre Donati pareceu pressentir os pensamentos de Gabriel, pois pousou-lhe gentilmente uma mão no ombro e apontou na direcção do rio.

- Os manifestantes serão mantidos atrás de barricadas ali, junto à margem.

- Manifestantes?

- Não estamos à espera de algo terrivelmente grande. Apenas o grupo habitual. - Donati encolheu os ombros impacientemente. - O grupo a favor do controle da natalidade. Mulheres no sacerdócio. Homossexuais femininos e masculinos. Esse tipo de coisa.

Subiram os degraus da sinagoga e entraram nesta. O padre Donati parecia perfeitamente à vontade. Sentiu que Gabriel estava a olhar para ele, e em resposta sorriu-lhe confiante.

- Quando ainda estávamos em Veneza, a minha função era tentar estabelecer melhores relações entre o patriarca e a comunidade judaica local. Sinto-me bastante bem numa sinagoga, Sr. Allon.

- Estou a ver que sim - replicou Gabriel. - Diga-me como decorrerá a cerimónia.

A procissão papal formar-se-ia na entrada da sinagoga, explicou o padre Donati. O papa avançaria pela nave central acompanhado pelo rabino principal, e sentar-se-ia junto deste numa cadeira dourada no bimah (1). O padre Donati e Gabriel seguiriam o Santo Padre durante a caminhada até à frente da sinagoga, depois tomariam a sua posição na secção especial para Vips, a alguns metros do papa. O rabino faria alguns comentários introdutórios, e de seguida o Santo Padre falaria. Numa quebra do protocolo habitual, o discurso do papa não seria antecipadamente divulgado à imprensa pelo Serviço de Imprensa do Vaticano. O discurso iria certamente provocar uma reacção imediata entre os jornalistas, mas não seria permitido a ninguém deixar os seus lugares até o papa ter concluído os seus comentários e saído da sinagoga.

Gabriel e o padre avançaram até à frente da sinagoga, o local onde permaneceriam de pé durante o discurso do papa. Um carabiniere com um cão treinado para farejar bombas, que repuxava a trela, fazia progressos significativos pelo lado esquerdo do átrio. Uma segunda equipa canina trabalhava do lado oposto. A alguns metros do bimah, um punhado de camera-men televisivos montavam o seu equipamento numa plataforma elevada, sob o olhar atento de um homem da segurança armado.

- E quanto às outras entradas para a sinagoga, padre Donati?

- Foram todas seladas. Agora só há um local de entrada e saída, e essa é a entrada principal. - Donati olhou para o relógio. - Receio que não tenhamos muito tempo, Sr. Allon. Se está satisfeito, devemos regressar ao Vaticano.

- Vamos.

O padre Donati mostrou o seu distintivo do Vaticano ao guarda suíço de sentinela ao Portão de Santa Ana. Antes do guarda poder questionar a identidade do homem no lugar do passageiro, o padre colocou o pé no acelerador e acelerou ao longo da Via Belvedere em direcção ao Palácio Apostólico.

O padre Donati deixou o carro no pátio de São Dâmaso, apressou Gabriel através dos postos de verificação de segurança, e dirigiu-se

 

(1) Onde se coloca a Tora. Corresponde ao altar católico.

 

para o piso superior na direcção dos aposentos papais. Gabriel sentia os pés leves sobre o chão de mármore, o pulso acelerado. Pensou em Shamron, de pé na meia luz do Campo di Ghetto Nuovo, incitando-o a encontrar os homens que tinham assassinado Benjamin Stern. Agora a sua busca trouxera-o até aqui, ao epicentro da Igreja Católica Romana.

A entrada dos aposentos papais, esgueiraram-se por um guarda suíço e entraram. O padre Donati conduziu-o até ao estúdio, onde o papa estava sentado à secretária, lendo uma pilha de correspondência matinal. Ergueu o olhar para Gabriel quando este entrou na sala e sorriu ternamente.

- Sr. Allon, que amável ter vindo. - Com a ponta da caneta, apontou para uma área onde se encontravam algumas cadeiras, junto da lareira. - Por favor, esteja à vontade. O padre Donati e eu temos algumas coisas para fazer antes de partirmos.

Gabriel fez o que o papa lhe indicara. Enfiou a mão no bolso do peito do casaco e retirou as fotografias do assassino conhecido como Leopardo. Gabriel começou do princípio e foi avançando. Em cada fotografia, o assassino parecia notavelmente diferente. Algumas das alterações tinham sido conseguidas através de cirurgia plástica, outras através de meios mais prosaicos, tais como chapéus, perucas, e adereços para os olhos.

Gabriel voltou a guardar as fotografias no bolso e olhou para o outro lado do estúdio para o homem baixo vestido de branco, debruçado sobre a pilha de papéis no topo da secretária. Sentiu o ânimo a afundar-se. Se o Leopardo viera a Roma para matar o papa, seria quase impossível travá-lo. E baseado nas fotografias que tinha no bolso, Gabriel estava quase certo que nunca o veria aproximar-se.

Lange limpou o apartamento enquanto Katrine tomava um duche e se vestia. Com um pano molhado, limpou meticulosamente todas as superfícies em que tocara quando estivera na sala. Maçanetas, o tampo da cómoda, as torneiras da casa de banho, o fogão eléctrico, a chaleira. Depois colocou a sua roupa extra num saco do lixo plástico, bem como os seus artigos de higiene. Satisfeito por ter limpo todos os vestígios de si mesmo do apartamento, sentou-se na beira da cama, tendo cuidado para não tocar em nada.

Katrine saiu da casa de banho. Vestia calças de ganga, botas altas de atacadores, e um blusão tipo piloto de aviões. O seu cabelo estava puxado para trás e apertado contra o crânio, os olhos cobertos por óculos escuros. Estava muito bela. O carabiniere normal achá-la-ia terrivelmente hipnotizante. Lange contava com isso.

Levantou-se, enfiou a Stechkin nas calças, e abotoou o casaco. Depois vestiu uma gabardina preta de nylon barato, do tipo usado por metade dos clérigos de Roma, e pegou no saco de lixo.

Desceram as escadas. Lange segurava o saco numa mão, e com a outra apertou firmemente o colarinho da gabardina para esconder o fato clerical que vestia debaixo desta.

No exterior, montou a mota e ligou o motor. Katrine subiu para as traseiras e envolveu-lhe a cintura com os braços. Ele avançou, virando a mota para este na direcção do antigo centro de Roma, e acelerou. Ao longo do caminho, deixou cair as chaves do apartamento numa sarjeta. O saco de lixo entregou-o a um homem do lixo, que o lançou para as traseiras do seu camião, e desejou a Lange um bom dia.

 

O discurso do papa estava agendado para começar às onze da manhã. Às dez e meia, deixou o estúdio papal, acompanhado pelo padre Donati e Gabriel. No corredor fora dos aposentos papais, encontraram um destacamento de guardas suíços à paisana. O chefe do destacamento era um helvético enorme chamado Karl Brunner. Era este o momento que Gabriel mais temia, o seu primeiro confronto com os nobres suíços católicos que tinham jurado, se necessário, dar as suas vidas para protegerem o papa.

Quando Brunner viu Gabriel, a mão deslizou-lhe para dentro do casaco do seu fato azul e saiu com uma pistola. Apressou-se em frente, empurrando o papa para o lado com um antebraço forte, e agarrou Gabriel pela garganta. Gabriel lutou contra todos os seus instintos de sobrevivência e deixou-se ser apanhado pelo guarda suíço. Não que houvesse muito que pudesse fazer. Karl Brunner excedia-o em, pelo menos, vinte quilos e a constituição era a de um jogador de râguebi. A mão à volta da garganta de Gabriel era como um torno de aço. Aterrou de costas, com Brunner caindo-lhe sobre o peito. Manteve as mãos à vista e deixou que o homem da segurança lhe arrancasse a Beretta do coldre do ombro. Brunner atirou a arma para longe e apontou a sua própria arma ao rosto de Gabriel, enquanto dois membros do destacamento mantinham Gabriel firmemente preso contra o chão.

O resto do destacamento formou um casulo protector à volta do papa, e apressou-o pelo corredor. Este mandou-os soltá-lo, depois precipitou-se para o lado de Karl Brunner. Brunner afastou o papa e gritou-lhe para se manter afastado.

- Deixa-o levantar-se, Karl - disse o papa.

Brunner levantou-se enquanto dois dos seus homens mantinham Gabriel preso contra o chão. Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma cópia do alerta de segurança com a fotografia de Gabriel e ergueu-a para que o papa a visse.

- Ele é um assassino, Santidade. Veio aqui para o matar.

- Ele é um amigo, e veio aqui para me proteger. Foi tudo um mal entendido. O padre Donati explicar-lhe-á tudo. Confia em mim, Karl. Deixa-o levantar-se.

O cortejo motorizado acelerou através do Portão de Santa Ana, depois virou para a Via della Conciliazione em direcção ao rio. O papa fechou os olhos. Gabriel olhou para o padre Donati, que se debruçou e sussurrou ao ouvido de Gabriel que Sua Santidade passava sempre o tempo nos cortejos motorizados a rezar.

Um motociclista tomou posição a poucos metros da janela do papa. Gabriel olhou cuidadosamente para o seu rosto, para o ângulo do seu maxilar e para o formato das maças do rosto que surgiam debaixo do visor. Mentalmente, comparou as feições com aquelas do homem nas fotografias, como se estivesse a autenticar uma pintura, comparando as pinceladas de um mestre numa obra recentemente descoberta. Os rostos eram suficientemente semelhantes para que Gabriel enfiasse a mão dentro do casaco e a pousasse na coronha da Beretta. O padre Donati reparou nisso. O papa, que ainda rezava de olhos firmemente fechados, não prestava qualquer atenção ao que o rodeava.

Enquanto o cortejo motorizado virava para o Lungotevere, o motociclista ficou para trás alguns metros. Gabriel sentiu a sua tensão diminuir. A rua fora limpa de trânsito, e havia apenas alguns aglomerados de mirones aqui e ali ao longo do rio. Era evidente que a visão do cortejo papal nesta parte de Roma não causava muito interesse.

A viagem passou rapidamente. Três minutos segundo os cálculos de Gabriel. A cúpula da sinagoga surgiu perante eles, e em breve passavam acelerando pelo grupo de manifestantes. O cortejo motorizado deteve-se no pátio da frente. Gabriel foi o primeiro a sair do carro, bloqueando a porta semi-aberta com o corpo. O rabino encontrava-se na escadaria da sinagoga, flanqueado por uma delegação da comunidade judaica de Roma. A volta da limusina encontravam-se os homens da segurança: italianos e do Vaticano, alguns à paisana, outros uniformizados. À direita da escadaria, o serviço de imprensa do Vaticano pressionava-se contra um cordão amarelo. Só se ouvia o rugido das motas. Gabriel examinou os rostos dos homens da segurança, depois os jornalistas e fotógrafos. Uma dúzia destes poderiam ser o assassino disfarçado. Enfiou a cabeça nas traseiras do veículo e olhou para o padre Donati.

- Esta é a parte que me preocupa mais. Vamos ser rápidos. Quando se endireitou, deparou-se com o rosto irritado de Karl Brunner.

- Isso faz parte do meu trabalho - disse Brunner. - Saia do caminho.

Gabriel fez o que lhe disseram. Brunner ajudou o papa a sair do carro. Os restantes elementos do destacamento de guardas suíços aproximaram-se. Gabriel encontrou-se num mar de fatos escuros, com o papa, vestindo a sua sotaina de um branco cintilante, claramente visível entre estes.

As motas ficaram silenciosas. Na escadaria da sinagoga, o papa abraçou o rabino principal e alguns dos delegados. O recinto encontrava-se em silêncio, exceptuando os cânticos distantes dos manifestantes e o zumbido das máquinas fotográficas semelhante ao das cigarras. Gabriel manteve-se atrás de Karl Brunner, cuja mão esquerda estava pousada nas costas do papa. Gabriel olhou em volta, olhos alerta, procurando algo fora do habitual. Um homem precipitando-se para frente. Um braço a oscilar para cima.

Houve uma agitação atrás deles. Gabriel virou-se a tempo de ver um trio de carabinieri empurrando um homem contra o chão, mas era apenas um manifestante carregando um letreiro que dizia LIBERTEM OS CATÓLICOS CHINESES!

O papa também se virou. Nesse momento, Gabriel fixou-o.

- Por favor, entre, Santidade - murmurou Gabriel. - Estão aqui demasiadas pessoas.

O papa anuiu e virou-se para o seu anfitrião.

- Bom, rabino, podemos prosseguir?

- Sim, Sua Santidade. Por favor, entre. Deixe-me mostrar-lhe o nosso local de adoração.

O rabino conduziu o papa pela escadaria. Um momento depois, para grande alívio de Gabriel e do padre Donati, o líder de mil milhões de católicos mundiais encontrava-se em segurança dentro da sinagoga.

Na entrada da Praça de São Pedro, Eric Lange desceu da mota. Katrine deslizou para a frente, pegando no guiador. Lange virou-se e começou a andar.

A praça estava cheia de peregrinos e turistas. Carabinieri calcorreavam a extremidade da colunata. Lange dirigiu-se ao Palácio Apostólico, de andar decidido e atarefado, a sua passada rápida mas controlada. Passando pelo alto obelisco egípcio, respirou fundo várias vezes para abrandar o ritmo cardíaco.

A alguns metros do palácio, um carabiniere meteu-se no seu caminho.

- Onde pensa que vai? - perguntou a Lange em italiano, olhando para ele com um par de teimosos olhos castanhos.

- Portone di Bronco - replicou Lange.

- Tem alguma marcação?

Lange retirou a carteira e mostrou o seu distintivo de identificação. O carabiniere recuou um passo.

- Peço-lhe desculpa, padre Beck. Não me apercebi. Lange guardou a carteira.

- Diga-me o seu nome, jovem.

- É Mateo Galeazzi.

Lange olhou directamente para os olhos do polícia.

- Não me vou esquecer de falar em si lá dentro. Sei que o general Casagrande ficará satisfeito por saber que os carabinieri estão a manter a ordem aqui fora, na praça.

- Obrigado, padre.

O carabiniere inclinou a cabeça e estendeu a mão para que o padre Beck prosseguisse. Lange quase sentiu pena do rapaz. Dentro de poucos minutos, estaria de joelhos, pedindo perdão por ter permitido a entrada a um assassino no palácio.

Nas Portas de Bronze, Lange foi de novo travado, desta vez por um guarda suíço vestido com todo o esplendor renascentista, um manto azul escuro caindo-lhe sobre os ombros. De novo, Lange mostrou o distintivo. O guarda suíço mandou Lange registar-se com o funcionário no balcão de admissões, mesmo no interior da porta à direita. Ali, Lange apresentou a sua identificação a outro guarda suíço.

- Está aqui para falar com quem?

- Não é assunto seu - respondeu Lange friamente. - Isto é uma revista de segurança. Se achar necessário, pode dizer a Casagrande que entrei no palácio. Se disser a qualquer outra pessoa, como por exemplo aos seus amigos que estão neste momento de guarda, tratarei de si pessoalmente.

O guarda suíço engoliu em seco e anuiu. Lange virou-se. A Scala Regia erguia-se imponentemente à sua frente, iluminada por enormes candeeiros de ferro. Lange subiu as escadas com lentidão, como um homem executando um trabalho que secretamente detestava. Deteve-se uma vez para olhar para baixo para o balcão de admissões, onde o guarda suíço o olhava atentamente. No cimo das escadas, chegou a um conjunto de portas de vidro e foi de novo mandado parar. Antes do guarda suíço poder proferir uma palavra, Lange estendeu o distintivo. O guarda lançou-lhe um olhar e quase tropeçou sobre si mesmo para sair do caminho.

«Espantoso», pensou Lange. O esquema de Casagrande estava a funcionar melhor do que ele imaginara ser possível.

De seguida, encontrou-se num pátio interior sombrio conhecido como o Cortile di San Dâmaso. Acima dele, elevavam-se os aposentos do próprio Palácio Apostólico. Passou sob uma arcada de pedra, chegou a uma escadaria, e subiu-a rapidamente, passos ecoando no mármore. Ao longo do percurso, passou por mais três guardas suíços, mas não o voltaram a deter. Tão no interior do palácio, o fato clerical de Lange e o seu colarinho romano eram identificação suficiente.

No piso cimeiro, chegou à entrada dos aposentos papais. Aí encontrava-se um guarda suíço, de albarda na mão, bloqueando o percurso de Lange. Lange ergueu o distintivo de identificação perante o rosto deste.

- Preciso de falar com o padre Donati.

- Ele não está aqui de momento.

- Onde é que ele está?

- Está com o Santo Padre - disse hesitante, acrescentando de seguida - na sinagoga.

- Ah, sim, é claro. Estou certo que o padre Donati gostaria de saber que você disse a um absoluto estranho onde é que ele se encontra.

- Desculpe, padre, mas o senhor... Lange interrompeu-o.

- Preciso de deixar uma coisa ao padre Donati. Pode levar-me até ao seu escritório?

- Como sabe, padre Beck, não me é permitido deixar o meu posto sob quaisquer circunstâncias.

- Muito bem - disse Lange com um sorriso conciliador. - Pelo menos, percebeu alguma coisa. Por favor, indique-me a direcção do gabinete do bom padre.

O guarda suíço hesitou por um momento, incerto, depois indicou a Lange o caminho. Os aposentos papais estavam desertos para além de uma única freira vestindo um hábito cinzento, que se atarefava com um espanador. Ela sorriu a Lange quando este atravessou a entrada para o gabinete do padre Donati e entrou na sala seguinte.

Ele fechou a porta atrás de si e manteve-se parado durante um momento, enquanto os olhos se ajustavam à obscuridade. As pesadas cortinas estavam fechadas, obscurecendo a vista da Praça de São Pedro, e o quarto encontrava-se numa sombra profunda. Lange avançou, atravessando a simples carpete oriental, na direcção da secretária de madeira. Deteve-se junto a uma cadeira de costas altas e correu a palma sobre a cobertura de pelúcia pálida antes de examinar a secretária. Era demasiado simples para um homem tão poderoso. Demasiado severa. Um mata-borrões, um recipiente cilíndrico para as canetas, um bloco pautado para apontar os seus pensamentos. Um telefone branco e antiquado, em que era preciso discar os números. Olhando para cima, reparou num quadro da Virgem. Ela parecia olhar para Lange através das sombras.

Enfiou a mão no bolso do peito do fato clerical, retirou um envelope, e deixou-o cair sobre o mata-borrões. Este aterrou com uma pancada abafada e metálica. Lançou um último olhar ao estúdio, virou-se, e saiu rapidamente.

A entrada do aposento, deteve-se para olhar severamente o guarda suíço.

- Você irá ouvir falar de mim - disparou Lange, depois voltou-se e desapareceu no corredor.

A secretária do gabinete do secretário de Estado Marco Brindisi era bastante diferente da secretária austera do estúdio papal. Era uma enorme peça de mobiliário renascentista com pernas esculpidas e embutidos dourados. Aqueles que se mantinham à sua frente tinham tendência para se sentirem desconfortáveis, o que se adequava agradavelmente aos objectivos de Brindisi.

Nesse momento, sentava-se sozinho, dedos formando uma ponte, olhos focados algures a meia distância. Alguns minutos antes, da sua janela sobranceira à Praça de São Pedro, assistira à passagem do cortejo papal motorizado acelerando em direcção ao rio, ao longo da Via della Conciliazione. Por essa altura, ele já se deveria encontrar no interior da sinagoga.

O olhar do cardeal fixou-se no grupo de ecrãs televisivos na parede oposta à da secretária. Apesar do seu objectivo ser o de restaurar a Igreja ao poder de que esta gozara durante a Idade Média, Marco Brindisi era um homem da idade moderna. Já tinham passado os tempos em que os burocratas do Vaticano escreviam os seus memorandos em pergaminho com aparos e tinta. Brindisi gastara incontáveis milhões actualizando a maquinaria da Secretaria de Estado do Vaticano, de modo a fazer com que a burocracia da Igreja fosse mais como o nervo central de uma nação moderna. Sintonizou a televisão na estação BBC International. Uma inundação no Bangladesh, milhares mortos, centenas de milhar desalojados. Disse a si mesmo que teria de fazer uma doação adequada através das organizações de caridade da Igreja, para minimizar o sofrimento de qualquer modo possível. Ligou um segundo televisor e sintonizou-o para a RAI, a principal estação italiana. O terceiro televisor estava sintonizado na CNN International.

Fizera bem em ameaçar o papa de que não o iria acompanhar naquela viagem embaraçosa. O resultado disso era que deveria estar, naquele momento, a redigir uma carta de demissão inofensiva, que não viesse a causar qualquer embaraço à Santa Sé e que não levantasse questões desconfortáveis por parte dos tipos do serviço de imprensa do Vaticano, sobre as quais pudessem tecer considerações nas suas colunas infantis. Tivesse ele alguma intenção de se demitir, a sua carta teria demonstrado um desejo profundo de regressar aos seus deveres pastorais, de cuidar de um rebanho, de baptizar os jovens e ungir os doentes. Qualquer vaticanisti com um pouco de inteligência reconheceria uma tal carta como um engano a uma escala mais elevada. Marco Brindisi fora criado, educado e alimentado para manejar o poder burocrático dentro da Cúria. A ideia de que ele poderia prescindir de boa vontade da sua autoridade era patentemente absurda. Ninguém acreditaria numa tal carta, e o cardeal não tinha qualquer intenção de a escrever. Além disso, pensava que o homem que a mandara escrever não tinha muito tempo de vida.

Se tivesse iniciado uma carta de demissão, esta teria feito surgir questões desconfortáveis nos dias que se seguissem ao assassinato do papa. Teriam os dois homens mais poderosos da Igreja discordado nalguma coisa em semanas recentes? Teria o cardeal secretário de Estado algo a ganhar com a morte do papa? Nenhuma carta de demissão, nenhuma pergunta. Na verdade, graças a uma série de fugas bem colocadas, o cardeal Brindisi seria apresentado como o amigo mais próximo do papa e um confidente da Cúria, um homem que admirava imensamente o papa e que era muito amado em retribuição. Estes recortes da imprensa captariam a atenção dos cardeais quando se reunissem para o próximo conclave. Tal como a gestão suave e competente dos assuntos da Igreja por Marco Brindisi nos dias traumáticos que se seguissem ao assassínio do papa. Numa tal altura, o conclave estaria relutante em virar-se para um estranho. Um homem da Cúria seria o próximo papa, e o candidato da Cúria favorito seria o secretário de Estado Marco Brindisi.

O seu devaneio sonhador foi despedaçado por uma imagem na RAI: o papa Paulo VII, entrando na Grande Sinagoga de Roma. Brindisi viu uma imagem diferente: Becket no seu altar em Canterbury. O assassínio de um padre intrometido.

Mande avançar os cavaleiros, Carlo. Mate-o.

O cardeal Marco Brindisi aumentou o volume e esperou pelas notícias da morte do papa.

 

A sinagoga central de Roma: oriental e ornamentada, remexendo-se numa antecipação inquieta. Gabriel ocupou o seu lugar na frente da sinagoga, o ombro direito de frente para o bimah, as mãos atrás das costas, comprimido contra a parede fria de mármore. O padre Donati estava de pé a seu lado, tenso e irritável. O seu ponto de vantagem concedia-lhe uma linha de visão perfeita para o interior da sala. A alguns metros de distância, sentava-se um grupo de cardeais da Cúria, deslumbrantes nas suas sotainas escarlates, ouvindo atentamente enquanto o rabino fazia o seu discurso introdutório. Mesmo para lá dos cardeais remexiam-se os inquietos membros do serviço de imprensa do Vaticano. O chefe do Gabinete de Imprensa, Rudolf Gertz, parecia nauseado. O resto dos assentos estavam cheios de membros vulgares da comunidade judaica de Roma. Quando por fim o papa se levantou para falar, uma palpável sensação eléctrica percorreu a audiência.

Gabriel resistiu à tentação de olhar para ele. Em vez disso, os seus olhos examinaram a sinagoga, procurando alguém ou alguma coisa que parecesse fora de lugar. Karl Brunner, de pé a alguns metros de Gabriel, fazia a mesma coisa. Os seus olhos encontraram-se por breves instantes. Brunner, decidiu Gabriel, não era uma ameaça para o papa.

O papa exprimiu a sua gratidão ao rabino e à comunidade judaica em geral por o terem convidado a falar naquele dia na sinagoga. Depois falou da beleza da sinagoga e da fé judaica, salientando a herança comum de cristãos e judeus. LTtilizando um termo que vinha do seu antecessor, referiu-se aos judeus como os irmãos mais velhos dos católicos romanos.

- E uma relação especial, este laço entre irmãos - disse o papa -, uma relação que pode quebrar-se se não for devidamente tratada. Com demasiada frequência ao longo destes últimos dois mil anos, os irmãos têm-se defrontado com consequências desastrosas para o povo judeu.

Ele falava sem texto ou notas. A audiência estava hipnotizada.

- Em Abril de 1986, o meu antecessor, o papa João Paulo II, veio a esta sinagoga para colmatar a divisão entre as nossas duas comunidades e para iniciar o processo de reconciliação. Durante estes últimos anos, muito foi conseguido. - O papa interrompeu-se por um momento, o silêncio pendendo pesado na sinagoga. - Mas ainda existe muito trabalho a ser feito.

Uma vaga de aplausos varreu a sinagoga. Os cardeais juntaram-se a esta. O padre Donati acotovelou Gabriel e inclinou-se sobre o seu ouvido.

- Observe-os - disse, apontando para os homens de vermelho. - Veremos se estarão a aplaudir dentro de alguns minutos.

Mas Gabriel manteve os olhos na multidão enquanto o papa prosseguia.

- Meus irmãos e irmãs, Deus levou-nos João Paulo antes dele poder concluir o seu trabalho. Tenciono continuar onde ele o deixou. Pretendo carregar o seu fardo e transportá-lo por ele.

De novo, o papa foi interrompido por aplausos. «Brilhante», pensou Gabriel. Ele estava a apresentar a sua iniciativa apenas como uma continuação do legado do polaco, em vez de algo radicalmente novo. Gabriel apercebeu-se que o homem que gostava de se apresentar como um simples padre veneziano era um estratega astuto e um operacional político.

- Os primeiros passos da jornada de reconciliação foram fáceis comparados com aqueles mais difíceis que se encontram perante nós. Os últimos passos serão os mais difíceis de todos. Ao longo do caminho, podemos ser tentados a recuar. Não o devemos fazer. Devemos completar a nossa jornada, tanto católicos como judeus.

O padre Donati tocou no braço de Gabriel.

- Aí vamos nós.

- Em ambas as nossas religiões, acreditamos que o perdão não nos chega com facilidade. Nós, católicos romanos, temos de fazer uma confissão honesta se vamos receber absolvição. Se tivermos assassinado um homem, não podemos confessar que utilizámos o nome do Senhor em vão e esperar ser perdoados. - O papa sorriu, e gargalhadas espalharam-se pela sinagoga. Gabriel reparou que diversos cardeais pareceram não achar o comentário engraçado. - No Yom Kip-purNT, o dia judaico da expiação, os judeus devem procurar aqueles a quem fizeram mal, fazerem uma confissão honesta dos seus pecados, e procurar o perdão. Nós, católicos, devemos fazer o mesmo. Mas se vamos fazer uma honesta confissão de pecado, devemos primeiro conhecer a verdade. É por isso que estou aqui hoje.

O papa deteve-se por um momento. Gabriel conseguia vê-lo a olhar para o padre Donati, como que a ganhar força, como que a dizer que agora não havia maneira de voltar atrás. O padre Donati anuiu, e o papa virou-se de novo para a audiência. Gabriel fez o mesmo, mas por um motivo diferente. Procurava um homem com uma arma.

- Esta manhã, nesta magnífica sinagoga, estou a anunciar uma nova revisão quanto à relação da Igreja com o povo judeu e as acções da Igreja durante a Segunda Guerra Mundial, o período mais escuro da história judaica, o tempo em que seis milhões se perderam nos fogos de ShoahNT. Ao contrário de exames prévios desses tempos terríveis, todos os documentos relevantes contidos nos Arquivos Secretos do Vaticano, independentemente da sua idade, serão disponibilizados a um painel de eruditos para revisão e avaliação.

O corpo de imprensa do Vaticano entrou em tumulto. Alguns jornalistas sussurravam para os seus telemóveis, os restantes escrevinhavam selvaticamente em blocos de notas. Rudolf Gertz permanecia sentado de braços cruzados e queixo pousado no peito. Evidentemente, Sua Santidade negligenciara dizer ao seu principal porta-voz que tencionava fazer notícia nesse dia. O papa já tinha entrado em território desconhecido. Agora, estava prestes a ir ainda mais longe.

- O Holocausto não foi um crime católico - prosseguiu -, mas demasiados católicos, tanto religiosos como laicos, tomaram parte no assassinato de judeus para que nós o possamos ignorar. Temos de reconhecer este pecado, e devemos implorar o perdão.

 

NT O jejum religioso mais solene do ano judaico, o último dos dez dias de penitência que se iniciam com o Rosh Hashana (o ano novo judeu).

NT Palavra hebraica que significa «Desolação». Shoah transformou-se no termo preferido dos eruditos judaicos para a palavra «Holocausto», porque consideram que esta última perdeu muito do seu significado devido à sua excessiva utilização.

 

Dessa vez não houve aplausos, apenas um silêncio atordoado e reverente. A Gabriel pareceu-lhe que ninguém sentado na sinagoga poderia acreditar que palavras como estas estivessem a ser ditas por um pontífice romano.

- O Holocausto não foi um crime católico, mas a Igreja semeou as sementes da vinha venenosa conhecida como anti-semitismo, e forneceu a água e o alimento de que essas sementes necessitavam para criarem raízes e florescerem na Europa. Temos de reconhecer este pecado, e devemos implorar o perdão.

Gabriel pensou poder detectar a inquietação entre os cardeais. Olhares sombrios, cabeças abanando, ombros subindo e descendo. Olhou para o padre Donati e sussurrou:

- Qual deles é o cardeal Brindisi? O padre sacudiu a cabeça.

- Ele não está cá hoje.

- Porque não?

- Disse que estava indisposto. A verdade é que ele preferiria ser queimado vivo do que ouvir este discurso.

O papa continuou.

- A Igreja pode não ter impedido o Shoah, mas é possível que tivesse podido minorar a sua gravidade para muitos judeus. Deveríamos ter colocado os assuntos geopolíticos de lado e ter gritado a nossa condenação do cimo da nossa poderosa basílica. Deveríamos ter excomungado aqueles membros da nossa Igreja que se encontravam entre os assassinos e os mandantes. Depois da guerra, deveríamos ter passado mais tempo a tratar das vítimas em vez de nos preocuparmos com os perpetuadores, muitos dos quais encontraram santuário nesta cidade abençoada no seu caminho para o exílio em terras distantes.

O papa escancarou os braços.

- Por estes pecados, e outros que em breve serão revelados, nós oferecemos a nossa confissão, e imploramos o vosso perdão. Não há palavras para descrever a profundidade da nossa dor. Na vossa hora de maior necessidade, quando as forças da Alemanha nazi vos tiraram das vossas casas para as mesmas ruas que rodeavam esta sinagoga, vocês gritaram por ajuda, mas os vossos pedidos defrontaram-se com o silêncio. E assim, hoje, enquanto imploro perdão, fá-lo-ei da mesma maneira. Em silêncio.

O papa Paulo VII baixou a cabeça, cruzou as mãos debaixo da cruz peitoral, e fechou os olhos. Gabriel olhou descrente para o papa, depois percorreu a sinagoga com o olhar. Não estava sozinho. As bocas pendiam abertas por toda a audiência, incluindo o habitualmente cínico corpo de imprensa. Dois dos cardeais tinham-se juntado ao papa em oração, mas os restantes pareciam tão espantados como todas as outras pessoas.

Para Gabriel, a v