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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CONSUL HONORÁRIO / Graham Greene
O CONSUL HONORÁRIO / Graham Greene

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CONSUL HONORÁRIO

 

O doutor Eduardo Plarr estava de pé no pequeno porto sobre o Paraná, entre a balaustrada e os guindastes amarelos, a observar um penacho horizontal de fumo por cima do Chaco. Entre as barras vermelhas do sol-poente, o fumo era como uma faixa numa bandeira nacional. O doutor Plarr achava-se só, a essa hora, além do único marinheiro que estava de guarda ao edifício marítimo. Um fim de tarde que, por qualquer combinação misteriosa da frouxidão da luz e do cheiro de alguma planta irreconhecida, traz a certos homens percepções da infância e de coisas futuras, e a outros a sensação de algo perdido e quase esquecido.

 

A balaustrada, os guindastes, o edifício marítimo fora o que o doutor Plarr primeiro vira do seu país adoptivo. Os anos nada tinham mudado, apenas acrescentaram a linha de fumo que, quando ele ali chegara, ainda não pendia no horizonte, na ponta extrema do Paraná. A fábrica que o produzia não estava ainda construída na ocasião, mais de vinte anos atrás, em que descera da república nortenha, com a mãe, no barco semanal do Paraguai. Lembrava-se do pai, de pé, no cais em Asunción, junto do curto portaló do pequeno barco fluvial - um homem alto e grisalho, de peito metido para dentro, a prometer-lhes, com um optimismo convencional, que bem depressa se reuniria a eles. Dentro de um mês - ou talvez três - a esperança rangera-lhe na garganta qual peça de ferrugento mecanismo.

 

Não parecera estranho ao rapaz de catorze anos, apenas talvez um hábito estrangeiro, o pai ter beijado a mulher na testa com uma espécie de reverência, como se ela fosse sua mãe e não companheira de cama. O doutor Plarr considerava-se, nesse tempo, tão espanhol como a mãe, enquanto o pai era bem perceptivelmente inglês, pois pertencia, por direito e não simplesmente por passaporte, à lendária ilha de neve e nevoeiro, pátria de Dickens e de Conan Doyle, ainda que tivesse provavelmente guardado poucas memórias genuínas da terra que deixara aos dez anos de idade. Conservava um livro ilustrado que os pais lhe tinham comprado momentos antes do embarque, - Panorama de Londres - e Henry Plarr costumava folhear para o filho, Eduardo, as páginas de fotografias cinzentas que mostravam o Palácio de Buckingham, a Torre de Londres e uma vista de Oxford Street, cheia de carruagens e de senhoras a agarrar as saias compridas. O pai, segundo o doutor Plarr compreendera muito mais tarde, era um exilado num país de exilados - italianos, checos, polacos, galeses, ingleses.

 

Quando o doutor Plarr, em menino, lia algum romance de Dickens, fazia-o como um estrangeiro, tomando aquilo tudo por verdades contemporâneas, tal como um russo que acredita que o beleguim e o cangalheiro continuam a seguir as suas. imutáveis vocações num mundo em que Oliver Twist está algures preso num subterrâneo.

 

Aos catorze anos ainda lhe escapavam os motivos por que o pai ficara para trás, no cais da velha capital sobre o rio. Levou-lhe bastantes anos a compreender que a existência de um exilado não era simples - tantos documentos, tantas visitas aos departamentos oficiais! A simplicidade pertencia, por direito, aos naturais da terra, àqueles cujas condições de vida, por estranhas que fossem, davam esse direito. A língua espanhola era de origem românica e os Romanos haviam sido um povo simples. Machismo - o orgulho masculino - era o equivalente espanhol de virtus. Pouco tinha a ver com a coragem inglesa ou com um obstinado lábio superior. Talvez que o pai, à sua maneira estrangeira, estivesse a imitar o machismo quando escolheu enfrentar sozinho os perigos dia a dia maiores do outro lado da fronteira do Paraguai, mas foi somente o lábio obstinado o que mostrou no cais.

 

O jovem Plarr e sua mãe tinham chegado ao porto fluvial mais ou menos a essa hora da tarde, a caminho da grande e barulhenta capital da república do Sul (a partida deles fora atrasada umas horas por uma manifestação política) e algo do cenário - as velhas casas coloniais, um desmoronamento de estuque na rua por trás da frontaria marginal, dois namorados sentados num banco e abraçados, a estátua enluarada de uma mulher nua, o busto de um almirante com um caseiro de nome irlandês, os globos de luz eléctrica como fruta madura por sobre uma mesa de refrescos - se alojou no espírito do moço Plarr como um símbolo de desacostumada paz, de modo que, depois de muito aguentar, quando sentiu necessidade urgente de fugir aos arranha-céus, ao trânsito, às sereias dos carros da Polícia e das ambulâncias, às heróicas estátuas equestres de libertadores, regressou a essa pequena cidade nortenha para trabalhar, com todo o prestígio que lhe advinha de ser um conceituado médico de Buenos Aires. Nenhum dos seus amigos da capital ou conhecimentos de café chegaram a compreender as suas razões: todos lhe afirmavam que ia encontrar no Norte um clima doentio, quente e húmido, e uma cidade onde nada acontecia, nem mesmo a violência.

 

- Talvez seja bastante doentio para eu adquirir mais prática - replicava com um sorriso tão vazio de sentido, ou tão falso, como a expressão de esperança do pai.

 

Em Buenos Aires, durante os longos anos de separação, receberam só uma carta do pai, dirigida a ambos: Señora e hijo. A carta não viera pelo correio. Encontraram-na por baixo da porta do apartamento numa noite de sábado, quatro anos depois da chegada, quando regressavam do cinema onde tinham ido ver, pela terceira vez, E Tudo o Vento Levou. A mãe nunca faltava a uma reprise, talvez porque os filmes antigos e as antigas estrelas faziam com que a guerra civil parecesse, durante umas horas, algo de estático e inofensivo. Clark Gable e Vivien Leigh flutuavam na ressaca dos anos, apesar de todas as balas.

 

O sobrescrito estava muito sujo e amarrotado e dizia: «Por mão própria», mas nunca haveriam de saber por que mão. Não estava escrita no papel do seu velho bloco elegantemente timbrado em letra gótica com o nome da estancia, mas em folhas pautadas de um papel barato. Uma carta cheia, como a voz no cais, de fingidas esperanças - «as coisas», escrevia, estavam prestes a resolver-se; não vinha datada, por isso talvez «a esperança» se tivesse exaurido muito tempo antes de a carta chegar. Nunca mais ouviram falar no pai; nem sequer uma notícia ou um rumor da sua prisão ou da sua morte. Terminava a carta com formalidade espanhola: «O meu desejo é que as duas pessoas que mais amo no mundo estejam bem, marido e pai afectuoso, Henry Plarr.»

 

O doutor Plarr não sabia exactamente quanto o influenciara, no regresso ao porto fluvial, o sentimento de que aí vivia mais perto da fronteira do país onde nascera e onde o pai se enterrara - se numa cadeia ou num pedaço de terra, provavelmente nunca o saberia. Tinha somente de percorrer alguns quilómetros a nordeste e olhar para a curva do rio. Tinha somente, como os contrabandistas, de tomar uma canoa... Sentia-se por vezes como uma vigia à espera de um sinal. Havia, claro, outro motivo mais imediato. Uma vez dissera a uma amante: «Deixei Buenos Aires para me ver livre, tanto quanto possível, de minha mãe.» Era verdade que a beleza da mãe se arruinara e que, conforme avançava para a meia-idade, na imensa e confusa capital com a sua fantástica arquitectura de arranha-céus em ruas sórdidas traçadas ao acaso e cobertas por vinte andares de anúncios de Pepsi-Cola, ela se lamentava a toda a hora por ter perdido a estancia,

 

O doutor Plarr voltou as costas ao porto e continuou o passeio do entardecer ao longo da margem do rio. O céu estava já escuro e já não distinguia o penacho de fumo nem via a linha da margem oposta. As lâmpadas do ferry que ligava a cidade ao Chaco aproximavam-se como um lápis iluminado, em ondeante e lenta diagonal, à medida que o barco lutava contra a corrente dirigindo-se pesadamente para o sul. As Três Marias pendiam no céu como o resto de um rosário quebrado - a cruz, algures, onde tinha caído. O doutor Plarr, que, de dez em dez anos, sem bem saber porquê, renovava o seu passaporte inglês, sentiu um súbito desejo de companhia que não fosse espanhola.

 

Tanto quanto sabia, havia só mais dois ingleses na cidade: um velho professor de inglês, que adoptara o título de doutor sem nunca ter entrado numa universidade, e Charley Fortnum, o cônsul honorário. Desde a manhã, meses antes, em que começara a dormir com a mulher de Charley Fortnum, o doutor Plarr verificou que não se sentia à vontade na companhia do cônsul; talvez o perseguissem primitivos sentimentos de culpa; talvez lhe irritasse a complacência de Charley Fortnum, que parecia tão modestamente confiante na fidelidade da esposa. Falava com orgulho, mais do que preocupação, nos incómodos da mulher no princípio da gravidez, como se eles revertessem em elogio à sua habilidade, de tal modo que o doutor Plarr esteve quase a exclamar: «Mas quem julga que é o pai?»

 

Restava-lhe pois o doutor Humphries... embora fosse ainda cedo para encontrar o velhote no Hotel Bolívar onde residia.

 

O doutor Plarr descobriu um banco sob um dos globos brancos que iluminavam a margem do rio e tirou um livro do bolso. Desse sítio podia vigiar o carro estacionado junto do quiosque da Coca-Cola. O livro que trazia consigo era um romance escrito por um dos seus doentes, Jorge Júlio Saavedra, que também ostentava o título de doutor, mas autêntico, porque, havia vinte anos, lhe tinha sido concedido um grau universitário honoris causa na capital. O romance, o primeiro 'do doutor Saavedra e célebre, chamava-se O Coração Taciturno, e estava escrito num estilo carregado de melancolia, cheio do espírito de machismo.

 

- O doutor Plarr tinha dificuldade em ler mais do que algumas páginas de cada vez. Essas personagens nobres e pouco comunicativas da literatura latino-americana afiguravam-se-lhe demasiado simples e demasiado heróicas para serem verdadeiras. Rousseau e Chateaubriand tinham maior influência na América do Sul do que Freud - havia até uma cidade no Brasil chamada Benjamin Constant. Leu: «Júlio Moreno sentava-se durante horas em silêncio, nesses dias em que o vento soprava continuamente das bandas do mar, salgando os seus poucos hectares de terra árida, mirando as raras plantas que tinham sobrevivido aos últimos ventos. Ficava de queixo nas mãos e olhos fechados, como se desejasse viver em algum recesso íntimo, donde a mulher fosse excluída. Nunca se queixava. Ela ficava de pé junto dele durante longos minutos, segurando na mão esquerda a cabaça do chá-mate; quando Júlio abria os olhos, pegava-lhe na cabeça sem uma palavra.

Só um relaxamento dos músculos em volta da boca dura e juvenil parecia à mulher uma expressão de agradecimento.»

 

O doutor Plarr, criado pelo pai com os livros de Dickens e de Conan Doyle, achava os romances do doutor Jorge Júlio Saavedra difíceis de ler, mas considerava o esforço como parte das suas obrigações de médico. Dentro de alguns dias teria um dos seus usuais jantares com o doutor Saavedra no Hotel Nacional e devia aprontar-se para fazer qualquer comentário sobre o livro que ele lhe tinha tão calorosamente dedicado: «Ao meu amigo e conselheiro doutor Eduardo Plarr, este meu primeiro livro para lhe mostrar que nem sempre fui um romancista político, e para revelar, como só se pode fazer a um amigo íntimo, o primeiro fruto da minha inspiração.» O doutor Saavedra, na realidade, não era nada taciturno, mas o doutor Plarr suspeitava de que ele se considerava um Moreno manqué. Talvez fosse significativo o facto de ter dado a Moreno um dos seus nomes de baptismo...

 

O doutor Plarr nunca vira ninguém a ler em toda a cidade. Quanto jantava fora, apenas via livros encarcerados por detrás de vidros por causa da humidade. Nunca encontrara alguém inadvertidamente a ler junto do rio ou mesmo nas praças - a não ser ocasionalmente El Litoral, o jornal local. Havia por vezes namorados nos bancos, ou mulheres cansadas com cestos de compras, ou vagabundos, mas nunca leitores. Um vagabundo ocupava soberbamente um banco inteiro. Ninguém queria partilhar o banco com um vadio; por isso, ao contrário de todas as outras pessoas, ele podia estender-se ao comprido.

 

Talvez que ler ao ar livre fosse um hábito herdado do pai, que levava sempre consigo um livro quando ia trabalhar na quinta; no ar perfumado de laranjas do seu país abandonado, o doutor Plarr lera todas as obras de Dickens, excepto Contos de Natal. Quando as pessoas pela primeira vez o viram sentado num banco com um livro aberto olharam-no com curiosidade. Provavelmente julgavam tratar-se de um hábito próprio dos doutores estrangeiros. Não exactamente efeminado, mas sem dúvida estrangeiro. Ali os homens preferiam parar às esquinas das ruas a conversar, ou sentarem-se a beber chávenas de café e conversar, ou debruçarem-se à janela e conversar. E durante a conversa tocavam no companheiro para frisar um ponto ou apenas por amizade. Em público, o doutor Plarr não tocava em ninguém, só no livro. Sinal, como o seu passaporte, de que se mantinha estranho: nunca ficaria verdadeiramente assimilado.

 

Recomeçou a leitura: «Ela trabalhava em perfeito silêncio, aceitando a dura faina como aceitava as estações más, como uma lei da natureza. »

 

O doutor Saavedra tinha gozado de um período de sucesso junto da crítica e do público da capital. Assim que começou a sentir-se esquecido pelos críticos - e ainda mais pelos jornalistas - viera para o Norte, onde o bisavô fora governador e onde lhe concederam o respeito devido a um famoso romancista da capital, embora poucas pessoas provavelmente lessem os seus livros. No entanto, a geografia mental dos seus romances conservara-se. Onde quer que escolhesse agora viver tinha encontrado a sua região mítica de uma vez para sempre, quando jovem, resultado de umas férias numa pequena cidade junto do mar, no extremo sul, perto de Trelew. Nunca encontrara um Moreno, mas imaginara-o muito claramente, certa noite, no bar de um hotelzinho, onde um homem sentado se curvava em melancólico silêncio sobre uma bebida.

 

O doutor Plarr soubera tudo isso, na capital, por um velho amigo e invejoso inimigo do romancista, e achou a informação sobre o passado de Saavedra de algum valor quando o começou a tratar de ataques de volúvel depressão maníaca. A mesma personagem aparecia repetidas vezes em todos os seus livros, a história mudava um pouco, nunca, porém, o profundo e triste silêncio. O amigo e inimigo que acompanhara o jovem Saavedra nessa viagem de descoberta tinha observado, desdenhoso: «E o senhor sabe quem era o homem? Um galês, um galês! Quem já ouviu falar de galeses com machismo? Há muitos galeses nesses sítios. Estava bêbado, mais nada. A sua bebedeira semanal, quando vinha do campo. Um ferry partiu para a margem invisível de mato e pântano, e, mais tarde, o mesmo ferry voltou. O doutor Plarr sentia dificuldade em se concentrar na taciturnidade do coração de Júlio Moreno. A mulher de Moreno deixou-o, por fim, com um jornaleiro qualquer das suas terras, jovem, bem parecido e com certa facilidade para a conversa, mas era infeliz na cidade ao pé do mar onde o amante continuava desempregado. O homem depressa começou a embebedar-se nos bares e a palrar muito na cama. E ela cheia de saudades dos longos silêncios e da terra seca, arruinada, salgada. Voltou portanto para Moreno, que, sem uma palavra, lhe deu lugar à mesa da sua magra ceia, ficando depois sentado, como de costume, de queixo nas mãos, enquanto, ao lado dele, ela lhe segurava a cabaça do mate. Havia ainda mais cem páginas, embora parecesse ao doutor Plarr que a história devia terminar ali. Todavia, o machismo de Júlio Moreno ainda não tinha encontrado a sua completa expressão, e, quando avisou a mulher, com o mínimo de palavras, da sua decisão de visitar a cidade de Trelew, o doutor Plarr percebeu logo o que ia acontecer lá. Júlio Moreno encontrar-se-ia com o jornaleiro num bar da cidade e dar-se-ia uma luta à facada ganha naturalmente pelo jovem. Não tinha a mulher lido nos olhos do marido, quando este saiu, «a expressão de um nadador exausto que se rende à maré negra do seu fatal destino»?

 

Não se podia dizer que o doutor Saavedra escrevesse mal. Havia uma música pesada no seu estilo, o rufar dos tambores do destino não se afastava muito, mas o doutor Plarr sentia por vezes ganas de gritar ao seu melancólico doente: «A vida

não é isso. A vida não é nobre nem grave. Mesmo a vida na América Latina. Nada é fatal. A vida tem surpresas. É absurda. E por ser absurda há sempre esperança. Porque não havemos, um dia, de descobrir a cura do cancro e da vulgar constipação?» Abriu o livro na última página. Aí estava o sangue de Júlio Moreno a escoar-se entre os tijolos partidos do soalho do bar de Trelew e a mulher (como chegara lá tão depressa?), ao lado dele, embora, pela primeira vez, não a segurar a cabaça do chá-mate. «Um relaxamento dos músculos em volta da boca dura e juvenil disse-lhe, antes de os olhos se cerrarem sobre o imenso cansaço da existência, que ele apreciava a presença dela. »

 

O doutor Plarr fechou o livro com um gesto de irritação.

 

O Cruzeiro do Sul lá estava, em cruz, na noite cheia de estrelas. Nem antenas de televisão nem janelas iluminadas quebravam o plano negro do horizonte. Se recolhesse a casa haveria o risco de uma chamada telefónica?

 

Quando deixara o seu último doente, a mulher de um secretário de Finanças que sofria de febres, estava resolvido a não ir para casa senão de madrugada. Queria conservar-se longe do telefone, até ser tarde de mais para qualquer chamada não profissional. Havia uma especial possibilidade, nesse dia, a essa hora, de ser incomodado. Charley Fortnum - sabia-o estava a jantar com o governador, que precisava de um intérprete para o seu hóspede de honra, o embaixador americano. Clara, agora que dominara o medo de se servir do telefone, e com o marido assim seguro, bem podia telefonar-lhe a pedir que lhe fizesse companhia; mas não desejava vê-la nessa noite de terça-feira. O seu instinto sexual estava anestesiado pela inquietação. Era provável que Charley voltasse inesperadamente, pois o jantar, mais cedo ou mais tarde, podia ser cancelado por motivos que ele não tinha o direito de saber de antemão.

 

Decidiu ficar fora até à meia-noite. A festa do governador, a essa hora, teria já terminado, e Charley Fortnum estaria talvez a caminho de casa. Não sou um homem com machismo,

reflectiu o doutor Plarr tristemente, se bem que não conseguisse imaginar Charley Fortnum a atacá-lo com uma faca. Levantou-se do banco. A hora era já bastante tardia para poder visitar o professor de inglês.

Não encontrou o doutor Humphries, conforme esperava, no Hotel Bolívar. O doutor Humphries tinha um quartinho com duche no rés-do-chão, virado para um pátio com uma palmeira poeirenta e uma fonte morta. Havia deixado a porta encostada, o que mostrava talvez a sua confiança na estabilidade. O doutor Plarr recordou-se de como o pai, à noite, no Paraguai, fechava à chave mesmo as portas interiores da casa, os quartos de dormir, as casas de banho, os quartos de hóspedes vazios, não contra os ladrões mas contra a Polícia, os assassinos militares e oficiais, embora estes não desanimassem diante de portas fechadas.

 

No quarto do doutor Humphries, o espaço mal chegava para a cama, o toucador, duas cadeiras, um lavatório e o duche. Tinha-se de lutar com aquilo tudo, como se se tratasse de passageiros num metropolitano apinhado. O doutor Plarr viu que o doutor Humphries havia colado na parede uma nova gravura, da edição espanhola da Life, representando a rainha empoleirada num cavalo em Trooping the Colour. A escolha não era necessariamente um sinal de patriotismo ou de nostalgia; apareciam constantemente manchas de humidade no estuque do quarto e o doutor Humphries cobria-as com a primeira gravura à mão. No entanto, talvez a sua escolha mostrasse realmente uma preferência em despertar com o rosto da rainha, em vez do de Nixon, na parede. (o rosto deste decerto que aparecera no mesmo número da Life). Dentro do quarto estava fresco, mas a própria frescura era húmida. O duche por detrás da cortina de plástico tinha uma anilha imperfeita e pingava nos tijolos. A estreita cama fora esticada, mais do que feita - os lençóis enrugados bem podiam ter sido puxados à pressa por cima de um cadáver, e um mosquiteiro pendia, numa trouxa, sobre o leito, qual nuvem cinzenta a ameaçar chuva. O doutor Plarr sentiu pena do que se intitulava doutor em letras: não era aquele o lugar que um homem livre - se acaso existiam homens assim - escolheria para esperar a morte. E pensou inquieto: o meu pai devia ser agora da mesma idade de Humphries e talvez sobrevivesse em ambientes ainda piores.

 

Havia um bocado de papel entalado no caixilho do espelho de Humphries: «Fui para o Clube Italiano.» Devia esperar um aluno, daí o ter deixado a porta aberta. O Clube Italiano era um edifício colonial, outrora impressionante, do outro lado da rua. Havia um busto de alguém, talvez de Cavour ou de Mazzini, mas a pedra estava marcada de bexigas e a inscrição tornara-se ilegível; ficava entre a casa, que tinha uma grinalda de flores de pedra por cima de cada janela alta, e a rua. Noutro tempo viviam muitos italianos na cidade, mas agora tudo quanto restava do clube era o nome, o busto e a fachada imponente com uma data do século dezanove em algarismos romanos. Havia algumas casas onde se podia comer barato, sem pagar assinatura, e só ficara um italiano, o criado solitário natural de Nápoles. O cozinheiro era de origem húngara e pouco mais servia do que goulash, um prato onde lhe era fácil disfarçar a qualidade dos ingredientes, a coisa mais assisada que tinha a fazer, visto a melhor carne de vaca ir sempre para a capital, que ficava a uma distância de mais de oitocentos quilómetros.

 

O doutor Humphries estava sentado a uma mesa junto de uma janela aberta com um guardanapo metido no colarinho puído. Por muito quente que o dia fosse, vestia sempre fato completo com gravata e colete, qual vitoriano homem de letras que vivesse em Florença. Usava óculos de aros de aço - Provavelmente a receita há anos não fora revista, porque tinha de se curvar sobre o goulash para ver o que estava a comer. O cabelo branco aparecia listrado da cor da juventude pela nicotina e havia, no guardanapo, nódoas quase da mesma

cor do goulash. O doutor Plarr disse:

 

Boa noite, doutor Humphries.

 

Encontrou o meu bilhete?

 

Teria entrado de qualquer maneira. Como sabia que eu ia ao seu quarto?

 

- Não sabia, doutor Plarr. Mas pensei que alguém pudesse aparecer, alguém...

- Ia convidá-lo para jantar no Nacional - explicou o doutor Plarr.

Olhou em volta à procura do criado, sem nenhum prazer. Eram os únicos clientes.

- Muito amável da sua parte. Mas fica para outro dia, se me conceder o que os ianques chamam um «adiamento». O goulash aqui não é muito mau, a gente fica um pouco enjoada dele, mas pelo menos enche.

Era muito magro. Dava a impressão de alguém que tinha passado a vida a comer, na esperança de encher uma inesgotável cavidade.

À falta de outra coisa melhor, o doutor Plarr pediu também goulash. O doutor Humphries disse:

- Admiro-me vê-lo aqui. Julgava que o governador o tivesse convidado... Devia precisar de alguém que falasse inglês para o jantar desta noite.

O doutor Plarr compreendeu a razão da mensagem na moldura do espelho. Podia, à última hora, haver uma falha nos arranjos do governador. Acontecera isso uma vez e tinham procurado o doutor Humphries... Afinal só havia três ingleses disponíveis. Replicou:

- Convidou Charley Fortnum.

- Ah, sim, com certeza. O nosso cônsul honorário - sublinhou o adjectivo num tom de ressentimento. - Um jantar diplomático. Penso que a esposa do cônsul honorário não pôde comparecer por motivos de saúde...

- O embaixador americano é solteiro, doutor Humphries. Coisa informal, reunião só para homens.

- Ocasião muito apropriada para convidar Mrs. Fortnum a fim de entreter os convidados. Deve estar habituada a reuniões de homens. Mas por que razão o governador não o convidou a si ou a mim?

- Seja justo, doutor. Nem você nem eu temos posição oficial.

- Mas sabemos mais das ruínas dos jesuítas do que Charley Fortnum. De acordo com El Litoral, o embaixador veio cá ver as ruínas, não a colheita do chá ou da congonha, embora custe a crer. Os embaixadores americanos são geralmente homens de negócios.

 

- O novo embaixador deseja causar boa impressão - disse o doutor Plarr. - Arte e história. Não podem desconfiar que venha para um leilão. Deseja mostrar interesse erudito pela nossa província, não comercial. O secretário das Finanças não foi convidado, embora fale um pouco de inglês. De outro modo, suspeitava-se de empréstimo.

- E o embaixador não fala bastante espanhol para o brinde formal e meia dúzia de lugares-comuns?

- Dizem que está a fazer rápidos progressos.

- Você muito sabe do que se passa, Plarr. Eu só sei o que leio no El Litoral. Ele vai ver as ruínas amanhã; não é?

- Não, foi hoje. Esta noite volta a Buenos Aires, de avião.

- Então o jornal enganou-se?

- O programa oficial estava um pouco incorrecto. Creio que o governador queria evitar qualquer incidente.

- Incidentes aqui? Que ideia! Nunca vi um incidente nesta província durante vinte anos. Incidentes só acontecem em Córdoba. O goulash não é mau de todo, pois não?

- Já comi pior - respondeu o doutor Plarr sem tentar lembrar-se em que ocasião.

- Vejo que esteve a ler um dos livros de Saavedra. Que lhe parece?

- Muito talentoso - tal como o governador, o doutor Plarr não desejava fazer ondas e adivinhava que a malícia sobrevivia, agressiva, no velhote, depois da morte da discrição numa vida inteira de desleixo.

- Consegue mesmo ler isso? Acredita nesse machismo todo?

- Enquanto leio, posso suspender a minha descrença.

- Todos esses argentinos acreditam que os avós montavam na companhia de gaúchos. Saavedra tem quase tanto machismo como Charley Fortnum. É verdade que Charley vai ter um herdeiro?

 

- É.

- Quem é o afortunado pai?

- Porque não Charley?

- Velho e bêbado? Você é o médico dela, Plarr. Conte-me um bocadinho da verdade. Não peço a verdade toda.

- Porque quer sempre saber a verdade?

- Ao contrário da convicção comum, a verdade é quase sempre cómica. A tragédia é o que as pessoas se maçam a imaginar ou a inventar. Se você soubesse o que está dentro deste goulash, ria-se.

- Você sabe?

- Não. As pessoas conspiram sempre para me ocultar a verdade. Até você me mente, Plarr.

- Eu?

- Você mente-me quanto ao romance de Saavedra e do filho de Charley Fortnum. Oxalá que seja uma rapariga.

- Porquê?

- É muito mais difícil descobrir o pai pelas feições - o doutor Humphries começou a limpar o prato com um pedaço de pão. - Pode dizer-me, doutor, porque estou sempre com fome? Não como bem, e, no entanto, como imensa comida que vulgarmente se chama nutritiva. o doutor Humphries.

- Se quer realmente saber a verdade, preciso de o examinar, de lhe tirar uma radiografia...

- Oh, não. Só quero saber a verdade acerca das outras pessoas. As outras pessoas é que são sempre cómicas.

- Então porque me pergunta?

- Conversa fiada- replicou o velhote - para esconder o meu embaraço ao servir-me do último bocado de pão.

- Aqui regateiam o pão? Mais pão, por favor - pediu o doutor Plarr por cima de uma desolação de mesas vazias.

O único italiano do clube, o criado, veio a arrastar os pés, com um cesto de pão onde restavam três pedaços, e pareceu aflito ao ver que ficava só um. Dir-se-ia um membro júnior da Mafia que tivesse desobedecido às ordens do chefe.

- Reparou no gesto que ele fez? - perguntou o doutor Humphries.

 

- Não.

- Estendeu dois dedos. Contra o mau-olhado. julga que        eu deito mau-olhado.

- Porquê?

- Por uma vez fazer uma observação pouco respeitosa acerca da Madona de Pompeia.

- E se jogássemos xadrez, no fim do jantar? - perguntou o doutor Plarr, desejoso de passar o tempo de qualquer maneira, longe de casa e do telefone ao pé da cama.

- Eu cá já acabei.

Foram para o quartinho atravancado do Hotel Bolívar. O gerente estava a ler El Litoral no pátio com o mosquiteiro aberto para apanhar o fresco. Disse:

- Telefonaram para o senhor doutor.

- Para mim? - perguntou Humphries, excitado. - Quem era? Que disse?

- Foi para o doutor Plarr, professor. Uma mulher. Pensava que o doutor devia estar com o senhor.

- Se telefonar outra vez - disse Plarr -, não lhe diga     que estou aqui.

- Não tem curiosidade em saber quem era? - perguntou o doutor Humphries

- Bom, adivinho quem seja.

- Uma doente, se calhar?

- Sim, uma doente. Nada de urgência. Nada para afligir.

O doutor Plarr viu-se derrotado antes de vinte jogadas e começou, impaciente, a dispor outra vez as peças.

- Você está preocupado com qualquer coisa, seja lá o que for - disse o velhote.

- É esse maldito duche. Pingue, pingue, pingue.. Porque não o manda consertar?

- Que mal faz? É calmante. Canta para me adormecer.

O doutor Humphries começou com um peão do rei e disse:

- KP4. Mesmo o grande Capablanca era capaz de começar assim simplesmente - e acrescentou: - Charley Fortnum comprou um Cadillac novo.

- Pois comprou.

- Quantos anos tem o seu Fiat?

- Quatro... cinco anos.

- Vale a pena ser cônsul, não acha? Licença para importar um carro novo de dois em dois anos. Suponho que tem um factótum na capital para lho comprar logo que acaba o prazo,

- Provavelmente. É a sua vez de jogar.

- Se ele conseguisse fazer também a mulher cônsul, podiam comprar um carro por ano. Uma fortuna. Há alguma discriminação sexual no serviço consular?

- Não conheço as leis.

- Quanto pagou ele para ser escolhido? Quanto imagina?

-- Isso é boato, Humphries. Não pagou nada. O nosso Ministério dos Estrangeiros não trabalha dessa maneira. Havia umas visitas importantes que queriam ver as ruínas. Não tinham espanhóis. Charley Fortnum entreteve-os. Nada mais simples. E foi bom para ele. A colheita do mate não estava a correr muito bem, mas um Cadillac todos os anos é outra coisa,

- Sim, pode dizer-se que Charley casou por causa do Cadillac. Mas espanta-me que a mulher dele precise de um Cadillac Acho que um Morris Minor lhe servia.

- Não estou a ser justo - disse o doutor Plarr. - Não foi só o facto de ele andar à procura de regalias. Havia bastantes ingleses na província, nesse tempo. Você sabe isso melhor do que eu. E houve um que se meteu numa trapalhada na fronteira. Os tempos das guerrilhas. E Fortnum conhecia os cordelinhos locais. Poupou imenso trabalho ao embaixador. De qualquer modo teve sorte... Alguns embaixadores são mais gratos do que outros.

- Por isso, se nos acharmos em trabalhos, estamos na de pendência de Charley Fortnum. Xeque.

O doutor teve de trocar a rainha por um bispo. Disse:

- Há pessoas piores do que Charley Fortnum.

- Você está agora metido em trabalhos e ele não lhe pode acudir.

O doutor Plarr levantou subitamente os olhos do tabuleiro, mas o velhote referia-se apenas ao jogo. Disse:

- Xeque outra vez. Xeque-mate.

'E acrescentou:

- Esse duche está avariado há seis meses. Você não costuma perder comigo tão facilmente como hoje.

- Você tem feito progressos no jogo.

 

 

O doutor Plarr recusou uma terceira partida e dirigiu-se para casa, no seu carro. Vivia no último andar de um edifício de apartamentos, amarelo, voltado para o Paraná, edifício

que era um sinal do mau gosto da velha cidade colonial, mas o amarelo estava a desbotar de ano para ano, e, de qualquer modo, ele não podia pagar o aluguer de uma casa enquanto a mãe fosse viva. Era espantoso o que uma mulher gastava em guloseimas na capital.

 

Quando o doutor Plarr fechou as persianas, o último ferry estava a aproximar-se e, depois de se meter na cama, ouviu o ronco de uma avião que fazia uma manobra vagarosa por cima da sua cabeça: tão baixo o som como se o aparelho tivesse levantado poucos minutos antes. Não era decerto um avião a jacto a sobrevoar a cidade a caminho de Buenos Aires ou Asuncion - em qualquer caso, demasiado tarde para um voo comercial. Plarr pensou que devia ser o avião do embaixador americano, embora nunca tivesse esperado ouvi-lo. Apagou a luz e ficou deitado no escuro a pensar naquilo que tão fácil

mente podia ter corrido mal, enquanto o barulho do motor do avião se sumia, dirigindo-se para o sul, levando quem?

 

Desejava levantar o auscultador do telefone e marcar o número de Charley Fortnum, mas não achava desculpas para o ir incomodar àquela hora. Não sabia o que lhe havia de perguntar: «O embaixador gostou das ruínas?» ou «O jantar correu bem?» «Espero que na casa do governador tenha havido bifes decentes.» Não era hábito seu bisbilhotar com Charley Fortnum àquela hora... Charley era muito dedicado à mulher...

Acendeu outra vez a luz - melhor ler do que afligir-se. E como agora sabia qual seria o desfecho do livro do doutor Saavedra, este afigurava-se-lhe um bom sedativo. Havia pouco tráfego na marginal. Um carro da Polícia passou com as sereias a gritar. Mas Plarr depressa adormeceu, sem apagar a luz.

 

Acordou-o o telefone. O seu relógio marcava duas horas certas da manhã. Não se lembrava de nenhum doente capaz de telefonar a essa hora.

- Está? Quem fala?

Uma voz desconhecida respondeu com cautela:

- A nossa festa foi um sucesso.

- Quem está ao telefone? Porque me diz isso? Que festa? Não me interessa. - Plarr falava com a irritação do medo.

- Estamos preocupados com um dos actores. Adoeceu.

- Não sei do que fala.

- Parece que o esforço do papel que representou foi grande de mais.

Nunca até aí lhe tinham telefonado tão abertamente e a uma hora tão suspeita. Não havia razão para crer que a sua linha estivesse vigiada, mas eles não queriam arriscar-se. Os refugiados do Norte estavam muitas vezes sob vigilância nas regiões fronteiriças desde os tempos das guerrilhas, quando mais não fosse para sua própria protecção: havia casos de homens arrastados à força para o Paraguai, através do Paraná, para morrer. Tinha havido um médico exilado em Posadas... Por ser da mesma profissão, o exemplo do médico ocorria ao doutor Plarr com frequência, desde que soubera dos planos para a festa. Aquele telefonema para o seu apartamento não se podia justificar senão em caso de grande urgência. Uma morte entre os convidados - pelas leis que eles tinham estabelecido - era naturalmente esperada e não provava coisa alguma.

Disse:

- Não sei do que está a falar. Enganou-se no número.

Pousou o receptor e ficou deitado a olhar o telefone como se se tratasse de um objecto negro e venenoso que de certeza tornaria a atacar.

 

Dois minutos depois o telefone voltou realmente a tocar e teve de atender - bem podia ser um doente.

- Quem fala?

- Tem de vir. Ele está talvez a morrer - respondeu a mesma voz.

Pacientemente, o doutor Plarr perguntou:

- Que quer que eu faça?

- Vamos buscá-lo à rua dentro de cinco minutos certos. Se não estivermos lá dentro de cinco minutos, dez minutos. Depois disso, esteja pronto de cinco em cinco minutos.

- Que horas são no seu relógio?

- Duas horas e seis minutos.

O médico vestiu uma camisa e umas calças e meteu na pasta tudo o que poderia ser preciso (provavelmente algum ferimento causado por uma bala), descendo as escadas em peúgas. Sabia que o barulho do elevador se ouvia através das paredes frágeis de cada apartamento. Às duas e dez estava diante do edifício e às duas e doze tornou a entrar e fechou a porta. Às duas e dezasseis estava outra vez na rua e às duas e dezoito voltava a entrar. O medo enfurecia-o. A sua liberdade, talvez a sua vida, encontravam-se em mãos desesperadamente incompetentes. Conhecia só dois membros do grupo - tinham andado com ele na escola em Asunción - e aqueles que partilham da nossa infância parece que nunca crescem. Não acreditava agora mais na eficiência deles do que quando eram estudantes: a organização a que outrora pertencera no Paraguai, a Juventude Febrerista, tivera pouca influência, a não ser quanto à morte da maior parte dos outros membros numa guerrilha imprudente e mal orientada.

 

Claro que fora a própria sensação de amadorismo o que o persuadira a envolver-se. Não acreditava nos planos deles e escutá-los era apenas um sinal de camaradagem. Quando os interrogava sobre o que fariam em certas eventualidades, a crueldade das respostas parecia-lhe uma forma de teatro. (Todos três tinham desempenhado pequenos papéis numa representação escolar de Macbeth - a tradução em prosa não tornava a peça mais plausível.)

Agora, enquanto esperava no pátio escuro, a seguir, atento, os ponteiros luminosos do relógio de pulso, compreendia que nunca, nem por um momento, acreditara que eles chegassem a agir. Mesmo quando lhes deu a informação certa de que precisavam sobre os movimentos do embaixador americano (colhera os pormenores através de Charley Fortnum diante de um trago de Long John) e lhes fornecera a droga, continuava a não acreditar que alguma coisa acontecesse. Só ao acordar, de manhã, e ao ouvir a voz de León: «O espectáculo continua», é que lhe ocorrera que talvez esses amadores pudessem, afinal, ser perigosos. Seria León Rivas quem estava agora a morrer? Ou Aquino?

 

Eram duas horas e vinte e dois minutos quando saiu pela terceira vez. Um carro que errava em volta do edifício parou, com o motor a trabalhar. Uma mão acenou-lhe.

Tanto quanto podia ver, não conhecia o homem que guiava, mas o companheiro adivinhou-o no escuro pela linha da barba fina que lhe emoldurava o queixo. Fora numa cela da prisão que Aquino deixara crescer a barba e começara a escrever poesia, e também nessa cela ganhara uma esfomeada paixão pelos chipá, uns pãezinhos pastosos feitos de mandioca que só podem ser apreciados por quem passou fome.

- Que aconteceu, Aquino?

- O carro não pegava. Pó no carburador. Não foi, Diego?

E, depois, uma patrulha da Polícia.

- Pergunto: quem está a morrer?

- Esperamos que ninguém.

- León?

- Está bem.

- Porque me telefonaste? Prometeste não me envolver no assunto. León prometeu.

Nunca consentiria em os ajudar, se não fosse León Rivas. Tinha sentido a falta de León quase como a do pai, quando ele e a mãe partiram de barco. León era alguém em cuja palavra acreditara e sempre podia acreditar, ainda que mais tarde parecesse ter falhado, quando Plarr ouviu contar que León seguira a carreira de padre, em vez da do destemido advogado que defenderia os pobres e os inocentes, como Perry Mason. No seu tempo de estudante León possuía uma grande colecção de Perry Masons duramente traduzidos em prosa clássica espanhola, e lia-os cuidadosamente, um por um, a amigos escolhidos. Delia, a secretária de Perry Mason, foi a primeira mulher a despertar o apetite sexual de Plarr.

- O Padre Rivas mandou que o viéssemos buscar - disse o homem chamado Diego.

Continuavam a chamar a León «padre» - notou o doutor Plarr , embora ele tivesse quebrado um segundo voto ao abandonar a Igreja para casar. A quebra dessa promessa, contudo, não impressionava o doutor Plarr, que nunca ia à missa senão para acompanhar a mãe em alguma das suas raras visitas à capital. Parecia-lhe que León estava a esforçar-se por tornar, depois de uma série de falhanços, à sua primeira promessa para com os pobres, promessa que nunca pretendera quebrar. Ainda havia de terminar como abogado.

 

Entraram em Tucumán e a seguir em San Martín, após o que o doutor Plarr tentou evitar olhar para fora. Antes não saber para onde iam. Se o pior viesse a acontecer, queria trair o menos possível, quando o interrogassem.

 

Guiavam com velocidade bastante para atrair a atenção. Perguntou:

 

- Não receiam a Polícia?

- León tem o esquema deles todos. Estudou-os durante um mês.

- Mas esta noite... com certeza que é um pouco especial.

- O carro do embaixador será encontrado no Paraná superior. Hão-de rebuscar todas as casas da fronteira e avisar em Encarnación, do outro lado do rio. Hão-de bloquear a estrada para Rosário. As patrulhas aqui devem estar cortadas. Precisam dos homens noutro lado. É este o último lugar onde o procurarão, com o governador em casa à espera dele para o levar para o aeroporto.

- Oxalá não te enganes.

Por um momento, sem o desejar, o doutor Plarr levantou os olhos quando o carro dobrou uma esquina, e viu no passeio numa cadeira de verga, uma mulher idosa e forte, que conhecia, tal como conhecia a pequena porta aberta por trás dela - chamava-se Señora Sanchez e nunca se deitava antes que o último cliente saísse. Era a mulher mais rica da cidade, ou pelo menos assim se dizia.

Perguntou:

- Que aconteceu ao jantar do governador? Quanto tempo esperaram?

Imaginava a confusão. Não se podia telefonar para um montão de ruínas.

- Não sei.

- Com certeza que tinham alguém a vigiar.

- Tínhamos bastante nas nossas mãos.

Aí estavam outra vez os amadores. Ao doutor Plarr parecia-lhe que a conspiração seria mais bem escrita pelo doutor Saavedra. Faltava ingenuidade, senão machismo.

- Ouvi um avião. Era o do embaixador?

- Se era, devia ter partido vazio.

- Vocês sabem pouco --disse o doutor Plarr. - Quem se feriu?

O carro parou súbita e bruscamente à margem de uma vereda de terra. Aquino disse:

- Saímos aqui.

Depois de o doutor Plarr ter saído, ouviu recuar o carro alguns metros. Ficou quieto, enquanto os olhos se lhe acostumavam à escuridão, até poder enxergar, à luz das estrelas, o lugar para onde o tinham trazido. Era parte do bidonville que fica entre a cidade e a curva do rio. A vereda era quase tão larga como uma rua da cidade, e ele viu uma palhota feita de lama seca e velhos bidões de gasolina escondidos por entre os abacates. À medida que a vista se lhe ia clareando, descobriu outras palhotas ocultas entre as árvores, como homens em emboscada. Aquino conduziu-o. Os pés do médico enterraram-se na lama até ao tornozelo. Mesmo num jipe teria de passar ali devagar. Não faltariam avisos, se a Polícia aparecesse. Talvez que afinal fossem amadores de certa inteligência.

 

- Ele está aqui? - Perguntou a Aquino.

- Quem?

- Oh, por amor de Deus, não há microfones nas árvores. O embaixador, naturalmente!

- Sim, está. Mas não voltou a si depois da injecção.

Andavam tão depressa quanto podiam ao longo da vereda lamacenta, passando por várias cabanas escuras. O silêncio dir-se-ia pouco natural - nem sequer o choro de uma criança. O doutor deteve-se para recuperar o fôlego. Sussurrou:

- Esta gente deve ter ouvido o carro.

- Não dão à língua. julgam que somos contrabandistas. De qualquer modo, bem sabes, não são amigos da Polícia,

Diego desceu, virando onde a lama era ainda mais funda. Não chovia havia dois dias, mas naquele bairro de pobres a lama permanecia até a estação seca ir bem avançada. Não existiam esgotos para as águas e, conforme o doutor Plarr bem sabia, os habitantes precisavam de percorrer uma milha para encontrar uma torneira de água própria para beber. As crianças - tratara muitas - tinham a barriga grande por falta de proteínas. Talvez tivesse descido muitas vezes aquele mesmo caminho - não se distinguia dos outros; precisava sempre de um guia quando visitava ali um doente. Por qualquer razão, veio-lhe à ideia o coração Taciturno. Lutar pela honra, de faca na mão, por causa de uma mulher, pertencia a outro mundo absurdamente antiquado, mundo que já não existia senão na romântica imaginação de escritores como Saavedra. A honra não significava nada para os esfomeados. Para esses a tarefa era outra e mais séria: a luta pela sobrevivência. És tu, Eduardo? - perguntou uma voz.

Sou. És tu, León?

Alguém erguia uma vela para ele ver a entrada. Depois a porta fechou-se rapidamente.

A luz da vela distinguiu o homem a quem continuavam a chamar padre Rivas; León parecia tão magro e imaturo na sua camisa sem colarinho e calças de ganga como o rapaz que tinha conhecido no outro lado da fronteira. Os olhos castanhos eram grandes de mais para o rosto e as orelhas faziam

quase ângulo recto como crânio, lembrando um desses cães mestiços do bairro dos pobres. A mesma doce fidelidade nos olhos e uma vulnerabilidade nas orelhas salientes. Apesar da idade, bem podia ser tomado por um acanhado seminarista.

- Demoraste tanto, Eduardo - queixou-se muito mansamente.

- Fala nisso ao teu motorista, o Diego.

- O embaixador continua em coma. Tivemos de lhe dar uma segunda injecção. Não sossegava.

- Disse-te que uma segunda injecção seria perigosa.

- Tudo é perigoso - retorquiu o padre Rivas com doçura, como se estivesse no confessionário a aconselhar alguém contra a tentação.

Enquanto o doutor Plarr abria a pasta, o padre Rivas continuou:

- Está a respirar pesadamente.

- Que vais fazer se ele deixar de respirar de todo?

- Teremos de mudar as nossas tácticas.

- Como?

- Anunciar que foi executado. Justiça revolucionária acrescentou com um sorriso triste. - Por favor, peço-te, faz o que puderes.

- Com certeza.

- Não queremos que ele morra - disse o padre Rivas. - A nossa missão é salvar vidas.

Entraram no único quarto, onde tinham improvisado uma cama numa caixa comprida, de madeira (o doutor Plarr não pôde ver bem que espécie de caixa era), com alguns cobertores. O médico ouviu a respiração irregular e difícil do homem drogado, como alguém que lutasse para acordar de um pesadelo. Disse:

- Aproxima a luz.

Curvou-se e olhou de perto a cara afogueada. Por um momento não acreditou no que viu. Depois desatou a rir, de espantado.

- Oh, León, tu erraste a profissão.

- Que queres dizer?

- É melhor regressares à Igreja. Não foste feito para raptor.

- Não compreendo. Ele está moribundo?

- Não te aflijas, León, que ele não vai morrer. Mas não é o embaixador americano.

- Não...

- É Charley Fortnum.

- Quem é Charley Fortnum?

- O nosso cônsul honorário - respondeu o doutor Plarr no mesmo tom de escárnio que o doutor Humphries empregara.

- Mas isso é impossível I. - exclamou o padre Rivas.

- Nas veias de Charley Fortnum corre álcool, em vez de sangue. A morfina que te dei teria actuado mais suavemente no embaixador, que receia o álcool. Preveniram-se de Coca-Cola para o jantar desta noite, foi pelo menos o que me disse Charley. Eu ponho-o bom num instante. Deixa-o dormir.

Antes, porém, de o médico ter tempo de sair do quarto, o homem da caixa de madeira abriu os olhos, fixando o doutor Plarr, que também o fitava.

- Levem-me para casa - pediu Fortnum -, para casa...

E depois o corpo inclinou-se-lhe para o lado num sono mais profundo.

- Ele reconheceu-te? - perguntou o padre Rivas.

- Como posso saber?

- Se te reconheceu, o caso complica-se.

Alguém acendeu uma segunda vela na sala de fora, mas ninguém falou. Era como se cada um esperasse uma sugestão nos olhos dos outros para aquilo que se devia fazer a seguir. Por fim Aquino falou:

Isto não vai agradar a El Tigre.

É realmente cómico, se pensarmos bem - disse o doutor Plarr. - Devia ser o avião do embaixador o que eu ouvi, e ele ia mesmo lá dentro sorriso.

Havia na sala dois homens que lhe eram desconhecidos e, pela primeira vez, reparou numa mulher adormecida no chão, num canto escuro - tinha-a tomado por um poncho que alguém deixasse cair. Um dos homens era um negro com o rosto marcado de bexigas, e o outro um índio, que falava agora. O médico não o compreendia: não falava espanhol.

- Que está ele a dizer, León?

- O Miguel acha que o devíamos deitar ao rio para o afogar.

- E tu que disseste?

- Que a Polícia se interessaria por um corpo encontrado a trezentos quilómetros do carro.

- Ideia absurda - tornou o doutor Plarr. - Não vais matar Charley Fortnum.

- Esforço-me por não pensar nesses termos, Eduardo.

- Matar é agora, para ti, uma questão de semântica, León? Recordo-me de que eras bom em semântica. Costumavas explicar-me a Santíssima Trindade, noutros tempos, mas as tuas explicações eram mais complicadas do que o catecismo.

- Não o queremos matar repetiu o padre Rivas -, mas que vamos fazer? Ele viu-te.

- Não se lembra, ao acordar. Esquece sempre tudo quando está bêbado. Como diabo se enganaram assim?

- Isso é o que ainda vou saber.

E o padre Rivas principiou outra vez a falar em guarani.

Pegando numa das velas, o médico voltou para o limiar da porta do quarto. Charley Fortnum dormia descansado na caixa, como se estivesse no seu grande leito de metal, em casa, onde sempre se deitava do lado direito, junto da janela. Uma espécie de escrúpulo levava o médico a escolher o lado esquerdo, junto da porta, quando lá se deitava com Clara.

O rosto de Charley Fortnum, desde que o conhecia, fora sempre um pouco afogueado. Tinha a tensão arterial elevada e gostava de uísque. Com mais de sessenta anos, o seu cabelo mim próprio como correria o jantar do governador sem intérprete - olhava de um para outro, mas ninguém lhe retribuiu mantivera uma cor macia de rato com o cabelo de um rapaz, e o rosado da sua pele, a olhos não profissionais, dava a falsa impressão de saúde. Parecia um homem de vida ao ar livre, um lavrador. É verdade que tinha uma quinta, a cinquenta quilómetros da cidade, onde cultivava cereais e mate. Gostava de andar de campo para campo num velho Land Rover a que chamava o «Orgulho de Fortnum». E dizia: «A galope», acelerando «upa!»

 

Agora levantava a mão e acenava. Tinha os olhos fechados. Estava a sonhar. Talvez estivesse a dizer adeus para a mulher e para o médico, quando os deixava no alpendre a conversar sobre questões médicas. «As entranhas das mulheres» ' dissera uma vez Charley Fortnum, «nunca as entendi. Um dia tem de me desenhar um diagrama. »

 

O doutor Plarr tornou rapidamente para a sala exterior.

 

- Ele está bom, León. Deixa-o cair algures na berma da estrada para a Polícia o encontrar.

- Não podemos fazer isso. Ele talvez te tivesse reconhecido.

- Está a dormir profundamente. De qualquer modo nunca diria nada contra mim. Somos velhos amigos.

- Acho que já sei o que deve ter acontecido - disse o padre Rivas. - A informação que nos deste era correcta até certo ponto. O embaixador vinha de Buenos Aires de automóvel, gastava três noites no caminho porque queria ver o campo, e a Embaixada enviava um avião de Buenos Aires para o levar depois do jantar do governador. Todos estes pormenores estavam certos, mas nunca nos disseste que o teu cônsul ia com ele às ruínas.

- Não sabia. Ele falou-me do jantar, nada mais.

 

- Se ao menos fosse no carro do embaixador, tínhamos apanhado os dois. Mas deve ter levado o seu próprio carro e partido enquanto o embaixador ainda se demorava. Os nossos homens só esperavam que passasse um carro. O posto avançado acendeu o sinal quando este passou, porque vira a bandeira.

 

- O pavilhão britânico, não as estrelas e as faixas.

 

Charley não tinha sequer o direito de desfraldar essa mesma bandeira.

- No escuro não se via bem e tinham-lhe dito o número da placa diplomática.

- Era CC, não CD.

- As letras parecem-se, de noite, num carro em andamento. Não o podemos censurar. Sozinho no escuro... talvez assustado. Podia ter acontecido comigo ou contigo. Uma fatalidade.

- A Polícia ainda não sabe com certeza o que sucedeu a Fortnum. Se te desfizeres dele depressa...

Diante do silêncio atento dos outros, o doutor Plarr sentiu-se como uma testemunha de defesa num tribunal. Disse:

- Charley Fortnum não vos serve como refém.

- É membro do corpo diplomático - retorquiu Aquino.

- Isso é que não é. Um cônsul honorário não é propriamente um cônsul.

- O embaixador britânico teria de intervir.

- Claro. Mandaria a notícia para a pátria. Tal como sucederia com outro qualquer britânico. Se vocês me raptassem a mim ou ao velho Humphries, seria o mesmo.

- Os Britânicos pedirão aos Americanos que façam pressão sobre o general em Asunción.

- Podes ter a certeza de que os Americanos não farão nada disso. E para quê? Não desejam irritar o seu amigo general por causa de Charley Fortnum.

- Mas ele é um cônsul britânico.

O doutor Plarr começava a desesperar de os convencer da pouca importância que tinha Charley Fortnum. Disse:

- Ele nem sequer tinha o direito de pôr CC no seu carro. Teve problemas por causa disso.

- Tu conhece-lo bem, parece - observou o padre Rivas.

- Conheço.

- E gostavas dele?

- Sim, de certo modo.

- Mau sinal, León, falar de Fortnum já no pretérito.

- Peço desculpa. Compreendo como te deves sentir. É sempre melhor lidar com estranhos. Como no confessionário.

 

Detestava quando reconhecia a voz. É muito mais fácil ser-se duro com um estranho.

- Que ganhas em o reter, León?

- Atravessámos a fronteira para fazer um trabalho. Uma porção de pessoas ficaria desanimada, se nada acontecesse. Na nossa situação tem sempre de acontecer alguma coisa. O rapto de um cônsul já é alguma coisa.

- Um cônsul honorário - corrigiu o doutor Plarr.

- É um aviso para pessoas mais importantes. Talvez levem a sério a nossa próxima ameaça. É uma pequena posição táctica ganha numa longa guerra.

O doutor Plarr disse:

- Então suponho que estás preparado para ouvir a confissão de um estranho e dar-lhe a absolvição, antes de o matares... Charley Fortnum é católico, sabes? Deve apreciar ter um padre junto ao seu leito de morte.

O padre Rívas dirigiu-se ao negro:

- Dá-me um cigarro, Pablo.

- E ficará ainda mais contente com um padre casado como tu, León.

- Eduardo, tu querias ajudar-nos.

- Sim, no caso do embaixador. A vida dele não estaria em perigo. Eles ter-se-iam rendido. De qualquer modo, um americano... é um combatente. Os Americanos têm matado muitos homens na América do Sul.

- O teu pai está entre os que tentamos ajudar... se ainda estiver vivo.

- Não sei se ele gostaria do vosso método.

- Não escolhemos o método. Eles reduziram-nos a isto.

- Que diabo podes pedir em troca de Charley Fortnum? Talvez uma caixa de verdadeiro Scotch?

- Pelo embaixador americano teríamos pedido a liberdade de vinte presos. Por um cônsul britânico reduziremos a conta a metade. Isso é com El Tigre.

- Onde diabo está o vosso El Tigre?

- Só os de Rosário estão em contacto com ele até a operação acabar.

- Penso que o programa dele não toma em conta enganos Nem a natureza humana. O general pode matar os homens que tu nomeares e dizer que morreram há anos.

- Temos discutido esse assunto muitas vezes. Se eles os matarem, as nossas exigências serão maiores da próxima vez.

- León, escuta-me. Se tiveres a certeza de que Charley Fortnum não se lembra de nada...

- Como podemos ter a certeza? Não há drogas para apagar a memória. Ele significa assim tanto para ti, Eduardo?

- É uma voz que reconheci no confessionário.

- Ted... - uma voz familiar chamava do quarto interior. - Ted...

- Vês - disse o padre Rivas. - Ele conhece-te.

Voltando as costas aos presentes, o doutor Plarr atravessou a porta.

- Charley, estou aqui. Como se sente?

- Meu Deus, terrível, Ted! Que aconteceu? Onde é que eu estou?

- Teve um acidente com o carro. Nada de grave.

- Vai levar-me para casa?

- Não já. Precisa de estar deitado sem se mexer durante um tempo. Ás escuras. Sofreu uma comoção.

- Clara vai ficar aflita.

- Não se preocupe. Eu falo com Clara.

- Não a deve incomodar, Ted. A criança...

- Eu sou o médico dela, Charley.

- Claro, meu amigo. Muito tolo eu sou! Ela poderá ver-me?

- Dentro de alguns dias já você está em casa.

- Alguns dias! Tem aí uma bebida, Ted?

- Não. Vou-lhe dar algo melhor... para dormir.

- Você é um bom amigo, Ted. Quem são esses homens aí fora? Porque é que usam archotes?

- Faltou a energia eléctrica. Quando acordar é dia.

- E vem-me visitar?

- Naturalmente.

Charley Fortnum calou-se por instantes. Depois perguntou numa voz que se devia ter ouvido claramente no outro aposento:

- Não foi mesmo um acidente, pois não, Ted?

- Claro que foi um acidente.

- Os óculos de sol... Que aconteceu aos óculos de sol?

- Que óculos?

-Eram de Clara. Ela gostava desses óculos de sol. Não lhos devia ter pedido emprestados. Não encontrava os meus. - Ergueu os joelhos de encontro ao peito e virou-se de lado com um longo suspiro. - A medida é que importa - disse, muito quieto, como um embrião idoso que nunca tivesse chegado a nascer.

 

Na sala, o padre Rivas estava sentado com o queixo sobre os dedos cruzados e os olhos fechados. «Quem sabe se a rezar?», pensou o doutor Plarr ao vir do quarto. Ou talvez a escutar com atenção as palavras de Charley Fortnum, tal como outrora escutava no confessionário a voz de um estranho, a fim de decidir a penitência que devia dar-lhe...

- Que estouvados vocês são! - acusou o doutor Plarr. Que amadores!

- Do nosso lado só há amadores. Os profissionais são os polícias e os soldados.

-Um cônsul honorário, e alcoólico, em vez de um embaixador.

- Que admira? Aqui ninguém tem máquinas fotográficas nem jornais. Aprendemos com os nossos próprios erros.

- O teu motorista tem de me levar a casa - disse o doutor Plarr.

- Está bem.

- Volto amanhã...

- Não precisamos mais de ti, Eduardo.

- Talvez tu não precises, mas...

-É melhor ele não te tornar a ver, antes de decidirmos...

- León - disse o doutor Plarr -, não estás a falar a sério. O velho Charley Fortnum...

-Não está nas nossas mãos, Eduardo - replicou o padre Rivas -, mas nas mãos dos governos. Nas de Deus, também. Não esqueço o meu velho charlatanismo, já reparaste, mas ainda não vi qualquer sinal de que Ele interfira nas nossas guerras ou na nossa política.

 

O doutor Plarr recordava-se bem da primeira vez em que vira Charley Fortnum. Fora algumas semanas depois de chegar de Buenos Aires. O cônsul honorário estava muito bêbado e perdera o andar. Ia o doutor Plarr para o Bolívar quando um velhote se debruçou da janela do Clube Italiano a pedir-lhe ajuda.

 

- O maldito do empregado foi para casa - explicou, falando inglês.

 

Quando o doutor Plarr entrou no clube viu um bêbado que parecia perfeitamente satisfeito, só que não se podia erguer, embora isso pouco lhe importasse. Dizia que se sentia muito confortável no chão.

 

- já me sentei em coisas piores, incluindo cavalos.

 

- Se lhe pegar por um braço - disse o velhote - eu pego-lhe pelo outro.

 

- Quem é ele?

 

- O cavalheiro que aí vê sentado no chão e se recusa a erguer-se é Mr. Charley Fortnum, o nosso cônsul honorário. Você é o doutor Plarr, não é? Prazer em conhecê-lo. Eu sou o doutor Humphries. Doutor em letras, não em medicina. Nós os três, por assim dizer, somos os pilares da colónia inglesa, mas um dos pilares caiu.

 

Fortnum disse:

 

- A medida era errada - acrescentando qualquer coisa acerca do copo. - Ou usamos a medida certa ou fazemos confusões

- Ele está a comemorar algum acontecimento? - perguntou o doutor Plarr.

 

- O seu Cadillac novo chegou a semana passada e ele hoje encontrou um comprador.

 

- Estiveram a comer aqui?

 

- Fortnum queria que fôssemos ao Nacional, mas é bêbado de mais para o Nacional, ou até para o meu hotel. Temos agora de o levar a casa de qualquer maneira, mas ele insiste em ir visitar a Señora Sanchez.

 

- Uma amiga?

 

- Amiga de metade dos homens desta cidade. Dirige o único bordel decente aqui... ou pelo menos é o que dizem. Não sei muito disso.

 

- Essas casas são ilegais - retorquiu o doutor Plarr.

 

- Não nesta cidade. Somos um centro militar, não se esqueça. Os militares não permitem que ninguém de Buenos Aires lhes dê ordens aqui.

 

- Porque não o deixa ir?

 

- Não vê que ele não se pode levantar?

 

Bem, o que importa num bordel é deitar-se...

 

Alguma coisa tem de se levantar - replicou o doutor Humphries com inesperada grosseria e uma expressão de fastio.

 

Finalmente arrastaram Charley Fortnum no meio deles para o outro lado da rua até ao quartinho que o doutor Humphries ocupava no Hotel Bolívar. Havia menos gravuras nas paredes, então, porque as manchas da humidade eram menos, e o chuveiro ainda não tinha começado a pingar.

 

Os objectos inanimados mudam muito mais depressa do que os seres humanos. O doutor Humphries e Charley Fortnum, nessa noite, não eram perceptivelmente diferentes de agora; uma fenda no estuque de uma casa mal cuidada cresce mais depressa do que uma ruga num rosto, as pinturas mudam de cor mais rapidamente do que o cabelo, e a ruína de uni quarto é contínua: não pára temporariamente nesse planalto da velhice onde um homem pode viver muito tempo sem mudança aparente. O doutor Humphries tinha-se estabelecido no planalto durante muitos anos, e Charley Fortnum, embora num dos socalcos inferiores, descobrira uma arma segura na luta contra a senilidade - encontrando no álcool certa alegria e ingenuidade da juventude. A medida que os anos passavam, o doutor Plarr notava pouca alteração em qualquer um dos seus primeiros conhecimentos - talvez Humphries caminhasse mais devagar entre o Bolívar e o Clube Italiano, e por vezes parecia-lhe descobrir em Charley Fortnum sinais de melancolia, como bolor na sua bonomia bem engarrafada.

 

O doutor Plarr deixou Fortnum com Humphries no Hotel Bolívar e foi buscar o seu carro. Vivia no mesmo apartamento e no mesmo edifício que presentemente habitava. Havia ainda luzes no porto onde os operários trabalhavam toda a noite. Numa barcaça chata, no Paraná, tinham montado uma torre de metal donde uma vara de ferro batia no fundo do rio. Pum, pum, pum, o barulho ecoava como tambores tribais. De uma segunda barca partiam tubos ligados a um motor por baixo da água, que aspiravam o cascalho do leito do rio enviando-o à pressa e a matraquear para uma enseada a meia milha de distância. O governador, nomeado pelo novo presidente depois do golpe de Estado desse ano, estava a planear tornar o porto mais fundo para que pudesse abrigar ferries de maior potência, da costa do Chaco, e recebesse, da capital, barcos de passageiros maiores. Quando, após um segundo golpe militar, desta vez em Córdoba, foi demitido do cargo, abandonaram a ideia, em benefício do sono do doutor Plarr. Dizia-se que o governador do Chaco não estava preparado para gastar o dinheiro necessário para escavar o seu lado do rio, e os barcos de passageiros da capital eram já bastante grandes na estação seca para subir para além da cidade, onde os viajantes, de qualquer modo, tinham de ser transferidos para barcos mais pequenos a fim de seguirem rumo à República Paraguaia, no Norte. Difícil dizer quem fizera o erro inicial, se erro fora. A pergunta cui bono? não se dirigia a nenhum indivíduo, visto todos os empreiteiros terem beneficiado e todos indubitavelmente haverem partilhado os seus benefícios com outros. As obras do porto, antes de serem suspensas, tinham sido muito vantajosas: eram responsáveis por um belo piano numa casa, um frigorífico na cozinha de alguém, e talvez que na adega de alguns pequenos sub-empreiteiros, onde até aí os espíritos pouco se conheciam, houvesse uma ou duas dúzias de caixas de Scotch nacional.

 

Quando o doutor Plarr tornou para o Hotel Bolívar encontrou Charley Fortnum a beber café forte feito num fogareiro instalado num lavatório de tampo de mármore, ao lado da saboneteira e do copo dos dentes do doutor Humphries. Fortnum tornara-se entretanto mais coerente e era cada vez mais difícil dissuadi-lo de visitar a Señora Sanchez. Dizia:

 

- Há lá uma rapariga, uma verdadeira rapariga! Não o que vocês podem pensar. Preciso de a ver outra vez. Da última vez eu não estava em forma...

 

- Nem agora está em forma - replicou Humphries.

 

- Você não entende nada. Só quero conversar com ela. Não somos todos uns luxuriosos, Humphries. Maria tem certa qualidade. Não pertence...

 

- É uma prostituta como as outras - respondeu o doutor Humphries, pigarreando.

 

O doutor Plarr bem depressa havia de saber que, sempre que Humphries desaprovava alguma coisa, a garganta se lhe obstruía.

 

- Pois aí é que vocês se enganam - disse Charley Fortnum, embora o doutor Plarr não tivesse exprimido a sua opinião. - Ela é diferente das outras. Tem uma espécie de requinte. A família é de Córdoba. Corre-lhe bom sangue nas veias ou eu não sou Charley Fortnum. Sei que vocês me consideram maluco, mas há na rapariga qualquer coisa... bem... quase virginal.

 

- E você é o cônsul, aqui, honorário ou não. Fica-lhe mal descer tão baixo.

 

- Respeito a rapariga - tornou Charley Fortnum. - Respeito-a, mesmo quando durmo com ela.

 

- Nem pode fazer outra coisa esta noite...

 

Após um pouco mais de persuasão, Fortnum consentiu em ir para o carro do doutor Plarr.

 

Aí ficou calado por um tempo, enquanto o queixo lhe abanava ao ritmo do movimento do motor.

 

Depois disse:

 

- Creio que uma pessoa envelhece. Você é novo. Não sofre com memórias tristes, com remorsos... É casado?

 

perguntou abruptamente ao subirem para San Martíri.

 

- Não.

 

- Eu fui casado. Há vinte e cinco anos... Agora parece-me um Século. Não resultou. Era uma intelectual, se assim se pode chamar. Não compreendia a natureza humana - desviou-se, por uma associação de ideias que ~i doutor. Plarr não pode seguir, para a sua actual condição. ~ Sempre me sinto mais humano depois de beber mais de metade de uma garrafa. Um pouco menos de metade não vale a pena mas um pouco mais... Claro que o efeito não dura. No entanto, meia hora de uma sensação realmente boa vale a tristeza que se lhe segue.

 

- Está a falar de vinho? - perguntou o doutor Plarr, incrédulo. Não acreditava que Fortnum tivesse sido tão moderado.

 

- Vinho, uísque, gin, é tudo o mesmo. A medida é que

conta. Há algo de psicológico na medida. Menos de metade de uma garrafa e Charley é um pobre e solitário filho da mãe só com o «orgulho de Fortnum» como companhia.

 

- O«Orgulho de Fortnum»?

 

- O meu orgulhoso e bem tratado corcel. Mas um copo além da meia garrafa; qualquer copo, mesmo um copo de licor, a medida é que conta; e Charley Fortnum é outra vez ele mesmo. Pronto para as fidalguias. Sabe, fui uma vez a um Piquenique com uns nobres, entre as ruínas, bebemos os três duas garrafas, e foi um dia... Posso contar-lhe. Mas isso é outra história. Como a do capitão Izquierdo. Lembre-me um dia para lhe contar do capitão Izquierdo.

 

Era muito difícil para um estranho seguir as ideias de Charley Fortnum.

 

- Onde é o Consulado> Na primeira curva à esquerda?

 

- Sim, mas pode entrar na segunda ou na terceira e dar uma pequena volta. Estou a gostar da sua companhia, doutor, Como disse que se chamava?

 

- Plarr.

 

- Sabe como me chamo?

 

- Sei.

 

- Mason julgava...

 

Era como me chamavam na escola. Mason. Fortnum e Mason, os gémeos inseparáveis. A melhor escola inglesa em Buenos Aires. A minha carreira, todavia, não chegou a ser distinta. Uma boa expressão esta de «sair tão distinto... tão bem». A medida certa, sabe. Nem de mais nem de menos, Nunca me nomearam prefeito, e a equipa do jogo de berlindes foi a única que fiz. Não reconhecida oficialmente. Éramos uma escola snob. Apesar de tudo, o reitor, não o que eu conhecia, esse era Arden (chamávamos-lhe Smells), mas o novo reitor, escreveu-me uma carta de parabéns quando fui nomeado cônsul honorário. Claro que eu escrevi-lhe primeiro a dar-lhe a boa notícia, daí ele não me poder ignorar de todo.

 

- É capaz de me dizer quando chegamos ao Consulado?

 

- Já passámos por ele, meu amigo, mas não se importe. Tenho a cabeça lúcida. Dê mais uma volta. Primeiro para a direita e depois para a esquerda. Sinto-me capaz de andar assim toda a noite. Em companhia simpática. Não preste atenção aos sinais de sentido único. Privilégio diplomático. CC no carro. Estou a falar para si, doutor, como não falo para nenhum outro homem desta cidade. Espanhóis. Gente orgulhosa, mas sem sentimentos. Não como os Ingleses. Sem amor ao lar. Chinelas, os pés em cima da mesa, o copo amigo, a porta sempre aberta. Humphries não é mau tipo; é inglês como você e como eu, ou é escocês?, mas tem uma alma de pedagogo. Outra boa palavra, esta. Anda sempre a tentar corrigir a minha moral, e no entanto não cometo muitos erros, erros propriamente ditos. Esta noite, se estou um pouco mijado, foi culpa dos copos. E o seu nome próprio, doutor?

 

- Eduardo.

 

- Mas supunha que era inglês!

A minha mãe é paraguaia.

Chame-me Charley. Importa-se que lhe chame Ted?

 

Chame-me o que quiser, mas, por amor de Deus, diga-me onde é o Consulado.

 

- Na primeira esquina. Mas não espere ver grandes coisas. Nada de vestíbulo de mármore nem lustres nem palmeiras em vasos. Apenas a morada de um solteirão; um escritório, um quarto de dormir; como usualmente. O melhor que esses malandros são capazes de dar. Não há orgulho nacional. Poupam no farelo para gastar na farinha. Você deve é ir à minha fazenda. Aí é que tenho o meu verdadeiro lar. Quase mil acres. Oitocentos, pelo menos. A melhor qualidade de mate do país. Podíamos ir lá agora ... fica só a três quartos de hora daqui. Um bom sono e depois ... Tenho lá verdadeiro Scotch.

 

- Esta noite, não. Preciso de visitar alguns doentes logo de manhã.

 

Pararam junto de uma velha casa colonial com colunas coríntias; o estuque branco resplandecia no escuro. No primeiro andar projectava-se um pau de bandeira e havia um escudo com as armas reais. Charley Fortnum baloiçou um bocado no passeio. a olhar para cima. Perguntou:

 

É verdade?

 

O que é verdade?

 

O pau da bandeira. Não está demasiado inclinado?

 

Acho bem.

 

Gostava que tivéssemos uma bandeira mais simples em vez do Pavilhão britânico. Uma vez, no aniversário da rainha, pendurei-o ao contrário. A mim a coisa parecia bem, mas Umphries zangou-se. Disse que ia escrever ao embaixador. Suba para beber um copo.

 

- Tenho de ir para casa... Se se puder arranjar sozinho.

 

- Prometo-lhe que é verdadeiro Scotch. Compro Long John na Embaixada. Lá todos preferem Haig. Mas Long John dá-nos um copo de graça com cada garrafa. Copos bem bonito' com as medidas marcadas. Para mulheres, homens, e capitães de navios. Naturalmente conto-me a mim próprio como capitão de navio. Tenho dúzias desses copos de Long John, na quinta. Gosto deste nome: capitão de navio. Melhor do que só capitão, que não passa de um termo militar.

 

Como era de esperar, atrapalhou-se com a chave, mas à terceira vez conseguiu abrir. A cambalear na soleira da porta fez um discurso, sob as colunas coríntias, enquanto o doutor Plarr esperava impacientemente, no passeio, que ele terminasse.

 

- Foi uma noite muito agradável, Ted, apesar de o goulash ser uma porcaria. É bom falar de vez em quando a língua natal; enferruja-se por falta de uso; a língua que Shakespeare falou. Não julgue que estou sempre tão contente como hoje, mas a medida é que conta. Momentos de melancolia, também, na companhia de um amigo. E lembre-se disto: sempre que precisar de um cônsul, Charley Fortnum está à sua disposição. à disposição de qualquer inglês. Ou escocês ou galês. Temos todos algo em comum. Pertencemos todos ao outrora Reino Unido. A nacionalidade é qualquer coisa mais espessa do que a água, embora «espesso» seja uma palavra desagradável. Faz pensar em coisas que é melhor esquecer e perdoar. Deram-lhe xarope de figos em criança? Suba por aqui a cima. A porta do meio no primeiro andar, mas repare na grande placa de latão. O trabalho que dá polir uma placa de latão! Cuidar do «Orgulho de Fortnum» não é nada à vista disso.

 

E, recuando para o vestíbulo às escuras, desapareceu do vista.

 

O doutor Plarr guiou rumo a casa, para o edifício novo, amarelo, para o barulho do cascalho a subir nos tubos e o gemido dos guindastes ferrugentos. Parecia-lhe, já deitado na cama e a tentar dormir, que nos anos que se seguiriam não havia de ter muitas afinidades com o cônsul honorário.

 

Embora o doutor Plarr não tivesse pressa em reatar relações com Charley Fortnum, um mês ou dois depois do seu primeiro encontro recebeu certos documentos que deviam ser certificados por um cônsul britânico.

 

A sua primeira tentativa para falar com o cônsul não foi bem sucedida. Chegou ao Consulado cerca das onze horas da manhã. o pavilhão britânico flutuava ao vento cálido e seco do Chaco. Começava a perguntar a si próprio porque seria que a bandeira estava içada quando se lembrou de que era o dia do aniversário do armistício da penúltima guerra mundial. Tocou a campainha e percebeu que um olho o espiava através do óculo da porta. Deixou-se ficar dentro da claridade para que o inspeccionassem, e logo uma mulherzinha escura -com um grande nariz abriu a porta de par em par. A mulher fitava-o com o olhar preocupado de uma ave de rapina acostumada a observar de longe um ponto que lhe indicasse carne podre; talvez se espantasse de ver a carne tão perto e ainda viva. Disse que o cônsul não estava. Que não o esperava. No dia seguinte?... Talvez. Não tinha a certeza. Ao doutor Plarr tudo aquilo lhe parecia pouco próprio de um Consulado.

 

Depois de uma hora de sesta a seguir ao almoço, o doutor Plarr voltou ao Consulado de caminho para alguns doentes no bairro popular. Ficou agradavelmente surpreendido quando o próprio Charley Fortnum lhe abriu a porta. O cônsul tinha falado de momentos de melancolia, no seu primeiro encontro. Talvez estivesse num desses momentos. Olhava para o médico com um franzir de sobrancelhas que era ao mesmo tempo defensivo e admirado, como se uma lembrança desagradável lhe impressionasse o subconsciente.

 

- Que deseja?

 

- Sou o doutor Plarr.

 

- Plarr?

 

- Conhecemo-nos uma noite, na companhia de Humphries.

 

- Ah, sim. Claro. Entre.

 

Três portas davam para um corredor escuro e por trás de uma delas vinha o cheiro de pratos por lavar. Talvez uma outra indicasse um quarto de dormir. A terceira estava aberta e Fortnum disse-lhe que entrasse. Uma secretária, duas cadeiras, uma papeleira, um cofre, um reprodução em cor do retrato da rainha por Annigoni, com o vidro rachado. A secretária estaria completamente vazia se não fosse um calendário de pé com o reclamo de um chá argentino.

 

- Peço desculpa de o incomodar - disse o doutor Plarr -; vim cá de manhã...

 

- Não posso estar sempre aqui. Não tenho ajudante. Há uma porção de obrigações oficiais... Sim, estava com o governador. Em que lhe posso ser útil?

- Tenho uns documentos que precisam de ser autentificados.

- Mostre-mos.

Sentando-se pesadamente, Fortnum começou a abrir gavetas. De uma tirou um mata-borrão, da outra papel e sobrescritos, de uma terceira um carimbo e uma esferográfica. Principiou a dispô-los sobre a secretária como se se tratasse de peças de xadrez. Mudou a posição do carimbo e da pena talvez que, inadvertidamente, tivesse posto a rainha no lugar do rei. Leu os documentos com aparente atenção, mas os olhos traíam-no - via-se que as palavras não lhe diziam nada -, depois esperou que o doutor Plarr assinasse. Então carimbou os papéis e assinou: Charles Q. Fortnum.

- Cem pesos. Não pergunte o que é o Q. Guardo segredo.

Não passou recibo, mas o doutor Plarr pagou sem objecção.

O cônsul disse:

-Tenho uma forte dor de cabeça. Bem sabe, o calor, a humidade. Um clima danado, este. Deus sabe porque meu pai preferiu viver e morrer aqui. Porque não se fixou ele no Sul? Ou noutra parte qualquer menos aqui?

- Se se sente assim mal, porque não vende tudo e parte?

- Demasiado tarde. Vou fazer sessenta e um no próximo ano. Que se pode fazer aos sessenta e um anos? Tem aí alguma aspirina, Plarr?

- Sim. Tem água?

- Dê-ma assim mesmo. Eu como-a. Dá resultado mais rápido - mastigou a aspirina e pediu outra.

- Não acha o gosto desagradável?

- A gente habitua-se. Se vamos a isso também não gosto do sabor da água aqui. Meu Deus, sinto-me mesmo mal, hoje.

 

- Talvez fosse bom ver-lhe a tensão arterial. Porquê? Acha que pode estar alta?

- Não, mas, na sua idade, é sempre bom verificar.

- Não é a minha tensão arterial que está mal, é a vida. Excesso de trabalho?

- Não precisamente. Mas o embaixador é novo... e maça-me.

- Com quê?

- Quer um relatório da indústria do mate nesta província. Para quê? Ninguém bebe mate. Nunca, provavelmente, ouviram falar disso. Mas tenho de trabalhar durante uma semana, andar por estradas más, e depois esses - tipos da Embaixada espantados por eu importar um carro novo de dois em dois anos. Tenho esse direito. Direito diplomático. Pago para isso, e, se o vendo outra vez, é comigo, não com o embaixador. O orgulho de Fortnum» é mais seguro nestas estradas. Não me pagam nada por ele e no entanto uso-o em serviço. Que bando de malandros eles são, Plarr, lá na Embaixada. Até discutem a renda que pago por este escritório.

utor Plarr abriu a pasta.

- Que é isso?

- Julgava que tinha concordado em deixar medir a tensão arterial,

- Então é melhor irmos para o quarto. Não quero que a criada possa entrar e ver. Espalhava-se pela cidade que eu estava moribundo. E vinham logo as contas.

O quarto de dormir era quase tão nu como o escritório. A cama fora desfeita durante a hora da sesta e havia uma almofada no chão ao lado de um copo vazio. A fotografia de um homem com um grande bigode e de fato de montar pendia por cima da cama como um substituto da rainha. O cônsul sentou-se sobre a coberta amarrotada e desnudou o braço. O doutor Plarr começou a encher de ar a ligadura de borracha.

- Parece-lhe que estas dores de cabeça são sinal de que não estou bem?

O doutor Plarr observava o mostrador. Disse:

- Acho que beber muito, na sua idade, não está bem.

 

E soltou o ar do aparelho.

- Dores de cabeça é doença da família. O meu pai tinha dores de cabeça terríveis. Morreu de repente. Um ataque, É aquele ali em cima. Era um grande cavaleiro. Queria que eu também o fosse, mas nunca pude suportar as estúpidas cavalgaduras.

- Julgava que me disse que tinha um cavalo. «Orgulho de Fortnum», não foi?

- Oh, não é um cavalo, é um Land Rover. Nunca me apanham em cima de um cavalo. Diga-me o pior, Plarr.

- Estes aparelhos nunca dizem o pior... nem o melhor. De qualquer modo, você tem a tensão um pouco alta. Vou-lhe dar uns comprimidos, mas não podia tirar um bocado à bebida?

- Era o que os médicos recomendavam ao meu pai. Uma vez ele disse-me que bem podia pagar a um bando de papagaios para palrarem a mesma coisa. Creio que saio ao velhote... excepto quanto aos cavalos. Tinha-lhes medo. Ele zangava-se. Dizia: «Tens de dominar o medo, Charley, senão o medo é que te domina.» Qual é o seu outro nome, Plarr?

- Eduardo.

- Eu sou Charley para os amigos. Importa-se que lhe chame Ted?

- Se assim quer.

Sem beber, Charley Fortnum tinha alcançado o mesmo grau de intimidade da última ocasião, embora por um caminho mais longo. O doutor Plarr perguntava a si mesmo quantas vezes, caso as suas relações continuassem, teriam de calcorrear o mesmo trilho antes de chegarem à derradeira etapa de «Charley» e «Ted».

- Sabe, há só mais outro inglês nesta cidade. Um tipo chamado Humphries, um professor de inglês. Conhece-o?

- Estivemos todos juntos uma noite. Não se lembra? Trouxe-o a casa.

O cônsul honorário olhou para o médico com uma expressão muito próxima do medo.

- Não, não me lembro. Absolutamente nada. É mau sinal?

 

-Ora, isso acontece a todos nós quando estamos bêbados.

-Quando o vi à porta, pensei, por momentos, que me recordava do seu rosto. Daí ter-lhe perguntado o nome. Julguei que lhe tivesse comprado qualquer coisa e esquecido de pagar, Tenho de me tornar um pouco mais sóbrio, não acha? Durante algum tempo, pelo menos.

- Não lhe fazia mal nenhum.

- Certas coisas ficam-me, mas sou como o velhote... Ele costumava esquecer-se muito, também. Uma vez, tinha eu caído do cavalo que se empinara, só para me experimentar (refiro-me ao animal). Andava pelos seis anos, o cavalo sabia que eu era uma criança, foi mesmo ao pé de casa, e o meu pai estava sentado sob o alpendre. Assustei-me, com medo que ele se zangasse, mas o que mais me impressionou foi ele olhar para mim caído no chão e não saber quem eu era. Não estava nada zangado, mas espantado e aflito, e voltou para a sua cadeira e pegou outra vez no copo. Então dei a volta pela cozinha (o cozinheiro era meu amigo) e não quis saber mais do maldito cavalo. Agora compreendo. Também sofro do mesmo. Ele esquecia-se das coisas quando estava bêbado. É casado, Ted?

- Não.

- Eu fui casado.

- Já me disse.

- Fiquei contente quando nos separámos, mas, mesmo assim, gostava que tivéssemos tido um filho. Se não há filhos, a culpa é geralmente do homem, não é?

- Não. Pode ser de um ou de outro.

- De qualquer modo, agora estou estéril, não estou?

- Esta agora! A idade não torna os homens estéreis.

- Se eu tivesse um filho, não o obrigaria a dominar o medo, como fazia o meu pai. Faz parte da natureza humana, o medo, não é verdade? Se dominamos o medo, constrangemos a própria natureza. O medo é factor natural do equilíbrio. Li num livro que, se matássemos todas as aranhas do mundo, sufocaríamos sob o peso das moscas. Tem um filho, Ted?

 

O nome «Ted» irritava o doutor Eduardo Plarr, que respondeu:

- Não. Mas oiça: se me quer chamar pelo nome do baptismo, gostava que me chamasse Eduardo.

- Mas você é tão inglês como eu.

- Só meio inglês e essa metade está na prisão ou morta.

- O seu pai?

- Sim.

- E a sua mãe?

- Vive em Buenos Aires.

- Tem sorte. Tem alguém para quem viver. A minha mãe morreu quando nasci.

- Isso não é razão para se destruir com álcool.

- Não é esse o motivo, Ted. Mencionei - a minha mãe por acaso. Para que serve um amigo se não podemos conversar com ele?

- Um amigo não é geralmente um bom psiquiatra.

- Você parece-me um homem duro, Ted. Nunca amou ninguém?

- Depende daquilo a que chama «amor».

- Você analisa demasiado. Defeito dos jovens. Costumo dizer: não levantem tantas pedras porque nunca sabem o que vão encontrar por baixo.

- A minha profissão é levantar pedras - disse o doutor Plarr. - Adivinhar não basta para fazer um diagnóstico.

- E qual é o seu diagnóstico?

- Vou passar-lhe uma receita, mas não lhe fará bem nenhum se não cortar com as bebidas.

Voltou ao escritório do cônsul. Estava irritado por haver perdido tempo. Podia ter visitado três ou quatro doentes do bairro pobre da cidade enquanto estivera a escutar as lamentações do cônsul honorário. Saiu do quarto, sentou-se à secretária e escreveu a receita. A mesma sensação de tempo perdido de quando visitava a mãe em Buenos Aires e a ouvia queixar-se de dores de cabeça e de solidão na melhor pastelaria da cidade, diante de um prato cheio de éclairs. Insinuava sempre que tinha sido abandonada pelo marido, porque o primeiro dever de um marido era a esposa e o filho e ele devia ter fugido com eles.

Charley Fortnum, que vestia o casaco no quarto chamou:

- Vai-se embora?

-Vou. Deixei a receita em cima da escrivaninha.

- Para quê tanta pressa? Fique para uma bebida.

- Tenho doentes a visitar.

- Bem, eu também sou um doente, não é verdade?

- Mas não o mais importante. A receita não é renovável. Tem comprimidos que chegam para um mês, e depois veremos.

 

O doutor Plarr fechou a porta do Consulado com uma sensação de alívio, o alívio que sempre sentia ao deixar finalmente a mãe depois de uma visita ao seu apartamento na capital. O tempo não lhe chegava para o desperdiçar com tipos incuráveis.

 

 

Passaram-se quase dois anos até o doutor Plarr visitar pela primeira vez o estabelecimento tão habilidosamente dirigido pela Señora Sanchez, e desta vez não foi na companhia do cônsul honorário. Foi lá com o seu amigo e doente, o romancista doutor Jorge Júlio Saavedra. Saavedra, como ele próprio explicara sobre um prato de carne dura como sola no Nacional, era um homem que acreditava nas vantagens de seguir uma severa disciplina. Quem o observasse podia tê-lo adivinhado pela aparência, que era elegante, de um cinzento uniforme, cabelo cinzento, fato cinzento, gravata cinzenta, Mesmo no calor nortenho vestia o colete bem talhado e assertoado que costumava usar nos cafés da capital. O seu alfaiate lá, disse-o ao doutor Plarr, era inglês. «É capaz de não acreditar, mas não compro um fato há dez anos.» Quanto à disciplina do trabalho: «Escrevo quinhentas palavras por dia depois do pequeno-almoço. Nem mais nem menos. »

 

O doutor Plarr era um bom ouvinte. Tinha-se treinado a ouvir. A maior parte dos seus doentes da classe média estavam acostumados a gastar pelo menos dez minutos para explicar um simples ataque de gripe. Só no bairro dos pobres é que encontrava o sofrimento silencioso, sofrimento sem vocabulário para explicar o grau da dor, a sua posição ou a sua natureza. Nessas cabanas de lama ou de lata onde os doentes frequentemente jaziam, sem qualquer cobertura, no chão sujo, tinha de fazer o diagnóstico por um estremecimento da pele ou um nervoso pestanejar.

 

- A disciplina - repetia Jorge Julio Saavedra - para mim é mais necessária do que para outros escritores mais fáceis. Sabe, eu tenho um demónio onde os outros têm talento Invejo-lhes o talento. O talento é favorável. Um demónio é destrutivo. Não pode imaginar o que sofro quando escrevo Imponho a mim próprio, dia após dia, sentar-me, de pena na mão, e lutar pela expressão... Deve lembrar-se, no meu último livro, daquela personagem, Castillo, o pescador, que sustenta uma infindável guerra com o mar por insignificante recompensa. De certo modo, pode dizer-se que Castillo prefigura o artista. Uma agonia diária e o resultado: quinhentas palavras. Um bem pequeno ganho.

- Parece que me lembro de Castillo morrer de um tiro de revólver, num bar, para defender a filha zarolha de ser violada.

- Ah, sim. Ainda bem que reparou no símbolo ciclópico - disse o doutor Saavedra. - O símbolo da arte do romancista. Arte de um só olho, porque um olho concentra a visão. O escritor difuso tem sempre dois olhos. Inclui de mais; como a tela de um cinema. E o violador? Talvez represente esta minha melancolia que me ataca durante semanas, quando luto, horas a fio, pelo meu quinhão diário.

- Espero que os meus comprimidos o ajudem um pouco.

- Sim, ajudam um pouco, naturalmente, mas por vezes penso que é só a disciplina diária que me livra do suicídio - e o doutor Saavedra, com o garfo suspenso a caminho da boca, repetiu: - suicídio.

- Ora, ora... A sua fé não lho permitiria

- Nesses negros instantes, doutor, não tenho fé, nenhuma fé. En una noche oscura. Vamos abrir outra garrafa? Este vinho de Mendoza não é mau de todo.

 

Depois da segunda garrafa, o escritor revelou outra regra da sua disciplina auto-imposta, a visita semanal à casa da Señora Sanchez. Explicou que não era uma questão de acalmar o corpo para impedir que desejos importunos se interpusessem entre ele e o seu trabalho; na sua visita semanal aprendia muito da natureza humana. Na vida social da cidade não havia contacto entre as classes. Como podia um jantar com a Señora Escobar ou com a Señora Vallejo fornecer-lhe um conhecimento profundo da vida dos pobres? Carlota, a filha de Castillo, o heróico pescador, baseava-se numa rapariga que conhecera na casa da Señora Sanchez. Claro que ela tinha dois olhos. Era até notavelmente bonita, mas, ao escrever o seu romance, verificara que a beleza dela lhe dava uma forma falsa e banal; não condizia com a fria severidade da vida do pescador. Até o violador se tornou uma personagem convencional. Raparigas bonitas eram violadas a toda a hora em todo o lado, especialmente nos livros dos seus contemporâneos, esses escritores fáceis de indubitável talento.

 

Ao fim do jantar o doutor Plarr facilmente anuiu a acompanhar o romancista na sua visita disciplinar, embora o tentasse mais a curiosidade do que o desejo sexual. Saíram da mesa à meia-noite e partiram a pé. Ainda que a Señora Sanchez estivesse protegida pelas autoridades, era melhor não estacionar o carro à porta dela, não fosse um polícia quezilento tomar nota do número. Um acréscimo desses ao arquivo de alguém na Polícia podia um dia ser indesejável. O doutor Saavedra usava sapatos pontudos muito polidos e dava a impressão de coxear, porque virava um pouco os pés para dentro. Quase se esperava que, deixasse atrás de si pegadas de pássaro no passeio poeirento.

 

A Señora Sanchez, sentada numa cadeira de verga à porta de casa, fazia malha. Era uma mulher muito forte, com covinhas nas faces e um sorriso acolhedor onde a bondade estranhamente faltava; dir-se-ia tê-la esquecido algures, como se esquecem os óculos.

 

O romancista apresentou o doutor Plarr.

 

- Tenho sempre gosto em receber um médico - disse a Señora Sanchez. - O senhor doutor há-de apreciar como as raparigas estão bem tratadas. O nosso médico é o seu colega doutor Benevento. Pessoa muito simpática.

- Tenho ouvido falar nele, mas não o conheço - respondeu o doutor Plarr.

- Vem cá às quintas-feiras de tarde e as minhas raparigas gostam todas muito dele.

 

Transpuseram a entrada estreita e iluminada. Além da Señora Sanchez na sua cadeira de verga, não havia qualquer sinal que diferençasse o seu estabelecimento das outras casas na rua respeitável. Um bom vinho - pensou o doutor Plarr - não precisa de ramo à porta.

 

Uma casa muito diferente dos bordéis clandestinos que ele tinha ocasionalmente visitado na capital, onde pequenos quartos eram escurecidos por persianas fechadas e apetrechados de mobiliário burguês. Na casa da Señora Sanchez havia um agradável ar campesino. Um pátio airoso, do tamanho de um campo de ténis, estava cercado de pequenas celas. Ao sentar-se, o doutor Plarr ficou em frente de duas portas abertas e achou que as celas tinham um aspecto mais alegre, mais limpo e em melhor estado do que o quarto do doutor Humphries no Hotel Bolívar. Cada uma possuía um minúsculo santuário com uma vela acesa, o que dava ao interior asseado a atmosfera de um lar, mais do que de um lugar de negócio. Um grupo de raparigas estava sentado a uma mesa à parte, enquanto duas conversavam com homens novos, encostadas às colunas do alpendre que cercava o pátio. Não se viam sinais de desordem - era óbvio que a Señora Sanchez não os consentia, Ali podia-se descansar. Havia um homem sentado, sozinho, com um copo diante dele, e outro, vestido como um peón, de pé junto de uma das colunas, a observar as raparigas com uma expressão infeliz e invejosa (talvez não tivesse dinheiro nem para comprar uma bebida).

 

Uma rapariga chamada Teresa veio imediatamente saber o que o escritor desejava («Uísque», respondeu ele. «O brande não é de confiar»), e em seguida sentou-se com eles, sem ser convidada. O doutor Saavedra explicou:

 

- Teresa é natural de Salta - e abandonava a mão nas dela, como uma luva num bengaleiro. A rapariga virava-a de um lado e de outro, examinando-lhe os dedos como quem procurasse buracos. - Estou a pensar em situar o meu próximo romance em Salta.

 

- Oxalá que o seu demónio não insista em lhe dar só olho - observou o doutor Plarr.

 

- Está a rir-se de mim - disse Saavedra - porque frio faz ideia de como a imaginação de um escritor trabalha. Ele tem de transformar a realidade. Olhe para ela; esses grandes olhos castanhos, os pequenos seios túmidos, é bonita, não é?

 

Sorrindo, grata, Teresa arranhou-lhe a palma da mão com a unha.

 

- Mas o que representa ela? Não estou a planear uma história de amor para uma revista de senhoras. As minhas personagens devem simbolizar mais do que elas próprias. Tem-me ocorrido, por exemplo, que, talvez, só com uma perna...

- Uma rapariga só com uma perna pode ser mais facilmente violada.

- Não há violações na minha história. Mas uma beleza só com uma perna... não vê o significado disto? Pense no seu andar incerto, os seus momentos de desespero, os amantes que sentem que lhe fazem um favor quando dormem com ela uma noite. A sua obstinada fé num futuro melhor. Pela primeira vez estou a pensar em escrever um romance político.

- Político? - perguntou o doutor Plarr, bastante espantado.

 

A porta de uma cela abriu-se e saiu um homem. Este acendeu um cigarro, dirigiu-se a uma mesa, bebeu por um enorme copo. À luz da vela no oratório, o doutor Plarr viu uma rapariga magra a esticar as cobertas da cama. Arranjou o leito com cuidado, antes de sair, e reuniu-se às companheiras na mesa comunitária. Esperava-a um enorme copo de sumo de laranja. O peón, junto da coluna, fitava-a com toda a sua esfomeada cobiça.

 

- Aquele homem não a incomoda? - perguntou o doutor Plarr a Teresa.

- Que homem?

 

- O que está ali a olhar, sem fazer nada.

 

- Deixe-o olhar, não importa, pobre dele. Não tem dinheiro.

 

Estava a falar do meu romance político - tornou o doutor Saavedra, irritado, retirando a mão da de Teresa.

 

- Mas não compreendo porquê uma perna só.

 

- Um símbolo deste pobre país aleijado onde ainda esperamos...

- Os seus leitores compreenderão? Eu teria pensado qualquer coisa mais directa. Aqueles estudantes, o ano passado, em Rosário...

- Se queremos escrever um romance político de valor durável devemo-nos libertar de todos os pormenores que o datem. Assassínios, raptos, tortura nas prisões, são coisas que pertencem à nossa década. Mas eu não quero apenas escrever para os anos setenta...

- Os Espanhóis torturavam os seus prisioneiros há trezentos anos - murmurou o doutor Plarr, e, sem saber por que razão, olhou outra vez para a rapariga à mesa comunitária.

- Não vem comigo esta noite? - perguntou Teresa ao doutor Saavedra.

- Sim, sim, lá iremos. Estou aqui a conversar com o meu amigo sobre um assunto de grande importância.

 

O doutor Plarr notou na testa da outra rapariga, um pouco abaixo da linha do cabelo, um pequeno sinal cinzento, no sítio onde as raparigas hindus usam a marca escarlate da sua casta.

 

Jorge Julio Saavedra disse:

 

- Um poeta. O verdadeiro romancista deve ser sempre, é sua maneira, um poeta. O poeta lida com absolutos. Shakespeare evitou a política do seu tempo, as minúcias políticas. Não se interessou por Filipe de Espanha, por piratas como Drake. Serviu-se da história do passado para exprimir o que eu chamo a abstracção da política. Um escritor de hoje que queira representar a tirania não deve descrever as actividades do general Stroessner do Paraguai. Isso é jornalismo, não literatura. Tibério é um exemplo melhor para um poeta.

 

O doutor Plarr pensava como seria agradável levar a rapariga para o quarto. Apesar de não se deitar com uma mulher há mais de um mês, verificou quão facilmente a atenção sexual podia ser atraída por algo superficial como um sinal num lugar pouco comum!

 

- Com certeza que o doutor compreende o que eu quero dizer - perguntou severamente o romancista.

- Claro.

o doutor Plarr tinha certa repugnância em pisar imediatamente os trilhos de outro homem. Qual o intervalo - interrogava-se - que estaria preparado para aceitar? Meia hora? Uma hora? Ou simplesmente a ausência do seu antecessor, que já mandava vir outra bebida?

-Estou a ver que o assunto não lhe interessa de todo - disse o doutor Saavedra, desapontado.

-O assunto... desculpe-me... Bebi bastante esta noite...

- Falava de política.

-Mas claro que a política me interessa. Sou uma espécie de refugiado político. E o meu pai... Nem sequer sei se o meu pai é vivo. Talvez tivesse morrido. Talvez o matassem. Ou quem sabe se ele está encerrado numa esquadra da Polícia, algures, do outro lado da fronteira? O general não acredita em prisões para criminosos políticos. Deixa-os simplesmente apodrecer sozinhos em esquadras da Polícia, pelo país fora.

- É esse exactamente o meu ponto de vista, doutor. Claro que me compadeço do caso do seu pai, mas como posso fazer literatura a respeito de um homem fechado numa esquadra?

- Porque não?

- Porque é um caso especial. Uma situação que pertence a mil novecentos e setenta. Espero que os meus livros sejam lidos, ainda que só por leitores seleccionados, no século vinte e um. Tentei fazer do meu pescador Castillo alguém fora do tempo.

O doutor Plarr lembrou-se de como pensava tão raramente no pai, e talvez a sensação de culpa que lhe davam a sua própria segurança e conforto o levasse, agora, a zangar-se. Disse:

- Oseu pescador está fora do tempo porque nunca existiu - e imediatamente se arrependeu das suas palavras. - Peço desculpa. Não lhe parece que devíamos pedir mais uma bebida? E a sua encantadora companheira... estamos a esquecê-la.

- Há assuntos mais importantes do que Teresa - retorquiu Saavedra, entregando, contudo, a mão outra vez à guarda dela. - Não vê aí nenhuma rapariga que lhe agrade?

- Sim, há uma, mas encontrou outro cliente.

A rapariga do sinal tinha-se reunido ao bebedor solitário e estavam a encaminhar-se juntos para o seu quarto. Ela passou pelo companheiro anterior sem um olhar e o homem não sentiu nenhuma curiosidade pelo seu sucessor. Havia no bordei algo de clínico que apelava para o doutor Plarr. Era como se estivesse a ver um cirurgião acompanhar um novo doente ao teatro operatório - a operação precedente correra bem e já nem sequer se lembrava dela. Só nos dramas da televisão é que os sentimentos de amor, de ansiedade ou de medo se infiltravam nas enfermarias. Os seus primeiros anos em Buenos Aires, enquanto a mãe se queixava, dramatizava e chorava por causa do destino do marido, e os últimos anos, em que ela se tornara voluvelmente contente com bolos e gelados de chocolate, tinham dado ao doutor Plarr a impressão de que se podia curar qualquer emoção por meios tão simples como um orgasmo ou um éclair. Acudiu-lhe à memória uma conversa - se assim se podia chamar - com Charley Fortnum, e perguntou a Teresa:

- Conhece aqui uma rapariga chamada Maria?

- Há várias Marias - respondeu Teresa.

- De Córdoba.

- Oh, essa! Morreu há um ano. Era muito má. Mataram-na com uma facada. O pobre do homem foi preso.

- Acho que é melhor ir com a rapariga - disse Saavedra.

- Tenho pena. Nem sempre surge a oportunidade de discutir problemas de literatura com um homem culto. De certo modo preferia tomar mais uma bebida e continuarmos a conversar - olhava para sua mão cativa como se pertencesse a outra pessoa e não lhe coubesse o direito de a retirar.

- Há-de haver outras oportunidades - encorajou-o o doutor Plarr; e o romancista cedeu, levantando-se e dizendo:

- Vamos, chica. Quer esperar por mim, doutor? Não me demoro esta noite.

- Talvez aprenda muitas coisas sobre Salta.

- Sim, mas chega sempre o momento em que o escritor tem de dizer «basta». Não precisamos de saber demasiado.

o doutor Plarr teve a impressão de que Jorge Julio Saavedra, sob a influência do álcool, estava a começar a repetir uma conferência que uma vez fizera num clube de mulheres na capital.

 

Teresa puxava-o pela mão. Ele ergueu-se, relutante, e seguiu-a para onde a vela ardia por baixo da imagem da Santa de Avila. A porta fechou-se. A obra de um romancista - tinha dito, uma vez, com tristeza, ao doutor Plarr - nunca acaba.

 

Uma noite sossegada no estabelecimento da Señora Sanchez. Todas as portas estavam abertas, excepto as duas que escondiam Teresa e a rapariga do sinal. O doutor Plarr terminou a bebida e abandonou o pátio. Decerto o escritor, apesar da promessa, levaria o seu tempo. Afinal tinha uma decisão a tomar - se a rapariga devia perder a perna pela coxa ou pelo joelho.

 

A Señora Sanchez continuava a lidar com as agulhas. Uma amiga acompanhava-a, também a tricotar e sentada numa outra cadeira de verga. A Señora Sanchez perguntou:

- Encontrou alguma rapariga?

- O meu amigo encontrou.

- E a si nenhuma lhe agradou?

- Oh, não foi isso, mas bebi de mais ao jantar.

- Pode falar ao seu colega, doutor Benevento, das minhas raparigas. São muito limpas.

- Acredito que sejam. Hei-de voltar, Señora Sanchez.

 

Mas passou-se mais de um ano até que voltasse. Procurou, em vão, pela rapariga do sinal na testa. Nem ficou surpreendido nem desapontado. Talvez fosse a ocasião do período dela e, de qualquer modo, raparigas de estabelecimentos assim mudavam com frequência. Teresa foi a única que reconheceu. Esteve com ela durante uma hora e conversaram acerca de Salta.

 

 

A clínica do doutor Plarr prosperava. Nunca lamentava ter deixado a competição da capital, onde havia muitos médicos com formaturas na Alemanha, na França e em Inglaterra, e tinha um fraco pela cidadezinha junto do grande rio Paraná. Segundo uma lenda local, aqueles que uma vez visitassem a cidade sempre lá voltavam, e no seu caso fora verdade. O pequeno porto com o seu fundo de casas coloniais, contemplado durante uma hora, numa noite escura, chamara-o ali outra vez. Mesmo o clima não lhe desagradava - o calor era menos húmido do que na terra da sua infância, segundo se recordava, e quando por fim o Verão irrompia, com uma enorme trovoada, gostava de ver da janela do seu apartamento as faíscas bifurcadas mergulharem na praia do Chaco. Quase todos os meses oferecia um jantar ao doutor Humphries, e por vezes tomava uma refeição com Charley Fortnum, que estava ora sóbrio, lacónico e melancólico, ora bêbado, palrador e, como ele gostava de dizer, «exaltado». Uma vez foi visitar a fazenda de Charley Fortnum, mas não percebia muito de colheitas de mate e achou o rodar pesado do «Orgulho de Fortnum», ao percorrerem hectare após hectare (Charley chamava-lhe «fazer agricultura»), tão desagradável que recusou outros convites. Preferia as noites no Nacional quando Charley falava, sem convencer ninguém, de alguma rapariga que descobrira.

 

De três em três meses o doutor Plarr voava para Buenos Aires a passar o fim-de-semana com a mãe, que estava cada vez mais gorda com a sua alimentação de pastéis de nata e alfajores recheados com dulce de leche. Não conseguia recordar as feições da bela mulher de trinta e poucos anos que tinha dito adeus ao marido no cais do rio e que chorara durante toda a viagem de três dias até à capital. Como não possuía nenhuma antiga fotografia dela, sempre a figurava como era agora, com três queixos e um estômago que, contornado pela seda preta, imitava a gravidez. Nas estantes do seu apartamento as obras do doutor Jorge Julio Saavedra aumentavam cada ano um volume, e de todos os seus livros o doutor Plarr achava que preferia a história da rapariga de Salta que só tinha uma perna. Depois daquela primeira visita, deitara-se com Teresa várias vezes na casa Sanchez, e divertira-o observar quanto a ficção se desviava da realidade. Era quase uma lição do mais alto espírito crítico. Não possuía amigos íntimos, embora tivesse boas relações com duas antigas amantes que primeiramente conhecera como doentes; estava também em boas relações com o último governador e gostava de visitar a sua vasta plantação de mate, no Leste, voando até lá no avião particular do governador e descendo no relvado entre dois canteiros de flores, a tempo para um excelente almoço. Era ainda convidado de vez em quando para a fábrica de conserva de laranjas, perto da cidade, e às vezes ia pescar num afluente do Paraná com o director do aeroporto.

 

Por duas vezes houve tentativas de revolução na capital que El Litoral noticiou em grandes cabeçalhos, mas, de ambas as vezes, ao telefonar para a mãe, verificou que ela não sabia nada dos distúrbios; a mãe não lia jornais e nunca escutava o rádio, e Harrods e a sua pastelaria favorita continuavam abertas, mau grado todos os motins; dissera-lhe uma ocasião que no Paraguai se fartara de política para sempre.

 

- O teu pai não sabia falar de outra coisa. Vinham lá a casa, por vezes no meio da noite, pessoas indesejáveis e mal vestidas. E tu bem sabes o que aconteceu ao teu pai.

 

A última frase era estranha, porque nenhum deles sabia nada - se ele tinha sido morto na guerra civil, se morrera de doença, se ficara como preso político sob a ditadura do general.

O seu corpo nunca fora identificado entre os cadáveres que apareciam frequentemente no lado argentino do rio, com as mãos e os pés atados com arame, mas bem podia ter sido um desses prisioneiros atirados de avião para o deserto do Chaco e cujos esqueletos ficaram ignorados anos e anos.

 

Perto de três anos após o seu primeiro encontro com Charley Fortnum o doutor Plarr foi arrastado para uma conversa acerca dele por Sir Henry Belfrage, o embaixador britânico - sucessor do homem que dera ao cônsul honorário tanto trabalho com o relatório sobre o mate. Era um dos periódicos cocktails da colónia britânica, e doutor Plarr, que por acaso estava na capital a visitar a mãe, assistiu à festa na companhia dela. Não conhecia ali ninguém senão de vista - quanto muito um conhecimento de baixar a cabeça. Lá estava Buller, o gerente do Bank of London and South America, Fisher, secretário da Sociedade Anglo-Argentina, e um velhote chamado Forage que passava os dias no Hurlingham Club. O representante do British Council, também, naturalmente - o seu nome, por qualquer razão freudiana, Plarr sempre o esquecia -, um homenzinho pálido, assustado e calvo, que viera à festa na companhia de um poeta visitante. O poeta tinha uma voz aguda e o ar de quem se sentia fora do seu lugar, sob os candelabros. « Quando nos vamos embora? », ouviam-no dizer. E «o uísque tem água de mais». A única voz, na sala, que subia acima do murmúrio contínuo, semelhante 1Oinotor de um avião, e dir-se-ia esperar-se que ele gritasse algo mais apropriado, como «apertem os cintos».

 

O doutor Plarr pensou que Belfrage estava apenas interessado numa conversa formal, quando se viram sós entre um sofá de pernas doiradas e uma cadeira Luís XV. Encontravam-se agora bastante longe do rumor à volta do bufete para se ouvirem um ao outro. Via a mãe no meio da multidão a gesticular para um padre, junto a um canapé. A mãe gostava de conversar com padres, e ele sentiu-se aliviado de responsabilidades.

 

- Creio que conhece o nosso cônsul, lá em cima - comeuçou Sir Henry Belfrage, que designava sempre a província nortenha por «lá em cima», como se desejasse frisar o enorme rio Paraná a percorrer devagar essas fronteiras, distantes da civilização meridional do rio de La Plata.

- Charley Fortnum? Oh, sim, vejo-o de vez em quando. Não o vejo há seis meses. Tenho estado muito ocupado... muitas doenças.

- Sabe, num emprego como este herdam-se sempre algumas «dificuldades». Aqui entre nós, o cônsul lá em cima é uma delas.

- De verdade? Eu pensaria... - disse o doutor Plarr, cauteloso, sem fazer ideia de como acabaria a frase.

- Não há nada para ele fazer lá em cima. Quero dizer, tanto quanto nos diz respeito. De longe em longe peço-lhe que apresente um relatório sobre qualquer coisa... para manter as aparências. Não quero que julgue que o esquecemos. Foi útil, uma vez, para um dos meus antecessores. Gente nova que se misturou com as guerrilhas e tentou fazer um Castro contra o general do Paraguai. Pelo que vejo nos arquivos, pagamos metade das suas contas de telefone e a maior parte dos seus artigos de papelaria.

- Ele não andou uma vez com uns nobres? A servir de guia nas ruínas?

- Houve qualquer coisa assim. Umas nobrezas menores, parece-me. Não devia dizer isto, mas a nobreza pode causar-nos imensos problemas. Uma vez que tivemos de mandar por barco um pónei... nem calcula as complicações que isso envolveu, e foi durante a proibição da carne também - meditou um momento. - Pelo menos Fortnum podia tentar boas relações com a colónia lá em cima.

- Tanto quanto sei, somos só três ingleses dentro de cinquenta milhas. Os que têm fazendas raramente vêm à cidade.

- Então não lhe devia ser difícil. Conhece um tal Jeffries?

- Refere-se a Humphries? Se está a pensar no episódio da bandeira britânica posta às avessas... Sabe qual é o lado direito?

- Não, mas graças a Deus tenho gente que sabe. Não estava a pensar nisso... Isso aconteceu no tempo de Callows.

O problema agora é que parece que Fortnum fez um casamento muito impróprio... segundo esse Humphries. Desejaria que o homem deixasse de nos escrever. Quem é ele?

- Não ouvi falar do casamento de Fortnum. Está um pouco velho para casar. Quem é a mulher?

- Humphries não disse. Melhor, disse umas coisas ambíguas. Parece que Fortnum quis guardar segredo quanto ao casamento. Não levo o caso a sério, claro. Ele é apenas um cônsul honorário. Não temos de «investigar» quem é a mulher. Pensava que talvez tivesse ouvido falar... De certo modo é mais difícil a gente ver-se livre de um cônsul honorário do que de um cônsul de carreira. Não pode ser transferido. Essa palavra «honorário»... pensando bem, é uma grande falsidade. Fortnum importa um carro de dois em dois anos e vende-o. Não é autorizado a isso, pois não está ao serviço, mas suponho que ele o tem conseguido com as autoridades locais. Não me surpreende que faça mais do que o meu cônsul aqui. Pobre Martin! Tem de cumprir com as suas obrigações. Não é permitido comprar carros por fora do salário, nem eu próprio. Ao contrário do embaixador do Panamá. Deus meu, a minha mulher está ali presa com aquele poeta... Como se chama ele?

- Não sei.

- Humphries?

- Só lhe queria dizer... Plarr, não é? Como vive lá em cima... Nunca vi esse tal Humphries... Oh, bem, mandam-nos para aqui às manadas.

 

- Não, não. Poetas. Se poetas são. O British Council diz sempre que são, mas eu nunca ouvi falar de nenhum deles. Quando regressar lá acima, Plarr, faça o que puder. Você é alguém em quem confio para dizer uma palavra... nada de escândalo... compreende? O Humphries impressiona-me como a espécie de pessoa capaz de escrever para a pátria. Para o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Afinal não temos nada com o casamento de Fortnum. Se você dissesse ao Humphries, com certo tacto para tratar da vida dele e não nos incomodar. Ainda bem que ele está a ficar velho. Refiro-me a Fortnum.

 

Reformamo-lo na primeira oportunidade. Oh, a minha pobre mulher... caiu numa ratoeira.

- Vou lá pode salvá-la, se quiser.

- Meu caro amigo, vai? Eu não me atrevo. Esses poetas são uns brutos irascíveis. E sempre lhes confundo os nomes. São como o Humphries; escrevem para a pátria; para o Conselho da Cultura. Não me esquecerei disto, Plarr. Qualquer coisa que possa fazer por si... lá em cima...

 

O médico, ao regressar ao Norte, achou-se mais ocupado do que nunca. Não tinha tempo para Humphries, esse intrometido, e não lhe interessava o casamento de Fortnum - que fosse feliz ou não. Uma vez, quando fortuitamente se recordou das palavras do embaixador, perguntou a ele próprio se Charley não teria casado com a governanta, essa mulher de bico de falcão que lhe abrira a porta quando fora pela primeira vez ao Consulado. Um casamento desses não era improvável. Homens velhos, tal como padres dissidentes, casavam-se frequentemente com as governantas, às vezes por uma medida de falsa economia, outras vezes com medo de morrerem sós. A morte para o doutor Plarr, que andava pelos trinta e poucos, aparecia-lhe na figura de um acidente fortuito na estrada ou de um imprevisto cancro, mas no espírito de um velho era o fim inevitável de uma longa e incurável doença. Talvez o alcoolismo de Charley Fortnum fosse um sintoma de medo.

 

Certa tarde, à hora da sesta, a campainha do doutor Plarr tocou e, ao abrir a porta, ele viu a mulher de bico de falcão, toda eriçada novamente na esperança de carne podre. E o médico por um pouco não lhe chamou Señora Fortnum.

 

Se assim lhe chamasse, enganava-se. Ela disse que o Señor Fortnum havia telefonado da fazenda. Tinha a mulher doente. Queria que o doutor Plarr se metesse no carro e fosse vê-la.

- Disse do que ela se queixava?

- A Señora Fortnum tem dores na barriga - replicou a mulher com menosprezo.

 

O casamento agradava-lhe tão pouco como ao doutor Humphries.

 

O doutor Plarr seguiu para a fazenda pelo fresco do fim da tarde. Os pequenos charcos de cada lado da estrada pareciam embutidos de chumbo fundido aos últimos e vagarosos raios de luz. O«Orgulho de Fortnum» estava ao fundo de uma estrada lamacenta, sob um bosquezinho de abacates, pesadas peras castanhas do tamanho e forma de balas de canhão. No alpendre do bangalô, Charley Fortnum, sentado diante de una médico de uísque, um sifão e (espantoso!) dois copos limpos.

- Tenho estado à sua espera - disse reprovativamente.

- Não pude vir mais cedo. Que há?

- Clara está cheia de dores.

- Vou vê-la.

-Tome primeiro um uísque. Fui agora lá e ela estava a dormir.

- Obrigado, então. Vou tomar. Tenho sede. Muito pó na estrada.

- Soda? Diga até onde.

- Até acima.

- Queria ter uma conversa consigo, de qualquer modo... antes de você ir lá dentro. Ouviu falar do meu casamento, suponho.

- O embaixador contou-me.

- Tinha alguma coisa a dizer?

- Não. Porquê?

- Tem-se falado muito. E Humphries até cortou relações comigo.

- Uma sorte para si.

- Sabe... - Charley Fortnum hesitava. - Bem... Ela é muito nova.

Não se sabia se ele estava a desviar as críticas do amigo se a desculpar-se.

- Mais sorte - replicou o doutor Plarr.

- Ainda não tem vinte anos, e eu, bem sabe, não volto a fazer sessenta.

O doutor Plarr perguntava a si mesmo se Fortnum o chamara para o aconselhar sobre um problema menos solúvel do que a dor de barriga da mulher. E bebeu para preencher o que lhe parecia ser um silêncio embaraçoso.

- Não é esse o problema - tornou Charley Fortnum. (O doutor Plarr espantava-se pelo seu discernimento.) Eu consigo manejar as coisas até certo ponto... e depois... há sempre a garrafa, não é verdade? Uma velha amiga da família. Falo da garrafa. Também ajudou o meu pai, o velhote. Só queria dar-lhe uma explicação. De outro modo podia-se admirar ao ver a moça. É tão nova. E acanhada também. Não está habituada a esta espécie de vida. Uma casa assim e criados. E o campo. O campo é terrivelmente sossegado logo que escurece.

- Donde é ela?

- Tucumán. Verdadeiro sangue índio. De muito longe, claro. Preciso de o avisar, ela não gosta de médicos. Tem más recordações dos médicos.

- Tentarei ganhar a sua confiança.

- Essa dor - disse Charley Fortnum - não será gravidez? Ou qualquer coisa no género?

- Ela não usa a pílula?

- Bem sabe como são estas espanholas católicas. Superstição, está visto. Como passar por baixo de uma escada. Clara não sabe quem é Shakespeare, mas anda a par de tudo quanto o Papa diz. De qualquer maneira, eu tinha de comprar as pílulas através da Embaixada. E imagina o que eles diriam? Aqui nem sequer se podem comprar às escondidas. Naturalmente que usei sempre uma coisa até nos juntarmos mesmo.

- Então você aguentou o pecado por ela? - arreliou-o o doutor Plarr.

- Oh, bem, a minha consciência endureceu com a idade. Mais um pouco que mal faz? E se ela se sente feliz assim... Quando terminar o seu uísque...

 

Conduziu o doutor Plarr: por um corredor com gravuras de desporto vitoriano: cavaleiros a cair numa ribeira, detidos por uma sebe, repreendidos pelo mestre. Caminhava em pontas de pés. Ao fundo do corredor abriu uma porta, só uma frincha, e espreitou.

- Creio que ela está acordada. Eu espero no alpendre, Ted, com o uísque. Não se demore.

 

Havia uma vela eléctrica acesa por baixo da estatueta de um santa, santa que o doutor Plarr: não reconheceu, e, por um momento, lembrou-se das pequenas celas à volta do pátio da Señora Sanchez, cada uma com uma vela votiva.

- Boa noite - disse para a cabeça sobre o travesseiro. A cara estava tão, coberta com o cabelo preto que só se viam os olhos, que o espreitavam como os de um gato atrás de um arbusto.

- Não vou examiná-la. Só desejo que me fale da sua dor de barriga .

- Estou melhor, agora.

- Bom. Então não me demoro. Posso acender a luz?

- Se é preciso... - disse ela, desviando o cabelo da cara. Por baixo da linha do cabelo o doutor Plarr viu um pequeno sinal cinzento no lugar onde as raparigas hindus.. .

Disse:

- Em que sítio é a dor? Mostre-me.

Empurrando o lençol para baixo, ela indicou um lugar no corpo nu. Ele adiantou a mão para a tocar, mas ela recuou.

- Não tenha medo. Não a vou examinar à maneira do doutor Benevento.

E ouviu-a reter a respiração. Apesar de tudo, deixou que ele lhe apalpasse o ventre.

- Aí?

- Sim.

- Nada para afligir. Uma pequena inflamação do intestino, mais nada.

- Intestino?

 

Percebeu que a palavra lhe era estranha e a assustava.

-Vou deixar ao seu marido um pó de bismuto para si. Tome-o com água. Se lhe puser açúcar, não tem tão mau gosto. Se fosse a si, não bebia uísque. Está mais habituada a sumo de laranja, não é verdade?

 

Olhando-o com uma expressão de espanto, ela sussurrou:

- Como se chama?

- Plarr - e acrescentou -, Eduardo Plarr: - duvidava que ela soubesse o apelido de algum homem, a não ser o de Charley Fortnum.

- Eduardo - repetiu ela, e desta vez olhou para ele com mais ousadia. - Não o conheço, pois não?

- Não.

- Mas o senhor conhece o doutor Benevento?

- Estive com ele uma ou duas vezes - levantou-se. - Não creio que essas visitas das quintas-feiras fossem muito agradáveis - e antes que ela pudesse falar: - Não está doente. Não precisa de ficar na cama.

- Charley (pronunciava o nome como «Charlee», com acento na última sílaba) disse que devia ficar na cama até vir o médico.

- Pois bem, já veio o médico. Por isso já se pode levantar.

 

Quando a olhou da porta reparou que ela o observava. Tinha-se esquecido de puxar o lençol para cima. Disse:

- Não lhe perguntei como se chamava.

- Clara.

- Teresa foi a única rapariga que lá conheci.

 

Ao voltar pelo corredor o doutor Plarr pensou na estatueta de Santa Teresa de Ávila que havia presidido aos seus exercícios e aos (mais literários) do doutor Saavedra. Quem sabe se não seria a amiga de São Francisco de Assis que acabara de visitar na cama de Charley Fortnum? Recordou-se do modo como vira a rapariga pela primeira vez esticar os lençóis na sua cela, curvada à maneira das negras, mesmo pela cintura. Estava presentemente acostumado a tantos corpos de mulheres. Quando se tornou amante de uma das suas doentes não fora o corpo dela que o excitara, mas uma leve gaguez e, um perfume que não reconhecia. No corpo de Clara não havia nada de notável, a não ser a excessiva magreza, a pequenez dos seios, as coxas imaturas, o quase imperceptível monte de Vénus. Devia ter perto de vinte anos, mas não se lhe dava mais de dezasseis - a Señora Sanchez recrutava-as cedo.

 

Parou diante da gravura de um homem de casaco vermelho montado num cavalo fugitivo que tinha ultrapassado os galgos; o mestre, de cara arroxeada, ameaçava o culpado com o punho, e, para além dos galgos, havia uma paisagem de campos e sebes e um ribeiro debruado de árvores que lhe pareceram salgueiros; uma vista campesina singular e desconhecida. Pensou, surpreendido: nunca vi um ribeiro assim. Naquele continente até os afluentes dos grandes rios eram mais largos do que o Tamisa,no livro ilustrado de seu pai. Experimentou outra vez a palavra «ribeiro» na sua língua - um ribeiro devia ter um estranho encanto poético. Não podia chamar «ribeiro» às enseadas rasas onde por vezes ia pescar e onde ninguém se banhava com medo dos stingrays1. Um ribeiro devia ser pacífico, suave, sombreado por salgueiros, sem perigos. E pensou: esta terra é realmente demasiado vasta para seres humanos.

 

Charley Fortnum esperava-o, com os copos cheios, e perguntou com forçada jovialidade:

- Bem, qual é o veredicto?

- Nada. Uma pequena inflamação. Não precisa de ficar de cama. Vou-lhe dar uma coisa para tomar com água. Antes das refeições. E, no seu caso, não a deixava beber uísque.

- Não quis correr riscos, Ted. Conheço pouco de mulheres, das suas entranhas, etc. A minha primeira mulher nunca adoeceu. Era uma adepta da Christian Science2.

- Para a outra vez, antes de me fazer cá vir, por favor dê-me uma palavra ao telefone. Nesta altura do ano estou muito ocupado.

- Suponho que me considera maluco, mas ela precisa muito de protecção.

- Pensava que, nessa espécie de vida, devia ter aprendido a olhar por si própria.

- Que quer dizer com isso?

- Ela trabalhou na casa da Mãe Sanchez, não é verdade?

 

Charley Fortnum cerrou os punhos, uma bolha de uísque ao canto da boca. O doutor Plarr pensou que quase lhe via a tensão arterial subir.

- Que sabe dela?

- Nunca me deitei com ela, se é nisso que está a pensar.

- Julguei que fosse um desses filhos da mãe...

 

l Espécie de raia com a cauda em serrilha. (N. da T.)

2 Doutrina baseada nas Escrituras fundada na América cerca de 1866 e aplicada no tratamento de doenças. (N. da T.)

 

- Você é que foi «um desses». Lembro-me de me falar de uma rapariga chamada Maria de Córdoba.

 

- Essa era diferente. Toda físico. Sabe que nunca toquei em Clara durante meses, antes de ter a certeza de que ela gostava um pouco de mim? Costumávamos conversar, mais nada. Ia para o seu quarto, naturalmente, de outro modo ela teria problemas com a Señora Sanchez. Ted, você não me vai acre. ditar, mas nunca falei com ninguém acerca de tantas coisas como com esta rapariga. Interessava-se por tudo quanto lhe contava. O«Orgulho de Fortnum». A colheita, do mate. Cinemas. Sabe muito de cinema. Eu nunca me interessei muito por cinema, mas ela sabe sempre as últimas notícias sobre uma mulher chamada Elizabeth Taylor. já ouviu falar dela e de um tipo chamado Burton? Sempre pensei que Burton era uma marca de cerveja. Até falávamos de Evelyn, a minha primeira mulher. Digo-lhe que estava tão só antes de conhecer Clara! Vai julgar que é tolice, mas amei-a logo que a vi. De qualquer modo, desde o princípio, não quis fazer nada, só quando ela quis também. Ela não compreendia, imaginava que eu não estava bem. Mas era o verdadeiro amor, não amor de bordel o que eu queria. Creio que você também não compreende isto.

 

- Não sei ao certo o que significa a palavra «amor». A minha mãe ama dulce de leche. É pelo menos o que ela me diz

 

- Nenhuma mulher o amou ainda, Ted? - inquiriu Fortnum, e uma espécie de ansiedade paternal na voz dele irritou o doutor Plarr.

 

- Duas ou três disseram-me que sim, mas não tiveram dificuldade em encontrar outro depois de eu lhes dizer adeus Só o amor de minha mãe por doces parece não mudar. Há-de amá-los na saúde e na doença, até à separação da morte. Quem sabe se não será esse o verdadeiro amor?

 

- Você é demasiado novo para ser cínico.

 

- Não sou cínico. Sou curioso, mais nada. Gosto de saber o significado que as pessoas dão às palavras que usam. É tudo uma questão de semântica. Daí usar-se uma língua morta em medicina. Não há lugar para mal-entendidos com uma língua morta. Como tirou a rapariga da Mãe Sanchez?

 

Paguei.

 

E ela gostou de sair de lá?

 

Estava um pouco desnorteada, a princípio, e também assustada. A Señora Sanchez zangou-se. Não a queria perder. Disse-lhe que a não receberia outra vez quando eu me cansasse dela. Como se isso pudesse acontecer.

 

- A vida é longa.

 

- A minha não é. Seja franco, Ted, não me dá mais dez anos de vida, pois não? Mesmo assim, desde que conheci Clara, deixei de beber tanto.

 

- Que vai ser dela depois?

 

- Esta propriedade não é muito má. Pode vendê-la e ir para Buenos Aires. Conseguem-se quinze por cento de juro, agora, sem riscos. Até dezoito. E sabe que posso importar um carro de dois em dois anos... Talvez mais cinco carros para vender antes de eu esticar o pernil. Calculo mais quinhentas libras por ano.

 

- já ela podia comer bolos com minha mãe em Richmond.

 

- Não brinque. Alguma vez a sua mãe aceitaria conhecer Clara?

 

- Porque não?

 

- Você nem sabe a transformação que Clara tem feito na minha vida.

 

- Você também deve ter transformado a vida dela.

 

- Quando se chega à minha idade, há remorsos acumulados. Não é mau sentir que fizemos pelo menos uma pessoa feliz.

 

Essa espécie de afirmação sentimental e autoconfiante embaraçou o doutor Plarr, que não tinha resposta para ela. Uma afirmação que seria difícil pôr em causa e impossível confirmar. E, desculpando-se, partiu.

 

Durante todo o caminho escuro do campo pensou na jovem, viu-a na grande cama vitoriana que pertencera, bem como as gravuras desportivas, ao pai do cônsul honorário. Era como um pássaro comprado no mercado numa gaiola provisória e mudado para outra, em casa, maior e mais luxuosa, com poleiros, tigelas de comida e um baloiço para brincar.

Espantava-se de pensar tanto numa rapariga que não passava da prostituta em quem uma vez reparara, no estabelecimento da Señora Sanchez, por causa do seu estranho sinal. Teria Charley casado mesmo com ela? Talvez o doutor Humphries enganasse o embaixador ao falar de casamento' Talvez Charley Fortnum tomasse apenas outra governanta - mais nada. Se fosse esse o caso, ele poderia sossegar o embaixador. Uma esposa fornecia mais material de escândalo do que uma amante.

 

Mas os seus pensamentos eram como as palavras deliberadamente banais de uma carta clandestina onde as frases importantes tivessem sido acrescentadas nas entrelinhas com tinta secreta para se lerem particularmente. Essas frases escondidas descreviam uma rapariga uma cela, curvada, a fazer a cama, rapariga que voltara para a sua mesa e pegara no copo de sumo de laranja, como se momentaneamente a tivesse interrompido algum vendedor de porta em porta, um corpo fino estendido na cama de casal de Charley Fortnum, com seios imaturos que jamais tinham amamentado um filho. Todas as três amantes do doutor Plarr eram mulheres casadas, mulheres maduras, orgulhosas das suas figuras viçosas que cheiravam a dispendiosos banhos de óleo. Clara devia ter sido uma boa prostituta - pensou - para ser levada por dois homens a seguir, com uma figura assim. No entanto isso não era razão para pensar nela durante todo o caminho até casa. Tentou mudar a direcção das ideias. Havia dois casos desesperados de subnutrição no bairro pobre, havia um oficial da Polícia que tratava e bem cedo morreria de cancro na garganta, havia a melancolia de Saavedra e o chuveiro do doutor Humphries a pingar, e, todavia, por mais que se esforçasse, o espírito voltava-se-lhe continuamente para essa pequena colina de Vénus

 

«monte» não seria o nome apropriado.

 

Perguntava a si mesmo quantos homens teria ela conhecido. A última amante dele, casada com um banqueiro chamado Lopez, falara-lhe, com certo orgulho, dos seus quatro antecessores - talvez estivesse a tentar despertar nele um sentido de competição (um dos amantes dela, soube-o por outras vias, tinha sido o motorista da casa). O corpo frágil na cama de Charley Fortnum devia ter tido centenas. A sua barriga era um velho campo de batalha onde a erva crescera e tapara as cicatrizes da guerra, e um ribeiro corria pacificamente entre salgueiros: estava outra vez no corredor, fora do quarto, a contemplar as gravuras desportivas e a resistir ao desejo de voltar a trás.

 

Travou de repente ao aproximar-se da estrada que levava à fábrica de conserva de laranjas, e, por um instante, planeou virar o carro e guiar rumo à fazenda. Em vez disso, acendeu um cigarro. Não quero ser vítima de uma obsessão - pensou. A atracção por uma casa de prostituição é a mesma que sinto por fazer compras... Posso ver uma gravata atraente, usá-la uma vez ou duas, depois esquecê-la na gaveta onde outras gravatas mais novas a vão escondendo. Porque a não experimentei quando tinha uma oportunidade? Se a tivesse comprado nessa noite na casa da Señora Sanchez, lá estaria ela esquecida no fundo da gaveta. Será possível - perguntava a ele próprio que, se um homem for demasiado racional para se apaixonar, o espere um destino pior: cair numa obsessão? Guiou, zangado, rumo à cidade, onde o reflexo das luzes se estendia ao longo do horizonte e as Três Marias pendiam no céu no seu rosário quebrado.

 

Algumas semanas depois o doutor Plarr acordou cedo. Era um sábado e tinha umas horas livres. Resolveu passá-las fora de casa, com um livro, enquanto ainda fazia fresco; preferia ler longe das vistas da sua secretária, que lia só livros a que chamava sérios - entre eles os do doutor Saavedra.

 

Escolheu uma colecção de histórias de Jorge Luis Borges. Borges partilhava dos gostos que ele próprio herdara de seu pai - Conan Doyle, Stevenson, Chesterton. Ficciones parecia-lhe uma agradável variante do último romance do doutor Saavedra, que não fora capaz de terminar. Estava cansado dos heróis sul-americanos. Agora, sentado à sombra da estátua de um sargento heróico - outra vez machismo - que salvara a vida de San Martín (há cento e cinquenta anos?), lia, com uma sensação de folga, as histórias da condessa de Bagno Regio, em Pittsburgh e Mónaco. Mais tarde sentiu sede. Para apreciar verdadeiramente Borges era tomá-lo, tal um biscoito de queijo, com um aperitivo, mas com aquele calor o doutor Plarr queria uma bebida mais longa. E decidiu ir ao seu amigo Gruber pedir uma cerveja alemã.

 

Gruber era um dos primeiros amigos do doutor Plarr, na cidade. Escapara-se, em rapaz, da Alemanha, em 1936, quando se intensificou a perseguição aos judeus. Era filho único, mas os pais tinham insistido em que fugisse para o estrangeiro, a fim de pelo menos o nome de Gruber não se extinguir, e a mãe fez-lhe para a viagem um bolo especial, onde ocultou os poucos valores que ele poderia levar - o anel de noivado da mãe com diamantes pouco valiosos e o anel de oiro de casamento do pai. Alegaram serem velhos de mais para iniciar uma nova vida num continente estranho e fingiram acreditar que também eram velhos de mais para que os nazis os considerassem um perigo. Naturalmente o rapaz nunca mais teve notícias deles. Assim, tal como o doutor Plarr, Gruber era um homem sem pai. Nem sequer possuía um jazigo de família. Dirigia uma loja de fotografias na rua principal da cidade, a qual, com os seus sinais e slogans sobrepostos por cima do passeio, tinha um ar chinês. Gruber era também oculista. «Os Alemães», dissera ele uma vez ao doutor Plarr, «inspiram sempre confiança como farmacêuticos, oculistas e especialistas em fotografia. Fala-se mais de Zeiss e de Bayer do que de Goebbels e de Goering, e aqui fala-se muito principalmente de Gruber.»

 

Gruber deixou o cliente instalado numa secção privativa da sua loja, onde trabalhava nas lentes. Aí o médico via tudo o que se passava sem que o vissem, pois Gruber (tinha um2 paixão por engenhocas) havia instalado uma pequena televisão interna onde podia observar, em miniatura, os clientes lá fora na loja. Por qualquer razão, que Gruber nunca soubera explicar, a sua loja atraía as raparigas mais bonitas da cidade

 

(nenhuma boutique competia com Gruber), como se a beleza e a prática de fotografias estivessem relacionadas. Elas vinham em rebanhos receber os seus retratos coloridos e examinavam-nos com gritos de excitação, palrando como pássaros. O doutor Plarr observava-as, enquanto bebia a sua cerveja e escutava a bisbilhotice de Gruber acerca da província.

 

- Já viu a mulher de Charley Fortnum? perguntou o doutor Plarr.

 

- Quer dizer a esposa dele?

 

- Não. Charley Fortnum é divorciado. E aqui não há outra vez casamento... Conveniente para um homem solteiro como eu.

 

- Então não ouviu contar que a mulher dele morreu?

 

- Não Estive fora. E, quando o vi outro dia, não aludiu a isso.

 

- Pois ele foi para Rosário com essa rapariga e casaram lá. É o que as pessoas dizem. Ninguém sabe, claro.

 

- Que coisa esquisita! Não precisava de tal. Sabe onde ela a descobriu?

 

- Sei. Mas é uma linda rapariga - disse Gruber.

 

- Sim, uma das melhores do lote da Mãe Sanchez. Mas não é necessário casar com uma bonita rapariga.

 

- Mulheres desse género dão muitas vezes boas esposas, em especial para homens velhos.

 

- Porquê velhos?

 

- Os velhos não pedem muito, e raparigas dessas gostam de descansar.

 

A frase «dessas» irritou a doutor Plarr. Sete dias depois, ainda estava obcecado por esse corpo sem nada de notável que Gruber tão facilmente classificara. Agora, no écran da televisão, via uma moça inclinada sobre o balcão para comprar um rolo de Kodak, do mesmo jeito que Clara se inclinara sobre a cama na casa da Señora Sanchez. Era mais bela do que a mulher de Charley Fortnum, e o médico não sentiu nenhum desejo dela.

- Raparigas dessas - repetiu Gruber - ficam contentes por descansar. Sabe, acham que é sorte quando o cliente é impotente ou está demasiado embriagado. Têm aqui uma palavra para isso... Esqueci o termo espanhol, mas significa um visitante quaresmal.

- Tem ido muitas vezes a casa da Señora Sanchez?

- Para quê. Olhe as tentações a que preciso resistir aqui, com todas essas encantadoras clientes! Alguns dos rolos que me trazem para revelar são muito íntimos e, ao entregá-los, vejo o divertimento nos olhos delas. Ele observou o momento em que o biquini escorregou, pensam elas, e eu também. A propósito, estiveram aqui dois homens, outro dia, que perguntaram por si. Queriam saber se seria o mesmo Eduardo Plarr que conheceram há anos em Asunción. Viram o seu nome naquelas fotografias que lhe mandei na quinta-feira. Claro que lhes disse que não sabia.

- Agentes da Polícia?

- Não pareciam agentes da Polícia, mas naturalmente não posso afirmar. Ouvi um deles chamar ao outro padre, mas não estava vestido de padre, o que me fez desconfiar.

-Estou em boas relações com o chefe de Polícia daqui. Chama-me, às vezes, quando o doutor Benevento está de férias. Acha que esses homens atravessaram a fronteira. Agentes do general, talvez? Mas porque havia ele de se interessar por mim? Eu era um rapazinho quando de lá saí...

- Falem no diabo... - disse Gruber.

O doutor Plarr olhou imediatamente para a televisão esperando ver dois estranhos lá reflectidos, mas apenas viu uma moça magra de óculos de sol de tamanho exagerado - podiam ter sido feitos para um mergulhador.

Gruber disse:

- Ela compra óculos de sol como as outras mulheres jóias. Já lhe vendi pelo menos quatro.

- Quem é?

- Devia saber. Ainda há bocado falou nela. A mulher de Charley Fortnum. Ou a rapariga, se preferir.

Pousando o copo da cerveja, o doutor Plarr saiu para a loja. A rapariga estava a examinar um par de óculos de sol e achava-se por de mais absorvida para reparar no médico. As lentes eram cor de malva-vivo e os aros amarelo incandescente, com os lados incrustados de pedras a imitar ametistas. Clara tirou os óculos que usava e experimentou os novos, e imediatamente ficou mais velha dez anos. Os olhos tornaram-se-lhe invisíveis. Tudo quanto o doutor Plarr podia ver era o seu próprio rosto cor de malva lá dentro.

 

A empregada disse:

- Acabamos de os receber de Mar del Plata. São a última moda lá.

 

O doutor Plarr sabia que provavelmente Gruber o observava na televisão, mas não se importou. Perguntou:

- Gosta deles, Señora Fortnum?

- Quem?... Oh, é o doutor, doutor...

- Plarr. Fica mais velha com esses óculos, mas, claro, a senhora aguenta bem mais alguns anos.

- São muito caros. Quis só experimentá-los por brincadeira.

- Embrulhe-os - disse o médico à empregada da loja - e vá buscar uma caixa...

- Têm caixa própria, doutor - disse a empregada, começando a polir as lentes.

- -Não - replicou Clara. - Não posso...

- Comigo pode. Sou amigo do seu marido.

- Não fica mal?

- Não.

 

Clara deu um salto, o que, conforme ele havia de saber mais tarde, era a sua expressão de alegria diante de qualquer presente, até mesmo um bolo. Plarr nunca tinha visto uma mulher aceitar um presente com tanta franqueza, tão simplesmente. Ouviu-a dizer à empregada:

- Por favor, quero já usá-los. Ponha os velhos na caixa.

 

Pensava, ao sair com a rapariga da loja de Gruber: «Com estes óculos ela parece mais minha amante do que minha irmã mais nova. »

- Foi muito amável da sua parte - disse Clara, no jeito de uma colegial bem educada.

- Vamo-nos sentar junto do rio e conversar. - E, como ela hesitasse, acrescentou: - Ninguém a reconhece com esses óculos. Nem o seu marido.

- Não gosta deles?

- Não. Nada.

- Pareceram-me muito ricos e elegantes - retorquiu ela, desapontada.

- São realmente um bom disfarce. Por isso mesmo lhos ofereci. Ninguém a reconhecerá agora, comigo, jovem Señora Fortnum.

- Quem me reconhecerá? - tornou ela. - Eu não conheço ninguém e Charley está em casa. Mandou-me na companhia do capataz. Disse-lhe que queria comprar uma coisa.

- O quê?

- Oh, qualquer coisa. Não sabia o quê.

Caminhava, contente, ao lado dele, seguindo sempre o rumo que ele tomava. O médico sentia-se perturbado pela facilidade com que tudo corria. Recordou-se do seu estúpido conflito quando desejou retroceder em direcção à fazenda, e dos muitos momentos, durante a última semana, em que ficara acordado a interrogar-se sobre o que havia de fazer para a tornar a ver. Devia ter adivinhado que não seria mais difícil do que levá-la para a sua cela na casa da Señora Sanchez.

 

Clara disse:

- Hoje não tenho medo de si.

- Talvez por eu lhe ter oferecido um presente.

- Sim, talvez. Um homem nunca dá um presente a alguém de quem não gosta, pois não? E no outro dia pensei que não gostava de mim. Pensei que era meu inimigo.

 

Chegaram à margem do Paraná. Um pequeno baluarte projectava-se sobre o rio, cercado de colunas brancas, a formar um templozinho para uma estátua nua de clássica inocência e de rosto voltado para a água. O feio bloco amarelo de apartamentos onde ele vivia estava escondido pelas árvores. As folhas eram como penas muito leves; davam uma ilusão de frescura porque pareciam estar sempre em movimento - um sopro de ar imperceptível na pele era o bastante para as fazer ondular. Uma barcaça pesada passou por eles, rio acima, arquejando contra a corrente, e o costumado penacho de fumo estendia-se sobre o Chaco.

 

A rapariga sentou-se a contemplar o Paraná; quando Plarr olhava para ela só via o seu próprio rosto reflectido nos óculos. Disse:

- Por amor de Deus, tire esses óculos. Não me quero barbear.

- Barbear?

- Olho para mim próprio duas vezes por dia... e chega.

 

Clara tirou obedientemente os óculos e ele viu-lhe os olhos, que eram castanhos e inexpressivos, iguais aos de todas as mulheres espanholas que conhecia. Ela disse:

- Não compreendo.

- Oh, esqueça as minhas palavras. É verdade estar casada?.

- E que tal?

- Sinto-me como se usasse o vestido de outra rapariga... que não me servisse.

- Porque fez isso?

- Ele queria casar. Por causa do dinheiro quando morrer. E, se vier um filho...

- Já está grávida?

- Não.

- Bem... Deve ser melhor do que a vida na Mãe Sanchez.

- É diferente. Sinto a falta das raparigas.

- E dos homens?

- Oh, desses nem me lembro.

 

Estavam sós na longa esplanada junto do Paraná: para os homens era hora de trabalho; para as mulheres, de compras. Tudo ali tinha a sua hora - a hora para o Paraná era o fim da tarde, e então apareciam os verdadeiros jovens namorados que, de mãos dadas, não falavam. Plarr perguntou:

- Quando tem de ir para casa?

- O capataz vai-me buscar ao escritório de Charley às onze horas.

- São nove, agora. Como vai preencher o tempo?

- Vou olhar as montras e depois tomo café.

- Nunca vê nenhuma das suas antigas amigas?

- As raparigas estão todas a dormir a esta hora.

- Vê aqueles apartamentos ali por trás das árvores? Vivo lá.

- Vive?

- Se quer tomar café, dou-lhe café.

- Sim?

- Ou sumo de laranja.

- Oh, não gosto muito de sumo de laranja. A Señora Sanchez é que dizia que não devíamos beber álcool.

- Quer vir comigo?

- Não acha que fica mal? - perguntou como quem pedisse informações a alguém que conhecia e em quem confiava.

- Não ficava mal na Mãe Sanchez...

- Mas lá tinha de ganhar a vida. Mandava dinheiro para casa, para Tucumán.

- E agora?

- Ora, mando na mesma dinheiro para Tucumán. Charley dá-mo.

 

Levantando-se, ele estendeu a mão.

- Vamos.

 

Estava preparado para se zangar, caso ela hesitasse, mas Clara pegou-lhe na mão com a mesma insípida obediência e atravessou a rua com ele, como se estivesse no patiozinho da Mãe Sanchez.

 

O elevador, contudo, fê-la hesitar. Disse a Plarr que nunca até aí andara de elevador - poucas casas da cidade tinham mais de dois pisos. Apertou a mão do médico, excitada de medo, e, ao chegar ao último andar, perguntou:

 

- Podemos repetir, por favor?

- Quando descermos.

 

Plarr levou-a direita ao seu quarto e começou a despi-la. Um colchete do vestido prendeu-se e ela tirou-lhe o trabalho das mãos, dizendo enquanto se estendia, nua, na cama, à espera dele:

- Esses óculos de sol custaram-lhe mais do que uma visita à casa da Señora Sanchez.

 

Pensaria ela - cogitou Plarr - que eles representavam um pagamento adiantado? Lembrou-se de como Teresa contava as notas de peso, pondo-as depois numa prateleira por baixo da santa, como se se tratasse de uma colecta na igreja. Seriam divididas, mais tarde, na devida proporção com a Señora, Sanchez: a oferta pessoal vinha depois.

 

Quando se juntou à rapariga pensou com alívio: é o fim da minha obsessão. E quando ela gritou, disse consigo: «Sou outra vez um homem livre, posso dizer boa noite à Señora Sanchez a tricotar na sua cadeira de junco, e posso passear à beira-rio com uma sensação de leveza que não possuía quando saí de casa. »

 

O último número do British Medical journal estava em cima da sua secretária - ficara lá toda a semana, embrulhado, e achava-se disposto a ler alguma coisa de estilo ainda mais preciso do que uma história de Borges e de valor mais prático do que um romance de Jorge Julio Saavedra. Começou a ler um artigo de espantosa originalidade - ou pelo menos assim se lhe afigurava - sobre o tratamento da falta de cálcio, por um médico chamado Cesar Bórgia.

 

- Está a dormir? - perguntou a rapariga.

- Não - mas surpreendeu-se ao abrir os olhos e ver o sol entrar por entre as tabuínhas da persiana. Pensava que era noite e que estava só.

 

A rapariga acariciou-lhe a parte de dentro das coxas e correu-lhe os lábios pelo corpo. Ele não sentia senão uma leve curiosidade de ver se ela seria capaz de o excitar uma segunda vez. Talvez fosse esse o seu sucesso na Mãe Sanchez - dar aos homens o valor dobrado do dinheiro. Trepando para cima dele, a rapariga gritou uma obscenidade, mordendo-lhe a orelha. Mas a obsessão morrera com o desejo, e deprimia-o o vazio do fim de tudo. Durante uma semana vivera com uma ideia, e agora sentia a falta dela, como a mãe sente a falta do choro de um filho indesejado. Pensou: «Nunca, na realidade, a desejei, só desejei a minha ideia dela.» Apetecia-lhe levantar-se e sair, deixando-a só, a fazer a cama, à espera de outro cliente.

 

- Onde é o quarto de banho? - perguntou Clara.

 

Nada a distinguia das outras que conhecera, só representava a comédia com mais espírito e invenção.

 

Estava vestido quando a rapariga voltou, e observava-a, impaciente, enquanto ela se vestia. Receava que lhe falasse no prometido café e o demorasse. Era a hora de visitar o bairro popular. As mulheres deviam ter terminado os seus primeiros trabalhos e as crianças voltavam de acarretar água. Perguntou-lhe:

 

- Quer que a deixe ficar no Consulado?

- Não - respondeu Clara. - É melhor eu ir a pé. O capataz deve estar lá à espera.

- Não fez muitas compras.

- Mostro a Charley os óculos. Ele nunca saberá quanto custaram.

 

Tirando do bolso uma nota de dez mil, Plarr entregou-lha. Ela virou-a como a verificar a quantia. Disse depois:

- Nunca ninguém me deu mais do que cinco mil. Geralmente, dois mil. A Mãe Sanchez não gostava que aceitássemos mais. Não fosse isso significar que nos tinham forçado. Enganava-se. Os homens nisso são estranhos. Quando não faziam nada davam mais.

- Como se vocês se importassem - observou ele.

- Como se nós nos importássemos.

- Visitantes quaresmais.

 

Clara riu-se.

 

- É bom poder falar à vontade outra vez. Não posso falar assim com Charley. Penso que ele quer esquecer de todo a Señora Sanchez.

 

Devolveu-lhe a nota.

 

- Não ficava bem. Agora sou casada. E não preciso. Charley é generoso. E os óculos de sol foram caros.

 

Pô-los, de modo que Plarr via outra vez o seu próprio rosto a fitá-lo, em miniatura, como uma boneca a olhar à janela de uma casa de bonecas. Clara perguntou:

- Tornamo-nos a ver?

 

Apeteceu-lhe responder: «Não. Está tudo acabado.» Mas a delicadeza natural - e o alívio que sentia por ela se ter esquecido do café - fê-lo responder formalmente, como se a uma visita que não desejasse voltar a receber:

 

- Claro. Um dia, quando vier à cidade... Vou-lhe dar o número do meu telefone.

-Não precisa de me oferecer um presente de todas as vezes - observou ela.

- E você não precisa de representar uma comédia.

- Comédia?

 

Sei que há sempre homens desejosos de acreditar que vocês estão a sentir o mesmo prazer que eles. Naturalmente, na casa da Mãe Sanchez, precisava de representar para ganhar um presente. Mas aqui... não tem necessidade disso. Talvez precise de representar com Charley, não comigo. Comigo não há que fingir.

- Peço desculpa - disse Clara. - Cometi algum erro?

- Sempre me aborrecia nessa vossa casa - continuou o doutor Plarr. - Um homem não é tão estúpido como vocês julgam. Sabe que veio procurar um prazer, não dá-lo.

-Mesmo assim - disse ela -, acho que fingia muito bem porque recebia prendas maiores do que as outras.

 

Não parecia aborrecida. Plarr via que a rapariga estava acostumada a essa tristeza depois do coito. Nem nisso ele diferia dos outros homens que ela conhecera. E este vazio - pensou - não será a tristitia temporária da maior parte dos homens ao saírem do bordel?

- Quanto tempo esteve lá?

- Dois anos. Tinha quase dezasseis anos quando cheguei. As raparigas deram-me um bolo com velas, no meu aniversário. Nunca tinha visto nada igual. Era bem bonito.

- Charley Fortnum gosta que finja?

- Gosta que eu esteja muito calada e que seja muito terna.É assim que gosta também? Peço desculpa... Pensei... É muito mais novo do que Charley, pensei que...

- Gosto que seja você própria. Indiferente, se lhe apetecer. Quantos homens conheceu?

- Como me posso lembrar?

 

Indicou-lhe o caminho para o elevador e ela pediu-lhe que descesse também - tinha um bocado de medo, embora aquilo a excitasse. Depois de carregar no botão e de o elevador principiar a descer, Clara deu o mesmo salto que dera na loja de Gruber. Já à porta confessou-lhe que também tinha medo do telefone.

- E o seu nome? Esqueci-me do seu nome.

- Plarr. Eduardo Plarr - e experimentando dizer o nome dela pela primeira vez. - O seu é Clara, não é? Se tiver medo de usar o telefone, terei eu de lhe telefonar. Mas pode responder-me Charley...

- Ele vai dar uma volta de carro pela fazenda geralmente antes das nove horas. E às quartas-feiras está quase sempre na cidade... embora goste que eu venha com ele.

- Bem - disse o doutor Plarr -, havemos de encontrar alguma maneira.

 

Não olhou para ela na rua. Era um homem livre.

 

E, no entanto, inexplicavelmente, na mesma noite, ao tentar adormecer, pensou com pena que se recordava melhor de Clara na cama de Charley Fortnum do que na sua própria cama. Uma obsessão pode dormir por um tempo, mas não morre e, em menos de uma semanal desejou tornara vê-la. Gostaria de ouvir a sua voz, por indiferente que soasse ao telefone, mas o telefone nunca tocou para qualquer coisa de importante.

 

 

O doutor Plarr só chegou a casa, vindo da cabana, perto das três da manhã. Por causa das patrulhas da Polícia, Diego tomou uma estrada de circuito e deixou-o ficar perto da casa da Señora Sanchez, dando-lhe assim uma desculpa, se tal fosse preciso, para andar a pé na rua de madrugada. Houve um momento embaraçoso quando, ao subir as escadas, uma porto se abriu no andar de baixo e uma voz perguntou:

 

- Quem é?

 

- O doutor Plarr. Porque será que as crianças nascem a horas tão impróprias?

 

Embora se deitasse, mal dormiu. Despachou, no entanto, o trabalho da manhã mais depressa do que usualmente e seguiu para a quinta de Charley Fortnum. Não fazia ideia da situação que se lhe ia deparar, e sentia-se nervoso, fatigado, irritado, julgando que o esperava uma mulher histérica. Durante a noite, acordado, na cama, tinha considerado a possibilidade de revelar tudo à Polícia, mas isso seria condenar León e Aquino quase de certeza à morte, e talvez também Fortnum.

 

Era um meio-dia pesado, quente, quando chegou à fazenda. Um carro da Polícia estava ao lado do «Orgulho de Fortnum» à sombra dos abacates. Entrou em casa sem tocar a campainha e na sala de estar encontrou o chefe da Polícia a fala, com 'Clara. Clara não era a mulher histérica que ele Previra, mas uma rapariguinha sentada, muito direita, no sofá, como se estivesse a receber ordens de um superior. O coronel Perez dizia:

 

-... tudo quanto pudermos.

- Que está a fazer aqui? - perguntou o doutor Plarr.

- Vim visitar a Señora Fortnum, doutor. E o senhor?

- Vim visitar o cônsul para tratar de negócios.

- O cônsul não está - respondeu o coronel.

 

Clara não o cumprimentou. Dir-se-ia que estava à espera, sem vontade própria, como tantas vezes esperara no pátio do estabelecimento, que um dos muitos homens a conduzisse - empurrar era proibido pela Mãe Sanchez.

- Ele não está na cidade - disse o doutor Plarr.

- Esteve no escritório dele?

- Não. Telefonei.

 

Arrependeu-se logo do que disse, pois o coronel Perez não era nenhum tolo. Nunca se devia oferecer informações a um polícia. O doutor Plarr tinha mais de uma vez observado a maneira fria e eficiente como Perez trabalhava. Certa ocasião um homem fora encontrado esfaqueado numa jangada de troncos que viera a flutuar pelo Paraná a baixo durante dois mil quilómetros. Na ausência do doutor Benevento, haviam chamado o doutor Plarr à curva do rio, perto do aeroporto, onde as madeiras estavam à espera de transbordo. Ao fundo de uma veredazinha escorregadia, com cobras a rastejarem sob a vegetação, chegara a um pequeno cais de madeira, a que chamavam porto para madeiras.

 

Uma família tinha vivido na jangada durante um mês. O doutor Plarr, a cambalear por sobre os troncos atrás de Perez, admirara a facilidade com que o oficial se equilibrava. Sentia-se em perigo de escorregar sempre que os troncos mergulhavam, para virem de novo à superfície. Pensava: deve ser como equilibrarmo-nos em cima de um cavalo a galopar na arena de um circo.

 

- Falou com a governanta? - perguntou o coronel Perez.

 

O doutor Plarr estava outra vez irritado por ter mentido. Era o médico de Clara. Porque não dissera simplesmente que vinha na sua visita de rotina à senhora grávida? Uma mentira na presença de um polícia multiplicava-se como bacilos. Respondeu:

- Não. Ninguém respondeu.

 

O coronel Perez considerou a resposta do médico com um longo silêncio.

 

Plarr lembrava-se de Perez caminhar, rápido e com facilidade, sobre os troncos pesados, como se estivesse a pisar terra firme. Os troncos cobriam metade da largura do rio. Um grupo de pessoas, diminuído pela distância, estava ao meio da vasta floresta horizontal. Ele e Perez tinham de saltar de uma jangada para outra a fim de chegar lá, e de cada vez que saltava o médico receava cair no intervalo dos troncos, embora o vazio fosse geralmente inferior a um metro. Os sapatos enchiam-se-lhe de água, à medida que os troncos mergulhavam sob o seu peso, levantando-se outra vez. Perez dissera: «Aviso-o de que não vai ser bonito. A família viaja há semanas, na jangada, com o corpo. Teria sido melhor se o tivessem deitado ao rio. Nunca o saberíamos.» - «Porque não o fizeram? », perguntara o doutor Plarr, com os braços estendidos como se estivesse a caminhar na corda bamba. «O assassino», respondera Perez, «queria que ele tivesse um enterro cristão.» - «Então confessou tê-lo matado?» - «Confessou-me, a mim... Sabe, é assim o meu povo. »

 

Ao chegarem junto do grupo - dois homens, uma mulher e uma criança, com dois oficiais - o doutor Plarr reparou que o polícia nem sequer se tinha incomodado em arrancar a faca do assassino. Este estava sentado, de pernas cruzadas, junto do incómodo cadáver, como se fosse sua missão guardá-lo. Tinha uma expressão mais de tristeza do que de culpa.

 

O coronel Perez:

- Vim dizer à senhora que o carro de seu marido foi encontrado no Paraná, perto de Posadas. Não há vestígios do corpo, por isso esperamos que ele tenha escapado.

- Um acidente? Sabe, claro está (a senhora não se importa que eu diga isto?) que Fortnum bebe de mais.

- Sim. Mas existem ainda outras possibilidades - replicou Perez.

 

O doutor acharia mais fácil representar o seu papel para o oficial da Polícia ou para Clara, se se encontrasse só com cada um deles. Temia, ao falar, que um dos dois descobrisse qualquer coisa de falso na sua voz. Perguntou:

- Que lhe parece que tenha acontecido?

- Incidente ocorrido tão perto da fronteira pode ser político. Temos sempre de nos lembrar disso. Recorda-se do médico que foi raptado em Posadas?

- Claro. Mas porquê Fortnum? Não é político.

- É um cônsul.

- Apenas um cônsul honorário.

 

O próprio chefe da Policia parecia incapaz de compreender essa distinção. E falando para Clara:

- Logo que soubermos notícias comunicaremos com a senhora.

 

Pousou a mão no cotovelo do doutor Plarr:

- Queria perguntar-lhe uma coisa.

 

Levou o médico em direcção ao alpendre, onde o criado mudo, com os copos de Long John, parecia frisar a ausência de Charley Fortnum (decerto que Charley os havia de convidar para um copo antes de partirem), e dali para a sombra dos abacates. Apanhou um fruto tombado no chão, examinou-o com olhos de perito, pô-lo na parte de trás do carro da Polícia, com muito cuidado, onde o sol não lhe batesse. Disse:

- Uma beleza. Gosto de os comer esmagados num pouco de uísque.

- Que quer de mim? - perguntou o médico.

- Há uma coisa que me aflige um pouco.

- Não acredita que Fortnum foi raptado?

- É uma das hipóteses. Até me ocorreu que tivesse sido vítima de um estúpido engano. Esteve com o embaixador americano nas ruínas. O embaixador seria naturalmente um alvo mais provável. Se assim é, os homens devem ser estranhos, talvez do Paraguai. Nem eu nem você cometeríamos um erro desses, doutor. Digo «você» porque o doutor é quase um dos nossos. Claro que há sempre a probabilidade de o doutor estar indirectamente interessado.

- Não sou desse género, coronel.

- Estava a pensar no seu pai, do outro lado da fronteira.

 

Disse-me uma vez que ele ou estava morto ou na cadeia. O doutor podia ter um motivo. Perdoe a minha maneira de pensar alto, mas sinto-me sempre um pouco desorientado quando se trata de crimes políticos. Em política, o crime é frequentemente a ocupação de um caballero. Ora eu estou habituado a crimes cometidos por criminosos, ou pelo menos por homens violentos ou pobres. Frutos do dinheiro ou da luxúria.

- Ou do machismo - atreveu-se o médico a arreliá-lo.

- Oh, tudo aqui é machismo - retorquiu Perez, sorrindo tão cordialmente à observação do médico que Plarr se sentiu um pouco mais sossegado. - Aqui o abismo é apenas outra palavra para «viver». Uma palavra para o ar que respiramos. Quando não houver machismo, um homem está morto. Volta para a cidade, doutor?

- Não. já que vim aqui aproveito para ver a Señora Fortnum. Ela está à espera de bebé.

- Pois está. Disse-mo.

 

O chefe da Polícia tinha a mão na porta do carro, mas, no último momento, voltou-se e murmurou, como quem quisesse fazer uma confidência:

- Doutor, porque me disse que telefonou para o escritório do cônsul e não obteve resposta? Pus lá um homem, toda a manhã, para o caso de alguma chamada.

- O senhor bem sabe como é o serviço de telefones nesta cidade.

- Quando um telefone está avariado ouve-se o sinal de impedido, não se ouve chamar.

- Nem sempre, coronel. Enfim, talvez fosse esse sinal. Não escutei com muito cuidado.

- E, no entanto, veio todo este caminho até à fazenda?

- Era também um ensejo para ver a Señora Fortnum. Porque lhe havia de mentir?

- Tenho de pensar em todas as possibilidades, doutor. Até um crime passional é possível.

- Passional? - o médico sorria. - Olhe que eu sou inglês!

- Sim, não é provável... Bem sei. E no caso da Señora Fortnum... não é de crer que um homem como o senhor, a quem não faltam oportunidades, precisasse de tal... Todavia sei de crimes passionais mesmo em bordéis.

 

- Charley Fortnum é meu amigo.

- Oh, lá por isso... São geralmente os amigos que traem, em casos assim, não é verdade? - o coronel Perez punha a mão no ombro do médico. - Perdoe-me. Conheço-o bem, doutor, para me permitir um pouco de especulação quando me vejo desorientado. E estou-o agora. Contaram-me que as suas relações com a Señora Fortnum têm sido muito íntimas. Ao mesmo tempo... concordo... não me parece que exigissem a eliminação do marido. No entanto, continuo a perguntar a mim próprio por que razão me mentiu.

 

Trepou para o carro. O coldre do revólver rangeu quando se sentou. Voltou-se para trás para verificar se o abacate não estava em perigo de cair nem de se pisar.

 

O doutor Plarr:

- Quando lhe falei, coronel, não estava a pensar em tudo. Mentir a um polícia é, por assim dizer, um reflexo automático. E não imaginava que soubesse tanto a meu respeito.

 

- Isto é uma pequena cidade - retorquiu o coronel Perez.

- É sempre melhor presumir o conhecimento público, quando nos deitamos com uma mulher casada.

 

O doutor Plarr ficou a ver o carro da Polícia desaparecer e depois voltou relutantemente para dentro de casa. Pensava: o segredo é parte da atracção de uma relação sexual; uma relação descoberta tem sempre qualquer coisa de absurdo.

 

Clara estava sentada onde a tinha deixado. O médico reflectiu: «É esta a primeira vez que nos encontramos sem pressa, sem necessidade de marcar entrevista no Consulado, nenhum receio de que Charley volte acidentalmente da quinta.»

 

Clara perguntou:

- Achas que Charley está morto?

- Não.

- Talvez fosse bom para toda a gente que estivesse.

- Não para Charley.

- Mesmo para Charley. Ele tem tanto medo de envelhecer.

- Mesmo assim não creio que desejasse morrer já.

- Sabes, o bebé mexeu-se muito esta manhã.

- Ah, sim? > - Queres ir para o quarto?

- Claro.

 

O médico esperou que ela se levantasse e passasse à sua frente.

 

Nunca se beijavam na boca (parte das regras do bordel), e ele seguiu-a com um lento renovar de excitação. Pensava: numa relação verdadeiramente amorosa interessamo-nos por uma mulher por ela ser alguém completamente distinto de nós; depois, a pouco e pouco, ela adapta-se a nós, apanha os nossos hábitos, as nossas ideias, até as nossas frases, torna-se parte de nós, e então que interesse resta? Uma pessoa não pode amar-se a si própria, não pode viver sempre agarrada a si mesma - todo o homem tem necessidade de uma estranha no cama, e uma prostituta mantém-se uma estranha. O seu corpo passou já pelas mãos de tantos homens que ninguém pode decifrar lá a sua assinatura.

 

Quando ambos estavam calados, a cabeça dela pousada no ombro dele, na atitude própria de um amor pacífico, Clara começou uma frase que Plarr julgou ser a que tantas vezes tinha ouvido:

- Eduardo, é verdade? Tu realmente...

- Não - respondeu com firmeza.

 

Julgava que ela lhe pedia a resposta a uma pergunta banal que a mãe tantas vezes lhe fizera, depois que o pai os deixara, resposta que cada uma das suas amantes, mais tarde ou mais cedo, lhe exigira: «É verdade que me amas, Eduardo? » O mérito de um bordel era a palavra «amor» ser raramente empregada. E repetiu:

- Não.

- Como sabes? - inquiriu Clara. - Ainda agora parecias tão certo de que ele estava vivo. Mas o próprio polícia pensa que está morto,

 

O doutor Plarr compreendeu que se enganara e, de aliviado, beijou-a na boca.

 

As notícias vieram através da rádio da estação local enquanto almoçavam. Era a primeira vez que tomavam uma refeição juntos, e ambos se sentiam pouco à vontade. Comer lado a lado parecia ao doutor Plarr mais íntimo do que o acto sexual. A criada que os servia desaparecia entre cada prato paia as vastas e pouco asseadas regiões da arruinada casa, em que ele nunca penetrara. Primeiro serviu-lhes omeleta, depois um bife excelente (muito melhor do que o goulash do Clube Italiano ou a carne rija do Nacional). Havia uma garrafa do vinho chileno de Charley, que era muito mais substancial do que o vinho da cooperativa de Mendoza. Era estranho comer tão formalmente e tão bem com uma das raparigas da Señora Sanchez. Abria uma perspectiva inesperada para uma espécie de vida completamente diferente, a vida doméstica, alheia a ambos. Como se tivesse tomado um barco para descer um dos pequenos afluentes do Paraná e subitamente se encontrasse num grande delta como o do Amazonas, onde se perde todo o sentido de orientação. Invadia-o uma desacostumada ternura por Clara, que tornara possível tão estranha viagem. Escolhiam as palavras com cuidado. Era a primeira vez que havia palavras a escolher. Possuíam um tópico de conversa: o desaparecimento de Charley Fortnum.

 

O doutor Plarr começou a falar do cônsul honorário como se, finalmente, este estivesse morto - parecia-lhe mais seguro dessa maneira, pois, de outro modo, ela bem podia começar a interrogá-lo sobre a fonte das suas esperanças. Só quando Clara falava do futuro é que ele mudava de rumo para evitar um assunto incerto. Charley - assegurava-lhe - podia bem, estar vivo. Mas navegar mentalmente nessa como que vastidão amazónica, cheia de fundos baixios, afigurava-se-lhe difícil levava a uma confusão de tempos.

 

- É muito possível que ele se escapasse do carro, e depois, se ficasse exausto, que fosse arrastado pela corrente... ou então talvez se tenha apeado longe de qualquer aldeia...

 

- Mas porque estava o carro no rio? - e Clara acrescentou com tristeza: - Era o Cadillac novo. Charley ia vendê-lo na próxima semana. Em Buenos Aires.

 

- Quem sabe se ele não teria alguma coisa a fazer em Posadas? Era um homem que bem podia...

 

- Oh, não. Tenho a certeza de que Charley não ia para posadas. Vinha ter comigo. Não queria ir às ruínas. Nem sequer ia ao jantar do governador. Estava preocupado comigo e com a criança.

 

- Porquê? Não tinha razão para isso. Tu és uma rapariga forte, Clara.

 

- Eu fingia, às vezes, estar doente para ele te chamar cá. Era mais fácil para ti assim.

 

- Que putinha tu és! - exclamou Plarr com prazer.

 

- E ele levou os meus óculos de sol, os que tu me deste. Nunca mais os vejo. Eram os meus óculos favoritos. Tão elegantes. Vieram de Mar del Prata.

 

- Vou amanhã ao Gruber e compro-te outros.

 

- Não tinham outros.

 

- Podem mandá-los vir.

 

- Pediu-mos uma vez emprestados e quase mos quebrou.

 

- Devia parecer um bocado esquisito com eles.

 

- Nunca se importava com as aparências. E via muito mal depois de beber.

 

Os tempos passado e presente andavam para cima e para baixo como o ponteiro de um barómetro em tempo variável.

 

- Ele amava-te, Clara?

 

Era uma pergunta que nunca lhe ocorrera. Charley Fortnum, enquanto marido de Clara, jamais fora para ele senão um Pequeno incómodo, quando precisava de a possuir à pressa, mas Charley Fortnum, deitado e drogado dentro de uma caixa de madeira num quarto sujo, tomava a aparência de um sério rival.

 

- Era sempre bom para mim.

 

Depois de terem servido o gelado de abacate, Plarr sentiu que o desejo por ela reacordava. Não tinha doentes a visitar se1~o à tardinha; podia fazer uma sesta na fazenda sem precisar de estar atento ao ruído do motor do «Orgulho de Fortnum». Depois do clímax da manhã, poderia prolongar o seu prazer pela tarde fora. Nunca mais, depois da primeira vez, no apartamento dele, Clara tentara representar a comédia da paixão, e a sua indiferença começara a significar um desafio. Por vezes, quando estava só, o doutor Plarr sonhava com surpreendê-la num grito de pura excitação.

 

- Charley dísse-te por que razão casou contigo? - perguntou.

- Já te contei. Por causa do dinheiro quando morressse. E agora está morto.

- Talvez.

- Queres mais gelado? Posso chamar a Maria. Há uma campainha, mas é Charley quem costuma tocar.

- Porquê?

- Não estou habituada a campainhas. Todas essas coisas eléctricas me assustam.

 

Divertia-o vê-la sentada, direita, à cabeceira da mesa como dona da casa. Lembrou-se da mãe, em tempos idos, na estancia, quando a ama o trazia à sala para a sobremesa - também se servia frequentemente gelado de abacate. A mãe tinha sido muito mais bela do que Clara - nem havia comparação -, mas recordava-se dos cosméticos que ela comprava para a beleza, nessa altura; estavam no comprido toucador que ia de parede a parede. Por vezes perguntava aos seus botões se, naquele tempo, o próprio pai não estaria em segundo lugar depois de Guerlain ou de Elizabeth Arden.

 

- Que tal era Charley como amante?

 

Clara não se maçou a responder. Disse:

- O rádio... devíamos ouvir. Pode haver notícias.

- Notícias?

- Notícias de Charley, claro. Em que estás a pensar?

- Estava a pensar na longa tarde que podemos passar juntos. .

- E se ele aparece?

 

Apanhado de surpresa, Plarr disse:

- Não aparece!

- Porque tens tanta certeza de que Charley está realmente morto?

- Não tenho certeza nenhuma, mas, se estiver vivo, vai a um telefone antes de mais nada. Não te quer pregar um susto... nem à criança.

- Mas devemos escutar.

 

Depois de captar Asunción, Plarr encontrou uma estação local. Não havia notícias. Só uma triste cantiga em guarani e música de harpa. Clara perguntou:

- Gostas de champanhe?

- Gosto.

- Charley tem champanhe. Deram-lho uma vez em troca de uísque Long John. Verdadeiro champanhe francês, disse ele.

 

A música parou. Uma voz anunciou a estação e o noticiário, e as primeiras notícias foram sobre Charley Fortnum. Um cônsul britânico - o locutor não disse o adjectivo menosprezante - tinha sido raptado. Não havia referências ao embaixador americano. De qualquer modo, León. devia ter comunicado com os seus contactos. A omissão emprestava a Charley uma certa importância. Fazia-o, parecer valer o rapto. As autoridades - dizia o locutor - pensavam que os raptores eram paraguaios. Supunha-se que o cônsul tivesse sido levado para o outro lado da fronteira e que os raptores estivessem a fazer exigências, através do Governo argentino, a fim de despistar. Aparentemente tinham pedido a libertação de dez presos políticos retidos no Paraguai. Qualquer acção da Polícia no Paraguai ou na Argentina poria em perigo a vida do cônsul. O Governo devia arranjar um avião para Havana ou para a Cidade do México, destinado aos prisioneiros... Havia as usuais condições pormenorizadas. O aviso fora feito uma hora antes por uma chamada telefónica de Rosário para a Nación, de Buenos Aires. O locutor informava não haver possibilidades de o cônsul estar retido na capital, porque o seu carro fora encontrado perto de Posadas, a mais de mil quilómetros de distância.

 

- Não compreendo - disse Clara.

- Cala-te e escuta.

 

O locutor continuou a explicar que os raptores tinham escolhido a ocasião com certa habilidade, pois o general Stroessener, de momento, estava em férias no Sul da Argentina.

 

Comunicaram-lhe o rapto e ele disse: «Isso não é comigo. Estou aqui para pescar.» Os raptores esperariam até sábado à meia-noite que o Governo paraguaio concordasse com as suas exigências, através de um anúncio pela rádio. Quando esse tempo expirasse seriam obrigados a executar o cônsul.

 

- Mas porquê Charley?

- Deve ter sido um erro. Não há outra explicação. Não te aflijas. Ele há-de voltar para casa dentro de alguns dias. Diz à criada que não queres ver ninguém. Devem vir cá jornalistas.

- Ficas?

- Fico um tempo.

- Acho que não quero fazer amor.

- Com certeza. Compreendo.

 

Seguiram juntos pelo comprido corredor ladeado de gravuras desportivas, e o doutor Plarr parou para olhar outra vez o pequeno ribeiro sombreado pelos salgueiros nessa pequena ilha nortenha onde o pai nascera. O pensamento de o pai ter abandonado o lar acompanhou-o até ao quarto de dormir. Perguntou a Clara:

 

- Gostarias de tornar para Tucumán?

- Não - respondeu ela. - Naturalmente que não. Porque me perguntas isso?

 

Deitou-se na cama sem se despir. Estava fresco, como uma gruta marinha, o quarto de persianas corridas e ar condicionado.

 

- Que faz o teu pai?

- Corta cana, mas está a ficar velho.

- E fora da época de cortar cana?

- Vivem do dinheiro que lhes mando. Morreriam de fome, se eu morresse. Mas não vou morrer, pois não? Com o menino?

- Não, claro que não. Não tens irmão nem irmã?

- Tinha um irmão, mas desapareceu... ninguém sabe para onde. - Plarr sentou-se na borda da cama e a mão dela tocou a dele, por momentos, retirando-se logo. Talvez ela receasse que ele tomasse o seu gesto por uma comédia de ternura e não gostasse. - Saiu - continuou Clara - para cortar cana, uma manhã, às quatro horas, e nunca mais voltou. Talvez morresse, talvez fugisse.

 

Plarr recordou-se do desaparecimento do pai. Aqui viviam num continente, não numa ilha. Que vasta área de terra com frontciras mal definidas de montanhas, rios, florestas, pântanos, para uma pessoa se perder... desde o Panamá até à Terra do Fogo!

 

- O teu irmão nunca escreveu?

- Como? Não sabia ler nem escrever.

- Mas tu sabes.

- Um pouco. A Señora Sanchez ensinou-me. Gostava que as suas raparigas fossem instruídas. E Charley também me ajudou

- Não tens nenhuma irmã?

- Tive. Pariu um menino nos campos e estrangulou-o, e depois morreu.

 

Nunca, até aí, lhe tinha feito perguntas sobre a família. Não sabia por que razão lhas fazia agora. Só se fosse para descobrir o que existia por trás da sua obsessão. Haveria algumas características em que ela diferisse das outras raparigas da Señora Sanchez? Talvez, se descobrisse a natureza da diferença, a obsessão se extinguisse. Desejaria estrangular a obsessão como a irmã de Clara tinha estrangulado o filho. Disse:

 

- Estou cansado. Deixa-me deitar a teu lado um bocadinho. Preciso de dormir. Estive a pé até às três da manhã.

- Que estiveste a fazer?

- Com um doente. Acordas-me assim que começar a escurecer?

 

O murmúrio do ar condicionado junto da janela soava tão natural com um som de Verão, e uma vez, durante o sono, pareceu-lhe ouvir uma campainha tocar - a grande sineta que pendia numa corda das goteiras do alpendre. Tinha a semiconsciência de que Clara se havia levantado e saído. Ouvia vozes à distância, o barulho do motor de um automóvel. Depois ela regressou, deitou-se a seu lado, e ele adormeceu outra vez. Sonhou, como não sonhava há anos com a estancia no Paraguai. Estava deitado na sua cama de criança, uma cama de lona, ao cimo de uma escada, e ouvia o rodar de chaves e arrastar de ferrolhos - o pai a fechar bem a casa, mas, mesmo assim, sentia medo. Talvez alguém estivesse lá dentro.

 

Abriu os olhos. A borda da cama de lona era agora o corpo de Clara encostado ao seu. Estava escuro. Não via nada. Estendeu a mão e tocou-a. E sentiu o bebé. Pousou os dedos no rosto dela. Tinha os olhos abertos. Perguntou:

 

- Estás acordada?

 

Clara não respondeu.

 

Tornou a perguntar:

- Que há?

-Não quero que Charley volte, mas também não quero que ele morra.

 

O doutor Plarr ficou espantado com os sentimentos dela. Não os tinha revelado ao escutar o coronel Perez e, depois, só falara no Cadillac e nos óculos perdidos.

 

Clara tornou:

- Ele era bom para mim. É um homem bom. Não quero que sofra. Só não quero que esteja aqui.

 

Plarr começou a confortá-la com festas, como se conforta um cão assustado, e, delicadamente, sem intenção, os seus corpos juntaram-se. Plarr não sentiu luxúria, e quando Clara gemeu e o apertou nos braços, ele não experimentou qualquer sensação de triunfo.

 

Perguntou a si próprio: porque quis eu que isto acontecesse? Porque pensei que seria uma vitória? Parecia-lhe que o jogo não valia a pena, agora que sabia o que havia de fazer para vencer: compreensão, ternura, calma, a impostura do amor. Fora atraído para ela pela sua indiferença, até pela sua inimizade.

 

- Fica comigo esta noite - disse ela.

- Não pode ser. A tua criada saberia... diria a Charley.

- Eu podia deixar Charley.

- É demasiado cedo para pensar nisso. Primeiramente temos de o salvar... de qualquer maneira.

- Sim, com certeza, mas depois...

- Ainda agora estavas preocupada por causa dele.

- Não por causa dele. Por minha causa. Quando ele está aqui não posso falar de coisa nenhuma... a não ser da criança. Charley quer esquecer que a Señora Sanchez existiu, por isso nunca posso ver as minhas amigas, porque todas trabalham lá. Para que me quer ele? Não faz amor comigo com medo de magoar o menino. Às vezes apetece-me dizer-lhe: «Não é teu, porque te afliges com ele? »

- Tens a certeza de que não é dele?

- Sim, tenho a certeza. Talvez se ele soubesse de ti me deixasse ir embora.

- Quem eram essas pessoas que vieram cá há bocado?

- Dois jornalistas.

- Falaste com eles?

 

- Queriam que eu fizesse um apelo aos raptores... para salvar Charley. Não sabia o que lhes havia de dizer. Conhecia um deles, costumava ir comigo quando eu vivia com a Señora Sanchez. Acho que ele estava irritado por causa do bebé. O coronel Perez deve ter-lhe contado que vou ser mãe. Disse que era uma novidade. Sempre pensou que eu gostava mais dele do que dos outros homens. Creio que o seu machismo estava ferido. Estes homens acreditam sempre na gente quando fingimos. Condiz com o seu orgulho. Queria mostrar ao amigo, o fotógrafo, que havia qualquer coisa de especial entre nós, mas nunca houve nada. Nada. Enraiveci-me e desatei a chorar e eles tiraram-me um retrato. Ele dizia: «Muito bem, muito bem. Era isso que queriamos. A esposa e futura mãe a chorar.» E foram-se embora.

 

Não era fácil interpretar as lágrimas de Clara. Lágrimas por Charley, lágrimas de raiva, lágrimas por ela própria?

 

E Plarr disse:

- Que belo animal tu és, Clara.

- Fiz alguma coisa errada?

- Estiveste a representar outra vez, não é verdade?

- Que queres dizer com representar? Quando fizeste amor.

- Sim, estive a representar. Sempre me esforço por fazer o que te agrada. Sempre me esforço por dizer o que te agrada. Sim. Exactamente como na Señora Sanchez. E porque não? Tu também tens o teu machismo.

 

Ele quase acreditava nela. Queria acreditar. Se Clara estava a falar verdade devia haver algo ainda por descobrir; o jogo ainda não tinha acabado.

 

- Onde vais? - perguntou ela.

- Já perdi aqui muito tempo, Clara. Devo poder fazer qualquer coisa para ajudar Charley.

- E eu?

-Tu é melhor tomares banho, senão a criada dá pelo cheiro a sémen.

 

 

O doutor Plarr voltou para a cidade. Dizia consigo próprio que era preciso fazer alguma coisa por Charley Fortnum, imediatamente, mas não tinha ideia do que poderia ser. Talvez, se ficasse calado, tudo entrasse na ordem, como de costume - os embaixadores britânico e americano fariam a necessária pressão diplomática, Charley Fortnum apareceria, de manhã cedo, numa igreja, e regressaria a casa - a casa? - e no Paraguai dez prisioneiros seriam soltos - quem sabe se o seu pai não estaria entre eles? Que podia ele fazer senão deixar que as coisas se resolvessem? Já tinha mentido ao coronel Perez, já estava implicado.

 

Naturalmente, para descanso da sua consciência, faria um apelo emocional a León Rivas para libertar Charley Fortnum: «Em nome da nossa velha amizade.» Mas León era um homem que recebia ordens de outro e, em qualquer caso, o doutor Plarr não sabia onde o encontrar. No bairro dos pobres todas as veredas lamacentas se pareciam umas com as outras, havia as mesmas árvores de abacate por toda a parte, os mesmos casebres de lama ou lata, e as mesmas crianças de barriga inchada a carregarem bidões com água. Olhariam para ele com os seus olhos espantados, já infectados por tracoma, e n5o lhe responderiam às perguntas. Levar-lhe-ia horas, talvez dias, a descobrir a cabana onde Charley Fortnum estava sequestrado. E que resultado daria o seu apelo, afinal? Tentava em vão convencer-se de que León não era homem para homicídios, nem Aquino, ambos eram apenas simples instrumentos - lá estava El Tigre, em qualquer parte, não sabia onde.

Ouvira falar de El Tigre, pela primeira vez, uma tarde em que passara por León e por Aquino, sentados lado a lado na sala de espera do seu consultório. Eram apenas dois estranhos entre os demais doentes, e não olhou para eles segunda vez. Todos os que ali esperavam eram da responsabilidade da secretária, uma bonita moça chamada Ana.

 

Filha de um funcionário influente da Delegação de Saúde Pública, Ana tinha uma assustadora eficiência. Por vezes o doutor Plarr interrogava-se porque seria que nunca fora tentado a fazer amor com ela. Talvez hesitasse diante do uniforme branco, engomado, que ela adoptara de moto-próprio havia de ranger, de estalar, se alguém lhe tocasse: como se estivesse ligada a algum alarme contra ladrões. Ou talvez fosse a importância do pai, ou a sua piedade, real ou aparente, o que o detinha. Ana usava sempre uma cruzinha de oiro sobre o peito e, uma vez, quando o doutor Plarr havia dado uma volta pelo largo da catedral, vira-a sair, com a família, da missa de domingo, trazendo na mão um missal forrado de veludo branco - provavelmente presente da primeira comunhão, pois fazia pensar nas amêndoas que são distribuídas em tais ocasiões.

 

Na tarde em que León e Aquino o tinham vindo visitar, recebera todos os outros doentes antes dos dois desconhecidos. Não se lembrava deles porque havia sempre caras novas a oferecer-se à sua atenção. Paciência e pacientes eram palavras muito relacionadas. A secretária aparecera, com um rangido, e pusera uma tira de papel em cima da mesa, dizendo:

 

- Querem falar com o senhor doutor, juntos.

 

Pôs de lado um livro de medicina que estivera a consultar em frente de um doente - sem saber por que razão os doentes ganhavam confiança ao ver uma gravura colorida, aspecto da psicologia humana que os editores americanos tão bem conheciam.

 

Ao olhar para trás, viu os dois homens diante da sua mesa. O mais pequeno, que tinha orelhas salientes, perguntou:

 

- É de certeza o Eduardo?

 

- León! - exclamou Plarr. - León Rivas?

 

Abraçaram-se com certo acanhamento. Plarr perguntou:

- Há quantos anos! ... Nunca mais soube de ti desde que me enviaste o convite para a ordenação. Tive pena de não ir assistir à cerimónia... Mas seria perigoso para mim.

- Já tudo acabou.

- Porquê? Mandaram-te embora?

- Casei-me. Foi a primeira coisa. O arcebispo não gosta disso.

 

O doutor Plarr hesitava.

 

León Rivas disse:

- Fui muito feliz. É uma esplêndida mulher.

- Parabéns. Quem encontraste no Paraguai para te celebrar o casamento?

-Fizémos nós próprios o juramento um ao outro. Bem sabes que o padre, no casamento, não passa de testemunha. Numa emergência... Foi uma emergência.

- Já me esqueci de que as coisas eram assim fáceis.

-Oh, não tão fáceis como isso. É preciso pensar muito a sério. Essa espécie de casamento é mais irrevogável do que o casamento na igreja. Não reconheces o meu amigo?

- Não... Acho que não... - o doutor Plarr tentava tirar-lhe a escassa barba e identificar algum rosto de colega de escola que conhecera anos atrás em Asunción.

- Aquino.

- Aquino? Ah, claro, o Aquino.

 

Outro abraço. Como numa cerimónia militar, um beijo em cada face e uma condecoração merecida por um passado morto numa terra devastada. Perguntou:

- Que fazes? Querias ser escritor, não querias? És escritor?

- Já há escritores no Paraguai.

- Vimos o teu nome num embrulho na loja de Gruber - disse León.

- Ele contou-me, mas julguei que eram agentes da Polícia do outro lado.

- Porquê? Estás vigiado?

- Acho que não.

- Nós viemos da outra banda.

- Estão metidos em trabalhos?

- Aquino esteve preso - disse León.

- Deixaram-te sair?

- As autoridades não me convidaram exactamente a sair acrescentou Aquino.

- Tivemos sorte - explicou León. - Estavam a transferi-lo de uma esquadra para outra, houve alguns tiros, mas o único homem morto foi o polícia a quem devíamos pagar. Foi morto pela gente dele, por acidente. Tinhamos-lhe dado só metade do dinheiro adiantado, por isso Aquino ficou-nos muito barato.

- Vão fixar-se aqui?

- Não nos fixamos - tornou León. - Estamos aqui para um trabalho. Depois voltamos.

- Então não são doentes?

- Não. Não somos doentes.

 

O doutor Plarr avaliava os perigos da fronteira. Levantando-se, abriu a porta. A secretária estava de pé junto do ficheiro no escritório exterior. Metia aqui um cartão, ali outro. A cruz baloiçava, com os movimentos dela, como o turíbulo de um padre. Fechou a porta. Disse:

- Sabes, León, eu não me interesso por política. Só por medicina. Não sou como o meu pai.

- Porque te encontras aqui e não em Buenos Aires?

- Não me corria bem o trabalho em Buenos Aires.

- Pensámos que talvez gostasses de saber o que tinha acontecido a teu pai.

- Vocês sabem?

- Penso que depressa estaremos em posição de saber.

 

O doutor Plarr disse:

- É melhor eu tomar notas sobre a vossa saúde. vou escrever «tensão arterial baixa» na tua ficha, León, suspeita de anemia... Aquino... talvez «vesícula»... Vou mandar-te aos raios X. Compreendem, a minha secretária está à espera de ver o diagnóstico.

 

-Cremos que o teu pai ainda está vivo - disse León. Por isso, naturalmente, pensámos em ti...

 

Uma pancada na porta e a secretária entrou, dizendo:

- Acabei de arranjar o ficheiro. Se me deixar sair, agora...

- Um namorado à espera?

- Hoje é sábado - retorquiu ela, como se tais palavras explicassem tudo.

- Bem sei.

- Vou-me confessar.

- Ah! - exclamou o doutor Plarr. - Claro. Peço desculpa, Ana. Esqueci-me. Pode ir.

Não ter desejo dela irritava-o, pelo que aproveitara a ocasião para a vexar:

- Reze por mim - disse.

 

Ana não fez caso da impertinência.

 

- Se quiser deixar essas duas fichas na minha mesa, quando acabar...

 

O vestido dela crepitava, como um insecto nocturno.

 

O doutor Plarr comentou:

- Duvido de que a confissão seja demorada.

-Os que não têm nada que confessar são os que levam mais tempo - retorquiu León Rivas. - Querem agradar ao padre, dar-lhe que fazer. O assassino só tem uma coisa na ideia, daí esquecer tudo o mais... talvez coisas piores. É sempre rápido.

- Continuas a falar como um padre, León. Que te levou a casar?

- Casei-me quando perdi a fé. Um homem precisa de ter alguma coisa em que se apoie.

- Não te posso imaginar sem fé.

- Refiro-me à fé na Igreja. Ou no que dela fizeram. Claro, as coisas hão-de melhorar um dia. Mas fui ordenado no tempo do Papa João. Falta-me paciência para esperar por outro João.

- Antes de te ordenares querias ser abogado. E agora o que és?

- Um criminoso.

- Estás a brincar.

-Não. Foi por isso que vim ter contigo. Precisamos da tua ajuda.

- Para roubar um banco?

 

O doutor Plarr não conseguia tomar as palavras de León a sério, ao olhar para aquelas orelhas proeminentes suas conhecidas e ao lembrar-se...

- Roubar uma embaixada... talvez se possa chamar.

- Mas eu não sou criminoso, León... excepto quando faço um ou dois abortos.

 

Esperava que os olhos sacerdotais pestanejassem um pouco, mas continuaram a fitá-lo com indiferença.

 

- Numa sociedade errada - disse León -, os criminosos são os homens honestos.

 

A frase saiu-lhe demasiado fluente. Era provavelmente uma citação conhecida. O doutor Plarr lembrou-se de que os primeiros livros que León estudara tinham sido de jurisprudência - explicara-lhe uma vez o significado de prejuízo. Depois todas as obras de teologia - León conseguira que até a Santíssima Trindade se tornasse plausível por uma espécie de alta matemática. Calculou que devia haver outras cartilhas na sua nova vida. Quem sabe se não estaria a citar Marx?

 

- O novo embaixador americano - disse León - está a planear visitar o Norte em Novembro. Temos aqui contactos, Eduardo. Tudo quanto desejamos são os pormenores exactos do seu programa.

- Não vou ser cúmplice de assassínio, León.

- Não haverá assassínio. Seria de pouca vantagem para nós. Aquino, conta-lhe do tratamento que te deram.

- Muito simples - disse Aquino. - Nada moderno. Nada eléctrico. Como os conquistadores, à faca...

 

O doutor Plarr escutou com náusea. Tinha presenciado muitas mortes desagradáveis que o haviam impressionado menos. Nesses casos sempre restava alguma coisa a fazer, qualquer ajuda, por pequena que fosse. Sentiu-se enjoado com aquela narrativa, tal como, anos atrás, nos tempos de estudante, enjoara com a dissecação de um cadáver para fins didáticos.

 

Quando se tratava de um corpo sempre havia curiosidade e esperança. Perguntou:

- E tu não falaste?

- Claro que falei - disse Aquino. - Têm agora tudo no ficheiro, A secção contra-insurreição da C.I.A. ficou contente comigo. Dois dos seus agentes estavam lá, e deram-me três maços de Lucky Strike. Um maço por cada homem que eu traíra.

- Mostra-lhe a tua mão, Aquino - disse León.

 

Aquino pousou a mão direita em cima da mesa, como um doente a pedir conselho. Faltavam-lhe três dedos: sem eles a mão parecia algo apanhado numa rede de pesca no fundo dum rio onde as enguias estivessem activas.

 

Aquino disse:

- Foi por isso que principiei a escrever poesia. Só com a mão esquerda, os versos eram menos cansativos do que prosa. Podia aprendê-los de cor. Deixavam-me receber uma visita de três em três meses (outra recompensa que me deram) e eu recitava-lhes os poemas que tinha feito.

- Bons versos para um principiante Uma espécie de Purgatório em vilancicos.

- Quantos são vocês? - perguntou o doutor Plarr.

- Uma dúzia atravessou a fronteira, sem contar com El Tigre. Esse já estava na Argentina.

- Quem é El Tigre?

-O que dá as ordens. Chamamos-lhe assim, mas é um termo afectivo. Gosta de usar camisas às riscas.

- O plano parece-me louco, León.

- Já uma vez se realizou.

- Para quê raptar o embaixador americano aqui, em vez daquele que vocês têm em Asunción?

- Esse era o nosso primeiro plano. Mas o general toma grandes precauções. Aqui, convém que saibas, têm muito menos medo de guerrilhas desde o falhanço de Salta.

- De qualquer modo estás num país estrangeiro.

- A América do Sul é o nosso país, Eduardo. Não o Paraguai, não a Argentina. Bem sabes o que Che disse: «Todo o continente é o meu país.» Tu que és? Inglês ou sul-americano?

 

O doutor lembrava-se da pergunta, mas continuava a não saber responder, ao atravessar a cidade, passando pela prisão branca, gótica, que sempre se lhe afigurava uma decoração de açúcar para um bolo de casamento. Dizia com os seus botões que León Rivas era padre e não criminoso. E Aquino? Aquino era poeta. Seria fácil não dar grande importância ao perigo em que se encontrava Charley Fortnum se não o tivesse visto deitado, inconsciente, numa caixa de forma tão esquisita que bem podia ser um caixão.

 

 

 

Charley Fortnum acordou com a maior dor de cabeça de que se lembrava. Doíam lhe os olhos e mal conseguia ver. Sussurrou: «Clara», estendendo o braço para lhe apalpar a anca, mas tudo quanto apalpou foi a parede de terra. Então veio-lhe à mente a figura do doutor Plarr, debruçado sobre ele, durante a noite, com uma lâmpada na mão. O médico contara-lhe uma história incrível, falara-lhe num acidente.

 

Era dia, agora. A luz filtrada por baixo da porta que dava para o outro aposento dizia-lhe, apesar dos olhos doentes, que aquilo não era o hospital. Nem a caixa dura em que estava deitado era uma cama. Atirou as pernas para fora e tentou levantar-se. Tinha vertigens e quase caiu. Agarrando-se à borda do suposto leito, viu que estivera toda a noite deitado num caixão, e isso encheu-o de revolta.

 

- Ted? - chamou.

 

Não associava o doutor Plarr a anedotas, mas devia existir qualquer explicação, e estava ansioso por voltar para junto de Clara. Clara devia estar assustada, habitualmente não sabia o que fazer. Até tinha medo de se servir do telefone. Chamou outra vez, com voz rouca:

 

Ted?

 

uísque nunca o pusera nesse estado, nem mesmo a marca 0c11, Com quem diabo tinha estado a beber e onde? «Mason», disse para si próprio, «tens de ganhar coragem». Atribuí, sempre a Mason os seus piores erros, os seus piores falhanços. Na infância, quando ainda se confessava, era sempre Mason que se ajoelhava no confessionário e murmurava frases abstractas relativas a pecados contra a pureza, embora fosse Charley Fortnum que saía do confessionário, o rosto a brilhar de beatitude, depois da absolvição de Mason. «Mason, Mason», sussurrava agora, «és uma ovelha ranhosa. Que fizeste tu a noite passada?» Sabia que, quando se excedia na bebida, podia esquecer as coisas, mas nunca até aí esquecera tanto... Cambaleou para a porta e, pela terceira vez, chamou pelo doutor Plarr.

 

A porta escancarou-se e um estranho apontou-lhe uma arma. Tinha olhos estreitos e cabelo de azeviche de índio e gritou para Fortnum em guarani. Fortnum, mau grado a insistência do pai, nunca aprendera senão algumas palavras em guarani, mas era óbvio que o homem o estava a mandar para a suposta cama.

 

- Está bem. Está bem - respondeu Fortnum, falando inglês para que o homem entendesse tanto como ele entendia guarani. - Acalma-te, meu velho - e, sentando-se no caixão: - Põe-te a andar!

 

Outro desconhecido, de calças de ganga e tronco nu, entrou e disse ao índio que se retirasse. Trazia uma chávena de café. O café cheirava a casa, e Charley Fortnum sentiu-se um pouco confortado. O homem tinha orelhas salientes, e, por momentos, Charley recordou-se de um colega de escola a quem Mason arreliava impiedosamente, embora Fortnum se arrependesse logo, partilhando um pedaço de chocolate com a vítima. Perguntou:

- Onde estou eu?

- Não precisa de se afligir - respondeu o homem, scgurando o café.

- Tenho de ir para casa. A minha mulher com certeza está aflita.

- Amanhã já deve poder ir para casa.

- Quem era aquele homem da arma?

- Miguel. Bom homem. Beba o café, por favor. Sentir-se-á melhor.

- Como se chama você?

- León.

- E o nome de família?

- Nenhum de nós aqui tem família disse o homem - por isso não temos nome.

 

Charley Fortnum pensou duas vezes na afirmação do desconhecido como quem repetisse uma frase de um livro; não fazia mais sentido à segunda leitura.

 

- O doutor Plarr esteve aqui, a noite passada - disse.

- Plarr? Plarr? Acho que não conheço ninguém chamado Plarr.

- Disse-me que eu tinha tido um acidente.

- Fui eu quem lhe disse isso.

- Não foi você, foi ele. Vi-o. Trazia uma lâmpada eléctrica.

- Sonhou com ele. Sofreu uma comoção... O seu carro ficou muito danificado. Por favor, beba o café. Depois há-de lembrar-se melhor do que se passou.

 

Charley Fortnum obedeceu. Era café muito forte e realmente a cabeça principiou a desanuviar-se-lhe. Perguntou:

- Onde está o embaixador?

- Não sei de nenhum embaixador.

- Deixei-o nas ruínas. Queria ver a minha mulher antes do jantar. Queria saber se ela estava bem. Não gosto de a deixar sozinha muito tempo. Está à espera de bebé.

- Sim? Deve ser uma alegria para si. Uma grande coisa ser pai.

- Recordo-me agora. Havia um carro atravessado na estrada. Tive de parar. Não houve acidente nenhum. Tenho a certeza. E porquê a arma?

A mão tremia-lhe ao beber o café.

 

- Quero ir para casa, agora.

- É muito longe para ir a pé. E ainda não está bem. E o caminho... não sabe o caminho.

- Descubro a estrada. Mando parar um carro.

- É melhor descansar, hoje. Depois do choque. Talvez amanhã lhe arranjemos transporte. Hoje é impossível.

 

Fortnum atirou o resto do café à cara do homem e dirigiu-se ao outro aposento. Então parou. O índio lá estava defronte da porta da rua a apontar-lhe a espingarda à barriga. Os seus olhos escuros brilhavam de prazer, à medida que movia a arma um pouquinho para aqui, um pouquinho para ali, como se estivesse a decidir do alvo entre o umbigo e o apêndice. Dizia algo em guarani que o divertia.

 

O homem chamado León veio de dentro:

- Vê? Tinha-o avisado. Não pode ir hoje.

 

Tinha as bochechas vermelhas do café quente, mas falava de manso, sem ira. Paciente como alguém mais habituado a aguentar a dor do que a infligi-la. Disse:

- Deve ter fome, Señior Fortnum. Se quiser uns ovos...

- Sabe quem eu sou?

- Sim. Claro. É o cônsul britânico.

- Que vai fazer de mim?

- Terá de ficar connosco por algum tempo. Acredite-me, não somos seus inimigos, SeñorFortnum. O senhor vai ajudar-nos a libertar homens inocentes da prisão e da tortura. Por esta hora já os nossos homens em Rosário telefonaram para a Nación a dizer-lhes que o senhor está ao nosso cuidado.

 

Charley Fortnum começou a compreender.

 

- Enganaram-se? Queriam apanhar o embaixador americano?

- Sim. Foi um erro infeliz.

- Um erro tremendo. Ninguém se vai incomodar com Charley Fortnum. Que acabará por fazer?

- Tenho a certeza de que se engana. Há-de ver. Tudo se arranjará. O embaixador britânico vai falar com o presidente. O presidente falará ao general. Está aqui, na Argentina, em férias. O embaixador americano também há-de intervir. Só pedimos ao general que solte alguns homens. Tudo teria sido muito fácil se um dos nossos homens se não enganasse.

- Não estavam muito bem informados, pois não? O embaixador tinha dois polícias com ele. E o secretário. Daí não haver espaço para mim no carro dele.

- Podíamos ter tratado de todos.

- Muito bem. Dê-me os seus ovos - disse Charley Fortnum -, mas diga a esse tal Miguel para pôr de lado a arma. Dá-me cabo do apetite.

 

O homem chamado León ajoelhou-se diante de um pequeno fogão de álcool, pousado no chão de terra, e pegou em fósforos, numa frigideira, num bocado de gordura.

 

- Apetecia-me um pouco de uísque, se tivesse.

- Peço desculpa. Não temos bebidas alcoólicas.

 

A gordura principiou a ferver na frigideira.

 

- Chama-se León, não é?

- Sim.

 

O homem quebrou dois ovos na borda da frigideira. Quando segurava as duas metades da casca por cima da frigideira, qualquer coisa nos seus dedos fez lembrar a Fortnum o momento em que o padre, no altar, quebra a hóstia sobre o cálice.

 

- Que vai fazer se eles se recusarem?

- Espero que aceitem - disse o homem ajoelhado. - Tenho a certeza de que aceitam.

- E eu espero que Deus o oiça - retorquiu Charley Fortnum. - Não frite muito os ovos.

 

Só de tarde é que Charley Fortnum ouviu as notícias oficiais a seu respeito. O homem chamado León ligou um rádio de bolso, ao meio-dia, mas as pilhas falharam a meio de uma música guarani e não havia mais cargas. O jovem de barba a quem León chamou Aquino foi à cidade comprar outras. Demorou-se muito. Chegou uma mulher do mercado com víveres e cozinhou-lhes o almoço, uma sopa de vegetais com bocados de carne. Também fez a limpeza na palhota, levantando o pó num lado para este assentar noutro. Tinha cabelo preto, abundante, desgrenhado, e uma verruga no rosto, e tratava León com um misto de autoridade e subserviência. León chamou-lhe Marta.

 

Uma vez, Charley Fortnum, embaraçado por causa da presença da mulher disse que precisava de ir à retrete. León deu uma ordem ao índio que o levou à retrete, nas traseiras da cabana. Como faltava uma dobradiça na porta, esta não se fechava, e dentro havia apenas um buraco cavado com duas tábuas atravessadas. Quando Charley saiu, o guarani estava sentado a pequena distância a brincar com a arma, fazendo pontaria ora para uma árvore ora para um pássaro que voava, ora para um cão vadio. Através das árvores Charley viu outra cabana, ainda mais pobre do que aquela onde estava. Pensou em correr para lá a pedir ajuda, mas tinha a certeza de que o índio aproveitaria a oportunidade para se servir da espingarda, Quando regressou disse a León:

 

- Se me pudesse arranjar umas garrafas de uísque, eu pagava-as.

 

Ninguém lhe roubara a carteira - reparou nisso - e tirou de lá o dinheiro necessário.

 

León deu o dinheiro a Marta. Depois advertiu:

- Tem de ter paciência, Señor Fortnum. Aquino ainda não regressou. Ninguém pode ir sem ele voltar. E daqui à cidade é longe.

- Eu pago o táxi...

- Não creio que seja possível. Não há táxis aqui.

 

O índio agachou-se novamente à porta. Charley Fortnum disse:

- Vou dormir um bocado. Essa droga que você me deu era forte.

 

Tornou para o quarto interior e estendeu-se no caixão. Tentou dormir, mas os pensamentos mantinham-no acordado. Perguntava a si próprio como estaria Clara na sua ausência. Nunca a havia deixado sozinha uma noite inteira. Não sabia nada de partos, mas tinha a ideia de que um choque ou a aflição podiam afectar o nascimento. Esforçara-se mesmo, depois do casamento com Clara, por cortar a bebida, excepto na primeira noite de uísque e champanhe quando, pela primeira vez, tinham feito amor em grande, sem nada a incomodá-los, no Hotel Itália, em Rosário - um hotel antigo que cheirava agradavelmente a pó acumulado, tal uma velha biblioteca.

 

Tinham ido para lá porque pensara que Clara ficaria pouco à vontade no Hotel Riviera, que era novo, caro, com ar condicionado. Havia papéis a recolher no Consulado em Santa Fé, 939 (lembrava-se do número por incluir os do mês e ano do seu primeiro casamento), papéis que, caso se fizessem inquéritos, mostrariam não haver impedimento para o segundo casamento - levara semanas a obter uma cópia do certificado de óbito de Evelyn numa cidadezinha em Idaho. Pôde, ao mesmo tempo, deixar o seu testamento num sobrescrito selado no consulado. O cônsul era simpático, um homem de meia-idade. Ele e Charley Fortnum tinham-se entendido logo, quando, por um acaso, a conversa incidiu sobre cavalos. Convidou-os, depois das cerimónias civil e religiosa, e abriu uma garrafa de genuíno champanhe francês. Essa festazinha de bebidas, entre os ficheiros, levara vantagem à recepção em Idaho, após o primeiro casamento. Recordava-se com horror do bolo branco e dos parentes da mulher, de fato preto e colarinho engomado, embora se tratasse de casamento civil, sem validade na Argentina, Tinham sido prudentes, não falando nisso, ao regressarem. Evelyn recusara o casamento católico - contra, aliás, a sua própria consciência, pois se havia tornado uma adepta da Christian Science. Claro que o casamento civil não lhe dava direito à herança - o que também era uma indignidade. Tinha o vivo desejo de arranjar as coisas melhor para Clara; certificara-se de que não haveria fendas nas paredes do seu segundo casamento. Pretendia deixá-la, quando morresse, numa segurança inexpugnável.

 

Momentos depois caiu num sono sem sonhos; acordou-o o rádio, na outra sala, a repetir-lhe o nome: Señor Carlos Fortnum. A Polícia - dizia o locutor - pensava que o tivessem levado para Rosário porque a chamada para a Nación viera dessa cidade. Uma cidade de mais de meio milhão de habitantes não podia ser revistada totalmente, e as autoridades só tinham quatro dias para aceitar as condições dos raptores. Um desses quatro dias já havia passado. Charley Fortnum Pensou: «Clara deve estar a escutar a rádio»., e agradecia a Deus se Ted a protegesse. Ted devia saber o que acontecera, havia de a ir visitar, faria alguma coisa para a acalmar. Dir-lhe-ia que, mesmo que o matassem, ela ficaria bem. Clara receava muito o passado - sabia isso por ela nunca aludir a esse passado. Fora uma das razões por que casara com ela para lhe provar que em circunstância alguma precisaria de voltar para a Mãe Sanchez. Cuidava exageradamente da felicidade dela, como um homem desajeitado a quem tivessem confiado um objecto muito frágil que não lhe pertencia. Estava sempre com medo de não a fazer feliz. Alguém falava agora da equipa argentina de futebol, que andava em tournée pela Europa. Charley chamou:

- León!

 

A pequena cabeça de orelhas de morcego e olhos atentos de servo bom espreitou à porta.

 

- Dormiu muito, Señor Fortnum. Foi bom.

- Ouvi a rádio, León.

- Ah, ouviu?

 

León trazia um copo na mão e uma garrafa de uísque debaixo do braço. Disse:

- A minha mulher trouxe duas garrafas da cidade.

 

Mostrava o uísque com orgulho (era de marca argentina contava o troco cuidadosamente.

 

- Não se aflija. Tudo acabará dentro de poucos dias.

- Quer dizer que acabará comigo? Dê-me esse uísque - encheu a terça parte do copo e bebeu.

- Estou certo de que esta noite anunciam que aceitam as nossas condições. E então amanhã de manhã pode voltar para casa.

 

Charley deitou outra dose.

 

- Está a beber demais - disse o homem chamado León, cordialmente preocupado.

- Não, não estou. Sei a verdadeira medida. E é a medida que conta. Qual é o seu apelido, León?

- Já lhe disse que não tenho apelido.

- Mas tem um título, não é verdade? Diga-me o que esta a fazer aqui, padre León.

 

Pareceu-lhe que as orelhas de León se entesaram, como de um cão perante a entoação familiar.

 

- Está enganado. Acaba de ver a minha mulher, Marta. ela que lhe trouxe o uísque.

 

- Mas aquele que uma vez foi padre fica sempre padre. Descobri-o quando partiu os ovos. Vi-o no altar, padre.

- Está a imaginar coisas, Señor Fortnum.

-E que está você a imaginar? Podia ter feito um bom negócio com o embaixador, mas comigo não arranja nada. Não valho um chavo para ninguém, excepto para minha mulher. Que estranho um padre tornar-se assassino! Mas suponho que manda outro fazer a coisa.

-Não - retorquiu León muito sério. - Se for preciso fazer-se, Deus permita que não, serei eu a fazê-lo. Não quero escapar à culpa.

- Então é melhor deixar-lhe algum uísque. Há-de precisar de um gole. .. dentro de três dias, não é?

 

Os olhos de León pestanejaram. Tinha um ar assustado. Arrastou uns passos para a porta, como se fosse deixar o altar e tivesse medo de tropeçar na orla da sotaina, demasiado comprida para ele.

 

- Podia ficar a conversar um bocado - disse Charley Fortnum. - Sinto-me mais aterrado quando estou só. Não me importo de lho dizer. Se não podemos falar com um padre, com quem poderemos falar? Esse índio aí... sentado, a olhar para mim, a sorrir. Quer matar.

- Está enganado, Señor Fortnum. Miguel é bom homem. Não sabe espanhol, e por isso sorri, para lhe mostrar amizade. Experimente dormir mais.

- Já dormi o bastante. Quero conversar consigo.

 

O homem fez um gesto com as mãos, e Charley Fortnum imaginou-o na igreja, a dar os seus passos rituais.

 

- Tenho muito que fazer.

- Posso retê-lo aqui, se quiser.

- Não, não. Tenho de ir.

- Posso retê-lo aqui facilmente. Sei a maneira.

- Volto já. Prometo-lhe.

- Tudo quanto tenho a dizer para o reter aqui... padre... é: « Por favor oiça-me em confissão.»

 

O homem parou à porta, de costas. As orelhas salientes eram como mãos levantadas sobre uma oferenda.

 

- Desde a minha última confissão, padre ...

 

Virando-se, o homem disse, zangado:

- Não deve brincar com coisas dessas ... Se brincar, não lhe dou ouvidos.

- Mas não é brincadeira, padre. Não estou em situação de brincar com coisa alguma. Todos os homens têm naturalmente muito que confessar quando a morte chega.

- Tiraram-me toda a autoridade - disse o outro, com ar obstinado. - Deve saber o que quero dizer, se é realmente católico.

- Acho que conheço as leis melhor do que o senhor. Não precisa de autoridade num caso de urgência... se não houver outro padre. E não há, pois não? Os seus homens nunca trariam um padre aqui...

- Não há urgência... Ainda não.

- Mesmo assim o tempo escasseia... Se eu pedir...

 

O homem fazia-lhe outra vez lembrar um cão repreendido por uma falta que não compreendesse bem. Começou a implorar:

- Señor Fortnum, asseguro-lhe que nunca haverá uma urgência... que nunca será necessário...

- Estou arrependido e peço perdão... É assim que devo começar, não é? Há quanto tempo... Em quarenta anos fui uma vez à igreja... Há pouco ainda, quando me casei. Mas não me confessei. Teria levado muito tempo e não podia deixar a noiva à espera.

- Por favor, Señor Fortnum, não escarneça de mim.

- Não estou a escarnecer de si, padre. Talvez esteja antes a escarnecer um pouco de mim próprio. Enquanto durar o uísque - e acrescentou: - É realmente engraçado. «Peço perdão a Deus por seu intermédio, padre.» É essa a fórmula, não é? E durante todo o tempo você com a espingarda pronta. Não lhe parece que devíamos começar já? Antes de carregar, arma. Tenho imensas coisas na ideia.

- Não quero ouvi-lo - e fez o gesto de pôr as mãos nos ouvidos. As orelhas uniram-se ao crânio e saltaram de novo.

 

Charley Fortnum disse:

 

-Oh, não se aborreça. Esqueça isso. Eu não estava a falar muito a sério. E que diferença faz, enfim?

- Que quer dizer?

- Não acredito em nada, padre. Nunca me teria casado na igreja se a lei não me obrigasse. Havia a questão do dinheiro para a minha esposa. Qual foi a sua intenção, padre, quando casou? - e ajuntou logo: - Perdoe-me, padre. Não tenho nada com isso.

 

O homenzinho, no entanto, não se aborreceu. Parecia que o assunto tinha até certa atracção para ele. Atravessou o quarto devagar, com a boca meio aberta, como um homem esfomeado a quem oferecessem pão. Escorria-lhe um pouco de saliva ao canto da boca. Agachou-se no chão ao lado do caixão. Disse baixinho (bem podia estar ele próprio ajoelhado num confessionário):

 

- Creio que foi raiva e solidão, Señor Fortnum.

- Compreendo - retorquiu Charley Fortnum. - Também já sofri de solidão. Mas porquê raiva? Contra quem estava enraivecido?

- Contra a a Igreja - e num tom de ironia: - Contra minha mãe, a Igreja.

- Eu costumava zangar-me com o meu pai. Não me compreendia, pensava eu, ou não se importava comigo. Odiava-o. Apesar disso, fiquei tão só quando ele morreu! E agora - levantou o copo - até o imito. Embora ele bebesse mais do que eu. Mesmo assim, sempre era meu pai. Não percebo por que razão se zangou com a Madre Igreja. Eu nunca me poderia zangar com uma instituição.

- Ela é uma espécie de pessoa também - tornou o homem. - Diz-se que é Cristo na Terra... E eu ainda creio um pouco nisso. Uma pessoa como o senhor, um inglês não é capaz de entender como se sentia envergonhado das coisas que me mandavam ler ao povo. Fui padre num bairro pobre de Asunción, perto do rio. já reparou como os pobres se agrupam perto dos rios? Fazem o mesmo aqui, como se planeassem, um.dia, fugir a nado, mas não sabe nadar nem há para onde fugir a nado. Aos domingos tinha de ler os Evangelhos.

 

Charley Fortnum escutava com alguma comiseração e com muita astúcia. A sua vida dependia desse homem, e era vital, mente importante para ele saber o que o comovia. Devia existir nele alguma corda sensível ao sentimento de fraternidade. León falava imoderadamente, tal como alguém sequioso a beber. Talvez não pudesse falar livremente há muito tempo: talvez fosse essa a única maneira de desabafar: com um homem que ia morrer e que nunca mais recordaria as suas palavras, como um padre no confessionário.

 

E Charley Fortnum perguntou:

- Que há de mal nos Evangelhos, padre?

- Não fazem sentido. Pelo menos no Paraguai. «Vende e dá aos pobres»... Tinha de lhes ler isto, enquanto o arcebispo estava a comer um belo peixe do Iguazu e a beber vinho francês com o general. Claro que o povo não morria de fome. Pode-se evitar que morra dando-lhe mandioca, e a subnutrição é muito mais segura para os ricos do que a fome. A fome leva um homem ao desespero, enquanto a subnutrição o faz sentir-se por demais cansado para erguer o punho. Os americanos sabem-no muito bem; a ajuda que nos dão faz esta diferença. O nosso povo não morre de fome: murcha. As palavras que eu costumava dizer: «Sofrei, meus filhos», dizia-as perante as crianças sentadas nas filas da frente, com a barriga grande e o umbigo saliente como um puxador de gaveta. «É melhor atar ao pescoço uma mó de moinho», «Ele que dá aos mais pequenos». Dá o quê? Dá mandioca? E a seguir distribuia a hóstia; não alimenta tanto como um bom chipá. E depois bebia o vinho. Vinho! Aquelas pobres criaturas nunca tinham provado tal bebida. Porque não usávamos água no sacramento? Cristo usou-a em Canal Não haveria um copo de água na última Ceia que Ele pudesse ter usado em vez de vinho?

 

Para espanto de Charley Fortnum, os olhos de cão estavam inchados de lágrimas reprimidas. Depois León continuou:

- Oh, não pense que são todos maus cristãos como eu. Os jesuítas fazem o que podem. Mas a Polícia observa-os. Têm os telefones deles vigiados. Se algum parece perigoso, é mandado logo para a outra banda do rio. Não o matam. Os ianques não gostam de matar padres e, de qualquer modo, não somos muito perigosos. Uma vez, num sermão, falei no padre Torres, que foi fuzilado nas guerrilhas na Colômbia. Disse apenas que, ao contrário de Sodoma, a Igreja produzia por vezes um homem justo, daí não poder ser talvez destruída como Sodoma. A Polícia fez queixa de mim ao arcebispo e o arcebispo proibiu-me de pregar. Bem, era um pobre homem, já muito velho, de quem o general gostava, e que supunha estar a fazer bem dando a César...

 

- Essas coisas são um pouco confusas para mim, padre - disse Charley Fortnum, apoiado no cotovelo sobre o caixão e olhando para baixo, para a cabeça escura que ainda mostrava o vestígio da tonsura, como um acampamento pré-histórico visto de avião.

 

Charley Fortnum usava a palavra «padre» sempre que podia. Dava-lhe confiança. Padre... pai.... Um pai não matava geralmente um filho, embora, claro, tivesse havido quase uma omissão no caso de Abraão.

- Eu não tenho culpa, padre.

- Não estou a culpá-lo, Señor Fortnum, Deus me livre de tal coisa.

- Compreendo que o embaixador americano, segundo o seu ponto de vista... bem, era um objectivo legítimo. Mas eu... nem sequer sou um verdadeiro cônsul, e os ingleses não estão metidos nisso, padre.

 

O padre murmurou distraidamente um lugar-comum:

- Dizem que um homem tem de morrer pelo povo.

 

- Mas quem o disse foi quem o crucificou, não os cristãos.

 

O padre levantou os olhos.

- Sim. Tem razão. Falei agora sem sequer pensar. O senhor conhece o Testamento.

- Não o leio desde rapaz. Mas é uma coisa que fica na memória- como Struwelpeter.

- StruWelpeter?

- Cortaram-lhe os polegares.

- Nunca ouvi falar nele. É um dos vossos mártires?

- Não, não. É uma história da infância, padre.

- Tem filhos? - perguntou o padre abruptamente.

- Não, mas já lhe disse que dentro de alguns meses deve nascer um. Já se mexe na barriga da mãe.

- Sim, lembro-me agora. Não se aflija. Bem depressa irá para casa.

 

Era como se a frase estivesse encaixilhada em interrogações e ele quisesse que o prisioneiro o sossegasse, concordando. Charley Fortnum, porém, recusou-se a esse jogo.

 

- Para quê este caixão, padre? Parece-me um pouco mórbido.

- A terra é demasiado húmida para se dormir nela, mesmo com um pano por baixo. Não queremos que apanhe reumatismo.

- Bem... Muito simpático, padre.

- Não somos bárbaros. Há aqui no bairro um homem que faz caixões. Comprámos-lhe um. Mais seguro do que comprar uma cama... Há no bairro mais encomendas de caixões do que de camas. Ninguém faz perguntas por causa de um caixão.

- E suponho que pensaram que era útil, mais tarde, para arrumar um corpo.

- Juro-lhe que disso nem sequer nos lembrámos. Encomendar uma cama seria perigoso.

- Bem, acho que vou beber outro uísque, padre. Beba um comigo.

- Não. Estou de serviço. Tenho de o guardar - sorriu timidamente.

-Não seria difícil de vencer, pois não? Mesmo paia um velho como eu.

- Há sempre dois de nós de serviço - explicou o Padre. - Miguel está lá fora com a arma. São estas as ordens de El Tigre. Existe também outra razão para isso. Um homem, pode ser levado pelas palavras. Ou até comprado. Somos todos seres humanos. E esta não é a vida que nenhum de nós escolheria.

- O índio não fala espanhol?

- Não, e ainda bem.

- Importa-se que eu estique um pouco as pernas?

- Com certeza que não.

 

Charley Fortnum foi até à porta e verificou que era verdade o que o padre dissera. O índio lá estava agachado, com a arma ao colo. Sorriu para Fortnum, confiante, como se os dois partilhassem uma anedota secreta. Quase imperceptivelmente mudou a arma de posição.

 

- Fala guarani, padre?

- Sim. Costumava pregar em guarani.

 

Uns minutos antes tinha havido um momento de aproximação, de simpatia, de amizade até, entre eles, mas esse momento passara. Quando uma confissão acaba, tanto o padre como o penitente estão sós. Fingem não se conhecerem, se passam um pelo outro na igreja. Dir-se-ia que era o penitente quem estava agora junto do caixão a olhar para o relógio. Charley Fortnum pensou: está a verificar quantas horas faltam.

 

- Mude de ideias e tome um uisque comigo, padre.

- Não, não, obrigado. Um dia, talvez, quando tudo isto acabar - e acrescentou. - Ele demora-se. Eu devia ter ido embora há muito.

- Quem é que se demora?

- Já lhe disse que pessoas como nós não têm nome- respondeu o padre, zangado.

 

A noite descia e na sala de fora um deles tinha acendido uma vela. A porta do quarto ficara aberta e Charley Fortnum via o índio sentado no limiar, com a arma ao colo. Perguntou de si para consigo quando seria a vez de o homem ir dormir. León tinha saído há muito. Havia um negro que já vira antes... Considerou: se eu tivesse uma faca poderia fazer um buraco para me escapar?

 

O homem chamado Aquino trouxe para dentro uma vela, segurando-a na mão esquerda. Charley Fortnum reparou que ele tinha sempre a mão direita escondida nas calças de ganga.

 

Talvez segurasse um revólver, ou uma faca - e os seus pensamentos voltaram à ideia algo desesperada de fazer um buraco na lama seca da parede. Numa situação impossível era preciso tentar o impossível. Perguntou:

- Onde está o padre?

- Tinha que fazer na cidade, Señor Fortnum.

 

Tratavam-no com grande cortesia, como se estivessem a tentar convencê-lo: «Não há nada de pessoal neste negócio. Quando tudo passar podemo-nos encontrar como amigos.» Ou seria apenas a cortesia que um guarda de prisão costumava mostrar, mesmo ao mais brutal assassino, antes da sua execução? As pessoas têm pela morte um temeroso respeito, como se se tratasse de um estranho ilustre, e contudo indesejado, que visitasse a cidade onde residem.

 

Disse:

- Tenho uma fome danada. Era capaz de comer um boi.

 

Não era verdade, mas talvez fossem bastante tolos para lhe darem uma faca com a comida. Tinha a impressão de se encontrar nas mãos de amadores, não de profissionais.

 

- Um pouco de paciência, Señor Fortnum. Estamos à espera de Marta. Prometeu fazer-nos um guisado. Não é muito boa cozinheira, mas se tivesse estado na prisão como eu...

 

Charley Fortnum pensou: «Guisado... Vão-me dar outra vez uma colher. »

-Há ainda algum uísque - disse. - Quer tomar unma bebida comigo?

- Nenhum de nós deve beber.

- Um pequeno... para me acompanhar.

- Então muito pequeno. Como depois uma das cebolas que Marta trouxer para o guisado. Tira o cheiro a álcool. Não quero desapontar León. Para ele é natural a disciplina, mas nós não somos todos padres, graças a Deus. Isso é muito uísque protestou.

- Muito? Apenas metade do meu. Salud.

- Salud.

 

Reparou que Aquíno continuava com a mão direita no bolso.

 

- O que é você, Aquino?

- Que quer dizer com isso?

- É operário?

- Sou criminoso - disse Aquino com orgulho. - Somos todos criminosos .

- Uma ocupação do dia todo? - Fortnum ergueu o copo e Aquino imitou-o. - Deve ter começado algures.

- Oh, fui para a escola como toda a gente. Uma escola dirigida por padres. Bons homens e boa escola. León andava lá também... Ele queria ser abogado. Eu queria ser escritor, mas um escritor também precisa de viver, por isso fui para o negócio do tabaco. Fazia dinheiro a vender cigarros americanos na rua. Cigarros de contrabando do Panamá. Bom dinheiro também... Quero dizer, partilhava um quarto com mais três e tínhamos o bastante para comprar cbipás. Os chipás engordam, são melhores que mandioca.

- Tenho uma quinta fora da cidade - disse Charley Fortnum. - Precisava de um novo capataz. Você é um homem culto. Podia facilmente aprender o trabalho.

- Não, tenho agora outro ofício. Já lhe disse. Sou criminoso. E também sou poeta.

- Poeta?

- Na escola, León ajudava-me a escrever. Dizia que eu tinha talento. Mas uma vez mandei um artigo para um jornal de Asunción a criticar os ianques. No nosso país é proibido pelo general publicar qualquer coisa contra eles. E depois disso nem sequer liam os artigos que eu enviava. Receavam que eu pusesse nas entrelinhas algo que lhes trouxesse problemas. Julgavam que eu era um político, e assim, naturalmente... que mais podia fazer? Tornei-me um político. Então mandaram-me para a cadeia. Acontece quando se é político, quando se não é um «colorado», quer dizer, do partido do general.

- Na cadeia aquilo era mau?

- Muito mau - e Aquino tirou do bolso a mão direita e voltou-a a Charley Fortnum. - Foi quando comecei a fazer poesia. Leva muito tempo a aprender a escrever com a mão esquerda. Detesto coisas vagarosas. Antes queria ser um rato

do que uma tartaruga, ainda que a tartaruga viva mais tempo - tornara-se palrador depois do segundo gole de uísque. Admiro a águia que cai sobre a vítima como uma rocha do céu, não o abutre que esvoaça lentamente, a olhar, como se esperasse que a carne podre lhe fugisse. Foi por isso que me virei para a poesia. A prosa move-se devagar, a poesia cai como uma águia e ataca logo. Claro que na prisão não me davam pena nem papel, mas eu não precisava de escrever os versos. Aprendia-os de cor.

- Era boa poesia? - perguntou Charley Fortnum. Não que eu conheça a diferença.

- Acho que sim - terminou o uísque. - León, pelo menos, disse que alguns versos eram bons. Que se pareciam com os de um homem chamado Villon. Um criminoso como eu.

- Nunca ouvi falar nele - observou Charley Fortnum.

- O primeiro poema que escrevi na cadeia era acerca da primeira prisão de todos, a que todos nós conhecemos. Sabe o que Trotsky disse quando lhe mostraram a sua nova casa no México? Tinham-na feito como uma pequena fortaleza por causa dos ladrões, ou pelo menos assim pensavam. E ele: «Isto, faz-me lembrar a minha primeira prisão. As portas fazem o mesmo barulho.» O meu poema tinha um refrão: «Só veio o meu pai por entre as grades.» Estava a pensar, sabe, naquela espécie de jaulas onde põem as crianças nas casas burguesas. No meu poema o pai continuava a seguir o filho toda a vida - era o mestre-escola, depois o padre, o polícia, o guarda da prisão e, por fim, o próprio general Stroessner. Vi uma vez o general quando ele andava a visitar o campo. Foi à esquadra onde eu estava e vi-o pelas grades.

- Tenho um filho para nascer - disse Charley Fortnum. - Gostaria de ver o pequeno nem que fosse por pouco tempo. Mas não por entre as grades, sabe? Gostaria de viver para saber se ele é rapaz ou rapariga.

- Quando é que nasce?

- Dentro de cinco meses, parece, mais ou menos. Não tenho bem a certeza. Faço um pouco de confusão com essas coisas.

- Não se aflija. O senhor estará em casa muito antes.

- Não, se vocês me matarem.

 

Charley Fortnum esperava receber a usual resposta de confiança, por simulada que fosse. Mas não se espantou quando ela não veio. Começava a viver na região da verdade.

 

- Escrevi muito bons poemas sobre a morte - disse Aquino com satisfação, à medida que erguia a última gota de uísque à luz da vela. - Aquele de que gosto mais tem como refrão: «A morte é uma erva daninha, não precisa de chuva.» León discorda. Diz que o escrevi como um lavrador... Outrora realmente quis ser lavrador. Ele gosta mais do que diz: «Seja qual for o crime, a todos é servida a mesma refeição.» E há outro que me agrada; não sei ao certo o que quer dizer, mas, bem recitado, soa bem: «Quando a morte está na língua, o homem vivo fala. »

- Parece que você escreveu coisas do diabo acerca da morte.

-Sim. Creio que metade dos meus poemas são sobre a morte. É um dos dois assuntos bons para um homem: o amor e a morte.

- Eu não quero morrer antes de o meu filho nascer.

- Desejo-lhe toda a felicidade do mundo, Señor Fortnum. Mas nenhum de nós pode escolher. Talvez, amanhã, eu seja morto por um automóvel, ou por uma febre. E uma bala é das mortes mais rápidas e honrosas.

- Será assim que vocês me vão matar?

- Naturalmente... Não somos cruéis, Señor Fortnum. Não lhe cortamos os dedos.

- E, no entanto, pode-se viver sem alguns dedos. A si não lhe parecem tão importantes, pois não?

- Oh, compreendo que tenha medo da dor... Sei o que a dor pode fazer a um homem... o que me fez a mim... mas não compreendo por que razão tem tanto medo da morte. A morte, desta ou daquela maneira, chegará sempre, e há um longo além, se os padres têm razão, e nada temos a recear, se eles se enganam.

 

- Pensava nesse «além» quando o torturavam?

- Não - admitiu Aquino. - Mas também não pensava na morte. Só havia a dor.

- Temos em inglês a expressão «mais vale um pássaro mão do que dois a voar». Nada sei a respeito desse «além». Só sei que gostaria de viver mais dez anos, na minha fazenda a ver o pequeno crescer.

- Mas, Señor Fortnum, pense no que pode acontecer nestes dez anos. O seu filho pode morrer; morrem tão facilmente as crianças! A sua mulher pode traí-lo, o senhor pode ser lentamente torturado por um cancro. Uma bala é simples e rápida.

- Tem a certeza?

- Talvez que um pouco mais de uísque não me faça mal - disse Aquino.

- Eu próprio tenho sede.

 

Deitou o uísque com muito cuidado. Pouco mais havia do que um quarto de garrafa, e pensou com tristeza na fazenda, no criado mudo sob o alpendre e na garrafa sempre à mão, perguntou:

- É casado?

- Não exactamente - replicou Aquino.

- Eu casei-me duas vezes. Da primeira não resultou. Da segunda vez... não sei porquê... é diferente. Quer ver uma fotografia?

 

Descobriu uma no livro que trazia no bolso; quadrada, colorida. Clara sentada ao volante do «Orgulho de Fortnum,, a olhar de esquelha para a câmara fotográfica com uma expressão de medo, como se esta fosse um revólver e pudesse disparar.

 

Aquino comentou delicadamente:

- Bonita rapariga.

- Sabe ela, não guia - disse Fortnum - e há um exagero de cor na fotografia. Pode ver pela cor dos abacates. NãO é das melhores obras de Gruber - olhava para a fotografia com uma certa pena. - Também está um bocado desfocado. Não lhe faz muita justiça, mas eu tinha bebido um pouco mais do que a medida, parece, e a mão tremeu-me.

 

Olhou, ansioso, para o que restava na garrafa. Disse:

- Em geral, não há nada melhor para firmar a mão. Que diz? Acabamos com a garrafa?

- Para mim muito pouco - pediu Aquino.

- Cada homem tem a sua medida própria. Nunca critico ninguém por não partilhar comigo. A medida é uma espécie de construção no sistema de um homem, como um elevador num bloco de apartamentos.

 

Observava Aquino com atenção e avaliava correctamente a diferença da medida dele. Tornou:

- Gostei desse seu poema acerca da morte.

- Qual?

-Tenho uma memória... Que vão vocês fazer do corpo?

- Qual corpo?

- O meu.

- Señor Fortnum, para quê falar de assuntos desagradáveis? Escrevo sobre a morte, é verdade, mas encarando a morte como uma grande abstracção. Não escrevo sobre a morte dos amigos.

- Essa gente que vocês conhecem em Londres... nunca ouviu falar de mim. Eles que se importam? Eu não pertenço ao verdadeiro clube deles...

- «A morte é uma erva daninha, não precisa de chuva.» Referia-se a este poema?

- Sim, claro, a esse. Recordo-me agora. Mesmo assim, Aquino, ainda que a morte seja uma coisa tão comum, uma pessoa deve morrer com um pouco de dignidade. Não está de acordo? Salud.

- Salud, Señor Fortnum.

- Chame-me Charley, Aquino.

- Salud, Charley.

- Não gostaria que as pessoas me encontrassem assim... sujo, com a barba por fazer...

- Posso-lhe dar uma tigela de água, Charley.

- E uma navalha?

- Não.

- Só uma gillete. Uma gillete não pode causar grande dano.

Era a medida que contava realmente. Tudo agora lhe parecia possível. Por exemplo, com uma tesoura... humedecia primeiro a terra da parede.

- Uma tesoura só para aparar?

- Precisava de perguntar primeiro a León, Charley.

 

Um pau aguçado?... Procurava um eufemismo apropriado.

Agora que tinha bebido a medida exacta estava certo de que lhe seria possível escapar. Disse:

 

-Gostava de escrever a Clara... É a minha mulher. A rapariga da fotografia. Podem guardar a carta até tudo acabar. Só quero que Clara saiba que pensei nela até ao fim. Um lápis... um lápis afiado - acrescentou, cuidadoso, olhando de soslaio a parede e interrogando-se se não estaria a ser demasiado optimista.

 

Num dado ponto a parede estava um bocadinho esboroada: via fios de palha que tinham sido misturados com a lama.

 

- Tenho uma esferográfica - disse Aquino -, mas creio que é melhor perguntar a León, Charley.

 

Tirou a esferográfica do bolso e examinou-a

 

- Que perigo há nisso, Aquino? Já podia ter pedido ao seu amigo, mas, bem sabe, não me sinto tão à vontade com padres.

 

Aquino retorquiu:

- Tem de nos dar tudo o que escrever. E nós temos de ler.

- Naturalmente. Vamos abrir a outra garrafa?

- Não estará a tentar embebedar-me? Sou capaz de beber como ninguém sem ficar embriagado.

-Não. É que eu próprio ainda não bebi a verdadeira medida. É mais de meia garrafa, a minha conta, e você bebe metade da minha dose.

- Durante uns dias não lhe poderemos comprar mais.

- Amanhã Deus dará. Parece uma frase da Bíblia. Estou a apanhar o jeito literário também. O uísque ajuda. Sabe, costumo escrever cartas. É esta a primeira vez que me separo de Clara... desde que nos casámos mesmo.

- Vai precisar de papel.

- Sim, já me esquecia.

 

Aquino trouxe-lhe cinco folhas de papel de carta.

 

- Contei-as. Tem de me tornar a dar todas as folhas, escritas ou não.

- E um pouco de água para me lavar. Não quero pôr dedadas na carta.

 

Aquino obedeceu, mas a resmungar:

- Isto não é nenhum hotel, Charley - disse, assentando a bacia no chão e esparrinhando a água pela terra.

-Se fosse, havia de pregar um bilhete na porta: «Não me incomodem, por favor.» Leve mais um gole de uísque consigo, Aquino.

- Não. Já bebi bastante.

 

- Seja, meu amigo, e feche-me a porta. Já não suporto esse índio de olhos fitos em mim.

 

Assim que se viu só, Charley Fortnum escolheu o sítio estragado da parede, esfregou-o com água, atacou-o com a esferográfica. Um quarto de hora depois só havia no chão um bocadinho de pó e uma pequena arranhadela na parede. Se não fosse o uísque, desesperava-se Encostou-se ao muro para esconder a marca, lavou a esferográfica e principiou a carta. Precisava de justificar o tempo decorrido. «Clarinha, minha querida», começou, e hesitou uns momentos. Para os relatórios oficiais servia-se da máquina de escrever, que parecia sempre descobrir para ele a frase burocrática acertada. «Em resposta à sua carta de 1O de Agosto», «Recebi a sua carta de 22 de Dezembro». «Como sinto a tua falta», escrevia agora. Era a única coisa importante a dizer; tudo quanto acrescentasse não passaria de uma repetição ou de uma paráfrase. «Parece-me que foi há anos que deixei a fazenda. Tinhas uma dor de cabeça de manhã. Estás melhor agora? Não tomes muitas aspirinas: fazem mal ao estômago e também podem fazer mal ao menino. Se chover, vê, por favor, se cobrem o "Orgulho de Fortnum » com o pano alcatroado. »

 

Pensou que a carta não seria entregue senão depois de ele voltar a casa ou depois de o matarem, e uma sensação de imensa distância se ergueu entre a palhota de terra e a fazenda, entre o caixão e o jipe à espera debaixo dos abacates. Clara deitada até tarde na cama de casal, o criado-mudo, inútil, sob o alpendre. Vieram-lhe lágrimas aos olhos, e recordou-se de como o pai lhe ralhava: «Sê um homem, Charley, não um cobarde. Choras depressa de mais. Não suporto essa pena que tens de ti próprio. Devias ter vergonha, vergonha, vergonha! » A palavra soava como um dobre de sinos pela morte de toda a esperança. Às vezes, mas não muitas, defendia-se: «Não estou a chorar por mim. Esmaguei um lagarto esta manhã entre as portadas da janela. Foi sem querer. Estava a tentar enxotá-lo lá para fora. Choro pelo lagarto, não por mim.» Agora também não chorava por si próprio. As lágrimas eram por Clara e algumas pelo «Orgulho de Fortnum», ambos sós e indefesos. Tudo quanto ele estava a sofrer era um pouco de medo e de desconforto. Solidão, como sabia por experiência, custava mais.

 

Abandonou a carta, tomou outro gole de uísque e desatou a escavar outra vez com a esferográfica. A parede absorveu a água e depressa ficou tão seca como um osso. Meia hora depois desistiu. Tinha feito um buraco como o de um ratinho, mas nem sequer de uma polegada de fundo. Pegou de novo na carta e escreveu em tom de desafio: «Posso garantir-te que Charley Fortnum tem coragem. Não sou o pobre diabo que eles supõem. Sou o teu marido, e amo-te de mais para permitir que estes filhos da mãe se interponham entre nós dois. Vou imaginar qualquer coisa e depor eu próprio esta carta nas tuas mãos; e havemos de nos rir ambos e beber desse bom champanhe que tenho guardado para as grandes ocasiões. o champanhe nunca fez mal a um bebé. » Parou de escrever e pôs a carta de lado porque lhe estava realmente a surgir uma ideia, embora de modo vago. Enxugou o suor da testa e, por um instante, teve a impressão de que estava a enxugar também o uísque, para clarificar o espírito.

 

- Aquino! - chamou. - Aquino!

 

Aquino veio, relutante e desconfiado, dizendo:

- Mais uísque, nem pensar.

- Precisava de ir à retrete, Aquino.

- Vou dizer a Miguel que o acompanhe.

 

-Não, por favor, Aquino... Não consigo fazer nada com esse índio sentado lá fora a baloiçar a espingarda apontada para mim. O tipo está ansioso por se servir dela.

- O Miguel não lhe faz mal nenhum. Está interessado na arma. . . nada mais . É a primeira vez que tem uma.

- Mas, de qualquer modo, assusta-me. Porque não pega você na arma e me guarda, Aquino? Sei que não vai disparar sem razão .

- Ele não quer dar a arma a ninguém.

- Então vou fazer aqui.

- Vou falar com ele - disse Aquino.

 

A ideia de Charley era esta: é difícil para a maior parte dos homens atirar a sangue-frio sobre alguém que não seja um inimigo.

 

Quando Aquino regressou trazia a arma.

 

- Muito bem. Passe à minha frente. Sei que só tenho a mão esquerda, mas lembre-se de que não é necessário ser um bom atirador com uma coisa destas. Uma das balas acerta sempre.

- Mesmo a bala de um poeta - disse Charley Fortnum rebuscando um sorriso. - Gostava que me desse uma cópia desse seu poema. Gostava de o poder guardar como bela recordação.

- Qual poema?

- Bem sabe, aquele acerca da morte.

 

Atravessou a sala de fora. O índio não olhou para ele. Olhava só para a arma, ansioso, como se tivesse confiado algo muito importante a mãos suspeitas.

 

Charley Fortnum conversou todo o caminho até ao telheiro, por entre os abacates. O seu relógio parara durante o tempo de coma e não fazia ideia das horas, mas via como as sombras se alongavam. Sob as árvores, pejadas de frutos acastanhados, já era noite. Disse:

- Quase que acabei a carta. É difícil escrever.

 

Ao chegar à porta do telheiro voltou-se e tentou um sorriso para Aquino. Se Aquino lho devolvesse, era bom sinal, mas não sorriu. Talvez estivesse somente preocupado. Talvez estivesse a compor um poema sobre a morte. Ou talvez tivesse bebido a medida certa.

 

Charley Fortnum demorou lá dentro o tempo preciso ganhar coragem. Depois, saiu rapidamente e virou à direita para pôr a palhota entre eles. Era uma questão de metros e, sob as árvores, esperavam-no as trevas. Ouviu um tiro, um grito, outro grito em resposta, e não sentiu nada. Berrou:

- Não atire, Aquíno!

 

Ao segundo tiro tombou mesmo junto das sombras.

 

 

O dia começou mal para Sir Henry Belfrage ao pequeno.almoço. Pela terceira vez o cozinheiro lhe fritava o ovo de ambos os lados. Disse:

 

- Esqueceste-te de avisar o Pedro, querida?

- Não - respondeu Lady Belfrage. - juro-te que não Fartei-me de lhe dizer.

- Deve ter ganho este hábito com os ianques. É um costume americano. Não te recordas das complicações que houve uma vez no Plaza, em Nova Iorque? Tinham um nome para «frito de um lado». Lembras-te? Pedro talvez compreenda.

- Não, querido. Acho que nunca ouvi falar nisso.

- Por vezes simpatizo com esses tipos que escrevem sobre o imperialismo ianque. Porque havemos de comer ovos assim? Para outra vez dá-nos xarope de ácer com salsichas. Que vinho horrível a noite passada na Embaixada, querida. Da Califórnia, parece.

- Não, querido. Era argentino.

- Ah, o tipo desejava cair nas boas graças do ministro do Interior. Mas o ministro teria preferido um bom vinho de mesa francês como o que nós servimos aqui.

- O nosso também não é bom.

- É o melhor que podemos comprar com os miseráveis proventos que nos dão. Reparaste que serviu Scotch argentino?

- O mal é ele não beber nada. Sabes que ficou chocado por Mister... o pobre Mister... sabes, o nosso cônsul, Mason, não é?

 

- Não, não. O outro tipo, Fortnum.

- Bem, o pobre do Fortnum, segundo parece, levou duas garrafas de Scotch quando foram às ruínas.

- Não o censuro por isso. Sabias que o embaixador viaja, com uma geleira cheia de Coca-Cola? Eu não teria bebido tanto desse maldito vinho se ele não me fitasse com aqueles seus olhos da Nova Inglaterra. Sentia-me como a rapariga do livro que tinha no vestido gravada a letra A, a vermelho. A de alcoolismo.

- Creio que era de Adultério, querida.

- Talvez. Só vi o filme. Há anos. Não explicava bem.

 

O dia, que começara bastante mal com os ovos mal fritos., continuou pior. Crichton, o adido de imprensa, apareceu a protestar que o não largavam com chamadas telefónicas dos jornais. Queixou-se a Sir Henry:

- Digo-lhes e torno a dizer-lhes que Fortnum não era senão um cônsul honorário. O jornalista de La Prensa não compreende a diferença entre honorário e honorable1. Não me admirava se o fizessem filho de um par do reino.

 

Sir Henry replicou, calmo:

- Duvido que saibam dos nossos títulos tanto como isso.

- Julgam que o caso é muito importante.

- Só porque se está num período de estupidez, Crichton. Não têm aqui o monstro de Loch Ness, e os discos voadores são de todos os dias.

- Oxalá pudéssemos fazer qualquer afirmação tranquilizante.

- Quem dera, Crichton, quem dera. Claro que podes dizer que eu passei horas, a noite passada, com o embaixador americano... Não precisas de acrescentar que fiquei com dores de cabeça em consequência disso.

-A Nación recebeu outra chamada telefónica anónima - de Córdoba desta vez. Só dão quatro dias.

-Graças a Deus que não é mais tempo. Para a semana estará tudo acabado. Ou morto ou livre.

 

  1. Epíteto com que em Inglaterra se tratam pessoas que desempenham cargos importantes. (N. da T.)

 

- A Polícia acha que Córdoba é um truque e que ele deve estar em Rosário... ou até aqui.

- Devíamos tê-lo reformado há seis meses. Nada disto teria acontecido.

-A Polícia diz que o rapto foi um engano. Queriam o embaixador americano. Se assim é, decerto que os americanos nos devem estar gratos.

- Wilbur - disse Sir Henry Belfrage - O embaixador insiste em que lhe chame Wilbur... recusa-se a admitir que era ele a vítima pretendida. Diz que os Estados Unidos foram sempre populares no Paraguai... que a viagem de Nelson Rockefeller o provou bem. Ninguém no Paraguai atirou pedras ou deitou fogo às repartições. Foi tão calmo como no Haiti. Ele chama-lhe Rockefeller Nelson... e confundiu-me por um momento. Sabes que cheguei a pensar que me ia convidar a chamar-lhe Rockefeller Nelson também?

- Não posso deixar de ter pena do pobre diabo.

- Não creio que Wilbur necessite da nossa comiseração, Crichton.

- Não me refiro a ele... Refiro-me...

- Oh, a Mason? Que diabo, a minha mulher começou-lhe a chamar Mason e agora faço o mesmo. Se o nome de Mason aparecer num telegrama oficial, Deus sabe onde irá acabar em Londres. Hão-de julgar que tem alguma coisa a ver com a linha Mason-Dixon. Preciso de dizer comigo próprio: Fortnum, Fortnum, Fortnum, como o corvo que dizia «nunca mais»1

- Acha que o vão mesmo matar senhor?

- Acho que não, Crichton. Nem sequer mataram o cônsul paraguaio que apanharam uns anos atrás. O general disse que não estava interessado, e soltaram o sujeito. Isto não é o Uruguai, nem a Colômbia... nem o Brasil. Nem a Bolívia. Nem a Venezuela. Nem mesmo o Peru - acrescentou, apreensivo, à medida que o campo da esperança se reduzia.

 

- Mas estamos na América do Sul, não é verdade? - retorquiu Crichton com incontestável lógica.

 

  1. Alusão o poema de Edgar Poe que tem por título «O Corvo». (N. da T.)

 

Vieram alguns cansativos telegramas durante a manhã. Alguém trouxera à baila as ilhas Falkland, as quais surgiam, de repente, como Gibraltar, sempre que não havia mais nenhum problema. O secretário do Ministério dos Estrangeiros queria saber como, em consequência disso, a Argentina iria provavelmente votar nas Nações Unidas a respeito da mais recente questão africana. O chefe dos Serviços Administrativos tinha dado novas directrizes sobre despesas de recepção, e Sir Henry Belfrage estava a ver aproximar-se o tempo de também ele servir vinho argentino. Havia ainda uma questão acerca da representação britânica no Festival de Cinema de Mar del Plata; um membro conservador do Parlamento descrevera a participação de um homem chamado Russell como pornográfica. Não tinha havido nenhuma directriz relativa a Fortnum desde o dia anterior, em que Belfrage recebera ordens de visitar o ministro dos Estrangeiros e em seguida agir de acordo com o embaixador americano - o embaixador britânico de Asunción recebera as mesmas instruções -, e Sir Henry esperara encontrar um americano um pouco mais dinâmico do que Wilbur.

 

Depois do almoço o secretário dísse-lhe que um tal doutor Plarr estava a pedir uma audiência.

 

- Quem é Plarr?

- Vem do Norte. Creio que quer falar com o senhor embaixador por causa do caso Fortnum.

- Oh, mande-o entrar, mande-o entrar - disse Sir Henry Relfrage. - Que entrem todos.

 

Estava aborrecido por perder a sesta, que era a única hora do dia em que se sentia uma pessoa como qualquer outra. Havia um novo Agatha Christie à sua espera à cabeceira da cama, acabado de chegar da livraria de Curzon Street.

 

- Já nos encontrámos não sei onde - disse para o doutor Plarr, olhando-o, com desconfiança.

 

Toda a gente em Buenos Aires, excepto os oficiais do Exército, parecia ter o título de doutor. Pensou: um rosto magro de advogado; nunca se sentia à vontade com advogados; chocava-se com a cobardia das anedotas legais - um assassino não era, para eles, mais do que, para um cirurgião, um doente incurável de cancro.

 

- Sim, aqui, na Embaixada - recordou-lhe o doutor Plarr. - Num cocktail. Salvei a sua mulher das garras dum poeta.

- Claro, claro, lembro-me, agora, meu caro amigo. Vive lá em cima. Falámos de Fortnum, não foi?

- Exactamente. Estou a olhar pela mulher dele. Está à espera de bebé, como sabe.

- Oh, você é esse género de doutor?

- Sou.

- Graças a Deus! Aqui nunca se sabe, pois não? E é também inglês? Não como os O'Brien e O'Higgins. Bem, deve ser uma aflição para a pobre senhora Fortnum. Diga-lhe que estamos a fazer tudo quanto podemos...

- Sim - continuou o doutor Plarr -, ela compreende, mas eu achei que devia saber como as coisas vão. Vim de avião a Buenos Aires esta manhã porque precisava de ter notícias, e vou-me embora logo à noite. Se houvesse notícias definitivas que eu pudesse levar... para confortar a senhora Fortnum...

- É uma situação terrivelmente difícil, Plarr. Sabe, o que é da responsabilidade de toda a gente nunca é da responsabilidade de ninguém. O general está cá, no Sul, a pescar, e recusa-se a discutir o assunto por se encontrar em férias. O ministro dos Estrangeiros diz que é um negócio puramente paraguaio. E o presidente não deseja fazer pressão sobre o general, visto ele ser hóspede da nação. Claro que a Polícia está a fazer o que pode, mas provavelmente disseram-lhe que actuassem o mais discretamente possível. Para bem de Fortnum.

-Mas os americanos... decerto que podem fazer pressão sobre o general. Sem a ajuda deles não se aguentaria vinte e quatro horas no Paraguai.

- Bem sei, mas isso torna a situação ainda mais embaraçosa, Plarr. Sabe, os americanos pensam muito sensatamente que esses raptos têm de ser desencorajados... mesmo que tal signifique (bem como dizer?) um certo perigo de vida. Como o 'embaixador alemão que eles mataram ... onde foi? Na Guatemala? Neste caso, para lhe ser franco ... bem, um cônsul honorário não é um embaixador. Acham que seria um mau princípio interferir. Os ingleses e o general não se entendem lá muito bem. Claro que se Fortnum fosse americano seria outra coisa.

 

- Os raptores julgavam que era. Foi o que a Polícia disse: ela pensa que os raptores estavam à procura de um carro diplomático, e CC é muito igual a CD.

- Sim. Quantas vezes disse a esse louco que não desfraldasse bandeiras nem mostrasse placas CC. Um cônsul honorário não tem o direito de as usar.

- Todavia, uma sentença de morte parece demasiado severa.

- Que mais posso fazer, Plarr? Fui duas vezes ao Ministério dos Estrangeiros. A noite passada falei não oficialmente com o ministro do Interior. Estava a jantar com Wilbur... quero dizer: com o embaixador americano. Não posso fazer mais nada sem instruções de Londres, e Londres tem um sentido notável de... bem... de falta de urgência. A propósito, como está a sua mãe? Recordo-me agora de tudo. Você é aquele Plarr. A sua mãe toma chá muitas vezes com a minha mulher. Ambas gostam de bolos e dessas coisas com dulce de leche.

- Alfajores.

- Exactamente. Eu cá não posso com isso.

 

O doutor Plarr tornou:

- Sei que o devo estar a maçar, Sir Henry, mas o meu pai está numa das prisões do general, se ainda vive. Talvez que este rapto seja a sua última oportunidade. Isso torna-me suspeito perante a Polícia, pois sinto-me pessoalmente interessado. E além do mais há Fortnum. Não posso deixar de me sentir um pouco responsável por ele. Não é um doente meu, mas a mulher é.

- Não havia qualquer coisa esquisita nesse casamento? Recebi uma carta lá de cima, de um velho intrometido chamado Jeffries.

- Humphries.

- Sim, é isso. Escreveu-me a dizer que Fortnum tinha casado com uma mulher «indesejável». Que sorte! Cheguei à idade em que nunca encontro ninguém desse género.

 

- Ocorreu-me - continuou o doutor Plarr - que talvez eu pudesse contactar com os raptores. São capazes de telefonar à senhora Fortnum se virem que não conseguem nada das autoridades.

- Um pouco improvável, meu caro amigo.

- Mas não impossível, senhor embaixador. Se isso acontecesse e eu tivesse alguma esperança para lhes oferecer ... Talvez conseguisse persuadi-los a alargar o limite de tempo ... digamos, por uma semana. Nesse caso decerto que havia alguma probabilidade de negociar.

- Se quer a minha opinião honesta, iria somente alargar a agonia... de Fortnum e da senhora Fortnum. No lugar dele eu preferia uma morte rápida.

- Mas há-de haver qualquer coisa a fazer.

-Naturalmente, Plarr. Mas estive já duas vezes com Wilbur e os americanos não se mexem. Se puderem desencorajar o rapto deixando que um cônsul honorário de uma obscura província seja castigado, ficarão muito satisfeitos. Wilbur diz que Fortnum é um alcoólico... levou duas garrafas de uísque para o piquenique das ruínas e o embaixador americano só bebe Coca-Cola. Procurei a sua ficha, mas não encontrei nada sobre alcoolismo, embora um ou dois dos seus relatórios... bem, sejam desconexos. Há também uma carta desse... Humphries?... a dizer que ele tinha desfraldado a bandeira ao contrário. Enfim, não é preciso ser-se alcoólico para isso.

- Mesmo assim, Sir Henry, se persuadissemos os raptores a alongar um pouco...

 

Sir Henry Belfrage via que a hora da sua sesta estava irrevogavelmente perdida - o novo Agatha Christie teria de esperar. Era um homem bondoso e consciente, e modesto ainda por cima. Disse consigo que, no lugar do doutor Plarr, talvez não viajasse pelo calor de Novembro até Buenos Aires para ajudar o marido de uma doente. Terminou:

- Há uma coisa que podia tentar fazer. Duvido muito que saia bem , mas mesmo assim...

 

Hesitou. Com a pena na mão era um mestre de síntese: os seus relatórios eram admiravelmente curtos e lúcidos e um telegrama nunca lhe trazia dificuldades. Estava tão à vontade na Embaixada com em criança na sala dos brinquedos. Os candeeiros rebrilhavam como a fruta de vidro na árvore de Natal. Na sala dos brinquedos lembrava-se de fazer construções precisas e rápidas com os tijolos coloridos. «O menino Henry é inteligente», dizia sempre a ama. Mas, quando o deixavam à solta nas vastidões verdes de Kensington Gardens, perdia-se. Certos momentos com desconhecidos - tal como ainda agora no cocktail anual - quase o assustavam.

 

- Como, Sir Henry?

- Peço desculpa, meu caro amigo. O meu espírito estava a divagar. Acordei com a cabeça à roda. Esse vinho de Mendoza... Cooperativas! Que sabe uma cooperativa acerca de vinhos?

- Estava a dizer...

- Sim, sim - pôs a mão no bolso do casaco e tocou na esferográfica. Era como um talismã. Disse: - Uma demora só seria útil se tivéssemos pessoas suficientemente interessadas... Eu fiz o que pude, mas ninguém na pátria conhece Fortnum. Ninguém se importa com um cônsul honorário. Não pertence ao Serviço. E, para lhe dizer a verdade, aconselhei a libertarem-se dele há seis meses. Essa carta ainda deve estar no arquivo. Assim toda a gente lá se sentirá aliviada quando chegar a data e não houver mais minutas a escrever... e ele for exonerado, segundo creio.

- E se o matarem?

- Suponho que o Ministério dos Estrangeiros tomará isso a seu crédito também. Será um sinal de firmeza. Mostrará que não estão a tratar com chantagistas. Sabe o género de palavras que usarão na Câmara dos Deputados. Lei e ordem. Nada de Danegeld. Citarão Kipling. Até a oposição há-de aplaudir.

- Não se trata só de Charley Fortnum. Há a mulher - que vai ter uma criança. Se a Imprensa explorar isso...

- Sim. Compreendo o que quer dizer. A mulher que espera, etc. Mas, pelo que Humphries mandou dizer, não parece que a mulher com quem Fortnum casou levante essa espécie de sentimento na imprensa inglesa. Não é coisa para as famílias lerem. The Sun pode servir-se da verdadeira história, ou o News of the World, mas não é provável que dê o efeito que queremos.

- Sugere, pois, Sir Henry, que...

- Nunca por nunca me deve envolver nisto, Plarr! O Ministério dos Negócios Estrangeiros demitia-me se soubesse que eu sugeri uma coisa destas. E não me parece que a minha ideia resulte. Mason não é o verdadeiro alvo.

- Mason?

- Desculpe. Quero dizer: Fortnum.

- Mas... ainda não sugeriu nada, Sir Henry.

- Bem, o que eu pensava... Não há nada que um funcionário do Estado odeie mais do que uma queixa em jornais respeitáveis. Por vezes, o único meio de obter qualquer coisa é a publicidade bem feita. Se conseguisse organizar algum movimento de opinião na sua cidade... Nem que fosse um apelo telegráfico do Clube Inglês para o Times à sua.-.. - tocou outra vez na caneta como se desejasse tirar dela o palavriado oficial correcto - _ao seu incansável zelo pelos interesses britânicos.

- Mas não há Clube Inglês, senhor. Creio que, na cidade, só Humphries e eu é que somos ingleses.

 

Sir Henry Belfrage lançou um breve olhar às unhas (tinha perdido a escova de as limpar). E disse algo tão rápido que o doutor Plarr não apanhou sequer uma palavra.

 

- Peço desculpa, não ouvi...

- Meu caro amigo, não lho posso soletrar. Forme imediatamente um Clube Inglês e telegrafe para o Times e para o Telegraph.

- Acha que valerá a pena?

-Não. Mas não faz mal tentar. Existe sempre algum deputado, da oposição que ergue a questão, digam os chefes o que disserem. Dará pelo menos ao secretário do Parlamento un mauvais quart d'heure. E depois há os jornais americanos. Possivelmente copiarão. O New York Tímes pode ser virulento.

 

«Lutando, pela independência da América Latina até ao último inglês.» Sabe a espécie de linha de conduta que esses tipos contrários à guerra podem seguir. É um último recurso, claro. Se se tratasse de um negociante poderoso, toda a gente se interessaria muito mais. O problema é que Fortnum é mesmo um zé-ninguém, Plarr.

 

Não havia avião para voltar para o Norte senão à noite, e o doutor Plarr não pode em consciência encontrar desculpa para deixar de ver a mãe. Sabia que o que mais lhe agradava era ele combinar um encontro pelo telefone, para o chá, em Richmond, na Calle Florida - ela não gostava de conversas familiares no seu apartamento, quase tão abafado como a redoma onde jaziam as flores de cera que havia comprado numa loja de antiguidades perto de Harrods. Plarr tinha sempre a impressão de que no apartamento da mãe existiam segredos por toda a parte, nas prateleiras ou nas mesas, mesmo escondidos debaixo do sofá, segredos que ela não gostava que o filho visse - talvez apenas pequeninas extravagâncias em que gastava o dinheiro que ele lhe mandava. Bolos de nata eram comida, mas um papagaio de loiça já seria extravagância.

 

Teve de andar com passo de caracol por entre a multidão que todas as tardes enchia a estreita calle. Mas não se aborrecia por isso. Cada minuto a menos com a mãe era puro ganho.

 

Viu-a ao fundo do apinhado salão de chá, sentada, toda de preto, diante de um prato de bolos.

 

- Chegaste dez minutos atrasado, Eduardo.

 

Desde pequeno que falava com a mãe em espanhol. Só com o pai falava em inglês, e o pai era de poucas palavras.

 

- Desculpe, mãe. já devia ter começado sem mim.

 

Quando se curvou para a beijar na face, sentiu o cheiro do chocolate na chávena como o doce hálito de um túmulo

 

- Chama o criado, querido, se aqui não houver nenhum bolo de que gostes.

- Não quero comer nada, mãe. Só uma chávena de café.

 

Ela tinha os olhos inchados, mas não de chorar, não, o doutor Plarr bem sabia, era antes de prisão de ventre. Tinha a impressão de que, se lhe espremesse os papos debaixo dos olhos, esguichariam creme como um éclair. Terrível o que o tempo podia fazer a uma bela mulher. O aspecto de um homem geralmente melhora com a idade, mas raro o de uma mulher. Pensou: «Um homem deve amar sempre uma mulher vinte anos mais nova. Assim pode morrer antes que a visão murche. Seria com medo dessa desilusão que Fortnum casou com Clara, mais nova do que ele mais de quarenta anos? Eu é que não sou tão ajuizado; viverei muitos anos para além dos seus atractivos.»

 

- Porquê o luto, mãe? - perguntou. - Nunca até aqui a vi de preto.

-Estou de luto pelo teu pai - respondeu a Señora Plarr limpando o chocolate dos dedos com um guardanapo de papel.

- Teve notícias?

-Não. Mas o padre Galvão falou comigo muito a sério. Disse-me que, para bem da minha saúde, devia abandonar todas as esperanças. Sabes que dia é hoje, Eduardo?

 

Ele procurou lembrar-se, mas em vão. Nem sabia bem em que dia do mês estava.

 

- Catorze?

- O dia em que dissemos adeus ao teu pai no porto de Asunción.

 

Plarr perguntava a si próprio se o pai, caso entrasse no salão de chá, agora, reconheceria a gorda mulher lambuzada de creme aos cantos da boca. Na nossa imaginação as pessoas que nunca mais vimos envelhecem amavelmente.

 

A Señora Plarr disse:

- O padre Galvão rezou missa esta manhã pelo repouso da sua alma.

 

Examinava o prato dos bolos e tirou um éclair especial, que, no entanto, não se diferençava dos outros. E o filho, a procurar na memória ainda se conseguia lembrar de uma bela mulher deitada, a chorar no camarote do barco. As lágrimas nessa idade aumentavam-lhe o brilho dos olhos. Não havia olheiras a desfeá-los.

 

Disse:

- Continuo a ter esperança, mãe. Sabe que os raptores puseram o nome dele na lista dos prisioneiros que querem libertar?

- Que raptores?

 

Tinha-se esquecido de que ela não lia jornais.

 

- Oh, bem... uma história comprida de mais para lhe contar agora - e acrescentou, delicado: - Que bonito vestido preto!

- Fico contente por gostares. Comprei-o especialmente para a missa de hoje. O tecido não foi nada caro, e fê-lo uma mulherzinha... Não penses que sou uma perdulária.

- Claro que não, mãe.

- Se o teu pai não fosse tão obstinado... De que lhe valeu ficar na estancia, para o matarem? Podia tê-la vendido por bom preço, e estaríamos aqui todos felizes.

- O pai era um idealista - disse o doutor Plarr.

- Ideais são muito bonitos, mas foi muito errado da sua parte, e muito egoísta, não pôr em primeiro lugar a família.

 

Plarr perguntava a si próprio que espécie de amargas e reprovativas orações a mãe não teria murmurado, essa manhã, durante a missa do padre Galvão, um jesuíta português que, não se sabia porquê, fora transferido do Rio de janeiro. Muito popular entre as mulheres - talvez confiassem mais nele por ter vindo de longe.

 

Em sua volta ouvia vozes femininas, sem quase poder distinguir uma frase. Bem podia estar num aviário, a escutar uma babel de pássaros de regiões diferentes. Havia as que gorjeavam em inglês, outras em alemão, e até uma frase em francês que a mãe devia apreciar: Georges est três coupable. Olhou para a mãe, cuja boca aflorava o chocolate. Teria ela amado o marido ou o filho, ou teria apenas representado a comédia do amor como Clara? Fora habituado, durante os anos passados com a mãe em Buenos Aires, a desprezar comédias. Não existiam relíquias sentimentais no seu apartamento – nem uma fotografia. Tão nu e verdadeiro como uma cela de prisão. Mesmo durante as relações com mulheres tentava sempre evitar essa frase de teatro «amo-te». Por diversas vezes o acusaram de crueldade, embora preferisse pensar que era um diagnosticador consciencioso e preciso. Se alguma vez desse conta da doença não a descreveria noutros termos, diria sem hesitação «amo-te». Mas sempre atribuíra a emoção que sentia a uma doença absolutamente diferente - a solidão, orgulho, desejo físico, ou até simples curiosidade.

 

A Señora Plarr disse:

- Ele nunca nos amou. Era um homem que não sabia o que significava a palavra amor.

 

Desejou perguntar-lhe, sério: «E nós amámo-lo?», mas sabia que ela tomaria isso como uma acusação e não queria acusá-la. Com mais justiça poderia acusar-se a si próprio por igual ignorância. Talvez -pensou - ela tenha razão e eu me pareça com o pai. Disse:

 

- Não me recordo muito bem dele, excepto de quando se despediu de nós. Foi quando reparei como o seu cabelo estava grisalho. Lembro-me também de ele dar a volta a casa, à noite, a fechar as portas. O barulho acordava-me. Nem sei que idade teria se fosse vivo, agora.

- Fazia hoje setenta e um anos.

- Hoje? Então era o dia dos seus anos?

- Disse-me que o melhor presente que podia receber de mim era ver-nos partir, aos dois, pelo rio abaixo. Muito cruel da sua parte dizer uma coisa dessas.

- Não creio que ele quisesse ser cruel, mãe.

- Nem sequer me avisou com antecedência. Mal tive tempo de fazer as malas. Esqueci-me de algumas das minhas jóias. Havia um reloginho com diamantes que costumava usar com um vestido preto. Lembras-te do vestido preto? Claro que não te lembras « Eras um rapazinho muito distraído. Disse que tinha medo que eu dissesse às minhas amigas e que elas falassem e a Polícia soubesse. Havia preparado um belo jantar de aniversário com um aperitivo de queijo. Ele gostava mais de pratos salgados do que de sobremesas. É o resultado que dá casar com estrangeiros. Os nossos gostos nunca eram os mesmos. Esta manhã rezei muito para que ele não continue sempre a sofrer.

- Mas a mãe não pensava que ele tinha morrido?

- Falo no sofrimento do Purgatório. O padre Galvão diz que a maior pena do Purgatório é quando as pessoas vêem a consequência das suas acções e a dor que causaram àqueles a quem amavam - e pegou noutro éclair.

- Mas acabou de dizer que ele não nos amava.

- Oh, suponho que tinha por nós uma certa afeição, E que sentia obrigações. Era muito inglês. Preferia a companhia de outros homens. Tenho a certeza de que foi para o clube logo que o barco partiu.

- Que clube?

 

Havia anos que não falavam tanto do pai.

 

- Um clube duvidoso. Chamava-se o Constitucional, mas a Polícia encerrou-o. Depois disso os membros reuniam-se em segredo. Uma vez mesmo na estancia. Quando eu protestava, fazia ouvidos de mercador. Dizia-lhe: «Olha que tens mulher e um filho.» E ele: «Todos os membros do clube têm mulher e filhos.» - «Nesse caso não lhes faltam assuntos importantes para conversar, além de política.» - Acrescentou com um suspiro: -Bem... velhas zangas. Claro que lhe perdoei. Fala-me de ti, querido - e os seus olhos erravam vidrados de falta de interesse.

 

- Oh... - respondeu o doutor Plarr -, não tenho nada para contar.

 

O avião da noite para o Norte representava um risco para um homem como o doutor Plarr, que gostava de estar só. Poucos desconhecidos ou turistas viajavam nele. Entre os passageiros havia geralmente políticos locais que regressavam de uma visita à capital, ou pessoas esbanjadoras, que por vezes consultavam (iam a Buenos Aires fazer compras, para uma festa, até mesmo para arranjar o cabelo, pois não confiavam na cabeleireira local). Formavam um grupo barulhento no pequeno avião de dois motores.

 

Existiam muito poucas probabilidades de uma viagem sossegada, e caiu-lhe a alma aos pés quando, do portaló, a Señora Escobar o saudou com um gritinho de prazer:

- Eduardo!

- Margarita!

 

Começou, resignadamente, a desafivelar o cinto de segurança, para ir ocupar o lugar vazio ao lado dela.

 

- Não - sussurrou-lhe ela. - O Gustavo veio comigo. Está lá atrás a falar com o coronel Perez.

- Também vai aí o coronel Perez?

- Estão a conversar sobre o rapto. Sabes o que eu penso?

- Não.

- Que esse tal Fortnum fugiu à mulher.

- Porque havia de fazer isso?

- Deves conhecer a história, Eduardo. Ela é uma putain. Veio dessa casa horrível na Calle... mas tu és homem, tu sabes bem o que quero dizer.

 

Recordou-se de que Margarita, quando lhe apetecia ser um pouco livre, falava em francês. Ouvia-a gritar, nas sombras cuidadosamente medidas do seu quarto, com as persianas dois terços fechadas: Baise-moi, baise-moi! Nunca se permitiria usar a frase equivalente em espanhol. Dizia agora:

 

- Há que tempos não te vejo, Eduardo! -- com um suspiro apropriado à ocasião, tal como as persianas do quarto.

 

Perguntava a si próprio o que seria feito do novo amante, Gaspar Valejo, da secção de Finanças. Ter-se-iam zangado?

 

O ruído dos motores poupou-lhe a necessidade de responder,e, quando os avisos luminosos se apagaram e se encontravam muito acima da Plata de caqui colorido que ia enegrecendo com o cair da noite, acudiu-lhe uma vaga frase:

 

- Bem sabes o que é ser médico, Margarita.

- Sei, pois. Quem o saberá melhor? Ainda visitas a Senhora Veja?

- Não Creio que mudou de médico.

- Eu cá nunca faria tal, Eduardo. Não há assim tantos médicos bons. Se nunca mais te chamei é porque tenho andado desagradavelmente bem. Olha, aí vem o meu marido. Gustavo, vê quem temos aqui. Não finjas que te esqueceste do doutor Plarr.

 

- Como me podia esquecer? Por onde tem andado, Eduardo? - Gustavo Escobar colocou pesadamente a mão no ombro de Plarr. Tinha o hábito, próprio do latino-americano, de tocar nas pessoas com quem conversava. Até o golpe de faca numa das histórias de Jorge Julio Saavedra se podia interpretar como uma maneira de tocar. E Escobar continuou na sua voz alta de surdo: - Temos sentido a sua falta. Quantas vezes a minha mulher diz: «Porque será que Eduardo nunca nos visita, agora? »

 

Gustavo Escobar tinha um grande bigode preto e abundantes suíças; o seu rosto cor de tijolo semelhava uma clareira talhada no mato e o nariz arqueava-se-lhe como o cavalo de um conquistador.

 

Escobar disse:

- E eu não tenho sentido menos a sua falta. Aqueles jantarinhos amigáveis que costumávamos organizar...

 

Durante todo o tempo em que fora amante de Margarita o doutor Plarr nunca conseguira distinguir entre a grosseira jovialidade e a ironia de Escobar. Margarita afirmava-lhe que o marido era muito ciumento... Devia ferir-lhe o orgulho ver que ele realmente se não importava. Talvez se importasse, afinal, pois ela era, pelo menos, uma das suas mulheres, embora tivesse muitas. Uma vez o doutor Plarr encontrou-o na Mãe Sanchez a entreter quatro raparigas ao mesmo tempo. Contra todas as regras da casa, as raparigas estavam a beber champanhe, bom champanhe francês que Escobar devia ter levado para lá. Para Gustavo Escobar não havia regras. O doutor Plarr perguntava aos seus botões se ele alguma vez teria sido cliente de Clara. Que espécie de comédia representaria Clara para ele? Talvez a da humilhação?

 

- Que veio fazer a Buenos Aires, meu caro Eduardo?

- Estive na Embaixada - gritou-lhe o doutor Plarr - e fui visitar a minha mãe. E você?

 

- A minha mulher esteve a fazer compras. Quanto a mim, almocei no Hurlingham.

 

Continuava a espetar o dedo no ombro do doutor Plarr quase como se lhe interessasse comprá-lo para criação. Era dono de uma estancia no Chaco.

 

- Gustavo vai-me deixar outra vez por uma semana inteira -disse Margarita. - Dá-me sempre licença de fazer compras antes de me deixar.

 

O doutor Plarr gostaria de desviar a conversa para o seu sucessor, Gaspar Vallejo, a quem a informação que ela lhe estava a dar devia ser endereçada. Seria confortante saber que Vallejo continuava a ser um amigo da família.

 

- Que tal se aparecesse na estancia, Eduardo? Podia arranjar-lhe uma boa caçada.

- Um médico está sempre amarrado aos seus doentes.

 

O avião afundou-se num poço de ar e Escobar agarrou-se às costas do assento de Plarr.

 

- Cuidado, caro. Podes magoar-te. É melhor sentares-te.

 

Talvez fosse a expressão mecânica da solicitude da mulher o que irritou Escobar. Ou talvez tomasse o aviso como alusão ao seu machismo. Disse com uma inconfundível ironia:

- Parece-me que de momento você está amarrado a uma doente favorita, Eduardo.

- Para mim todos os doentes são favoritos.

-A Señora Fortnum vai ter um bebé, não é verdade?

- Sim. E também a Señora Vega, mas essa não confia em mim para o parto. Consulta agora o doutor Benevento.

- Um homem discreto, este Eduardo - disse Escobar.

 

Passou pela mulher para o lugar junto da janela e sentou-se. Mal fechou os olhos deu a impressão de adormecido, sentado muito direito. Tinha o ar de um dos seus antepassados a dormir sobre o selim e a atravessar os Andes; baloiçava ao de leve com o movimento do avião, que sobrevoava os cumes nevosos das nuvens.

 

- Que queria ele dizer, Eduardo? - perguntou a mulher de Escobar num murmúrio.

- Como posso eu saber?

 

Lembrava-se de que Escobar tinha um sono pesado. Certa vez, no princípio das suas relações, Margarita dissera-lhe:

- Nada o acorda, a não ser um súbito silêncio. Continua a falar.

- Acerca de quê? - perguntara ele.

- De nada. Porque não me dizes que me amas?

 

Estavam os dois sentados num sofá e o marido a dormir numa cadeira de braços, ao fundo da sala, com as costas da cadeira voltadas para eles. O doutor Plarr nem sequer sabia se Escobar tinha os olhos fechados. Disse cautelosamente:

- Quero-te.

- Sim?

- Quero-te.

- Não fales com intervalos - observou ela, enquanto o tocava. - Ele precisa de ouvir o murmúrio contínuo da conversa.

 

É difícil manter um monólogo enquanto uma mulher faz amor connosco. Desesperado, o doutor Plarr começara a contar a história dos Três Ursos, principiando no meio, ao mesmo tempo que observava, aflito, a poderosa cabeça de estátua por cima das costas da cadeira.

 

- E então o terceiro urso disse com a sua voz grosseira: « Quem comeu a minha papa de aveia?

 

A Señora Escobar escarranchou-se nele como uma criança a brincar aos cavalos.

 

- E assim os três ursos subiram ao primeiro andar e o urso mais pequeno perguntou: «Quem dormiu na minha cama? »

 

Agarrou-se aos ombros da Senhora Escobar, e perdeu o fio da história, pelo que teve de prosseguir com a primeira frase que lhe veio à cabeça:

- É assim que monta o carteiro: a galope, a galope, a galope!

 

Quando sossegaram outra vez, lado a lado no sofá, a Señora Escobar (ainda não se havia habituado a chamar-lhe Margarita) disse:

- Falavas em inglês. Que dizias?

 

- Estava a dizer como te queria - respondeu o doutor Plarr, prudentemente.

 

«O carteiro» era um jogo que costumava jogar com o pai. A mãe não tinha repertório. Talvez as crianças espanholas não jogassem... pelo menos jogos infantis.

 

- Que queria dizer Gustavo ao referir-se à Señora Fortnum? - perguntou novamente Margarita, fazendo-o voltar ao presente e ao avião, que se inclinava nas correntes do vento por cima do Paraná.

- Não faço ideia.

- Ficaria muito desapontada, Eduardo, se estivesses mesmo interessado nessa putain. Ainda gosto muito de ti.

- Peço desculpa, Margarita - interrompeu o doutor Plarr , mas quero falar com o coronel Perez.

 

As luzes de La Paz piscavam lá em baixo - havia uma linha branca de lâmpadas ao longo do rio e completa escuridão do outro lado, como se as lâmpadas marcassem a borda de um mundo plano.

 

Perez estava sentado ao fundo, perto dos lavatórios, e o lugar a seu lado estava vago.

 

- Notícias, coronel? - perguntou o doutor Plarr.

- Notícias de quê?

- De Fortnum.

- Porquê? Espera notícias?

- Pensei que talvez a Polícia tivesse algumas... A rádio não disse que estavam à procura dele em Rosário?

- Se ele estivesse mesmo em Rosário, podiam facilmente tê-lo já trazido para Buenos Aires.

- E a chamada de Córdoba?

- Isso foi naturalmente uma tentativa estúpida para nos confundirem. Córdoba está fora de questão. Duvido que tivessem mesmo chegado a Rosário na ocasião da chamada telefónica. Eu não levaria menos de quinze horas num carro que fosse mais rápido.

- Então onde lhe parece que ele esteja?

- Provavelmente morto no rio ou escondido perto de casa. Que foi fazer a Buenos Aires?

 

Era uma pergunta política, não de Polícia. Não estava mais interessado do que Escobar.

- Fui visitar o embaixador, por causa de Fortnum.

- Que disse ele?

- Interrompi-lhe a sesta, pobre homem! Disse que o problema é ninguém estar interessado.

O coronel Perez retorquiu:

- Dou-lhe a minha palavra de honra que estou interessado. Ontem quis organizar uma busca ao bairro popular, mas o governador achou perigoso. Quer evitar tiros, se possível. A nossa província tem sido muito sossegada até agora, tirando uns pequenos problemas com padres do Terceiro Mundo. Mandou-me a Buenos Aires, hoje, falar com o ministro do Interior. Creio que o governador tem esperança de demorar a questão. Se ele conseguir adiar as coisas e nós tivermos sorte, o corpo de Fortnum poderá vir a ser encontrado fora da província; e ninguém então nos acusará de termos agido imprudentemente. A chantagem falhará. Toda a gente ficará satisfeita. Excepto eu. Até o seu Governo há-de ficar contente. Espero que paguem uma pensão à viúva.

- Duvido. Era apenas cônsul honorário. Que diz o ministro?

-Esse não tem medo de tiros. Com outros como ele podíamos fazer alguma coisa. Aconselha o governador a ir para a frente, aconteça o que acontecer, e a servir-se de tropas, se necessário. O presidente quer tudo resolvido antes que o general acabe de pescar. Que mais disse o seu embaixador?

- Disse que se os jornais explorassem o caso...

- Para quê? Ouviu as notícias da tarde na rádio? Despenhou-se um avião de B.O.A.C. Foi um hijacker que largou a bomba desta vez. Há cento e sessenta e sete mortos... cento e sessenta e sete Fortnums, e entre eles uma estrela de cinema. Não, doutor Plarr, temos de admitir que o nosso problema é menor.

- Quer então desistir?

- Claro que não... Sempre tenho lidado com pequenas questões, e sempre preferi resolvê-las. Dossiers por acabar ocupam muito espaço. Foi morto ontem um contrabandista no rio; pudemos assim completar-lhe a ficha. Alguém roubou cem mil pesos de um quarto no Nacional... mas temos os olhos em cima do homem. E hoje, de manhã cedo, encontrou-se uma pequena bomba na Igreja de Lã Cruz. Bomba muito pequena... pois somos uma província sossegada... e destinada a rebentar à meia-noite, quando a igreja estivesse vazia. Se tivesse explodido destruiria a cruz miraculosa... e isso daria notícias de palmo e meio para El Litoral, senão até para a Nación. Em qualquer caso, deve dar que falar. Há já rumores de que Nossa Senhora desceu do altar e tirou o rastilho com as suas próprias mãos, e o arcebispo visitou o lugar. Sabe que a cruz já foi uma vez salva, ainda Buenos Aires não existia, quando um raio matou os índios que a iam queimar?

A porta da toilette abriu-se.

- Conhece o meu colega, capitão Velardo, doutor? Estava a contar ao doutor do nosso novo milagre, Rubén.

- Ria-se, coronel, mas a verdade é que a bomba não explodiu.

- Está a ver, doutor, o Rubén quase acredita.

- Tenho um espírito aberto. Como o arcebispo. O arcebispo é um homem culto.

- Penso que o rastilho estava mal colocado.

- E por que razão havia de estar? Devemos remontar às causas primeiras, coronel. Um milagre é semelhante a um crime. O senhor diz que o rastilho estava mal colocado, mas como podemos saber se não foi Nossa Senhora que guiou a mão que pôs o rastilho?

- Mesmo assim prefiro acreditar que estamos suspensos no ar, agora, pelos motores... ainda que não sejam Rolls Royce... e não por intervenção divina.

O avião caiu novamente num poço de ar e as luzes.de aviso acenderam-se a mandar apertar os cintos. O doutor Plarr notou que o coronel Perez parecia pouco à vontade. E voltou para o seu lugar.

 

 

Tendo feito os convites por telefone do aeroporto, o doutor Plarr esperou pelos dois convidados no terraço do Nacional.

Numa folha de papel do hotel fez o rascunho de uma cuidadosa carta que, pensava, o embaixador teria achado sóbria e convincente. A cidade começava a despertar para as horas noctumas depois da longa sesta da tarde. Uma fila de carros seguia ao longo da margem do rio. A estátua nua e branca do belvedere exibia-se sob a luz das lâmpadas, e o anúncio de Coca-Cola rebrilhava em letras vermelhas como o relicário de um santo. Através da escuridão, o ferry-boat gritava um aviso da praia do Chaco. Passavam alguns minutos das nove horas - demasiado cedo para a maior parte das pessoas jantar - e o doutor Plarr encontrava-se sozinho no terraço, além do doutor Benevento, acompanhado da mulher. O doutor Benevento estava a bebericar um aperitivo, como se provasse, desconfiado, o tónico de um rival, enquanto a mulher, severa senhora de meia-idade que usava uma grande cruz de oiro semelhante a uma condecoração, não tomava ostensivamente nada e observava o desaparecimento do aperitivo do marido com um falso ar de paciência. Era quinta-feira, pensou o doutor Plarr, e talvez o doutor Benevento tivesse vindo direito da sua inspecção semanal das raparigas da Mãe Sanchez. Os dois médicos ignoravam-se mutuamente. Apesar dos anos já decorridos depois da chegada a Buenos Aires do doutor Plarr, este continuava a ser para o doutor Benevento um estrangeiro intrometido.

 

Humphries foi o primeiro dos convidados a aparecer. Vinha muito abotoado num fato escuro e trazia a testa molhada da humidade da noite. O seu mau génio refinou quando, mal se sentou, um atrevido mosquito lhe atacou o tornozelo através de uma grossa peúga de lã cinzenta. O professor de inglês, zangado, queixou-se:

- Ia precisamente partir para o Clube Italiano quando recebi o seu recado - como se lhe custasse ver-se privado do usual goulash. Olhou para o terceiro lugar à mesa e perguntou:

- Quem é que vem?

- O doutor Saavedra.

- Santo Deus, porquê? Não compreendo o que é que você encontra de aproveitável nesse sujeito. Um burro pomposo.

- O conselho dele pode ser-nos útil. Quero redigir uma carta para os jornais da parte do Clube Anglo-Argentino por causa de Fortnum.

- Está a brincar comigo! Qual clube? É coisa que não existe.

- Você e eu vamos fundar o clube esta noite. Saavedra, espero, será o presidente. Eu, o vice-presidente. E pensei que você não se havia de importar de ocupar o lugar de secretário honorário. Não deve dar muito que fazer.

- Isso é pura loucura - disse Humphries. - Tanto quanto sei, há só outro inglês na cidade. Ou havia. Estou convencído, de que Fortnum fugiu. Essa mulher com quem casou deve ter-lhe custado muito dinheiro. Mais tarde ou mais cedo ouviremos dizer que as contas do Consulado estão erradas. Ou talvez não ouçamos nada. Esses tipos da Embaixada em Buenos Aires hão-de abafar as coisas. Para manter o prestígio das suas imaginárias funções. Uma pessoa nunca chega a saber a verdade de coisa nenhuma.

O perpétuo e genuíno queixume de Humphries. A verdade era como uma frase difícil que os seus alunos jamais conseguiam escrever gramaticalmente certa.

O doutor Plarr disse:

-Temos, pelo menos, a certeza do rapto. Já é uma verdade. Falei com Perez.

- Confia nos polícias?

- Naquele polícia, sim. Bem, Humphries, seja razoável. Temos de fazer alguma coisa por Fortnum. Mesmo que ele tivesse desfraldado o pavilhão britânico às avessas. Ao pobre diabo só lhe restam três dias de vida. Hoje, o embaixador (não quer que se saiba) sugeriu que escrevessemos uma espécie de declaração para os jornais. Algo que despertasse um pouco de interesse. Da parte do Clube Inglês daqui. Claro, já sabemos que não há tal clube. Ao voltar, no avião, pensei que seria melhor chamar-lhe Clube Anglo-Argentino. Podemos assim servir-nos do nome de Saavedra, e temos mais probabilidades de chegar aos jornais de Buenos Aires. Podemos falar mesmo da influência de Fortnum nas nossas relações com a Argentina. Podemos falar das suas intensas actividades culturais.

- Actividades culturais? O pai dele era um conhecido bêbado, e o próprio Charley Fortnum lhe seguiu o exemplo. Não se recorda da noite em que tivemos de o arrastar até ao Bolívar? Nem se tinha de pé. Tudo quanto fez pelas nossas relações com a Argentina foi casar realmente com uma prostituta local.

- De qualquer modo, sim, é verdade, não o vamos deixar morrer.

- Cá por mim não levantaria um dedo para ajudar esse homem.

Alguma coisa acontecia dentro do Nacional. O maître d'hôtel que tinha saído para o terraço para respirar o ar fresco antes do início das actividades da noite, apressava-se para a sala de jantar. Um criado de mesa, que ia a meio caminho da mesa do doutor Benevento, voltou para trás em resposta a um sinal. Através da janela francesa do restaurante, o doutor Plarr viu a tonalidade de pérola de Jorge Julio Saavedra: o esritor acabava de parar para trocar algumas palavras com o pessoal. A mulher do bengaleiro pegou-lhe no chapéu, o empregado de mesa pegou-lhe na bengala, o gerente veio a correr do seu escritório, para se juntar ao maître d'hôtel. O doutor Saavedra explicava qualquer coisa, apontando para aqui e para ali. Ao sair para o terraço, todos o acompanharam em grupo até à mesa do doutor Plarr. O próprio doutor Benevento se ergueu ao de leve, enquanto o doutor Saavedra cambaleava nos pés metidos para dentro, calçando uns sapatos pontudos e reluzentes.

- Aí vem o grande romancista - escarneceu Humphries. - Aposto que nenhum deles já leu uma palavra do que ele escreveu.

- Talvez tenha razão, mas o bisavô dele foi aqui governador - observou o doutor Plarr. - Na Argentina as pessoas têm um forte sentido da história.

O gerente queria saber se a mesa estava colocada em posição que agradasse ao doutor Saavedra; o maître d'bôtel segredou ao doutor Plarr notícias de um prato especial, fora da ementa, um salmão acabado de chegar, muito fresco, do Iguazu; havia também um dorado, se os convidados do doutor Plarr preferissem.

Assim que o pessoal se afastou, disse o doutor Saavedra:

- Fazem um barulho ridículo à minha volta. Eu apenas lhes estava a dizer que ia situar uma cena do meu novo romance no restaurante do Nacional. Queria explica-lhes onde pretendia colocar a minha personagem. Preciso de ver exactamente o que ela verá no momento em que Fuerabbia, o seu assaltante, entra, armado, vindo do terraço.

- É um romance policial? - perguntou Humphries, malicioso. - Gosto de um bom romance policial.

- Creio que nunca escreverei um romance policial, doutor Humphries, se o senhor entende por isso uma dessas charadas absurdas que são o equivalente literário de um jogo de construções para crianças. No meu novo livro estou interessado na psicologia da violência.

- Gaúchos outra vez?

- Não. Gaúchos não. Este romance é contemporâneo... a minha segunda aventura em política. Situa-se no tempo do ditador Rosas.

- Julguei que disse que era contemporâneo.

- As ideias são contemporâneas. Se o senhor fosse escritor, em vez de professor de Literatura, saberia que um romancista deve ficar a certa distância do assunto que trata. Nada se desactualiza mais depressa do que o imediatamente contemporâneo. O senhor escusa bem de esperar que eu escreva uma história sobre o rapto do Señor Fortnum. - Voltou-se para o doutor Plarr. - Tive certa dificuldade em sair esta noite, aconteceu-me uma coisa desagradável, mas quando o meu médico me chama, devo obedecer. Que há?

- O doutor Humphries e eu decidimos fundar um Clube Anglo-Argentino.

- Excelente ideia. Quais as actividades ... ?

- Culturais, naturalmente. Literárias, arqueológicas. Queremos que o senhor seja o presidente.

- Uma honra para mim.

- Uma das primeiras coisas que o clube faria era um apelo à imprensa sobre o caso do rapto de Fortnum. Se Fortnum estivesse aqui teria sido também sócio.

- Em que posso ajudar? - perguntou o doutor Saavedra. - Conhecia muito mal o Señor Fortnum. Falei com ele uma vez na Señora Sanchez ...

- Trouxe um rascunho ... mesmo um rascunho. Não sou escritor... a não ser de receitas médicas.

Humphries disse:

-O homem fugiu. Foi o que foi. Se calhar ele mesmo arranjou tudo. Pessoalmente recuso-me a assinar.

- Então passaremos sem você, Humphries. Simplesmente os seus amigos... se é que tem amigos... hão-de espantar-se, quando a carta for publicada, por você não pertencer ao Clube Anglo-Argentino. Podem até pensar que não foi admitido.

- Bem sabe que tal clube não existe.

- Engana-se. Agora existe, e o doutor Saavedra concorda em ser presidente. Este é o primeiro jantar do clube. E temos um bom salmão do Iguazu. Se não quer ser membro, Humphries, vá-se embora. Vá comer goulash à sua associação italiana.

- Está a tentar fazer chantagem comigo?

- Por uma boa causa.

- Moralmente você não é melhor do que os raptores.

- Não serei melhor... mesmo assim, não queria que eles matassem Charley Fortnum.

- Charley Fortnum é uma desgraça para o país.

- Sem assinatura, não há salmão.

- Bom, não me dá uma alternativa? - resmungou Humphries desdobrando o guardanapo.

O doutor Saavedra leu a carta com atenção e pousou-a junto do seu prato.

- Tenho de a levar para casa para a trabalhar. Falta-lhe... não se ofenda com a minha crítica, vem de uma consciência profissional... falta-lhe o sentido de urgência. É fria como um relatório oficial. Se deixar a carta nas minhas mãos, escreverei um texto com cor e efeito dramático. Algo que a imprensa terá de publicar pelo seu próprio mérito.

- Queria telegrafá-la esta noite para o Times, para Londres e para os jornais de amanhã de Buenos Aires.

- Uma carta como esta não pode ser apressada, doutor Plarr, e eu sou um escritor vagaroso. Dê-me até amanhã e prometo-lhe que o resultado há-de valer a espera.

- O pobre diabo tem só três dias de vida. Prefiro telegrafar o meu rascunho, esta noite, a esperar até amanhã. Em Inglaterra já é amanhã.

- Então terá de passar sem a minha assinatura. Desculpe, doutor, mas seria mau para mim assinar uma carta desse jeito. Ninguém em Buenos Aíres acreditaria que eu lhe tivesse posto a mão. Contém, perdoe-me, alguns terríveis clichés. Escute isto...

- Daí eu querer que o senhor revisse a carta. Decerto que o pode fazer agora. À.mesa.

- Acredita que escrever é assim fácil? Seria capaz de fazer uma operação delicada, de repente, em cima desta mesa? Fico a pé toda a noite, se necessário. A qualidade da carta que lhe escrevo compensará o atraso, mesmo em tradução. A propósito, quem a vai traduzir? O senhor ou o doutor Humphries? Gostaria de verificar a tradução antes de a mandar para o estrangeiro. Confio na sua competência, naturalmente, mas é uma questão de estilo. Numa carta como esta precisamos de comover o leitor, de levar até ele o carácter desse pobre homem...

- Quanto menos o levar, melhor - disse Humphries logo em seguida .

- Segundo me parece, o Señor Fortnum é um homem simples, não muito ajuizado nem muito inteligente... e subitamente acha-se sujeito a morte violenta. Talvez nunca até aí tenha pensado na morte. É uma situação em que um homem como ele ou sucumbe ao medo ou cresce de estatura. Consideremos o caso de Señor Fortnum. Casado com uma mulher nova, um filho para nascer...

- Não há tempo para se escrever um romance sobre ele - cortou Plarr.

- Quando o encontrei, tinha bebido um pouco de mais. Achei a sua companhia embaraçosa até que descobri, por trás da sua aparente jovialidade, uma profunda melancolia.

- Aí não se engana muito - observou o doutor Plarr, com surpresa.

- Estava a beber, parece-me, pela mesma razão por que eu escrevo... para escapar ao negrume do seu próprio espírito. Confidenciou-me que estava apaixonado.

- Apaixonado aos sessenta anos! - exclamou Humphries.

Devia ter deixado para trás essa loucura.

- Eu próprio ainda não a deixei para trás - retorquiu o doutor Saavedra. - Se o fizesse, nunca mais escreveria. O instinto sexual e o instinto criador vivem ou morrem juntos. A juventude dura mais em certos homens, doutor Humphries, do que o senhor, pela sua experiência pessoal, pode supor.

- Ele apenas queria ter uma prostituta à mão. Chama a isso amor?

- Se voltássemos à carta... - disse o doutor Plarr.

- E então a que chama amor, doutor Humphries? A um casamento segundo a tradição espanhola? Uma grande família, filhos? Deixe-me que lhe diga: eu próprio já amei uma prostituta. Uma prostituta pode ter muito maior generosidade de espírito do que se encontra na burguesia de Buenos Aires.

Como poeta, tem-me ajudado mais uma prostituta do que qualquer crítico.... ou professor de Literatura.

- Julguei que o senhor era um romancista, não um poeta.

- Em espanhol nós não limitamos o termo «poeta» aos que escrevem segundo a métrica.

- A carta -- interrompeu o doutor Plarr. - Vamos tentar terminar a carta antes de acabar o salmão.

- Tem de me deixar pensar em sossego... A frase de abertura é a chave do resto. É necessário apanhar o tom certo, até o ritmo certo. O ritmo certo, na prosa, é tão importante como a medida certa num poema. Que bom salmão! Posso beber outro copo de vinho?

- Pode beber a garrafa toda, desde que escreva a carta.

- Que rebuliço fazem em volta de Charley Fortnum! desdenhou Humphries. Comera o salmão, bebera o vinho, já nada tinha que recear. - Sabem que existe outro possível motivo para o seu desaparecimento? Não queria ser o pai do filho de outro homem.

- Quero principiar a carta com o estudo do carácter da vítima - disse o doutor Saavedra, de esferográfica na mão, um bocado de salmão no lábio superior - mas, de qualquer modo, o Señor Fortnum recusa-se a entregar-se-me vivo. Tenho quase de penetrar num outro mundo. Num romance tê-lo-ia criado em poucas frases. É a sua realidade que me derrota. Sinto-me frustrado pela sua realidade. Quando escrevo uma frase é como se o próprio Fortnum me pusesse a mão no pulso, dizendo: «Mas esse não sou nada eu.»

- Deixe-me encher-lhe novamente o copo.

- Há outra coisa que ele me diz e que me faz hesitar: «Porque está a tentar devolver-me à espécie de vida que eu vivia, triste e sem honra? »

- Charley Fortnum nunca se importou muito com a honra - comentou o doutor Humphries - desde que houvesse uísque perto.

- Se o senhor pudesse olhar até ao fundo do carácter de alguém, mesmo talvez do seu, encontraria o sentido do machismo.

 

Passava das dez horas e os hóspedes começavam a aparecer no terraço, para o jantar. Moviam-se em filas separadas, passando de cada lado da mesa do doutor Plarr, como tribos errantes a tornearem um rochedo no deserto, e levavam consigo os filhos. Um bebé, que bem podia ter sido um ídolo de cera, sentava-se, direito, num carrinho; uma criança pálida de três anos arrastava-se de fadiga pelo deserto de mármore, com um vestido azul, de festa, e brincos de oiro nas pequeninas orelhas; um rapazinho de seis anos abria a boca a cada passo, ao longo do muro do terraço. Tinha-se a impressão de que haviam atravessado um continente inteiro para chegar ali. Decerto que, de madrugada, esgotados os víveres, fariam as trouxas e mudar-se-iam para outro acampamento.

O doutor Plarr falou, impaciente:

- Pronto. Dê-me a carta. Quero mandá-la conforme está.

- Nesse caso, não posso lá pôr o meu nome.

- E você, Humphries?

- Não assino. Não me pode ameaçar, agora. Acabei o salmão.

Pegando na carta o doutor Plarr rasgou-a em duas. Pousou algum dinheiro em cima da mesa e levantou-se.

- Doutor Plarr, peço desculpa de o irritar. O seu estilo não é mau. É oficial, mas ninguém acreditará que fui eu quem escreveu a carta.

O doutor Plarr dirigiu-se à toilette. Ao lavar as mãos, pensava: sou como Pilatos, um lugar-comum que o doutor Saavedra não aprovaria. Lavou as mãos escrupulosamente, como se fosse examinar um doente. Levantando-as da água, olhou para o espelho e atirou uma pergunta à imagem aflita lá reflectida: se matarem Fortnum, casas com Clara? Não seria uma consequência necessária; Clara não esperava que ele casasse com ela. Se herdasse a fazenda, podia vendê-la e mudar-se para algures - para casa, para Tucumán? Ou talvez alugasse um apartamento em Buenos Aires e comesse doces como a senhora sua mãe... Muito mais satisfatório para todos, se Fortnum vivesse. Fortnum daria um pai melhor do que ele - uma criança precisava de amor.

Ao enxugar as mãos ouviu a voz do doutor Saavedra por trás dele:

- Pensa que o traí, doutor? É que não está a par de todas as circunstâncias.

O romancista estava a urinar. Tinha voltado para cima a manga direita do casaco cor de pérola; era um homem meticuloso.

- Pensei que não era pedir muito assinar uma carta, embora mal escrita - disse o doutor Plarr -, e talvez salvar a vida de um homem.

- Creio que é melhor contar a verdadeira razão. Esta noite um dos seus comprimidos não bastará doutor. Fui profundamente ferido - abotoando as calças, o doutor Saavedra voltou-se. - já alguma vez lhe falei de Montez?

- Montez? Não. Não me lembro desse nome.

-É um jovem romancista que vive em Buenos Aires... Não muito novo, agora, mais velho do que o senhor, talvez; o tempo passa depressa. Ajudei-o a publicar o seu primeiro livro. Um romance muito estranho. Surrealista, mas excelentemente escrito. A Emecê devolveu-lho, a Sur não o aceitou, e eu persuadi o meu editor a publicá-lo com a promessa de escrever uma crítica favorável. Nesse tempo mantinha uma coluna semanal na Nación que tinha muita influência. Gostava de Montez. Sentia-me uma espécie de pai dele. Mesmo assim, durante os meus últimos anos em Buenos Aires, vi-o muito pouco. Tinha feito amigos, depois do êxito. Apesar de tudo, nunca deixei de elogiar o seu trabalho sempre que surgia oportunidade para tal. Agora veja o que ele escreveu a meu respeito - tirou do bolso uma página impressa e dobrada.

Um artigo longo e bem escrito cujo assunto era a perniciosa influência do poema épico Martín Fierro sobre os romances argentinos. O autor exceptuava Borges da sua crítica. Tinha algumas palavras de apreço para Mallea e Sábato, mas escarnecia cruelmente dos romances de Jorge Julio Saavedra. A palavra medíocre aparecia com frequência, a palavra machismo soava, irónica, em quase todos os parágrafos. Estaria a vingar-se da protecção que Saavedra outrora lhe concedera, de todos os conselhos sempre maçadores que fora obrigado a escutar?

O doutor Plarr concordou:

- Sim, é uma traição, Saavedra.

- Não só para comigo, mas para com a pátria. Martín Fierro é a Argentina. Meu avô morreu num duelo. Lutou, desarmado, contra um gaúcho bêbado que o insultara. Onde estaríamos, agora - as mãos iam-lhe do lavatório para o urinol -, se os nossos antepassados não respeitassem o machismo? Veja o que ele escreve acerca da rapariga de Salta. Nem sequer entendeu o simbolismo de uma só perna. Se eu assinasse a sua carta, imagine o escárnio que ele faria do estilo: «Pobre Jorge Julio... é o que acontece a um escritor que foge dos colegas para se esconder na província. Escreve como um funcionário do intendente. » Estivesse Montez aqui e eu lhe ensinaría o significado de machismo. Aqui, nestes azulejos.

-Tem uma faca à mão? - perguntou o doutor Plarr, esforçando-se em vão por fazer brotar um sorriso.

- Lutaria com ele como o meu avô, desarmado.

O doutor Plarr observou:

- O seu avô foi morto.

- Não temo a morte - replicou o doutor Saavedra.

- Charley Fortnum teme. Uma pequena coisa, assinar uma carta.

- Pequena coisa? Assinar uma prosa como essa? Mais fácil dar a vida. Oh, eu sei que é impossível, para quem não é escritor, compreender.

- Estou a tentar compreender.

- A sua finalidade é chamar a atenção para o caso do Senhor Fortnum? É isso?

- É.

- Então sugiro isto: informe os jornais e o seu Governo de que eu me ofereço como refém no lugar dele.

- Fala a sério?

- Muito a sério.

«Pode resultar», pensou o doutor Plarr. «Há justamente Uma vaga possibilidade de que neste país de loucos isso resulte. » Viu-se obrigado a dizer:

- É corajoso da sua parte, Saavedra.

- Pelo menos hei-de mostrar ao jovem Montez que machismo não é pura invenção do autor de Martín Fierro.

- Já pensou bem - tornou o doutor Plarr - que eles podem aceitar a sua oferta? E então acabarão os romances de Jorge Julio Saavedra... a não ser que o general o leia e o senhor tenha um grande público no Paraguai.

- Telegrafe para Buenos Aires e para o Times, para Londres, sim? Não se esqueça do Times. Dois dos meus romances foram publicados em Inglaterra. E para El Litoral. Telefone-lhes. Os raptores de certeza que lêem El Litoral.

Encaminharam-se os dois para o escritório do gerente, que estava vazio, e o doutor Plarr redigiu os telegramas. Ao voltar-se, viu os olhos do doutor Saavedra vermelhos de lágrimas reprimidas.

Saavedra prosseguiu:

- Montez era como meu filho. Admirava os seus livros. Tão diferentes dos meus, mas com qualidade... Percebi logo que tinham qualidade. No entanto, sempre me desprezou. Estou velho, doutor Plarr, por isso a morte, venha como vier, não está longe para mim. A história que descrevi ao gerente do hotel, a história do intruso - ia-lhe chamar O Intruso -, talvez nunca a chegasse a acabar. Mesmo enquanto a estava a planear sabia que pertencia à região da literatura dele, não à minha. Costumava aconselhá-lo, e agora... veja... a tentar imitá-lo! É privilégio dos novos, imitar. Preferia morrer de maneira que até Montez tivesse de respeitar.

- Dirá que o senhor também foi morto por Martín Fierro.

- Na Argentina quase todos somos mortos por Martin Fierro. Mas um homem tem o direito de escolher o momento da sua morte.

- A Charley Fortnum não o deixaram escolher.

- O Señor Fortnum foi apanhado numa contingência. Concordo que não é uma maneira digna de morrer. É como um acidente ou um caso de gripe.

O doutor Plarr ofereceu-se para levar o doutor Saavedra a casa. Nunca fora convidado a visitar o novelista e imaginava-o a trabalhar numa velha casa colonial, com janelas de grades que deitassem para alguma rua sombria e laranjeiras e lapachos no jardim - uma casa tão grave e tão fora de moda como as roupas dele. Devia haver na parede retratos do bisavô que fora governador da província e do avô morto às mãos do gaúcho.

Saavedra disse:

- Não é longe, podia ir a pé.

- Acho que devíamos conversar um pouco mais acerca da sua oferta e do modo como deve ser executada.

- Nada disso me diz respeito, agora.

- Não é bem assim.

Conforme ia guiando, o doutor Plarr advertia o romancista de que, a partir do momento em que a sua oferta fosse publicada em El Litoral, ele seria vigiado pela Polícia.

- Os raptores terão de comunicar consigo e sugerir um modo de fazer a troca. Seria mais fácil se o senhor saísse da cidade esta noite, antes de a Polícia saber. Podia ficar em parte incerta, em casa de algum amigo no campo.

- E como haviam os raptores de me encontrar?

- Talvez por meu intermédio. Devem saber que sou amigo do Señor Fortnum.

- Não posso fugir e esconder-me como um criminoso.

- Então vai ser difícil para eles utilizar a sua oferta.

- Além disso - tornou o doutor Saavedra - há o meu trabalho.

- Com certeza que o podia levar consigo.

- Isso é fácil de dizer. O senhor atende um doente em qualquer parte porque traz consigo a sua experiência. Mas o meu trabalho está ligado à sala onde o faço. Quando vim de Buenos Aires levei quase um ano a voltar a pegar na pena. O meu quarto parecia-me um quarto de hotel. Para escrever é preciso ter a nossa casa.

«A nossa casa». O doutor Plarr ficou surpreendido ao verificar que o romancista vivia num edifício ainda mais moderno e reles do que o seu, num bloco contíguo ao muro da cadeia. Os apartamentos cinzentos erguiam-se em quadrados como uma extensão da prisão. Não espantaria que tivessem letras A, B, C, e que fossem reservados a diferentes categorias de criminosos. O apartamento do doutor Saavedra ficava num terceiro andar e não havia elevador. As crianças jogavam uma espécie de jogo da bola com latas, defronte da entrada, e o cheiro a cozinhados seguiu-os pelas escadas acima. Talvez o doutor Saavedra achasse dever dar uma explicação. E falou, um pouco arquejante da subida, parando no segundo andar:

- Sabe, um escritor não faz visitas como um médico. Tem de viver com as suas personagens. Eu não podia viver confortavelmente numa casa burguesa porque escrevo sobre o povo. A mulherzinha que me faz as limpezas da casa é mulher de um guarda da cadeia. Sinto-me no verdadeiro milieu. Pu-la no meu último livro. Lembra-se? Chamava-se Caterina e era mulher de um sargento. Creio que lhe apanhei a maneira de pensar.

Abriu a porta e disse com uma nota de desafio na voz:

- Cá estamos, no coração do que os meus críticos chamam «o mundo de Saavedra».

Era na verdade um mundo muito reduzido. O doutor Plarr teve a impressão de que a literatura pouca recompensa material trouxera ao escritor, além do fato asseado, dos sapatos polidos e do respeito do gerente do hotel.

A sala de estar era comprida e estreita como uma carruagem de comboio. Uma estante com livros (na maioria, do próprio Saavedra), uma mesa de dobrar que abarcaria todo o aposento se estivesse aberta, um quadro do século XIX com um gaúcho a cavalo, uma cadeira de braços e duas cadeiras de costas duras - eram toda a mobília, afora um enorme armário antigo, de mogno, que devia ter ocupado outrora salas mais espaçosas, pois as fantásticas curvas barrocas sobre o frontão haviam sido cortadas para não implicarem com o tecto. Duas portas abertas, que o doutor Saavedra fechou apressadamente, permitiram a Plarr ver, num relance, uma cama monástica e um velho fogão de esmalte. Através da janela, riscada por uma rede ferrugenta contra os mosquitos, vinha o barulho de latas do jogo das crianças na rua.

- Quer um uísque?

- Pequeno, por favor.

o doutor Saavedra abriu o armário. Dir-se-ia uma arca onde os pertences de uma vida inteira tivessem sido emalados para uma partida iminente: dois fatos pendurados; camisas, roupa interior e livros amontoando-se indiscriminadamente nas prateleiras; um guarda-chuva por entre formas obscuras, ao fundo; quatro gravatas penduradas numa corda; uma pequena pilha de fotografias em molduras antiquadas partilhando o espaço inferior com dois pares de sapatos e alguns livros para os quais não houvera outro lugar. Numa saliência por cima dos fatos via-se uma garrafa de uísque, meia garrafa de vinho e alguns copos - um deles rachado -, talheres e um prato com pão.

O doutor Saavedra disse orgulhosamente:

- Tenho pouco espaço, mas quero o menos espaço possível em volta de mim, quando escrevo. O espaço distrai.

Olhou, ansioso, para o doutor Plarr e tentou um sorriso.

- Isto é o ventre das minhas personagens, doutor, e não há lugar para muito mais. Perdoe-me por não lhe poder oferecer gelo, mas hoje de manhã o meu frigorífico avariou-se e o electricista ainda não veio.

- Prefiro uísque puro, depois do jantar - disse o doutor Plarr.

- Então vou-lhe buscar um copo mais pequeno.

Teve de se apoiar nas pontas dos reluzentes sapatos para chegar ao cimo do armário. Um quebra-luz de plástico com florinhas cor-de-rosa, que estavam a ficar castanhas do calor, mal velava a crueza da luz ao centro. Ao observar o doutor Saavedra à procura do copo, com o seu cabelo branco, o fato cor de pérola, os sapatos polidos, o doutor Plarr sentia o espanto que tinha experimentado no bairro dos pobres ao ver uma rapariga com um vestido imaculadamente branco sair dum telheiro, de lama e lata. Possuía-o agora um novo respeito pelo doutor Saavedra. A sua obsessão pela literatura não era absurda, fosse qual fosse a qualidade dos seus livros. Saavedra queria sofrer a pobreza por amor da literatura, e uma pobreza disfarçada custa muito mais a suportar do que a declarada. O esforço necessário para polir os sapatos, para passar o fato... Não podia, como os novos, andar de qualquer maneira. Mesmo o cabelo, precisava de o cortar com regularidade. A falta de um botão daria demasiado nas vistas. Talvez que ele fosse lembrado na história da literatura argentina só numa nota de rodapé, mas essa nota tinha-a merecido. A nudez da sala podia comparar-se à inextinguível fome da sua obsessão literária.

O doutor Saavedra saltitava em direcção ao médico com dois copos na mão. E perguntou:

- Quanto tempo lhe parece que teremos de esperar pela resposta?

- Pode nunca mais vir.

- O nome do seu pai figura na lista dos que querem libertar?

- Sim.

- Devia ser estranho para si, imagino, tornar a ver o seu pai depois de tanto tempo. Que contente a sua mãe ficaria se...

- Creio que ela o prefere morto. Já não se adaptaria agora à vida dele.

- E quem sabe se, no caso de o Señor Fortnum voltar, a mulher terá gosto em recebê-lo?

- Quem pode saber?

- Ora, vamos, doutor Plarr! Eu tenho amigas em casa da Señora Sanchez.

- Ela foi lá? - perguntou o doutor Plarr.

- Estive lá esta tarde e ela também lá estava. Um grande rebuliço. Até a Señora Sanchez. Talvez espere que ela torne. Quando chegou o doutor Benevento para ver as outras raparigas, levei-a ao Consulado.

- Ela falou-lhe de mim?

Sentia-se um pouco irritado com a indiscrição de Clara, mas, apesar de tudo, sentia também um certo alívio. Estava a libertar-se do constrangimento do sigilo. Não havia até aí uma alma na cidade com quem pudesse falar de Clara, e que melhor confidente do que o seu doente? Havia segredos que o doutor Saavedra também não queria que se soubessem.

- Contou-me como tem sido bom para ela.

- Mais nada?

- Nada mais era necessário entre velhos amigos.

- Ela era uma das suas raparigas?

- Estive com ela uma vez, creio.

O doutor Plarr não sentiu ciúmes. Pensar em Clara, nua, à espera, na cela à luz da vela, enquanto o doutor Saavedra pendurava o fato cor de pérola, era como ver no palco uma cena, ao mesmo tempo triste e cómica, dum remoto lugar ao fundo da galeria. A distância afastava tanto dele as personagens que só uma formal compaixão o tocava. Perguntou:

- Não gostou dela? Só a quis uma vez...

- Não era uma questão de gostar. Era uma boa mulher, nova e atraente, mas não tinha nada de especial para o meu objectivo. Nunca me impressionou, como personagem... personagem... desculpe-me se falo ao jeito dos críticos... do mundo de Jorge Julio Saavedra. Montez proclama que o mundo não tem existência real. Que sabe ele em Buenos Aires? Teresa, porventura, não existe? Lembra-se da noite em que estivemos com ela? Cinco minutos antes de termos estado juntos, Teresa era a rapariga de Salta. Ela disse qualquer coisa... não me recordo agora das palavras. Fui com ela para a cama quatro vezes e tive de a deixar porque contava coisas de mais, coisas que não serviam. Confundia-me as ideias.

- Clara veio de Tucumán. Não lhe deu qualquer ideia?

- Tucumán não é região que me interesse. A minha região é a dos extremos. Montez não compreende isso. Trelew... Salta. Tucumán é uma cidade elegante, cercada por meio milhão de hectares de açúcar. Que ennui! O pai dela era cortador de cana, não era? E o irmão desapareceu.

- Julgava que esse seria um bom assunto para si, Saavedra.

- Não, para mim não era. Ela nunca me apareceu viva.

Tudo uma monótona pobreza, sem machismo, em meio milhão de hectares.

E acrescentou corajosamente, como se a noite não fosse barulhenta com as latas a rolarem lá em baixo no passeio de cimento:

- O doutor não sabe como a simples pobreza pode ser calada e insípida. Deíxe-me dar-lhe um pouquinho mais de uísque. É puro Jobnny Walker.

- Não, obrigado. Tenho de ir para casa.

Mesmo assim ficou. Os romancistas parece que possuíam uma certa sabedoria... Perguntou-lhe:

- Que acha que será de Clara, se Fortnum morrer?

- Talvez o doutor case com ela.

- Eu? Como? Teria de sair daqui.

- Podia facilmente encontrar melhor situação noutro lado. Em Rosário, por exemplo?

- Esta é a minha terra também... A que mais se parece com a pátria desde que deixei o Paraguai.

- E sente que o seu pai não está muito longe...

- Você é um homem cheio de intuição, Saavedra. Sim, foi a proximidade de meu pai que me trouxe aqui. No bairro dos pobres tenho a consciência de que estou a fazer alguma coisa que ele gostaria de me ver fazer, mas, quando estou com os meus doentes ricos, sinto-me como se abandonasse os amigos dele para ajudar os inimigos. As vezes até durmo com esses inimigos, e, ao acordar, olho para o rosto no travesseiro com os olhos de meu pai. Deve ser essa uma das razões por que as minhas relações amorosas nunca duram muito. E quando tomo chá com a minha mãe na Calle Florida, rodeado de todas as outras senhoras de Buenos Aires... também ele se senta lá e me critica com os seus olhos azuis de inglês... Creio que meu pai havia de se interessar por Clara. É uma das suas pobres.

- Ama a rapariga?

- Amar, amar... Quem me dera saber o que o senhor e os demais querem dizer com essa palavra. Desejo-a, sim. De vez em quando. O desejo sexual tem o seu ritmo, como sabe – e acrescentou: - Ela tem durado mais do que eu esperava. Teresa era a sua rapariga de uma só perna de Salta. Talvez Clara seja... a minha pobre, mas não quero que seja a minha vítima. Seria isso o que Charley Fortnum sentiu ao casar com ela?

O doutor Saavedra disse:

- Talvez não o volte a ver. Fui ter consigo para lhe pedir comprimidos contra a depressão, mas, ao menos, tenho o meu trabalho. Pergunto a mim mesmo se o doutor não precisará desses comprimidos ainda mais do que eu.

O doutor Plarr fitou-o sem compreender. Estava a pensar noutra coisa.

Ao entrar no elevador do seu apartamento, recordou-se da excitação de Clara quando da primeira vez que subiu. Pensou: talvez telefone para o Consulado a dizer-lhe que venha ter comigo. A cama no Consulado era demasiado estreita para duas pessoas, e, se fosse ter com ela, seria obrigado a sair antes que a mulher de bico de falcão aparecesse de manhã.

Entrou e foi primeiro ao consultório ver se a sua secretária, Ana, havia deixado alguma nota em cima da mesa, mas não havia nada. Correu as cortinas e olhou lá para baixo para o porto: três polícias junto da tenda de Coca-Cola. Talvez porque o barco semanal para Asunción estivesse no cais. Semelhante ao cenário da sua adolescência, só que presentemente olhava da janela de um quarto andar sobre o rio.

Disse:

- Deus o ajude, pai, onde quer que esteja.

Falava alto. Mais fácil acreditar num deus com o sentido humano da audição do que numa força omnisciente que pudesse ler os seus pensamentos inexpressos. Estranhamente, o rosto que lembrara, ao falar, não era o do pai, mas o de Charley Fortnum. O cônsul honorário deitado no caixão a sussurrar «Ted». O pai pusera-lhe o nome de Eduardo, provavelmente para agradar à mulher. Se tentava substituir o rosto de Charley Fortnum pelo de Henry Plarr, verificava que as feições do pai se haviam apagado com os anos. Como uma moeda antiga há muito enterrada, só distinguia uma leve desigualdade na superfície, que bem podia ter sido o contorno de uma face ou de um lábio. A voz de Charley Fortnum é que apelava novamente para ele: «Ted».

- Voltou-se - não tinha feito tudo quanto estava em seu poder para ajudar? - e abriu a porta do quarto. Então, viu, à luz do escritório, o vulto do corpo da mulher de Fortnum sob os lençóis. Chamou:

- Clara!

Ela acordou logo, sentando-se na cama.

Plarr reparou que as roupas dela estavam cuidadosamente dobradas numa cadeira. A rapariga conservava o esmero da sua antiga profissão. Para uma mulher que tem de se despir muitas vezes numa noite é importante o cuidado com o vestido, ou este ficará todo engelhado depois de dois ou três clientes. Clara dissera-lhe uma vez que a Señora Sanchez obrigava cada rapariga a pagar a lavagem da sua roupa - o que levava ao asseio.

- Como entraste?

- Pedi ao porteiro.

- Ele abriu-te a porta?

- Conhece-me.

- Tem-te visto aqui?

- Sim. E lá também.

«Então também a partilhei com o porteiro», pensou. Quantos outros desconhecidos guerreiros do campo de batalha de Clara haviam de tomar forma, mais cedo ou mais tarde? Nada mais estranho do que a vida da Calle Florida e o tinido das chávenas do chá e os bolos de dulce de leche, brancos como neve. Tinha partilhado Margarita com o Señor Vallejo - a maioria das relações sobrepunham-se no começo ou no fim e preferia o porteiro ao Señor Vallejo, cujo perfume da loção de barbear descobrira por vezes na pele de Margarita, nos últimos meses.

- Disse-lhe que lhe darias dinheiro. Dás-lhe?

- Naturalmente. Quanto? Quinhentos pesos?

- Era melhor mil.

Sentou-se na beira da cama e puxou o lençol para trás. Ainda não estava cansado daquele corpo magro e dos pequenos seios, que, tal como a barriga, mal indicavam ainda a gravidez.

Disse:

- Estou contente por teres vindo. Ia-te chamar, embora não fosse muito ajuizado. A Polícia julga que tenho alguma coisa a ver com os raptores. Suspeitam que o meu móbil seja o ciúme - acrescentou, sorrindo a essa ideia.

- Não se atrevem a meter-se contigo.

- Podem começar a vigiar-me.

- E isso que importa? A mim também me vigiam.

- Seguiram-te até aqui?

- Oh, eu sei lidar com esses homens. Os polícias não me afligem. É o porco-sujo do jornalista. Voltou à fazenda logo que anoiteceu. Ofereceu-me dinheiro.

- Para quê? Alguma história?

- Queria dormir comigo.

- Que lhe disseste?

- Disse-lhe que não precisava do dinheiro dele para nada, e então zangou-se. Acreditava que eu gostava mesmo dele, quando estava na Señora Sanchez. Julgava-se um grande amante. Oh, como lhe feri o orgulho - prosseguiu com prazer - ao dizer-lhe que Charley valia dois como ele!

- Como te livraste do homem?

- Chamei o polícia (deixaram um polícia na fazenda; dizem que está lá para me proteger, mas segue-me com os olhos por todo o lado), e, enquanto os dois discutiam, fugi no carro.

- Mas tu não sabes guiar, Clara.

- Vi muitas vezes como Charley fazia. Não é difícil. Sei as coisas que são de puxar e as que são de carregar. A princípio misturei tudo, mas por fim correu bem. Fui aos tombos até à estrada, e depois guiei bem, mais depressa do que Charley.

- Pobre «Orgulho de Fortnum»! - exclamou Plarr.

- Acho que guiei depressa de mais porque não vi o camião.

- Que aconteceu?

- Um acidente.

- Magoaste-te?

- Ojipe sim, eu não.

Os olhos dela cintilavam com o brilho da excitação das notícias. Nunca antes a ouvira falar tanto. Clara tinha ainda para ele a atracção de uma estranha - como certas raparigas desconhecidas num cocktail. Disse:

- Gosto de ti - levianamente, sem pensar, como o poderia ter dito a qualquer moça após um cocktail, nenhum deles acreditando que tais palavras significassem mais do que «vem dormir comigo».

- O motorista deu-me boleia - tornou ela. - Claro que ele queria fazer amor, e prometi-lhe que sim quando chegasse à cidade, a uma casa onde ele costumasse ir em San José, mas saltei do camião ao ver as primeiras luzes do tráfego e ele não pôde deter-me. Então fui à Señora Sanchez, que ficou contente por me ver! Contente mesmo. Não está zangada comigo. Foi ela quem me pôs a ligadura.

- Então tinhas-te magoado?

- Disse-lhe que conhecia um bom médico - e sorria enquanto retirava os lençóis para mostrar a ligadura no joelho esquerdo.

- Clara, tenho de levantar o penso para ver...

- Deixa, isso pode esperar. Amas-me um bocadinho? - e corrigindo-se rapidamente: - Queres fazer amor comigo?

- Temos muito tempo. Fica quieta para eu arrancar o penso.

Tentava ser tão delicado quanto possível, mas sabia que a magoava. Ela, muito quieta, sem se queixar, e ele a pensar em alguma das suas doentes burguesas, que se persuadiam de que a dor era intolerável. Chegavam a desmaiar, ou de medo ou para chamar a atenção do médico. Disse com admiração:

- Boa raça de camponesa.

- Que queres dizer?

- És valente, Clara.

- Oh, isso não é nada. Devias ver os golpes que os homens fazem quando andam nos campos a cortar cana. Já vi um rapaz com metade do pé cortado - e perguntou casualmente, como se se tratasse de uma conversa formal acerca de um parente comum: - já há notícias de Charley?

- Não.

- Continuas a pensar que pode estar vivo?

- De certeza.

- Então tiveste notícias

- Falei novamente com o coronel Perez. E fui hoje a Buenos Aires visitar o embaixador.

- Que vamos fazer? Creio que o mesmo que estamos a fazer agora - repunha a ligadura. - Continuaremos como até aqui. Vou-te visitar à fazenda enquanto Charley vai para o campo.

Era como se descrevesse uma vida que, outrora, fora agradável, mas em que já não acreditava.

- Que bom ver outra vez as raparigas da Señora Sanchez! Contei-lhes que tinha um amante. Não lhes disse quem era.

- Espanta-me elas não saberem. Parece que toda a gente nesta cidade sabe, excepto o pobre do Charley.

- Porque lhe chamas «pobre»? Ele era feliz. Eu fazia sempre o que ele queria.

- Que queria ele?

- Não muito. Nem muitas vezes. Uma maçada, Eduardo. Não tenho palavras para te dizer quanto era maçador. Charley era bondoso e cuidadoso. Nunca me magoou como tu me magoas. Por vezes agradeço a Nosso Senhor e à Virgem Santíssima por ser teu o filho que trago comigo, não dele. Que espécie de criança seria se pertencesse a Charley? O filho de um velho! Mais valia estrangulá-lo ao nascer.

- Charley daria um pai melhor do que eu.

- Não sabe fazer nada melhor do que tu.

O doutor Plarr pensava: «Oh, sim, sabe. Sabe morrer melhor, e isso já é alguma coisa. »

Estendendo a mão ela tocou-lhe a face - ele sentia-lhe os nervos nas pontas dos dedos. Nunca o tinha acariciado assim. O rosto fazia parte do proibido território da ternura, e a pureza do gesto impressionou-o tanto como se a rapariga lhe tivesse tocado no sexo. Afastou-se, rápido. Clara disse:

- Lembras-te daquela vez, na fazenda, quando te disse que estava a fingir? Pois olha, caro, não estava nada a fingir. Agora é que finjo sempre que fazes amor comigo. Finjo que não sinto nada. Mordo o lábio para fingir. É porque te amo, não é, Eduardo? Achas que te amo? - falava com uma humildade que o punha de pé atrás, tanto como se se tratasse de alguma exigência. - Peço desculpa. Não queria dizer... Isto não tem importância, pois não?

Não tinha importância? Como lhe podia ele explicar a grandeza da importância? «Amor» era uma reivindicação que não queria enfrentar, uma responsabilidade que se recusava a aceitar, uma exigência... Tantas vezes a mãe usara a palavra no seu tempo de criança! Como a ameaça do ladrão armado, «mãos ao ar, ou ... » Sempre lhe pediam alguma coisa em troca: obediência, uma desculpa, um beijo que não apetecia dar. Talvez tivesse amado o pai por ele nunca usar a palavra nem pedir nada. Lembrava-se de um só beijo dele no cais de Asunción, e era a espécie de beijo que um homem dá a outro. Como o beijo formal que ele tinha visto em fotografias os generais franceses trocarem entre si, depois de uma condecoração. Isso não exigia nada. O pai às vezes dava-lhe palmadinhas na cara ou puxava-lhe o cabelo. A frase inglesa old fellow era, de quantas lhe ouvira, a mais próxima do afecto. Recordava-se da mãe a chorar no camarote do barco e a dizer-lhe: «Só te tenho a ti para me dares amor agora»; agarrada a ele, no beliche: «Querido, meu querido rapazinho.» Tal como Margarita se agarrava a ele, na cama, anos depois, antes de o Señor Vallejo lhe vir ocupar o lugar, e lhe chamava «amor da minha vida», como por vezes a mãe lhe chamava «meu único amor». Não acreditava nada no amor sexual, mas, deitado, sem dormir, no apartamento atravancado de Buenos Aires, recordava-se, quando os passos da mãe estalavam em direcção ao quarto de banho, dos ilícitos sons noctumos que costumava ouvir na estancia no Paraguai - o vago eco de uma pancada na porta, passos abafados no andar de baixo, sussurros vindos da cave, um tiro como um aviso urgente, longe, para além dos campos tinham sido esses os sinais de uma genuína ternura, de uma compaixão bastante profunda para seu pai estar disposto a morrer por ela. Seria amor? León sentiria amor? E Aquino?

- Eduardo...

Clara fazia-o voltar de tão longe ao implorar-lhe:

- Eu só digo o que tu quiseres. Não te quero irritar. Que desejas, Eduardo? Diz-me, por favor. Quero saber o que desejas, mas como posso saber se não compreendo?

- Charley é mais simples, não é?

- Eduardo, se eu te amar, zangas-te? juro-te que não faz diferença. Fico com Charley. Só venho quando me quiseres, como na casa...

O doutor Plarr espantou-se ao ouvir a campainha da porta tocar duas vezes. Hesitou em ir. Para quê hesitar? Raro se passava uma semana sem uma chamada telefónica ou uma campainhada durante a noite. Disse a Clara:

- Fica aí caladinha. É um doente.

Foi ao vestíbulo e olhou através do pequeno óculo da porta, mas não se via ninguém na escuridão da escadaria. Sentiu-se outra vez no Paraguai da sua infância. Quantas vezes o pai não perguntara, como ele agora, por trás de uma porta aferrolhada: «Quem está aí?», tentando que a voz soasse firme.

- Polícia.

Abriu a porta e achou-se face a face com o coronel Perez.

- Posso entrar?

- Se o senhor diz «Polícia», como lhe hei-de recusar a entrada? - retorquiu o doutor Plarr. - Se tivesse dito «Perez», talvez lhe pedisse, visto sermos amigos, que viesse amanhã, a melhor hora.

Foi por sermos amigos que disse «Polícia», para o avisar de que esta é uma visita oficial.

- Demasiado oficial para uma bebida?

- Mão. Ainda não chegou a esse ponto.

O doutor Plarr levou o coronel Perez para o seu consultório e deitou dois uísques de marca argentina, dizendo:

- Guardo o pouco Scotch puro que tenho para visitas sociais.

- Sim. Compreendo. E o seu encontro com o doutor Saavedra, esta noite, foi puramente social?

- Está a vigiar-me?

- Não até agora. Talvez o devesse ter feito mais cedo.

Alguém em El Litoral contou-me do seu telefonema esta noite, e naturalmente que os telegramas que deixou no hotel me interessaram. Não há nesta cidade um Clube Anglo-Argentino, pois não?

- Não. Os telegramas seguiram?

- Porque não? Não havia mal nenhum em seguirem. Mas a mentira que me disse ontem... Parece que anda muito enredado neste negócio, doutor.

- Tem razão se quer dizer que estou a fazer todos os possíveis para libertar Fortnum, mas creio que ambos estamos.

- Há uma grande diferença, doutor. Eu não estou verdadeiramente interessado em Fortnum, mas nos seus raptores. Preferia que a chantagem não resultasse, porque desencorajaria outras. O doutor, por seu lado, quer que a chantagem resulte. Claro... é natural... Eu gostaria que ganhassem ambas as partes, para salvar o Señor Fortnum e capturar ou matar os seus raptores, mas a segunda parte é muito mais importante para mim do que a vida do Señor Fortnum. Está sozinho?

- Estou. Porquê?

- Parece que vi uma luz apagar-se no outro quarto.

- Devia ser um carro a passar pela marginal.

- Talvez.

Bebia o uísque devagar. O doutor Plarr tinha a impressão de que ele estava à procura das palavras.

- Acredita, doutor, que esses homens podem libertar o seu pai?

- Bem, outros prisioneiros têm sido libertados pelo mesmo método.

- Não em troca de um simples cônsul honorário.

- Um cônsul honorário também é um ser humano... tem o direito de viver. O Governo britânico não quer que o matem.

- Isso não depende do Governo britânico, mas do general, e duvido de que ele se aflija muito com qualquer vida humana, excepto com a dele próprio.

- O general depende do auxílio americano. Se eles insistirem...

- Sim, mas, em troca desse auxílio, já dá aos ianques alguma coisa que eles apreciam muito mais do que um cônsul honorário. O general tem uma grande qualidade, como o Papá Doc tinha no Haiti. É anticomunista. Está mesmo sozinho, doutor?

- Com certeza.

- Parece que ouvi... Bem, não importa... O doutor é mesmo comunista?

- Não. Sempre achei Marx ilegível. Como a maior parte dos economistas. Mas o senhor crê mesmo que esses raptores são comunistas? Nem só os comunistas são contra a tirania e a tortura.

- Alguns dos homens que desejam libertar são comunistas... ou pelo menos é o que o general diz.

- O meu pai não é.

- Então acredita que ele ainda viva?

O telefone, junto do cotovelo do doutor Plarr, tocou. O médico levantou o receptor de má vontade. Uma voz que reconheceu como a de León disse:

- Aconteceu uma coisa. Precisamos urgentemente de ti. Tentámos todo o dia...

- É assim urgente? Tenho aqui um amigo que está a beber comigo.

- Estás preso? - sussurrou a voz.

- Por enquanto não.

O coronel Perez inclinou-se para a frente, a observá-lo, a tentar ouvir.

- É tarde de mais para me telefonar. Sim, sim, bem sei. Um pouco de medo é natural, nessas circunstâncias, mas a temperatura sobe muito nas crianças. Dê-lhe mais duas aspirinas.

- Telefono-te dentro de quinze minutos.

- Espero que não seja necessário. Telefone-me amanhã de manhã, mas não cedo demais. Tive um dia extenuante, fui a Buenos Aires - espiava o coronel. -Quero-me deitar.

- Dentro de quinze minutos - repetiu a voz de León.

O doutor Plarr pousou o auscultador.

- Quem era? - perguntou Perez. - Oh, perdoe-me. Apanhei o hábito de fazer perguntas. Um vício de polícia.

- Apenas um pai aflito - respondeu o doutor Plarr.

- Sim, parece que ouvi uma voz de homem.

- É evidente que os homens afligem-se mais com os filhos do que as mulheres. A mãe foi a Buenos Aires fazer compras. De que estávamos a falar, coronel?

- Do seu pai. É esquisito esses homens incluírem o nome dele na lista. Há muitos outros que lhes seriam mais úteis. Homens mais novos. O seu pai deve agora ser bastante velho. Dá quase a impressão de eles quererem pagar qualquer ajuda que lhes possa dar... - terminou a frase com um gesto vago.

- Que podia eu fazer a favor deles?

- Toda essa publicidade que está a tentar arranjar... é-lhes útil. É algo que não podiam fazer sozinhos. Não querem matar o homem. A sua morte seria uma espécie de derrota. E então... só me ocorreu hoje... Penso devagar. Eles sabiam que os jornais nunca publicariam o verdadeiro programa que o governador tinha organizado para a visita do embaixador. É engraçado como uma coisa tão óbvia me escapou até hoje. Devem ter recebido informações, informações confidenciais.

- Talvez. Mas não de mim. Não sou da roda íntima do governador.

-Não. Mas o Señor Fortnum sabia e talvez lhe tivesse contado. Ou a Señora Fortnum. Coisa usual uma mulher dizer ao amante que o marido vai sair.

- O senhor faz de mim um Don Juan com as minhas doentes, coronel. Em Inglaterra podia temer um marido, mas aqui o Conselho Geral dos Médicos não funciona. Espero que não tenha andado a incomodar a Señora Fortnum.

- Queria trocar umas palavras com ela, mas não a encontrei na fazenda. Esta tarde visitou a casa da Señora Sanchez. Depois foi ao Consulado, mas não está lá agora. A princípio fiquei um pouco preocupado porque o Land Rover do Señor Fortnum foi encontrado na berma da estrada danificado... Pobre homem, dois carros despedaçados em dois dias. Fiquei contente ao saber que ela tinha ido à Señora Sanchez e que pouco se havia magoado. Esteve a tratar um doente, doutor? Tem a manga direita arregaçada.

O doutor Plarr empurrou o telefone para longe. Receava que tornasse a tocar. Disse:

- Como o coronel é observador! Não confiei na Señora Sanchez como médica. Clara está aqui comigo.

- E eu tinha razão quanto às suas mentiras, ontem.

- Uma relação envolve sempre algumas mentiras.

- Peço desculpa por o interromper, doutor, mas eram as mentiras que me incomodavam. Afinal éramos bons amigos. Até partilhámos algumas aventuras, no nosso tempo. A Señora Escobar, por exemplo.

- Sim, recordo-me. Disse-lhe que a ia deixar e a sucessão era... quase... certa. Nunca compreendi porque é que ela, no fim de contas, preferiu a si o Vallejo.

- Não confiava nas minhas intenções. O comum destino dum polícia. Bem sabe que o Señor Escobar tem um campo de aterragem de aviões na sua estancia no Chaco. Provavelmente uísque e cigarros vêm do Paraguai por essa via.

- Um benfeitor público.

- Sim, naturalmente. Eu nunca interferiria. Espero que essas aspirinas resultem, para não ser outra vez interrompido - o coronel escorropichou o copo do uísque e levantou-se. - Aliviou-me bastante o espírito. Agora percebo porque deseja a libertação do Señor Fortnum. Um marido é de grande importância numa relação amorosa. É uma maneira de se escapar quando a coisa começa a aborrecer. Ninguém deseja deixar uma mulher completamente só. Bem, vamos tentar salvar o Señor Fortnum para si... e capturar também os seus raptores. Do outro lado do rio sabem o que lhes hão-de fazer.

O doutor Plarr acompanhou-o até à porta.

- Alegra-me saber que se sente agora muito mais contente comigo.

- Segredos cheiram sempre mal a um polícia, até segredos inocentes. Estamos treinados, como um cão com haxixe, a cheirá-los. Tome o meu conselho, doutor: já fez bastante, não intervenha mais. Sempre fomos amigos, mas, se se mete neste caso, acautele-se. Eu atiro primeiro e depois mando uma coroa.

- O senhor faz-me lembrar Al Capone.

- Sim. Capone também mantinha a ordem à sua maneira.

Abriu a porta e hesitou por um instante no pátio escuro, como se alguma coisa importante lhe tivesse esquecido.

- Há mais uma coisa que talvez devesse já ter-lhe dito. Sei notícias do seu pai. Através do chefe da Polícia de Asunción. Naturalmente que verificámos com ele todos os nomes que os raptores puseram na lista. O seu pai foi morto há mais de um ano. Tentou fugir com outro homem... um tal Aquino Rivera... mas era velho e lento demais. Não conseguiu e abandonaram-no. Como vê, não vale a pena pensar que o pode ajudar agora. Boa noite, doutor. Lamento trazer-lhe más notícias, mas, de qualquer modo, deixo-o na companhia de uma mulher. Uma mulher é o melhor conforto para um homem.

O telefone principiou a tocar outra vez, quase logo que a porta se fechou.

O doutor Plarr pensou: «León enganou-me. Mentiu-me só para eu o ajudar. Não respondo ao telefonema. Que saiam do sarilho em que se meteram conforme puderem.»

Nem por um momento lhe ocorreu que o coronel Perez lhe mentisse. A Polícia era bastante forte para poder dizer a verdade.

O telefone a tocar e ele no vestíbulo. Finalmente, quem quer que tocasse desistiu. Bem podia ser um dos seus doentes, e, no silêncio acusador, começou a sentir-se culpado de egoísmo: era como o silêncio depois do grito de socorro de um suicida. O quarto de dormir estava silencioso. De Clara, um bocado antes, também viera um apelo. E ele virara igualmente as costas a esse apelo.

O pequeno quadrado de chão de mármore onde se encontrava afigurava-se-lhe a borda de um abismo; não podia dar um passo em qualquer direcção sem cair nas trevas da implicação ou da culpa. Parou a escutar o silêncio - no apartamento em que Clara estava deitada, na rua nocturna onde um carro da Polícia se punha agora em andamento, no bairro popular onde algo acontecera por entre os casebres de lama e lata. Silêncio, como uma chuva miúda, atravessava o rio até à república abandonada-do-mundo onde seu pai jazia morto no silêncio mais profundo de todos. «Era velho e lento de mais. Não conseguiu, e abandonaram-no.» Sentia vertigens à borda do soalho de mármore. Não podia continuar ali quieto para sempre. O telefone voltou a tocar. Dirigiu-se então ao escritório.

A voz de León:

- Que sucedeu?

- Tive uma visita.

- Polícia?

- Sim.

- Estás sozinho agora?

- Sim, só.

- Por onde andaste todo o dia?

- Em Buenos Aires.

- Mas tentámos comunicar contigo ontem à noite.

- Chamaram-me fora.

- E esta manhã, às seis horas.

- Não conseguia dormir e fui dar um passeio à beira-rio. Tinhas dito que não necessitavas mais de mim.

- O teu doente precisa agora de ti. Desce até ao rio e põe-te perto da entrada da Coca-Cola. Nós vemos se alguém está observar. Se a estrada estiver livre, entras.

- Acabo de receber notícias de meu pai. Pelo coronel Perez. É verdade?

- Que notícias?

- Que tentou fugir, mas era demasiado lento e por isso vocês abandonaram-no.

Pensava: «Se perceber uma mentira... uma hesitação que seja... pouso o telefone e nunca mais respondo.»

León disse:

- Sim. Desculpa. É verdade. Não to podia dizer antes. Previsávamos da tua ajuda.

- E o meu pai está morto?

- Sim. Mataram-no logo com um tiro.

- Podias ter-me dito.

- Talvez, mas não queríamos correr esse risco.

A voz de León chegava até ele como se através de uma imensa distância:

- Vens?

- Vou, sim.

Pousou o telefone e foi lá dentro ao quarto. Acendeu a luz e viu Clara, de olhos abertos, fitos nele.

- Quem era?

- O coronel Perez.

- Estás metido em trabalhos?

- Por causa dele, não.

- E o telefone?

- Um doente. Tenho de sair por um instante, Clara.

Recordou-se de que havia uma pergunta em suspenso entre eles, mas não sabia qual era. Disse-lhe:

- O meu pai morreu.

- Oh, Eduardo! Lamento. Gostavas dele?

Ela já não acreditava no amor, nem mesmo entre pai e filho.

- Sim, talvez gostasse dele.

Conhecera uma vez em Buenos Aires um homem que era filho ilegítimo. A mãe morrera sem lhe dizer o nome do pai. O homem procurou nas cartas da mãe, fez perguntas aos amigos. Chegou mesmo a examinar os registos do banco - a mãe tinha um rendimento que lhe devia vir de algures. Não estava zangado nem chocado, mas o desejo de saber quem era o pai incomodava-o como um prurido. Explicou ao doutor Plarr: «É como um desses pequenos jogos de paciência de figuras de mercúrio. Não conseguimos acertar o olhar e, no entanto, não somos capazes de largar o jogo.» Então, certo dia, soube o nome do pai - um banqueiro internacional há muito tempo falecido. E disse a Plarr: «Não imagina como me sinto vazio agora. Que mais me pode interessar? »

Era essa espécie de vazio que o doutor Plarr experimentava presentemente.

- Vem deitar-te, Eduardo.

- Não. Tenho de ir.

- Aonde?

- Não sei bem. É algo a respeito de Charley.

- Encontraram o corpo dele?

- Não, é outra coisa.

Ela tinha desviado metade do lençol e ele cobriu-a, dizendo:

- Apanhas uma constipação com o ar condicionado.

- Vou voltar ao Consulado.

- Não. Fica cá. Não me demoro.

Na solidão, uma pessoa acolhe qualquer coisa viva - um rato, um pássaro no beiral da janela, a aranha de Robert Bruce. Na solidão completa até pode nascer uma certa ternura. Plarr disse:

- Desculpa, Clara. Quando regressar...

Mas não lhe vinha nada à ideia que valesse a pena prometer-lhe. Pousou-lhe a mão na barriga. Murmurou:

- Olha por ele. Dorme descansada.

Apagou a luz para não ver mais os olhos dela a fitá-lo... espantados, como se os actos dele fossem demasiado complicados para qualquer rapariga do estabelecimento da Señora Sanchez poder compreender.

Nas escadas (os vizinhos podiam ouvir o elevador) tentou lembrar-se da pergunta dela a que não chegara a responder. Não devia ter sido muito importante. As únicas perguntas de importância eram as que um homem fazia a si próprio.

 

 

Ao sair do quarto interior, o doutor Plarr disse para o padre Rivas:

- Vai melhorar. O teu homem não podia ter alvejado melhor, se o fez de propósito. Feriu o tendão-de-aquiles. Claro que leva tempo a consertar, caso lho dêem. Que aconteceu?

- Tentou fugir. Aquino atirou primeiro para o chão e depois para as pernas.

- Seria mais bem tratado no hospital.

- Bem sabes que é impossível.

- Tudo quanto posso fazer é ligá-lo. O tornozelo devia ser engessado. Porque não abandonas o caso, León? Posso levá-lo para o meu carro durante três ou quatro horas para dar tempo a vocês fugirem, e digo à Polícia que o encontrei na berma da estrada.

O padre Rivas não se incomodou a responder. O doutor Plarr disse:

- É sempre assim quando uma coisa corre mal... é como um erro numa equação... O vosso primeiro erro foi tomá-lo pelo embaixador, e agora continua. A vossa equação nunca dará certa.

- Podes ter razão, mas, sem recebermos ordens de El Tigre...

- Então pede novas ordens.

- Impossível. Depois de anunciarmos o rapto todos os contactos foram cortados. Estamos aqui por nossa conta. Desta maneira, se formos presos, não podemos falar.

- Tenho de me ir embora. Preciso de dormir.

- Ficas aqui connosco - disse o padre Rivas.

- Não é possível. Se me vêem sair de dia...

- Se o teu telefone está vigiado, já hão-de saber que és nosso cúmplice. Se voltares para casa podem prender-te e o teu amigo Fortnum fica sem médico.

- Tenho outros doentes, León.

- Que procurem outro médico.

- Se vocês conseguirem o que querem... ou o matarem... que me acontecerá?

O padre Rivas apontou para o negro chamado Pablo, que estava à porta.

- Atraímos-te e agora estás aqui preso à força. Esta é que é a verdade. Não te deixamos ir embora.

- Supõe que eu atravesso a limiar daquela porta.

-Digo a Pablo que atire. Sê razoável, Eduardo. Como podemos acreditar que não vais fazer queixa à Polícia?

- Não sou informador da Polícia, León, apesar da partida que me pregaste.

- Duvido. A consciência de um homem não é assim tão simples. Creio na tua amizade. Mas como posso adivinhar que não voltas por causa do doente? A Polícia é capaz de seguir-te e a tua jura hipócrita pode condenar-nos a todos à morte. E depois há o sentido de culpa que desconfio que sentes. Dizem que te deitas com a mulher de Fortnum. Se isso é verdade, o teu desejo de reparação bem pode perder-nos a todos.

- Já não sou cristão, León. Não penso assim. Não tenho consciência. Sou um homem sem remorsos.

- Nunca encontrei um homem sem remorsos. Nem mesmo no confessionário, embora tenha confessado muita gente. O homem não é um ser primário. Quando eu era um jovem padre costumava tentar decifrar as ideias dos homens e das mulheres, as suas tentações, as suas ilusões a respeito deles próprios. Mas depressa tive de abandonar tal pesquisa porque nunca havia uma resposta franca. Ninguém era tão simples que eu pudesse entender. Ao fim, só me restava dizer: «Três pai-nossos e três ave-marias. Vá em paz. »

O doutor Plarr afastou-se, inquieto. Olhou outra vez para o doente. Charley Fortnum dormia calmamente, um sono de droga. Tinham trazido não sei donde mais cobertores para tornar o improvisado leito mais confortável. Voltando para a sala exterior, o doutor Plarr estendeu-se no chão. Parecia-lhe que um dia imenso se tinha passado. Era difícil acreditar que nessa mesma tarde tomara chá em Richmonde, na Calle Florida, e vira a mãe comer écIairs.

Depois de adormecer, a imagem da mãe não o largou. Falava-lhe no tom lamentoso habitual, dízendo-lhe que o pai não repousava como um proprietário respeitável no seu caixão. Tinham de estar constantemente a empurrá-lo para dentro e isso não era maneira de um caballero gozar a paz eterna. O padre Galvão vinha do Rio de Janeiro ver o que podia fazer para o persuadir a ficar tranquilo.

O doutor Plarr abriu os olhos. O índio Miguel dormia deitado no chão, ao lado dele, e o padre Rivas tomara o lugar de Pablo, à porta, com a arma nos joelhos. Uma vela em cima de um pires reflectia a sombra das orelhas de León na parede por trás. O doutor Plarr pensou nos cães que o pai fazia com a sombra das mãos na parede do quarto dos brinquedos. Ficou um momento acordado a olhar para o seu antigo colega de escola. León, Leóni-orelhas-de-cão, padre-orelhas-de-cão. Lembrava-se de ele dizer, numa das longas e sérias conversas que costumavam ter aos quinze anos, que havia só meia dúzia de carreiras para um homem seguir: médico, padre, advogado (naturalmente sempre das direitas), poeta (se escrevesse bem), ou artífice. Não se recordava agora da sexta carreira, mas decerto que não era raptor nem assassino.

Sussurrou:

- Onde estão Aquino e os outros?

- Isto é uma operação militar - respondeu León. - Fomos treinados por El Tigre. Estabelecemos os nossos postos avançados e temos vigias durante a noite.

- E a tua mulher?

- Está na cidade com Pablo, o dono desta cabana. Ele é muito conhecido aqui. É mais seguro assim. Não precisas de falar baixinho. Um índio adormece em qualquer ocasião, sempre que não é preciso. O único barulho capaz de o despertar é o som do seu nome... ou um ruído perigoso. Repara nele deitado e tão quieto enquanto conversamos. Invejo-o. Isso é que é paz verdadeira. O sono devia ser assim para todos, mas nós perdemos o sentido animal.

- Fala-me de meu pai, León. Quero saber a verdade.

E mal disse estas palavras lembrou-se do doutor Humphries, sempre a exigir a verdade, mesmo do criado de mesa napolitano, e só obtendo uma vaga resposta.

- O teu pai e Aquino estavam na mesma esquadra, a cem quilómetros a sudeste de Asunción, perto de Villarica. O teu pai encontrava-se lá há quinze anos e Aquino há dez meses. Fizemos o que pudemos, mas ele era velho e doente. El Tigre era contra a nossa tentativa de salvar o teu pai, mas nós vencemo-lo por maioria de votos. Enganámo-nos. Talvez o teu pai continuasse vivo, agora, se tivéssemos escutado El Tigre.

- Sim. Talvez. Numa prisão. A morrer aos poucos.

- Foi uma questão de segundos. Um salto rápido. Ele podia ter conseguido escapar no tempo em que tu o conheceste, mas quinze anos numa esquadra da Polícia... Apodrece-se lá mais rapidamente do que numa cadeia. O general sabe que numa cadeia há camaradagem, por isso manda as suas vítimas para locais separados e estreitos, onde elas mirram de desespero.

- Viste o meu pai?

- Não. Eu estava no carro de fuga com uma granada pronta... a rezar.

- Ainda acreditas em orações?

O padre Rivas não respondeu e o doutor Plarr adormeceu.

Era dia quando acordou e foi logo ao quarto interior ver o doente. Charley Fortnum viu-o entrar e disse:

- Então você é um deles?

- Sou.

- Não compreendo, Ted. Que tem tudo isto a ver consigo?

- Falei-lhe muitas vezes de meu pai. Julgava que estes homens o pudessem ajudar.

- Você era meu amigo... e de Clara.

- Não tenho culpa do erro que eles cometeram. Como está o tornozelo?

- Já sofri muito mais com dores de dentes. Você tem de me tirar daqui, Ted. Por causa de Clara.

O doutor Plarr contou a Fortnum da sua visita ao embaixador. Conforme falava, reconhecia que não era nada encorajante. Charley Fortnum compreendia lentamente os pormenores.

- Foi mesmo visitar o velhote?

- Sim. Ele vai fazer o mais que puder.

- Oh, em Buenos Aires ficarão aliviados quando eu morrer. Sei-o bem. Escusam de me despedir, que é um acto pouco cavalheiresco. Gente detestável.

- O coronel Perez está também a fazer os possíveis. Não demorará muito descobrir este sítio.

- Tudo dará no mesmo. Julga que esses tipos alguma vez me deixam sair daqui vivo? Falou com Clara?

- Sim. Está bem.

- E a criança?

- Não há motivo para preocupações.

- Tentei escrever-lhe uma carta, ontem. Gostava de que, uma vez tudo acabado, ela tivesse alguma coisa para ler, mas duvido que o consiga. Ainda acha muito difícil ler. Pensei que alguém lhe lesse a carta... talvez você, Ted. Claro que não sei dizer tudo quanto sinto por ela, mas supus que, se o pior acontecesse, você lhe poderia explicar.

- Explicar o quê?

- Os meus sentimentos. Sei que você é frio, Ted. Já lhe chamei isso muitas vezes. Para si sou um sentimental. Mas, aqui deitado, tenho meditado em muitas coisas... O inferno do tempo que preciso de encher. Parece-me que todos os anos que passei antes de encontrar Clara (aquilo a que os parvos chamam primavera da vida) foram anos vazios, sem nenhuma finalidade, a cultivar a maldita congonha para juntar algum dinheiro... para quê? Para quem? Precisava de alguém a quem pudesse ajudar... de não viver só para mim. Há pessoas que se afeiçoam a cães ou a gatos, mas eu nunca me interessei muito por animais. Nem tão-pouco cavalos. Cavalos! Nunca pude com esses brutos! Tudo quanto tinha para me afeiçoar era o «Orgulho de Fortnum». Costumava fazer de conta que era um ser vivo. Dava-lhe gás e gasolina e escutava-lhe as entranhas, sabendo-o no entanto menos real do que as bonecas que fazem chichi. Naturalmente que, durante um tempo, existiu a minha mulher. Mas era tão superior... Não havia nada que eu lhe pudesse fazer que ela não soubesse fazer melhor. Desculpe. Estou a falar de mais. Mas você conhece Clara, parece-me mais íntimo do que nenhuma outra pessoa.

- Fale à vontade. Não há mais nada a fazer na situação em que nos encontramos. Sou tão prisioneiro, aqui, como você.

- Não o deixam sair?

- Não.

- Então Clara... não tem ninguém?

A voz do doutor Plarr era de irritação:

- Clara pode tomar conta de si própria durante um ou dois dias. É muito mais fácil para ela do que para si ou para mim.

- A si não o vão matar.

- Não, não me matarão, se o puderem evitar.

- Sabe, um tempo antes de conhecer Clara cheguei a julgar que tinha encontrado alguém a quem amar. Uma rapariga da Mãe Sanchez também. Chamava-se Maria. Mas era má, essa.

- Mataram-na com uma facada.

- Foi. Imagine conhecer uma criatura dessas! Bem, logo depois conheci Clara. Espantei-me de não ter já reparado nela. Não sou bom juiz de mulheres, parece-me, e Maria... era o género de me deslumbrar. Clara não era assim bela, mas honesta. Podia confiar nela. Fazer feliz uma mulher como Clara é uma espécie de êxito, não é?

- Um modesto êxito.

- Sim. Você pode dizer isso, mas eu estou habituado a falhar e não posso levantar os olhos para muito alto. Se as coisas me tivessem corrido melhor, quem sabe... Deixei de beber quase durante uma semana quando me nomearam cônsul honorário. Mas naturalmente que isso não durou. Ainda guardo a carta que me enviaram da Embaixada. Gostava que a desse a Clara, se eu não sair mais daqui. Está na gaveta de cima à esquerda, na minha secretária, no Consulado. Descobre-se facilmente por causa das armas reais no remetente. Guarde-a para mostrar à criança, um dia.

Tentou mudar de posição e encolheu-se com dores.

- Dói?

- É uma guinada - riu baixinho. - Quando penso na minha primeira mulher e em Clara... Deus meu, como duas mulheres podem ser diferentes! A minha primeira mulher disse-me, um dia, que tinha casado comigo por piedade. Piedade de quê? Era como um homem em casa... Sabia tudo de electricidade. Sabia até pôr uma anilha numa torneira. E se eu às vezes bebia um pouco mais do que a medida, ela não perdoava. Claro que não havia muito a esperar de tal criatura. Membro da Christian Science. Nem sequer o cancro existia aos seus olhos, embora o pai lhe tivesse morrido de cancro. Como podia acreditar numa bebedeira? Mesmo assim, escusava de falar tão alto quando eu apanhava uma. A sua voz penetrava-me na cabeça como uma broca. Mas Clara... Clara é uma verdadeira mulher. Sabe estar calada, Deus a abençoe. Gostava de a fazer feliz até ao fim.

- Isso deve ser fácil. Clara não me parece uma mulher difícil.

- Não. Mas creio que, mais tarde ou mais cedo, lá vem um teste. Como esses malditos exames que tinhamos na escola. Não estou seguro contra falhanços.

O doutor Plarr pensava que estavam a falar sobre duas mulheres diferentes - uma, a mulher que Charley Fortnum amava, a outra, uma prostituta da casa da Mãe Sanchez, que esperara por ele na cama, a noite anterior. Clara tinha-lhe perguntado qualquer coisa. Depois o coronel Perez tocou a campainha. Não valia a pena tentar lembrar-se do que ela lhe perguntara.

Perto do meio-dia Marta voltou da cidade com um número de El Litoral - os jornais de Buenos Aires ainda não tinham chegado. O editor dedicara cabeçalhos à oferta do doutor Saavedra - cabeçalhos maiores, pensou o doutor Plarr, do que seria provável noutra parte. Esperou pela reacção de León, que, no entanto, não fez comentários ao passar o jornal, sem uma palavra, a Aquino.

Aquino disse:

- Quem é este Saavedra?

- Um romancista.

- Porque pensa ele que queremos um romancista para substituir um cônsul? Para que serve um romancista? De qualquer modo é argentino. Quem se importa com a morte de um argentino? Não o general. Nem mesmo o nosso presidente. Nem o mundo. Um a menos dos subdesenvolvidos com que gastar dinheiro.

À uma hora o padre Rivas ligou a telefonia para ouvir o boletim das notícias de Buenos Aires. Nem sequer mencionaram a oferta do doutor Saavedra. O doutor Plarr perguntava a si próprio se o escritor estaria a ouvir, no seu pequeno quarto junto da cadeia - a ouvir um silêncio mais humilhante do que uma recusa. O rapto tinha já deixado de interessar o público argentino. Havia acontecimentos mais excitantes a chamarem a atenção. Um homem matara o amante da mulher (numa luta com facas, naturalmente) - história sempre sedutora, que apelava para um latino-americano; os costumados discos voadores tinham passado pelo Sul, dera-se um golpe do exército na Bolívia e havia um relato pormenorizado das actividades da equipa argentina de futebol na Europa (alguém criticara severamente o árbitro). Ao fim do programa o locutor disse: «Continua a não haver notícias do cônsul britânico raptado. O tempo para cumprir as condições impostas pelos raptores expira no sábado à meia-noite. »

Bateram à porta. O índio, que voltara a ficar de guarda, perfilou-se contra a parede com a arma escondida. Estavam, na ocasião, seis pessoas na sala - o padre Rivas, Diego, o motorista, Pablo, o negro picado das bexigas, Marta e Aquino.

Dois deles deviam estar de vigia lá fora, mas, como tudo parecia sossegado, León dera-lhes licença para entrar e escutar as notícias da rádio, erro que ia talvez lamentar. Segunda pancada na porta. Aquino desligou o aparelho.

- Pablo! - chamou o padre Rivas.

Pablo aproximou-se da porta, relutante, puxando por um revólver do bolso.

O padre disse-lhe secamente:

- Guarda isso.

O doutor Plarr perguntava a si próprio, com uma espécie de resignação, mesmo de alívio, se aquilo não iria ser o fim de tudo. Haveria tiros quando a porta se abrisse?

Ao padre Rivas talvez tivessem ocorrido pensamentos semelhantes, porque se deslocou para o centro da sala como se, caso se tratasse do fim, quisesse ser o primeiro a morrer. Pablo escancarou a porta.

Lá fora um velho, cambaleando ao sol e olhando silenciosamente para eles com uma estranha curiosidade. Foi quando o doutor Plarr compreendeu que se tratava de um cego. O velho apalpava a ombreira da porta com a mão muito magra e cheia de veias como uma folha murcha.

- José, que fazes aqui? - exclamou o negro.

- Vim procurar o padre.

- Não há aqui padre nenhum, José.

- Há, sim, há, Pablo. Estava eu ontem sentado junto da torneira da água e ouvi dizer: «O padre que vive com Pablo é bom. »

- Para que queres um padre? Ele já se foi embora.

O velho movia a cabeça de um lado para o outro, como quem quisesse ouvir com um ouvido de cada vez, distinguir as diferentes respirações na sala, fôlegos pesados e mudos, alguns apressados, o de Diego com um assobio asmático.

Disse:

- A minha mulher morreu. Ao acordar, de manhã, estendi a mão para a acordar a ela, e encontrei-a fria como uma pedra húmida. Deitou-se bem. Fez-me a sopa, uma boa sopa. Não me disse que ia morrer.

- Deves chamar o padre do bairro, José.

- Não é um bom padre. É o padre do arcebispo. Sabes muito bem isso, Pablo.

- O padre que esteve cá foi só de visita. Parente de um primo meu em Rosário. Já se foi embora.

- Quem são as pessoas que estão na sala, Pablo?

- Amigos meus. Que imaginas? Estávamos a ouvir a telefonia.

- Meu Deus, tens rádio, Pablo? Como enriqueceste assim depressa?

- Não é meu. Pertence a um amigo.

- Que amigo rico esse teu! Eu preciso de um caixão para a minha esposa, Pablo, e não tenho dinheiro.

- Bem sabes que tudo se há-de arranjar, José. Nós, no bairro, trataremos disso.

- Juan diz que lhe compraste um caixão. Não tens mulher, Pablo. Dá-me o teu caixão.

- Preciso do caixão para mim, José. O médico disse-me que sou doente. Juan faz-te um caixão e nós, os moradores do bairro, pagamo-lo.

- Mas há a missa. Quero que o padre diga a missa. Não quero o padre do arcebispo.

E o velho deu um passo em frente em direcção a eles, de mãos estendidas, as palmas das mãos para cima.

-Não há aqui nenhum padre, já te disse. Voltou para Rosário.

Pablo pôs-se entre o velho e o padre Rivas, como se receasse que, apesar de cego, aquele descobrisse o padre.

Diego perguntou:

- Como encontraste o caminho até aqui, José? A tua mulher era os teus olhos.

- Este é Diego? Vejo bem com as minhas mãos.

Levantou as mãos, os dedos a apontarem primeiramente para Diego, depois para onde estava o médico, e em seguida para o padre Rivas. As mãos pareciam hastes de algum estranho insecto. Não olhou para Pablo, que tinha como certo. Eram os outros, os desconhecidos, que as suas mãos e ouvidos procuravam. Dava a impressão de que os estava a contar, como um guarda da cadeia, enquanto os presos se alinham para a inspecção.

- Há aqui quatro estranhos, Pablo.

Adiantou-se para Aquino, que recuou.

- São todos meus amigos, José.

- Mão sabia que tinhas tantos amigos, Pablo. Não são deste bairro.

- Não.

- Serão, mesmo assim, bem recebidos, se vierem ver a minha mulher.

- Vão mais tarde, mas eu tenho de te conduzir a casa, José.

- Deixa-me ouvir a rádio falar, Pablo. Nunca ouvi um rádio falar.

- Ted! - chamou Charley Fortnum do quarto. - Ted!

- Quem chama, Pablo?

- Um doente.

- Ted! Onde está, Ted?

- Um gringo - acrescentou o velho, amedrontado.

- Nunca soube de um gringo neste bairro. Nem de um rádio. Tornaste-te um grande homem, Pablo.

Aquino aumentou o som do rádio para abafar a voz de Charley Fortnum, e uma voz de mulher falou alto dos fritos de arroz Kellog's «a estalar de vida e de vigor. Doirados e doces como mel ».

O doutor apressou-se em direcção ao quarto interior, sussurrando:

- Que quer, Charley?

- Sonhei que havia uma pessoa no quarto. Ia-me cortar o pescoço. Assustei-me. Queria saber se você ainda aí estava.

- Não torne a falar. Está ali um desconhecido. Se fala, as nossas vidas correm perigo. Volto para aqui quando ele se for embora.

Na outra sala, quando o doutor voltou, a voz metálica de

 

  1. Entre os Latino-Americanos, um estrangeiro, especialmente um anglo-saxónico. (N. da T.)

 

uma mulher dizia: «Ela adorará a macieza perfumada da sua face. »

O velho murmurou:

- Como um milagre! Uma caixa a dizer coisas tão bonitas!

Depois alguém principiou a cantar uma balada romântica de amor e morte.

- Aqui, José, apalpa o rádio. Segura-o nas tuas mãos.

Todos se sentiram mais à vontade quando as mãos do velho ficaram ocupadas, sem olharem para eles.

O cego aproximou o rádio do ouvido, com medo de perder uma palavra das belas frases proferidas.

O padre Rivas puxou Pablo à parte, segregando-lhe:

- Vou com ele, se vires que o posso ajudar.

- Não - respondeu Pablo. - Todo o bairro está reunido à porta da cabana para ver o corpo da morta. Ficam a saber que ele foi procurar um padre. Se o padre do arcebispo vier, há-de querer saber quem você é. Ver os seus papéis. Pode mandar chamar a Polícia.

Aquino disse:

- Podia acontecer um acidente ao velho, antes de regressar a casa.

- Não - replicou Pablo. - Não concordo nada com isso. Conheço-o desde criança.

Diego, o motorista, deu a sua opinião em voz cava:

- De qualquer modo seria demasiado tarde para lhe tapar a boca. Como é que a mulher junto da torneira da água sabia que estava cá um padre?

Pablo disse:

- Não contei a ninguém.

- Nunca há segredos durante muito tempo, num bairro retorquiu o padre Rivas.

- O velho sabe do rádio e sabe do gringo - tornou Diego. - Isso é que é o pior. Deviamos sair daqui o mais depressa possível.

-Tinham de carregar Fortnum numa maca - disse o doutor Plarr.

O cego sacudia o rádio, queixando-se:

- Não ressoa.

- Porque havia de ressoar? - perguntou Pablo.

- Há lá dentro uma voz.

- Vamos, José. São horas de voltares para junto da tua mulher.

- Mas o padre? Quero o padre para a ungir.

- Já te disse, José. Não há aqui nenhum padre. O padre do arcebispo faz isso.

- Nunca vem quando o mandamos chamar. Está sempre em reuniões. Vai levar horas a aparecer, e a alma da minha pobre mulher a errar entretanto.

O padre Rivas disse:

- Ela não sofre por isso, velhote. Deus não espera pelo padre do arcebispo.

As mãos do homem viraram-se rapidamente para ele.

- Você... você que falou... tem voz de padre.

- Não, não. Não sou padre. Se os seus olhos vissem, veriam a minha esposa ao pé de mim. Fala para ele, Marta.

Marta disse, baixo:

- Sim, este é o meu marido, bom velho.

Pablo adiantou-se:

- Vamos. Vou levar-te a casa.

O cego agarrava-se obstinadamente ao rádio. A música era estridente, mas não de mais para ele, que chegava o aparelho ao ouvido.

Diego sussurrou:

- Ele disse que veio até aqui sozinho. Como podia ser? E se alguém o trouxe até cá, de propósito, e deixou a porta aberta?

- Já cá esteve duas vezes com a mulher. Um cego lembra-se bem dos caminhos. De qualquer modo, se eu o acompanhar a casa, posso ver se há alguém que esteja à espera dele ou à espreita.

- Se não regressares dentro de duas horas - disse Aquino. - Se te apanharem... matamos o cônsul. Diz-lhes isto - e acrescentou: - Era melhor que eu o tivesse alvejado nas costas, ontem. Estaríamos longe, agora.

- Já ouvi um rádio - disse o velho, espantado, pousando aparelho com cuidado como se se tratasse de uma coisa frágil. - Quem me dera poder contar à minha mulher...

- Ela sabe - interveio Marta. - Sabe tudo.

- Vamos, José.

O negro pegou na mão direita do cego e puxou-o para a porta, mas ele obstinou-se, deu uma volta, e com a mão livre pareceu contá-los todos outra vez.

- Que grande festa tu tens aqui, Pablo. Dá-me uma bebida, Dá-me caña.

- Não temos aqui que beber, José.

Puxou o velho para fora e o índio fechou rapidamente a porta. Por um instante sentiram-se todos aliviados, como se uma brisa refrescasse o dia, pesado de trovoada.

- Que te parece, León? - perguntou o doutor Plarr. - Seria um espião?

- Como posso saber?

- Penso que devias ter ido com o pobre do velho - disse Marta. - A mulher está morta e não há padre para o ajudar.

- Se tivesse ido, punha em perigo a vida de todos nós.

- Ouviste o que ele disse, que o padre do arcebispo não se interessa pelos pobres.

- E achas que eu não me interesso pelos pobres? Estou a arriscar a vida por eles, Marta.

- Bem sei, padre. Não te estava a acusar. Tu és bom.

- A mulher morreu há várias horas. Que importa agora umn pouco de óleo? Pergunta ao doutor.

- Oh, eu só trato dos vivos - retorquiu Plarr.

A mulher tocou na mão do marido.

- Não te queria ofender, padre. Sou a tua mulher.

- Não és a minha mulher. És a minha esposa - impacientou-se o padre Rivas.

- Se assim o dizes.

- Já te expliquei isso muitas vezes.

- Sou estúpida, padre. Nem sempre compreendo. Isso tem assim tanta importância? Mulher, esposa...

- Tem importância, claro. A dignidade humana importa sempre, Marta. Um homem que sente desejo sexual toma uma mulher para o tempo do seu desejo, mas eu tomei-te para toda a vida. Isto é casamento.

- Se assim o dizes, padre...

O padre Rivas falou numa voz cansada de estar eternamente a ensinar a mesma coisa:

- Não porque eu o digo, Marta, mas porque é verdade.

- Sim, padre. Fazia-me bem se uma vez ou outra te ouvisse rezar...

- Talvez reze mais do que julgas.

- Não te zangues, padre. Sinto-me muito orgulhosa por me teres escolhido.

Virava-se para os outros que se encontravam na sala:

- Ele podia ter dormido com qualquer mulher de quem gostasse no nosso bairro em Asunción. É um homem bom. Se não foi com o cego, é porque tinha razões para não ir. Somente, por favor, padre...

- Gostava que não me chamasses padre a toda a hora. Sou o teu marido, Marta. O teu marido.

- Sim. Mas ficava tão orgulhosa se ao menos uma vez te visse como antigamente ... revestido no altar... a voltares-te para nos abençoar, padre ...

A palavra fugiu-lhe e ela pôs a mão na boca demasiado tarde para que não se ouvisse.

- Bem sabes que não posso fazer isso.

- Se eu te pudesse ver como te vi em Asunción... de branco, pela Páscoa...

- Nunca mais me verás desse jeito.

Desviando-se, León Rivas chamou:

- Aquino, Diego, voltem aos seus postos. Dentro de duas horas serão substituídos. Tu, Marta, torna à cidade a ver se já chegaram os jornais de Buenos Aires.

- É melhor comprar mais uísque para Fortnum - lembrou o doutor Plarr. - A medida que ele usa depressa esvazia uma garrafa.

- Desta vez - disse o padre Rivas - ninguém bebe com ele.

- Que estás a insinuar? - perguntou Aquino.

- Não estou a insinuar nada. Julgas que não notei o teu hálito, ontem?

Às quatro horas foi Aquino que ligou o rádio, mas agora nem uma referência ao rapto. Como se o caso se tivesse varrido da memória do mundo.

Aquino disse ao doutor Plarr:

- Nem sequer falam do seu desaparecimento.

- Talvez ainda não dessem por ele. Eu já perdi a conta dos dias. Hoje é quinta-feira? Lembro-me de ter dado à minha secretária um longo fim-de-semana de férias. Está a esta hora algures a ganhar indulgências para as almas do Purgatório. Oxalá não sejamos nós a beneficiar delas.

Uma hora depois chegou Pablo. Ninguém mostrara suspeitas, mas ficara mais tempo do que desejava por ter de se reunir à fila de pessoas que iam prestar as últimas homenagens à morta. Quando saíra ainda o padre do arcebispo não tinha chegado. A sua única aflição fora ouvir José falar do rádio a toda a gente. O velho sentia-se imensamente orgulhoso por ter escutado e segurado o aparelho nas mãos. Entretanto parecia haver esquecido o gringo.

- Há-de ainda lembrar-se - comentou Diego. - Devemos sair daqui.

Pablo perguntou:

- Como podemos sair com um homem ferido?

- El Tigre diria «matem-no já» - observou Aquino.

- Já tiveste uma oportunidade para isso - disse Diego.

- Onde está o padre Rivas?

- De guarda.

- Deviam estar dois lá fora.

- Um homem precisa de beber. O meu mate acabou. A tarefa de Marta era trazer mais, mas o padre Rivas mandou-a à cidade comprar uísque para sede...

 

- Vai, Aquino.

- Não recebo ordens tuas, Pablo.

O doutor Plarr pensava: «Se esta inacção continua por mais tempo, acabam por brigar uns com os outros. »

Ao anoitecer Marta regressou da cidade. Os jornais de Buenos Aires tinham chegado e na Nación havia algumas linhas dedicadas ao doutor Saavedra, embora o jornalista achasse necessário lembrar aos leitores quem era Saavedra: «O romancista mais conhecido pelo seu primeiro livro O Coração Silencioso» - pondo o título do livro errado.

A tarde parecia arrastar-se interminavelmente. Era como se, sentados ali durante horas em silêncio, fizessem parte de um silêncio universal, o silêncio da rádio, o silêncio das autoridades, até o silêncio da Natureza. Os cães não,ladravam. Os pássaros tinham cessado de cantar. E, quando a chuva começou a cair, vinha em gotas pesadas e espaçadas, tão infrequentes como as palavras deles, e o silêncio aumentava por entre a chuva. Algures, longe, havia trovoada, do outro lado do rio, noutro país.

Sempre que alguém falava, o perigo da disputa pairava até sobre a mais inocente observação. Só o índio não parecia afectado. Sentado, a sorrir, oleava a arma. Limpava as fendas do gatilho com ternura e com um prazer sensual, como uma mulher a tratar do seu primeiro filho. Quando Marta lhes deu a sopa, Aquino queixou-se de falta de sal, e o doutor Plarr pensou, por momentos, que ela lhe ia atirar um prato de sopa à cara. Então, deixando-os, dirigiu-se ao quarto interior.

Charley Fortnum disse:

- Se ao menos tivesse qualquer coisa para ler...

- Não há luz bastante.

Uma vela iluminava o aposento.

Decerto que eles me podiam dar mais velas.

- Não querem que se veja luz lá de fora. Os moradores deste bairro adormecem logo que escurece ... ou então fazem amor.

- Graças a Deus que ainda há muito uísque. Beba um copo. Estranha associação, não é? Derrubaram-me com um tiro como se eu fosse um cão e dão-me uísque. Desta vez nem o paguei. Há notícias? Quando ligam o rádio põem-no tão baixo que não oiço nada.

- Não há quaisquer notícias. Como se sente?

- Bastante mal. Acha que vivo para ver o fim desta garrafa?

- Com certeza.

- Então seja optimista e beba também uma boa dose.

Beberam juntos no silêncio que momentaneamente haviam quebrado. O doutor Plarr perguntava a si próprio onde estaria Clara. Na fazenda? No Consulado? Disse:

- Porque casou com Clara, Charley?

- Já lhe disse... Queria ajudá-la.

- Não precisava de casar com ela para isso.

- Se não casasse, ela perderia muito em impostos quando eu morresse. Além do mais, queria um filho. Amo-a, Ted. Quero que ela se sinta segura. Gostava que a conhecesse melhor. Um médico vê só por fora... e por dentro também, parece-me, mas sabe o que quero dizer. Para mim ela é como... como...

Não conseguiu encontrar a palavra e o doutor Plarr esteve tentado a fornecer-lha: é como um espelho, um espelho fabricado pela Mãe Sanchez para reflectir qualquer homem que olhe para ela - para reflectir a desajeitada ternura de Charley e a sua... a sua... A palavra faltava-lhe. Decerto que não era «paixão». Que lhe perguntara Clara antes de sair? A rapariga reflectia até a desconfiança que um homem podia ter dela. Zangara-se como se, de uma obscura maneira, ela o tivesse ofendido. «Um homem podia servirse de Clara para se barbear», pensou ao lembrar-se dos óculos de sol na loja de Gruber.

- Você vai rir-se de mim - continuou Charley Fortnum -, mas Clara faz-me lembrar um pouco Mary Pickford, nos velhos dias do cinema mudo... Não falo dos traços físicos, naturalmente, mas... de uma espécie de... acho que se pode chamar inocência.

- Então espero que a criança seja rapariga. Um rapaz parecido com Mary Pickford não consegue nada neste mundo.

- Não me importo que seja rapaz ou rapariga, mas Clara parece que quer um rapaz - e ajuntou como quem se risse de si próprio: - Talvez gostasse que se parecesse com o pai.

O doutor Plarr sentiu um desejo selvagem de lhe contar toda a verdade. Foi só o corpo ferido que o fez calar, aquele corpo estendido, indefeso, no caixão. Molestar um doente seria pouco profissional.

Charley Fortnum levantou o copo de uísque dizendo:

- Não como eu sou agora, claro. Saúde!

O doutor Plarr ouviu vozes levantarem-se na sala exterior.

- Que se passa lá fora? - perguntou Charley Fortnum.

- Estão a questionar uns com os outros

- Acerca de quê?

- De si, talvez.

 

 

Logo depois das nove da manhã de sexta-feira um helicóptero começou a sobrevoar o bairro, num voo baixo. Ia de um lado para outro, em linhas regulares, como um lápis ao longo de uma régua, e seguia vereda por vereda, mesmo por cima das árvores, a esquadrinhar. O doutor Plarr lembrou-se dos seus próprios dedos a percorrerem o corpo do doente em busca do sítio da dor.

O padre Rivas mandou Pablo reunir-se a Diego e a Marta, que estavam de guarda lá fora. Disse:

- Todo o bairro está a ver. Hão-de notar se nesta cabana pessoas se mostrarem indiferentes.

Disse a Aquino que vigiasse Fortnum no quarto de dentro. Embora não houvesse possibilidade de ele assinalar a sua presença no exterior, o padre Rivas não queria correr riscos. O doutor Plarr e o padre, sentados em silêncio, observavam o telhado como se a máquina pudesse, em qualquer momento, cair em cima deles. Depois de o helicóptero ter passado, ouviram o murmúrio das folhas a tombarem como chuva. Assim que este som cessou, ficaram mudos, à espera de que o helicóptero voltasse.

Pablo e Diego entraram e o primeiro contou:

- Estiveram a tirar fotografias.

- Desta palhota?

De todo o bairro.

Então viram o vosso carro - disse o doutor Plarr. -E hão-de achar estranho um carro aqui.

- Temo-lo bem escondido - replicou o padre Rivas. Esperamos que...

- Fizeram uma cuidadosa pesquisa - disse Pablo.

- Seria melhor matar Fortnum, agora - aconselhou então Diego.

- O nosso ultimato só expira no domingo à meia-noite.

- Já o rejeitaram. O helicóptero é a prova.

O doutor Plarr disse:

- Estende o teu ultimato por uns dias. Deves dar tempo a que a minha publicidade trabalhe. Não estás em perigo imediato. A Polícia não ousa atacar.

- El Tigre marcou o tempo-limite - retorquiu o padre Rivas.

- Deves ter alguma maneira de comunicar com ele.

- Não temos nenhuma.

- Mandaste-lhe notícias de Fortnum.

- Essa linha foi imediatamente cortada.

- Então age por ti. Manda alguém telefonar para El Litoral. Dá-lhes mais uma semana.

- Mais uma semana para a Polícia nos descobrir - objectou Diego.

- Perez não se atreve a investigar muito de perto. Não deseja encontrar um homem morto.

O helicóptero tornou-se outra vez audível. Ouviam-no de longe, pouco mais sonoro do que um homem a murmurar. Da primeira vez andara de leste para oeste. Agora ia por cima das árvores de norte para sul e vice-versa. Pablo e Diego tornaram para o pátio e a sua longa espera recomeçou com o ruído das folhas a cair. Finalmente, voltou a fazer-se outra vez silêncio.

Os dois homens voltaram a entrar e Diego disse:

- Tiram mais fotografias. Devem ter tirado o retrato a cada vereda e a cada palhota do bairro.

- Mais do que a Câmara da cidade fez alguma vez observou o negro. - Talvez depois disto cheguem à conclusão de que precisamos de mais torneiras de água.

O padre Rivas chamou Marta para dentro e segredou-lhe instruções. O doutor Plarr tentou ouvir o que ele dizia, mas não conseguiu, até que as vozes se levantaram.

Marta disse:

- Não. Não. Não te deixo, padre.

- São as minhas ordens.

- Então disseste-me que eu era tua esposa ou tua mulher?

- Claro que és minha esposa.

- Pois é, dizes isso, é fácil dizê-lo, mas tratas-me como se fosse tua mulher. Dizes «vais-te embora» porque já não queres mais nada de mim. Agora sei bem que sou tua mulher. Nenhum padre nos quis casar. Todos se recusaram. Até o teu amigo, o padre António.

- Quantas vezes te expliquei que não é necessário padre num casamento? O padre não passa de uma testemunha. As pessoas casam umas com as outras. O que conta é o nosso juramento. A nossa intenção.

- Sei lá qual era a tua intenção? Talvez só quisesses uma mulher para dormir com ela. Talvez eu não passe de tua amante. Tratas-me como uma galdéria quando dizes que me vá embora e te deixe.

O padre Rivas ergueu a mão como se lhe quisesse bater, e depois afastou-se.

- Se eu não sou o teu pecado, padre, porque não dizes missa por nós? Estamos todos em perigo de vida, padre. Precisamos de uma missa. E essa pobre mulher do bairro que morreu... Até o gringo lá dentro... precisa das tuas orações, também.

O antigo desejo de escarnecer de León assaltou o doutor Plarr:

- Foi uma pena teres deixado a Igreja. Vês... Estão a perder a confiança em ti.

O padre Rivas olhou para ele com os olhos inflamados ,de um cão que defende o osso.

- Nunca te disse que deixei a Igreja. Como podia deixá-la? A Igreja é o mundo. A Igreja é este bairro, este quarto. Só há um meio de deixar a Igreja: morrer.

Fez o gesto de um homem cansado de discussões inúteis.

- Nem mesmo assim, se aquilo que por vezes acreditamos é verdade.

- Ela só te pediu que rezasses. Já não sabes como se reza? Eu cá esqueci-me. Não consigo ir além de «Ave, Maria... »; depois misturo as palavras com uma cantiga de infância: Maria, Maria... absolutamente ao contrário.

O padre Rivas retorquiu:

- Nunca soubeste rezar.

- Que estás a dizer, padre? Ele não sabe o que diz - acudiu Marta, como quem defendesse um filho que usasse uma expressão indecente aprendida na rua.

- Uma oração para os doentes. Uma oração para a chuva. Querem isso? Oh, sei-as todas de cor, mas não são orações. Chamem-lhes petições, se desejam dar nome a essa lengalenga. Porque não as escrevem numa carta, pedem aos vizinhos para a assinar e a metem num marco do correio dirigida ao Senhor Todo-Poderoso? Ninguém entregará a carta. Ninguém a lerá. Oh, naturalmente que, de onde em onde, há uma coincidência. Por exemplo, o médico receita o medicamento adequado e a criança cura-se. Ou vem chuva quando é precisa. Ou o vento muda.

- Apesar de tudo - interveio Aquino da soleira da porta do quarto interior - eu costumava rezar na esquadra. Rezava para ter outra vez uma rapariga comigo na cama. Não me digam que não era uma verdadeira oração. E resultou. No primeiro dia em que saí tive a rapariga. Foi num campo, estavas a comprar comida na aldeia. A minha oração teve resposta, padre. Embora fosse num campo e não na cama.

O doutor Plarr pensava: «Este é, como eu, um toureiro. Aguilhoa o couro do boi para espertar o animal antes de morrer.» As repetições da palavra «padre» eram como farpas a furar a pele de León. Porque queriam destruí-lo? Ou esperavam destruir-se a si próprios? Um desporto cruel.

- Que estás para aí a fazer, Aquino? Não te disse que vigiasses o prisioneiro?

- O helicóptero foi-se embora. Que pode o homem fazer de mal? Está a escrever uma carta à mulher.

- Deste-lhe caneta? Tirei-lhe eu próprio a caneta quando o trouxeram para cá.

- Que mal pode fazer uma carta?

- Eram ordens minhas. Se todos vocês começaram a desobedecer às ordens, nenhum de nós se salva. Diego, Pablo, vão lá para fora outra vez. Se El Tigre aqui estivesse...

- Mas não está, padre - tornou Aquino. - Está não sei onde, livre de perigos, a comer-lhe e a beber-lhe. Não estava na esquadra quando tu me salvaste. Nunca arrisca a vida como nós.

O padre Rivas empurrou-o para o lado e entrou no quarto. O doutor Plarr achava difícil reconhecer nele o rapaz que lhe explicara a Santíssima Trindade. Nas inumeráveis rugas, de velhice prematura que lhe cruzavam o rosto parecia-lhe descobrir um emaranhado de aflições, como um novelo de cobras.

Charley Fortnum, apoiado no cotovelo esquerdo, a perna ligada de fora do caixão, escrevia devagar e com custo. Não levantou os olhos. O padre Rivas perguntou:

- Para quem está a escrever?

- Para a minha mulher.

- Deve ser difícil escrever assim.

- Duas frases levaram-me um quarto de hora. Pedi a Aquino que escrevesse por mim, mas ele recusou-se. Está zangado comigo desde que me deu o tiro. Nem sequer me fala, não sei porquê! Até parece que o ofendi.

- E talvez o ofendesse.

- Como?

- Talvez ele se sinta traído. Não acreditava que o senhor tivesse coragem de o enganar.

- Coragem? Eu? Nem tenho a coragem de um rato, padre. Queria ver outra vez a minha mulher, mais nada.

- Quem lhe vai entregar essa carta?

- Talvez o doutor Plarr. Se o deixarem ir embora depois de me matarem. Plarr pode lê-la alto para Clara. Ela não lê muito bem e a minha letra é pior do que nunca.

- Se quiser, escrevo-lhe a carta.

- Muitíssimo obrigado. Fico-lhe muito grato. É melhor ser o senhor do que outra pessoa. Uma carta como esta é uma espécie de segredo. Como uma confissão. E, no fim de contas, o senhor é padre.

Pegando na carta, o padre Rivas sentou-se no chão junto do caixão.

- Esqueci-me da última frase que estava a escrever.

O padre Rivas leu:

«-Não te aflijas, minha querida, por ficares sozinha com um filho. É melhor para a criança ficar com a mãe do que com o pai. Sei-o muito bem. Fiquei só com meu pai e não teve graça nenhuma. Sempre cavalos, cavalos...

- É tudo. Depois de «cavalos» não escreveu mais nada.

Charley Fortnum disse:

- Na situação em que me encontro não acha que devo perdoar? Mesmo a meu pai? Talvez ele não fosse, tão mau, afinal, como eu pensava. As crianças odeiam com facilidade. Tire essa parte dos cavalos, padre.

O padre Rivas riscou as palavras.

- Em vez disso ponha... o quê? Não estou habituado a escrever cartas pessoais, é o que é. Dê-me uma gota de uísque, padre. Talvez ajude o cérebro a trabalhar... o que me resta do cérebro, claro.

O padre Rivas deitou-lhe uisque no copo.

- Prefiro Long John - observou Charley Fortnum mas esta zurrapa que me trouxe não é má de todo. Se aqui fico muito tempo começo a gostar do uísque argentino, embora engane mais do que o verdadeiro Scotch quanto à medida certa. Não sei se percebe o que quero dizer, padre, mas toda a bebida tem a sua medida certa... excepto a água. A água não é para beber. Enferruja as entranhas ou faz febre tifóide. Não é boa nem para homens nem para animais, a não ser para esses malditos cavalos. Posso pedir-lhe que beba um pouquinho comigo?

- Não. Estou de serviço. Quer continuar a carta?

- Sim, naturalmente. Estava só à espera de que o uísque me espertasse. Cortou a referência aos cavalos, não é verdade? Que hei-de dizer a seguir? Sabe, quero conversar com ela simplesmente, como se estivéssemos os dois sós, sob o alpendre, na fazenda, mas as palavras nunca me acodem com facilidade... no papel, quero dizer. Espero que compreenda. Afinal, também é casado, padre.

- Sim, sou casado - respondeu o padre Rivas.

- Mas no lugar para onde eu vou não há casamento, ou assim no-lo dizem os padres. Parece-me um desperdício, precisamente quando tinha encontrado, já tão tarde, a rapariga de que precisava! No céu devia haver dias de visita, para termos qualquer coisa que esperar de tempos a tempos. Como nas prisões. Se não há nada que esperar, macacos me mordam se isso é céu! Está a ver, até me tomo teólogo com a medida certa do uísque. Onde ia eu? Ah, os cavalos. Tem a certeza de ter riscado essas alimárias?

O doutor entrou; os passos dele não se ouviam no chão de terra e nenhum dos homens deu por ele. Estavam ocupados com a carta. Ficou a observá-los, em silêncio, da porta. Afiguravam-se-lhe velhos amigos.

- Manda a criança para a escola do sítio - ditou Charley Fortnum. - E, se for rapaz, não o envies para a escola inglesa de Buenos Aires que eu frequentei. Nunca fui lá feliz. Faz dele um verdadeiro argentino como tu... não um mestiço como eu. já escreveu, padre?

- Sim. Não lhe quer dizer alguma coisa quanto à mudança de letra? Pode ficar intrigada...

- Duvido que repare em tal. E Plarr pode explicar-lhe. Meu Deus, escrever uma carta é um pouco como pôr o «Orgulho de Fortnum» a funcionar numa manhã de chuva. Aos sacolejos. Começamos a pensar que o motor pegou, e aí se vai ele abaixo outra vez. Bem, padre, escreva: aqui deitado penso em ti a maior parte do tempo, e também no bebé. Em casa tu deitas-te sempre à minha direita e eu posso pousar a mão na tua barriga e sentir o pequeno... mas aqui não há lado direito. A cama é demasiado estreita. Muito confortável, apesar de tudo. Não tenho de que me queixar. Tenho mais sorte do que muitos homens. - Calou-se. - Mais sorte... Antes de te conhecer, minha querida, era um homem acabado, Uma pessoa precisa de qualquer ambição para viver. Mesmo um milionário quer outro milhão. Mas antes de viveres comigo eu não possuía nenhuma ambição, a não ser a medida certa, claro. O meu mate nunca era uma colheita que valesse a pena, Então encontrei-te e contigo achei o que pretendia. Queria fazer-te feliz, dar-te segurança, e de repente veio-nos um filho. Uma coisa só entre nós dois. Não esperava viver muito. Só queria saber que os primeiros anos corriam bem... Os primeiros anos são importantes para uma criança, marcam-lhe, por assim dizer, o destino. No entanto não deves pensar que estou desesperado... Hei-de descobrir uma maneira de fugir, dê por onde der. - Fez uma pausa. - Claro que isto não passa de brincadeira, padre. Como hei-de safar-me? Mas não quero que ela pense que me sinto deprimido. Deus meu, o «Orgulho de Fortnum» começou mesmo a funcionar! Quase conseguimos sair desta cova! Mas não posso mais, agora. Escreva só: minha querida, amo-te.

- Tem a certeza de que não quer dizer mais nada?

- Tenho. Acho que sim. É difícil escrever cartas. Quando a gente vê numa prateleira da biblioteca: «Colectânea de Cartas» de alguém para outrem! Pobre tipo! Dois volumes, talvez... Oh, esqueci-me de uma coisa. Escreva no fim, num P.S.. Sabe, padre, é o primeiro filho que ela dá à luz. Não tem experiência. As pessoas dizem que as mulheres sabem por instinto, mas duvido. Escreva assim: por favor não dês doces à criança. Fazem mal aos dentes. Deram cabo dos meus. E, se tiveres quaisquer dúvidas, pergunta ao doutor Plarr. É um bom médico e um bom amigo. Não tenho mais nada para dizer, padre.

Fechou os olhos.

- Talvez me venha alguma coisa mais tarde. Gostaria de acrescentar uma palavra ou duas, antes de vocês me matarem. As famosas últimas palavras. Agora estou muito cansado.

Não deve perder a esperança, Señor Fortnum.

Esperança? Desde que me casei com Clara o meu medo tem sido morrer. Há só uma maneira feliz de morrer: ao mesmo tempo. Mesmo, porém, que vocês não tivessem interferido, eu já era velho de mais para que tal acontecesse. Nem posso pensar que ela vai ficar só e assustada quando chegar a sua vez de morrer. Gostaria de estar lá a segurar-lhe a mão e a dizer-lhe: «Não te aflijas, Clara. Eu também vou morrer.» Assim não seria muito mau acabar. Estou a chorar, agora. Sou um fraco. Mas não é de pena por mim próprio, padre. É que não queria que ela se visse sozinha à hora da morte.

O padre Rívas esboçou um gesto que bem podia ser o de uma bênção que já esquecera como se dava, e disse sem convicção

- Deus estará junto dela.

- Oh, lá vem você com o seu Deus! Desculpe, padre, mas dão vejo nenhum sinal de Deus à nossa volta... Você vê... ?

O doutor Plarr retirara-se para a sala exterior, absurdamente encolerizado. Parecia-lhe que cada palavra ditada por Fortnum era uma censura contra ele próprio. E, de tão absor-

vido na sua cólera, deu dois passos em direcção à saída, até que sentiu a arma do índio no estômago e se deteve. «O filho,

sempre o filho», pensou. «Um bom amigo... Não dês doces ao menino... Sinto o pequeno...» Ficou ali com a espingarda encostada ao estômago e cuspiu para o chão.

- Que há, Eduardo? - perguntou Aquíno,

- Estou farto deste cárcere. Porque diabo não confiam em mim e não me deixam ir embora?

- Precisamos de um médico para Fortnum. Se te fosses embora, não podias voltar.

- Nada mais posso fazer por Fortnum. E isto é uma maldita prisão.

- Não dirias tal se tivesses experimentado uma verdadeira prisão. Para mim isto é liberdade.

- Cem metros quadrados de chão sujo.

- Eu só tinha nove metros. Hoje o mundo parece-me muito maior.

- Suponho que podes escrever os teus poemas em qualquer buraco. Mas eu não tenho nada, nada, para fazer. Sou médico. Um doente só não me basta.

- Agora nunca escrevo poemas. Fizeram parte da vida da prisão. Escrevia versos porque eram fáceis de decorar. Uma maneira de comunicar, enfim. Agora tenho papel e pena e não sei escrever uma linha. Que importa? Em vez disso, vivo.

- Chamas a isto vida? Nem sequer podes ir daqui até à cidade.

- Nunca me interessou muito andar. Sempre fui preguiçoso.

O padre Rivas entrou.

- Onde estão Pablo e Diego?

- De guarda - respondeu Aquino. - Foste tu que os mandaste.

- Marta, leva um deles contigo à cidade. Talvez seja esta a última oportunidade. Compra as provisões que puderes. O bastante para três dias. De transporte fácil.

- Que te preocupa? - perguntou Aquino. - Dá a impressão que ouviste más notícias.

- Estou preocupado com o helicóptero... e também com o cego. O ultimato termina no domingo à noite e a Polícia pode cá chegar muito antes.

- E depois? - perguntou o doutor Plarr.

- Matamo-lo e fugimos. Precisamos de comida para levar connosco. Devemo-nos afastar das povoações.

- Jogas xadrez, Eduardo? - disse Aquino.

- Jogo. Porquê?

- Tenho um xadrez de bolso.

- Então, por amor de Deus, vamos jogar.

Sentaram-se no chão com o minúsculo tabuleiro entre os dois. Ao dispor as peças o doutor Plarr disse:

- Costumava jogar quase todas as semanas no Bolívar com um velhote chamado Humphries. Estive a jogar com ele nessa noite em que vocês apanharam o cônsul por engano.

- Bom jogador?

- Nessa noite foi melhor do que eu.

Aquino era um jogador incerto e demasiado apressado, e quando o doutor Plarr hesitava sobre uma jogada, começava a resmungar.

- Por favor, cala-te - pediu o doutor Plarr.

- Ah! Apanhei-te!

- Pelo contrário. Xeque.

- Eu remedeio isso.

- Xeque outra vez. E mate.

Ganhou três jogos sucessivos.

És bom de mais para mim - queixou-se Aquino. - Tenho de me virar para o Señor Fortnum.

- Nunca o vi jogar.

- És muito amigo dele?

- De certo modo.

- E da mulher dele?

- Também.

Aquino baixou a voz:

- Esse filho de que ele passa a vida a falar... é teu?

O doutor Plarr disse:

- Estou cheio de o ouvir falar do filho. Queres jogar outra partida?

Enquanto dispunham as peças ouviram o som de um tiro de espingarda. Aquino agarrou na arma, mas não houve repetição. O doutor Plarr, sentado no chão, tinha na mão uma torre preta, e a mão estava húmida de suor. Ninguém falava. Por fim o padre Rivas disse:

- É alguém a atirar aos patos bravos. Já julgamos que tudo nos diz respeito.

- Pois é - advertiu Aquino. - Até o helicóptero podia pertencer à Câmara da cidade, se não fosse a divisa militar.

- Quanto falta para as próximas notícias da rádio?

- Duas horas. Embora haja talvez uma emissão especial. - Não podemos ligar o aparelho todo o tempo. É o único do bairro. Até já o conhecem de mais.

- Então eu e Aquino podemos jogar - disse o doutor Plarr. - Dou-te uma torre.

- Não quero a torre para nada. Vou-te derrotar numa partida frontal. O que me falta é prática.

Por cima do ombro de Aquino o doutor Plarr via o padre Rivas. Parecia um pequeno objecto poeirento, uma múmia ressequida, exumada juntamente com alguns pertences enterrados com ela: um revólver, um volume esfarrapado. Um missal? O doutor 'Plarr interrogava-se. Um livro de orações? E repetiu o seu velho refrão, extremamente fatigado:

- Xeque-mate.

- Jogas bem de mais para mim - disse Aquino.

- Que estás a ler, León? - perguntou o doutor Plarr. - Ainda lês o breviário?

- Há anos que deixei de o ler.

- Que tens então aí?

- Um romance policial. Inglês.

- Bom?

- Não sou juiz dessas coisas. A tradução não é muito boa, e neste género de livros adivinha-se sempre o fim.

- Então onde está o interesse?

- Bem, há uma espécie de conforto em ler uma história cujo fim se conhece. A história de um mundo de sonho onde se faz sempre justiça. Não havia romances policiais na idade da fé: um ponto interessante, se pensarmos bem. Deus era o único detective, quando as pessoas acreditavam nele. Era a lei. Era bom. Como o vosso Sherlock Holmes. Era ele quem perseguia os maus para os castigar e quem descobria tudo. Mas agora pessoas como o general fazem a lei e a ordem. Choques eléctricos nos órgãos genitais. Os dedos de Aquino. Os pobres mal alimentados e sem energia para se revoltarem. Eu prefiro o detective. Prefiro Deus.

- Continuas a acreditar em Deus?

- De certo modo. Às vezes. Não é fácil responder sim ou não. Naturalmente que já não é o mesmo Deus que nos ensinaram na escola ou no seminário.

- O teu Deus pessoal! - disse o doutor Plarr, novamente a arreliá-lo. - Julgava que isso -era uma heresia protestante.

- E porque não? É pior por isso? Menos verdadeiro? Já não se matam hereges... só prisioneiros políticos.

- Charley Fortnum é teu prisioneiro político.

- Sim.

- Então és um pouco como o general, León.

- Não o torturo.

- Tens a certeza disso?

 

Marta voltou sozinha da cidade, a perguntar:

- O Diego está cá?

- Não - respondeu o padre Rivas. Foi ele quem foi contigo, ou Pablo?

- Diego ficou para trás, na cidade. Disse que me apanhava no caminho. Tinha de comprar gasolina. «O carro está quase sem gasolina», disse-me, «e não há reserva.»

Aquino interveio: - É mentira.

- Estava muito assustado com o helicóptero - tornou Marta - e por causa do velhote também.

- Achas que foi denunciar-nos à Polícia? - perguntou o dcutor Plarr.

- Não - disse o padre Rivas. - Nunca acreditaria em tal.

- Então onde pára ele? - inquiriu Aquino.

- Bem pode ter sido preso por suspeita. Ou ter ido com uma mulher. Quem sabe? De qualquer modo nada podemos fazer. Só esperar. Quanto falta para as notícias?

- Vinte e dois minutos.

- Diz a Pablo, que entre. Se já nos localizaram, não vale a pena deixá-lo lá fora para ser apanhado sozinho. É melhor estarmos juntos, no fim.

E pegou outra vez no seu romance policial.

A única coisa que nos pode ajudar é a esperança.

E depois:

- Que mundo maravilhosamente pacífico, este! Tudo tão ordenado. Nada de problemas. Uma resposta para cada pergunta.

- De que estás então a falar? - perguntou depois o doutor Plarr.

- Do mundo deste romance policial. És capaz de me dizer o que significa Bradshaw?

- Bradshaw?

Ao doutor Plarr parecia ser essa a primeira vez que via León tão descansado, desde as longas discussões que costumavam ter quando ambos eram estudantes. Seria que ele, à medida que a situação se agravava, ia perdendo o sentido da responsabilidade, como um jogador de roleta que já nem se dá ao trabalho de observar a bola? León nunca devia ter tentado ser um homem de acção: como padre à cabeceira de uma cama estaria muito mais à vontade, guardando passivamente o fim.

O doutor Plarr disse:

- É um nome de família, inglês. O meu pai tinha um amigo chamado Bradshaw que lhe escrevia de uma cidade chamada Chester.

- Este Bradshaw parece ser um homem que sabe de cor todos os comboios de Inglaterra. Os comboios nunca levam mais de algumas horas para qualquer parte. E chegam sempre à tabela. O detective só precisa de consultar Bradshaw para saber exactamente quando... Que mundo estranho é a terra de teu pai! Aqui, estamos a pouco mais de oitocentos quilómetros de Buenos Aires e o comboio leva um dia e meio de viagem e atrasa-se muitas vezes dois ou três dias. Este detective inglês é um homem muito impaciente. Está a passear na plataforma da estação de Londres à espera do comboio de Edimburgo... quase tão longe como Buenos Aires... e o comboio está meia hora atrasado, segundo esse Bradshaw, e já o detective pensa que aconteceu alguma coisa. Meia hora de atraso! Como quando eu, em criança, chegava tarde da escola e a minha mãe se afligia e o meu pai costumava dizer: «Mas o que pode acontecer ao rapaz entre a nossa casa e a escola?

Aquino interrompeu, ansioso:

- E Diego? O Diego também está atrasado. Esta demora aflige-me.

Pablo entrou na cabana. Aquino deu-lhe logo a notícia:

- O Diego bateu as asas.

- Para onde?

- Para a Polícia, quem sabe?

Marta disse:

- Durante todo o caminho até à cidade falou no helicóptero. E ao chegarmos ao rio... bem, não disse nada, mas tinha um ar... No cais do ferry exclamou: «Esquisito, não há polícia a controlar os passageiros.» Respondi-lhe: «E do outro lado? Consegues ver daqui? E como se pode distinguir um polícia quando não usa uniforme? »

Pablo, perguntou:

- Que lhe parece, padre? Fui eu quem lho apresentou. Sinto-me envergonhado. Disse-lhe que era um homem de confiança para guiar o carro. E corajoso.

O padre Rivas retorquiu:

- Não há ainda razão para nos afligirnos.

- Tenho de me afligir. Era meu conterrâneo. Vocês vieram todos do outro lado da fronteira. Podem confiar uns nos outros. Sinto-me como se fosse irmão do Diego e como se o meu irmão os tivesse traído. Não deviam ter-me pedido ajuda.

- Que poderíamos ter feito sem ti, Pablo? Não havia no Paraguai sítio algum para esconder o embaixador. Atravessar com ele o rio seria demasiado perigoso. Talvez fosse um erro incluir alguns dos teus conterrâneos no nosso grupo, mas El Tigre nunca nos considerou estrangeiros aqui na Argentina. Para ele não há paraguaíos, peruanos, bolivianos, argentinos. Creio que gostaria de nos chamar a todos americanos, se não fosse esse país lá em cima no Norte.

Pablo disse:

- O Diego perguntou-me, uma vez, por que razão só havia paraguaios na vossa lista de prisioneiros a libertar. Respondi-lhe que eram os casos mais urgentes; homens que estavam presos há mais de dez anos; que, da próxima vez, talvez fosse a nossa gente, como em Salta: havia paraguaios a ajudar-nos, então. Sabe, não acredito que ele tivesse ido à Polícia, padre.

- Nem eu, Pablo.

- Não nos resta muito tempo - observou Aquino. - Ou eles capitulam... ou deixamos um cônsul morto no rio.

- Quanto falta para as notícias?

- Dez minutos - disse o doutor Plarr.

O padre Rivas tornou a pegar no seu romance policial, mas ao doutor Plarr, que o observava de perto, parecia-lhe que ele lia com um vagar pouco natural. Tinha pousado os olhos numa passagem e ali ficou muito tempo sem virar a página. Mexia levemente os lábios. Talvez estivesse a rezar... em segredo, porque as orações de um padre à cabeceira de um moribundo são o último recurso e o doente não deve ouvi-las. E o doutor Plarr pensou: «Somos todos seus doentes; estamos todos moribundos.»

O médico não acreditava que as coisas melhorassem. De uma equação mal feita resulta uma cadeia de erros. A sua própria morte podia ser um desses erros, pois as pessoas haviam de dizer que ele seguira os passos do pai, o que era mentira ~ de modo algum fora essa a sua intenção.

Interrogava-se, com uma desagradável sensação de ansiedade e de curiosidade, sobre o filho. O filho também fora o resultado de um erro, um descuido da sua parte, mas, até aí, nunca sentira nenhuma responsabilidade. Considerara a criança como uma parte inútil de Clara, comparável ao apêndice, talvez um apêndice doente que era preciso tirar. Sugerira um aborto, mas a rapariga assustara-se - quem sabe se não se fariam muitos abortos não profissionais na casa da Mãe Sanchez? Agora, à espera das notícias da rádio, dizia consigo próprio: «Pobre criança! Se ao menos eu tivesse deixado algumas disposições legais a seu favor!» Que espécie de mãe iria ser Clara? Voltaria ela para a casa da Señora Sanchez e iria a criança criar-se como um fedelho estragado de bordel? Mesmo assim seria melhor do que viver com a avó em Buenos Aires, atulhado com dulce de leche na Calle Florida entre as vozes internacionais da abastança. Pensou no emaranhado da sua genealogia e, pela primeira vez, na complexidade dessa rede, o filho tornou-se-lhe real - já não era o pedaço de carne húmida, igual a tantos outros, a sair de um ventre com um cordão que se cortava. Aquele cordão jamais seria cortado. Ligava a criança a dois avôs muito diferentes: um cortador de cana em Tucumán e um inglês liberal morto a tiro no pátio de uma esquadra da Polícia no Paraguai. O cordão unia-o a um pai médico de província, a uma mãe de bordel, a um tio que fugira um dia dos campos de cana-de-açúcar para desaparecer na vastidão do continente, a duas avós... Um emaranhado sem fim a cingir a pequenina forma como as faixas com que antigamente se costumava ligar os membros de um recém-nascido. Charley Fortnum chamara-lhe «frio». Que efeito teria na criança um pai frio? Muito melhor se os pais se pudessem trocar.

Gostaria de que o pequeno acreditasse em qualquer coisa, mas não era o género de pai que pudesse transmitir crenças num deus ou em alguma causa. E perguntou a León:

- Acreditas mesmo em Deus Pai Todo-Poderoso?

- Quê? Peço desculpa. Não ouvi. Este detective é muito esperto, por isso deve haver uma boa razão para o comboio de Edimburgo estar atrasado meia hora.

- Perguntei se acreditas em Deus Pai.

- Já me perguntaste isso. Mas não queres realmente saber. O que queres é rir-te de mim, Eduardo. Mesmo assim, hei-de dar-te uma resposta quando já não houver esperança. Então não te apetecerá rir. Desculpa-me, mas a história está a tornar-se muito interessante... O expresso de Edimburgo vai entrar numa estação chamada King's Cross. King's Cross. Será um nome simbólico?

- Não. Apenas o nome de uma estação de Londres.

- Calem-se aí - disse Aquino ligando o rádio.

Escutaram as notícias internacionais emitidas de Buenos Aires. O locutor descrevia a visita do secretário-geral das Nações Unidas à Africa Ocidental; cinquenta hippies tinham sido violentamente expulsos de Maiorca; nova subida de impostos sobre os automóveis importados pela Argentina; um general reformado morrera em Córdoba com oitenta anos; tinham ,explodido algumas bombas em Bogotá; e naturalmente que a equipa argentina de futebol continuava a sua árdua carreira através da Europa.

- Esqueceram-se de nós - disse Aquino.

- Quem dera que assim fosse! - retorquiu o padre Rivas. - Ficarmos aqui... esquecidos... para sempre. Não era um destino muito mau, pois não?

 

 

No sábado ao meio-dia vieram as notícias por que eles tanto ansiavam, mas tiveram de escutar pacientemente até ao fim do boletim. Era da política de todos os governos menosprezar a importância do caso Fortnum. Buenos Aires citava expressões moderadas da opinião britânica. O Times de Londres, por exemplo, afirmava que um romancista argentino (cujo nome não mencionava) se oferecera em troca do cônsul, e a B.B.C. punha a questão, conforme observava o comentador argentino, na justa perspectiva. Um ministro referia-se brevemente ao assunto, quando foi interrogado num debate na televisão sobre a violência política ocasionada pela morte trágica de mais de cento e sessenta passageiros da B.O.A.C. «Não sei mais do que os nossos ouvintes relativamente a esse caso na Argentina. O tempo não me chega para ler muitos romances, mas, antes de sair, esta noite, perguntei ao livreiro de minha mulher quem é o senhor Savindra, e parece que ele sabia tanto como eu.» E acrescentava o ministro: «Por muita pena que tenha do senhor Fortnum, quero frisar que não podemos considerar esse rapto como um ataque ao serviço diplomático britânico. O senhor Fortnum nunca foi membro do serviço diplomático. Nasceu na Argentina e, tanto quanto sabemos, nunca visitou este país. Quando o malfadado caso ocorreu estávamos a pensar em pôr fim ao seu contrato de cônsul honorário, visto ele ter passado a idade normal da reforma, e não houve realmente ocasião de o substituir por o número de residentes britânicos nessa província haver descido muito nos últimos dez anos. Espero que compreendam que este Governo está a fazer todos os esforços para economizar no Serviço dos Negócios Estrangeiros.»

Interrogado se a atitude do Governo seria a mesma, caso a vítima tivesse sido membro do serviço diplomático, o ministro disse: «Naturalmente que seria a mesma. Não pretendemos ceder a essa espécie de chantagem em nenhum lado, sob quaisquer circunstâncias. Neste caso temos esperança de que o senhor Fortnum seja libertado quando esses homens desesesperados compreenderem a completa futilidade do acto que praticaram. Cabe ao presidente da Argentina decidir tratar ou não os criminosos com clemência. Agora, se o senhor presidente me permite, gostaria de voltar ao assunto desta noite. Asseguro-lhes que não havia polícia de defesa no avião e, portanto, não se tratou de uma luta armada... »

Pablo desligou o rádio.

- Que significa tudo isto? - perguntou o padre Rivas.

- Deixam o caso Fortnum nas vossas mãos - respondeu o doutor Plarr.

- Se rejeitam o ultimato - interveio Aquino -, quanto mais depressa o matarmos, melhor.

- O nosso ultimato não foi feito ao Governo britânico.

- Naturalmente - apressou-se o doutor Plarr - que eles têm de dizer todas essas coisas em público. Não sabemos que pressões estarão a exercer em Buenos Aires e em Asunción particularmente.

Mas até a ele próprio as palavras que pronunciava soavam vazias de confiança.

 

Passaram a tarde a beber mate, todos excepto o doutor Plarr, que não herdara do pai o gosto pelo chá. O médico jogou outra partida de xadrez com Aquino e, fingindo um engano que o fez perder a rainha, concedeu a vitória ao companheiro. Havia, contudo, uma sombria descrença no modo como Aquino pronunciou:

- Xeque-mate.

O doutor Plarr visitou o doente duas vezes e de ambas o encontrou a dormir. Olhou com ressentimento a expressão, pacífica do rosto do homem condenado. Até sorria um pouco - quem sabe se não estaria a sonhar com Clara, ou com o filho? ou talvez só com a «medida certa».

O doutor Plarr cismava no que seriam os anos futuros - se acaso houvesse algum futuro. Não se afligia com Clara: essa relação - se assim se podia chamar - tinha de acabar mais tarde ou mais cedo. Era a imagem da criança, entregue aos cuidados de Charley Fortnum, o que o preocupava. Sem saber porquê, idealizava o filho um rapaz, um rapaz parecido com duas fotografias dele, uma aos quatro anos e outra aos oito. A mãe ainda as tinha no seu atravancado apartamento, as molduras de prata manchadas por falta de limpeza, entre as catatuas chinesas e os trastes velhos das lojas de antiguidades.

Charley - tinha a certeza - educaria a criança nos princípios do catolicismo, faria disso ponto de honra precisamente por ele próprio ter um dia quebrado as leis da Igreja. E imaginava Charley a escutar com prazer o pequeno a balbuciar, na caminha, o pai-nosso. Ia depois ter com Clara, ao pé do criado-mudo, sob o alpendre. Seria um pai bondoso. Nunca obrigaria o filho a montar a cavalo. Era até possível que deixasse de beber ou pelo menos reduzisse a bebida. Havia de chamar ao pequeno «amigo», fazer-lhe festinhas nas faces e virar-lhe as páginas do London Panorama, antes de o agasalhar nas cobertas da cama.

O doutor Plarr viu-se de repente sentado na sua cama de menino a escutar o correr distante dos ferrolhos das portas, vozes sumidas no andar de baixo, passos furtivos. Uma noite fora, à procura de um refúgio, ao quarto do pai. E estava agora a olhar para o rosto barbado estendido no caixão - quatro dias de barba por fazer haviam dado origem a uma verdadeira barba.

E tornou abruptamente para a companhia dos assassinos de Charley Fortnum.

O serviço de guarda fora restabelecido. Aquino estava lá fora, enquanto Pablo ocupava o lugar do índio, à porta. o índio dormia calmamente, deitado no chão, e Marta fazia barulho com os pratos no pátio das traseiras. O padre Rivas sentado com as costas para a parede, brincava com uns feijões secos que passava de uma mão para outra, quais contas de um rosário partido.

- Acabaste o teu livro? - perguntou o doutor Plarr.

- Acabei, pois. O fim era exactamente o que eu supunha. Pode-se sempre adivinhar. O assassino suicidou-se no expresso de Edimburgo. Daí o comboio estar meia hora atrasado e o tal Bradshaw se ter enganado. Como vai o cônsul?

- Dorme.

- E o ferimento?

- Vai bem. Mas achas que ele dura até se ver curado?

- Julgava que tinhas confiança nessas secretas pressões...

- Também eu julgava que crias em alguma coisa, León. Coisas como misericórdia e caridade. Um padre é sempre um padre; é esta a teoria, não é? Não me comeces a falar do padre Torres ou dos bispos que iam para a guerra na Idade Média. Isto não é Idade Média, nem guerra. É o assassínio de um homem que não te fez mal nenhum, um homem que podia ser meu pai... ou teu. Onde está o teu pai, León?

- Debaixo de um monumento de mármore em Asunción quase tão grande como esta palhota.

- Parece que todos vivemos com pais mortos, não é? Fortnum odiava o dele. Eu creio que talvez amasse o meu. Talvez. Como posso saber? A palavra «amar» tem um som tão escorregadio... Valorizamos o amor como quem passasse um exame com notas acima da média. Como era o teu pai? Não me lembro de alguma vez o ver.

- Era o que se podia calcular: um dos maiores ricaços da burguesia do Paraguai. Deves lembrar-te da nossa casa em Asunción, com o seu grande pórtico e as colunas brancas, quartos de banho de mármore, laranjeiras e limoeiros no jardim. E os lapacbos a cobrir as veredas com as suas pétalas rosadas. Provavelmente nunca entraste lá dentro, mas de certeza que foste uma vez a uma festa de anos no jardim. Amigos meus não tinham licença de entrar lá dentro: havia tantas coisas que se podiam quebrar ou sujar! Tínhamos seis criados. Gostava mais deles do que de meus pais. E um jardineiro chamado Pedro... Andava constantemente a varrer as pétalas... Eram muito pouco asseados, dizia a minha mãe. Eu gostava muito de Pedro, mas meu pai pô-lo na rua por ele roubar uns pesos deixados num banco do jardim. O meu pai contribuía generosamente todos os anos para o Partido Colorado, por isso não sofreu nada quando o general subiu ao poder, depois da guerra civil. Era um advogado de nome, mas não queria clientes pobres. Serviu fielmente os ricos até morrer, e toda a gente disse que era um bom pai porque deixou dinheiro. Bem, nisso acho que foi mesmo. Um dos deveres dos pais é tomar precauções em relação aos filhos.

- E Deus Pai, León? Não parece tomar muitas precauções. Perguntei-te, a noite passada, se ainda acreditavas nele. A mim sempre me pareceu um malandro. Antes acreditar em Apolo. Pelo menos era belo.

-O problema é que perdemos o poder de acreditar em Apolo - retorquiu o padre Rivas. - Trazemos Jeová no sangue. Está acima das nossas forças. Após tantos séculos, Jeová ainda vive na escuridão do nosso ser como um verme nos intestinos.

- Nunca devias ter pensado em seguir a carreira de padre, León.

- Talvez tenhas razão, mas agora é tarde de mais para mudar. Que horas são? Como estou cansado desse rádio... Mas precisamos de ouvir as notícias... Ainda é possível que eles cedam.

- O meu relógio parou. Esqueci-me de lhe dar corda.

- Então é melhor termos o rádio sempre ligado, por perigoso que seja.

Pôs o rádio muito baixo, mas, mesmo assim, sentiram-se acompanhados. Alguém tocava harpa quase inaudivelmente, como música de fundo duma canção sussurrada. Bem podiam estar sentados num grande salão onde não pudessem ouvir nem ver os músicos.

Não havia nada a fazer senão conversar, conversar sobre qualquer assunto excepto domingo à meia-noite.

- Já reparei - disse o doutor Plarr - que, quando um homem deixa uma mulher, começa a odiá-la. Ou será que ele só odeia o seu próprio falhanço? Talvez a gente apenas deseje destruir a única testemunha que sabe exactamente como nós somos quando terminamos a comédia. Creio que hei-de odiar Clara assim que a deixar.

- Clara?

- A mulher de Fortnum.

- É verdade o que dizem?

- Não vale a pena mentir, León, na situação em que nos encontramos, agora. Morrer é uma droga de verdade muito mais eficaz do que qualquer tranquilizante. Vocês, padres, sempre souberam isso. Quando o padre chega, costumo sair para o moribundo falar à vontade. A maioria deseja fazê-lo, se ainda tem forças.

- Estás a planear abandonar essa mulher?

- Não estou a planear coisa nenhuma. Mas tem de acontecer, se eu viver. Tenho a certeza. Neste mundo nada dura sempre, León. Quando entraste na Igreja, não tinhas a certeza, lá no fundo do coração, de que um dia até o teu sacerdócio terminaria?

- Não. Nunca acreditei em tal. Nem por um instante. julgava que a Igreja e eu queríamos a mesma coisa. Sabes, fui muito feliz no seminário. Pode dizer-se que foi o período da minha lua-de-mel. Mas havia ocasiões... Suponho que isso acontece, de certo modo, em todas as luas-de-mel ... Vinha-me um palpite de que alguma coisa podia estar errada ... Lembro-me de um velho padre... era professor de Teologia Moral. Nunca na minha vida vi um homem tão seco e tão seguro do verdade. Naturalmente que a Teologia Moral é a ovelha ranhosa de cada seminário. Aprendemos as leis e verificamos que não se aplicam a nenhum caso humano... Pois bem, eu costunmava pensar: uma pequena diferença de opinião, que importa? Afinal um homem e uma mulher crescem juntos. A Igreja crescerá mais junto de mim conforme eu cresço mais junto dela.

- Mas assim que deixaste a Igreja começaste a odiá-la, não é verdade?

- Já te disse que nunca deixei a Igreja. Trata-se apenas de uma separação, Eduardo, uma separação por consentimento mútuo, não um divórcio. Nunca pertencerei inteiramente a ninguém mais. Nem mesmo a Marta.

- Até uma simples separação traz ódio - tornou o doutor Plarr. - já vi isso acontecer muitas vezes entre os meus doentes neste maldito país onde o divórcio é proibido.

- No meu caso, nunca tal acontecerá. Se não posso amar, não vejo razão para odiar. Jamais me esquecerei dessa longa lua-de-mel no seminário em que fui tão feliz. Agora, se sobrevive em mim algum sentimento para com a Igreja, é de pena, não de ódio. Creio que ela podia ter-se servido facilmente de mim para uma boa causa, se compreendesse um pouco mais da vida. Refiro-me ao mundo tal como ele é.

O rádio murmurou, e eles puseram-se alerta para o sinal horário. Na sala de terra batida, que bem podia ter sido um túmulo primitivo preparado para toda uma família, o doutor Plarr já não sentia o mínimo desejo de atormentar León Rivas. Se havia alguém a quem desejasse atormentar era ele próprio. Pensava: «Embora finjamos um diante do outro, ambos perdemos a esperança. É por isso que conseguimos conversar como antigamente. Atingi a velhice prematura porque já não sou capaz de escarnecer de um homem pelas suas crenças, por absurdas que sejam. Só o invejo.»

Um momento depois a curiosidade levou-o a falar. Recordava-se de como, na sua primeira comunhão, em Asunción, vestido de frade com uma corda em volta da cintura, tinha acreditado... em alguma coisa, embora já não se lembrasse em quê.

E disse a León:

- Há quanto tempo não oiço um padre! Julgava que vocês ensinavam que a Igreja era infalível como Cristo.

- Cristo foi um homem, ainda que alguns de nós acreditemos que também foi Deus. Mas os Romanos não mataram um deus, mataram um homem. Um carpinteiro de Nazaré. Algumas das leis que ele ditou eram apenas leis de um homem bom. Um homem que viveu na sua própria província, no seu próprio tempo. Ele não fazia ideia da espécie de mundo em que estaríamos a viver agora. Dar a César... mas quando o nosso César usa bombas... A Igreja vive também no tempo. Só que algumas vezes, por um instante, para algumas pessoas ... Eu não sou dessas pessoas... Não sou um homem de visões ... Penso que talvez... Mas como te posso explicar quando acredito tão pouco? Penso, por vezes, que a memória desse homem, desse carpinteiro, é capaz de elevar algumas dessas pessoas acima da Igreja temporal, destes anos terríveis em que o arcebispo se senta à mesa com o general, dentro da grande Igreja, para além do nosso tempo e lugar. E então... esses felizes... não têm palavras para descrever a beleza dessa Igreja.

- Não compreendo uma palavra do que dizes, León. Costumavas explicar as coisas com mais clareza. Até a Santíssima Trindade.

- Desculpa-me. Há muito que não leio livros desse género.

- Nem tens audiência desse género. Não sinto mais interesse pela Igreja do que sinto pelo marxismo. A Bíblia é para mim tão ilegível como O Capital. Só que, algumas vezes, como um mau hábito, me surpreendo a usar essa tosca palavra «Deus». A noite passada...

- Uma palavra que se usa por hábito não significa nada.

- Mesmo assim, quando atirares à cabeça de Fortnum, tens a certeza de que não sentirás por momentos medo do velho Jeová e da sua ira? «Não matar».

- Se eu tiver de o matar, será tanto culpa de Deus como minha.

- Culpa de Deus?

- Fez de mim o que sou hoje. Ele carregará a arma e tornará a minha mão firme.

- Julgava que a Igreja ensinava que Ele é amor.

- Foi amor o que mandou seis milhões de judeus para as câmaras de gás? Tu és médico, deves ter visto muitas vezes dores intoleráveis... uma criança morrer de meningite... É isso amor? Não foi amor quem cortou os dedos de Aquino.

As esquadras onde casos desses acontecem... foi Ele quem as criou .

- É a primeira vez que oiço um padre censurar Deus por coisas assim .

- Não O censuro. Lamento-O.

O sinal da rádio soou vagamente no escuro.

- Lamentar Deus?

o padre pôs a mão no botão. Por um instante hesitou em rodá-lo. O doutor Plarr pensava: «Sim, há sempre alguma coisa a dizer para nos conservarmos ignorantes do pior. Eu nunca disse a um doente de cancro que já não há quaisquer esperanças.»

Uma voz falou tão indiferente como se estivesse a ler uma lista de preços da Bolsa: «Um comunicado do Quartel-General da Polícia diz: às dezassete horas de ontem um homem que se recusou a dar o seu nome foi preso ao tentar tomar o ferry para a costa do Chaco. Tentou escapar mergulhando no rio, mas foi morto a tiro pelos oficiais da Polícia. Recuperou-se o corpo. Trata-se de um motorista de camião empregado na fábrica de conserva de laranjas Berginan. Ausentara-se do trabalho desde segunda-feira, precisamente na véspera do rapto do cônsul honorário. Chamava-se Diego Corredo e tinha trinta e cinco anos. Solteiro. A sua identificação significa um passo importante na pista dos outros membros do grupo. Julga-se que os raptores não saíram da província e vai-se proceder a uma busca intensiva. O comandante de Infantaria 9 pôs uma companhia de pára-quedistas à disposição da Polícia. »

O doutor Plarr comentou:

- Foi uma sorte para vocês ele não ser interrogado. Duvido que Perez tivesse muitos escrúpulos, nesta fase.

E Pablo respondeu:

- Depressa descobrirão quem são os companheiros. Eu estive empregado na mesma fábrica até há coisa de um ano. Toda a gente sabia que eramos bons amigos.

O homem da rádio falava outra vez da equipa argentina de futebol . Houvera um tumulto com vinte feridos quando do jogo em Barcelona.

O padre Rivas acordou Miguel e mandou-o para fora a fim de substituir Aquino, e, quando Aquino entrou, as velhas queixas repetiram-se. Marta cozinhara o guisado insípido que servia há dois dias. O doutor Plarr perguntava a si próprio se o padre Rivas teria aguentado a mesma refeição todos os dias da sua vida de casado, mas talvez não fosse pior do que a comida que lhe davam no bairro dos pobres de Asuncíón.

Brandindo a colher, Aquino exigiu a morte imediata de Charley Fortnum:

- Mataram Diego!

Para se libertar um momento deles, o doutor Plarr levou o prato do guisado para o outro quarto. Charley olhou para a comida com repugnância.

- Apetecia-me uma boa costela grelhada, mas acho que eles receiam que eu me sirva da faca para escapar.

- Estamos todos a comer a mesma coisa - explicou o doutor Plarr. - Quem me dera que Humphries estivesse aqui. Talvez lhe desse ainda mais apetite para o goulash do Clube Italiano.

«- Seja qual for o crime, serve-se sempre a todos a mesma comida.

- Uma citação?

- Um dos poemas desse tipo, Aquino. Há notícias?

- O homem chamado Diego tentou fugir para Chaco e a polícia matou-o.

- Dez negrinhos e depois ficaram nove... Serei eu quem vai a seguir?

- Não me parece. Você é a última cartada que eles têm para jogar. Mesmo se a polícia descobrir este esconderijo há-de ter medo de atacar enquanto você estiver vivo.

- Duvido que se importem muito comigo.

- O coronel Perez importa-ses com a sua carreira.

- Você está tão assustado como eu, Ted?

- Não sei. Talvez tenha um pouco mais de esperança. Ou talvez menos a perder.

- Sim, isso é verdade. Uma sorte. Não tem Clara nem a criança para se preocupar.

- Pois não.

- Você sabe dessas coisas, Ted. Doerá muito?

- Dizem que, se o ferimento for grave, as pessoas pouco sentem.

- E a minha ferida há-de ser a mais grave de todas.

- Sim.

- Clara há-de sentir a dor por mais tempo do que eu.

 

Continuavam a discutir, na sala de fora, quando o doutor Plarr voltou. Aquino dizia:

- Mas que sabe ele da situação? Está livre de perigo em Córdoba ou...

Conteve-se e levantou os olhos para o doutor Plarr.

- Não te aflijas - disse o doutor Plarr. - Eu não te devo sobreviver. A não ser que vocês desistam deste plano louco. Ainda têm tempo de fugir.

- E admitir o fracasso perante o mundo inteiro - retorquiu Aquino.

- Tu eras poeta. Receavas admitir o malogro de um poema?

- Os meus poemas nunca foram publicados. Ninguém sabia quando eu fracassava. Os meus poemas nunca foram lidos na rádio. Nunca ninguém fez perguntas sobre eles no Parlamento britânico.

- É o teu maldito machismo, não é? Quem inventou o machismo? Um bando de rufias como Pizarro e Cortês. Vocês não serão capazes de escapar por um instante à vossa maldita história? Nunca aprenderam nada de Cervantes, pois não? Ele saciou-se de machismo em Lepanto.

O padre Rivas disse:

- Aquino tem razão. Não podemos falhar. Certa vez a nossa gente libertou um homem, em vez de o matar. Era um cônsul paraguaio cuja vida não valia mais para o general do que a de Fortnum, e quando chegou a ocasião não estávamos preparados para matar. Se formos outra vez assim fracos, nenhuma ameaça de morte jamais terá valor neste continente. Até que homens mais cruéis do que nós comecem a matar muito mais. Não quero ser responsável pelas mortes que se seguirem ao nosso fracasso.

- Tens uma consciência complicada. Também lamentarás Deus por esses homicídios?

- Não fazes ideia do que eu quero dizer.

- Não. Os jesuítas em Asunción nunca me ensinaram a lamentar Deus. Pelo menos que me lembre.

- Talvez tivesses mais fé se recordasses o passado.

- Levo uma vida cheia, León, a tentar curar os doentes. Não posso deixar a Deus esse encargo.

- Bem, talvez tenhas razão. O tempo a mim sempre me sobrou. Duas missas ao domingo. Alguns dias de festa. Confissões duas vezes por semana. Vinham principalmente velhas... e crianças, claro. As crianças eram obrigadas a vir. Batiam-lhes, se não apareciam, e eu, por fim, dava-lhes rebuçados. Não como recompensa. As crianças mal comportadas recebiam tanto como as boas. Só queria vê-las contentes enquanto se ajoelhavam no abafado confessionário. E ao dar-lhes a penitência tentava fazer disso um jogo que jogávamos juntos, um prémio, não um castigo. Chupavam os rebuçados enquanto rezavam a ave-maria. Eu sentia-me também feliz na companhia delas. Nunca me sentia feliz com os pais ou com as mães. Não sei mesmo porquê. Talvez se eu próprio tivesse um filho, sim...

- Uma longa viagem a que tu fizeste, León, desde que saíste de Asuncíón.

- Não era uma vida tão inocente como pensas. Uma vez um rapazinho de oito anos contou-me que tinha afogado a irmã pequenina no Paraná. As pessoas julgavam que ela escorregara nos penedos. Ora o rapazinho explicou-me que a menina comia muito e que ficava pouca comida para ele. Pouca mandioca!

- Deste-lhe um rebuçado?

- Dei. E três ave-marías como penitência.

Pablo, foi fazer a guarda lá fora, no lugar de Miguel serviu o guisado ao índio e, ao lavar os outros pratos, observou:

- Padre, amanhã é domingo. Diz missa por nós!

- Há mais de três anos que não digo missa. Desconfio que já nem sei as palavras.

- Tenho um missal, padre.

- Lê o missal para ti, Marta. É a mesma coisa.

- Ouviste o que eles disseram na rádio. Os soldados andam à nossa procura. Talvez fosse a nossa última missa. E Diego... Devias rezar uma missa por ele.

- Não tenho o direito de dizer missa. Quando casei contigo, Marta, excomunguei-me a mim próprio.

- Ninguém sabe que casaste comigo.

- Sei eu.

- O padre Pedro dormia com mulheres. Toda a gente de Asunción sabia isso. E dizia missa todos os domingos.

- O padre Pedro não se casou, Marta. Podia confessar-se, pecar outra vez, confessar-se outra vez. Não sou responsável pela sua consciência.

- Parece que sofres de muito estranhos escrúpulos, León - disse o doutor Plarr -, para um homem que faz planos de matar...

- Talvez não sejam escrúpulos... mas apenas superstições. Sabes que, se eu tomasse a hóstia, continuaria um pouco a crer que tomava o Seu corpo. Enfim, esta teima é inútil. Não há vinho.

- Há, padre - disse Marta. - Encontrei um frasco de remédio vazio numa lixeira e, quando fui à cidade, enchi-o numa taberna.

- Pensas em tudo - murmurou o padre Rivas, com tristeza.

- Padre, bem sabes como tenho querido todos estes anos ouvir-te dizer missa outra vez e ver as pessoas rezarem contigo, É claro que não será a mesma coisa sem as bonitas vestes. Se ao menos as tivesses guardado...

- Não me pertenciam, Marta. De qualquer modo as vestes sacerdotais não são a missa. Julgas que os apóstolos usavam vestes sacerdotais? Como as detestava quando as pessoas que estavam diante de mim vestiam farrapos. Ficava contente por lhes virar as costas e as esquecer, contemplando só o altar e as velas... Mas o dinheiro gasto em velas daria para alimentar metade daquela gente.

- Estás enganado, padre. Todos gostávamos tanto de te ver assim vestido. Roupas tão bonitas, vermelhas e bordadas a oiro!

- Talvez vos ajudassem a evadir-vos de tudo o mais, por um instante, mas para mim eram as roupas de um simples condenado.

- Padre, não faças caso das leis do arcebispo e diz-nos amanhã uma missa.

- Mas essas leis são verdade e, portanto, estou a condenar-me.

- O bom Deus nunca condenará um homem bom como tu, padre. Mas o pobre do Diego, a mulher de José... todos nós... precisamos que nos fales de Deus.

- Muito bem, vou dizer missa, por ti, Marta. Tenho feito muito pouco por ti nestes anos. Tu tens-me dado amor e eu em troca apenas um imenso perigo e um chão sujo para te deitares. Direi missa logo que seja dia, se os soldados nos derem tempo. Há algum pão?

-- Há, padre.

A sensação de uma obscura injustiça tocou o doutor Plarr, que disse:

- León, tu não acreditas em toda essa comédia, pois não? Estás a divertir-te com eles como te divertiste com a criança que matou a irmã. Queres dar-lhes rebuçados à comunhão para os confortar, antes de matar Charley Fortnum. Tenho visto com os meus próprios olhos coisas tão más como tu escutaste no confessionário, mas não me acalmo com rebuçados. Vi uma criança nascer sem mãos e sem pés. Se me tivessem deixado só com ela, matava-a, mas os pais espiavam-me... queriam que aquele torso decepado vivesse. Os jesuítas diziam-nos que era nosso dever amar a Deus. Um dever amar um Deus que produz monstros? Igual ao dever que os Alemães tinham de amar Hitler. Não será melhor não acreditar nesse horror sentado lá em cima, nas nuvens do céu, do que fingir amá-lo?

- Seria melhor não respirar, mas, apesar de tudo, não posso deixar de respirar. Há homens condenados a acreditar como se fossem condenados à prisão. Não lhes resta outra coisa. Não podem escapar. Puseram-nos por trás das grades para toda a vida.

«- Eu só vejo o meu pai por entre as grades - recitou Aquino com uma espécie de mal-humorada satisfação.

- Assim, sento-me no chão da minha cela de prisão e tento perceber certas coisas - continuou o padre Rivas. - Não sou teólogo, fui o último aluno da classe, mas desde sempre me tenho esforçado por compreender isso que tu chamas horror e a razão por que não consigo deixar de o amar. Como os pais que amavam o pobre tronco decepado. Oh, ele é bastante feio, concordo, mas também eu sou feio e no entanto Marta ama-me. Na minha primeira prisão (refiro-me ao seminário) havia montes de livros onde se podia ler tudo acerca do amor de Deus, mas nunca me ajudaram. Nenhum dos padres alguma vez foi útil para mim. Porque nunca tocavam no horror: tens toda a razão em lhe chamar assim. Não viam o problema. Sentavam-se confortavelmente na presença do horror, como o velho arcebispo à mesa do general, e falavam sobre a responsabilidade dos homens e sobre o livre arbítrio. O livre arbítrio era a desculpa para tudo. O alibi de Deus. Nunca tinham lido Freud. O mal era feito pelo homem ou por Satanás. Era mais simples dessa maneira. Eu, porém, jamais consegui acreditar em Satanás. É muito mais fácil acreditar que Deus era o mal.

Marta exclamou:

- Padre, não sabes o que estás a dizer!

- Não falo como padre, agora, Marta. Um homem tem o direito de pensar em voz alta diante da sua esposa. Mesmo um louco. E talvez eu seja meio louco. Talvez esses anos no bairro de Asunción me tivessem virado o miolo, daí eu estar agora

espera que chegue a hora de matar um inocente...

- Não és nada louco, León - retorquiu Aquino -, pelo contrário, agora é que tens o juízo todo. Ainda faremos de ti um bom marxista. Claro que Deus é o mal porque Deus é o capitalismo. Amontoa tesouros no céu que nos darão um lucro de cem por cento na eternidade.

- Creio no mal de Deus - prosseguiu o padre Rivas mas também creio na Sua bondade. Fez-nos à Sua imagem, segundo a antiga lenda. Bem sabes, Eduardo, quantas verdades da medicina encerram antigas lendas. Não foi num laboratório moderino que pela primeira vez se descobriu o uso do veneno de cobra. E as velhas costumavam servir-se do bolor de laranjas meio apodrecidas muito tempo antes da descoberta da penicilina. Assim, também eu acredito numa antiga lenda já quase esquecida. Ele fez-nos à Sua imagem... por isso o nosso mal é o Seu mal. Como podia amar a Deus, se Ele não fosse igual a mim, dividido como eu, sujeito a tentações como eu? Se amo um cão é porque encontro nele algo de humano. Pressinto-lhe o medo, a gratidão e até a traição. O cão sonha quando dorme, como eu. Duvido se alguma vez seria capaz de amar um sapo, embora, por vezes, ao tocar-lhe na pele, me lembre a de um velho que passou toda a sua dura vida nos campos, e então me interrogue...

- Acho a minha descrença muito mais fácil de entender do que a tua crença. Se o teu Deus é o mal...

- Eu ando há mais de dois anos escondido - disse o padre Rivas - e, como sabes, temos de viajar com pouca bagagem. Nas nossas malas não há lugar para livros de teologia. Só Marta tem um missal. E perdi o meu. Consigo às vezes um romance brochado... como aquele que andava a ler. Um romance policial. Esta espécie de vida dá muito tempo para pensar e talvez Marta tenha razão e as minhas ideias se estejam a tornar selvagens. Mas não posso achar outra maneira de crer em Deus. O Deus em que acredito tem de ser responsável por todo o mal, assim como por todos os santos. Tem de ser um Deus feito à nossa imagem, metade claro metade escuro. Quando falas no horror, Eduardo, estás a falar na metade negra de Deus. Creio que há-de vir o tempo em que a metade negra desapareça, tal como o teu estado comunista, Aquino, e nós possamos ver só a claridade do bom Deus. Tu acreditas em evolução, Eduardo, embora frequentemente gerações inteiras de homens voltem ao estado de animais. É uma longa luta e uni longo sofrimento, a evolução, e creio que Deus está a sofrer a mesma evolução que nós, mas talvez com mais dor.

- Não tenho a certeza de que haja evolução - disse o doutor Plarr. - Pois não produzimos Hitler e Estaline numa só geração? E supõe tu que a metade negra de Deus absorve a clara? Supõe que é o lado bom que se extingue? Se acreditasse no que tu acreditas havia por vezes de pensar que tal já aconteceu:

- Mas eu creio em Cristo - replicou o padre Rivas.

Creio na Cruz e na Redenção. Redenção de Deus e do Homem. Creio que o lado bom de Deus, num feliz momento de criação, produziu a bondade perfeita, como um homem é capaz de pintar um quadro perfeito. A boa intenção de Deus cumpriu-se de uma vez para sempre, por isso a metade negra nunca vai além de uma pequena vitória aqui ou ali. Com a nossa ajuda. Porque a evolução de Deus depende da nossa evolução. Todas as nossas acções más fortalecem o Seu lado negro, com todas as nossas acções boas favorecem o Seu lado claro. Nós pertencemos-Lhe e Ele pertence-nos. Pelo menos podemos estar certos do modo como a evolução há-de acabar um dia: há-de acabar na bondade como a de Cristo. Uma operação terrível, mesmo assim, e o Deus em que acredito sofre enquanto luta consigo próprio - contra o Seu lado mau.

- A morte de Charley Fortnum contribuirá para essa evolução?

- Não. Rezo a toda a hora para não ter de o matar.

- E todavia vais matá-lo, caso eles não cedam.

- Vou. Tal como tu te deitas com a mulher de outro homem. Há dez homens a morrer aos poucos numa prisão e digo a mim mesmo que vou lutar por eles e que os amo. No entanto o meu amor é uma pobre desculpa, bem sei. Um santo teria somente orado. Eu trago comigo um revólver, e atraso a evolução.

- Então porque...

- São Paulo respondeu a essa pergunta: «O que faço não e o que desejava fazer, mas algo que detesto.» São Paulo sabia tudo acerca da metade negra de Deus. Tinha sido um dos que atiraram pedras a Estêvão.

- E continuas a chamar-te católico, com essa crença?

- Sim, católico, digam os bispos o que disserem. Ou até o Papa.

Marta interveio:

- Padre, tu assustas-me. Nada disso está no catecismo, pois não?

- Não, não está, mas o catecismo não é a fé, Marta, uma espécie de tabela com dois tempos. Nada do que eu disse o teu catecismo nega. Quando eras pequena aprendeste a história de Abraão e de Isaac, e de como Jacob enganou o irmão, e Sodoma foi destruída como aquela aldeia nos Andes, o ano passado. Deus, quando é o mal, exige coisas más; é capaz de criar monstros como Hitler; destrói crianças e cidades. Mas um dia, com a nossa ajuda, poderá arrancar para sempre a Sua máscara do mal. Quantas vezes os santos têm usado máscaras do mal por algum tempo; até Paulo. Deus junta-se a nós uma espécie de tabela com dois tempos. Nada do que eu disse nas nossas veias, como o nosso sangue corrupto corre nas dele. Oh, talvez eu esteja doente ou louco, mas é esta a única maneira de poder acreditar na bondade de Deus.

- É muito melhor não acreditar de todo em Deus.

- Tens a certeza?

- Bem, talvez os jesuítas deixassem em mim o germe da doença, mas eu isolei-o. Mantenho-o sob o meu domínio.

- Nunca na vida falei assim em voz alta... Nem sei porque o faço agora.

- Talvez por pensares que já não há esperança.

- Ted - a voz que o doutor Plarr começava a odiar chamou do quarto interior. - Ted!

- O teu doente - lembrou-lhe o padre Rivas.

Plarr não se mexeu.

- Já fiz tudo por ele. Para que serve consertar-lhe o tornozelo se lhe vais meter uma bala na cabeça?

- Ted - tornou a voz.

- Provavelmente quer perguntar-me que vitaminas Clara deve dar ao bebé. Ou quando há-de ser desmamado. O seu menino! O lado negro de Deus muito se deve rir com isto. Nunca quis um filho. Tinha-me libertado dele, se ela me tivesse deixado.

- Fala mais baixo - aconselhou o padre Rivas -, mesmo que tenhas ciúmes do pobre do homem.

- Ciúmes de Charley Fortnum? Porque diabo havia de ter ciúmes? - não conseguia dominar a voz. - Ciúmes por causa do filho? Mas o filho é meu. Ciúmes por causa da mulher? Também é minha. Enquanto eu a quiser.

- Ciúmes por ele a amar.

Reparou que Marta o fitava. Até o silêncio de Aquino lhe pareceu uma crítica.

- Oh, amar! É palavra que não existe no meu vocabulário.

Marta disse:

- Dá-me a tua camisa, padre. Quero lavá-la para a missa.

- Um pouco de sujidade não importa.

- Dormes com ela há três semanas, padre. Não é bom ires para o altar a cheirar como um cão.

- Não há altar.

- Dá-ma, padre.

Obedientemente o padre Rivas despiu a camisa; a cor azul estava desbotada pelo sol; tinha nódoas de comida e da cal de muitas paredes.

- Faz o que quiseres. Mas é uma pena gastares água. Talvez precisemos dela toda antes do fim.

 

Já não se via bem e o negro acendeu três velas. Levou uma para a alcova, mas trouxe-a outra vez e apagou-a, dizendo:

- Está a dormir.

O padre Rivas ligou o rádio e as notas tristes de uma música em guarani encheram o aposento - música de um povo destinado a morrer. A atmosfera estava carregada de electricidade, que estalava como morteiros. No cimo da montanha, para além do rio, o Verão começava a despontar. Os relâmpagos tremulavam nas paredes.

- Põe lá fora todas as panelas e baldes que tiveres - disse o padre Rivas a Pablo.

O vento soprou numa rajada súbita, as folhas dos abacates varreram o telhado de zinco, e depois o vento cessou. O padre Rivas:

- Vou vestir uma camisa molhada para a missa, a não ser que consiga convencer Marta de que Deus não se importa que celebre nu.

De repente, como se alguém estivesse junto deles, dentro da choupana, uma voz soou:

«O Quartel-General da Polícia pediu-nos que lêssemos o seguinte ... »

Houve uma pausa. Podia ouvir-se o ruído dos papéis do locutor.

«Sabe-se agora onde o bando de raptores tem o cônsul britânico cativo. Foram localizados num quarteirão do bairro popular que ... »

A chuva, vinda do Paraguai, bateu, rápida, no telhado, afogando as palavras do locutor. Marta entrou a correr com a camisa molhada na mão, a gritar:

- Padre, que hei-de fazer? A chuva...

- Silêncio - ordenou o padre, e aumentou o volume do som. A chuva passou por cima deles em direcção à cidade, e os relâmpagos começaram a iluminar a sala quase continuamente. Do outro lado do rio, no Chaco, ouvia-se o trovão, como tiros de artilharia.

«Não tenham esperança de escapar», continuou a voz devagar e ponderadamente, num intervalo da tempestade, falando com toda a clareza, como um professor a explicar um problema de matemática a uma turma de crianças; o doutor Plarr reconheceu a voz do coronel Perez. «Sabemos exactamente onde vocês se encontram. Estão cercados por homens da 9ª Brigada. Amanhã de manhã, antes das oito horas, devem mandar sair o cônsul britânico. Ele deve vir só e encaminhar-se sossegadamente para debaixo das árvores. Cinco minutos depois saem vocês, um por um, com os braços levantados acima da cabeça. O governador promete poupar-lhes a vida e não os fazer regressar ao Paraguai. Não tentem escapar. Se algum homem sair da choupana antes de o cônsul ter sido libertado ileso, será fuzilado. Não se respeita a bandeira branca. Estão completamente cercados. Aviso-os de que, se fizerem algum mal ... »

Depois a trovoada bramiu através das palavras, tornando-as ininteligíveis.

- Bluff! - disse Aquino. - Só bluff! Se estivessem lá fora, o Miguel avisava-nos. O Miguel vê uma formiga nas trevas. Mata Fortnum e em seguida deitamos sortes para ver quem sai primeiro. Como podem eles distinguir, numa noite como esta, a pessoa que sai da cabana... se é o cônsul, se outro?

Abriu a porta e chamou o índio:

- Miguel!

Como resposta à sua pergunta, um semicírculo de luzes, luzes que vinham do meio do arvoredo, num arco de quase cem metros de largura. Através da porta aberta o doutor Plarr via nuvens de mosquitos contra as luzes. O índio estava colado no chão, e a sombra do médico, dentro da cabana, lembrava um homem morto estendido por terra. O doutor Plarr afastou-se. Perguntava a si mesmo se Perez o teria visto e identificado.

- Eles não se atrevem a dar tiros cá para dentro com medo de matarem Fortnum - disse Aquino.

As luzes apagaram-se. No silêncio, entre os trovões, ouviu-se um sussurro como o de um rato. Aquino, junto da soleira da porta, voltou a espingarda para a escuridão.

- Não - disse o padre Rivas. - É o Miguel.

Outra rajada de água bateu no telhado e no pátio virou-se um balde, que o vento levou a tilintar.

As trevas não duraram. Talvez os relâmpagos tivessem rebentado um fusível e agora já estivesse consertado. Os homens que vigiavam de dentro da cabana viram o índio erguer-se para correr, mas as luzes cegaram-no. Miguel principiou a rodar com a mão sobre os olhos. Soou um tiro e o índio caiu de joelhos. Dir-se-ía que os homens da 9ª Brigada não estavam para gastar munições com alguém de tão pouca importância. O guarani ajoelhou-se com a cabeça curvada, como um homem piedoso à elevação da hóstia. Baloiçava de um lado para outro - bem podia estar a executar um rito primitivo. Depois, com imenso esforço, começou a levantar a arma na direcção contrária apontando-a por fim à porta aberta da cabana. Ao doutor Plarr, que observava, cosido com a parede, parecia-lhe que os pára-quedistas esperavam com cruel e paciente curiosidade o que aconteceria a seguir. Não iam desperdiçar outra bala. O índio não representava qualquer perigo para eles, pois não podia ver para onde atirava, ao clarão das luzes. Então a arma foi lançada pelo ar em direcção à cabana, caiu fora do alcance, e Miguel permaneceu no chão.

Aquino disse:

- Devíamos puxá-lo para dentro.

- Está morto - afirmou o doutor Plarr.

- Quem pode sabê-lo?

As luzes tornaram a apagar-se. Como se os homens escondidos no arvoredo estivessem a jogar com eles um jogo desumano.

- É a tua oportunidade, doutor - disse Aquino.

- Que posso fazer?

- Tens razão - observou o padre Rivas. - Estão a ver se algum de nós se deixa tentar a sair.

- O teu amigo Perez talvez não se decida a atirar, se fores tu a sair.

O doutor Plarr respondeu:

- O meu doente está aqui.

Aquino abriu mais a porta. A arma automática estava ao seu alcance. Estendeu a mão para ela. As luzes flamejaram e uma bala passou rente, ao mesmo tempo que Aquino batia com a porta. O homem que dirigia as luzes devia ter ouvido o ranger dos gonzos.

- Fecha os postigos, Pablo.

- Sim, padre.

Livres do clarão das luzes, sentiram uma espécie de protecção .

- Que vamos fazer, agora, padre? - perguntou o negro.

- Matar já Fortnum - disse Aquino - e, se as luzes se apagarem outra vez, desatamos a correr.

Pablo disse:

- Dois de nós já estão mortos. É melhor, padre, que nos rendamos. E há Marta...

- Mas a missa, padre?

- Parece-me que devo celebrar antes missa de defuntos.

- Celebra a missa que te apetecer - tornou Aquino mas mata primeiro o cônsul.

- Como podia eu dizer missa depois de o ter matado?

- Porque não? Se podias dizê-la com a intenção de o matar? - observou o doutor Plarr.

- Ah, Eduardo, tu ainda és bastante católico para saber tocar na ferida. Serás o meu confessor.

- Posso preparar a mesa, padre? Tenho vinho e pão.

- Di-la-ei aos primeiros alvores do dia. Preciso de me preparar, Marta, e isso leva mais tempo do que pôr uma mesa.

- Deixa-me matá-lo enquanto rezas - disse Aquino. Faz o teu trabalho que eu faço o meu.

- Julguei que o teu trabalho era escrever poemas - advertiu o doutor Plarr.

- Os meus poemas são todos sobre a morte; sou qualificado para matar.

- É uma loucura continuar - disse Pablo. - Perdoe-me, padre, mas Diego tinha razão em querer escapar. É loucura matar um homem e ter a certeza de que nós os cinco morreremos. Padre...

- Vamos decidir por votos - interrompeu Aquino, com impaciência.

- Transformaste-te num homem do Parlamento, Aquino? - perguntou o doutor Plarr.

- Guarda para ti o que sabes, doutor. Trotsky era pelo voto livre dentro do Partido.

- Eu voto pela rendição - disse Pablo, cobrindo a cara com as mãos. Os movimentos dos ombros mostravam que o negro chorava. Por ele próprio? Pelos mortos? De vergonha?

O doutor Plarr pensava: desesperados! Era o que os jornais lhes iriam chamar. Um poeta falhado, um padre excomungado , uma mulher piedosa, um homem que chora. «Por amor de Deus, que esta comédia termine em comédia. Nenhum de nós foi talhado para a tragédia. »

Pablo tornou:

- Amo esta casa. Nada mais tenho senão esta casa, depois que a mulher e o filho me morreram.

- Voto pela morte de Fortnum - disse Aquino.

- Disseste que era tudo bluff - observou o padre Rivas - e talvez tivesses razão. Supõe que dão oito horas e nós sem fazer nada? Eles continuam a não poder atacar. Desde que Fortnum esteja vivo.

- Então qual é o teu voto?

- Voto pela demora. Tínhamos dado um prazo até à meia-noite de amanhã.

- E tu, Marta?

- Voto com o meu marido - respondeu Marta, orgulhosa.

Um altifalante, tão perto que devia estar instalado entre as árvores, fez ecoar a voz de Perez:

O Governo dos Estados Unidos e o Governo britânico recusaram-se a intervir. Se estiveram a escutar a rádio, hão-de saber que lhes digo a verdade. A vossa chantagem falhou. Não têm nada a ganhar em deter por mais tempo o cônsul. Mandem-no cá para fora antes das oito da manhã, se desejam salvar as próprias vidas.

- Insistem de mais - disse o padre Rivas.

Alguém murmurava ao lado do microfone. Não se percebiam as palavras, era um som semelhante ao de seixos batidos por uma onda. Depois Perez continuou:

-Há um homem moribundo à porta da vossa casa. Mandem cá para fora o cônsul imediatamente e tentaremos salvar o vosso amigo. Vão deixar que um dos vossos morra lentamente?

«Nenhum juramento hipocrático exige o suícídío», disse consigo o doutor plarr. Em pequeno o pai lia-lhe histórias de heroísmo, de homens feridos e salvos sob o fogo dos canhões, do capitão Oates a sair para a neve. «Atirai, se quiserdes, a esta cabeça grisalha» era um dos seus poemas favoritos, então.

Dirigiu-se abruptamente para o quarto interior. Não via nada na escuridão . Perguntou num sussurro:

- Está acordado?

- Estou.

- Que tal o tornozelo?

- Bem.

- Vou trazer uma vela para mudar a ligadura.

- Não.

- Os soldados cercaram-nos. Não perca a esperança.

- Esperança de quê?

- Há só um homem a querer a sua morte.

- Sim? - replicou a voz indiferente.

- Aquino.

- E você? Você também quer.

- Eu? Porquê?

- Fala alto de mais, Plarr. Não devia falar tão alto na fazenda, mesmo quando eu estava a uma milha de distância. Era muito discreto, não era? Para os criados não ouvirem. Mas sempre chega a hora de um marido ter os ouvidos à escuta - um som arranhou levemente as trevas como se Fortnum estivesse a tentar levantar-se. - julgava que havia um código de honra para os médicos, Plarr, mas pelos vistos isso é uma noção inglesa, e você é só metade inglês...

- Não sei o que ouviu - replicou o doutor Plarr. - Deve ter sonhado, ou compreendido mal.

- Creio que você achava que isso pouco importava, que ela era apenas uma prostituta da casa da Mãe Sanchez. Quanto lhe custou? Que lhe ofereceu, Plarr?

- Se deseja saber - a voz do doutor Plarr era de raiva dei-lhe uns óculos de sol da loja de Gruber.

- Aqueles óculos? Ela gostava muito deles. Achava-os elegantes, e foram feitos em bocados pelos seus amigos. Que porcalhão que você é, Plarr. Como violar uma criança...

- Foi mais fácil.

O doutor Plarr não tinha percebido que estava tão perto do caixão-cama. Um punho avançou para ele, no escuro, apanhou-lhe o pescoço e fê-lo sufocar. Recuou um passo e ouviu o caixão estalar.

- Oh, meu Deus! - exclamou Fortnum. - Entornei a garrafa. Havia ainda uma medida. Guardei-a para...

Uma mão apalpou o soalho, tocou os sapatos do doutor Plarr e recolheu-se.

- Vou buscar uma luz.

- Não, luz não. Não quero voltar a ver o seu focinho outra vez, Plarr.

- Está a levar o caso demasiado a sério. São coisas que acontecem, Fortnum.

- Nem finge sequer que a ama, pois não?

- Não.

- Suponho que a conhecia do bordel, e daí pensar...

- Já lhe disse... via-a lá uma vez, mas nunca a possuí.

- Eu libertei-a desse lugar e você começou a empurrá-la outra vez para lá.

- Nunca tive essa intenção, Fortnum.

- Também nunca esperou ser descoberto. Era mais barato para si, não é verdade, não ter de pagar pelo coito?

- Para quê estas cenas? Pensava que a história passaria e você nunca chegava a saber. Nem eu nem ela nos interessávamos um pelo outro. O interesse é a única coisa perigosa, Fortnum.

- Interessava-me eu.

- Você ia tê-la novamente... E nunca saberia.

- Quando começou, Plarr?

- Da segunda vez que a vi. Na loja de Gruber. Quando lhe ofereci os óculos de sol.

- Para onde a levou? Para a Mãe Sanchez?

As perguntas persistentes lembravam ao doutor Plarr espremer do pus de um furúnculo.

- Levei-a para o meu apartamento. Convidei-a para tomar café, mas ela sabia bem o que eu queria dizer com «café», Fortnum.

Se não tivesse sido eu, seria outro, mais tarde ou mais cedo. Ela até conhecia o porteiro do meu prédio.

- Graças a Deus - disse Fortnum.

- Que quer dizer?

- Descobri a garrafa. Não se entornou.

O doutor Plarr ouvia o ruído que Fortnum fazia a beber. Disse:

- É melhor poupar um bocado, para o caso de...

- Sei que me julga um cobarde, Plarr, mas, agora, não tenho grande medo de morrer. É muito mais fácil do que regressar à fazenda e esperar que nasça uma criança com a sua cara, Plarr.

- Não estava nas minhas intenções - repetiu o doutor Plarr.

Já não se sentia enraivecido para se poder defender.

- Nada é o que pretendemos. Eles não o queriam raptar a si. Eu não queria gerar a criança. Quase nos convencemos de que há algures um grande humorista que gosta de pregar partidas. Talvez a metade negra de Deus tenha algum senso de humor.

- Que metade negra?

- Uma louca opinião de León. Era isso que devia ter ouvido, não o que ouviu.

- Não estava a tentar escutar. Queria sair desta maldita caixa e juntar-me a vocês. Sentia-me só, e as suas drogas já não dão resultado. Ia já perto da porta quando ouvi o padre dizer que você tinha ciúmes. Ciúmes? Ciúmes de quê? E então ouvi tudo e voltei para o caixão.

Numa aldeia distante o doutor Plarr fora uma vez obrigado a fazer uma operação de urgência para a qual não estava preparado. Tinha de correr o risco da operação ou deixar a mulher morrer. No fim sentiu a fadiga que experimentava agora, e a mulher morreu na mesma. Sentara-se no chão, de cansado. Reflectia: «Disse o que sabia. Que mais posso dizer? » A mulher levou muito tempo a morrer, ou, pelo menos, assim lhe pareceu, então.

Fortnum falou de novo:

- Pensar que escrevi a Clara a dizer-lhe que você olharia por ela e pela criança...

- Bem sei.

- Como diabo sabe?

- Você não é o único a escutar. Outra vez o humorista. Ouvi-o ditar a carta a León. Foi isso que me irritou.

Irritou-se? Porquê?

- Creio que o León tinha razão... Ciúmes.

- Ciúmes de quê?

- Outra partida cómica, não é?

Ouviu novamente o ruído de Charley Fortnum a beber. Disse:

- Nem as suas medidas duram sempre.

- Porque não o odeio, Plarr? Será o uísque? Ainda não estou bêbado.

- Talvez já esteja um pouco.

- É uma coisa terrível, mas não há ninguém mais a quem os possa entregar. Não confio em Humphries...

- Dou-lhe uma dose de morfina, se quer dormir.

- Prefiro ficar acordado. Tenho imensas coisas em que pensar e não me resta muito tempo. Quero ficar só, Plarr. Tenho de me habituar à ideia, não é?

 

 

Parecia ao doutor Plarr que os tinham deixado sós, que os inimigos os haviam abandonado: o altifalante calara-se, a chuva parara e, apesar dos seus pensamentos, o médico caíra num sono intermitente. A primeira vez que abriu os olhos foi a voz do padre Rivas que o acordou. O padre estava ajoelhado junto da porta, com os lábios encostados a uma fenda da madeira. Dir-se-ia falar para o homem morto, ou moribundo, lá fora. Palavras de conforto, uma oração, a fórmula da absolvição condicional? Voltando-se para o outro lado, o doutor Plarr tornou a adormecer. Ao acordar pela segunda vez, Charley Fortnum ressonava no outro quarto - um ressonar de garganta áspera de uísque. Talvez estivesse a sonhar, tranquilo, que se encontrava na grande cama de casal, na fazenda, depois de ter esvaziado a garrafa do criado-mudo. Clara teria paciência quando ele ressonava assim? Se era obrigada a ficar deitada ao lado dele, quais seriam os seus pensamentos? Teria saudades do seu quartinho na Mãe Sanchez? Aí, de madrugada, podia dormir calmamente e só. Teria saudades da simplicidade da sua vida lá? Não fazia ideia. Não podia imaginar os seus pensamentos - tal como não podia imaginar os pensamentos de um animal estranho.

A luz dos projectores que brilhavam por debaixo da porta ia perdendo o brilho. O último dia ia nascer. Recordou-se de celta ocasião, há anos, ter assistido com a mãe a uma reprentação de son et lumière, fora de Buenos Aires. Os holofotes iam e vinham como o giz branco de um professor, apanhando sucessivamente uma árvore sob a qual alguém - San Martín? - se tinha sentado, um velho estábulo onde outra figura da história havia guardado o cavalo, as janelas de um quarto onde um tratado ou uma constituição - não se lembrava qual - fora assinado. Uma voz explicava a história numa prosa tocada da dignidade de um passado írrevogável. Sentia-se cansado da lição e adormeceu.

Ao acordar pela terceira vez foi para ver Marta atarefada a estender uma toalha na mesa, enquanto a luz da manhã se esgueirava pelos interstícios da janela e da porta. Havia duas velas apagadas em cima dum pires, sobre a mesa. Marta disse:

- É tudo quanto temos, padre.

O padre Rivas continuava a dormir, enroscado como um embrião.

Marta repetiu:

- Padre.

À medida que ela falava, os outros começaram a despertar, um a um: León, Pablo, Aquino.

- Que horas são?

- Quê?

- Que disseste?

- Não há velas que cheguem, padre.

- As velas não importa, Marta. Fazes rebuliço de mais.

- A tua camisa ainda está molhada. Ainda morres com um resfriamento.

- Duvido - replicou o padre Rivas.

Marta resmungava, desapontada, ao pousar em cima da mesa um frasco, de remédio cheio de vinho, uma cabaça de mate que serviria de cálice, um pano da loiça, rasgado, em vez de guardanapo. Queixava-se:

- Não era assim que eu queria... Não era isto que eu sonhara.

Pôs também na mesa um missal de bolso sem metade da capa e abriu-o.

- Que domingo é hoje, padre? -folheava o missal. - É o vigésimo quinto domingo depois do Pentecostes ou o vigésimno sexto? Ou será Advento, padre?

- Não faço ideia - respondeu León.

- Então como hei-de saber qual é o Evangelho e a Epístola?

- Abre à sorte.

Pablo disse:

- Seria uma boa coisa libertar agora Fortnum. Devem ser quase seis horas, e, dentro de duas horas...

- Não - retorquiu prontamente Aquino. - Votámos por esperar.

- Ele não votou - Pablo indicava o doutor Plarr.

- Não tem voto. Não é um dos nossos.

- Mas vai morrer connosco...

O padre Rivas tirou a camisa molhada das mãos de Marta e disse:

- Não há tempo para discussões. Vou dizer missa. Ajuda o Señor Fortnum a vir aqui, no caso de ele querer assistir. Vou dizer missa por Diego, por Miguel, por todos nós, que talvez morramos hoje.

- Por mim não - disse Aquino.

- Não me podes dar ordens quanto às minhas orações. Bem sei que não crês em nada. Muito bem. Não creias em nada! Fica aí nesse canto e não creias em nada. Quem se importa com isso? Nem Marx pode ter a certeza do que é verdadeiro e do que é falso.

- Detesto ver perder tempo. Não temos muito diante de nós.

- Que preferias fazer com o tempo?

Aquino desatou a rir.

- Naturalmente que o desperdiçaria como tu. «Quando a Morte está na língua, o homem vivo fala.» Se ainda sentisse vontade de escrever, tornaria esse verso um pouco mais claro... Já quase o começo a entender...

- Pode ouvir-me em confissão, padre? - perguntou o negro.

- Com certeza. Dentro de um momento, se quiseres vir para o pátio. E tu, Marta?

- Também posso, padre?

- Porque não? Estás perto de mais da morte para planeares qualquer coisa, mesmo deixar-me.

- Nunca...

- Os pára-quedistas é que sabem...

- Mas tu, padre?

- Ora, correrei o risco. Não há muitas pessoas com a sorte de morrerem com um padre ao lado. Pertencerei à maioria, enfim. Tenho sido até aqui um dos privilegiados.

O doutor Plarr dirigiu-se ao quarto interior.

- León vai rezar missa. Quer ir ouvir?

- Que horas são?

- Não sei. Pouco passa das seis, parece. Já há sol.

- Que vão fazer eles agora?

- Perez deu-lhes um prazo até às oito horas para o libertar.

- E vão-me libertar?

- Acho que não.

- Então vão-me matar e Perez mata-os a eles? A minha carta para Clara... De toda a maneira é melhor guardá-la.

- Se assim quer.

Charley Fortnum tirou do bolso um maço de papéis.

- A maior parte são contas por pagar. Os comerciantes enganam-nos sempre, excepto Gruber. Onde diabo pus eu a carta?

Encontrou-a finalmente no outro bolso.

- Não. Não vale a pena. Que lhe interessam as minhas palavras de amor, se o tem a si? - rasgou a carta em pedacinhos. - Também não gostava que a Polícia a lesse. Há ainda uma fotografia - procurava na carteira. - A única que tenho do «Orgulho de Fortnum», mas ela também lá está. Deu uma olhadela e rasgou-a igualmente em pedacinhos.

- Prometa-me que não lhe diz que eu soube. Não quero que se sinta culpada... se acaso ela é capaz disso.

- Prometo - disse o doutor Plarr.

- Estas facturas... é melhor ver... - disse Charley Fortnum passando-as ao doutor Plarr. - Deve haver que chegue na minha conta-corrente para as liquidar. Se não houver... Os tipos já me burlaram bastante. - E acrescentou: - Estou-me a preparar para o combate, mas não quero que a tripulação sofra...

- O padre Rivas deve estar a começar a missa. Se quer ouvir, agarre-se ao meu braço.

- Não. Nunca fui um homem religioso. Fico aqui com o uísque - mediu cuidadosamente o que restava na garrafa. Talvez um pequeno agora... e deixar ficar uma boa medida para o fim. Maior do que a de um comandante de navio.

Uma voz baixa falava na sala de fora. Charley Fortnum disse:

- Sei que há pessoas que, na hora da morte, se confortam com a fé... Você crê?

- Não.

Agora que viera à tona a verdade pessoal entre eles, o doutor Plarr sentia uma curiosa necessidade de falar com precisão. E ajuntou:

- Acho que não.

- Nem eu, excepto... Sei que é estúpido da minha parte, mas quando estou com esse homem, refiro-me ao padre... o que me vai matar... sinto... Sabe que houve mesmo um momento em que pensei que ele se ia confessar a mim? A mim, Charley Fortnum! Que lhe parece? E, Deus meu, estava pronto a dar-lhe a absolvição. Quando vão eles matar-me, Plarr?

- Não sei que horas são. Não tenho relógio. Pelas oito horas, suponho, Perez há-de mandar entrar os pára-quedistas. O que vai acontecer em seguida, só Deus o sabe.

- Outra vez Deus! Você não se pode ver livre dessa maldita palavra. Talvez vá ouvir a missa. No fim de contas, não me faz mal nenhum. Ele vai ficar contente. Falo do padre. E, como não há mais nada a fazer... Se me quiser ajudar...

Pôs o braço em volta do ombro do doutor Plarr. Pesava espantosamente pouco para o volume - como um corpo cheio de ar. O doutor Plarr pensava: « É um velho. De qualquer modo não tinha muito tempo de vida. » E recordou-se da noite em que o conhecera, quando ele e Humphries o haviam arrastado, a protestar, até ao Bolívar. Parecia muito mais pesado então. Deram apenas dois passos em direcção à porta e nisto Charley Fortnum deteve-se.

- Não vou. Para quê? Não quero pedir favores, nos últimos momentos. Leve-me outra vez para o uísque. O uísque é o meu sacramento.

O doutor Plarr voltou à sala de fora, e ficou de pé junto de Aquino, que, sentado no chão, observava os movimentos do padre com desconfiança. Como se receasse que León Rivas estivesse a armar uma ratoeira, a planear uma traição, à medida que ia de um lado para outro, em frente da mesa, e fazia secretos sinais com as mãos. Todos os poemas de Aquino eram de morte, pensava o doutor Plarr, e a morte não lhe seria roubada, agora.

O padre Rivas lia o Evangelho. Em latim e não em espanhol, e o doutor Plarr há muito esquecera o pouco latim que aprendera. Tinha os olhos pousados em Aquino, enquanto a voz corria rapidamente na língua morta. Talvez os outros pensassem que ele estava a rezar de olhos baixos, e talvez até uma espécie de oração lhe passasse pela mente - ou pelo menos um desejo minado de autodesconfiança, desejo de que, se o momento chegasse, a habilidade e a determinação agissem rápidas. «Se eu tivesse atravessado com eles a fronteira », interrogava-se, «que faria quando o meu pai gritasse por socorro no pátio da esquadra? Teria tornado atrás para lhe valer, ou fugiria como eles? »

O padre Rivas chegou ao cânone da missa e à consagração do pão. Marta, que era toda olhos para o seu homem, mostrava uma expressão de orgulho. O padre levantou a cabaça do mate e pronunciou as únicas palavras da missa que, por qualquer razão, o doutor Plarr não esquecera: «Sempre que fizeres isto, fá-lo em memória de Mim.» Quantos actos tinha ele praticado em toda a sua vida, em memória de algo esquecido ou quase esquecido?

O padre pousou a cabaça. Ajoelhou-se e ergueu-se, rápido. Parecia estar morto por despachar a missa. Era como um boieiro a levar o gado para o curral antes que a tempestade rebentasse. Mas principiara a fazê-lo tarde de mais.

O altifalante berrou a sua mensagem pela voz do coronel Perez:

- Têm exactamente uma hora para mandar o cônsul sair e salvar a vida.

O doutor Plarr viu a mão esquerda de Aquino apertar a