Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Continente - TOMO II / Érico Veríssimo
O Continente - TOMO II / Érico Veríssimo

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O TEMPO E O VENTO

O Continente

TOMO II

 

A Teiniaguá

     Em 1850 a vila de Santa Fé foi elevada a cabeça de comarca. Seu primeiro juiz de direito, o dr. Nepomuceno Garcia de Mascarenhas, natural do Maranhão, veio morar com a esposa numa das casas de alvenaria que o coronel Bento Amaral mandara recentemente construir na Rua dos Farrapos. Era o dr. Nepomuceno um homem de estatura mediana, que impressionava logo pelo comedimento de gestos, palavras e opiniões. Andava sempre de sobrecasaca preta e dificilmente se separava de sua bengala de castão de prata. De olhos empapuçados e mortiços, voz velada e lenta, tinha um ar de sonâmbulo, acentuado pelo andar tateante e meio cansado, que aos íntimos ele explicava ser devido ao fato de ter pés chatos. Passava o juiz de direito por bom latinista, razoável matemático e exímio jogador de xadrez. Era maçom, adorava Chateaubriand e nas horas vagas fazia sonetos.

     Juiz íntegro, homem austero, o novo magistrado de Santa Fé se impôs desde logo ao respeito e a admiração dos habitantes da cidade afeiçou-se de tal maneira àquele lugar, cujos bons ares lhe haviam restaurado a saúde da esposa, que resolveu não mais sair dali. E como prova de estima e gratidão à vila e seus habitantes, orgamizou e mandou publicar por conta própria, numa tipografia de Porto Alegre, o primeiro Almanaque de Santa Fé, que apareceu em janeiro de 1853, com informações sobre a topografia, a geologia, a fauna e a flora do município, além dum calendário completo, com conselhos aos agricultores e horticultores, bem como páginas amenas e instrutivas de literatura e humorismo, charadas, logogrifos, enigmas pitorescos, etc...

     Abria o almanaque uma descrição literária da cidade, feita pelo próprio dr. Nepomuceno. Começava assim: "A vila de Santa Fé, cabeça da comarca de São Borja, e da qual tenho a desvanecedora honra de ser o primeiro juiz de direito, é uma das flores mais formosas do vergel serrano. Situada sobre três colinas e cercada de campinas onduladas, lembra ela ao viandante, singelo mas gracioso presepe. Prodigamente dotada pela natureza, seus bons ares e suas cristalinas águas são propícios à longevidade, razão pela qual muitos de seus habitantes, em geral de costumes morigerados, passam dos noventa anos, como foi o caso extraordinário do preto escravo conhecido pela antonomásia de Sinhô d'Angola, o qual durou mais duma centúria, e do cacique Fongue, que viu pela primeira vez a luz do dia na redução de Santo ângelo, por volta de 1750, e o qual ainda hoje por aqui vive em pleno gozo de suas faculdades mentais".

     O Almanaque oferecia também a seus leitores um "escorço histórico" da vila, no qual o autor prestava uma homenagem à família Amaral, cujo fundador foi "esse venerando cidadão, o coronel Ricardo Amaral, o primeiro povoador destes campos, um bandeirante na verdadeira extensão do vocábulo, e que morreu como um bravo, no lendário combate do passo das Perdizes". Vinha a seguir uma referência de dez linhas ao filho de Ricardo, Francisco Amaral, "o fundador de Santa Fé", e depois uma página inteira dedicada a seu neto, o coronel Ricardo Amaral, "que tanto contribuiu para o engrandecimento deste município, de cuja Câmara foi o primeiro presidente". Após a enumeração das qualidades morais de Ricardo Amaral Neto e de seus feitos na paz e na guerra, a biografia terminava assim: "... e em 1836 baqueou como um bravo, de armas na mão, dentro de sua própria casa, defendendo a legalidade". Havia por fim três páginas dedicadas à personalidade do coronel Bento Amaral - "atual chefe político deste município, deputado à Assembleia Provincial, verdadeiro varão de Plutarco que perpetua no tempo e na admiração de seus corvos um nome honrado e uma tradição de virtudes cívicas e privadas".

     O Almanaque circulou em Santa Fé e arredores, onde foi lido, comentado e apreciado. E através de seus dados estatísticos e de suas informações escrupulosamente colhidos pelo próprio dr. Nepomuceno - ficaram os santa-fezenses sabendo que a vila possuía agora sessenta e oito casas, entre as de tábua e de alvenaria, e trinta ranchos cobertos de capim; e que sua população já subia a seiscentas e trinta almas. Informava ainda o dr. Nepomuceno que Santa Fé contava com quatro bem sortidas casas de negócio, uma agência do correio - "cuja mala, lamentamos dizê-lo, chega apenas uma vez por semana" - uma padaria, uma selaria e uma marcenaria. "A ciência de Hipócrates está representada entre nós pelo ilustrado dr. Cari Winter, natural da Alemanha e formado em Medicina pela Universidade de Heidelberg e que fixou residência nesta vila em 1851, data em que apresentou suas credenciais à nossa municipalidade. Não podemos deixar de mencionar o nosso Clotário Nunes, médico homeopata bem conceituado, e o curandeiro conhecido popularmente por Zé das Pílulas, muito procurado por causa de suas ervas medicinais cujos segredos diz ele ter aprendido dos índios coroados, dos quais parece ser descendente.”

     Causou também muito boa impressão a parte do almanaque em que o dr. Nepomuceno rememorava as guerras em que os filhos de Santa Fé haviam tomado parte. "Nossa vila (e aqui peço vénia para usar o possessivo nossa, uma vez que me considero um santa-fezense de coração se não de nascimento) tem pago pesado tributo de sangue e heroísmo no altar da pátria. Muitos foram os oficiais e soldados que deu para as lutas de que esta província tem sido teatro, e pode-se dizer sem exagero que não houve geração que não tivesse visto pelo menos uma guerra. Durante a luta civil que por espaço de dez anos ensangüentou o solo generoso do Continente, muitos toram os santa-fezenses que participaram dela, quer nas hostes farroupilhas quer nas forças legalistas. Não me cabe aqui, como magistrado e como homem isenso às paixões políticas, manifestar simpatias ou lançar diatribes. O que passou passou e mais vale esquecido do que lembrado, pois uma luta fratricida é mil vezes mais horrenda do que as guerras entre as nações. Graças ao Supremo Arquiteto do Universo o sol da paz raiou benfazejo no horizonte da província, e os inimigos de ontem se deram as mãos e recomeçaram a trabalhar juntos em prol da grandeza da Pátria comum. Mas, ai!, ainda nem bem se haviam cicatrizado as feridas abertas pela guerra civil e já de novo eram nossos irmãos arrancados ao aconchego dos seus lares e ao seu trabalho pacífico, convocados mais uma vez pelo pressago clarim da guerra. Rosas, o tirano argentino, ameaçava a integridade de nosso Brasil, e era necessário fazer frente a essa ameaça. E assim mais uma vez os santa-fezenses formaram os seus batalhões de voluntários e nessa luta, que nem por ser relativamente curta foi menos cruenta, muitos foram os filhos desta vila que tiveram atuação destacada. Entre eles é de justiça salientar o jovem Bolívar Terra Cambará, filho dum intrépido soldado, o capitão Rodrigo Severo Cambará, morto heroicamente num combate que se feriu nesta mesma vila em princípios de 1836. Bolívar, esse denodado jovem, cujo nome parece trazer em si uma destinação gloriosa, guiou os seus cavaleiros numa carga de lança, destruindo um quadrado inimigo e arrancando, ele próprio, das mãos dum adversário a bandeira argentina! Esse ato de bravura valeu-lhe a promoção ao posto de primeiro-tenente, e uma citação especial em ordem do dia.”

     As anedotas do Almanaque foram muito apreciadas, bem como as poesias, algumas da lavra do próprio dr. Nepomuceno, e outras de poetas famosos como Camões, Tomás Antônio Gonzaga e Gregório de Matos. No "fecho de ouro" dum de seus sonetos, o juiz de direito concluía com rimas ricas que sob o veludo da rosa às vezes um acúleo se esconde.

     Pouco tempo depois do aparecimento do Almanaque, o sonetista teve ocasião de sentir na própria carne a pungente verdade do verso. Sim - refletiu o magistrado - seu anuário podia ser comparado a uma linda e perfumada rosa que a todos deleitara com suas cores e seu perfume. Mas trazia ela um espinho escondido e inesperado: o artigo intitulado "Residências de Santa Fé", que ele próprio escrevera sob o pseudônimo de Atala. Essa página, traçada com sinceridade e sem a menor intenção de ofender ou criticar quem quer que fosse, desgostara e irritara o coronel Bento Amaral. Ocupava-se o infeliz ensaio do sobrado que um tal Aguinaldo Silva mandara construir em Santa Fé. Depois de mencionar a simplicidade rústica da maioria das casas do lugar e de elogiar a solidez e a sobriedade do casarão de pedra dos Amarais, "tão cheio de invocações históricas", Atala escreveu: "O forasteiro que chega à nossa vila há de por certo quedar-se surpreso e boquiaberto diante duma maravilha arquitetônica que rivaliza com as melhores construções que vimos no Rio Pardo, em Porto Alegre e até na Corte. Referimo-nos à casa assobradada que o sr. Aguinaldo Silva, adiantado criador deste município, mandou recentemente erguer na Praça da Matriz, num terreno de esquina com as dimensões de trinta e cinco braças de frente por uma quadra completa de fundo. Essa magnífica residência deve constituir motivo de lídimo orgulho para os santafezenses. Dotada de dois andares e duma pequena água-furtada, destacam-se em sua fachada branca os caixilhos azuis de suas janelas de guilhotina, dispostas numa fileira de sete, no andar superior, sendo que a do centro, mais larga e mais alta que as outras, está guarnecida duma sacada de ferro com lindo arabesco; por baixo desta sacada, no andar térreo, fica a alta porta de madeira de lei, tendo de cada lado três janelas idênticas às de cima. Ao lado esquerdo do sobrado, no alinhamento da fachada, vemos imponente portão de ferro forjado ladeado por duas colunas revestidas de vistoso azulejo português nas cores branca, azul e amarela, e encimadas as ditas colunas por dois vasos de pedra de caprichoso lavor. O terreno, a que esse portão dá acesso, está todo fechado por um muro alto e espesso que por assim dizer (perdoe-se-nos a ousadia da imagem) aperta a casa como uma tenaz. O efeito é assaz formoso, pois o "Sobrado" (assim é a residência conhecida na vila) dá a impressão desses solares avoengos, relíquias de nossos antepassados lusitanos. Não devemos esquecer outro encanto, qual seja o seu vasto quintal todo cheio de árvores de sombra e frutífcras, como laranjeiras, pessegueiros, guabirobeiras, lindos pés de primavera, cinamomos, magnólias e um esplêndido e altaneiro marmeleiro-da-índia.

     "Convidados gentilmente pelo sr. Aguinaldo Silva para visitar-lhe a residência, pudemos verificar que esta se acha dividida em dezoito amplas peças, mui bem arejadas e iluminadas, com pé-direito bastante alto; e que as portas que separam essas peças umas das outras terminam em arco, em bandeirolas com vidros nas cores amarela, verde e vermelha. Os móveis são de autêntico jacarandá, muito pesados e severos, tendo pertencido, como nos informou o dito sr. Silva, a uma Casa Senhorial de Recife, e sendo de lá trazidos para Porto Alegre num patacho e desta última localidade para cá em carretas.”

     O artigo terminava com um parágrafo que por assim dizer constituía a ponta do traiçoeiro espinho: "Assim, pois, seria o sobrado do sr. Aguinaldo Silva um solar digno de hospedar até Sua Majestade dom Pedro II, caso o nosso querido imperador nos desse a altíssima honra de visitar Santa Fé".

     Pois esse artigo, escrito com um entusiasmo inocente e desinteressado, deixara o coronel Amaral furioso.

     - Essa é muito boa! - exclamou ele um dia na loja do Alvarenga. - O imperador parando na casa do Aguinaldo! É de primeiríssima! Uma idéia estúpida assim só podia ter saído da cabeça daquele pé-de-pato!

     Ficou muito vermelho e começou a sentir uma comichão na cicatriz em forma de P que lhe marcava uma das faces. O padre Otero, que tinha ido comprar um emplastro na loja, ouviu a explosão, e como era amigo do juiz de direito, com quem habitualmente jogava longas partidas de xadrez apesar de sabê-lo pedreiro livre, arriscou:

     - O dr. Nepomuceno não escreveu isso por mal, coronel...

     - Não sei se foi por bem ou por mal - retrucou o outro, fitando o olhar encolerizado na face amarela do vigário. - O que sei é que escreveu. Ele devia saber quem é esse Aguinaldo Silva.

     Pigarreou com fúria e escarrou no chão.

    

     Mas, para falar a verdade, em Santa Fé ninguém sabia ao certo quem era Aguinaldo Silva. Claro, pela entonação da voz, via-se logo que o homem era do norte. Ele próprio declarara ter nascido no Recife; o que não contava, mas os outros murmuravam, era que tivera de fugir de lá, havia muitos anos, por ter matado a esposa e o homem com quem ela o traíra. "Isso não é crime" - observara um dia o Alvarenga, de cuja loja o nortista era bom freguês. - "Um homem de vergonha não podia fazer outra coisa." Mas pessoas que sabiam da história com todos os pormenores explicavam que o duplo assassínio fora premeditado. Ao descobrir que a mulher o enganava, Aguinaldo a obrigara a marcar um encontro com o amante em seu próprio quarto de dormir. Simulara uma viagem mas ficara escondido debaixo da cama, e saltara do esconderijo em dado momento para estripar a facadas tanto o amante como a mulher. Havia no drama um detalhe dum trágico grotesco que os maldizentes usavam como remate humorístico do caso: “O homem estava começando a tirar a roupa quando Aguinaldo saiu de baixo da cama. O infeliz nem teve tempo de dizer ai: a faca do marido rasgou-lhe o bucho”. Risadas. “No fim, acho que ele não sabia se segurava as calças ou as tripas.” Pausa dramática. “Mas tanto as calças como as tripas acabaram caindo no chão.” Novas risadas.

     Eram essas as histórias que corriam em Santa Fé. Mas ninguém sabia de nada com certeza. Contava-se também que depois de passar alguns anos no Rio de Janeiro e em Curitiba, com nome trocado, Aguinaldo viera para a província de São Pedro, onde durante a guerra civil andara ora com as tropas farroupilhas ora com as forças legalistas, ao sabor de suas conveniências. Os que o conheciam de perto pintavam-no como um homem ladino, de olho vivo para os negócios, e que, obcecado pelo medo de ser logrado e sabendo que a melhor maneira de a gente se defender é atacar, tinha a preocupação permanente de lograr os outros. Baixo, de pernas muito curtas para o tórax anormalmente desenvolvido, era levemente corcunda e tinha, plantada sobre os largos ombros ossudos, uma cabeça triangular, de pescoço curto, e uma cara de chibo que a pêra grisalha acentuava. Era feio, mas duma fealdade aliciante e simpática, muito ajudada por uma voz de inflexões macias e musicais. Apesar da cor amarelada do rosto, tinha uma saúde de ferro e aos setenta e dois ainda fazia tropas, dormia ao relento, e campereava com o entusiasmo e a eficiência dum moço de vinte. Por muito tempo Aguinaldo recusara vestir-se como os gaúchos da província. Conservara a indumentária de couro dos vaqueiros do Nordeste - o que lhe valera muitas vezes a desconfiança e a má vontade dos continentinos - e mesmo agora que decidira abandoná-la em favor da bombacha, do pala e do poncho, conservava ainda o chapéu de sertanejo, de abas viradas para cima, o que, como dizia o dr. Nepomuceno, lhe dava uns ares napoleômicos. Aguinaldo amava o dinheiro mas não era sovina. Gostava de pagar "comes e bebes" para os amigos, vivia ajudando os necessitados, e era generoso para com seus agregados, peões e comissionados. Quando pela primeira vez aparecera em Santa Fé, no ano em que fora assinada a paz entre farroupilhas e legalistas, causara a pior das impressões. Chegara escoteiro, montado num cavalo magro e manco, e fazendo questão de mostrar a toda a gente que tinha as guaiacas atestadas de moedas de ouro. Começaram então a murmurar na vila que Aguinaldo havia descoberto uma Salamanca lá para as bandas de São "Borja. "Salamanca? Lorotas!" - retrucavam outros. - "Isso é dinheiro de contrabando. Conheço pelo cheiro."E um dia, numa roda de bisca na casa do Alvarenga, o padre Otero comentou: "Seja como for, não deve ser dinheiro limpo". Mas os que precisavam de crédito para seus negócios não se preocuparam com averiguar a origem dos patacões, cruzados e onças de Aguinaldo Silva, quando este se aboletou num rancho nos arredores de Santa Fé e começou a emprestar dinheiro a juro alto. Quando sabia que um lavrador ou criador estava em dificuldades financeiras, procurava-o, ambicioso, e oferecia-lhe um empréstimo, pedindo como garantia terras ou gado num valor que em geral correspondia ao dobro ou ao triplo do capital emprestado. Se o homem era bem-sucedido nos negócios, lá voltava o dinheirinho para a bolsa de Aguinaldo, acrescido dos gordos juros. Mas se a dívida se vencia e o devedor não estava em condições de liquidá-la, Aguinaldo, sem desmanchar dos lábios o sorriso amigo, sem a menor dureza na voz cantante, executava a hipoteca. Foi assim que com o passar dos anos, em que fez também muitas tropas e vendeu-as a charqueadores, Aguinaldo se apossou de várias propriedades de Santa Fé - inclusive da de Pedro Terra - e multiplicou sua fortuna de tal forma que já se dizia estar ele tão rico de campos, gados e moeda sonante quanto o próprio Bento Amaral.

     Muito religioso, Aguinaldo ia à missa todos os domingos e fazia donativos à Igreja. O padre Otero gostava de ouvi-lo contar histórias do sertão de Pernambuco em torno de cangaceiros, cabras valentes, lutas de família e casas assombradas, ficava admirado de ver como aquele caboclo analfabeto sabia narrar com fluência e colorido, com um sabor até literário.

     Também dava muito na vista em Santa Fé o apego que Aguinaldo Silva tinha por dois filhos do lugar: Bolívar Cambará e Florêncio Terra. Conversando certa ocasião com o padre Otero, Aguinaldo lhe dissera:

     - Esses dois meninos são mesmo que filhos meus. Vosmecê sabe, seu vigário, perdi toda a minha gente. Da minha família só me sobrou uma neta, a Luzia, que está estudando num colégio na Corte. Quero que ela tenha o que eu não tive e o que os pais dela não tiveram. Tudo do bom e do melhor.

     E um dia quando o vigário e Aguinaldo se encontravam na praça, debaixo da figueira, conversando e olhando para o Sobrado, enquanto trabalhadores lhe caiavam a fachada, o padre Otero perguntou:

     - Ainda que mal pergunte, amigo, não acha que o Sobrado é um pouco grandote pra uma família tão pequena? Vosmecê não disse que só tinha uma neta?

     - Disse. Mas acontece que um dia a Luzia vai casar e ter filhos. E os filhos da Luzia vão casar também e ter família. Quero reunir toda a cambada no Sobrado...

     Ficou um instante pensativo, olhando para a casa. Depois acocorou-se à maneira dos sertanejos e começou a picar fumo. E assim nessa posição, com uma palha de milho atrás da orelha, contou ao padre que um dia, quando menino, vira uma cena que nunca mais lhe saíra da memória: um senhor de engenho coçando as barbas brancas e sorrindo à cabeceira duma mesa comprida a que estavam sentados, comendo, rindo e conversando, os vinte e tantos membros de sua família - filhos, filhas, genros, noras, netos... Desde esse momento Aguinaldo decidira trabalhar como um burro para um dia ter também casa e família grande, com mesa farta e alegre.

     - Mas Deus não quis que eu visse minha família reunida - murmurou ele, enrolando o cigarro. - Foi matando todos, um por um...

     Ergueu os olhos para o vigário, ficou a contemplá-lo por alguns segundos, e depois murmurou:

     - Nunca fui ao confessionário, padre, mas vou lhe contar aqui um segredo que nunca contei a ninguém. - Riu. - Não sei por que estou lhe dizendo isto, mas de repente me deu vontade...

     Calou-se poi um instante, seus olhos se perderam na direção dos campos. Depois, baixinho, num cicio, olhando furtivamente para os lados, contou:

     - A Luzia não é minha neta de verdade. Peguei ela num asilo, quando ainda de colo. Era órfã de pai e mãe. Mas criei a menina como se fosse minha neta. Um homem não pode viver sem ninguém de seu, pode, padre?

     O vigário sacudiu a cabeças negativamente. E o nortista acrescentou:

     - Ela não sabe da verdade. Pensa que é minha neta mesmo. O padre Otero ficou um instante pensativo e depois disse:

     - Não desanime, seu Aguinaldo. Vosmecê está ainda forte e se a Luzia casar o Sobrado pode estar cheio de crianças dentro de poucos anos.

     - Se eu viver até lá.

     - Há de viver, sim, se Deus quiser.

     Aguinaldo fechou um olho, ficou um instante como que dormindo na pontaria e finalmente perguntou:

     - Mas será que o Velho quer mesmo?

     Dessa conversa resultou um novo donativo gordo para a Igreja. O vigário o recebeu sorrindo e a refletir assim: Esse caboclo pensa que pode comprar a dinheiro favores de Deus. Mas bendisse os cruzados do pernambucano, pois precisava deles para custear um puxado que ia fazer na casa paroquial e para comprar uns castiçais novos para o altar-mor.

    

     Quando Luzia deixou o colégio e mudou-se para Santa Fé, onde passou a ser a "senhora do Sobrado", todos acharam que, mais do que ninguém, ela merecia o título. E durante muito tempo a neta de Aguinaldo Silva foi o assunto predileto das conversas da vila. As mulheres reparavam nos seus vestidos, nos seus penteados, nos seus "modos de cidade", mas, bisonhas, não tinham coragem de se aproximar da recém-chegada, tomadas duma grande timidez e duma sensação de inferioridade. Em muitas esse acanhamento se transformava em hostilidade; noutras tomava a forma de maledicência. Luzia era rica, era bonita, tocava cítara - instrumento que pouca gente ou ninguém ali na vila jamais ouvira - sabia recitar versos, tinha bela caligrafia, e lia até livros. Os que achavam que Santa Fé não podia dar-se o luxo de ter um sobrado como o de Aguinaldo, agora acrescentavam que a vila também "não comportava" uma moça como Luzia. Para alguns severos pais de família tudo aquilo que a forasteira era e tinha constituía uma extravagância ostensiva que os deixava até meio afrontados. E quando viam Luzia metida nos seus vestidos de renda, de cintura muito fina e saia rodada; quando aspiravam o perfume que emanava dela, não podiam fugir à impressão de que a neta do pernambucano era uma "mulher perdida" e portanto um exemplo perigoso para as moças do lugar. Por outro lado, o passado escuro de Aguinaldo não contribuía em nada para melhorar a situação da moça. Aqueles homens, dum realismo rude, olhavam para o Sobrado e para seus moradores como para intrusos e acabavam dizendo: "Isso não vai dar certo".

     Os rapazes da vila, conquanto se sentissem atraídos por Luzia, concluíam quase todos que ela não era o tipo que desejavam para esposa. A moça causava-lhes um vago medo que eles não sabiam explicar com clareza, mas que em geral resumiam para si mesmos numa frase: "Não nasci pra corno". No entanto, desde o momento em que a rapariga chegara, Bolívar Cambará e Florêncio Terra ficaram fascinados por ela, cercaram-na de atenções e não perdiam pretexto para visitar o Sobrado. Faziam isso, porém, de maneira diferente. Bolívar não escondia seus sentimentos: mostrava-se como sôfrego, apaixonado, explosivo. Florêncio, entretanto, mantinha-se reservado, silencioso, mas duma fidelidade canina; portava-se, em suma, como um cachorro triste que - temendo ou sabendo não ser querido pela dona - limitava-se a ficar de longe a contemplá-la com olhos cálidos e compridos, cheio dum amor dedicado mas que não tem coragem de se exprimir.

     Aguinaldo percebera tudo desde a primeira hora e observava, deliciado, a maneira como a neta tratava os dois rapazes, mangando com ambos, dando a um e outro esperanças que ela própria se encarregava de desmanchar dias ou horas depois com um gesto, uma palavra ou um encolher de ombros.

     Como era natural a história se espalhou depressa pela vila: Bolívar e Florêncio, primos irmãos e amigos de infância, estavam apaixonados por Luzia Silva. Qual dos dois a moça iria escolher?

     - Escolhe o Florêncio - dizia um - porque é o preferido do Velho.

     - Não. O preferido do Aguinaldo é o Bolívar - afirmava outro.

     - Mas, no fim de contas, qual é o preferido da moça?

     - Decerto os dois! - maliciava um terceiro. - Ela tem olhos de mulher falsa.

     - Mas não pode casar com os dois...

     - Ué... Casa com um e depois fica amásia do outro. Gente de cidade grande não tem vergonha na cara.

     Um dia alguém disse:

     - O Florêncio e o Bolívar vão acabar brigando. É uma pena. Primos irmãos... cresceram juntos como unha e carne. Agora vem essa bruaca estrangeira...

     - Mas ela não é estrangeira. Nasceu em Pernambuco.

     - Sei lá! Não sendo continentino pra mim é estrangeiro.

      Em princípios de 1853, quando os santa-fezenses ainda comentavam o almanaque do dr. Nepomuceno, espalhou-se por toda a vila a notícia de que Luzia Silva ia contratar casamento com Bolívar Cambará.

     Um habitante antigo do lugar, que conhecera o capitão Rodrigo, murmurou:

     - Se o rapaz puxou pelo pai, tenho pena da moça...

Mas um futro, que sabia das histórias que corriam sobre o passado de Aguinaldo, retrucou:

- Mas se a moça puxou pela avó, a corrida vai ser parelha..

    

     Acordou sobressaltado, sentindo que havia soltado um grito. Pulou da cama automaticamente e ficou de pé no meio do quarto escuro, na estonteada aflição de quem se vê de súbito sem memória e não sabe quem é nem onde está - mas sente que algo de terrível está acontecendo.

     “Meu filho!”

     Donde vinha aquela voz? Da direita? Da esquerda? De onde?

     “Meu filho!” Quase sem sentir, como uma criança que tem medo da escuridão, ele gritou:

     “Mamãe!”

     A memória então lhe voltou. Era Bolívar Cambará, estava em sua casa, em seu quarto e fazia algum tempo que se deitara para dormir. Mas o medo ainda lhe comprimia o peito, e era mais terrível ainda porque ele não lhe conhecia a causa. Alguma coisa o fizera soltar um grito e acordar assustado, alguma coisa que decerto estava agora escondida num dos cantos do quarto escuro... Por isso a voz de sua mãe era uma esperança de socorro. Ele queria luz: ele queria a mãe.

     Uma porta se abriu e Bibiana apareceu com uma vela acesa na mão. A chama alumiava-lhe o rosto. E por um segundo Bolívar de novo voltou à infância. Pareceu-lhe até sentir o cheiro do óleo da lamparina. O rosto da mãe lhe deu a sensação de segurança de que ele precisava. Seu primeiro ímpeto foi o de caminhar para ela, buscando a proteção de seus seios, de seus braços, de seu ventre. Para ele mãe e luz eram duas coisas inseparáveis. Quando menino, muitas vezes acordava assustado no meio da noite, começava a chorar e só se acalmava quando a mãe acendia a lamparina e o tomava nos braços para o embalar.

     - Que foi que aconteceu, meu filho? - perguntou ela caminhando descalça para o rapaz e pondo-lhe a mão no ombro. - Está sentindo alguma coisa?

     - Não é nada, mãe.

     De repente teve vergonha da situação. Um homem de quase vinte e três anos portando-se daquela maneira...

     Bibiana empurrou Bolívar para a cama, de mansinho. Bolívar deixou-se levar.

     - Deita, meu filho.

     Ele obedeceu. Bibiana sentou-se na beira da cama, depôs o castiçal sobre a mesinha-de-cabeceira e puxou a colcha de algodão, cobrindo o filho.

     - O sonho veio outra vez?

     - Veio.

     Desde que voltara da guerra, Bolívar sonhava periodicamente com o homem que matara numa carga de lança. Claro, tinha matado muitos outros, em diversos entreveros: mas havia um que ele não podia esquecer... Vira-lhe bem o rosto no momento em que sua lança lhe penetrara o 1tórax, num estalar de costelas - uma cara contorcida pela dor e pelo medo, com o sangue a escorrer pelos cantos da boca...

     E agora, ali junto da mãe, pensando em tudo isso, Bolívar mais uma vez teve vontade de desabafar com ela, contar-lhe o que nunca contara a ninguém. Queria dizer: "Foi de mau que matei ele. O combate tinha terminado. O quadrado estava rompido. Os argentinos se entregavam. Foi então que vi aquele homem. Olhou pra mim, ergueu os braços e gritou: Amigo, amigo! Estava doido de medo, o pobre... Estava desarmado... Esporeei o cavalo, arranquei pra cima dele e enterrei-lhe a lança no peito. Eu estava como louco, meio cego... O homem caiu de costas com a lança espetada no peito e eu fiquei olhando... Era bem moço e estava de olhos vidrados. Eu matei aquele homem por maldade. Mas não sou bandido, mãe, juro por Deus que não sou!”

     Bolívar olhava para a mãe mas não dizia nada. Falava apenas em pensamento, confessava tudo. E em pensamento também chorava, tirava aquela ânsia do peito, desabafava...

     Como se tivesse ouvido as palavras que o filho não pronunciara, Bibiana começou a passar-lhe as mãos pelos cabelos e a dizer:

     - Não é nada, Boli. Guerra é guerra.

     Ela sempre lhe contava as histórias do capitão Rodrigo e as que sua avó Ana Terra lhe narrara sobre revoluções, violências e crueldades. Parecia que aquelas mulheres estavam habituadas à'idéia de que um homem para ser bem macho precisava ter matado pelo menos um outro homem.

     - Sonhei que o morto estava em cima do meu peito - disse Bolívar - e que o sangue que saía da boca dele escorria pra dentro da minha e me afogava...

     - Por que não esquece isso, meu filho? O que passou passou.

     - Mas não passou, mãe. De vez em quando o sonho volta. Cada vez que ele vem, é o mesmo que matar de novo aquele homem.

     - São os nervos, Boli. É por causa de amanhã.

     No dia seguinte ia haver uma festa no Sobrado para festejar o contrato de casamento de Bolívar com Luzia Silva. Era natural que o noivo estivesse preocupado. Bibiana tomou de novo o castiçal e ergueu-o diante do rosto de Bolívar. Viu a chama refletida nas pupilas do filho, uma pequena vela acesa em cada olho.

     - Agora dorme. Tudo passa. Fecha os olhos e faz força pra não pensar.

     Bolívar cerrou os olhos e pediu:

     - Deixa a lamparina acesa.

     - A lamparina? - estranhou ela.

     - A vela, digo.

     Lembrou-se dos tempos de menino quando suplicava: "Não apaga a luz, que eu tenho medo".

     Os dedos dela eram frescos e leves sobre sua testa. Sentiu quando ela se erguia, ouviu-lhe os passos macios nas tábuas do soalho e o ruído da porta que se fechava de mansinho. De novo teve a sensação de abandono e de inexplicável medo. No silêncio começou a ouvir o tique-taque do relógio sobre a mesinha-de-cabeceira.

     Era o relógio que pertencera a seu avô, Pedro Terra. Quando menino Bolívar costumava pedir ao velho que lhe deixasse escutar o coração do relógio. "Não é coração, Boli. É uma máquina" - explicava Pedro. O coração de Pedro Terra tinha parado para sempre. Mas o do relógio ainda continuava a bater.

     Bolívar revolveu-se na cama, e então o pensamento que estava tentando evitar, lhe veio de novo, com uma força tão terrível que lhe pôs o sangue a pulsar nas têmporas com fúria entontecedora. O quarto de súbito como que ficou cheio da presença do negro Severino.

     O suor escorria pela testa e pelas faces de Bolívar, e ele sentia a camisa pegajosa e úmida colada às costas e ao peito. Precisava sair para o ar livre, procurar a companhia de alguém. Pensou em ir acordar o primo. Florêncio era o seu melhor amigo, a única pessoa com quem se ía abrir. Sim, devia levantar-se e sair. Mas não saía. Ficou na cama, deitado de costas, com a impressão de ter o mundo inteiro em cima do peito.

     Havia uma coisa que não lhe saía da mente: Amanhã Severino vai ser enforcado por minha culpa. Todos diziam que fora o depoimento de Bolívar Cambará que o condenara. O júri se realizara havia mais de ano, o processo se arrastara, fora mandado em recurso final ao Tribunal da Relação do Rio de Janeiro, que confirmara a sentença. Severino ia ser enforcado no dia seguinte, às cinco da tarde, na Praça da Matriz... Era a primeira condenação à morte na história de Santa Fé. Na expectativa do grande espetáculo, a população estava excitada, como em vésperas de quermesse ou de cavalhadas. Iam até botar cadeiras ao redor da forca...

     Havia pouco mais de um ano aquele crime ocupara todas as atenções na vila e no município. Os habitantes antigos do lugar afirmavam que fora o mais horrível de quantos tinham lembrança. Dois tropeiros desconhecidos haviam pedido pousada numa chácara das cercanias da vila, onde morava um oleiro viúvo servido por um único escravo, Severino. Jantaram os viajantes na companhia do oleiro e durante o jantar - em que foram atendidos pelo preto - declararam ter recebido muito dinheiro da venda duma tropa de mulas. E como fossem partir no dia seguinte, antes do nascer do sol, quiseram, antes de se recolherem, pagar a hospedagem, e um deles tirou uma onça de ouro da guaiaca recheada de moedas. O dono da casa - segundo ele próprio contou mais tarde às autoridades - mostrou-se melindrado com aquele gesto e recusou receber o dinheiro. Onde se viu um gaúcho cobrar hospedagem em sua casa? Os viajantes recolheram-se ao quarto e no dia seguinte foram ambos encontrados mortos, com as cabeças esmigalhadas. Ao descobrir os cadáveres o oleiro - de acordo com seu próprio depoimento - gritou por Severino e verificou que o negro havia desaparecido. Aconteceu que na noite do crime Severino pedira guarida a Bolívar, dizendo ter fugido do amo por não poder suportar-lhe os maus-tratos. Bolívar ficou intrigado ao ver manchas frescas de sangue na camisa e nas calças do escravo.

     - Que é isso, Severino?

     - Sangue.

     - Eu sei. Mas de quem?

     O negro pareceu hesitar um instante e depois disse:

     - Meu. Foi da sova que apanhei ind'agorinha.

     - Tire a camisa. Vamos botar remédio nas feridas.

     - Não carece.

     - Tire a camisa! - ordenou Bolívar.

     Severino então começou a tremer e a balbuciar coisas que Bolívar não entendeu, e num dado momento olhou para a porta com olhos cheios de pavor, precipitou-se na direção dela, e fugiu. Foi preso no dia seguinte nuns matos dos campos dos Amarais e trazido para a vila. Chamado a depor, Bolívar contara o que vira. Interrogado pelas autoridades, o negro chorou, negando ter cometido o crime. Como as guaiacas das vítimas não tivessem sido achadas, perguntaram a Severino onde as havia escondido.

     - Não escondi nada - choramingou ele. - Não matei ninguém. Não sei nada. Sou um pobre negro.

     Contava mais, que na noite do crime o patrão o acordara a chicotadas e ameaçara-o com um facão, gritando:

     - Vai-te embora, negro sujo, senão eu te sangro!

     O oleiro, entretanto, negava tudo isso, como negara também haver surrado o escravo na noite em que os tropeiros lhe pediram hospitalidade.

     O júri foi dos mais movimentados em toda a vida de Santa Fé desde que ela fora elevada a cabeça de comarca. Entre os juizes de fato estavam Bento Amaral, Aguinaldo Silva e Juvenal Terra. O promotor foi implacável. Achava que um crime daquela natureza não podia ficar impune; tinha de ser punido com a máxima severidade - "...para que, senhores jurados, não fique estabelecido um precedente horrível que haveria de trazer a inquietude e o pavor permanentes a todos os senhores de escravos, a todas as casas, a todas as famílias". E continuou: "O depoimento do sr. Bolívar Cambará, pessoa que nos merece a maior confiança, deixa o caso claro como um cristal. Na noite do crime o negro o procurou e estava com as roupas ensangüentadas. Que dúvida pode ainda subsistir? Era o sangue das vítimas inocentes, pois se fosse o sangue do próprio escravo, como ele parecia insinuar, por que se recusou Severino a mostrar suas feridas ao homem junto do qual buscava proteção?”

     Severino foi declarado culpado por todos os juizes, menos por Juvenal Terra, que mais tarde afirmou a amigos: "Esse negro eu conheço desde menino. Brincou com o Florêncio e o Bolívar. Não é capaz de matar uma mosca. Homem e cavalo eu conheço pelo jeito de olhar".

    

     Bolívar revolveu-se na cama e ficou deitado de bruços, com os braços dobrados e os punhos cerrados debaixo do peito, sentindo o bater furioso do coração. Pensou no coração do Severino a pulsar naquele pobre peito escuro e lanhado. Decerto àquela hora o negro estava acordado na sua cela, esperando o clarear do dia de sua morte. Mas quem Bolívar via em pensamentos na cadeia não era o Severino homem feito, mas sim o menino que brincava com ele e Florêncio debaixo da figueira da praça. E esse menino agora ia morrer só por causa dumas palavras que seu amigo Boli dissera às autoridades...

     Bolívar procurou pensar em Luzia, esforçou-se por se convencer a si mesmo de que tudo estava bem: ele ia casar com a mulher que amava, com a mais linda moça de Santa Fé: um dia seria o senhor do Sobrado... Mas era inútil. Seu mal-estar continuava: aquela aflição, aquele peso no peito, a sensação de que algo de horrível estava por acontecer... E a lembrança de Luzia agravava essa sensação. E, sem compreender como, Bolívar odiou a noiva. Odiou-a por tudo quanto sentia por ela, odiou-a porque ela era bela, rica e inteligente. E odiou-a principalmente por causa de seus caprichos de mocinha mimada. Ele lhe pedira, lhe suplicara quase, que transferisse a festa do noivado para outro dia qualquer, a fim de que a cerimônia não coincidisse com a hora do enforcamento de Severino. Luzia batera pé: "Não, não e não!" O padre Otero interviera, dizendo que não era direito estarem se divertindo no Sobrado enquanto um cristão morria ali na praça. Mas Luzia não cedera. Achava que não havia nenhuma razão para modificar seus planos. Já tinham preparado tudo: os convites estavam feitos, os doces prontos... Se as autoridades quisessem, que transferissem a execução. E Aguinaldo, que sempre acabava fazendo as vontades da neta, deu-lhe todo o apoio: "Luzia é a dona da casa e da festa. Ela é quem manda".

     Bolívar sentia o pulsar do próprio sangue no ouvido que apertava contra a fronha. Seu coração batia com tanta força que parecia sacudir a cama, a casa, o mundo. E batia de medo - medo do que ia acontecer depois que o dia raiasse...

     De repente Bolívar descobriu por que sentia aquilo. Era a impressão de que ele, e não Severino, é que ia ser enforcado. Aquela era a sua última noite. Não podia dormir. Era inútil tentar. O pavor da morte mantinha-o de olhos abertos.

     Atirou as pernas para fora da cama e levantou-se. Como era seu hábito, dormia vestido. Apanhou as botas e começou a caminhar na direção da porta, procurando não fazer barulho. E quando se viu a andar pé ante pé na casa silenciosa, teve a impressão de que era um ladrão ou de que ia matar alguém... E num segundo passou-lhe pela mente uma idéia confusa e horrenda: Ele, Bolívar, tinha assassinado os dois tropeiros. Severino estava inocente. Agora se lembrava. A machadinha, os dois homens ressonando no quarto escuro. Depois o estralar dos ossos daquelas cabeças, como côcos que se partem. Bolívar respirava com dificuldade. Tinha os olhos fechados e procurava espantar aquela idéia. “Devo estar louco por pensar essas barbaridades”.

     Continuou a andar, com todo o cuidado. Mas o soalho rangeu e a voz da mãe veio do outro quarto: Bolívar!

     Por um instante ele não respondeu. Estava trêmulo, assustado, como se tivesse sido descoberto no momento em que ia cometer um crime. A porta abriu-se, e de novo lá estava dona Bibiana, com os cabelos grisalhos caídos sobre os ombros. A luz da vela, que mal alumiava o quarto, não chegava até o rosto dela.

     - Que é que o meu filho tem?

     - Não é nada, mãe. Só que não pude dormir.

     - São os nervos.

     Houve um silêncio. Bolívar calçou as botas, e depois disse:

     - Vou caminhar um pouco pra refrescar.

     - Vai, meu filho, mas não demora. Amanhã precisas estar bem disposto.

     Bolívar saiu com a impressão de que não voltaria mais, nunca mais.

    

     Era uma noite calma, e morna, de lua cheia. Bolívar começou a andar sem saber ao certo aonde ia, mas seus passos o levaram na direção da casa de Florêncio. Tinha a impressão esquisita de não estar bem acordado. Seus pés pesavam como chumbo e parecia que o chão lhe fugia às pisadas. Galos amiudavam nos terreiros e isso deixava tudo mais estranho - pois embora ele sentisse que os galos estavam cantando, esse canto não chegava a mover o ar morto da noite. Houve um instante em que Bolívar desconfiou de que tudo aquilo era apenas um sonho. Talvez fosse. Talvez de repente acordasse para verificar que estava ainda em sua cama. No entanto andava sempre, via as casas ao luar, os quintais onde árvores escurejavam, as sombras das casas na rua, os frades-de-pedra na frente da venda do Schultz, da loja do Alvarenga e da agência do correio. Ele estava acordado, não havia dúvida. E agora começava a doer-lhe a cabeça - uma dor de canseira e de tontura, um mal-estar de febre. Um gato cinzento passeava por cima dum telhado e seus olhos fuzilaram. De repente, num choque, Bolívar lembrou-se dum gato que, quando menino, ele vira um escravo enforcar no fundo do quintal, e o guincho estrangulado do animal lhe traspassou a memória como uma agulhada. E lá de novo estava Severino pendurado na forca, e o coração de Bolívar a bater-lhe como um possesso dentro do peito.

     Decerto estou doente, com febre - refletiu ele ao chegar à frente da casa de Florêncio Terra. Ficou indeciso. Precisava chamar o amigo sem acordar as outras pessoas da casa. Entrou pelo portão lateral e bateu de leve na janela do quarto do primo. Não teve nenhuma resposta. Tornou a bater com mais força, chamando: "Florêncio... Florêncio".

     Esperou. Ouviu um arrastar de pés dentro do quarto. Depois a janela se entreabriu.

     - Quem é?

     - Sou eu. O Boli.

     - Que foi que houve?

     A cabeça de Florêncio apareceu.

     - Nada. Só que não posso dormir... - começou a dizer Bolívar. E de repente sentiu vergonha daquela situação. Estava ali como um menino assustado pedindo a proteção dum mais velho. Ficou desconcertado, sem atinar com o que fazer. Florêncio compreendeu tudo e murmurou:

     - Espera um pouquinho que já saio. - E fechou a janela.

     Bolívar encostou-se na parede da casa, tirou do bolso um pedaço de fumo, desembainhou a faca e começou a fazer um cigarro. Havia no ar um perfume de madressilvas e agora, longe, um cachorro começava a uivar. De novo Bolívar pensou em Severino. Ele decerto estava ouvindo da cadeia o uivo do animal, uma lamúria agourenta, prolongada e trêmula, que Bolívar sentia repercutir-lhe dentro do peito. Pensou na "simpatia" que sua mãe costumava fazer quando ouvia um cachorro uivar: virava uma chinela de sola para o ar e imediatamente o uivo cessava.

     O vulto de Florêncio apareceu, vindo do fundo da casa. Os dois primos começaram a caminhar lado a lado, em silêncio, ganharam a rua e sem a menor combinação se dirigiram para a praça. Era assim que faziam quando crianças: mal se juntavam corriam a brincar debaixo da figueira grande.

     Pararam por um instante à frente da capela, e Florêncio, vendo que o primo tinha preso entre os dentes o cigarro apagado, bateu a pedra do isqueiro. E quando o outro aproximou a ponta do cigarro da brasa do pavio, Florêncio percebeu que os dedos do amigo tremiam.

     - Calma, tenente - murmurou ele. - Calma...

     Era assim que dizia quando estavam na véspera dum combate. Tinham feito juntos a campanha contra Rosas, e pouco antes de entrarem em ação, Bolívar ficava tão nervoso que começava a bater queixo, a tremer e às vezes rompia até a chorar. Florêncio tinha de tomar conta dele, levá-lo para o mato, metê-lo na barraca, abafar-lhe o choro como podia para que os companheiros não ouvissem, para que não pensassem que Bolívar estava com medo. Porque covarde ele não era. Quando ouvia os primeiros tiros, quando via o inimigo aproximar-se, o rapaz mudava completamente. Ficava assanhado como um potro bravo, de narinas infladas, cabeça erguida, ardendo por se meter num entrevero. E era preciso contê-lo para que não fizesse temeridades.

     Florêncio agora olhava para o primo à luz do luar. Como era difícil compreender aquele homem! Viviam juntos desde meninos e ele ainda não conseguira entender o outro, nunca sabia o que esperar dele. Era uma criatura desigual: num momento estava exaltado e fogoso, mas no minuto seguinte podia cair no mais profundo desânimo. Passava da doçura à cólera com uma rapidez que desnorteava os amigos.

     Depois que decidira contratar casamento com Luzia, seu nervosismo aumentara, e agora ele começava a portar-se como se estivesse em véspera de combate.

     Florêncio apagou o isqueiro e perguntou:

     - O sonho veio outra vez?

     - Veio - murmurou o primo, puxando uma baforada de fumaça.

     - O mesmo de sempre?

     Bolívar sacudiu a cabeça, numa afirmativa meio relutante. Depois, disse:

     - Desta vez o Severino também apareceu.

     Florêncio sempre achara que os sonhos traziam avisos de coisas que iam acontecer. Conhecia casos... Mas o dr. Winter afirmava que isso era crendice, porque os sonhos nada tinham a ver com o futuro.

     Agora os dois caminhavam calados para o centro da praça e Florêncio via que os olhos de Bolívar estavam postos na forca. Compreendeu então que era que estava roendo o amigo por dentro, mas achou melhor não dizer nada. O outro que puxasse o assunto, se quisesse.

     Sentaram-se debaixo da figueira, ficaram por algum tempo em silêncio, pensando os dois nos tempos da infância, quando vinham ali brincar com Severino. O negrinho subia na árvore, ágil e escuro como um bugio, fazia piruetas, soltava guinchos. Bolívar erguia ao rosto um pedaço de pau, fazendo de conta que era uma espingarda, apontava-o para o bugio, gritava: pei! e Severino, segundo uma combinação prévia, tinha de atirar-se ao chão e ficar imóvel - um bugio morto - até que Florêncio vinha ajoelhar-se ao pé dele, encostar o ouvido no peito do "animal" e depois declarar muito sério para o primo: "Bem no coração". Mal, porém, ele dizia essas palavras o negrinho começava a rir desesperadamente, a retorcer-se todo e a espernear. Era a hora de Florêncio tirar da cintura a sua faca de madeira e "sangrar" o bugio bem como os homens da charqueada sangravam os bois...

     O bugio vai ser enforcado amanhã - pensou Bolívar. De novo começou a sentir as batidas violentas do próprio coração. Estava sentado com as costas apoiadas no largo tronco da figueira, e houve um momento em que lhe pareceu que a árvore tinha também um grande coração que pulsava, numa cadência de medo. Aquela figueira sempre lhe dera a impressão duma pessoa, duma mulher que tivesse a cabeça, os braços e os ombros enterrados no chão e as pernas erguidas para o ar, muito abertas. Bolívar tinha treze anos quando descobriu a semelhança, e desde então começou a amar secretamente a figueira. As vezes ficava montado bem na parte em que as duas pernas da "mulher" se ligavam ao tronco; enlaçava com ambos os braços uma das coxas e, de olhos fechados, ansiado e trêmulo, ficava ali longo tempo, com o coração a bater descompassado de prazer e de medo - prazer de amar a figueira mulher; medo de que alguém aparecesse e o visse fazendo aquilo. Nunca contara seu segredo a ninguém, nem a Floréncio, pois o primo não gostava de "bandalheiras". E aquela árvore tinha sido para ele tudo: cavalo, carreta, castelo, abrigo, amante... Pensou em Luzia, imaginou-a meio enterrada no chão, de pernas para o ar. Luzia devia ter pernas bonitas. Ele ia amar Luzia como amara a figueira. Mas Luzia não era boa como a figueira, Luzia não era amiga como a figueira...

     Olhou para o Sobrado: grande, branco, imóvel ao luar. Por trás daquelas paredes sua noiva decerto dormia sem remorsos, como uma criança. Tinha tudo o que queria, todos lhe faziam as vontades, era como uma rainha. Um homem ia morrer na forca, mas que era para aquela moça mimada a vida dum homem, de cem homens?

     Bolívar olhou para o primo, tomado dum súbito desejo de contar-lhe o que sentia; mas a voz se lhe trancou na garganta. Depois, havia tanta coisa a dizer que ele não sabia por onde começar. Ficou olhando alternadamente para o Sobrado, para a forca e para a cadeia onde Severino estava preso. Galos cantavam. Dentro de algumas horas a manhã ia raiar.

     De repente, como se seus pensamentos se transformassem em palavras à revelia da vontade, Bolívar murmurou:

     - É uma barbaridade enforcarem um homem. Atirou longe o cigarro.

     Floréncio encolheu os ombros.

     - Barbaridade por barbaridade, há muitas outras no mundo e a gente acaba se habituando com elas.

     - Mas vai ser uma injustiça! - gritou Bolívar. E suas palavras foram absorvidas pelo ar parado da noite.

     Florêncio voltou a cabeça para o primo. Não lhe podia distinguir bem as feições ali à sombra da figueira, mas sentiu que no rosto dele havia sofrimento.

     - Injustiça? O júri condenou o Severino.

     - Mas o negrinho está inocente.

     - Quê?

     - Quem matou os tropeiros fui eu.

     Floréncio sentiu no peito estas palavras como um soco que lhe cortou o fôlego. Mas logo se refez e reagiu:

     - Não seja bobo. Vassuncê está mas é doente.

     Agora ele ouvia a respiração arquejante do outro, como a dum cachorro cansado. Bolívar meteu as mãos pelos cabelos e começou a sacudir a cabeça devagarinho. Foi com voz fosca que disse:

     - Mas se eu fosse me apresentar às autoridades confessando que matei os dois homens, ninguém podia duvidar da minha palavra e o Severino se salvava.

     O luar era como uma geada morna sobre os telhados. Florêncio arrancou um talo de capim e mordeu-o.

     - Vassuncê precisa é dormir, descansar - disse ele simplesmente.

     Bolívar continuava a sacudir a cabeça

     - O negrinho vai morrer por minha culpa.

            - Não diga isso, Boli. Vossuncê fez o que era direito. Contou o que viu...

     - Não sei.

     - Que é que não sabe?

     - Se contei o que vi. No princípio achei que estava falando a verdade. Mas depois do júri comecei a duvidar. Hoje não sei mais nada... Parece que o sangue era mesmo do negro...

     - Nesse caso, quem foi que matou os tropeiros?

     - Sei lá! Algum ladrão que entrou de noite pela janela. Ou, quem sabe, o dono da casa.

     Florêncio mordia o talo de capim e sua voz estava calma, resignada e triste quando ele disse:

     - Agora é tarde.

     Bolívar ergueu a cabeça e lançou um olhar na direção da cadeia.

     - Não é tarde. O Severino ainda está vivo.

     - Mas está preso, Boli, e vai ser enforcado amanhã. Florêncio sentiu a mão quente e úmida do amigo apertar-lhe o pulso com uma força quase furiosa.

     - Florêncio, ainda tem tempo!

     O rosto de Bolívar estava agora tão próximo que Florêncio lhe sentia o hálito ácido.

     - Tempo de quê?

     - De salvar o negrinho.

     - Mas como?

     - Tirando ele da cadeia.

     - Está louco?

     - Não, mas sou capaz de ficar se o Severino morrer enforcado. Não posso agüentar mais essa morte na consciência.

     - Mas o que é que vassuncê quer fazer?

     - Escuta, tem só dois guardas na cadeia. Nós somos dois...

     Florêncio agora compreendia. Cuspiu de súbito o talo de capim e sacudiu vigorosamente a cabeça.

     - Vamos até a cadeia - continuou Bolívar - amarramos os guardas, tiramos o Severino, eu dou um dos meus cavalos pra ele e mandamos o negro embora. Pode sair na direção de Cruz Alta, pode ir pra São Borja e depois pra Argentina, pra qualquer lugar. Qualquer coisa é melhor que a forca.

     Florêncio tirou do bolso um pedaço de fumo em rama, desembainhou a faca e começou a fazer um cigarro. Bolívar esperava a resposta. Só depois de algum tempo é que o primo respondeu:

            - Vassuncê está bem doido mesmo.

     - Não estou, já disse. Ainda tem tempo. Vamos.

     Florêncio picava fumo, calmo. Ele conhecia o primo. Tudo aquilo ia passar. Ainda bem que não havia ninguém por ali para ouvir aqueles despautérios.

     - Vassuncê precisa mas é de descansar. Amanhã quando raiar o dia tudo vai ficar direito.

     - Não fica. Fica pior.

     - Sabe duma coisa? Um banho no lajeado ia lê fazer bem. Vamos?

     Bolívar pareceu não ouvir o que o outro propusera.

     - Vamos tirar o Severino da prisão enquanto é tempo - insistiu. - Quando amanhecer vai ser tarde demais.

     Viam uma janela iluminada na casa da cadeia. Era o candeeiro que passava a noite aceso. Havia dois guardas que se revezavam na vigília. Às vezes ficavam acordados jogando bisca e bebendo. Contava-se que não raro ambos caíam no sono... Os olhos de Bolívar agora estavam fitos na janelinha iluminada.

     Florêncio guardou a faca na bainha e começou a amassar o fumo no côncavo da mão.

     - Nós tiramos o Severino da cadeia... - disse ele com sua voz calma - e depois, que vai ser de nós?

     Bolívar encolheu os ombros.

     - Que me importa?

     - Como, homem? Não vê que é uma coisa muito séria dar escapula pra um condenado à morte?

     - Pois então fugimos também com ele, vamos pro outro lado do Uruguai.

     - Vassuncê perdeu o juízo. Não se lembra que amanhã é o dia de seu contrato de casamento?

     - Que me importa? A vida duma pessoa tem mais importância.

     - Que tem, tem. Mas o caso aqui é diferente. Os jurados acharam que o negrinho era culpado. Se alguém errou não foi vassuncê, foi o júri.

     - Mas houve um jurado que não achou o Severino culpado. Foi o seu pai. Ele disse que conhece as pessoas pelo jeito de olhar. Ele jura que o negrinho não era capaz de cometer aquele crime. Tio Juvenal conhece as pessoas. Ele nunca se engana.

     Florêncio alisava agora a palha do cigarro.

     - O papai às vezes também se engana. Todo o mundo se engana. Ninguém é infalível. Só Deus.

     - Deus também se engana. Há muita injustiça no mundo.

     - Vossuncê precisa é dum banho frio. Por que não encilhamos os cavalos e vamos até o lajeado?

     De novo galos cantaram: eram como um relógio dando horas. Cada vez mais se aproximava o fim da noite. Bolívar olhou para o horizonte através duma boca de rua. Temia ver aquela parte do céu clarear. Mas que era mesmo que ele temia? A hora do enforcamento? A hora do noivado? O suor agora lhe entrava pelos cantos da boca, pelos olhos, e por alguns segundos ele viu a noite através duma cortina líquida: tudo trêmulo e vago. Seus próprios pensamentos pareciam encharcados de suor, estavam confusos, misturados, eram como um mingau quente de febre. Pensava estonteadamente em Severino e em Luzia: ora lhe parecia que fora Luzia quem mandara matar Severino; ora era Severino quem estava na cama de Luzia, montado nela, com seus braços negros a enlaçar-lhe as coxas; ora era Luzia quem estava na cadeia e ia ser enforcada. Depois imaginava-os todos a fugir para o Uruguai, a galope, montados em cavalos em pêlo - ele, Luzia, Florêncio, Severino - perseguidos pela polícia, perseguidos pelos galos e pelas barras do dia.

     Levantou-se, brusco.

     - Pois se vassuncê não quer ir comigo, eu vou sozinho.

     - Vai onde? - perguntou Florêncio, apesar de saber a que o outro se referia.

     - Tirar o Severino da cadeia. Florêncio soltou uma risadinha seca.

     - Mas primeiro tem que lutar comigo.

     Ergueu-se também, mas lento, com o cigarro apagado entre os dentes.

     Bolívar olhou para o amigo, cuja calma o enervava. Teve vontade de esbofeteá-lo. E - estranho - num relâmpago compreendeu que naquele momento ele tinha inveja do outro. Florêncio não sofria, era um homem livre, não ia casar-se com Luzia Silva. Sentiu também ciúme dele, porque sabia que Florêncio sempre gostara de Luzia, e esta muitas vezes dera mostras de não lhe ser indiferente. E ali estava agora o primo, pachorrento, batendo o isqueiro para acender o seu cigarro. Invejava-lhe também aquela calma, a consciência tranqüila, a segurança de suas palavras, de seus gestos, de suas convicções.

     Bolívar olhou de novo para a janela da cadeia. Atravessaria a praça correndo, armado de pistola e, entrando de repente, faria que os guardas dessem liberdade a Severino. "Corre, negro, foge! Tira o meu cavalo da estrebaria e foge pro Uruguai. Depressa!”

     Passou a mão pelo rosto, enxugando o suor. Sentiu que não podia fazer nada do que pensava. Era loucura. Severino estava perdido. Ele estava perdido. Todos estavam perdidos. Todos menos Luzia. Ela sempre fazia e tinha o que queria. Ela e Florêncio. E então de repente lhe veio uma idéia. "Eu solto o Severino e fujo com ele pra Argentina. Florêncio fica e acaba casando-se com Luzia." Ali estava a solução! Nesse momento verificou que estava desarmado. Tinha de ir até a casa para buscar dinheiro e suas armas. Entraria na ponta dos pés, sem fazer barulho... Lembrou-se da mãe. Que ia ser dela se ele fugisse? Por alguns instantes teve na mente a imagem de Bibiana, de camisola, os cabelos grisalhos soltos, uma lamparina na mão... A mãe morreria de desgosto se ele fugisse.

     Florêncio pitava serenamente. Bolívar aproximou-se da figueira e passou-lhe a mão pelo tronco áspero. Quando meninos eles tinham gravado seus nomes a ponta de faca naquele tronco. Como não soubesse escrever, Severino desenhara ali apenas uma cruz. Agora o coitado ia morrer na forca, talvez nem o enterrassem como cristão. Não teria de seu nem uma cruz. Bolívar prometeu a si mesmo que havia de comprar para Severino uma sepultura com uma cruz e uma inscrição, como sepultura de branco. Passara a fúria. Lentamente tornou a sentar-se. O chão estava tépido como um corpo humano. Pensou em Luzia e desejou estar na cama com ela, não para amá-la, mas para ter um seio onde repousar a cabeça cansada e chorar. Porque a vontade de chorar lhe crescia aos poucos no peito. Por alguns instantes lutou com ela, mas por fim cedeu, e o choro rompeu-lhe da garganta num soluço. Escondeu o rosto nas mãos e ficou a soluçar convulsivamente.

     Florêncio baixou os olhos para o amigo e pensou: “Ele tem medo da Luzia”. Mas não disse nada. Olhou para o Sobrado e pensou na moça. Agora que ela ia casar com o primo, deixava de ser mulher para ele. Estava tudo acabado. Doença de amor se cura com o tempo. No fundo ele se sentia feliz por Luzia não o ter escolhido. Feliz não era bem a palavra: aliviado, isso sim. Luzia não era mulher para ele nem para Bolívar. Ia casar com o rapaz por capricho ou por birra, ninguém sabia bem ao certo por quê. Amor não era, que Luzia não era mulher para isso. Pobre do Boli! Se não botasse cabresto na esposa desde o primeiro dia, estava perdido. Luzia era como certos cavalos que precisavam de rédea curta. Mas qual! Boli estava cego de amor, ia passar a vida dominado por ela. Em tudo aquilo só havia uma esperança: era tia Bibiana, que ia morar também no Sobrado. Ela cuidaria de Boli, seria sempre um escudo para o filho. Luzia era voluntariosa, autoritária, cheia de caprichos, mas ia encontrar pela frente uma adversária de respeito. Tia Bibiana tinha a cabeça no lugar: era uma mulher dos bons tempos. Estava habituada a lidar com gente, e tinha a fibra dos Terras - concluiu Florêncio com certo orgulho, tirando uma baforada.

     Nesse instante viu que um vulto se aproximava. Reconheceu os contornos do dr. Carl Winter. O médico alemão era inconfundível. Ninguém mais em Santa Fé se vestia daquele jeito engraçado. Ninguém ali usava chapéu alto como chaminé nem aquelas roupas estapafúrdias.

     A poucos passos da figueira Carl Winter parou.

     - Boa noite, doutor! - exclamou Florêncio.

     Por alguns instantes o médico ainda hesitou mas, por fim, reconhecendo o rapaz, respondeu:

     - Boa noite, Florêncio. Boa noite.

     Deu mais alguns passos à frente.

     - Que anda fazendo por aqui a estas horas? Virou lobisomem?

     Winter soltou a sua risada em falsete e antes de responder ficou a acender um de seus charutinhos.

     - Fui chamado para ir ver o coronel Bento. Comeu charque arruinado e ficou com cãibras no estômago.

     - Deve ter sido charque da charqueada dele - observou Florêncio.

     Foi então que Winter viu Bolívar.

     - Ah! Bolívar. Não tinha visto o amigo. Boa noite.

     Bolívar fungou.

     - Boa noite.

     - Está resfriado?

     - Um pouco.

     Florêncio aspirava com certo prazer a fumaça do charutinho do médico. Ali em Santa Fé só ele fumava aqueles charutos do tamanho dum cigarro. O dr. Winter era um homem fora do comum, que vestia roupas de veludo nas cores mais extravagantes, com uns esquisitos coletes de fantasia. Fazia uns dois anos que estava na vila e diziam que tinha emigrado da Alemanha por se ter metido numa revolução. Seus inimigos afirmavam que ele não era formado, mas o dr. Winter tinha em casa um diploma para quem quisesse ver: era um papel escrito em alemão que ele guardava dentro dum canudo de lata. O Schultz garantia que o diploma era legítimo.

     Fez-se um silêncio. O dr. Winter parecia estar olhando para a forca e Florêncio, temendo que ele falasse em Severino, procurou levar a conversa para outro rumo.

     - É grave? - perguntou.

     - Grave? - repetiu o médico.

     - A doença do coronel Bento.

     - Ach! Um purgante de sal amargo resolve tudo.

     Florêncio sempre admirava a maneira correta com que aquele homem se exprimia em português; tinha um sotaque muito forte, era verdade, carregava nos erres, mas quanto ao resto falava fluentemente como um brasileiro educado, quase tão bem como o juiz de direito ou o padre. E diziam que sabia também o seu latim e que em sua casa tinha muitos livros escritos em línguas estrangeiras. Florêncio continuava a aspirar a fumaça do charutilho do médico, de cheiro tão forte como o do seu cigarro de palha.

     - Ainda não se decidiu a pitar um crioulo, doutor? O outro sacudiu a cabeça.

     - Nem a dormir com mulatas - respondeu com voz risonha. - Há muitos produtos desta terra que não são para meu paladar.

     Florêncio sorria. De cabeça baixa, protegido pela sombra, Bolívar pedia a Deus que o médico fosse logo embora.

     - Pelo cigarro crioulo eu respondo - assegurou-lbe Florêncio, mostrando os dentes num lento sorriso. - Também nunca fui apreciador de mulatas.

     - Que é que diz o Bolívar?

     Bolívar não respondeu. Limitou-se a erguer a cabeça para o médico.

     - Ele agora vai sentar o juízo - disse Florêncio. - Amanhã fica noivo.

     O dr. Winter coçou o queixo onde crescia, revolta, uma barbicha ruiva.

     - Não acha então que devia estar na cama descansando? - perguntou com jeito quase paternal.

     Florêncio apressou-se a responder:

     - O homem perdeu o sono e então viemos pra cá palestrar e tomar a fresca.

     O médico resmungou qualquer coisa, puxou uma baforada de fumo, cuspinhou para o lado e disse:

     - Bom. Vou ver se durmo um pouco. Dizem que a noite foi feita para dormir.

     - Dizem - repetiu Florêncio.

     - Boa noite, rapazes.

     - Boa noite, doutor.

     Winter afastou-se na direção de sua residência. Morava numa meia-água atrás da igreja, ao lado da casa do padre. Por alguns instantes Florêncio acompanhou-o com os olhos. Gostava do dr. Winter. Sentia por ele uma espécie de respeitosa confiança, como a que a gente sente por uma pessoa séria e idosa. No entanto o médico não teria muito mais de trinta anos. Devia ser aquela barba e aqueles óculos que lhe davam um ar assim tão respeitável.

     - Será que ele notou? - perguntou Bolívar.

     - Notou o quê?

     - Que eu estava chorando...

     Florêncio encolheu os ombros.

     - Sei lá! Esse homem parece que não olha pra nada mas enxerga tudo com o rabo dos olhos.

     Houve um curto silêncio e depois Bolívar perguntou:

     - Será que vão mandar o dr. Winter examinar o corpo?

     - Que corpo, homem?

     - O do Severino, depois que enforcarem ele.

     - Pára com isso, Boli. Que homem custoso!

     Bolívar olhou para o Sobrado e tornou a pensar em Luzia.

    

     Naquele mesmo instante o dr. Carl Winter - que atravessava a praça com suas passadas lentas e largas - olhava para a casa de Aguinaldo Silva e também pensava em Luzia. Tinha-a na mente tal como a vira no Sobrado na festa de seu aniversário, toda vestida de preto, junto duma mesa, a tocar cítara com seus dedos finos e brancos. Nessa noite ficara fascinado a observá-la, e houve um minuto em que uma voz - a sua própria a sussurrar-lhe em pensamento - ficara a repetir: Melpômene, Melpômene... Sim, Luzia lhe evocava a musa da tragédia. Havia naquela bela mulher de dezenove anos qualquer coisa de perturbador: uma aura de drama, uma atmosfera abafada de perigo. Winter sentira isso desde o momento em que pusera os olhos nela e por isso ficara, com relação à neta de Aguinaldo, numa permanente atitude defensiva. Numa terra de gente simples, sem mistérios, Luzia se lhe revelara uma criatura complexa, uma alma cheia de refolhos, uma pessoa, enfim - para usar da expressão das gentes do lugar - ''que tinha outra por dentro". Ao conhecê-la, Winter ficara todo alvoroçado como um colecionador de borboletas que descobre um espécime raro no lugar mais inesperado do mundo. Ao contrário, porém, do que sentiria um colecionador, não desejou apanhar aquela borboleta em sua rede; ficou, antes, encantado pela idéia de seguir-lhe o vôo, de observá-la de longe, viva e livre. Que mistérios haveria dentro daquela cabeça bonita?

     Boas coisas não havia de ser - concluíra ele. O instinto lhe insinuava isso. Lembrou-se de seu professor de Clínica, segundo o qual em medicina, como em tudo mais, o instinto é tudo. Seu olho clínico, ou seu sexto sentido fazia soar uma sineta de alarme toda vez que ele via Luzia Silva. E sempre que visitava o Sobrado, enquanto o velho Aguinaldo contava com sua voz cantante histórias do sertão pernambucano, ele ficava a examinar furtivamente, com olhares oblíquos, a menina Luzia. Que tinha ela de tão estranho? Talvez os olhos... Eram grandes e esverdeados... Ou seriam cinzentos? Era difícil chegar a uma definição, pois lhe parecia que eles mudavam de cor de acordo com os dias ou com as horas. Possuíam uma fixidez e um lustro de vidro e pareciam completamente vazios de emoção. Winter descobrira que Luzia fitava as pessoas com a mesma indiferença com que olhava para as coisas: não fazia nenhuma distinção entre o noivo, uma mesa ou um bule. Pobre Bolívar! Winter achava absurdo que duas pessoas tão desiguais estivessem para casar, morar na mesma casa, dormir na mesma cama e juntar-se para produzir outros seres humanos. Bolívar mal sabia ler e assinar o nome: era um homem rude. Carl não acreditava que Luzia o amasse; para falar a verdade não a julgava capaz de amor por ninguém... Quanto ao rapaz, era natural que estivesse fascinado por ela. Winter sabia o quanto era difícil para qualquer homem que estivesse na presença de Luzia desviar os olhos de seu rosto. Reconhecia que ele próprio sentia pela senhora do Sobrado um certo desejo físico. Era, porém, um desejo sem ternura, um desejo frio e perverso.

     Winter afastou os olhos do casarão e baixou-os para a terra onde se projetava sua sombra alongada. E então de repente sentiu o silêncio da noite e aquela impressão de mistério que o envolvia sempre que ele caminhava sozinho de madrugada, pelas ruas desertas. Sentira isso na sua aldeia natal, em Heidelberg, em Paris, em Berlim. Era como se nessas horas solitárias ele fosse uma espécie de fantasma de si mesmo.

     "Melpômene" - murmurou. E imediatamente lhe veio uma idéia curiosa: nunca ninguém pronunciara aquele nome naquela vila. Talvez nem naquela província... Depois, mais alto, como se se dirigisse à própria sombra, repetiu: Melpômene. “Nunca” - refletiu – “eu sou o primeiro. E o primeiro também que passeia sob este céu com estas roupas”. E rindo o seu riso interior o dr. Winter olhou para a própria silhueta no chão e teve mais que nunca consciência da maneira como estava vestido: a sobrecasaca de veludo, verde, as calças de xadrez preto e branco, muito ligadas às coxas e às pernas, e principalmente aquele chapéu alto, que era um dos grandes espetáculos de Santa Fé.

     Sabia que suas roupas davam muito que falar. Os colonos alemães em sua generalidade haviam já abandonado seus trajos regionais e adotado os dos naturais da província. Mas ele, Winter, preferia conservar-se fiel à indumentária européia e citadina, e continuava a vestir-se bem como se ainda vivesse em Berlim ou Munique. Por outro lado, no que dizia respeito às coisas do espírito, também continuava a usar as modas européias; e não queria mudar, pois sabia que no dia em que se adaptasse e começasse a comer e vestir como os nativos, mais da metade do encanto de viver naquela terra remota estaria perdida. Winter sempre amara sua independência: era um individualista. Não via, pois, melhor maneira de se afirmar como um indivíduo, e de defender sua independência do que a de andar vestido daquele modo inconfundível.

     Antes de entrar em sua rua lançou um olhar enviesado na direção da figueira grande. Ela lhe dera a impressão duma enorme galinha a acolher sob as asas aqueles dois pintos - Florêncio e Bolívar. Ele vira claramente que um dos pintos estava assustado... Se eu fosse me casar com Luzia Silva - refletiu Carl Winter jogando ao chão o toco do charuto - também perderia o sono... E entrou em casa.

     O cheiro de picumã e mofo - que ele tanto detestava mas com o qual já começava a habituar-se - envolveu-o num abraço familiar. Winter acendeu o candeeiro, franzindo o nariz ao cheiro do sebo frio; brotou dele uma chama amarelenta e móvel, e aos poucos as coisas daquele quarto como que foram crescendo da sombra para fazer-lhe companhia: a cama-de-vento, a gamela de pau que lhe servia de bacia, o jarro de folha amassada, as cadeiras de palhinha, a estante com os livros, a mesa de pinho, sebosa e guenza, com seus papéis, o tinteiro, o secador de louça e a pena de pato... As paredes caiadas estavam manchadas de umidade.

     Que contraste aquele ambiente oferecia quando Winter o comparava com os aposentos que tivera na Alemanha! Mas aquela rusticidade, aquela pobreza davam-lhe um absurdo prazer como o que uma pessoa sente ao se infligir certos castigos sem propósito: tomar banhos frios no inverno, dormir em camas duras.

     Winter pendurou o chapéu num prego cravado na parede e começou a despir-se lentamente. Ouvia o ressonar pesado da negra Gregória, uma escrava que ele comprara havia pouco mais de ano e à qual dera alforria imediatamente. Ela lhe preparava a comida e tomava conta da casa. Era uma preta de carapinha amarelenta, velha e reumática, de pernas elefantinas. Sua presença fazia-se sentir duma maneira muito aguda, impunha-se à vista, ao olfato e ao ouvido, porque Gregória cheirava mal, era grande, movia-se com ruído e passava quase todo o dia cantando, falando consigo mesma ou arrastando pesadamente os pés inchados pela cozinha.

     Por que era que ele insistia em continuar naquela casa? Extravagância? Autoflagelação? Ou simples preguiça? Talvez fosse preguiça. A verdade era que costumava divertir-se imaginando o que diriam seus amigos de Berlim se o vissem naquele ambiente. Ouvindo os roncos de Gregória, Carl disse para si mesmo: Eu podia estar morando com Gertrude Weil numa casinha limpa de Eberbach, com vasos de flores nas janelas. No entanto estou nesta pocilga, em Santa Fé, na companhia da negra Gregória. “Ach, du lieber Gott”!

     Estava agora completamente nu. Tinha um corpo muito esguio e ossudo, dum branco de marfim, pintalgado de sardas e recoberto duma penugem fulva. Ficou a imaginar o que aconteceria se um dia saísse a andar assim despido pelas ruas do povoado. Certamente aqueles homens sairiam a caçá-lo a tiros e as mulheres que o vissem soltariam gritos de horror.

     E só de pensar nisso Carl ficou sacudido de riso. Baixou os olhos na contemplação do próprio corpo. Era magro e dessangrado como o Crucificado de Van der Weyden que ele vira em Viena. Apenas o Cristo da pintura não usava óculos. Nem era ruivo. Nem formado em medicina. Nem... Ach!... Du bist ein Hanswurst, Carl!

     Estendeu-se na cama e apanhou um livro de poesias de Heine. Mas não abriu o volume. Pô-lo em cima do ventre, achando gostoso o contato fresco da capa de couro negro. Cerrou os olhos e em breve verificou que estava sem sono. Abriu o livro e começou a ler um poema, mas com a atenção vaga. Tornou a fechar o volume, soprou a lamparina, e o ar, que estava amarelento, ficou azulado: o foco de luz deixou de ser a velha candeia de ferro para ser a janela escancarada por onde entrava o luar. E nesse retângulo violeta Winter começou a ver o crivo miúdo das estrelas.

     Tirou os óculos e pô-los com todo o cuidado em cima da cadeira, ao lado da cama. E de repente, como já acontecera antes tantas vezes, sentiu-se tomado de uma sensação de estranheza que ele poderia toscamente resumir nestas palavras: "Eu, Carl Winter, natural de Eberbnch, formado em medicina pela Universidade de Heidelberg, completamente nu deitado numa cama tosca, num quarto mal cheirante, numa casa miserável na vila de Santa Fé, perdida no meio das campinas da província de São Pedro do Rio Grande, Brasil, América do Sul". Como? Por quê? Para quê? Enlaçou as mãos sobre o ventre e ficou de olhos cerrados a pensar. Era o melhor estratagema que conhecia para aprisionar o sono. Procurava narcotizar-se com pensamentos até dormir. E nunca conseguia ver claro o momento em que cruzava a tênue linha que separa o devaneio do sono.

     Como? Por quê? Para quê? Não cometi nenhum crime. Não sou nenhum imbecil. O mundo é muito largo. Eu podia estar no Cairo, em Bombaim, em Cantão, em Caracas. E por que não em Munique, Berlim ou mesmo Eberbach...

     Sempre hesitava antes de responder, quando lhe perguntavam por que deixara a pátria. Certo, não era um "colono" como os outros alemães que se haviam estabelecido às margens do rio dos Sinos. Não viera à procura do Eldorado nem da Galinha dos Ovos de Ouro. Refugiado político? Talvez fosse essa a sua classificação. Sua malícia, entretanto, recusava o título dramático e levava-o a lesumir sua história em poucas palavras: "Estou aqui principalmente porque Gertrude Weil, a Fräulein que eu amaua, preferiu casar-se com o filho do burgo-mestre. Isso me deixou de tal maneira desnorteado, que me meti numa conspiração, que redundou numa revolução, a qual por sua vez me atirou numa barricada. Ora, essa revolução fracassou e eu me vi forçado a emigrar com alguns companheiros".

     Carl Winter gostava de relembrar a série de acontecimentos fortuitos que o haviam trazido de Berlim a Santa Fé, através das mais curiosas escalas. Desembarcara no Rio de Janeiro com o diploma, a caixa de instrumentos cirúrgicos e algum dinheiro no bolso, decidido a estabelecer-se ali, fazer clínica, juntar uma pequena fortuna para um dia - depois que seu governo tivesse indultado os revolucionários e ele conseguido esquecer Trude Weil - retornar à Alemanha. Achou, porém, que o Rio era insuportavelmente quente, tinha um incômodo excesso de mosquitos e mulatos, além da ameaça permanente da febre amarela.

     Meteu-se com armas e bagagens num patacho que se fazia de vela para a província de São Pedro - que lhe diziam ter um clima semelhante ao do sul da Europa - e desembarcou na cidade do Rio Grande, onde julho o esperou com ventos gelados que cheiravam a maresia e nevoeiros que o lembraram agradavelmente dum inverno que ele passara em Hamburgo, quando adolescente. Apresentou suas credenciais à prefeitura e, sabendo existir na cidade uma grande carência de médicos, ofereceu-se para trabalhar gratuitamente no hospital de caridade local. Foi lá que um dia, fazendo sua visita matinal aos doentes, encontrou deitado num daqueles catres sujos e malcheirosos, num contraste com as caras tostadas dos nativos, um homem louro, extremamente jovem, e de aspecto europeu. Deteve-se, interrogou-o e verificou que se tratava de um alemão que viera com as tropas mercenárias que o governo brasileiro havia contratado para lutar contra os soldados do ditador Rosas. E o pasmo de Winter chegou ao auge quando o moço lhe declarou chamar-se Carl von Koseritz e ser descendente duma família nobre do ducado de Anhalt. Foi, pois, com uma mistura de surpresa e cepticismo que o médico ouviu aquele homem de feições finas, ali estendido num sórdido leito de hospital de indigentes, contar-lhe que seu irmão Kurt fora ministro do duque e sua irmã Tony, dama de honor da duquesa.

     - Mas como foi que veio parar neste país, nesta cidade, neste hospital?

     - Fui renegado pela minha família - sorriu o moço.

     O médico ia perguntar: "Por quê?" - mas conteve-se a tempo. era uma pergunta indiscreta. Talvez o rapaz houvesse falsificado a firma do pai em alguma letra para pagar dívidas de jogo... Ou então, amante de alguma condessa, tivesse sido obrigado a matar o conde num duelo...

     Von Koseritz, porém, apressou-se a explicar que, sendo estudante em Berlim, se metera, contra a vontade dos pais, na revolução de 48. E acrescentou:

     - E já que estava em ritmo de guerra, achei melhor vir para cá com os "Brumers" para lutar contra o tirano Rosas. Sabe o que eu era? - perguntou a sorrir com malícia. - Canhoneiro do 2° Regimento de Artilharia! - Suspirou. - Mas aconteceu que a tropa se insubordinou e foi dissolvida. Assim um dia me vi doente e sem recursos nesta cidade estranha. Eis a minha história.

     Winter olhava para o outro numa confusão de sentimentos. Tudo aquilo lhe cheirava vagamente a ópera-bufa. O rapaz, porém, lhe mostrou os documentos comprobatórios de sua identidade. Tinha um belo nome: Carlos Júlio Cristiano Adalberto von Koseritz. Nascera em 1830: estava portanto com apenas vinte e um anos!

     - E agora? - perguntou Winter. - Que vai fazer depois que der alta do hospital?

     - Ficar nesta província.

     - E plantar batatas como nossos compatriotas de São Leopoldo?

     - Não. Abrir uma escola e ensinar; fundar um jornal e escrever...

     - Mas como, se nesta terra se fala o português?

     - Dentro de pouco tempo estarei habilitado a escrever nessa língua tão bem como na minha.

     Era assombrosa a certeza que aquele moço tinha de seu ruturo.

     - E sabe duma coisa, doutor? - perguntou Von Koseritz, passando os dedos pela barba loura que lhe cobria o rosto - talvez eu ainda venha a me naturalizar brasileiro...

     - Mas... e sua família?

     O outro Carl deu de ombros.

     - Um dia eles vão compreender que não precisei de seu nome nem de seu auxílio para abrir caminho na vida.

     Aquele diálogo marcara o início duma boa e sólida amizade. E fora por conselho de Carl von Koseritz que Carl Winter transferira residência de Rio Grande para Porto Alegre. Perguntara-lhe o barão numa carta: "Por que não vai clinicar na bela cidade que os açorianos ergueram às margens dum magnífico estuário e no meio de colinas verdes? Entre as muitas vantagens que ela oferece, tem a de ficar a pequena distância de São Leopoldo, que meu caro amigo poderá visitar periodicamente quando sentir a nostalgia do Vaterland".

     Winter, porém, não tardou a declarar guerra à cidade açoriana. Para principiar não era o que ele esperava. Gostou do cenário mas. detestou os atores. Por outro lado, não conseguiu fazer muita clínica, pois os médicos locais o hostilizavam. Os costumes da terra o irritavam tanto como os habitantes, e por fim Carl, só por birra, começou a meter-se em discussões políticas, o que lhe valeu mais inimizades. Escrevia longas cartas ao barão dando-lhe conta de seus agravos e idiossincrasias. Von Koseritz respondia-lhe com sugestões animadoras: "A única vantagem que um homem solteiro tem sobre o casado é a da mobilidade. Pois se não gosta de Porto Alegre, mude-se. O meu caro doutor é um homem livre. Por que não tenta as colônias? Vá visitá-las a título de experiência. Talvez goste delas e fique por lá". Winter foi, não gostou e não ficou. Concluiu que seus compatriotas o irritavam tanto ou mais que os nativos. Muitos deles eram estúpidos e cheios de preconceitos. Havia-os de toda a natureza e de todas as origens, inclusive os que se envergonhavam do título de "colonos" e declaravam não terem vindo para o Brasil trazidos pela fome, pelo desejo de fugir aos impostos ou de enriquecer: eram, isso sim, exilados políticos. Alguns chegavam a insinuar até vagos antepassados de sangue azul. Em sua maioria ficavam indignados quando alguém os julgava mecklenburgueses, pois contava-se que as primeiras levas de colonos vindas de Mecklenburgo eram formadas de mendigos e presidiários.

     Winter encontrara compatriotas que haviam assimilado todos os maus hábitos dos naturais da terra, e vira até colonos alemães que viviam amasiados com mulatas e negras, das quais tinham filhos. Moravam em ranchos miseráveis, andavam descalços e já estavam roídos de vermes e sífilis. Em sua maioria, porém, prosperavam, moravam bem, ganhavam dinheiro, aumentavam as propriedades. Desprezavam o caboclo e eram por sua vez desprezados pelos estancieiros, dos quais não gostavam, embora parecessem temê-los. Era triste ver como em seus baús e sacos, junto com roupas e tarecos, haviam trazido para o Brasil todos os prejuízos, rivalidades e mesquinhezas de suas aldeias natais. Não compreendiam - os insensatos! - que lhes seria possível passar a vida a limpo naquela pátria nova.

     Winter decidiu então procurar a zona rural do Rio Grande, onde não havia núcleos coloniais alemães. Sempre desejara conhecer as terras que ficavam para as bandas de oeste. Um dia comprou uma bússola, um mapa e um cavalo e meteu-se pelo interior da província. Queria ir até as ruínas das reduções jesuíticas, cujas lendas tanto o seduziam. E assim, de estância em estância, de povoado em povoado, melhorando e enriquecendo cada vez mais seu português, fazendo curas aqui e ali e recebendo como pagamento hospitalidade, mantimentos ou dinheiro, foi penetrando o interior, subiu a serra e, antes de entrar na zona missioneira, chegou a Santa Fé num entardecer de maio. Pernoitou na vila e ficou de tal modo fascinado pelo lugar, que resolveu ali permanecer por algum tempo, esquecido da visita às Missões. Que havia naquele vilarejo pobre que tanto lhe falava à fantasia? Não sabia explicar. Gostara daquelas ruas tortas, de terra batida e muito vermelha, em contraste com o intenso verde das campinas em derredor. Achara um encanto rude e áspero nas casas e nas caras das gentes, na pracinha de árvores copadas, nos quintais lamacentos onde roupas secavam ao sol. Por uma razão misteriosa Santa Fé lhe parecera uma vila familiar, que ele conhecia dum sonho ou duma outra vida: tinha a impressão de haver já cruzado aquelas ruas num passado muito remoto e só agora descobria que sempre desejara voltar ali. No entanto aquele conglomerado de casinholas sem estilo nem história não se parecia em nada com sua cidade natal de Eberbach. Por ali não corria nenhum rio que lhe pudesse lembrar o Neckar, não se via nenhuma elevação de terreno que sugerisse a serra de Odenwald. E estava claro que só num pobre espírito de paródia ele poderia comparar o sobrado de Aguinaldo Silva com o velho castelo dos tempos de Barba-Roxa, uma das relíquias históricas de Eberbach. Mas a verdade era que Winter pensara passar apenas uma semana em Santa Fé e no entanto lá estava havia já mais de dois anos! Por quê? Por quê? Por quê?

     Por alguns instantes, de olhos sempre cerrados, Carl Winter ficou a passar a mão pelo tórax, sentindo o relevo das costelas. Por quê? Um mosquito esvoaçava-lhe em torno da cabeça, tocando em surdina seu violino miudinho. Mas por quê? Dona Bibiana dera uma explicação simples: Santa Fé tinha feitiço. E explicara: "O meu homem, o falecido capitão Rodrigo, um dia chegou pra passar a noite na vila e ficou aqui o resto da vida, que infelizmente foi mui curta". Sim, Santa Fé devia ter um poderoso sortilégio. Gregória acreditava em mandinga. (Luzia Silva devia ter mandinga naqueles olhos de réptil.) Desde que chegara à vila, Winter fazia projetos de "ir embora na próxima semana". Ficar era absurdo, não havia nenhuma razão ponderável para isso. Podia ir para Buenos Aires, ou voltar para qualquer capital européia onde houvesse teatro, música (que falta ele sentia de teatro e de música!) e museus onde de quando em quando pudesse encher os olhos e o espírito com a beleza das obras dos grandes mestres. Queria um lugar que lhe oferecesse conforto e oportunidades de agradável convívio humano. Mas os dias e as semanas passavam e ele ia ficando. Assustava-se à idéia das léguas que teria de vencer, montado no lombo dum cavalo ou então sacolejando dentro duma diligência desconjuntada para chegar a Porto Alegre e Rio Grande, a fim de tomar um navio. Outras vezes deixava-se ficar à espera dum acontecimento: umas cavalhadas, umas carreiras, um batizado ou um casamento para o qual fora convidado. Mas a verdade era que ia ficando por pura inércia. Durante o inverno vivia a praguejar em alemão. O minuano entrava assobiando pelas frestas de sua casa e o frio lhe enregelava os membros. Punha todas as roupas quentes que tinha, vivia na proximidade dos fogões, erguia os olhos coléricos para o céu nublado e jurava que iria embora na semana seguinte. Mas vinham dias de sol e o céu, despejado de nuvens, ficava de novo dum limpo azul. Carl Winter gostava das laranjas que as geadas faziam amadurecer, das bergamotas gordas e douradas, sentia um prazer especial em beber todas as manhãs leite morno, recém-saído dos úberes da sua vaca malhada, e adorava os churrascos que. Gregória lhe assava no fundo do quintal e que ele comia com gosto, respingando de farinha a barba ruiva. E havia os hábitos: a conversa de após o almoço na loja do Alvarenga, as partidas de xadrez e as discussões com o juiz ou com o vigário, os serões semanais no Sobrado, quando Luzia tocava cítara e torturava Bolívar com sua indiferença, e uma escrava vinha com a panela de pinhão cozido ou com pratos cheios de bolos de polvilho. No fim de contas o inverno não durava toda a vida e se a gente tivesse um pouco de paciência a primavera não tardaria muito a vir... E Winter ia ficando. Não raro apaixonava-se por um caso de sua clínica. O coronel Amaral se tomara de amores por ele e o fato de contar com a simpatia e a proteção do chefe político da terra dava-lhe facilidades e vantagens que ele não aproveitava por pura preguiça, pela mesma preguiça que o fazia ir ficando, ficando sempre...

     Gostava de dar pela manhã longos passeios a pé pelo campo, sentindo no rosto a brisa fresca que cheirava a sereno batido de sol. Nessas ocasiões deixava os olhos passearem pelas coxilhas verdes onde as macegas pareciam as cabeleiras de milhares de Fräulein soltas ao vento.

     (Trude! Trude! Ich liebe dich, aber das ist ja unmöglich...) Numa carta que dirigira a Von Koseritz, descrevendo-lhe a vida que levava, dissera:

     "Ich berausche mich an der Weite dês Horizontes"- tomo bebedeiras de horizontes. Nunca em toda a sua vida vira céus mais largos nem sentira tamanha impressão de liberdade. Na paisagem ele descobria então o mais poderoso motivo de sua permanência em Santa Fé. É que ela lhe dava uma vertiginosa sensação de ser livre, de não ter peias nem limites. De certo modo naquela vida ele realizava pela primeira vez seu velho ideal de não assumir compromissos definitivos com ninguém nem com coisa alguma. Não ter amo nem mestre, e poder - ah! principalmente isso - poder de vez em quando dar-se o luxo da solidão, da mais absoluta e hermética solidão, eram positivamente coisas voluptuosas! A paisagem daquela província perdida nos confins do continente americano era doce e amiga, supinamente civilizada, um cenário digno de abrigar a gema da raça humana. Parecia que ao criá-la Deus tivera em mente povoá-la de figuras como Platão, Sócrates, Goethe e Shakespeare. No entanto por ali andavam homens rudes como Bento Amaral ou então aberrações humanas como aquele gnomo que se chamava Aguinaldo Silva. Nem mesmo Luzia pertencia à paisagem. Havia naquelas distâncias e campinas, lagoas e horizontes, uma pureza e uma inocência que ele não sentia na neta do pernambucano.

     O pôr-do-sol de Santa Fé também o deixava exaltado. Em certos dias de outono subia à coxilha do cemitério para ver os crepúsculos vespertinos, que eram longos e fantasticamente coloridos. Em certas horas o céu do poente tomava uma tonalidade esverdeada e transparente: era como se a cor dos campos se refletisse no vidro do horizonte. E sobre toda a paisagem em torno pairava uma vaga neblina violeta que acentuava as sombras, tingia as pessoas, os animais e as coisas, parecendo aumentar a quietude do ar e da hora. Winter ficava imóvel junto dos muros do cemitério - entre o silêncio dos mortos e aquela fantasmagoria do céu - vendo nas nuvens castelos das lendas do Reno, perfis de profetas barbudos, monstros antediluvianos, rebanhos de carneiros brancos e rosados, exércitos em fuga, vulcões, ou fabulosas cidades de gelo iluminadas pelo clarão de incêndios. Mas quando não havia nuvens os crepúsculos eram doces - azul desbotado, malva e rosa - e a paisagem adquiria uma pureza e uma simplicidade tão grandes que Carl Winter ficava com lágrimas nos olhos e começava a murmurar versos de Heine, e ao mesmo tempo a achar-se muito piegas e muito romântico por estar naquela atitude, fazendo e sentindo aquelas coisas. E desse modo - através de seu eu cínico e de seu eu sentimental - ele gozava duplamente da situação.

     Adquirira o hábito de falar consigo mesmo em voz alta. Fazia-o em alemão, em geral quando caminhava pelas ruas da vila ou saía em seus passeios solitários pelos arredores. Os caboclos miravam-no intrigados - Winter percebia com o rabo dos olhos. Mas mesmo quando encontrava estranhos continuava em seu solilóquio, pois tinha a impressão de que, como falava alemão, a coisa toda perdia o seu caráter absurdo. Ouvira um dia uma das velhotas da vila dizer: "O alemão é louco da cabeça". Mein Gott! Louco da cabeça. Lúcido demais, isso sim. E era essa lucidez que às vezes o impedia de gozar melhor a vida.

     Um dia seu eu romântico lhe perguntara: "Carl, quando voltas para casa?”

     Com casa ele queria dizer - a pátria, a cidade natal, Eberbach. "Ach!"- respondera o seu eu cínico. "Quando a Alemanha for unificada e eu não correr o perigo de ser preso. E quando Trude Weil estiver tão gorda e feia que meu coração já não possa mais bater de amor por ela.”

     Winter deu um tapa no ar, procurando apanhar o mosquito e silenciar aquele violino enjoativo. Trude... Trude... Quando se olhava no espelho Winter compreendia por que Gertrude o tinha esquecido em favor do filho do burgo-mestre. Seus olhos eram dum cinzento frio e feio; seus cabelos, dum louro avermelhado como o das barbas de milho das roças de Santa Fé; sua pele, branca e oleosa, com manchas rosadas, lembrava salsichas cruas. Não. Ele não tinha a menor ilusão quanto à sua aparência física. Trude era uma rapariga de bom gosto e uma criatura sensata. Dono duma loja de Delicatessen, o filho do burgo-mestre era gordo, corado e tinha uma beleza sólida e estúpida. A escolha não podia ter sido melhor. Grande rapariga! Sensata Fraulein!

     E Carl Winter de novo começou a apalpar o tórax e as pernas, como se tivesse certo orgulho de seu corpo anguloso e feio ou como se o fato de ser magro e desengonçado o divertisse.

     Tentava agora lembrar-se de Gertrude. Não podia. O mais que via em seus pensamentos era uma silhueta de mulher de tranças louras, e com uma face vazia de feições. Mas era ainda com um certo desfalecimento de coração que pensava nela. A ferida estava cicatrizada - concluía - mas a cicatriz era sensível, comichava muito e ao menor descuido podia abrir-se e sangrar...

     Mas como pode a gente amar uma mulher de cujas feições não se lembra mais com nitidez? “Será que eu amo a idéia de Trude mais que sua pessoa? Quem sabe? Ach!”

     Winter revolveu-se na cama, ficou deitado de lado e finalmente resolveu erguer-se e ir até a janela. Foi. Debruçou-se no peitoril e ficou olhando para o quintal da casa do vigário. Nu, debruçado a uma janela, em Santa Fé, olhando para o quintal da casa do padre Otero. Mein Gott! Tudo aquilo parecia impossível; pelo menos era improvável...

     As estrelas brilhavam. Do galinheiro do vizinho veio um ruído de asas. Raposa? Não. Se fosse, haveria um pânico geral. Um galo cantou num terreiro distante. Winter ficou a pensar no que havia de contar daquela província a seus amigos, se um dia voltasse para casa.

     A paisagem era civilizada, mas os homens não. Tinham rudes almas sem complexidade, e eram movidos por paixões primárias. A lida dos campos e das fazendas tornava-os ásperos e agressivos. Lidar com potros bravos, curar bicheiras, sangrar e carnear o gado, laçar, fazer tropas - eram atividades violentas que exigiam fortaleza não só de corpo como também de espírito. (Winter sempre prometia a si mesmo tomar nota daquelas reflexões num caderno, mas nunca chegava a fazê-lo. Ach, és um vadio, Cari!) Depois havia as guerras. Era raro passar uma geração que não visse pelo menos uma guerra ou uma revolução. E como eram primitivas aquelas guerras em que brasileiros e castelhanos se engalfinhavam - primitivas na estratégia e nos armamentos. Mas nem por isso eram menos brutais e cruéis que as guerras européias. Winter ouvia sempre contar histórias de entreveros, de cargas de lança, de atos de coragem e desprendimento mas também de crueldades e traições. Em muitos casos os soldados lutavam descalços e armados de lanças de pau; eram mal alimentados e raramente ou nunca recebiam seu soldo. Poucos sabiam ao certo por que lutavam, mas havia na província a tradição de "pelear com os castelhanos", e seus homens encaravam as invasões como uma fatalidade, como um ato de Deus - uma espécie de praga periódica tão inevitável como uma seca ou uma nuvem de gafanhotos. Mercê dessas lutas haviam surgido verdadeiros senhores feudais na província. Eram os estancieiros como o coronel Amaral, a quem o governo amparava e dava privilégios, na certeza de que na hora da guerra eles viriam com seus peões, agregados, amigos e assalariados para engrossar o exército regular. Winter achava esquisito sabor em comparar estancieiros como Bento Amaral com os Junker prussianos; e quando via a cicatriz em forma de P que ele tinha numa das faces, não podia deixar de fazer paralelos entre os duelos acadêmicos de Heidelberg e o feroz corpo-a-corpo como aquele em que o falecido marido de dona Bibiana havia deixado sua marca no rosto do adversário.

     Dona Bibiana! Ali estava uma criatura de valor. Com umas duzentas matronas como aquela estaria garantido o futuro da província. Entretanto o destino das mulheres naquele fim de mundo era bem melancólico. Não tinham muitos direitos e arcavam com quase todas as responsabilidades. Sua missão era ter filhos, criá-los, tomar conta da casa, cozinhar, lavar, coser e esperar. Dificilmente ou nunca falavam com estranhos e Winter sabia que um forasteiro que dirigisse a palavra a uma senhora corria o risco de incorrer na ira do marido, do pai ou do irmão dessa senhora, que lhe viria imediatamente "tirar uma satisfação". Os homens, esses podiam sair em aventuras amorosas, a fazer filhos nas chinocas que encontrassem pelo caminho, nas escravas ou nas concubinas; mas ai de quem ousasse olhar mais demoradamente para suas esposas legítimas! Eram estas em sua maioria analfabetas ou de pouquíssimas letras e tinham uma assustadora tendência para a obesidade. (Trude! Trude! Toma cuidado.) Eram tristes e bisonhas, e as contínuas guerras quase não lhes permitiam tirar o luto do corpo; por isso traziam nos olhos o permanente espanto de quem está sempre a esperar uma notícia trágica.

     O código de honra daqueles homens possuía um nítido sabor espanhol. Falavam muito em honra. No fim de contas o que realmente importava para eles era "ser macho". Outra preocupação dominante era a de "não ser corno". Não levar desaforo para casa, saber montar bem e ter tomado parte pelo menos numa guerra eram as glórias supremas daquela gente meio bárbara que ainda bebia água em guampas de boi. E a importância que o cavalo tinha na vida da província! Para os "continentinos" o cavalo era um instrumento de trabalho e ao mesmo tempo uma arma de guerra, um companheiro, um meio de transporte; para alguns gaúchos solitários as éguas serviam eventualmente de esposa. Winter conhecia ali homens que à força de lidar com cavalos começavam já a ter no rosto traços eqüinos.

     Mas era preciso ter paciência e compreender que aquele era um país novo, ainda na sua primeira infância. Havia nas gentes da província um certo acanhamento desconfiado que nos homens se transformava num ar agressivo. Falavam alto, com jeito dominador, de cabeça erguida. Entre fascinado e assustado, Winter assistira a várias carreiras em cancha reta, e mais de uma vez o haviam chamado para atender algum homem que fora estripado num duelo por causa duma "diferença de pescoço" ou de qualquer outra dúvida quanto à decisão do juiz. Gostava de ver certo tipo de gaúcho que se sentava no chão para jogar cartas e antes de começar o jogo cravava sua adaga na terra, entre as pernas abertas, numa advertência muda ao adversário.

     Os lavradores daquela província só agora começavam a conhecer e usar o arado bíblico. E ninguém ali - suprema medida duma civilização! - sabia fazer bom pão e bom vinho.

     Tratava-se positivamente duma sociedade tosca e carnívora, que cheirava a sebo frio, suor de cavalo e cigarro de palha. As casas eram pobres, primitivas, sem gosto nem conforto, quase vazias de móveis; em suas paredes caiadas não se via um quadro, uma nota de cor que lhes desse um pouco de graça. No inverno o minuano entrava pelas frinchas, cortante como uma navalha. Nos dias de chuva os homens traziam barro para dentro de casa nas suas botas ou nos pés descalços. Havia em tudo uma rusticidade e uma aspereza que estavam longe de ter o encanto antigo e a madureza das coisas e gentes camponesas da Baviera, da Pomerânia ou do Tirol - onde existia uma tradição no que dizia respeito a móveis, roupas, comidas, danças, lendas e canções. Os "homens machos" da província de São Pedro pareciam achar que toda a preocupação artística era, além de inútil, efeminada e por isso olhavam com repugnada desconfiança para os que se preocupavam com poesia, pintura ou certo tipo de música que não fossem as toadas monótonas de seus gaiteiros e violeiros.

     Como era escassa a música daquela gente! Não passava duma cantilena que tinha o ritmo do trote do cavalo, um lamento prolongado, pobre de melodia.

     Infelizmente em Santa Fé Winter tinha de contentar-se com as peças que Luzia dedilhava na cítara ou então com a música que ele próprio produzia. Na Alemanha fizera parte dum quarteto de cordas de amadores, como violinista. (Hans, Hugo, Joseph, onde estais a estas horas?) Reuniam-se nas noites de sábado para tocar Mozart, Beethoven e Schubert, beber cerveja e fumar cachimbo nos intervalos entre um e outro quarteto.

     Carl olhou para o céu estrelado e por alguns momentos ficou a ouvir fragmentos de melodias do passado. Depois fez meia-volta e, grave e nu, caminhou até o lugar onde estava o estojo do violino, abriu-o e tirou dele o instrumento com o ar de quem ergue o cadáver duma criança de pequeno esquife negro. Feriu as cordas com o indicador, afinou-as como pôde e depois começou a tocar em surdina a Serenata de Haydn. A musiquinha doce encheu o quarto, fugiu para a noite.

     “Nunca esta melodia andou no ar de Santa Fé” - pensou Winter com esquisita satisfação. Continuou a tocar marcando o compasso com o pé longo e descarnado, enquanto em sua mente Hans, Joseph e Hugo faziam o acompanhamento em pizzicato. Era como se o velho quarteto de amigos se tivesse reunido de novo para um serão musical.

    

     Na praça, sob a figueira, Bolívar dormia, recostado ao velho tronco, com a cabeça caída sobre o peito, a boca entreaberta. A seu lado, fumando em paz, Florêncio velava o sono do amigo, como um anjo da guarda.

    

     Sentada na cama, com o busto muito teso, as mãos pousadas no colo, Bibiana contemplava o filho que, diante do pequeno espelho, procurava dar a laçada na gravata de seda preta. Ela viu que o colarinho alto e engomado sufocava o rapaz, e que sua roupa domingueira de casimira preta o deixava contrafeito e ao mesmo tempo irritado. O suor escorria-lhe em grossas bagas pelo rosto, empapando-lhe o colarinho e a camisa. Bolívar fungava e bufava, impaciente, enquanto seus dedos desajeitados lutavam em vão com a gravata.

     Como ele está abatido! - refletiu Bibiana. - Também, passou a noite em claro e não é brincadeira ficar noivo duma moça como Luzia Silva. Tem de estar nervoso mesmo...

     - Não posso! - exclamou Bolívar, dando um puxão na gravata. - Não sei arrumar esta porcaria.

     - Tenha paciência, meu filho.

     - Não posso!

     - Pode, sim. Querer é poder.

     Bibiana lembrou-se de sua avó e achou graça por ter falado exatamente como ela. Querer é poder. Se Ana Terra estivesse ali agora ia ficar orgulhosa do bisneto. Se o capitão Rodrigo pudesse ver o Bolívar crescido...

     Seus olhos de repente se turvaram de saudade. E ela viu o marido em pensamento. Apeava do cavalo, de bombachas brancas, esporas de prata, lenço vermelho no pescoço e caminhava para ela de cabeça erguida e olhos atrevidos: "Como lê vai, minha prenda?”

     A voz do filho cortou-lhe o devaneio.

     - Não tem jeito. Não posso. Bibiana ergueu-se e caminhou para ele.

     - Deixe ver. Quem sabe se sua mãe acerta...

     Bolívar alçou um pouco o queixo. A cabeça de Bibiana mal lhe chegava aos ombros. Enquanto seus dedos procuravam dar a laçada, ela foi envolvida pelo calor do corpo suado do filho e não pôde evitar um pensamento que lhe pareceu vagamente indecente: O cheiro do pai. Sentiu também como batia forte o coração do rapaz e como seu peito arfava. Lembrou-se dos tempos em que o embalava nos braços e sorriu para esta lembrança.

     - De que é que está rindo? - quis ele saber.

     - De nada. Duma coisa que pensei.

     Depois, mudando de tom, perguntou:

     - Está nervoso?

     - Não - mentiu ele.

     Tinha na cabeça uma forca e uma voz que cochichava: "Daqui a pouco vão matar o Severino". A apreensão e o medo como que lhe apertavam o coração, insuportavelmente.

     - Pronto - disse Bibiana, dando o último toque na laçada. - Veja se está direito.

     Voltou a sentar-se na cama. Bolívar mirou-se no espelho.

     - Acho que está - disse.

     Tomou dum pente e começou a passá-lo na cabeleira preta e ondulada.

     Foi então que Bibiana percebeu que ela também estava nervosa. Não era só por causa do pobre do negro Severino que ia morrer. Era também por causa do noivado. Seu segredo - um segredo tão grande que não tivera a coragem de contá-lo a ninguém, tão grande que às vezes tinha medo de comentá-lo consigo mesma - o seu imenso segredo como que se lhe avolumava agora dentro do peito, apertando-lhe o coração, e tornando-lhe custosa a respiração. Ninguém compreendia por que tinha ela aprovado o casamento do filho com a neta de Aguinaldo. Só ela sabia o motivo...

     Lembrava-se duma conversa que tivera com o irmão:

     - Mana, vassuncê fez mal - dissera Juvenal, com seu jeito sério e sossegado. - Fez muito mal em ajudar esse noivado. Não compreendo como é que uma pessoa ajuizada como vassuncê faz gosto nesse casamento. A Luzia não é mulher pro Boli. E uma moça de cidade criada com mimo, e sem a menor serventia.

     Ela ficara calada, apertando os lábios para evitar que seu segredo se escapasse. Podia contar tudo ao Juvenal. Não era uma pessoa do mesmo sangue? Não era o seu único irmão? Mas não contou, e por isso sentiu aumentar o peso daqueles pensamentos secretos.

     Juvenal tinha dito mais:

     - Depois, o Aguinaldo é um ladrão. Não sei como é que vassuncê pode esquecer que esse homem roubou as terras de nosso pai.

     - Quem lhe disse que esqueci?

     - Pois se não esqueceu, pelo menos parece.

     - Eu sei o que estou fazendo, mano.

     E estas palavras cortaram a discussão. Juvenal encolhera os ombros, murmurando:

     - Queira Deus que tudo saia bem. Mas eu duvido.

     Sim, um dia Pedro Terra necessitara de recursos para plantar uma lavoura de linho e trigo (sempre a mania do trigo!) e por isso fora obrigado a pedir dinheiro emprestado a Aguinaldo Silva, dando-lhe como garantia sua casa e o terreno de esquina, cujo valor era três vezes maior que o do empréstimo. Numa sucessão de safras infelizes a lavoura se fora águas abaixo e como, vencido o prazo da hipoteca, Pedro não tivesse dinheiro para resgatá-la e Aguinaldo não quisesse dar-lhe a menor prorrogação, as propriedades dos Terras passaram inteiras para as mãos do avô de Luzia. Foi com dor no coração que Pedro abandonou sua casa, pois Aguinaldo queria o terreno para construir nele um sobrado. Bibiana lembrava-se de que o único comentário que o pai fizera no dia em que se mudara para um rancho de barro, resumia-se em poucas palavras: "Ainda bem que a Arminda está morta". E nunca mais falou no assunto. Mas via-se no rosto dele que alguma coisa o estava roendo aos poucos por dentro. Começou a definhar, a envelhecer, não tomava interesse em mais nada e vivia triste, com olhos de cachorro escorraçado. Chorou - sim, chorou como Bibiana jamais vira homem algum chorar - no dia em que pedreiros começaram a derrubar-lhe a casa. Era como se aquelas macetas, martelos e picaretas que golpeavam as paredes de sua meia-água estivessem também a quebrar-lhe os ossos, um por um.

     Agora lá estava o Sobrado como um intruso em cima daquela terra querida. Era como se o casarão do pernambucano houvesse esmagado a casinha onde vivera Ana Terra e onde ela, Bibiana, noivara com o capitão Rodrigo. Lá estavam ainda as árvores que Pedro ajudara a plantar com suas próprias mãos e amava quase tanto como a seus próprios filhos. Sempre que passava pelo Sobrado, Bibiana lançava um olhar para aquelas laranjeiras, pessegueiros, cinamomos e marmeleiros e tinha a sensação de que eles eram parentes seus que a espiavam, tristes, por trás das grades duma prisão. Era por isso que continuava a alimentar a certeza de que aquela terra ainda lhe pertencia e que portanto o Sobrado era também um pouco seu.

     O tempo passou. Dizem que tempo é remédio para tudo. O tempo faz a gente esquecer. Há pessoas que esquecem depressa. Outras apenas fingem que não se lembram mais...

     Quando Aguinaldo começou a procurar e adular Bolívar e Florêncio, ela teve vontade de dizer-lhes: "Não falem com esse excomungado. Foi ele quem matou meu pai de desgosto". Mas não disse. Os rapazes eram ainda muito novos quando todas aquelas coisas tristes haviam acontecido. E mesmo que ela dissesse, não adiantava nada. Os moços nunca aceitam muito as razões dos velhos. Além disso, o diabo do nortista era jeitoso, sabia falar bem, tinha mel na voz. E quando Luzia chegou da Corte e os meninos começaram a andar atrás dela como cachorrinhos assanhados ao redor duma cadela, seu primeiro ímpeto foi o de levar Boli para longe, a fim de evitar que ele se apaixonasse pela forasteira.

     Foi então que lhe veio aquela idéia doida... A coisa aconteceu de madrugada. Ela acordou de repente, pensando no marido. Teria sonhado com ele? Não se lembrava. Mas ficou em todo caso pensando na noite da morte de Rodrigo... Ela estava sozinha em casa, com o coração pulando no peito e uma apertura na garganta; ouvia o pipocar do tiroteio e esperava em agonia o fim do combate. E quando o padre Lara lhe apareceu, não foi preciso que ele dissesse uma única palavra. Ela adivinhou tudo: tinham matado seu homem! Mais tarde lhe contaram que o capitão recebera um balaço no peito quando tentava tomar o casarão dos Amarais. Tomar o casarão.

     Sentada na cama, no quarto escuro, ela começou a pensar no Sobrado, nas suas árvores, em Luzia e em Bolívar. Tomar o Sobrado... Se Bolívar casasse com Luzia, ele ficava sendo o dono do Sobrado. Ela, Bibiana, iria viver com o filho, voltaria para o seu chão... Aguinaldo estava velho e não podia durar muito tempo... No princípio ia ser difícil viver com aquele corcunda, sob o mesmo teto. Mas a casa afinal de contas era grande, e sua posse valia todos os sacrifícios...

     Naquela noite Bibiana tomou a grande resolução. Ia casar Bolívar com Luzia. A moça podia ser leviana, podia ser isto e mais aquilo. Mas seu filho afinal tinha nas veias o sangue do capitão Rodrigo, e nunca um Cambará se deixaria dominar por uma mulher. Fosse como fosse, ela estaria sempre junto dele para ampará-lo e dar-lhe conselhos...

     Estava resolvido: ia tomar o Sobrado. Não de assalto, aos tiros, como o capitão Rodrigo. Agora não havia nenhuma pressa. Era mulher, tinha paciência, estava acostumada a esperar... Que era um ano, dois anos, dez anos? Um dia Aguinaldo morre, Bolívar fica de dono de tudo, eu volto pras minhas árvores, vou ver nascer os filhos de meu filho, vou ajudar a criar meus netos...

     Bibiana agora sorria para seus pensamentos. Mas no fundo do coração ela temia o que pudesse acontecer.

    

     Faltavam poucos minutos para as quatro quando Florêncio apareceu.

     - Está quase na hora - disse ele. - Vamos embora?

     Por que será que esse menino não olha direito pra mim? - estranhou Bibiana.

     - Vamos, Boli - disse ela. - O noivo não pode chegar tarde.

     Dirigiu-se à outra peça para apanhar o guarda-sol, e ao passar pelo sobrinho, perguntou:

     - E o Juvenal?

     Sem encarar a tia o rapaz deu uma resposta evasiva:

     - O papai está em casa.

     - Brabo com a gente?

     Florêncio hesitou.

     - N... não. Por que havia de estar?

     - Ele é contra este noivado.

     - Não é bem assim, titia.

     - É. Eu sei.

     - A senhora compreende... O velho é opiniático.

     - Basta ser Terra.

     Florêncio sorriu, brincando com o chapéu. O suor escorria-lhe pela testa e seus olhos estavam estriados de sangue. Coitado - pensou Bibiana. E sorriu com simpatia para o sobrinho.

    

     Saíram. A claridade da tarde era tão forte que por um instante os deixou ofuscados. Começaram a caminhar de olhos apertados. Sob o guarda-sol aberto, Bibiana ia muito tesa no seu vestido de cassa preta, ladeada pelos dois rapazes. Ar parado. As sombras sobre a terra vermelha eram dum preto arroxeado. Corvos voavam contra o azul desbotado e luminoso do céu.

     Bolívar sentia o sangue martelar-lhe as têmporas com fúria compassada, e a cabeça agora lhe doía tanto que parecia prestes a estourar. Pensava simultaneamente no Sobrado e na forca, em Severino e em Luzia. O colarinho dava-lhe uma sensação de estrangulamento, e sob a grossa roupa preta, seu corpo estava já todo úmido de suor.

     Andaram por algum tempo em silêncio. Iam cumprimentando os conhecidos que se achavam às portas de suas casas ou que espiavam por cima das cercas dos quintais. Ondina, a filha do Alvarenga, assomou à sua janela, sorriu e disse:

     - Então, dona Bibiana, é hoje o grande dia?

     Era pálida, tinha uma voz meiga, e olhos negros duma tristeza humilde de ovelha.

     - É verdade - respondeu a mãe de Bolívar. - A sua vez também há de chegar, Ondina.

     Florêncio viu os olhos da rapariga pousarem um instante nos seus, muito a medo, mas dum modo que o deixou perturbado. Desajeitado, bateu com dois dedos na aba do chapéu.

     Quando já estavam longe de Ondina, Bibiana voltou a cabeça para o sobrinho e murmurou:

     - Uma boa moça pra vassuncê casar, Florêncio. - Deu meia dúzia de passos em silêncio e depois prosseguiu: - E muito prendada, sabe fazer renda de bilro como ninguém, é sossegada, boa dona-de-casa e uma doceira de mão-cheia.

     Florêncio nada disse. Coçou a ponta da orelha, encabulado, pigarreou de leve e continuou a olhar para a frente na direção da capela.

     - E é bem bonitinha - acrescentou Bibiana. - Mas por que é que vossuncê está com cara de velório, meu filho?

     Bolívar não respondeu. O suor fazia arder-lhe as faces recém escanhoadas e uma dor latejante na cabeça deixava-lhe as idéias confusas.

     - Ele anda triste por causa do Severino - explicou Florèncio. Estavam agora os três a menos duma quadra da praça e já podiam ver o movimento das pessoas que procuravam lugares em torno da forca. Lenços, roupas e vozes alegres ao sol - aquilo parecia uma festa.

     - É o diabo - concordou Bibiana. - É o diabo. Eu também tenho pena do negro. Afinal de contas a gente viu ele crescer como se fosse uma pessoa da família... - Suspirou. - Mas não foi pelo que eu fiz que ele vai ser enforcado.

     Estas palavras doeram em Bolívar.

     - Mas vão cometer uma injustiça! - exclamou ele. -- O Severino está inocente!

     Bibiana achou melhor não discutir. Ficou pensando, apreensiva, no que podia acontecer na hora do enforcamento. Bolívar estava nervoso: a forca tinha sido erguida bem na frente do Sobrado... Sim, teria sido melhor que Luzia houvesse concordado em transferir a festa para outro dia.

     Começaram a atravessar a praça. Um homem achava-se sentado numa pedra, alisando uma palha de milho com as costas da faca. Era o Chico Carreteiro. Ao ver o grupo o caboclo dirigiu-se a Bolívar e caçoou:

     - Então vamos ter hoje dois enforcamentos ao mesmo tempo, não?

     Mostrou os dentes escuros num sorriso rasgado. Bolívar teve vontade de atirar-se sobre ele e partir-lhe a cara a bofetadas. Cerrou os punhos, olhou duro para a frente e não respondeu. Bibiana, porém, sorriu para o carreteiro e disse:

     - É verdade, seu Chico, é verdade.

     - É preciso ser muito malvado pra gozar com o sofrimento alheio - observou Florèncio em voz baixa, olhando as pessoas que disputavam lugares ao redor do cadafalso. Tirou o relógio do bolso e olhou o mostrador. - E ainda falta mais duma hora!

     Aproximavam-se do Sobrado que lá estava, muito branco, com suas janelas de caixilhos azuis, o telhado pardo e limoso, as vidraças chamejando ao sol. Como ficavam bonitos os azulejos do portão assim num dia claro - refletia Bibiana. E seus olhos saudaram as árvores: "Tenham paciência. Qualquer dia eu venho tomar conta de vassuncês".

     O capitão Rodrigo naquela noite de 1836 correra armado de espada e pistola para a casa dos Amarais... Mas ela agora ia tomar o Sobrado completamente desarmada: levava apenas um guarda-sol na mão e aquele segredo no peito. O dono da casa ia recebê-la de braços abertos.

    

     Sentado em uma cadeira de respaldo alto e lavrado - que achava supinamente incômoda - o dr. Winter passeava em torno o olhar curioso. Fora o último dos convidados a chegar ao Sobrado e lamentava ter perdido a arenga que Aguinaldo Silva fizera aos presentes para anunciar o contrato de casamento da neta com Bolívar Cambará. A vasta sala de visitas estava muito clara de sol e Carl notou que o reflexo tricolor da bandeirola duma das janelas tingia a face e o pescoço de Luzia. Uma estigmatizada - fantasiou ele. Achou-a perversamente linda. Estava ela sentada no sofá ao lado do noivo, vestida de crinolina verde, de saia muito rodada com aplicações de renda; tinha cravado nos cabelos dum castanho profundo grande pente em forma de leque, no centro do qual faiscava um brilhante. Winter pensou imediatamente na bela e jovem bruxa moura que o diabo, segundo a lenda que corria pela província, transformara numa lagartixa cuja cabeça consistia numa pedra preciosa de brilho ofuscante. Como era mesmo o nome do animal? Ah! Teiniaguá. A sua Musa da Tragédia havia agora virado teiniaguá. Winter pensava essas coisas e sorria, apertando o charutinho entre os dentes.

     O dr. Mascarenhas conversava animadamente com Aguinaldo. Bibiana gritava ao ouvido da esposa do juiz, que era surda, e a boa senhora lhe respondia com sua voz fosca e branda. Winter percebeu que trocavam receitas de doces e gastavam açúcar e ovos em grande profusão: era, por assim dizer, uma conversa temperada de canela, cravo e noz-moscada. Bolívar parecia nervoso e Winter sentia no ar algo de pressago e equívoco que começava a deixá-lo um pouco inquieto.

     Sentado numa cadeira, pitando tranqüilamente seu cigarro de palha, Florêncio de vez em quando lançava um olhar morno na direção de Luzia e do primo. O padre Otero não chegara ainda, pois estava ocupado com Severino: tinha de prepará-lo para morrer e devia assisti-lo até o último momento.

     Winter julgava perceber no rosto do dono da casa certo desapontamento ante o fato de não ver ali na sala a maioria das pessoas que convidara para a festa. Toda a gente sabia que os Amarais detestavam Aguinaldo Silva e recusavam-se a pôr os pés no Sobrado. Quanto aos outros, era também sabido que não morriam de amores pelo pernambucano, pois raro era o santa-fezense que não se julgasse de qualquer forma lesado por ele ou que não tivesse pessoa da família ou amigo de peito entre as vítimas do que eles chamavam "as bandalheiras do corcunda". Além disso - refletiu Winter - muitos dos convidados decerto acharam que seria mais divertido ficar na praça para ver Severino estrebuchar na forca do que vir para o Sobrado ouvir Luzia tocar cítara.

     Aguinaldo, desinquieto como sempre, andava dum lado para outro na sala.

     Com sua corcunda pronunciada, a cabeça triangular, a barba de chibo, o avô de Luzia lembrava a Winter um gnomo em versão cabocla.

     - Isso está muito desanimado, minha gente! - exclamou o velho. - Até parece velório de pobre. Luzia, toque um pouco de música. Vamos animar a festa.

     Deu dois pulinhos, esfregando as mãos fortemente uma contra a outra, e gritou na direção da cozinha:

     - Siá Rosa, mande trazer a refrescalhada!

     Bolívar passava o lenço vagarosamente entre o colarinho e o pescoço. A cabeça ainda lhe doía e agora a sede, uma sede desesperada, secava-lhe a goela, ressequia-lhe a boca. Um refresco chegava em boa hora.

     - Vamos, menina, toque um pouco! - tornou a pedir Aguinaldo.

     Luzia sacudiu a cabeça de leve: o diadema chispou.

     - É muito cedo ainda, vovô. Depois eu toco.

     Tinha uma voz grave e musical, uma voz - achava Winter - cujo registro correspondia ao da viola. Era quente, úmida, profunda, veludosa - tão excitante que parecia vir-lhe do sexo e não da boca - refletiu ainda o médico. A comparação podia ser grosseira; pelo menos ele nunca a poderia fazer em voz alta. Entretanto, era exatamente isso que ele sentia. Pensou em Trude, cuja voz fina e melodiosa lembrava a dum oboé. Que contraste!

     Bolívar nunca conseguia explicar a si mesmo por que ficava tão excitado quando a noiva falava. Aquela voz tinha feitiço, punha-lhe uns arrepios no corpo. Quando a ouvia, ele tinha ímpetos de saltar sobre Luzia, rasgar-lhe as roupas e amá-la com fúria. Agora, porém, eram outros os sentimentos que o perturbavam. Metade de seu ser estava na sala: a outra metade, lá fora. Seus olhos de instante a instante voltavam-se para a janela, mesmo contra sua vontade. Uma sensação de perigo iminente apertava-lhe o peito. Ele sabia que às cinco em ponto Severino ia ser enforcado; era por isso também que não perdia de vista o relógio grande de pêndulo que estava a um canto da sala contígua, e o qual ele via através da porta. Eram quatro e vinte: o pêndulo de latão oscilava compassadamente. As cinco Severino ia ficar pendurado na forca, balançando dum lado para outro.

     Bolívar olhou para as mãos muito brancas de Luzia, que repousavam sobre o verde da saia, segurando o leque: seus dedos eram finos, compridos, delicados, e estavam cheios de anéis. Olhou para as próprias mãos rudes, queimadas de sol, cabeludas e sombreadas de veias. As mãos dele nada tinham a ver com as dela. No entanto em breve um padre ia uni-las para sempre. Bolívar percebeu que a noiva o contemplava e sentiu seu mal-estar aumentar, pois sabia que seu rosto estava revelando todos os seus segredos. Levou automaticamente o lenço às faces, ficou a fingir que enxugava o suor, mas na verdade o que queria era escondê-las.

     Um escravo entrou com uma bandeja cheia de copos de limonada e começou a andar à roda, oferecendo-os aos convivas.

     - Chegue sua cadeira pra cá, doutor! - convidou o juiz de direito, dirigindo-se ao médico. - Faz tempo que não trocamos idéias. É. Faz tempo.

     Winter obedeceu. Aguinaldo deu-lhe um copo de refresco, dizendo:

     - Sinto muito não ter uma boa cerveja pra oferecer ao amigo.

     - Ach! Não faz mal.

     - Dizem que em São Leopoldo já se fabrica boa cerveja - comentou o dr. Nepomuceno. - Seus compatriotas, dr. Winter, são especialistas em cerveja. - Inclinou a cabeça, numa reverência. - Como em muitas outras coisas mais. - E repetiu: - Como em muitas outras coisas mais.

     Falava sempre com ar sentencioso, por mais terra-a-terra que fossem as coisas que dissesse. Orgulhava-se de ser um conhecedor profundo da política nacional, que acompanhava através dos jornais da Corte com escrupuloso interesse e com a imparcialidade que convinha a um juiz.

     - Eu estava dizendo ao sr. Aguinaldo - contou ele, inclinando a cabeça na direção de Carl Winter - que se o marquês de Olinda tivesse ficado no governo com seu ministério conservador, as coisas teriam tomado outro rumo. Ele era contra a nossa interferência nas questões do Prata. Mas veio o Patilino Sousa e seguiu a política intervencionista, fez aliança com Urquisa e o resultado foi a guerra contra Rosas.

     - Mas ganhamos essa guerra! - exclamou Aguinaldo, com os bigodes e a pêra respingados de limonada. - E ali estão dois moços que viram a coisa de perto!

     Lançou para Bolívar e Florêncio um olhar cheio duma ternura quase paternal.

     A esposa do juiz dizia a Bibiana:

     - Agora, a senhora sabe, quindim gasta muito ovo. Mas o Nepomuceno é louco por quindim.

     A outra, porém, não a escutava. Olhava para o filho com uma sensação de amoroso orgulho que chegava quase a ser sufocante. Parecia vir dele uma onda de calor que a envolvia como um abraço. Mas quando Bibiana desviou o olhar de Bolívar e focou-o em Luzia teve a 2impressão de receber de repente um sopro de gelo. Diziam que o minuano vinha dumas montanhas geladas do Chile e da Argentina. Pois Luzia parecia mesmo uma montanha coberta de geada. É bonita - refletiu Bibiana - isso ninguém pode negar. Mas é uma boniteza má, uma boniteza de pecado. Bolívar precisa domar essa potranca no primeiro dia do casamento, senão está perdido.

     - ... e o ano passado eu quis fazer marmelada branca mas não pude acertar direito o ponto - prosseguia a esposa do magistrado, com seu peito magro de tísica a arquejar.

     Bibiana voltou para ela uns olhos onde havia um tépido interesse e sorriu para dar a entender à interlocutora que a escutava. Mas, na verdade, naquele momento ela estava era sentindo o Sobrado. Não! Ela estava sentindo seu chão. A casa de seu pai ficava naquele mesmo lugar onde agora estava o Sobrado. Faz de conta que esta é a nossa varanda. Ali está a parede empenada, que vovó dizia que estava grávida. Ali a mesa, com as cadeiras; lá naquele canto, a talha. Papai está pitando, sentado na cadeira de balanço. Eu até vejo a fumaça do cigarrão dele. A mamãe está fazendo croché perto da mesa. Eu estou aqui e o capitão Rodrigo, que chegou há pouco, pediu licença e está picando fumo pra fazer um crioulo. Por que será que papai não fala com ele? Birras de velho. Não faz mal: com o tempo ele vai acabar gostando do genro. Ninguém resiste àqueles olhos de gavião. Eu até nem posso olhar direito pra eles: fico meio zonza. É por isso que estou olhando só pras botas do capitão. E ele vai dizendo coisas, contando histórias da sua vida: guerras, viagens, brigas, guerras, viagens, brigas... Todos escutam. Noite de Finados. Alguém está cantando na venda do Nicolau. A voz é a do capitão. Mas ele não pode estar lá na venda e aqui em casa ao mesmo tempo. Por que não pode? O capitão Rodrigo pode tudo. O padre Lara chega, diz boa-noite, senta-se, chiando como um gato velho. Coitado! Está enterrado perto da sepultura da vovó. Decerto de noite os dois ficam ali no cemitério conversando sobre os vivos, rindo-se deles... O capitão Rodrigo já acendeu o cigarro. Papai olha o relógio como quem quer dar a entender que é tarde. Então meu noivo se levanta, vai embora e eu fico pensando nele e nas coisas que tenho que fazer amanhã. Pular da cama às cinco, tirar leite, encher lingüiça, dar milho pras galinhas, matar formigas pra elas não estragarem as plantas... Com essa cintura fina a Luzia parece uma formiga, uma saúva grande. Mas formiga se esmaga com o pé. E sapo também. E os olhos de Bibiana se voltam para Aguinaldo.

     Depois passeiam lentos e avaliadores em torno da sala. Aquele espelho grande de moldura dourada é muito bonito, deve ter custado um dinheirão. E um dia ainda quero ver naquele vidro o Aguinaldo dentro dum caixão de defunto, com quatro velas acesas do lado. Deus me perdoe, não desejo o mal de ninguém, mas todos um dia morrem. Amém. E é bem bonita a mobília - refletiu ela, olhando para o consolo de mármore, sobre o qual estava a cítara de Luzia, dentro dum estojo de madeira lavrada. E pra que estas cadeiras todas cheias de requififes, Santo Deus? Não troco as minhas de palha trançada por estes monstrengos. Mas gosto desta casa. Como são grossas as paredes! Num casarão assim a gente se sente garantida. Pode vir chuva, ventania, tempestade e até guerra. Bala não passa por elas.

     - Está boa a limonada? - perguntou Aguinaldo, jovial. Bibiana teve um leve sobressalto, ergueu os olhos para o dono da casa e respondeu:

     - Não provei ainda.

     Só então é que se lembrou de que tinha na mão o copo de limonada.

     Levou-o à boca e começou a beber devagar. O cheiro de limão trouxe-lhe à mente um certo dia de sua vida, havia muitos anos. O capitão Rodrigo chegou duma viagem e lhe disse: "Estou louco de sede, minha prenda. Me faz uma limonada bem ligeiro. Mas bota pouco açúcar". E depois, quando ela estava espremendo o limão dentro dum copo, ele se aproximou por trás, enlaçou-lhe a cintura e beijou-lhe a nuca.

     Bolívar bebia sua limonada com avidez, mas a comoção parecia trancar-lhe a garganta.

     Florêncio ergueu-se, foi até a janela e olhou para o cadafalso, a cujo redor a multidão engrossava. Crianças corriam e brincavam sob a figueira grande. Uma brisa leve começava a bulir com as folhas das árvores e à porta da cadeia curiosos se aglomeravam, andavam dum lado para outro, erguendo poeira do chão. Pobre do Severino! E o nome de Severino que Florêncio pronunciara mentalmente repetiu-se num eco. Mas o eco era o de um outro nome: Bolívar. Pobre Bolívar!

     Bolívar tornou a olhar para o relógio, mas não pôde distinguir o mostrador, porque o suor lhe entrara pelos olhos e lhe turvava a visão.

     Começou a esfregá-los com os dedos.

     - Entrou alguma poeira? - perguntou Luzia, num súbito interesse. - Deixe ver.

     Bolívar sacudiu a cabeça.

     - Não. Não é nada. Foi o suor.

     - Está ardendo?

     - Um pouco.

     - Deixe ver.

     - Não carece.

     Os olhos de ambos se encontraram.

     - Que é que vosmecê tem? - perguntou ela.

     - Eu? Nada.

     - Tem, sim. Está se vendo.

     - Não é nada.

     Bolívar não pôde suportar o olhar da noiva. Baixou os olhos para o chão.

     - Se está arrependido - prosseguiu ela num murmúrio - ainda é tempo de desmanchar o casamento. Há pessoas que voltam até da porta da igreja.

     Felizmente - pensou Bolívar - os outros estavam entretidos a conversar e não ouviam aquelas coisas estúpidas que Luzia lhe sussurrava. Assim em cochicho a voz dela ficava ainda mais excitante.

     Era como se o estivesse convidando a ir para a cama.

     - Ninguém está falando em arrependimento... - retorquiu ele pondo o copo de refresco em cima da mesa redonda, na frente do sofá.

     - Então diga que é que tem.

     - Ora, estou me sentindo mal. Minha cabeça está estourando.

     Bolívar achava difícil conversar com a noiva cara a cara. Não podia resistir ao olhar dela: dava-lhe um acanhamento que ele nunca sentira diante de mulher alguma. E por se sentir acanhado ficava com raiva da moça, de si mesmo, de tudo e de todos. Vinham-lhe desejos de fazer violências, dizer nomes feios, de portar-se como um cavalo. Sempre que discutia e lhe faltavam argumentos, palavras, ele tinha gana de usar as patas.

     - Passou mal a noite?

     Com relutância Bolívar sacudiu afirmativamente a cabeça:

     - A bem dizer passei a noite em claro.

     Ergueu os olhos para a mãe e percebeu que, fingindo escutar a esposa do juiz, ela procurava ouvir o que Luzia estava dizendo.

     - Pensando no Severino? - insistiu a moça.

     - Como é que vosmecê sabe?

     - É natural. O negro vai morrer por causa de seu testemunho.

     Disse isso e seus olhos escrutaram o rosto do noivo, verrumantes, como se quisessem ver-lhe os sentimentos. Bolívar sentiu um pingo de suor escorrer-lhe frio sob a camisa, ao longo da espinha. Sua cabeça latejava com força e de repente ele se lembrou dum homem que um dia vira cair em plena rua, fulminado por um ataque de cabeça.

     - Vosmecê também acha que o negrinho está inocente?

     Luzia encolheu os ombros.

     - Eu não acho nada. Vosmecê é que devia saber o que dizia quando falou às autoridades.

     Bolívar fez um gesto de impaciência e meteu os dedos trêmulos pelos cabelos. Procurou alguma coisa para dizer, mas não encontrou nada. Teve vontade de mandar todos para os confins do inferno.

     - Mas como é... - principiou - como é... o...

     Calou-se de novo. Tinha-se feito um hiato na conversação e de repente a sala ficara silenciosa e os olhos do dr. Winter, de Florêncio e de Bibiana estavam voltados para o sofá.

     - Será que já começaram a brigar? - troçou Aguinaldo, fazendo com a cabeça um sinal na direção dos noivos. - Tem tempo, meninos, tem tempo!

     Florêncio olhava para Luzia e achava-a parecida com uma imagem de Santa Rita que ele vira nas Missões.

     O dr. Winter, o dr. Nepomuceno e o dono da casa de novo entraram numa discussão política, e Bibiana agora contava animadamente à interlocutora o que costumava fazer para secar a roupa lavada em dias de chuva; a mulher do juiz, com a mão em concha atrás da orelha, escutava-a arfante e atenta.

     - Falta só meia hora - murmurou Luzia, lançando um rápido olhar para o relógio de pêndulo.

     Alguém abriu uma porta nos fundos da casa e a brisa entrou na sala trazendo um cheiro de cozinha que, ao passar por Luzia, se misturou com um perfume de essência de rosas e de pele limpa de mulher recém-saída do banho - o que contribuiu para aumentar a confusão de Bolívar, que de repente sentiu pela noiva um desejo estúpido que era ao mesmo tempo náusea, medo e impotência. Seus olhos voltaram-se mais uma vez para o mostrador do relógio grande, e ele tornou a ver o gato enforcado, e o grito do animal cruzou-lhe o espírito.

     Bolívar ergueu-se como que impelido por uma mola, e caminhou apressado para a janela. Luzia seguiu-o com o olhar, depois voltou a cabeça para Florêncio e sorriu. O rapaz respondeu com um sorriso meio constrangido e perguntou:

     - Que foi que houve?

     - Seu primo está nervoso.

     Aguinaldo soltou uma risada.

     - É natural. No dia que contratei casamento fiquei tão nervoso que até me deu uma soltura.

     - Vovô! - repreendeu-o Luzia. - Isso não se diz.

     Bibiana olhava apreensiva para o filho. Junto da janela Bolívar mal enxergava o que se passava na praça, pois diante de seus olhos manchas dum preto esverdeado dançavam, estonteantes. Mais uma vez teve vontade de arrancar fora o colarinho, a gravata, o colete, sair correndo daquela casa, montar a cavalo e meter-se campo adentro a galope.

     Sentiu que lhe seguravam o braço. Voltou-se: era a mãe. Tinha nas mãos um copo de refresco.

     - Beba mais um pouco, meu filho.

     Sem pensar, Bolívar obedeceu. Emborcou o copo e bebeu toda a limonada dum sorvo só. O líquido adocicado, meio enjoativo e pegajoso, lhe desceu com dificuldade goela abaixo.

     - Vá agora sentar-se perto da sua noiva - sussurrou-lhe Bibiana. - Coragem! Isso passa.

     Bolívar voltou para o sofá.

     Aguinaldo agora contava coisas do Angico ao juiz de direito e ao médico.

     - Minha cavalhada anda muito ruim. Essas guerras estragam os nossos rebanhos. É uma lástima. Muito cavalo superior se perdeu na Guerra dos Farrapos. Miles de miles - concluiu Aguinaldo, enrolando um cigarro.

     O juiz sacudia a cabeça lentamente, de olhos meio cerrados.

     - Muito homem superior morreu nessa guerra - corrigiu-o Bibiana.

     - Pra mim animal é o mesmo que gente - explicou Aguinaldo. - Pego amizade por eles. Pode ser cavalo, boi, cachorro ou gato. Um dia peguei um dos meus escravos maltratando uma pobre mula. Ah, seu compadre, fiquei fulo de raiva e comecei a enxergar vermelho. Negro sem-vergonha, gritei, vai bater na tua mãe, desgraçado! Pois o diabo do negro estava tão possesso que não me viu nem m'escutou. Continuou a dar com o chicote no lombo do pobre animal. A mula estava já toda lanhada, escorrendo sangue. Então perdi as estribeiras, tomei o chicote das mãos do negro, me atirei pra cima dele e comecei a dar-lhe na cara, a dar-lhe na cara, e fui ficando tão furioso que acabei dando com o cabo do chicote na cabeça do bandido. E dê-lhe pau, dê-lhe pau! No princípio ele meio que ficou estonteado sem saber o que estava acontecendo. Mas quando compreendeu tudo, se ajoelhou, botou a boca no mundo e depois quis fugir. Mas corri atrás dele, o negro tropeçou, caiu e eu me atirei em cima do cachorro, cego de raiva... E lá vai pau, e lá vai pau. Pois não é que quase mato o desgraçado? - Os olhinhos de Aguinaldo brilharam. Ele fez uma pausa para acender o cigarro e depois continuou: - A sorte do crioulo é que já sou um homem velho e não tenho a mesma força dos tempos de dantes. Cansei logo e parei pra não cair. Se não fosse isso, eu acabava fazendo mingau da cabeça do negro. - Puxou uma tragada, soltou o fumo no ar e disse: - Animal é mesmo que gente pra mim. - Caminhou até a porta da sala de jantar e gritou:

     - Siá Rosa, mande trazer as coisas de comer!

     O dr. Winter contemplava Aguinaldo com a mesma curiosidade meio horrorizada com que um dia olhara um terneiro do Angico que nascera com duas cabeças.

     Entraram duas escravas com bandejas cheias de bolos e doces.

     Winter cruzou as pernas e disse ao dono da casa:

     - Mas o senhor parece que não teve nenhuma piedade do negro. Me diga então uma coisa: quando vê um branco batendo num escravo, vosmecê não fica também revoltado?

     Aguinaldo coçou a pêra e estava para responder quando ouviu a voz de Luzia:

     - Negro não é gente - disse ela.

     Todos os olhos se voltaram para a moça. Santa Rita disse uma barbaridade - pensou Florêncio. Bolívar parafraseou mentalmente as palavras da noiva: "Severino não é gente. Vão enforcar um bicho".

     O dr. Winter tirou os óculos e começou a limpá-los lentamente com o lenço.

     - Mein liebes Fräulein! - exclamou ele, com sua voz aflautada. - O que vosmecê acaba de dizer é uma inverdade científica.

     Luzia encolheu os ombros e seus dedos brincaram com o leque.

     - Não sei se o que eu disse é científico ou não. Mas é o que sinto. Para mim o negro está mais perto do macaco que dos seres humanos.

     O juiz fechou os olhos, como para não se deixar influenciar por aquelas idéias, franziu os lábios reflexivamente, e quedou-se a procurar um ponto de conciliação. Bibiana ficou mais tesa ainda na cadeira, como cobra pronta para dar o bote. “Então é isso que essas moças aprendem nos colégios da Corte? - pensou ela. Credo! É melhor a gente não saber ler nem escrever mas ter um bom coração. Cruzes!”

     - Mein liebes Fräulein! - repetiu o dr. Winter. Ergueu-se e foi postar-se na frente da moça. Seu cheiro de desinfetante envolveu Bolívar, que por um rápido segundo o achou confortador. Uma vez tinha caído de cama, com febre, e sua mãe chamara o dr. Winter. Só a presença do médico lhe trouxera alívio; e ele associava essa presença e essa impressão de alívio àquele cheiro de remédio.

     - Mein liebes Frãulein! Como pode a minha graciosa amiga conciliar seu cristianismo com essas idéias? - perguntou Winter, balançando o corpo na ponta dos pés. - Onde está sua caridade? Que um herege como eu pense assim, ainda se admite. Mas que uma jovem cristã diga essas barbaridades, mein Gott!, isso eu não compreendo!

     - Há muita coisa que vosmecê não compreende, doutor.

     Bolívar sentia-se constrangido por ver a noiva a conversar com o médico aqueles assuntos de que ele nada entendia. Teve vontade de gritar para Winter: "Cuide da sua vida. Volte pro seu lugar. Nos deixe em paz!”

     Luzia abriu o leque e começou a abanar-se serenamente.

     - Vosmecê não acha, doutor - perguntou ela - que ser bom ou ser mau é uma questão de mais ou menos coragem?

     - Hein? - fez o médico, perplexo, a coçar o queixo com dedos frenéticos. - Quer dizer então que bondade é sinônimo de covardia?

     - E o senhor acha que não é? Nunca pensou que ser bom é a coisa mais fácil do mundo? E que qualquer pobre-diabo pode se dar o luxo de ser bom?

     O dr. Winter ergueu ambos os braços e depois deixou-os cair, batendo com força nas coxas com as palmas das mãos. Era um gesto que queria dizer: se a menina pensa assim, desisto de discutir. Mas o diabo - pensava - era que de certa maneira misteriosa Luzia parecia ter alguma razão. Era preciso uma pessoa ter muita coragem para dar expressão a todos os seus desejos e sentimentos maus. Sim, ser bom era fácil. A teiniaguá não se deixava apanhar facilmente.

     Aguinaldo contemplava a neta com admiração, sacudindo a cabeça devagarinho e rindo o seu riso encatarroado.

     O juiz, ainda de olhos fechados, a papada comprimida entre o maxilar inferior e o colarinho engomado, lutava com palavras e idéias, tentando formar mentalmente uma sentença que, sendo ao mesmo tempo gramatical e judiciosa, tivesse a peregrina virtude de clarificar a situação.

     A esposa queria saber do que estavam falando, e Bibiana explicou-lhe tudo como pôde. A surda lançou para o marido um olhar que foi um apelo: "Tira-me do escuro, Nepomuceno!" O juiz continuava a sortir as palavras, a ajustá-las às idéias. Que o negro era um ser humano, constituía uma verdade científica incontestável. Mas ele próprio às vezes não deixava de sentir nas pessoas de cor qualquer coisa de bestial que as aparentava aos animais inferiores. Como não encontrasse a frase conciliadora, soergueu o corpo na cadeira, estendeu o braço e apanhou um quindim da bandeja que estava sobre uma pequena mesa e começou a mordiscá-lo com alguma solenidade.

     Uma questão de coragem... Florêncio não entendia bem o que Luzia pretendia dizer com aquilo. Mas sentia que boa coisa não era... Baixou os olhos e ficou olhando meio vago para a ponta das botinas que lhe apertavam os pés.

     Questão de coragem... Estas palavras soavam ainda na mente de Bolívar. Se ele tivesse coragem sairia correndo e iria gritar para aquela gente que estava reunida ao redor da forca:

     - Vão pra casa, bandidos! Onde se viu estarem se divertindo com a morte dum homem?! Severino está inocente. Quem devia estar pendurado nessa forca era eu. Matei um homem uma vez, só de mau. O combate tinha terminado. Ele pediu misericórdia. Matei de mau. Eu bem podia ter matado também aqueles dois tropeiros. O Severino é um homem bom. Nunca fez mal a uma mosca. Tio Juvenal, que conhece as pessoas, diz que o negrinho está inocente. Vão pra casa! Vão pedir perdão a Deus!

     Winter voltara para sua cadeira e agora observava Luzia. Que haveria naquela alma? Ele ainda não sabia, mas começava a adivinhar, através duma névoa, e o que entrevia lhe dava um aperto de coração, um frio horror. Como era que naquele fim de mundo, naquele lugarejo perdido nos confins do continente americano, entre gente rude e primária, existia uma mulher assim? Podia estar numa tragédia de Sófocles ou de Schiller, num conto de Hoffmann ou num... Mein Gott! Contando ninguém acreditaria. E por um instante se imaginou num Biergarten de Berlim, dali a muitos anos, sentado ao redor duma mesa a tomar cerveja com amigos e a falar-lhes de seu passado de Santa Fé. E se viu e ouviu a dizer:

     "Há muitos anos, nos confins da terra, conheci uma rapariga singular. Chamava-se Luzia. Eu só queria saber que foi feito dela...”

     Agora o rosto da teiniaguá tinha uma expressão angélica: estava sereno, limpo e luminoso. Sua voz profunda tornou a envolver o médico:

     - Por que não trouxe seu violino, doutor? - perguntou ela. - Podia tocar um pouco para nós.

     Winter pensou no sacristão da lenda e viu a lagartixa encantada enroscar-se nele.

     Deu um tapa cômico no ar.

     - Ach! Já não sei mais tocar. Vou enterrar o violino.

     - Talvez nasça um pé de couve - observou Bibiana.

     Aguinaldo soltou uma risada seca e disse:

     - Por falar em enterrar, está quase na hora de enforcarem o negro.

     Como era que ele podia falar com tanta despreocupação na morte duma pessoa? - perguntou Florêncio a si mesmo, com uma sensação de mal-estar. E de novo ouviu na memória as palavras de Luzia: Negro não é gente. Com que frieza ela tinha dito aquilo! Por contraste pensou em Ondina Alvarenga e a lembrança de seus olhos mansos lhe fez algum bem.

     Silêncio. O dr. Nepomuceno - que tinha lavrado a sentença de morte - pigarreou, constrangido, e começou a tamborilar nervosamente com os dedos sobre a guarda da cadeira. O dr. Winter voltou-se para o magistrado:

     - O senhor tem de estar presente à cerimônia? - perguntou. O juiz tornou a inclinar o corpo para a frente, estendeu o braço e apanhou outro quindim.

     - Eu devia estar lá - disse, com relutância, mordiscando o doce. - Mas não gosto dessas coisas. Sou um homem nervoso. Não gosto dessas coisas. - Pedaços de quindim pintalgaram-lhe de ouro a barba grisalha. - A lei não obriga propriamente o juiz a comparecer. É. A lei não obriga... propriamente.

     Aguinaldo tirou do bolso o relógio e olhou para o mostrador.

     - Faltam quinze minutos.

     O coração de Bolívar começou a bater com mais força. Ainda havia tempo.

     Podia levantar-se e dizer: "Senhor juiz, tenho de fazer uma confissão. O negro Severino está inocente. Quem matou os dois tropeiros fui eu. Juro por Deus Nosso Senhor!”

     Aguinaldo aproximou-se da janela, relanceou os olhos pela praça e disse:

     - Está assim de gente. Parece até quermesse.

     Ou então - pensava ainda Bolívar - podia sair correndo, ir até o cadafalso, beijar a mão de Severino e pedir-lhe perdão. Imaginou-se fazendo isso. A mão do negro está gelada de pavor. Sentiu na garganta um aperto que o impedia de engolir a saliva.

     - Não quer um doce? - perguntou-lhe Luzia.

     - Não - respondeu ele.

     - Ainda está doendo a cabeça?

     - Ainda.

     A senhora do juiz contava que tinha encomendado umas rendas de bilro a Ondina Alvarenga. Mas dona Bibiana estava com a atenção no filho. Fez-se um novo silêncio difícil. Parecia que agora todos só pensavam na hora do enforcamento.

     - Querem ir lá na praça ver a coisa de perto? - convidou Aguinaldo.

     - Deus me livre! - apressou-se a dizer Bibiana.

     - E o senhor, doutor?

     Winter sacudiu negativamente a cabeça. O juiz limitou-se a fechar os olhos e a repetir:

     - A lei não obriga. Não gosto desses espetáculos. A lei não obriga.

     Aguinaldo esfregou as mãos, de olho alegre. Piscou para o dr. Winter e, inclinando a cabeçorra na direção do juiz, troçou:

     - Será que a consciência está lhe doendo?

     O dr. Nepomuceno ficou soturno, brincou com a medalha que pendia da corrente do relógio e redarguiu:

     - Tenho a consciência tranqüila, sr. Aguinaldo. Tenho a consciência tranqüila. Fez-se justiça. Os juizes de fato acharam o réu culpado. A condenação foi feita de acordo com o artigo número 271 do Código Criminal do Império. Tenho a consciência tranqüila. - Lançou um olhar na direção de Bolívar e ajuntou: - Ali está casualmente o cidadão cujo depoimento contribuiu para esclarecer o crime.

     Fez com a mão um sinal solene que queria dizer: um cidadão honesto, íntegro, acima de qualquer suspeita.

     Florêncio estava sentado na ponta da cadeira, com os olhos postos no primo, temendo que ele fizesse ou dissesse alguma coisa inconveniente.

     Bolívar, porém, limitava-se a olhar para o soalho, com a cara reluzente de suor e os largos ombros a subir e descer ao ritmo duma respiração ofegante.

     Por alguns instantes todos ficaram calados, como que à espera dalguma coisa. Aguinaldo fez uma ou duas tentativas para puxar um assunto, mas foi em vão. O silêncio voltava sempre, e quase todos os olhos estavam voltados para as janelas que davam para a praça. Quantas daquelas pessoas - perguntava Winter a si mesmo - desejariam ir ver o negro espernear na forca levadas por uma curiosidade mórbida que parecia ser um dos atributos da natureza humana? E se não se dispunham a ir até as proximidades do cadafalso ou a ficar olhando de longe, ali das janelas, seria porque, de mistura com a curiosidade, sentissem também uma ponta de horror? Ou era porque queriam afetar bons sentimentos? Da parte de Bolívar e do juiz - refletia o médico - devia haver um pouco de remorso, pois ambos tinham contribuído para a condenação do negro. Dona Bibiana e a esposa do magistrado deviam detestar sinceramente a idéia de assistir à cena. Florêncio era um homem de bom coração... E Luzia? Continuaria sentada ou viria espiar o enforcamento?

     Aguinaldo estava excitado, ia de instante a instante à janela, ficava ali num pé só, fungando, aflito.

     - Parece que vão trazer o negro - disse ele em dado momento, pondo a mão em pala sobre os olhos. - Estou vendo um movimento na frente da cadeia.

     Começou a esfregar as mãos, satisfeito, numa antecipação do espetáculo.

     Uma escrava entrou com uma grande bandeja cheia de talhadas de melancia.

     - Pode botar em cima da mesinha - ordenou Luzia, com voz impaciente. - E vá lá pra dentro.

     A negra obedeceu, hesitou um instante e depois se dirigiu ao amo, de cabeça baixa, com voz humilde:

     - A negrada da cozinha também quer ir ver...

     - Pois vão! - gritou Aguinaldo.

     Luzia, porém, interveio:

     - Não! Não vão. Fiquem lá no fundo e não venham nem pra frente.

     A escrava saiu da sala de olhos baixos.

     Winter sentiu que ele também estava inquieto. Se se erguesse e fosse até a janela poderia ver tudo. O cadafalso ficava a uns trinta e poucos metros do Sobrado e erguia-se a mais de três do solo. Poderia dali ver a execução muito melhor que muitos dos que se acotovelavam ao redor da forca, sob o sol quente. Vou ou não vou? - perguntava ele a si mesmo. Ir seria ceder a uma curiosidade perversa, a um sentimento inferior. Mas não ir seria levar muito a sério aquela história toda. No fim de contas era médico e vira coisas piores em sua carreira: crânios esmagados, membros decepados, tripas à mostra. Nunca, porém, assistira ao assassínio frio, calculado e legal dum homem. O fantasma de Luzia cochichou-lhe na mente: Negro não é gente.

     - Faltam oito minutos - disse Aguinaldo. E de repente, com uma alegria infantil, exclamou: - Lá vem ele!

     Winter ergueu-se, como que galvanizado, e aproximou-se da janela. O juiz continuou sentado onde estava, a balouçar as pernas nervosamente.

     O médico olhou para fora. Um grupo compacto movia-se da cadeia na direção do cadafalso. Houve na multidão que se apinhava ao redor da forca um como que movimento de onda. Winter vislumbrou no grupo menor a batina negra do padre Otero e alguns uniformes da Guarda Nacional. Tudo se processava no meio dum grande silêncio.

     O dr. Nepomuceno foi atacado dum acesso de tosse nervosa. Voltando a cabeça para dentro da sala Winter viu que Bolívar, duma palidez de morte, de olhos sempre baixos, remexia-se desconfortavelmente no sofá, ao passo que Luzia olhava atentamente para ele, sentada, muito ereta, na ponta do sofá, como que a gozar o sofrimento do noivo. O médico tornou a olhar para a praça. Viu quando dois guardas fizeram Severino subir os degraus do cadafalso. Dali Winter não podia distinguir as feições do condenado, mas percebeu que os guardas o amparavam para que ele se mantivesse de pé. Ao lado do negro, o padre Otero ergueu um crucifixo preto, voltou-se para a multidão e pronunciou algumas palavras que o médico não ouviu com clareza. Começou então a erguer-se do povo um clamor uníssono, cadenciado e fúnebre. Rezavam o padre-nosso. As vozes, graves e foscas, erguiam-se no ar luminoso, enchiam a praça e tinham qualquer coisa que lembrava o som dum órgão. Winter começou a sentir a garganta seca, a língua grossa. Agora um perfume ativo de essência de rosas lhe chegava às narinas, e então ele sentiu, antes de ver, que Luzia estava a seu lado, à janela. Olhou-a de soslaio. Os seios da moça palpitavam, seus olhos estavam fitos no cadafalso, imóveis, arregalados, cheios duma poderosa fascinação.

     De repente o coro cessou num amém que se esfarelou no ar. O padre voltou-se para o condenado e encostou-lhe aos lábios o crucifixo. Naquele instante o relógio começou a dar as horas: cinco badaladas que Bolívar sentiu como pancadas no crânio.

     O carrasco experimentou o nó corredio e depois colocou a corda em torno do pescoço do escravo. Havia agora na praça um silêncio de cemitério. De repente um galo cantou atrás da igreja. O dr. Winter voltou a cabeça para Luzia. E foi no semblante da teiniaguá que ele viu o resto da cena macabra. Primeiro o rosto dela se contorceu num puxão nervoso, como se ela tivesse sentido uma súbita dor aguda. Depois se fixou numa expressão de profundo interesse que aos poucos se foi transformando numa máscara de gozo que pareceu chegar quase ao orgasmo. Winter observava-a, estarrecido. Na multidão ao redor do cadafalso uma mulher soltou um grito que subiu no ar como um dardo. Winter olhou para o cadafalso.

     Pendente da forca o corpo de Severino estrebuchava.

     O dr. Nepomuceno tossia ainda. Sua esposa apertava o lenço nas mãos e tinha lágrimas nos olhos bondosos e palermas. Bibiana e Florêncio olhavam ainda para Bolívar com pena, como se fosse ele e não Severino o enforcado.

     Winter voltou para a sua cadeira e acendeu um charutinho. Estava subitamente triste, por contraste pensava em Trude, especialmente num certo dia em que a vira entrar na igreja de Eberbach, toda de branco, com pequenas flores azuis nos cabelos dourados.

     - Lá se foi o negro! - exclamou Aguinaldo, esfregando as mãos e caminhando na direção das melancias. Apanhou uma talhada e convidou: - Vamos, minha gente, antes que a melancia esquente.

     Mas ninguém fez o menor movimento. Luzia deixou a janela. Seu rosto estava iluminado por uma luz de bondade que a transfigurava. Sentou-se junto do consolo, abriu o estojo de madeira e tirou de dentro dele a cítara. Fez tudo isso com gestos cuidados e tranqüilos como quem segue um rito.

     Tirou alguns acordes do instrumento e depois começou a tocar uma valsa brilhante. Winter observava-a, perplexo. A melodia alegre encheu a sala. A senhora do juiz aproximou-se mais de Luzia e, com a mão atrás da orelha, tentava escutar, com uma expressão de estranheza nos olhos ainda úmidos.

     De repente Bolívar rompeu a chorar, escondeu o rosto nas mãos e ficou onde estava, os ombros sacudidos pelos soluços. Bibiana correu a sentar-se junto dele.

     - Meu filho - murmurou ela, entre penalizada e cheia de vergonha. - Não faça isso. Um homem não chora.

     Luzia olhou para o noivo, com olhos inexpressivos, e continuou a tocar, Winter, embaraçado, mascava ferozmente seu charutinho, Florêncio ergueu-se, caminhou para o primo e tomou-lhe do braço, dizendo:

     - Boli, vamos dar um passeio lá no quintal.

     O outro não se moveu. Florêncio obrigou-o a levantar-se. Bolívar deixou-se arrastar pelo primo para fora da sala.

     - Vou mandar fazer um chá de folha de laranjeira pra ele - disse Aguinaldo.

     Os olhos de Bibiana Terra chisparam.

     - Meu filho não é mulher pra tomar chás, seu Aguinaldo. Nesta terra não há nenhum homem mais macho que o Bolívar. Quem tiver dúvida que experimente.

     Passeou rapidamente o olhar em torno, num desafio, fez meia volta e saiu no encalço dos dois rapazes.

     Como se nada tivesse acontecido, Luzia continuava a dedilhar a cítara. Um reflexo da bandeirola da janela manchava-lhe a testa de verde.

     A teiniaguá - pensou o Dr. Carl Winter. E ficou olhando para o "animal", como que enfeitiçado...

    

     Quando o padre Otero chegou ao Sobrado por volta das cinco e meia, Bibiana, o filho e o sobrinho já se haviam retirado. O vigário entrou com ar cansado, cumprimentou os presentes e foi sentar-se a um canto da sala, na sua cadeira de balanço predileta. Era um homem baixo e franzino, ainda moço; tinha um rosto alongado, duma palidez esverdeada de hepático. De tão surrada sua batina já se fazia ruça e estava toda manchada de sebo.

     - Come uns docinhos, padre? - perguntou Aguinaldo. O vigário sacudiu melancolicamente a cabeça.

     - Não. Muito obrigado.

     - Uma talhada de melancia?

     - Também não. Não estou com fome.

     - Então vamos tomar um licorzinho de pêssego...

     O padre Otero fez primeiro uma careta de dúvida; depois decidiu:

     - Está bem, aceito.

     Aguinaldo gritou para Rosa que trouxesse o licor. Luzia dedilhava ainda a cítara, de leve. Já tinha tocado quase tudo quanto sabia e a saída do noivo não a deixara nem um pouco perturbada.

     - Então, vigário? - perguntou o dr. Nepomuceno. - Que nos conta?

     O sacerdote fez um gesto desalentado.

     - Consummatum est.

     Houve um curto silêncio, ao cabo do qual o dr. Winter perguntou:

     - E o condenado... como se portou?

     - Não fez a menor queixa. Não fez nenhum pedido especial. Confessou-se e na hora de morrer beijou o crucifixo. Seus lábios tremiam, mas seus olhos estavam secos. Não soltou um ai. Morreu como um homem.

     Luzia ergueu a cabeça e indagou:

     - E na hora da confissão... ele confessou o crime, ou repetiu que estava inocente?

     - Minha filha - respondeu o padre com triste calma - não posso quebrar o sigilo do confessionário.

     O juiz de direito ergueu os olhos bovinos para Luzia e reforçou.

- É. Ele não pode. Não pode.

A moça começou a tocar em surdina uma barcarola, ao mesmo tempo que dizia:

     - Uma vez na Corte, quando eu era menina, vi um enforcamento. Ah! Mas foi muito mais bonito que este. Enfim, Santa Fé é apenas uma vila. Não pode se comparar com o Rio de Janeiro, é natural.- Olhava para os próprios dedos, como que enamorada deles. Prosseguiu: - O condenado era um turco que tinha matado a mulher. Seu último pedido foi um cálice de vinho do Porto e um pedaço de pão-de-ló. - Sorriu, sacudindo de leve a cabeça. - Engraçado, não é? Quando o padre veio para a confissão, o turco disse que era muçulmano ou coisa que o valha... O padre ficou furioso.

     Winter mirava ora as mãos de Luzia ora o seu rosto, e deixava-se embalar pela voz dela.

     - Depois fizeram um cortejo pela rua - continuou a moça. - Vinha na frente o juiz das execuções, o meirinho, os irmãos da Santa Casa, com seus balandraus... Ah! Vestiram um casacão branco no condenado. Depois vinham os funcionários, os soldados...

     A escrava entrou trazendo uma bandeja com cálices de licor de pêssego e distribuiu-os entre os convivas.

     - Ind'agorinha eu vi tudo ali da janela - disse Luzia, parando de tocar e descansando as mãos no regaço. Seus olhos pousaram no rosto do vigário. - Vosmecê ouviu quando o pescoço do negro se quebrou?

     - Se ouvi? - perguntou o padre, franzindo a testa.

     - Quero dizer, ouviu o barulho de ossos se quebrando?

     O sacerdote encolheu os ombros, em dúvida.

     - E ele ficou de língua de fora?

     - Minha filha... eu... vosmecê sabe que a gente não presta bem atenção a essas coisas. Na hora se fica tão... Ora, pra falar a verdade, nem olhei quando puxaram o alçapão. Estava de olhos fechados, rezando.

     Luzia insistiu:

     - Mas depois, quando vosmecê olhou... ele estava de língua de fora?

     O padre voltou a cabeça para Aguinaldo e disse com um sorriso constrangido:

     - A curiosidade das moças de hoje não tem limites.

     No espírito de Winter a palavra curiosidade transformou-se em crueldade. Luzia positivamente tinha a coragem de sua crueldade. Agora a névoa se havia dissipado ao redor dela. Lá estava a Musa da Tragédia com toda a sua alma desnudada.

     A mulher do juiz, aflita, olhava com ar desamparado dum para outro, sem conseguir ouvir o que diziam.

     O dr. Nepomuceno cruzou as pernas, ergueu os olhos para o alto, com o jeito de quem procura alguma coisa no cérebro, e depois disse:

     - Essa execução vai custar ao governo... deixe ver... mil e quinhentos mais oitocentos e cinqüenta... - Tinha a fama de ser muito bom no fazer contas de cabeça. - Vai custar exatamente cinco mil e duzentos e noventa e um réis.

     Via-se que dizia isso porque estava contrafeito e achava que tinha de dizer alguma coisa. Luzia sorriu.

     - Morre-se barato - disse ela. - Viver é que custa caro.

     O padre Otero olhava fixamente para o seu cálice de licor.

     Tinha a testa franzida, o ar preocupado.

     - Que bicho lê mordeu, padre? - perguntou Aguinaldo. - Ficou impressionado com a coisa?

     - No fim de contas, não foi nenhuma festa... - replicou o sacerdote.

     Winter tomou um gole de licor e sentiu que o líquido doce e grosso lhe descia, ardido, pela garganta, como um filete de fogo.

     - Mas não acha, reverendo - perguntou - que indo ver a morte do negro seus paroquianos não se portaram dum modo muito cristão?

     O padre cruzou as pernas, tornou a olhar para o cálice e respondeu:

     - É. O espetáculo não foi nada edificante. Mas o senhor sabe, doutor, o fato deve ser olhado como um exemplo.

     - Mas a sua Igreja não condena a pena máxima? Temos o direito de tirar a vida dum ser humano, mesmo em nome da justiça?

     O padre Otero remexeu-se na cadeira, numa visível sensação de mal-estar. O dr. Nepomuceno voltou vivamente a cabeça na direção do médico.

     O sacerdote tirou do bolso um lenço muito encardido e passou-o pela testa num gesto largo e depois respondeu, com sua voz lenta, escandindo bem as sílabas:

     - A Igreja é de Deus e o reino de Deus não é deste mundo. Os homens podem errar, mas Deus nunca erra. No fim os pecadores sempre são punidos e os justos recompensados. E aqueles que são condenados por um erro da justiça dos homens, no céu serão exaltados e redimidos...

     Winter sorriu.

     - Acha então possível que no caso de Severino tenha havido um erro de justiça?

     O padre empertigou-se de repente, como se lhe tivessem alfinetado as costas.

     - Eu não disse isso.

     - Acredita então que o negro matou mesmo os tropeiros?

     - Também não afirmei tal coisa.

     - Qual é a sua opinião sobre o caso?

     - Como sacerdote de Deus não me cabe criticar a justiça do Estado. Cristo disse: "A César o que é de César. A Deus o que é de Deus".

     O juiz de direito franziu o sobrolho e foi com uma gravidade ressentida que disse:

     - É um caso límpido. É um caso límpido.

     Winter emborcou o cálice de licor, lançou um olhar para Luzia, que seguia a discussão com interesse, e perguntou com ar agressivo:

     - E quem me prova que não foi o próprio dono da olaria que matou os seus hóspedes? Quem me prova?

     - Não levantes falso testemunho contra o teu próximo. - sentenciou o vigário.

     - É uma hipótese...

     - Que não deixa de envolver uma calúnia - retrucou o dr. Nepomuceno.

     - Pois bem. Eu posso me retratar duma calúnia... duma afirmação leviana. Mas o que fizeram com Severino é irremediável. E uma retratação da justiça não devolveria o negro à vida.

     - Mas é um caso límpido! - afirmou outra vez o juiz. - Um caso límpido. Doze, digo: onze juizes de fato reconheceram a culpabilidade do réu.

     E começou a rememorar o processo, a repetir trechos do depoimento de Bolívar e do próprio amo de Severino.

     Luzia afastou-se do consolo e foi sentar-se no sofá.

     - O dr. Nepomuceno me deixou ler o auto do corpo de delito - contou ela. - Eu até decorei... Querem ouvir? Havia uma parte assim: "Passando os ditos peritos a examinar os cadáveres, declararam estarem ambos deitados e com a cabeça bastantemente moída de maneira que espirraram os miolos, sendo a pancada recebida do lado esquerdo na altura da orelha e a contusão mostrava ter sido feita com pau ou outro qualquer instrumento contundente. Declararam mais não encontrarem papéis nem outra qualquer coisa que indicasse o nome ou residência dos ditos mortos, que eram ambos jovens, brancos, cabelos crespos, feições regulares e um parecido com o outro, presumindo-se por isso serem irmãos".

     Winter notou que Luzia repetia aquelas palavras como se recitasse um poema lírico.

     Fez-se um silêncio de constrangimento em que apenas Aguinaldo mostrava uma face desanuviada e alegre. Tinha orgulho da neta, das coisas que ela sabia e fazia.

     - O senhor examinou as vítimas, doutor? - perguntou a moça.

     - Sim. Foi um dos meus primeiros "casos", em Santa Fé.

     - É verdade que mesmo com as cabeças esmigalhadas eles viveram ainda muitas horas?

     - É. Por que pergunta?

     - Vosmecê acha que eles tinham ainda conhecimento das coisas?

     - Claro que não.

     - Então não sofriam?

     - É muito difícil fazer uma afirmação positiva, mas creio que não sofriam mais.

     - Uma vez quando menina eu vi uma cozinheira decapitar uma galinha, e o bicho mesmo sem cabeça continuou de pé e depois saiu caminhando e entrou direitinho no galinheiro. Nunca mais me esqueci disso.

     O vigário fez um gesto de impaciência.

     - Mas por que não mudamos de assunto? - perguntou.- Basta de sangue, de cabeças cortadas, de enforcamentos. - E para começar um novo tópico de conversação, voltou-se para o dono da casa e perguntou: - Então, sr. Aguinaldo, como vão os negócios?

     - De mal a pior - respondeu Aguinaldo, que comia vorazmente uma talhada de melancia. Cuspinhou as sementes no prato e continuou: - A guerra estragou a cavalhada, reduziu a gadaria. Os garanhões que sobraram não valem dez-réis de mel coado.

     Era sempre o que acontecia em tempo de guerra - refletiu Winter - morria a flor das nações não só em homens como em cavalos. Ficavam os velhos, os doentes, os incapazes.

     Winter tinha ouvido contar que na província se matavam éguas aos milhares para aproveitar a graxa. E que os estancieiros vendiam para as charqueadas até as vacas de cria. Sabia também que desde 1823 as gentes de São Pedro do Rio Grande haviam abandonado a cultura do trigo para se dedicarem à pecuária. Ora, as guerras periódicas dizimavam a cavalhada e o gado, ao passo que a agricultura continuava decadente ou quando muito estacionaria. Os campos se achavam despovoados e ele tinha a impressão de que ninguém tinha plano, ninguém pensava no futuro; os continentinos viviam ao acaso das improvisações, confiando sempre na sorte. Por que não tentavam alguma coisa? - impacientava-se ele.

     - O negócio de gado está liquidado - declarou Aguinaldo. E levou a talhada de melancia aos lábios, como se ela fosse uma gaita de boca, e ficou a tocar uma música feita das notas líquidas dos chupões.

     - Nada está perdido quando a gente tem força de vontade e amor ao trabalho - sentenciou o juiz de direito.

     Luzia e a senhora surda ergueram-se e saíram da sala. A mulher do dr. Nepomuceno queria ver as toalhas bordadas que a moça recebera de Porto Alegre como parte de seu enxoval.

     - Ainda por cima - acrescentou Aguinaldo - o governo proíbe a passagem de gado da Banda Oriental para cá. Quando nem o governo ajuda, que esperança podemos ter?

     - Não culpemos o governo de tudo - observou cautelosamente o juiz.

     Winter ergueu-se e deu um puxão nos fundilhos das calças que se lhe colavam incomodamente às nádegas.

     - Por que os fazendeiros não mandam vir reprodutores estrangeiros para melhorar seus rebanhos? - perguntou, fazendo um gesto largo como para dar a entender que o mundo era muito vasto e rico. - Importem cavalos da Inglaterra, da Alemanha, do cabo da Boa Esperança. Mandem vir vacas da Holanda.

     - Alguns estancieiros de Cruz Alta - informou Aguinaldo - receberam há pouco um lote de cavalos pampas.

     Muitas das coisas da província Winter ficava sabendo através de sua correspondência com Carl von Koseritz, ao qual ele chamava com afetuosa ironia "meu ilustre barão". Fazia pouco mais duma semana, escrevera-lhe uma carta em que dizia: "Tu ao menos tens como desabafar: és jornalista, escreves os teus artigos e de certo modo já pertences a esta pátria. Quanto a mim, continuo a ser apenas o dr. Carl Winter, um exilado, um imigrante, um intruso; e tenho de calar a boca mesmo quando sinto vontade de sacudir esta gente de sua apatia exasperante. Mas é preciso reconhecer que essa apatia se revela apenas no que diz respeito ao trabalho metódico e previdente, pois quanto ao resto nunca vi gente mais ativa. Estão sempre prontos a laçar, domar, parar rodeios, correr carreiras e principalmente a travar duelos e ir para a guerra".

     Agora o padre balançava-se de leve na sua cadeira e dizia:

     - Ainda hoje o coronel Amaral estava se queixando que o negócio de charque vai muito mal.

     - Mas esta província não pode depender eternamente do charque e do couro! - exclamou Winter. - Foi um erro terem abandonado o trigo. É uma insensatez não cuidar dos rebanhos... um crime não cultivar melhor a terra.

     Havia outros problemas sérios: o da instrução pública, por exemplo. Existiriam quando muito umas oitenta escolas em toda a província, e todas eram de primeiras letras. Havia uma assustadora escassez de professores.

     Inflamado por suas idéias, Winter ergueu o dedo e disse:

     - Os senhores ainda não perceberam o grande perigo que correrão no futuro...

      Conteve-se. O que ia dizer era muito ousado, talvez até ofensivo àquela gente. Viu que os outros esperavam a terminação da frase. Não teve remédio senão continuar.

     - ... se não promoverem o progresso desta região? Pode ser que alguma nação estrangeira poderosa, de gente superior, volte um dia para cá os olhos cobiçosos. Não será a primeira vez na História. Não basta ter uma terra: é necessário merecê-la.

     O juiz ergueu para ele os olhos mortiços.

     - O doutor quer insinuar que uma outra nação pode procurar tomar posse da nossa terra pelas armas?

     Winter pôs as mãos nos quadris, inclinou-se sobre o juiz e disse:

     - Exatamente.

     Aguinaldo teve um arroubo patriótico:

     - Pois que venham. Havemos de expulsar essa estrangeirada a grito e pontaço de lança.

     - Que venham! - repetiu Nepomuceno, numa velada ameaça, como se dispusesse dum poderoso exército secreto pronto para qualquer emergência. - Que venham!

     O padre olhava para Winter dum modo estranho, e o doutor viu que se havia metido em terreno perigoso. Mas agora já não podia mais recuar.

     Adoçou mais a voz, deu-lhe um tom persuasivo para dizer:

     - Esta terra é boa demais para ficar abandonada, despovoada de gentes, de gado e de lavouras... É incrível que a província tenha de importar os cereais que consome: não só os cereais, mas até a farinha de mandioca.

     Houve um silêncio ressentido em que só se ouviu o ruído líquido que Aguinaldo produzia ao mastigar nacos de melancia, e o tan-tan da cadeira de balanço do padre.

     - Boa ou má - disse o dr. Nepomuceno depois de alguns segundos de reflexão - rica ou pobre, esta terra é nossa, dos brasileiros. Havemos de defendê-la contra qualquer invasor, venha ele de que quadrante vier, seja de que raça for.

     Olhou para o sacerdote como a pedir-lhe a aprovação para o que acabava de dizer. O padre Otero sacudiu a cabeça gravemente. De novo o juiz esparramou a papada sobre o peito e, com ar sonolento, ficou a brincar com a medalha do relógio.

     Winter lançou o olhar para a janela. Fora, a luz se fazia mais cor de âmbar e mais suave, à medida que entardecia. Na praça a multidão se havia dispersado, mas viam-se ainda curiosos a conversar aos grupos nas proximidades da forca. Mentalmente o médico escrevia agora uma carta ao seu "ilustre barão". Assim: "Ainda ontem no Sobrado, com a mais sã das intenções, eu disse umas verdades cruas ao dono da casa, ao vigário e ao juiz de direito. Por um tolo sentimento de patriotismo mal compreendido parece que ficaram zangados. Como resultado de tudo também fiquei irritado, e já que havia saído para a chuva e estava molhado, resolvi continuar enfrentando o aguaceiro e cheguei a sugerir àqueles senhores que...”

     - Mas não basta melhorar os rebanhos - disse Winter em voz alta. Aproximou-se do consolo e ficou a dedilhar distraidamente as cordas da cítara. - É preciso também cuidar dos homens...

     - Cuidar dos homens? - estranhou o padre.

     - Explique-se - pediu o juiz - explique-se.

     - Calma - disse o médico, fazendo um gesto de paz.

     - Estamos perfeitamente calmos. Vamos!

     - Quero dizer que seria melhor casar vossos homens e mulheres com os imigrantes alemães do que com negros e índios.

     - O meu caro doutor acha então que somos uma nação inferior?

     Winter tirou um acorde dissonante da cítara, e olhou para o juiz.

     - Eu não afirmei propriamente isso. Mas se vosmecê conhecesse a Alemanha teria uma idéia do que é capaz o povo alemão.

     - O que o doutor quer insinuar - observou o padre - é que os alemães merecem mais que nós este país...

     O juiz lutava com suas idéias. Elas lhe ocorriam sempre tardiamente. Invejava os que tinham resposta sempre pronta na ponta da língua. O padre sacudia a cabeça devagarinho numa dúvida taciturna. Não eram aqueles alemães em sua maioria protestantes? Que aconteceria se casassem com brasileiros? Como iriam educar os filhos? Em que Igreja? No amor e temor de que deus?

     Finalmente o juiz conseguiu formar uma frase que lhe pareceu à altura do assunto, do momento e do interlocutor.

     - Pois digam o que quiserem, eu cá acho que um povo latino como o nosso deve...

     O médico soltou uma risada e avançou para o juiz:

     - Latinos os homens desta província? - exclamou. - Ach, mein lieber Gott! Acha então o doutor que os gaúchos descendem dos romanos?

     - Ora! - fez o dr. Nepomuceno, que estava muito vermelho e agitado. - Ora!

     - Preste bem atenção, senhor juiz. Quem foram os primeiros povoadores destes campos? Paulistas descendentes de portugueses. Pois bem. Os portugueses já têm uma boa dose de sangue mouro. Mais tarde chegaram aqui os casais açorianos, muitos dos quais eram de origem flamenga. Nesta província houve novas misturas com sangue índio e negro. Já vê que de latinos tendes muito pouco.

     - Digam o que disserem. Somos latinos pela civilização!

     Carl Winter sentou-se de repente, como se o peso da palavra civilização fosse demasiadamente grande para ele suportá-lo de pé.

     De que feitos espirituais se podia gabar aquela áspera sociedade pastoril que florescia - se é que se podia no caso usar este verbo - no tão gabado "Continente" de dona Bibiana? Onde estavam seus artistas, seus cientistas, seus pensadores? Até aquela data Winter não vira um único livro impresso na província. Poderiam os continentinos alegar que as guerras não lhes davam tempo para as atividades do espírito, e talvez aí tivessem alguma razão. Mas quem não tinha razão era o dr. Nepomuceno quando enchia a boca com a palavra civilização. Ele e o padre pareciam estar convencidos não somente de que eram descendentes dos romanos como também de que, por isso, representavam a essência da sabedoria, da espiritualidade e do progresso.

     Tornou a erguer-se, aproximou-se da janela e ficou olhando para as campinas de Santa Fé. Que grandes coisas os homens de seu sangue poderiam fazer naquela terra privilegiada onde não havia angústia de espaço, nem terremotos, inundações ou secas calamitosas! Ali estava ela, generosa e mansa, oferecendo-se femininamente aos seus homens, que pareciam recusar-se a fecundá-la, preferindo transformá-la em cancha para seus jogos, conflitos e andanças. No silêncio que se fizera ouviu-se a voz de Aguinaldo:

     - Mas será que só eu é que estou comendo melancia? Não quer uma talhada, dr. Nepomuceno? E o padre Otero? E o dr. Winter?

     - Muito obrigado -- respondeu o juiz. - Não quero estragar o apetite para o jantar.

    

     Eram mais de seis horas quando o dr. Winter deixou o Sobrado. Sabia que o padre e o juiz de direito tinham ficado magoados com suas observações. Que fossem para o diabo! Eram homens adultos, podiam muito bem agüentar um bom par de verdades. Deu alguns passos, batendo forte com a ponteira da bengala no chão, ao mesmo tempo que lhe vinha à lembrança uma água-forte que vira quando estudante em Heidelberg: Jesus diante de Pilatos. E ele "leu" a legenda que havia por baixo da gravura, em letras góticas: "Que é a Verdade? - perguntou Pilatos." Winter sorriu. Estaria ficando intolerante, ou - pior ainda - convencido de ser o único portador da Verdade, uma espécie de saco de absolutos?

     Parou um instante na praça e ficou olhando para a forca. Pobre Severino! Tinha morrido por causa dum absoluto. Um absoluto que o dr. Nepomuceno adorava, como a um deus. Encolheu os ombros como quem diz: "Não sou daqui, não tenho nada com isso". E decidiu que o melhor que tinha a fazer era ir ver o pôrdo-sol.

     A luz da tarde era doce, e andavam por toda a paisagem uns lilases rosados positivamente fantásticos. Winter achava um grande encanto naqueles quintais quietos ao anoitecer. Um porco fossando na lama, uma galinha bicando o chão, um passarinho piando numa árvore, uma criança nua a brincar com um osso, um cão vadio dormitando num vão de porta - tudo isso eram coisas que o deixavam inexplicavelmente enternecido.

     Comparava o mundo em que nascera e vivera até os trinta anos com o mundinho de Santa Fé. Ali naquela vila perdida na extremidade sul do Brasil representava-se também uma comédia humana, que era uma paródia da que Winter vira na Europa. Os atores seriam menos consumados, o cenário mais pobre. Mas os eternos elementos do drama lá estavam: o amor, o ódio, a cobiça, a inveja, o desejo de poder e de riqueza, a sensualidade, a vingança... e o mistério.

     Caminhando na direção do campo, Winter pensava agora em Luzia. O que ele vira aquela tarde deixara-o perplexo. Não se achava preparado para comentar o caso nem consigo mesmo. O melhor era esquecê-lo por enquanto... Pobre Bolívar! Qual seria o destino daquele casamento? Fosse qual fosse, ele, Carl Winter, gostaria de ver o desenvolvimento da rústica comédia provinciana. No fim de contas, não havia do outro teatro em Santa Fé...

    

     Em parte como ator e em parte como espectador, Carl Winter pôde realmente acompanhar o desenvolvimento da comédia.

     Quando por setembro de 1853 Bolívar Cambará casou com Luzia Silva, houve festa grande no Sobrado. Aguinaldo mandou buscar gaiteiros e violeiros de Rio Pardo e Cruz Alta e fez matar três novilhas. Dançou-se o fandango à luz duma grande fogueira acesa no meio do quintal. Luzia - acharam todos - estava linda no seu vestido branco de noiva. O padre Otero fez um discurso e terminou desejando aos noivos uma vida longa e feliz, e muitos filhos. Em certa altura da cerimônia, dona Bibiana cutucou o dr. Winter, que estava a seu lado na igreja e, olhando através das janelas as franças das árvores sacudidas pelo vento, murmurou: "Minha avó costumava dizer que sempre está ventando quando alguma coisa importante acontece".

     Em princípios do ano seguinte ventava forte quando trouxeram do Angico para a vila, numa carreta puxada a bois, o velho Aguinaldo Silva agonizante, com a cabeça enfaixada em panos. Tinha caído do cavalo e batera com o crânio no solo. Chamado imediatamente para vê-lo, o dr. Winter verificou que não havia mais nada a fazer. Aguinaldo tinha fraturado a base do crânio: era um caso perdido. Deu-lhe uma hora de vida quando muito. Mas o nortista viveu ainda quase três. Viveu? Não. Ficou em agonia, deitado de costas na sua grande cama, com os olhos vidrados, a boca aberta deixando escapar a respiração estertorosa. Luzia não se afastou um instante do leito do avô. Ficou ao lado dele, com as mãos do velho presas nas suas, os olhos fitos no rosto dele, como se não quisesse perder um minuto sequer daquela lenta agonia. Bolívar estava pálido e de olhos úmidos. E quando Winter murmurou para Bibiana: "Agora é o fim. Questão de minutos" - julgou ver no rosto dela uma expressão estranha que o deixou desconcertado. Os olhos da mãe de Bolívar brilharam com uma súbita luz de alegria que lhe iluminou o rosto inteiro por uma fração de segundo.

     Winter tinha outras coisas que fazer, mas achou conveniente ficar no Sobrado para esperar o desenlace. Era noite e tinham trazido para a mesa-de-cabeceira de Aguinaldo um velho candelabro com cinco velas. Uma preta entrou e disse baixinho a Bibiana que o relógio grande de pêndulo tinha parado de repente, e que isso era mau agouro. Como se algum bom agouro fosse possível num caso daqueles - refletiu o médico.

     A notícia espalhou-se rapidamente pela vila. Começaram a aparecer amigos, conhecidos, curiosos - gente que vinha perguntar como "estava passando o velho". O padre Otero foi chamado para administrar a extrema-unção ao moribundo. Puseram uma vela acesa na mão de Aguinaldo, e Luzia teve de apertar-lhe os dedos com os seus para que o avô pudesse sustentar a vela. No quarto silencioso ouviu-se a voz monótona do padre, murmurando palavras em latim. Winter olhava para Luzia e via que ela estava gozando aquele momento. Tinha a respiração ofegante e um brilho meio embaciado nos olhos claros. Agora, à luz das velas, Winter via-lhes melhor a cor: eram verdes, não havia a menor dúvida, dum tom que o mar assume em certos dias de sol fraco.

     Aguinaldo expirou poucos minutos depois que o padre Otero saiu do quarto. Luzia não consentiu que lhe cerrassem os olhos, pois o velho sempre lhe dizia: "Quando eu morrer não me fechem os olhos: quero entrar no outro mundo enxergando tudo. Luzia quis vestir o avô com suas próprias mãos. Quando a sogra se ofereceu para ajudá-la, ela respondeu com uma voz que a Winter pareceu uma navalhada:

     - Não carece. Quem tem de fazer isso é um parente. Eu sou aqui a única parenta dele!

     Pediu que os outros saíssem do quarto e fechou a porta a chave. Bolívar tinha já mandado fazer o caixão. Como não houvesse armador na vila, trouxeram um carpinteiro para o Sobrado e ali mesmo na despensa o homem ficou a trabalhar no esquife. E assim durante muito tempo, enquanto Luzia estava fechada no quarto com o cadáver do avô, os outros ficavam a ouvir os sons das marteladas que ecoavam pela casa toda. Winter procurava alguma coisa para dizer mas não lhe ocorria nada. Bolívar estava visivelmente abalado. Bibiana, serena, já começava a tomar providências para o velório. Iam deixar o corpo na sala de visitas: podiam fazer o enterro às oito da manhã seguinte. E o vento continuava a soprar, fazendo as vidraças trepidarem num rufar de tambores aflito.

     Em dado momento, quando Bibiana veio trazer o chimarrão para os primeiros homens chegados ao velório, Carl Winter ouviu-a dizer em voz baixa ao filho:

     - Tua mulher está de olho seco.

     Olhando para as caras rudes e barbudas dos santa-fezenses que conversavam em surdina nas salas do Sobrado, Winter desejou a presença de Trude Weil que, em contraste com aquelas figuras sombrias, lhe pareceu uma imagem de cromo, toda feita de leite, ouro, mel e lápis-lazúli. Mas qual! - refletiu ele em seguida - àquela hora talvez sua bem-amada longínqua, gorda e desbotada, estivesse a vender salsichas atrás dum balcão de mercearia, enquanto o filho do burgo-mestre lhe dava palmadas nas nádegas, soltando grandes risadas que recendiam a chucrute e cerveja.

     O mundo estava errado, irremediavelmente errado. A teiniaguá continuava lá em cima fechada no quarto com o defunto. Bolívar tinha no rosto a marca da infelicidade. E a Trude Weil, que ele amara um dia, não existia mais.

    

     Florêncio apareceu mais tarde, quando o cadáver de Aguinaldo já estava dentro do esquife, metido na sua roupa preta domingueira, as mãos amarradas sobre o peito de polichinelo, as pernas cobertas de flores. Quatro círios ardiam na sala e mais quatro dentro do espelho.

     Gentes começavam a chegar. Bento Amaral também compareceu - deu pêsames a Luzia, Bolívar, e cumprimentou Bibiana, que lhe negou a mão e virou as costas - e foi sentar-se, taciturno, a um canto da sala, junto do padre Otero. O dr. Nepomuceno chegou com a esposa por volta das nove horas, murmurando desculpas: só mui tarde ficara sabendo do triste evento, pois estivera fora da vila, etc..., etc...

     No velório os homens a princípio estavam meio bisonhos e silenciosos; mas começaram a animar-se aos poucos, à medida que o chimarrão foi correndo a roda e as escravas iam trazendo roscas de polvilho, bolos de coalhada e finalmente licor de pêssego. Um caboclo que Winter nunca vira - um tipo alto, muito trigueiro e de zigomas salientes - começou a contar histórias do velho Aguinaldo: andanças, ditos e espertezas. Os outros puseram-se a rir baixinho, sacudindo muito a cabeça. Bibiana mandou trazer para a sala mortuária todas as escarradeiras que havia no Sobrado e espalhou-as pelo chão. Alvarenga puxou com o juiz de direito e o padre uma discussão sobre a imortalidade da alma. No seu caixão preto, de rosto descoberto - como a neta exigira - e olhos arregalados, Aguinaldo também parecia escutar.

     Winter olhava para Luzia. Luzia olhava para o defunto. O defunto olhava para o teto.

    

     Depois da missa do sétimo dia, Bolívar, a mulher e a mãe foram para o Angico, resolvidos a ficar lá até princípios do inverno. E quando o outono entrou, Carl Winter decidiu fazer uma excursão às Missões. Seu interesse pelas ruínas daquela curiosa civilização revivera de repente. E como no momento nenhum paciente necessitasse de sua presença em Santa Fé, e como os dias andassem belos e calmos, o médico fez a mala, comprou um cavalo, contratou um vaqueano e pôs-se a caminho. Partiram de madrugada, pouco antes do sol nascer. O ar estava frio e úmido, galos cantavam nos terreiros. Como o guia - que era neto do Chico Pinto - fosse homem de pouca conversa, a primeira légua foi percorrida quase em silêncio. E como ao entrarem na segunda o moço ainda continuasse calado, Winter decidiu conversar consigo mesmo, e em alemão, coisa que o companheiro pareceu não estranhar muito. Quando, porém, o sol estava já a pino, o vaqueano voltou para o médico a face curtida e disse:

     - Ainda que mal pergunte, doutor, vosmecê vai procurar algum tesouro?

     Winter soltou uma risada. Um quero-quero gritou perto, como numa resposta.

     - Está claro que não, amigo. Vosmecê acredita mesmo que há tesouros enterrados nas Missões?

     O outro tirou de trás da orelha um toco de cigarro, bateu o isqueiro com pachorra e depois de puxar a primeira baforada, quando Carl já havia quase esquecido a pergunta, respondeu:

     - Pode que sim, pode que não.

     Ao fim do primeiro dia de viagem, de rins doloridos, pernas dormentes, Winter estava já arrependido de se haver metido naquela aventura. Era um homem curioso - não havia dúvida - gostava de conhecer gentes e lugares novos; mas por outro lado seu comodismo obrigava-o a ficar sempre no mesmo lugar, repelindo com certo horror a idéia de movimentar-se, vencer distâncias, enfrentar as asperezas das jornadas, a intempérie, a mudança de regime alimentar, o desconforto das pousadas de emergência...

     Passaram aquela primeira noite na casa dum pequeno estancieiro, que os recebeu com a hospitalidade característica das gentes da província e lhes deu um bom churrasco com farinha, uma guampa de leite gordo e um catre sofrível.

     No dia seguinte ao entardecer chegaram às ruínas da redução de Santo Ângelo e Winter foi imediatamente olhar o que restava do templo. Estava ainda de pé o grande frontispício, a porta principal era flanqueada por dois nichos, num dos quais Winter viu uma imagem de pedra representando um sacerdote paramentado, com um livro debaixo do braço esquerdo. Devia ser Santo Inácio de Loyola - refletiu o médico. O santo do outro nicho estava sem cabeça, e no pedestal da estátua não havia nenhuma inscrição esclarecedora. O vaqueano olhou para a imagem decapitada e disse:

     - A la fresca, lo degolaram!

     Winter sorriu e ficou a examinar as quatro grandes colunas derrocadas que se erguiam à frente do templo e que deviam ter servido de sustentáculo ao pórtico. Por toda parte cresciam guanxumas, urtigas e marias-moles. Durante muito tempo o alemão ficou olhando o horizonte do anoitecer através das aberturas daquela fachada em ruínas. E quando a noite caiu, sua impressão de soledade e abandono foi tão profunda, que ele ficou meio deprimido. O vaqueano cozinhou arroz com charque, que ambos comeram em silêncio, e depois preparou um chimarrão, de que o médico teve de participar, para não ofender o companheiro. Dormiram ao relento, sobre os arreios. Antes, porém, de fechar os olhos, Winter ficou deitado de costas, com as mãos trançadas sob a cabeça, pensando na singular civilização que ali havia florescido e em como era estranho estar ele, Carl Winter, naquela terra remota à luz das estrelas, diante dum templo jesuítico em ruínas. Começou a fazer considerações sobre o tempo, a História e a Geografia.

     De certo modo o tempo histórico dependia muito do espaço geográfico. Na Europa agora a humanidade se achava em pleno século XIX. Mas em que idade estariam vivendo os habitantes de Santa Fé e da maioria das vilas, cidades e estâncias da província do Rio Grande do Sul? Existiam vastas regiões do globo que ainda se encontravam no terceiro dia da Criação. E o viajante que em meados do século XVIII visitasse os Sete Povos de Missões, haveria de encontrar ali uma esquisita mistura de Idade Média e Renascimento, ao passo que se se afastasse depois na direção do nascente ele como que iria recuando no tempo à medida que avançasse no espaço, até chegar ao Continente de São Pedro do Rio Grande, onde entraria numa época mais atrasada em que homens vindos do século XVIII, com suas roupas, armas, utensílios, hábitos e crenças se haviam estabelecido numa terra de tribos pré-históricas, onde ficaram a viver numa idade híbrida.

    

     Dias depois Winter e seu guia chegaram a São Miguel, cujo grande templo em ruínas causou ao médico uma impressão ainda mais funda que o de Santo Ângelo. Carl passeou vagarosamente ao longo das colunas coríntias, agora dilapidadas e cobertas de parasitas, e que outrora, em número de dezoito, tinham sustentado um majestoso pórtico. Tentou subir ao alto da torre principal, onde se via ainda o revestimento de madeira que protegia o maquinismo do grande relógio do templo - mas os degraus da escada do campanário, carunchados e podres, cederam ao peso de seu corpo e partiram-se.

     O vaqueano, que o observava, gritou:

     - Cuidado, doutor, que vosmecè pode cair e quebrar as guampas.

     Quebrar as guampas! - repetiu Winter mentalmente, sem saber se devia zangar-se ou não. Que expressão! Mas sua experiência da maneira de falar das gentes da província o aconselhava a nunca tomar aqueles ditos muito ao pé da letra.

     Continuou a andar dum lado para outro, à frente das ruínas, enquanto o guia lhe preparava o almoço e de quando em quando lhe lançava olhares furtivos e desconfiados. Pensa que ando procurando tesouros - refletiu Winter, que tinha agora nas mãos um lápis e um caderno de notas no qual procurava reproduzir o desenho das cabeças de leão esculpidas em pedra e que encimavam os capitéis das colunas, nos ângulos da torre principal. - Que teria existido no alto do zimbório? - perguntou ele a si mesmo em voz alta. - Um galo de ouro - afirmavam os antigos. E sobre a cimalha majestosa? As imagens de São Miguel e dos doze apóstolos - informavam os cronistas. E Winter tomava notas, rabiscava desenhos. Evidentemente o estilo lembra o Renascimento italiano... - murmurou ele, umedecendo com a língua a ponta do lápis.

     E pisando em ervas daninhas e pensando vagamente na possibilidade de tropeçar numa cascavel, Winter visitou o interior do templo, onde ficou por algum tempo tentando reconstituir com a imaginação a pompa antiga dos nove altares, com seus candelabros, lâmpadas de prata, imagens, vitrais e alfaias.

     Depois foi examinar a grande muralha de pedra que circundava a quinta da redução, atrás da igreja; estava ela toda coberta de trepadeiras e de rosas silvestres brancas e escarlates. À sombra dessa muralha florida, Winter sentou-se aquela tarde para ler o volume de poemas de Heine que havia levado consigo. E à noite ao deitar-se pensou em todas as criaturas que no passado tinham pisado aquele chão - índios, missionários, bandeirantes, aventureiros, cientistas, viajantes... Aquelas pedras - refletiu ele - haviam sido envolvidas por melodias inventadas por compositores europeus e reproduzidas por jesuítas e indígenas em instrumentos fabricados na própria redução. Onde estavam agora as melodias do passado? Onde? Para se divertir fez em voz alta essa pergunta ao vaqueano. O rapaz mirou-o com ar sério e disse:

     - Vosmecê está mangando comigo, doutor.

     - Não estou, meu amigo! - protestou Winter, erguendo-se. - Pense bem. Os sinos da igreja badalavam, não badalavam? Os índios batiam tambores, não batiam? E tocavam instrumentos, não tocavam? Pois bem, onde está agora o som dos sinos, dos tambores, das cornetas, das clarinetas, das liras? Onde?

     Acocorado perto do fogo o rapaz encarou o companheiro por alguns segundos e depois respondeu:

     - O senhor, que é doutor, deve saber. Eu sou um bagualão.

     Winter tornou a deitar-se e ficou olhando para as estrelas: as mesmas estrelas que brilhavam neste mesmo céu no tempo da glória dos Sete Povos! Por aqui andou Sepé Tiaraju, o santo índio que tinha um lunar na testa. Foi na redução de São Tomé que a teiniaguá desgraçou um sacristão. O diabo - refletiu o médico - era que tudo aquilo não passava de pura lenda, como a história do anel dos Nibelungen e a de Lorelei. “O mundo da realidade, mein lieber Heine, é muito prosaico! Como eu gostaria de ver surgir daquele cemitério abandonado ali ao lado da igreja o fantasma de algum defunto - padre ou índio. Seria uma revelação, uma novidade, uma quebra de rotina, o princípio de alguma coisa nova em minha vida”.

     Um corujão passou em vôo rápido sobre a cabeça dos dois viajantes e entrou no campanário. As estrelas palpitavam. Winter fechou os olhos e pelos seus pensamentos começaram a desfilar pessoas e paisagens: Luzia, o quarteto de amadores, Trude, um Biergarten de Heidelberg, um trecho do rio Neckar, seu pai fumando cachimbo, Von Koseritz num leito de hospital, a figueira da praça, o vulto do castelo de Barba-Roxa...

     - Boa noite, doutor - disse o guia, estendendo-se sobre os pelegos.

     - Boa noite. Durma bem e tenha bonitos sonhos.

     - Eu nunca sonho.

     Winter tornou a abrir os olhos e a fitá-los no cemitério. Se ele visse agora um fantasma sua vida mudaria por completo, ganharia um novo sentido. Seria melhor que encontrar o tesouro dos jesuítas.

    

     Voltou para Santa Fé em princípios de maio. Vinha cansado da solidão dos campos e ansioso por convívio humano. Como o Sobrado continuasse fechado, não teve outro remédio senão aceitar o convite de Alvarenga e freqüentar-lhe os serões em que Florêncio noivava insipidamente com Ondina, cada um sentado na sua cadeira e separados por léguas e léguas de distância, sob o olhar fiscalizador de Frau Alvarenga.

     Em fins de junho, numa noite serena particularmente fria, Gregória, cuja autoridade em assuntos climatéricos Winter respeitava profundamente, disse:

     - Amanhã vai gear.

     Efetivamente, no dia seguinte ao levantar-se da cama o médico viu que a relva, as árvores e os telhados achavam-se brancos de geada. O céu estava limpo e rútilo e de leste começava a soprar um ventinho frio e cortante.

     Mais um inverno! - pensou Winter. E de novo perguntou a si mesmo por que não se ia embora. Von Koseritz continuava a insistir para que ele voltasse ao litoral e se instalasse em Pelotas. Seu ilustre barão tinha planos grandiosos: ia fundar um jornal e uma escola, meter-se na política, naturalizar-se brasileiro e provavelmente casar-se com uma moça natural da província.

     Tremendo de frio Winter derramou a água do balde na gamela, experimentou-a com a ponta dos dedos e gritou:

     - Gregória!

     Pronunciava este nome com um excesso de erres. A escrava apareceu. Estava mais molambenta que nunca e seus olhos continuamente vertiam água. Winter contemplou-a com uma mistura de repulsa.e piedade e disse:

     - Aquente um pouco d'água para eu me lavar.

     Ficou junto do espelho a passar os dedos pelas barbas ruivas, a examinar os próprios olhos. Estavam um pouco sujos e injetados de sangue. Botou a língua para fora: saburrosa. Devia ser o fígado. Naquela excursão comera muito charque de qualidade duvidosa e várias vezes, depois de tomar chuva, bebera cachaça. E o pior de tudo - lembrou-se ele - foi que uma noite em que suas resistências morais estavam enfraquecidas e seu desejo exacerbado, dormira com uma índia. Ach!

     Enquanto Gregória fazia fogo na cozinha, Carl apanhou o violino e começou a tocar. Tinha os dedos duros de frio. A voz do instrumento pareceu-lhe rouca, e lembrou-lhe, nas notas graves, a voz de Luzia.

     De repente Winter sentiu saudade do Sobrado. Do Sobrado? Sim. Não era propriamente das pessoas da casa. Admirava dona Bibiana. Tinha pena de Bolívar. Sentia por Luzia uma atração estranha que não chegava nunca a ser desejo de estar perto dela - mas que o compelia a olhar irresistivelmente para a moça, quando em sua presença. Gostava, porém, do Sobrado como dum velho amigo calado e acolhedor, que tudo dá e nada pede. Era a única casa daquela vila que lhe dava uma impressão de conforto, de abrigo. Gostava dos serões do casarão, que cheiravam a açúcar queimado e defumação de alfazema. Carl arranhava no violino um minueto de Beethoven, e quando Gregória apareceu trazendo a chaleira preta de picumã e arrastando os pés de paquiderme, ele teve uma consciência tão aguda do contraste - o minueto e a figura da escrava - que soltou uma risada. Gregória ficou parada no meio do quarto, de cabeça baixa, humilde e calada.

     - Tá aqui a água - disse ela com sua voz de areão.

    

     Naquele mesmo dia Winter foi chamado para ver Juvenal Terra, que estava de cama com uma pontada nas costas.

     - O velho não gosta de médico - explicou-lhe Florêncio no caminho. - Parece que a coisa não é muito séria, mas é sempre bom o senhor ir ver ele.

     Caminharam alguns passos em silêncio e de repente Winter perguntou:

     - Tem visto o Bolívar?

     - Tenho.

     - Como vai ele?

     O outro encolheu os ombros.

     - Bem. - E depois acrescentou, vago: - Eu acho...

     E o assunto ficou cortado.

     Juvenal estava deitado na cama do casal, mas completamente vestido e de chapéu na cabeça. Era um homem ainda forte, de rosto muito queimado, onde crescia em desalinho uma barba negra com raros fios grisalhos.

     - A bênção - murmurou Florêncio, beijando a mão do pai.

     - Deus lê abençoe, meu filho.

     Os olhos miúdos e meio oblíquos de Juvenal fitaram-se no médico.

     - Ué... - fez ele, pondo-se de pé. - Que é que lê traz por estas paragens, amigo?

     O rapaz foi logo explicando:

     - Não vê que o doutor ia passando, papai, e eu achei melhor convidar ele para dar uma olhada em vosmecê.

     Juvenal apertou a mão de Winter.

     - Mas eu não tenho nada, doutor.

     Carl sentou-se na beira da cama, suspirou de mansinho, esfregou as mãos e disse:

     - Pois se não tem, melhor. Vamos então conversar.

     Florêncio inventou um pretexto e retirou-se. O médico acendeu um charutinho.

     - Quer um dos meus mata-ratos? - perguntou, sorrindo.

     - Não, gracias. Prefiro um crioulo.

     Tirou da cava do colete um punhal com cabo de prata lavrada e começou a alisar com ele um pedaço de palha.

     - Ouvi dizer que vosmecê andou viajando...

     - É verdade - respondeu o médico - andei visitando as Missões. Ruínas de causar dó.

     E começou a contar das coisas que vira, dos lugares por onde andara e das pessoas com quem conversara; terminou dizendo:

     - Mas cheguei meio adoentado, com umas dores do lado, a língua suja.

     - Isso acontece. Eu também tenho andado com umas pontadas. .

     Levou a mão esquerda às costas. Mas de repente calou-se, pois compreendeu que estava caindo em contradição. Winter desatou a rir:

     - Seu Juvenal, uma das manias dos homens desta terra é acharem que não podem adoecer. Sabe que isso é puro orgulho?

     - Qual nada, seu doutor.

     - As mulheres são diferentes, essas sempre pensam que estão doentes e não podem enxergar um médico que não comecem a queixar-se que sentem uma dor aqui que responde não sei onde... Mas os homens podem estar morrendo que nunca se queixam. Acham que doença é coisa de mulher.

     - E não é?

     - Acho. Está claro que não. Os touros não adoecem tanto quanto as vacas?

     - Adoecem.

     - Os garanhões não adoecem?

     Juvenal agora picava fumo calmamente, sorrindo um sorriso canino que lhe expunha os dentes fortes e amarelos.

     - Vamos! - disse o médico com ar trocista. - Diga o que sente.

     Com alguma relutância Juvenal confessou que ultimamente andava sentindo dores no lombo. E antes do médico dizer o que quer que fosse, ele concluiu:

     - Deve ter sido alguma friagem que apanhei.

     Winter não respondeu. Tomou o pulso do doente, examinoulhe a língua, auscultou-lhe os pulmões, fez-lhe muitas perguntas e depois tomou dum lápis e escreveu uma receita numa folha de papel.

     - Mande comprar isto na loja do Alvarenga. Peça à sua mulher que lhe bote uns sinapismos nas costas. E se dentro de dois dias não estiver melhor... O remédio é chamar uma dessas negras velhas benzedeiras.

     Juvenal riu, bateu o isqueiro e acendeu o cigarro. Falaram do tempo e da política local. E quando Winter mencionou o nome de Bolívar, teve a impressão de que o rosto do outro escurecia. Houve um curto silêncio em que Juvenal ficou pitando e olhando para o chão.

     - Não sei se o doutor sabe - disse ele lentamente, depois de algum tempo. - Fui muito amigo do pai desse menino. O Bolívar a bem dizer se criou junto com o Florêncio.

     Puxou um pigarro, como se estivesse constrangido e achando difícil falar naquelas coisas.

     Winter sacudiu a cabeça em silêncio. Apanhou o punhal que o outro deixara sobre uma cadeira, ao lado da cama, e começou a brincar distraidamente com ele.

     - O senhor às vezes vai no Sobrado, não vai, doutor?

     - Sim, vou.

     Novo silêncio. Outro pigarro.

     - Doutor, vosmecê é uma pessoa de fora, um estrangeiro... - Juvenal interrompeu a sentença para tossir uma tosse seca sem vontade. - Sou homem de poucas palavras, gosto de ir direito ao assunto. Mas nem sempre é fácil. Há coisas muito sérias, negócios de família, e a gente fica meio desajeitado...

     Winter largou o punhal sobre a cadeira e disse:

     - Refere-se ao casamento do Bolívar?

     Juvenal apertou forte o cigarro entre os dentes e murmurou:

     - Vosmecê leu os meus pensamentos.

     - Pode falar com toda a franqueza. Um médico é como um padre: tem de guardar segredo. Diga o que é que há.

     - Pois aí é que está o difícil da coisa. Eu não sei o que é que há. Só sinto que há qualquer coisa errada... Não quero me meter na vida de ninguém, mas no final de contas o rapaz é meu sobrinho. Ando preocupado com o jeito dele. O Boli envelheceu dez anos depois que casou; anda triste como carancho em tronqueira.

     - Vosmecê tem conversado com sua irmã a esse respeito? Juvenal sorriu um sorriso descrente.

     - O doutor não conhece bem os Terras. É uma gente mui custosa.

     - Tenho observado que os Terras são reservados.

     - É isso. E meio teimosos também. Não gostamos de discutir. Cada qual fica com suas ideias. - Novo pigarro. - Mas para lê ser franco nunca botei nem pretendo botar os pés naquela casa. Assim sendo, não vejo muito seguidamente a mana Bibiana. Às vezes ela aparece de visita, fica por aí conversando com a minha velha, mas não fala na nora. Não quer dar o braço a torcer, porque sabe que sempre fui contra esse casamento. Mas a gente vê na cara dela que a coisa anda mal lá pelo Sobrado. Conheço bem a minha irmã.

     Winter cofiou a barba e generalizou:

     - Vosmecê sabe, sogra e nora nunca se entendem, principalmente quando moram na mesma casa.

     - Mas não é só isso. Deve haver coisa mais séria. Eu sinto. O Bolívar está se consumindo. Será que...?

     Ia formular uma pergunta mas conteve-se. Moveu-se na cama, gemendo baixinho; a cama gemeu com ele. Winter esperava...

     - O Bolívar me apareceu umas duas vezes depois que casou - continuou Juvenal. - Tomou uns mates, falou no Angico, nuns negócios que tinha em vista, mas nem chegou a me olhar direito. Estava assim com um jeito assustado de negro fugido, era como se andasse acuado... Que é que o senhor acha, doutor?

     Winter encarou-o. A fumaça de seu charutinho casava-se com a do cigarro de palha do outro e juntas subiam no ar frio.

     - Vosmecê quer saber a minha opinião franca? - perguntou o médico. O outro sacudiu a cabeça afirmativamente. Winter lançou um olhar para a porta, antes de responder. Vendo que não havia ninguém na peça contígua, disse, baixando a voz: - O Bolívar casou com uma mulher doente.

     - Como doente?

     - Não é uma doença do corpo, dessas que se curam com cataplasmas, pílulas ou poções. É uma doença do espírito.

     Bateu com a ponta do indicador no centro da testa e repetiu: "Do espírito".

     - Quer dizer então que ela não é bem certa do juízo?

     - Não é bem isso. É difícil explicar.

     - Sou um homem muito ignorante.

     O alemão sorriu:

     - Não diga isso, seu Juvenal. Eu queria saber a metade do que vosmecê sabe. Há muitas coisas que os livros não ensinam. A melhor escola que há é a da vida e por essa escola o senhor é formado. É tão bom doutor que mesmo de longe percebeu que havia alguma coisa errada naquele casamento.

     Juvenal ficou algum tempo em silêncio, fitando no interlocutor seus olhos tristes e foscos.

     - E o que é que a gente pode fazer? - perguntou.

     - Por enquanto, nada. Só ficar observando a coisa. Vosmecê compreende que só posso intervir quando Bolívar me pedir. Antes, não. E em qualquer caso não acho que possa fazer muito...

     - E será que o Bolívar pede?

     - Vosmecê, que é parente, sabe melhor. Será que pede?

     - Pode ser. O Bolívar sempre foi mais expansivo que a mãe, que eu ou que o Florêncio. Herdou um pouco o gênio do pai. Mas o senhor sabe duma coisa? Por falar em gênio, tenho muito medo que o rapaz um dia faça alguma loucura.

     - Loucura?

     - Sim, que perca a paciência e surre a mulher.

     - Pois isso não faria nenhum mal.

     Juvenal ficou pensativo por alguns instantes. Depois, tentando em vão tirar uma baforada do cigarro que se apagara, disse:

     - Parece mentira. Tanta moça boa por aí e ele foi escolher justamente aquela. Veja o que é o destino duma pessoa... - De repente mudou de tom.

     - No princípio fiquei com medo que o Florêncio andasse também enrabichado por ela. Mas graças a Deus ele vai casar com uma moça muito direita e trabalhadeira. A filha do Alvarenga, vosmecê sabe...

     Tornou a acender o cigarro e acrescentou:

     - Esse negócio de rabicho é muito engraçado. - Fez uma pausa, meio relutante, e depois prosseguiu: - Vou lhe contar porque vosmecê é um doutor, um homem de bem e de saber. A minha mana Bibiana quando era moça também se meteu na cabeça de casar com um homem contra a vontade do pai. Era um certo capitão Rodrigo, que veio dessas guerras da Banda Oriental, passou por Santa Fé e aqui acampou. Pois olhe, doutor, essa menina nos deu o que fazer. Menina... - Sorriu. - A gente continua a chamar as irmãs de menina mesmo depois que elas ficam avós. Pois a Bibiana foi um caso sério. O senhor conhece o coronel Bento Amaral. Pois era um rapagão vistoso, rico, disputado pelas moças. Estava louco pela Bibiana. Mas ela não quis saber dele. Queria o outro, o tal capitão Rodrigo. Bateu pé e casou. Meu pai lavou as mãos.

     Aquela gente - refletiu Winter com um súbito bom humor - parecia não fazer outra coisa senão lavar as mãos ante os casamentos dos parentes.

     - E ela foi feliz? - perguntou, só para fazer o outro continuar.

     - Bom. Diz ela que foi...

     - Mas que é vosmecê acha?

     - Eu? Pois, homem, é difícil dizer. Sei que a Bibiana passou o diabo com o marido. Ele era chineiro, jogador, gostava de empinar o seu copo, vivia metido em fandangos e não era amigo do trabalho. Mas a Bibiana jura que foi feliz. Vosmecê conhece o nosso ditado: "O que é de gosto regala a vida".

     - É o amor, seu Juvenal.

     - Pois é. Uma coisa esquisita. O capitão Rodrigo tinha um não sei quê naquela cara, que deixava a gente brabo e ao mesmo tempo gostando dele. No primeiro dia quase brigamos a arma branca, mas depois ficamos amigos e até sócios num negócio. - Fez uma pausa. - Mas acho que estou falando demais.

     Calou-se, meio ressentido, como se tivesse adivinhado nos pensamentos do outro qualquer censura ou mesmo surpresa ante sua tagarelice.

     - Por amor de Deus, seu Juvenal! Continue. Estou muito interessado nas coisas que o senhor está contando.

     Winter calou-se. E de repente ele não estava mais em Santa Fé conversando com Juvenal Terra e sim num café de Berlim, dali a muitos anos, numa roda de amigos, recordando aquele momento: “Era um homem calado, muito discreto... Mas eu tinha certa ascendência sobre aquelas criaturas e elas sempre me faziam confidências. Eu só queria saber que fim levou Herr Juvenal Terra...”

     - Pra lê ser franco - continuou Juvenal, remexendo-se na cama - eu gostava do capitão Rodrigo. Achava que ele era valente, engraçado, um bom companheiro pra tudo. Mas pra falar bem a verdade, nunca me senti à vontade perto dele...

     - Tinha sempre medo que ele fizesse uma das suas...

     - Isso! E ele sempre acabava fazendo. Depois que fazia, eu tinha vontade de ir pra cima dele de rebenque em punho. Mas isso era só no primeiro momento. Em seguida o homem desarmava a gente com uma risada, com uma palavra ou só com um jeito de olhar.

     - Pois se vosmecê, que é homem, sentia isso, como é que pode censurar a sua irmã por ter amado um tipo dessa têmpera?

     - Pois é como lê digo. Isso de gostar é uma coisa engraçada. A amizade também. Vosmecê não acha que a gente pode querer bem até um homem sem-vergonha, um ordinário, um patife?

     Winter sacudia a cabeça com uma gravidade de que ele mesmo achava graça.

     - Claro que pode. Os patifes são em geral pessoas muito simpáticas. Não há nada mais aborrecido que um homem de caráter.

     - Nesse ponto não estou de acordo com vosmecê. Há homens direitos que dá gosto a gente conhecer.

     Winter deu uma palmada na própria coxa e levantou-se.

     - Bom! Mande fazer a receita e bote o sinapismo. Amanhã eu volto.

     Juvenal quis levantar-se.

     - Não. Não se levante. Vosmecê precisa ficar de resguardo.

     - Mas... doutor. Quando puder vá ao Sobrado, bombeie e veja o que é que pode fazer pelo Bolívar. Pode ser que o rapaz se abra com vosmecê. Pode ser que a Bibiana deixe escapar alguma coisa.

     - Está bem. Prometo fazer o que puder.

     - Eu lê agradeço muito.

     Winter saiu do quarto. A mulher de Juvenal, que estava na cozinha, veio a seu encontro. Era uma criatura raquítica, de rosto ossudo e lábios muito finos. Tinha cabelos lisos, dum grisalho amarelado, e falava com as pessoas sem nunca encará-las.

     - Que é que ele tem, doutor?

     - Nada de sério. Passei uma receita. Bote um sinapismo nele hoje mesmo. E não deixe seu marido se levantar nem apanhar frio. Até logo, dona Maruca.

     Florêncio esperava-o à porta: saíram a caminhar juntos.

     - Estivemos conversando sobre o Bolívar - contou Winter. Florêncio nada disse por algum tempo. Depois desconversou:

     - Eu ouvia o zunzum das conversas e estava admirado do Velho estar falando tanto. O senhor pode se gabar de ter conseguido o que ninguém consegue. Por que será que as pessoas se abrem com vosmecê?

     - Deve ser por causa do meu chapéu alto.

     Winter caminhava com suas largas passadas de pernilongo. Voltou a cabeça bruscamente para Florêncio e disse:

     - É. Algumas pessoas têm confiança em mim. Mas nem todas. - Olhou o outro bem nos olhos e repetiu: - Nem todas.

     Florêncio sorria um sorriso vago, mastigando um talo de capim. Mas continuava silencioso.

    

     Carl Winter voltou ao Sobrado num domingo de fins de julho, para almoçar. E quando se viu sentado na sala de jantar à grande mesa que Aguinaldo sonhava encher de bisnetos, mas em torno da qual estavam agora apenas Luzia, Bolívar e Bibiana - o médico temeu que aquele almoço não passasse duma sucessão de silêncios pontuados de pigarros, suspiros e tosses falsas. Em breve, porém, verificou que se enganava. Porque Luzia estava loquaz, amável, simpática como ele jamais a vira. Parecia outra pessoa. Tratava tanto o marido como a sogra com naturalidade e quase com cordialidade. Isso facilitava tudo. E embora Bibiana passasse a maior parte do tempo dando ordens às escravas que serviam a mesa, e Bolívar se mantivesse mergulhado num silêncio que a Winter pareceu de ressentimento - a conversa decorreu fácil desde a sopa até a sobremesa.

     Dona Bibiana mergulhou a colher grande - a que chamava "cucharra" - na terrina fumegante.

     - Gosta de canja, doutor? - perguntou Luzia.

     - Se gosto de canja, meine liebe Frau Cambará? Isso nem se pergunta. A canja é uma das delícias desta terra. Num dia frio como este uma canja assim não só aquece o corpo como também a alma.

     Luzia sorriu.

     - Vosmecê sabe, dr. Winter, do que eu mais me admiro? É da maneira correta como vosmecê se exprime em nossa língua. Tem um pouquinho de sotaque, é verdade. Mas fala gramaticalmente certo e com um vocabulário muito rico.

     Winter tomou uma colherada de canja e respondeu:

     - Muito obrigado pelo elogio. Acontece que sempre amei as línguas e o latim é um dos meus fortes.

     - Mas se o padre Otero, que também sabe latim, tivesse a facilidade de expressão de vosmecê, nós teríamos melhores prédicas.

     Winter limitou-se a soltar uma risada. O luto sentava bem para Luzia - refletiu ele - realçava-lhe a pele branca e oferecia um belo contraste com os olhos verdes. Verdes? Não. Agora estavam azulados... Ou cinzentos?

     O alemão olhou em torno. Gostava daquela sala com a sua mobília severa, o grande relógio de pêndulo e aquele lustre de cobre que pendia do teto, sobre a mesa. Pena era que não houvesse ali bons tapetes e quadros. A nudez de soalhos e paredes parecia aumentar a sensação de frio que davam em geral as casas da província.

     - Mais canja, doutor?

     Winter ergueu a mão num gesto que queria dizer: vamos devagar.

     - Não. Obrigado. A sopa está deliciosa, mas quero reservar lugar para os outros pratos.

     O frio lhe desaparecera do corpo e uma sensação de bem-estar agora o animava. E quando abriram a garrafa dum velho vinho português e ele viu o líquido vermelho cair no copo, ao mesmo tempo que aquele cheiro agridoce e inebriante lhe entrava pelas narinas, Carl Winter se sentiu positivamente feliz. E depois que sorveu o primeiro gole, estalando a língua, degustando bem o vinho, teve vontade de cantar.

     - Os brasileiros não gostam muito de cantar... - observou ele. - Por quê?

     - Somos gente triste, doutor - observou Luzia. E seus dedos apertaram a haste do cálice.

     - Mas por quê? - perguntou o médico. - Por quê?

     Bibiana encolheu os ombros e disse:

     - Nós sabemos bem por quê.

     - Ach, meine liebe Frau Cambará! Não há um ditado que diz "Tristezas não pagam dívidas"?

     Bolívar tornou a encher seu copo, e bebeu-o em seguida dum sorvo só.

     - A mamãe sabe por que ela é triste - disse.

     Winter coçou o queixo. Quis dizer alguma coisa mas achou melhor mudar de assunto. Sabia da vida que Bibiana levara: conhecia a sina das mulheres da província.

     - Traga os outros pratos - ordenou Bibiana à escrava que estava parada junto da porta.

     Ela tomou conta do Sobrado - refletiu Winter. - Parece a dona da casa. Havia no rosto daquela mulher um ar tão resoluto, que ele achou que a coisa não podia ser de outro modo.

     - Recebi ontem jornais de Porto Alegre - disse Luzia. - : O doutor depois quer ler?

     - Claro! Quero ver o que está acontecendo por esse mundo, velho.

     Luzia pousou os cotovelos na mesa e uniu as mãos como se fosse rezar.

     - Mas não é uma coisa horrível a vida que a gente leva aqui? - perguntou ela, erguendo de leve as sobrancelhas.

     Ali sentada à cabeceira da mesa, parecia uma colegial que se esforçava para representar o papel de mulher adulta num drama de amadores.

     - Não temos teatros - prosseguiu ela - não temos concertos, não temos bailes, não temos nada.

     Sem olhar para a nora, Bibiana observou:

     - Há pessoas que passam muito bem sem festas.

     Luzia sorriu com doçura.

     - Eu sei que há, dona Bibiana. Mas é que eu gosto dessas coisas. Principalmente de música.

     Seca e brusca, a outra replicou:

     - Pois então toque cítara.

     Luzia sacudiu a cabeça com um sorriso indulgente, e o ar de quem quer dizer: "Como é que se vai discutir com gente assim?”

     - Vosmecê tem razão - disse o dr. Winter. - Devíamos: ter pelo menos uma banda de música em Santa Fé. Pode ser que um dia eu decida organizar uma.

     Bibiana segurou a travessa de arroz que a escrava acabava de trazer, e retrucou:

     - Temos vivido muito bem até agora sem banda de música.

     - Mas deixe estar que era bem bom a gente ter uma banda. - arriscou Bolívar. Winter notou que o vinho deixava o rapaz com o rosto afogueado e os olhos brilhantes.

     Inclinou-se, sorrindo, sobre a mesa na direção de Bibiana, que estava sentada à sua frente, e perguntou:

     - Mas no fim de contas, meine liebe Freundin, de que é que vosmecê gosta mesmo?

     - De cuidar das minhas obrigações. - respondeu ela sem hesitar. E em seguida, dirigindo-se à escrava: - Depressa, Natália, traga o resto, antes que a comida esfrie.

     Entraram duas escravas com bandejas cheias de pratos. Bibiana os foi enfileirando um por um em cima da mesa. Havia uma travessa cheia de arroz pastoso, levemente rosado e muito luzidio; uma terrina de feijão-preto; um prato de galinha assada com batatas; outro de guisadinho com abóbora e finalmente uma travessa de churrasco com farofa. Winter olhava admirado para aquilo tudo. Era simplesmente assustadora a quantidade de pratos que havia nas refeições das gentes remediadas ou ricas da província. Nunca menos de seis, e às vezes até dez. Não raro numa refeição serviam-se quatro ou cinco variedades de carne, e nenhuma verdura. Por fim, como um pós-escrito a uma longa carta, Natália trouxe uma travessa com mandioca frita.

     - Gosta de tudo, doutor? - perguntou Bibiana.

     Winter achava estúpido encher o prato com todas aquelas coisas mas sacudiu a cabeça afirmativamente:

     - Gosto. Muito obrigado.

     Bibiana começou a servi-lo. O médico agora a observava por trás da tênue cortina de vapor que subia da travessa de arroz. Aos quarenta e oito anos tinha Bibiana Terra Cambará uma fisionomia ainda moça, a pele lisa, e os cabelos apenas levemente grisalhos; e seus olhos oblíquos, achava Winter, davam-lhe uma certa graça ao rosto. Deve ter sido uma moça bonita - concluiu.

     Já estavam todos com seus pratos cheios quando Luzia retomou o assunto de havia pouco:

     - Nunca me esqueço duma noite no Rio de Janeiro, no Teatro Dom Pedro de Alcântara. - Sorriu, mostrando os dentes muito brancos e regulares. - Levavam a ópera “A rainha de Chipre”. Oh, isso faz já mais de três anos... A prima-dona era Ida Edelvira. O senhor ouviu falar nela, doutor?

     Winter sacudiu negativamente a cabeça.

     - É uma cantora divina! - exclamou Luzia. - Quando a cortina se abriu fiquei quase sem respiração vendo o cenário. Tão lindo, tão... - Calou-se e baixou os olhos para o prato. - Quando a Ida Edelvira começou a cantar senti uma coisa na garganta rompi a chorar com tanta força que tive de botar um lenço na boca para abafar os soluços.

     E ao dizer aquelas palavras os olhos de Luzia encheram-se de lágrimas.

     Com a cabeça muito baixa, quase a tocar o prato, Bolívar comia com uma pressa nervosa. Lançou para a mulher um olhar enviesado e disse:

     - No entanto vosmecê não chorou quando seu avô morreu.

     Bibiana voltou a cabeça vivamente na direção do filho. Winter puxou um pigarro nervoso. Mas Luzia continuou com a expressão de êxtase no rosto.

     - Mas é diferente, Boli, é diferente. - Olhou para o médico - Se eu lhe contar, doutor, que chorei como uma criança quando soube da morte de Chopin, vosmecê se admira?

     - Eu não me admiro de nada.

     - Que Chopin? - perguntou Bibiana.

     Luzia, paciente, voltou-se para a sogra.

     - É um compositor, dona Bibiana. Um homem que escrevia músicas, lindas músicas. Aquela valsa que eu toco e que a senhora gosta é dele...

     Bibiana sorriu enigmaticamente.

     - Pois chorei, doutor - continuou Luzia. - E sabe por que chorei mais? Porque Chopin morreu em 1849 e só três ano depois é que fiquei sabendo, por puro acaso. No Brasil a gente vive num fim de mundo, não é mesmo?

     Winter estava pasmado. Lembrava-se das palavras da própria Luzia no dia do seu contrato de casamento. Ser bom ou mau é uma questão de mais ou menos coragem.

     - É realmente um fim de mundo... - concordou ele. olhou para a janela através de cujas vidraças via as vastas campinas onduladas que cercavam Santa Fé. Teve, mais que nunca, uma sensação de distâncias invencíveis e de irremediável desterro. Pensou nas centenas de léguas que teria de percorrer para chegar ao mar e nos milhares de milhas de oceano que teria de navegar antes de poder ver de novo a face de Gertrude Weil. Era assustador o isolamento em que viviam aquelas estâncias, povoados, vilas e cidades da província. As estradas eram poucas e más. Em 1835 haviam começado a abrir uma que ligaria Cruz Alta e Rio Pardo, passando por Santa Fé. A guerra civil, porém, interrompera o trabalho, que só ficaria pronto dentro duns cinco anos, no mínimo.

     Luzia comia vagarosamente, levando à boca o garfo com minúsculas porções de alimento.

     - Não hei de morrer sem conhecer a Europa... - murmurou ela, descansando os talheres nas bordas do prato. - O senhor não pretende voltar, doutor?

     - Um dia, quem sabe...

     - Me diga uma coisa, amigo - disse Bolívar, voltando-se para o médico. - O que é que vosmecê acha dessas tais estradas de ferro?

     - Acho que está nelas o futuro dos transportes. Um país vasto como o Brasil não pode depender das carretas, dos cavalos e das diligências.

     - Não sei, doutor. Posso ser muito atrasado, mas não troco um bom cavalo por essas tais máquinas que cospem fumaça e fogo.

     Winter riu. Não era de admirar que Bolívar Cambará reagisse daquela forma, pois ele vira gente letrada na Alemanha olhar com supersticiosa desconfiança para as locomotivas. O próprio Thiers, o grande Thiers, havia alguns anos, declarara que as estradas de ferro de nada serviriam à França.

     - E o senhor viu mesmo alguma dessas engenhocas? - perguntou Bibiana.

     Winter fez um sinal afirmativo, passou a descrever com minúcias um trem de ferro, e acabou fazendo a lápis o esboço duma locomotiva numa folha de papel. Bibiana ouviu-o com um sorriso ao mesmo tempo divertido e descrente: era como se estivesse a escutar, com certa indulgência, a narrativa das travessuras duma criança. E quando o médico terminou o esboço e passou-lhe o papel, ela o examinou com olho desconfiado e depois perguntou:

     - E vosmecê acha que um dia essas coisas vêm aqui pra província?

     Winter ia responder quando Luzia o interrompeu:

     - Estive lendo nos jornais que vão inaugurar este ano a primeira estrada de ferro no Brasil.

     - Mas vai custar a chegar até aqui - observou Bolívar. - Tudo custa. Leva anos e anos.

     - Quanto mais custar - sentenciou Bibiana - melhor pra nós.

     A estrada de ferro a que Luzia se referira pertencia a uma companhia inglesa. Quando passara pelo Rio de Janeiro, Winter ficara surpreenddido ante o número de firmas e agências comerciais britânicas que lá existiam. O Brasil - refletira ele então - proclamara sua independência cortando as amarras que o prendiam a Portugal, mas de certo modo continuara a ser uma colônia, e colônia da Inglaterra.

     Winter não podia disfarçar sua malquerença pelos ingleses, que na sua opinião outra coisa não eram senão piratas que tudo faziam por parecerem gentlemen. Depois de encorajarem por muitos anos o tráfico de escravos, agora haviam decidido proibi-lo, mandando sua esquadra policiar os mares à caça de navios negreiros. Depois de velha a prostituta esforçava-se por parecer dama respeitável - refletiu Winter, tomando um gole de vinho. Mas que grandes interesses estariam por trás daquele gesto aparentemente nobre? Que tremendos desígnios?

     Pensou nos colonos alemães. Estava certo de que eles poderiam ajudar com seu trabalho e seus conhecimentos o progresso do Brasil. Os que ali haviam chegado até então lutavam com toda a sorte de dificuldades: as distâncias, a falta de meios de comunicação, a ignorância dos nativos e a indiferença dos governos. Faziam, entretanto, o que podiam. Aos poucos iam realizando coisas, fundando colônias novas, cultivando a terra, exercendo, enfim, um apreciável artesanato. Quando, porém, esse trabalho começava a dar frutos, lá viera aquela estúpida guerra civil que atrasara a província de muitos anos. Von Koseritz escrevera-lhe, havia pouco, cartas cheias de entusiasmo pelo futuro da colonização germânica. Contava-lhe, com orgulho, o que seus compatriotas já tinham feito. Existiam nas colônias alemãs da província mais de trinta engenhos para a fabricação de aguardente, vários teares para linho (linho que eles próprios, colonos, plantavam), curtumes, engenhos para mandioca, serrarias movidas a água, olarias, cervejarias e até uma oficina para lapidar pedras finas.

     Pensando nessas coisas, Winter mastigava, observando Bolívar. Ali estava um belo tipo. Era robusto, másculo, tinha coragem, conhecia as lidas do campo e as da guerra. Mas era homem de poucas letras, mal sabia ler e escrever e não possuía a menor noção de história ou geografia. Havia anos que os santa-fezenses tinham pedido ao governo o provimento de escolas públicas para as paróquias do município, a abertura de mais estradas e o estabelecimento de colônias. A indiferença da Assembléia Provincial ante aqueles pedidos era simplesmente pasmosa. Não era, pois, de admirar que as pessoas em Santa Fé crescessem e morressem analfabetas...

     Às vezes - refletiu Winter - parecia que a única função dos homens da província do Rio Grande do Sul era a de servirem periodicamente como soldados a fim de manterem as fronteiras do país com a Banda Oriental e a Argentina. Numa carta recente ao seu lieber Baron, ele escrevera: "Parece que a regra geral aqui é a guerra, sendo a paz apenas uma exceção; pode-se dizer que esta gente vive guerreando e nos intervalos cuida um pouco da atividade agrícola e pastoril e do resto; mas um pouco, só um pouco, porque parece que tudo é feito com o pensamento na próxima guerra ou na próxima revolução. Há nos olhos destas mulheres uma permanente expressão de susto".

     A voz quente de Luzia tirou Winter de seu devaneio.

     - ... não é maravilhoso, doutor?

     - Perdoe-me, mas não ouvi.

     - Estou dizendo que na Corte já foi inaugurada a iluminação a gás.

     - Minha avó morava num rancho perdido no meio do campo - disse Bibiana - alumiado de noite por uma lamparina de óleo de peixe feita duma guampa. Não acho que mais luz ou menos luz possa fazer uma pessoa mais feliz ou infeliz.

     - Essas invenções trazem mais conforto à vida. - replicou Luzia.

     - Vosmecê já pensou, dona Bibiana - disse Winter, descansando os talheres sobre a mesa - que um dia Santa Fé vai ser uma cidade, com muitas casas, lampiões nas ruas, teatros, fábricas, e gente, muito mais gente que agora?

     Bibiana, que olhava fixamente para o prato do médico, perguntou:

     - Quer mais alguma coisa, doutor?

     - Não, minha senhora, muito obrigado.

     - Pode tirar os pratos, Natália! - gritou a viúva do capitão Rodrigo. E depois, entrelaçando as mãos e pousando-as sobre a mesa, olhou para Winter com seus olhos chineses e disse: - Já pensei, sim, doutor. Já pensei em todas essas coisas. Mas também pensei que quando Santa Fé ficar mais grande vai haver muito mais maldade, muito mais bandalheiras que agora. - Soltou um suspiro quase imperceptível. - As vezes acho que até é melhor uma pessoa não ser instruída, não saber ler. Os livros estão cheios de porcarias e perversidades.

     Winter compreendeu que aquelas farpas eram dirigidas contra Luzia.

     - Nem todos os livros - disse ele.

     Natália colocou diante de Bibiana uma pilha de pratos fundos e um jarro de leite cru e frio.

     - Quer mogango com leite, doutor?

     - Se quero mogango com leite? Certamente! É das grandes invenções desta província. Gosto muito também de batata-doce com leite.

     Bibiana sorria quando contou:

     - Meu marido costumava dizer que homem bem macho não come nenhuma coisa doce com leite.

     - Na opinião dele - perguntou o alemão - qual é a mistura digna do homem forte?

     Despejando leite no prato fundo, Bibiana respondeu:

     - Marmelo assado, milho verde, farinha de beiju... Era o que o capitão dizia.

     Pela primeira vez durante aquele almoço Winter viu Bolívar sorrir.

     - A mamãe às vezes me conta coisas do papai... - disse ele. - Ele sempre dizia que Cambará macho não morre na cama.

     - Será que queria dar a entender que o único fim digno dum homem de coragem é morrer lutando? - perguntou Winter, tirando do bolso um charutinho e pedindo licença às damas para acendê-lo.

     - Acho que sim - respondeu Bolívar ainda sorrindo e fazendo distraidamente riscos na toalha com a lâmina duma faca. Prosseguiu:

     - O papai também dizia que gostava de mulher de bom gênio, faca de bom corte, cavalo de boa boca e onça de bom peso.

     Winter estendeu o braço na direção de Bibiana, que naquele momento lhe passava o prato com um pedaço de mogango.

     - Meu marido também gostava de dizer que quando falava com homem olhava pros olhos dele; e quando falava com mulher, olhava pra boca, e assim ficava logo sabendo com quem estava tratando.

     - Se não me engano - observou o médico - isso quer dizer que o capitão Rodrigo julgava tanto as mulheres como os cavalos pela boca...

     Luzia, que até então estivera com ar abstrato, falou:

     - Mas, dr. Winter, nesta terra os homens não fazem muita diferença entre as mulheres e os cavalos.

     Bolívar de súbito empertigou o corpo e, sem voltar a cabeça para a mulher, protestou:

     - Ora, vosmecê nem devia dizer uma coisa dessas.

     Bibiana sorria o sorriso misterioso de quem sabe mais do que diz.

     - Mas é verdade, Bolívar! - replicou Luzia. - Veja bem, doutor, a idéia dos gaúchos em geral é a de que o cavalo e a mulher foram feitos para servirem os homens. E nós nem podemos ficar ofendidas, porque os rio-grandenses dão muito valor aos seus cavalos...

     Winter no fundo estava disposto a concordar com Luzia, mas achou melhor dizer:

     - Vosmecê está exagerando um pouco.

     - Um pouco, talvez, mas não muito.

     Todos estavam servidos de leite. Winter meteu a colher no bojo da metade de mogango que lhe coubera, e começou a misturar a polpa dourada com o leite. Luzia prosseguiu:

     - Eu sei que sou censurada, que sou falada na vila só porque não quero ser como as outras mulheres que levam uma vida de escravas.

     Outra vez Bibiana ficou tesa e tensa na sua cadeira. Tinha olhos e lábios apertados, o rosto contraído numa expressão de expectativa meio agressiva.

     - Fui educada na Corte. Sei como vivem as mulheres nas grandes cidades do mundo.

     Bolívar estava sombrio e mexia com mão distraída o seu leite com mogango. Winter sorvia a sua mistura com gosto e seus bigodes estavam respingados de leite.

     - É por isso que eles não querem mandar as mulheres para a escola. - continuou Luzia.

     - Na escola não ensinam a costurar, nem a cozinhar, nem a cuidar dos filhos - murmurou Bibiana sem olhar para a nora e mal descerrando os lábios.

     Luzia sorriu para o médico com indulgência.

     - Opiniões - murmurou Winter, com a boca cheia. - Opiniões...

     Aquele leite com mogango estava delicioso, mas ele se sentia enfarado, com uma bola no estômago, uma preguiça de pensar, um desejo de sair a caminhar ao ar livre. Mesmo assim continuava a comer, irresistivelmente, confirmando um ditado muito do gosto de dona Bibiana: "Comer e coçar, é questão de começar".

     - A Luzia ainda não se acostumou com a vida num lugar pequeno como Santa Fé - explicou Bolívar. - E a gente tem de compreender; pra uma moça educada em cidade grande, morar em Santa Fé não é fácil.

     Luzia, que ainda não tinha tocado seu leite, disse com grande tranqüilidade:

     - Mas eu não moro em Santa Fé, Bolívar. Moro no Sobrado.

     Winter sabia que Luzia não visitava ninguém nem recebia visitas. Detestava o Angico e a vida do campo. Raramente saía de casa; e mesmo quando estava no Sobrado passava a maior parte das horas fechada em seu quarto de dormir.

    

     Eram quase duas horas quando deixaram a mesa. Luzia pediu licença e retirou-se para o andar superior. Bolívar começou a fazer um cigarro.

     Bibiana convidou o médico para irem até o quintal e quando o filho fez menção de segui-los, ela o deteve com um gesto, dizendo:

     - Fique aqui, Boli. Quero um particular com o doutor.

     O rapaz sacudiu a cabeça em silêncio e ficou.

    

     Fora, fazia um frio seco e o ar era límpido. Bibiana e Carl Winter caminhavam vagarosamente sob as árvores. O chão de terra batida e avermelhada estava manchado de sombras e borrifado de sol. Por entre as folhagens das árvores avistavam-se nesgas de céu, dum azul muito lavado e longínquo. Debaixo dum pé de magnólia via-se uma carroça de varais caídos. Penduradas duma taquara posta horizontalmente entre dois cinamomos, pendiam várias lingüiças frescas. As laranjeiras estavam carregadas de frutos.

     - Neste quintal eu brinquei quando era menina... - disse Bibiana. Parou e apontou para uma árvore. - Essa foi a minha avó que plantou. É um marmeleiro-da-índia. Veja que bonita, doutor. Dá uma fruta grande, amarelona.

     - Comestível?

     - Não. Mas mui linda. Continuaram a andar.

     - Está vendo aquele poço ali? - perguntou Bibiana, estendendo a mão. O médico sacudiu afirmativamente a cabeça. - Foi o meu pai que fez, com tijolo da olaria dele. Fez tudo. Até o balde e a corda. Não é mesmo pra gente ter amor a estas coisas?

     - A senhora deve estar feliz agora.

     - Por quê?

     - Voltou para o seu chão.

     Bibiana franziu a testa, ficou um instante num silêncio reflexivo e depois disse:

     - Sim, mas não estou na minha casa.

     Continuou a andar, calada, olhando para baixo. Winter acompanhou-a, também em silêncio.

     - Aquela árvore ali é uma goiabeira. Não há muitas em Santa Fé. A outra, a pequena, de folha lustrosa, é uma pitangueira. As flores do jardim a geada matou. Mas quando chegar a primavera vão ficar lindas. Tem hortênsia, dália, amor-perfeito, bonina, primavera, begônia...

     Winter sabia que Bibiana não o levara até ali para falar em flores e árvores. Chegaram ao muro do fundo do quintal, junto do qual havia um galinheiro onde um esplêndido galo branco de crista escarlate estava postado com certa imponência em cima duma pedra, como que a olhar com superioridade para as galinhas em torno.

     Bibiana ficou olhando por muito tempo "seus bichos", como que esquecida da presença do doutor. Aninhada num caixão cheio de palha, uma grande galinha branca estava no choco. De repente Bibiana disse:

     - Ela vai ter um filho.

     - Quem? - perguntou Winter quase sem sentir.

     - A mulher do Boli.

     O médico meteu os dedos nas barbas e coçou o queixo distraidamente.

     - Foi ela mesma que lhe contou?

     Sem olhar para o interlocutor, Bibiana sacudiu negativamente a cabeça.

     - Não. Mas eu vi. Tenho bom olho. Estou acostumada com esse negócio. O senhor notou alguma coisa?

     - Para ser bem franco... só notei que ela hoje estava muito bem disposta e até agradável.

     - É. Mas tem andado pálida, com tonturas e enjôos.

     Winter jogou no chão o toco do charutinho e ficou a esmagá-lo com a sola da botina, demoradamente, de olhos baixos, como se aquele ato fosse duma enorme importância para o assunto de que estavam tratando.

     - O Bolívar já sabe?

     - Sabe porque eu contei.

     - Mas a Luzia não disse nada ao marido?

     - Não. E quando o Boli perguntou, ela negou. O pobre do rapaz estava louco de alegria. Foi todo entusiasmado falar com a mulher, mas ela respondeu: "Não seja bobo. Não há novidade nenhuma". Foi mesmo que botar água fria na fervura.

     No galinheiro três galinhas disputavam uma minhoca, cacarejando e bicando o chão freneticamente. O galo branco continuava impassível.

     - Mas quem sabe se não há nada mesmo? - insinuou o médico.

     Bibiana ergueu os olhos para ele. Sua cabeça mal chegava à altura do peito de Cart Winter.

     - Nessas coisas eu nunca me engano. Ela está grávida.

     - Mas então eu não posso compreender...

     Bibiana atalhou-o:

     - Pois eu posso. Ela faz tudo isso de má pra deixar o pobre do rapaz louco da vida. Uma vez chegou a dizer que se ficasse grávida botava o filho fora. Imagine!

     Calou-se de repente. Fez meia-volta e disse:

     - Quero lhe mostrar um pé de magnólia que plantei o mês passado.

     Winter seguia-a em silêncio. Num dado momento sentiu uma vontade irreprimível de falar claro. Falou:

     - Pelo que tenho observado vosmecê não morre de amores pela sua nora...

     Disse isso e esperou uma explosão. Mas a voz da mãe de Bolívar veio calma:

     - Nem ela por mim.

     - Então está tudo bem. Ou está tudo mal.

     - Está tudo mal. Porque meu filho tem loucura por ela. Está ali a magnólia. Leva muito tempo.pra crescer. Mas quando cresce fica uma árvore muito bonita. Já viu alguma? Dá uma flor assim meio creme, muito cheirosa. Ah! Tenho jasmim-do-cabo e jasmim miúdo. E um pé de primavera ali do lado. Tudo isto aqui era campo raso, pura barba-de-bode, quando meu pai veio pra cá. Não existe aqui um arbusto que não tenha sido plantado pela mão dum Terra.

     De repente, sem mudar a entonação da voz, perguntou:

     - Vosmecê não acha que ela não é bem certa do juízo?

     Winter ergueu o braço e arrancou uma folha de laranjeira e começou a mordiscá-la.

     - Bom, a Luzia não é uma pessoa normal, isso não é...

     - Não acha que ela é capaz de botar o filho fora, só de malvada, pra nos fazer sofrer?

     - É possível... Mas não é provável.

     Bibiana ajeitou o xale sobre os ombros.

     - Me diga uma coisa, doutor... - Sua voz agora era um murmúrio quase inaudível. O médico teve de inclinar um pouco a cabeça para ouvir melhor. - Se depois de ter a criança ela continuar com essas loucuras...

     Calou-se. Estava de olhos no chão, evitando encarar o interlocutor. Ouvia-se agora, vindo da rua, um tropel de cavalos e o badalar dum cincerro. Por cima do muro lateral erguia-se uma nuvem de poeira rosada.

     - Pode falar, dona Bibiana. Pode dizer tudo com a maior confiança.

     - ... não era o caso de se mandar essa mulher...

     - Para um hospício? - terminou Winter.

     Bibiana sacudiu afirmativamente a cabeça. Winter teve uma repentina sensação de frio interior. E refletiu imediatamente: "Com Luzia no hospício, dona Bibiana completa a sua conquista do Sobrado". Mau grado seu, sentiu-se chocado. Costumava considerar-se um realista e encarar as criaturas humanas com cinismo, sem nunca esperar delas nobreza de sentimentos e altruísmo. Era em ocasiões como aquela que ele via como estava ainda dominado pelos seus preconceitos cristãos. A sugestão de Bibiana deixara-o quase escandalizado. Habituara-se a ver nela uma mulher de caráter e - oh, as frases feitas, os sentimentos feitos! - de coração bem formado. Via-a agora como sob uma nova luz fria, crua e reveladora: tinha a medida exata de sua capacidade de ódio. Mas... por que não virar a coisa do lado do avesso e dizer - de sua capacidade de amor? Não estaria Bibiana a sugerir aquelas coisas pelo muito que amava o filho e o Sobrado? E aquela atitude não revelaria, em última análise, o espírito prático duma mulher realista que, no dizer do povo da província, costumava dar sempre nome aos bois?

     - E vosmecê teria coragem de fazer ao seu filho uma sugestão dessas? - perguntou ele, com um sorriso que os bigodes escondiam.

     - O doutor é vosmecê - respondeu Bibiana secamente.

     - E que é que acha que seu filho faria se eu lhe aconselhasse mandar a mulher para um hospício?

     Bibiana teve um rápido encolher de ombros.

     - Decerto ele esgoelava vosmecê.

     - Então? - sorriu o médico. - Quer que seu amigo seja esgoelado?

     - Não. Mas também não quero que ela acabe aos pouquinhos com a vida do meu filho.

     Winter atirou os braços para o ar e deixou cair as palmas das mãos com força sobre os lados das coxas.

     - Então que é que se vai fazer?

     - Eu já disse que o doutor é vosmecê.

     - Mas há muitas coisas que um doutor não sabe.

     Bibiana ajoelhou-se por um instante e arrancou do chão um pé de guanxuma. Para a sogra - refletiu Winter - Luzia não passava duma erva daninha que vicejava maleficamente no jardim do Sobrado e que era preciso extirpar antes que ela sufocasse as plantas úteis e belas.

     - Já conversou com o padre Otero a esse respeito? - perguntou ele, só para dizer alguma coisa.

     -Já.

     - Ele lhe deu algum conselho?

     - Deu. Me pediu que tivesse paciência e fé. Prometeu falar francamente com Luzia. Mas sei que não fala.

     - Por quê?

     - Porque tem medo dela. Todo mundo tem.

     - Mas que foi que vosmecê contou ao padre?

     - Contei das malvadezas da... dessa mulher. O senhor já viu como anda a cara do Bolívar? Toda lanhada, toda cheia de arranhões. Um dia amanheceu com os beiços inchados, estava-se vendo que tinha sido uma mordida. Uma pouca-vergonha! Ainda ontem descobri uma queimadura na mão do rapaz. "Que foi isso?", perguntei. Ele ficou meio desconcertado e respondeu: "Não foi nada, mamãe. Me queimei no fogão". Mas sei que não foi no fogão. - Bibiana estava de olhos baixos olhando uma fileira de formigas que saíam dum buraco, ao pé duma bergamoteira. - Essas malditas formigas me estragam as plantas. Ouvi dizer que o coronel Amaral mandou buscar em Sorocaba umas formigas miúdas que comem as formigas daninhas. Ele vai botar no quintal dele para ver se acaba com a saúva. Vosmecê acha que dá certo?

     - Tudo é possível, dona Bibiana, tudo é possível. Winter lembrou-se de ter lido num almanaque que em todo o reino animal só os homens e as formigas é que têm o instinto da guerra.

     - Vosmecê nunca falou claro com seu filho sobre... essas coisas? - Bibiana sacudiu a cabeça com tristeza.

     - Muitas vezes comecei o assunto. Mas ele nunca quis continuar. Sempre achava um jeito de fugir. Ele anda diferente, doutor. Às vezes chego até a acreditar em feitiço. Aquela mulher enfeitiçou ele. O Boli... eu acho... o Boli já nem me quer mais bem. Depois que casou, mudou de um tudo. O Florêncio também tem estranhado ele. Eram tão amigos. Agora ele parece que deu pra ter ciúmes do primo. Já não trata ele como dantes. O pobre rapaz nem aparece mais no Sobrado. São histórias que essa mulher mete na cabeça do Boli.

     - Mas como é que o padre explica essas coisas todas que a Luzia faz?

     - Diz ele que há pessoas assim no mundo porque os demônios entram no corpo delas. Diz que nas Escrituras Sagradas há muitos casos como esse e que Jesus Cristo expulsou o demônio do corpo de muita gente.

     Winter cuspinhou os pedaços de folha de laranjeira que tinha na boca.

     - Não acredite, dona. Não há tal coisa.

     - Eu sei que não há. Não acredito no diabo nem em almas do outro mundo. Já visitei muitas vezes o cemitério de noite. Não vi nada de mais; só um lugar muito quieto, muito triste, onde a gente pode se sentar e ficar pensando em paz, porque ninguém vem nos incomodar. Sou como o meu pai. Só acredito no que vejo. Meu pai não acreditava em almas do outro mundo. O senhor acredita?

     - Positivamente não.

     Bibiana começou a caminhar lentamente na direção da casa. Winter seguiu-a.

     - Então, dona Bibiana, que é que quer que eu faça?

     - Se puder, doutor, fale com ela. Diga que ela precisa ter esse filho.

     - Não é fácil, mas prometo fazer isso quando houver ocasião.

     - Se vosmecê soubesse como eu quero um neto! Sempre tive vontade de ter a casa cheia de crianças. Minha filha, a Leonor, mora em Cruz Alta, é casada com um fazendeiro, mas não tem filhos. Como é que eu podia imaginar que Luzia era assim? A gente às vezes ouve contar coisas esquisitas de certas pessoas, mas acha que é invenção, exagero.

     - Vosmecê é uma mulher que viveu e lutou muito. Devia estar habituada a tudo.

     Bibiana soltou uma risadinha seca.

     - Habituada? Haverá coisa mais corriqueira que a morte? Desde criança a gente sabe que um dia tem de morrer. Toda a hora ouve falar em morte. Mas a gente se habitua com a morte? Não. Quando ela chega sempre é uma surpresa.

     Uma grande nuvem branca, que lembrou a Winter um iceberg, agora se erguia no céu, por cima do Sobrado.

     - Tenho a impressão - disse ele, em parte para tranqüilizar dona Bibiana, em parte para dar voz a um pressentimento - que a Luzia vai ter esse filho.

     - Vosmecê acha mesmo?

     - Acho.

     - Deus lê ouça.

     - Vosmecê acredita mesmo em Deus, dona Bibiana?

     - Às vezes.

     Disse isto e entrou no Sobrado.

    

     A fresca luz dourada daquela manhã de princípio de primavera entrava pelas janelas da casa de Carl Winter, que, sentado à sua mesa, escrevia a Carlos von Koseritz:

    

     "Mein lieber Baron: Faz hoje quatro anos que estou em Santa Fé. Já não uso mais chapéu alto, minhas roupas européias se acabam e eu desgraçadamente me vou adaptando. Isso me dá uma sensação de decadência, de dissolução, de despersonalização. Sinto que aos poucos, como um pobre camaleão, vou tomando a cor do lugar onde me encontro. Já aprendi a tomar chimarrão, apesar de continuar detestando essa amarga beberagem. (Pode alguém compreender as contradições da alma humana?) Eu vivia em castidade forçada por falta de mulheres de que eu gostasse e que quisessem dormir comigo. Meus sonhos eróticos eram povoados de fêmeas louras e eu tinha de me contentar com esses amores oníricos, mas agora, meu caro, de vez em quando, este espírito já vacilante cede aos gritos desta carne fraca - que, diga-se de passagem, continua muito magra sobre a ossatura - e trago para a minha cama, altas horas da noite, com a cumplicidade soturna da bela Gregória, chinocas, índias, e até mulatas. Depois dessas orgias, tiro o violino do estojo e tomo um banho de música. Ou então abro o meu Heine e me encharco de poesia. E nas muitas semanas de castidade que se seguem volto a sonhar vagamente com mulheres brancas e germânicas. Ah, meu amigo, sou personagem dum drama que Goethe não escreveria nunca, um drama que não daria glória a ninguém porque é sórdido, sem propósito e vazio. Mas é um drama ou, melhor, uma comédia. Por que não me vou daqui? Por quê? Não sei. Alguma coisa me prende a esta terra. Não é propriamente afeição, não é amor. É hábito, e o hábito é como uma esposa que cessamos de amar e que já aborrecemos, mas à qual estamos apegados pela força... do hábito, e por preguiça. A inércia, Carl, tem muita força. A rotina é uma balada insípida de rimas óbvias.

     A vida aqui é monótona. Nunca acontece nada. De vez em quando sou chamado a atender um homem que foi estripado por outro num duelo por causa de pontos de honra, discussões em carreiras, jogos de osso, cartas ou chanteira. Mas mesmo isso se transforma em rotina, porque um intestino é igual a outro intestino; as reações das pessoas em tais ocasiões são mais ou menos as mesmas. Os pacientes agüentam os curativos sem gemer. Os outros nunca estão de acordo sobre quem provocou a briga ou quem está com a razão.

     Raramente aparece uma cara nova na vila. Um dia é igual a outro dia. O correio chega uma vez por semana, quando chega. Uma carroça leva uma eternidade para ir ao Rio Pardo e voltar. As pessoas em geral são boas, mas duma bondade meio seca e áspera. Os assuntos, limitados. Fala-se em gado, em cavalos, em tropas, invernadas, comidas, campos ou então em histórias de brigas, guerras e revoluções passadas ou guerras e revoluções que estão para vir.

     Ah! Ia esquecendo de te participar um grande acontecimento. Luzia, a minha Melpômene, teve um filho. Deu-lhe o nome de Licurgo, não porque admire o estadista espartano, mas porque (confessou-me ela com um sorriso angélico) o nome tem um som escuro, um tom dramático. Vê bem: Licurgo. É realmente um nome noturno. Não me chamaram na hora do parto; preferiram uma negra velha parteira que bota a criança no mundo com mãos sujas mas hábeis. Regozijei-me com isso pois não queria por nada no mundo ver minha Musa da Tragédia naquela conjuntura tragigrotesca. Vi-a poucas horas depois que a criança nasceu. Estava mais bela que nunca e seu rosto parecia irradiar luz e bondade. Sim, bondade, Carl. Depois de tudo que te tenho contado dela, isso parece absurdo. Mas estou te dizendo exatamente o que senti. Nesta hora, mein lieber Baron, eu a amei. Amei-a com ternura pela primeira vez, e esse amor durou precisamente o tempo que passei naquele quarto que cheirava a incenso. A mãe não tem leite; mandaram buscar uma preta da estância para amamentar a criança. O pai, de tão orgulhoso, chega a estar pateta. A avó, se está contente, sabe esconder seus sentimentos debaixo daquela máscara de pedra.

     E agora, meu amigo, as coisas parece terem melhorado lá pelo Sobrado. Faço as minhas visitas quase diárias, como médico que sou da casa. Melpômene se tem revelado uma mãe mais carinhosa do quê eu esperava, mas seu carinho se revela em gestos e palavras pois ela olha para o filho com a mesma falta de expressão com que fita um objeto, uma coisa. É um olhar vazio, um olhar de estátua.

     Será que por um desses mistérios da natureza o choque do parto restituiu a saúde àquele espírito doentio? Possível, mas não provável. Como a medicina está atrasada, meu amigo! E como neste fim de mundo, sem livros nem colegas cultos com quem trocar idéias, eu vou ficando para trás mesmo dessa medicina atrasada! Às vezes, para explicar a epilepsia e certas formas de loucuras, chego quase a aceitar a teoria dos antigos, que falavam em demônios e possessos. É uma explicação pitoresca, além de cômoda, e que nos permite a nós, pobres médicos, lavar as mãos diante desses casos, transferindo-os para feiticeiros, sacerdotes e taumaturgos.

     Mudando de assunto direi que estes invernos rigorosos de Santa Fé, em que às vezes sentimos mais frio dentro das casas que fora delas, me ensinaram a beber uma mistura deliciosa, que mein lieber Baron deve já conhecer. É cachaça com mel e suco de limão. Positivamente divino! Se te contarem, Carlos, que morri embriagado numa sarjeta em Santa Fé, podes acreditar na história, apenas com uma restrição: é que em Santa Fé não tem sarjetas pela simples razão de que não tem calçadas, como não tem também lampiões nas ruas, e como, em última análise, não tem nada. Talvez seja essa carência de tudo que me fascina e prende.

     Para não deixar de falar em política, o meu amigo não acha que é muito mau para todos nós que a França tenha agora um novo Napoleão? Sinto maus pressentimentos, Carl, muito maus pressentimentos.

     Manda-me notícias de teus planos. Quando sai o jornal? E a escola? Já encontraste a brasileira do teu coração? Quando puderes, manda-me livros e jornais. Os jornais podem ser até bem antigos, porque nesta vila esquecida de Deus e dos homens, estou me convencendo cada vez mais de que o tempo, afinal de contas, não passa duma invenção dos relojoeiros suíços para venderem suas engenhocas. Manda livros, senão vou acabar esquecendo até o alemão. Já li mais de mil vezes meu volume de Heine. E o meu Fausto está inutilizado, porque a bela Gregória deixou-o cair dentro da água da tina de lavar roupa.”

    

     Tinha essa carta a data de 25 de setembro de 1855, o dia em que Florêncio Terra casou com Ondina, a filha do Alvarenga. A cerimônia realizou-se na intimidade e toda a gente na vila comentou o fato de Luzia não ter comparecido à boda.

     Foi também nesse ano que a Assembléia Provincial autorizou o estabelecimento duma colônia alemã, a três léguas de Santa Fé. Os primeiros colonos chegaram em carroças com suas famílias. Traziam seus tarecos, seus instrumentos agrícolas e suas mulheres e filhos. Winter recebeu-os com uma certa má vontade que ele mesmo não sabia explicar. Além dele, até então os únicos alemães que viviam naquele município eram os Schultz e os Kunz, que haviam chegado ali pouco antes da Guerra dos Farrapos.

     O coronel Bento Amaral reuniu os colonos em sua casa e fez-lhes uma preleção na presença de Winter, para o qual ele olhava de quando em quando com o rabo dos olhos. Tinha uma voz gutural, falava alto, com ar patronal. Os colonos o escutavam numa atitude entre respeitosa e assustada. Havia entre eles um tal Otto Spielvogel, um alemão corpulento da Renânia, de quase dois metros de altura, com grandes manoplas sardentas recobertas de pêlo ruivo, nariz vermelho e fino, e olhos de pupilas tão claras que chegavam quase a parecer vazios. Era uma espécie de chefe natural daquele grupo; e era a ele que Bento Amaral principalmente se dirigia:

     - E têm de obedecer às autoridades - discursava o chefe político de Santa Fé. - Não queremos badernas nem anarquia. E quem sair fora do regulamento, tem de se entender comigo.

     Deram à colônia o nome de Nova Pomerânia, porque a maioria dos imigrantes tinha vindo daquela região. Os recém-chegados começaram a abrir picadas e a construir casas. A cada família coube um lote de cem braças de frente por mil e quinhentas de fundo.

     De tempos em tempos Winter montava a cavalo e ia visitá-los. Fazia isso ou porque o chamavam para atender algum doente ou então porque desejava ver como ia marchando o trabalho. Ficava surpreendido com o que via. A região transformava-se dia a dia, tomava já um jeito de povoado, e por toda a parte viam-se valos, lavouras, cercas, roçados, sinais, enfim, de que aqueles estrangeiros começavam a dominar a paisagem, que de resto ali era suave e submissa. Haviam construído uma ponte sobre um riacho que cruzava aquelas terras e Otto Spielvogel já tinha posto a funcionar seu moinho d'água. Era curioso - refletia Winter - ver aquelas caras e ouvir aquelas vozes alemãs sob o céu de Santa Fé. De quando em quando passava a cavalo um caboclo moreno, de olhos e cabelos negros, parava, olhava para os colonos por muito tempo, sem dizer nada, depois esporeava a cavalgadura e seguia caminho. Carl não conseguia ler nem aprovação nem censura naquelas caras inescrutáveis.

     Um dia, quando Winter fazia uma sangria num dos colonos, apareceu em Nova Pomerânia Bento Amaral montado em seu cavalo branco, com aperos chapeados, e grande botas de couro, muito pretas e lustrosas. Trazia na cabeça um chapéu de abas largas e seu pala de seda creme esvoaçava ao vento. Alguns colonos vieram a seu encontro. O coronel Amaral não quis apear. Falou com a "alemoada" de cima do cavalo, olhou em torno, fez perguntas e deu conselhos. Depois, se foi. Da janela da casa do paciente, Winter ficou a contemplar o Junker de Santa Fé, que se afastava ao trote faceiro e majestoso de seu cavalo - o busto muito ereto, o rebenque pendente do pulso por uma presilha de couro. Winter sorria. À tardinha, em certos dias, Bento Amaral costumava passear a cavalo pelas ruas de Santa Fé. "Boa tarde, coronel, como lê vai?" -  perguntavam os santa-fezenses, descobrindo-se. Ele se limitava a bater com o dedo na aba do chapéu e continuava seu passeio. Se encontrava um desconhecido, fazia o cavalo estacar e gritava: "Ainda que mal pergunte, quem é o senhor?" Fosse qual fosse a resposta, a segunda pergunta era: "Que é que anda fazendo por aqui?”

     Naquele dia os colonos ficaram a seguir o coronel Bento com o olhar até que ele se sumiu atrás duma coxilha. Winter esperava ouvir deles algum comentário. Os homens, porém, não disseram nada: voltaram discretamente para o trabalho. Winter achava-os ignorantes e pouco simpáticos. Em sua maioria tinham vindo para o Brasil porque achavam os impostos demasiadamente pesados em seus principados. Havia entre eles alguns que esperavam enriquecer dentro em pouco para depois voltarem para suas aldeias natais na esperança de lá ocuparem uma posição social melhor que a primitiva. Dentre todos aqueles colonos Winter gostava especialmente de Jacob Vogt, um velho de oitenta anos, natural da Vestfália. Tinha longas barbas dum branco amarelado, que lembravam as macegas dos campos em derredor da Nova Pomerânia. Completamente desdentado, de lábios cor-de-rosa, pele dum creme seco de marfim, olhos muito azuis, o velho Vogt morava com o filho, que era casado e por sua vez tinha oito filhos. Um dia, quando Winter veio ver uma das crianças da casa, que estava com catapora, Jacob aproximou-se dele e perguntou-lhe em alemão, com sua voz fina e fraca, quase inaudível:

     - Há bruxas nesta terra?

     - Bruxas? - estranhou o médico.

     - Sim, feiticeiras. - E contou: - Quando eu era mocinho vi queimarem viva uma bruxa na minha aldeia.

     O filho de Jacob esclareceu:

     - Essa é uma história que papai conta, mas que não sei se é verdade ou caduquice.

     Winter sabia que os camponeses da Vestfália eram muito supersticiosos e quando adolescente ele ouvira falar num caso parecido com o que o velho Vogt lhe contara.

     - Não. Em Santa Fé não há bruxas... - disse ele. E achou melhor acrescentar - ... que eu saiba.

     Por uma inquietadora associação de idéias pensou em Luzia. As coisas No Sobrado ultimamente pareciam ter-se azedado ainda mais que antes. Quando lá ia nas suas visitas, Winter percebia ressentimentos nos silêncios, nos olhares, nas indiretas. O pequeno Licurgo crescia com saúde, graças ao leite da ama preta. Bibiana encarregava-se do resto. Luzia vivia a ler e a tocar cítara, e isso parecia enervar a sogra. Contava-se que havia dias em que as duas mulheres se fechavam, cada qual num quarto, e lá ficavam durante largas horas. Passavam dias e dias sem se falar, ao passo que, pálido e infeliz, Bolívar andava de uma para a outra como uma mosca tonta.

     Um dia Florêncio encontrou Winter na rua e lhe contou com calma e máscula alegria que esperava o primeiro filho para julho do próximo ano. E quando o médico lhe falou na gente do Sobrado, Florêncio pigarreou, desviou o olhar e murmurou, sombrio:

     - Aquilo vai de mal a pior.

     E por mais que se esforçasse, Winter não lhe arrancou nem mais uma palavra.

    

     Quando, ao levantar-se uma manhã e ao ver da sua janela a paineira do quintal do vigário toda cheia de flores cor-de-rosa, o dr. Carl Winter compreendeu que mais um outono estava por chegar. Gostava daquela estação porque descobria sempre nela uma dignidade que as outras não possuíam.

     De meados de março a meados de junho a luz era madura e cor de âmbar, e o ar, morno ao sol e fresco à sombra. O vento, que ele tanto detestava, o enervante vento que às vezes o fazia praguejar, amaldiçoando aquela terra e aquele clima - cessava por completo. Os crepúsculos faziam-se mais ricos e longos, como se Deus ou lá quem quer que fosse dispusesse de mais tinta, de mais tempo e de mais arte para pintar o céu do anoitecer. Nos quintais faziam-se fogueiras com folhas secas, e a fumaça que delas se evolava, invadindo o ar, tinha um perfume que para Winter possuía uma qualidade nostálgica. No outono as moscas diminuíam, os mosquitos começavam a desaparecer e aquela luz generosa parecia deixar menos feias as pessoas e as coisas.

     Quando Gregória apareceu aquela manhã com o chimarrão, encontrou o médico à mesa escrevendo uma carta. Winter apanhou a cuia, distraído, levou a bomba aos lábios, enquanto a negra depunha a chaleira chamuscada ao pé da cadeira do amo. Chupando metodicamente o chimarrão, Winter releu o que havia escrito:

    

     "No outono, meu caro barão, fico em permanente estado de poesia. É quando me lembro mais de Eberbach e de Trude. Mas tanto a aldeia como a moça me parecem agora ficções, elementos dum conto de fadas tão distante como a história de Hansel und Gretel que ouvíamos no tempo de meninos. Se há coisa que lamento é não saber pintar. Tenho visto crepúsculos incrivelmente belos, tão belos que é uma pena que se percam. Alguém devia prendê-los numa tela.

     Jogo partidas de gamão com o juiz de direito e me divirto duplamente; com o jogo e com a cara de meu parceiro. O padre Otero, que parecia tão meu amigo, ultimamente deu para reprovar a vida que levo, pois não vou à missa, não contribuo com dinheiro para as obras da Igreja e de vez em quando externo minhas idéias heréticas. E sabes como se desforra? Recomendando aos paroquianos que procurem o Clotário da homeopatia ou o Zé das Ervas, o curandeiro. Continuo nas boas graças do Junker. O velho Amaral tem sete filhos, dois homens e cinco mulheres, de sorte que no casarão sempre há alguém doente, o que me obriga a visitas quase diárias.

     Quero dar-te notícias da "minha comédia", cujo desenvolvimento acompanho com interesse de espectador que às vezes é obrigado a entrar em cena como ator. A peça tomou um novo rumo ou, melhor, mudou de cenário. Como Luzia andasse irritadiça e inquieta, recomendei a Bolívar que a levasse numa viagem de recreio qualquer. A sugestão foi aceita. Dona Bibiana me apoiou, pois a pobre criatura estava cansada, queria respirar um pouco em paz. Depois de alguma relutância, Bolívar decidiu levar a mulher a Porto Alegre. Luzia exultou. Vivia numa permanente saudade de concertos, festas e teatros. Desde o momento em que a viagem foi resolvida, ela como que se transfigurou. Naturalmente começou a tocar cítara, e tocou as peças mais alegres de seu repertório. Os preparativos foram frenéticos. Iriam de jardineira, pelo Rio Pardo, levariam uma mucama e dois homens de confiança na boleia. Não preciso dizer que a notícia se espalhou rapidamente pela vila e que na hora da partida da carruagem, em princípios de janeiro último, meio mundo estava na praça, à frente do Sobrado, olhando o grande acontecimento. Muitos vieram despedir-se. O padre, o juiz, o Alvarenga. Florêncio não se fez visível. Dona Bibiana abraçou e beijou longamente o filho e deu a ponta dos dedos à nora, que para surpresa minha e dos outros se inclinou sobre ela e lhe beijou as faces. Dona Bibiana, porém, ficou imóvel, de lábios apertados. Confesso que naquele momento tive vontade de beijar a teiniaguá. Estava linda, o contentamento dava-lhe cores vivas às faces. Houve muitos adeuses, acenos e gritos de boa viagem. E lá se foi a jardineira levantando pó pela rua em fora. Quando ela desapareceu na primeira esquina, dona Bibiana trançou o xale e antes de entrar no Sobrado me disse: “Nesta província, doutor, quando uma mulher, se despede do marido, do filho, do irmão ou do noivo, nunca sabe se é por pouco tempo ou para sempre.”

     E sabes, meu caro barão, o que me impressiona nesta gente? É o ar natural, terra-a-terra com que dizem e fazem as coisas mais dramáticas. Estou começando já a descobrir diferenças entre os habitantes das várias regiões desta província. Os da fronteira são mais dramáticos e pitorescos que os desta região missioneira. Gostam de lenços de cores vivas, falam mais alto, contam bravatas e amam os gestos e frases teatrais. Se eu tivesse de eleger o homem representativo desta região, não escolheria Bento Amaral nem Bolívar, mas Florêncio, o meu bom, discreto e bravo Florêncio Terra.

     Perdoa-me estas minúcias. Quando vivemos por muito tempo num mundo tão limitado e pobre como este, acabamos conferindo às suas intriguinhas, às suas pessoinhas e às suas coisinhas uma importância universal.

     Mas este outono, meu caro Carlos, é grande aqui como seria em qualquer outra parte do universo. Aristóteles haveria de gostar de dias e campos como estes para as suas dissertações peripatéticas. Estou certo de que houve um erro qualquer na distribuição das raças. Quando Deus criou o mundo, Ele destinou a esta terra outras gentes que não estas. Haverá ainda um meio de corrigir esse erro? Eis aqui uma pergunta perigosa, que nos poderá levar a complicações tremendas.”

    

     Foi nesse outono de 1856 que passou por Santa Fé um mascate judeu vendendo bugigangas. Era um homem retaco, muito vermelho, de nariz adunco e barbas louras. Alegre, conversador e bem-informado, contou, no seu português arrevesado mas fluente, coisas das terras por onde tinha andado. Conhecia o Oriente, a África e tinha visitado recentemente os países platinos.

     - Sabem da última novidade? - perguntou ele um dia a um grupo na botica do Alvarenga. - Terminou a Guerra da Criméia.

     A notícia foi recebida com indiferença. Ninguém tinha ouvido falar nessa guerra. Ninguém sabia onde ficava a Criméia, a não ser talvez o juiz de direito e o padre, que nessa hora estavam ambos distraídos a jogar xadrez. Por isso ninguém se interessou pela notícia.

     Em fins daquele mesmo outono o dr. Winter foi chamado às pressas a Nova Pomerânia para atender Otto Spielvogel, que, tendo fincado um prego enferrujado na perna - fazia já duas semanas - estava agora ardendo em febre e com muitas dores. O médico pegou a maleta, montou a cavalo e partiu a todo galope para a colónia. Examinou a perna do paciente e concluiu: Starrkrampf. Chamou os membros da família e disse:

     - Se não cortarmos a perna do homem imediatamente ele morrerá.

     A choradeira começou. Todos, porém, puseram-se de acordo em que se devia fazer a amputação. Winter pediu água fervente num tacho e dois homens decididos para o ajudarem. Mandou amarrar Otto Spielvogel fortemente a uma mesa e deu-lhe uma bebedeira de cachaça que o deixou quase inconsciente. E depois, usando o próprio serrote com que um colono estivera aquele mesmo dia a cortar barrotes para a casa, amputou-lhe a perna à altura do joelho, enquanto a mulher e os filhos do paciente choramingavam! no quarto contíguo.

     Ao anoitecer do dia seguinte, voltou para casa, pois um dos filhos de Bento Amaral estava de cama e o Junker exigia sua presença à cabeceira do doente. Montou a cavalo, acendeu a vela da lanterna e pôs-se a caminho. Como não havia lampiões nas ruas de Santa Fé, sempre que saía à rua em noites sem lua o dr. Winter levava sua lanterna acesa.

     Durante todo o trajeto da colônia à vila desejou chegar ao quarto para tomar uns bons goles de cachaça com mel e limão. O inesperado frio úmido da noite lhe penetrava até os ossos. A garoa gelada lhe respingava o rosto, a barba, as roupas; e seus dedos estavam entanguidos sob as luvas de lã. Winter tinha ainda nas narinas o cheiro de sangue. Sentia-se como um carniceiro e amaldiçoava sua profissão. Perdera os ferros cirúrgicos no Rio Grande: tinha de operar agora com os instrumentos mais rudimentares. E como a medicina estava atrasada! Naquela segunda metade do século XIX eles sabiam pouco mais que os curandeiros da Idade Média. Que era que causava as doenças? Que era que originava o tétano? Ninguém podia dizer. Algumas vezes ele, Winter, dera como perdidos pacientes que depois se erguiam da cama, curados com mezinhas caseiras ou chás fornecidos por negras velhas curandeiras.

     Perto de Santa Fé a cavalgadura estacou diante dum vulto, Winter ergueu a lanterna, num sobressalto, e gritou: "Quem é lá?" Era uma vaca que ruminava placidamente, atravessada no caminho. O médico soltou uma blasfémia. O Código de Posturas Municipal dizia claramente: "É proibido ter vacas soltas em noites escuras, salvo se levarem lanternas presas aos chifres".

     Entrou em Santa Fé no pior estado de espírito possível. Desejava calor, uma cama limpa e quente e uma boa companhia humana. Sabia que não encontraria em casa nada disso. O remédio era embebedar-se. Podia ser indigno, podia ser brutal, podia ser; sórdido. Mas era um narcótico.

     Bêbedo, esqueceria a perna de Otto Spielvogel, que ele vira cair pesadamente num balde com um ruído medonho; esqueceria aquele tempo horrível, e esqueceria principalmente que ele, Carl Winter, um homem de trinta e cinco anos, formado em Medicina pela Universidade de Heidelberg, estava preso irremediavelmente preso a Santa Fé, sem coragem de abandonar aquele vilarejo marasmento e sair em busca duma vida melhor... Por quê? Por quê? Por quê? Winter fez essas perguntas em voz alta.

     O cavalo seguia a passo pelas ruas. Seriam umas onze horas da noite e as casas estavam todas fechadas. Ao passar pela frente do Sobrado, Carl Winter pensou em Luzia. Havia já quatro meses que o casal tinha partido para Porto Alegre. Fazia uma semana, o estafeta que trazia a mala do Rio Pardo contara na venda do Schultz que havia irrompido em Porto Alegre uma epidemia de cólera-morbo. Cólera-morbo! Era só o que faltava! Se a peste chegasse até Santa Fé, morreriam todos como ratos - concluiu Winter. E de súbito ocorreu-lhe uma idéia: se Luzia morre de cólera o problema está resolvido, a comédia acabada. Sim, era uma solução. Bolívar sofreria muito a princípio, mas com o passar do tempo a esqueceria. Era moço, tinha a mãe para o amparar, o filho para criar. Sim, seria uma solução de mau gosto, de mau autor, mas o problema daquela gente ficaria resolvido...

     Foi no momento em que pensava essas coisas que Winter viu luz numa das janelas do andar superior do Sobrado. Fez parar a cavalgadura e ficou olhando. Avistou um vulto de mulher com uma vela na mão. Devia ser dona Bibiana. Que estaria acontecendo lá dentro? Alguém doente? Algum ladrão? Achou que seu dever era bater à porta para ver o que se passava. Decidiu, porém, não fazer nada disso. Fincou os calcanhares nos flancos do animal e fê-lo seguir a trote rumo de casa.

    

     Parada no centro do patamar da escada, com uma vela acesa na mão, Bibiana escutava... Julgara ouvir um pesado arrastar de pés no casarão e saíra do quarto para ver de onde vinha o ruído. A ama de Licurgo dormia no quarto contíguo ao seu. As outras negras estavam alojadas no porão. Um peão do Angico, homem de confiança, dormia na despensa.

     Dona Bibiana esperava, imóvel, de ouvido atento. O silêncio agora era absoluto. Decerto está trovejando - concluiu ela. E resolveu voltar para o quarto. Nesse momento o relógio grande lá embaixo começou a dar as horas. Como não esperasse aquilo, Bibiana teve a impressão de que as pancadas soavam não apenas em seus ouvidos, mas também dentro de seu peito. A primeira delas lhe causou um estremecimento. Começou a contar mentalmente. Duas... Três... Cada batida ecoava pela casa, parecia deixá-la ainda maior do que era, como se em vez de dezoito peças o Sobrado tivesse cem. Quatro... Cinco... Bibiana sentia que o coração lhe pulsava um pouco mais forte e via a vela tremer-lhe na mão.. Seis... Sete... Oito... Nove... Tinha agora a impressão de que alguma coisa ia acontecer. Dez... Devia ser meia-noite. As negras diziam que a alma do velho Aguinaldo costumava passear pela casa depois que o relógio grande dava a última badalada da meia-noite. Onze... Doze... O som se desfez no ar e Bibiana ficou ali com aquele pequeno e débil foco de luz na mão, esperando... Seu olhar dirigiu-se para a porta do quarto que fora de Aguinaldo, e que estava fechado desde o dia da morte do velho. Foi um olhar duro e decidido, como se ela estivesse desafiando a alma do morto a aparecer. Uma viga do teto rangeu, e foi como se o silêncio subitamente se trincasse como um prato de louça. Por um momento Bibiana teve a sensação de que havia alguém às suas costas. Fez uma rápida meia-volta, mas só viu a solidão e a penumbra do patamar e sua própria sombra refletida na parede branca. Lembrou-se das palavras de Natália: "O velho aparece de noite, anda por toda a casa arrastando uma corrente e gemendo: Rezem por mim. Rezem por mim". Havia de ter graça - refletiu Bibiana - que nem depois de morto Aguinaldo abandonasse o Sobrado. Mas quem morre se acaba. "Vossuncê viu mesmo a alma do velho, Natália?" A voz da escrava era um ronco medroso: "Por esta luz que rne alumeia, juro que vi. Foi numa noite de tormenta. Primeiro pensei que fosse o vento. Depois ouvi a voz do velho. Rezem por mim. Rezem por mim". Quem gostava daquelas histórias era Luzia. À noite fazia as criadas repetirem todos os casos de assombração que conheciam. Ficava arrepiada e com medo de subir sozinha para o quarto. Mas subia, de vela na mão, tremendo, e parece que até achando gostoso aquele medo. 3

     Bibiana voltou para seu quarto lentamente. Não temia as almas do outro mundo. Tinha medo, isso sim, das almas deste mundo. Lembrava-se das noites em que Luzia se metia em seu quarto de dormir, fechava a porta a chave e não deixava o marido entrar; o pobre rapaz ficava vagueando a noite inteira pela casa, como uma alma penada. Dessas almas é que ela tinha medo.

     Entrou no quarto, fechou a porta de mansinho, aproximou-se do berço onde Licurgo dormia e ergueu sobre ele a vela. No sono a criança movia os lábios rosados e úmidos, como a procurar o bico dos seios da mãe preta. O comilão ainda mamava no peito, apesar de já ter feito um ano! - sorriu ela. Ficou por longo tempo contemplando o neto. Aquele ser pequenino um dia havia de crescer, fazer-se homem - um belo homem como o pai ou como o avô. (E Bibiana apressou-se a acrescentar mentalmente: avô por parte do pai.) De súbito, numa esquisita sensação de desfalecimento, que era ao mesmo tempo desagradável surpresa, apreensão e piedade, ela pensou: “o Licurgo é bisneto daquele corcunda”. Odiou Aguinaldo por isso. E a figura do velhote desenhou-se-lhe no pensamento: lá estava ele com sua barba de chibo, a cabeça chata, os olhinhos de bicho... O sangue daquele monstrengo corria nas veias da criança! Bibiana aproximou mais a vela do rosto do neto. Não, não havia naquela carinha mimosa nenhum traço de Aguinaldo Silva. Licurgo podia parecer-se com a mãe, que era bonita, ou com o pai, mas nunca com o Velho. E quem garantia que Luzia era neta mesmo de Aguinaldo? A mulher do nortista não o enganava? Bibiana apegava-se agora a essa possibilidade, esforçando-se para transformá-la numa consoladora certeza.

     Licurgo ergueu de repente a mãozinha e deixou-a cair com força sobre o cobertor. Um gluglu se lhe escapou da boca, e em seus lábios se formou uma bolha de saliva.

     Quem vai criar esse menino sou eu - disse Bibiana para si mesma. Se quiserem me tirar ele, eu brigo, como uma galinha defendendo seus pintos. Começou a fazer cálculos... Tinha cinqüenta anos: podia bem durar mais vinte... ou vinte e cinco, e assim veria Licurgo homem feito, encaminhado na vida. Aquele menino que tinha o sangue do capitão Rodrigo Cambará ia ser o dono do Sobrado, dos campos do Angico e de milhares de cabeças de gado. Seu peito inflou-se de contentamento e de esperança. Bibiana olhou para a cama grande, ao lado do berço. Não estava com sono. Sentia no peito uma coisa esquisita que não a deixava dormir. Desde que soubera da notícia da peste em Porto Alegre ficara apreensiva. Por que Bolívar não viera embora imediatamente ao saber que o cólera tinha irrompido na cidade? Por quê? Era uma peste braba, pior que o tifo e a bubônica. Bibiana cerrou os olhos e viu em seus pensamentos Luzia morta em cima duma mesa, ladeada por quatro círios, Bolívar chorando, gente cochichando: "Morreu do cólera. Morreu do cólera". De repente a cena mudou: a jardineira chegou a Santa Fé, levantando poeira... Bolívar desceu da carruagem, todo de preto, a barba crescida, os olhos vermelhos. "Mamãe!" Atirou-se nos braços dela. E ela abraçou e beijou o filho, dizendo: "Não há de ser nada, Boli. Vossuncê é moço ainda. Pense no Licurgo. Não é nada". Bibiana abriu os olhos, confrangida inopinadamente pela sensação de frio deixada por uma idéia terrível que acabava de cruzar-lhe a mente. Bolívar podia morrer. Nesse caso, quem voltaria para o Sobrado era ela. Ela... toda de preto, mas de olhos secos - aqueles olhos maus de gata. Morto Bolívar, a outra podia mudar-se para Porto Alegre ou para a Corte, levando consigo Licurgo... Venderia o Sobrado, o Angico... Não tinha apego à casa nem à estância. E mesmo que ela ficasse no Sobrado, como ia ser a vida das duas naquele casarão, odiando-se dia a dia, hora a hora, minuto a minuto? Que ia ser do menino entre aqueles dois ódios?

     Bibiana apagou a vela e sentou-se na cadeira de balanço. O quarto ficou alumiado apenas pela lamparina que com pequena chama ardia junto do berço da criança.

     De braços cruzados sob o xale, os olhos cerrados, Bibiana balouçava-se devagarinho e pensava. Tinha pago pelo Sobrado um preço demasiadamente alto. Mas agora era tarde: o mal estava feito. Voltar atrás não só seria pior como também impossível. Por assim dizer, tinha perdido o filho. Desde que casara, Bolívar não era mais o mesmo. Andava arisco, já não se abria com a mãe, não dependia mais dela, não lhe pedia conselhos em nenhum assunto. Vivia enfeitiçado, dominado pela outra. Se a mulher fosse má sempre, todos os dias, poderia haver alguma esperança de o rapaz um dia compreender com quem se havia casado. Mas o diabo era que em certas horas - às vezes durante dias inteiros - Luzia mostrava-se amável e atenciosa não só com o marido como também com os outros. Depois, tinha estudado na Corte, sabia falar bonito, contava casos da Europa, ou então histórias que tinha lido em livros. Às vezes até recitava versos enquanto tocava cítara. Bolívar ficava olhando para ela, de boca meio aberta, e via-se que ele estava perdido de amor, que era capaz de fazer tudo que ela pedisse. Nessas ocasiões ele ficava bobo de contentamento, era o homem mais feliz do mundo, chegava até a cantar e assobiar. Mas lá de repente a mulher de novo fazia das suas. Muitas vezes ela, Bibiana, acordara no meio da noite ouvindo gritos no quarto do casal. Saía para o corredor de camisolão, pés descalços, para ver o que tinha acontecido. Nunca vira mas adivinhava o que se estava passando lá dentro. As malvadezas de Luzia não tinham mais conta. Fechava a Dita, a negrinha filha de Natália, no sótão durante dias, sem água nem comida, e de vez em quando ia lá em cima para espiar a rapariguinha pelo buraco da fechadura. Quando Bolívar ia para o Angico, ela aproveitava a ocasião para fazer essas coisas. Depois de ver bastante tempo a criaturinha sofrer, ela descia e ia tocar cítara. "Negro é bicho" - ela dizia. "Negro não tem sentimento.”

     Bibiana balouçava-se na sua cadeira e pensava... Sim, tinha pago caro demais pelo Sobrado. E só Deus sabia que ela não queria aquela casa para si mesma, mas sim para Bolívar e para os filhos de Bolívar. No fim de contas aquela terra pertencia de direito a seu pai. Se havia algum intruso no caso, esse intruso era a neta de Aguinaldo Silva.

     Bibiana ouvia agora o fofo tamborilar da chuva nas vidraças. Encolheu-se toda, de frio e de tristeza.

    

     Conheciam-se agora notícias mais detalhadas da epidemia de cólera-morbo. Tinha sido trazida do Rio por passageiros do vapor Imperatriz, que ancorara em fins de 1855 no porto do Rio Grande. A peste começara nas charqueadas de Pelotas, alastrara-se pelas localidades vizinhas e atingira Porto Alegre, onde se dizia que o número de casos fatais ia além de mil. As carroças da municipalidade andavam pelas ruas a recolher os cadáveres, que na maioria dos casos estavam de tal modo desfigurados, que se tornava impossível identificá-los. Contavam-se pormenores horripilantes. Havia pessoas que eram atacadas subitamente pelo mal e caíam fulminadas nas ruas. Temia-se que muitas tivessem sido enterradas vivas, pois os médicos, os enfermeiros e os funcionários municipais estavam de tal modo cansados, tresnoitados e nervosos que nem tinham tempo para maiores verificações. Recolhiam-se os mortos às carroçadas. Abriam-se no cemitério valas comuns onde os corpos eram despejados e em seguida cobertos de terra. O êxodo da cidade era enorme. Quem podia fugir, fugia. Havia pavor em todas as caras e em algumas pessoas a palidez e a algidez do medo eram confundidas com os sintomas da peste asiática. O barão de Muritiba, chefe do governo provincial, estava tomando providências para evitar que o mal se alastrasse pelo resto da província. Contratava médicos e enviava-os para vários municípios.

     Mandou para Santa Fé o dr. Homero Viegas, que chegou um dia de diligência, reuniu imediatamente a Câmara Municipal e sugeriu uma medida que foi aceita por unanimidade: fechar a estrada da serra e evitar que por ela passassem gentes e animais vindos das cidades onde grassava o cólera.

     Bibiana andava agoniada. Bolívar ainda não voltara. Suas últimas cartas eram lacônicas, mas até certo ponto tranquilizadoras: Luzia e ele estavam bem de saúde e voltariam para casa "assim que fosse possível".

     - É uma loucura, doutor! - disse ela um dia a Winter. - Eu não posso compreender. Por que é que não vieram embora logo que começou a peste?

     Winter encolheu os ombros:

     - Nunca se sabe, dona Bibiana, nunca se sabe. Talvez tivessem surgido dificuldades.

     - Dificuldades? Numa hora dessas ninguém pensa em dificuldades. A gente bota o pé no mundo. O medo da peste é mais forte que tudo.

     - Há coisas mais fortes... - retrucou o médico, sem saber muito claramente a que coisas se referia. Estava um pouco despeitado, mau grado seu, por não ter sido convidado pelo dr. Viegas a tomar parte na reunião da Câmara.

     - E agora, se eles fecham a estrada... - perguntou Bibiana - como é que o Boli vai passar?

     - Vosmecê sabe que essas coisas levam tempo. É bom não perder a esperança.

     Estavam os dois amigos na sala de visitas do Sobrado e Bibiana tinha os olhos voltados para as janelas.

     - Esperança? - repetiu ela, sem tirar os olhos da rua. - Esperando vivo eu há muitos anos.

     - Vosmecê não acredita no destino? Não acha que o que tem de ser traz força?

     - Acho.

     - Pois então? Tenha paciência. Há um ditado latino que diz que o destino conduz os que querem ser conduzidos e arrasta os que não querem.

     - Eu tenho andado mais ou menos de arrasto. Nem sempre quero ir pra onde o destino me leva. - E imediatamente, sem mudar de tom: - Toma um licor?

     Winter disse que não, agradeceu e se foi.

     Naquele mesmo dia, ao entardecer, postada na janela da água-furtada do Sobrado, de onde se avistavam os campos em torno de Santa Fé, Bibiana viu poeira na estrada. Seu coração começou a bater num ritmo entre alegre e medroso. Pouco depois avistou uma carruagem que parecia vir das bandas do Rio Pardo. Só podia ser a jardineira de Bolívar - garantia ela para si mesma. Nunca se enganava em seus pressentimentos...

     Era quase noite fechada quando a carruagem parou à frente do Sobrado. Curiosos vieram para a praça e ficaram olhando de longe, sem coragem de ir apertar a mão daquela gente que chegava da zona da peste.

     - Não deviam ter deixado a diligência entrar - murmurou um dos filhos de Bento Amaral, que estava ali por perto em cima de seu cavalo. Disse essas palavras e saiu a todo o galope na direção de sua casa.

     Bolívar deu a mão à mulher para ajudá-la a descer da diligência. Luzia estava toda vestida de preto. Depois dela desceu a mucama. À boléia vinha só um dos homens: soube-se mais tarde que o outro morrera de peste.

     Parada ao portal do Sobrado, Bibiana abraçou e beijou o filho e deu molemente a mão à nora, que mal a apertou. Entraram. Cinco velas estavam acesas num candelabro no vestíbulo da escada grande. Luzia limpou com palmadas impacientes a poeira do vestido.

     - Como vai o Licurgo? - perguntou.

     -- Vai bem - respondeu Bibiana secamente.

     - Onde é que está ele?

     - Dormindo.

     Luzia tirou o lenço que lhe envolvia a cabeça e sentou-se numa poltrona com um suspiro de alívio.

     - Que viagem horrível! - exclamou.

     À luz das velas Bibiana viu a cara do filho e ficou alarmada. Bolívar estava duma palidez esverdeada e tinha os olhos no fundo.

     - Está sentindo alguma coisa, meu filho?

     Ele sacudiu negativamente a cabeça.

     - Não. Estou só um pouco cansado. Evitava encarar a mãe.

     - O jantar já está pronto - avisou ela.

     - Não estou com fome.

     - Tem um bom churrasco de ovelha, Boli. - Gritou para a outra sala: - Natália, pode servir!

     - Mas eu preciso me lavar um pouco antes de ir para a mesa... - disse Luzia.

     - Pois vá. Ninguém está atacando vosmecê.

     Bibiana estava ansiosa por ficar a sós com o filho. Luzia ergueu-se e, apanhando um castiçal com uma vela acesa, dirigiu-se para a escada.

     Sentado numa cadeira, Bolívar descalçava lentamente as botas. Houve um longo silêncio. De pé na frente do filho, Bibiana esperava, e como ele continuasse calado por vários segundos, ela disse:

     - Pensei que não quisessem voltar mais.

     Bolívar permaneceu mudo.

     - Com essa peste horrorosa foi uma loucura terem ficado tanto tempo lá. As autoridades não deixaram vosmecês saírem? Houve algum impedimento?

     Sem olhar para a mãe, irritado, Bolívar respondeu:

     - Não houve nada. Era uma coisa e outra e a gente ia ficando...

     - Mas não tiveram medo?

     - Tivemos, mãe, tivemos.

     - Sou capaz de apostar como foi ela que quis ficar.

     - Ora, mamãe...

     - Só de maldade. Decerto queria que vosmecê pegasse a peste. Assim ela ficava viúva, vendia o Sobrado e o Angico, ia morar na Corte com o Licurgo.

     Bolívar entesou o busto e tomou uma atitude agressiva:

     - Nem diga uma coisa dessas! A Luzia também estava se arriscando a pegar o cólera.

     - Mas então por que é que não vieram antes?

     Bolívar de novo se fechou no seu silêncio soturno. Depois de algum tempo, com voz mais tranqüila, perguntou:

     - Vai tudo bem por aqui?

     - Vai.

     - Nenhuma novidade?

     - Nasceu o filho do Florêncio. É homem.

     - E no Angico?

     - Nada de novo. Não tem morrido gado. Vai tudo bem.

     Bolívar sacudia a cabeça, devagarinho. Ficaram num longo silêncio: Bibiana contemplando o filho, Bolívar olhando para o soalho.

     Luzia desceu, tornou a entrar na sala e aproximou-se da sogra:

     - O Licurgo não está no quarto... - estranhou ela. Bibiana ficou imperturbável.

     - Eu sei.

     - Onde botaram o menino?

     - Na água-furtada.

     - Na água-furtada?

     - Vai ficar lá uns tempos.

     - Mas por quê?

     - Vosmecês vieram dum lugar que tem peste. Não quero que o menino pegue.

     Luzia parecia ainda não compreender. Lançou para o marido um olhar que foi um pedido de esclarecimento. Bolívar olhou para a mãe.

     - Quanto tempo ele tem de ficar lá? - perguntou.

     - Quanto tempo for preciso.

     Bolívar ergueu-se.

     - Mas a criança vai ficar sozinha lá em cima?

     - A ama está junto. Não vai faltar nada pro menino.

     - Mas é uma bobagem, mamãe. Nós não pegamos a peste.

     - Pode ser, Boli. Mas sempre é melhor esperar.

     - Foi o dr. Winter que lhe aconselhou fazer isso? - perguntou Luzia.

     Sem olhar para a nora, Bibiana respondeu:

     - Tenho juízo suficiente pra resolver essas coisas sem precisar do conselho de ninguém.

     Bolívar e Luzia entreolharam-se de novo.

     A negra Natália apareceu à porta da sala de jantar.

     - A comida está na mesa - roncou ela.

     - A comida está na mesa - repetiu Bibiana. Fez menção de se encaminhar para a outra peça, mas Luzia deteve-a.

     - E vosmecê pensa que vou chegar de viagem e não ver o meu filho? Pensa que vou passar dias sem ver o Licurgo?

     - Penso.

     - Pois está enganada. Vou já já subir à água-furtada. Encaminhou-se de novo para a escada.

     - Não adianta - disse a outra. - Fechei a porta a chave.

     - Onde está a chave?

     - Não digo.

     - Bolívar! Obrigue sua mãe a me dar essa chave.

     Bolívar ergueu-se.

     - Mamãe...

     - Não adianta, meu filho. Não dou.

     - Bolívar! - exclamou Luzia. E na penumbra da sala seus olhos fuzilaram como os de uma gata. - O filho é nosso!

     Bolívar aproximou-se da mãe, pegou-lhe da mão, tentou falar com calma.

     Mas havia em sua voz uma falsa doçura que mal encobria a raiva crescente.

     - Escute, mamãe. Não vamos brigar. A Luzia quer ver o menino. Só por um momento, não é, Luzia? - Lançou um olhar para a mulher, que não fez o menor sinal de assentimento. - Ela promete não pegar o Licurgo, só olhar... olhar de longe, não é, Luzia?

     Luzia estava parada junto da porta do vestíbulo, com o castiçal na mão.

     Nos seus olhos havia uma expressão de frio ódio.

     - A comida está na mesa - repetiu Bibiana, esforçando-se por falar com naturalidade.

     Fez meia-volta e dirigiu-se para o comedor.

     - Diga pra essa velha amaldiçoada que me dê a chave!

     Luzia não pronunciou estas palavras: cuspiu-as. A sogra, porém, continuou a caminhar, sem voltar-se, e foi sentar-se à mesa. Descalço, os braços caídos, um pouco encurvado, Bolívar encaminhou-se também para a sala de jantar. Luzia continuou na outra peça por alguns instantes: a vela tremia-lhe na mão, o espermacete pingava no soalho. De repente ela gritou:

     - Bolívar, vá já arrombar aquela porta!

     Ele não respondeu. Sentou-se à mesa, de cabeça baixa.

     - Não seja covarde, Bolívar! Não se deixe dominar por essa mulher.

     Bibiana tinha as mãos caídas sobre o regaço. Seus lábios tremeram por um instante.

     - Quer sopa, meu filho?

     - Esta casa é minha! - dizia agora Luzia com uma fúria que quase não lhe permitia completar as palavras. - Foi feita com dinheiro do meu avô. Vocês são dois intrusos! Intrusos! O filho também é meu. Os móveis são meus. Tudo que está aqui dentro é meu. Eu odeio vocês! Odeio esta vila! Odeio esta província!

     A vela que Luzia tinha na mão apagou-se. Ela arremessou o castiçal contra o vidro da vidraça, que se espedaçou. Bibiana ergueu os braços, destampou a terrina de sopa e tornou a perguntar:

     - Sopa, meu filho?

     Bolívar não respondia.

     Luzia avançou até a porta da sala de jantar. A raiva desfigurava-lhe o rosto, como se ela tivesse sido subitamente atacada duma peste.

     Bibiana nem sequer ergueu os olhos para a nora. Luzia gritou:

     - Me dê imediatamente essa chave, sua cadela!

     Bolívar ergueu-se tão abruptamente que a pesada cadeira em que estava sentado tombou para trás com um ruído surdo. Deu dois passos rápidos na direção da mulher, agarrou-a violentamente pelos braços e sacudiu-a.

     - Cadela é tu! É tu! É tu!

     E repetindo essas palavras, continuava a sacudi-la. Luzia esforçava-se por desvencilhar-se do marido. Ergueu os braços e fincou as unhas no rosto dele, até fazer sair sangue.

     Enfurecido pela dor, Bolívar esbofeteou a mulher, uma, duas, três, muitas vezes, alternadamente com as costas e a palma da mão. Luzia deixou cair ambos os braços. Seus joelhos se vergaram e ela foi deslizando devagarinho para o chão, até ficar sentada, com um lado da cabeça e o braço direito encostados no encaixe da porta. A expressão de ódio que havia em seu rosto deu lugar a uma serenidade triste: agora as lágrimas lhe rolavam pelas faces, os soluços lhe sacudiam os ombros e ela ali estava como uma menininha que acabasse de ser injustamente castigada pelo pai. Bolívar olhava estupidamente para a mulher, arquejante, a baba a escorrer-lhe da boca entreaberta.

     - Meu filho! - exclamou Bibiana pondo-se de pé e encarando o rapaz com um olhar duro. - Isso não se faz! Onde se viu um homem bater numa mulher?

     Por alguns segundos Bolívar ficou assim como que acuado, a olhar aflito da mãe para a esposa. Por fim fez meia-volta e saiu a correr na direção da escada, onde seus passos soaram fortes e apressados.

     Bibiana olhava para a nora sem saber que fazer nem dizer. Botar-lhe arnica na cara? Dar-lhe um chá de folhas de laranjeira? Quis adoçar a voz e dizer-lhe uma palavra de consolo. Mas quando deu acordo de si estava dizendo:

     - Quem semeia ventos colhe tempestades.

     Virou-lhe as costas e saiu também da sala.

    

     Na manhã do dia seguinte correu pela vila uma notícia sensacional: a Câmara Municipal, por sugestão do coronel Bento Amaral, declarara o Sobrado de quarentena, isolando-o da cidade; seus moradores, desde os patrões até a negrada da cozinha, foram notificados de que estavam positivamente proibidos de deixarem a casa durante quarenta dias a contar da noite anterior. Para que a quarentena fosse observada com rigor, postaram-se guardas armados ao redor do casarão, com ordens - murmurava-se - de atirar na primeira pessoa que saísse pelas portas ou janelas do Sobrado, ou que tentasse saltar seus muros.

     Os santa-fezenses em sua maioria aprovaram a medida. Bolívar - diziam - tinha procedido mal, pondo em risco a segurança de Santa Fé. Devia ter ficado no Rio Pardo, ou então, em último caso, seguido para o Angico.

     Mas na loja do Alvarenga comentou-se que tudo aquilo era apenas uma "birra do velho Amaral". No fundo a coisa não passava dum acinte, duma provocação. Ele ainda não esquecera que Bolívar era filho do homem que não só lhe roubara a mulher que ele amava como ainda por cima lhe deixara a marca na cara. Também não perdoava ao falecido Aguinaldo o ter construído um sobrado tão grande e confortável que deixara o seu famoso casarão "achicado", num segundo plano.

     Muitas pessoas vinham agora para a praça olhar o Sobrado. Reconheceram nos guardas que o cercavam peões da estância do velho Amaral. Estavam eles sentados debaixo das árvores, conversando, com o olho posto na casa de Bolívar, cujas janelas e portas permaneciam fechadas.

     No segundo dia de quarentena o dr. Carl Winter, depois de muito instar com o senhor de Santa Fé, conseguiu licença para entrar no Sobrado.

     Seu melhor argumento foi o de que alguém, no fim de contas, tinha de ir ver se havia algum pesteado lá dentro, e que a pessoa mais indicada para isso era ele, o médico da família. O sino da capela batia as primeiras badaladas da ave-maria quando os curiosos viram o doutor atravessar a praça com seu andar de girafa e bater à porta do Sobrado. Viram também quando a porta se abriu e o alemão entrou.

     - Suba, doutor - disse Bibiana. Subiram lado a lado os degraus que levavam do portal ao soalho do vestíbulo. Winter tirou o chapéu.

     - Vim ver se estão precisando de meus serviços aqui.

     - Estão.

     - Alguém doente?

     - Do cólera, não. Mas passe aqui pra sala. Sente-se.

     O médico sentou-se. A sala estava sombria, de ar enfumaçado, e cheirava a incenso.

     - Onde está o Bolívar?

     - Lá em cima, no quarto dos fundos. Está lá desde ontem, fechado a chave. Não come, não bebe, não fala com ninguém.

     - Mas que foi que aconteceu?

     Bibiana contou-lhe em voz baixa, sem omitir nada, tudo quanto se passara ali no Sobrado após a chegada do casal. Winter escutou-a em silêncio, com ar reflexivo, e de quando em quando coçando o queixo.

     - É o diabo - murmurou ele, mais para si mesmo que para a interlocutora.

     - Que foi que vosmecê disse?

    

     - Digo que é o diabo...

     - Agora não adianta chorar. É preciso a gente fazer alguma coisa.

     - Como vai a criança?

     - Bem. Continua encerrada na água-furtada.

     - E a mãe?

     - Está no quarto dela, também fechada a chave. Hoje de manhã desceu, me deu bom-dia e me pediu desculpa das coisas que me disse ant'ontem. Eu respondi: "Palavras loucas, orelhas moucas".

     O médico sorriu.

     - Moucas? Que é isso?

     Bibiana encolheu os ombros.

     - Sei lá! É um ditado. Quer dizer que a gente não deve dar ouvidos quando os loucos falam. Mas como eu ia dizendo, ela pediu café pra Natália e depois voltou pro quarto. Levou a cítara. De vez em quando toca. Não é bem louca mesmo?

     Winter sacudia a cabeça dum lado para outro, perdido em dúvidas. A situação complicava-se. E com que freqüência na vida o dramático e o grotesco se juntavam e saíam a pular de mãos dadas!

     - Nenhum deles viu ainda o filho?

     - Nenhum. Eu não deixo. A vida da criança é mais importante que tudo mais.

     - E que é que vosmecê quer que eu faça?

     - Quero que fale com o Bolívar. Pode ser que ele lê ouça. Tenho muito medo que ele faça alguma loucura. É genioso como o pai. Tenho tanto medo que de hora em hora vou bater na porta, e só fico sossegada quando ele me responde lá de dentro.

     Winter habituara-se a sempre falar claro com Bibiana.

     - Quer dizer que vosmecê tem medo que ele se mate?

     - É. Que se enforque. Desde que enforcaram o Severino ele vive com essa idéia na cabeça.

     - A idéia de se enforcar?

     - Não. A mania de falar em forca. Sonha com gente enforcada.

     Winter pediu licença para acender um charutinho. E quando já o tinha aceso e apertado entre os dentes, disse:

     - O Bolívar é um homem que gosta muito da vida. Pessoas assim não se matam. Além de tudo, ele tem loucura pelo filho e há de querer pelo menos ver o menino crescido.

     Bibiana fez uma careta de dúvida e perguntou:

     - O senhor acha mesmo ou está dizendo isso só pra eu ficar sossegada?

     - Está claro que acho.

     Por que estou metido nisso? - perguntou Winter de repente a si mesmo.

     Bibiana olhou para os lados com ares misteriosos e disse em voz baixa:

     - Doutor, alguma coisa aconteceu em Porto Alegre que deixou o pobre rapaz desnorteado. Depois dessa viagem parece que tudo ficou pior. E eu tenho medo que ele acabe ficando com ódio de mim, porque afinal de contas foi por minha causa que ele surrou a mulher.

     Winter ergueu-se.

     - Acho melhor eu ir conversar com ele.

     - Quer ir agora?

     - Vamos.

     Encaminharam-se para a escada e subiram os degraus em silêncio. No patamar, lá em cima, Bibiana fez com a cabeça um sinal na direção duma porta fechada.

     - Ela está lá dentro.

     Seguiram pelo corredor mal-alumiado e finalmente chegaram a uma outra porta.

     - Eu vou descer, doutor. O senhor bata, entre, fale com ele, dê conselhos, veja se pode fazer alguma coisa.

     Winter limitou-se a sacudir a cabeça, num assentimento, e depois que viu a mãe de Bolívar afastar-se no corredor bateu à porta. Não teve resposta. Tornou a bater. De dentro do quarto veio uma voz abafada.

     - Quem é?

     - Sou eu. O dr. Winter.

     - Que é que quer?

     - Faça o favor de abrir.

     O médico ouviu sons de passos que se aproximavam da porta. De repente eles cessaram e Winter teve a impressão de sentir a presença do outro através da madeira: chegava quase a ouvir-lhe a respiração ansiada. Teve receio do que ia ver. Quase se arrependeu de ter vindo. Aquela gente era teimosa, difícil; seu raciocínio sem sutilezas seguia uma inflexível linha reta, era como um boi enfurecido que leva tudo por diante. Selvagens! Eis o que eram. Selvagens! Mas no fundo Winter sentia que seu refinamento europeu não passava dum eterno assobiar no escuro, dum permanente fugir aos problemas. Aqueles homens rudes da província pelo menos davam nome às coisas e não se envergonhavam de seus sentimentos.

     - Bolívar! - tornou a dizer. - Faça o favor de abrir. Só por um instante.

     A maçaneta moveu-se e a porta entreabriu-se. Na fresta apareceu em penumbra metade do rosto de Bolívar.

     - Que é que o senhor quer?

     - Duas palavras.

     Houve uma leve hesitação do outro. Por fim ele abriu a porta por completo e disse:

     - Entre.

     O alemão entrou. As janelas estavam fechadas, o quarto escuro, e andava no ar viciado um cheiro azedo de suor humano muitas vezes dormido.

     Winter caminhou para uma das janelas, abriu os postigos e ergueu a vidraça. A luz e o ar frio da tarde entraram no quarto. Era uma peça quase nua, onde havia uma cama-de-vento, duas cadeiras e um velho baú de lata. A um canto se via uma roca antiga, de pedal quebrado.

     - Quem foi que mandou abrir a janela? - perguntou Bolívar.

     Estava de barba crescida, olhos injetados, em mangas de camisa, pés descalços, as bombachas brancas amassadas. Envelheceu vinte anos - pensou Winter, contemplando o rapaz.

     Foi com voz calma que disse:

     - Um médico nunca pede licença para fazer essas coisas.

     - Mas eu não mandei chamar nenhum médico.

     Winter respirou fundo, como para dominar seu desejo de dar uma resposta violenta.

     - Olhe, Bolívar, não vamos perder tempo com bobagens.

     E ao dizer essas coisas notou que quando se comovia seu português piorava, seus erres se faziam mais rascantes, ele trocava o b pelo p e por nada deste mundo conseguia pronunciar direito o ao. Mas prosseguiu:

     - Sei de tudo que se passou nesta casa. Sua mãe me contou.

     Bolívar olhava-o, num desafio, como quem diz: "Contou? E daí?”

     - Vosmecê talvez não saiba - prosseguiu Winter – que quando nós recebemos o diploma, fazemos um juramento solene de guardar o segredo profissional. Nada do que um cliente me diz eu posso contar a outros. Nada. Estou aqui não só como seu amigo, mas principalmente como médico da casa.

     Deu dois passos na direção do rapaz. Sentia agora que o hálito do outro cheirava a cachaça. Com o canto dos olhos viu uma garrafa junto da cama.

     - Por que não vamos nos sentar e conversar com calma, hã?

     Puxou uma cadeira e sentou-se. Bolívar hesitou um instante e depois se recostou na cama.

     - Vamos fumar? - convidou o médico.

     - Não tenho fumo nem palha.

     - Eu tenho - replicou Winter, tirando do bolso um maço de palhas e um pedaço de fumo em rama.

     A voz de Bolívar mudou por completo, tornou-se calma, natural e - estranho! - quase trocista quando ele perguntou:

            - Então sempre resolveu fumar os nossos crioulos?

     Winter soltou uma risadinha rápida.

     - A gente se habitua a tudo.

     Bolívar pegou o fumo que o médico lhe dera, apanhou a faca que tinha debaixo do travesseiro, e começou a fazer um cigarro.

     Winter observava-o com o rabo dos olhos, enquanto fingia examinar o quarto.

     - Vosmecê e sua mulher tiveram sorte... - disse ele, depois de algum tempo.

     - Sorte? Por quê?

     - Andaram no meio dos pesteados e não pegaram a doença.

     Bolívar baixou os olhos.

     - É melhor a gente não falar nisso.

     - Mas nós temos que falar em alguma coisa! - exclamou o médico, quase exaltado. - Será que lhe falta coragem para enfrentar o assunto?

     - Não é questão de coragem.

     - Então de que é?

     - É que não adianta falar.

     - Adianta, sim.

     Winter bateu a pedra do isqueiro e quando o pavio estava aceso aproximou-o do cigarro que o outro tinha preso entre os dentes.

     Guardou no bolso o pedaço de fumo e o pacotinho de palha e fez uma pergunta brusca:

     - Por que é que está metido neste quarto?

     - Porque quero.

     - Era essa mesma a resposta que eu esperava. A resposta dum homem macho. Estou porque eu quero. Mas isso não esclarece nada. As crianças também respondem assim. Vamos, fale com franqueza. Fugir a um problema não é resolver esse problema. Por que é que está metido neste quarto? Não vê que não pode passar o resto da vida assim? Mais cedo ou mais tarde tem de descer. Vosmecê precisa comer, beber, fazer as suas necessidades. Vosmecê é o chefe desta casa. Não compreende que essa atitude não resolve nada?

     Bolívar sacudia a cabeça com impaciência. Tirou uma baforada de fumo e depois cuspiu no chão com força.

     - Eu sei, eu sei. Mas é que sou um homem de vergonha. Ontem bati no rosto da minha mulher. Estou envergonhado. Homem não dá em mulher. Só um covarde. Me portei como um covarde. Eu devia mas era queimar estas mãos...

     Abriu ambas as mãos, de palmas voltadas para o alto, e mirou-as com rancor, como se só elas tivessem culpa de tudo quanto acontecera.

     Winter sacudia a cabeça e coçava freneticamente o queixo.

     - Vosmecê não conhece ainda a mulher com quem vive? Não sabe que ela é doente e que sente prazer em fazer os outros sofrerem?

     Apontou para a cicatriz de queimadura na mão de Bolívar.

     - Isso aí, por exemplo...

     - Me queimei no fogão...

     - Não é verdade. Eu sei de tudo. Não se esqueça que sou médico e não nasci ontem.

     A voz lhe saíra incisiva e dura. Ergueu-se e foi até a janela. Olhou para as árvores do pátio, tão calmas e belas àquela hora, e ficou um instante a aspirar o cheiro leve e claro da tardinha.

     - Por que foi que demoraram tanto em Porto Alegre? - perguntou Winter de repente, sem se voltar para o interlocutor.

     - Porque eu quis.

     O médico fez meia-volta:

     - Diga antes: porque Luzia quis.

     - Pois se o senhor sabe de tudo por que é que pergunta?

     Winter tentou outra tática.

     - Seja homem, Bolívar, encare o seu problema de frente. Ficar brabo não adianta nada. Os homens desta província parecem achar que podem resolver tudo a gritos, tiros ou facadas.

     Bolívar pitava em silêncio, olhando para o chão. Por muito tempo ficou assim, como que esquecido da presença do médico. Depois mudou de posição na cama, cruzou as pernas e disse com voz magoada:

     - É uma história muito triste e muito comprida, doutor.

     - Um médico está habituado a ouvir histórias tristes. Não tenho nenhuma pressa. Pode contar.

     - Por que vosmecê abriu tanto a janela?

     - Para entrar ar fresco e um pouco de sol.

     - Não podia fechar um pouquinho?

     Winter compreendeu. Ergueu-se e fechou os postigos, deixando apenas uma fresta por onde entrava agora uma estreita faixa de sol.

     - Há coisas que um homem tem vergonha de contar, doutor.

     Honra e vergonha... - pensou Winter. Como os homens do Rio Grande falavam em honra e vergonha! Honra manchada lava-se com sangue. Havia uma lei que proibia os duelos, mas os duelos se realizavam assim mesmo, a tiros, a espada, a adaga. O dr. Nepomuceno falava com solenidade em Justiça, mas aqueles homens realistas não confiavam em juizes e tribunais. Resolviam suas pendências pelas armas: faziam justiça pelas próprias mãos.

     - Escute aqui, Bolívar. Se vosmecê tivesse uma dessas doenças... pegadas... compreende?... dessas que a gente tem vergonha de contar, que é que fazia? Sofria calado e ficava estragado para o resto da vida ou ia contar tudo ao médico?

     - Contava tudo ao médico. Mas o caso aqui é diferente, doutor.

     - Não é muito. Veja bem. Luzia é uma mulher doente, doente do espírito. E vosmecê vai acabar também doente da cabeça se continuar nessa atitude.

     - Que é que vou lhe contar? Vosmecê pelo jeito já sabe de tudo.

     - De tudo não. Conte o que foi que aconteceu em Porto Alegre.

     Bolívar mordia com força o cigarro apagado. Depois deixou-o cair no chão, apertou uma mão contra a outra, entrelaçou os dedos.

     - Só depois que começou a peste lá em Porto Alegre é que eu vi com quem tinha casado. Dizem que o pior cego é o que não quer ver. Eu andava cego, assim como enfeitiçado. Muitas vezes quando Luzia brigava com a mamãe eu ficava do lado de Luzia. Cheguei até a ficar meio indiferente com o Florêncio por causa dela. Agora o Florêncio nem entra mais nesta casa.

     Calou-se, como que engasgado. Vendo que o outro não prosseguia, Winter quis ajudar a narrativa e antecipou:

     - Vosmecê descobriu que todas aquelas coisas horríveis, gente sofrendo e morrendo nas ruas, tudo aquilo para sua mulher era mesmo que uma festa, não foi?

     Bolívar sacudiu a cabeça numa lenta afirmação.

     - Logo que ficamos sabendo da peste eu quis vir embora. Ela ficou furiosa. Disse que não tinha feito aquela viagem cansativa só pra passar um mês em Porto Alegre. Quando falei que a gente podia pegar o cólera, ela me chamou de covarde. Assim, fomos ficando. Eu andava desnorteado, desconfiava da água que bebia, das coisas que comia. Não podia dormir de noite. Sentia por todos os lados cheiro de morte, de podridão. Mas Luzia andava contente. Ficava na janela olhando as pessoas que caíam na rua. Às vezes ia pra fora pra esperar a carroça que vinha recolher os defuntos, ia olhar de perto a cara deles... Uma vez chegou a entrar numa casa onde estavam velando um morto; não conhecia ninguém mas foi direito ao caixão e tirou o lenço da cara do defunto e ficou olhando. Fazia todas essas coisas mas de noite, na cama, tremia e chorava de medo. E quando eu convidava pra vir embora, ela não queria. "Só mais uns dias, Boli" - ela dizia - "só mais uns dias.”

     - E que era que vosmecê achava de tudo isso?

     - Ora, doutor, às vezes eu tinha vontade de surrar ela, de pegar ela à força, botar dentro da jardineira e vir embora. Outras vezes ficava com pena, principalmente quando de noite ela se agarrava em mim, começava a tremer e a choramingar.

     Winter sacudia a cabeça. Tudo aquilo parecia puro melodrama.

     - Foi então que me convenci que tinha casado com uma mulher louca. E o pior era que eu continuava louco por ela. Vosmecê não pode imaginar como os homens lá em Porto Alegre olhavam pra Luzia. Uma noite no teatro um capitão dos Dragões não tirava os olhos dela. Eu até quis ir tirar uma satisfação...

     Winter aprendera que naquela província a expressão "tirar uma satisfação" eqüivalia quase sempre a um desafio para duelo.

     - Pois esse homem depois vivia rondando o hotel onde nós estávamos morando. Fiquei sabendo que o tal capitão se chamava! Paiva... Não sei o quê Paiva. Descobri que morava na Rua da Olaria... Eu estava disposto a ir falar com ele pra acabar duma vez com aquela história. Foi quando a peste começou forte. Por fim eu já não sabia o que fazer. Um dia comecei até a pensar que a Luzia não queria vir embora por causa desse capitão. Senti o ciúme assim como uma facada no peito.

     - Mas vosmecê acha que ela estava interessada no capitão?

     - Como é que a gente vai saber o que uma mulher como a Luzia está sentindo? No teatro vi que ela também olhava pra ele, que estava gostando de ser olhada. Um dia peguei ela perto da janela do quarto, olhando pra rua, e vi o capitão parado numa esquina. Desci como uma bala. Quando cheguei lá embaixo ele tinha desaparecido. Aí se passou uma coisa engraçada. Depois disso quem não queria vir embora era eu. Precisava primeiro agarrar o tal capitão...

     Bolívar calou-se. Winter esperava, com o toco de charuto apagado no canto da boca.

     - Eu não devia lhe contar essas coisas, doutor.

     - Por que não?

     - Porque há coisas que um homem não conta nem pro pai nem pra mãe, nem pro melhor amigo.

     Ergueu-se de repente, caminhou até um ângulo do quarto, ficou junto da velha roca e sua mão distraída começou a fazer a roda girar. Era um canto sombrio. Como que se sentindo protegido pela penumbra, Bolívar continuou:

     - Mas eu preciso contar isso pra alguém. Preciso desabafar. Não é mesmo? Uma tarde a Luzia saiu e disse que ia na costureira. Mas quem é que se lembra de fazer vestido no meio da peste? Todo mundo andava louco de medo. Quem podia fugir, fugia. As casas de negócio estavam fechadas. Ninguém queria sair na rua de medo de ter um desmaio, cair e ser levado como morto pro cemitério. Pois Luzia nessa tarde saiu. Menti que estava me sentindo mal e disse que ia ficar no hotel. Mas na verdade fui seguindo a minha mulher, seguindo. Ela entrou na Rua da Olaria. Vai se encontrar com o capitão - pensei. Vi que tinha de matar os dois. Vosmecê não imagina como meu coração batia. Mil vezes uma guerra, um entrevero, uma carga de lança... Mil vezes um combate bem brabo do que aquela situação. Porque eu vi que podia cortar o corpo do capitão em mil pedaços, mas que não ia ter coragem de fazer nada pra Luzia. E que ia continuar vivendo com ela depois de tudo...

     Para deixar o outro mais à vontade, Winter não olhava para ele.

     - Pra encurtar a história, doutor, a Luzia parou na frente duma casa cor-de-rosa da Rua da Olaria. O senhor sabe, lá na capital as casas têm número. Era o 165. Me lembro bem. O 165. A porta estava meio aberta. A Luzia entrou. Esperei um pouco, entrei também. O corredor estava escuro. Subi a escada devagarinho, com a cabeça latejando, ia meio catacega, meio transtornado. Primeiro não entendi o que estava acontecendo. Tinha muita gente por ali, conversando baixinho. A Luzia estava de branco. Vi aquele vulto claro na sala meio escura. Depois é que compreendi que era um velório. Espiei por cima do ombro dum homem e vi quando a Luzia chegou perto do caixão, tirou o lenço do rosto do defunto e ficou olhando. Custei um pouco a reconhecer o capitão Paiva. Estava muito desfigurado. Fiquei com as pernas moles, fiz meiavolta e até agora não sei como saí daquela sala. Naquele dia tomei uma bebedeira braba, dessas de cair. Quase me levaram na carroça, pensando que eu estava pesteado. - Bolívar fez uma pausa. Encostou-se na parede, como que subitamente cansado. - Dois dias depois foi a Luzia que me convidou pra vir embora. Disse que estava com saudade do Licurgo.

     Winter ficou por um instante num silêncio reflexivo. Depois perguntou:

     - E que foi que vosmecê disse a sua mulher, depois que ela voltou para a pensão naquela tarde?

     - Nada.

     - E ela não sabe que vosmecê a seguiu?

     - Não sei. Acho que não.

     - E até hoje não tocaram no assunto?

     - Até hoje... Agora eu me arrependo de não ter falado. Porque desde ontem estou aqui sozinho pensando, matutando. Passei a noite de olho aceso, me lembrando daquilo. Luzia olhando pro morto... Se ela sabia onde o capitão morava era porque tinha estado lá antes, vosmecê não acha? Rua da Olaria, 165... vosmecê não acha?

     - É possível até que ela nunca tenha falado com esse homem. Decerto ouviu dizer que o capitão tinha morrido e teve vontade de ir ver o corpo dele...

     - Pode ser. Mas não sei. Quero deixar de pensar nisso e não posso.

     - Sabe o que estou pensando? É que Luzia fez tudo isso de pura malvadeza. Ela sabia que vosmecê ia segui-la. Viu quando vosmecê entrou na casa...

     Bolívar tornou a dar um tapa brusco na roda da roca.

     - O doutor quer dizer que ela nunca teve nada com esse tal capitão Paiva?

     - Exatamente. Bolívar sacudiu a cabeça.

     - Isso é bom demais pra ser verdade. Mas de qualquer jeito eu devia ter falado com ela naquele dia. Agora é tarde. Não tenho nem coragem. Mas essa coisa não me sai da cabeça.

     Winter aproximou-se da janela e jogou fora pela fresta o toco de charuto.

     - Mas essa não é a pior parte do assunto, Bolívar. Faça o possível para esquecer isso.

     - Mas ela é louca, não é, doutor? - perguntou Bolívar de repente, e no tom de sua voz havia como que uma súplica: era como se implorasse uma resposta negativa.

     - É uma pessoa doente e como tal tem de ser tratada.

     - Mas eu gosto dela, não posso viver sem ela, nunca vou ter coragem de mandar a minha mulher pra um hospício.

     Winter estava perplexo. Não sabia que dizer. Era uma situação com que nunca se havia defrontado em toda a sua vida. Poderia a propósito dela fazer reflexões filosóficas, recorrendo a um palavrório bonito. Mas para um homem como Bolívar, tinha de dar uma solução prática, concreta, clara.

     - Temos que pensar... - disse, ao cabo de alguns segundos de reflexão. - Temos que pensar... - E achou-se tolo, ignorante e impotente. - Mas a primeira coisa que vosmecê tem a fazer é  deixar este quarto e retomar sua vida. Não se esqueça que é o homem desta casa, o chefe. Com o tempo havemos de descobrir uma solução...

     Aquilo era uma promessa vã, uma mentira. Sabia que acharia paliativos para aquele problema, mas nunca uma solução. Se a ciência curava casos como o de Luzia, essa ciência não estava a seu alcance; ele a ignorava.

     - Com o tempo? - repetiu Bolívar, saindo de seu canto escuro. Por um momento ficou dentro da fita luminosa de sol, que lhe acentuou a palidez amarelada. - Mas vosmecê não compreende que está tudo de pernas pro ar? O menino fechado lá na água-furtada, a casa de quarentena...

     - A quarentena há de passar.

     - Mas é um abuso! O Bento Amaral fez isso porque não gosta de mim. Era inimigo de meu pai. Tem raiva do Sobrado.

     - O dr. Viegas concordou com a medida.

     - O dr. Viegas já está dominado pelo velho Amaral. Todo mundo aqui diz amém a esse patife.

     - Tenha paciência, Bolívar. Não junte mais esse problema aos outros que são muito mais sérios.

     - Mas é que preciso sair daqui, ir ao Angico ver como estão os meus negócios. Muita coisa pode acontecer em quarenta dias. E vosmecê já pensou no que é a gente ficar aqui fechado dentro de casa, depois de tudo que aconteceu? Já pensou?

     Winter ergueu-se.

     - Vou falar com o coronel Amaral e dizer que não há perigo de vosmecês terem pegado a doença. Todo mundo sabe que tem chegado gente do Rio Pardo todos os dias. Vou pedir que acabem com a quarentena.

     - Não peço favor pr'aquele canalha.

     - Não se preocupe. Farei o pedido em meu próprio nome.

     - E se ele não atender?

     - O remédio é esperar com paciência. A casa está cercada de guardas.

     - São os bandidos do Bento Amaral, os capangas dele. Eu conheço. É o Dentinho de Ouro, que matou três homens na Soledade. E o Quinzote, que degolou um velho na Vacaria. Conheço bem essa corja. Estão armados e de guarda por aí. O Bento Amaral pensa que tenho medo dos apaniguados dele.

     Winter pôs a mão no ombro de Bolívar.

     - Olhe aqui, meu amigo. Desça, tome um banho, um bom chimarrão e alimente-se direito. Sua mãe está aflita por sua causa. Ela tem medo...

     Calou-se abruptamente.

     - Medo que eu faça alguma loucura?

     - Medo de que vosmecê se enforque.

     - Só se eu estivesse louco. Preparar uma corda, fazer o laço, escolher um ramo de árvore, botar o pescoço na corda e depois... Não. Leva muito tempo. Só se eu estivesse louco. - Encarou o doutor bem de frente. - Vosmecê acha que estou correndo o perigo de ficar louco?

     - Absolutamente. Vosmecê é um homem normal. Só está um pouco apaixonado. Mas isso passa. Principalmente se fizer o que digo. Reaja, pense assim: sou moço, não estou em nenhuma dificuldade financeira, tenho um filho bonito e são...

     - Tudo isso é fácil de dizer, doutor. Mas não sou nenhuma criança que o senhor pode engambelar pra fazer tomar óleo de rícino.

     - Quer dizer então que vosmecê acha mais fácil entrar numa carga de cavalaria e atirar-se em cima dum quadrado de soldados de baionetas caladas?

     - Acho, doutor. Vosmecê disse uma coisa agora que... Pois é. Uma guerra resolvia tudo. Se houvesse uma guerra eu ia. Era o mesmo que deixar a coisa correr. O destino que resolva. Meu pai tinha razão. Guerra é remédio pra tudo.

     - Não diga tamanho absurdo!

     - Eu digo o que sinto. Mil vezes uma boa guerra.

     E dizendo isso dava tapas nervosos e repetidos na roda da roca, fazendo-a girar.

    

     Alguns minutos depois Winter desceu. Bibiana esperava-o na sala de visitas.

     - Então? - perguntou ela.

     - Não tenha medo - respondeu o médico. - O Bolívar não vai se enforcar. No fundo ele ama a vida. Tenha paciência. Vamos dar tempo ao tempo, como se diz por aqui. O tempo é um remédio infalível.

     - Tempo é remédio de pobre.

     Winter apanhou o chapéu e já no vestíbulo disse:

     - Ele prometeu descer e fazer o possível para encarar a situação com calma. Vou pedir ao coronel Amaral que acabe com a quarentena. Não há razão para isso.

     - Vosmecê acha que ele acaba?

     - Acho.

     - Pois eu duvido.

     O médico estendeu a mão para Bibiana, que a apertou de leve, rapidamente, à maneira das mulheres da província, que pareciam temer que as mãos de homens estranhos lhes transmitissem alguma doença.

     Vinham agora lá de cima os sons da cítara de Luzia. A teiniaguá tocava uma valsa. Meio desconcertado, Winter lançou um olhar rápido para Bibiana, abriu a porta e saiu.

    

     Por aqueles dias Carl Winter escreveu a Von Koseritz: "Espero que o meu caro barão tenha realizado os seus sonhos, que seu jornal seja um sucesso e a escola outro. Quanto a mim, sou um fracassado. O médico da municipalidade tem agora as preferências do nosso Junker local. O Sobrado continua de quarentena, já vai para uma semana. Devo dar graças por me permitirem entrar e sair de lá à vontade. Bolívar anda irritado, considera-se vítima duma intriga política e já fala em duelo. Falei com Florêncio, perguntei-lhe que podíamos fazer para evitar um conflito. "Nada" - me respondeu ele. E explicou que se um Terra é teimoso, um Terra com sangue de Cambará é uma mula, e uma mula coiceira. (Foi essa a expressão que ele usou.) Parece mesmo que da parte do velho Amaral o que há mesmo é birra, desejo de desmoralizar Bolívar. O dr. Nepomuceno recusou-se a interceder em favor do rapaz. O padre Otero nem quer ouvir as minhas razões. E lá está aquela gente ilhada no Sobrado e, pior que isso, ilhada cada um em si mesmo. O meu caro amigo já reparou que, em última análise, uma pessoa não passa duma porção de paixões, cercada de incompreensão por todos os lados? Este pequeno arquipélago de Santa Fé não está propriamente no mar tenebroso, mas sob sua aparência de quietude e rotina tem também seus dramas. E eu, como médico, faço o curioso papel de lançadeira, indo e vindo a conduzir a frágil linha que costura esse tecido dramático. Creio que estou ficando literato, tão literato que não se admire o meu bom amigo se um dia eu lhe mandar sonetos ou pensamentos filosóficos para seu jornal. Pois dramas não faltam por aqui, meu caro. Eu os vejo, eu os cheiro, eu os ouço, eu os apalpo. Há dramas no casarão do velho Amaral. Dramas nas casas dos colonos da Nova Pomerânia. Drama até no quintal do vigário, meu vizinho e inimigo. Drama há também no peito encatarroado do dr. Nepomuceno. Mas o maior drama de todos está no Sobrado. Como médico - ah, a nobre, a sublime profissão médica! - não devo quebrar o sigilo sagrado; mas como velho tagarela que aprecia o espetáculo da vida, fico ardendo por contá-los ao mundo. Um dia ainda nos havemos de encontrar para uma longa palestra. Falaremos de tuas realizações, Carl, de teus projetos. Falaremos um pouco também sobre o passado. Diremos mal de Napoleão III, da Inglaterra e principalmente dessa augusta vaca, a rainha Vitória.”

    

     Winter interrompeu a carta. Olhou o relógio. Eram quatro e meia da tarde e ele tinha prometido ir ao Sobrado para ver Licurgo, que estava um pouco febril. Vestiu-se, pensando nas muitas outras coisas que diria ao barão no restante da carta. Ia perguntar-lhe como conseguia ele escrever tão bem em português, se não sentia saudade da Pátria; se sabia o preço duma passagem de vapor do Rio de Janeiro a Bremen...

     Botou o chapéu na cabeça, acendeu um charutinho e saiu.

     O céu estava limpo, o ar parado, o sol morno. Ao passar pela casa de Florêncio, Winter aproximou-se da janela e gritou:

     - Dona Ondina!

     A mulher apareceu, vindo do fundo da casa, com o filho no colo.

     - Boa tarde, doutor.

     - Como vai o menino?

     - Vai bem. Tem andado com uns sapinhos na língua, mas já está melhorando.

     - Onde está o Florêncio?

     - Anda pra fora, fazendo uma tropa.

     - Está bom. Precisando de alguma coisa é só mandar me chamar.

     - Muito obrigada, doutor.

     Winter lançou um olhar de soslaio para o ventre de Ondina. A rapariga estava outra vez grávida. Sorriu ao pensar na história que Bibiana lhe contara um dia sobre uma famosa tesoura de podar da velha Ana Terra.

     Atravessou a praça em passo lento. Não tinha pressa de chegar. Ultimamente achava opressiva a atmosfera do Sobrado - opressiva e árida.

     Luzia andava paradoxalmente humilde, terna e submissa. Passava como sempre muito tempo fechada no quarto, tocando cítara ou lendo, e quando descia falava pouco. Bibiana desvelava-se em cuidados para com o neto e tomava conta da casa. Vinham mantimentos da estância ou da venda do Schultz; os sacos e pacotes entravam pelo portão dos fundos, sob o olhar fiscalizador dos capangas de Bento Amaral. Bolívar andava cada vez mais impaciente, fumava cigarro sobre cigarro, e ultimamente (contara-lhe Bibiana, apreensiva) dera para passar os dias a beber cachaça. "É essa maldita quarentena" - queixara-se ela.

     Não. Ele não tinha nenhuma pressa em chegar. A praça estava bonita.

     Poucas eram as árvores que o inverno despira. Lá estava a grande figueira, muito copada, dum verde-garrafa sombreado de negro, e com seu tronco e galhos que pareciam membros humanos. Ela também era comparsa daquela comédia - refletiu Winter - mais do que mera parte do cenário.

     Começou a atravessar a rua.

     - Boa tarde, doutor!

     O médico voltou a cabeça na direção da voz. O Dentinho de Ouro estava sentado debaixo do cinamomo da praça que ficava fronteira ao Sobrado. Tinha o chapéu atirado para trás, deixando descoberta a testa curta e bronzeada. Seu dente de ouro luziu quando ele arreganhou os beiços para o alemão. Este se limitou a bater com o dedo na aba do chapéu, lançou um rápido olhar para o homem e continuou seu caminho.

     Ouviu de novo a voz do capanga:

     - Sete dias, doutor! Faltam ainda trinta e três!

     Não respondeu nem se voltou. Mas Dentinho de Ouro tornou a gritar:

     - Hoje termino o meu trabalho. De tarde vou pra estância do coronel. O Mané Borba vem me render.

     E eu com isso? - pensou Winter, batendo na porta do casarão. Uma das negras escravas veio abri-la e ele entrou. O cheiro do Sobrado - madeira, porão, cozinha, defumação - envolveu-o. Agora para ele aquilo era "cheiro de drama", uma emanação dos problemas mesmos daquela casa e de seus moradores.

     Bibiana levou-o imediatamente ao quarto de Licurgo. O médico aproximou-se do berço, pousou a mão na testa do menino e disse:

     - Está fresquinha. Acho que a febre se foi.

     Pôs o termômetro na axila da criança. Pouco depois tirou-o, leu-o e murmurou:

     - Temperatura normal.

     Naquele momento ouviram-se passos pesados no corredor. Era Bolívar. Ao ver o médico, através da porta, parou e disse:

     - Foi bom vosmecê ter vindo.

     Havia em sua voz um tom que Winter não gostou. Era algo de apertado, gutural e ameaçador.

     - Está sentindo alguma coisa?

     As mãos do rapaz tremiam e seus olhos tinham um brilho anormal.

     - Não. Estou bem. Muito bem até. Bem demais.

     - Ele anda nervoso por causa da quarentena, doutor... - explicou Bibiana.

     Bolívar voltou, brusco, a cabeça para ela e disse:

     - Não se meta, mamãe, não se meta.

     Tornou a encarar o médico:

     - Vosmecê é testemunha. Tive muita paciência até agora. Mas estou resolvido a não agüentar mais. É um desaforo. Eu...

     - Não se exalte, não há... - começou Winter. Mas o outro cortou-lhe a palavra:

     - Meus negócios andam de pernas pro ar. Na vila todo o mundo se ri de mim, encurralado aqui dentro, como um bicho, só porque o Bento Amaral deu uma ordem. Quem é ele pra se meter na minha vida? Quero botar a minha marca no outro lado da cara desse canalha!

     - Espere um pouco. Posso falar de novo com o homem...

     - Não espero nem mais um dia nem mais uma hora. Não quero ficar louco fechado aqui dentro. Vosmecê como pode andar livre por toda a parte não sabe o que estou sofrendo. - Calou-se, ofegante. Olhou o médico bem nos olhos e disse: - Desça comigo. Quero que seja testemunha.

     - Mas testemunha de quê...? - principiou o outro.

     - Venha!

     Encaminhou-se para a escada e desceu apressado. Winter e Bibiana o seguiram.

     - Que é que vai fazer, meu filho? - perguntou ela.

     - Vosmecê já vai ver...

     Aproximou-se da janela que dava para a praça, ergueu a vidraça de guilhotina e gritou para fora:

     - Dentinho de Ouro! Vá dizer pro seu amo que eu vou sair!

     Aquela voz positivamente não era de Bolívar - refletiu Winter. O ódio a desfigurava.

     Winter aproximou-se da janela e olhou para fora por cima do ombro do rapaz. Viu o capanga erguer-se, sob o cinamomo, aproximar-se lento do meio da rua e perguntar:

     - Que tem?

     - Vá dizer pro seu patrão que eu, Bolívar Cambará, vou já já sair do Sobrado.

     Lá de baixo o outro gritou:

     - Temos ordens de não deixar ninguém sair, moço.

     - Vá chamar o Bento Amaral. Diga pr'aquele corno duma figa que venha me atacar se ele é homem!

     E ao dizer isto Bolívar espumava na comissura dos lábios e seu corpo inteiro trepidava. Winter estava simplesmente imobilizado pelo espanto.

     O capanga teve um momento de hesitação, mas depois replicou sem rancor:

     - É melhor vosmecê não experimentar. Nós estamos armados.

     - Eu também estou!

     Voltou-se, enfiou o chapéu na cabeça e disse:

     - Chegou a guerra. Agora não tem mais jeito. Eu já disse que saía e saio mesmo.

     - Rodrigo! - gritou Bibiana. Imediatamente corrigiu-se: - Bolívar!

     Agarrou o braço do filho, mas este se desvencilhou dela com um repelão.

     - Não deixe ele sair, doutor! Por amor de Deus, não deixe! Vão matar o meu filho.

     Winter tentou deter Bolívar, mas o rapaz o empurrou com tanta violência que o médico perdeu o equilíbrio e caiu de costas.

     Bolívar precipitou-se para o vestíbulo de pistola na mão. Desceu em duas largas passadas a escada que levava à porta, abriu esta com um safanão e saiu.

     - Volte, moço! - gritou Dentinho de Ouro do meio da rua, começando a recuar devagarinho na direção do cinamomo. - Volte que eu não quero lê lastimar.

     - Que venha o Bento Amaral! - gritava o filho do capitão Rodrigo. - Que venha esse canalha ladrão cachorro covarde corno! Que venha se é homem! Que venha a capangada!

     - Não atirem no menino! - suplicava Bibiana, aos gritos debruçada na janela.

     De pistola erguida Bolívar caminhava devagar mas implacavelmente, olhando sempre para Dentinho de Ouro.

     - Pare, senão eu atiro! - gritou este último.

     - Pois atira, capacho! Atira, pústula!

     E continuava a avançar. Dentinho de Ouro recuou ainda uns três passos: estava agora com as costas tocando o tronco do cinamomo. Vultos apareciam às janelas das casas próximas. Mulheres que andavam por ali deitaram a correr em pânico, aos gritos. Homens escondiam-se atrás de árvores. Um velho que ia atravessando a praça naquele momento atirou-se no chão e ficou como que costurado à terra.

     Bolívar estava agora no meio da rua a olhar fixamente para o capanga.

     - Onde está o corno ladrão que não vem? Chama esse covarde! Que venha roda a corja dos Amarais!

     - Volte senão eu atiro! - ameaçou ainda o outro.

     Disse isso e levou, brusco, a mão à cintura. Bolívar fez fogo e Dentinho de Ouro tombou de joelhos, segurando o ombro esquerdo onde o sangue começou a escorrer.

     - Que venha mais um! - gritou Bolívar, triunfante.

     Mal tinha pronunciado essas palavras quando se ouviram novos disparos: dois outros capangas dos Amarais haviam aparecido e o alvejavam de alguma distância: um deles atirava protegido por um dos pilares do portão do Sobrado; o outro achava-se ajoelhado atrás dos degraus da capela. Bolívar não se moveu de onde estava e começou a fazer fogo também para a direita e para a esquerda, gritando:

     - Que venham mais! Dois é pouco! Que venham!

     Para afastar Bibiana da janela o dr. Winter teve de segurá-la pelos pulsos e arrastá-la até uma cadeira; obrigou-a a sentar-se e ficou a fazer-lhe pressão nos ombros para que ela ficasse imóvel. Por alguns segundos Bibiana relutou, tentou desvencilhar-se do amigo: mas de repente teve um relaxamento de músculos e ali se quedou de olhos vidrados e fixos, a boca entreaberta, os braços caídos, a respiração arquejante.

     Por alguns segundos ficaram os dois a ouvir o tiroteio. Num dado momento os tiros cessaram e fez-se um silêncio pressago. Bibiana deixou cair a cabeça para trás. Trêmulo, engasgado, sentindo que o coração queria saltar-lhe pela garganta, Winter aproximou-se da janela e olhou.

     Bolívar estava caído de borco no meio da rua, com a cara metida numa poça de sangue.

    

     Só dois dias depois é que o dr. Winter terminou a carta para Von Koseritz. Depois de narrar-lhe a cena da morte de Bolívar, acrescentou: “Havia muita gente no enterro. O corpo do rapaz foi sepultado entre o de Ana Terra, sua bisavó, e o do capitão Rodrigo, seu pai. Luzia parecia inconsolável, chorava como uma criança a quem tivessem roubado o brinquedo predileto. No cemitério, antes de descerem o caixão à cova, ela pediu para ver uma vez mais o marido. Abriram o esquife. Eu não quis olhar o rosto do morto, mas olhei o da viúva. Não saberei descrever-te a expressão daquele semblante. Não era de gozo mórbido, como eu esperava e temia, mas sim de dor, de profunda dor. Houve, porém, algo mais que me deixou com uma sensação de frio interior e de repugnância por mim mesmo. Naquele momento, meu caro, tive um vislumbre da besta que dorme dentro de cada um de nós, e o que senti me assustou, e até agora no momento em que te escrevo ainda me perturba. É que me surpreendi a desejar violenta e carnalmente Luzia Cambará, ali no cemitério, naquele momento mesmo em que ela contemplava pela última vez o rosto do marido defunto. E de mistura com esse desejo eu senti náusea, como se meu sexo se tivesse transferido para a boca do estômago. Fiz meia-volta e saí do cemitério apressadamente.”

     Carl Winter releu o que acabara de escrever e depois concluiu que uma confissão de tal natureza era grande demais para se fazer numa carta.

     Rasgou o papel em muitos pedaços, foi até a cozinha e atirou-os no fogo, concluindo: Uma confissão dessas a gente não faz nem a si mesmo.

    

     O sonho de Mingote Caré era ter um cavalo.

     Um dia a tentação foi maior que o medo e ele roubou um tordilho numa estância da fronteira.

     Mas não teve sorte; a peonada saiu-lhe nas pegadas e agarrou-o.

     Está aqui o ladrão, coronel, que é que fazemos com ele?

     O estancieiro estava furioso, vermelho que nem gringo.

     Botem a minha marca no lombo desse bandido. Depois lhe apliquem trezentos e sessenta e cinco açoites, um para cada dia do ano. Sou homem de bem e justiça: se não procedo com energia, esses abusos não acabam.

     Deixaram Mingote nu, amarrado a um palanque.

     E quando lhe encostaram o ferro em brasa na paleta, o coronel gritou:

     Isso é pra tu aprenderes a respeitar a propriedade alheia!

     Mingote foi atirado na estrada, marcado como uma rês.

     Saiu a andar estonteado, com o lombo ardendo e sangrando, e como a dor o cegasse invadiu sem saber outra propriedade alheia.

     Tinha febre e em seu delírio era o Crioulo do Pastoreio, repontando campo em fora trinta cavalos de fogo.

     Por fim caiu sem forças no chão duma estância portentosa que começava em Bajé e entrava Uruguai adentro: diziam que o dono dela podia ir de sua casa até Montevidéu sem sair de suas terras.

    

     Esse foi o fim de Mingote, mas não o de sua raça.

     Porque havia outros Carés espalhados pelo Continente.

     O Lulu, por exemplo.

     Vivia sozinho, era barqueiro, e andava por muitos daqueles rios

     o Caí

     o Jacuí

     o Taquari

     a cujas margens agora colonos alemães estavam erguendo casas, abrindo picadas, fazendo roças.

     Um dia Lulu Caré viu quando os índios saíram do mato, atacaram um desses povoados e mataram muitos colonos.

     Ficou de longe, dentro do barco, olhando de olho parado.

     Não fez um gesto, não deu um passo, só disse

     Chô égua!

     Não tinha nada com aquilo e afinal de contas, pra falar a verdade, a terra era mesmo dos bugres.

    

     Havia também o José Caré, por alcunha Juca Feio.

     Nunca dobrou a espinha diante de ninguém, sempre estava contra o governo.

     Contam que tinha cavalo, boas botas e pistolas na cinta.

     Usava chapéu de barbicacho e cabeleira tão comprida que dava até para fazer trança.

     Era indiático, carrancudo, mal-encarado e de fala fina.

     (Com cavalo de olho de porco, cachorro calado e homem de fala fina... de relancina.)

     Tinha a cara tão riscada de cicatrizes que parecia um campo lavrado.

     Perguntavam Me diga uma coisa, Juca, onde foi que te deram esse talho que te vai de orelha a orelha, cheio de voltas que nem o Tio Camaquã?

     No combate do Poncho Verde.

     E esse nos beiços?

     Na tomada de Caçapava.

     E esse no meio da testa?

     A baioneta dum correntino, na guerra contra Rosas.

     E esse no pescoço?

     Juca Feio fechava a carranca e rosnava

     Esse é um talho particular.

     E não dizia mais nada.

    

     De todos os Carés o que tinha família maior era o Chiru.

     Dez filhos, sem contar os mortos.

     Depois de muito andar com a mulher e as crias batendo estradas e cruzando invernadas, conseguiu licença para erguer um rancho nos campos do Angico, no município de Santa Fé.

     Quando a casa ficou pronta, olhou para a mulher e suspirou

     Queira Deus que agora a gente fique sossegado no seu canto.

     Por algum tempo Deus quis.

     Viviam dos restos da cozinha da estância

     tinham licença de trazer para casa a fressura das reses carneadas.

     E dona Bibiana Terra Cambará, senhora do Angico, deu-lhes de presente uma vaca leiteira.

     Tudo corria tão bem que Chiru começou a desconfiar, porque a experiência lhe dizia que laranja madura na beira da estrada ou está azeda ou tem marimbondo.

    

     Um dia apareceram pelo rancho dos Carés um sargento e duas praças, montados em bons cavalos:

     andavam recrutando gente pois tinha rebentado outra guerra,

     Chiru não ouviu direito contra quem, mas desconfiava que era outra vez contra os castelhanos.

     Disse adeus à mulher e aos dez filhos e seguiu a pé os homens do governo.

     Aprendeu a dar tiro de espingarda a marchar a entender a língua dos superiores, das cometas e dos tambores.

     E quando se viu de uniforme ficou faceiro como potrilho novo.

     Pela primeira vez na vida andava completamente vestido.

     Eu só queria que minha gente me visse agora!

    

     Chapéu de feltro com barbicacho:

     na aba levantada, o tope nacional e o número do batalhão.

     Correame negro e paramentos verdes

     carabina com bandoleira

     sabre-baioneta

     patronas, bornal e cantil

     cartucheiras na cintura

     mochila às costas

     coturnos nos pés.

     E na manga da túnica um emblema cor de ouro com a coroa do Império e três palavras

     Voluntário da Pátria.

    

     Chiru Caré gostou da guerra.

     Nunca pensei que fosse tão linda!

     Era mesmo que uma festa: fandango ou puxirão.

     Muita gente bem fardada

     muito cavalo e canhão

     muito barulho, tiro e grito

     muito sangue pelo chão.

     Generais de uniforme bonito

     bandeiras, espadas, clarins

     e cargas de lanceiros

     lembrando as cavalhadas

     dos cristãos contra os mouros.

    

     Foi também na guerra que Chiru pela primeira vez na vida ouviu uma banda de música.

     Ficou meio louco, com vontade de chorar.

     Mas ficou mais louco ainda quando espetou o primeiro paraguaio na ponta da baioneta.

     Teve tamanha alegria que chegou a soltar um urro.

     Estava acostumado a matar passarinho para comer

     mas nunca matara bicho maior que um veado dos pequenos.

     Via agora que matar homem era bom, porque enchia mais o peito.

     Daí por diante só pensou na hora do entrevero.

     Derrubar paraguaio de longe a tiro não tinha graça

     o bonito era carga de baioneta.

     Várias vezes foi repreendido pelos superiores

     porque era muito afoito e não esperava a ordem de avançar.

    

     Os batalhões ganhavam fama

     e com a fama apelidos:

     o 2º era o Dois de Ouro

     o 12° o Treme-Terra

     o 13° o Arranca-Toco

     o 16º o Glorioso

     e o 1° de artilharia, o Boi de Botas.

    

     Uma coisa Chiru nunca entendeu:

     Por que era que os argentinos e os orientais estavam agora do lado dos brasileiros?

     Ficava também meio confuso quando conversava com os camaradas dos batalhões que vinham do Norte.

     Eram homens de fala esquisita

     de pouca comida mas muita coragem

     bons na arma branca, ligeiros e ladinos.

     Só não tinham era resistência para o frio.

     Aquele inverno de 65 foi brabo.

     Muito nortista baixou enfermaria encarangado.

     Alguns morreram de doenças dos bofes.

     Chiru deu o capote a um soldado do Pará e trocou com um anspeçada da Bahia os seus coturnos por um pedaço de fumo em rama.

     Gaúchos galhofeiros recitavam versinhos

            Mandai, Mãe de Deus, mais uns dias de minuano

            Pra acabar com tudo que é baiano.

    

     No cerco de Uruguaiana Chiru viu o imperador que passava em revista as suas tropas.

     Ficou petrificado, de boca aberta.

     Quando eu contar isto pra minha mulher e meus filhos, vão dizer que sou mentiroso.

     Mas por esta luz que me alumeia, juro que vi dom Pedro II, Pai de todos nós, passar na minha frente em cima dum cavalo branco com arreios de ouro e prata.

    

     Doutra feita Chiru avistou o grande Osório

     montado no seu ginete

     com o pala-poncho batendo ao vento

     seu chapéu preto de copa redonda

     sua famosa lança de ébano com lavores de marfim.

     Era natural do Continente

     tinha brigado nas guerras da Cisplatina e na dos Farrapos.

     Contavam que havia sido o primeiro soldado brasileiro a pisar terra paraguaia, à frente de seu piquete.

    

     Era por coisas assim que Chiru gostava da guerra.

    

     Mas foi uma campanha comprida e custosa.

     Morria mais soldado de peste que de bala, metralha ou arma branca.

     Não houve praga que não atacasse aqueles exércitos.

     Veio a bexiga negra.

     Chiru carregou muita padiola com camaradas agonizantes, de cara enegrecida, a pele se descolando e toda coberta de pus.

     Veio o cólera

     vieram mil febres e as cãibras de sangue.

     Era gente a tombar por todos os lados, retorcendo-se de dor, com a cara mais branca que papel.

     No inverno marchavam debaixo de chuva

     ou com o minuano na cara

     e muita vez Chiru ajudou os companheiros a empurrar canhões e carretas que se atolavam na lama.

     No verão marchavam na soalheira

     e soldados caíam de insolação.

    

     Foi uma campanha comprida e custosa.

     Mas Chiru Caré andava contente,

     porque em tempo de paz sua vida nunca fora melhor.

     Agora ao menos comia carne, tinha amigos, uma carabina com baioneta

     e matar homem era bom

     enchia o peito.

    

     Um dia descobriu que seu companheiro de barraca era um tal de Florêncio Terra, natural de Santa Fé, sobrinho da velha Bibiana, dona do Angico e do Sobrado.

     Mundo velho bem pequeno!

    

     Vossuncês não acreditam?

     Por Deus Nosso Senhor, sobrinho da velha Bibiana!

     Dormia perto de mim e nunca gritou comigo

     me tratava de igual pra igual.

     Um dia caiu ferido, com um balaço na perna, e ia ficando pra trás...

     Se os paraguaios pegassem ele, adeus tia Chica! Vai então corri pro homem, botei o bicho nas minhas costas e voltei a meio galope pra dentro das nossas trincheiras.

     O moço perdeu um pouco de sangue, mas quando entreguei ele pros padioleiros, inda teve força pra arreganhar os dentes e me dizer baixinho

     Obrigado, companheiro.

     Quem havia de dizer! Sobrinho da velha Bibiana, dona do Angico e do Sobrado.

    

     Foi por tudo isso que Chiru Caré gostou daquela campanha.

     Na paz vivia como um bicho.

     Na guerra era um homem.

    

O Sobrado - V

 (26 de junho de 1895: Manhã)

     Quando o dia amanhece, Curgo sobe à água-furtada para falar com o homem que passou a noite de vigília. Encontra-o enrolado no poncho, sentado junto da janela, a espiar a praça e arredores através das vidraças meio embaciadas.

     - Que tal, Ernesto?

     - Nada de novo. Estou aqui desde as duas da madrugada. Lá pelas quatro mais ou menos vi gente saindo da cidade a cavalo pras bandas de Passo Fundo. Acho que os maragatos já começaram a se retirar.

     Licurgo olha pra fora e murmura:

     - Não sei, não sei... Pode ser uma cilada pra fazer a gente sair do Sobrado. É bom não arriscar...

     - Pode ser... - repete o outro, abrindo a boca num largo bocejo.

     - Desça, que eu fico aqui por enquanto. Quando o Damião acordar, diga pra ele que suba. Vá comer alguma coisa. Tem muita laranja e bastante água. Nossos companheiros passaram a noite caminhando pelo quintal, trouxeram quanta água quiseram. Chegaram até a tirar o Adauto de cima da tampa do poço e enterraram ele atrás do marmeleiro.

     - É engraçado. Os federalistas estes dois últimos dias não deram nenhum tiro. Acho até que não ficou ninguém na torre esta noite.

     - Não sei. Esse negócio não me cheira bem. A corja decerto está preparando alguma traição.

     Ernesto põe-se de pé, espreguiçando-se num estalar de juntas; encaminha-se para a escada e dentro em breve seus passos começam a soar surdamente nos degraus. Curgo abre de par em par a janela! da água-furtada, senta-se num mocho junto dela e debruça-se sobre o peitoril. A brisa úmida da manhã o envolve, dando-lhe a impressão de que mergulhou a cabeça na água fria dum açude. As faces e as orelhas lhe ardem, e ele aspira com força o ar que cheira sereno e a campo. Pensa no Angico e em Ismália com uma saudade impaciente. Onde estará ela agora? Que lhe terá acontecido? Talvez tenha conseguido fugir... Mas fugir para onde? O mais provável é que haja sido presa e obrigada a ir para a cama com aqueles maragatos do inferno. Por alguns segundos Licurgo fica a ruminar o prazer carnal que tantas vezes a rapariga lhe deu. Lembra-se dos olhos dela, da voz dela, das formas e do contato do corpo dela - tudo isso, porém, dum modo remoto, apagado, frio. Talvez a esta hora Ismália esteja morta, enterrada e podre. E Licurgo pensa na filha recém-nascida, dentro da caixeta de marmelada, e como que sente de novo o cheiro da terra úmida do porão, ao mesmo tempo que se imagina a enterrar Alice naquele chão negro; em seguida é um dia de sol e de paz, num outro tempo, e vozes cochicham nas ruas: "Aquele que ali vai é o coronel Licurgo Cambará. Uma fera! Na revolução de 93 os maragatos cercaram o Sobrado, mas ele não se entregou. Sacrificou a filha, a mulher, os amigos, mas não afrouxou. Uma fera!" Ele reconhece as vozes: gente de Santa Fé. Que vão todos pro diabo!

     Dirige o olhar pesado de sono para a praça, que uma luz pálida começa a iluminar. As árvores, os telhados e a terra estão úmidos de rocio e prateados de geada. Lá do outro lado continuam fechadas as janelas e as portas do edifício da Intendência. Nenhum galo canta. Não se enxerga viva alma nas redondezas do Sobrado. Santa Fé parece uma cidade de taperas.

     Curgo olha para o alto do campanário. E se neste momento, um maragato estiver fazendo pontaria na minha cabeça? Dessa distância é tiro certo... Mas que me importa? Deixa-se ficar onde está, com o queixo sobre os braços, os braços sobre o peitoril, as pálpebras pesadas, a cabeça oca, uma broca fria a verrumar-lhe o estômago. Por sua mente desfilam imagens de pessoas, trechos de conversas, cenas dum passado recente - e de súbito Licurgo torna a sentir, como em tantas outras vezes desde que começou o cerco de sua casa, a impressão de que foi vítima duma terrível, colossal injustiça. "Fazerem isso pra mim, logo pra mim..." - murmura ele com os olhos postos na figueira grande, como se a ela estivesse dirigindo a queixa.

     Desde que se proclamou a República foi ele sempre a autoridade máxima de Santa Fé. Com a queda da monarquia os Amarais perderam os cargos públicos e o prestígio. E desde 89 ele, Curgo, não fez outra coisa senão trabalhar pelo progresso e pela felicidade de sua terra. Foi eleito intendente municipal de Santa Fé pelo voto livre da população e por uma maioria inapelável. Não pediu nem comprou votos, não coagiu eleitores. Aos próprios peões, agregados e amigos íntimos disse: "Votem em quem quiserem, pois esta vai ser a primeira eleição livre na história do município". Depois de eleito, recusou-se a receber seus honorários. Muitas vezes chegou a tirar dinheiro do próprio bolso para custear obras públicas: construir pontes, reparar estradas e ruas. Tratava toda a gente com afabilidade, recebia a todos, ouvia a todos. Os colonos de Garibaldina e Nova Pomerânia obtinham dele tudo quanto pediam. A Intendência era a casa do povo. No entanto, muitos dos homens a quem prestou favores se voltaram contra ele, estão agora atirando contra esta casa a cuja mesa tantas vezes comeram, esta casa onde sempre foram recebidos por assim dizer como pessoas da família. Mas de todas as mágoas a que mais lhe dói é a que lhe causou Toríbio Resende, seu melhor amigo e companheiro da propaganda republicana. Fascinado pela personalidade de Gaspar Silveira Martins, Toríbio abandonou os companheiros de ontem, fez-se parlamentarista, cerrou fileiras com os maragatos, afastou-se aos poucos do Sobrado e por fim chegou até a escrever verrinas contra Júlio de Castilhos, chamando-lhe ditador. Castilhos ditador! Era o cúmulo do absurdo chamar tirano a um homem que para evitar a guerra civil abandonou voluntariamente o cargo de presidente do Estado para o qual fora legalmente eleito. E quando a revolução rebentou, Toríbio uniu-se às forças de Juca Tigre, convencido - o idiota! - de que os federalistas queriam salvar o Rio Grande da ditadura, não compreendendo - o infeliz! - que por trás daquelas conversas parlamentarismo e liberdade, o que os maragatos queriam mesmo era restaurar a monarquia, destruir a República pela qual o Toríbio tanto se batera.

     Mas agora - reflete Licurgo - aproxima-se a hora do ajuste de contas. Gumercindo Saraiva está morto. O almirante Saldanha da Gama anda burlequeando pelo Estado com seu batalhão de marinheiros sobrados da revolta da Armada, e que nada poderam fazer em terra firme se não fugir e evitar os combates. Muitos dos chefes federalistas já começam a emigrar para o Uruguai e a Agentina.

     Talvez dentro de mais um dia ou - quem sabe? - de poucas horas as forças de Firmino de Paula estejam entrando em Santa Fé. E nunca - pensa Licurgo, olhando para o casarão dos Amarais lá do outro lado da praça - nunca Alvarino Amaral poderá dizer “Perdi a revolução mas tomei Santa Fé e tive o gosto de entrar no Sobrado de chapéu na cabeça e fazer o Licurgo dobrar a espinha” Nunca. Quando no futuro se falar na Revolução de 93, hão dizer: "O Sobrado agüentou um cerco de mais de dez dias e não se rendeu". Toríbio e Rodrigo crescerão ouvindo essa história aprendendo com ela a dar valor à casa onde nasceram - a amá-la respeitá-la e defendê-la; e compreendendo acima de tudo que existem na vida dum homem de honra duas coisas sagradas que ele deve fazer respeitar à custa de todos os sacrifícios: a cara e a casa.

     A luz do sol aos poucos vai ficando mais viva e dourada e os campos ao redor da cidade lentamente emergem da sombra gris e ganham tons esverdeados. A geada brilha como vidro moído.

     Licurgo passa os dedos entanguidos pelos cabelos. A vontade de fumar dá-lhe uma ardência na língua. Torna a pensar em Ismália e em Alice, mas entre as duas surge em seu espírito a figura de Maria Valéria. Cadela! Aquela solteirona seca e antipática a meter-se onde não é chamada! Torna a ouvir-lhe a voz: "Então podem se fazer três enterros. O da criança, o do Tinoco e o da Alice". Não Alice não pode morrer, não deve morrer. A morte da coitadinha de nada servirá aos maragatos nem aos republicanos. Será, isso sim mais uma injustiça dolorosa. Mas acontece - reflete Curgo engolindo a saliva grossa e amarga - que este mundo parece andar mesmo sem governo. Não há bom senso, não há justiça. Pessoas direitas sofrem; canalhas gozam. Inocentes pagam pelos pecadores. Nem sempre o justo e o bom triunfam. E nesta revolução cruel bandidos são glorificados. Diz o padre Romano que a verdadeira justiça está no Céu e não importa muito o que acontece neste mundo. Mesmo quem observar a revolução com cuidado achará difícil dizer de que lado está Deus. Duma coisa eu sei - pensa ele - é que se Deus está do lado dos federalistas o melhor é Ele ir tratando desde já de imigrar para a Banda Oriental.

     O sol agora bate em cheio no rosto de Licurgo Cambará, que de novo apoia os braços no peitoril, descansa sobre eles uma das faces e cerra os olhos.

    

     Liroca está de novo no seu posto, no alto da torre. Deitado nas lajes, ele espia o Sobrado através da seteira. Faz alguns minutos que acordou, encarangado de frio, trêmulo de fome, doído de vontade de tomar uma coisa quente, mate ou cachaça. Ao despertar olhou para o Sobrado e viu um homem à janela da água-furtada; reconheceu Licurgo. Teve uma vontade danada de gritar: “Ó Curgo! Então como vai a coisa por aí?” Mas ficou calado, porque inimigo é inimigo. Qual! Se fossem inimigos de verdade sua obrigação era meter uma bala na cabeça do outro. Muito fácil: bastava dormir na pontaria e - pei! - era uma vez um tal de Licurgo Cambará. Muito bonito. O Rodrigo e o Toríbio ficavam órfãos, Dona Alice enviuvava, Maria Valéria perdia o cunhado. E ele, José Lírio, ia carregar pelo resto da vida o peso daquele remorso. Matar um liomem em combate era uma coisa; matar de tocaia, à traição, era um crime, um assassinato.

     Liroca suspira. Está tudo agora caminhando para o fim. O coronel Alvarino já começou a retirar sua gente da cidade; e corre à boca pequena que ele está preparando tudo para emigrar para o outro lado do rio. O bom mesmo, concluiu Liroca, é eu levantar uma bandeira branca, correr pros pica-paus e me entregar.

     Passou a noite a ver o movimento dos republicanos no quintal do Sobrado: iam e vinham do poço para a casa carregando água. A princípio andavam de rastos, depois encurvados, por fim já caminhavam naturalmente. Chegaram até a tirar o calça branca de cima do poço. E ele, Liroca, nem teve coragem de atirar. Teve isso sim, foi vontade de gritar:

     “Andem ligeiro! Levem água pras crianças, pras mulheres! E dêem lembrança pra Maria Valéria!”

     Se.ela aparecesse agora assim de repente a uma das janela ele não resistiria à tentação de lhe gritar alguma coisa que lhe desse a entender que enquanto José Lírio estiver de vigia na torre da igreja os republicanos podem ir e vir no quintal sem serem molestados. Mas qual! Maria Valéria não vai aparecer... - Ninguém sabe aqui fora o que está acontecendo lá naquele casarão. Pode ser até que a moça esteja doente ou ferida... Ninguém está livre duma bala perdida. Guerra malvada! Guerra tirana!

     Liroca acaricia a coronha da Comblain, como se ela fosse o ombro da mulher amada. Encosta depois uma das faces na pedra fria do parapeito e fica mirando com olho triste as janelas do Sobrado.

    

     Maria Valéria acha-se ao pé da cama de Alice com a mão espalmada sobre a testa da irmã, que tem ainda os olhos cerrados Graças a Deus a testa não está tão quente, a febre deve ter baixado. Se ao menos agora o sítio terminasse e o dr. Winter pudesse vir com remédios... Ou então se Curgo abafasse seu orgulho e pedisse uma trégua... Ela sabe que é costume fazer isso até mesmo nas guerras grandes entre nações.

     Alice abre os olhos e fica por algum tempo a fitar a irmã com uma expressão estonteada. Depois seus lábios que a febre crestou, se movem, procurando formar uma palavra.

     - Fica quieta, Alice.

     - Os meninos? - balbucia a doente.

     - Espera...

     Maria Valéria sai do quarto e volta após um breve instante trazendo os sobrinhos, que ficam parados em silêncio junto do leito da mãe. Primeiro os olhares de ambos fixam-se no rosto dela, depois descem-lhe pelo seio e demoram-se sobre o ventre. Por fim os dois meninos se entreolham significativamente.

     - Beijem a mãe de vocês - ordena a tia.

     Eles se inclinam sobre Alice e beijam-lhe chochamente a testa. Ela continua com os braços estendidos ao longo do corpo, sob as cobertas, e seus olhos se enchem de lágrimas.

     - Agora saiam - diz Maria Valéria. - E não façam barulho.

     - Podemos ir lá pra baixo? - pergunta Toríbio.

     - Não. Fiquem no quarto. E não abram a janela.

     - Por quê, madrinha?

     - Porque não.

     As duas crianças lançam mais um olhar para a mãe e saem do quarto na ponta dos pés.

     O rosto de Alice está crispado numa expressão de pesar e as lágrimas lhe escorrem pelas faces afogueadas. Sem dizer palavra, Maria Valéria toma dum lenço e começa a enxugar o rosto da irmã com mais eficiência do que ternura. Podia tentar consolá-la com mentiras - reflete. Mas é inútil.

     Por mais que se esforce não conseguirá pronunciar a menor palavra de esperança. Porque a realidade é só uma, dura, fria e triste. O Sobrado continua cercado. A comida se acabou. A criança nasceu morta. E se o sítio se prolongar, ninguém sabe quantas coisas horríveis podem ainda acontecer.

     Maria Valéria cruza os braços, aperta-os contra o estômago, que lhe dói desde a noite anterior. Quantas horas faz que não come? Vinte e quatro? Trinta? Mas o pior de tudo é não poder dormir, descansar, esquecer...

     "Não agüento mais. Acho que vou acabar louca, abrir a porta da rua e sair correndo e gritando...”

     Tem de súbito a impressão de que uma terceira pessoa acaba de entrar. Volta a cabeça e vê a própria imagem refletida no espelho do lavatório: um fantasma de xale nos ombros.

     Do quarto vizinho vêm agora as batidas da cadeira de balanço de dona Bibiana. A velha já começou a funcionar... - pensa Maria Valéria. E fica a escutar o ban-ban cadenciado e surdo, que lhe parece uma voz. É como se Bibiana Terra Cambará estivesse procurando dizer-lhe alguma coisa. E Maria Valéria, sem saber claramente como nem por quê, enche-se aos poucos dum ânimo novo, ao mesmo tempo que diz para si mesma: Se ela que tem noventa anos pode agüentar tudo isto, eu também posso. E atira um olhar de desafio para a mulher cadavérica do fundo do espelho.

    

     Quando Licurgo desce da água-furtada para a sala de jantar, encontra seus companheiros a comerem laranjas com uma voracidade ruidosa de porcos esfaimados. Não se pode furtar a um sentimento de mal-estar e impaciência. Esquece por um instante que estes homens são seus correligionários, seus amigos, que não somente estão participando com ele dos perigos e durezas desta guerra civil como também estão defendendo o Sobrado. E nesse rápido instante de irritado esquecimento sente-se ofendido por ver aquelas gentes - entre as quais se acham cinco peões do Angico - usarem as salas de sua casa descerimoniosamente, cuspindo e escarrando no chão, encostando nas paredes as cabeças sebosas, riscando o soalho com a roseta de suas esporas, empestando o ar com o cheiro azedo de seus corpos sujos. E Licurgo, que acaba de vir lá de cima, onde respirou ar puro, franze o nariz e tem ímpetos de mandar escancarar imediatamente todas as janelas.

     A luz do sol bate em cheio no rosto do velho Fandango, que dorme sentado numa cadeira, a cabeça caída sobre o peito. Curgo olha-o por alguns segundos, num vago temor de que esteja morto. Tem a impressão de que seu peito não se move. Pousa-lhe amão na testa: fria. Começa então a sacudir o velho pelos ombros. Fandango abre os olhos e põe-se de pé como um autômato:

     - Que foi? Que foi? - pergunta ele, atarantado.

     - Nada - responde Curgo - nada. É que te vi meio parado e fiquei pensando...

     O outro esfrega os olhos, boceja e estende os braços, espreguiçando-se.

     - Pensou que o velho tivesse morrido?

     - Pensei.

     - Chô égua! Já te disse miles e miles de vezes que o Fandango pode morrer um dia, mas não sentado. Há de ser em cima do lombo dum cavalo ou então de pé, dançando.

     E esfregando as nádegas com as palmas das mãos, ele sai no seu tranco de cavalo marchador na direção da cozinha, a gritar:

     - Que é que tem pra se comer, Laurinda?

     Neste mesmo instante Florêncio Terra sai da despensa, aproxima-se rengueando do genro e diz-lhe em voz baixa:

     - O Tinoco morreu.

     Curgo franze a testa.

     - Quando?

     O sogro encolhe os ombros.

     - Não sei. Decerto esta noite...

     Licurgo fica a olhar para Florêncio, perdido. Tinoco lhe havia saído por completo do pensamento. As outras preocupações eram tantas e tão fortes, que ele nem sequer se lembrava do pobre-diabo que agonizava na despensa. Seja como for, sente-se agora aliviado. Morto Tinoco, ele fica livre da responsabilidade de fazer alguma coisa por ele: cortar-lhe a perna ou meter-lhe uma bala na cabeça para abreviar-lhe o sofrimento.

     Florêncio resmunga:

     - Morreu como um cachorro sem dono, abandonado, sem um cristão que botasse uma vela na mão dele. Todo o mundo se esqueceu do coitado...

     Curgo toma essas palavras como uma censura e fica logo espinhado.

     - Que era que o senhor queria que eu fizesse? Que ficasse lá dia e noite lambendo o ferimento dele?

     Florêncio não responde. Fica cofiando os bigodes com seus dedos magros e amarelos, os olhos baixos. E como o genro nada mais lhe diz e continua a mirá-lo com olhos agressivos, ele torna a falar:

     - É preciso enterrar ele o quanto antes. Já estava meio po...

     - Chega! - vocifera Curgo. - Eu sei.

     O velho faz meia-volta e encaminha-se para a escada. Erguendo a voz, Licurgo anuncia:

     - O Tinoco morreu.

     Os homens nada dizem. Agachado a um canto, Antero começa a fungar ao passo que as lágrimas lhe vão brotando nos olhos. Um dos companheiros lança-lhe um olhar enviesado e estranha:

     - Ué? Que é isso?

     Cuspi na cara dele - pensa Antero. - Fui um prevalecido. A bem dizer cuspi na cara dum defunto.

     - Precisamos enterrar o corpo duma vez - diz Curgo. Jango Veiga, que está à porta da cozinha, pergunta:

     - Onde?

     - No quintal, perto da parede da casa. Acho que não há perigo. Não tem ninguém na torre.

     - Por que não no porão? - sugere o outro.

     - Não! - apressa-se a responder Curgo, quase ofendido. A simples sugestão de enterrar Tinoco no mesmo chão onde está sua filha, lhe é tão repugnante que ele a repele como uma ofensa pessoal.

     - Se estão com medo de sair pro quintal, deixem que eu mesmo faço o serviço sozinho.

     Jango Veiga cerra os dentes e diz com voz apertada:

     - Ninguém está com medo de coisa nenhuma, seu! Se quiser podemos ir enterrar o Tinoco até lá na frente da Intendência. Quer?

     Por um instante os dois homens se miram com rancor. Curgo sente gana de esbofetear Jango Veiga, mas contém-se e com voz alterada diz:

     - Enterrem onde quiserem, menos no porão. Jango Veiga volta-se para os companheiros e grita:

     - Vamos buscar o Tinoco! Podemos enterrar ele debaixo da escada da cozinha.

    

     Ao anoitecer rompe inesperadamente um tiroteio. Os homens correm para seus postos de Comblain em punho. Curgo, que estava deitado a dormir um sono leve, de superfície, desperta sobressaltado, salta da cama, apanha a espingarda e desce as escadas a correr.

     - Não atirem sem primeiro ver o inimigo! - grita. - Não desperdicem munição.

     Algumas vidraças das janelas que dão para o norte se partem. Uma bala entra por uma das bandeirolas e vai cravar-se no teto.

     - Acho que estão atirando da casa do Naziazeno. Esse tiro veio de baixo - grita João Batista, olhando para o teto.

     O tiroteio dura menos dum minuto. Cessa de repente. Curgo sobe para a água-furtada.

     - Que foi que houve, Damião?

     O caboclo está ajoelhado junto da janela semi-aberta, com a espingarda apoiada no peitoril.

     - Ainda não sei. - diz ele, sem erguer a cabeça. Curgo ajoelha-se junto dele.

     - Donde vieram os tiros?

     - Lá do outro lado da praça. Ouvi um barulho de cascos. Acho que atiraram de cima de cavalos a galope.

     - Deve ser algum grupo que está se retirando.

     - Pode que sim, pode que não. Curgo olha a praça deserta.

     - Tem alguém na torre? - pergunta.

     - Não vi ninguém.

     - Fique de olho na estrada. Acho que não demora muito as tropas republicanas aparecem.

     Licurgo ergue-se e desce para o primeiro andar, sentindo que o coração lhe bate acelerado, que a ação lhe fez bem, deu-lhe um calor bom ao corpo. Ah! É mil vezes mais fácil suportar o sítio lutando!

     Sentado numa cadeira, de faca em punho, para se distrair Florêncio tira lascas duma vara de marmeleiro, e as esquírolas se vão acumulando a seus pés. Curgo olha para o sogro com má vontade, e seu sentimento de culpa, longe de torná-lo humilde e conciliador, predispõe-no à agressividade.

     Ele sabe exatamente o que Florêncio está pensando, conhece as queixas que ele recalca no peito. Seria melhor que o velho falasse claro e alto, pois assim ele teria também a oportunidade de desabafar, de dizer-lhe um bom par de verdades. Sim, ele respeita o sogro. É seu parente de sangue, primo-irmão de seu pai. Um homem de bem, não há dúvida alguma, mas não um homem de ação ou princípios políticos. No fundo ainda suspira pela monarquia, e foi só forçado pelas circunstâncias que tomou partido nesta revolução... Curgo tem o olhar fito em Florêncio, espera que ele erga a cabeça para provocá-lo a uma discussão. O velho, porém, continua entretido a tirar lascas da vara, como se disso dependesse a sorte do Sobrado.

     Antero está acocorado a um canto da sala, o busto encurvado, a cabeça metida entre os joelhos. Os outros homens começam a reunir-se ao redor do fogão, pois com o cair da noite o frio aumentou. Sobre suas cabeças soa a cadenciada e mansa trovoada produzida pela cadeira de balanço de Bibiana.

     Aos ouvidos de Curgo chega a voz alegre de Fandango, que conversa ao pé do fogo:

     - Aquilo é que foi guerra braba.

 

A Guerra

     Naquele dezembro - o sexto dezembro da guerra - já não havia em Santa Fé família que não chorasse um morto. Desde o início da campanha a vila fornecera ao exército nacional seis corpos de voluntários. Os que não morriam ou desertavam, voltavam feridos ou mutilados, e em seus rostos os outros podiam ler todo o horror da guerra. As mulheres já não tiravam mais o luto do corpo: viviam a rezar, a fazer promessas e a acender velas em seus oratórios.

     Durante aqueles cinco anos de campanha, Santa Fé não apenas estacionara: mostrava mesmo sinais de decadência. As obras da igreja nova, iniciadas em 1863, foram interrompidas por falta de dinheiro e de braços. Os homens válidos da vila estavam em terras do Paraguai - em cima dela lutando ou debaixo dela apodrecendo. Os campos do município achavam-se quase despovoados: o governo fizera pesadas requisições de cavalos e reses; e os peões em idade militar haviam-se apresentado como voluntários. As lojas viviam às moscas; fazia-se pouco negócio. O correio chegava com irregularidade, quando chegava. As residências conservavam suas janelas quase sempre fechadas, e as que ficavam desabitadas dentro em pouco se transformavam em ruínas. Durante aqueles anos poucas vezes se ouviu som de gaita ou canto em Santa Fé; nem houve ali fandango, quermesse, cavalhadas ou outra festa qualquer. Ninguém tinha vontade de se divertir nem ânimo para cantar, dançar ou brincar, sabendo que parentes e amigos estavam na guerra. E por mais que se dissesse que Solano López estava perdido, nenhuma esperança havia de paz próxima.

     No entanto, numa manhã de princípios de 1869 o sino da igreja repicara, festivo, para anunciar que a paz fora finalmente assinada. Um estafeta, vindo de Rio Pardo com a mala postal, fora o portador da grande notícia. Houve risadas, choros de contentamento, gritos e vivas. Os santa-fezenses saíam para a rua e abraçavam-se; velhos inimigos, estonteados de alegria, reconciliavam-se. Janelas abriam-se e as mulheres preparavam-se para pagar as promessas feitas aos santos de sua devoção.

     No dia seguinte a Câmara Municipal mandou rezar uma missa em ação de graças pela terminação da guerra. A igreja ficou regurgitante de gente; homens, mulheres e crianças amontoavam-se lá dentro, sentados nos bancos ou de pé nos corredores; havia até pessoas escarranchadas nas janelas. À frente do templo uma multidão enchia a rua e ia até quase o meio da praça. Gente que em toda a sua vida nunca tinha ido à missa, naquele dia se encontrava na igreja. Na hora do sermão o padre Otero estava de tal forma comovido, que quase não pôde falar. "Meus irmãos..." - balbuciou. "A guerra terminou. Deus, na sua infinita bondade e sabedoria..." Então ouviu-se um zunzum de vozes abafadas à porta da igreja. O padre calou-se. O murmúrio continuou, cada vez mais forte. Alguém fez - cht! "Deus na sua infinita bondade e sabedoria...” - repetiu o vigário, olhando alarmado a entrada do templo onde cabeças se agitavam e o vozerio se fazia cada vez mais alto. O sacerdote tornou a calar-se. Do meio da multidão, lá fora, veio uma voz de homem: “Chegou um ofício pra Câmara. Foi tudo boato. A guerra ainda continua!” Estas últimas palavras foram berradas com raiva, num espécie de repto ao Deus sábio e misericordioso de que o vigário acabava de falar. Houve uma pausa atônita, como se a respiração de toda aquela gente ficasse subitamente cortada. Mas em seguida romperam gritos e choros, e os fiéis precipitaram-se para fora, numa pressa aflita, quase em pânico, como se alguém tivesse gritado - "Incêndio!" O padre desceu do púlpito e encaminhou-se para o meio da rua, onde os membros da Câmara Municipal estavam reunidos. Havia realmente chegado um ofício do governo da província prevenindo contra as falsas notícias da terminação da guerra e pedindo mais cem voluntários, cem cavalos e duzentas reses.

     Foi como se uma sombra caísse sobre a vila. As mulheres passaram a olhar com pena e temor para os filhos adolescentes. "Se a guerra dura mais uns anos, eles ficam homens e têm de marchar pro Paraguai." E de novo se puseram a rezar, e dia e noite ardiam velas no altar de Nossa Senhora da Conceição e em todos os oratórios de Santa Fé. E o primeiro inverno depois daquela falsa notícia pareceu-lhes mais frio, mais escuro, mais duro de suportar que todos os outros. Quando soprava o minuano ou chovia, elas pensavam nos seus homens que estavam longe, lutando. E quando ao despertar pela manhã viam a geada nos telhados, lembravam-se num arrepio dos soldados que tinham passado a noite ao relento, e choravam.

     Velhos quietos pitavam sentados à tardinha na frente de suas casas, pensando nas guerras em que haviam tomado parte, e nos tempos d'antanho, quando tinham a força da mocidade e andavam a fazer tropas ou a camperear. Agora não prestavam mais para as lidas do campo nem para as da guerra, e ali estavam parados, inúteis, fracos como mulheres. Olhavam melancolicamente as outras pessoas, meio envergonhados, como a pedir desculpas por terem envelhecido. E ninguém ficava sabendo se tinham os olhos lacrimejantes de velhice ou de tristeza.

    

     Foi naquele quente e abafado dezembro de 1869 que chegaram de volta a Santa Fé alguns voluntários que a guerra deixara inválidos. Entre eles estava Florêncio Terra, que recebera um balaço no joelho. Desceu da carroça apoiado em muletas. Estava tão barbudo, tão magro e sujo, que a própria mulher não o reconheceu no primeiro momento. Ficaram os dois frente a frente, parados, mudos, a olhar estupidamente um para o outro. De repente ela se atirou nos braços de seu homem e desatou o choro. Florêncio abraçou-a, um pouco desajeitado por vê-la fazer aquela cena no meio de tanta gente. Ao redor deles havia uma grande balbúrdia, mistura de risadas, de choro e também de silêncios: o silêncio pesado das mulheres e dos velhos cujos parentes tinham morrido, e que ali estavam para ver a felicidade dos outros.

     Ondina soluçava, com a cabeça encostada ao peito do marido.

     - Não chore - disse ele, acariciando de leve os cabelos da mulher. - Não é nada. Voltei vivo.

     Ela queria dizer alguma coisa mas não podia.

     - Como vão as crianças? Por que é que não vieram?

     Finalmente Ondina conseguiu falar. Contou que os filhos o esperavam em casa, e que estavam todos bem.

     Fazia quatro anos que não via Florêncio. Um dia, no inverno de 66, correra por Santa Fé a notícia de que ele tinha morrido. Ela, porém, tivera o pressentimento de que aquilo não era verdade, e nunca deixara de esperar a volta do marido.

     Caminharam para casa, parando aqui e ali quando conhecidos vinham cumprimentar Florêncio. Queriam saber onde e como tinha sido ferido; se a coisa era grave; como ia a guerra; quando vinha a paz; se era verdade que Solano López estava morto... Florêncio respondia na sua maneira lacônica, constrangido por estar sendo alvo de tantas atenções. Caminhava apoiado nas muletas, com a perna esquerda dobrada e rígida, o pé no ar. O ferimento lhe ardia: o corpo todo lhe doía e ele tinha uma desagradável sensação de febre. A viagem até ali fora tão dura como a própria guerra. Eram quinze homens imundos e doentes amontoados numa carroça. Um morrera no caminho, outro estava agonizando. Tinham tomado chuva e passado fome na estrada.

     Ondina não dizia palavra. Chorava mansamente, sem ruído e já nem mais se dava o trabalho de enxugar as lágrimas. Florêncio, que tanta saudade sentira de sua terra naqueles anos de ausência, agora nem sequer olhava para as casas. Era como se temesse encará-las, como se elas fossem pessoas e lhe pudessem fazer alguma pergunta embaraçosa. Quando chegou à praça, fez alto e olhou primeiro para a figueira e depois para o Sobrado. Lá estava o casarão com sua fachada caiada a reverberar a luz da tarde. Florêncio sentiu um aperto no coração. Lembrou-se de Bolívar, de Bibiana, de Luzia e todo o passado pareceu cair sobre ele como cinza fria. Uma pergunta se lhe formou no espírito: chegou a descerrar os lábios para a formular, mas conteve-se em tempo. Era melhor não remexer naquelas coisas... Continuou a andar.

     Os filhos o esperavam à frente da casa. Juvenal, Maria Valéria e Alice... Florêncio parou a alguns passos deles sem saber que fazer nem dizer. Estava contrafeito, como se defrontasse estranhos. Olhava as três caras morenas e tristes que o miravam com expressão bisonha. Teve ímpetos de apertá-los todos num longo abraço, de beijar-lhes os rostos muitas, muitas vezes. Mal, porém, nasceu esse desejo, uma vergonha antecipada desse gesto o congelou. Continuou parado, olhando... Mas precisava dizer alguma coisa. Ia perguntar: "Se portaram direito quando o papai não estava em casa?" - quando Ondina falou:

     - Peçam a bênção.

     Primeiro veio Juvenal. Tinha quase catorze anos e um ar oblíquo de bugre. Beijou a mão do pai e ergueu para ele os olhos muito pretos e lustrosos. Florêncio pousou a mão na cabeça do filho e disse:

     - Deus te abençoe e guarde, Juvenal.

     Depois veio Maria Valéria, que ele achou magra e alta demais para seus nove anos.

     - A bênção.

     Florêncio sentiu na mão os lábios úmidos e frescos da menina.

     - Deus te crie pro bem, minha filha.

     Quando chegou a vez de Alice, a criança rompeu a chorar, agarrou-se à saia da mãe, gritando:

     - Esse homem não é meu pai! Não é meu pai! Não é meu pai!

     Desconcertado, Florêncio lançou um olhar patético para Ondina e entrou em casa de cabeça baixa, arrastando as muletas no chão.

    

     Na manhã seguinte foi com a mulher ao cemitério levar flores aos túmulos dos pais, que haviam morrido ambos de bexigas pretas pouco antes de ele partir para a guerra. Ficaram longo tempo em silêncio a olhar para as duas sepulturas rasas. O cemitério estava completamente abandonado. Ervas cresciam por entre os túmulos, os muros de pedra caíam aos pedaços e joões-de-barro tinham feito seus ninhos no telhado do jazigo da família Amaral.

     Eram dez horas e o sol brilhava num céu limpo. Florêncio olhava para as duas cruzes e pensava nos pais. Mas era a imagem do velho Juvenal que ele guardava na memória com mais nitidez Sua mãe já era tão apagada mesmo em vida, a coitada! Na sepultura estava escrito: "Juvenal Terra, 1803-1864. Paz à Sua Alma." Sim - refletia Florêncio - paz era o que o Velho sempre desejara. Era um homem direito que gostava de viver em paz com as outras criaturas e com sua consciência. Nunca tinha feito mal a ninguém, era trabalhador, cumpria suas obrigações, não era homem de violências, mas quando era necessário brigar, brigava mesmo. Deus tinha feito bem em levar o casal na mesma semana. Agora ali estavam os dois, lado a lado, descansando na terra onde tinham nascido, na terra que haviam cultivado e amado. E Florêncio pensou um dia hei de vir descansar aqui. E a Ondina também. E mais tarde até as crianças. E os filhos dos meus filhos...

     Uma grande pergunta de repente cresceu dentro dele. Pra quê? Para que tudo isso? Para que tanta trabalheira, tanta doença, tanta desgraça, tantas andanças, tanta aflição? Para quê, se um dia a gente vem parar mesmo numa cova de sete palmos onde fica servindo de comida aos bichos da terra?

     Apoiado nas muletas, Florêncio olhava fixamente para a sepultura do pai e lembrava-se agora daqueles dias horríveis de 64, quando a bexiga grassava em Santa Fé. O primeiro caso tinha aparecido num rancho no fim da Rua da Independência, depois se alastrara por toda a vila. Sua mãe fora das primeiras a serem atacadas: ficara com a garganta cheia de pústulas e só podia se alimentar de leite, às colherinhas. O rosto da coitada tinha ficado completamente preto e as solas de seus pés começaram a cair assim como casca de marmelo cozido. O dr. Viegas mandava conservar os doentes num quarto escuro completamente fechado. O velho Juvenal foi atacado em seguida e morreu sufocado em menos de vinte e quatro horas.

     Como tinha sido duro e cruel aquele fim de ano! E quando a cidade começava a convalescer da peste, chegou a notícia de que havia arrebentado a guerra. E algumas pessoas emendaram o luto pelos parentes mortos de peste com o luto pelos parentes mortos na guerra. A casa dele, Florêncio, havia sido milagrosamente poupada pela doença. E no dia em que partiu para o Paraguai ele disse à mulher:

     - Deus não me matou de bexiga decerto pra me matar na guerra. Ninguém foge à sua sina.

            Mas Deus também não consentira que ele morresse na guerra. E agora ali estava ele, decerto aleijado para todo o resto da vida.

     Procurava interessar-se de novo pelas pessoas e pelas coisas, mas não conseguia. Queria pensar em plantar, em criar gado, em recomeçar a vida de qualquer modo, mas não sentia a menor vontade de trabalhar, só queria ficar parado, calado, pensando, lembrando-se das coisas do passado, e concluindo sempre que nada, nada mais valia a pena. Nem mesmo quando olhava para a mulher e para os filhos que agora estavam lá em casa quase nus, comendo pouco e mal, nem quando pensava no futuro da família sentia ânimo para lutar. Tinha passado o diabo naquela guerra, onde não só se morria varado de bala, de baioneta ou lança, mas também de tifo e de câmara de sangue. Tinha visto coisas de arrepiar. E a idéia de que com suas próprias mãos matara outros homens - pessoas que ele nem conhecia e que antes não lhe tinham feito nenhum mal - deixava-o perturbado, com a sensação de ter cometido vários crimes.

     Trazia ainda nas ventas o cheiro da guerra: suor de homem e de cavalo misturado com cheiro de pus, de podridão e morte. Não se livrara ainda das muquiranas que trouxera das trincheiras e dos acampamentos. Muitas vezes, naquelas terras estrangeiras, quando conseguia repousar por algumas horas entre um combate e outro, ficava deitado de costas no chão, olhando para o céu, pensando em Santa Fé, na sua casa, na sua gente, nas campinas ao redor da vila, imaginando como seria bom voltar, dormir de novo numa cama limpa, comer um bom churrasco numa mesa decente, tomar um banho no lajeado do Bugre Morto, conversar com os parentes e os amigos. Que era que ele estava fazendo ali no meio daquela soldadesca, com a carabina ao lado, esperando e temendo que o clarim de repente rompesse num toque a rebate? Nessas horas lhe vinha um desejo enorme de desertar. Mas em seguida envergonhava-se só de pensar naquilo. Só um covarde seria capaz de fazer uma coisa daquelas, uma traição tão grande aos companheiros. Pensando melhor, acabava achando que era preciso mais coragem para desertar do que para continuar pelejando. Finalmente dormia, por que o cansaço era grande. E muitas vezes em sonhos se via a se mesmo voltando para Santa Fé, conversando com Bolívar debaixo da figueira ou então caminhando como uma alma penada pelos corredores infindáveis dum casarão.

     Desde sua chegada Florêncio ainda não falara no Sobrado. Era um assunto que sempre evitava. Desde o dia da morte de Bolívar ele nunca mais pusera os pés naquela casa. Havia, porém, uma coisa que ele ardia por perguntar à mulher. Ondina ali estava a seu lado calada, arrumando as flores sobre as duas sepulturas.

     Deixando o olhar fugir por cima do muro de pedra na direção do horizonte, Florêncio perguntou:

     - Vossuncê entrou alguma vez no Sobrado quando eu estava na guerra?

     Ondina continuou muda a mexer nas flores.

     - Não ouviu o que lhe perguntei?

     - Ouvi - respondeu ela, levantando-se, limpando as mãos no vestido mas evitando encarar o marido.

     - Esteve ou não?

     - Estive.

     - Mas não devia.

     - Ora, Florêncio, tia Bibiana vivia me chamando.

     - Mas não devia.

     - Ela mandou me chamar tantas vezes que no fim eu já não tinha mais desculpas pra dar.

     - Não é por causa da tia Bibiana. É por causa da outra.

     - A outra nem vi. Sempre que eu ia lá, estava fechada no quarto.

     - Foi melhor assim.

     Ondina apanhou do chão um toco de vela e começou a limpá-lo distraidamente na ponta da saia, ao mesmo tempo que perguntava:

     - E vassuncê? Não vai visitar tia Bibiana?

     - Ela sabe que não boto os pés naquela casa.

     Ondina olhou para o marido e disse:

     - Vassuncê está ficando cada vez mais parecido com o seu pai.

     - Com quem mais eu havia de estar parecido? Quem me dera que eu fosse como ele. Meu pai era um homem de bem.

     Por um rápido momento Florêncio teve a impressão de que Juvenal Terra o estava escutando, e isso o deixou um pouco desconcertado, pois ele sabia que, se havia coisa que o Velho detestasse, era que lhe fizessem elogios assim à queima-roupa.

     Saiu a visitar outras sepulturas, e ao ver a própria sombra no chão - um homem de muletas com a perna dura e o pé no ar - começou a pensar em que talvez no futuro ele viesse a ser conhecido na vila como o "Florêncio Pepé". Até ouvia cochichos: "Lá vai o Florêncio Pepé. Foi na Guerra do Paraguai, coitado! Uma bala no nervo". Lembrava-se dum tipo de sua infância, o Joca Madureira, que tinha uma perna mais curta que a outra. Muitas vezes ele e Bolívar, trepados na figueira e escondidos entre seus ramos, viam o homem atravessar a praça cochiando e gritavam: "Joca Pepé!" Joca voltava-se para todos os lados, não enxergava ninguém mas gritava, cuspindo-se de raiva: "Pepé é a mãe".

     Florêncio parou diante da sepultura de Bolívar Cambará. Era toda de alvenaria e tinha em vez de cruz uma estátua de mármore, uma mulher de asas - um anjo - tocando lira. Florêncio sempre achara aquilo uma ostentação de que Boli não havia de gostar. Além disso, aquela estátua parecia Luzia... Era por isso que agora Florêncio fazia o possível para não olhar para o anjo: lia apenas a inscrição na lápide de granito. Mas a inscrição também lhe dava um certo mal-estar, porque era um epitáfio em verso, feito por ela. Com todas aquelas coisas em cima, o pobre do Bolívar estava mais morto do que se repousasse numa sepultura rasa.

     Florêncio começou a lembrar-se de outros tempos. Viu crianças brincando debaixo da figueira grande, seus pés de menino esmagavam figos verdes no chão, a fumaça cheirosa duma fogueira de ramos secos subia para o céu. Viu também o lajeado, ouviu o rumor da água, sentiu cheiro de sabão preto e de mato. Bolívar nadava em largas braçadas, fazendo muito barulho. "Vamos jogar uma carreira! " - gritou. - "Bamo!" E perto dele, num contraste, surgiu o corpo negro e lustroso do Severino...

     Florêncio teve a sensação de que todos os amigos que possuía no mundo estavam mortos. Pior que isso: tinham-se matado uns aos outros. Meu lugar também é aqui no cemitério - pensou. Eu também estou morto. Teve vontade de dizer à companheira: "Vá pra casa, Ondina. Eu fico, porque o meu lugar é aqui". Mal, porém, pensou essas palavras, a imagem do pai se lhe desenhou no espírito e ele lhe ouviu a voz descansada e grave: Quando a seca é grande não há nada como tocar fogo no pasto ruim pra que venha o bom. Era assim que Juvenal Terra costumava falar quando lhe acontecia alguma desgraça. Ele não desanimava nunca, estava sempre pronto a recomeçar.

     Florêncio suspirou, olhou para a mulher e convidou:

     - Vamos pra casa?

    

     No dia seguinte, por volta das três da tarde, Florêncio foi visitar o dr. Carl Winter, que agora morava numa meia-água na Rua dos Farrapos, na quadra que dava para a Praça da Matriz. Fazia muito calor e o médico, que havia pouco despertara da sesta, recebeu-o completamente nu, e só depois de cumprimentar o visitante é que se lembrou de amarrar na cintura uma toalha de algodão. Florêncio estranhou que o alemão não lhe fizesse as perguntas habituais sobre a guerra. Notou também que o dr. Winter envelhecia e que já havia fios brancos em suas barbas e cabelos ruivos.

     - Sente-se, sente-se - disse o médico, mostrando uma cadeira. - Toma um mate?

     - Aceito.

     - Heinrich Heine!

     Do fundo da casa surgiu um negrinho de canela fina, cabeçorra oval e grandes olhos de jabuticaba.

     - Senhor!

     - Vá fazer um mate. Schnell!

     - Ja wohl.

     O moleque fez meia-volta e tornou a desaparecer. Florêncio estava admirado.

     - Ele fala mesmo alemão? - perguntou.

     - Não. Só sabe dizer sim senhor.

     - E como é mesmo o nome dele?

     - Foi batizado como Sebastião. Mas eu o chamo Heinrich Heine.

     Florêncio olhou para o médico sem compreender. Tinha a vaga suspeita de que o homem não estava muito bom do juízo.

     Winter acendeu um cigarro de palha, lançou um olhar enviesado para Florêncio e explicou:

     - Heine é o nome dum grande poeta alemão. - Apontou para um volume encadernado em couro que estava em cima da mesa. - Foi o homem que escreveu aquele livro. Se eu tivesse um filho, poria nele o nome de Heinrich Heine em homenagem a um dos meus poetas favoritos. Como não tenho, dou esse nome a meu escravo.

     Meio confuso, sem saber que dizer, Florêncio remexeu-se na cadeira e observou:

     - Pelo que vejo, o doutor até agora não quis saber de casamento...

     Winter começou a coçar a coxa peluda.

     - Dá muito trabalho, Florêncio, dá muito trabalho.

     - É. Há pessoas que são contra.

     O dono da casa sentou-se, de pernas muito abertas, os braços cruzados sobre o tórax onde se via o relevo das costelas. Ficou fumando em silêncio e a perguntar a si mesmo se a visita de Florêncio era de caráter social ou profissional.

     - Que fim levou a Gregória?

     Winter fez um gesto vago.

     - Entrou na fresca noite...

     - Como?

     - Kaputt. Morreu. - E para si mesmo recitou baixinho: "Der Tod, das ist die kuhle Nacht".

     - Que foi que o senhor disse?

     - Nada. Estava recitando um verso de Heine sobre a morte.

     - Ah...

     Florêncio achava um pouco difícil entrar no assunto que o levara à casa do médico. Sempre lhe fora desagradável pedir e muito mais desagradável ainda colocar-se numa situação de inferioridade perante outro homem. Não era orgulho; era... nem mesmo ele sabia o quê.

     Puxou um pigarro, agarrou as muletas que tinha posto horizontalmente sobre as coxas, e começou:

     - Doutor, eu vim pra vosmecê dar uma olhada na minha perna.

     - Que é que há com a sua perna? - perguntou Winter sem olhar para o outro.

     - Como vosmecê sabe, fui ferido num combate, e fiquei com a perna encolhida e dura.

     - E que é que quer que eu faça?

     Florêncio ficou chocado com estas palavras, o sangue lhe subiu ao rosto, as orelhas lhe arderam; e por um instante, perturbado, não achou as palavras de que precisava. Por fim, tartamudeou:

     - Bom. Queria que vosmecê me examinasse... pois é. Pra me dizer se há esperanças....

     Winter levantou-se e caminhou para o outro.

     - Deixe ver.

     Florêncio arregaçou as calças até acima do joelho, que estava envolto em ataduras. Winter acocorou-se ao lado dele e começou a desfazer as ataduras. Ficou longo tempo olhando o ferimento, apalpando a perna, e fazendo perguntas ao paciente. Depois ergueu-se, foi até a gamela e começou a esfregar as mãos com sabão de pedra, sem dizer palavra.

     Florêncio esperava.

     - Então, doutor?

     Winter meteu os dedos pelas barbas e coçou o queixo.

     - Não precisa mais usar esses panos. A ferida está cicatrizada.

     Florêncio olhava o outro bem nos olhos.

     - Será que vou ficar com a perna dura pró resto da vida, doutor?

     Winter continuava a coçar o queixo sem dizer palavra, lançando olhares enviesados para a perna do outro.

     - Talvez não fique bem como antes - disse, ao cabo de alguma reflexão. - Mas com um pouco de exercício sua perna vai ficar quase boa. É preciso fazer umas massagens. Vou ensinar a dona Ondina como se faz.

     O moleque entrou com a cuia e a chaleira d'água quente, entregou-as ao amo e retirou-se sem fazer o menor ruído.

     Winter encheu a cuia d'água e deu-a a Florêncio, que começou a chupar nas bomba melancolicamente. Estaria o doutor dizendo aquelas coisas só para o animar? Ou poderia ele mesmo um dia caminhar sem muletas?

     - Experimente andar sem muletas, só com um bastão. Faça força para endireitar a perna, mesmo que doa. E procure caminhar, caminhar bastante.

     Winter começou a andar dum lado para outro, e quando Florêncio lhe viu as nádegas muito brancas, recobertas dum pêlo fulvo, ficou tomado dum certo constrangimento e temeu - ele mesmo não sabia ao certo por quê - que alguém entrasse naquele momento e os visse em tão grotesca situação.

     Passou a cuia para o outro. Winter começou a tomar o seu mate. Estava agora dominado pelo hábito do chimarrão, que sempre achara uma grande porcaria.

     Florêncio ardia por saber como iam as coisas no Sobrado, mas não queria principiar o assunto. Como se estivesse a ler-lhe os pensamentos, o outro perguntou:

     - Já viu dona Bibiana?

     - Não. Vosmecê sabe que não entro naquela casa.

     - Sei. Mas vai continuar sempre assim?

     - Não há nenhuma razão pr'eu mudar.

     - Há muitas. Uma delas é que o menino precisa de sua amizade.

     - Mas não acha que o que aconteceu é bastante pr'eu nunca mais botar os pé no Sobrado?

     Winter deu um tapa no vácuo.

     - Ach! Isso aconteceu há muito tempo.

     - Foi ontem, doutor.

     - Pois acho que vosmecê devia quebrar seu orgulho...

     - Não é orgulho.

     - Que é então? Teimosia?

     - É vergonha.

     - Vergonha de quê? Vosmecê não vai pedir nada Vosmecê não tem do que se envergonhar.

     - Aquela mulher... - principiou Florêncio, mas não pôde continuar. O que ele na verdade sentia não podia dizer a ninguém. Winter terminou a frase duma maneira para o outro inesperada e chocante.

     - Aquela mulher não tem vida pra muito tempo!

     - Como assim?

     - Um tumor maligno no estômago! - exclamou o médico, quase com raiva. Às vezes perdia a paciência com aquela comédia provinciana que de quando em quando queria tomar o caráter de tragédia. Não era também muito tolerante para com suas rudes personagens, que não podiam compreender certas sutilezas da vida. E desforrava-se delas falando-lhes com uma franqueza que às vezes chegava a ser brutal.

     Florêncio ficou silencioso por um instante. E depois:

     - Ela sabe? - perguntou.

     - Sabe.

     - Vosmecê falou franco? Disse que ela tinha vida pra pouco tempo?

     - Disse. Uma mulher como Luzia tem mais coragem que muito homem que conheço.

     - E isso não tem cura?

     - Não.

     - Nem em Porto Alegre? Nem na Corte?

     - Não.

     - Tia Bibiana também sabe de tudo.

     - Sabe.

     - Que é que ela diz?

     Winter encolheu os ombros angulosos.

     - Nada. Que é que podia dizer?

     Florêncio brincou um instante com as muletas, pigarreou, meio embaraçado, e depois perguntou:

     - Como é que elas vivem naquela casa, doutor?

     - Odiando-se.

     - Mas como é que duas pessoas que se odeiam assim podem viver debaixo do mesmo teto?

     - Estão jogando uma carreira.

     - Como?

     - Sim, uma carreira. Não em cancha reta, mas numa cancha cheia de curvas. A raia da chegada é a morte. Só que nessa carreira quem chegar primeiro perde...

     - Perde?

     - O Sobrado e o menino.

     Florêncio olhou para o médico com olhos vazios.

     - Vosmecê me desculpe, mas não compreendo.

     - O que mantém aquelas duas mulheres juntas na mesma casa é a esperança que uma tem de que a outra morra primeiro.

     - Não acredito, doutor, vosmecê me desculpe, mas não acredito.

     - Por quê?

     - Tia Bibiana não é capaz duma coisa dessas.

     Winter soltou uma risada seca e falsa.

     - Sua tia é capaz de muito mais coisa do que vosmecê imagina. Ela odeia a nora com a mesma força com que amava o filho.

     - E a nora odeia ela! - retrucou Florêncio, como se estivesse num duelo de sabre e revidasse um golpe do adversário com outro golpe imediato e igualmente vigoroso.

     - Exatamente!

     - Mas eu não compreendo então por que ela continua no Sobrado.

     - Muito simples. Se ela deixa o Sobrado, perde o neto. Pense bem, Florêncio. Se Luzia morrer, o problema se resolve. Dona Bibiana fica com o menino e com o Sobrado e pode assim governar os dois como bem entender.

     Florêncio sacudia a cabeça com obstinação.

     - Vosmecê está enganado. Tia Bibiana é uma mulher de bom coração.

     - Dona Bibiana é uma mulher prática. Aguinaldo Silva tomou a terra do pai dela por meio duma hipoteca. Ela recuperou a terra por meio dum casamento.

     De novo Florêncio sentiu formigueiro no corpo, um ímpeto de erguer-se e começar a gritar desaforos. Mas conteve-se. Aquele homem branco, magro, estrangeiro e nu desconcertava-o um pouco. Se um compatriota seu lhe tivesse dito aquelas mesmas palavras, ele já estaria de faca desembainhada, pronto para brigar. Mas o diabo do doutor tinha um jeito de dizer as coisas... Limitou-se a retrucar: - Vosmecê está só imaginando...

     - A coisa é tão clara que só não vê quem não quer.

     - Não acredito.

     - Vosmecê não quer acreditar. Porque tem medo. E sabe por quê? - Aproximou-se tanto de Florêncio que este sentiu no rosto o hálito morno do médico e o seu cheiro de desinfetante. - É porque, se acreditar nas coisas que estou lhe dizendo, vosmecê acabará se desiludindo de todo o mundo. Há quase catorze anos vosmecê perdeu Bolívar, o seu melhor amigo. Depois perdeu seu pai, o único homem que vosmecê respeitava e admirava de verdade. Só lhe resta agora dona Bibiana, que vosmecê sempre se habituou a ver como uma mulher decente, de bom coração, incapaz dum sentimento de maldade. Agora não quer matar a sua última ilusão e por isso se esforça para não acreditar...

     Winter calou-se, fez meia-volta e foi até a janela dos fundos da casa. Por que dissera aquelas coisas brutais? Estava torturando o pobre homem. Florêncio era uma alma simples, acreditava que as pessoas podiam ser ou absolutamente más ou absolutamente boas. Tinha um código rudimentar e rígido de comportamento e dispunha duma única medida para avaliar as criaturas. Voltara da guerra inválido, estava desiludido, cansado e triste. Era uma malvadeza dizer aquelas verdades a uma pessoa em tal estado de espírito e de corpo. Mas já agora Winter não via mais jeito de parar. Andava amargurado, cansado daquela vida e impaciente até consigo mesmo. Toda vez que pensava em deixar Santa Fé e voltar para a Alemanha ou para qualquer outra parte da Europa, surpreendia-se a sentir uma preguiça invencível, uma abulia que acabava chumbando-o àquela terra cuja gente ele aborrecia e em certos momentos chegava a odiar - àquela terra absurda que apesar de tudo o prendia poderosamente, como pela ação dum sortilégio maléfico. Desabafava em suas cartas a Von Koseritz. Seu “lieber Baron” agora era uma figura pública importante, escrevia belos artigos em português, fazia jornalismo, metia-se em política e interessava-se pelas colônias alemãs - das quais era uma espécie de maioral. Seu amigo Carlos von Koseritz, que ele não vira mais depois do primeiro encontro em 1851, era praticamente a única pessoa com quem ele podia desabafar. Acontecia, porém, que numa conversa epistolar o "interlocutor" não está presente, não pode fornecer a resposta ao pé da letra, a fim de animar a polêmica, de avivar a discussão. Ali em Santa Fé, Winter se ressentia da falta de bons interlocutores. Discutia com o padre, e para exasperá-lo exagerava seus pontos de vista ateus. O dr. Nepomuceno envelhecia e estava envolto numa tão espessa carapaça de estupidez, que suas farpas irônicas nem lhe chegavam a arranhar a pele. O dr. Viegas, o pobre dr. Viegas, que fora trazido a Santa Fé para combater o cólera-morbo e acabara estabelecendo-se na cidade, era duma burrice dolorosa: desperdiçar ironias com ele seria, para usar uma expressão da província, "gastar pólvora em chimango". Winter sentia agora uma necessidade permanente de agredir, e sua arma de agressão mais contundente era a franqueza, a verdade. Dizer verdades desagradáveis tinha-se-lhe tomado ultimamente um hábito que lhe valia muitas inimizades e desconfianças. No entanto os clientes continuavam aparecendo: os colonos de Nova Pomerânia e de Garibaldina não queriam saber do dr. Viegas.

     Florêncio permanecia num silêncio reflexivo. O que o dr. Winter acabara de dizer era a pura verdade. Ele admirava a tia, tinha-a como uma dessas mulheres raras. Era-lhe difícil acreditar em que ela realmente tivesse feito o filho casar com Luzia só para se apoderar do Sobrado. Sentia que era seu dever replicar ao doutor com veemência, defender tia Bibiana. Mas não encontrava argumentos.

     Foi Winter quem falou primeiro:

     - Vosmecê está enganado se pensa que por ter procedido assim sua tia se revelou uma mulher má. Não! Ela é, sem a menor dúvida, uma mulher prática. Não só recuperou as terras de seu pai, que o nortista espoliou, como também garantiu o futuro do neto, Licurgo agora é o dono do Sobrado e do Angico.

     Florêncio suspirou de leve.

     - Mas o preço foi muito caro.

     - Nem sempre se pode fazer pechinchas com a vida, meu amigo - retrucou o médico, tornando a encher a cuia d'água.

     - Como vai o Licurgo? - perguntou Florêncio depois duma longa pausa.

     - Não viu ainda o menino?

     - Não. Ele e a tia Bibiana andam agora lá pelo Angico.

     - Licurgo está quase um homem.

     - Só no tamanho?

     - Não. Em tudo. Um homem segundo o conceito que vosmecês nesta província fazem de homem.

     - Sempre tive medo da criação desse menino. Por causa da mãe.

     - Não se impressione. Quem toma conta dele é a avó.

     - E a mãe?. . .

     - Sei lá!

     - E o Curgo gosta muito dela?

     Winter fez um gesto evasivo.

     - É difícil dizer.

     Winter já notara que Bibiana e Florêncio nunca pronunciavam o nome de Luzia. Era como se a palavra fosse um ácido que lhes corroesse a língua.

     - Será que o menino percebeu que a mãe é... é uma mulher doente?

     - Quem sabe? Agora é que ele está chegando à idade de compreender melhor as coisas.

     - É impossível que ele não tenha notado que a avó e a mãe não se falam, não se gostam.

     - A verdade é que Licurgo está demasiadamente interessado na estância para se preocupar com outros assuntos. Luzia nunca vai ao Angico e o rapaz passa lá todo o verão e boa parte do outono em companhia da avó. Vem no inverno para estudar. É possível que nem tenha percebido nada. No fim de contas, a gente desta terra não é lá muito conversadora...

     - Mas mais cedo ou mais tarde o Curgo vai compreender tudo, descobrir o que houve entre a mãe e o pai. Há muita gente malvada no mundo. Alguém pode contar...

     - A própria avó pode encarregar-se disso. Florêncio recebeu essas palavras como uma bofetada.

     - Vosmecê não tem direito de dizer uma coisa dessas.

     Winter avançou resoluto dois passos na direção do outro e, tirando a bomba de prata da boca, perguntou:

     - E por quê?

     - Porque tia Bibiana não é capaz de tamanha maldade.

     - Um dia ela será obrigada a isso.

     - Obrigada?

     - E a carreira, Florêncio! Vosmecê sabe que há corredores que são capazes de tudo pra ganhar a carreira...

     Florêncio sacudia a cabeça, relutando em aceitar o ponto de vista do alemão.

     - Olhe, preste atenção no que lhe vou dizer. Dona Bibiana vive atormentada, roída de medo. Tem medo que esta guerra dure mais três ou quatro anos e o Licurgo acabe se apresentando como voluntário. Vosmecê reparou no que isso significa? Se Licurgo morre, acabam-se os Cambarás. Licurgo é para sua tia a continuação de Bolívar, assim como Bolívar era a continuação do capitão Rodrigo. Se Licurgo morre, tudo se acaba para ela. - Mudou de tom. - Heinrich Heine! - berrou. E quando o negrinho apareceu com ar assustado, o médico disse: - A água esfriou. Vá aquentar mais. Schnell!

     Tornou a encarar Florêncio:

     - O outro medo não é menor e faz sua tia perder muitas noites de sono. É o medo de que Luzia um dia resolva vender o Sobrado e o Angico e mudar-se com o filho para a Corte.

     - E vosmecê acha que ela pode fazer isso?

     - Agora não, porque está doente, não tem parentes, e o filho está ainda muito novo para tomar conta dela.

     - E mais tarde, quando o Curgo ficar homem?

     - Mais tarde, talvez. Mas tudo vai depender da espécie de homem que Licurgo sair. Acredito que, criado pela avó, ele não pensará nunca em se desfazer do Sobrado nem do Angico.

     - Essa é a minha esperança.

     Houve um silêncio. Winter olhou para a sua estante, que estava agora cheia de livros alemães e franceses que ele encomendara do Rio de Janeiro. Entre o mundo de que tratavam aquelas obras e o mundo de Florêncio, havia uma distância abismal, que não se media só em espaço, mas também e principalmente em tempo.

     - Doutor... - principiou Florêncio, pigarreando. - Ouvi falar umas coisas...

     - Que coisas?

     - Um tal major que anda por aí...

     - Sim... - Winter olhou com o rabo dos olhos para o interlocutor.

     - Estiveram me contando que ele anda apaixonado pela... por... pela mãe do Curgo.

     - Pode ser.

     - Dizem que vai muitas vezes visitar ela no Sobrado e que ficam horas e horas conversando...

     - É verdade.

     - Quem é ele, doutor?

     - Um tal major Erasmo Graça, do Rio de Janeiro. Por quê?

     - Eu só queria saber. - Pausa. - Que é que anda fazendo por aqui?

     - Veio tratar dumas requisições do governo. É um homem muito insinuante e simpático. Tem uma comenda da Ordem da Rosa e dizem que é valente como um leão.

     Winter pronunciou estas últimas palavras num tom de paródia. Florêncio ficou por alguns segundos calado e depois:

     - Vosmecê acha que ela gosta dele? - perguntou.

     - Não sei. Mas se gostar não é de admirar. O major Graça é um homem e tanto.

     - Mas não será que ele está interessado mais no dinheiro dela do que nela mesma?

     - Não creio. Luzia é uma mulher capaz de inspirar paixões, não acha?

     E ao fazer esta pergunta, Winter olhou firme nos olhos do outro. Florêncio piscou, tomado dum mal-estar. Quem estava nu agora era ele, completamente nu... Desviou os olhos e prosseguiu:

     - Se eles casarem...

     - Esse é outro medo que rói as entranhas da velha -interrompeu-o o médico. - O medo de que Luzia venha a casar-se. Nestes últimos anos apareceram vários homens que foram ao Sobrado e ficaram apaixonados por ela. Dona Bibiana andou pisando em brasas todo o tempo.

     - E o senhor acha que agora há perigo dela se apaixonar por este?

     - Francamente: acho.

     - Mas é uma barbaridade!

     - Barbaridade? Por quê? Luzia tem apenas trinta e cinco anos e está viúva há quase catorze. Não vejo nada de mal em que ela se case. Não será a primeira viúva a dar esse passo.

     - Mas é uma injustiça! Por causa do menino...

     Winter encolheu os ombros como a dizer: "Seja como for, o problema não é meu".

     Florêncio ergueu-se e de novo apoiou-se nas muletas.

     - Bom, doutor, vou andando. Winter acompanhou-o até a porta.

     - Faça bastante exercício e mande sua mulher fazer-lhe massagens na perna.

     Junto dá porta Florêncio ainda perguntou:

     - Quando é que ele vai embora?

     - Ele quem?

     - O tal major.

     - Dentro duns cinco ou seis dias.

     - Ainda bem. Volta pra guerra?

     - Volta. Não se apoquente. Pode ser que ele morra ou então que ela morra. Deus é grande.

     E foi empurrando o outro para a rua com certa impaciência.

    

     Aos quinze anos Licurgo Cambará era já um homem. Usava faca na cava do colete, fumava, fazia a barba e já tinha conhecido mulher. Estudava História e Linguagem com o dr. Nepomuceno, Aritmética e Geografia com o vigário, e Ciências com o dr. Winter. O resto - que para ele era o principal - aprendia com a própria vida, com a peonada do Angico e principalmente com o velho Fandango, o capataz. O português que o dr. Nepomuceno lhe ensinava era um idioma estranho que muito pouco tinha a ver com a língua que se falava no galpão e na cozinha da estância. Fandango achava que o conhecimento da Aritmética não fazia nenhuma falta às pessoas. Tinha uma teoria própria sobre as quatro operações. "O homem trabalhador - dizia ele, piscando o olho - soma; o preguiçoso diminui; o sábio multiplica e só o bobo divide." Nunca freqüentara escola, e no entanto era capaz de, numa passada d'olhos, dizer quantas cabeças de gado havia numa tropa.

     Geografia? Fandango tinha toda a geografia da província na cabeça. Desde meninote vivia viajando, conduzindo carretas, fazendo tropas, e não havia cafundó do Rio Grande que ele não conhecesse tão bem como as palmas de suas próprias mãos. Sabia onde ficavam as aguadas, onde os rios davam vau, onde havia melhor pasto ou melhor pouso. Parecia não existir em todo o território do Continente rancho, estância, povoado, vila ou cidade onde ele não tivesse um conhecido. "Até as árvores e os bichos me conhecem por onde passo" - gabava-se ele.

     Certa vez no galpão, meio por caçoada e meio a sério, um peão lhe perguntou:

     - Por onde é que a gente sai pra ir pra tal de Europa?

     Fandango olhou primeiro para a direita, depois para a esquerda, fechou um olho, ergueu o braço na direção do norte e disse com ar de entendedor:

     - Sai-se aqui direito por Passo Fundo.

     História? Fandango sabia as melhores histórias do mundo: casos de assombração, lutas de família, guerras, duelos, lendas... Com dezesseis anos vira sua primeira guerra, e era por isso que costumava dizer: "Dês que me conheço por gente ando brigando com esses castelhanos".

     Os livros de História falavam em generais, governadores, lugares, datas e coisas difíceis de entender. Curgo achava mais fácil acreditar nos "causos" de Fandango, que se referiam a gente e lugares conhecidos ali da província. "César conquistou a Gália." - lia o dr. Nepomuceno. Curgo escutava-o sem o menor interesse; ficava, porém, de olho aceso e atenção alerta quando o velho Fandango se acocorava ao pé do fogo e começava uma história: "Pois diz-que uma vez o Xaxá Pereira resolveu ir visitar um compadre que ele tinha na Soledade..." As conquistas de Napoleão Bonaparte descritas pelos livros e comentadas-pelojuiz de direito empalideciam ante as proezas de Bento Gonçalves narradas por Fandango.

     Curgo gostava mais das aulas do dr. Winter que das do padre ou as do dr. Nepomuceno. O vigário tinha um cheiro azedo e uma voz desagradável. O outro - pobre do velho! - cochilava durante as lições e limitava-se a ler com sua voz arrastada o que estava escrito nos livros.

     O dr. Winter era diferente. Nunca ficava parado dentro de casa com o aluno. Levava-o a passear pelo campo, explicava-lhe que a Terra era redonda como uma laranja e achatada nos pólos. Apontava à noite para as estrelas e dizia-lhes os nomes e as distâncias a que se encontravam da Terra. E quando dava lições de Botânica era mostrando plantas de verdade e não apenas as gravuras dos livros. Tinha uma magnífica lente de cabo de madrepérola com a qual fazia o aluno examinar flores e folhas, talos de relva ou gomos de laranjas e bergamotas. De que são feitas as nuvens? Por que é que quando a gente solta um livro que tem na mão o livro cai? Como é que a água se transforma em gelo? Por que é que existem o dia, a noite e as estações do ano? O dr. Winter explicava todas essas coisas a Licurgo, que as achava fantásticas, impossíveis - "invenções de estrangeiro pra fazer a gente de bobo". Sempre que ia para o Angico o rapaz pedia a opinião do capataz sobre os ensinamentos do alemão.

     - Patacoadas! - exclamava Fandango. - Patacoadas! Estrangeiro é bicho besta. Esses negócios que aparecem nos livros são bobagens. Não hai nada como a experiência do indivíduo. Pra ver se vai chover esses doutores da mula ruça olham numa engenhoca parecida com um relógio. Gaúcho não precisa disso.

     Ele sabia ver sinais de chuva no cheiro do vento ou no jeito das nuvens. Havia um certo lado do céu - o poente - que ele chamava de chovedor, pois quando as nuvens preteavam para aquelas bandas, era chuva na certa. Existiam ainda outras maneiras dum campeiro prever o tempo sem precisar olhar naquelas geringonças de gringo.

     Havia um ditado que Fandango repetia com freqüência no inverno: "Geada na lama, chuva na cama". Um dia Curgo pergun- tou:

     - Por que "na cama", Fandango?

     - Pra rimar, hombre.

     Em suas muitas andanças guerreiras pela Banda Oriental, e principalmente depois duma famosa viagem que fizera a Concepción do Paraguai - onde fora levar uma tropa de mulas -, Fandango incorporara a seu vocabulário vários termos castelhanos. Nunca dizia homem, mas sim hombre; em vez de chapéu usava sombrero, e empregava com freqüência palavras como - despacho, calãvem, muchacho, temprano...

     Às vezes, para mangar com Curgo, quando o menino lhe perguntava se ia chover ou não, o velho gaúcho olhava grave para o céu, consultava as nuvens e respondia: - Céu pedrento, chuva ou vento... - fazia uma pausa breve, soltava sua risadinha seca e acrescentava: - ou qualquer outro tempo.

     Quando andavam os dois pelo campo sob a soalheira e, sentindo sede, ficavam a buscar ansiosamente uma aguada, Fandango fazia o cavalo parar e começava a fungar com força, cheirando o vento.

     Ao cabo de algum tempo dizia:

     - Tem água perto. E é pr'aquele lado! Dirigiam-se para o lado indicado e encontravam água.

     - Como é que tu sabes essas coisas? - admirava-se Curgo. O outro respondia:

     - Sou índio velho mui vivido.

     Fandango estava chegando à casa dos sessenta, mas era um homem vigoroso e desempenado, e tinha mais resistência para o trabalho do que muitos dos peões mais moços do Angico.

     Para Licurgo, Fandango era uma espécie de oráculo - o homem que tudo sabe e tudo pode. Um peão era um peão, uma pessoa que hoje podia estar aqui e amanhã na estrada ou no galpão de outro estancieiro. Mas com Fandango a coisa era completamente diferente. O velho se achava mais preso às terras do Angico do que aquelas árvores que tinham raízes profundas no chão. Desde que nascera, Curgo se habituara a ver o capataz ali na estância, como um elemento mesmo da paisagem. Era inconcebível o Angico sem Fandango ou Fandango sem o Angico.

     Um dia numa aula o dr. Winter dissera a Curgo algo que o deixara intrigado. Com uma pequena bússola de bolso na mão, o médico falava do globo terráqueo e dos pólos.

     - Sua vida, Curgo - disse ele - oscila entre dois pólos magnéticos: Fandango e dona Bibiana.

     O que o capataz do Angico e sua avó tinham a ver com a bússola foi coisa que Curgo não pôde nem procurou compreender. O doutor às vezes parecia que não era muito bom do juízo!

     Era José Fandango um homem de estatura média, pele tostada de sol, olhinhos pretos e pícaros metidos no fundo de órbitas ossudas, bigodes e barbicha grisalhos, e bochechas dum corado de goiaba madura. Tinha uma voz de cana rachada, que lembrava muito o pairar dum papagaio, e que ficava pastosa quando o velho comia carne gorda e falava de boca cheia.

     Costumava ele resumir seus gostos e desgostos numa frase que já corria mundo: "Três coisas ha nesta vida que me fazem muito mal: mulher velha, noite escura e cachorrada no quintal".

     Seu nome verdadeiro era José Menezes, mas quando mocinho era tão grande sua fama de trovador e bailarim, que os amigos acabaram por dar-lhe o apelido de Fandango. A alcunha pegou de tal modo que ele resolveu adotá-la como nome. Viúvo, sua família se resumia no filho, conhecido por Fandango Segundo, e num neto, o Fandanguinho, rapazola de treze anos e "amigaço" de Licurgo.

     Era voz geral que "onde está o Fandango tem sempre fandango". Quando lhe perguntavam de onde vinha e quem eram seus pais, o capataz respondia em verso:

    

     Eu não tenho pai nem mãe,

     Nem nesta terra parentes.

     Sou filho das águas claras,

     Neto das águas correntes.

    

     Mas o verso de que Fandango mais gostava de recitar continha, por assim dizer, uma declaração de princípios:

    

     Índio velho sem governo

     Minha lei é o coração.

     Quando me pisam no poncho

     Descasco logo o facão,

     E se dúvidam perguntem

     À moçada do rincão.

    

     Era verdade. Ninguém duvidava disso. Contavam-se proezas de Zé Fandango. Duma feita, quando moço, tinha acabado um baile a facão. Como a filha do dono da casa se recusasse a dançar com ele, Fandango sem se perturbar lhe gritara: "Não é a primeira égua que me nega estribo". Um irmão da moça estava perto e puxou a adaga. "Fechou o tempo"- contava Fandango. "A primeira coisa que fiz foi dar um pontapé no candeeiro. Daí por diante brigamos no escuro." Dizia-se também que de 35 a 45 Fandango fizera coisas do arco-da-velha como oficial de lanceiros dos Farrapos.

     O prato que ele mais apreciava era arroz com guisado de charque - arroz-de-carreteiro - e sua sobremesa predileta: canjica com leite. Para Licurgo era dia de festa na estância quando o velho resolvia ir para a cozinha preparar a comida.

     Num dia de inverno, depois do almoço, Fandango ficara a tomar sol sentado no portal da casa do Angico. Curgo aproximou-se dele e perguntou:

     - Lagarteando, não, Fandango?

     E o gaúcho respondeu:

     - O sol é o poncho do pobre, hombre.

     Curgo gostava dos ditados do capataz. Para tudo tinha um provérbio. Uma vez uma china solteira da estância apareceu grávida e todos ficaram curiosos por saber quem era o pai da criança. Um dos peões perguntou:

     - Fandango, quem foi que emprenhou a Dica?

     O velho gaúcho fechou um olho, encarou o interlocutor e respondeu:

     - Vaca de rodeio não tem touro certo, menino.

     Tinha também ditados misteriosos, cujo sentido Curgo não conseguia penetrar:

     - A pedra grande faz sombra, mas a sombra não pesa nada.

     Um dia o rapaz perguntou:

     - Que é que quer dizer isso?

     - Quando vossuncê for mais velho vai compreender sem ninguém explicar. Agora é mui temprano.

     Em sua vida andarenga Fandango conhecera muita gente em muitos lugares. Tinha uma memória prodigiosa, nunca esquecia nomes, datas, caras ou pormenores. Uma noite no galpão do Angico, quando os peões e um forasteiro conversavam e pitavam ao redor do fogo, alguém perguntou:

     - Que fim levou o Mané Tarumã?

     - Foi morto por um cunhado no Poncho Verde - respondeu o capataz.

     - E o tio dele, o Antônio Tarumã? Fandango pensou um pouco e depois informou:

     - Foi degolado em 68 pela gente do Joca Brabo.

            - E aquele tropeiro de olho torto... como era mesmo o nome dele?

     - O Mingote Fagundes?

     - Isso!

     - Foi morto por um gaiteiro num baile. Deixe ver... Faz uns dois anos.

     O estranho - um tropeiro paulista que escutara a conversa em silêncio - observou:

     - Pelo que vejo por aqui ninguém morre de morte natural... Fandango cuspiu no fogo e replicou:

     - É meio difícil, moço. Mas alguns morrem...

     Com Fandango, Curgo aprendeu sobre as plantas coisas que os livros não ensinavam e o dr. Winter parecia ignorar.

     - O melhor pasto pro gado é a grama rasteira ou o capim-mimoso. Capim-limão não presta. Pé-de-galinha e milho? Só pra gado manso. E Deus me livre dum campo de barba-de-bode!

     - Está vendo aquele umbu ali? - perguntou um dia o gaúcho ao menino, quando este tinha apenas oito anos.

     - Estou. É muito lindo.

     - Pois o umbu é como certas pessoas: só estampa.

     - Por quê. Fandango?

     - Porque a madeira não vale um caracol. Curgo sacudiu a cabeça. O capataz prosseguiu:

     - Agora, tu quer ver madeira bem boa mesmo? Pega o cambará ou o angico...

     Licurgo sorriu com certo orgulho. Seu nome era Cambará: Angico era o nome de sua estância. Todas essas coisas lhe davam uma sensação de firmeza, de resistência, de força.

     - E depois, menino, não é só a madeira. Folha de cambará ou de angico é muito bom pra tosse.

     E ensinava-lhe outros remédios. Urinas presas? Chá de ervade-touro. Prisão de ventre? Batata-baririçó. Fraqueza do peito? Agrião. Lombrigas? Mastruço. Contra mordida de jararaca? Trazer em qualquer parte do corpo um toco de cipó-mil-homens.

     - Conheci um carreteiro - contou Fandango noutra ocasião - que estava com os dentes frouxos. Queria ir ao dentista mas eu disse pra ele: Não faça isso! Não bote fora o seu dinheiro. Tome um chá de molho. O homem tomou e ficou bom.

     Fandango ensinava também a Licurgo coisas a respeito dos bichos.

     - Para descobrir o sexo dum terneiro que ainda não nasceu, a gente examina a cauda da vaca que está para dar cria, se sua ponta for aguda, vem macho; se for arredondada, vem fêmea.

     - Matar corvo - explicou Fandango - traz má sorte, porque esse bicho tem parte com o diabo. Arma que mata corvo fica estragada, não pára de verter água. Devemos também respeitar o joão-de-barro, muchacho, porque foi ele que ensinou o homem a fazer casas de barro. Depois, esse bichinho todas as manhãs acorda o gaúcho com seu canto.

     - E tu sabes duma coisa, Curgo? João-de-barro é um passarinho mui engraçado. Nunca trabalha nos domingos. E quando a companheira dele morre, tu sabe o que ele faz? Empareda ela dentro de casa. Pois é. Não presta matar joão-de-barro. Traz desgraça.

     - E bem-te-vi?

     - Onde tu enxergar um bem-te-vi, taça uma pedra nele. O lo bicho simbergüenza! E um passarinho amaldiçoado por Deus, porque quando a Virgem Maria fugiu pro Egito com o Menino Jesus, os judeus saíram atrás dela. A Virgem se escondeu, os judeus iam passando sem enxergar nada, mas o diabo do passarinho começou a gritar: bem-te-vi! bem-te-vi! E ainda por cima soltou uma risada.

     - E coruja?

     - Não presta matar coruja. Ela limpa o campo de cobra e de outros insetos. Mas coruja também traz mau agouro. Quando canta de noite perto da casa da gente é pra anunciar a morte duma pessoa da família.

     - E grilo?

     - Não se deve matar. Traz prejuízo de dinheiro ao matador.

     - E sapo?

     - Também não presta. Traz chuva.

     - Então o que é que presta?

     - Matar correntino quando ele passa a fronteira pro lado de cá.

     Fora também com Fandango que Curgo aprendera a nadar, laçar, curar bicheira, e parar rodeio. Mas de todos os conhecimentos que o velho lhe transmitira os de que Licurgo mais se orgulhava eram os que se referiam aos cavalos. O rapaz os absorvera através de aulas práticas, durante viagens, rodeios e domas em que ele observava de perto as manhas e hábitos dos cavalos, as peculiaridades de cada raça e de cada pêlo. Depois, nas conversas de galpão e nas horas de folga, Fandango lhe dava por assim dizer as aulas teóricas, em geral resumidas na forma de ditados que corriam de boca em boca por toda a província, nascidos da experiência de gaúchos anônimos em dezenas de estâncias.

     Se Licurgo perguntava ao capataz sobre as qualidades dos cavalos tostados, ele fechava um olho, mirava o menino por algum tempo e sentenciava:

     - Tostado? Antes morto que cansado.

     - E tordilho, Fandango?

     - N'água é melhor que canoa.

     - E baio?

     - Se encontrares um viajante na estrada com os arreios nas costas, pergunta logo: "Onde ficou o baio?" - E sempre que prevenia os outros contra as traições dos cavalos desse pêlo, acrescentava: - Uma vez, lá pras bandas de São Sepé um baio me deixou a pé.

     Ninguém nunca ficou sabendo se a coisa tinha acontecido mesmo "pras bandas de São Sepé" ou se Fandango escolhera esse povoado só por causa da rima.

     Havia outros conselhos que Licurgo não esquecia:

     "Se tens pela frente viagem larga, não faças pular teu cavalo. Sai no tranquilo até o primeiro suor secar; depois ao trote até o segundo; dá-lhe um alce no terceiro e terás cavalo pro dia inteiro". Quando certo dia Licurgo teve de escolher um cavalo para seu uso, aproximou-se de Fandango e perguntou:

     - Que pêlo vou escolher?

     Fandango estava picando fumo para fazer um cigarro. Tinha a palha enfiada atrás da orelha, a perna direita dobrada em repouso, o peso do corpo sobre a esquerda, o busto um pouco inclinado para a frente, o olhar vago posto nos largos horizontes do Angico. Ficou por um instante calado, como se não tivesse ouvido a pergunta. As partículas de fumo caíam-lhe no côncavo da mão. Com as abas do sombrero quebradas na frente, o sol a bater-lhe em cheio no rosto, Fandango ali estava, na frente da casa da estância, imóvel como um tronco de árvore. E quando Licurgo ia repetir a pergunta o velho lhe deu a resposta. Falava descansadamente, escandindo bem as sílabas, dum jeito quadrado e meio seco. E o que ele disse foi um resumo de sua experiência pessoal:

     - Não te fies em tobiano, bragado ou melado. Pra água, tordilho. Pra muito, tapado. Pra tudo, tostado.

     Diante desse conselho, Licurgo ficou indeciso. O velho, porém, sorriu, acrescentando:

     - Mas cavalo é como gente. Uma pessoa tem seus dias bons e seus dias ruins, não tem? Pois com o cavalo se dá o mesmo. Tudo é bom e tudo não presta.

     Dentre os outros conselhos que Fandango lhe dava com relação aos cavalos havia um de que o rapaz gostava particularmente: "Doma tu mesmo o teu bagual. Não enfrenes em lua nova, que ele fica babão. Não arreies na minguante, que te sai lerdo".

     Aqueles homens do campo costumavam fazer comparações entre o cavalo e a mulher. Fandango aconselhava aos peões que casassem com moças conhecidas, se possível com meninas que eles tivessem visto crescer. E aplicava o ditado: "Cria perto de teu olhar a potranca pro teu andar".

     - Com mulher sardenta e cavalo passarinheiro - prevenia também - alerta, companheiro!

     Pelas quadras populares e pelas modinhas que ouvia recitar ou cantar, Licurgo aprendera a classificar as mulheres de acordo com o "pêlo". Concluía que as morenas eram mais constantes que as claras; e que as ruivas eram geniosas e as de cabelo preto, sinceras:

    

     Vou acolher uma dona

     No rebanho, formosas.

     Escolherei trigueirinhas,

     as claras são enganosas.

    

     "Mulher, arma e cavalo de andar - lembravam elas - nada de emprestar.”

     Mas para aqueles violeiros e cantadores, a mulher era principalmente uma tirana:

    

     Eu amei uma tirana,

     E ela não me quis bem, ai!

    

     Passei pela tua porta

     Dei de mão na fechadura;

     E não me quiseste abrir,

     Coração de pedra dura.

    

     Nunca vi mulher bonita

     Ter cabelos no nariz,

     Nunca vi mulher alguma

     Ter constância no que diz.

    

     Licurgo ouvia essas cantigas e rimas e ficava pensando. Era engraçado... As mulheres que ele conhecia estavam longe de merecer aquelas quadras. Eram quietas, trabalhadoras, sérias, mal ousavam erguer os olhos para os homens que não fossem seus maridos ou parentes muito chegados. Decerto as "tiranas" falsas de que falavam tais versos eram as mulheres de cidade grande. E por mais que se esforçasse, sempre que ouvia quadras e modinhas sobre mulheres malvadas que tinham desgraçado a vida de homens, ele não podia deixar de pensar na mãe. E ficava perturbado.

     Muitas vezes pensara: "Quando eu fizer vinte e dois anos, me caso". Havia na vila algumas meninas que ele achava bonitas, embora não chegasse a gostar de verdade de nenhuma delas. A avó vivia a dizer-lhe que um homem para ser bem completo tem de casar e ter filhos, muitos filhos. Os trovadores do galpão, porém, recomendavam:

    

     Todo o homem quando embarca

     Deve rezar uma vez.

     Quando vai à guerra, duas

     Quando se casa, três.

    

     Fosse como fosse, ele teria ainda muitos anos para pensar em casamento. A lida da estância enchia-lhe as horas e os pensamentos. Mal anoitecia, Curgo ia para a cama cansado e dormia sono dos justos até o amanhecer do dia seguinte. Mas em certas noites em que lhe vinha um desejo de mulher, ele acabava encilhando o seu cavalo para ir até o rancho da china Rosa. Voltava de lá de madrugada ao trote do animal, ouvindo os grilos, mirando as estrelas e saboreando seu cigarro de palha.

     Aos quinze anos Licurgo Cambará era já um homem.

    

     Muitas vezes olhando os campos do Angico de cima do seu cavalo ou da porta da casa da estância, e pensando em que eram suas aquelas terras que iam muito além do ponto até onde a vista alcançava, Licurgo sentia inflar-se-lhe o peito numa sensação de orgulhoso contentamento. Isso às vezes chegava a tirar-lhe o fôlego. Os meus campos, os meus peões, a minha cavalhada, o meu gado... O rapaz enchia a boca e o espírito com essas palavras e com o mundo de coisas em que elas implicavam.

     Gostava da vida campestre, e quando estava no Angico não tinha nunca um minuto sequer de aborrecimento. Despertava antes de raiar o dia, pulava da cama e ia para a mangueira, levando uma guampa com bocal de prata onde a avó mandara gravar seu nome. Os galos cantavam, como se quisessem acordar o sol com sua balbúrdia. Licurgo tinha um prazer especial em caminhar descalço sobre a grama ainda úmida de sereno. Empoleirava-se depois nos troncos da mangueira e gritava para a escrava que ordenhava as vacas:

     - Buenos dias, Luciana!

     - Bom dia, sô Curgo - resmungava a preta.

     Seus dedos escuros apertavam as tetas da brasina ou da malhada: o leite esguichava no balde com um rufar de tambor. Como era bom ficar ali vendo o horizonte clarear aos poucos e aspirando os cheiros da mangueira - esterco úmido, leite morno, pêlo de vaca.

     Depois de beber duas ou três guampas de leite, quando o sol começava a apontar por trás da coxilha do Coqueiro Torto, Curgo ia para o galpão comer um churrasco mal passado nas brasas, seguido dum amargo bem quente. A essas horas já o gado mugia, os passarinhos cantavam nos cinamomos, à frente da casa, e os quero-queros andavam a gritar pelo campo.

     Começava então a faina do dia e Curgo acompanhava Fandango e a peonada que saíam a percorrer as invernadas. Sabia laçar, parar rodeio, marcar, e seu maior sentimento era o de não saber domar potros, pois a avó não lhe dera ainda permissão para aprender. Temia que ele rodasse do bagual, quebrasse a cabeça e morresse "como aconteceu com o falecido seu bisavô". Como o rapaz vivesse insistindo, ela prometia com certa relutância:

     - Quando vassuncê fizer dezoito anos eu dou licença.

     Curgo voltava do campo com o sol já a pino; vinha com uma fome tão grande que se sentia capaz de devorar um boi. Segundo Fandango, era ele "um garfo de respeito". Comia com prazer e muitas vezes, de olho contente diante dum bom churrasco de costela ou duma sopa de mocotó, filosofava: "Uns comem pra viver, outros vivem pra comer, mas eu como porque gosto". A avó sorria e murmurava: "Puxou ao avô. Pra o Rodrigo, comer era mesmo que uma festa". Entre os pratos prediletos de Licurgo estavam o arroz-de-carreteiro, o matambre, a morcilha e o fervido. Uma vez por semana mandava fazer uma feijoada com bastante toicinho, lingüiça e charque, e esfregava as mãos quando via a panela fumegando na mesa. Nessas ocasiões desprezava os outros pratos e comia feijoada até empanturrar-se. Por fim, "pra feijoada não sentar mal", bebia um copo de cachaça. Erguia-se da mesa "empachado", lerdo, sonolento, com a impressão de ter engolido um tijolo, e atirava-se na cama como um peso morto, para uma sesta longa de sono inquieto, do qual despertava com a boca amarga, a cabeça dolorida, irritado e infeliz.

     Quando, porém, chegava a hora do jantar já estava pronto para limpar várias costelas de assado, e mais um prato ou dois de mondongo com farinha ou guisadinho com abóbora. Nunca deixava de tomar, após cada refeição, uma tigela de leite com marmelo cozido ou milho verde. Suas sobremesas favoritas eram pessegada e rapadura com queijo.

     "O Curgo não é homem de festas" - costumava observar Bibiana. E não era mesmo. Quando se via obrigado a ir a algum fandango, não se misturava com os outros, preferia ficar olhando os pares de longe. E olhava-os dum jeito esquisito assim como se estivesse reprovando o que via.

     - Cai na dança, lorpa! - gritava-lhe Fandango, que não perdia marca.

     - Me deixa. - respondia o rapaz, esquivando-se. Quando via os homens sapateando e rodopiando ao compasso da chimarrita, da tirana ou do tatu, ficava tomado dum certo mal estar, como se dançar fosse coisa indigna de macho. Por outro lado, encarava também com desconfiança e má vontade as jovens dançadeiras, e prometia a si mesmo nunca se casar com mulher que ao dançar meneasse as cadeiras, requebrasse o corpo.

     Nas raras vezes em que os outros conseguiam arrastá-lo a festas onde havia jogos de prendas entre moços e moças, ele ficava a um canto, arredio, observando tudo de carranca cerrada, com olhos tristonhos e graves.

     Certa noite, numa dessas festas, Fandango deu-lhe um empurrão cordial, perguntando:

     - Por que não vai brincar com as muchachas?

     Ele sacudiu a cabeça, soturno, fazendo que não.

     - Tu é mesmo um bagualão!

     Repetindo um ditado que ouvira no galpão, Curgo procurou justificar-se:

     - Com mulher só brinco na cama. - resmungou.

     Mas não era verdade: nem na cama brincava. Quando se deitava com as chinas - a Rosa, a Belinha, a índia Nenê - era sem alegria. Não as acariciava, nem pedia carícias. Tratava-as com rispidez, dando a entender que estava pagando e não pedindo favores. Fornicava com uma mistura de sofreguidão animal e a gravidade meio ressentida de quem está contrariado por "precisar dessas piguanchas". Quando se despedia delas não ajuntava nem o esboço dum sorriso aos patacões com que lhes "pagava o serviço".

     No entanto a hora de parar rodeio, de curar bicheiras, de carnear, eram para ele momentos de festa. Gostava de montar a cavalo e sair a galope pelo campo, só pelo puro prazer da corrida. Nessas horas ria, gritava, cantava, era feliz. Noutras ocasiões, quando contemplava os coxilhões verdes que cercavam a casa do Angico e pensava em que tudo aquilo lhe pertencia, ficava tomado duma profunda e plácida alegria. E seu grande sonho era ter um dia mais campo e mais gado que os Amarais.

     Embora Bibiana lhe tivesse proibido meter-se em carreiras, quase todos os domingos ele levava seus parelheiros para correr em cancha reta com cavalos das estâncias lindeiras do Retiro e do Rincão Bonito. Não raro essas carreiras davam em briga, e duma feita Curgo se pusera a discutir acaloradamente com um homem que devia ter o dobro de sua idade. Num certo momento o interlocutor lançou-lhe um olhar de desdém e disse:

     - Cala essa boca, guri.

     Curgo ficou vermelho e retrucou, meio engasgado:

     - Eu te mostro quem é guri.

     Tirou a faca da bainha e precipitou-se para cima do outro. Mais tarde, a caminho do Angico, queixou-se:

     - Se tu não tivesse apartado a briga, Fandango, eu furava o bucho daquele patife.

     - Furava coisa nenhuma! - troçou o capataz. - Tu te borra todo quando vê sangue.

     Aquilo, claro, era uma brincadeira do velho, pois Curgo estava acostumado a ver sangue. Na primeira vez que vira abaterem uma rês, tinha ficado pálido, tonto, e com engulhos. Mas depois se fora aos poucos habituando àquilo. Agora ele próprio sangrava bois e até já gostava de cheiro de sangue. Foi por isso que quando um touro bravo furou com uma chifrada os intestinos dum peão do Angico, ele pôde ajudar Fandango a botar as tripas do homem para dentro da barriga sem se quer pestanejar. Era também por isso que quando ia caçar bugios no capão da Onça e os via cair no chão ensangüentados, com os corpos furados de chumbo, não ficava nem um pouco impressionado. Fosse como fosse, tinha de ir-se habituando àquelas coisas, porque se a guerra com o Paraguai durasse mais dois anos, ele tencionava apresentar-se como voluntário.

     Licurgo gostava muito da casa da estância, embora ela não pudesse comparar-se com o Sobrado... Muito menor, de um andar só, não tinha soalho nem vidraças nas janelas. No entanto, sentia sempre um alvoroço quando, ao chegar da vila, avistava aquela casa comprida, de três portas e oito janelas, lá no alto da coxilha e branquejando por trás dum renque de cinamomos copados. E de todas as peças dessa casa uma das que ele mais gostava era a cozinha, onde às vezes ia conversar com as negras, que lhe contavam histórias belas e terríveis da África - uma África que nada tinha a ver com a dos livros de geografia do padre Otero.

     Outro dos grandes prazeres do rapaz - e um dos que mais o prendiam ao Angico - era o de tomar parte nas conversas do galpão à noite, depois do jantar. Reuniam-se os peões ao redor do fogo e ficavam a contar histórias. Eram "conversas de homem", quase sempre em torno de cavalos, jogo, mulheres, duelos, revoluções, heróis e bandidos. E através dessas conversas Licurgo ia como que absorvendo os artigos do código de honra daquela gente - um código que não fora escrito mas que tomava corpo, fazia-se visível em milhares de exemplos e casos que andavam de boca em boca. Segundo esse código, um homem para ser bem macho precisava ter barba e vergonha na cara. Ter vergonha na cara significava possuir uma cara limpa em que nunca nenhum outro homem tivesse batido. "Se um homem te esbofetear, mata o canalha no sufragante." Ter vergonha na cara significava também nunca faltar à palavra empenhada, custasse o que custasse. Contava-se que na província se faziam grandes transações a crédito em que, em vez de assinar uma letra, o devedor dava ao credor um fio de barba, o qual para aqueles homens de honra valia tanto como um documento selado com firma reconhecida por um tabelião.

     Licurgo orgulhava-se de saber que o avô e o pai tinham tido morte digna de homem: lutando de arma na mão. Era assim também que ele queria morrer quando sua hora chegasse.

     Uma noite no galpão, como se falasse em homens valentes e generosos, Fandango tocou no ombro de Curgo e disse:

     - Ouve esta, que te interessa, menino. Passou-se com teu avô, o finado capitão Rodrigo Severo Cambará.

     - Tu te lembra bem dele, Fandango? - perguntou o rapaz.

     - Me lembrar não me lembro, porque nunca nos encontramos. Mas foi tua avó, dona Bibiana, que me contou o caso.

     Fandango fez uma pausa para tomar um gole de mate. Um dos peões pediu:

     - Que venha a história!

     Fandango cuspiu no fogo e começou:

     - Pois diz-que o capitão Rodrigo tinha um inimigo, um tal de Mário Leite, que lê tinha feito uma safadeza muito grande. Brigaram numas carreiras e só não se mataram a bala porque houve quem apartasse. O capitão chegou em casa furioso e disse pra mulher: "Estou com aquele sujeito atravessado na garganta. Onde eu encontrar ele, palavra de honra, meto-lhe o rebenque na cara". Dona Bibiana não disse nada. Ela nunca dizia nada. Pois um dia o capitão Rodrigo passava a cavalo por uma estrada e vai então de repente ouve um barulho perto dum caponete, olha e vê dois bandidos armados de adaga atacando um homem que se defendia com o cabo do rebenque. O pobre do cristão ia recuando na direção dum valo, estava malito mesmo. O capitão esporeou o cavalo, chegou-se perto dos peleadores e viu que o que brigava sozinho era nem mais nem menos que o seu inimigo, o tal de Mário Leite. Vejam só como são as coisas. Apeou ligeiro, já de adaga desembainhada, e entrou na briga, gritando: "Cobardes! Atacarem um homem desarmado. E dois contra um!" Disse isso e atirou-se pra cima dos bandidos a golpe de adaga, como quem vai matar cobra. Os bandidos se assustaram e meteram o pé no mundo. O capitão enfiou a adaga na bainha, montou a cavalo e, sem olhar pró outro, sem dizer uma palavra, foi-se embora.

     Fandango fez uma pausa e depois rematou a história:

     - Eram assim os homens de antigamente.

     Era assim o meu avô - pensou Curgo. E ficou olhando reflexivamente para o fogo.

     Havia também histórias de bandidos famosos. Dentre elas a favorita de Licurgo era a do Zé Viau.

     - Esses bandidos valentes e pícaros do tempo antigo estão se acabando - lamentou Fandango noutra noite. - Onde é que se encontra hoje em dia um homem como o Zé Viau? Andava de flor no peito, sombrero de aba quebrada na frente, barbicacho nos queixos e espada na cinta. Vivia desafiando os milicos e era homem de entrar a cavalo num bolicho e levar duas chinas na garupa!

     Contava-se que por volta de 1830 aparecera por São Borja um cidadão francês, um certo Jean Viaud, que se dizia médico formado por uma academia de Paris. Era um belo homem de maneiras fidalgas, barbas ruivas, olhos azuis e mãos de moça. Costumava viajar pelas estâncias, curando gentes e bichos e recebendo como pagamento dos seus serviços não só dinheiro como também galinhas, porcos, roupas ou objetos para seu uso pessoal. Uma noite o francês pernoitou na estância dos Belos, dormiu com a donzela da casa e no dia seguinte foi embora. Dois meses depois, quando descobriram que a moça estava grávida, seus irmãos obrigaram-na a dizer o nome do sedutor e puseram-se a campo para descobrir o paradeiro do infame. Encontraram-no finalmente em Rio Pardo, deram-lhe uma sova de rabo-de-tatu em praça pública, trouxeramno maneado para a estância e fizeram-no casar com sua vítima. O casamento realizou-se em sigilo, com a presença apenas dos pais e dos irmãos da noiva. A criança nasceu dali a sete meses, mas o dr. Jean Viaud, de belos olhos azuis e mãos de moça, parece que achou o casamento um peso excessivo para seus ombros delicados. Um dia fez a mala às escondidas, montou a cavalo e fugiu.

     Nunca mais ninguém ouviu falar nele. Os cunhados encolheram os ombros e disseram: "O mal foi reparado. É até melhor que esse diabo não apareça mais. Seja como for, a criança tem um pai". Era um menino e haviam-lhe dado o nome de José. Cresceu na estância, guapo e vivo. Com o correr do tempo os Belos perderam sua fortuna e o menino criou-se ao deus-dará. Aos catorze anos fugiu de casa, e dizem que andou fazendo contrabando na fronteira com a Argentina. Aos dezoito matou o seu primeiro homem. Parece que gostou, pois aos vinte já tinha cinco mortes nas costas. Aos poucos suas proezas começaram a ser contadas em toda a província. Ora, como ninguém lhe pronunciava direito o nome - pois em vez de viô, diziam viau - o jovem bandido ficou sendo conhecido por Zé Viau, nome que correu mundo e ganhou fama. Fandango remexeu no fogo com um pau.

     - Hai uma história dele que é mui linda - disse. - Conhecem?

     Ninguém falou: todos ficaram esperando, pois sabiam que o capataz havia de contá-la, mesmo que eles dissessem que a conheciam.

     - Diz-se que uma vez o Zé Viau matou um homem em Uruguaiana, e se bandeou para a República Argentina. Os parentes do morto juraram que não descansavam enquanto não matassem o Zé Viau e deixassem ele estaqueado no meio da praça.

     Fez uma pausa e perguntou:

     - Vassuncês sabiam que quando a gente bota uma moeda na boca dum homem que foi assassinado, o criminoso volta ao lugar do crime? Pois é.

     Enterraram o homem com uma moeda de tostão na boca. Passou-se um tempinho e um dia qual não foi a surpresa dum bolicheiro de Uruguaiana quando viu o Zé Viau entrar na casa dele, todo lampeiro, de flor no peito, arrastando as chilenas no chão. O coitado ficou branco de medo e começou a gaguejar e olhar pra todos os lados. "Viu alguma alma do outro mundo, patrício?"- perguntou o bandido. O bolicheiro contou a história da moeda. Zé Viau fechou a cara e indagou: "Então eles enterraram aquele cachorro com uma moeda na boca? Espera um pouco".

     Saiu da venda, montou a cavalo, foi ao cemitério, desenterrou o defunto, tirou a moeda da boca dele, voltou pro bolicho, atirou ela em cima da mesa e gritou: "Um tostão de cachaça, amigo!" Quando o bolicheiro compreendeu a coisa, ficou verde.

     Houve risadas. Fandango arreganhou os dentes, sacudiu a cabeça e disse devagarinho:

     - O Viau tinha boas!

    

     Naquele dezembro de 69 dona Bibiana veio passar dois dias na estância, e quando voltou para Santa Fé decidiu levar consigo o neto. Curgo ficou sombrio.

     - Eu não quero ir, vovó.

     - É só por uns dias.

            - Mas por que é que a senhora não fica até o fim do verão?

     - Não posso.

     - Mas por que é que não pode?

     - Tenho o que fazer no Sobrado.

     O que ela tinha a fazer em casa não podia contar a ninguém: era vigiar a nora. Aquele maldito major Erasmo Graça freqüentava o Sobrado, estava perdido de amores por Luzia. Sempre que o homem aparecia, Bibiana plantava-se também na sala de visitas, sentava-se numa cadeira e ali ficava, de mãos no regaço, calada, mas sem tirar os olhos do major. Era preciso não deixar aqueles dois sozinhos, não dar ao forasteiro tempo de se declarar. Assim vigiados, eles se viam forçados a conversar sobre coisas que nada tinham a ver com amor ou casamento. Agora Bibiana aproveitara uma ausência temporária do major para vir até o Angico, porque lhe batera de repente uma grande saudade do neto. Mas era preciso voltar em seguida, pois fora informada de que o "desgraçado” dentro de dois dias estaria de volta a Santa Fé.

     - Vamos sair de jardineira, de manhã cedinho - disse ela ao neto. - Arrume as suas coisas.

     - Está bem, vó.

     Naquela noite Curgo procurou Fandango e contou-lhe suas mágoas.

     - Faça a vontade da velha.

     - Mas é que eu não gosto de passar o verão na vila!

     - Tu tem ainda muito verão pela frente, muchacho, muito verão.

     Assim, no dia seguinte, mal o sol rompeu, avó e neto embarcaram na jardineira. Licurgo ia taciturno, de testa franzida. Bibiana mirava-o de soslaio mas não dizia nada. Sabia que o neto tinha sangue de Terra e de Cambará. Não seria por causa do sangue do Rodrigo que ele estava assim de cara fechada, e bico calado. O capitão era homem alegre, conversador e andava sempre bem disposto. Agora ali na jardineira que ia sacolejando pelas estradas cheias de "costelas" e buracos, Bibiana reparava no quanto Licurgo se parecia com seu próprio bisavô, Pedro Terra. Quando o menino estava "com os burros", o melhor era a gente nem falar com ele. E como um Terra sempre respeitava os silêncios de outro Terra, Bibiana não disse palavra ao neto durante muito tempo. Ficou a conversar com o boleeiro sobre as vacas que iam dar cria, as colheitas e os calores daquele verão.

     O sol já estava alto e soprava um ventinho de leste quando eles deixaram os campos do Angico e entraram na estrada real, que era tão má como as da estância. E como o silêncio de Curgo se estivesse prolongando demais, e como ele no momento em que o boleeiro fechou a porteira lançasse um olhar triste para os campos que ficavam para trás, Bibiana deu-lhe uma palmadinha rápida no joelho e disse:

     - Não há de ser nada, Curgo. No mês que vem tu volta. O rapaz então sorriu um sorriso rápido e meio triste:

     - Vosmecê sabe, vovó, o que o Fandango disse quando se despediu de mim?

     - Ela sacudiu a cabeça negativamente.

     - Disse que nem por mil cruzados entrava numa jardineira.

     - Ué! Por quê?

     - Porque carro é condução de mulher e criança de peito. Gaúcho anda mas é a cavalo.

     - Velho desfrutável!

    

     Na noite daquele mesmo dia, na sala de visitas do Sobrado, pela primeira vez em muitos meses Licurgo ficou a sós com a mãe. Foi após o jantar: as cinco velas do candelabro estavam acesas em cima do consolo, e Bibiana se encontrava no andar superior a defumar os quartos com incenso.

     Sentada junto da mesinha redonda, Luzia tocava cítara para o filho. Os cabelos lhe caíam sobre os ombros cobertos por um xale de seda preta, que lhe acentuava ainda mais a palidez. De vez em quando a dor crispava-lhe o rosto e ela começava a gemer baixinho. Curgo, então, desviava os olhos, todo perturbado. A idéia de que sua mãe sofria, de que tinha um tumor maligno, lhe causava uma grande pena e ao mesmo tempo um grande remorso, pois embora soubesse que seu dever era mostrar-se carinhoso e paciente para com ela, o que sentia mesmo era uma certa impaciência, uma vontade de fugir da presença "daquela mulher", como se pelo simples fato de não vê-la ela cessasse de sofrer.

     Luzia tocava uma barcarola e o rapaz escutava, olhando para os dedos que beliscavam as cordas do instrumento. Agora ele descobria por que era que apesar de gostar do Sobrado não se sentia bem no casarão. Era porque sua mãe dava àquelas grandes salas uma certa frieza de "casa de cerimônia". Ela própria era quase uma estranha para ele. As coisas que lhe dizia o deixavam sempre desconcertado. A voz dela provocava nele uma esquisita sensação de acanhamento, e os sons mesmos do instrumento pareciam sair não daquela caixa chata de madeira, mas da boca de sua mãe. Dum certo modo que Curgo não sabia explicar direito, era como se aquela música triste saísse da ferida que ela tinha no estômago. Curgo tirou o lenço do bolso e passou-o pelo rosto. Pensou em como seria bom sair para a rua, ir para baixo da figueira da praça e ficar lá deitado no chão, sozinho...

     Luzia tocava, como que esquecida do filho. Seus seios pontudos e miúdos, que tanto desconcertavam Licurgo, quando desavisadamente fitava os olhos neles, subiam e desciam ao compasso duma respiração lânguida e dolorosa. Curgo sabia que no rego daqueles seios ela guardava uma grande chave dourada - a chave do quarto secreto onde passava horas e horas fechada, fazendo ninguém sabia o quê. Ele sempre tivera curiosidade de ver o que havia dentro daquela alcova onde nenhuma outra pessoa entrara depois da morte do seu pai.

     Curgo olhou para as mãos de Luzia que se agitavam sobre a cítara e pensou em cavalos brancos a galope. Depois alçou os olhos para o rosto dela. Quando a mãe o acariciava, quando passava aqueles dedos frios pelo seu rosto e principalmente quando lhe fazia cócegas no lóbulo da orelha, ele ficava todo encolhido e arrepiado, com um desejo de gritar, de dizer nomes, de fazer uma brutalidade.

     Licurgo escutava. Luzia agora sorria para ele. Seus olhos muito graúdos e claros lembravam-lhe o poço da sanga do Angico onde à tardinha ele costumava nadar em companhia do Fandanguinho.

     Por fim Luzia deixou cair os braços ao longo do corpo e disse:

     - Meu filho, vou tocar uma música e quero que prestes bastante atenção.

     Curgo sacudiu a cabeça num assentimento. Vindo lá de cima chegava até ele o cheiro da defumação, um cheiro triste de igreja. À luz das velas o rosto de Luzia tinha um reflexo alaranjado como o das caras dos peões à noite, ao redor do fogo. Luzia começou a tocar uma música muito lenta e suave, e enquanto tocava sorria um sorriso lento e suave como a música.

     - Em que é que estás pensando? - perguntou ela sem parar de tocar.

     - Em nada.

     - Não. Eu quero saber o que é que a música te evoca.

     - Evoca?

     - Quero dizer: quando ouves esta música, em que é que pensas?

     Curgo ficou um instante com ar reflexivo.

     - Na estância.

     - A música então te faz pensar na estância?...

     - Faz.

     - Que parte da estância?

     - Todas as partes.

     Ela continuava a tocar.

     - Não, meu filho. Deve haver uma parte especial. Não há?

     - Há, sim senhora.

     - Qual é?

     - As coxilhas que a gente avista da porta da casa...

            - Estás vendo agora esse campo... quero dizer, no teu pensamento?

     - Estou.

     - Não é uma coisa triste que estás sentindo?

     - É sim.

     - Não sentes algo que te aperta o peito?

     - Sinto.

     A música continuava, calma e melancólica. Curgo agora estava "vendo" as campinas do Angico.

     - Estás pensando nesses campos de manhã?... de noite?... ou de tardezimha?

     - De tardezimha, assim ao anoitecer.

     - É muito triste tudo, não é?

     -É.

     - Não dá vontade de chorar?

     Curgo hesitou por um instante.

     - É... dá.

     - Não está brilhando uma estrela no céu? É a estrela vespertina...

     Licurgo lembrava-se agora duma tarde em que ficara olhando o pôr-de-sol sentado no portal da casa da estância. Um negro que vinha repontando um rebanho de ovelhas cantava uma toada tristonha, dessas puxadas do fundo dum peito dolorido.

     - Presta bem atenção, meu filho. Ouve a música. Agora tua mãe vai te dizer bem direitinho tudo que estás sentindo.

     Os cavalos brancos galopavam em cima da cítara. Lá em cima soavam, surdos, os passos de vovó Bibiana. Um cheiro de igreja enchia a casa toda.

     “Tomara que a vovó desça”. - pensou Licurgo, olhando de viés na direção da porta do vestíbulo.

     Luzia começou a tocar em surdina e a dizer:

     - Presta atenção. Estás sentado no portal da casa do Angico. Está ficando noite e tudo é muito triste. A estância está deserta. A peonada foi toda embora, a negrada da cozinha foi embora. Tu estás sozinho, olhando o descampado e pensando... Sabes o que estás pensando? Estás pensando assim. Vivo só no mundo. Tenho quinze anos. Mataram meu pai. Minha avó morreu. Minha mãe vai morrer, está na vila sentada numa cadeira esperando a hora da morte, porque tem um tumor no estômago. Sou um pobre menino sem ninguém no mundo...

     A música doce envolvia Licurgo, que se imaginava no Angico olhando o pôr-do-sol. As coxilhas cheiravam a incenso.

     - Há muitos países, muitas cidades no mundo - prosseguiu Luzia - e nesses lugares existem muitos meninos que têm pai e mãe, que brincam, que andam de trem, que são felizes. Mas eu estou aqui sozinho, não tenho ninguém...

     De olho parado, Curgo fitava as chamas das cinco velas enquanto uma tristeza que lhe parecia sair das entranhas lhe subia pelo peito como uma enxurrada e se lhe trancava aflitivamente na garganta. Engoliu em seco, piscou. “Sou homem”. - pensou: esforçou-se por não chorar mas não pôde. A onda rebentou num soluço, as lágrimas lhe inundaram os olhos, lhe escorreram frescas pelas faces. Ele teve vergonha de enxugá-las, de erguer as mãos e tapar o rosto. Com os olhos sempre fitos no candelabro, continuou a ouvir a música e a ver a estrela do pastor no céu do anoitecer.

     De repente a situação lhe foi tão insuportável que ele decidiu fugir. Pôs-se de pé subitamente e saiu quase a correr na direção da porta da rua. Mas ao passar por perto da mãe, esta agarrou-lhe a mão com força, puxou-o para si, estreitou-o contra o peito e começou a beijar-lhe o rosto, a beber-lhe as lágrimas, a chorar também com ele e a murmurar coisas muito ternas e lamurientas.

     - Vou morrer, meu filho, vou morrer. Tu vais ficar, vais esquecer a tua mãe, todos vão esquecer. A vida é triste, meu filho, eu vou morrer.

     Apertava o rapaz contra os seios. A chave - pensava Curgo - a chave dourada. Mas outro pensamento fazia-o esquecer a chave: a ferida... E ele queria acariciar a mãe, dizer alguma coisa, mas seus lábios continuavam apertados, os braços caídos. Por fim, num grande esforço levantou a mão e passou-a desajeitadamente pelo rosto dela: sentiu-o frio e úmido e isso lhe lembrou o rosto dum afogado que uma vez ele tocara. O corpo da mãe era morno e cheirava a essência de rosas. Por cima dos ombros dela Licurgo olhava a sombra de ambos projetada na parede da sala. Luzia apertava o filho contra o peito, e o rapaz tinha medo de machucar com a pressão de seu corpo a ferida do estômago. Pensava em alguma coisa para dizer mas não lhe ocorria nada. Por alguns instantes Luzia ficou acariciando os cabelos do menino e por fim afrouxou a pressão dos braços e começou a falar num cochicho:

     - Curgo, quero que prometas uma coisa pra tua mãe. Prometes?

     No espírito do menino o velho Fandango ergueu-se e falou: "Não faças promessas no escuro".

     Ele não respondeu. Uma lágrima entrou-lhe, salgada, na boca.

     - Prometes?

     Curgo tinha medo de falar, pois se falasse talvez não lhe saíssem da boca palavras, mas sim soluços. Homem não chora. Homem não chora.

     - Prometes?

     Luzia sacudia o filho com ambos os braços. Curgo aproximou os lábios do ouvido da mãe e perguntou baixinho:

     - Prometer o quê?

     - Prometes que não vais passar toda a tua vida aqui em Santa Fé, nem no Angico?

     O corpo de Licurgo de repente enrijeceu. Ele ficou de músculos retesados numa atitude de defesa, como se de repente tivesse avistado um inimigo inesperado.

     - Prometes, meu filho?

     Silêncio. Luzia apertou os braços do rapaz com mais força.

     - Fala, Curgo!

     Agora as unhas dela apertavam as carnes do rapaz. Curgo continuava calado.

     - Olha, meu amor, não quero que sejas como esses homens brutos que não sabem ler nem escrever, que vivem como animais, no meio de cavalos e bois. - Calou-se, como que afogada pelas próprias palavras. - Prometes?

     Nenhuma resposta. Curgo adivinhava onde a mãe queria chegar e esperava com uma rigidez de corpo e de espírito.

     - O mundo é muito bonito, meu filho. Tem cidades com teatros, circos de cavalinhos, bandas de música! Olha... - E de repente a voz dela ficou quase risonha. - Em Londres uma vez houve uma grande exposição, tu nem eras nascido... Foi num palácio maravilhoso todo feito de vidro e de ferro.

     Curgo recusava acreditar naquelas palavras. Palácios de vidro só existem nos contos da carochinha.

     - Um dia nós vamos embora daqui, Curgo. Tu e eu. Os dois juntos. Mãe e filho. Vamos de diligência, depois tomamos um trem e finalmente o vapor... Não tens vontade de conhecer o mar, não tens?

     Ele não respondia. Estava vendo as campinas do Angico, escutando a voz dum tropeiro que conhecia o mar e que lhe dissera: "O mar é lindo, mas não troco estas coxilhas nem por tudo quanto é mar deste mundo".

     - Não tens? - repetia Luzia.

     - Não.

     - Não digas isso, meu filho. O mar é uma beleza. O dr. Winter te explicou tudo na aula de Ciências. Tem uns peixes muito bonitos, outros muito engraçados. O mar muda de cor, às vezes é verde, outras é azul, outras cor de cinza. Não tens vontade de ver o mar?

     - Não.

     Luzia afastou o filho de si com um repelão e perguntou, com uma ameaça na voz:

     - Não tens?

     - Não - repetiu o menino sem olhar para a mãe. Compreendia que o que ela queria mesmo era tirá-lo do Angico, da companhia da avó, do Fandango e dos peões. A mãe decerto ia mesmo casar com o major Erasmo. Agora ele sabia. Era verdade o que murmuravam. E essa descoberta aumentava seu mal-estar e seu sentimento de estranheza para com ela.

     Luzia deixou cair os braços. Estava ofegante. Atirou a cabeça para trás e ficou ali com o rosto contorcido de dor.

     - Está doendo? - perguntou Curgo.

     - Está. - balbuciou ela. - Está doendo muito. E tu és o culpado.

     - Me desculpe.

     - Não desculpo. És um menino muito malvado.

     Ele baixou os olhos e começou a chorar de novo, mansamente, deixando as lágrimas pingarem no chão. Luzia contemplava-o, sorrindo.

     - Posso ir agora, mamãe? - perguntou ele ao cabo de alguns segundos.

     - Ir aonde?

     - Passear lá fora.

     - Não. Fica aqui.

     Só a avó o poderia salvar. - pensava Licurgo, agoniado.

     - Que é que a senhora quer?

     - Conversar contigo. Senta-te.

     Ele obedeceu, limpando as lágrimas com a manga da camisa.

     - Olha para mim, Curgo.

     Ele fitou os olhos no rosto de Luzia.

     - Por que é que não gostas de tua mãe?

     - Mas eu gosto!

     - Não gostas, não.

            Ele tornou a baixar o olhar.

     - Olha pra mim. Por que é?

     - Eu gosto, mãe. Mas gosto também do Angico, do Sobrado, dos outros...

     - Tua avó algum dia te disse que não devias gostar de mim?

     - Não.

     - Não mesmo?

     - Não.

     - Juras por Deus?

     - Juro.

     Luzia de novo entesou o busto, tirou alguns acordes da cítara e começou a tocar uma valsa lenta.

     - Se tu tivesses de escolher entre tua mãe e ela, qual era que escolhias? - perguntou, sem interromper a música. O menino não respondeu. Havia em seus olhos uma expressão de animal acossado.

     - Qual era? - repetiu Luzia.

     - As duas.

     - Mas se um dia eu chegasse e dissesse: "Curgo, tua mãe vai embora. Queres ir com ela ou ficar com tua avó?" Que era que respondias?

     No seu espíiito Curgo berrava: "Ficar! Ficar! Ficar!" Mas não tinha coragem de dizer aquilo. Se dissesse era quase o mesmo que dar um soco no estômago da mãe. Ela ia morrer. Todos sabiam que não tinha vida para muito tempo...

     - Fala a verdade, Curgo. Ias ou ficavas?

     Ele olhava para a porta, à procura dum pretexto para sair.

     - Mas aonde é que a senhora ia? - perguntou.

     - Embora.

     - Embora pra onde?

     - Pra Corte.

     - Mas por quê?

     - Pensas então que Santa Fé é o único lugar do mundo onde a gente pode viver?

     - Mas foi aqui que eu nasci.

     - Pois eu não.

     - Aqui é que estão os meus parentes, os meus amigos, tudo.

     - Não tenho amigos. Meu único parente vivo és tu. E tu sabes - acrescentou ela, parando de tocar - que se eu quiser te levar, eu te levo, porque a lei está do meu lado? Tu és meu filho e só tens quinze anos, sabes?

     O rosto do rapaz ganhou de repente uma dureza de pedra. Como única defesa fechou-se num silêncio ressentido e feroz. Não diria mais nada, acontecesse o que acontecesse. Luzia pareceu compreender isso e mudou de tom:

     - És ainda muito novo, meu filho. Um dia vais crescer e então te lembrarás do que eu te disse. Mas aí será tarde demais, muito tarde. Eu estarei morta e podre debaixo da terra. Mas tu estarás apodrecendo vivo aqui em Santa Fé ou com os animais lá no Angico. Apodrecendo vivo, estás ouvindo?

     Curgo não respondia. Tinha no rosto uma tal expressão de horror que ao chegar naquele momento à porta da sala, Bibiana olhou para o neto e compreendeu o que se estava passando.

     - Venha lavar os pés, Curgo. - disse ela com voz calma. - Está na hora de ir pra cama.

    

     Naquela noite de sábado, quando bateu à porta do Sobrado para sua visita semanal, o dr. Winter se sentia tão bem disposto e em tamanha paz com o mundo, que começou a assobiar baixinho um minueto de Mozart, marcando o compasso com a ponteira da bengala a bater na pedra do portal. Uma das escravas veio abrir-lhe a porta.

     - Boa noite, Natália! - exclamou, tirando o chapéu e fazendo com ele um floreio no ar.

     A preta resmungou roucamente um cumprimento, e Winter em duas largas passadas galgou os degraus que levavam da porta ao nível do vestíbulo.

     Viu em cima do consolo, junto do espelho oval que Aguinaldo Silva garantira haver pertencido a um nobre flamengo dos tempos da ocupação holandesa do Recife, o chapéu do dr. Nepomuceno, o do padre Otero e o quepe do major Graça. Ficou a contemplá-los por um instante, sorrindo. A Justiça, a Igreja e o Exército. Parecia um arranjo simbólico. Achou absurdo que seu surrado chapéu de feltro fosse também ficar ali ao lado dos outros. Que representava ele? Nada. Nem o colono alemão que havia quarenta e tantos anos se estabelecera na Feitoria do Linho Cânhamo às margens do rio dos Sinos. Era simplesmente um indivíduo, o dr. Carl Winter. E se quisesse ser bem honesto para consigo mesmo, teria também de chegar à conclusão de que não representava nem mesmo a medicina. Naquele fim de mundo ele ia de tal modo perdendo contato com a literatura médica, que um dia talvez chegasse a descer ao nível dos curandeiros da terra.

     Olhou-se no espelho. Na penumbra do vestíbulo não pôde ver mais que uma silhueta. Atirou o chapéu em cima do quepe francês do major Graça - um quepe que lhe lembrava desagradavelmente o de Napoleão II, segundo um retrato a bico-de-pena que vira reproduzido numa revista - e encaminhou-se para a sala de visitas, onde a conversa começava a acalorar-se. Quando o dr. Winter entrou, fez-se um súbito silêncio.

     - Continuem, senhores! - pediu o médico, apertando a mão de Bibiana e depois a de Luzia.

     O major Graça levantou-se e ficou perfilado. Era um homem alto, de barbas e cabelos castanhos, e estava metido em seu uniforme azul-escuro, de túnica com ombreiras e galões dourados, e calças debruadas duma fita carmesim. Estendeu para o médico a longa mão enérgica, que Winter apertou. O padre Otero permaneceu sentado, limitando-se a dar ao recém-chegado um boa-noite indiferente. E como o juiz de direito começasse a erguer-se do fundo de sua cadeira, o dr. Winter apressou-se a dizer:

     - Não se incomode, doutor. Aproximou-se dele e tomou-lhe da mão flácida.

     O dr. Nepomuceno perdera a mulher havia dois anos e agora levava uma vida solitária de viúvo sem filhos. A velhice fazia-o mais sonolento e tardo de movimentos.

     - Estávamos discutindo - explicou ele ao médico - o major Graça e eu. É, estávamos discutindo...

     Winter sentou-se, cruzou as pernas e disse:

     - Pois continuem, senhores.

     - Discutíamos a questão Zacarias - esclareceu o major.

     Tem uma voz de poeira - pensou Winter. Sim. Ali estava a comparação que ele buscava para descrever a voz do major. Uma voz de poeira, inesperada naquele corpanzil militar: uma voz sem música nem ressonâncias, esfarelada e farfalhante. Tuberculose da laringe? Ou cordas vocais gastas de tanto gritar ordens de comando?

     - Senhores - confessou Winter - não se esqueçam de que em matéria de política nacional, como em quase tudo o mais, sou duma ignorância colossal.

     - O que vosmecê acaba de dizer - observou o padre Otero, balançando-se na sua cadeira - é um sinal de modéstia. No entanto suas opiniões sobre a Religião, Ciência e Filosofia são as dum homem que sabe tudo e que não tem dúvidas sobre coisa alguma deste mundo ou do outro.

     Carl Winter soltou uma risada.

     - Meu caro vigário - replicou - não quero com a minha chegada desviar o rumo da discussão. Para encerrar o assunto admito que eu seja um poço de vaidade e presunção. Mas, pelo amor de Deus, esclareçam-me a respeito do caso Ananias!

     - Zacarias - corrigiu o dr. Nepomuceno, com um ar de mestre-escola.

     Winter olhou para Luzia. Lá estava ela na sua cadeira de respaldo alto, junto da mesinha redonda sobre a qual se achava o estojo da cítara. Tinha no rosto emagrecido a palidez cor de palha que Winter tão bem conhecia. Ali imóvel, toda vestida de escuro, parecia uma figura de cera com olhos de vidro. O sofrimento e a maturidade lhe haviam marcado o rosto, tirando-lhe a dureza de outros tempos, dando-lhe até um certo encanto lânguido e uma dignidade que talvez lhe viesse da vizinhança da morte. Não era coisa agradável para nenhum médico ver um cliente finar-se sob seus olhos sem que ele pudesse fazer alguma coisa para salvá-lo. O mais que Winter conseguia era aliviar-lhe as dores com gotas de beladona. Não se atrevia a dizer-lhe palavras de esperança e conforto porque estava certo de que Luzia não as tomaria a sério. De resto ela gostava de falar da morte que se aproximava; era com gozo que, numa antecipação, descrevia-se a si mesma metida numa mortalha negra, dentro dum esquife, ladeada por quatro círios. Era sorrindo que antevia o velório, descrevia as pessoas que chegavam e mencionava as coisas que iam dizer ou pensar da defunta. Em pensamentos acompanhava o próprio enterro até o cemitério, via quando desciam o caixão ao fundo da cova, ouvia o ruído cavo da terra a cair na tampa do esquife. Winter estava presente quando um dia ela repetiu essa estúpida história diante do filho com tanta riqueza de detalhes mórbidos, que o rapaz rompeu a chorar e acabou fugindo da sala.

     O dr. Nepomuceno começava a explicar quem era Zacarias.

     - Vosmecê, dr. Winter, deve estar lembrado dele. Zacarias de Góis e Vasconcelos. Em 62 derrubou os conservadores do poder e formou um gabinete seu.

     - Mas ficou só seis dias no poder - observou o major. O magistrado daquela vez foi pronto na resposta:

     - Era bom demais para durar, major, era bom demais.

     O militar lançou um olhar cálido na direção de Luzia. Winter percebeu que Bibiana o vigiava. Só não pôde descobrir para onde olhava a teiniaguá - para o espelho? para a porta? para o major? ou para parte nenhuma?

     - Mas não estávamos discutindo a queda dos conservadores em 62 - continuou o juiz. - Não estávamos. Isso são águas passadas.

     A voz do dr. Nepomuceno sumiu-se, afogada, e por um instante ele ficou de olhos semicerrados, como num súbito cochilo. Com alguma impaciência o major resumiu a história:

     - O caso é o seguinte, doutor. Vosmecê deve estar lembrado que depois que expulsamos os paraguaios da província, a coisa toda parecia que ia ser muito fácil. Fomos empurrando o inimigo para dentro de seu próprio território e todo mundo esperava que a guerra terminasse em poucos meses. Mas as tropas de Solano López se entrincheiraram em Curupaiti e resistiram. Vosmecê sabe como são essas coisas. Não há nada pior para um exército do que a certeza da vitória fácil. Quando levamos a coisa na certa, qualquer resistência do inimigo nos desnorteia. Foi o que 4aconteceu. Nosso exército começou a se desorganizar, a desanimar e nossos comandantes começaram a se desentender...

     Ele está se dirigindo a mim - refletiu Winter - mas mantém os olhos fitos em Luzia. Mesmo agonizante a teiniaguá não perde o seu feitiço.

     - O imperador então - interveio o dr. Nepomuceno - achou que a guerra tinha chegado a um ponto crítico, e que só um homem podia salvar a situação.

     - Esse homem - disse o major, sempre olhando para Luzia - era Lima e Silva.

     O padre, que ainda se balouçava na sua cadeira, sorriu e avisou:

     - Esse nome não deve ser pronunciado nesta casa. - Fez um sinal na direção de Bibiana. - Ela não esquece que Caxias era um legalista que combateu os Farrapos. O marido de dona Bibiana, capitão dos rebeldes, foi morto no princípio da guerra civil.

     O major voltou-se solene para Bibiana:

     - Caxias é antes de mais nada um brasileiro e um patriota, minha senhora.

     - Pra mim é um caramuru. - replicou ela, seca.

     O major olhou para a ponta das botinas muito lustrosas, acariciou a barba e depois suspirou, dizendo:

     - Vejo que muita gente nesta província ainda não esqueceu a Guerra dos Farrapos. É lamentável. Nesta hora devemos deixar de lado todas as questões regionais. O destino da pátria comum está em jogo.

     - É um caramuru e basta. - insistiu Bibiana, olhando para o dr. Winter como a dizer: "Vosmecê me entende, sabe por que estou dizendo isto".

     Winter sacudiu a cabeça numa aquiescência muda.

     - Mas voltemos ao nosso assunto. - pediu ele.

     - Ficou então resolvido entregar-se o comando de nosso exército a Caxias - continuou o major Graça. - Mas aconteceu que o ministro da Guerra, Ângelo Muniz da Silva Ferraz...

     - Um grande homem - atalhou o juiz - diga-se de passagem, um grande estadista...

     O major encolheu de leve os ombros e prosseguiu:

     - O ministro da Guerra teria dito: "Com esse homem não sirvo".

     O dr. Nepomuceno pareceu animar-se de repente e interrompeu o outro:

     - Assim Zacarias ficou num dilema. Ou aceitava a nomeação de Caxias e perdia o seu grande ministro, ou mantinha o ministro e...

     O major quase chegou a dar um pulo na cadeira quando gritou:

     - ... sacrificava a campanha!

     - Mas Caxias não era o único general em condições de assumir a direção da guerra.

     - Era! - O major lançou esta palavra como uma ordem de comando.

     - Vosmecê há de dizer que como militar entende melhor do riscado que eu. Concordo. Mas em matéria de política, peço vênia para declarar que poucos, em que pese a modéstia, poucos como eu...

            - Mas não devemos pensar em política quando a pátria está em perigo.

     Winter já observara que só dois assuntos tinham a virtude de tirar o juiz de direito da sua apatia habitual: política e gramática. Uma queda de gabinete ou a colocação dum pronome oblíquo era coisa capaz de levá-lo a discussões calorosas e intermináveis.

     - Vosmecê, major Graça, não negará que Zacarias é dos nossos maiores estadistas.

     - Ele provou que era acima de tudo um homem muito apegado ao poder. Em vez de tomar uma das duas pontas do dilema, seguiu um terceiro caminho. Sacrificou o ministro ao general, mas não resignou.

     O dr. Nepomuceno soltou uma risada inesperada que foi quase um ronco, e disse:

     - É a arte da política. A arte da política.

     - Mas não da decência - retrucou o major, dando um brusco puxão na túnica.

     O padre Otero interveio:

     - Política e decência nunca andam de mãos dadas. São inimigos mortais.

     O oficial voltou-se para o sacerdote:

     - Mas o nosso imperador sabe fazer uma política hábil com uma decência indiscutível.

     - O nosso imperador é um homem excepcional... - observou o padre.

     Winter simpatizava com aquele imperador barbudo e paternal a respeito de quem se contavam tantas histórias e anedotas. Havia ao redor dele uma aura de lenda. O médico observara também como a reputação de integridade de caráter do soberano influía poderosamente na vida social da nação. Era um exemplo de honradez e bondade a ser seguido. Dom Pedro II como que dava a nota tônica ao ambiente moral do país. De certo modo - refletiu ainda Winter - Sua Majestade já fazia parte do folclore nacional como uma espécie de anti-Malasarte.

     - Mas seja como for - prosseguiu o major - Lima e Silva foi nomeado, encontrou nossas tropas desorganizadas e atacadas de cólera-morbo, e levou um ano no trabalho insano de reorganizá-las. Mas conseguiu. E se hoje a campanha se aproxima do fim é graças a esse grande brasileiro!

     - Vou mandar servir o café. - disse Bibiana, erguendo-se de repente e saindo da sala.

     Luzia acompanhou-a com o olhar. Agora, pela expressão do rosto de sua paciente, Winter notava que ela sofria. Por que não se retirava? Por que não tomava as suas gotas? Seria que gozava também com o próprio sofrimento? Inacreditável!

     - Quer que eu vá preparar o remédio? - murmurou, inclinando-se para ela.

     Luzia sacudiu a cabeça:

     - Não. Obrigada. Estou bem.

     E sorriu um sorriso doloroso e quase terno. Winter não pôde deixar de ficar perturbado. Já não sabia mais ao certo o que sentia por aquela mulher. Logo que a conhecera, desejara-a fisicamente duma forma mórbida que o assustava um pouco. Depois fugira dela com certo horror. Agora o que sentia era pena mesclada de curiosidade. Sempre que a via pensava naquele tumor que lhe crescia no estômago com o viço maligno duma flor que se alimenta de carne. Era-lhe inconcebível a idéia de desejar carnalmente uma mulher em tais condições, pois isso seria quase uma inclinação necrófila...

     O padre Otero, que na discussão parecia estar decididamente do lado do major Graça, dizia agora:

     - No entanto, as intrigas políticas contra Caxias continuaram no Rio de Janeiro.

     O major ergueu a mão com o dedo indicador enristado na direção do dr. Nepomuceno:

     - Agora vosmecê veja a nobreza desse homem de prol. Tendo tudo na mão: prestígio, coragem, força, um exército inteiro, ao invés de jogar todos esses trunfos na mesa em seu favor, preferiu escrever uma carta a Paranaguá, queixando-se amargamente desses homens que colocavam seus interesses pessoais acima dos da pátria e dizendo que, em vista de não lhe darem liberdade de ação, e do governo não lhe mandar os homens e o material pedidos, preferia resignar. Estava doente, cansado e desiludido.

     - A carta explodiu como um petardo no Rio de Janeiro - ajuntou o padre Otero, dirigindo-se desta vez ao dr. Winter. - Todos sabiam que Caxias era insubstituível. Caxias valia mais que todo um ministério.

     - Não diga isso, padre! - protestou o dr. Nepomuceno. - A guerra um dia termina e nós vamos precisar de homens da fibra de Zacarias e outros para reconstruir a nação.

     - Mas seja como for - disse o major - essa carta abalou o ministério e Zacarias compreendeu que estava diante duma nova crise. Viu que o imperador não hesitaria em sacrificar o ministério para não perder o seu grande general, para não perder a guerra!

     - Mas Zacarias não quis ceder a uma imposição da espada - recitou o dr. Nepomuceno com gravidade.

     - Era preciso salvar as aparências, achar um pretexto para renunciar.

     - Sempre os interesses individuais! - exclamou o major. - O que importava não eram os fatos, não era a solução da guerra, eram as aparências, o prestígio pessoal, a vaidade do ministro Zacarias.

     O dr. Winter não se pôde conter:

     - Mas o meu caro major não acha que a honra não é um privilégio dos militares, e que um civil pode achar que sua sobrecasaca e suas calças merecem tanto respeito quanto a farda?

     O major mirou o médico num silêncio meio irritado. E na expressão do rosto do militar Winter leu tudo quanto ele queria dizer mas calava:

     "Não se meta. Vosmecê é um estrangeiro".

     O padre Otero livrou o major de dar uma resposta, pois continuou a história:

     - Zacarias então achou um pretexto para resignar quando Sales Torres Homem foi nomeado senador do Império. Esse cidadão tempos atrás tinha feito grande oposição à família real em artigos escritos sob o pseudônimo de... como era mesmo? Ah! Timandro. O pretexto era ótimo. Zacarias saiu de cabeça erguida. Não fora derrubado pela espada dum general mas sim pela pena dum político.

     - E perdemos assim - concluiu Nepomuceno - o nosso mais ilustre estadista!

     - Mas ganhamos a guerra - observou o major.

     - Ganhamos?

     - Claro, López está perdido. A vitória agora é questão de meses...

     Winter viu com alegria entrar uma escrava com uma bandeja cheia de xícaras de café fumegante. Apanhou a sua, serviu-se de açúcar e, enquanto mexia o líquido escuro com a colherinha de prata ("Maurício de Nassau - afirmava Aguinaldo Silva - já tomou chá com estas colheres") perguntou:

     - Mas vosmecê não acha, major, que quando Caxias voltar da guerra triunfante e cheio de prestígio pessoal ele vai ser para este país o que Bismarck é para a Prússia?

     - Que quer dizer o senhor com isso?

     - Quero dizer que vai ser a verdadeira força por trás do trono, o homem que daqui por diante governará o Brasil...

     - Meu caro doutor, Caxias é um patriota e não um ambicioso!

     - Mas já se fala por aí em república. Suponhamos que Caxias...

     - Ah, isso é que nunca! Seria uma traição ao imperador e Caxias não é um traidor.

     Winter achou melhor não continuar. Homens como o major não sabiam discutir com calma. Tomavam tudo muito a peito, ofendiam-se com facilidade, só sabiam discutir com palavras e sentimentos grandiloqüentes: pátria, honra de classe, altruísmo, nobreza, heroísmo. Era impossível esfriar-lhes o entusiasmo e trazê-los a examinar os fatos com objetividade desapaixonada.

     - Nosso imperador é um sábio e um santo - disse o militar. - Nossa monarquia é considerada no mundo inteiro uma verdadeira democracia. O prestígio do nosso soberano é conhecido nos países mais civilizados do mundo. Falar em república nesta hora é um crime, uma traição que deve ser punida com fuzilamento.

     Lá vem ele com o seu, pelotão de fuzilamento - pensou o médico. E por contraste lembrou-se de seus poetas. Por um instante Goethe e Heine estiveram naquela sala, visíveis apenas para Winter. E quando seus fantasmas se sumiram, o médico exclamou:

     - O café está uma delícia!

     Os outros, com as xícaras nas mãos, fizeram um sinal de assentimento, menos o dr. Nepomuceno, que nunca tomava café à noite, pois sofria de insônia.

     Bibiana entrou com uma bandeja cheia de bolinhos de polvilho e saiu a distribuí-los. O major olhava para Luzia com seus olhos cálidos.

     - Fala-se em república, não há dúvida. - concordou ele, com mais calma. - Mas é meia dúzia de mocinhos que andam com as cabeças cheias de leituras exóticas e idéias extravagantes.

     - O mundo inteiro anda cheio de idéias extravagantes - opinou o padre Otero, cruzando os braços e atirando a cabeça para trás.

     - O que é extravagante hoje - observou o dr. Winter - pode ser muito natural e sensato amanhã.

     - É o progresso. - concluiu o dr. Nepomuceno, que mastigava um bolinho de polvilho. - É o progresso. - repetiu, expelindo com a última palavra um chuveiro de farelo.

     O padre Otero fez um sinal com a cabeça na direção de Bibiana:

            - Aqui a nossa prezada amiga não se conforma com o sistema métrico decimal.

     Muito tesa em sua cadeira, e sem tirar os olhos do rosto da nora, Bibiana disse:

     - É uma invenção triste. A gente estava muito bem como antes. Agora vem essa história de metro e quilo e centímetro e não sei mais o quê... Por que será que vivemos sempre macaqueando o que esses estrangeiros fazem?

     O padre sorriu.

     - Reformas como essas, dona Bibiana, não fazem mal a ninguém. O perigo está em certas idéias radicais que importamos da Europa. - E ao dizer estas últimas palavras olhou enviesado para o dr. Winter.

     - Um dia elas virão para ficar - retorquiu o médico, sorvendo um gole de café - quer vosmecê queira, quer não queira.

     Nesse instante Luzia falou pela primeira vez depois que Winter entrara:

     - Vosmecês não acham que estamos vivendo numa época muito interessante? - perguntou ela, passeando os olhos em torno.

     Que se passa com essa voz de viola? - perguntou o Dr. Winter a si mesmo. Não tinha mais a veludosa profundeza de outros tempos: estava cansada e gasta.

     - Eu acho - respondeu ele em voz alta - que todas as épocas são interessantes. O essencial é a gente estar vivo...

     Luzia pareceu animar-se.

     - Mas não, doutor. Veja bem. Quanta coisa está acontecendo no mundo hoje! Basta ler um jornal.

     Assanhada! - dizia Bibiana em pensamento, olhando para a nora. Está doente, com um tumor na barriga, anda que nem pode de dor e no entanto fica aqui embaixo conversando. Por quê? Só porque tem homem em casa. Assanhada!

     - A guerra civil nos Estados Unidos... - enumerava Luzia. - A libertação dos escravos, a morte de Abraão Lincoln... Ah! e a maravilhosa história de Maximiliano, imperador do México... Ainda ontem estive lendo a respeito dele num almanaque.

     - Mas que é que vosmecê vê de tão maravilhoso na aventura infeliz desse austríaco? - perguntou Winter. - Não passou de um fantoche nas mãos de Napoleão II, esse outro maluco que está convencido de que é mesmo Napoleão Bonaparte.

     - Vosmecê conhece bem a história de Maximiliano, doutor?

     - O suficiente para julgá-lo um idiota.

     Luzia sacudiu a cabeça com ar de desaprovação.

     - Pois eu gostaria de ser a imperatriz Carlota... - murmurou.

     Está louca! - exclamou Bibiana em pensamento. Decerto o tumor já está atacando a cabeça dela. Onde se viu? A imperatriz Carlota!

     O major Graça olhava para Luzia com olhos cheios de apaixonada admiração. O padre Otero balançava-se na sua cadeira e escutava tudo a sacudir a cabeça lentamente, numa silenciosa mas decidida reprovação. O dr. Nepomuceno parecia ter mergulhado num de seus cochilos intermitentes.

     - Pense bem na história, doutor - continuou Luzia. - Um arquiduque austríaco que viajou por todo o mundo, um belo homem de pele clara e olhos azuis, um homem educado, um homem bom, e de repente se vê imperador dum país de índios de cara de bronze, um país tão diferente da Áustria como a noite do dia. E E vosmecê já pensou no papel da imperatriz Carlota quando foi falar com Napoleão II para lhe pedir que não abandonasse Maximiliano?

     - Perdeu o seu latim. - interrompeu-a Winter.

     - Mas que importa?

     - E acabou transtornada do juízo. - acrescentou o doutor, tomando o último gole de café.

     - E tudo isso não é belo?

     O dr. Nepomuceno abriu os olhos e manifestou-se:

     - Não acho nada belo. Não há nada mais sublime que o juízo perfeito, a lucidez das idéias.

     - Mas o mundo dos sãos é um mundo triste. - sorriu Luzia. - O mundo dos loucos, esse sim, deve ser maravilhoso e sempre cheio de coisas novas e fantásticas.

     Vosmecê é que pode dizer - pensou Bibiana. E lançou para a nora um olhar carregado de censura e rancor. Achava quase indecente que uma viúva ainda moça estivesse a conversar aquelas coisas com homens. Aquilo positivamente não era assunto de mulher.

     Via-se que o major Graça estava fascinado; aquele sortilégio parecia roubar-lhe a voz.

     - As pessoas normais - continuou Luzia - são as mais sem graça do mundo.

     Winter olhou para o major e leu espanto e decepção em seu rosto. O padre Otero sacudiu a cabeça, penalizado.

     - Vosmecê precisa vir à igreja, confessar-se e depois tomar a comunhão, dona Luzia.

     Havia anos que o vigário insistia em trazer aquela ovelha negra para o seu rebanho - refletiu o médico. Luzia, porém, recusava-se, com uma obstinação e uma coragem que ele, Winter, não podia deixar de admirar. Sabia que ia morrer e seria natural que diante da incerteza do que pudesse haver para além da morte, ela tentasse uma reconciliação com Deus através da Igreja.

     - Fiz um donativo em dinheiro para as obras da igreja, padre - replicou ela. - É o mais que posso dar.

     - Mas nós queremos também a sua alma, dona Luzia.

     - Vosmecê tem certeza de que eu tenho uma alma?

     O major empertigou o busto e olhou para o padre com espanto. O dr. Nepomuceno ficou de boca aberta a mirar a dona da casa.

     - Não diga uma coisa dessas, dona Luzia! - exclamou o vigário. - Que Deus lhe perdoe! Nunca mais diga uma coisa dessas.

     Por que é que ela não vai pra cama dormir! - perguntava Bibiana em agonia. Por quê? Por causa do major. Quer ficar aqui se mostrando pra ele. Por isso diz coisas que não devia, coisas que só uma mulher perdida pode dizer.

     Luzia levou os dedos à altura do estômago e ficou como que a acariciar o tumor.

     - E depois - continuou ela, como se não tivesse ouvido as palavras do padre - temos todos esses inventos maravilhosos: o vapor, a estrada de ferro, o telégrafo...

     - Não sei aonde essas engenhocas todas nos vão levar - observou o padre, com um gesto de quem queria empurrar para o futuro uma preocupação que ao futuro pertencia.

     Winter sentiu que a conversa entrava num terreno que lhe era agradável pisar. Por intermédio de Von Koseritz recebia jornais da Alemanha e acompanhava, com o interesse de quem lê uma novela fascinante, a marcha das idéias políticas na Europa. E o fato de ele estar em Santa Fé - por assim dizer num outro planeta - tornava todas aquelas coisas mais esquisitas ainda.

     - Há uma idéia em marcha, senhores - disse ele. E, em seguida, percebendo que tinha ficado com ar teatral, sorriu, achando-se ridículo. Ergueu-se, enfiou ambas as mãos nos bolsos das calças, caminhou até a janela, olhou para fora, viu a figueira na noite morna e calma e lembrou-se duma madrugada em que encontrara ali Florêncio e Bolívar a conversar... Os outros esperavam em silêncio.

     - Que idéia? - perguntou o padre, com o ar provocador de quem já sabia o que o outro ia responder.

     - Ainda a idéia da Revolução Francesa.

     - Ora! - fez o padre. - Ora!

     - Uma idéia cuja marcha - continuou o médico - a vossa Santa Aliança se esforçou por deter.

     O major, que brincava distraído com a fivela dourada do cinturão, soltou no ar a poeira de sua voz:

     - Vosmecê não poderia esclarecer melhor seu ponto de vista? Na minha fraca opinião, a Revolução Francesa...

     Calou-se de súbito, ficou olhando para Luzia e não disse o que era a Revolução Francesa na sua fraca opinião. O dr. Winter interveio:

     - Napoleão Bonaparte atrasou o relógio da História com suas guerras de conquista. Em suma: traiu a Revolução.

     - Não diga tamanho absurdo, doutor! - protestou Erasmo Graça, entesando o busto e ficando sentado na ponta da cadeira.

     Solidariedade de classe - pensou Winter.

     - Deixem o doutor explicar seu ponto de vista - pediu Luzia.

     - O ponto de vista não é propriamente meu. Mas eu o aceito. Li-o em algum livro ou artigo de jornal.

     O padre Otero não perdeu a deixa e resmungou, irônico:

     - Se o ponto de vista não é seu, como pode ser bom?

     Winter sorriu.

     - Os outros às vezes pensam e dizem coisas inteligentes... - replicou ele, inclinando-se numa paródia de mesura.

     E prosseguiu:

     - Havia uma idéia liberal nascida da Revolução Francesa...

     - Revolução essa - atalhou o vigário - que não passou duma conseqüência das idéias heréticas de livres-pensadores como Voltaire, Diderot e outros.

     - Vosmecê me desculpe, padre, mas acho que o peso dos impostos influiu mais na balança que o das idéias dos enciclopedistas. As causas da Revolução Francesa foram mais políticas e econômicas do que propriamente intelectuais.

     - Vosmecê fala como se a política da França do século passado fosse a política local de hoje.

     - A proximidade em que me encontro no tempo e no espaço da política de Santa Fé só me confunde e prejudica a visão. A distância geográfica e histórica em que estou da Revolução Francesa só pode dar-me uma perspectiva melhor, principalmente quando eu a contemplo trepado nos ombros de gigantes como Carlyle e outros.

     Luzia apoiou-o:

     - Quando estamos diante dum quadro não nos afastamos dele para apreciá-lo melhor?

     - Aí está... - disse Winter. E, mudando de tom, continuou: - A nobreza e o alto clero da França viviam à tripa forra e quem pagava as contas era a burguesia. Os camponeses vegetavam num estado de servidão que não era muito melhor que o que prevalecia na Idade Média.

     - O clero é sempre o bode expiatório - exclamou o padre, dando uma palmada na coxa.

            - Em suma - e neste ponto o dr. Winter abriu ambos os braços - descontados erros, violências, matanças inúteis, vinganças e ódios pessoais, dessa Revolução sobrou alguma coisa. E essa alguma coisa sobreviveu também às guerras napoleônicas.

     - E se me faz favor - perguntou Nepomuceno, olhando significativamente para o major Graça - que vem a ser essa "alguma coisa"?

     Winter esclareceu:

     - Os Direitos do Homem, as liberdades inalienáveis do indivíduo, o direito que cada cidadão tem à liberdade, à propriedade e à segurança. A liberdade de imprensa, de culto e de palavra para todos, sem nenhuma distinção.

     - Patacoadas! - exclamou o vigário. - Liberdade? Para que é que o povo quer liberdade? Para ser ateu, herege, licencioso? Liberdade para tomar a mulher do próximo? Liberdade para caluniar, mentir, ofender? Liberdade para quebrar os mandamentos divinos? Libertinagem, isso era o que queriam esses senhores da Revolução Francesa.

     - Eu não esperava outra reação da parte de vosmecê. - disse o dr. Winter.

     O major perguntou:

     - E vosmecê acha, doutor, que essas idéias foram alguma vez postas em prática?

     - Eu já disse que Napoleão atrasou o relógio da História. Ainda há países que não saíram de todo das sombras da Idade Média. Mas em certos círculos do mundo floresce o pensamento liberal. A semente foi lançada. Não resta a menor dúvida.

     - Mas o grosso do povo - interveio o dr. Nepomuceno - esse continua no mesmo.

     - Exatamente.

     - E há de continuar sempre - replicou o major.

     - Não vejo razão para fazer-se uma afirmativa tão categórica.

     - Essa igualdade com que os senhores liberais sonham - insistiu o militar - pode muito bem significar desordem, desrespeito e anarquia.

     - Eu compreendo muito bem que vosmecês prefiram a idéia da monarquia, da manutenção dos privilégios da Igreja e da nobreza, e da submissão do povo.

     - E para a mulher - interveio Luzia - uma posição idêntica à que ela tinha na idade do obscurantismo.

     Por que é que ela não fica de boca fechada? - perguntava Bibiana a si mesma. A atitude da nora lhe dava uma vergonha tão grande que ela como que sentia formigas lhe passearem pelo corpo. Por que é que essa sem-vergonha não vai pra cama?

     - Se o padre Otero pudesse - disse ainda Luzia, sorrindo - ele erguia uma muralha para evitar que as invenções e as idéias novas da Europa entrassem no Brasil.

     - Não seremos mais felizes nem melhores - replicou o sacerdote - por adotarmos essas tais "idéias novas" e essas engenhocas fedorentas, não é, major?

     O militar fez um gesto de indecisão.

     - Não vejo nenhuma incompatibilidade entre o progresso, a decência e as nossas tradições políticas e religiosas - declarou ele.

     - E quais são essas tradições? - perguntou Carl Winter. O major hesitou por um instante e depois disse:

     - Na política, a idéia conservadora. Na religião, o catolicismo. De resto, não estamos ainda preparados para ter todos esses inventos e novidades.

     - Ainda teremos de esperar muito pelas estradas de ferro e pelo telégrafo. Pelo menos nesta província.

     - Graças a Deus! - exclamou o vigário.

     Winter deu de ombros. Fosse como fosse, ele não podia imaginar uma locomotiva entrando em Santa Fé, cortando o silêncio dos campos com seu apito e sujando aqueles belos céus com a fumaça escura de sua chaminé.

- É uma pena que a gente não possa viver cem anos para ver tudo isso... - murmurou Luzia. E com estas palavras criou um silêncio de constrangimento.

 

     Pouco antes das dez horas o vigário e o dr. Nepomuceno fizeram suas despedidas e retiraram-se. O major Graça, entretanto, permaneceu sentado. A princípio fez-se um silêncio um pouco difícil, como se todos os assuntos se tivessem esgotado. Bibiana não tirava os olhos da nora. Winter percebia claramente que o major ainda tinha esperança de poder ficar a sós com Luzia aquela noite, nem que fosse por um breve momento. Sabia, porém, que Bibiana estava decidida a não arredar pé dali. O oficial pigarreou, olhou para o médico como para lhe pedir que começasse um assunto, e como o outro permanecesse calado, a mirá-lo com seus olhos irônicos, ele olhou na direção da janela e disse:

     - Está uma linda noite.

     - E nem parece - observou Luzia - que a esta hora homens estão se matando em terras do Paraguai. Não é extraordinário? Neste exato instante, um soldado está enterrando a sua baioneta no peito dum inimigo. E numa sepultura perdida no campo o cadáver dum oficial brasileiro está se decompondo. Estou vendo as dragonas dele sujas de terra. - Luzia olhava intensamente para o major. - E os cabelos e as barbas dele estão ainda crescendo. É mesmo verdade que os cabelos da gente continuam a crescer depois que morremos?

     O major tinha agora no rosto uma expressão de perplexidade. Em vez de responder, Winter disse:

     - A esta hora, em algum outro lugar do mundo, alguém pode estar compondo uma sonata ou escrevendo um verso.

     - Ou fazendo alguma coisa que preste. - atalhou Bibiana.

     - Bom - disse o médico de repente. - Preciso ir embora. É tarde.

     - Fique mais um pouco, doutor - pediu Bibiana. - Preciso falar com vosmecê.

     O major ergueu-se, deu um puxão na túnica e disse:

            - Vou fazer as minhas despedidas. Volto amanhã para o campo de batalha.

     Winter achou a expressão "campo de batalha" um pouco teatral, mas perdoou ao major. Ele estava diante de sua bem-amada: precisava impressioná-la.

     - Minha missão em Santa Fé está terminada. - continuou ele. - Quero agradecer às senhoras - fez um sinal com a cabeça abrangendo sogra e nora - e a vosmecê, doutor, por todas as considerações que me dispensaram...

     Winter, repetindo uma fórmula corrente na província, disse:

     - Vosmecê é merecedor.

     Bibiana permanecia de lábios apertados, sem tirar os olhos do oficial.

     - Peço a Deus - prosseguiu ele - que um dia eu possa voltar a esta terra de onde levo as mais gratas recordações...

     Winter contemplava Luzia, que acariciava o tumor com a ponta dos dedos.

     - Dona Luzia - prosseguiu o major - não posso ir-me embora sem lhe dizer da grande impressão que vosmecê me causou. Confesso que nunca encontrei em toda a minha vida dama mais culta nem mais virtuosa, isso para não falar na sua formosura.

     A emoção apagava ainda mais a voz de poeira. Bibiana trocou com o médico um olhar travesso.

     - Vosmecê é muito bondoso, major. - murmurou Luzia.

     - Diga antes que sou justo. Há mais uma coisa que vou pedir a Deus. É que no dia em que eu voltar a Santa Fé possa ter o prazer e a honra de revê-la.

     Luzia estendeu ambas as mãos sobre a tampa do estojo da cítara.

     - Não, major - disse ela. - Quando vosmecê voltar da guerra e quiser me ver, não é nesta vila que deve me procurar. É num outro lugar, muito mais quieto e mais triste que este. Fica no alto duma coxilha.

     - O cemitério - explicou Bibiana quase sem sentir, temendo que o major não compreendesse a alusão.

     Erasmo Graça olhava com ar perdido para Luzia, que voltou a cabeça para a sogra e confirmou:

     - É isso mesmo. O cemitério.

     - Por favor, minha senhora - exclamou o militar - não diga isso.

     Os dedos de Luzia acariciavam as incrustações de madrepérola do estojo.

     - Todo mundo sabe que não tenho vida para muito tempo. Se duvida, major, pergunte ao dr. Winter.

     Por um instante Erasmo Graça ficou sem saber que fazer.

     - Deus é grande - disse de por fim. - E Deus não é cruel.

     Ninguém ouviu a risada seca e sarcástica que dona Bibiana soltou; porque ela riu em pensamento. Riu como se só ela conhecesse o caráter de Deus.

     Na expectativa de que alguém ali dissesse uma palavra de esperança, mesmo que fosse uma palavra hipócrita, o major olhava do médico para a velha.

     - Mas não é possível - tartamudeou ele - deve haver um remédio... Deve haver recursos, em Porto Alegre, no Rio, quem sabe se na Europa...

     Luzia sacudia a cabeça lentamente, numa serena negativa.

     - Para meu mal não há remédio, major. Mas não se aflija. A maior interessada no caso sou eu. Estou resignada.

     O oficial olhava perdidamente para o bico das próprias botinas.

     - A vida é bem triste - murmurou ele. - Hoje estamos aqui, amanhã...

     Não completou a frase.

     - Mas para quem mora em Santa Fé - replicou Luzia - tanto faz estar em cima da terra como debaixo dela, é a mesma coisa...

     Louca varrida - pensava Bibiana. - Não sabe o que diz. O major permaneceu um instante num silêncio de constrangimento. Por fim deu um passo na direção de Luzia e disse:

     - Então adeus, dona Luzia. Que Deus vos abençoe e guarde.

     Tomou-lhe da mão e beijou-a respeitosamente. Depois apertou a mão de Bibiana e murmurou:

     - Muito agradecido por tudo, minha senhora. - Voltando-se para o doutor, perguntou: - Vosmecê vai também?

     - Eu fico, major.

     Apertaram-se as mãos em grave silêncio. Bibiana acompanhou o oficial até a porta sem dizer palavra. Mas quando o viu sair para a rua, ainda de quepe na mão, deixou escapar um quase involuntário:

     - Vá com Deus!

     Através da fresta da porta ficou acompanhando com os olhos o vulto de Erasmo Graça, que atravessava a rua na direção da praça. Um cheiro morno de vento que passou por muito campo lhe chegou às narinas. O vulto do major sumiu-se nas sombras das árvores. Bibiana ficou olhando fixamente para o lugar onde Bolívar tinha caído morto...

     Quando voltou para a sala, Luzia já se havia recolhido e o dr. Winter começava a acender um de seus charutinhos.

     - Então? - perguntou o médico, erguendo as sobrancelhas. Bibiana sentou-se pesadamente numa cadeira e deixou escapar um suspiro de alívio.

     - Desse estamos livres, pelo menos por enquanto.

     Winter gostou daquele verbo no plural. O estamos de certo modo o incluía na grande conspiração.

     - Sabe que estive na casa do Florêncio hoje de manhã? - perguntou ela. Winter sacudiu a cabeça negativamente. - Pois estive. Aquele menino é teimoso como uma mula.

     - É um Terra.

     - Está roendo um osso duro mas não se entrega. É tão orgulhoso que não quis aceitar nenhum ajutório meu.

     - Vosmecê bem sabe por quê.

     - Sei. Mas é uma bobagem. O dinheiro a bem dizer é do primo dele.

     O dinheiro é do velho Aguinaldo - pensou Winter - e, por sinal, dinheiro muito mal ganho. Mas não deu voz a essa reflexão. Limitou-se a fazer um gesto vago.

     - Eu quis emprestar um dinheirinho pro rapaz comprar umas cabeças de gado e começar uma criação. Também ofereci em arrendamento um pedaço do Angico. Ele só sabia era sacudir a cabeça e dizer: "Não carece, titia. Não carece. Já tenho um negócio em vista". Pura invenção. Não tem nada.

     - Como é que a família tem vivido?

     - A mulher faz renda de bilro pra fora e o Florêncio faz uns laços, uns lombilhos e vende por aí. Mas isso não chega pra dar de comer pras cinco bocas que tem em casa.

     Fez uma pausa durante a qual ficou alisando um friso imaginário na saia. Depois:

     - É verdade que o Florêncio vai ficar com a perna dura pró resto da vida?

     - Boa como antes a perna não ficará. Mas acho que ele poderá andar a cavalo e caminhar sem muleta.

     Bibiana soltou um suspiro de pena.

     - Coitado! Merecia outra sorte. É um homem de bem como o pai. Seja como for, voltou da guerra. Muitos não voltaram. Pois é, doutor. Às vezes eu penso que Deus escreve direito por linhas tortas. Se o Bolívar não tivesse sido assassinado pelos capangas do Amaral, ele decerto tinha ido pra essa guerra e talvez já tivesse morrido.

     - Também podia ter morrido de cólera-morbo em Porto Alegre...

     - Ou podia ter nascido morto.

     - É como lhe digo sempre. Não adianta a gente se preocupar. O que tem de ser traz força.

     - Às vezes, sentada nesta cadeira, fico pensando, pensando e não chego a compreender direito o que é que Deus quer da gente.

     - Talvez nem Ele mesmo saiba.

     - Dizem que fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Mas por que foi que fez o mundo? Pra ficar depois vendo a gente penar aqui embaixo? Será que Deus é como ela, que gosta de ver o próximo sofrendo? Deus me perdoe!

     A religião de dona Bibiana - refletiu Winter - era muito curiosa. Tudo indicava que ela ia à rnissa por puro hábito, porque antes dela sua mãe e sua avó também tinham ido. Tratava os santos de igual para igual e em certas ocasiões revoltava-se contra eles com o mesmo fervor com que noutras lhes invocava a ajuda.

     De resto - sorria Winter para seus pensamentos - as relações entre os habitantes da província e os santos eram singularíssimas. As solteironas que faziam promessas a Santo Antônio para que ele lhes desse um marido, quando não viam seus desejos satisfeitos tratavam de castigar o santo casamenteiro, pondo-lhe a imagem dentro d'água, de cabeça para baixo, e só livrando-a dessa penitência quando um pretendente aparecia. Mais de um crente lhe assegurara que não se devia nunca deixar bebida perto da imagem de Santo Onofre, "pois o diabo do santo é cachaceiro".

     - De vez em quando penso na minha mãe - prosseguiu Bibiana com sua voz calma e seca - no meu pai, na minha avó e no que eles fizeram e sofreram, e nos trabalhos que passaram. De que serviu tudo isso? Me diga, de que serviu? Aqui estamos nós sofrendo, considerando, trabalhando, esperando. Primeiro esperei o meu marido que foi pra guerra; e no dia que voltou só tive ele por uns minutos, e logo em seguida foi morto pelos bandidos dos Amarais. Esperei que o Boli nascesse, que ele crescesse e tivesse um filho. Agora Boli está morto, o filho está crescendo e eu esperando que ele fique homem. Minha avó esperou muitas vezes o filho que tinha ido pra guerra. Uma vez fiquei na minha cadeira me balançando dum lado pro outro e esperando o Boli, que tinha ido brigar com os castelhanos. Agora está aí essa outra guerra braba que não acaba mais. Minha Nossa Senhora! Faz mais de cinco anos que começou!

     Bibiana calou-se e pensou naquele medonho julho de 1865. As tropas paraguaias tinham invadido a província e saqueado São Borja. Contava-se que passaram cinco dias a levar em canoas para o território argentino tudo quanto podiam roubar na vila brasileira. Não respeitaram nem as igrejas! Eram uns índios bandidos e quando bebiam cachaça ficavam piores que demônios. Ante a notícia de que uma coluna paraguaia avançava rumo de Santa Fé, a gente ali na vila começara a preparar-se para fugir. Durante muitos dias mulheres, velhos e crianças estiveram de trouxas feitas, os tarecos dentro das carretas, os cavalos encilhados - tudo pronto, enfim, para a fuga. Haviam sido dias e noites de susto e agonia. Mas ela, Bibiana, tinha dito desde o princípio: "Da minha casa não saio". Traçava já seu plano: mandaria Licurgo com Fandango para longe e ficaria esperando os paraguaios sentada na sua cadeira de balanço ali mesmo no meio da sala...

     - Se esta guerra dura mais dois anos - murmurou ela - o Curgo é capaz de se apresentar voluntário. Quando penso nisso, sinto até um frio na barriga.

     - Não tenha cuidado. A guerra não dura nem três meses mais.

     - Quem sabe? Sempre acontece o pior. Esse Solano López parece que tem sete fôlegos.

     - Pois agora ele vai perder o sétimo.

     - Tomara que vosmecê tenha razão. Mas não sei... Bibiana voltou a cabeça e olhou demoradamente na direção da escada.

     - Sabe da última, doutor? - Baixou a voz. - Ant'ontem ela conversou muito tempo com o Curgo. Era nisso que eu queria lhe falar...

     - Vosmecê ouviu a conversa?

     - Não, mas ele me contou tudo. Essa mulher perguntou se o menino queria ir embora com ela.

     - E que foi que ele respondeu?

     - Respondeu que não, bem como eu esperava. Mas tanta coisa ela fez que acabou fazendo o Curgo chorar.

     - Mas Luzia pensará mesmo em ir embora?

     Bibiana não respondeu. Ficou por um instante a olhar para o soalho e depois, quase num cochicho:

     - Será que ela vai durar muito ainda? - perguntou, sem erguer os olhos.

     Winter hesitou por breves segundos.

     - Pode ser que dure ainda alguns anos, mas pode ser que dure apenas alguns meses.

     - Deus me perdoe, mas...

     Calou-se de súbito, como que se arrependendo em tempo do que ia dizer.

     - Não precisa dizer o resto. Eu sei o que vosmecê está pensando.

     - Sou uma mulher muito malvada, não sou, doutor?

     - Absolutamente. Acho que vosmecê é uma pessoa muito prática e muito sincera.

     - Não fica me querendo mal, então?

     - Claro que não.

 &nb