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O CORREIO DO ARIZONA / King Drake
O CORREIO DO ARIZONA / King Drake

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CORREIO DO ARIZONA

 

     Nem sempre o progresso é bem-vindo por todos, ainda mais quando contraria interesses de poderosos e desonestos.

     Boatos de que havia ouro em Basket City atraiu para a cidade a escória da humanidade. Bandidos, garimpeiros fracassados, violentos jogadores e pistoleiros vindos de toda a parte invadiram a cidade tirando a tranquilidade de seus moradores.

     Tudo começou a mudar com a chegada de Dane Rogers, secretamente representante da Companhia encarregada de levar a modernidade dos trens a essa região tão inóspita.

     Para levar a bom termo sua missão, teria que agir com inteligência, coragem e fazer uso de armas.

     Nadine, filha de um rancheiro da cidade não fazia questão de esconder o ódio que sentia por Rogers. Mas, como todos sabem, a linha que separa o ódio do amor é muito tênue...

    

     Há muito tempo, as cidades do Arizona, perto do rio Colorado não tinham meios de comunicação.

     Algumas carroças cruzavam o deserto, bem escoltadas.

     E o correio era levado por um cavaleiro, escolhido sempre entre os mais audazes e valentes, que enfrentavam inúmeros perigos.

     Havia bandidos, gente sem escrúpulos e, de Prescott a Phoenix, não se podia contar com uma trilha segura.

     Do outro lado do rio Colorado ficava a Califórnia e ao Sul a divisa mexicana, um bom lugar para escapar da Lei.

     Assim, o Arizona tornara-se lugar de bandidos, garimpeiros fracassados, violentos jogadores, pistoleiros e toda a escória da humanidade.

     Basket City, a oeste de Prescott e perto do Colorado, era uma cidade pobre, com suas casas de madeira e ruas poeirentas.

     Apesar disso, a cidade começava a ser bastante visitada e seu tamanho aumentou consideravelmente, ganhando em número, mas perdendo em qualidade.

     Havia boatos de que fora descoberto ouro nas cercanias, o que atraiu uma multidão que chegava de todas as maneiras.

     Robin Bulliver, o dono do “A Flecha”, foi o autor dos boatos e, com isso, conseguiu transformar seu miserável bar em saloon e hotel, do dia para a noite.

     Rapidamente, Bulliver conseguiu aumentar seu estabelecimento e foi no dia da inauguração que um forasteiro chegou de Tucson.

     Seu nome era Oliver Hoxley, tinha boa estatura, vestia-se bem e falava com muito conhecimento. Hoxley procurou logo Bulliver.

     — Vim ganhar muito dinheiro e não me negarei a reparti-la com quem me ajudar. O mundo está cheio de tolos. Pode nos colocar numa mesa de jogo no A Flecha. Dividiremos os lucros meio a meio.

     — Trato feito — Bulliver apertou a mão do forasteiro, sem o menor escrúpulo.

    

     Montado num zaino¹ de crinas e rabo aparados, um cavaleiro cruzou a pradaria na direção de Basket City. Era forte, cabelos avermelhados e rosto cheio de sardas. Teria uns vinte e cinco anos e os olhos azuis demonstravam otimismo.

     O cavaleiro ia tocando uma harmônica, mas parou ao ver o cavalo desviar-se do caminho.

     — Ande Wise², não se distraia ou esquecerei o significado do seu nome! — parou, percebendo os abutres voando em círculo, logo adiante.

     Seguiu para aquele ponto e desmontou, examinando o revólver. Esquadrinhou o terreno e viu o corpo estendido entre a vegetação. Podia ver apenas as pernas que terminavam nas botas com esporas.

     Os abutres levantaram voo, com gritos de protestos.

     O sardento inclinou-se, virando o corpo caído. Verificou que estava morto e parecia um vaqueiro. No entanto, a camisa de excelente qualidade e as mãos cuidadas desmentiam tal julgamento.

     Lentamente, o homem examinou o corpo, encontrando um pequeno orifício, mal perceptível, nas costas, sob o ombro esquerdo. O projétil era de pequeno calibre, sem dúvida alguma, e o corpo ainda estava quente.

     O sardento revistou o corpo e encontrou um pequeno mapa, toscamente traçado. Um mapa de uma mina com quatro raios com as palavras: Arroio Worm. Trilha mina. Vai e Looking. 34 metros. N.O.

     Naquele instante, o sexto sentido do sardento avisou-o do perigo e ele virou-se a tempo de lançar-se para o chão no instante que soava um tiro e a bala passava perto de sua cabeça.

     Percebeu serem dois os atacantes e olhou em torno, vendo um pinheiro gigantesco bem próximo.

     — Saia de mãos para o alto ou não escapará com vida!

     — Não sei quem são nem o que pretendem, mas tentaram me matar! — berrou o sardento.

     Uma nova chuva de chumbo desabou sobre o local onde o homem se encontrava, fazendo saltarem fragmentos de rocha. O sardento ergueu cuidadosamente a cabeça e viu um dos agressores. Disparou, arrancando-lhe o revólver da mão, obrigando-o a soltar um grito.

     Era preciso poupar sua munição.

     Decidido, o sardento arrastou-se, dando a volta pelo terreno, sempre de rastros. Foi quando sentiu um golpe terrível que o fez estremecer e, antes que pudesse reagir, desmaiou.

     Quando o sardento voltou a si, estava de rosto para o céu e sentia-se muito mal. Seu chapéu e o revólver estavam perto, mas, por mais que se esforçasse, não conseguiu alcançá-los.

     Sentia dor de cabeça e ouviu um bater sinistro de asas.

     Tentou mover-se novamente e acabou rolando pelo terreno inclinado. Acabou com a cabeça na sombra e tentou lutar contra o princípio de insolação.

     Não sabia quanto tempo ficara ali e uma dor aguda na mão esquerda obrigou-o a gemer e virar-se a tempo de ver o abutre que se afastou, assustado com seu ruído.

     A mão esquerda começou a sangrar com a bicada da ave cujas companheiras voavam em círculos cada vez mais baixos.

     O sardento sentou-se e assoviou. Um relincho respondeu-lhe e, pouco depois, Wise aproximava-se, afugentando as aves negras.

     — Pegaram-me à traição, Wise. Pela primeira vez, Dane Rogers foi derrotado, mas ainda está vivo. Prometo que vão me pagar por isso, amigo! — Dane rebuscou no bolso da camisa e percebeu que o mapa lhe fora tirado.

     Ergueu-se e apoiou-se no cavalo. Olhou em torno e viu que o cadáver do dono do mapa desaparecera também.

     Dane passou a mão na cabeça e sentiu o sangue seco no ferimento. Tomou um gole da água do cantil. Subiu num ponto mais alto e não viu nada em torno. Recolheu o revólver e o chapéu e, pouco depois, montava o zaino, dirigindo-se a Basket City.

    

     Dane viera até Basket City atraído pelo boato de ouro. Era um homem prudente e corajoso, mas tinha em seu passado algum acontecimento que jamais conseguiria apagar.

     Em Tucson, amara uma mulher que fugira com outro homem. Desde então, Dane nunca mais a vira.

     Dane transformara-se num andarilho que percorria o território do Arizona.

     Quando o dinheiro acabava, procurava trabalho, e o deixava, tão logo reunisse alguns dólares.

     Talvez, no fundo de seu coração ainda abrigasse a esperança de encontrar Margarida, a mulher que o abandonara.

     Mas agora só queria ganhar dinheiro e a febre do ouro assaltara-o, obrigando-o a ir até Basket City.

     Entrou na cidade já de noite e procurou hospedagem no A Flecha.

     Deixou o cavalo no estábulo, bem tratado. Afinal, Wise era seu maior tesouro.

     Jantou e foi dormir, apesar da insistência de Bulliver para que jogasse e sua curiosidade em saber a causa do ferimento na cabeça.

     — Caí do cavalo — replicou Dane.

     — Pois não diga a ninguém ou os vaqueiros vão rir de você — aconselhou o dono do hotel-saloon.

     — Homem, ninguém ri de mim — Dane acentuou as palavras.

     Bulliver indicou-lhe o quarto número quatro e mandou o empregado levá-lo ate lá. O homem, baixo e rechonchudo, apresentou-se como Pipo Fletchcr e ouviu a pergunta de Dane.

     — Encontraram muito ouro?

     — Não chegou para uma xícara de café, mas dizem que há ouro na região. A cidade está cheia de forasteiros. Alguns já desistiram e foram embora, outros procuram trabalho onde podem. Eu também vim de Phoenix atrás de ouro, mas o dinheiro acabou e fiquei como empregado do A Flecha.

     — Tinha muitas esperanças... Mas veremos.

     — Trabalho não vai faltar. Falam que vão iniciar a construção de uma estrada de ferro e também madeireiras perto do Rio Colorado.

     — O movimento lá embaixo é grande? — Dane sentou-se e fez sinal indicando o saloon.

     — Até uma ou duas da manhã e, às vezes, há confusão.

     — E o xerife?

     — Foi morto há três dias.

     — Por que não escolhem outro?

     — Não há candidato. De vez em quando os soldados aparecem para estabelecer uma paz passageira.

     — Sabe onde fica o arroio Worm?

     — Já ouvi falar. Parece-me que no vale Looking a uns vinte quilômetros a Oeste. E, se quer um conselho, não fique nesta cidade. Só lhe digo isso por que simpatizei com você.

     — Obrigado, mas vim ganhar dinheiro e vou ficar.

     — Precisam de um correio e pagam bem, mas o risco é grande. O último correio foi morto e roubado no Cannion do Búfalo.

     — Talvez sirva se eu não encontrar outra coisa.

     Bulliver gritou por Pipo e este se despediu.

     Pipo retirou-se e Dane fechou a porta, trancando-a e colocando uma cadeira junto da maçaneta. Deitou-se c dormiu sem se incomodar com o ruído vindo do saloon.

    

     Naquela noite, o A Flecha estava cheio e, entre os clientes, encontravam-se os rancheiros das propriedades Veleta e MB, além de vários comerciantes que tentavam escolher um correio que fosse, semanalmente, para Prescott, levando e trazendo correspondência.

     A um canto do local, um homem meio embriagado, cantava uma triste canção, acompanhado por um banjo.

     — Cale-se, Sinclair! — berrou Sam Mac Murray, dono do rancho MB. — Está atrapalhando com seu canto.

     O tocador calou e levou o banjo até o balcão para que o guardassem.

     Oliver Hoxley, o jogador, acabava de sentar-se ao lado de dois homens que pareciam vaqueiros. Outro se reuniu ao trio e iniciaram uma partida de pôquer.

     Bulliver exigiu que Haas, o pianista, começasse a tocar. Ao ouvir as primeiras notas encostou-se ao balcão. Estava aborrecido, pois muita gente começava a deixar a cidade, desesperançada quanto a encontrar ouro.

     — Foi só uma história! — dizia Jones Lark, um homem gigantesco. — Há oito dias que cavo sem encontrar ouro algum!

     — Não desespere. Cedo ou tarde vai encontrar ouro— ponderou Bulliver.

     — Se já não encontraram — falou Dane, colocando-se no centro do local e chamando a atenção de todos.

     O pianista parou de tocar e até os jogadores voltaram a atenção para Dane.

     Hoxley olhou o forasteiro e considerou-o um estorvo e um inimigo em potencial.

     — Ora, não liguem para o que está dizendo! — falou Hoxley.

     — Por que não? — ponderou Jones. — Fale, homem!

     Sem responder ao jogador, Dane falou:

    

     — Não devia se intrometer, homem! — encarou Hoxley. — Não gosto que me interrompam!

     — Por que não deixa o saloon? Hoxley ergueu-se. — Não devia procurar encrenca.

     — Sei o que me convém.

     — Homem, não tenho paciência! — avisou o jogador.

     — Nem eu! — retrucou Dane, sorridente, contemplando Hoxley. Viu-o buscar o revólver. — E não devia fazer isso. Ainda é jovem para querer morrer!

     — Não é aqui que devemos liquidar nossas diferenças.

     — E pretende atacar-me pelas costas? Hoxley soltou um palavrão, sacou e provocou a debandada dos clientes para os lados. Todos julgando ver Dane cair.

     No instante em que a arma de Hoxley ia ficar na horizontal, ouviu-se um disparo. O jogador dobrou o braço e largou o revólver.

     Dane sacara e disparara com rapidez incrível. Guardou a arma, avisando:

     — Não o feri, apenas arranquei-lhe a arma. Virou-se e dirigiu-se ao balcão, pedindo um uísque.

     Hoxley recolheu o revólver, guardou-o no coldre e sentou-se, continuando o jogo, enquanto dominava o ódio contra Dane.

     Jones aproximou-se de Dane e murmurou:

     — Pago-lhe o drinque.

     — Desde que possa retribuir — Dane sorriu.

     — Ainda não disse por que acha que já encontraram ouro.

     — Talvez por não terem procurado no Vale Looking. Creio que é nas areias do arroio chamado Worm que encontraremos o que procuramos.

     Um dos jogadores ergueu a cabeça e olhou para Hoxley, fazendo-lhe um leve sinal.

     — Boa notícia! — Tim Donald, jovem garimpeiro, sorriu. — Amanhã mesmo irei para lá.

     — Não podem fazer isso! — interferiu Hoxley. — Aquelas terras já foram registradas. Têm dono.

     — E quem é ele? — quis saber Jones.

     — Red Sand Company, de Prescott.

     Todos se entreolharam. O mais surpreso era Bulliver, que inventara a história e agora a via como verdadeira. Por que Hoxley não lhe contara aquele detalhe?

     Dane olhou para a mesa do jogo e viu que um dos jogadores tinha o braço na tipoia. Aproximou-se dali e encarou o homem.

     — Onde e quando foi ferido? — indagou Dane.

     — Isso não lhe interessa! — reagiu o outro.

     — Claro que sim, mas já que não quer dizer... Asseguro-lhe que foi ferido com uma bala de quarenta c cinco. Este aqui — indicou seu próprio revólver. E vou verificar. Quando tiver certeza, tomarei cuidado para que não voltem a me pegar à traição.

     — O que aconteceu? — quis saber Jones.

     — Ontem encontrei um morto e procurei saber quem era. Encontrei com ele um mapa de uma mina com o nome de vale Looking e, quando ainda o revistava, começaram a atirar cm mim. Dois homens estavam me atacando e acabaram pegando-me à traição. Recebi um golpe na cabeça e desmaiei. Por pouco não fui devorado pelos abutres e juraria que um dos atacantes foi ele! — indicou o ferido. — Consegui atingi-lo duas vezes.

     — Ele deve provar que não foi! — concordou Jones.

     Spencer Cooper, dono do rancho Veleta, ordenou:

     — Ande, Murphy. Explique-se!

     O ferido reagiu no instante em que Toby Mac Nail, vaqueiro de Cooper entrava no local, avisando:

     — Encontramos o corpo de Frank Merrit no arroio Worm. Tem uma bala nas costas.

     Todos olharam para Murphy, pois haviam ouvido o relato de Dane. O jogador empalideceu.

     — Levamos o cadáver para o rancho e o revistamos. Não tinha nada nos bolsos, mas está irreconhecível por causa das bicadas dos abutres. Peterson só o reconheceu pelas roupas. Todos sabem que ninguém se vestia como Merrit por aqui.

     — E quem era Merrit? — perguntou Dane.

     — Um engenheiro de minas, contratado por uma empresa particular. Ia estudar o traçado para a ferrovia também — esclareceu Cooper.

     — Estava hospedado no meu rancho — concordou Edward Sturges, dono do rancho MB.

     — Parece que as coisas estão se esclarecendo.

     — Ora, mandem um xerife investigar! — retrucou Hoxley.

     — A violência do Oeste é uma coisa, outra é a traição e Merrit foi morto pelas costas. Não vamos tolerar isto! — afirmou Cooper.  

     — Claro que não! — concordou Sturges. — Por isso existe a lei de Lynch e vamos aplicá-la sem pena, se houver provas.

     O jogo fora interrompido, o pianista dormitava sobre o piano e, pouco a pouco, todos foram saindo.

     Um dos últimos a deixar o local foi Dane. Jones ainda falou-lhe.

     — Gostaria de conversar melhor com você.

     — Amanhã, Jones. Será um prazer.

     Bulliver fechou a porta, apagou os lampiões e saiu para o pátio onde dois homens o esperavam. Conversaram em voz baixa.

    

     Dane saiu depois de tomar café e sorriu para uma jovem de cabelo negro e olhos brilhantes que estava parada diante de uma loja.

     — Poderia me informar onde fica a associação dos rancheiros, senhorita?

     — Lá, no final da rua. E o único prédio de dois andares.

     — Obrigado. Cada vez gosto mais de Basket City.

     Naquele instante, um homem alto e de cabelos grisalhos surgiu atrás da jovem.

     — Diana, eu gostaria... — parou ao ver Dane. — Quem é o vaqueiro?

     Dane sorriu e a moça apressou-se a responder:

     — Não sei, papai. É forasteiro e queria saber onde ficava a associação.

     — Sou Dane Rogers — apresentou-se o forasteiro.

     O boticário apertou os olhos e esfregou o queixo.

     — Foi você quem ontem enfrentou Hoxley.

     — Vejo que as notícias correm nesta cidade.

     — Sou Joss Dickinson e esta é minha filha Diana. Quer entrar?

     — Lamento, mas estão me esperando. Fica para outra vez e obrigado — Dane afastou-se, depois de um último cumprimento, dizendo a si mesmo que gostara do boticário.

     O prédio dos rancheiros era um casarão de pedra com o andar de baixo destinado ao armazenamento de cereais e forragens.

     No andar de cima, os rancheiros faziam suas reuniões.

     Naquele momento, havia doze rancheiros ali, além de alguns comerciantes, os mais importantes da cidade.

     — Acho que aquele forasteiro Dane Rogers, tem condições para ser contratado como correio. É corajoso, bom com uma arma e me parece honesto! — disse Cooper.

     — O mais importante é que mereça a nossa confiança — disse Ross Carter, o carpinteiro.

     — Sim, é um cargo de muita responsabilidade! — afirmou Jacques Milton, dono da principal loja de Basket.

     — Ontem o vimos com um revólver — disse Sturges.

     — Está vindo prá cá — avisou Larry Bones, o seleiro.

     Dane entrou na sala e Cooper fez as apresentações, indicando-lhe uma cadeira.

     Foi Cooper quem indicou o motivo do convite, enquanto Matt Peterson, seu capataz, enchia os copos de uísque.

     — Precisamos de um correio que faça curso de ida e volta a Prescott. Sabemos que é um trabalho perigoso, mas dispomo-nos a pagar bem.

     — Por melhor que pague, a vida de um homem não tem preço! — sorriu Dane.

     — Não acredito que tenha medo — protestou Harold Wilton, o dono do prédio em que estavam.

     — Não disse isso.

     — A verdade é que as coisas em Basket estão ficando perigosas — voltou Cooper a explicar. — Sabíamos da mina no vale Looking, como sabíamos do desaparecimento do homem que a descobriu e registrou. Mas ele desapareceu há dias.

     — Quem era? — quis saber Dane.

     — Rex Stewart. Um homem honesto e respeitador da lei.

     — Então, como o morto que encontrei tinha o mapa da mina?

     — Não sei. Frank Merrit foi mandado para estudar a topografia da região e traçar a ferrovia. Talvez Rex lhe tenha dado o mapa com alguma intenção e por isso foi morto. Uma pena que não tenha reconhecido os homens que tentaram matá-lo.

     — Juraria que um deles era o homem de ontem.

     — Gerry Murphy— falou Sturges.

     — Se a mina foi registrada por Rex Stewart, como agora pertence a Red Sand Company?

     — Vamos verificar isso e mais algumas coisas. Sturges tem o traçado da ferrovia feito por Merrit e precisamos mandá-lo a Prescott. Contamos com você para isso.

     — Acho que a mina e a ferrovia estão interligadas — avisou Wilton. A Red Sand pretendia estabelecer uma linha de diligências daqui a Phoenix e a ferrovia arruinaria seu negócio. Por outro lado, a Red Sand propôs comprar a mina de Stewart e este negou-se a vendê-la — explicou Wilton.

     — Assim, precisamos mandar um relatório a Prescott. Infelizmente, estamos sem xerife, juiz e lei. Teremos que tomar a Justiça nas mãos para parar os pés dos bandidos — disse Cooper.

     — Quanto espera receber pelo trabalho? — indagou Cooper.

     — Não sei. Melhor aguardar para ver como me saio. Quando retornar, se retornar, combinaremos.

     — Podemos dar-lhe um adiantamento.

     — Não. Tenho alguns dólares e não aceito o trabalho pelo dinheiro, mas por querer verificar quem foi o patife que me pegou à traição. Além disso, será pelo bem do Arizona.

     — Para um vaqueiro, você fala bem demais — murmurou Wilton.

     — Sempre li muito — explicou Dane.

     — Muito bem — Cooper encarou Dane. — Ficará no meu rancho. Assim não precisará pagar a pousada e a companhia de Robin Bulliver não é das melhores. Amanhã você sai para Prescott com uma correspondência. Espero que chegue sem dificuldade.

    

     Dane chegou ao rancho Veleta, admirando a propriedade bem tratada.

     Ficou ainda mais impressionado com a jovem que viu sentada a um banco, à sombra de uma laranjeira, lendo um livro.

     Era a mulher mais bonita que já vira e usava um quimono bordado em rosa e verde jade.

     — Boa tarde, senhorita. Imagino que seja a filha do Sr. Cooper.

     — Sim. Deseja algo?

     — Sou Dane Rogers.

     — Pode deixar seu cavalo no pátio e ficar com os vaqueiros enquanto meu pai não vem.

     Dane surpreendeu-se com o orgulho e o desprezo que ela pareceu dedicar-lhe.

     — Fui escolhido para correio do Arizona.

     — Já sabia! Agora, por favor, deixe-me ler em paz!

     Sem outra palavra, voltou a abrir o livro e Dane afastou-se, levando o zaino pelas rédeas e entrando num estábulo. Tirou-lhe a sela quando um vaqueiro entrou elogiando Wise e avisando que o patrão já chegara.

     Cooper apresentou-lhe Nadine, a filha, dizendo:

     — Espero que sejam bons amigos.

     Os olhos azuis de Dane estudaram a figura loura e sorriram.

     — Não vamos ter muito tempo para sermos amigos já que o Sr. Rogers corre o risco de não voltar mais aqui.

     — Por que diz isso, Nadine?

     — Ora, pai, não vê como ele é elegante! Parece mais um almofadinha fantasiado do que um vaqueiro! Até o cano de seu revólver brilha!

     — Sua filha tem razão, Sr. Cooper. Para ser um vaqueiro de verdade é preciso cheirar a rês, não se barbear e nem cortar o cabelo.

     Nadine acabou rindo e Dane encarou-a, apesar de falar com o rancheiro.

       —Preciso ver meu cavalo. Acho que me entendo melhor com ele — fez meia volta, afastando-se.

     — Nadine, você o ofendeu e devia desculpar-se! Devia tê-lo visto enfrentar Hoxley e tirar-lhe o revólver da mão com um tiro sem ferir aquele jogador.

     — Detesto pistoleiros!

     — Não compreendo você, filha!

     — Não gosto desse tal Dane Rogers e nem mesmo sei por quê.

     — Trate-o melhor e lembre-se que você usa até um quimono para andar pelo rancho sabendo que fica bonita de qualquer maneira, principalmente com trajes de montar.

     — Talvez tenha razão, pai.

     Pouco depois, Dane voltava a preparar Wise e despedia-se.

     — Há uma moça muito simpática na cidade. Chama-se Diana.

     — Desconfie de Joss, o boticário. Não é correto.

     — Não é Joss que vou ver — Dane fez um gesto e saiu a galope enquanto Nadine entrava na casa, furiosa.

     Cooper sorriu. Sabia ser a filha caprichosa, mas confiava em seu bom senso.

     Pouco depois, Cooper viu que Nadine saía com roupas de montar e que Toby, um dos vaqueiros, trazia-lhe o alazão Sol.

     — Vou à cidade, papai — avisou Nadine a um espantado rancheiro.

     Diana Dickinson estava atrás do balcão da botica quando viu Nadine desmontar e entrar com certa pressa.

     As duas nunca tinham sido muito amigas.

     — Olá, Nadine! Precisa de algum remédio?

     — Oi, não!

     — Vi-a tão apressada que pensei...

     — Você gosta do forasteiro? — indagou Nadine desconcertando a outra.

     — Que forasteiro?

     — Dane Rogers.

     — É muito simpático!

     — Pois cuidado... e não ande flertando com ele!

     — Ora, você parece interessada. Por que diz isso?

     — Dane é casado! — Nadine fez meia volta e deixou a loja, voltando a montar.

    

     Jones Lark e Tim Donald carregavam as mochilas nas costas, seguindo para o vale Looking na esperança de encontrar algum filão que valesse a pena.

     Jones, gigantesco, e Tim, baixinho, formavam uma dupla estranha.

     Estavam suados e sedentos. Pararam, olhando o vale de uma colina. Perceberam a fumaça subir e, enquanto Jones terminava de tomar um gole da água do cantil, resmungou:

     — Gostaria de saber quem está lá. Possivelmente, homens da Red Sand Company. Esta empresa acabará invadindo até o último canto do Arizona.

     — Se permitirem, sim.

     — E quem vai impedir? Tem dinheiro e um apetite enorme!

     Tim começou a escrever com um lápis num pedaço de papel.

     — Estou tentando descobrir as dimensões do vale — avisou o baixinho. — Segundo ouvi, Rex registrou um terreno de vinte metros quadrados, aproximadamente.

     — E daí?

     — Saiba que este vale tem mais de quinhentos metros e Rex desapareceu, tendo a Red Sand se apropriado de sua mina. Enquanto você passava os dias na cidade tomando drinques, procurei ouvir o que diziam e fui alinhavando as informações. Oliver Hoxley, o jogador, tornou-se amigo de Gerry Murphy e seu cúmplice Luke Perrins que estão a serviço da Red Sand.

     — Isso eu já imaginava.

     — Mas não de que pelo Looking passará a ferrovia, uma ferrovia que não interessa a Red Sand ver construída, pois vai impedir sua linha de diligências de Prescott a River Sloane, passando por Basket City.

     — O que isso nos interessa?

     — Se ajudarmos a descobrir as tramoias da Red Sand, provavelmente teremos uma boa gratificação e agiremos direito.

     — E se recebermos um par de balas?

     — Ora, um dia teremos que morrer.

     — "Baixinho", somos garimpeiros e viemos à procura de ouro. Se não o encontramos, voltamos à Califórnia e assunto encerrado.

     — Não diga tolices! Procuremos ouro e vigiemos ao mesmo tempo. Sempre gostei de assuntos cheios de emoção! Falando em emoção, seu amigo Dane foi nomeado correio do Arizona.

     — Já sabia.

     — Um trabalho perigoso, mas ele aceitou... Ouvi dizer que foi por Cooper ter uma filha muito bonita.

     — Posso imaginar.

     — Pois se engana. Nadine Cooper arranjou um noivo: Oliver Hoxley.

     — Impossível! "Baixinho", agora sou eu quem acha que devemos vigiar, pois logo teremos boas trocas de tiros.

     Os dois apertaram-se as mãos e, carregando as mochilas, desceram na direção do arroio, decididos a levantar uma cabana para se protegerem do sol e da chuva.

     Enterraram os troncos de sustentação quando viram um homem aproximar-se armado com rifle.

     — O que estão fazendo? — indagou o tipo corpulento e de grosso bigode que usava botas mexicanas.

     — Uma cabana — replicou Tim, encarando o visitante.

     — Fora! Estas terras tem dono!

     — Que dono?

     — Isso não interessa!

     Jones pretendeu partir para cima do bigodudo, mas Tim interrompeu-o, indagando:

     — Posso ver o título de propriedade?

     — Não! E não vou discutir mais! Ou saem ou... — o bigodudo fez meia volta com uma última ameaça: — Se ao cair da noite não tiverem partido, vão se arrepender.

     — Fora digo eu! — berrou Jones.

     O homem afastou-se, sufocando a raiva.

     Naquela noite, os dois sentavam-se junto a uma fogueira quando soou um tiro e Jones caiu para trás, a cabeça perfurada por uma bala.

     Tim jogou-se no chão e arrastou-se, ocultando-se atrás de um grosso tronco, enquanto soava um novo tiro.

     Tim, furioso por ver morto seu companheiro, contou os atacantes. Pelo que podia perceber, eram quatro. Respondeu ao fogo, procurando poupar munição e mudando várias vezes de lugar.

     Um dos atacantes avançou, protegendo-se atrás de um álamo. Tim pressionou o gatilho e derrubou-o, vendo o vulto cair de bruços, com os braços abertos.

     Tim sabia ter apenas três projeteis na arma. O resto estava na mochila que se encontrava do outro lado da fogueira.

     Os atacantes descarregaram uma saraivada de balas contra o pequeno garimpeiro, atingindo-o no braço.

     Disposto a vender caro sua vida, Tim mudou a arma de mão no instante em que ouviu o som do galope de um cavalo. Logo o animal surgiu com o cavaleiro que, sem deter a corrida, avançou, disparando as armas contra os agressores de Tim.

     Outro agressor caiu mortalmente ferido e, logo depois, o terceiro. O último, aterrorizado, fugiu.

     — Correio do Arizona! — gritou Tim reconhecendo Dane.

     — Até a volta, amigo! — replicou Dane, antes de desaparecer.

    

     Dane considerara menos arriscado viajar a noite para Prescott. Só não sabia que o inimigo vigiava todos os seus movimentos.

     Wise devorara a distância num orgulhoso galope e, pendurada ao ombro, Dane levava uma sacola de pele, sustentada por correias aonde iam as notas e o relatório sobre a ferrovia.

     Dane forçou Wise a parar. Pareceu-lhe ter ouvido passos.

     Dane não sabia que havia um atalho pela montanha que levava a Penhasco Negro, poupando três quilômetros de caminhada e evitando o passo pelo vale Looking.

     Buscou ouvir e apenas o silêncio o envolveu.

     Ainda assim, prosseguiu a marcha com o revólver na mão.

   Seguia uma trilha serpenteante, junto do abismo.

     Dane olhou para cima e julgou ver a vegetação mover-se. Estranhou, pois não havia a mais leve brisa soprando. Um tiro soou e a bala passou próxima de sua cabeça.

     Dane respondeu ao disparo fazendo fogo três vezes.

     Sabia que a trilha agora se curvava em forma de ferradura e o atacante do alto poderia dominar toda a passagem. Tocou os lados de Wise com os joelhos, lançando-o a galope.

     Da esquerda um rifle entoou uma canção de morte e as pedras saltaram diante do cavalo.

     — Covardes! — gritou para os atiradores.

     Uma gargalhada respondeu ao insulto. Dane compreendeu que não havia como defender-se, mas prosseguiu a marcha até ver o caminho reto e largo à sua frente. Faltavam poucos metros para alcançá-lo e Dane esporeou Wise que, estranhando o tratamento, deu um salto, livrando seu cavaleiro de ser alcançado pelos tiros.

     No instante seguinte, porém, o zaino curvou as patas dianteiras e a cabeça também, caindo de lado e cuspindo Dane da sela, fazendo-o cair no abismo.

     Dane abriu os braços, largou a arma que empunhava sentindo que a sacola também se perdia. Seus dedos tocaram alguns galhos. Dane agarrou-se a eles como náufrago. Os galhos não lhe suportaram o peso e Dane viu-se caindo novamente, mas seus pés bateram numas raízes e ficou pendurado, balançando como um pêndulo.

     Dane viu as pedras cheias de limo, lavadas pela correnteza.

     Conseguiu apoiar os pés nas ranhuras dos penhascos e ouviu as vozes dos atacantes:

     — Está perdido. Quem cai aí não precisa de médico.

     — Mas não conseguimos a sacola!

     — Ora, ela não serve de nada agora.

     — Veja! A sacola! Ficou pendurada nos ramos... Vamos pegá-la...

     Ouvindo as vozes, Dane reconheceu uma delas como a de Gerry. Escutou o som de um laço e depois viu o homem descer para pegar a sacola. Furioso, tirou a arma que lhe restara no coldre e disparou.

     O homem abriu os braços e, com um grito de dor, caiu até o leito do rio. A correnteza levou-o, já morto.

     Os outros abriram fogo contra Dane sem atingi-lo, pois estava protegido na reentrância da rocha. Quando cessaram de disparar, decidiram partir.

     Dane esperou por algum tempo, colado à rocha e agarrado à trepadeira. Começou a subir lentamente até uma saliência e dali desceu até a margem do arroio. Mas ainda não estava a salvo.

     Teria que alcançar a trilha, cem metros acima e não poderia fazê-lo em linha reta.

     Foi uma longa e penosa luta. Dane não podia calcular o tempo que levou para chegar ao alto. Amanhecia quando o conseguiu. Ouviu então o relincho de Wise e assoviou, vendo o zaino aproximar-se.

     — Ande, amigo! Vou ensinar aqueles bandidos quem é Dane Rogers!

    

     Harold Wilton enfureceu-se ao saber o que aconteceu ao correio.

     — Teremos que ser duros com estes patifes!

     — O assunto é mais sério do que parece, aliás, uma organização disposta a impedir a ferrovia.

     — Pediremos a ajuda a Prescott e que nos mandem um xerife.

     Estavam na associação dos rancheiros comentando os acontecimentos e a morte de Jones.

     Cooper sugeriu formar uma patrulha para escoltar o correio.

     — Não. Já tenho minhas suspeitas e gostaria de investigar por conta própria. Estranho que Rex Stewart não apareça — ponderou Dane.

     — Ora, devem tê-lo enterrado! — falou Ross.

     — Só temos certeza de que é um bando cujos componentes não são desconhecidos — ponderou Cooper.

     Dane, que ainda amargava seu fracasso, estava disposto a tomar providências. Naquele mesmo dia, vira Gerry conversando com Diana e julgou poder transformar a moça em fonte de informação.

     Despediu-se do grupo e seguiu para a botica usando como pretexto para a visita, os arranhões da véspera.

     Entrou no local e viu que Diana estava sozinha.

     — Caí num barranco e me arranhei. Gostaria de comprar um desinfetante.

     — Claro. Espere, vou buscar.

     — Não sabia que era noiva de Gerry — disse Dane.

     — Quem lhe disse isso? — indagou Diana, surpresa.

     — Ora, vi-os várias vezes juntos.

     — Gerry não significa nada para mim. É apenas amigo de meu pai. Eis o remédio. Vinte centavos.

     — Obrigado — Dane pagou e fingiu hesitar. — Se quiser dar um passeio até o arroio, gostaria de acompanhá-la. Simpatizei com você desde que cheguei aqui.

     — Não passeio com homens casados! — cortou Diana.

     — Quem lhe disse que sou casado?

     — E não é verdade?

     — Claro que não! E acho que só se deve casar quando se ama, não concorda?

     — Naturalmente...

     Dane seguiu para a porta com o vidro de desinfetante.

     — Em que rancho Gerry trabalha?

     — Ele trabalha numa granja, mas monta e maneja o laço como um vaqueiro, alem de ser bom com o revólver... — Diana parou arrependida, mas era tarde para recuar.

     Dane retomou ao balcão.

     — Quer passear comigo?

     Diana hesitou, lembrando-se da recomendação do pai para que desconfiasse do forasteiro.

     — Qualquer dia. Papai não está hoje, pois foi à granja de Peters Elslon, onde Gerry trabalha.

     — Fica muito longe?

     — A meio quilômetro, mas você está curioso...

     — Tem razão... e isso não me interessa. Desculpe.

     — Soube que será o correio. Quando sai?

     — Qualquer dia. Posso avisá-la, se tem algo para Prescott.

     Saber que Dane não era casado soltara a língua de Diana e a jovem indagava-se por que Nadine mentira.

     — Gostaria de ir com você a Prescott, mas papai diz ser perigoso, principalmente depois que mataram Frank Merrit e o garimpeiro Jones.

     — Conhecia Merrit?

     — Só de vista. Ele não gostava de conversar.

     — Preciso ir. Quando quiser passear, avise-me.

     Diana saiu da loja com Dane no instante em que, montado, Luke Perrins passava na rua. Luke cumprimentou-a.

     — Ele também trabalha na granja de Peters.

     — Pensei que fosse garimpeiro — fingiu Dane.

     — Luke veio à procura de ouro e acabou sem dinheiro. Arranjou então trabalho na granja.

     Dane despediu-se, pensando que deveria visitar a granja de Peters. Montou Wise e seguiu para o rancho de Cooper pensando que precisaria recuperar os documentos que lhe tinham roubado.

     Dane já entendera que uma poderosa organização empenhava-se cm impedir a construção da ferrovia.

     Alcançou o rancho e viu Nadine junto a uma janela. Cumprimentou-a levando a mão ao chapéu, mas ela ocultou-se, tlciiionslraiulu vontade de não vê-lo.

     Estava livrando Wise da sela quando ouviu passos.

     — Olá, correio! — havia deboche na voz de Nadine.

     — Olá, Srta. Nadine.

     — Quando parte? — havia uma dupla intenção na pergunta, mas Dane ignorou-a.

     — Não pretendo partir. Sempre termino o que começo — encarou-a fixamente.

     — Por que me olha assim?

     — Queria descobrir a verdade.

     — Pois hoje você parece um vaqueiro.

     — Não mude de conversa e saiba que estimo seu pai por ser um homem sincero que acredita em mim. Não vou desiludi-lo, mesmo que isso lhe desagrade. Sei que me odeia porque a humilhei diante de todos os homens que...

     — Chega! — interrompeu ela, furiosa.

     — Sei que está apaixonada por Oliver Hoxley, um "honrado" jogador de procedência desconhecida. Eu não o aprecio, ainda menos agora que sei que você lhe dedica a preferência. Dane virou-se de costas, continuando seu trabalho, enquanto Nadine se retirava.

    

     A granja do Peters ficava à margem do caminho e tinha apenas um pequeno muro para impedir que o gado do rancho MB entrasse e estragasse a plantação.

     À noite Dane aproximou-se, detendo-se na entrada principal e reparando que apenas uma luz ainda brilhava no primeiro andar da casa principal.

     Dane desmontou e pulou o pequeno muro, aproximando-se do cômodo iluminado. Olhou pela janela, enquanto ouvia vozes vindas do interior. Reconheceu Gerry e Luke. Havia seis homens no aposento e quatro lhe eram desconhecidos.

     Um homem vestido com uma jaqueta canadense e um gorro de pele de rena chamou-lhe a atenção. Era jovem e estava com barba de duas semanas e contrastava com o resto do grupo pelos modos e pela forma de falar.

     — Rex, a coisa não é tão fácil quanto parece — falou Gerry, indicando a Dane quem era o homem. — O tal correio suspeita de alguma coisa e será capaz de conseguir que os rancheiros fiquem contra nós.

     — Não importa — replicou Rex. — Temos homens para nos impormos e ninguém poderá nos impedir. Além do mais, a companhia tem dinheiro.

     — Claro, mas se morrermos o dinheiro não vai importar nada! — replicou Luke.

     — É preciso arriscar-se. Estou jogando tudo e não voltarei atrás. Não deviam ter deixado escapar o correio. Felizmente, temos o mapa de Merrit que não quis ser um dos nossos.

     Dane, pouco a pouco, ia compreendendo o que ocorria.

     — Agora, o que faremos? — indagou um dos homens.

     — Primeiro, acabem com o tal correio curioso. Hoxley poderá ajudá-los.

     Agora, quero saber o que aconteceu com o tal garimpeiro que estava com Jones.

     — Desapareceu, mas não deve andar longe.

     — Já o tínhamos encurralado quando o tal correio apareceu e matou dois dos nossos! Precisei fugir — declarou Tinker.

     Rex deu um murro na mesa e encarou os cúmplices!

     — Sejam mais corajosos! Não posso sair daqui por que já me conhecem, mas tentarei ajudá-los, pois pretendo ir ao vale. Construiremos uma cabana e vigiaremos a trilha. Ninguém passará sem ser visto e morto! Sabem que o prazo marcado para a apresentação sobre a ferrovia está perto de expirar e temos que estar atentos para evitar que mais alguém venha levantar outros planos.

     — Guardou bem os papéis que tiramos daquele correio idiota? — indagou Gerry.

     — Sim. Estão em meu quarto e ninguém vai encontrá-los onde guardei.

     — Então, um último trago e iremos dormir — sorriu Gerry.

     Rex levantou o copo num brinde:

     — À morte daquele sardento! — bebeu num trago e encarou os cúmplices: — Já podem ir.

     — Precisamos de mais dinheiro, chefe — avisou Gerry.

     — Amanhã falaremos disso, concordou Rex. Os homens retiraram-se. Rex ficou sozinho e tirou o revólver, examinando-o.

     — Eles pensam que vou dar dinheiro todos os dias! Quando tudo terminar, ajustaremos as contas!

     Do lado de fora, Dane examinou o cômodo ocupado por Rex. Viu uma porta que parecia comunicar com outro aposento, também com janela. Julgou valer a pena arriscar-se, pois poderia ser o quarto do bandido.

     Dane seguiu para a janela vizinha e entrou, vendo uma cama, uma cômoda e uma mesa de cabeceira. Lembrou-se das palavras de Rex sobre os documentos, descartando a possibilidade de estarem na mesinha ou na cômoda.

     Os olhos de Dane procuraram um provável esconderijo capaz de ocultar a sacola roubada. Viu então o velho fonógrafo a um canto como um traste velho. Caminhou para lá e levantou a tampa, a mão procurando entre a maquinaria. Encontrou um envelope de grande dimensão. Retirou-o e meteu-o entre a camisa e o peito.

     Naquele instante, o quarto encheu-se de luz e Dane virou-se, deparando-se com Rex que tinha a arma na direita e o lampião na esquerda.

     — Mãos para cima! — Rex deu um passo. — O que faz aqui?

     — Talvez um inventário dos móveis — replicou Dane.

     — Venha até aqui!

     Dane obedeceu, pronto a reagir, sabendo que sua vida não valia um centavo.

     — Vire-se de costas!

     Dane reparou no cano do 44 e também no lampião. Lentamente, começou a virar, mas bateu no lampião enquanto se lançava para o chão.

     O objeto caiu, quebrando o vidro e surgindo uma chama no chão.

     Rex disparou e tentou apagar o fogo pegando uma manta.

     Dane aproveitou para saltar a janela.

     Ouviu o segundo tiro de Rex, e logo depois mais alguns.

     A granja encheu-se de vozes. Rex chutou o fonógrafo, berrando:

     — Ele está fugindo e levou os documentos!

     — Vamos alcançá-lo! — Gerry saiu à procura de um cavalo, logo seguido pelos outros.

     Mas Dane, montado em Wise, já estava longe.

    

     No dia seguinte, Peters viu um grupo aproximar-se na direção da granja.

     À frente do grupo ia Cooper, logo seguido por Milton, Carter, Bones, Peterson e mais meia dúzia de habitantes.

     — O que houve, Cooper? — quis saber o granjeiro.

     — Sabemos que você abriga em sua casa uma quadrilha de patifes e viemos dispostos a enforcar todos eles e a você também.

   — Estão enganados... Não podem tomar a justiça nas próprias mãos! — Peters recuou.

     — Onde estão aqueles bandidos?

     — Não há ninguém, além dos meus empregados...

     — Só acredito vendo! — Cooper entrou na casa.

     Todos revistaram os aposentos sem encontrar um único dos homens que Dane vira na noite anterior.

     — Vamos enforcar Peters! Isso servirá de lição!

     — Muito bem, Peters! — Cooper encarou-o. — Documentos roubados do correio foram guardados em sua casa. Quero saber o que me diz a respeito. E onde estão Gerry c Luke?

     — Pediram demissão esta manhã.

     — Coincidência, homem! E os outros que ontem estavam com eles? — insistiu Cooper.

     — Não sei.

     — Está com amnésia? E o que Joss Dickinson vem fazer todos os dias em sua granja?

     — Somos amigos!

     — Muito bem, Merrit e Jones foram assassinados. O correio foi assaltado e os autores de todos os crimes reuniram-se em sua casa, Peters! Diga-nos quem é o chefe e poderemos deixá-lo em paz!

     — Não posso! — Peters retrocedeu, aterrorizado.

     — Devemos linchá-los! — bradou Wilton, logo recebendo a concordância dos demais.

     Cooper interrompeu o grupo no instante em que a Sra. Peters aparecia com dois empregados dispostos a defender os patrões.

     Uma palavra enérgica do rancheiro Cooper e a recomendação de Peters para que voltasse a seus afazeres fez com que Pamela Peters voltasse para a cozinha.

     — Não posso falar! Façam o que quiserem — gemeu o granjeiro quando a mulher retirou-se.

     — Se não o fizer, acabará na ponta de uma corda, homem!

     Indeciso, Peters afinal concordou em conversar com Cooper a sós, levando-o para um pequeno cômodo junto ao celeiro, enquanto os outros aguardavam no pátio.

     — Eu estava precisando de dinheiro...

     — E acabou envolvido com a quadrilha de assassinos. Ande, Peters, fale. Todos já passamos por dificuldades!

     — O homem que... — o que Peter ia dizer foi interrompido por um disparo.

     Peters levou as mãos ao peito e caiu para trás.

     Cooper correu para a pequena janela do cômodo e olhou em torno. Viu um homem desaparecer no campo de arroz.

     O grupo ao ouvir o tiro entrou, terminando por encontrar Peters já morto.

     — Fecharam-lhe a boca! — rugiu Cooper.

     — Vamos perseguir o assassino!

     — Vi um homem fugir entre o arrozal. Não o encontraremos. Infelizmente, não o reconheci pois estava de costas.

     Pâmela Peters voltou e, ao ver o marido morto, abraçou-se ao cadáver.

     O grupo deixou o cômodo e a granja em silêncio.

     Tais acontecimentos encheram Basket de terror.

     O desaparecimento de Gerry e Luke foi considerado como uma admissão de culpa.

     Dane passou a vigiar Hoxley, mas sairia no dia seguinte para levar o relatório recuperado a Prescott.

     Ainda assim, tentou descobrir por onde andava Tim, o garimpeiro amigo de Jones, mas não o encontrou.

     Naquela tarde, no rancho de Cooper, copiou os documentos que teria de levar a Prescott.

     Nadine continuava a evitá-lo, mas ao entardecer daquele dia encarou-o quando cruzaram no corredor.

     — Você parece trazer encrenca! — acusou ela.

     — Pode ser, mas conheço um homem chamado Hoxley que é um patife! E não falo que é só um jogador desonesto, mas algo bem pior. Avise-o de que saia do meu caminho!

     — Sardento! — insultou Nadine, vendo-o afastar-se.

    

     Pela segunda vez, Dane tomou o caminho de Prescott, levando os documentos da ferrovia e também uma mensagem para a primeira autoridade do Arizona narrando as dificuldades de Basket City.

     Mudou de itinerário e evitou o fatídico barranco.

     Dane fez uma parada depois de três horas de galope. Permitiu que Wise pastasse e enrolou um cigarro, depois de tomar um gole de água no cantil.

     Enquanto fumava lembrou-se de Nadine, e o ciúme que tinha de Oliver Hoxley pareceu-lhe aumentar no peito.

     Jurou que acertaria as contas com o jogador.

     Seus pensamentos foram interrompidos pela mudança no ambiente. Dane percebeu que Wise também se mostrava desassossegado e aproximou-se, empurrando o dono com o focinho.

     Dane, conhecendo bem seu zaino, ergueu-se e buscou ouvir. Colocou a orelha junto do solo e percebeu o galope de vários cavalos.

     Colocou a sacola e o cantil no ombro e montou, avisando ao cavalo:

     — Vamos fazê-los correr, amigo!

     O zaino sacudiu a cabeça e iniciou o galope.

     Dane olhou para trás e percebeu um grupo de homens às suas costas, forçando os cavalos a todo galope.

     Wise deixou o bosque, aumentando a velocidade, enquanto Dane julgava poder chegar, ainda de dia, em Wideville, uma pequena cidade rancheira onde pretendia desfazer-se dos seus perseguidores.

     O galope e a perseguição prolongaram-se. Um tiro soou, obrigando Dane a olhar para trás e perceber que os bandidos haviam encurtado a distância até ele.

     Contou os perseguidores. Eram cinco. Animou Wise a aumentar a velocidade no instante em que um segundo disparo se fez ouvir.

     Dane virou-se, sacando uma das armas. Fez fogo e um dos cavaleiros abriu os braços e caiu do cavalo, ficando com o pé preso no estribo.

     O correio do Arizona ainda ouviu-lhe os últimos gritos, sabendo a morte horrível que o ferido teria.

     Seus quatro companheiros apenas livraram-no da montaria quando já estava morto e, sem perda de tempo, continuaram no encalço de Dane, mostrando-se mais prudentes.

     Disparavam, sem que Dane lhes respondesse, pois o rapaz queria poupar munição.

     Wise começou a reduzir a velocidade. Vendo que o zaino pisava mais forte de um lado que do outro, Dane compreendeu que havia algo entre a pata e a ferradura. Olhou em torno e viu que o campo apresentava pequenas colinas.

     Dane aproveitou um desnível do terreno, deteve o galope e apeou num salto, examinando a pata esquerda de Wise.

     Havia uma pequena pedra triangular ali.

     Os perseguidores, vendo-o desaparecer, temeram o ataque e não se aproximaram: Cutle Eyc, um deles, aconselhou os companheiros a terem cuidado.

     — Vamos dar uma volta e atacá-lo pela retaguarda! — sugeriu.

     Clock Skar, Under Olwin e Master Blodin concordaram, mas este último indicou:

     — Vejam!

     Vários abutres voavam.

     — Pobre Multton! — resmungou Cutle, lembrando-se do companheiro recém-morto.

     Dane extraíra a pedra do casco do zaino e montara, reiniciando a fuga em linha reta.

     — Está fugindo! — berrou Under.

     Os quatro precipitaram-se na direção de Dane, com os revólveres nas mãos, avançando até que o terreno apresentou sinais de umidade. Os cavalos, sentindo o cheiro da água, tentaram virar para a esquerda, mas foram impedidos por seus cavaleiros.

     — Ele vai nos escapar por entre os dedos!

     — Vamos segui-lo até o inferno! — retrucou Cutle.

     Mas Dane já entrava na cidade de Wideville e os perseguidores foram obrigados a deter os cavalos.

     Cutle desmontou.

     — Não vamos nos preocupar. Ele terá que passar a noite na cidade e encontraremos um meio de pegá-lo. O chefe só disse que ele não pode chegar a Prescott e não chegará!

    

     Dane deixou Wise sendo tratado no estábulo da única pousada da cidade.

     Escurecia quando Dane, depois de lavar-se e tomar um trago, saiu à rua com a intenção de esperar pelo jantar.

     Widevillc era calma e a rua principal encontrava-se quase deserta. Apesar disso, o primeiro andar da pousada começava a se animar com a chegada dos vaqueiros que vinham tomar um drinque.

     Dane, apoiado numa cerca, olhava pela entrada da cidade, esperando ver seus perseguidores, mas estes tinham outros planos.

     Dois vaqueiros desmontaram diante da pousada e viram Dane, olhando com curiosidade, principalmente por que o correio não se separara da sacola pendurada às costas.

     Alguns lampiões foram acesos para iluminar a rua e as casas. Dane caminhou até a esquina com a estranha sensação de que estava sendo seguido. Ainda assim, não se virou e parou junto ao lampião para enrolar um cigarro.

     Dane chegou a pensar em adormecer sem jantar, mas seu amor-próprio impediu-o. Estava certo de que os bandidos tentariam alguma coisa. Não se enganou, pois uma voz sussurrante ordenou-lhe no instante em que lançava o cigarro fora:

     — Não se mova!

     Dane virou-se e encontrou um homem junto da parede, apontando-lhe um revólver.

     — Aproxime-se — ordenou o bandido.

     — Quem é você?... Indagou Dane, querendo ganhar tempo.

     — Nenhum anjo e vou meter-lhe uma bala na cabeça se não obedecer!

     Dane atendeu-o, amargando a derrota, mas pensando em como escapar daquela situação. Sentiu a arma apoiar-se em suas costas.

     Logo em seguida, Dane foi despojado de seus Colts e, considerando-se perdido, jogou-se ao chão e abraçou-se às pernas do oponente.

     Os dois rolaram pela calçada até que Dane recebeu um golpe na cabeça, ficando desacordado.

     Dane acordou com a cabeça pesada. Tentou mover-se e viu que estava com mãos e pés amarrados.

     Olhou em torno e compreendeu que estava dentro de uma cabana. Ouviu vozes que falavam em murmúrios e tentou erguer a cabeça.

     A luz de um lampião inundou a cabana. Dois homens surgiram. Dane reconheceu-os como dois de seus perseguidores.

     — Ah, já acordou!

     Dane percebeu que lhe tinham levado a sacola e sorriu.

     — Onde estou?

     — A meio quilômetro da cidade, numa cabana abandonada. Tem as horas contadas por ter metido o nariz onde não devia.

     — Não o assuste, Cutle — disse outro bandido. Dane intrigou-se ao ver apenas dois quando eram quatro os seus perseguidores.

     — Onde estão os outros?

     — Muito curioso — comentou Cutle.

     Dane pensou em sua situação enquanto fechava os olhos. Deixara na sacola apenas documentos sem importância. Os que tinham valor encontravam-se na sela. E Dane ainda usara os papeis sem valor colocando-os dentro do envelope onde os tinha encontrado na granja.

     — A esta hora, um tio nossos volta a Basket levando a sacola do correio. Você não serve para este trabalho. Só estamos esperando as ordens que o chefe tem para você e como o rio Colorado está perto...

     Clock Skar entrou na cabana.

     — Estou com sede! — avisou Dane.

     Under saiu, entrou com o cantil e lançou a água no rosto de Dane enquanto Cutle e Clock riam.

     — Um dia ainda pagarão por isso!

     Under deu-lhe um pontapé e mandou-o calar-se.

     — Deixe-o e vamos jantar.

     Os três afastaram-se rindo, enquanto Dane tentava afrouxar as ligaduras, sentindo fome e sede, mas satisfeito por que sua cabeça já não doía tanto.

     Dane terminou adormecendo e, quando acordou, viu-se numa situação difícil. Logo o chefe dos bandidos iria perceber a falsidade dos documentos e então mandaria que o matassem ou o levassem a vale Looking para interrogá-lo.

     Fracassara pela segunda vez na missão que lhe fora confiada, mas poderia recuperar os papeis que se encontravam no estábulo da pousada.

     Naquele instante percebeu que algo se movia e logo um homem, armado com um punhal, aproximou-se.

     Dane preparou-se para gritar, mas a mão do outro posou em sua boca, enquanto Dane ouvia:

     — Não fale!

     Onde ouvira tal voz? Mas não teve tempo de desvendar aquele mistério pois viu-se livre e logo recebeu um copo de uísque para que recuperasse as forças. O homem sussurrou:

     — Vamos embora antes que eles acordem. Saíram em silencio, vendo os três bandidos, junto à porta, roncando.

     Dane encontrou suas armas sobre um banco de pedra. Colocou-as nos coldres e, seguindo seu libertador, saiu para a trilha.

     — Quem é você? — indagou, encarando o homem baixinho que estava ao seu lado.

     — Tim Donald. Não se lembra? O companheiro de Jones Lark, assassinado por aqueles patifes. Estava na cidade quando você chegou e o vi surpreenderem na esquina. Segui-os e esperei por uma oportunidade. Agora, vamos jantar e lhe contarei o resto. São onze horas. Ande!

    

     Cutle foi o primeiro a acordar. Percebeu a falta das armas de Dane e também do correio. Sacudiu os companheiros.

     — Alguém o ajudou a fugir! — disse Cutle. — Maldição! O chefe vai ficar furioso. Por que um não ficou de guarda?

     — E quem imaginaria que um homem amarrado como salsicha poderia fugir? — replicou Under.

     — Muito bem, vamos até a pousada. Se ele estiver lá, vamos matá-lo sem vacilar! Não temos que esperar nenhuma ordem do chefe.

     Clock e Under concordaram, encilhando os cavalos e seguindo para a pousada de Wideville.

     Dane e Tim terminavam de jantar, conversando em voz baixa.

     — Deixei o vale, pois sabia que iriam me perseguir. Os bandidos ocultam-se entre os penhascos e não deixam ninguém passar ali. Mataram Jones numa emboscada à noite e, não fosse você, eu também estaria morto — explicou o garimpeiro.

     — Há ouro no vale, Tim?

     — Não sei, mas é possível. Acabei vindo parar aqui. Não pensei que eles aparecessem tão longe.

     — Estavam no meu encalço — explicou Dane.

     — É melhor ir embora, pois são capazes de entrar aqui agora e nos matar.

     — A pousada está cheia de gente. Não creio que se atrevam a tanto, Tim. Calma. Se tem medo, vá dormir que eu cuidarei deles. Estou grato pelo favor que me fez, mas terei que partir só amanhã.

     — Está certo, fico do seu lado. Se precisar lutar, lutaremos.

     À meia noite, Dane e Tim sentaram-se a uma mesa junto do balcão, vendo que os clientes começavam a sair. Dane pediu uísque. Quando o recebeu, apertou o copo até que este se partiu.

     Dane acabara de ver o rosto de Cutle do outro lado da janela.

     — Prepare o revólver, Tim — ordenou Dane no momento em que Cutle e seus dois cúmplices entravam no local, separando-se na forma de um triângulo.

     — Por que me olha tanto? — indagou Cutle aproximando-se de Dane, sem saber que Tim já segurava o revólver sob a mesa.

     — Temos uma conta a acertar, patife! — declarou Dane, imperturbável. — Mas nunca tenho pressa de cobrar.

     — Mas eu sim! — Cutle buscou o Colt e os clientes afastaram-se da linha de tiro.

     — Tenha cuidado, homem, pois estou alerta desde que entrou com os seus cúmplices! — avisou Dane. — Se disparar pelas costas será um assassinato e tenho certeza de que os habitantes de Wideville não vão deixá-lo sair impune e nem aos seus cúmplices!

     Cutle fez um sinal a Clock. Dane percebeu-o e, num salto, afastou-se da mesa, disparando.

     Mas Clock e Under também haviam usado as armas. Clock tentando atingir Dane e Under explodindo o lampião colocado sobre o balcão.

     Um terceiro tiro derrubou o lampião pendurado sobre a porta e o local ficou na penumbra.

     Dane disparara contra Clock, alcançando-o num braço.

     Tim, ao começar a confusão, fez mira contra Under com tal acerto que o deixou coxo, obrigando-o a saltar e refugiar-se atrás de alguns barris.

     Os tiros varreram as prateleiras, quebraram espelhos e arrancaram farpas da madeira do balcão.

     Os clientes correram para a rua e o dono e o empregado da pousada buscaram proteção atrás de alguns caixotes.

     Under tentou mudar de lugar, mas uma bala obrigou-o a cair com os braços abertos.

     Quando os disparos cessaram, Dane, temendo ser um truque, pediu:

     — Ande, dono da pousada, traga um lampião, rápido!

     O homem obedeceu, surgindo com o lampião na mão trêmula.

     Dane percebeu Under, imóvel, com um orifício na testa.

     Clock encontrava-se dobrado sobre uma cadeira e o revólver no chão. Sua camisa tinha uma mancha vermelha na altura do coração.

     Tim permanecia sentado, segurando um braço, mas sem largar o Colt. Estava ferido.

     A pousada estava com aspecto desolador. Mas Cutle desaparecera.

     — Então, Tim? Muito ferido?

     — Um arranhão deste coiote! — e indicou Clock.

     Lentamente, os clientes surgiram, consolando o dono da pousada pelas perdas.

     Dane revistou os cadáveres e encontrou trezentos dólares que entregou ao dono do local, pedindo:

     — Quero que cuide de Tim até minha volta. O garimpeiro ainda tentou segui-lo, mas Dane insistiu, informando que partiria dali há minutos.

     — Há coisas que não podem esperar — garantiu.

    

     Nadine deixou o rancho disposta a esclarecer tudo. Há quatro dias Dane saíra de Basket e ela não voltara a encontrar Hoxley. Procurou-o no A Flecha, descobrindo que partira sem dizer para onde ia, segundo informação de Bulliver.

     — Imagino que tenha ido a Prescott, pois levou o cavalo — disse ainda o dono do saloon, muito aborrecido, pois a mesa de jogo era o que lhe dava mais lucro.

     Muitos dos garimpeiros tinham desistido e deixado a cidade. Basket City começava a voltar ao que era.

     — Não parece muito satisfeito, Bulliver — comentou Nadine.

     — Estou arruinado. Depois do que gastei nesta casa!

     — Ora, Bulliver, foi você quem inventou o boato quanto ao ouro! Até pagou algumas notas no jornal de Prescott!

     — Quem lhe contou?

     — Isso importa? Agora aprenda a não enganar as pessoas. E lamento apenas que todos tenhamos que sofrer as consequências de suas mentiras. Agora o vale Looking está cheio de bandidos!

     — Não lenho culpa se não há xerife!

     — Saiba que não me engana! Ontem à noite uma carroça carregada de víveres deixou esta casa dirigindo-se ao vale. Gerry Murphy levava-a. Vai negar?

     Bulliver fez um gesto de aborrecimento. Negociava com os bandidos através de Gerry e Luke, mas Nadine ainda não sabia que Hoxley também estava metido naquele assunto ilegal.

     — Vejo que sabe muito, senhorita, mas feche a boca se não quer comprometer uma pessoa que estima. Foi Hoxley quem me pediu para vender mercadorias ao pessoal do vale, além de estar dividindo comigo os lucros deste saloon.

     Nadine fez meia volta, atordoada! Jamais estimara Hoxley, mas agora o desprezava por tê-la enganado fingindo ser o que não era.

     Lembrou-se das palavras de Dane, enquanto desamarrava as rédeas do seu cavalo e, caminhando, ia até a botica para falar com Diana. Encontrou-a sentada, lendo um livro.

     — Diana, gostaria de lhe falar rapidamente...

     — Pode falar.

     — No outro dia vim lhe dizer que Dane Rogers era casado. Estava mentindo por não gostar dele.

     — Não estaria com ciúmes? — indagou Diana.

     — Não, mas seria difícil explicar. Só lamento tê-la enganado.

     — Não precisa ficar tão aborrecida. Dane nunca se mostrou interessado em mim. Pelo visto, não sou seu tipo. Gostaria de ser sua amiga.

     Nadine concordou, sentindo sinceridade na outra.

     No momento em que a jovem montou, dirigindo-se à associação dos rancheiros, onde estava Cooper, dois cavaleiros entraram na cidade.

     Era Dane e Tim que ostentava no peito a estrela de xerife.

     Os curiosos foram aumentando, gritando perguntas, enquanto os dois caminhavam até a associação e Nadine, incapaz de acreditar no que via, desmontou a tempo de apreciar Dane e Tim entrarem no prédio.

     — Basket City já tem xerife: Tim Donald — apresentou Dane aos rancheiros reunidos na associação. — Uma nomeação feita pelo próprio governador do território — assegurou.

     Wilton abriu uma garrafa e serviu os copos, enquanto Dane continuava a explicar.

     — Fui atacado em Wideville e Tim libertou-me quando caí nas mãos dos bandidos. Em Prescott informaram-me que vão mandar alguém para fazer o traçado da ferrovia, mas antes teremos que limpar a região dos indesejáveis. Tim vai nomear dois comissários e poderá enfocar os bandidos sem delongas. Como correio, cumpri a primeira missão e agora estou me retirando do cargo.

     — Mas... — começou Cooper.

     — Não vão mais precisar de meus serviços. Haverá um correio semanal vindo de Prescott com boa escolta e que retornará um dia depois.

    — Há um ano que pedimos exatamente isso! Afinal, quem é você?

     — Apenas Dane Rogers!

     — Pode ser que haja mais, no entanto, basta-nos por agora. Será melhor avisar a cidade que já temos xerife.

     — Faço isso! — confirmou Tim.

     Todos saíram à rua e a multidão aguardou quando Tim subiu num caixote e ergueu a mão.

     — Habitantes de Basket City, sou o novo xerife. Meu nome é Tim Donald e estou disposto a defender a Lei com o revólver e coragem... — soaram poucos aplausos, pois o novo xerife não tinha um aspecto muito recomendável.

     — Ninguém deve medir um homem por seu tamanho! — interveio Dane. — O xerife foi bastante claro no que disse e, dentro de pouco tempo, todos verão quem é Donald, o único com coragem para aceitar a estrela de xerife de Basket City! Vejo que todos concordam!

 

     A multidão se desfez, comentando sem muita confiança sobre o novo representante da lei.

     Nadine não quis esperar o pai e, montando, desapareceu a galope, sob o olhar de Dane, enquanto Cooper e Wilton destinavam alguns espaços do prédio da associação para escritório, quarto do xerife e também uma cela.

    

     Rex, o chefe dos bandidos, recebeu das mãos de Master Blodin a sacola que Dane levava quando foi golpeado. Abriu-a e examinou os documentos, soltando um rugido.

     — Idiotas! Novamente foram enganados!

     — Não pode nos tratar assim... — protestou Master, recebendo um soco de Rex que o mandou contra a parede. Quando se recompôs, buscou o Coll, mas, antes que sacasse, Rex disparou contra ele e Master caiu com a garganta atravessada.

     — O que houve? Gerry e mais alguns homens surgiram no escritório.

     — Este idiota queria me atacar! — resmungou Rex.

     — Não gosto disso! — murmurou Gerry.

     A opinião de Gerry não pareceu abalar Rex, mas o chefe sabia ser ele um líder entre os bandidos e decidiu ser diplomático.

     — Dane Rogers enganou-nos outra vez. Esta sacola só levava documentos falsos.

     Tal cena passara-se três dias antes da volta de Dane.

     No dia seguinte, Hoxley surgira no acampamento para avisar que Dane Rogers era um enviado da ferrovia e que era preciso ter cuidado com ele.

     — Como sabe? — indagou Gerry.

     — Ele perdeu uma carta na pousada. Ei-la!

     — Mas está dirigida a Warner Duffy! — protestou Rex.

     — O que prova ser Dane Rogers um nome falso. Leia a carta toda — aconselhou Hoxley enquanto olhava para as duas cabanas construídas num bosque e que abrigavam os quinze homens recrutados pela Red Sand Company.

     Rex leu em voz alta: "Sr. Warner Duffy:

     Numa reunião de acionistas, você foi nomeado delegado geral, com amplas atribuições para investigar o que ocorre em Basket City para onde enviamos o engenheiro Frank Merrit do qual não temos notícia.

     Sabemos que a Red Sand Company está tentando por todos os meios impedir a construção da ferrovia, chegando a contratar bandidos.

     Quando souber o que acontece, aceite o cargo de correio e traga suas informações pessoalmente. Sugerimos que use outro nome, pois o seu é muito conhecido.

     Pretendemos começar as obras brevemente, mas desejamos primeiro identificar os bandidos. Quando tivermos as provas da intervenção da Red Sand Company, vamos agir judicialmente contra a Cia.

     Saudações, Max Roskoc."

     — Warner Duffy! O famoso explorador que levou a caravana até Pioche! — exclamou Gerry.

     — Ele está nos atrapalhando e deve ser eliminado!

     — Mas é difícil. Bem que já tentamos — disse Luke, encarando Rex.

     — Posso fazer isso — ofereceu-se Hoxley. — Temos umas contas e gostaria de ajustá-las. Conquistei Nadine até Dane se alojar no rancho de Cooper. Com o pretexto de ver a garota, posso ir até lá e livrar-me daquele maldito.

     — A ideia não me agrada! Quando Cutle voltar, organizaremos um ataque à cidade para acabar com os que estão nos atrapalhando: Larry Bones, Ross Carter, Jacques Milton, Wilton e Cooper. Todos querem a ferrovia e deverão desaparecer! — determinou Rex — voltou-se para o jogador. — E você, Hoxley, é melhor ficar aqui. Já se tornou suspeito na cidade, assim como Gerry e Luke.

     Dois dias depois, Cutle e Eyc alcançaram o acampamento no vale Looking. Não traziam boas notícias e relataram a morte dos companheiros e a própria fuga, aproveitando a confusão.

     — Um homem ajudou-o a escapar e também lutou contra nós. Dane foi a Prescott e a esta hora já deve estar de volta a Basket City. Ainda bem que recuperamos os documentos.

     — Acha? — explodiu Rex. — Pois foram documentos falsos que não servem para nada. Não o revistaram?

     — Claro que sim, chefe, mas não levava nada que pudesse interessar.

     Quando Cutle soube da morte de Master Blodin, entendeu que tudo começava a se desfazer. Não protestou, mas passou a odiar Rex. Fingindo, retirou-se, resmungando maldições.

     Também Gerry não estava contente com Rex, e Gerry era apenas um bandido, capaz, de qualquer barbaridade.

     Quanto a Hoxley, este pretendia tornar-se o chefe do bando e imaginava uma forma de consegui-lo.

    

     Nadine já percebera ter sido um joguete nas mãos de Hoxley. Não que o jogador lhe importasse, mas era duro perceber que Hoxley servira-se de suas informações para ajudar os bandidos.

     Também queria desculpar-se com Dane e por isso, ao vê-lo chegar ao rancho, foi-lhe ao encontro.

     — Precisamos falar — pediu ela quando Dane desmontou.

     — Lamento, senhorita, mas estou muito ocupado. Terei que voltar logo à cidade. Fica para outra vez.

     — Não. Precisa ser agora! E quero me desculpar.

     Dane fez um gesto brusco, mas ela não se intimidou:

     — Soube que Hoxley é cúmplice dos bandidos do vale.

     — Ora, eu soube disso no primeiro dia que cheguei à cidade.

     — Por que não me contou?

     — Você não iria acreditar. Esqueceu como me tratava? Até mentiu a Diana quanto ao meu estado civil!

     — Por favor, desculpe-me.

     — Essa é boa! Era isso que queria?

     — Quero saber o que vai fazer.

     — Isso será problema meu — Dane fez meia volta, levando Wise até o estábulo e deixando Nadine muda de espanto.

     Depois, recuperando-se, ela o xingou, furiosa, até que o pai aproximou-se.

     — O que há, filha?

     — Gostaria de matar Dane Rogers! Eu o odeio!

     — Cuidado, Nadine. O amor está bem perto do ódio — sorriu Cooper.

     — Imagine eu amar aquele sardento convencido!

     Uma fila de carroças vindas de Prescott entrou em Basket.

     Era o primeiro grupo de trabalhadores da ferrovia. Seria estendida uma linha de Basket a Wideville e outra de Queen Lake até Wideville, pelo Sul.

     As carroças pararam diante da associação dos rancheiros e formaram um círculo, desenganchando os cavalos. Passariam a noite ali e iniciariam os trabalhos.

     O chefe da caravana avisou ao xerife.

     — O engenheiro e mais homens chegarão com o material amanhã. Pediram-me que lhe entregasse este envelope.

     Tim abriu o envelope e leu:

     "Ao xerife de Basket City.

     Estes homens vão construir a ferrovia segundo o traçado autorizado pelo governo do território.

     Nomeie os ajudantes de que precisar, mas proteja os trabalhadores e não hesite em enforcar quem for surpreendido sabotando as obras.

     O portador deste lhe prestará maiores informações sobre o assunto".

     — A coisa está ficando séria — resmungou Tim vendo o carimbo da Chefatura de Prescott no final do papel.

     O chefe da caravana, capataz Barry Connington informou ao representante da lei que todos os seus homens estavam armados e dispostos a lutar. Acharia o xerife que os bandidos seriam capazes de atacar?

     — Sem dúvida, mas estou aqui para defendê-los.

     — Sozinho?

     — Com isso. Alem do mais, tenho um amigo que vale por meia dúzia de homens e já nomeei dois comissários. Quantos são vocês?

     — Doze, e amanhã chegarão mais quinze.

     — Ótimo! Assim poderei vingar a morte de Jones! — murmurou Tim dirigindo-se à associação e ao seu escritório, onde encontrou Toby Mac Neil, vaqueiro de Cooper, e Ross Carter, o carpinteiro, seus novos ajudantes, que faziam um claro contraste com o representante da lei, em matéria de estatura.

     Depois de fazê-los jurar sobre a Bíblia, Tim colocou no peito de cada um uma insígnia e apertou-lhes as mãos.

     Naquele instante, um cavaleiro entrou a lodo galope na cidade e parou diante do A Flecha, desmontando num salto.

     Era Cutle, enviado por Rex para saber se os trabalhadores da ferrovia tinham chegado.

     O bandido amarrou as rédeas do cavalo na barra e entrou no saloon.

     Pediu um uísque e começou a interrogar Pipo que lhe deu as informações sem malícia.

     — Trouxeram até dinamite — avisou o empregado.

     Cutle pegou o copo e já ia beber quando alguém bateu-lhe no ombro. O bandido virou-se e viu o homenzinho que o encarava com expressão hostil.

     — Sou o xerife. E você, quem é?

     — Cutle.

     — Documentos?

     — Não tenho.

     — Neste caso, terá que vir comigo até a delegacia.

     Cutle largou o copo sobre o balcão depois de tomar um trago. Sacou o revólver e ordenou:

     — Mãos para cima, baixinho!

     Surpreso, Tim obedeceu e Cutle tirou-lhe o revólver. Arrancou-lhe a estrela e lançou-a ao chão.

     — É muito pequeno para tal enfeite. Agora, vou quebrar-lhe a cara para não se meter mais comigo!

     Tim encontrava-se de costas para o balcão. Cutle não podia ver movimento da rua e ergueu o braço empunhando a arma pelo cano. Já ia deixá-la cair sobre a cabeça do xerife quando soou um tiro e o bandido soltou a arma, voltando-se para a porta com um grito de dor. Sua mão direita fora atravessada por uma bala.

     Dana, sorridente, estava diante dele, empunhando um fumegante Colt.

     — Veio meter-se na boca do lobo, valente? Pegue a insígnia e coloque-a nas mãos do xerife com todo respeito! Ande ou o mato!

     Tim recolhera sua arma e olhava para os dois, desconcertado.

     — Desculpe, xerife — murmurou Cutle de má vontade.

     — Agora, vamos à delegacia. Este é um dos que me assaltaram em Wideville, xerife — acusou Dane.

     — Ande! — ordenou Tim. — E não faça gracinhas!

     — E quem paga o uísque? — reclamou Pipo.

     — Desonesto, heim? Pague logo! — espicaçou Tim, vendo que Cutle entregava uma moeda com um brilho de ódio no olhar.

    

     Rex soube da chegada dos trabalhadores e da prisão de Cutle. Decidiu atacar a cidade naquela mesma noite.

     A Red Sand Company, temendo que as obras da ferrovia começassem, mandou reforços. Naquela tarde, mais dez bandidos chegaram ao vale para ficar sob as ordens de Rex.

     — Muito bem — Rex encarou o grupo. — Não deixaremos um único líder em Basket City, a começar pelo tal Dane e o xerife. Somos suficientes para acabar com todos!

     Os homens ouviram-no com atenção.

     — Gerry, com mais cinco homens, ficará à entrada da cidade pelo lado Sul, impedindo que alguém fuja. Hoxley, com outros cinco, irá se ocultar no A Flecha, esperando o momento de atacar. E eu, com o resto, entrarei pelo Norte para surpreender os trabalhadores que chegaram nas carroças. Só devem poupar Bulliver. Graças a ele temos levado tudo a bom termo.

     — E o boticário Joss? — quis saber Hoxley.

     — Será enforcado! É um traidor que contou tudo a Cooper.

     — Precisamos livrar Cutle — lembrou Gerry.

     — Vamos tentar— prometeu Rex.

     A noite chegou cheia de nuvens negras, presságio de tempestade.

     As ruas de Basket City ficaram desertas e no círculo dos carroções, brilhou a luz da fogueira.

     No A Flecha havia pouco movimento e Hoxley, com os cinco bandidos, aguardava num aposento com janelas para o pátio.

     — Quando terminarmos o serviço, iremos até o rancho de Cooper. Quero Nadine para mim.

     — Não gosto de misturar mulheres com certos assuntos — replicou Hicks Stepart, um dos bandidos. — Nunca deu bom resultado.

     — Se não quiser me acompanhar, pode ficar. Cuidarei sozinho do caso.

     Lon, outro dos bandidos, sorriu:

     — Vou com você, desde que me dê sociedade com a garota.

     — Receberá apenas um tiro se repetir o que disse! —rugiu Hoxley.

     Naquele instante, Pipo deixou cautelosamente o saloon e dirigiu-se à porta da botica, onde falou em murmúrios com Dickinson. Retornou ao saloon sem que notassem sua ausência.

     O boticário cruzou a rua e entrou no escritório do xerife.

     Ross e Toby, os ajudantes de Tim, seguiram para os ranchos, avisando sobre o plano dos bandidos.

     Vários rancheiros e vaqueiros seguiram para a cidade, colocando-se sob as ordens do xerife num plano idealizado por Dane que obrigara Cutle a falar, descobrindo que os bandidos pretendiam atacar à meia noite.

     Durante a espera, Hoxley começou a beber além da conta.

     — Quero pegar aquele maldito Dane Rogers! Daria cinco dólares para encontrá-lo agora.

     — Pois estou aqui! — falou Dane com os cotovelos apoiados na janela, empunhando um revólver em cada mão. Sorriu ao ver que Hoxley e seus acompanhantes se voltavam buscando as armas. — Quietos, senhores ou posso ficar nervoso! — Deve-me cinco dólares, Hoxley. Não esqueça. Promessa é dívida!

     — Não vai precisar de dinheiro no inferno!

     — Parece muito seguro de si — debochou Dane.

     Naquele instante, um dos bandidos sacou e Lon imitou-o, num movimento rápido. Dane, porém, disparou os revólveres. Os dois bandidos bateram com as costas na parede, mortalmente feridos.

     Aquele foi o sinal. Eram onze e meia e Hoxley, num gesto brusco com a mão, varreu a mesa, jogando garrafa e copos ao chão, além do lampião que se pagou. Dane agachou-se, ouvindo o assovio das balas sobre sua cabeça.

     Hoxley e seus três cúmplices deixaram o A Flecha, enquanto Dane também corria para a rua que se transformara num inferno. Vários cavaleiros passaram a galope, os tiros sucediam-se.

     Dane correu para Wise e montou, vendo que vários vaqueiros disparavam também.

     Da associação, o xerife e seus ajudantes respondiam ao fogo e os bandidos tinham se dividido, atacando furiosamente.

     Um cavaleiro caiu, mas sua montaria continuou a correr.

     Dane encontrou Gerry e, à escassa claridade, viu-o atirar pretendendo atingi-lo. Dane pressionou o gatilho matando o cavalo do bandido que jogou o cavaleiro longe.

     Gerry ergueu-se, disposto a disparar novamente. Dane saltou sobre ele e aplicou-lhe um golpe na cabeça, desacordando-o.

     Carregou-o para a associação e entregou-o ao xerife.

     Dane tornou a sair a tempo de ver os bandidos lançando tochas de pinheiro cobertas com resina contra os carroções, para obrigar os trabalhadores a deixarem suas proteções.

     Dane disparou contra um homem que pretendia lançar uma tocha. O cavaleiro caiu, dando uma volta.

     Uma carroça começou a queimar e logo sobreveio uma terrível explosão. A dinamite fora atingida.

     Os dois bandos pararam, assombrados por algum tempo.

     Um grito escapou de uma garganta e, à luz do incêndio, todos puderam ver o corpo de Gerry balançando no balcão de ferro da associação. Tim enforcara-o tão logo voltara a si.

     Naquele instante, Luke e seu grupo pretendiam encurralar Dane que descarregou suas armas contra os bandidos. Atingiu dois antes de se sentir pego pelas costas.

     Viu Luke avançar com um punhal na mão e um sorriso triunfante no rosto. Dane aplicou-lhe um pontapé no estômago, fazendo-o rolar no chão.

     O homem que o segurava afrouxou o aperto e Dane virou-se para ver Joss com uma barra de ferro na mão.

     — Pensei que fosse um traidor, Joss.

     — Todos verão que estavam enganados. Cuidado!

     Dane saltou, mudando de lugar no instante em que uma bala atingia a parede. Dane recuperou a arma e pressionou o gatilho atingindo Luke, vendo-o cair morto.

     A luta diminuiu e alguns homens e mulheres recolheram os feridos levando-os até a botica onde Joss curou-os como podia com a ajuda de Diana.

     Das seis carroças, três tinham sidas incendiadas, mas Dane não parava, apesar de sentir uma orelha ferida e também um arranhão no braço.

     Tim estava protegido na janela, usando um rifle quando um homem passou. O xerife não hesitou em deixar a delegacia, colocando-se às paredes até aproximar-se do outro.

     — Mãos ao alto, Rex!

     O chefe dos bandidos ainda tentou resistir, mas Dane apareceu e dominou-o.

     — Este é Rex Stewart, Dane. O chefe da quadrilha; um homem esperto! Mas agora acabou — explicou Tim. — Vamos enforcá-lo!

     — Não, ainda pode nos ajudar contra a Red Sand. Leve-o para a cadeia e ainda algeme-o — aconselhou Dane.

    

     A luta terminou, os bandidos renderam-se, mas Hoxley não estava nem entre os mortos nem entre os detidos.

     — Pois sei onde ele está — avisou Pipo. — Foi até o rancho Veleta. Ouvi-o falar de Nadine. Disse que ela estava à sua espera.

     Dane buscou Wise, montou e saiu num desesperado galope, ignorando qualquer aviso.

     Muitos dos trabalhadores e vaqueiros tinham morrido, mas dos bandidos tinham restado apenas com vida Rex e mais quatro.

     Tim mandou seus ajudantes prenderem Bulliver como cúmplice dos bandidos e também tomou o depoimento de Rex que confessou chamar-se Fenimore Elliot e ser procurado em Phoenix, além de ter matado Frank Merrit.

     Rex quis saber como Tim podia estar tão bem informado e o xerife explicou pertencer à Polícia de Prescott e ter apenas usado um disfarce de garimpeiro.

     Hoxley, vendo tudo perdido, montou e dirigiu-se ao rancho de Cooper, pretendendo apenas levar Nadine consigo. Reconhecia, afinal, que acabara apaixonando-se pela moça.

     O jogador alcançou a propriedade e deu a volta pela casa-sede, sabendo que a maioria do pessoal de Cooper estaria com o rancheiro combatendo os bandidos na cidade.

     Sabia qual a janela do quarto de Nadine e bateu ali, chamando a jovem que acordou sobressaltada.

     — Quem é?

     — Oliver, Nadine. Quero lhe falar!

     — Vá embora! Não quero vê-lo. Agora sei que é um patife! — gritou Nadine, indignada, colocando um robe e calçando os chinelos, mas sem abrir a janela.

     — Precisa vir. Seu pai foi ferido e acabo de trazê-lo! — mentiu Hoxley

     Esquecida de qualquer cautela, Nadine correu para a porta dos fundos, acreditando no que dizia Hoxley.

     Tão logo Nadine surgiu, o jogador lançou a jaqueta de couro no rosto da moça para abafar seus gritos. Ergueu-a nos braços, ignorando-lhe a reação. Atravessou a porta e dirigiu-se ao cavalo com a esperneante jovem nos braços.

     Colocou-a no chão apenas os minutos necessários para amarrá-la e amordaçá-la, satisfeito por ver que seu plano estava dando certo.

     Ergueu Nadine como um fardo, pretendendo pô-la sobre a sela quando ouviu a ordem:

     — Mãos para cima, Hoxley! — gritou Dane.

     O jogador deixou Nadine no chão t voltou-se, sacando e disparando.

     Dane lançou-se para o chão. Hoxley aproveitou para fugir em disparada, esquecendo cavalo, Nadine e o inimigo.

     Dane levantou-se e correu atrás do jogador. Hoxley virou-se e disparou novamente.

     Dane sentiu a mordida do chumbo no ombro esquerdo, mas seu indicador pressionou o gatilho e o jogador parou, girando sobre si mesmo para depois cair de joelhos.

     Hoxley ainda apertou o gatilho uma vez mais. Seu projétil perdeu-se no ar, enquanto Dane disparava. O jogador caiu e ficou imóvel.

     Dane aproximou-se de Nadine e desamarrou-a. Tentou erguê-la, mas terminou por cair desacordado.

     Dane abriu os olhos e viu-se numa cama, rodeado por várias pessoas e percebeu que Nadine se encontrava à sua cabeceira.

     — O que houve? — perguntou.

     — Você matou Hoxley, mas ele o feriu. Felizmente, você já está fora de perigo, mas passou algumas horas delirando.

     — Imagino que não tenham sido palavras loucas.

     — Não se considera uma declaração de amor palavras loucas — riu Cooper. — Afinal você só dizia que amava Nadine.

     A jovem enrubesceu. Dane arregalou os olhos.

     — Tem razão, não é mesmo nenhum disparate — confirmou Dane.

    

     — Gosto de ver que pensa assim — Cooper voltou a sorrir. — Agora, conheça Thomas Berkshire, da ferrovia, e o engenheiro Waleh Gaynor. Chegaram com muitos trabalhadores e trouxeram-lhe uma mensagem.

     — A ferrovia vai recompensá-lo com cinco mil dólares — avisou Thomas aproximando-se da cama. — Já trago o cheque comigo. E vão nomeá-lo também Correio do Arizona até a inauguração da ferrovia. Depois, terá um cargo bem remunerado na empresa. Sem você, jamais conseguiríamos dominar os demônios do vale.

     — O nome verdadeiro de Dane Rogers é Warner Duffy — explicou Tim, provocando alguma surpresa. — c agora a Red Sand Company pagará por seus crimes. Rex confessou tudo.

     Dane sentiu que a mão de Nadine apertava a sua e sorriu.

     — Quando acha que poderá começar a trabalhar? — indagou Thomas.

     — Acho que vai precisar procurar outro correio, Sr. Berkshire — avisou Cooper. — Este aí, pelo visto, vai ficar muito ocupado — disse olhando para a filha.

     — Não lhe disse que do amor ao ódio é apenas um passo?

     — Por que não vamos dar uma olhada lá fora? — propôs Tim, percebendo que Dane e Nadine não ouviam nada do que os outros estavam dizendo.

     Lentamente, o grupo retirou-sc. Nadine inclinou-se para ajeitar os travesseiros de Dane e este aproveitou para beijá-la. Não era preciso dizer nada.

    

     (1) Zaino – Cavalo de pelo castanho escuro e uniforme, sem manchas ou malhas.

     (2) Wise – Sábio.

 

                                                                                King Drake  

 

                      

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