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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CORRETOR / Jonh Grisham
O CORRETOR / Jonh Grisham

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CORRETOR

 

Joel Backman era um homem extremamente poderoso. Conhecido como “o corretor”, ele sabia apostar alto, um advogado que ganhava 10 milhões de dólares por ano e podia “abrir qualquer porta em Washington”. O que era verdade até ele tentar negociar o acesso ao mais sofisticado sistema de vigilância por satélite do mundo, com quem fizesse a melhor oferta. Quando foi descoberto, Backman achou que a prisão era a única maneira que tinha de permanecer vivo e em segurança. Seis anos depois de ter sido aprisionado, o diretor da CIA convence o presidente dos Estados Unidos a perdoar Backman, e o corretor passa a ser um homem livre - e um alvo perfeito.

Em suas últimas horas no Gabinete Oval, o presidente dos Estados Unidos, derrotado na tentativa de se reeleger, concede um controvertido indulto a Joel Backman, um notório lobista de Washington, que passara os últimos seis anos mantido em confinamento solitário em uma penitenciária federal.

O que ninguém sabe é que o presidente só extinguiu a pena de Backman depois de ter sido pressionado pela CIA. Ao que tudo indica, no auge de sua carreira como corretor do poder, Backman pode ter obtido informações que comprometem o mais sofisticado sistema de vigilância por satélite do mundo.

Em uma espécie de programa não-oficial de proteção à testemunha, Backman é levado para fora do país em segredo, num avião cargueiro militar. A ele é dado um novo nome, uma nova identidade e passa a viver na Itália. Depois de garantir sua segurança, a CIA pretende revelar o paradeiro de Backman a israelenses, russos, chineses e sauditas. Em seguida, a CIA irá fazer o que sabe melhor: ficará de braços cruzados, observando. A questão não é se Backman irá sobreviver - não há a menor chance disso ocorrer -, para a CIA a única pergunta que precisa ser respondida é: Quem irá matá-lo?

 

Nas horas finais de uma presidência destinada a despertar menos interesse dos historiadores do que qualquer outra desde William Henry Harrison (trinta e um dias da posse à morte), Arthur Morgan reuniu-se no Gabinete Oval com o único amigo que ainda lhe restava, e ponderou sobre suas últimas decisões. Naquele momento, sentia que errara em todas aquelas tomadas nos últimos quatro anos, e não estava seguro de que seria capaz, ao final do mandato, de fazer as coisas certas. O amigo também não tinha certeza, embora falasse pouco e dissesse apenas o que o presidente queria ouvir.

Havia indultos a conceder... súplicas desesperadas de ladrões, peculatários e mentirosos, alguns ainda na prisão, outros que nunca haviam cumprido qualquer pena, mas, mesmo assim, queriam que sua reputação fosse limpa e seus amados direitos restaurados. Todos alegavam ser amigos, ou amigos de amigos, ou partidários persistentes, embora apenas uns poucos tivessem a oportunidade de proclamar seu apoio antes daquele último momento. Era muito triste que, depois de quatro anos na liderança do mundo livre, tudo se reduzisse a uma pilha de pedidos de um bando de safados. Que ladrões deveriam ser indultados para voltar a roubar? Era essa a questão de suprema importância com que se defrontava o presidente, à medida que as derradeiras horas se arrastavam.

O último amigo era Critz, um colega de fraternidade dos anos na Universidade de Cornell, quando Morgan dirigia o grêmio acadêmico, enquanto ele cuidava das urnas de votação. Critz servira-o como secretário de imprensa, chefe de gabinete, assessor de segurança nacional e até mesmo secretário de Estado. É verdade que permanecera no último cargo por apenas três meses, sendo demitido às pressas, porque seu estilo peculiar de diplomacia quase desencadeara a Terceira Guerra Mundial. Critz fora designado para seu último cargo em outubro passado, nas semanas finais e frenéticas da campanha pela reeleição. Com as pesquisas mostrando que o presidente Morgan estava muito mal em pelo menos quarenta estados, Critz assumira o comando da campanha e conseguira alienar o resto do país, talvez com exceção do Alasca... o que ainda era um caso controvertido.

Fora uma eleição histórica, nunca antes um presidente à reeleição recebera tão poucos votos eleitorais. Três, para ser exato, todos do Alasca, o único estado que Morgan não visitara, a conselho de Critz. Foram quinhentos e trinta e cinco votos do colégio eleitoral para o desafiante, três para Morgan. O termo “derrota esmagadora” nem de longe descrevia a enormidade da catástrofe.

Depois que os votos foram contados, o desafiante, aceitando um mau conselho, decidira contestar os resultados no Alasca. Por que não conquistar todos os quinhentos e trinta e oito votos do colégio eleitoral? Fora esse o seu raciocínio. Nunca mais um candidato à presidência teria oportunidade de vencer o adversário sem perder um único voto, infligindo a mãe de todas as derrotas. Durante seis semanas, o presidente Morgan sofrerá ainda mais, enquanto se travava uma batalha judicial no Alasca. Quando o Supremo Tribunal lhe concedeu os três votos do estado, Morgan e Critz abriram discretamente uma garrafa de champanhe.

O presidente Morgan tornara-se apaixonado pelo Alasca, embora os resultados ratificados lhe proporcionassem uma vantagem de apenas dezessete votos.

Deveria ter evitado mais estados.

Perdera até em Delaware, seu estado natal, onde o eleitorado, outrora esclarecido, lhe permitira servir durante oito anos maravilhosos como governador. Assim como ele nunca encontrara tempo para visitar o Alasca, seu adversário ignorara por completo o estado de Delaware: não tivera ali nenhuma organização de campanha mais sólida, nenhum anúncio na televisão, nenhum comício. E, mesmo assim, o adversário ainda conquistara cinqüenta e dois por cento dos votos!

Critz estava sentado numa cadeira de couro, com um bloco de anotações em que relacionara uma centena de coisas que precisavam ser feitas imediatamente. Observou o presidente deslocar-se lentamente de uma janela para outra, espiando pela escuridão, sonhando com o que poderia ter sido. O homem estava deprimido e humilhado. Aos cinqüenta e oito anos, sua vida acabara, a carreira estava arruinada, o casamento desmoronava. A Sra. Morgan já voltara para Wilmington e ria abertamente da idéia de viver numa cabana no Alasca. Critz tinha dúvidas sobre a capacidade do amigo de caçar e pescar pelo resto da vida, mas a perspectiva de viver a mais de três mil quilômetros de distância da Sra. Morgan era das mais atraentes. Poderiam ter conquistado o estado de Nebraska se a Primeira Dama, uma mulher de sangue azul, não tivesse se referido ao time de futebol americano como os “Sooners”.

Os Sooners de Nebraska!

Era o apelido dado aos habitantes do estado de Oklahoma.

Da noite para o dia, Morgan caíra tanto nas pesquisas, em Nebraska e Oklahoma, que nunca mais se recuperara.

E, no Texas, ela dera uma mordida num chili premiado e começara a vomitar. Enquanto era levada às pressas para um hospital, um microfone captara suas palavras ainda famosas:

- Como pessoas tão atrasadas podem comer uma porcaria tão pútrida?

Nebraska tem cinco votos no colégio eleitoral. O Texas tem trinta e quatro. Insultar o time local de futebol americano era um erro a que poderiam sobreviver. Mas nenhum candidato poderia superar uma descrição tão depreciativa do chili do Texas.

Que campanha! Critz sentia-se tentado a escrever um livro. Alguém precisava registrar o desastre.

A associação de quase quarenta anos dos dois homens aproximava-se do fim. Critz conseguira um emprego em uma empresa que trabalhava para o Departamento de Defesa, com um salário de duzentos mil dólares por ano. Faria um circuito de conferências, a cinqüenta mil dólares por discurso, se alguém estivesse bastante desesperado para pagar. Depois de dedicar a vida ao serviço público, estava falido, envelhecendo depressa, e ansioso em ganhar algum dinheiro.

O presidente vendera sua linda casa em Georgetown, com um lucro considerável. Comprara um pequeno rancho no Alasca, onde era evidente que as pessoas o admiravam. Planejava passar o resto de seus dias ali, caçando, pescando, talvez escrevendo suas memórias. O que quer que fizesse no Alasca, no entanto, nada teria a ver com política e Washington. Não seria o idoso estadista, o patriarca de qualquer partido, a sábia voz da experiência. Não haveria nenhuma excursão de despedida, discursos em convenções ou cátedras de ciência política com seu nome em universidades. Nem sequer uma biblioteca presidencial. O povo falara com uma voz clara e estrondosa. Se não o queria, então ele podia muito bem passar sem o povo.

-  Precisamos tomar uma decisão sobre Cuccinello - disse Critz.

O presidente ainda estava parado junto à janela, olhando para o nada, na escuridão, pensando sobre Delaware.

- Quem?

- Foggy Cuccinello, aquele diretor de cinema que foi indiciado por ter feito sexo com uma garota que era candidata a atriz.

- Que idade tinha ela?

- Quinze anos, eu acho.

- É muito jovem.

- Também acho. Ele fugiu para a Argentina, onde permanece há dez anos. Agora, está com saudade dos Estados Unidos, quer voltar e recomeçar a fazer aqueles seus filmes horríveis. Diz que sua arte o está chamando.

- Talvez as garotas o estejam chamando.

- Isso também.

-  Dezessete anos não me incomodaria. Mas quinze anos é jovem demais.

- Ele oferece cinco milhões.

O presidente virou-se e fitou Critz.

- Ele oferece cinco milhões por um indulto presidencial?

- Isso mesmo. E precisa agir depressa. O dinheiro deve ser transferido da Suíça. Lá, são três horas da madrugada.

- Para onde iria?

- Temos contas no exterior. Seria fácil.

- O que a imprensa diria?

- As piores coisas.

- Sempre dizem as piores coisas.

- Neste caso, seriam ainda piores.

- Estou pouco ligando para a imprensa.

Critz teve vontade de dizer: Então por que perguntou?

- Dá para descobrir a origem do dinheiro? - indagou o presidente, tornando a se virar para a janela.

- Não.

Com a mão direita, o presidente começou a coçar a nuca, o que sempre fazia quando enfrentava uma decisão difícil. Dez minutos antes de quase ordenar um bombardeio atômico da Coréia do Norte, se cocara até arranhar a pele, o sangue escorrendo para o colarinho da camisa branca.

- A resposta é não - declarou ele. - Quinze anos é muito jovem.

Sem uma batida, a porta foi aberta. Artie Morgan, o filho do presidente, entrou na sala, com uma Heineken numa das mãos e alguns papéis na outra.

- Acabei de falar com a CIA. - Ele vestia um jeans desbotado e não usava meias. - Maynard está a caminho.

Artie largou os papéis em cima da mesa e deixou a sala, batendo a porta. Ele aceitaria os cinco milhões sem a menor hesitação, pensou Critz, independentemente da idade da garota. Quinze anos, com certeza, não era jovem demais para Artie. Poderiam vencer no estado do Kansas se Artie não tivesse sido surpreendido num motel em Topeka com três animadoras de torcida, a mais velha das quais tinha dezessete anos. Um promotor finalmente arquivara o processo - dois dias depois da eleição - quando as três garotas apresentaram depoimentos juramentados em que alegavam não ter feito sexo com Artie. Na verdade, estavam a segundos de consumar o ato quando uma das mães bateu na porta do quarto, impedindo que a orgia continuasse.

O presidente sentou em sua cadeira de balanço de couro e fingiu folhear alguns papéis inúteis.

-  Quais são as últimas informações sobre Backman? - perguntou ele.

Em seus dezoito anos como diretor da CIA, Teddy Maynard estivera na Casa Branca menos de dez vezes. E nunca para jantar (sempre recusara, por questões de saúde), nem para cumprimentar algum importante visitante estrangeiro (não se importava nem um pouco). No tempo em que ainda podia andar, aparecia de vez em quando para conferenciar com o presidente da ocasião, talvez com um ou dois de seus assessores. Desde que ficara confinado a uma cadeira de rodas, suas conversas com a Casa Branca eram pelo telefone. Duas vezes, um vice-presidente fora levado a Langley para se encontrar com o Sr. Maynard.

A única vantagem de estar numa cadeira de rodas era o fato de que proporcionava uma desculpa para ir ou ficar, ou fazer qualquer coisa que lhe aprouvesse. Ninguém queria pressionar um velho aleijado.

Um espião durante quase cinqüenta anos, ele agora preferia o luxo de olhar diretamente para trás quando se deslocava. Viajava numa van branca sem qualquer identificação, com vidros à prova de bala, paredes de chumbo e dois homens fortemente armados por trás do motorista, também fortemente armado. A cadeira de rodas ficava presa no chão na traseira da van, virada para trás. Dessa maneira, Teddy podia observar todo o movimento sem que ninguém o visse. Duas outras vans os seguiam a uma certa distância, e qualquer tentativa de se aproximar do diretor seria imediatamente abortada. Não se esperava nenhuma. A maior parte do mundo achava que Teddy Maynard já morrera, ou definhava em seus últimos dias numa casa de repouso secreta, para onde os velhos espiões eram enviados.

Teddy queria que fosse assim.

Estava envolvido por uma grossa manta cinza, sob os cuidados de Hoby, seu fiel assessor. Enquanto a van avançava pela Beltway, a uma velocidade constante de cem quilômetros horários, Teddy tomava chá verde, servido de uma garrafa térmica por Hoby, e observava os veículos por trás. Hoby sentava ao lado da cadeira de rodas, num banco de couro feito especialmente para ele.

Depois de tomar um gole do chá, Teddy perguntou:

- Onde está Backman neste momento?

- Em sua cela - respondeu Hoby.

- E nosso pessoal está com o diretor?

- Em sua sala, esperando.

Outro gole do copo de papel, seguro com todo o cuidado pelas duas mãos. Eram mãos frágeis, as veias evidentes, da cor de leite desnatado, era como se já tivessem morrido e esperassem, pacientes, pelo resto do corpo.

- Quanto tempo será preciso para tirá-lo do país?

- Cerca de quatro horas.

- O plano está todo armado?

- Tudo pronto. Só aguardamos o sinal verde.

- Espero que aquele idiota consiga entender o que eu quero fazer.

Critz e o idiota olhavam para as paredes do Gabinete Oval, o silêncio opressivo rompido de vez em quando por um comentário sobre Joel Backman. Tinham de falar sobre alguma coisa, porque nenhum dos dois mencionaria o que estava realmente pensando.

Aquilo podia estar acontecendo?

Era mesmo o fim?

Quarenta anos! De Cornell ao Gabinete Oval! O final era tão abrupto que não haviam tido tempo de se preparar direito. Contavam com mais quatro anos. E seriam quatro anos de glória, um legado construído com o maior cuidado, e depois partiriam, galantes, ao sol poente.

Embora já fosse bem tarde, lá fora parecia ficar ainda mais escuro. As janelas que davam para o Jardim das Rosas estavam às escuras. Quase que se podia ouvir o tique-taque do relógio por cima da lareira, em sua contagem regressiva para o fim.

- O que a imprensa fará se eu conceder o indulto a Backman? - perguntou o presidente, não pela primeira vez.

- Ficará louca de raiva.

- Pode ser divertido.

- Não estará mais aqui.

- É verdade.

Depois da transmissão do cargo, ao meio-dia, sua fuga de Washington começaria com um jato particular (pertencente a uma empresa petrolífera) que o levaria à casa de um amigo na ilha de Barbados. Por instruções de Morgan, todos os aparelhos de televisão haviam sido retirados da casa, não haveria entrega de jornais e revistas e todos os telefones seriam desligados. Ele não teria contato com ninguém, nem mesmo com Critz, muito menos com a Sra. Morgan, pelo menos por um mês. Não se importaria se Washington pegasse fogo. Na verdade, torcia em segredo para que isso acontecesse.

Depois de Barbados, iria para sua cabana no Alasca e ali continuaria a ignorar o mundo, enquanto o inverno passava e esperava a primavera.

- Nós devemos perdoá-lo?

- Provavelmente.

O presidente assumia agora o “nós”, como era invariável quando se defrontava com uma decisão potencialmente impopular. Para as fáceis, era sempre “eu”. Quando precisava de uma muleta, em especial quando precisava de alguém para culpar, ele abria o processo de tomada de decisão para incluir Critz.

Havia quarenta anos que Critz arcava com a culpa e, embora com certeza já houvesse se acostumado, mesmo assim estava cansado de assumi-la.

- É bem possível que nunca tivéssemos chegado aqui sem a ajuda de Joel Backman.

- Talvez você tenha razão.

O presidente sempre alegara que fora eleito por causa de sua brilhante e carismática personalidade de campanha, a fantástica noção dos problemas e uma visão lúcida dos Estados Unidos. Finalmente, admitir que devia qualquer coisa a Joel Backman era quase chocante.

Mas Critz, além de cansado, estava calejado demais para se sentir chocado.

Seis anos antes, o escândalo de Backman envolvera grande parte de Washington e acabara maculando a Casa Branca. Uma nuvem pairara sobre um presidente popular, abrindo o caminho para Arthur Morgan chegar à Casa Branca, mesmo que aos tropeções.

Agora que saía, também aos tropeções, ele apreciava a oportunidade de desferir um último tapa na cara do establishment de Washington, que o evitara durante quatro anos. Um indulto para Joel Backman abalaria todos os prédios de escritórios de Washington e levaria a imprensa a um frenesi espumante. Morgan gostava da idéia. Enquanto descansava ao sol, em Barbados, a cidade teria outra convulsão com os congressistas exigindo audiências, promotores se exibindo para as câmeras e jornalistas e políticos falando sem parar nas emissoras de TV a cabo.

O presidente sorriu na escuridão.

 

Na Ponte Memorial de Arlington, sobre o rio Potomac, Hoby tornou a encher com chá verde o copo de papel do diretor.

- Obrigado - murmurou Teddy. - O que nosso idiota vai fazer amanhã, depois que deixar o cargo?

- Fugir do país.

- Deveria ter feito isso há mais tempo.

- Ele planeja passar um mês no Caribe, lambendo as feridas, ignorando o mundo, com cara de ressentido, esperando que alguém demonstre algum interesse.

- E a Sra. Morgan?

- Ela já voltou para Delaware, para jogar bridge.

- Os dois estão se separando?

- Se ele for esperto. Quem pode saber?

Teddy tomou um gole do chá.

- Qual é nosso instrumento de pressão se Morgan hesitar?

- Não creio que ele vá hesitar. As conversas preliminares transcorreram muito bem. Critz parece concordar. Ele tem uma noção das coisas muito melhor que a de Morgan. E sabe que nunca teriam chegado ao Gabinete Oval se não fosse pelo escândalo de Backman.

- Como eu perguntei, qual é nosso instrumento de pressão se ele hesitar?

- Não temos nenhum. Ele é um idiota, mas é limpo.

Eles deixaram a Constitution Avenue e entraram na rua 18. Pouco depois, passavam pelo portão leste da Casa Branca. Homens armados com metralhadores saíram da escuridão. Agentes do Serviço Secreto, usando capas pretas, pararam a van. Palavras de código foram enunciadas, rádios, usados. Em poucos minutos Teddy foi baixado da van. Uma revista rápida da cadeira de rodas revelou que levava apenas um velho aleijado, envolto por uma manta para protegê-lo do frio.

Artie, sem a Heineken na mão e outra vez sem bater, enfiou a cabeça pela porta e anunciou:

- Maynard acaba de chegar.

- Então ele ainda está vivo - comentou o presidente.

- Por pouco.

- Deixe-o entrar.

Hoby e um assessor chamado Priddy acompanharam a cadeira de rodas. O presidente e Critz cumprimentaram os visitantes e os levaram para a área de estar, na frente da lareira. Embora Maynard evitasse a Casa Branca, Priddy praticamente vivia ali, informando o presidente, todas as manhãs, sobre as questões da Inteligência.

Enquanto todos sentavam, Teddy correu os olhos pela sala, como se estivesse à procura de microfones ocultos. Tinha quase certeza de que não havia nenhum, a prática terminara com Watergate. Nixon estendera fios pela Casa Branca em quantidade suficiente para usar em uma pequena cidade, mas pagara caro por isso. Teddy, no entanto, estava preparado. Escondido com todo o cuidado por cima do eixo da cadeira de rodas, poucos centímetros abaixo do assento, havia um potente gravador que captaria todos os sons no Gabinete Oval durante os trinta minutos seguintes.

Ele tentou sorrir para o presidente Morgan, mas tinha vontade de dizer o seguinte: você é com certeza o político mais limitado que já conheci. Somente nos Estados Unidos um idiota como você poderia chegar ao topo.

O presidente Morgan sorriu para Teddy Maynard, mas tinha vontade de dizer o seguinte: eu deveria tê-lo demitido há quatro anos. Sua agência tem sido um constante embaraço para este país.

Teddy: Fiquei chocado por você ter conseguido ganhar em um estado, embora por apenas dezessete votos.

Morgan: Você não seria capaz de encontrar um terrorista mesmo que ele anunciasse suas atividades num enorme outdoor.

Teddy: Feliz pescaria. Vai conseguir menos trutas do que votos.

Morgan: Por que você não morreu logo, como todos me garantiam que aconteceria?

Teddy: Presidentes vêm e passam, mas eu nunca deixo meu lugar.

Morgan: Foi Critz quem quis mantê-lo. Agradeça a ele por seu cargo. Eu queria demiti-lo duas semanas depois da posse.

Critz indagou em voz alta:

- Alguém quer café?

- Não - respondeu Teddy.

Hoby e Priddy acompanharam a decisão do diretor e também recusaram. E porque a CIA não queria café, o presidente Morgan declarou:

- Eu quero. Sem leite, com dois torrões de açúcar.

Critz acenou com a cabeça para uma secretária, que esperava numa porta lateral entreaberta. Depois virou-se para os outros e disse:

- Não temos muito tempo.

- Vim até aqui para falar sobre Joel Backman - anunciou Teddy.

- Sei que é por isso que está aqui - comentou Morgan.

- Como todos sabem, o Sr. Backman foi para a prisão sem dizer nada - continuou Teddy, ignorando o presidente. - Ainda guarda alguns segredos que podem, com toda a franqueza, comprometer a segurança nacional.

- Não pode matá-lo - declarou Critz.

- É verdade, Sr. Critz. Não podemos liquidar cidadãos americanos. A lei não permite. Preferimos deixar que outros o façam.

- Não estou entendendo - murmurou o presidente.

- O plano é simples. Se indultar o Sr. Backman e ele aceitar, nós o tiraremos do país em poucas horas. Ele deve concordar que passará o resto da vida escondido. Isso não deve ser um problema, porque há várias pessoas que gostariam de vê-lo morto, e ele sabe disso. Vamos levá-lo para outro país, provavelmente na Europa, onde será mais fácil vigiá-lo. Ele terá uma nova identidade. Será um homem livre. Com o tempo, as pessoas esquecerão Joel Backman.

- Esse não é o fim da história - disse Critz.

- Não, não é. Esperaremos, talvez por um ano, e depois vazaremos a informação nos lugares certos. Alguém vai descobrir o Sr. Backman e matá-lo. Quando isso acontecer, muitos de nossos problemas estarão resolvidos.

Uma longa pausa, enquanto Teddy olhava para Critz, depois para o presidente. Quando se convenceu de que os dois estavam absolutamente confusos, ele acrescentou:

- É um plano muito simples, senhores. Tudo uma questão de quem vai matá-lo.

- E você ficará observando? - indagou Critz.

- Bem de perto.

- Quem está atrás dele? - perguntou o presidente.

Teddy tornou a cruzar as mãos de veias saltadas. Encolheu-se um pouco e disse, como uma professora falando para crianças de terceira série:

- Talvez os russos, os chineses, talvez os israelenses. Pode haver outros.

Claro que havia outros, mas ninguém esperava que Teddy revelasse tudo o que sabia. Ele nunca fizera isso, e nunca faria, independentemente de quem fosse o presidente, e de quanto tempo lhe restasse no Gabinete Oval. Os presidentes vinham e passavam, alguns por quatro anos, outros por oito. Alguns adoravam a espionagem, outros se preocupavam apenas com as últimas pesquisas de opinião pública. Morgan fora particularmente inepto em política externa, e, apenas a poucas horas do fim de seu mandato, Teddy não divulgaria nada mais além do necessário para obter o indulto.

- Por que Backman aceitaria esse acordo? - perguntou Critz.

- Ele pode não aceitar - respondeu Teddy. - Mas há seis anos é mantido em confinamento solitário. Isso significa vinte e três horas por dia numa pequena cela. Uma hora de sol. Três banhos de chuveiro por semana. Uma péssima comida... ouvi dizer que ele emagreceu quase trinta quilos. E também me contaram que não tem passado bem.

Dois meses antes, depois da esmagadora derrota do presidente, Teddy Maynard concebera aquele plano de indulto presidencial. Usara sua influência para fazer com que as condições de Backman na prisão se tornassem ainda piores. A temperatura na cela baixara em dez graus, e no último mês ele vinha tendo terríveis acessos de tosse. A comida, insípida na melhor das hipóteses, era passada pelo liquidificador e servida fria. A descarga do vaso fazia barulho durante a metade do tempo. Os guardas acordavam-no várias vezes durante a noite. Seus privilégios de falar ao telefone foram reduzidos. A biblioteca jurídica, que ele costumava usar duas vezes por semana, tornara-se subitamente uma área proibida. Backman, um advogado, conhecia seus direitos. Ameaçava com todos os tipos de ações judiciais contra a penitenciária e o governo, embora ainda não tivesse iniciado nenhuma. A luta cobrava seu tributo. Ele pedia pílulas para dormir e Prozac.

- Você quer que eu perdoe Joel Backman para que possa providenciar seu assassinato? - perguntou o presidente.

- Isso mesmo - confirmou Teddy. - Mas não faremos isso diretamente.

- Mas vai acontecer.

-Vai.

- E sua morte será no melhor interesse da segurança nacional?

- Tenho certeza absoluta.

 

A ala de isolamento na Penitenciária Federal Rudley tinha quarenta celas idênticas, cada uma delas com cinco metros quadrados, sem janela, sem barras, o chão de concreto pintado de verde, paredes de blocos de concreto. A porta de metal maciço tinha uma estreita abertura na parte inferior, para a passagem da bandeja com a comida, e um pequeno visor, para os guardas olharem de vez em quando. A ala era ocupada por informantes do governo, a maioria em casos de tráfico de drogas, homens que haviam rompido com a Máfia, alguns espiões... homens que precisavam ficar longe dos outros prisioneiros, porque havia muitas pessoas que cortariam suas gargantas com a maior satisfação. A maioria dos quarenta prisioneiros sob custódia protetora em Rudley tomara a iniciativa de solicitar sua transferência para a ala de isolamento.

Joel Backman tentava dormir quando dois guardas abriram a porta da cela, fazendo o maior barulho, e acenderam a luz.

- O diretor quer falar com você - anunciou um guarda, sem dar qualquer explicação adicional.

Seguiram em silêncio, numa van da penitenciária, através da fria pradaria de Oklahoma. Passaram por outros prédios, em que ficavam os criminosos que não exigiam tanta segurança, e foram para o prédio da administração. Backman, algemado sem qualquer motivo evidente, foi levado para dentro às pressas. Subiram dois lances de escadas, atravessaram um extenso corredor, até a sala grande, com as luzes acesas. Havia algo muito importante acontecendo. Backman olhou para um relógio na parede, eram quase onze horas da noite.

Ele nunca se encontrara com o diretor, o que nada tinha de excepcional. Por muitos bons motivos, o diretor não circulava pela prisão. Não era candidato a nenhum cargo eletivo e não estava preocupado em motivar suas tropas. Havia três outros homens, todos de terno, em sua sala, com ar compenetrado. Era óbvio que estavam ali, conversando, havia bastante tempo. Embora fosse proibido fumar dentro de qualquer instalação do governo americano, existia um cinzeiro cheio e uma nuvem de fumaça pairando perto do teto. Sem qualquer preliminar, o diretor ordenou:

- Sente-se ali, Sr. Backman.

- É um prazer conhecê-lo. - Backman olhou para os outros homens na sala. - Posso saber por que estou aqui?

- Já vamos falar sobre isso.

- Pode fazer o favor de mandar tirar estas algemas? Prometo que não matarei ninguém.

O diretor deu uma ordem para o guarda mais próximo, que no mesmo instante tirou uma chave do bolso e abriu as algemas. Em seguida, o guarda e seu companheiro deixaram a sala, batendo a porta, para irritação do diretor, que era um homem muito nervoso. Ele apontou para os outros, fazendo as apresentações:

- Este é o agente especial Adair, do FBI. Este é o Sr. Knabe, do Departamento de Justiça. E este é o Sr. Sizemore, também de Washington.

Nenhum dos três se aproximou do Sr. Backman, que continuava de pé, com uma expressão de perplexidade. Ele acenou com a cabeça para os homens, num esforço meio desanimado para ser polido. O gesto, porém, não teve qualquer retribuição.

- Sente-se, por favor - reiterou o diretor. Backman finalmente sentou. O diretor continuou:

- Obrigado. Como sabe, Sr. Backman, um novo presidente está prestes a tomar posse. O presidente Morgan está deixando o cargo. Neste momento, ele se encontra no Gabinete Oval, estudando a decisão de lhe conceder ou não o perdão total.

Backman foi dominado de repente por um violento acesso de tosse, em parte por causa da temperatura quase ártica em sua cela, em parte pelo choque da palavra “perdão”.

O Sr. Knabe, do Departamento de Justiça, estendeu-lhe uma garrafa com água. Ele bebeu, deixando um pouco escorrer pelo queixo, e conseguiu, finalmente, controlar a tosse.

- Um perdão? - murmurou ele.

- Um perdão total, com algumas condições.

- Mas por quê?

- Não sei, Sr. Backman, nem é da minha conta compreender o que está acontecendo. Sou apenas o mensageiro.

O Sr. Sizemore, apresentado simplesmente como “de Washington”, mas sem a bagagem do título ou posição, interveio:

- É um acordo, Sr. Backman. Em troca do perdão total, deve concordar em deixar o país, nunca mais voltar, e viver com uma nova identidade, num lugar em que ninguém poderá encontrá-lo.

Não havia problema nesse ponto, pensou Backman. Não queria mesmo ser encontrado.

- Mas por quê? - murmurou ele de novo.

Era possível ver a garrafa em sua mão esquerda tremendo. O Sr. Sizemore, de Washington, observou o tremor e avaliou Joel Backman dos cabelos grisalhos cortados rentes aos tênis velhos e ordinários com as meias pretas da prisão. Não pôde deixar de recordar uma imagem do homem em sua vida anterior. Uma capa de revista aflorou em sua mente. Uma foto de Joel Backman num terno preto italiano, sob medida, impecável, sem um fio de cabelo fora do lugar, olhando para a câmera com toda a presunção que era humanamente possível. Naquele tempo, os cabelos eram mais escuros e mais compridos, o rosto bonito era cheio e sem rugas. A cintura volumosa indicava muitos almoços de poder e jantares que se prolongavam por quatro horas. Ele adorava vinho, mulheres e carros esportes. Tinha um jato particular, um iate, uma casa em Vail e se mostrava sempre ansioso em falar sobre tudo. O título da matéria, por cima de sua cabeça, dizia: O CORRETOR: ESTE É O SEGUNDO HOMEM MAIS PODEROSO DE WASHINGTON?

A revista estava na pasta do Sr. Sizemore, junto com a extensa ficha criminal de Joel Backman. Ele estudara-a durante o vôo de Washington para Tulsa.

Segundo a reportagem da revista, os rendimentos do corretor na ocasião eram superiores a dez milhões de dólares por ano, embora ele se esquivasse às indagações do repórter nesse ponto. Sua firma de advocacia tinha duzentos advogados, pequena pelos padrões de Washington, mas, sem dúvida, a mais poderosa nos círculos políticos. Era uma máquina de lobby, não um escritório em que advogados autênticos praticavam seu ofício. Mais como um bordel para empresas ricas e governos de outros países.

Ah, como os poderosos caem, refletiu o Sr. Sizemore, enquanto observava a garrafa tremer.

-  Não compreendo - murmurou Backman depois de um longo momento.

- E não temos tempo para explicar - declarou o Sr. Sizemore. - Tem de ser um acordo rápido, Sr. Backman. Infelizmente, não dispõe de tempo para avaliar as circunstâncias. Precisa tomar uma decisão imediata. Sim ou não. Quer continuar aqui ou quer viver sob outro nome, no outro lado do mundo?

- Onde?

- Ainda não sabemos, mas estamos decidindo.

- Estarei seguro?

- É o único que pode responder a essa pergunta, Sr. Backman.

Enquanto ponderava sobre sua própria indagação, o Sr. Backman tremeu ainda mais.

- Quando partirei?

Ele falou devagar. A voz recuperava a força a cada momento que passava, mas havia sempre a expectativa de outro acesso de tosse.

- Imediatamente.

O Sr. Sizemore assumira o controle da reunião, relegando o diretor e os representantes do FBI e do Departamento de Justiça a meros espectadores.

- Está querendo dizer agora, neste momento?

- Nem sequer voltará à cela.

-Essa não!

Os outros não puderam deixar de sorrir.

- Há um guarda à espera na porta de sua cela - informou o diretor. - Trará para cá tudo o que quiser levar.

- Há sempre um guarda esperando na porta da minha cela - disse Backman para o diretor, o tom um tanto ríspido. - Se for o filho-da-puta do Sloan, aquele sádico, diga a ele que pode pegar minhas lâminas de barbear e cortar os pulsos.

Todos engoliram em seco, esperando que as palavras escapassem pelos dutos de aquecimento. Em vez disso, cortaram o ar poluído e vibraram na sala por um momento. O Sr. Sizemore Pigarreou, transferiu o peso do lado esquerdo do corpo para o direito e disse:

-  Há alguns cavalheiros à espera no Gabinete Oval, Sr. Backman. Vai aceitar o acordo?

- O presidente está esperando por mim?

- Pode-se dizer que sim.

- Ele me deve. Eu o levei ao cargo.

-  Este não é o momento para debater essas questões, Sr. Backman - disse o Sr. Sizemore, calmamente.

- Ele está retribuindo o favor?

- Não estou a par dos pensamentos do presidente.

- Está presumindo que ele possui a capacidade de pensar.

- Vou telefonar e comunicar que a resposta é não.

- Espere.

Backman esvaziou a garrafa e pediu outra. Limpou a boca com a manga.

- É um programa de proteção de testemunha ou algo parecido?

- Não é um programa oficial, Sr. Backman. Mas, de vez em quando, achamos necessário esconder algumas pessoas.

- E com que freqüência perdem uma pessoa?

- Não é muito freqüente.

- Não é freqüente? Ou seja, não há garantia de que estarei seguro.

- Nada é garantido. Mas as possibilidades são boas. /Backman olhou para o diretor e perguntou:

- Quantos anos ainda me restam aqui, Lester?

Lester foi chamado a participar da conversa com um sobressalto. Ninguém chamava-o de Lester, um nome que detestava. A placa em cima da mesa tinha o nome de L. Howard Cass.

- Catorze anos... e é melhor se dirigir a mim como diretor Cass.

- Cass porra nenhuma. As chances são de que eu morra em três anos. Uma combinação de desnutrição, hipotermia e negligência nos cuidados com a saúde. Nosso Lester é muito rigoroso no tratamento dos presos.

- Vamos chegar a um acordo? - insistiu o Sr. Sizemore.

- Claro que eu aceito. Que idiota não aceitaria?

O Sr. Knabe, do Departamento de Justiça, entrou na conversa.

- Aqui estão os documentos necessários.

-  Para quem você trabalha? - perguntou Backman ao Sr. Sizemore.

- Para o presidente dos Estados Unidos.

- Diga-lhe que não votei nele, porque estava trancado aqui. Mas teria votado, se tivesse a oportunidade. E diga também que eu agradeço, está bem?

- Claro.

 

Hoby serviu mais chá verde, descafeinado agora, porque era quase meia-noite. Entregou o copo a Teddy, envolto pela manta e contemplando o tráfego atrás da van. Estavam na Constitution Avenue, deixando o centro, quase na ponte Roosevelt. O velho tomou um gole e comentou:

- Morgan é estúpido demais para vender perdões. Critz, no entanto, me preocupa.

- Há uma conta nova na ilha de Nevis - informou Hoby. - Foi aberta há duas semanas por uma empresa obscura que pertence a Floyd Dunlap.

- E quem é ele?

-  Um dos levantadores de recursos para a campanha de Morgan.

- Por que Nevis?

- É no momento o ponto mais quente para atividades financeiras no exterior.

- E estamos vigiando?

-  Claro. Qualquer transferência deve ocorrer nas próximas quarenta e oito horas.

Teddy acenou com a cabeça. Olhou para a esquerda, tendo uma visão parcial do Kennedy Center.

- Onde está Backman?

- Deixando a prisão neste momento.

Teddy sorriu e tomou outro gole do chá. Atravessaram a ponte em silêncio. Enquanto deixavam o Potomac para trás, ele murmurou:

- Quem vai pegá-lo?

- Isso tem alguma importância?

- Não, não tem. Mas será divertido observar a competição.

 

Usando um velho uniforme militar cáqui, engomado e bem passado, com manchas brancas nos lugares das divisas removidas, botas de combate pretas e lustrosas, e uma velha parca azul-marinho, com um capuz que puxou sobre a cabeça, Joel Backman saiu da Penitenciária Federal Rudley cinco minutos depois de meia-noite, catorze anos antes de terminar a sentença a que fora condenado. Passara seis anos ali, em confinamento solitário. Ao sair, levava uma bolsa de lona com uns poucos livros e algumas fotos. Não olhou para trás.

Tinha cinqüenta e dois anos, estava divorciado, falido, completamente apartado de dois dos três filhos e esquecido por todos os amigos que já tivera. Ninguém se dera ao trabalho de manter uma correspondência além do primeiro ano do confinamento. Uma antiga namorada, uma das incontáveis secretárias que ele assediara em seu luxuoso escritório, escrevera durante dez meses, até que o Washington Post informou que o FBI chegara à conclusão de que era improvável que Joel Backman tivesse saqueado a firma e os clientes dos milhões de dólares supostamente desviados. Quem quer se corresponder com um advogado falido na prisão? Se ainda fosse rico, talvez.

A mãe ainda lhe escrevia de vez em quando, mas tinha noventa e um anos e vivia numa casa de repouso barata, nos arredores de Oakland, e cada carta dava a impressão de que seria a última. Backman escrevia-lhe uma vez por semana, mas duvidava de que ela fosse capaz de ler qualquer coisa, e tinha quase certeza de que nenhum funcionário da casa de repouso tinha tempo ou interesse de ler as cartas para ela. A mãe sempre escrevia “Obrigada por sua carta”, mas nunca mencionava qualquer detalhe. Backman também enviava cartões em ocasiões especiais. Em uma de suas cartas, a mãe confessara que ninguém mais se lembrava de seu aniversário.

As botas eram muito pesadas. Enquanto caminhava pela calçada, ele refletiu que passara a maior parte dos últimos seis anos apenas de meias, sem usar sapatos. São engraçadas as coisas em que você pensa quando é libertado inesperadamente. Quando fora a última vez que usara botas? E quando poderia tirá-las?

Ele parou por um segundo e olhou para o céu. Durante uma hora, todos os dias, tinha permissão para vaguear por um pequeno gramado, fora de sua ala na penitenciária. Sempre sozinho, sempre observado por um guarda, como se ele, Joel Backman, um ex-advogado que nunca disparara uma arma por raiva, pudesse de repente se tornar perigoso e ferir alguém. O “jardim” era delimitado por uma cerca de metal de três metros de altura, com arame farpado em cima. Mais além, havia um canal de drenagem vazio, e depois uma pradaria interminável, sem árvores, que ele presumia que se estendesse até o Texas.

O Sr. Sizemore e o agente Adair eram seus acompanhantes. Levaram-no para um veículo utilitário verde-escuro, que não tinha identificação, mas apregoava ser “propriedade do governo” para qualquer um que olhasse. Joel sentou no banco traseiro, sozinho, e começou a orar. Fechou os olhos, apertando-os com força, rangeu os dentes e pediu a Deus, por favor, faça com que o motor pegue, as rodas entrem em movimento, os portões se abram, os documentos sejam suficientes, por favor, Deus, que não seja uma piada cruel! Por favor, Deus, que não seja um sonho!

Vinte minutos depois, o Sr. Sizemore rompeu o silêncio:

- Está com fome, Sr. Backman?

O Sr. Backman parara de orar e começara a chorar. O veículo mantinha-se em constante movimento, mas ele ainda não abrira os olhos. Deitara no banco traseiro, lutando contra suas emoções... e perdendo a batalha.

- Estou sim.

Backman sentou e olhou para fora. Estavam numa rodovia interestadual e ele avistou uma placa verde que avisava: Saída para Perry. Pararam no estacionamento de um restaurante a menos de meio quilômetro da interestadual. Enormes caminhões assomavam a distância, os motores diesel roncando. Joel observou-os por um instante, prestou atenção ao barulho. Tornou a olhar para o céu e contemplou a meia-lua.

- Estamos com pressa? - perguntou ele a Sizemore quando entraram no restaurante.

- Estamos dentro do horário.

Sentaram a uma mesa perto da janela da frente. Joel ficou olhando para fora. Pediu torrada francesa e suco de fruta, nada muito pesado, porque tinha medo de que seu organismo estivesse acostumado demais à papa que vinham lhe servindo. A conversa era contrafeita, os dois homens do governo eram programados para falar pouco, e se mostravam incapazes de uma conversa informal. De qualquer forma, Joel não estava interessado em ouvir qualquer coisa que eles pudessem dizer.

Fez um esforço para não sorrir. Sizemore relataria mais tarde que Backman olhava de vez em quando para a porta, e parecia observar os outros clientes. Não parecia estar assustado, muito ao contrário. À medida que os minutos transcorriam e o choque passava, ele parecia se ajustar depressa, até se mostrava um pouco animado. Comeu dois pedidos de torradas francesas e tomou quatro xícaras de café puro.

Passaram pelos portões do forte Summit, perto de Brinkley, Texas, pouco depois de quatro horas da madrugada. Backman foi levado ao hospital da base e examinado por dois médicos. Exceto por um resfriado e a tosse, além da magreza exagerada, não estava em más condições. Conduziram-no a um hangar, onde se encontrou com um certo coronel Gantner, que no mesmo instante se tornou seu amigo. Por instruções de Gantner - e sob sua supervisão - Joel vestiu um macacão verde do Exército, com o nome HERZOG escrito por cima do bolso direito do peito.

- Sou eu? - perguntou Joel.

- Será o seu nome pelas próximas quarenta e oito horas.

- E meu posto?

- Major.

- Nada mau.

Em algum momento, durante as breves instruções, o Sr. Sizemore de Washington e o agente Adair foram embora, para nunca mais serem vistos por Joel Backman. Quando o dia começou a clarear, Joel entrou, pela traseira, num cargueiro C-130. Seguiu Gantner até o nível superior, um pequeno compartimento de beliches, onde seis outros militares se preparavam para um longo vôo.

- Fique naquele beliche - disse Gantner, apontando para um beliche junto do chão.

- Posso perguntar para onde vamos? - sussurrou Joel.

- Você pode perguntar, mas eu não posso responder.

- Estou apenas curioso.

- Eu o informarei antes de pousarmos.

- E quando isso vai acontecer?

- Dentro de catorze horas.

Sem janelas para distraí-lo, Joel acomodou-se no beliche, puxou um cobertor sobre a cabeça, e já estava roncando quando decolaram.

 

Critz dormiu por umas poucas horas. Saiu de casa muito antes de começarem as cerimônias da posse. Pouco depois do amanhecer, ele e a esposa partiram para Londres, em um dos muitos jatos particulares de seu novo empregador. Deveria passar duas semanas ali, depois voltar a circular pela Beltway, como um novo lobista, empenhado num jogo muito antigo. Detestava a perspectiva. Durante anos, observara os perdedores atravessarem a rua e iniciarem uma nova carreira, pressionando os antigos colegas, vendendo a alma para qualquer um com dinheiro suficiente para comprar a influência que apregoavam. Era um negócio sórdido. Ele estava enojado da vida política, mas infelizmente não sabia fazer outra coisa.

Faria algumas conferências, talvez escrevesse um livro, agüentaria por mais um poucos anos, na esperança de que alguém se lembrasse dele. Critz sabia, no entanto, com que rapidez os outrora poderosos eram esquecidos em Washington.

O presidente Morgan e o diretor Maynard haviam combinado que não divulgariam a história de Backman por vinte e quatro horas, até muito depois da posse. Morgan não se importara, a esta altura, já estaria em Barbados. Critz, no entanto, não se sentia obrigado por qualquer acordo, ainda mais com alguém como Teddy Maynard. Depois de um longo jantar, com muito vinho, por volta das duas horas da madrugada em Londres, ele ligou para um correspondente da CBS na Casa Branca, relatando os dados básicos do perdão presidencial concedido a Backman. Como ele previa, a CBS deu a notícia no início da manhã. Pouco antes de oito horas da manhã, a informação já circulava por toda a cidade de Washington.

Joel Backman recebera um indulto total e incondicional na última hora!

Numa cidade muito agitada, o dia começou com o indulto ocupando o centro das atenções, competindo com um novo presidente e seu primeiro dia no cargo.

 

A firma de advocacia de Pratt & Bolling ficava na Massachusetts Avenue, quatro quarteirões ao norte do Dupont Circle, não era uma localização das piores, mas também não tinha tanta classe quanto o endereço antigo, na New York Avenue. Poucos anos antes, quando Joel Backman estava no comando - era Backman, Pratt & Bolling naquele tempo -, ele insistira em pagar o aluguel mais alto da cidade, para que pudesse olhar pelas amplas janelas de sua vasta sala, no oitavo andar, e ver a Casa Branca lá embaixo.

Agora, a Casa Branca não estava à vista, não havia sala de poder, com vistas espetaculares - e o prédio tinha três andares, não oito. A firma encolhera, de duzentos advogados muito bem remunerados para trinta mal pagos. O primeiro desastre - mais conhecido no escritório como Backman I - dizimara a firma, mas também evitara, milagrosamente, que os sócios fossem para a prisão. Backman II fora causado por três anos de implacáveis lutas internas e ações judiciais dos sobreviventes, uns contra os outros. Os concorrentes gostavam de dizer que os advogados da Pratt & Bolling passavam mais tempo processando uns aos outros do que defendendo os interesses dos clientes que os contratavam.

No início daquela manhã, porém, os concorrentes mantinham-se quietos. Joel Backman era um homem livre. O corretor fora solto. Haveria um retorno? Ele viria para Washington? Seria mesmo verdade? Claro que não podia ser.

Kim Bolling estava, no momento, internado num centro de reabilitação de alcoólatras, e de lá seguiria direto para um sanatório particular, por muitos anos. A insuportável tensão dos últimos seis anos levara-o a um colapso, num ponto sem volta. A tarefa de lidar com o último pesadelo de Joel Backman caía no colo um tanto amplo de Carl Pratt.

Fora Pratt quem pronunciara o fatídico “eu aceito”, vinte e dois anos antes, quando Backman propusera o casamento entre as duas pequenas firmas. Fora Pratt quem se empenhara com o maior vigor, durante dezesseis anos, para limpar a sujeira que Backman deixava em sua esteira, à medida que a firma expandia-se, os honorários entravam aos borbotões e todos os limites éticos eram transpostos e apagados, além de qualquer possibilidade de reconhecimento. Fora Pratt quem brigara todas as semanas com o sócio, mas que também passara a desfrutar, com o passar do tempo, os benefícios de seu enorme sucesso.

E fora Carl Pratt quem estivera muito perto de um processo federal, pouco antes de Joel Backman, heroicamente, assumir a culpa por todos. O pedido de acordo de Backman, inocentando os outros sócios da firma, implicara uma multa de dez milhões de dólares, a causa direta da primeira falência... Backman I.

A falência, contudo, era melhor do que a prisão, Pratt lembrava a si mesmo quase todos os dias. Ele andava de um lado para outro de sua sala austera, no início daquela manhã, murmurando e fazendo um esforço desesperado para acreditar que a notícia não era verdadeira. Parou diante da pequena janela e olhou para o prédio cinzento ao lado, perguntando a si mesmo como fora possível. Isso mesmo, como um ex-advogado-lobista com a licença cassada, falido, em desgraça, conseguira convencer um presidente derrotado na campanha da reeleição a lhe conceder um indulto nas últimas horas de seu mandato?

Quando fora para a prisão, Joel Backman era provavelmente o mais famoso criminoso de colarinho-branco dos Estados Unidos. Todos queriam vê-lo enforcado.

Pratt tinha de admitir, contudo, que se havia alguém no mundo capaz de realizar esse milagre era Joel Backman.

Pratt ocupou-se ao telefone por alguns minutos, consultando sua extensa rede de intrigantes e informantes em Washington. Um antigo amigo, que conseguira de alguma forma sobreviver no governo sob quatro presidentes - dois de cada partido -, finalmente confirmou que era verdade.

- E onde ele está? - perguntou Pratt, em tom de urgência, como se Backman pudesse ressuscitar em Washington a qualquer momento.

- Ninguém sabe - foi a resposta.

Pratt trancou sua porta e lutou contra o impulso de abrir uma garrafa de vodca. Tinha quarenta e nove anos na ocasião em que seu antigo sócio fora para a prisão, condenado a uma pena de vinte anos, sem direito a livramento condicional. Muitas vezes especulara o que faria quando estivesse com sessenta e nove anos e Backman deixasse a prisão.

Naquele momento, Pratt teve a sensação de que fora fraudado em catorze anos.

O tribunal estava tão lotado que o juiz adiou o início da audiência por duas horas, até que a distribuição dos lugares fosse organizada, com as prioridades concedidas. Cada empresa de mídia do país clamava por um lugar na sala, sentado ou de pé. Pessoas da maior importância do Departamento de Justiça, FBI, Pentágono, CIA, Agência de Segurança Nacional, Casa Branca e Congresso também reivindicavam lugares, todos alegando que atenderia a seus melhores interesses se estivessem presentes para testemunhar o linchamento de Joel Backman. Quando o réu finalmente entrou na sala, a multidão pareceu congelar. O único som era do funcionário do tribunal preparando sua máquina de estenografia.

Backman foi levado à mesa da defesa, onde o pequeno exército de advogados agrupou-se ao seu redor, como se esperasse que fossem disparados tiros da audiência. O que não seria uma surpresa, embora a segurança fosse tão rigorosa quanto numa visita presidencial. Na primeira fila, logo atrás da mesa da defesa, sentavam Carl Pratt e uma dúzia de sócios - ou, em breve, ex-sócios - de Joel Backman. Haviam sido revistados de uma forma um tanto agressiva, e havia bons motivos para isso. Embora sentissem um ódio intenso contra o réu, também torciam por ele. Se seu pedido de acordo fosse rejeitado, por causa de algum contratempo ou divergência de última hora, então eles se tornariam outra vez alvos de processos, com julgamentos ameaçadores num futuro próximo.

Pelo menos agora estavam sentados na primeira fila, entre os espectadores, não à mesa da defesa, o lugar ocupado pelo acusado e seus advogados. Pelo menos estavam vivos. Oito dias antes, Jacy Hubbard, um dos sócios mais proeminentes, fora encontrado morto no Cemitério Nacional de Arlington, num suicídio armado, em que poucas pessoas acreditaram. Hubbard era um ex-senador do Texas, que deixara o Senado, depois de vinte e quatro anos, com o propósito exclusivo, embora não anunciado, de oferecer sua significativa influência a quem pagasse mais. É claro que Joel Backman nunca permitiria que um peixe tão graúdo escapasse de sua rede. Por isso, a Backman, Pratt & Bolling contratara Hubbard, por um milhão de dólares por ano. Afinal, Hubbard era um homem que podia entrar no Gabinete Oval a qualquer momento que quisesse.

A morte de Hubbard ajudara Joel Backman a compreender a posição do governo em seu caso. O impasse que retardava as negociações foi subitamente superado. Backman não apenas aceitava a sentença de vinte anos, mas também queria que o assunto fosse resolvido o mais depressa possível. Estava ansioso pela custódia protetora.

O procurador que representava o governo naquele dia era um dos mais antigos profissionais de carreira do Departamento de Justiça e, na presença de uma audiência tão grande e prestigiosa, ele não podia deixar de se exibir. Não havia a menor possibilidade de usar apenas uma palavra, quando três serviriam melhor para projetá-lo. Estava no palco, depois de uma carreira longa e insípida, sob a observação da nação. Com uma voz monótona implacável, ele iniciou a leitura da denúncia. Por mais que tentasse, logo ficou patente que quase não possuía talento para o drama. Depois de oito minutos de um monólogo insuportável, o juiz disse, olhando por cima de seus óculos de leitura, com cara de sono:

- Poderia se apressar, senhor, e ao mesmo tempo falar mais baixo?

Eram dezoito acusações, os crimes variando de espionagem a traição. Depois que todas foram lidas, Joel Backman fora tão vilipendiado que podia ser equiparado a Hitler. Seu advogado imediatamente lembrou ao juiz - e a todos os presentes - que nada na denúncia fora provado, que era apenas um relato de um dos lados do caso, a visão bastante distorcida do governo. Explicou que seu cliente se declararia culpado de apenas quatro das dezoito acusações, a posse não autorizada de documentos militares. O juiz leu, então, a longa proposta de acordo, e durante vinte minutos ninguém mais falou no tribunal. Os artistas da imprensa - era proibida a presença de fotógrafos - desenhavam a cena com uma fúria intensa, suas imagens não tendo quase nenhuma semelhança com a realidade.

Sentado na última fila, entre estranhos, estava Neal Backman, o filho mais velho de Joel. Naquele momento, ele ainda era um associado de Backman, Pratt & Bolling, mas essa situação estava prestes a mudar. Acompanhava a audiência em estado de choque, incapaz de acreditar que o pai, antes tão poderoso, se declarava culpado, e estava prestes a ser sepultado no sistema penitenciário federal.

O réu foi levado à frente do juiz e, ao fitá-lo, procurou se mostrar tão orgulhoso quanto possível. Com advogados sussurrando em seus ouvidos, ele se declarou culpado de quatro acusações. Voltou à mesa da defesa, conseguindo evitar o contato visual com qualquer pessoa.

A decisão sobre a sentença foi marcada para o mês seguinte. Enquanto Backman era algemado e retirado da sala, tornou-se óbvio para todos os presentes que ele não seria forçado a divulgar os segredos, que passaria muito tempo encarcerado, enquanto suas conspirações se desvaneciam. A multidão dispersou-se lentamente. Os repórteres conseguiram apenas metade das notícias que queriam. Os grandes homens das agências do governo foram embora sem falar... alguns sentiam-se satisfeitos porque os segredos haviam sido resguardados, outros sentiam-se furiosos porque crimes eram ocultos. Carl Pratt e seus sócios em perigo foram para o bar mais próximo.

O primeiro repórter ligou pouco antes de nove horas da manhã. Pratt já alertara sua secretária para esperar essas ligações. Ela deveria dizer a todos que Pratt estava ocupado no tribunal, tratando de um processo complicado e longo, e poderia passar meses sem aparecer no escritório. Não demorou muito para que as linhas telefônicas ficassem quase que totalmente congestionadas pelo excesso de chamadas: e um dia que poderia ser bastante produtivo foi totalmente perdido. Os advogados e outros funcionários esqueceram suas tarefas para comentar a notícia sobre Backman. Vários olhavam a todo instante para a porta da frente, na expectativa de que o fantasma aparecesse.

Por trás da porta trancada e sozinho, Pratt tomava um Bloody Mary e assistia ao noticiário da TV a cabo. Por sorte, um ônibus cheio de turistas dinamarqueses fora seqüestrado nas Filipinas, caso contrário Joel Backman seria a principal notícia. Mas ele estava em segundo lugar, bem perto do seqüestro, com especialistas de todos os tipos sendo convocados, maquiados e levados ao estúdio, sob as luzes fortes, para discorrerem sobre os lendários pecados do homem.

Um ex-comandante do Pentágono declarou que o indulto presidencial era “um golpe em potencial na segurança nacional”. Um juiz federal aposentado, aparentando todos os seus noventa e tantos anos, declarou que era um “escárnio da justiça”, uma reação previsível. Um senador de Vermont admitiu que sabia pouco sobre o escândalo de Backman, mas mesmo assim se entusiasmou por ser entrevistado ao vivo e afirmou que pretendia exigir todos os tipos de investigações. Uma fonte anônima da Casa Branca afirmou que o novo presidente estava “bastante perturbado” com o indulto, e planejava revisar o caso, o que quer que isso significasse.

E assim por diante. Pratt serviu-se de um segundo Bloody Mary.

Em busca de sangue, um “correspondente” - não apenas um “repórter” - desencavou uma matéria sobre o senador Jacy Hubbard. Pratt pegou o controle remoto. Aumentou o volume quando uma foto grande do rosto de Hubbard apareceu na tela. O ex-senador fora encontrado morto, com uma bala na cabeça, uma semana antes de Backman se declarar culpado. A princípio, todos pensaram em suicídio, mas logo a morte se tornara suspeita, embora nenhum possível culpado jamais tivesse sido identificado. A pistola era de origem desconhecida, provavelmente roubada. Hubbard era um caçador ativo, mas não costumava usar pistolas e revólveres. O resíduo de pólvora em sua mão direita era suspeito. Uma autópsia revelara uma grande concentração de álcool e barbitúricos no organismo. O álcool podia ser admitido, mas ninguém jamais soubera que Hubbard consumia drogas. Ele fora visto, poucas horas antes, em companhia de uma jovem atraente, num bar de Georgetown, o que era bastante comum.

A teoria predominante era a de que a mulher dera-lhe as drogas até deixá-lo inconsciente, e depois o entregara aos assassinos profissionais. Ele fora levado para um canto remoto do Cemitério Nacional de Arlington e assassinado com um tiro na cabeça. O corpo estava caído sobre o túmulo do irmão, um herói condecorado da guerra no Vietnã. Um toque oportuno, mas as pessoas que o conheciam bem alegavam que ele quase nunca falava sobre a família, e muitos nada sabiam sobre o irmão morto.

A teoria tácita era a de que Hubbard fora assassinado pelas mesmas pessoas que queriam matar Joel Backman. E durante anos depois do ocorrido, Carl Pratt e Kim Bolling pagaram muito dinheiro a seguranças profissionais, com receio de que seus nomes constassem da mesma lista. Evidentemente, não era o caso. Os detalhes da operação fatídica que causara a morte de Hubbard e levara Backman para a prisão eram do conhecimento apenas dos dois. Com o passar do tempo, Pratt dispensara os seguranças, embora sempre andasse armado com uma Ruger.

 

Backman, porém, estava muito longe, com a distância se tornando ainda maior a cada minuto. Por mais estranho que pudesse parecer, ele também pensava em Jacy Hubbard e nas pessoas que poderiam tê-lo matado. Tinha bastante tempo para pensar. Catorze horas numa cama-beliche, num avião cargueiro que tremia sem parar, amorteciam os sentidos de qualquer pessoa, pelo menos em circunstâncias normais. Contudo, para um ex-condenado que acabara de passar seis anos em confinamento solitário, o vôo era até estimulante.

Quem matara Jacy Hubbard também ia querer matar Joel Backman. Enquanto voava, a sete mil metros de altitude, ele refletia sobre questões importantes. Quem fizera o loby para seu indulto? Onde eles planejavam escondê-lo? E quem eram “eles?”

Perguntas agradáveis, sem dúvida. Menos de vinte e quatro horas antes, suas indagações eram outras: Estão tentando me matar de fome? Ou me congelar? Estou perdendo o juízo lentamente nesta cela mínima? Ou perdendo depressa? Algum dia verei meus netos? Quero mesmo vê-los?

Joel gostava mais das novas perguntas, por mais desconcertantes que pudessem ser. Pelo menos seria capaz de andar por uma rua em algum lugar, respirar ar fresco, sentir o sol, talvez parar em algum bar e tomar um café bem forte.

Tivera um cliente, um rico importador de cocaína, que caíra numa armadilha da DEA, a agência de repressão ao tráfico de drogas. O cliente era uma presa tão valiosa que haviam lhe oferecido uma nova vida, com um novo nome e um novo rosto, se denunciasse os colombianos. Ele aceitara. Depois da cirurgia, o homem renascera na zona norte de Chicago, como dono de uma pequena livraria. Joel fora até lá um dia, anos depois. Encontrara o cliente de cavanhaque, fumando cachimbo, parecendo um tanto intelectual e simples. Tinha uma nova esposa e três filhos adotivos. E os colombianos nunca descobriram seu paradeiro.

É um vasto mundo aqui fora. Não é tão difícil assim se esconder.

Joel fechou os olhos, ficou imóvel, prestou atenção ao zumbido firme dos quatro motores e tentou dizer a si mesmo que não viveria como um homem em fuga, para onde quer que fosse levado. Haveria de se adaptar, sobreviveria, não se deixaria dominar pelo medo.

Havia uma conversa abafada ali perto, dois soldados trocando histórias sobre todas as garotas com que haviam transado. Ele pensou em Mo, o delator da Máfia que durante os últimos quatro anos ocupara a cela ao lado da sua. Durante vinte e dois horas por dia, era o único ser humano com quem ele podia conversar. Não podia vê-lo, mas podiam ouvir um ao outro através de um duto de ventilação. Mo não sentia saudade da família, amigos, bairro, comida, bebida, a luz do sol. Mo só falava sobre sexo. Contava histórias longas e elaboradas sobre algumas de suas aventuras. Contava as piadas mais obscenas que Joel já ouvira. Até escrevia poemas sobre antigas amantes, orgias e fantasias.

Ele não sentiria falta de Mo e sua imaginação.

Embora relutante, Joel cochilou de novo.

O coronel Gantner sacudia-o, sussurrando alto:

- Major Herzog! Major Herzog! Precisamos conversar!

Backman levantou-se. Seguiu o coronel pelo corredor estreito e escuro entre os beliches, até um pequeno compartimento, perto da cabine de comando.

- Sente-se - ordenou o coronel.

Os dois se acomodaram em lados opostos de uma pequena mesa de metal. Gantner tinha uma pasta na mão.

- Aqui está o acordo - disse ele. - Vamos aterrissar dentro de uma hora. O plano é você estar doente, tão doente que uma ambulância do hospital da base virá buscá-lo no avião. As autoridades italianas efetuarão uma rápida inspeção da documentação, como sempre, e podem até dar uma olhada em você. É mais provável que isso não aconteça. Estaremos numa base militar americana, com soldados indo e vindo durante todo o tempo. Tenho um passaporte para você. Conversarei com os italianos, e depois você será levado de ambulância para o hospital.

- Italianos?

- Isso mesmo. Já ouviu falar da Base Aérea de Aviano?

- Não.

-  Eu achava mesmo que não. Está em poder dos Estados Unidos desde que expulsamos os alemães, em 1945. Fica no nordeste da Itália, perto dos Alpes.

- Parece atraente.

- E um bom lugar, mas não deixa de ser uma base militar.

- Quanto tempo ficarei lá?

-  Essa decisão não é minha. Meu trabalho é levá-lo deste avião para o hospital da base. Ali, outra pessoa assume. Dê uma olhada nesta biografia do major Herzog, caso seja necessário usar as informações aqui.

Joel passou alguns minutos lendo a história fictícia do major Herzog e memorizando os detalhes no passaporte falsificado.

- Lembre-se de que você está muito doente e sedado - disse Gantner. - Finja que se encontra em coma.

- Passei seis anos em coma.

- Gostaria de tomar um café?

- Que horas são no lugar para onde estamos indo?

Gantner olhou para o relógio. Fez os cálculos num instante.

- Devemos pousar a uma hora da madrugada.

- Eu adoraria tomar um café.

Gantner entregou-lhe um copo de papel e uma garrafa térmica, retirando-se em seguida.

Depois de dois copos de café, Joel sentiu que os motores reduziam a potência. Voltou a seu beliche e tentou fechar os olhos.

Enquanto o C-130 parava na pista, uma ambulância da Força Aérea aproximou-se de ré da saída posterior. Os soldados desembarcaram, quase todos ainda meio adormecidos. O major Herzog saiu numa maca de lona e foi levado para a ambulância. A autoridade italiana mais próxima estava sentada num jipe militar americano, observando o desembarque, sem muita disposição, tentando se aquecer contra o frio. A ambulância partiu, sem qualquer pressa. Cinco minutos depois, o major Herzog entrava no pequeno hospital da base. Foi levado para um quarto pequeno, no segundo andar, a porta vigiada por dois soldados armados.

 

Para sorte de Backman, embora ele não tivesse como saber na ocasião e nenhum motivo para se importar, o presidente Morgan também indultara, na última hora, um idoso bilionário que escapara da prisão ao fugir do país. O bilionário, um imigrante de algum estado eslavo que tivera a opção de mudar seu nome ao chegar aos Estados Unidos, décadas antes, escolhera na juventude o título de duque Mongo. O duque dera caminhões de dinheiro para a campanha presidencial de Morgan. Quando foi revelado que passara sua carreira sonegando impostos, também se descobriu que passara várias noites no Quarto de Lincoln. Ali, tomando o último drinque da noite, o duque e o presidente conversaram sobre indiciamentos iminentes. Segundo a terceira pessoa presente na ocasião, uma jovem de língua afiada, no momento a quinta esposa do duque, o presidente prometera que usaria toda a sua influência no Serviço da Receita Federal para cancelar os processos. O que não aconteceu. A denúncia tinha trinta e oito páginas. Antes mesmo que saísse da impressora, o bilionário, sem a esposa número cinco, já fugira do país. Fixara-se no Uruguai, ignorando a potência do Norte. Vivia num palácio, com a jovem que deveria se tornar em breve a esposa número seis.

Agora, ele queria retornar aos Estados Unidos, para morrer com dignidade, morrer como um autêntico patriota, em seu haras de cavalos puros-sangues, perto de Lexington, Kentucky. Critz negociou o acordo. Minutos depois de conceder o indulto a Joel Backman, o presidente Morgan assinou o documento de clemência total para o duque Mongo.

Demorou um dia para que a notícia vazasse - os indultos, por bons motivos, não eram divulgados pela Casa Branca - e a imprensa enlouqueceu. Ali estava um homem que desviara seiscentos milhões de dólares do governo federal ao longo de vinte anos, um bandido que merecia passar o resto da vida na prisão, mas que estava prestes a voltar para o país em seu jato gigantesco e permanecer os últimos dias de sua vida em liberdade, num luxo obsceno. A história de Backman, por mais sensacional que fosse, tinha agora uma séria concorrência, não apenas do seqüestro do ônibus com os turistas dinamarqueses, mas também do maior sonegador de impostos do país.

Mesmo assim, ainda era uma notícia importante. A maioria dos jornais matutinos da Costa Leste publicou uma foto de “O Corretor” em algum lugar da primeira página. Quase todos publicaram longas matérias sobre seu escândalo, a alegação de culpa, e agora o indulto presidencial.

Carl Pratt leu todas, pela Internet, no imenso e desarrumado escritório que mantinha em cima da garagem de sua casa, a noroeste de Washington. Usava o lugar para se esconder, para se manter a distância das guerras na firma, para evitar os sócios que não podia suportar. Ali ele podia beber, e ninguém se importaria. Podia jogar coisas longe em acessos de raiva, gritar com as paredes, fazer qualquer coisa que lhe aprouvesse, porque era seu santuário.

As pastas de Backman estavam guardadas numa enorme caixa de papelão que ele escondia num closet. Agora, a caixa estava em cima de uma mesa, e Pratt examinava seu conteúdo, pela primeira vez em anos. Guardara tudo... notícias, fotos, memorandos internos, mensagens que recebera, cópias das denúncias, o relatório sobre a autópsia de Jacy Hubbard.

Era uma triste história.

Em janeiro de 1996, três jovens cientistas paquistaneses de computação fizeram uma descoberta espantosa. Trabalhavam num apartamento quente e apertado, no último andar de um prédio, nos arredores de Karachi. Os três conectaram uma série de computadores Hewlett-Packard que haviam comprado com uma subvenção do governo. O novo “supercomputador” foi ligado a um sofisticado telefone militar por satélite, também fornecido pelo governo. Toda a operação era secreta, financiada pelos militares. O objetivo era simples: localizar e depois tentar acessar um novo satélite-espião indiano, pairando sobre o Paquistão, a quinhentos quilômetros de altitude. Se tivessem sucesso na interceptação das comunicações do satélite, poderiam, então, monitorar sua vigilância. Um sonho secundário era tentar manipulá-lo.

As informações roubadas foram a princípio estimulantes, mas depois se constatou que eram inúteis. Os novos “olhos” indianos faziam quase que as mesmas coisas que os antigos realizavam dez anos antes, ou seja, tiravam milhares de fotos das mesmas instalações militares. Os satélites paquistaneses também enviavam fotos, havia dez anos, de bases militares indianas e movimentos de tropas. Os dois países poderiam trocar fotos sem descobrirem nada de novo.

Outro satélite, porém, foi acidentalmente descoberto, depois outro e mais outro. Não eram paquistaneses nem indianos e não deveriam estar onde foram encontrados... cada um a cerca de quinhentos quilômetros acima da Terra, deslocando-se num curso norte-nordeste, a uma velocidade constante de duzentos quilômetros por hora. A distância entre cada satélite era de seiscentos e cinqüenta quilômetros. Ao longo de dez dias, os excitados hackers monitoraram os movimentos de pelo menos seis satélites diferentes, todos aparentemente parte do mesmo sistema, enquanto se aproximavam lentamente da península Arábica, passavam pelo céu sobre o Afeganistão e o Paquistão e seguiam para o Oeste da China.

Não revelaram a descoberta a ninguém. Em vez disso, conseguiram obter com os militares um telefone por satélite ainda mais potente, alegando que era necessário para consumar um trabalho inacabado com a vigilância indiana. Depois de um mês de monitoração metódica, vinte e quatro horas por dia, eles haviam descoberto uma rede de nove satélites idênticos, ligados entre si, projetados com todo o cuidado para serem invisíveis para todos, exceto para os homens que os haviam lançado.

Os paquistaneses deram à sua descoberta o codinome de Netuno.

Os três jovens magos dos computadores haviam estudado nos Estados Unidos. O líder era Safi Mirza, um ex-assistente de pós-graduação de Stanford, que trabalhara por um breve período na Breedin Corp, uma empresa renegada que servia ao Departamento de Defesa, especializada em sistemas de satélites. Fazal Sharif tinha um diploma em ciência de computação avançada da Geórgia Tech.

O terceiro e mais jovem membro da equipe de Netuno era Farooq Khan. Foi Farooq quem finalmente criou o software que penetrou no primeiro satélite de Netuno. Depois de entrar no sistema de computador, Farooq começou a descarregar informações tão sensíveis que ele, Fazal, e Safi compreenderam que estavam entrando numa terra de ninguém. Havia fotos em cores bastante nítidas de campos de treinamento de terroristas no Afeganistão, assim como de limusines do governo em Beijing. Netuno podia ouvir pilotos chineses conversando a seis mil metros de altitude. Podia observar um barco de pesca suspeito atracar no Iêmen. Netuno seguiu um caminhão blindado, presumivelmente de Castro, através das ruas de Havana. E num vídeo ao vivo que chocou os três, Arafat era visto entrando numa viela no lugar de Gaza em que residia, acendendo um cigarro e depois urinando.

Por dois dias insones, os três espiaram os satélites atravessarem o Paquistão. O software era em inglês, e, levando em consideração a preocupação de Netuno com o Oriente Médio, Ásia e China, era de presumir que Netuno pertencesse aos Estados Unidos, com a Inglaterra e Israel como segunda e terceira possibilidades, embora distantes. Talvez fosse uma operação secreta conjunta de americanos e israelenses.

Depois de dois dias de espia, eles deixaram o apartamento e reorganizaram a pequena célula na casa de fazenda de um amigo a quinze quilômetros de Karachi. A descoberta era espetacular, mas eles queriam ir um passo além, Safi em particular. Ele estava confiante de que seria capaz de manipular o sistema.

Seu primeiro sucesso foi observar Fazal Sharif lendo um jornal. Para proteger sua localização, Fazal pegou um ônibus para o centro de Karachi. Com um boné verde e óculos escuros, comprou um jornal e sentou num banco de praça, perto de um determinado cruzamento. Com Farooq dando as ordens através de um telefone por satélite, um satélite Netuno localizou Faisal, fez o zoom e transmitiu a cena para a casa de fazenda, onde foi vista com total incredulidade.

As transmissões de imagens eletro-óticas para a Terra eram da mais alta resolução conhecida da tecnologia na ocasião, até cerca de um metro e meio. Eram tão nítidas quanto as imagens produzidas pelos satélites militares de reconhecimento dos Estados Unidos, e duas vezes mais nítidas do que as transmitidas pelos melhores satélites comerciais europeus e americanos.

Durante semanas e meses, os três trabalharam sem parar, criando softwares para sua descoberta. Descartaram a maior parte, mas, à medida que refinavam os programas de sucesso, ficaram ainda mais espantados com as possibilidades de Netuno.

Dezoito meses depois da descoberta de Netuno, os três tinham, em quatro discos Jaz de dois gigabytes, um programa que não apenas aumentava a velocidade em que Netuno se comunicava com seus numerosos contatos na Terra, mas que também permitia que Netuno interferisse em muitos dos satélites de navegação, comunicações e reconhecimento já em órbita. Por falta de um codinome melhor, chamaram seu programa de JAM, que pode significar interferência em inglês.

Embora o sistema a que chamavam de Netuno pertencesse a alguém, os três conspiradores podiam controlá-lo, manipulá-lo completamente, até torná-lo inútil. Houve uma briga encarniçada. Safi e Fazal tornaram-se gananciosos e queriam vender JAM a quem pagasse mais. Farooq achava que a criação só lhes causaria problemas. Queria entregá-la aos militares paquistaneses e lavar as mãos do caso.

Em setembro de 1998, Safi e Fazal viajaram para Washington. Passaram um mês frustrante, tentando conversar com o serviço militar de inteligência, por intermédio de contatos paquistaneses. Foi então que um amigo lhes falou de Joel Backman, o homem que era capaz de abrir qualquer porta em Washington.

Passar por sua porta, entretanto, foi um desafio. O corretor era muito importante, sempre ocupado com clientes importantes e muitas pessoas significativas que exigiam segmentos de seu tempo. Seus honorários para uma hora de consulta com um novo cliente eram de cinco mil dólares... apenas para os poucos afortunados que pudessem merecer o favor do grande homem. Safi tomou emprestado dois mil dólares de um tio em Chicago, e prometeu que pagaria o resto ao Sr. Backman em noventa dias. Documentos apresentados no tribunal mais tarde indicaram que o primeiro encontro ocorreu no dia 24 de outubro de 1998, no escritório de Backman, Pratt & Bolling. Essa reunião acabaria por destruir as vidas de todos os presentes.

A princípio, Backman mostrou-se cético em relação ao JAM e a suas incríveis possibilidades. Ou talvez tivesse percebido o potencial de imediato, mas preferiu se manter retraído com os novos clientes. Safi e Fazal sonhavam em vender o JAM para o Pentágono por uma fortuna, qualquer coisa que o Sr. Backman achasse que o produto poderia render. E se alguém em Washington podia obter uma fortuna por JAM, era justamente Joel Backman.

Logo de saída, ele chamou para uma conversa seu porta-voz de um milhão de dólares, Jacy Hubbard, que ainda jogava golfe com o presidente uma vez por semana, e bebia com os homens mais importantes do Congresso. Era um homem pitoresco, exuberante, combativo, divorciado três vezes, apreciador dos uísques mais caros... ainda mais quando comprado pelos lobistas. Sobrevivera politicamente apenas porque era conhecido como o mais sujo político da história do Senado dos Estados Unidos, o que não era pouca coisa. Era conhecido como anti-semita, e, durante sua carreira, desenvolvera vínculos estreitos com os sauditas. Muito estreitos. Uma de muitas investigações de ética revelou uma contribuição de campanha de um milhão de dólares feita por um príncipe saudita, o mesmo com quem Hubbard fora esquiar na Áustria.

Inicialmente, Hubbard e Backman discutiam a melhor maneira de oferecer o JAM no mercado. Hubbard queria negociar com os sauditas, convencido de que eles pagariam um bilhão de dólares pelo programa. Backman assumira a posição um tanto provinciana de que um produto tão perigoso deveria ser mantido nos Estados Unidos. Hubbard achava que poderiam chegar a um acordo com os sauditas, fazendo-os prometer que nunca usariam o programa contra os Estados Unidos, seus aliados ostensivos. Backman tinha medo dos israelenses... seus poderosos aliados nos Estados Unidos, seus militares e, ainda mais importante, seus serviços secretos de espionagem.

Na ocasião, a Backman, Pratt & Bolling representava muitas empresas e governos estrangeiros. A firma era “o” endereço para qualquer um que procurasse uma influência imediata em Washington. A interminável lista de clientes incluía a indústria siderúrgica japonesa, o governo sul-coreano, os sauditas, a maioria dos bancos de negócios escusos do Caribe, o atual regime do Panamá, uma cooperativa agrícola boliviana que só cultivava a cocaína, e assim por diante. Havia muitos clientes legítimos, e outros nem tanto.

O rumor sobre o JAM vazou lentamente pelo escritório. Tinha o potencial de proporcionar os maiores honorários que a firma já recebera... e alguns haviam sido espetaculares. A medida que as semanas foram passando, outros sócios sugeriram esquemas alternativos para a comercialização do JAM. A noção de patriotismo foi pouco a pouco esquecida... era dinheiro demais para se ganhar! A firma representava uma empresa holandesa que fabricara aeronaves para a Força Aérea chinesa, e por seu intermédio seria possível chegar a um acordo lucrativo com o governo de Beijing. Os sul-coreanos ficariam mais tranqüilos se soubessem exatamente o que estava acontecendo no Norte. Os sírios entregariam seu tesouro nacional pela capacidade de neutralizar as comunicações militares israelenses. Um certo cartel de drogas pagaria bilhões pela capacidade de descobrir os esforços de interferência da DEA.

A cada dia, Joel Backman e seu bando de advogados gananciosos tornavam-se mais ricos. Nas grandes salas da firma, quase não se falava de outra coisa.

 

O médico foi um tanto brusco. Parecia ter pouco tempo para o novo paciente. Afinal, era um hospital militar. Quase sem falar, ele verificou o pulso, coração, pulmões, pressão, reflexos e assim por diante. Depois, inesperadamente, anunciou:

- Acho que você está desidratado.

- Como assim?

- Acontece com freqüência em vôos longos. Vamos iniciar uma aplicação de soro. Estará perfeito em vinte e quatro horas.

- Soro intravenoso?

- Isso mesmo.

- Não quero nenhum soro assim.

- O que disse?

- Entendeu muito bem. Não quero saber de agulhas.

- Mas tiramos uma amostra de seu sangue.

- Acontece que foi o sangue saindo, não alguma coisa entrando. Esqueça, doutor. Não vou aceitar o soro intravenoso.

- Mas você está desidratado!

- Não me sinto desidratado.

- Sou o médico aqui e digo que você está desidratado.

- Então me dê água para beber num copo.

Meia hora depois, uma enfermeira entrou no quarto com um enorme sorriso e um punhado de medicamentos. Joel disse não às pílulas para dormir. Quando a enfermeira pegou uma seringa, ele perguntou:

- O que é isso?

- Ryax.

- E o que é Ryax?

- Um relaxante muscular.

- Acontece que meus músculos estão muito relaxados neste momento. Não me queixei de falta de relaxamento muscular. E ninguém perguntou se meus músculos estão relaxados. Portanto, pode pegar esse Ryax e aplicar em seu próprio rabo. Assim, ambos ficaremos relaxados e mais felizes.

Ela quase largou a seringa. Depois de uma pausa longa e angustiada, em que não foi capaz de falar qualquer coisa, a enfermeira conseguiu balbuciar:

- Falarei com o médico.

-  Pode falar. Pensando bem, por que não aplica a injeção naquele rabo um tanto gordo? Ele é que precisa relaxar.

Mas a enfermeira já deixara o quarto.

No outro lado da base, um certo sargento McAuliffe batia no teclado de seu computador, enviando uma mensagem para o Pentágono. De lá, foi enviada quase que imediatamente para Langley, onde foi lida por Julia Javier, uma veterana escolhida pelo próprio diretor Maynard para cuidar do caso de Backman. Menos de dez minutos depois do incidente do Ryax, Javier olhou para seu monitor, murmurou a palavra “droga” e subiu.

Como sempre, Teddy Maynard sentava à extremidade de uma mesa comprida, envolto por uma manta, lendo um dos incontáveis relatos que eram postos na mesa a cada hora.

- Acabo de receber notícias de Aviano - anunciou Julia Javier. - Ele se recusa a tomar os medicamentos. Não quer a aplicação de soro. Não quer engolir nenhuma pílula.

- Não podemos pôr alguma coisa na comida? - perguntou Teddy em voz baixa.

- Ele não está comendo.

- O que alega?

- Que está com problemas no estômago.

- Isso é possível?

- Ele não passa muito tempo no banheiro. É difícil saber.

- Está tomando líquidos?

- Levaram um copo com água, mas ele recusou. Insistiu em só tomar água mineral engarrafada. E quando entregaram uma garrafa, examinou a tampa para verificar se não haviam rompido o lacre.

Teddy empurrou o relatório para o lado. Esfregou os olhos com os nós dos dedos. O primeiro plano fora o de sedar Backman no hospital, por meio do soro ou de uma injeção comum. Ele ficaria inconsciente, permaneceria drogado por dois dias e depois seria trazido de volta com deliciosas misturas dos narcóticos mais modernos. Depois de alguns dias de torpor, iniciariam o tratamento com pentobarbital, o soro da verdade, que sempre proporcionava os resultados procurados e era usado pelo interrogadores mais experientes.

O primeiro plano era fácil e infalível. O segundo exigiria meses, sem qualquer garantia de sucesso.

-  Ele tem grandes segredos, não é mesmo? - murmurou Teddy.

- Não resta a menor dúvida.

- Mas sabíamos disso, não é mesmo?

- É verdade, já sabíamos.

 

Dois dos três filhos de Joel Backman já o haviam abandonado quando o escândalo irrompera. Neal, o mais velho, escrevera para o pai depois da prisão, pelo menos duas vezes por mês, embora fosse muito difícil fazê-lo nos primeiros dias.

Neal tinha vinte e cinco anos e era um advogado associado na firma quando o pai fora condenado. Embora não soubesse quase nada sobre o JAM e Netuno, mesmo assim fora interrogado pelo FBI e mais tarde indiciado por promotores federais.

A decisão abrupta de Joel de se declarar culpado fora bastante influenciada pelo que acontecera com Jacy Hubbard, mas também tivera a contribuição do tratamento iníquo a que seu filho vinha sendo submetido pelas autoridades. Todas as acusações contra Neal foram arquivadas pelo acordo. Quando o pai partira para o cumprimento da pena de vinte anos, Neal fora imediatamente demitido por Carl Pratt e conduzido para fora do escritório por um segurança armado. O nome Backman era uma maldição e tornava impossível arrumar outro emprego em Washington. Um colega da faculdade tinha um tio que era juiz aposentado. Depois de alguns telefonemas, Neal mudou-se para a pequena cidade de Culpeper, Virgínia, para trabalhar num escritório com cinco homens, agradecido pela oportunidade.

Ansiava pelo anonimato. Pensou até em mudar de nome. Recusava-se a falar sobre o pai. Tratava de escrituras de imóveis, escrevia testamentos e contratos, ajustou-se muito bem à rotina de viver numa cidade pequena. Depois de algum tempo, conheceu e casou com uma jovem local. Logo tiveram uma filha, a segunda neta de Joel, a única de quem ele tinha uma foto.

Neal leu sobre a libertação do pai no Post. Teve uma longa conversa a respeito com a mulher e uma breve conversa com os sócios da firma. A história podia causar terremotos em Washington, mas os tremores não alcançaram Culpeper. Ninguém parecia saber ou se importar. Ele não era o filho do corretor, era apenas Neal Backman, um de muitos advogados numa pequena cidade sulista.

Depois de uma audiência, um juiz perguntou-lhe:

- Onde estão escondendo seu pai?

Ao que Neal respondeu, respeitoso:

- Não é um dos meus assuntos prediletos, meritíssimo.

E esse foi o fim da conversa. Na superfície, nada mudou em Culpeper. Neal continuou a cuidar de sua vida, como se o indulto presidencial tivesse sido concedido a um homem que não conhecia. Porém, ficou esperando por uma ligação, em algum momento no caminho, o pai haveria de procurá-lo.

 

Depois de repetidas exigências, a enfermeira responsável fez uma coleta e conseguiu quase três dólares em moedas. O dinheiro foi entregue ao paciente, ainda chamado de major Herzog, que se mostrava cada vez mais excêntrico, seu estado agravado, sem dúvida, pela fome. O major Herzog pegou o dinheiro e seguiu direto para as máquinas automáticas que vira no segundo andar. Usou as moedas para comprar três sacos pequenos dos salgadinhos de milho fritos e duas garrafas do refrigerante Dr. Peppers. Tudo foi consumido em poucos minutos. Uma hora depois, ele estava no banheiro, com uma violenta diarréia.

Mas pelo menos não sentia mais tanta fome, nem fora drogado para dizer coisas que não deveria.

Embora fosse tecnicamente um homem livre, com perdão total e tudo mais, permanecia confinado numa instalação do governo dos Estados Unidos, e ainda ocupava um quarto que não era muito maior do que sua cela em Rudley. A comida na penitenciária era horrível, mas pelo menos podia comê-la sem medo de ser sedado. Agora, vivia de salgadinhos de milho e refrigerantes. As enfermeiras eram apenas um pouco mais cordiais do que os guardas que o atormentavam. Os médicos queriam apenas dopá-lo, obedecendo a ordens superiores, ele tinha certeza. Em algum lugar nas proximidades, havia uma pequena câmara de tortura, onde esperavam para atacá-lo, depois que as drogas produzissem seus milagres.

Joel ansiava em sair dali, respirar ar fresco, sentir o sol em seu rosto, muita comida, e um pouco de contato humano com alguém que não usasse um uniforme. E foi o que conseguiu, depois de dois dias intermináveis.

Um jovem de rosto impassível, chamado Stennett, apareceu em seu quarto no terceiro dia e disse:

- Aqui está tudo o que se relaciona com o acordo, Backman. Meu nome é Stennett.

Ele jogou uma pasta em cima das cobertas, na altura das pernas de Joel, ao lado de algumas revistas velhas que estavam sendo lidas pela terceira vez. Joel abriu a pasta.

- Marco Lazzeri?

- É o seu nome agora, um cidadão italiano. Aí estão a certidão de nascimento e a carteira de identidade. Memorize todas as informações o mais depressa possível.

- Memorizar? Não posso nem ler.

- Pois então aprenda. Sairá daqui dentro de três horas. Será levado para uma cidade próxima, onde conhecerá seu novo maior amigo, que vai segurar sua mão durante alguns dias.

- Alguns dias?

- Talvez um mês, dependendo da rapidez com que você fizer a transição.

Joel largou a pasta.

- Para quem você trabalha?

- Se eu lhe dissesse, teria de matá-lo.

- Muito engraçado. A CIA?

- Os Estados Unidos. Isso é tudo o que posso dizer.

Joel olhou para a janela de armação de metal, inclusive com uma tranca.

- Não encontrei um passaporte na pasta.

-  Não há passaporte porque você não vai viajar, Marco. Levará uma vida discreta e sossegada. Os vizinhos pensarão que nasceu em Milão, mas foi criado no Canadá. Isso explica o italiano ruim que está prestes a aprender. Se tiver o impulso de viajar, sua situação poderá se tornar muito perigosa.

- Como assim?

- Pare com o joguinho, Marco. Há algumas pessoas implacáveis neste mundo que adorariam encontrá-lo. Faça o que mandarmos e jamais saberão de seu paradeiro.

- Não conheço uma só palavra de italiano.

- Claro que conhece... pizza, spaghetti, café latte, bravo, mamma mia. Quanto mais depressa e melhor aprender, mais seguro estará. Terá um professor.

- Não tenho dinheiro para pagar.

-  Foi o que disseram. Ou pelo menos não encontraram nenhum.

Stennett tirou algumas notas do bolso e pôs em cima da pasta.

- Enquanto você estava na prisão, a Itália abandonou a lira e adotou o euro. Há cem euros aí. Um euro vale mais ou menos um dólar. Voltarei dentro de uma hora com algumas roupas. Há na pasta um pequeno dicionário, com suas primeiras duzentas palavras em italiano. Sugiro que comece a estudá-las.

Stennett voltou uma hora depois, com uma camisa, calça, casaco, sapatos e meias, tudo italiano.

- Buon giorno - disse ele.

- Olá para você - respondeu Backman.

- Qual é a palavra para carro?

- Macchina.

- Ótimo, Marco. Está na hora de você pegar a macchina.

Outro homem, silencioso, estava ao volante de um Fiat compacto. Joel acomodou-se no banco traseiro, com uma bolsa de lona, em que levava todos os seus bens. Stennett sentou na frente. O ar era frio e úmido. Uma tênue camada de neve cobria o chão. Quando passaram pelos portões da Base Aérea de Aviano, Joel Backman experimentou o primeiro gosto de liberdade, embora a onda de excitamento se misturasse com apreensão.

Ele observou as placas na estrada com muita atenção, os dois homens no banco da frente não diziam nada. Estavam na rota 251, uma estrada com duas pistas. Joel teve a impressão de que seguiam para o sul. O tráfico se tornou mais intenso ao se aproximarem da cidade de Pordenone.

- Qual é a população de Pordenone? - perguntou Joel, rompendo o silêncio opressivo.

- Cinqüenta mil habitantes - respondeu Stennett.

- Fica no norte da Itália, não é?

- Nordeste.

- Muito longe dos Alpes?

Stennett acenou com a cabeça para a direita.

- A cerca de sessenta e cinco quilômetros de distância. Dá para ver as montanhas num dia claro.

- Podemos parar para tomar um café em algum lugar? - perguntou Joel.

- Não... ahn... não estamos autorizados a parar.

Até aquele momento, o motorista parecia ser completamente surdo.

Contornaram a extremidade norte de Pordenone e entraram na A28, uma estrada de quatro pistas, em que todos - com exceção dos caminhoneiros - pareciam estar muito atrasados para o trabalho. Carros pequenos passavam por eles zunindo enquanto mantinham uma velocidade de apenas cem quilômetros horários. Stennett desdobrou um jornal italiano, La Repubblica, bloqueando metade do pára-brisa.

Joel contentou-se em viajar em silêncio, contemplando os campos à beira da estrada. A planície ondulante parecia muito fértil, embora os campos, ao final de janeiro, estivessem vazios. De vez em quando, no alto de uma colina, a encosta em terraços, podia-se ver uma casa antiga.

Ele já alugara uma villa italiana. Há cerca de uma dúzia de anos, a esposa número dois ameaçara abandoná-lo se não a levasse para férias longas em algum lugar. Joel trabalhava oitenta horas por semana, com o tempo de sobra aproveitado em mais trabalho ainda. Preferia viver no escritório e, a julgar pela situação em casa, era com certeza mais sossegado. Um divórcio, no entanto, sairia muito caro. Por isso, Joel anunciou para todos que passaria um mês na Toscana com sua querida esposa.

Descobriram um mosteiro do século XIV para alugar, perto da aldeia de San Gimignano, com empregadas, até mesmo um motorista. No quarto dia da aventura, porém, Joel recebeu a notícia alarmante de que o Comitê de Apropriações do Senado estava considerando a possibilidade de revogar uma verba de dois bilhões de dólares para um de seus clientes, que tinha um contrato com o Departamento de Defesa. Ele voou para casa num jato fretado e começou a trabalhar para mudar a disposição dos senadores. A esposa número dois ficou na Itália, onde começou a dormir com o jovem motorista, como ele soube depois. Durante uma semana, Joel telefonou todos os dias, prometendo que voltaria à villa para terminar as férias. Mas depois da segunda semana, ela parou de atender às ligações.

A lei de apropriações foi aprovada como Joel queria.

Um mês depois, a mulher iniciou a ação de divórcio litigioso, que acabaria lhe custando mais de três milhões de dólares.

E ela era a sua predileta das três. Todas haviam partido agora, dispersas para sempre. A primeira, mãe de dois de seus filhos, tornara a casar duas vezes depois de Joel. O atual marido enriquecera com a venda de fertilizante líquido em países do Terceiro Mundo. Ela escrevera para o ex-marido depois de sua prisão, um bilhete cruel em que louvava o sistema judiciário por finalmente acertar as contas com um dos maiores canalhas dos Estados Unidos.

Joel não podia culpá-la. Ela fora embora depois de surpreendê-lo com uma secretária, a vagabunda que se tornara a esposa número dois.

A esposa número três abandonara o navio logo depois da denúncia.

Uma vida lamentável. Cinqüenta e dois anos de idade e o que ele tinha para mostrar por uma carreira de explorar clientes, assediar secretárias e pressionar políticos desonestos, trabalhando sete dias por semana, ignorando três filhos surpreendentemente estáveis, fabricando uma imagem pública, desenvolvendo um ego ilimitado, atrás de dinheiro, dinheiro e mais dinheiro? Quais são as recompensas para a busca temerária do grande sonho americano?

Seis anos na prisão. E, agora, um nome falso, porque o antigo era perigoso demais. E cerca de cem dólares no bolso.

Marco? Como poderia se olhar no espelho todas as manhãs e dizer “Buon giorno, Marco”?

Mas era bem melhor do que “bom-dia, criminoso”.

Stennett mais fazia um esforço para ajeitar o jornal do que lia. Sob seus olhos, o jornal virava, estufava, amarrotava. Às vezes, o motorista lançava-lhe um olhar de frustração.

Uma placa indicava que Veneza ficava a sessenta quilômetros para o sul. Joel decidiu romper a monotonia:

- Eu gostaria de viver em Veneza, se a Casa Branca não se importasse.

O motorista teve um sobressalto visível. O jornal de Stennett baixou dez centímetros. O ar no pequeno carro ficou tenso por um momento, até que Stennett conseguiu soltar um grunhido e deu de ombros.

- Lamento, mas não é possível.

- Preciso dar uma mijada - anunciou Joel. - Pode obter autorização para parar num mictório?

Pararam ao norte da cidade de Conegliano, num moderno posto de gasolina. Stennett comprou uma rodada de café espresso. Joel tomou o seu junto da janela da frente, observando os veículos passarem em alta velocidade. Prestou atenção à discussão de um jovem casal. Não ouviu nenhuma das duzentas palavras que tentara memorizar. Stennett veio se postar ao seu lado.

- Já passou muito tempo na Itália?

- Estive um mês na Toscana.

- É mesmo? Um mês inteiro? Deve ter sido muito agradável.

- Fiquei quatro dias, para ser mais preciso. Mas minha esposa passou um mês lá. E fez alguns amigos. O que me diz de você? Visita sempre a Itália?

- Estou sempre viajando. - O rosto era tão vago quanto a resposta. Ele tomou um gole do café, servido numa xícara pequena. - Conegliano é uma cidade famosa por seu Prosecco.

- A resposta italiana para o champanhe - comentou Joel.

- Isso mesmo. Gosta de beber?

- Não tomo uma única gota de álcool há seis anos.

- Não serviam na prisão?

- Não.

- E agora?

- Terei o maior cuidado. Já foi um péssimo hábito.

- É melhor partirmos.

- Quanto tempo ainda falta?

- Não está longe.

Stennett fez menção de se encaminhar à porta, mas Joel estendeu a mão para detê-lo.

- Estou com muita fome. Posso pedir um sanduíche para comer no carro?

Stennett olhou para a prateleira de panini pronto.

- Claro.

- Posso levar dois?

- Não é problema.

A A27 seguia para o sul, até Treviso. Quando começou a ficar evidente que não contornariam a cidade, Joel presumiu que a viagem estivesse prestes a terminar. O motorista diminuiu a velocidade, passou por duas rampas de saída e logo andavam aos solavancos pelas ruas estreitas da cidade.

- Qual é a população de Treviso? - perguntou Joel.

- Oitenta e cinco mil habitantes - respondeu Stennett.

- O que sabe sobre a cidade?

- É pequena e próspera. Quase não mudou nos últimos quinhentos anos. Foi outrora uma firme aliada de Veneza, no tempo em que todas as cidades lutavam entre si. Foi bombardeada na Segunda Guerra Mundial. Uma linda cidade. Não tem muitos turistas.

Um bom lugar para se esconder, pensou Joel.

- É aqui que eu fico?

- Pode ser.

Uma torre com um relógio parecia atrair todo o tráfego no centro, arrastando-se em torno da Piazza dei Signori. Motonetas e bicicletas motorizadas ziguezagueavam entre os carros, conduzidas por pessoas que pareciam não ter medo nenhum. Joel observou fascinado as pequenas lojas, a tabacaria com as estantes de jornais bloqueando a porta, a farmácia com uma cruz de néon verde, o açougue com presuntos de todos os tipos pendurados na vitrine, e os pequenos cafés, todas as mesas ocupadas por pessoas que pareciam satisfeitas por sentar ali e ler, tomando café por um tempo enorme. Eram quase onze horas da manhã. O que aquelas pessoas podiam fazer para ganhar a vida se interrompiam o trabalho para um café uma hora antes do almoço?

Seria um desafio descobrir, decidiu Joel.

O motorista anônimo entrou numa vaga de estacionamento temporário. Stennett apertou alguns números num celular, esperou um pouco e falou depressa, em italiano. Depois de desligar, ele apontou através do pára-brisa.

- Está vendo aquele café ali, com um toldo vermelho e branco? Caffè Donati?

Joel olhou do banco traseiro.

- Já vi.

- Entre pela porta da frente. Passe pelo balcão, que fica à direita. Nos fundos, tem oito mesas. Sente a uma mesa, peça um café e espere.

- Esperar o quê?

-  Um homem vai abordá-lo dentro de dez minutos. Você deve fazer o que ele disser.

- E se eu não fizer?

- Não tente nada, Sr. Backman. Estaremos observando.

- Quem é o homem?

- Seu novo maior amigo. Siga-o e provavelmente sobreviverá. Tente alguma besteira e não durará mais que um mês.

Stennett falou com uma certa presunção, como se pudesse gostar de ser o encarregado de liquidar o pobre Marco.

- Então é adios para nós, não é mesmo? - murmurou Joel, pegando sua bolsa de lona.

- Arrivederci, Marco, não adios.

- Isso mesmo.

- Então, arrivederci.

Joel saiu do carro, devagar. Começou a se afastar. Resistiu ao impulso de olhar para trás, para ter certeza se Stennett, seu protetor, ainda se encontrava ali e prestava atenção, protegendo-o do desconhecido. Mas ele não se virou. Em vez disso, tentou parecer tão normal quanto era possível, enquanto seguia pela rua carregando uma bolsa de lona, a única bolsa de lona que via naquele momento no centro de Treviso.

Stennett estava observando, é claro. E quem mais? Seu novo maior amigo, com toda a certeza, se encontrava em algum lugar por ali, parcialmente escondido por trás de um jornal, transmitindo sinais para Stennett. Joel parou por um instante na frente da tabacaria e correu os olhos pelas manchetes dos jornais italianos, embora não compreendesse uma só palavra. Parou porque podia parar, porque era um homem livre, com o poder e o direito de parar onde quisesse, e tornar a andar no momento em que desejasse.

Ele entrou no Caffè Donati e foi cumprimentado com um “buon giorno” do jovem limpando o bar.

- Buon giorno - respondeu Joel, suas primeiras palavras em italiano para um italiano autêntico.

Para evitar mais conversa, ele continuou a andar. Passou pelo bar, pela escada circular - com um cartaz apontando para um café lá em cima -, passou por um balcão cheio de doces que pareciam saborosos. A sala dos fundos era escura, apertada e sufocava com um nevoeiro de fumaça de cigarro. Ele sentou a uma das duas mesas vazias, ignorando os olhares dos outros clientes. Estava apavorado com o contato com o garçom, apavorado com a perspectiva de pedir alguma coisa, apavorado em ser desmascarado logo no início de sua fuga. Por isso, apenas ficou sentado, de cabeça baixa, lendo seus novos documentos de identidade.

- Buon giorno - disse a jovem, ao lado de seu ombro esquerdo.

- Buon giorno. - Antes que ela pudesse enunciar o que havia no cardápio, Joel acrescentou: - Espresso.

Ela sorriu, disse alguma coisa totalmente incompreensível, ao que Joel limitou-se a murmurar:

- No.

Deu certo, porque a jovem se afastou. Para Joel, foi uma grande vitória. Ninguém o observava, como se ele fosse um estrangeiro ignorante. Quando a jovem trouxe o espresso, ele disse “grazie”, baixinho. Ela sorriu. Joel bebeu devagar, sem saber quanto tempo teria de durar, sem querer que acabasse, para não ser obrigado a pedir outra coisa.

Palavras em italiano soavam ao seu redor, nas conversas incessantes de amigos, em ritmo acelerado. O inglês falado também parecia tão rápido? Era bem provável. A idéia de aprender a língua bastante bem para compreender o que se dizia ao seu redor parecia uma total impossibilidade. Ele recordou sua lista insignificante de duzentas palavras, e por alguns minutos tentou desesperadamente ouvir alguma nas conversas.

A garçonete tornou a se aproximar e fez uma pergunta. Joel respondeu de novo com um “no”, e outra vez deu certo.

Assim, Joel Backman tomava um espresso num pequeno bar na Via Verde, na Piazza dei Signori, no centro de Treviso, no Vêneto, nordeste da Itália, enquanto seus antigos companheiros na Penitenciária Federal Rudley permaneciam trancafiados, em isolamento protetor, com uma comida horrível, café aguado, guardas sádicos, regras absurdas e uma espera de anos antes de poderem sequer sonhar com a vida no mundo exterior.

Ao contrário dos planos anteriores, Joel Backman não morreria por trás das grades em Rudley. Não definharia na mente, corpo e espírito. Escamoteara catorze anos de seus algozes, e agora sentava sem algemas num café italiano, a uma hora de Veneza.

Por que ele pensava na prisão? Porque não podia simplesmente deixar para trás, esquecer os últimos seis anos, sem sofrer os choques posteriores. Sempre se leva alguma coisa do passado, por mais terrível que tenha sido. O horror da prisão fazia com que sua liberdade se tornasse ainda mais doce. Levaria tempo para superar, e ele prometeu a si mesmo que se concentraria no presente. Nem sequer pensaria no futuro.

Escute os sons, as conversas rápidas de amigos, os risos, o cara ali sussurrando num celular, a bela garçonete gritando para a cozinha. Sinta os cheiros... fumaça de cigarro, café forte, doces frescos, o aconchego de uma sala pequena e antiga, em que os moradores locais se encontravam havia séculos.

E Joel se perguntou, pela centésima vez: Por que exatamente se encontrava ali? Por que fora retirado da prisão... e depois do país? Um indulto presidencial é uma coisa... mas por que uma fuga internacional? Por que não lhe entregar os documentos necessários, deixá-lo sair da velha Rudley e levar sua vida da maneira que pudesse, como acontecia com todos os outros criminosos que eram perdoados?

Ele tinha um pressentimento. Podia arriscar um palpite, que seria bastante acurado.

E que o apavorava.

Luigi apareceu do nada.

 

Luigi tinha trinta e poucos anos, olhos escuros e tristes, cabelos castanhos que lhe cobriam as orelhas e uma barba por fazer havia pelo menos quatro dias. Vestia um blusão grosso, do tipo que se usava no campo, o que lhe proporcionava, junto com a barba crescida, uma aparência de camponês. Pediu um espresso, sorrindo muito. Joel notou no mesmo instante que suas mãos e unhas eram limpas, os dentes bem tratados. O blusão e a barba eram parte do disfarce. Era bem provável que Luigi tivesse estudado em Harvard.

O inglês perfeito tinha um sotaque apenas suficiente para convencer os outros de que era mesmo italiano. Dizia ser de Milão. O pai italiano era um diplomata que viajara pelo mundo inteiro, a serviço de seu país, com a esposa americana e os dois filhos. Joel presumiu que Luigi soubesse muito a seu respeito, e por isso empenhou-se em descobrir o que pudesse sobre seu novo controlador.

Não descobriu muita coisa. Casamento... nenhum. Universidade... Bolonha. Estudos nos Estados Unidos... sim, em algum lugar do Meio Oeste. Emprego... no governo. Que governo... não podia dizer. Ele tinha um sorriso descontraído, que usava para se esquivar das perguntas que não queria responder. Joel estava lidando com um profissional, e sabia disso.

- Presumo que saiba algumas coisas a meu respeito - comentou Joel.

O sorriso, os dentes perfeitos. Os olhos tristes quase fechavam quando sorria. As mulheres deviam ser fascinadas por aquele homem.

- Vi a pasta.

- Qual delas? Todas as pastas a meu respeito não caberiam nesta sala.

- Vi a pasta.

- Está bem. Quanto tempo Jacy Hubbard passou no Senado dos Estados Unidos?

- Tempo demais, eu diria. Não vamos reviver o passado, Marco. Temos muita coisa para fazer agora.

- Posso ter outro nome? Não gosto muito de Marco.

- A escolha não foi minha.

- Então, quem escolheu Marco?

- Não sei. Só posso dizer que não fui eu. Você faz muitas perguntas inúteis.

- Fui advogado durante vinte e cinco anos. É um hábito antigo.

Luigi tomou o que restava de seu espresso e pôs alguns euros na mesa.

- Vamos dar uma volta - disse ele, levantando-se.

Joel pegou sua bolsa de lona e deixou o café, atrás do controlador. Seguiram por uma rua transversal, com menos tráfego. Deram apenas alguns passos. Luigi parou na frente do Albergo Campeol.

- Aqui é a sua primeira parada.

- O que é isto? - perguntou Joel.

Era um prédio de quatro andares, espremido entre dois outros. Havia bandeiras coloridas por cima da entrada.

- Um hotel pequeno e bom. “Albergo” significa hotel. Pode também usar a palavra “hotel”, se quiser, mas nas cidades pequenas as pessoas preferem dizer albergo.

- Ou seja, é uma língua fácil.

Joel olhou para um lado e outro da rua estreita... obviamente seu novo endereço.

- Mais fácil do que o inglês.

- E o que saberei em breve. Quantas línguas você fala?

- Cinco ou seis.

Entraram no hotel e atravessaram o pequeno saguão. Luigi acenou com a cabeça para o recepcionista, por trás de uma mesa, como se já o conhecesse. Joel conseguiu oferecer um “buon giorno” aceitável, mas continuou a andar, na esperança de evitar alguma resposta mais elaborada. Subiram três lances de escada e foram até o final de um corredor estreito. Luigi tinha a chave do quarto 30. Era simples, mas bem mobiliado, com janelas em três lados, dando para um canal.

- Este é o melhor quarto - disse Luigi. - Não tem luxo, mas é adequado.

- Deveria ter visto meu último quarto.

Joel largou a bolsa na cama e foi abrir as cortinas. Luigi abriu a porta de um armário pequeno.

- Dê uma olhada aqui. Você tem quatro camisas, quatro calças, dois casacos, dois pares de sapatos, tudo do seu tamanho. Mais um sobretudo de lã... pode fazer muito frio aqui em Treviso.

Joel olhou para o armário. As roupas estavam penduradas com perfeição, todas passadas, prontas para serem usadas. As cores eram discretas, de bom gosto. Cada camisa combinava com todos os paletós e calças. Ele deu de ombros.

- Obrigado.

- Na gaveta, ali, encontrará um cinto, meias, cuecas, tudo de que poderá precisar. No banheiro há tudo o que é necessário.

- O que posso dizer?

- E aqui na mesa há dois óculos.

Luigi pegou um dos óculos e suspendeu-os contra a luz. As pequenas lentes retangulares eram seguras por uma armação de metal preta e fina, ao melhor estilo europeu.

- Armani - murmurou Luigi, com um tom de orgulho.

- Óculos de leitura?

- Sim e não. Sugiro que os utilize cada vez que deixar o quarto. É parte do disfarce, Marco. Parte do seu novo eu.

- Deveria ter conhecido o antigo.

- Não, obrigado. A aparência é muito importante para os italianos, em particular aqui no Norte. O traje, os óculos, o corte de cabelo, tudo deve combinar direito ou você será notado.

Joel sentiu-se subitamente inibido, mas era de esperar. Usara o uniforme da prisão por mais tempo do que gostaria de se lembrar. Nos dias de glória, pagava três mil dólares, sem hesitar, por um terno bem-feito. Luigi continuou a preleção:

- Nada de shorts, nem meias pretas e tênis brancos, calças de poliéster, camisas de golfe... e, por favor, não comece a engordar.

- Como se diz “não enche o saco” em italiano?

- Falaremos sobre isso mais tarde. Os hábitos e costumes são importantes. Por exemplo, nunca peça um cappuccino depois das dez e meia da manhã. Mas um espresso pode ser tomado a qualquer hora do dia. Sabia disso?

- Não.

- Só os turistas pedem um cappuccino depois do almoço ou jantar. Uma desgraça. Todo aquele leite num estômago cheio...

Por um momento Luigi franziu o rosto, como se pudesse vomitar só de pensar. Joel levantou a mão direita.

- Juro que nunca farei isso.

- Vamos sentar.

Luigi acenou para a mesa pequena com duas cadeiras. Sentaram, procurando as posições mais confortáveis. Ele continuou:

-  Primeiro, o quarto. Foi alugado em meu nome, mas os empregados pensam que será ocupado por um negociante canadense durante duas ou três semanas.

- Duas ou três semanas?

-  Isso mesmo. Depois desse prazo, você vai se mudar para outro local.

Luigi falou num tom sinistro, como se já houvesse bandos de assassinos em Treviso à procura de Joel Backman.

- Deste momento em diante, você estará deixando uma trilha, Marco. Não se esqueça disso: tudo o que fizer, todas as pessoas que conhecer... serão parte da trilha. O segredo da sobrevivência é deixar para trás tão poucas pegadas quanto for possível. Fale com poucas pessoas, apenas o necessário. Evite, inclusive, as conversas com o recepcionista e a arrumadeira. Os empregados de hotel observam os hóspedes e possuem uma boa memória. Daqui a seis meses pode aparecer alguém neste hotel e começar a fazer perguntas a seu respeito. Talvez tenha uma foto. Pode oferecer dinheiro pelas respostas. E o recepcionista pode, de repente, se lembrar de você, do fato de que quase não falava italiano.

- Tenho uma pergunta.

- E eu tenho bem poucas respostas.

- Por que a Itália? Por que um país cuja língua não conheço? Por que não a Inglaterra ou a Austrália, algum lugar em que eu poderia me misturar à população com mais facilidade?

- Essa decisão foi tomada por outras pessoas, Marco, não por mim.

- Foi o que imaginei.

- Então por que perguntou?

- Não sei. Posso pedir uma transferência?

- Outra pergunta inútil.

- Uma piada ruim, mas uma boa pergunta.

- Podemos continuar?

- Claro.

 Durante os primeiros dias, eu o levarei para almoçar e jantar. Vamos circular, sempre indo a lugares diferentes. Treviso é uma cidade acolhedora, com muitos cafés, e iremos a todos. Mas você deve começar a pensar no dia em que não estarei mais aqui. Tome cuidado com as pessoas com quem fizer contato.

- Tenho outra pergunta.

- Pode falar, Marco.

- É sobre dinheiro. Não gosto de ficar duro. Vocês planejam me dar uma mesada ou algo parecido? Posso lavar seu carro e fazer outras pequenas tarefas.

- O que é mesada?

- Dinheiro, entende? Preciso de dinheiro no bolso.

- Não se preocupe com o dinheiro. Por enquanto, eu pago as contas. Você não passará fome.

- Está bem.

Luigi enfiou a mão no bolso do blusão. Tirou um celular.

- Isto é para você.

- E para quem exatamente devo ligar?

-  Para mim, se precisar de alguma coisa. Meu número está atrás.

Joel pegou o telefone e pôs em cima da mesa.

- Estou com fome. Passei muito tempo sonhando com um almoço de massa, vinho e sobremesa... e um espresso ao final, é claro, não um cappuccino a esta hora. Depois, talvez possa fazer a siesta. Estou na Itália há quatro dias e só comi salgadinhos de milho e sanduíches. O que me diz?

Luigi olhou para o relógio.

-  Conheço o lugar certo. Mas, primeiro, vamos falar um pouco mais de trabalho. Você não fala italiano, não é mesmo?

Joel revirou os olhos e exalou um profundo suspiro de frustração. Depois, tentou sorrir.

- Não. Nunca tive a oportunidade de aprender italiano, francês, alemão ou qualquer outra língua. Sou americano, certo, Luigi? Meu país é maior do que toda a Europa junta. E ali só se precisa falar inglês.

- Já esqueceu que é canadense?

-  Pode ser. Mas vivemos isolados num continente com os americanos.

- Meu trabalho é mantê-lo são e salvo.

- Obrigado.

- E para nos ajudar a mantê-lo seguro, você precisa aprender a falar italiano o mais depressa possível.

- Entendido.

- Terá um professor, um jovem estudante chamado Ermanno. Estudará com ele de manhã e de tarde. Não será fácil.

- Por quanto tempo?

- Pelo tempo que for necessário. Vai depender de você. Se estudar com afinco, deve poder se virar sozinho em três ou quatro meses.

- Quanto tempo você levou para aprender inglês?

- Minha mãe é americana. Falávamos inglês em casa, italiano nos outros lugares.

- Isso é trapaça. Que outras línguas você fala?

- Espanhol, francês, algumas outras. Ermanno é um excelente professor. A sala de aula fica aqui perto.

- Não será aqui no hotel?

- Não, Marco. Deve pensar em sua trilha. O que o recepcionista e a arrumadeira diriam se um jovem passasse quatro horas por dia no quarto com você?

- Deus me livre.

- A arrumadeira pode encostar o ouvido na porta e escutar as aulas. Contaria para sua supervisora. Em um ou dois dias, todos os empregados saberiam que o negociante canadense está fazendo um curso intensivo de italiano. Quatro horas por dia.

- Entendido. Agora, vamos almoçar.

Ao deixar o hotel, Joel conseguiu sorrir para o recepcionista, um zelador e um porteiro, sem dizer nada. Percorreram um quarteirão até o centro de Treviso, a Piazza dei Signori, com seus inúmeros cafés. Era meio-dia e o movimento de pedestres era intenso, os locais saindo para almoçar. O ar se tornara mais frio, mas Joel se sentia confortável em seu sobretudo de lã. Tentava ao máximo parecer um italiano.

- Dentro ou fora? - perguntou Luigi.

- Dentro.

Entraram no Caffè Beltrame, que dava para a praça. Um forno de tijolos, perto da frente, esquentava o lugar. O aroma do banquete diário vinha dos fundos. Luigi e o maitre falaram ao mesmo tempo, e riram por causa disso. O maitre arrumou uma mesa junto de uma janela na frente.

- Estamos com sorte - disse Luigi, enquanto tiravam o casaco e sentavam. - O especial de hoje é faraona con polenta.

- E o que é isso?

- Galinha-d'angola com polenta.

- O que mais tem?

Luigi estudou um quadro-negro pendurado de uma viga.

- Panzerotti difiinghi al burro... pastéis de cogumelos fritos. Conchiglie con cavalfiori... a massa em forma de concha com couve-flor. Spiedino di carne misto alla griglia... shish-kebab grelhado de carnes mistas.

- Quero tudo.

- O vinho da casa é muito bom.

- Prefiro o tinto.

Em poucos minutos, o café ficou lotado. Todas as pessoas pareciam se conhecer. Um homenzinho jovial, com um avental branco sujo, circulou de mesa em mesa. Demorou à mesa deles apenas pelo tempo suficiente para fazer contato visual com Joel. Não anotou nada da longa lista de pedidos para comer que Luigi apresentou. Um jarro de vinho da casa chegou, junto com uma tigela de azeite quente e uma travessa com focaccia em fatias. Joel começou a comer. Luigi ocupou-se em explicar as complexidades do café da manhã e almoço, os costumes e tradições, os erros cometidos por turistas que tentavam parecer italianos autênticos.

Com Luigi, tudo seria uma experiência de aprendizado.

Embora Joel bebesse em goles pequenos, saboreando ao máximo seu primeiro copo de vinho em muito tempo, o álcool subiu-lhe direto à cabeça. Um torpor e um calor maravilhoso envolveram-lhe o corpo. Era um homem livre, muitos anos antes do prazo previsto, sentado num café pequeno e rústico, numa cidade italiana de que nunca ouvira falar, bebendo um vinho local e inalando os aromas de um banquete delicioso. Sorriu para Luigi, enquanto as explicações continuavam, mas, em determinado ponto, Joel vagueou para outro mundo.

 

Ermanno alegava ter vinte e três anos, mas parecia não ter mais que dezesseis. Era alto e muito magro, cabelos louros avermelhados, olhos castanho-claros. Parecia mais alemão do que italiano. Também era muito tímido e bastante nervoso. Joel não gostou da primeira impressão.

Foram se encontrar com Ermanno em seu pequeno apartamento, no terceiro andar de um prédio malcuidado, a seis quarteirões do hotel de Joel. Tinha três pequenos cômodos - cozinha, quarto, sala -, todos pouco mobiliados. Mas como Ermanno era estudante, um ambiente assim não chegava a ser inesperado. Parecia que ele acabara de se mudar para o apartamento, e poderia sair a qualquer momento.

Sentaram em torno de uma mesa pequena no meio da sala. Não havia televisão. A sala era fria e pouco iluminada. Joel não pôde deixar de sentir que fora levado para a chamada estrada subterrânea, em que os fugitivos são mantidos vivos e transferidos de um lugar para outro em segredo. A satisfação de um almoço de duas horas começou a se desvanecer muito depressa.

E o nervosismo do professor não ajudava.

Como Ermanno fosse incapaz de assumir o controle da reunião, Luigi apressou-se em intervir e acertar tudo. Sugeriu que estudassem todas as manhãs de nove às onze. Haveria um intervalo de duas horas para o almoço. Recomeçariam à uma e meia da tarde e continuariam até que ficassem cansados. Parecia conveniente para Ermanno e Joel, que pensou em perguntar o óbvio: Se este meu professor é estudante, como encontra tempo para dar aulas durante tantas horas do dia? Mas ele deixou passar. Falaria a respeito mais tarde.

As perguntas estavam se acumulando...

Ermanno acabou relaxando e descreveu como seria o curso. Quando falava devagar, o sotaque não prevalecia. Mas quando falava depressa, como era propenso a fazer, seu inglês podia muito bem ser italiano. Luigi chegou a interrompê-lo por causa disso:

- Ermanno, é importante falar devagar, pelo menos nos primeiros dias.

- Obrigado - murmurou Joel, sarcástico. Ermanno corou.

- Desculpe.

Ele entregou o primeiro material acessório: o livro 1 do curso, um gravador e duas fitas cassetes.

- As gravações acompanham o livro - explicou ele, a voz agora pausada. - Deve estudar o primeiro capítulo esta noite e ouvir cada fita várias vezes. E amanhã começaremos desse ponto.

- Será um curso muito intensivo - acrescentou Luigi, aplicando uma pressão adicional, como se houvesse necessidade de mais.

- Onde aprendeu inglês? - perguntou Joel.

- Na universidade - respondeu Ermanno. - Em Bolonha.

- Quer dizer que não estudou nos Estados Unidos?

- Estudei.

Ele lançou um olhar rápido e nervoso para Luigi, como se qualquer coisa que acontecera nos Estados Unidos fosse um assunto sobre o qual preferia não falar. Ao contrário de Luigi, Ermanno era uma leitura fácil. Obviamente, não era um profissional.

- Onde? - insistiu Joel, sondando para descobrir até que ponto podia chegar.

- Em Furman - informou Ermanno. - Uma pequena escola na Carolina do Sul.

- Quando esteve lá?

Luigi interferiu em socorro de Ermanno, pigarreando.

- Terá bastante tempo para a conversa social mais tarde. É importante para você esquecer o inglês, Marco. De hoje em diante, viverá num mundo italiano. Tudo aquilo em que tocar terá um nome italiano. Cada pensamento terá uma tradução. Dentro de uma semana, estará fazendo pedidos em restaurantes. Em duas semanas, estará sonhando em italiano. Tem de haver uma total e absoluta imersão na língua e cultura... e não há como voltar atrás.

- Podemos começar às oito horas da manhã? - perguntou Joel.

Ermanno ficou nervoso.

- Talvez às oito e meia.

- Ótimo. Estarei aqui às oito e meia.

Eles deixaram o apartamento e voltaram à Piazza del Signori. Era o meio da tarde, o tráfego não estava mais tão intenso, as calçadas tinham ficado quase vazias. Luigi parou na frente da Trattoria del Monte. Acenou com a cabeça para a porta.

- Eu o encontrarei aqui para o jantar às oito e meia.

- Combinado.

- Sabe onde fica o hotel?

- Claro... o albergo.

- E tem um mapa da cidade?

- Tenho.

- Muito bem, Marco, a partir de agora você fica por conta própria.

E com isso Luigi esgueirou-se por uma viela e desapareceu. Joel observou-o por um instante, para depois continuar a caminhada até a praça principal.

Sentia-se muito sozinho. Quatro dias depois de deixar Rudley, finalmente estava livre e desacompanhado, talvez sem ser observado, embora duvidasse. Decidiu que circularia pela cidade, faria o que tivesse de fazer, como se ninguém o estivesse observando. E decidiu também, enquanto fingia examinar os artigos na vitrine de uma pequena loja de artigos de couro, que não passaria o resto de sua vida olhando para trás.

Não o descobririam.

Ele vagueou a esmo, até chegar à Piazza San Vito, pequena, em que havia duas igrejas, construídas há sete séculos. A Santa Lucia e a San Vito estavam fechadas, mas, segundo o aviso numa placa de latão antiga, reabririam de quatro às seis horas da tarde. Que tipo de lugar fecha de meio-dia às quatro?

Os bares não estavam fechados, apenas vazios. Finalmente, ele tomou coragem para entrar num deles. Puxou um banco, prendeu a respiração e disse a palavra “birra” quando o homem no outro lado do balcão se aproximou.

O homem disse alguma coisa e esperou por uma resposta. Por uma fração de segundo, Joel sentiu-se tentado a sair correndo. Porém, viu a torneira e apontou, como se fosse absolutamente claro o que pedia. O homem pegou uma caneca vazia.

A primeira cerveja em seis anos. Gelada, encorpada, deliciosa. Ele saboreou cada gota. Podia ouvir o som de uma novela de televisão partindo de algum lugar no fundo do bar. Joel fez um esforço para se convencer de que era capaz de dominar a língua. Enquanto tomava a decisão de sair e voltar para o hotel, olhou pela janela da frente.

Stennett passou.

Joel pediu outra cerveja.

 

O caso Backman fora investigado a fundo por Dan Sandberg, um veterano repórter do Washington Post. Em 1998, ele dera a notícia sobre documentos altamente secretos que deixaram o Pentágono sem autorização. A subseqüente investigação do FBI mantivera-o ocupado por meio ano, durante o qual ele publicara dezoito reportagens a respeito, a maioria com chamada na primeira página. Sandberg tinha fontes confiáveis na CIA e no FBI. Conhecia os sócios da Backman, Pratt & Bolling, e passara algum tempo no escritório da firma. Assediara o Departamento de Justiça por informações. Estava no tribunal no dia em que Backman se declarara culpado e saíra de cena.

Um ano depois, escrevera um dos dois livros sobre o escândalo. Seu livro vendera vinte e quatro mil exemplares em capa dura, o outro apenas a metade.

Ao longo do caminho, Sandberg desenvolvera alguns relacionamentos da maior importância. Um deles se tornara uma fonte valiosa, embora inesperada. Um mês antes da morte de Jacy Hubbard, Carl Pratt, então alvo de muitas acusações, assim como a maioria dos sócios da firma, entrara em contato com Sandberg, marcando uma reunião. Acabaram se encontrando mais de uma dúzia de vezes, enquanto o escândalo aumentava. Nos anos seguintes, costumavam beber juntos. Encontravam-se discretamente, pelo menos duas vezes por mês, para conversar sobre tudo o que acontecia.

Três dias depois da primeira notícia sobre o indulto presidencial, Sandberg ligou para Pratt e marcou um encontro no lugar predileto de ambos, um bar de estudantes, perto da Universidade de Georgetown.

Pratt estava com uma aparência horrível, como se bebesse sem parar houvesse dias. Pediu vodca, Sandberg escolheu cerveja.

- Onde está seu amigo? - perguntou Sandberg, sorrindo.

- Não está mais na prisão, com toda a certeza.

Pratt tomou um gole quase letal de vodca e estalou os lábios.

- Não tem notícia dele?

- Absolutamente nenhuma. Nem eu, nem qualquer outra pessoa na firma.

- Ficaria surpreso se ele telefonasse ou aparecesse?

- Sim e não. Nada me surpreende com Backman. - Mais vodca. - Se ele nunca mais pusesse os pés em Washington, eu não me surpreenderia. Se aparecesse amanhã e anunciasse a abertura de uma nova firma de advocacia, também não me surpreenderia.

- O indulto foi uma surpresa para você?

-  Foi. Mas não foi um acordo feito por Backman, não é mesmo?

- Duvido muito.

Uma estudante passou e Sandberg lançou-lhe um olhar. Duas vezes divorciado, ele estava sempre disponível para uma aventura. Tomou um gole da cerveja.

- Ele não pode exercer a advocacia, não é mesmo? Pensei que haviam cassado sua licença.

- Isso não deteria Backman. Ele chamaria de “relações com o governo”, “consultoria” ou qualquer outra coisa. Seria lobby, que é a sua especialidade, e não se precisa de uma licença para isso. Afinal, metade dos advogados desta cidade não sabe onde fica o tribunal mais próximo. Mas conhecem muito bem o caminho para o Congresso.

- E os clientes?

- Não vai acontecer. Backman não voltará para Washington. Por acaso ouviu alguma coisa diferente?

- Não ouvi nada. Ele desapareceu. Ninguém na prisão quer falar a respeito. Não consigo arrancar nenhuma informação das autoridades penitenciárias.

- Qual é a sua teoria? - perguntou Pratt, esvaziando seu copo. Parecia disposto a pedir outra dose.

- Descobri hoje que Teddy Maynard esteve na Casa Branca de madrugada. Só alguém como Teddy seria capaz de arrancar esse indulto de Morgan. Backman deixou a prisão, provavelmente com uma escolta, e desapareceu.

- Proteção de testemunha?

- Por aí. A CIA já escondeu pessoas antes. Precisa às vezes fazer isso. Não há nada de oficial nos registros, mas eles contam com os recursos necessários.

- Mas por que esconder Backman?

- Vingança. Lembra-se de Aldrich Ames, o maior toupeira na história da CIA?

- Claro.

- Ele está agora numa penitenciária federal de segurança máxima. Não sabia que a CIA adoraria liquidá-lo? Não pode fazer isso porque é contra a lei... não pode matar um cidadão americano, aqui ou no exterior.

-  Backman não era um toupeira na CIA. Odiava Teddy Maynard, e o sentimento era recíproco, pelo que sei.

- Maynard não vai matá-lo. Apenas providenciará tudo para que outro tenha esse prazer.

Pratt levantou-se.

- Quer outra cerveja?

- Talvez mais tarde.

Sandberg pegou a caneca pela segunda vez e tomou um gole. Pratt voltou com uma dose dupla de vodca. Sentou e perguntou:

- Então você acha que os dias de Backman estão contados?

- Pediu minha teoria. Agora, quero ouvir a sua.

Pratt tomou um gole de vodca.

- A mesma conclusão, mas sob um ângulo um pouco diferente.

Pratt enfiou o dedo no drinque, mexeu-o, depois lambeu o dedo, pensando por alguns segundos.

- Confidencial, está certo?

- Claro.

Haviam falado tantas coisas, ao longo dos anos, que tudo era confidencial.

- Houve um período de oito dias entre a morte de Hubbard e a declaração de culpa de Backman. Foi uma época assustadora. Kim Bolling e eu ficamos sob proteção do FBI, vinte e quatro horas por dia, em toda parte. O que era muito estranho. O FBI fazia o que podia para nos mandar para a prisão pelo resto da vida, e ao mesmo tempo sentia-se na obrigação de nos proteger.

Um gole, enquanto ele olhava ao redor, para verificar se algum dos estudantes ouvia a conversa. Ninguém prestava atenção.

-  Houve algumas ameaças, alguns movimentos sérios das mesmas pessoas que mataram Jacy Hubbard. O FBI nos disse mais tarde que o perigo passara, meses depois que Backman foi para a prisão e a situação assentou. Nós nos sentimos mais seguros, mas, mesmo assim, Bolling e eu mantivemos seguranças armados durante dois anos. Até hoje ainda olho pelo espelho retrovisor para verificar se alguém me segue. E o pobre Kim pirou por completo.

- Quem fez as ameaças?

- As mesmas pessoas que adorariam descobrir Joel Backman.

- Quem?

- Backman e Hubbard fizeram um acordo para vender seu produto aos sauditas, por um caminhão de dinheiro. Muito dinheiro mesmo, mas ainda menos do que o custo de construir um novo sistema de satélites. Mas o negócio não foi consumado. Hubbard foi assassinado, Backman refugiou-se as pressas na prisão. Os sauditas não ficaram nada satisfeitos. Nem os israelenses, que também queriam fechar o negócio. Além disso, ficaram furiosos por Hubbard e Backman terem negociado com os sauditas.

Ele fez uma pausa. Tomou um gole de vodca, como se precisasse encontrar força para terminar a história.

- E há ainda as pessoas que criaram o sistema.

- Os russos?

-  Provavelmente não. Jacy Hubbard adorava asiáticas. Foi visto pela última vez deixando um bar com uma linda garota de pernas compridas, longos cabelos pretos, rosto redondo, de algum lugar do outro lado do mundo. A China usa milhares de pessoas aqui para coletar informações. Todos os estudantes chineses nos Estados Unidos, os executivos de empresas, os diplomatas... nosso país fervilha de chineses bisbilhotando. Além disso, seu serviço de inteligência tem agentes muito eficientes. Num caso assim, eles não hesitariam em ir atrás de Hubbard e Backman.

- Tem certeza de que é a China?

- Ninguém tem certeza de nada. Talvez Backman soubesse, mas ele nunca contou a ninguém. Lembre-se de que a CIA nem sequer tinha conhecimento do sistema. Eles foram apanhados com a calça arriada, e o velho Teddy ainda está tentando entender o que aconteceu.

- Uma diversão para Teddy?

-  Claro que não. Ele deve ter dito a Morgan que era uma questão de segurança nacional. E Morgan engoliu a isca, o que não é surpresa para ninguém. Backman sai da prisão. Teddy tira-o do país, e depois fica de olho, para saber quem aparece com uma arma na mão. Para Teddy, é um jogo que não pode perder.

- Uma operação brilhante.

- Mais do que brilhante. Pense um pouco, Dan. Quando Joel Backman encontrar seu Criador, ninguém jamais saberá. Ninguém tem a menor idéia do seu paradeiro agora. Ninguém saberá quem ele é quando o corpo for encontrado.

- Se for encontrado.

- Exatamente.

- E Backman sabe disso?

Pratt esvaziou o segundo copo com vodca e enxugou os lábios com a manga. Tinha o rosto franzido.

- Backman não tem nada de estúpido. Mas muito do que sabemos só se tornou conhecido depois de sua prisão. Ele sobreviveu a seis anos na prisão, e provavelmente acha que pode sobreviver a qualquer coisa.

 

Critz entrou num pub não muito longe do Connaught Hotel, em Londres. Uma chuva fina aumentara de intensidade, e ele precisava de um lugar onde não se molhasse. A Sra. Critz estava no pequeno apartamento emprestado por seu novo empregador. Por isso, Critz podia se dar ao luxo de sentar num pub apinhado, onde ninguém o conhecia, e tomar duas ou três canecas de cerveja. Já se encontrava em Londres havia uma semana e ficaria mais outra. Depois atravessaria o Atlântico, de volta a Washington, onde assumiria um emprego miserável, como lobista de uma empresa que fabricava, entre outras coisas, mísseis defeituosos, que o Pentágono detestava, mas mesmo assim era obrigado a comprar, porque a empresa usava todos os lobistas certos.

Encontrou um reservado vazio, apenas parcialmente visível através do nevoeiro de fumaça de cigarro. Acomodou-se ali com uma caneca. Era um prazer beber sozinho, sem a preocupação de ser avistado por alguém que viria correndo e diria: “Ei, Critz, o que os idiotas estão querendo com aquele veto de Berman?” Rá, rá, rá.

Ele absorvia as vozes britânicas joviais ao seu redor. Não se importava com a fumaça. Estava sozinho, um desconhecido ali, adorando sua privacidade.

O anonimato, no entanto, não era completo. Um homem baixo, usando um velho boné de marujo, entrou no reservado e sentou, no outro lado da mesa, surpreendendo Critz.

- Importa-se se eu lhe fizer companhia por um momento, Sr. Critz?

O sorriso revelou dentes grandes e amarelados, sem cuidados, que Critz não esqueceria.

- A vontade - disse ele, cauteloso. - Tem um nome?

- Ben.

Ele não era britânico e o inglês não era sua língua nativa. Ben tinha cerca de trinta anos, cabelos escuros, olhos castanho-escuros e um nariz comprido e pontudo, que parecia grego.

- Não tem sobrenome, hem? - Critz tomou um gole de cerveja. - Como sabe meu nome?

- Sei de tudo a seu respeito.

- Eu não sabia que era tão famoso.

- Eu não diria que é uma questão de fama, Sr. Critz. Serei breve. Trabalho para algumas pessoas que querem desesperadamente encontrar Joel Backman. Pagariam muito dinheiro por uma informação. Dinheiro numa mala, ou depositado num banco na Suíça. O assunto pode ser resolvido num instante, em questão de horas. Diga onde ele está, receberá um milhão de dólares e ninguém jamais saberá.

- Como me descobriu?

- Foi simples, Sr. Critz. Somos profissionais, digamos assim.

- Espiões?

- Não é importante. Somos quem somos, e vamos descobrir o Sr. Backman. A questão aqui é outra: quer ganhar um milhão de dólares?

- Não sei onde ele está.

- Mas pode descobrir.

- Talvez.

- Quer fazer negócio conosco?

- Não por um milhão de dólares.

- Quanto quer?

- Terei de pensar a respeito.

- Pense depressa.

- E se eu não conseguir obter a informação?

- Neste caso, nunca mais tornaremos a vê-lo. Este encontro nunca ocorreu. É muito simples.

Critz tomou outro gole da cerveja, pensando na situação.

- Digamos que eu consiga obter a informação... não estou muito otimista... mas o que acontece se eu tiver sorte?

-  Pegue um vôo da Lufthansa do Aeroporto Dulles para Amsterdã, na primeira classe. Hospede-se no Hotel Amstel, que fica na rua Biddenham. Nós o encontraremos, assim como o encontramos aqui.

Critz fez uma pausa, gravando os detalhes na memória.

- Quando?

- O mais depressa possível, Sr. Critz. Há outros que também procuram o Sr. Backman.

Ben desapareceu tão abruptamente quanto surgira, deixando Critz a espiar pela fumaça, especulando se apenas tivera um sonho. Ele deixou o pub uma hora depois, o rosto oculto pelo guarda-chuva, convencido de que era vigiado.

Também o vigiariam em Washington? Ele tinha o inquietante pressentimento de que a resposta era sim.

 

A siesta não aconteceu. O vinho no almoço e as duas cervejas depois não ajudaram. Havia muita coisa em que pensar.

Além disso, ele estava descansado demais, havia muito sono de reserva em seu organismo. Seis anos em confinamento solitário reduzem o corpo humano a um estado tão passivo que o sono se torna uma atividade principal. Depois dos primeiros meses em Rudley, Joel dormia oito horas por noite e tirava um longo cochilo depois do almoço. Era compreensível, já que dormira muito pouco durante os vinte anos anteriores, quando cuidava do país durante o dia e corria atrás das mulheres até o amanhecer. Depois de um ano, podia contar com nove e até dez horas de sono à noite. Havia pouca coisa para fazer, a não ser ler e assistir televisão. Por tédio, realizara uma pesquisa, uma de suas muitas pesquisas clandestinas, com um papel passado de cela em cela enquanto os guardas cochilavam. Entre os trinta e sete que responderam, em seu bloco, a média era de onze horas de sono por dia. Mo, o delator da Máfia, alegava que dormia dezesseis horas e podia-se ouvir os seus roncos ao meio-dia. Mad Cow Miller registrava a média mais baixa, de apenas três horas, mas, afinal, o pobre coitado pirara por completo havia alguns anos. Por isso, Joel fora obrigado a não considerar sua resposta na pesquisa.

Havia acessos de insônia, longos períodos olhando para a escuridão, pensando nos erros cometidos, nos filhos e netos, na humilhação do passado e no medo do futuro. E havia semanas em que pílulas para dormir eram entregues em sua cela, uma de cada vez. Mas nunca adiantavam. Joel sempre desconfiara que não passavam de placebos.

Contudo, tivera muito sono em seis anos na prisão. Agora, o corpo estava descansado. E a mente funcionava em hora extra.

Ele se levantou lentamente da cama, onde estivera deitado durante a última hora, incapaz de fechar os olhos. Foi até a pequena mesa e pegou o celular que Luigi lhe dera. Levou-o para a janela e apertou os números inscritos atrás. Depois de quatro toques, ouviu a voz familiar:

- Ciao, Marco. Come stai?

- Só queria verificar se o celular funciona mesmo.

- Acha que eu lhe daria um telefone com defeito?

- Claro que não.

- Como foi seu cochilo?

- Hum... ótimo. Eu o verei no jantar.

-  Ciao.

Onde estaria Luigi naquele momento? Espreitando nas proximidades, com um telefone no bolso, esperando pela ligação de Joel? Vigiando o hotel? Se Stennett e o motorista ainda se encontravam em Treviso, junto com Luigi e Ermanno, seriam quatro “amigos” variados para ficar de olho em Joel Backman.

Ele tornou a pegar o telefone, e se perguntou quem mais teria conhecimento da ligação. Quem mais teria escutado? Olhou para a rua lá embaixo e especulou quem estaria ali. Apenas Luigi?

Tratou de descartar aqueles pensamentos e sentou à mesa. Tinha vontade de tomar um café, talvez um espresso duplo, para deixar os nervos vibrando, não um cappuccino, por causa da hora. Mas ainda não se sentia preparado para pegar o telefone e fazer um pedido. Podia cuidar do “alô” e do “café”, mas haveria um fluxo de outras palavras que ainda não conhecia.

Como um homem pode sobreviver sem um café forte? Sua secretária predileta costumava lhe servir a primeira xícara de um café turco fortíssimo às seis e meia da manhã, seis dias por semana. Joel quase casara com ela. Por volta de dez horas da manhã, o corretor estava tão ligado que jogava coisas nas paredes, gritava com os subordinados e conduzia três conversas pelo telefone ao mesmo tempo, enquanto senadores esperavam na linha.

A lembrança não o agradou. Quase nunca isso acontecia. Eram muitas, e durante seis anos na solitária ele travara uma encarniçada guerra mental para expurgar seu passado.

De volta ao café, que ele tinha medo de pedir, porque tinha medo das palavras. Joel Backman nunca tivera medo de coisa alguma e, se podia acompanhar trezentos projetos de lei tramitando pelo labirinto do Congresso, se podia dar cem telefonemas por dia sem verificar o número, tudo gravado na cabeça, então podia muito bem aprender o suficiente de italiano para pedir um café. Arrumou os materiais de estudo de Ermanno na mesa e olhou a sinopse. Verificou as pilhas no pequeno gravador e começou a tocar uma fita. A primeira página da lição 1 era um desenho em cores, um tanto tosco, mostrando uma família reunida na sala de estar, com a mãe, o pai e os filhos assistindo a televisão. Os objetos tinham inscrições em inglês e italiano: porta e porta, sofá e sofá, janela e finestra, quadro e quadro, e assim por diante. O menino era ragazzo, a mãe era madre, o velho segurando uma bengala no canto era o avô, ou il nonno.

Poucas páginas adiante, ele viu a cozinha, depois o quarto, depois o banheiro. Uma hora mais tarde, ainda sem o café, Joel andava pelo quarto, apontando e sussurrando o nome de tudo o que via: cama, letto, lâmpada, lâmpada, relógio, orologio, sabonete, sapone. Havia uns poucos verbos, incluídos por cautela: falar, parlare, comer, mangiare, beber, bere, pensar, pensare. Ele parou na frente do pequeno espelho (specchio) no banheiro (bagno) e tentou se convencer de que era mesmo Marco. Marco Lazzeri.

- Sono Marco, sono Marco... - repetiu ele.

Sou Marco, sou Marco. Parecia uma besteira, a princípio, mas ele decidiu que não podia pensar assim. As apostas eram muito altas para se apegar a um nome antigo, que poderia matá-lo. Se salvaria o pescoço por ser Marco, então ele era Marco.

Marco. Marco. Marco.

Começou a procurar palavras que não estavam nos desenhos. Em seu novo dicionário, encontrou carta igienica para papel higiênico, guanciale para travesseiro, soffitto para teto. Tudo tinha um nome novo, cada objeto em seu quarto, em seu pequeno mundo, tudo o que podia ver naquele momento tornou-se algo novo. Muitas e muitas vezes, enquanto seus olhos deslocavam-se de uma coisa para outra, ele enunciou a palavra italiana.

E ele próprio? Tinha um cérebro, cervello. Tocou na mão, mano, no braço, braccio, na perna, gambá. Tinha de respirar, respirare, ver, vedere, tocar, toccare, ouvir, sentire, dormir, dormire, sonhar, sognare. Estava divagando agora, e tratou de se controlar. No dia seguinte, Ermanno começaria com a lição um, a primeira projeção de vocabulário, com ênfase no básico: cumprimentos e saudações, conversa polida, números de um a cem, os dias da semana, os meses do ano, até mesmo o alfabeto. Os verbos ser (esseré) e ter (avere) eram conjugados no presente, passado e futuro.

Quando chegou a hora do jantar, Marco já memorizara toda a primeira lição e escutara a fita uma dúzia de vezes. Saiu para a noite muito fria. Foi andando, feliz, na direção geral da Trattoria del Monte, onde sabia que Luigi já estaria esperando, com a mesa escolhida e excelentes sugestões de cardápio. Na rua, ainda atordoado por várias horas de memorização, ele notou uma motoneta, uma bicicleta, um cachorro, duas meninas gêmeas e despertou para a realidade de que não conhecia nenhuma dessas palavras em sua nova língua.

Tudo o que sabia fora deixado em seu quarto no hotel.

Com a comida esperando, porém, seguiu em frente, determinado, ainda confiante de que ele, Marco, poderia se tornar um italiano respeitável. Numa mesa no canto, cumprimentou Luigi com um floreio:

- Buona sera, signore, come sta?

- Sto bene, grazie, e tu? - disse Luigi, com um sorriso de aprovação.

- Molto bene, grazie - respondeu Marco.

- Andou estudando, hem? - murmurou Luigi.

- Isso mesmo. Não tinha outra coisa para fazer.

Antes que Marco pudesse desdobrar o guardanapo, um garçom parou junto da mesa, com um frasco coberto de palha do vinho tinto da casa. Serviu dois copos e afastou-se.

- Ermanno é um ótimo professor - comentou Luigi.

- Já o tinha usado antes? - perguntou Marco, casual.

- Já.

- Com que freqüência traz para cá alguém como eu e o transforma num italiano?

Luigi sorriu.

- De vez em quando.

- É difícil acreditar.

- Acredite no que quiser, Marco. É tudo ficção.

- Você fala como um espião.

Um dar de ombros, sem uma resposta clara.

- Para quem você trabalha, Luigi?

- Para quem você acha?

- É parte do alfabeto... CIA, FBI, ASN. Talvez algum ramo obscuro da inteligência militar.

- Gosta de se encontrar comigo nestes pequenos e excelentes restaurantes? - perguntou Luigi.

- Tenho opção?

- Tem. Se continuar a me fazer essas perguntas, vamos parar de nos encontrar. E, quando isso acontecer, sua vida, por mais precária que seja agora, se tornará ainda mais frágil.

- Pensei que seu trabalho fosse me manter vivo.

- E é isso mesmo. Portanto, pare de fazer perguntas a meu respeito. Eu lhe asseguro que não há respostas.

Como se estivesse na folha de pagamento, o garçom apareceu no momento oportuno. Largou dois enormes cardápios entre os dois, mudando de maneira efetiva o rumo pelo qual a conversa enveredava. Marco franziu o rosto para a lista de pratos, e mais uma vez lembrou a si mesmo que seu italiano ainda tinha de percorrer um longo caminho. No fundo do cardápio, ele reconheceu as palavras caffè, vino e birra.

- O que parece bom aqui, Luigi?

- O chefe de Siena. Portanto, gosta de pratos toscanos. O risotto com porcini é ótimo como primeiro prato. Depois, acho que o destaque é o filé florentino.

Marco fechou o cardápio, saboreando o aroma que vinha da cozinha.

- Ficarei com os dois.

Luigi também fechou seu cardápio e fez sinal para o garçom. Depois de pedir, eles ficaram bebendo o vinho em silêncio por uns poucos minutos. Luigi rompeu-o:

- Há alguns anos, acordei uma manhã num pequeno quarto de hotel em Istambul. Sozinho, com cerca de quinhentos dólares no bolso. E um passaporte falso. Não falava uma única palavra de turco. Meu controlador estava na cidade, mas se eu fizesse contato, seria obrigado a procurar uma nova carreira. Dentro de dez meses exatamente, eu deveria voltar ao mesmo hotel, a fim de encontrar um amigo que me tiraria do país.

- Parece o treinamento básico da CIA.

- A parte errada do alfabeto. - Luigi fez uma pausa, tomando um gole do vinho. - Como gosto de comer, aprendi a sobreviver. Absorvi a língua, a cultura, tudo ao meu redor. E dez meses mais tarde, quando me encontrei com o amigo, tinha mais de mil dólares.

- Italiano, inglês, francês, espanhol, turco... o que mais?

- Russo. Eles me deixaram em Stalingrado durante um ano. Marco quase perguntou quem podiam ser “eles”, mas deixou passar. Não haveria resposta, além do mais, ele achava que sabia.

- Assim como estou sendo largado aqui?

O garçom trouxe uma cesta com pães diversos e uma tigela com azeite. Luigi começou a mergulhar o pão no azeite e comer. A pergunta foi esquecida ou ignorada. Mais comida foi trazida, uma pequena bandeja com presunto, salame e azeitonas. A conversa foi preterida. Luigi podia ser um espião, um contra-espião, um operador, um agente de algum tipo especial, um controlador ou apenas um contato, mas, em primeiro lugar e acima de tudo, era um italiano. Nem todo o treinamento possível podia desviar sua atenção do desafio quando a mesa era servida.

Enquanto comia, ele foi trocando de assunto. Explicou as exigências do jantar italiano. Primeiro, o antipasti... em geral um prato com frios, como o que fora servido. Depois, o primeiro prato, primi, que é em geral um prato não muito grande de massa, arroz, sopa ou polenta, com o propósito de forrar o estômago para o prato principal, o secondi... um prato substancial de carne de vaca, peixe, porco, galinha ou cordeiro. Ele advertiu que era preciso tomar cuidado com as sobremesas, olhando ao redor, para ter certeza de que o garçom não estava ouvindo. Desolado, Luigi balançou a cabeça ao explicar que muitos bons restaurantes agora compravam as sobremesas de terceiros, e havia o risco de terem açúcar demais ou licor ordinário, um veneno para os dentes.

Marco conseguiu parecer bastante chocado por aquele escândalo nacional.

- Aprenda a palavra gelato - disse Luigi, com os olhos faiscando.

- Sorvete - murmurou Marco.

- Bravo. O sorvete italiano é o melhor do mundo. Há uma gelateria aqui perto. Iremos até lá depois do jantar.

 

O serviço de quarto terminava à meia-noite. As 23:55h, Marco pegou o telefone, lentamente, e apertou duas vezes o número 4. Engoliu em seco e prendeu a respiração. Havia trinta minutos que vinha ensaiando o diálogo.

Depois de alguns toques da campainha, quando estava prestes a desligar, ele ouviu uma voz sonolenta dizer:

- Buona sera.

Marco fechou os olhos.

- Buona sera. Vorrei um caffè, perfavore. Un espresso dobbio.

- Si, latte e zucchero? Leite e açúcar?

- No, senza latte e zucchero.

- Si, cinque minuti.

- Grazie.

Marco apressou-se em desligar, para não se arriscar a um diálogo adicional, embora duvidasse que pudesse ocorrer, pela ausência de entusiasmo no outro lado. Levantou-se de um pulo, deu um soco no ar e afagou-se nas costas, para completar sua primeira conversa em italiano. Não houvera contratempo algum. Ambas as partes entenderam tudo que a outra queria dizer.

A uma hora da madrugada, ainda estava tomando o espresso duplo, saboreando-o, embora não estivesse mais quente. Ele estava no meio da lição três, e, como o sono não desse qualquer sinal de estar chegando, pensou que talvez pudesse estudar o livro inteiro, para sua primeira aula com Ermanno.

Ele bateu na porta do apartamento dez minutos mais cedo. Era uma questão de controle. Bem que tentou resistir, mas descobriu-se impulsivamente a reverter aos hábitos antigos. Preferia ser quem decidia a que horas a aula começaria. Dez minutos mais cedo ou vinte minutos mais tarde, o tempo não era importante. Enquanto esperava, no corredor sujo do andar, ele recordou uma reunião de alto nível que realizara em sua enorme sala de conferências. Estava apinhada de executivos de grandes empresas e dirigentes de várias agências federais, todos convocados pelo corretor. Embora a sala de reunião ficasse a cinqüenta passos de sua sala particular, ele chegara vinte minutos atrasado, pedindo desculpa e explicando que falava ao telefone com o gabinete do primeiro-ministro de algum pequeno país.

Como eram mesquinhos os jogos em que ele se empenhava...

Ermanno, ao que parecia, não ficou impressionado. Fez o discípulo esperar pelo menos cinco minutos antes de abrir a porta, com um sorriso tímido e uma saudação cordial:

- Buon giorno, signor Lazzeri.

- Buon giorno, Ermanno. Come stai?

- Molto bene, grazie, e tu?

- Molto bene, grazie.

Ermanno abriu toda a porta e fez um gesto com a mão.

- Prego.

- Por favor, entre.

Marco entrou. Mais uma vez, ficou impressionado porque tudo parecia escasso e temporário. Ele pôs os livros na mesinha no centro da sala. Decidiu ficar de casaco. A temperatura era de cinco graus lá fora, e não devia estar muito mais quente dentro do apartamento.

-  Vorrebbe um café? - perguntou Ermanno. Aceita um café?

- Si, grazie.

Marco dormira cerca de duas horas, de quatro às seis. Tomara um banho de chuveiro, vestira-se e se aventurara pelas ruas de Treviso. Encontrara um bar em que velhos se reuniam, tomavam seus espressos e falavam ao mesmo tempo. Ele queria mais café, entretanto o que precisava mesmo era de alguma coisa para comer. Um croissant, um pão doce ou qualquer outra coisa no gênero, algo cujo nome ainda não aprendera. E decidira que poderia agüentar a fome até o meio-dia, quando se encontraria com Luigi para outra excursão pela cozinha italiana.

- Você é estudante, não é mesmo? - perguntou ele, quando Ermanno voltou da cozinha com duas xícaras de café.

- Non inglese, Marco, non inglese.

E esse foi o fim do inglês. Um final abrupto, uma despedida ríspida e irrevogável da língua materna. Ermanno sentou a um lado da mesa, Marco a outro. Às oito e meia em ponto, juntos, viraram a primeira página da lição um. Marco leu o primeiro diálogo em italiano, Ermanno fez algumas correções, com toda delicadeza, embora estivesse impressionado com a preparação de seu aluno. O vocabulário fora todo memorizado, mas o sotaque precisava ser trabalhado. Uma hora depois, Ermanno começou a apontar vários objetos na sala - tapete, livro, revista, cadeira, colcha, cortina, rádio, chão, parede, mochila -, e Marco deu os nomes em italiano, sem qualquer dificuldade. Com um sotaque melhor, ele enunciou uma ampla lista de expressões polidas - bom-dia, como vai, obrigado, por favor, até mais tarde, adeus, boa-noite - e trinta outras. Deu os dias da semana e os meses do ano. A lição um foi concluída depois de apenas duas horas. Ermanno perguntou se haveria necessidade de uma pausa.

- No - respondeu Marco.

Passaram para a lição dois, com outra página de vocabulário, que Marco já dominara, e mais diálogo, que ele leu de uma maneira extraordinária.

- Você estudou bastante - murmurou Ermanno, em inglês.

- Non inglese, Ermanno, non inglese.

O jogo começara... quem podia demonstrar mais intensidade. Por volta do meio-dia, o professor estava exausto e ansioso por uma pausa. Ambos ficaram aliviados quando ouviram uma batida na porta e a voz de Luigi no corredor. Ele entrou e viu os dois se enfrentando através da mesa pequena e atravancada, como se estivessem empenhados numa queda-de-braço durante várias horas.

- Come va? - perguntou Luigi.

Ermanno exibiu um ar de cansaço.

- Molto intenso.

Marco anunciou, levantando-se:

- Vorrei pranzare. Quero almoçar.

Marco esperava um bom almoço, com algum inglês na conversa, para tornar as coisas mais fáceis, talvez aliviar a tensão mental de tentar traduzir cada palavra que ouvia. Mas Luigi, depois do resumo excitado de Ermanno sobre a sessão da manhã, sentiu-se inspirado a continuar a imersão ao longo da refeição, ou pelo menos na primeira parte. O cardápio não continha uma única palavra de inglês. Depois que Luigi explicou cada prato, num italiano incompreensível, Marco ergueu as mãos e disse:

- Tomei uma decisão. Não vou falar nem escutar italiano durante a próxima hora.

- E seu almoço?

- Comerei a mesma coisa que você.

Marco tomou um gole do vinho tinto, tentando relaxar.

- Está bem. Acho que podemos falar em inglês durante uma hora.

- Grazie - murmurou Marco, antes de se controlar.

 

Na metade da sessão da manhã, no dia seguinte, Marco mudou abruptamente de rumo. No meio de um diálogo bastante chato, ele abandonou o italiano e disse:

- Você não é estudante.

Ermanno levantou os olhos do livro, hesitou por um momento, e declarou:

- Non inglese, Marco. Soltanto italiano. Apenas italiano.

- Estou cansado de falar italiano neste momento, está bem? Você não é estudante.

Era muito difícil manter a farsa para Ermanno. Ele hesitou por tempo demais, antes de responder, sem muita convicção:

- Sou sim.

- Acho que não. Obviamente, não está freqüentando nenhuma aula, caso contrário não poderia passar o dia inteiro me ensinando italiano.

- Talvez minhas aulas sejam à noite. Por que isso deveria ter qualquer importância?

- Acho que não está fazendo curso nenhum. Não há livros aqui, nem um jornal estudantil, nada do lixo que os estudantes deixam espalhados por toda parte.

- Talvez esteja tudo no quarto.

- Pois então me mostre.

- Por quê? Por que isso é tão importante?

- Porque acho que você trabalha para as mesmas pessoas que empregam Luigi.

- E se for verdade?

- Quero saber quem são essas pessoas.

- E se eu não souber? Por que você deveria se preocupar com isso? Seu trabalho aqui é aprender a falar italiano.

- Há quanto tempo você mora neste apartamento?

- Não sou obrigado a responder às suas perguntas.

- Acho que só veio para cá na semana passada. Esta é uma casa segura, de alguma maneira, e você não é quem diz ser.

- Neste caso, somos dois.

Ermanno levantou abruptamente. Foi para os fundos do apartamento. Voltou com alguns papéis, que pôs na frente de Marco. Era um formulário de registro da Universidade de Bolonha, com uma etiqueta com o nome de Ermanno Rosconi e o endereço do apartamento.

- Já vou recomeçar a aula - avisou Ermanno. - Quer outro café?

Marco estudava o formulário, lendo apenas o suficiente para entender o recado.

- Quero sim, obrigado.

Era apenas um documento... que podia ser falsificado com a maior facilidade. Mas se era falso, o serviço fora muito bom. Ermanno desapareceu na cozinha. Marco ouviu o barulho de água correndo. Empurrou sua cadeira para trás.

- Vou dar uma volta no quarteirão. Preciso clarear a cabeça.

A rotina mudou no jantar. Luigi esperava-o na frente de uma tabacaria na Piazza dei Signori. Foram andando por uma viela movimentada, enquanto os comerciantes fechavam suas lojas. Já estava escuro e fazia muito frio. Os comerciantes, vestidos com elegância, as cabeças cobertas por chapéus, os pescoços envoltos por cachecóis, voltavam apressados para casa.

As mãos enluvadas de Luigi estavam enfiadas nos bolsos do casaco de tecido áspero que descia até os joelhos, provavelmente uma herança do avô ou comprado na semana anterior numa loja luxuosa e de preços exorbitantes em Milão. Independentemente da origem, o casaco era usado com a maior classe. Mais uma vez, Marco sentiu inveja da elegância natural de seu controlador.

Luigi não tinha pressa e parecia apreciar o frio. Fez alguns comentários em italiano, mas Marco recusou-se a entrar no jogo.

- Fale em inglês, Luigi - pediu ele, duas vezes. - Preciso do inglês.

- Está bem. Como foi seu segundo dia de aula?

- Ótimo. Ermanno é uma boa pessoa. Não tem senso de humor, mas é um professor competente.

- Está fazendo progressos?

- Como poderia deixar de fazer?

- Ermanno me disse que você tem um bom ouvido para a língua.

- Ermanno é péssimo para enganar os outros, e você sabe disso. Estou me esforçando ao máximo porque muita coisa depende disso. Tenho aula seis horas por dia, e ainda passo mais três horas estudando à noite. O progresso é inevitável.

- Sei que está se esforçando.

Luigi parou de repente na frente do que parecia ser uma delicatéssen.

- É aqui que você vai jantar, Marco.

Marco olhou para a loja com evidente desaprovação. Não devia ter mais de cinco metros de extensão. Havia três mesas ocupadas junto da janela. O resto da delicatéssen parecia lotado.

- Tem certeza? - perguntou ele.

- Tenho sim. A comida é ótima. Sanduíches e iguarias diversas. E você jantará sozinho. Eu não vou entrar.

Marco fitou-o nos olhos. Fez menção de protestar, mas depois mudou de idéia. Sorriu, como se aceitasse o desafio com satisfação.

- O cardápio está num quadro-negro em cima do caixa. Não tem nenhuma palavra em inglês. Peça primeiro, pague, depois pegue a comida na extremidade do balcão, que não é um lugar dos piores para sentar, se conseguir encontrar um banco vago. A gorjeta está incluída.

- Qual é a especialidade da casa?

- A pizza de presunto e alcachofra é deliciosa. Os panini também. Estarei à sua espera, ao lado do chafariz, dentro de uma hora.

Marco respirou fundo e entrou na loja, sentindo-se muito sozinho. Enquanto esperava, atrás de duas moças, estudou desesperado o quadro-negro, à procura de alguma coisa que pudesse pronunciar. Esqueça o gosto. O importante era pedir e pagar. Felizmente, a caixa era uma mulher de meia-idade, que gostava de sorrir. Marco ofereceu um “buona sera” cordial e, antes que a mulher pudesse dizer qualquer coisa, ele pediu um “panino prosciutto e formaggio” - sanduíche de presunto e queijo - e uma Coca-Cola.

A boa e velha Coca-Cola. Sempre a mesma coisa, em qualquer língua.

A caixa registradora tilintou e a mulher ofereceu um fluxo de palavras que Marco não entendeu. Mas ele continuou a sorrir, murmurou “si” e estendeu uma nota de vinte euros, com a certeza de que cobriria a despesa, até com troco. Deu certo. Com o troco, veio um tíquete.

- Numero sessantasette - disse a mulher.

Com o tíquete na mão, Marco foi andando devagar, ao longo do balcão, na direção da cozinha. Ninguém fitou-o espantado, ninguém parecia dispensar qualquer atenção à sua presença. Estaria mesmo conseguindo passar por um italiano, um habitante da cidade? Ou era evidente que parecia um estrangeiro, mas os clientes não se davam ao trabalho de observá-lo? Desenvolvera num instante o hábito de avaliar como os outros homens se vestiam, e concluiu que não destoava. Como Luigi dissera, os homens do Norte da Itália eram muito mais preocupados com elegância e aparência do que os americanos. Havia mais paletós e calças sob medida, mais suéteres e gravatas. Muito menos calças de brim, praticamente nenhum blusão de training, ou outros sinais de indiferença à aparência.

Luigi - ou quem quer que providenciara seu guarda-roupa, alguém com certeza pago pelos contribuintes americanos - fizera um bom trabalho. Para um homem que passara seis anos vestindo o uniforme da prisão, Marco ajustava-se rapidamente ao estilo italiano.

Ele ficou observando os pratos com comida que eram postos no balcão, perto da grelha. Cerca de dez minutos depois, apareceu um sanduíche grosso. Um empregado pegou o prato, levantou o tíquete e gritou:

- Numero sessantasette.

Marco adiantou-se, sem dizer nada, e estendeu seu tíquete. O refrigerante foi servido em seguida. Encontrou um lugar vazio numa pequena mesa de canto e apreciou a solidão de seu jantar. A delicatéssen estava lotada, com muito barulho. Parecia uma loja de bairro, em que muitos clientes se conheciam. Os cumprimentos envolviam abraços, beijos, extensas trocas de palavras. As despedidas eram ainda mais longas. Esperar na fila para pedir não causava qualquer problema, embora os italianos parecessem resistir ao conceito básico de ficarem um atrás do outro. Nos Estados Unidos, haveria protestos dos clientes, talvez palavras ríspidas da pessoa na caixa.

Num país em que uma casa de três séculos é considerada nova, o tempo tem um significado diferente. A comida é para ser apreciada, até mesmo numa delicatéssen com poucas mesas. As pessoas sentadas nas proximidades de Joel pareciam preparadas para levar horas digerindo os sanduíches e pizzas. Afinal, havia tanta coisa para falar!

O ritmo de morte cerebral na prisão ofuscara todas as suas percepções. Ele mantivera a sanidade lendo oito livros por semana, mas até mesmo esse exercício fora mais uma fuga, não necessariamente para o aprendizado. Dois dias de memorização intensiva, conjugando, pronunciando e escutando uma língua nova, a que nunca antes prestara qualquer atenção, haviam-no deixado mentalmente exausto.

Por isso, ele absorvia agora o rumor do italiano sem tentar compreender coisa alguma. Apenas apreciava o riso, a cadência e o ritmo. Captava uma palavra que conhecia de vez em quando, especialmente nas saudações e despedidas. Considerou que isso significava algum progresso. Observar as famílias e seus amigos fazia com que se sentisse solitário, embora se recusasse a pensar a respeito. Solidão era passar vinte e três horas por dia numa pequena cela, com pouca correspondência e apenas um livro para lhe fazer companhia. Conhecera a solidão, aquilo era como um dia na praia.

Empenhou-se em prolongar o sanduíche de presunto e queijo, mas havia um limite. Disse a si mesmo que na próxima vez deveria pedir batatas fritas. Assim, poderia prolongar ainda mais a refeição, comendo as batatas fritas mesmo depois que ficassem frias, demorando muito mais do que seria considerado normal nos Estados Unidos. Relutante, ele renunciou à mesa. Quase uma hora depois de entrar no café, deixou o calor interior e seguiu para o chafariz, cujo esguicho fora desligado, pois a água poderia congelar. Luigi apareceu poucos minutos depois, como se estivesse espreitando das sombras, à espera. Teve a coragem de sugerir um gelato, mas Marco já estava tremendo. Seguiram para o hotel e se desejaram boa noite.

 

O supervisor de campo de Luigi tinha cobertura diplomática no consulado dos Estados Unidos em Milão. Seu nome era Whitaker, e Backman era a menor de suas prioridades. Backman não estava envolvido em inteligência, nem em contra-inteligência, e Whitaker tinha tanto trabalho nessas áreas que não lhe restava tempo para se preocupar com um antigo corretor do poder em Washington, agora escondido na Itália. Zeloso, no entanto, preparava seus relatórios diários e despachava para Langley. Lá eram recebidos e avaliados por Julia Javier, a veterana com acesso direto ao Sr. Maynard. Era por causa do olhar vigilante de Julia que Whitaker era tão diligente em Milão. Se não fosse por isso, os relatórios diários poderiam não ser tão meticulosos.

Teddy queria um relato pormenorizado.

Julia Javier foi convocada à sua sala, no sétimo andar, a “Ala Teddy”, como o gabinete era conhecido em Langley. Ela entrou na “estação”, como Teddy preferia que o gabinete fosse chamado. Mais uma vez, encontrou-o na extremidade de uma longa mesa de reunião, sentado na cadeira de rodas, com o assento elevado, envolto por mantas do peito para baixo, usando o terno preto habitual, espiando por cima de pilhas de relatórios. Hoby pairava ao lado, pronto para buscar outra xícara do intragável chá verde que Teddy estava convencido de que o mantinha vivo.

Ele continuava vivo por um triz... mas era verdade que Julia Javier pensava assim havia anos.

Como não tomava café e não tocaria no chá, nada lhe foi oferecido. Ela sentou em seu lugar costumeiro, à direita de Teddy, uma espécie de banco de testemunhas, que todos os visitantes deviam ocupar, porque o ouvido direito de Teddy era muito melhor que o esquerdo. Ele conseguiu murmurar, com uma cara de cansado:

- Olá, Julia.

Hoby, como sempre, sentou na frente dela. Cada som na “estação” era captado pelos mais sofisticados aparelhos de gravação que a tecnologia moderna criara. Mesmo assim, Hoby fazia a encenação de anotar tudo.

- Dê-me as informações sobre Backman - disse Teddy.

Um relatório verbal como aquele deveria ser conciso, objetivo, sem a inclusão de uma única palavra desnecessária.

Julia olhou para suas anotações, pigarreou e começou a falar para os gravadores ocultos.

-  Ele está em Treviso, uma linda cidadezinha no norte da Itália. Já se encontra ali há três dias completos e seu ajustamento parece ser muito bom. Nosso agente mantém um contato total. O professor de italiano é um nativo, e vem fazendo um excelente trabalho. Como não tem dinheiro nem passaporte, Backman se mostra disposto, até agora, a permanecer junto do agente. Não usou o telefone no quarto do hotel, nem tentou usar o celular para qualquer outra coisa que não ligar para o agente. Não demonstrou o menor desejo de realizar explorações ou vaguear pela cidade. Parece evidente que tem dificuldade para se livrar dos hábitos adquiridos na prisão. Sempre permanece nas proximidades do hotel. Quando não está recebendo as aulas ou comendo, fica no quarto, estudando italiano.

- E como ele vai com a nova língua?

- Nada mal. Mas, como já tem cinqüenta e dois anos, não será rápido.

- Aprendi árabe quando tinha sessenta anos - informou Teddy, orgulhoso, como se sessenta anos fosse há um século.

- Sei disso. - Todos em Langley sabiam. - Ele estuda com afinco e faz progressos, mas só começou há três dias. O professor está impressionado.

- Sobre o que ele conversa?

- Não fala do passado, nem dos velhos amigos e inimigos. Nada que possa nos interessar. Ele se fecha nesse ponto, pelo menos por enquanto. A conversa tende a ser sobre seu novo país, a cultura, a língua.

- E seu ânimo?

- Ele acaba de sair da prisão, catorze anos antes do final da sentença, faz longas refeições, com bom vinho. Não parece ter saudade de casa, mas também não tem mais uma casa de verdade. Nunca fala sobre a família.

- A saúde?

- Parece boa. A tosse desapareceu. Tudo indica que ele dorme a noite inteira. Não se queixa de nada.

- Bebe muito?

- É sempre cuidadoso. Gosta de tomar vinho no almoço e no jantar. Também toma uma cerveja num bar próximo. Mas nada excessivo.

- Vamos tentar fazê-lo aumentar o consumo de bebida. Para ver se fala mais.

- É o nosso plano.

- Como é o esquema de segurança?

- Temos tudo grampeado... telefones, quarto, aulas de italiano, almoços, jantares. Há microfones até em seus sapatos. Nos dois pares. O sobretudo tem Peak 30 no forro. Podemos segui-lo para qualquer lugar.

- Quer dizer que não há possibilidade de perdê-lo?

- O homem é um advogado, não um espião. Por enquanto, parece se contentar em desfrutar sua liberdade e fazer o que mandam.

-  Mas ele não é estúpido. Não se esqueça disso, Julia. Backman sabe que há algumas pessoas terríveis que adorariam encontrá-lo.

É verdade. Mas neste momento ele é uma criança que começa a andar, sempre agarrado à saia da mãe.

- Ou seja, ele se sente seguro?

- Nas circunstâncias, creio que sim.

- Então vamos assustá-lo.

- Agora?

- Isso mesmo. - Teddy esfregou os olhos. Tomou um gole do chá. - Qual é a situação do filho?

- Vigilância de nível três. Não acontece muita coisa em Culpeper, Virgínia. Se Backman tentar entrar em contato com alguém, será com Neal Backman. Mas saberemos disso na Itália, antes de sabermos em Culpeper.

-  O filho é a única pessoa em quem ele confia - declarou Teddy, repetindo o que Julia já dissera muitas vezes.

- Tem toda razão.

Depois de uma longa pausa, Teddy perguntou:

- Mais alguma coisa, Julia?

- Ele está escrevendo uma carta para a mãe em Oakland.

Teddy sorriu.

- Um homem de bom coração. Sabemos o que ele diz na carta?

- Sabemos. Nosso agente tirou uma foto ontem. Acabamos de receber. Backman esconde a carta entre as páginas de uma revista local de turismo, em seu quarto no hotel.

- E uma carta comprida?

- Há dois parágrafos longos. Obviamente, ele ainda não acabou de escrever.

- Leia para mim.

Teddy inclinou a cabeça para trás, na cadeira de rodas, e fechou os olhos. Julia procurou em seus papéis. Pôs os óculos de leitura.

- Sem data, escrita à mão, o que é terrível, porque Backman tem uma péssima letra. “Querida mãe. Não sei quando ou se você receberá esta carta. Não sei sequer se a enviarei, o que pode afetar o recebimento. De qualquer forma, quero que saiba que estou fora da prisão e passando bem. Em minha última carta, eu dizia que tudo ia bem nas planícies de Oklahoma. Não tinha a menor idéia, na ocasião, de que receberia um indulto presidencial. Aconteceu tão de repente que ainda tenho dificuldade para acreditar.” Segundo parágrafo: “Estou vivendo no outro lado do mundo. Não posso dizer onde, porque isso deixaria algumas pessoas irritadas. Preferiria ficar nos Estados Unidos, mas não é possível. Não pude me manifestar na questão. Não é uma grande vida, mas com certeza é melhor do que a vida que eu levava há uma semana. Estava morrendo na prisão, apesar do que dizia em minhas cartas. Não queria preocupá-la. Aqui, sou um homem livre, o que é a coisa mais importante do mundo. Posso andar pela rua, comer num café, ir e vir como quiser, fazer o que me agrada. Liberdade, mãe, uma coisa com que sonhei por anos, e achava que era impossível.” Julia baixou o papel.

- Ele só escreveu isto.

Teddy abriu os olhos.

- Acha que ele é bastante estúpido para enviar uma carta para a mãe?

-  Não. Mas ele escrevia para a mãe uma vez por semana, durante muito tempo. É um hábito, e provavelmente terapêutico. Ele tem de falar com alguém.

- Ainda estamos vigiando a correspondência da mãe?

- Claro. O pouco que ela recebe.

- Muito bem. Dê um susto nele e depois me apresente um relatório a respeito.

- Pois não, senhor.

Julia recolheu seus papéis e deixou a sala. Teddy pegou um relatório e ajustou seus óculos de leitura. Hoby foi até a pequena cozinha ao lado da sala.

O telefone da mãe de Backman, na casa de repouso em Oakland, fora grampeado, mas até agora nada revelara. No dia do anúncio do indulto, duas velhas amigas haviam telefonado, com muitas perguntas e parabéns velados. Mas a Sra. Backman se mostrara tão aturdida que acabara sendo sedada e dormira por horas. Nenhum de seus três netos - os filhos de Joel com diversas esposas - telefonara nos últimos seis meses.

Lydia Backman sobrevivera a dois derrames e estava confinada a uma cadeira de rodas. Quando o filho se encontrava no auge, ela vivia num luxo relativo, num apartamento espaçoso, acompanhada por enfermeiras particulares. A condenação de Joel obrigara-a a renunciar à boa vida e ir morar numa casa de repouso, com uma centena de outros idosos.

Backman, com toda certeza, não tentaria entrar em contato com a mãe.

 

Depois de alguns dias sonhando com o dinheiro, Critz começou a gastá-lo, pelo menos mentalmente. Com tanto dinheiro, não seria obrigado a trabalhar para o inepto fornecedor de armas do Departamento de Defesa. Tampouco seria obrigado a enfrentar as audiências do circuito de conferências (ainda não se convencera de que haveria audiências, apesar de todas as garantias de seu agente).

Critz pensava em sua aposentadoria. Em algum lugar bem distante de Washington e de todos os inimigos que fizera ali, uma casa na praia, com um barco a vela nas proximidades. Ou talvez se mudasse para a Suíça e permanecesse perto de sua nova fortuna, escondida em seu novo banco, tudo maravilhosamente livre de impostos e aumentando a cada dia.

Dera um telefonema e assegurara o uso do apartamento em Londres por mais alguns dias. Encorajara a Sra. Critz a fazer compras com um pouco mais de entusiasmo. Ela também estava cansada de Washington e merecia uma vida mais fácil.

Em parte, por causa de sua ganância entusiasmada, em parte por causa de sua inépcia natural, mas também pela falta de sofisticação em questões de inteligência, Critz meteu os pés pelas mãos desde o início. Para um veterano no jogo de Washington, seus erros foram imperdoáveis.

Primeiro, ele usou o telefone do apartamento emprestado, o que facilitava o trabalho de alguém que tentasse localizá-lo. Ligou para Jeb Priddy, o agente de ligação da CIA que passara os últimos quatro anos na Casa Branca. Priddy ainda permanecia em seu posto, mas esperava ser chamado de volta a Langley a qualquer momento. O novo presidente estava acertando tudo, a situação era caótica, e assim por diante, segundo Priddy, que parecia um pouco irritado com o telefonema. Nunca fora muito ligado a Critz, e compreendeu no mesmo instante que o homem fazia uma sondagem. Critz disse que tentava encontrar um velho amigo, um analista sênior da CIA com quem costumava jogar golfe. O nome era Daly, Addison Daly, e deixara Washington para uma temporada na Ásia. Priddy sabia onde Daly se encontrava agora?

Addison Daly trabalhava em Langley, e Priddy o conhecia muito bem.

- Já ouvi falar nele - disse Priddy. - Talvez eu consiga localizá-lo. Onde posso fazer contato com você?

Critz deu o telefone do apartamento. Priddy ligou para Addison Daly, informando a conversa, e acrescentou suas suspeitas. Daly ligou seu gravador e telefonou para Londres por uma linha segura. Critz atendeu. Exagerou na manifestação de alegria por ouvir um velho amigo. Divagou sobre a maravilha que era a vida depois da Casa Branca, a alegria de voltar a ser um cidadão comum depois de tantos anos no jogo político. Sentia-se ansioso em restabelecer as antigas amizades e se dedicar ao golfe.

Daly entrou no jogo. Comentou que também pensava em se aposentar - quase trinta anos de serviço - e que também aguardava ansioso por uma vida mais tranqüila.

Critz fez algumas perguntas. Como vai Teddy? E como é o novo presidente? Qual é o clima em Washington com a nova administração?

Não há grandes mudanças, respondeu Daly, apenas outro bando de tolos. Por falar nisso, como vai o presidente Morgan?

Critz não sabia, não falara com ele, poderia passar muitas semanas mais sem qualquer contato. Quando a conversa começou a esmorecer, Critz perguntou, com uma risada contrafeita:

- Alguém tem visto Joel Backman por aí?

Daly conseguiu rir também... era tudo uma grande piada.

- Não. Acho que ele está bem escondido.

- Posso imaginar.

Critz prometeu ligar assim que voltasse a Washington. Jogariam golfe, num dos bons clubes da área, e depois tomariam alguns drinques, como nos velhos tempos.

Que velhos tempos? Foi essa a pergunta que Daly fez a si mesmo depois que desligou.

Uma hora depois, a gravação da conversa telefônica foi tocada para Teddy Maynard.

Como as duas primeiras conversas foram animadoras, Critz decidiu continuar. Sempre gostara de trabalhar ao telefone, como um maníaco. Endossava a teoria da espingarda de cartucho... encha o ar com telefonemas e alguma coisa vai acontecer. Outro amigo antigo fora assessor do presidente do Comitê de Inteligência do Senado. Embora fosse agora um lobista bem relacionado, ainda mantinha vínculos estreitos com a CIA.

Conversaram sobre política e golfe. Depois de algum tempo, para imensa satisfação de Critz, o amigo perguntou o que exatamente o presidente Morgan pensava ao conceder indulto a Duque Mongo, o maior sonegador fiscal da história dos Estados Unidos. Critz alegou que se opusera a esse indulto. Aproveitou a indagação e desviou a conversa para o outro indulto controvertido.

- Quais são as notícias sobre Backman?

- Você estava presente e sabe o que aconteceu.

- É verdade. Mas onde Maynard escondeu-o? Essa é a grande questão agora.

- Quer dizer que foi um trabalho da CIA?

- Claro. - Critz falou com um tom de autoridade. - Quem mais poderia tirá-lo em segredo do país durante a madrugada?

- Muito interessante... - murmurou o amigo, que a esta altura se tornara subitamente retraído.

Critz insistiu em almoçarem juntos na semana seguinte, quando voltasse a Washington. Foi nesse ponto que encerraram a conversa.

Enquanto trabalhava febrilmente ao telefone, Critz mais uma vez ficou admirado com sua interminável lista de contatos. O poder tinha suas recompensas.

 

Joel, ou Marco, despediu-se de Ermanno às cinco e meia da tarde, ao final de uma sessão de três horas, quase ininterrupta. Os dois estavam exaustos.

O ar frio ajudou a desanuviar-lhe a cabeça, enquanto andava pelas estreitas ruas de Treviso. No segundo dia, ele parou em um pequeno bar na esquina e pediu uma cerveja. Sentou junto da janela e ficou observando os habitantes passarem apressados, alguns voltando do trabalho, outros fazendo compras para o jantar. O bar era quente e enfumaçado. Mais uma vez, Marco pensou na prisão. Não podia evitar... a mudança fora drástica demais, a liberdade muito repentina. Ainda havia o medo persistente de que acordaria para se descobrir trancafiado na cela, com algum gozador invisível rindo histericamente a distância.

Depois da cerveja, ele tomou um espresso. Saiu para a escuridão com as mãos enfiadas nos bolsos. Quando virou a esquina e avistou o hotel, também viu Luigi, andando nervoso pela calçada, fumando um cigarro. Quando Marco atravessou a rua, Luigi o seguiu.

- Temos de partir imediatamente!

- Por quê? - perguntou Marco, olhando ao redor, à procura dos bandidos.

- Explicarei mais tarde. Há uma bolsa de viagem na cama. Arrume suas coisas o mais depressa que puder. Esperarei aqui.

- E se eu não quiser ir embora?

Luigi segurou seu pulso esquerdo, pensou por um instante e disse, com um sorriso tenso:

-  Então pode não sobreviver às próximas vinte e quatro horas. - O tom era sinistro. - Por favor, confie em mim.

Marco subiu correndo a escada. Já estava quase em seu quarto quando compreendeu que a dor intensa no estômago não era da respiração ofegante, mas de medo.

O que acontecera? O que Luigi vira, ouvira ou fora informado? E, antes de mais nada, quem era Luigi exatamente? De quem recebia ordens? Enquanto tirava as roupas do pequeno armário e jogava na cama, Marco se fez todas essas perguntas e muitas outras. Depois de arrumar tudo, sentou por um momento e tentou organizar os pensamentos. Respirou fundo, várias vezes, exalando devagar. Disse a si mesmo que o que estava acontecendo, independentemente do que fosse, era parte do jogo.

Teria de fugir pelo resto da vida? Sempre arrumando a mala às pressas, correndo de um quarto para outro? Ainda era muito melhor do que a prisão, mas cobraria seu tributo.

E como era possível que alguém o tivesse encontrado tão cedo? Afinal, estava em Treviso havia apenas quatro dias.

Depois de recuperar o controle, ele seguiu devagar pelo corredor, desceu a escada, atravessou o saguão, acenando com a cabeça para o aturdido recepcionista, e saiu pela porta da frente. Luigi pegou sua bolsa e jogou na mala de um Fiat compacto. Já passavam pelos arredores de Treviso antes de começarem a falar.

- Muito bem, Luigi, o que aconteceu?

- Uma mudança de cenário.

- Já entendi isso. Por quê?

- Por bons motivos.

- Hum... fica tudo explicado.

Luigi segurava o volante com a mão esquerda, passava a mudança, frenético, com a direita, e mantinha o pedal do acelerador quase colado no chão, ignorando o uso do freio. Marco já se sentia perplexo porque uma raça de pessoas podia passar duas horas e meia no almoço, sem a menor pressa, e depois entrar no carro para uma viagem de dez minutos através da cidade, a uma velocidade vertiginosa.

Viajaram durante uma hora, na direção geral do sul, por estradas secundárias, evitando as principais.

- Há alguém atrás de nós? - perguntou Marco, mais de uma vez, enquanto contornavam curvas fechadas, em alta velocidade, sobre duas rodas.

Luigi apenas balançava a cabeça. Tinha os olhos contraídos, as sobrancelhas franzidas, os maxilares cerrados, quando não estava fumando. Conseguia guiar como um maníaco enquanto fumava calmamente, sem nunca olhar para trás. Parecia determinado a não falar, o que reforçou a determinação de Marco de ter uma conversa.

- Está apenas tentando me assustar, não é mesmo, Luigi? É o jogo da espionagem... você é o mestre, e eu sou apenas o pobre coitado que está a par dos segredos. Quer me deixar apavorado, para me manter dependente e leal. Sei o que está fazendo.

-  Quem matou Jacy Hubbard? - perguntou Luigi, mal mexendo os lábios.

Backman silenciou no mesmo instante. A simples menção de Hubbard sempre o deixava paralisado e gelado. O nome sempre trazia de volta alguma lembrança, como a foto que a polícia tirara do corpo de Jacy estendido sobre a sepultura do irmão, o lado esquerdo da cabeça estourado, sangue por toda parte... na sepultura, na camisa branca. Por toda parte.

- Você tem o dossiê - murmurou Backman. - Foi suicídio.

- Se acreditava nisso, por que decidiu se declarar culpado e suplicar a custódia protetora na prisão?

- Fiquei apavorado. O suicídio pode ser contagioso.

- É verdade.

- Está querendo dizer que os mesmos homens que promoveram o suicídio de Hubbard estão agora atrás de mim?

Luigi confirmou com um dar de ombros.

- E, de alguma forma, descobriram que eu me escondia em Treviso?

- É melhor não correr riscos.

Ele não seria informado dos detalhes... se é que havia algum. Não tentou. Mas, numa reação instintiva, olhou para trás, esquadrinhando a estrada escura. Luigi olhou pelo espelho retrovisor e conseguiu exibir um sorriso satisfatório, como se dissesse: Eles estão lá atrás, em algum lugar.

Joel arriou por alguns centímetros no banco. Fechou os olhos. Dois de seus clientes haviam morrido primeiro. Safi Mirza fora esfaqueado perto de uma boate em Georgetown, três meses depois de contratar Backman e lhe entregar a única cópia do JAM. Os ferimentos a faca já eram bastante graves, mas, mesmo assim, introduziram-lhe um veneno no organismo, provavelmente através da lâmina. Sem testemunhas. Sem pistas. Mais um homicídio sem solução, um dos muitos que ocorriam em Washington, D.C. Um mês depois, Fazal Sharif desaparecera em Karachi e presumia-se que houvesse morrido.

O JAM valia mesmo um bilhão de dólares, mas ninguém jamais aproveitaria o dinheiro.

Em 1998, a Backman, Pratt & Bolling contratou Jacy Hubbard por um milhão de dólares por ano. A venda do JAM foi seu primeiro grande desafio. Para demonstrar seu valor, Hubbard pressionou e subornou o acesso ao Pentágono, num esforço desajeitado e malfadado de confirmar a existência do sistema de satélites Netuno. Alguns documentos - adulterados, mas ainda assim secretos - foram contrabandeados para fora do Pentágono, por um homem subornado por Hubbard, que relatava tudo a seus superiores. Os documentos supostamente revelavam a existência da Rede Gama, um fictício sistema de vigilância, ao melhor estilo de Guerra nas estrelas, com uma capacidade inédita. Depois que Hubbard “confirmou” que os três jovens paquistaneses estavam mesmo corretos - o Netuno era um projeto dos Estados Unidos -, comunicou a conclusão a Joel Backman. Com essa informação, eles entraram no mercado.

Como a Rede Gama era supostamente uma criação dos militares americanos, o JAM passou a valer ainda mais. Mas a verdade é que nem o Pentágono nem a CIA tinham conhecimento de Netuno.

O Pentágono decidiu vazar sua ficção, uma violação da segurança por um toupeira que trabalhava para o ex-senador Jacy Hubbard e seu novo e poderoso chefe político, o próprio corretor. O escândalo estourou. O FBI deu uma batida no escritório de Backman, Pratt & Bolling, de madrugada, encontrou os documentos do Pentágono que todos presumiam ser autênticos, e quarenta e oito horas depois uma motivada equipe de promotores federais apresentou denúncias contra todos os sócios da firma.

Os assassinatos foram cometidos logo depois, sem pistas sobre os culpados. O Pentágono, com bastante habilidade, neutralizou Hubbard e Backman, sem deixar transparecer se de fato possuía e operava o sistema de satélites. Rede Gama ou Netuno, qualquer que fosse o nome, estava protegido sob a impenetrável teia de “segredos militares”.

Backman, o advogado, queria um julgamento, ainda mais se os documentos do Pentágono eram questionáveis. Porém, Backman, o réu, queria evitar um destino similar ao de Hubbard.

Se a fuga alucinada de Treviso promovida por Luigi tinha o objetivo de assustá-lo, então o plano começava a dar certo. Pela primeira vez desde o indulto, Joel sentiu falta de sua pequena cela na penitenciária de segurança máxima.

A cidade de Pádua ficava logo à frente, com as luzes e o tráfego aumentando a cada quilômetro.

- Qual é a população de Pádua? - perguntou Marco, suas primeiras palavras em meia hora.

- Duzentos mil habitantes. Por que os americanos sempre querem saber a população de cada aldeia e cidade?

- Não sabia que isso era um problema.

- Está com fome?

O latejamento no estômago era de medo, não de fome, mas mesmo assim Marco respondeu que sim. Comeram uma pizza num bar de bairro, pouco depois de entrarem em Pádua. Voltaram ao carro e continuaram a viagem para o sul.

Dormiram naquela noite numa pequena estalagem rural com oito quartos, do tamanho de closets - que pertencia à mesma família desde o tempo dos antigos romanos. Não havia qualquer placa anunciando a hospedaria. Foi um dos lugares em que Luigi parou. A próxima estrada era estreita, abandonada, quase sem qualquer veículo fabricado depois de 1970. Bolonha não ficava muito longe.

Luigi dormiu no quarto contíguo, no outro lado de uma grossa parede de pedra com séculos de existência. Quando Joel Backman/Marco Lazzeri meteu-se por baixo das cobertas e finalmente se aqueceu, não podia ver um brilho de luz em qualquer parte. E o silêncio era total. Estava tão quieto que ele não conseguiu fechar os olhos por um longo tempo.

 

Depois do quinto relatório sobre um telefonema de Critz, com perguntas sobre Joel Backman, Teddy Maynard teve um raro acesso de raiva. O idiota estava em Londres, telefonando furiosamente para todo mundo, por algum motivo, à procura de alguém, qualquer um que pudesse levá-lo à informação sobre Backman.

- Alguém ofereceu dinheiro a Critz - resmungou Teddy para Wigline, um vice-diretor assistente.

- Mas não há a menor possibilidade de Critz descobrir o paradeiro de Backman - ressaltou Wigline.

- Ele não deveria tentar descobrir. Só serve para complicar a situação. É preciso neutralizá-lo.

Wigline olhou para Hoby, que parou de escrever suas anotações.

- O que foi mesmo que disse, Teddy?

- Vamos neutralizá-lo.

- Ele é um cidadão americano.

- Sei disso. Mas ele também está comprometendo uma operação. Há um precedente. Já fizemos isso antes.

Ele não se deu ao trabalho de informar qual era o precedente, mas os dois presumiram que não adiantaria questionar, já que Teddy criava seus próprios precedentes.

Hoby acenou com a cabeça, como se dissesse: É verdade, já fizemos isso antes. Wigline trincou os dentes.

- Presumo que queira que seja feito agora.

- O mais depressa possível - declarou Teddy. - Apresente-me um plano em duas horas.

Eles vigiavam Critz no momento em que deixou o apartamento emprestado para sua longa caminhada ao final da tarde, que geralmente terminava com uma caneca de cerveja. Depois de meia hora de caminhada num ritmo indolente, ele se encaminhou para a Leicester Square. Entrou no Dog and Duck, o mesmo pub em que estivera no dia anterior.

Tomava a segunda caneca, na extremidade do balcão principal, no primeiro andar, quando o banco ao seu lado vagou. Um agente chamado Greenlaw sentou e pediu uma cerveja.

- Importa-se se eu fumar? - perguntou Greenlaw.

Critz deu de ombros.

- Não estamos nos Estados Unidos.

- Um ianque, hein?

- Isso mesmo.

- Vive aqui?

- Não. Estou apenas de visita.

Critz concentrava-se nas garrafas no outro lado do balcão, evitando o contato visual. Não queria conversar. Aprendera a gostar da solidão de um pub lotado. Gostava de sentar ali, tomar sua cerveja, apenas ouvindo a conversa rápida dos britânicos, sabendo que ninguém ali tinha a menor idéia de quem ele era. Ainda pensava no homem chamado Ben. Se o vigiavam, faziam um bom trabalho, permanecendo nas sombras.

Greenlaw bebeu depressa, num esforço para acompanhar Critz. Era essencial que os dois pedissem a próxima rodada ao mesmo tempo. Ele deu uma tragada no cigarro, depois acrescentou sua fumaça à nuvem por cima deles.

- Já estou aqui há um ano - disse ele.

Critz acenou com a cabeça, sem olhar. Deixe-me em paz.

- Não me importo de guiar pelo lado errado da rua, ou com o mau tempo, mas o que realmente me chateia aqui são os esportes. Já assistiu a um jogo de críquete? Dura quatro dias.

Critz soltou um grunhido e fez um comentário sem qualquer entusiasmo:

- É um esporte estúpido.

- É o futebol deles ou o críquete, e esses caras são loucos pelos dois. Acabo de sobreviver ao inverno aqui sem o nosso futebol americano. Foi terrível.

Critz era um fanático torcedor do Redskins, do tipo que comprava ingressos para todos os jogos da temporada. Poucas coisas o deixavam tão excitado quanto seu amado time. Greenlaw só assistia a partidas de vez em quando, mas passara o dia memorizando estatísticas, numa casa segura da CIA, ao norte de Londres. Se o futebol americano não desse certo, a política seria o assunto seguinte. Se também não desse certo, havia uma mulher atraente à espera lá fora, embora Critz não tivesse uma reputação de conquistador.

Mas Critz sentiu uma súbita saudade dos Estados Unidos. Sentado num pub, longe de casa, longe do frenesi do Super Bowl, a disputa do campeonato nacional de futebol americano - faltavam apenas dois dias para o Super Bowl, mas a notícia era praticamente ignorada pela imprensa britânica -, ele podia ouvir a multidão, sentir toda a emoção. Se o Redskins tivesse conseguido chegar à final, ele não estaria tomando cerveja num pub em Londres. Em vez disso, estaria sentado no estádio, na linha de cinqüenta jardas, o lugar oferecido por uma das muitas empresas com que podia contar.

Ele olhou para Greenlaw e perguntou:

- Patriots ou Packers?

- Meu time não conseguiu chegar à final, mas o jogo decisivo sempre me fascina.

- A mim também. Qual é o seu time?

E essa foi a pergunta mais fatal que Robert Critz já fizera em toda a sua vida. Quando Greenlaw respondeu “Redskins”, Critz sorriu e passou a ter vontade de conversar. Passaram alguns minutos determinando os antecedentes: há quanto tempo cada um era torcedor do Redskins, os grandes jogos a que haviam assistido, os grandes jogadores, as decisões do campeonato. Greenlaw pediu outra rodada de cerveja. Os dois pareciam dispostos a recordar jogos antigos por horas. Critz conversara com poucos americanos em Londres, e aquele era fácil de se relacionar.

Greenlaw pediu licença e foi ao banheiro. Era no segundo andar, minúsculo, com apenas uma privada, como são muitos banheiros de bares em Londres. Ele trancou a porta para ter alguns segundos de privacidade. Tirou o celular do bolso para comunicar a situação. O plano estava em andamento. Havia uma equipe na rua, esperando. Três homens e uma mulher atraente.

No meio da quarta caneca, durante uma polida divergência sobre a proporção de touch-downs e interceptações de Sonny Jurgensen, Critz finalmente precisou urinar. Perguntou onde ficava o banheiro e desapareceu em seguida. Greenlaw largou no copo de Critz um pequeno tablete de Rohypnol, um sedativo forte, sem gosto e sem cheiro. Quando Mister Redskins voltou, parecia revigorado e ansioso em continuar a beber. Conversaram sobre John Riggins e Joe Gibbs, exultantes. O queixo de Critz começou a pender.

- Puxa... - murmurou ele, a voz quase engrolada. - É melhor eu ir agora. Minha mulher está esperando.

- A minha também. - Greenlaw levantou sua caneca. - Foi um prazer conhecê-lo.

Eles tomaram o resto da cerveja. Levantaram-se para ir embora. Critz seguiu na frente. Greenlaw ficou atrás, pronto para ampará-lo quando ele caísse. Conseguiram passar pela multidão concentrada junto da porta da frente e saíram para a calçada. O vento frio reanimou Critz, mas apenas por um instante. Ele esqueceu por completo o novo amigo. Em menos de vinte passos, começou a cambalear, as pernas trôpegas. Teve de se segurar num poste para não cair. Greenlaw precisou ampará-lo. Disse em voz alta, em benefício de um casal de passagem:

- Mas que droga, Fred! Você está outra vez de porre!

O problema de Fred ia muito além de um simples porre. Um carro surgiu do nada e se aproximou dos dois, diminuindo a velocidade. A porta traseira foi aberta. Greenlaw empurrou Critz, meio morto, para dentro. A primeira parada foi num armazém, a oito quarteirões de distância. Ali, Critz, totalmente inconsciente agora, foi transferido para um furgão todo fechado, com uma porta traseira dupla. Com Critz estendido no chão, um agente usou uma seringa para injetar uma dose maciça de heroína pura. A presença da heroína sempre fazia com que o resultado da autópsia se tornasse sigiloso, por insistência da família.

Com Critz quase sem respirar, o furgão deixou o armazém. Seguiu para a Whitcomb Street, não muito longe do apartamento emprestado. A operação exigia três veículos: o furgão, seguido por um Mercedes grande, e um carro na retaguarda, dirigido por um britânico autêntico, que ficaria no local e falaria com a polícia. O propósito primário do carro da retaguarda era manter o tráfego tão longe quanto possível do Mercedes.

Na terceira passagem, com todos os três motoristas se comunicando entre si, além de falarem com dois agentes, inclusive a mulher atraente, escondida na calçada, as portas traseiras do furgão foram abertas. Critz caiu na rua. O motorista do Mercedes foi direto para a cabeça, a roda passando por cima, com um terrível barulho. Todos desapareceram em seguida, exceto o britânico no carro na retaguarda. Ele pisou no freio, saltou e correu para o pobre bêbado, que acabara de cambalear para o meio da rua e fora atropelado. O homem olhou rapidamente ao redor, à procura de testemunhas.

Não havia nenhuma, exceto por um táxi que se aproximava, em sentido contrário. Ele fez sinal para que o motorista parasse. Logo, todo o tráfego ficou retido. Uma multidão se formou em torno do corpo. A polícia chegou. O britânico no carro da retaguarda fora o primeiro no local, mas vira muito pouco. O pobre coitado cambaleara entre dois carros estacionados, saíra para o meio da rua e fora atropelado por um carro preto e grande. Ou talvez fosse verde-escuro. Ele não se lembrava da marca e do modelo. Nem pensara em anotar a placa. Não tinha como fazer uma descrição do motorista que atropelara o bêbado e fugira. Ficara chocado demais com a visão do bêbado avançando de repente para o meio da rua.

Quando o corpo de Bob Critz foi embarcado numa ambulância para a viagem até o necrotério, Greenlaw, a mulher atraente e dois outros integrantes da equipe já estavam num trem, deixando Londres, a caminho de Paris. Iriam se dispersar por algumas semanas e depois voltariam para Londres, sua base de operações.

 

Marco queria tomar o café da manhã primeiro, porque podia sentir o cheiro de presunto e salsicha fritando, em algum lugar nos fundos da casa principal. Luigi, entretanto, estava ansioso em partir imediatamente.

- Há outros hóspedes, e todos comem à mesma mesa - explicou ele, enquanto levavam a bagagem para o carro. - Lembre-se de que você está deixando uma trilha, e a signora não esquece nada.

Partiram pelo estreito caminho rural, à procura de estradas mais largas.

- Para onde vamos? - perguntou Marco.

- Veremos.

-  Pare de jogar comigo! - berrou Marco, provocando um sobressalto em Luigi. - Sou um homem absolutamente livre e posso sair deste carro a qualquer momento que quiser!

- É verdade, mas...

- Pare de me ameaçar! Cada vez que faço uma pergunta você vem com essas ameaças vagas, de que eu não conseguiria sobreviver sozinho por vinte e quatro horas. Quero saber o que está acontecendo. Para onde vamos? Quanto tempo levaremos para chegar lá? Quanto tempo ficaremos na cidade? Quero as respostas, Luigi, ou vou desaparecer.

Luigi entrou numa estrada de quatro pistas, com uma placa que informava que Bolonha ficava a trinta quilômetros de distância. Ele esperou que a tensão diminuísse um pouco, antes de dizer:

- Vamos passar alguns dias em Bolonha. Ermanno se encontrará conosco lá. Você continuará a estudar. Será levado para uma casa segura por vários meses. Depois irei embora e você ficará sozinho.

- Obrigado. Por que era tão difícil dizer isso?

- O plano muda.

- Eu sabia que Ermanno não era estudante.

- Ele é estudante. E também faz parte do plano.

- Não percebe como o plano é absurdo? Pense um pouco, Luigi. Alguém está gastando todo esse tempo e dinheiro para tentar me ensinar outra língua e outra cultura. Por que não me despachar de novo em algum avião de carga e me esconder num lugar como a Nova Zelândia?

- É uma grande idéia, Marco, mas não sou eu quem toma essas decisões.

- Marco porra nenhuma. Tenho vontade de rir cada vez que me olho no espelho e digo Marco.

- Isso não é nada engraçado. Conhece Robert Critz?

Marco hesitou por um momento.

- Estive com ele algumas vezes ao longo dos anos. Nunca gostei dele. Apenas outro explorador dos políticos... como eu.

- Amigo íntimo do presidente Morgan, chefe de gabinete, diretor da campanha.

- E daí?

- Ele foi morto ontem à noite, em Londres. Com isso, são cinco pessoas que morreram por sua causa... Jacy Hubbard, os três paquistaneses e agora Critz. Os assassinatos não pararam, Marco... e vão continuar. Por favor, seja paciente comigo. Só estou tentando protegê-lo.

Marco bateu com a cabeça no encosto e fechou os olhos. Não podia sequer começar a juntar as peças do quebra-cabeça.

Pararam num posto de gasolina para encher o tanque. Luigi voltou ao carro com duas xícaras de café forte.

- Café para viagem - comentou Marco, jovial. - Pensei que esses males estavam proibidos na Itália.

- A fastfood se insinua por toda parte. É muito triste.

- Culpe os americanos. É o que todo mundo faz.

Não demorou muito para que estivessem avançando devagar pelo tráfego da hora do rush em Bolonha. Luigi comentou:

- Nossos melhores carros são fabricados por aqui. Ferraris, Lamborghinis, Maseratis, todos os grandes carros esportes.

- Posso ter um?

- Lamento, mas não está no orçamento.

- O que exatamente está no orçamento?

- Uma vida muito simples e sossegada.

- Foi o que pensei.

- Muito melhor do que a vida que levava antes.

Marco tomou um gole do café, observando o tráfego.

- Você não estudou aqui?

- Estudei. A universidade tem mil anos. Uma das melhores do mundo. Eu o levarei até lá depois.

Eles deixaram a estrada e entraram num bairro antigo. As ruas eram curtas e estreitas. Luigi parecia conhecer bem o lugar. Seguiram as placas que apontavam para o centro da cidade e a universidade. Subitamente, Luigi deu uma guinada no volante, aproximou-se do meio-fio e espremeu o Fiat numa vaga que mal dava para uma motocicleta.

- Vamos comer alguma coisa - disse ele.

Saíram do carro com alguma dificuldade e foram andando apressados pela calçada, respirando o ar frio.

O novo esconderijo de Marco era um hotel escuro e sujo, a alguns quarteirões dos limites da Cidade Velha.

- Um novo corte no orçamento... - murmurou ele, enquanto seguia Luigi para a escada, atravessando o pequeno saguão.

- Só ficará aqui por uns poucos dias.

- E depois?

Marco teve alguma dificuldade para subir com sua bagagem pela escada estreita. Luigi não carregava nada. Felizmente, o quarto ficava no segundo andar, um espaço mínimo, com uma cama pequena, cortinas que havia dias não eram abertas.

- Gostei mais de Treviso - comentou Marco, olhando para as paredes.

Luigi abriu as cortinas. A luz do sol só ajudou um pouco.

- Nada mau - murmurou Luigi, sem a menor convicção.

- Minha cela na prisão era melhor.

- Você reclama muito.

- Com boas razões.

- Arrume suas coisas. Vamos nos encontrar no saguão dentro de dez minutos. Ermanno está esperando.

Ermanno parecia tão contrariado quanto Marco pela súbita mudança de cidade. Estava cansado e irrequieto, como se os tivesse seguido durante a noite inteira desde Treviso. Acompanharam-no por alguns quarteirões, até um velho prédio de apartamentos.

Não havia nenhum elevador à vista, e subiram quatro lances de escadas. Entraram num pequeno apartamento, de dois cômodos, que tinha ainda menos móveis do que o apartamento em Treviso. Era óbvio que Ermanno fizera as malas num instante, e arrumara suas coisas ali ainda mais depressa.

- Sua pocilga é pior do que a minha - disse Marco, correndo os olhos pelo apartamento.

Em cima da mesa estreita, à espera da ação, estavam os materiais de estudo que haviam usado no dia anterior.

- Voltarei para o almoço - avisou Luigi antes de sair.

- Andiamo a studiare - disse Luigi.

- Já esqueci tudo.

- Mas tivemos uma boa aula ontem!

- Não podemos ir a um bar e beber um pouco? Não estou com a menor disposição para estudar.

Mas Ermanno assumira sua posição no outro lado da mesa e já virava as páginas de seu manual. Mesmo relutante, Marco sentou na frente dele.

O almoço e o jantar foram esquecíveis, refeições rápidas em falsas trattorias, a versão italiana de fast food. Luigi estava de mau humor e insistiu, às vezes com alguma rispidez, que só falassem em italiano. Luigi falava devagar, com bastante clareza, e repetia tudo quatro vezes, até que Marco entendia, antes de passar para a frase seguinte. Era impossível apreciar a comida sob tanta pressão.

A meia-noite, Marco estava em seu quarto frio, envolto pelo cobertor fino, tomando o suco de laranja que ele próprio pedira e memorizando uma lista depois de outra de verbos e adjetivos.

O que Robert Critz teria feito para ser morto pelas pessoas que podiam também estar à procura de Joel Backman? A própria pergunta era bizarra demais para sequer formular. Ele não podia cogitar uma resposta. Presumiu que Critz estivesse presente quando o indulto foi concedido, o ex-presidente Morgan era incapaz de tomar uma decisão assim sozinho. Além disso, no entanto, era impossível imaginar Critz envolvido num nível mais elevado. Já demonstrara, há décadas, que não passava de um bom executor de ordens. Poucas pessoas confiavam nele.

Mas, se ainda havia pessoas morrendo, então era urgente que ele aprendesse os verbos e adjetivos espalhados sobre a cama. Aprender a língua significava a sobrevivência e o movimento. Luigi e Ermanno em breve desapareceriam, e Marco Lazzeri teria de se virar sozinho.

 

Marco escapou do quarto claustrofóbico, ou “apartamento”, como era chamado, e saiu para uma longa caminhada ao amanhecer. Com o mapa que Luigi lhe dera no bolso, todo em italiano, é claro, ele seguiu para a Cidade Velha. Depois de passar pelas ruínas da antiga muralha, na Porta San Donato, ele foi para oeste, pela Via Irnerio, ao longo da extremidade norte da área universitária de Bolonha. As calçadas tinham séculos, cobertas pelo que pareciam ser quilômetros de arcadas.

Era evidente que a vida nas ruas começava mais tarde no bairro universitário. Passava um carro ou outro, uma motocicleta ou outra, mas o movimento de pedestres ainda era quase inexistente. Luigi explicara que Bolonha tinha uma história de esquerda, de tendências comunistas. Era uma história rica, que Luigi prometera explorar com ele.

À frente, Marco avistou uma pequena placa de néon verde anunciando com indiferença o Bar Fontana. Enquanto seguia em sua direção, ele sentiu o cheiro de café forte. O bar ficava espremido ao lado de um prédio antigo... mas também quase todos os prédios ali eram antigos. A porta só abriu com alguma relutância. Depois que entrou, Marco quase sorriu ao sentir os aromas de café, cigarro, pastéis, ovo e presunto numa frigideira nos fundos. E depois o medo o atingiu, a apreensão usual de tentar pedir comida numa língua desconhecida.

O Bar Fontana não era para estudantes nem para mulheres. A multidão ali era de sua idade, cinqüenta anos para cima, quase todos vestidos de uma maneira um tanto estranha, com cachimbos e barbas em quantidade suficiente para identificar como um ponto predileto de professores. Um ou dois olharam em sua direção, mas, no centro de uma universidade com cem mil estudantes, era difícil alguém atrair atenção.

Marco ocupou a última mesa vaga, pequena, perto dos fundos. Quando finalmente se acomodou no lugar, de costas para a parede, ficou quase com os ombros encostando nos vizinhos. Os dois estavam absorvidos em seus respectivos jornais e deram a impressão de que nem o notavam. Em uma de suas preleções sobre a cultura italiana, Luigi explicara o conceito de espaço na Europa e como diferia bastante do que se tinha nos Estados Unidos. O espaço é partilhado na Europa, não protegido. As mesas são partilhadas, o ar é evidentemente partilhado, porque a fumaça não incomoda ninguém. Carros, casas, ônibus, apartamentos, cafés... muitos aspectos da vida são menores, e por isso mais apertados, e por isso partilhados. Não é ofensivo ficar quase colado num conhecido durante uma conversa, porque nenhum espaço está sendo violado. Uma pessoa fala com as mãos, um abraço, às vezes até mesmo com um beijo.

Mesmo com um povo tão afável, era difícil para os americanos compreenderem essa familiaridade.

E Marco ainda não se sentia preparado para ceder muito espaço. Ele pegou o cardápio um pouco amassado em cima da mesa e apressou-se em escolher a primeira coisa que reconheceu. No momento em que o garçom parou e fitou-o, ele disse com toda a descontração que podia simular:

- Espresso, e unpanino alformaggio.

Um pequeno sanduíche de queijo. O garçom acenou com a cabeça em aprovação. Ninguém olhou por estranhar seu sotaque. Nenhum jornal foi baixado para se verificar quem poderia ser. Ninguém se importava. As pessoas ouviam sotaques diferentes durante todo o tempo. Enquanto largava o cardápio na mesa, Marco Lazzeri concluiu que provavelmente gostaria de Bolonha, mesmo que fosse, de fato, um ninho de comunistas. Com tantos estudantes e professores indo e vindo, de todos os cantos do mundo, os estrangeiros eram aceitos como parte da cultura. Talvez fosse elegante ter um sotaque e se vestir de uma maneira diferente. Talvez fosse aceitável estudar ostensivamente a língua.

Uma indicação certa de ser um estrangeiro era o fato de notar tudo, os olhos se deslocando de um lado para outro, como se soubesse que invadia uma nova cultura. Marco não queria ser surpreendido a avaliar tudo no Bar Fontana. Tirou do bolso um folheto de vocabulário, fazendo um esforço para ignorar as pessoas e cenas que tanto queria observar. Verbos, verbos, verbos. Ermanno insistia em dizer que, para dominar o italiano - ou qualquer outra língua românica, diga-se de passagem -, era preciso conhecer os verbos. Havia no folheto mil verbos básicos, e Ermanno alegava que era um bom ponto de partida.

Por mais tediosa que fosse a memorização, Marco descobria um estranho prazer em seu empenho. Achava bastante satisfatório repetir o que havia em quatro páginas - cem verbos, ou substantivos, ou qualquer outra coisa - sem omitir uma única palavra. Quando saltava uma, ou errava a pronúncia, ele voltava ao princípio, como uma punição. Já dominava trezentos verbos quando o café e os sanduíches foram servidos. Ele tomou um gole e voltou ao estudo, como se a comida fosse muito menos importante do que o vocabulário. Já se aproximava de quatrocentos verbos quando Rudolph chegou.

A cadeira no outro lado da mesinha redonda de Marco estava vazia, o que atraiu a atenção de um homem baixo e gordo, todo vestido de preto desbotado, com cachos de cabelos grisalhos se projetando de todas as partes da cabeça, alguns mal contidos por uma boina preta, que tinha uma dificuldade óbvia para permanecer no lugar.

- Buon giorno. È libera? - perguntou ele, polido, gesticulando para a cadeira.

Marco não entendeu o que ele disse, mas era evidente o que ele queria. Presumiu que a palavra significava “vazia” ou “vaga”.

- Si - respondeu Marco, conseguindo dizer a palavra sem sotaque.

O homem tirou uma capa preta, pendurou-a na cadeira e manobrou para se acomodar. Quando sentou, os dois ficaram separados por menos de um metro. O espaço é diferente aqui, disse Marco a si mesmo. O homem pôs um exemplar de Lunità na mesa, fazendo-a balançar para a frente e para trás. Por um momento Marco ficou preocupado com seu espresso. Para evitar uma conversa, ele se concentrou ainda mais nos verbos de Ermanno.

- Americano? - indagou seu novo amigo, em inglês, sem qualquer sotaque.

Marco baixou o folheto e fitou os olhos radiantes, não muito longe dos seus.

- Perto. Canadense. Como soube?

Rudolph acenou com a cabeça para o folheto.

- Vocabulário inglês para italiano. Você não parece britânico. Por isso, calculei que fosse americano.

A julgar pelo sotaque, ele não era da parte superior do Meio Oeste. Nem de Nova York ou Nova Jersey, nem do Texas ou do Sul, nem das Appalachia ou Nova Orleans. Como vastas seções do país haviam sido eliminadas, Marco começou a pensar na Califórnia. E também começou a ficar muito nervoso. Teria de começar a mentir, e não praticara o suficiente.

- E de onde você é?

- Minha última escala, antes de vir para cá, foi Austin, Texas. Há trinta anos. Meu nome é Rudolph.

-  Bom-dia, Rudolph. É um prazer. Sou Marco. - Os dois estavam no jardim-de-infância, onde apenas o primeiro nome era necessário. - Não parece texano.

- Ainda bem. - A risada foi jovial, a boca quase não aparecendo. - Nasci em San Francisco.

O garçom aproximou-se. Rudolph pediu café puro, depois outra coisa, falando um italiano rápido. O garçom fez uma pergunta, e Rudolph respondeu. Marco não entendeu nada.

- O que o trouxe a Bolonha? - indagou Rudolph.

Ele parecia ansioso em conversar, provavelmente era raro encontrar outro norte-americano em seu café predileto. Marco baixou o folheto.

- Vim passar um ano na Itália, para conhecer o país, tentar aprender a língua.

Metade do rosto de Rudolph era coberto por uma barba grisalha desleixada, que começava no alto das faces e espalhava-se em todas as direções. A maior parte do nariz era visível, assim como parte da boca. Por alguma estranha razão, que ninguém jamais compreenderia, porque ninguém jamais ousaria fazer uma pergunta tão absurda, ele desenvolvera o hábito de raspar um pequeno ponto redondo por baixo do lábio inferior, incluindo a maior parte por cima do queixo. Afora esse terreno sagrado, os cabelos grisalhos espalhavam-se sem qualquer controle... e aparentemente sem qualquer lavagem. No alto da cabeça, acontecia a mesma coisa, os tufos de cabelos grisalhos intocados, projetando-se em torno de toda a boina.

Porque o resto das feições estava quase todo oculto, os olhos atraíam toda a atenção. Eram de um verde escuro e projetavam raios que, por baixo das sobrancelhas hirsutas, absorviam tudo.

- Há quanto tempo está em Bolonha? - perguntou Rudolph.

-  Cheguei ontem. Não tenho nada programado. E o que você veio fazer aqui?

Marco estava ansioso em manter a conversa longe de si mesmo. Os olhos faiscaram, sem piscar.

- Estou aqui há trinta anos. Sou professor na universidade.

Marco finalmente deu uma mordida no sanduíche de queijo, em parte por fome, mas também para manter Rudolph falando, o que era ainda mais importante.

- Onde você mora? - perguntou Rudolph. Marco seguiu o roteiro.

- Toronto. Meus avós imigraram de Milão. Tenho sangue italiano, mas nunca aprendi a língua.

- O italiano não é difícil.

O café de Rudolph chegou. Ele pegou a xícara pequena e enfiou-a no meio da barba. Encontrou a boca. Estalou os lábios. Inclinou-se um pouco para a frente.

- Não parece canadense - comentou ele, os olhos parecendo rir. Março estivera se esforçando para parecer, agir e falar como italiano. Não tivera tempo de sequer pensar em assumir uma aparência de canadense. E como exatamente um canadense parece? Ele deu outra mordida no sanduíche, bem grande, e disse com a boca cheia:

- Não posso evitar. Como veio de Austin para Bolonha?

- É uma longa história.

Marco deu de ombros, como se dispusesse de muito tempo.

- Eu era um jovem professor na Faculdade de Direito da Universidade do Texas. Quando descobriram que eu era comunista, começaram a me pressionar para sair. Resolvi revidar. Eles pressionaram ainda mais. Protestei com veemência, em particular na sala de aula. Os comunistas não se davam muito bem no Texas no início dos anos 1970, e duvido muito que isso tenha mudado. Negaram-me uma posição de catedrático. Saí da cidade e vim para Bolonha, o coração do comunismo italiano.

- O que ensina aqui?

-  Direito. Jurisprudência. Teorias jurídicas de extrema esquerda.

Um brioche com algum tipo de cobertura chegou. Rudolph pôs a metade na boca com a primeira mordida. Algumas migalhas caíram nas profundezas da barba.

- Ainda é comunista?

- Claro. E sempre serei. Por que mudaria?

- Não acha que o comunismo já chegou ao fim de seu curso? Não era uma grande idéia, no final das contas. É só olhar para a confusão na Rússia por causa de Stalin e seu legado. E a Coréia do Norte, onde o povo passa fome, enquanto o ditador constrói ogivas nucleares. Cuba tem cinqüenta anos de atraso em relação ao resto do mundo. Os sandinistas foram derrubados pelo voto na Nicarágua. A China está se voltando para o capitalismo de livre-mercado porque o antigo sistema se deteriorou. Não dá certo, não é mesmo?

O brioche perdera sua atração, os olhos verdes haviam se contraído. Marco podia pressentir que um discurso era iminente, provavelmente entremeado de palavrões, em inglês e italiano. Ele olhou ao redor e compreendeu que havia uma boa possibilidade dos comunistas terem a superioridade numérica no Bar Fontana.

E o que o capitalismo fizera por ele?

Muito para seu crédito, Rudolph sorriu, deu de ombros e disse, com um ar de nostalgia:

- É possível, mas era muito divertido ser um comunista há trinta anos, ainda mais no Texas. Bons tempos...

Marco acenou com a cabeça para o jornal e perguntou:

- Alguma vez lê jornais de sua terra?

- Minha terra é a Itália, meu amigo. Tornei-me cidadão italiano e há vinte anos não vou aos Estados Unidos.

Backman ficou aliviado. Não vira nenhum jornal americano desde que deixara a prisão, mas presumia que tivesse sido notícia. Talvez até com fotos. Mas seu passado parecia a salvo de Rudolph.

Marco especulou se esse seria seu futuro... a cidadania italiana. Se é que teria algum futuro. Vinte anos de fuga, vagueando pela Itália, sem chegar a olhar para trás, mas sempre pensando se alguém o seguia.

- Falou em sua terra, Marco. Para você, é o Canadá ou os Estados Unidos?

Marco sorriu e acenou com a cabeça para a distância.

- Qualquer lugar, eu acho...

Um pequeno erro, mas que não deveria ter sido cometido. Ele se apressou em mudar de assunto:

- É minha primeira visita a Bolonha. Não sabia que era o centro do comunismo italiano.

Rudolph baixou a xícara e tornou a estalar os lábios parcialmente ocultos. Depois, com as duas mãos, gentilmente, alisou a barba para trás, como um gato velho que passa a pata pelo bigode.

-  Bolonha é uma porção de coisas, meu amigo - disse ele, como se estivesse para iniciar uma longa preleção. - Sempre foi o centro do livre-pensamento e da atividade intelectual na Itália. Vem daí seu primeiro apelido, la dotta, que significa a douta. Depois, tornou-se o lar da esquerda política, e ganhou o segundo apelido, la rossa, a vermelha. E os bolonheses sempre deram a maior importância à comida. Acham, e provavelmente estão certos, que a cidade é o estômago da Itália. Por isso, o terceiro apelido, Ia grassa, a gorda, um termo afetuoso, porque não se encontra muitas pessoas com excesso de peso por aqui. Eu mesmo era gordo quando cheguei aqui.

Ele afagou a barriga com uma das mãos, orgulhoso, enquanto usava a outra para comer o resto do brioche.

Uma indagação assustadora aflorou de repente na cabeça de Marco. Seria possível que Rudolph fosse parte do esquema? Seria um companheiro de Luigi, Ermanno, Stennett e quem mais se encontrava por perto, nas sombras, empenhado em manter Joel Backman vivo? Claro que não. Claro que ele era mesmo o que dizia ser... um professor. Um excêntrico, desajustado, um comunista idoso que encontrara uma vida melhor em outro país.

O pensamento passou, mas não foi esquecido. Marco terminou de comer o sanduíche, e decidiu que já havia conversado o suficiente. Subitamente tinha de pegar um trem, para mais um dia de turismo. Conseguiu se desvencilhar da mesa e recebeu uma afetuosa despedida de Rudolph.

- Venho aqui todas as manhãs. Volte quando tiver mais tempo.

- Grazie - disse Marco. - Arrivederci.

Fora do café, a Via Irnerio começava a se agitar, com pequenos furgões fazendo entregas. Dois motoristas gritaram um para o outro. Provavelmente obscenidades, em tom cordial, coisas que Marco jamais entenderia. Ele se afastou apressado do café, para o caso do velho Rudolph se lembrar de perguntar alguma coisa e sair em seu encalço. Virou em uma rua transversal, a Via Capo di Lucca - estava aprendendo que todas as ruas eram bem sinalizadas e fáceis de encontrar no mapa -, e ziguezagueou a caminho do centro. Passou por outro pequeno café aconchegante, depois voltou, entrou e pediu um cappuccino.

Nenhum comunista abordou-o ali, ninguém parecia sequer interessado em sua presença. Marco e Joel Backman saborearam o momento, o café forte e delicioso, o ar denso e quente, o riso calmo das pessoas que conversavam. Naquele instante, nenhuma outra pessoa no mundo sabia onde ele se encontrava, o que era um sentimento inebriante.

Por insistência de Marco, as sessões da manhã começavam às oito horas, não trinta minutos depois. Ermanno, o estudante, ainda precisava de muitas horas de sono profundo, mas não podia argumentar com a dedicação do aluno. Marco chegava para cada aula com as listas de vocabulário memorizadas, os diálogos de situações aperfeiçoados, mal conseguindo controlar o desejo urgente de aprender italiano. Ele chegou a sugerir que as aulas começassem às sete horas.

Na manhã em que conheceu Rudolph, Marco estudou intensamente por duas horas ininterruptas, para depois anunciar, de forma abrupta:

-  Vorrei vedere l’università.

- Quando? - perguntou Ermanno.

- Adesso. Andiamo afare una passeggiata. Agora. Vamos dar uma volta.

- Penso che dobbiamo studiare. Acho que devemos estudar.

- Si. Possiamo studiare a camminando.

- Está bem. Podemos estudar enquanto andamos.

Marco já estava de pé, pegando seu casaco. Deixaram o prédio deprimente e seguiram em direção à universidade.

- Questa via, come si chiama? - perguntou Ermanno. Como se chama esta rua?

- È Via Donati.

Marco respondeu sem olhar para a placa. Pararam na frente de uma loja pequena, e Ermanno perguntou:

- Che tipo di negozio è questo? Que tipo de loja é esta?

- Una tabaccheria. Uma tabacaria.

- Che cosa puoi comprare in questo negozio? O que posso comprar nesta loja?

- Posso comprare molte cose. Giornali, riviste, francobolli, sigarette. Posso comprar muitas coisas. Jornais, revistas, selos, cigarros.

A aula tornou-se um jogo de dar o nome das coisas. Ermanno apontava e indagava:

- Cosa è que lio? O que é aquilo? Uma motocicleta, um guarda, um carro azul, um ônibus, um banco, uma lata de lixo, uma cabine telefônica, um cachorro, um café, uma pastelaria. Exceto por um poste, Marco não hesitou em dar o nome em italiano. E os verbos tão importantes - andar, falar, ver, estudar, comprar, pensar, conversar, respirar, comer, beber, apressar, guiar -, a lista era interminável, e Marco conhecia quase todas as traduções apropriadas.

Poucos minutos depois das dez horas, a universidade finalmente se tornou movimentada. Ermanno explicou que não havia um campus central, ao estilo americano, margeado por árvores e arbustos. A Università degli Studi ocupava dezenas de belos prédios antigos, a maior parte concentrada ao longo da Via Zamboni, embora a universidade tivesse crescido, ao longo dos séculos, e agora ocupasse todo um bairro de Bolonha.

A lição de italiano foi esquecida por um ou dois quarteirões, enquanto eram envolvidos por uma onda de estudantes indo e saindo de suas aulas. Marco descobriu-se a procurar por um velho de cabelos grisalhos... seu comunista predileto, o primeiro conhecido de verdade com quem conversara desde que saíra da prisão. Já tomara a decisão de que tornaria a se encontrar com Rudolph.

Na Via Zamboni, 22, Marco parou e olhou para a placa entre a porta e a janela:

FACOLTÀ Dl GIURISPRUDENZA.

- Aqui é a faculdade de direito? - perguntou ele.

- Si.

Rudolph estava em algum lugar lá dentro, sem dúvida pregando a dissidência de esquerda entre os alunos impressionáveis.

Eles continuaram a andar, sem pressa, empenhados no jogo de dar o nome das coisas, ao mesmo tempo que desfrutavam toda a energia da rua.

 

A lezione-a-piedi continuou no dia seguinte, quando Marco revoltou-se depois de uma hora de estudo tedioso de gramática, direto do livro, e exigiu que saíssem para um passeio.

- Ma, deve imparare la grammatica - insistiu Ermanno. Você deve melhorar a gramática.

Marco já estava vestindo o casaco.

- É nesse ponto que você está enganado, Ermanno. Preciso de uma conversa de fato, não de estrutura de frase.

- Sono io l'insegnante. Sou eu o professor.

- Vamos embora. Andiamo. Bolonha está esperando. As ruas estão repletas de jovens felizes, o ar vibra com os sons de sua língua, à minha espera para absorver tudo.

Como Ermanno ainda hesitasse, Marco sorriu e acrescentou:

- Por favor, meu amigo. Passei seis anos trancado numa cela mais ou menos do tamanho deste apartamento. Não pode esperar que eu fique aqui dentro com uma cidade cheia de vida lá fora. Vamos explorá-la.

Na rua, estava claro e fresco, sem qualquer nuvem no céu. Era um deslumbrante dia de inverno que atraía os bolonheses de sangue quente para as ruas, a fim de fazer uma coisa e outra, manter longas conversas com velhos amigos. Havia bolsões de conversa intensa aqui e ali, com estudantes de olhos sonolentos se cumprimentando, donas de casa se encontrando para trocar as últimas fofocas. Idosos de paletó e gravata trocavam apertos de mão e iniciavam conversas no mesmo instante. Comerciantes gritavam na frente de lojas, apregoando suas ofertas.

Para Ermanno, porém, não era um passeio no parque. Se o seu aluno queria conversa, então a teria. Ele apontou para um guarda e disse a Marco... em italiano, é claro:

- Vá até aquele guarda e pergunte como se chega à Piazza Maggiore. Preste atenção nas palavras e depois repita tudo para mim.

Marco adiantou-se devagar, sussurrando algumas palavras para si mesmo, tentando recordar outras. Sempre comece com um sorriso e a saudação apropriada.

- Buon giorno - disse ele, quase prendendo a respiração.

- Buon giorno - respondeu o guarda.

- Mi pub aiutare? Pode me ajudar?

- Certamente.

- Sono canadese. Non parlo molto bene. Sou canadense. Não falo muito bem o italiano.

- Allora. Pois não.

O guarda ainda sorria, agora ansioso em ajudar.

- Donde la Piazza Maggiore?

O guarda virou-se e olhou para a distância, na direção da parte central de Bolonha. Pigarreou. Marco preparou-se para a torrente de orientação. Ermanno estava postado a poucos passos, acompanhando toda a conversa. Com uma cadência lenta e sonora, o guarda disse em italiano, apontando o caminho, como todo mundo faz:

- Não fica muito longe. Pegue esta rua, vire à direita na Via Zamboni, e ande até encontrar as duas torres. Pegue, então, a Via Rizzoli e percorra três quarteirões.

Marco escutou tão atentamente quanto podia e tentou repetir tudo. O guarda ajudou-o, paciente. Marco agradeceu, afastou-se, murmurando as palavras, e foi repetir tudo para Ermanno.

- Non cè male. Nada mal. A diversão estava apenas começando. Enquanto Marco exultava com seu pequeno triunfo, Ermanno procurou o próximo auxiliar de professor. Encontrou-o num velho que se arrastava com a ajuda de uma bengala, um jornal debaixo do braço.

- Pergunte a ele onde comprou o jornal.

Marco não se apressou. Seguiu o homem por alguns passos. Quando achou que já tinha todas as palavras na cabeça, ele o abordou.

- Buon giorno, scusi.

O velho parou. Virou-se para fitá-lo. Por um momento, deu a impressão de que levantaria a bengala para bater na cabeça de Marco. Não deu o costumeiro “Buon giorno”.

- Dove hã comprato questo giornale? Onde comprou esse jornal? O velho olhou para o jornal, como se fosse um contrabando, depois tornou a fitar Marco, como se o xingasse. Sacudiu a cabeça para a esquerda e grunhiu uma única palavra.

- Ali.

A conversa terminou. Enquanto ele se afastava, Ermanno adiantou-se e comentou, em inglês:

- O velho não estava a fim de conversar, hein?

- Tem razão.

Entraram num pequeno café. Marco pediu um espresso simples. Ermanno não podia se contentar com coisas simples, em vez disso, queria um café comum, com açúcar, mas sem creme, acompanhado por um pequeno pastel de cereja. Fez Marco pedir tudo, em italiano. Sentaram. Ermanno pôs várias notas de euro em cima da mesa, de valores diferentes, além de moedas. Praticaram números e cálculos. Depois, ele decidiu que queria outro café, agora sem açúcar, mas com um pouco de creme. Marco pegou dois euros e voltou com o café. Contou o troco.

Depois do breve intervalo, voltaram às ruas. Foram andando pela Via San Vitale, uma das principais da universidade, com pórticos cobrindo as calçadas nos dois lados, multidões de estudantes passando apressados a caminho das primeiras aulas da manhã. A rua estava cheia de bicicletas, o meio de transporte predileto. Ermanno dissera que estudava havia três anos em Bolonha, embora Marco acreditasse pouco no que ouvia do professor e do controlador.

- Esta é a Piazza Verdi.

Ermanno acenou com a cabeça para uma pequena praça onde começava algum tipo de manifestação. Um jovem de cabelos compridos, relíquia dos anos 1970, ajustava um microfone, sem dúvida preparando-se para um estridente discurso de denúncias contra os crimes cometidos pelos americanos em algum lugar. Os colegas tentavam decifrar uma faixa malfeita, pintada à mão, com um slogan que nem mesmo Ermanno conseguiu entender. Mas a manifestação começava muito cedo. Os estudantes estavam meio adormecidos, mais preocupados em não chegar atrasados nas aulas.

-  Qual é o problema aqui? - perguntou Marco, enquanto passavam.

- Não tenho certeza. Alguma coisa relacionada com o Banco Mundial. Há sempre uma manifestação aqui.

Eles seguiram adiante, pelo meio da jovem multidão, mais ou menos na direção do centro.

Luigi esperava-os para almoçar num restaurante chamado Testerino, perto da universidade. Com os contribuintes pagando a conta, ele pedia com freqüência e sem se preocupar com o preço. Ermanno, o estudante sem dinheiro, parecia contrafeito com a extravagância. Como era italiano, no entanto, logo se animou com a perspectiva de um longo almoço. Durou duas horas, sem que se pronunciasse uma única palavra de inglês. O italiano era lento, metódico, muitas vezes repetido, mas nunca trocado pelo inglês. Marco teve dificuldade para desfrutar uma boa refeição, pois o cérebro tinha de trabalhar além do normal, no esforço para ouvir, entender, digerir e preparar uma resposta para cada frase que lhe era dirigida. Com bastante freqüência, uma frase ainda ressoava em sua cabeça, com apenas uma ou outra palavra reconhecida, quando era atropelada pela frase seguinte. E seus dois amigos não conversavam apenas pela diversão. Se percebessem a menor sugestão de que Marco não acompanhava o diálogo, que apenas acenava com a cabeça, para que continuassem a falar enquanto ele comia, paravam de falar abruptamente e indagavam “Che cosa ho detto?” O que eu disse?

Marco mastigava por alguns segundos, ganhando tempo para pensar em alguma coisa - em italiano! - que pudesse livrá-lo da situação crítica. Mas estava aprendendo a escutar, a captar as palavras-chaves. Os dois amigos haviam lhe dito várias vezes que sempre compreenderia muito mais do que podia dizer.

A comida salvou-o. Era de especial importância a diferença entre tortellini (massa pequena recheada com carne de porco) e tortelloni (massa maior recheada com queijo tipo ricota). O chef, ao saber que Marco era um canadense interessado na cozinha bolonhesa, insistiu em servir os dois pratos. Como sempre, Luigi explicou que ambos eram criações exclusivas da culinária de Bolonha.

Marco tentava apenas comer, fazendo o melhor que podia para saborear os pratos deliciosos, enquanto evitava a língua italiana.

Depois de duas horas, insistiu numa pausa. Terminou de tomar o segundo espresso e despediu-se. Deixou-os na frente do restaurante e foi andando sozinho, os ouvidos zunindo e a cabeça girando do exercício.

Ele percorreu dois quarteirões da Via Rizzoli, ida e volta. Repetiu a manobra para ter certeza de que ninguém o seguia. As calçadas cobertas eram ideais para se esconder. Quando voltaram a ser ocupadas por uma compacta multidão de estudantes, ele atravessou a Piazza Verdi, onde a manifestação contra o Banco Mundial dera lugar a um discurso inflamado, que por um momento deixou Marco feliz por não entender o italiano. Ele parou na Via Zamboni, 22. Mais uma vez, contemplou a porta de madeira maciça da faculdade de direito. Entrou no prédio e fez o melhor que pôde para dar a impressão de que se sentia à vontade ali. Não havia relação das salas e seus ocupantes, mas um quadro de avisos dos estudantes anunciava quase tudo: apartamentos, livros, companhia, até mesmo um programa de estudos de verão na Faculdade de Direito de Wake Forest.

Um corredor dava para um pátio aberto onde estudantes se reuniam, conversando, falando ao celular, fumando, à espera do recomeço das aulas.

Uma escada à esquerda atraiu a atenção de Marco. Ele subiu para o terceiro andar. Havia ali uma espécie de relação das salas. Ele compreendeu a palavra “uffici”. Avançou pelo corredor, passando por duas salas de aulas, até encontrar os escritórios dos professores. A maioria tinha um nome na porta, uns poucos não tinham. A última sala era de Rudolph Viscovitch, até agora o único nome não-italiano no prédio. Marco bateu na porta. Ninguém respondeu. Virou a maçaneta. Estava trancada. Ele tirou do bolso do casaco um papel que trouxera do Albergo Campeol, em Treviso, e escreveu um bilhete:

“Prezado Rudolph. Eu passeava pelo campus, encontrei a faculdade e resolvi cumprimentá-lo. Talvez possamos nos encontrar de novo no Bar Fontana. Gostei de nossa conversa ontem. É um prazer ouvir inglês de vez em quando. Seu amigo canadense, Marco Lazzeri.”

Ele enfiou o bilhete por baixo da porta. Desceu a escada, por trás de um grupo de estudantes. De volta à Via Zamboni, foi andando a esmo, sem qualquer destino específico. Parou para tomar um gelato, antes de voltar ao hotel. O quarto pequeno e escuro estava frio demais para um cochilo. Prometeu a si mesmo, mais uma vez, que reclamaria com Luigi. Afinal, o almoço custara mais de três diárias do quarto. Luigi e seus superiores podiam muito bem lhe proporcionar um lugar melhor.

E ele seguiu para o minúsculo apartamento de Ermanno, para a aula da tarde.

 

Luigi esperou paciente na Centrale de Bolonha pelo eurostar, que vinha direito de Milão. A estação ferroviária estava relativamente sossegada, o período de calmaria antes da hora do rush, que começava às cinco horas. Às 3:35h, exatamente no horário, o trem parou na estação. Whitaker desembarcou.

Como Whitaker nunca sorria, os dois mal se cumprimentaram. Depois de um rápido aperto de mãos, eles se encaminharam para o Fiat de Luigi.

- Como está nosso homem? - perguntou Whitaker, assim que bateu a porta.

- Muito bem. - Luigi ligou o carro e partiu. - Tem estudado muito. Mas também não há quase mais nada que ele possa fazer.

- E permanece perto do hotel.

- Sempre. Gosta de passear pela cidade, mas tem medo de se aventurar muito longe. Além do mais, não tem dinheiro.

- Mantenha-o assim. Como está o italiano dele?

- Ele aprende depressa. - Os dois seguiam pela Via deli' Indipendenza, uma avenida larga que levava para o sul, até o centro. - Muito motivado.

- Ele está assustado?

- Acho que sim.

- Ele é um homem inteligente e manipulador, Luigi. Não se esqueça disso. E porque é inteligente, também tem muito medo. Sabe do perigo.

- Falei sobre Critz.

- E como ele reagiu?

- Ficou surpreso.

- E também assustado?

- Acho que sim. Quem pegou Critz?

- Presumo que fomos nós, mas nunca se pode ter certeza. A casa segura está pronta?

- Está.

- Ótimo. Vamos ver o novo apartamento de Marco.

A Via Fondazza era num bairro residencial sossegado, na zona sudeste da Cidade Antiga, a poucos quarteirões do bairro universitário. Como em quase todo o resto de Bolonha, as calçadas eram cobertas. As portas das casas e prédios de apartamentos abriam direto na calçada. A maioria dos prédios tinha uma lista de moradores numa placa de bronze ao lado do interfone. O que não acontecia no prédio na Via Fondazza, 112. Não tinha nenhuma indicação havia três anos, desde que fora alugado por um misterioso executivo de Milão que pagava o aluguel em dia, mas quase não aparecia. Whitaker não visitava o lugar fazia mais de um ano. Era um apartamento simples, com cerca de cem metros quadrados, quatro cômodos, com móveis básicos. Custava mil e duzentos euros por mês. Era uma casa segura, nada mais, nada menos, uma das três sob o seu controle, no norte da Itália.

Havia dois quartos, uma cozinha e uma sala, com sofá, mesa, duas poltronas de couro, sem televisão. Luigi apontou para o telefone e conversaram, em linguagem quase cifrada, sobre o aparelho de escuta instalado ali, que nunca poderia ser detectado. Havia dois microfones ocultos em cada quarto, tão potentes que não perdiam qualquer som humano. Havia também duas câmeras microscópicas. Uma delas estava escondida na rachadura de um ladrilho no alto da parede da sala, focalizando a porta da frente. A outra fora escondida num ponto de luz na parede da cozinha, apontada para a porta dos fundos.

Não vigiariam o quarto de Marco. Luigi comentou que isso deixava-o aliviado. Se Marco conseguisse encontrar uma mulher disposta a visitá-lo, poderiam registrar sua entrada e saída, pela câmera na sala, o que era suficiente para Luigi. E, se quisesse se divertir um pouco, bastava acionar um interruptor para ouvir tudo.

Ao sul da casa segura havia outro apartamento, separado por uma grossa parede de pedra. Luigi ficaria ali. Era um apartamento de cinco cômodos, um pouco maior que o de Marco. A porta dos fundos dava para um pequeno jardim, que não podia ser visto da casa segura. Assim, Marco não teria conhecimento de seus movimentos. A cozinha fora convertida numa central de vigilância de alta tecnologia. Ali, Luigi poderia ligar uma das câmeras a qualquer momento que quisesse, para acompanhar a movimentação no outro apartamento.

- Eles passarão a estudar aqui? - perguntou Whitaker.

- Isso mesmo. Acho que é bastante seguro. E poderei monitorar as aulas.

Whitaker verificou de novo cada cômodo. Certo de que já vira o suficiente, ele perguntou:

- Tudo pronto no apartamento ao lado?

- Tudo. Passei as duas últimas noites ali. Estamos preparados.

- Quando poderá trazê-lo para cá?

- Esta tarde.

- Muito bem. Vamos ver nosso homem.

Os dois seguiram para o norte, pela Via Fondazza, depois para noroeste, por uma avenida mais larga, a Strada Maggiore. O ponto de encontro era um pequeno café chamado Lestres. Luigi comprou um jornal e sentou sozinho a uma mesa. Whitaker sentou perto, também com um jornal, cada um ignorando o outro. Eram exatamente quatro e meia quando Ermanno e seu estudante apareceram para um rápido espresso com Luigi. Cumprimentos trocados e casacos removidos, Luigi perguntou:

- Está cansado de falar italiano, Marco?

- Não agüento mais.

- Ótimo. Vamos conversar em inglês.

- Deus o abençoe.

Whitaker estava sentado a menos de dois metros de distância, parcialmente oculto por um jornal, fumando um cigarro, como se não tivesse o menor interesse por qualquer pessoa ao seu redor. Sabia quem era Ermanno, mas nunca o vira pessoalmente. Marco, no entanto, era um caso diferente.

Whitaker estivera em Washington, para uma temporada em Langley, há cerca de uma dúzia de anos, na época em que todo mundo sabia quem era o corretor. Lembrava-se de Joel Backman como uma força política, que passava quase tanto tempo cultivando sua imagem exagerada quanto representando seus clientes importantes. Era a epítome do dinheiro e poder, o proverbial gato gordo que podia intimidar, pressionar, adular, persuadir e distribuir dinheiro suficiente para conseguir o que queria.

Era espantoso o que seis anos na prisão podiam fazer. Ele estava bastante magro agora, e parecia um europeu com aqueles óculos Armani. Tinha um princípio de cavanhaque grisalho. Whitaker teve certeza de que praticamente ninguém de Washington seria capaz de entrar no Lestres naquele momento e identificar Joel Backman.

Marco percebeu o homem sentado perto, olhando mais do que deveria, mas não pensou duas vezes a respeito. Afinal, conversavam em inglês, o que provavelmente poucas pessoas faziam no Lestre's, um motivo natural para a curiosidade. Mais perto da universidade, podia-se ouvir todas as línguas em cada café.

Ermanno pediu licença para se retirar depois de tomar um espresso. Whitaker também se retirou, poucos minutos depois. Percorreu alguns quarteirões, até um cibercafé que já usara antes. Ligou seu laptop, entrou na Internet e enviou uma mensagem para Julia Javier, em Langley:

O apartamento na Fondazza está pronto. Nosso homem deve se mudar esta noite. Dei uma olhada nele, quando tomava um café com nossos amigos. Não o reconheceria se não fosse por isso. Está se ajustando muito bem à vida nova. Tudo em ordem por aqui, não há qualquer problema.

 

O Fiat parou no meio da Via Fondazza depois que escureceu e foi descarregado num instante. Marco tinha pouca bagagem, porque quase nada possuía. Duas malas com roupas e alguns livros de italiano permitiam que tivesse bastante mobilidade. Quando entrou no novo apartamento, a primeira coisa que notou foi que era bastante aquecido.

- Assim é muito melhor, Luigi - comentou.

- Vou guardar o carro. Dê uma olhada no apartamento.

Marco percorreu todo o apartamento. Bons móveis. Nada de extravagante, mas um ponto acima do último lugar. A vida começava a melhorar... dez dias antes ele estava na prisão. Luigi voltou num instante.

- O que você achou?

- Ficarei com o apartamento. Obrigado.

- Não foi nada.

- E agradeça também ao pessoal em Washington.

- Viu a cozinha? - perguntou Luigi, acendendo a luz.

- Vi sim. É perfeita. Quanto tempo ficarei aqui, Luigi?

- Não sou eu quem toma essas decisões. Você já sabe disso.

- Tem razão. Voltaram à sala.

- Só mais duas coisas, Marco. Primeiro, Ermanno virá aqui todos os dias, para as aulas. De oito às onze, e de duas até cinco da tarde, ou quando você quiser parar.

- Combinado. E pode arrumar um novo apartamento também para Ermanno? Aquela pocilga em que ele está agora é uma vergonha para os contribuintes americanos.

- Segundo, é uma rua muito sossegada. Quase toda residencial. Não converse com os vizinhos, não faça amigos. Não se esqueça, Marco, de que está deixando uma trilha. E se for bastante larga, alguém o descobrirá.

- Já ouvi isso dez vezes.

- Ouça de novo.

- Relaxe, Luigi. Prometo que os vizinhos nunca me verão. Gosto daqui. É muito mais agradável que minha cela na prisão.

 

O serviço fúnebre por Robert Critz foi realizado numa agência funerária que parecia um clube elegante numa próspera comunidade suburbana de Filadélfia, a cidade em que ele nascera, mas que evitara pelo menos nos últimos trinta anos. Critz morrera sem deixar testamento e sem pensar nas chamadas disposições finais, deixando a pobre Sra. Critz com o fardo de não apenas levar o corpo de volta aos Estados Unidos, mas também de decidir como e onde sepultá-lo. Um filho propusera a cremação e a guarda das cinzas numa gaveta de mármore, ao abrigo do tempo. Àquela altura, a Sra. Critz teria concordado quase com qualquer plano. Depois de voar sete horas pelo Atlântico (na classe econômica), com o corpo do marido em algum lugar lá por baixo, numa caixa simples, feita especialmente para o transporte aéreo de cadáveres humanos, encontrava-se à beira de um colapso. E ainda suportara o caos no aeroporto, quando não havia ninguém para recebê-la e assumir o comando. Que terrível confusão!

O acesso exigia um convite, condição imposta pelo ex-presidente Arthur Morgan, que se mostrara relutante em voltar e ser visto por alguém, depois de apenas duas semanas em Barbados. Se sentia tristeza pela morte do amigo da vida inteira, não deixava transparecer. Negociara os detalhes do serviço memorial com a família Critz, até que quase fora convidado a se manter ausente. A data fora mudada por sua causa. Relutante, concordara em fazer um panegírico, desde que fosse muito breve. A verdade é que jamais gostara da Sra. Critz, e o sentimento era recíproco.

Para o pequeno círculo de amigos e a família, parecia impossível que Robert Critz tivesse ficado tão bêbado num pub de Londres a ponto de sair cambaleando para a rua e cair na frente de um carro. Quando a autópsia revelara um nível significativo de heroína, a Sra. Critz se tornara tão transtornada que exigira que o relatório fosse mantido em segredo. Recusou-se a falar sobre o narcótico até mesmo para os filhos. Tinha certeza absoluta de que o marido jamais tomara qualquer droga ilícita - ele bebia demais, embora poucas pessoas soubessem disso -, mas, mesmo assim, estava determinada a proteger sua reputação.

A polícia de Londres concordara prontamente em arquivar o relatório da autópsia e encerrar a investigação. Tinham suas dúvidas, é verdade, mas havia muitos outros casos para mantê-los ocupados. Além disso, havia uma viúva ansiosa em voltar para seu país e esquecer o resto.

O velório começou às duas horas de uma tarde de quinta-feira - a hora também determinada por Morgan, para que o jato particular pudesse voar sem escalas de Barbados para o Aeroporto Internacional de Filadélfia - e durou uma hora. Oitenta e duas pessoas haviam sido convidadas, e cinqüenta e uma compareceram, a maior parte mais curiosa em ver o presidente Morgan do que interessada em se despedir do velho Critz. Um semiministro protestante presidiu o serviço. Critz passara quarenta anos sem entrar numa igreja, exceto para casamentos e funerais. O ministro defrontava-se com a difícil tarefa de falar sobre um homem que não conhecera pessoalmente. Embora tentasse, com todo o empenho, fracassou por completo. Leu do livro dos Salmos. Ofereceu uma oração genérica, que podia se ajustar a um diácono tanto quanto a um serial killer. Disse palavras tranqüilizadoras para a família, mas todos eram também estranhos para ele.

Em vez de uma despedida calorosa, o serviço foi tão frio quanto as paredes de mármore cinza da capela. Morgan, com um bronzeado absurdo para fevereiro, em pleno inverno americano, tentou divertir a pequena multidão com algumas anedotas sobre seu velho companheiro. Mas se destacou como um homem que falava tudo aquilo de uma forma artificial, querendo voltar ao jato o mais depressa que pudesse.

Horas ao sol do Caribe haviam convencido Morgan de que podia atribuir a Robert Critz toda a culpa por sua desastrosa campanha da reeleição. Não contara essa conclusão a ninguém. Não tinha a quem confidenciar, já que a mansão na praia estava vazia, exceto por ele e os empregados nativos. Já começara, porém, a acalentar algum ressentimento e a questionar a amizade.

Ele não se demorou quando o serviço finalmente perdeu o gás e chegou ao fim. Deu os abraços obrigatórios na Sra. Critz e nos filhos, falou por um instante com velhos amigos, prometendo que tornaria a vê-los dentro de poucas semanas, e depois partiu apressado, com a escolta compulsória do Serviço Secreto. As câmeras de TV estavam além da propriedade, mas mesmo assim focalizaram o ex-presidente. Ele entrou na traseira de uma de duas vans pretas. Cinco horas depois sentava à beira da piscina, contemplando outro pôr-do-sol no Caribe.

O velório atraiu alguns curiosos, mas também foi observado atentamente por outras pessoas. Antes mesmo de terminar, Teddy Maynard já tinha uma lista dos cinqüenta e um presentes. Não havia nenhum suspeito. Nenhum nome causava estranheza.

A morte fora limpa, como diziam os agentes. O relatório da autópsia fora arquivado, graças, em parte, à Sra. Critz, mas também pelos acertos em níveis muito mais altos do que a polícia de Londres. O corpo virará cinzas, e o mundo logo esqueceria a existência de Robert Critz. Sua incursão estapafúrdia pelo sumiço de Backman terminara sem qualquer prejuízo para o plano.

O FBI tentara - e não conseguira - instalar uma câmera oculta dentro da capela. O dono da agência funerária hesitara, e depois se recusara a ceder, apesar da tremenda pressão. Permitiu, contudo, as câmeras ocultas no lado de fora. Assim, foram feitos closes de todas as pessoas ao entrarem e saírem. As transmissões das imagens foram feitas ao vivo, devidamente editadas, os nomes compilados. Uma hora depois do serviço terminar, o diretor estava dando instruções.

No dia anterior à morte de Robert Critz, o FBI recebeu uma informação surpreendente. Era totalmente inesperada, não solicitada e transmitida por um escroque desesperado, na expectativa de evitar quarenta anos numa penitenciária federal. Era o executivo de um grande fundo mútuo, surpreendido a desviar dinheiro. Era só outro escândalo em Wall Street envolvendo apenas uns poucos bilhões de dólares. Mas o fundo mútuo pertencia a uma cabala internacional de banqueiros, e o escroque infiltrara-se, ao longo dos anos, na cúpula da organização. O fundo era tão lucrativo, em parte graças à sua habilidade de manipulação, que os lucros não podiam ser ignorados. Ele foi eleito para o conselho de administração e ganhou uma casa de luxo nas Bermudas, onde ficava a sede da empresa.

Em seu desespero para não passar o resto da vida na prisão, ele se mostrou disposto a partilhar segredos. Segredos financeiros. As manobras desonestas no exterior. Alegou que podia provar que o ex-presidente Morgan, em seu último dia no cargo, vendera pelo menos um indulto presidencial, por três milhões de dólares. O dinheiro fora transferido de um banco na Grande Caimã para um banco em Cingapura. Os dois bancos eram secretamente controlados pela cabala que ele acabara de deixar. O dinheiro ainda permanecia em Cingapura, numa conta aberta por uma empresa de fachada, de propriedade de um antigo amigo de Morgan. Segundo o informante, o dinheiro era de Morgan.

Quando as transferências e as contas foram confirmadas, o FBI fez um acordo. O escroque teria apenas dois anos de prisão domiciliar. A venda de um indulto presidencial era um crime tão sensacional que se tornou alta prioridade no Hoover Building, a sede do FBI.

O informante não foi capaz de identificar de quem era a conta na Grande Caimã, mas parecia óbvio para o FBI que apenas dois dos indultados tivessem condições de pagar tal suborno. O primeiro e o mais provável era duque Mongo, o bilionário geriátrico que detinha o recorde de mais dólares sonegados da Receita Federal, pelo menos por uma pessoa física. A parte das pessoas jurídicas ainda estava em debate. O informante, no entanto, achava que Mongo não estava envolvido, porque ele tinha divergências antigas e escabrosas com os bancos em questão. Preferia os bancos suíços, o que logo foi confirmado pelo FBI.

O segundo suspeito, como não podia deixar de ser, era Joel Backman. Um suborno assim não seria inesperado de um operador como Backman. E embora o FBI acreditasse, houvesse muitos anos, que ele não escondera uma fortuna, sempre persistiam dúvidas. Quando era o corretor, ele mantinha relações com bancos na Suíça e no Caribe. Tinha uma rede de amigos escusos, contatos em lugares importantes. Subornos, contribuições para campanha, honorários para lobistas... tudo isso era terreno familiar para o corretor.

O diretor do FBI era um homem belicoso chamado Anthony Price. Três anos antes, fora nomeado pelo presidente Morgan, que tentara demiti-lo seis meses depois. Price suplicara por mais tempo e conseguira, mas os dois viviam brigando. Por algum motivo de que não podia se lembrar direito, Price também decidira provar sua força ao cruzar espadas com Teddy Maynard. Teddy não perdera muitas batalhas na guerra secreta da CIA com o FBI e não tinha medo de Price, o último numa longa lista de oponentes.

Mas Teddy ignorava a conspiração de venda de indulto presidencial, que agora consumia a atenção do diretor do FBI. O novo presidente prometera que afastaria Price e reestruturaria o FBI. Também prometera que despacharia Maynard para a aposentadoria. Mas essas ameaças já haviam sido ouvidas muitas vezes em Washington.

Price tinha agora uma grande oportunidade de garantir seu emprego, e talvez, ao mesmo tempo, afastar Maynard. Ele foi à Casa Branca e informou ao assessor de segurança nacional, confirmado no dia anterior, sobre a conta suspeita em Cingapura. Implicou o ex-presidente Morgan na operação fraudulenta. Argumentou que Joel Backman deveria ser localizado e trazido de volta para os Estados Unidos, para interrogatório e possível indiciamento. Se as acusações fossem confirmadas, seria um escândalo histórico, um fato terrível, sem precedentes.

O assessor de segurança nacional escutou atentamente. Depois, foi direto para o gabinete do vice-presidente, mandou que todos ali saíssem, trancou a porta e relatou tudo o que acabara de ouvir. Juntos, comunicaram ao presidente.

Como sempre, não havia amor perdido entre o novo homem no Gabinete Oval e seu antecessor. A campanha eleitoral fora impregnada com todas as mesquinharias e truques sujos que haviam se tornado o comportamento-padrão na política americana. Mesmo depois de uma vitória esmagadora, de proporções históricas, e da emoção de conquistar a Casa Branca, o novo presidente ainda relutava em se erguer acima da lama. Adorou a idéia de humilhar Arthur Morgan mais uma vez. Podia se imaginar, ao final de um julgamento sensacional e da condenação, a interferir no último minuto com um indulto, a fim de salvar a imagem da presidência.

Que momento!

Às seis horas da manhã seguinte, o vice-presidente seguiu na caravana armada habitual para o quartel-general da CIA, em Langley. O diretor Maynard fora convocado para uma reunião na Casa Branca. Desconfiado de alguma manobra perigosa, no entanto, alegou que sofria de vertigem e fora confinado a seu gabinete pelos médicos. Com bastante freqüência, dormia e fazia as refeições ali, ainda mais quando se tornava suscetível à vertigem. Era um dos seus muitos e convenientes problemas.

A reunião foi breve. Teddy estava sentado à extremidade da mesa de reunião comprida, na cadeira de rodas, envolto por mantas, com Hoby ao seu lado. O vice-presidente entrou na sala, acompanhado apenas por um assessor. Depois de uma conversa contrafeita sobre a nova administração, ele declarou:

- Sr. Maynard, estou aqui em nome do presidente.

- Sei disso - murmurou Teddy, com um sorriso tenso.

Ele esperava ser demitido, finalmente, depois de dezoito anos e numerosas ameaças, o momento chegara. Finalmente, um presidente com bastante determinação para substituir Teddy Maynard. Ele preparara Hoby para o momento. Enquanto aguardavam o vice-presidente, Teddy expusera seus receios.

Hoby rabiscava no bloco costumeiro, esperando para escrever as palavras previstas há muitos anos: Sr. Maynard, o presidente solicita sua renúncia. Em vez disso, o vice-presidente disse algo totalmente inesperado:

-  Sr. Maynard, o presidente quer informações sobre Joel Backman.

Nada fazia Teddy Maynard vacilar.

- O que há com ele? - perguntou Teddy, sem a menor hesitação.

- O presidente quer saber onde ele está e quanto tempo será necessário para trazê-lo de volta aos Estados Unidos.

- Por quê?

- Não posso dizer.

- Neste caso, também não posso falar.

- É muito importante para o presidente.

-  Posso imaginar. Mas o Sr. Backman também é muito importante para nossas operações neste momento.

O vice-presidente piscou primeiro. Olhou para seu assessor, ocupado em suas anotações, incapaz de ajudá-lo naquele momento. Não podiam, em qualquer circunstância, dizer coisa alguma à CIA sobre a transferência do dinheiro e a suspeita de suborno. Teddy encontraria um jeito de tirar proveito dessa informação. Roubaria a pepita e sobreviveria por mais um dia. Nada disso. Ou Teddy cedia agora ou seria finalmente exonerado. O vice-presidente inclinou-se para a frente, os cotovelos apoiados na mesa.

-  O presidente não fará nenhuma concessão neste caso, Sr. Maynard. Quer essa informação o mais depressa possível. Caso contrário, terá de pedir sua renúncia.

- Não a terá.

- Preciso lembrá-lo de que serve neste cargo por vontade do presidente?

- Não, não precisa.

-  Está bem. As cartas estão na mesa. Levará a pasta de Backman para a Casa Branca e discutirá o caso conosco ou a CIA terá um novo diretor.

- Essa franqueza é rara entre sua espécie, senhor com todo o respeito.

- Aceito isso como um elogio.

A reunião terminara.

 

O Hoover Building vazava como um velho dique, derramando fofocas pelas ruas de Washington. E lá estava para colhê-las, entre muitos outros, Dan Sandberg, do Washington Post. Suas fontes, porém, eram muito melhores do que as de um repórter investigativo médio. Não demorou muito para que ele farejasse o escândalo do indulto presidencial. Acionou um antigo informante na nova Casa Branca e obteve uma confirmação parcial. Os contornos da reportagem começaram a tomar forma, mas Sandberg sabia que seria praticamente impossível confirmar os detalhes concretos. Não havia a menor possibilidade de obter o documento de registro da transferência.

Mas, se fosse mesmo verdade - um presidente ainda no cargo vendendo indultos para garantir uma aposentadoria melhor -, Sandberg não podia imaginar um escândalo maior. Um ex-presidente denunciado por crime, levado a julgamento, talvez condenado e despachado para a prisão. Era inconcebível.

Ele estava à sua mesa, atulhada de papéis, quando recebeu o telefonema de Londres. Era um velho amigo, outro repórter investigativo, que trabalhava no The Guardian. Conversaram alguns minutos sobre a nova administração presidencial americana, que era o tópico oficial das conversas em Washington. Afinal, era o início do mês de fevereiro, uma enorme camada de neve cobria as ruas, e o Congresso, como acontecia todos os anos, estava absorvido no trabalho dos comitês. As novidades eram mínimas e quase não havia mais nada para se falar.

- Alguma novidade sobre a morte de Bob Critz? - perguntou o amigo de Londres.

- Não. Apenas o serviço fúnebre ontem. Por quê?

- Há algumas dúvidas sobre a morte do pobre coitado. E o fato de que ninguém conseguiu obter uma cópia da autópsia.

-  Que tipo de dúvidas? Pensei que o caso houvesse sido encerrado.

- Talvez tenha sido encerrado depressa demais. Não há nada de concreto, é claro, mas apenas especulação se não há alguma coisa errada.

- Darei alguns telefonemas - prometeu Sandberg, já desconfiado.

- Faça isso. E tornaremos a conversar amanhã ou depois.

Sandberg desligou. Ficou olhando para a tela vazia do monitor. Critz estava presente, com toda certeza, quando Morgan concedera os indultos do final do mandato. Por causa da paranóia, era bem possível que Critz fosse a única outra pessoa no Gabinete Oval com Morgan quando as decisões foram tomadas e os documentos assinados.

Talvez Critz soubesse demais.

Três horas depois, Sandberg partiu do Aeroporto Dulles para Londres.

 

Muito antes do amanhecer, Marco despertou outra vez numa cama estranha, num lugar estranho. Por um longo tempo, teve de se esforçar para organizar os pensamentos... recordar seus movimentos, analisar sua estranha situação, planejar o dia, tentar esquecer o passado, ao mesmo tempo em que procurava prever o que poderia acontecer nas próximas doze horas. Seu sono era intermitente e irrequieto na melhor das hipóteses. Cochilara por umas poucas horas. Tinha a impressão de que foram quatro ou cinco, mas não havia como ter certeza, porque era total a escuridão no quarto pequeno e aquecido. Ele tirou os fones dos ouvidos, como sempre, adormecera em algum momento depois da meia-noite, com uma conversa em italiano, repleta de felicidade, a ressoar em seus ouvidos.

Sentia-se grato pelo calor. Haviam-no congelado em Rudley, e o último hotel fora igualmente frio. O novo apartamento tinha paredes grossas, janelas bem calafetadas, com um bom sistema de aquecimento. Depois de concluir que já planejara o dia de forma apropriada, ele pôs os pés no chão de lajotas, também quente. Mais uma vez, agradeceu a Luigi pela mudança de residência.

Não sabia por quanto tempo poderia permanecer ali, assim como também não sabia do futuro que planejavam para ele. Acendeu a luz e deu uma olhada no relógio... quase cinco horas. No banheiro, acendeu outra luz, e examinou seu rosto no espelho. Os pêlos crescendo debaixo do nariz, nos lados da boca, cobrindo o queixo, eram mais grisalhos do que esperava. Depois de uma semana, parecia agora evidente que seu cavanhaque seria pelo menos noventa por cento grisalho, os fios brancos prevalecendo sobre os castanhos. Mas era previsível. Afinal, estava com cinqüenta e dois anos. Era parte do disfarce e lhe proporcionava uma aparência distinta. Com o rosto fino, as faces encovadas, cabelos curtos e os óculos pequenos e retangulares, poderia facilmente passar por Marco Lazzeri em qualquer rua de Bolonha. Ou Milão, ou Florença, ou todos os outros lugares que queria visitar.

Ele saiu uma hora depois, passando pelos pórticos frios e silenciosos, construídos por trabalhadores que haviam morrido há três séculos. O vento era intenso e penetrante. Mais uma vez, ele lembrou a si mesmo de pedir ao controlador roupas apropriadas para o inverno. Marco não lia jornais e não assistia televisão. Por isso, não tinha idéia da previsão do tempo. Mas sabia que o frio era cada vez maior.

Foi andando pelos pórticos baixos da Via Fondazza, na direção da universidade, a única pessoa por ali. Recusava-se a usar o mapa guardado no bolso. Se achasse que se perdera, poderia pegá-lo e admitir uma derrota momentânea. Mas estava determinado a conhecer a cidade apenas por andar e observar. Meia hora mais tarde, com o sol começando a dar sinais de vida, ele saiu na Via Irnerio, na área norte do bairro universitário. Dois quarteirões adiante, para o leste, avistou a placa verde-claro do Bar Fontana. Pela janela da frente, viu uma vasta cabeleira branca. Rudolph já estava ali.

Por hábito, Marco esperou um momento. Olhou pela Via Irnerio, na direção que acabara de percorrer, na expectativa de alguém se esgueirar das sombras como um sabujo silencioso. Como ninguém aparecesse, ele entrou.

- Meu amigo Marco! - Rudolph sorriu, enquanto trocavam cumprimentos. - Sente-se, por favor.

O café estava mais ou menos cheio, com os mesmos tipos acadêmicos, absorvidos em seus jornais, perdidos em seus próprios mundos. Marco pediu um cappuccino, enquanto Rudolph tornava a encher o cachimbo. Uma fragrância agradável envolveu o canto do café em que sentavam.

- Recebi seu bilhete - disse Rudolph, enquanto lançava uma nuvem de fumaça através da mesa. - Lamentei não estar presente na hora em que apareceu. Esteve viajando?

Marco não deixara a cidade, mas imaginara um roteiro que seria apropriado para um turista canadense de origem italiana.

- Passei alguns dias em Florença.

- Uma linda cidade.

Conversaram sobre Florença durante algum tempo, com Marco discorrendo sobre lugares, obras de arte e história de uma cidade que conhecia apenas pelo guia turístico barato que Ermanno lhe emprestara. Era em italiano, é claro, o que significava que ele passara horas trabalhando com um dicionário para ter material suficiente para conversar com Rudolph, como se tivesse passado semanas em Florença.

As mesas logo ficaram ocupadas e os novos clientes se agrupavam junto do balcão. Luigi explicara que na Europa, quando se ocupa uma mesa, ela é sua pelo resto do dia, se quiser. Ninguém é pressionado a sair para dar lugar a outros. Um café, um jornal, alguma coisa para fumar... não importa quanto tempo você permanece à mesa, enquanto outros entram e saem.

Pediram outra rodada de café, enquanto Rudolph enchia o cachimbo mais uma vez. Marco notou manchas de tabaco na barba desgrenhada em torno da boca. Havia três jornais matutinos na mesa, todos em italiano.

- Há um bom jornal em inglês aqui em Bolonha? - perguntou Marco.

- Por que pergunta?

- Não sei... Às vezes gostaria de saber o que está acontecendo no outro lado do oceano.

- Compro o Herald Tribune de vez em quando. Sempre me deixa feliz por viver aqui, longe de todo o crime, tráfico, poluição, políticos e escândalos. A sociedade americana está podre. E o governo é o cúmulo da hipocrisia... a maior democracia do mundo. Essa não! Os ricos compram e controlam o Congresso.

Quando dava a impressão de que queria cuspir em desprezo, Rudolph sugou o cachimbo e começou a ranger os dentes na haste. Um momento passou, os dois tomaram um gole de café.

-  Odeio o governo dos Estados Unidos - resmungou Rudolph, amargurado.

Apoiado, pensou Marco.

- E o que me diz do governo canadense?

- É um pouco melhor... mas apenas um pouco.

Marco fingiu estar aliviado e decidiu mudar de assunto. Comentou que pensava em visitar Veneza em seguida. Rudolph já estivera muitas vezes na cidade, como não podia deixar de ser, e tinha muitos conselhos a oferecer. Marco chegou até a fazer algumas anotações, como se mal pudesse esperar o momento de embarcar no trem. Acrescentou que também queria conhecer Milão. Rudolph não demonstrou muito entusiasmo pela cidade, por causa dos fascistas que havia na cidade.

- Milão era o centro do poder de Mussolini.

Ele falou em voz baixa, como se os outros comunistas no Bar Fontana pudessem irromper em violência à simples menção do nome do pequeno ditador.

Quando se tornou patente que Rudolph estava disposto a passar a maior parte da manhã sentado ali, conversando, Marco decidiu ir embora. Combinaram um novo encontro, no mesmo lugar, à mesma hora, na segunda-feira seguinte.

Uma nevasca ligeira começara a cair, o suficiente para que os furgões de entrega fizessem marcas na Via Irnerio. Enquanto deixava o café aquecido, Marco mais uma vez se impressionou com os antigos planejadores da cidade, que haviam projetado cerca de trinta quilômetros de calçadas cobertas na Cidade Velha. Percorreu alguns quarteirões para o leste. Pegou a Via deli' Indipendenza, uma avenida larga e elegante, construída na década de 1870 para que as classes superiores, que viviam no centro da cidade, pudessem ter um acesso fácil à estação ferroviária, no norte de Bolonha. Quando atravessava a Via Marsala, pisou numa pilha de neve. Sentiu um calafrio ao ficar com o pé direito encharcado.

Amaldiçoou Luigi por seu guarda-roupa inadequado... se continuasse a nevar, então o bom senso determinava que uma pessoa precisava de botas. Isso levou a uma longa tirada interior sobre a carência de recursos pessoais liberados pela pessoa que se encontrava no comando de sua atual cobertura. Haviam-no levado para Bolonha, Itália, e obviamente gastavam um bom dinheiro em aulas de italiano, casas seguras, pessoal e comida só para mantê-lo vivo. Em sua opinião, era um desperdício de dinheiro e tempo valioso. O melhor plano seria levá-lo para Londres ou Sidney, onde havia muitos americanos e todos falavam inglês. Poderia se fundir com a população com muito mais facilidade. Um homem começou de repente a andar ao seu lado.

- Buon giorno - disse Luigi.

Marco parou, sorriu e estendeu a mão para um aperto.

- Buon giorno, Luigi. Está me seguindo de novo?

- Não. Saí para dar um passeio, eu o vi passar pelo outro lado da rua. Adoro a neve, Marco. E você?

Os dois recomeçaram a andar devagar. Marco queria acreditar no amigo, mas duvidava que o encontro fosse casual.

-  Também gosto. A neve é muito mais bonita aqui em Bolonha do que em Washington na hora do rush. Importa-se se eu perguntar o que faz durante o dia inteiro?

- Claro que não. Pode perguntar o que quiser.

- Foi o que imaginei. Tenho duas queixas, Luigi. Ou melhor, três.

- Não me surpreende. Já tomou um café?

- Já, mas posso tomar outro.

Luigi acenou com a cabeça para um pequeno café na esquina. Entraram e encontraram todas as mesas ocupadas. Foram para o balcão, onde tomaram o espresso em pequenos goles.

- Qual é a primeira queixa? - perguntou Luigi em voz baixa.

- As duas primeiras queixas estão relacionadas. A primeira é a questão do dinheiro. Não quero muito, mas preciso de um pequeno estipêndio. Ninguém gosta de ficar sem dinheiro, Luigi. Eu me sentiria melhor se tivesse algum dinheiro no bolso e não precisasse economizar por não saber quando receberei mais.

- Quanto?

- Não sei. Não negocio uma mesada há muito tempo. Que tal cem euros por semana, para começar? Assim, poderei comprar jornais, livros, revistas, comida... as coisas básicas. Tio Sam está pagando meu aluguel, pelo que me sinto muito grato. Pensando bem, há seis anos que ele paga meu aluguel.

- Você poderia ter continuado na prisão.

-  Obrigado por me lembrar, Luigi. Eu não havia pensado nisso.

- Desculpe. Foi uma grosseria...

- Sei que tenho sorte por estar aqui, Luigi. Mas, ao mesmo tempo, sou agora um cidadão que recebeu um indulto total de seu país... e não me lembro muito bem de qual é o país. Seja como for, tenho o direito de ser tratado com um pouco de dignidade. Não gosto de ficar sem dinheiro, e não gosto de ter de suplicar. Quero a promessa de cem euros por semana.

- Verei o que posso fazer.

- Obrigado.

- Qual é a segunda queixa?

- Eu gostaria de ter algum dinheiro a mais para comprar roupas. Neste momento, tenho os pés congelados, porque está nevando e não tenho um calçado apropriado. Gostaria também de comprar um sobretudo, talvez duas suéteres.

- Vou providenciar.

- Nada disso. Quero comprar pessoalmente, Luigi. Dê-me o dinheiro e cuidarei de tudo. Não é pedir demais.

- Tentarei dar um jeito.

Afastaram-se um do outro por alguns centímetros. Tomaram um gole do café.

- E a terceira queixa? - indagou Luigi.

- É Ermanno. Ele está perdendo o interesse muito depressa. Passamos seis horas por dia juntos e ele está cansado da minha companhia.

Luigi revirou os olhos, em frustração.

- Não posso estalar os dedos e arrumar outro professor de italiano de um momento para outro, Marco.

- Você passa a ser meu professor. Gosto de você, Luigi. Já tivemos bons momentos juntos. Sabe como Ermanno pode ser um chato. Ele é jovem, quer voltar à sua escola. Mas você seria um grande professor.

- Não sou professor.

- Então encontre outro, por favor. Ermanno não quer continuar. Por isso, infelizmente, não estou fazendo muito progresso.

Luigi virou o rosto. Ficou observando dois velhos entrarem, arrastando os pés.

- Acho que ele vai embora de qualquer maneira, Marco. Como você disse, Ermanno quer voltar à faculdade o mais depressa possível.

- Por quanto tempo ainda terei aulas?

Luigi sacudiu a cabeça como se não tivesse a menor idéia.

- Essa decisão não é minha.

- Tenho uma quarta queixa.

- Cinco, seis, sete. Vamos ouvir todas. Talvez assim possamos passar depois uma semana inteira sem queixas.

- Já ouviu a queixa antes, Luigi. É a minha objeção permanente.

- Isso é um problema de advogado?

- Assiste demais à televisão americana, Luigi. Quero muito ser transferido para Londres. Há dez milhões de habitantes ali, todos falando inglês. Não quero desperdiçar dez horas por dia tentando aprender uma língua. Não me entenda mal, Luigi. Adoro o italiano. Quanto mais estudo, mais linda a língua se torna. Mas se quer mesmo me esconder, então é melhor me levar para um lugar em que eu possa sobreviver por conta própria.

- Já transmiti esse protesto, Marco. Mas não sou eu quem toma essas decisões.

- Sei disso. Só peço que mantenha a pressão, por favor.

- Vamos embora.

A neve caía mais intensa quando saíram e recomeçaram a andar pela calçada coberta. Executivos bem-vestidos passavam apressados a caminho do trabalho. As primeiras pessoas que iam fazer compras já estavam nas ruas... a maioria de donas de casa a caminho do mercado. O movimento na rua propriamente dita também aumentara, com carros e motonetas desviando-se dos ônibus e tentando evitar a neve e lama se acumulando.

- Com que freqüência neva aqui? - perguntou Marco.

- Umas poucas vezes em cada inverno. Não muito... e contamos com esses lindos pórticos para nos manter secos.

- Uma grande idéia.

- Alguns têm mais de mil anos. Sabia que há mais calçadas cobertas aqui do que em qualquer outra cidade do mundo?

- Não. Tenho muito pouco para ler, Luigi. Se tivesse mais dinheiro, poderia comprar livros e aprender essas coisas.

- Terei o dinheiro no almoço.

- E onde será o almoço?

-  Restaurante Cesarina, na Via San Stefano. Uma hora da tarde está bom para você?

- Como posso recusar?

 

Luigi sentava à mesa com uma mulher, perto da frente do restaurante, quando Marco entrou, cinco minutos antes da hora marcada. Uma conversa séria foi interrompida. A mulher levantou-se, relutante. Estendeu a mão flácida e exibiu uma expressão sombria quando Luigi apresentou-a, como signora Francesca Ferro. Era atraente, quarenta e poucos anos, talvez um pouco velha demais para Luigi, que tendia a olhar ansioso para as jovens estudantes na universidade. A mulher irradiava uma certa irritação sofisticada. Marco teve vontade de dizer: Desculpe, mas fui convidado para almoçar aqui.

Quando todos sentaram, Marco notou que havia duas pontas de cigarro no cinzeiro, e o copo de água de Luigi estava quase vazio. Ou seja, os dois estavam ali havia pelo menos vinte minutos. Em italiano, incisivo, Luigi disse a Marco:

- A signora Ferro é professora de línguas e guia local.

Uma pausa, em que Marco murmurou “si”. Olhou para a signora, que reagiu com um sorriso forçado. Dava a impressão de que já se sentia entediada com ele. Luigi acrescentou, em italiano:

- Ela é a sua nova professora de italiano. Ermanno dará aulas pela manhã, e a signora Ferro à tarde.

Marco compreendeu tudo. Ofereceu um falso sorriso para a mulher e murmurou:

-  Va bene.

- Ermanno quer retomar os estudos na universidade na semana que vem - explicou Luigi.

- Foi o que pensei - comentou Marco, em inglês. Francesca acendeu outro cigarro, pondo os lábios vermelhos e cheios ao redor. Soprou uma enorme nuvem de fumaça.

- Como é seu italiano?

Era uma voz profunda, quase rouca, com a contribuição de muitos anos de fumo. Seu inglês era lento, refinado, sem qualquer sotaque.

- Horrível - respondeu Marco.

- Ele está muito bem - interveio Luigi.

O garçom trouxe uma garrafa de água mineral e três cardápios. A signora desapareceu por trás do seu. Marco seguiu o exemplo. Houve um longo momento de silêncio, enquanto os três estudavam o cardápio, ignorando uns aos outros. Quando os cardápios foram finalmente baixados, ela disse a Marco:

- Eu gostaria de ouvir seu pedido em italiano.

- Tudo bem.

Ele encontrara algumas coisas que podia pronunciar sem provocar risos. O garçom aproximou-se com a caneta e Marco disse:

- Si, allora, vorrei uriinsalata dipomodori, e una mezzaporzio-ne di lasagna.

Quero uma salada de tomate e uma meia porção de lasanha. Mais uma vez, ele sentiu-se grato pelos pratos transatlânticos, como espaguete, lasanha, ravióli e pizza.

- Non cè male - comentou a mulher.

Ela e Luigi pararam de fumar quando as saladas foram servidas. O ato de comer proporcionou uma pausa na conversa constrangida. Não foi pedido vinho, embora fosse muito necessário.

O passado de Marco, o presente da signora e a ocupação confidencial de Luigi eram assuntos proibidos. Por isso, a conversa vacilou durante o almoço, sobre o tempo e outras coisas irrelevantes, quase toda em inglês.

Depois que tomaram o espresso, Luigi pagou e deixaram o restaurante apressados. No processo, quando Francesca não olhava, ele estendeu um envelope para Marco, sussurrando:

- Aqui estão alguns euros.

- Grazie.

A neve deixara de cair, o sol aparecera. Luigi deixou-os na Piazza Maggiore e desapareceu, como só ele podia fazer. Os dois foram andando em silêncio por algum tempo, até que ela disse:

-  Che cosa vorrebbe vedere?

O que gostaria de ver? Marco ainda não conhecia a principal catedral da cidade, a Basilica di San Petronio. Pararam na escadaria na frente.

- É ao mesmo tempo linda e triste - comentou Francesca, em inglês, com a primeira insinuação de um sotaque britânico. - Foi concebida pelo conselho municipal como um templo cívico, em oposição direta ao papa em Roma. O projeto original previa que seria maior que a Basílica de São Pedro, mas, durante o processo, o plano foi reduzido. Roma se opôs e uma parte do dinheiro foi desviada para outras coisas, inclusive a fundação da universidade.

- Quando foi construída? - perguntou Marco.

- Diga isso em italiano.

- Não sei.

- Então preste atenção: “Quando e stata costruita?” Repita para mim.

Marco repetiu quatro vezes, antes que ela ficasse satisfeita.

- Não acredito em livros, fitas e coisas assim - declarou ela, enquanto continuavam a contemplar a ampla catedral. - Acredito em conversa e mais conversa. Para aprender a falar a língua, você tem de falar, muitas e muitas vezes, do jeito como aprendeu a falar quando era criança.

- Onde você aprendeu a falar inglês?

- Não posso responder a essa pergunta. Fui instruída a não dizer nada sobre o meu passado. Nem perguntar pelo seu.

Por uma fração de segundo, Marco quase virou-se e afastou-se. Cansara de pessoas que não podiam conversar com ele, que se esquivavam de suas perguntas, que agiam como se o mundo inteiro fosse repleto de espiões. Cansara dos jogos.

Era um homem livre, ele insistia em dizer a si mesmo, absolutamente capaz de ir e vir, de tomar a decisão que quisesse. Se enjoasse de Luigi, Ermanno e agora a signora Ferro, poderia dizer a todos, em italiano, que engasgassem com um panino.

- A construção foi iniciada em 1390, e tudo correu sem contratempos durante os cem primeiros anos - disse Francesca.

A terça parte inferior da fachada era de um lindo mármore rosa. Os dois terços superiores eram marrons, de alvenaria, feios, sem um revestimento de mármore.

- Depois, começaram as dificuldades - acrescentou ela. -Obviamente, a parte externa nunca foi concluída.

- Não é muito bonita.

- Não, não é... mas é fascinante. Gostaria de ver o interior? O que mais ele tinha para fazer durante as três próximas horas?

- Certamente.

Subiram os degraus e pararam na porta da frente. Ela olhou para a placa que havia ali.

- Mi dica. - Diga-me. - A que horas a igreja fecha? Marco franziu o rosto, ensaiou algumas palavras e respondeu:

- La chiesa chiude alie sei. A igreja fecha às seis horas.

- Ripeta.

Ele repetiu três vezes, antes que Francesca permitisse que parasse. Entraram na igreja.

-  Tem esse nome em homenagem a Petrônio, o santo padroeiro de Bolonha.

A parte central da igreja era bastante grande para uma partida de hóquei, com multidões de espectadores nos dois lados.

- E imensa - murmurou Marco, impressionado.

- E o tamanho é apenas um quarto do projeto original. O papa ficou preocupado e fez determinada pressão contra a construção. Custava muito dinheiro público e as pessoas acabaram se cansando.

- Ainda assim é impressionante.

Marco estava consciente de que a conversa era em inglês, o que lhe era mais conveniente.

- Prefere a excursão longa ou a curta?

Embora o interior fosse quase tão frio quanto o exterior, a signora Ferro parecia estar degelando um pouco.

- Você é a professora.

Foram para o lado esquerdo e esperaram que um pequeno grupo de turistas japoneses terminasse de estudar uma enorme cripta de mármore. A não ser pelos japoneses, a catedral estava vazia. Ao final da tarde, Marco saberia que o trabalho sazonal de Francesca como guia de turismo tinha pouco movimento nos meses de inverno. Essa confissão foi o único fragmento de informação pessoal que ela divulgou.

E como havia pouco movimento, ela não demonstrou a menor pressa na visita à Basílica di San Petronio. Viram quase todas as vinte e duas capelas laterais, contemplaram a maioria dos quadros, esculturas, vitrais e afrescos. As capelas haviam sido construídas ao longo dos séculos por ricas famílias bolonhesas, que pagavam alto pela arte comemorativa. Sua construção era uma história da cidade e Francesca conhecia cada detalhe. Mostrou o crânio bem preservado de São Petronio, orgulhoso, num altar, e um relógio astrológico, criado em 1655 por dois cientistas que haviam estudado com Galileu na universidade.

Embora às vezes entediado com as complexidades dos quadros e esculturas, inundado com nomes e datas, Marco manteve-se firme e interessado enquanto circulavam lentamente pela enorme estrutura. A voz de Francesca fascinava-o, profunda, meio rouca, um inglês perfeito e refinado.

Muito depois que os japoneses haviam abandonado a catedral, os dois chegaram à porta dos fundos, onde ela perguntou:

- Já é suficiente?

- Já.

Assim que saíram, Francesca acendeu um cigarro.

- Que tal um café? - sugeriu Marco.

- Conheço o lugar certo.

Ele seguiu-a até a Via Clavature, e entraram no Rosa Rose.

- E o melhor cappuccino por aqui - assegurou ela, enquanto levava Marco até o balcão e pedia dois.

Marco pensou em perguntar sobre a proibição italiana de beber cappuccino depois de dez e meia da manhã, mas deixou passar. Enquanto esperavam, Francesca tirou as luvas de couro, o cachecol, o casaco. Talvez aquele café fosse demorado.

Foram sentar a uma mesa perto da janela da frente. Ela acrescentou dois pacotinhos de açúcar, até achar que o café estava no ponto certo. Não havia sorrido durante as últimas três horas, e Marco esperava um sorriso agora.

- Tenho uma cópia dos materiais que você está usando com o outro professor - informou Francesca, pegando um cigarro.

- Ermanno.

- Não sei quem é. Sugiro que todas as tardes conversemos sobre o que você aprendeu com ele durante a manhã.

Marco não tinha a menor disposição de argumentar contra qualquer sugestão.

- Está bem - murmurou ele, dando de ombros.

Francesca acendeu o cigarro. Tomou um gole do café.

- O que Luigi lhe disse a meu respeito? - perguntou Marco.

- Não muito. Você é canadense. Veio tirar férias longas na Itália e quer aprender a língua. Isso é verdade?

- Está fazendo perguntas pessoais?

- Não. Apenas perguntei se era verdade.

- É verdade.

- Não é da minha conta me preocupar com essas questões.

- Não pedi para se preocupar.

Marco viu-a como a testemunha estóica prestando depoimento no julgamento, sentada arrogante na frente do júri, absolutamente convencida de que não vai se dobrar ou perder o controle, apesar da barragem da reinquirição. Era uma mestra na expressão amuada e distraída, tão popular entre as mulheres da Europa. Mantinha o cigarro perto do rosto, os olhos estudando tudo na calçada, mas sem ver nada.

A conversa irrelevante não era uma de suas especialidades.

- Você é casada? - perguntou Marco na primeira insinuação de uma reinquirição.

Um grunhido, um falso sorriso.

- Tenho minhas ordens, Sr. Lazzeri.

- Por favor, chame-me de Marco. Como devo chamá-la?

- Signora Ferro é o melhor, por enquanto.

- Mas é dez anos mais moça do que eu.

- As pessoas são mais formais aqui, Sr. Lazzeri.

- É o que parece.

Ela apagou o cigarro, tomou outro gole do café e passou a tratar de trabalho.

-  Hoje é o seu dia de folga, Sr. Lazzeri. Conversamos em inglês pela última vez. Só falaremos italiano a partir da próxima aula.

- Está bem. Mas eu gostaria que se lembrasse de uma coisa. Não está me prestando nenhum favor. Vai receber por isso. E a sua profissão. Sou um turista canadense, com tempo de sobra. Se não nos dermos bem, arrumarei outra pessoa para me ensinar italiano.

- Por acaso o ofendi?

- Podia sorrir mais um pouco.

Francesca acenou com a cabeça. Os olhos se tornaram úmidos no mesmo instante. Desviou-os para a janela, enquanto murmurava:

- Tenho poucos motivos para sorrir.

 

As lojas na Via Rizzoli abriam às dez horas da manhã. No sábado, Marco esperava, examinando as mercadorias nas vitrines. Com quinhentos euros no bolso, ele respirou fundo e disse a si mesmo que não tinha opção, a não ser entrar e sobreviver à sua primeira expedição de compras na Itália. Memorizara palavras e frases até adormecer, mas assim que entrou e fechou a porta, torceu para encontrar um vendedor simpático que falasse inglês.

Nem uma palavra. Era um homem mais velho, com um sorriso gentil. Em menos de quinze minutos, Marco apontou e gaguejou, às vezes falou direito, perguntando tamanhos e preços. Saiu com um par de botas de excursão, baratas e parecendo coisa de jovem, num estilo que vira na universidade quando o tempo piorava. Também comprou uma parca preta, impermeável, com um capuz que podia ser enrolado para virar gola. E ainda saiu com quase trezentos euros. Guardar dinheiro era a sua nova prioridade.

Ele voltou ao apartamento, calçou as botas, vestiu a parca e saiu de novo. A caminhada de trinta minutos até a Centrale de Bolonha levou quase uma hora, com as voltas e desvios para chegar lá. Não olhou para trás em momento algum. Em vez disso, entrava num café e estudava as pessoas que passavam. Ou parava de repente numa confeitaria e admirava as iguarias à mostra, enquanto observava os reflexos no vidro da vitrine. Se alguém o seguia, Marco não queria que a pessoa soubesse que estava desconfiado. E a prática era importante. Luigi lhe dissera, mais de uma vez, que partiria em breve. Marco Lazzeri ficaria sozinho no mundo.

A questão era simples: até onde podia confiar em Luigi? Marco Lazzeri e Joel Backman não confiavam em ninguém.

Houve um momento de ansiedade na estação ferroviária quando ele entrou, viu a multidão, examinou o painel de partidas e chegadas e procurou, desesperado, pelos guichês de passagens. Por hábito, também procurou por qualquer coisa em inglês. Mas estava aprendendo a pôr a ansiedade de lado e seguir em frente. Esperou na fila. Ao chegar ao guichê, sorriu para a mulher no outro lado do vidro, ofereceu um “buon giorno” cordial, e disse:

- Vado a Milano.

Ela já acenava com a cabeça.

- Alie tredici e venti - acrescentou Marco. Às treze e vinte.

- Si, cinquanta euro.

Ele deu uma nota de cem euros porque queria o troco. Afastou-se, com a passagem na mão, exultante com o triunfo. Com uma hora de espera, deixou a estação e foi andando pela Via Boldrini. Encontrou um café depois de percorrer dois quarteirões. Comeu um panino e tomou uma cerveja, enquanto observava a calçada, não esperando avistar alguém que pudesse interessá-lo.

O eurostar chegou na hora marcada. Marco seguiu a multidão para embarcar. Era a sua primeira viagem de trem na Europa e não sabia direito qual era o protocolo. Examinara a passagem durante o almoço e nada vira que indicasse um lugar marcado. A escolha parecia ser ao acaso. Sentou-se no primeiro lugar junto da janela que encontrou vago. O vagão tinha apenas metade da lotação quando o trem deixou a estação, pontualmente às 13:20h.

Logo saíram de Bolonha, os campos voando pela janela. Os trilhos acompanhavam a M4, a principal estrada de Milão para Parma, Bolonha, Ancona e toda a costa leste da Itália. Depois de meia hora, Marco sentia-se desapontado com a paisagem. Era difícil apreciá-la quando se viajava a mais de cento e cinqüenta quilômetros por hora. As coisas se tornavam meio borradas e uma bela paisagem desaparecia num instante. E havia também muitas fábricas ao longo do caminho, próximas dos meios de transporte.

Ele logo compreendeu por que era a única pessoa no vagão que demonstrava algum interesse, mesmo que remoto, pelas coisas lá fora. Os passageiros acima de trinta anos estavam absorvidos em jornais e revistas. Pareciam completamente à vontade, até mesmo entediados. Os mais jovens haviam caído num sono profundo. Depois de algum tempo, Marco também cochilou.

Foi acordado pelo condutor, dizendo algo incompreensível em italiano. Marco percebeu a palavra “biglietto” na segunda ou terceira tentativa. Apressou-se em entregá-lo. O condutor amarrou a cara, como se fosse jogar o pobre Marco para fora do trem na próxima ponte, depois abruptamente perfurou a passagem, e devolveu-a com um sorriso de muitos dentes.

Uma hora depois, um fluxo de fala ininteligível saiu pelo alto-falante, anunciando alguma coisa relacionada com Milão. A paisagem começou a mudar de uma forma dramática. A vasta cidade logo envolveu-os, enquanto o trem diminuía a velocidade, parava, tornava a andar. Passou por vários quarteirões de prédios de apartamentos construídos no pós-guerra, quase colados ao longo de largas avenidas. O guia de Ermanno indicava que a população de Milão era de quatro milhões de habitantes, uma cidade importante, a capital extra-oficial do Norte da Itália, o centro italiano de finanças, moda, propaganda e indústria. Uma cidade industrial trabalhadora, com um lindo centro e uma catedral que valia a pena visitar.

Os trilhos multiplicaram-se e espalharam-se quando entraram na Centrale de Milão. O trem parou sob o enorme domo da estação. Quando saiu para a plataforma, Marco ficou impressionado com o tamanho. Enquanto andava pela plataforma, contou pelo menos uma dúzia de outros pares de trilhos, em fileiras perfeitas, a maioria com trens esperando, pacientes, por seus passageiros. Parou na extremidade, em meio ao frenesi de milhares de pessoas indo e vindo. Estudou as partidas: Stuttgart, Roma, Florença, Madri, Paris, Berlim, Genebra.

Toda a Europa ao seu alcance, apenas a algumas horas de distância.

Ele seguiu as placas até encontrar o ponto de táxi. Esperou na fila, por um momento, antes de embarcar no banco traseiro de um pequeno Renault branco.

- Aeroporto de Malpensa - disse ao motorista.

Foram andando devagar pelo tráfego intenso de Milão, até alcançarem o perímetro. Vinte minutos depois, deixaram a estrada para o aeroporto.

-  Quale compagnia aérea? - perguntou o motorista, olhando para trás.

- Lufthansa.

No Terminal 2, o táxi encontrou uma vaga para encostar no meio-fio. Marco saltou, pagando mais quarenta euros. As portas automáticas abriram-se para uma massa de pessoas, e ele sentiu-se grato por não ter de pegar um avião. Verificou o quadro de partidas e descobriu o que queria: um vôo direto para o Aeroporto Dulles, em Washington. Deu a volta pelo terminal, até encontrar o balcão de check-in da Lufthansa. Havia uma fila comprida, mas andava depressa, com a típica eficiência alemã.

A primeira perspectiva foi uma ruiva em torno dos vinte e cinco anos, que parecia estar viajando sozinha, o que ele preferia. Qualquer pessoa em companhia de outra poderia ser tentada a comentar o estranho homem no aeroporto que fizera um estranho pedido. A mulher era a segunda na fila da classe econômica. Enquanto a observava, ele avistou também um segundo passageiro possível: um estudante usando calça de brim, cabelos compridos e malcuidados, barba por fazer, mochila velha nas costas, um blusão da Universidade de Toledo. Um alvo perfeito. Ele estava quase no fim da fila, escutando música pelos fones amarelos nos ouvidos.

Marco seguiu a ruiva quando ela deixou o balcão, com o cartão de embarque e a bagagem de mão. Ainda faltavam duas horas para o vôo. Por isso, ela vagueou pela multidão até o free shop, onde parou para. examinar os mais modernos relógios suíços. Como não visse nada que lhe agradasse, foi até o estande de jornais e revistas. Comprou duas revistas de moda. Quando ela se encaminhava para o portão, onde haveria a primeira verificação de segurança, Marco respirou fundo e entrou em ação.

- Por acaso vai para Dulles?

Marco exibia um enorme sorriso, e dava a impressão de estar ofegante, a premissa sendo a de que acabara de correr.

- Vou sim.

Um tom ríspido. Sem sorriso. Americana.

- Eu também ia, mas meu passaporte acaba de ser roubado. Não sei quando poderei voltar. - Ele tirou um envelope do bolso enquanto falava. - Isto aqui é um cartão de aniversário para meu pai. Pode largá-lo numa caixa de correio assim que desembarcar em Dulles? O aniversário é na próxima terça-feira, e acho que não poderei ir. Por favor.

A mulher olhou para ele e para o envelope com uma expressão desconfiada. Era apenas um cartão de aniversário, não uma bomba, nem uma arma. Marco tirou outra coisa do bolso.

- Desculpe, mas não tem selo. Leve um euro para comprar. Por favor... se não se importa.

O rosto finalmente se desanuviou e ela quase sorriu.

- Claro.

A mulher pegou o envelope e o euro e guardou na bolsa.

- Muito obrigado. - Marco parecia prestes a se desmanchar em lágrimas. - Ele faz noventa anos. Não imagina como me sinto agradecido.

- Não é nada.

O garoto com os fones amarelos foi mais complicado. Também era americano, e também caiu na história do passaporte. Mas quando Marco tentou entregar o envelope, ele olhou ao redor, cauteloso, como se pudessem estar violando a lei.

- Não sei, cara... - Ele deu um passo para trás. - Acho que não.

Marco sabia que era melhor não insistir. Também recuou, e disse, tão sarcástico quanto podia:

- Boa viagem.

A Sra. Ruby Ausberry, de York, Pensilvânia, foi um dos últimos passageiros a fazer o check-in. Era professora de história geral em escola secundária havia quarenta anos, e agora passara uma temporada maravilhosa, usando recursos do fundo de aposentadoria para visitar lugares que só conhecia dos livros. Aquela era a última etapa de uma aventura de três semanas pela maior parte da Turquia. Estava em Milão apenas para um vôo de conexão de Istambul para Washington. O simpático cavalheiro abordou-a com um sorriso desesperado, contando que seu passaporte acabara de ser roubado. Perderia a festa de aniversário do pai, que completava noventa anos. Com a maior satisfação, ela pegou o cartão e guardou-o na bolsa. Passou pela segurança e percorreu quase meio quilômetro até o portão de embarque. Encontrou uma cadeira e se acomodou.

Por trás dela, a menos de cinco metros de distância, a ruiva chegou a uma decisão. Podia ser uma daquelas cartas-bombas, no final das contas. E verdade que o envelope não parecia bastante grosso para conter explosivos, mas o que ela sabia sobre essas coisas? Havia uma lata de lixo perto da janela — toda cromada, inclusive a tampa (eram todas assim em Milão) - , e ela foi largar o cartão ali.

E se explodisse?, especulou a ruiva, enquanto recuava e sentava. Mas já era tarde demais. Não ia revirar a lata de lixo agora. E, se o fizesse, o que aconteceria depois? Procuraria alguém de uniforme para tentar explicar, em inglês, que talvez estivesse com uma carta-bomba? Nem pensar, ela disse a si mesma. A ruiva pegou a bagagem de mão, e foi para o outro lado do portão, tão distante quanto possível da lata de lixo. Mas não conseguiu desviar os olhos.

A conspiração foi se tornando cada vez maior. Ela foi a primeira a entrar no 747 quando começou o embarque. Só quando tomava champanhe é que finalmente relaxou. Assistiria à CNN assim que chegasse em Baltimore. Estava convencida de que haveria um massacre no aeroporto de Malpensa, em Milão.

A viagem de volta à Centrale de Milão custou quarenta e cinco euros. Mas Marco não questionou o motorista. Por que se incomodar? A passagem de volta para Bolonha custou a mesma coisa, cinqüenta euros. Depois de um dia de compras e da viagem, ele estava reduzido a cerca de cem euros. Sua pequena reserva minguava rapidamente.

Já estava quase escurecendo quando o trem diminuiu a velocidade, entrando na estação em Bolonha. Marco era apenas outro viajante cansado quando saltou na plataforma, mas silenciosamente estufava de orgulho por suas realizações naquele dia. Comprara roupas, comprara passagens de trem, pegara dois táxis e entregara uma correspondência. Fora um dia inteiro de muita atividade, sem que ninguém soubesse quem ele era ou onde se encontrava.

E ninguém lhe pedira para mostrar o passaporte ou qualquer outro documento de identidade.

Luigi pegara um trem diferente, o expresso de ll:45h para Milão. Mas desembarcou em Parma e perdeu-se no meio da multidão. Pegou um táxi para uma curta viagem até o ponto de encontro, um café predileto. Como sempre, Whitaker estava de mau humor, o que era agravado pelo fato da reunião ser num sábado. Pediram logo. Assim que o garçom se afastou, Whitaker disse:

- Não gosto da participação dessa mulher.

- Francesca?

- Isso mesmo, a guia de turismo. Nunca a usamos antes, não é?

- Relaxe. Ela não tem a menor idéia do que está acontecendo.

- Como ela parece?

- Razoavelmente atraente.

-  Razoavelmente atraente pode significar qualquer coisa, Luigi. Que idade ela tem?

- Nunca perguntei, mas calculo que deva ter quarenta e cinco anos.

- Casada?

- É sim, mas sem filhos. Casou com um homem mais velho, muito doente. Ele está morrendo.

Como sempre, Whitaker fez suas anotações, já pensando na pergunta seguinte.

- Morrendo? Por quê?

- Acho que é câncer. Não fiz muitas perguntas.

- Talvez devesse fazer.

- Talvez ela não queira falar sobre certas coisas... como sua idade e o marido agonizante.

- Onde a descobriu?

- Não foi fácil. Os professores de línguas não ficam esperando na fila, como motoristas de táxi. Um amigo recomendou-a. Fiz uma pequena investigação. Ela tem boa reputação na cidade. E estamos em baixa temporada para guias de turismo. Ela pode ter um serviço uma ou duas vezes por semana, mas tentará se manter à nossa disposição. Relaxe. Ela é competente.

- Quanto cobrou?

- Duzentos euros por semana, até a primavera, quando a alta temporada do turismo recomeça.

Whitaker revirou os olhos, como se o dinheiro saísse direto de seu salário.

- Marco está custando demais - murmurou ele, quase para si mesmo.

-  Marco tem uma grande idéia. Quer ir para a Austrália, Nova Zelândia ou qualquer outro lugar em que a língua não seria um problema.

- Ele quer uma transferência?

-  Isso mesmo. Eu também acho que é uma grande idéia. Vamos largá-lo em cima de outra pessoa.

- Essa decisão não nos cabe, não é mesmo, Luigi?

- Tem razão.

As saladas chegaram. Os dois ficaram em silêncio por um momento. Depois, Whitaker insistiu:

- Ainda não gosto dessa mulher. Continue a procurar por outra pessoa.

- Não há mais ninguém. De que tem medo?

- Marco tem um histórico e tanto com as mulheres, não é mesmo? Há sempre um potencial para o romance. Ela pode complicar a situação.

- Fiz uma advertência. E ela precisa do dinheiro.

- Ela está em situação difícil?

- Tive a impressão de que não tem o suficiente. É baixa temporada e o marido não está trabalhando.

Whitaker quase sorriu, como se isso fosse uma boa notícia. Meteu uma fatia grande de tomate na boca e mastigou, enquanto corria os olhos pela trattoria, para verificar se alguém prestava atenção à conversa em voz baixa, em inglês. Depois de engolir, ele disse:

- Vamos falar sobre e-mail. Marco nunca foi muito de usar o computador. Em seus dias de glória, vivia ao telefone... tinha quatro ou cinco no escritório, dois no carro, um no bolso... sempre mantendo três conversas ao mesmo tempo. Gabava-se de cobrar cinco mil dólares apenas para atender um telefonema de um novo cliente... esse tipo de merda. Quase nunca usava o computador. As pessoas que trabalhavam para ele contaram que de vez em quando lia os e-mails. Mas raramente os enviava, e quando o fazia, era sempre por intermédio de uma secretária. O escritório era de alta tecnologia, mas ele contratava pessoas para cuidar dessas coisas. Era muito importante para se preocupar com detalhes.

- E na prisão?

- Não há evidência de qualquer e-mail. Ele tinha um laptop, mas usava-o apenas para escrever cartas. Nunca enviou nenhum e-mail. Parece que todos o abandonaram quando ele caiu em desgraça. Escrevia de vez em quando para a mãe e o filho, mas sempre usava o correio.

- Parece muito arcaico.

- Tem razão. Mas há uma preocupação em Langley... de que ele possa tentar entrar em contato com o mundo exterior. Não pode ser pelo telefone, ou pelo menos não agora. Não tem um endereço que possa usar, portanto o correio está praticamente excluído.

- Ele seria muito estúpido se enviasse uma carta - comentou Luigi. - Revelaria seu paradeiro.

- Exatamente. O mesmo aconteceria com o telefone, fax, com tudo, menos o e-mail.

- Podemos descobrir um e-mail.

- A maioria, mas há meios de evitar.

-  Ele não tem um computador e não tem dinheiro para comprar.

- Sei disso. Mas, em termos hipotéticos, ele pode entrar num café com acesso à Internet, usar uma conta cifrada, enviar o e-mail, apagar a trilha, pagar uma taxa pelo aluguel e ir embora.

- É verdade. Mas quem vai ensiná-lo a fazer isso?

-  Ele pode aprender. Pode encontrar tudo num livro. É improvável, mas sempre há uma chance.

- Faço uma inspeção de seu apartamento todos os dias. Cada palmo do apartamento. Se ele comprar um livro, saberei no mesmo dia.

- Verifique os cibercafés nas proximidades. Há vários em Bolonha.

- Conheço a maioria.

- Onde está Marco neste momento?

- Não sei. Sábado é seu dia de folga. Ele deve estar vagueando pelas ruas de Bolonha, desfrutando sua liberdade.

- E ainda está assustado?

- Apavorado.

 

A Sra. Ruby Ausberry tomou um sedativo leve e dormiu por seis horas das oito de viagem entre Bolonha e o Aeroporto Internacional Dulles. O café morno servido pouco antes do pouso não foi suficiente para despertá-la de vez. Enquanto o 747 taxiava para o portão, ela tornou a cochilar. Esqueceu o cartão de aniversário quando foram embarcados nos caminhões de gado na pista e levados para o terminal principal. Esqueceu enquanto esperava com os outros passageiros para pegar sua bagagem e passar pela alfândega. E esqueceu quando viu sua amada neta à espera no portão de chegada.

Esqueceu por completo até se encontrar sã e salva em sua casa, em York, Pensilvânia, vasculhando a bolsa à procura de um suvenir.

- Essa não! - exclamou ela, quando o cartão caiu na mesa da cozinha. — Eu deveria remeter esse cartão do aeroporto!

Ela relatou para a neta a história do pobre coitado no aeroporto de Milão que acabara de ter o passaporte roubado, e por isso perderia a festa dos noventa anos do pai. A neta estudou o envelope.

- Não parece um cartão de aniversário.

Ela verificou o endereço: R.N. Backman, Advogado, Main Street, 412, Culpeper, Virgínia, 22701.

- Não há endereço do remetente - informou a neta.

- Enviarei pela manhã - disse a Sra. Ausberry. - Espero que chegue antes do aniversário.

 

As dez horas da manhã de segunda-feira, em Cingapura, o misterioso depósito de três milhões de dólares na conta do Old Stone Group, Ltd, efetuou uma saída eletrônica e iniciou uma jornada discreta para o outro lado do mundo. Nove horas mais tarde, quando foram abertas as portas do Galleon Bank and Trust, na ilha caribenha de Saint Christopher, o dinheiro chegou em seguida e foi depositado numa conta numerada, sem nome. Em circunstâncias normais, seria uma transação absolutamente anônima, uma de milhares naquela manhã de segunda-feira. Mas o Old Stone contava agora com a total atenção do FBI. O banco em Cingapura decidira oferecer plena cooperação. O que já não acontecia com o banco em Saint Christopher, embora muito em breve tivesse a oportunidade de participar.

Quando o diretor, Anthony Price, chegou em sua sala, no Hoover Building, antes do amanhecer de segunda-feira, o memorando quente o esperava. Cancelou tudo que fora planejado para aquela manhã. Reuniu-se com sua equipe e ficou esperando que o dinheiro chegasse em Saint Christopher.

E depois ligou para o vice-presidente.

Foram necessárias quatro horas de queda de braço, de pressão nada diplomática, para arrancar a informação de Saint Christopher. A princípio, os banqueiros recusaram-se a revelar qualquer coisa, mas que pequena quase-nação pode resistir ao poderio e toda a fúria da única superpotência do mundo? Quando o vice-presidente ameaçou o primeiro-ministro com sanções econômicas e bancárias, que destruiriam a pequena economia a que a ilha se apegava, ele cedeu e os banqueiros foram obrigados a fornecer as informações.

A conta numerada podia ser diretamente ligada a Artie Morgan, o filho de trinta e um anos do ex-presidente. Ele entrara e saíra várias vezes do Gabinete Oval durante as últimas horas da administração do pai, bebendo Heinekens e de vez em quando oferecendo um conselho a Critz e ao presidente.

O escândalo amadurecia a cada hora que passava.

Da Grande Caimã para Cingapura e agora para Saint Christopher, as transferências exibiam os sinais denunciadores de um amador tentando encobrir sua trilha. Um profissional dividiria o dinheiro em oito partes pelo menos, usaria vários bancos, em vários países, e faria um intervalo de meses entre as remessas. Mas até mesmo alguém inexperiente como Artie seria capaz de esconder o dinheiro. Os bancos escolhidos no exterior eram bastante sigilosos para protegê-lo. Os agentes federais só descobriram por causa de um escroque de fundo mútuo, desesperado para evitar a prisão.

Mas ainda não havia qualquer indicação sobre a fonte do dinheiro. Em seus últimos três dias no cargo, o presidente Morgan concedera vinte e dois indultos. Todos passaram despercebidos, com exceção de dois: Joel Backman e duque Mongo. O FBI vinha encontrando dificuldades para descobrir os poderes financeiros dos outros vinte. Quem teria três milhões de dólares? Quem teria condições de levantar os recursos? Cada amigo, parente e associado estava sendo investigado pelos agentes federais.

Uma análise preliminar repetira o que já se sabia: Mongo tinha bilhões, e era sem dúvida bastante corrupto para subornar qualquer um, Backman também podia obter o dinheiro. Uma terceira possibilidade era um ex-deputado estadual de Nova Jersey, cuja família ganhara muito dinheiro em contatos com o governo para construir estradas. Doze anos antes, ele fora para um “acampamento federal” por alguns meses, e agora queria seus direitos restaurados.

O presidente estava na Europa, em plena excursão para conhecer os líderes mundiais, a primeira volta ao mundo da vitória. Não retornaria por mais três dias, e o vice-presidente decidiu esperar. Ficariam de olho no dinheiro, verificariam todos os fatos e detalhes, e teriam um caso incontestável quando o presidente voltasse. Um escândalo de dinheiro em troca de indulto presidencial emocionaria o país. Humilharia o partido de oposição e enfraqueceria sua determinação no Congresso. Garantiria a permanência de Anthony Price no comando do FBI por mais alguns anos. E finalmente despacharia o velho Teddy Maynard para a aposentadoria. Não havia qualquer ponto negativo na blitz federal contra um ex-presidente que não desconfiava de nada.

A professora esperava no último banco da Basílica di San Francesco. Ainda estava toda agasalhada, as mãos enluvadas, meio enfiadas nos bolsos do casaco. Nevava lá fora, e dentro do santuário vasto, vazio e frio, a temperatura não era muito mais quente. Marco sentou ao seu lado, murmurando:

- Buon giorno.

Ela reconheceu-o com um sorriso apenas suficiente para ser considerado polido.

- Buon giorno.

Marco também manteve as mãos nos bolsos. Por um momento, ficaram apenas sentados ali, imóveis, como dois viajantes congelados, escondendo-se do tempo. Como sempre, Francesca exibia um rosto triste, os pensamentos longe daquele canhestro negociante canadense que queria aprender a falar sua língua. Ela se mantinha alheia e distraída, e Marco começava a se cansar de sua atitude. Ermanno perdia mais o interesse a cada dia que passava. Francesca era quase intolerável. Luigi estava sempre por perto, espreitando e vigiando, mas também parecia perder o interesse pelo jogo.

Marco já pensava que o rompimento estava prestes a acontecer. Cortariam a corda e o deixariam à deriva, para afundar ou nadar por conta própria. Ele recuperara a liberdade havia quase um mês. Aprendera o suficiente de italiano para sobreviver. E seria capaz de aprender ainda mais sozinho.

- Que idade tem esta igreja? - perguntou ele, depois que ficou patente que deveria tomar a iniciativa da conversa.

Ela mudou de posição ligeiramente, pigarreou, tirou as mãos dos bolsos, como se despertasse de um sono profundo.

- A construção foi iniciada em 1236 por monges franciscanos. O santuário principal foi concluído trinta anos depois.

- Uma obra acelerada.

- É verdade. Muito rápida. Ao longo dos séculos, as capelas foram surgindo, nos dois lados. A sacristia foi construída, depois o campanário. Os franceses, sob comando de Napoleão, desconsagraram a igreja em 1798, convertendo-a numa alfândega. Voltou a ser uma igreja em 1886, e foi restaurada em 1928. Quando Bolonha foi bombardeada pelos Aliados, a fachada ficou bastante danificada. Uma história difícil.

- Não é muito bonita por fora.

- Por causa do bombardeio.

- Acho que vocês escolheram o lado errado.

- Não foi o caso de Bolonha.

Não havia sentido em guerrear de novo. Fizeram uma pausa, enquanto suas vozes pareciam ecoar sob o domo. A mãe de Backman levava-o à igreja umas poucas vezes por ano, quando ele era pequeno, mas esse esforço sem muito empenho de abraçar uma fé fora abandonado na escola secundária, e totalmente esquecido durante os últimos quarenta anos. Nem mesmo a prisão fora capaz de convertê-lo, ao contrário do que acontecera com outros presos. Mas ainda era difícil para um homem sem convicções compreender como qualquer forma de culto significativo podia ser conduzido num museu tão frio e impessoal.

- Parece muito vazia. Alguém vem rezar aqui?

- Há uma missa diária e serviços aos domingos. Casei aqui.

- Não deveria falar de si mesma. Luigi não vai gostar.

- Em italiano, Marco. Não vamos mais falar em inglês. - Foi em italiano que ela perguntou. - O que você estudou esta manhã com Ermanno?

- La famiglia.

- La sua famiglia. Mi dica.

- E a maior confusão - disse Marco em inglês.

- Sua moglie? Sua esposa?

- Qual delas? Tive três.

- Fale em italiano.

- Quale? Ne ho tre.

- Uultima.

Ele tratou de se controlar. Não era mais Joel Backman, com três ex-esposas e uma família desagregada. Era Marco Lazzeri, de Toronto, com uma esposa, quatro filhos e cinco netos.

- Eu estava brincando - disse ele, em inglês. - Só tenho uma esposa.

- Mi dica, em italiano, di sua moglie?

Bem devagar, em italiano, Marco descreveu a esposa fictícia. Seu nome é Laura. Tem cinqüenta e três anos. Vive em Toronto. Trabalha numa pequena empresa. Não gosta de viajar. E assim por diante.

Cada frase era repetida pelo menos três vezes. Cada pronúncia errada era saudada com uma careta e a ordem imediata, “ripeta”. E Marco discorreu, interminável, sobre uma Laura que não existia. E, depois, passou a falar do filho mais velho, outra criação, chamado Alex. Trinta anos de idade, advogado em Vancouver, divorciado, duas crianças etc.

Por sorte, Luigi dera uma pequena biografia de Marco Lazzeri, completa, e ele recordou os dados agora, na igreja gelada. Francesca pressionou-o, insistindo na perfeição, advertindo contra falar muito depressa, a tendência natural.

- Deve parlare lentamente - exortava ela.

Francesca era rigorosa, nem um pouco divertida, mas também motivacional. Se ele conseguisse falar italiano tão bem quanto ela falava inglês, poderia se manter à frente da matilha. Se ela acreditava na repetição constante, Marco também acreditava.

Enquanto conversavam sobre sua mãe, um homem idoso entrou na igreja e sentou no banco na frente. Logo ficou evidente que estava perdido em meditação e oração. Os dois resolveram efetuar uma saída discreta. Ainda caía uma ligeira nevasca. Pararam no primeiro café para um espresso e um cigarro.

- Adesso, possiamo parlare delia sua famiglia? - perguntou Marco.

Agora podemos falar de sua família.

Ela sorriu, mostrando os dentes, uma raridade.

- Benissimo, Marco. Ma, non possiamo. Mi dispiace. Muito bem, Marco. Mas não podemos. Sinto muito.

- Perchè non? Por que não?

- Abbiamo delle regole. Temos regras.

- Dov’è suo marito? Onde está seu marido?

- Qui, a Bologna. Aqui, em Bolonha.

- Dov'è lavora? Onde ele trabalha.

- Non lavora.

Depois do segundo cigarro, tornaram a sair para as calçadas cobertas. Começaram uma aula completa sobre a neve. Ela dizia uma frase curta em inglês, e Marco deveria traduzir para o italiano. Está nevando. Nunca neva na Flórida. Talvez neve amanhã. Nevou duas vezes na semana passada. Adoro a neve. Não gosto da neve.

Contornaram a praça principal, e permaneceram sob os pórticos. Na Via Rizzoli, passaram pela loja em que Marco comprara as botas e a parca. Ele achou que Francesca poderia gostar de ouvir sua versão do evento. Sabia a maior parte do italiano para o relato. Mas deixou passar, já que ela parecia completamente absorvida no tempo. Num cruzamento, pararam e contemplaram Le Due Torri, as duas torres sobreviventes, de que os bolonheses tanto se orgulhavam.

Havia mais de duzentas torres no passado, informou Francesca. E ela pediu para Marco repetir a frase, em italiano. Ele tentou, errou o tempo do verbo e foi instado a repetir várias vezes, até acertar.

Nos tempos medievais, por motivos que os italianos atuais não sabiam explicar, seus ancestrais foram dominados pela insólita compulsão arquitetônica de construir torres altas e finas para residir. Como as guerras tribais e hostilidades locais eram epidêmicas, as torres destinavam-se acima de tudo à proteção. Eram postos de vigia eficazes e valiosos durante os ataques, embora não fossem muito práticas como residências. Para proteger a comida, a cozinha costumava ficar no último andar, trezentos degraus acima da rua, o que dificultava arrumar empregados confiáveis. Quando irrompiam lutas, as famílias em conflito disparavam flechas e arremessavam lanças de uma torre para outra. Não havia sentido em lutar nas ruas, como os plebeus.

As torres também se tornaram símbolos de status. Nenhum nobre que se prezasse podia permitir que o vizinho e/ou rival tivesse uma torre mais alta. Assim, nos séculos XII e XIII, houve uma estranha disputa no céu de Bolonha, com os nobres tentando se manter mais altos do que os outros. A cidade recebeu o apelido de la turrita. Um viajante inglês descreveu-a como “uma plantação de aspargos”.

No século XIV, um governo organizado começou a prevalecer em Bolonha. As pessoas com visão sabiam que era preciso controlar os nobres em conflito. A cidade, sempre que tinha força suficiente para se impor, derrubou muitas torres. A idade e a força da gravidade acabaram com outras tantas. As fundações precárias desmoronaram depois de alguns séculos.

Ao final do século XIX, uma campanha ruidosa para derrubar todas as torres foi aprovada por uma estreita margem. Apenas duas delas sobreviveram: Asinelli e Garisenda. As duas ficam próximas da Piazza di Porto Ravegnana. Nenhuma das duas é totalmente reta. A Garisenda inclina-se para o norte, num ângulo que rivaliza com a mais famosa e muito mais bonita Torre de Pisa. As duas sobreviventes têm evocado descrições pitorescas ao longo das décadas. Um poeta francês comparou-as a dois marujos bêbados, cambaleando de volta para casa e tentando se apoiar um no outro. O guia de Ermanno referia-se às torres como “Laurel e Hardy”, o Gordo e o Magro, da arquitetura medieval.

La Torre deglie Asinelli foi construída no início do século

XII.  Tem 97,2 metros, o dobro da altura da outra. Garisenda começou a se inclinar quando estava quase concluída, no século

XIII.  Foi cortada pela metade, num esforço para deter a inclinação. O clã de Garisenda perdeu o interesse e abandonou a cidade em desgraça.

Marco tomara conhecimento da história no livro de Ermanno. Francesca não sabia disso. Como todo guia competente, levou quinze minutos falando sobre as famosas torres. Formulava uma frase simples, apresentava-a com perfeição, ajudava Marco a repetir e passava relutante para a seguinte.

- Asinelli tem quatrocentos e noventa e oito degraus até o topo - informou ela.

- Andiamo.

Eles entraram na torre por uma porta estreita. Subiram uma escada circular por quinze metros, até a bilheteria, que ficava num canto. Marco comprou dois ingressos, a três euros cada um. Recomeçaram a subida. A torre era oca, com a escada fixada nas paredes.

Francesca disse que não subia ali havia pelo menos dez anos. Parecia excitada com a pequena aventura. Seguiu na frente pelos degraus de carvalho, com Marco um pouco atrás. Uma pequena janela aqui e ali permitia a entrada da claridade e do ar frio.

- Vamos subir mais depressa - disse ela a Marco, olhando para trás.

Na tarde fria de fevereiro, não havia mais ninguém subindo para o topo da cidade. Não demorou muito para que Francesca sumisse. Mais ou menos na metade da subida, Marco parou junto de uma janela grande, para que o ar frio pudesse esfriar seu rosto. Depois de recuperar o fôlego, ele recomeçou a escalada, ainda mais devagar agora. Parou de novo poucos minutos depois, o coração disparado, os pulmões fazendo um esforço extra, a mente especulando se conseguiria chegar lá em cima. Depois de quatrocentos e noventa e oito degraus, ele finalmente alcançou um sótão que parecia uma caixa. Saiu para o terraço. Francesca fumava um cigarro, contemplando sua linda cidade, sem qualquer sinal de suor no rosto.

A vista era panorâmica. Os telhados vermelhos da cidade estavam cobertos por quatro ou cinco centímetros de neve. O domo verde-claro de San Bartolomeo ficava logo abaixo, recusando qualquer acumulação de neve.

- Num dia claro, dá para ver o mar Adriático a leste e os Alpes ao norte - comentou ela, ainda em inglês. - É uma vista deslumbrante, mesmo com a neve.

- É mesmo bonita - concordou Marco, quase ofegante.

O vento soprava através das barras de metal entre as colunas de alvenaria. Fazia muito mais frio no alto de Bolonha do que nas ruas.

- A torre é a quinta estrutura mais alta da velha Itália - anunciou ela, orgulhosa.

Marco teve certeza de que ela seria capaz de indicar as outras quatro.

- Por que esta torre foi poupada?

- Por dois motivos, eu acho. Foi bem projetada e bem construída. A família Asinelli era forte e poderosa. E foi usada como prisão por um breve período, no século XIV, quando muitas das outras torres foram demolidas. Para dizer a verdade, ninguém sabe direito por que esta torre foi poupada.

Cem metros de altura e ela se tornara uma pessoa diferente. Os olhos tinham mais vida, a voz era radiante.

-  Subir aqui sempre me lembra do motivo pelo qual amo minha cidade - murmurou ela com um raro sorriso.

O sorriso não era para Marco, nem por qualquer coisa que ele dissera, mas para os telhados e a vista de Bolonha. Foram para o outro lado e contemplaram a distância para sudoeste. Podiam ver, numa colina acima da cidade, os contornos do Santuário di San Luca, o anjo da guarda de Bolonha.

- Já esteve ali? - perguntou Francesca.

- Não.

- Iremos um dia desses, quando o tempo melhorar, está bem?

- Claro.

- Temos muita coisa para ver.

Talvez ele não a despedisse, no final das contas. Sentia-se tão ansioso por companhia, especialmente do sexo oposto, que poderia tolerar seu alheamento, tristeza e oscilações de humor. Estudaria ainda mais para conquistar sua aprovação.

Se a subida para o topo da Torre Asinelli deixara-a animada, a descida teve o efeito inverso. Tomaram um rápido espresso perto das torres e despediram-se. Enquanto ela se afastava, sem qualquer abraço superficial, sem um roçar de rosto, sem sequer um aperto de mão superficial, Marco decidiu que lhe daria mais uma semana.

Seria um período experimental secreto. Francesca teria sete dias para se tornar mais simpática ou ele suspenderia as aulas. A vida era curta demais.

Mas ela era muito bonita.

 

O envelope fora aberto pela secretária, assim como toda a correspondência da véspera e do dia anterior. Mas, dentro do primeiro envelope, havia outro, endereçado simplesmente para Neal Backman. Na frente e atrás do segundo envelope, havia um aviso formal, em letras maiúsculas: PESSOAL, CONFIDENCIAL, PARA SER ABERTO APENAS POR NEAL BACKMAN.

- Você pode querer ver logo a primeira carta - informou a secretária, quando entregou a pilha de correspondência, às nove horas da manhã. — Foi despachada de York, Pensilvânia, há dois dias.

Depois que ela saiu e fechou a porta, Neal examinou o envelope. Era bege, sem marcas, a não ser o que o remetente escrevera. A letra lhe parecia vagamente familiar.

Com uma espátula, ele cortou a parte superior do envelope. Tirou uma única folha de papel branco, dobrada. Era do pai. Foi um choque... mas também não foi.

 

(21 de fevereiro) Querido Neal,

Estou seguro por enquanto, mas duvido que isso possa durar. Preciso de sua ajuda. Não tenho endereço, nem telefone, nem fax, e não tenho certeza se os usaria, mesmo que pudesse. Preciso de acesso a um e-mail, algo que não possa ser descoberto. Não tenho a menor idéia de como se faz isso, mas sei que você pode encontrar um jeito. Não tenho computador e não tenho dinheiro. Há uma boa possibilidade de que você esteja sendo vigiado. Portanto, não deve deixar pistas em qualquer coisa que fizer. Apague suas pegadas. E apague as minhas. Não confie em ninguém. Fique atento a tudo. Esconda esta carta, antes de destruí-la. Mande-me tanto dinheiro quanto puder. Sabe que pagarei tudo. Nunca use seu nome em qualquer coisa. Mande para o seguinte endereço:

Sr. Rudolph Viscovitch, Università degli Studi, Universidade de Bolonha, Via Zamboni, 22, 44041, Bolonha, Itália. Use dois envelopes, o primeiro para Viscovitch, o segundo para mim. Em seu bilhete para ele, peça que guarde o segundo envelope para Marco Lazzeri. Depressa!

Amor, Marco

 

Neal largou a carta na mesa e foi trancar a porta. Sentou num pequeno sofá de couro e tentou organizar os pensamentos. Já chegara à conclusão de que o pai se encontrava fora do país. Se não fosse por isso, teria feito contato antes. Por que ele estava na Itália? Por que a carta fora remetida de York, Pensilvânia?

A esposa de Neal nunca conhecera o sogro. Joel já estava na prisão havia dois anos quando os dois se conheceram e casaram. Mandaram fotos do casamento, e mais tarde uma foto da filha, a segunda neta de Joel.

Joel não era um tópico sobre o qual Neal gostasse de falar. Ou de pensar a respeito. Ele fora um péssimo pai, ausente durante a maior parte de sua infância. Sua espantosa queda do poder causara o maior constrangimento para toda a família. Embora relutante, enviara cartas e cartões para o pai na prisão. Contudo, podia dizer, com toda a sinceridade, pelo menos para si mesmo e a esposa, que não sentia saudade de Joel. Quase nunca o vira ao longo de toda a sua vida.

Agora, o pai voltava à sua vida, pedindo um dinheiro que Neal não tinha, presumindo que o filho faria o que era determinado, sem a menor hesitação, disposto a correr todos os riscos por alguém.

Neal voltou à mesa. Leu a carta mais duas vezes. Era o mesmo rabisco quase indecifrável que ele conhecera durante toda a sua vida. E era o mesmo método de operação, quer Joel estivesse em casa ou no escritório. Faça isso, mais isso, e aquilo, e tudo dará certo. Faça como eu quero, e faça agora! Depressa! Arrisque tudo porque preciso de você.

E se tudo corresse bem e o corretor voltasse? Ele não teria tempo para Neal e a neta, com toda certeza. Se tivesse uma oportunidade, Joel Backman, aos cinqüenta e dois anos, tornaria a se elevar até a glória nos círculos do poder em Washington. Faria os amigos certos encontraria os clientes certos, casaria com a mulher certa, teria os sócios certos e, dentro de um ano, estaria outra vez trabalhando numa sala enorme, cobrando honorários exorbitantes e assediando congressistas.

A vida era muito mais simples com o pai na prisão.

O que ele diria a Lisa, sua esposa? Querida, preciso usar aqueles dois mil dólares que guardamos na poupança. E ainda tenho de gastar algumas centenas de dólares num sistema de e-mail codificado. E mantenha as portas e janelas trancadas durante todo o tempo, porque a vida acaba de se tornar muito mais perigosa.

Com o dia arruinado, Neal ligou para a secretária e avisou que não atenderia nenhuma ligação. Deitou no sofá, tirou os mocassins e começou a massagear as têmporas.

 

Na guerra suja entre a CIA e o FBI, ambos os lados usavam jornalistas com freqüência, por questões táticas. Ataques preventivos podiam ser desfechados, contra-ataques abortados, retiradas às pressas disfarçadas, até mesmo o controle de danos, tudo podia ser implementado mediante a manipulação da imprensa. Dan Sandberg cultivara fontes nos dois lados durante quase vinte anos, e sentia-se perfeitamente disposto a ser usado quando a informação era correta e exclusiva. Também se mostrava disposto a assumir o papel de mensageiro, circulando cauteloso entre os exércitos com informações sensíveis, a fim de verificar o quanto o outro lado sabia. Em seu esforço para confirmar a história que o FBI investigava, o escândalo de dinheiro em troca de indulto presidencial, ele fez contato com sua fonte mais confiável na CIA. Foi recebido com evasivas, mas a resistência durou menos de quarenta e oito horas.

Seu contato em Langley era Rusty Lowell, um profissional de carreira irregular, que já ocupara os mais diversos cargos. Independentemente do que era pago para fazer agora, sua verdadeira função era vigiar a imprensa e orientar Teddy Maynard em relação à maneira de usar e abusar da mídia. Não era um alcagüete e não passava nenhuma informação que não fosse verdadeira. Depois de anos trabalhando no relacionamento, Sandberg estava mais ou menos convencido de que a maior parte do que ouvia de Lowell vinha do próprio Teddy.

Encontraram-se na Tyson's do Corner Mall, na Virgínia, perto da Beltway, a avenida de contorno da capital. Era uma pizzaria barata, no segundo andar da praça de alimentação do shopping. Cada um comprou uma fatia de pizza de pepperoni e queijo com um refrigerante. Foram sentar num reservado em que ninguém podia vê-los. As regras eram as de sempre:

(1) tudo era extra-oficial e a fonte nunca seria citada,

(2) Lowell daria o sinal verde antes que Sandberg publicasse qualquer notícia e

(3) se alguma coisa dita por Lowell fosse contestada por outra fonte, o homem da CIA teria a oportunidade de fazer uma revisão, para dar a última palavra.

Como jornalista investigativo, Sandberg detestava as regras. Lowell, no entanto, nunca errara, e não estava falando com mais ninguém. Se queria explorar aquela fonte tão rica, Sandberg tinha de jogar de acordo com as regras.

- Encontraram algum dinheiro - começou Sandberg. - E acham que está ligado a um indulto presidencial.

Os olhos de Lowell sempre o traíam, porque nunca eram dissimulados. Contraíram-se no mesmo instante, deixando óbvio que era novidade para ele.

- A CIA sabe disso? - perguntou Sandberg.

- Não. - Lowell falou sem hesitar, porque nunca tivera medo da verdade. - Estamos vigiando algumas contas no exterior, mas nada aconteceu. Quanto dinheiro?

- Muito. Não sei quanto exatamente. E também não sei como eles descobriram.

- De onde veio?

- Eles não sabem com certeza, mas estão ansiosos para ligá-lo a Joel Backman. E têm falado com a Casa Branca.

- Mas não conosco.

- Claro que não. Cheira a política. Eles adorariam atribuir um escândalo ao presidente Morgan, e Backman seria o conspira-dor perfeito.

- O duque Mongo também seria um bom alvo.

- Tem razão. Só que ele está praticamente morto. Teve uma carreira longa e movimentada como sonegador, mas agora saiu para o pasto. Backman tem segredos. Querem trazê-lo de volta, arrancar tudo dele no Departamento de Justiça, deixando Washington em polvorosa por alguns meses. A intenção é humilhar Morgan.

- A economia está despencando. Seria uma diversão maravilhosa.

- Como eu disse, é tudo uma questão de política.

Lowell finalmente deu uma mordida na pizza. Mastigou depressa, enquanto pensava.

- Não pode ser Backman. Eles erraram o alvo.

- Tem certeza?

- Absoluta. Backman não tinha a menor idéia de que receberia o indulto. Nós o arrancamos da cela no meio da noite, literalmente, fizemos com que assinasse alguns papéis e depois o tiramos do país, antes do amanhecer.

- E para onde ele foi?

- Não sei. E, se soubesse, não diria. O fato é que Backman não teve tempo para providenciar um suborno. Estava enterrado tão fundo na prisão que não podia sequer sonhar com um indulto. A idéia foi de Teddy, não dele. Backman não é o homem.

- Mas eles tencionam encontrá-lo.

- Por quê? Ele é um homem livre agora, completamente perdoado, não um condenado em fuga. Não pode ser extraditado, a menos que consigam obter um indiciamento.

- O que é bem possível.

Lowell franziu o rosto, olhando para a mesa por um momento.

- Não posso imaginar um indiciamento. Não há provas. Podem ter um dinheiro num banco, como você disse, mas não sabem de onde veio. Posso lhe assegurar que não é dinheiro de Backman.

- Podem encontrá-lo?

- Vão pressionar Teddy, e é sobre isso que eu queria falar. - Lowell empurrou para o lado a pizza quase intacta e inclinou-se para a frente. - Haverá em breve uma reunião no Gabinete Oval. Teddy estará presente, e pedirão que mostre as informações secretas sobre Backman. Ele vai recusar. Será o momento do confronto. O presidente terá coragem de demitir o velho?

- Terá?

- Provavelmente. Pelo menos é o que Teddy espera. Este é o quarto presidente, um recorde incrível... e os três primeiros queriam exonerá-lo. Mas agora ele está velho, preparado para partir.

- Ele sempre foi velho e pronto para partir.

- É verdade, mas sempre foi eficiente. Agora é diferente.

- Por que ele não renuncia ao cargo?

- Porque é um filho-da-puta rabugento e teimoso, como você sabe muito bem.

- Uma avaliação incontestável.

- E se ele for exonerado, não sairá em paz. E gostaria de ter uma cobertura equilibrada.

“Cobertura equilibrada” era a senha antiga para “seja parcial a nosso favor”. Sandberg também empurrou a pizza para o lado. Estalou os dedos.

- A notícia que eu imagino é a seguinte - disse ele, como parte do ritual. - Depois de dezoito anos de firme liderança na CIA, Teddy Maynard foi demitido pelo novo presidente. O motivo foi o fato de Maynard se recusar a revelar detalhes sobre delicadas operações em andamento. Ele resistiu para proteger a segurança nacional. Enfrentou o presidente, que quer as informações confidenciais para que o FBI possa aprofundar uma investigação relacionada com os indultos concedidos pelo ex-presidente Morgan.

- Não pode mencionar Backman.

- Ainda não posso usar nomes. Não tenho confirmação.

- Posso lhe assegurar que o dinheiro não veio de Backman. E se o seu nome for citado a esta altura, há uma possibilidade de que ele veja e faça uma besteira.

- Que tipo de besteira?

- Fugir para salvar sua vida.

- Por que isso é uma besteira?

- Porque não queremos que ele fuja para salvar sua vida.

- Querem que ele morra?

- Claro. Esse é o plano. E queremos ver quem vai matá-lo. Sandberg recostou no banco duro de plástico. Desviou os olhos. Lowell ficou mexendo nas fatias de pepperoni de sua pizza fria. Os dois pensaram em silêncio por um longo momento. Sandberg tomou o resto de sua Pepsi Diet, e finalmente disse:

- Teddy convenceu Morgan a perdoar Backman, que foi escondido em algum lugar, como isca para os assassinos.

Lowell olhava para o lado, mas acenou com a cabeça em confirmação.

- E o assassinato explicará algumas dúvidas de Langley?

- Talvez. Esse é o plano.

- Backman sabe por que foi indultado?

- Não contamos, mas ele é bastante inteligente.

- Quem está atrás dele?

- Algumas pessoas muito perigosas, com profundos ressentimentos.

- Sabe quem são?

Um balanço de cabeça, um dar de ombros, uma não-resposta.

- Há várias pessoas com potencial. Vigiaremos de perto, e talvez possamos descobrir alguma coisa. Ou talvez não.

- E por que os ressentimentos? Lowell riu pela pergunta absurda.

- Boa tentativa, Dan. Há seis anos que pergunta isso. Tenho de ir agora. Prepare a matéria equilibrada e me mostre.

- Quando será a reunião com o presidente?

- Ainda não sei. Assim que ele voltar.

- E se Teddy for mesmo demitido?

- Você será a primeira pessoa para quem telefonarei.

 

Como um advogado de cidade pequena, em Culpeper, Virgínia, Neal Backman ganhava muito menos do que sonhava quando cursava a faculdade. Naquele tempo, a firma de advocacia do pai era uma tamanha potência em Washington que ele podia se imaginar a ganhar muito dinheiro em poucos anos. Os associados mais inexperientes na Backman, Pratt & Bolling começavam com cem mil dólares por ano, enquanto um associado júnior, com trinta anos de idade, podia tirar três vezes mais. Durante seu segundo ano na faculdade, uma revista local pusera o corretor na capa, noticiando seus brinquedos dispendiosos. Seus rendimentos foram calculados em dez milhões de dólares. A reportagem tivera a maior repercussão na faculdade, o que deixara Neal satisfeito. Ainda podia lembrar que pensara que o futuro seria maravilhoso, com toda aquela perspectiva de ganho.

Menos de um ano depois de se tornar um associado, ele fora demitido pela firma, depois que o pai se declarara culpado e literalmente expulso do prédio.

Mas Neal logo parara de sonhar com muito dinheiro e com um estilo de vida que se destacava pela ostentação. Sentia-se muito satisfeito em trabalhar numa pequena firma em Culpeper, torcendo para ganhar cinqüenta mil dólares por ano. Lisa parara de trabalhar quando a filha nascera. Cuidava das finanças e mantinha a vida da família dentro do orçamento.

Depois de uma noite insone, ele se levantou com uma idéia aproximada do que deveria fazer. A questão mais difícil fora a necessidade de contar ou não à mulher. Depois que decidiu que não contaria, o plano começou a tomar forma. Foi para o escritório às oito horas, como sempre. Passou uma hora e meia na Internet, até ter certeza de que o banco já abrira. Ao descer pela Main Street, julgou impossível que pudesse haver pessoas espreitando seus movimentos naquele momento. Mesmo assim, não correria qualquer risco.

Richard Koley dirigia a agência local do Piedmont National Bank. Freqüentavam a mesma igreja, caçavam faisões, jogavam softball pelo Rotary Club. A firma de advocacia de Neal sempre usara o banco. Como ainda era muito cedo, não havia nenhum cliente na agência. Richard já se encontrava à sua mesa, com um café e o Wall Street Journal. Obviamente, tinha muito pouco para fazer. A presença de Neal foi uma surpresa agradável. Conversaram durante vinte minutos sobre o basquete universitário. Quando chegou o momento de tratar de negócios, Richard perguntou:

- Em que posso ajudá-lo?

- Apenas curiosidade. - Neal falou em tom descontraído as frases que ensaiara durante toda a manhã. - Quanto eu poderia tomar emprestado só com a minha assinatura?

- Um pequeno aperto, hein?

Richard já pegara o mouse e olhava para o monitor, onde podia encontrar todas as respostas.

- Não é isso. Os juros estão muito baixos, e pensei em comprar algumas ações que devem subir.

- Não é uma má estratégia, embora eu não possa apregoá-la. Com o índice Dow a dez mil de novo, é de admirar que mais pessoas não façam empréstimos para comprar ações. Seria bom para o velho banco.

Ele soltou uma risada constrangida de banqueiro pela exibição de humor.

-  Rendimentos? - perguntou ele, batendo nas teclas, agora com uma expressão solene.

- Varia - respondeu Neal. - Sessenta a oitenta mil.

Richard franziu o rosto ainda mais. Neal não podia determinar se era por tristeza ao saber que o amigo ganhava tão pouco, ou porque o amigo ganhava muito mais do que ele. Nunca saberia. Os bancos de cidades pequenas não se destacavam por pagar bem aos funcionários.

- Dívidas totais? - perguntou ele, batendo de novo nas teclas.

- Hum... vamos ver...

Neal fechou os olhos e fez os cálculos de novo. A hipoteca era de quase duzentos mil dólares, no Piedmont. Lisa opunha-se tanto a dívidas que seu extrato bancário nunca indicava qualquer saldo negativo.

- Cerca de vinte mil pelo empréstimo para o carro - respondeu Neal. - Talvez mil dólares nos cartões de crédito. Não é muita coisa.

Richard acenou com a cabeça em aprovação, sem desviar os olhos do monitor. Depois que tirou os dedos do teclado, ele deu de ombros e assumiu o papel de banqueiro generoso.

- Podemos emprestar três mil dólares apenas com a assinatura. Juros de seis por cento, prazo de doze meses.

Como nunca tomara dinheiro emprestado sem garantias, Neal não sabia o que esperar. Não tinha idéia do quanto sua assinatura valeria, mas achava que três mil dólares era uma quantia razoável.

- Não pode subir para quatro mil?

Outra vez o rosto franzido, outro exame no monitor, que revelou a resposta:

- Por que não? Sei onde encontrá-lo, não é?

- Obrigado. Eu o manterei avisado sobre as ações.

- É uma dica quente, uma informação que ninguém mais tem?

- Dê-me um mês. Se a cotação subir, voltarei para me gabar.

- É justo.

Richard abriu uma gaveta, à procura dos formulários. Neal acrescentou:

- Isso fica entre nós, está bem, Richard? Entende o que eu quero dizer? Lisa não assinará os papéis.

- Não tem problema - declarou o banqueiro, a epítome da discrição. - Minha mulher não sabe da metade do que eu faço no setor financeiro. As mulheres não compreendem essas coisas.

- Tem toda razão. E, dentro desse espírito, não seria possível me arrumar tudo em dinheiro?

Uma hesitação, uma expressão de perplexidade... mas qualquer coisa era possível no Piedmont National.

- Tudo bem. Basta me dar uma hora.

- Preciso voltar ao escritório agora para processar um camarada, está bem? Estarei aqui por volta de meio-dia para assinar os papéis e pegar o dinheiro.

Neal seguiu para o escritório, a dois quarteirões de distância, com uma dor no estômago. Lisa o mataria se descobrisse, e numa cidade pequena era difícil esconder os segredos. Em quatro anos de um casamento muito feliz, haviam tomado todas as decisões juntos. Explicar o empréstimo seria angustiante, embora fosse possível que Lisa acabasse entendendo se ele contasse a verdade.

Pagar o empréstimo seria um desafio. O pai sempre fora de fazer promessas fáceis. Às vezes ele cumpria, às vezes não, e nunca se preocupava com uma coisa ou outra. Mas esse era o antigo Joel Backman. O novo era um homem desesperado sem amigos, sem ter em quem confiar.

Ora, eram apenas quatro mil dólares. Richard seria discreto. E Neal se preocuparia com o pagamento mais tarde. Afinal, era um advogado. Podia espremer mais alguns honorários extras aqui e ali, trabalhar mais algumas horas.

Sua preocupação primária naquele momento era o pacote que teria de despachar para Rudolph Viscovitch.

Com o dinheiro estufando o bolso, Neal deixou Culpeper na hora do almoço e foi para Alexandria, a noventa minutos de distância. Encontrou a loja, Chatter, num pequeno centro comercial na Russell Road, a menos de dois quilômetros do rio Potomac. Anunciava na Internet como o lugar para comprar os mais modernos equipamentos de telecomunicações, um dos poucos nos Estados Unidos em que se podia comprar um celular de cartão que funcionava na Europa. Enquanto dava uma olhada nas ofertas, ele sentiu-se espantado com a quantidade de celulares, pagers, computadores, telefones por satélite... em suma, tudo o que alguém podia precisar para se manter em contato. Entretanto, não podia permanecer ali por muito tempo, pois teria um depoimento no escritório às quatro horas. E Lisa estaria fazendo uma das muitas verificações diárias para saber o que estava acontecendo no centro da cidade.

Ele pediu ao vendedor que lhe mostrasse o Ankyo 850 PC Pocket Smartphone, a maior maravilha tecnológica a entrar no mercado nos últimos noventa dias. O funcionário pegou o aparelho no mostruário, com o maior entusiasmo, trocou as línguas e descreveu-o com “Teclado QWERTY completo, operação em três faixas em cinco continentes, memória embutida de oitenta megabytes, conectividade de dados de alta velocidade com EGPRS, acesso LAN sem fio, tecnologia sem fio Bluetooth, apoio duplo IPv4 e IPv6, infravermelho, interface Pop-Port, sistema operacional Symbian versão 7 OS, plataforma série 80º”.

- Transferência automática entre as faixas?

- Isso.

- Cobertura nas redes européias?

- Claro.

O smartphone era um pouco maior que o celular comercial típico, mas ainda assim era confortável na mão. Tinha uma superfície metálica lisa, com uma capa de plástico áspera, que evitava que escorregasse da mão quando em uso.

- E um pouco maior, mas tem todos os acessórios - acrescentou o vendedor. - Como e-mail, mensagem de multimídia, câmera, projetor de vídeos, processador de textos, browser para a Internet... e acesso completo em quase todos os lugares do mundo. Para onde vai levá-lo?

- Itália.

- Estará pronto para funcionar. Bastará abrir uma conta com um provedor de serviços.

Abrir uma conta implicava formulários, o que deixaria uma trilha de papel, algo que Neal estava determinado a evitar.

- Não tem um cartão pré-pago SIM?

- Claro que temos. Na Itália, é chamado de TIM... Telecom Itália Mobile. É o maior provedor da Itália, cobrindo cerca de noventa e cinco por cento do país.

- Vou levá-lo.

O preço era de novecentos e vinte e cinco dólares, mais o imposto, mais oitenta e nove dólares pelo cartão TIM. Neal pagou em dinheiro. Ao mesmo tempo, recusou a garantia ampliada, registro para desconto, programa do proprietário, qualquer coisa que pudesse gerar documentação e deixar uma trilha de papel. O vendedor pediu seu nome e endereço, mas Neal se recusou a informar. E disse, ao final, com a maior irritação:

- Não é possível simplesmente pagar e ir embora?

- Acho que sim.

- Então vamos resolver logo isso. Estou com pressa.

Ele saiu. Guiou por um quilômetro e meio até uma loja de material de escritório. Comprou um Hewlett-Packard Tablet PC, com capacidade sem fio integrada. Eram mais quatrocentos e quarenta dólares investidos na segurança do pai, embora Neal fosse ficar com o laptop escondido no escritório. Usando um mapa que encontrara na Internet, ele encontrou o PackagePost, em outro centro comercial próximo. Ali, numa mesa de despacho, escreveu duas páginas de instruções para o pai. Dobrou-as e meteu no envelope, que já continha a carta e mais instruções que escrevera naquela manhã. Quando teve certeza de que ninguém o observava, ele meteu as notas de cem dólares na pequena caixa preta que acompanhava o maravilhoso Ankyo. Em seguida, pôs a carta e as instruções, o smartphone e o estojo dentro de uma caixa para encomenda fornecida pela loja. Lacrou bem e escreveu por fora, em tinta preta, POR FAVOR, GUARDAR PARA MARCO LAZ-ZERI. A caixa foi colocada dentro de outra, um pouco maior, endereçada para Rudolph Viscovitch, na Via Zamboni, 22, Bolonha. O endereço do remetente para devolução era PackagePost, Braddock Road, 8851, Alexandria, Virgínia, 22302. Como não tinha opção, ele deixou seu nome, endereço e telefone no registro, para o caso da encomenda voltar. O funcionário pesou a caixa e perguntou se ele não queria fazer um seguro. Neal recusou, evitando mais documentação. O funcionário colou os selos internacionais e finalmente informou:

- Dá dezoito dólares e vinte centavos.

Neal pagou e recebeu a garantia de que a encomenda seria despachada naquela tarde.

 

Na semi-escuridão do pequeno apartamento, Marco cumpriu com a eficiência habitual a rotina do início da manhã. Exceto na prisão, quando tinha pouca opção e nenhuma motivação, ele nunca fora de permanecer na cama depois que acordava. Havia sempre muita coisa para fazer, muita coisa para ver. Costumava chegar ao escritório antes das seis horas da manhã, cuspindo fogo e procurando ansioso pela primeira briga do dia, muitas vezes depois de apenas três ou quatro horas de sono.

Esses hábitos haviam ressurgido agora. Não mais atacava o dia de frente, não procurava mais por brigas, mas havia outros desafios.

Tomou um banho de chuveiro em menos de três minutos, outro hábito antigo, que na Via Fondazza contava com a ajuda eficiente da escassez de água quente. Aparou a barba, que vinha cultivando com o maior cuidado. O bigode estava quase completo, o queixo era todo grisalho. Não parecia nem um pouco com Joel Backman, nem falava como ele. Estava se condicionando a falar mais devagar, a voz mais suave. E em outra língua, é claro.

A rotina rápida da manhã incluía um pouco de espionagem. Ao lado da cama, havia uma arca de gavetas onde guardava suas coisas. Quatro gavetas, todas do mesmo tamanho, a última a quinze centímetros do chão. Pegou um fio branco muito fino que tirara de um lençol. Usava o mesmo fio todos os dias. Lambeu as extremidades, deixando tanta saliva quanto possível. Grudou uma ponta no fundo da gaveta de baixo. A outra ficou presa na alça lateral da arca. Assim, quando a gaveta era aberta, o fio invisível era deslocado.

Alguém, provavelmente Luigi, entrava em seu quarto todos os dias, enquanto ele estudava com Ermanno ou Francesca, e revistava as gavetas.

A escrivaninha ficava na pequena sala, sob a única janela. Mantinha ali diversos papéis, blocos, livros, o guia de Bolonha dado por Ermanno, uns poucos exemplares do Herald Tribune, uma triste coleção de guias de compras distribuídos nas ruas, além do dicionário italiano-inglês e da crescente pilha de acessórios de estudo fornecidos por Ermanno. A escrivaninha era apenas relativamente organizada, uma condição que o irritava. Sua antiga escrivaninha de advogado, que não caberia em sua sala atual, fora famosa pela ordem meticulosa. Uma secretária arrumava tudo ao final de cada tarde.

Em meio à confusão, no entanto, havia um esquema invisível. A superfície da mesa era de algum tipo de madeira nobre, lascada e marcada ao longo das décadas. Um defeito era uma pequena mancha... e Marco já concluíra que devia ser de tinta. Era mais ou menos do tamanho de um botão pequeno, quase no centro da mesa. Todas as manhãs, antes de sair, ele punha o canto de um papel bem no meio da mancha de tinta. Nem mesmo o espião mais diligente poderia perceber.

E eles não percebiam. Quem entrava no apartamento, para a revista diária, nunca tomava o cuidado de pôr os papéis e livros no local exato em que os encontrara.

Todos os dias, sete dias por semana, até mesmo nos fins de semana, quando ele não estudava, Luigi e seu bando entravam ali para fazer seu trabalho sujo. Marco elaborara um plano. Acordaria com uma terrível dor de cabeça. Telefonaria para Luigi, ainda a única pessoa com quem falava pelo celular, e pediria que comprasse uma aspirina ou qualquer medicamento que usassem na Itália. Faria toda a simulação, ficando na cama, o apartamento escuro, até o final da tarde. Só então ligaria de novo para Luigi, anunciaria que melhorara muito e que precisava se alimentar. Iriam até a esquina para comer alguma coisa. E, de repente, Marco avisaria que precisava voltar correndo ao apartamento. A ausência seria de menos de uma hora.

Outra pessoa teria revistado o apartamento?

O plano começava a tomar forma. Marco queria saber quem mais o vigiava. Qual seria o tamanho da rede? Se a preocupação era apenas mantê-lo vivo, então por que revistavam seu apartamento todos os dias? De que tinham medo?

Com toda certeza, o medo era de que ele desaparecesse. E por que isso deveria assustá-los tanto? Era um homem livre, com plena liberdade para ir e vir. Seu disfarce era bom. O conhecimento da língua era rudimentar, mas passável, e melhorava a cada dia. Por que se importariam se ele fosse embora? Se pegasse um trem e viajasse pelo país? E nunca mais voltasse? Isso não tornaria suas vidas mais fáceis?

E por que mantê-lo sob rédea curta, sem passaporte e com pouco dinheiro?

Tinham medo de que ele desaparecesse.

Marco apagou as luzes e abriu a porta. Ainda estava escuro lá fora, nas calçadas em arcadas da Via Fondazza. Ele trancou a porta e afastou-se apressado, em busca de um café aberto desde cedo.

Através da parede grossa, Luigi foi acordado por uma campainha em algum lugar a distância, a mesma campainha que o despertava na maioria das manhãs, naquela hora lamentável.

- O que é isso? - perguntou ela.

- Nada.

Luigi empurrou as cobertas na direção da garota. Saiu do quarto, meio cambaleando. Atravessou a sala, apressado, até a cozinha. Destrancou a porta, entrou e trancou de novo. Olhou para os monitores na mesa. Marco saía pela porta da frente, como sempre. E às seis e dez, mais uma vez, dentro do padrão usual. Era um hábito frustrante. Os americanos eram mesmo insuportáveis.

Ele apertou um botão e o monitor ficou silencioso. Os procedimentos exigiam que ele se vestisse imediatamente, saísse para as ruas, encontrasse Marco e o vigiasse até Ermanno fazer contato. Mas Luigi começava a se cansar dos procedimentos. E tinha Simona à sua espera.

Ela mal completara vinte anos, uma estudante de Nápoles, deslumbrante, que ele conhecera uma semana antes num clube que descobrira. A noite passada fora a primeira em que haviam ido para a cama juntos, e não seria a última. Simona já voltara a dormir quando ele retornou ao quarto e meteu-se debaixo das cobertas.

Fazia frio lá fora. Ele tinha Simona. Whitaker estava em Milão, provavelmente ainda dormindo, e provavelmente com uma italiana na cama. Não havia ninguém para monitorar o que ele, Luigi, faria durante o dia inteiro. Marco não fazia nada além de tomar café.

Ele abraçou Simona e mergulhou no sono.

Era um dia claro e ensolarado, no início de março. Marco terminou uma sessão de duas horas com Ermanno. Como sempre, quando o tempo cooperava, eles caminhavam pelas ruas do centro de Bolonha, falando apenas em italiano. O verbo do dia fora “fare”, traduzido para “fazer”. Até onde Marco podia perceber, era um dos verbos mais versáteis e mais usados em toda a língua. O ato de comprar era “fare la spesa”, traduzido como “fazer as despesas”, ou “fazer as aquisições”. Perguntar alguma coisa era “fare la domando”, “fazer a pergunta”. Tomar o café da manhã era “fare la colazione”.

Ermanno foi embora um pouco mais cedo, alegando de novo que precisava cuidar dos próprios estudos. Quase sempre, quando uma dessas aulas peripatéticas terminava, Luigi aparecia logo em seguida, como se estivesse esperando para tomar o lugar de Ermanno, que desaparecia com uma pressa extraordinária. Marco desconfiava que a coordenação era para lhe dar a impressão de que estava sendo sempre vigiado.

Trocaram um aperto de mão e despediram-se na frente da Feltrinellis, uma das muitas livrarias na área universitária. Luigi virou a esquina no instante seguinte e ofereceu a habitual saudação efusiva.

- Buon giorno. Pranziamo? Vamos almoçar?

- Certamente.

Os almoços a dois se tornavam cada vez menos freqüentes, com Marco tendo mais oportunidades de comer sozinho, cuidando do cardápio e do serviço.

- Ho trovato um nuovo ristorante. Descobri um novo restaurante.

- Andiamo.

Não era claro o que Luigi fazia com seu tempo durante o dia, mas não podia haver a menor dúvida de que ele passava horas vasculhando a cidade, à procura de diferentes cafés, trattorias e restaurantes. Nunca haviam comido duas vezes no mesmo lugar.

Percorreram algumas ruas estreitas até a Via deli' Indipendenza. Luigi é quem falava mais, sempre no italiano lento, preciso, incisivo. Na companhia de Marco, esquecera por completo o inglês.

- Francesca não pode dar aula esta tarde - avisou ele.

- Por que não?

- Ela tem uma excursão. Um grupo de australianos chamou-a ontem. O movimento é muito fraco nesta época do ano. Gosta de Francesca?

- Devo gostar dela?

- Seria melhor.

- Ela não é muito cordial.

- Mas é uma boa professora?

- Excelente. Seu inglês perfeito me inspira a estudar ainda mais.

- Ela diz que você estuda muito e que é simpático.

- Ela gosta de mim?

- Gosta, como aluno. Acha que ela é bonita?

- Quase todas as italianas são bonitas, inclusive Francesca. Entraram numa rua pequena, a Via Gioto, e Luigi apontou. - É ali.

Pararam na porta do Franco Rossi.

- Nunca estive aqui, mas ouvi dizer que é muito bom.

O próprio Franco recebeu-os, com um sorriso e os braços abertos. Usava um terno escuro elegante, que contrastava muito bem com os cabelos grisalhos. Ajudou-os a tirarem os casacos, conversando com Luigi como se fossem velhos amigos. Luigi enunciava nomes, e Franco balançava a cabeça em aprovação. Foi escolhida uma mesa junto da janela.

- Nossa melhor mesa - garantiu Franco, exuberante. Marco olhou ao redor e não viu nenhuma mesa ruim.

- O antepasto aqui é magnífico - declarou Franco, modesto, como se detestasse se gabar a respeito da comida. - Meu prato favorito hoje, no entanto, seria a salada de cogumelos fatiados. Lino acrescenta trufas, parmesão, pedaços de maçã...

A esta altura, as palavras de Franco eram quase inaudíveis, enquanto ele beijava as pontas dos dedos, os olhos fechados, sonhando.

- Muito bom - arrematou ele.

Concordaram com a salada. Franco se afastou para receber novos clientes.

- Quem é Lino? - perguntou Marco.

- O irmão, o chef.

Luigi mergulhou um pedaço de pão toscano no azeite em uma tigela. Um garçom se aproximou para perguntar se iam tomar vinho.

- Claro - respondeu Luigi. - Eu gostaria de um vinho tinto da região.

Não houve a menor hesitação. O garçom espetou a ponta da caneta na lista de vinhos.

- Este aqui, um Liano de Imola. É fantástico.

Ele aspirou o ar para dar ênfase. Luigi não tinha opção.

- Vamos experimentar.

- Falávamos sobre Francesca - lembrou Marco. - Ela parece muito distraída. Tem algum problema?

Luigi mergulhou outro pedaço de pão no azeite. Mastigou devagar, enquanto decidia o que devia contar a Marco.

- O marido não está bem.

- Ela tem filhos?

- Acho que não.

- Qual é o problema com o marido?

- Está muito doente. E acho que é mais velho do que Francesca. Não o conheço.

Il Signore Rossi voltou para guiá-los pelo cardápio, o que não era necessário. Ele explicou que o tortellini era, por acaso, o melhor de Bolonha, e naquele dia estava especialmente magnífico. Lino teria o maior prazer em vir da cozinha para confirmar. Depois do tortellini, uma boa escolha seria o filé de vitela com trufas.

Eles seguiram os conselhos de Franco por mais de duas horas. Ao saírem, mais do que satisfeitos, voltaram pela Via deli' Indipendenza, conversando sobre a siesta.

Marco encontrou-a por acaso na Piazza Maggiore. Tomava um espresso numa mesa externa, enfrentando o frio com o sol, depois de uma vigorosa caminhada de trinta minutos, quando avistou um grupo de idosos louros saindo do Palazzo Comunale, o prédio da prefeitura da cidade. Seguiam uma figura familiar, uma mulher magra, os ombros empinados, os cabelos escuros caindo por baixo da boina grená. Marco deixou um euro na mesa e atravessou a praça. No Chafariz de Netuno, ele se postou atrás do grupo de pessoas — dez, no total - e ficou ouvindo as palavras de Francesca. Ela explicava que a gigantesca imagem de bronze do deus romano do mar fora esculpida por um francês ao longo de um período de três anos, de 1563 a 1566. Fora encomendada por um bispo, num programa de embelezamento urbano, para agradar o papa. A lenda dizia que o francês, antes de iniciar a escultura, ficara preocupado com a ampla nudez da imagem, pois Netuno está nu. Por isso, mandou o desenho para o papa, em Roma, solicitando aprovação. O papa escreveu em resposta: “Para Bolonha, está certo.”

Francesca mostrava-se um pouco mais animada com os turistas de fato do que com Marco. A voz tinha mais energia, o sorriso era mais fácil. Usava óculos escuros, muito elegantes, que a faziam parecer dez anos mais moça. Escondido por trás dos australianos, ele observou e escutou por um longo tempo, sem ser notado.

Ela explicou que a Fontana del Nettuno era agora um dos mais famosos símbolos da cidade, talvez o cenário mais popular para fotos. Câmeras apareceram em várias mãos, e os turistas se revezaram nas poses na frente de Netuno. Em determinado momento, Marco conseguiu chegar bastante perto para fazer contato visual com Francesca. Ao vê-lo, ela sorriu, numa reação instintiva, para depois murmurar:

- Buon giorno.

- Buon giorno. Importa-se se eu acompanhar a excursão?

- Não. Peço desculpa por ter de cancelar a aula.

- Não tem importância. Que tal um jantar?

Francesca olhou ao redor como se tivesse feito alguma coisa errada.

- Para estudar, é claro - acrescentou Marco. - Nada mais.

-  Sinto muito, mas não será possível. - Ela olhou para a Basílica di San Petronio, no outro lado da praça. - Aquele pequeno café ali, ao lado da igreja, na esquina. Encontre-se comigo ali às cinco horas. Poderemos estudar durante uma hora.

-  Va bene.

A excursão continuou por alguns passos, até a parede oeste do Palazzo Comunale. Ela parou ali, na frente de três grandes coleções de fotos em preto e branco emolduradas e iniciou a lição de história. Durante a Segunda Guerra Mundial, o coração da Resistência Italiana estava na cidade de Bolonha e arredores. Os bolonheses odiavam Mussolini e seus fascistas, além dos ocupantes alemães. Os nazistas retaliavam os ataques dos guerrilheiros com uma vingança, a regra bem conhecida de assassinar dez italianos para cada um de seus soldados mortos pela Resistência. Numa série de cinqüenta e cinco massacres, em Bolonha e nos arredores, os nazistas assassinaram milhares de jovens guerrilheiros. Seus nomes e rostos estavam ali na parede, num memorial para a eternidade.

Era um momento solene e os idosos australianos se adiantaram para ver os heróis. Marco também chegou mais perto. Ficou impressionado pela juventude, pela promessa que se perdera para sempre... massacrados por sua coragem.

Enquanto Francesca se afastava com os turistas, ele permaneceu junto do memorial, olhando para os rostos que cobriam quase toda a parede comprida. Havia centenas de fotos, talvez milhares. Um lindo rosto de mulher aqui e ali. Irmãos. Pais e filhos. Uma família inteira.

Camponeses dispostos a morrerem por seu país e suas convicções. Patriotas leais, que tinham apenas a vida para dar. Mas não era o caso de Marco. Não, senhor. Quando forçado a escolher entre lealdade e dinheiro, Marco sempre fizera a mesma coisa. Optara pelo dinheiro. Virará as costas a seu país.

Tudo pela glória do dinheiro.

Ela estava de pé no café, esperando, sem beber nada, mas fumando, como se podia prever. Marco concluíra que sua disposição em se encontrar tao tarde para uma aula era uma indicação adicional da necessidade do trabalho.

- Gostaria de dar uma volta? - perguntou Francesca, antes mesmo que ele a cumprimentasse.

- Claro que sim.

Marco andara por vários quilômetros com Ermanno antes do almoço, mais algumas horas depois do almoço, esperando o encontro com Francesca. Andara o suficiente por um dia, mas o que mais havia para fazer? Estava em boa forma, com um mês a caminhar muitos quilômetros por dia.

- Para onde?

- É uma longa caminhada.

Seguiram por ruas estreitas e sinuosas, para sudoeste, conversando em italiano, devagar, sobre a aula da manha com Ermanno. Ela falou sobre os australianos, um grupo fácil e amável. Aproximaram-se do Portão Saragoza, quase no limite da parte velha da cidade. Marco compreendeu onde se encontrava e para onde ia.

- Vamos até San Luca - comentou ele.

- Isso mesmo. Será uma noite linda, bem clara. Concorda? Os pés doíam muito, mas Marco nunca pensaria em recusar.

- Andiamo.

Quase trezentos metros acima da cidade, no Colle delia Guardiã, um dos primeiros contrafortes dos Apeninos, o Santuário di San Luca velava por Bolonha havia oito séculos como guardião e protetor da cidade. Para chegar lá em cima sem ficar encharcado pela chuva ou queimado pelo sol, os bolonheses decidiram fazer o que sempre fizeram melhor do que todo mundo: construíram uma calçada coberta. Começaram em 1674, e continuaram, sem interrupção, por sessenta e cinco anos. Ergueram seiscentos e sessenta e seis arcadas, que se estendem sobre uma passagem de 3,6 quilômetros, a mais longa calçada coberta do mundo.

Embora Marco tivesse lido a história, os detalhes pareciam muito mais interessantes quando relatados por Francesca. A inclinação era acentuada e eles dosaram o ritmo. Depois de cem arcadas, as panturrilhas de Marco clamavam por descanso. Francesca, por outro lado, caminhava sem a menor dificuldade, como se escalasse montanhas todos os dias. Ele continuava a esperar que os muitos cigarros fumados por Francesca pudessem deixá-la sem fôlego.

Para financiar um projeto tão grandioso e extravagante, Bolonha usara sua considerável riqueza. Numa rara demonstração de unidade entre as facções beligerantes, cada arcada fora financiada por um grupo diferente de mercadores, artesãos, estudantes, igrejas e famílias nobres. Para registrar seu feito e garantir a imortalidade, cada grupo teve permissão para pôr placas junto de sua arcada. A maior parte desaparecera ao longo do tempo.

Francesca parou para um breve descanso na 170º arcada, onde estava pendurada uma das poucas placas restantes. Era conhecida como “La Madonna grassa”, a Madona gorda. Havia quinze capelas no percurso. Pararam de novo entre a oitava e a nona capelas, onde fora construída uma ponte, passando por cima de uma estrada. Sombras compridas projetavam-se pelos pórticos, enquanto eles subiam a parte mais íngreme da ladeira.

- É bem iluminada à noite - assegurou Francesca. - Para a descida.

Marco não estava pensando na descida. Ainda olhava para cima, ainda contemplava a igreja, que às vezes parecia mais próxima, mas em outras ocasiões dava a impressão de se esgueirar para longe. As coxas também doíam agora, os passos eram cada vez mais pesados.

Quando alcançaram a crista e saíram de baixo do 666? pórtico, puderam contemplar a magnífica basílica em todo o seu esplendor. As luzes começavam a acender, enquanto a escuridão envolvia as colinas por cima de Bolonha. O domo brilhava em tonalidades de dourado.

- Está fechada agora - comentou Francesca. - Teremos de vir outro dia para entrar.

Durante a subida, Marco vira um ônibus descendo a ladeira. Se algum dia decidisse visitar San Luca de novo, com o propósito exclusivo de conhecer o interior de outra catedral, ele não hesitaria em pegar o ônibus.

- Por aqui - disse Francesca, seguindo na frente. - Conheço um caminho secreto.

Marco seguiu por uma trilha de cascalho por trás da basílica, até uma saliência na encosta. Contemplaram a cidade lá embaixo.

- Este é o meu lugar predileto - murmurou ela, respirando fundo, como se tentasse absorver a beleza de Bolonha.

- Com que freqüência vem aqui?

- Várias vezes por ano, em geral com grupos. Eles sempre preferem subir de ônibus. Às vezes, num domingo, subo a pé.

- Sozinha?

- Isso mesmo, sozinha.

- Podemos sentar em algum lugar?

- Claro, há um pequeno banco escondido ali. Ninguém sabe disso.

Eles desceram uns poucos degraus, depois seguiram por uma trilha na rocha até outra saliência, com uma vista igualmente espetacular.

- Sente as pernas cansadas?

- Claro que não - mentiu Marco.

Francesca acendeu um cigarro e saboreou-o, como poucas pessoas eram capazes de fazer. Mantiveram silêncio por um longo tempo, descansando, pensando, admirando as luzes tremeluzentes de Bolonha. Marco finalmente disse:

- Luigi me contou que seu marido está doente. Sinto muito. Ela fitou-o, surpresa, mas logo desviou os olhos.

-  Luigi me garantiu que os assuntos pessoais não seriam levantados.

- Luigi sempre muda as regras. O que ele disse a meu respeito?

- Não perguntei nada. Sei apenas que você é canadense, numa viagem prolongada, e quer aprender o italiano.

- Acredita nisso? -Não.

- Por que não?

- Porque você alega ter esposa e família, mas mesmo assim deixou-as para uma longa viagem pela Itália. E se fosse apenas um negociante numa viagem de turismo, onde Luigi entra em cena? E Ermanno? Por que precisa dessa gente?

- Boas perguntas. Não tenho esposa.

- Então é tudo uma mentira.

- É sim.

- E qual é a verdade?

- Não posso contar.

- Melhor assim. Não quero saber.

- Já tem problemas demais, não é, Francesca?

- Meus problemas são da minha conta. Ela acendeu outro cigarro.

- Pode me dar um desses cigarros?

- Você fuma?

- Fumei há muitos anos.

Marco pegou o cigarro e acendeu-o. As luzes da cidade se tornaram mais brilhantes à medida que a noite escurecia.

- Você conta tudo o que fazemos a Luigi?

- Falo muito pouco com ele.

- Melhor assim.

 

A última visita de Teddy à Casa Branca estava marcada para as dez horas da manhã. Ele planejava chegar atrasado. A partir de sete horas daquela manhã, começara a conversar com sua equipe extra-oficial de transição, todos os quatro vice-diretores e os principais supervisores. Em pequenas reuniões, comunicou às pessoas em quem confiara durante muitos anos que estava de saída, que isso era inevitável havia muitos anos, que a agência se encontrava em boas condições e a vida continuaria.

Aqueles que o conheciam melhor sentiam um ar de alívio. Afinal, Teddy já chegara aos oitenta anos e sua lendária saúde precária estava piorando.

Às 8:45h em ponto, quando se reuniu com William Lucat, o vice-diretor de operações, ele chamou Julia Javier para falar do caso Backman. Era um caso importante, mas, no esquema geral da inteligência global, ficava apenas no meio da lista.

Era estranho que uma operação com um ex-lobista em desgraça pudesse acarretar a queda de Teddy.

Julia Javier sentou ao lado do sempre vigilante Hoby, que ainda tomava anotações que ninguém jamais veria, e começou a falar de maneira objetiva:

-  Ele ainda está no lugar, ainda em Bolonha. Portanto, se tivermos de ativar o plano agora, podemos fazê-lo.

- Pensei que a idéia fosse transferi-lo para alguma aldeia no campo, onde poderíamos vigiá-lo melhor - comentou Teddy.

- Ainda faltam alguns meses para chegar a esse ponto.

- Não temos mais alguns meses. - Teddy olhou para Lucat. - O que acontece se apertarmos o botão agora?

- Vai dar certo. Eles o pegarão em algum lugar de Bolonha. É uma cidade agradável, quase sem crime. Homicídios são raros. Por isso, sua morte atrairá alguma atenção, se o corpo for encontrado ali. Os italianos vão descobrir logo que ele não é... como é mesmo o novo nome, Julia?

-  Marco - respondeu Teddy, sem consultar anotações. - Marco Lazzeri.

-  Isso mesmo. Os italianos vão cocar a cabeça e especular quem é ele.

- Não há a menor pista para sua verdadeira identidade - declarou Julia. - Os italianos terão um corpo e uma falsa identidade, mas sem família, sem amigos, sem endereço, sem emprego, sem mais nada. Será enterrado como indigente, e o caso mantido em aberto por um ano. Depois, será arquivado.

- Não é problema nosso - disse Teddy. - Não vamos matá-lo.

- Tem toda razão - disse Lucat. - Será um pouco mais complicado na cidade, mas nosso homem gosta de andar pelas ruas. Vão pegá-lo. Talvez um carro o atropele. Todo mundo sabe que os italianos guiam como doidos.

- Não será muito difícil, não é mesmo?

- Eu diria que não.

- E quais são as nossas chances de saber quando vai acontecer? — perguntou Teddy.

Lucat cofiou a barba. Olhou através da mesa para Julia, que roia uma unha e olhava para Hoby, que mexia o chá verde com uma colher de plástico. Lucat finalmente respondeu:

- Eu diria que meio a meio. Estaremos vigiando vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, mas as pessoas que vão executá-lo serão as melhores entre as melhores. Talvez não haja testemunhas.

Julia acrescentou:

-  Nossa melhor chance será mais tarde, poucas semanas depois de sepultarem o indigente. Temos bons agentes no local. Ficaremos atentos. Creio que ouviremos alguma coisa mais tarde.

- Como sempre acontece quando não estamos puxando o gatilho, há uma possibilidade de não sabermos com certeza - ressaltou Lucat.

- Não podemos estragar a operação, entenderam? Será ótimo saber que Backman morreu... Deus sabe que ele merece... mas o objetivo da operação é saber quem o mata.

As mãos brancas e enrugadas de Teddy lentamente levaram um copo de papel com o chá à boca. Ele sugou o chá, de uma maneira ruidosa, grosseira. Talvez fosse mesmo tempo do velho desaparecer num asilo para idosos.

- Estou relativamente confiante - declarou Lucat.

Hoby anotou a declaração.

-  Se vazarmos agora, quanto tempo vai demorar até sua morte? - perguntou Teddy.

Lucat deu de ombros. Desviou os olhos, enquanto ponderava a respeito. Julia roia outra unha.

-  Depende - respondeu ela, cautelosa. - Se os israelenses entrarem em ação, poderá acontecer em uma semana. Os chineses costumam ser mais lentos. Os sauditas contratariam um agente independente, poderia demorar um mês para lançá-lo em ação.

-  Os russos podem resolver o problema em uma semana - acrescentou Lucat.

- Isto é o sinal verde? - perguntou Lucat.

- É sim. Mas tomem cuidado na maneira de vazar. Todos os caçadores devem ter uma chance igual de alcançar a presa.

Eles se despediram de Teddy e se retiraram. Às nove e meia, Hoby empurrou-o para o corredor e o elevador. Desceram oito andares para o porão, onde as vans brancas, à prova de bala, esperavam-no para sua última viagem à Casa Branca.

 

A reunião foi breve. Dan Sandberg estava sentado à sua mesa, no Post, quando começou a reunião no Gabinete Oval, poucos minutos depois das dez horas. Não se mexera vinte minutos mais tarde, quando recebeu o telefonema de Rusty Lowell.

- Acabou - informou Lowell.

- O que aconteceu? - perguntou Sandberg, já batendo no teclado.

-  O que estava previsto. O presidente queria saber sobre Backman. Teddy se recusou a informar. O presidente disse que tinha o direito de saber tudo. Teddy concordou, mas alegou que a informação seria usada com propósitos políticos, o que poria em risco uma operação delicada. Discutiram por um momento. Teddy foi demitido. Como eu disse que aconteceria.

- Uau!

- A Casa Branca fará um comunicado dentro de cinco minutos. Talvez você queira assistir.

Como sempre, as especulações começaram no mesmo instante. O secretário de imprensa, com uma expressão sombria, anunciou que o presidente decidira “procurar novos rumos em nossas operações de inteligência”. Enaltecia o diretor Maynard por sua lendária liderança, e sentia-se triste por ter de escolher seu sucessor. A primeira pergunta partiu de alguém na primeira fila, querendo saber se Maynard pedira demissão ou fora demitido.

- O presidente e o diretor Maynard chegaram a um acordo.

- O que isso significa?

- Apenas o que eu disse.

E assim continuou por meia hora.

A reportagem de Sandberg na primeira página, na manhã seguinte, lançou duas bombas. Começou com a confirmação categórica de que Maynard fora demitido, depois de se recusar a divulgar informações secretas, para propósitos que ele julgava exclusivamente políticos. Não houvera pedido de demissão, não haviam chegado a um “acordo”. Fora uma exoneração ao estilo antigo. A segunda bomba anunciava para o mundo que a insistência do presidente em obter informações estava diretamente ligada a uma nova investigação do FBI sobre a venda de indultos presidenciais. O escândalo dinheiro-por-indulto não passava de um rumor distante até que Sandberg abriu a porta. Seu furo quase parou o tráfego na Ponte Memorial Arlington.

Enquanto Sandberg fazia hora na redação, exultante com seu furo, o celular tocou. Era Rusty Lowell, que disse abruptamente:

- Ligue para mim por um telefone fixo, o mais depressa que puder.

Sandberg foi para uma pequena sala, em busca de privacidade, e ligou para Lowell, em Langley.

- Lucat acaba de ser demitido - anunciou Lowell. - Reuniu-se com o presidente às oito horas da manhã, no Gabinete Oval. Foi convidado a ser o diretor interino. Aceitou. O encontro durou uma hora. O presidente pediu as informações sobre Backman. Lucat recusou-se a fornecer. Foi demitido, como Teddy.

- Ele está aí há um século.

- Trinta e oito anos, para ser exato. Um dos melhores homens aqui. Um grande administrador.

- Quem é o próximo?

- Uma boa pergunta. Todos estão com medo de uma batida na porta.

- Alguém tem de dirigir a agência.

- Conhece Susan Penn?

- Não. Sei quem ela é, mas nunca a encontrei pessoalmente.

- Vice-diretora de ciência e tecnologia. Muito leal a Teddy, como todos nós aqui, mas ela também é uma sobrevivente. Está no Gabinete Oval neste momento. Se lhe for oferecido o cargo de diretora interina, ela aceitará. E entregará Backman para conseguir.

- Ele é o presidente, Rusty. Tem direito de saber de tudo.

- Claro. E é uma questão de princípio. Não posso culpá-lo. Ele é novo no cargo e quer demonstrar sua força. Parece disposto a demitir todo mundo até conseguir o que deseja. Eu disse a Susan Penn para aceitar o cargo, e estancar a hemorragia.

- Quer dizer que o FBI deve saber sobre Backman muito em breve?

- Ainda hoje, eu diria. Não sei o que eles farão quando descobrirem seu paradeiro. Precisariam de semanas para obter um indiciamento. É bem provável que apenas arruínem nossa operação.

- Onde ele está?

- Não sei.

- Ora, Rusty, as coisas estão diferentes agora.

- A resposta é não. Fim da conversa. Eu o manterei informado sobre a carnificina.

Uma hora depois, o secretário de imprensa da Casa Branca reuniu-se com os correspondentes e anunciou a designação de Susan Penn como diretora interina da CIA. Fez questão de destacar que era a primeira mulher a ocupar o cargo, provando assim, mais uma vez, como o novo presidente estava determinado a se empenhar pela causa da igualdade de direitos.

 

Luigi estava sentado na beira da cama, vestido, sozinho, aguardando o sinal do apartamento ao lado. Veio exatamente às 6:l4h da manhã. Marco estava se tornando cada vez mais uma criatura de hábitos. Luigi foi até a sala de controle. Apertou um botão para silenciar a campainha que indicava que o amigo acabara de sair pela porta da frente. Um computador registrara o momento exato. Segundos depois, alguém em Langley saberia que Marco Lazzeri deixara a casa segura na Via Fondazza as 6:l4h.

Ele não seguira Marco por alguns dias. Simona dormira em sua cama. Agora, ele esperou alguns segundos, depois saiu pela porta dos fundos, seguiu por uma viela estreita, espiou pelas sombras das arcadas ao longo da Via Fondazza. Marco estava à sua esquerda, seguindo para o sul. Caminhava no seu ritmo forte habitual, que se tornava cada vez mais rápido quanto mais tempo passava em Bolonha. Era pelo menos vinte anos mais velho do que Luigi, mas o gosto pelas longas caminhadas diárias o deixara em melhor forma. Além disso, ele não fumava, não bebia muito, não se interessava por mulheres nem pela vida noturna, e passara seis anos numa cela. Não era de admirar que ele gostasse de vaguear pelas ruas por horas, sem fazer nada.

Marco usava as botas novas todos os dias. Luigi ainda não conseguira manusear aquelas botas. Não tinham nenhum transmissor de sinal, o que tornava impossível rastrear o paradeiro de Marco. Whitaker preocupava-se com isso em Milão, mas ele se preocupava com quase tudo. Luigi estava convencido de que Marco podia andar cem quilômetros todos os dias, mas nunca deixava os limites de Bolonha. Desaparecia às vezes, fazia explorações pela cidade, mas sempre voltava.

Ele entrou na Via Santo Stefano, uma das principais, cortando o canto sudeste da parte velha de Bolonha, até a área conhecida como Piazza Maggiore. Luigi seguiu pelo outro lado da rua. Quase correndo, ele enviou uma mensagem para Zellman, um novo agente na cidade, enviado por Whitaker para reforçar o cerco. Zellman esperava na Strada Maggiore, outra rua movimentada, entre a casa segura e a universidade.

A chegada de Zellman era uma indicação de que o plano estava sendo apressado. Luigi conhecia a maior parte dos detalhes agora. Sentia-se um pouco triste pelo fato de que Marco tinha os dias contados. Não sabia quem o liquidaria, e tinha a impressão de que Whitaker também não sabia.

Luigi rezava para não ser encarregado de cometer o ato final. Já matara dois homens e preferia evitar um novo assassinato. Além do mais, gostava de Marco.

Antes que Zellman entrasse na trilha da presa, Marco desapareceu. Luigi parou e escutou. Foi para a escuridão de um vão de porta, para o caso de Marco ter feito a mesma coisa.

 

Ele ouvira-o lá atrás, os passos um pouco pesados, a respiração um pouco ofegante. Entrou apressado numa rua estreita à esquerda, a Via Castellata, correu por cinqüenta metros, tornou a virar à esquerda, na Via del Chiari, e mudou de direção, seguindo do norte para oeste, em ritmo acelerado, até alcançar uma pequena praça, a Piazza Cavour. Conhecia muito bem, agora, a parte velha da cidade, as ruas principais, as vielas, os becos, os cruzamentos, o interminável labirinto de ruas estreitas e sinuosas, os nomes de cada praça, até os nomes de muitas lojas. Sabia quais tabacarias abriam às seis horas da manhã e quais esperavam até às sete horas. Podia localizar cinco cafés que ficavam lotados logo ao amanhecer, embora a maioria esperasse o dia clarear. Sabia onde sentar junto da janela, por trás de um jornal, com uma boa vista da calçada, esperando pela passagem de Luigi.

Podia despistar Luigi a qualquer momento que quisesse, embora quase todos os dias mantivesse uma trilha larga e evidente, fácil de seguir. Mas o fato de ser vigiado tão atentamente tinha muita importância.

Não querem que eu desapareça, Marco sempre dizia a si mesmo. Por quê? Porque há uma razão para minha presença em Bolonha.

Ele fez um desvio pelo lado oeste, longe de qualquer percurso provável. Depois de quase uma hora de ziguezagues, entrando e saindo de dezenas de ruas e vielas curtas, ele chegou à Via Irnerio. Ficou observando os transeuntes. O Bar Fontana ficava no outro lado da rua. E ninguém o vigiava.

Rudolph estava sentado no fundo, entretido com o jornal matinal, a fumaça do cachimbo subindo numa espiral azul e lenta. Fazia dez dias que não se viam. Depois dos efusivos cumprimentos habituais, a primeira pergunta de Rudolph foi:

- Esteve em Veneza?

Estive, e achei a cidade maravilhosa. Marco citou os nomes de todos os lugares memorizados do guia turístico. Discorreu sobre a beleza dos canais, a espantosa variedade de pontes, as sufocantes hordas de turistas. Um lugar fabuloso. E já se sentia ansioso para voltar. Rudolph acrescentou algumas de suas próprias recordações. Marco descreveu a Igreja de San Marco como se tivesse passado uma semana ali.

Rudolph queria saber qual seria sua próxima viagem. Provavelmente para o sul, à procura de um clima mais quente. Talvez a Sicília ou a costa de Amalfi. Rudolph, é claro, adorava a Sicília e descreveu suas visitas. Depois de meia hora de conversa sobre viagens, Marco finalmente entrou no assunto que o interessava:

- Tenho viajado tanto que deixei de ter um endereço. Um amigo dos Estados Unidos ficou de me enviar um pacote. Dei seu endereço na faculdade de direito. Espero que não se importe.

Rudolph reacendia o cachimbo.

- Já chegou. Foi entregue ontem.

A fumaça saía junto com as palavras. Marco sentiu o coração parar.

- Havia um endereço de devolução?

- Algum lugar na Virgínia.

- Ótimo. - Marco sentiu a boca ressequida. Tomou um gole de água, tentando disfarçar seu excitamento. - Espero que não tenha sido um incômodo.

- Não foi.

- Passarei mais tarde para buscar.

- Estarei no escritório de onze horas até meio-dia e meia.

- Obrigado. - Outro gole de água. - Apenas por curiosidade, qual é o tamanho do pacote?

Rudolph mastigou a haste do cachimbo enquanto respondia:

- Talvez uma caixa de charutos.

 

Uma chuva fria começou no meio da manhã. Marco e Ermanno andavam pela área da universidade e encontraram abrigo num pequeno bar. Terminaram a aula mais cedo, porque o estudante apressara a aula. E Ermanno estava sempre ansioso em partir mais cedo.

Como Luigi não marcara um almoço, Marco estava livre para andar a esmo. Podia presumir que não seria seguido. Mesmo assim, foi cuidadoso. Deu todas as voltas, fez todas as manobras para descobrir se alguém o seguia, sentindo-se um tolo, como sempre. Mas, tolo ou não, esse era agora o procedimento-padrão. De volta à Via Zamboni, ele foi atrás de um grupo de estudantes passeando sem destino certo. Virou abruptamente na entrada da faculdade de direito, subiu apressado a escada e segundos depois batia na porta entreaberta de Rudolph.

Rudolph martelava em sua velha máquina de escrever o que parecia ser uma carta pessoal.

- Está ali - disse ele, apontando para uma pilha de detritos cobrindo uma mesa que não era limpa havia décadas. - O pacote marrom por cima.

Marco pegou o pacote com tão pouco interesse quanto podia simular.

- Obrigado de novo, Rudolph.

Rudolph, contudo, já estava batendo na máquina de novo, sem a menor disposição para uma visita. Era evidente que se sentia aborrecido por ter sido interrompido.

- Não foi nada - disse ele sem olhar, soprando a fumaça do cachimbo.

- Há um banheiro aqui perto? - perguntou Marco.

- No final do corredor, à esquerda.

- Obrigado. Até mais.

Havia um mictório pré-histórico e três baias de madeira. Marco entrou na último, trancou a porta, baixou a tampa do vaso e sentou. Abriu o pacote com todo o cuidado. Desdobrou as folhas de papel. A primeira era branca, simples, sem qualquer cabeçalho. Ao ler as palavras “Querido Marco”, ele teve vontade de chorar.

Querido Marco:

Nem preciso dizer que fiquei emocionado ao receber notícias suas. Agradeci a Deus quando foi solto, e rezo agora por sua segurança. Como sabe, farei qualquer coisa para ajudá-lo.

Estou enviando um smartphone, o mais moderno e todo o resto. Os europeus estão à nossa frente na tecnologia de celular e Internet sem fio. Por isso, o aparelho deve funcionar muito bem aí. Escrevi algumas instruções em outro papel. Sei que vai parecer grego, mas não é tão complicado assim.

Não tente fazer qualquer chamada, pois seria muito fácil de rastrear. Além disso, teria de usar um nome e abrir uma conta. E-mail é o caminho. Pelo uso do KwyteMail com codificação é impossível rastrear nossas mensagens. Sugiro que só mande e-mails para mim. Posso cuidar da retransmissão.

Neste lado, tenho um laptop novo, que mantenho por perto em todos os momentos.

Vai dar tudo certo, Marco. Confie em mim. Assim que estiver online, mande um e-mail para podermos conversar.

Boa sorte, Grinch.

(5 de março)

Grinch? Devia ser um código. Ele não usara os nomes verdadeiros.

Marco examinou o aparelho. Deixava-o perplexo, mas estava determinado a fazer com que funcionasse. Deu uma olhada na caixa. Encontrou o dinheiro e contou-o lentamente, como se fosse ouro. A porta foi aberta e fechada, alguém estava usando o mictório. Marco mal podia respirar. Relaxe, ele disse a si mesmo. A porta do banheiro abriu e fechou outra vez. Ele voltou a ficar sozinho. A página com as instruções fora escrita à mão, obviamente quando Neal não dispunha de muito tempo. Dizia:

Ankyo 850 PC Pocket Smartphone - bateria plenamente carregada - seis horas para falar antes de recarregar, recarregador anexo.

Passo 1) Procure um cibercafé com acesso sem fio - lista anexa.

Passo  2) Entre no café, ou fique a uma distância máxima de cinqüenta metros.

Passo  3) Ligue o smartphone, o controle no canto superior esquerdo.

Passo   4) Observe a tela para “área de acesso” e depois a pergunta “acesso agora?”. Aperte “sim”por baixo da tela, espere.

Passo   5) Aperte o botão do teclado, no fundo, à direita, e abra o teclado.

Passo   6) Aperte acesso Wi-Fi na tela.

Passo   7) Aperte start para browser da Internet.

Passo   8) No cursor, digite “www.kwytemail.com”.

Passo  9) Nome do usuário, digite “Grinch456”.

Passo 10) Digite a frase de senha “post hoc ergo propter hoc”.

Passo 11) Aperte “escrever” para trazer formulário de Nova Mensagem.

Passo 12) Selecione meu endereço de e-mail: 123 Grinch @kwytemail. com.

Passo 13) Digite sua mensagem.

Passo 14) Clique em “codificar mensagem”.

Passo 15) Clique em “enviar”.

Passo 16) Bingo - receberei a mensagem.

Havia mais anotações no outro lado, mas Marco precisava fazer uma pausa. O aparelho se tornava mais pesado a cada minuto, como se inspirasse mais perguntas do que respostas. Para um homem que nunca estivera num cibercafé, ele não podia sequer começar a compreender como era possível usá-lo do outro lado da rua. Ou a cinqüenta metros de distância.

As secretárias sempre cuidavam do fluxo de e-mails. Ele era muito ocupado para sentar na frente de um monitor.

Havia um folheto de instruções, que ele abriu ao acaso. Leu umas poucas linhas e não compreendeu uma única frase. Confie em Neal, ele disse a si mesmo.

Você não tem opção agora, Marco. Precisa aprender a usar esta porcaria.

De um site na Internet chamado www.AxEss.com, Neal tirara uma lista dos lugares com Internet sem fio de Bolonha: três cafés, dois hotéis, uma biblioteca e uma livraria.

Marco dobrou o dinheiro, pôs no bolso e lentamente juntou o pacote. Levantou-se, deu a descarga por algum motivo e deixou o banheiro. O celular, os papéis, a caixa e o pequeno recarregador estavam nos bolsos profundos da parca.

A chuva se transformara em neve quando ele deixou a faculdade de direito, mas as calçadas cobertas protegiam os pedestres. Havia uma multidão de estudantes seguindo apressados para o almoço. Enquanto se afastava da área da universidade, Marco refletiu sobre a melhor maneira de esconder aquele precioso tesouro que Neal mandara. O celular estaria sempre com ele. Assim como o dinheiro. Mas os papéis — a carta, as instruções, o manual — onde poderia guardar? Não havia qualquer lugar seguro no apartamento. Foi nesse instante que ele viu numa vitrine uma elegante bolsa de pendurar no ombro. Entrou e perguntou o preço. Era uma bolsa Silvio para laptop, azul-marinho, à prova d'água, feita com uma fibra sintética que a vendedora não soube explicar. Custava sessenta euros, e Marco pôs o dinheiro no balcão, relutante. Enquanto a mulher registrava a venda, ele guardou na bolsa o telefone e os itens relacionados. Ao sair, pendurou a bolsa no ombro e comprimiu-a com o braço direito.

A bolsa significava a liberdade para Marco Lazzeri. Ele a defenderia com a própria vida.

Encontrou a livraria na Via Ugo Bassi. As revistas ficavam no segundo andar. Marco parou ao lado da prateleira, com uma revista semanal de futebol nas mãos, enquanto observava a porta da frente, à procura de qualquer pessoa suspeita. Um absurdo. Mas era um hábito agora. As ligações com a Internet ficavam no terceiro andar, num pequeno café. Ele comprou um pastel e uma Coca-Cola e foi sentar numa cabine estreita de onde podia observar todas as pessoas que entravam e saíam.

Ninguém o descobriria ali.

Ele tirou o Ankyo 850 da bolsa com tanta confiança quanto podia exibir. Correu os olhos pelo manual. Releu as instruções de Neal. Seguiu-as, nervoso, batendo no pequeno teclado com os polegares, do modo ilustrado no manual. Depois de cada etapa, levantava os olhos para verificar os movimentos no café.

Os passos indicados por Neal funcionaram com perfeição. Ele entrou na Internet num instante, para seu espanto. Depois de usar os códigos, ele se descobriu a olhar para uma tela que o autorizava a escrever uma mensagem. Lentamente, Marco movimentou os polegares, digitando seu primeiro e-mail pela Internet sem fio:

Grinch: Recebi o pacote. Nunca poderia imaginar o quanto significa para mim. Agradeço por sua ajuda. Tem certeza de que nossas mensagens são absolutamente seguras? Se forem, eu lhe direi mais sobre minha situação. Receio não estar seguro. São oito e meia da manhã aí. Mandarei esta mensagem agora, e voltarei afazer contato dentro de poucas horas. Amor, Marco

Ele enviou a mensagem, desligou o aparelho e passou a hora seguinte estudando o manual. Antes de sair, para se encontrar com Francesca, seguiu a rotina para entrar na Internet. Na tela, entrou no Google e digitou “Washington Post”. A reportagem de Sandberg atraiu sua atenção. Projetou-a na tela.

Nunca se encontrara pessoalmente com Teddy Maynard, mas haviam se falado várias vezes pelo telefone. Conversas muito tensas. O homem estava praticamente morto dez anos antes. Em sua outra vida, Joel tivera alguns confrontos com a CIA, em geral por causa de manobras escusas de seus clientes com contratos no Departamento de Defesa.

Fora da livraria, Marco examinou a rua, não avistou nada que pudesse interessá-lo e iniciou outra longa caminhada.

Dinheiro por indulto presidencial? Era uma notícia sensacional, mas era um absurdo acreditar que um presidente em final de mandato pudesse aceitar esse tipo de suborno. Durante sua espetacular queda do poder, Joel lera muitas coisas a seu respeito. Só a metade era verdadeira. Aprendera, pelo caminho mais difícil, a não acreditar muito no que a imprensa publicava.

 

Num prédio sem qualquer identificação, sem número, parecido com outros nas proximidades, na rua Pinsker, no centro de Tel Aviv, um agente chamado Efraim passou pelo elevador e entrou num corredor em que havia apenas uma porta trancada. Uma porta sem maçaneta. Ele tirou do bolso um aparelho que parecia com um pequeno controle remoto de televisão e apontou para a porta. Apertou um botão. Pesadas trancas foram acionadas, houve alguns estalos e a porta se abriu. Era uma das muitas casas seguras mantidas pelo Mossad, o Serviço Secreto Israelense. Tinha quatro cômodos: dois quartos com beliches em que Efraim e seus três colegas dormiam, uma pequena cozinha, onde preparavam refeições simples, e a atravancada sala de trabalho, onde passavam horas, todos os dias, planejando uma operação, que estivera suspensa durante seis anos, mas que agora voltara a ser uma das maiores prioridades do Mossad.

Os quatro eram membros de uma kidon, a pequena e secreta unidade de homens muito bem treinados, cuja função primária era o assassinato. Um assassinato rápido, eficiente, sem deixar pistas. Os alvos eram os inimigos de Israel que não podiam ser levados a julgamento, porque seus tribunais não tinham jurisdição. A maioria deles residia em países árabes e outros países islâmicos, mas a kidon também era usada no antigo bloco soviético, Europa, Ásia, até mesmo Coréia do Norte e Estados Unidos. Não havia fronteiras, não havia restrições, nada que pudesse impedi-los de exterminar aqueles que queriam destruir Israel. Os homens e mulheres da kidon tinham plena licença para matar por seu país. Depois que o alvo era aprovado, por escrito, pelo primeiro-ministro, um plano de ação era formulado, uma equipe organizada e o inimigo de Israel podia ser considerado um homem morto. Raramente fora difícil obter a aprovação da cúpula.

Efraim largou um saco com biscoitos na mesa dobrável em que Rafi e Shaul estavam absortos em pesquisas. Amos sentava num canto, diante de um computador, estudando mapas de Bolonha, Itália.

A maior parte da pesquisa era antiga, incluía páginas e mais páginas de informações sobre Joel Backman, quase todas inúteis, coletadas há anos. Sabiam de tudo sobre sua caótica vida pessoal, as três ex-esposas, os três filhos, os antigos sócios, as namoradas, os clientes, os amigos perdidos dos círculos do poder de Washington. Quando sua morte foi aprovada, seis anos antes, outra kidon reunira às pressas as informações sobre Backman. Um plano preliminar de matá-lo num acidente de carro, em Washington, fora descartado quando ele se declarara culpado e se refugiara na prisão.

As informações antigas só eram importantes agora por causa do filho. Desde o indulto inesperado e o desaparecimento do alvo, sete semanas antes, o Mossad mantinha dois agentes perto de Neal Backman. Passavam apenas três ou quatro dias no serviço até serem trocados, a fim de que ninguém em Culpeper, Virgínia, ficasse desconfiado, as cidades pequenas, com os vizinhos intrometidos e policiais entediados, sem ter o que fazer, representavam enormes desafios. Uma agente, linda, com sotaque alemão, até conversara com Neal na Main Street. Alegara ser uma turista, precisando de orientação para chegar a Montpellier, a casa próxima do presidente James Madison. Flertara com ele, ou pelo menos tentara, disposta a ir até onde fosse necessário. Mas Neal não mordera a isca. Instalaram microfones secretos em sua casa e escritório, até escutavam suas conversas pelo celular. Por intermédio de um laboratório em Tel Aviv, liam todos os e-mails enviados e recebidos no escritório. Monitoravam sua conta bancária e o gasto em cartão de crédito. Sabiam que ele fizera uma rápida viagem até Alexandria, seis dias antes, mas não sabiam por quê.

Também vigiavam a mãe de Backman, em Oakland, mas a pobre velha definhava cada vez mais. Haviam debatido durante anos a idéia de dar à velha uma pílula venenosa de seu espantoso arsenal. Emboscariam o filho no funeral. O manual da kidon, no entanto, proibia o assassinato de pessoas da família, a menos que também estivessem envolvidas na ameaça à segurança de Israel.

A idéia, no entanto, ainda era debatida, e Amos era o seu mais fervoroso defensor.

Queriam Backman morto, mas também queriam que ele vivesse por umas poucas horas antes do momento final. Precisavam conversar com ele, fazer algumas perguntas, e se as respostas demorassem, sabiam como obrigá-lo a falar. Todos falavam quando o Mossad realmente queria respostas.

- Encontramos seis agentes que falam italiano - anunciou Efraim. - Estarão aqui esta tarde, às três horas, para uma reunião.

Nenhum deles falava italiano. Mas falavam um inglês perfeito, além de árabe. Entre os quatro, falavam ainda oito outras línguas.

Todos tinham experiência de combate, amplo treinamento em informática e eram hábeis na travessia de fronteiras (com e sem documentos), interrogatórios, disfarces e falsificações. E possuíam a capacidade de matar a sangue-frio sem o menor arrependimento. A média de idade era de trinta e quatro anos, e cada um já estivera envolvido em pelo menos cinco assassinatos cometidos por uma kidon.

Em plena operação, a kidon teria doze membros. Quatro deles cuidariam da execução, enquanto os outros oito dariam cobertura, vigilância e apoio tático, apagando as pistas depois.

- Temos um endereço? - perguntou Amos, do computador.

- Ainda não - respondeu Efraim. - E não temos certeza se poderemos obter. As informações estão vindo da contra-espionagem.

-  Há meio milhão de pessoas em Bolonha - murmurou Amos, quase para si mesmo.

- Quatrocentas mil - interveio Shaul. - E cem mil são estudantes.

- Devemos ter uma foto dele. - Os outros três pararam o que faziam e olharam para Efraim. - Há uma foto recente de Backman, em algum lugar, tirada depois de sua prisão. Obter uma cópia é uma possibilidade.

- Seria muito útil - comentou Rafi.

Eles tinham uma centena de fotos de Joel Backman. Haviam estudado cada centímetro quadrado de seu rosto, cada ruga, cada veia nos olhos, cada fio de cabelo. Os especialistas que trabalhavam no outro lado da cidade, no quartel-general do Instituto Central de Informações e Serviços Especiais de Israel, mais conhecido como Mossad, haviam preparado excelentes imagens computadorizadas da possível aparência de Backman agora, seis anos depois que o mundo o vira pela última vez. Havia uma série de projeções digitais do rosto de Backman, como um homem corpulento de cento e dez quilos, o peso que ele tinha ao se declarar culpado e ser condenado. E outra série de imagens de Backman com oitenta e cinco quilos, o peso que teria agora, segundo os rumores. Haviam trabalhado os cabelos, deixando-os naturais, e prevendo sua cor aos cinqüenta e dois anos de idade. Pintaram-nos de preto, ruivo e castanho. Cortaram os cabelos e deixaram-nos mais longos. Puseram uma dúzia de óculos diferentes, depois acrescentaram uma barba, primeiro escura, depois grisalha.

No final, tudo dependia dos olhos. Estudem os olhos.

Embora Efraim fosse o líder da unidade, Amos era o mais antigo. Fora designado para Backman em 1998, quando o Mossad tomara conhecimento de que o software JAM estava sendo vendido por um poderoso lobista de Washington. Por intermédio de seu embaixador em Washington, os israelenses negociaram a compra do JAM. Julgavam que o negócio estava fechado, e ficaram revoltados quando Backman e Jacy Hubbard levaram a mercadoria para outros interessados.

O preço de venda nunca fora conhecido. O negócio não fora consumado. Algum dinheiro trocara de mãos, mas Backman, por alguma razão, não entregara o produto.

Onde estaria agora? Nunca existira?

Só Backman sabia.

O hiato de seis anos na caçada a Joel Backman proporcionara a Amos tempo suficiente para preencher algumas lacunas. Ele acreditava, assim como seus superiores, que o sistema de satélites Netuno, como fora chamado, fosse uma criação da China, que os chineses haviam gasto muito dinheiro do tesouro nacional para construí-lo, que haviam roubado uma tecnologia valiosa dos americanos, que haviam disfarçado o lançamento do sistema de uma maneira brilhante, enganando os satélites americanos, russos e israelenses, e que foram incapazes de reprogramar o sistema para prevalecer sobre a interferência do software JAM. Netuno era inútil sem o JAM, e os chineses dariam a Grande Muralha para pôr as mãos em Joel Backman.

Amos e o Mossad também acreditavam que Farooq Khan, o último sobrevivente do trio e principal autor do software, fora localizado pelos chineses e assassinado oito meses atrás. O Mossad estava em sua pista quando ele desaparecera.

Também acreditavam que os americanos ainda não sabiam quem construíra Netuno, e essa falha dos serviços de inteligência era um embaraço persistente, quase permanente. Os satélites americanos dominaram o céu por quarenta anos. Eram tão eficientes que podiam avistar através de nuvens, descobrir uma metralhadora debaixo de uma tenda, interceptar uma transferência de dinheiro de um traficante de drogas, ouvir uma conversa dentro de um prédio e descobrir petróleo no deserto com imagens infravermelhas. Eram vastamente superiores a tudo que os russos haviam lançado. E era inconcebível que outro sistema de igual ou melhor tecnologia pudesse ser projetado, construído, lançado e se tornasse operacional sem o conhecimento da CIA e do Pentágono.

Os satélites israelenses eram muito bons, mas não tanto quanto os americanos. Agora, para o mundo da inteligência, parecia que Netuno era mais avançado do que qualquer coisa lançada pelos Estados Unidos.

Havia apenas suposições, pouco fora confirmado. A única cópia do JAM fora escondida, e seus criadores haviam morrido.

Amos vivia o caso durante quase sete anos, sentia-se maravilhado por ter uma kidon em ação, e fazia planos urgentes. O tempo era muito curto. Os chineses explodiriam a metade da Itália se achassem que Backman ficaria debaixo dos escombros. Os americanos também podiam tentar pegá-lo. Em seu território, Backman era protegido pela Constituição americana, com suas camadas de salvaguardas. As leis exigiam que ele fosse bem tratado, levado para a prisão e protegido vinte e quatro horas por dia. No outro lado do mundo, porém, ele se tornava uma presa permitida. A kidon já fora usada para neutralizar alguns israelenses extraviados. Os americanos fariam a mesma coisa.

 

Neal Backman mantinha o laptop novo e pequeno na mesma pasta surrada que levava para casa todas as noites. Lisa notara porque ele nunca o tirava da pasta, e sempre o mantinha a um ou dois passos de distância.

Ele mudou um pouco sua rotina da manhã. Comprara um cartão do Jerry's Java, uma nova rede de cafés, que tentava atrair clientes com um café sofisticado e com a oferta de jornais, revistas e acesso gratuito à Internet sem fio. A franquia comprara um drive-in de comida mexicana abandonado, na beira da cidade, fizera uma decoração extravagante e conseguira um intenso movimento, pelo menos nos dois primeiros meses.

Havia três carros à sua frente, no acesso ao balcão. Neal mantinha o laptop nos joelhos, por baixo do volante. No balcão, ele pediu um mocha duplo, sem creme, e esperou que os carros à frente se deslocassem. Digitou com as duas mãos durante a espera. Depois de estar on-line, ele foi para KwyteMail. Digitou seu nome de usuário, Grinchl23, e em seguida a senha, post hoc ergo propter hoc. Segundos mais tarde, apareceu na tela a primeira mensagem do pai.

Neal prendeu a respiração ao ler. Soltou um suspiro profundo, enquanto avançava na fila. Dera certo! O velho conseguira usar o aparelho!

Rapidamente, ele digitou:

Marco: Nossas mensagens não podem ser interceptadas. Pode dizer qualquer coisa que quiser, mas é sempre melhor se limitar ao mínimo possível. Fico feliz em saber que você está aí, fora de Rudley. Entrarei na Internet todos os dias a esta hora, exatamente às 7:50h, pelo horário da Costa Leste. Tenho de desligar. Grinch.

Ele pôs o laptop no banco de passageiro, baixou a janela e pagou quase quatro dólares pelo café. Ao partir, observava o computador, para determinar quanto tempo duraria o sinal de acesso. Saiu para a rua, percorreu pouco mais de cinqüenta metros e o sinal desapareceu.

 

Em novembro passado, depois da estrondosa derrota de Arthur Morgan, Teddy Maynard começara a formular sua estratégia do indulto de Backman. Com seu meticuloso planejamento habitual, havia se preparado para o dia em que os toupeiras, como eram chamados os agentes infiltrados, vazariam a notícia do paradeiro de Backman. Para avisar os chineses, de uma maneira que não despertasse suspeitas, Teddy começara a procurar pela informante perfeita.

Seu nome era Helen Wang, uma sino-americana de quinta geração, que trabalhava em Langley havia oito anos, como analista de questões asiáticas. Era muito inteligente, muito atraente e falava um mandarim razoável. Teddy providenciara para que ela tivesse um posto temporário no Departamento de Estado. Ali, ela começara a cultivar contatos com diplomatas da China, alguns dos quais eram espiões, sempre à procura de novos agentes.

Os chineses eram notórios por suas táticas agressivas no recrutamento de novos agentes. A cada ano, vinte e cinco mil estudantes chineses eram matriculados em universidades americanas, e a polícia secreta acompanhava os movimentos de todos. Os executivos chineses deviam cooperar com os serviços de inteligência quando voltavam para casa. As milhares de empresas americanas fazendo negócios em território chinês eram constantemente monitoradas. Seus executivos eram pesquisados e vigiados. Os que pareciam boas perspectivas eram às vezes abordados.

Quando Helen Wang deixou escapar, “por acaso”, que trabalhara por alguns anos na CIA, para onde esperava voltar em breve, no mesmo instante atraiu a atenção dos chefes da inteligência chinesa em Beijing. Ela aceitou um convite de um novo amigo para almoçar num restaurante elegante de Washington, depois para jantar. Desempenhou seu papel muito bem, sempre reticente com as aberturas, mas sempre dizendo um sim relutante. Seus memorandos detalhados eram entregues a Teddy depois de cada encontro.

Quando Backman deixou a prisão subitamente e ficou evidente que fora levado para o exterior, com um paradeiro desconhecido, os chineses aplicaram uma tremenda pressão sobre Helen Wang. Ofereceram cem mil dólares pela informação sobre o paradeiro de Backman. Ela se mostrou assustada e rompeu o contato por alguns dias. No momento oportuno, Teddy suspendeu seu serviço no Departamento de Estado e chamou-a de volta a Langley. Durante duas semanas, ela não falou com seus amigos na embaixada chinesa.

Depois, ela telefonou e a oferta subiu para meio milhão de dólares. Helen exigiu um milhão, alegando que estava arriscando sua carreira e liberdade, que valiam mais do que isso. Os chineses concordaram.

Um dia depois da demissão de Teddy, ela ligou para seu controlador e pediu uma reunião secreta. Entregou-lhe um pedaço de papel com as instruções para a transferência do dinheiro para uma conta bancária no Panamá, que pertencia secretamente à CIA. Quando o dinheiro estivesse na conta, disse ela, marcaria um novo encontro e informaria onde Joel Backman se encontrava. Também entregaria uma foto recente de Backman.

O encontro seria de passagem, sem que os dois se falassem, de tal maneira que ninguém perceberia nada fora do normal. Depois do trabalho, Helen Wang passou pela Loja Kroger, em Bethesda. Foi até o final do corredor 12, onde ficavam revistas e livros. Seu controlador estava ali, folheando um exemplar da Lacrosse Magazine. Helen pegou outro exemplar da mesma revista e meteu dentro de um envelope. Virou algumas páginas, com um tédio ostensivo, e largou a revista na prateleira. O controlador dava uma olhada nos semanários esportivos. Helen se afastou, mas só foi embora depois que o viu pegar a revista.

Para variar, a rotina de espionagem não era necessária. Os amigos de Helen na CIA não estavam vigiando, porque haviam acertado o encontro. Conheciam o controlador havia muitos anos.

O envelope continha uma folha de papel, uma cópia xerox colorida de uma foto 20x24 mostrando Joel Backman andando por uma rua. Ele estava muito mais magro, tinha o princípio de um cavanhaque grisalho, óculos ao estilo europeu e vestia-se como um habitante local. No fundo da página, estava escrito: Joel Backman, Via Fondazza, Bolonha, Itália. O controlador examinou a foto, aturdido, ao sentar em seu carro. Depois, partiu o mais depressa que podia para a embaixada da República Popular da China, na Winsconsin Avenue, em Washington.

A princípio, os russos pareciam não ter o menor interesse pelo paradeiro de Joel Backman. Os sinais irradiados foram interpretados de diferentes modos em Langley. Não se chegou a nenhuma conclusão prematura, porque nenhuma era possível. Durante anos, os russos haviam alegado secretamente que o chamado sistema Netuno era seu, o que contribuíra bastante para a confusão na CIA.

Para grande surpresa do mundo da inteligência, a Rússia conseguia manter no espaço cerca de cento e sessenta satélites de reconhecimento por ano, mais ou menos a mesma quantidade da antiga União Soviética. Sua presença no espaço não diminuíra, ao contrário do que fora previsto pelo Pentágono e pela CIA.

Em 1999, um desertor do GRU, o serviço de inteligência militar dos russos, sucessor da KGB, informara à CIA que Netuno não pertencia à Rússia. Haviam sido apanhados de surpresa, tanto quanto os americanos. As suspeitas se deslocaram para a China, que estava muito mais atrasada no jogo dos satélites de espionagem.

Ou será que não?

Os russos queriam saber sobre Netuno, mas não estavam dispostos a pagar por informações sobre Backman. Quando as aberturas de Langley foram em grande parte ignoradas, a mesma foto colorida vendida aos chineses foi enviada por um e-mail anônimo para quatro chefes da inteligência russa na Europa, operando sob cobertura diplomática.

O vazamento para os sauditas foi efetuado por intermédio de um executivo de uma empresa petrolífera americana baseado em Riad. Seu nome era Taggett e vivia no país havia mais de vinte anos. Era fluente em árabe e freqüentava os círculos sociais com a facilidade que era possível para um estrangeiro. Era bastante ligado a um burocrata de nível médio que trabalhava no gabinete do ministro do Exterior saudita. Num chá ao final da tarde, ele comentou que sua empresa fora no passado representada por Joel Backman. Além disso, o que era muito mais importante, Taggett alegou que sabia onde Backman se escondia.

Cinco horas depois, Taggett foi despertado pela campainha da porta. Três homens de terno, ainda jovens, entraram no apartamento e exigiram alguns minutos de seu tempo. Pediram desculpas, explicaram que trabalhavam na polícia saudita e precisavam muito conversar. Quando pressionado, Taggett passou a informação que fora instruído a revelar.

Joel Backman escondia-se em Bolonha, Itália, sob um nome diferente. Isso era tudo o que ele sabia.

Poderia descobrir mais?

Talvez.

Perguntaram se poderia deixar o país na manhã seguinte, voltar para a matriz da empresa, em Nova York, e obter mais informações sobre Backman. Era muito importante para o governo saudita e a família real.

Taggett concordou. Qualquer coisa pelo rei.

 

Todos os anos, em março, pouco antes do Dia da Ascensão, os habitantes de Bolonha subiam pela Colle delia Guardiã, partindo do Portão de Saragoza, sob o mais longo caminho em arcadas contínuo do mundo. Passavam pelas seiscentas e sessenta e seis arcadas e quinze capelas, até o Santuário de San Luca, no alto da colina. Pegavam a imagem da Madona e desciam para a cidade, onde marchavam em procissão pelas ruas apinhadas, até a Catedral de San Pietro. A imagem permanecia ali por oito dias, até que outra procissão a levava de volta para San Luca. Era uma festa religiosa exclusiva de Bolonha e se realizava sem qualquer interrupção desde 1476.

Sentados no Santuário di San Luca, Francesca descreveu o ritual e explicou o quanto significava para o povo de Bolonha. Para Marco, o santuário era bonito, mas apenas outra igreja vazia.

Haviam pegado o ônibus desta vez, evitando as seiscentas e sessenta e seis arcadas e a subida de 3,6 quilômetros. Marco ainda sentia dor nas panturrilhas, por conta da visita a San Luca três dias antes.

Ela estava tão preocupada com seus problemas que começou a falar em inglês, sem perceber. Marco não se queixou. Quando acabou de falar sobre a procissão, Francesca passou a mostrar os pontos interessantes na catedral, como a arquitetura e construção do domo, a pintura dos afrescos. Marco fazia um esforço desesperado para prestar atenção. Os domos, afrescos esmaecidos, criptas de mármore e santos mortos de Bolonha confundiam-se agora em sua mente. Ele se descobriu a pensar num tempo mais quente. Poderiam, então, conversar ao ar livre. Visitariam os adoráveis parques da cidade. Marco seria capaz de vomitar se ela mencionasse sequer uma catedral.

Francesca, contudo, não estava pensando num tempo mais quente. Seus pensamentos pairavam longe.

- Já falou a respeito - interrompeu Marco, quando ela apontou para um quadro por cima do batistério.

- Desculpe. Estou aborrecendo-o?

Ele quase disse a verdade, mas mudou de idéia.

- Não. Mas já vi o suficiente.

Deixaram o santuário e foram para os fundos, seguindo pelo caminho secreto que descia por alguns degraus para o lugar em que se tinha a melhor vista da cidade. A última neve estava se derretendo rapidamente dos telhados vermelhos. Era o dia 18 de março.

Francesca acendeu um cigarro e permaneceu calada, parecendo se contentar em admirar Bolonha.

-  Gosta da minha cidade? - perguntou ela, depois de um longo momento.

- Gosto muito.

- O que mais aprecia?

Depois de seis anos na prisão, qualquer cidade seria maravilhosa. Marco pensou por um momento.

- É uma cidade autêntica, com as pessoas morando onde trabalham. É segura e limpa, atemporal. As coisas não mudaram muito ao longo dos séculos. As pessoas prezam a história da cidade e se orgulham de suas realizações.

Ela balançou a cabeça ligeiramente, aprovando a análise.

- Os americanos me deixam espantada. Quando os guio através de Bolonha, eles estão sempre com pressa, sempre ansiosos em ver um lugar para riscá-lo de sua lista, e poderem passar para o seguinte. E vivem perguntando por amanhã e o dia seguinte. Por que isso?

- Sou a pessoa errada para perguntar.

- Por quê?

- Já esqueceu que sou canadense?

- Você não é canadense.

- Tem razão. Sou de Washington.

- Já estive lá. Nunca vi tantas pessoas correndo de um lado para outro sem chegarem a parte alguma. Não compreendo o desejo por uma vida tao frenética. Tudo tem de ser rápido... trabalho, comida, sexo.

- Não faço sexo há seis anos.

O olhar de Francesca transmitia muitas indagações.

- Não quero falar sobre isso.

- Foi você quem levantou o assunto.

Ela deu uma tragada no cigarro.

- Por que não faz sexo há seis anos?

- Porque estava na prisão, em confinamento solitário.

Francesca teve um pequeno sobressalto. Empertigou-se.

- Matou alguém?

- Não... nada parecido. Sou inofensivo. Outra pausa, outra tragada.

- Por que está aqui?

- Com toda franqueza, não sei.

- Quanto tempo vai ficar?

- Talvez Luigi possa responder.

- Luigi...

Ela falou como se quisesse cuspir em desdém. Virou-se e começou a andar. Marco seguiu-a, porque era o que deveria fazer.

- De que está se escondendo?

- É uma história muito longa, e você não vai querer saber.

- Corre perigo?

- Acho que sim. Não sei até que ponto. Digamos apenas que tenho medo de usar meu verdadeiro nome, e tenho medo de voltar para casa.

- Parece muito perigo para mim. Onde Luigi entra nessa história?

- Acho que ele está me protegendo.

- Por quanto tempo?

- Não sei.

- Por que você simplesmente não desaparece?

- É o que estou fazendo agora. Em pleno processo de desaparecimento. Mas para onde eu poderia ir? Não tenho dinheiro, nem passaporte, nem qualquer documento de identidade. Oficialmente, eu não existo.

- Tudo isso é muito confuso.

- Tem razão. Por que não abandonamos o assunto?

Marco desviou os olhos por um instante e não a viu cair. Ela usava botas de couro preto, de saltos baixos. Torceu o pé esquerdo ao pisar numa pedra na trilha estreita. Ofegou e bateu no chão com toda força, estendendo as mãos no último segundo para amortecer a queda. A bolsa voou para a frente. Ela gritou alguma coisa em italiano. Marco ajoelhou-se para ajudá-la.

- É o tornozelo.

Francesca fez uma careta. Já tinha os olhos cheios de lágrimas. O rosto bonito se contraía em dor. Marco levantou-a do chão molhado. Carregou-a para um banco próximo. Foi buscar a bolsa.

- Devo ter tropeçado. Sinto muito.

Ela fez um esforço para conter as lágrimas, mas logo desistiu.

- Calma, calma... - murmurou Marco, ajoelhando-se na sua frente. - Posso tocá-la?

Ela ergueu um pouco a perna esquerda, mas a dor era muito intensa.

- Vamos deixar a bota no pé - disse Marco, apalpando-o com o maior cuidado.

- Acho que fraturei. - Ela tirou um lenço de papel da bolsa. Respirava com dificuldade e rangia os dentes. - Sinto muito.

- Vamos dar um jeito.

Marco olhou ao redor. Não havia ninguém nas proximidades. O ônibus subira quase vazio. Fazia pelo menos dez minutos que não viam ninguém.

- Hum... vou entrar para pedir ajuda.

- Faça isso, por favor.

- Não se mexa. Volto num instante.

Marco apertou o joelho de Francesca e ela conseguiu dar um sorriso. Ele afastou-se apressado e quase caiu também. Correu para os fundos da igreja. Não viu ninguém ali. Onde fica o escritório de uma igreja? Onde se pode encontrar o curador, administrador, chefe dos padres? Quem está no comando? Lá fora, ele deu duas voltas em torno da igreja, antes de avistar um zelador saindo de uma porta parcialmente oculta, dando para o jardim.

- Mi pub aiutare? - gritou Marco.

O zelador fitou-o sem dizer nada. Marco tinha certeza de que falara claramente. Adiantou-se e acrescentou:

- La mia amica si éfatta male. Minha amiga se machucou.

- Dovè? Onde?

Marco apontou.

- Li, dietro alla chiesa. Ali, por trás da igreja.

- Aspetti. Espere.

Ele virou-se, voltou até a porta e abriu-a.

- Si sbrighi, perfavore. Apresse-se, por favor.

Um ou dois minutos se passaram, lentamente. Marco esperava, nervoso, querendo correr de volta, para verificar como Francesca estava. Se ela fraturara um osso, o choque poderia vir num instante. Uma porta maior, por baixo do batistério, foi aberta. Um homem de terno saiu apressado, acompanhado pelo zelador.

- La mia amica e caduta - disse Marco. Minha amiga caiu.

- Onde ela está? - perguntou o homem, num inglês excelente. Atravessaram um pequeno pátio pavimentado, desviando-se da neve que ainda não derretera.

- Lá atrás. O problema é o tornozelo. Ela acha que fraturou. Talvez precisemos de uma ambulância.

O homem de terno olhou para trás e disse alguma coisa para o zelador em tom incisivo. O zelador desapareceu.

Francesca estava sentada na beira do banco, com tanta dignidade quanto era possível. Mantinha um lenço de papel comprimido contra a boca, o choro cessara. O homem não sabia seu nome, mas era evidente que já a vira antes em San Luca. Conversaram em italiano e Marco não entendeu a maior parte.

A bota esquerda continuava no pé, e foi acertado que assim deveria permanecer, para evitar a inchação. O homem, Sr. Coletta, parecia ter noção de primeiros socorros. Examinou os joelhos e as mãos de Francesca. Estavam arranhados e doloridos, mas não sangravam.

- É apenas uma torção - murmurou ela. - Acho que não há nenhuma fratura.

- Uma ambulância vai demorar uma eternidade para chegar aqui - disse o Sr. Coletta. - Eu a levarei ao hospital.

Uma buzina soou ali perto. O zelador fora buscar um carro e parara tao perto quanto era possível.

- Acho que posso andar - murmurou Francesca, corajosa, fazendo um esforço para se levantar.

- Nada disso - protestou Marco. - Vamos ajudá-la.

Cada um segurou-a por um lado e levantaram-na. Francesca fez uma careta quando se apoiou no pé, mas declarou:

- Não está quebrado. É apenas uma torção.

Ela insistiu em andar, mas os dois quase a carregaram até o carro. Ajeitaram-na no banco de trás, com os pés no colo de Marco, as costas apoiadas na porta esquerda. Depois que os passageiros estavam acomodados, o Sr. Coletta sentou ao volante. Recuou de ré por um caminho estreito margeado por arbustos. Logo alcançou a ladeira estreita e pavimentada. Começaram a descer para Bolonha.

Francesca pôs os óculos escuros, para cobrir os olhos. Marco notou um filete de sangue no joelho esquerdo. Tirou o lenço de papel da mão de Francesca e começou a limpar o sangue.

- Obrigada - sussurrou ela. - Lamento ter arruinado seu dia.

- Pare com isso, por favor - murmurou Marco, sorrindo. Na verdade, era o seu melhor dia com Francesca. A queda deixara-a humilde, fazendo com que parecesse humana. Despertava emoções humanas, apesar de toda a relutância. Permitia um contato físico sincero, uma pessoa tentando genuinamente ajudar outra. Fazia com que Marco entrasse em sua vida. Independentemente do que acontecesse em seguida, no hospital ou em sua casa, ele teria se envolvido por um momento. No pronto-socorro, Francesca precisaria de sua presença, mesmo que não quisesse.

Enquanto segurava os pés de Francesca e olhava pela janela, Marco compreendeu como se sentia desesperado por um relacionamento de qualquer tipo, com qualquer pessoa.

E qualquer pessoa serviria para isso.

Depois que desceram a ladeira, Francesca disse ao Sr. Colleta:

- Eu gostaria de ir para o meu apartamento. Ele olhou pelo espelho retrovisor.

- Acho que deve procurar um médico.

- Talvez mais tarde. Descansarei um pouco para ver como fica o pé.

A decisão fora tomada, qualquer argumentação em contrário seria inútil. Marco também tinha um conselho a dar, mas absteve-se. Queria saber onde ela morava.

- Está bem - murmurou o Sr. Coletta.

- Moro na Via Minzoni, perto da estação ferroviária. Marco sorriu para si mesmo, orgulhoso porque conhecia a rua. Podia situá-la num mapa, na margem norte da parte antiga da cidade, uma área agradável, mas não um dos melhores bairros da cidade. Passara por lá, a pé, pelo menos uma vez. Havia um café que funcionava desde o amanhecer, no final da rua, perto da Piazza dei Martin. Enquanto percorriam o perímetro, Marco olhava para cada placa de rua, verificava cada cruzamento, e sabia exatamente onde se encontrava em todos os momentos.

Ninguém disse mais nada. Ele segurava os pés de Francesca, as botas pretas, elegantes mas já um pouco gastas, sujando sua calça de lã. Quando entraram na Via Minzoni, ela disse:

- Dois quarteirões adiante, no lado direito. Pouco depois, Francesca acrescentou:

- Ali na frente. Há uma vaga atrás daquele BMW verde.

Os dois tiraram-na gentilmente do banco para a calçada. Ela se desvencilhou e tentou andar. O tornozelo cedeu e tiveram de ampará-la.

- Moro no segundo andar - informou ela, rangendo os dentes.

Havia oito apartamentos no prédio. Marco observou-a apertar o botão ao lado do nome de Giovanni Ferro. Uma voz de mulher perguntou quem era.

- Francesca - respondeu ela.

A porta se abriu com um estalido. Entraram num saguão escuro e mal conservado. Havia um elevador à direita, com a porta aberta, esperando. Os três embarcaram, apertados.

- Estou bem agora - insistiu Francesca, obviamente tentando se livrar de Marco e do Sr. Coletta.

-  Precisamos pôr gelo no tornozelo - comentou Marco enquanto subiam.

O elevador parou com o maior estardalhaço. A porta se abriu depois de um longo momento. Eles saíram, os dois homens ainda amparando Francesca pelo cotovelo. A porta do apartamento ficava a poucos passos de distância. Quando alcançaram-na, o Sr. Coletta achou que já fora longe demais.

- Lamento muito pelo que aconteceu - disse ele. - Se houver contas de médico, pode fazer o favor de me avisar?

- Não se preocupe. Já foi bastante gentil. Obrigada.

- Também agradeço - murmurou Marco, ainda amparando Francesca.

Ele apertou a campainha e esperou, enquanto o Sr. Coletta voltava ao elevador e descia. Francesca desvencilhou-se e disse:

- Está tudo bem agora, Marco. Posso dar um jeito daqui por diante. Minha mãe está em casa para me ajudar.

Ele esperava por um convite para entrar, mas não tinha condições de pressionar. O episódio chegara ao final de seu curso para ele. Descobrira muito mais do que poderia esperar. Sorriu, largou o braço de Francesca e já ia se despedir quando ouviu um estalido alto. Francesca virou-se para a porta. Ao fazê-lo, apoiou o peso do corpo no tornozelo machucado. Vergou de novo, levando-a a soltar um grito e tentar se apoiar nele.

A porta foi aberta no momento em que Francesca desmaiava.

A mãe era a signora Altonelli, já na casa dos setenta anos. Não falava inglês e, nos primeiros minutos, frenéticos, pensou que fora Marco quem machucara a filha. O italiano hesitante de Marco se provou inadequado, ainda mais sob a pressão do momento. Ele carregou Francesca até o sofá, levantou seus pés e conseguiu transmitir a idéia de “ghiaccio, ghiaccio”. A velha recuou, relutante, e desapareceu na cozinha.

Francesca já se mexia quando a mãe voltou com uma pequena toalha e um saco plástico com gelo.

- Você desmaiou - disse Marco.

Ela pegou a mão de Marco e olhou ao redor, angustiada.

- Chi è? - perguntou a mãe, desconfiada.

-  Un amico.

Ele enxugou o rosto suado de Francesca com a toalha. Ela começou a se recuperar. Num italiano rápido, como ele nunca ouvira antes, Francesca explicou o que acontecera. As rajadas de metralhadora de uma para outra deixaram-no atordoado, enquanto tentava entender alguma palavra, até que desistiu por completo. Subitamente, a signora Altonelli sorriu e apertou o ombro de Marco com evidente aprovação. Bom rapaz. Quando a mãe se retirou, Francesca informou:

- Ela foi fazer um café.

- Boa idéia. - Marco puxara um banco para perto do sofá, sentara e esperara. - Precisamos pôr gelo em seu pé.

- Tem razão.

Os dois olharam para as botas de Francesca.

- Pode tirá-las? - pediu ela.

- Claro.

Marco baixou o zíper da bota direita e tirou-a com todo cuidado, como se aquele pé também estivesse machucado. Foi mais devagar com a bota esquerda. Cada movimento causava dor. Em determinado momento, ele perguntou:

- Não prefere tirar você mesma?

- Não. Continue, por favor.

O zíper parou quase exatamente no tornozelo. A inchação dificultava a retirada da bota. Depois de longos minutos de puxões delicados, em que a paciente sofreu com os dentes cerrados, a bota finalmente saiu.

Ela usava meias pretas. Marco examinou-as por um instante, para depois anunciar:

- Terá de tirar as meias também.

- Claro.

A mãe voltou à sala. Disse alguma coisa em italiano. Francesca olhou para Marco.

- Por que não espera na cozinha?

A cozinha era pequena, mas impecável, com cromados e vidros, sem um centímetro de espaço desperdiçado. Uma cafeteira de alta tecnologia gorgolejava no balcão. As paredes de uma pequena copa estavam cobertas por arte abstrata. Marco esperou e escutou, enquanto mãe e filha conversavam.

As meias foram tiradas sem causar muita dor. Quando Marco voltou à sala, a signora Altonelli já estava ajeitando o saco de gelo no tornozelo esquerdo.

-  Ela diz que não está quebrado - informou Francesca. - Trabalhou num hospital durante muitos anos.

- Ela mora em Bolonha?

- Em Imola, a alguns quilômetros daqui.

Marco sabia exatamente onde ficava, pelo menos no mapa.

- Acho melhor eu partir agora.

Ele não queria sair, mas começava a se sentir como um invasor.

- Precisa tomar um café - disse Francesca. A mãe foi para a cozinha.

- Eu me sinto um intrometido - murmurou Marco.

- Não pense assim, por favor. Depois de tudo o que fez hoje, é o mínimo que posso fazer por você.

A mãe voltou com duas pílulas e um copo com água. Francesca engoliu as pílulas e tomou a água. Encostou a cabeça nas almofadas. Trocou algumas palavras com a mãe. Olhou para Marco.

-  Ela tem uma torta de chocolate na geladeira. Quer uma fatia?

- Quero sim, obrigado.

E a mãe se retirou de novo, cantarolando agora, bastante satisfeita por ter alguém para cuidar e alguém para alimentar.

- Está doendo?

- Está sim. - Francesca sorriu. - Dói muito.

Marco não pôde pensar em qualquer comentário apropriado. Resolveu voltar para um terreno comum.

- Aconteceu muito depressa.

Passaram-se alguns minutos recordando a queda. Depois, ficaram em silêncio. Francesca fechou os olhos. Parecia cochilar.

Marco cruzou os braços. Ficou olhando para um quadro enorme e estranho que cobria quase toda uma parede.

O prédio era antigo, mas o interior do apartamento indicava que Francesca e o marido eram modernistas determinados. Os móveis eram baixos, de couro preto, com armações de aço, minimalistas. As paredes eram cobertas por uma desconcertante arte contemporânea.

- Não podemos contar a Luigi o que aconteceu - sussurrou ela de repente.

- Por que não?

Francesca hesitou, mas acabou explicando:

- Ele me paga duzentos euros por semana para lhe dar aulas, Marco, e vive se queixando do preço. Já discutimos. Ele ameaçou procurar outra pessoa. Para ser franca, preciso do dinheiro. Só tenho turistas para guiar uma ou duas vezes por semana, pois estamos na baixa temporada. A situação vai melhorar dentro de um mês, quando os turistas começarem a vir do sul. Mas, por enquanto, não estou ganhando muito.

A fachada estóica desaparecera havia muito tempo. Marco não podia acreditar que ela se permitisse ser tão vulnerável. A mulher estava assustada, e ele faria qualquer coisa para ajudá-la. Francesca acrescentou:

- Tenho certeza de que ele vai cancelar meus serviços se eu faltar alguns dias.

- Mas não tem outro jeito.

Marco olhou para o saco de gelo no tornozelo.

- Não podemos manter em segredo? Afinal, poderei andar de novo em poucos dias.

-  Podemos tentar, mas Luigi sempre tem um jeito de saber das coisas. Ele costuma me seguir. Posso ligar amanhã e dizer que não estou me sentindo bem. Inventaremos outra desculpa para o dia seguinte. Talvez pudéssemos estudar aqui.

- Não é possível. Meu marido está aqui. Marco não pôde deixar de olhar para trás.

- Aqui?

- No quarto. Muito doente. -O quê...

-  Câncer. Em estágio terminal. Minha mãe fica com ele quando estou trabalhando. Uma enfermeira vem do hospital todas as tardes para dar os remédios.

- Sinto muito.

- Eu também.

- Não se preocupe com Luigi. Direi a ele que estou adorando suas aulas e que me recuso a ter qualquer outra pessoa.

- Seria uma mentira, não é mesmo?

- Mais ou menos.

A signora Altonelli voltou com a torta e o espresso. Pôs numa mesinha baixa vermelha no meio da sala e começou a cortar as fatias. Francesca aceitou o café, mas não tinha vontade de comer. Marco comeu tão devagar quanto era humanamente possível. Tomava pequenos goles da xícara, como se assim pudesse fazê-lo durar mais tempo. Quando a signora Altonelli insistiu em outra fatia e mais café, ele aceitou, relutante.

Passou cerca de uma hora no apartamento. No elevador, descendo, refletiu que Giovanni Ferro não emitira qualquer som.

 

A principal agência de inteligência da China, o Ministério da Segurança do Estado, ou MSE, usava unidades pequenas e muito bem treinadas para executar assassinatos no mundo inteiro, da mesma forma que os russos, israelenses, britânicos e americanos.

Uma diferença notável, no entanto, era o fato de que os chineses haviam passado a depender de uma unidade em particular. Em vez de espalhar o chamado trabalho sujo entre vários grupos, como faziam outros países, o MSE recorria primeiro a um jovem que a CIA e o Mossad vinham observando havia vários anos com a maior admiração. Seu nome era Sammy Tin, o produto de dois diplomatas chineses, que fora selecionado pelo MSE, segundo os rumores, para casar e se reproduzir. Se algum dia fosse clonado um agente perfeito, seria de Sammy Tin. Nascido na cidade de Nova York e criado nas comunidades suburbanas em torno de Washington, fora educado por tutores particulares, que o bombardearam com o ensino de várias línguas desde que deixara de usar fraldas. Ingressara na Universidade de Maryland aos dezesseis anos, saíra com dois diplomas aos vinte e um anos, e fora estudar engenharia em Hamburgo, Alemanha. Em algum momento ao longo do caminho, escolhera a fabricação de bombas como hobby. Os explosivos tornaram-se sua paixão, com ênfase nas explosões controladas das mais insólitas embalagens, como um envelope, um copo de papel, uma caneta esferográfica, um maço de cigarros. Era um exímio atirador, mas as armas de fogo eram simples demais e por isso deixavam-no entediado. O Tin Man, ou Homem de Lata, como era conhecido, adorava suas bombas.

Depois, ele estudou química, sob um nome falso, em Tóquio. Aprendeu ali a arte e a ciência de matar com venenos. Aos vinte e quatro anos de idade, já tivera uma dúzia de nomes diferentes, falava a mesma quantidade de línguas e cruzara fronteiras com ampla variedade de passaportes e disfarces. Podia convencer qualquer agente na fronteira, em qualquer lugar, de que era japonês, coreano ou taiwanês.

Para completar seu treinamento, passara um ano extenuante de treinamento numa unidade de elite do Exército chinês. Aprendera a acampar, cozinhar numa fogueira, atravessar rios turbulentos, sobreviver no mar e viver no deserto por muitos dias. Quando completou vinte e seis anos, o MSE decidiu que já estudara o suficiente. Era tempo de começar a matar.

Até onde Langley podia determinar, ele iniciara sua espantosa contagem de corpos com os assassinatos de três cientistas chineses que mantinham ligações estreitas demais com os russos. Liquidara-os durante o jantar, num restaurante em Moscou. Enquanto os seguranças esperavam do lado de fora, um deles teve a garganta cortada quando usava o mictório. Levaram uma hora para encontrar o corpo, espremido dentro de uma lata de lixo. O segundo cometeu o erro de se preocupar com o primeiro. Foi ao banheiro, onde o Homem de Lata esperava, vestido como faxineiro. Encontraram-no com a cabeça dentro de um vaso, transbordando. O terceiro morreu segundos depois, à mesa, onde sentava sozinho, cada vez mais preocupado com os dois colegas desaparecidos. Um homem num casaco de garçom passou apressado. Sem diminuir a velocidade, disparou um dardo envenenado na nuca do cientista.

Em matéria de assassinatos, fora um trabalho desleixado. Sangue demais, muitas testemunhas. A fuga fora arriscada, mas o Homem de Lata conseguira escapar pela cozinha movimentada sem ser notado. Já corria pela viela nos fundos do restaurante quando os seguranças foram chamados. Esgueirou-se pela cidade escura, pegou um táxi e, vinte minutos mais tarde, entrava na embaixada chinesa. No dia seguinte estava em Beijing, comemorando discretamente seu primeiro sucesso.

A audácia do ataque chocou o mundo da inteligência. As agências rivais empenharam-se em descobrir quem fora o autor. Era absolutamente diferente da maneira como os chineses costumavam liquidar seus inimigos. Eles eram famosos por sua paciência, a disciplina para esperar e esperar, até chegar o momento perfeito. Insistiam até que a presa simplesmente desistia. Ou descartavam um plano e assumiam outro, esperando pela oportunidade certa.

Quando aconteceu de novo, alguns meses depois, em Berlim, surgiu a lenda do Homem de Lata. Um executivo francês vendera falsos segredos de alta tecnologia sobre um suposto radar móvel. Fora jogado da sacada de um quarto de hotel no 14? andar. Perturbara alguns banhistas ao cair ao lado da piscina. Mais uma vez, o assassinato fora ostensivo demais.

Em Londres, o Homem de Lata explodira a cabeça de um homem com um celular. Um desertor em Chinatown, na cidade de Nova York, perdera a maior parte do rosto quando um cigarro explodira. Sammy Tin logo recebia o crédito pela maioria dos mais dramáticos assassinatos no submundo da inteligência. A lenda cresceu rapidamente. Embora mantivesse quatro ou cinco membros de confiança em sua unidade, ele costumava trabalhar sozinho. Perdera um homem em Cingapura, quando o alvo aparecera com alguns amigos, todos armados. Fora um raro fracasso, e a lição aprendida fora a de permanecer discreto, atacar depressa e não manter muitas pessoas na folha de pagamento.

À medida que ele amadurecia, os assassinatos foram se tornando menos dramáticos, menos violentos e muito mais fáceis de esconder. Ele tinha agora trinta e três anos e era sem dúvida o mais temido agente do mundo. A CIA gastava uma fortuna tentando rastrear seus movimentos. Sabiam que ele estava em Beijing, em seu luxuoso apartamento. Quando ele viajou, acompanharam seu rastro até Hong Kong. A Interpol foi alertada quando ele embarcou num vôo sem escalas para Londres. Ali, ele trocou de passaporte, e no último instante embarcou num vôo da Alitalia para Milão.

A Interpol só podia vigiar. Sammy Tin viajava muitas vezes com cobertura diplomática. Não era um criminoso, era um agente, um diplomata, um executivo, um professor, qualquer coisa que precisasse ser.

Um carro aguardava-o no Aeroporto de Malpensa, em Milão. Ele desapareceu na cidade. Até onde a CIA podia saber, havia quatro anos e meio que o Homem de Lata não visitava a Itália.

 

O Sr. Elya parecia sem dúvida com um rico empresário saudita, embora o terno fosse muito pesado, quase preto, escuro demais para Bolonha, com as listras muito escuras para qualquer coisa projetada na Itália. E a camisa era rosa, com um colarinho branco reluzente. Não era uma combinação tao ruim assim, mas... ora, ainda assim a camisa era rosa. Entre as pontas do colarinho havia uma barra de ouro, também muito grossa, que pressionava o nó da gravata, dando a impressão de que sufocava o homem. Havia um diamante em cada ponta da barra. O Sr. Elya apreciava diamantes. Tinha um grande em cada mão, dezenas de menores incrustados no Rolex, mais dois nas abotoaduras de ouro. Os sapatos, para Stefano, pareciam ser italianos, novos, castanhos, mas claros demais para o terno.

Como um todo, o conjunto não funcionava. Mas era uma tentativa e tanto. Stefano teve tempo para analisar o cliente, enquanto seguiam em silêncio virtual desde o aeroporto, onde o Sr. Elya e seu assistente haviam chegado num jato particular, ao centro de Bolonha. Estavam no banco traseiro de um Mercedes preto, uma das condições do Sr. Elya, com o motorista em silêncio, ao lado do assistente, que obviamente só falava árabe. O inglês do Sr. Elya era passável, em rápidos ímpetos, quase sempre acompanhados por algumas palavras em árabe para o assistente, que parecia compelido a anotar tudo o que o chefe dizia.

Depois de dez minutos com eles no carro, Stefano já estava torcendo para terminarem muito antes do almoço.

O primeiro apartamento mostrado por Stefano era perto da universidade, onde o filho do Sr. Elya chegaria em breve, para estudar medicina. Quatro cômodos, no segundo andar, sem elevador, um prédio antigo e sólido, muito bem mobiliado, certamente luxuoso para qualquer estudante: mil e oitocentos euros por mês, locação de um ano, taxas e serviços não incluídos. O Sr. Elya limitou-se a franzir o rosto, como se o filho mimado precisasse de algo muito melhor. O assistente também franziu o rosto. Continuaram de rosto franzido enquanto desciam a escada e embarcavam no carro. Mantiveram-se em silêncio, enquanto o motorista os levava para o segundo apartamento.

Ficava na Via Remorsella, no quarteirão a oeste da Via Fondazza. O apartamento era um pouco maior do que o primeiro, tinha uma cozinha do tamanho de um closet de vassouras, era mal mobiliado, não tinha qualquer vista, ficava a vinte minutos da universidade, custava dois mil e seiscentos euros por mês e tinha até um cheiro estranho. Os rostos se desanuviaram, como se eles gostassem do apartamento.

- Este serve - declarou o Sr. Elya.

Stefano deixou escapar um suspiro de alívio. Com um pouco de sorte, não precisaria acompanhá-los no almoço. E ainda receberia uma considerável comissão.

Foram para a administradora em que Stefano trabalhava. O contrato foi preparado e assinado em tempo recorde. O Sr. Elya era um homem ocupado, com uma reunião urgente em Roma. Se não fosse possível fechar o negócio imediatamente, era melhor esquecer.

O Mercedes preto levou-os de volta ao aeroporto. Stefano, nervoso e exausto, agradeceu e despediu-se. Foi embora tão depressa quanto podia. O Sr. Elya e seu assistente atravessaram a pista até o jato e embarcaram. A porta foi fechada.

Mas o jato não saiu do lugar. Lá dentro, o Sr. Elya e seu assistente tiraram os ternos e vestiram roupas informais. Conversaram com os outros três membros da equipe. Esperaram cerca de uma hora antes de deixarem o jato, levando a bagagem considerável para as vans à espera.

 

Luigi começara a desconfiar da bolsa azul-marinho Silvio. Marco nunca a deixava no apartamento. Nunca saía de sua vista. Marco levava-a por toda parte, pendurada no ombro, apertada sob o braço, como se contivesse ouro.

O que ele podia possuir agora que precisasse de tanta proteção? Quase nunca saía com o material de estudo. Se estudava com Ermanno dentro de casa, era sempre no apartamento de Marco. Se estudavam fora de casa, era tudo conversa, sem necessidade de livros.

Whitaker, em Milão, também estava desconfiado, ainda mais depois que Marco fora avistado num cibercafé nas proximidades da universidade. Enviara um agente chamado Krater para Bolonha, a fim de ajudar Zellman e Luigi a manterem a vigilância sobre Marco e sua bolsa misteriosa. Com o laço do carrasco apertando e os fogos de artifício esperados, Whitaker pedira a Langley mais homens nas ruas.

Mas Langley estava no caos. A saída de Teddy, embora não fosse inesperada, virará a agência pelo avesso. As ondas de choque da demissão de Lucat ainda eram sentidas. O presidente ameaçava com uma profunda reformulação, e os vice-diretores e administradores do alto escalão passavam mais tempo protegendo seus traseiros que cuidando de suas operações.

Foi Krater quem recebeu a mensagem pelo rádio, enviada por Luigi, que Marco seguia para a Piazza Maggiore, provavelmente para o seu café habitual no final da tarde. Krater avistou-o quando ele atravessava a praça, a bolsa azul-marinho debaixo do braço direito, muito parecido com um morador local. Depois de estudar uma pasta volumosa sobre Joel Backman, era agradável, finalmente, avistá-lo em pessoa. Se o pobre coitado ao menos soubesse...

Mas Marco não estava com sede, pelo menos ainda não. Passou pelos cafés e lojas e, depois de um olhar furtivo ao redor, entrou no Albergo Nettuno, um pequeno hotel com cinqüenta quartos. Krater avisou a Zellman e Luigi, que ficou perplexo, porque Marco não tinha qualquer motivo para entrar num hotel. Krater esperou cinco minutos, depois entrou no pequeno saguão, absorvendo tudo o que via. À direita, algumas poltronas e uma mesinha com revistas de viagens em cima. À esquerda, havia uma pequena sala com um telefone, vazia, a porta aberta. A sala seguinte não estava vazia. Marco estava sentado ali, sozinho, debruçado sobre a mesinha, por baixo do telefone na parede, a bolsa azul aberta. Estava absorvido demais para perceber a passagem de Krater.

- Posso ajudá-lo, senhor? - perguntou o recepcionista.

- Eu queria alugar um quarto - disse Krater, em italiano.

- Para quando?

- Esta noite.

- Lamento, senhor, mas não temos nenhum quarto vago.

Krater pegou um folheto no balcão.

- Estão sempre lotados - comentou ele com um sorriso. - É um hotel popular.

- É verdade. Talvez em outra ocasião.

- Por acaso tem acesso à Internet?

- Claro.

- Sem fio?

- Isso mesmo. O primeiro hotel na cidade a oferecer.

Krater recuou.

- Obrigado. Tentarei de novo em outra ocasião.

- Teremos o maior prazer.

Ele passou pela sala do telefone ao sair. Marco não levantara os olhos.

Com os polegares, ele digitava o texto, torcendo para que o recepcionista não pedisse que se retirasse. O acesso à Internet sem fio era anunciado pelo Nettuno, mas apenas para os hóspedes. Os cafés, bibliotecas e uma livraria ofereciam de graça para qualquer um que entrasse, mas não os hotéis. Seu e-mail dizia:

Grinch: Tive contatos no passado com um diretor de banco chamado Mikel van Thiessen, no Rhineland Bank, na Bahnhofstrasse, no centro de Zurique. Tente descobrir se ele ainda trabalha ali. Se não, quem ficou em seu lugar? Não deixe pistas!

Marco

Ele apertou o botão para enviar a mensagem e mais uma vez rezou para ter feito tudo certo. Desligou o Ankyo 850 e guardou-o na bolsa. Ao sair, acenou com a cabeça para o recepcionista, que falava ao telefone.

Dois minutos depois de Krater, Marco também deixou o hotel. Foi observado de três pontos diferentes. Seguiram-no quando se misturou com a multidão que deixava o trabalho ao final da tarde. Zellman deu uma volta, entrou no Nettuno e foi para a segunda sala com telefone, à esquerda. Sentou no lugar que Marco desocupara menos de vinte minutos antes. O recepcionista, perplexo agora, fingiu estar ocupado por trás do balcão.

Uma hora depois, eles se encontraram num bar para avaliar os movimentos de Marco. A conclusão era óbvia, mas ainda difícil de aceitar: como Marco não usara o telefone, só podia estar aproveitando o acesso sem fio à Internet que o hotel oferecia de graça. Não havia outra explicação para que entrasse no saguão do hotel, ficasse numa sala de telefone por menos de dez minutos e se retirasse abruptamente. Ele não tinha laptop, e o único celular era o que Luigi lhe emprestara, um modelo ultrapassado, que só funcionava na cidade e não podia ser adaptado para entrar na Internet. Como pudera obter algum aparelho de alta tecnologia? Afinal, não tinha dinheiro.

O roubo era uma possibilidade.

Eles avaliaram vários planos. Zellman foi incumbido de transmitir a notícia desconcertante para Whitaker, por e-mail. Krater foi encarregado de procurar uma bolsa Silvio azul-marinho idêntica.

Luigi ficou pensando no jantar.

Seus pensamentos foram interrompidos por um telefonema de Marco. Ele estava no apartamento, não se sentia muito bem, passara a tarde inteira com o estômago embrulhado. Cancelara a aula com Francesca e agora pedia para ser dispensado do jantar com Luigi.

 

Se o telefone de Dan Sandberg tocava antes de seis horas da manhã, a notícia nunca era boa. Ele era como uma coruja, uma criatura noturna, que dormia com freqüência até tarde, só acordando para o café da manhã e o almoço em uma única refeição. Todos que o conheciam também sabiam que era inútil telefonar cedo.

Ele atendeu. Era um colega do Post.

- Você foi furado, companheiro - anunciou o colega, solene.

- Como assim?

- O Times acaba de furá-lo.

- Com quem?

- Backman.

- O que foi?

- Verifique pessoalmente.

Sandberg foi para o escritório do apartamento todo desarrumado. Ligou o computador. Encontrou a reportagem, escrita por Heath Frick, um rival odiado no New York Times. O título na primeira página dizia INVESTIGAÇÃO DE INDULTO DO FBI PROCURA Joel Backman.

Com a indicação de fontes não determinadas, Frick informava que a investigação do FBI do escândalo de venda de indulto se ampliara, passando a incluir pessoas específicas, que haviam sido perdoadas pelo ex-presidente Arthur Morgan. Duque Mongo era indicado como “uma pessoa de interesse”, um eufemismo usado quando as autoridades queriam macular alguém que não podiam indiciar formalmente. Mongo, porém, estava hospitalizado, e corria o rumor de que muito em breve exalaria o chamado último suspiro.

A investigação concentrava-se agora em Joel Backman, cujo indulto inesperado surpreendera e indignara muitas pessoas, segundo a análise gratuita de Frick. O misterioso desaparecimento de Backman havia aumentado a especulação de que ele comprara o indulto presidencial e fugira para evitar as indagações óbvias. Os rumores antigos ainda persistiam, Frick lembrava a todos, e várias fontes anônimas e supostamente dignas de confiança sugeriam que não fora oficialmente abandonada a teoria de que Backman escondera uma fortuna.

-  Que lixo! - resmungou Sandberg, enquanto projetava a matéria na tela.

Ele conhecia os fatos melhor do que ninguém. Aquela besteira não podia ser comprovada. Backman não pagara o indulto.

Ninguém relacionado com o ex-presidente, mesmo que remotamente, dissera qualquer coisa a respeito. Por enquanto, ainda não havia uma investigação formal, mas a pesada artilharia federal já se preparava para entrar em ação. Um ansioso procurador federal clamava por um início imediato. Ainda não tinha elementos para uma audiência no grande júri, mas aguardava ansioso por uma palavra do Departamento de Justiça.

Frick encerrava a matéria com dois parágrafos sobre Backman, um resumo histórico de notícias que o jornal já publicara antes.

- Pura encheção de lingüiça! - murmurou Sandberg, irritado.

 

O presidente também leu a matéria, mas teve uma reação diferente. Escreveu algumas anotações e guardou-as até sete e meia, quando Susan Penn, sua diretora interina da CIA, chegou para a análise diária dos acontecimentos, como acontecia todas as manhãs. Essa conversa, que historicamente contava com a participação do próprio diretor, sempre realizava-se no Gabinete Oval e quase sempre era a primeira reunião do dia. Teddy Maynard e sua saúde precária, porém, haviam mudado a rotina, e nos últimos dez anos a avaliação dos fatos fora feita com outra pessoa. Agora, as tradições voltavam a ser respeitadas.

O resumo de oito a dez páginas das questões da inteligência era posto na mesa do presidente às sete horas em ponto. Depois de dois meses no cargo, ele desenvolvera o hábito de ler cada palavra. Achava fascinante. Seu antecessor gabava-se de ler quase tudo... livros, jornais, revistas. Mas, com toda certeza, não lia a legislação, acordos políticos, tratados, resumos de informações confidenciais. Muitas vezes tinha dificuldades para ler os próprios discursos. As coisas eram muito diferentes agora.

Susan Penn foi levada num carro blindado de sua residência em Georgetown para a Casa Branca. Sempre chegava ali às 7:15h. Durante o percurso, lia o resumo diário, preparado pela CIA. Na página 4 do resumo daquela manhã havia um item sobre Joel Backman que estava atraindo a atenção de pessoas muito perigosas, talvez mesmo de Sammy Tin.

O presidente cumprimentou-a efusivamente. Já havia um café à sua espera na mesinha na frente do sofá. Estavam a sós, como sempre, e começaram a trabalhar no mesmo instante.

- Já viu o New York Times esta manhã? - perguntou o presidente.

- Já.

- Quais são as possibilidades de que Backman tenha pagado pelo indulto?

- Mínimas. Como expliquei antes, ele não tinha a menor idéia de que alguém atuava em seu favor. Não tinha tempo para articular nada. Além do mais, temos certeza de que não tinha dinheiro.

- Então por que Backman foi indultado?

A lealdade de Susan Penn a Teddy Maynard estava rapidamente se transformando em história. Teddy se afastara, e muito em breve estaria morto, enquanto ela, aos quarenta e quatro anos de idade, tinha toda uma carreira pela frente. Talvez longa. Afinal, ela e o presidente trabalhavam bem juntos. Ele parecia não ter a menor pressa em designar o novo diretor.

- Para ser franca, Teddy queria que ele morresse.

- Por quê? Sabe o motivo pelo qual o Sr. Maynard queria isso?

- É uma longa história...

- Não é não.

- Não sabemos de tudo.

- Mas você sabe o suficiente. Conte o que sabe.

Susan largou sua cópia do resumo no sofá. Respirou fundo.

-  Backman e Jacy Hubbard meteram os pés pelas mãos. Tinham aquele software, JAM, que seus clientes trouxeram para os Estados Unidos, na esperança de vender por uma fortuna.

- Esses clientes eram os jovens paquistaneses, não?

- Isso mesmo. Todos morreram.

- Sabe quem os matou?

- Não.

- Sabe quem matou Jacy Hubbard?

- Não.

O presidente levantou-se. Foi até sua mesa. Com o café na mão, sentou na beira, olhando para Susan através da sala.

- Acho difícil acreditar que não sabemos essas coisas.

- Para ser franca, eu também. E não é porque não tentamos tudo para descobrir. É um dos motivos pelos quais Teddy empenhou-se tanto para que Backman fosse perdoado. Claro que ele queria sua morte... por uma questão de princípio. Os dois têm uma desavença antiga, e Teddy sempre considerou que Backman fosse um traidor. Mas também achava que o assassinato de Backman podia nos dizer alguma coisa.

- O quê?

- Depende de quem vai matá-lo. Se forem os russos, então podemos presumir que o sistema de satélites pertencesse aos russos. O mesmo em relação aos chineses. Se os israelenses o matarem, então é bem provável que Backman e Hubbard tenham tentado vender o produto aos sauditas. Se forem os sauditas, podemos deduzir que Backman os traiu. Temos quase certeza de que os sauditas pensavam que tinham fechado o negócio.

- Mas Backman enganou todo mundo?

- Talvez não. Achamos que a morte de Hubbard mudou tudo. Backman fez as malas e foi se refugiar na prisão. Todos os negócios foram cancelados.

O presidente voltou até a mesinha. Serviu-se de mais café. Sentou na frente de Susan e balançou a cabeça.

- Espera que eu acredite que três jovens hackers paquistaneses interferiram num sistema de satélites tão sofisticado que nós nem sabíamos de sua existência?

- Mas é verdade. Eles eram brilhantes, mas também tiveram sorte. Não apenas interferiram no sistema, mas também criaram programas espantosos para controlá-lo.

- E isso é JAM?

- Foi o nome que eles deram.

- Alguém viu o software?

- Os sauditas. É assim que sabemos que não apenas existe, mas também que provavelmente funciona de acordo com o anunciado.

- Onde está o software agora?

- Ninguém sabe, exceto talvez o próprio Backman.

Uma longa pausa, enquanto o presidente tomava o café morno. Depois, ele apoiou os cotovelos nos joelhos.

- O que é melhor para nós, Susan? O que mais atende a nossos interesses?

Ela não hesitou.

- Devemos seguir o plano de Teddy. Backman será eliminado. O software não é visto há seis anos. Portanto, é provável que já tenha desaparecido. O sistema de satélites continua no espaço, mas não pode ser operado por quem o possui.

Outro gole de café, outra pausa. O presidente balançou a cabeça mais uma vez.

- Que assim seja.

 

Neal Backman não lia o New York Times, mas todas as manhãs efetuava uma busca pelo nome do pai. Quando encontrou a matéria de Frick, anexou-a a um e-mail e mandou com a mensagem da manhã, do Jerrys Java.

A sua mesa, no escritório, leu de novo a matéria e recordou os antigos rumores de que o corretor escondera muito dinheiro enquanto a firma entrava em colapso. Nunca fizera a pergunta ao pai à queima-roupa, porque sabia que não obteria uma resposta direta. Ao longo dos anos, no entanto, ele passara a aceitar a convicção comum de que Joel Backman estava tão quebrado quanto a maioria dos criminosos condenados.

Então por que tinha o incômodo pressentimento de que o esquema de dinheiro por indulto podia ser verdadeiro? Porque se alguém podia realizar esse milagre, do fundo de uma prisão federal, era seu pai. Mas como ele fora parar em Bolonha, Itália? E por quê? Quem estava atrás dele?

As perguntas se acumulavam, e as respostas eram mais evasivas do que nunca.

Enquanto tomava o café mocha e olhava para a porta trancada da sala, ele se fez a grande pergunta, mais uma vez: como se pode localizar um determinado banqueiro suíço sem usar telefone, fax, correio ou e-mail?

Ele descobriria um jeito. Só precisava de tempo.

 

A matéria do Times foi lida por Efraim, enquanto seguia de trem de Florença para Bolonha. Uma chamada de Tel Aviv o avisara e ele encontrara a reportagem na Internet. Amos, sentado quatro bancos atrás, também lia a matéria em seu laptop.

Rafi e Shaul chegariam no início da manhã seguinte, Rafi num avião de Milão, Shaul num trem de Roma. Os quatro membros da kidon que falavam italiano já se encontravam em Bolonha, providenciando, às pressas, as duas casas seguras que precisariam para o projeto.

O plano preliminar era pegar Backman sob os pórticos escuros da Via Fondazza, ou em outra rua similar, de preferência ao amanhecer, ou depois que escurecesse. Eles o sedariam, meteriam numa van e o levariam para uma casa, onde esperariam que o efeito do sedativo passasse. Seria interrogado e depois morto. O corpo seria levado numa viagem de duas horas de carro até o lago Garda, onde viraria comida de peixe.

O plano era rudimentar e cheio de riscos, mas o sinal verde fora dado. Não havia como voltar atrás. Agora que Backman atraía tanta atenção, tinham de agir depressa.

A corrida era estimulada pelo fato de que o Mossad tinha bons motivos para acreditar que Sammy Tin se encontrava em Bolonha, ou em algum lugar nas proximidades.

 

O restaurante mais próximo ao apartamento era uma velha e adorável trattoria chamada Nino's. Francesca costumava freqüentá-lo, e conhecia os dois filhos do velho Nino havia muitos anos. Explicou a situação. Quando chegou, os dois a esperavam e praticamente a carregaram para dentro. Pegaram a bengala, a bolsa e o casaco, amparando-a numa lenta caminhada até a melhor mesa, perto da lareira. Serviram café e água, ofereceram qualquer coisa que ela pudesse desejar. Era o meio da tarde e a multidão do almoço já fora embora. Francesca e seu aluno teriam o Ninos só para eles.

Quando Marco chegou, poucos minutos depois, os dois irmãos cumprimentaram-no como se fosse da família.

- La professoressa ia sta aspettando - avisou um deles. A professora está esperando.

A queda no caminho de cascalho de San Luca, que lhe causou a torção no tornozelo, mudara Francesca. Desaparecera a indiferença fria. Desaparecera a tristeza. Pelo menos por enquanto. Ela sorriu quando o viu. Até pegou na sua mão e puxou-o, a fim de que pudessem soprar beijos para o ar, junto das faces, um costume que Marco observava havia dois meses, mas que ainda não praticara. Afinal, aquela era a primeira mulher com quem se relacionava na Itália. Francesca acenou para que ele sentasse na cadeira na sua frente. Os irmãos pairavam nas proximidades. Ajudaram-no a tirar o casaco e perguntaram se não queria tomar um café, ansiosos em descobrir como era uma aula de italiano.

- Como está seu pé? - perguntou Marco.

Ele cometeu o erro de falar em inglês. Francesca levou um dedo aos lábios e balançou a cabeça.

- Non inglese, Marco. Solamente italiano.

Ele franziu o rosto.

- Eu tinha medo que isso pudesse acontecer.

O pé continuava muito dolorido. Ela punha gelo quando lia ou assistia televisão, e a inchação diminuíra. A caminhada até o restaurante fora lenta, mas era importante se movimentar. Por insistência da mãe, estava usando uma bengala. Achava-a útil e embaraçosa ao mesmo tempo.

Mais café e água foram servidos. Os irmãos se convenceram de que estava tudo bem com sua querida amiga Francesca e o aluno canadense, e se afastaram, relutantes, para frente do restaurante.

- Como está sua mãe? - perguntou Marco em italiano.

- Muito bem, mas muito cansada. Há um mês que cuidava de Giovanni, e isso cobrava seu tributo.

Ou seja, pensou Marco, Giovanni pode ser agora um tema de conversa.

- Como ele está?

- Câncer no cérebro, inoperável, - disse ela, precisando de algumas tentativas para encontrar a tradução certa. - Ele vem sofrendo há quase um ano, e o final se aproxima. Está inconsciente. Uma coisa terrível.

- Qual era a profissão dele? O que fazia?

- Foi professor de história medieval na universidade por muitos anos.

Conheceram-se lá... ela era estudante, ele, seu professor. Na ocasião, ele era casado com uma mulher que detestava. Tinham dois filhos. Ela e o professor se apaixonaram. Começaram um caso que durara dez anos, antes que ele se divorciasse e casasse com Francesca.

Filhos? Não, disse ela, com tristeza. Giovanni tinha dois e não queria mais. Havia muitas coisas que ela lamentava.

Era evidente a impressão de que não fora um casamento feliz. Espere só até saber de meus casamentos, pensou Marco. E não demorou para que entrassem nessa história.

- Fale-me de você - pediu Francesca. - E fale devagar. Quero que o sotaque seja tão bom quanto for possível.

- Sou apenas um empresário canadense - começou Marco em italiano.

- Sei que não é bem assim. Qual é o seu verdadeiro nome?

- Não.

- Qual é?

- Por enquanto, é Marco. É uma longa história, Francesca, e não posso falar a respeito.

- Está bem. Tem filhos?

Ele falou sobre os três filhos por um longo tempo, seus nomes, idades, ocupações, residências, cônjuges, crianças. Acrescentou alguma ficção para movimentar a narrativa. Realizou um pequeno milagre para fazer com que a família parecesse normal. Francesca escutou atentamente, esperando para interferir a qualquer pronúncia equivocada ou qualquer verbo mal conjugado. Um dos irmãos trouxe chocolate e ficou perto pelo tempo suficiente para dizer:

- Parla molto bene, signore.

Ela começou a ficar irrequieta depois de uma hora. Marco notou que se sentia desconfortável. Finalmente convenceu-a a ir embora. Foi com grande prazer que a acompanhou pela Via Minzoni, a mão direita de Francesca se apoiando de leve em seu braço esquerdo, enquanto a mão esquerda segurava a bengala. Andavam tão devagar quanto era possível. Francesca receava o retorno a seu apartamento, à vigília da morte. Ele tinha vontade de andar por quilômetros, de se apegar ao contato de Francesca, sentir a mão de alguém que precisava de sua ajuda.

Ao chegarem ao apartamento, trocaram beijos de despedida e combinaram um novo encontro no dia seguinte, à mesma hora, à mesma mesa do Ninos.

 

Jacy Hubbard passara quase vinte e cinco anos em Washington, um quarto de século de comportamento impetuoso e turbulento com uma espantosa sucessão de mulheres descartáveis. A última fora Mae Szun, uma beldade com mais de um metro e oitenta de altura, feições perfeitas, olhos pretos fatais, a voz rouca, que não tivera a menor dificuldade para persuadi-lo a sair de um bar e entrar num carro. Depois de uma hora de sexo ardente, ela o entregara a Sammy Tin, que o matara, deixando o corpo na sepultura do irmão. Quando havia necessidade de sexo para armar o assassinato, Sammy preferia Mae Szun. Ela era uma competente agente do MSE, mas suas pernas e rosto acrescentavam uma dimensão que fora mortífera em pelo menos três ocasiões. Ele convocou-a para ir a Bolonha. O propósito não era seduzir, mas permanecer de mãos dadas com outro agente, fingindo ser um casal de turistas apaixonados. A sedução, porém, era sempre uma possibilidade. Ainda mais com Backman. O pobre coitado acabara de passar seis anos na prisão, longe de qualquer mulher.

Mae avistou Marco quando ele descia pela Strada Maggiore, no meio da multidão, em direção a Via Fondazza. Com espantosa agilidade, ela passou a segui-lo, tirou um celular da bolsa e conseguiu diminuir a distância, ao mesmo tempo em que dava a impressão de ser uma mulher entediada, olhando para as vitrines.

Até que ele desapareceu. Virou à esquerda de repente, numa viela estreita, a Via Begatto, que seguia para o norte, afastando-se da Via Fondazza. Quando ela chegou à esquina, Marco já havia desaparecido.

 

A primavera finalmente chegou a Bolonha. A última nevasca caíra. A temperatura se aproximara dos 10°C no dia anterior. Quando saiu do apartamento, antes do amanhecer, Marco pensou em trocar a parca por outro casaco. Deu alguns passos pelo pórtico escuro, deixando que o corpo sentisse a temperatura, e concluiu que ainda fazia bastante frio para usar aquele agasalho. Meteu as mãos nos bolsos e iniciou a caminhada da manhã.

Não conseguia pensar em outra coisa que não na reportagem do Times. Ver seu nome na primeira página trouxera recordações angustiantes, o que já era muito inquietante. Porém, ser acusado de subornar o presidente era uma calúnia que merecia uma ação judicial. Em outra vida, ele teria disparado as baterias contra todos os envolvidos. Até acabar como dono do New York Times.

Mas o que o mantinha ansioso agora eram as indagações. O que a atenção acarretaria para ele neste momento? Luigi tornaria a levá-lo embora de carro para um destino desconhecido?

E a questão mais importante: corria mais perigo hoje do que ontem?

Vinha sobrevivendo muito bem, numa cidade adorável, onde ninguém sabia seu verdadeiro nome. Ninguém reconhecia seu rosto. Ninguém se importava. Os bolonheses cuidavam de sua vida sem se importar com os outros.

Nem mesmo ele se reconhecia. Todas as manhãs, quando acabava de fazer a barba, punha os óculos, ajeitava o boné marrom e se contemplava no espelho, era Marco que ele cumprimentava. Perdera há muito as bochechas estufadas, as olheiras, os cabelos mais densos e mais longos. Perdera há muito o sorriso presunçoso e a arrogância. Agora, era apenas outro homem tranqüilo andando pelas ruas.

Marco vivia um dia de cada vez, e os dias se acumulavam. Nenhum leitor do Times sabia onde ele se encontrava ou o que fazia.

Passou por um homem de terno escuro e compreendeu no mesmo instante que se encontrava numa situação crítica. O terno estava deslocado. Era estrangeiro, comprado numa loja de roupas baratas. A camisa branca era do mesmo tipo inexpressivo que ele vira em Washington durante trinta anos, com botões nas pontas do colarinho. Chegara a pensar em distribuir um memorando no escritório para proibir as camisas em branco e azul com botões nas pontas do colarinho, mas Carl Pratt o dissuadira.

Não era o tipo de terno que se encontraria nas calçadas cobertas da Via Fondazza antes do amanhecer... ou em qualquer outra ocasião, diga-se de passagem. Ele deu alguns passos, olhou para trás e constatou que o homem de terno não o seguia. Branco, em torno dos trinta anos, atlético, o vencedor evidente de uma maratona, ou de uma luta livre. Por isso, Marco usou outra estratégia. Parou de repente, virou-se e perguntou:

- Quer alguma coisa?

Ao que outra pessoa disse:

- Venha até aqui, Backman.

Ouvir seu nome deixou-o gelado e paralisado. Por um segundo os joelhos pareciam gelatina, os ombros despencaram e ele disse a si mesmo que não era um sonho. Num relance, pensou em todos os horrores que a palavra “Backman” acarretava. Era terrível ficar apavorado ao ouvir o próprio nome.

Eram dois homens. O homem da voz aproximou-se do outro lado da Via Fondazza. Usava basicamente o mesmo tipo de terno, mas a camisa branca não tinha botões nas pontas do colarinho. Era mais velho, mais baixo e muito mais magro. Mutt e Jeff. O Gordo e o Magro.

- O que vocês querem? - perguntou Marco. Os dois enfiaram a mão no bolso, lentamente.

- Somos do FBI - disse o corpulento.

Inglês americano, provavelmente do Meio Oeste.

- É o que dizem.

Eles efetuaram o ritual obrigatório de mostrar o distintivo, mas Marco não podia ler nada na escuridão sob o pórtico. A luz acesa por cima da entrada de um prédio ajudou um pouco.

- Vamos dar uma volta - acrescentou o magro. A voz típica de um irlandês de Boston.

- Vocês estão perdidos?

Marco não se mexeu. Não queria se mexer, e, de qualquer maneira, sentia os pés pesados demais.

- Sabemos exatamente onde estamos.

- Duvido muito. Têm um mandado judicial?

- Não precisamos.

O corpulento cometeu o erro de tocar no cotovelo esquerdo de Marco, como se assim pudesse levá-lo para onde queriam ir. Marco desvencilhou-se bruscamente.

- Não toque em mim! Vocês estão perdidos. Não podem efetuar uma prisão aqui. O máximo que podem fazer é conversar.

- Muito bem, vamos conversar - disse o magro.

- Não quero conversar.

- Há um café a dois quarteirões daqui - sugeriu o corpulento.

- Ótimo. Podem tomar um café. E comerem alguns biscoitos. Mas me deixem em paz.

O Gordo e o Magro trocaram um olhar. Depois, olharam ao redor, sem saber o que fazer, sem ter certeza do que o plano B podia acarretar.

Marco não estava se mexendo. Não que se sentisse seguro ali, mas quase que podia ver um carro escuro esperando logo depois da esquina.

Onde estava Luigi naquele momento? Ele se perguntou. Isto é parte de sua conspiração?

Ele fora descoberto, encontrado, desmascarado, chamado por seu verdadeiro nome em plena Via Fondazza. Com toda certeza, isso implicaria outra mudança, outra casa segura. O magro decidiu assumir o controle do encontro.

- Está certo, podemos conversar aqui. Há muitas pessoas nos Estados Unidos que gostariam de lhe fazer algumas perguntas.

- Talvez seja por isso que estou aqui.

- Estamos investigando o indulto que você comprou.

- Então estão desperdiçando muito tempo e dinheiro, o que não surpreenderia ninguém.

- Temos algumas perguntas sobre a transação.

- É uma investigação estúpida.

Marco virou-se para o magro. Pela primeira vez em muitos anos sentia-se outra vez como o corretor, repreendendo algum burocrata altivo ou um congressista obtuso.

- É um absurdo o FBI gastar tanto dinheiro para mandar dois palhaços como vocês até Bolonha, na Itália, para me abordarem numa calçada e fazerem perguntas que nenhum idiota em seu juízo perfeito responderia. Sabiam que não passam de uns babacas? Voltem para casa e digam a seu chefe que ele também é um babaca! E ao falar com ele, aproveitem para dizer que ele está desperdiçando muito tempo e dinheiro se pensa que eu paguei por um indulto.

- Então você nega...

- Não nego nada. Não admito nada. Não digo nada, exceto que isto é uma demonstração do que o FBI pode ter de pior. Vocês estão em águas profundas, mas não sabem nadar.

Nos Estados Unidos eles lhe dariam alguns empurrões, despejariam alguns insultos, pressionariam ao máximo. Mas não sabiam como se comportar em território estrangeiro. Suas ordens eram encontrá-lo, determinar se ele vivia mesmo onde a CIA dissera. E se o encontrassem, deveriam sacudi-lo um pouco, assustá-lo, fazer algumas perguntas sobre transferências de dinheiro e contas no exterior.

Tinham tudo projetado, ensaiado várias vezes. Mas, nos pórticos da Via Fondazza, o Sr. Lazzeri estava aniquilando seus planos.

- Não vamos deixar Bolonha enquanto não conversarmos - avisou o corpulento.

- Meus parabéns. Vão tirar umas longas férias.

- Temos as nossas ordens, Sr. Backman.

- E eu tenho as minhas.

- Só mais algumas perguntas, por favor - pediu o magro.

- Procurem meu advogado.

Marco começou a se afastar, na direção do apartamento.

- Quem é seu advogado?

- Carl Pratt.

Eles não estavam se mexendo, não iam atrás. Marco passou a andar mais depressa. Atravessou a rua, lançou um olhar rápido para a casa segura, mas não diminuiu as passadas. Se queriam segui-lo, haviam esperado tempo demais. Quando entrou na Via del Piombo, Marco sabia que os agentes não poderiam mais encontrá-lo. Aquelas ruas eram suas agora, com as vielas, os vãos de porta escuros de lojas que só abririam três horas mais tarde.

Só o haviam encontrado na Via Fondazza porque conheciam seu endereço.

Já a beira sudoeste da parte velha de Bolonha, perto do Porto San Stefano, ele pegou um ônibus e viajou durante meia hora. Desembarcou na estação ferroviária, no perímetro norte. Ali, pegou outro ônibus e foi para o centro da cidade. Os ônibus começavam a lotar, com as primeiras pessoas indo para o trabalho. Um terceiro ônibus tornou a levá-lo através da cidade, até o Portão Saragoza, onde ele iniciou a escalada de 3,6 quilômetros até San Luca. Parou na 400? arcada para recuperar o fôlego. Entre as colunas, espiou para baixo e esperou para verificar se alguém subia sorrateiro. Mas não havia ninguém, como ele supunha.

Passou a andar mais devagar, e concluiu a subida em cinqüenta e cinco minutos. Por trás do Santuário di San Luca, seguiu pela trilha estreita em que Francesca caíra. Sentou no banco em que ela esperara enquanto ele buscava ajuda. Dali, a vista de Bolonha, ao amanhecer, era magnífica. Ele tirou a parca para esfriar um pouco. O sol já nascera, o ar era leve e claro. Por muito tempo Marco permaneceu sentado ali, sozinho, vendo a cidade começar a se movimentar.

Apreciou a solidão e a segurança do momento. Por que não podia subir até San Luca todas as manhãs, sentar muito acima de Bolonha, sem nada para fazer além de pensar, talvez ler um jornal? Talvez telefonar para um amigo e ouvir as últimas fofocas?

Teria primeiro de encontrar os amigos.

Era um sonho que não se tornaria realidade.

Pelo celular muito limitado de Luigi ele ligou para Ermanno e cancelou a sessão da manhã. Depois, ligou para Luigi e explicou que não sentia a menor vontade de estudar.

- Algum problema?

- Não. Apenas preciso de um descanso.

- Está bem, Marco. Mas pagamos a Ermanno para dar as aulas, entende? Você tem de estudar todos os dias.

- Esqueça, Luigi. Não quero ter nenhuma aula hoje.

- Não gosto disso.

- E eu não me importo. Pode me suspender. Ou me expulsar da escola.

- Está aborrecido?

- Não, Luigi. Estou bem. É um lindo dia, primavera em Bolonha, e pretendo fazer um longo passeio.

- Onde?

- Não, obrigado, Luigi. Não quero companhia.

- Podemos almoçar juntos?

Pontadas de fome atingiram o estômago de Marco. Os almoços com Luigi eram sempre deliciosos... e Luigi sempre pagava a conta.

- Claro.

- Pensarei num bom restaurante. Ligarei mais tarde para avisar.

- Combinado. Ciao, Luigi.

Encontraram-se ao meio-dia e meia no Caffè Atene, um restaurante antigo, numa viela, alguns degraus abaixo do nível da rua. Era pequeno, as mesas quadradas quase encostando umas nas outras. Os garçons esbarravam em todo mundo, as bandejas com comida suspensas acima da cabeça. Os cozinheiros gritavam da cozinha. O restaurante era enfumaçado, barulhento, lotado de pessoas famintas, que adoravam conversar aos berros enquanto comiam. Luigi explicou que o restaurante existia havia séculos, era quase impossível conseguir uma mesa e a comida era magnífica. Ele sugeriu que partilhassem um prato de lula para começar.

Depois de uma manhã a debater consigo mesmo, em San Luca, Marco decidira não relatar a Luigi seu encontro com os agentes do FBI. Pelo menos não agora. Poderia contar no dia seguinte, ou no outro, mas por enquanto ainda procurava entender a situação. Sua principal razão para não dizer nada era o fato de que não queria fazer as malas e fugir de novo, não nas condições determinadas por Luigi.

Se fugisse, seria sozinho.

Ele não podia sequer imaginar por que o FBI estava em Bolonha, evidentemente sem o conhecimento de Luigi e das pessoas para quem ele trabalhava. Presumia que Luigi nada soubesse sobre a presença deles. Luigi parecia mais preocupado com o cardápio e a carta de vinhos. A vida era boa. Tudo era normal.

As luzes se apagaram. Subitamente o Caffè Atene ficou em total escuridão. No instante seguinte, um garçom com uma bandeja do almoço de alguém desabou em cima da mesa, gritando. Derramou a comida em cima de Marco e Luigi. As pernas da mesa antiga vergaram e a beira caiu no colo de Marco, com toda força. Ao mesmo tempo um pé ou alguma outra coisa acertou-o no ombro esquerdo. Todos berravam agora. Podia-se ouvir o barulho de vidro quebrado. Corpos eram empurrados de um lado para outro. Alguém gritou da cozinha:

- Fogo!

A saída para a rua foi concluída sem ferimentos graves. Marco foi o último a sair, pois se abaixara para evitar a debandada enquanto procurava pela bolsa azul-marinho. Como sempre, pendurara a alça no encosto da cadeira, a bolsa perto do corpo, para que pudesse senti-la. Desaparecera na confusão.

Os italianos estavam parados na rua, olhando incrédulos para o restaurante. Haviam deixado seu almoço lá dentro, meio comido, e agora estragando. Finalmente, um pouco de fumaça clara passou pela porta da frente. Podia-se ver um garçom correndo entre as mesas com um extintor nas mãos. Depois, mais alguma fumaça, mas não muita.

- Perdi minha bolsa - disse Marco para Luigi, enquanto observavam e esperavam.

- A azul?

- Com quantas bolsas já me viu, Luigi? Isso mesmo, a azul.

Marco já estava desconfiado que a bolsa fora roubada.

Um pequeno carro de bombeiros apareceu, com uma sirene estrondosa. Parou com uma derrapagem e a sirene continuou a tocar, enquanto os bombeiros corriam. Os minutos foram passando. Os italianos começaram a se dispersar. Os mais decididos foram procurar outro lugar para almoçar, enquanto ainda havia tempo. Os outros continuaram olhando para aquela tremenda injustiça.

A sirene foi finalmente desligada. O incêndio também foi controlado, e sem necessidade de espalhar água por todo o restaurante. Depois de uma hora de discussão e pouco combate ao incêndio, a situação foi considerada sob controle.

- Um problema no banheiro - gritou um garçom para um amigo, um dos poucos clientes que ainda permaneciam ali, enfraquecidos e não-alimentados.

As luzes foram acesas. Os clientes tiveram permissão para voltar e pegar os casacos. Luigi foi bastante prestativo na caçada à bolsa de Marco. Conversou a respeito com o maitre. Não demorou muito para que todos os empregados vasculhassem o restaurante. Entre as conversas excitadas, Marco ouviu um garçom fazer um comentário sobre “uma bomba de fumaça”.

A bolsa desaparecera, e Marco sabia disso.

Comeram um panino e tomaram uma cerveja num café com mesas na calçada, de onde podiam contemplar a passagem das belas mulheres. Marco estava preocupado com o roubo, mas fez um esforço para parecer indiferente.

-  Lamento pela bolsa - comentou Luigi em determinado momento.

- Não tem importância.

- Providenciarei outro celular.

- Obrigado.

- O que mais você perdeu?

- Nada de mais. Apenas alguns mapas da cidade, um vidro de aspirinas, uns poucos euros.

Num quarto de hotel, a poucos quarteirões dali, Zellman e Krater tinham a bolsa aberta na cama, o conteúdo arrumado ao lado. Além do Ankyo, havia dois mapas de Bolonha, bem marcados e muito usados, mas pouco revelando, quatro notas de cem dólares, o celular que Luigi emprestara a Marco, um vidro de aspirinas e o manual do smartphone.

Zellman, o mais hábil em computadores dos dois, ligou o smartphone na Internet e logo estava verificando o menu.

- É um bom aparelho - comentou ele, impressionado. - O mais moderno no mercado.

Ele foi barrado pela senha, o que não era de surpreender. Teriam de dissecá-la em Langley. Com seu laptop, ele enviou uma mensagem para Julia, dando o número de série do aparelho e outras informações.

Duas horas depois do roubo, um agente da CIA estava no estacionamento da Chatter, na comunidade suburbana de Alexandria, esperando pela abertura da loja.

 

A distância, ele observou-a avançar devagar, determinada, usando a bengala, pela calçada da Via Minzoni. Seguiu-a e logo estava a quinze metros de distância. Hoje ela usava botas de camurça, com saltos baixos, sem dúvida para ter um apoio melhor. Sapatos sem saltos seriam mais confortáveis, mas ela era italiana e a moda sempre tinha prioridade. A saia marrom-claro ia até os joelhos. Ela usava uma suéter bem justa, de um vermelho brilhante. Era a primeira vez que Marco a via sem que estivesse toda agasalhada contra o frio. Sem um casaco para esconder seu corpo atraente.

Francesca caminhava devagar, claudicando um pouco, mas com uma determinação que o encheu de ânimo. Era apenas um café no Nino's, com uma ou duas horas de aula de italiano. E tudo por ele!

E pelo dinheiro.

Por um momento, Marco pensou no dinheiro. Qualquer que fosse a situação difícil com o pobre marido, e seu trabalho sazonal como guia de turismo, ela conseguia se vestir com elegância e morar num apartamento bem decorado. Giovanni fora professor. Talvez tivesse poupado com todo cuidado ao longo dos anos, e agora a doença aniquilava o orçamento.

O que quer que fosse, Marco já tinha seus próprios problemas. Acabara de perder quatrocentos dólares em dinheiro e seu único meio de contato seguro com o mundo exterior. Pessoas que não deveriam ter conhecimento de seu paradeiro agora sabiam o seu endereço. Nove horas antes, ele ouvira seu nome verdadeiro na Via Fondazza.

Marco passou a andar mais devagar, dando tempo para que ela entrasse no Nino's, onde foi outra vez recebida como uma pessoa amada da família pelos filhos do velho Nino. Depois, ele deu uma volta pelo quarteirão, para proporcionar aos irmãos o tempo necessário para acomodá-la, servir café e pôr em dia as fofocas da vizinhança. Dez minutos depois da chegada dela, Marco entrou no restaurante, onde foi saudado com um abraço apertado do filho mais novo. Um amigo de Francesca era um amigo pelo resto da vida.

O ânimo de Francesca mudara tanto que Marco não sabia o que esperar. Ainda se sentia comovido pela simpatia do dia anterior, mas sabia que a indiferença podia voltar. Porém, quando ela sorriu e pegou na sua mão, estendendo o rosto para o beijo ritual, Marco compreendeu no mesmo instante que a aula seria o ponto alto de um dia horrível.

Quando finalmente ficaram a sós, Marco perguntou-lhe pelo marido. Nesse aspecto, a situação não mudara.

- É apenas uma questão de dias - disse ela, os lábios contraídos, como se já aceitasse a morte e se preparasse para o lamento.

Ele também perguntou pela mãe, a signora Altonelli, e recebeu um relatório completo. Ela fizera uma torta de pêra, uma das sobremesas prediletas de Giovanni, na possibilidade do genro sentir o aroma e ter vontade de comer.

- E como foi o seu dia? - perguntou Francesca.

Seria impossível inventar uma série pior de ocorrências. Do choque de ouvir seu nome verdadeiro gritado através da escuridão a ser vítima de um roubo encenado com o maior cuidado, ele não podia imaginar um dia pior.

- Um pouco de emoção durante o almoço.

- Conte o que aconteceu.

Marco relatou a subida até San Luca, o caminho de cascalho em que ela caíra, o tempo em que sentara no banco, contemplando a vista, o cancelamento da aula com Ermanno, o almoço com Luigi, o incêndio. Não falou sobre a perda da bolsa. Francesca não notara a ausência até que ele descreveu o incidente.

- Há muito pouco crime em Bolonha - comentou ela, como se pedisse desculpa. - Conheço o Caffè Atene. Não é freqüentado por ladrões. Provavelmente não eram italianos, - Marco teve vontade de dizer, mas limitou-se a acenar com a cabeça, solene, como se dissesse: tem razão. O que está acontecendo com o mundo?

Concluída a conversa, Francesca assumiu o papel de professora rigorosa e disse que estava com vontade de estudar alguns verbos. Marco disse que preferia não fazê-lo, mas sua disposição não tinha a menor importância. Ela exercitou-o no futuro dos verbos abitare (morar) e vedere (ver). Depois, mandou que ele incluísse os dois verbos, em todos os tempos, numa centena de frases. Um erro gramatical acarretava uma repreensão imediata, como se Marco tivesse acabado de insultar o país inteiro.

Ela passara o dia presa em seu apartamento, com o marido agonizante e a mãe sempre ocupada. A aula era a única oportunidade de descarregar alguma energia. Marco, no entanto, estava exausto. O estresse do dia cobrava seu tributo, mas as insistentes exigências de Francesca serviam para desviar sua mente da fadiga e confusão. Uma hora passou depressa. Restauraram as energias com mais café. Francesca lançou-se pelo mundo indefinido e difícil do subjuntivo... presente, passado perfeito e imperfeito. Finalmente, ele começou a se perder. Francesca tentou ampará-lo, com a garantia de que o subjuntivo fazia muitos estudantes naufragarem. Mas Marco estava exausto, pronto para naufragar.

Ele desistiu depois de duas horas, completamente esgotado, ansioso por outra longa caminhada. Levaram quinze minutos para se despedirem dos irmãos. Marco acompanhou-a até o apartamento, feliz pela oportunidade. Trocaram um abraço e beijos nas faces, combinaram que haveria outra aula no dia seguinte.

Se Marco seguisse tão direto quanto possível para seu apartamento, chegaria em vinte e cinco minutos. Mas não seguia direto para lugar algum havia mais de um mês.

E começou a dar voltas.

As quatro horas da tarde, seis pessoas da kidon estavam em vários pontos da Via Fondazza. Um homem tomava café numa mesa na calçada, três pessoas caminhavam pelo passeio, separadas por um quarteirão de distância, uma andava de um lado para outro numa scooter, alguém olhava por uma janela de terceiro andar.

A menos de um quilômetro de distância, fora do centro da cidade, no segundo andar de uma loja de flores pertencente a um judeu idoso, os quatro outros membros da kidon jogavam cartas e esperavam, nervosos. Um deles era Ari, um dos melhores interrogadores em inglês do Mossad.

Jogavam quase sem conversar. A noite pela frente seria longa e desagradável.

 

Ao longo do dia, Marco especulara se devia ou não voltar à Via Fondazza. Os agentes do FBI ainda podiam estar ali, prontos para outro horrível confronto. Marco tinha certeza de que não conseguiria mais se esquivar com tanta facilidade. Os homens não desistiriam e pegariam o avião de volta. Tinham superiores em Washington que exigiam resultados.

Embora não pudesse garantir, tinha o forte pressentimento de que Luigi se encontrava por trás do roubo de sua bolsa. O incêndio não fora de fato um incêndio, não passara de uma distração, um motivo para as luzes serem apagadas, a cobertura para alguém roubar a bolsa.

Não confiava em Luigi, porque não confiava em ninguém.

Haviam apanhado seu smartphone. Os códigos de Neal estavam no aparelho, em algum lugar. Conseguiriam descobri-los? A trilha poderia levar ao filho? Marco não tinha a menor idéia de como essas coisas funcionavam, o que era possível, o que era impossível.

O impulso de deixar Bolonha era imenso. Para onde ir e como chegar lá eram questões que ele ainda não definira. Vagueava a esmo agora, sentia-se vulnerável, quase impotente. Cada rosto virado em sua direção era de alguém que conhecia seu verdadeiro nome. Num ponto de ônibus com muita gente esperando, ele furou a fila e embarcou, sem saber aonde ia. O ônibus estava lotado, os passageiros exibiam o ar de cansaço de quem voltava para casa ao final de um longo dia de trabalho. Encostavam uns nos outros e balançavam a cada solavanco do ônibus. Através da janela Marco observava as pessoas a pé nas maravilhosas calçadas cobertas do centro da cidade.

No último segundo possível ele saltou do ônibus em outro ponto. Percorreu três quarteirões a pé, pela Via San Vitale, até pegar outro ônibus. Deu várias voltas durante quase uma hora. Desembarcou perto da estação ferroviária. Foi andando no meio de outra multidão, depois atravessou a Via deli' Indipendenza, até a estação rodoviária. Lá dentro, examinou o quadro de partidas. Um ônibus sairia dentro de dez minutos para Piacenza, a uma hora e meia de distância, com cinco paradas intermediárias. Ele comprou a passagem por trinta euros e escondeu-se no banheiro até o momento da partida. O ônibus estava quase lotado. Os bancos eram largos, com descanso para a cabeça. Enquanto o ônibus avançava lentamente pelo tráfego intenso, Marco quase cochilou. Mas logo se controlou. Dormir não era permitido.

Era agora... a fuga que ele cogitara desde o primeiro dia em Bolonha. Convencera-se de que seria obrigado a desaparecer para sobreviver, deixar Luigi para trás e continuar sozinho. Muitas vezes se perguntara quando e como exatamente a fuga começaria. O que a provocaria? Um rosto? Uma ameaça? Pegaria um ônibus ou um trem, um táxi ou um avião? Para onde iria? Onde se esconderia? Poderia se virar sozinho com seu italiano rudimentar? Quanto dinheiro teria na ocasião?

Era agora. Estava acontecendo. Não havia como voltar atrás.

A primeira parada foi na pequena aldeia de Bazzano, quinze quilômetros a oeste de Bolonha. Ele tornou a se esconder no banheiro da estação até a partida do ônibus. Depois atravessou a rua, entrou num bar, pediu uma cerveja e perguntou ao homem no outro lado do balcão onde ficava o hotel mais próximo.

Enquanto tomava a segunda cerveja, perguntou pela estação ferroviária. Soube que não havia nenhuma em Bazzano. Os ônibus eram os únicos meios de transporte coletivo para a aldeia.

O Albergo Cantino ficava perto do centro, a cinco ou seis quarteirões de distância. Estava escuro quando Marco entrou, sem bagagem, o que não passou despercebido da signora na recepção.

- Eu gostaria de alugar um quarto - disse ele em italiano.

- Por quantas noites?

- Apenas uma.

- Custa cinqüenta e cinco euros.

- Está bem.

- Seu passaporte, por favor.

- Sinto muito, mas perdi.

As sobrancelhas depiladas e pintadas da mulher se franziram numa expressão de suspeita. Ela balançou a cabeça.

- Desculpe, mas não posso alugar o quarto.

Marco pôs duzentos euros no balcão. O suborno era óbvio: pegue o dinheiro, dispense o passaporte e me dê uma chave. A mulher tornou a franzir as sobrancelhas e sacudir a cabeça.

- Você precisa do passaporte.

Ela cruzou os braços e ergueu o queixo, à espera do próximo embate. Não tinha a menor possibilidade de perder.

Lá fora, Marco percorreu as ruas da aldeia. Encontrou outro bar e pediu um café. Não tomaria mais nenhuma bebida alcoólica, pois precisava manter toda a lucidez.

- Onde posso encontrar um táxi? - perguntou ele ao homem no balcão.

- Na estação rodoviária.

As nove horas da noite, Luigi andava de um lado para outro de seu apartamento, esperando pela volta de Marco. Ligou para Francesca e ela informou que haviam estudado naquela tarde e fora uma aula excelente. O que é ótimo, pensou Luigi.

O desaparecimento de Marco era parte do plano, mas Whitaker e Langley achavam que demoraria mais um pouco. Será que já o haviam perdido? Tão depressa? Havia agora cinco agentes atuando no caso, Luigi, Zellman, Krater e mais dois homens, enviados de Milão.

Luigi sempre questionara o plano. Numa cidade do tamanho de Bolonha, era impossível manter a vigilância física de uma pessoa vinte e quatro horas por dia. Luigi argumentara, quase com veemência, que a única maneira do plano dar certo era levar Backman para uma pequena aldeia, onde seus movimentos seriam limitados, as opções mínimas e os visitantes muito mais visíveis. Esse fora o plano original, mas os detalhes haviam sido abruptamente alterados em Washington.

Às 21:12h, uma campainha soou na cozinha. Ele se apressou em verificar nos monitores. Marco estava em casa. A porta da frente estava sendo aberta. Luigi olhou para a imagem digital transmitida pela câmera oculta no teto da sala do apartamento ao lado.

Dois estranhos... não era Marco. Dois homens na casa dos trinta anos, vestidos como pessoas comuns. Fecharam a porta no mesmo instante, sem fazer barulho, como profissionais. Começaram a revistar a sala. Um deles carregava uma pequena bolsa preta.

Eram bons, muito bons. Só podiam ser, para abrir daquele jeito a fechadura da casa segura.

Luigi sorriu, excitado. Com um pouco de sorte, suas câmeras registrariam o momento em que Marco seria apanhado. Talvez o matassem ali mesmo, na sala, a câmera registrando tudo. Talvez o plano desse certo no final das contas.

Ele ligou o sistema de áudio e aumentou o volume. A língua era crucial naquele caso. De onde eles eram? Que língua falavam? Não houve sons, no entanto, pois os homens se movimentavam em silêncio. Sussurraram apenas uma ou duas vezes, mas tão baixo que não dava para ouvir.

 

O táxi parou na Via Gramsci, perto da estação ferroviária e da rodoviária. Do banco traseiro, Marco estendeu o dinheiro, saltou e se espremeu entre dois carros estacionados para desaparecer na escuridão. Sua fuga de Bolonha fora breve, mas também ainda não acabara. Ele ziguezagueou por hábito, deu voltas, sempre atento, para descobrir se alguém o seguia.

Na Via Minzoni, avançou apressado pela calçada coberta. Parou no prédio de Francesca. Não podia se dar ao luxo de mudar de idéia, de hesitar ou especular. Tocou a campainha duas vezes, com a esperança desesperada de que ela atendesse, em vez da signora Altonelli.

- Quem é? - perguntou a voz adorável.

- Francesca, sou eu, Marco. Preciso de ajuda.

Uma breve pausa.

- Está bem.

Ela esperava na porta do apartamento, no segundo andar. Convidou-o a entrar. Para consternação de Marco, a signora Altonelli continuava no apartamento, observando, parada à porta da cozinha, com um pano de prato nas mãos.

- Você está bem? - perguntou Francesca em italiano.

- Em inglês, por favor - murmurou ele, sorrindo e olhando para a mãe.

- Claro.

- Preciso de um lugar para passar a noite. Não posso alugar um quarto num hotel porque não tenho um passaporte. Não consegui nem subornar a mulher que me atendeu num pequeno hotel.

- Essa é a lei na Europa.

- Estou aprendendo.

Ela acenou para o sofá, depois virou-se para a mãe e pediu que fizesse um café. Sentaram. Marco notou que ela estava descalça e andando sem a bengala, embora ainda precisasse dela. Usava um jeans justo e um blusão largo, parecendo uma estudante graciosa.

- Por que não me conta o que está acontecendo?

- É uma história complicada e não posso contar a maior parte. Digamos apenas que não me sinto muito seguro neste momento. Preciso deixar Bolonha o mais depressa possível.

- Para onde vai?

- Não sei. Algum lugar fora da Itália, fora da Europa, onde poderei me esconder de novo.

- Por quanto tempo vai se esconder?

- Muito tempo. Não dá para prever.

Francesca fitava-o friamente, sem piscar. Marco fitou-a também, porque seus olhos eram lindos, mesmo quando frios.

- Quem é você?

- Pode ter certeza de que não sou Marco Lazzeri.

- Do que está fugindo?

- Do meu passado, que me alcança rapidamente. Não sou um criminoso, Francesca. Era advogado. E me meti numa encrenca. Fui para a prisão. Saí ao receber um indulto. Não sou bandido.

- Por que alguém está atrás de você?

- Fiz um negócio há seis anos. Algumas pessoas perigosas não ficaram satisfeitas com a maneira pela qual foi concluído. E me culpam. Gostariam de me encontrar.

- Para matá-lo?

- Isso mesmo. É o que gostariam de fazer.

- É tudo muito confuso. Por que você veio para cá? Por que Luigi ajudou-o? Por que contratou Ermanno e eu para as aulas de italiano? Não consigo entender.

- E eu não posso responder a essas perguntas. Há dois meses eu estava na prisão e pensava que passaria mais catorze anos numa cela. Subitamente, viro um homem livre. Recebi uma nova identidade e fui trazido para cá, escondido primeiro em Treviso, depois em Bolonha. Acho que querem me matar aqui.

- Aqui, em Bolonha?

Marco acenou com a cabeça em confirmação. Olhou para a cozinha. A signora Altonelli passou pela porta, com café numa bandeja, além da torta de pêra ainda intacta. Quando ela pôs uma fatia num prato para Marco, ele compreendeu que não comera nada desde o almoço.

O almoço com Luigi. O almoço com o falso incêndio e o smartphone roubado. Ele pensou de novo em Neal e se preocupou com sua segurança.

- Está deliciosa - comentou ele em italiano.

Francesca não estava comendo. Observava cada movimento de Marco, cada mordida, cada gole de café. Perguntou, quando a mãe voltou para a cozinha:

- Para quem Luigi trabalha?

- Não tenho certeza. Provavelmente a CIA. Sabe o que é a CIA?

- Claro. Leio romances de espionagem. A CIA o trouxe para cá?

- Acho que a CIA me tirou da prisão e do país. Trouxeram-me para Bolonha e esconderam-me numa casa segura, enquanto decidiam o que fazer comigo.

- Vão matá-lo?

- Talvez.

- Luigi?

- Possivelmente.

Francesca pôs sua xícara na mesa. Ficou mexendo nos cabelos por um momento.

-  Gostaria de tomar água? - perguntou ela de repente, levantando-se.

- Não, obrigado.

- Preciso me movimentar um pouco.

Com todo cuidado, ela apoiou o peso do corpo no pé esquerdo. Encaminhou-se para a cozinha, devagar. Houve silêncio ali por um momento, antes de irromper uma discussão. Mãe e filha discordavam, com alguma veemência, mas eram obrigadas a se expressarem em sussurros altos e tensos.

A discussão prolongou-se por alguns minutos, parou de repente e logo recomeçou. Nenhuma das duas parecia disposta a ceder. Francesca finalmente voltou à sala, com uma garrafa pequena de água mineral San Pellegrino. Sentou no sofá.

- Por que discutiram?

- Eu disse a mamãe que você queria dormir aqui esta noite. E ela entendeu errado.

- Posso dormir no chão, em qualquer lugar. Não me importo.

- Ela é muito antiquada.

- E vai passar a noite aqui?

- Agora vai.

- Basta me dar um travesseiro. Dormirei na mesa da cozinha. A signora Altonelli era uma pessoa diferente quando voltou para pegar a bandeja do café. Lançou um olhar furioso para Marco, como se ele já tivesse molestado sua filha. Lançou um olhar furioso para Francesca, como se quisesse esbofeteá-la. Passou alguns minutos na cozinha e depois retirou-se para algum lugar nos fundos do apartamento.

- Está com sono? - perguntou Francesca.

- Não. E você?

- Também não. Vamos conversar.

- Está bem.

- Conte-me tudo.

 

Ele dormiu por algumas horas no sofá. Foi acordado por Francesca, batendo em seu ombro.

- Tenho uma idéia. Venha comigo.

Marco seguiu-a até a cozinha, onde um relógio marcava 4:15h. No balcão, ao lado da pia, havia um aparelho de barbear descartável, uma lata de creme de barba, óculos, um vidro de alguma coisa relacionada com os cabelos... ele não conseguiu traduzir. Francesca entregou-lhe uma pequena caixa de couro grená.

- É o passaporte de Giovanni.

Ele quase deixou cair.

- Não posso...

- Pode sim. Ele não vai mais precisar. Eu insisto.

Marco abriu o passaporte. Olhou para o rosto distinto de um homem que nunca conhecera. Faltavam sete meses para expirar a data de validade. Portanto, a foto tinha quase cinco anos. Ele viu a data de nascimento. Giovanni tinha agora sessenta e oito anos, pelo menos vinte anos mais velho do que a esposa.

Durante a viagem de táxi desde Bazzano, Marco pensara apenas em arrumar um passaporte. Aventara a possibilidade de roubar o passaporte de algum inocente turista. Ou comprar um passaporte no mercado negro. Só que não sabia onde procurar. E pensara também no passaporte de Giovanni, prestes a se tornar inútil.

Mas descartara o pensamento com medo do perigo que poderia acarretar para Francesca. O que aconteceria se ele fosse detido? E se um agente de imigração, em algum aeroporto, desconfiasse de qualquer coisa e chamasse seu superior? Mas seu maior medo era o de ser apanhado pelas pessoas que o perseguiam. O passaporte poderia implicá-la, e ele nunca admitiria que isso acontecesse.

- Tem certeza? - perguntou ele.

Agora que tinha o passaporte na mão, ele queria muito conservá-lo.

- Por favor, Marco. Quero ajudar. Giovanni insistiria.

- Não sei o que dizer.

- Temos muito trabalho a fazer. Há um ônibus para Parma dentro de duas horas. Seria um modo seguro de deixar a cidade.

- Quero ir para Milão.

- Boa idéia.

Ela pegou o passaporte e abriu-o. Estudaram a foto do marido.

- Vamos começar por essa coisa em sua boca.

Dez minutos depois, o bigode e o cavanhaque haviam desaparecido. O rosto estava completamente raspado. Francesca suspendeu um espelho para que ele visse. Giovanni, aos sessenta e três anos, tinha menos cabelos grisalhos do que Marco aos cinqüenta e dois anos, mas também não passara pela experiência de um julgamento federal e seis anos na prisão.

Ele presumiu que a tinta para os cabelos fosse a que Francesca usava, mas achou melhor não perguntar. Prometia resultados em uma hora. Marco sentou numa cadeira, de frente para a mesa, enquanto ela passava a solução por seus cabelos. Falaram muito pouco. A mãe ainda dormia. O marido estava quieto, bastante sedado.

Não muito tempo antes, Giovanni, o professor, usava óculos redondos, de casco de tartaruga, marrom-claro, o que lhe proporcionava uma aparência acadêmica. Ao pôr os óculos, Marco ficou surpreso com a mudança. Os cabelos estavam mais escuros, os olhos muito diferentes. Ele mal se reconheceu.

- Nada mau - comentou Francesca, avaliando seu trabalho. - Servirá por enquanto.

Ela pegou um casaco esporte azul-marinho de veludo cotelê com proteção nos cotovelos.

- Ele é cerca de cinco centímetros mais baixo do que você, Marco.

As mangas precisavam de mais dois ou três centímetros e o casaco deveria ficar apertado no peito, mas Marco emagrecera tanto que qualquer coisa servia.

- Qual é seu verdadeiro nome? - perguntou ela, enquanto puxava as mangas e ajustava a gola.

- Joel.

- Acho que deve viajar com uma pasta. Parecerá mais normal.

Marco não podia questionar. A generosidade de Francesca era incrível, e ele precisava de tudo o que pudesse conseguir. Ela deixou a cozinha. Voltou um momento depois com uma linda pasta de couro castanho amarelado, os fechos de prata.

- Não sei o que dizer - murmurou Marco.

- É a pasta predileta de Giovanni, um presente que eu lhe dei há vinte anos. Couro italiano.

- Obrigado.

- Se for apanhado em algum lugar com o passaporte, o que vai dizer?

- Que eu o roubei. Você era minha professora. Estive em sua casa como convidado. Descobri a gaveta com os documentos e roubei o passaporte de seu marido.

- É um bom mentiroso.

- No meu tempo, fui um dos melhores. Se eu for apanhado, Francesca, prometo que a protegerei. Contarei mentiras que deixarão as pessoas espantadas.

- Não será apanhado. Mas use o passaporte o mínimo possível.

- Não se preocupe. Eu o destruirei assim que puder.

- Precisa de dinheiro?

- Não.

- Tem certeza? Tenho mil euros em casa.

- Não preciso, Francesca, mas agradeço comovido.

- É melhor se apressar.

Ele seguiu-a até a porta da frente, onde pararam e se fitaram.

- Você passa muito tempo na Internet? - perguntou Marco.

- Um pouco cada dia.

-  Procure o nome Joel Backman. Comece pelo Washington Post. Há muita coisa no jornal, mas não acredite em tudo o que ler. Não sou o monstro que projetaram.

- Você não é absolutamente um monstro, Joel.

- Não sei como lhe agradecer.

Ela pegou a mão direita de Marco e apertou-a entre as suas.

- Algum dia voltará a Bolonha?

Era mais um convite do que uma pergunta.

- Não sei. Não tenho a menor idéia do que vai acontecer. Mas talvez volte. Posso bater em sua porta se voltar?

- Por favor, faça isso. Tome cuidado ao sair.

Ele ficou parado nas sombras da Via Minzoni por alguns minutos, sem querer deixá-la, ainda não preparado para iniciar a longa viagem.

Depois soou uma tosse sob os pórticos escuros no outro lado da rua e Giovanni Ferro iniciou sua fuga.

 

A medida que as horas passavam, com uma lentidão angustiante, a preocupação de Luigi foi se transformando em pânico. Uma de duas coisas acontecera: ou a execução fora consumada ou Marco descobrira alguma coisa e estava tentando escapar. Luigi pensou na bolsa roubada. Teria sido um movimento exagerado? Assustara Marco a ponto de desaparecer?

A descoberta do smartphone deixara todo mundo abalado. O alvo vinha fazendo muito mais do que estudar italiano, passear pelas ruas e experimentar todos os cafés e bares da cidade. Também planejava e se comunicava.

O smartphone estava no porão da embaixada americana em Milão. Segundo as últimas informações de Whitaker, que se comunicava a cada quinze minutos, os técnicos ainda não haviam conseguido decifrar seus códigos.

Poucos minutos depois de meia-noite, os dois intrusos no apartamento ao lado cansaram de esperar. Ao se retirarem, trocaram algumas palavras, as vozes bastante altas para serem gravadas. Falaram em inglês, com uma insinuação de sotaque. Luigi ligou no mesmo instante para Whitaker e informou que provavelmente eram israelenses.

Ele acertou. Os dois agentes haviam sido instruídos por Efraim a deixar o apartamento e assumir outras posições.

Quando eles saíram, Luigi decidiu mandar Krater para a estação rodoviária e Zellman para a ferroviária. Sem passaporte, Marco não poderia comprar uma passagem de avião. Mas, como ele disse a Whitaker, se o alvo fora capaz de comprar o mais moderno celular-computador, que custava cerca de mil dólares, talvez fosse capaz também de obter um passaporte.

Por volta das três horas da madrugada, Whitaker gritava com ele de Milão. Luigi, que não podia gritar, por questões de segurança, só podia praguejar, o que fazia em inglês e italiano... mas silenciosamente, nas duas línguas.

- Você o perdeu! - berrou Whitaker.

- Ainda não.

- Ele já está morto!

Luigi desligou pela terceira vez naquela madrugada.

A kidon suspendeu a vigília às três e meia da madrugada. Descansariam por umas poucas horas, e depois planejariam o dia pela frente.

 

Ele sentou no mesmo banco de um mendigo bêbado, numa pequena praça, ao lado da Via deli' Indipendenza, não muito longe da estação rodoviária. O bêbado mamara de uma garrafa com um líquido rosa durante a maior parte da noite. A cada cinco minutos, mais ou menos, conseguia levantar a cabeça e resmungar alguma coisa para Marco a um metro e meio de distância. Marco murmurava em resposta, o que parecia satisfazer o bêbado. Dois de seus colegas estavam comatosos, esparramados no chão, ali perto, como soldados mortos numa trincheira. Marco não se sentia muito seguro, mas tinha de se preocupar com outros problemas mais graves.

Havia umas poucas pessoas na frente da estação rodoviária. Por volta de cinco e meia, a atividade aumentou. Um grupo grande apareceu. Pareciam ser ciganos, exuberantes, falando alto depois de uma longa viagem de ônibus. Havia agora mais passageiros partindo do que chegando. Marco decidiu que era o momento de se separar do bêbado. Ele entrou na estação, atrás de um jovem casal com uma criança. Seguiu-os até os guichês. Ouviu-os comprarem passagens para Parma. Fez a mesma coisa e depois seguiu apressado para o banheiro, onde se escondeu numa baia.

Krater estava sentado no restaurante da estação, que ficava aberto durante toda a noite. Tomava café e se escondia por trás de um jornal, observando os passageiros que iam e vinham. Viu Marco passar. Registrou a altura, compleição, idade. O jeito de andar era familiar, embora muito mais lento. O Marco Lazzeri que ele seguia durante semanas podia andar tão depressa quanto a maioria dos homens consegue correr. O ritmo daquele homem era muito mais lento, mas também não havia para onde ir. Por que se apressar? Nas ruas, Lazzeri sempre tentava despistá-los, e às vezes conseguia.

O rosto daquele homem, porém, era diferente. Tinha os cabelos muito mais escuros. O boné marrom desaparecera, mas era um acessório fácil de perder. Os óculos de aros de casco de tartaruga atraíram a atenção de Krater. Óculos eram diversões maravilhosas, mas às vezes eram exagerados. A elegante armação Armani de Marco ajustava-se com perfeição, alterando um pouco sua aparência, sem chamar atenção para o rosto. Mas os óculos redondos daquele homem suplicavam por atenção.

O bigode e a barba haviam desaparecido, um trabalho de cinco minutos, uma coisa que qualquer um podia fazer. Krater nunca vira aquela camisa antes e estivera no apartamento de Marco com Luigi, durante as revistas, em que verificavam todas as roupas. O jeans desbotado era bastante comum e Marco comprara uma calça parecida. O casaco esporte azul, com reforços nos cotovelos, assim como a linda pasta de executivo, mantiveram Krater sentado. O casaco tinha muitos quilômetros de uso, algo que Marco não poderia ter comprado. As mangas eram um pouco curtas, mas isso nada tinha de excepcional. A pasta era feita de couro de excelente qualidade. Marco poderia ter encontrado e gastado um bom dinheiro com um smartphone, mas por que desperdiçar com uma pasta tão cara? A última bolsa que ele usara, a Silvio azul-marinho, mantida até dezesseis horas antes, quando Krater a roubara, durante a confusão no Caffè Atene, custara sessenta euros.

Krater observou-o até que ele virou uma esquina e desapareceu. Uma possibilidade, nada mais. Ele tomou um gole do café. Por alguns minutos, pensou no homem que acabara de ver.

 

Marco estava na baia, com o jeans arriado ao redor dos tornozelos. Sentia-se ridículo, mas estava muito mais preocupado com uma boa cobertura naquele momento. A porta foi aberta. A parede à esquerda da porta tinha quatro mictórios, no outro lado, havia seis pias, depois as quatro baias. As outras três estavam vazias. Havia pouco movimento. Marco prestou atenção, esperando ouvir os sons de um ser humano se aliviando: o zíper, o retinido da fivela do cinto, o suspiro com que os homens costumam acompanhar o jato de urina.

Nada. Também não houve barulho nas pias, ninguém lavando as mãos. As portas das outras três baias não foram abertas. Talvez fosse o vigia fazendo a ronda, muito depressa.

 

Na frente das pias, Krater abaixou-se e viu o jeans arriado na última baia. E a pasta se destacava ao lado do jeans. O homem cuidava de sua vida, sem a menor pressa.

O próximo ônibus partia às seis horas, para Parma, depois, havia uma partida às 6:20h para Florença. Krater foi comprar passagens para os dois ônibus. O bilheteiro fitou-o com estranheza, mas Krater não se importou. Voltou ao banheiro. O homem na última baia continuava ali.

Krater saiu e ligou para Luigi. Deu a descrição do homem e explicou que ele parecia não ter pressa de deixar o banheiro.

- O melhor lugar para se esconder - comentou Luigi.

- Já fiz isso muitas vezes.

- Acha que é Marco?

- Não sei. Se é, conseguiu um bom disfarce.

Por causa do smartphone, os quatrocentos dólares em dinheiro americano e o súbito desaparecimento, Luigi não estava disposto a correr qualquer risco.

- Siga-o - disse ele.

 

As 5:55h, Marco levantou o jeans, deu a descarga, pegou a pasta e saiu do banheiro para pegar o ônibus. Krater, esperando na plataforma, comia uma maçã com uma das mãos, enquanto a outra segurava um jornal. Quando Marco seguiu na direção do ônibus para Parma, Krater foi atrás.

Um terço dos bancos estava vazio. Marco sentou no lado esquerdo, na janela, no meio do ônibus. Krater olhava para o outro lado quando passou por ele. Foi sentar quatro bancos depois.

A primeira parada foi em Módena, com trinta minutos de viagem. Ao entrarem na cidade, Marco decidiu avaliar os rostos atrás dele. Levantou-se e foi para o banheiro, no fundo do ônibus, lançando um olhar casual para cada homem.

Quando se trancou no banheiro, fechou os olhos e murmurou para si mesmo:

- Já vi esse rosto antes.

Menos de vinte e quatro horas antes, no Caffè Atene, poucos minutos antes das luzes apagarem. O rosto estava refletido num espelho na parede, atrás de um velho cabideiro para casacos por cima das mesas. O rosto sentava próximo, por trás dele, em companhia de outro homem.

Era um rosto familiar. Talvez ele já o tivesse visto antes em algum outro lugar de Bolonha.

Marco voltou ao banco, enquanto o ônibus diminuía a velocidade aproximando-se da estação. Pense depressa, ele disse a si mesmo várias vezes, mas mantenha a calma. Não entre em pânico. Foi seguido ao sair de Bolonha, não pode deixar que o sigam ao sair do país.

Quando o ônibus parou, o motorista anunciou a chegada a Módena. Uma breve escala, tornariam a partir dentro de quinze minutos. Quatro passageiros adiantaram-se pelo corredor e saltaram. Os outros continuaram sentados, a maioria cochilava. Marco fechou os olhos e deixou a cabeça pender para a esquerda, na direção da janela, simulando um sono profundo. Um minuto passou e dois camponeses embarcaram, os olhos arregalados, carregando duas pesadas bolsas de pano.

Quando o motorista voltou e sentou ao volante, Marco levantou-se de repente, atravessou o corredor e saltou um instante antes da porta fechar. Entrou apressado na estação, depois virou-se e ficou observando o ônibus sair da vaga, de ré. Seu perseguidor continuava a bordo.

O primeiro impulso de Krater foi o de sair correndo do ônibus. Talvez até discutisse com o motorista no processo. Mas nenhum motorista insistiria em manter um passageiro no ônibus contra a vontade. Ele logo se conteve, no entanto, porque era óbvio que Marco sabia que estava sendo seguido. A saída do ônibus no último segundo confirmava o que Krater desconfiava. Era mesmo Marco, fugindo como um animal ferido.

O problema era que ele estava à solta em Módena, ao contrário de Krater. O ônibus entrou em outra rua e parou num sinal de trânsito. Krater correu para o motorista, as mãos na barriga, suplicando que o deixasse saltar antes que vomitasse por toda parte. A porta foi aberta no mesmo instante. Krater saltou e voltou correndo para a estação.

Marco não perdera tempo. Assim que o ônibus se afastou, ele correu para a frente da estação, onde ficava a fila de táxis. Embarcou no banco traseiro do primeiro táxi e perguntou ao motorista:

- Pode me levar a Milão? Seu italiano saiu perfeito.

- Milano?

- Si, Milano.

- E molto caro!

- Quanto?

- Duecento euro.

- Andiamo.

Depois de uma hora vasculhando a estação rodoviária de Módena e as duas ruas próximas, Krater ligou para Luigi com a notícia de que nem tudo era bom, nem tudo era mau. Perdera a pista do homem, mas a corrida desesperada para a liberdade confirmava que era mesmo Marco.

A reação de Luigi foi mista. Sentiu-se frustrado por Krater ter sido enganado por um amador. Estava impressionado por Marco ter conseguido mudar a aparência e se esquivado de um pequeno exército de assassinos. E sentia-se irritado com Whitaker e os idiotas de Washington que a todo instante trocavam de planos e agora haviam criado um desastre iminente, pelo qual ele, Luigi, sem dúvida seria culpado.

Ele ligou para Whitaker, gritou e xingou, depois foi para a estação ferroviária com Zellman e os outros dois. Iriam se encontrar com Krater em Milão, onde Whitaker prometia um esforço total, com todos os homens que pudesse mobilizar.

Ao deixar Bolonha, no eurostar expresso, Luigi teve uma idéia maravilhosa, mas que não podia mencionar para ninguém. Por que simplesmente não avisar aos israelenses e chineses que Backman fora visto pela última vez em Módena, seguindo para oeste, na direção de Parma, mas com Milão como destino provável? Eles queriam Marco muito mais do que Langley. E com certeza fariam um trabalho melhor para descobri-lo.

Mas ordens eram ordens, mesmo que mudassem a todo momento.

Todos os caminhos levavam a Milão.

 

O táxi parou a um quarteirão da estação ferroviária central de Milão. Marco pagou ao motorista, agradeceu mais uma vez, desejou boa viagem de volta a Módena e depois passou por uma dúzia de outros táxis que esperavam a chegada de passageiros. Dentro da vasta estação, ele acompanhou o fluxo da multidão. Subiu na escada rolante para o frenesi controlado na área das plataformas, uma dúzia de trilhos trazendo os trens. Encontrou um quadro de partidas, e estudou suas opções. Havia um trem para Stuttgart quatro vezes por dia, e a sétima parada era em Zurique. Ele pegou uma tabela de horário dos trens, comprou um guia barato da cidade com um mapa, e foi sentar à mesa de um café, no meio de uma fileira de lojas. Não havia tempo a desperdiçar, mas precisava avaliar a situação. Marco tomou dois espressos e comeu uma fatia de bolo, enquanto observava a multidão. Adorava todo aquele movimento, pessoas indo e vindo. Havia segurança na quantidade.

O primeiro plano foi o de fazer uma caminhada, cerca de trinta minutos, até o centro da cidade. Em algum lugar no caminho encontraria uma loja de roupas baratas, e trocaria tudo, casaco, camisa, calça, sapatos. Fora visto em Bolonha. Não podia correr o risco de acontecer de novo.

E, com toda certeza, em algum lugar no centro da cidade, perto da Piazza del Duomo, encontraria um café com acesso à Internet, onde poderia alugar um computador por quinze minutos. Tinha pouca confiança em sua capacidade de sentar na frente de uma máquina estranha, ligá-la e não apenas sobreviver à selva da Internet, mas também mandar uma mensagem para Neal. Eram 10:15h da manhã em Milão, 4:15h da madrugada em Culpeper, Virgínia. Neal verificaria a correspondência eletrônica às 7:50h.

De alguma forma, ele mandaria o e-mail. Não tinha opção.

O segundo plano, o que parecia cada vez melhor, enquanto ele observava mil pessoas embarcando em trens que as dispersariam em poucas horas por toda a Europa, era fugir. Comprar uma passagem imediatamente e sair de Milão e da Itália o mais depressa possível. A nova cor dos cabelos, os óculos de Giovanni e o casaco do velho professor não os enganaram em Bolonha. Se eram tão bons assim, haveriam de encontrá-lo em qualquer lugar.

Ele chegou a um meio-termo, decidindo dar uma volta pelo quarteirão. O ar fresco sempre ajudava. Depois de quatro quarteirões, sentiu a energia de volta. Como em Bolonha, as ruas de Milão espalhavam-se em todas as direções, como uma teia de aranha. O tráfego era intenso, e havia momentos em que os carros mal se mexiam. Ele adorou em particular as calçadas apinhadas, proporcionando a cobertura de que tanto precisava.

A loja chamava-se Robertos. Era pequena, espremida entre uma joalheria e uma padaria. As duas vitrines exibiam roupas que dariam para uma semana, no tamanho de Marco. O vendedor do Oriente Médio falava um italiano pior que o de Marco, mas era fluente em apontar e grunhir. Além disso, estava determinado a transformar seu cliente. O casaco azul foi substituído por um casaco marrom-escuro. A nova camisa era branca, de enfiar pela cabeça, mangas curtas. A calça era de lã, de um azul-marinho quase preto. As adaptações levariam uma semana. Marco pediu uma tesoura. Na cabine recendendo a mofo, mediu da melhor forma possível e cortou a calça. Quando saiu da cabine, com as roupas novas, o vendedor olhou para as pontas irregulares, onde deveria haver bainhas, e quase chorou.

Marco também experimentou sapatos, mas compreendeu que o deixariam entrevado antes de voltar à estação ferroviária. Por isso, ficaria com as botas, pelo menos por enquanto. A melhor a