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O DIA ANTES DO AMANHECER / Thomas Wisemann
O DIA ANTES DO AMANHECER / Thomas Wisemann

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O DIA ANTES DO AMANHECER

 

Na segunda semana de Fevereiro de 1945, o tempo, na Silésia Superior, aqueceu subitamente, e, em certas áreas geladas do Rio Oder, começaram a abrir-se fendas.

 

Notando que a sua rota de regresso se derretia, uma das unidades alemãs de destruição de tanques, enterrada na margem oriental do rio, a sul de Breslau, começou a recuar. Contrariava assim as ordens recebidas, que proibiam qualquer soldado alemão de recuar ou render-se.

 

Os destruidores de tanques dirigiram-se para o rio, a pé, a cavalo, em camiões blindados, nas plataformas dos carros de transporte de canhões. Os veículos pesados alargaram as fendas do gelo no rio. Para distribuir o peso dos veículos, os soldados colocaram longas pranchas de madeira sobre o rio em descongelamento e conduziram lentamente os carros ao longo desses trilhos. Atravessaram o rio em fila indiana, um carro de cada vez. Levaram muito tempo.

 

Ao princípio da noite ainda poucos tinham passado. Então o gelo derretido começou a deslizar, provocando uma pequena avalanche. Blocos de gelo soltos, arrastados, atingiram os cavalos. Estes, ao escoucear sobre a superfície já precária, começaram a quebrá-la.

 

Animais, canhões e homens foram engolidos por uma enorme bocarra negra que, momentos depois, voltava a fechar-se, ao sabor das deslocações do gelo. Tal visão, aliada aos gritos dos homens que se afogavam e aos relinchos dos cavalos aterrorizados, aumentou a confusão e o medo dos que ainda tentavam atravessar o rio. As rodas escorregavam para fora das pranchas de madeira e giravam inutilmente, enquanto os motores ganiam e rugiam sem produzir qualquer movimento. Um camião de duas toneladas começou a girar como um pião e desapareceu, rio abaixo, aos zigue-zagues.

 

À medida que surgiam mais fendas no gelo, a superfície sólida começou a mover-se, muito lentamente. Vendo que estavam a ser afastados do local escolhido para a travessia e levados para uma parte mais larga do Oder, os soldados mais próximos da margem ocidental abandonaram os veículos e gritaram aos seus camaradas que já tinham atravessado, que lhes lançassem cordas. Não obtiveram resposta: apenas o crepitar do gelo que se fendia. Então, pela primeira vez, viram as rígidas formas brancas junto dos arbustos que ladeavam a margem. E, à medida que os destruidores de tanques ficaram ao nível dos homens que os aguardavam e que usavam camuflados brancos de neve sobre os uniformes, puderam ver as letras SS nas suas mangas. Momentos depois, os SS abriram fogo sobre os compatriotas, transformando os blocos de gelo em esquifes flutuantes.

 

No dia seguinte, 11 de Fevereiro, quando o Marechal Konev alcançou a margem oriental do Oder, os corpos dos destruidores de tanques desciam lentamente o rio, em procissão solene.

 

Utilizando a mesma técnica de lançar pranchas de madeira sobre o gelo fendido, mas fazendo-o mais habilmente e escolhendo com melhor critério os locais de passagem, o exército de Konev conseguiu fazer com que uma grande força de tanques atravessasse o rio.

 

Poucos dias depois, Zhukov montava uma testa de ponte firme na margem ocidental do Oder, a norte de Kiistrin, colocando as forças russas avançadas a duas horas de distância do centro de Berlim.

 

O pânico atacou a capital em massa, à chegada destas notícias. Cruzavam-se boatos de que os soldados soviéticos violavam e matavam indiscriminadamente, à medida que avançavam. A ordem era: Sauve qui peut. Cada um por si.

 

"Oiça isto, senhor'', disse Howard Elliot. Estava sentado junto da máquina de cifrar alemã, recuperada, na sala de códigos da legação americana em Berna. Enquanto ia martelando o teclado daquilo que parecia a combinação de uma máquina de escrever com uma central telefónica em miniatura, o texto decifrado emergia, aos esticões, rapidamente registado. "Isto ultrapassa tudo. Mesmo para eles. Oiça isto. Sr. Quantregg."

 

Quantregg, um californiano alto, com um corte de cabelo muito curto, cujos movimentos pareciam imbuídos de uma sensação de urgência que continuamente tentava incutir aos outros, acabara de irromper na sala, como habitualmente, e parara na entrada, sacudindo a cabeça como se acompanhasse um ritmo de swing.

 

Elliot traduziu a mensagem:

 

"Determinados elementos irresponsáveis parecem crer que a guerra terminará para eles, logo que se rendam ao inimigo. Contrariamente ao que julgam, deve-se fazer notar que todos os desertores serão perseguidos e acabarão por receber o seu justo castigo. Além disso, o seu comportamento ignominioso acarretará as mais graves consequências para as suas famílias. Examinadas as circunstâncias, serão sumariamente abatidos.

 

"É um acto de dever racial, segundo as tradições teutónicas, exterminar mesmo os parentes daqueles que se entregam ao cativeiro..." Elliot parou, e acrescentou: "Calcula quem assina? "

 

Elliot controlava havia já algum tempo as comunicações internas do Departamento Principal de Segurança do Reich. Por isso conhecia bem a crueldade mística de Himmler e as suas bizarras formas de auto-justificação.

 

Quantregg abrandou os movimentos ritmados de cabeça e acenou veementemente.

 

"De certo modo é brilhante". Anuiu. "Que outra coisa impediria aqueles cobardes de fugir? Mas não resulta, mesmo que matem as mãezinhas deles, não resulta". O tom da sua voz mudara, tomara-se ponderado. "Espero que vocês arquivem todas as coisas desse género, não só para fazer um gráfico do quociente de inteligência do tipo, mas para uma lista de crimes de guerra."

 

"Julgo que o Departamento de Crimes de Guerra está bem organizado, quanto a isto."

 

"Temos que nos certificar. Não quero que um desses gajos escape à corda só por alguém se ter esquecido de tomar notas."

 

"Eu tenho tomado notas", disse Elliot.

 

"Agrada-me ouvi-lo dizer isso."

 

Deu alguns passos em frente, excitado como sempre ficava quando se falava de alemães.

 

Por vezes, Quantregg tinha que receber emissários nazis que vinham falar com o seu chefe, Allen Dulles.

 

"Masdigo-lhe uma coisa", afirmou Quantregg. "Nunca lhes aperto a mão. É um princípio meu".

 

"Isso deve aborrecê-los muito", disse Elliot. Não conseguia resistir.

 

"Certo", disse Quantregg.

 

"Pois imagine", disse Elliot, "que ouvi dizer que o Sr. Dulles é muito generoso com as bebidas quando eles vêm visitá-lo."

 

"Isso é outra coisa", explicou Quantregg. "Se se lhes oferece uma bebida, põem-se a falar. Não é o mesmo que apertar-lhes a mão."

 

"Não é preciso beber do mesmo copo", concordou Elliot.

 

"Certo", disse Quantregg. "Certo". E, de súbito, compreendendo-o, acrescentou rispidamente, "Estás a armar-te em esperto, rapazinho?"

 

"Que ideia, Sr. Quantregg!"

 

"É melhor não o tentares, acredita."

 

"Certo, Sr. Quantregg."

 

"Certo."

 

Elliot era um tipo esperto, talvez esperto de mais. Quantregg, ex-FBI, o polícia do grupo, sentia-se sempre rebaixado pelos intelectuais com que o Sr. Dulles fartamente recheava a missão de Berna, e considerava Elliot como um deles. Tinha aquele tal ar distintamente superior. Cabelos castanhos muito claros, mesmo louros em certos pontos, separados por um risco perfeito e muito bem penteados para trás, muito curtos em volta das orelhas e no pescoço. Botões no colarinho. Gravata cinzenta de malha. Fato cinzento. Meias cinzentas, lisas. Lenço dobrado em triângulo no bolso superior do casaco. Limpo. De falinhas mansas. Mas inteligentes.

 

Esses tipos novos e espertos tinham frequentado os melhores colégios do leste e sabiam tudo sobre a história do Fascismo, do Nazismo e dos outros ismos todos. Passavam a vida a teorizar sobre uma ou outra eventualidade e a fabricar cenários de acção. Quantregg não se sentia à vontade com eles. As suas capacidades eram de tipo mais prático.

 

Herb Entweiler, o chefe da sala de códigos entrou com um papel cor-de-rosa na mão. "Isto acaba de chegar", disse, entregando o papel a Elliot. "Tem três SS, por isso é melhor ficar com ele. É para o Sr. Dulles."

 

Quantregg disse: "Logo que esteja pronto, entregue-lho tu de suite. Ele quer que lhe levem tudo ao apartamento. Não pode mexer-se. Outra vez aquela maldita gota. Era isso que eu vinha dizer-lhe. Percebeu?"

 

"Percebi, sim senhor."

 

"Certo."

 

Quantregg partiu, com o seu ar irado e apressado, como de costume.

 

Elliot olhou para o triplo S. Essa designação significava que

 

não podia ser decifrada à máquina. As mensagens muito especiais eram expedidas, para maior segurança, num código que só podia ser decifrado em comparação com um bloco que apenas servia para um determinado dia.

 

Entweiler dirigiu-se ao cofre dos códigos e abriu-o: esperou enquanto Elliot consultava um mapa impresso, procurando a palavra-chave para 5 de Abril. Em seguida procurou o número de referência para o dia e escolheu o bloco de código que levou para a sua secretária verde de tampo metálico. A chave era constituída por uma série de letras ao acaso que se acrescentavam ao texto, de forma a retirar-lhe estrutura e torná-lo impenetrável à cripto-análise.

 

Elliot tirou um cigarro de um maço novo de Chesterfield e, utilizando o bloco em conjunto com a chave, começou a escrever com um lápis macio, numa folha de papel quadriculado, sem nada por baixo. Quando acabou de escrever o texto, releu-o, para ver se fazia sentido. Franziu ligeiramente os lábios ao apreender o sentido do que acabara de decifrar. Dobrou a mensagem e meteu-a num envelope grosso.

 

"Disseram-me que levasse isto ao apartamento do Sr. Dulles. Tu de suite.''

 

"Vou tratar do transporte", disse Entweiler, levantando o telefone interno.

 

"Sei ir sozinho."

 

"Mas não com um triplo S no bolso. Vai num carro da legação, e com um tipo da segurança."

 

Era um Cadillac preto, com as bandeirinhas americanas a esvoaçar nos guarda-lamas, e vidros à prova de bala. Todas as portas se fechavam por dentro e por fora. O oficial de segurança sentou-se à frente, ao lado do motorista.

 

Atravessaram suavemente a zona residencial em volta do Dalmaziquai, com o Aare ao mesmo nível da rua, proporcionando aos residentes um agradável passeio de barco sob as árvores.

 

Ninguém andava pelas ruas. Era um dia cinzento e frio. O tempo tinha estado muito instável no princípio de Abril, com certos dias brilhantes e cheios de sol, e outros em que parecia iminente a queda de neve, com as rajadas súbitas de chuva fria e penetrante e as correntes de ar cortante que desciam dos Alpes de Berna.

 

O carro passou por um court de tennis vazio. Havia sinais a indicar o caminho para o Tierpark, para uma piscina, uma clínica de convalescença. A maior parte das casas da área eram residências particulares de dois ou três andares, construídas em estilos diversos, na primeira e segunda década do século. As sólidas residências dos sólidos cidadãos suíços. Algumas dessas casas estavam ocupadas por embaixadas, tendo pouco mais do que o escudo heráldico do respectivo país sobre a porta de entrada, a distingui-las das casas particulares.

 

O apartamento de Dulles ficava a poucos minutos da rua de belas casas antigas de arenito, numa elevação acima do nível do rio. Vivia no ponto onde a Herrengasse abria para a grande praça da catedral. Um pouco mais adiante ficava a Platform, um alto terraço ladeado de árvores, do qual se podia observar uma vista magnífica de toda a cidade, espalhada lá em baixo, e dos Alpes que se erguiam, de súbito, como uma massa imponente, do outro lado do rio.

 

Em frente da porta de Dulles, o Cadillac parou com a suavidade própria das suas luxuosas suspensões. Elliot saiu e tocou a campainha. Foi a cozinheira que o atendeu. "Ah, sim", disse ela, ao ver o carro da legação, e deixou-o entrar. Havia um homem da OSS sentado, mesmo junto da porta, ao lado da escada. Descontraiu-se ao reconhecer Elliot.

 

"Dê-me o seu sobretudo, se faz favor", disse a cozinheira. Elliot entregou-lho.

 

Quantregg surgiu no topo das escadas. "OK, OK.", disse, dando estalos impacientes com os dedos. "Traga cá isso." Todo o seu corpo vibrava de impaciência enquanto esperava que Elliot subisse as escadas. Que lentos são estes tipos. Quantregg subia invariavelmente as escadas de três em três degraus, como se fosse fazer uma rusga.

 

Avançando um pouco pelo corredor, Quantregg bateu ligeiramente com os nós dos dedos numa das portas e, um momento depois, entrou. Elliot aguardou, no cimo das escadas, com o envelope na mão. Foi apoiando o peso do corpo ora num pé ora no outro, pensou em fumar um cigarro mas desistiu.

 

Ao fim de dez a quinze minutos de espera, a porta abriu-se. Quantregg saiu e estacou na estreita passagem, ocupando-a, a toda a largura, com o seu corpo enorme, de costas para Elliot. Conduzia algumas pessoas à saída. Três homens. Elliot não conseguiu ver-lhes o rosto. Quantregg acompanhou-os ao longo do corredor até à escada das traseiras. Enquanto se despediam, Elliot ouviu um bater de calcanhares e viu uma mão estendida, que foi imediatamente recolhida quando Quantregg se recusou conspicuamente a apertá-la.

 

Os visitantes desapareceram escada abaixo, e Quantregg voltou para junto de Elliot.

 

"OK. Vamos.", disse ele. "Ele vai certamente ditar-lhe uma resposta."

 

Dulles estava sentado num cadeirão baixo, com a perna esquerda rigidamente esticada, apoiada, por baixo do joelho, numa almofada sobre uma banqueta de veludo. Estava sem sapatos, apenas com as meias. Tinha uma bengala ao lado, e um cachimbo na boca. O quarto estava cheio de fumo. Havia papéis, dossiers e jornais em diversas línguas sobre as mesas, nos móveis, no chão.

 

Dulles não estava com bom aspecto. Era evidente que sentia dores e tinha febre. Uma fina camada de transpiração cobria a sua pele amarelada. Havia luzes distantes por baixo dos seus olhos castanhos. Usava óculos sem aros. As olheiras estavam mais cavadas e o seu bigode quase branco. Parecia ter mais de cinquenta e dois anos.

 

Oficialmente, Allen Welsh Dulles era Assistente Especial do Ministro, na legação americana de Berna, mas, quando, pouco após a sua chegada em Novembro de 1942, um jornal suíço publicou uma notícia que o descrevia como chefe dos Serviços Secretos Americanos na Suíça, a OSS, e representante pessoal do Presidente Roosevelt, Dulles não emitiu qualquer desmentido. Era sua opinião que um homem na sua posição deveria deixar os outros, saber que está em actividade. Isto trouxe gente bem estranha ao seu encontro, entre a qual alguns tipos bastante desagradáveis, mas Dulles gostava de dizer que, na sua profissão, era preciso saber lidar com o próprio diabo, se assim servisse os interesses dos Estados Unidos e do mundo livre. Por isso, quando os emissários dos SS de Himmler procuraram contactá-lo, não repeliu as suas tentativas. Acedera a encontrar-se com eles secretamente, ou a enviar um dos seus ajudantes para ouvir o que tinham a dizer-lhe.

 

Tais contactos incomodavam alguns dos seus homens. Mas Dulles tinha uma visão mais vasta da história e da sua missão de proteger o sistema de vida americano, e, como nunca duvidava de que Deus estava do seu lado, podia enfrentar o próprio diabo, até mesmo oferecer-lhe uma bebida ou um charuto, sem se sentir pouco à vontade. Conservava-se sentado, fumando o seu cachimbo e olhando polidamente para o seu visitante, fosse ele quem fosse, e considerava cada proposta pragmaticamente, segundo os seus méritos.

 

Evidentemente, havia um certo perigo em receber tal gente e, por vezes, Dulles sentia-se perturbado pela visão de cabeçalhos de jornais dizendo: O ENVIADO DO PRESIDENTE ROOSEVELT RECEBE OFICIAIS SS DE ALTA PATENTE. Por isso, esses encontros tinham geralmente lugar num dos seus muitos apartamentos secretos em Berna e Zurique ou nos seus arredores. Mas a maldita gota imobilizara-o, desta vez.

 

Quando Elliot entrou no quarto, segurando o envelope, Dulles franziu o sobrolho, suspeitando de que não iria gostar do que estava para ouvir. Estendeu a mão para o envelope e, recordando-se de que tinha fama de possuir uma cortezia do estilo Velho Mundo, disse: "Obrigado, Elliot. Agradeço a sua vinda. Outra vez esta maldita gota. No joelho. Não consigo movê-lo, o maldito..."

 

Elliot murmurou algumas amabilidades.

 

"Excesso de ácido úrico no sangue. Receio bem ter que fazê-lo andar de um lado para o outro, durante uns dias, até me poder mexer de novo. Não se deve importar por andar um bocado, tem boas pernas, fortes e jovens. Ouvi dizer que é terrível no ténis..."

 

"Às vezes venço o Sr. Quantregg", admitiu Elliot.

 

"Isso é terrível."

 

Dulles parecia adiar o momento em que teria de ler o telegrama.

 

"Pode arranjar-me um whisky com soda?" disse. "Os médicos dizem que a cerveja faz mal à gota, mas o whisky não. Devo sentir-me grato por isso, não acha?" Soltou a sua risada ressonante. Elliot dirigiu-se à mesinha e serviu um whisky. Era a primeira vez que ouvia dizer que o whisky não fazia mal à gota, mas não se podia discutir com o Sr. Dulles. Toda a gente em Berna sabia como o Sr. Dulles era importante. Quão próximo estava do Presidente. Um homem com as mais elevadas relações familiares. Tinha mesmo havido um Secretário de Estado na sua família...

 

Elliot levou-lhe a bebida e Dulles bebeu um longo golo e estendeu a mão para o envelope. No último momento, mudou de opinião e disse, "Leia-mo." Puxou os óculos para a testa húmida e massajou os olhos, enquanto esperava a leitura do telegrama de Washington que trazia um sinal de tripla prioridade.

 

Elliot rasgou o envelope e, com uma voz sem expressão, leu a mensagem.

 

WASHINGTON

 

DATA: 5 DE ABRIL DE 1945

 

URGENTE-ALTAMENTE SECRETO DO ALMIRANTE LEAHY PARA ALLEN W. DULLES OS CHEFES DO ESTADO MAIOR NOTIFICAM DULLES DE QUE DEVE TOMAR NOTA DO SEGUINTE:

 

  1. SURGIU UMA SITUAÇÃO CRÍTICA EM RELAÇÃO AOS RUSSOS. STALIN ENVIOU UMA LONGA MENSAGEM ACRIMONIOSA A ROOSEVELT, ACUSANDO-O DE FAZER UM ACORDO SECRETO EM BERNA, SEGUNDO   O   QUAL   OS   ALEMÃES   ABRIRÃO   A FRENTE OCIDENTAL E PERMITIRÃO ÀS TROPAS ANGLO-AMERICANAS O AVANÇO PARA LESTE.

 

  1. ROOSEVELT ENVIOU UMA MENSAGEM PESSOAL A STALIN, DIZENDO: ' 'ESTOU CERTO DE QUE NÃO HÁ QUAISQUER NEGOCIAÇÕES EM BERNA E JULGO QUE A INFORMAÇÃO DE V. EXA. A ESSE RESPEITO, SEJA PROVENIENTE DE FONTES ALEMÃS, QUE TÊM LEVADO A CABO UM ESFORÇO PERSISTENTE NO SENTIDO DE CRIAR DISSENÇÕES ENTRE NÓS, PARA FUGIREM, DE CERTO MODO, À RESPONSABILIDADE DOS SEUS CRIMES DE GUERRA. SE ERA ESSE O PROPÓSITO DO GENERAL SS WOLFF, EM BERNA, A MENSAGEM DE V. EXA. DEMONSTRA QUE ELE ALCANÇOU UM CERTO ÊXITO. SERIA UMA DAS GRANDES TRAGÉDIAS DA HISTÓRIA SE, NO MOMENTO EM QUE A VITÓRIA ESTÁ AO NOSSO ALCANCE, UMA TAL DESCONFIANÇA E FALTA DE FÉ PREJUDICASSEM TODA A NOSSA COMPREENSÃO..."

 

'FRANCAMENTE DIGO QUE NÃO CONSIGO EVITAR UM SENTIMENTO DE AMARGO RESSENTIMENTO PERANTE OS INFORMADORES DE V. EXA., SEJAM ELES QUEM FOREM, EM FACE DE TÃO VIL INTERPRETAÇÃO DAS MINHAS ACÇÕES E DAS DOS MEUS SUBORDINADOS DE CONFIANÇA EM BERNA."

 

  1. EM CONFORMIDADE, DULLES RECEBE UMA VEZ MAIS INSTRUÇÕES PARA NÃO EMPREENDER QUAISQUER ACÇÕES OU NEGOCIAÇÕES QUE SEJAM OU POSSAM PARECER SUSPEITAS DE CONSTITUIR UMA VIOLAÇÃO DOS PRINCÍPIOS ACORDADOS ENTRE NÓS E OS RUSSOS.

 

Depois de ouvir tudo isto, Dulles exclamou, em voz baixa: "Raios". Voltou-se para Quantregg. "Tinha conseguido..." Estendeu a palma da mão e, lentamente, fechou o punho em volta de um objecto invisível. "Tinha conseguido... e eles estragaram tudo. Raios os partam."

 

"Penso que eles não confiam em Wolff." disse Quantregg. "Acho que pensam que ele nos está a levar à caça de patos bravos."

 

"Eles não conhecem Wolff como eu. disse Dulles.

Penso que, de certo modo, não podemos censurá-los por não confiarem nele," disse Quantregg, "tendo em vista o que ele é."

 

De súbito, lembrando-se de que Elliot ainda ali estava, à espera que lhe dissessem o que devia fazer, Dulles voltou-se para ele e disse, Está bem, Elliot. Sente-se um minuto. Dê-me só uns momentos para pôr as ideias em ordem ".

 

Concentrou-se, fechando os olhos e chupando o cachimbo com força. Um minuto depois, disse, ' Pronto. Tome nota." E começou a ditar.

 

ALLEN W. DULLES AO ALMIRANTE LEAHY: MENSAGEM RECEBIDA E CONTEÚDO ANOTADO. AVENTURO-ME A DIZER QUE O PRESIDENTE TEM INTEIRA RAZÃO EM REJEITAR AS ACUSAÇÕES POLITICAMENTE MOTIVADAS DE STALIN, QUE, ALÉM DE INFUNDADAS, SÃO INSULTUOSAS PARA A HONRA DOS ESTADOS UNIDOS E SE REFLECTEM NA INTEGRIDADE PESSOAL DO PRESIDENTE. A INFORMAÇÃO RECEBIDA POR STALIN RESULTA INDUBITAVELMENTE DE UM PLANO ALEMÃO DESTINADO A ROMPER AS RELAÇÕES ENTRE NÓS E OS SOVIETES. POSSO CONFIRMAR QUE AS ACÇÕES DA OSS SE LIMITAM A OPERAÇÕES NORMAIS DE INVESTIGAÇÃO E OS CONTACTOS COM O GENERAL SS WOLFF ENCONTRAM-SE INCLUÍDOS NESSA CATEGORIA. POSSO GARANTIR AO PRESIDENTE QUE NÃO FORAM FEITOS ACORDOS SECRETOS EM SEU NOME OU NO NOME DOS ESTADOS UNIDOS, EM VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO ACORDADO, OU SEJA, A RENDIÇÃO INCONDICIONAL DO INIMIGO.

 

Certamente Elliot revelou algo do que pensava, enquanto anotava a mensagem.

 

Lendo os pensamentos do jovem, Dulles inclinou-se para a frente e, pousando-lhe a mão sobre um joelho, disse com o ar de o tomar lisonjeiramente por confidente: Elliot, deixe que lhe diga uma coisa. Um funcionário dos Serviços Secretos deve manter a sua base ao corrente do que faz, é certo. Sem dúvida, sem dúvida. Mas pode ultrapassar isso. Se, por exemplo, contar factos demais ou pedir demasiadas instruções, acaba por receber algumas que não lhe servem. Compreendeu?" Fez uma pausa e puxou algumas fumaças do cachimbo. "Bem vê, Elliot, só quem está no centro de acção pode julgar dos pormenores."

 

"Certamente, senhor, disse Elliot. Estou certo de que tem razão."

 

Elliot regressou à legação no Cadillac de serviço, codificou a resposta de Dulles para Washington e levou-a à sala de rádio para transmissão imediata. Feito isso, saiu.

 

Quando abandonava o edifício, Quantregg saía do seu escritório e desceram ambos a rua.

 

Elliot disse, em tom ligeiro: "Quem era o batedor de calcanhares com a mão suja?"

 

Quantregg parece muito mais aborrecido do que o justificaria o tom jocoso da minha pergunta, pensou Elliot.

 

"Quando ti ver mais experiência deste género de trabalho, Elliot, compreenderá que há certas perguntas que se não fazem.

 

"Parece-me tolice, de certo modo", disse Elliot, sem se perturbar. "Tendo em vista as mensagens que tenho de transmitir - não só para Washington - por ordem do Sr. Dulles. Parece-me inútil manter outras coisas tão secretas."

Não há motivos para que um funcionário da codificação conheça os visitantes do Sr. Dulles", disse Quantregg. Querem saber tudo, estes universitários espertalhões.

Qual é a ideia do Sr. Dulles? ", perguntou Elliot.

 

"A ideia?"

 

"Não era exactamente uma mentira, aquilo que eu transmiti ao Presidente, mas também não era exactamente a verdade nua e crua, pois não?"

 

Tinham chegado à alta Kirchenfeldbriicke. Quantregg parou e olhou fixamente para Elliot, que se encolhera no seu sobretudo e se voltara para evitar uma súbita rajada de vento frio e cortante na cara. O seu olhar caiu sobre o Aare serpenteante, brilhando sob as luzes das pontes que o atravessavam a diversas alturas.

 

Quantregg dizia, "O Sr. Dulles é um homem muito esperto... se quer a minha opinião, vai ser um dos homens-chave, no campo das decisões, quando tudo isto estiver terminado... é um homem que pensa sempre dez passos mais à frente."

 

"Ah, sim?"

 

"Está a ser sarcástico?"

 

"Não, senhor. De maneira nenhuma. Também sinto o maior respeito pelo Sr. Dulles. Só gostava de saber qual é a ideia dele..."

 

"O Sr. Dulles está a executar uma operação complicada. Sob muitos aspectos. Acho que é demasiado inexperiente neste campo para compreender todas... todas as ramificações ..."

 

"Só fiz uma pergunta", disse Elliot.

 

"Pois bem, não a faça.", disse Quantregg. "OK?"

 

"OK. OK. Certo. É como diz, penso eu."

 

Quantregg deixou-o e Elliot continuou o seu caminho, atravessando a ponte.

 

Vista daquela altura, a cidade parecia comprimida: as casas de arenito, com os seus telhados de mansarda e longas filas de águas-furtadas, do outro lado do rio; a espiral da catedral, em silhueta serrilhada contra o branco das montanhas; a linha do céu cortada por uma vasta série de zimbórios, cúpulas e pináculos. Havia também alguns edifícios modernos, de apartamentos, com telhados planos.

 

Tinha atravessado aquela ponte dúzias de vezes. Porque lhe parecia especial, naquela noite? Como se tivesse tido um pressentimento. Estremeceu. Estava terrivelmente frio, para aquela época do ano. Passava-se algo que ele apenas vira em breves relances; apenas obtivera algumas peças de puzzle. E, contudo, com as peças que vira, não se podia impedir de começar a constituir um conjunto conjecturai...

 

Raios, pensou enquanto caminhava, tentando descobrir o que havia - raios, tal como Quantregg diz, não passo de um funcionário de codificação, não tenho nada com o que o Sr. Dulles tem na ideia.

 

Mas decidiu passar pelo American Bar do Bellevue, para ver quem lá estava. Era um lugar onde sempre se apanhavam os últimos boatos.

 

Sem o pince-nez reluzente, os olhos descobertos -tão raramente expostos- pareciam as partes vulneráveis duma fera abatida, suaves, cinzentos e gelatinosos. O rosto era de uma brancura farinhenta, de bochechas inchadas, barba rala. O pescoço estava rapado até à nuca, no topo das orelhas, à maneira prussiana. Com a boca ligeiramente aberta, a respiração do homem deitado de costas no estreito leito de ferro do hospital, era pesada, como se tivesse corrido durante muito tempo e não conseguisse recuperar o fôlego. De vez em quando, suspirava pesadamente. Tinha a boca seca e o estômago cheio de gases. Sentia uma bola de fogo na cabeça.

 

Os estores estavam corridos e apenas passavam estreitas linhas de luz entre as tiras de madeira. No quarto de paredes brancas havia jarras com flores silvestres sobre os diversos móveis brancos. Ao lado do doente, na mesa de cabeceira, estava um samovar de vidro com uma infusão de genciana e chá de dente-de-leão. Ao lado havia um exemplar do Alcorão.

 

O homem tinha os olhos abertos e fixava o tecto. Parecia sonhar acordado.

 

Dançava o Boston... sim, ele! Com o seu bigodinho eriçado e as bochechas inchadas. Finalmente conseguira aprendê-lo. Maja! Que bela era. Frívola, sem dúvida. Uma mulher do Reno. Uma dessas criaturas fáceis, de sangue quente. Como as austríacas. Nunca estava carrancuda. Deixava sempre para o dia seguinte as coisas sérias da vida. Ah... como ele dançava o Boston! Quem poderia ter imaginado, nessa altura, em 1922, qual seria o meu destino!

 

Agarrava-se à imagem que começava a apagar-se: o jovem solene, de formas desajeitadas (ancas demasiado longas, pernas muito curtas) que dançava, dançava... Uma pancada leve na porta do quarto quebrou o fio da memória. Franziu o sobrolho, procurou o pince-nez na gaveta da mesa de cabeceira, e colocou-o cuidadosamente no nariz antes de carregar no botão que acendia uma luz do lado de fora da porta, dando permissão para entrar.

 

O visitante avançou cautelosamente, primeiro a cabeça, os pés seguindo mais atrás, pronto a recuar num momento.

 

''É-me permitido expressar a esperança de que a dor de cabeça do Reichsfuhrer SS tenha melhorado?", inquiriu, vacilante.

 

Não melhorou,'' disse Himmler. "Que quer, Brandt?"

 

"Pensei que o meu Reichsfuhrer SS desejasse ser informado... de que o General de Brigada SS Schellenberg está há cinco horas à espera."

 

"Schellenberg. Porque não me informaram?"

 

"O meu Reichsfuhrer SS tinha expressamente proibido..."

 

"Mande-o cá."

 

O Chefe da Contra-Espionagem Estrangeira entrou com grande vivacidade, com o seu pálido rosto multi-facetado cheio de excitação. Com uma formalidade militar, aproximou-se da cama, evitando nervosamente as lentes flamejantes dos óculos do doente. Fixar directamente aqueles olhos exigentes era demasiado exaustivo, já o sabia por experiência.

 

"Em face das suas espectaculares melhoras, pelas quais o felicito, atrevo-me a incomodar o meu Reichsfiihrer SS com um assunto da mais grave urgência..."

 

Então?" disse Himmler em voz tão baixa que se tornava quase inaudível. A dor nas suas entranhas recomeçara, esvaziando-lhe o cérebro de sangue. Se estivesse de pé, teria desmaiado. Havia um véu negro suspenso acima dos seus olhos, ameaçando descer em qualquer altura.

Tenho provas de que o General SS Wolff esteve na Suíça, discutindo com Dulles os termos da rendição..."

 

"Vi Wolff há poucos dias. Interroguei-o eu próprio em grande pormenor, assim como Kaltenbrunner e Scholler. Ficámos satisfeitos com as suas explicações...". Schellenberg abriu a boca para interromper, mas um dedo avisador silenciou-o: o Reichsfiihrer dos SS parara apenas para recuperar o fôlego, ainda não acabara. "Não quero ouvir acusações dessas contra Wolff.", disse Himmler. "Nunca me seria desleal. Criei para ele o posto de Chefe Máximo dos SS, para que ficasse acima de todos os Altos Chefes dos SS. Temos estado juntos desde o princípio, em tudo''. Desta vez, ou por falta de fôlego para prosseguir, ou porque acabara o que tinha para dizer, deixou-se cair de novo sobre as almofadas.

 

"Por esse motivo", disse Schellenberg, encorajado, pela difícil respiração de Himmler, a crer que teria oportunidade de acabar o que viera dizer, "por esse motivo, meu Reichsfiihrer, é ainda mais chocante que o General SS Wolff tenha feito acordos com os americanos para salvar a pele - a expensas do Reich. Tenho provas de que..."

 

Mas Himmler sacudia a cabeça para indicar que não queria continuar a ouvi-lo. Schellenberg ficou à espera, em silêncio, suportando a censura com paciência. Ao fim de algum tempo, disse suavemente, com deferência: Posso perguntar qual é o plano do meu Reichsfiihrer SS, em alternativa, para acabar a guerra?"Himmler pareceu reanimar-se um pouco, revigorado pela perturbadora sugestão que ficara no ar.

 

Enlouqueceu? disse.

 

"É minha opinião", disse Schellenberg ousadamente, que apenas o meu Reichsfiihrer SS detém os trunfos que lhe permitem negociar as melhores condições com os Aliados, e aventuro-me a dizer que acabará eventualmente por o reconhecer..."

 

"Que trunfos?"

 

"Os judeus", disse Schellenberg, encolhendo os ombros.

 

Enlouqueceu decerto, para me falar de rendição". Disse Himmler. "Presumo que esteja doente. Desculpo-lho por motivos de saúde", acrescentou rapidamente.

 

"Se posso permitir-me exprimir a minha loucura, nesse caso, o General SS Wolff deverá ser preso. No caso de as suas negociações com Dulles terem êxito, antecipar-se-á às minhas próprias tentativas, em nome do meu Reichsfiihrer SS, através do Conde Bernardotte... que, devo dizer, estão prestes a frutificar."

 

Os olhos de basilisco de Himmler estavam parados, mas brilhavam secretamente por trás das lentes espessas.

 

"As alegações contra Wolff estão a ser investigadas por Scholler'', disse com as suas últimas forças. 'É assunto para a polícia."

 

"Nesse caso, confio em que o meu Reichsfiihrer SS terá brevemente provas indiscutíveis em apoio do que eu disse, e tomará, segundo espero, as medidas adequadas."

 

Himmler acenou debilmente e, com um pequeno movimento dos dedos, mandou embora o Chefe da Contra Espionagem Estrangeira.

ÍAaté onde se podia ver, o tráfego parara subitamente. Dentro do seu enorme Mercedes cinzento blindado, o Coronel SS Ritter von Thedieck acendeu um cigarro turco oval e bateu no volante com os dedos da mão enluvada. Não se percebia o motivo daquela paragem. Talvez a estrada estivesse bloqueada por veículos atingidos. Ou talvez houvesse outro controle mais adiante, ou talvez... Mas não valia a pena pôr-se a imaginar. Nada mais havia a fazer, além de esperar... esperar que sucedesse qualquer coisa... A próxima desgraça.

 

Naquela situação de exposição, eram alvos fáceis para os Mosquitos britânicos que os bombardeavam. Os campos abertos de beterraba, de ambos os lados da estrada, não forneciam cobertura, e ainda estavam muito longe dos pinheirais.

 

As pessoas tinham deixado os carros e tentavam descobrir a causa da paragem.

 

Von Thedieck não se moveu. O Coronel SS estava aturdido pela sensação de que não havia outra hipótese, outra alternativa, além de esperar - por o que quer que iria suceder.

 

Atrás dele ficava a cidade de Berlim em chamas, de que saíra, durante a noite, pela Reichstrasse 96; duas horas antes estivera no Zossen, o quartel subterrâneo dos Altos Comandos. Preparavam a evacuação. Dentro do grande complexo telefónico, o Exchange 500, que os ligava a todas as posições alemãs, vira algumas das lâmpadas apagarem-se, enquanto ele ainda lá estava.

 

A estrada onde se encontrava passava ao longo do corredor estreito entre as frentes oriental e ocidental. A qualquer momento, os russos e os americanos encontrar-se-íam e ligar-se-íam, e então ficaria fechada a única rota de fuga para a Suíça, a Áustria e os Alpes.

 

Havia alguns carros particulares na estrada. A maioria dos outros eram grandes carros de serviço, com a suástica em dourado nos seus medalhões, designando altos oficiais nazis. Os encerados esvoaçantes dos camiões do exército deixavam ver as suas cargas de mobiliário de estilo, quadros, porcelanas encaixotadas, estatuetas de bronze. Apenas os mais importantes funcionários do Partido, ou os mais ricos, tinham conseguido obter gasolina e passes para viajar.

 

Nada se movia. A mão perfeitamente enluvada bateu com mais força no volante. Um súbito arranque da longa bichav Outra paragem. Outro ligeiro avanço. Depois novamente uma longa paragem. Assim continuaram durante os vinte minutos seguintes. Após o último avanço, von Thedieck conseguiu descobrir o motivo da paragem: outra barreira de controle. Estava situada num ponto onde a estrada passava entre elevações, sob a ponte rodoviária de ferro. Os guardas moviam-se entre as filas de carros e um deles, vendo as letras rúnicas SS nos guarda-lamas do Mercedes, fez sinal a von Thedieck para que seguisse. Havia uma fila de tráfego livre para estes tratamentos prioritários.

 

Junto do guichet de controle, von Thedieck parou e entregou os seus papéis. O homem à paisana que estava sentado na cabine de madeira usava gabardine, chapéu e um abafo em volta do pescoço. Cravou no Coronel SS o seu olhar de funcionário, sem expressão, observando as suas feições e comparando-as com as fotografias das ordens militares, do passe, do passaporte, do indicativo de prioridade máxima. Depois os seus olhos percorreram rapidamente uma longa lista na sua frente e pararam ao fim de meia dúzia de nomes. Devia ter carregado num botão, porque se ouviu um alarme de nevoeiro e surgiram homens a correr, guardas com capacetes negros e metralhadoras portáteis.

 

Dois guardas aproximaram-se do enorme carro e ordenaram ao Coronel dos SS que recuasse ao longo do caminho livre. Ele nem perguntou para onde o levavam. Tais perguntas não eram permitidas nem relevantes.

 

Um pouco mais atrás havia um intervalo na fila de carros e disseram-lhe que passasse por ele e descesse um túnel que passava sob a estrada principal. Pancadas no carro e gestos. Ordens curtas. Devia tomar a passagem que atravessava a estrada em curva e ligava a uma outra estrada menos importante, do outro lado. Esta era lisa durante um bocado e depois descia abruptamente para a aldeia de Rudolphstein, dominada pelo telhado íngreme e as torres do Schloss.

 

Von Thedieck desceu a colina e passou através dos altos portões para um pátio, onde lhe disseram que saísse do carro. Obedeceu.

 

A área entre os celeiros e os telheiros estava cheia de carros que estavam a ser revistados. Alguns deles tinham sido praticamente desmontados, com o forro de cabedal das portas rasgado, os assentos esfaqueados, peças do motor retiradas. Von Thedieck viu de relance o que se passava, enquanto o forçavam a subir alguns degraus e a passar uma pesada porta de ferro, para entrar num hall cheio de homens que esperavam em silêncio. Viu capotes com golas de pele, lapelas de um vermelho vivo, galões prateados em bonés e platinas, golas com estrelas prateadas e folhas de carvalho... Homens que não estavam habituados à humilhação de os obrigarem a esperar. Estavam hirtos e imóveis, como se cada um deles se encontrasse só. Não tentavam comunicar entre si. A escolta de von Thedieck abriu caminho pelo meio deles.

 

Foi levado por uma larga escada de carvalho entalhado e depois, ao longo de corredores em curva, atravessou diversas portas, passou por mais corredores e subiu uma estreita escada de caracol que rodeava as paredes curvas de uma das torres do castelo. Ao cimo da escada retiraram-lhe o cinturão da pistola, voltaram-lhe as algibeiras e revistaram-no, à procura de armas escondidas. Um dos guardas pesquisou-lhe a boca, para ver se encontrava cápsulas de cianeto. Depois disso, levaram-no para uma sala vazia e sem aquecimento. Fecharam a porta. Ouviu uma chave girar.

 

Havia pouco espaço. O tecto inclinava-se para um lado, até ficar apenas a alguns centímetros do chão. A luz provinha de uma estreita fenda. Com movimentos precisos e controlados, von Thedieck pegou na sua cigarreira de crocodilo que lhe haviam permitido conservar e retirou, de trás da fita de seda, um cigarro turco oval que acendeu com a longa chama do seu isqueiro de ouro. Não havia qualquer assento. Resolveu não se sentar no chão. Não era muito digno fazê-lo e ele reconhecia a importância de conservar a maior dignidade possível, na situação em que se encontrava. Tentou manter-se o mais confortável que podia, encostando-se à parede. Sabia que o fariam esperar: fazia parte dos seus métodos. Tentou extrair do seu espírito todas as previsões que o método se destinava a concitar.

 

A sala estava mergulhada no silêncio, com excepção do ranger do cabedal macio, ao ritmo da sua respiração.

 

Passou cerca de uma hora. Começava a sentir-se muito gelado e hirto. Exercitou os dedos como um pianista antes de tocar e fez girar o pescoço. Ajeitou os belos cabelos; fez um trejeito elegante com os lábios. Ergueu o sobrolho esquerdo. Estava consciente da possibilidade de observarem através de orifícios.

 

Quando a porta se abriu e uma voz oficial soou no corredor, dizendo "Entre.", von Thedieck avançou sem pressas, como convinha a um oficial da sua posição. Era uma sala muito maior, aquecida por um grande fogão de azulejos. As paredes estavam cobertas com cabeças de veados; mochos e águias empalhados ocupavam suportes imitando ramos. O habitual funcionário inexpressivo estava sentado a uma mesa cheia de dossiers, de carimbos e listas. Tinha os papéis de von Thedieck na sua frente.

 

"O seu destino, Coronel SS von Thedieck?", perguntou, por rotina.

 

"Fasano, como pode ver", disse von Thedieck, petulantemente, apontando as suas ordens militares.

 

O funcionário aproximou os papéis dos olhos, examinando-os cuidadosamente, com todo o vagar. Por fim, pareceu satisfeito e dirigiu-se a um homem de trajo civil que estava de costas para von Thedieck, olhando pela janela: era um indivíduo de grande envergadura, com ombros largos, pescoço forte, e grandes orelhas. As costas do seu casaco e o assento das calças estavam brilhantes pelo uso. Os seus bolsos estavam descaídos.

 

"Parece ser a assinatura do General SS Wolff.", disse o primeiro funcionário.

 

"Sim, sim, sim, mas quanto ao Chateau Mouton Rothschild?", disse o homem das orelhas grandes. Voltou-se. "Quatro dúzias de garrafas. Vai dar festas na frente italiana, Thedieck?"

 

Nega um pouco de vinho a homens que vão morrer?", perguntou o detido, com superioridade.

 

O homem grande do fato cheio de lustro pareceu divertido com esta resposta. Teve um sorriso acre. Observava o impecável Coronel dos SS; começando pelas botas brilhantes de cabedal, os seus olhos subiram pela curva ascendente do longo casaco de cabedal preto, em pele macia de corça da melhor qualidade, cintado; galões de prata nas platinas; nariz desdenhoso ; cabelo acamado com brilhantina, bem arranjado sobre a cabeça de belas proporções.

 

"Veio da minha própria adega - o vinho", acrescentou von Thedieck ir relevantemente.

 

Sem dúvida, sem dúvida'', disse o homem grande e mal vestido. Havia uma espécie de desconfiança permanente nos seus olhos. Era a expressão de alguém que há muito deixara de esperar que lhe dissessem a verdade. Von Thedieck observou as suas mãos enormes e fortes, o rosto vulgar e duro. Um labrego! Tomou uma atitude superior para com ele, concluindo que não passava de alguém que se aproveitava da sua autoridade momentânea.

 

Aviso-o, disse, 'de que o General SS Wolff ficará com uma péssima ideia..."

 

"E o sabão francês?", disse o tipo vulgar e enorme. ''Os homens que vão morrer também precisam de cheirar bem?"

 

"Questão de gosto", disse von Thedieck, olhando significativamente para o indivíduo desleixado. "Há quem prefira ir por lavar ao encontro do seu criador..."

 

Então foi para Ele que se embelezou tanto, não foi?" Riu cruelmente e voltou-se de novo para a janela. A sala proporcionava uma vista panorâmica dos campos em redor. O ruído dos carros na estrada, prosseguindo o seu caminho depois de passarem o controle, parecia, àquela distância, uma sucessão de suaves explosões. "Oiça-os'', disse ele, apurando as orelhas enormes, "todos aqueles gajos importantes a borrar-se de medo, com os seus tesouros de arte e as suas mulheres e as suas autorizações oficiais. Por acaso não ia para a Suíça, Thedieck?"

 

"Fasano, como já lhe disse. Se tiver qualquer dúvida, sugiro que telefone imediatamente ao General SS Wolff, para o Quartel General."

Esteve em Zossen há algumas horas. Para quê?"

 

"Estive com o General da Brigada Gehlen."

 

"Para quê?"

 

"Havia uns assuntos que o General Wolff me tinha dito que apresentasse ao General Gehlen."

 

"Que assuntos?"

 

"Como deve compreender, não posso revelar coisas dessas."

 

'A mirt pode.", disse o homem grande, em tom íntimo.

 

"Não me parece."

 

"Pode."

 

"Preciso de instruções do General Wolff para o fazer..."

 

"Basta o que eu lhe digo..."

 

Von Thedieck olhou, espantado, para o homem mal vestido.

 

"Não sabe quem eu sou?" Parecia divertido por aquele elegante oficial dos SS não o conhecer.

 

"Presumo que seja um polícia", disse von Thedieck.

 

"Um polícia. Sim. Sim. Está certo. Sou o Investigador Especial do Reich. Scholler."

 

Vendo que von Thedieck empalidecera, o Investigador empurrou com o pé uma cadeira para junto dele.

 

"Compreende agora que tem de responder às minhas perguntas."

 

"Se me permitisse um telefonema para o General Wolff..."

 

"Recusado", cortou Scholler bruscamente, e, voltando-se para o funcionário, disse-lhe, "Deixe-nos, Grafeneck."

 

"Talvez, nesse caso", disse von Thedieck sem perder a compostura, "eu pudesse telefonar ao Reichsflihrer SS Himmler. Ele conhece-me. Fui seu tradutor na Itália."

 

"Eu sei, eu sei. O facto de saber línguas não está em causa."

 

"Posso perguntar o que está em causa?"

 

"Certas viagens que o Senhor e o General Wolff fizeram à Suíça, para visitar Dulles."

 

Dulles", repetiu von Thedieck, como se não conhecesse o nome.

 

"Dulles. Allen Welsh Dulles. Um homem muito importante. O representante pessoal do Presidente Roosevelt, na Suíça."

 

"Está mal informado, Reichskriminaldirektor."

 

"Sobre a importância dele, oh, não creio que esteja. O meu trabalho faz com que não esteja mal informado."

 

"Refiro-me às tais viagens."

 

"Também não estou mal informado sobre essas viagens. Peço respeitosamente licença para discordar."

 

"Ah, sim?"

 

Soltou uma risada e, inclinando-se, retirou da sua pasta um dossier muito cheio. Criando uma clareira na secretária pelo processo de empurrar pilhas de dossiers para ambos os lados, abriu o dossier e extraiu uma fotografia. Observou-a rapidamente e depois colocou-a em frente de von Thedieck, de pé do outro lado da secretária.

Não está muito boa, pois não? Um pouco tremida. Mas, na realidade, as circunstâncias em que foi tirada não eram as ideais. Quem diria que é aquele homem?"

 

Do seu lado da secretária apontou, com um lápis afiado, para um dos membros de um grupo de homens na plataforma de uma estação de caminhos de ferro. Só se via a parte de trás das suas cabeças. Todos eles usavam chapéus, sobretudos e cachecols - estavam talvez excessivamente agasalhados contra o frio.

 

Von Thedieck olhou para a fotografia e disse: "Pode ser qualquer pessoa."

 

"Não reconhece a estatura, os fatos? Preciso de agitar a sua memória, Thedieck. Ora pense lá. Chiasso. Oito de Março."

 

"Essa data nada significa para mim."

 

"Ah não? Vamos ver outra fotografia."

 

A fotografia que desta vez colocou diante dele não estava tão mal focada e um dos homens do grupo tinha voltado um pouco a cabeça para o lado da camara, revelando um perfil estreito. Von Thedieck continuou a abanar a cabeça negativamente.

 

"Não reconhece a posição?", disse Scholler. "Esta postura elegante. É você mesmo. Quem mais poderia ser?"

 

"Essa pessoa é totalmente impossível de identificar."

 

"E esta?"

 

Muito rapidamente, Scholler colocou outra fotografia em frente de von Thedieck. Era uma ampliação da cabeça que se via de perfil na fotografia anterior. As feições de von Thedieck estavam quase reconhecíveis.

 

"Podia ser eu", admitiu, 'mas a fotografia pode ter sido tirada em qualquer parte e em qualquer altura. Não há nada por trás."

 

"Mas não foi tirada em qualquer parte. Foi tirada na estação de caminhos de ferro de Chiasso, em 8 de Março. Quem eram os homens que estavam consigo?"

 

Devo repetir-lhe, muito respeitosamente, que sou forçado, por um código de conduta de oficial, a não divulgar informações sobre uma missão militar."

 

"Missão militar? Ao Lago Maggiore, em Ascona?"

 

Scholler apresentou outra fotografia. Mostrava uma casa junto de um lago e um grupo de homens a conversar na varanda. A fotografia tinha, evidentemente, sido tirada a distância considerável, com uma lente teleobjectiva, e não estava muito bem definida.

 

"Este não é o General Wolff?", perguntou Scholler, apontando uma das manchas. "E o homem ao lado dele, não é Gaevernitz? O proprietário do chalé de Ascona e intimo colaborador de Dulles. E este, com o nariz ponteagudo e óculos, a fumar um charuto, é o Major Waibel da Contra-espionagem Suíça. E ao fundo - veja com esta lente de aumentar". Passou a lente a von Thedieck. "Não vê o Capitão Wirth a conversar consigo?"

 

"Não me parece, com todo o devido respeito."

 

"Está bem, deixamo-lo fora disto. Olhe para Wolff", disse Scholler com impaciência. "Veja a cabeça - o nariz arqueado. Inconfundível. Olhe para o perfil, aqui, e o cabelo claro, a rarear no alto da cabeça. Este é o General Wolff. Não há dúvidas."

 

"Essas características são vulgares", disse Thedieck.

 

"Compare as feições", disse Scholler, retirando outro dossier da pasta. Este continha fotografias muito nítidas do General Wolff. Apresentavam-no com um uniforme dos SS, ao lado de Himmler, em diversas cerimónias, ocupando invariavelmente o lado direito do Reichsfiihrer SS, como competia a um Deputado e Chefe de Estado Maior. Havia também diversas fotografias de Wolff em companhia de Hitler. Nessas estava mais atrás, concedendo o lugar a um Goring muito consciente do protocolo.

 

"Veja! Veja! Veja!", disse Scholler rudemente, cravando a ponta do lápis no nariz recurvado e na testa alta das fotografias e depois apontando de novo para a mancha de formas semelhantes.

 

"Concordo que podia ser o General Wolff", disse von Thedieck, "mas também podia ser uma centena de outras pessoas."

 

Estábem, Thedieck. Está bem... vou dizer-lhe o que vai suceder. Vou mandá-lo para uma sala de interrogatório rigoroso e deixo-o ficar com estas fotografias, para que possa estudá-las. Depois volto a falar consigo e talvez nessa altura já reconheça as pessoas que estão nas fotografias. Aconselho-o a fazê-lo."

 

"Agradeço o conselho do Investigador Especial."

 

Ao atravessar a porta giratória do Bellevue, Elliot sentiu que estava a ser observado.

 

Na sala espaçosa, sob a alta cúpula de vidros pintados, sentavam-se diversos homens, isolados ou aos pares, lendo jornais ou fumando, ou apenas aguardando e observando. Elliot avançou ao longo da passagem central. Caminhou através de diversas salas sumptuosamente mobiladas que davam para outras e conduziam à sala de jantar e ao terraço. Cumprimentou uma ou duas pessoas que conhecia, e voltou para trás, parando, por alguns momentos, junto da longa mesa de carvalho sobre a qual se encontravam os jornais, nos seus suportes de madeira. Leu os títulos e depois regressou à entrada e subiu as escadas que levavam ao American Bar. Entrou e sentou-se num banco alto, na extremidade curva do balcão de carvalho escuro.

 

Pediu um Jack Daniels com gelo e, olhando em volta, viu o elegante Capitão Wirth, sentado num sofá de couro verde, erguer o seu copo em direcção a uma rapariga que estava no bar, convidando-a a tomar uma bebida. A rapariga sorria, sem se comprometer. Nem aceitava propriamente, nem recusava. Ninguém recusava coisa alguma com demasiada firmeza, naquele ambiente. Tudo era objecto de delicadas negociações, e o Capitão Wirth da Contra-Espionagem Suíça era, como muitos dos seus compatriotas, mestre na ambiguidade. Tinha reputação de femeeiro, mas havia quem dissesse que isso não passava de um disfarce conveniente para obter informações de diversas agentes femininas. Outros afirmavam que ele usava o pretexto da obtenção de informações como um disfarce (perante a sua mulher) das suas aventuras sexuais.

 

Não estava a insistir demasiado na oferta da bebida; limitava-se a esperar, sorrindo. Ao ver Elliot, convidou-o a sentar-se.

 

"Toma alguma coisa?"

 

"Parecia-me bastante ocupado", disse Elliot.

 

"Talvez, talvez", admitiu o Capitão Wirth, "mas entretanto pode fazer-me companhia. É muito engraçada, não acha? O mal está em que, hoje em dia, nunca se sabe se são profissionais, e, se o são, qual a profissão."

 

Elliot sentou-se e olhou para a rapariga, que continuava a sorrir levemente, à espera de um convite mais firme.

 

"Gosta dela?", perguntou o Capitão Wirth.

 

"É fantástica", disse Elliot com entusiasmo.

 

Talvez ela goste de si", sugeriu o Capitão Wirth.

 

"Não. Está interessada em si".

 

O criado trouxe o seu Jack Daniels. O capitão Wirth tocou o seu copo com o dele e disse: "Já falta pouco. Mais umas semanas, no máximo. Que vai fazer quando a guerra acabar, Sr. Elliot? Fica na legação?"

 

"Estava lá por acaso quando fecharam as fronteiras e ninguém podia partir."

 

"O seu pai é um famoso correspondente da imprensa. Talvez lhe interesse essa ocupação."

 

"Ao menos mantém-nos em movimento."

 

"Gosta de estar em movimento?"

 

Por outro lado - trabalhar para um jornal, não sei bem. Passa-se a vida à volta das pessoas que decidem os acontecimentos, mas não fazemos acontecer coisa alguma. Uma espécie de eunuco dentro do harém."

 

"Que género de coisas gostaria de fazer acontecer, Sr. Elliot?"

 

"Não sei exactamente. Qualquer coisa."

 

O Capitão Wirth sorriu, compreensivo. "Então ainda não escolheu o seu carácter", observou.

 

"Escolher o meu carácter?"

 

"Sim. André Gide escreveu certa vez a um amigo perguntando-lhe com que idade escolhera o seu carácter, e ocorreu-me que isso é bem verdade. A certa altura escolhemos o nosso próprio carácter - embora só mais tarde venhamos a reconhecê-lo."

 

No bar, a rapariga de profissão indefinida acabara a sua bebida; olhava em volta.

 

"A possibilidade de escolha", disse o Capitão Wirth.

 

"Sim. Quanto a mim, creio que existe, embora concorde que, por vezes, está tão enterrada que parece praticamente não existir. Um país neutro, inteiramente rodeado de beligerantes - ah! Abriu as mãos, de forma expressiva. Rapidamente se percebe como as possibilidades são poucas. Mas há algumas, atrevo-me a dizê-lo."

 

"A sua gente - o Major Waibel especialmente - tem-nos sido muito útil.", disse Elliot.

 

"Tentamos reconciliar a neutralidade com a consciência", declarou o Capitão Wirth.

 

"Penso muitas vezes em como o conseguem", disse Elliot. "Com o General Guisam. Quando o Estado Maior Suíço se reúne..."

 

O Major Waibel não relata ao General tudo o que faz. O General não o força a fazê-lo."

 

"Isso é muito simpático da parte do General." Naturalmente ele tem inteira confiança nos seus oficiais de Contra-Espionagem.''

 

"O Coronel Masson goza da mesma confiança total na ligação com os alemães?" ' Absolutamente.''

 

"Não lhe chamaria ter duas caras", disse Elliot, sorrindo, "mas isso constitui uma excelente ilustração da ideia de não permitir que a mão esquerda saiba o que faz a direita..."

 

"Ah!" disse o Capitão Wirth. "A Suíça é neutral mas tem de viver. Temos de proteger os nossos interesses vitais. Ambos os lados aceitam isso. Os alemães permitem que a nossa marinha mercante saia de Génova. Os ingleses deixam-na passar no Estreito de Gibraltar. Vocês, os Americanos, não bombardeiam o cais suíço em Génova, nem os nossos caminhos de ferro de ligação." Por isso prepararam o acordo com Wolff?", disse Elliot.

 

"O acordo com Wolff?"

 

"Deixe-se disso, eu conheço o assunto. Codifico e decifro as mensagens..."

 

"A questão é esta", disse o Capitão Wirth cautelosamente. Sabemos quais as consequências que adviriam para o meu país se os alemães no norte de Itália começassem a combater para defender o caminho, destruindo tudo ao recuar, tal como Hitler lhes ordenou que fizessem. Seria desastroso para nós."

 

"Penso que sim."

 

"Os alemães têm muitas divisões no norte da Itália. Não queremos uma duplicação em solo suíço. Por isso estamos tão interessados como o Sr. Dulles em alcançar uma rendição imediata dos alemães."

 

"Compreendo o seu ponto de vista, Capitão". Riu-se. "Não é apenas a consciência que têm de reconciliar com a neutralidade, mas também o estômago."

 

"Também entra no jogo", admitiu o Capitão Wirth.

 

O criado do bar veio avisar que chamavam o Capitão ao telefone. Ele foi atender a chamada, ficando perto da encantadora rapariga. Durante toda a chamada, que foi breve, trocaram sorrisos e olhares.

 

"Vou tratar disso", disse o Capitão Wirth, ao pousar o auscultador, sorrindo sempre à rapariga, mas agora com certa pena. Voltou para o sofá onde Elliot ficara sentado.

 

"Infelizmente tenho que sair. Trabalho, compreende". Olhou tristemente para a rapariga e disse. "Talvez você, Sr. Elliot, se tem tempo. Por favor, deixe-me tratar disto...". Já estava a fazer os movimentos preparatórios para convidar a rapariga e esta não parecia disposta a recusar.

 

Não, não, agradeço imenso, mas tenho mais que fazer". Levantou-se também e saíram juntos do bar.

 

Automaticamente, o Capitão Wirth fez um registo mental do jovem americano. Inseguro em relação às mulheres. Talvez por não gostar de perder... Sim, conhecia o género.

 

Tinham tirado o relógio a von Thedieck. Não havia janelas na sala de interrogatório rigoroso. Era uma cave húmida. A um canto havia uma antiga banheira de ferro fundido, com uma só torneira. O chão de pedra estava ligeiramente inclinado em direcção a um escoadouro, e. havia tubos de borracha enrolados no chão.

 

Para contrariar a sensação de desolação que sentia, von Thedieck recordou-se de quem era. Enviado especial do Chefe Máximo dos SS e Plenipotenciário do Reich em Itália. O General Wolff certamente estaria já a investigar o que se passava com ele, ao mais alto nível. Ele, von Thedieck, fora tradutor de Himmler. Sentara-se ao lado do Reichsfíihrer SS ao pequeno almoço, ao almoço e ao jantar, transformando num italiano impecável as suas teorias sobre a raça, o sangue, o destino e as curas naturais. Estivera ao lado do General Wolff, como intérprete, na sua audiência com o Papa.

 

Era impossível que ele - von Thedieck - linguista, aristocrata, uma autoridade em Puccini, um homem com as mais altas relações, convidado distinto e apreciado dos palazzos de condes e príncipes, estivesse sentado naquela cave nojenta à espera de ser interrogado por um polícia imbecil.

 

Para ele sempre houvera dispensas especiais. Ninguém o forçara a fazer o treino rigoroso - com fogo real - a que os recrutas dos SS estavam normalmente sujeitos. O seu talento especial e as suas relações tinham-no guindado directamente ao posto de Coronel dos SS, sem que jamais disparasse uma pistola, ou disparassem contra ele.

 

A porta de ferro abriu-se com grande ruído dos enormes gonzos enferrujados, e o Investigador Especial entrou com uma série de dossiers debaixo do braço. Sentou-se imediatamente e ordenou a von Thedieck que se sentasse na outra cadeira.

 

"Que horas são?", perguntou von Thedieck.

 

O Investigador fingiu não ouvir a pergunta. Estava muito ocupado com os dossiers, retirando os elásticos que apertavam os papéis, verificando as datas e os assuntos e dispondo os dossiers numa ordem diferente. Ocasionalmente, esfregava o rosto hirsuto, como se lhe apetecesse barbear-se.

 

"Há quanto tempo estou aqui?". Não recebendo resposta, pediu, "posso fumar um cigarro, Reichskriminaldirektor?"

 

"Quando tivermos acabado."

 

"Mas - tenho que protestar. Estou habituado a fumar muito. Estou aqui há horas... Tiraram-me os cigarros..." Levou aos lábios os dedos trementes. "É uma grande privação para mim."

 

"Não queremos que se sinta demasiado confortável", explicou Scholler.

 

"Posso... ao menos... beber um copo de água?"

 

"Depois."

 

"O meu relógio. Quando mo devolvem?"

 

"Na devida altura."

 

"Que horas são? Que dia é hoje?"

 

"Isso não lhe interessa. Pelo menos enquanto não responder às perguntas."

 

"Como já lhe expliquei..."

 

"As suas explicações não me servem, Thedieck. E agora, está pronto a cooperar?"

 

O Coronel dos SS ficou em silêncio. Abruptamente, Scholler levantou-se e saiu fechando a pesada porta de ferro atrás de si.

 

"Então?"

"Que horas são, ReichskriiBpialdírektor? Já é dia?"

 

"Isso não lhe interessa."  

 

Peço licença para discordar. Tenho de saber se é dia ou noite.''

 

"Para quê? Aqui é tudo igual."

 

Tenho muita fome - não me deram de comer. Há dias já."

 

"Há dias?"

 

"Desde ontem."

 

"Ontem?"

 

"Está a confundir-me. Reichskriminaldirektor."

 

Se responder às minhas perguntas, tudo se esclarecerá.''

 

"Não posso desobedecer às minhas ordens..."

 

Scholler folheava rapidamente o dossier de von Thedíeck. Descobrira algo.

 

"Pois, pois. Que temos aqui? O relatório escolar. "Ritter é uma criança sensível, muito dada a cismas introspectivas, que não pode ser considerada inteiramente saudável. Mas o seu trabalho escolar tem sido superior à média e toca piano de maneira brilhante". Muito bem, muito bem. Uma criancinha prodígio". Continuou a folhear o dossier, molhando o dedo, por vezes, para virar as páginas. "Aqui temos outra coisa "no Liceu afirmou que tinha gostos sexuais antinaturais". Quem diria! Gostos antinaturais, hem?"

 

"Não sei onde obteve tão refinadas mentiras." Eu não me preocuparia muito com isso. Olha. Há aqui mais. Isto é interessante. Um relatório psiquiátrico do Professor Berners, do Hospital Charité, em Berlim. Datado de ...

  1. Tinha então 29 anos."

 

"Esses documentos são confidenciais", começou von Thedieck, que principiava a enervar-se.

 

"Oh, sim. Sim. Não são fáceis de obter", admitiu Scholler. Isto é muito interessante", disse, e começou a ler alto, "A grave depressão nervosa do paciente von Thedieck parece ter resultado, em primeiro lugar, de uma ligação amorosa falhada com uma jovem de boas famílias, sendo a causa aparente a sua impotência sexual. Possui um carácter do tipo neurasténico, A expressão do paciente é tipicamente deprimida e tensa. Sujeito a corar, a empalidecer e a roer as unhas.

 

"O paciente tem um longo historial de perturbações nervosas, ataques de claustrofobia e depressões, assim como ataques de ansiedade aguda e irracional, que se aproximam do pânico, resultantes por vezes, por exemplo, de estar sentado no meio de uma fila de lugares, no teatro, ou de um tiro de revólver nos bastidores. Falou frequentemente em suicídio e acusa-se de ser uma criatura nojenta e vil, de nada valer, de se considerar desprezível, não ser digno de viver, etc. Começa frequentemente a chorar, de maneira feminina, durante as consultas. A sensação de vergonha parece estar largamente ligada às suas práticas homossexuais. Os seus interesses musicais e intelectuais constituem uma parte inteiramente separada da sua vida."

 

"Bom, isto dá-nos uma ideia diferente de tudo", disse Scholler, erguendo-se. "Sabemos agora com quem estamos a lidar."

 

Logo que ouviu a chave rodar, von Thedieck levantou-se e, lembrando-se do postigo da porta, colocou-se com as costas contra ele, começando a tremer.

 

O seu rosto, escondido de quaisquer observadores que pudessem estar lá fora, transformou-se no rosto de uma criança amedrontada. Mordeu os lábios, tentando controlar o pânico que o invadia. Havia muitos anos que não se sentia assim. Como era estreita a linha que separava aquilo que era daquilo que tinha sido - o Reichskriminaldirektor tinha-o feito regressar a esse tempo. Não nos podemos afastar daquilo que fomos. Se eu for torturado. Não valia a pena fingir - sabia muito bem que não aguentaria a dor. Nunca o conseguira.

 

Tinha ouvido falar em choques eléctricos no ânus e no pénis, no esmagamento dos testículos em pequenos tornos de ferro especialmente criados para tal fim, na sequência de afogamento e ressuscitação, e novo afogamento, em banhos de água fria, em gente suspensa pelos braços até os ombros se deslocarem... Procurando manter-se calmo, disse a si próprio que Scholler não recorreria a tais métodos. Não era da Gestapo. Apenas um polícia. Da Kriminalpolizei. Evidentemente, todos eles estavam sob as ordens de Himmler, mas isso não queria dizer que todos usassem os mesmos métodos, pois não?

 

Deixaram-no só, era pior. Achou-se a aguardar ansiosamente- avidamente mesmo - o regresso de Scholler.

 

Quando Scholler voltou, a primeira pergunta de von Thedieck foi, Que horas são?", mas o Investigador fingiu não a ouvir. Sentou-se e recomeçou no ponto onde ficara. Desta vez referiu-se aos primeiros anos de von Thedieck no partido nazi, ao seu ingresso nos SS, o seu avanço dentro daquela organização. Tudo ali estava. Toda a sua vida aparecia numa paráfrase grotesca. Como sabiam eles tudo aquilo? Acontecimentos de dez, vinte anos antes, de natureza privada, de que ele próprio mal se lembrava. Incidentes, conversas, encontros - doenças, declarações feitas em momentos de depressão, de desespero ou de futilidade. Quem estivera a escutá-lo durante todos aqueles anos, anotando tudo? Tentou manter-se afastado de todos aqueles elementos com que o atacavam. Isto fazia, evidentemente, parte da técnica do interrogatório. Muitos dos elementos eram apenas boatos mas muito próximos dos acontecimentos reais, ou pelo menos, de um certo aspecto daqueles. Com uma certa preparação, a vida de um homem teria realmente que seguir um curso tão inevitável? A medida que um incidente indigno se seguira a outro - exemplos de fraqueza, de cobardia, de auto-indulgência - antevia a fonte desse contínuo mal-estar que fora toda a sua vida, nas feições pretensiosas de uma criança odiosa, com as suas exigências imoderadas. Se essa criança pudesse ser eliminada! Que alívio seria.

 

Era evidente que aquele ataque premeditado ao seu auto-respeito destinava-se a fazê-lo sentir-se inferior e desprezível. A fazê-lo desesperar. Era um homem culto e educado, fazia ele por recordar-se, fraco como todos os homens, mas não certamente que não- o farrapo inútil que a escolha cuidadosa dos elementos vergonhosos do dossier fazia crer. Os jovens da classe trabalhadora, que ele apanhara e usara, também tinham feito declarações à polícia, descrevendo-lhe as suas exigências sexuais.

 

Todos os homens têm uma natureza inferior. Não era apenas ele. Mas, à medida que um incidente vergonhoso se seguia a outro, pela voz trocista do Investigador, von Thedieck começou a ver esses factos desonrosos da sua vida a seguirem-se uns aos outros como fases progressivas de uma longa e irreversível doença.

 

"Encontrei um significado para a minha vida nos SS."

 

"Ah sim?", perguntou Scholler.

 

"No auto-sacrifício que nos era exigido."

 

"A si?"

 

Von Thedieck perguntou: "Vai torturar-me?". Olhou em volta. "Ouvi dizer que têm instrumentos..."

 

As orelhas enormes do polícia encostaram-se ao crâneo e a sua pele enrugada alisou-se sobre a larga estrutura óssea.

 

Instrumentos. Scholler cuspiu para o chão. Soltou uma risada de desprezo. Não preciso de instrumentos, Thedieck. Sou um velho polícia. Tenho punhos, joelhos e cotovelos. Deixo os instrumentos para os meus prezados Kollegen." Voltou a cuspir.

 

'' Vai bater-me ? ". Os seus olhos rolaram nas órbitas até as pupilas desaparecerem totalmente sob as pálpebras, enquanto o seu rosto se apresentava docilmente às pancadas esperadas.

 

Scholler olhou-o enojado. "Acalme-se", disse. E saiu.

 

Trouxeram-lhe comida e von Thedieck atirou-se a ela sofregamente.

 

Estava a morrer de fome. Quantas horas - dias? estivera sem comer?

 

A fome obliterara do seu espírito a ideia de que estava a comer com as mãos. Não tinham trazido garfo e faca. Roía um osso, como se fosse um cão. Contudo, era decente da parte do Reichskriminaldirektor alimentá-lo. Um tipo decente, um tipo decente. Com um trabalho difícil.

 

Acocorado sobre o escoadouro, com as calças pelos tornezelos, tremendo com o frio e a humidade, von Thedieck sentia sair dele a súbita torrente semilíquida e experimentava o cheiro fétido das suas entranhas. Nada tinha com que pudesse limpar-se. Voltou a subir as calças, forçado a suportar a sujidade.

 

Scholler abrira um dos dossiers mais recentes, de aspecto mais novo. "No ano passado", leu ele, "a sua mãe morreu. Não a visitou enquanto estava a morrer. Porquê?"

 

"Isso é mentira. Visitei-a!"

 

"No final?"

 

"No final... no final não podia enfrentá-la. Estava a morrer com um cancro. Não podia suportar o aspecto dela..."

 

"Ela pediu que fosse vê-la e não foi."

 

Como pode saber isso, como pode saber tal coisa?''

 

"Está aqui registado."

 

Von Thedieck respirava de maneira estranha, em súbitas golfadas. Sentia frio e suava, ao mesmo tempo, e o suor escorria-lhe pelas faces, caindo sobre os emblemas prateados da gola. Os seus olhos que pestanejavam rapidamente percorreram as paredes nuas, procurando uma saída, uma quebra na extensão monótona dos tijolos em esboroamento. Tentou erguer-se da cadeira, levado por um absurdo impulso de correr, de fugir.

 

O outrora janota oficial dos SS tinha agora um aspecto absolutamente miserável; havia nódoas de comida no dólman, os botões estavam desabotoados, o cabelo espetava-se rigidamente de um dos lados da cabeça, o uniforme assentava desajeitadamente sobre o corpo quebrado. Estava sentado em posição assimétrica na cadeira de madeira dura.

 

"Tem que acreditar em mim", rogou.

 

Havia uma expressão infantilmente implorativa no rosto de von Thedieck. Scholler reconheceu o seu significado. Geralmente, no decurso de um interrogatório rigoroso conduzido com êxito, surgia um momento em que a pessoa interrogada, tendo perdido a última fibra de auto-respeito, era obrigada a procurar conforto humano na única pessoa presente, mesmo que se tratasse do seu algoz. Essa necessidade ultrapassava as considerações dos interesses próprios porque o tempo fora eliminado e apenas contava o alívio imediato através de uma aprovação humana.

 

"A minha mãe", disse ele, "tinha sido muito bela. Não podia suportar vê-la morrer. Fosse como fosse, estava inconsciente. Não valia a pena que eu lá estivesse.''

 

Scholler consultou o dossier. Recuperou o conhecimento no dia 3 de Fevereiro de 1944, às 7 horas, e novamente às 15 horas. Esteve intermitentemente consciente durante os dias 3, 4, 5 e 6 de Fevereiro, antes de morrer no dia 7. Não foi vê-la em nenhum desses dias. Ela morreu em grande sofrimento, a gritar de dor."

 

Os olhos de von Thedieck mantinham-se fortemente cerrados, como para impedir a entrada de uma luz agonizante.

 

Sentia necessidade de se confiar àquele homem, de se expor em toda a sua falta de vergonha; lutou contra essa necessidade. Era, evidentemente, um estado de espírito a que a polícia secreta induzia metodicamente para conseguir os seus fins. Mas se a verdade total apenas pudesse ser vista nessas circunstâncias... O sentimento de indignidade calou o seu medo. Sentiu-se acalmado pela justeza inevitável do castigo que o Reichskriminaldirektor decidisse infligir-lhe.

 

Quando a minha mãe morreu, eu estava com alguém um rapazinho - que tinha abordado nos lavabos da Estação do Metropolitano de Wansee. Enquanto a minha mãe morria, servi-me dele: mas levou muito tempo a conseguir obter satisfação e, finalmente, pensei.Bom, ela já se foi, estou livre daquela velha puta'', e lembro-me - lembro-me de pensar que se ali fizessem bebés, deveriam nascer pretos."

 

"Traiu toda a gente durante a sua vida", disse Scholler tranquilamente.

 

"Sim."

 

"Até a sua mãe."

 

"Sim."

 

Von Thedieck começou a chorar incontrolavelmente. Scholler deu-lhe um cigarro e acendeu-lho. Tremendo, von Thedieck aspirou o fumo. O cigarro teve o efeito de o acalmar um pouco.

 

Ninguém pode ir contra a sua natureza", disse Scholler, sem rispidez. ''Não podemos deixar de ser aquilo que somos. Contudo, temos que cumprir o nosso dever, não é verdade?"

 

As lágrimas começavam a ser controladas, à medida que Scholler ia falando.

 

"Compreendo", disse von Thedieck.

 

"Bom... bom."

 

"Que deseja saber o Reichskriminaldirektor?"

 

"Os detalhes completos sobre a conspiração de Berna para trair o Reich..."

 

"Procurávamos condições honrosas..."

 

"Honrosas?" inquiriu Scholler sarcasticatBeílte.

 

Von Thedieck riu-se consigo próprio por ainda se estar a agarrar a pretensões de honra.

 

"Queríamos também salvar a pele, evidentemente", disse, com uma risada ligeiramente histérica.

 

"Que acordos fez Wolff com Dulles?"

 

"Implicavam uma rendição imediata de todas as forças alemãs na Itália. Pensava-se contactar Resselring, para persuadir à rendição as forças do Comandante em Chefe do Ocidente. Mas deveria continuar a resistência contra os russos."

 

Estava tudo acabado: o alívio de ter cedido ao mais baixo dos impulsos era uma espécie de êxtase.

 

Que obtinham você, Wolff e os outros em troca?

 

"Imunidade. Não seríamos perseguidos por crimes de guerra. Os Aliados comprometeram-se a não negociar fosse com quem fosse, excepto na base da rendição incondicional."

 

Dulles e o General Wolff chegaram a um acordo particular- um acordo de cavalheiros..."

 

"Que mais recebe Wolff? Dinheiro?"

 

Não se falou em pagamentos. Mas ficou implícito que os nossos assuntos financeiros não seriam - sondados."

 

"Isso explica a sua transferência de dinheiro para a Suíça."

 

"Sim."

 

"Esse contacto com Dulles, como foi feito?"

 

"Foi efectuado através do Major Waibel, dos Serviços Secretos Suíços."

 

"E o contacto com ele?"

 

"Através de um intermediário, o Barão Parilli, que tem extensos contactos na Suíça."

 

"A que ponto chegaram as negociações?"

 

Houve uma reunião secreta entre o General Wolff e dois generais aliados."

 

"Onde foi essa reunião? E quando?"

 

"A 19 de Março. No chalé de Ascona, no Lago Maggiore."

 

"Quem eram esses generais?"

 

"Não nos foram apresentados pelo nome. Mas mais tarde concluiu-se que o americano era o General Lemnitzer, Delegado Chefe do Estado Maior do Marechal de Campo Alexander, e o inglês o General Airey, oficial superior da Intelligence de Alexander..."

 

"Como foram esses generais Aliados para a Suíça?"

 

"O Major Waibel facilitou tudo. Iam disfarçados e tinham nomes e documentos falsos."

 

"Qual é o papel do Major Waibel em tudo isto?"

 

"Foi ele que iniciou toda a operação, pondo-nos em contacto com Dulles."

 

Em contravenção directa com a política de neutralidade da Suíça", disse Scholler com uma gargalhada áspera.

 

"Fê-lo de sua inteira responsabilidade."

 

"Ah sim?", disse Scholler, trocista. "Quer você dizer que Guisan fecha os olhos."

 

"É possível."

 

"Tecnicamente, como é que isso é feito? Como entram e saem do país para essas reuniões secretas?"

 

"O Major Waibel, ou alguém do seu pessoal passa-nos através da fronteira."

 

"Os documentos são examinados? Fazem-lhes perguntas?"

 

"Não. Como o Major Waibel já nos conhece, dispensaram-se todas as formalidades."

 

E se tiver de atravessar a fronteira inesperadamente. Sem que o Major Waibel seja avisado antecipadamente. Que sucede então?"

 

"Há uma senha."

 

"Que sucede, quando se diz a senha?"

 

"A pessoa que a diz é conduzida a uma sala particular, onde espera até á chegada do Major Waibel, ou até que o Major Waibel indique verbalmente que ela pode passar."

 

"Qual é essa senha?"

 

"Amanhecer."

 

"Amanhecer?"

 

"Sim."

 

Scholler ergueu-se. Arrumou os papéis, endireitando-os e passou o elástico à volta dos dossiers que utilizara. Disse então: "Tudo o que me disse vai ser dactilografado e poderá fazer as correcções que desejar. Depois terá que assinar.''

 

"Sim". Von Thedieck fechou os olhos. Estava de novo calmo e recomposto.

 

"Que vai suceder-me?"

 

"Será levado para Berlim, para a prisão de Plotzensee."

 

"Plotzensee."

 

"Sim. Ficará lá em isolamento até o assunto estar esclarecido. Não deve falar com pessoa alguma. Assinará uma segunda confissão, relatando a transferência ilegal de dinheiro para a Suíça. Até as minhas investigações terminarem, o General Wolff será informado de que é esse o motivo por que você está detido."

 

"E se eu solicitar os direitos e previlégios de um oficial dos SS?"

 

"Ser-lhe-ão concedidos."

 

"Nesse caso, faço esse pedido."

 

"Muito bem. Logo que tenha assinado as confissões."

 

Foram-lhe devolvidos o relógio e os cigarros e meia hora mais tarde Scholler regressou com as declarações dactilografadas, em triplicado. Von Thedieck leu-as muito cuidadosamente. Notou um ou dois erros dactilográficos e de ortografia. Ficou vagamente surpreendido, porque os dactilógrafos da polícia eram geralmente muito perfeitos.

 

Corrigiu os erros com a sua caneta e assinou as declarações e as cópias.

 

Depois de os examinar, Scholler dobrou-os e meteu-os no bolso. Em seguida pegou num revólver, carregou-o com uma bala, regulou-o e destravou o dispositivo de segurança. Colocou a arma sobre a cadeira em que estivera sentado. "Fico profundamente grato ao Reichskriminaldirektor." "Preciso de uma declaração."

 

"Evidentemente". Von Thedieck pegou na caneta e escreveu, numa folha de papel que Scholler lhe estendeu:

 

"Em conformidade com o código de honra dos SS, o signatário requereu o direito de um oficial expiar o seu crime por forma a poder ser considerado que caiu em combate, pedido que foi generosamente atendido pelo Investigador Especial do Reich, Reichskriminaldirektor Scholler. Confirmando o acima exposto, aponho a minha assinatura, Ritter von Thedieck, Coronel dos SS."

 

Scholler pegou na declaração, leu-a e dobrou-a também. Estava pronto para sair, mas notando a aparência desmazelada do Coronel, ocorreu-lhe algo.

 

"Certamente quererá arranjar-se", disse ele, "lave-se para ficar limpo e bem preparado. Vou trazer-lhe umas coisas". Saiu e voltou poucos minutos depois com um pente e uma escova para o cabelo, sabão, uma pequena toalha e uma escova para fatos. Colocou tudo junto do revolver, sobre a cadeira.

 

"Outra coisa", disse Scholler. Parecia atrapalhado e esfregava o rosto. "Quanto à sua mãe. Não sofreu no final. Eu... lamento ter tido de usar essa história, mas estava com pressa. Ela nunca chegou a recobrar a consciência."

 

"Agradeço ao Reichskriminaldirektor que me tenha dito isso". Corriam lágrimas de gratidão pelas faces do homem.

 

"Pensei que devia saber isso."

 

Não fazia ideia nenhuma se a mãe daquele maricas do Coronel dos SS tinha sofrido ou não. Mas não gostava de deixar morrer um homem com um pecado contra a mãe na consciência.

 

"Pode usar a torneira da banheira", disse. Liguei a água".

 

"Agradeço ao Reichskriminaldirektor."

 

Scholler saiu e acendeu um cigarro. Apalpou a barba crescida. Ouvia o ruído da água que corria através da canalização antiga. Acabou o cigarro, atirou fora a beata e pisou-a. Começou a caminhar para trás e para diante. Cinco minutos, dez minutos. Quanto tempo iria levar von Thedieck? Evidentemente, o Coronel dos SS era muito esquisito quanto à sua aparência. Havia de querer ficar limpo e arranjado.

 

Scholler acendeu outro cigarro e outro ainda. Estava prestes a abrir a porta para o fazer apressar-se quando ouviu o tiro. Pisou o cigarro e abriu a pesada porta de ferro.

 

Von Thediek estava estendido no chão, com o cabelo bem esticado, o dólman abotoado e escovado, as mãos limpas e brancas. Todo o lado esquerdo do seu rosto estava despedaçado e o olho, desse lado, tinha sido arrancado pela bala. Scholler resfolegou, tossiu, e cuspiu. Depois voltou-se e saiu.

 

O próprio Scholler dactilografara o relatório do interrogatório e os seus resultados, batendo, por vezes, as letras erradas e escrevendo algumas palavras incorrectamente. Quando tudo estava acabado, guardou as cópias assinadas das confissões no seu próprio bolso. Colocou os originais, juntamente com a nota do suicida no seu cofre para documentos.

 

Eram cinco horas da madrugada e começava a aparecer a luz do dia. Da sua sala, no topo do Schloss, podia ver uma grande extensão de campos abertos, esbranquiçados pela geada.

 

A primeira luz caiu sobre a curva pacífica da estrada e a corrente móvel de um regato.

 

O Investigador dormira tão pouco como o seu prisioneiro durante quarenta e cinco horas de interrogatório quase contínuo - pouco mais de nove horas em três noites. Tinha os olhos injectados de sangue, a língua saburrosa e a garganta seca por fumar demasiado. Esfregou o rosto com as mãos e levantou-se. Havia uma casa de banho ao lado do escritório e aí despiu o casaco e afastou o colarinho da camisa do pescoço forte e avermelhado. Pegou num stick para a barba já usado até ao papel prateado e, molhando o pincel com água fria, tentou extrair um pouco de espuma do sabão de má qualidade. Conseguiu transformá-lo em espuma um pouco mais espessa, por cima da barba e começou a barbear-se com golpes longos e rápidos, utilizando uma lâmina já pouco afiada para cortar os pelos duros. Depois limpou o sabão com água fria e esfregou vigorosamente a cara e o pescoço com a toalha. Tinha as calças amarrotadas; dormira com elas nos seus curtos períodos de sono, nos intervalos dos interrogatórios, e decidiu mudá-las. Vestiu roupa interior limpa, uma camisa lavada, e tirou outro fato do armário.

 

Depois de vestido, regressou ao escritório. A ordenança trouxera o pequeno-almoço e estava a colocá-lo sobre a secretária. Pão, um grande prato com diversos tipos de enchidos, queijos, ovos cozidos, compota e café. Scholler comeu com apetite, enquanto ía lendo uma pilha dos últimos relatórios. Alguns deles falavam de ataques aéreos durante a noite sobre o tráfego que se dirigia para o sul. Tinham sido destruídos camiões do exército, assim como veículos particulares. Havia mais de setenta mortos.

 

Quando acabou de comer, chamou o Kriminalassistent Grafeneck e deu-lhe uma mensagem que devia ser transmitida imediatamente.

 

"Ao Reichsfuhrer SS Himmler. Do Investigador Especial do Reich, Scholler. Rudolphstein. 8 de Abril de 1945.

 

"Sobre a questão da chamada Conspiração Wolff, tenho mais investigações a fazer. Prevejo que se encontrem terminadas dentro de quarenta e oito horas. Entretanto, recomendo a chamada imediata do General Wolff para interrogatório. Prevendo que o Reichsfuhrer SS esteja de acordo quanto a esta decisão, tomei a liberdade de colocar a família do General sob a protecção do Reichsfuhrer SS, pendente do regresso do próprio General. Não houvera tempo para consultar o Reichsfuhrer SS a este respeito, pois fui avisado de que a família do General ia partir para Itália. De facto, fui forçado a mandar escoltá-la na estação de caminho de ferro de Brenner Pass, onde agora se encontra detida sob custódia de protecção."

 

Tendo ditado o texto desta mensagem e ordenado que seguisse imediatamente por teletipo, disse a Grafeneck que, se não tivesse notícias dele até ao meio-dia de 12, deveria ser aberto o cofre dos documentos e tomadas decisões em conformidade com o material que continha.

 

Depois fez uma pequena mala e partiu. Nos estábulos, onde estavam estacionados os carros de serviço, escolheu um Horch sem marcas oficiais. Eram cerca de 7 horas da manhã.

 

No dia 8 de Abril, o corredor entre as frentes oriental e ocidental, era ainda suficientemente largo para lhe permitir tomar uma rota relativamente directa para o sul. Os exércitos aliados estavam a alguma distância do Elba, e Bayreuth e Nuremberg ainda não estavam ameaçadas.

 

Mas o perigo constante dos bombardeamentos aéreos aconselhava-o a evitar tanto quanto possível a auto-estrada, pelo que escolheu a sua rota através de estradas secundárias.

 

Quando tinha'de passar por campos abertos, escolhia os caminhos mais estreitos e mais acidentados, pouco mais largos do que o carro, e guiava devagar, sabendo que, visto do ar, um pequeno ponto en movimentos lentos não se poderia distinguir de um veículo agrícola, com o qual os Mosquitos britânicos não iriam decerto gastar balas ou bombas incendiárias.

 

Ao entardecer tinha chegado a Regensburg e decidiu passar ali a noite.

 

Na manhã seguinte prosseguiu antes da alvorada, passando entre Augsburg e Munique. Karhruhe tinha caído sob as forças francesas e em Pforzheim a batalha atingira a sua fase final; mas, com a luta ainda a cerca de sessenta milhas à sua direita, Scholler pôde tomar a estrada para Kempten, que o levava mais directamente à fronteira suíça.

 

Mesmo assim, as paragens constantes para que examinassem os seus documentos e a necessidade de evitar áreas militares susceptíveis de um ataque aéreo, tornaram a viagem bastante longa.

 

Já era noite quando chegou a Bregenz, cidade da fronteira austríaca no Bodensee. Atravessou a cidade e avançou cerca de vinte e cinco quilómetros por uma estrada que, durante algum tempo, seguia paralela ao lago e às linhas de caminho de ferro. Após meia hora de condução, atingiu a fronteira. Do outro lado de um estreito segmento de água ficava a Suíça. No controle da fronteira alemã apresentou os documentos de um tal Dr. Schultz, encarregado de compras ao estrangeiro do Ministério da Tecnologia do Reich. Era um nome destinado ao seu incógnito oficial pelo Gruppo IV E do Reichssicherheitshauptamt e conhecido como tal pela polícia da Gestapo na fronteira, o que lhe garantia um tratamento rápido e especial. Para chegar à Suíça bastou-lhe atravessar uma curta ponte sobre a estreita faixa de água. O posto da fronteira Suíça ficava do outro lado.

 

Quando lhe pediram os documentos, Scholler disse, "os meus cumprimentos para o Major Waibel. Peço que lhe diga que estou ansioso por observar o amanhecer com ele".

 

Isto não ocasionou qualquer surpresa. Deram-lhe instruções para arrumar ao lado. Ficou um guarda a tomar conta dele, enquanto outro se dirigia a uma casa de telhas verdes que parecia um chalé particular. Cerca de um minuto depois surgiu um oficial superior da polícia da fronteira que lhe disse: "O Major Waibel vai ser informado da sua presença. O seu nome?"

 

"Não tem interesse."

 

"Compreendo."

 

O oficial abriu delicadamente a porta do Horch e pediu a Scholler que saísse e o acompanhasse. Levou-o para a casa de telhas verdes e indicou-lhe uma pequena sala particular onde havia uma mesa e um banco de madeira. Passava já da meia-noite e o oficial veio dizer-lhe que apenas conseguiriam contactar com o Major Waibel na manhã seguinte. Scholler aceitou sem objecções e, procurando instalar-se da maneira mais confortável que lhe era possível no banco de madeira, adormeceu.

 

Foi acordado às 7 horas. Em frente dele encontrava-se um   , homem esbelto, de cerca de trinta anos. "Não o conheço, pois não?", perguntou bruscamente.

 

"Mas conheço-o eu, Capitão Wirth."

 

"Quem é você?"

 

"Sou o Investigador Especial do Reich, Scholler."

 

"Que deseja?"

 

"Quero ver Dulles."

 

"O Sr. Dulles? Da legação americana?"

 

"Esse mesmo."

 

"Sobre que assunto?"

 

O Amanhecer'', disse Scholler com um aceno airoso da mão. "Do qual tanto eu como ele somos devotados observadores."

 

"Vou investigar", disse o Capitão Wirth.

 

Voltou dez minutos mais tarde e disse, Venha comigo". Scholler sorriu.

 

Seguiram num carro do exército até uma faixa aérea militar próximo da fronteira. Esperava-os o pequeno avião que trouxera o Capitão Wirth, e poucos minutos depois estavam no ar, sobrevoando os vastos campos da Suíça.

 

Scholler, espreitando através da vigia, via todo o Bodensee e, do outro lado - a Alemanha, com o fumo das cidades incendiadas a elevar-se de diversos pontos. Meia hora depois aterravam em Berna.

 

À primeira vista, parecia, que o homem grande e redondo , que se inclinava sobre a cama do hospital estava a moldar e a modelar algo no ventre frouxo do seu paciente.

 

Desde a infância, Felix Kersten sempre possuíra poderes extraordinários nas pontas dos dedos, uma certa capacidade de penetrar a superfície dos corpos e descrever, num só toque, toda a sua geografia interna.

 

Poucos minutos depois de iniciar o tratamento, tinha descoberto o fígado dilatado, o baço ingurgitado, os intestinos nodosos, os pulmões fracos. A função vasomotora das artérias estava extremamente enfraquecida. Os nervos tinham falta de oxigénio. Faltava alimento aos centros vitais. O corpo de Himmler era uma poça de água estagnada, com a força vital reduzida a fracos impulsos.

 

Os seus olhos abriram-se e viu Kersten. O seu massagista mágico!

 

Os dedos poderosos prosseguiam na sua exploração profunda e misteriosa, premindo e friccionando, dispersando o sangue indesejável e empurrando o sangue bom para o coração. Quase imediatamente melhorou o bater do coração, assim como as secreções internas. Os intestinos libertaram-se da opressão. Tal como um rio atravancado de toros que fora desimpedido, o corpo da Besta recomeçou a funcionar.

 

Um longo e fundo suspiro saiu da boca de Himmler.

 

Viu um tecto branco, paredes brancas... Nem todas as percepções regressavam ao mesmo tempo. O homem final ainda não existia.

 

O massagista observava o seu paciente profissionalmente. À medida que o tratamento fazia efeito, as coisas que haviam ficado retidas no corpo começaram a soltar-se. Kersten foi forçado a ouvir tudo... os longos menus das comidas que Himmler comera em certa altura; listas de todo o género; os nomes das pessoas bem nascidas que o haviam recebido, sempre com prazer, em suas casas; o seu desejo de armas e de guerras e de testes de coragem... a sua crença na natureza, em refeições leves, no chá de dente-de-leão. No trabalho. A história não perguntará se Heinrich Himmler dormia bem, mas sim o que ele fez. Era uma frase que repetia com frequência, embora actualmente estivesse geralmente exausto e incapaz de fazer algo ao fim da tarde. Sê mais do que pareces, advertiu o homem em lenta recuperação. Outra das suas frases favoritas. As necessidades do Estado. As exigências da História. O sangue nórdico-westfaliano. Os Untermenschen que rebaixavam tudo ao seu nível. Um oficial insultara o seu pai. Ainda se irritava com isso. Evidentemente, aquele tipo grosseiro não sabia que o pai de Heinrich Himmler tinha sido tutor do Príncipe Henrique da Baviera. Um seu bisavô tinha sido alto oficial da polícia em Lindau, no Bodensee. Amava a natureza, Himmler. Odiava as produções químicas que empestavam o ar. O homem moderno asfixiava na sua própria imundície. Algo sobre os fabricantes de remédios, um dos seus ódios favoritos. E os chamados médicos. Curandeiros e charlatães, como os padres. Os Papas-Judeus. Quando era jovem tinha sido recebido em muitas casas distintas, confidenciou, fazendo uma das suas abruptas mudanças de assunto.

 

Falou de alguém de nome Maja. Figurava frequentemente nos seus pensamentos em desordem, depois de um tratamento. Maja. Admirável. Filha de uma mulher chamada Frau Loritz, de quem ele fora hóspede em tempos e que lhe servia esplêndidas refeições; sopa de puré, filet de vitela, salada de batata, massa, cerveja, cacau, tarte de maçãs, e Gutterle. Propusera a Maja que aprendesse a patinar no gelo, para poder pedir-lhe que fosse patinar com ele. Conseguia dominar tudo aquilo em que se empenhava. Marielle Rauschmeier tinha feito uma observação desagradável; que ele falava de mais. Não era verdade. Por vezes necessitava de explicar o que queria dizer, pois as pessoas frequentemente compreendiam mal o que dizia, ou, pelo menos o que queria dizer. Aquelas rapariguinhas patetas, cheias de insinuações e risinhos e ideias secretas. Sentia pena delas. Odiava insinuações. E a crueza. Não tolerava palavras menos correctas em frente de mulheres. Por vezes um homem sucumbia à sua natureza inferior... Mas lutara sempre contra tais coisas, contra hábitos adquiridos... assim se enfraquecia uma nação, se drenava a sua energia vital. "Basicamente, sou soldado de coração", declarava, agitando-se subitamente, "mas primeiro tenho que fazer os meus exames". O seu rosto iluminou-se - tinha 20 anos, espiava o futuro com toda a sua grande quantidade de conhecimentos prévios. Tomaria parte na luta e na guerra. Enfrentar o perigo era um alívio para ele, assim como arriscar a vida. Sim, ob sim.

 

Mencionava frequentemente alguém de nome Lu. Era, evidentemente, um amigo de sua juventude, um bom tipo mas com natureza de pequeno burguês. Um empregado bancário. Nada sabia dos terríveis sacrifícios que ele era chamado a fazer. Fizera bons amigos, dizia a Kersten, mas faltava-lhes austeridade de espírito e faziam-no perder tempo.

 

Himmler melhorava. Quando falava em perder o seu tempo, geralmente era sinal de que começava a ficar melhor. Kersten continuou as massagens, observando todos os sintomas, calculando o momento exacto de falar. Não o podia fazer cedo demais, antes de o alívio ser indubitável, de o milagre ter sido executado uma vez mais. Também não podia ser tarde de mais - quando o bem-estar recuperado já era certo. Era preciso uma apreciação muito exacta do momento em que se conseguia a gratidão da Besta. Por isso Kersten aguardou até que os olhos de Himmler revelassem um regresso ao presente, ao leito do hospital em Hohenlychen, à guerra. Era o momento de falar.

 

Posso perguntar ao Reichsfuhrer dos SS se já voltou a pensar no meu recente pedido?"

 

'' Ah, Kersten'', resmungou Himmler, '' Salvas uma vida de cada vez que me massajas."

 

"Faço-o com prazer, em nome da humanidade."

 

"Criminosos, judeus, traidores..."

 

"Posso deixar a minha lista ao Reichsfuhrer?"

 

"Tens sempre uma lista... Ninguém pode dizer que não pago caro o alívio que me dás."

 

"O Reichsfuhrer tem sido sempre muito generoso a recompensar-me. Posso ousar esperar que as pessoas desta lista sejam libertadas...?"

 

"Quantos são desta vez, Kersten?"

 

"Cinco mil, Herr Reichsfuhrer."

 

"Começaram por ser seis noruegueses, quatro holandeses, sete finlandeses. Estás a aumentar o preço dos teus tratamentos, ultimamente, meu bom Kersten. Cinco mil! Judeus, suponho eu. Ah bem, eu sou rico em judeus". Riu-se da sua própria graça.

 

De súbito, Himmler teve uma ideia.

 

"Pensa bem, Kersten. Se eu oferecesse os judeus a Eisenhower... Se eu lhe desse as vidas dos que ainda restam..."

 

"Seria um acto de humanidade, Herr Reichsfuhrer!"

 

"E ele retribui-lo-ía?"

 

"Não posso falar por Eisenhower, mas ouso dizer..."

 

Não tens contactos com ele? Tu tens contactos com toda a gente."Não pessoalmente. Mas, através do governo sueco, sem dúvida, o Conde Bernardotte seria a pessoa indicada para fazer essa... oferta."

 

"Sim, sim, efectivamente."

 

Tão abruptamente como lhe ocorrera, a ideia perdeu todo o interesse para Himmler.

 

"Talvez se o Reichsfuhrer dos SS libertasse os judeus incondicionalmente... esse gesto..." Mas Kersten, sempre vigilante, notara que o rosto de Himmler se ensombrava, e compreendeu que acabava de passar o momento de fazer pedidos. Himmler tocou a campainha ao lado da cama e, quase imediatamente, a porta abriu-se e surgiu a sua ordenança.

 

"Quero vestir-me. Imediatamente", ordenou. "O meu uniforme!''

 

"O uniforme de campanha, meu Reichsfuhrer SS?"

 

"Não, o preto."

 

Aguardou, rigidamente sentado, com uma expressão de solene concentração no rosto, com as palmas das mãos e os dedos levemente apertados uns contra os outros, como se estivesse a rezar. Um minuto depois a sua comunhão, fosse com o que fosse, terminava: a ordenança entrou, pronta a entregar-lhe as peças de vestuário, uma a uma, pela ordem devida.

 

Despindo a camisa de dormir, Himmler ficou momentaneamente nu, mostrando o corpo de um homem de quarenta e tal anos, de ancas largas, pançudo, de ombros estreitos, com a curvatura da coluna que revelava muitos anos à secretária, a estudar papeladas. Uma figura mal feita, com protuberâncias onde os nórdico-westfalianos deviam ser lisos, e côncava nos locais onde a virilidade exige protuberâncias. O seu órgão sexual assemelhava-se ao corpo parcialmente recolhido de um caracol.

 

Miraculosamente curado pelo seu mágico massagista, enfiou as ceroulas e em seguida as calças pretas. Ainda de tronco nu, sentou-se na beira da cama e, levantando primeiro a perna esquerda e depois a direita, deixou que a ordenança, de joelhos, lhe calçasse as botas. Depois foi a vez da camisa e da gravata, a que a ordenança fez o nó. Himmler envergou então o dólman preto com as três folhas de carvalho bordadas a prata, dentro de uma grinalda, em cada lapela. Abotoou-se. Afivelou o cinturão com a espada, e enfiou o talabarte que passou sob a platina do ombro direito, entregando a extremidade à ordenança, para que a fixasse ao cinturão, nas costas. Enfiou a braçadeira com a suástica na manga, e recebeu finalmente o boné, com o galão prateado e a caveira, colocando-o firme e determinadamente na cabeça, de modo que a pala ficasse à altura da parte superior do pince-nez. Voltou-se rispidamente para o médico:

 

"Os seus pedidos serão executados, como sempre, Herr Kersten."

 

"Muito obrigado, Reichsfuhrer SS."

 

"Embora as coisas pareçam sombrias, de momento, Kersten, tudo pode ainda encaminhar-se. Tenho a intuição de que o destino está prestes a fazer uma das suas grandes reviravoltas. Mas, se assim não for, as minhas Waffen SS lutarão até ao último homem, como os Ostrogodos no Vesúvio..."

 

"E o Reichsfuhrer SS?"

 

"Cairá, a comandar os seus homens, tal como Teias, o último rei dos Ostrogodos."

 

Com estas palavras, o terror do mundo, com o punhal a oscilar sobre a virilha, voltou-se e dirigiu-se vivamente para a ante-câmara, onde uma dúzia de homens, fatigados pela longa espera, se puseram de pé, de um salto, espantados pela visão do seu chefe recuperado. Uma dúzia de braços se ergueu na saudação hitleriana: uma dúzia de vozes gritou "Heil Hitler", não exactamente em uníssono. O seu ajudante de campo Grothman e o seu secretário Brandt apressaram-se a adiantar-se, felicitando-o pelas suas predestinadas melhoras. Havia um sorriso afectado no rosto de Himmler, ao voltar-se para o seu astrólogo principal, Glass, um homem alto e muito magro, semelhante a um arame encurvado, com o crânio liso e brilhante e os dedos ossudos em perpétuo movimento.

 

"Bem, Glass", disse Himmler. Que vês perante nós?"

 

"Uma morte, meu Reichsfuhrer SS."

 

"Hitler?"

 

O astrólogo abriu os braços, ambiguamente, de modo a indicar que mesmo as suas profecias não podiam ser tão específicas. Mas o seu chefe pareceu ficar muito satisfeito. O Fuhrer está muito doente'', disse ele. Posso ter de carregar o fardo sozinho."

Girando sobre os calcanhares, saiu, seguido por Brandt e Grothman, pelo seu motorista Lukas o seu médico Gebhardt, o Chefe do SD Interno, Otto Ohlendorf, dois generais das Waffen SS, um general da polícia, diversos funcionários da Gestapo, Reichsleiters e Gauleiters, e seus ajudantes.

 

Marcharam em falange pelos corredores do hospital, e, à sua passagem, os enfermeiros apressavam-se a afastar as macas que, em caso contrário, se arriscariam a ser pisadas, no entusiasmo geral. O som das botas com tacões de metal ressoava no chão de mármore.

 

No pátio esperava um carro aberto. Himmler entrou e ficou, por momentos, de pé, com o braço levantado na saudação hitleriana, de rosto severo, como se estivesse ao lado do Fuhrer no alto podium em Nuremberg, tendo atrás de si os grandes pilares que imitavam o Altar de Pergamon. Nesse momento, à sua volta, uma vintena ou mais dos seus funcionários pessoais constituía a sua fervorosa assistência.

 

Olhando para cima, Himmler viu que havia gente em todas as janelas do Hospital SS, e pareceu-lhe, momentos antes de baixar de novo os olhos para uma visão mais agradável, que muitos desses homens, gravemente feridos, evidentemente, talvez prestes a morrer, não o olhavam com o devido respeito, alguns demonstravam mesmo um certo desprezo. Tomou nota para falar ao Professor General SS Gebhardt, no sentido de melhorar a higiene mental daqueles homens.

 

Depois, ainda de pé e com o braço levantado, fez a Lukas sinal para arrancar. Logo que ficaram fora da visão das janelas do hospital, sentou-se, sentindo-se, de súbito, muito fraco das pernas. O carro levou-o directamente ao seu comboio particular, arrumado num túnel, para haver a máxima segurança. Quando entrou na sua sala de Operações Móveis, um ajudante de campo entregou-lhe um teletipo do Reichskriminaldirektor Scholler.

 

Himmler franziu o sobrolho ao lê-lo. "Faça uma ligação telefónica imediata para o General Wolff, em Fasano'', disse, enquanto começava a ocupar-se da papelada que se acumulara. Havia muito que tratar. Penas de morte a confirmar, para oficiais superiores acusados de cumplicidade ou derrotismo, ou de sabotarem o esforço de guerra com o seu pessimismo, ou de outros crimes mais odiosos, tais como o de deixarem as suas unidades sem permissão, de se fingirem doentes para escaparem da frente, ou de não executarem à letra uma das ordens do Reichsfuhrer dos SS.

 

Himmler passou os olhos rapidamente pela lista, rubricando as penas de morte em veloz sucessão. Os seus olhos pararam a meio.

 

"Mas este homem pertence ao meu Estado Maior pessoal", disse ao seu secretário Brandt. "Sim, meu Reichsfuhrer SS."

 

"É culpado?"

 

"Sim, meu Reichsfiihrer. Da mais grave cumplicidade num caso de derrotismo. Tem andado a dizer que a guerra está perdida, que aqueles que ainda têm possibilidades de se salvarem, devem fazê-lo. Estava a causar muito mau efeito."

 

Tranquilamente, Himmler rubricou também aquele nome e disse: "Autorizo qualquer comandante a prender todos os que fugirem - sejam eles quem forem e seja qual for o seu posto - e a fuzilá-los. Providencie para que isto se cumpra, Brandt, e faça com que o Ministro da Justiça o legalize, retroactivamente, se necessário."

 

Dedicou-se então à primeira dose de relatórios. Relatório do General SS Gutenberger, HSSPF Ocidental: "Coronel Kaehler (Neuss) - sem cor política, sem qualquer espírito de decisão, demissão necessária". Relatório do General SS Hofmann, HSSPF Sudoeste: "Ten. Coronel Graf (Schlettstadt)

- politicamente duvidoso, demissão solicitada urgentemente. Ten. Cor. von Hornstein (Rastatt)- deve ser demitido, afirmou ter uma avó judia."

 

Havia pilhas de relatórios destes, falando da falta de planeamento dos mais altos escalões militares, de desastrosa irresponsabilidade nos altos cargos, de tropas e recursos preciosos sem ocupação, de oficiais superiores em postos-chave que se suspeitava terem sangue judeu...

 

Debruçado sobre esses papéis, trabalhou Himmler durante duas horas sem parar. Já era noite quando Grothman veio à carruagem dizer que tinha finalmente conseguido ligação com Wolff, para Fasano, e que estava em linha. O Reichsfiihrer SS quereria falar com ele?

 

Himmler pegou no telefone, tendo no rosto a expressão do mestre-escola que é forçado a castigar o seu aluno favorito.

 

Falou tranquilamente como se o repreendesse: Foi muito imprudente da sua parte, Wolffchen, tentar retirar a sua família da minha jurisdição imediata. Corrigi a situação, e a sua mulher e filhos regressaram à minha protecção. Vai regressar imediatamente a Berlim. Quero falar consigo". Em seguida desligou.

 

Para Scholler, a chegada a Berna em 10 de Abril de 1945 parecia a chegada a um outro mundo. Tudo estava brilhante, limpo, inteiro. As pessoas passeavam pelas ruas sem medo ou detinham-se a conversar sob as arcadas. Todas estavam bem vestidas e bem alimentadas e o seu olhar era límpido. As lojas estavam cheias de mercadorias do mais raro luxo. Carne carne verdadeira! Presuntos inteiros. Pirâmides de fruta cristalizada. Bombons. Peixe fresco. Fruta fresca. Sabonete: macio, belamente arredondado e acondicionado. Sapatos de cabedal, com solas boas, resistentes, duráveis. Caixas de charutos. Filas de garrafas com licores de todos os tipos e cores. O aroma de café acabado de moer e de corpos lavados e ensaboados.

 

Enquanto o carro do Capitão Wirth os transportava através da cidade, Scholler observou os vestidos elegantes que as mulheres usavam e como elas eram atraentes. Não se vestiam apenas para se aquecer, mas para se tornarem mais desejáveis.

 

Era a hora do almoço - amigos, conhecidos e amantes reencontravam-se, trocando saudações, dirigindo-se aos restaurantes. Como as pessoas andavam livremente! Scholler mal conseguia recordar-se de tal modo de viver, embora, evidentemente, decerto se tivesse vivido assim outrora, na Alemanha. Havia longo tempo. Sentiu-se estranhamente desconfortável, exposto a tanta luz. Não estava habituado.

 

O Major Waibel telefonara a Dulles, para lhe falar da chegada do Investigador Epecial do Reich. Era um duro golpe para o grupo americano descobrir que os alemães conheciam a senha Amanhecer. Que mais conheceriam? Dulles mandara chamar Howard Elliot imediatamente para lhe dar uma série de telegramas. Quando Elliot chegou à Herrengasse, levava uma mensagem que acabara de receber. Provinha de um dos ajudantes de campo de Wolff, o Capitão Zimmer. Dizia que Wolff recebera ordem de Himmler para regressar imediatamente a Berlim. A família de Wolff encontrava-se detida na Alemanha, pelo que ele era forçado a cumprir ordens.

 

Dulles olhou em volta, para os outros presentes. Todos os rostos estavam sombrios.

 

Alguém sabe alguma coisa sobre Scholler?", perguntou Dulles.

 

"Chefe do Amt IV K do Reichssicherheitshauptamt", disse Quantregg.

 

"Da Gestapo."

 

"Faz parte dela", disse Quantregg.

 

Elliot emitiu um ruído que revelava desacordo e Dulles olhou para ele.

 

"Tem algum comentário a fazer, Elliot?"

 

"Bem. É que Amt IV K não é a Gestapo. Não exactamente."

 

Quer dizer-me a mim o que é ou não é a Gestapo, rapazinho?", retorquiu Quantregg.

 

Elliot tossiu, desconfortável. Era naturalmente educado e não gostava de corrigir um superior em frente das outras pessoas.

 

"Oh, eu sei perfeitamente", disse Elliot, "que o senhor conhece tudo aquilo de diante para trás. Sucede, porém, que eu conheço esse ponto. O Amt IV K deu maior ênfase ao K, "é um departamento separado - todo o conjunto é um labirinto, e, por vezes, eles ligam um departamento a outro no papel, quando, na realidade, ele actua separadamente. O Amt IV K faz parte da Kriminalpolizei, se é que faz parte de alguma coisa; é um pequeno departamento. O Investigador Especial não está sob as ordens de Muller ou do chefe da polícia criminal. O departamento é autónomo, directamente responsável perante Himmler, na sua qualidade de Chefe da Polícia."

 

"Certo", disse Quantregg.

 

Não é a Gestapo, é o que eu queria dizer.''

 

Acho que isso tem importância'', disse Dulles. Gostava, por vezes, de fingir uma certa ignorância para extrair o máximo de informações dos outros. Nessas alturas, apresentava o rosto do mais atento dos ouvintes e do mais solícito aprendiz. Voltando-se para Elliot, disse: "Que mais sabe sobre Scholler?"

 

"Não muito, senhor Dulles."

 

"Diga-nos o que sabe."

 

"É um polícia, um antigo Kriminalinspektor de Munique."

 

"Qual é exactamente o seu trabalho?"

 

"Na medida em que eles admitem alguma coisa, dizem que ele deve investigar certas coisas, tais como a má utilização de um departamento, busca de poder, apropriação indevida de bens de judeus, coisas deste género..."

 

Essa é a história que eles contam", disse Dulles.

 

'' Exactamente. Exactamente.''

 

"E as funções reais?"

 

"Bom, basicamente, era uma maneira de Heydrich, em primeiro lugar, manter o controle sobre os seus oficiais superiores, Muller e as suas cortes da Gestapo, na Prinz Albrechtstrasse, Nebe e a sua gente da Kriminalpolizei na Alexanderplatz. Ver se eles não se tornavam demasiado importantes a ponto de constituírem uma ameaça para ele Heydrich. Scholler, no seu papel de Investigador Especial, com poderes para investigar tudo e todos, era algo suspenso sobre as suas cabeças. Podia ser usado para os manter na linha. E controlá-los."

 

"Isso confere," disse Dulles, "Eles adoram investigar-se uns aos outros."

 

"Paranóia", disse Elliot, "Todos sofrem disso."

 

"Têm bons motivos para tal", disse Dulles.

 

"Sim - acho que é verdade."

 

Como está você ao corrente deste assunto?", perguntou Dulles.

 

"Bem, o senhor conhece o meu pai..."

 

Um excelente repórter", disse Dulles. Um autodidata, julgo eu. E que bem joga com as palavras! Hem?"

 

"Sim..."

 

"Soube tudo isso por ele?"

 

"Ele costumava falar bastante de Scholler. O homem intrigava-o. Em parte, julgo eu, porque nunca conseguiu saber algo ao certo. Nunca conseguiu nada que chegasse para publicar. Oficialmente, eles não admitiam que existisse um Investigador Especial do Reich. Pelo menos para a imprensa estrangeira. Pretendiam que fazia parte da polícia geral. Os seus poderes especiais eram conservados em segredo absoluto. Era eu ainda uma criança quando ouvi falar dele pela primeira vez. Era algo no género daquelas histórias de terror de que os miúdos gostam muito e que depois lhes provocam pesadelos. Julgo que aquilo que me interessou desde o início e que fez com que não me esquecesse dele, foi o meu pai dizer que não havia ninguém que o Investigador Especial não conhecesse, e sobre quem não possuísse elementos. Uma espécie de assombração. Parece que conhecia a roupa suja de toda a gente que estava na mó de cima. Podia entalá-los sempre que quisesse.''

 

"É assim que os nazis funcionam", disse Dulles. "Viu alguma vez essa assombração?"

 

Uma vez. Um homem que saía de um edifício. O meu pai apontou-mo. Também vi fotografias dele. Não muitas, porque ele não era propriamente do género de posar para a posteridade. Mas o meu pai conseguiu obter uma ou duas e arquivou-as, à espera do dia em que finalmente a história completa pudesse tomar forma."

 

"Que género de homem é?"

 

"Vulgar. Muito vulgar. Uma cara grosseira. Grande. De orelhas enormes. Parece um polícia. Nada de especial. Nada de sinistro. Não se fazia notar no meio da multidão. Um rosto que se perderia facilmente."

 

"O que o tornava assustador, então?"

 

Julgo que tudo aquilo que ele sabia. Não sei bem. Era a atmosfera que o rodeava. Berlim no meio e no final da década de trinta. As pessoas que desapareciam. Alguém batia à sua porta e nunca mais se sabia o que lhe acontecera. Nunca mais se viam."

 

"Pensa que poderia identificá-lo, na base dessa vez que o viu e das fotografias?"

 

"Não posso jurar que consiga, mas creio bem que poderia, sim. Claro que ele deve ter mudado muito, mas havia algo nele que eu reconheceria."

 

Dulles ergueu a mão, como sinal de que queria levantar-se. Quantregg ajudou-o a pôr-se de pé e deu-lhe a bengala. Dulles tentou dar um ou dois passos, e soltou um gemido de dor ao dobrar o joelho.

 

"Arranje-me um Whisky", disse a Quantregg, "e bastante grande". Engoliu a bebida e voltou a tentar andar, ainda vacilante e soltando pequenos gemidos. O suor corria-lhe pelo rosto.

 

"Tenho que receber aquele gajo", disse Dulles. "E não posso recebê-lo aqui."

 

"Está com febre, senhor Dulles", recordou Quantregg.

 

"Encontramo-nos no apartamento de Viktoriaplatz", disse Dulles. "Prepare-o com Waibel, ou Wirth."

 

"Como diabo vai para o apartamento, Sr. Dulles?" disse Quantregg.

 

"Você transporta-me, Dick. Você e Elliot."

 

" Elliot ?quer que o Elliot também vá?"

 

Você não consegue levar-me sozinho, Dick, e não quero mais gente além da necessária. Elliot é o único de nós capaz de reconhecer Scholler. Quero que ele veja o tipo. Quero ter a certeza de que ele é quem diz ser."

 

O pequeno prédio de apartamentos modernos, no agradável bairro de Viktoriaplatz, em Berna, possuía, como muitas casas suíças, estores que podem ser fixados a diferentes níveis, ou estendidos para fora, por forma a impedir a entrada do sol. Se alguém quizesse saber por que motivo os estores desse prédio quase nunca se abriam, seria provavelmente informado de que dois dos apartamentos eram ocupados por prostitutas e o terceiro estava para alugar.

 

Em face dessa explicação, ninguém estranharia que homens estranhos chegassem a qualquer hora, geralmente com pressa, e por vezes esforçando-se por não ser reconhecidos. Tal comportamento é natural em homens que visitam prostitutas ou que, em alternativa, vêm ver um apartamento para alugar.

 

Os dois homens que saíram do enorme carro azul escuro, parado na Viktoriastrasse, em 10 de Abril, e que se dirigiram rapidamente para a entrada no apartamento na Platz, poderiam enquadrar-se em ambas as categorias.

 

No interior, tomaram o elevador até ao último andar e avançaram por um corredor até ao apartamento C. Enquanto avançavam, estavam a ser observados através de um pequeno postigo na porta, por Quantregg.

 

"Bem, ele aí está", disse. "Quer vê-lo?"

 

Aplicando um olho junto da lente, Elliot viu o rosto conhecido e sentiu um arrepio de medo antigo: vinha Deus sabe de onde, de havia longo tempo. A pancada na porta, à noite, que nos apanha desprevenidos - um rosto semelhante a um identificativo de metal, uma autoridade impassível contra a qual não valia a pena argumentar. Conhecia aquele rosto de inúmeros pesadelos, aparecia sempre, por vezes num enquadramento familiar, por vezes nos locais mais improváveis- ele ali estava, de súbito, à sua frente, num comboio, ao seu lado no elevador, sentado no lugar ao lado num cinema, ou na igreja, ou era o rosto de um dos convidados no casamento de uma irmã. Um rosto desconhecido e sem expressão (identificável pela sua extraordinária falta de expressão) que parecia conhecê-lo e dizer-lhe que sabia tudo a seu respeito.

 

"Sim, é mesmo ele, posso afirmá-lo", disse Elliot, quando a campainha soou, com estranha ressonância, no apartamento sem carpetes nem cortinados.

 

Quantregg desabotoou o botão superior do seu casaco de bolsos duplos, para obter mais fácil acesso ao Colt 45 automático que trazia na sovaqueira. Depois abriu a porta, apertou energicamente o ombro do Capitão Wirth, mas, fiel aos seus princípios, ignorou a mão formalmente estendida de Scholler. Com um movimento brusco do braço indicou aos visitantes o caminho pelo corredor sem alcatifa, levando-os até uma sala de tamanho médio, sem mobiliário. Estava bastante escuro, lá dentro. Apenas penetrava um pouco de luz pelos estores descidos. Não havia aquecimento e toda a gente vestia sobretudo e usava chapéu. Todos estavam de pé. Não havia cadeiras.

 

Scholler aprendeu a situação numa série de rápidas olhadelas. O homem de pé, na parte mais escura da sala, apoiando parte do seu peso numa bengala, com o rosto na sombra, devia ser Dulles.

 

Tenho a honra de me dirigir ao Sr. Dulles?", perguntou Scholler à figura no escuro.

 

"Diga-me a mim o que tem a dizer", disse-lhe Quantregg.

 

Elliot reparou que Scholler anotava rapidamente a posição de todas as pessoas presentes e se colocava com a parede por trás, junto da porta.

 

Quando começou a falar, num inglês fluente mas com pronúncia alemã, dirigiu-se à zona mais afastada e mais escura da sala.

 

"Meus senhores, prezado Senhor Dulles... creio poder falar convosco como um colega de profissão, começou por dizer de maneira formal, tendo obviamente preparado cuidadosamente o que ia dizer. Parou, esperando qualquer reacção ao seu gambito de abertura. Não obtendo nenhuma, continuou: "Vejo que posso fazê-lo, que todos aqui são pessoas práticas." Ignorou o silêncio deles. "Por isso, não vou fazer rodeios, como se costuma dizer. Meus Senhores, o vosso plano - o vosso chamado Amanhecer - foi-se. Acabou." Sorriu, satisfeito.

 

Continuando a não ter sombra de resposta, prosseguiu, numa voz que se tornava monotonamente oficial O traidor Thedieck confessou tudo. As reuniões do General Wolff com o Sr. Dulles. O plano para a rendição imediata da Alemanha na Itália. A tentativa de contactar o Comandante em Chefe do Ocidente, Kesselring, para o trazer ao vosso plano. As reuniões no chalé de Gaevernitz em Ascona, com os generais aliados Lemnitzer e Airey, etc., etc. Trago ao vosso conhecimento, para reforçar estas afirmações, as cópias da confissão de von Thedieck. O original encontra-se no meu cofre.'' Entregou as cópias, uma a Quantregg, a outra a Dulles. A chama alta e fina de um isqueiro surgiu na sombra e mostrou uma figura que estudava o documento. Contudo, Dulles, nada disse.

 

Após uma pausa, Scholler prosseguiu: "Como Investigador Especial do Reich, era meu dever aconselhar o Reichsfiihrer SS a chamar o General Wolff e mandá-lo apresentar-se para ser interrogado. Foi o que fiz."

 

"Porque se deu ao trabalho de nos vir informar dos seus movimentos?", perguntou Dulles calmamente.

 

"Meus Senhores, prezado Senhor Dulles... O General Wolff... está queimado. Não acham? Em resumo... é um pato na panela - a menos que..."

 

"O quê?", perguntou Quantregg.

 

"... a menos que eu deixe o pato voar", disse Scholler, com uma voz diferente que Elliot notou ter perdido a inflecção oficial e ter-se tornado persuasiva e suave.

 

"Porque faria isso?", perguntou Dulles também suavemente.

 

"Sou um homem prático disse Scholler. Fez uma pausa. O papel de um polícia", observou, 'é servir o regime que o emprega. Mas não é necessário que goste dele."

 

"Ficava admirado se soubesse quantos anti-nazis aparecem ultimamente", disse Quantregg.

 

Nunca fui um político, Sr. Dulles. Sou apenas um polícia que faz o seu trabalho."

 

Sim, é o que diz. É o que diz.''

 

"Pode verificar."

 

"É o que faremos, Scholler. É o que faremos. Pode apostar a sua vida'', disse Quantregg.

 

Eu tinha que investigar os nossos próprios homens... Os tubarões que enchiam as algibeiras por conta do Estado. O Reichsfiihrer SS dá grande importância à questão da integridade financeira. E às questões sexuais. Homossexualidade. O Reichsfiihrer SS está decidido a esmagá-la. Também me ocupava de intrigas para obtenção da chefia, motivadas por ambição pessoal. Brutalidade desnecessária. Era chamado a investigar casos desse género. Negócios ilegais com propriedades dos judeus, etc., etc. A Gestapo. Devia controlar as suas actividades..."

 

"Não foi lá muito brilhante nesse trabalho...", disse Quantregg.

 

"Os meus poderes são limitados. Posso investigar e recomendar. Mas apenas posso agir com instruções do Reichsfuhrer SS Himmler."

 

"Diga isso à Comissão de Crimes de Guerra quando chegar a altura," disse Quantregg. "Talvez o acreditem."

 

"Para lhe ser absolutamente franco", disse Scholler baixando a voz, num tom de confidência, "algumas das coisas que ouvi contar... terríveis, terríveis. Coisas incríveis. Schweinerei! Enojaram-me, acredite."

 

"Se pensava assim", disse Elliot, falando pela primeira vez, com voz calma, "porque não fez nada, na posição em que se encontrava?"

 

Scholler observou o jovem que acabara de falar. Talvez um perito técnico ou conselheiro, concluiu. Um universitário. Não operacional. Sem experiência. Conhecia tudo pelos livros, apenas.

 

"A minha posição? A minha posição?", repetiu Scholler, como quem põe a ideia de parte. Sabe o que sucedeu ao Chefe da Kriminalpolizei Nebe? As pessoas que se opunham ao regime eram fuziladas. Deve sabê-lo. Que podia eu ter feito? Naquelas circunstâncias..."

 

"Podia ter sido fuzilado", sugeriu Elliot.

 

"Isso é verdade", concordou Scholler com uma risada breve. "Mas, bem vê, não estava disposto a morrer..." Encolheu os ombros, como se se desculpasse pela sua falta. "Salve-se quem puder. Não acha? É a natureza humana."

 

"Se está limpo", disse Dulles, "que pretende de nós?"

 

"Posso incluir-me na vossa categoria de "detenção imediata", dada a natureza do meu trabalho. Isso pode levar anos a processar e a determinar. Francamente, isso não me interessa. Nenhum de nós está a rejuvenescer."

 

"Qual é a sua ideia?", disse Quantregg.

 

A expressão oficial do rosto de Quantregg descontraiu-se e transformou-se na expressão universal que denota o momento de fazer um negócio. Estava a avaliar a situação cuidadosamente e a pesar as palavras antes de se comprometer e falar.

 

Dulles impacientou-se. "Se tem uma proposta a apresentar-me, faça-o depressa."

 

O comportamento de Scholler suavizou-se, transformando-se numa espécie de delicadeza pouco vulgar. Era como ver um homem pesadão aproximar-se da pista e começar a dançar com uma agilidade inesperada.

 

Finalmente falou: "Sou uma pessoa que - olha para o futuro. Os senhores, como homens práticos, também o fazem, estou certo. É natural. Devo dizer-lhes, meus senhores, que podemos ser úteis uns aos outros. Não só no que se refere ao General Wolff, cuja vida posso salvar, salvando assim o vosso Amanhecer. Mas também de outras maneiras."

 

"Que outras maneiras?" perguntou Dulles.

 

"Os meus conhecimentos, a minha experiência, a minha capacidade... estão ao seu dispor, Senhor Dulles", fez uma pequena vénia rígida, à maneira alemã.

 

"Que quer dizer com os seus conhecimentos...?", perguntou Dulles suavemente.

 

"Tenho em meu poder certos dossiers - por exemplo."

 

"Que dossiers?"

 

"Dossiers, Sr. Dulles, com informações especiais sobre gente importante no Reich. Dossiers muito cheios e pormenorizados , compreende ?''

 

"A roupa suja toda?" disse Quantregg.

 

Scholler encolheu os ombros. "Também estou em posição", disse, "de fornecer nomes de agentes e informadores encobertos utilizados pelos diversos departamentos dos Serviços de Segurança do Reich... incluindo a Gestapo. Os pormenores sobre as suas actividades passadas dariam a quem os utilizasse um forte poder sobre eles..."

 

"Não é assim que actuamos", disse Quantregg. "Não trabalhamos desse modo. Não fazemos chantagem com as pessoas para que trabalhem para nós... não precisamos de a fazer..."

 

"Naturalmente. Naturalmente", disse Scholler rapidamente. "Só queria lembrar que, se soubessem quem eles são, neutralizariam a sua utilidade para outro lado, se eles resolvessem forçá-los a trabalhar para eles, pela chantagem."

 

"Que quer de nós? que vem pedir-nos, Scholler? perguntou Dulles com a sua voz mais profissional.

 

Um acordo. Imunidade à perseguição. Um salvo-conduto para a minha família. Um compromisso de que os meus assuntos pessoais não serão - verificados em grande pormenor.''

 

"Não há a mínima hipótese", disse Quantregg. Essa é exactamente a situação actual do General Wollf. Bem sei", disse Quantregg. 'A nossa posição para com todos vocês é a rendição incondicional. Isso significa exactamente isso - nada de condições. Vocês rendem-se, cooperam connosco, e isso marcará pontos a vosso favor. Até que ponto? Quem sabe? Depende dos crimes de guerra que fizeram."

 

"Já lhes disse. Nada há contra mim."

 

"Isso ainda se há-de ver."

 

"Que quer dizer quando pede que os seus assuntos pessoais não sejam examinados?" perguntou Dulles.

 

"O ordenado de um Reichskriminaldirektor não é muito alto. Mesmo assim, por uma questão de prudência, sempre se consegue pôr um pouco de parte. Naturalmente, uma vez que o Reichsmark vale tão pouco - somos homens do mundo, meus senhores - pode falar livremente? O franco suíço é a única moeda com valor na Europa, não?"

 

"Com que então tem aqui um ninho secreto", disse Quantregg.

 

"É preciso pensar-se na família."

 

"Que deseja exactamente?" inquiriu Dulles, numa voz suavemente persuasiva que contrastava com o tom rudemente ofensivo de Quantregg.

 

"Que não me façam perguntas. As mesmas condições que concederam ao General Wolff. Um acordo entre colegas de profissão."

 

Dulles chamou Quantregg e Elliot para a parte mais escura da sala, e formaram um grupo, de costas para Scholler e Wirth.

 

"Que acham?" perguntou Dulles em voz baixa. Quantregg examinava a confissão de von Thedieck.

 

Isto pode ser forjado. Nenhum de nós conhece a letra de von Thedieck."

 

"Podemos investigá-lo e ele sabe que podemos", disse Elliot.

 

"Pode estar a fazer bluff", insistiu Quantregg.

 

"Wolff foi realmente chamado por Himmler". Recordou Dulles. "Sabemos isso independentemente."

 

Se ele estiver a fazer bluff, descobre-se mais tarde" disse Elliot, "e nesse caso ele não poderia contar com o acordo, não acham?"

 

Dulles disse, "A menos que ele tenha qualquer outro plano e tudo isto sirva para o encobrir. Porque confia ele em nós?"

 

"Talvez não possa escolher", disse Elliot.

 

Todos se voltaram e olharam para Scholler que estava junto da porta. Tinha acendido um cigarro e olhava para o outro lado, com o ar, de certo modo cómico, de não querer dar a impressão de estar à escuta. Mas apesar disso, as suas grandes orelhas estavam espetadas, e, mesmo que não conseguisse ouvir as palavras, tentava auscultar a atmosfera da sala.

 

Quantregg girou sobre os calcanhares, com a ira a crescer dentro de si, procurando um motivo para lhe bater com os punhos fechados. Mas Scholler não lhe fornecia qualquer pretexto. Sacudindo a cabeça, fazendo deslizar as palmas das mãos uma pela outra, como se as preparasse, agitando os ombros para ajudar o Colt 45 a ajustar-se melhor na sovaqueira, Quantregg aproximou-se de Scholler.

 

Isto pode ser uma falsificação", disse, brandindo a cópia da confissão de von Thedieck. "Como sabemos que não é?"

 

"Se é uma falsificação", respondeu Scholler calmamente. "Como consegui obter pormenores circunstanciais? Os nomes dos generais aliados presentes na reunião em Ascona, Lemnitzer e Airey? Chegaram à Suíça disfarçados, sob nomes falsos. Não foram apresentados pelo nome ao General Wolff - como podia eu saber isso? Só através de von Thedieck, que estava presente."

 

"Ordenou a prisão da família de Wolff?" disse Dulles tranquilamente.

 

Scholler acenou afirmativamente. 'É o normal em tais situações", explicou.

 

Afirma que conseguiu dominar von Thedieck em poucos dias?"

 

"Era um carácter fraco. Em quarenta e cinco horas, para ser mais exacto."

 

"Torturou-o?", perguntou Quantregg em tom de acusação.

 

Não, não o fiz. Eu não uso a tortura.'' "Isso é verdade?"

 

Não sou da Gestapo, como já lhes disse. Sou um polícia, como os Senhores. O senhor pertenceu ao FBI, não?" "Sabe quem eu sou?"

 

"Como podia deixar de conhecê-lo, Sr. Quantregg, um homem que esteve tão próximo do grande Edgar Hoover?''

 

"Que sabe sobre isso?"

 

" Tudo. Naturalmente."

 

Dulles interrompeu rispidamente, para acabar com as divergências do assunto. Está a pedir-me que entre no negócio de olhos fechados."

 

"Posso negociar com outros."

 

"Talvez o deixemos fazê-lo", disse Dulles.

 

"Isso é consigo."

 

"Está bem, depois lhe diremos, Scholler."

 

O tempo é limitado", disse Scholler. "O meu assistente tem ordens para, no caso de eu não regressar ao meio dia do dia 12, abrir o meu cofre e actuar de acordo com o que lá encontrar."

 

"Não precisa dizer-me isso", cortou Dulles. "Conheço bem os vossos processos."

 

Ao fim da tarde do dia 10 de Abril, Dulles e Quantregg estavam na Herrengasse, a discutir o que haviam de fazer quanto a Scholler.

 

Dulles propôs. "Vamos considerar as nossas opções... uma a uma. Supúnhamos que dizemos a Scholler - nada feito. Que sucede? Ele depressa, apresenta a Himmler a confissão de von Thedieck eéo fim de Wolff. Resultado - Wolff é substituído por um fanático qualquer. Um estúpido obstinado como Kaltenbrunner ou Dietrich, que cumprirá as ordens todas e lutará até ao último homem. Se se suspeita de que Vientinghoff se interessou pela rendição, também é aniquilado. Consequências... Os alemães continuarão a lutar, com vigor renovado. Têm mais divisões no norte da Itália do que nós, e, se fazem um nó apertado a oeste de Veneza, por baixo dos Alpes, podem aguentar-se durante muito tempo.

 

Com a Suíça a apoiá-los, a fornecer-lhes víveres através dos caminhos de ferro suíços que não podemos bombardear, tornam-se numa fortaleza. Isso completaria o círculo defensivo do Reduto Alpino." "Certo", disse Quantregg.

 

"E o que significa isso? Significa que os guerrilheiros de Tito conseguem capturar Trieste e, se o fizerem antes de nós, não conseguimos tirá-los de lá - Tito quer Trieste e Trieste é a chave de todo o maldito Adriático. Virão tropas soviéticas através da Hungria. Estabelecerão uma faixa controlada pelos Sovietes através da Europa Meridional e Ocidental, que poderia ser a base para a comunização da França e da Itália "Assim parece", concordou Quantregg. Os Soviéticos lutam no centro de Viena, e vamos deixá-los tomar Berlim sozinhos, porque Eisenhower não aceita mortes apenas pelo que ele considere objectivos puramente políticos. Stalin acabará, por ganhar todos os berlindes e, na altura em que acordarmos e começarmos a gritar, será tarde de mais. Toda a Europa estará sob o tacão Soviético.''

 

Quando Dulles falava deste modo, Quantregg compreendia que estava na presença de um homem cuja visão era global, que não se preocupava unicamente com os lucros ou perdas imediatos, mas com o curso da história.

 

"De acordo com tudo o que diz", observou Quantregg, "essas questões não são para o Sr. Roosevelt, para o Sr. Churchill e para os Chefes do Estado Maior Conjunto? É o problema favorito deles, não é?"

 

"Sem dúvida", concordou Dulles, supremamente razoável. "Mas há dois pontos a considerar. Primeiro: Churchill pensa da mesma maneira que eu. Há alguns dias, enviou uma mensagem a Eisenhower, tentando fazer-lhe ver a importância de - vou citar-lhe-"apertar a mão dos nossos valentes camaradas da União Soviética o mais para leste que for possível! O meu segundo ponto é que...

 

Eisenhower é um gigante, mas um gigante fatigado, e deixou que Stalin o ludibriasse em Yalta. Ora, raios, não vamos deixar os rapazes de Washington cometerem erros de que mais tarde se arrependerão - se pudermos impedir que os façam.

 

"E podemos?"

 

Falar com Quantregg ajudava Dulles a clarificar os seus pensamentos. Gostava de usar Quantregg como um balão de sondagem, porque a sua mentalidade era a do público em geral, e, se ele se agarrasse à necessidade de uma determinada acção, isso indicava que as pessoas vulgares a compreenderiam e seguiriam, e toda a acção política consistia em fazer com que as pessoas vulgares estivessem ao seu lado. Por isso, embora Dulles não tivesse uma opinião muito boa da inteligência de Quantregg, importava-se bastante com as suas reacções.

 

"Pronto, pronto", disse Dulles. "Vamos considerar outro aspecto, Dick. Vimos o que acontece se dissermos a Scholler "vá para o diabo". Agora vamos supor que lhe dizemos "OK, estamos de acordo". Muito embora, como Deus sabe, isso seja feito de mau grado. Pois bem. Mandamo-lo regressar. Wolff fica ilibado. Melhor ainda, temos o Investigador Especial do Reich a protegê-lo contra outras acusações que lhe possam ser imputadas por Kaltenbrunner ou Muller, que também estão contra ele. Com um pouco de sorte, Vientinghoff concorda com a rendição imediata, e ficamos fora da corrida. Chegamos a Trieste ao mesmo tempo que Tito, o que significa que metemos o pé na porta e não podemos ser afastados tão facilmente. Diga-me quais são os problemas que vê. Faça-me uma lista deles, Dick."

 

"Primeiro ponto. Digamos que Scholler nos atraiçoa."

 

Ele tem que jogar com lealdade. Que diabo, não há outra rnaneira de fazer o maldito jogo. Está nas nossas mãos, não está? Depois. Se ele tentar fazer qualquer falcatrua, não ganha nada. Ele sabe isso. Tem que fazer a jogada, tem que fazer com que nós precisemos dele. Não é assim? OK, então não tem motivos para nos atraiçoar."

 

"Que fazemos quando ele vier receber? Há-de saber-se, não restam dúvidas, que nós preparámos a fuga do Investigador Especial de Himmler. Que fizemos um acordo. Quando isso nos for dito, alto e bom som, a um nível elevado, ao mais alto nível..."

 

"Quando chegar a altura", disse Dulles tranquilamente, "teremos que nos preocupar bem para que Scholler não venha embaraçar-nos."

 

Com isso concordo disse Quantregg. Sim, senhor.''

 

"Vejamos como as coisas vão passar-se, Dick. Tal como eu as vejo, vai ser uma operação dos OSS. Scholler tem esses dossiers que nós queremos. Por isso andamos para a frente, como se fôssemos negociar com ele..."

 

"Uma operação directa em campo."

 

Sem ângulos políticos. Sem qualquer relação com Wolff. Nada terá a ver com negociações sobre a rendição...''

 

"Certo. Certo."

 

"Nenhuma organização da Intelligence poderá pôr de parte um voluntário local, mesmo que não tenha sido convidado. ''

 

"São conhecimentos comerciais básicos", concordou Quantregg.

 

"Seremos forçados a receber tal oferta, para ver se vale a pena."

 

"Assim parece, senhor Dulles. Certamente." "Evidentemente, o homem pode voltar a errar e, nesse caso, será necessária uma acção neutralizadora."

 

A cozinheira tinha vindo trazer café e um prato de palitos de ovos cobertos de açúcar. Dulles gostava de os mergulhar no café até ficarem moles a ponto de se desintegrarem, após o que - no último momento - retirava o biscoito ensopado e o enfiava na boca. Era uma espécie de arte, avaliar o momento exacto em que o biscoito estava convenientemente macio e ensopado em café, mas ainda suficientemente sólido para não se quebrar e sujar quem o comia. Dulles ensopava os biscoitos e engolia-os com grande rapidez e perfeita coordenação, à medida que aumentava a sua excitação. Os seus olhos brilhavam, já desaparecera quase meio prato de palitos açucarados, e apenas havia umas migalhas ensopadas em café que se haviam apegado ao bigode branco.

 

"Vamos mandar um agente", declarou, de súbito, em grande fervor criativo.

 

"Um agente? Para quê?"

 

É assim que se joga. Vamos mandar um agente.''

 

"Para território inimigo?"

 

"Isso mesmo."

 

"Com que objectivo?"

 

"Tratar de esconder os documentos algures, na futura zona americana. Temos que nos certificar disso. E de que são genuínos."

 

"Está a sugerir que podemos penetrar no Departamento de Segurança do Reich?"

 

"Com a ajuda do Investigador Especial do Reich, porque não?"

 

"A Prinz Albrechtstrass deve estar tão fácil de penetrar como o rabo de um maricas, presentemente," disse Quantregg, entusiasmando-se com a ideia.

 

"Exactamente. Estão tão ocupados em sair e salvar a pele que não se preocupam com quem entra. Especialmente sob tais auspícios."

 

"Seja como for, é um grande risco", disse Quantregg. "Para quem for."

 

"É possível, é possível", concordou Dulles, "mas é bom, é bom. "Prosseguia na sua linha de pensamento, com os olhos quase fechados, lambendo as migalhas dos biscoitos agarradas ao bigode. Ora veja, metemos um agente no alvo - um grande risco - e é claramente uma acção de campanha, não uma negociação. É dispendioso, admito-o, e não conhecemos quais os dividendos, a longo prazo, mas, de momento, resolve-nos muitos problemas."

 

"É uma operação com muito interesse", concordou Quantregg. "Bastaria que ele lá estivesse uns dias."

 

Uns dias apenas. E a colocação de um agente na Prinz Albrechtstrasse não contraria quaisquer instruções que tenhamos recebido de Washington."

 

Ninguém poderá dizer que o senhor não tinha o direito de mandar lá um agente, de sua inteira responsabilidade, para trazer esses dossiers..."

 

"Tem razão, Dick. Toda a razão.'''' "É boa ideia, muito boa ideia", disse Quantregg, entusiasmado. "O agente que enviarmos controlará Scholler." "Claro. E quando chegar a altura, temos lá um homem para impedir Scholler de nos embaraçar,"   acrescentou Dulles.

 

"É uma ideia bestial, Sr. Dulles", disse Quantregg com admiração.

 

"Agrada-me", admitiu Dulles com modéstia.

 

Parou subitamente. Os palitos açucarados tinham desaparecido, o prato estava vazio. O café estava frio dentro da chávena. Por muito boa que uma ideia parecesse, no entusiasmo da sua criação, era sempre necessário sujeitá-la a um teste de destruição.

 

"Vamos   dormir   sobre   ela,   Dick",   propôs   Dulles. "Vamos dar-lhe uma volta." "Certo, Senhor Dulles." "Vamos a ver que tal nos parece, de manhã.'' "Scholler quer uma resposta, depressa." "Terá que esperar até estarmos prontos." "E esperará?"

 

"Espera, se pensar que há hipótese de fazer a venda. Durma bem."

 

"Até amanhã. É uma grande jogada - e a parada é alta. Temos que estudá-la muito bem."

 

Depois de dormir pesadamente durante quatorze horas, Scholler tomou o pequeno-almoço na cama, no seu quarto do Bellevue.

 

Não valia a pena levantar-se. Antes de encomendar o pequeno-almoço, tinha ido à porta, para ver se as suas sombras suíças ainda se encontravam no corredor. Ainda lá estavam - os homens eram diferentes, mas não havia dúvida quanto às suas funções.

 

Voltando para a cama, acendeu um cigarro e observou, com satisfação, o luxo feminino das cobertas de cetim, da cabeceira almofadada, dos estofos de seda macia. O quarto dava para uma casa de banho em mármore cor de rosa. Nada mau. Nada mau. Sorriu. Esfregou com satisfação os pelos da barba.

 

Quando chegou o pequeno-almoço, Scholler pediu ao criado que abrisse os cortinados. Enquanto comia ovos cozidos, queijos, carnes frias e pãezinhos com manteiga, e bebia o seu café com creme, ia olhando para a cidade de Berna, da qual tinha uma perfeita visão, da sua cama. A curva do rio. As pontes baixas e altas. Os topos dos telhados antigos. Nada mau. Um lugar nada mau para gozar a reforma, pensou. Evidentemente, era preciso ter dinheiro...

 

Ficou toda a manhã na cama, esperando que o telefone tocasse, lendo os jornais, adormecendo de vez em quando. Ao meio dia, não tendo ainda recebido qualquer telefonema, ligou para a legação americana e mandou chamar Quantregg.

 

Ao fim de algum tempo, a telefonista transferiu-o para outro número.

 

"Bom dia, Sr. Quantregg", disse alegremente. Espero que tenha dormido bem. Quanto a mim, dormi maravilhosamente. Nem calcula a diferença: lençóis limpos, um colchão macio, e não esperar que nos façam em pedaços durante o sono. Bom, espero que tenha boas notícias para mim."

 

"Umas boas e outras assim-assim, Scholler." "Diga lá."

 

Estamos a estudar a sua proposta. Sob diversos ângulos. Não posso dar-lhe já uma resposta." "Quando, nesse caso?" "Não sei. Terá que esperar." "Há um limite de tempo." Eu sei, eu sei. É o melhor que podemos fazer.'' i

 

"Está bem, está bem. Espero notícias suas?" !

 

"Ah... sim, pode esperar, Scholler." Depois de desligar, Scholler meditou durante alguns minutos. Esfregou a barba com a mão e, encolhendo os ombros, foi até à casa de banho e pôs a água a correr para o banho, enquanto se barbeava. Passou meia hora dentro da água verde e macia, ensaboando-se bem com o pequeno sabonete francês de delicado perfume, que a gerência fornecia. Pouco depois da uma hora, foi almoçar ao terraço do hotel, que dava para o rio, seguido pelas suas duas sombras suíças. Bebeu uma garrafa de vinho tinto, a acompanhar a comida e, no final da refeição, mandou vir charutos e escolheu um Havano para fumar enquanto bebia o seu brandy. Quando terminou e assinou a conta eram três horas. Dirigiu-se à recepção e perguntou se havia algum telefonema para ele, e, quando lhe disseram que não, passou através das portas giratórias e saiu para a rua, a dar um passeio, sempre seguido pelas suas sombras.

 

Os americanos não tinham passado uma manhã tão ociosa. Quando Quantregg chegou à Herrengasse pouco depois das nove, Dulles disse-lhe, "Bill Donovan mandou-me ir a Paris." Isso não é muito bom, com o Scholler aqui.''

 

E não só Scholler, Dick. Temos outro voluntário. Hottl, o homem do Kaltenbrunner, também apareceu por cá. Também quer fazer um acordo. Mandei alguém recebê-lo. Alguém que nada sabe sobre o Amanhecer."

 

"Pensa que o General Donovan sabe de Scholler?"

 

"Talvez. Talvez. Já sei o que ele vai dizer. Vai-me dizer que, sejam quais forem as vantagens que possam resultar de uma rápida rendição alemã, não vale a pena antagonizar os soviéticos e correr-se o risco de quebrar a Aliança... na décima primeira hora. É isso que ele vai dizer, mas com mais força."

 

"E o senhor, que vai dizer-lhe?"

 

"Eu? Vou dizer-lhe que - não obstante os meus próprios pontos de vista - obedecerei, naturalmente, às instruções do Presidente."

 

"E que vou eu dizer a Scholler?"

 

Diga-lhe - que espere.''

 

Pouco depois das sete e meia da tarde, Scholler chegou ao American Bar do Bellevue, de rosto liso, depois de se ter barbeado pela segunda vez, e finalmente vestido com um fato que tinha uma certa forma, embora temporária, porque o criado do hotel o escovara e engomara durante a tarde.

 

Enquanto tomava a sua bebida, em pequenos goles, na extremidade arredondada do bar de carvalho, identificava os outros profissionais presentes pela sua tranquila vigilância e pela rapidez dos movimentos dos seus olhos, sempre que as portas se abriam e alguém entrava.

 

Scholler dava a ideia de alguém que procurava passar tempo.

 

Os seus olhos passeavam vagamente pela sala; os seus movimentos eram lentos e indecisos; de vez em quanto olhava para o relógio e depois, com certa indecisão, fazia girar o gelo no copo, antes de encomendar nova bebida. Dentro deste espírito propositado, e após bastantes bebidas, reparou numa mulher jovem que estava sentada numa banqueta de couro verde e, após uma troca de olhares, dirigiu-se a ela.

 

O suíço que observava Scholler conhecia bem a rapariga, era uma bela refugiada romena, baronesa por casamento e agora viúva, que ganhava a vida como prostituta em part-time e tradutora. Ocasionalmente vendia, a quem as quizesse comprar, pequenas informações adquiridas através do seu trabalho. Toda a gente a conhecia em Berna por a Baronesa e, quando um estranho se aproximava dela, fazia-o geralmente passar por uma prolongada charada em que começava por o rejeitar, quando não o mandava mesmo embora.

 

Quando eventualmente decidia entregar-se, nunca menos de três ou quatro horas após o contacto inicial, fazia primeiro uma comovente descrição das suas dificuldades financeiras, como uma viúva nobre perdida em Berna, e, geralmente, o homem sentia-se embaraçado por lhe oferecer menos de trezentos francos.

 

Scholler sentou-se ao seu lado e ela começou imediatamente a falar, sem parar, da sua vida, das suas antigas casas e criados na Roménia, dos seus amigos e primos bem nascidos, das suas relações com pessoas famosas... um monólogo longo e bem ensaiado.

 

Depois de a ouvir durante cerca de três quartos de hora, Scholler sugeriu que fossem para outro lado, e depois a qualquer outro. Acabaram num nightclub, onde se sentaram durante uma hora numa alcova escura, em frente de uma outra ocupada pelos dois suíços que, já bastante aborrecidos, tinham desistido de beber sumos de laranja e tinham passado a beber cognac.

 

Pouco antes da meia-noite, Scholler e a Baronesa saíram do nightclub e tomaram um táxi para o apartamento dele. As sombras suíças seguiram-nos no seu carro.

 

Quando chegou ao quarto, a baronesa começou a fazer um relato ainda mais íntimo das suas dificuldades financeiras, desapertando o corpo do vestido, ao mesmo tempo, e fumando ansiosamente, como se tentasse preparar-se para fazer um pedido a que francamente não estava habituada. Era uma boa representação, muito bem ensaiada, mas o seu visitante parecia não a escutar. Talvez estivesse demasiado bêbado. Isso sucedia, às vezes. Era um dos inconvenientes que podia resultar dos prolongados preliminares através de bares e nightclubs.

 

O seu novo amigo parecia mais interessado em olhar para a janela do que para ela.

 

Os dois suíços tinham saído do carro e observavam o prédio. Satisfeitos por ver que não havia outra saída, estacionaram o carro em frente da entrada, desligaram o motor e as luzes e prepararam-se para esperar.

 

Scholler viu acenderem-se fósforos na escuridão do carro e o círculo vermelho dos cigarros. Calmamente, abriu a janela. O ar frio chocou a Baronesa, que já se encontrava despida, e um ar de incredulidade surgiu no seu rosto, quando viu o seu novo amigo passar uma perna sobre o parapeito. Embora soubesse que havia uma floreira logo abaixo, sentiu um medo súbito de que aquele bêbado louco se atirasse da sua janela e provocasse um escândalo.

 

Mas algo se tornou evidente logo que ele passou a outra perna sobre o parapeito: fosse ele o que fosse, bêbado não estava. Movimentava-se com grande segurança. Colocara um dedo sobre os lábios, a pedir-lhe que se mantivesse em silêncio. Havia algo de autoritário, mesmo ameaçador, no modo como o fez, que a forçou a ficar quieta. Não queria fazer nada que atraísse a atenção dos vizinhos e que fizesse aparecer a porteira, a fazer perguntas. Por isso, reteve a respiração e ficou subitamente quieta, enquanto Scholler se espalmava contra a parede do prédio, mesmo por cima do carro com os dois suíços. Havia floreiras de ferro forjado por toda a fachada - no verão enchiam-se de gerâneos. Com uma agilidade surpreendente num homem do seu tamanho, levantava um pé sobre uma das floreiras ornamentais e passava-o para a seguinte, e equilibrando-se contra a parede, transportava a outra perna.

 

Deste modo ia passando de floreira em floreira, até chegar à esquina; voltou-se, agarrando-se a um algeiroz saliente e, com um canivete, abriu uma janela que dava para umas escadas. Subiu-as, desceu três lances, e saiu pela entrada do edifício ao lado daquele onde morava a Baronesa.

 

Caminhando com leveza, regressou à esquina e espreitou. O carro continuava em frente da outra entrada. Com um leve sorriso de auto-satisfação nos lábios, começou a caminhar pelas ruas escuras, olhando para os carros estacionados. Sempre que via um Horch, um Mercedes ou um Wanderer, tentava abri-los com uma das chaves de um grande molho que trazia consigo. Depois de diversas tentativas, conseguiu abrir um Wanderer. Soltando o travão de mão, empurrou o carro pela rua durante cerca de um quarto de milha, com as luzes desligadas. Depois de entrar, experimentou diversas chaves na ignição, até encontrar uma que servia. Contudo não pôs logo o motor em funcionamento. A rua era ligeiramente inclinada, nesse ponto, e ele deixou que o carro avançasse durante mais meia milha, na escuridão e no silêncio, antes de ligar o motor.

 

Guiou sem luzes durante diversas milhas, observando a estrada pelo retrovisor, e, quando se convenceu absolutamente de que não estava a ser seguido, dirigiu-se para a estrada principal e acendeu os faróis.

 

Seguindo o curso do rio Aare, Scholler continuou a olhar pelo retrovisor que, na maioria do tempo, nada mostrava. Havia pouco tráfego, a essa hora da noite. Algumas das curvas eram perigosas, mas ele sentia-se à vontade na noite. Dava-se bem com a escuridão; dentro do seu trabalho, tivera que a conhecer intimamente e podia movimentar-se dentro dela com segurança e uma certa capacidade de visão.

 

Na subida para o Simmental, os declives tornavam-se mais íngremes, para 7, e, uma vez por outra, o carro resvalou no gelo endurecido; friamente, corrigiu as derrapagens mas não abrandou a velocidade. Tinha um horário a cumprir.

 

Sentia agora a altitude nos ouvidos. Quatro mil pés.

 

Conduzia a mais de sessenta milhas por hora através de diversas aldeias da montanha, silenciosas, saltando sobre os carris dos caminhos de ferro, salpicando as montras das lojas com a neve lamacenta das ruas. Uma igreja com a torre do sino aberta. Uma Gasthof, com as janelas rodeadas por esquadrias pintadas em estilo rocócó. O Post. Lojas de artigos de desporto. Uma Apotheke. Uma padaria. Uma mercearia. Aqui e além, havia neve no chão. Todas as aldeias se pareciam.

 

Eram duas horas da madrugada quando chegou à elevada passagem da montanha a que chamam Col de Mosses. Era pouco mais que um lugarejo, apenas uma série de cafés e restaurantes fechados, e um ou dois Hotels du Col. Deixou o carro onde não pudesse ser visto, por trás de uma cabana em desmantelamento, e caminhou a pé, ao longo duma rua escura e íngreme. Havia algumas casas de tipo alpino construídas na vertente da montanha, que pareciam encalhadas, com os acessos todos cobertos de neve. Quanto mais subia, maiores eram as distâncias entre os chalés e, finalmente, o caminho percorria cerca de 500 jardas sem casa alguma de ambos os lados.

 

No final do caminho havia uma velha estalagem de montanha, em madeira, rodeada por árvores, cujas varandas proporcionavam uma esplêndida vista em redor. A estalagem parecia mal aproveitada e vazia. A madeira apodrecera em certos locais e os buracos haviam sido tapados, desmazeladamente, com palha e pedras. O telhado perdera diversas telhas.

 

Scholler dirigiu-se para a estalagem por um caminho coberto de neve, sem marcas de pegadas ou de pneus.

 

No pátio viu a carrosseria enferrujada de um carro sem rodas, lenha empilhada sob um alpendre em desequilíbrio, um velho carrinho de mão de madeira, uma grande pá para neve. O seu relógio marcava três e meia quando bateu à porta com os punhos, fazendo ecoar rudemente o som pela quietude das neves perpétuas dos picos circundantes. Voltou a bater, uma vez e outra, duramente, peremptoriamente, sem se preocupar com o adiantado da hora; como alguém habituado a acabar pessoas violentamente. Bateu   durante alguns minutos, dté que um estore do primeiro andar se abriu e um rosto surpreendido surgiu à janela. Scholler recuou para se mostrar, após o jue o dorminhoco assustado fechou o estore e a janela, desaparecendo no interior, e, momentos depois, ouviram-se fechaduras que se abriam, ferrolhos que eram corridos, e uma porta de i rro que era levantada.

 

Quando finalmente a porta se abriu, sou uma voz, 'vejam só quem está aqui! Vejam só quem está aqui! Entre tanta gente que há neste mundo. T.-J! Custa-me a crer. Tu! Que fazes aqui? Vens fazer uma visita social? A meio da noite? A noite foi sempre o teu elemento, de uma maneira ou de outra". Riu-se.

 

"Não me dizes para entrar?", perguntou Scholler com uma deferência pouco habitual perant as prerrogativas do dono da casa. "Claro, claro."

 

"Trata-se de uma visita de negócios, ,a realidade", explicou Scholler enquanto aceitava o convite para entrar.

 

Negócios? Terei ouvido bem? Tu, com a tua profissão, a fazer negócios comigo? Se estivéssemos na Alemanha, poderia sentir medo."

 

Scholler levou a frase à conta de um gracejo e riu-se, fazendo uma expressão de reprovação perante a ideia.

 

"Sabes que nunca tiveste nada a recear de mim", disse. "Antes pelo contrário, hem?"

 

"Tens razão", concorcou o estalajadeiro. "Estava só a brincar. Vem, Ernst. Vem. Senta-te em qualquer parte. Eu sei, eu sei, isto está muito desarrumado. Mas hás-de encontrar onde sentar-te. Vou buscar-te uma cerveja. Ou um schnapps?"

 

"Schnapps."

 

O estalajadeiro saiu para procurar álcool na cozinha enquanto olhava rapidamente em volta. A casa estava em estado lastimoso, bafienta, mal-cheirosa, húmida, suja. As janelas tinham-se partido e tinham sido fechadas com tábuas. Os buracos em volta das suas armações tinham sido tapados com trapos velhos e jornais. Escorria água pelas paredes em diversos pontos. O estuque estava cair.

 

O estalajadeiro regressou com uma garrafa de schnapps e encheu os copos. Scholler levantou o seu. "Aos nossos negócios", disse.

 

O estalajadeiro perguntou, "Como estás tu aqui? A uma hora destas. Tu... partiste?"

 

"Não. Não parti. Mas partirei em breve. É por isso que venho ver-te... Diz-me, como vai o hotel?"

 

"Como vês." O estalajadeiro estendeu as mãos, para indicar o estado da casa. Não sirvo para dirigir um hotel. Não é o meu género, Emst. Quando a Rosalie morreu, tudo começou a estragar-se. Sabes como eu sou. Não sei conversar com as pessoas. Não sirvo para isso. Por vezes bebo de mais. As pessoas deixaram de vir, e depois não havia dinheiro para fazer as reparações, e cada vez vinha menos gente - até que finalmente chegou a isto. Temos estado fechados nos últimos dois anos."

 

"Do que tu precisas", disse Scholler, "é dum sócio. Alguém com determinação, energia, e sentido dos negócios, para fazer andar isto para a frente. Claro, precisas de capital. Um bom capital, mesmo. Para arranjar a casa, comprar material,.. Que tal me achas como sócio?"

 

" Tu - a dirigir um hotel! Parecia uma piada sinistra. Porque não? Preciso de fazer qualquer coisa. As minhas antigas habilitações não terão muita procura."

 

O estalajadeiro cortou com o seu riso descrente ao compreender que a proposta era feita a sério.

 

"Esta propriedade é valiosa, bem vês.", disse rapidamente. "Talvez não pareça estar em boas condições, mas estruturalmente é segura. Firme como uma rocha. E que situação ! Que vista! As pessoas vêm cá por causa da vista. Uma magnífica vista para a montanha. Ar puro. O ar é maravilhoso aqui, Ernst. Perfeito para convalescenças. Só precisávamos de uma boa estrada. Mesmo assim, não era nada mau Alpinistas, montanheses, etc.! Depois a cozinheira foi-se embora. É preciso ter-se uma boa cozinheira para se dar pensão completa. Isto fica muito longe para as pessoas irem sempre comer ao Gol, embora pouco mais seja do que uma milha e meia... Talvez duas." Scholler interrompeu-o.

 

A casa não vale muito por causa do estado em que está, mas isso para mim é uma vantagem. Porque significa que ninguém cá vem. Compreendes-me? E depois estás cá tu. Também isso me interessa. Não só por seres um amigo em quem posso confiar mas por seres um tipo desagradável. Com hábitos peculiares. Que não recebe ninguém. Que nunca sai. Que vive sozinho nesta... porcaria. Não é assim?"

 

O estalajadeiro começou  a   protestar,   receando   que Scholler procurasse um pretexto para baixar o preço.    

 

"Estás a exagerar... Com um pouco de limpeza, uns rapazitos da aldeia, por um punhado de francos..." Começou o estalajadeiro, mas Scholler fê-lo parar.

 

Não quero nada limpo. Nada deve ser mudado. Ninguém deve cá vir. Compreendes? Quantas vezes fazes compras?"

 

Vou ao Col de 10 em 10 dias com o meu carro de mão e carrego-o."

 

"Fazes apenas isso, nada mais."

 

"Compreendo, Ernst."

 

"Pago-te 100.000 francos por meia quota do hotel. Se estás de acordo, dou-te um terço imediatamente. Mas não deves gastá-lo - ainda. Caso contrário, não receberás o resto quando eu voltar. Se eu voltar, podes ficar com os 33.000 francos. Não fica nada registado."

 

Era, sem dúvida, uma oferta muito generosa. Era pelo menos o dobro do que ele conseguiria obter e não era fácil, numa época daquelas, encontrar um comprador para uma estalagem na montanha.

 

"Gosto de resolver as coisas rapidamente", disse Scholler, atirando um grosso envelope para uma mesa. "Por isso te ofereço mais do que a casa vale. De acordo?"

 

"De acordo - vendo tudo bem - é uma pechincha, acredita. Aceito." Rapidamente, como se receasse que lho pudessem tirar, puxado por um cordel como num gracejo carnavalesco, pegou no envelope, abriu-o e contou as notas. Scholler pegou na mão tremente do estalajadeiro e apertou-a vigorosamente, para selar a transacção.

 

"Agora, se não te importas, gostaria de inspeccionar a nossa propriedade", disse Scholler.

 

Verificou que o resto estava ainda em piores condições do que o andar de baixo, mas notou com satisfação que a entrada principal tinha duas séries de portas pesadas e que os estores sólidos das janelas funcionavam. Ainda lhe pareceu mais interessante verificar que, por trás da estalagem havia um anexo. Estava construído mesmo na base da colina fortemente arborizada, que se tornava íngreme 50 jardas mais acima e quase perpendicular em seguida. Por estar construído em terreno inclinado, do topo podia ver-se, por cima do telhado da estalagem, e observar quem se aproximasse dela, sem se mostrar. Em caso de emergência, poderia desaparecer no bosque espesso, por trás do anexo, antes que alguém que viesse à estalagem chegasse ao cimo do caminho de acesso. Através do bosque, podia entrar e sair do anexo sem ser visto. Recordava-se da situação e da disposição da estalagem, desde umas breves férias que lá passara, oito anos antes, e estava satisfeito por a sua memória ter sido tão exacta, porque o lugar, era, tal como pensara, perfeito para os seus propósitos.

 

Scholler não se apressou no seu regresso da montanha; no vale do Aare parou o carro e fumou um cigarro, enquanto observava os pescadores que madrugavam. Depois prosseguiu em direcção a Berna. Chegou ao subúrbio de Muri pouco antes das nove da manhã e estacionou o carro junto de um velho hotel em tipo de chalé, o Sternen. Saiu e dirigiu-se à parte da frente do hotel, subiu as escadas até à varanda e encaminhou-se para a sala de pequenos almoços. Mandou vir café, ovos fritos, queijo e pãezinhos com manteiga, e demorou-se mais de uma hora a tomar a refeição, enquanto percorria os jornais suíços com o olhar.

 

Pouco depois das dez, pagou a conta e saiu. Deixando o carro roubado no parque de estacionamento, caminhou algumas jardas até à paragem do eléctrico e esperou cerca de cinco minutos pelo carro para Berna. Tomou-o e, às 10 e meia estava junto da entrada principal do Bellevue, onde encontrou Quantregg que andava furiosamente de um lado para o outro, fazendo estalar as solas de crepe.

 

"Fi-lo esperar, Senhor Quantregg?", perguntou Scholler inocentemente. "Tem notícias para mim?"

 

"Entre", disse Quantregg. "O Senhor Dulles quer vê-lo."

 

Pegou-lhe no braço, como um polícia que prende alguém e levou-o para fora.

 

"Onde vamos?"

 

"Não esteve no seu quarto na noite passada", acusou Quantregg, enquanto conduzia Scholler pela estrada para Casinoplatz.

 

"Saí - à procura de divertimentos", disse ele, com um ar confidencial, de homem para homem.

 

"Fugiu aos suíços."

 

Scholler sorriu. "Os suíços não precisam de saber tudo."

 

Deixou o apartamento da Baronesa logo que lá chegou. E saiu pelas floreiras."

 

"A Baronesa... no último momento não me agradou, infelizmente."

 

"Para que andou a imitar o Tarzan de floreira em floreira?"

 

"A gente sente-se mais livre quando não traz outros atrás de nós. Talvez eu tenha gostos especiais." Piscou o olho a Quantregg, "os suíços são muito puritanos. Não pretendia corromper aqueles belos rapazes dos Serviços Secretos suíços, levantando-os a locais louches.''

 

Não está a jogar lealmente connosco'', disse Quantregg, "saiu do apartamento da Baronesa antes da uma hora. São agora dez e meia. Passaram mais de nove horas. Onde diabo esteve, Scholler? Que fez nestas nove horas?"

 

Scholler encolheu os ombros de um modo tão mundano que seria capaz de envergonhar o mais curioso dos inquiridores. Ergueu as sobrancelhas, como que a troçar da ingenuidade das perguntas.

 

Quando chegaram à ponte, a alta Kirchenfeldbriicke, Quantregg pegou no cotovelo de Scholler e forçou-o a descer as escadas que levavam à margem do rio. As árvores e arbustos escondiam-nos de olhares observadores, enquanto desciam.

 

A meio do caminho, em vez de descer até ao rio, Quantregg encaminhou-o por uma faixa ao nível do cais, até chegarem às Fricktreppe. O americano olhou em volta, para ver se eram seguidos. Verificando que ninguém os seguia, começou a subir as escadas cobertas de madeira, saltando os degraus.

 

As escadas faziam uma curva, pelo que quem as subisse ficava fora da visão dos que se encontravam em baixo.

 

A antiga estrutura de madeira rangia a cada passo. Se se parasse para escutar, poder-se-ía ouvir quem nos seguisse. Era impossível subir aqueles degraus sem ruído, por muito leves que fossem os passos. Parando de vez em quando para escutar, Quantregg levou Scholler quase até ao cimo.

 

Passaram por diversas entradas de traseiras. Junto de um portão de madeira, sem número, Quantregg tocou a campainha e, em resposta a uma voz vinda de dentro, falou baixo para o gradeamento de ferro por trás do qual se abriu um pequeno painel. Foram imediatamente admitidos e passaram por um jardim, ao longo de um caminho coberto por uma espessa vinha, em latada, até uma porta traseira.

 

A cozinheira recebeu o chapéu e o sobretudo de Scholler e pendurou-os, e os dois homens subiram as escadas alcatifadas. Dulles estava sentado numa cadeira de costas direitas, com a perna esquerda rigidamente estendida e apoiada numa banqueta. A mesa ao seu lado estava coberta de papelada. Sobre ela havia ainda um pequeno tabuleiro com um jarro de água, um copo e diversos frascos de remédios. Fez sinal a Scholler para que se sentasse e, continuando a estudar os seus papeis, disse com ar casual:

 

"Não estou aqui para julgar ninguém - isso fica para outros - estou aqui para resolver assuntos. Mas preciso de ter a certeza de que não sou enganado. Não o conheço e o senhor está a pedir-me que confie muito..."

 

"Pelo contrário", disse Scholler, "nada precisa de dar-me - excepto a sua palavra - até eu ter cumprido. Eu é que tenho de confiar."

 

"Talvez lhe pareça ser assim, mas não é assim que nós vemos as coisas. Antes de prosseguirmos, terá de prolongar o limite de tempo. Nada se pode combinar com tal rapidez."

 

"Está a tentar ganhar tempo. Não concordo com isso."

 

Então não há possibilidade de chegarmos a um acordo e terei que lhe dizer adeus."

 

"De quanto tempo extra necessita?"

 

"Hoje são 12. Digamos -até dia 15?"

 

"Isso é demais. Não posso estar fora tanto tempo. Começavam a investigar. Posso dar-lhe até amanhã para decidir, Sr. Dulles. Vou contactar com o meu escritório e dar-lhes instruções para não abrirem o cofre dos documentos durante mais 24 horas. É o melhor que posso fazer."

 

"Está bem. Dou-lhe a minha resposta dentro de 24 horas."

 

A Herrengasse ficava a pequena distância da Bundesplatz. Passando pelos edifícios do Parlamento, e o Kantonal Bank, até ao Banco Comercial de Berna, um edifício verde pálido, com oito colunas estriadas a separar as suas janelas de dois andares de altura. Desta vez Scholler não fez qualquer tentativa para afastar os seus perseguidores.

 

Passou pelas grandes portas de ferro forjado e atravessou rapidamente o hall de mármore com os seus altos pilares e galerias majestosas que se erguiam em camadas circulares até à abóboda em forma de arca, como uma lanterna mágica de janelas com vitrais. Os seus passos produziam sons discretos que eram imediatamente engolidos pelo eco espiralado.

 

Da primeira galeria via os seus seguidores lá em baixo. Eles viram-no também e fingiram olhar para outro lado. Sorriu largamente e subiu outro lance de escadas até ao Departamento de Contas Especiais. No balcão preencheu um formulário em que após o número 93 80017 LR. e, por baixo, a indicação, "para ver o Dr. Behr."

 

Teve de esperar menos de um minuto antes que aparecesse o Dr. Behr, um indivíduo pequeno, de bochechas gorduchas. Tinha o aspecto de alguém ocupado em servir diariamente os ricos - podia ser tomado pelo chefe dos criados de um restaurante elegante ou um joalheiro de grande categoria. Tinha uma gravata de seda cinzenta e ostentava um alfinete com uma pérola; o seu casaco era escuro, o cabelo ralo estava penteado com uma fina camada de laca que espalhava um aroma de cara loção para o cabelo. Os seus olhos possuíam a tolerância mundana de alguém que, no decurso da sua vida, adquiriu um profundo conhecimento dos negócios financeiros mais íntimos das pessoas.

 

Ao ver na sua frente o Investigador Especial do Reich, o Dr. Behr pôs de parte todos os seus sentimentos pessoais um banqueiro, tal como um médico, tinha que respeitar um código de conduta profissional - e falou-lhe com uma meticulosa cortesia.

 

"Ah, bom dia, Herr Reichskriminaldirektor, bom dia! Espero que tenha feito boa viagem. Quanto prazer em vê-lo. Faça o favor de entrar." Levantou a patilha do balcão e, com uma pequena vénia formal, convidou Scholler a entrar.

 

O escritório do banqueiro, com os seus lambris de madeira escura e a sua única janela estreita com vidros separados que projectava um losango sobre a parede oposta, tinha um certo ar de confessionário. Enquanto se sentava por trás da secretária limpa, o banqueiro fez um aceno, como uma benção, para dar início ao que iria passar-se e, com um gesto sacerdotal da sua mão gorducha, fez sinal a Scholler para que se sentasse.

 

"Bom, Herr Direcktor, em que posso servi-lo hoje?"

 

"Desejo fazer um levantamento", disse Scholler.

 

"Muito bem." Abriu uma gaveta e retirou uma folha de papel sem cabeçalho, com uma linha curta em cima, seguida da linha para a data 19 . Depois havia outra linha que dizia simplesmente N.°-, seguida de uma outra sem qualquer indicação e de uma pequena linha final também sem qualquer indicação.

 

O banqueiro apontou formalmente para o papel e disse: Tenha a bondade: a data, o número da conta, a importância que deseja e a sua assinatura." Estendeu-lhe a sua própria caneta de ouro.

 

Rapidamente, Scholler preencheu todos os detalhes e devolveu-lhe a folha. O Dr. Behr estudou-a por um momento, apertou ligeiramente os lábios, com as pontas dos dedos encostadas e delicamente afastadas. Teve um sorriso um pouco rígido.

 

Quatro milhões de francos'', disse, lendo a importância num tom inexpressivo.

 

"Sim", disse Scholler.

 

O banqueiro murmurou algo para si próprio antes de se baixar e abriu uma gaveta da secretária. Dela retirou um livro de couro com fecho, com o nome do banco gravado a ouro. Procurou algo, escreveu um número num pedaço de papel e carregou numa campainha que fez surgir a sua secretária. Deu-lhe um pedaço de papel e disse: "Imediatamente".

 

Enquanto aguardavam o regresso da secretária, ambos ficaram em silêncio. O banqueiro suíço sorria ocasionalmente ; tamborilava com os dedos sobre o tampo vazio da secretária.

 

"Não leva muito tempo", disse, ao fim de dois minutos de silêncio, e acrescentou, "fica alguns dias em Berna?" e interrompeu-se imediatamente, dizendo a si próprio que tal pergunta, feita ao Investigador, poderia ser considerada indiscreta.

 

Felizmente, nessa altura, a secretária regressou com o dossier que colocou, com grande precisão, em frente do Dr. Behr. Com a pequena tosse nervosa de alguém que dá início a um processo formal, o banqueiro abriu o primeiro dossier, e espreitando pelas suas meias-lentes, estudou as notas dactilografadas. Ao falar, fê-lo com o tom cadenciado dum funcionário do tribunal que lê uma declaração feita sob juramento.

 

"Deve recordar-se do processo a seguir quando são levantadas importâncias superiores a cem mil francos..."

 

"Muito bem. Eu próprio o criei."

 

O banqueiro pareceu ficar ligeiramente aborrecido com esta interrupção e continuou a ler rapidamente: "As vinte pessoas abaixo indicadas têm direito a fazer levantamentos..." Os seus olhos estudaram a lista. "O senhor é um dos vinte", declarou formalmente o Dr. Behr, ' 'e, portanto, esta condição está satisfeita. Agora..." Os seus olhos liam mais adiante, enquanto murmurava a conversa própria dos banqueiros que precedia a passagem importante. "...Ora cá está.'' Baixou a voz para ler a frase principal com lenta exactidão:

 

' 'Quando forem retiradas importâncias superiores a cem mil francos, deverá passar um período mínimo de dez dias entre o pedido de pagamento e a sua efectivação. Nesse período, o banco deverá, por iniciativa própria, obter as assinaturas de mais duas pessoas da lista dos vinte, autorizando o levantamento, e o pagamento não deverá ser efectuado, a menos que essas assinaturas sejam conseguidas. Ficará ao discernimento do banco..."

 

Parou e repetiu esta frase que lhe pareceu de importância: "Ficará ao discernimento do banco quais as pessoas da lista dos vinte que devem ser contactadas para a obtenção das assinaturas para autorização, e, em circunstância alguma, deverá o banco discutir com a pessoa que levanta o dinheiro ou divulgar-lhe os nomes das pessoas dessa lista de vinte que devem ser contactadas para obtenção das suas assinaturas.'' O banqueiro levantou o olhar. Este processo não é vulgar'', observou.

 

Criei-o disse Scholler, 'para eliminar qualquer possibilidade de o Reich ser defraudado por um só indivíduo ou por uma conspiração de alguns."

 

"Muito bem, Herr Reichskriminaldirektor. É um excelente sistema, se posso dizê-lo, mas apresenta certas dificuldades para nós, presentemente."

 

"Sim?"

Essa lista de vinte nomes foi-nos dada quando a conta foi aberta por si em 1942, e foi depois alterada por duas vezes. Uma em 1943 e outra em 1944. Em alturas cono esta, não temos maneira de saber quais as pessoas da lista que ainda estão vivas ou podem ser contactadas. Alguns destes endereços...", (estendeu as mãos apologeticamente por ter de pôr o assunto tão cruamente), "...já não existem."

 

"Basta contactar dois, Dr. Behr. Quaisquer dois. Isso não deve ir além das possibilidades de um grande banco suíço.''

 

"Naturalmente faremos todos os possíveis, Herr Reichskriminaldirektor. Não é uma questão insignificante. Quatro milhões de francos não é uma quantia insignificante. Vou dedicar-lhe a minha atenção pessoal para que tudo seja feito... para que todas as pedras sejam voltadas, a fim de se encontrarem esses signatários..." Parou, de repente, compreendendo que a metáfora das pedras talvez fosse um pouco indelicada dado o actual estado da capital alemã.

 

Scholler disse: "Estou pronto a obter as assinaturas."

 

O Dr. Behr considerou a hipótese, e depois sacudiu a cabeça. Isso não estaria em conformidade com as normas estabelecidas", fez notar.

 

"Dado que as normas foram criadas por mim", disse Scholler, "talvez as pudéssemos alterar um pouco."

 

"Isso não seria próprio."

 

"Como vai obter as assinaturas, então?"

 

"Terei que ver se isso pode ser feito através dos bons ofícios de uma das embaixadas neutras ainda em contacto com o governo alemão. Terá que deixar isso comigo, farei todo o possível."

 

Ergueu-se e escoltou Scholler até à porta. Antes de a abrir, hesitou por um momento, como se não estivesse absolutamente certo sobre a maneira como deveria formular a pergunta.

 

Decerto me perdoará por lhe perguntar isto, mas este levantamento é feito com a aprovação total do governo alemão... Não teremos qualquer dificuldade em obter as assinaturas?"

 

"Naturalmente, estou a agir por mandato do governo alemão. Não haverá dificuldades quanto às assinaturas."

 

"Só queria ficar absolutamente seguro nesse ponto", disse o Dr. Behr, abrindo a porta ao seu visitante.

 

"É compreensível."

 

"Bom dia."

 

"Bom dia."

 

Só quando o Investigador Especial do Reich desapareceu da sua vista, é que o banqueiro se permitiu um estremecimento.

 

Na tarde do dia 12 de Abril em Warm Springs, Georgia, onde fora fazer um período de descanso, a conselho do seu médico, o Presidente Roosevelt posava para o seu retrato.

 

O artista lutava por captar a curiosa luminosidade das feições do Presidente - a pele tornara-se semelhante a um pergaminho e apresentava um brilho intenso que provinha do interior daquele homem exausto que se ocupava dos seus papeis. O Presidente começou a franzir o sobrolho, quando sentiu o início de uma súbita dor aguda na cabeça, e uma das suas mãos dirigiu-se para a testa, mas não chegou a tocar-lhe. A meio desse movimento, Roosevelt deslizou subitamente para a secretária e a sua cabeça bateu contra a superfície de madeira.

 

Quando o seu assistente secreto acorreu, chamado pelo pintor, o Presidente estava inconsciente. Algumas horas mais tarde, morria com uma hemorragia cerebral.

 

A notícia da morte do Presidente chegou a Dulles no final desse dia, quando fazia as malas para partir para Paris. Estavam com ele quatro dos seus mais próximos ajudantes de campo, reunidos para receber as últimas instruções antes da partida do seu chefe. Dulles deu-lhes a notícia e disse algumas palavras em homenagem à importância de Roosevelt e depois disso mandou embora todos os seus ajudantes com excepção de Quantregg.

 

Logo que ficaram sós, disse: "Veja se me pode trazer aqui o Scholler imediatamente."

 

"Ele só espera uma resposta amanhã."

 

"Eu sei. Mas talvez consiga resolver isto antes de eu partir."

 

Scholler estava no seu quarto do Bellevue e, quando Quantregg lhe disse pelo telefone que viesse tu de suite, veio rapidamente.

 

Cinco minutos mais tarde, encontrava-se, com a respiração um pouco alterada, em frente de Dulles que estava de sobretudo vestido e chapéu na mão, pronto a partir.

 

"Eis o que estou disposto a fazer, Scholler. Estou pronto a conceder-lhe o compromisso pessoal que pede, se libertar Wolff. Mas preciso de ter a certeza de que vai cumprir a sua parte. Isso significa que terei de mandar alguém consigo."

 

"Para me espiar!"

 

"Sim. E para se certificar de que a confissão de von Thedieck é destruída e de que os dossiers de que me falou serão colocados no local onde possamos alcançá-los - ou seja na zona americana."

 

"Essa pessoa que vai enviar comigo..." Ficará responsável pela segurança dele. Daí dependerá a sua própria segurança, Scholler." "É um americano?"

 

"Sim, mas é fluente em alemão e conhece Berlim. Podemos dar-lhe documentos." Scholler estudou a resposta.

 

"Enquanto estiver comigo, essa pessoa não será provavelmente interrogada. Mas quando andar só... todos os movimentos dentro da Alemanha estão altamente restringidos. Não poderá movimentar-se sem mim, ficará absolutamente atado a mim. Se eu não sair, ele também não poderá fazê-lo.'' "Terá de atravessar essa ponte quando a alcançar." "Ele conhece o risco que corre?" Os homens como nós são forçados a correr riscos. 'É alguém que possamos estar certos de que não perderá a cabeça? Que não entrará em pânico? Mesmo em circunstâncias altamente difíceis? Compreende, ficaremos nas mãos um do outro."

 

"Não sei.", Dulles. "É jovem e inexperiente neste tipo de trabalhos. Mas não temos mais ninguém com esse género de habilitações. Teremos que confiar em si, Reichskriminaldirektor, para... olhar por ele.

 

Scholler riu. s r

 

"É razoável.", disse. "Aceito."

 

"Trate dos pormenores com o Sr. Quantregg. Amanhã deve estar tudo resolvido."

 

"Certo... Mas quem é o tipo que vamos meter nisso?", disse Quantregg quando ficaram sós.

 

"Elliot."

 

"Elliot!"

 

"O alemão dele é perfeito, e conhece toda a operação."

 

Não teve treino em quaisquer missões - nenhum. É um caloiro.''

 

Tem o Investigador Especial do Reich para o proteger." Não há mais ninguém, Dick. Não podemos mandar mais ninguém."

 

"Que vai dizer ao General Donovan?"

 

"Tocarei de ouvido. Bill Donovan está praticamente do nosso lado e temos uma coisa a nossa favor - Roosevelt nada disse ao Vice-Presidente. O Sr. Truman ainda levará algum tempo a descobrir o que se passa no grande mundo para além do Missouri."

 

Elliot foi acordado pelo toque do telefone. Quando levantou o auscultador, teve uma espécie de pressentimento que poderia provir de um sonho inacabado. Ouviu a voz do porteiro da noite. Havia alguém no vestíbulo para o visitar.

 

"Para me visitar?" Olhou para o relógio de pulso luminoso. Duas horas. A data era 13- "Quem quer ver-me?"

 

"Um Sr. Quantregg da legação americana."

 

"Oh! Peça-lhe que suba, se faz favor. Ou ele prefere que eu desça? Ele sobe? OK."

 

Que raio lhe quereria ele àquela hora da noite? Elliot meteu a cabeça por baixo da torneira de água fria do lavatório para acordar. Devia ser alguma mensagem urgente que tinha de ser decifrada ou codificada. Pensou rapidamente. Não tinha muito tempo para agarrar nas suas coisas, visto que Quantregg subia sempre as escadas a três e três.

 

Uma pancada breve, seguida de uma entrada intempestiva e peremptória.

 

Quantregg estava bem acordado e a queimar energia à sua média habitual de alta combustão.

 

Mas, quando entrou no pequeno quarto de hotel, não saíram imediatamente ordens sóbrias. Em vez disso, apresentou o sorriso calculado, embora perigoso, dum funcionário superior, que se destina a pôr o seu funcionário à vontade. Teve o efeito contrário. Elliot acendeu um cigarro. Quantregg não falou de nenhum trabalho de cifra, ao deixar-se cair no único cadeirão, do qual saltou imediatamente como uma mola. Afastando com a mão o fumo do cigarro - Quantregg não fumava por convicção - disse algo pouco vulgar.

 

"Foi-nos muito útil, Elliot. O Sr. Dulles está muito satisfeito."

 

"Alegra-me ouvir isso."

 

Eram raras as palavras de elogio de Quantregg; considerava as pessoas que trabalhavam na sala de códigos como um bando de incapazes que passavam o dia sentados numa sala agradável, limpa e aquecida, ocupando-se ociosamente de jogos de espírito, enquanto os outros trabalhavam realmente.

 

"Isto é um caso bicudo, sabe. O caso do Scholler. Que pensa dele?"

 

Imaginava-o diferente.''

 

"De que maneira?"

 

No nosso espírito formamos a ideia de alguém que nos parece maior que a própria vida. E depois aparece-nos alguém que apenas pretende salvar a pele, o que é muito diferente."

 

"Certo. Penso que você os conhece bem."

 

"Não. Não os conheço. Vivi lá. Vi coisas. Estava lá na Krislallnacbt. Gostei daquilo, evidentemente, como toda a gente."

 

"Que tal é o seu alemão?"

 

"É bom."

 

Deve ser bestial. Andou na escola lá. Penso que deve ser fluente. Deve falá-lo como um daqueles malditos Krauts."

 

"Bem...", começou Elliot com modéstia.

 

"E conhece Berlim?"

 

"Ah... decerto. Vivemos lá."

 

"Durante quanto tempo?"

 

"Vamos a ver... dez anos, talvez."

 

"Interessou-se por aquilo, não é assim? Quero eu dizer, conhece a maneira deles actuarem. O protocolo. Tudo isso."

 

"Não conheço muito de coisas desse género."

 

Sabia da existência do Scholler. E conhecia a organização interna do Departamento Principal de Segurança."

 

Que queria Quantregg? Geralmente não se ocupava em rodear os assuntos - atirava logo com aquilo que queria.

 

"Precisamos de fazer uma coisa", admitiu Quantregg, "precisamos de alguém que esteja ao corrente de toda a situação lá... que conheça a cena."

 

"Um trabalho de investigação?" Elliot tinha preparado ocasionalmente trabalhos de profundidade sobre um ou outro aspecto da situação alemã.

 

"Precisamos de alguém que lá vá."

 

"Que lá vá? Vá aonde, Senhor Quantregg?"

 

"A Berlim."

 

"Ainda durante a guerra?"

 

"Certo. Percebeu."

 

Elliot tossiu e começou a rir, mas, de súbito, sentiu-se gelar, contra sua vontade e disfarçou com um gesto divertido, à maneira cinematográfica.

 

"Está a pedir-me, a mim, que lá vá", disse, engolindo a saliva com exagero. "Certo."

 

Aspirou profundamente e deixou escapar o ar lentamente. "Não está a abrincar comigo, pois não?" "Não estou, não, rapaz." "Não, também não pensei que estivesse." "Certo."

 

Não quero que pense que tenho má vontade ou qualquer coisa do género", disse Elliot, "mas deve saber que não tenho treinos de coisa alguma desse tipo. Nunca fui a parte alguma."

 

'É assim que se aprende. Ao actuar, tomam-se as decisões próprias, como verá."

 

Elliot começou a abanar a cabeça negativamente.

 

"Francamente, Sr. Quantregg... eu... eu não me acho talhado para esse de género de... an... de coisas.''

Não me venha com essas. Você serve. Joga ténis acima da média. Faz ski. É um desportista completo, segundo oiço dizer..."

 

"Bom, mas isso não é exactamente..."

 

"Olhe...", interrompeu Quantregg. "Você quer ser alguém, não quer? O seu pai é alguém. É realmente alguém. Que vai ser você?..."

 

"Não tinha ainda pensado..."

 

Quantregg aproximou-se dele e olhou-o nos olhos, directamente.

 

"Olhe lá, meu rapaz" disse ele, "Há sempre um futuro para quem se distingue ao serviço do país. O Senhor Dulles não esquece um bom homem."

 

' 'Mas isto é uma loucura - eu não sou um espião... estava por acaso em Berna e pediram-me que trabalhasse nos códigos, e..."

 

"Está certo, até aqui a guerra foi fácil para si... sucedeu-lhe encontrar-se num lugar seguro e confortável como Berna quando as fronteiras fecharam. Certo. Por isso não teve que se juntar ao exército. Não precisou de fazer todas aquelas coisas desagradáveis e perigosas que os outros têm de fazer na guerra. Tais como matar gente. Não. Contudo, a culpa não foi sua. Foram as circunstâncias, não foram? E agora que pode escolher, não tenho dúvidas de que, como qualquer outro jovem americano patriota, após uma sensação inicial de modéstia- em que se perguntou "serei capaz de o fazer?" chegará à conclusão de que tem de fazê-lo, pelo seu país. E por si próprio. Oiça, meu rapaz é fácil. Você entra e sai. É tudo. Observa Scholler. E verifica alguns dossiers, é tudo."

 

"É tudo."

 

"Certo. Você mantém-se ao lado de Scholler. Ele é o Investigador Especial do Reich. Quem lhe tocará enquanto você estiver com ele?..."

 

"Os nossos bombardeiros não sabem que eu estou com ele."

 

"Oiça, pode-lhe cair um tijolo em cima da cabeça ao sair do Salão de Chá Wolfli. Corremos sempre riscos."

 

"Vou pensar nisso", disse Elliot.

 

"Se está a pensar em dizer que não", disse Quantregg, "devo dizer-lhe que não posso aceitar uma recusa."

 

"Pensei que se podia recusar uma coisa desse género."

 

"Só nos filmes."

 

"Pode ordenar-me que vá fazer uma coisa dessas?"

 

"Não sei se posso ou não, mas digo-lhe uma coisa: ficávamos muito chateados se não se apresentasse livremente como voluntário, e atacá-lo-íamos de todas as maneiras; e não estou a brincar."

 

"Eu sei que não brinca, Senhor Quantregg."

 

"Certo."

 

Mas preferia o pior que pudesse fazeivnie a morrer, que é o resultado mais provável.doplano idiota que me propõe."

 

"Talvez preferisse", conjecturou Quantregg, "ou talvez não. Quem sabe?"

 

Elliot riu forçadamente. Num momento, toda uma vida pode mudar. Um minuto antes levava uma existência normal, sem acontecimentos, pensando onde ir beber um copo ou onde encontrar raparigas, e, no minuto seguinte, alguém queria enviá-lo para um mar de chamas e, se não fosse, sabe-se lá o que sucederia.

 

"Dar-lhe-emos maneira de entrar em contacto connosco, se Scholler der quaisquer indícios de falhar ao compromisso'', disse Quantregg.

 

"E se ele o fizer?" "Você avisa-nos." "E depois?"

 

Dá cabo dele. Dá cabo daquele filho da puta.'' "Como sugere que o faça? Na sua posição ele deve ter uma certa experiência de pessoas que tentam acabar com ele."

 

"Use isto."

 

Tirou do bolso um pequeno objecto metálico e atirou-o a Elliot que o apanhou no ar. Era um canivete de escoteiro. O tipo de canivete que todos os rapazes desejam ter. Além das lâminas habituais, tinha uma chave de parafusos, uma tesoura para unhas, um abridor de garrafas, um sacarrolhas, e uma lima para unhas, enfim, toda uma série de utilidades. "Carregue na molazinha atrás", aconselhou Quantregg. Elliot obedeceu, e, do cabo de osso do canivete, saiu uma longa lâmina afiada, uma arma assassina. Elliot experimentou-lhe a ponta; apertou os lábios em atitude contemplativa. Pensou em matar o Investigador Especial do Reich. Em cortar-lhe o pescoço. Era como um desses jogos de infância, em que se tenta imaginar as coisas piores que se poderiam fazer. Se estivesse num salva-vidas no oceano, e houvesse três pessoas na água, a mãe, o pai e a irmãzinha, e apenas houvesse espaço para mais um a bordo, quem salvaria e quem deixaria afogar? Por vezes, em frente do espelho, dizia a coisa pior que podia imaginar, só para ouvir como soava, para se ouvir dizê-la... coisas inqualificáveis, crimes, perversões, bestialidades.

 

"Acha que podia fazê-lo, com um golpe disto?", perguntou Elliot. Era como dizer coisas em frente do espelho, só para ouvir a sua voz, como na infância.

 

"Bom, se apanhar esta veia aqui, a jugular externa, deve bastar. Mas mesmo que a falhe, se fizer um bom golpe, ele não ficará em estado de se defender do segundo, ou do terceiro, ou do quarto." Parou, apercebendo-se da mudança de disposição que aparentemente se verificara no rapaz. Era incrível. Por vezes aquilo que se julgava ser o mais difícil de fazer engolir, era o mais fácil. "Vou tratar dos seus documentos. Você parte amanhã cedo. OK!"

 

"OK, Senhor Quantregg."

 

Sou eu quem está a dizer isto, ou estou apenas a f alar ao espelho? Dentro de um minuto, perceberei que concordei e quererei desistir, mas será tarde de mais. Ainda não é tarde. Por amor de Deus, é preciso pensar em algo. Pensar em algo. Qualquer coisa. Quantregg chegava à porta. Abriu-a. Fazê-lo parar. Fazê-lo parar. Dizer qualquer coisa. Ganhar tempo. Argumentar. Recusar.

 

Com a porta já aberta, Quantregg parara, como se, de súbito, se recordasse de qualquer coisa. Voltou para dentro do quarto.

 

"Oh, só mais uma coisa. Preciso de saber isto. É só uma formalidade. Quem quer que seja informado... no caso de lhe acontecer alguma coisa? Os pais? Uma rapariga, algures?"

 

"Só os meus pais."

 

"O mesmo endereço que está na sua ficha?"

 

O meu pai está em Paris, presentemente. No Ritz. Ou ao cuidado da SHAEF. A minha mãe - está em Inglaterra. O endereço dela está na ficha. Não vivem juntos. Terão de ser informados separadamente.''

 

"Então até amanhã. Durma bem."

 

"Certo", disse Elliot.

 

"Aqui tem os seus documentos e dinheiro", disse Quantregg entregando um grande envelope castanho a Elliot, que vestia roupas feitas na Alemanha, fornecidas pelos Serviços Técnicos. Um fato castanho escuro, de tecido grosseiro, fabrico de guerra. Era um fato de medida Standard, com calças demasiado largas na cintura e usadas com suspensórios. Um sobretudo comprido, de bolsos duplos, com lapelas largas. Um chapéu mole - do género dos que os polícias à paisana usam invariavelmente nos filmes. Sentia-se desconfortável e um tanto ridículo, com aquelas roupas estranhas que lhe assentavam mal, como uma criança que haviam vestido para uma festa estúpida em que os adultos a obrigariam a brincar.

 

Quantregg começou a pô-lo ao corrente dos detalhes da sua falsa identidade, e a explicar os processos a seguir.

 

"Chama-se Albert Haften, é um assistente político pessoal de Scholler. Cargo: Kriminaloberassistent. Isto equivale mais ou menos ao posto de segundo tenente. É civil e não tem cargo correspondente nos SS. Não foram dados cargos correspondentes aos dos SS ao pessoal de Scholler. Você pertence à Reichskriminalpolizeiamt, subsecção PP II J, Forças Policiais de Política Estrangeira, e tem estado ligado ao pessoal do General Wolff, na Itália, como observador político; por outras palavras, é um espião do Investigador Especial. É o sistema habitual deles. Características vitais semelhantes ás suas. Nascido e educado em Frankfurt - não podem verificar isso, porque a cidade está nas nossas mãos, não é verdade? Na Itália esteve ligado ao pessoal do coronel SS Dollmann, para efectuar sondagens políticas. Dollmann está ao corrente da operação Amanhecer, já foi avisado e apoiará tudo. Esta é basicamente a sua posição. Dúvidas?"

 

"Parece tudo OK," disse Elliot.

 

"Agora - o objectivo. O seu trabalho em Berlim é o de salvaguardar a operação Amanhecer de qualquer maneira, e repito, qualquer. Destrua a confissão de von Thedieck. Apodere-se das cópias. Quanto ao resto, tem de observar Scholler, evitar que ele falte ao combinado e, se lhe parecer que irá fazê-lo, tome as medidas que lhe parecerem necessárias, incluindo o seu canivete de escoteiro. Certo?"

 

"Captei o essencial."

 

"Em seguida. Os dossiers. Verifique a sua autenticidade. E o conteúdo - estamos interessados no aparelho secreto deles. Queremos esses nomes. Trate da evacuação dos dossiers para a zona americana, e tenha cuidado com os truques dele. Scholler é um negociante e não queremos pôr-lhe mais trunfos na mão."

 

Colocou um pedaço de papel em frente de Elliot.

 

"Eis o número de telefone e endereço de Berlim. Decore e destrua. Um relógio de pulso. De fabrico alemão. Dê-me o seu e tome este. Dentro da caixa está o número de fabrico... é a sua senha quando ligar para o número de Berlim. O tipo é relojoeiro. Está em contacto connosco pela rádio e sabe o que se passa."

 

As suas palavras de código baseiam-se nas peças do relógio. Wolff é a roda principal. OK? O Sr. Dulles é a roda central. Eu sou a terceira roda e você a roda de escape. Scholler, digamos que é a mola principal. Se tivermos que lhe passar uma mensagem, ou você a nós, através do relojoeiro, utilizar-se-á esta terminologia. Tudo claro?"

 

"Tudo claro.'

 

Um ponto final. O Scholler é um Kraut e você sabe que eles só são bons quando mortos. A sua missão termina quando Wolff estiver a salvo e você tiver tratado dos dossiers. Depois disso, cada um por si. Afaste-se depressa. Penso que talvez seja melhor você agarrar-se ao Scholler, mas se não for, separe-se. Na maior parte das coisas - pelo menos antes de a missão estar cumprida - você deverá fazer o que Scholler diz, a menos que tenha motivos para supor que ele está a atraiçoar-nos. Porque, não se esqueça, ele está a fazer um grande jogo, e tem bases e experiência para saber como fazê-lo, o que você não tem. Ao mesmo tempo, se lhe apetecer, você poderá anulá-lo em qualquer altura e ele sabe isso. Estamos a falar dentro da estrutura geral do acordo. Se ele nos falhar, você decide por si próprio e não haverá regras."

 

Quantregg parou e um sorriso de forte encorajamento espalhou-se pelo seu rosto. Deu uma palmada no braço direito de Elliot e, ao mesmo tempo, um poderoso apertão ao seu biceps esquerdo.

 

"Penso que fará tudo bem", disse ele, "e apreciamos o seu espírito de patriotismo ao oferecer-se como voluntário para isto. A propósito, vamos precisar da sua assinatura para esse efeito. Certo?" "Certo."

 

Empurrou para Elliot uma série de impressos e entregou-lhe a sua própria caneta.

 

'' Uma aqui, outra aqui, e aqui, e aqui..." Ia indicando os diversos pontos e os diversos impressos em que eram necessárias assinaturas. Elliot assinou sem ler.

 

"Óptimo, óptimo.", disse Quantregg, satisfeito com o espírito confiante do seu agente. "Só mais uma coisa. Um conselho pessoal, Elliot. Tal como o Sr. Dulles diz, na nossa profissão temos que estar prontos a falar com o próprio diabo, certo? Mas tenha cuidado consigo, hem? Mantenha a cabeça fresca. O que eu quero dizer, meu rapaz, é isto: vão fazer muitas coisas em conjunto, você e Scholler... Sejam elas quais forem... Mas isso não significa que você tenha que ficar grato para com ele. De modo algum. Percebeu? Por isso é melhor ir já preparado para usar o canivete de escoteiro, a certa altura.'' "De acordo."

 

Deixando a Suíça, no dia 14 de Abril, o Investigador Especial do Reich e o jovem que o acompanhava, identificado na fronteira como o seu ajudante de campo político (Itália), Albert Haften, dirigiram-se para norte através duma estrada que subia a partir do Bodensee e passava, às curvas, pelos sopés arborizados do Allgau até Kempten.

 

Embora o Primeiro Exército alemão tivesse agora ultrapassado Pforzheim e atravessado o rio Enz, e os russos estivessem em Viena, esta era a parte mais larga do corredor entre as frentes oriental e ocidental. O ponto mais próximo da frente ficava a setenta milhas para oeste.

 

Passaram por formações de tanques Tiger e transportes blindados que seguiam para Stuttgart mas a maior parte do tráfego seguia no outro sentido, longas colunas de refugiados, muitos deles a pé, outros em carros puxados por cavalos, cheios de objectos pessoais empilhados ou em decrépitas camionetas agrícolas, alguns de bicicleta, mas todos tentando afastar-se o mais possível da área de luta.

 

Se pudesse, Scholler percorreria estradas mais estreitas e menos importantes. Quando tinham de seguir pelas estradas principais, encontravam veículos em chamas e os mortos pareciam tremer no ar aquecido.

 

Ao aproximarem-se de Munique, o céu escurecera com rolos de fumo que provinham de uma dúzia de alvos.

 

Aeroportos, fábricas de munições e paióis,   depósitos e caminhos de ferro, atingidos durante raids nocturnos.

 

Desde que penetraram no território alemão, Elliot começara a sentir-se apreensivo, mas, ao mesmo tempo, sentia-se num estado de espírito de estranha excitação, em que as cenas infernais destacadas da chuva e da lama, enquadradas pela acção de limpeza dos limpa-vidros, pareciam estar a suceder a grande distância dele.

 

Aos lados da estrada encontravam-se os mortos e os moribundos, onde haviam caído de fome e exaustão. Mulheres, crianças. Velhos. Alguns estavam cobertos con trapos sujos ou com uma lona, mas a maioria ficara tal como caíra, com os olhos fixos, corpos gelados e hirtos.

 

Era ainda mais horrível ver os vivos. Crianças sem mãe, com um terror átono estampado nos rostos. Velhos quase incapazes de andar, que em breve também seriam cadáveres. Mulheres lutando desesperadamente para manter juntos os seus grupos familiares.

 

Mal reagiam quando Scholler conduzia o carro pelo meio deles, salpicando-os com a lama e a sujidade da estrada.

 

Ele não parecia vê-los. Guiava rapidamente, sempre alerta às mudanças significativas das condições do terreno, olhando frequentemente para o céu e para os campos que os rodeavam. Os seus olhos assemelhavam-se à agulha oscilante de um instrumento, registando tudo, friamente, sem sentimentos.

 

"Este tempo é bom para nós", disse Scholler, indicando as nuvens baixas, anunciando chuva, que cobriam todo o céu como uma densa massa cinzenta, sem clareiras. "Desencoraja os seus compatriotas de nos perseguir. De momento.''

 

Elliot estava afundado no assento com o rosto branco e brilhante de suor. As palmas das suas mãos deixavam marcar de humidade em tudo aquilo que tocavam.

 

Scholler lançava-lhe,   de vez em quando,   um olhar preocupado. "Está com nervos?", perguntava ocasionalmente.

 

"Estou enjoado por andar de carro", disse Elliot.

 

Scholler sorria e fazia um gesto de simpatia.

 

"Péssimas, estas estradas. É uma viagem aos saltos, peço-lhe desculpa. Tem que respirar fundo. Com regularidade, assim. Olhe para o horizonte, para algo que se não mova." Acrescentou, como se se lembrasse de súbito: Há cognac no porta-luvas. Vai acalmar-lhe o estômago..."

 

Após os primeiros golos, Elliot sentiu o espírito começar a fechar-se-lhe. Bebeu outro longo golo e, à medida que sentia o álcool queimar-lhe a garganta e o peito, a sua noção das coisas começou a tornar-se menos aguda, menos pesada.

 

Olhou para Scholler. Para o pescoço sólido. Olhos sempre alerta. Orelhas grandes. Ombros largos, um homem forte. Se tivermos que lutar, tenho vinte anos menos que ele e estou em boa forma, pensou Elliot, mas ele está no seu terreno, conhece o que o rodeia e estará a lutar pela sua vida. Teria de o apanhar de surpreza. Uma investida súbita. Por trás. É a única maneira.

 

"O seu estômago vai melhor?"

 

Porque se preocupa ele tanto com o raio do meu estômago? Raios o partam, Elliot sentia-se icomodado pela determinação de Scholler em mostrar-se amigável. Está a tentar fazer-me gostar dele. É grotesco. Pensa que pode levar-me a este ponto? Considera-me um noviço, assim tão fácil de manejar?

 

Quantregg dissera - se chegar a altura, faça-o, as coisas geram o seu próprio ponto culminante. Mas seria capaz de matar Scholler, se tivesse que o fazer? Não conseguia imaginar-se a fazer uma coisa dessas. Supunha que ninguém conseguia. Contudo, as pessoas matavam mesmo. Era melhor não pensar nisso. Talvez nunca sucedesse. Mas conservava, dentro do bolso, o canivete de escoteiro fechado na mão suada, para não se esquecer de que a situação poderia surgir, tinha sido planeada.

 

Estudou o rosto pesado e manhoso. Quantos crimes haveria dentro daquela cabeça? Não podia ter aquela profissão e conservar as mãos limpas.

 

Abruptamente, como se lesse a linha de pensamento de Elliot, Scholler disse: "O que eu afirmei em Berna é verdade. Sei que não me acredita, mas não estive envolvido nas coisas de que ouviu falar... só fiz trabalhos vulgares de polícia.'' "Trabalhos de polícia, hem?"

 

"Sim. Não posso convencê-lo a acreditar-me, Senhor Elliot. Mas no seu país, uma pessoa está inocente até se provar a sua culpa. Não é assim?"

 

"Sim", disse Elliot, "mas estamos no seu país, agora, e aqui aplica-se o contrário. Não é verdade?" Scholler riu em auto-desaprovação. "A isso chama-se voltar as cartas contra mim. Como nos vossos filmes? Compreende. Chama-se a isso ser "um espertalhão", não?"

 

"É mais ou menos isso... Olhe, Scholler, não precisamos de conversar. Vamos só àquilo que nos interessa fazer certo?"

 

"Compreendo."

 

À medida que avançavam ao longo do corredor, para norte, Scholler descobria como ele se estreitara drasticamente nos seis dias em que deixara o Schloss Rudolphstein. Bayreuth, que ele atravessara no caminho para sul, estava prestes a cair nas mãos do Terceiro Exército de Patton. Por isso foi preciso virarem para leste de Nuremberg e dirigirem-se para Weiden e daí para a fronteira checa até Bad Elster, para descobrir quais as estradas para Berlim que ainda estavam abertas.

 

Ao meio-dia, Scholler começou a sentir fome, e algo nos campos por onde passavam pareceu aumentar-lhe o apetite.

 

'A situação quanto à alimentação piora à medida que nos aproximamos de Berlim", disse ele. "Mas neste sítios consegue-se sempre uma refeição decente. Recordo-me de um sítio aqui perto. Sim, sim, havia um local aqui perto que era muito bom."

 

Fez um desvio para descobrir o sítio, orientando-se pelos casais agrícolas, baixos e compridos, pela linha do caminho de ferro, pelas curvas da estrada, os campos abertos, a igreja. Estava absolutamente preocupado em descobrir aquele local onde comera bem um dia, e cada sinal vagamente reconhecível ao longo da estrada fazia-o soltar gritos de felicidade "Sim, sim, é este o caminho, tenho a certeza. Vamos por bom caminho... posso garantir-lhe."

 

Quando, ao fim de meia hora de pesquisa, fizeram uma curva e viram na sua frente uma tasca dirigida por trabalhadores agrícolas, Scholler ficou triunfante. Parou o carro e esfregou as mãos. Saíram e ele conduziu Elliot através de uma escura sala exterior, onde alguns velhos bebiam silenciosamente, até uma pequena sala de jantar, onde trinta ou mais trabalhadores agrícolas se acotovelavam, sentados em longas mesas apoiadas sobre cavaletes, comendo ruidosamente. O ar estava cheio com o cheiro e o fumo da carne de porco na grelha, e Scholler avançou, farejando como um cão à procura de comida.

 

Durante toda a refeição, o cheiro da carne de porco a grelhar quase fez Elliot vomitar, e pouco conseguiu comer, enquanto que Scholler não só comeu a porção que fora servida como quase tudo o que Elliot deixara. Partia o pão e enfiava grandes pedaços na boca, engolindo-os com fortes doses de cerveja.

 

"Esta é a minha parte do mundo", disse a Elliot, entre dois golos. "Sou daqui, sou filho de gente como esta. São da minha classe. Camponeses. Camponeses. É daqui que eu venho e não me envergonho disso. Gente humilde. Humilde como a terra. Aquilo a que vocês, os intelectuais, chamam o Lumpenproletariat. Sabe o que é? Bom, pois eu não sou massa informe.'' Tocou com um dedo num dos lados do seu nariz enorme, com ar de conhecedor. "Instinto", disse. "Sei umas coisas que os intelectuais não sabem. Conheço a minha profissão... e sei usar os cotovelos." A cerveja tornara-o conversador. "Compreende, eu nunca fui um deles, nunca fui um Herrenvolk. Não, era apenas um vulgar Kriminalinspektor de Munique,   lidava   com   criminosos,   chulos,   prostitutas, assassinos... Costumava apanhar os palhaços nazis, antes de

Costumava fazer-lhes dores de cabeça. Imagine, também caçava os Bolchevistas. Também lhes fazíamos a vida negra. Eu e o "Stapo" Miiiler. Cómico, não é? Ele chefe da Gestapo, eu Investigador Especial do Reich, e ambos éramos considerados politicamente indignos de confiança. Porque costumávamos caçar aqueles palhaços de camisa castanha." "Quando o pintor austríaco tomou o poder, compreendemos que estávamos fritos. Heydrich apareceu, chamou-nos um por um. Tinha Fingerspitzengefúhl,   aquele homem, conhecia as pessoas com a ponta dos dedos. Mandou-me entrar, der Chef, mandou-me entrar. Olhou para uma longa lista. Tinha sempre na frente uma lista de qualquer género. "Scholler", diz ele, "Ernst Scholler". "Sim, senhor", digo eu. "Diz aqui", diz ele, lendo, "inimigo do regime, investigador por conta própria, indigno de confiança. Potencialmente desleal. Não é membro do Partido.   Politicamente ignorante. Despedir sem direito a pensão. Depois olha-me firme, nos olhos. Tinha uns olhinhos azuis muito pequenos. ' Verdade? pergunta. Era a grande esperteza dele, compreende.   ''Verdade?",   "Não,   Senhor",   disse   eu. Então deve ser outro Scholler", diz ele. Deve ser", digo eu. "Óptimo", diz ele, "então posso contar consigo?". "Sou um bom polícia", disse eu. "Isso sei eu", disse ele.

 

"Por isso sabia que todas estas coisas aqui escritas não poderiam dizer-lhe respeito. Preciso de bons polícias. Já tenho ideologistas suficientes." Depois observou-me e disse "que tal é com a pistola e com as mulheres?" Como ele ligava tudo, respondi, "nada mau", respondendo por ambas as coisas e ele disse: "Óptimo, preciso de alguém que saiba disparar com ambas as armas..."

 

Scholler soltou uma risada grosseira e bebeu mais cerveja. "Der Chef tinha um certo apetite por uma vida depravada, noite após noite, de depravação em depravação. "Sabem quem eu sou?", gritava às mulheres quando elas não se submetiam imediatamente. As mulheres não gostavam dele, embora fosse um homem bonito, louro, que dava nas vistas. Andávamos sempre juntos, nessas noites. Mas de dia era diferente. Então ele era der Chef, alguém que nunca saía sem a sua escolta de motociclistas, com toda a gente a saudá-lo "Heil Hitler". Mas à noite, punha a vida nas minhas mãos. Qualquer daquelas putas podia ter-lhe enterrado uma faca na garganta. Eu tinha que evitar que isso acontecesse, ou que alguém lhe metesse uma bomba debaixo do rabo. Confiava em mim. Sabia que eu era um bom polícia, e isso tranquilizava-o. Sabia que eu conhecia o trabalho policial de trás para diante. E se íamos a um sítio e eu não gostava do aspecto daquilo, seguia o meu conselho. Quando estava bêbado, chamava-me o seu braço direito e dizia que adorava o seu braço direito. Mas eu sabia bem que ele não hesitaria em cortar o braço direito, se isso compensasse."

 

Depois do almoço pesado e de toda a cerveja bebida, a condução de Scholler tornou-se pouco segura. As suas pálpebras grossas descaíam, deixava cair a cabeça para a frente, e uma ou duas vezes parecia que ia sair da estrada. Mas recuperava subitamente e, sacudindo-se como um cão molhado, tentava focar de novo o olhar. As nuvens tinham-se levantado. Passavam por campos cheios de colinas.

 

"Bonito, não é?", disse Scholler. "Que linda zona esta! Cresci aqui. Sim. Nesta região. Conheço-a bem -linda, linda. No verão..."

 

Desabotoou o botão superior das calças, para libertar o estômago cheio. Os seus olhos pareciam ausentes, nalguma recordação de ébrio. Como seria fácil matá-lo agora, pensou Elliot, enquanto vagueia nas suas recordações sentimentais. Que pouco alerta ele está. Nunca imaginei que o Investigador Especial do Reich pudesse estar tão pouco alerta...

 

As aldeias eram todas parecidas. Cada uma delas tinha a sua igrejinha de torre bolbosa, as suas casinhas com traves de madeira, alguns armazéns, árvores de fruto em flor. O tempo clareara; e o sol brilhava sobre o cenário primaveril. Atravessaram uma ponte corcovada, com o seu caminho de ferro, e seguiram depois por uma estrada às curvas, ladeada por raros maciços de árvores que interrompiam a luz do sol, em inumeráveis segmentos deslumbrantes.

 

Quando regressaram a terreno aberto, ouviu-se o trovejar de um comboio à esquerda. Nesse ponto a linha do caminho de ferro seguia paralela à estrada, durante algum tempo, antes de entrar no túnel.

 

Atravessavam campo aberto entre largos horizontes, mantendo o comboio à sua esquerda durante cerca de uma milha; do lado direito havia terreno arado, algumas cabanas, uma ou duas casas, antes de o terreno começar a subir de novo, tornando-se acidentado e cheio de bosques, a pouca distância. Ouviam-se os pássaros, no silêncio campestre. Os olhos de Scholler fechavam-se de vez em quando, e, em consequência, seguiam aos zigue-zagues.

 

Estavam mesmo no meio de um terreno aberto, quando Scholler de súbito, saiu da estrada, lançando o carro, aos saltos, sobre a terra arada. Elliot sentiu-se violentamente empurrado contra a porta do seu lado, que se abriu, e, antes de o carro parar, já ele caía, com a fornia maciça de Scholler por cima, movendo-se, obrigando-o a rolar sobre a terra dura, até mergulhar num fosso. Elliot sentiu que lhe comprimiam a cara contra o chão.

 

Mal conseguia respirar. Lutou por uma lufada de ar e viu, por cima das colinas dois pontos rápidos que cresciam continuamente. Os Mosquitos britânicos pareciam emergir do solo, voando muito baixo, mesmo por cima das árvores de fruto carregadas de flores brancas e cor-de-rosa. Os aviões quase roçaram os telhados das casas baixas e os postes telegráficos, com as suas sombras ponteagudas a persegui-los, tornando-se gigantescas, cobrindo como um sudário, com a forma das asas, os dois homens que estavam no solo.

 

Mais uma vez Scholler forçou Elliot a baixar a cabeça, enterrando-lhe a cara na terra. Ambos sentiram o ar estremecer violentamente e ouviram o fogo dos canhões.

 

Elliot sentiu que o medo lhe punha um nó na garganta. Os aviões tinham passado. Perseguiam o comboio. Elliot viu a terra saltar em volta dele. Densas nuvens de vapor subiam da caldeira perfurada. O maquinista dava-lhe maior velocidade, tentando alcançar o abrigo do túnel que ficava a uma milha de distância. O comboio estava a ser varrido pelas balas: as janelas e as portas das carruagens eram desfeitas em pedaços, como alvos móveis num campo de treino. As pessoas gritavam. Algumas atiravam-se do comboio a grande velocidade.

 

Os aviões voltaram-se, subindo rapidamente, preparando o próximo ataque; Scholler ajudou Elliot a pôr-se de pé. Sacudiram a terra e correram para o carro. Ainda podiam ver o comboio. Parecia uma raposa de longa cauda, a fugir dos cães. Chegaria à toca a tempo?

 

Scholler tinha conseguido pôr o carro de novo em movimento e fazia-o regressar à estrada, estremecendo e saltando sobre o terreno lavrado.

 

Os Mosquitos pareceram parar momentaneamente, brilhando, quando atingiram o zénite da subida, e começaram a descer para mergulhar de novo ao ataque. Com indiferença Elliot observou o resultado deste jogo de vida ou de morte entre os aviões e o comboio. Havia rostos com capacetes junto das janelas. Uniformes. Um transporte de tropas? Um alvo legítimo. O inimigo. Do céu, os aviões desceram ruidosamente, perseguindo a cauda do comboio quando a locomotiva estava no túnel. As duas últimas carruagens ficaram despedaçadas, mas o comboio avançou, arrastando os destroços.

 

Logo que voltaram à estrada, Scholler carregou fundo no acelerador e pôs o carro em marcha rápida, enquanto observava o céu para ver o que os pilotos britânicos fariam a seguir. Mas estes, evidentemente, tinham decidido não gastar munições com um veículo solitário e subiam rapidamente, transformando-se de novo em pontos. Scholler manteve-se sempre alerta enquanto prosseguiam. Só quando, ao fim de dez minutos ou mais, verificou que eles não voltavam, descontraiu um pouco a atenção.

 

"Para quem estava cheio de cerveja, actuou muito rapidamente", disse Elliot. Limpou a terra da cara e do cabelo. "Por momentos pensei que tencionava sufocar-me lá em baixo.''

 

"O Sr. Dulles disse-me que olhasse por si", explicou Scholler. "Sou responsável pela sua segurança. Tenho que me certificar de que nada de mau lhe sucede, para que nada de mau me suceda a mim. Não havia tempo para explicar-lhe o que eram aqueles pontinhos no céu. Agora você também já sabe e vai estar alerta. Hem? Temos que ajudar-nos um ao outro. Pelo menos por agora, seja o que for que pense de mim, Sr. Elliot. Não acha bem?"

 

"Sim."

 

Seguiram em silêncio, Scholler voltava-se de vez em quando para observar o jovem americano. Quando notou que, ao fim de quinze minutos, voltara certa cor ao rosto de Elliot, disse, com um sorriso estranho: "Habituamo-nos à ideia da morte, lá no fim, á ideia de que temos de conhecer aquela feia tipa. Não é assim tão má. Não vale a pena discutir com a maldita, mas não é tão horrível como se pensa. Tem o seu trabalho a fazer''. Riu-se. ' 'Eu conheço-a - conheço-a bem. Vi-a chegar-se a muita gente. Conhecemo-nos um ao outro, ela e eu."

 

"Acredito", disse Elliot.

 

Não é o que pensa, Sr. Elliot. Só no decurso do meu trabalho normal de polícia."

 

"Trabalho de polícia, hem?"

 

"Conhece o velho ditado", disse ele, rindo, "pensa no futuro, e vive cada momento como se fosse o último. É a única maneira. Há coisas que se não podem alterar. Assim o melhor é concentrarmo-nos no trabalho, levarmos uma garrafa de cognac para a cama à noite, de manhã curarmo-nos com o pêlo do mesmo cão, e aguentar assim.''

 

"É o que você faz, não é?"

 

"Não deve julgar aquilo que desconhece", disse ele, permitindo, pela primeira vez, que na sua voz surgisse uma ponta de rancor. Que sabe você? Conhece tudo pelos livros. Vocês, os intelectuais! Não conhecem nada. Acredite no que lhe digo. As coisas sucedem lentamente, acabamos por habituar-nos a elas... pouco a pouco, pouco a pouco..."

 

"Você habituou-se. Fale só por si próprio."

 

"Não? Você não sabe como é. As pessoas enlouquecem. Eu estava perto de um desses lugares, sabe a que me refiro?... Ficava a vinte milhas de distância, mas sentia-se-lhe o cheiro. Por toda a parte. A carne queimada... Era uma espécie de cheiro rançoso, muito enjoativo. Vi alguns deles. O Povo Escolhido... não os europeus, os europeus são diferentes, são como nós. Não, os outros. Às vezes tinha de investigar se algum dos nossos tubarões estava a fazer comércio ilegal com as propriedades tiradas aos judeus. Era a única ligação que eu tinha com o assunto... Quanto ao resto, nada podia fazer."

 

"Tal como os outros todos. Todos. Nada podia fazer."

 

O rosto de Scholler ficou tenso; respirou fortemente através das narinas dilatadas; era evidente que se ocupava em pensamentos que não podia ou não queria comunicar. Depois emergiu do hiato, coçou o queixo, levantou as sobrancelhas como se reconhecesse o inegável.

 

Para a natureza humana nada está fora de questão. Acredite. Compreende?"

 

Todos eles procuram justificar-se, pensou Elliot. Enojado, afastou os seus olhos dos do outro.

 

De vez em quando, viam o horizonte à sua esquerda iluminar-se com pesado fogo de artilharia, e, mais para o norte, aproximaram-se bastante. Era como viajar dentro de uma mandíbula que se apertava lentamente.

 

Pouco antes do anoitecer, encontraram uma patrulha da Feldpolizei que os avisou de que, se avançassem na escuridão, podiam penetrar nas linhas inimigas, tão fluidas eram as frentes.

 

"Tenham cuidado com os trabalhadores do Leste", disse um dos polícias. "Fugiram de uma grande fábrica perto daqui, destruíram as instalações, mataram os guardas e os patrões. Andam por aí a vaguear, armados com facas de cozinha e picaretas. Podem cortar-lhes a garganta por um pedaço de pão."

 

Scholler escolheu uma casa abandonada para passarem a noite, e, para protecção mútua, colocaram as camas em cantos opostos, de modo que, se um deles fosse atacado no escuro, o outro pudesse correr melhor em seu auxílio. Ele próprio dormiu com a sua pequena Mauser automática ao seu lado, por baixo das cobertas.

 

"Não se preocupe", disse Elliot, "pode dormir profundamente." Riu-se. "Eu durmo com os olhos abertos... vejo e oiço tudo."

 

Naturalmente, disse Elliot voltando-se de lado. Apesar do sarcasmo da sua voz, sentia-se relativamente seguro, com o polícia ali, a guardar a porta, e dormiu profundamente sem se mexer, até Scholler o acordar, no dia seguinte, dizendo que era altura de partirem. Continuando na direcção do norte, viam por toda a parte indícios do colapso total. Bandos errantes de desertores armados que viviam como bandidos. Patrulhas SS a controlar os documentos de toda a gente, especialmente dos soldados em movimento, para o caso de estarem a movimentar se na direcção oposta, afastando-se da guerra.

 

Por toda a parte havia funcionários e técnicos do Ministério, a supervisar as minas colocadas nas pontes, nas instalações industriais, nos depósitos de água, nas estações de energia eléctrica, nas estações telefónicas, nas fábricas, de acordo com as ordens de terra queimada ditadas por Hitler. Nada devia ficar intacto, mesmo que a população morresse de fome por causa disso.

 

Muitas estradas estavam bloqueadas por acção do inimigo, ou por causa dos carros do exército avariados, alguns dos quais paravam apenas por se lhes ter acabado a gasolina. Havia ambulâncias e transportes de tropas, adaptados à pressa para esse fim, que transportavam os feridos graves para longe da zona de batalha, mas ninguém sabia para onde iam, visto que a batalha se estendia por todos os lados.

 

Filas de soldados extenuados arrastavam as armas pela estrada enlameada. Cavalos já sem forças, que puxavam os canhões. Carros de serviço cheios de oficiais de alta patente avançavam a grande velocidade em todas as direcções. E havia um vaivém contínuo de estafetas transportando despachos. De tantas em tantas milhas havia um desvio - para verificação das autorizações de viagem, ou porque se estava a minar uma certa parte da estrada, ou porque se cavavam trincheiras, ou se erguiam obstáculos para tanques.

 

A velocidade fazia-os queimar muito combustível, e, de cada vez que Scholler parava para encher de novo o depósito a partir da sua própria reserva do porta-bagagem, imaginava ansiosamente até onde os levaria o que ainda restava nas latas. Não era uma coisa que pudesse calcular com exactidão, porque desconhecia quantos mais desvios e obstáculos os esperavam.

 

A meio da ponte foram forçados a parar por um comboio de tropas que ficara imobilizado numa passagem de nível que atravessava a rua. Scholler, irritado, abanando a cabeça, resmungando sobre a gasolina, saiu do carro e foi ver qual era a situação. Elliot seguiu-o.

 

As duas últimas carruagens do comboio tinham sido destruídas. Devia ser o comboio de tropas que eles tinham visto ser atacado pelos bombardeiros britânicos. Tinha conseguido chegar até ali, antes de se abaixar.

 

Procurando alguém que pudesse saber quanto tempo o comboio iria ficar ali parado, espreitaram pelas barras de ligação e viram que estavam a retirar corpos das carruagens e a colocá-los no chão, entre as duas filas paralelas de carris. Os uniformes dos soldados do comboio caíam soltos sobre as suas pequenas estaturas. As espingardas chegavam-lhes às orelhas. Crianças! Estas tropas não eram constituídas por homens, mas por crianças, algumas das quais não tinham mais de doze ou treze anos.

 

No trilho adjacente havia outro comboio, para o qual alguns dos feridos estavam a ser transportados, enquanto, às janelas, raparigas da Força Anti-Aérea Auxiliar Feminina, grandes camponesas alemãs, de corpos pesados, com a pele avermelhada, chamavam pelas crianças-soldados, em diversos dialectos, rindo-se rudemente entre si.

 

Algumas das crianças-soldados tinham saído do comboio para urinar, e as raparigas gritavam-lhes: "É só isso que sabes fazer?" e outras coisas no género. Algumas das raparigas da Anti-Aérea também tinham saído do seu comboio e agachavam-se junto dos carris, aliviando-se também.

 

Havia uma grande troca de frases ordinárias, enquanto as raparigas e as crianças-soldados partilhavam o urinol improvisado, entre os carris. E, quando uma das raparigas avermelhadas da Anti-Aérea, em resposta a qualquer ousadia das colegas, deu uma cotovelada desdenhosa numa das crianças-soldados, seguiu-se uma batalha, a fingir, em que os jactos de urina eram dirigidos para todos os lados, com gritos de hilariedade histérica, rasgaram-se roupas interiores, e, finalmente, em diversos locais, as crianças-soldados montaram as raparigas da Anti-Aérea, pela frente ou por trás, sacudindo-se no chão, numa confusa mistura de membros. Isso a menos de uma dúzia de metros do local onde jaziam os mortos e os feridos.

 

Scholler sacudiu a cabeça, ao ver a cena. "São crianças."

 

Elliot disse, "parece-me já terem idade suficiente."

 

Scholler afastou-se, enojado, e regressou silenciosamente ao carro. Pôs o motor a trabalhar e, com uma mudança violentamente metida, fez marcha atrás em grande velocidade, afastando-se da estação bloqueada.

 

Manteve-se em silêncio durante os vinte minutos seguintes.

 

"Há uma coisa que eu nunca aceitaria, a violação de crianças. Se apanhava um desses porcos nojentos, não o deixava esperar pela justiça. Fazíamos-lhe logo justiça. Tratamentos médicos, psiquiatras, drogas para acalmar..." Tossiu desdenhosamente e engoliu a saliva.

 

"Uma coisa posso dizer a favor de Himmler, e qualquer polícia lhe dirá o mesmo, ele dixava-nos ir para a frente, em vez de nos maçarmos com tribunais e mandatos.

 

"Mandatos! Para pervertidos que molestam crianças! Caçávamo-los, depois de 33, e não os mandávamos para confortáveis centros de tratamento. Mandávamo-los para campos..."

 

"Sim, já ouvi falar desses campos", disse Elliot. Não sabe o que significa ter um filho. Não é pai", disse Scholler. "Não pode compreender." "Você vai ensinar-me?"

 

"Você julga que sabe tudo", advertiu Scholler. "Depois verá."

 

Estava a fazer-se escuro; era preciso passar uma segunda noite numa casa abandonada, no caminho. Estava em 15 de Abril.

 

Dulles regressara cedo, nesse dia, da sua reunião com o General Donovan, em Paris, na qual se acentuou uma vez mais que a política oficial não aceitava as negociações com os chefes nazis.

 

Uma vez mais Dulles defendera o seu ponto de vista de que a rígida aderência ao princípio da rendição incondicional só servia os interesses dos soviéticos, permitindo-lhes que ocupassem grandes zonas da Europa. Mas, embora Donovan concordasse com o seu ponto de vista, afirmou categoricamente que Truman iria manter a política que Roosevelt acordara com os russos.

 

Dulles meditava nesta conversa, sentado no seu apartamento, sozinho, comendo uma truta au meunière. O peixe estava a saber-lhe bem e felicitou a cozinheira. Depois do almoço, decidiu passar um pouco pelo sono no divã. A cozinheira perguntou se podia ir pôr umas cartas no correio, e ele disse-lhe que podia, evidentemente.

 

Havia um marco de correio na rua seguinte, mas ela não usou esse. Dirigiu-se até à Casinoplatz. Uma ou duas vezes consultou o relógio. Gastou alguns minutos a observar as montras, e depois, vendo novamente as horas, apressou-se a meter as cartas no correio.

 

Junto do marco, verificou, no último momento, se os envelopes estavam todos correctamente endereçados e selados, e se todos tinham remetente, e depois começou a introduzi-los no marco a um e um. Um homem que estava atrás dela, começando a impacientar-se, passou o braço sobre o seu ombro, para introduzir as suas próprias cartas. Enquanto o fazia, uma das cartas que a cozinheira ia meter na abertura do marco foi parar à mão do homem impaciente, e um grosso envelope de papel ministro que estava prestes a ser introduzido, foi agarrado pela cozinheira e enfiado no seu cesto das compras.

 

A cozinheira e o homem impaciente seguiram depois em sentido opostos.

 

Quinze minutos mais tarde, na legação alemã, o Conselheiro Werner lia o seguinte: "Durante a última semana, o Sr. Dulles recebeu as seguintes visitas..." Seguia-se uma lista de nomes sem interesse e algumas vagas descrições. Praticamente não fora ouvida qualquer conversa, porque Dulles tinha muito cuidado a fechar as portas, e estas eram à prova de som. Era um relatório bastante fraco.

 

No último parágrafo lia-se: ' 'Por duas vezes, no dia 12 de Abril, uma de manhã e outra de tarde, Dulles recebeu a visita de um alemão, mal vestido, que parecia um polícia. De unhas sujas e dedos manchados de tabaco. Iniciais E.S. na fita do chapéu. Um velho chapéu mole da K. W.D. de Berlim.''

 

O Conselheiro Werner chamou o seu assistente e perguntou-lhe: "Quem da nossa gente tem as iniciais E.S. e as unhas sujas? Há o secretário do Embaixador, o Barão Erwin Sorber, mas, evidentemente, o Barão visita regularmente a manicura."

 

Depois de pensar um pouco, o assistente sugeriu: "Há o Kriminaldirektor, Ernst Scholler. Esteve em Berna incógnito e hospedou-se no Bellevue."

 

No seu relatório diário para o Chefe dos Serviços Secretos Estrangeiros, Schellenberg, Werner indicou a presença do Investigador Especial do Reich em Berna e o facto de que alguém, com as suas iniciais e com certas semelhanças com ele, visitara Dulles em Herrengasse.

 

O relatório foi codificado e enviado a Berlim pela rádio. Estava na secretária de Schellenberg às 5 horas da manhã do dia 15. Este telefonou imediatamente a Ernst Kaltenbrunner, Chefe do Departamento Central de segurança do Reich, que estava em Innsbruck.

 

Ao saber da visita de Scholler a Dulles, Kaltenbrunner, um homem forte como um touro, com dois metros e tal de altura, de rosto tão enrugado como a casca de uma árvore rugiu com voz de bêbado, ao telefone: "Nunca confiei em Scholler. Nunca confiei nesse labrego. É um traidor. Eu já sabia. Eu sabia. Um porco de primeira. A tentar salvar a pele! Um porco traidor!"

 

"Vai informar o Reichsfiiher SS Himmler ou faço-o eu?", perguntou Schellenberg.

 

"Eu faço-o", disse Kaltenbrunner. "Com muito prazer."

 

Depois de desligar, Kaltenbrunner gritou à sua ordenança que lhe levasse mais uma garrafa de brandy. Logo que acabou de emborcar uma larga dose de bebida, chamou o seu ajudante de campo e deu-lhe uma mensagem que deveria ser enviada imediatamente a Himmler, para o quartel-general. Dizia:

 

EM FACE DA INFORMAÇÃO RECEBIDA ATRAVÉS DAS MINHAS FONTES NA SUÍÇA, SOLICITO CONFRONTAÇÃO IMEDIATA WOLFF/SCHOLLER/ E EU PRÓPRIO, EM SUA PRESENÇA, PARA INVESTIGAÇÃO DE ACUSAÇÕES DA MÁXIMA GRAVIDADE. PARTO IMEDIATAMENTE DE CARRO E ESTAREI Aí DENTRO DE DOZE HORAS. SUGIRO QUE A PRESENÇA DE WOLFF E SCHOLLER SEJA CONSEGUIDA POR QUALQUER MEIO NECESSÁRIO.

 

TERMINO, FELICITANDO O REICHSFUHRER SS PELO BOM PRESSÁGIO QUE REPRESENTA A MORTE DO CARNICEIRO ROOSEVELT.

 

Kaltenbrunner

 

À medida que avançavam ao longo do corredor cada vez mais estreito até Berlim, a linha do horizonte, à sua esquerda, pulsava e brilhava constantemente com o fogo de artilharia, e havia ainda maior movimento de estafetas em todos os sentidos. Dentro dos grandes carros OKW de serviço, os generais tinham o rosto tão cinzento como os seus uniformes.

 

Agora havia muitas estradas fechadas a todos os carros, com excepção dos militares, e com as muitas paragens e desvios forçados que tiveram de fazer, só ao princípio da tarde do dia 16 de Abril Scholler e Elliot conseguiram chegar aos arredores de Berlim.

 

À distância, a cidade brilhava como uma enorme fogueira, com um súbito irromper de chamas em certos pontos, e rolos de fumo negro e espesso a subir para o céu em espirais. À luz dos incêndios, a linha do horizonte tinha o aspecto de um plano de arquitecto: as cúpulas, as torres e os telhados estavam reduzidas às suas estruturas. Vistas através das chamas, as estátuas dos telhados pareciam estar em movimento, marchando, conduzidas por generais a cavalo, como um exército de mortos.

 

Quando entraram neste inferno, a noite lançava um manto escuro sobre a destruição, mas sentia-se-lhe o cheiro. O cheiro a queimado, misturado com o das fugas de gás, criava um odor indescritível e insuportável.

 

Tensamente alerta, Scholler conseguia fazer um percurso precário através desse labirinto de ruínas. De poucos em poucos metros havia um impasse de qualquer tipo, um cano de água rebentado, a cratera de uma bomba, um edifício destruído, um poste telegráfico caído, uma árvore desenraizada (ainda rodeada pela cercadura de ferro ornamental). Vidros e entulho por toda a parte. O vento fustigava as ruínas ainda em pé, arrancando caixilhos de janelas e deitando abaixo telhas, tijolos e pedaços das chaminés de alvenaria, que caiam sobre o carro continuamente. Um edifício inteiro desmoronou-se subitamente em frente deles.

 

As grandes fachadas barrocas, com mulheres de pedra que suportavam pesados pilares sobre a cabeça, não eram afinal mais sólidas que um baralho de cartas. Os altos prédios modernos de apartamentos erguiam-se como grupos de gigantes cegos, com as janelas semelhantes a olhos na escuridão.

 

Parecia impossível encontrar o caminho através dessas ruínas. A maior parte dos marcos conhecidos haviam desaparecido, deixando a cidade transformada numa sucessão de túneis escuros sem extremidades. Mas Scholler, guiando-se pelos sons e pelas sombras, e pelos vultos carbonizados que brilhavam vagamente, encontrou um caminho - por entre as colunas de ferro fundido que suportavam os comboios aéreos, ao longo de becos inimagináveis, descendo aqui e atravessando ali, desviando-se e voltando para outro sentido, passando por vezes com o carro sobre montes de pedras. Voltou a emergir ao fundo da Kurfíirstendamm.

 

Grande parte dessa larga e longa avenida ardia, e havia enormes aberturas de ambos os lados, onde se tinham outrora existido cinemas, teatros, cabarets, restaurantes, prédios de apartamentos, salões de alta costura, salas de exposição, hotéis.

 

No topo da Gedachtniskirche havia uma torre truncada. Mais adiante escutaram os uivos e gritos dos animais e dos pássaros do Zoo. Um cavalo, com a cauda e crina em chamas descia a galope pelo meio da rua, entre os trilhos dos eléctricos, relinchando horrivelmente.

 

No Tiergarten, a maior parte das árvores estava reduzida a cepos carbonizados e o ar estava cheio de cinzas flutuantes que caíam sobre tudo como uma neve negra. Na Charlottenburger Chaussee, em frente da Porta de Brandenburg, a rota das marchas triunfais, no enorme eixo oriente-ocidente da cidade, os candeeiros de bronze ornamental tinham-se transformado em forças, das quais pendiam corpos de rosto enegrecido, língua entumescida, com os pescoços alongados, tendo ao peito cartazes que diziam, "sou um traidor e um desertor", ou ' 'sou um cobarde e quis fugir do país.''

 

Scholler nada dizia. Continuava a fazer o seu triste percurso através da cidade, observando as suas fachadas e as vias obstruídas.

 

Erguia-se denso fumo da Unter den Linden, e, para além dele, no sector oriental, saíam largas línguas de chamas das cúpulas douradas dos palácios, dos museus e bibliotecas pilhados e da catedral.

 

À esquina da Pariser Plaz com a Wilhelmstrasse, o Hotel Adlon, embora danificado, estava ainda de pé. Scholler passou por ele e desceu a longa rua da Chancelaria do Reich e dos Ministérios principais. Tinham sido evacuados, na sua maioria, depois de suportarem pesadas devastações, mas aqui e além notavam fracas luzes através dos papéis que cobriam os vidros, enquanto os últimos oficiais trabalhavam, noite fora, distribuindo carimbos que transmitiam a sua autoridade.

 

Ultrapassando o enorme edifício do Ministério da Aviação, ainda intacto, Scholler voltou à direita na Prinz Albrechtstrasse e por aquilo que fora o número 8, o quartel General da Gestapo, e não era agora mais do que um edifício, do que uma fachada barroca por trás da qual se abria para o céu um interior de cinco andares sem soalhos,

 

Scholler dirigira o carro até à extremidade de uma profunda cratera e agora, com uma lunática eficiência, rodeava a cratera até chegar ao que parecia um declive íngreme para o interior da terra, uma passagem para o seu escuro interior. Desceu-a, mantendo o pé no travão. Parecia altamente improvável que ela levasse a algum lado, mas, de súbito, os faróis revelaram uma espécie de caverna, cuja entrada era sustida por vigas de ferro, e, no interior, via-se um portão accionado por guardas SS de capacetes negros, com metralhadoras.

 

Abriram o portão logo que viram o Investigador Especial do Reich e o carro desceu uma rampa que, numa série de espirais, os levava cada vez mais fundo, até chegarem a uma garagem subterrânea. Estavam aí guardados muitos carros e forgonetas especiais da polícia, assim como reservas de emergência de óleo e gasolina.

 

Scholler deixou o seu carro entregue a um dos mecânicos e avançou rapidamente ao longo do chão de cimento rachado, com as suas manchas de óleo escuras, reflexos azulados de gasolina e trapos sujos, até atingir uma porta de ferro. À sua chegada, o guarda tocou uma campainha e abriu-se um postigo; o rosto de Scholler foi cuidadosamente observado e, depois desse exame, ouviu-se o som de fechaduras que se abriam e de trancas que eram levantadas, e, finalmente, a porta, cujas dobradiças a faziam abrir para o exterior (para não ser forçada) abriu-se e Scholler atravessou-a, seguido de Elliot, que sentia todo o calor fugir-lhe do corpo, à vista daquelas paredes frias e húmidas.

 

Scholler caminhava rapidamente e com decisão, roçando com os ombros as canalizações expostas, a cabeça a pouco mais de cinco centímetros dos feixes de cabos e fios eléctricos.

 

As lâmpadas, com protecção de metal, projectavam uma série Je manchas amareladas no chão de pedra.

 

Toda a estrutura subterrânea vibrava levemente devido a movimentos de máquinas que eles não podiam ver: os mesmos odores corporais eram continuamente ventilados através das aberturas.

 

Os funcionários que se encontravam nos pontos chave pareciam em transe e todos respiravam com dificuldade, tomavam comprimidos, e fumavam, apesar dos avisos que diziam "é proibido fumar."

 

Além dos batimentos regulares de uma geradora e do crepitar do sistema de comunicação, havia outros sons menos definíveis, à medida que se internavam pelas passagens subterrâneas. Seriam esses sons causados pela passagem do ar através de estreitas fendas, ou pela súbita elevação da pressão da água nos velhos canos de chumbo, ou seriam humanos? Gritos abafados, semelhantes ao gemer dos canos?

 

Nos pontos centrais havia listas muito completas de secções departamentais, que proporcionavam uma certa orientação dentro daquele labirinto. Os planos nas paredes e as setas e outros indicativos mostravam a direcção a seguir, mas mesmo quem ali trabalhava de dia e de noite podia perder-se. Bebiam secretamente os seus remédios ou desembrulhavam tabletes de chocolate, no interior dos bolsos, quando julgavam que ninguém os via.

 

Um desses secretos comedores de chocolate era o funcionário encarregado da sala (ou espaço) de espera em frente de uma porta que dizia: DETENÇÃO SOB PROTECÇÃO DE PESSOAS E BENS DO ESTADO (1933). Numa espécie de nicho profundo na parede do corredor concentravam-se cerca de trinta pessoas de aspecto fatigado, que se comprimiam, sentadas em duros bancos de madeira. Tinham embrulhos com sandwiches e estavam obviamente à espera havia longas horas, se não mesmo dias. Na porta do DEPARTAMENTO DE DETENÇÕES estava afixado um aviso que dizia: FECHADO ATÉ NOVA ORDEM, mas as pessoas continuavam à espera.

 

Quando Scholler passou em frente do nicho, diversas pessoas se levantaram e correram ao seu encontro, antes que o funcionário estupidificado pudesse detê-las.

 

Mãos implorativas agarraram as mangas do Investigador e do seu assistente.

 

"Por favor, Senhor. Não pode fazer qualquer coisa? É o meu filho, Senhor. O meu rapaz. Ele não fez nada. Está inocente, Senhor. É um bom rapaz. Não é um derrotista, Senhor. Ele sempre disse que o Fuhrer é a Vitória..."

 

"Nada posso fazer", disse Scholler, prosseguindo o seu caminho. Entretanto, o funcionário acordara suficientemente para arrastar dali para fora os importunos peticionários.

 

À esquerda, na Sala 172, ficava a Amt III (Abteilung H/2, Esferas da Vida Alemã) mas, por qualquer motivo especial, ao seu lado ficava a Sala 86, Amt IV D (Esferas Superiores de Influência Alemã), e depois dela vinha a IV A, Especialistas; IV B, Província; IV C, Polícia de Fronteira; e depois a IV AI Oposição da Ala Esquerda e Direita; IV A2, Anti-Sabotagem; IV A4, Judeus e Igrejas; IV A5, Casos Especiais; IV A6, Custódia de Protecção...

 

Passando por todos estes Departamentos, chegaram misteriosamente à Sala 3 (Organização Técnica de Emergência). O contínuo processo de fundir alguns departamentos, alargar ou subdividir outros, criar alguns novos, e fechar alguns dos antigos, tinha complicado ainda mais o intrincado sistema de numeração e indexação.

 

Uma das salas porque passaram tinha a porta aberta e, num relance, Elliot colheu a visão duma alta cadeira de madeira com braços direitos, aos quais estavam ligadas grossas tiras de couro com fivelas; havia tiras semelhantes nas costas da cadeira e nas suas pernas, numa mesa baixa, ao lado, encontrava-se um objecto que se assemelhava a uma ferramenta de carpinteiro, com parafuso regulável.

 

Seguindo a direcção do olhar de Elliot, Scholler disse: "Estamos todos uns em cima dos outros aqui. Falta de espaço". Outra curva e encontraram-se na sala 199. O cartão colocado no suporte metálico da porta dizia: Amt IV K (Investigador Especial do Reich).

 

Scholler abriu a porta e penetrou num escritório exterior geral, onde meia dúzia de pessoas trabalhava às secretárias.

 

O seu assistente principal, o Kriminalrat Kummerl, ergueu-se imediatamente e correu para eles com precipitação; o seu rosto era a imagem da catástrofe.

 

"Felicito-o, Reichskriminaldirektor, por ter chegado em segurança", disse Kummerl, cujos olhos exprimiam um misto de espanto e desgosto perante aquele milagre. "O Reichsfiihrer SS Himmler tem estado em comunicação constante e quer que fale imediatamente para o seu Quartel General, a fim de tratar de um assunto extremamente urgente."

 

O esforço de dizer tudo isto deixara Kummerl sem fôlego.

 

"Não se preocupe tanto, Kummerl", disse Scholler. Não posso receber ordens do Reichsfiihrer Himmler antes de ter chegado, pois não?"

 

"De maneira nenhuma", concordou Kummerl.

 

Fora outrora famoso como sedutor de mulheres, um homem de notável charme e aplomb social, cujo encanto residia numa combinação de elevada educação e de poder. Como principal assistente do Investigador Especial do Reich, fora alguém a recear e a receber. A gente mais importante da terra estava ansiosa por o conhecer e o receber em sua casa. Convinha a Scholler que o seu assistente aspirasse a tais contactos, tornava o assistente dependente dos favores do Investigador. Mas agora o poder e a influência que lhe tinham obtido um tratamento especial só o colocavam mais alto na lista dos Crimes de Guerra.

 

Parecia um farrapo. Ele, cujas faces haviam brilhado com loções perfumadas, tinha agora o rosto cinzento, o nariz bem esculpido e as bochechas marcadas por cortes feitos ao barbear-se, com as hemorrogias aparadas com pedacinhos de papel higiénico.

 

Tinha os olhos afundados nas órbitas e as pálpebras inchadas e vermelhas. E, o que era pior, cheirava mal. Emanava dele um odor fétido resultante do mau hálito e do mau funcionamento dos intestinos. Só a sua magnífica popa loura ainda se mantinha intacta perante a deterioração total. À distância ainda poderia ser tomado por um dos Herrenvolk, o que tornava as feições devastadas ainda mais chocantes, quando vistas de perto.

 

"Recomponha-se, Kummerl", disse-lhe Scholler, Tudo o que pode perder é a vida, e quanto vale isso?" "Nada, Reichskriminaldirektor." Exactamente.''

 

Depois de pesquisar os bolsos descaídos do casaco, Scholler pegou num pesado molho de chaves, escolheu uma, abriu a porta do seu escritório pessoal, e entrou. Elliot e Kummerl seguiram-no.

 

"Conhece o Haften?", disse Scholler, apontando Elliot.

 

"Penso que não", disse Kummerl, com o olhar distante.

 

"Departamento Político, na Itália", disse Scholler.

 

"Ah, sim, ah sim. Muito prazer..."

 

Estava frio, no escritório, e Scoller conservou o sobretudo vestido. Tremendo, Kummerl inquiriu: "Quer que acenda a salamandra, Reichskriminaldirektor ?''

 

"Depois. Depois. E pare de tremer, homem."

 

"Sim, Direktor". Parou imediatamente, tal como lhe tinham ordenado.

 

Scholler estendeu a mão para o dossier MÁXIMA URGÊNCIA. As primeiras três folhas eram mensagens de Himmler a exigir a sua presença imediata; a quarta era o registo de uma conversa telefónica com o ajudante de campo Grothman, com o mesmo fim. A quinta folha era uma mensagem do secretário Brandt, dizendo que o General Wolff chegara ao Quartel-General e estava pronto para ser interrogado.

 

Scholler folheou rapidamente o dossier. Olhou desinteressadamente para os resumos de diversas investigações em curso e depois voltou-se para a Lista de Chegadas. Fez uma expressão de incredulidade ao ver o nome do Dr. Behr, do Banco Comercial de Berna. Registado no Hotel Adlon. Chegada a 16 de Abril.

 

"O Dr. Behr", disse Scholler.

 

"Peço desculpa, Direktor. Não conheço o Dr. Behr."

 

"O Suíço. O banqueiro suíço..."

 

"Ah. Sobre esse ponto lamento dizer que não estou ao corrente, Direktor."

 

"Que fará um banqueiro suíço em Berlim? Nesta altura"". Abanou a cabeça. "Nada de bom, pode estar certo. Logo que chegue quero-o vigiado 24 horas por dia. Quero ser informado de meia em meia hora. Transcrições de todas as chamadas telefónicas. Se ele tentar contactar com alguém... quero saber quem. Devem ser impedidos tais contactos, por todos os meios, até ordens minhas em contrário."

 

"Certamente, Direktor. Às suas ordens, Direktor."

 

Depois da saída do seu assistente principal, Scholler dirigiu-se imediatamente a um grande cofre isolado, fortemente blindado, e, retirando novamente do bolso o seu enorme molho de chaves que sempre transportava consigo (por isso os seus bolsos estavam tão descaídos), escolheu uma e introduziu-a na fechadura. Houve três sons diferentes de abertura. Fez girar a combinação e abriu o cofre com meia volta do puxador da frente. Puxou a pesada porta e, em primeiro lugar, extraiu do cofre uma garrafa de champagne francês e copos e, em seguida, um volume antigo encadernado em couro, sem qualquer marca na lombada ou nas capas. Fechou novamente o cofre, colocou o livro preto no bolso e encheu dois copos com cognac.

 

Beba", ordenou a Elliot, dando o exemplo ao esvaziar o seu copo em dois golos rápidos, depois do que, fazendo tinir de novo as suas chaves, escolheu uma grande, de ferro, e, com ela abriu um alçapão, fez girar um interruptor e começou a descer a escada de ferro que levava a uma câmara subterrânea ainda mais funda.

 

Elliot disse, "Tem que dar-me a confissão de von Thedieck para ser destruída, juntamente com todas as cópias."

 

"Não está aqui", disse Scholler da escada. "Está em Rudolphstein, onde von Thedieck foi aprisionado e interrogado. ''

 

"Não me disseram isso."

 

"Não é importante."

 

"Pelo contrário..."

 

"Ninguém a tirará do meu cofre sem minha autorização."

 

"Teremos que a ir buscar."

 

"Como quiser", acrescentou. "Seria mais fácil se confiasse em mim. Poupar-nos-ia tempo. De momento, nada se pode fazer quanto à confissão, pelo que é melhor irmos ao que se pode fazer... Os dossiers estão aqui. Pode estudá-los.''

 

Elliot seguiu Scholler por um túnel baixo. As paredes e o chão brilhavam. Os canos expostos estavam fortemente enferrujados.

 

A sua forma arredondada dava ao local a parência de uma conduta de água não utilizada. Com outra chave, Scholler abriu um armário de madeira montado na parede e, no interior, fez girar diversos comutadores de baquelite. Certificou-se de que a lâmpada vermelha avisadora estava desligada, o que significava que as cargas explosivas não detonariam automaticamente quando abrisse o primeiro armário de arquivo. Entregou o índice a Elliot.

 

"Esta é a chave de todo o sistema. Indica os nomes e os números sob que estão arquivados. Sem o índice, não há hipótese de encontrar um determinado dossier. Com o índice, é fácil... Agora deixo-o a fazer as investigações que quiser. Como vê, deixo-o livre. Nada lhe escondo".

 

"OK, Scholler".

 

Ficando só naquele buraco frio e húmido, Elliot começou a puxar gavetas ao acaso e a passar os dedos pelos dossiers bem recheados. Quanto papel a esboroar-se. Toda a roupa suja, cuidadosamente arquivada, pomposamente guardada em arquivos oficiais da polícia, em milhares de folhas de papel amarelecido.

 

Por onde começar? Que vida espiolhar primeiro! A de Hitler? A de Goring? Poderia desnudar os seus segredos culposos com o simples abrir de uma gaveta. Sentiu-se poderoso, com toda aquela sujeira à mão, acumulada em anos e anos de laborioso aferrolhar e arquivar. OK, vamos começar pelo Investigador Especial do Reich. Vamos começar por ti, Scholler. Pelo mais baixo de todos. Percorreu com o dedo o índice até à letra S, descobriu o nome de Scholler e o núnero do seu dossier. Dentro de um minuto encontrara o dossier. Primeiro um cartão com os detalhes básicos: Scholler, Ernst.

 

Nascido em 21.1.1900; Inspector da Polícia Criminal, Polícia de Munique; 1924; Chefe de Secção da Kriminalpolizeihauptant, Berlim 1933 (Categoria Especial); Chefe de Investigações Especiais, Kripo, 1934; Reichskriminaldirektor e Generalleutnant der Polizei, 1937; Investigador Especial do Reich e Chefe da Amt IV K RSHA 1939 -

 

Este cartão estava fixado com um clips ferrugento a um molho de notas dactilografadas.

 

Elliot começou a ler a primeira folha. "1933. QG de Munique/Partido Nazi da Baviera Superior. Scholler não pertencia ao Partido Nazi, embora fosse um violento opositor ao Comunismo, que por vezes não tomava em consideração as regras e os regulamentos gerais. Isto é mais atribuível a ambição pessoal do que a identificação com os propósitos do Partido. A avaliação política é a de que Scholler actuaria com igual impiedade contra a ala direita se isso servisse as suas ambições pessoais. Faz-se notar que as contribuições de Scholler para os fundos do Partido Nazi são ridículas (Contribuição para Eintopfspende, 40 pfennig!) Um frequentador regular da igreja! Membro do Partido do Povo Bávaro. No período anterior a 1933 encontramo-lo vigilante perseguidor dos Nacional-Socialistas, para captar as boas graças dos seus superiores.

 

Nesta acção era apoiado pelos seus colegas mais próximos, o Inspector Superior Fritz Kamitz, e pelos Inpectores da Polícia Criminal, Johann Gustav Waldbrunner, Heinrich Miiller, Karl Peter Kremer."

 

Elliot percorreu as folhas, perscrutando as páginas rapidamente. A maior parte do material era deste género. Uma crónica de delitos sem importância e de vagas suspeitas. Falta de presença a comícios do partido em apoio disto ou daquilo. Acusações de ter insultado altos funcionários do Partido. Alegações de que utilizara a sua posição oficial para seduzir rapariguinhas ou para obter benefícios finaceiros para si próprio. Tudo muito vago e sem provas.

 

Algumas páginas adiante, Elliot encontrou uma nota com o título; RESUMO DA INVESTIGAÇÃO FEITA PELA AMT IV SOBRE O REICHSKRIMINALDIREKTOR SCHOLLER. Datada de 2.5.1937". Era Múller da Gestapo a investigar o seu colega Scholler da Kriminalpolizei.

 

O resumo começava por dizer: "As nossas investigações revelam que o Reichskriminaldirektor Scholler se empenhou numa campanha persistente e premeditada para difamar pública e particularmente os seus colegas da Gestapo, dando uma errada interpretação das suas actividades. Nesse sentido foi apoiado pelo Chefe da Reichskriminalpolizei Nebe, e a possibilidade de haver uma camarilha da polícia a conspirar contra a autoridade suprema do Reichsfiihrer SS Himmler precisa de ser investigada.

 

"As mentiras premeditadas de Scholler e Nebe, afirmando que a Gestapo utiliza os seus poderes ao abrigo do Decreto Estatal de Protecção às pessoas, de 28 de Fevereiro de 1933, de uma maneira ilegal, são impróprias de uma secção criminal, que exerce idênticos poderes em muito maior escala, incluindo detenção por suspeita, buscas as residências sem mandato, gravação de conversas telefónicas e violação de cartas do correio público. Mais especificamente, os Chefes da Kriminalpolizei Nebe e Scholler utilizaram indevidamente a Ordem de 23 de Fevereiro de 1937 do Chef der Deutschen Polizei para Detenção Preventiva de Malfeitores Anti-Sociais e Ofensores habituais da Moralidade Pública, para deter ilegalmente 28 importantes agentes e colaboradores da Gestapo. Segue-se lista completa, exigindo-se a libertação imediata dos indicados."

 

A medida que continuava a consultar o dossier, verificava que uma certa animosidade substituirá a amizade inicial. Havia frequentes referências, entre 1933 e 1937, ao quarteto de inspectores de Munique, HEINRICH Múller, Johann Gustav Waldbrunner, Fritz Kamitz e Ernst Scholler. Pela maneira como os seus nomes apareciam constantemente ligados, concluía-se que tinham sido camaradas nos dias de Munique e mantido a sua ligação à medida que subiam dentro do escalão da polícia nazi. Até que, por volta de 1937, tinha evidentemente ocorrido uma ruptura.

 

O dossier continha alguns pormenores vagamente desonrosos sobre boatos relacionados com as ligações de Scholler com diversas mulheres, além de vagas acusações de aceitação de suborno, mas a roupa suja de Scholler não era muito grande.

 

Elliot pôs o dossier de lado, e, para comparação retirou o de Arthur Nebe.

 

Também este se referiu a uma carreira inicial como inspector da polícia em Munique, embora não o ligasse directamente com o "quarteto". Alguns anos mais velho do que Miiller, Scholler e os outros dois, estivera provavelmente numa posição superior à deles e, portanto, não tivera intimidade com eles.

 

O material sobre Nebe interessou Scholler principalmente porque era muito mais grave do que tudo o que havia sobre Scholler. Nebe tinha sido executado poucas semanas depois de tomar parte na conspiração de 20 de Julho para assassinar Hitler, pelo que não surpreendia muito encontrar no seu dossier detalhes da sua associação com homens suspeitos como o General SS Conde Heinrich Wolff von Helldorf, Presidente da Polícia de Berlim, e com os conspiradores anti-Hitlerianos Givesius e Olbricht. Mas havia também muito material altamente incriminatório sobre Nebe, como Comandante do Einsatzgruppe B, na Rússia em 1941. Material suficiente para o fazer enforcar pelos Aliados se os Nazis não tivessem já feito o trabalho.

 

Elliot começava a ver que o trabalho da polícia secreta se assemelhava ao lento tecer de uma teia invisível. Ao princípio, o sujeito da observação não se apercebia dela - não tinha motivos para tal - mas as suas frases, os seus hábitos, as suas ligações, por muito inocentes que fossem, estavam constantemente a ser anotados e arquivados. E um dia a pessoa acordava e descobria que estava presa pelos fios da teia invisível, e deixara de ser livre.

 

Para a elaboração de um dossier que finalmente pudesse destruir um homem, se necessário, o factor mais importante que se podia utilizar era a suspeita de ter sangue judeu, embora a homossexualidade e outros comportamentos sexuais anormais também constituíssem acusação poderosa. Elliot encontrou um maço de fotografias que mostravam Goebbels em posturas indecentes com diversas artistas cinematográficas. Outros nazis proeminentes haviam sido fotografados em actos homossexuais. Globocnik, SS e Chefe da polícia do campo de concentração de Lublin, era acusado de ter metido dinheiro ao bolso, depois de uma peritagem às contas do campo levar à descoberta de faltas de fundos. O dossier sobre Goring revelava as suas inúmeras ligações comerciais secretas, e os dinheiros que recebia e que atingiam milhões de marcos por ano.

 

Mas a pior acusação era sempre a do sangue judeu. O próprio Himmler tinha um primo suspeito, chamado Heymann. Dizia-se que era "um judeu evidente", cuja família gozara de protecção por o enviar para um campo de concentração. Em Halle vivia um homem chamado Heydrich, que o Gauleiter considerava um possível judeu, provavelmente pai do então Chefe da Gestapo, Heydrich. Assim constava em Halle, Alfred Rosenberg tinha uma amante judia. Como prova encontravam-se arquivadas as suas cartas de amor para ela. E depois vinha a questão da avó de Hitler, Matild Schickelgrueber. Era uma criada, solteira, do Palais Rothschild em Viena, na altura em que ficara grávida, o que sugeria a possibilidade quase inexprimível de que o próprio Hitler...

 

Muitas das "provas" destes arquivos eram desse género. Mas tudo fora laboriosamente coleccionado e arquivado. Boatos. Mexericos. Denúncias anónimas. Informações reveladas por fontes não reveladas. Especulações. Conjecturas. Suspeitas. Somando tudo, suspeita e culpa transformavam-se numa só coisa.

 

Elliot fechou uma gaveta do arquivo. Os velhos rodízios de metal, emitiram um som irritante que ecoou pela conduta baixa. Sentia-se totalmente exausto, desgastado pela viagem e pelas investigações feitas.

 

Uma pesquisa final. Os indivíduos com a indicação de serem agentes da Gestapo sob cobertura. Escolheu seis nomes com essa indicação no índice e procurou-os nos dossiers. Tudo conferia. Os homens em questão ocupavam lugares e cargos que não estavam de modo algum relacionados com os serviços de Segurança, mas enviavam relatórios regulares sobre os seus colegas e superiores.

 

OK, decidiu Elliot, Chega. Já vi o bastante. Sentia um gosto desagradável na boca, tinha frio, a sua cabeça parecia girar, e estava muito, muito cansado.

 

Pesadamente, subiu a escada.

 

Bom, está satisfeito? Esteve bastante tempo lá em baixo. Neste momento, já deve conhecer a roupa suja de todos os tubarões", disse Scholler.

 

Notando que Elliot tremia de frio, encheu um copo de cognac e empurrou-o para ele.

 

"Beba", ordenou. "Aqueça-se junto do fogão. Está frio lá em baixo, hem? Você é demasiado conscencioso. Que procurou durante todo este tempo?"

 

Elliot bebeu o cognac e aqueceu as mãos junto da salamandra e, logo que os seus dentes pararam de bater disse: "O seu Dossier está muito vazio."

 

"Naturalmente", disse Scholler, com um grande encolher de ombros.

 

"O que é que não quer que saibamos?"

 

O rosto de Scholler revelou irritação. "Estava combinado que você verificasse a autenticidade dos dossiers, avaliasse o seu valor potencial - e decidisse onde haviam de ser escondidos. Não que viesse avaliar-me a mim..."

 

"Isso, faço-o de minha conta."

 

"Não faz parte do acordo."

 

"Você farta-se de dizer que está limpo. Se isso é verdade porque tirou material do seu dossier?"

 

"Você não compreende." Começava a ficar exasperado com o aprofundamento absolutamente inadequado que o jovem fazia de assuntos não importantes para a situação actual. Tentando controlar-se, disse. "É preciso saber ler um dossier. É preciso saber avaliar o material... Não vale a pena meter na ideia coisas desnecessárias."

 

"Que coisas, Scholler?"

 

"Deve compreender", disse Scholler, com a paciência a esgotar-se, ' 'eles - os chefes - não se sentem seguros se não tiverem qualquer coisa por onde nos pegar; por isso deixamos que entre algum material nos nossos dossiers para os contentar. Para que se sintam mais seguros. Um homem totalmente limpo não chegaria a parte alguma. Tem de haver qualquer coisa contra ele, um primo judeu, uma tendência para os rapazinhos, certa fraudulência no seu carácter. Qualquer ponto escuro no seu passado. Algo que o possa deitar abaixo, se for necessário."

 

Quer dizer que introduziu provas falsas a seu respeito?"

 

"É melhor do que dar-lhes a verdade. Não? Assim, dá-se-lhes a sensação de segurança que desejam e, se eles tentarem usar o que há - bem, geralmente é mais fácil derrotar provas falsas."

 

"Conhece bem o seu ofício", disse Elliot.

 

"Naturalmente", disse Scholler, considerando a frase como um elogio.

 

"Contudo", disse Elliot, "levou muito tempo para chegar ao Nebe. Oito meses depois de todos os outros conspiradores terem sido executados?"

 

Arthur Nebe era um velho amigo, dos tempos de Munique."

 

"Você tinha provas e nada fez... é isso que quer dizer?" "As provas são uma questão de interpretação. Quem um indivíduo visita, quando, com que frequência. Têm de ser vistas à luz de determinadas circunstâncias..."

 

Estava à espera dos resultados, antes de decidir para que lado havia de voltar-se."

 

Scholler encolheu os ombros. A polícia secreta tem que estar de ambos os lados ao mesmo tempo", disse.

 

"No final, Nebe sempre comeu. Amigo ou não amigo."

 

"Não tive possibilidade de escolher, no final", disse Scholler. "Muller também já tinha provas, nessa altura. Por isso tive que apresentar as minhas primeiro, para tornar clara a minha posição."

 

"Seja como for, você é muito bom em pôr-se a salvo."

 

"Tal como disse, conheço o meu ofício. E agora... há coisas que tenho de fazer. Acho que você deve ficar aqui. Se sair, podem começar a fazer perguntas. Não nos podemos permitir isso."

 

Depois de Scholler sair, Elliot começou a olhar em volta. Uma secretária. Com três telefones. Algumas cadeiras. Um grande armário de aço. Nas paredes, diversas cartas e mapas, e um quadro coberto de ordens, directivas, instruções.

 

Caminhou lentamente até à secretária. Não havia um centímetro que não estivesse coberto de papeis e dossiers. Ao cimo, incongruente naquela cave nua, um enorme tinteiro de mármore. Ao seu lado, um suporte com carimbos rotativos.

 

Elliot pegou num deles, e, molhando-o, colocou-o sobre uma folha de papel branco. Os símbolos da autoridade e do teiror do Terceiro Reich surgiram, a negro. Reichssicherheitshauptamt Escritório do Investigador Especial do Reich. As letras eram embelezadas pela ubíqua águia nazi, com a suástica nas garras.

 

Elliot olhou para alguns dos papeis sobre a secretária. Listas. Listas de pessoas a colocar sob vigilância. Listas de pessoas a colocar sob custódia protectiva. Em residência vigiada. Listas daqueles cuja autorização de viajar devia ser revogada. Listas de outros cuja autoridade devia ser rescindida... Montes de listas.

 

Acendeu um cigarro. Sentia-se muito cansado. A sua cabeça parecia girar. O peito subia tão dificilmente como se fosse accionado por uma bomba manual. Olhou para a parede mais próxima e viu um mapa da cidade, em grande escala, com marcas de diversas cores a indicar os edifícios e as áreas destruídas, as ruas bloqueadas, as passagens que já não levavam a parte alguma. Os seus olhos seguiram as linhas amarelas das ruas abertas, torcendo-se sinuosamente através da destruição geral. Aqueles riscos fininhos eram as suas únicas saídas.

 

Scholler regressou, em passo rápido. "Temos que ir", disse ele. "Passará a noite em minha casa. É o lugar mais seguro para si".

 

Dirigiu-se a um dos telefones, levantou o auscultador e carregou num botão. Acendeu-se uma luz na base do aparelho e Scholler disse: "Passe-me o oficial de noite". Quando ficou em ligação disse: "Fala Scholler. Dê-me o quadro geral."

 

Segurou o telefone entre o queixo e o ombro, enquanto fazia novas marcas no mapa da parede.

 

"Qual é o tempo previsto para a chegada a Berlim ? Qual a rota prevista para os Voos?"

 

Murmurou um agradecimento, depois de receber a resposta às suas perguntas. Colocou de novo o auscultador no lugar e estudou o mapa, fazendo os cálculos.

 

Vamos." Agia rapidamente agora, fechando o escritório e encaminhando Elliot pelos corredores sinuosos da enorme garagem subterrânea. Desta vez escolheu um carro da polícia.

 

Com o seu motor superpotente, o carro subiu com facilidade a rampa ascendente, às curvas, e a passagem para saída da cratera. Emergindo da terra, encontraram a cidade estranhamente quieta, apesar dos inúmeros incêndios, como se estivesse desabitada.

 

Seguindo a rota que traçara no escritório, e controlando-a pelas mais recentes informações que ia recebendo em código, por ondas curtas na rádio Mio, Scholler dirigiu-se ao centro da cidade.

 

Num determinado momento em que o motor se foi abaixo, a cidade ficou tão silenciosa que quase se podia ouvir o seu respirar temeroso na escuridão. Apenas o som sibilante duns pneus de bicicleta ou uns passos apressados indicavam, ocasionalmente, que ainda havia gente por ali, dirigindo-se para uma das estações de metropolitano ou para um abrigo comum contra ataques aéreos.

 

De vez em quando, Elliot notava qualquer sinal que o fazia recuperar, momentaneamente o sentido de orientação. Depois de deixarem a Prinz Albrechtstrasse, tinham feito diversos desvios para rodear a área quase totalmente destruída da Potsdamer Platz, tinham entrado no Tiergarten, atravessando o eixo oriental-ocidental   da   Charlottenburgen Chaussee, e depois seguido, durante algum tempo, ao longo das margens do Canal Landwehr, antes de voltarem à esquerda e descerem através do bairro de Charlottenburg para cortarem pelo Kurfurstendamm, na sua extremidade mais baixa, onde se ligava ao Griinewald. Acabavam de chegar à zona verde de Berlim, relativamente mais segura, quando soou o alerta para o segundo raid aéreo da noite, e o céu transformou-se num desenho entrecruzado de holofotes, apanhando nos seus eixos de luz os pequenos aviões. O radio-transmissor, dando, minuto a minuto, a rota dos bombardeiros, confirmou os cálculos iniciais de Scholler.

 

"Estaremos bem, no local para onde vamos", predisse ele. "Vão voltar a atacar o centro."

 

A viagem através das zonas exteriores de Dahlem, ladeando o Griinewald, foi muito mais rápida, porque os danos eram muito menores ali. Começaram a passar por agradáveis vivendas em redor de pequenos lagos para barcos, perto dos bosques. Griinewald See. Schlachten See. Nikolas See. E depois, no local onde o Havei alargava e se dividia, aparecia o Wannsee, com o seu Strandbal e a sua praia, um local que outrora servira para passeios domingueiros. Aí tinham construído os nababos do Terceiro Reich as suas casas de verão com terraços e parapeitos embalustrada, enfeitados com estátuas neo-clássicas. Leões de pedra guardavam os grandes portões de ferro. Havia estábulos e docas para barcos dentro dos seus terrrenos. A maior parte dessas casas encontravam-se fechadas a cadeado e pregadas com tábuas, e, além disso, em algumas portas havia selos com lacre vermelho, sinal de apreensão feita pela Gestapo, ou pelo Ministério do Interior, ou por qualquer outro departamento sob cuja alçada o seu antigo senhor tinha caído.

 

Os palacetes ocupavam as melhores posições junto do rio, mas, por trás deles, havia casas mais modernas, agradáveis vivendas suburbanas, com pequenos jardins, algumas árvores, arbustos e canteiros floridos. Scholler parou o carro junto de uma dessas vivendas, com o número em ferro forjado, o cem. Era uma casinha baixa cor de rosa, de aspecto confortável e de construção moderna, com a porta em azul, em frente da qual se abria um estreito caminho empedrado, com relva de ambos os lados. Havia duas figuras escuras, de chapéus moles e longos sobretudos, sentadas no banco de ferro do jardim, entre as forsítias em flor. Ergueram-se quando o carro parou, pegando nas suas metralhadoras, mas tranquilizaram-se quando viram quem era.

 

"Cá estamos", anunciou Scholler. Cumprimentou os guarda-costas, com um rápido aceno de cabeça e estes desapareceram de novo entre a folhagem. Scholler avançou em passos largos até à porta e abriu-a com outra das chaves do seu molho. O corredor era estreito e escuro. Com precauções de rotina, Scholler não acendeu logo as luzes, chamando suavemente: "Lo-li-lo, Lo-li-lo", numa cantinela íntima, sorrindo com certo acanhamento por utilizar aquele diminuitivo em frente de um estranho. Contudo ocorreu a Elliot que o nome terno não deixava de ter valor prático: uma espécie de código. Alguém que estivesse à espera do Investigador Especial do Reich desconheceria a resposta correcta para o chamamento de "Lo-li-lo, Lo-li-lo". Só quando ouviu a resposta inconfundível da mulher-"Ernst? Ernst, és tu?" - é que Scholler acendeu a luz.

 

A mulher de meia idade que emergiu da cozinha era alta e magra, sem seios, e com o cabelo cortado curto, em jeito masculino. Usava uma longa saia bordada e uma camisa branca, com gravata. Espreitou para o corredor, nervosamente.

 

"Temos uma visita, Lili", disse-lhe Scholler. "O meu assistente político, na Itália, Haften. Já te falei dele."

 

"Não."

 

"Esqueceste-te."

 

Ouviu-se um baque surdo, seguido de um tropel de passos, e uma criança de olhos escuros, ligeiramente pálida, com cerca de seis anos, surgiu, em pijama, por trás da mulher e correu pelo corredor, gritando: "Papá, papá, papá". Scholler levantou e beijou o garoto, apertando o rostinho macio contra a sua barba espigada.

 

Oh, esta é a altura mais feliz do dia para mim, papá!'' O peito da criança arfava de excitação, tinha os olhos brilhantes e começou a tossir. O ar assobiava na sua traqueia, em desesperadas inspirações, e ficava fechado nos pulmões; cada exalação representava um esforço convulsivo e asfixiante. O seu rosto ficou cor de purpura, os lábios tentavam em vão articular palavras.

 

Scholler actuou com rapidez e precisão, puxando a cabeça do rapazinho para trás, num ângulo fixo, e dizendo-lhe, simultaneamente, com firmeza: "Calma, calma. Tranquiliza-te. Começa a respirar naturalmente - com facilidade" . À mulher disse: Abre as janelas e traz o inalador''. Com a entrada do ar nocturno, a respiração da criança tornou-se imediatamente menos difícil, e o ritmo de arqueamento do peito tornou-se mais lento. Quando lhe colocaram o inalador, o ataque começou a desaparecer, a luta pelo ar perdeu o seu rouco desespero; a criança acalmou.

 

Quando conseguiu falar de novo, disse: "Desculpa, papá". E Scholler respondeu: "Tu não tens culpa. És um bom rapaz, que eu bem sei."

 

"É asmático", explicou Scholler a Elliot. "Está bem durante longos períodos e depois uma coisa qualquer... uma coisa qualquer põe-no assim."

 

O garoto tinha um rosto branco e fatigado, e nos seus olhos havia um sentido de culpa por ser doente.

 

"Que é que trouxeste para mim, papá?", perguntou.

 

Não trouxe nada disse Scholler, um tanto embaraçado por ter chegado de mãos vazias. Não tive tempo.''

 

Quase hesitante, perguntou: Podes fazer agora uns ovos mexidos, Lilli? Estamos ambos cansados da viagem e não comemos nada."

 

"Os ovos em pó acabaram", disse ela.

 

"E sardinhas? Há algum pão?"

 

"Sim."

 

"Serve-lhe pão e sardinhas, Haften?"

 

"Sim."

 

"Está óptimo, Lilli. Faz-nos também um pouco de arroz com queijo. Tens queijo? Estou a morrer de fome, Lilli. Não comemos durante todo o dia."

 

"Vou preparar tudo", disse ela secamente.

 

"Agradeço-te", disse Scholler.

 

Avançaram pelo corredor até à cozinha. As portas de vidro martelado que davam para a casa de jantar estavam abertas. A mulher, tendo-lhe sido distribuída uma tarefa, começou imediatamente a preparar a refeição. Tirou de qualquer lado um cigarro meio fumado, acendeu-o cuidadosamente e, com o fumo a fazer-lhe lacrimejar os olhos, começou a abrir uma lata de sardinhas com uma chave.

 

"Vamos sair do teu caminho", propôs Scholler vagamente.

 

"Sim", disse ela, "Sim. Senta-te lá dentro com o teu assistente e deixa-me trabalhar". Parecia atarefada. Scholler deu-lhe uma dentada na cara, aplicando-lhe simultaneamente um beliscão marital no trazeiro, que ela ignorou em absoluto. "Não a podemos incomodar enquanto cozinha", disse Scholler. "Sabe como são as mulheres". E conduziu Elliot à casa de jantar, sentando-o ao seu lado a uma mesa redonda, com uma coberta bordada e enfeitada com borlas que caía até ao chão. Sobre a mesa estava suspenso um candeeiro verde com franjas de seda, de altura regulável, e a luz da sua única lâmpada - as outras seis estavam fundidas - descrevia um círculo lúgubre sobre a criança, sentada de rosto tenso e costas direitas, como se estivesse numa aula de boas maneiras. O rosto de Scholler ensombrou-se, numa preocupação paternal, ao ver a palidez do garoto e as suas olheiras.

 

"Tu não dormes o suficiente'', disse, em jeito de censura. "E precisas de ar puro. Quando saíste pela última vez? Há muitos dias, calculo eu. Quando é que a Mutti, te levou a sair pela última vez, hem? Quando? Então? Responde-me."

 

O garoto nada disse.

 

"Foi hoje? Ontem? Quando? Então? Quando meteste ar puro nos pulmões pela última vez? Hem?"

 

A criança continuava a não responder; os seus olhos pareciam enormes e receosos.

 

"Tens medo de responder?", disse Scholler, impacientando-se. "É uma pergunta tão simples. Porque não queres dizer a verdade? Estás a esconder-me alguma coisa?"

 

Uma nota de suspeita surgira na voz de Scholler.

 

Quando sais com a tua mãe, para onde vão?"

 

"Não saímos papá", disse ele. "Não saímos. Nunca."

 

"Isso é verdade?"

 

"Sim papá. É verdade. É verdade. A Mutti diz que é muito perigoso sairmos."

 

"Ela não sai?"

 

"Vai fazer compras."

 

"Quanto tempo leva ela a fazer compras?"

 

"Não sei, papá."

 

"Bom, pensa no que fazes enquanto ela cá não está..." "Brinco, enquanto a Frau Schmidt faz as limpezas." "A que brincas tu?" "Brinco aos polícias, papá." "Como é que brincas aos polícias?" "Prendo as pessoas. Depois encosto-as à parede e mato-as..." Imitou um fuzilamento. "Se elas tiverem feito mal..."

 

"Só se tiverem feito mal, claro. Se forem Judeus, ou criminosos, ou derrotistas cobardes..." "Devias arranjar outra brincadeira." "Mas eu gosto desta."

 

Devias brincar a outra coisa. Devias bricar com qualquer coisa que elevasse o teu espírito. Qualquer coisa educativa." A criança ficou em silêncio, de cabeça baixa, perante a censura paterna.

 

"Porque não falas?" "Não sei, papá."

 

"Brincar aos polícias... isso é coisa para gastares o teu tempo?"

 

"Tu és polícia."

 

"Sabes que é preciso passar nos exames para se ser um bom polícia. Precisas de saber coisas. É preciso aprender muito. Era uma boa posição, quando eu me fiz polícia. Tínhamos um bonito uniforme e éramos considerados gente grande. Não era qualquer pessoa que podia ser polícia, sabes? Era preciso ser forte e verdadeiro. Os polícias não devem contar mentiras, bem vês. Por isso, não quero voltar a apanhar-te em mais mentiras sobre ires ou não à rua."

 

"A Mutti disse-me para não te dizer..." parou, mordendo a língua por se ter deixado levar a uma revelação. "Para não me dizeres o quê?" "Nada. Nada."

 

Julgas que eu não sei? Os papás sabem sempre tudo. Sabias isso?"

 

"Sim, papá."

 

"Vai, vai para a cama". Puxou a criança para si e apertou-o fortemente contra o peito. "És um bom rapaz" disse. "É só para teu bem que eu te quero a dizer a verdade..."

 

"Sim, papá."

 

"Vai lá, então. Vamos! Dorme bem, meu filho". Passou a mão pelos cabelos do menino, e beijou-o com força, dando-lhe uma dentada por brincadeira e mandando-o a galope para a cama. Para Elliot, acrescentou: "Até onde se sabe, hem? Que homem pode ter a certeza de ser pai do seu próprio filho? Que homem pode estar seguro disso?"

 

Scholler ergueu-se e, respirando profundamente, fatigadamente, dirigiu-se ao aparador e pegou numa garrafa de cognac francês e dois copos. Encheu ambos, com a mão ligeiramente insegura, entornando parte do líquido, e depois deixou-se cair de novo na cadeira, cujas juntas estalaram ao receber o seu peso formidável. Scholler engoliu o primeiro copo de cognac com alguns rápidos movimentos da cabeça, emitiu um longo aahhhh, de satisfação e voltou a encher o copo imediatamente. Esfregou os olhos, com as pálpebras descidas.

 

' 'A vida não é fácil", confiou a Elliot. "Mas que se há-de fazer? A quem podemos queixar-nos?" O seu peito subia e descia cadenciadamente. Fechou os olhos. Ficou nesta posição durante dois ou três minutos, meio adormecido na cadeira.

 

Elliot olhou em volta observando a sala de jantar. Sobre o aparador de madeira brilhante, com a frente entalhada, havia uma fotografia do casamento dos Scholler. Dez anos atrás ela fora uma beleza, com uma elegância fina e morena, as sobrancelhas depiladas até formarem uns arcos delicados, o cabelo, num caracol, sobre a testa branca. Tinha os lábios fortemente sublinhados com baton, as mãos finas colocadas, para a fotografia, em volta do ramalhete de flores que apertava contra o peito. O cabelo, como agora, tinha risca ao lado e estava cortado curto, quase tão curto como o de um homem, o que fazia sublinhar o comprimento do pescoço e o longo corpo magro, ligeiramente côncavo, com o peito liso e as ancas estreitas. Tinha uma expressão estranhamente desconfiada, para tal ocasião. O que mais chamava a atenção no noivo era o seu evidente desconforto, dentro do casaco abotoado que o apertava debaixo dos braços, talvez devido à largura do seu peito, ou talvez por causa do conteúdo do bolso superior. Teria levado uma pistola para o casamento? Sempre com o cuidado de não se deixar apanhar desprevenido? Seria esse o volume que tornava o casaco apertado? Havia nele um certo desajeitamento provinciano, como um enorme bloco, ao lado da noiva, com um orgulho indesmentível de posse no olhar. Tinha o cabelo menos ralo, com uma onda em cima muito curto em volta das orelhas.

 

Entre as outras fotografias sobre o aparador, havia uma em que se reconheciam os pais de Scholler. O pai era um homem grande, pesadão, de crâneo calvo, com um fato aos quadrados revirado, com um alfinete sobre a gravata de fantasia, o casaco aberto para mostrar a corrente de ouro do relógio metido no bolsinho sobre o estômago. Usava óculos com aros escuros e estava sentado, com as pernas afastadas e as calças repuxadas. A mãe tinha o cabelo grisalho e mal penteado, um rosto magro, mãos cheias de veias e um vestido escuro, abotoado até ao pescoço, que caía até aos tornozelos. Estavam sentados, um ao lado do outro, num cadeirão de verga, no telheiro de uma casa da Baviera.

 

Os olhos de Scholler abriram-se abruptamente quando saiu do seu dormitar.

 

"Interessa-lhe a minha família?"

 

"Camponeses?" disse Elliot. -..*

 

Scholler acenou levemente com a cabeça.

 

"A sua mulher... provém de um meio muito diferente, penso eu."

 

"E pensa bem", disse Scholler, sem prestar mais informações. "Talvez fosse melhor estender-me cinco minutos na cama", disse. "Subitamente, sinto-me muito cansado. Você também?"

 

Elliot acenou afirmativamente.

 

"Venha, então."

 

No quarto havia um toucador totalmente feito de espelho. Duas camas com colchas que tinham raios de Sol bordados a dourado. Um guarda-fatos de madeira laqueada. Scholler atirou-se para cima de uma das camas, sem se incomodar a tirar as botas. Adormeceu imediatamente.

 

Elliot observou o papel da parede às flores, os utensílios de toilette nos seus frascos de vidro trabalhado; e aspirou aquele cheiro secreto de um quarto estranho. Um grande relógio de ónix dizia-lhe que eram onze e meia. No ar havia a fragância de um pó de arroz de mulher.

 

Subitamente inquieto, Elliot saltou da cama e voltou para a sala de jantar. A porta da cozinha estava fechada, a mulher tratava dos seus cozinhados.

 

Sobre o aparador havia uma outra fotografia emoldurada em que não tinha ainda reparado. Um grupo de cinco homens sorridentes de braço dado, em pé, no exterior de um edifício que reconheceu ser Praesidium da polícia de Munique. Todos pareciam muitos jovens. Scholler não devia ter mais de 22 ou 23 anos, nessa altura, um rapaz de grandes orelhas com uma larga cara ossuda, ainda não preenchida. Todos pareciam muito divertidos por qualquer motivo que não se conseguia perceber. Teriam sido todos promovidos? A fotografia destinar-se-ia a assinalar esse facto? Como uma fotografia do dia da licenciatura. Cada um dos polícias assinara - Heini Múller, Fritz Kamitz e Ernst Scholler. Os outros tinham apenas rubricado. Aquilo devia ter-se passado em 1922-24, a avaliar pelo estilo dos fatos e pelo aspecto jovem dos fotografados.

 

Na cozinha, Frau Scholler acabara de preparar o arroz. A porta abriu-se e ela entrou com uma caçarola fumegante, uma travessa e pratos. Gritou: "Emst, Ernst, a comida está na mesa..."

 

Refrescado pelos seus quinze minutos de sono, Scholler saiu do quarto, espreguiçando-se e bocejando. Estava de calças e suspensórios e tinha tirado o colarinho. Aspirou o aroma do arroz e, logo que se sentou, começou a encher o prato. Tirou uma grande fatia de queijo da travessa e cortou-a em pedacinhos sobre o arroz. A lata de sardinhas, com a tampa três quartos enrolada, tinha sido colocada sobre um pires. Scholler retirou um dos peixes prateados e colocou-o por cima do arroz e do queijo. Espalhou o óleo da lata por cima de toda a comida e começou a comer, esfomeado.

 

O suor aparecia em gotículas na sua testa e no crâneo onde o cabelo começava a rarear, e caia nas rugas do pescoço semelhantes às grossas cordas para prender navios. A volumosa artéria do pescoço enchia-se com a pressão do sangue. Corta por ali, pensou Elliot, e o Investigador jorrará sangue como uma fonte.

 

"Frau Scholler", perguntou Elliot delicadamente, enquanto se servia de arroz. "É de Berlim?"

 

Não, de Munique'', disse ela, rejeitando a oportunidade de alargar a conversação.

 

"De Munique", concordou Scholer com a boca cheia. "Como eu. Mas que diferença, hem? Eu vim do fundo, da lama. Ela veio de cima. Havia de ter visto a casa dela. Aparadores com puxadores de marfim. Carpetes brancas pelo chão. E os vestidos dela? Roupa interior de seda pura. Nas paredes, tinha quadros modernos. Nunca se sabiam se representavam um ser humano ou o jantar de um cão. Era a moda, nessa altura. Antes de o pintor de paredes austríaco condenar tudo isso..."

 

Ela lançou-lhe um agudo olhar avisador, por se permitir tais indiscrições em frente de um subordinado. "Não faz mal tranquilizou-a. Haften está muito ligado a mim. Não tenho segredos para ele - eh, Haften? Sabe a meu respeito o suficiente para me fazer enforcar dez vezes. Mas imagina que o que sei a respeito dele fá-lo-ia ser morto vinte vezes". Riu-se. "A minha mulher é muito cuidadosa", explicou. "Sempre foi. Pensa duas vezes, mesmo três vezes, sobre tudo. Eu, pelo contrário, sei imediatamente o que fazer. Posso tomar uma decisão sem pensar. Soube logo que a vi - esta é para mim!"

 

"Isso será lisongeiro para mim?", perguntou ela sarcasticamente.

 

''É uma maneira de falar'', disse ele. Comendo sempre enquanto falava, continuou, "Ela não queria saber de mim, digo-lho eu. Fui uma vez a casa dela. Tinha havido um roubo, 'finham levado jóias. Tratou-me como as mulheres do seu género tratam um polícia, como se fosse um criado. Contudo, desejei-a logo. Era tão... fina. Muito distinta. Disse para mim mesmo, um dia ela deixará de ter aquele ar superior. Jurei-o a mim próprio..."

 

"Forçaste a entrada. Uma vez e outra ainda. Com truques", recordou-lhe ela.

 

Ele riu-se e deu-lhe uma palmada afectuosa, com os olhos animados pelas recordações dos truques que empregara em defesa do amor. "Costumava ir contar-lhe os progressos que estávamos a fazer na procura das jóias. Nem sequer me deixava entrar. Falava comigo à porta. Para se ver livre de mim rapidamente. Tinha que ir atender os convidados, imagine. Ou talvez um amante. Eu imaginava. Eu não estava ao nível dela, compreende, Haften. Um dia bati à porta dela e disse-lhe, "Tenho boas notícias para si, Madame, encontrei as suas jóias". Ela ficou espantada. "Ao fim de todo este tempo?", disse. Estávamos em 33. Ela ficou radiante por recuperar as jóias; tinham valor sentimental para ela... Prendas de amor, compreende?".

 

Tu próprio as roubaste, acusou ela, 'para chegares ao pé de mim..."

 

"Disse-lhe isto uma vez por brincadeira e agora acreditou-me."

 

"É o género de coisa que tu eras capaz de fazer.''

 

"Fosse como fosse", disse ele, "ela ofereceu-me uma recompensa. Por descobrir as jóias. Perguntou-me se era permitido. Sim, disse-lhe eu, mas talvez ela não quisesse dar-me a única recompensa em que estava interessado. Qual era, perguntou ela, que recompensa queria eu? Um beijo, disse-lhe. Ela riu-se e ofereceu-me a boca. Como no jogo das prendas... Adorável. Depois disso, foi fácil navegar, quando se começa, está-se no bom caminho. Eh, Haften?"

 

"Os métodos da polícia secreta", disse ela. v Ofendera o seu orgulho masculino com esta frase: num rápido momento, todo o bom humor sentimental se varreu do seu rosto e foi substituído por um clarão de puro ódio assassino.

 

Cada homem usa as armas que tem", disse Scholler. "Pensas que tudo são armas." "Esqueceste-te. Não olhavas para mim antes." No silêncio que se seguiu, toda uma série de acusações e contra-acusações passou mudamente entre eles. Scholler foi o primeiro a separar-se do passado. Sorriu. "Mas Haften não há-de querer ouvir as nossas disputas matrimoniais", disse à mulher.

 

"Se achas que podes falar da nossa vida particular em frente de...", começou ela.

 

Não és tu que me dizes o que posso ou não posso dizer'', disse ele, com irritação. "Esqueces-te... não sou ninguém agora.''

 

Ela riu com desprezo pelo seu alto cargo. "Sabes o que penso disso. Queres que to diga? Em frente dele?"

 

"Comportas-te como eu te disser, Lilli."

 

"Julgas que podes assustar-me como assustas toda a gente. Outrora, sim. Talvez. Mas já passou muito tempo desde que conseguiste assustar-me, Ernst."

Houve uma época em que te envaidecia ser mulher de um Reichskriminaldirektor.''

 

"Antes de saber qual era o teu trabalho."

 

"Que julgas tu que era o meu trabalho? Ajudar velhinhas a atravessar a rua? Pediste-me muitos favores. Para os teus amantes. Julgas que não sabia que eram teus amantes?" "Se pensas isso, porque fizeste os favores?" Gostava de te dar coisas", disse ele simplesmente, "fira um grande idiota."

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"Prendas de amor?", troçou ela.

 

Ele controlou a irritação, com esforço, sabendo que a mulher continuaria a usar a sua língua afiada até o fazer explodir. Era essa a vitória dela, obrigá-lo a perder o controle. IVlas ele não deixaria que isso sucedesse naquela noite. Sabia desenvencilhar-se das situações. O seu rosto mostrou-se resignado, como o de um homem que conhece as mulheres. "Vê como é, Haften? Mulheres! Sempre a queixarem-se de qualquer coisa. Eh? Eh? Basta por agora, Lilli. Quero ir para a cama."

 

Ela começou automaticamente a levantar a mesa. Scholler disse, "Deixa isso. Tenho assuntos importantes a tratar contigo."

 

"Não posso deixar os pratos sujos", disse ela, continuando a levantar a mesa.

 

Scholler ergueu um sobrolho, numa expressão de impotência, e voltou-se para Elliot. .       "Ajude-me a abrir o sofá-cama."         Depois de ter limpo a última migalha da mesa e metido as suas abas para dentro, Frau Scholler trouxe lençóis e almofadas lavadas e colocou-os no sofá aberto.

 

"Temos que deixar a luz do corredor acesa. Por causa do menino", disse a Elliot. "Tem medo do escuro. Deixamos a porta do nosso quarto ligeiramente aberta... Para o ouvirmos, se ele tiver algum ataque de noite". Elliot concordou com um aceno. "Boa noite, Herr Haften."

 

Elliot sabia que não iria dormir, apesar do cansaço que se transformara num torpor crescente, por trás dos olhos. Começou a andar de um lado para o outro, na pequena casa de jantar. As fotografias com molduras de prata, sobre o aparador, continuavam a chamar-lhe a atenção. A fotografia do casamento. Os pais. Os sorridentes detectives de Munique. Estudou os seus rostos, procurando qualquer indício do que fora feito deles. Mas apenas conseguia ver cinco jovens muito bem dispostos.

 

A sirene a anunciar o regresso dos bombardeiros britânicos tinha sido seguida pelo sinal de ataque terminado, e quando este acabou, uma quietude suburbana instalou-se na pequena vivenda. Elliot descobriu que conseguia ouvir pedaços da conversa que se desenrolava no quarto.

 

"Não discutas comigo, Lilli. Sabes quanto pagam por esses papéis?"

 

"Não quero passar o resto da minha vida a fugir de um lado para o outro."

 

Em Bregenz estarás na zona americana. Tu e o garoto estarão seguros..."

 

Elliot adormecia intermitentemente, acordando de meia em meia hora. Da última vez que acordou, viu Scholler na sua frente.

 

"Temos que partir", disse este. "Ainda é noite."

 

"Tenho que entrar e sair a horas diferentes, na minha posição.''

 

Enquanto Elliot se vestia, Scholler deixou-se ficar sentado, muito quieto, na sala escura, um pouco afastado da janela aberta, a observar as casas em frente. Sabia onde estavam os seus homens e localizava cada um dos pequenos movimentos e sons. Era seu hábito, antes de sair de qualquer lugar, passar alguns minutos a observar o brilho de um cigarro, num movimento súbito, à escuta de um ligeiro pigarro ou do bater de pés gelados, de algo que indicasse a presença de alguém que não deveria estar naquele local. Em seguida verificou a pequena Mauser e meteu-a no bolso do sobretudo.

 

Elliot estava pronto. Fazendo-lhe sinal para seguir, Scholler parou à porta do quarto do filho e, durante alguns momentos, olhou ternamente a criança adormecida.

 

Já na rua, Scholler avançou rapidamente para o carro da polícia e, soltando o travão de mão, empurrou o carro durante uma curta distância, com as luzes apagadas. Quando o carro começou a rolar, saltou para dentro dele e fez sinal a Elliot para que o imitasse. O motor foi então ligado, mas os faróis não se acenderam. Só quando o carro já seguia a certa velocidade, Scholler acendeu os mínimos.

 

Quando se aproximaram do centro da cidade, as pessoas começavam a emergir da poeira e do entulho, escalando os montes de coisas, arrastando os pés, como velhos. As mulheres tinham as faces magras e os lábios pálidos e as crianças pareciam rápidos animaizinhos subterrâneos, correndo como ratos. Todos olhavam deslumbrados a primeira luz, piscando os olhos. Assemelhavam-se aos detritos de que tinham emergido: uma segunda pele de poeira cobria as partes expostas dos seus corpos e as suas roupas.

 

As varredoras das ruas, com bonés de soldado na cabeça, começavam a trabalhar, acumulando o entulho em montes, para conseguir sinuosas passagens por entre a destruição.

 

Num quiosque circular para colar cartazes, um anúncio do filme Die grasse Liebe tinha sido coberto por um cartaz que proclamava, "O Fiihrer é a Vitória".

 

Não se viam carros - só algumas pessoas que seguiam de bicicleta para o trabalho. Começavam a formar-se bichas às portas das lojas de alimentos.

 

A medida que o carro da polícia se aproximava do centro, o fumo dos edifícios incendiados, empurrado no sentido descendente pelo vento, bloqueava algumas ruas como uma espessa muralha sufocante.

 

Aos solavancos e sacudidelas e às curvas, sempre que Scholler tentava rodear os grandes pedaços de alvenaria espalhados pelo chão, o carro da polícia abriu caminho ao longo da Wilhelmstrasse e daí passou aos escritórios subterrâneos, por baixo da Prinz Albrechtstrasse, onde o Kriminalrat Kummerl se transformara num fantasma. Tal era a impressão causada pelo seu rosto por barbear, porque a barba era totalmente branca, enquanto que o cabelo continuava estranhamente louro. A sua cabeça tremia violentamente, ao apontar para alguém sentado num banco de madeira, no escritório exterior.

 

O General Neuss tem estado à espera desde as 5 horas.''

 

O General das Waffen SS bocejou e espreguiçou-se, levantando-se lentamente. Era um homem pesado, de rosto grosseiro. Três dos seus homens, armados com metralhadoras, saíram de uma sala, do outro lado do corredor.

 

"Cumprimentos do Reichsfuhrer SS Himmler", disse o General Neuss, acabando de levantar-se. "Mandou-me vir buscá-lo. Para ter a certeza de que chegava são e salvo.''

 

Scholler acenou afirmativamente. "Foi muito amável da parte dele".

 

"Ele é assim", disse o General Neuss, "como sabe." "Sim, sei perfeitamente."

 

"Quem é esse?", perguntou Neuss rispidamente, examinando Elliot.

 

"É o Haften, o meu assistente político na Itália. Ele que venha também", disse Neuss. O Reichsfuhrer Himmler quer essa questão da Itália resolvida. Muito bemva mos então."

 

"Há ainda alguns assuntos..."

 

"Poderá tratar deles noutra altura, Scholler. O Reichsfuhrer está à espera. E sabe que ele não gosta de esperar. Fica tenso e fatigado". Levantou-se, com a mão ligeiramente apoiada na pistola.

 

"Como quiser". Voltando-se para Kummerl, Scholler disse: "Se houver qualquer notícia urgente sobre o caso Behr, entre em contacto comigo para o Quartel General do Reichsfuhrer."

 

Ao chegar a Berlim, no dia 16 de Abril, o Dr. Behr tinha, à sua espera, na estação de caminhos de ferro, um carro da embaixada suíça.

 

Havia incêndios por toda a cidade e o ar estava saturado de poeira asfixiante dos edifícios em derrocada.

 

O Dr. Behr estava desorientado. Toda a área em volta desaparecera - as ruínas estendiam-se por diversos quilómetros. Um oceano de desolação, no meio do qual surgiam alguns pontos conhecidos, através da poeira, como navios-fantasmas.

 

O carro da embaixada suíça passou sob uma das arcadas do Brandenburg Tor, que ainda se encontrava aberta (as outras tinham sido barricadas com pedras da rua), penetrando na devastada Pariser Platz. O Dr. Behr abriu a boca de espanto, perante toda aquela destruição. A rede de camuflagem estendida sobre o grande eixo da Charlottenburg Chaussee e Unter den Linden, provocava uma estranha sensação de permanente crepúsculo. Tinham desaparecido tantos edifícios que o Dr. Behr não conseguia descobrir onde se encontrava; havia tanta coisa destruída... a embaixada francesa, a mansão dos Frielanders, as casas de esquina construídas por Schinkel...

 

Olhando em redor, não conseguia conceber que ainda pudesse existir vida naquelas condições. Tendo chegado a essa conclusão, atribuiu a sua primeira visão do Hotel Adlon a uma alucinação momentânea, uma recordação do passado, que o seu espírito perturbado conjurara, para se proteger contra os choques a que estava a ser submetido. Mas, quando o carro abrandou a marcha e a visão persistiu, o Dr. Behr confirmou que o hotel ainda ali se encontrava, misteriosamente poupado, com a sua fachada ricamente decorada quase sem qualquer dano. Levantou-se e observou-o, espantado. Era efectivamente o velho Adlon que ele tão bem conhecia, e, contudo, não era o mesmo. Havia sido construído, à sua volta, uma muralha de protecção que chegava à altura das varandas do 2.° andar. Escondia a anterior entrada principal com as lanternas de ambos os lados, e dava ao Hotel uma aparência estranha e pouco acolhedora.

 

O Dr. Behr passou através duma pesada porta de aço e encontrou-se no velho hall de entrada, onde agora o sol não penetrava, por causa da muralha. Espreitando por cima das suas meias lentes, o banqueiro suíço teve a sensação de se encontrar entre uma multidão de sombras. Havia grande actividade e movimento no meio da obscuridade permanente do grande hall, mas tudo aquilo tinha a insubstancialidade das cenas de um sonho.

 

Enquanto tentava orientar-se, apareceu um pequeno groom, curiosamente vestido, considerando a época, com o uniforme regulamentar, de colete branco, luvas brancas, botões brilhantemente polidos no casaco. Pegou na mala do Dr. Behr e conduziu-o até ao balcão de recepção.

 

Logo que se habituou melhor à luz (na maior parte fornecida por velas e lâmpadas de fraca potência), algumas das sombras começaram a tomar formas mais definidas... viu jovens oficiais da Luftwaffe, em pequenos grupos ruidosos. Bebiam champagne, riam-se e acariciavam as belas mulheres que os acompanhavam. Também havia pessoas sós, que olhavam em frente, sem expressão.

 

O Dr. Behr descobriu ainda outro tipo de pessoas (dum género que não teria sido tolerado no Adlon de antigamente), escondidas atrás dos pilares de mármores quadrados, observando toda a gente. Esses homens, com os seus fatos mal feitos, bem diferentes dos fatos elegantes dos gerentes, pareciam dar ordens ao pessoal do Hotel.

 

No balcão de recepção, um indivíduo desconhecido, de modos ofensivos, verificou o nome do Dr. Behr na lista de chegadas e voltou a conferi-lo com um índice.

 

Depois de completadas todas as formalidades a seu contento, entregou ao Dr. Behr um cartão de racionamento para três dias, e outro groom de luvas brancas levou-o até à cave, passando pela barbearia, até ao abrigo contra ataques aéreos, onde lhe mostrou o espaço que lhe fora reservado, semelhante a uma cela.

 

Eram cerca de seis horas e, dado que tinha comido muito pouco nas últimas 36 horas, o Dr. Behr lavou-se e dirigiu-se logo à sala de jantar.

 

Todas as mesas estavam ocupadas, pelo que foi forçado a sentar-se na mesma mesa com outro hóspede, que se apresentou como o actor Paul Egner. Este confessou-lhe que o Adlon era agora o único local onde se podia viver. Tinha o seu próprio gerador de electricidade independente, e água quente; e, embora a comida não fosse melhor do que em qualquer outro local, os vinhos eram soberbos. Apesar dos seus esforços determinados, a grande adega do Adlon ainda não estava de modo algum vazia.

 

A comida, para a qual os criados exigiam coupons que cortavam do cartão de racionamento com tesouras suspensas dos cintos por uma pequena corrente, era péssima. A refeição começou por uma espécie de sopa de ervilhas que nem pelo gosto nem pela cor se assemelhavam, mesmo remotamente, àquele vegetal, e que era seguida de um empadão feito de fécula de batata colorida, com um recheio de qualquer peixe enlatado, e terminou com um pudim recheado de papas de aveia dissecadas, coberto por um molho de fruta artificial. Por muito horrível que fosse a refeição, comeu-a, sentindo necessidade de se alimentar, depois do pesadelo que fora a exaustiva viagem de comboio da Suíça. O comboio tinha sido atacado por duas vezes por aviões. O segundo raid tinha imobilizado a composição e morto diversos passageiros. O Dr. Behr e alguns outros com designação de alta prioridade haviam sido transferidos para outro comboio.

 

Depois da refeição voltou para o seu quarto, deitou-se na cama e, mau grado seu, adormeceu imediatamente. Não devia ter ouvido o sinal de alerta de ataque aéreo, pois o que o acordou foi o som contínuo e melodioso de um gong tocado algures no hotel.

 

Correu para a janela. O céu estava brilhantemente iluminado como um palco. Avistou os bombardeiros britânicos: um enorme e único organismo espalhado pelo céu, com as suas diferentes peças bem iluminadas pelos holofotes. Através da cidade, uma muralha de chamas seguia os bombardeiros. O Dr. Behr observava, interdito. Tudo ardia à sua volta. Encontrava-se no centro de um inferno.

 

O gong continuava a soar. Nervosamente, o Dr. Behr saiu a correr do quarto e percorreu os corredores vazios, desceu as escadas, atingiu a cave, passando pela barbearia, e descendo novos degraus, até ao profundo abrigo.

 

Embora se encontrasse sob vários metros de cimento, as ondas de choque das explosões, cada uma delas mais forte do que a anterior, faziam com que a terra oscilasse como um navio no mar.

 

Olhando em volta, o Dr. Behr notou que os seus companheiros eram generais SS e altos membros do partido Nazi... Tudo aquilo era absolutamente inacreditável e espectral.

 

Mas era evidentemente seu dever vir a Berlim. Quatro milhões de Francos Suíços não eram uma brincadeira. Era da responsabilidade do banco cumprir todas as condições para o pagamento de tão alto valor. Se não seguisse estritamente o complicado processo determinado pelo depositante, abrir-se-ia uma brecha na ética bancária suíça e possivelmente em toda a estrutura das leis.

 

Se o banco pagasse o dinheiro indevidamente, seria responsável pela sua totalidade. Se o banco não impedisse o pagamento indevidamente, podia ser processado, e a sua reputação seria atingida.

 

Evidentemente, o Dr. Behr não tinha a mínima dúvida de que aqueles Nazis eram indivíduos profundamente maus. Assassinos com as mãos sujas de sangue. Mas as obrigações de um banqueiro assemelhavam-se às de um médico ou de um padre. Tal como eles, tinha que cumprir o seu dever. Caso contrário, a sociedade desintegrar-se-ia. Se uma pessoa não sentisse total confiança no seu banco, em que poderia confiar?

 

E havia a outra questão, também. Ainda havia isso.

 

Após uma noite terrível no abrigo do Adlon, o Dr. Behr conseguiu dormir durante duas ou três horas no seu quarto. No dia seguinte, levantou-se cedo, tomou um banho quente, vestiu-se e, sem se preocupar com o pequeno-almoço, atirou-se ao trabalho.

 

Tirou da sua pasta uma lista dos vintes nomes dentre os quais teria de obter duas assinaturas. Havia notas a lápis em frente de alguns deles: Heydrich (assassinado na Checoslováquia em 1943); Nebe (crê-se que foi executado); Almirante Canaris (executado por traição em 1944).

 

Outros tinham simplesmente a indicação de "paradeiro desconhecido" ao lado dos nomes. Alguns dos oficialmente falecidos tinham sido substituídos por outros. O Chefe do Departamento Principal de Segurança do Reich, Ernst Kaltenbrunner, tinha sido acrescentado à lista, tal como mais um ou dois outros. Apesar desses aditamentos, o resultado era que a lista de vinte nomes tinha sido efectivamente reduzida a cerca de nove pessoas que se julgava estarem vivas e susceptíveis de ser contactadas. Eram eles o Reichsfiihrer SS Himmler; o Chefe da Gestapo, Heinrich Miiller; o Oficial SS de Ligação do Fúhrer, General Fegelein; o General SS Stallernam, Chefe da Administração SS de Finanças...

 

O Dr. Behr considerava sempre conveniente começar pelo princípio, pelo que pediu à telefonsita do Adlon que ligasse para a Prinz Albrechtstrasse. A ligação foi praticamente instantânea e o Dr. Behr pediu ao telefonista, "Agradecia o favor de me ligar ao secretário do Herr Himmler, o Dr. Brandt. Fala o Dr. Behr, do Banco Comercial de Berna".

 

A voz ao telefone respondeu automaticamente: "O Reichsfíihrer Himmler mudou-se para novo quartel-general".

 

"Onde fica esse quartel?"

 

"A informação não pode ser dada sem autorização." "Como posso obter essa autorização?" ' 'Deve pedi-la ao Amt IV do Departamento Principal de Segurança."

 

"Amt IV, é Muller, não é?"

 

"É sim."

 

"Então ligue-me a Herr Muller, se faz favor."

 

O General SS Muller não recebe chamadas. Se deseja vê-lo, pode vir aqui e preencher um pedido de entrevista, indicando a natureza do negócio. Será então informado oportunamente, se a entrevista lhe poderá ser concedida."

 

"O meu assunto é extremamente urgente, não há tempó..."

 

Mas já tinham desligado. Consultando de novo a lista, o Dr. Behr pediu à telefonista do Adlon que ligasse para o escritório do Chefe do Pessoal SS.

 

A voz que respondeu ao telefone disse: "O Chefe do Departamento não se encontra disponível..."

 

Nesse caso, talvez eu pudesse falar com o seu secretário ou assistente. Trata-se de um assunto da máxima importância. ''

 

"O secretário e o assistente também se não encontram disponíveis."

 

"Pode ter a bondade de me explicar", disse o Dr. Behr, permitindo que a exasperação se reflectisse na sua voz, "porque não estão disponíveis?"

 

"Porque foram mortos durante o raid da noite passada." Desencorajado, o Dr. Behr pousou novamente o auscultador, e consultou a sua lista. Uma vez que Berlim se encontrava num tal caos, talvez fosse melhor tentar contactar con Kaltenbrunner que se mudara para Innesbruck para supervisar as operações de defesa do Sul. Deu à telefonista o número do Quartel General de Innsbruck e, minutos depois, respondeu-lhe uma voz distante.

 

Fala o Dr. Behr, do Banco Comercial de Berna'', gritou ao telefone. "Estou a falar de Berlim. É questão da máxima urgência que eu fale imediatamente com o Dr. Kaltenbrunner ou com algum dos seus ajudantes de campo..."

 

Só um momento". Houve um curto período de espera e depois de novo a voz distante, "O Dr. Kaltenbrunner, saiu do Quartel General do Reichsfiihrer SS. Mas posso pô-lo em contacto com o seu secretário."

 

Ah! disse o Dr. Behr e ouviu um ligeiro clique. Escutou, por momentos. Depois disse: "Alo, alo, alo...". O telefone estava novamente desligado. Voltando à telefonista do Adlon disse-lhe: "A linha foi cortada."

 

"Isso sucede às vezes", respondeu ela vagamente.

 

Peço-lhe que tente de novo'', pediu o Dr. Behr.

 

Após alguns minutos, ela voltou à linha e disse: ' 'Há uma interrupção temporária das ligações com Innsbruck. Aconselho-o a tentar mais tarde."

 

Deprimido pela previsão das dificuldades que teria de enfrentar, o Dr. Behr decidiu tomar o pequeno almoço e recomeçar depois os seus telefonemas.

 

Estava a beber a sua imitação de café e a roer o biscoito de gosto estranho que era servido com ele quando viu um rosto conhecido. Ferdy von Niesor! Tão impecavelmente vestido e elegante como sempre. De bengala e chapéu, evidentemente.

 

Ferdy!'', gritou o Dr. Behr, reanimando-se ao ver o seu velho amigo de Berlim.

 

Himmler estabelecera o seu mais recente Quartel General numa mansão fm-de-siècle saqueada, com torrões, espiras e miradouros, situada num bosque de abetos, 150 km a norte de Berlim.

 

Embora o carro de serviço SS que transportava Scholler e Elliot avançasse à máxima velocidade que as circunstâncias lhe permitiam, forçando frequentemente outros carros a sair da estrada, só chegaram ao Quartel General ao fim da tarde. Havia poucos sinais de actividade quando atingiram o caminho que conduzia aos portões, guardado, um pouco descuidadamente, por meia dúzia de jovens das Waffen SS, de uniforme cinzento. Estes apressaram-se a abrir os portões para deixar passar o General SS Neuss, e o carro foi parar junto dos degraus que conduziam à porta principal. Estava a ser carregado um enorme camião com loiças, roupas de cama, cobertores, utensílios de cozinha e outros acessórios caseiros, o que sugeria uma nova mudança do Quartel General. Os motoristas estavam junto dos seus enormes carros, fumando e conversando uns com os outros. Não mostravam indícios de contarem partir em breve.

 

O General Neuss subiu à frente e todos penetraram num grande hall, com bandeiras suspensas das paredes. Não se via ninguém. Absolutamente ninguém.

 

"Então onde estão eles todos?" perguntou Scholler. Estão a ver filmes", disse Neuss, olhando para o relógio. "Estão a passar outra vez o Kolberg. Os homens gostam imenso dessa fita. Eu próprio já a vi quatro vezes. Ach mostrámos àquele sifilítico do Napoleão como lutam os soldados alemães! Até ao último homem. Já viu o filme?" "Não."

 

Há outra sessão depois do jantar. Tente vê-lo se puder. Sentirá orgulho em ser um alemão."

 

"Um alemão morto?"

 

Espero que isso não seja uma observação derrotista, caso contrário teria de fazer um relatório."

 

Tal como o Fúhrer", disse Scholler, 'confio na vitória final."

 

Ultrapassaram o salão de baile, onde o filme estava a ser exibido, e, através da porta entreaberta, ouviram o ribombar dos canhões franceses e viram, de relance, a horda impetuosa do exército de Napoleão, abatendo-se sobre a pequena guarnição alemã. No écran brilhavam os olhos dos soldados alemães que esperavam o fim.

 

Não me importava de voltar a ver o final'', disse Neuss. "Não me envergonho de dizer que choro, sempre que vejo a bravura dos nossos homens, mas primeiro tenho que avisar o Reichsfiihrer SS Himmler de que já chegaram."

 

Levou-os para uma sala de espera onde estavam sentados cerca de vinte homens, com todo o ar de ali se encontrarem havia longo tempo. Um ou dois olharam rapidamente, fatigadamente, para os recém-chegados e afastaram de novo o olhar. Os restantes estavam meio adormecidos ou trocavam conversas em voz baixa, apesar de um indicativo que dizia: "É proibido falar". Também ignoravam o letreiro de: "É proibido fumar", e fumavam constantemente, fazendo pequenos montes, no chão de pedra, com as pontas dos cigarros, visto que não havia cinzeiros. De vez em quando, alguém se levantava para estender as pernas e ia até ao corredor. Depois de andar de um lado para o outro durante alguns minutos, voltava para espreitar, para o caso de ter sido chamado entretanto.

 

Um dos generais SS começou a ressonar ruidosamente, de boca aberta, e o seu vizinho deu-lhe uma cotovelada selvagem.

 

"O que foi? O que foi? Chamaram-me?"

 

"Não, não. Não chamam ninguém há quarenta minutos."

 

Neuss veio sentar-se junto de Scholler e Elliot.

 

"Disse-lhes que estavam aqui", explicou. "Brandt diz que avisará o Reichsfiihrer Hirnmler logo que ele acabe de falar... Como sabe, ele não gosta que interrompam os seus pensamentos."

 

"Quem está com ele?" "Wolff e Kaltenbrunner."

 

Neuss desapareceu, para ver pela quinta vez, os últimos e sangrentos minutos de Kolberg.

 

Quinze minutos depois de ele ter partido, uma das portas duplas na extremidade da sala abriu-se ligeiramente e a cabeça do Dr. Brandt, emergiu entre as sentinelas; os olhares levantaram-se para ele. Alguns dos homens que esperavam continuaram a olhar para o chão, com as mãos fortemente apertadas. A cabeça sern corpo do secretário de Himmler oscilou, enquanto ele olhava em volta, observando os homens ali sentados. Fez um rápido aceno a Scholler, que queria dizer: Espere um momento. A cabeça recuou e a porta fechou-se. Quase imediatamente, voltou a abrir-se, e Brandt, fez sinal a Scholler para avançar. Este ergueu-se e passou por baixo do braço do secretário que continuava a segurar a porta para que se abrisse apenas o suficiente.

 

Elliot só conseguiu ver uma grande sala, com uma enorme lareira de pedra, e um homem de meia altura, com as calças demasiado volumosas no traseiro, um rosto de consistência esponjosa: andava de um lado para o outro, com o punhal de gala a dificultar-lhe os movimentos.

 

Dos outros que se encontravam na sala, o homem elegante de nariz arqueado, devia ser Wolff, e o outro, muito alto, Kaltenbrunner. A porta voltou a fechar-se.

 

Scholler avançou com deferência - Himmler apreciava isso. Mesmo Heydrich, cuja arrogância era notória, tinha feitO vénias a Himmler e arrastara-se perante ele sempre que necessário. Era preferível não correr riscos. Por isso, Scholler parou rigidamente perto da porta, junto de Brandt, esperando ser formalmente notado.

 

Finalmente, Himmler disse, na sua voz suave, um pouco efeminada, de mestre escola: "Ah, Scholler. Vem muito tarde."

 

As condições da estrada, Reichsfiihrer SS. Viemos a toda a velocidade que era possível..."

 

"Em face do seu atraso, Reichskriminaldirektor, não percamos mais tempo com desculpas", disse Himmler rispidamente. "O General Wolff regressou da Itália para responder a algumas perguntas. Vamos para diante."

 

Wolff muito alto, mantinha-se erecto, com os ombros, o pescoço e os braços cobertos de galões de prata rebrilhantes.

 

Kaltenbrunner, mais alto que todos os presentes, com os seus dois metros e tal, o sexagéssimo cigarro do dia, pendente do lábio inferior, abriu o processo.

 

Tirando do bolso superior um envelope com algumas anotações disse: No dia 19 de Março, o General Wolff saiu do seu Quartel General em Fasano, vestido de civil, e seguiu de comboio até à fronteira suíça. As autoridades suíças porém, mitiram-lhe a passagem sem qualquer dificuldade, e, nesse mesmo dia, num chalé em Ascona, pertencente ao traidor i von Gaevernitz, Wolff encontrou-se com Dulles, e com os generais aliados Airey e Lemnitzer, que tinham entrado na Suíça disfarçados e usando nomes falsos."

 

Kaltenbrunner parou e olhou para os outros através do fumo do cigarro, em que se envolvera durante a recitação dos factos.

 

Os óculos de Himmler, com armações de arame, rebrilharam enquanto a sua cabeça se voltava, em curtos movimentos rápidos, de homem para homem.

 

Wolff não estava perturbado. Embora pálido, falou com calma e dignidade.

 

"Eu sabia que os seus espiões que fazem parte do meu pessoal certamente o informariam dos meus movimentos. Por isso, não tinha grande pressa em fazê-lo eu próprio.''

 

"Também não achou necessário informar-me?" disse Himmler, com aquele abrupto abaixamento de temperatura na voz, que se sabia ser um mau presságio.

 

, "O que eu fiz", disse Wolff, empalidecendo ainda mais, mas mantendo um tom de voz natural, "estava em conformidade com as instruções pessoais do Fúhrer, quando da nossa última reunião, no sentido de manter aberta a porta para o Ocidente..."

 

"O Fúhrer autorizou-o a salvar a pele, Wolff?" gritou Kaltenbrunner, cujo rosto se tornava de um vermelho violento, com a saliva a escorrer dos lábios, pendendo-lhe do queixo em longos fios semelhantes a teias de aranha.

 

"As minhas acções estão de acordo com a minha honra de oficial e de cavalheiro", disse Wolff.

 

"Teve pelo menos seis reuniões com Dulles", berrou Kaltenbrunner. Isso não é manter a porta aberta, é traição e conspiração... para se salvar a si próprio. Tenho provas. Essas reuniões com os generais Aliados. Eles não teriam vindo à Suíça, disfarçados e com documentos falsos, só para ter uma conversazinha, à hora do chá. As minhas fontes informaram-me que houve uma tentativa definida de conceder a rendição aos Aliados, em troca da sua cabeça..."

 

"Quero ouvir o Reichskriminaldirektor", disse Himmler, voltando-se para Scholler.

 

Este tinha as mãos profundamente enfiadas nos bolsos descaídos, fazendo retinir as chaves.

 

"As minhas próprias investigações vão em apoio do Dr. Kaltenbrunner", disse. "Há provas da reunião em Ascona e dos encontros com Dulles. Também há provas de uma tentativa de aproximação com Kesselring, para o implicar na rendição como Comandante em Chefe do Ocidente..."

 

"Kesselring também!", disse Himmler roucamente.

 

"Não há provas de que o Marechal de Campo estivesse disposto a prestar-se à conspiração'', disse Scholler, 'mas foi feita uma aproximação."

 

"Então?" perguntou Himmler, voltando os óculos faiscantes para Wolff.

 

"Tenho a consciência tranquila", disse Wolff com resignação.

 

Eram cerca de seis horas da tarde, a altura do dia em que Himmler começava a sentir-se muito cansado. Nos seus Quartéis-Generais, como eram conhecidas todas as suas residências, estivessem onde estivessem em relação à frente de batalha, erguia-se às 8, descansava 3 horas depois do almoço e retirava-se, extremamente fatigado, antes das 10.

 

Num dia particularmente enervante como aquele, em que era forçado a julgar um antigo colaborador em que sempre confiara, o cansaço começava mais cedo. Por vezes dificultava-lhe a fala. De manhã e ao princípio da tarde, era capaz de longas tiradas, de dissertações abstrusas, de arroubos históricos, e de grandes crueldades, mas, à medida que a noite se aproximava, ficava cada vez mais fatigado e com maior falta de fôlego, e, por vezes, as próprias palavras o asfixiavam, quando sentia a sombra da longa noite que se aproximava.

 

Agora os seus óculos faiscavam, de homem para homem, e os olhos de basilisco nada revelavam dos seus pensamentos.

 

"Se a corrupção estivesse no meu próprio corpo", disse, "não hesitaria em queimá-lo... Compreende, Karl?" Havia um tom de finalidade na sua voz. Chegara ao fim das energias desse dia.

 

Himmler estava prestes a tomar uma decisão irrevogável, quando Scholler disse rapidamente: Seria conveniente verificar o registo da última vez em que o General Wolff foi interrogado a este respeito."

 

"Para quê?", inquiriu Himmler, com o cansaço a fechar-se à sua volta.

 

"Para comparar o que foi dito então com o que disse agora", disse Scholler. Fatigado, Himmler fez sinal a Brandt para que fosse buscar os registos, embora tivesse o ar de quem não via utilidade alguma em tais formalidades.

 

Quando a porta já estava aberta, fez parar o seu secretário.

 

Estou certo de que todos nos lembramos do que foi dito da última vez."

 

Toda a gente começou a pensar no assunto. "Sim, mas as palavras exactas têm muito interesse", disse Scholler.

 

"Está bem, Brandt. Mas vá depressa."

 

Enquanto a porta esteve aberta, Elliot pôde observar novamente o interior da sala. O que viu, deu-lhe uma indicação do modo como as coisas estavam a correr. Wolff, pálido e solene, parecia oscilar ligeiramente, trémulo perante os seus acusadores.

 

Himmler - com as suas ancas características. O traseiro dum boi. Meio homem, meio besta. As lentes dos óculos faiscando dum lado para o outro. Como antenas de uma inteligência cega.

 

Elliot pensou rapidamente. Um polícia secreto tem de estar de ambos os lados simultaneamente, não é verdade? Se as coisas corressem contra Wolff, lá dentro, Scholler não hesitaria em anular o acordo e apresentaria também as suas provas contra Wolff, para se pôr a salvo. Tinha feito o mesmo, como ele próprio admitira, no caso de Nebe e Nebe fora enforcado. Se ele renega o acordo e manda Wolff para os peixinhos, terá de matar-me, Serei uma ameaça para ele, onde quer que esteja, depois disso. Quer saia da Alemanha quer não. Tem de matar-me. Se Wolff sair preso daquela sala, estou pronto. Que devo fazer, nesse caso? Fugir?

 

Levantou-se e caminhou um pouco, como se desejasse estirar as pernas. No corredor acendeu um cigarro. Fumando, enquanto caminhava de um lado para o outro, estudou o terreno, tentando formular um plano de fuga.

 

Enquanto olhava, através de uma alta janela de vidro, para um pequeno pátio interior, lá em baixo, tentando determinar onde se situava em relação ao edifício, ouviu o batimento regular das botas de tacão de aço sobre as pedras do chão. Quatro homens de uniforme, com os galões de prata nos ombros indicando postos elevados, estavam a ser escoltados. Um deles tinha aproximadamente a mesma idade que Elliot, com um cabelo cor de palha suja, um pouco comprido, caindo-lhe sobre os olhos, enquanto marchava, com os braços rigidamente colocados aos lados do corpo, de modo que foi forçado a sacudir a cabeça para trás para poder ver qualquer coisa que segurava na palma da mão voltada para cima. Os quatro homens foram encostados a uma parede, no extremo do pátio. Dois oficiais ocuparam-se de lhes atar as mãos e de as fixar a grandes argolas de ferro enferrujado, presas na parede. Quando chegou a vez de atarem as mãos ao jovem oficial de cabelos cor de palha, o que ele segurava na mão caiu - uma fotografia. Ficou caída aos seus pés. Continuou a fitá-la até ao momento em que o vendaram e, mesmo depois disso, a inclinação da sua cabeça indicava que continuava a olhar naquela direcção. Penduraram-lhe ao pescoço um cartaz que dizia: "Sou um derrotista nojento e mereço morrer". Junto dele, um homem forte, de cerca de 45 anos, ainda não vendado, ao ler o cartaz, com o pescoço de lado, começou a abrir a boca, repetidas vezes, como se tentasse argumentar com alguém - mas com quem? Quando também ele foi vendado e sentiu que lhe colocavam o cartaz, a sua boca voltou a abrir-se e fechar-se muito rapidamente sem que se ouvisse qualquer som. As suas calças transformaram-se numa massa viscosa e o homem junto dele voltou a cara para o lado, mas o oficial emudecido pelas circunstâncias que determinavam a sua situação - continuava a procurar em vão alguém a quem pudesse ser exposto o seu irrefutável argumento.

 

O oficial -que comandava o pelotão de fuzilamento regressara junto dos seus homens, que, sombriamente, destravavam as espingardas. Não houve rufar de tambores, não houve qualquer ritual, apenas o movimento rápido de levantar e baixar uma mão. Tudo foi feito desalinhadamente, com os homens a disparar individualmente, sem se preocuparem em acertar com perfeição no alvo, e, ao fim da primeira descarga, a boca do homem que desejava argumentar continuava a abrir-se e a fechar-se com uma expressão de enérgico protesto, e o jovem de cabelo cor de palha continuava a olhar para a fotografia caída que não podia ver através da venda. Os outros dois homens estavam mortos, pendentes das argolas de ferro enferrujadas. Irritado, o oficial em comando gritou algo aos seus homens e baixou a mão pela segunda vez, ouvindo-se uma segunda descarga que finalmente acabou com os argumentos do homem forte e fez com que o jovem de cabelos cor de palha suja ficasse a baloiçar dum lado para o outro, suspenso das cordas.

 

Elliot foi atacado por estremecimentos espasmódicos. "Não está habituado a estes espectáculos?" As palavras, pronunciadas em tom trocista, haviam sido ditas por um homem excepcionalmente elegante, de trinta e tal anos, que observava Elliot com uma espécie de curiosidade científica.

 

"Está frio aqui."

 

"Está habituado ao clima mais quente da Itália?" Quem era aquele homem? Trajava o uniforme de General de Brigada dos SS e em todo o seu porte se notava que esperava ser reconhecido. Elliot conhecia o género: inteligente, atraente, de boas famílias - membro da elite. Ainda brilhava no seu rosto a arrogância do aluno excelente. Tinha o sorriso desdenhoso de um sabe-tudo. Ninguém podia contradizê-lo porque tinha sempre razão. Mas quem era ele? Quem ?

 

"É o homem do Scholler, não é verdade?"

 

"Albert Haften, ajudante de Campo político, Herr General."

 

"Nunca o vi antes. Donde é você?

 

"De Frankfurt am Main."

 

"Frankfurt? Consigo quase sempre determinar a origem de uma pessoa pela inflexão da sua voz. Não foi criado em Frankfurt."

 

Passei a maior parte da vida em Berlim, Herr General.''

 

"Também não tem o acento berlinense propriamente. Há uns vestígios de qualquer outra coisa..." A frase foi dita em tom casual, mas Elliot sentiu a ameaça implícita.

 

"Uma inflexão americana, talvez, Herr General?"

 

"Sim, sim - agora que me lembrou. Talvez."

 

É muito possível", disse Elliot. Nos dois últimos anos as minhas atribuições incluíram o controle das emissões da rádio americana. Tal como o Senhor, Herr General, tenho um ouvido muito apurado para certas inflexões. Apanho uma pronúncia quase sem o notar."

 

O General de Brigada SS estendeu de súbito a mão e segurou no pulso de Elliot, procurando a veia com um dos seus dedos compridos.

 

"Pensei que fosse desmaiar", disse, "tão pálido ficou subitamente. O seu pulso está extremamente rápido."

 

"Há três noites e três dias que não durmo. Passei-os em viagem. E foi uma viagem extremamente difícil - fatigante mesmo. Contudo não vou desmaiar, Herr General. '

 

O outro soltou o pulso de Elliot.

 

Não sabia que Scholler utilizava gente do seu género. "Pensei que fossem todos uns labregos". Claro! Agora via quem ele era. Otto Ohlendorf, Chefe do SD Interno. Um dos amigos de Himmler.

 

"Há secções do departamento do Investigador Especial que mesmo o Chefe do SD Interno desconhece", disse Elliot.

 

"Acredito", respondeu Ohlendorf, tranquilamente, e depois acrescentou em tom confidencial, indicando o pátio de onde estavam a retirar os corpos dos homens executados: "Nós, não somos simplórios sem sentimentos, você e eu, pessoas com as nossas bases. Espectáculos como estes... Mesmo o Reichsfiihrer Himmler é obrigado a endurecer-se..."

 

"Assim tenho ouvido dizer."

 

"Talvez voltemos a encontrar-nos, Haften. À ceia?'"

 

"Sim, Herr General. Talvez."

 

"Joga xadrês?"

 

"Sim, Herr General."

 

"Talvez possamos jogar uma partida. Não há muito que fazer aqui. Excepto esperar. É bom... em xadrês?"

 

"Muito bom."

 

"Então temos mesmo que jogar uma partida. Se você ficar?"

 

"Sim, Herr General."

 

Ohlendorf partiu e só então Elliot notou que o cigarro que segurava entre os dedos se transformara numa coluna de cinza tremente. Deixou-a cair no chão. Depois voltou-se e caminhou lentamente pelo corredor, de regresso à sala de espera. Logo que terminou um novo cigarro, foi sentar-se outra vez no banco de pinho polido - à espera.

 

No silêncio que se fez depois da saída de Brandt, Wolff recompôs-se e, embora ainda muito branco e um pouco oscilante, disse com voz forte, "Estou pronto a acompanhar quem quer que seja desta sala até junto do Fuhrer, para lhe explicar a nossa conduta e deixar que ele julgue os nossos actos."

 

O bluff tinha sido lançado com aplomb e, durante algum tempo, ninguém na sala conseguiu nem aceitá-lo, nem encontrar uma razão convincente para o rejeitar.

 

Depois Kaltenbrunner disse, "Não é ao Fuhrer que compete ocupar-se das provas de criminalidade. O Investigador Especial do Reich tern a tarefa de investigar essas acusações e passar as suas conclusões a mais altas instâncias, para que actuem."

 

"Isto é certo", disse Himmler. "O General Wolff dará quaisquer explicações das suas actividades ao Reichskriminaldirektor."

 

Wolff aspirou fundo e, resignando-se ao seu destino, falou, por cima das cabeças de todos aqueles que o acusavam, dirigindo-se, rigidamente, a uma parede coberta de uma tapeçaria teutónica cheia de cavaleiros, e contou-lhes a sua história.

 

"O meu propósito em Berna", disse Wolff, "era criar uma situação que conduzisse a uma brecha entre os Anglo-

- Americanos e os seus aliados Soviéticos. É francamente a minha opinião que somente em tal eventualidade, a Alemanha poderá encontrar uma maneira honrosa de acabar com a guerra. Calculei que, se chegassem a Stalin provas de um acordo secreto entre nós e os americanos, segundo o qual abriríamos as nossas linhas aos Anglo-Americanos, permitindo-lhes o avanço para o Oriente..." Parou, respirando com dificuldade, momentaneamente sem fôlego para prosseguir, olhando-os, rosto por rosto, para ver até que ponto a sua história estava a ser acreditada. Não descobriu qualquer sinal de esperança. Contudo, preparando-se para um esforço final, continuou:

 

"Esta manobra já conseguiu certo êxito. Já surgiram raivosas acusações de Stalin aos americanos... e, se resultar em toda a extensão a conspiração com Dulles, haverá uma quebra com os russos. Nessa altura a Rússia voltar-se-á contra os americanos e os ingleses... Era necessário que a oferta de rendição aos Anglo-Americanos parecesse genuína. Vejo que sucedeu o mesmo com aqueles que agora me acusam. Havia esse risco inerente à manobra. Eu estava disposto a corrê-lo para bem do povo alemão."

 

Tendo feito a sua declaração, Wolff voltou-se; parecia estar acima de todos eles, já montado no seu cavalo de bronze como um herói em qualquer praça de província.

 

Os óculos de Himmler faiscavam novamente, enquanto a sua cabeça se movia, em rápidos esticões, olhando de uns para os outros.

 

"Mentiras habilidosas, mentiras habilidosas", disse Kaltenbrunner.

 

Que tem a dizer o Reichskriminaldirektor?", perguntou Himmler.

 

Scholler avançou arrastadamente e retirou lentamente uma das mãos das profundezas do bolso, para esfregar o queixo mal barbeado. Embora moderado nas suas atitudes, tinha um ar de autoridade.

 

"Sim", murmurou pensativamente, "Sim, sim..." Os seus olhos tinham um ar arguto, enquanto avaliava a situação com extrema exactidão, antes de falar.

 

As provas contra o General Wolff são completas, muito completas. Curiosamente completas. Tão perfeitas que me preocupam."

 

"Preocupam-no porquê?", perguntou Himmler.

 

"Dentro da minha experiência, Reichsfiihrer SS, como polícia, compreende, não como político -não sou político, como sabe, Reichsfiihrer - mas, como eu ia dizendo, como polícia, descobri que, sempre que há acordos secretos de natureza conspiratória ou de traição, o que vem à luz é sempre incompleto. No caso de Nebe, por exemplo. Provas muito fragmentadas, na realidade, mas convincentes no final, convincentes. No caso presente, os fragmentos ajustam-se perfeitamente - para formar o quadro completo. Demasiado perfeitamente". Sacudiu a cabeça. "Os agentes russos em Berna não são assim tão bons, não são de primeira classe. De modo algum. Mas também têm o quadro completo. Tudo. Todos os detalhes do modo como Kesselring ia abrir o Ocidente aos Aliados em troca de condições especiais. Ora eu conheço esses agentes russos em Berna, Reichsfiihrer, e sei que não são assim tão bons..."

 

Vendo o encaminhar das observações de Scholler, Kaltenbrunner interrompeu-o violentamente: "Acho que antes de continuarmos, o Reichsfiihrer deve ser informado de que você, Scholler, também teve reuniões secretas com Dulles."

 

Scholler disse calmamente: Não sou a única pessoa nesta sala, além de Wolff, a ter contactos com Dulles...", Himmler olhou para Kaltenbrunner, cuja cara enorme parecia estalar como gelo espesso; começou a falar atabalhoadamente, com a saliva a correr-lhe pelo queixo.

 

"De que está a falar?"

 

"Hottl", disse Scholler, "esteve na Suíça para tentar encontrar-se com Dulles em seu nome, Dr. Kaltenbrunner. Falou com um dos ajudantes de campo de Dulles em Zurique..."

 

"Era necessário", disse Kaltenbrunner, espumando como um cão raivoso, "chegar bem ao fundo de toda esta Schweinerer".

 

"Exactamente o meu ponto de vista", disse Scholler. "Por isso também eu achei necessário visitar Dulles."

 

"E as suas conclusões?", disse Himmler, fatigado com todas aquelas complexidades e desejando acabar com aquilo.

 

"A minha conclusão, Reichsfiihrer é que os agentes russos não são suficientemente competentes para se apoderarem deste pacto secreto, a menos que lho servissem numa bandeja. Por isso, estou inclinado a aceitar a explicação do General Wolff de que agiu para introduzir uma cunha de divisão entre os Aliados.".

 

Uma vez mais os óculos flamejantes descreveram uma série de rápidos círculos, para trás e para diante, para diante e para trás, e finalmente Himmler disse, fatigadamente: "Então? Está satisfeito, Kaltenbrunner?" "Se o meu Reichsfuhrer estiver." Himmler disse: "Sou obrigado a suportar inúmeras cargas sobre os ombros e jamais me furtei a elas. Mas isto é asssunto para a Kriminalpolizei - é ela que tem capacidade técnica para avaliar as provas de crime. Por isso, neste caso, deixar-me-ia guiar pelo Reichskriminaldirektor. Boa noite".

 

Era já demasiado tarde para regressarem a Berlim, pelo que foram preparadas acomodações para Scholler e o seu assistente pernoitarem no castelo. Neuss informou que poderiam jantar no grande hall, onde o Reichsfuhrer SS, quando não estava demasiado exausto pelo trabalho do dia, se reunia por vezes com os seus oficiais superiores. Se isso sucedesse naquela noite, convinha saberem que, uma vez que ele começasse a falar, queria que toda a gente o ouvisse. Quem continuasse a conversar enquanto o Reichsfuhrer Himmler falasse, poderia cair no seu desagrado, o que não era nada conveniente.

 

Logo que o General SS partiu, Scholler voltou-se para Elliot e disse: "Bom, cumpri a minha parte do contrato. Salvei aquele pomposo idiota do Wolff de dançar na ponta de uma corda".

 

"Então Wolff está ilibado?"

 

"De momento, está."

 

Estava frio na sala de jantar; o calor da lareira onde ardiam toros não chegava até aos oficiais sentados nas cadeiras de espaldar alto, forradas a pele de porco, que ladeavam a longa mesa de carvalho.

 

A cadeira mais alta, ao fundo, estava vazia. Dos seus espigões de madeira estava suspenso um gorjal de prata com o emblema da Caveira; a águia nazi, com as asas abertas, formava uma espécie de dossel.

 

O primeiro prato foi servido por ordenanças SS, altos e louros e luvas de pelica da mesma cor.

 

Scholler e Elliot tomaram os seus lugares. Estavam prestes a ser servidos quando tudo parou e um súbito murmúrio que começara à cabeceira da mesa se estendeu pelas cadeiras fora, silenciando um homem após outro.

 

Himmler aproximava-se, na companhia de Wolff e de Kaltenbrunner. Os oficiais puseram-se de pé e só voltaram a sentar-se quando o Reichsfuhrer SS e os seus convidados tinham tomado os seus lugares. Depois disso, a refeição prosseguiu, mas numa atmosfera indiscutivelmente mais constrangida.

 

Himmler parecia ter recuperado algumas forças. Dominava-se solenemente agora, e as suas bochechas inchadas moviam-se ritmadamente enquanto mastigava cuidadosamente a sua carne assada com batatas e ervilhas. Wolff parecia alheado e exausto, quase incapaz de aguentar a refeição, enquanto Kaltenbrunner falava incansadamente, salpicando todos os que o rodeavam com saliva, comendo muito pouco mas não parando de beber.

 

Ohlendorf não descera para jantar, o que representou um grande alívio para Elliot. Receava muito o jogo de xadrês proposto. Ser observado de perto! Durante horas! Qualquer coisa poderia traí-lo. Qualquer gesto, até. Ohlendorf não perdia nada.

 

Comeu com silenciosa gravidade, mal levantando os olhos para não induzir a conversas. Felizmente, a presença de Himmler à cabeceira da mesa desencorajava toda e qualquer conversa, com excepção das mais superficiais.

 

De vez em quando, ao levar a comida à boca, Elliot olhava para o homem dos óculos faiscantes, afundado na sua cadeira semelhante a um trono, bebendo golinhos de chá de dente-de-leão para ajudar a digestão, depois de cada dose profundamente mastigada de carne assada. A Besta em pessoa, lutando por suprimir o ar que se introduzira nos seus órgãos inchados. De vez em quando, arrotava delicadamente, por trás do guardanapo de linho branco.

 

O monstro não exalava as emanações que seriam de esperar. Elliot tinha a sensação de que os músculos tensos estrangulavam os seus movimentos, tornando-os formais e rígidos, como os de um homem que lê um discurso cuidadosamente ensaiado. A rigidez da maxila contava uma longa história; era algo que não se movia em todo o rosto. O seu mal podia ser tão simples como isso. A vontade de não ceder um milímetro. Uma certeza horrível de estar certo.

 

Cerca do final da refeição, o Dr. Brandt dirigiu-se à cabeceira da mesa e ficou à espera que Himmler o visse. O Reichsfuhrer, que terminava o seu chá de dente-de-leão, preferiu ignorar o seu expectante secretário, que tossiu uma ou duas vezes sem qualquer êxito.

 

Finalmente, reunindo toda a sua coragem, o Dr. Brandt disse, em voz baixa: "Se o Reichsfuhrer me permitisse a intrusão..."

 

Que há?" Não tinha qualquer desejo de ouvir fosse qual fosse a má notícia que Brandt lhe vinha dar.

 

"Um certo Dr. Behr, do Banco Comercial de Berna telefonou e pede para falar urgentemente com o meu Reichsfuhrer sobre um assunto da máxima importância..."

 

"Não conheço nenhum Dr. Behr..."

 

A meio da mesa Scholler, que ouvira esta conversa, começou a suar. Estava prestes a dizer algo, quando Himmler, esquecendo o seu secretário, começou a dirigir-se a toda a mesa.

 

"Quando alcançámos o poder em 33, a força policial era uma organização lamentável, atada de pés e mãos. Sempre que um polícia prendia um criminoso, tinha que ter cuidado

para não cair ele próprio sob a alçada da lei. Está de acordo, Scholler."

 

         "O Reichsfuhrer SS disse a verdade." "Os criminosos   livravam-se impunemente",   disse Himmler.

 

"Demasiadas vezes", concordou Scholler. "Nós, os Nacional Socialistas", disse Himmler, erguendo um dedo de mestre escola para toda a mesa, 'pusemo-nos ao trabalho para endireitar as coisas. Desde o princípio, parti da ideia de que o facto de a nossa acção ser contrária a qualquer parágrafo da lei, não tinha a mínima importância...", a sua voz arrastava-se. Provinham murmúrios de aprovação de ambos os lados da mesa. Himmler olhava em frente, com o rosto coberto por uma película de transpiração, os seus olhos agitavam-se por trás das lentes espessas do pince-nez, como os de um peixe apanhado no anzol. Teria acabado o que estava a dizer ou teria apenas começado? A sua boca continuava aberta, e movia-se como se tencionasse continuar, mas não saíam palavras. Contudo, seria loucura concluir, só por isso, que o Reichsfuhrer SS tinha acabado o seu discurso. Toda a gente aguardava um sinal mais positivo.

 

Por vezes, o cansaço estrangulava as cordas vocais de Himmler, tornado-as incapazes de corresponder ao comando do cérebro. Nem sempre notava o que se estava a passar. Sucedia-lhe pensar que estava a fazer um discurso, quando nada dizia. Por essa altura, aconteciam coisas deste género ao Reichsfuhrer SS. E, por vezes, também havia ocasiões, em que - a meio de uma frase - mergulhava simplesmente em si próprio, desaparecendo algures por trás dos óculos brilhantes e deixando apenas à vista a sua efígie para ser insultada ou temida conforme os casos. Era um perito neste género de desaparições, e muitos dos seus deveres tinham sido levados a cabo deste modo, in absentia.

 

O meu par era a Fraulein Buck de Kempton. Sim, Sim. Uma rapariga encantadora. Acompanhei-a a casa. Não me deu o braço, o que de certo modo, apreciei. Disse-lhe umas piadas, fartei-me de falar. Em resumo - estou a tornar-me um fala barato, um gramofone, a perder energias sem nada fazer. E isso desgosta-me! Se voltasse a haver lutas, guerras, partidas de tropas! Este género de frivolidades só me faz perder tempo...

 

Quando falavam no estrangeiro da polícia, e portanto do estado, como se estivesse em anarquia, não sabiam que apenas com actos de grande crueldade se podia extrair do nosso sangue a corrupção fatal."

 

Misteriosamente recobrara a voz; ouviram-se ruídos de aprovação provenientes da mesa.

 

"Se ignorámos as leis da pequena burguesia, foi para actuarmos em conformidade com uma lei superior, a vontade dos governantes que, diga-se o que se disser agora, será legitimada pela história..."

 

Encontrava-se agora completamente exausto e deixou-se cair na cadeira entronisada, sob as asas abertas da águia nazi. O Dr. Brandt continuava a incomodá-lo. "Meu Reichsfuhrer, se me perdoasse... O banqueiro suíço..."

 

"Pensa que tenho tempo para   banqueiros suíços, Brandt?"

 

"É acerca dos fundos suíços especiais..."

 

Os fundos suíços? Isso é com o Scholler, para que hei-de

 

fazer o trabalho dos outros, Brandt? Não tenho já encargos

 

suficientes?"

 

"Eu trato do assunto", ofereceu-se Scholler. Então, digo ao Dr. Behr que não pode falar com ele, ftieu Reichsfuhrer?"

 

"Sim, sim, sim, Brandt. Tenho que dizer o mesmo mil vezes?"

 

Levantou-se e, quase incapaz de arrastar os pés de cansaço, dirigiu-se para a cama. Eram 8.15 da noite.

 

No dia seguinte, Scholler e Elliot partiram antes do nascer do sol e, após outra jornada difícil, chegaram à Prinz Albrechtstrasse antes do meio-dia.

 

Mais uma vez Kummerl não conseguira dormir; desintegrava-se a olhos vistos. Fez o seu relatório em voz fraca.

 

Seriam necessários três camiões de duas toneladas para evacuar os arquivos "especiais" do Departamento. Tinha elaborado as requisições para esses veículos, e agradecia que o Direktor as assinasse.

 

Enquanto o fazia, Scholler perguntou: Que há quanto ao Dr. Behr?"

 

"Sobre a sua secretária estão relatórios completos das tentativas do Dr. Behr. Até agora não conseguiu contactar com as pessoas com quem desejava falar. Contudo, ao pequeno almoço, no Adlon, encontrou um antigo conhecimento, Ferdy von Niesor. Como o Senhor Direktor sabe, von Niesor conhece toda a gente. É a sua única distinção. Se me permite uma opinião pessoal, sempre o considerei um perfeito snob. Se o senhor Direktor não concorda estou, evidentemente, disposto a retirar esta afirmação."

 

"Continue, continue. Que sucedeu com von Niesor?"

 

Bem, o suíço queixou-se da impossibilidade de contactar com alguém em Berlim e von Niesor, insano membro da sociedade como é, ofereceu-se imediatamente para ver o que podia fazer."

 

"O que podia fazer? Que quer isso dizer?"

 

Vai dar uma... soirée para o Dr. Behr esta noite.''

 

Uma soiree? ", repetiu Scholler, com uma gargalhada de descrença.

 

"Sim, senhor Direktor. Tentou convidar algumas das pessoas que o Dr. Behr deseja contactar, mas até agora nada conseguiu."

 

O rosto de Scholler tornou-se sombrio. "Que desajeitado me saiu, Kummerl."

 

"O nosso homem não conseguiu evitá-lo...", disse Kummerl com voz sumida. ' 'Foi um acaso. Os dois homens encontraram-se e começaram a conversar antes que se pudesse fazer qualquer coisa."

 

Ferdinand von Niesor, depois de tomar o pequeno almoço com o Dr. Behr, regressara à sua casa em Steinplatz, cheio de inspiração. Sentia-se inundado, como um artista, pelo conceito de uma grande obra.

 

Sim, mesmo com as bombas a cair e os pagãos às portas da cidade, ele demonstraria perante a história o que era o estilo von Niesor. E, se uma das britânicas, guiada pelo destino, caísse sobre a casa da Steinplatz, que maneira haveria mais própria para Ferdinand von Niesor se despedir do mundo, do que durante uma festa?

 

No hall da sua casa, sustentado por pilares de mármore, despiu o sobretudo de gola de astrakan, tirou o chapéu, e entregou-os ao idoso lacaio, seu único servidor.

 

Abrindo as altas portas duplas, de cor creme com dourados, entrou no quarto de dormir principal, que agora também servia de sala de recepções. Na mansão de trinta salas apenas duas outras estavam ainda habitáveis - o quarto da sua filha e do velho Albert. A vida de casa centrava-se no quarto de dormir principal, dominado por um leito de quatro colunas.

 

Sobre ele, apoiado em almofadas de seda, Ferdy fazia os seus telefonemas, escrevia as suas cartas e recebia os visitantes.

 

Depois de se servir de uma grande dose de cognac matinal, da garrafa que se encontrava sobre a mesinha Luís XV que também servia de mesa de cabeceira para os seus remédios, ligou para a Condessa Schorner.

 

Quando lhe disse que ia dar "uma última ceia" na noite scginte, a alguns amigos, a Condessa emitiu um grito deliciado; as ceias de Ferdy eram sempre tão interessantes! As bombas inglesas não a incomodavam de modo algum. "A única maneira porque odiaria morrer, meu caro amigo, era de morte natural."

 

Ferdy dissera a todos; "Venham à mesma hora que os ingleses", o que significava oito horas, a hora habitual do primeiro raid da noite, mas os convidados começaram a chegar antes dos bombardeiros.

 

"Talvez não tencionem honrar-nos esta noite", disse Ferdy, lançando um olhar divertido para o céu iluminado pela lua cheia e brilhante.

 

Não era fácil chegar à casa da Steinplatz. A maior parte da área em redor estava destruída e entre as ruínas havia profundas poças de água estagnada.

 

O velho Albert estava em frente da porta principal com uma lanterna para mostrar aos convidados o caminho melhor, enquanto Ferdy e a sua bela filha, Maritza, os recebiam no quarto.

 

"Ah! Que grande prazer, meu caro Conde.,. Que honrado me sinto por ter podido vir, Herr Minister... Baronesa, há quanto tempo nos não víamos... foi muito corajoso da sua parte aceitar o meu convite..."

 

"Sabe, Ferdy, no fundo sou uma aventureira."

 

"Não me esquecerei disso, minha adorável amiga."

 

Um cheiro de naftalina misturado com o de perfumes franceses. Se numa blusa coberta de cequins faltassem alguns se numa capa bordada a diamantes houvesse falta de algumas pedras preciosas, e se o lamé negro e a organza apresentassem as rugas profundas que denunciavam a sua longa permanência no fundo das gavetas ou das arcas, nada disso se notava, e todos diziam uns aos outros que estavam maravilhosos.

 

"Ah... General! Que alegria vê-lo. Sinto-me honrado por ter podido vir. Aqui tem champagne. Um pouco de caviar. Além, patê de foie gras. Ou galinhola, se preferir... enlatada, evidentemente. Tínhamo-la posto de parte para os dias maus. Terão de se servir a si próprios. Os meus criados estão todos na Gestapo, a espreitar pela fechadura, do que, devo dizer, têm grande experiência. Assim como uma memória infalível para quaisquer pormenores escandalosos que lhes chegassem aos ouvidos. Por isso, esta noite, teremos self-service, de acordo com o Zeitgeist.''

 

Os convidados passavam por Ferdy e sentavam-se no chão ou no leito. Na sua maioria, conservavam os sobretudos vestidos, visto que a salamandra, no centro do Aubusson, não proporcionava calor suficiente.

 

No tecto, as nuvens trompe 1'oeil estavam obscurecidas pelo fumo do fogão, e tinham falhas em certos pontos, e havia apenas uma cavidade escura no local onde antigamente um círculo de lâmpadas criava a ilusão de raios solares que inundavam o céu.

 

A iluminação era principalmente proporcionada por alguns candeeiros de mesa com lâmpadas de pequena voltagem, auxiliados por velas grossas em pires. Sob o efeito desta luz mista, os rostos das pessoas apresentavam uma palidez de morte e os olhos pareciam afundados nas órbitas, o que, porém, não impedia a existência de flirts.

 

Ferdy, com o seu casaco de fumo de veludo vermelho tendo o brasão bordado a ouro no bolso esquerdo - de gravata, calçando sapatos de couro, recebia cada convidado com um delicado elogio.

 

Às nove horas, Scholler, com os bolsos descaídos como sempre, chegou em companhia do seu jovem assistente.

 

Ferdy recebeu-os tão efusivamente como aos outros.

 

"Ah... meu caro Reichskriminaldirektor. Que prazer inesperado! Fico muito honrado por ver que esta pequena festa interessa ao Investigador Especial. Dá-lhe um certo cunho, devo dizê-lo. E poupa tanto tempo saber que não é necessário convidar o Investigador Especial, porque ele vem por si próprio se estiver interessado!"

 

"O meu conselheiro político na Itália, Haften", disse Scholler.

 

Muito gosto. Ponham-se à vontade, meus senhores. Mas isso é uma coisa que não é preciso dizer-lhe, Reichskriminaldirektor. Fá-lo sempre, sem que lho recomendem."

 

Voltando-se para outro convidado que acabara de entrar, exclamou: "Ah... eis o General Fegelein! Que notícias me dá do Bunker, General? É verdade que o Fíihrer se vai tornar seu cunhado?"

 

"Que diz? Que diz?"

 

Não é verdade? Ouvi dizer que o Fíihrer ia casar com a Fraúlein Braun."

 

"Como sempre, ouviu os últimos boatos'', disse Fegelein evasivamente. Era um homem pequeno e hirsuto, com as pernas um tanto arqueadas, devido à sua antiga ocupação de joquei.

 

"Como vai a vida por lá?", perguntou-lhe alguém.

 

O Fúhrer está optimista em relação ao resultado final", disse ele.

 

"Que originalidade!"

 

"O Fúhrer ainda tem certas armas secretas em reserva."

 

Ferdy disse: "Ele pensa que quando os russos virem as nossas defesas, morrerão a rir."

 

Quando o Dr. Behr chegou, às nove e meia, tendo finalmente conseguido transporte no carro do embaixador sueco, a festa estava no auge, com cerca de trinta pessoas apertadas dentro do quarto. Piscando os olhos sobre as meias-lentes, o banqueiro viu, com espanto, senhoras da alta sociedade sentadas no chão a lamber o caviar dos dedos, enquanto os seus seios demasiados expostos eram comidos, com os olhos, evidentemente, pelos dirigentes da nação que se sentavam ao lado delas, a beber champagne directamente da garrafa e a servir-se de galinhola das latas abertas sobre a carpete.

 

Viu um velho sátiro enfiar uma mão cheia de veias pela abertura do vestido de noite de cetim preto da Condessa Schorner; observou o Barão Cleve, sentado na cama de quatro colunas, a contar histórias para homens a um grupo misto.

 

"Ah, meu caro Bernard! Que feliz me sinto por me ter inspirado esta festazinha", exclamou o dono da casa à guisa de boas vindas.

 

"Quem? Eu?", disse o Dr. Behr, cheio de espanto e horror, ao ver um velho' colega outrora Presidente do Deutsch Credit Bank, acariciando as coxas de um jovem oficial SS.

 

"Claro, claro", disse Ferdy. "Estávamos todos mergulhados num estado de apática auto-compaixão, e a sua chegada arrancou-nos dele."

 

"Não sei de que fala, Ferdy. Sinto-me honrado, mas efectivamente este tipo de festa... é pouco... pouco apropriado para esta altura."

 

"Um pouco de frivolidade não faz mal perante os portões de outras regiões", observou Ferdy, e, em seguida, com a discrição que o tornara famoso, mudou rapidamente de assunto e levou o Dr. Behr para um canto. "Tenho que mostrar-lhe o relógio que comprei na semana passada, Bernard. Um relógio Luís VII de caixa alta, a trabalhar maravilhosamente. Foi uma autêntica pechincha. Aí está... olhe!'' Orgulhoso, apontou a sua recente aquisição. "Podem-se comprar coisas absolutamente fantásticas, hoje em dia", confiou-lhe, "por um preço irrisório."

 

O Dr. Behr perguntava a si próprio se a terrível marcha dos acontecimentos não teria desregulado o espírito do seu velho amigo. Havia sem dúvida um brilho de alegria imprópria nos olhos de Ferdy. O Dr. Behr dirigiu-se-lhe severamente, sentindo que era sua obrigação trazê-lo à realidade.

 

"Estou muito preocupado, Ferdy, por você continuar a viver em Berlim. A situação torna-se cada dia pior. Cada hora! Eu não fazia ideia de que as coisas estavam tão mal. Tem que me permitir, como um dos seus mais velhos amigos, que lhe arranje, através da embaixada suíça, um visto de saída. Tem amigos em toda a parte. Na Suíça, terei muita honra em o acolher, e tem outros amigos que estariam igualmente dispostos a partilhar essa responsabilidade..."

 

"Mesmo que fosse possível, o que não é, não sonharia fazê-lo, Bernard. Esta é a minha casa. Não tenho a intenção de viver da hospitalidade dos outros nesta altura. Não, não, não. Quando os russos chegarem, oferecer-lhes-ei uma taça de champagne e o melhor caviar que me restar... Se eles se portarem indevidamente, o problema é deles. Eu portar-me-ei correctamente. Se eles me maçarem muito, sempre temos as nossas cápsulas. A esse respeito, o governo foi incaracteristicamente previdente e arranjou um amplo fornecimento. Mas chega de prognósticos lúgubres. Como vê, consegui-lhe o General SS Fegelein."

 

O rosto do Dr. Behr iluminou-se perante esta notícia. "Fegelein! Perfeito. Perfeito. É um génio, Ferdy! Absolutamente um génio. Não sei como agradecer-lhe. Como o conseguiu?"

 

"Conhecemos Fegelein há muito tempo." Ferdy baixou ligeiramente a voz. "Eu costumava mandar a Maritza aprender equitação com ele, quando ele tinha a escola. Vou apresentar-lho. Venha. É melhor irmos ter com ele. Antigamente, bastava fazer estalar os dedos e a gente como ele vinha a correr. Mas agora que está casado com a irmã da Fraúlein Braun... pode calcular." Ergueu as mãos. "C'esl la guerre."

 

Passando com dificuldade sobre os corpos estendidos e por vezes interligados dos seus convidados, Ferdy levou o Dr. Behr ao local onde o General SS Fegelein era assediado por um grupo, à sua volta, que desejava saber notícias.

 

"Ah, meu caro Fegelein", chamou Ferdy. "Dê-me um momento de atenção, seja generoso. Quero que conheça o Dr. Behr do Banco Comercial de Berna. Julgo que ele tem um assunto a discutir consigo."

 

O General SS Fegelein não estava de modo algum desinteressado em falar de negócios com banqueiros suíços; exibindo todo o baixo charme de que dispunha, inclinou-se perante os que o rodeavam e afastou-se. Sacudiu calorosamente o braço do Dr. Behr, escondendo com um sorriso rígido a súbita excitação que experimentara à ideia de que aquele encontro poderia ser-lhe proveitoso.

 

"Estou muito contente por o ter encontrado", disse o Dr. Behr. Não faz ideia dos problemas que tenho tido para chegar a alguém."

 

"O seu negócio deve ser de grande importância, uma vez que o trouxe a Berlim nesta altura", disse Fegelein, afastando cuidadosamente o banqueiro de quem quer que pudesse ouvir a sua conversa. Tendo descoberto um canto vazio, fez sinal de que estava pronto a escutar.

 

Conversavam intimamente havia cerca de 10 minutos, quando foram interrompidos pela aparição súbita, de trás de uma coluna, do Investigador Especial do Reich.

 

"Então, Fegelein'', disse ele, "o senhor e o nosso amigo banqueiro suíço parecem dois ladrões."

 

"Oh, de maneira nenhuma", começou ele a protestar, "estávamos apenas a falar de coisas sem importância."

 

"Veio até Berlim, Dr. Behr, nesta altura, para falar de coisas sem importância?"

 

"Sabe muito bem porque estou em Berlim, Herr Direktor."

 

"Nunca imaginei que viesse tratar do assunto pessoalmente, Dr. Behr."

 

"Há um assunto que tomei a liberdade de pôr ao General Fegelein."

 

"Sim?", disse Scholler, e conseguiu pôr tanta suspeita naquele monossílalo, implicando toda uma série de possíveis crimes contra o Estado (todos eles puníveis com a morte) em que o banqueiro suíço e o Oficial de Ligação SS do Fúhrer pudessem conspirar, que Fegelein começou a tremer.

 

"Nada de especial, Scholler. Uma simples consulta, não é, Dr. Behr?", disse Fegelein rapidamente, e, como a demonstrar a pouca importância do assunto, começou a afartar-se. O Dr. Behr tentou detê-lo. "Falaremos noutra altura", disse Fegelein vagamente.

 

Podíamos marcar um encontro? Como sabe, não se pode contar com os telefones."

 

"Se posso prestar-lhe algum pequeno serviço, Dr. Behr, terei muito gosto em recebê-lo amanhã, às 11 horas, no meu escritório, na Chancelaria do Reich."

 

"Fico-lhe grato, General."

 

"De nada. De nada."

 

Elliot ficara separado de Scholler logo após a sua chegada.

 

Ao lado do Investigador Especial do Reich, ninguém prestava atenção ao seu assistente. Era apenas um apêndice do outro homem. Mas agora era alguém a considerar em separado.

 

Pelos olhares e acenos secretos e pelo movimento significativo dos olhos, o reconhecimento da sua presença era passado dumas pessoas para as outras. Elliot sentiu a mistura de desagrado e medo com que o olhavam. Sentia-se estranho - não era ele próprio.

 

Quem imaginaria que ele podia ser tão convincente no seu papel? Como pareciam aceitá-lo tão completamente como polícia secreto!

 

Podia compreendê-lo através da maneira por que o faziam sentir-se - não humano.

 

Oh, que diabo! Devia sentir-se satisfeito por tudo estar a correr bem. Eles tinham medo dele. OK, óptimo. Posso soprar-lhes para o pescoço efazê-los estremecer. Uma vez que não era ele próprio a fazê-lo, podia obter uma cáustica satisfação em assustar aqueles malandros.

 

Todos conversavam, passeavam, flirtavam, dando largas ao seu pesado sentido de humor alemão.

 

Introduzindo-se num dos grupos, ouviu-os falar do desempenho da Filarmónica de Berlim, alguns dias antes. Uma mulher de rosto totalmente reconstituído (apenas pó de arroz, baton, sombra e pintura nos olhos) observou que considerava de gosto duvidoso a abertura do concerto com a final do Gotterdammerung. Logo que notaram Elliot, a conversa parou abruptamente.

 

Tentou outro local. Naquele círculo falavam de cabeleireiros, indicando os que ainda existiam.

 

"Mas eu julgava que tinham destruído o Alphons há algumas semanas!"

 

"Reabriu numa cave. Garanto-lhe que os preços são exorbitantes!"

 

Elliot continuou a passear em círculos. Ninguém falava com ele. As pessoas afastavam-se quando se aproximava.

 

Sentia o rosto tornar-se rígido, e os olhos duros. Era preciso. Seria incorrecto sorrir facilmente. Em vez disso, pôs-se a beber. Ajudava-o a manter a máscara e o comportamento em geral. O álcool congelou-lhe a expressão adequada.

 

Era muito estranho ser receado daquele modo, ver as pessoas afastarem-se quando se aproximava. Pensou como se sentiria se fosse realmente ele que todos receavam.

 

Olhou para as pessoas com um frio olhar oficial. Portavam-se como se não soubessem que estavam condenadas. Mas podia notar que não passavam de máscaras da morte. Isto fê-lo sorrir com a superioridade dos vivos que beberam um pouco a mais.

 

A única pessoa viva naquela sala era a filha do dono da casa. Continuou a olhá-la. Era bonita. Gostaria de lhe tocar, de ter um breve contacto com outra pessoa viva. Se ao menos pudesse tocar-lhe.

 

Evidentemente, era mais inteligente conservar-se só, não falar com pessoa alguma. Havia menos hipóteses de se trair. Logo que abria a boca, corria perigo. De vez em quando, notando que ele a olhava, ela sustentava o seu olhar e pareceu-lhe notar certo interesse nos olhos dela. O seu olhar aquecia-o, no momento em que começava a sentir-se tão morto como o seu cargo exigia.

 

Fez outro circuito fútil pela sala, chocando com alguns daqueles idiotas. O facto de eles se encolherem quando lhe tocavam fê-lo sentir-se como eles - condenado. Não conseguia que tal gente lhe transmitisse um calor que o restaurasse. Só aquela rapariga... Havia nela uma vitalidade febril, que quase se podia ver. Fumava continuamente, inalando e expirando o fumo, como se tivesse pressa de acabar o cigarro e começar outro. Tudo nela se revelava pressa. O riso. Os olhares. Os movimentos. Dava a ideia de não ter tempo suficiente.

 

Tinha que falar com ela. Bebeu um pouco mais de champagne, directamente da garrafa, como os outros faziam. Cheio de coragem, avançou para a rapariga. És estúpido estúpido, disse a si próprio, mas continuou. Pronto, pensou, vou tentar - ver se consigo... Não sabia o que havia de dizer-lhe, mas quando se aproximou já não podia afastar-se e começou a representar o seu papel. Contou-lhe uma anedota, uma anedota anti-hitleriana. Não tinha muita graça e ele contou-a mal, mas ela riu-se, e ele disse-lhe - outra graça que ela era imprudente por se rir daquelas anedotas, porque era proibido fazê-lo. Era sempre assim tão imprudente? E noutras coisas também?

 

O que o leva a pensar que me ri da sua anedota? O personagem que ele deveria ser, disse: Sei tudo a seu respeito".

 

Não sabia o que aquilo queria dizer, mas pensou que seria talvez uma maneira de se aproximar dela, de entrar rapidamente na vida dela, antes que lhe fossem postos muitos obstáculos no caminho.

 

"Vocês sabem tudo sobre toda a gente, não é verdade?" Há vantagens nisso'', disse ele, tentando falar com uma leviandade que não conseguiu.

 

Ela olhou-o. "Você trabalha com Scholler?" Elliot fingiu um mistério, com o intuito de flirtar com ela. "Que lhe parece?"

 

"Qualquer pessoa pode ver que sim", disse ela. "Tudo em si o indica."

 

"Tudo o quê?... Diga-me."

 

"Tenho que o fazer? Vai forçar-me a fazê-lo? Tem ar de saber tudo", disse ela.

 

Nesse caso", disse ele, permita-me que lhe diga o que sei a seu respeito."

 

"Que sabe a meu respeito?"

 

"Que é bela, e imprudente. Que ri de piadas desrespeitosas para o Fiihrer - um crime punível com a morte''.

 

Sorriu. "Daí concluo que se coloca sob o poder de outrem e está disposta a pagar o preço."

 

Uma vez que não era ele próprio, estava livre das peias da sua própria natureza.

 

"Nada sabe a meu respeito."

 

"Quero saber tudo."

 

Ela sorriu e olhou friamente para a mão ainda posta no seu braço.

 

"Outra coisa que marca as pessoas do seu género... estão sempre a deter as pessoas contra a sua vontade."

 

"É livre de partir", disse ele, tirando a mão imediatamente.

 

"Oh, é demasiado generoso!"

 

"Não queria dizer... Evidentemente, pode ir-se embora. Só falava porque... porque..."

 

"O quê? Você é como o seu chefe, chega onde pode."

 

"Não sou nada como ele", disse. "Absolutamente nada".

 

Pensa que tem entrada em toda a parte'', continuou ela acusadoramente. "Por causa da sua posição."

 

"Profissionalmente", disse ele, "é necessário."

 

"Até julga que pode misturar-se com gente como nós."

 

Elliot olhou em volta com certa consternação, incapaz de localizar exactamente a causa da raiva dela contra ele. Nada tinha feito. Só falara com ela. Viu Scholler que se movimentava livremente entre os convidados, e ela seguiu-lhe o olhar.

 

"Veja como ele está à vontade, o seu chefe.''

 

"Sim, tem o ar de uma visita regular", concordou Elliot, "Embora não esteja exactamente no seu meio."

 

Ela soltou uma gargalhada irónica. "Não, não está no seu meio", concordou. "Sabe o que significava outrora ser-se convidado desta casa? Era como ser armado cavaleiro. Escritores proeminentes, músicos, diplomatas, políticos, todos aguardavam - ansiosamente - um convite. E agora qualquer rufia da polícia pode entrar e marchar por aí com as suas botas sujas... Fazem-se grandes e importantes, têm poder para tudo. Passes de viagem. Vistos de saída que nunca se materializam. Arranjam-nos gasolina. Cigarros. Ou comida extra. Ou libertam um irmão, ou um pai ou uma filha do Plotzensee ou da Lehrter Strasse. Tiram alguém duma lista e colocam-no noutra."

 

"Ele serviu-se da sua posição consigo?", perguntou Elliot, sentindo uma súbita náusea. "Scholler?"

 

Usa a sua posição com todos, não é assim? Tal como todos vós."

 

"Consentiu-lho?"

 

Vai-se apredendo o que é preciso fazer para existir.'' Ela olhava em volta, observando com desgosto as inúmeras latas abertas, as garrafas vazias e os bêbados pelo chão. Sem criados para fazer a limpeza, a sala, apesar da mobília Luís XV, aproximava-se rapidamente de uma pocilga. "Tenho que sair daqui", disse ela subitamente. "De Berlim?"

 

"De Berlim!", riu-se. "Quem pode sair de Berlim? Queria dizer desta casa. Faz-me sentir doente." "Para onde vai?" "Há o resto da casa." "Vou consigo."

 

Ela encolheu os ombros como se não lhe interessasse que ele a seguisse. Lá fora, no patamar sem luz, a escada subia em curva. Movendo-se entre caliça, à procura do caminho, ele disse, "É seguro?"

 

"Não sei.", disse ela. "Que importa?" E acrescentou. "Não precisa de seguir-me."

 

Mas foi sempre olhando em volta para ver se ele a seguia e, se ele parecia hesitar, demorando-se um pouco, ou tateando no escuro, soltava uma gargalhada de troça que o fazia avançar, que o tornava imprudente também.

 

Apanhou-a numa sala do andar superior.

 

Enquanto olhavam em volta, ambos ao mesmo tempo, aperceberam-se de dois vultos numa bergère Luís XV, cuja seda se encontrava rasgada em diversos sítios, deixando ver a crina de cavalo. Estavam cobertos com um capote do exército, mas os seus movimentos bruscos estavam prestes a afastá-lo. Quando o capote caiu, umas pernas femininas, contraindo-se subitamente como uma maxila mecânica, fecharam-se em volta de umas ancas masculinas. Os esticões frenéticos faziam estremecer a frágil peça de mobiliário como se fosse quebrar-se.

 

Enquanto se afastavam, Elliot estendeu o braço para agarrar o da rapariga, mas ela chegou-se para o lado. A sala do lado estava tão danificada que a abertura do tecto deixava penetrar o luar. Ela ficou muito quieta. Ele via-a respirar, como se nunca tivesse visto alguém respirar. Ela estava viva e até gostava da sua raiva, visto que não lhe era dirigida a ele, mas sim à pessoa que fingia ser. Sorriu-lhe e tentou aproximar-se dela, dando pontapés, manhosamente, no entulho do chão, até que ficou mesmo junto dela. Sabia que, se conseguisse beijá-la, sentir-se-ia vivo de novo.

 

Disse então, "Olhe, acha que...". Abruptamente, inclinando-se, beijou-a na boca, violentamente, porque o fazia num assomo de coragem. Ela lutou para o afastar e ele largou-a, relutantemente.

 

"Lá porque se intromete em tudo, julga que pode intrometer-se também comigo. Julga que pode possuir-me como uma criadita no escuro..."

 

Ele disse: "Desculpe... foi... foi um erro."

 

Acendeu um cigarro, e, em seguida, pedindo-lhe desculpa, ofereceu-lhe outro; ela aceitou e ele acendeu-lho, com as mãos em concha para as impedir de tremer. Sorriu-lhe, para mostrar que não tinha tido más intenções.

 

"Tornou-se tímido, de súbito", disse ela, examinando-o com um olhar frio. "Se a força não resulta, tenta a manha? Vai oferecer-se para me salvar a vida? Como todos eles. Documentos para me fazer sair de Berlim. Se eu não me mexer, se abrir as pernas. Que me custa isso, afinal? Uma coisa tão pequena em troca de me permitirem que continue a viver. Só uns momentos no escuro, hem?"

 

Pare com isso", disse ele, ferido pelo seu desprezo.

 

"Um membro da polícia secreta tão sensível?". O tom irónico já não tinha tanta segurança, agora. Sentia-se desorientada perante ele.

 

"Não vê que não sou como os outros?", perguntou ele. "'Não vejo a diferença."

 

"Olhe para mim, olhe para mim..."

 

' 'Não vejo qualquer diferença", disse ela definitivamente.

 

Ele sentiu-se chocado. Violentamente, começou a dizer: "Fala de documentos, documentos para sair de Berlim. Está bem. Está bem. Eu arranjo-lhos". Os seus olhos brilhavam; estava transportado de entusiasmo pela promessa que lhe fazia.

 

"Você arranja-mos?", ela começou a rir. "Arranjo-lhos."

 

Julga que não ouvi já isso antes? Tenho 22 anos. Já vivi seis anos da guerra..."

 

' 'Já lhe disse que não sou como os outros.''

 

"Bebeu champagne de mais", disse ela. Os olhos dele pareciam os de um ébrio - embora se aguentasse firmemente.

 

"Sei o que estou a dizer."

 

"Arranja-me os documentos". Ela riu-se dele, de novo. "E como faz isso?".

 

"Por intermédio de Scholler."

 

"Por intermédio de Scholler!". Esta frase pareceu aumentar o seu amargo divertimento.'Porque pensa que ele o faria? Por bondade? Eu não consegui arrancar-lhos..."

 

"Eu consigo."

 

Parecia tão seguro, como todos os outros da sua profissão.

 

"Oh, você tem qualquer poder sobre ele", disse ela. "É assim que o sistema funciona, não é? Toda a gente tem um motivo para obrigar os outros. Mas garanto-lhe... seja o que quer que você tenha, não basta. Eu conheço Scholler. Já é demasiado tarde."

 

Ele fará o que eu quiser, disse Elliot.

 

Tem que o fazer? Tem que o fazer? Quem é você?'' "Não importa."

 

A um quarto para as onze, Fegelein disse que tinha de partir. O Fiihrer não gostava que o seu pessoal imediatamente inferior deixasse o Bunker durante muito tempo. Poder-se-ia tornar suspeito chamar alguém e esse alguém não estar presente. Mas não se podia estar sempre "lá!".

 

Ferdy acompanhou-o à porta. Os bombardeiros britânicos ainda não tinham vindo e, no blackout, a cidade mal parecia respirar, como um enorme animal mortalmente ferido, caído no escuro, aguardando o golpe de misericórdia.

 

O General SS começou a caminhar rapidamente por entre o entulho, com o seu andar de joquei, um pouco gingão, dirigindo-se para o carro que o aguardava. O luar, passando pelas aberturas dos prédios destruídos, caía, como uma iluminação teatral, sobre as poças de água, os bocados de alvenaria, a mistura confusa de ferros retorcidos, as estátuas caídas. Uma maciça águia do Terceiro Reich, que encimara um edifício público, jazia, despedaçada no solo, como uma relíquia do passado.

 

"Fegelein!"

 

O General SS voltou-se e deparou com Scholler a curta distância. Como aqueles porcos rastejam sem ruído!

 

"Quero dizer-lhe uma palavra, Fegelein", disse Scholler.

 

Aqui?Fegelein encontrava-se a igual distância da casa e do seu carro. O motorista saíra, com uma metralhadora na mão.

 

"Sim", disse Scholler. "Aqui serve." "Então?"

 

"Groenlândia", disse Scholler em tom pensativo. "Porquê Groenlândia?"

 

O pequeno ex-joquei sentiu um estremecimento incontrolável do lábio superior em consequência de uma tentativa de sorriso que saíra errada. Pensou melhor e franziu o sobrolho. O suor brilhava sobre o lábio superior.

 

"De que está a falar?", disse, exibindo toda a autoridade bruta da sua posição.

 

"De todos os planos de fuga que tenho descoberto nas últimas semanas'', disse Scholler, ' 'o seu é o mais., infantil, Mas suponho que tinha algumas possibilidades de resultar. Com o Werner Steincke para o transportar dali para o norte da Noruega no hidroavião. Vejo que já tinha preparado muito equipamento. Espingardas. Barcos. Skis. Tendas. Granadas de mão para pescar. Uma boa dose de comida enlatada e seca. Remédios. Poderia resultar, se gostasse de viver como os Esquimós."

 

Fegelein começa a sentir a respiração afectada pelo pânico. Os seus olhos passavam rapidamente de Scholler para o motorista/guarda-costas.

 

"Não ganha nada em mandar o seu homem abater-me. Todas as provas estão no meu cofre. Além disso, eu também estou armado e provavelmente atiro melhor que ele. Por isso, acalme-se, Fegelein, e oiça-me."

 

"Planos de contingência", disse Fegelein, tendo recuperado certo auto-controle. ' 'Para o caso de o Fíihrer querer...''

 

''Mas o Fúhrer sempre deixou bem claro que não tenciona continuar a viver num mundo que não tenha provado ser digno da sua grandeza."

 

"Só preparei a possibilidade...", começou Fegelein.

 

"De se poder escapar quando ele não estivesse a olhar? Julgo que ele quererá companhia na sua última viagem. Deve querer toda a família à sua volta."

 

"Se vai prender-me, Scholler, devo dizer-lhe que..."

 

"Porque pensa que vou prendê-lo, Fegelein? Estamos apenas a conversar."

 

"Estamos?", disse Fegelein com um ar de incompreensão.

 

"O mal da Groenlândia", disse Scholler, "é que não se pode viver lá eternamente. Se não morre-se na mesma. Evidentemente, esconder-se durante algum tempo num daqueles fiords gelados faz sentido. Mais tarde, partir de hidroavião para Espanha ou Portugal. E daí, de barco para a América do Sul... Sim, sim. É infantil, mas é possível. Contudo, é preciso dinheiro. Para arranjar o transporte para a América do Sul e um visto de entrada sem que lhe façam perguntas. Eu sei qual é o preço actual e não tem tanto dinheiro, Fegelein. Pois não?"

 

"Não discuto consigo, uma vez que sabe tanto a meu respeito."

 

"Há alturas", disse Scholler, "em que as pessoas como nós, Fegelein, têm de unir-se. Não é verdade?"

 

"É verdade, Scholler."

 

"Cada um por si, sim. Por outro lado, se nos pudermos entreajudar..."

 

"Não podia estar mais de acordo consigo."

 

"Se o Fúhrer e o resto deles todos quiserem morrer no meio das chamas, não vamos estragar-lhes o seu flamejante final. Mas não precisamos de nos apressar a seguir as suas pisadas."

 

Sou da mesma opinião", disse Fegelein, desconfiando do Investigador, suspeitando de que ele estivesse a actuar como agente de provocação, para o apanhar. Mas não havia ali ninguém para ouvir a conversa deles, e para quê apanhá-lo em falta, se já dispunha de tantas provas, de todos os detalhes do seu plano de fuga?

 

"Quero ajudá-lo, Fegelein", propôs Scholler.

 

"Fico - naturalmente - muito satisfeito por saber isso. Contudo..."

 

"Uma vez que estamos de acordo, os detalhes do seu plano permanecerão no meu cofre, e não será detido quando fizer a sua tentativa de fuga."

 

"Isso é extremamente simpático da sua parte... Não esquecerei tal..."

 

Eu sei que não esquecerá. E farei mais. Vai precisar de dinheiro. E de amigos, se conseguir escapar. Um homem casado com a irmão de Eva Braun é capaz de estar exposto a certo interesse público. Hão-de procurá-lo. Podem mesmo pensar em procurá-lo na Groenlândia. Não deve ficar por lá muito tempo. Vou tratar de mandar depositar duzentos mil francos suíços na sua conta bancária na Suíça."

 

Fegelein não sabia que dizer. Não era um homem excepcionalmente inteligente. Havia quem dissesse que, enquanto fora joquei, tinha caído demasiadas vezes do cavalo.

 

"Afinal não se devem abandonar os confrades em desgraça", disse Scholler.

 

"Ouso dizer que também compartilhei sempre inteiramente desses sentimentos."

 

"Sim? O meu estudo do seu dossier revelou-me que possui um forte sentido de auto-interesse. O casamento com a irmão de Fraulein Braun foi um bom golpe, na altura. Como poderia prever as desvantagens? Considerando tudo isto, penso que terá uma ideia realista do pequeno favor que lhe vou pedir. Apenas uma assinatura."

 

No seu pânico, Fegelein ainda não tinha conseguido ligar Scholler àquilo que o Dr. Behr principiara a dizer-lhe. Mas agora entendia tudo.

 

"Amanhã, quando o Dr. Behr for vê-lo, assinará o papelinho, não é verdade? E deixará o pobre homem regressar ao seio da sua família antes que fique feito em bocados.''

 

"Mas isso seria participar numa tremenda fraude", protestou Fegelein, percebendo finalmente o que se passava.

 

"Sim", concordou Scholler suavemente. "Posso então contar consigo?"

 

Fegelein começou a fazer funcionar nervosamente o seu cérebro um pouco lento, tentando apreender as implicações daquilo em que iria meter-se.

 

"Mas se for descoberto?", disse.

 

Já estará na Groenlândia, nessa altura, ou onde lhe apetecer. Fegelein, deixe de pensar! Não é a sua especialidade. Garanto-lhe que não pode escolher. Se se recusa a assinar, considerarei meu dever apresentar ao Fiihrer as provas do seu plano de fuga."

 

"Eu não recuso, Scholler. Por favor, não pense que eu estou a recusar. Não, não. De modo algum. De facto, uma vez que põe as coisas nesse pé, vou mesmo ao ponto de dizer que concordo. Concordo. Sim. Como vê,   concordo..."

 

Parecia surpreendido consigo próprio.

 

"Óptimo. Óptimo. Mas desde já o aviso, se mudar de ideias, mesmo que saia da Chancelaria, em cada bloqueio de estrada à saída de Berlim haverá ordens para o prender. As nossas defesas contra os russos podem ser praticamente inexistentes, mas existe uma rede de ferro em volta da cidade, para impedir a nossa própria gente de fugir."

 

"Eu concordei, Scholler. Não lhe disse já?"

 

O dinheiro será depositado na sua conta do banco suíço, UL 959 K 32. Está certo?"

 

"Como sempre."

 

O outro assunto de que o Dr, Behr lhe queria falar, qual era?"

 

"Os prisioneiros especiais."

 

"E então?"

 

"Incluem, como sabe, dois parentes de Churchill."

 

"Além de Léon Blum, Schuschnigg, etc."

 

"Exactamente."

 

"Qual é o interesse do Dr. Behr?"

 

"Alguns dos seus accionistas, diz ele, estão preocupados com as vidas desses homens. Receiam que os tenhamos transportado para Niederdorf para os usar como reféns..."

 

"Não foi mal pensado. Que quer ele?"

 

"Certa garantia, para os seus accionistas, de que não se fará mal a esses homens."

 

"Caso contrário?"

 

' 'Os seus accionistas e directores estão presentemente a considerar um pedido oficial das potências Aliadas para congelar as contas alemãs abertas na Suíça durante a guerra, dependendo da investigação das fontes desses fundos especiais."

 

'' Uumm. O Dr. Behr não é tão tolo como parece."

 

"Claro que não."

 

Fará o que puder por ele, não é verdade, Fegelein? Não queremos que esses fundos sejam congelados."

 

"Não, não, claro que não."

 

"Então o nosso negócio está fechado?" ;

 

"Fechado."

 

Sem pensar (na concomitância automática da aprovação e dos acordos), a mão de Fegelein ergueu-se e ele gritou: Heil Hitler!"

 

Terá que se ver livre desse hábito", disse Scholler.

 

O General de Brigada SS Oswald Stapplemann, Chefe da Administração do Orçamento dos SS, era um homem bochechudo, quase sem pescoço, com uma cabeça grande e redonda colocada, como uma pedra, sobre o colarinho rígido do uniforme. Era um homem metódico e, mesmo numa altura daquelas seguia o princípio de não deixar amontoar a papelada. Por muito que ela subisse, procurava sempre despachá-la, trabalhando longas horas e levando todas as noites para casa duas malas cheias.

 

Homem algum estava tão a par dos meandros da administração dos SS. E isso não era um feito vulgar, pois todos os dias eram emitidas novas ordens e regulamentos que anulavam os anteriores. Tinha que estar a par da validade de uma ordem se, por exemplo, a pessoa que a emitira viesse a ser executada por um dos muitos crimes contra o Estado que eram puníveis com a morte. A execução nem sempre invalidava a ordem, só em certas circunstâncias.

 

Stapplemann estava a par de todos estes assuntos. Os documentos oficiais caíam sobre ele como um dilúvio diário, exigindo a sua assinatura e o seu carimbo de autorização, sem os quais o dinheiro não podia ser pago, quer se tratasse de transportar judeus ou de mobilar de novo um dos castelos do Reichsfuhrer SS Himmler.

 

Mas, embora Stapplemann conhecesse centenas de tipos de requisições, autorizações, transferências especiais, vales de despesas do fundo secreto, e outros, nunca vira coisa alguma como o pedaço de papel que fora colocado na sua frente pelo banqueiro suíço Dr. Behr. Um levantamento de quatro milhões de Francos Suíços, assinado pelo Investigador Especial do Reich, Ernst Scholler, tendo por baixo a assinatura do Oficial de Ligação SS do Fiihrer, o General SS Fegelein.

 

Havia uma linha penteada onde deveria ser aposta outra assinatura. Aparentemente a sua.

 

Mas como poderia saber se era a pessoa indicada para autorizar aquilo? Havia três minutos que abanava a cabeça, em desaprovação, enquanto observava o papel colocado na sua frente, pegando-lhe com a ponta dos dedos, como se estivesse sujo.

 

Não era a quantidade de dinheiro que o perturbava. Ao longo dos anos tinha autorizado dispêndios de muitos milhões de Marcos sem um estremecimento, desde que os impressos a solicitá-los estivessem devidamente preenchidos e fossem avalisados pelos chefes dos departamentos respectivos, de maneira regulamentar. Não lhe competia saber a que fim o dinheiro se destinava, só era preciso certificar-se de que os diversos departamentos não excediam os seus orçamentos ou, se os excedessem, de que obtinham uma dispensa especial para o fazerem. Também lhe competia verificar se os departamentos dos SS eram defraudados, quer por lhes serem debatidas mercadorias ou serviços por valores superiores, quer por alguém meter dinheiro no bolso. Stapplemann tinha um olho de águia para localizar um lucro excessivo ou o custo de um orçamento indevidamente descriminado.

 

Erguendo o olhar para o banqueiro suíço, Stapplemann disse finalmente, Lamento não conhecer o processo a que se refere. Terei de obter mais instruções."

 

"Com certeza", disse o Dr. Behr, "mas confio em que não leverá muito tempo... Tenho muita pressa."

 

Stapplemann levantou as mãos, como que a dizer que, hoje em dia, ninguém sabia quanto tempo uma coisa iria levar. Voltou a franzir o sobrolho e a estudar a folha de papel. Evidentemente, não era aconselhável fazer esperar o Investigador Especial do Reich e o Oficial de Ligação do Fiihrer. Podiam pensar que ele não desempenhava devidamente o seu cargo se não sabia lidar com uma coisa daquelas.

 

A quem poderia perguntar? O Reichsfíihrer Himmler pocieria ficar altamente irritado se o consultassem sobre um assunto administrativo, no momento actual do seu destino. Desperdiçar o seu tempo era uma ofensa contra o Estado, tanto mais que obstruía a defesa do Reich. Não se recordava se ser obstrucionista era punível ou não com a morte, mas era coisa grave. Contudo, o seu instinto burocrático dizia-lhe que aquilo não devia ser tratado muito rapidamente, para o caso de alguma coisa não estar correcta. Atrasar era tudo o que havia a fazer. Quando havia dúvidas, era a única coisa a fazer, mesmo.

 

"Se me deixasse este impresso, Dr. Behr", disse Stapplemann, "eu tratava do assunto o mais depressa possível."

 

"Volto amanhã de manhã."

 

"Amanhã de manhã?", disse Stapplemann aterrorizado por ficar sujeito a tal pressão, e depois suspirou fatigadamente, como um homem habituado a estar sobrecarregado. "Muito bem", disse, "muito bem. Tentarei já ter todas as informações amanhã, então. Mas não posso prometer."

 

Depois de o Dr. Behr sair, Stapplemann meteu um comprimido de Preventin na boca para lhe dar energia extra para enfrentar aquele problema. Era evidente que teria de obter instruções de qualquer pessoa. Sem instruções, Stapplemann sentia-se perdido, à mercê de emoções e pensamentos descontrolados e contraditórios. Como primeira medida, decidiu pedir ao seu secretário que lhe trouxesse todas as regras e regulamentos, com as respectivas alterações, relacionadas com os fundos especiais Ausland.

 

"Levo tudo para casa esta noite", decidiu, "e vou ver o que há."

 

Uma pancada na porta. O seu ajudante introduziu a cabeça para avisar que o Investigador Especial do Reich estava lá fora, e desejava falar imediatamente com o Chefe da Administração do Orçamento.

 

"Muito bem, muito bem. Peça-lhe que entre", disse Stapplemann, decidindo que não era aconselhável negar-se às exigências invariavelmente arbitrárias do Investigador - talvez obtivesse qualquer esclarecimento, através daquela entrevista.

 

Quando Scholler entrou, Stapplemann pôs-se de pé, fez-lhe solenemente a saudação hitleriana, e perguntou: "Em que posso servir o Investigador Especial do Reich?"

 

"Sente-se...", disse Scholler, sentando-se igualmente. Stapplemann imitou-o.

 

Recebeu uma visita do director de assuntos estrangeiros do Banco Comercial de Berna, o Dr. Behr."

 

Como sempre, o investigador Especial está notavelmente bem informado."

 

"Ele conseguiu resolver o seu negócio consigo?" "Não totalmente." "Que significa isso?"

 

"Que preciso de assegurar-me de que tenho a autoridade necessária para fazer o que ele me pede." "Tem, Stapplemann."

Preciso de provar a mim mesmo que a tenho.'' "Estou a dizer-lhe que a tem. Eu próprio pus o seu nome na lista das vinte pessoas que podem autorizar o levantamento do fundo especial."

 

"Não tinha conhecimento disso." "Não havia necessidade de o informar." "Mas, se me pedem que autorize essa questão... o levantamento de quatro milhões de francos suíços, eu devia saber que tenho autoridade para dar tal autorização", argumentou ele com uma lógica pedante que pareceu aborrecer o Investigador.

 

"Errado."

 

"Não consigo seguir a linha exacta do pensamento do Investigador   Especial",   protestou   Stapplemann   acade-tnicamente, perguntando a si próprio em que ponto era habitual abandonar a conversa e recorrer à "pressão física". Os seus próprios guarda-costas armados estavam lá fora, o seu ajudante tinha duas pistolas carregadas, o seu secretário andava armado, assim como o próprio Stapplemann, mas era difícil saber até que ponto o Investigador Especial do Reich ultrapassava a sua autoridade ou estava dentro dela... podia-se ser vencido legitimamente e, nesse caso, seria ilegítimo oferecer resistência. Por outro lado...

 

Eu autorizo-o a assinar essa autorização", disse Scholler bruscamente.

 

Stapplemann ponderou a questão.

 

"Tem a minha assinatura", disse Scholler, "e tem a assinatura do Oficial SS de Ligação do Fúhrer. Isso deve bastar-lhe."

 

"Se o Investigador Especial me permite, gostaria de recordar-lhe que é um princípio geral que, quando uma autorização exige mais do que uma assinatura, para ser efectiva, o signatário superior não pode ordenar ao inferior que assine."

 

"Pode, raios o partam!"

 

"Se o Investigador Especial o afirma..."

 

"Afirmo-o."

 

"Uma vez que parece haver uma diferença de opinião quanto ao modo correcto de procedimento, terei que consultar o Reichsfiihrer Himmler a este respeito."

 

"Não é necessário."

 

"Lamento discordar."

 

Não o aconselho a telefonar-lhe ou a contactar com ele de qualquer modo. A sua saúde não vai bem e este caso é capaz de o aborrecer."

 

"Porque havia de aborrecê-lo?"

 

"É capaz de ter os seus próprios planos quanto ao uso desse dinheiro."

 

"Mas, nesse caso", disse Stapplemann, horrorizado perante a ideia de que alguém pudesse pensar ir contra os desejos do Reichsfuhrer SS, "...nesse caso o dinheiro não pode de modo algum ser levantado."

 

"O estado de saúde do Reichsfuhrer Himmler significa que ele não pode tomar todas as decisões que precisam de ser tomadas nesta altura. Por isso eu tomo algumas por ele. Compreende?"

 

"Mas não existe absolutamente precedente algum para..."

 

O Investigador Especial estava a ficar cada vez mais impaciente com o pedantismo do Chefe da Administração do Orçamento.

 

"Se eu desse a ordem ao meu assistente que está lá fora para pegar na pistola e matá-lo, Stapplemann, por ser um obstruccionista, também não haveria precedentes, mas o senhor estaria morto, de qualquer modo."

 

Scholler abriu a porta e indicou o seu jovem ajudante, sentado no banco de pinho polido, vestido com um longo sobretudo castanho e usando um chapéu mole. Havia uma pequena pilha de pontas de cigarro entre os seus pés, apesar do letreiro que dizia: "É proibido fumar". Olhos claros de um azul acinzentado. Um jovem vulgar. O Administrador do Orçamento nunca o tinha visto. Não era o tipo vulgar do assassino. Não era o rufião habitual. Um rosto aberto - decerto enganador. As feições rígidas e os olhos frios que não se desviavam, falavam indubitavelmente da sua vocação.

 

Elliot olhou directamente para o Administrador enquanto procurava o maço de cigarros dentro do bolso superior.

 

Scholler fechou a porta de novo.

 

O Administrador tremia.

 

"Um acto desses seria absolutamente... absolutamente falho de legitimidade". O rosto bochechudo do Administrador estava vermelho de agitação, o seu peito arfava, a gordura em excesso comprimia-se contra os botões apertados e o talabarte. As suas maxilas fecharam-se como as de uma criança teimosa e amuada, os lábios fortemente apertados, a face rígida.

 

"Estou espantado... espantado, devo dizer... por ser sujeito a um acto de terror tão ilegítima e desautorizadamente. Qualquer pessoa pensaria que o Investigador Especial do Reich pretende roubar o dinheiro..."

 

"Compreendeu, Stapplemann, finalmente."

 

O Administrador não podia crer nos seus ouvidos. Era o próprio Reichskriminaldirektor que propunha...

 

"Corrigir-me-á se eu estiver errado, mas pensei..."

 

"Não está enganado."

 

"Está a pedir-me que autorize um acto criminoso."

 

"Terá o seu quinhão."

 

"Receio que o Investigador Especial esteja enganado. Eu não sou desonesto..."

 

"Que pensa que sucederá à sua família quando for enforcado , Stapplemann ?''

 

"Enforcado?"

 

"Que outra coisa pensa que os Aliados lhe farão? Pagar-lhe uma pensão de reforma? Você é o homem que pagou os campos de concentração, entre outras coisas. A sua assinatura está nos cheques."

 

Stapplemann tinha a boca estupidamente aberta.

 

"Eu refresco-lhe a memória'', disse Scholler, procurando dentro da pasta um dossier que extraiu. Colocou-o nos joelhos e rapidamente folheou-o.

 

"Aqui, por exemplo", disse, "15 de Março de 1943, a C. H. Kori, fabricante de equipamentos de aquecimento. Escreveu-lhe nesse dia como segue:

 

"Embora reconheçamos que os quatro foKios fornecidos para Dachau e os cinco para Lublin têm trabalhado a nosso inteiro contento, devo informar que a Didier Works de Berlim apresentou ofertas para o campo de Belgrado com preços substancialmente inferiores aos vossos. A Didier propõe, para introdução dos corpos no forno, um simples garfo de metal movendo-se sobre cilindros.

 

O meu departamento enfrenta custos sempre crescentes e é forçado a exercer as mais drásticas economias.

 

"Por esse motivo, peço-lhe que considerem se poderão baixar os preços a um mínimo, utilizando, se necessário, um método mais simples de introdução dos corpos (poderia ser usada mão-de-obra humana para tal fim, em vez de maquinaria mecânica, caso isso reduza os custos). Se assim não for, serei obrigado a..."

 

"Etc., etc.", disse Scholler. "Assinado Oswald Stapplemann,   Chefe da Administração do Orçamento SS". Ergueu os olhos. "Esta é apenas uma carta entre centenas, todas com a sua assinatura. Há aqui o suficiente para o fazer enforcar vinte vezes. Evidentemente, este dossier poderia acidentalmente ir parar a um esgoto profundo. Estou certo de que já teve o cuidado de fazer desaparecer toda a restante correspondência. Sem provas especificas , poderia tentar dizer aos investigadores de crimes de guerra dos Aliados que não tinha conhecimento exacto daquilo que as firmas de material para aquecimento forneciam. Julgava que era mesmo material para aquecimento, destinado a conservar os presos aquecidos, durante os meses frios de Inverno. Assine o impresso do Dr. Behr e pode ficar com o seu dossier. Além disso, haverá dinheiro para si na Suíça, ou para a sua família, se suceder o pior."

 

O pescoço do Administrador do Orçamento afundara-se ainda mais no colarinho cujas pontas ficavam cobertas pela papada por baixo do queixo. Tinha a expressão de uma criança envergonhada que só deseja enfiar-se por um buraco no chão. O seu rosto ardia, vermelho, e agitava-se na cadeira desesperadamente. A correspondência do Campo de Concentração! Sempre o fizera sentir-se mal. Mas achara-se na obrigação de tratar do assunto. Certamente os Aliados não seriam bárbaros ao ponto de enforcar um homem só por ter escrito algumas cartas e assinado alguns cheques. Nunca tinha estado num Campo de Concentração. Nunca.

 

"Sou um homem de família, Herr Investigador", começou Stapplemann a explicar, "e sempre me orgulhei de ter o sentido do dever. Tenho quatro filhos, com onze anos, oito, quatro e três. A minha mulher sofre de uma flebite da perna esquerda. Os garotos dependem inteiramente do pai, não há mais ninguém... Gosto muito dos meus filhinhos, Herr Investigador Especial..."

 

"Como bom pai, que estou certo que é, Stapplemann, deve fazer uma provisão para eles. Hem? Assine o papel do Dr. Behr e haverá duzentos mil Francos suíços para si, numa conta de um banco suíço... em nome da sua mulher, se preferir."

 

Uma explosão distante, algures na cidade, fez o Administrador dar um salto na cadeira; talvez a destruição de uma bomba ainda por explodir, talvez apenas o motor de um carro.

 

"Dadas as circunstâncias, acatarei as instruções do Investigador Especial."

 

"Vamos, então! Assine."

 

"O Dr. Behr levou o impresso com ele", disse Stapplemann. "Volta amanhã de manhã. Assinarei então o papel."

 

''Está certo, Stapplemann. De manhã. Mas nada de mudar de ideias."

 

Scholler nada disse a Elliot durante a viagem de regresso à Prinz Albrechtstrasse. Guiava ainda mais depressa do que habitualmente e, ao chegar ao parque de estacionamento, saltou rapidamente do carro e dirigiu-se, quase a correr, para os escritórios subterrâneos. Impacientou-se com o tempo que o guarda levou a abrir as trancas e gritou com ele. Dentro do labirinto, tomou um caminho diferente, passando por corredores ruidosos e vibrantes que pareceriam todos iguais a quem não os reconhecesse, como ele, por subtis diferenças nos tons da humidade e da descoloração, e parou em frente de uma das muitas portas fechadas. Novamente o ritual das pancadas, do postigo aberto antes da permissão para entrar, acompanhado pelo seu assistente, na sala de escuta telefónica ocupada por cerca de uma dúzia de operadores que usavam auscultadores e dispunham de aparelhos de gravação.

 

Scholler dirigiu-se ao superintendente que estava sentado num pequeno cubículo de vidro.

 

"Stapplemann: a quem telefonou ele nos últimos dez minutos?"

 

O superintendente consultou rapidamente o bloco para se certificar, embora tivesse a informação de memória.

 

"Tentou fazer uma ligação para o Quartel General do Reichsfilhrer Himmler. Conseguiu falar com a telefonista, mas cortámos a ligação, de acordo com as instruções.''

 

"Continue a segui-las", disse Scholler.

 

Nem a mínima expressão facial do superintendente revelou qualquer dúvida quanto à legitimidade da ordem recebida, para impedir que um importante oficial SS, entrasse em contacto com os diversos departamentos da polícia e segurança do Reich.

 

Se tivessem ordenado ao superintendente que interceptasse as chamadas do Investigador, também teria executado essa ordem sem fazer a mínima pergunta.

 

Scholler regressou à pressa ao seu próprio escritório, sentou-se à secretária, e, abrindo o dossier do Administrador do Orçamento, percorreu com o olhar o resumo dos detalhes básicos: idade, estado, endereço, etc.

 

"Aquele idiota vaidoso", disse ele, "descobriu a operação Amanhecer."

 

"Como?"

 

"Por acaso. Mandei-lhe cortar as chamadas. Mas isso só tem um efeito temporário. Se consegue chegar a alguém e diz o que sabe, o Amanhecer está perdido. E nós também.''

 

"Que fazemos?"

 

"Temos que o matar", disse sem levantar os olhos do dossier.

 

Elliot apalpou o lábio superior como quem examina o despontar do bigode. Os seus dedos rodearam a boca e desceram até ao queixo, como se traçassem a linha duma futura barba. Não falou. A lógica da conclusão de Scholler parecia irrefutável.

 

Terá que ser esta noite", disse Scholler. Stapplemann trabalha geralmente até tarde no seu escritório, até cerca das sete e meia, e depois levam-no a casa num carro de serviço dos SS. Chega por volta da hora a que soa o alerta para o primeiro raid aéreo. No carro vai um motorista armado. É um carro blindado e com vidros à prova de bala, quase com 5 centímetros de espessura. Vive num bairro especial para oficiais dos SS e suas famílias. Guardado. Se chegar a casa, há pessoas com quem conseguirá falar pelo sistema de telefone interno. É isso provavelmente o que ele tenciona fazer."

 

"Então terá que ser antes de ele chegar a casa", disse Elliot.

 

Scholler acenou afirmativamente. "O escritório está fora de questão. Quando for a sair? Muito difícil. A entrada está fortemente guardada. Ninguém sem identificação pode esperar nas proximidades. Terá que ser na estrada... no caminho para casa. Seguem todos em comboio. O comboio dos medricas - o êxodo nocturno dos grandes senhores para a segurança dos arredores. Têm uma escolta de motociclistas SS."

 

"Não é um alvo fácil", disse Elliot. Mas tenho que fazer o que é preciso", disse Scholler levantando-se. "Venha comigo."

 

Uma vez mais caminharam ao longo das passagens húmidas e atravessaram portas que se abriam para os deixar passar. Do bater peremptório de Scholler a uma dessas portas resultou o levantar duma grade, por trás da qual os seus rostos foram detidamente examinados. Finalmente deixaram-nos passar - desta vez para o depósito de armas.

 

Scholler caminhou ao longo das prateleiras onde se encontravam expostas diversas armas ligeiras, fixadas por grampos de metal. Pegou numa MP-40 e atirou-a a Elliot que a agarrou um pouco desajeitadamente. "Já usou uma dessas?"

 

Elliot observou a fria arma de metal cunhado e coronha de aço. Sacudiu a cabeça.

 

"É fácil de usar", disse Scholler. Avançou para ele, tirou-lhe a arma da mão e começou a demonstrar-lhe o que era preciso fazer, puxando a culatra para trás e fazendo girar o pequeno manipulo para o fixar na ranhura do cano. Pegou num carregador de 32 balas e introduziu-o verticalmente no encaixe por baixo do cano, à frente da coronha e do gatilho. "É uma armazinha valente, agarre-se bem a ela. Não é muito exacta, mas à distância a que pensamos utilizá-la, isso não importa."

 

"A que distância pensamos utilizá-la?" ;

 

"Perto", disse Scholler. "Muito perto. Tem de ser." "Já pensou como?"

 

"Ainda não, mas estou a pensar." ?

 

Para si, Scholler escolheu uma Sturmgewehr, que podia disparar automaticamente ou, se se desejasse maior precisão, apenas um tiro de cada vez.

 

Depois de assinar o livro do oficial de serviço sobre as peças retiradas, regressou ao seu escritório.

 

"Seis horas", disse. "Meia hora de descanso e depois vamos. Fique com a cama. Eu durmo sentado."

 

Sentou-se na cadeira da secretária, deslizando para que a cabeça ficasse apoiada nas costas da cadeira, e fechou os olhos. Abriu-os quase imediatamente para olhar Elliot que fixava o tecto.

 

"Descanse", disse Scholler. "Não pense. Concorda que tem de ser feito, não é verdade?" Elliot encolheu os ombros com incerteza. "Então esqueça o assunto. Vai ver, é mais fácil de fazer do que pensa. Há-de aparecer qualquer ideia... vai ver". Fechou os olhos novamente, e, momentos depois, dormia a sono solto.

 

Raios o partam! pensou Elliot. Com tudo o que tem dentro da cabeça, é ele quem consegue dormir. Com que direito? Que direito tem ele de dormir? Sentiu-se alarmado com as ondas de pânico que o invadiam ao pensar no que ia fazer. Fico com os nervos em franja, se continuo assim. Acabo por estragar tudo. Acalma-te, acalma-te, aconselhava a si próprio. Mantém a calma. É preciso fazê-lo, não é? Não penses nisso! Esvazia o espírito. Não penses em nada-isso, isso.

 

Quantregg dera-lhe instruções claras. Faça o que Scholler disser, é ele que tem o papel principal - e a experiência. Poderá ultrapassar as indicações dele, quando o seu próprio discernimento lhe disser que o faça, mas a frase implicava: Não o faça, a menos que tenha a certeza mais do que absoluta, porque ele sabe como agir e você não.

 

Não conseguia esvaziar o espírito, não tinha, como Scholler, treino para o conseguir. Contudo, ainda pior do que ter de matar o homem, a frio, seria estragar tudo, enervar-se quando o momento chegasse e fazer asneira. Só por causa de qualquer estúpida reacção nervosa.

 

Ouve, disse para si próprio, o tipo é um General dos SS, é o homem que dispôs da merda do dinheiro para toda esta nojenta operação, pagou tudo, pôs a sua assinatura na porcaria dos cheques. Não deves sentir pena de matar uma ratazana daquelas. E é necessário fazê-lo por causa do Amanhecer, para que vá para diante. E isso salvará as vidas dos nossos rapazes que estão em Itália, além dos benefícios que trará no futuro para o mundo livre, como Dulles prevê. Trata-se de servir um ideal e o futuro. Mete bem isso na tua cabeça. Descontrai-te. Tens que ter coragem para o fazer. Percebes? Não penses. Esvazia o espírito. Pensa noutra coisa.

 

Lembrou-se da rapariga alemã. De como era bela. Isso acalmou-o um pouco. Pensou em beijá-la, o que fez sentir-se ainda melhor. Sim. Teria sido bom poder beijá-la. O repouso do guerreiro. Esforçou-se por respirar controladamente e com regularidade, para se acalmar.

 

Contudo, não conseguia esvaziar o espírito, porque nele se introduziam imagens de filmes de gangsters. E era ele o gangster. De chapéu, metralhadora na mão... embora não fosse exactamente igual, visto que aquilo que iria fazer seria para bem da humanidade. Mete isso bem na cabeça! Certo? Pensou no pai. Da última vez que o vira estavam no restaurante do Bahnhof de Basileia. O Pai usava o seu velho chapéu mole com a aba curvada e ensopada de chuva. Dezembro de 41. O Pai deixara finalmente Berlim, e seguia por Vichy, em França, para Lisboa, onde tomaria o Clipper para Nova York. Queria que eu fosse com ele. Não o fiz e depois em 42 fecharam as fronteiras. Se eu tivesse ido com ele para os Estados Unidos...

 

O Pai, nessa altura, ainda se sentia admirado com todas as luzes que via na Suíça, e a comida, as costeletas de cinco centímetros de altura que tínhamos comido. Cinquenta e três pratos diferentes no menu! Custava-lhe a convencer-se. Bebemos vinho velho. E tivemos uma dessas conversas que se têm nas estações de caminho de ferro. Era sempre nessas alturas que eu me sentia mais perto dele, quando tinha um pouco de tempo para mim, à espera de um comboio ou de um avião. Fartava-se de falar então. Era um pouco como ouvir um dos seus noticiários mas falava só para mim. Que disse ele desta vez? "Howard, as luzes estão a apagar-se por toda a Europa..." -sim, é verdade, é verdade- e acrescentou, "...vai haver escuridão durante longo tempo. Mas eu sou um optimista, no fundo; acredito que os seres humanos conseguirão sair por si próprios do sarilho em que se meteram. Nos meus momentos piores em Berlim, quando me sentia mesmo deprimido, digo-te, quando pensava que tudo estava perdido, animava-me ao recordar um antigo conto popular alemão, que é um dos meus favoritos, e que conta a história do Barão que estava a afundar-se num atoleiro. Quando já estava enterrado até ao pescoço e prestes a ir para o fundo, agarra-se a si próprio pelos cabelos e puxa-se para cima. É assim que eu vejo isto, eterno optimista como sou. A civilização terá que se agarrar pelos cabelos e puxar-se para cima, e há-de consegui-lo - há-de consegui-lo. Tenho fé nisso. Nós, os americanos, teremos que entrar nesta guerra mais tarde ou mais cedo, teremos que usar a nossa força para lutar contra o hitlerianismo, e tudo o que ele representa..."

 

"Descansou? É altura de irmos."

 

Scholler acordara e estava pronto para partir. Elliot ergueu-se; talvez o tivesse feito demasiado abruptamente, porque o sangue não subiu ao cérebro com a rapidez suficiente, e, durante um momento, nada conseguiu ver. Cambaleando, agarrou no próprio pulso e sentiu o sangue a correr, contra a palma húmida da mão.

 

Ao ver o estado em que ele se encontrava, Scholler deu-lhe uma dose medicinal de brandy.

 

Beba isto. É para o seu estômago". Viu-o beber e depois disse: "Já tive uma ideia. Explico-lha no momento exacto". Lançou uma olhadela perscrutadora ao jovem americano e disse: "Leve a garrafa consigo, se quiser."

 

Elliot pegou na garrafa de bolso, três quartos cheia, e meteu-a na algibeira lateral. Com a outra mão, pegou na MP-40. Duplamente armado, sentiu-se pronto para tudo. "Estou pronto", disse a Scholler. "Vamos, então."

 

À saída, Scholler voltou ao depósito de armas. Demorou apenas un ou dois minutos. Para ir buscar uma coisa, explicou. Elliot esperou-o no exterior.

 

Seguiram no carro da polícia até aos escritórios administrativos dos SS que se encontravam num edifício do Ministério na Extremidade da Wilhelmstrasse. Scholler arrumou o carro suficientemente próximo da entrada principal, para reconhecer Stapplemann logo que saísse, mas não tão perto que permitisse ao Administrador do Orçamento e aos seus guardas determinar quem se encontrava dentro do carro escuro. Ambos baixaram os chapéus para a testa e subiram as golas dos sobretudos.

 

Quando os homens importantes começaram a sair para regressar às suas casas, o crepúsculo transformava-se rapidamente em noite. O sistema seguia uma rotina fixa. Antes de alguém sair, o seu motorista era chamado por um número de código individual, pelo rádio do carro. O automóvel convocado avançava então, fazendo a curva, à velocidade regulamentar de cinco milhas por hora, até se postar em frente da entrada principal. Um guarda da SS avançava para verificar se o motorista era conhecido, e, quando satisfeito, fazia um sinal, após o que Sua Excelência saía rapidamente do edifício e entrava no carro, que arrancava imediatamente a grande velocidade. Qualquer carro não identificado que o seguisse à mesma velocidade tornar-se-ia suspeito.

 

Scholler observou a repetição deste sistema. Já passava das sete e meia e começava a ficar bastante escuro. Sete e quarenta e cinco. Nem sinais de Stapplemann. Trabalhava até mais tarde do que habitualmente, a assinar todos aqueles cheques importantes; não havia dúvida de que era um homem dedicado ao seu trabalho. Se se demorasse muito mais tempo, arriscava-se a ser apanhado pelo primeiro raid da noite. Faltavam dez minutos para as oito quando um grande Mercedes cinzento começou a avançar lentamente - era o último. Tinha que ser o de Stapplemann. O carro parou mesmo em frente da entrada, e o motorista saiu, pronto a abrir a porta de trás. Mas nem sinais de Stapplemann. Talvez algum problema exigisse a sua atenção, no último momento. l O motorista começou a andar de um lado para o outro, l olhando de vez em quando para o céu, que ficava cada vez mais escuro. Era evidente que estava muito nervoso. Olhou para o relógio e recomeçou o passeio, aproximando-se do carro de polícia estacionado a cerca de cinquenta metros. Elliot viu-o aproximar-se. Era um jovem desajeitado e gingão, de uniforme mal arranjado, cinturão descaído. O coldre da pistola no local errado. O homem inclinou-se e bateu no vidro. Elliot abriu-o ligeiramente e o outro quase meteu a cabeça lá dentro. Um rosto sardento, com óculos.

 

"Que horas são, por favor?"

 

Elliot informou-o, evitando mostrar-se.

 

Da entrada do Ministério veio um grito estridente. Stapplemann esperava junto do carro. Girando rapidamente, quase tropeçando nos seus próprios pés, tão atrapalhado ficara, o motorista afastou-se a correr. Abriu a porta do carro para deixar entrar o seu passageiro e teve dificuldade em conseguir fechá-la. Depois de sentado ao volante, custou-lhe a arrancar. Deixou o motor ir-se abaixo diversas vezes. Notava-se que não era exactamente o tipo de autómato altamente disciplinado e supertreinado. Um tipo sem jeito.

 

Deviam estar agora a usar membros dos grupos da Terceira Categoria como motoristas. A Terceira Categoria ficava imediatamente antes da dos deficientes físicos e mentais.

 

Finalmente conseguiu arrancar e o automóvel partiu com um violento esticão.

 

Scholler continuou parado, dentro do carro da polícia. Só ligou o motor três minutos depois, e avançou lentamente em direcção oposta à de Stapplemann.

 

Em resposta ao olhar interrogativo de Elliot, Scholler disse: "Eles encontram-se todos na Niirnbergerstrasse, e depois seguem em comboio, pelos bairros da zona sul, passando por Tempelhof. Apanhamo-los depois do Aeroporto."

 

As nuvens corriam rapidamente pelo céu, cobrindo de vez em quando a lua enorme, amarelada, perfeitamente redonda, que se assemelhava a um grande olho maligno, observando tudo lá de cima. Sob a sua luz, a cidade parecia irreal.

 

Os primeiros pingos de chuva caíram, pesadamente, sobre o parabrisas, desenhando estranhos mapas na poeira. A chuva parecia prestes a transformar-se num aguaceiro, mas, por enquanto, caía em gotas grossas e isoladas, com a regularidade de um lento bater do coração.

 

Scholler tomou uma rota para sair de Berlim pelo Sul, mantendo-se paralelo ao comboio. De vez em quando avistavam-no, nos cruzamentos, diversos quarteirões à sua esquerda. Conseguiram ultrapassá-lo sem dificuldade, e, carregando fundo no acelerador, Scholler avançou pela Reichstrasse 96. Quando passaram pelo Aeroporto, ia com alguns minutos de avanço em relação ao "Comboio dos Medricas".

 

Escolhendo o local cuidadosamente, estacionou o carro fora da estrada, ao abrigo de pequenos arbustos. Apagou as luzes e desligou o motor, dizendo: Oiça-me com cuidado.''

 

Tirou de baixo do assento o objecto que tinha ido buscar ao depósito, uma pistola de sinais de um só tiro. Entregou-a a Elliot. "Quando eu lhe disser, dispare para o ar, pela janela. Aponte um pouco para a frente. Vão acontecer várias coisas, vai ver. Fique perto e faça exactamente o que lhe disser. Vai precisar da sua MP-40. Agora calma. A sincronização é vital."

 

Elliot meteu a mão no bolso e tirou a garrafa de brandy, de que bebeu um longo golo. O álcool queimou-lhe o peito. Aguardou o efeito e sentiu-se grato pelas rápidas ondas amortizantes que se espalhavam pelas suas veias até atingirem o cérebro. Em breve restava apenas um pequeno anel brilhante de consciência concentrada. Bebeu outro longo golo e tudo se tornou mais fácil. Limpou as palmas das mãos às calças. Scholler lançou-lhe um olhar duro. Não seria necessária, felizmente, grande exactidão, para que o jovem americano de mãos suadas, fizesse o que era necessário.

 

Na Reichstrasse 96, tornavam-se visíveis os primeiros faróis da escolta de motociclistas, meio apagados como insectos nocturnos. Depois o som dos motores.

 

Scholler ligou a ignição e fez rodar o carro suavemente. Esperou até que passassem dois motociclistas, que vinham cerca de cem jardas à frente do primeiro carro do comboio, e então avançou para o espaço atrás deles, ligando simultaneamente a sirene da polícia. Os motociclistas voltaram imediatamente e diminuíram a velocidade até ficarem um de cada lado do carro da polícia. De acordo com as instruções estabelecidas, o primeiro carro do comboio afrouxou a marcha, ficando para trás.

 

Scholler baixou o vidro da janela, apontou para o céu e gritou, "Bombardeamento nocturno. Mosquitos. Não se pode estacionar! Parece que os ingleses suspeitam desta rota. Cinco quilómetros adiante, tomem a direcção de Nuremberg."

 

O motociclista SS tomou nota das instruções e partiu, dando sinal ao veículo da frente para aumentar a velocidade. O carro da policia, com a sirene ainda a tocar, afrouxou a velocidade e parou na passagem ao lado do passeio, permitindo que os outros carros do comboio passassem.

 

Scholler deixou passar cinco carros e depois o sexto - o de Stapplemann. Era o penúltimo. Quatro motociclistas SS cobriam a retaguarda. Quando o Mercedes cinzento do Administrador do Orçamento passou, Scholler, acelerando fortemente, avançou, obrigando o carro que seguia o de Stapplemann a travar bruscamente.

 

Pela janela de trás, Elliot viu o pescoço gordo do Administrador, por baixo do boné. Olhava de um lado para o outro, espreitando primeiro por uma janela e depois pela outra. Em seguida, inclinou-se para a frente, provavelmente para perguntar ao motorista, o que significava a sereia da polícia e o súbito aumento de velocidade. Scholler estava mesmo atrás do carro dele. "Agora", disse.

 

Elliot meteu a pistola de sinais pela janela aberta. O ar frio chicoteou-lhe os dedos e penetrou pela manga acima. Apontou a pistola para o alto, num ângulo de oitenta graus, e apertou o gatilho. O fraco estalido foi completamente abafado pelo som contínuo da sirene da polícia, com o seu toque agudo e enervante.

 

Scholler travou suavemente e desviou-se para a passagem interna, deixando o caminho livre para o carro de trás, à espera do que iria acontecer.

 

Quando o foguetão rebentou, uma área de cerca de um quarto de milha de diâmetro ficou brilhantemente iluminada.

 

Dentro dessa área tudo se tornou vivamente definido - o pandemónio dos carros que travavam abruptamente, derrapando no asfalto molhado, as motocicletas que se empinavam subitamente.

 

O foguetão luminoso, suspenso de um pequeno paraquedas, descia lentamente. A sua luz tornava-se cada vez mais crua. Via-se uma grande extensão de quintas e, na periferia do seu brilhante intenso, as florestas de pinheiros escuros e molhados. Terra arada. Um fosso. Um bosque de pequenas árvores. A distância, algumas casas agrícolas amontoadas. Um tractor. Não havia abrigos em parte alguma. Mas haveria mais possibilidades de escapar se se espalhassem do que se se mantivessem todos juntos no meio da estrada, pelo que os passageiros começaram a sair dos carros ainda antes de eles terem parado completamente e a correr pelos campos fora, procurando avidamente os aviões no céu.

 

Cegos pela luminosidade do foguetão, nada viram e corriam sem saber para onde. Gritavam uns pelos outros, aos tropeções pelo terreno desnivelado, pois eram homens pouco habituados a grandes exercícios físicos. "Onde estão eles?" "Vê alguma coisa?" "Onde?", "Onde?"

 

Scholler parara fora da estrada e, com a porta do carro aberta e a espingarda automática no colo, observava Stapplemann que corria para salvar a vida, como todos os outros. O motorista seguia-o alguns metros atrás. A sirene da polícia, berrando continuamente, afogava todos os outros sons. Os restantes carros tinham sido abandonados: mais ninguém ficara na estrada.

 

Quando Stapplemann se encontrava a cinquenta jardas de distância, ainda agarrado às suas duas pesadas pastas, Scholler e Elliot sairam do carro da polícia e começaram a correr atrás deles.

 

Dispare por cima das cabeças deles. Quando eu começar a disparar."

 

A cerca de sessenta jardas, Scholler levantou a espingarda automática à altura do ombro, fez pontaria cuidadosamente e disparou uma longa rajada. Esta abateu imediatamente o Administrador do Orçamento e fez com que todos as outras figuras em fuga, se atirassem para o chão, cobrindo as cabeças, tentando escavar a terra com as próprias mãos.

 

Elliot disparara tiro após tiro para o ar. A potente metralhadora parecia arrastá-lo consigo enquanto disparava sem cessar, tornando-se cada vez mais quente. Scholler também continuava a disparar. Os seus tiros perfuravam o corpo caído do Administrador.

 

Tinham igualmente desfeito as pastas e espalhado o seu conteúdo. Notando isso, Scholler fez sinal a Elliot para que parasse de disparar.

 

O foguetão ardera totalmente e tudo se encontrava escuro de novo.

 

Scholler disse baixo, em voz de comando: "Volte para o carro. Dê a volta e conserve o motor a trabalhar, pronto a partir..."

 

Em seguida, desapareceu na escuridão, à procura de qualquer coisa pelo chão. Elliot não conseguia imaginar o que pudesse ser. Que necessidade havia daquele atraso? Já só via Scholler muito vagamente, agora; era a única figura que se movia (os outros estavam ainda de cara no chão, à espera de novo clarão e de novo ataque), inclinando-se de vez em quando e apanhando papéis do chão.

 

Elliot correu para o carro, deu a volta, como o outro lhe dissera, e aguardou, com o motor a trabalhar, a porta aberta, a metralhadora no colo. O olhar brilhante da lua estava novamente encoberto e ele apenas divisava vagos movimentos na escuridão - evidentemente algumas pessoas aproveitavam a acalmia entre os ataques para se abrigarem melhor.

 

Onde diabo estava Scholler? Que fazia ele? Que raio de coisa estava ele a fazer? Todos aqueles movimentos! Vozes.

 

Por momentos as nuvens abriram-se, como o obturador de uma máquina fotográfica e um raio amarelado caiu sobre uma sombra volumosa - Scholler inclinado sobre o corpo do Administrador do Orçamento, rebuscando-lhe as algibeiras - depois o obturador fechou-se de novo e Elliot nada mais viu, como se caísse a tampa de uma caixa.

 

Supondo que surge outra pessoa da escuridão, sem ser Scholler. Que faço eu? Mato-a. Seja quem for. Sem sombra de dúvida. É o que tenho de fazer.

 

Ouviu um tiro, seguido de vozes baixas interpelantes. Que significaria aquele único tiro? Ocorreu-lhe que, se Scholler tivesse sido morto, ele, Elliot ficaria sozinho naquele inferno. Lanternas de bolso começavam a acender-se por toda a parte. Os outros também queriam saber o que significava o tiro disparado.

 

Elliot conservava nervosamente o carro a trabalhar. Quanto tempo tenho de esperar aqui? Supondo que ele foi morto, supondo que vêm matar-me, agora! Vamos, Scholler, raios te partam! Vamos, volta vivo, meu sacana! Se estás vivo, que andas a fazer? Não tarda que eles descubram que não existiu qualquer bombardeiro. E depois? Além dos motorístas/guarda-costas, havia a escolta dos motociclistas. Seis ou sete homens. Só mais um minuto, decidiu Elliot, e depois ponho-me a mexer.

 

Por pouco não disparou uma rajada contra a forma que começava a sair da escuridão, mas apercebeu-se a tempo de que era Scholler. A correr. Inclinado para a frente, a correr velozmente. Scholler atirou-se para dentro do carro, ofegante, e Elliot partiu ainda antes de ele ter fechado a porta.

 

"Que raio andou a fazer? Que se passou? Que tiro foi aquele?" A voz de Elliot saía nervosa, irritada e violenta, e ele próprio não a reconhecia.

 

"Concentre-se no volante", disse Scholler.

 

Elliot conduzia rápida e imprudentemente, com os mínimos acesos, apenas, o que proporcionava fraca iluminação da rua. Guiava com demasiada velocidade para a distância a que podia ver.

 

"Tenha cuidado. Calma!" disse Scholler de novo. "Por amor de Deus, olhe para a estrada...!"

 

O aguaceiro em atraso caiu finalmente. Foi tão pesado e súbito que, por momentos, deixaram de ver e o carro deslizou pela estrada até que Elliot conseguiu descobrir o botão do limpa-vidros, no tablier desconhecido; contudo, mesmo com o limpa-vidros a funcionar, só intermitentemente conseguia uma certa visão do caminho, porque a chuva caía com muita força. Mas Elliot continuava a guiar à mesma velocidade; algo se apoderara dele, impedindo-o de afrouxar a marcha.

 

"Não vem ninguém atrás de nós, safámo-nos", disse Scholler, tentando fazê-lo diminuir a velocidade. "Mais devagar! Ainda nos mata desta maneira!"

 

Falava com dificuldade, ainda sem fôlego, por causa da corrida. Tirou a garrafa de brandy do bolso de Elliot, levantou-a à boca e bebeu um longo golo. Elliot notou que ele tinha sangue por todos os lados, nas mãos, nas mangas do casaco, na parte da frente do sobretudo.

 

"Que aconteceu ali? Que raio foi aquele tiro?"

 

Scholler bebeu outra longa dose de brandy.

 

O motorista'', disse limpando a boca. "O motorista de Stapplemann. Que idiota! Tropeçou em mim..."

 

"E então?", disse Elliot, afastando perigosamente os olhos da estrada para olhar para a cara de Scholler.

 

"Olhe para a estrada!", avisou Scholler.

 

"E então?"

 

"Tive que o matar", disse Scholler.

 

"Teve que matar o motorista?! Aquele espécimen de terceira categoria?"

 

"Ele pegou na pistola..."

 

Pegou na pistola? Ele mal podia pegar na picha para mijar!"

 

"Não podia arriscar-me."

 

Já recuperara o fôlego e com ele a sua autoridade.

 

Bom'', disse firmemente. Abrande progressivamente, não muito depressa. E pare onde puder; vou eu guiar, antes que nos mate aos dois."

 

Elliot fez o que lhe mandavam. Enquanto Scholler dava a volta ao carro para mudar de lugar, levantou o rosto e deixou que a chuva o lavasse.

 

Já seguiam havia algum tempo pelo caminho de regresso a Berlim, quando sentiu, ao que parecia, necessidade de dizer qualquer coisa a Elliot, que caíra num torpor súbito.

 

"Está tudo bem. Está feito. Você actuou bem, melhor do que eu esperava. Não entrou em pânico, fez o que lhe pedi, e como vê... conseguimos, e ninguém vem atrás de nós. Olhe para o retrovisor. Tenho vindo a observar. Nem sombras". Parecia bem disposto, agora, mesmo alegre.

 

Com surpresa, Elliot notou que as palavras de Scholler lhe proporcionavam uma certa satisfação. Afinal, não tinha metido água. Também ele começava a sentir-se entusiasmado, agora que o assassinato do Administrador já tinha passado.

 

O alerta de raid aéreo soava quando entraram na cidade; ouviram as enormes baterias antiaéreas nas torres do Jardim Zoológico abrir fogo em uníssono por controle remoto. Ligando o rádio para ouvir os noticiários em código do canal Mio, Scholler anotou os detalhes e determinou rapidamente a rota de voo dos bombardeiros.

 

"Vamos esperar aqui", disse, parando numa transversal da Wilmersdorf. "Aqui estaremos bem."

 

Viram as chamas subir para o céu quando as bombas caíram, a cerca de três milhas para norte deles.

 

O carro estava saturado com o cheiro da roupa molhada e de algo mais. O longo sobretudo de Scholler tinha ficado manchado de sangue, enquanto revistava o corpo do Administrador do Orçamento... Depois a chuva encharcara-o e, agora, o sangue e a chuva secavam em conjunto naquele espaço fechado.

 

Elliot notou que, fosse como fosse, o sangue também o tinha atingido: nas bainhas das calças, no sobretudo, nas botas. Até havia sangue nas suas mãos, por baixo das unhas. Tirando o canivete da algibeira, começou a limpá-las com a lima.

 

Entretanto Scholler observava-se no espelho do retrovisor. Tinha a barba muito crescida. O cabelo estava molhado e colado à cabeça. Começou a penteá-lo. Ajeitou a roupa. Vendo as manchas do sobretudo e verificando que estava encharcado, despiu-o e atirou-o para a parte de trás do carro. Depois pediu a Elliot que lhe emprestasse o canivete e, extraindo a tesoura, cortou cuidadosamente as unhas sujas de sangue.

 

Os ingleses estavam a atacar as grandes áreas de armazenagem na parte norte da cidade, a zona Moabita. Alguns dos principais paióis ficavam aí e, quando subiram de novo, o céu em volta do local das explosões parecia branco.

 

Ao fim de uma hora, apesar de já ter soado o fim de alerta, Scholler ouviu o Canal Mio, para determinar se seria seguro dirigir-se para o seu destino, na zona oriental da cidade.

 

A camuflagem já danificada que cobrira a Charlottenburger Chaussee rasgara-se por causa do vento, e este fazia-a esvoaçar. Os seus pedaços queimados pairavam sobre a cidade. A Unter den Linden estava deserta. Seguindo rapidamente ao longo da avenida central, apenas abrandando para rodear árvores caídas ou blocos de alvenaria, em breve se encontravam na Alexanderplatz.

 

No labirinto de ruas que se estendia a partir da grande Platz, os trabalhadores viviam em densa concentração, camada sobre camada de humanidade, empilhados uns sobre os outros dentro dos prédios. Era uma área que tinha a reputação de abrigar o vício e a pequena criminalidade, assim como a pobreza, cheia de lojas minúsculas, e estreitas e escuras habitações.

 

"Eu trabalhava aqui", disse Scholler. "Só me passaram para a Prinz Albrechtstrasse em 39. Em Setembro de 39. Até então, o meu departamento ficava no Quartel General da Polícia. É um bom local para se conhecer a natureza humana. Que é suja. A natureza humana é suja. Oh, se se tem dinheiro, pode-se tapar tudo, pendurar lindas tapeçarias brancas, de parede a parede, por cima da porcaria. Mas não se pode fugir dela. Aqui via-se tudo às claras. Sem fingimentos. O uso e o abuso. A compra e a venda. Tudo e todos. É assim mesmo, é assim que as pessoas são. Não nos podemos queixar. Aliás a quem poderíamos queixar-nos?"

 

Scholler observava a sucessão de arcadas muito semelhantes, em frente de um enorme pátio habitado por trabalhadores, até descobrir o número que procurava. "Venha", disse, parando o carro e saindo. Elliot seguiu-o automaticamente. Já não perguntava onde iam nem para quê. A rua era empedrada, com trilhos de carros eléctricos de ambos os lados. Ao passarem sob a arcada, sentiram o cheiro de urina de cão.

 

Havia um caminho empedrado que conduzia às diversas portas, com janelas até meio, por trás das quais se viam cortinados sujos. Todas elas tinham campainhas que tocavam fazendo girar um manipulo de latão.

 

No exterior do número 379b, Scholler parou e fez girar o manipulo diversas vezes, impacientemente, como se estivesse a dar corda a um relógio; no interior ouvia-se um brrrr desproporcionadamente sumido. Como não abriram imediatamente, Scholler continuou a tocar, evidentemente exasperado pelo fraco toque da campainha. Acompanhou-o com murros na vidraça. Finalmente uma mão magra e velha afastou o cortinado de renda, apenas o suficiente para se ver quem batia.

 

Uns olhos distantes examinaram os visitantes desconfiadamente. "Quero falar com o seu filho. O seu filho" gritou Scholler através do vidro. A mulher abanava a cabeça, com a incompreensão dos muito idosos. Momentos depois, um homem gorducho de meia idade, com suspensórios sobre a camisa sem colarinhos, apareceu junto do vidro e espreitou também. Quando viu Scholler, franziu primeiro a testa, como se não estivesse certo do que via, e, em seguida, compreendendo o que se passava, ficou muito agitado, como se tivesse feito esperar o visitante, e começou rapidamente a retirar as correntes, e a tranca, e finalmente a abrir a porta, e, quando acabou de abrir, afastou a velha mãe, com um gesto secreto e urgente da mão.

 

"Boa noite, Herr Direktor. Boa noite. Heil Hitler!", acrescentou como se se lembrasse subitamente. "A que, se posso perguntar, devo a honra desta... visita?"

 

"Nem toda a gente considera uma honra receber uma visita minha à noite". O homem sem colarinho empalideceu. "Mas", acrescentou Scholler rapidamente, "neste caso nada tem a temer. Podemos entrar?"

 

"Claro, claro. Tem que perdoar a minha grande falta de educação por não ser eu próprio a mandar entrar Vossa Excelência... mas estava a dormitar, e ainda não estou bem acordado."

 

A porta de entrada dava directamente para a sala principal e para a cozinha, depois do que havia um minúsculo hall e dois quartos. A velha regressara ao seu canto e estava sentada numa cadeira de balanço, afagando um sujo gato preto.

 

Talvez no seu quarto", disse Scholler. Onde possamos estar mais à vontade."

 

"Sim, sim. Com certeza." Tossicou, desanimado. "Hesito em oferecer uma bebida a Vossa Excelência... em face da má qualidade do que seria obrigado a oferecer-lhe..."

 

Scholler interrompeu-o. "Não queremos nada. O meu assistente espera aqui."

 

Posto isto, os dois homens foram para dentro.

 

Elliot já se habituara a esperar do lado de fora -era evidentemente o que os assistentes faziam. Embora por vezes fossem chamados, para fazer qualquer coisa. Não se perguntou o que Scholler estaria a fazer naquela casa velha e mal-cheirosa. Tinha deixado de fazer perguntas a si próprio ou aos outros. Era preciso viver simplesmente os acontecimentos.

 

Deixou-se cair sobre um velho sofá meio partido, cujas molas protestaram ao receber o seu peso. Ainda estava de sobretudo e chapéu. Sentia-se terrivelmente cansado e fechou os olhos. Quando os abriu, viu a velha a olhar para ele. Os olhos dela estavam cheios de maus presságios, como se soubesse ou sentisse quem ele era. Talvez tivesse visto as manchas de sangue das calças.

 

Sorriu para a assegurar de que não lhe aconteceria mal a ela e ao filho, mas compreendeu que ele próprio não estava certo disso, e viu pela expressão dela que o seu sorriso não a tranquilizava. Porque a velha pareceu ficar com mais medo ainda. No seu estado de espírito, altamente tenso e extremamente fatigado, o seu sorriso devia ter saído errado.

 

       O quarto em que Scholler entrara, apesar de pequeno e mal mobilado, estava muito limpo e arrumado. Tudo se encontrava no devido lugar. As paredes estavam decoradas com recortes de revistas, fotografias de grandes rallies do Partido, de marchas triunfais, de celebrações de vitórias.

 

"Fizeste bom trabalho para o Partido e para o teu país, Braun", disse Scholler.

 

"Obrigado, Herr Direktor. Tentei fazer o melhor que sabia."

 

"Durante anos fizeste algumas dezenas de trabalhos para nós, hem?"

 

"Mais de cem, Herr Direktor."

 

"Assim tantos? Sempre através do Amt IV, contra-documentação? "

 

"Sim, sempre, Herr Direktor."

 

''Suponho que nem sempre sabias a que fim se destinavam as cópias grafológicas que fazias para nós", disse Scholler, rindo.

 

"Naturalmente, tais coisas nunca me foram reveladas. Das três ou quatro vezes que fizeste trabalhos para mim, fiquei muito satisfeito."

 

"Sinto-me muito honrado por ouvir isso, Herr Direktor."

 

'A tua habilidade - na reprodução de escrita - é de facto incomparável.''

 

"É um dom", disse modestamente o imitador oficial. "Um grande dom, Braun.". "É muito generoso, Herr Direktor." "Podias fazer-me um pequeno serviço, Braun. Um trabalho de poucos minutos, para um homem com a tua habilidade."

 

"Que deseja?"

 

"Ouviste falar da morte do General de Brigada SS Stapplemann? Não? Foi morto durante um raid aéreo. Sim. Um ataque nocturno". Apontou para o céu. Surgem não se sabe donde, aqueles porcos. Tenho que confiar em ti, Braun, estamos num sarilho dos diabos. Foram destruídos diversos papéis dele, e, como sabes, na Alemanha nada se mexe, a menos que haja um papelinho a dizer que isso pode ser feito.'' O forjador riu, como convinha.

 

Ora a questão é, Braun, que precisamos da assinatura do Administrador do Orçamento para certos movimentos de fundos inter-departamentos. Caso contrário, ficamos emperrados pela burocracia. Trouxe-te alguns espécimes da letra dele. Achas que poderias ajudar-nos?"

 

Braun piscava rapidamente os olhos. Sem dizer uma palavra, pôs os óculos e examinou os diversos papéis com a assinatura de Stapplemann. Segurou as folhas muito perto dos olhos e, subindo os óculos para a testa, examinou a letra a olho nu. Depois, com os óculos de novo no nariz, observou-a a maior distância. Passou os dedos sobre as assinaturas. Coçou a cabeça e esfregou os olhos. A sua expressão era de dúvida.

 

"Então?" disse Scholler. "Consegues fazer isso?"

 

"Oh, consigo, sim", disse Braun. "É bastante fácil". Hesitou. "Se o Herr Direktor me perdoa, nunca fiz um trabalho para si particularmente, isto é, sem a autorização 72."

 

"Os impressos arderam todos, Braun. Dou-te uma Q 72 verbal."

 

"Tudo parece estar em ordem, então. E posso perguntar, uma vez que a ordem é verbal, como me pagarão?"

 

"Em dinheiro. Imediatamente. Mil marcos, visto que é um trabalho de urgência."

 

"Então está tudo em ordem", disse Braun, começando a flectir os dedos.

 

Dirigiu-se ao armário de parede, no recanto do quarto onde passava a chaminé do prédio, e observou as prateleiras, cheias de dúzias de aparos e tinteiros diferentes. Experimentou alguns aparos contra o polegar e, finalmente, escolheu um porta-aparos vulgar de madeira, e colocou-lhe um aparo de aço barato, de pontas largas. Pegou igualmente num tinteiro de tinta preta. Levou-os para uma mesa coberta com uma grande folha de mata-borrão que tinha em cima um outro, do tipo de secretária. Abrindo o tinteiro, mergulhou cuidadosamente o aparo e tentou imitar a assinatura do Chefe do Orçamento numa folha de papel. Imitou-a uma dúzia de vezes, comparando sempre o seu trabalho com as assinaturas reais que tinha na frente. Ao fim de cada tentativa, usava cuidadosamente o mata-borrão arredondado.

 

"Ele usa - usava", corrigiu-se, "muita tinta na caneta". Desta vez, Braun conservou o aparo mais tempo no tinteiro, e examinou a aderência da tinta, antes de fazer a assinatura. O resultado pareceu satisfazê-lo e apresentou-o a Scholler, para inspecção. "Perfeito!"

 

"Quer que a faça agora?", perguntou Braun. Se achas que estás pronto. Tem que ficar bem à primeira, compreendes? Só há um impresso."

 

"O Reichskriminaldirektor pode dar-mo, se faz favor." Scholler entregou-lhe o papel, dobrado ao meio, de modo que a parte que continha o nome do banco suíço e a natureza da transacção não ficasse visível. Braun apenas podia ver as palavras Para autorização do acima exposto'' e a assinatura do General SS Hermann Fegelein, Oficial de Ligação SS do Fúhrer, e o espaço em branco onde era necessária a assinatura de Stapplemann.

 

Braun pegou na caneta, mergulhou o aparo e começou a desdobrar o impresso, estendendo-o. Scholler inclinou-se sobre ele e colocou a mão por cima da parte superior do papel, como se pretendesse ajudar a mante-lo firme, para não deslizar.

 

"Suponho", disse Braun com o aparo pousado, sem levantar os olhos, "que não há qualquer... ilegalidade no cumprimento desta ordem do Reichskriminaldirektor?"

 

"De modo algum", garantiu-lhe Scholler.

 

Braun olhou para o papel; exercitou os dedos durante uns momentos, como um pianista antes de atacar uma composição difícil, num concerto. Depois pegou na caneta de novo, mergulhou-a no tinteiro, e assinou, com letra rápida e contínua. Aguardou um momento antes de colocar cuidadosamente o mata-borrão sobre a assinatura.

 

Ergueu os olhos. Scholler levantou a mão da parte superior do impresso e, entre o momento em que lhe pegou e aquele

 

em que o dobrou novamente, Braun conseguiu ler - embora não o pudesse jurar - o nome do Banco Comercial de Berna e o número escrito por baixo - quatro milhões de francos suíços.

 

A norte, o céu estava totalmente vermelho das chamas que irrompiam dos paióis, quando Scholler e Elliot saíram de casa do imitador.

 

Enquanto se dirigiam para oeste, soava o fim de alerta. Terminado o primeiro raid da noite, as pessoas emergiam dos abrigos, olhando em volta, entontecidas, para ver se ainda existia alguma coisa da cidade. Nas ruas que ficavam por trás da Kurfíirstendamm, começavam a surgir fracas faixas de luz por entre as tiras de papel das janelas. Aqui e além, as pessoas tocavam às campainhas, batiam às portas, procurando as lojas que ainda estavam abertas.

 

Scholler olhava pela janela e afrouxava junto de alguns bares que conhecia.

 

"Há noites em que não consigo dormir", disse.

 

Elliot acenou afirmativamente. Sentia como que uma luz muito forte dentro da cabeça, encandeando-o como um projector num interrogatório. Também não conseguiria dormir. Sentia-se estranho, como se não fosse ele próprio. Fui eu quem acompanhou Scholler e assistiu ao assassínio do Administrador do Orçamento e do seu motorista. Fui realmente eu. A luz crua do foguetão luminoso. Os homens a correr pelos campos. O metal quente, nas suas mãos, enquanto disparava por sobre as cabeças deles. Tinha efectivamente sucedido.

 

"Porque não nos vamos embora?" disse Elliot. "Agora mesmo!"

 

"Impossível. Há coisas que ainda têm de ser arranjadas... Além disso, Wolff tem um encontro marcado com Hitler amanhã. Se não correr bem, posso ter de intervir - outra vez."

 

Podemos tomar uma bebida em qualquer lado?" Já não havia brandy na garrafa e os delgados contornos de luz eléctrica,   em   volta   das   montras   dos   bares   nocturnos atraíam-no insistentemente, com a sua sugestão de vida no interior. Qual era a alternativa que lhe restava? Fechar-se num quarto, só, incapaz de dormir, tentando alcançar a inconsciência sem qualquer ajuda? "Êxtase", disse Scholler. "O quê?"

 

"É um cocktail que eles servem. Uma zurrapa venenosa misturada com xarope de romã. Uma coisa horrível. Mas não se preocupe, eu tenho certa influência, como sabe. Não teremos que beber aquela porcaria. Para mim, eles guardam uma coisa especial. Bem vê", disse, "sempre lhes sirvo para alguma coisa..."

 

"Eu tomava uma bebida", repetiu Elliot. "Eu faço-lhe companhia", ofereceu-se Scholler. "Já está feito - tudo o que havia a fazer. Salvámos a operação Amanhecer. É preciso festejar." "Festejar? Santo Deus! Festejar!"

 

"Porque não, se podemos fazê-lo? Quem não pode, não festeja."

 

Um pouco mais da sua sabedoria popular, e eu vomito.''

 

O primeiro bar em que pararam era uma cave escura e comprida, com murais cubistas que certamente não ajudariam ninguém a focar a visão depois de dois ou três copos de Êxtase. Estava surpreendentemente cheio.

 

Vi-o desaparecer da sala com a Maritza", disse Scholler depois de beber o seu primeiro pseudo-cognac.

 

"Você vê tudo."

 

"Naturalmente."

 

Riu-se, bateu no balcão a reclamar nova bebida, e disse: "É boa, a nossa Maritza! Não é?"

 

"A nossa Maritza?!"

 

Não se pode ter o exclusivo, com uma mulher como ela.

 

"Oh, não se importa de a partilhar?"

 

"De modo algum, especialmente com o meu assistente político na Itália."

 

"Que generosidade! Contudo, não foi bem assim."

 

"Deixou fugir a sua oportunidade?"

 

"Sim, é verdade. Você nunca deixa, penso eu."

 

"Não, se puder evitá-lo."

 

"Sabe que ela o despreza, não sabe?"

 

Ele riu. "Foi isso que ela lhe disse? Despreza-me? Ah sim?"

 

Assobiou por ente os dentes, com um ar obsceno e trocista no rosto. Era a expressão de quem possuía conhecimentos íntimos de tudo e de todos, naquele caso da vida e dos pensamentos de Maritza von Niesor. Disse então a Elliot, intimamente, em voz baixa:

 

"É uma grande snob, a nossa Maritza. Ela e o papá. O Ferdy. Mas a verdade é que a nossa Maritza tem..." (baixou a voz ao nível adequado para troca de tais confidências masculinas)... "gostos depravados. Nunca lhe chega." Bateu no balcão para ser servido de novo. "Adora aquilo, oh se adora! Quanto mais depravação, melhor. Vi logo, assim que pus os olhos nela. Sei sempre. Vê-se logo. É qualquer coisa nos olhos delas. Aquela espécie de ânsia sem motivo, percebe? Sabe a que me refiro? Quando eu entrei, ela disse-me, "Limpe os pés". Imagine. Limpe os pés. Ao Investigador Especial do Reich. Uma snob, uma snob, sem dúvida. Não recebeu o meu chapéu e o meu sobretudo. Nada. Nem me pediu que me sentasse. Fi-lo, na mesma. Sempre a falar em gente importante, para me pôr no meu lugar. O Herr Speer está sempre a visitá-la, e o Herr von Ribbentrop é um íntimo amigo da família... e o von Rundstecht, eles todos. Mas depois..." Voltou a bater no bar para lhe encherem novamente o copo, e continuou. Mas depois, quando eu me ia embora..." Aproximou-se mais de Elliot, com a boca quase encostada ao seu ouvido, a voz transformada num murmúrio rouco, Oiça, oiça isto. Quando eu ia a sair, repare, eu disse-lhe "Muito obrigado, menina", muito educadamente, e peguei-lhe na mão e beijei-lha, note, o que ela não esperava. E então..." Os seus olhos procuraram os de Elliot, de homem para homem. "...Conhecendo o género, não lhe larguei a mão, percebe, puxei-a para baixo, e metia-a na berguilha, percebe?"

 

"É um mentiroso e um porco, Scholler." Ele riu, deliciado. Digo-lhe que foi como se a percorresse um choque eléctrico. Eu não larguei a mão, obriguei-a a conservá-la ali até ficar como uma barra de ferro. Ela fingiu-se horrorizada. Naturalmente. Mas gostou, gostou. Ficou excitada. Quanto mais alta a classe a que pertencem, mais gostam de uma bocado de crueldade. Por fim, levou-me ao quarto. Era ela que queria, muito bem. E não queria da maneira habitual. "Vaselina", diz-me ela. "Use vaselina". Do outro lado, percebe? Era assim que ela queria." "Isso foi um sonho porco que você teve." "Estou a dizer-lhe - a natureza humana é suja. Acredite-me, já vi o bastante para saber." "Nisso acredito eu."

 

Diga-me uma coisa - você é um belo jovem íntegro, eu sei. Um idealista. Eu vejo isso. Diga-me, isso nunca lhe apeteceu, o que acabei de contar-lhe? Nunca lhe passou pela cabeça? Com alguém como a Maritza von Niesor... Arrancar aquele olhar superior da cara dela, fazê-la rebaixar-se..."

 

"Eu não partilho os seus gostos, Scholler. E, seja como for, não acredito em si. A respeito disso ou de qualquer outra

 

coisa. E, já que estamos a falar do assunto, há uma coisa que quero dizer-lhe. Prometi uma coisa à rapariga."

 

"Então o encontro não foi assim tão infrutífero..."

 

"Prometi-lhe documentos. Documentos para saída. Para que ela e o pai possam sair de Berlim.''

 

"Ela e o pai! Você é generoso! Ela e o pai!" Scholler riu-se.

 

"Oiça o que estou a dizer-lhe!"

 

"Toda a gente promete documentos", disse Scholler, como que a pôr o assunto de parte. "Ela está habituada, garanto-lhe, garanto-lhe..."

 

'' Mas, ao contrário dos outros, eu falei a sério.''

 

"Há pessoas que se tornam muito cavalheirescas quando bebem de mais. Eu compreendo."

 

Elliot sentiu-se exasperado pelo cinismo de Scholler. "Eu falei a sério!"

 

"Está bêbado agora?"

 

"Não estou bêbado."

 

"Então explique-me como tenciona arranjar os documentos. Vá, explique-me."

 

Não sou eu quem os vai arranjar. É você."

 

"Eu? Quem pensa que sou? Jesus Cristo?"

 

"Você vai arranjar-lhe os documentos", disse Elliot, tranquilla e energicamente.

 

"É impossível", disse ele. "Já era impossível em qualquer caso, mas agora, com o tempo de que dispomos, é duplamente impossível."

 

"Não parto sem você arranjar os documentos!"

 

Falamos disso mais tarde'', disse Scholler, pensando que Elliot se encontrava, provavelmente, num estado de sobre-excitação depois da experiência porque tinha passado e, portanto, sem condições para discutir rasoavelmente. "Tem que descontrair-se", disse-lhe. "Não deve andar sob tensão, senão nenhum dos dois consegue sair daqui."

 

Descobriram depois um outro bar, que estava ainda mais apinhado; outro em seguida, e ainda outro.

 

Num dos cabarets actuava um animador cadavérico, com pestanas postiças e lábios pintados de vermelho. Um amigo dele, contava, tinha encomendado um fato ao alfaiate. Prenderam-no e acusaram-no de destruição voluntária das reservas de madeira da Alemanha. Risos excitados. Era uma piada estúpida? Mas porque deveriam as piadas ser diferentes de tudo o resto? Aplausos e risos. Aquela piada era tão má que nem sequer dava direito a pena de morte! Como classificá-la? Ele costumava ter piadas de primeira classe, das tais que davam direito à pena de morte, mas todos os que lhas escreviam tinham sido fuzilados. Risos. E ele, porque não tinha sido fuzilado? Burocracias. Hoje em dia ninguém consegue o que pretende. Risos e aplausos. Dias antes, tinha dado uma dentada na sua cápsula de cianeto de potássio. Como tudo o resto, ersatz... só o tinha feito arrotar. Risos histéricos, aplausos, aplausos frenéticos.

 

De um bar para o outro, Scholler e Elliot escorregaram e cambalearam, escadas escuras abaixo, entrando em mais de meia dúzia de buracos sufocantes, embebedando-se muito lentamente, porque em toda a parte o álcool era misturado com água. Mas não desistiam. Mais um copo, e outro ainda. Acabariam por encontrar álcool do bom, e finalmente alcançariam o esquecimento total.

 

As três da madrugada, Scholler parou o carro em frente de uma pesada porta de madeira com uma grande argola para fazer tocar a sineta, sob a qual se lia, numa placa de latão: "Toque para abrir". Um letreiro de néon apagado dizia simplesmente: "A Noite". Por baixo, a montra enorme tinha os taipais corridos. A casa parecia fechada, mas, quando Scholler puxou a sineta, abriram imediatamente.

 

Boa noite, Herr Direktor. Boa noite. É uma honra receber o Herr Direktor."

 

Mãos firmes conduziram-nos através da obscuridade quente e saturada de fumo. Correram-se cortinados de veludo poeirento para eles passarem; as pessoas afastavam as cadeiras para lhes dar espaço; os seus ombros roçavam paredes acolchoadas, que amanavam um cheiro antigo e poeirento, misturado com o odor rançoso de corpos suados. Procurando orientação e apoio, Elliot sentiu que umas mãos o faziam voltar-se e o empurravam para baixo. Fez menção de sentar-se e - com surpresa sua - descobriu que já estava sentado. Ouvia a respiração forte de pessoas, cuja presença sentia sem as ver e, só quando voltou a cadeira para a luz, percebeu que havia um casal em cópula, a pouca distância sobre um grande leito circular que servia de palco.

 

Aqui dão um espectáculo para acompanhar os Êxtases'', disse Scholler. "Espero que não seja pudico Ao que parece tinham chegado no final do acto, porque o casal se separou, rolando pela cama como acrobatas de circo e, durante uns momentos, conservaram-se em posição rígida, como se aguardassem aplausos. Nenhum se ouviu, ou porque não era considerado próprio, ou porque o par não tinha sido muito bom.

 

O sistema de altifalantes transmitiu um murmúrio amplificado: "Amigos da noite - bem-vindos a "A Noite". Onde lhes damos a solução final para os problemas sexuais. O sexo total. A liquidação do espírito. Amigos da noite, desejo-lhes um bom divertimento, muito prazer e uma experiência erótica total com Lulu e Anton.

 

Os dois artistas indicados surgiram, ela de espartilho, ele nu, e rolaram sobre o leito, ficando o corpo do homem sempre mais ou menos tapado pelo da rapariga, possivelmente para esconder a sua falta de erecção. Ambos pareciam muito sérios e mal alimentados.

 

Nessa altura, um homem baixo, com a cara ousadamente coberta de pintura, parou junto da mesa e tirou uma garrafa de cognac de dentro do casaco.

 

"Para o Herr Direktor", murmurou, "naturalmente só o melhor". Era o mesmo murmúrio que se ouvira pelo altifalante a anunciar o par que rolava na cama, mas, privado de amplificação, tornava-se insípido, fatigado e lúgubre.

 

Os seus grandes olhos, pintados e sombreados, observaram desanimadamente Lulu e Anton. Após os rolamentos iniciais, ela estava agora sobre a barriga dele, com os lábios descendo, em várias investidas, sobre o membro frouxo que a sua mão aguentava pela base. Usando a mão e a boca, conseguiu algo que se aproximava de uma erecção. A mulher esforçava-se bastante com determinação. O membro endurecera um pouco, mas ainda não se encontrava em estado de penetração.

 

O pequeno mestre de cerimónias suspirou e serviu bebidas para os dois homens e para si próprio.

 

"É a comida'', disse sombriamente, como que a desculpar o seu artista. "A falta de vitaminas na alimentação. Esforçamo-nos por lhe dar a melhor comida, mas sem carne, que se pode esperar?"

 

Continuou a encher-lhes os copos, estremecendo de vergonha e embaraço por os seus artistas o deixarem ficar mal. Ah, mas a próxima...

 

Entrou outra rapariga. Era muito bonita - uma princesa nórdica, loura como as náiades da floresta. A parte superior do seu corpo estava vestida com flores brancas e amarelas e a inferior totalmente nua. Pôs-se de gatas e depois empinou-se como se fosse um cavalo. Elliot tentava manter a vista focada naquela visão erótica, mas a sala parecia girar. Por vezes a mulher parecia muito perto, e depois os seus olhos, pregavam-lhe partidas próprias da embriagues, fazendo-a afastar-se de novo para muito longe, trepando pela parede como um morcego.

 

"Vou vomitar", informou Elliot.

 

"Não por cima da rapariga, espero eu"" disse Scholler.

 

Efectivamente ela encontrava-se muito próximo deles. De cócoras, com o traseiro voltado para a assistência, os seus dedos afastavam deliberadamente a carne, mostrando primeiro uma abertura, depois a outra. Oferecendo-se. Oferecendo-se. Submissão. Uma entrada negra e violenta. A liquidação total do espírito. De tudo. Tudo. Um choque eléctrico de excitação atravessou Elliot como uma convulsão capaz de modificar os seus pensamentos.

 

Scholier estava quase encostado a ele, respirando fumos alcoólicos sobre a sua cara; a sua voz sobrepôs-se à música: "Esta é boa, mesmo boa! Tem valor. Hem? Agrada-lhe? Também vem de uma boa família. Quase tão boa como a da Maritza. E trás menos problemas. Posso arranjar-lha. Garanto-lhe que é excepcional - uma puta excepcional, de primeira categoria."

 

Talvez fosse do álcool ou das palavras de Scholler; Elliot começou a ver o rosto de Maritza sobrepôr-se ao da prostituta. A lógica do sonho. A realização elementar de um desejo. O rebaixamento daquilo que se considera superior. O poder da depravação. Um sonho impuro de homem.

 

"Tenho que me ir embora", disse, levantando-se abruptamente. "Vou vomitar". Quando começou a levantar-se e a tentar sair da sala quente e apinhada, gritou para Scholler: "Sou mais forte que você, Scholler. Compreenda que sou eu quem manda."

 

"Falamos disso amanhã", disse Scholler para acalmar o americano, notando que ele estava claramente sobre-excitado e prestes a vomitar.

 

Contudo, ainda conseguiu chegar junto do carro e só então começou a vomitar violentamente. Após o primeiro espasmo, endireitou-se e tentou caminhar. Dando um passo atrás, guinou inesperadamente para a direita. Scholler agarrou-o, mas, ao fazê-lo, perdeu também o equilíbrio, e ambos avançaram, aos tropeções, para o lado oposto como candidatos inexperientes numa corrida de três pernas. Descreveram uma série de zigue-zagues, durante os quais foram forçados a abraçar-se, para se apoiarem mutuamente.

 

Quando estavam agarrados um ao outro, Scholler olhou de súbito Elliot nos olhos, e disse: "Despreza-me, bem sei. Pensa que eu sou um porco, eu sei, eu sei."

 

"Não o conheço. Não o conheço!"

 

"Mentira! Mentira! Pensa que eu sou um porco. Não pensa? Não pensa?"

 

Durante esta troca de palavras dançavam uma espécie de marcha.

 

"Como hei-de saber o que você é? Falta metade do seu dossier". Riu-se da sua lógica e acrescentou, misteriosamente, apertando os olhos devido ao esforço de concentração: "Eu conheço-o Scholler, eu conheço-o. Não pense que eu não o conheço, Scholler!"

 

"Você já nem distingue o rabo do cotovelo", disse Scholler, enojado". Oiça. Oiça-me bem..." Endireitou-se cuidadosamente. "Oiça... Eu acreditava em Deus, e ainda acredito. Sim. Sim. Cá dentro. Aqui". Bateu violentamente no peito com o indicador. ' 'Eles obrigaram-me a assinar um papel. A renunciar. Tive que o fazer. Obri... Obrigatório. Não me davam a promoção de outra maneira. Tive que renunciar a Deus. Num impresso oficial próprio, evidentemente. Evidentemente..." Começou a rir descontroladamente.

 

Quando o Dr. Behr chegou ao escritório do Administrador do Orçamento SS, na Wilhelmstrasse, na manhã do dia 20 de Abril, informaram-no de que Stapplemann havia sido morto, durante um ataque aéreo inimigo, a caminho de casa, na noite anterior. Contudo, tinha deixado um envelope sobre a secretária, dirigido ao banqueiro suíço. Entregaram-no ao Dr. Behr que o abriu ansiosamente. Não desejando ficar em Berlim mais tempo do que o necessário, ficou extremamente aliviado ao ver a assinatura do Administrador do Orçamento, por baixo da do Oficial de Ligação SS do Fíihrer.

 

O Dr. Behr permitiu-se um modesto sorriso de satisfação. Apesar de todas as dificuldades, tinha conseguido resolver o que se propusera em Berlim. A questão do levantamento podia agora prosseguir em conformidade com o processo estabelecido. Era, evidentemente, lamentável que Stapplemann tivesse sido morto na noite anterior; não que o Dr. Behr sentisse simpatia por aquele tipo de homem, mas desagradava-lhe servir-se da assinatura de um morto. Contudo, a lei nada dizia que invalidasse uma assinatura, só por o signatário ter morrido subsequentemente.

 

Pediu que lhe trouxessem alguns documentos recentemente assinados por Stapplemann, e comparou as assinaturas com a do impresso de levantamento. O Dr. Behr não era um novato no seu ofício; tinha frequentemente que comparar assinaturas, considerando a possibilidade de imitação, e era, efectivamente, um perito em grafologia. Examinando as letras perfeitamente desenhadas do nome de Oswald Stapplemann, não teve qualquer dúvida de que todas as assinaturas eram perfeitamente iguais.

 

Meteu no bolso o impresso preenchido, regressou ao Adlon e começou a fazer os preparativos para partir imediatamente. Entrando em contacto com o encarregado de negócios da Legação Suíça evacuada, recebeu a indicação de que deveria seguir imediatamente de carro para o Schloss Gross Wudicke, para onde a Legação fora transferida por motivos de segurança. Estavam em contacto com Berna e o Dr. Behr poderia receber instruções no Schloss. A Legação dispunha ainda de facilidades diplomáticas em Berlim; podiam mandar um carro buscá-lo.

 

O Dr. Behr fez a mala e desceu para pagar a sua conta e esperar pelo carro.

 

Na recepção, informaram-no de que não teria de pagar a sua estada, porque o hotel deixara, nesse mesmo dia, de apresentar contas aos seus hóspedes.

 

O grande hall de recepção com as suas paredes de mármore e o seu mobiliário Chippendale, transformaram-se num posto de socorros de guerra, e haviam colocado os feridos graves e os moribundos sobre os chapéus de tapeçaria e os sofás de veludo, deitando-se os restantes sobre a enorme carpete de Constantinopla. Quando surgiram novos feridos, levavam-nos para a barbearia, transformada numa sala de operações de emergência. Os corpos dos mortos estavam a ser colocados no jardim de Goethe, cobertos com lençóis do hotel.

 

O Dr. Behr ficou muito perturbado com este espectáculo e com o facto de não ter de pagar a conta. Era um mau presságio. Não se sentiu melhor, ao ver Scholler avançar para ele.

 

"Já concluiu o negócio?", perguntou o Investigador Especial.

 

"Já."

 

"Então está tudo em ordem?"

 

' 'Assim parece, mas a decisão final terá de ser tomada em Berna pelos seus directores", fez uma pausa. ' 'Aliás devo dizer-lhe que eles estão muito preocupados com o destino dos prisioneiros de Niederdorf, como já disse ao General Fegelein.''

 

"Já se prestou atenção à sua representação em favor deles", disse Scholler. "Iniciámos acções no sentido de garantir a segurança desses prisioneiros. Eu próprio tomei medidas para que não houvesse contra-instruções."

 

"Alivia-me muito ouvir isso", disse o Dr. Behr.

 

"Confio em que conseguiremos fechar o nosso negócio rapidamente, então."

 

"Assim o espero, desde que tudo o resto esteja em ordem."

 

"Há-de estar, eu tratarei disso", disse-lhe Scholler. "Como tenciona regressar?"

 

"Já fiz certos preparativos."

 

"Se eu puder fazer qualquer coisa para o ajudar, Dr. Behr...", ofereceu-se Scholler. "Interesso-me pela sua segurança.

 

"Compreendo a sua preocupação", disse o Dr. Behr secamente, "Mas creio que a protecção da Embaixada Suíça, será mais útil do que a sua neste momento.''

 

O groom veio avisar que o carro chegara, e o Dr. Behr afastou-se rapidamente da perturbadora presença do Investigador Especial.

 

Enquanto a comprida limousine, com as flâmulas suíças proeminentemente expostas em cada um dos guarda-lamas, atravessava sinuosamente a cidade, o Dr. Behr sentia-se terrivelmente enjoado com os gases e fedor do lixo não recolhido. A poeira sufocava-o. Notava que a cidade parara. Parecia já não haver eléctricos e muitas das lojas tinham fechado naquele dia. Já não havia bichas junto às cabines telefónicas, prova de que já não funcionavam. As lojas de alimentos ainda abertas nada tinham nas montras, além de pedaços de presunto envoltos em papier-mâché, fatias de carne e garrafas com água colorida-"só para decoração".

 

Os únicos sinais de vida, notavam-se em volta dos centros de distribuição de alimentos, onde se viam os letreiros "Rações extra de crise, aqui". A Ordnungpolizei supervisava a distribuição de alimentos às mulheres. O Dr. Behr viu uma delas ser arrastada pela polícia, por ter deitado fora, num gesto de amargura, a mão cheia de lentilhas secas, que tinham acabado de lhe distribuir, gritando algo sobre os filhos.

 

Em algumas esquinas surgiram espectáculos que obrigavam o Dr. Behr a voltar a cabeça: corpos de homens e mulheres pendurados dos candeeiros com cartazes ao pescoço que diziam: ''Abandonei o meu país e o meu povo" ou ' 'Sou um porco derrotista" ou ainda "Sou um cobarde que abandonou o seu posto". Alguns deles tinham sido esfregados com excrementos de cão.

 

Os seus olhos fixos penetravam fundo no espírito ordeiro do Dr. Behr e enchiam-no de um género de pensamentos que geralmente não tinham entrada aí: pensava no destino último de todas as coisas vivas, na decomposição da carne, pensava que, no fundo, tudo acabava mal... mal.

 

Não conseguia esquecer as palavras: "És pó e em pó te hás-de tornar". Olhando à sua volta, a profecia bíblica parecia-lhe cumprir-se. Vista de uma lomba da estrada, toda a cidade parecia ter-se transformado num enorme monte de pó.

 

Por baixo da Prinz Albrechtstrasse, Scholler e Elliot debruçavam-se sobre mapas topográficos, para decidirem onde deveriam ficar os 'arquivos especiais" do Departamento. Em Berna tinham mostrado a Elliot o plano secreto para a divisão da Alemanha em quatro zonas, Soviética, Americana, Inglesa e Francesa; cabia-lhe verificar que os dossiers ficassem escondidos na área que viria a ser a Zona Americana. Ficou decidido, como medida de precaução, dividir os dossiers em três doses e enviá-los para destinos diferentes dentro da mesma área. Um lote será levado para uma 'casa forte" entre Miesbach e Bad Tolz, a sul de Munique, que Scholler utilizara anteriormente. O segundo camião do exército seguiria mais para o Sul, para a estância alpina de Garmish. E o terceiro para sudoeste de Munique, para o Tegernsee, onde os dossiers ficariam escondidos num barco entre Gmund e St. Quirin.

 

Scholler apresentou-lhe mapas do exército em grande escala, onde marcou os esconderijos, e Elliot gravou na memória os locais exactos.

 

Finalmente Scholler mostrou a Elliot que guardava na sua pasta de couro o índice, a chave indispensável, para se descobrir qualquer nome entre os milhares existentes. A pasta tinha uma fechadura de segredo, que Scholler fechou em frente de Elliot, mas sem o deixar ver os números da combinação.

 

"Não confia em mim?"

 

"Não é isso."

 

"O que é então?"

 

' 'É estupidez meter todos os ovos no mesmo cesto."

 

Chamou Kummerl e, em frente de Elliot, deu-lhe instruções para despachar os dossiers para os destinos combinados. Depois de o seu assistente principal ter anotado todos os pormenores, Scholler disse-lhe: ' 'Mande retirar a guarda à família do General Wolff e rescindir a ordem que restringe os seus movimentos. Quero isto feito imediatamente".

 

"Às suas ordens, Direktor."

 

"Qual é a situação militar?"

 

Kummerl fez-lhe um relato da situação em voz monótona, tendo, ao que parecia, atingido o extremo do seu pânico: "O último comunicado confidencial do Comandante de Berlim, diz que as colunas de tanques Russos estão a oito milhas dos arredores de Berlim. O Quartel General dos Altos Comandos em Zossen está a ser abandonado. Espera-se que caia em poder dos soviéticos dentro de vinte e quatro horas''.

 

"E o corredor para o sul?"

 

"Estava aberto na altura do último comunicado, Herr Direktor."

 

"Até à Suíça?"

 

' 'Na altura do último comunicado, sim, Direktor. A testa de ponte americana através do Elba, em Barby, a sudoeste de Magdeburgo, mantém-se. Mas os americanos não se movem. Segundo os relatórios da nossa espionagem, Eisenhower ordenou-lhes que parassem e deixassem os russos tomar Berlim."

 

"Contudo", disse Scholler, "ninguém teria a loucura de tentar sair da cidade, pois não? Especialmente por causa dos castigos."

 

"Ninguém faria essa loucura", concordou Kummerl.

 

Scholler avançou até ao mapa de parede, onde uma floresta de setas coloridas, indicava as forças que convergiam para Berlim. O círculo estava quase completo. De acordo com a última informação recebida, traçou outra seta vermelha junto dos subúrbios a oriente da cidade, apontando para Treptow. Prolongou uma seta vermelha para sul, cortando Zossen. Dessas duas grandes linhas extraiu tentáculos penteados que terminavam em pontos de interrogação junto de Teltow e Zahlendorf, a sul, e de Spandau, a noroeste, e um outro que saía do Primeiro Exército Ucraniano de Konev, em Muskau, e terminava numa série de pontos de interrogação ao longo da margem oriental do Elba, em redor de Torgau e Strehla.

 

Dando uns passos atrás, coçou a cabeça e estudou o efeito destes últimos avanços projectados. O corredor de saída de Berlim, ao cimo, parecia um longo pescoço de cisne retorcido até Chemnitz e Meissen. Mais abaixo alargava, mas o pescoço propriamente dito não poderia ser mais fino.

 

"É como meter um barco à vela pelo gargalo de uma garrafa", disse misteriosamente.

 

''Exactamente, Direktor.''

 

"Mas consegue-se meter barcos à vela dentro de garrafas."

 

"Ah, sim, isso é verdade", disse Kummerl, com o ar vago que adquirira ultimamente.

 

Depois de Kummerl sair para cumprir as suas instruções, Scholler disse, "Bom, você ouviu o que ele contou. Tettios que pôr-nos a mexer."

 

"Esqueceu-se de uma coisa, Scholler. Os documentos para os von Niesor, pai e filha."

 

"Não se conseguem obter a tempo", disse Scholler, mexendo os papéis da secretária. Tinha uma série de assuntos de última hora a tratar; provisões para a viagem: comida, armas, gasolina.

 

"Têm que se arranjar a tempo."

 

''Impossível. Além disso já ouviu qual é a situação. Nunca conseguiriam passar". Ia metendo papéis nas gavetas e fechando-as.

 

"Nós vamos conseguir passar."

 

"Porque eu vou consigo, porque eu conheço o caminho, porque eu tenho certa prática destas coisas..." Pegou no telefone interno.

 

"Eu sei que é apenas uma possibilidade", disse Elliot, mas quero que eles a tenham."

 

"Não posso passar as autorizações. Têm que vir do Comandante de Berlim."

 

"Conseguiu obtê-las para a sua mulher e para o seu filho."

 

Scholler pousou o auscultador do telefone interno sem chegar a falar. ' 'Partiram no dia 17. Hoje são 20. Estes dias já fazem uma grande diferença", disse.

 

"Contudo, você pode arranjar os papéis, visto que pode arranjar tudo."

 

"Está absolutamente fora de questão."

 

"Veja as coisas do meu ponto de vista, Scholler. Se eles não partirem, eu também não parto. E, se eu não sair. o seu acordo com Dulles fica sem efeito. Por isso - pense no caso como se fosse para se salvar a si próprio. Isso, julgo eu, estimulá-lo-á a descobrir qualquer hipótese."

 

Scholler olhou para Elliot com o silencioso espanto que causava a ideia de que alguém pudesse agir tão estupidamente por causa de uma rapariga com a qual nem sequer dormira. Tentou avaliar se Elliot estaria apenas a fazer bluff. Não podia acreditar que ele pusesse em risco a operação Amanhecer por causa de uma mulher. Mas nunca se sabia, com aqueles americanos inocentes.

 

"Está totalmente louco", disse, mas já sem discutir. Tinha evidentemente aceitado a situação e poupava o fôlego. "Vou ver o que pode fazer-se", disse.

 

"Eu sabia que acabaria por pensar assim, logo que estudasse a situação do ângulo devido."

 

No dia 20 de Abril, em Washington, os Chefes do Estado Maior Conjunto, tinham chegado à conclusão de que as intrigas e conspirações de Dulles ficavam demasiado caras em face da possibilidade de quebra da aliança com os russos, e enviaram-lhe um aviso com o sinal triplo de prioridade que transmitia ordens inequívocas para cortar todas as negociações com os Nazis.

 

O telegrama de Washington dizia:

 

  1. POR CARTA DE HOJE, OS JCS (CHEFES DO ESTADO MAIOR CONJUNTO) EMITEM ORDEM PARA QUE A OSS TERMINE TODOS OS CONTACTOS COM EMISSÁRIOS ALEMÃES IMEDIATAMENTE. DULLES DEVERÁ PORTANTO PÔR FIM IMEDIATO A TODOS ESSES CONTACTOS.

 

  1. A CARTA DIZ IGUALMENTE QUE OS CCS (CHEFES DO ESTADO MAIOR MISTO) APROVARAM UMA MENSAGEM PARA ALEXANDER, DIZENDO QUE É EVIDENTE PARA ELES QUE O COMANDANTE EM CHEFE ALEMÃO NA ITÁLIA NÃO TENCIONA RENDER-SE, NESTA OCASIÃO, EM CONDIÇÕES ACEITÁVEIS. A MENSAGEM PROSSEGUE: EM CONFORMIDADE, ESPECIALMENTE EM VISTA DAS COMPLICAÇÕES QUE SURGIRAM EM RELAÇÃO AOS RUSSOS, OS GOVERNOS AMERICANO E BRITÂNICO DECIDIRAM QUE A OSS DEVIA PÔR FIM AOS CONTACTOS; QUE OS JCS DÃO AS SEGUINTES INSTRUÇÕES À OSS: TODA A QUESTÃO DEVERÁ SER CONSIDERADA SEM EFEITO E OS RUSSOS DEVERÃO SER DISSO INFORMADOS ATRAVÉS DOS REPRESENTANTES MILITARES ALIADOS EM MOSCOVO, ARCHER E DEANE.

 

Sombriamente, Dulles mostrou a mensagem a Quantregg.

 

"Mas eles não podem fazer isto", disse ele, "quando já temos tudo encaminhado."

 

"Podem", corrigiu Dulles. "Podem, sem dúvida alguma."

 

"Que fazemos?"

 

' 'Bom, uma coisa é perfeitamente clara. Não posso permitir que Scholler se apresente em Berna, para receber a sua parte do acordo. Além disso", acrescentou Dulles, "se Scholler sabe - e é provável que o saiba através das suas fontes - que a operação Amanhecer foi anulada, a vida de Elliot vale menos que nada."

 

"Que fazemos, então?"

 

"Temos que agir antes que Scholler o faça". Fez uma pausa para pensar e disse: "Mande uma mensagem a Elliot, por intermédio do Relojoeiro. Diga-lhe que a porcaria do relógio parou. Que há um defeito na mola principal. Tem que ser eliminada. Explicou-lhe o código?"

 

"Sim, senhor."

 

"Acha que ele é capaz?""

 

"Francamente... não sei, senhor Dulles. Não teve qualquer treino."

 

"Esperemos que tenha aprendido alguma coisa nestes dias.

 

Eram onze horas da noite, quando Scholler voltou do seu escritório exterior, com alguns papéis na mão e disse a Elliot, que estava estendido na cama de ferro, a fumar: ' 'Bom, está feito. Arranjei-lhe os documentos."

 

Elliot saltou da cama e, excitadíssimo, examinou os vistos de saída assinados pelo Comandante de Berlim; eram passes de prioridade máxima emitidos pelo Ministério do Interior e um visto Especial da Polícia, com o carimbo do Departamento do Investigador Especial do Reich. Este último tinha sido assinado por Scholler.

 

"Você é um mágico, Scholler!", disse Elliot.

 

"Evidentemente."

 

"Como conseguiu isto?"

 

"Lembrei-me de uma coisa."

 

"Já calculava, em face do incentivo."

 

"Aprendeu alguma coisa, desde que está comigo."

 

"Aprendo depressa", disse Elliot.

 

''Pensei que gostaria de dar você mesmo os documentos à Maritza. Um carro da polícia leva-o lá e espera por si. Não pode demorar-se muito, compreende? Partimos logo que regresse."

 

Elliot já tinha preparado a cena. Enquanto estava estendido na cama à espera, preparara tudo. Bateria à porta dela e diria: "Não se lembra já de mim. Pensou que eu estava bêbado. Não acreditou em mim... Julgou que apenas tentava apanhada. Pois bem, aqui tem."

 

Sim. Era assim que faria. Uma cena à Van Johnson. "Aqui tem os documentos, Fraulein".

 

Havia um bombardeamento aéreo quando parou em frente da casa. Era curioso como, lá em baixo, nem se pensava naquilo. O estremecimento da terra tornara-se um hábito e passara a ser normal. Mas ao ar livre notava-se bem o céu em chamas. Nessa noite era a periferia sul da cidade que estava a ser massacrada. Para fechar a rota de fuga. Tinham posto de parte o centro, visto que quase tudo se encontrava já destruído.

 

Arranjou-se em frente da porta. Um ar casual. Simples. Não devia parecer demasiado satisfeito consigo próprio. Apenas um gesto normal e civilizado - platónico - de um ser humano para outro ser humano. Estilo Van Johnson.

 

Ela própria abriu a porta. E reconheceu-o imediatamente. Apesar do blackout.

 

"É você", disse, como se estivesse estado à espera dele. Não perguntou o que ele queria, afastou-se simplesmente para o deixar passar. Elliot hesitou, tendo-se preparado para um maior antagonismo que planeava demolir com a frase: "Trago-lhe os documentos, Fraulein."

 

Entrou e ela ficou a observá-lo com um olhar um pouco apático.

 

"É melhor fecharmos a porta", disse. "O blackout". Elliot fechou a porta e encostou-se a ela. Fazia frio no hall sem aquecimento. A rapariga vestia um roupão acolchoado, bem apertado, para se aquecer.

 

Escondendo o melhor que podia o triunfo que o dominava entregou-lhe o envelope. Sem dizer uma palavra. Ela pegou rapidamente nos papéis e observou-os. Levou-os para a luz e estudou-os cuidadosamente, página por página, secção por secção. O passe de viagem com prioridade máxima emitido pelo Ministério do Interior. A autorização Oficial para sair de Berlim, assinada pelo Comandante de Berlim. O visto da polícia assinado por Scholler.

 

Finalmente disse, sem suavidade nem gratidão na voz: "Porquê? Porque me trouxe isto?"

 

"Eu disse-lhe que os arranjava", disse ele. As coisas não estavam a correr como previra: ela parecia ressentir-se do facto de ele ter mantido a sua palavra. Estava desconfiada.

 

"Um homem de palavra!", troçou ela. "Um polícia secreto com sentido de honra!"

 

' 'Porque não aceita simplesmente a ideia de que alguém deseja ajudá-la?..."

 

"Em troca de nada? Ou porque quer...? Estes papéis valem uma fortuna. Há mulheres que se entregam por um maço de cigarros."

 

"Não é nada disso", disse ele.

 

"Que quer então?"

 

"Nada."

 

"Nada? Não acredito. Toda a gente quer qualquer coisa. Você quer sentir-se bem com a sua consciência!", disse ela, com súbita compreensão. ' 'Até nos campos de concentração eles às vezes escolhem uma pessoa com quem são amáveis e que chegam a salvar. Para que o guarda se sinta bom. Humano..."

 

Elliot abanou a cabeça, sofrendo por não poder dizer-lhe quem era.

 

"Tenho que partir", disse ele.

 

"Não está apaixonado por mim, pois não?" perguntou ela.

 

"Sim, creio que estou." "Mas vai-se embora?"

 

''Tenho que ir. Tenho um carro lá fora à espera. Tenho mesmo que partir."

 

"Não voltarei a vê-lo?"

 

"Não. A menos que o deseje. Posso dar-lhe um número de telefone. Se tudo correr... bem, pode telefonar-me."

 

Ela acenou com a cabeça, com a garganta estrangulada, enquanto o via escrever um número num pedaço de papel.

 

"É na Suíça", disse ele.

 

"E se eu o perder, ou se alguma coisa...?" A sua voz perdera o tom trocista.

 

"Hei-de descobri-la, se quer que eu o faça."

 

"Sim, acho que quero." As palavras foram pronunciadas quase contra vontade. Ela própria se estranhou por as dizer.

 

O carro da polícia buzinava de vez em quando, recordando-lhe que não havia tempo a perder.

 

"Tente sair pelo Sul", disse ele. "O mais para sul que puder. Veja se consegue chegar aos Alpes da Baviera. É o lugar mais seguro... vai ser a zona americana."

 

Avançou desajeitadamente para ela, pensando apenas tocar-lhe, com medo de que, se tentasse beijá-la, ela o voltasse a afastar como da outra vez. Pousou a mão no braço dela para lhe dizer adeus. A rapariga ergueu o olhar para ele, interrogativamente. Tocando-lhe muito ligeiramente no outro braço, Elliot descobriu, com surpresa, que a estava a abraçar. Ela ergueu os lábios, em sinal de gratidão, e beijou-o.

 

Sentindo que lhe devia isso, disse suavemente: "Pode ficar."

 

Ele disse: "Mas tenho de partir!"

 

A rapariga encolheu os ombros e disse: "Faça como quiser", e afastou-se dele, tendo feito tudo o que achava ser o seu dever.

 

Então ele agarrou-a e puxou-a para si, metendo-a dentro do sobretudo grosso e beijando-a. Tropeçaram, como se estivessem atados um ao outro, enquanto se dirigiam para as escadas, e ele descobriu que não podia ir-se embora. Encostando-a ao corrimão das escadas, começou a desapertar-lhe o roupão e levantou a fina roupa interior, e ela ergueu um dos joelhos para lhe permitir que penetrasse nela. Todo o medo que ele sentira, a sua forçada coragem e o seu desejo abandonaram-no quase imediatamente. Con surpresa - uma vez que todo o acto não passara de uma simples formalidade, um serviço rapidamente prestado - também ela se sentiu transportada a um êxtase de extraordinária intensidade. Não conseguia compreender esta sensação, mas,   quando ele começou a murmurar que não tencionava violentá-la, ela fê-lo parar, apertou-lhe a mão fortemente e, enquanto se separavam, disse: "Não quero perdê-lo agora"; franziu um pouco a testa, ao dizer estas palavras, porque não lhe pareciam suas. Levou-o pela mão, que continuava a apertar fortemente, para o quarto, e aí ele pareceu dobrar-se pelo meio, talvez pelo alívio da tensão a que estivera submetido, talvez por qualquer outro motivo, e deixou-se cair sobre a cama onde ficou quieto por momentos, evitando o olhar inquiridor e profundamente admirado da rapariga. Ela ia justamente perguntar-lhe o que se passava, quando notou que os olhos dele se fechavam de súbito e ele caía num sono profundo, como uma criança no final de um dia demasiado cheio.

 

Estudava o rosto dele quando o viu acordar tão abruptamente como tinha adormecido. A buzina do carro da polícia tocava agora continuamente. A rapariga viu a agitação regressar ao seu rosto, após a pausa breve: ele levantou-se da cama e dirigiu-se para a porta. Seguiu-o desdobrando o pedaço de papel amarrotado com o número do telefone suíço. Olhou para o papel e depois para ele. "Isto é tudo?" perguntou.

 

Ele acenou com a cabeça silenciosamente, com os lábios apertados; depois voltou-se e partiu.

 

Scholler ergueu o olhar para ele, por baixo das diversas camadas de velhos sobretudos com que se cobrira, na estreita cama de ferro do seu escritório.

 

Olhou sinistramente para Elliot e, em seguida, atirando fora os sobretudos, pousou os pés no chão de pedra. Não tinha tirado os sapatos; estivera a dormir totalmente vestido.

 

Esfregando a barba crescida e espessa, procurou o maço de cigarros e acendeu um.

 

"Bela altura para... andar atrás de mulheres. Bela altura!"

 

Ergueu-se e caminhou pesadamente para a secretária. Fez um gesto abrupto com a mão, indicando a Elliot o mapa de Berlim, para o qual apontou um dedo esticado. Depois pegou num lápis encarnado grosso e traçou um círculo quase completo em volta da capital.

 

"Os russos cercaram totalmente Berlim, com excepção desta área aqui a sudoeste, mais ou menos entre Spandau e Teltow, que ainda está aberta... ou estava há dez minutos."

 

"Então é melhor irmos andando", disse Elliot.

 

Scholler tirou um termo da secretária, deitou café quente em dois copos de papel, apenas até três quartos de altura, e acabou de os encher com cognac. Fez sinal a Elliot para que se despachasse.

 

Enquanto bebiam, o telefone tocou. Scholler atendeu. Uma expressão de dúvida espalhou-se pelo seu rosto. Após um momento de hesitação, voltou-se para Elliot.

 

"O homem quer falar consigo! Diz que é o seu relojoeiro."

 

Continuou a segurar o telefone, à espera de uma explicação.

 

"É o sistema", disse Elliot tranquilamente, "de Dulles entrar em contacto comigo."

 

Scholler acenou afirmativamente, ponderando a resposta. Depois disse: ' 'Atenda no telefone de Ki mmerl. Eu ligo para lá."

 

"Atendo aqui", disse Elliot, avançando e tirando o telefone da mão de Scholler.'' Alo, fala Haften'', disse.

 

Scholler dirigia-se para a porta.

 

Elliot segurou o telefone ameaçadoramente sobre o descanso.

 

"Fique onde está, Scholler! Onde eu possa vê-lo." ' 'Ia só à casa de banho", explicou o outro inocentemente. "Aguente. Ou prefere que eu não atenda a chamada?" Scholler pensou um pouco e disse: "Vamos. Fale." "Haften", disse Elliot.

 

Na sua cave de Wilmersdorf, o relojoeiro introduziu um novo carregador na sua metralhadora e disse: "Trata-se do seu relógio, Herr Haften. Parou completamente. A mola principal. Tem que ser eliminada. Compreende?"

 

Elliot disse: "Compreendo. Bom, agradeço a informação. O problema é que, bem vê, eu ia sair agora mesmo..."

 

Na cave de Wilmersdorf, o relojoeiro franziu o sobrolho e lançou um rápido olhar ao seu assistente que estava a colocar um rastilho de queima lenta numa granada de fixação.

 

''Tem quem lhe arranje o relógio no sítio para onde vai?" perguntou. "Ou prefere que eu lho arranje? Posso ir ter consigo dentro de - três quartos de hora."

 

"Vamos partir imediatamente", disse Elliot. "Não, penso que será mais conveniente arranjarem-mo no local para onde vou."

 

"Como quiser, Herr Haften."

 

Scholler olhava perigosamente para ele, quando Elliot pousou o auscultador.

 

"Uma mensagem em código do senhor Dulles", disse. "Está tudo bem. A família de Wolff chegou em segurança a Itália, pelo que Wolff fica livre para actuar agora. Já está em Fasano. Portanto, podemos raspar-nos."

 

"Fico muito satisfeito por ouvir isso", disse Scholler, após uns momentos de reflexão.

 

Tinha havido um raid aéreo de madrugada. O fim de alerta soava quando subiram a rampa íngreme, dentro do carro da polícia, com os faróis nos máximos, para penetrar a escuridão subterrânea. Não sabiam se a saída para a rua ainda estaria aberta. Uma nova avalanche de pedras descera sobre a cratera, bloqueando em parte a passagem chapeada a ferro que cobria a distância entre a entrada do subterrâneo e a rua.

 

Tornava-se necessário guiar por fora das chapas de ferro e obrigar o carro, com o motor a protestar, a subir os últimos metros pela parte lateral da cratera. O girar das rodas sobre o entulho aumentava a poeirada. Tornava-se impossível ver fosse o que fosse, ao longo de centenas de metros, e Scholler teve de guiar ás cegas, confiando na sua inegável capacidade de interpretar as sombras e os graus de escuridão, para descobrir uma saída. Quando surgiu uma aberta na muralha de poeira, a luz da cidade em chamas, reflectida pelas nuvens, fazia com que o próprio céu parecesse arder. Passando sinuosamente através das ruínas, viram pessoas que caminhavam pelas ruas, com a expressão vaga dos loucos.

 

O caminho que tomaram levou-os à Potsdamer Platz. Quando ultrapassaram a cúpula vazia da Kempinski Kaffeehaus, ouviram algo de novo. Soava como se a terra se abrisse, e, em toda a Platz, as pessoas morreram instantaneamente, com os pulmões rebentados pela explosão de uma granada ofensiva e os corpos perfurados por milhares de estilhaços.

 

"Deus do céu!", disse Scholler. "A artilharia russa começou a lançar granadas sobre a cidade."

 

A explosão tinha projectado o carro uma vintena de metros para fora da estrada, para cima do passeio, mas a blindagem de 1,1/2" de espessura e o vidro à prova de bala tinham-nos protegido dos seus piores efeitos. Cinco segundos depois nova granada caiu um pouco mais adiante, e cinco segundos depois uma terceira.

 

Enquanto os gritos dos feridos e dos moribundos enchiam o ar, um novo medo surgia nos rostos dos que ainda viviam. Agora era realmente o fim. Os russos estavam às portas da cidade, e ninguém duvidava, na cidade, do que isso significava. O Ministério da Propaganda esforçara-se por que chegassem ao conhecimento de todas as histórias de violações e de matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças.

 

Scholler guiava como um louco astucioso, por cima dos passeios, por entre as pedras caídas dos edifícios. Sem a rádio Mio para lhe indicar a rota de destruição - as granadas caíam ao acaso, com um assobio violento, como um comboio expresso descontrolado, avisando do impacto iminente. Ouvia-se esse assobio com intervalos de poucos segundos e, nas ruas abertas, as pessoas que o ouviam pela primeira vez sentiam instintivamente o que ele significava e corriam a abrigar-se, em pânico, embora ficassem despedaçadas durante a corrida. Scholler elaborara um plano, tomando em consideração não só a tenaz russa que se fechava em volta da cidade, mas também os postos de controlo SS no único segmento ainda aberto.

 

Tendo em conta ambos os perigos, traçou uma rota intrincada que dependia do seu conhecimento dos locais onde se situavam as principais posições de defesa e os postos de controle. Dada a situação caótica, nada podia garantir-lhe, contudo, que essas unidades ainda estivessem nos locais onde supunha que devessem estar, e havia ainda que evitar os tribunais móveis, com a sua justiça sumária. Porém, o melhor era seguir o seu plano até que os acontecimentos lhe ditassem o contrário. Assim, tendo atravessado a Potsdamer Platz, avançou para oeste, através do Tiergarten, até ao ponto onde a Kant Strasse e a Kurfurstendamn convergiam. Quando passaram pelo jardim zoológico, ouviram os uivos dos animais selvagens que estavam a ser abatidos pelos guardas, e viram cavalos à solta a trotar pelas ruas desertas.

 

Algumas zonas do centro da cidade estavam totalmente vazias. Ou todos estavam mortos ou tinham passado a viver definitivamente debaixo do chão, nos abrigos profundos, nos postos subterrâneos, nas adegas e caves, e nos esgotos.

 

O quadro mudava de uma rua para a outra. De súbito, o carro da polícia tinha de abrir caminho por entre hordas de fugitivos, carregando os seus pertences às costas, empurrando carrinhos de bebé e carros de mão, cheios de utensílios caseiros, mães de bicicleta, com os filhos atados a elas... Toda essa gente tinha as faces devastadas e desorientadas, cobertas de poeira e sujidade, e os olhos cheios de desespero e incompreensão.

 

"Para onde vão, para onde vão?" gritava-lhes Scholler, com a mão continuamente na buzina do carro. Por vezes, tinha que ligar a sirene para abrir caminho entre os refugiados.

 

"Hei, vocês aí! Donde vêm?"

 

"Do leste. Os russos penetraram em Fiirstenwalde."

 

O grupo seguinte a quem Scholler gritou a mesma pergunta respondeu: "Vamos para leste. Para Fiirstenwalde. Os russos entraram pela parte ocidental..."

 

Scholler continuou a descer a Kant Strasse até à Adolf Hitler Platz e daí, passando pelo Reichssportfeld, até ao extremo norte do lago Havei, onde se fixara um batalhão da Juventude Hitleriana, para aguentar a ponte de Pichelsdorf, até à chegada prevista do exército do General Wenck.

 

Não foi excessivamente difícil para Scholler persuadir o Chefe da Juventude Hitleriana a deixá-lo atravessar a ponte; o hábito de obediência a uma autoridade como a do Investigador Especial do Reich, tinha sido profundamente inculcado no jovem comandante.

 

Do outro lado do lago, Scholler rodou para sul, paralelamente ao Havel, rodeando Gatow e Kladow. Vendo, através do seu mapa, que havia unidades do Novo Exército no extremo inferior do lago, e pensando que os seus oficiais seriam mais difíceis de manejar do que o comandante da Juventude Hitleriana, fez um largo desvio em volta de Potsdam e dirigiu-se para Wittenberg.

 

Já se notava o frio, demasiado para aquele fim de Abril, agora que o centro da cidade a arder ficara para trás. Em grandes áreas do céu formavam-se grossas nuvens negras de tempestade, suspensas a baixa altura sobre o horizonte, como grandes massas móveis. A distância, uma luminosidade sinistra indicava que o tempo estava a clarear.

 

Surpreendentemente, a estrada estava apinhada. A população em fuga, tinha posto ao seu serviço todos os tipos de veículos particulares. Deviam ter acumulado gasolina para esta emergência final. Muitos dos carros já se tinham avariado e bloqueavam a estrada.

 

A sirene da polícia e a luz giratória conferiam a Scholler um certo grau de prioridade, mas mesmo assim, teve que seguir lentamente nas primeiras cem milhas, e já era quase noite quando o tráfego diminuiu, perto de Wittenberg.

 

Compreenderam porquê algumas milhas mais adiante. Barricadas de arame farpado. Tanques a servir de Obstáculo. Postes com avisos em inglês e alemão. PERIGO. CAMPO DE MINAS. PASSAGEM PROIBIDA. Scholler prosseguiu, consciente de que as defesas alemãs estavam melhor equipadas com postos de aviso do que com minas propriamente ditas. Não teriam sido colocados campos de minas na retaguarda das tropas alemãs, a menos que Himmler tivesse enlouquecido totalmente.

 

À saída de Wittenberg foram detidos por um destacamento da polícia móvel das Waffen SS. Homens armados de metralhadora rodearam o carro. Um oficial começou a gritar e a gesticular. Não tinham visto os letreiros? Que faziam ali? Não compreendiam que estavam a cinco milhas da frente?

 

Scholler identificou-se: "Reichskriminaldirektor Scholler e o assistente Haften..."

 

O oficial SS não se deixou impressionar.

 

' 'Todo o pessoal militar e de defesa tem ordem para seguir para o norte. Quem se dirija para sul é considerado desertor e traidor. Temos ordem para abater quem quer que se dirija para sul..."

 

Tinha aberto a porta do carro e metido uma mão lá dentro para arrastar para fora aqueles porcos fugitivos e proporcionar-lhes a justiça sumária que aquela canalha merecia. O Coronel das Waffen SS tinha poucos motivos para crer que ainda estaria vivo daí a vinte e quatro horas, pelo que não podia compreender porque havia de deixar passar aqueles "Faisões dourados", com todas as suas ligações, as suas mulheres ou os seus amiguinhos. Um fuzilamento ajudaria a passar o tempo e diminuiria a tensão geral. O seu motivo era evidente. Quem quer que se dirigisse para sul era um traidor e merecia a morte.

 

"Para fora! Para fora!" gritou, fazendo sinal aos seus homens, que já destravavam as armas e cujos rostos macilentos ganhavam um tom de vida, perante a ideia daquele sinistro desporto. Scholler saiu do carro.

 

''Imbecil!" A voz de Scholler tinha o tom inconfundível, duro e abusivo, da autoridade. Voltando-se para os homens do Coronel, ordenou-lhes: "Prendam este homem!"

 

''Com que autoridade?", perguntou com insegurança um jovem oficial, olhando do Coronel para o homem que acabara de sair do carro.

 

Scholler meteu o seu impressionante crachat por baixo do nariz do jovem oficial. Ao Coronel disse: "Com que então sabia que apenas é autorizado o tráfego para norte? Nesse caso, explique-me porque permitiu a passagem a dezenas de traidores e desertores que se dirigem para a fronteira suíça..."

 

O Coronel começou a gritar. Scholler berrou mais alto. A gritaria demorou algum tempo, sem que alguém conseguisse perceber o que qualquer deles dizia.

 

Finalmente, quando o Coronel acabou por se considerar vencido, ouviu-se Scholler dizer: "Afirma que não lhes permitiu a passagem! Nesse caso porque pensa que eu recebi ordens do Reichsfílhrer Himmler para os perseguir? Está a afirmar que o Reichsfiihrer é mentiroso ou está mal informado?"

 

Afastou-se do homem intimidado e gesticulou impacientemente para o oficial jovem.

 

"Quem quer que me detenha, responderá perante o Reichsfiihrer Himmler." Voltou a entrar para o carro, arrancou e avançou para a barreira que foi apressadamente levantada à sua aproximação.

 

A partir dali todo o tráfego era apenas militar. Tinham penetrado na zona de batalha. Vinte milhas para oeste lutava-se pela posse de Dessau, e as tropas SS opunham feroz resistência à Terceira Divisão Blindada Americana.

 

Mais para sul, Halle e Leipzig tinham caído. E, mais abaixo, no corredor, na rota directa norte-sul, toda a resistência organizada se concentrava em Nuremberg. Os americanos estavam a levar a cabo operações de limpeza nesse ponto, e iniciavam a sua principal avançada para Augsburg e Munique.

 

Sob a chuva contínua, a estrada tinha-se transformado numa mistura de óleo, lama e água. Os pesados camiões do exército moviam-se entre nuvens de humidade, salpicando os parabrisas do carro da polícia, que se tornavam opacos entre cada passagem dos limpa-vidros. Na paisagem molhada, os verdes, os castanhos e os amarelos misturavam-se, numa humidade cinzenta que tudo envolvia e proporcionava uma espectral subitaneidade à aparição dos objectos: uma casa, um tanque, uma plataforma para metralhadoras numa elevação de terreno.

 

Os ventos fortes lançavam a chuva em todas as direcções e obrigavam os camiões do exército a zigue-zaguear, com as coberturas de lona e as bandeiras a agitar-se ao vento.

 

Logo a seguir a Wittenberg, Scholler atravessou o Elba, e, depois disso, mantiveram-se na sua margem oeste e seguiram mais ou menos o curso do rio, sabendo que os americanos se encontravam à direita, a distâncias variáveis.

 

A maior parte das aldeias por que passavam estavam silenciosas e vazias, vendo-se apenas ocasionais movimentos abruptos por trás duma cortina, a revelar a presença dum aldeão aterrorizado.

 

Em certo ponto, depois de Torgau, a estrada começava a subir, proporcionando uma clara visão da margem oriental, e eles viram que, numa área de cerca de meia milha, o terreno ao longo da margem estava coberto com corpos de civis, homens, mulheres e crianças. Viram camionetas agrícolas voltadas e cavalos mortos. Havia malas, vestuário, sapatos, chapéus, almofadas, relógios, fotografias emolduradas e outros pequenos pertences pessoais espalhados por toda a parte.

 

Nada se movia. Quem quer que fosse o responsável por aquela chacina, havia partido.

 

Já estava escuro quando ultrapassaram Strehla. Tinham levado cerca de 12 horas a percorrer cem milhas.

 

A necessidade de manter os faróis ao mínimo tornaria a viagem de noite muito lenta, e qualquer luz poderia atrair fogo. Além disso, a possibilidade de encontrarem uma patrulha russa ou SS era muitíssimo maior no escuro. Tendo isto tudo em consideração, Scholler decidiu parar durante a noite e começaram a procurar um local adequado. À última claridade do dia, avistaram uma casa baixa, no meio duma quinta, à que se chegava através dum caminho retorcido. Ficava a cerca de um quarto de milha da estrada e, pela maneira como a porta batia, ao vento, abrindo-se e fechando-se, Scholler concluiu que o lugar estava abandonado.

 

Já escurecera quando meteu o carro, aos saltos, pelo atalho mal arranjado. Em certos pontos havia profundos fossos aos lados, e ele era forçado a conduzir devagar, sem luzes, pouco mais depressa do que um homem a andar. Ao aproximar-se da casa, puxou da sua Luger e colocou-a cuidadosamente sobre o tablier. Fez sinal a Elliot para que pegasse na metralhadora que estava debaixo do banco.

 

Parou o carro a curta distância da casa e continuaram a pé.

Nãovinha qualquer som lá de dentro, com excepção do ruído regular da porta a bater, abrindo-se e fechando-se, abrindo-se e fechando-se. Não se via qualquer luz por trás das janelas sem cortinas, nem uma chama de gás ou o brilho de um cigarro, ou as brasas de um fogão de lenha. Scholler ficou à escuta. Nada. Pegou numa pedra e atirou-a contra a porta. Não houve reacção. Pegou numa segunda pedra mais pesada, e atirou-a contra uma das janelas. O vidro estilhaçou-se ruidosamente. Não houve qualquer outro som ou movimento.

 

"Venha", disse Scholler, seguindo à frente. "Fique dez passos atrás e cubra-me."

 

Com a Luger numa mão e a laterna na outra, dirigiu-se à porta da frente, abriu-a com um pontapé e, após um momento de hesitação, entrou. Do lado de fora, Elliot via o cone de luz mover-se sobre as paredes e o mobiliário. Aproximou-se mais de Scholler.

 

O feixe de luz tinha caído sobre uma longa mesa, revelando um pão, uma garrafa de vinho, travessas, um prato de sopa, os restos de uma refeição, e, depois, quando Scholler levantou mais a lanterna, o rosto de um homem, depois outro e outro ainda.

 

Reagindo com um espasmo nervoso, Elliot começou a disparar violentamente, à altura da anca, estilhaçando as travessas e os pratos com a primeira rajada. Scholler gritava: ' 'Pare! Pare!" e, quando Elliot parou continuou a não haver movimento algum das pessoas sentadas à mesa. O cone de luz caiu, em seguida, sobre o rosto de uma mulher, depois no de uma criança e de outra ainda. As narinas de Scholler aspiravam profundamente o ar. Elliot ainda não compreendera.

 

"Estão todos mortos", disse Scholler. "Cianeto." Voltou a lanterna mais para cima, iluminando as costas altas de um grande cadeirão de pinho. Entalados entre a mesa, à sua frente, e as costas do cadeirão, tinham morrido sentados, no final da refeição, e tinham permanecido naquela posição. A luz da lanterna revelou diversos outros corpos, desta vez no chão, dois cães, um rapaz de cerca de doze anos, um bebé, uma velha, um homem de meia idade.

 

"Aqui serve", disse Scholler. Voltou ao carro e meteu-o no celeiro ao lado da casa. Do porta-bagagens retirou latas de atum, pão e uma garrafa de cognac. Elliot seguiu-o, transportando a metralhadora e cobertores.

 

Passaram por entre os corpos no chão e subiram a escada para o andar de cima, onde haviam diversos quartos. Scholler observou rapidamente cada um deles, fazendo circular a lanterna, e experimentando com a mão as molas dos colchões. Enquanto o fazia, ocorreu a Elliot que era boa altura para eliminar a mola principal.

 

Scholler voltou-se abruptamente para ele: ' 'Dormimos no mesmo quarto. Eu tenho o sono muito leve. O mais ligeiro som me acorda - por isso estará seguro comigo. Ninguém consegue surpreender-me a dormir."

 

Depois de terem comido, Scholler preparou uma cama com os cobertores que trouxera do carro. "Pequenos lavradores", disse. "Gente porca! Não quero apanhar os percevejos deles." Enquanto arrancava os lençóis usados, indicando a Elliot que fizesse o mesmo à outra cama, continuou a falar: ' 'Tem sorte em estar comigo. Sabia? Julga que sobreviveria sozinho? Hem? Até onde pensa que conseguiria chegar? Não muito longe. Não muito longe. Bem vê, eu sou-lhe útil. Sei muita coisa. Não é verdade? Estamos protegidos porque", riu-se, "somos como dois amantes - precisamos um do outro. Foi um bom sistema que o senhor Dulles preparou. Eu tenho que olhar por si, e você... e você sabe que sem mim está arrumado. Por isso, podemos ambos dormir descansados."

 

Enquanto falava, meio divertido, lançando olhadelas periódicas a Elliot, ia tirando o casaco, o colete e as calças, embora conservasse a sovaqueira com a pistola, e meteu-se entre os cobertores que trouxera do carro, na cama maior. Dois ou três minutos depois, a avaliar pela sua quietude, adormecera.

 

Elliot voltou-se na sua cama e as molas do colchão guincharam como um sinal de alarme. Scholler abriu imediatamente os olhos e voltou a fechá-los, com um meio sorriso nos lábios. Elliot tentou mover-se mais levemente, mas o mínimo movimento fazia gemer as molas do colchão.

 

Elliot sentiu-se forçado a concluir que, afinal, não era aquela a altura nem o local para cumprir as ordens que recebera para matar o Investigador Especial do Reich. Além disso, sentia-se tão cansado que não conseguia conservar-se acordado nem mais um minuto.

 

Willy Hottl era um desses jovens de carreira brilhante a quem a Gestapo proporcionara oportunidade de uma rápida autopromoção. Mostrara ser um homem de recursos, capaz de levar a cabo planos pouco convencionais que exigiam uma astúcia muito especial.

 

Tinha sido ele, por exemplo, quem idealizara a gravação em larga escala, de tas falsas de libras inglesas e dólares americanos, entregando-as a agentes na Suíça e na Itália. E fora ele quem levara a cabo a fuga do Primeiro Ministro italiano em desgraça, o Conde Ciano, duma prisão de Roma. O astucioso Willy tinha calculado qual seria o preço de fazer com que todos os carabinieri olhassem para o outro lado ao mesmo tempo, e, rico em notas falsas, subornara toda a polícia da prisão.

 

Em 10 de Abril de 1945, Hottl chegara à Suíça, encarregado da mais importante de todas as suas missões. Ernst Kaltenbrunner, o segundo homem depois de Himmler, como chefe das forças de segurança da Alemanha, mandara-o contactar com Dulles e tentar negociar condições.

 

Dulles já enfrentava problemas resultantes das suas negociações com Wolff e dentro de poucos dias teria que dar uma explicação das suas actividades ao Chefe da OSS, o General Donovan, em Paris. Por isso Dulles decidira que não era boa altura para receber Hottl. Mas estava muito interessado em saber o que Hottl, falando em nome de Kaltenbrunner, tinha para lhe oferecer, e enviou um dos seus ajudantes principais ao encontro do homem da Gestapo, em Zurique.

 

No regresso de Paris, tinha recebido um relatório completo do encontro. A oferta de Hottl era interessante, sem dúvida. Kaltenbrunner tinha sido nomeado para preparar a defesa do chamado Reduto Alpino. Em troca da sua vida, estava pronto a entregar esta última fortaleza.

 

Evidentemente, era politicamente impossível - especialmente depois das instruções recebidas de Paris - para Dulles negociar com um criminoso de guerra tão importante como Kaltenbrunner. Por outro lado, o Reduto Alpino era um trunfo extremamente forte nas mãos dos chefes Nazis. Os peritos militares Aliados eram de opinião que, se Hitler retirasse as suas divisões e blindados restantes para uma área montanhosa pesadamente fortificada, nos Alpes Austríacos e Bávaros, poderia aguentar-se durante longo tempo. E, quanto mais tempo se arrastasse a guerra, mais profundamente os Soviéticos penetrariam na Europa.

 

Poucos dias antes Churchill voltara a insistir com ele na ideia de que os Anglo-Americanos deveriam tentar entrar em Berlim pelo menos ao mesmo tempo que os seus aliados Soviéticos. Mas o seu ponto de vista havia sido rejeitado por Ike e por Roosevelt - erradamente, na opinião de Dulles. Também ele via a tremenda importância, agora que a Alemanha estava derrotada, de criar uma frente contra o que considerava ser um novo perigo para o mundo livre - os Russos.

 

Por isso Dulles não tinha mandado Willy Hottl passear. A rendição do Reduto Alpino poderia vir a ser tão crucial, em termos de tempo, para todo o mapa da Europa, que poderia justificar as negociações com alguém como Kaltenbrunner. Fosse como fosse, Dulles não tinha podido decidir-se contra, em princípios de Abril. Por isso Hottl continuava por ali, à espera de uma resposta. E estava ainda na Suíça dez dias depois, na tarde da sexta-feira, dia 20 de Abril.

 

Naquele momento Willy estava com falta de dinheiro. Tinha consigo uma autorização para levantar dinheiro da conta especial do Banco Comercial de Berna. Por isso, depois de um bom almoço, resolveu dar um passeio desde o hotel até ao banco, na Bundesplatz, e pediu para ver o prezado Dr. Behr. Disseram-lhe que o Dr. Behr não se encontrava em Berna na altura, mas o seu assistente teria muito prazer em servi-lo.

 

Quando este apareceu, Willy Hottl deu-lhe o número da conta e mostrou a autorização especial do Chefe do Departamento Principal de Segurança, dando-lhe direito a fazer levantamentos até cinquenta mil francos. Já tinha, por diversas vezes, utilizado essa facilidade e era conhecido no banco.

 

O assistente saiu e voltou ao fim de uma ausência bastante prolongada. Infelizmente, disse, não era possível fazer esse pagamento, pois a conta tinha sido fechada.

 

"Fechada?" Willi Hottl nada sabia a esse respeito. Era um aborrecimento. Teria que tentar pedir dinheiro emprestado na Embaixada Alemã.

 

"Quando a fecharam?"

 

"Esta manhã. O Dr. Behr entrou em contacto connosco, da Legação Suíça na Alemanha, onde permanecerá temporariamente, para dizer que o levantamento da totalidade dos fundos da conta tinha sido autorizado, pelo que a conta foi fechada."

 

"Que estupidez não me terem informado", disse Hottl. "Levantaram a totalidade? Havia mais de quatro milhões de francos nessa conta."

 

"Sim, é isso."

 

"Quem fez esse levantamento?"

 

''Está tudo em perfeita ordem", garantiu o assistente. "O levantamento foi feito pelo próprio Reichskriminaldirektor Scholler, autorizado, segundo o processo determinado, pelo General SS Fegelein e pelo General SS Stapplemann."

 

"Não fui informado disso", disse Hottl, irritado.

 

Depois de sair do banco, tomou algumas bebidas num café, e, ao pagar a conta, viu que ficara com muito pouco dinheiro, e ficou ainda mais irritado do que antes. Podiam ter deixado algum dinheiro na conta suíça. Como queriam que ele se arranjasse?

 

Lembrando-se que estava no fim de semana e não tinha dinheiro e teria que o ir pedir à embaixada alemã, apressou-se a chegar lá antes que fechassem.

 

Puseram-lhe certos problemas, mas acabaram por lhe dar dinheiro suficiente para se aguentar.

 

"Efectivamente", disse, com arrogância, "a culpa não é minha. Eles levantaram toda a conta especial, mais de quatro milhões de francos. Deixaram-me sem recursos."

 

Só na manhã seguinte, dia 21 de Abril, Werner, o assistente especial do Embaixador alemão, que, como responsável pelos assuntos de espionagem, autorizara o empréstimo a Willy Hottl, pensou que poderia haver algo de invulgar no levantamento de quatro milhões de francos da conta especial. Evidentemente, numa ocasião daquelas, não era de surpreender o levantamento de grandes somas, para qualquer finalidade. O que o surpreenderia um pouco era o facto de ter sido levantada a totalidade dos fundos.

 

Decidiu incluir os detalhes sobre c fecho da conta entre as outras mensagens em código que seriam enviadas nessa manhã, sábado, para Berlim. Fosse como fosse, pouco mais tinha para mandar naquele dia. A cozinheira de Dulles tinha sido muito menos produtiva ultimamente. Expedindo os detalhes sobre o fecho da conta de Berna, mostraria, pelo menos, que estava ao corrente das coisas.

 

O Chefe da Gestapo, Heinrich Miiller, era um homem de cerca de quarenta anos, baixo e encorpado, com uma cabeça quadrada, testa proeminente, nariz fino, bastante perfeito, e uma boca que mais parecia uma cicatriz. O hábito de rapar a parte de trás do crâneo até ao cimo das orelhas, à maneira prussiana, dava ao seu pescoço uma nudez brutal. Os olhos eram de um cinzento duro, como seixos da praia. Usava o uniforme de General SS.

 

Na manhã de sábado, dia 21 de Abril, encontrava-se de gatas no chão do seu escritório subterrâneo, por baixo da Prinz Albrechstrasse, passando um fio eléctrico por baixo da carpete, para ligação a uma bomba de relógio colocada na gaveta de baixo da sua secretária. Ouvindo bater à porta, endireitou a carpete e fechou a gaveta. Pôs-se de pé.

 

"Quem é?" perguntou.

 

O seu assistente entrou e disse: "Pensei que o meu General gostasse de ver isto imediatamente", e colocou sobre a secretária a decifração do código recebido nessa manhã de erna. Tinha feito um círculo a lápis em volta do assunto para qual desejava chamar a atenção do seu chefe. Tratava-se da frase seguinte:

 

'A conta especial do Banco Comercial de Berna foi fechada ontem, por levantamento da totalidade do depósito, no montande de mais de quatro milhões de Francos Suíços, por dem do Reichskriminaldirektor Scholler, avalisada pelo General SS Fegelein e pelo General SS Stapplemann."

 

Miiller curvara-se ligeiramente para a frente, de braços :ruzados, ao ler estas palavras e, quando terminou, leu-as novamente.

 

Pegando no telefone interno, pediu ligação para o es:ritório do Investigador Especial do Reich. Ligaram-no ao seu ijudante principal Kummerl, que informou que Scholler inha saído de Berlim na manhã do dia anterior para supervisar a evacuação dos arquivos do Departamento. Não se conhecia o seu paradeiro exacto.

 

Em seguida, Miiller telefonou para a Chancelaria do Reich e pediu ligação com Fegelein, ao telefonista do Bunker. Informaram-no de que Fegelein não estava ali nem se sabia quando voltava ou onde se encontrava.

 

Miiller sentou-se, a pensar. Com que então, o seu colega, o Investigador Especial do Reich, raspava-se com quatro milhões de Francos Suíços?! O Chefe da Gestapo não se sentia facilmente chocado com a venalidade dos homens colocados em altos postos, e não perdeu tempo nem gastou emoções a expressar a sua indignação. Era um homem prático, que reduzia as suas reacções ao mínimo necessário, fossem quais fossem as situações. A sua principal preocupação era avaliar o efeito que aquele acontecimento poderia ter nos seus próprios planos.

 

Uma coisa era certa: naquele momento, a mensagem de Berna também já se encontrava sobre as secretárias de Himmler e Kaltenbrunner. O Reichsfuhrer SS teria certamente muito em que pensar, o que o impediria de se ocupar da notícia nas horas mais próximas, mas era improvável que, ao fim do dia, ainda ignorasse a partida do Investigador Especial do Reich. E Himmler era susceptível de reagir emocionalmente, de se enraivecer e exigir que fosssem tomadas as mais ferozes decisões. Poderia até ir a Berlim, para se ocupar pessoalmente do assunto. E isso não convinha absolutamente nada a Miiller. Por isso, a questão de Scholler tinha que ser resolvida rapidamente. Se possível, antes que Himmler se apercebesse do que se passara.

 

A primeira medida a tomar era emitir uma ordem geral de prisão do Investigador Especial do Reich. Todas as secções e departamentos deveriam receber essa ordem imediatamente, por teletipo. Em seguida, Miiller telefonou ao Inspector-Geral da Polícia de Fronteira e deu-lhe instruções para falar pessoalmente com os chefes de todos os comissariados e postos da fronteira suíça, postos dinamarqueses e da Alemanha do Norte. Deviam ser tomadas as medidas mais rigorosas no sentido de impedir Scholler de atravessar a fronteira ou fugir pelo mar.

 

Em seguida telefonou ao Inspector da Geheime Feldpolizei, e disse-lhe que expedisse ordens para toda a polícia ligada ao exército e a unidades das Waffen SS para que procurassem o Reichskriminaldirektor e o prendessem imediatamente.

 

Finalmente, ordenou que o corpo de Stapplemann fosse exumado e autopsiado. Acabara de falar com o seu ajudante quando Kaltenbrunner entrou em linha, falando de Innsbruck. Acabara de ler a mensagem sobre Scholler. Embora ainda não fossem onze horas da manhã, o Chefe já se encontrava muito embriagado; Miiller ouviu-o praguejar e soltar gritos selvagens. Sempre tinha suspeitado de que Scholler era um criminoso e um traidor. Tinha faro para esse género de coisas. Confiara sempre no seu faro. Nunca tinha sentido confiança naquele pulha do Scholler. Um oportunista! Mas Himmler acreditava nele. O Reichsfuhrer SS ficaria fora de si quando soubesse o que tinha acontecido. Que ía fazer Miiller?

 

Calmamente Miiller informou o Chefe das medidas que tinha tomado; pedia-lhe que fossem dadas ordens semelhantes aos outros departamentos da Sicherheitspolizei que não estavam sob a sua alçada, incluindo a Kriminalpolizei e a Ordnungspolizei. Kaltenbrunner assegurou-lhe que as ordens seriam imediatamente transmitidas. Ia também falar a Himmler e pedir-lhe-ía, como Ministro do Interior, que informasse todos os Gauleiters e oficiais de defesa da necessidade urgente de prender o Reichskriminaldirektor. Através dos Gauleiters poderia iniciar-se uma busca a toda a cidade, casa por casa.

 

Tendo posto a maquinaria em acção, Miiller ocupou-se de outros assuntos. Estes demoraram-no até ao princípio da tarde, quando o seu assistente regressou com o relatório da autópsia.

 

Esta revelara que a garganta, os pulmões e o coração de Stapplemann haviam sido perfurados por balas de calibre

7,92mm, de fabrico alemão, que poderiam ter sido disparadas por diversas armas, mas que, muito provavelmente, provinham duma arma automática MP-43. As balas retiradas do corpo não podiam provir da força aérea aliada. Os bombardeiros britânicos estavam equipados com metralhadoras de

0,330 polegadas. Os aviões americanos tinham metralhadoras Browning 0,50.

 

Por isso era indubitável que Scholler tinha assassinado Stapplemann para o impedir de revelar o seu jogo, e depois tinha forjado a sua assinatura para efectuar o levantamento, ou, o que era mais provável, tinha utilizado os serviços de um dos seus imitadores oficiais.

 

Eram três horas da tarde quando uma pancada oficial na porta, acompanhada de voltas insistentes do manipulo da campainha, acordou Otto Braun do torpor em que caíra depois de beber meia garrafa de Schnapps ao almoço. Quando abriu a porta, dois polícias à paisana empurraram-no para o lado e começaram imediatamente a voltar toda a casa do avesso. A velha mãe permaneceu no seu canto, sem se mover, com os olhos cheios de terror.

 

No quarto do imitador, os homens da Gestapo viraram a cama, arrancaram o colchão, rasgaram as fronhas das almofadas, retiraram da parede a suástica de bambu e espreitaram por trás dela. Depois dirigiram-se à mesa. Um dos homens da Gestapo pegou no mata-borrão. Examinando a sua base, viu a sucessão quase idêntica de assinaturas, algumas sobrepostas, na folha do mata-borrão. Pegando no espelho de barbear pendurado na parede, voltou-o para a base arredondada do mata-borrão. No espelho apareceu a assinatura de Oswald Stapplemann numa dezena de variantes.

 

Otto Braun foi preso e levado para a Prinz Albrechtstrasse. Ali, em resposta às perguntas do Chefe da Gestapo Miiller, admitiu ter imitado a assinatura do Administrador do Orçamento, mas insistiu em que o que fizera era perfeitamente legal, porque tinha sido feito a pedido do Reichskriminaldirektor Scholler.

 

Um dactilógrafo da Gestapo ia tomando nota da confissão do imitador, à medida que ele falava. Quando terminou, Braun assinou, conforme lhe mandavam. Depois foi levado para uma cela por baixo da Prinz Albrechtstrasse, onde foi executado às seis horas da tarde do dia 21 de Abril, com um só tiro duma Walther PPK 7,65 mm.

 

Às seis e um quarto chegou um telefonema de Himmler. Em resposta às perguntas furiosas do Reichsfuhrer, Múller pôde já dar-lhe pormenores das medidas que tinha tomado. Um dos conspiradores, o imitador Braun, já tinha sido apanhado, confessara e fora imediatamente executado. Prosseguia a perseguição intensiva a Scholler. Quanto ao terceiro conspirador, seria preferível que o próprio Reichsfuhrer Himmler informasse o Fiihrer de que Fegelein estava implicado.

 

Fegelein, desde o seu casamento com a irmã de Eva Braun, Gretl, fazia parte do círculo íntimo da corte de Hitler, raramente saía de junto do Fiihrer e era considerado como se fosse da família. Por isso, as acusações contra ele não tiveram crédito imediato. Mas quando Hitler mandou chamá-lo, não se conseguiu encontrar Fegelein em parte alguma. Não estava na Chancelaria nem no seu lugar habitual no Bunker.

 

Hitler transformara-se num homem que esperava constantemente uma traição, e a ausência de Fegelein despertou as suas mais profundas suspeitas. Mandou imediatamente chamar o chefe do seu corpo especial de guarda-costas, o Coronel SS Hoegl. Hoegl recebeu ordens para formar um grupo de homens armados, da Escolta SS de Hitler, e bater toda a cidade de Berlim, até encontrar Fegelein e trazer-lho.

 

Os guarda-costas acabaram por encontrar Fegelein na sua própria casa em Charlottenburg, preparando-se para partir. Quando lhe disseram que devia regressar imediatamente ao Bunker, tentou convencer Hoegl a juntar-se-lhe e sair com ele de Berlim, dizendo-lhe que tinha um hidroavião ao seu dispor. Mas não foi capaz de persuadir Hoegl.

 

Tendo falhado esta tentativa, Fegelein telefonou a Eva Braun para o Bunker e explicou-lhe que havia um mal-entendido. Pediu-lhe que falasse com Hitler e usasse a sua influência para o acalmar e lhe explicasse que ele, Fegelein, nunca sonharia ser-lhe desleal. Eva Braun reagiu friamente e recusou-se a intervir a favor do cunhado.

 

Fegelein foi transportado para o Bunker sob guarda armada. Levaram-no a Hitler que lhe revelou as acusações feitas por Múller. Quando Fegelein começou a protestar a sua inocência, os olhos de Hitler tornaram-se distantes.

 

Retirou ao pequeno ex-joquei o posto de General SS e condenou-o à morte. A escolta dos guarda-costas levou-o para o segundo Bunker, onde ficou sob guarda armada.

 

Devido aos acontecimentos confusos dos dias que se seguiram, com as granadas russas a cair sobre a própria Chancelaria, a ordem de execução de Fegelein não foi imediatamente cumprida. Durante todo esse tempo, a sua mulher Gretl não fez qualquer tentativa junto da irmã para que fosse comutada a pena de morte, e, entre 25 e 29 de Abril, ninguém sabe em que data exactamente, Fegelein foi retirado do segundo Bunker, levado para o pátio cheio de entulho da Chancelaria, e aí executado por um pelotão formado por membros da guarda pessoal de Hitler.

 

Durante a tarde de 25 de Abril, o Chefe da Gestapo Miiller saiu do seu escritório subterrâneo da Prinz Albrechtstrasse, com duas malas, e partiu em direcção a oeste, num pequeno carro sem marcas oficiais.

 

No mesmo dia, Berlim foi totalmente cercada e as forças russas e americanas encontraram-se em Torgau, cortando assim a rota de fuga no sentido norte-sul.

 

Ao acordar, na escuridão, Elliot sentiu-se, por momentos, totalmente desorientado e entrou em pânico. Depois recordou-se da porta da casa a bater, abrindo-se e fechando-se, abrindo-se e fechando-se, dos suicidas, da longa jornada que os esperava e daquilo que teria de fazer.

 

Começava a despontar o dia. Onde Scholler dormira havia um espaço vazio. Um medo primitivo de ter ficado só obrigou Elliot a saltar da cama e correr à janela. Scholler estava lá fora, vestindo um sobretudo muito grosso, a trabalhar no carro já tinha mudado as placas de matrícula e agora estava a retirar os faróis especiais e a sirene do tejadilho.

 

Elliot vestiu-se e desceu. Saiu rapidamente sem olhar para as figuras de cera sentadas à mesa. A primeira luz difusa do dia revelou-lhe que a casa estava situada num outeiro. A oriente ficavam as densas e vastas florestas de pinheiros e abetos, estendendo-se até à Checoslováquia. Para o sul, tão indistintos como um sopro numa vidraça, ficavam os Alpes Bávaros. Numa vasta extensão, de oeste para norte, a distâncias diversas, a paisagem estava penteada de rolos de fumo. Aquela distância, a barragem de artilharia parecia bastante inóqua.

 

Tudo estava muito quieto e fazia muito frio. Em certos pontos, o chão brilhava de geada.

 

Scholler acabou de aparafuusar as novas placas de matrícula, antes de olhar para ele.

 

"Coma qualquer coisa", disse. "Partimos dentro de cinco minutos.'' Indicou-lhe o pão e uma lata de atum aberta. Elliot despejou o que restava da lata sobre um grande pedaço de pão, deixando-o ensopar-se de azeite. Tremendo de frio, começou a comer.

 

Scholler limpou as mãos sujas de óleo a uns trapos velhos e depois lançou-os para uma pequena pilha de mato. Pegando numa das latas de reserva do porta-bagagens, deitou um pouco de gasolina sobre os trapos, acendeu um fósforo e atirou-o para cima deles. O mato e os trapos embebidos em gasolina começaram a arder imediatamente. Durante momentos, aqueceu as mãos às chamas. Depois tirou um maço de papéis do interior do casaco, atirou-os ao fogo e ficou a ver os carimbos e os selos em branco do seu departamento, com as águias em relevo, retorcerem-se e transformarem-se em cinzas.

 

' 'O Investigador Especial do Reich já não nos interessa", disse. "Devem andar atrás dele, neste momento." Estendeu a mão para Elliot: "Os seus documentos." Lançou-os igualmente às chamas.

 

Antes de entrarem no carro, certificou-se, remexendo as brasas com um pauzinho, de que nem um pedacinho de papel ficara por destruir. Pôs o motor a funcionar, e, enquanto ele aquecia, entregou outro maço de papéis a Elliot. "Os seus novos documentos. É agora Inspector do Ministério da Produção e Armamentos Bélicos, e eu sou o Comissário da Defesa Reither. A nossa função é", disse com uma satisfação cáustica, "verificar se tudo é desintegrado, destruído, queimado... O Fiihrer decretou que nada deve restar senão ruínas.''

 

Scholler guiou cuidadosamente pelo caminho estreito, até chegar à estrada, sempre à espreita de patrulhas.

 

Quando chegou à estrada principal, começou a guiar rapidamente, a sua veia jugular ía-se enchendo, tornando-se proeminente. Elliot observa-va-o cuidadosamente. O canivete de escoteiro, com a sua vasta gama de utensílios úteis, estava no bolso das calças.

 

Que ar tão presunçosamente intemerato tinha Scholler! Sabendo como era indispensável agora, e com a sua confiança na futura utilidade dos seus préstimos!

 

Havia manchas de nevoeiro nos pontos baixos e sobre os campos. As nuvens escuras, de aspecto tempestuoso, muito baixas, deixavam cair aguaceiros e, por vezes, granizo. Contudo, eles avançavam para sul, com as árvores de fruto carregadas de flores brancas e cor-de-rosa, a cobrir toda a paisagem, como um mar de espuma.