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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O DIA DA TORMENTA / Rosamunde Pilcher
O DIA DA TORMENTA / Rosamunde Pilcher

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O DIA DA TORMENTA

 

Tudo começou numa segunda-feira do final de Janeiro. Um dia sombrio numa altura do ano sombria. O Natal e o Ano Novo tinham sido vividos e esquecidos, porém a nova temporada mal começara a despontar. Londres mostrava-se fria e húmida, as lojas cheias de expectativas frustradas e roupas "para cruzeiro". As árvores do parque erguiam-se, rendilhadas e despidas, contra os céus baixos e, no solo, a erva calcada estava baça e sem vida, a ponto de ser impossível acreditar que ainda viesse a formar um tapete em tons de dourado e açafrão.

Era um dia como qualquer outro. O despertador acordou-me no meio da escuridão, mas uma escuridão que começava a clarear devido à grande extensão de janelas sem cortinados e através das quais podia avistar o topo do ulmeiro, iluminado pelo brilho alaranjado das luzes da rua distante.

O meu quarto não tinha mobília, com excepção do sofá-cama onde me encontrava deitada e de uma mesa de cozinha, que removeria quando tivesse tempo, para depois a polir com cera. Até o soalho estava nu, com as pranchas a estenderem-se até aos lambris. Uma caixa cor de laranja fazia as vezes de mesinha-de- cabeceira e uma outra de cadeira.

Estendi uma mão e acendi a luz, dando uma mirada à cena desolada com a maior satisfação. Pertencia-me. Era o meu primeiro lar. Mudara-me apenas há três semanas, mas era completamente meu e podia fazer dele o que me apetecesse: cobrir as paredes brancas de posters ou pintá-las em cor de laranja, deitar areia no soalho nu ou pintá-lo às riscas coloridas. Começara já a interessar-me por lojas de velharias e antiquários, não conseguindo passar por uma sem perscrutar o interior através da montra em busca de alguma preciosidade ao alcance das minhas posses. Fora assim que arranjara a mesa, e já andava de olho num espelho de moldura trabalhada em dourado, no entanto ainda não arranjara coragem para entrar no estabelecimento e inteirar-me de quanto custaria. Talvez o pendurasse no meio da saliência da chaminé, ou então na parede em frente da janela, de maneira a captar o reflexo do céu e da árvore, como um quadro, dentro da sua moldura ornada.

Estes voos de imaginação levaram algum tempo. Voltei a olhar para o relógio de parede, vi que começava a ficar tarde e saltei para fora da cama, atravessando o soalho de pés descalços e entrando na cozinha minúscula para acender o gás e pôr a chaleira ao lume. O dia começara.

O apartamento ficava em Fulham, no topo de uma pequena casa com um tecto plano, que pertencia a Maggie e John Trent. Conhecera-os apenas no Natal, que passara com Stephen Forbes, a sua mulher, Mary, e a numerosa prole desleixada, na grande casa desarrumada onde viviam, em Putney. Stephen Forbes era meu patrão, o proprietário da livraria da Walton Street onde eu trabalhava há um ano. Mostrara-se sempre extremamente cortês e prestável para comigo e, ao descobrir, através de uma das outras raparigas, que eu iria passar o Natal sozinha, ele e Mary apresentaram-me imediatamente um convite irrecusável - assemelhava-se mais a uma ordem, de facto - para passar três dias com eles. Havia abundância de espaço, insistiu Stephen com ar vago, um quarto no sótão, uma cama no quarto de Samantha, num sítio qualquer, mas eu não me importava, pois não? E sempre poderia ajudar Mary a preparar o peru para a ceia e a apanhar os pedaços de papel rasgado que ficariam a juncar o chão.

Considerando a questão com base em tal ponto de vista, acabei por aceitar e gostei imenso. Não há nada como um Natal passado em família quando há crianças por todo o lado, barulho, papel e presentes, uma árvore de Natal a reluzir de brinquedos e enfeites retorcidos de confecção caseira.

Na noite de Natal, com as crianças a salvo nas suas camas, os Forbes deram uma festa para adultos, embora hou vesse a impressão de que continuávamos a entreter-nos com jogos infantis, e Maggie e John Trent foram convidados. Os Trent eram um casal jovem, sendo ela filha de um decano de Oxford, a quem Stephen conhecera bem nos seus tempos de estudante universitário. Maggie era uma pessoa risonha, alegre e extrovertida, e depois da sua chegada a festa animou extraordinariamente. Fomos apresentadas, porém só conseguimos falar na altura de um jogo de charadas, onde demos connosco sentadas lado a lado, num sofá, diante dos gestos mais incoerentes com que Mary tentava levar-nos a adivinhar, em mímica, o título de um filme.

- Rose Marie! - gritou alguém, sem razão aparente.

- Clockwork orange!

Maggie acendeu um cigarro e deixou-se afundar no sofá, derrotada.

- É superior às minhas forças - declarou. Voltou a cabeça morena para mim e fitou-me. - Trabalha no estabelecimento de Stephen, não é verdade?

- Exacto.

- Na semana que vem irei até lá gastar todos os cheques de livros que me deram no Natal. Foram às dúzias.

- Cheia de sorte!

- Acabámos de nos mudar para a nossa primeira casa, portanto quero montes de livros sobre a mesinha da sala, para que todos os nossos amigos pensem que sou tremendamente inteligente.

Nessa altura, alguém gritou:

- Maggie, é a tua vez!

E ela disse:

- Cripes!

Maggie soltou uma imprecação, pôs-se imediatamente de pé e afastou- se, pavoneante, a fim de se preparar para o que ia representar. Não consigo recordar-me do que foi, mas vê-la naquela figura divertidíssima fez-me sentir uma simpatia muito grande por ela, pelo que esperei que nos voltássemos a ver.

Assim aconteceu, evidentemente. Conforme afirmara, alguns dias depois das festas foi à livraria, de casaco de pele de carneiro e saia comprida cor de púrpura, trazendo na mão uma bolsa atafulhada de cheques de livros. Na altura não me encontrava a atender ninguém em especial, portanto saí de detrás de uma impecável pilha de romances de capa reluzente e cumprimentei:

- Viva!

- Oh, óptimo, está aí! Tinha esperança de a encontrar. Pode ajudar- me?

- Sim, com certeza.

Juntas, escolhemos um livro de cozinha, uma autobiografia acabada de sair e de que todos falavam e um livro maravilhosamente caro sobre a pintura impressionista para a tal célebre mesinha da sala. O total ultrapassou ligeiramente a soma dos cheques, pelo que Maggie, depois de rebuscar dentro da bolsa, puxou de um livro de cheques para proceder ao pagamento do que faltava.

- John vai ficar furioso - comentou alegremente, escrevendo o montante com uma caneta de bico de feltro vermelho. O cheque era amarelo, portanto o efeito foi deveras espalhafatoso. - Diz que andamos a gastar demasiado dinheiro. Aí tem. - Voltou o talão ao contrário para escrever a morada. - Bracken Road, número quatro, SW6 - acrescentou em voz alta, não fosse dar-se o caso de não conseguir perceber a sua caligrafia. - Ainda não me habituei a escrevê-la. Mudámo- nos há muito pouco tempo. É terrivelmente excitante, comprámo-la em regime de propriedade isenta de encargos, acredite ou não. Pelo menos os nossos pais entraram com o depósito e John conseguiu convencer uma empresa de construção qualquer a emprestar-nos o resto. Mas claro que isto nos obriga a não utilizar o andar de cima, para ajudar a pagar a dívida, mas ainda assim acho que tudo irá correr bem. - Sorriu: - Terá de lá ir dar uma olhadela.

- Terei muito gosto - retorqui, fazendo-lhe o embrulho com a folha meticulosamente direita e os cantos dobrados.

Ela observava-me.

- Sabe, é terrivelmente indelicado, mas desconheço como se chama. Sei que é Rebecca, mas qual é o apelido?

- Rebecca Bayliss.

- Imagino que não saiba de nenhum indivíduo simpático e pacato que queira um apartamento por mobiliar, não?

Fitei-a. Os nossos pensamentos estavam tão próximos que quase não precisei de falar. Fiz o nó à fita do embrulho e disse:

- E que tal eu?

- A Rebecca? Não me diga que anda à procura de sítio para morar.

- Até há instantes atrás, não andava. Mas agora ando.

- Só tem um quarto e uma sala. E temos de partilhar a casa de banho.

- Não me preocupo com esse aspecto, caso possa pagar a renda. Não sei quanto pedem.

Maggie informou-me. Engoli em seco, fiz umas contas de cabeça e disse:

- Está ao meu alcance.

- Tem alguma mobília?

- Não. Tenho vivido num apartamento mobilado com outras duas raparigas. Mas posso arranjar alguma.

- Dá a impressão de que está ansiosa por sair desse apartamento.

- Não, não muito, mas gostaria de morar sozinha.

- Bem, antes de tomar uma decisão, é melhor ir ver as instalações. De noite, porque John e eu trabalhamos.

- Pode ser hoje à noite?

Era-me impossível disfarçar a impaciência e a excitação que se notava na minha voz, o que fez Maggie rir.

- Está bem - retorquiu. - Hoje à noite.

Pegou no pacote de livros impecavelmente embrulhado e preparou-se para partir.

De repente entrei em pânico:

- Eu... eu não sei a morada...

- Claro que sabe, sua tolinha, está no verso do talão do cheque. Apanhe o autocarro vinte e dois. Conto consigo por volta das sete da tarde.

- Lá estarei - prometi.

Descendo lentamente a Kings Road aos solavancos no autocarro, tive de fazer um esforço consciente para refrear o meu entusiasmo. Podia estar a meter-me num buraco sem saída. O apartamento poderia revelar-se totalmente impossível, demasiado grande ou pequeno, ou inconveniente de algum ponto de vista inimaginado. Tudo era preferível a ficar desiludida. E de facto, do exterior, a pequena casa passava perfeitamente despercebida, apenas mais uma na fiada de vi vendas de tijoleira, com as portas a formarem elegantes ogivas no cimo e uma tendência deprimente para o vidro fumado. O número catorze estava brilhante com a sua pintura de fresco e as alcatifas novas, e Maggie apareceu de jeans coçados e camisola azul.

- Desculpe estar nesta figura, mas tenho de fazer toda a lida da casa, portanto quando volto do escritório costumo mudar de roupa. Entre, vamos até lá acima ver... ponha o seu casaco no corrimão. John ainda não chegou, mas falei-lhe da sua vinda e ele achou a ideia estupenda... Sem parar de falar, Maggie levou-me até ao piso de cima, fazendo- me entrar numa sala vazia que deitava para as traseiras da casa. Acendeu a luz.

- Está voltado para sul, dá para um pequeno parque. As pessoas que aqui estiveram antes construíram uma extensão por baixo, cujo tecto forma, portanto, uma espécie de varanda, que está à sua disposição.

Maggie abriu uma porta envidraçada e, juntas, saímos para o meio da noite escura e fria; chegou-me o odor a folhagem e a terra húmida do parque e avistei, rodeada pelas luzes dos candeeiros das ruas circundantes, a extensão de negrume vazio. De repente soprou uma rajada de vento frio que agitou os contornos negros do ulmeiro, fazendo-o sussurrar, mas nesse momento o som perdeu-se no troar de um avião a jacto que passava.

Eu disse:

- Parece que estamos no campo.

- Bem, será talvez um dos aspectos agradáveis - retorquiu Maggie, estremecendo de frio. - Entremos antes que fiquemos enregeladas.

Voltámos para dentro de casa pela porta de vidro e Maggie mostrou- me a cozinha minúscula que tinha sido improvisada no lugar de um armário de parede fundo e a seguir, a meio das escadas, a casa de banho, que seria partilhada por todos. Por fim, voltámos ao piso térreo, à sala de estar, acolhedora e desarrumada, de Maggie, onde esta descobriu uma garrafa de sherry e umas batatas fritas, que jurou estarem rançosas, mas que, a mim, sabiam bem.

- Ainda quer vir para aqui? - perguntou-me.

- Mais do que nunca.

- Quando é que pensa mudar-se?

- O mais depressa possível. Na próxima semana, se concordar.

- E as raparigas com quem vive agora?

- Encontrarão outra pessoa. Uma delas tem uma irmã que vem para Londres. Penso que ocupará o meu quarto.

- E quanto à mobília?

- Oh, Desenvencilhar-me-ei.

- Assim espero - disse Maggie despreocupadamente -, pois os seus pais não devem tardar a aparecer por aí para darem uma olhadela, é o que normalmente fazem. Quando vim para Londres, a minha mãe descobriu autênticos tesouros no sótão e no armário dos linhos, e...

A voz sumiu-se-lhe. Reparei que ficava pesarosamente silenciosa, até, por fim, rir de si própria.

- Lá estou eu a dizer disparates. Desculpe. Não há dúvida de que disse alguma inconveniência completamente idiota.

- Não tenho pai e a minha mãe está no estrangeiro. Vive em Ibiza. É mais por essa razão que quero um lugar só meu.

- Desculpe-me; tinha obrigação de saber, o facto de passar o Natal com os Forbes... Quero dizer, devia ter calculado.

- Não há razão para que tivesse adivinhado.

- O seu pai morreu?

Maggie parecia nitidamente curiosa, mas de uma maneira tão abertamente amigável que de imediato me pareceu ridículo fechar-me e não contar nada, como era meu costume fazer quando as pessoas começavam a dirigir-me perguntas acerca da minha família.

- Não creio - respondi, tentando aparentar indiferença. - Penso que vive em Los Angeles. Era actor. A minha mãe fugiu com ele aos dezoito anos. Mas ele depressa se enfastiou com a vida doméstica, ou talvez tenha concluído que a carreira era mais importante do que ter uma família. Seja como for, o casamento durou apenas alguns meses, até ele a abandonar; pouco depois nasci eu.

- Que procedimento terrível.

- Penso que sim. Nunca me preocupei muito com isso. A minha mãe nunca falava dele. Não por se sentir particu larmente magoada ou algo do género, simplesmente porque costumava pôr para trás das costas tudo o que eram águas passadas. Olhava sempre em frente com o maior optimismo.

- Mas que aconteceu depois do seu nascimento? Ela voltou para junto dos pais?

- Não. Nunca mais.

- Ou seja, ninguém enviou um telegrama a dizer: "Volta, está tudo perdoado? "

- Não sei. Com toda a franqueza, não sei.

- Quando a sua mãe fugiu, deve ter sido um escândalo enorme, mas, mesmo assim... - Calou-se, nitidamente incapaz de compreender uma situação que eu aceitara com serenidade durante toda a minha vida -... que tipo de pessoa faria semelhante coisa a uma filha?

- Não sei.

- Deve estar a brincar, não?

- Não estou. De facto, não sei.

- Quer dizer que não conhece os seus próprios avós?

- Nem sequer sei quem são. Ou talvez quem eram. Possivelmente já morreram e eu nem tenho conhecimento do facto.

- Não tem nenhuns elementos? A sua mãe nunca disse nada?

- Oh, evidentemente De vez em quando apareciam vagas referências ao passado nas conversas que tinha comigo, mas nada que levasse a tirar grandes conclusões. Sabe como as mães falam com os filhos, lembrando factos ocorridos e coisas que elas costumavam fazer nos seus tempos de criança.

- Mas... Bayliss. - Franziu o cenho. - Não é um apelido muito vulgar. Faz-me lembrar algo de que não consigo recordar-me. Não tem alguma pista, por muito pequena que seja?

Ri diante da veemência de Maggie.

- Fala como se realmente quisesse saber. Mas, como vê, não sei de nada. Quem nunca conheceu os avós, não lhes sente a falta.

- Mas não gostaria de saber procurou as palavras certas. - Onde viviam?

- Eu sei onde viviam. Na Cornualha. Numa casa de pedra no meio de prados que desciam até ao mar. E a minha mãe tinha um irmão chamado Roger, que morreu durante a guerra.

- Mas que fez ela depois de a Rebecca nascer? Imagino que tenha precisado de sair de casa para arranjar emprego.

- Não, ela tinha algum dinheiro. Herança de uma velha tia ou alguém do género. Claro, nunca tivemos carro ou luxos parecidos, mas não tínhamos problemas de maior. A minha mãe vivia num apartamento em Kensington, na cave de uma casa que pertencia a uns amigos. Ficámos lá até eu ter uns oito anos, depois fui para um colégio interno, e quando saí como que... andámos por aí.

- Os colégios internos custam dinheiro...

- Não era um colégio muito caro.

- A sua mãe voltou a casar?

Olhei para Maggie. Tinha uma expressão animada e ávida de curiosidade, porém denotava bondade. Achei que, já que fora até ali, podia contar-lhe o resto.

- Ela. não era exactamente do tipo casadouro. Mas foi sempre muito atraente, e não me lembro de alguma altura em que não tivesse algum admirador a cortejá-la... E como eu estava no colégio, suponho que não havia razão para continuar a mostrar-se recatada. Eu nunca sabia onde iria passar as férias seguintes. Uma vez foi em França, na Provença. De vez em quando, neste país. Numa outra ocasião, fomos para Nova Iorque no Natal.

Maggie reflectiu sobre o que acabara de ouvir e fez uma careta.

- Não deve ter sido nada divertido para si.

- Mas foi educativo. - Há muito que aprendera a brincar com o assunto. - E imagine todos os lugares que vi e os sítios extraordinários em que vivi. Certa vez foi no Ritz, em Paris, noutra foi numa casa horrivelmente fria, em Denbigshire. Era de um poeta que pensara em tentar dedicar-se à agricultura e à criação de gado. Nunca me senti tão satisfeita por uma ligação chegar ao fim.

- Ela deve ser muito bonita.

- Não, mas é assim que os homens a acham. E é muito alegre, despreocupada e superficial e creio que poderia mesmo considerá-la completamente amoral. De enlouquecer.

Tudo é uma "graça". É a sua palavra preferida. As contas por pagar são uma "graça", assim como as malas de mão perdidas e as cartas por responder. Não liga nenhuma ao dinheiro nem tem qualquer sentido de obrigação. Um tipo de pessoa com a qual é embaraçoso viver.

- Que faz ela em Ibiza?

- Está a viver com um sueco que lá encontrou. Foi passar uns tempos com um casal amigo e conheceu-o; logo a seguir recebi uma carta a dizer que ia viver com ele. Era terrivelmente nórdico e sorumbático, mas tinha uma casa linda.

- Há quanto tempo não a vê?

- Há cerca de dois anos. Fiz um curso de secretariado e aceitei trabalhos temporários, até acabar por ir trabalhar para o senhor Forbes.

- Gosta?

- Sim, gosto.

- Que idade tem?

- Vinte e um anos.

Maggie voltou a sorrir, sacudindo o longo cabelo com ar pensativo.

- Por quanta coisa não passou já... - observou, não parecendo minimamente condoída comigo, muito pelo contrário, até um pouco invejosa. - Aos vinte e um anos eu era apenas uma noiva corada dentro de um vestido branco de casamento excessivamente largo no peito e debaixo de um véu antigo a cheirar a naftalina. Na realidade, não sou uma pessoa tradicional, mas tenho uma mãe que é e, como gosto muito dela, normalmente costumava fazer-lhe as vontades.

Não tinha dificuldade em imaginar a mãe de Maggie. Recorrendo à comodidade das frases feitas, já que não me ocorria mais nada, disse:

- Oh, bem, cada um é como é!

Nesse momento ouvimos John meter a chave na porta e não voltámos a abordar a questão das mães e das famílias.

Estava um dia como qualquer outro, porém trazia consigo um bónus. Na última quinta-feira ficara a trabalhar até tarde com Stephen, tentando completar o levantamento das existências, pelo que me dera aquela manhã livre. Dispunha, portanto, da manhã até à hora do almoço para cuidar dos meus assuntos. Preenchi o tempo a limpar o apartamento (o que levou, no máximo, meia hora), a fazer umas compras e a levar umas roupas para a lavandaria. Às onze e meia toda aquela domesticidade estava terminada, de modo que vesti o casaco e saí de casa, com a intenção de me dirigir, despreocupadamente, para o trabalho, percorrendo parte do caminho a pé e, quem sabe, almoçando um pouco mais cedo do que o habitual, antes de entrar na livraria.

Fazia um daqueles dias frios, escuros e húmidos em que o tempo nunca chega a levantar. Caminhei, através da penumbra, até à New Kings Road, voltando para oeste. Nessa zona da cidade, todas as lojas parecem vender ou antiguidades, camas em segunda mão ou molduras para quadros, e eu estava convencida de que as conhecia a todas, no entanto vi-me diante de uma em que ainda não reparara anteriormente. O exterior encontrava-se pintado de branco; os caixilhos das janelas, de negro, e tinha o toldo aberto para proteger da borrasca iminente.

Ergui os olhos para ver como se chamava o estabelecimento e li o nome Tristram Nolan, impecavelmente desenhado a relevo, por cima da porta de entrada. Esta encontrava-se ladeada por duas montras que deixavam ver uma variedade de bugigangas e eu detive-me, para as inspeccionar, no pavimento fortemente iluminado pelas numerosas luzes que vinham de dentro. A maioria do mobiliário era vitoriano, reestofado, restaurado e polido. Um sofá com botões, base larga e pernas recurvas, uma caixa de costura, um pequeno quadro de cães de colo sobre um almofadão de veludo.

Olhei para além das montras, mirando o interior da loja em si, e foi nessa altura que vi as cadeiras de madeira de cerejeira. Formavam um par, de costas arredondadas, pernas recurvas e assentos com rosas bordadas.

Fiquei conquistada por elas. Sem apelo nem agravo. Imaginei-as no meu apartamento e quis desesperadamente tê-las. Por um momento, hesitei. Não se tratava de nenhuma loja de velharias e o preço poderia estar bem acima das minhas possibilidades. Mas vendo bem as coisas, não fazia mal perguntar. Antes de perder a coragem, abri a porta e entrei.

O estabelecimento encontrava-se vazio, mas o abrir e fechar da porta fez soar uma campainha e logo a seguir ouviu-se o som de alguém a descer as escadas, a cortina de pano que tapava a porta ao fundo da loja foi afastada e apareceu um homem.

Penso que esperava encontrar alguém mais velho e impecavelmente vestido, em consonância com o ambiente da loja e seu conteúdo, no entanto a aparência daquele indivíduo desfez todas as minhas vagas teorias preconcebidas. Era jovem, alto e vestiajeans - de cor azul-clara de tanto uso e cingidos como uma segunda pele - e um casaco de ganga azul, igualmente velho e desbotado, de mangas arregaçadas à maneira dos comerciantes, deixando ver os punhos da camisa axadrezada que tinha por baixo. Em volta do pescoço usava um lenço de algodão amarrado e calçava mocassins macios, cheios de enfeites e franjas.

Naquele Inverno viam-se as pessoas mais estranhas a deambular por Londres vestidas à cowboy, mas algo fazia com que aquele parecesse autêntico e as roupas surradas tinham um aspecto tão genuíno quanto ele. Ficámos a olhar um para o outro durante breves instantes, e depois ele sorriu, o que, por alguma razão, me apanhou desprevenida. E como não gosto que tal me aconteça, cumprimentei com uma certa frieza:

- Bom-dia.

O homem deixou cair a cortina atrás de si e aproximou-se com passadas silenciosas.

- Em que posso servi-la?

Bem poderia ter passado por americano de gema, porém, mal abriu a boca, vi imediatamente que não era o caso. Por alguma razão, o facto perturbou-me. A vida que eu levara com a minha mãe deixara-me ficar uma profunda sensação de cinismo em relação aos homens em geral e aos impostores em particular, e aquele jovem, decidi então e ali, era um deles.

- Eu... eu queria ver aquelas cadeiras. As de costas arredondadas.

- Oh, já sei! - Acercou-se das cadeiras e pousou uma das mãos nas costas de uma. Tinha uma mão longa e bem delineada, as pontas dos dedos achatadas, a pele muito bronzeada. - Já só há este par.

Olhei fixamente para as cadeiras, tentando ignorar a sua presença.

- Queria. queria saber quanto custam.

O homem acocorou-se ao lado das cadeiras para procurar o talão do preço e reparei que o cabelo lhe caía sobre o colarinho, denso e liso, muito preto e brilhante.

- Está com sorte - disse-me. - Estão muito baratas porque a perna de uma delas partiu-se e a reparação ficou imperfeita.

De repente endireitou-se, surpreendendo-me com a sua altura. Tinha os olhos ligeiramente rasgados para cima, de um castanho muito escuro, com uma expressão que achei desconcertante. Não me deixava sentir à vontade e a antipatia que sentia por ele começou a transformar-se em aversão.

- Quinze libras pelo par - informou -, mas se quiser pagar um pouco mais, posso mandar reforçar a perna e talvez colocar um pouco mais de verniz sobre a junta. Assim ficará mais forte e também com melhor aspecto.

- Não está bem assim?

- Para si serviria - respondeu o jovem -, mas se convidar um homem grande e gordo para jantar, o mais provável é que ele acabe por se estatelar no meio do chão.

Houve uma pausa, durante a qual o fitei. Esperava friamente. Os olhos transbordavam-lhe de uma malícia divertida, da qual eu não tinha intenção de partilhar. Não me agradava a sugestão de o único homem que alguma vez iria jantar comigo tivesse, necessariamente, de ser grande e gordo.

Por fim, quis saber:

- A reparação da perna quanto custaria?

- À volta de umas cinco libras. O que significa que as cadeiras lhe saem a dez cada.

Reflecti sobre o assunto e cheguei à conclusão de que o preço estava ao meu alcance.

- Ficarei com elas.

- Óptimo - disse o jovem, pousando as mãos nas ancas e sorrindo amigavelmente, como se a transacção ficasse por ali.

Concluí que era um empregado completamente desastrado.

- Quer que pague já ou que deixe ficar um sinal?...

- Não, não tem importância. Pode pagar quando vier buscá-las.

- Bem, quando ficarão prontas?

- Daqui a uma semana.

- Não quer ficar com o meu nome?

- A não ser que queira dar-mo.

- Que acontece se eu não voltar?

- Nesse caso esperarei que outra pessoa qualquer as

compre.

- Não quero ficar sem elas.

- Não ficará - assegurou o jovem.

Franzi o cenho, furiosa, mas ele limitou-se a sorrir e a encaminhar-se para a porta a fim de ma abrir. O ar frio entrou violentamente e, no exterior, a chuva gelada começara a cair e a rua parecia negra como a noite.

O jovem despediu-se com um "adeus" e eu logrei esboçar um sorriso gélido, passei por ele e saí para a escuridão, e ao fazê-lo ouvi o barulho da campainha enquanto ele fechava a porta atrás de mim.

O dia ficara, de um instante para o outro, estragado. O prazer que sentira em comprar as cadeiras desvanecera-se com a irritação que o indivíduo provocara em mim. Normalmente eu não antipatizava com as pessoas à primeira vista e sentia-me aborrecida não apenas com ele mas também comigo própria, por ser tão wlnerável. Ao descer a Walton Street e ao entrar na livraria de Stephen Forbes, ainda ia a matutar no facto. Nem o conforto de estar dentro de portas e o odor agradável a papel novo e tinta de impressão melhoraram minimamente a minha disposição.

O estabelecimento tinha três níveis: as novidades literárias ficavam no piso térreo, os livros em segunda mão e as gravuras antigas no segundo e o escritório de Stephen ocupava a cave. Reparei que Jennifer, a outra empregada, se encontrava ocupada com um cliente, e que a única pessoa visível era uma senhora de idade de capa de tweed, que estava entretida na secção de jardinagem; portanto, dirigi-me para o pequeno vestiário, desabotoando o casaco pelo caminho; nesse momento ouvi os pesados passos inconfundíveis de Stephen a subirem as escadas e, sem saber bem porquê, parei à espera dele. Não demorou a aparecer, alto, curvado, de óculos, com a sua habitual expressão benevolente e distraída. Usava invariavelmente fatos escuros que tinham sempre aspecto de enxovalhados e, apesar de o dia ainda ir a meio, o nó da gravata começara já a descair, revelando o botão de cima da camisa.

- Rebecca - chamou.

- Sim, estou aqui.

- Ainda bem que a apanhei. - Veio colocar-se a meu lado, falando em voz baixa, como que para não perturbar os clientes. - Tem uma carta para si lá em baixo; foi remetida do apartamento onde morava anteriormente. É melhor dar um saltinho a buscá-la.

Fiquei surpreendida.

- Uma carta?

- Sim. Correio aéreo. Montes de selos estrangeiros. Não sei porquê mas parece urgente.

A minha irritação, assim como todos os pensamentos relacionados com as cadeiras novas, perderam-se numa apreensão súbita.

- É da minha mãe?

- Não sei. Porque não vai ver?

De modo que desci os degraus alcatifados que conduziam à cave, iluminada, àquela hora do dia, por uma fiada de luzes presas ao tecto. O escritório apresentava-se maravilhosamente desarrumado - como de costume -, atravancado de cartas, embrulhos, pastas de arquivo, pilhas de livros antigos, caixas de cartão e cinzeiros que nunca ninguém se lembrava de esvaziar. Mas a carta estava no meio do mata-borrão de Stephen, perfeitamente visível.

Peguei no sobrescrito. Era de avião, selos espanhóis, com carimbo postal de Ibiza. Mas a letra era desconhecida, afilada e estreita, denotando a possível utilização de uma caneta de aparo muito fino. Fora enviada para o apartamento antigo, porém o endereço anterior fora riscado e substituído pelo da livraria, em letra grande e de rapariga. Imaginei quanto tempo a carta não teria ficado em cima da mesa junto à porta da entrada, até uma das jovens reparar na sua presença e dar-se ao trabalho de ma enviar.

Sentei-me na cadeira de Stephen e rasguei o sobrescrito, dentro do qual havia duas folhas de papel de avião e a data era de 3 de Janeiro. Já se passara quase um mês. A minha mente fez soar uma nota de alarme e, subitamente assustada, comecei a ler.

"Querida Rebecca: Espero que não se importe que a trate pelo primeiro nome, pois a sua mãe tem-me falado muito em si. Escrevo-lhe porque a sua mãe se encontra gravemente doente. Há uns tempos que não está bem e, apesar de ter querido escrever-lhe antes, ela não mo permitiu.

Agora resolvi fazer o que achava melhor e, com a aprovação do médico, escrevo-lhe a informá-la de que será meLhor vir até cá para a ver.

Se puder fazê-lo, agradeço que me diga qual o número de voo em que chega, para eu poder ir esperá-la ao aeroporto. Sei que trabalha e talvez tenha dificuldade em realizar esta viagem, no entanto aconselhá-la-ia a não perder tempo. Receio que encontre a sua mãe muito mudada, embora psicologicamente ainda esteja animada.

Com os meus melhores cumprimentos Otto Pedersen. "

Deixei-me ficar sentada, olhando para a carta e mal podendo acreditar no que acabara de ler. As palavras formais nada diziam e, não obstante, eram bastante reveladoras. A minha mãe estava muito doente, possivelmente moribunda. Há um mês atrás tinham-me pedido que não perdesse tempo a ir vê-la. Naquele momento passara-se um mês, eu acabara de receber a carta e talvez ela já tivesse morrido - e eu não fora vê-la. Que pensaria de mim o tal Otto Pedersen, que eu nunca vira, cujo nome soubera mesmo só naquele instante?

 

Reli a carta, voltando a fazê-lo uma vez mais, as folhas finas a rumorejarem nas minhas mãos. Continuava no mesmo sítio, sentada à secretária de Stephen, quando este finalmente desceu à minha procura.

Virei-me para o olhar, por cima do ombro. Ao reparar na minha expressão, perguntou:

- Que se passa?

Tentei contar-Lhe, mas não consegui. Em vez disso, passei-lhe a carta, em que pegou e leu, enquanto eu fincava os cotovelos na secretária e roía as unhas, amargurada e furiosa, lutando contra uma ansiedade terrível.

Stephen terminou rapidamente a leitura. Colocou a carta novamente sobre a secretária, entre nós, e perguntou:

- Sabia que a sua mãe estava doente? Abanei a cabeça em sinal de negação.

- Quando é que teve notícias dela pela última vez?

- Há quatro ou cinco meses. Ela nunca escreveu. Ergui os olhos para ele e exclamei, furiosamente, com a voz entrecortada pelo aperto que sentia na garganta:

- Já se passou quase um mês. Essa carta tem estado no apartamento e ninguém se deu ao cuidado de ma enviar. Ela pode muito bem já ter morrido e eu não fui... pode ter pensado que eu simplesmente não me importei!

- Se a sua mãe tivesse falecido - disse Stephen - com certeza já teríamos sabido. Ora, não chore, não há tempo para tal. O que temos a fazer é pô-la a caminho de Ibiza a toda a velocidade e informar - consultou a carta - o senhor Pedersen da sua chegada. Tudo o resto é secundário.

Eu disse:

- Não posso ir.

Senti um acesso de choro e o queixo a tremer como se tivesse dez anos.

- Porque não?

- Porque não tenho dinheiro suficiente para a passagem.

- Oh, minha querida fillha, deixe essa preocupação ao meu cuidado!

- Mas não posso permitir que o senhor...

- Claro que pode, e já que tem tantos problemas em relação ao assunto, sempre pode pagar-me a dívida ao longo dos próximos cinco anos com as devidas correcções monetárias, se isso a faz mais feliz, mas agora, por amor de Deus, não toquemos mais nessa questão...

Pegara já na lista telefónica, agindo de uma forma simultaneamente eficiente e anti-Stephen.

- Tem passaporte? E ninguém irá levantar-lhe problemas com vacinas contra a varíola ou algo aborrecido do género. Está? Linhas Aéreas Inglesas? Quero reservar um lugar no próximo avião para Ibiza.

Sorriu para mim, que ainda estava a tentar conter as lágrimas e a ira, mas já me sentia ligeiramente melhor. Não há nada como ter um homem grande e bondoso para tomar conta das coisas em momentos de stress emocional. Stephen pegou num lápis e puxou uma folha de papel para si, começando a tomar notas.

- Sim. Quando? Óptimo. É capaz de nos fazer uma reserva nesse, por favor? Miss Rebeca Bayliss. E a que horas está prevista a chegada a Ibiza? E qual é o número do voo? Muito obrigado. Sim, eu próprio a levarei ao aeroporto.

Pousou o auscultador e examinou, com alguma satisfação, os rabiscos ilegíveis que traçara com o lápis.

- Pronto, já está. Se partir amanhã, muda de avião em Palma e chega a Ibiza por volta das sete e meia da tarde. Eu levo-a ao aeroporto. Não, não comece a discutir, pois só ficarei descansado quando a vir a entrar para o avião. E agora enviamos um telegrama ao senhor Otto Pedersen - pegou de novo na carta -, para a Vila Margareta, Santa Catarina, e informamo-lo da sua chegada.

Sorriu-me com uma segurança e uma animação tais que me senti subitamente cheia de esperança.

Disse:

- Nunca poderei agradecer-lhe.

- Nem sequer quero que o faça - retorquiu Stephen.

- É o mínimo que posso fazer.

Parti no dia seguinte, num avião semi-repleto de turistas de Inverno, esperançosos. Levavam mesmo chapéus de palha para se defenderem de um sol abrasador improvável, e os seus rostos, ao sairmos para a chuva fina que não deixou de cair em Palma, mostravam desapontamento, mas uma animação inabalável, pois pensavam que, certamente, no dia seguinte o tempo estaria melhor.

A chuva não parou nunca durante as quatro horas que tive de passar na sala de espera dos passageiros em trânsito e à saída de Palma o voo foi agitado devido às nuvens densas e carregadas de água que tivemos de atravessar. Mas depois de nos erguermos acima delas e começarmos a atravessar o oceano, o tempo aclarou. As nuvens tornaram-se mais ténues e descerraram, revelando um céu de tarde de um azul-claro luminoso e, bem lá em baixo, o mar picado reflectia faixas que o Sol do ocaso tornava rosadas.

Estava escuro quando aterrámos. Escuro e húmido. Ao descer a escada, sob o céu repleto de estrelas brilhantes do Sul, só se sentia o cheiro a gasolina, mas ao caminhar pela pista alcatroada cheia de lama, em direcção às luzes do edificio do terminal, senti o vento suave no rosto. Era quente e cheirava a pinheiros, fazendo-me lembrar as férias de Verão que passara no estrangeiro.

Dada a altura do ano, o avião não viera cheio. A passagem pela alfândega e o sector da imigração não foi demorada, e, depois de carimbarem o meu passaporte, fui buscar a mala e dirigi- me para a sala de chegadas.

Viam-se os habituais pequenos grupos, à espera de pessoas, aguardando, de pé, por ali, ou sentados, a monte e apaticamente, nos bancos compridos forrados a plástico. Detive-me e olhei em volta, esperando que me identificassem, no entanto não consegui localizar ninguém que se parecesse minimamente com um escritor sueco à minha espera. Até que um homem, que estivera a comprar um jornal numa banca, se voltou. Os nossos olhares cruzaram-se através da sala e o indivíduo dobrou o jornal e começou a caminhar na minha direcção, enfiando-o num dos bolsos do casaco como se tivesse deixado de ter préstimo para ele. Era alto e franzino, com cabelo louro ou branco - era impossível distinguir sob a luz eléctrica, branca e impessoal. Quando já se encontrava a meio do soalho polido, sorri hesitantemente e ele, ao aproximar-se mais um pouco, pronunciou o meu nome - "Rebecca? " - com entoação interrogativa, ainda não muito certo de quem eu era.

- Sim.

- Sou Otto Pedersen.

Apertámos as mãos, gesto que ele acompanhou de uma pequena vénia. O seu cabelo, vi então, era louro-claro, a ficar grisalho, e tinha o rosto profundamente bronzeado, magro e ossudo, a pele ressequida e atravessada por rugas minúsculas derivadas de uma exposição prolongada ao sol. Tinha os olhos muito claros e mais cinzentos que azuis. Envergava uma camisola de gola alta preta e um fato cor de aveia-clara com bolsos de dobra para fora, como as balalaicas de safari, e um cinto que lhe estava largo, com a fivela pendente.

Depois de nos encontrarmos, ficámos, repentinamente, sem saber o que dizer um ao outro. Sentíamo-nos ambos completamente dominados pelas circunstâncias do nosso encontro, e eu apercebi-me de que ele estava tão inseguro quanto eu. Mas também era cortês e delicado e ultrapassou o problema pegando-me na mala e perguntando-me se toda a minha bagagem se resumia à mesma.

- Sim, é tudo.

- Então vamos para o carro. Se não se importar de esperar à porta, irei buscá-lo e poupar-lhe-ei a caminhada.

- Irei consigo.

- É só atravessar a estrada, está no parque de estacionamento.

De modo que seguimos juntos, de novo para o meio da escuridão. Otto conduziu-me até ao parque de estacionamento semivazio. Aí, parou junto de um Mercedes preto, enorme, abriu a porta e atirou a minha mala para o banco traseiro. Depois manteve a porta aberta até eu entrar, antes de dar a volta e instalar-se, por sua vez, ao volante, a meu lado.

- Espero que tenha feito boa viagem - disse delicadamente, enquanto nos afastávamos do terminal enveredando pela estrada.

- Foi um tanto acidentada em Palma. Tive de esperar quatro horas.

- Pois. Nesta altura do ano não fazem voos directos. Engoli em seco.

- Devo explicar porque não respondi à sua carta. Mudei de casa e só a recebi ontem de manhã. Não me foi entregue directamente, compreende. O senhor foi muito atencioso em me escrever e deve ter ficado admirado por eu nunca ter respondido.

- Calculei que tivesse sucedido algo desse género.

O seu inglês era impecável, somente o som preciso das vogais suecas traía a sua origem, assim como um certo formalismo na maneira como se expressava.

- Quando recebi a sua carta fiquei com tanto medo... de que já fosse demasiado tarde.

- Não - observou Otto -, não é demasiado tarde. Algo na sua voz me levou a fitá-lo. O seu perfil desenhava-se, de contornos distintos, contra o brilho amarelado dos candeeiros de rua por onde passávamos, a expressão mantinha-se séria e grave.

Perguntei:

- Está a morrer?

- Sim - respondeu Otto. - Sim, está a morrer.

- Que doença tem?

- Cancro do sangue. Vocês chamam-lhe leucemia.

- Há quanto tempo está doente?

- Há cerca de um ano. Mas só piorou bastante nas vésperas do Natal. O médico achou que devíamos tentar transfusões de sangue e eu levei-a para o hospital para esse fim. Mas não valeu de nada, porque, assim que regressou a casa, teve uma hemorragia nasal muito forte e a ambulância teve de lá voltar para a levar novamente para o hospital. Passou lá o Natal e só depois é que a deixaram ir para casa. Foi nessa altura que lhe escrevi.

- Quem me dera ter recebido essa carta a tempo. Ela sabe da minha chegada?

- Não, não lhe disse nada. Sabe bem como ela adora surpresas, assim como também detesta desilusões. Achei que poderia haver um risco de algo correr mal e a Rebecca não chegar. - Sorriu gelidamente: - Mas como é óbvio, veio.

Parámos num cruzamento para deixar passar uma carroça puxada por uma mula, cujos cascos faziam um som agradável na estrada poeirenta, e com uma lanterna acesa baloiçante pendurada na parte de trás. Otto aproveitou a pausa para tirar um charuto do bolso do peito do casaco e acendê-lo com o isqueiro eléctrico do painel. Assim que a carroça passou, seguimos caminho.

- Há quanto tempo não vê a sua mãe?

- Há dois anos.

- Deve contar com uma grande mudança. Receio que fique chocada, no entanto deve fazer os possíveis por não a deixar perceber. Continua a ser muito vaidosa.

- Conhece-a muito bem.

- Mas com certeza.

Ansiava por saber se a amava. Tinha a pergunta mesmo na ponta da língua, porém compreendi que, naquela fase da nossa convivência, uma indagação tão pessoal e íntima pareceria apenas uma impertinência. Além disso, que diferença faria? Ele conhecera-a e quisera estar com ela, proporcionara-lhe um lar e agora que a via tão gravemente doente acari nhava-a ao seu jeito aparentemente desprendido em termos emocionais. Se aquilo não era amor, então o que seria?

Pouco depois, começámos a falar de outros assuntos. Perguntei-lhe há quanto tempo vivia na ilha e Otto respondeu-me que há cinco anos. Fora ali, pela primeira vez, num iate, mas gostara tanto do local que voltara no ano seguinte para comprar casa própria e instalar-se.

- É escritor.

- Sou, mas também ensino História.

- Escreve livros de História?

- Já o fiz. No momento estou a trabalhar numa tese sobre a ocupação árabe nestas ilhas e no Sul de Espanha.

Estava impressionada. Tanto quanto conseguia recordar, nenhum dos amantes anteriores de minha mãe fora, nem remotamente, intelectual.

- A sua casa fica muito longe?

- Agora já só faltam uns oito quilómetros. A aldeia de Santa Catarina estava bastante intacta quando vim para cá. Mas agora estão a planear grandes empreendimentos hoteleiros e receio que a estraguem, como o resto da ilha. Não, não é verdade. Como algumas partes da ilha. Ainda é possível ficar completamente só quando se sabe onde ir e se dispõe de um carro ou talvez de um barco a motor.

Dentro do automóvel fazia calor e abri a janela. O ar cálido da noite bateu-me no rosto e vi que naquele momento estávamos no campo, atravessando pequenos renques de oliveiras e avistando, de tempos a tempos, a luz tremeluzente de alguma janela de quinta a brilhar por detrás das formas bulbosas e espinhudas das figueiras-da-índia.

Observei:

- Ainda bem que a minha mãe está aqui. Quero dizer, se está doente e vai morrer, mais vale que seja num lugar como este, no Sul, com o sol quente e o odor dos pinheiros.

- Sim - observou Otto. E a seguir, mais preciso que nunca: - Penso que tem sido muito feliz.

Seguimos em silêncio, a estrada vazia, postes telegráficos a precipitarem-se ao encontro dos faróis do carro. Vi que rodávamos agora paralelamente ao mar, o qual se espraiava a perder de vista num horizonte invisível e escuro, pontilhado aqui e ali com as luzes de barcos de pesca. A certa altura apareceu à nossa frente o contorno iluminado a néon de uma aldeia. Passámos por uma tabuleta que dizia "Santa Catarina" e a seguir entrámos na rua principal; no ar pairava um cheiro a cebolas, óleo e carne grelhada. Das portas abertas saía música flamenca e rostos morenos viravam-se, curiosos mas indiferentes, para nos ver passar. Um momento depois deixávamos a aldeia para trás e mergulhávamos na escuridão em frente, para abrandarmos quase logo a seguir a fim de virarmos, a custo, numa curva íngreme que dava para uma azinhaga estreita, ladeada de amendoeiras. Os faróis abriram caminho no negrume e avistei a villa à frente, branca e quadrada, trespassada por pequenas janelas de ar misterioso, com uma lanterna acesa a balouçar por cima da enorme porta da entrada ornada de pregos.

Otto travou o carro e desligou o motor. Saímos e Otto tirou a minha mala do banco de trás e, depois de me abrir a porta e aguardar que eu saísse, seguiu atrás de mim pelo cascalho.

Entrámos num corredor, iluminado por um candelabro de ferro fundido e decorado com um sofá comprido coberto por uma manta garrida. Ao pé da porta via-se um pote alto, azul e branco, contendo úma colecção de bengalas de cabo de marfim e chapéus-de-sol. Mal Otto fechou a porta da rua, uma outra abriu-se à nossa frente, deixando passar uma mulher baixa e de cabelos escuros, de bata cor-de-rosa e chinelos rasos e gastos.

- Boa-noite, senor.

- Boa-noite, Maria.

A mulher sorriu, exibindo vários dentes de ouro. Otto falou-lhe em espanhol, fazendo-lhe uma pergunta à qual ela respondeu, depois voltou-se para me apresentar.

- É a Maria, que cuida das nossas coisas. Disse-lhe quem é.

Estendi a mão a Maria, que a apertou: ficámos amigas, trocando sorrisos e acenos de cabeça. Depois ela virou- se novamente para Otto e disse algo mais. A seguir ele entregou-lhe a minha mala e a mulher retirou-se.

- A sua mãe esteve a dormir, mas agora encontra-se acordada. Dê- me o seu casaco.

Desabotoei-o e Otto ajudou-me a despi-lo, pousando-o na ponta do sofá. Depois seguiu pelo corredor, em direcção a mais outra porta, fazendo-me sinal para que o seguisse. Assim fiz, subitamente nervosa, com medo do que iria encontrar.

A divisão aonde Otto me conduziu era o salão da casa. Comprido e de tecto baixo, estava pintado de branco, tal como o resto da casa, e mobilado com uma agradável miscelânea de escandinavo moderno e espanhol antigo. O pavimento, de tijoleira, quase desaparecia sob os tapetes, havia muitos livros e quadros e no meio da sala via-se uma encantadora mesa redonda, com revistas e jornais.

Um fogo de lenha queimava numa enorme lareira de mármore e, em frente desta, havia uma cama, com uma mesinha-de-cabeceira ao lado, sobre o tampo desta um copo e um jarro de água, um vaso de gerânios, alguns livros e um candeeiro aceso.

O candeeiro e o tremeluzir das chamas forneciam a única iluminação da sala, mas da porta era-me possível distinguir a forma estreita que soerguia os cobertores cor-de-rosa e a mão e o braço emaciados que se estenderam quando Otto entrou e se aproximou, detendo-se sobre o tapete em frente da lareira.

- Querido - disse ela.

- Lisa.

Pegou-lhe na mão e beijou-a.

- Afinal não demoraste muito.

- Maria diz que dormiste. Sentes-te preparada para receber uma visita?

- Uma visita? - A sua voz era um fio. - Quem? Otto olhou de relance para mim e eu acerquei-me de maneira a ficar a seu lado. Disse:

- Sou eu, a Rebecca.

- Rebecca! Querida filha. Oh, que graça abençoada! Estendeu ambos os braços para mim e eu ajoelhei-me ao lado da cama para a beijar; o seu corpo não me ofereceu resistência nem apoio, tão franzina estava, e quando lhe toquei na face, senti nela uma consistência de papel. Era como beijar uma folha de há muito arrancada pelo vento à árvore-mãe.

- Mas que estás tu a fazer aqui? - Olhou para Otto sobre o meu ombro e depois voltou a fitar-me. Compôs uma espécie de cara zangada: - Por acaso não lhe disseste para vir, pois não?

- Achei que gostarias de a ver - desculpou-se Otto. Pensei que te animasse.

- Mas, querido, porque não me disseste?

Sorri.

- Queríamos que fosse uma surpresa.

- Mas gostaria de ter sabido porque assim podia ter ficado ansiosa por te ver. Era o que costumávamos pensar sempre antes do Natal. Metade do prazer estava na expectativa.

Largou-me e voltei a endireitar-me.

- Tencionas ficar? - perguntou.

- Por um ou dois dias.

- Oh, que maravilha! Podemos trocar os mexericos mais deliciosos. Otto, Maria sabe que Rebecca fica cá?

- Evidentemente.

- E quanto ao jantar desta noite?

- Está tudo combinado... comeremos juntos, aqui, só nós os três.

- Bem, agora tomemos uma bebidazinha. Há algum champanhe?

Otto sorriu:

- Acho que temos por aí uma garrafa. Penso até que me lembrei de guardá-la no frigorífico para uma ocasião como esta.

- Oh, espertalhão!

- Posso ir buscá-la já?

- Se fazes o favor, querido.

Enfiou a mão na minha e foi como segurar num feixe de ossos.

- E beberemos ao nosso reencontro.

Otto foi buscar o champanhe e ficámos sozinhas. Encontrei um banquinho, que puxei até à cama, de maneira a sentar-me junto dela. Olhámos uma para a outra e ela não conseguia deixar de sorrir. O sorriso deslumbrante e os olhos escuros brilhantes continuavam os mesmos, assim como o cabelo escuro, que se espalhava, como uma cortina, sobre a almofada nívea. Exceptuando esses pormenores, o seu aspecto era horrível. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse ser tão descarnada e manter-se viva. E para tornar o quadro ainda mais irreal, não estava empalidecida e sem cor mas bastante bronzeada, como se passasse a maior parte do dia ao sol. Mas mostrava-se agitada. Dava a impressão de não ser capaz de parar de falar.

- Que homem tão adorável, saber o quanto eu gostaria de te ver. O único problema está em eu agora andar tão aborrecida que não me apetece fazer nada; ele devia ter esperado pelas minhas melhoras para depois nos podermos divertir juntos, irmos nadar, andar de barco, fazer piqueniques e coisas do género.

Eu disse:

- Posso voltar.

- Sim, claro que podes. - Tocou-me no rosto com a mão, como que para se certificar, através do contacto, de que eu estava ali. - Estás bonita, sabias? Tens a tez do teu pai, com esses olhos cinzentos enormes e o cabelo louro-cinza. É cinza ou dourado? E adoro a maneira como o penteias. - A mão deslocou-se para a trança única que me caía para a frente, como uma corda, sobre o ombro direito. Faz com que pareças ter saído de um conto de fadas; sabes, daqueles livros antigos com imagens de encantar. És muito bonita.

Sacudi a cabeça.

- Não, não sou.

- Bem, pelo menos pareces, o que já não é mau. Querida, que tens feito? Há imenso tempo que não te escrevo nem sei de ti. De quem será a culpa... Minha, suponho, pois não gosto nada de escrever cartas.

Falei-lhe da livraria e do apartamento novo. Lisa mostrou-se divertida.

- Que pessoa engraçada és, a construíres um ninho só para ti, sem ninguém com quem o partilhares. Ainda não conheceste alguém com quem quisesses casar?

- Não. Nem ninguém que quisesse casar comigo. A minha mãe compôs um ar malicioso.

- E que tal o homem para quem trabalhas?

- É casado, tem uma mulher encantadora e uma ninhada de filhos.

A minha mãe soltou uma risada.

- Isso nunca foi problema para mim. Oh, querida, que mãe péssima fui para ti, arrastando-te comigo de maneira tão censurável! Admira que não tenhas ficado com a série mais horrível de neuroses ou traumas ou seja lá o que for que lhes chamam hoje em dia! Mas não pareces padecer de nada disso, portanto se calhar afinal não foi tão mau como pensava.

- Claro que não foi. Cresci simplesmente com os olhos abertos, o que só me fez bem. - E acrescentei: - Gosto de Otto.

- Não é divinal? Tão correcto, cerimonioso e nórdico. E tão deslumbrantemente inteligente... Foi uma sorte não exigir que eu também fosse inteligente! Contenta-se com que o faça rir.

Algures, no meio da casa, um relógio deu sete badaladas e mal a última nota acabara de soar Otto entrou de novo na sala, trazendo um tabuleiro com uma garrafa de champanhe num balde de gelo e três taças. Vimo-lo tirar a rolha com mãos hábeis e deitar o espumante dourado nas três taças; cada qual pegou na sua e erguemo-las, todos sorridentes, porque, de repente, era tempo de festa. A minha mãe disse:

- A nós três e aos tempos felizes. Oh, que graça divina! Mais tarde conduziram-me ao meu quarto, que ou era simplesmente luxuoso ou luxuosamente simples, não consegui decidir-me por qual. Incluía casa de banho, facto que aproveitei para tomar um duche, e mudei para umas calças e uma blusa de seda, escovei e entrancei novamente o cabelo, regressando em seguida à sala. Encontrei Otto e a minha mãe à minha espera. Otto também se mudara para jantar e a mãe vestia um casaquinho de malha azul-pálido, com um xaile de seda com rosas bordadas atirado sobre os joelhos, as franjas compridas a roçarem o chão. Tomámos mais uma bebida e em seguida Maria serviu o jantar numa mesa baixa, em frente da lareira. A minha mãe não parou de falar - era tudo sobre os velhos tempos que acompanharam o meu crescimento, e eu não parava de pensar se Otto não estaria chocado. Este, porém, de chocado não tinha nada, mostrava-se apenas curioso, muito divertido, sempre a fazer perguntas e a incentivar a minha mãe a contar mais e mais.

e aquela quinta pavorosa em Denbigshire... Rebecca, lembras-te daquela casa horrível? Quase morremos de frio e a lenha deitava fumo sempre que tentávamos pegar-lhe fogo. Foi o tempo de Sebastian - explicou a Otto.

Todos pensávamos que iria tornar-se um poeta famoso, mas não escrevia melhor poesia do que tratava da quinta e do gado. Na verdade, podia mesmo dizer-se que era pior. E eu que não conseguia imaginar uma maneira de o deixar sem o magoar até que, por sorte, Rebecca arranjou uma bronquite que nos obrigou a partir.

- A sorte não foi assim tão grande para Rebecca - observou Otto.

- Podes crer que foi. Ela detestava aquilo tanto como eu; ainda por cima ele tinha um cão horrível que ameaçava constantemente mordê-la. Querido, há mais champanhe?

Não comeu quase nada mas bebeu, taça após taça, o vinho gelado, enquanto Otto e eu íamos saboreando calma mente o delicioso jantar de quatro pratos preparado por Maria. Depois de terminarmos e de a loiça ser levada, a minha mãe disse que gostaria de ouvir música suave, e Otto pôs um concerto de Brahms no gira-discos, baixando bastante o volume. A minha mãe continuou a falar, como um brinquedo a quem tivessem dado a corda toda e que só parasse de zunir atabalhoadamente pelo chão quando, por fim, se esgotasse.

A certa altura, Otto, dizendo que tinha trabalho a fazer, pediu licença e retirou-se, não sem antes realimentar a fogueira com toros novos e certificar-se de que não nos faltava nada.

- Costuma trabalhar todas as noites? - perguntei a Lisa depois de Otto desaparecer.

- Quase sempre. E de manhã. É muito meticuloso. Penso que nos demos assim bem por sermos tão diferentes.

Observei:

- Ele adora-a.

- É verdade - admitiu a minha mãe. - E o mais interessante é que nunca tentou transformar-me noutra pessoa; aceitou-me simplesmente como sou, com os meus modos maliciosos e o meu passado duvidoso. - Tocou-me novamente na trança. - Estás cada vez mais parecida com o teu pai... sempre achei que saías a mim, mas não é verdade, agora pareces-te com ele. Era um belo homem.

- Sabe, nem sequer conheço o nome dele.

- Sam Bellamy. Mas Bayliss é um apelido muito melhor, não achas? Além disso, como sempre te criei sozinha, achei que eras minha filha e de mais ninguém.

- Gostaria que me tivesse falado nele. Nunca o fez.

- Há muito pouco para contar. Era actor e demasiado bonito para palavras.

- Mas onde o conheceu?

- Ele veio até à Cornualha, integrado numa companhia de teatro itinerante, representar Shakespeare ao ar livre. Foi tudo terrivelmente romântico, noites de Verão azuis-escuras, o odor húmido e orvalhado da erva, a música divina de Mendelssohn e Sam a fazer de Oberon.

"Pela casa tremula a luz Do fogo mortiço e modorrento;

Todo o duende e fada de encantar;

Saltam ligeiros como ave de roseira-brava. "

- Era de encantar. E apaixonar-me por ele fez parte do encanto.

- Ele estava apaixonado por si?

- Ambos pensámos que estava.

- Mas fugiu com ele e casaram...

- Sim. Mas apenas porque os meus pais não me deram outra alternativa.

- Não compreendo.

- Não gostavam dele. Discordavam. Disseram que eu era demasiado nova. A minha mãe perguntou-me porque não casava antes com um bom rapaz que vivesse na localidade, porque não assentava e parava de me exibir. E, casando com um actor, que diriam as pessoas? Às vezes pensava que essa era a única preocupação que ela tinha, a opinião das pessoas. Como se o que as pessoas pudessem dizer tivesse a menor importância.

Era, inacreditavelmente, a primeira vez que ouvia a minha mãe a falar da sua mãe. Obedecendo a um impulso, perguntei cautelosamente:

- Gostava dela?

- Oh, querida, já lá vai tanto tempo! É tão dificil recordar. Mas ela inibia-me e oprimia-me. Havia ocasiões em que parecia que queria sufocar-me com as convenções. E Roger morrera e eu sentia terrivelmente a sua falta. Tudo teria sido diferente se Roger não tivesse desaparecido. - Sorriu: Era tão bom. Quase em excesso. Um autêntico VC desde o princípio.

- Que é um VC?

- "Vítima de Cabra". Apaixonava-se sempre pelas raparigas inatingíveis. Até que casou com uma. Uma bonequinha loura, com cabelos e olhos azuis de boneca de porcelana. A minha mãe achava-a uma ternura. Eu não a suportava.

- Como se chamava?

- Mollie.

Fez uma careta, como se detestasse o próprio nome. Ri.

- Não pode ter sido assim tão má.

- Eu achava que era. Tão insanamente arrumada. Sempre a limpar a mala de mão, a colocar os sapatos nas respectivas formas ou a esterilizar os brinquedos do bebé.

- Quer dizer que teve um bebé?

- Sim, um menino. Pobre criança, ela fez questão em chamar-lhe Eliot.

- Acho que é um nome bonito.

- Oh, Rebecca, é um nojo!

Obviamente, nada do que Mollie fizera fora ao gosto de minha mãe.

- Tive sempre pena daquela criança - continuou -, a carregar o fardo de semelhante nome a vida inteira. E acabou por viver à altura dele, sabes como as pessoas fazem, e depois da morte de Roger, o pobre desgraçado ficou pior que nunca, sempre agarrado às saias da mãe e a ter de dormir de luz acesa.

- Acho que está a ser muito rude.

Lisa riu:

- Sim, eu sei, e a culpa não foi dele. Provavelmente ter-se-ia transformado num jovem de grande personalidade caso a mãe lho tivesse permitido minimamente.

- Que terá acontecido a Mollie?

- Não sei. Tão-pouco me preocupo muito com o facto. A minha mãe conseguia ser sempre cruelmente desprendida.

- É como um sonho - continuou. - É como recordar pessoas de um sonho. Ou talvez... - a voz faltou-lheeles tenham sido reais e eu é que não passei do sonho.

Senti-me pouco à vontade porque esse facto é que se aproximava mais da verdade que eu tentava não assimilar. Inquiri rapidamente:

- Os seus pais ainda são vivos?

- A minha mãe morreu no Natal que passámos em Nova Iorque. Lembras-te dessa ocasião? Do frio, da neve e de tudo quanto era loja a tocar o Jingle Bells? Quando esse Natal chegou ao fim, achei que nunca mais teria vontade de ouvir a malfadada melodia. O meu pai escreveu-me, mas claro que a carta só chegou às minhas mãos meses mais tarde, depois de me seguir por meio mundo. E nessa altura já era demasiado tarde para responder e dizer o que quer que fosse. Além disso, não tenho jeito nenhum para escrever cartas. É provável que ele tenha pensado que eu não me importei. - Mas ao menos escreveu? - Não. - Também não gostava dele? Parecia uma situação lamentável. - Oh, adorava-o! Era maravilhoso. Tremendamente bonito, um sucesso entre as mulheres, espantosamente ardente e insinuante. Era pintor. Já te tinha contado? Pintor. Imaginara tudo menos que tivesse sido pintor. -Não, não contou. - Bem, se tivesses o mínimo de cultura, provavelmente terias calculado. Grenville Bayliss. Não te diz absolutamente nada? Sacudi a cabeça tristemente. Era terrível nunca ter ouvido falar de um avô célebre. - Ora, porque haveria de dizer? Nunca tive tendência para andar contigo pelas galerias de arte ou pelos museus. Pensando melhor, nunca fui boa em nada de especial. Admira que te tenhas saído bem depois de uma dose tão avantajada de negligência maternal. - Que aspecto tinha ele? - Quem? - O seu pai. - Como é que o imaginas? Reflecti sobre a pergunta e saí-me com a descrição de Augustus John. -De ar boémio, barba e testa bastante leonina... - Errado - disse a minha mãe. - Nada disso. Começou a sua vida na Marinha e esta deixou-lhe uma marca indelével. Compreendes, só decidiu ser pintor perto da casa dos trinta, altura em que desistiu de uma carreira promissora e se inscreveu no Slade. Foi um grande desgosto para a minha mãe. E mudar para a Cornualha e montar casa em Porthkerris ainda piorou mais a situação. Penso que ela nunca lhe perdoou tanto egoísmo. Adorava pavonear-se por Malta e provavelmente imaginava-se como esposa do comandante-chefe. Reconheço que ele parecia feito à medida para o papel, com os seus olhos muito azuis e o ar firme e intimidante. Nunca perdeu aquilo que naquele tempo era tido como uns modos imponentes.

- Mas a mãe não se sentia atemorizada por ele, pois não?

- Não. Eu adorava-o.

- Então porque não voltou para casa?

O rosto de Lisa ensombrou-se.

- Não podia. Todos nós tínhamos dito coisas terríveis. Velhos ressentimentos e verdades vieram violentamente ao de cima, foram feitas ameaças, apresentaram-se ultimatos. E quanto mais se opunham à minha vontade, mais decidida eu ficava e mais impossível se tornou admitir, quando chegou a altura de reconhecer que eles tinham tido razão e eu enganara-me e cometera um erro terrível. E se tivesse voltado para casa, nunca mais de lá sairia. Tinha a noção dessa realidade. E tu nunca me terias pertencido, terias ficado com a tua avó. Nunca suportaria semelhante coisa. Eras uma preciosidade tão grande.

Sorriu e acrescentou, deveras melancolicamente:

- E nós divertimo-nos, não é verdade?

- Sim, claro que nos divertimos.

- Teria gostado de regressar. Houve ocasiões em que por pouco não o fiz. Era uma casa linda. Tinha o nome de Boscarva e fazia lembrar esta villa, erguendo-se, quadrada, no topo de uma colina sobranceira ao mar. Quando Otto me trouxe cá pela primeira vez, fez-me lembrar Boscarva. Mas

aqui faz mais calor e os ventos são suaves; lá, eram violentos e tempestuosos, e o jardim estava protegido por sebes

altas que defendiam os canteiros de flores dos ventos marítimos. Penso que o vento era o que a minha mãe mais detestava. Costumava trancar todas as janelas e fechar-se dentro de casa a jogar brídege com os amigos ou a bordar.

- Ela nunca se entretinha consigo?

- Nada de especial.

- Mas quem cuidava de si?

- Pettifer. E a senhora Pettifer.

- Quem eram?

- Pettifer também andara na Marinha; estava ao serviço do meu pai, limpava as pratas e às vezes fazia de motorista.

E a senhora Pettifer cozinhava. Não imaginas como eram ternurentos. Sentar-me ao lado deles em frente ao fogo da cozinha, a fazer torradas e a ouvir o vento a bater contra as janelas, sabendo que não podia entrar... fazia uma pessoa sentir-se em segurança. E costumávamos ler a sina nas chávenas de chá...

Foi-se calando. Até que acrescentou:

- Não, essa era Sophia.

- Quem era Sophia?

Não respondeu. Fitava o fogo com olhar fixo, com expressão ausente. Talvez não me tivesse ouvido. Por fim, disse:

- Depois do falecimento da minha mãe, eu devia ter regressado. Foi uma maldade minha manter-me ausente, mas nunca fui muito dotada do que chamam de fibra moral. Mas, sabes, em Boscarva há objectos que me pertencem.

- Que tipo de objectos?

- Lembro-me de uma secretária. Pequena, com gavetas até abaixo e uma tampa que subia. Penso que é o que chamam de escrivaninha. E algum jade que meu pai trouxe da China e um espelho veneziano. Era tudo meu. Por outro lado, como eu nunca parava muito tempo no mesmo sítio, não teriam passado de um estorvo. - Fitou-me, franzindo ligeiramente o cenho. - Mas talvez tu não os consideres nesse prisma. Tens mobília nesse teu apartamento?

- Não. Praticamente nenhuma.

- Nesse caso talvez os possa mandar vir para ti. Ainda devem estar em Boscarva, desde que a casa não tenha sido vendida, arrasada ou algo do género. Gostarias que eu tentasse recuperá-los?

- Adoraria. Não apenas porque me fazem falta mas sobretudo porque lhe pertenceram.

- Oh, querida, que adorável, é uma graça a forma como anseias por raízes, raízes que eu nunca pude dar-te! Sempre achei que me prenderiam a um lugar.

- E eu sempre achei que me dariam a sensação de pertencer a algum sítio.

Lisa observou:

- Pertences-me a mim.

Ficámos a conversar até altas horas da madrugada. Por volta da meia- noite, pediu-me que voltasse a encher o seu jarro de água e eu descobri o caminho até à cozinha deserta para lhe satisfazer o pedido, dando-me então conta de que Otto, delicadamente, devia ter-se ido deitar discretamente, para que pudéssemos ficar as duas juntas. E quando, por fim, a voz de Lisa mostrou sinais de cansaço e as palavras começaram a arrastar-se, indistintas, devido à exaustão, disse que também estava cheia de sono, o que era verdade, levantei-me, entorpecida por ter estado tanto tempo sentada, e deitei mais toros na fogueira. Depois tirei-lhe a segunda almofada, para que pudesse estender-se, pronta para dormir. O xaile de seda resvalara para o chão, de modo que apanhei-o dobrei-o e coloquei-o nas costas de uma cadeira. Depois inclinei-me para lhe dar um beijo, desliguei o candeeiro e deixei-a ali, à luz da lareira acesa. Quando ia a sair pela porta, Lisa disse-me, como sempre fora seu hábito nos meus tempos de menina:

- Boa-noite, meu amor. Até amanhã.

Na manhã seguinte acordei cedo, ciente do sol que entrava pelas frinchas das persianas. Levantei-me, abri-as e deparei com a brilhante manhã mediterrânica. Saí pelas janelas altas, abertas para o terraço de pedra que se estendia ao comprimento de toda a casa, e mais adiante, a cerca de quilómetro e meio de distância, avistei a vertente da colina a descer em direcção ao mar. A terra cor de areia estava pontilhada de rosa, os primeiros botões das amendoeiras. Voltei para o meu quarto, vesti-me e saí novamente - atravessei o terraço, desci um lance de escadas e segui pelo meio de um jardim ordenado e formal. Saltei um muro de pedra baixo e caminhei em direcção ao mar. A certa altura vi-me num pomar, rodeada de amendoeiras. Detive-me e ergui o olhar para uma fronde coberta de botões de flores cor-de-rosa e depois desta, para um céu azul-claro e sem nuvens.

Sabia que cada uma daquelas flores daria um fruto precioso que, quando chegasse a sazonar, seria cuidadosamente colhido, mas esse facto não me impediu de apanhar apenas um ramo delas, que ainda levava comigo quando, cerca de

uma hora mais tarde, depois de ter ido até à beira-mar e voltado, comecei a subir pelo mesmo caminho, colina acima, em direcção à villa.

Era mais íngreme do que me parecera. Parando para respirar, ergui o olhar para a casa e avistei Otto Pedersen de pé no terraço, a observar a minha subida. Por um instante, ambos ficámos imóveis; depois ele avançou e começou a descer os degraus, vindo até ao jardim, ao meu encontro.

Avancei mais lentamente, continuando a segurar o ramo de flores em botão. Foi então que soube. Soube antes de ele ficar suficientemente próximo para lhe ver a expressão do rosto; mas continuei a subir, passei o pomar e, finalmente, encontrámo-nos junto ao pequeno muro de pedra.

Otto proferiu o meu nome. Foi tudo.

Observei:

- Eu sei. Não precisa de me dizer.

- Morreu durante a noite. Quando Maria foi acordá-la esta manhã... estava tudo acabado. Muito serenamente.

Reparei que não estávamos a fazer nada de especial para nos reconfortarmos um ao outro. Ou talvez não houvesse necessidade. Otto pegou-me na mão para me ajudar a passar o muro e, sem a largar, atravessou comigo o jardim até à casa.

Lisa foi enterrada, de acordo com a lei espanhola, no mesmo dia e no pequeno cemitério da aldeia. Só o padre esteve presente, além de Otto e eu própria. Depois de tudo terminado, coloquei os ramos de flores em botão sobre a sua campa.

Apanhei o avião para Londres na manhã seguinte, e Otto levou-me até ao aeroporto no seu automóvel. Percorremos a maior parte do percurso em silêncio, mas quando nos aproximávamos do terminal, disse-me:

- Rebecca, não sei até que ponto isto tem significado para si, mas por mim teria casado com Lisa. Tê-la-ia desposado mas já tenho mulher na Suécia. Não vivemos juntos há muitos anos mas ela recusa o divórcio por motivos religiosos.

- Não precisava de me dar essa explicação, Otto.

- Queria que soubesse.

- Fê-la tão feliz! Tratou-a tão bem!

- Estou contente por aqui ter vindo. E também por ter estado com Lisa.

- Sim. - Senti imediatamente um nó terrível na garganta e os olhos encheram-se-me de lágrimas dolorosas. Sim, eu também estou contente.

No terminal, o meu bilhete e a bagagem confirmados, detivemo-nos um em frente do outro.

- Não espere - disse eu. - Vá agora. Detesto despedidas.

- Está bem... mas primeiro...

Enfiou a mão no bolso do casaco e tirou duas lindas pulseiras de prata muito usadas. A minha mãe tinha-as permanentemente no braço. Ainda as trazia na noite anterior.

- Tem de ficar com elas - disse, pegando-me na mão e enfiando-as no meu pulso. - E isto. - De outro bolso retirou um maço de libras inglesas dobradas. Premiu-o de encontro à palma da minha mão e fechou-me os dedos sobre elas. - Estavam na mala de mão de Lisa... portanto devem ficar consigo.

Eu sabia que não pertenciam a minha mãe. Não era seu hábito andar com dinheiro, com excepção de alguns trocos para um telefonema, ou algumas notas usadas, há muito retiradas da circulação. Mas algo no rosto de Otto me disse que não devia recusá-las; portanto, agarrei no dinheiro, dei-lhe um beijo no rosto; sem proferir uma palavra, Otto virou- se e afastou-se.

Voltei para Londres num estado de indecisão desesperante. Sentia-me emocionalmente vazia, exaurida até mesmo de dor. Verifiquei que estava exausta fisicamente, mas não consegui dormir nem tocar na refeição que a hospedeira me ofereceu. Trouxe-me chá e tentei bebê-lo, mas sentia-o amargo e deixei-o arrefecer.

Era como se uma porta, de há muito cerrada, se tivesse aberto, mas apenas uma frincha, cabendo-me a mim escancará-la, embora o que estivesse do outro lado fosse escuro e repleto de incerteza.

Talvez eu devesse ir até à Cornualha procurar a família da minha mãe, mas os vislumbres que recebera relativamente ao cenário de Porthkerris não eram encorajadores. O meu avô devia estar muito velho, solitário e, provavelmente, amargurado. Apercebi-me de que não combinara com Otto Pedersen transmitir-lhe o falecimento de minha mãe, de modo que havia a pavorosa possibilidade de, caso fosse vê-lo, ter de ser eu a dar a notícia. Também o culpava, em parte, por ter permitido que a filha tivesse tido uma vida tão desaustinada. Sabia que Lisa fora impulsiva e irreflectida, e teimosa também, mas com certeza ele poderia ter tido uma atitude mais positiva ao lidar com ela. Podia tê-la procurado, ter-se oferecido para a ajudar, conhecer-me a mim, sua neta. Mas não dera nenhum desses passos e o facto erguer-se-ia sempre como uma barreira entre nós.

E, no entanto, eu ansiava por raízes. Não queria propriamente viver com elas, mas desejava saber da sua existência. Em Boscarva havia objectos que tinham pertencido a minha mãe e que, portanto, agora eram propriedade minha. Fora sua vontade que eu ficasse com eles, ela própria o dissera, daí que talvez tivesse obrigação de ir à Cornualha buscá-los; porém, levar este fito exclusivo parecia-me simultaneamente cruel e ganancioso.

Recostei-me, dormitei e ouvi novamente a voz da minha mãe:

"Nunca tive medo dele. Amava-o. Devia ter regressado. "

E falara num nome - Sophia -, mas eu nunca descobrira quem era Sophia.

Finalmente adormeci e sonhei que estava em Porthkerris. Mas a casa que me apareceu no sonho não possuía contornos ou forma e o seu único aspecto real era o som do vento, a abrir violentamente caminho terra dentro, fresco e frio, vindo do mar aberto.

Ao princípio da tarde encontrava-me em Londres, mas o dia escuro perdera o seu formato e significado, deixando-me sem saber o que fazer com o que restava dele. Acabei por apanhar um táxi e ir à Walton Street procurar Stephen Forbes.

Encontrei-o no piso de cima, a remexer numa caixa com livros de uma casa antiga que tinham acabado de ser vendidos. Estava sozinho e, quando eu apareci no cimo das escadas, ele pensou tratar-se de um possível cliente e endireitou-se, encaminhando-se para mim. Ao ver que era eu, os seus modos mudaram.

- Rebecca! Voltou!

Parei, de mãos enfiadas nos bolsos do casaco.

- Sim. Cheguei por volta das duas da tarde. Ao ver que ele me mirava interrogativamente, acrescentei:

- A minha mãe morreu às primeiras horas do dia de ontem. Cheguei mesmo a tempo. Passei uma noite com ela e falámos muito.

- Compreendo - disse Stephen. - Ainda bem que conseguiu vê-la.

Afastou uns livros da beira de uma mesa e apoiou-se nela, cruzando os braços e olhando-me através dos óculos. Perguntou:

- E agora, que tenciona fazer?

- Não sei.

- Parece exausta. Porque não tira uns dias de férias?

- Não sei - repeti.

Stephen franziu o sobrolho.

- Que é que não sabe?

- Não sei o que fazer.

- Qual é o problema?

- Stephen, já ouviu falar de um pintor chamado Grenville Bayliss?

- Céus, já! Porquê?

- É o meu avô.

Stephen ficou embasbacado.

- Santo Deus. Quando foi que descobriu?

- A minha mãe disse-me. Nunca ouvira falar neletive de admitir.

- Pois devia ter ouvido.

- É muito conhecido?

- Era, há uma vintena de anos, nos meus tempos de rapaz. Na sala de jantar da velha casa do meu pai, em Oxford, havia um quadro de Grenville Bayliss pendurado por cima da lareira. Acompanhou o meu crescimento, por assim dizer. Mostrava um mar cinzento encapelado e um barco de pesca com uma vela castanha. Costumava sentir-me enjoado só de olhar para ele. Era um especialista em paisagens marinhas.

- Foi marinheiro, ou seja, esteve na Marinha Real.

- Então compreende-se.

Esperei que continuasse, mas Stephen calou-se. Por fim perguntei:

- Que hei-de fazer, Stephen?

- Que quer fazer, Rebecca?

- Nunca tive uma família.

- É assim tão importante?

- De repente tornou-se.

- Então vá ver o seu avô. Há alguma razão para que não o faça?

- Tenho medo.

- De quê?

- Não faço ideia. De ser mal recebida, suponho. Ou ignorada.

- Eram assim tão graves as brigas familiares?

- Eram. E os cortes de relações. E nunca me vieram procurar. Está a ver o género.

- A sua mãe sugeriu-lhe que lá fosse?

- Não. Não declaradamente. Mas disse-me que havia objectos que lhe pertenciam. Achava que eu devia ficar com eles.

- Que tipo de objectos?

Contei-lhe.

- Sei que não é nada de extraordinário. Talvez nem compensem a viagem. Mas gostaria de ficar com algo que lhe tivesse pertencido. Além disso... - tentei brincar - ... talvez me ajudem a preencher alguns dos espaços vazios que tenho no meu novo apartamento.

- Acho que a apropriação dos objectos que lhe pertencem devia constituir uma razão secundária para se deslocar à Cornualha. A primordial deveria ser a de reatar relações amigáveis com Grenville Bayliss.

- E se ele não quiser reatar relações?

- Então não se perdeu nada. Excepto, talvez, uma pequena ferida no seu orgulho, mas que não a matará.

- O Stephen é que está a incentivar-me - disse-lhe.

- Se não queria o meu conselho, porque veio ver-me? Tinha razão.

- Não sei bem - reconheci.

Stephen riu.

- Não tem muitas certezas, pois não? - observou, sorrindo.

E quando, por fim, lhe retribuí o sorriso, disse-me:

- Olhe, hoje é quinta-feira. Vá para casa e durma um pouco. E se amanhã for demasiado cedo, vá à Cornualha no domingo ou na segunda. Vá, simplesmente. Conheça a terra, veja como o velhote é. Talvez leve alguns dias, mas não importa. Não volte a Londres até fazer tudo o que estiver ao seu alcance. E se puder ficar com os seus objectos, tanto melhor, mas lembre-se de que a sua importância é secundária.

- Sim, lembrar-me-ei. Stephen endireitou-se.

- Então vamos a isso - disse. - Tenho mais que fazer do que lhe servir de conselheiro particular.

- Posso regressar ao trabalho depois de tudo isto terminar?

- Acho bem que o faça. Não posso passar sem si.

- Então, adeus - despedi-me.

- Au revoir - respondeu Stephen que, como que pensando melhor, se inclinou para a frente a fim de me dar um beijo repenicado. - E boa sorte!

Como já gastara dinheiro suficiente em táxis, peguei na minha mala de viagem e fui até à paragem do autocarro, onde me meti no primeiro que apareceu para Fulham. Olhando, sem ver, através da janela, para as ruas apinhadas de gente, tentei fazer alguns planos. Iria à Cornualha, como Stephen sugerira, na segunda-feira. Dada a altura do ano, não teria dificuldade em arranjar lugar vago num comboio ou encontrar sítio onde ficar quando, finalmente, chegasse a Porthkerris. E Maggie cuidaria do apartamento por mim.

Pensar no apartamento fez-me recordar as cadeiras que comprara antes de ir a Ibiza. Como esse dia parecia distante... Mas se não as fosse buscar, acabariam por ser vendidas, tal como o antipático jovem ameaçara. Com essa ideia em mente, apeei-me do autocarro algumas paragens antes do meu destino, a fim de ir à loja, pagar as cadeiras e, deste modo, assegurar que as teria à minha espera quando regressasse.

Preparara-me para tratar, mais uma vez, da compra com o jovem de roupa de ganga, mas depois de entrar, fazendo a campainha soar por duas vezes, vi, com um certo alívio, que não era ele quem se encontrava atrás do balcão ao fundo da loja, mas sim um homem mais velho, de cabelo grisalho e barba escura.

Este acercou-se, tirando os óculos de aros de tartaruga, enquanto eu pousava, aliviada, a mala no chão.

- Boa-tarde.

- Oh, boa-tarde! Vim cá por causa de umas cadeiras que comprei na segunda-feira passada. Em madeira de cerejeira, de costas arredondadas.

- Oh, sim, sei quais são!

- Uma delas precisava de ser consertada.

- Já está pronta. Quer levá-las consigo?

- Não. Trago uma mala de viagem. Não posso levá-las comigo. E vou para fora por uns dias. Mas pensei que, se as pagasse já, poderiam guardar-mas até eu regressar.

- Sim, com certeza.

Tinha uma voz agradável e profunda e, ao sorrir, o rosto, de expressão sombria, amenizava-se bastante.

Fiz menção de abrir a mala de mão.

- Posso passar-lhe um cheque? Tenho cartão de crédito.

- Está muito bem. Quer utilizar o balcão? E aqui tem uma caneta.

Comecei a escrever.

- Em que nome fica?

- No meu. Tristram Nolan.

Fiquei satisfeita em saber que o proprietário daquela loja simpática era ele e não o meu amigo cowboy sem maneiras.

Preenchi o cheque, cruzei-o e passei-lho para a mão. Ficou a examiná-lo, de cabeça baixa, mas demorou tanto tempo que calculei que me tivesse esquecido de algum pormenor. - Coloquei a data?

- Sim, está perfeito. - Ergueu a cabeça. - É apenas o seu apelido. Bayliss. Não é muito vulgar.

- Não, não é.

- Tem alguma afinidade com Grenville Bayliss? Proferirem aquele nome diante de mim naquela altura era extraordinário e, no entanto, de extraordinário nada tinha, pois qualquer nome ou tema relevante de notícia poderia saltar aos nossos olhos, quando menos se esperava, de uma página de jornal.

Respondi:

- Sim, tenho. É meu avô.

- Extraordinário! - exclamou o lojista. Fiquei intrigada.

- Porquê?

- Eu mostro-lhe.

Pousou o cheque sobre o balcão e foi tirar, de detrás de uma mesa de aba dobrável, um quadro a óleo, enorme e pesado, numa moldura de gesso dourado. Ergueu-o, apoiando um dos cantos sobre o balcão, e eu vi que era do meu avô. A sua assinatura estava a um canto e, por baixo, lia-se o ano de 1932.

- Comprei-o há pouco tempo. Precisa de ser limpo, evidentemente, mas acho que é uma beleza.

Aproximei-me mais um pouco para o inspeccionar, e vi dunas de areia à luz da tarde, e dois meninos, nus, acocorados sobre uma colecção de conchas. O trabalho era talvez antiquado, porém a composição era encantadora - o colorido delicado ainda que, de certa maneira, forte - como se os rapazes, vulneráveis na sua nudez, não deixassem de ser rijos, criaturas a ter em consideração.

- Ele era bom, não era? - inquiri, sem conseguir ocultar uma nota de orgulho na voz.

- Sem dúvida. Um colorista maravilhoso. - Voltou a colocar o quadro no mesmo lugar. - Conhece-o bem?

- Não o conheço. Nunca o vi, sequer.

O lojista nada disse, limitando-se a ficar a olhar para mim, aguardando que eu adiantasse mais alguma coisa em relação a uma declaração tão estranha. Para preencher o silêncio, acrescentei:

- Mas achei que talvez já fosse tempo de o fazer. Na verdade, parto para a Cornualha na segunda-feira.

- Mas isso é esplêndido. As estradas devem andar vazias nesta altura do ano e é um passeio lindo.

- Vou de comboio. Não tenho carro.

- Não deixará de ser uma viagem agradável. Espero que faça bom tempo.

- Muito obrigada.

Acercou-se da porta. Abriu-ma e eu peguei na mala.

- Guardar-me-á as cadeiras, não é verdade?

- Com certeza. Adeus. E tenha uma estada agradável na Cornualha.

Infelizmente, não fez bom tempo. A segunda-feira nasceu cinzenta e mais deprimente que nunca e as ténues esperanças por mim alimentadas de que o tempo levantaria à medida que o comboio avançasse para oeste em breve se desvaneceram, pois o céu foi escurecendo a cada quilómetro percorrido, levantou-se vento e o dia diluiu-se, por fim, numa chuva cerrada: As janelas, que escorriam água, não deixavam ver nada do que se encontrava do lado de lá; apenas se anteviam rapidamente os contornos esbatidos de colinas e granjas e, de tempos a tempos, os telhados aglomerados de alguma povoação; ou então passávamos, a correr, pela estação semivazia de alguma pequena vila anónima.

Para os lados de Plymouth, reconfortei-me, seria diferente. Atravessaríamos a Saltash Bridge e ver-nos- íamos noutra região, noutro clima, onde haveria casinhas pintadas de cor-de-rosa, palmeiras e um delicado sol de Inverno. Mas claro que tudo o que aconteceu foi a chuva cair ainda mais violentamente; ao espraiar o olhar pelos campos alagados e as árvores desfolhadas pelo vento devastador, as minhas esperanças acabaram por morrer e comecei a ficar desencorajada.

Faltava cerca de um quarto para as cinco da tarde quando chegámos à estação onde a minha viagem terminava, e a tarde escura mergulhava já no crepúsculo. Quando o comboio começou a abrandar ao longo da plataforma, avistei uma palmeira que se erguia, incongruente, com a copa fazendo lembrar um guarda-chuva, desenhada contra o céu jorrante, e a chuva tremulava, dançando em frente da placa iluminada que dizia: "S. Abott, mudança para Porthkerris." Por fim, o comboio parou. Coloquei a mochila aos ombros e abri a pesada porta, que, no mesmo instante, me foi arrancada das mãos pelo vento. O súbito impacte de ar frio e violento, impelido para terra depois de atravessar o mar escuro, fez-me arquejar e, com uma certa sensação de me estar a precipitar, peguei na minha mala e saltei para a plataforma. Segui o êxodo generalizado de viajantes pela ponte de madeira que ia dar ao edificio da estação, no outro lado. A maioria dos passageiros parecia ter amigos à sua espera, ou então passavam pela bilheteira com determinação, como se soubessem que, no outro lado, um carro os aguardava. Segui-os, ao acaso, experimentando uma sensação de novidade e estranheza mas esperando que me conduzissem até um táxi. Mas quando saí para o pátio em frente da estação, não vi nenhum. Deixei-me ficar por ali, na esperança de que me oferecessem uma boleia, mas demasiado tímida para a solicitar, até que as luzes das traseiras do último automóvel desaparecerem colina acima, em direcção à estrada principal, e eu vi-me forçada a regressar à bilheteira para pedir ajuda e conselho.

Deparou-se-me um porteiro a empilhar gaiolas para galinhas numa sala malcheirosa de encomendas postais.

- Desculpe, mas tenho de ir para Porthkems. Poderá arranjar-se um táxi?

O homem sacudiu negativamente a cabeça, com lentidão e sem esperança, mas depois disse, animando-se ligeiramente:

- Há uma camioneta. Passa de hora a hóra. - Olhou de relance para o relógio de tiquetaque lento que se via ao alto, numa parede. - Acabou de perder uma, portanto terá de esperar um bocado.

- Não se pode telefonar a mandar vir um táxi?

- Nesta altura do ano poucos táxis andam por aí. Deixei a minha mochila escorregar para o chão e olhámos fixamente um para o outro, ambos derrotados pela enormidade do problema. Os meus pés iam-se congelando lentamente. Nesse momento, sobrepondo-se ao ruído da tempestade, chegou-nos o ruído de um carro, conduzido muito depressa colina abaixo, vindo da estrada.

Erguendo ligeiramente a voz para me fazer perceber, disse:

Tenho de arranjar um táxi. Onde é que posso telefonar?

- Há uma cabina mesmo em frente...

Virei-me para procurá-la, arrastando a mochila atrás de mim, e nessa altura ouvi o carro parar no pátio; uma porta bateu, passos correram e logo a seguir apareceu um homem, que abriu violentamente a porta e a fechou contra o vento gélido. Sacudiu-se como um cão antes de atravessar o pavimento e desaparecer pela porta da secção de encomendas postais.

Ouvi-o dizer:

- Viva, Ernie! Deve haver aí um embrulho para mim. De Londres.

- Viva, senhor Gardner! Que noite pavorosa...

- Pavorosa. A estrada está alagada. Parece... aquele, além. Sim, esse mesmo. Quer que assine o recibo?

- Oh, sim, tem de assinar! Aqui tem...

Imaginei o pedaço de papel, alisado sobre o tampo de uma mesa, o coto de um lápis tirado de detrás da orelha de Ernie. E diabos me levassem se não ouvira já aquela voz, apenas não sabia onde nem porque a conhecia tão bem.

Esquecidos o telefone e o táxi de momento, fiquei a olhar para a porta, aguardando que o homem reaparecesse. Quando o fez, trazendo uma enorme caixa embrulhada onde se viam rótulos vermelhos dizendo vnRo, vi as pernas compridas, as calças de ganga azul enlameadas até ao joelho e um impermeável preto a escorrer água. Tinha a cabeça descoberta, o cabelo negro colado ao crânio e, ao avistar-me, parou repentinamente, estendendo o embrulho à sua frente, como se fosse um presente. Nos olhos escuros apareceu primeiro um clarão de confusão, depois de reconhecimento. Começou a sorrir.

- Santo Deus!

Era o jovem que me vendera as duas pequenas cadeiras de madeira de cerejeira.

Fiquei de boca aberta, achando vagamente que alguém me pregara uma partida malévola e injusta. Nunca, como naquele momento, precisara tanto da ajuda de um amigo, e no entanto o destino escolhera mandar-me, possivelmente, a última pessoa na terra que eu desejava voltar a ver. E ele ver-me naquela figura, encharcada e cheia de desespero, foi, de certa maneira, a última gota.

O sorriso dele alargou-se.

- Que coincidência fantástica. Que está a fazer aqui?

- Acabei de chegar no comboio.

- Para onde vai?

Não podia deixar de lhe dizer.

- Para Porthkerris.

- Vem alguém buscá-la?

Por pouco não menti e disse-lhe que sim. Faria qualquer coisa para me ver livre dele. Mas nunca consegui mentir convincentemente, pelo que acabaria por adivinhar a verdade. Respondi que não e depois continuei, tentando parecer resoluta, como se pudesse tomar conta de mim própria.

- Vou telefonar a pedir um táxi.

- Levaria horas. Eu vou para Porthkerris. Dou-lhe uma boleia.

- Oh, não precisa de se incomodar!.

- Não é incómodo nenhum, vou mesmo para lá. Não trouxe mais bagagem?

- Não, mas.

- Então, venha daí.

Ainda hesitei, mas ele parecia considerar a questão já resolvida e foi abrir a porta, ficando a segurá-la com o ombro, aguardando que eu passasse. Portanto, acabei por segui-lo e, fazendo os possíveis por não lhe tocar, saí para o meio da fúria daquela noite escura.

A pouca luz ainda me permitiu ver a carrinha Mini estacionada, com as luzes laterais acesas. Deixando a porta bater estrondosamente atrás de si, foi até à carrinha e colocou cuidadosamente o embrulho na parte de trás e depois pegou na minha mochila e pô-la ao lado, tapando ambos descuidadamente com um bocado de oleado. Fiquei a vê-lo, mas ele disse:

- Entre, não vale a pena encharcar-se.

Assim fiz, instalando-me no lugar ao lado do do motorista com a mala presa entre as pernas. Quase no mesmo instante, ele sentou-se a meu lado, fechando a porta com um baque enorme e ligando o motor como se não houvesse um momento a perder. Seguimos ruidosamente colina acima, afastando-nos da estação, e pouco depois virávamos para a estrada principal, em direcção a Porthkems.

- Agora fale-me mais de si. Pensei que vivia em Londres.

- E vivo.

- Veio passar férias?

- Mais ou menos.

- Parece agradável e vago. Vai ficar em casa de amigos?

- Sim. Não. Não sei.

- Que significa isso?

- Apenas isso. Significa que não sei.

Soou rudemente mas não pude impedi-lo. Era como se não tivesse controlo sobre o que dizia.

- Bem, acho melhor que se decida antes de chegarmos a Porthkerris, caso contrário passará o resto da noite na praia.

- Eu... vou ficar num hotel. Só por esta noite.

- Bem, isso é óptimo. Qual?

Lancei-lhe um olhar exasperado e ele disse, com uma certa razão:

- Bem, se não sabe qual é, não posso levá-la até ele, não é verdade?

Tudo indicava que me encurralara. Retorqui:

- Não fiz reserva em nenhum hotel. Quero dizer, pensei em fazê-lo à chegada. Há hotéis, não há?

- Porthkerris está a abarrotar deles. Encontra um hotel casa sim casa não. Mas nesta altura do ano, a maioria encontra-se fechada.

- Conhece alguns que estejam abertos?

- Conheço. Mas depende de quanto pretende pagar. Olhou para mim de lado, reparando nos jeans remendados, nos sapatos gastos e no velho casaco de cabedal com enfeites de pele que eu vestira para me proteger do frio e por ser muito confortável. Naquele momento toda eu cheirava a cão molhado.

- Vamos de um extremo ao outro. Desde o Castle, no topo da colina, onde se veste a rigor para o jantar e se dança o fox-trot ao som de uma orquestra de três elementos, até Mistress Kernow, que fornece cama e pequeno-almoço no número dois da Fish Lane. De Mistress Kernow posso falar. Deu-me guarida durante três meses ou mais, antes de eu arranjar casa própria, e os seus preços são perfeitamente razoáveis.

Admirei-me.

- Casa própria? Quer dizer que vive aqui?

- Agora vivo. Já há cerca de seis meses.

- Mas... a loja na New Kings Road... onde comprei as cadeiras?

- Estive só a dar uma ajuda por um dia ou dois. Chegámos a um cruzamento e, abrandando, voltou-se para mim. - Já foi buscar as cadeiras?

- Ainda não. Mas já estão pagas. Ficarão lá até eu voltar.

- Óptimo - observou o jovem.

Seguimos em silêncio durante mais algum tempo. Atravessámos uma aldeia e começámos a subir uma zona agreste que se estendia sobranceira ao mar; depois a estrada voltou a inclinar-se para baixo, ladeada de árvores. Seguimos por ela até divisarmos, por entre troncos e ramos retorcidos, torturados pelo vento, as luzes tremeluzentes de uma pequena vila.

- É Porthkems?

- É. E não tarda nada que tenha de me dizer se opta por The Castle ou Fish Lane.

Engoli em seco. The Castle estava, obviamente, fora de questão, mas se fosse para Fish Lane ficaria, sem dúvida, a dever favores àquele sujeito dominador. Não viera a Porthkerris por nenhuma outra razão que não fosse ver Grenville Bayliss, e tinha a sensação desconfortável de que se me deixasse envolver com aquele homem ele colar-se-me-ia como uma lapa.

Disse:

- Não, para The Castle não...

Ia sugerir algum outro estabelecimento mais modesto, mas ele cortou-me cerce.

- Óptimo - exclamou com um sorriso. - Fica na Mistress Kernow de Fish Lane, mas olhe que não se arrependerá.

A minha primeira impressão de Porthkerris, no escuro e sob a chuva forte, foi confusa, para dizer o mínimo. A vila encontrava-se, naquela noite tenebrosa, quase vazia de gente; as ruas desertas brilhavam, molhadas, e a água corria i

pelas sarjetas.

Enveredámos a alta velocidade por um emaranhado desconcertante de azinhagas ruelas, emergindo, a certa altura, na rua que rodeava o porto, antes de virarmos, mais uma vez, para o labirinto de ruas empredradas e casas desiguais e construídas a esmo.

Finalmente virámos por uma rua estreita de casas cinzentas de cobertura plana, com portas de entrada a darem directamente para a rua.

Tudo tinha muito boa aparência e um ar de respeitabilidade. Janelas de cortinas arrendadas, por onde se podiam distinguir estatuetas de meninas com cães ou grandes vasos de aspidistras.

O carro abrandou e, por fim, parou.

- Cá estamos - disse o jovem, desligando o motor; eu escutava o som do vento e, sobrepondo-se ao seu bramir, o barulho próximo do mar. As ondas embatiam, enormes, sobre o areal, deixando ouvir um silvo prolongado ao retrocederem.

O jovem disse:

- Sabe, ainda não me disse o seu nome.

- É Rebecca Bayliss. E eu não sei o seu.

- Joss Gardner... diminutivo de Jocelyn, não de Joseph. Transmitida esta parcela útil de informação, apeou-se e, enquanto esperava que atendessem, veio tirar a minha mochila de debaixo do oleado. Ao erguê-lo, a porta abriu-se e, ao virar-se, ficou iluminado por uma faixa de luz proveniente do interior da casa.

- Joss!

- Viva, senhora Kernow.

- Que está a fazer aqui?

- Trouxe-lhe uma visitante. Disse-lhe que o seu hotel é o melhor de Porthkerris.

- Oh, meu amigo, não costumo receber visitantes nesta altura do ano! Mas agora entrem, saiam da chuva, que tempo este, hã? Tom está lá para baixo na Guarda Costeira, houve um aviso qualquer do Trevose, mas não sei, não ouvi foguetes.

A certa altura demos connosco dentro de casa e com a porta fechada, mal nos podendo mexer no diminuto vestíbulo de entrada.

- Venham para junto da lareira... está-se lá muito bem e quente, irei arranjar-vos uma chávena de chá, se quiserem...

Seguimo-la até uma minúscula sala de estar, atravancada e aconchegante. A Sr. a Kernow ajoelhou-se para avivar o lume e acrescentar mais carvão, e eu pude, pela primeira vez, dar-lhe uma boa mirada. Vi uma mulher pequena, de óculos, bastante idosa, de pantufas e com uma bata sem mangas sobre um austero vestido castanho.

- Na verdade, não queremos chá - disse-lhe o jovem.

- Só pretendemos saber se pode dar dormida a Rebecca. por uma noite ou duas.

Junto à lareira, a Sr. a Kernow levantou-se.

- Bem, não sei.

Mirou-me com ar hesitante e, com a minha aparência e o casaco a cheirar a cão, não a censurava por estar com dúvidas.

Ia a dizer algo, mas Joss adiantou-se antes de eu proferir palavra.

- É uma. pessoa altamente respeitável e não fugirá com o faqueiro. Responsabilizo-me por ela.

- Bem A Sr. a Kernow sorriu. Tinha uns olhos lindos, de um azul muito claro. - O quarto está vazio, portanto ela pode perfeitamente ficar nele. Mas esta noite não lhe posso dar jantar, não contava com ninguém, tenho apenas uns pastelitos.

- Não tem importância - disse Joss. - Eu dou-lhe de comer. - Ia a protestar mas, mais uma vez, fui subjugada.

- Deixá-la-ei aqui para que se instale e tire as coisas da mala, e depois virei buscá-la por volta das... - consultou rapidamente o relógio sete e meia. Concorda? - inquiriu despreocupadamente, na minha direcção. - A senhora é um anjo, senhora Kernow e eu gosto de si como de uma mãe.

Rodeou-a com um braço e beijou-a. A velha senhora ficou deliciada; depois dirigiu-me um último sorriso alegre e despediu-se com um "até logo", antes de se retirar. Chegou-nos o troar do carro, a descer a rua.

- É muito bom rapaz - informou-me a Sr. a Kernow.

- Tive-o aqui três meses ou mais... agora venha, pegue na sua malinha que eu mostro-lhe o quarto. Claro que está frio, mas tenho um aquecedor eléctrico que lhe posso emprestar e há água quente no reservatório para o caso de querer tomar um banho... eu sempre disse que uma pessoa se sente muito ensebada depois de andar naqueles comboios imundos...

O quarto era minúsculo, como todas as restantes divisões daquela casinha, mobilado com uma cama de casal enorme que enchia quase todo o espaço. Mas estava limpo e, pouco depois, ficava aquecido; a Sr. a Kernow, depois de me mostrar onde ficava a casa de banho, desceu e deixou-me sozinha.

Ajoelhei-me junto das janelas baixas e corri as cortinas para o lado. Os velhos caixilhos tinham sido reforçados contra o vento com cunhas de borracha e a água da chuva escorria pelo vidro escuro. Não havia nada para ser visto, no entanto deixei-me ficar no mesmo sítio, sem saber o que fazia naquela casinha e tentando perceber porque o reaparecimento de Joss Gardner na minha vida me deixara aquela inquietação inexplicável.

Eu precisava de defesas. Tinha de restaurar a minha confiança e auto-estima, detestando o papel de pária socorrida que, de repente, me vira a desempenhar. Um banho quente e roupas lavadas representaram um passo importante na recuperação da minha serenidade. Penteei-me, maquilhei os olhos, gastei o resto de um frasco de perfume caro e já pouco mais me faltava para ficar senhora da situação. Tirara já um vestido da mochila sempre presente e pendurara-o, na esperança de as rugas disfarçarem; envergueio-o então; era de algodão escuro, com mangas compridas; calcei meias escuras, muito bonitas, e sapatos de saltos altos com umas fivelas antigas que descobrira, fazia muito tempo, numa barraca de venda em Portobello Road... Colocava os meus brincos de pérolas quando ouvi, sobrepondo-se ao matraquear e bramir do vento estrepitoso, o som da carrinha de Joss Gardner, com os pneus a chiarem nas pedras da calçada, rua acima. Parou ruidosamente em frente da porta e a seguir ouvi-lhe a voz no piso de baixo, primeiro a chamar pela Sr. a Kernow e depois por mim.

Acabei de apertar, calmamente, o fecho de segurança do último brinco. Peguei na mala de mão e, a seguir, no casaco de cabedal. Colocara este em frente do aquecedor eléctrico, esperançada de que secasse, porém tal não acontecera. O ca lor acentuara apenas o cheiro a spaniel acabado de chegar de um passeio à chuva, para além de estar pesado como chumbo. Colocando-o no braço, desci as escadas.

- Ora viva! - cumprimentou Joss, que estava no vestíbulo, olhando para cima. - Bem, que transformação. Já se sente melhor?

- Já.

- Dê-me o seu casaco.

Tirou-mo com a intenção de me ajudar a vesti-lo, fazendo de conta, comicamente, que se ia abaixo nas pernas com o peso.

- Não pode levar isto, deitava-a ao chão. Seja como for, está molhado.

- Não tenho mais nenhum.

Ainda carregando o casaco, desatou a rir. A minha auto-estima começou novamente a esvair-se, facto que, em parte, se deve ter notado no meu rosto porque Joss ficou repentinamente sério e chamou a Sr. a Kernow. Quando esta apareceu ele depositou-lhe o casaco nos braços, pediu-Lhe que o secasse para mim, desabotoou e despiu a sua própria capa e colocou-a, com uma certa elegância, em redor dos meus ombros.

Por baixo vestia uma camisola cinzento-clara macia e tinha um lenço de algodão amarrado ao pescoço.

- Agora - declarou -, estamos prontos para ir. Abriu a porta, deparando-se-nos uma cortina de chuva. Protestei.

- Mas vai ficar todo molhado.

Joss, porém, limitou-se a ordenar:

- Corra!

Portanto eu corri, e ele fez o mesmo e pouco depois encontrávamo-nos dentro da carrinha, relativamente pouco molhados, com as portas sonoramente fechadas contra a tempestade, embora pequenas poças de chuva no meu assento e aos meus pés levassem a suspeitar de que aquele veículo estanque já não conservava exactamente as mesmas condições de impermeabilidade de outrora. Mas ligou o motor e lá fomos, e dado o volume da água tanto fora como dentro da carrinha, era um pouco como dar um passeio rápido numa lancha a motor que metesse água.

Perguntei:

- Aonde vamos?

- Ao The Anchor. É muito perto. De elegante tem pouco. Importa-se?

- Porque haveria de me importar?

- Nunca se sabe. Podia querer que a levasse ao The Castle.

- Refere-se ao fox-trot ao som de uma orquestra de três elementos?

loss sorriu. Observou:

- Não sei dançarfox-trot. Nunca ninguém me ensinou. Descemos a Fish Lane rapidamente, virámos à direita uma ou duas vezes, passámos por baixo de um arco de pedra e fomos desembocar numa pequena praça. Num dos lados desta erguia- se a forma baixa e irregular de uma velha estalagem. As janelas, pequenas, deixavam passar uma luz quente, ladeando a porta torta, por cima da qual se via uma tabuleta indicativa, que balouçava ao vento. Em frente já havia quatro ou cinco carros estacionados e Joss meteu impecavelmente a carrinha num espaço entre dois deles; desligou o motor e disse:

- Um, dois e três, corra!

Saltámos ambos para fora e deitámos a correr pela curta distância que ficava entre o automóvel e o abrigo do pórtico.

Aí chegados, Joss sacudiu-se ao de leve, passou a mão pelas gotículas de água que tinham ficado presas à camisola tirou a capa dos meus ombros e abriu-me a porta para que entrasse à sua frente.

Dentro da estalagem estava quente e esta, de tecto baixo tinha o mesmo cheiro que os pubs costumam ter: a cerveja fumo de cachimbo e madeira antiga. Havia um bar, com bancos altos, e mesas ao fundo da sala. A um canto, dois idosos jogavam às setas.

O barman ergueu os olhos e saudou:

- Viva, Joss!

Joss pendurou a capa num cabide próprio e fez-me atravessar a sala para me apresentar.

- Tommy, apresento-te Rebecca. Rebecca, o Tommy Williams. Está cá desde sempre; quando quiser saber algo sobre Porthkerris ou das pessoas que cá vivem, basta vir aqui perguntar ao Tommy.

Procedemos os dois às habituais cortesias mútuas. Tommy tinha o cabelo grisalho e muitas rugas. Dava a impressão de ser pescador nas horas livres. Eu e Joss instalámo-nos em dois bancos disponíveis e este mandou vir um uísque com soda para mim e um com água para si, e enquanto Tommy preparava as bebidas, os dois começaram a falar, iniciando uma conversa amena ao estilo das que os homens parecem ter sempre nos bares.

- Que tal te corre a vida? - perguntou Tommy.

- Não vai mal.

- Quando é que abres?

- Talvez na Páscoa, com um pouco de sorte.

- Está tudo pronto, não?

- Mais ou menos.

- Quem é que fez o trabalho de carpintaria?

- Fi-lo eu mesmo.

- Poupaste uma boa maquia.

A minha atenção dispersou-se. Acendi um cigarro e olhei em redor, gostando do que vi: os dois idosos a jogarem às setas; um casal jovem, dejeans e cabelos compridos, debruçados sobre a mesa, tendo na sua frente duas canecas de cerveja e discutindo, com intensa concentração - o existencialismo? A pintura realista? Como iriam pagar a renda?

Algo. Mas, o que quer que fosse tinha uma importância extrema para ambos.

E depois um grupo de quatro elementos, mais velhos envergando fatiotas caras, os homens com um ar de descontracção estudada, as mulheres involuntariamente formais.

Calculei que estivessem instalados no The Castle e, entediados com o tempo, se lembrassem de vir até à vila dar uma vista de olhos aos menos afortunados. Pareciam pouco à vontade, como se soubessem estar deslocados e mal pudessem esperar para regressar ao conforto aveludado do grande hotel na colina.

Passeei o olhar pela sala e foi nessa altura que reparei no cão. Era um belo animal, um enorme setter avermelhado, de pêlo bonito e lustroso e a cauda, uma pena sedosa de pêlo acobreado, a contrastar com as lajes acinzentadas do chão.

Estava sentado, muito direito, ao lado do dono, e de vez em quando a cauda movia-se ligeiramente com um baque de aprovação, num aplauso privado.

Intrigada, examinei o homem que parecia ser dono de criatura tão cobiçável e achei-o quase tão interessante como o cão. Sentado, com um cotovelo em cima da mesa e o queixo apoiado ao punho, apresentava-me um perfil claro e distinto, quase como se posasse para deleite dos meus olhos.

A cabeça possuía um contorno perfeito e o cabelo mostrava aquele ar de prateado denso de quem começa a embranquecer cedo na vida. O único olho que me era dado ver estava profundamente implantado e mergulhado na sombra, o nariz era longo e aquilino, a boca agradável, o queixo fortemente acentuado. E, a imaginar pelo comprimento do pulso que sobressaía de uma manga de camisa axadrezada e de um casaco de tweed cinzento, e pela maneira como colocava as pernas debaixo da pequena mesa, imaginei que fosse alto, provavelmente com mais de um metro e oitenta.

Enquanto o observava, riu subitamente de algo que o seu companheiro disse. O facto chamou-me a atenção para o outro homem, sentindo um choque de surpresa porque, por alguma razão, não condiziam um com o outro. Enquanto um era magro e elegante, o outro era baixo, gordo, de rosto avermelhado e vestia um blusão azul-marinho muito apertado e uma camisa cuja gola parecia estar prestes a estrangulá-lo. O bar não se encontrava particularmente quente, no entanto havia uma orla de suor no sobrolho corado; reparei ainda que o cabelo escuro fora penteado com alguma ingenuidade, de modo que um comprido caracol se estendesse para cima e para a frente, escondendo o que, caso contrário seria uma cabeça completamente calva.

O homem do cão não fumava, mas o gordo esmagou subitamente o seu próprio cigarro no cinzeiro, cheio até à borda, que se via em cima da mesa, como que acentuando algo de que estava a falar, metendo, quase no mesmo instante, a mão no bolso para tirar uma cigarreira de prata e servir-se novamente.

Mas o homem do cão decidira que eram horas de se retirar. Tirou a mão do queixo, afastou a manga da camisa para ver que horas eram e, em seguida, terminou a sua bebida. O gordo, aparentemente ansioso por agir de acordo com a vontade do amigo, acendeu apressadamente o cigarro, e depois bebeu o resto do seu uísque de uma golada. Começaram a levantar-se, empurrando as cadeiras para trás com um horrível som estrídulo. O cão ergueu-se, agitando a cauda em vastos círculos exultantes.

De pé, um muito baixo e gordo e o outro muito alto e esguio, os dois homens formavam entre si um contraste maior que nunca. O magro pegou numa gabardina que estivera dobrada sobre as costas da sua cadeira, colocou-a aos ombros como uma capa e voltou-se na nossa direcção para se dirigir para a porta. Por um instante fiquei desiludida, pois o rosto, no seu conjunto, não correspondia às feições finamente desenhadas que o perfil misterioso parecera indicar. Mas depois esqueci o meu desapontamento porque, de repente, ele viu Joss. E Joss, talvez sentindo a sua presença, interrompeu a conversa com Tommy e virou-se para ver quem estava atrás de si. Por um instante, ambos pareceram ficar desconcertados, até que o homem alto sorriu, abrindo sulcos pelas faces morenas e magras e enrugando os olhos, e foi impossível resistir a semelhante simpatia.

Cumprimentou:

- Olá, Joss! Há muito tempo que não te vejo. Tinha uma voz agradável e afectuosa.

- Viva! - respondeu Joss, sem sair do banco.

- Pensei que estavas em Londres.

- Não. Voltei outra vez.

O som rangente da porta chamou-me a atenção. O outro homem, o gordo, saíra calmamente. Calculei que tivesse algum compromisso urgente, pelo que não pensei mais no caso.

- Direi ao velhote que te vi.

- Sim. Diz.

Os olhos profundamente implantados desviaram-se para mim, voltando a afastar-se. Esperei que me apresentassem, mas nada aconteceu. Por alguma razão, aquela indelicadeza da parte de Joss foi como uma bofetada.

Por fim o homem alto disse:

- Até à vista.

- Até um dia destes - respondeu Joss.

E o outro afastou-se, deixando o cão seguir à sua frente.

- Boa-noite, Tommy - disse ao barman ao empurrar a porta.

- Boa-noite, senhor Bayliss - respondeu o barman.

Senti a cabeça virar impulsivamente, como se alguém tivesse puxado um fio. O homem desaparecera já, deixando a porta a balouçar atrás de si. Sem pensar, deslizei do banco para ir atrás dele, mas uma mão agarrou-me pelo braço prendendo-me; ao virar-me, vi que fora Joss. Durante um segundo de surpresa, os nossos olhares prenderam-se um no outro, até eu me libertar com um repelão. No exterior, ouvi um carro começar a trabalhar. Já era demasiado tarde.

Perguntei:

- Quem é?

- Eliot Bayliss.

Eliot. Filho de Roger. E de Mollie. Neto de Grenville Bayliss. Meu primo. Minha família.

- Ele é meu primo.

- Não sabia.

- Conhece o meu apelido. Porque não lhe disse? Porque me impediu de ir atrás dele?

- Terá tempo de sobra para o conhecer. A noite já vai longa e está demasiada chuva e escuro para reuniões familiares.

- Grenville Bayliss também é meu avô.

- Imaginei que houvesse alguma ligação desse género - retorquiu Joss friamente. - Tome outra bebida.

Naquela altura já me sentia verdadeiramente furiosa.

- Não quero mais nenhuma bebida.

- Nesse caso, vamos jantar.

- Também não quero jantar.

De facto, não me apetecia. Não queria passar nem mais um momento com aquele jovem grosseiro e autoritário. Vi-o terminar a sua bebida e descer do banco e, por um instante, pensei que fosse levar-me verdadeiramente à letra: conduzir-me de volta a Fish Lane e ali deixar-me sem comer. Mas, por sorte, não ligou ao meu bluf pagou simplesmente as bebidas e, sem uma palavra, levou-me por uma porta ao fundo do bar, que dava para um lance de escadas e um pequeno restaurante. Segui-o porque parecia não haver mais nada a fazer e, além disso, tinha fome.

A maioria das mesas encontrava-se ocupada, mas uma criada viu Joss, reconheceu-o e veio cumprimentar-nos, levando-nos até à que parecia ser, obviamente, a melhor mesa da casa, instalada na reentrância estreita de uma janela de sacada. Através da janela viam-se as formas dos telhados banhados pela chuva e, do lado de lá deles, mais uma vez, a escuridão líquida do porto, a brilhar com o reflexo dos candeeiros de rua do cais e as luzes de ancoragem dos barcos de pesca.

Ficámos em frente um do outro. Eu ainda me sentia profundamente irada e recusava-me a olhar para ele. Sentei- me, ficando a desenhar formas imaginárias na toalha de mesa com o dedo, e ouvi-o mandar vir o que iria comer. Ao que parece nem sequer me iria ser dado o direito de escolher. Ouvi a criada perguntar:

- Também trago para a senhora?

Parecia igualmente admirada com o comportamento indelicado de Joss. Este respondeu:

- Sim, traga também para a senhora.

A criada afastou-se e ficámos sós.

Passado um bocado, fitei-o. O olhar escuro encontrou o meu, sem pestanejar. O silêncio cresceu e eu tive a curiosa sensação de que ele aguardava que eu Lhe pedisse desculpas.

Ouvi-me dizer:

- Já que não me deixou falar com Eliot Bayliss, talvez esteja disposto a falar sobre ele.

- Que deseja saber?

- É casado?

Foi a primeira pergunta que me veio à cabeça.

- Não.

- É atraente.

Joss fez sinal que concordava com o facto.

- Vive sozinho?

- Não, com a mãe. Têm uma casa em High Cross, a cerca de dez quilómetros daqui, mas mudaram-se para Boscarva vai fazer mais ou menos um ano, a fim de ficarem com o velho.

- O meu avô está doente?

- Não tem muitas informações acerca da sua família pois não?

- Não - redargui em tom de desafio.

- Grenville Bayliss teve um ataque cardíaco. Foi nessa altura que deixou de pintar. Mas dá a impressão de ter a constituição de um boi e restabeleceu-se miraculosamente.

Não queria abandonar Boscarva e tinha um casal a cuidar dele...

Joss franziu o sobrolho.

- Os Pettifers?

- Como sabe dos Pettifers?

- A minha mãe contou-me.

Lembrei-me dos lanches que, já lá ia tanto tempo, se faziam ao pé do fogo da cozinha.

- Nunca imaginei que ainda lá estivessem.

- A senhora Pettifer morreu no ano passado, portanto

Pettifer e o seu avô ficaram entregues a si mesmos. Grenville Bayliss tem agora oitenta anos e Pettifer não lhe deve ficar muito atrás. Mollie Bayliss queria que eles se mudassem para High Cross, a fim de ficarem todos juntos, mas o velho nem quis ouvir falar no assunto, de modo que, no fim, ela e Eliot acabaram por ir viver para junto deles. Sem entusiasmo detectável, devo acrescentar - Recostou-se nas costas da cadeira, apoiando as mãos compridas e bonitas na borda da mesa. - A sua mãe... chama-se Lisa, não é?

Anuí.

- Eu sabia que Grenville tinha uma filha que lhe dera uma neta, mas o facto de o seu apelido ser Bayliss não me despertou particularmente a atenção.

- O meu pai abandonou a minha mãe antes de eu nascer. Ela nunca utilizou o apelido dele.

- Onde se encontra a sua mãe neste momento?

- Faleceu, apenas há alguns dias. Em Ibiza. - Repeti:

- Apenas há alguns dias.

É que, de repente, dava a impressão de já se ter passado uma eternidade.

- Lamento.

Esbocei um gesto vago, pois não sabia que dizer.

- O seu avô tem conhecimento? - inquiriu Joss.

- Não sei.

- Veio até cá para lhe dar a notícia?

- Suponho que não possa deixar de ser.

A ideia parecia-me aterradora.

- Ele sabe que está aqui, em Porthkerris?

Abanei negativamente a cabeça.

- Ele nem sequer me conhece. Quero dizer, nunca nos encontrámos. Jamais aqui estive. - Por fim, admiti: Nem sequer sei onde fica a sua casa.

- Seja como for - observou Joss -, vai causar-Lhe um choque considerável.

Senti ansiedade.

- Ele está muito frágil?

- Não, não é frágil. É fantasticamente forte. Mas está a ficar velho.

- A minha mãe dizia que ele era intimidante. Ainda é? Joss compôs uma expressão apavorada, nada fazendo para me confortar.

- Aterrorizador - declarou.

A criada trouxe-nos a sopa. Era de rabo de boi, espessa, castanha e muito quente. Eu estava de tal maneira esfo meada que comi todo o conteúdo da tigela sem proferir mais uma palavra. Quando, por fim, pousei a colher, olhei para Joss e vi que ele ria de mim.

- Para quem não queria comer nada, não se saiu nada mal.

Mas dessa vez não me aborreci. Afastei a tigela vazia para o lado e apoiei os cotovelos na mesa.

- Por que razão está tão bem informado acerca da famí lia Bayliss? - perguntei-lhe.

Joss não devorara a sua sopa como eu. Naquele momento barrava, sem pressas, um pãozinho com manteiga, mostrando-se irritadamente lento.

- É simples - retorquiu. - Faço uns trabalhos em Boscarva.

- Que espécie de trabalhos?

- Bem, restauro mobília antiga. E não abra essa sua boca de forma tão pouco atraente, não a favorece.

- Restaura mobília antiga? Deve estar a brincar.

- Não estou. E Grenville Bayliss tem uma casa cheia de velharias muito valiosas. Fez muito dinheiro nos seus tempos e investiu-o quase todo em antiguidades. Ora bem, algumas dessas peças encontram-se num estado de degradação chocante, não por não terem sido devidamente polidas durante a sua existência naquela casa, mas porque, há dez anos atrás, ele mandou instalar aquecimento central e isso dá cabo da mobília antiga. As gavetas encolhem, as juntas encarquilham e partem e as pernas caem das cadeiras. A propósito... - acrescentou, momentaneamente distraído por outra lembrança -, quem restaurou a sua cadeira de madeira de cerejeira fui eu.

- Mas há quanto tempo se dedica a este tipo de trabalho?

- Vejamos, deixei de estudar aos dezassete anos e agora tenho vinte e quatro, portanto deve ser há uns sete anos.

- Mas teve de aprender.

- Oh, claro! Primeiro fiz marcenaria e carpintaria durante quatro anos, numa escola de ofícios em Londres, e depois de me munir dessa ferramenta trabalhei como aprendiz por mais alguns anos num velho construtor de armários em Sussex. Vivi com ele e a mulher, fiz toda a espécie de tarefas menores na loja e aprendi tudo o que havia para saber.

- Dá apenas seis anos. Disse que foram sete. Joss soltou uma gargalhada.

- Tirei um ano de licença a meio, para viajar. Os meus pais diziam que eu me tornara provinciano. O meu pai tem um primo que tem um rancho nas Rochosas, a sudoeste do Colorado. Trabalhei como rancheiro nove meses ou mais. Franziu a testa. - De que está a rir?

Disse-Lhe.

- Na primeira vez em que o vi, na loja... parecia um rancheiro... e dos autênticos: Mas saber que não era aborreceu-me, não sei porquê.

Joss sorriu.

- E a Rebecca sabe o que parecia?

Gelei.

- Não.

- A directora de um orfanato impecavelmente dirigido. E isso aborreceu-me a mim.

Um pequeno entrechocar de espadas e víamo-nos novamente em lados opostos da barricada.

Olhei-o com desagrado, observando-o enquanto terminava a sopa com deleite; a criada veio recolher as tigelas vazias e colocou na mesa uma garrafa de vinho tinto. Não ouvira Joss encomendar a bebida, mas fiquei a vê-lo encher dois copos, reparando-lhe nos dedos compridos de pontas achatadas; agradava-me a ideia de trabalharem com madeira e objectos belos e antigos, modelando, medindo, envernizando e transformando-os em formas. Peguei no copo de vinho, o qual, contra a luz, refulgiu vermelho como um rubi.

Perguntei:

- É o que faz em Porthkerris? Restaura a mobília de Grenville Bayliss?

- Santo Deus, não, vou abrir uma loja. Há cerca de uns seis meses, consegui alugar uma casa perto do porto. Desde então tenho andado cá e lá. Neste momento estou a tentar organizar minimamente as coisas antes da Páscoa, do Pentecostes ou no Verão, quando o negócio começar realmente a florescer.

- É uma loja de antiguidades?

- Não, moderna, mobiliário, vidros, têxteis. Mas a restauração de peças antigas mantém-se em segundo plano. Ou seja, tenho uma oficina. Também disponho de um pequeno apartamento no piso de cima, onde vivo, razão pela qual a Rebecca pôde ocupar o meu quarto em casa da senhora Kernow. Um dia, quando achar que sou de confiança, pode subir aquelas escadas periclitantes para eu lho mostrar.

Ignorei o gracejo irónico.

- Se trabalha aqui, que estava a fazer naquela loja em Londres?

- Na de Tristram? Já lhe disse, é meu amigo; passo por lá para o ver sempre que vou à cidade.

Franzi as sobrancelhas. Havia demasiadas coincidências.

As nossas vidas pareciam estar presas a elas, como um embrulho bem atado com um cordel. Vi-o terminar o seu vinho e, mais uma vez, senti a mesma falta de à-vontade que experimentara ao princípio da noite. Sabia que devia fazer-lhe mil perguntas, mas, antes de me conseguir lembrar de uma a criada veio à nossa mesa mais uma vez, trazendo bifes com batatas fritas, acompanhados de vegetais e salada. Bebi um pouco de vinho e observei Joss; quando a rapariga se afastou, perguntei:

- Que faz Eliot Bayliss?

- Eliot? Dirige uma garagem em High Cross, especializada em carros de grande potência em segunda mão, Mercedes, Alfa Romeo. Se o seu livro de cheques tiver o suprimento necessário, ele pode fornecer-lhe praticamente tudo.

- Não gosta dele, pois não?

- Nunca disse semelhante coisa.

- Mas não gosta.

- Dizer que é ele quem não gosta de mim talvez se aproxime mais da verdade.

- Porquê?

Joss fitou-me com olhar divertido.

- Não faço a menor ideia. Agora é melhor comer o seu bife antes que esfrie.

Conduziu-me a casa. Continuava a chover e eu senti-me, de repente, tremendamente cansada. Joss parou o automóvel em frente da porta da Sr. a Kernow, mas deixou o motor a trabalhar. Agradeci-lhe, dei-lhe as boas- noites e ia a abrir a porta, mas, antes de poder fazê-lo, ele fez-me parar. Voltei-me para o fitar.

Disse:

- Amanhã vai a Boscarva?

- Vou.

- Eu levo-a.

- Posso ir sozinha.

- Não sabe onde fica a casa e ainda é uma subida longa pela colina. Venho buscá-la de carro. Às onze está bem?

Discutir com ele seria infrutífero. Além disso, estava exausta. Respondi:

- Está bem.

Joss abriu-me a porta, empurrando-a para que se abrisse.

- Boa-noite, Rebecca.

- Boa-noite.

- Até amanhã.

O vento não amainou durante a noite. Mas quando acordei, a pequena janela do meu quarto, na casa da Sr. a Ker now, proporcionou-me a visão de um quadrado azul-pálido atravessado por nuvens brancas tufadas a deslocarem-se com alguma velocidade. Estava muito frio mas enchi-me de coragem e levantei-me, vesti-me e desci ao andar de baixo em busca da Sr. a Kernow. Encontrei-a lá fora, no pequeno quintal das traseiras, a estender a roupa lavada. A princípio, debatendo-se num emaranhado de lençóis e toalhas agitados pelo vento, não me viu, mas quando apareci, entre uma camisa e uma modesta saia tricotada, lançou-me um olhar de sobressalto. Divertida com a própria surpresa, deitou a rir agudamente, como se estivéssemos as duas a actuar numa comédia.

- Que susto me pregou. Pensei que ainda estava a dormir! Está bem instalada? Aquele vento malfadado ainda não nos largou mas a chuva parou, graças a Deus. Quer o seu pequeno-almoço?

- Talvez uma chávena de chá.

Ajudei-a a estender o resto da roupa e depois ela pegou no cesto vazio e entrámos as duas pela porta de trás. Sentei-me à mesa da cozinha, a Sr. a Kernow pôs uma chaleira ao lume e começou a fritar bacon.

- Jantou bem ontem à noite? Foram ao The Anchor?

Tommy Williams tem uma boa casa, está sempre cheia, quer de Inverno quer de Verão. Ouvi Joss trazê-la a casa. É muito bom rapaz. Senti-lhe a falta quando se mudou daqui. Mas de vez em quando vou até à casa nova dele, faço-lhe uma limpeza, trago-lhe a roupa para lavar aqui. Triste, um rapaz daqueles assim sozinho. Não parece nada justo não ter ninguém que cuide dele.

- Por mim acharia que Joss é bem capaz de tomar conta de si próprio.

- Não está certo um homem fazer o trabalho de uma mulher. - A Sr. a Kernow não acreditava, obviamente, no movimento de emancipação da mulher. - Além disso já tem bastante que chegue a trabalhar para o senhor Bayliss.

- Conhece o senhor Bayliss?

- Toda a gente conhece o senhor Bayliss. Já aqui vive quase há cinquenta anos. É um dos antigos, isso é. E que belo pintor era antes de adoecer. Costumava fazer uma exposição todos os anos e de Londres costumava vir muita gente, até pessoas famosas. Claro que ultimamente pouco lhe temos posto a vista em cima. Já não pode descer e subir a colina como antigamente e a Pettifer custa-Lhe muito trazer aquele carro enorme para estas ruelas estreitas. Além disso, no Verão, uma pessoa mal pode andar por aí com tanto trân sito e turistas. O lugar fica a abarrotar deles. Às vezes tem-se a impressão de que metade da população do país vai enfiar-se nesta cidadezinha.

Colocou o bacon num prato aquecido, que pôs à minha frente.

- Agora coma, antes que arrefeça.

Declarei:

- Senhora Kernow, o senhor Bayliss é meu avô. Ela ficou a olhar para mim, de cenho franzido.

- Seu avô? A menina é filha de quem?

- Lisa.

- A filha de Lisa. - Puxou de uma cadeira e sentou-se com lentidão. Reparei que a chocara. - Joss sabe?

Parecia irrelevante.

- Sim, disse-Lhe ontem à noite.

- Ela era uma menina muito bonita. - Olhou demoradamente para o meu rosto. - Vejo como é parecida... excepto que ela era muito morena e a Rebecca é Ioura. Ficámos com saudades quando se foi embora e nunca mais voltou. Onde está agora?

Contei-Lhe. Ao terminar, a Sr. a Kernow inquiriu:

- E o senhor Bayliss não sabe que está cá?

- Não.

- Deve lá ir já. Imediatamente. Oh, quem me dera poder estar lá para ver a cara do velho! Ele adorava a sua mãe...

Uma lágrima brilhou nos olhos da bondosa senhora. Rapidamente, para que não nos deixássemos levar pelo sentimento, observei:

- Não sei como lá chegar.

Ao tentar explicar-me, ficámos as duas ainda mais confusas, de modo que, agarrando num sobrescrito usado e num pedaço de lápis, a Sr. a Kernow desenhou um mapa tosco. Ao vê-la, lembrei-me da promessa que Joss fizera de me vir buscar às onze horas e levar-me a Boscarva na sua carripana, mas de imediato me pareceu melhor ideia não esperar por ele e ir sozinha. Além do mais, na noite anterior mostrara-me simultaneamente demasiado dócil e condescendente.

O vasto ego de Joss só ficaria a lucrar se ele, ao chegar visse que eu já partira. A perspectiva animou-me consideravelmente, pelo que subi de imediato para ir buscar o meu casaco.

Ao sair para a rua, fui imediatamente açoitada pelo vento, que enveredava pela rua estreita como uma corrente de ar numa chaminé. Era um vento frio, a cheirar a mar, mas quando o sol irrompeu de detrás das nuvens vertiginosas, o brilho era ofuscante, resplandecente e, no alto, gaivotas piavam, pairando com as asas brancas contra o azul do céu.

Caminhei e, em breve, começava a subir. Por ruelas pavimentadas de pedra arredondada acima, por entre filas irregulares de casas, por lances de escadas e azinhagas inclinadas. Quanto mais alto subia, mais forte o vento se fazia sentir. A certa altura da subida, vi que a vila ficara para trás e o oceano revelou-se, azul-escuro, listrado de jade e púrpura e ponteado de branco. Espraiava-se até ao horizonte, onde o céu passava a dominar, e, a meus pés, a vila e o porto tinham ficado reduzidos a tamanho de brinquedo, a uma insignificância.

Detive-me a olhar para ela, recuperando o fôlego, até que, de repente, aconteceu algo de curioso. Aquele lugar novo não o era para mim, pelo contrário, inspirava-me uma profunda sensação de familiaridade. Tinha a impressão de estar em casa, como se tivesse regressado a um local que conhecera toda a vida. E apesar de mal ter voltado a pensar na minha mãe desde que decidira ir a Porthkerris, notei-a subitamente a meu lado, a subir as ruas íngremes, em passadas largas, ofegante e a transpirar do esforço, tal como eu.

Aquela sensação do déjà vu reconfortou-me. Fez-me sentir menos solitária e mais resoluta. Prossegui o meu caminho e fiquei satisfeita por não ter esperado por Joss. A sua presença era perturbadora, mas eu não encontrava motivo que explicasse tal sensação em mim. Ele fora, no fim de contas, bem sincero comigo, respondendo a perguntas, apresentando razões perfeitamente credíveis para cada uma das suas atitudes.

Era óbvio que entre ele e Eliot Bayliss não existia grande simpatia, porém eu não tinha dificuldade em compreender o facto. Os dois jovens nada deviam ter em comum. Eliot, apesar de contrariado, vivia em Boscarva. Era um Bayliss e a casa fazia, na altura, de seu lar. Por outro lado, o trabalho realizado por Joss na casa dava-lhe liberdade para se movimentar à vontade pela casa. Para ser encontrado, inesperadamente, a horas impróprias do dia, talvez quando a sua presença não era nem conveniente nem bem-vinda. Imaginei-o amistoso com todos, às vezes a meter-se onde não era chamado e, pior que tudo, alegremente alheio ao incómodo que causava. Um homem como Eliot devia ressentir-se com tudo isso e Joss, por sua vez, reagia ao seu ressentimento.

Entretida com estes pensamentos e o esforço da subida, não reparei no que me rodeava, mas a estrada nivelara- se já debaixo dos meus pés e eu parei para ver onde estava. Encontrava-me no cimo da colina, quanto a isso não havia dúvida. Por detrás, e mais abaixo em relação ao ponto onde parara, estendia-se a vila; à frente espraiava-se a linha costeira acidentada, curvando-se até desaparecer à distância. Bordejava uma região verde, entremeada de pequenas quintas e campos miniaturas, atravessada por vales profundos, densos de espinheiros e ulmeiros enfezados, onde fios de água abriam caminho até ao mar.

Olhei à minha volta. Também ali era campo. Ou fora-o há um ano atrás. Mas desde então tinham, possivelmente, comprado uma quinta, as escavadoras foram trazidas, velhas cercas demolidas, a terra fértil dilacerada e nivelada e havia um novo bairro em vias de ser erigido. Tudo era brutal, rígido e horrendo. Betoneiras giravam, um camião movimentava-se através de um mar de lama, viam-se pilhas de tijolos e cimento, e em frente de tudo, qual bandeira orgulhosa, um tapume que anunciava o nome do homem responsável por aquela carnificina:

ERNEST PADLOW

CASAS DEVIDAMENTE INDEPENDENTES PARA VENDA

Ligue para Sea Lane, Porthkerris

Telefone - Porthkerris 873

Não havia dúvida de que as casas eram independentes mas por muito pouco. Não devia haver nem um metro entre elas e a janela de uma dava directamente para a da outra. O meu coração condoeu-se pelos campos perdidos e pelas oportunidades também perdidas. Enquanto me deixava ali ficar, refazendo, mentalmente, todo o projecto, um carro subiu a colina, atrás de mim, detendo-se em frente do tapume. Era um velho Jaguar azul-marinho e o homem que se apeou, fechando a porta com um baque estrondoso, envergava um fato-macaco e trazia consigo uma prancheta com uma série de papéis presos que o vento fazia esvoaçar. Voltou-se e viu-me, hesitou apenas por um segundo e depois caminhou na minha direcção, tentando assentar o cabelo contra a cabeça calva.

- Bom-dia.

Sorria familiarmente, como se fôssemos velhos amigos.

- Bom-dia.

Já não era a primeira vez que o via. Fora na noite anterior. No The Anchor. A falar com Eliot Bayliss.

O homem olhou de relance para o tapume.

- Está a pensar em comprar uma casa para si?

- Não.

- Faz mal. Tem uma boa vista aqui de cima. Franzi as sobrancelhas.

- Não quero comprar nenhuma casa.

- Seria um bom investimento.

- O senhor é o responsável?

- Não. - Olhou com um certo orgulho para o tapume que se erguia à nossa frente. - Sou Ernest Padlow.

- Estou a ver.

- Bonito sítio este... - Olhou em redor, mirando a devastação com alguma satisfação. - Andava muita gente atrás deste lugar, mas a velhota que era dona da terra enviuvou e eu consegui convencê-la a passar-ma para as mãos.

Fiquei surpreendida. Enquanto falava, puxou de um cigarro e acendeu-o; não me perguntou se era servida, tinha os dedos manchados de nicotina e aos meus olhos parecia o homem mais abjecto à face da Terra.

Focou a sua atenção na minha pessoa.

- Nunca a vi por cá, pois não?

- Não.

- De visita?

- Sim, talvez.

- Fora da estação é melhor. Menos gente.

Disse:

- Ando à procura de Boscarva.

Apanhado desprevenido, os seus modos perderam a bonomia. Os seus olhos faziam lembrar seixos afiados no rosto rubicundo.

- Boscarva? Refere-se à velha casa dos Bayliss?

- Sim.

A sua expressão tornou-se astuta.

- À procura de Eliot?

- Não.

Aguardou que me alargasse sobre o assunto. Ao ver que eu não o fazia, tentou brincar a propósito.

- Bem, eu sempre disse que quanto menos se fala, menos se briga. Se quer chegar a Boscarva, desce por aquele pequeno prado além. Fica a pouco mais de meio quilómetro.

Encontrará a casa voltada para o mar. Tem um telhado de lousa e um jardim enorme em volta. Dá logo com ela.

- Obrigada. - Sorri delicadamente: - Adeus. Virei-me e comecei a andar, sentindo os olhos do homem nas minhas costas. Nessa altura ele voltou a falar e eu virei-me novamente. Sorria-me, de novo todo amigável.

- Se quiser uma casa, decida-se rapidamente. Estão a vender-se que nem bolos quentes.

- Acredito que sim. Mas não quero nenhuma. Obri gada.

O prado estendia-se colina abaixo, em direcção à vasta bacia azul do mar, e ali é que se estava verdadeiramente no campo, numa terra agrícola de prados onde pastavam cães de focinho meigo. Violetas selvagens e primaveras cresciam nas sebes herbáceas e o sol desanuviara-se para conferir reflexos esmeralda à erva abundante. A certa altura, ao dar a volta a uma saliência, deparei com os portões brancos, colocados entre muros de pedra baixos; um caminho curvava-se para baixo, desaparecendo da vista, e viam-se sebes altas de escalónias e ulmeiros de formas contorcidas pelos ventos implacáveis.

Não conseguia ver a casa. Parei junto dos portões abertos e olhei pelo caminho abaixo, sentindo a coragem fugir-me como a água de uma tina à qual tivessem retirado o tampão de escoamento. Não era capaz de pensar no que tencionava fazer nem no que iria dizer quando o fizesse.

Alguém tomou, inesperada e misericordiosamente, uma decisão por mim. Ao fundo, junto da casa, fora do meu ângulo de visão, ouvi um carro começar a trabalhar e subir, a pouca velocidade, o caminho, na minha direcção. Ao aproximar-se, um descapotável com alguns anos e de estilo, afastei-me para o deixar passar, célere, por entre os portões, subindo pela colina, por onde eu viera; ainda assim tive tempo para ver o condutor e o enorme setter avermelhado, muito bem instalado no banco de trás, com a expressão delirantemente animada que todo o cão tem ao ser levado para dar um passeio num carro aberto.

Achei que a minha presença passara despercebida, mas enganei-me. Um momento depois o automóvel parava com um chiar de travões e uma chuvada de pequenos seixos era

levantada pelas rodas traseiras. Em seguida fez marcha-atrás e voltou, a uma velocidade praticamente igual, ao lugar onde eu ficara. Parou, o motor foi desligado e Eliot Bayliss, apoiando um braço no volante, examinou-me do outro lado do lugar do passageiro. Levava a cabeça descoberta, envergava um casaco de pele de carneiro, e no rosto exibia uma expressão divertida, talvez intrigada.

- Viva! - cumprimentou.

- Bom-dia.

Eu sentia-me uma idiota, embrulhada no meu casaco velho, com o vento a atirar-me madeixas de cabelo para a cara. Tentei afastá-las.

- Parece perdida.

- Não, não estou.

Ele continuou a mirar-me, franzindo ligeiramente o sobrolho.

- Vi-a ontem à noite, não foi? No The Anchor? Com

Joss.

- Exacto.

- Anda à procura de Joss? Tanto quanto sei, ainda não chegou. Isto se resolveu cá vir hoje.

- Não. Quero dizer, não ando à procura dele.

- Então de quem... - perguntou Eliot Bayliss delicadamente -. anda à procura?

- Eu... eu queria falar com o velho senhor Bayliss.

- Ainda é um pouco cedo para isso. Normalmente só aparece por volta do meio-dia.

- Oh!

Não pensara em tal possibilidade. Parte do meu desapontamento deve ter transparecido no rosto, pois Eliot acrescentou, com a mesma voz suave e amigável:

- Talvez eu possa ajudar. Sou Eliot Bayliss.

- Eu sei. Quero dizer... Joss disse-mo ontem à noite. As sobrancelhas franziram-se ligeiramente. Estava óbvia e naturalmente intrigado com o meu relacionamento com Joss.

- Porque queria ver o meu avô?

E ao ver que eu não respondia, inclinou-se subitamente para abrir a porta do carro e ordenou com autoridade e frieza:

- Entre.

Assim fiz, fechando a porta a seguir. Sentia os olhos dele curvados em mim, no casaco deformado, nos jeans manchados. O cão inclinou-se para a frente para me tocar na orelha com o focinho; tinha o nariz frio e eu, estendendo o braço para trás, afaguei-lhe o pêlo longo e sedoso.

Perguntei:

- Como se chama?

- Rufus, Rufus, o Vermelho. Mas isso não é responder à minha pergunta, pois não?

Fui salva por nova interrupção. Outro automóvel. Mas daquela vez era a carrinha dos Correios, chocalhando alegremente, de cor escarlate, pelo prado abaixo, na nossa direcção. Parou e o carteiro baixou o vidro da janela para dizer a Eliot, cheio de boa disposição:

- Como quer que siga em frente e entregue o correio se tem o seu carro parado no meio do portão?

- Desculpe - disse Eliot sem se perturbar; saiu do automóvel e tirou uma mão-cheia de cartas e um jornal das mãos do carteiro. - Eu levo tudo, poupo-lhe a viagem.

- Esplêndido - exclamou o outro. - Era bom que todos me fizessem esse jeito.

E com um sorriso e um aceno de mão, prosseguiu o seu caminho, provavelmente rumo a outra quinta afastada.

Eliot voltou a entrar no carro.

- Bem - disse, sorrindo para mim -, que hei-de fazer agora consigo?

Mas eu mal o ouvi. A pilha de correio jazia-lhe descuidadamente no colo e, no topo, via-se um sobrescrito de correio aéreo com carimbo de Ibiza e endereçado ao senhor Grenville Bayliss. A letra afilada era inconfundível.

Um automóvel é um bom sítio para confidências. Não há telefone e não se pode ser interrompido inesperadamente.

Disse:

- Essa carta. A de cima. É de um homem chamado Otto Pedersen. Vive em Ibiza.

Eliot, compondo uma expressão intrigada, pegou no sobrescrito. Voltou-o e leu o nome de Otto no sítio do remetente. Fitou-me.

- Como é que sabe?

- Conheço a letra dele. E a ele também. Está a escrever ao... ao seu avô para lhe comunicar o falecimento de Lisa. Morreu há cerca de uma semana. Vivia com Otto, em Ibiza.

- Lisa. Refere-se a Lisa Bayliss?

- Exacto. Irmã de Roger. Sua tia. Minha mãe.

- Você é filha de Lisa?

- Sou. - Virei-me de modo a olhá-lo directamente. Sou sua prima. Grenville Bayliss também é meu avô:

Os olhos de Eliot tinham uma tonalidade estranha, eram de um cinzento-esverdeado, como seixos banhados por uma corrente rápida. Não mostravam nem choque nem prazer, limitavam-se a fitar-me nos olhos, inexpressivamente. Por fim exclamou:

- Diabos me levem!

Não fora bem o que eu esperara. Ficámos sentados em silêncio porque eu não me lembrava de nada para dizer, até que, como que tomando uma decisão súbita, Eliot atirou a pilha de correio para o meu colo, ligou o carro mais uma vez e girou o volante até ficarmos novamente voltados para o caminho.

- Que está a fazer? - inquiri.

- Que acha? A levá-la para casa, evidentemente.

Casa. Boscarva. Ao darmos uma curva no caminho, lá estava ela, à minha espera. Pedra cinzenta, amenizada por trepadeiras, telhado de lousa cinzenta, um pórtico semicircular de pedra com a porta aberta à luz do sol, e, no interior um lampejo de tijoleira, um amontoado desordenado de vasos de flores, os rosa e os escarlate de gerânios e brincos-de-princesa.

Uma cortina esvoaçou numa janela aberta no andar de cima e por uma chaminé subiu fumo. Quando saímos do carro, o sol saiu detrás de uma nuvem e, retido entre as alas estendidas da casa, abrigado do vento norte, fez de repente muito calor.

- Venha daí - chamou Eliot, seguindo à frente, com o cão no seu encalço.

Atravessámos o pórtico e penetrámos num corredor escuro e apainelado, cuja iluminação provinha da grande janela aberta ao virar das escadas. Imaginara Boscarva uma casa mergulhada no passado, triste e nostálgica, impregnada do frio de velhas recordações. Mas a impressão era totalmente diversa. Estava cheia de vida, sussurrante e transmitindo uma sensação de actividade. Havia papéis em cima de uma mesa, um par de luvas de jardineiro, uma trela de cão. De detrás de uma porta chegava-nos o rumor de vozes e o entrechocar de loiça. Do andar de cima vinha o som de um aspirador a trabalhar. E no ar pairava um odor misto de pedra esfregada, velhos soalhos polidos e anos de fogos de madeira.

Eliot deteve-se ao fundo de uma escadaria e chamou:

- Mamã. - Ao ver que não obtinha resposta, apenas o zunir contínuo do aspirador, virou-se para mim e disse: - É melhor vir por aqui.

Descemos o corredor e atravessámos uma porta que deitava para uma sala de estar comprida e baixa, apainelada em tom claro e que o colorido e o perfume de flores primaveris tornavam sensual. A um canto, numa lareira de pinho trabalhado e azulejos holandeses; um fogo recém-aceso ardia vivamente, e três janelas, de cortinas de seda amarelas-esbatidas, deitavam para um terraço lajeado, de cuja balaustrada eu conseguia avistar a linha azul do mar.

Detive-me no meio daquela sala encantadora, enquanto Eliot fechava a porta, dizendo:

- Bem, já cá está. Porque não despe o casaco?

Obedeci. Fazia muito calor. Coloquei-o sobre uma cadeira, onde ficou, parecendo uma enorme criatura morta.

Eliot perguntou:

- Quando é que chegou?

- Ontem à noite.

- Vive em Londres?

- Vivo.

- E nunca tinha estado aqui anteriormente?

- Nunca. Não tinha conhecimento de Boscarva. Não sabia que Grenville Bayliss era meu avô. A minha mãe só mo disse na noite em que morreu.

- Que tem Joss a ver com a questão?

- Eu... - Era demasiado complicado para explicar. Conheci-o em Londres. Por acaso encontrei-o na estação quando o comboio chegou. Foi uma coincidência.

- Onde se instalou?

- Em casa da senhora Kernow, em Fish Lane.

- Grenville é um homem idoso. Está doente. Sabe que é assim, não é verdade?

- Sei.

- Eu acho que... esta carta de Otto Pedersen... era melhor termos cuidado. Talvez a minha mãe seja a pessoa mais indicada...

- Sim, com certeza.

- Foi uma sorte reparar na carta.

- É verdade. Já calculava que escrevesse. Mas receava ter de ser eu a dar-vos a notícia a todos.

- E agora foi feito por si. - Sorriu, parecendo imediatamente muito mais jovem... realçando os olhos de coloração estranha e o farto cabelo prateado. - Se não se importa espera aqui enquanto vou procurar a minha mãe e tentar pô-la ao corrente da situação. Quer tomar um café ou alguma outra bebida?

- Só se não for demasiado incómodo.

- Não é incómodo nenhum. Direi a Pettifer. - Abriu a porta que estava atrás de si. - Faça de conta que está em sua casa.

A porta fechou-se suavemente e Eliot desapareceu. Pettifer. "Pettifer também estivera na Marinha; encontrava-se ao serviço do meu pai, limpava as pratas e às vezes fazia de motorista." Fora o que minha mãe me contara. E Joss dissera-me que a Sr. a Pettifer falecera. Mas nos velhos tempos levava Lisa e o irmão para a cozinha e fazia-lhes torradas com manteiga. Corria as cortinas contra o escuro e a chuva, fazendo com que as crianças se sentissem em segurança e amadas.

Sozinha, inspeccionei a sala onde me tinham dito que esperasse. Vi um armário de portas envidraçadas cheio de tesouros orientais, entre os quais algumas peças pequenas de jade, e senti curiosidade em saber se seria àquelas que a minha mãe se referira. Olhei à minha volta, pensando talvez em deparar com o espelho veneziano e também a escrivaninha, mas nessa altura a minha atenção foi atraída pelo quadro que se via sobre a lareira, e esqueci-me de tudo o resto para o ir examinar.

Era o retrato de uma rapariga, vestindo à moda do início dos anos 30, esguia, de peito liso, o vestido branco a descer-lhe a direito pelas ancas escorridas, o cabelo escuro e cortado curto, a revelar, com encantadora inocência, o pescoço longo e fino. Na imagem, sentava-se num banco alto, tendo nas mãos uma única rosa de pé comprido, porém não se lhe podia ver o rosto, pois olhava para o lado oposto ao do artista, através de alguma janela não visível, para a luz do sol. O efeito era todo em rosa e ouro, com o sol a filtrar-se através do tecido diáfano do vestido branco. Um encanto.

Atrás de mim, a porta abriu-se subitamente e eu voltei-me, sobressaltada, vendo um homem idoso entrar na sala, majestoso, calvo, um tudo-nada curvado, talvez, movendo-se cautelosamente. Usava óculos desprovidos de aros, uma camisa às riscas e um colarinho rígido, à moda antiga; por cima de tudo aquilo, um avental branco de carniceiro.

- É a menina quem deseja uma chávena de café? Tinha uma voz profunda e lúgubre, e o facto, conjugado com a aparência sombria, fez-me lembrar um cangalheiro respeitável.

- Sim, se não for demasiado incómodo.

- Leite e açúcar?

- Sem açúcar. Apenas um pouco de leite. Estava a olhar para o retrato.

- Sim. É muito bonito. Chama-se Menina Segurando Uma Rosa.

- Não se consegue ver o rosto.

- Não.

- Foi... foi o senhor Bayliss quem o pintou?

- Oh, sem dúvida! Esteve em exposição na academia. podia ter sido vendido mais de cem vezes, mas o comandante nunca quis separar-se dele.

Enquanto falava, tirou cuidadosamente os óculos, começando a fitar-me atentamente. Os velhos olhos tinham uma tonalidade desmaiada. Disse:

- Por um momento, quando falou, fez-me lembrar outra pessoa. Mas a menina é jovem e nesta altura ela seria de meia-idade. E tinha o cabelo escuro como o de um corvo.

Era o que a senhora Pettifer costumava dizer. Escuro que nem a asa de um corvo.

Inquiri:

- Eliot não lhe contou?

- Que foi que Eliot não me contou?

- Está a falar de Lisa, não está? Eu sou Rebecca. Filha de Lisa.

- Bem. - Um pouco trémulo, voltou a colocar os óculos. As feições sombrias deixaram transparecer um ténue clarão de prazer. - Quer então dizer que eu tinha razão. Raramente me engano em coisas assim. - E aproximou-se, estendendo uma mão calejada. - É um verdadeiro gosto conhecê-la... Um gosto que nunca imaginei vir a ter. Pensei que nunca cá viria. A sua mãe está consigo?

- A minha mãe morreu. A semana passada. Em Ibiza.

É por essa razão que estou aqui.

- Morreu. - Os olhos toldaram-se-lhe. - Lamento.

Lamento de verdade. Ela devia ter regressado. Devia ter voltado para casa. Todos nós queríamos vê-la novamente. Puxou de um lenço enorme e assoou o nariz.

- E quem - perguntou - vai dizer ao comandante?

- Acho... Eliot foi chamar a mãe. Compreende, há uma carta para o meu avô no correio. Chegou esta manhã. É de Ibiza, do homem que... tomava conta da minha mãe. Mas se acha que não seria boa ideia...

- O que eu penso pouca diferença fará - disse Pettifer.

- E seja quem for que informe o comandante, a sua dor não vai ser menor. Mas digo-lhe uma coisa. A sua presença aqui ajudará muito.

- Obrigada.

Pettifer voltou a assoar-se ruidosamente e guardou o lenço.

- O senhor Eliot e sua mãe... bem, esta casa não é sua. Mas ou o velho comandante e eu nos mudávamos para High Cross ou eles vinham para cá. E não estariam aqui se o médico não fizesse questão. Eu disse-lhes que nos desenvenci lhávamos bem, o comandante e eu. Estamos juntos há tantos anos... mas pronto, nenhum de nós já é jovem como antigamente, e o comandante teve um ataque de coração.

- Sim, eu sei...

- E a senhora Pettifer faleceu, não havia ninguém para cozinhar. Repare, eu sei cozinhar perfeitamente, mas isso rouba-me muito tempo, que me faz falta para cuidar do comandante, e não queria vê-lo andar aí pela casa todo mal- vestido.

- Não, claro que não...

Fui interrompida pelo bater de uma porta.

Uma vigorosa voz masculina chamou:

- Pettifer!

Ouvi Pettifer responder, com o que me pareceu ser grande satisfação:

- Viva, Joss.

- Ela está aqui?

- Aqui, quem?

- Rebecca.

- Sim, está aqui, na sala... Ia precisamente servir-Lhe uma chávena de café.

- Sê bom rapaz e serve duas. Forte e simples para mim.

Ouvi as passadas dele percorrerem o corredor e, no momento seguinte, aparecia à porta, com as suas pernas compridas, o cabelo preto e - era demasiado óbvio - furioso.

- Que diabo pensa que está a fazer? - perguntou.

Senti os pêlos do pescoço eriçarem-se, como um cão desconfiado. Eliot falara na casa. Ali era Boscarva, a minha casa, e estar ali ou não dificilmente seria da conta de Joss.

- Não sei do que está a falar.

- Fui buscá-la e a senhora Kernw informou-me de que já tinha saído.

- E então?

- Disse-lhe que esperasse por mim.

- Decidi não esperar.

Ficou em silêncio, furibundo, até, finalmente, dar a impressão de se conformar com aquele facto inalterável.

- Alguém sabe da sua chegada?

- Encontrei Eliot no portão. Trouxe-me até aqui.

- Onde é que ele foi?

- Buscar a mãe.

- Viu mais alguém? Grenville?

- Não.

- Alguém já falou a Grenville da sua mãe?

- Esta manhã chegou uma carta pelo correio, enviada por Otto Pedersen. Mas não creio que ele a tenha visto ainda.

- Pettifer deve levá-la até junto dele. Pettifer tem de estar presente quando ele a ler.

- Não parece que Pettifer seja dessa opinião.

- Mas eu sou - declarou Joss.

Aquela interferência aparentemente ofensiva deixou-me sem palavras, mas enquanto nos entreolhávamos de cada lado da bela alcatifa estampada e de um enorme vaso de narcisos perfumados, chegou-nos o som de vozes e passos pela escadaria nua e pelo corredor.

Ouvi uma voz de mulher perguntar:

- Na sala de estar, Eliot?

Joss murmurou algo que me pareceu imperceptível e dirigiu-se para junto da lareira, onde se postou, de costas voltadas para mim, fitando as chamas fixamente. No instante seguinte Mollie apareceu à entrada da porta, hesitou por um momento e depois encaminhou-se para mim, de mãos estendidas.

- Rebecca.

A recepção, portanto, ia ser amigável. Eliot entrou atrás da mãe, fechando a porta. Joss nem sequer se voltou.

Calculei que naquela altura Mollie já devia ter mais de cinquenta anos, mas era algo dificil de acreditar. Roliça e bonita, tinha o cabelo louro, que começava a embranquecer, graciosamente penteado, os olhos azuis, uma pele fresca e ligeiramente sardenta que ajudava a criar aquela ilusão espantosa de juventude. Usava uma saia azul, um casaco de lã da mesma cor e uma blusa de seda creme; tinha as pernas magras e bem torneadas e as mãos impecavelmente arranjadas, com as unhas pintadas de cor-de-rosa e enfeitada com muitos anéis e pulseiras de ouro fino. Perfumada, imaculadamente preservada, fez-me lembrar um bonito gato tigrado enrolado exactamente no meio da sua almofada de cetim.

Disse:

- Receio que tenham tido um certo choque.

- Não, não um choque, mas uma surpresa. E a sua mãe... Tenho tanta pena. Eliot falou-me da carta...

Foi então que Joss se virou abruptamente para nós.

- Onde está a carta?

Mollie desviou o olhar para Joss, mas não foi possível perceber se só naquele momento dera pela sua presença ou se o vira e decidira, muito simplesmente, ignorá-lo.

- Joss. Não pensei que viesse esta manhã.

- Sim. Acabei de chegar.

- Creio que já conhece Rebecca.

- Sim, já nos encontrámos. - Hesitou, parecendo fazer um esforço para se recompor. Depois sorriu, tristemente, e tentou remediar a situação: - Peço desculpa. E sei que não tenho nada a ver com o assunto, mas quanto a essa carta que chegou esta manhã... onde está?

- No meu bolso - respondeu Eliot, falando pela primeira vez. - Porquê?

- Porque, na minha opinião, Pettifer é que devia transmitir a notícia ao velho. É a pessoa mais indicada para tal.

A observação foi recebida em silêncio. Depois Mollie largou-me as mãos e voltou-se para o filho.

- Ele tem razão - disse. - Grenville é mais chegado a Pettifer.

- Por mim está tudo bem - disse Eliot, mas o olhar que fixava em Joss era frio e antagónico. Não o culpava. Eu própria sentia o mesmo - estava do lado de Eliot.

Joss voltou a repetir:

- Peço desculpa.

Mollie foi delicada.

- Não tem de se desculpar. Foi muito simpático da sua parte estar tão preocupado.

- Na verdade, não é da minha conta - declarou Joss.

Eliot e a mãe aguardaram com paciência intencional. Por fim Joss percebeu a indirecta, desencostou-se da lareira e disse:

- Bem, se me dão licença retiro-me e vou trabalhar um pouco.

- Fica para almoçar?

- Não, só posso cá estar durante duas horas. Preciso de voltar para a loja. Comerei uma sanduíche no bar. - Sorriu agradecidamente a todos nós, sem qualquer indício do comportamento anterior. - Obrigado na mesma.

Em seguida saiu da sala, modesto, submisso, aparentemente reduzido à sua insignificância. Mais uma vez o jovem artesão, um empregado, com um trabalho para executar.

Mollie observou:

- Deve desculpá-lo. Nem sempre é um homem de muito tacto.

Eliot soltou uma pequena risada.

- Essa é a melhor do ano.

Mollie virou-se para mim, explicando:

- Anda a restaurar-nos parte do mobiliário. É antigo e precisava urgentemente de arranjo. É um óptimo artífice, mas nunca sabemos quando chega ou parte!

- Um dia - declarou o filho -, ainda perco a cabeça e dou-Lhe um murro naquele nariz. - Sorriu-me graciosamente, franzindo os olhos, atenuando assim a ferocidade das suas palavras. - E tenho de me ir embora. Se já estava atrasado, agora ainda mais. Rebecca, dá-me licença?

- Com certeza. Desculpe, receio que a culpa tenha sido minha. E obrigada pela gentileza...

- Ainda bem que parei. Devo ter adivinhado que era importante. Até à vista.

- Sim, claro que voltarás a vê-la - disse Mollie rapidamente. - Agora que nos encontrou, não se pode ir logo embora.

- Bem, então deixo tudo ao vosso cuidado... Eliot fez menção de se dirigir para a porta mas a mãe interrompeu suavemente.

- Eliot.

Voltou-se.

- A carta.

- Ah sim, claro - Tirou-a do bolso, a carta fatal á ligeiramente amachucada, e entregou-a a Mollie. – Não deixe que Pettifer dramatize de mais com ela. É um velhote sentimental.

- Não deixarei.

Sorriu novamente, despedindo-se de nós as duas.

- Até ao jantar.

E partiu, assobiando a chamar o cão enquanto seguia pelo corredor. Ouvimos a porta da frente abrir e fechar, o carro a ser ligado. Mollie voltou-se para mim.

- E agora - disse -, venha sentar-se ao pé da lareira e conte-me tudo o que se passou.

Assim fiz, tal como já fizera com Joss e a Sr. a Kernow. somente daquela vez atrapalhei-me um pouco ao chegar à parte de Otto a viver com Lisa, como se tal me envergonhasse, o que nunca fora o caso. Enquanto falava e Mollie escutava, tentei descortinar a razão pela qual a minha mãe a detestara tanto. Talvez se tratasse apenas de uma antipatia natural. Saltava à vista que nunca tinham tido nada em comum. E a minha mãe nunca tivera paciência para aturar mulheres que a maçavam. Quanto aos homens, era diferente.

Os homens eram sempre divertidos. Mas as mulheres tinham de ser muito especiais para a minha mãe conseguir tolerar a sua companhia. Não, a culpa não devia ter sido de Mollie.

Sentada em frente dela, junto da lareira, decidi tornar-me sua amiga, compensando assim, muito modestamente, a pouca atenção que ela recebera de Lisa.

- E quanto tempo pensa ficar em Porthkerris? O seu emprego... tem de regressar?

- Não. Deram-me uma espécie de licença ilimitada.

- Ficará aqui, connosco?

- Bem, tenho um quarto reservado em casa da senhora Kernow.

- Sim, mas ficaria muito melhor aqui. O único problema é não haver muito espaço; terá de dormir no sótão, mas é um quartinho amoroso, se não se importar com o tecto inclinado e conseguir não bater com a cabeça nele. Compreende, Eliot e eu ocupámos os quartos de hóspedes e também tenho a minha sobrinha aqui por alguns dias. Talvez faça amizade com ela. Seria agradável ter alguém jovem cá em casa.

Fiquei sem saber quem era a sobrinha.

- Que idade tem?

- Só dezassete anos. É uma idade difícil e eu creio que a mãe achou que lhe faria bem passar uns dias afastada de Londres. Vivem lá, compreende, e ela tem tantos amigos, claro, mas passa-se tanta coisa... - Tinha, nitidamente, difi culdades em encontrar as palavras certas. - Seja como for, Andrea, veio cá passar uma semana ou duas para mudar um pouco de ares, mas receio que esteja a aborrecer-se.

Imaginei-me aos dezassete anos, na pele dessa Andrea desconhecida, naquela casa acolhedora e bonita, tratada por Mollie e Pettifer, com o mar e os penhascos à saída da porta, o campo a convidar a prolongados passeios, e as misteriosas ruas tortuosas de Porthkerris à espera de serem exploradas. Para mim teria sido o paraíso e o tédio uma impossibilidade. Eu devia ter muito pouco em comum com a sobrinha de Mollie.

- Claro - continuou Mollie -, como provavelmente já percebeu, Eliot e eu só aqui estamos por causa da morte da senhora Pettifer, e de facto os dois homens não podiam ficar sozinhos. Temos a senhora Thomas, vem todas as manhãs ajudar na lida da casa, mas sou eu que cozinho e mantenho a casa o mais impecável e bonita que posso.

- As flores são lindas.

- Não suporto uma casa sem flores.

- E quanto à sua própria casa?

- Minha querida, está vazia. Um dia destes levo-a até High Cross para lha mostrar. Comprei uns casebres antigos pouco depois da guerra, e remodelei-os. Embora não me competisse dizê-lo, ficou um encanto. E, claro, dá muito jeito à garagem de Eliot; agora, a viver aqui, parece estar permanentemente na estrada.

- Sim, é possível.

Ouvi novamente passos a aproximarem-se pelo corredor;

logo a seguir a porta abriu-se e Pettifer entrou, cuidadosamente, segurando um tabuleiro cheio com todo o equipamento do café do meio da manhã, incluindo um enorme bule de prata com vapor de água a escapar pelo bico.

- Oh, Pettifer, obrigada!...

O velho serviçal aproximou-se, vergado com o peso do tabuleiro, e Mollie levantou-se para ir buscar um banco e colocá-lo rapidamente debaixo do tabuleiro, para que o veLho pudesse pousá-lo antes de o inclinar prestes a espalhar tudo pelo chão.

- Uma ideia esplêndida, Pettifer.

- Uma das chávenas era para Joss.

- Está lá em cima a trabalhar. Deve ter-se esquecido do café. Não importa, eu bebo o dele. E, Pettifer...

O velhote endireitou-se, lentamente, como se todas as articulações lhe doessem. Mollie tirou a carta de Ibiza de cima

da cornija da lareira, onde a colocara por segurança.

- Achámos, todos nós, que talvez fosse melhor o comandante receber a notícia da morte da filha através de si e

depois entregar-lhe esta carta. Não lhe deve custar tanto vinda de si. Importa-se?

Pettifer pegou no sobrescrito azul.

- Não, minha senhora. Eu faço-o. Ia agora mesmo lá acima levantar o comandante e vesti-lo.

- Seria uma grande gentileza sua, Pettifer.

- Não tem importância, minha senhora.

- E diga-lhe que Rebecca está aqui. E que vai ficar. Teremos de Lhe preparar a cama no sótão, mas creio que ficará muito confortável.

Mais uma vez o rosto de Pettifer deixou transparecer um certo brilho. Senti curiosidade em saber se de facto sorriria alguma vez ou se o seu rosto adoptara permanentemente aquelas linhas lúgubres e lhe fosse fisicamente impossível esboçar um sorriso.

- Ainda bem que fica - disse. - O comandante também vai gostar.

Depois de o velho se retirar, disse:

- A senhora tem muito que fazer. Não seria melhor eu agora retirar-me para não a atrapalhar?

- Seja como for tem de ir buscar as suas coisas a casa da senhora Kernow. Como iremos fazer? Pettifer poderia levá-la mas agora está ocupado com Grenville e eu tenho de falar com a senhora Thomas acerca do seu quarto e depois começar a pensar no almoço. Como iremos fazer?

Eu não podia descortinar nenhuma maneira de resolver o problema. O certo era que não podia transportar todos os meus pertences colina acima desde a vila. Felizmente, porém, Mollie respondeu à sua própria pergunta.

- Já sei. Joss. Ele pode levá-la e trazê-la de volta ao cimo da colina na sua carrinha.

- Mas Joss não está a trabalhar?

- Oh, interrompê-lo-emos, só desta vez! Não é frequente pedirem-lhe que saia. Estou certa de que não se im portará. Venha, vamos à procura dele.

Imaginei que me levasse até algum anexo esquecido ou barracão, onde encontraríamos Joss rodeado de aparas de madeira e do cheiro de cola quente, mas, para minha surpresa, Mollie levou-me escadas acima e eu esqueci-me por completo de Joss porque aquelas eram as primeiras impressões que obtinha de Boscarva, onde a minha mãe fora criada, e não queria perder o mais pequeno pormenor. As escadas não estavam alcatifadas, as paredes, apaineladas até meio, tinham a parte superior forrada a papel escuro, de onde pendiam pesados quadros a óleo. Tudo contrastava com a bonita sala de estar, feminina, que deixáramos no piso de baixo. No primeiro andar, um patamar abria-se para a direita e para a esquerda, e nele via-se um armário alto com gavetas, de madeira de castanheiro polida, e estantes carregadas de livros; continuámos a subir pelas escadas. Aí o chão estava forrado com uma passadeira, as paredes apresentavam-se pintadas de branco e, mais uma vez, o corredor abria-se para os dois lados. Mollie enveredou pelo da direita. Ao fundo do corredor havia uma porta aberta, de onde saía um som de vozes, a de um homem e a de uma rapariga.

Mollie pareceu hesitar, mas, a certa altura, apressou o passo, resoluta. A visão das suas costas tornou-se, imediatamente, imponente. Comigo no seu encalço, desceu o corredor e entrou pela porta; penetrámos num sótão que fora adaptado, mediante a abertura de uma clarabóia, a um estúdio, ou talvez a uma sala de bilhar, pois via-se, contra uma das paredes, um enorme sofá forrado a couro, com braços e pernas de madeira de carvalho. Naquela altura, no entanto, aquela sala fria e arejada estava a ser utilizada como oficina, com Joss no meio dela, rodeado de cadeiras, molduras quebradas, uma mesa com uma perna partida, uns pedaços de cabedal, ferramentas e pregos, e um pequeno fogão a gás sobre o qual se via uma panela de cola com ar pouco apetecível. Vestido com um velho avental azul, forrava cuidadosamente a couro escarlate o assento de uma das cadeiras e, enquanto isso, ia sendo distraído por uma jovem companheira que se virou, indiferente, para ver quem entrara na divisão, interrompendo assim tão aconchegante tête-à-tête.

Mollie exclamou:

- Andrea! - Logo a seguir, menos asperamente: Andrea, não sabia que já estavas levantada.

- Oh, já estou a pé há horas!

- Já tomaste o pequeno-almoço?

- Não me apeteceu nada.

- Andrea, apresento-te Rebecca. Rebecca Bayliss.

- Oh, sim! - Desviou o olhar para mim. - Joss tem estado a contar-me tudo sobre ela.

Eu cumprimentei:

- Como está?

Ela era muito nova e magra, com longos cabelos escorridos que lhe pendiam de cada lado do rosto, que era bonito, com excepção dos olhos, descoloridos e ligeiramente protuberantes, que uma maquilhagem empastelada não favorecia. Usava, como não podia deixar de ser, uns jeans e uma Tshirt de aspecto pouco limpo e que revelava, sem margem para dúvidas, que nada trazia por baixo. Nos pés viam-se- -lhe sandálias que faziam lembrar alpergatas cirúrgicas atadas com fitas verdes e douradas. Tinha um cordão de sapato de couro ao pescoço, do qual pendia uma pesada cruz de prata, de concepção vagamente céltica. Andrea, pensei. Tão entediada com Boscarva. E saber que ela e Joss tinham estado a falar sobre mim perturbou-me. Que teriam dito? interroguei-me.

Não se mexeu, continuando sentada, de pernas escancaradas, em cima de uma pesada mesa de mogno antiga.

- Olá - retribuiu.

- Rebecca vai ficar aqui - disse-lhe Mollie.

Joss ergueu a cabeça, a boca cheia de tachas e os olhos a brilharem de interesse, um caracol de cabelo negro a cair-lhe sobre a testa.

- Onde é que ela vai dormir? - quis saber Andrea. Pensei que tínhamos a casa cheia.

- No quarto que fica no corredor - respondeu-lhe a tia rispidamente. - Joss, poderia fazer-me um favor?

Joss cuspiu as tachas certeiramente para a palma da mão e levantou-se, afastando o cabelo da testa com o pulso.

- Importa-se de levar Rebecca até casa da senhora Kernow, para esta ser informada de que ela vai passar a ficar aqui, e depois ajudá-la a trazer as malas até Boscarva? Não seria demasiado incómodo?

- De maneira nenhuma - respondeu Joss; a expressão de Andrea, no entanto, foi de resignação entediada.

- É uma maçada, eu sei, quando se está ocupado, mas seria uma grande ajuda...

- Não há problema. - Pousou o martelo de pequenas dimensões e começou a desabotoar o nó do avental. Sorriu para mim. - Já estou habituado a transportar Rebecca por aí.

Mas Andrea soltou um som que era impossível dizer se seria de indignação ou impaciência, saltou para o chão com um impulso e saiu da sala, deixando a impressão de que tínhamos muita sorte em ter escapado sem um atirar de porta monumental.

E foi assim que voltei ao ponto de partida, vendo-me dentro, juntamente com Joss, da carrinha desengonçada.

Afastámo-nos de Boscarva em silêncio, atravessámos o bairro em construção do Sr. Padlow, seguindo colina abaixo, em direcção à vila.

Joss foi o primeiro a quebrar o silêncio.

- Quer dizer que correu tudo bem.

- É verdade.

- Que tal acha a sua família?

- Ainda não os conheci a todos. Não vi Grenville.

Joss disse:

- Vai gostar dele.

A entoação, porém, com que falou fez com que a observação soasse: "Vai gostar dele. "

- Gosto de todos eles.

- Isso é óptimo.

Fitei-o. Envergava o seu blusão de ganga azul e uma camisola de gola alta azul-marinho. O seu perfil mostrava-se impassível. Senti que não seria dificil deixar-me enfurecer por ele.

- Fale-me de Andrea - pedi.

- Que quer saber de Andrea?

- Não sei. Só quero que me fale dela.

- Tem dezassete anos, pensa que está apaixonada por um tipo qualquer que conheceu na Escola de Artes e os pais não aprovam, portanto está a ser ruralizada pela tia Mollie.

E sente-se morta de tédio.

- Dá a impressão de que fez de si seu confidente.

- Não tem mais ninguém com quem falar.

- Porque não volta para Londres?

- Porque só tem dezassete anos. Não dispõe do dinheiro necessário. E creio que não tem coragem para se rebelar contra os pais.

- Que faz ela durante todo o dia?

- Não faço ideia. Não estou lá o dia inteiro. Só deve levantar-se por volta da hora do almoço e depois põe-se a ver televisão. Boscarva é uma casa de velhos. Não se pode culpar a rapariga por se sentir chateada.

Sem pensar, disse:

- Somente os chatos se chateiam.

Era uma frase que, em certa ocasião, uma professora bem- intencionada me enfiara na cabeça.

- Isso - observou Joss - parece incomodamente beato.

- Saiu-me sem querer.

Joss sorriu.

- Nunca se chateou?

- Ninguém que vivesse com a minha mãe se chateava. Joss cantarolou:

- "Podes ter sido uma dor de cabeça mas nunca fostechata. "

- Exactamente.

- Ela parece ter sido extraordinária. Precisamente o meu tipo de mulher.

- Era o que a maioria dos homens pensava dela. Quando chegámos a Fish Lane, a Sr. a Kernow saíra, porém Joss tinha uma chave. Entrámos e eu fui ao andar de cima fazer a mala e a mochila, enquanto Joss escrevia um bilhete à Sr. a Kernow, explicando as novas disposições tomadas.

- Que tal pagar-lhe? - perguntei ao descer, arrastando a mala atrás de mim.

- Eu trato do assunto da próxima vez em que voltar a vê-la. Deixei escrito no bilhete.

- Mas eu mesma posso pagar.

- Claro que pode, mas permita-me que o faça por si. Pegou-me na mala e foi abrir a porta, não deixando lugar a mais discussões.

Os meus pertences foram, mais uma vez, metidos na parte de trás da carrinha e de novo seguimos para Boscarva, mas daquela vez Joss levou-me a dar a volta pelo porto.

- Quero mostrar-lhe a minha loja... ou seja, só onde fica. Depois, quando precisar de contactar comigo por alguma razão, já sabe onde encontrar-me.

- Porque haveria eu de querer contactar consigo?

- Sei lá. Poderá precisar de conselhos ponderados; ou dinheiro; ou simplesmente de uma boa gargalhada. Ali está, não tem nada que enganar.

Era uma casa alta e estreita, inserida no meio de outras duas, baixas e largas. Tinha três pisos com uma janela em cada um, e o rés-do-chão ainda estava em obras, exibindo madeira ainda por pintar e grandes círculos de tinta branca traçados no vidro da montra.

Ao passarmos rapidamente em frente do edifício, com os pneus a chiarem sobre as pedras arredondadas, observei:

- Está bem situado, todos os turistas irão à sua loja gastar dinheiro.

- Assim espero:

- Quando é que poderei vê-la?

- Venha cá na próxima semana. Nessa altura já estaremos mais ou menos prontos.

- Está bem. Na próxima semana.

- O encontro fica marcado - disse Joss, virando ao pé da igreja.

Meteu a segunda mudança e começámos a subir a colina com um ruído de moto avariada.

Chegados a Boscarva, foi Pettifer quem, ouvindo-nos chegar, saiu pela porta da frente, estava Joss a tirar a minha mala do porta-bagagens da carrinha.

- Joss, o comandante está cá em baixo, no seu estúdio:

Disse para lhe levarmos Rebecca mal chegassem.

Joss fitou-o.

- Como está ele?

Pettifer baixou a cabeça.

-Não está mal de todo.

- Ficou muito perturbado?

- Não há problema... agora largue essa mala, que eu levo-a para cima.

- Nem pensar - declarou Joss, e daquela vez agradou-me vê-lo recuperar os modos autoritários que já lhe conhecia. - Eu é que a levo. Onde é que Rebecca fica instalada?

- No sótão... no lado oposto à sala de bilhar, mas o comandante disse para irem imediatamente.

- Eu sei - observou Joss, sorrindo - que em tempo naval isso equivale só a cinco minutos de tolerância. Mas ainda dá tempo para levar a jovem até ao quarto onde vai ficar, portanto pare de resmungar, seja bom homem.

Deixando Pettifer a barafustar brandamente, subi atrás de Joss os dois lances de escadas que já conhecera aquela manhã. O som do aspirador desaparecera mas no ar pairava um cheiro a assado de carneiro. Nesse momento apercebi-me da fome que tinha e senti a boca encher-se-me de água.

As compridas pernas de Joss adiantaram-se à minha frente e quando cheguei ao quarto de tecto inclinado, ele pousara já a mala e a mochila e fora escancarar a enorme janela das águas-furtadas; assim, ao entrar, levei com uma rajada de vento gelado e a cheirar a maresia em pleno rosto.

- Venha ver a paisagem.

Coloquei-me ao lado de Joss. Vi o mar, os penhascos, o dourado das samambaias e as primeiras espigas amarelas de tojo. Em baixo estendia-se o jardim de Boscarva, que não conseguira ver da janela da sala de estar por causa da balaustrada de pedra do terraço. Fora construído numa série de socalcos que desciam, acompanhando a vertente da colina, e ao fundo, aconchegado a um canto do muro do jardim, erguia-se um casebre de pedra com telhado de lousa. Não, não era um casebre, talvez fosse um estábulo, com um espaçoso sótão por cima.

Inquiri:

- Que construção é aquela?

- É o estúdio - retorquiu Joss. - Era ali que o seu avô costumava pintar.

- Não tem ar de estúdio.

- Do outro lado, tem. Toda a parede norte é feita de vidro. Desenhou-o ele próprio e mandou-o construir por um pedreiro local.

- Parece fechada.

- Está. Fechada e trancada. Não é aberta desde que ele teve o ataque cardíaco e parou de pintar.

De repente estremeci.

- Frio? - perguntou Joss.

- Não sei.

Afastei-me da janela, desabotoei o casaco e deixei-o cair aos pés da cama. O quarto era branco, a alcatifa vermelho-escura. Havia um guarda-fatos incorporado na parede, prateleiras cheias de livros, um lavatório. Fui lavar as mãos manuseando o sabonete debaixo da água quente. Sobre o lavatório havia um espelho que me devolveu uma imagem simultaneamente desgrenhada e ansiosa. Percebi então o quão nervosa me sentia por ir encontrar-me com Grenville pela primeira vez e como era importante que lhe causasse uma boa impressão.

Sequei as mãos, fui tirar uma escova e um pente da mochila.

- Ele era bom pintor, Joss? Acha que era um artista de qualidade?

- Acho. Da velha escola, evidentemente, mas magnífico. E um colorista maravilhoso.

Tirei o elástico da ponta da trança, sacudi-a de maneira a soltar os caracóis e acerquei-me do espelho para os escovar. Vi reflectido no espelho, por detrás de mim, a imagem de Joss, que me observava atentamente. Não proferiu palavra enquanto escovei, penteei e, finalmente, reentrancei o cabelo. Ao prender as pontas, comentou:

- Tem uma cor linda. Adoro o louro.

Pousei a escova e o pente.

- Joss, não devemos fazê-lo esperar.

- Quer que vá consigo?

- Se faz favor.

Dei-me conta de que era a primeira vez que lhe pedia que me ajudasse.

Segui escadas abaixo, passando o corredor e a sala de estar, até uma porta que ficava ao fundo do corredor. Joss abriu-a e meteu a cabeça pela frincha.

Disse:

- Bom-dia.

- Quem é? Joss? Entra...

A voz era mais sonora do que a imaginara, parecendo pertencer a um homem mais novo.

- Trouxe uma pessoa para o ver.

Escancarou a porta e empurrou-me suavemente com os braços para dentro do quarto. Este era de pequenas dimensões, com janelas francesas que deitavam para um terraço pavimentado e um jardim privado, aquecido pelo sol que ali entrava e ficava retido, rodeado de sebes densas e trepadeiras.

Vi as chamas a tremeluzirem na lareira; as paredes apaineladas estavam cobertas ou de quadros ou de livros; sobre a cornija da lareira via-se um modelo de um barco de guerra antigo. Havia fotografias em molduras de prata, uma mesa atravancada de jornais e revistas e uma jarra azul e branca chinesa, cheia de narcisos silvestres.

Quando entrei, já Grenville começara a levantar-secom a ajuda de uma bengala - de uma poltrona de ouro avermelhado, meio virada para o calor da lareira acesa. Fiquei admirada por Joss não fazer qualquer menção de o ajudar e ainda disse:

- Oh, por favor não se incomode!.

Mas nessa altura pusera-se já de pé e erecto, e um par de olhos azuis observava-me calmamente por detrás de sobrolhos salientes e sobrancelhas brancas e hirsutas.

Apercebi-me então de que me preparara para encontrá-lo de alguma maneira patético, velho, enfermo, talvez um pouco trémulo. Grenville Bayliss, porém, aos oitenta anos, tinha um aspecto imponente. Muito alto e direito, impecavelmente bem-posto e barbeado, a cheirar ligeiramente a Bay Rum, fazia honra aos cuidados do seu criado Pettifer.

Envergava um casaco desportivo azul-escuro, de corte naval calças de flanela impecavelmente vincadas e chinelos de quarto de veludo, com as suas iniciais bordadas a dourado.

Também estava muito bronzeado, o couro cabeludo bem castanho debaixo das madeixas de cabelo branco, a rarearem. Imaginei-o a passar muito tempo naquele pequeno jardim secreto ensolarado, a ler o seu jornal da manhã, a desfrutar de uma cachimbada e a ver as gaivotas e as nuvens brancas a sulcarem os céus.

Olhámos um para o outro. Eu teria gostado de o ouvir dizer algo, porém ele limitava-se a fitar-me. Fiz votos para que ele gostasse do que via e dei graças por ter arranjado o cabelo antes de ali ir. A certa altura, Grenville observou:

- Nunca me vi numa situação destas anteriormente.

Não sei bem como devemos cumprimentar-nos.

Eu sugeri:

- Podia dar-lhe um beijo.

- Porque não o faz?

Assim fiz, aproximando-me dele e pondo-me na ponta dos pés para lhe depositar um beijo na pele macia e lisa da face.

- Agora - disse Grenville -, que tal sentarmo-nos? Joss, vem para junto de nós.

Mas Joss desculpou-se, disse que tinha de voltar ao trabalho senão o dia ficava perdido. Mas ficou o tempo suficiente para ajudar o velho a voltar para a sua poltrona, servir-nos um cálice de xerez da garrafa de vidro que estava! sobre uma mesinha lateral, dizendo a seguir:

- Vou deixar-vos. Têm muito que falar.

E, com um aceno alegre de mão, saiu discretamente.

A porta fechou-se suavemente atrás de si.

Greenville observou:

- Acredito que o conheça bastante bem.

Puxei um banco de maneira a ficar em frente do meu avô.

- Nem por isso. Mas tem sido muito amável e... - tentei descortinar a palavra certa - conveniente. Quero dizer parece estar sempre presente quando as pessoas precisam dele.

- E nunca quando não precisam?

Eu não estava muito certa de concordar inteiramente com ele.

- Também é um rapaz esperto. Está a tratar de toda a minha mobília - acrescentou.

- Sim, eu sei.

- Óptimo artesão. Mãos habilidosas. - Pousou o seu cálice de xerez e, mais uma vez, fui submetida ao mesmo olhar azul penetrante. - A tua mãe morreu.

- Sim.

- Recebi uma carta de um sujeito chamado Pedersen.

Disse ter sido de leucemia.

- Foi.

- Conheceste-o?

Contei-lhe a minha ida a Ibiza e a noite que passara com Otto e a minha mãe.

- Então era um homem decente, não? Bom para ela?

- Sim. Extraordinariamente delicado. E adorava-a.

- Fico contente por saber que acabou com alguém decente a seu lado. A maioria dos tipos que escolhia não passava de um bando de salafrários.

Sorri ao ouvir a palavra antiquada. Pensei no criador de ovelhas e no americano com as suas camisas Brooks Brothers, e perguntei a mim mesma se não teriam gostado que lhes chamassem salafrários. Provavelmente nem saberiam o que isso significava.

Observei:

- Creio que às vezes ela se deixava arrastar. Nos olhos dele apareceu um brilho divertido.

- Parece-me que adoptaste uma atitude razoavelmente mundana, não?

- Sim, adoptei. Há muito tempo.

- Ela era uma múlher de enlouquecer. Mas foi a menina mais encantadora que é possível imaginar. Pintei-a muitas vezes. Ainda tenho uma ou duas telas de Lisa em criança. Pedirei a Petiffer que as procure, para depois as veres. Mas depois cresceu e tudo se modificou. Roger, o meu filho, morreu na guerra, e Lisa andava sempre às turras com a mãe, sempre a escapar-se no seu carrito, a passar as noites fora de casa. Até que acabou por se apaixonar por esse tal actor e pronto.

- Ela estava verdadeiramente apaixonada por ele.

- Apaixonada. - Mostrou-se revoltado. - Aí está uma expressão sobrestimada. Na vida há coisas muito mais importantes do que estar-se simplesmente apaixonado.

- Sim, mas temos de o descobrir por nós mesmos.

Grenville pareceu ficar divertido.

- Tu já o descobriste?

- Ainda não.

- Que idade tens?

- Vinte e um anos.

- Tens maturidade, apesar de tão nova. E gosto do teu cabelo. Não te pareces com Lisa. Nem com o teu pai. Pareces-te contigo mesma.

Estendeu a mão para o cálice, levou-o cuidadosamente à boca, bebeu um gole e, em seguida, pousou-o novamente na mesa que tinha ao lado da poltrona. Era naqueles gestos cuidadosos que a sua idade e enfermidade se revelavam.

Disse:

- Ela devia ter voltado para Boscarva. Ter-lhe-íamos dado as boas-vindas em qualquer altura. A propósito, por que não vieste tu?

- Não tinha conhecimento da existência de Boscarva.

Só soube na noite em que a minha mãe morreu.

- Foi como se tivesse apagado o passado da sua vida.

E quando a mãe morreu e Lhe escrevi a comunicar o facto nem sequer respondeu.

- Nesse Natal encontrávamo-nos em Nova Iorque. Só

recebeu a carta alguns meses mais tarde. E nessa altura pareceu demasiado tarde para escrever. Além de que ela detestava escrever.

- Estás a defendê-la. Não te ressentes com o facto de te ter mantido afastada deste lugar? Podias ter sido criada aqui.

Este podia ter sido o teu lar.

- Ela era minha mãe. Isso é que importava.

- Pareces estar a contradizer-me. Nos tempos que correm, ninguém o faz. Nem mesmo Pettifer. Torna-se muito monótono. - Mais uma vez fixou em mim aquele olhar azul. - Já conheces Pettifer? Ele e eu andámos juntos na Marinha há cerca de um século atrás. E Mollie e Eliot? Já os encontraste?

- Já.

- Não deviam estar a viver aqui, evidentemente, mas o médico fez questão. Não me faz grande diferença, mas não é nada bom para o pobre Pettifer. E Mollie também tem cá uma sobrinha, uma criança pavorosa de seios descaídos. Já a viste?

Fiz um esforço para não rir.

- Sim, por um instante.

- Um instante já é demasiado tempo. E Boscarva. Quepensas de Boscarva?

- Adoro-a. Gostei muito de tudo o que vi até agora.

- A vila está a trepar pela colina. Havia uma quinta que pertencia a uma velhota chamada Gregory. Mas esse tal construtor convenceu-a a vender-lhe tudo e agora escavacaram os campos até os porem rasos que nem uma panqueca e andam a erguer casas às dúzias.

- Eu sei. Vi-as.

- Bem, não podem chegar muito mais perto porque a quinta que fica por detrás desta casa e os campos que a ladeiam pertencem-me. Comprei-os juntamente com Boscarva, em 1922. Não gostaria de te dizer quão pouco me custaram. Mas um pouco de terra à nossa volta dá uma sensação de segurança. Lembra-te disso.

- Lembrarei.

Franziu as sobrancelhas.

- Diz-me outra vez como te chamas. Já me esqueci.

- Rebecca.

- Rebecca. E como me vais chamar?

- Não sei. Que me sugere?

- Eliot trata-me por Grenville. Faz tu o mesmo. Parece mais amigável.

- Está bem.

Bebemos o nosso xerez, sorrindo, contentes um com o outro. Depois chegou-nos, vindo das profundezas da casa, o som de um gongo. Grenville colocou os óculos, levantou-se a muito custo e fui abrir-lhe a porta. Juntos, fomos até ao patamar, em direcção à sala de jantar e ao almoço em família.

A exaustão abateu-se sobre mim no final daquele longo dia repleto de acontecimentos e, lamentavelmente, a meio do jantar. O almoço fora uma refeição substancial e caseira, consumida em redor de uma mesa redonda colocada junto à janela de sacada da enorme sala de jantar. Fora posta uma simples toalha axadrezada e louça e copos do dia-a-dia; ojantar, porém, foi completamente diferente.

A mesa comprida e polida situada no meio da sala foi preparada para nós os cinco, com belos guardanapos de linho, os talheres de prata e os copos de cristal antigos a brilharem à luz das velas.

Era de supor, assim parecia, que todos deviam vestir-se a rigor, em honra daquele ritual nocturno aparentemente diário. Mollie desceu com um vestido comprido em brocado cor de safra, o que lhe acentuava a luminosidade dos olhos. Grenville envergou um smoking de veludo que já conhecera melhores dias e Eliot um fato de fazenda de flanela clara que lhe emprestava a elegância de um galgo. Até Andrea, provavelmente sob grandes protestos, enfiara um par de calças novo e uma blusa de bordado inglês com ar de precisar de ser lavada ou passada, ou ambas as coisas. Prendera o cabelo comprido e fino atrás da cabeça com uma fita de veludo, mas no rosto mantinha a mesma expressão de tédio e ressentimento.

Alheia ao hábito de frequentar jantares de cerimónia, eu emalara, no entanto, um vestido que teria, obviamente, deaparecer todas as noites enquanto estivesse naquela casa, já que não trouxera mais nenhum. Era uma túnica de jérsia de lã castanho suave, bordada a prateado na gola e nos punhos das mangas esvoaçantes. Completei-a com as minhas pulseiras de prata e um par de brincos em forma de argola que a minha mãe me oferecera ao fazer vinte e um anos. O seu peso, naquela ocasião, proporcionou-me uma sensação estranha de conforto e segurança, duas coisas de que necessitava desesperadamente.

Não queria jantar com a minha família recém-adquirida.

Não queria improvisar conversa, escutar, ser inteligente e encantadora. Queria ir para a cama, mandar que me servissem algo simples como Bovril ou um ovo cozido. Queria estar sozinha.

Mas houve sopa, pato e tinto servido por Eliot. O pato estava suculento e a sala muito quente. À medida que a refeição foi progredindo, fui-me sentindo cada vez mais estranha, aérea, nas nuvens. Tentei concentrar-me nas chamas dos candelabros que tinha à minha frente, mas quando as fixava, separavam-se e repetiam-se, e as vozes em meu redor tornavam-se indistintas e ininteligíveis, como o rumor de uma conversa desenrolada numa sala distante. Instintivamente, empurrei o prato que tinha na frente, derrubei o copo do vinho e vi, horrorizada e impotente, a mancha avermelhada espalhar-se por entre os fragmentos de vidro.

O acidente foi, de certa maneira uma bênção, pois todos pararam e olharam para mim. Devia estar muito pálida, pois Eliot levantou-se imediatamente e colocou-se a meu lado...

- Sente-se bem?

Respondi:

- Não, não me parece que sinta. Lamento...

- Oh, minha querida! - exclamou Mollie, pondo o guardanapo de lado rapidamente e pondo-se de pé. Do outro lado da mesa, Andrea fitava-me com um interesse gélido.

Da cabeceira da mesa, Grenville falou.

- O copo não interessa. Deixem o copo. A jovem está exausta. Mollie, leva-a para cima e mete-a na cama.

Tentei protestar mas sem grande convicção. Eliot afastou a minha cadeira para trás e ajudou-me a levantar, segurando-me firmemente pelos cotovelos. Mollie fora abrir a porta, o que permitiu a entrada de ar mais frio vindo do corredor, fazendo-me sentir imediatamente melhor, como se, afinal de contas, já não fosse desmaiar.

Ao passar por Grenville, disse, pela terceira vez:

- Lamento. Desculpe-me. Boa-noite.

Inclinei-me, dei-lhe um beijo e deixei-os. Mollie fechou a porta depois de sairmos e subiu as escadas comigo. Ajudou-me a despir e a enfiar na cama; antes de ela apagar sequer a luz, já eu dormia.

Dormi catorze horas, acordando às dez da manhã. Fazia anos que não dormia até tão tarde, e do lado de fora da minha janela o céu estava azul e a luz fria e brilhante do norte arrancava reflexos às paredes inclinadas e pintadas de branco do meu quarto. Levantei-me, enfiei um roupão e fui tomar um banho. Vestida, senti-me esplêndida, para além da deprimente sensação de vergonha pela figura que fizera na noite anterior. Esperava que nem todos tivessem percebido que estava embriagada.

No piso térreo, encontrei finalmente Mollie numa copa, a compor uma enorme quantidade de primaveras-dos jardins púrpura e rosa numa jarra florida.

- Dormiste bem? - perguntou-me de imediato.

- Que nem uma morta. Lamento o que se passou ontem à noite...

- Minha querida, estavas completamente exausta. Tenho pena de não me ter apercebido antes. Deves querer tomar o pequeno-almoço.

- Só café.

Levou-me até à cozinha e aqueceu-me café, enquanto eu preparava umas torradas.

- Onde estão os outros? - perguntei.

- Eliot está na garagem, claro, e Pettifer levou o carro até Fourbourne para fazer umas compras a Grenville.

- Que hei-de fazer? Deve haver alguma coisa em que possa ajudar.

- Deixa-me ver... - retorquiu Mollie com ar pensativo.

Mirei-a. Naquela manhã vestia uma camisola de caxemira cor de caramelo e uma saia travada de tweed. Imaculadamente maquilhada, sem um fio de cabelo fora do lugar não parecia humana de tão impecável.

- Podias ir buscar-me o peixe a Porthkerris. O pescador telefonou a dizer que arranjou uns linguados e pensei em prepará-los para o jantar. Podia emprestar-te o meu carrito.

Conduzes?

- Sim, mas não poderia antes ir a pé? Gosto de andar e está uma manhã linda.

- Claro, se preferes. Podias atalhar pelos campos e pelo penhasco. Conheço... - pareceu subitamente ter uma ideia inspirada. - Levas Andrea contigo e ela mostra-te o caminho e também onde fica a peixaria. Além disso, ela nunca faz exercício voluntariamente, e um passeio só viria a calhar.

Fazia Andrea parecer um cão preguiçoso. A ideia de ter a companhia da rapariga durante a manhã não me agradava particularmente, no entanto compreendia Mollie, incumbida de cuidar daquela jovem desocupada; portanto, disse que aceitava a sugestão; quando terminei o pequeno-almoço, fui à procura de Andrea, a quem Mollie vira, pela última vez no terraço.

Encontrei-a enrolada numa manta de viagem, estirada sobre uma cadeira de descanso de cana, aproveitando uma faixa de sol, olhando impavidamente para a paisagem, qual passageiro enjoado num navio.

- Queres ir a pé até Porthkerris comigo? - perguntei-Lhe.

A jovem fixou o olhar protuberante em mim.

- Porquê?

- Porque Mollie pediu-me que lá fosse buscar peixe e não sei onde a loja fica. Além disso, está uma bela manhã e ela sugeriu que fôssemos pelos penhascos.

Andrea reflectiu sobre a minha proposta e respondeu:

- Está bem.

Desenrolou-se do cobertor e levantou-se. Envergava os mesmos jeans da véspera e uma camisola branca e preta larga, que Lhe chegava abaixo das ancas estreitas. Fomos à cozinha buscar um cesto e depois saímos pelo terraço, descendo o jardim inclinado em direcção ao mar.

Ao fundo do jardim, degraus de pedra permitiam subir e descer o muro, e Andrea seguiu à minha frente, mas eu detive-me porque queria examinar o estúdio daquele novo ângulo. Fora, tal como Joss afirmara, fechado e trancado e parecia ligeiramente votado ao abandono; a enorme janela voltada a norte fora completamente tapada por cortinados bem cerrados, de maneira a não permitir o menor vislumbre a qualquer passante curioso.

Andrea parou no topo do muro, seguindo a direcção do meu olhar.

- Ele já não pinta - disse-me.

- Eu sei.

- Não consigo perceber porquê. Não tem problema nenhum.

Saltou, com o cabelo a voar, do muro abaixo, e desapareceu por completo. Lancei um último olhar ao estúdio e segui-a, enveredando pelo carreiro de terra batida que se estendia através de campos pequenos e irregulares, e desemboquei, por fim, por entre tojo que me dava pela cintura, numa série de degraus antes de continuar pelo carreiro do penhasco.

Tratava-se, nitidamente, de um percurso de passeio da preferência dos visitantes de Porthkerris, pois havia bancos em miradouros abrigados, assim como recipientes para o lixo e avisos alertando as pessoas para que não se aproximassem da berma do penhasco, que poderia ruir.

Andrea foi imediatamente para a berma, pondo-se a espreitar para baixo. Rodearam-na gaivotas aos guinchos, o vento agitou-lhe violentamente o blusão largo, e do fundo do precipício chegou o estrondo distante das ondas a embaterem nos rochedos. Abriu bem os braços e vacilou ao de leve, como se fosse a cair, mas ao ver que a mim pouco importava que se suicidasse ou não, voltou para o carreiro e, em fila indiana, seguimos caminho, indo Andrea na frente.

O penhasco fazia uma curva e a vila apareceu aos nossos olhos, as casas cinzentas aninhadas ao longo da baía e trepando a colina íngreme até à charneca que ficava por trás. Passámos um portão e deparámos então com uma estrada propriamente dita, por onde pudemos, a partir daí, caminhar lado a lado.

Andrea mostrou vontade de conversar.

- A tua mãe morreu há pouco tempo, não foi?

- Foi.

- A tia Mollie falou-me nela. Disse que era uma desavergonhada.

Dolorosamente, não perdi a serenidade. Qualquer outra atitude teria sido uma vitória demasiado fácil para Andrea.

A tia Mollie não a conhecia bem. Não se viam há

anos.

- Era uma desavergonhada?

- Não.

- Mollie disse que vivia com homens.

Compreendi então que Andrea não estava apenas interessada em me aguilhoar, sentia-se verdadeiramente curiosa, assim como um pouco invejosa.

Disse:

- Era muito alegre, carinhosa e bonita.

A informação pareceu satisfazê-la.

- Onde vives?

- Em Londres. Tenho um pequeno apartamento.

- Vives sozinha ou com alguém?

- Não, vivo sozinha.

- Vais a festas e coisas parecidas?

- Vou, se me convidam e me apetece.

- Trabalhas? Tens algum emprego?

- Tenho. Numa livraria.

- Deus, que chato.

- Eu gosto.

- Onde foi que conheceste Joss?

"Agora é que ela tocou no que lhe interessa", pensei; o rosto de Andrea, porém, manteve-se inexpressivo.

- Conheci-o em Londres... consertou-me uma cadeira.

- Gostas dele?

- Não o conheço suficientemente bem para não gostar.

- Eliot detesta-o. E a tia Mollie também.

- Porquê?

- Porque não gostam de o ter sempre pela casa. E queriam que ele os tratasse como a patrões, mas claro que ele não vai nisso. E ele conversa com Grenville e fá-lo rir. Ouvi-os falar.

Imaginei-a a aproximar-se furtivamente de portas fechadas e a pôr-se à escuta.

- Se faz o velho rir, é óptimo.

- Uma vez ele e Eliot tiveram uma discussão terrível.

Foi acerca de um automóvel qualquer que Eliot vendeu a um amigo de Joss. Este disse-lhe que tinha sido uma aldrabice e Eliot chamou-lhe filho da mãe insolente e metediço.

- Também escutaste isso?

- Não pude deixar de o fazer. Eu estava no sótão com a janela aberta e eles puseram-se lá em baixo, em frente da porta.

- Há quanto tempo estás em Boscarva? - perguntei curiosa por saber quanto tempo levara a rapariga a desenterrar todos aqueles esqueletos do armário da família.

- Duas semanas. Mais parecem seis meses.

-Pensei que tinhas adorado vir até aqui.

- Por amor de Deus, não sou nenhuma criança. Que hei-de eu fazer neste sítio? Ir para a praia brincar com um balde e uma pá?

- Em que te ocupas em Londres?

Deu um pontapé furioso num seixo, como que extravasando a sua raiva pela Cornualha.

- Andava numa escola de arte, mas os meus pais não aprovavam - compôs uma voz de falsete - os meus amigos. Portanto tiraram-me de lá e mandaram-me para aqui.

- Mas não podes continuar indefinidamente aqui. Que tencionas fazer quando regressares?

- Eles é que sabem, não é verdade?

Senti uma ponta de compaixão por aqueles pais, mesmo tratando-se de pais que tinham uma filha detestável.

- Quero dizer, não há nada que tu queiras fazer?

- Há, simplesmente afastar-me de tudo, ficar entregue a mim mesma, ser independente. Danus, um tipo fabuloso com quem andei, tinha um amigo com uma olaria na ilha de Skye, e queria que eu fosse para lá ajudar... Parecia estupendo, sabes, viver numa espécie de comuna e afastada de toda a gente... mas a bruta da minha mãe meteu-se no assunto e estragou tudo.

- Onde está Danus agora?

- Oh, foi para Skye!

- Tem escrito a falar-te daquilo?

Andrea atirou a cabeça para trás e passou a mão pelo cabelo, sem olhar para mim.

- Sim, de facto, têm chegado cartas enormes. Resmas delas. Ele continua a querer que eu vá para lá, e eu hei-de ir, assim que tiver dezoito anos e eles não puderem continuar a mandar em mim.

- Porque não voltas para a Escola de Artes primeiro e tiras um curso? dava-te tempo.

A jovem voltou-se para mim:

- Sabes que mais? Falas tal e qual como os outros todos. Que idade tens afinal? Pareces uma pessoa com os pés para a cova.

- É uma loucura dares cabo da tua vida ainda mesmo antes de a iniciares.

- A vida é minha. Não tua.

- Não, não, a vida não é minha.

Depois de discutirmos tão animadamente, prosseguimos a nossa caminhada até à vila em silêncio. Quando Andrea voltou a falar, foi para dizer:

- Ali está a peixaria.

E apontou na direcção da mesma.

- Obrigada.

Entrei para ir buscar os linguados, mas ela permaneceu no exterior, amuada. Quando saí novamente, desaparecera para logo a seguir voltar, vinda de uma papelaria ao lado, onde fora comprar uma revista lúgubre chamada Verdadeiro Sexo.

- Já podemos voltar? - perguntou. - Ou queres fazer mais compras?

- Não posso, não trouxe dinheiro. Só uns trocados. De repente, irracionalmente, senti pena da rapariga.

- Se quiseres um café, eu pago.

Andrea fitou-me com súbito deleite e eu pensei que fosse aceitar alegremente a minha modesta oferta, mas, em vez disso, sugeriu:

- Vamos ver Joss.

Fui apanhada desprevenida.

- Porque queres ir ver Joss?

- Só para o ver. É frequente ir visitá-lo quando venho à vila. Ele fica sempre contente em me encontrar. Fez-me prometer que ia sempre ter com ele quando aqui viesse.

- Como é que sabes que está cá?

- Bem, em Boscarva é que não se encontra hoje, portanto tem de estar na loja. Já lá foste? É o máximo, tem uma espécie de apartamento no último piso, parece saído de uma revista, com uma cama que é tipo sofá, e tem montes de almofadas e uma lareira de lenha. E à noite... - a voz adoptou uma entoação sonhadora - fica tudo fechado e secreto, e a única luz é a do fogo da lareira.

Tentei não ficar embasbacada.

- Queres dizer que... tu e Joss...

Andrea encolheu os ombros, atirando os cabelos para trás.

- Uma vez ou duas, mas ninguém sabe. Nem percebo porque te conto isto. Não dirás nada aos outros, pois não?

- Mas eles não... Mollie não... faz perguntas?

- Oh, eu digo-lhe que vou ao cinema! Ela não se importa que o frequente. Anda, vamos ver Joss...

Mas depois de semelhante revelação, nada me induziria a chegar perto da loja de Joss. Respondi:

- Joss deve estar a trabalhar e não quererá ser interrompido. E seja como for, não há tempo. E eu não quero ir.

- Disseste que havia tempo para tomarmos café, porque agora não o tens para Joss?

- Andrea, já te disse, não quero ir.

A jovem esboçou um sorriso.

- Pensei que simpatizavas com Joss.

- A questão não é essa. Ele não quer tropeçar em nós sempre que se virar para o lado.

- Referes-te a mim.

- Refiro-me a nós.

Começava a desesperar

- Ele está sempre desejoso de me ver. Eu sei.

- Sim, tenho a certeza de que sim - retorqui suavemente. - Mas voltemos a Boscarva.

Lmbrei a mim mesma que, desde o princípio, antipatizara com Joss. Apesar da sua preocupação e aparente amizade, provocara-me sempre uma estranha sensação de inquietude, como se alguém se aproximasse sorrateiramente de mim pelas costas. Na véspera começara a esquecer essa antipatia, até mesmo a gostar dele, mas depois das confidências de Andrea não foi dificil fazer reviver as velhas desconfianças sentidas. Era demasiado bem-parecido, exageradamente encantador. Andrea podia ser uma mentirosa mas de tola nada tinha; passara a perna ao resto da família com precisão desconcertante, e mesmo que houvesse apenas um ligeiro vestígio de verdade no que afirmara, eu não queria ter nada a ver com o assunto.

Se eu o conhecesse e apreciasse mais, chamá-lo-ia de parte e pedir-lhe-ia contas sobre o que Andrea dissera. Como não era o caso, tudo carecia de importância para mim. Além disso, tinha outros assuntos em que pensar.

Naquele dia, Grenville não desceu para almoçar.

- Está cansado - disse-nos Mollie. - Vai passar o dia na cama. Talvez nos faça companhia ao jantar. Pettifer vai levar-lhe um tabuleiro lá acima.

De modo que almoçámos os três sozinhos. Mollie mudara para um elegante vestido de lã e pusera uma fiada dupla de pérolas. Ia, informou, jogar brídege a Fourbourne, com uns amigos. Esperava que eu não tivesse dificuldade em me entreter.

Retorqui que, como era evidente, ficaria óptima. Cada uma no seu lado da mesa, trocámos um sorriso e eu perguntei a mim mesma se ela teria realmente dito a Andrea que a minha mãe era uma desavergonhada, ou se se trataria simplesmente da interpretação dada por esta a alguma explicação vagamente eufemística apresentada por Mollie. Esperava que fosse o último caso, mas, ainda assim, teria preferido que Mollie não tivesse considerado necessário falar de Lisa a Andrea. Naquele momento estava morta, porém um dia fora divertida, encantadora e cheia de vontade de viver. Porque não recordá-la dessa maneira?

Ainda nos encontrávamos sentados à mesa quando, no exterior, o dia começou a mudar. Levantou-se um vento de oeste e um banco de nuvens cinzentas ganhou velocidade no céu azul, tapando o sol; a certa altura, começou a chover.

Foi debaixo desta chuva que Mollie, no seu pequeno carro saiu para o seu jogo de brídege, dizendo que voltaria por volta das seis da tarde. Andrea, possivelmente fatigada pelo exercício da manhã, desapareceu no seu quarto, levando a sua revista nova. Sozinha, detive-me ao fundo das escadas a pensar em como haveria de me entreter. O silêncio da tarde pardacenta era quebrado unicamente pelo tiquetaque do relógio de parede do meu avô e pequenos sons laboriosos vindos do lado da cozinha, que, investigados, provaram ser feitos por Pettifer, sentado a uma mesa de madeira da copa, a limpar a prataria.

Olhou para mim quando enfiei a cabeça pela abertura da porta.

- Olá. Não a ouvi.

- Como está o meu avô?

- Oh, está bem! Só ligeiramente cansado depois da agitação de ontem. Achámos que era melhor ele passar o dia estendido. A senhora Rogers já se foi embora?

- Já. - Puxei de uma cadeira e sentei-me ao lado de Pettifer.

- Pareceu-me ouvir o carro.

- Quer que o ajude?

- Seria muito simpático da sua parte... essas colheres precisam de uma boa esfregadela. Não se percebe porque ficam tão manchadas. Mas enfim, eu até sei. É o ar húmido da maresia. Se há algo com que a prata não se dê bem é o ar húmido da maresia.

Comecei a esfregar a colher de sopa fina e gasta. Pettifer olhou para mim por cima dos óculos.

- Engraçado tê-la aí sentada depois de todos estes anos. A sua mãe costumava passar a vida na cozinha. Quando Roger foi para o colégio interno, não tinha mais ninguém com quem falar. Portanto ganhou o hábito de vir até aqui fazer queques e jogar às cartas. Passámos bocados muito agradáveis. E em dias como o de hoje costumávamos fazer torradas no fogão de cozinha antigo... repare, agora já não existe, temos um novo e bem bom... mas aquele fogão velho era aconchegante, com o fogo a arder por detrás das grelhas e todos aqueles manípulos de cobre a brilharem de tão bem polidos.

- Há quanto tempo está em Boscarva, Pettifer?

- Desde que o comandante a comprou, em mil novecentos e vinte e dois. Foi no ano em que deixou a Marinha e decidiu ser pintor. A velha senhora Bayliss não gostou nada da ideia. Ficou sem lhe falar durante cerca de três meses.

- Porque ficou ela tão aborrecida?

- Toda a vida estivera ligada à Marinha. O pai era capitão do Imperious no tempo em que o comandante era primeiro-tenente. Foi assim que se conheceram. Casaram em Malta. Um lindo casamento, com arco de espadas e tudo. Estar na Marinha era muito importante para a senhora Bayliss. Quando o comandante disse que se ia retirar, foi o bom e o bonito, no entanto ela não conseguiu fazê-lo mudar de ideia. Portanto, saímos de Malta para sempre e o comandante encontrou esta casa, para a qual nos mudámos todos.

- E tem estado cá desde então?

- Mais ou menos. O comandante alistou-se no Slade, mas isso significava trabalhar em Londres, portanto arranjou um pequeno pied-à-terre perto de Saint James, e quando ia para Londres, eu acompanhava-o, para cuidar dele, enquanto a senhora Pettifer ficava aqui com a senhora Bayliss e Roger. A sua mãe ainda não tinha nascido.

- Mas, quando ele saiu do Slade...

- Bem, nessa altura voltámos definitivamente. E construiu o estúdio. Foi quando ele fez os seus trabalhos mais notáveis. Belas obras pintou então, paisagens grandiosas, tão precisas e límpidas que se podia cheirar o vento, sentir o sal nos lábios.

- Há muitos quadros nesta casa?

- Não muitos. Há o barco de pesca, por cima da lareira da sala de jantar, e um ou dois desenhos a carvão no vestíbulo do andar de cima. Tem três ou quatro no seu estúdio e depois uns dois no quarto onde a senhora Roger dorme.

- E aquele na sala de estar...

- Oh, sim, esse também, claro! Senhora Segurando Uma Rosa.

- Quem era ela?

Pettifer não respondeu; talvez estivesse concentrado nas suas pratas, esfregando um garfo com um vigor tal que parecia decidido a tirar-lhe o relevo.

- Quem era ela? A rapariga do quarto?

- Ah! - disse Pettifer. - Era Sophia.

Sophia. Sentiria vontade de conhecê-la desde que a minha mãe se referira a ela superficialmente, e agora Pettifer dizia o nome com a maior naturalidade do mundo.

- Era uma rapariga que costumava posar como modelo para o comandante. Penso que terá começado por trabalhar para ele em Londres, quando era estudante, mas depois acostumou-se a vir até cá de vez em quando, durante os meses de Verão, alojando-se em Porthkerris e trabalhando para todo o artista que estivesse disposto a pagar pelos seus serviços.

- Era muito bonita?

- Não satisfazia a minha ideia de beleza. Mas era muito viva... e que conversadora! Era irlandesa, de County Cork.

- Que pensava a minha avó de Sophia?

- Os seus caminhos nunca se cruzaram, da mesma maneira que a sua avó nunca teria contactos sociais com o carniceiro ou a rapariga que lhe arranjava o cabelo.

- Portanto Sophia nunca veio a Boscarva?

- Oh, sim, costumava ir e vir! Ficava lá em baixo no estúdio, com o comandante, até ele ficar cansado ou perder a paciência com ela e dar o dia por terminado; nessas alturas ela atravessava o jardim e entrava pela porta de trás a perguntar: "Há por aí uma chávena de chá para mim? " E como se tratava de Sophia, a senhora Pettifer tinha sempre a chaleira ao lume.

- Tinha o hábito de prever o futuro nas chávenas de chá.

- Quem foi que lhe contou?

- A minha mãe.

- É verdade, tinha. E disse-nos que iam acontecer coisas maravilhosas a todos nós. Claro que não se viu nada, mas mesmo assim era engraçado escutá-la. Ela e a sua mãe eram grandes amigas. Sophia costumava ir lá abaixo até à praia e a senhora Pettifer arranjava-lhes uma cesta de piquenique. Se o tempo estivesse mau, iam dar grandes passeios pela charneca.

- Mas que fazia a minha avó durante todo esse tempo?

- Oh, jogava brídege ou mahjong na maioria das tardes! Tinha um círculo de amigos muito seleccionado. Era boa senhora, porém pouco se interessava por crianças. Quem sabe se se tivesse interessado mais por Lisa quando criança, teria tido mais compreensão quando esta cresceu e talvez a sua mãe não tivesse fugido assim de casa, partindo-nos o coração a todos.

- Que aconteceu a Sophia?

- Oh, voltou para Londres, casou e teve um bebé, creio eu! Depois, em quarenta e dois, foi morta no Blitz. O bebé encontrava-se no campo e o marido no ultramar, mas Sophia ficara em Londres porque trabalhava num hospital da cidade. Durante muito tempo não soubemos nada dela, até muito depois de tudo ter acontecido. Para a senhora Pettifer e para mim foi como se uma luz se tivesse apagado na nossa vida.

- E o meu avô?

- Também teve muita pena, claro. Mas já não a via há anos. Não passava de uma antiga empregada.

- Existem mais quadros com ela?

- Existem quadros de Sophia em galerias de arte regionais, de norte a sul do país. Se quiser um deles, pode ir à de Porthkerris. E no quarto da senhora Rogers encontra dois.

- Podemos lá ir ver agora? - Falei com ansiedade e Pettifer mostrou-se surpreendido, como se eu estivesse a sugerir algo vagamente indecente. - Quero dizer, a senhora Bayliss não se importaria, pois não?

- Oh, não se importaria! Não vejo razão para não irmos. vamos.

Levantou-se com esforço, segui-o escada acima e percorremos o corredor do primeiro andar até ao quarto que ficava por cima da sala de estar; era grande e mobilado em estilo bem feminino, com peças vitorianas e uma alcatifa rosa e creme esbatida. Mollie deixara a divisão impecável. Os dois pequenos quadros a óleo pendiam ao lado um do outro entre as janelas, um com um castanheiro com uma rapariga deitada à sua sombra, no outro, a mesma rapariga a estender roupa numa corda em dia ventoso. Pouco mais eram do que esboços e senti-me desapontada.

- Continuo sem saber como Sophia era.

Pettifer ia replicar quando uma campainha soou nas profundezas da casa. Inclinou a cabeça, como os cães fazem ao escutar.

- É o comandante, ouviu-nos falar através da parede. Dê-me licença por um instante.

Segui-o até fora do quarto de Mollie e fechei a porta atrás de mim. Pettifer percorreu uma extensão curta do corredor, abriu uma porta e ouvi a voz de Grenville.

- Que estão vocês os dois a murmurar ali ao lado?

- Estava apenas a mostrar à menina Rebecca os dois quadros no quarto da senhora Rogers...

- Rebecca está aí? Diz-lhe que entre...

Assim fiz, passando por Pettifer. Greenville não estava na cama, mas sim sentado numa poltrona, com os pés apoiados num banco. Encontrava-se vestido mas tinha uma manta sobre os joelhos, e o tremeluzir da lareira acesa animava o quarto. Tudo estava arrumado e em ordem impecável, pairando no ar um odor ao Bay Rum que ele punha no cabelo.

Eu disse:

- Pensei que estivesse deitado.

- Pettifer levantou-me depois do almoço. Sinto-me terrivelmente aborrecido e inteiriçado quando fico na cama o dia inteiro. De que estiveram a falar?

- Pettifer mostrava-me alguns quadros seus.

- Imagino que os aches antiquados. Agora estão a voltar ao realismo, sabes, esses jovens artistas. Eu sabia que aconteceria. Tens de ficar com um dos meus quadros. Há pilhas deles no estúdio, que nunca foram tirados de lá. Fechei-o há dez anos e nunca mais lá voltei. Pettifer, onde está a chave?

- Bem guardada, senhor.

- Conseguirás que Pettifer te dê a chave e irás lá abaixo dar uma vista de olhos, para veres se encontras algo do teu agrado. Tens algum sítio onde o pendurar?

- Arranjei um apartamento em Londres. Precisa de um quadro.

- Pensei em algo mais que aqui está. Aquele jade que está no armário lá em baixo. Trouxe-o da China há muitos anos e ofereci-o a Lisa. Agora pertence-te. E um espelho que a tua avó lhe deixou... onde está isso, Pettifer?

- Na saleta, senhor.

- Bem, teremos de o trazer para baixo, dá-lhe uma limpeza. Tu gostarias de ficar com ele, não é verdade?

- Sim; gostaria. - Senti-me imensamente aliviada. Andara a pensar numa forma de tocar no assunto dos objectos pertencentes a minha mãe e agora, sem qualquer dificuldade, Grenville fizera- o por mim. Hesitei, mas depois, aproveitando a ocasião, mencionei o terceiro objecto. -... e havia uma escrivaninha.

- Hum? - Fixou em mim um olhar acutilante. Como sabes?

- A minha mãe falou-me do jade e do espelho, e disse que havia uma escrivaninha. - Ele continuou a fitar-me. Desejei imediatamente não ter tocado no assunto. - Quero dizer, não importa, era só para o caso de ninguém a querer... de não a querer. de não estar a ser usada...

- Pettifer, tens ideia dessa escrivaninha?

- Tenho, sim, senhor, agora que falou no assunto. Estava lá em cima no sótão, mas ultimamente não me lembro de a ver.

- Bem, então sê bom rapaz e procura-a quando tiveres um bocado de tempo. E põe mais uma acha de lenha no fogo.

Pettifer obedeceu. Grenville, observando-o, perguntou subitamente:

- Onde estão os outros? A casa está sossegada. Só se ouve o som da chuva:

- A senhora Roger saiu para o seu grupo de brídege. Acho que a menina Andrea está no seu quarto.

- Que tal uma chávena de chá? - perguntou-me Grenville, piscando-me o olho. - Apetece-te uma chávena de chá, não apetece? Ainda não tivemos oportunidade de nos conhecer um ao outro. Ou és tu que te vais abaixo durante o jantar ou sou eu que ando demasiado velho e doente para sair da cama. Fazemos um rico par, não achas?

- Terei muito prazer em tomar chá consigo.

- Pettifer, traz um tabuleiro.

- Não - disse eu. - Eu fá-lo-ei. Pettifer tem andado o dia todo a subir e a descer as escadas. Ele que descanse um pouco.

Grenville mostrou-se divertido.

- Está bem. Vai então buscar o chá e deliciemo-nos com um bom prato cheio de torradas com manteiga.

Viria a desejar, vezes e vezes sem conta, nunca ter tocado na questão da escrivaninha. É que não chegou a ser encontrada. Enquanto Grenville e eu tomávamos o nosso chá, Pettifer começou a procurá-la. Quando desceu para levar o tabuleiro, passara a casa a pente fino e não dera com a peça de mobília em lado nenhum.

Grenville teve dificuldade em acreditar no que ele lhe dizia.

- Não deves ter visto bem. Os teus olhos estão a ficar velhos como os meus.

- Dificilmente deixaria de ver uma escrivaninha - retorquiu Pettifer em tom vagamente ofendido.

- Talvez - contrapus - a tenham levado para ser restaurada ou algo do género.

Ambos olharam para mim como se eu fosse louca, pelo que me calei apressadamente.

- Estaria no estúdio? - alvitrou Pettifer.

- Que faria eu com uma escrivaninha no estúdio? Eu ali pintava, não escrevia cartas. Não quereria uma peça daquelas a ocupar-me espaço...

Grenville parecia estar a ficar muito agitado. Levantei-me.

- Oh, acabará por aparecer! - disse eu com a voz mais animada e tranquilizante que me foi possível.

Peguei no tabuleiro e levei-o para baixo. Pettifer veio ter comigo à cozinha, preocupado com o acontecido.

- Não faz bem ao comandante ter a menor preocupação... e não vai descansar enquanto não resolver este assunto, tenho a certeza.

- A culpa é minha. Não percebo porque mencionei sequer a escrivaninha.

- Mas eu tenho ideia dela. Só não me lembro de a ver ultimamente.

Comecei a lavar as chávenas e os pires, enquanto Pettifer pegava num pano de louça para os secar.

- E há mais um pormenor. Há uma cadeira Chippendale que fazia parte do conjunto... repare, não eram do mesmo estilo, mas a cadeira estava sempre em frente daquela escrivaninha. Tinha um estojo no assento, muito gasto, com pássaros, flores e coisas do género. Ora bem, também desapareceu. mas nem eu vou contar ao comandante nem a menina.

Prometi não o fazer.

- Seja como for - acrescentei -, para mim não tem importância.

- Não, mas tem para o comandante. Pode ter sido um artista, mas tinha uma memória de elefante e isso ele não perdeu. - Acrescentou em som sombrio: - Às vezes, mais valia.

Nessa noite, quando desci ao andar térreo, envergando, mais uma vez, a túnica castanha e prateada, encontrei Eliot na sala de estar, sem nenhuma outra companhia que não fosse a do seu cão, sempre presente. Estava sentado em frente da lareira a tomar uma bebida e a ler um jornal da tarde, e Rufus esticara-se, qual pele gloriosa, no tapete defronte da lareira. Ali, sob a luz do candeeiro, pareciam desfrutar plenamente da companhia um do outro, porém o meu aparecimento perturbou a tranquila cena e Eliot levantou-se, deixando cair o jornal no assento da poltrona.

- Rebecca, como está?

- Bem, obrigada.

- Ontem à noite tive receio de que adoecesse.

- Não. Estava apenas fatigada. Dormi até às dez da manhã.

- A minha mãe contou-me. Quer uma bebida?

Respondi que sim e Eliot serviu-me um pouco de xerez e eu fui acocorar-me ao pé da lareira, a acariciar as orelhas sedosas do cão.

Quando Eliot me trouxe a bebida, perguntei:

- Ele vai para todo o lado consigo?

- Sim, para todo o lado. Para a garagem, o escritório, o almoço, os pubs, para onde quer que vá. É um cão muito conhecido nesta parte do mundo.

Sentei-me no tapete e Eliot instalou-se, mais uma vez, na sua poltrona e pegou na bebida. Disse:

- Amanhã tenho de ir a Falmouth falar com um indivíduo por causa de um carro. Não sei se gostaria de ir comigo, conhecer melhor a região. Que tal acha a ideia?

Fiquei surpreendida pelo próprio prazer sentido perante semelhante convite.

- Adoraria.

- Não será muito excitante. Mas talvez possa entreter-se por uma hora ou duas enquanto trato do negócio, e depois, no caminho de volta, pararemos num bar meu conhecido. Têm um marisco delicioso. Gosta de ostras?

- Gosto.

- Óptimo. Eu também. E depois poderemos vir por High Cross a fim de conhecer o sítio onde minha mãe e eu vivemos.

- A sua mãe falou-me nele. Deve ser encantador.

- Melhor que este mausoléu...

- Oh, Eliot, não é nenhum mausoléu!

- Nunca fui muito inclinado a relíquias vitorianas... Antes que eu pudesse protestar mais, Grenville veio para junto de nós. Pelo menos sentimo-lo descer, degrau a degrau, as escadas; ouvimo-lo falar com Pettifer, a voz sonora e o murmúrio sumido; depois chegou-nos o ruído da bengala de Grenville a bater no soalho de madeira polida, ao longo do corredor.

Eliot fez-me uma careta e foi abrir a porta, deixando entrar Grenville, que fazia lembrar a proa de um navio enorme e indestrutível...

- Deixa estar, Pettifer. Já me desenvencilho sozinho.

Eu levantara-me do tapete com a intenção de ajudar a puxar para a frente a poltrona que o vira utilizar na noite anterior, mas o gesto pareceu enfurecê-lo. Estava, nitidamente de mau humor.

- Por amor de Deus, miúda, deixa-te estar sossegada.

Achas que quero a poltrona no meio do fogo... ainda ardia se ficasse aqui sentado...

Puxei a poltrona para a sua posição original e, por fim Grenville aproximou-se e deixou-se afundar nela.

- Quer uma bebida? - ofereceu Eliot.

- Tomarei um uísque...

Eliot mostrou surpresa.

- Uísque?

- Sim, um uísque. Sei o que esse parvo do médico disse mas esta noite quero tomar um uísque.

Eliot não fez nenhuma observação, limitou-se a esboçar um sinal de aquiescência com a cabeça e foi servir a bebida.

Enquanto isso, Grenville inclinou-se de lado, na poltrona, e perguntou:

- Eliot, viste aquela escrivaninha em algum lado?

O coração caiu-me aos pés:

- Oh, Grenville, não comece a preocupar-se novamente com a questão.

- Que queres dizer com essa de "preocupar-se novamente"? Temos de dar com o malfadado móvel. Foi o que ainda agora disse a Pettifer, há que procurá-lo até ser encontrado.

Eliot acercou-se com um copo de uísque. Aproximou uma mesinha e colocou o copo ao alcance de Grenville.

- Que escrivaninha? - perguntou pacientemente.

- Aquela escrivaninha que costumava estar num dos quartos. Pertencia a Lisa e agora é de Rebecca. Ela quer levá-la. Tem um apartamento em Londres e quer pô-la lá. E Pettifer não consegue encontrá-la, diz que passou a casa a pente fino mas não deu com ela. Por acaso não a viste?

- Nunca lhe pus os olhos em cima. Nem sequer sei o que é uma escrivaninha.

- É uma secretária pequena. Tem gavetas em baixo e o tampo é forrado a couro. Creio que hoje em dia são raras. Valem muito dinheiro.

- O mais provável é que Pettifer a tenha guardado nalgum sítio e depois esqueceu-se.

- Pettifer não se esquece de nada.

- Bem, talvez a senhora Pettifer lhe tenha dado algum destino e esqueceu-se de lhe contar.

- Eu já disse: Pettifer não se esquece das coisas. Nessa altura apareceu Mollie, a sorrir determinadamente, como se tivesse ouvido a voz irada erguer-se do outro lado da porta fechada e viesse lançar água na fervura.

- Olá a todos, desculpem ter chegado um pouco tarde. Tive de ir preparar aqueles linguados deliciosos que Rebecca me comprou esta manhã. Como estás, Eliot, querido... deu-lhe um beijo, vendo-o, aparentemente, pela primeira vez nessa tarde e o Grenville... - voltou a inclinar-se para também lhe dar um beijo. - Está com ar mais repousado.

- Logo em seguida, antes que ele lhe pudesse responder, olhou para mim por cima da cabeça dele e perguntou: Passaste bem a tarde?

- Sim, obrigada, Que tal foi o brídege?

- Nada mau. Ganhei vinte libras. Eliot querido, adoraria uma bebida. Andrea vem já para baixo. Não demora...

Teve, no entanto, de suspender a conversa defensiva e Grenville aproveitou para fazer imediatamente fogo.

- Desapareceu-nos uma coisa - declarou.

Que foi que lhe desapareceu? Novamente os botões de punho?

- Desapareceu-nos uma escrivaninha.

Grenville relatou-Lhe então, para sua informação, todo o processo. Mollie, ao saber que fora eu quem desencadeara a crise, fitou-me um tanto reprovadoramente, como se achasse que era uma maneira muito ingrata de lhe retribuir a hospitalidade. Sentia-me inclinada a concordar com ela.

- Mas tem de estar nalgum lado. - Tirou o copo a

Eliot, bebeu um gole, puxou de um banco e sentou-se, perfeitamente pronta a aprofundar o assunto. - Deve ter sido guardada nalgum lado como medida de precaução.

- Pettifer andou à procura dela.

- Talvez lhe tenha escapado. Que está a precisar de mudar de óculos, tenho eu a certeza. Possivelmente meteu o móvel nalgum canto e esqueceu-se.

Grenville bateu com o punho no braço da poltrona.

- Pettifer não se esquece de nada.

- A verdade - disse Eliot friamente - é que passa a vida a esquecer-se das coisas.

Grenville fixou nele um olhar trespassante.

- E que queres tu dizer com isso?

- Nada de pessoal. Apenas que está a ficar velho.

- Imagino que estejas a culpar Pettifer...

- Não estou a culpar ninguém...

- Acabaste de afirmar que está demasiado velho para saber o que faz. Se ele está demasiado velho, como raio achas que eu estou?

- Eu nunca dìsse que...

- Culpaste-o a ele...

Eliot perdeu a paciência.

- Se houvesse que culpar alguém - declarou, erguendo a voz quase até ao tom da de Grenville -, faria algumas perguntas ao jovem Joss Gardner. - Depois de semelhante tirada, fez uma pausa. Mas depois, em voz mais controlada e razoável, continuou: - Está bem, portanto ninguém quer acusar outro homem de roubar. Mas Joss entra e sai desta casa quando muito bem lhe apetece, tem livre acesso a todas as dependências. Conhece o que está aqui dentro melhor que ninguém. E é um perito, sabe o que tem valor.

- Mas porque levaria Joss uma secretária? - perguntou Mollie.

- Uma secretária valiosa. Não se esqueça desse aspecto. É rara e valiosa, conforme Grenville afirmou. Talvez precisasse de dinheiro. Basta olhar para ele para perceber que lhe daria jeito arranjar mais uns dinheiros extra. E é um perito. Vai a Londres frequentemente. Saberia onde vendê-la.

Calou-se abruptamente, como que percebendo que já falara de mais. Terminou o seu uísque e, sem proferir mais qualquer palavra, foi servir-se de uma segunda dose.

O silêncio tornou-se incomodativo. Para o quebrar, Mollie apressou-se a dizer:

- Não me parece que Joss...

- Isso não passa de conversa fiada - interrompeu-a Grenville sem contemplações.

Eliot pousou a garrafa com um baque sonoro.

- Como é que sabe? Que é que sabe acerca de Joss Gardner? Ele aparece, fazendo lembrar um hippy, vindo não se sabe de onde, diz que vai abrir uma loja e a seguir o senhor abre-lhe as portas desta casa e põe-no a trabalhar no restauro de toda a mobília. Que sabe de Joss? Que sabe qualquer de nós acerca dele?

- Sei que posso confiar nele. Fui treinado para saber julgar o carácter de um homem.

- Pode enganar-se.

Grenville levantou a voz de modo a sobrepô-la à de Eliot. e acharia boa ideia tu aprenderes a escolher as companhias.

Os olhos de Eliot estreitaram-se.

- Que quer dizer com isso?

- Quero dizer que se queres fazer figura de parvo, tenta negociar com esse charlatão do Ernest Padlow.

Se naquele momento tivesse forma de fugir dali, tê-la-ia aproveitado. Infelizmente, porém, estava presa a um canto atrás da poltrona ocupada por Grenville.

- Que sabe o senhor de Ernest Padlow?

- Sei que tens sido visto com ele... a beber pelos bares...

Eliot lançou-lhe um olhar de relance e depois disse, por entredentes:

- Aquele maldito do Joss Gardner!

- Não foi Joss quém me contou, foi o Hargreaves, do banco: Esteve cá a tomar um cálice de xerez comigo no outro dia. E a senhora Thomas veio aqui acender-me a lareira esta manhã e disse que te tinha visto com Padlow ao pé daquele pesadelo imprestável que ele designa de empreendimento urbanístico.

- Má-língua de quem está por fora do assunto.

- Ouvem-se verdades de pessoas responsáveis. Não importa em que direcção vivem. E se pensas que venderei as minhas terras àquele vigarista insignificante, tira daí o sentido...

- As terras não serão sempre suas.

- E se tens tanta certeza de que virão a ser tuas, só te digo que não contes com o ovo no traseiro da galinha. Porque tu, meu caro rapaz, não és o único neto que tenho.

E nesse momento dramático, como se se tratasse de uma peça impecavelmente encenada, a porta abriu-se e Andrea apareceu para nos informar que Petifer lhe pedira que anunciasse que o jantar estava na mesa.

Nessa noite tive dificuldade em dormir. Dei voltas sem conta na cama, fui buscar um copo de água, passeei pelo quarto, olhei pela janela, voltei para a cama e, mais uma vez, tentei recobrar a serenidade mas sempre que fechava os olhos o acontecimento ao fim da tarde voltava a desenrolar-se como se fosse um filme passado repentinamente, as vozes a martelarem-me incessantemente os ouvidos.

"Está bem, portanto ninguém quer acusar o outro indivíduo de roubo. Que sabe qualquer de nós acerca de Joss Gardner? "

"Se quiseres fazer figura de parvo, tenta negociar com esse charlatão do Ernest Padlow. E se pensas que venderei as terras a esse vigarista insignificante, tira daí o sentido... "

"As terras não serão sempre suas... "

"... tu, meu caro rapaz, não és o único neto que tenho. "

O jantar fora uma refeição horrível. Eliot e Grenville mal disseram uma palavra do princípio ao fim. Mollie, para compensar o seu silêncio, não parara de tagarelar sem sentido enquanto eu tentava acompanhá-la. E Andrea observava-nos com um brilho de triunfo nos olhos redondos e doentios, enquanto Pettifer andava pesadamente de um lado para o outro, tirando os pratos, servindo um souflé de limão enfeitado com chantilly que ninguém parecia querer. Quando finalmente acabou, todos dispersaram. Grenville retirou-se para os seus aposentos, Andrea foi para a saleta, de onde, a certa altura, me chegou o som muito alto de um televisor ligado. Eliot, sem explicações, vestiu um casaco, assobiou ao cão e saiu intempestivamente porta fora. Calculei que fosse embebedar-se e não o censurei inteiramente pelo facto. Mollie e eu acabámos na sala de estar, em frente da lareira, em extremos opostos. Andava a fazer tapeçaria e parecia perfeitamente preparada para ficar sentada a bordar em silêncio, mas tal teria sido insuportável. Indo directamente à desculpa que eu achava que lhe devia:

- Peço desculpa pelo que se passou esta noite. Quem me dera nunca ter tocado na questão da tal secretária.

Mollie não olhou para mim.

- Oh, não tem importância!

- Acontece apenas que a minha mãe falara-me nela e quando Grenville mencionou o jade e o espelho, bem, não me passou pela cabeça que pudesse desencadear tal tempestade num copo de água.

- Grenville é um velho estranho. Foi sempre teimoso em relação às pessoas, nunca conseguiu ver que uma situação pode ter duas facetas.

- Refere-se a Joss...

- Não percebo porque é tão apegado a Joss. Chega a assustar. É como se Joss fosse capaz de exercer alguma espécie de poder sobre ele. Eliot e eu nunca o quisemos nesta casa. Se a mobília de Grenville precisava de ser restaurada, com certeza ele podia tê-la vindo buscar na sua carrinha e levado para a sua oficina, como faria qualquer comerciante. Tentámos dissuadir Grenville mas ele foi inabalável. E, vendo bem, esta é a sua casa, não a nossa.

- Mas um dia será de Eliot.

- Depois desta noite, duvido muito.

- Oh, Mollie, eu não quero Boscarva, Grenville nunca deixaria um lugar como este para mim! Ele só fez aquela afirmação para arreliar; talvez tenha sido a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Não falou a sério.

- Magoou Eliot.

- Eliot há-de compreender. Há que fazer concessões às pessoas de idade.

- Estou cansada de fazer concessões a Grenville - disse Mollie, cortando raivosamente um fio de lã com a tesoura de prata. - A minha vida foi completamente perturbada por ele. Ele e Pettifer podiam ter ido viver para High Cross; era essa a nossa vontade. A casa é mais pequena e mais fácil de cuidar, e teria sido melhor para todos. E Boscarva devia ter sido passada para o nome de Eliot há anos. Assim os direitos de transmissão por morte vão ser exorbitantes. Eliot nunca conseguirá mantê-la. Toda a situação é tão irrealista...

- Suponho que é dificil ser realista quando se tem oitenta anos e se viveu numa casa quase toda a vida.

Mollie ignorou o meu comentário.

- E toda aquela terra, mais a quinta. Eliot está simplesmente a tentar tirar o melhor proveito de tudo, mas Grenville não quer ver essa realidade. Nunca mostrou qualquer interesse, nunca deu o mínimo incentivo a Eliot. Até mesmo em relação à garagem de High Cross, Eliot fez aquele negócio andar à sua própria custa. No princípio pediu ajuda ao avô, mas Grenville disse que não queria ter nada a ver com carros em segunda mão, tiveram uma briga e, no fim, Eliot arranjou o dinheiro junto de outra pessoa; a partir daí nunca mais pediu uma moeda ao avô. Seria de esperar que isso o tornasse digno de maior consideração.

Estava pálida de raiva por causa de Eliot. "Um pequeno tigre fêmea", pensei, "a lutar pela sua cria. " Lembrei-me então da baixa opinião que a minha mãe tinha em relação à maneira como ela dominava e estragava de mimos o jovem Eliot. Quem sabe nenhum dos dois se tivesse desligado jamais desse hábito.

Para mudar de assunto, falei-lhe no convite que Eliot me dirigira para o dia seguinte.

- Disse que me levaria até High Cross à vinda. Mollie, porém, quase não se deixou desviar do assunto.

- Deves entrar e ver a casa, Eliot tem a chave. Eu vou até lá todas as semanas para me certificar de que está tudo em ordem, mas de facto fico tão deprimida por ter de deixar a minha querida casinha e voltar para este lugar tenebroso...

- Mas nesse momento deitou a rir de si própria, de forma esquisita. - Está mesmo a deitar-me abaixo, não está? Tenho de fazer um esforço para me recompor. Mas na verdade será um alívio quando tudo terminar.

Quando tudo terminar. Isso significava quando Grenville finalmente morresse. Não queria pensar no meu avô morto da mesma maneira que não desejava imaginar Joss a emparceirar com a sensaborona da Andrea; assim como também não queria imaginar Joss a tomar posse de uma escrivaninha e de uma cadeira Chippendale, a levá-las na parte de trás da sua carrinha para as vender ao primeiro comerciante que lhe fizesse uma boa oferta.

"Que sabe o senhor de Joss? Que sabe qualquer de nós acerca dele? "

Pela minha parte, desejaria não saber de nada. Dei mais uma volta na cama, ajeitei a almofada e esperei, sem grande esperança, pelo sono. Choveu durante a noite, mas, na manhã seguinte, reinava a calmaria e o céu estava límpido, de um azul-claro e esbatido, tudo molhado e reluzente, tornado translúcido pela luz fria da Primavera. Inclinei-me para fora da janela e senti o cheiro da humidade, musguento e doce. O ar estava raso e azul como um lençol de seda, gaivotas pairavam indolentemente sobre a beira do penhasco, um barco saía do porto, em direcção a áreas de pesca longínquas, e o ar mostrava-se tão parado que conseguia ouvir o barulho distante do seu motor.

Fiquei mais animada. O dia anterior passara, aquele seria melhor. Sentia-me satisfeita com a perspectiva de sair de casa, afastar-me da censura de Mollie e da presença desestabilizadora de Andrea. Tomei banho, vesti-me, desci ao rés-do-chão e encontrei Eliot na sala de jantar, a comer ovos com bacon e com uma aparência - fiquei grata pelo facto animada.

Ergueu os olhos do jornal da manhã.

- Já estava a pensar - disse - se não seria melhor ir lá acima acordá-la. Pensei que talvez se tivesse esquecido.

- Não, não esqueci.

- Somos os primeiros a descer. Com um pouco de sorte, sairemos de casa antes de aparecer mais alguém. - Riu maliciosamente, como um rapaz traquinas. - A última coisa que me apetece numa manhã como esta são recriminações.

- A culpa foi toda minha por ter mencionado a malfadada da secretária. Ontem à noite pedi desculpa à sua mãe.

- Há-de passar - disse Eliot. - É o que acontece sempre com estas pequenas diferenças de opinião. - Servi-me de uma chávena de café.

- Realmente lamento profundamente tê-los envolvido no assunto.

Saímos logo após o pequeno-almoço; instalei-me no carro de Eliot. Com Rufus empoleirado no banco de trás e sair estrada fora proporcionou uma sensação maravilhosa. O carro trovejou colina acima, afastando-se de Boscarva; a estrada molhada reflectia o azul do céu e o ar cheirava a primaveras. À medida que subíamos, elevando-nos em relação à charneca, a paisagem espraiava-se diante de nós - viam-se colinas encimadas por pedras aglomeradas ou de pé, e minúsculas aldeias esquecidas, aninhadas entre as dobras de vales inesperados por onde corriam pequenos rios, e velhos grupos de carvalhos e ulmeiros, entremeados de pontes estreitas e corcovadas.

Contudo, eu sabia que não poderíamos desfrutar do nosso dia juntos, que não ficaríamos completamente à vontade sem eu, antes disso, fazer as pazes com ele.

Disse:

- Sei que passará e que talvez não tenha sido importante, mas temos de falar sobre o que se passou ontem à noite.

Eliot sorriu-me, olhando para um lado e para o outro.

- Sobre que temos de falar?

- Apenas sobre o que Grenville declarou, que tinha outro neto. Não falava a sério. Tenho a certeza.

- Não, talvez não falasse. Quem sabe, tentasse apenas atiçar-nos um contra o outro, como um par de cães.

- Ele nunca me deixará Boscarva. De forma alguma. Nem sequer me conhece, acabei de entrar na sua vida.

- Rebecca, não pense mais nisso. Eu não tenciono fazê-lo.

- E, afinal de contas, se irá ser sua um dia, não percebo porque não há-de começar a pensar no que há-de fazer.

- Refere-se a Ernest Padlow? Que bando de mexeriqueiros essa gente é, a inventar histórias e a criarem mal-entendidos. Se não é o gerente do banco é a senhora Thomas, e se não é a senhora Thomas é Pettifer.

Fiz os possíveis por falar com naturalidade.

- Venderia a terra?

- Se o fizesse, provavelmente poderia dar-me ao luxo de viver em Boscarva. É tempo de me estabelecer por conta própria.

- Mas. - escolhi as palavras com todo o tacto – não seria um... desperdício... quero dizer, viver ali com as fileiras das casinhas do senhor Padlow a toda a volta?

Eliot riu.

- Tem uma ideia completamente diferente da realidade. Não seria um empreendimento como o do topo da colina. Seria material de grande classe, em lotes de dois acres, especificações muito seleccionadas quanto ao estilo e ao preço das casas neles construídas. As árvores ficariam, nenhum dos encantos do lugar seria cerceado. Seriam casas dispendiosas para pessoas abastadas, e não seriam muitas. Que Lhe parece?

- Falou a Grenville desse projecto?

- Ele não mo permite. Não me dá ouvidos. Não está interessado e acabou-se.

- Mas certamente, se explicasse...

- Toda a vida tentei explicar-lhe coisas e nunca cheguei a lado nenhum. E agora, de que mais deseja falar?

Reflecti. Não me apetecia nada falar sobre Joss. Respondi:

- De mais nada.

- Nesse caso, que tal deitarmos o que se passou ontem à noite para trás das costas e passarmos um bom bocado?

Parecia boa ideia. Sorrimos um para o outro.

- Está bem - disse eu, por fim.

Atravessámos a ponte e chegámos ao sopé de uma colina íngreme; Eliot manejou a alavanca antiquada das mudanças com mão experiente, metendo a primeira. O automóvel galgou o declive acentuado, com a capota elegante a apontar para o céu.

Chegámos a Falmouth por volta das dez horas. Enquanto Eliot tratava dos seus negócios, fiquei entregue a mim mesma na exploração da pequena cidade. Voltada a sul, abrigada do vento norte, com jardins naquela altura já repletos de camélias e aglomerados de loureiro perfumado, fez-me lembrar um porto mediterrânico, impressão que foi acentuada pelo azul do mar naquele primeiro dia primaveril, e pelos mastros altos dos iates ancorados na baía.

Senti-me, por alguma razão, impelida a fazer compras. Arranjei frésias para Mollie, compostas num ramo bem apertado e com musgo em volta dos caules para lhes conservar a humildade até eu chegar a casa, uma caixa de charutos para Grenville, uma garrafa de xerez de frutos para Pettifer, um disco para Andrea. A capa mostrava um grupo de travestis com lantejoulas nas pálpebras. Pareceu-me perfeitamente adequado aos gostos da jovem. E para Eliot... Eu reparara que a correia do seu relógio de pulso começava a ficar gasta. Encontrei uma outra, estreita, em pele escura de crocodilo, muito cara, que parecia mesmo indicada para Eliot. Em seguida comprei um tubo de pasta dentífrica para mim, pois fazia-me falta. E para Joss?... Nada para Joss. Eliot foi buscar-me, tal como combináramos, à sala de estar do hotel enorme que se erguia no meio da cidade. Saímos do burgo a toda a velocidade, atravessámos Truro e descemos para o meio do pequeno labirinto de azinhaga e riachos arborizado que se espraiavam à nossa frente, até chegarmos a uma aldeia chamada St. Endon, onde havia cabanas brancas, palmeiras e jardins cheios de flores. A estrada descia, serpenteante, em direcção ao riacho, e mesmo ao fundo via-se um pequeno pub, mesmo à beira da água, com a maré alta a lamber-lhe o muro por baixo do terraço. Pequenas gaivotas empoleiradas ao longo do seu telhado miravam-nos com olhos brilhantes e amistosos, ao contrário das suas congéneres, de maior porte e vorazes, de Boscarva.

Sentámo-nos ao sol, a beber xerez, e, aproveitando a ocasião, entreguei a Eliot o presente; este pareceu ficar excessivamente contente, arrancando imediatamente a correia antiga e substituindo-a pela nova, de pele reluzente e ajustando os pequenos filamentos metálicos com a ponta do canivete.

- Que foi que a levou a lembrar-se de me oferecer isto?

- Reparei que a outra estava muito usada. Pensei que pudesse vir a perder o relógio.

Eliot reclinou-se na cadeira, fitando-me do outro lado da mesa. Estava tanto calor que despira a camisola e arregaçara as mangas da camisa de algodão. Perguntou-me:

- Comprou presentes para todos?

Senti-me embaraçada.

- Comprei.

- Bem me pareceu que trazia muitos embrulhos. Tem o hábito de comprar presentes para as pessoas?

- É agradável ter pessoas a quem oferecer presentes.

- Não tem ninguém em Londres?

- Não, de facto.

- Ninguém especial?

- Nunca houve ninguém especial.

- Não posso acreditar.

- É verdade.

Não era capaz de perceber por que confiava nele daquela maneira. Talvez tivesse algo a ver com o calor do dia, surpreendendo-me com a sua prodigalidade, derrubando todas as minhas barreiras defensivas. Talvez fosse o xerez. Talvez se tratasse, muito simplesmente, da intimidade criada entre duas pessoas que tivessem suportado uma tempestade como a que ocorrera na noite anterior. Fosse qual fosse a razão, naquele dia era fácil falar com Eliot.

- Qual a razão?

- Não sei. É possível que tenha algo a ver com a forma como fui educada... a minha mãe mudava constantemente de homem, portanto eu também vivia com eles. E não há nada como viver intimamente com uma pessoa para destruir aquela maravilhosa ilusão de romance.

Rimos.

- Isso pode ser bom - disse Eliot. - Mas também

pode ser mau. Não deve fechar-se por completo. Caso contrário, ninguém se aproximará jamais de si.

- Eu estou bem.

- Tenciona voltar para Londres?

- Tenciono.

- Em breve?

- Provavelmente.

- Porque não fica algum tempo?

- Não quero abusar da hospitalidade.

- Não será o caso. E eu mal falei consigo. De qualquer maneira, como conseguirá regressar a Londres e deixar tudo isto para trás?...

Fez um gesto que abrangeu o céu, o sol, a tranquilidade o bater suave da ondulação, a promessa da Primavera prestes a chegar.

- Posso, porque não tenho outro remédio. A tal me obriga o emprego, um apartamento que precisa de pintura e uma vida para retomar e levar para a frente.

- Isso não pode esperar?

- Não indefinidamente.

- Não há razão para partir.

Não respondi.

- A não ser - prosseguiu Eliot - que se deixe abater pelo sucedido ontem à noite.

Sorri e sacudi a cabeça, pois combináramos não voltar a tocar no assunto. Eliot inclinou-se sobre a mesa, de queixo apoiado.

- Se realmente quisesse um emprego, poderia arranjar um aqui. Se desejasse um apartamento, para poder morar sozinha, também poderia alugar um aqui.

- Porque haveria de ficar?

No entanto, tanta persuasão lisonjeou-me.

- Porque seria bom para Grenville, Mollie e eu. Porque acho que todos nós queremos que fique. Especialmente eu.

- Oh, Eliot...

- É verdade. Há algo de muito sereno em si. Sabia? Eu reparei nessa particularidade na primeira noite em que a vi, ainda nem sequer sabia quem era. E gosto do formato do seu nariz, do som das suas gargalhadas e da maneira como parece maravilhosamente desarranjada num minuto, dejeans e com o cabelo todo desalinhado, e como uma princesa de conto de fadas no momento seguinte, com a sua trança impecável caída sobre o ombro e aquele vestido majestoso que usa à noite. Tenho a impressão de descobrir coisas novas a seu respeito a cada dia que passa. E é por essa razão que não tenho vontade que parta. Pelo menos por enquanto.

Descobri que não era capaz de arranjar réplica para aquele longo discurso. Fiquei sensibilizada por ele, mas também embaraçada. Mas, mesmo assim, era gratificante ser apreciada e admirada, e ainda mais saber do facto.

Do outro lado da mesa, Eliot começou a rir de mim.

- O seu rosto não deixa esconder nada. Não sabe para onde olhar e corou. Vá, termine a sua bebida e vamos às os tras. prometo não lhe dirigir mais nenhum elogio.

Almoçámos longa e despreocupadamente na pequena sala de jantar de tecto baixo, numa mesa que balançava de tal maneira no piso irregular que Eliot foi obrigado a enfiar um pedaço de jornal dobrado debaixo de uma das pernas. Comemos ostras, bife acompanhado de salada verde fresca e bebemos uma garrafa de vinho inteira. Levámos as chávenas de café para o sol e sentámo-nos na beira do muro do terraço a observar dois rapazes, bronzeados e de pernas nuas, a lançarem um bote às águas azuis do riacho e a zarparem nele. Vimos a vela às riscas enfunar-se com alguma brisa misteriosa e não sentida, ao mesmo tempo que o bote adernava, afastando-se de nós e desaparecendo do outro lado de um promontório arborizado. Foi então que Eliot disse que se eu ficasse na Cornualha, ele compraria um barco e ensinar-me-ia a velejar; iríamos à pesca de linguados em Porthkerris - no Verão mostrar-me-ia as covas minúsculas e os lugares secretos que os turistas nunca descobriam.

Chegou, finalmente, a altura de partirmos, depois de a tarde se ter desenrolado como uma fita comprida e reluzente.

Sonolento e repleto, Eliot conduziu-me lentamente a High Cross, enveredando pela estrada mais longa, que se estendia por entre aldeias esquecidas e no coração da área.

Ao chegarmos a High Cross, apercebi-me de que o lugar se situava mesmo no alto da península, de modo que a aldeia tinha dois aspectos, um para norte, do lado do Atlântico, outro para sul, deitado para o canal; era como estar numa ilha, varrida por ventos e rodeada pelo mar. A garagem de Eliot erguia-se no meio da aldeia, ligeiramente recuada em relação à rua, sendo o acesso feito por um pátio de pedras arredondadas, com vasos de flores; no lado de dentro da sala de exibição, de portas envidraçadas, viam-se os carros reluzentes e velozes. Tinha tudo um aspecto muito caro e novo, com uma apresentação excelente. Ao atravessarmos o pátio em direcção às salas de exposição, senti curiosidade em saber quanto Eliot empenhara em tal empreendimento e porque o considerara viável naquela área tão pouco central.

Eliot empurrou uma das portas envidraçadas para o lado e eu entrei, sem fazer um som, no piso muito polido forrado a borracha.

- Que foi que o levou a montar a sua garagem aqui Eliot? Não teria sido preferível em Fourbourne, Falmouth ou Penzance?

- Venda psicológica, minha querida. É arranjar um bom nome que as pessoas vêm dos pontos mais afastados do planeta para comprar o que temos para vender. - E acrescentou, com uma candura desarmante: - Além disso, a terra já era minha, ou da minha mãe, melhor dizendo, o que representou um incentivo excelente para construir a garagem.

- Todos estes automóveis estão à venda?

- Exacto. Como pode ver, concentramo-nos em carros do continente e de desporto. A semana passada tivemos aqui um Ferrari, que já foi vendido. Sofrera um acidente mas eu tenho aqui um jovem mecânico a trabalhar para mim que depressa o pôs como novo...

Pousei a mão numa capota amarela brilhante.

- Que carro é este?

- Um Lancia Zagato. E este é um Alfa Romeo Spyder só com dois anos. Uma maravilha de carro.

- E um Jensen Interceptor.

Esse reconhecera eu.

- Venha ver a oficina.

Segui-o por outra porta corrediça situada ao fundo da sala de exposição e achei que, então sim, deparara com algo que se aproximava do conceito que eu tinha sobre o que devia ser uma garagem. Via-se o habitual amontoado de motores desmantelados, latas de óleo, longos cabos a penderem do tecto, lâmpadas nuas, bancadas de ferramentas, pneus velhos e tróleis.

No meio de tudo aquilo estava uma figura inclinada sobre o motor aberto de um carro desmontado. Usava uma máscara de soldar que o fazia parecer um monstro e trabalhava com a chama azul trovejante de um maçarico. Ao barulho deste sobrepunha-se a música ruidosa e contínua de um transístor surpreendentemente pequeno, colocado sobre uma trave por cima dele.

Quer nos tenha visto chegar ou não, o certo é que só quando Eliot desligou o rádio é que ele apagou o maçarico e se endireitou, tirando a máscara protectora do rosto. Vi um jovem magro e moreno, sujo de óleo e a precisar de fazer a barba, de cabelo comprido e olhos vivos e brilhantes.

- Olá, Morris - cumprimentou Eliot.

- Olá.

- Apresento-te Rebecca Bayliss, de passagem por Boscarva.

Pegando nos cigarros, Morris olhou para mim com indiferença e dirigiu-me um aceno de cabeça. Eu disse "Como está", só para ser amigável, mas não recebi resposta. Ele acendeu o cigarro, depois voltou a enfiar o isqueiro requintado num dos bolsos do fato-macaco.

- Pensei que vinhas cá esta manhã - disse Morris a Eliot.

- Disse-te que ia a Falmouth.

- Alguma sorte?

- Um Bentley de mil novecentos e trinta e três.

- Em que estado?

- Não me pareceu mau. Um pouco de ferrugem.

- Tira-se a tinta velha. No outro dia apareceu um tipo que queria um.

- Eu sei, foi por isso que o comprei. Amanhã, ou noutro dia, convém irmos buscá-lo com o reboque.

Ficaram em silêncio. Morris foi até junto do seu transístor e voltou a ligá-lo, pondo a música mais alta do que anteriormente. Olhei para a confusão de engenharia em que ele estivera a trabalhar e, por fim, perguntei a Eliot que tipo de carro fora originariamente.

- Um Jaguar Xl6 de quatro litros vírgula dois, se de facto Lhe interessa saber. É o que voltará a ser quando Morris terminar. Foi mais um carro acidentado.

Morris aproximou-se, colocando-se entre os dois.

- Que lhe está a fazer, exactamente? - perguntei-lhe.

- A endireitar o châssis e a alinhar a direcção.

- E quanto aos calços dos travões? - quis saber Eliot.

- Podia ter posto calços de travões novos, mas arranjei os velhos por causa da garantia... e o senhor Kemback telefonou de Birmingham...

Começaram a falar animadamente. Eu afastei-me, ensurdecida pelo som de rock, e, atravessando a sala de exposi ção, voltei até ao pátio, onde Rufus esperava, com dignidade e paciência, atrás do volante do carro de Eliot. Ficámos os dois sentados ao lado um do outro, até Eliot se juntar a nós.

- Desculpe, Rebecca; quis saber de um outro trabalho. Morris é um óptimo mecânico, mas melindra-se se também tem de atender o telefone.

- Quem é Kemback? Outro cliente?

- Não, não exactamente. Esteve cá o Verão passado, em férias. Dirige um motel e uma garagem, mesmo à beira da estrada seis. Possui uma bela colecção de automóveis antigos. Quer abrir um museu, sabe, uma espécie de linha secundária ao negócio do motel. Parece que me quer pôr à frente do negócio.

- Quer dizer, ir viver para Birmingham?

- Não parece muito tentador, pois não? De qualquer modo, é assim. Venha conhecer a casa da minha mãe.

Fomos a pé até ao fundo da rua, depois subimos por uma azinhaga curta, passámos um portão branco duplo a partir do qual um carreiro ligeiramente ascendente levava a uma casa comprida e baixa, que resultara da conversão de dois velhos casebres de paredes de pedra grossa. Eliot tirou uma chave do bolso e abriu a porta; o interior estava frio mas não se sentia humidade nem cheirava a mofo. Estava mobilado ao jeito de um requintado apartamento londrino com impecáveis alcatifas claras e espessas, paredes pintadas também de claro e sofás estofados em brocado cor de cogumelo. Os espelhos eram em profusão e do tecto de traves baixo pendiam pequenos candeeiros de cristal em forma de saco.

Era tudo encantador e precisamente o que eu imaginara mas havia algo que, de certa maneira, não batia certo. A cozinha fazia lembrar a de um anúncio, a sala de jantar apresentava-se mobilada em mogno reluzente, no piso de cima havia quatro quartos de cama e três casas de banho, uma sala de costura e um armário de atoalhados de proporções gigantescas, a cheirar agradavelmente a sabonete.

Nas traseiras da casa estendia-se um pequeno pátio, seguido de um jardim comprido que acompanhava o declive até a uma sebe distante. Olhei para o pátio e não tive difculdade em imaginar Mollie ali, a receber os amigos, com mesas e cadeiras de cana montadas sobre o chão lajeado, a servir martinis com um requintado carrinho de vidro.

Comentei:

- É uma casa perfeita.

Falei com sinceridade. No entanto não a adorei, como acontecera em relação a Boscarva. Talvez porque fosse demasiado perfeita.

Detivemo-nos na elegante e deslocada sala de estar e entreolhámo-nos. O dia na companhia um do outro parecera chegar ao fim. Talvez Eliot também tivesse a mesma sensação e quisesse adiar o desfecho, pois disse:

- Podia pôr uma chaleira ao lume e oferecer-Lhe uma chávena de chá, mas não tenho leite nenhum no frigorífico.

- Acho que devíamos voltar para casa - retorqui.

Fui surpreendida por um bocejo monumental, o que fez Eliot rir-se de mim. Pousou as mãos nos meus ombros.

- Está com sono - observou.

- Demasiado ar fresco - respondi. - Demasiado vinho.

Inclinei a cabeça para trás e olhei para o rosto dele; estávamos muito perto um do outro. Senti-lhe os dedos a apertarem-me os ombros. Ele deixara de rir, porém os seus olhos, profundamente implantados, mostravam a expressão mais meiga que já me fora dado contemplar.

Eu disse:

- Foi um dia maravilhoso...

Mas não pude ir mais longe porque nessa altura Eliot beijou-me, impedindo-me, durante algum tempo, de proferir mais qualquer palavra. Quando, por fim, se afastou, sentia-me de tal maneira abalada que nada mais pude fazer senão deixar-me ficar apoiada a ele, com vontade de chorar, sentindo-me uma tola, sabendo que a situação estava a escapar rapidamente ao meu controlo. Tinha a face encostada ao casaco de Eliot e os braços dele apertavam-me com tanta força que podia sentir, como se fosse o retumbar de um tambor, o bater firme do seu coração.

Por cima da minha cabeça, ouvi-o dizer:

- Não deve voltar para Londres. Nunca mais se deve ir embora.

As compras por mim feitas em Falmouth mostraram ser uma bênção inesperada. Eu devia estar inspirada, pois, sem pensar, criei precisamente o tema de conversa ligeira de que todos precisávamos para amenizar o embaraço causado pela desagradável noite anterior. Mollie ficou encantada com as suas frésias; não conseguia fazê-las crescer em Boscarva, explicou, porque os ventos eram demasiado frios e o jardim excessivamente desabrigado. Retribuiu-me a atenção dispondo-as no arranjo mais artístico que se poderia imaginar, que depois colocou no lugar de honra, o centro da cornija da lareira da sala de estar. Encheram a sala com o seu intenso perfume romântico, e os tons de creme, violeta e rosa intenso atraíam os olhares, muito naturalmente, para o retrato de Sophia. As flores pareciam complementar a tonalidade brilhante da pele e o tremeluzir frágil do vestido branco.

- Lindo - declarou Mollie, afastando-se sem, no entanto, me dar a perceber se se referia ao retrato se às flores.

- Foi muita gentileza tua tê-las trazido. E Eliot levou-te a ver a nossa casa, não foi? Portanto, agora já podes compreender o que sinto por viver neste sítio tão grande. - Fitou-me com ar pensativo: - Sabes, estou convencida de que o dia te fez muito bem. Imagino até que tenhas apanhado sol. Estás com muito boa cor. O ar deve revigorar-te.

Pettifer aceitou o seu xerez com dignidade, mas pude ver que ficou contente. E Grenville ficou malevolamente deliciado com os seus charutos, pois o médico proibira-o de fumar e Pettifer escondera-lhe a provisão habitual. Tirou imediatamente um para fora e acendeu-o, fumando com imensa satisfação e recostando-se na sua poltrona enorme como se fosse um homem sem qualquer preocupação no mundo. Até mesmo com Andrea acertei.

- The Creepers! Como é que adivinhaste que era o meu grupo preferido? Oh, quem me dera ter aqui um gira-discos, mas não há nenhum e eu deixei o meu em Londres! Caramba, não são fabulosos, um espanto?... - Logo a seguir desceu novamente das nuvens e procurou o preço. - Deve ter custado uma nota.

Foi como se, com ofertas de paz, tivéssemos todos firmado um acordo tácito. Ninguém tocou na questão da noite anterior: não houve qualquer referência à escrivaninha, a Ernest Padlow, à possível venda da Quinta Boscarva. Não se falou de Joss. Depois do jantar, Eliot armou uma mesa e Mollie foi buscar a caixa de pau-rosa onde tinha o estojo do mahjong, e jogámos até à hora de deitar, ficando Andrea sentada ao lado de Mollie a fim de aprender as regras.

Dei comigo a pensar que, se um desconhecido entrasse, inesperadamente, naquela sala, teria ficado encantado com o quadro que formávamos, apanhados, como moscas presas em âmbar, sob o foco de luz do candeeiro de pé alto, absortos na nossa ocupação interminável. O pintor célebre, emaciado pelo crepúsculo dos seus anos, rodeado pela família; a bonita nora e o neto bem-parecido - até Andrea, inusitadamente atenta e interessada, observava, absorta, as complexidades do jogo.

Em criança eu jogara com a minha mãe, formando, ocasionalmente, um grupo de quatro com dois dos seus amigos, de modo que me senti reconfortada pelo toque relembrado das peças de marfim e bambu, pela sua beleza e pelo som reconfortante que faziam quando as movimentávamos no meio da mesa, fazendo lembrar seixos agitados pela maré numa praia.

No início de cada jogada, erguíamos quatro peças, formando com elas quatro paredes, que depois fechávamos num quadrado, "para manter os espíritos maus afastados", conforme nos disse Grenville, que jogara nos seus tempos de jovem tenente em Hong Kong, e conhecia todas as superstições tradicionais ligadas ao velho jogo. Pensei que seria tudo bem mais fácil se fosse possível recorrer àquele processo para fechar e manter à distância fantasmas, dúvidas e esqueletos- no-armário.

As brochuras de viagem e postais de férias de Porthkerris retratavam, como não podia deixar de ser, um lugar onde o mar e o céu eram sempre de um azul brilhante e sem mácula, as casas brancas e ensolaradas, as estranhas palmeiras ao fundo emprestando aquela sugestão de encanto mediterrânico. A imaginação era conduzida, naturalmente, a visões de lagosta fresca, comida ao ar livre, artistas de barbas e fatiotas sujas de tinta e pescadores desgastados pelas intempéries, pitorescos como piratas, sentados junto aos postes dos barcos a fumar cachimbo e a falar da pesca da última semana.

Contudo, Porthkems, em Fevereiro, sob uma ventania de nordeste, não tinha a menor ligação com aquele paraíso nebuloso.

O mar, o céu, a cidade em si, eram cinzentos, o labirinto de ruas desnorteantes e estreitas sofria o impacte do assalto furioso do vento implacável. A maré era alta; as ondas rebentavam contra a muralha da costa e caíam sobre a rua, enevoando as janelas das casas defronte com sal e enchendo as sarjetas de espuma amarela que fazia lembrar a de água suja de sabão.

Era como se o lugar estivesse sob alguma espécie de cerco. Os comerciantes andavam cheios de roupa, envergando todo o tipo de peças protectoras, os rostos semiocultos por capuzes ou golas altas de casacos, os corpos reduzidos à ambiguidade de tão tapados, a ponto de homens e mulheres não se distinguirem uns dos outros nas suas botas de cano alto e roupas disformes.

O céu tinha a cor do vento, pelo ar voavam fragmentos de objectos, ramos, pedaços de papel, até mesmo telhas de telhados. Nas lojas, as pessoas esqueciam-se do que iam comprar para ficarem a falar sobre o tempo, o vento e os estragos que a tempestade iria provocar.

Eu viera, mais uma vez, fazer compras para Mollie, descendo a custo a colina com uma gabardina emprestada e botas de borracha porque me sentia mais segura sobre os meus pés do que se tivesse de dirigir o carro leve de Mollie. Agora que conhecia melhor a cidade, deixara de precisar que Andrea me servisse de guia... fosse como fosse, a jovem ainda ficara na cama quando eu saíra de Boscarva, o que daquela vez, não lhe censurava. O dia não estava convidativo e custava a acreditar que, ainda na véspera, eu andara fora de casa em mangas de camisa, a deliciar-me com um sol tão quente como o de Maio.

Terminada a última compra, saí da padaria na altura em que o relógio da torre normanda dava as onze horas. Em circunstâncias normais, teria voltado imediatamente a subir a colina, em direcção a Boscarva, no entanto daquela vez tinha outros planos. De cabeça baixa, com o cesto pesado no meu braço, segui para o porto.

A Galeria de Arte, sabia, ficava na velha capela baptista algures no labirinto de ruas que se estendia a norte da vila.

Pensara simplesmente em me pôr ao caminho e procurá-la, mas à medida que ia avançando, lutando contra assaltos alternados de vento e salpicos de água, avistei a velha casa de pescador que fora convertida em Centro de Informações Turísticas e resolvi poupar tempo e fazer algumas perguntas.

Dentro do Centro encontrei uma rapariga pouco entusiástica, encolhida ao pé de um aquecedor a querosene; de botas e a tremer, parecia a única sobrevivente de uma expedição ao Árctico. Quando apareci, não se moveu da sua cadeira, limitando-se a perguntar "Que deseja? " e fitando-me através de uns óculos que não lhe ficavam nada bem.

Tentei sentir pena dela.

- Ando à procura da Galeria de Arte.

- Qual delas?

- Não sabia que havia mais que uma.

Por detrás de mim, a porta abriu-se e fechou-se, e uma terceira pessoa juntou-se a nós. A rapariga desviou o olhar, agora com novo brilho, para o recém-chegado.

- Há a Galeria da Vila e a Novos Pintores - disse a jovem, muito mais animadamente.

- Não sei qual delas quero.

- Talvez - disse uma voz nas minhas costas - eu possa ajudar.

Voltei-me e dei de caras com Joss, de botas de borracha e capa de oleado preto a escorrer água e com um boné de pescador enterrado na cabeça. Tinha o rosto molhado da chuva, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco e os olhos brilhavam- lhe, divertidos. Metade de mim podia ver exactamente por que razão a rapariga indolente atrás do balcão ganhara súbita animação. A outra metade ficou furibunda com a capacidade extraordinária que aquele homem tinha de aparecer precisamente quando menos era esperado.

Lembrei-me de Andrea. E da escrivaninha e da cadeira. Cumprimentei-o friamente:

- Como está, Joss?

- Vi-a entrar. Que pretende fazer?

A rapariga apressou-se a responder por mim:

- Anda à procura da Galeria de Arte.

Joss aguardou melhor explicação e eu, forçada pelas circunstâncias, dei-lhe essa satisfação.

- Pensei que talvez lá encontrasse alguns quadros Grenville...

- Tem toda a razão, há três. Eu levo-a...

- Não preciso que me levem, apenas que me digam como lá chegar.

- Terei muito gosto em levá-la... dê cá... Tirou-me o pesado cesto das compras do braço, sorriu à rapariga e foi abrir a porta. Do lado de fora jorrou uma rajada de vento de ar misturado com espuma, que fizeram voar uma pilha de panfletos que estava em cima do balcão, espalhando-os pelo chão. Antes de sermos responsáveis por mais danos, apressámo-nos a sair e a fechar a porta. Como se fosse o gesto mais natural do mundo, Joss deu-me o braço e começámos a andar pelo meio da rua de seixos arredondados, enquanto Joss falava animadamente, apesar de o vento não deixar ouvir metade do que dizia e de, apesar de ter o meu braço preso ao dele, eu mal conseguir andar.

- Que diabo a fez descer à vila num dia como este? O que leva aí?

- Compras para Mollie.

- Não podia ter trazido o carro?

- Achei que poderia ser varrida da estrada.

- Eu adoro os dias assim - declarou Joss. De facto, tinha aspecto de estar a ser sincero, açoitado pelo vento, molhado, mas, não obstante, cheio de vitalidade.

- Passou bem o dia de ontem? - perguntou-me.

- Que sabe sobre o dia de ontem?

- Estive em Boscarva e Andrea contou-me que tinha ido a Falmouth com Eliot. Não pense em guardar segredo numa terra como esta. Se Andrea não me tivesse dito, tê-lo-ia sabido por Pettifer, a senhora Thomas, a senhora Kernow ou a menina Olhos-Brilhantes do Centro de Informações. Um dos prazeres de se viver em Porthkerris é saber exactamente o que todos os outros fazem.

- Começo a dar-me conta do facto.

Afastámo-nos do porto e começámos a subir uma vertente pavimentada. As casas estendiam-se de cada um dos lados, e um gato passou celeremente à nossa frente e desapareceu por uma frincha de janela. Uma mulher de chapéu na cabeça e avental azul, esfregava os degraus da soleira da sua porta.

- Olá, amor - disse a Joss, à laia de cumprimento. Os seus dedos faziam lembrar salsichas rosadas, devido à água quente e ao vento frio.

Ao fundo da rua, desembocámos numa pequena praça que eu ainda não vira. Um dos seus lados era ocupado por uma estrutura larga, tipo celeiro, com janelas arqueadas dispostas ao longo da parede. Por cima da porta, um letreiro dizia Galeria de Arte de Ponhkerris, e Joss largou-me o braço, empurrou a porta com os ombros e afastou-se para me deixar entrar à sua frente. O interior do edificio estava terrivelmente frio, cheio de correntes de ar e completamente vazio. Das paredes brancas pendiam quadros de todos os géneros, formatos e tamanhos, e duas esculturas abstractas jaziam, solitárias, no meio do chão, como rochas expostas pela maré-baixa. Junto da porta havia uma mesa cheia de resmas impecáveis de catálogos, pastas e exemplares de O Estúdio, mas apesar das janelas cerradas a galeria conservava a at mosfera de domingos passados ao abandono.

- E agora - disse Joss, pousando o cesto e tirando o boné para o sacudir da chuva como um cão sacode o pêloque deseja ver?

- Quero ver Sophia.

Joss fitou-me penetrantemente, virando de súbito a cabeça, mas no mesmo instante sorriu e voltou a colocar o boné na cabeça, puxando a pala para a testa, como um soldado.

- Quem lhe falou de Sophia?

Sorri docemente.

- Talvez tenha sido a senhora Thomas. Ou a senhora Kernow. Ou a menina Olhos-Brilhantes do Centro de Informações.

- A insolência não a conduzirá a lado nenhum.

- Há um retrato de Sophia aqui. Pettifer disse-me.

- Sim. Por aqui.

Atravessei a sala no seu encalço, as passadas dadas com as nossas botas de borracha a soarem audivelmente no vazio.

- Aqui está - disse Joss.

Detive-me ao lado dele e olhei para cima, deparando com ela, sentada sob o feixe de luz de um candeeiro, a costurar.

Olhei o quadro durante algum tempo e, por fim, deixei escapar um profundo suspiro de desilusão. Joss baixou o olhar para mim, fitando-me debaixo da pala ridícula do seu boné.

- Para que foi esse suspiro?

- O rosto continua a não estar visível. Fico sem saber que aspecto tinha. Porque nunca lhe terá ele pintado a cara?

- Pintou-a. Muitas vezes.

- Bem, eu ainda não a vi. É sempre a nuca, ou as mãos ou então é uma parte tão pequena da imagem que nem sequer tem rosto, apenas uma gota.

- O aspecto dela tem assim tanta importância para si?

- Não, não tem importância. Acontece apenas que quero saber.

- Antes de mais nada, como foi que soube da Sophia?

- A minha mãe falou-me nela. E depois foi Pettifer, e o quadro com ela, o que se encontra em Boscarva, na sala de estar, é tão encantador e feminino que uma pessoa fica convencida de que ela deve ter sido linda. Mas Pettifer afirma que de linda não tinha nada. Era apenas muito sedutora e atraente. - Olhámos novamente para o quadro. Observei as mãos e o brilho arrancado ao cabelo escuro pela luz do candeeiro. - Pettifer diz que há quadros de Sophia espalhados pelas galerias do país. Resta-me apenas ir de Manchester a Birmingham, Nottingham e Glasgow, até encontrar um que não mostre apenas a nuca.

- Depois, o que fará?

- Nada. Saberei apenas que aspecto tinha.

Voltei-me, desapontada, e caminhei em direcção à porta, onde ficara o meu cesto das compras, mas Joss chegou lá primeiro, agarrando-o antes de eu ter tempo para lhe chegar.

Eu disse:

- Tenho de voltar para casa.

- São apenas... - consultou o relógio -. onze e meia. E ainda não viu a minha loja. Venha comigo para a conhecer, que eu preparo-lhe um café e levo-a a casa. Não tem possibilidade de subir a colina a pé com este peso no braço.

- Claro que tenho.

- Não a deixarei fazê-lo. - Abriu a porta. - Venha.

Não podia partir sem o cesto e Joss, ao que parecia, não tencionava entregar-mo, portanto, resignada e relutante, acompanhei-o, enfiando as mãos nos bolsos para que ele não pudesse dar-me o braço. Não pareceu ficar minimamente constrangido com a minha animosidade, o que em si era desconcertante, mas quando voltámos ao porto e caímos mais uma vez, nas garras do vento, por pouco não perdi o equilíbrio com o imprevisto; Joss então riu e, puxando-me uma das mãos para fora do bolso, agarrou-a com a sua. Seria dificil não ficar desarmada com aquele gesto protector e contemporizador.

Assim que a loja apareceu aos nossos olhos, a casa alta entre as duas outras baixas e largas, vi que, de facto, houvera modificações. Os caixilhos das janelas já estavam pintados, a tinta fora removida dos vidros e havia um letreiro ao cimo da porta: Joss Gardner.

- Que tal lhe parece? - inquiriu, orgulhoso.

- Impressionante - não pude deixar de reconhecer.

Tirou uma chave do bolso, abriu a porta e entrámos na loja. O chão lajeado apresentava-se juncado de caixotes e acompanhando toda a parede, viam-se prateleiras de várias larguras, que iam até ao tecto. No meio da sala havia outra

estrutura, muito parecida com uma grade de trepar de criança e esta fora já decorada com peças modernas de vidro e loiça holandesas, caçarolas de cores brilhantes e tapetes indianos às riscas coloridas. As paredes eram brancas e os acabamentos de madeira tinham sido deixados no seu estado natural, o que, com o chão cinzento, proporcionava um cenário simples e eficaz para as mercadorias de cores vivas que Joss tinha para vender. Ao fundo da loja, uma escada aberta ia dar aos pisos de cima, e por baixo da mesma havia outra porta, escancarada, deitando para o que parecia ser uma adega escura.

- Venha lá acima... - convidou Joss, subindo à frente.

Fui atrás dele.

- Que é que tem do lado de lá daquela porta?

- É a minha oficina. Está numa desordem terrível.

Mostrar-lha-ei noutra altura. Agora em relação a este espaço... - emergimos no primeiro piso, mal nos pudemos mexer no meio de tanto cesto e trabalho em vime ainda não o tenho exactamente arrumado, como pode ver, mas é onde se compram cestos para toros de madeira, molas da roupa, compras, bebés, roupa suja, tudo o que se quiser.

Nenhuma das divisões era muito espaçosa. A casa estreita mais não era do que uma enorme escada com um patamar em cada piso.

- Continuemos a subir. Como estão as suas pernas? Agora vamos à pièce de résistãnce, os aposentos palacianos do proprietário.

Passei por uma casa de banho minúscula, apertada no ponto de viragem da escada. E ao subir, vagarosamente, atrás das pernas compridas de Joss, dei comigo a pensar na descrição que Andrea fizera do apartamento de Joss, espe rançada em que não fosse como ela falara mas sim completamente diferente, para que me convencesse de que não passara de imaginação dela, que inventara tudo.

"Parece mesmo saído de uma revista. Tem uma cama que é uma espécie de sofá, com montes de almofadas espalhadas e uma lareira. "

Contudo, era tal qual ela descrevera. Ao chegar ao cimo das escadas, as minhas esperanças desapareceram rapida mente. E havia algo de aconchegado e secreto nele, com um tecto que descia até ao chão e uma janela de sacada com uma almofada em baixo. Vi a pequena cozinha rodeada por um balcão, parecendo um bar, e o velho tapete turco no chão, o divã, com uma colcha vermelha, encostado à parede. Tal como ela dissera, estava cheio de almofadas.

Joss pousara o meu cesto e começara a livrar-se da roupa molhada, pendurando-a num bengaleiro de vime anti quado.

- Dispa essa roupa antes que morra de frio - disse-me. - Acenderei a lareira...

- Não posso ficar, Joss...

- Não é razão para não acender a lareira. E, por favor dispa esse casaco.

Assim fiz, desabotoando-o com os dedos gelados, tirando o barrete de lã húmido e sacudindo a trança antes de a atirar sobre o ombro. Enquanto pendurava tudo ao lado das coisas de Joss, este atarefava-se em volta da lareira, partindo ramos, formando bolas de papel, raspando e juntando cinzas dispersas de fogos anteriores e acendendo tudo com o auxílio de uma vela de cera fina e comprida. Pegado o fogo, retirou pedaços de madeira ensopados em alcatrão de um cesto que estava junto da lareira e encaixou-os à volta das chamas. Estes crepitaram e estalaram, pegando rapidamente fogo. E a sala, à luz das chamas, ganhou vida súbita. Joss ergueu-se e voltou-se para mim.

- E agora, que quer tomar? Café? Chá? Chocolate? i Brande com soda?

- Pode ser café?

- Dois cafés a sair!

Foi para trás do balcão, encheu uma chaleira e acendeu o gás. Enquanto preparava a bandeja e as chávenas, fui até à janela, ajoelhei- me sobre o assento e espraiei o olhar, através da fúria da tempestade, até à rua que se estendia em baixo, banhada pelos jactos de água lançados pelas ondas que rebentavam contra o molhe. Os barcos atracados no porto agitavam-se como rolhas atacadas de demência, e gaivotas enormes flutuavam sobre os mastros baloiçantes, gritando ao vento. Absorto na tarefa de preparar o café, Joss movimentava-se parcimoniosamente no espaço exíguo da cozinha, com os movimentos preciosos e auto-suficientes de um iatista resoluto. Assim ocupado, parecia perfeitamente inofensivo, mas o que era desconcertante nas revelações de Andrea era o facto de todas elas parecerem conter um elemento de verdade.

Conhecia Joss há pouco tempo, no entanto vira-o já em diferentes estados de espírito. Sabia que podia ser encantador, teimoso, furioso e imensamente rude. Não era dificil imaginá-lo como um amante implacável e apaixonado, porém era detestável que fosse com Andrea.

De repente, ergueu os olhos e reparou no meu olhar. Fiquei embaraçada, assim apanhada com os meus pensamen tos. Para disfarçar, apressei-me a observar:

- Quando está bom tempo, deve ter uma vista linda.

- Vê-se mesmo até ao farol.

- No Verão deve ser como estar no estrangeiro.

- No Verão é como o metro de Picadilly à hora de ponta. Mas isso apenas dura dois meses.

Saiu de detrás do balcão com um tabuleiro contendo as chávenas fumegantes, o açucareiro e a leiteira. O café deitava um cheiro delicioso. Puxou um banco comprido com o pé, depositou o tabuleiro numa ponta e sentou-se na outra. Ficámos, assim, de frente um para o outro.

- Quero que me fale mais do dia de ontem - disse Joss. - Onde foi, além de Falmouth?

Falei-lhe de St. Endon e do pequeno pub à beira da água.

Sim, já ouvi falar, mas nunca lá fui. Almoçaram bem?

- Sim. E fazia tanto calor que nos sentámos ao sol.

- Isso é a costa sul para si. E depois, que aconteceu?

- Depois não aconteceu nada. Voltámos para casa. Joss passou-me a minha chávena e o açúcar.

- Eliot levou-a a High Cross?

- Levou.

- Viu a garagem?

- Vi. E a casa de Mollie.

- Que achou de todos aqueles automóveis elegantes e sexy?

- Achei apenas isso. Que eram elegantes e sexy. - Conheceu algum dos tipos que trabalham para ele?

Falava com tal entoação de indiferença que fiquei alerta.

- Quem, por exemplo?

- Morris Tatcombe.

- Joss, não me convidou para vir aqui para tomar café pois não? Está a ver se me arranca informações.

- Não estou. Garanto-lhe que não. Acontece apenas que tinha curiosidade em saber se Morris estava a trabalhar para Eliot.

- Que sabe de Morris?

- Apenas que não presta.

- É um bom mecânico.

- Sim, é. Todos o sabem, e é o único predicado que tem. Mas também é completamente desonesto e depravado até mais não.

- Se é completamente desonesto, porque não está na prisão?

- Já esteve. Saiu há pouco tempo.

A notícia deixou-me descoroçoada, mas enchi-me de coragem e não desisti, soando mais segura de mim do que acontecia na realidade.

- E como sabe que ele é um depravado?.

- Porque certa noite teve uma briga comigo no bar. Saímos e eu dei-lhe um murro no nariz, e foi uma sorte para mim bater-lhe primeiro porque ele tinha uma faca.

- Porque me conta isso?

- Porque perguntou. Quem não quer saber das coisas não faz perguntas.

- E que tenho eu a ver com o assunto?

- Nada. Absolutamente nada. Lamento ter tocado na questão. É que ouvi dizer que Eliot lhe dera emprego, mas tinha esperança de que não fosse verdade.

- Não gosta de Eliot, pois não?

- Não gosto nem deixo de gostar. Não significa nada para mim. Mas vou dizer-lhe uma coisa. Ele escolhe más companhias.

- Refere-se a Ernest Padlow?

Joss lançou-me um olhar cheio de admiração relutante.

- Não perde muito tempo, devo reconhecer. Parece estar ao corrente de tudo.

- Sei de Ernest Padlow porque o vi com Eliot naquela primeira noite em que me levou a jantar ao The Anchor.

- Ah, é verdade! Esse é outro sujeito que não presta. Se Ernest conseguisse levar a sua avante; escavacava Porthkerris inteira para transformar a vila num imenso parque de estacionamento. Não ficaria uma casa de pé. E teríamos todos de ir viver para as casinhas bonitas que ele ergueu no cimo da colina e que daqui a dez anos deixarão entrar água, estarão tortas, rachadas e meio afundadas.

Não reagi àquela explosão. Bebi o meu café e pensei em como seria agradável conversar sem ser imediatamente atraída para ressentimentos antigos que nada tinham a ver comigo. Estava farta de ouvir as pessoas de quem queria gostar a falarem mal das outras.

Terminei o café, pousei a chávena e disse:

- Tenho de voltar.

Joss, com nítido esforço, pediu desculpa.

- Lamento.

- O quê?

- Ter perdido a calma.

- Eliot é meu primo, Joss.

- Eu sei. - Baixou os olhos para a chávena que tinha entre as mãos. - Mas mesmo sem querer, também me deixei afeiçoar a Boscarva.

- Mas não faça sentir os seus preconceitos.

Os seus olhos encontraram os meus.

- Não estava zangado consigo.

- Eu sei. - Levantei-me. - Devo ir - repeti.

- Eu vou levá-la.

- Não é preciso...

Joss, porém, não ligou ao meu protesto, limitou-se a tirar o meu casaco do cabide e ajudou-me a vesti-lo. Enterrei o barrete de lã na cabeça e peguei no pesado cesto.

O telefone tocou.

Joss, de capa de oleado vestida, foi atender, enquanto eu ia descendo as escadas. Ouvi-o dizer-me, antes de pegar no auscultador:

- Rebecca, espere por mim. É só um momento... - E a seguir, ao telefone: - Sim? Sim, fala Joss Gardner...

Desci até ao piso térreo, onde ficava a loja. Continuava a chover. Do andar de cima chegava-me o som da voz de Joss a falar animadamente.

Farta de esperar por ele, talvez um tanto curiosa, empurrei a porta que dava para a oficina, acendi a luz e desci os 3, quatro degraus de pedra. Deparei com a habitual confusão:

bancadas, cavacos de madeira, aparas, ferramentas, tornos; no ar pairava um odor a cola, madeira nova, laca. Também havia um monte de mobília velha, tão poeirenta e desconjuntada que era impossível ver se teria algum valor ou não.

Uma cómoda sem manípulos nas gavetas, uma mesinha-de-cabeceira sem uma perna.

Foi então que as vi, mesmo ao fundo da divisão, no meio da penumbra. Uma escrivaninha, em perfeito estado de conservação, e ao lado, uma cadeira de estilo Chippendale chinês, com um assento forrado de tecido atapetado, com motivos florais.

Senti-me enjoada, como se tivesse levado um pontapé no estômago. Virei-me, subi os degraus, apaguei a luz e, depois de fechar a porta, atravessei a loja e saí para a ventania mordente daquele maldito dia de Fevereiro.

"A minha oficina está numa desordem terrível. Mostro-lha noutra altura. "

Saí e dei comigo a correr em direcção à igreja, metendo-me por uma série de pequenas ruelas onde ele nunca me encontraria. Ia a correr, sempre colina acima, os movimentos dificultados pelo cesto das compras, pesado como chumbo, o coração batia-me violentamente no peito e sentia na boca um sabor a sangue.

Eliot tivera razão. Fora demasiado fácil para Joss, que aproveitara, simplesmente, a oportunidade. Era a minha escrivaninha; era a minha escrivaninha que ele levara, mas tirara-a de casa de Grenville, traindo a confiança e a bondade do velho.

Não tinha qualquer dificuldade em me imaginar a matar Joss. Nunca mais seria capaz de lhe falar, nunca mais suportaria a sua presença. Nunca me sentira tão irada na minha vida. Com ele, mas ainda mais comigo mesma, por me ter deixado levar pelo seu encanto falso, por ter percebido a que ponto me deixara enganar. Nunca me sentira tão irada.

Continuei a subir a colina, cambaleando.

Mas, se me sentia tão irada, por que razão ia a chorar?

O caminho de regresso a Boscarva foi uma subida longa e estafante, eu que nunca me julgara capaz de manter um estado extremo de emoção de dez minutos. A pouco e pouco, ao lutar contra a intempérie para chegar ao cimo da colina, fui acalmando; limpei as lágrimas com a mão enluvada, recobrei a serenidade. Numa situação aparentemente intolerável, havia quase sempré algo a fazer para a remediar, de modo que, muito antes de chegar a Boscarva, decidira já qual seria o passo a dar: voltaria para Londres.

Deixei o cesto das compras em cima da mesa da cozinha e subi para o meu quarto, onde tirei toda a roupa encharcada, mudei de sapatos, lavei as mãos e reentrancei cuidadosamente o cabelo; depois, mais calma, fui à procura de Grenville, que encontrei no seu estúdio, sentado à lareira a ler o jornal da manhã.

Quando entrei, baixou-o e fitou-me por cima das folhas.

- Viva, Rebecca!

- Olá. Como se sente esta manhã?

Falava com animação determinada, como o fazem as enfermeiras irritantes.

- Cheio de moinhas e dores. O vento é um assassino, mesmo que não se saia lá fora. Onde estiveste?

- Fui a Porthkerris. Fiz umas compras para Mollie.

- Que horas são?

- Meio-dia e meia hora.

- Então tomemos um cálice de xerez.

- Não lhe faz mal?

- Estou-me nas tintas para que me faça mal ou bem!

Sabes onde a garrafa está.

Enchi dois cálices, trouxe o dele cuidadosamente para cima de uma mesinha que tinha ao lado da poltrona. Puxei um banco e ficámos de frente. Disse:

- Grenville, tenho de voltar para Londres.

- O quê?

- Tenho de voltar para Londres. - Os olhos azuis estreitaram-se, o enorme queixo saliente projectou-se; apressei-me a fazer de Stephen Forbes o meu bode expiatório. Não posso ficar indefinidamente. Já estou ausente quase há duas semanas e Stephen Forbes, o meu patrão, tem sido muito compreensivo, mas não posso continuar a aproveitar-me da sua gentileza e generosidade. Acabei de me dar conta de que já é sexta-feira. Devo voltar a Londres este fim-de-semana. Preciso de retomar o trabalho na segunda-feira de manhã.

- Mas acabaste de chegar.

Via-se nitidamente que estava profundamente desgostoso comigo.

- Estou cá há três dias. O que já chegou para ficarem fartos desta hóspede.

- Tu não és nenhum hóspede. És a filha de Lisa.

- Mas esse pormenor não me iliba dos meus compromissos. Além de que gosto do meu emprego e não quero deixar de trabalhar. - Sorri, tentando amenizá-lo. - E agora que descobri o caminho para Boscarva, talvez possa voltar novamente, quando tiver mais tempo disponível, para estar consigo.

Grenville não respondeu, limitou-se a ficar a olhar para o fogo, de aspecto envelhecido:

- Nessa altura talvez já não esteja aqui - disse em tom lúgubre.

- Ora, claro que estará!

Grenville suspirou, pegou no cálice com mão lenta e trémula e sorveu um gole de xerez, antes de voltar a pousá- lo e a olhar para mim, aparentemente resignado.

- Quando é que queres partir?

Fiquei surpreendida, mas aliviada, por vê-lo aceder tão facilmente.

- Talvez amanhã à noite. Irei numa carruagem-cama. E depois posso dispor do domingo para me instalar no apartamento.

- Não devias viver sozinha num apartamento em Londres. Não foste feita para viver só. Foste feita para teres um homem, um lar e filhos. Se eu tivesse menos vinte anos e ainda conseguisse pintar, era assim que te mostraria ao mundo, num campo ou num jardim, ajoelhada no meio de botões-de-ouro e crianças.

- Talvez venha a acontecer um dia. E nessa altura virei buscá-lo.

O rosto de Grenville mostrou, subitamente, uma expressão de dor. Desviou-o para o lado e disse:

- Preferia que ficasses.

Desejei dizer que o faria, mas tinha um milhar de razões para não poder fazê-lo.

- Voltarei - prometi.

Grenville fez um enorme e comovente esforço para se recompor, aclarando a voz, reajeitando-se na sua poltrona.

- Esse teu jade. Temos de pedir a Pettifer que o coloque numa caixa, para poderes levá-lo contigo. E o espelho... achas que consegues levá-lo no comboio ou é demasiado grande? Devias arranjar um automóvel, assim não terias problemas. Tens carro?

- Não, mas não tem importância...

- E imagino que a tal escrivaninha não tenha...

- A escrivaninha não importa!

Interrompi em voz tão alta e súbita que Grenville olhou para mim algo surpreso, como se não esperasse modos tão rudes.

- Desculpe - apressei-me a dizer. - É que é uma

questão que carece de importância. Não suportaria que recomeçassem a discutir por causa dela. Por favor, peço-lhe, não fale, não pense mais nisso sequer.

Grenville lançou-me um olhar longo e fixo, que me fez baixar o meu.

Perguntou:

- Achas que estou a ser injusto para com Eliot?

- Acho que talvez nunca tenham falado um com o outro, nunca tenham dito nada um ao outro.

-Se Roger não tivesse morrido, ele seria diferente.

O pai fez muita falta a Eliot.

- Não podia ter preenchido esse lugar?

- Nunca me pude chegar perto dele por causa de Mollie. Nunca o ensinaram a apegar-se a nada. Sempre a saltar de um lado para o outro, de emprego em emprego, até arranjar aquela garagem, há três anos.

- Parece ser um sucesso.

-Carros em segunda mão! - Falava com profundo desprezo. - Devia ter ido para a Marinha.

- Mas imagine que ele não queria!

- Talvez quisesse, se a mãe não o convencesse do contrário. Ela queria mantê-lo em casa, agarrado às suas saias.

- Oh, Grenville, acho que está a ser profundamente antiquado e muito injusto!

- Pedi a tua opinião?

Mas começara já a abrandar. Uma boa discussão representava para Grenville um óptimo estímulo.

Não me interessa que a tenha pedido ou não, já lha dei.

Desatou a rir e estendeu a mão para me beliscar suavemente a bochecha. Disse:

- Quem me dera ainda poder pintar. Continuas a querer levar um dos meus quadros para Londres?

Receara que se tivesse esquecido.

- Adoraria.

- Podes pedir a chave do estúdio ao Pettifer. Diz-lhe que fui eu que mandei. Vai dar uma vista de olhos por lá, vê se descobres alguma coisa que te interesse.

- Não quer vir comigo?

Mais uma vez lhe apareceu a expressão de dor no rosto.

- Não - respondeu com maus modos, voltando-se para pegar no seu xerez. Ficou sentado a olhar para o vinho ambarino, rodando o cálice entre os dedos. - Não, não irei lá.

Ao almoço Grenville comunicou a notícia aos restantes membros da família. Andrea, aterrada por ver que eu regressava a Londres e ela permanecia naquela Cornualha horrível e chata, amuou. Mas os outros mostraram-se gratamente consternados.

- Mas tens mesmo de ir? - quis saber Mollie.

- Tenho, não pode ser de outra maneira. Há um emprego à minha espera e não me é possível ficar aqui eternamente.

- É que gostamos muito de te ter connosco. Mollie sabia ser encantadora quando não estava a ser agressiva e possessiva em relação a Eliot e ressentida no que dizia respeito a Grenville e a Boscarva. Vi-a de novo como uma linda gatinha, mas agora tinha consciência das longas garras ocultas nas suaves patas de veludo, garras que eu sabia que não hesitaria em voltar a usar.

- Eu também adorei...

Pettifer foi mais falador. Depois de almoço fui até à cozinha para o ajudar na louça e ele não teve papas na língua.

- Por que há-de ir-se embora agora, precisamente quando começava a habituar-se à casa e o comandante estava a conhecê-la... bem, não consigo perceber. Não achei que fosse esse tipo de pessoa...

- Voltarei. Disse que voltarei.

- Ele já tem oitenta anos. Não durará sempre. Como é que se irá sentir se cá vier e encontrá-lo com seis palmos de terra por cima e a servir de adubo às flores?

- Oh, Pettifer, não diga isso.

- Não custa nada dizer: "Oh, Pettifer, não diga isso. "

Mas as coisas são como são.

- Tenho um emprego. Devo voltar.

- A mim soa-me a egoísmo.

- Isso não é justo.

- Passou todos estes anos sem ver a filha e agora a menina aparece-lhe e fica três dias. Que espécie de neta é?

Não respondi porque não havia nada para dizer. E detestei sentir-me culpada e ser mal interpretada. Terminámos a lavagem dos pratos em silêncio, mas ao limpar o lava-louças com um pano húmido, tentei fazer as pazes com o velhote.

- Tenho muita pena. Sinceramente. Já me custava bastante ter de ir sem o Pettifer me achar uma pessoa insensível. Mas voltarei. Já o disse. Talvez no Verão... ele ainda aqui estará no Verão e o tempo mais quente permitir-nos-á fazer coisas juntos. Talvez possa levar-nos a passear no carro...

A voz falhou-me. Pettifer pendurou o pano, com todo o cuidado, na beira do lava-loiças e disse, rispidamente:

- O comandante mandou-me dar-lhe a chave do estúdio. Não sei o que lá vai encontrar. Uma fartura de poeira e aranhas, imagino.

- Ele disse que eu podia ficar com um quadro. Que era só ir até lá e escolher um.

Pettifer secou lentamente as mãos gastas e nodosas.

- Tenho de ver se encontro a chave. Está bem guardada. Não a queria por aí ao deus-dará para alguém lhe pôr a mão. O estúdio tem muito bom material lá dentro.

- Quando puder. - Não fui capaz de suportar a discordância do velhote. - Oh, Pettifer, não esteja zangado comigo!

Nessa altura, ele cedeu.

- Ora, não estou zangado. Se calhar sou eu que estou a ser egoísta. Talvez seja eu que não queira que se vá embora.

De repente vi-o, não como o ubíquo Pettifer, em volta do qual a lide doméstica daquela casa girava, mas como um homem idoso, quase da idade do meu avô e provavelmente tão só como ele. Senti um aperto estúpido na garganta e, por um momento terrível, pensei que ia rebentar em lágrimas, o que teria acontecido pela segunda vez naquele dia, porém nessa altura Pettifer disse:

- E não me escolha um daqueles nus, não seria adequado.

Então o momento perigoso passou e ficámos sorridentes novamente amigos.

Nessa tarde, Mollie emprestou-me o carro e eu percorri os oito quilómetros que distavam da estação de caminhos de ferro para comprar o meu bilhete de regresso a Londres, reservando um lugar na carruagem-cama para a noite de sábado. A violência do vento diminuíra mas este continuava forte e tempestuoso, vendo-se árvores derrubadas e devastação em todo o lado, estufas destroçadas, ramos partidos e plantações dos primeiros bolbos da Primavera arrasadas pela ventania.

Ao chegar a casa encontrei Mollie no jardim de Boscarva, toda enroupada por causa do tempo (até Mollie podia perder o seu ar elegante num dia como aquele) e a tentar amarrar e salvar alguns dos arbustos mais frágeis que cresciam em redor da casa. Quando viu o carro, decidiu dar o dia por terminado naquelas partes, pois, enquanto eu o guardava, seguindo depois para casa, vi-a vir na minha direcção a descalçar as luvas e a meter uma fiampa de cabelo no lenço que trazia na cabeça.

- Não aguento nem um momento mais - disse-me. Detesto vento, deixa-me exausta. Mas a minha querida dafne estava a ser reduzida a tiras e todas as camélias ficaram queimadas com este vento. Põe-nas completamente castanhas. Entremos e tomemos uma chávena de chá.

Enquanto Mollie mudava de roupa, fui pôr uma chaleira ao lume e colocar as chávenas num tabuleiro.

- Onde estão as pessoas? - perguntei quando a vi reaparecer, de novo miraculosamente impecável, até ao pormenor do colar as pérolas e dos brincos a condizerem.

- Grenville está a dormir a sesta e Andrea está no seu quarto... - suspirou. - Tenho de reconhecer que não é nada fácil lidar com ela. Se ao menos fizesse alguma coisa para se divertir, em vez de andar aí pelos cantos amuada de maneira tão fatigante. Receio que a sua estada aqui não lhe faça nenhum bem, como eu já previa, para ser completamente sincera, mas a minha pobre irmã estava desesperadíssima. - Olhou em volta, para a cozinha confortável. - Está-se bem nesta divisão. Tomemos o chá aqui. A sala de estar tem tanta corrente de ar quando o vento sopra do mar e não faz sentido correr os cortinados às quatro e meia da tarde...

Mollie tinha razão, estava-se bem na cozinha. Encontrou uma toalha e preparou o chá, colocando bolos e biscoitos na mesa, assim como o açucareiro e a leiteira de prata. Até para um chá tomado na cozinha, Mollie era, ao que parecia, meticulosa. Puxou de duas cadeiras e ia a pegar no bule quando a porta se abriu e Andrea apareceu.

- Oh, Andrea, querida, chegaste mesmo a tempo! Hoje tomamos o chá na cozinha. Queres uma chávena?

- Desculpe, mas não tenho tempo.

A resposta inesperadamente delicada fez Mollie erguer a cabeça subitamente.

- Vais sair?

- Vou - respondeu Andrea. - Ao cinema. Ambas ficámos a olhar para a jovem como tolas. É que o impossível acontecera - Andrea decidira subitamente cuidar da sua aparência. Lavara o cabelo e não o trazia sobre a cara, descobrira uma camisola de gola alta lavada e trazia mesmo, fiquei encantada ao constatar, sutiã. Usava o cordão de cabedal com a sua cruz céltica ao pescoço, osjeans estavam impecavelmente engomados, os sapatos pesadões engraxados. No braço levava uma gabardina e uma sacola de franjas. Eu nunca a vira tão apresentável. E o mais notável era que a expressão do rosto não era nem de amuo nem de malevolência, mas sim de... recato? Poderia alguém alguma vez descrever Andrea como tendo um aspecto recatado?

- Quero dizer - prosseguiu -, se a tia Mollie concordar.

- Bem, com certeza. Que vais ver?

- Maria da Escócia. Vai no Plaza.

- Vais sozinha?

- Não. Joss acompanha-me. Telefonou-me estava a tia no jardim. Depois leva-me a cear.

- Oh! - exclamou Mollie debilmente. Depois, reparando que esperavam dela mais algum comentário: - Como é que vais lá para baixo?

- A pé, e depois espero que Joss me traga de carro...

- Tens dinheiro?

- O que tenho chega perfeitamente.

- Bem... então diverte-te.

Mas Mollie sentia-se derrotada.

- De certeza - disse, dirigindo-nos um sorriso rápido.

- Até logo.

E saiu.

- Até logo - respondeu Mollie. Olhou para mim. Extraordinário! - declarou.

Eu concentrara-me na minha chávena de chá.

- Que há de extraordinário? - perguntei com despreocupação.

- Andrea e... Joss. Bom, ele foi sempre muito delicado para ela, mas... convidá-la a sair?.

- Não devia ficar tão admirada. A rapariga, quando se lava e se dá ao cuidado de sorrir, é atraente. Provavelmente está sempre a sorrir para Joss.

- Achas que faço bem em deixá-la ir? Quero dizer, tenho responsabilidades.

- Sinceramente não vejo como poderia tê-la impedido de ir. De qualquer modo ela tem dezassete anos, não é nenhuma criança. Com certeza já sabe tomar conta de si...

- Aí é que está o problema - disse Mollie... - foi sempre o problema de Andrea.

- Ela ficará bem.

Ela não ficaria bem, eu sabia, mas não podia desiludir Mollie. Além disso, que importava? Eu nada tinha a ver com o facto de Joss preferir passar as suas noites a fazer amor à luz da lareira com uma adolescente ninfomaníaca. Eram os dois da mesma laia. Mereciam-se um ao outro. Pois que se servissem.

Depois de terminarmos o chá, Mollie atou um avental impecável à cintura e iniciou os preparativos do jantar. Eu levantei a mesa e lavei a loiça do chá. Acabava de limpar a última peça e de a guardar quando Pettifer apareceu, trazendo na mão uma chave enorme, própria de uma masmorra.

- Sabia que a tinha guardado num lugar qualquer; encontrei-a no fundo de uma gaveta na secretária do comandante.

- Que é isso, Pettifer? - perguntou Mollie.

- A chave do estúdio, minha senhora.

- Céus, quem quer isso?

- Eu - disse. - Grenville autorizou-me a ir lá escolher um quadro para levar comigo para Londres.

- Minha querida, que trabalhos te esperam. O estúdio deve estar uma confusão horrível, há dez anos que ninguém lá vai.

- Não me importo.

Peguei na chave, que senti pesada como chumbo.

- Vais agora? Está a escurecer.

- O estúdio não tem luz?

- Oh, tem, claro, mas é muito sombrio. Vai antes amanhã de manhã.

Mas eu queria ir naquele momento.

- Não haverá problema. Vestirei um casaco.

- Tens uma lanterna na mesa do vestíbulo, é melhor também levá-la, o caminho que desce para o jardim é muito íngreme e escorregadio.

E assim, abotoada até ao pescoço dentro do meu casaco de cabedal e armada da lanterna e da chave, pus-me a caminho, saindo de casa pela porta do jardim. O vento vindo do mar continuava a soprar com força, trazendo consigo rajadas de chuva fina e fria, e foi com grande esforço que consegui fechar a porta depois de sair. A tarde sombria começara a escurecer prematuramente, no entanto ainda havia luz suficiente para me permitir caminhar cuidadosamente pelo jardim em declive; só liguei a lanterna ao chegar ao estúdio, altura em que precisei de luz para dar com o buraco da fechadura.

Inseri a chave, que rodei com esforço por falta de óleo; a porta abriu para dentro, rangendo. Reinava um cheiro a humidade e bafio, algo que tinha a ver com teias de aranha e bolor, e eu enfiei rapidamente a mão por dentro da porta, procurando o interruptor da luz. A única lâmpada que pendia, nua, do alto do tecto ganhou imediatamente uma vida gélida e insubstancial, e eu vi-me rodeada por sombras saltitantes, pois a corrente de ar levava o longo fio flexível a balançar como se fosse o pêndulo de um relógio.

Entrei e fechei a porta atrás de mim, vendo as sombras aquietarem-se a pouco e pouco. À minha volta, vultos cobertos de pó assomavam na penumbra, mas ao fundo da sala havia um candeeiro de pé, de abatjour deformado e partido. Abri caminho até junto deste, encontrei o botão, que liguei, e tudo pareceu tornar-se imediatamente um pouco menos lúgubre.

Vi que o estúdio fora concebido em dois níveis, com uma plataforma, destinada ao repouso, no extremo sul, sendo o acesso permitido por uma escada que fazia lembrar as dos navios.

Subi até meio da escada e vi o divã e o cobertor às riscas. Sobre a cama havia uma janela, fortemente cerrada, e uma almofada com as penas do recheio à mostra, obra provável de algum rato saqueador. A um canto viam-se os restos mortais de uma pequena ave, fina e ressequida. Estremeci ligeiramente perante aquela desolação e desci novamente ao estúdio.

O vento batia e fazia trepidar a enorme janela a norte.

Os cortinados compridos eram manejados por uma complicada geringonça de fios e roldanas; depois de tentar entender-me com o mecanismo durante algum tempo, acabei por desistir e deixei tudo corrido.

No meio do chão havia um palanque para modelo, com uma forma coberta por um lençol no meio, que vi ser uma cadeira de gesso ornamentada. Os ratos também tinham estado naquele assento - havia pedaços de veludo vermelho e crina de cavalo espalhados, à mistura com dejectos de roedores e grande quantidade de pó.

Encontrei a bancada de trabalho de Grenville debaixo de outro lençol; os seus pincéis, tabuleiros de guaches a óleo paletas, canivetes, frascos de óleo de linhaça, pilhas de telas por usar, encardidas pelo tempo. Também havia uma pequena colecção de objets trouvés, pequenos objectos que, possivelmente, Lhe tinham despertado o interesse: uma pedra gasta pela erosão do mar, meia dúzia de conchas, um atado de penas de gaivota, provavelmente apanhadas com o objectivo de lhe servirem para limpar o cachimbo. Havia fotografias,

encaracoladas e esbatidas, de pessoas que me eram desconhecidas, um jarro de louça chinesa cheio de lápis, alguns frascos de tinta-da-china e um bocado de lacre.

Fiquei com a sensação de estar a bisbilhotar, como que a ler o diário de outra pessoa. Voltei a baixar o lençol e dirigi-me para o verdadeiro propósito da minha visita, que era o amontoado de telas sem caixilho que se viam encostadas à parede, voltadas para esta. Também tinham sido protegidas contra o pó, no entanto os lençóis tinham escorregado e caído no chão, e ao deslocar a primeira tela toquei com os dedos em teias e uma aranha, enorme e nojenta, atravessou o chão a fugir, indo perder-se no meio das sombras.

Era um trabalho demorado. Levantei os quadros, aos cinco ou seis de cada vez, sacudi-lhes o pó e encostei-os contra o palanque do modelo, mudando a posição do candeeiro de pé de maneira a que a luz fosse incidindo neles. Alguns estavam datados, no entanto tinham sido empilhados sem qualquer ordem cronológica, e na maior parte dos casos não

me era possível saber quando ou onde tinham sido pintados.

Só sabia que abrangiam toda a vida profissional de Grenville e todos os seus pontos de interesse.

Havia paisagens terrestres, marinhas - o oceano em todas as suas manifestações -, interiores encantadores, alguns esboços de Paris, outros que pareciam de Itália. Viam-se barcos e pescadores, cenas de rua de Porthkerris, uma série de esboços a carvão de duas crianças, que eu sabia serem Roger e Lisa. Não havia retratos.

Iniciei a minha selecção, pondo de lado os quadros que achava especialmente cativantes. Quando cheguei ao fim da pilha, encostara meia dúzia deles às costas de um sofá vacilante e estava toda suja e cheia de frio, com as mãos imundas e teias de aranha agarradas à roupa. Com a agradável sensação de tarefa quase cumprida, encetei a escolha da última pilha de telas. Nesta havia três desenhos a tinta-da-china

e uma vista do porto, com iates e âncoras. E então...

Era a última tela e a maior de todas. Precisei das duas mãos e de todas as minhas forças para a tirar do canto escuro e voltá-la de frente para a luz. Mantive-a segura com uma mão, afastei-me e o rosto da rapariga ressaltou diante dos meus olhos, moreno, de olhos amendoados a sorrirem com uma vitalidade que a poeira dos anos passados não turvara. Vi o cabelo escuro, as maçãs do rosto salientes e a boca sorridente, séria, mas parecendo tremer à beira do riso. E usava o mesmo vestido de tecido branco e diáfano, o vestido que usara para o retrato que pendia sobre a lareira na sala de estar de Boscarva.

Sophia.

Desde que minha mãe mencionara o seu nome que eu me sentira fascinada por ela. A frustração de nunca descobrir que aspecto tinha apenas aumentara a minha obsessão. Mas agora que a encontrara e estávamos, finalmente, cara a cara, senti-me como Pandora. Abrira a caixa, os segredos tinham-se escapado e nada naquele mundo poderia voltar a encerrá-los no seu interior e a fechar a tampa mais uma vez.

Eu conhecia aquele rosto. Falara com ele, discutira com ele; vira-o amuar e sorrir; vira os olhos escuros franzirem-se de raiva e brilharem de boa disposição.

Era Joss Gardner.

Senti, no mesmo instante, um frio terrível. A noite caíra já e o estúdio estava gelado, mas senti o sangue fugir-me do rosto como a água de uma bacia; ouvia o pulsar dificil do meu próprio coração e comecei a tremer violentamente. O meu primeiro instinto foi voltar a colocar o retrato onde o encontrara, empilhar outros sobre ele, escondendo-o como um criminoso tentaria fazer a um cadáver, ou algo pior.

Mas acabei por aproximar uma cadeira e colocá-la de maneira a aguentar o retrato de Sophia como se fosse um cavalete; depois recuei, de pernas trémulas, e sentei-me cuidadosamente na beira do velho sofá balouçante.

Sophia e Joss.

Sophia, a encantadora, e Joss, o traiçoeiro, em quem acabara por descobrir não se poder confiar.

"Ela voltou para Londres, casou, teve um filho, creio eu", dissera-me Pettifer. "Depois, em 1942, morrera no Blitz. "

Mas ele não mencionara Joss. E no entanto, este e Sophia estavam óbvia e inextricavelmente ligados.

Então lembrei-me da minha escrivaninha, da escrivaninha que a minha mãe quisera que ficasse comigo, escondida ao fundo da oficina de Joss.

E ouvi a voz de Mollie:

"Não percebo porque é que Grenville mostra tanto apego a Joss. É assustador. É como se Joss fosse capaz de exercer alguma espécie de poder sobre ele. "

Sophia e Joss.

Já era noite. Não trouxera relógio e perdera a noção do tempo. O vento abafara qualquer outro som, pelo que não ouvi Eliot vir pelo caminho de pedra da casa, caminhando cuidadosamente no meio da escuridão porque eu levara a lanterna. Não ouvi nada até a porta se abrir intempestivamente, como sob a acção de uma rajada de vento, fazendo a lâmpada recomeçar o seu balanço louco e assustando-me tremendamente. No instante seguinte, Rufus precipitou-se para cima do sofá, colocando-se ao meu lado, e eu percebi que tinha companhia.

O meu primo Eliot deteve-se à entrada da porta, emoldurado pela escuridão que reinava no exterior. Vestia um casaco de camurça, uma camisola azul-clara de gola alta e atirara uma gabardina sobre os ombros, à laia de capa. A luz

cruel apagara-lhe toda a cor do rosto, reduzindo-Lhe os olhos fundos a dois buracos negros.

- A minha mãe disse-me que a encontraria aqui em baixo... Vim para...

Calou-se, e eu percebi que vira o retrato. Eu não conseguia mover-me, estava demasiado petrificada com o frio e fosse como fosse, agora era demasiado tarde para tomar alguma iniciativa em relação ao mesmo.

Entrou no estúdio e fechou a porta. Mais uma vez, as sombras saltitantes se foram aquietando pouco a pouco.

Nenhum de nós proferiu palavra. Agarrei na cabeça de Rufus, procurando, instintivamente, conforto no seu pêlo macio e quente, enquanto Eliot se desembaraçava da gabardina, atirando-a para cima de uma cadeira e vindo sentar-se lentamente, a meu lado. Tudo isso sem desviar o olhar do retrato.

Por fim, manifestou-se.

- Santo Deus! - exclamou.

Eu nada disse.

- Onde foi que o encontrou?

- Num canto. - A voz saiu-me enrouquecida. Aclarei a garganta e tentei novamente. - Num canto, atrás de uma série de outras telas.

- É Sophia.

- É.

- É Joss Gardner.

Não havia por onde negar.

- É.

- Neto de Sophia, não acha?

- Sim. Penso que deve ser.

- Ora esta, diabos me levem!

Recostou-se, cruzando as pernas compridas e elegantes, subitamente descontraído, qual crítico de arte experimentado em sessão privada.

A satisfação nítida de que dava mostras intrigou-me e eu não quis que ele pensasse que eu partilhava da mesma.

Esclareci:

- Não andava à procura dele. Tenho sentido curiosidade acerca do aspecto de Sophia, mas não fazia ideia de que havia um retrato dela aqui em baixo. Só aqui vim procurar um quadro porque Grenville me disse que podia escolher um para levar comigo para Londres.

- Eu sei. A minha mãe contou-me.

- Eliot, não devemos dizer nada.

Eliot fez de conta que não me ouviu.

- Sabe, houve sempre algo de esQuisito em Joss, algo de inexplicável. A maneira como apareceu em Porthkerris, vindo não se sabe de onde. A forma como Grenville sabia da sua existência; como lhe deu trabalho e o deixou andar por Boscarva a seu bel-prazer. Eu nunca confiei em Joss mais do que devia. E o desaparecimento da escrivaninha, aquela que devia ficar para si. Tudo altamente suspeito. Eu sabia que devia aproveitar aquela altura para contar a Eliot que encontrara a escrivaninha. Abri a boca com essa intenção, mas voltei a fechá-la, porque algo fez com que as palavras não saíssem. Porque Eliot continuara a falar, sem reparar na minha interrupção incipiente.

- A minha mãe jurou que ele exercia alguma espécie de ascendência sobre Grenville.

- Dá a impressão de que fala de chantagem.

- Quem sabe se foi, de certa maneira. Está a ver o género: "Sou neto de Sophia, que tenciona fazer por mim? " E Pettifer também deve ter sabido. Pettifer e Grenville não têm segredos um para o outro.

- Eliot, não deve contar que encontrámos o quadro. Eliot voltou a cabeça para mim.

- Parece-me ansiosa, Rebecca. É por causa de Joss Gardner?

- Não. De Grenville.

- Mas gosta de Joss.

- Não.

Fingiu espanto.

- Mas todos gostam de Joss! Não há quem, ao que parece, não tenha caído sob o feitiço do seu encanto menineiro. Grenville e Pettifer; Andrea anda apatetada por causa dele, não o larga, embora eu ache que haja algo de fisico naquela atracção. Imaginei que lhe tivesse acontecido a mesma coisa. - Franziu o sobrolho. - A Rebecca gostou de Joss.

- Já não gosto, Eliot.

Começou a ficar intrigado. Mudou ligeiramente de posição, de modo a ficarmos de frente um para o outro no sofá o braço dele estendido ao longo das costas trabalhadas, atrás dos meus ombros.

- Que aconteceu?

Que acontecera? Nada. Mas eu nunca me sentira muito à vontade em relação a Joss e a todas as circunstâncias que pareciam unir as nossas vidas. E ele roubara a escrivaninha da minha mãe. E naquele preciso momento dava continuação à sua relação clandestina com a sensaborona da Andrea. Diante da própria ideia, a minha imaginação ficou pronta a pôr o assunto de parte.

Eliot aguardava que eu respondesse. Mas eu limitei-me a encolher os ombros e a dizer, com uma sacudidela de cabeça:

- Mudei de ideias.

- O dia de ontem terá tido alguma coisa a ver com o facto?

- Ontem?

Lembrei-me de estar sentada ao lado de Eliot no terraço banhado de sol do pequeno pub; dos dois rapazes a velejarem no seu bote pelas águas azuis do ribeiro; e, finalmente, os braços de Eliot a rodearem-me, o gosto dos seus beijos e a sensação de estar a perder o controlo, a resvalar por uma ribanceira.

Estremeci novamente. As minhas mãos jaziam, frias e sujas, no colo. Eliot tapou-as com as suas, exclamando, algo surpreendido:

- Está gelada!

- Eu sei, estou aqui há horas.

- A minha mãe contou-me que quer voltar para Londres.

Tudo indicava que a questão de Joss ficara para trás, o que me agradava.

- Sim, tenho de ir.

- Quando?

- Amanhã à noite.

- Não me disse nada.

- Só decidi esta manhã.

- Dá a impressão de que mudou de ideias e tomou uma série de decisões num só dia.

- Não me apercebera da rapidez com que o tempo passara. Estou afastada do trabalho vai quase para duas semanas.

- Ontem, pedi-lhe que ficasse.

- Tenho de ir.

- Quem a faria ficar?

- Nada. Quero dizer... não posso...

Gaguejava como uma idiota, no entanto sentia-me demasiado gelada, suja e fatigada para semelhante conversa. Mais tarde talvez fosse capaz de conversar sobre o assunto...

- Ficaria se a pedisse em casamento?

Ergui a cabeça num movimento súbito. Algo parecido com horror deve ter-se espelhado no meu rosto porque Eliot começou a rir com vontade.

- Não fique tão chocada. Não há nada de mirabolante no casamento.

- Mas, somos primos.

- Isso não tem importância.

- Mas nós não... quero dizer, o Eliot não me ama. Era uma observação horrível, no entanto Eliot levou-a à letra.

- A Rebecca está a gaguejar e a tartamudear como se fosse uma colegial. Talvez eu a ame. Talvez a tivesse amado durante muito tempo antes de lhe pedir que casasse comigo, mas a Rebecca precipitou esta situação ao anunciar subitamente, e sabe-se lá porquê, que tencionava voltar para Londres. Portanto, mais vale que o diga já. Quero que case comigo. Penso que resultará muito bem.

Apesar de tudo, senti-me comovida. Era a primeira vez que me pediam em casamento, o que considerava lisonjeiro. Mas enquanto escutava Eliot com uma parte do cérebro, a outra parte andava incessantemente às voltas, qual esquilo numa gaiola.

Porque ainda havia Boscarva, assim como a terra que Eliot precisava de vender a Ernest Padlow.

"Tu não és o meu único neto. "

parece ridículo dizermos adeus e sairmos da vida um do outro no momento exacto em que nos encontrámos e existem tantas coisas boas a nosso favor.

Observei suavemente:

- Como Boscarva.

O sorriso de Eliot gelou ligeiramente. Ergueu uma sobrancelha.

- Boscarva?

- Sejamos honestos e sinceros, Eliot. Deve precisar de Boscarva por alguma razão. E acha que Grenville tenciona deixar-ma.

Eliot respirou fundo, como quem vai negar semelhante afirmação, hesitante. O sorriso tornou-se forçado. Passou uma mão pela cabeça.

- Que frieza essa. De repente deu em ser a Princesa do Gelo.

- O Eliot precisa de Boscarva para poder vender a quinta a Ernest Padlow, que aqui quer construir as suas casas.

Eliot disse, cuidadosamente:

- É verdade.

Aguardei.

- Precisava de dinheiro para montar a garagem - continuou ele. - Grenville não estava interessado, portanto fui ter com Padlow. Ele concordou e a quinta de Boscarva ficou como garantia. Acordo de cavalheiros.

- Mas a quinta não era sua.

- Tinha a certeza de que viria a ser. Não havia razão para que não fosse assim. E Grenville estava velho e doente.

O fim teria de chegar algum dia. - Abriu as mãos num gesto de impotência. - Quem diria que, três anos depois ainda estaria connosco?

- Dá a impressão de que o quer ver morto.

- A velhice é algo terrível. Solitário e triste. Ele teve uma vida boa. Que mais tem a que se apegar?

Eu sabia que não podia concordar com Eliot. A velhice no caso de Grenville, significava dignidade e determinação.

Eu acabara de o conhecer, no entanto já gostava muito dele e tornara-o parte de mim; não suportava a ideia da sua morte.

Fazendo um esforço para ser prática, perguntei:

- Há alguma outra forma de o Eliot saldar a sua dívida para com Padlow?

- Podia vender a garagem. Seja como for, é o que terei de fazer se as coisas continuarem como estão.

- Pensei que iam muito bem.

- É o que se tem dado a entender a todos.

- Mas se vender a garagem, que fará depois?

- Que me sugere?

Parecia divertido, como se eu fosse uma criança com caprichos a satisfazer.

Perguntei-lhe:

- E quanto ao senhor Kemback e ao museu de automóveis em Birmingham?

- Que lembrança mais triste havia de ter.

- Trabalhar para o senhor Kemback seria assim tão mau?

E deixar a Cornualha?

Acho que é o que devia fazer. Começar tudo de novo.

Afastar-se de Boscarva e... - calei-me, mas logo a seguir pensei: "Perdido por cem, perdido por mil. " -. e da sua mãe - terminei apressadamente.

- A minha mãe?

Continuava a expressão divertida, como se eu fosse uma idiota simpática.

- Sabe ao que me refiro, Eliot. Houve uma pausa longa. Depois:

- Estou a ver - disse Eliot - que esteve a falar com Grenville.

- Lamento.

- Uma coisa é certa, ou Joss tem de partir, ou eu. Como dizem nos filmes de cowboys: "Esta cidade é demasiado pequena para nós os dois. " Mas preferia que fosse Joss a ir-se embora.

- Joss não tem importância. Nem vale a pena perder tempo a falar nele.

- Se eu vendesse a garagem e fosse trabalhar para Birmingham, viria comigo?

- Oh, Eliot!...

Voltei-lhe as costas, ficando novamente de frente para o retrato de Sophia. Os nossos olhos encontram-se e foi como se Joss ali estivesse sentado, a ouvir a nossa conversa e a rir-se de nós. Nessa altura Eliot agarrou-me no queixo e virou-me a cabeça de maneira a eu olhar novamente para ele.

Ouça o que estou a dizer!

- Estou a ouvir.

- Não é obrigatório estarmos apaixonados um pelo outro. Tem consciência do facto, não tem?

- Sempre achei que era importante.

- Não acontece a todos. Talvez nunca venha a viver essa situação.

Era uma perspectiva aterradora.

- Talvez não.

- Nesse caso - falava com voz muito suave e persuasiva -, seria assim tão mau assumirmos um compromisso? Seria preferível um emprego das nove às cinco para o resto da vida e um apartamento vazio em Londres?

Tocara-me no ponto sensível. Eu estivera sozinha demasiado tempo e a perspectiva de continuar assim pelo resto da vida era assustadora. Grenville dissera: "Foste feita para um homem, um lar e filhos. " E naquele momento tinha tudo isso ali, à minha espera. Bastava-me estender a mão e aceitar o que Elliot me propunha.

Balbuciei o seu nome e ele abraçou-me, apertando-me muito contra ele, beijando-me os olhos, as faces, a boca. Sophia observava-nos mas eu não me importava. Disse para mim própria que ela estava morta e que a Joss eu já pusera fora da minha vida. Porque haveria de me preocupar com o que qualquer dos dois pensasse de mim?

A certa altura, Eliot disse:

- Temos de ir. - Afastou-me para melhor me observar.

- Tens de tomar um banho e tirar todas essas marcas de sujidade da cara, e eu tenho de ir buscar gelo ao frigorífico e estar pronto e submisso para servir bebidas a Grenville e a minha mãe.

- Sim. - Afastei-me dos seus braços e tirei um caracol da cara. Sentia-me mortalmente fatigada. - Que horas são?

Eliot consultou o relógio, cuja correia, ainda reluzente e brilhante, era a que eu lhe oferecera.

- Quase sete e meia. Podíamos ficar aqui a noite inteira, mas, infelizmente, a vida tem de continuar.

Levantei-me pesadamente. Sem olhar para o retrato, peguei nele e voltei a colocá-lo no seu canto poeirento e secreto, junto das teias e das aranhas, de frente para a parede.

Depois peguei nos outros quadros ao acaso e empilhei-os em volta e por cima dele. Tudo ficava, disse de mim para mim, como estivera antes. Demos uma arrumação superficial e tapámos as telas com um lençol, para as proteger do pó. Eliot desligou o candeeiro de pé e eu peguei na lanterna. Saímos do estúdio, desligámos a luz e fechámos a porta com a chave. Eliot tirou-me a lanterna e, juntos, seguimos o círculo saltitante do feixe de luz, jardim acima, tropeçando de vez em quando nalguma beira de canteiro indistinto ou tufo de erva, subindo os degraus molhados do terraço. A casa erguia-se por cima de nós, as salas iluminadas a brilharem por trás de cortinas corridas, enquanto, à nossa volta, o vento continuava a soprar e as silhuetas das árvores atormentadas e despidas de folhas assomavam.

- Nunca ouvi falar de uma tempestade que durasse tanto tempo - comentou Eliot, ao abrirmos a porta lateral para entrar. O vestíbulo estava quente e tranquilo e no ar pairava o cheiro agradável do frango estufado que iríamos comer ao jantar.

Separámo-nos, indo Eliot para a cozinha e eu para o andar de cima a fim de me livrar daquelas roupas sujas, pôr o banho a correr e regalar-me no meio do vapor de água quente e perfumada. Finalmente relaxada, não pensei em nada. Estava demasiado cansada para o fazer. O mais provável, concluí, era que adormecesse e me afogasse. Por alguma razão, a ideia não me alarmou.

Mas não adormeci porque, deitada na banheira, ouvi, sobrepondo-se ao barulho do vento, um carro a aproximar- se. A casa de banho dava para as traseiras da casa, assim como para o caminho de acesso e a porta da frente. Não me dera ao cuidado de correr as cortinas, de modo que os faróis do automóvel faiscaram, por um segundo, contra o vidro escuro. Uma porta bateu, ouviram-se vozes. Perturbado o meu banho, saí da banheira, sequei-me e ia pelo corredor, em direcção ao meu quarto, quando ouvi vozes alteradas chegarem-me pelas escadas, vindas do vestíbulo.

encontrei-a a meio da subida da colina... Era uma voz masculina, que eu não conhecia. Nessa altura falou Mollie.

mas, minha querida filha.

A frase foi interrompida por um acesso violento de soluços. Depois ouvi Mollie novamente.

- Por amor de Deus, rapariga... vá, vem daí, estás bem. Agora já estás a salvo...

Entrei no meu quarto, vesti-me, abotoei os botões da minha túnica castanha, escovei e penteei a trança, tudo no espaço de momentos. Passei uma camada de batom - não havia tempo para mim -, enfiei os pés nus numas sandálias e corri escadas abaixo, prendendo os brincos ao mesmo tempo.

Ia a chegar ao fundo das escadas quando Pettifer apareceu, vindo da cozinha, de rosto terrivelmente sombrio e com um copo de brande na mão. O facto de não o levar numa salva de prata era indício da gravidade da situação.

- Pettifer, que aconteceu?

- Não sei o que aconteceu exactamente, mas parece que aquela rapariga está a ter um ataque de histerismo.

- Ouvi um carro chegar. Quem a trouxe a casa?

- Morris Tatcombe. Diz que voltava de Porthkerris para casa quando a encontrou na estrada.

Fiquei horrorizada.

- Quer dizer, caída no meio da estrada? Foi atropelada ou algo do género?

- Não sei. Provavelmente foi apenas um tropeção.

Na ponta mais afastada, a porta da sala de estar abriu-se de rompante e Mollie veio na nossa direcção, quase correndo.

- Oh, Pettifer, não fique aí especado a falar, apresse-se com o brande!

Ao ver-me ali, sem perceber o que se passava, exclamou:

- Oh, Rebecca, que coisa terrível, tão terrível! Vou ligar para o médico. - Junto do telefone, começou a folhear a lista atabalhoadamente, incapaz de ver, pois deixara os óculos algures. - Procure por mim, querida, faça-me esse favor. É o doutor Trevaskis... devemos ter o número escrito nalgum lado, mas não consigo encontrá-lo...

Pettifer afastara-se. Peguei na lista e comecei a procurar o número.

- Que aconteceu a Andrea? - perguntei.

- É a história mais aterradora que se possa imaginar. Mal consigo acreditar que seja verdadeira. Foi uma bênção Morris ter dado com ela. Podia ali ter ficado a noite toda. Com certeza morreria...

- Aqui está. Lionel Trevaskis. Porthkerris 873. Mollie levou a mão à face.

- Oh, é claro, já devia sabê-lo de cor!

Ergueu o auscultador e discou. Enquanto esperava que atendessem, falou-me rapidamente.

- Vá sentar-se ao lado dela, os homens são uns incompetentes, nunca sabem o que fazer.

Apesar de incomodada e estranhamente relutante em saber os pormenores da infeliz experiência de Andrea, fiz o que Mollie me pediu. Deparei com a sala de estar numa grande desordem. Grenville, aparentemente indiferente, en contrava-se em frente da lareira, de mãos cruzadas atrás das costas, sem proferir palavra. Os restantes presentes agrupavam-se em redor do sofá; Eliot servira uma bebida a Morris e viam Pettifer a tentar, com paciência louvável, levar Andrea a beber um pouco de brande.

E Andrea... apesar de tudo fiquei chocada e assustada com a sua aparência. A camisola limpa e os jeans engomados com os quais saíra tão alegremente mostravam-se ensopados e sujos de lama. O rasgão das calças no joelho, vulneravelmente infantil, deixava ver um corte que sangrava. Perdera, ao que parecia, um sapato. Tinha o cabelo pegado à cabeça, fazendo lembrar algas marinhas, o rosto inchado de tanto chorar, e quando pronunciei o seu nome, fitou-me com olhos patéticos e cheios de lágrimas; reparei, com horror, na escoriação da têmpora, como se tivesse sido selvaticamente agredida. A cruz céltica da corrente de cabedal também desaparecera; arrancada provavelmente nalguma luta impensável.

- Andrea!

A jovem soltou um gemido profundo e inclinou-se para o lado, premindo o rosto contra as costas do sofá, entornando o brande e deitando ao chão o copo que Pettifer tinha na mão.

- Não quero falar nisso! Não quero falar nisso...

- Mas tens de falar!

Pettifer, exasperado, apanhou o copo e saiu da sala. Pensei para comigo que ele não gostara da resposta. Sentei-me no lugar deixado vago por ele ao lado de Andrea, na beira do sofá, e tentei voltá-la para mim.

- Alguém foi responsável pelo estado em que te encontras?

Andrea voltou-se subitamente para mim, com o corpo a tremer violentamente.

- Foi! - Gritou-me no rosto, como se eu fosse surda.

- Joss!

Dito isto, desfez-se novamente em lágrimas. Ergui os olhos para Grenville e deparei com um olhar frio e impassível. As feições do seu rosto pareciam esculpidas em madeira. Considerei que dali não deveria esperar ajuda. Voltei-me para Morris Tatcombe.

- Onde foi que a encontrou?

O rapaz agitou-se, pouco à vontade. Reparei que estava vestido como se fosse passar a noite na cidade. Envergava um casaco de cabedal enfeitado com uma fiada de emblemas bordados e salpicado de chuva, jeans justos e botas de tacão alto. Nem mesmo estes faziam com que a sua cabeça chegasse aos ombros de Elliot, e o cabelo comprido caía-lhe, molhado e fraco.

Atirou-o para trás, num gesto simultaneamente agressivo e consciente de si mesmo.

- A meio da colina de Porthkerris. Sabe, naquele sítio onde a estrada afunila e não há alcatroado. Ela estava entre a berma e a valeta. Na verdade foi uma sorte tê-la visto. Pensei que tivesse sido atropelada, mas não foi. Parece que teve uma briga com Joss Gardner.

Eu disse:

- Ele convidou-a a ir ao cinema com ele.

- Não faço ideia de como tudo começou - declarou Morris.

- Mas, ao que parece... - disse Eliot com ar grave foi assim que acabou.

- Mas...

Tinha de haver outra explicação. Estava prestes a comunicar-lhes as minhas dúvidas quando Andrea soltou novo gemido, parecia uma bruxa velha a carpir, o que me fez perder a paciência.

- Oh, por amor de Deus cala-te, rapariga! - Agarrei-a pelos ombros e sacudi-a, fazendo-lhe a cabeça bater contra o estofo de seda como uma boneca de trapos mal cheia. Pára de fazer esse barulho demente e conta-nos o que aconteceu.

Palavras começaram a brotar-lhe da boca, que o choro tornara feia. (Pensei vivamente "ao menos não perdeu nenhum dente", detestando-me a mim própria pela insensibilidade. )

- Eu. nós. fomos ao cinema. e. quando saímos. entrámos num bar, e...

- Que bar?

- Não sei...

Ergui a voz, impaciente. Por trás de mim, Mollie, que acabara de entrar na sala, disse:

- Oh, não lhe grites! Não sejas severa.

Fiz um esforço e tentei novamente, com mais brandura.

- Não consegues lembrar-te do sítio onde foram?

- Não. Estava e... escuro... e eu... não via nada. E depois... e depois.

Agarrei-a firmemente, tentando acalmá-la.

- Sim. E depois?

- E Joss tinha bebido muito uísque. E não queria trazer-me a casa. Queria que eu vol... voltasse para o apartamento dele... e...

A boca formou um esgar de choro e as feições distorceram-se num pranto incontrolável. Larguei-a e levantei-me, afastando-me da jovem. Mollie ocupou imediatamente o lugar.

- Pronto - disse. - Pronto, já passou.

Era mais meiga do que eu, a voz tranquilizadora como a de uma mãe.

- Vá, não tens nada com que te preocupar. O médico vem a caminho e Pettifer está a pôr uma bela botija de água quente na tua cama. Não precisas de nos contar mais nada. Ninguém te obriga a falar mais no assunto.

Mas, talvez acalmada pelos modos de Mollie, Andrea parecia ansiosa por pôr tudo em pratos limpos, de modo que, por entre soluços e suspiros profundos, escutámos o resto da história.

- E eu não queria ir. Eu... eu tinha vontade de voltar para casa. Portanto... deixei-o. Mas ele veio atrás de mim. E... eu tentei correr, mas tropecei na estrada e o sapato ca... caiu-me. Foi então que ele me apa... apanhou, e... começou a gritar comigo... e eu berrei e ele bateu-me...

Olhei para os rostos que me rodeavam e vi o mesmo horror e consternação, em graus variados, espelhados neles. Somente Grenville parecia frio e profundamente irado, porém não se movia, não dizia uma palavra.

- Está tudo bem - repetiu Mollie, com voz ligeira mente trémula. - Agora já está tudo bem. Vem comigo para cima.

Andrea foi ajudada a levantar-se do sofá, com as roupas sujas e as pernas fracas; porém estas recusaram-se a suportar o seu peso e a jovem deu mostras de se ir abaixo. Foi Morris quem, por estar mais perto, se acercou e a apanhou antes de cair, erguendo-a, com força surpreendente, nos braços de aspecto débil.

- Pronto - disse Mollie -, Morris leva-te lá acima. Já passou! Dirigiu-se para a porta. - Por aqui, se faz fa vor, Morris.

- Muito bem - retorquiu Morris, que não parecia ter muita opção na matéria.

Observei o rosto de Andrea. Quando Morris a amparou, os seus olhos abriram-se e fitou directamente os meus, ficando os olhares presos um ao outro. Foi nesse momento que eu soube que ela mentia. E ela soube que eu percebera que ela mentia.

Encostando a cabeça ao peito de Morris, começou novamente a chorar. Foi levada rapidamente da sala.

Ouvimos os passos sobrecarregados de Morris transportando-a pelo corredor e começando depois a subir as escadas. Então Eliot declarou, com ar superior:

- Que problema desagradável. - Olhou de relance

para Grenville. - Quer que eu ligue já para a polícia ou mais tarde?

Grenville falou, finalmente:

- Quem é que falou em polícia?

- Certamente não tenciona deixá-lo impune, pois não?

Declarei:

- Ela estava a mentir.

Ambos os homens me fitaram, algo surpreendidos. Os olhos de Grenville estreitaram-se e o seu aspecto tornou-se mais imponente do que nunca. Eliot franziu o sobrolho.

- Que foi que disseste?

- Parte da história dela pode ser verdadeira. A maior parte provavelmente é. Mas, ainda assim, ela mentiu.

- Por que dizes que mentiu?

- Porque, como disseste, ela estava enfeitiçada por Joss. Não o deixaria sozinho. Contou-me que fora várias vezes ao apartamento dele, o que deve ter acontecido porque mo descreveu até ao mais pequeno pormenor. Desconheço o que aconteceu esta noite. Mas tenho a certeza de que, se Joss quisesse trazê-la de volta, ela teria aceitado imediatamente. Sem discussão.

- Então - perguntou Eliot em voz branda -, como

explicas a escoriação no seu rosto?

- Não faço ideia. Disse que não sabia o resto da história. Mas parte dela de certeza foi inventada.

Grenville moveu-se. Estivera muito tempo de pé. Lentamente, acercou-se da sua poltrona, na qual se sentou com cuidado.

- Podemos descobrir o que realmente aconteceu disse por fim.

- Como? - A pergunta de Eliot saiu disparada como uma bala.

Grenville virou a cabeça e fixou o seu olhar em Eliot.

- Podemos perguntar a Joss.

Eliot deixou escapar um som, o qual, nos romances antigos, teria sido escrito com "Pft? "

- Vamos perguntar-lhe. E teremos a verdade.

- Ele não sabe o que a verdade significa.

- Nada te justifica a fazer semelhante declaração. Eliot perdeu a calma.

- Ora, por amor de Deus, será que a verdade tem de Lhe ser atirada à cara para que a reconheça?

- Não grites comigo.

Eliot calou-se, fitando, incrédulo e revoltado, o velho. Quando, por fim, falou, foi com pouco mais que um sussurro:

- Já estou farto de Joss Gardner. Nunca confiei nem gostei dele. Acho que é um aldrabão, um ladrão e um menti roso, e sei que tenho razão. E um dia também vocês verão que não me engano. Esta casa é sua. Aceito o facto. Mas o que não aceito é o direito de ele se apossar dela, connosco aqui dentro, somente porque ele é...

Tive de o calar.

- Eliot! - Virou-se para olhar para mim. Era como se tivesse esquecido a minha presença. - Eliot, por favor. Não digas mais nada.

Baixou o olhar para o seu copo e terminou a bebida de uma só golada.

- Está bem - disse por fim. - Para já, não direi mais nada.

E foi servir-se de nova dose de uísque. Enquanto o fazia, comigo e Grenville a observá-lo, Morris Tatcombe voltou à sala.

- Bom, então vou-me embora - disse o rapaz nas costas de Eliot.

Eliot voltou-se e viu-o.

- Como é que ela está?

- Bem, está lá em cima. A tua mãe está com ela.

- Toma outra bebida antes de saíres.

- Não, é melhor ir já.

- Realmente não sabemos como havemos de te agradecer. Que teria acontecido se tu não a tivesses visto...

Calou-se, deixando a frase incompleta conjurar visões de Andrea a morrer de frio, exaustão e perda de sangue.

- Foi uma sorte.

Retrocedeu, nitidamente ansioso por se retirar mas sem saber muito bem como fazê-lo. Eliot pôs a rolha de vidro na garrafa, pousou o copo acabado de encher sobre a mesa e foi em seu auxílio.

- Acompanho-te à porta. - Morris dirigiu um aceno de cabeça a Grenville e a mim.

- Boa-noite a todos.

Mas Grenville pusera-se de pé com imponência digna.

- O senhor conduziu as coisas com muita sensibilidade, senhor Tatcombe. Estamos-lhe gratos. E também lhe agradecemos que guarde sigilo sobre a versão da rapariga. Pelo menos até se concluir que corresponde à verdade.

Morris mostrou-se céptico.

- Estas coisas espalham-se.

- Mas não, estou certo, através de si.

Morris encolheu os ombros.

- O problema é vosso.

- Exactamente. É nosso. Boa-noite, senhor Tatcombe. Eliot acompanhou-o à porta.

Grenville voltou a sentar-se, com esforço, na sua poltrona. Passou uma mão pelos olhos e eu lembrei-me de que aquelas cenas não lhe deviam fazer nada bem à saúde.

- Sente-se bem?

- Sim. Estou bem.

Desejei poder desabafar com ele, dizer-lhe que sabia de Sophia, e que Joss era seu neto. Mas tinha a noção de que, se houvesse de revelar alguma verdade, a iniciativa deveria partir dele.

- Quer uma bebida?

- Não.

Deixei-o então entregue a si mesmo, entretendo-me a arrumar os almofadões no sofá desalinhado.

Só passado algum tempo é que Eliot reapareceu; no entanto, parecia, de novo, muito bem-disposto, completamente esquecida a pequena desavença havida entre ele e Grenville. Foi buscar a sua bebida.

- À sua saúde - saudou, erguendo o copo ao avô.

- Suponho que tenhamos ficado em dívida para com o rapaz - observou Grenville. - Espero que um dia possamos retribuir-lhe.

- Se eu fosse a si não me ralava muito com Morrisreplicou Eliot com despreocupação. - Tenho a certeza de que é capaz de arranjar maneira de tal acontecer. Mas Pettifer pediu-me que vos avisasse de que o jantar está na mesa.

Comemos os três sozinhos. Mollie ficou junto de Andrea e, estávamos nós a meio do jantar, o médico chegou, sendo acompanhado ao andar de cima por Pettifer. Mais tarde, ouvimo-lo falar com Mollie no corredor, depois esta acompanhou-o à porta e veio à sala de jantar transmitir-nos o que ele dissera.

- Choque, evidentemente. Deu-lhe um sedativo e vai ter de ficar na cama um dia ou dois.

Eliot fora afastar a cadeira a Mollie, onde esta se deixou cair, parecendo exausta e abalada.

- Imaginem acontecer semelhante coisa. Não consigo imaginar como hei-de contar à mãe dela.

Deixe essa preocupação para amanhã – aconselhou Eliot.

- Mas foi uma história tão pavorosa. Ela não passa de uma criança. Tem só dezassete anos. Que terá passado pela cabeça de Joss? Deve ter ficado louco.

- Provavelmente estava bêbado - sugeriu Eliot.

- Sim, talvez estivesse. Bêbado e violento. Nem eu nem Grenville fizemos algum comentário. Era como se tivéssemos entrado numa espécie de conspiração não combinada, porém tal não significava que eu tivesse perdoado a Joss ou fechado os olhos ao acontecido. Talvez mais tarde, quando ele fosse interrogado por Grenville, toda a verdade viesse ao de cima. Nessa altura eu teria, provavelmente, regressado a Londres.

E se ainda ali estivesse... Comi, lentamente, um cacho de uvas. Aquele bem poderia ser o meu último jantar em Boscarva, mas na verdade não sabia bem se desejava que assim fosse ou não. Chegara a uma encruzilhada e não fazia ideia por que caminho enveredar. Mas em breve iria ter de me decidir.

Um compromisso, dissera Eliot, o que soara com grande falta de ardor. Mas depois dos acontecimentos melodramáticos daquela noite, as próprias palavras adquiriam agora um novo significado, sensíveis e realistas, com os pés firmemente plantados no chão.

"Foste feita para um homem, um lar e filhos. "

Peguei no copo de vinho e, erguendo os olhos, reparei que Eliot me observava, do outro lado da mesa polida. Sorriu-me, como se fôssemos conspiradores. Tinha no rosto uma expressão simultaneamente de confiança e triunfo. Quem sabe, enquanto eu pensava que provavelmente acabaria por casar com ele, Eliot soubesse já que eu o faria.

De volta à sala de estar, reunimo-nos em redor da lareira e tomávamos o café quando o telefone tocou. Pensei que Eliot fosse atender, no entanto este deixou-se ficar tanto tempo na poltrona, onde se enfiara com o seu jornal e uma bebida, que quem acabou por receber a chamada foi Pettifer. Ouvimos a porta da cozinha abrir e os velhos pés caminharem lentamente pelo corredor. O toque parou. Sem saber por que motivo, olhei de relance para o relógio que estava em cima da cornija. Eram dez e um quarto da noite.

Aguardámos. A certa altura a porta da sala abriu-se e Pettifer enfiou a cabeça na abertura, com os óculos a reflectirem a luz do candeeiro.

- Quem é, Pettifer? - perguntou Mollie.

- É para Rebecca - respondeu Pettifer.

Fiquei surpreendida.

- Para mim? Eliot inquiriu:

- Quem poderá estar a telefonar-te a esta hora da noite?

- Não faço ideia.

Levantei-me e atravessei a sala. Talvez fosse Maggie, a querer dizer-me algo sobre o apartamento. Ou Stephen Forbes, a perguntar quando é que eu tencionava voltar ao trabalho. Senti-me culpada pois devia ter entrado em contacto com ele, informando-o dos meus passos e de quando pensava regressar a Londres.

Sentei-me na arca do corredor e peguei no auscultador.

- Está?

Uma vozinha esganiçada começou a falar, parecendo vir de muito longe.

- Oh, menina Bayliss, nós íamos a passar e encontrámo-lo ali estendido... o meu marido disse... então levámo-lo pelas escadas até ao apartamento... não sei o que aconteceu! Cheio de sangue e mal podia falar. Queríamos chamar o médico.

mas ele não nos deixou... tivemos medo de o deixar ali sozinho... deve haver aí alguém... disse que ficava bem...

Eu devia ser excepcionalmente lenta ou estúpida porque levei imenso tempo a perceber que se tratava da Sr. a Kernow, a telefonar-me da cabina ao fundo da Fish Lane, para me dizer que algo acontecera a Joss Gardner.

Fiquei espantada e satisfeita por me ver num estado de calma quase total. Era como se já estivesse preparada para aquela crise, me tivessem dado ordens e dito o que fazer. Não havia dúvidas e, portanto, nenhuma indecisão. Tinha de ir ter com Joss. Era tão simples como isso.

Fui ao meu quarto buscar o casaco, vesti-o, abotoei-o e voltei a descer. A chave do carro de Mollie encontrava- se no mesmo sítio onde eu a deixara, sobre o tabuleiro de cobre que estava em cima da mesa do corredor.

Peguei nela e, nessa altura, a porta da sala abriu-se para dar passagem a Eliot, que se aproximou de mim. Nunca me passou pela cabeça que alguém ou alguma coisa pudessem impedir-me de ir.

Ao ver-me o casaco vestido, perguntou:

- Aonde vais?

- Sair.

- Quem estava ao telefone?

- A senhora Kernow.

- Que queria ela?

- Joss foi ferido. Ela e o marido iam para casa pela rua do porto, de volta de uma visita a casa da irmã dela. Encontraram-no.

- E então?

Falava com voz fria e muito controlada. Esperava sentir-me intimidada, mas tal não aconteceu.

- Levo o carro da tua mãe emprestado. Vou ter com ele. O rosto magro de Eliot endureceu, a pele retesou-se sobre os ossos salientes.

- Enlouqueceste?

- Não creio.

Eliot nada disse. Enfiei as chaves no bolso e dirigi-me para a porta, no entanto Eliot foi mais rápido do que eu e, em duas passadas, colocou-se à minha frente, de costas contra a porta e com a mão no fecho.

- Não vais - declarou amigavelmente. - No fundo sabes que eu não te deixaria ir, não é verdade?

- Ele foi ferido, Eliot.

- E depois? Viste o que ele fez a Andrea. Ele não presta, Rebecca. A avó era uma prostituta irlandesa, Deus sabe quem foi o pai e ele não passa de um filho da mãe muLherengo.

As palavras feias, destinadas a chocarem-me, não me causaram a menor impressão. Eliot percebeu e a minha despreocupação enfureceu-o.

- Porque queres ir ter com ele? De que servirá? Ele não te agradecerá por interferires, se é disso que vais à procura. Deixa-o em paz, ele não faz parte da tua vida, não tem nada a ver contigo.

Fiquei a observá-lo, a ouvi-lo, sem que nada do que dizia fizesse sentido para mim. A única coisa que soube, imediatamente, é que a incerteza e a indecisão se tinham desvanecido, o que me fez sentir leve com o alívio, como se um grande peso me tivesse sido retirado dos ombros. Continuava numa encruzilhada. A minha vida mantinha-se uma confusão. Uma coisa tornara-se, porém, perfeitamente clara: eu nunca poderia casar com Eliot.

Um compromisso, dissera ele. Mas, para mim, teria sido um mau negócio. Ele era fraco, reconhecia, e provavelmente não o mais bem-sucedido dos comerciantes. Eu detectara essas falhas no seu carácter e preparara-me para as aceitar. Mas as boas-vindas que ele me mostrara, a hospitalidade, assim como o encanto que era capaz de ligar e desligar como se bastasse carregar num botão, deixaram-me cega perante o seu espírito vingativo e a força assustadora da sua inveja.

Disse-lhe:

- Deixa-me ir, Eliot.

- E se eu te disser que não deixo? E se eu não te deixar sair daqui? - Ladeou-me a cabeça com as mãos, premindo-me o crânio com tanta força que dava a impressão de este ir rebentar como uma noz. - E se eu te disser, neste instante, que te amo?

Senti-me enojada.

- Tu não amas ninguém. Somente Eliot Bayliss. Não há espaço para mais ninguém na tua vida.

- Pensei que tínhamos chegado à conclusão de que tu é que não sabias como amar.

A força das mãos dele aumentou. A minha cabeça começou a latejar e eu fechei os olhos, suportando a dor.

- Quando eu amar - disse-lhe por entre os dentes cerrados -, não será a ti.

- Então está bem, vai.

Soltou-me tão repentinamente que quase perdi o equilíbrio. Eliot rodou violentamente a maçaneta e escancarou a porta; no mesmo instante, o vento entrou a rodos, qual criatura monstruosa que tivesse estado toda a noite acoitada, à espera de invadir a casa. No exterior reinava a escuridão e a chuva. Sem mais uma palavra a Eliot, passei por ele a correr e saí como que para um santuário.

Tive ainda de chegar à garagem, debater-me com as portas no meio da escuridão e dar com o pequeno carro de Mollie. Tinha a impressão de que Eliot continuava atrás de mim, assustador como um espírito mau imaginário, prestes a saltar sobre mim, a apanhar-me e a impedir-me de partir. Fechei a porta do automóvel com força e a mão tremia-me de tal maneira que foi com dificuldade que consegui enfiar a chave na ignição. O motor não pegou à primeira. Ouvi-me a mim própria a gemer ao abrir o regulador de ar do carburador e tentar novamente. Dessa vez, começou a trabalhar. Meti a primeira e disparei em frente, através da escuridão e da chuva, pelo caminho acima, fazendo dispersar grande quantidade de cascalho, até, por fim, atingir a estrada.

Guiar permitiu-me recuperar parte da calma anterior. Escapara a Eliot, ia ter com Joss. Devia guiar com cuidado e bom senso, não me deixar dominar pelo pânico, não me arriscar a uma derrapagem ou colisão possível. Abrandei para uns cautelosos cinquenta quilómetros horários. Diminuí voluntariamente a força com que agarrava no volante. A estrada estendia-se colina abaixo, negra e molhada pela chuva. Vi as luzes de Porthkerris aproximarem-se. Ia ter com Joss.

Naquela altura, a maré estava no seu ponto máximo. Ao desembocar na rua do porto, vi as luzes reflectidas na areia molhada, os barcos fora do alcance da tempestade. No alto, fiapos de nuvens continuavam a jorrar do céu. Havia gente na rua, mas não muita.

A loja encontrava-se às escuras. Só se via luz na janela de cima. Estacionei o carro na berma do passeio, apeei-me e acerquei-me da porta, que se abriu. Cheirei a madeira nova, os meus pés roçaram nas aparas que ainda juncavam o chão. A luz do candeeiro da rua permitia- me ver a escada. Subi-a, cautelosamente, até ao primeiro piso.

Chamei:

- Joss!

Não houve resposta. Continuei a subir, em direcção à claridade. A lareira estava apagada e fazia muito frio. Por cima de mim, uma rajada de chuva varreu o telhado.

- Joss.

Estava estendido em cima da cama, mal tapado por um cobertor. Tinha o braço sobre os olhos, como que a protegê-los de alguma luz insuportável. Ao falar-lhe, baixou-o e ergueu a cabeça ligeiramente, para ver quem era. Depois deixou-o cair novamente sobre a almofada.

- Santo Deus! - exclamou. - Rebecca.

Aproximei-me dele.

- Sim, sou eu.

- Bem pareceu ouvir a sua voz. Imaginei que sonhava.

- Eu chamei, mas o Joss não respondeu.

O rosto dele tinha um aspecto horrível. O lado esquerdo estava inchado e ferido, o olho meio fechado. De um corte no lábio escorrera um fio de sangue, que depois secara, e a pele parecia ter-lhe desaparecido dos nós dos dedos da mão direita.

- Que faz aqui?

Falava com dificuldade, talvez por causa do lábio.

- A senhora Kernow ligou para mim.

- Eu disse-lhe para não contar nada.

- Ela estava preocupada consigo. Joss, que aconteceu?

- Caí no meio de um bando de ladrões.

- Está ferido em mais algum sítio?

- Sim, em todo o corpo.

- Deixe-me ver.

- Os Kernow fizeram-me pensos.

Mas eu inclinei-me sobre ele, afastando suavemente o cobertor. Estava despido da cintura para cima e tinha o tórax cuidadosamente enfaixado no que pareciam ser tiras rasgadas a um lençol velho. Mas as feias escoriações tinham sido espalhadas até mais acima, no peito, e no lado direito o tecido de algodão branco começara já a deixar transparecer uma mancha vermelha de sangue.

- Joss, quem fez isto?

Mas Joss não respondeu. Em vez disso, com uma força surpreendente em alguém tão maltratado, rodeou-me o pescoço com um dos braços e puxou-me para baixo, de maneira a eu ficar sentada na beira da cama. A minha longa trança loura pendia-me sobre o ombro, e Joss, enquanto me segurava com o braço direito, tirou-me o elástico da ponta e a seguir, servindo-se dos dedos como um pente, soltou as madeixas, desmanchando-as de maneira a o cabelo pender como uma cortina de seda, rasando-lhe o peito nu.

Joss disse:

- Tive sempre vontade de fazer isto. Desde a primeira vez em que a vi com aquele ar de directora de... como foi que eu disse?

- De directora de um orfanato impecavelmente dirigido.

- Precisamente. É engraçado que se lembre.

- Que posso fazer? Com certeza há alguma coisa em que possa ajudar.

- Basta que fique. Basta que fique, minha querida. A ternura na voz dele... Joss, que fora sempre tão rude... comoveu-me. Os olhos encheram-se-me de lágrimas, que ele viu, atraindo-me então a si; senti a mão dele subir-me por baixo do cabelo, fechando-se na minha nuca.

- Joss, vou magoá-lo.

- Não fale - pediu ele, ao mesmo tempo que a boca dele encontrava a minha. - Também sempre quis fazer isto.

Tornou-se evidente que nenhuma das suas enfermidades, escoriações, ferimentos, ou o lábio cortado, iria impedi-lo minimamente de obter o que desejava.

E eu, que sempre imaginara que fazer amor tinha algo a ver com fogo-de-artificio e explosões, descobri que não era nada disso. Era quente, como raios de sol a brilharem inesperadamente. Não tinha nada a ver com a minha mãe e a infindável procissão de homens que invadira a sua vida. Era o cinismo e as ideias preconcebidas a voarem por uma janela aberta. Era o derrubar da última das minhas barreiras defensivas. Era Joss.

Ele murmurou o meu nome, fazendo-o soar lindo.

Muito mais tarde, acendi a lareira, empilhando ramos secos até o quarto brilhar com o tremeluzir das chamas. Não permiti que Joss se levantasse, de modo que ficou deitado com a cabeça de cabelos escuros apoiada nos braços, e eu senti que acompanhava todos os meus movimentos com o olhar.

Pus-me de pé, afastando-me do fogo. O cabelo caía-me, solto, ladeando-me o rosto, e tinha as faces quentes devido ao calor. A satisfação fazia-me sentir langorosa.

Joss perguntou:

- Temos de falar, não é?

- É.

- Arranja-me uma bebida.

- Que queres tomar?

- Um pouco de uísque. Está na cozinha, dentro do armário por cima do lava-loiças.

Fui buscar a garrafa e dois copos.

- Soda ou água?

- Soda. Tens um abre-latas pendurado num gancho. Encontrei o abre-latas e tirei a tampa à garrafa. Os meus gestos foram desajeitados e fi-la cair no chão, onde rolou, à maneira louca destes objectos, para um canto escuro. Fui apanhá-la e o meu olhar foi atraído por outro objecto, de pequenas dimensões, que brilhava quase oculto sob o armário do lava- loiças. Peguei nele e vi que era a cruz céltica de Andrea, a que a jovem usava ao pescoço, presa a uma tira de couro.

Segurei-a na mão. Servi as bebidas e levei-as para junto de Joss. Entreguei-lhe a dele e ajoelhei-me no chão, a seu lado.

Disse-lhe:

- Isto estava debaixo do lava-loiças.

E mostrei-lha.

O olho inchado dificultava-lhe a visão. Fazendo esforço fixou o objecto com os olhos semifechados.

- Que raio é isso?

- Pertence a Andrea.

Joss exclamou:

- Ora, que se dane! - E logo a seguir: - Sê simpática e arranja-me mais almofadas. Nunca conseguiria beber uísque deitado.

Apanhei algumas almofadas do chão e encostei-o a elas. Sentou-se muito a custo e deixou escapar um gemido involuntário.

- Estás bem?

- Estou, claro que sim. Onde foi que encontraste isso?

- Já te disse. No chão.

- Ela veio cá esta noite. Contou que fora ao cinema. Eu encontrava-me a trabalhar lá em baixo, a tentar acabar as prateleiras. Disse-lhe que estava ocupado, mas ela veio aqui para cima, como se não me tivesse escutado. Vim atrás dela e disse-lhe que fosse para casa. Mas ela não quis. Pediu uma bebida, tinha vontade de falar... sabes como são essas coisas.

- Ela já tinha estado aqui anteriormente.

- Já, uma vez. Uma manhã. Tive pena dela e ofereci-lhe uma chávena de café. Mas esta noite tinha que fazer; não me sobrava tempo nem sentia pena dela. Respondi-lhe que não me apetecia nenhuma bebida. Pedi-lhe que voltasse para casa. Foi então que ela declarou que não queria regressar a casa, todos a odiavam, ninguém lhe dirigia a palavra, eu era a única pessoa com quem podia conversar, que a compreendia.

- Talvez seja.

- Muito bem, é verdade que tinha pena dela. Em Boscarva, quando estava a trabalhar, costumava deixá-la ir para junto de mim atrapalhar-me, porque pouco mais podia fazer excepto agarrar nela e pô-la para fora da sala.

- Fê-lo esta noite? Pô-la fora?

- Não exactamente. Mas acabei por me fartar da conversa idiota e da convicção perfeitamente inabalável de que eu estava pronto, disposto e ansioso a ir com ela para a cama, de modo que perdi a paciência e desenganei-a.

- Que aconteceu então?

- Que aconteceu então? Gritos, lágrimas, acusações, a histeria do costume. Fui submetido a toda a espécie de agressões. Sobretudo bofetadas. Foi então que recorri à minha força e pu-la a andar pelas escadas abaixo, atirando-lhe a gabardina e aquela sacola horrorosa que ela tem.

- Não a feriu?

- Não, não a feri. Mas acho que a assustei, porque foi-se imediatamente embora, barafustando até mais não poder. Ouvi-a descer ruidosamente as escadas com aquelas suas socas pavorosas, e nos últimos degraus deve ter escorregado porque chegou-me o som de um baque violento. Gritei para baixo, perguntando-lhe se se magoara, mas nessa altura senti-a correr para fora da loja e atirar com a porta atrás de si, o que me levou a calcular que estava bem.

- Poderia ter chocado contra alguma coisa? Ferido o rosto ao cair?

- Sim, suponho que sim. Ao fundo das escadas havia um caixote cheio de louça. Poderá ter batido nele... A propósito, porque perguntas?

Contei-lhe. Quando cheguei ao fim, Joss deixou escapar um longo suspiro de incredulidade. Mas também estava furioso.

- A cabrazinha. Cá por mim acho-a uma ninfomaníaca sabias?

- Eu fui sempre dessa opinião.

- Andava sempre a falar de um tipo qualquer chamado Danus, descrevendo pormenores íntimos do mais sórdido que se possa imaginar. E o maldito descaramento de dizer a todas as pessoas que eu a convidei para ir ao cinema comigo. Eu nem para dentro de um caixote do lixo lhe pedia que fosse comigo... Que lhe aconteceu desta vez?

- Está de cama. Mollie chamou o médico.

- Se ele vale o dinheiro que ganha, terá diagnosticado

histeria auto-induzida. E receitar-lhe-á uns bons açoites e o regresso a Londres. O que nos livrará a todos da sua presença.

- Pobre Andrea. É muito infeliz.

Como quem não consegue deixar de tocar em mim, começou a acariciar-me o cabelo. Virei a cara e beijei-lhe a palma da mão, os nós dos dedos lacerados.

Joss perguntou:

- Não acreditaste nela, pois não?

- Não.

- Alguém acreditou?

- Mollie e Eliot, sim. Este quis chamar a polícia, mas Grenville não permitiu.

- Interessante.

- Porquê?

- Quem foi que levou Andrea de volta a casa?

- Pensei que já te tinha dito. Morris Tatcombe... sabes quem é, aquele rapaz que trabalha para Eliot...

- Morris? Ora esta, diabos me...

Parou a meio da frase e depois murmurou:

- Morris Tatcombe.

- Que tem ele?

- Ora, Rebecca, deixa-te disso. Recompõe-te. Usa a inteligência. Quem pensas tu que me deu esta tareia?

- Não foi Morris.

Recusava-me a acreditar em semelhante coisa.

- Morris e outros três. Fui ao The Anchor jantar uma tarte e um copo de cerveja e ao voltar para casa, a pé, saltaram sobre mim.

- Sabias que era Morris?

- Quem mais poderia ser? Nunca mais me pôde ver desde que nos desentendemos e eu atirei com ele para dentro da sarjeta. Pensei que este ataque não era mais do que a continuação da nossa desavença por resolver. Mas parece que não era.

Sem pensar, murmurei:

- Eliot...

Mas parei imediatamente; era, no entanto, demasiado tarde. Joss inquiriu calmamente:

- Que tem Eliot?

- Não quero falar de Eliot.

- Foi ele que disse a Morris para vir ter comigo?

- Não sei.

- Não seria de admirar, sabes. Ele detesta-me. Faz sentido.

- Eu... eu acho que ele tem ciúmes de ti. Não gosta que sejas tão chegado a Grenville. Não lhe agrada ver Grenville tão teu amigo. E Baixei os olhos para a minha bebida, girando o copo entre os dedos e sentindo-me repentinamente nervosa. - Há mais uma coisa.

- Pela tua expressão poderia pensar-se que assassinaste alguém. De que se trata?

- É... a escrivaninha. A que tens lá em baixo, na tua oficina. Vi-a esta manhã, quando estavas ao telefone.

- Admirei-me que tivesses partido tão inesperadamente, à chuva. Que tem de especial?

- A escrivaninha e a cadeira Chippendale. Vieram de Boscarva.

- Sim, eu sei.

A calma de Joss chocou-me.

- Tiraste-as de lá, Joss?

- Tirei-as? Não, não as tirei, comprei-as.

- A quem?

- A um homem que tem uma loja de antiguidades em Fourbourne. Eu estivera num leilão há cerca de um mês e à volta passei por lá para o cumprimentar. Foi nessa altura que vi a escrivaninha e a cadeira. Nessa altura já conhecia todas as mobílias de Grenville e percebi que aquelas duas peças eram provenientes de Boscarva.

- Mas quem foi que as tirou?

- Lamento ter de reduzir a tua inocência a cacos, mas foi o teu primo Eliot.

- Mas Eliot não sabia nada acerca dessas peças.

- Eliot de certeza que sabia. Encontravam-se num dos sótãos, tanto quanto me lembro, e ele provavelmente imaginou que nunca ninguém daria pela sua falta.

- Mas porquê?.

- Parece que estamos no jogo da verdade. Porque Eliot, meu amor, minha querida criança, está cheio de dívidas até ao pescoço. Antes de mais nada, a garagem dele foi financiada por Ernest Padlow, custou uma fortuna e tem estado a perder dinheiro ao longo dos últimos doze meses. Deus sabe o que Elliot poderá ter feito com cinquenta libras, uma simples gota no oceano ao que sabemos, mas talvez tenha precisado de uma quantia imediata para pagar alguma conta, apostar num cavalo ou algo do género... Não sei. Aqui só entre nós, não acho que devesse ser ele a gerir o seu próprio negócio. Mais valia que trabalhasse para outra pessoa qualquer, que recebesse um salário regular. Quem sabe uma noite, quando estiverem todos em Boscarva a tomar uma bebida, possas tentar convencê-lo.

- O sarcasmo não te fica bem.

- Eu sei, mas Eliot arrasa-me os nervos. Sempre o fez. Algo indefinido me fez sentir que devia defender Eliot, apresentar desculpas por ele.

- Ele pensa, de certa maneira, que Boscarva e tudo o que lá está dentro lhe pertence. Talvez não achasse que era... roubar.

- Quando é que deram pela falta das peças?

- Há uns dois dias atrás. Sabes, a escrivaninha pertenceu a minha mãe. Agora é minha. Essa a razão que nos levou a procurá-la.

- Malogradamente para Eliot.

- Sim.

- Imagino que Eliot tenha afirmado que fui eu que me apropriei delas.

- Sim - admiti, desconsoladamente.

- Que disse Grenville?

- Que tu nunca farias semelhante coisa.

- E assim houve mais uma discussão monumental, não é verdade?

- Sim.

Joss suspirou fundo. Ficámos em silêncio. O quarto começara de novo a ficar frio, pois o fogo estava quase extinto. Levantei-me e ia avivá-lo com mais um toro, quando Joss me fez parar.

- Deixa isso - disse.

Fitei-o, surpreendida. Terminou a sua bebida e pousou o copo vazio no chão a seu lado; a seguir empurrou o cobertor para o lado e começou a levantar-se cuidadosamente.

- Joss, não deves...

Corri para o seu lado, mas ele afastou-me, pondo-se de pé lenta e cautelosamente. Mal conseguiu, sorriu-me com ar triunfante, uma visão bizarra com as suas escoriações e hematomas, ligado com tiras de pano e de jeans amarrotados.

- À luta - respondeu.

- Joss, que vais fazer?

- Descobre-me uma camisa e um par de sapatos, vou vestir-me. E depois vamos lá abaixo, metemo-nos na carrinha e seguimos para Boscarva.

- Mas não podes guiar nesse estado.

- Posso fazer o que quiser - declarou-me ele, sem me deixar nenhuma dúvida. - Agora arranja-me a roupa e deixa de discutir.

Nem sequer me deixou levar o carro de Mollie.

- Deixamo-lo aí, ficará bem. Amanhã alguém virá buscá-lo.

Tinha a carrinha estacionada na esquina, ao fundo de uma ruela. Entrámos e Joss ligou o motor, fazendo marcha-atrás até à rua, seguindo as instruções dadas por mim, pois estava demasiado rígido para se virar no assento. Atravessámos a cidade, através de ruas que se tinham tornado familiares para mim, chegámos ao cruzamento e começámos a subir a colina.

Eu ia sentada, a olhar em frente, com as mãos fortemente apertadas no colo. Sabia que havia algo mais sobre o que falar. E teria de ser naquele momento, antes de chegarmos a Boscarva.

Por alguma razão, como se estivesse feliz da vida, Joss começou a cantar:

Quando vi o teu rosto pela primeira vez Pensei que o sol se levantara nos teus olhos E a lua e as estrelas.

- Joss.

- Que é agora?

- Há mais uma coisa.

- Não me digas que é mais um esqueleto-no-armário.

- Não brinques.

- Desculpa. Que é?

Engoli em seco, tentando desfazer o nó que sentia na garganta.

- É Sophia.

- Que tem Sophia?

- Grenville deu-me a chave do estúdio para que eu pudesse ir lá escolher um quadro para levar comigo para Lon dres. Encontrei um retrato de Sophia. Um retrato a sério, onde se podia ver o rosto. Eliot, que andava à minha procura, entrou nesse momento e também o viu.

Fez-se um silêncio prolongado. Olhei para Joss mas o seu perfil mostrava-se imperturbável, atento à estrada que se estendia em frente.

- Compreendo - disse, por fim.

- Ela é tal e qual tu; ou tu és tal e qual ela.

- O que não é de admirar. Era minha avó.

- Sim, foi o que pensei.

- Quer dizer que o retrato estava no estúdio?

- Foi... foi por essa razão que vieste para Porthkerris?

- Foi. Grenville e o meu pai combinaram tudo entre os dois. Grenville entrou com metade do capital para a minha loja.

- O teu pai...

- Conheceste-o. Tristram Nolan Gardner. Tem uma loja de antiguidades na New Kings Road. Compraste-lhe um par de cadeiras de costas redondas. Recordas-te?

- E ele descobriu, pelo meu cheque, que eu me chamava Rebecca Bayliss.

- Certo. E também descobriu, somando dois e dois, que eras neta de Grenville. Certo. E que ias apanhar o comboio para a Cornualha na segunda-feira passada. Certo.

- Portanto, ligou para ti e disse-te que me fosses esperar ao comboio.

- Certo.

- Mas porquê?

- Porque se sentia responsável. Porque achou que tinhas um ar desamparado e vulnerável. Porque queria velar por ti.

- Continuo a não entender.

- Sabes uma coisa? - perguntou Joss. - Amo-te

muito.

- Porque estou a ser estúpida?

- Não, porque estás a ser maravilhosamente inocente. Sophia não foi apenas modelo de Grenville, também foi sua amante. O meu pai nasceu no início da ligação dos dois, muito antes de a tua mãe aparecer. Sophia acabou depois por casar com um velho amigo dos seus tempos de infância, mas não voltou a ter mais filhos.

- Portanto, Tristram.

- Tristram é filho de Grenville. E Grenville é meu avô. E eu vou casar com a minha meia-prima.

- Pettifer disse-me que Sophia não significara nada para Grenville. Que fora apenas uma rapariga que trabalhara para ele.

- Para proteger Grenville, Pettifer juraria que o branco é preto.

- Sim, imagino que sim. Mas Grenville, no meio de uma zanga, foi menos discreto: "Tu não és o único neto que eu tenho "

- Grenville disse isso?

- Sim, a Eliot. E Eliot pensou que se referia a mim. Tínhamos chegado ao cimo da colina. As luzes da vila ficaram para trás. Em frente, por detrás dos vultos atarracados do empreendimento urbanístico de Ernest Padlow, ficara a zona costeira escura, pontilhada com as luzes minúsculas de quintas espalhadas pela região e, ao fundo, a imensidão negra do mar.

Observei:

- Não me lembro de te ter ouvido a pedir-me em casamento.

A carrinha saltava e balançava violentamente pela pequena estrada que ia ter a Boscarva.

- Não tenho grande jeito para pedir coisas - disse Joss. Tirou uma das mãos do volante e pousou-a sobre as minhas. - Normalmente digo às pessoas o que quero.

Como acontecera na primeira vez que ali chegara, foi Pettifer quem veio receber. Mal Joss desligou o motor, a luz do vestíbulo acendeu-se e Pettifer abriu a porta, como se o instinto lhe tivesse dito que éramos nós.

Viu Joss abrir a porta do carro e apear-se com evidente esforço e dor. Reparou no rosto de Joss...

- Por amor de Deus, que lhe aconteceu?

- Tive uma diferença de opinião com o nosso velho amigo Morris Tatcombe. Provavelmente eu não ficaria assim se ele não se tivesse feito acompanhar de três capangas seus.

- Não é grave?

- Não, estou bem. Não houve ossos partidos. Vamos! entremos.

Entrámos em casa e Pettifer fechou a porta.

- Estou contente por vê-lo, Joss, e olhe que é verdade. Tivemos aqui uma trapalhada de todo o tamanho.

- Grenville está bem?

- Sim, não lhe aconteceu nada. Encontra-se ainda a pé, na sala de estar, aguardando o regresso de Rebecca.

- E Eliot?

Pettifer desviou o olhar do rosto de Joss para o meu.

- Foi-se embora.

Joss disse:

- É melhor que nos conte o que se passou. Acabámos por ir para a cozinha, onde nos sentámos em redor da mesa.

- Depois de Rebecca sair, Eliot foi ao estúdio e trouxe o retrato de Sophia. Aquele de que andámos à procura, Joss. E que nunca encontrámos.

Observei:

- Não compreendo.

Joss explicou.

- Pettifer sabia que Sophia era minha avó, mas mais ninguém estava a par do facto. Mais ninguém se lembrava dela. Passara-se já muito tempo. Grenville desejava deixar tudo como estava.

- Mas porque havia só um retrato de Sophia com o rosto visível? Grenville deve tê-la pintado às dúzias. Que aconteceu a todos eles?

ouve uma pausa, durante a qual Joss e Pettifer olharam um para o outro. Foi então a vez de Pettifer explicar, o que fez com muito tacto.

- Foi a velha senhora Bayliss. Tinha ciúmes de Sophia... não por ter qualquer ideia da verdade... mas porque Sophia fazia parte da outra vida do comandante, aquela em que a senhora Bayliss não participara.

- Refere-se à sua pintura.

- Ela nunca quis ter o menor contacto com Sophia, nada mais do que um gélido "bom-dia" se por acaso a encontrava na vila. E o comandante, como sabia do facto e não queria magoá-la, deixou todos os quadros de Sophia irem... todos excepto aquele que a Rebecca encontrou. Sabíamos que estava guardado algures. Joss e eu gastámos um dia à procura dele, mas nunca o achámos.

- Que fariam se o tivessem achado?

- Nada. Apenas não queríamos que mais ninguém desse com ele.

- Não vejo por que razão é tão importante. Joss disse:

- Grenville não quis que ninguém soubesse o que acontecera entre ele e Sophia. Não que se envergonhasse, porque a amava muito. E depois de morrer, não se importa que os outros venham a saber. Mas é orgulhoso e conduziu sempre a sua vida dentro de determinados padrões. É provável que os achemos antiquados, mas temos de os respeitar. Estás a perceber?

- Creio que sim.

- Os jovens de agora - observou Pettifer - falam de uma sociedade permissiva como se se tratasse de algo in ventado por eles. Mas não é nova. Existiu desde o início dos tempos, acontece apenas que nos tempos do comandante, a questão era conduzida com um pouco mais de discrição.

Aceitámos o facto com humildade. Depois Joss disse:

- Parece que escapámos à tangente. Pettifer ia a falar-nos de Eliot.

Pettifer recobrou a serenidade.

- Sim, bem. Portanto, Eliot foi direito à sala de estar, por onde entrou intempestivamente, comigo no seu encalço; acercou-se da cornija da lareira e colocou aí o quadro, ao lado do outro. O comandante não disse uma palavra, limitou-se a observá-lo. E Eliot perguntou: "Que tem isto a ver com Joss Gardner? " Então o comandante disse-lhe. Contou-lhe tudo. Muito tranquila e dignamente. E a senhora Roger também estava presente, e por pouco não tinha um ataque. Declarou que o comandante andara todos aqueles anos a enganá-los, a deixar que Eliot acreditasse que era neto único e que ficaria com Boscarva depois da sua morte. O comandante respondeu que nunca dissera tal coisa, que fora tudo uma suposição, que tinham estado apenas a contar com o ovo no cu da galinha. Nessa altura Eliot perguntou, muito friamente: "Talvez agora possamos saber quais são os seus planos, não? " Mas o comandante retorquiu que estes eram privados, e tinha toda a razão.

Aquela pequena demonstração de dignidade foi acompanhada do embater violento do punho de Pettifer no tampo da mesa.

- Que foi que Eliot fez então?

- Disse que, sendo assim, lavaria as mãos em relação a todos nós... referindo-se à família, evidentemente... que tinha planos próprios e estava grato por se livrar de nós. E dito isto foi buscar uns papéis e uma pasta, vestiu o casaco, assobiou ao cão e saiu porta fora. Ouvi o automóvel dele subir o caminho e foi tudo.

- Para onde foi?

- Para High Cross, imagino.

- E Mollie?

- Estava lavada em lágrimas... tentou impedi-lo de cometer uma estupidez, disse. Implorou-lhe que ficasse. Virou-se para o comandante e declarou que a culpa era dele. Mas, claro, não houve nada que pudesse fazer para deter Eliot. Não há nada que ninguém possa fazer para impedir um adulto de sair de casa, nem mesmo a mãe.

Senti uma pena infinita de Mollie.

- Onde está Mollie neste momento?

- No seu quarto - respondeu Pettifer. - Preparei-lhe um tabuleiro de chá - acrescentou asperamente -, levei- lho e encontrei-a sentada em frente ao toucador como se fosse uma estátua de pedra.

Senti-me satisfeita por não ter estado presente. A situação parecia ter sido dramática. Levantei-me. Pobre Mollie.

- Vou lá acima falar com ela.

- E eu - disse Joss - vou ter com Grenville.

- Diz-lhe que daqui a pouco descerei.

Joss sorriu.

- Nós esperaremos - prometeu.

Encontrei Mollie, de rosto empalidecido e sulcado de lágrimas, em frente do seu toucador cheio de folhos. O que estava em conformidade. Nem mesmo os excessos mais profundos de dor levariam Mollie a atirar-se para cima de uma cama. Poderia amarrotar a coberta. Ao entrar no quarto, ergueu os olhos e o seu reflexo foi captado três vezes pelo espelho triplo; achei que, pela primeira vez, aparentava a idade que tinha.

Perguntei:

- Está bem?

Mollie baixou os olhos, amarfanhando um lenço ensopado com os dedos. Coloquei-me a seu lado.

- Pettifer contou-me. Lamento muito.

- É tudo tão desesperadamente injusto. Grenville nunca gostou de Eliot, hostilizava-o extraordinariamente. Mas claro que agora todos sabemos porquê. Sempre tentou dirigir a vida de Eliot, meter-se entre ele e eu. Tudo quanto fiz pelo meu filho nunca estava bem.

Ajoelhei-me ao lado de Mollie e abracei-a.

- Estou convencida de que ele tinha a melhor das intenções. É capaz de fazer um esforço para também acreditar nisso?

- Nem sequer sei para onde ele foi. Não quis dizer-me. Não chegou a despedir-se.

Apercebi-me de que Mollie estava muito mais preocupada com a partida abrupta de Eliot do que com as revelações daquela noite em relação a Joss. O que até vinha a calhar bem. Assim poderia confortá-la em relação a Eliot. Quanto a Joss, eu nada podia fazer.

- Penso - disse - que Eliot poderá ter ido para Birmingham.

Mollie fitou-me através do espelho.

- Birmingham?

- Havia lá um indivíduo que queria dar-lhe um emprego. Eliot contou- me. Tinha a ver com carros em segunda mão. Deu-me a impressão de que considerava a ideia muito interessante.

- Mas eu não posso ir viver para Birmingham.

- Oh, Mollie, não é obrigada a fazê-lo! Deixe-o ir. Dê-lhe a possibilidade de fazer algo na vida.

- Mas estivemos sempre juntos.

- Então talvez seja altura de começarem a viver separados. A Mollie tem a sua casa em High Cross, o seu jardim, os seus amigos...

- Não posso deixar Boscarva. Nem Andrea. Grenville muito menos.

- Pode, sim. E creio que é tempo de Andrea voltar para Londres, para junto dos pais. Fez tudo o que estava ao seu alcance por ela, que se sente muito infeliz aqui. Foi por isso que tudo isto aconteceu, por ela se sentir infeliz e solitária. Quanto a Grenville, eu ficarei com ele.

Desci, finalmente, ao piso de baixo, trazendo o tabuleiro do chá. Levei-o para a cozinha e pousei-o sobre a mesa. Pettifer, que estava sentado, fitou-me por cima do seu jornal da tarde.

- Como está ela? - inquiriu.

- Agora sente-se melhor. Concordou que Andrea devia voltar para casa, para Londres. E depois é ela quem regressa a High Cross.

- Nunca desejou outra coisa. E a Rebecca?

- Eu fico aqui. Se não vir inconveniente.

O rosto de Pettifer foi atravessado por um brilho frio de satisfação, o mais aproximado que o velho conseguia para manifestar um ar contente. Não era necessário eu dizer mais nada. Compreendíamo-nos um ao outro.

Pettifer passou uma página do seu jornal.

- Encontram-se na sala de estar - informou-me -, à sua espera.

E fixou a atenção na página das corridas.

Fui ao encontro de Grenville e Joss, deparando com ambos, tendo por trás o retrato de Sophia no seu vestido branco, Joss de pé, ao lado da lareira acesa, e Grenville enterrado na sua poltrona. Os dois ergueram os olhos quando entrei, ojovem, de pernas compridas e olhos escuros mordazes, e o velho, demasiado fatigado para se pôr de pé. Dirigi-me para eles, para as duas pessoas que eu mais amava no mundo.

 

                                                                                 Rosamunde Pilcher  

 

                      

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