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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O DIÁRIO SECRETO DE ANA BOLENA / Robin Maxwell
O DIÁRIO SECRETO DE ANA BOLENA / Robin Maxwell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

Os conselheiros da rainha mal podiam acompanhar o passo daquela mulher extraordinariamente alta e esguia que se deslocava com grandes passadas pelo extenso relvado de Whitehall, em direcção à sua montada.

William Cecil, seu principal conselheiro, homem sério e firme já de meia-idade, encontrava-se dividido entre o desespero e a admiração que sentia pela sua jovem rainha, vestida com um fato de montar de veludo cor púrpura, com o cabelo loiro-avermelhado a esvoaçar ao vento. Aos vinte cinco anos, Isabel Tudor era mais do que decidida e teimosa. A sua ousadia não conhecia limites e possuía um espírito arguto e uma sinceridade arrojada, pouco próprios de um monarca inglês. Porém, via-se forçado a admitir que era senhora de uma inteligência extraordinária. Falava seis línguas com a mesma fluência que a sua e possuía o magnetismo que o pai, Henrique VIII, irradiara durante toda a sua vida longa e atribulada. Se ao menos, pensava Cecil, não sentisse um prazer tão perverso em ofender os grandes senhores, que nomeara seus conselheiros. Cecil atreveu-se a enfrentar a raiva da rainha.

 

 

 

 

- Suplico a Vossa Majestade que preste mais atenção ao arquiduque Carlos. Para além de ser o melhor partido da Cristandade, diz-se que é um homem belo e bem constituído.

 

- E o que é mais importante - acrescentou Isabel com um ar decididamente lascivo -, tem belas coxas e belas pernas.

 

- Disseram-me que os seus ombros curvados não se notam quando monta a cavalo - acrescentou lorde Clinton na esperança de ganhar algum terreno. Porém, Isabel deteve-se bruscamente e voltou-se para eles de tal modo que os conselheiros chocaram um com o outro, como actores num palco a representar uma comédia.

 

- E a mim disseram-me que é um monstro com uma cabeça enorme! Cristo seja louvado, que terríveis escolhas me ofereceis para marido. Não me tentam a mudar de estado matrimonial.

 

- O príncipe Eric é um...

 

- Um sueco tolo - concluiu Isabel.

 

- Mas é muito rico, Majestade, e extremamente generoso.

 

- E essa ridícula delegação que apareceu aqui na corte com vestes carmesins e corações de veludo bordados e atravessados por uma flecha...? - Isabel revirou os olhos. - Pedis-me que considere o rei de França que nos roubou Calais, o único porto que nos restava no continente... e Filipe, esse espanhol moreno, viúvo de minha irmã e um católico tão devoto e firme? Vamos, meus senhores, decerto poderíeis sugerir melhor.

 

- Preferis então pretendentes ingleses?

- Pretendentes ingleses?

 

Os olhos de Isabel pareceram mais doces e um leve sorriso esboçou-se aos cantos da sua boca escarlate. Voltou-se e a passo mais lento retomou o caminho que a levava ao seu alazão castanho, ajaezado com um caparazão debruado a ouro e para o jovem bem constituído e de porte confiante e atlético que a aguardava junto ao animal com as rédeas na mão. Cecil olhou para Robert Dudley, o mestre-cavaleiro da rainha com silencioso enfado. Fora decerto Dudley que fizera surgir o sorriso nos lábios da soberana e a cadência quase langorosa no seu andar, enquanto percorria o caminho que a levava à montada.

 

- Prefiro realmente os meus pretendentes ingleses - afirmou numa voz aveludada.

 

Cecil ouviu os conselheiros resmungarem discretamente e em surdina, ao verem Robert Dudley. A corte impúdica que esse nobre arrogante fazia à rainha e a aceitação ainda mais escandalosa da parte dela, criavam um clima de imoralidade que punha em perigo as possibilidades de Isabel casar honradamente ali ou no estrangeiro. Dudley, que muitos diziam ser amante da rainha, era um homem casado. Cecil afastou do pensamento a ideia de que o comportamento duvidoso de Isabel era o seu modo de garantir que nunca teria de casar, mantendo antes uma série de amantes durante todo o seu reinado; pior, a rainha poderia mostrar certas parecenças com a mãe. O sangue dos Bolena estava manchado de perversidade. Assim, todos - desde os conselheiros reais de Isabel que lhe ofereciam inúmeros pretendentes, até a senhora Kat Ashley, sua aia desde a infância que implorava todos os dias a Isabel que fosse razoável - exigiam que, por sua honra e para bem do reino, casasse e entregasse as rédeas do governo a um esposo fiel.

 

Isabel aproximou-se de Dudley que, erguendo-se depois de uma profunda reverência, se manteve de pé com gàlhardia, feições fortes e olhar límpido, obrigando o próprio Cecil a admitir que o mestre-cavaleiro era uma bela figura de nobre virilidade. Dudley olhou fixamente a rainha. Sem pensar na expressão reprovadora dos seus conselheiros, Isabel estendeu os longos dedos pálidos e afagou-lhe lentamente a face e o queixo, terminando com uma breve carícia no pescoço.

 

- Como está o meu belo alazão? - perguntou reprimindo um sorriso. Talvez fossem as escandalizadas exclamações e forte respiração que escutou nas suas costas que a fizeram dar uma sonora palmada no flanco enorme do cavalo castanho, poupando aos estupefactos conselheiros a distante mas grata possibilidade de que a observação da rainha não fosse a vulgaridade que suspeitavam ter ouvido.

 

Voltou-se para Cecil e lançou aos seus conselheiros um sorriso caloroso e travesso.

 

- Meus senhores Clinton Arundel e North, aprecio de sobremaneira os vossos amáveis conselhos e estimo-os de todo o coração - permitiu que Robert Dudley a erguesse sobre o cavalo e sentou-se olhando-os majestosa. - A minha escolha de marido e rei não será feita de ânimo leve e requer de mim muita reflexão. Assim, peço que perdoem a hesitação de uma pobre e fraca mulher em se comprometer. Mas prometo-vos que, quando tomar a decisão, sereis os primeiros a saber. Bom-dia, meus senhores.

 

Partiu, tocando rapidamente com o calcanhar o flanco do cavalo. Dudley inclinou a cabeça aos conselheiros com ar trocista, saltou para o seu próprio cavalo e partiu à desfilada atrás da rainha que seguia já num rápido galope.

 

Cecil e os outros conselheiros voltaram-se contrariados e, sem quererem encarar-se, empreenderam, a passo lento, o caminho do palácio real.

 

A tarde ia já adiantada quando os primeiros raios de Sol penetraram o céu nublado e entraram pela janela da cabana numa tira dourada sobre os seios nacarados e nus de Isabel. Dudley, reclinado junto a ela, apoiado no cotovelo, delineava preguiçosamente as pequenas rolas com mão áspera mas meiga. Acariciou o mamilo rosado que se moveu sob o seu toque. Um inesperado suspiro soltou-se dos lábios pintados que de tantos beijos, tinham perdido o carmim. Pestanejou por uns instantes e abriu lentamente os olhos.

 

Isabel e Dudley tinham cavalgado a galope pelos campos de Abril, acabando por chegar ao real pavilhão de caça, uma tosca e pequena casa de madeira na orla de Duncton Wood. O casal tinha entrado a rir, ofegante do esforço dispendido mas, com o sangue a correr-lhes nas veias, entregara-se a apaixonados abraços, beijos e outras intimidades em que haviam progredido pouco a pouco, no decorrer dos meses anteriores.

 

- Tomais algumas liberdades com a vossa rainha, meu amor - murmurou Isabel com uma certa aspereza.

 

- E desejo tomar mais, Majestade - afirmou Dudley medindo as palavras e considerando oportuna a sua ousadia.

 

A rainha olhava-o com firmeza, certamente com o propósito de o fazer recuar. Porém, Dudley era um homem excitado e pouco se preocupava. As mangas e o corpete de Isabel estavam abertos em redor do seu tronco esguio, mas, as saias e saiotes continuavam intactos sobre as ancas e as pernas, embora enrugadas pelos vapores escaldantes dos abraços daquela tarde.

 

A mão de Dudley acariciou a cintura estreita de Isabel e as saliências húmidas da sua espinha. Meteu os dedos sob a renda para encontrar a fenda macia entre as suas nádegas e, puxou com força as ancas dela contra as dele. A rainha soltou um súbito gemido de prazer que o encorajou a soltar-lhe a saia e a tentar encontrar-lhe o monte de pêlos virgens.

 

- Robin, basta.

 

Ele respondeu à ordem dela cobrindo-lhe a boca com um beijo feroz. Ela moveu-se debaixo dele, mas sem ardor, e voltou a cara.

 

- Não me detenhais agora, Isabel.

- Sim. Detende-vos, já disse!

 

A voz dela alterara-se, perdendo a suavidade. O seu corpo macio tomara a rigidez da madeira. As faces de Dudley coraram de raiva impotente. Retirou a mão de dentro das volumosas saias da rainha.

 

Isabel observou o belo rosto de Dudley enquanto este tentava dominar-se. O seu forte desejo pelo corpo da rainha, que amava e temia, transformara-se, com a ordem dela numa súbita fúria e depois noutra coisa diferente, mais difícil de identificar. Tratava-se da Rainha. Ele era seu súbdito. Os olhos dele mostravam como aquela embaraçosa situação o transtornava. Ela sabia ser a única mulher em Inglaterra a poder exercer tal autoridade sobre um homem. Aquela força exultante era nova, pois a sua coroação tivera lugar havia apenas três meses e Robert Dudley era seu amigo desde a infância. Assim que fora coroada rainha, o afecto dele tinha-se transformado num fervor veemente que lhe fora irresistível. Obedecendo a um impulso nomeara-o mestre-cavaleiro e deixara-o cavalgar, atrás de si, no cortejo da coroação para que todos o vissem. já os julgavam íntimos. Porém, Isabel recusara-lhe, até aí, o último favor.

 

- Robin, meu amor... - acariciou-lhe a face quente e transpirada.

- Não me chameis amor - respondeu, com um olhar sombrio.

 

- Chamar-vos-ei o que me aprouver - respondeu a rainha com azedume. A luz desaparecia e ambos sabiam que em breve terminaria o precioso tempo em que podiam estar a sós. Isabel sentou-se, compôs o corpete e tentou abotoá-lo. - Então, ajudai-me com isto - provocou-o com um sorriso sedutor e apesar do seu aborrecimento ele sentiu-se como de costume, perfeitamente enfeitiçado por aquela frágil mulher. Os seus dedos pouco hábeis introduziram os pequenos botões de pérola nas casas de cetim. Por uns momentos, deixou que a mão lhe escorregasse, roçando-lhe o seio já coberto.

 

- Os vossos conselheiros estão extremamente preocupados - disse. Pensam que tencionais casar comigo e fazer-me Rei - sentou-se, fechando a camisa e o gibão, sem a olhar nos olhos.

 

- E dizei-me o que faríamos então com a vossa fiel esposa?

- Esposa? Terei eu uma esposa? - perguntou trocista,

 

Ela ergueu-se diante dele, obrigando-o a encará-la.

 

- Se eu me casasse convosco, seria assim tão facilmente esquecida? Ele compreendeu que tinha cometido um erro, ao expor com tanta ligeireza o seu casamento sem amor, recordando-lhe o sangue-frio com que o pai dispusera das suas esposas, entre elas a mãe de Isabel. Mas aquela criança, a sua rainha, Isabel, o seu amor, enlouquecia-o sendo tão imprevisível. Por vezes, abria-se para ele como uma flor ao sol, a rir, a brincar, a fazer maliciosos planos, tal como quando eram crianças. Nesses tempos pareciam embriagados, perfeitamente encantados na companhia um do outro. Pensara mesmo em casar com ele. Por vezes desafiava-o a ser forte com ela, a dominá-la, a ser o seu senhor. Depois, com a brevidade de uma tempestade de Verão, tornava-se dura e sombria, brincando com a sua insignificância, tratando-o como uma peça num tabuleiro de xadrez.

 

- Tenho demasiados pretendentes, Robin... príncipes, reis, imperadores... como posso pensar em vós para me desposardes - disse-o com impertinência, mas ele notou que estava mais branda. Viu-lhe os movimentos enquanto vestia a jaqueta, os ombros levemente curvados, os olhos em alvo, uma quase imperceptível tensão na fronte. Desejoso de a ver recuperar a doçura, ergueu-se diante dela. Levantou-lhe o queixo e perguntou num suave murmúrio.

 

- Pensais não dispor de súbditos leais capazes de dar um herdeiro ao trono de Inglaterra?

 

- Um herdeiro? - O olhar dela quase se incendiou. - Um herdeiro, Robin? É então essa a questão? Não o amor, mas sim a descendência real? O rei Robert, pai de muitos filhos, alto governante de Inglaterra e, oh, sim, quase o esquecia, esposo de Isabel.

 

- Interpretais mal as minhas palavras, não se trata disso! - exclamou. Escolhera mal e voltara a enganar-se. Isabel dirigiu-se à porta da cabana, com o rosto afogueado e escarlate. A sucessão ao trono fora um caminho que deixara para trás mortes horríveis. Robert Dudley era seu amante, não o seu senhor. Parecia-lhe pouco adequado falar de herdeiros naqueles momentos de ternura. Abriu a porta, mas Dudley fechou-a imediatamente.

 

- Deixai-me sair.

- Não, Isabel.

 

- Ordeno-vos - vociferou a rainha.

 

Dudley percebeu o violento latejar das veias sobre a branca pele da fronte de Isabel. Viu que estava prestes a chorar. Deixou-se cair de joelhos diante dela.

 

- Majestade... - por momentos não pôde continuar, pois as emoções embargavam-lhe o raciocínio. Ergueu os braços suplicantes e rodeou-lhe a cintura. Sentiu-a estremecer por baixo das muitas camadas de roupa e das barbas do corpete. - Perdoai-me, senhora! Imploro-vos.

 

- Robin, erguei-vos... Não foi minha intenção...

 

- Não, não, deixai-me falar - mesmo com a cabeça curvada, exprimiu-se de um modo tão intenso que cada palavra era nítida e cortante. Conheci-vos ainda criança, Isabel. Nascida princesa real e logo repudiada como bastarda por um pai que apenas queria filhos varões. Afastada da corte para viver na obscuridade e na pobreza. Haveis sofrido sem os seus carinhos. Mas naquela sala de estudo dos aposentos das crianças para onde meu pai me enviava, encontrei um tesouro. Um espírito brilhante, uma alma resplandecente, um rosto belo, pálido como uma rosa do Yorkshire. já então vos amava. Éramos irmão e irmã, amigos, companheiros de estudos. Ríamos, chorávamos e muitas vezes nos ajudámos um ao outro, não foi assim?

 

Dudley não ergueu a cabeça para receber a resposta, mas sabia que ela o escutava. Ao ouvir falar dos tempos idos da infância, Isabel deixara de tremer e a sua respiração era já mais calma.

 

- A frágil-e doce menina sobreviveu ao reinado e à morte do seu amado irmão, ao jugo e falecimento de uma irmã desapiedada... para se transformar na rainha Isabel. A menina já não existe e só no meu espírito permanece viva a companheira de folguedos, a irmã, a amiga. Porém, sinto agora uma ávida paixão pelo corpo da mulher. Estamos unidos Por um laço profundo. É verdade que aos olhos da lei sou casado com Amy Dudley. Contudo foi a vós que desposei, de coração, alma e espírito.

 

- Robin... - Isabel falava agora em voz doce mas, com o olhar apaixonado, Robin ordenou-se que nada mais dissesse.

 

- Deixai-me falar: sou vosso, totalmente vosso... súbdito, vassalo, servo obediente. Se me quiserdes por esposo, continuaria a obedecer às vossas ordens e teria alcançado o céu na terra. Se por motivo de alianças escolherdes outro consorte, hei-de compreender-vos e seguir-vos. Se escolherdes outro homem para amar... parte de mim definhará e acabará por morrer. Mas escutai, Majestade. Qualquer que seja o destino que guardais para mim, amar-vos-ei do mesmo modo que, quando vos vi pela primeira vez. Lutarei e morrerei, deixarei que me despedacem vivo, para salvar esta terra e o vosso direito de a governar como bem vos aprouver.

 

Imediatamente, Dudley rasgou a camisa e o colete, deixando a descoberto o peito que cortou com a lâmina faiscante do seu punhal.

 

- Por Deus, Robin! - Isabel caiu de joelhos, lavada em lágrimas, cobrindo com os dedos a ferida de onde o sangue brotava vivo. - Nunca vos faria morrer por mim. Quero-vos vivo... quero que me ameis. Fazei amor comigo, agora.

 

Robin Dudley obedeceu de bom grado às ordens da sua rainha.

 

Já tinha anoitecido quando franquearam as portas do Palácio de Whitehall e detiveram os cavalos suados à luz dos archotes que iluminavam o pátio. Guardas e lacaios acorreram imediatamente, mas baixaram os olhos quando Dudley ajudou Isabel a descer da montada, os corpos juntos, antes de os pés dela tocarem o chão. A rainha levava posta a longa capa de Robin que ele próprio ajustara, num gesto protector, em redor do seu corpo. Sabia que os homens a observavam discretamente e, logo preocupada com as formalidades, estendeu a mão ao seu mestre-cavaleiro que, de joelho em terra, lhe tomou os dedos e lhos beijou.

- Sempre ao serviço de Vossa Majestade.

 

A rainha tocou-lhe no ombro e voltou-se para atravessar, por entre os guardas, a enorme entrada do palácio, seguindo com largas passadas pelo pátio e pela galeria que conduzia aos seus aposentos. Apesar da penumbra do corredor, iluminado apenas por archotes, Isabel não se sentia só, já que os olhos dos seus antepassados York e Tudor vigiavam a sua orgulhosa passagem. Sentia sempre o peso da linhagem que, por vezes parecia trespassar-lhe a pele de alabastro, insuflando-lhe a certeza do seu direito ao trono de Inglaterra.

 

Antes de subir as escadas que conduziam aos seus aposentos, Isabel retirou com uma mão um archote da parede para iluminar o caminho e, com a outra, puxou as saias acima dos tornozelos, pois os degraus de pedra podiam ser traiçoeiros mesmo à luz do dia. A passagem era estreita e escura e o archote lançava sombras estranhas nas paredes. Com o cheiro da humidade nas narinas e a recordação do recente contacto do corpo de Robin, Isabel deu por si transportada a outros tempos, cinco anos antes, em que descia outra escada húmida e escura já noite alta, levando, não um archote, mas uma simples vela, receando ser descoberta naquele acto perigoso e clandestino.

 

Estava prisioneira na torre de Londres, acusada por sua meia-irmã Maria, então rainha, de conspiração contra a coroa. Aterrorizada e débil devido a uma recente enfermidade, Isabel passara os longos dias de encarceramento a estudar e a traduzir os seus amados textos gregos, embora, verdade fosse dita, o trabalho que impusera a si própria, de pouco lhe servira para lhe distrair o espírito do cruel receio de uma sentença de morte. Aquele local terrível assistira a muitas execuções. Havia dezassete anos que a sua própria mãe aí morrera e, em tempos mais recentes, também Catarina Howard, sua prima e quinta mulher de seu pai. Apenas uns meses antes, outra prima, Jane Grey, de dezasseis anos havia sido decapitada em Tower Green, tendo-se comentado, conforme Isabel recordava com um arrepio, que do pescoço brotara mais sangue do que se podia imaginar conter um corpo tão pequeno.

 

Isabel desceu cuidadosamente a estreita escada de Beauchamp Tower, cobrindo a vela com a outra mão para ocultar o mais possível o alcance da luz. Sabia que se a descobrissem tudo se complicaria para si e que pior sorte teria o bondoso guarda que se apiedara da frágil menina cuja vigilância tinha a cargo. Ou talvez, pensava cinicamente Isabel, não a considerasse traidora, mas sim a filha do bom rei Henrique e futura rainha que, quando se sentasse no trono de Inglaterra, haveria de recordar a bondade do velho carcereiro. Em qualquer dos casos, o certo é que consentira em desviar os olhos e que, em mais de dois meses, Isabel conseguira, pela primeira vez, iludir a vigilância dos seus guardiães.

 

A meio da escada ficara paralisada ao ouvir um gemido distante e lastimoso. Por alguns instantes, pensou tratar-se da sua imaginação - ou melhor, desejou que assim fosse - pois eram queixumes terríveis de um homem cuja existência seria certamente uma extensa agonia. Muitos prisioneiros com menos sorte que ela, estavam encerrados em celas sem janelas, escuras e frias, dormindo sobre palha bolorenta, com as articulações doridas e a pele coberta de pústulas das picadas de pulgas e piolhos.

 

- Bom Deus - murmurara repetidamente Isabel, tentando calar aquele som.

 

Ao chegar ao segundo patamar, uma mão surgida das trevas agarrou-lhe o pulso. Voltou-se, sobressaltada, e viu o rosto belo e ousado de Robin Dudley iluminar a escuridão das escadas da torre.

 

- Isabel, graças a Deus!

 

Com um enorme suspiro, pois não havia palavras que exprimissem o profundo alívio, e o amor arrebatado que sentia pelo seu velho amigo, apoiou-se no seu peito, deixando que ele lhe abraçasse o corpo trémulo. Agitada por soluços, molhou com as suas lágrimas escaldantes a capa de Robin que a abraçou com força e lhe falou num apressado murmúrio, sabendo ambos que aquele instante furtivo em breve terminaria.

 

- Tratam-vos bem? - perguntou.

 

- Bastante bem - Isabel fungou, retomando por fim a compostura. E a vós? - espreitou-o à luz vacilante da vela. - Robin, estais tão magro

- tocou-lhe a face encovada.

 

- A comida que nos trazem é boa, mas tenho estado adoentado nas últimas semanas.

 

Não o disse, porém Isabel adivinhou que o seu abatimento se devia à execução de seu pai e irmão mais velhos.

 

- Lamento o sucedido a vosso pai e a John. Como estão os outros?

- Os meus irmãos estão bem. A prisão não é tão horrível quando se está em companhia da família, mas a mim mantêm-me isolado numa cela por baixo daquela em que eles se encontram.

 

Os Dudley tinham sido encarcerados pela sua participação na frustrada conjura para colocar no trono lady Jane Grey, com intenção de que Guilford, seu próprio filho e marido desta, fosse coroado rei.

 

- Talvez que - reflectiu Isabel em voz alta - o facto de haverdes sido o único dos vossos irmãos a proclamar Jane rainha, na praça de King’s Lynn, tenha ofendido Maria o suficiente para vos mandar isolar.

- Que importa! - exclamou Dudley apartando-se relutante do abraço de Isabel e segurando-a a alguma distância. - Dizei-me como estais. Se alguma vez alguém esteve preso injustamente, esse alguém fostes vós.

 

Era verdade. O seu próprio encarceramento era o resultado da revolta do jovem Thomas Wyatt, que, no seguimento da sublevação dos Dudleys se tinha oposto ao noivado de Maria com Filipe de Espanha, um príncipe estrangeiro.

 

- Mas não será lógico que Maria julgue que eu fui cúmplice, Robin? O objectivo da conjura era depô-la e colocar-me a mim no trono.

 

- Sem escutar as razões da própria irmã?

 

- Escrevi-lhe várias cartas, implorei-lhe audiências e nenhuma delas foi respondida ou concedida. Aquele maldito espanhol De Quandra, sempre me odiou. Envenena-lhe o espírito contra mim. Porém, nunca encontrarão prova fiável do meu envolvimento na intriga do pobre Wyatt.

 

- E quem necessita de uma prova fiável? - murmurou Robin com desalento. - É mais provável morrermos pelas palavras falsas do imimigo do que por acusação verdadeira.

 

O terrível lamento ergueu-se mais uma vez das entranhas da prisão, ecoando na escada escura, como que para recordar aos dois jovens prisioneiros qual seria o seu destino. E as corridas das ratazanas junto aos pés, fê-los estremecer de fria repugnância.

 

- Não deveríamos apagar a vela? Se nos encontram juntos aqui, será o nosso fim.

 

Dudley lançou-lhe um olhar desesperado e apagou a vela. A escuridão abateu-se sobre eles como uma cortina de veludo negro que, paradoxalmente, em lugar de amortecer os sons, antes parecia amplificá-los. Temiam que a própria respiração os pudesse denunciar, de modo que se abraçaram de novo.

 

Isabel teve de imediato a consciência da proximidade do corpo de Robin, do calor húmido do seu hálito junto ao rosto, da mão que lhe segurava a cintura, unindo-os como as flores do mesmo ramo. Porém, o que mais a sobressaltou foi o formigueiro que sentiu entre as coxas e que a fez ficar tão afogueada que imaginou poder Robin notá-lo, mesmo na escuridão. Logo foi possuída por um sentimento de culpa e vergonha.

- Como vão as coisas com Amy? - perguntou então.

 

Imaginou sentir que o abraço de Robin afrouxara um pouco, como se a pergunta sobre a esposa deste lhe tivesse suscitado remorsos. Mas a voz dele era firme, quando lhe respondeu:

 

- Há quinze dias atrás, permitiram-lhe a ela e as esposas de meus irmãos que nos visitassem. Teme pela minha vida e... - Fez uma pausa, como se não desejasse dar a conhecer o pensamento: - Sente muito a minha falta.

 

Isabel alegrou-se uma vez mais por estar ao abrigo da escuridão que impedia o amigo de lhe ver a emoção gravada no rosto. Ciúmes, disse, incrédula, para consigo mesma. Tenho ciúmes de Amy Dudley!

 

- Isabel - ouviu Robin sussurrar. - Isabel, sinto-me um traidor ao dizer-vos isto, mas à parte o alívio que me trouxe ver um rosto amigo e a gratidão que senti pela comida e presentes que Amy me trouxe, a sua presença pouco me comoveu. Não me atrevi a admitir que raramente pensava nela ou sentia a sua falta e que já não me agradava... fazer amor com ela.

 

Isabel tardou em encontrar resposta para as inesperadas palavras de Robin, pois sentira enorme alívio e uma estranha alegria com aquela triste confissão. Recordava-se que, apenas três anos antes, por alturas da Primavera, fora testemunha do casamento de Robin e Amy. Como pareciam apaixonados e que belo casal formavam. Nessa ocasião, Isabel sentira-se feliz pelo seu amigo de infância, embora se recordasse de uma breve punhalada de dor ao ver Robin beijar a sua bela e jovem noiva. Agora, enquanto ainda procurava palavras de consolo para Robin, interrogava-se se não teria sido de ciúme.

 

- Talvez que a vossa falta de desejo resulte de um efeito desagradável do encarceramento, sobre o vosso corpo e o vosso espírito - sugeriu Isabel simulando estar certa dessa possibilidade.

 

- Porquê, então - perguntou Robin apertando mais a cintura de Isabel e puxando-a para si, de modo que os corpos trémulos se estreitaram um no outro -, sonho constantemente convosco, vejo o vosso rosto na minha imaginação, nada mais desejo que escutar o som da vossa doce voz para dar repouso à minha alma? E porquê, Isabel, vos desejo deitada, junto a mim, na escuridão.

 

Isabel sentiu que continha a respiração, enquanto o escutava, receando que o mínimo sussurro do seu hálito a impedisse de lhe ouvir as belas palavras. Erguera o rosto para o dele e, apesar da profunda escuridão não teve dificuldade em descobrir os seus lábios ansiosos sobre os dele. E ali tinham ficado, esquecidos de dor, medo e culpa, nos braços um do outro até que o murmúrio aflito do carcereiro chegou lá de cima, com a primeira luz da manhã.

 

Agora, já no seu palácio em Whitehall, Isabel entrou no labirinto de câmaras e antecâmaras privadas, onde os alabardeiros guardavam as portas das salas do conselho, do grande salão e a câmara real. Chegou num turbilhão à porta do seu quarto de dormir, agitando as aias num corrupio, como se de folhas secas se tratassem.

 

- Ide, ide-vos daqui, todas vós.

 

Mantinha a capa bem apertada, desejando que aqueles modos bruscos lhe disfarçassem o coração sobressaltado e o tremor das pernas. Num largo movimento perfumado de saias e saiotes sussurrantes, as aias saíram uma a uma, depois de fazerem à rainha uma profunda reverência.

 

A câmara ficou em silêncio, mas Isabel não ficou só. Katherine Ashley encontrava-se junto à lareira, de braços cruzados, com uma expressão triste no rosto preocupado.

 

Apesar de ser rainha, Isabel não se atrevia a ordenar à senhora Ashley que saísse. Preferiu voltar-se de costas e chegar-se ao lume, tentando disfarçar o nervoso com um sorriso. Sem pronunciar palavra, a mulher retirou-lhe dos ombros a capa de lã de Dudley e pô-la no braço.

 

- Não vos preocupeis Kat, o sangue não é meu - disse Isabel voltando-se para a aia,

 

Apesar do aviso, os olhos de Kat abriram-se mais ao ver as manchas acastanhadas que sujavam a jaqueta de montar de Isabel. Em silêncio, cobriu os olhos com a mão enrugada e tentou acalmar-se. Concretizavam-se os seus piores receios. A jovem princesa, que desde pequena estivera a seu cargo, transformara-se numa altiva rainha. Nesse momento fantástico, em que na Abadia de Westminster, sob o resplendor de dez mil velas, a coroa de Inglaterra fora pousada pela primeira vez sobre a cabeça da sua querida menina, a relação entre Kat e Isabel alterara-se. Porém, nada mudara, pensou, ao mesmo tempo que baixava a mão trémula do rosto. Absolutamente nada. Estendeu a mão e começou a desabotoar-lhe a jaqueta de veludo.

 

A rígida postura de Isabel descontraiu-se e deixou cair os braços ao contacto familiar das mãos de Kat. Sabia que a sua aia sentiria o cheiro de Dudley na sua roupa e no seu corpo. Sabia que Kat se esforçava agora por encontrar palavras para exprimir a sua preocupação, sem quebrar as regras de etiqueta, necessárias entre elas. Quando Isabel era uma menina, uma princesa afastada da corte, com poucas possibilidades de subir ao trono, Kat mantivera uma disciplina rigorosa, mas amável. Os seus instintos protectores eram quase felinos, imbuídos de ardor e lealdade. Sempre lhe falara com franqueza e severidade, quando a situação o exigia. Para a menina praticamente abandonada pelos parentes de sangue, Kat Ashley e William, seu marido, eram os únicos portos de abrigo na terrível tempestade da sua jovem existência. E, agora Kat, sentia-se atormentada pela angústia.

 

- Quereis que vos prepare um banho? - perguntou, aparentando calma.

 

- Esta noite, não - replicou Isabel.

 

Desejava manter consigo durante o máximo de tempo possível, os últimos vestígios de Robin Dudley. Kat dobrava com cuidado as peças de roupa da rainha à medida que esta as despia com a sua ajuda. Isabel, coberta apenas pela camisa de renda francesa, tremia de frio e chegou-se ao lume.

 

- Posso falar-vos? - perguntou num tom glacial.

- Alguma vez vos pude impedir de o fazer, Kat?

 

A idosa mulher estendeu-lhe um robe de cetim amarelo. Isabel enfiou os braços nas enormes mangas e aconchegou a si o forro de pele. Sentindo-se fraca, deixou-se cair na cadeira de costas altas, erguendo os olhos para Kat que baixara os seus, para fitar as próprias mãos.

 

- Senhora - começou. - Sois a minha vida e amo-vos como se fôsseis carne da minha carne. É por isso que vos digo que há que pôr cobro às coisas horríveis que soam por aí. Diz-se que vós e Robert Dudley vos comportais como se fôsseis casados. E esta noite? - desviou o rosto incapaz de enfrentar o olhar ardente de Isabel - Sei que é certo. Conheço esse homem desde menino, quando brincava convosco, e conheci toda a sua família. Foram todos executados por traição à coroa.

 

Robin Dudley é um súbdito leal! - exclamou Isabel.

 

É um homem com a ambição no sangue. Não posso dizer que não vos ame, Isabel, mas como todos os outros, ama ainda mais o seu sonho de poder. Não confio nele. É um homem casado!

 

Isabel desviou o olhar. Nessa tarde, esquecera por algum tempo a terrível verdade, ou talvez na euforia do seu recente poder acreditasse que o assunto não tinha importância. Porém, só tinham passado três meses da coroação e, por causa de Robin. havia já rumores escandalosos a seu respeito. Mesmo assim, dissera para consigo que não precisava preocupar-se com uma possível gravidez, já que não sangrava com o ciclo lunar, como todas as outras mulheres. E era a monarca reinante. Poderia fazer o que lhe aprouvesse.

 

- Não quereis aperceber-vos do que salta à vista? - perguntou Kat. Estais tão cega pela luxúria que não compreendeis as consequências dos vossos actos? Isabel, estais a perder o respeito dos vossos conselheiros, da vossa corte, até dos vossos súbditos. Se vos retirarem o afecto, as alianças cairão por terra. Sabeis tão bem como eu que existem outros aspirantes a este trono e se a vossa posição ficar debilitada, não duvideis que o sangue correrá. Sangue de inocentes, que cairá sobre a vossa cabeça. juro que se soubesse que as coisas chegariam a este ponto, vos teria estrangulado no berço!

 

Isabel estremeceu com a veemência de Kat. Porém, esta não tinha ainda terminado. Ajoelhou-se e tomou nas suas, as mãos da rainha.

 

- Casai-vos, Isabel. Imploro-vos. Comprometei-vos com um pretendente digno da vossa estirpe... estrangeiro, inglês, não importa. Casai-vos. Proporcionai herdeiros Tudor, ou seremos invadidos pelo caos!

 

Isabel acariciou a mão manchada de Kat Ashley.

 

- Kat, sei que falais em nome do vosso bom coração e verdadeira fidelidade. Mas escutai: nesta minha vida só tenho tido penas e atribulações. A felicidade tem sido tão pouca que mereço aquela que este homem me dá.

 

Como Kat se dispunha a objectar, Isabel poisou um dedo nos lábios dela, para os selar.

 

- Não digais mais nada. Sou a rainha e vou fazer conforme me aprouver. Se encontrei prazer de um modo desonrado, não há ninguém nesta terra, neste vasto mundo, que mo possam proibir.

 

Kat pôs-se de pé, reconhecendo a derrota. Olhou para a mulher obstinada que continuava a surpreendê-la e a desconcertá-la. As suas tentativas de demover Isabel tinham sido em vão.

 

Aquela jovem de cabelo ruivo a emoldurar-lhe o rosto efemeramente inocente, ainda lhe haveria de dar muitos desgostos.

 

- Meus senhores!

 

A rainha irrompeu pela sala do Conselho com a força de um projéctil lançado por uma catapulta, trespassando com o olhar todos os seus conselheiros. De entre eles, apenas William Cecil que já tratara com Isabel nos anos anteriores à sua ascensão ao trono, era capaz de compreender a verdadeira natureza daquela formidável soberana.

 

- Majestade, temos boas notícias do continente - afirmou Cecil, dando início à sessão matinal do Conselho. - Chegámos a um acordo com os franceses em relação a Calais.

 

- Excelente. Vão então devolver-nos a cidade portuária que a minha ilustre irmã perdeu, e que nunca deixou de nos Pertencer? - perguntou Isabel.

 

- Não exactamente, Senhora.

 

- Então, como se propõem resolver o assunto?

 

- Manterão o domínio sobre Calais pelo menos por mais oito anos explicou o conselheiro para os assuntos de defesa, lorde Clinton.

 

- Oito anos? - admirou-se a rainha. - É um número muito redondo. Voltado ao contrário é igual, infiniti. Talvez seja assim que se propõem a ficar com Calais.

 

- No final desses oito anos, se decidirem ficar com a cidade terão de nos pagar quinhentas mil coroas.

 

- Uma bela soma! - exclamou Isabel. - Porém, e agora que precisamos de dinheiro para reparar o estado lamentável do nosso tesouro.

- Majestade, a possibilidade de nos devolverem Calais no futuro não foi descartada - acrescentou lorde North.

 

- Mais importante ainda - interveio lorde Clinton. - já não existe a ameaça de invasão dos franceses a partir da Escócia. E, de momento, a vossa jovem prima, a rainha Maria, desistiu das suas pretensões ao trono de Inglaterra. O que é excelente.

 

- Pois é - disse Isabel com um sorriso forçado. - Um reino ganha mais com um ano de paz do que com dez de guerra. Pelo menos é o que afirma lorde Cecil.

 

Os conselheiros, mais tranquilos, trocaram sorrisos.

 

- Temos, então, a paz - disse a rainha. - Mas entretanto, graças aos vossos conselhos para os preparativos de guerra, temos o tesouro vazio.

- Não será bem assim Majestade - replicou lorde Howard, tio da rainha e o soldado de maior prestígio entre os seus conselheiros. - A fortificação dos castelos da fronteira norte e as munições trazidas da Flandres não foram, porém, gastos inúteis. Estamos preparados para enfrentar hostilidades imprevistas

 

- Si vis pacem, para belhim - declarou lorde North.

 

- Se desejais a paz, preparai-vos para a guerra - traduziu Isabel.

- Precisamente, majestade.

 

- Todavia - comentou a rainha, voltando-se para lorde Howard parece-me que meu tio não confia no seu próprio tratado.

 

- Não creio de modo algum que católicas tão zelosas como Maria da Escócia e a sua sogra francesa abandonem os projectos de dominar a Inglaterra protestante e de deporem a sua rainha herege. Mas, por enquanto, o tratado é do meu agrado e espero que seja também do vosso, Majestade.

 

Isabel perscrutou os rostos dos seus conselheiros e pareceu-lhe ver neles a necessidade da sua aprovação. Sabia que era dura - volúvel, imprevisível, exasperante. Regozijava-se no caos e divertia-se a utilizar as suas manias e fraquezas, para os pôr uns contra os outros, e lhes estender pequenas armadilhas.

 

- Com efeito, senhores, o tratado agrada-me - disse, oferecendo-lhes um caloroso sorriso. - Mesmo que apenas por pouco tempo, sempre nos poupa o preço ruinoso de uma guerra e por isso devemos estar gratos

- voltou-se para Cecil, em quem confiava cegamente, pois era honesto enquanto ela recorria a enganos, sereno enquanto ela se mostrava arrebatada e criava episódios terrivelmente dramáticos, por desejar apenas animar um pouco a tarde. - Depois me dareis os pormenores das negociações na nossa reunião particular, William.

 

- Como for do desejo de Vossa Majestade - declarou Cecil e inclinou a cabeça numa reverência.

 

Aquela mulher que se tornara rainha da noite para o dia, não deixava de o espantar. De uma frágil e pálida menina, transformara-se numa mulher assustadoramente segura de si, e com plenos poderes sobre os seus homens. Nesses momentos, Cecil sabia inequivocamente que os antigos rumores - relacionados com o julgamento de sua mãe Ana Bolena por traição e adultério, e segundo os quais Isabel não era filha de Henrique - não passavam de ridículas fantasias. Até um louco podia ver que a jovem era o reflexo do pai. Não só no belo cabelo ruivo, no nariz aquilino, no radiante sorriso, mas também na mesma arrogância inata, na incontestável autoridade e puro magnetismo animal. Pensou também com ironia que Isabel possuía como o pai, a rara qualidade de inspirar em homens e mulheres o mesmo amor apaixonado e devoção inabalável, apesar da sua inexperiência e dos seus por vezes desagradáveis insultos.

 

Isabel que caminhara sem cessar, tanto para dar largas a um excesso de energia nervosa, como para combater o frio que ali fazia, instalou-se na sua cadeira de almofadas vermelhas e tamborilou com os dedos na madeira trabalhada dos braços em forma de garra.

 

- Prossigamos!

 

- Majestade, chegou o momento de apresentar ao Parlamento os Actos de Supremacia e Uniformidade para que sejam transformados em lei.

 

- Tal como vosso pai, sereis nomeada Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra - anunciou o marquês de Windsor, lorde-tesoureiro, um homem já idoso, de rosto doce, cuja cabeça parecia equilibrar-se precariamente em cima dos folhos da sua gola engomada.

 

- Prefiro ”Governador”... ”Governador Supremo” - afirmou Isabel. - E o Livro de Orações do meu falecido irmão Eduardo? Será restabelecido?

 

- Imediatamente, majestade - replicou Cecil. - E a partir de agora, os serviços religiosos serão conduzidos em inglês.

 

- Deus seja louvado! - exclamou a rainha.

 

- Propomos também que a assistência à missa católica seja considerada um crime passível de prisão - continuou Cecil. - Repetido três vezes, será punido com prisão perpétua.

 

- Não será uma pena excessiva, senhores? E muito parecida com as perseguições católicas? No continente, foi nomeado um novo inquisidor dominicano e os judeus foram mais uma vez obrigados a usar quadrados amarelos cosidos nas costas. Não desejo que se diga que a nossa reforma se inclina para a crueldade.

 

- Em qualquer caso, é menos duro do que a morte de protestantes na fogueira, imposta por vossa irmã, durante o seu reinado - respondeu lorde Clinton.

 

Isabel reparou no estremecimento de lorde Arundel, o único católico que restava no seu Conselho Privado, diante da referência à perseguição encarniçada que haviam sofrido os adeptos da nova fé no reinado de Maria. Muitos tinham sido os homens, mulheres e até mesmo crianças que tinham padecido uma horrível agonia nas chamas, entre eles o arcebispo Cranmer, grande amigo de sua mãe.

 

- Fui testemunha do fanatismo protestante de meu irmão, tão repugnante como o catolicismo de minha irmã. O reino necessita de sarar as feridas, para atingir a unidade e só o conseguiremos com um meio-termo nos assuntos religiosos. E, embora eu não tenha paciência para santos, indulgências e milagres, buscaremos uma conformidade exterior, sem esquecer que as crenças de cada um são um assunto pessoal. Não desejo invadir as almas dos homens.

 

- Majestade, há outro assunto que necessitamos discutir - disse Cecil com a cautela de quem entra num curral cheio de javalis enfurecidos.

- E qual será esse assunto, lorde Cecil? - perguntou Isabel, dissimulando um sorriso, pois sabia perfeitamente do que se tratava.

 

- O vosso casamento, Majestade. É da maior importância. Uma aliança estrangeira...

 

- Não me faleis de uma aliança estrangeira! - Isabel ergueu-se de um salto, provocando um turbilhão de brocados sussurrantes e uma onda de perfume que entonteceu os conselheiros. - Quando subi ao trono, fui aclamada rainha genuinamente inglesa, sem mistura de sangue espanhol ou estrangeiro, totalmente natural deste país. O que quereis de mim é um filho, não é verdade? Um herdeiro. Ora bem, não credes que os meus súbditos desejem um príncipe verdadeiramente inglês?

 

- Mas, majestade...

 

- Mais me valeria casar-me convosco! - voltou-se rapidamente para o mordomo-mor da casa real e acrescentou: - Precisamente o conde de Arundel quer convencer-me de que é o melhor partido de toda a Inglaterra - deu outra volta e encarou o idoso marquês de Windsor que já havia estado ao serviço de seu pai e irmão. Embora curvado e frágil, quando a rainha lhe passou os dedos de marfim pela barba cinzenta, sorriu como um jovem apaixonado. - Se o meu tesoureiro-mor fosse menos idoso nem por um instante duvidaria em fazer dele meu esposo!

 

- Perdoai, senhora, mas troçais de um assunto de extrema importância - disse o primeiro conselheiro.

 

- Se não vos conhecesse, lorde Cecil, pensaria que estais de acordo com a famosa teoria de que a beleza é um dom conferido às mulheres pela natureza, para as compensar da sua falta de inteligência...

 

- Majestade... - implorou ele.

 

- Ou como os escritos de John Knox, esse idiota pomposo, que afirma que, uma mulher governar os homens é tão despropositado, como um cego conduzir os que vêem.

 

Isabel já não sorria e tinha o rosto habitualmente pálido afogueado de fúria.

 

- já vos disse, e agora repito. Nesta questão, agirei conforme Deus me ditar. Além do mais... - disse, recuperando a compostura do mesmo modo que readquiriria o controle de um cavalo indisciplinado - já sou casada.

 

Os conselheiros olharam-na paralisados. Mal se ouvia um murmúrio na sala. Teria acontecido o pior? Teria a rainha desposado Dudley, em segredo? Isabel ergueu a mão direita, exibindo aos conselheiros o pesado anel de ouro e rubis da coroação.

 

- O meu esposo é o reino de Inglaterra! Muito bom-dia, meus senhores!

 

Nunca tinha visto uma pessoa tão velha. Quando Kat Ashley fez entrar no aposento a anciã curvada e trémula, Isabel observou-a com assombro. Debaixo da touca, o cabelo era fino e grisalho e o rosto enrugado como uma maçã seca ao sol. O vestido velho e muito largo que lhe cobria o corpo, estava desbotado e fora de moda. Porém, Isabel teve a certeza de que se tratava de uma mulher bem nascida. A reverência, profunda e cerimoniosamente correcta que fez, apesar das doridas articulações, foi prova suficiente da sua nobreza e posição.

 

- Falai - pediu a rainha com a curiosidade espicaçada mesmo antes da mulher se levantar e dispensando as formalidades. - Dizei-me o que vos trouxe aqui.

 

A mulher erguera-se já, porém a corcunda obrigou-a a levantar a cabeça o mais que pôde, para se dirigir à rainha e enfrentar o seu olhar.

- Devemos falar a sós, Majestade.

 

Kat soltou uma exclamação ofendida e implorou com os olhos à rainha que a deixasse expulsar a mulher. Mas, embora a altivez da anciã não parecesse de acordo com o seu modo de vestir, Isabel sentiu que a ocasião estava investida de uma estranha importância. Mandou Kat embora e a aia corada e aborrecida, saiu porta fora.

 

- Tenho aqui uma coisa que pertenceu a vossa mãe - declarou a velha.

 

- Dizei-me primeiro o vosso nome e deixemo-nos de segredos. Posso estar interessada no que me trazeis, mas tenho pouca paciência.

 

A mulher susteve sem pestanejar o olhar da rainha.

 

- Saiba Vossa Graça que sou lady Matilda Sommerville, E talvez que a paciência se possa adquirir com a idade avançada, juntamente com as dores nas articulações.

 

Enquanto a rainha olhava para a velha, debatendo-se entre a fúria e a vontade rir, esta meteu as mãos por entre as dobras da saia e retirou de lá um livro de capa gasta. Todavia pareceu hesitar.

 

- Deixai-me ver esse livro - ordenou Isabel com sobriedade.

- Não se trata de um livro, Majestade.

 

- Ora essa, não o estou a ver com os meus próprios olhos? Parecendo conhecer exactamente os limites da sua insolência, lady Sommerville avançou, com passo vacilante e, com os dedos invulgarmente curvados, estendeu o livro forrado de pele vermelha-escura. Aproximou-se um pouco mais da rainha e murmurou:

 

- É um diário. É o diário de vossa mãe, Ana Bolena. Imediatamente Isabel sentiu a pele arrepiada e o coração em sobressalto. Sua mãe! Quase não conservava dela qualquer recordação e, na verdade, havia mais de vinte anos que não pronunciava o seu nome em voz alta. Fez um esforço para recuperar a calma e aguardou um pouco antes de falar.

 

- Um diário? E posso perguntar-vos lady Sommerville, como haveis entrado na posse do diário de uma Rainha?

 

Os olhos lacrimejantes da mulher perderam a expressão, como se se tivesse afastado daquele tempo, daquele local.

 

- Tive a grande honra de servir vossa mãe antes da sua morte - disse com discreto orgulho.

 

Embora a lógica exigisse que a história da mulher fosse recebida com cepticismo e o objecto que tinha na mão sujeito a rigoroso escrutínio, Isabel estendeu a mão para o livro com uma espontaneidade que lhe era pouco vulgar. Sentiu, sob os seus dedos, a pele áspera e chegou-lhe às narinas o odor a pergaminho e a pele de vitela.

 

A idosa mulher observava a rainha com um olhar calmo e seguro. A jovem monarca deveria saber que falava verdade. Não seria castigada.

- Sentai-vos - disse Isabel, mais como convite do que como ordem. Falai-me de minha mãe.

 

Lady Sommerville sentou-se numa cadeira colocando as pernas, sob as volumosas saias, na posição mais cómoda para as suas doridas articulações.

 

- Lorde Kingston, meu tio, foi governador da Torre de Londres no tempo de vosso pai. Foi um grande soldado e combateu com bravura na batalha de Flodden, onde sofreu ferimentos graves. Muitas vezes se lamentava, dizendo ter preferido morrer aí com glória, pois o ter ficado aleijado para o resto da vida, transformou-o num homem amargo. O bom rei Henrique recompensou-o com o posto de governador da fortaleza de Londres e, embora tivesse sido uma grande honra, o cargo fazia-o infeliz. As muralhas cinzentas causavam-lhe tristeza, a humidade do rio afectava-lhe os ossos e as armas reais causavam-lhe a saudade das batalhas em campo aberto, e do entrechocar das armas - a voz de lady Sommerville ganhava alento e confiança, à medida que desfiava as recordações e revivia o tempo da sua juventude.

 

- Kingston estava no seu posto quando vossa mãe já grávida de cinco meses da vossa real pessoa, foi passar três dias de feliz retiro na Torre, antes da sua coroação como rainha. Não a serviu de bom grado, tendo sido como tantos ingleses, um partidário leal de Catarina, primeira mulher de vosso pai, apesar de se tratar de uma estrangeira. Porém, como apreciava a segurança da sua família e também a do seu magro pescoço, curvou-se diante da nova rainha e tornou-lhe a estada o mais confortável possível. Ao cabo de três anos, vossa mãe voltou para a Torre, em desgraça e acusada de traição e bruxaria e meu tio recordava a sua chegada na barcaça, de rosto triste e sombrio. Tropeçou ao passar o portão do rio, para entrar no pátio e ele segurou-a pelo braço. Contou-me depois, que ela lhe sorrira, agradecida por aquela pequena amabilidade, pois havia muito que não recebia nenhuma já que apenas lhe restavam inimigos.

 

Isabel percebeu que as mãos lhe tremiam e segurou o diário com força para as aquietar. Também ela fazia parte daquela história fatídica. Não se tratava apenas da recordação da Torre, daquele inferno inóspito, onde também ela fora encarcerada durante meses quando Maria, sua meia-irmã suspeitara da sua participação numa conjura para a depor. Não, era mais do que isso. Aquela anciã arrastava consigo o princípio da vida de Isabel e a morte de sua mãe como fios entretecidos de uma bela tapeçaria. Até ali, raras vezes se tinha permitido pensar demoradamente na vida ou na morte de Ana.

 

A promessa do seu nascimento fora a grande esperança de Ana - um filho varão, o herdeiro que Catarina não pudera dar a Henrique. Sabia também que o seu sexo tinha contribuído para a morte de sua mãe. Se tivesse nascido rapaz, talvez Ana estivesse viva e, quem sabe, fosse ainda rainha.

 

- Prossegui, lady Sommerville. Haveis dito que servistes minha mãe no final da sua vida.

 

- Meu tio precisava de mulheres que servissem a rainha na sua terrível reclusão e eram poucas as que aceitavam fazê-lo. Vossa mãe foi muito injuriada, majestade - a anciã baixou os olhos, envergonhada de ter de contar a verdade a Isabel.

 

- Com efeito. ”Nan Bolena, a rameira do Rei”, era assim que lhe chamavam - disse Isabel com os lábios trémulos e sentindo por ela uma onda de piedade. Tal como a mãe, também Isabel fora alvo de ódios e invejas, rejeitada e insultada mesmo depois de já ser princesa. Havia poucos anos, antes de se converter em rainha fora sempre considerada a bastarda de Henrique. Doía-lhe o peito. Sentia a garganta seca e apertada.

 

- Adorei vossa mãe desde o primeiro momento em que a vi tão solitária - disse lady Sommerville, inesperadamente.

 

Isabel perscrutou o rosto da idosa senhora, em busca de emoção que lhe corroborasse as palavras. Mas nada mais viu que o movimento dos lábios enrugados ao revelarem um tão precioso segredo, destinado a ser conhecido por duas mulheres de sangue nobre.

 

- Era de constituição delicada, de pulsos muito finos e com um longo pescoço de cisne - prosseguiu lady Sommerville. - E graciosa, tão graciosa que nos esquecíamos que tinha a pele excessivamente pálida e os olhos demasiado grandes. Tinha uma voz muito agradável, bem timbrada e alegre, apesar das suas terríveis atribulações. E era muito espirituosa. Vossa mãe fazia-me rir, podeis estar certa. Ríamos juntas, ela e eu, pois mais ninguém queria partilhar desse riso. As outras damas olhavam, murmuravam e o meu tio zangou-se comigo. Porém, eu, valente como um homem, resolvi dizer-lhe: ”Ana será rainha até à morte. É ela e não vós quem me dá ordens!”

 

A idosa senhora deteve-se, sorriu para consigo, recordando-se talvez desses momentos de corajosa resistência. Depois continuou.

 

- Todas as noites, durante as semanas em que lá esteve, deixou que eu lhe escovasse o longo cabelo sedoso e negro, como asas de corvo. Era nesses momentos que vossa mãe chorava. Lágrimas raivosas e amargas mas também de muita tristeza. Por vezes gemia baixinho. Uma vez disse-me: ”Henrique gostava muito de escovar o meu cabelo.” Mais nada ”Henrique gostava muito de escovar o meu cabelo”. À parte isto, a única vez que a vi chorar foi quando executaram o irmão e assistiu à sua decapitação de um parapeito da Torre. As mortes dos outros, dos homens que tinham sido acusados de libertinagem com ela, não a afectaram tanto. Mas adorava o irmão George - lady Sommerville olhou a rainha nos olhos. - Vosso tio.

 

- Meu tio, sim - Isabel tentou voltar atrás no tempo. Recordava-se de George Bolena? Belo nos retratos, com a reputação de ser encantador. Não, não se lembrava dele, nem de seu avô Thomas, que vendera a filha por ambição e a abandonara por conveniência. Até mesmo sua mãe, não era mais que uma visão efémera, um leve perfume almiscarado, um riso melodioso. Porém, o seu rosto estava sempre banhado numa luz tão intensa, que praticamente lhe apagava as feições.

 

Uma das suas recordações de infância era um belo lenço de linho com as iniciais de seus pais, H de Henrique e A de Ana, entrelaçadas como dois amantes abraçados, Mais tarde, quando Ana morreu e caiu no esquecimento, suplantada por Jane Seymour, todas as roupas, esculturas, pinturas e objectos adornados com o atrevido símbolo do êxito de Ana foram destruídos ou postos de parte, substituídos por outros com a inicial J, da nova rainha entrelaçada no H de Henrique. Durante a sua infância, triste e solitária, Isabel guardara o lenço, um tesouro ilícito, numa pequena caixa que continha as poucas jóias que lhe tinham sido oferecidas e outros objectos de pouco valor. À medida que ia crescendo, a caixa ia sendo empurrada para o fundo de um baú de madeira e a recordação que guardava de sua mãe esbatia-se tal qual a pintura de um leque.

- Falai-me do diário.

 

- Só soube da existência do diário no dia em que vossa mãe partiu para o seu fim infeliz. Estava muito agitada, pois tinha ouvido os carpinteiros debaixo da sua janela da prisão a serrar e a martelar o estrado sobre o qual seria executada. Os últimos pedidos de clemência a vosso pai foram em vão e estava desesperada. Por instantes, pareceu ter perdido todo o encanto e graça, tropeçava na saia, torcia as mãos. Passava os dedos pelo rosto, pelo cabelo e murmurava: ”Que Deus me perdoe... que Deus me perdoe...”

 

- Eu sentia-me indisposta e tonta. Vossa mãe era uma mulher digna de pena e perdera o porte de rainha que certamente queria mostrar a todos os que viriam assistir à sua execução. De modo que ganhei coragem e cheguei-me a ela para lhe perguntar se não queria que lhe escovasse o cabelo. Nesse momento, olhou para mim e pareceu mais tranquila. ”Sim, lady Sommerville, gostaria muito.)

 

- Penteei-a lentamente como ela tanto gostava, alisando-lhe o cabelo. Depois pediu-me que lho subisse para libertar o pescoço. Foi neste momento que comecei a chorar, pois sabia qual fora o seu pensamento - a anciã tocou inconscientemente na nuca. - Tinham mandado vir um excelente carrasco francês, mas ela receava a dor e não queria qualquer obstáculo à lâmina do machado.

 

Isabel apercebeu-se de que tinha as lágrimas nos olhos, mas não fez qualquer menção de as esconder daquela mulher, tão amiga de sua mãe na vida e na morte.

 

- Depois de lhe ter arranjado o cabelo e ajudado a vestir um macio vestido cinzento, veio ter comigo com este livro na mão. Nesse momento já estava muito calma e o terror desaparecera-lhe do olhar. ”Tomai isto”; disse. ”É a minha vida. Entregai-o a minha filha Isabel, quando esta for mais velha, quando for rainha. Vai fazer-lhe falta.”

 

- Envergonha-me ter de o admitir, Majestade, mas pensei que a filha que Henrique tivera com uma mulher que tanto desprezara, nunca viria a governar Inglaterra. Todavia eu amava vossa mãe e ela ia morrer, portanto achei que seria uma honra. E é também uma honra poder, ao fim de tantos anos, entregar-vos o diário.

 

Lady Sommerville fez um esforço para se levantar da cadeira. Isabel estendeu a mão para a ajudar e os olhos de ambas encontraram-se.

 

- Vossa mãe morreu com dignidade. Morreu como uma rainha, Majestade.

 

Lady Sommerville executou uma reverência e tomando a mão coberta de jóias de Isabel, beijou-lhe o anel.

 

- Muito obrigada, bondosa senhora - murmurou Isabel. - Deveis sentir orgulho por terdes cumprido a promessa que, há já tanto tempo, fizestes a minha mãe.

 

A anciã observou com um sorriso o rosto pálido da rainha.

 

- Haveis herdado os olhos de vosso pai, Isabel, mas é o espírito de vossa mãe que brilha através deles.

 

Lady Sommerville voltou-se e saiu com passo lento, sem se incomodar em fechar a porta. Kat e outras aias mais jovens que aí se encontravam, entraram imediatamente na câmara. Isabel, como que envolvida num sonho do qual não desejava despertar, ergueu a mão para lhes ordenar que saíssem.

 

Depois, observou o diário que durante toda a história de lady Sommerville segurara nas mãos. Estava velho, com a capa vermelha-escura descorada e a encadernação já deteriorada. Pouco restava já da grinalda dourada, mas via-se que tinha sido um livro muito belo. Isabel abriu a capa como se tocasse em asas de borboleta. Ali na primeira página, em grandes letras desenhadas numa elegante caligrafia sobre o pergaminho amarelecido lia-se a inscrição:

 

Diário de Ana Bolena

 

Isabel voltou a página.

 

4 de Janeiro de 1522 Diário,

 

Que estranho é um livro com as páginas em branco. Nunca na minha vida tinha visto nada tão raro e maravilhoso como este diário de pergaminho. Como é diferente de um livro que se possa ler, cujos autores ofereçam o alimento dos seus pensamentos, palavras e obras, este volume vazio que me desafia e troça de mim, implorando-me que encha as suas páginas. Mas enchê-las com quê?

 

Thomas Wyatt, que mo ofereceu, assegura-me que sou capaz de o fazer, justificando-se ao dizer que adquiri o hábito de escrever em várias línguas, que sou boa conversadora, que conheço casos espirituosos e interessantes e deliciosas histórias da corte francesa. São certamente, são cumprimentos de um cavalheiro a uma dama, mas, mesmo assim, há neles algo de verdade. Wyatt com o presente na mão, encontrou-me na minúscula sala das aias da rainha Catarina, só e sentada à mesa com a pena na mão, a acabar de escrever uma carta para minha mãe.

 

Voltei-me para ele e recebi-o com um sorriso franco, pois Wyatt é um grande homem. Escritor, o melhor poeta da corte, extremamente belo, muito alto e cheio de vida. Diz-se que, excepto em sangue real, em nada é inferior a Henrique e é, de facto, o companheiro constante do rei Tudor. Desde o meu gélido e triste regresso da corte do rei francês, este cavalheiro distinguiu-me de entre as outras aias, cumulando-me de favores, mais até do que à minha bela irmã Maria. Lisonjeia-me ousadamente nos seus poemas que são causa de muita admiração e alguns ciúmes. Mas, nem isso, me tinha feito esperar tão invulgar presente.

 

- Poucos homens e ainda menos mulheres passam a escrito aquilo que pensam - disse-me. - Mas só conheço uma pessoa que possa encher com graça estas páginas, contando a sua história com espírito e graciosidade.

 

Admitiu que a vida da corte era demasiado íntima e gregária para fomentar pensamentos solitários, mas pediu-me que me recordasse que estamos sempre sós, mesmo no meio de outros. E, em seguida, acrescentou:

 

- Se encontrardes maneira de escrever o vosso diário de coração aberto, como a um amigo a quem se conta a verdade, sem nada omitir, este livro há-de conter, como as obras de Petrarca, os fragmentos dispersos da vossa alma.

 

Fiquei assombrada. Thomas Wyatt, um homem inteligente, oferecera-me uma dura noz de Natal envolvida na carne macia de uma tâmara, um desafio atrevido, escondido no melhor dos elogios. Sabia que, apesar das poucas oportunidades que a vida de uma aia deixava para um trabalho assim, tinha de escrever e delinear um plano para poder manter em segredo esse acto íntimo. A arca de madeira lavrada que trouxe de França tem chave e fechadura e nela o meu diário íntimo terá um esconderijo seguro.

 

Um momento! Oiço os risos da rainha e das outras aias que se aproximam pelo corredor, regressadas de algum divertimento,

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

15 de Janeiro de 1522 Diário,

 

Fingi uma dor de cabeça, para poder ficar enquanto as outras foram ver um combate de ursos no pátio do castelo. Estou sentada, junto à janela do meu quartinho, de pena na mão e, ao pensar na minha vida diária, descubro que o passar do tempo não curou a minha melancolia. Desde o meu regresso de França para a corte enfadonha e provinciana do rei Henríque, estou ao serviço da sua piedosa rainha. Levo e trago as suas roupas de lã, e as do seu leito, por corredores escuros e estreitos, entre paredes de pedra geladas pelas brumas inglesas que se erguem do Tamisa. Gelam-me o coração e deixam-me prostrada numa saudosa melancolia.

 

Se a Inglaterra não tivesse reclamado o regresso de meu pai de França, depois da ruptura das relações cordiais entre ambas as nações, continuaria a dançar todas as noites, como agora o faço em sonhos, na corte cintilante de Francisco I. Nela havia encanto, esplendor, beleza e maliciosos jogos de sedução. O endiabrado rei (embora para dizer a verdade Henrique se lhe assemelhe em figura, majestade e beleza varonil) tem uma coisa que o nosso soberano nunca teve nem desejou ter - um amor esplêndido e obsceno pela luxúria que confere aos mais chegados membros da sua elegante corte.

 

Foi em França que passei a minha juventude e, aí fui educada, desde pequenina, em companhia de Renée, a princesinha aleijada. A luz cristalina entrava pelas altas janelas do palácio real e intensificava as cores. Todas as paredes estavam Cobertas, todos os recantos enfeitados, todos os soalhos atapetados com tesouros de incalculável valor - tapeçarias, quadros, estátuas e objectos de metal para agradar os sentidos e os gostos de todos. Ali acudiam grandes filósofos, escritores e sábios de todos os cantos do mundo. jantávamos na companhia do grande poeta Marot, olhávamos durante horas para a Mona Lisa de Leonardo da Vinci trazida por esse refinado cavalheiro italiano para enfeitar o próprio salão do rei. Ah, como lembro esses tempos e esse lugar. Conservo a recordação de um momento, de um dia perfeito, numa vida a um mundo de distância. Contar-vos-ei tudo para que vejais, querido Diário, como foi a vida que até há pouco levava a senhora Ana Bolena.

 

...Avancei a toda a pressa pelo corredor soalheiro, para me encontrar com Josette que tinha prometido pôr-me ao corrente de alguns mexericos. Mas então vi aproximar-se, qual archote que ilumina a noite escura, o rei Francisco, cuja figura suplantava o resplendor das suas própria jóias. Os homens da corte francesa seguiam na sua esteira de luz, pavoneando-se com passo seguro e impudicícia aclamando cada palavra do rei, lisonjeando-lhe os movimentos graciosos, satisfazendo-lhe todos os caprichos.

 

Aproximaram-se mais. Ousadamente, ergui os olhos para o rei de França, antes de fazer uma sedutora reverência. Ergui-me, sabendo que todos os cortesãos me admiravam, me acariciavam e me despiam com o olhar. O rei, os cortesãos e eu trocámos algumas palavras... um cumprimento a sua Majestade pelo saque obtido em Itália, um gracejo às custas de outra dama, um cumprimento para o meu pai, o embaixador, um convite para jogar às cartas. Inclinei a cabeça, pestanejei, esbocei um malicioso sorriso. Os anos de educação nas artes da coqueteria surtiram efeito, pois sabia o que pensavam: ”Esta é Anne de Boullans, irmã de Marie, a impúdica égua inglesa. É jovem, ainda sem mácula e oferece-nos um sem-número de possibilidades e um potencial de sedução. Vou apresentar o meu mais atraente sorriso, adoptar a pose mais chamativa, provocar nela uma gargalhada, com o meu espírito. Talvez possa ser o seu primeiro amante e conseguirei do meu rei, se e que ainda não se deitou com ela, a sua admiração mais pura e lasciva. Talvez possa ser eu a contar a sua Majestade - pois sei como lhe agrada ouvir - os excitantes pormenores dos nossos encontros amorosos, as palavras trocadas por entre os abraços mais apaixonados.”

 

Assim, insinuando-me maliciosamente antes de me despedir, fingi entregar-me a pensamentos lúbricos, incentivando-os a deliciosas fantasias a meu respeito. Mal sabiam eles, enquanto retomavam com passo lento o seu caminho em direcção a novas futilidades, que o meu corpo e o meu espírito estavam ainda intactos e que continuava virgem, pois tinha tido bons exemplos para me instruírem nesta questão.

 

Ouvira os nomes que chamavam a minha irmã. Mary era uma verdadeira beleza, mas um pouco curta de inteligência, conduzida apenas pelas rédeas do desejo e da exaltação do momento. Apenas pensava nas conquistas de uma noite.

 

Aprendi também com a casta e desairosa rainha Claude, a quem servíamos. Todas as aias desdenhavam dos seus modos e troçavam dela devido às escapadas do esposo. Para a maioria, era uma mulher sem importância. Mas não para mim, pois via que era verdadeiramente uma rainha. Usava a coroa, tivera entre as suas pernas o rei de França e dera-lhe os príncipes que lhe perpetuavam o nome. As fúteis e espirituosas damas da corte, com os seus vestidos de seda, cobertas de jóias e objectos de desejo... nada tinham. Nem amor, nem nome, nem glória duradoura. Eu fazia como elas. Ria e namorava, fingia-me libertina, bebia de uma taça em cujo interior estavam representadas cenas impúdicas... e não corava. Mantive a sensatez. Tinha apenas quinze anos.

 

O soalheiro corredor do palácio francês encheu-se de música alegre e apercebi-me de um intenso perfume que pairava junto a mim. Toquei no mármore colorido de um deus nu sobre um pedestal.

 

Olhei o seu membro viril, de pedra, e pensei na carne. Toquei-lhe na coxa fria com uma mão ardente. Respirei fundo ...

 

Do pátio, chegavam gritos agudos e ganidos de um cão moribundo. O meu doce devaneio quebrou-se como o gelo fino sobre as vidraças das janelas. Estou em Inglaterra. Mas o meu coração sofre as tristes saudades daquela vida dourada. Oxalá estivesse ainda em França.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

ISABEL MANTEVE-SE IMóVEL, aturdida pelas revelações do diário! Que estranha e singular fortuna lhe teria feito chegar às mãos aquele documento e conhecesse, por fim, os pensamentos mais íntimos da mãe e um mundo que havia mais de quarenta anos findara. Isabel sentia ter encontrado a chave de uma câmara secreta, havia muito selada - como um túmulo - na qual se escondiam terríveis e fascinantes mistérios, tão perigosos como importantes. Buscou no seu coração, mas não encontrou nele qualquer sentimento de amor pela personagem que fora a amante de seu pai durante seis anos, sua esposa e rainha durante três. Desde a infância que Isabel construíra em redor do seu coração altas muralhas para se proteger da vergonhosa recordação de Ana. Para as erguer utilizara toda a amargura sentida pela morte da traidora e a mácula que esta deixara na sua própria vida.

 

Havia muito pouco tempo que a coroa pertencia a Isabel. Todos os dias, tinha de tomar importantes decisões que, não só afectavam a sua vida como a de toda a Inglaterra e dos seus súbditos. Se afinal o destino tinha escolhido aquele momento crucial para que recebesse o diário, seria loucura não lhe prestar a devida atenção.

 

Uma pancada seca na porta da câmara sobressaltou a rainha.

- Só mais um momento, Kat!

 

Reflectiu rapidamente. Resistindo a tudo, a mãe mantivera o diário secreto, durante toda a sua vida. Agora, apenas ela, Isabel, e a lady Sommerville conheciam a sua existência. Isabel decidiu nesse mesmo instante não o dar a conhecer a mais ninguém. Mentiria a Kat acerca do propósito da visita de lady Sommerville. E fecharia o diário a sete chaves. Seria o seu segredo mais íntimo, na sua vida demasiado exposta. Isabel escondeu o livro de capa vermelha-escura num monte de documentos de Estado antes de dar permissão às suas aias para entrarem.

 

- Com quem é a minha próxima audiência? - perguntou a Kat, em voz conciliadora.

 

- Com lorde Braxton e seu filho. Depois segue-se a vossa reunião matinal com lorde Cecil. Depois, Senhora, deveis posar para o vosso retrato.

- Muito bem. Vou um momento aos meus aposentos - disse Isabel, pegando nos papéis e avançando na direcção de uma porta escondida que comunicava com os seus aposentos.

 

- Agora? - exclamou Kat. - Lorde Braxton aguarda-vos. E lorde Cecil...

 

- Que esperem - disse Isabel apertando o diário junto ao peito e desaparecendo pela porta.

 

Kat Ashley cantava distraidamente e em surdina, enquanto avivava o fogo na câmara da rainha. Isabel estava irritada pelo seu próprio nervosismo que a obrigava a caminhar de um lado para outro e lhe deixava as mãos húmidas que agora puxavam constantemente uma borla que lhe pendia da cintura.

 

- Que vestido usará Vossa Majestade esta noite? - perguntou a aia. Isabel sabia que a resposta provocaria uma enfiada de indesejáveis perguntas.

 

- Não tenciono assistir, Kat - afirmou mesmo assim. - Esta noite desejo ficar só.

 

- Muito bem. Mandarei que vos tragam a ceia e comeremos aqui junto à lareira.

 

- Não, Kat. Quero ficar completamente só.

 

A aia pestanejou, ainda sem compreender as palavras de Isabel. A rainha tinha sempre alguém por perto. A própria Kat dormia num catre aos pés do seu leito. Pelo menos ela deveria ficar e...

 

- Trazei apenas velas. Todas as que conseguirdes encontrar. Acendei-as em volta da minha cadeira.

 

- Velas?

 

- Iluminai o mais possível o quarto.

 

- Não sei que se passa convosco, Isabel.

- Por favor.

 

Não valia a pena discutir com a rainha quando esta já tinha tomado uma decisão.

 

Isabel sentou-se na sua cadeira alta, com a cabeça rodeada pelo resplendor da luz das velas. Apenas se ouvia o uivo do vento na chaminé e os estalos da cera. Depois de Kat e as outras aias terem saído, deixando-a num bendito silêncio, Isabel retirou uma pequena chave do forro de uma caixa de prata e abriu a ricamente trabalhada arca italiana, que se encontrava junto à janela. Retirou o diário da mãe de entre os delicados folhos do seu vestido de baptizado. Demorara quase uma semana a encontrar aquele momento de privacidade, embora a ideia do livro secreto não a tivesse abandonado a todas as horas do dia, desde que a idosa lady Sommerville introduzira aquele mistério na sua vida.

 

O baú, perfumado a alfazema, estava cheio de linhos cuidadosamente dobrados, de alguma roupa sua e de outra pertencente a seu irmão Eduardo e a seu pai, que decidira guardar como recordação e que era tudo o que lhe restava da família. Pondo de lado uma túnica bordada e um par de luvas de falcoaria, Isabel encontrou a pequena caixa que buscava, de cuja tampa se haviam já apagado as cenas biblicas pintadas e ornamentadas a ouro. A visão daquele objecto provocou nela uma onda de recordações de infância, imagens desconexas, alegres e tristes, dos aposentos das crianças em Hartfield Hall, todas elas fazendo parte de si, tal como o ar que respirava.

 

Ao retirar a tampa, deixou a descoberto uma mistura de jóias sem valor, uma pedra vagamente semelhante a um coração que o romântico Robin lhe oferecera, um dedal de esmalte para um dedo de criança, o crânio de um rato, uma pena de pássaro já descolorida. E o lenço da mãe.

 

Isabel separou o quadrado de linho fino do restante conteúdo da caixa e segurou-o nas mãos. Estava amarelecido pelos anos e a cercadura de renda tinha, aqui e ali, fios soltos, porém as iniciais bordadas dos pais H e A, entrelaçavam-se amorosamente para toda a eternidade.

 

A rainha sentou-se então com o diário no colo e com o lenço a servir de marca e abriu-o, na terceira página.

 

Semicerrou os olhos para melhor distinguir a caligrafia. Teria de ler lentamente, pois tinha a visão enfraquecida e o esforço provocava-lhe incómodas dores de cabeça. E, com tão poucas oportunidades de privacidade, sabia que demoraria muito tempo naquela tarefa. Todavia, não se importava. Saboreá-lo-ia lentamente, como se de um vinho se tratasse, pois sabia que, na história de Ana encontraria as peças do quebra-cabeças que constituía o seu destino como mulher - e como rainha. Começou a ler.

 

4 de Abril de 1522 Diário,

 

Que domingo tão agitado! Por ordem de meu pai, quando saí da capela, dirigi-me ao seu gabinete, onde ultimava os preparativos para a visita do cardeal. Acerquei-me da mesa, coberta de verde, onde estava sentado em conferência com o tesoureiro, um homem feiíssimo que me observou dos pés à cabeça, pelo canto do olho. Desejava ir-me embora, pois nesse momento chegava a barcaça do cardeal, mas fui obrigada a ficar calada e obediente, até chegar o momento oportuno da audiência com meu pai e senhor.

 

Por fim, dirigiu-me a palavra para me dizer que sir Piers Bufler fora nomeado representante da Coroa na Irlanda e que eu deveria ir sem demora felicitar o meu prometido, pela nomeação de seu pai. A menção de James Bufler e da sua família exasperou-me, mas imediatamente dissimulei esse sentimento com um sorriso. Sinto pavor do pai dele, um senhor da guerra, conhecido por assassinar membros da própria família, e desprezo o filho, tolo e mau que gosta de mim tanto como eu gosto dele. Porém, depois de meu pai, o rei e o cardeal concluírem as negociações, James será meu marido. O meu avô, da parte de meu pai possui muitas terras na Irlanda, mas seu primo, esse vil Piers Bufler impediu que nós, os Bolena, as ocupássemos. Espera-se então que o meu casamento com James ponha cobro a antigas disputas e que tudo fique em paz. Deslocar-me-ei para as desertas terras irlandesas, onde hei-de reinar como lady Bufler, por entre camponeses descalços. Pelo menos é o que me dizem.

 

Quando por fim fui dispensada, corri até à grande janela, onde me detive para ver a barcaça dourada do cardeal Wolsey deslizar pelo rio lamacento até ao cais do palácio. Senti o coração acelerado e precisava de me acalmar, mas não sabia se me sentasse na câmara da rainha ou se atravessasse a correr o relvado para saudar aquele que amo.

 

Depois, pelo vidro da janela, vi uma centelha de tafetá escarlate e uma figura volumosa e pesada. Wolsey, de chapéu, luvas e vestes vermelhas, magnífico na sua obesidade, precedido pelos seus alabardeiros que transportavam os símbolos cardinalícios - cruzes de prata, báculo, capelo e o Grande Selo de Inglaterra. Das portas do palácio, acudiram com grande pompa e circunstância os representantes do rei, cobertos com os seus colares de ouro e marcando o passo com os enormes bastões brancos e ar importante. Sabia que, se Wolsey ali estava, o seu séquito logo desembarcaria. Logo a seguir, vi um jovem vestido com simplicidade e que para mim era o mais belo Henry Percy, magro e tímido de rosto bondoso e rosado. O coração batia-me célere no peito. Apesar da distância e de ele não poder ver-me, senti o seu amor e soube que desejava abandonar a comitiva para vir ao meu encontro.

 

Encaminhei-me, pois, a toda a pressa, atravessando salas e subindo escadas para os aposentos da rainha Catarina, onde outras damas acompanhavam sua Majestade. Reparei na agitação geral - as aias, cozinheiras e criadas sorriam e gracejavam. A rainha tomava a primeira refeição do dia e embora com o olhar cansado, mostrava-se animada naquele domingo de manhã. Como de costume, passara a sexta-feira e o sábado anteriores de joelhos nas duras pedras da capela, jejuando e pedindo perdão a Deus pelos seus pecados que, aos olhos de todos eram boas acções. Pergunto a mim mesma se o hábito de São Francisco que usa sob as suas vestes reais lhe mortifica a pele ou lhe dá o consolo que lhe é tão necessário.

 

É que o rei Henrique, seu esposo ainda a ama, embora já não tenha prazer em deitar-se com ela. Para isso procura nem mais nem menos que a minha irmã Mary, aia da rainha! A rameira do rei francês é agora amante do grande rei Henrique! Pedi à minha irmã que me confiasse o segredo dos seus feitiços, pois verdade seja dita, embora seja muito bela, a corte está cheia de belas mulheres. Respondeu-me com um sorriso malicioso: ”É importante o modo de prender os homens: primeiro agarro-os com força, depois solto-os, para de novo os prender.”

 

Porém, não tenho necessidade desses jogos com o meu amor, pois ele pertence-me como eu lhe pertenço, tão certo como estar a escrever estas páginas. Mas estou a divagar. Voltando a esse domingo...

 

As damas calaram-se na Sala de Audiências, quando do corredor chegou um alarido de vozes masculinas. Em seguida entrou um grupo de aprumados cavalheiros, distribuindo beijos, reverências e cumprimentos. As damas fizeram Par com eles, para passarem a tarde com jogos, canções e galanteios. Com os cavalheiros, como uma suave brisa no meio da tempestade, encontrava-se o meu amado. A princípio nada dissemos. Colocou duas almofadas sobre um banco junto da janela, logo pegou na minha mão, tocou-a ao de leve com os lábios e conduziu-me ao nosso pequeno ninho.

 

Juro que o coração me batia tão célere, que receei não poder ouvir o que me dizia. Era gentil e generoso e tão diferente dos lascivos cavalheiros da corte francesa, que, quando me olhou nos olhos todos os artifícios que há muito preparara para o seduzir, se desvaneceram. Perdoava-lhe todos os defeitos. Porém, apercebi-me de que um véu de tristeza lhe ensombrava o terno semblante, de modo que lhe perguntei qual a razão. Oxalá não o tivesse feito, pois Percy deu-me a triste notícia de que, poucos dias depois do meu noivado com james Bufler ser anunciado, se tinha realizado o seu. Fora prometido a lady Mary Talbot, por muitas e variadas razões, nenhuma delas o amor.

 

Estas negociações nada têm de estranho, pois no nosso mundo o amor romântico é apenas outro termo para designar ”insensatez”. E o amor dentro do casamento - o único que é permitido - não é mais que um dever a cumprir. Por minha parte, repudio estes princípios do fundo do coração, e foi o que disse ao meu amado, furiosa com a nossa forçada separação e amaldiçoando aqueles que a pretendiam.

 

- O cardeal e o rei apoiam meu pai - murmurou Percy. - Que hei-de fazer?

 

- Desafiai-os e casai-vos comigo! - disse eu, ainda trémula, para logo o ver empalidecer de espanto e susto.

 

Perguntei-lhe se não se recordava da própria irmã do rei, a princesa Mary. Eu mesma fizera parte do séquito de aias, quando embarcou rumo a França para se casar com o velho rei Luís. Contei-lhe o grande amor de Mary e lorde Brandon, duque de Suffolk e de como, por motivo de alianças, esse amor não fora levado em conta. Serva obediente do irmão e do país, a princesa sabia que se deveria sentar no trono de França. Mas antes de zarpar das praias de Dover, naquele dia frio e desagradável - estava lá e vi-o com os meus próprios olhos.

- Mary solicitou que, se o rei Luís morresse ela pudesse ficar livre para casar com Brandon. Henry prometeu-lho e fizemo-nos ao mar. Contei a Percy como, ao cabo de três meses de ser rainha, o velho rei morreu e, sem esperar pelas ordens de Henrique, ela e Brandon casaram em segredo, antes de regressar a Inglaterra. O rei, enfurecido, insultou-os e expulsou-os a ambos da corte, em desgraça.

 

- Mas, meu amor, em breve ele lhes perdoou, deixando-os regressar e é aqui que ainda hoje vivem.

 

- Que quereis dizer com isso? - perguntou-me, confuso.

 

- Que o nosso bom rei tem, dentro do peito, um coração bondoso que sabe o que sentem os apaixonados e nos perdoará a ousadia, tal como fez com a irmã. E então, se o nosso rei mostrar clemência, também o cardeal Wolsey e os nossos pais terão de fazer o mesmo.

 

Teremos assim conseguido uma coisa rara e maravilhosa. Um casamento de amor.

 

Ele riu-se de terror e deleite, tomando-me as mãos.

 

- Minha doce Ana, nunca conheci uma mulher como vós. As minhas palavras não bastam para exprimir o que sinto, de modo que deixai que os meus braços, os meus lábios e o meu corpo vo-lo digam...

 

- Significa isso que, tal como a princesa e o seu Brandon, devemos desobedecer e casar?

 

- Sim, sim! - exclamou, atraindo com o seu veemente juramento os olhares de todos ali presentes, incluindo os da rainha, de modo que voltámos a conversar de modo mais tranquilo e discreto.

 

A manhã transcorreu por entre palavras de carinho, promessas e planos. Logo se fez ouvir a chamada para que todos os que tivessem de voltar no séquito do cardeal se apressassem para não perderem a maré.

 

Como não queria separar-me tão depressa do meu amado, acompanhei-o à húmida margem do rio. Beijámo-nos ocultos nas sombras do entardecer. Senti um fogo enorme nas entranhas, que me fez tremer as pernas e os braços e se veio desfazer dentro do meu Peito. Abraçámo-nos e enquanto me acariciava os seios, toquei-lhe no membro duro. Em França já tivera alguns contactos amorosos mas esta chama, este doce desejo, eram novos para mim.

 

Depois, os archotes iluminaram o caminho do cardeal e vimo-nos obrigados a separarmo-nos, despedindo-nos rapidamente, sob o seu gélido olhar. Porém, não nos importámos, pois estávamos prometidos pelo coração. Esta promessa é para ser cumprida e ver-se-á com o decorrer do tempo se não me transformarei em lady Percy.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

22 de Novembro de 1522 Diário,

 

Como hei-de começar? Tenho o coração partido, A minha vida acabou. Percy, o meu querido amor, foi banido para Norte, manietado pela ira de seu pai. Também eu fui mandada sair da corte, em desgraça, e vejo-me desesperada no campo, na casa da minha família em Hever, no Kent. Perguntais como tudo isto se passou?

 

Da última vez que escrevi, o mundo era luminoso. A corte inglesa já parecia ser o meu lar e França não passava de uma doce recordação. A vida era alegre. O nosso rei Henrique presidia como um deus e, são e robusto, fazia estremecer a terra debaixo dos pés. Envergando vestes de cetim bordado a ouro, era quem, nas festas, conduzia as danças saltando como um veado. Cavalgava com galhardia, participava em torneios, cantava e tocava, compunha belos versos e transformava a corte num local maravilhoso.

 

Ao serviço da rainha, passei os dias de Verão em contínuos festejos, falcoarias, danças e encontros secretos com o meu bem amado. Ai como o nosso amor nos cegava e punha asas nos pés! O nosso secreto noivado parecia um sonho distante e já esquecido. O nosso casamento era já um facto, excepto aos olhos da lei e sabíamos que, em breve completaríamos a nossa união.

 

E, então, como um relâmpago mortal vindo do céu, apareceu Wolsey, colérico e decidido a acabar com o nosso amor. Percy foi obrigado a comparecer perante o obeso cardeal, cujos olhos salientes trespassaram a calma do meu amado e o deixaram a tremer, como um junco ao vento.

 

- Desisti - ordenou-lhe. - Deixai a donzela em paz. Eu era de origem plebeia e não estava à altura dele. Vociferou que o nosso contrato era uma ”terrível infracção, que indignava pais, Deus e o rei”, a quem convinha uma aliança entre os Talbot e os Northumberland, para fortalecer as defesas na fronteira norte. Desse modo, Wolsey desejando ganhar os favores do rei, separou maldosamente duas pessoas que eram uma só, dilacerando os nossos corações apaixonados.

 

Percy escreveu-me (numa missiva secreta, pois não nos deixaram despedir-nos) dizendo que me defendera, assegurando que a minha estirpe era tão elevada como a sua, recusando-se a renunciar ao nosso juramento. Estremeci só de pensar nele, um simples jovem, a ter de enfrentar um tão terrível inimigo. Assim, amaldiçoou Wolsey o meu pobre amor, enviando-o, para junto de um irado pai. Prejudicou e dissolveu o nosso honesto compromisso, como se ele nunca tivesse existido.

 

Quanto a mim, meu pai mandou-me chamar aos seus aposentos e vergastou-me duramente. A dor era doce e suave comparada com a separação do meu amado. Apesar do castigo, mantive-me firme e não chorei nem desviei os meus dos seus olhos de mármore.

 

- O grande cardeal Wolsey pensa que venceu a partida, contra mim, uma menina indefesa, que se acobarda com as suas ameaças.

 

Mas permiti que vos diga, que vos jure que, se alguma vez tiver poder para tal, hei-de causar ao cardeal o mesmo desgosto que me provocou.

 

Meu pai ficou boquiaberto e imóvel ao ouvir tais palavras da boca de uma jovem que se atrevia a ameaçar um homem de tão alta posição. Depois, proibiu-me de ficar na corte e mandou-me para a distante Hever Hall, onde agora escrevo.

 

A vida é enfadonha em Edenbridge, os dias vazios como um campo alagado de madrugada. As flores não têm perfume, o canto dos pássaros ofende-me o ouvido, perco-me dentro dos labirintos de sebes verdes e sinto o desejo de desaparecer. Ontem chegou a notícia de que Percy e Mary Talbot se tinham casado. Não chorei, pois já não tenho lágrimas. Em vez disso, senti explodir dentro de mim como pústulas pestilentas um renovado ódio pelo cardeal Wolsey e amaldiçoei-o.

 

Podeis assegurar-vos de que a sua alma me pertencerá. Quando? Como? Não sei. Mas Ana Bolena conseguirá vingar-se.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

25 de Março de 1523 Diário,

 

Sinto um inimaginável aborrecimento. Dia após dia eu e minha mãe sentamo-nos à lareira, enquanto o capelão Parker recita com a sua voz monótona, salmos e escrituras, e as duas damos intermináveis pontos numa interminável tapeçaria. Juro que se tiver de bordar mais um casco de unicórnio ou a asa de um mítico dragão, começo a gritar como uma louca! Como poderá minha mãe levar uma vida tão enfadonha? Semanas, meses e anos a levantar-se cedo, para vigiar o amassar do pão, o fabrico da cerveja e do queijo. A certificar-se de que todos os criados estão ocupados, a recolher penas para as almofadas, a fazer velas e a rezar, sempre a rezar.

 

Por baixo dos seus olhos velados apercebo-me de um fogo mortiço que outrora ardeu vivo e luminoso, mas que aqui, por entre labregos e carneiros, no meio de intermináveis campos sulcados por um pálido ribeiro a que chamam rio, os sonhos de minha mãe extinguem-se, um a um, como velas numa capela. Se bem que nunca fale do assunto, creio que outrora existiu afeição entre ela e o meu sempre ausente pai. Não foi um casamento por amor mas, depois de casados ambos se conformaram. Elizabeth Howard, orgulhosa de um marido que, embora tivesse nascido plebeu era empreendedor e ambicioso. E, Thomas Bolena satisfeito com a mulher que lhe aumentara a fortuna, de coração bondoso e rosto bonito, dando-lhe orgulhosamente um filho por ano, sem morrer, que controlava o trabalho dos campos e as contas da casa, de temperamento sereno, suportando, em silêncio, anos de solidão.

 

Minha mãe impressiona-me pelas suas virtudes domésticas que eu deveria imitar para fazer um bom casamento. Consigo aceitar a castidade e, evidentemente, a modéstia, mas a humildade e a temperança de carácter na verdade, não se coadunam com a minha pessoa. Ao ver o meu desgosto disse-me: ”Não te aflijas tanto. Serás de novo chamada à corte. Sai com o teu cão Urian. Vai caçar, trata do jardim, visita os vizinhos, toca alaúde.” Mas nada me anima nesta insuportável prisão. Deito-me cedo para poupar a cera das velas, levanto-me cedo para fazer as tarefas do lar. Os dias arrastam-se numa tristeza mortal.

 

Dizem que com o meu amor por Percy provoquei a fúria do rei e que a sua raiva é equivalente à morte. Mas, esta vida de proscrita é bem pior que a morte. Todas as noites subo o escuro lance de escadas para o meu quarto de pedra, amaldiçoando o seu nome e o de Wolsey a cada passo. Deitada no colchão duro, nem o luar entra pelas estreitas janelas para me dar alento.

 

Escrevi duas vezes a Percy pagando sempre a um mensageiro secreto para que entregasse a missiva nas mãos dele, em Northumberland. Esperei pela sua resposta infindáveis semanas, que se transformaram em meses. O meu espírito acalmou-se aos poucos, até que, numa manhã cinzenta, a esperança morreu finalmente, levando consigo o meu coração, que murcho e endurecido como um doce fruto, já muito maduro, secou e ficou em pedra.

 

Na cama, o silêncio é terrível. Por trás destas paredes há apenas escuridão, prados, gado e árvores. Não há salões alegremente iluminados com damas e cavalheiros a divertirem-se com a actuação de cómicos, malabaristas e bobos. Nem festas, mascaradas, danças, música, namorados galantes. Por vezes, penso que vou enlouquecer neste silêncio, penumbra e escuridão. ó doce Percy que jazes inconsolável no teu leito conjugal! Não foi este um cruel castigo por amar com sinceridade? Juro que não terei o mesmo destino que minha mãe. Juro-o com as estrelas por testemunha.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

6 de junho de 1524 Diário,

 

Que grande acontecimento! Meu irmão George veio visitar-nos a Hever Hall e cá ficou duas semanas e um dia. É um jovem encantador que as mulheres adoram pela sua graça, beleza e espírito audaz e por isso o adoro também. Com ele em casa, a nossa mãe animou-se, pois é o seu único filho varão vivo e gosta tanto dele como ele dela. Prepararam-se manjares especiais e sentámo-nos os três durante horas, conversando, bebendo, tocando música e divertindo-nos com jogos.

 

Sempre que podia, escapulia-me com ele e cavalgávamos muitas léguas, com Urian a correr por entre os cascos dos cavalos. Levávamos os falcões e íamos caçar ou caminhávamos no atalho verdejante junto ao rio Eden, deixando passar os dias. George dívertía-me com os mexericos, gracejos e trocadilhos da corte, fazendo-me sentir menos abandonada.

 

Um dia em que estávamos deitados à sombra de um frondoso ulmeiro, com o cão a preguiçar aos nossos pés, pôs-me ao corrente dos feitos de que depende o destino da nossa família. A nossa irmã Mary continuava a ser amante do rei.

 

- É o orgulho da família - disse George com um sorriso malicioso nos lábios. - Diz-se que com Mary Bolena, o rei e a sua braguilha estão sempre ocupados.

 

- E como está esse acessório viril do nosso rei? - perguntei com expressão grave.

 

- Grande como um prato, minha irmã, tendo bordadas as plumas dos Tudor, bem como as suas armas, veados e romãs.

 

- Romãs? - E rimos tanto que as lágrimas nos saltaram dos olhos.

- É uma mulher muito atrevida, garanto-vos! - exclamou George enquanto me tecia uma coroa de margaridas silvestres para enfeitar o cabelo. - Mas está de saúde. Cheia de jóias e ricos vestidos que o rei lhe oferece todos os dias.

 

- E William Carey? Como suporta o nosso cunhado o papel de cornudo?

 

- Como se fosse uma coisa vulgar a nossa mulher ser a rameira do rei... Seria esperto se se aproveitasse, conseguindo favores em troca de Mary. Mas não faz nada.

 

- Mas que pena - comentei, pensando no destino de minha irmã.

- Nem por isso - replicou George. - Por intermédio de Mary já recebi eu alguns favores do rei. Até já sou dono de um solar, pequeno, mas bonito. Mas é o nosso pai que desfruta dos maiores benefícios. Fizeram-no par do reino na mesma cerimónia em que o bastardo que Henrique teve com Bessie Blount foi nomeado duque de Richmond. Foi um dia imensamente quente, mas o novo palácio real, em BridewelI, estava esplêndido, cheio de trompetas e toldos dourados. Claro que a cerimónia principal era para a criança, mas foi também um dia magnífico para o nosso pai. Totalmente magnífico.

 

Suponho que também recebeu dinheiro - disse eu, em tom áspero.

 

- Uma pensão de mil coroas. Que se passa Ana? Parece que um gato passou pela tua campa.

 

Não respondi. Para George, como para todos OS homens, era natural que meu pai aumentasse a sua fortuna graças à libertinagem de Mary. Também o deveria ser para mim, mas a ideia repugnava-me. Disse para comigo: ”Uma mulher é um castelo, ou um bocado de terra, um objecto precioso, muito admirado e valorizado. Depois é vendida ou comprada por interesses de fortuna, heranças, subornos, recompensas ou pagamento de dívidas. Esquecem-se do seu corpo, da sua alma, da tristeza do seu coração. Para eles nada disso existe!”

 

Ergui-me para me ir embora, porém George implorou-me que ficasse. Disse que o sol estava quente, e o castelo era aborrecido. Prometeu entrançar-me o cabelo. Esforcei-me por recuperar a tranquilidade, lamentei-me em segredo e deixei-o consolar-me com a sua conversa fútil e gentis atenções. Falámos do meu desterro e de um possível regresso à corte.

 

- O assunto de Percy já foi esquecido e agora, com a nossa família cada vez mais importante, deverás estar de volta dentro de um ano.

- Deus faça que assim seja.

 

- No outro dia Thomas Wyatt perguntou-me como estavas. Fez-me um curioso pedido: que te trouxesse penas e tinta. A quem escreves? A Wyatt? Olha que é um homem casado e não precisas de mais problemas.

 

Devo ter ficado ruborizada, pois logo perguntou:

- Não será a Percy, pois não, Ana?

 

- De modo nenhum! Escrevo poesia. Wyatt incentivou-me a fazê-lo antes de me vir embora, de modo que experimento compor versos.

 

- Uma mulher poetisa, mas que ideia! Não me deixas ver esses versos? É que eu também escrevo.

 

- Não! Não! - exclamei, afirmando que eram muito maus, que nem valiam o pergaminho que usava. Depois, mudei de assunto, dizendo que estava a escurecer e que era longo o caminho para casa. Ajudou-me a levantar e, segurando-me junto a si abraçou-me com meiguice, num gesto fraternal.

 

- Trouxe-te as penas e a tinta - disse.

 

Poisei a cabeça no seu ombro e pensei que ali estava o único homem deste mundo que me ama, por aquilo que sou. Que tristeza!

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

4 de julho de 1524 Diário,

 

Ontem à noite, quando me preparava para me deitar, ouvi passos que se aproximavam. Era meu irmão George com uma vela na mão que, em segredo subia a escada de caracol até ao meu quarto, para me entregar um presente. Ao desfazer o embrulho, vi a razão de tantos cuidados. Trouxera-me O Elogio da Loticitra, o tratado herético de Erasmo de Roterdão que acusava o Papa, a Igreja e o Clero de corrupção, ganância e lascívia.

 

Agradeci-lhe de todo o coração. Os livros são escassos no campo e um, assim tão ousado, equivale a um troféu. George lamentou não ter podido pôr as mãos no mais recente tomo escandaloso, a tradução para inglês do Novo Testamento, feita por William Tyndale.

 

- Queimam os livros em St. Paul’s Cross - disse-me. - Os autores são perseguidos, até pelo nosso rei. Disseram-me que os livros que escapam ao fogo são passados de mão em mão. A igreja, na pessoa do teu querido amigo, o cardeal Wolsey, arranja estes exemplares revistando casas - falava em voz ainda mais baixa. - Todos os literatos conhecidos são perseguidos e oferecem-se recompensas aos informadores.

 

- Não entendo - disse eu. - Em França, li os Evangelhos traduzidos para francês. Não existe qualquer proibição. Foi a própria duquesa de Alençon, irmã do rei que me orientou para que o fizesse.

 

- Esqueces que em Roma, o nosso rei é a menina dos olhos do Papa. Recebeu o título de Defensor da Fé contra os hereges protestantes.

 

Roguei a meu irmão que me arranjasse a obra de Lutero. Explicou-me que era muito perigoso, pois o próprio Henrique odiava Lutero e escrevera ele próprio contra as obras do alemão, defendendo os sacramentos católicos. Ofendido, Lutero chamava ao nosso soberano ”labrego mentecapto, louco possesso, rei das mentiras”.

 

Ri à gargalhada de tanta ousadia. George encostou-me um dedo aos lábios e murmurou receoso:

 

- Ainda somos bons católicos, não é verdade?

 

- Julgo que sim - respondi. - Vamos à missa, comungamos, confessamo-nos. Mas escuta, meu irmão - puxei-o para mim. - Não te agradam essas ideias protestantes? Que Deus e os homens possam falar, sem a interferência dos padres? Digo-te que esta nova religião me agrada bastante.

 

- Olha que ainda queimam hereges na fogueira - disse George, com as mãos trémulas, ao ouvir as minhas palavras.

 

- Terei toda a cautela, prometo nada dizer em voz alta, que nos possa prejudicar - deixou de tremer, já mais tranquilo. - Mas, quando puderes, arranja-me essa Bíblia de Tyndale.

 

- És uma harpia, Ana - disse a rir. - Juro que hás-de ser a minha morte.

 

Despedi-me dele e escondi o livro num local secreto, por trás de uma pedra solta. Desejava que chegasse o dia. Um livro para ler! Valia ouro!

 

Antes de me deitar, pus-me de joelhos, como se estivesse na capela, perdão pela blasfémia, e implorei a Jesus Cristo meu Senhor que salvasse a minha alma pecadora... e que me levasse de volta para a corte, o mais depressa possível.

 

Afectuosamente vossa, Ana
Ao FECHAR O DIÁRIO DE SUA MÃE, Isabel apercebeu-se que tremia. Regressar à realidade, depois de ter permanecido no mundo de Ana, era como deslizar dentro de uma barcaça das sombras da ponte de Londres para a deslumbrante luz do sol.

 

Mas naquela noite, depois das muitas velas que Isabel acendera em seu redor já se terem apagado, o aposento estava escuro e lúgubre, fora do pequeno círculo de luz e Isabel tinha os olhos fatigados.

 

Kat começara a suspeitar daquelas estranhas sessões. O segredo irritava a aia principal, pois Isabel nunca tivera segredos para ela, nem quando era pequena. Queixava-se amiúdo do ar cansado da rainha e das escuras olheiras sob os seus olhos, depois da vigília de uma noite, e quando Isabel guardava silêncio sobre os seus solitários exercícios atrás das portas fechadas, resmungava em surdina contra os hábitos maléficos e as obras do Diabo.

 

Manchas de luz ofuscavam a visão da rainha, ao mesmo tempo que lhe surgia uma enorme dor de cabeça. Ao erguer-se, assaltou-a uma terrível náusea que a obrigou a agarrar-se à cadeira para se apoiar. Era certamente o princípio de uma das suas enxaquecas.

 

- Maldita dor! - sussurrou.

 

Tinha a fronte coberta de suor e ignorava se seria capaz de chegar à cama. Se era aquele o efeito que a leitura do diário da mãe tinha sobre ela, pensou, levaria uma eternidade a terminá-la. Mas a ideia desvaneceu-se, fulminada pela dor que lhe invadia o crânio. Mal teve forças para solicitar a ajuda das aias antes que se apagassem as luzes que lhe dançavam dentro da cabeça.

 

6 de Dezembro de 1525 Diário,

 

Há muito que não escrevo, pois aquilo que aqui iria contar acerca de Hever apenas descreveria um enorme aborrecimento.

 

Porém receberam-me novamente na corte e voltei ao serviço da rainha. Durmo nos aposentos contíguos aos de Sua Majestade, com outras aias, sete ao todo. O tempo transcorre a um ritmo animado, marcado pelo nosso rei e dir-se-ia que nunca dormimos. Falcoarias, caça... diz-se que Henrique esgota pelo menos oito ou dez cavalos num só dia em combates e justas. Não há como vê-lo jogar ténis. O seu adversário favorito é Thomas Wyatt que tem uma perícia semelhante. Todas as noites tocamos flauta e virginal, cantamos - a minha voz é muito apreciada - e dançamos. A rainha já mostra bem a sua idade junto da vitalidade de Henrique. Talvez sejam os olhos fugidios, as mãos e o coração do rei que lhe ensombram o espírito, pois as suas damas parecem brilhar mais do que ela própria.

 

Meu pai, agora de tão elevada posição, conseguiu autorização do rei para trazer toda a família e vir viver para a corte. Por isso, minha mãe tem, juntamente com ele, aposentos no palácio, uma honra rara que julgo que aprecia. São dois belos quartos apainelados, com armários de madeira trabalhada, cheios de loiças e cortinas de seda na grande cama de dossel. Acabou-se a monotonia de Hever, os infindáveis dias a coser até os dedos sangrarem. Ainda muito bela, minha mãe passa agora os dias mais serena. Vejo-a observar de longe os devaneios galantes das jovens. A mim, vigia-me com atenção, sem nada dizer. Claro que estou a cargo de meu pai e este tem já planos para mim. Planos esses, que se recusa divulgar.

 

O cardeal Wolsey, cada vez mais rico e poderoso à medida que o tempo passa, graças à fé que Henrique tem nele, nunca me vê, mesmo quando passo diante da sua pessoa. Esqueceu completamente o castigo que impôs a Percy e a mim e a dor que nos causou. Mas eu recordo-me, oh, se me recordo! Pobre Percy que continua banido da corte... Tenho de admitir que o meu coração está muito mais frio desde que o perdi. Tenho muitos pretendentes, mas nenhum deles me interessa. Não deixo que o meu coração sinta amor. Sei que o meu papel consiste em participar no jogo, mas não sou obrigada a sentir, o que também não incomoda ninguém. Sou um bonito ornamento, um bem para comprar ou vender. Assim, não entrego a ninguém o meu coração.

 

Ontem à noite, à hora da ceia, encontrava-se entre os comensais de uma mesa baixa, uma velha que se diz ser bruxa. Depois de terminada a refeição, enquanto os cães devoravam os restos e os nobres partiam para os divertimentos nocturnos, procurei a mulher e pedi-lhe que me ouvisse. Olhou-me com os seus olhos enevoados, enquanto as mãos agarravam ainda um saco de comida que os cães não tinham descoberto.

 

- Que desejais, senhora? - sorriu, se é que se pode chamar sorriso àquele esgar de dentes podres e enegrecidos e hálito fedorento.

- Desejais um feitiço, uma poção, alguma magia que vos mantenha a beleza eterna?

 

Não, respondi, e pus a minha mão na dela, voltando-a propositadamente para fazer cair a manga longa e pontiaguda e ela poder ver o pedaço de carne e unha que dizem ser um dedo.

 

- Seis dedos! - exclamou, agarrando-me a mão. - Decerto sois Ana Bolena. - Sobressaltada tentei retirar a mão, mas ela agarrava-a com força. - Sois famosa por esse dedito - acrescentou. - Dizem que é a marca do demónio.

 

- Tal como este sinal que tenho no pescoço - murmurei, afastando a gargantilha, de modo a que pudesse ver a marca castanha escondida por ela. - Qual a vossa opinião, idosa mulher? Serei bruxa como vós?

 

Continuou a olhar fixamente e em silêncio para a minha mão, sem se preocupar com a marca do pescoço. O fumo das velas fazia-me arder os olhos. O seu hálito fétido era difícil de suportar. Continuava em silêncio.

 

- Que dizeis? - perguntei em voz alta. - Respondei, pois não ficarei aqui por muito tempo.

 

- Aguardai, senhora. Estou a pensar quanto vos poderia pagar por esse dedo.

 

- O quê? Quereis comprar-me o dedo?

 

- Oh, senhora! Cortai-o. Quase não sangraria e ficaria muito bem dentro de um frasco - disse em voz entrecortada. - juntamente com asas de fetos de morcego, sapos grávidos e coisas assim.

 

- Nem pensar! - exclamei, soltando a minha mão.

- Não haveis perguntado?

 

- Perguntei a vossa opinião sobre o assunto, não pedi que fôsseis um cirurgião macabro.

 

- Em minha opinião - disse ela, colocando o dedo magro na minha face - lady Ana tem poderes iguais aos de um longo e amarelecido pergaminho ainda por desenrolar. E, se quiser, poderá fazer uma carreira tão brilhante quanto infame.

 

Estendeu-me a enrugada palma da mão, sobre a qual me apressei a colocar uma moeda. A seguir, voltei-lhe imediatamente as costas, respirei fundo e afastei-me. Brilhante e infame. As palavras soaram-me durante toda a noite dentro da cabeça e, só depois de ter estado a cantar com as outras damas, consegui esquecê-las e ter alguma paz.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

20 de Abril de 1526 Diário,

 

Depois de ter sabido que tinham nomeado Thomas Wyatt, mestre-de-cerimónias do Dia de Maio, decidi cavalgar a égua castanha, minha preferida até Shooters Hill, por trás do Palácio de Greenwich. Aí do interior do bosque, escutei o ruído de serras e martelos, desmontei e segui a pé, por entre os atalhos, tendo encontrado um cenário tão estranho, que quase não acreditava no que os meus olhos viam.

 

Os mestres carpinteiros construíam a cabana de Robin dos Bosques e do seu bando. Tinham colocado por entre as árvores uma rústica mesa de banquetes e aberto uma clareira para servir de campo de justas, com assentos feitos de troncos e ramos. Encontrei Wyatt sentado à sombra de uma árvore com a pena na mão, escrevendo um diálogo para a farsa da floresta de Sherwood. Tinha a testa franzida e uma expressão preocupada no rosto bem-parecido.

 

- Então Thomas, não deveríeis encontrar dificuldades em escrever as palavras de um fora-da-lei, já que pertenceis a um desses bandos.

 

- Ana, que surpresa! - Pôs-se de pé de um salto, mas empurrei-o e sentei-me no chão, a seu lado. - Vim pedir-vos um favor.

- Sabeis que, para mim, os vossos desejos são ordens. Em que poderei servir-vos?

 

- Gostaria que me désseis o papel de lady Marion na farsa. Sempre gostei dessa personagem e creio que a representaria bem. Thomas esboçou um sorriso, porém o seu olhar traía alguma preocupação.

 

- Que se passa Thomas? Dizei-me. Não me pareceis bem. Estais enfermo?

 

- Não Ana, não é por mim. Que preocupações poderia eu ter aqui sentado neste bosque, com uma tão bela dama, escrevendo palavras bonitas para um ritual pagão de fertilidade, num belo dia de Abril? Não. Trata-se do rei, encerrado na sala do Conselho, preocupado por assuntos graves e cada dia mais triste.

 

Na verdade, já eu havia notado o desânimo do rei, tão diferente da sua habitual jovialidade, porém não lhe atribuíra importância.

- O que o preocupa?

 

- Desejais mesmo saber? - perguntou, olhando-me com ar estranho.

 

- Claro que sim.

 

- Estes assuntos geralmente não interessam às damas - troçou.

- Dizei-me Thomas, ou terei de vos puxar as orelhas!

 

- Pois bem - murmurou, ao mesmo tempo que se encostava à árvore. - Recordais-vos, se é que já éreis nascida, de quando Henrique subiu ao trono? Parecia resplandecente como um astro. O jovem rei que, qual leão ávido de guerra, invadiu a França envergando a sua armadura cintilante e desbaratou os cavaleiros no campo, durante a Batalha de Spurs. Que feitos gloriosos! Conquistou cidades, tratando os inimigos com tal graça que lhe valeu o nome de Grande Henrique. Oh, Ana, que maravilha! E pensar que um dia, poderia ter conquistado toda a França. Chamava-lhe a sua ”Grande Empresa” e esperava poder levá-la a cabo com a ajuda do sobrinho de Catarina, seu grande amigo e aliado.

 

- Falais do imperador Carlos de Espanha, não é verdade? A rainha tem-lhe grande afecto.

 

- E em anos anteriores já ela serviu de embaixadora entre os dois. Mas agora, Carlos conta com exércitos mais poderosos que os que Henrique alguma vez sonhou e invadiu ele próprio a França. O rei Francisco é seu prisioneiro.

 

- já tinha ouvido dizer. Mas em que é que tudo isso afecta Henríque?

 

- O imperador já não quer participar na Grande Empresa do nosso rei. Tem os seus próprios planos, para conquistar o mundo sozinho. E logo, depois de Henrique lhe ter dado meio milhão de coroas, para as suas aventuras.

 

- Então foi traído.

 

- Sim, mas há mais. Henrique não quer desistir dos seus sonhos de conquista e portanto ordenou ao cardeal Wolsey que lançasse um imposto sobre todos os súbditos. Chamam-lhe ”doação voluntária”, mas o povo considera-a uma injustiça e está a revoltar-se. Por todo o país, os cobradores de impostos, incluindo vosso pai, encontram grande resistência no campo e por vezes têm de usar a força.

 

A populaça atacou os comissários e recusa-se a pagar a guerra. Mas o pior é que verte todo o seu desprezo sobre o rei e o cardeal Wolsey. Assim, para além da traição de um aliado, Henrique tem de enfrentar a rebelião do povo que o amava e aclamava.

 

-já vejo as razões da sua preocupação e também as de Catarina, que se vê agora entre o sobrinho e o marido a quem tanto ama.

- Mas, Ana, também Catarina é uma fonte de problemas. Nas tabernas e entre os soldados murmura-se que o casamento do rei está amaldiçoado. Não tem filho varão, a princesa Maria é a única herdeira e diz-se que a causa é o incesto.

 

- Incesto?! - Pronunciei a palavra em tal tom que os operários se detiveram para olhar para nós. - Incesto? Que quereis dizer com isso?

 

- Catarina... certamente o sabeis... Foi casada anteriormente com Artur, irmão de Henrique. Mas este, fraco e doente, morreu antes do casamento ser consumado. A Rainha afirmou-o e todos acreditaram. Como a aliança com Espanha era muito importante e a princesa era na altura bela e meiga, Henrique casou-se com ela da melhor vontade. Tudo esteve bem durante muitos anos, mas agora que Catarina já passou da idade de ter filhos e Henrique não tem herdeiro varão, começaram a murmurar. Pergunta-se se este casamento sem filhos homens não será o castigo de ter tomado por esposa a viúva do irmão.

 

- Que ideia tão cruel - disse eu, pensando no grande amor que Catarina tinha ao Rei.

 

- Como sabeis, Ana, Henrique é versado nas Escrituras e encontrou no Levítico uma resposta simples para a sua tragédia. Está escrito que é impuro um homem tomar por esposa a mulher do irmão, pois descobre assim a nudez desse irmão. Portanto, não deverão ter filhos. Henrique começou a recear que esta união maculada possa ser a sua condenação.

 

Fiquei sem fôlego. Tudo o que Wyatt acabara de me dizer fazia sentido e encaixava-se como as peças de um quebra-cabeças. Agradeci-lhe, dizendo-lhe que nunca ninguém me falara com tanta clareza de questões tão importantes. Beijei-o ao de leve e depois tirei da cintura um minúsculo caderno enfeitado a pedrarias e suspenso de um cordão e ofereci-lho de presente. Ele recebeu-o e pendurou-o ao pescoço.

 

- Vou usá-lo junto ao coração - disse, dando-me um beijo demorado que poderia ter conduzido a outras coisas mais ternas.

 

- Vinde visitar-me - pedi eu, soltando-me dos seus braços. - Depois de me haverdes escrito um poema. Não será difícil. - beijei-o na orelha e esbocei um sorriso malicioso. - Ou será?

 

Depois, ergui saias e saiotes para que me admirasse um pouco do pé e do tornozelo e parti a correr pelo bosque.

 

Esta noite, à luz da vela encontrei um aposento vazio onde posso reflectir... O que Wyatt me disse, embora não faça parte dos meus habituais interesses, parece-me muito importante e, por conseguinte, devo registar, preto no branco e com grande pormenor, todas as palavras que consigo recordar. O tempo o dirá se assim é, ou se tudo não passa da maledicência de ociosos.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

2 de Maio de 1526 Diário,

 

Quando ontem me vesti para a celebração da Festa de Maio, nem por um instante imaginei que a noite terminaria de modo tão portentoso. O meu vestido - isto é, o de lady Marion - embora simples era muito elegante. Foi confeccionado com seda grossa, cor de marfim, panos cremes, mangas bordadas e debruadas a cor-de-rosa. O corpete justo adelgaçava-me a cintura, fazendo realçar os seios, ombros e costas.

 

Deixei que a rainha e as outras damas se adiantassem, com o pretexto de ter esquecido o toucado nos nossos aposentos e fiquei à espera para ver os cavalheiros e damas da corte que com as suas antigas galas desfilavam pelo atalho do jardim, em direcção a Shooter’s Hill. Mais atrás, perfilados de ambos os lados do caminho, vi duzentos arqueiros, vestidos de veludo esverdeado. Logo surgiu lorde Benton que representava o papel de Robin dos Bosques, de braços abertos, a convidar todos os presentes ”Entrai no nosso bosque verdejante e vede como vivem os fora-da-lei.”

 

A corte reunira-se à entrada da mata e, conforme fora ensaiado, os arqueiros puxaram as cordas dos arcos e lançaram flechas. Porém, soou uma enorme ovação quando surgiu o próprio Robin dos Bosques e se viu que afinal não se tratava de lorde Benton, mas sim do próprio rei! Ouviram-se risos e alegres aclamações quando Henrique lhes deu as boas-vindas e os conduziu para dentro do bosque. Esperei então que todos desaparecessem por entre a parede de árvores, até ouvir a música trazida pelo vento. Soube assim que tivera início a representação.

 

Enquanto percorria apressadamente o atalho, sabia que as outras damas já teriam começado a murmurar: ”Onde estará Ana? Talvez não venha. Quem representará o papel de Marion?” Cheguei no momento exacto. Robin dos Bosques combatera de espada e punhal contra os homens do xerife e subira à torre onde, em breve, apareceria Marion. Dei a volta, subi a escada de madeira até onde tinha sido montado um estrado, empurrei a estupefacta dama que me ia substituir e fiz uma ofegante entrada em cena.

 

A minha aparição provocou um coro de deleitadas exclamações e, logo a seguir, encontrei-me frente-a-frente com Sua Majestade. Pareceu-me tão alto, com os seus enormes olhos azuis risonhos e brilhantes, o ofuscante sorriso, que senti faltar-me o ar. Recitou as falas de amor a Marion, com graça e ousadia e eu disse as minhas com igual elegância. Depois arrebatou-me nos seus braços, obrigando-me a levantar os pés do chão. Sei que aquele íntimo abraço estava previsto na peça, mas juro que senti que alguma coisa se movia sob os seus calções e que havia um verdadeiro ardor no seu beijo.

 

A farsa terminou e todos aplaudiram os actores, com alegria. Depois o Rei afastou-se rodeado de cortesãos, para preparar a justa que teria lugar em seguida. Reuni-me com as outras damas ao lado da rainha Catarina e senti que os seus olhos escuros me fitavam furiosos. Certamente me odiara ao ver que a peça exagerara um pouco, ao reparar nos olhos do esposo, nos braços dele, em redor da minha cintura esguia, ao contrário da sua. Porém, nada disse e encaminhou-se, na companhia das aias até ao terreiro enfeitado com pendões que se agitavam, formando um arco-íris.

 

O coração batia-me com força e tinha os pensamentos confusos. Seria deveras eu o objecto das atenções do rei? Impossível, pensei. Não havia ainda seis meses que minha irmã Mary lhe aquecera o leito.

 

O estrondo de vinte trombetas e de outros tantos tambores interrompeu as minhas fantasias, e deu início ao torneio. Sons e cores, homens cobertos de aço brilhante e as agitadas garupas dos cavalos. O rei aproximou-se da rainha, montado no seu corcel e, conforme ditam as regras e compete ao favorito, recebeu das mãos dela o lenço de seda brilhante, para lhe dar sorte. Contudo, pude ver que, o olhar de Henrique não reflectia nem amor, nem afecto pela esposa e no dela havia uma dor tão grande que me feriu os olhos.

 

A justa começou. Participaram todos os cavaleiros e soldados, a cada carga se ouviam gritos, aclamações e impropérios, o entrechocar das armas, as terríveis quedas e o bater dos cascos dos cavalos. Thomas Wyatt desafiou o rei e caiu do cavalo. Ileso e mostrando-se satisfeito por ter sido derrotado pelo seu senhor, saíram ambos de braço dado do terreiro de justas.

 

Durante o banquete, que teve lugar num recinto enfeitado, construído com ramos de amieiro e flores perfumadas, fiquei sentada ao lado de Thomas Wyatt, muito belo e jovial à luz das velas.

 

- Dizei-me, quando foi que Henrique roubou o papel de Robin dos Bosques a lorde Benton? - perguntei.

 

- Quando descobriu que vós seríeis lady Marion. Quando começou a farsa e ninguém sabia onde vos encontráveis, ficou aturdido.

 

- E quando eu apareci?

 

- Ana, não será necessário que vos diga o que sentiu. Decerto que vos haveis apercebido.

 

Senti as faces em fogo. Peguei na taça e bebi um pouco de vinho, para disfarçar o meu embaraço. A seguir conduzi a conversa para assuntos menos comprometedores e Thomas compreendeu.

 

Todavia, mais tarde, quando descansava do baile na frescura do bosque, fora do círculo dos archotes desenrolou-se diante de mim toda a misteriosa aventura da noite. Tinha-me curvado para arranjar o sapato quando senti um par de mãos masculinas a cobrirem-me os olhos. O dono era alto e de ombros largos, pelo que pensei tratar-se de Thomas Wyatt.

 

- já me haveis escrito o poema? - perguntei em tom malicioso, enquanto me voltava. Pela segunda vez, naquele dia, dei por mim nos braços firmes do rei de Inglaterra.

 

- Poema? - perguntou a sorrir. - Exigis então poemas que louvem a vossa beleza e encanto?

 

Foi estranho. Depois dessas palavras, senti o peito, os membros e a cabeça invadidos por uma vaga de emoção. Receio, logo a seguir coragem, desejo, depois despeito, ternura, amargura, recordações do passado e também pensamentos acerca do futuro. No breve instante entre as suas últimas palavras e a minha resposta senti que sobre mim descia uma tranquilidade semelhante às asas de um anjo. A ousadia venceu o medo e depois falei:

 

- Será que não tenho virtudes que bastem para que me façais um poema?

 

- Tendes virtudes de sobra - disse o rei trespassando-me com o olhar.

 

- Começai então - desafiei-o, soltando-me dos seus braços.

- Como assim? - perguntou confuso.

 

- Começai o poema. Estou à espera, senhor.

 

Ele soltou uma sonora gargalhada, espantado com a minha audácia e acusou-me de ser uma jovem exigente. Todavia aceitou o desafio como se se tratasse de uma luva de couro lançada ao chão.

 

- ”Como o verde azevinho Não muda de cor / Assim sou constante / Para o meu amor.”

 

- Muito bem, prossegui.

 

- ”Como o verde azevinho São os meus amores Ficaram as folhas / Perderam-se as flores... / Só à minha amada No meio da verdura / juro ser fiel / P’ra sua ventura.”

 

- Excelente, Majestade! - disse eu, aplaudindo-o

- E agora, mereço um beijo?

 

- já mo haveis roubado há pouco, no palco.

 

- Então contento-me com o que vier depois - disse, tomando-me nos seus fortes braços.

 

- Detende-vos! - exclamei, soltando-me.

- Como ousais dar ordens ao vosso rei? Senti o coração aos saltos no peito.

 

- Para bem de Vossa Majestade - disse eu. - Para vos Proteger de ligações incestuosas.

 

Mesmo por entre as sombras, apercebi-me que ficara vermelho de raiva.

 

- Incestuosas? - Parecia perturbado, confuso. Estaria eu a referir-me ao seu infeliz e pecaminoso casamento com a viúva do irmão?

- Posso falar-vos francamente, Majestade? Não há muito, ainda minha irmã Mary dividia o leito convosco. Teve um filho vosso acrescentei num murmúrio. - Para mim, fazer o mesmo parece-me... incestuoso.

 

O rei recuperou a calma.

 

- Sois muito ousada, Ana - disse já mais tranquilo. - Estais a falar com o vosso rei.

 

- E vós com uma virtuosa donzela que como tal se deseja manter, senhor - logo fiz uma reverência, olhei-o e sorri com graciosidade. - Porém, apreciei a vossa afectuosa atenção.

 

Pegou-me na mão - por sorte aquela que apenas tem cinco dedos - e beijou-a, demorando neles os seus lábios. Depois, sem que mo pedisse retirou-me o anel de granadas e enfiou-o no seu dedo mindinho.

 

- Como não posso ter o vosso coração, fico com isto - disse e logo desapareceu por entre as sombras da floresta, como o fantasma de um veado.

 

Nas duas horas que faltavam para terminar as festividades do Dia de Maio perdi-me em ilusões e devaneios, de tal modo que o tempo voou e me encontrei na cama sem saber como. Fiquei deitada, no meio da escuridão, ouvindo as outras aias em meu redor a murmurar os mexericos dessa noite, mas apenas com um pensamento. Um pensamento que me deixou trémula e insone até ao amanhecer. O rei de Inglaterra procurava os favores de Ana Bolena.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

17 de Julho, de 1526 Diário,

 

Neste dia sinto-me em grande confusão, ao mesmo tempo desconsolada e feliz. O meu bom amigo Thomas Wyatt resolveu exilar-se em Roma, voluntariamente e porque as circunstâncias assim o exigiam. E estou a ser cortejada pelo rei de Inglaterra. Estes dois factos interligados rodeiam-me como silvas, atordoada por as coisas terem chegado a estes extremos.

 

Ainda há bem pouco tempo que Wyatt me falou de importantes assuntos da corte e eu, lhe retribui a confiança com uma pequena recordação - um pequeno caderno enfeitado a pedrarias, suspenso de um cordão. Logo a seguir, no Dia de Maio, Henrique roubou-me o anel e enfiou-o, no seu dedo mindinho. É difícil acreditar que estes dois homens tenham chegado quase a vias de facto por causa destes objectos sem importância. Ocorreu o seguinte:

 

Henrique e os seus favoritos, entre os quais se achava Wyatt, jogavam uma partida de boliche. Encontravam-se em equipas opostas, quando Henrique reclamou como seu, um bom lançamento que tinha sido feito por outro. Wyatt protestou. Depois diz-se que o rei apontou intencionalmente com o dedo mindinho, o mesmo em que usa o meu anel e disse com os olhos fixos em Thomas: ”Wyatt, digo-vos que é minha. Digo-vos que é minha!” Apesar da veemência das suas palavras, o rei sorria e Wyatt julgando-o de bom humor, replicou: ”Se Vossa Majestade me der permissão para a medir, tenho esperança de que possa ser minha.” Depois, com igual intenção retirou do pescoço o caderninho preso pelo cordão e inclinou-se para medir o lançamento. Henrique vendo a minha prenda nas mãos de Wyatt interpretou a acção como um desafio que punha em questão o objecto dos meus afectos. Como uma criança petulante, o rei deu então um pontapé na bola e disse: ”Pode ser que assim seja, mas agora já não me apetece!” - E abandonou o jogo de mau humor.

 

Antes mesmo de ter ouvido a história e ignorando o papel que nela desempenhara, vieram dizer-me que o rei me queria falar em particular. Se bem que, desde o Dia de Maio tivesse deixado bem claro o seu interesse na minha pessoa, com olhares de soslaio, escolhendo-me para dançar e cantar consigo, sempre estivéramos em público. Entrei, pois, pela primeira vez nos seus aposentos que eram mais sumptuosos e belos que alguma vez imaginara. Enormes janelas em arco e de pinázios deixavam entrar o sol por três lados, iluminando arcas e mesas lavradas e douradas, a enorme prateleira da chaminé ornamentada com uma dúzia de jarros de prata, uma tapeçaria de seda, magnífica em tamanho e cores brilhantes representando São Jorge a matar o dragão, uma enorme cadeira de dossel e, num canto, vários instrumentos musicais. O rei vestido de veludo branco, bordado a prata encontrava-se também iluminado pelo sol e por um fogo interior que lhe brilhava através dos olhos. Sentia o meu coração acelerado dentro do peito que, tenho de confessar, expusera propositadamente. Mas nesse dia, a generosa visão de uma pele branca e perfumada, pouco fizera para acalmar a ira do rei, semelhante a um ardente vento estival.

 

- Tomais-me por tolo? - perguntou exaltado, com uma veia a latejar-lhe na testa avermelhada, da qual eu não conseguia afastar os olhos. Não sabia qual fora o meu crime, mas ele haveria de mo dizer. - Atreveis-vos a jogar com os afectos do vosso rei no mesmo campo que com Thomas Wyatt? Por acaso não terei erguido vosso pai a tão alta posição...?

 

Senti as pernas fracas ao ouvi-lo pronunciar o nome de meu pai.

- Não ajudei também a pagar o dote da noiva de vosso irmão, honrando desse modo e mais uma vez a vossa família? É assim que me retribuis?

 

Sentia os braços e as pernas gelados, o coração batia-me como um tambor, mas conservava a rapidez de raciocínio e a lucidez que me deixavam perceber que o rei me fazia a corte, não por capricho mas com sinceridade. Que pretenderia? Já tivera a minha irmã e havia quem dissesse que também minha mãe fora sua. Meu pai e meu irmão eram seus escravos. Atrever-se-ia a tentar conquistar todos os Bolena? Gostaria de saber quando tinha começado aquilo e apercebi-me imediatamente que o meu amor por Percy poderia ser uma espinha na garganta de Henríque. Deveria humilhar-me como todos faziam ou aceitar aquele jogo? Seria assim tão apetecível como Wyatt me cantara em verso, uma corça fugidia numa floresta encantada? Sim, decidi, serei esquiva como o vento, para que ele me procure, mas nunca me retenha.

 

- Wyatt roubou-me o caderninho - menti. - Tal como vós haveis feito com o anel - acrescentei com ousadia. - Agem ambos como se também me tivessem roubado o coração. Mas tal não aconteceu, embora ame Vossa Majestade como os súbditos leais amam o seu rei.

- Quero-vos, Ana - disse, num grunhido apaixonado.

 

Percebi que estava a ser sincero, de modo que soltei uma gargalhada, o mais desenvolta possível.

 

- Se é assim que o rei trata a mulher que deseja, nem quero ver como trata os inimigos.

 

- Bom eu, eu... - titubeou, desconcertado com a minha impertinência.

 

- Com permissão de Vossa Majestade - disse eu, desejosa de pôr fim à conversa. Fiz uma profunda reverência e saí apressadamente, deixando-o sozinho, com uma expressão de surpresa no seu belo rosto. Voltei aos aposentos da rainha extremamente agitada.

 

Que hei-de fazer? Dissera a verdade. Não amo o rei, como uma mulher ama um homem. Mas se bem o conheço, não se deterá enquanto não apanhar o vento com ambas as mãos.

 

Pedi conselho a minha mãe, que apenas murmurou com ar triste.

- É o rei. É o rei...

 

A minha irmã foi menos comedida.

 

- Aceita-o. Deixa que se divirta contigo. Há-de oferecer-te belos vestidos, muitas jóias, um bastardo, se tiveres sorte. Serás a amante do rei de Inglaterra, Ana, um título de honra, para uma jovem magrinha e plebeia.

 

Fiquei zangada com a resposta desmiolada daquela desmiolada rameira.

 

Depois fui ter com meu pai que me mandara chamar. Tinha um aspecto imponente, com o seu gibão de cetim negro, enfeitado a ouro, e o elegante gorro francês, sobre os cabelos grisalhos.

 

- Parece que o rei te distingue com o seu favor - sorriu e passou-me o braço pelos ombros, coisa que não fazia desde que eu era pequena. Contudo não me deixei enganar, pois sabia que não havia afecto naquele gesto.

 

- Deves condescender, Ana - aconselhou num murmúrio tão baixo, que mais parecia ter o diabo nas costas, a ditar-lhe as palavras. - Ouviste? - ainda não lhe tinha respondido.

 

- Sim, meu pai, o vosso conselho é muito claro.

- E vais fazê-lo?

 

Agarrou-me os ombros com força, apertando-mos com os seus dedos ossudos. Meu pai tinha sido durante muito tempo o meu único senhor e amo, porém na minha imaginação via o caminho que ambos seguiríamos num futuro incerto. E, enquanto que outrora, sempre fora ele a indicar-mo parecia agora tropeçar e ficar para trás.

 

- Vou fazer conforme me aprouver, meu pai - respondi.

 

Os seus olhos chisparam de fúria, mas ignorei-o com uma nova coragem. Depois, soltei os ombros do aperto dos seus dedos e saí do aposento, sem olhar para trás.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

24 de Agosto de 1526 Diário,

 

Sua Majestade persegue-me, mas mesmo assim, resisto-lhe. Diz que é um homem louco de amor e assim parece. Esfumou-se o mau humor para dar lugar a uma nova força varonil. Mostra-se de novo agressivo nos seus deveres de rei, tendo recuperado a imagem de brilhante estadista. Fala-me da família, dos filhos e de como os há-de casar. Pensa mesmo unir o filho bastardo, que teve com Bessie Blount, com a obediente filha Maria. Tudo, diz ele, será melhor que ter uma mulher no trono de Inglaterra. As mulheres não têm energia para manter a paz.

 

Thomas Wyatt que me instruía nas questões políticas, continua no exílio e todos sabem que por minha causa. Oxalá pudesse voltar a ver esse querido amigo, para lhe pedir conselho acerca dos apetites do rei. Não sei porque surgiu tão desesperada paixão. Este homem, um monarca, converteu-se em meu escravo. Suspira de desejo de me ver, geme como um vitelo doente de amor, diz-me que está encantado e enfeitiçado por mim e implora-me, noite e dia, que seja sua. Traz-me presentes, flores, fitas douradas, escreve canções em minha honra, que depois canta em voz trémula.

 

O sentimento não me é desconhecido. Não era assim o meu amor por Henry Percy? Se assim é, se o rei me ama verdadeiramente, que hei-de eu fazer? Não o amo, não desejo seguir o caminho de minha irmã. Mas o problema está na minha família. Se recuso as pretensões do rei, se provoco a sua ira, que será da posição que meu pai, tanto se esforçou para obter? Meu irmão George foi há pouco nomeado copeiro de Sua Majestade. Terá minha mãe de elanguescer num novo desterro no campo?

 

Mas se lhe declarar um amor maior que aquele que um súbdito deve ao seu rei, vou transformar-me em sua amante, e isso repugna-me. Tenho de achar um meio de o afastar para que a desgraça não recaia sobre a minha cabeça. Oh, se eu pudesse pensar! Aqui na corte quase não há tempo para solitárias reflexões, nem sítio para uma tranquila meditação. Estou rodeada de damas tagarelas e há também as refeições e as minhas obrigações para com a rainha. E esse gigante louro que arde de amor, perseguindo-me de noite e de dia. Tenho de arranjar uma maneira.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

13 de Outubro de 1526 Diário,

 

Estou a salvo, pelo menos por algum tempo. A resposta ao meu dilema surgiu-me durante um sonho. Sonhei com os tempos antigos e com uma dama, casada, numa torre. Era amada por um cavaleiro que não o seu marido. O rosto da dama era-me por vezes desconhecido, outras vezes era o meu. Falava em verso e oxalá pudesse recordar-me das suas palavras, mas estas desvaneceram-se, quando acordei. Mais importante foi a cena que a dama e o seu admirador representaram, e a que assistia o marido, sentado, junto deles.

 

Tratava-se de um jogo de amor cortês. O jovem, punha-se ao serviço da dama, declarava o seu amor, cantava-lhe canções, fazia-lhe elogios, oferecia-lhe pequenos presentes, jurava-lhe obediência absoluta. Ela gracejava, provocava-o, interessava-se pelos seus versos de amor. E nada mais. Nunca se deitaram juntos. Bastava um beijo na mão, a cabeça dele no joelho dela, uma carícia terna. Amor Cortês.

 

Quando acordei, reflecti sobre as possibilidades do sonho. Seria perigoso impor um jogo assim ao rei, mas sabia que não tinha outras alternativas. Foi o que fiz: respondi ousadamente aos seus avanços, com danças e risos, permitindo-lhe uma breve carícia, respondendo, à letra, a insinuações e trocadilhos. Provoquei-o, confundi-o, conduzi-o a um frenesim exacerbado, depois recuei, simulei modéstia, declarando-lhe que a virtude me proibia continuar ou amar um homem casado. O rei mais parecia um cavalo louco. Resfolegava, fumegava e depois ria-se deliciado. Estava a gostar do jogo! Assim, mandei-o embora e quando regressou, continuámos, mas de modo diferente - novos versos, duelos de espírito, um beijo que permiti que me roubasse. Porém a minha evasão era o acto final e quando o pano caía, tinha conseguido mais uma vez manter o rei à distância. Veremos por quanto tempo.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

12 de Novembro de 1526 Diário,

 

Estou exausta. Esgotaram-me as aventuras e jogos que me vi obrigada a realizar neste domingo, para manter o rei à distância. Começou tudo de manhã cedo, quando toda a corte assistia à Missa. Ajoelhei ao lado da rainha, cujas preces fervorosas, ditas em voz alta, se ouvem por cima de todas as outras. Tinha os olhos postos no terço. Porém, os de Henrique - ajoelhado na sua capela, no banco do rei - estavam postos em mim. Aventurei-me a esboçar um sorriso do outro lado da igreja e ele retribuiu-mo, com o seu riso aberto, comportamento pouco próprio de um rei, que se concentra nas suas preces ao Senhor. Repreendi-o com um olhar severo e ele soltou uma sonora gargalhada! Todas as cabeças se voltaram obrigando-o a simular um ataque de tosse, no qual certamente ninguém acreditou.

 

Mais tarde, ao sairmos da capela, conseguiu ficar a meu lado.

- Senhora, tínheis uma expressão muito severa - murmurou.

- Estava só a ensaiar. É aquela que usarei quando tiver de repreender as maldades do meu filho.

 

- Um filho? Pensais ter um filho?

 

- Muitos filhos! Um para cada dia da semana.

 

Com um sorriso encantador, segui a rainha e as outras aias para irmos tomar o pequeno-almoço. Henrique seguiu-me com os olhos. Mais tarde, nessa manhã límpida e fria, o rei e o seu séquito foram praticar um novo jogo chamado Liças. Nesta competição os adversários usando uma protecção e um elmo especiais simulam uma luta apeada, com duas espadas e lanças de dois metros. Eu e outras damas - embora a rainha estivesse ausente, por ter voltado à capela - assistíamos à competição, aplaudindo as proezas e soltando gritos de terror devido a tanta violência. Como era habitual em tais lides, Henrique destacava-se sobre todos os outros, mas não porque os seus homens o deixassem vencer por deferência à sua posição de rei. Era certamente o melhor, o que mais corajosamente combatia e o que mais inimigos derrotava.

 

Entre dois assaltos, veio à beira do campo, onde eu me encontrava, trémula, entre as outras damas. Do seu corpo erguia-se uma nuvem de vapor e respirava com dificuldade, devido ao esforço. Tinha os olhos brilhantes e pediu-me uma prenda sem pronunciar palavra. Todas as damas observavam interessadas esta cena, mas nenhuma se atreveu a pronunciar palavra. Entreguei-lhe um lenço de renda, que levou ao nariz para aspirar o meu perfume francês. Sorriu satisfeito e voltou para o campo, como meu campeão, para derrotar os outros homens em minha honra.

 

Terminado o jogo, as damas afastaram-se e dei por ele atrás de mim, com grande ruído da sua armadura.

 

- Minha senhora Ana! Voltei-me a sorrir.

 

- Haveis combatido bem, Majestade. Podeis ficar com o meu lenço.

 

- Teria ficado com ele de qualquer maneira.

- Sois muito atrevido! - exclamei.

 

- Bem mereço um troféu pelos meus esforços. Derrotei-os a todos.

 

Retirou a protecção do peito e tive de me conter para não ficar a olhar para a sua impressionante figura.

 

- Mas podereis derrotar-me a mim? - perguntei.

 

- Derrotar-vos! - o rei soltou uma gargalhada tão forte que o seu ventre estremeceu.

 

- Não me refiro ao jogo das Liças, seu tonto.

- Qual é então o desafio?

 

- Xadrez - respondi.

 

- Ah, xadrez. Um jogo de mulheres, mas em que sou tão bom como os outros. Aceito o vosso desafio. Na sala de jogos uma hora depois do almoço.

 

- Lá estarei.

 

E de facto estava. Troquei o vestido por um que sabia que ele gostava, pois elogiara-me muito pela sua cor - vermelho-ferrugem e pelo modo como fazia sobressair os meus olhos. Tinha um generoso decote e como sabia ter de me debruçar sobre a mesa para fazer os lances, esperava assim aproveitar-me para confundir a sua mente de lince, com a visão os meus seios. Deixei o cabelo caído e solto pelas costas abaixo. Retoquei ao de leve as faces e os lábios com carmim. E, por fim, prendi cuidadosamente a ponta da manga ao meu quinto dedo de modo a ocultar o sexto.

 

O rei não apareceu como de costume com ar imponente e vaidoso, coberto de peles e jóias. Veio sim, muito calmo, falando-me num murmúrio e lançando-me subtis sorrisos. Trazia umas calças claras e uma camisa de linho, larga, sob um gibão de pele. Tinha a cabeça descoberta. Acabara de tomar banho e não havia nele qualquer vestígio dos exercícios matinais. O cabelo louro brilhava ao sol da tarde. Era uma bela figura de homem.

 

Sentámo-nos confortavelmente junto ao tabuleiro e, tendo trocado algumas palavras, começámos a jogar. Saí com ousadia e ele fez o mesmo, surpreendendo-me com a sua táctica. Prosseguimos em silêncio. Comi-lhe o cavalo. Ele ficou-me com o bispo. Ambos perdemos vários peões. Depois hesitei. Simulei estar confusa. Disfarcei a confusão com lances ousados. Resultou. Concentrado, foi movendo as peças para cercar a minha rainha. Soltei um profundo suspiro, mordi o lábio. Estava tão convencido de que eu hesitava e era tal a sua confiança, que não se apercebeu dos meus artifícios e ficou imóvel quando murmurei ”cheque-mate”.

 

- Cheque-mate! - disse eu, desta vez em voz mais alta. Tentei que me olhasse nos olhos, mas tinha-os colados ao tabuleiro, tentando perceber a razão da sua derrota.

 

- Não pode ser - resmungou.

 

- Mas... Venci Vossa Majestade.

 

- Não! - gritou e empurrou o banco com tanta força, que este caiu para trás.

 

- Ora, Henrique, não vos comporteis como uma criança mimada. É apenas um jogo.

 

- E vós sois apenas uma mulher!

 

- Uma mulher que vos derrotou - soltei uma gargalhada na esperança de não parecer cruel, e de lhe aplacar a fúria. - Então, preciso de uma recompensa para a minha vitória!

 

- Uma recompensa? Deveríeis ser encerrada na Torre de Londres por traição ao rei!

 

- Majestade!

 

- Muito bem. Que desejais então? - perguntou com ar petulante.

- Um beijo... - disse eu. - Um beijo do derrotado.

 

Vi-lhe nos olhos um brilho perigoso, pois estava a exceder os limites da sua paciência. Porém a raiva desfez-se ao calor do meu inesperado pedido. Aproximou-se para me abraçar, mas segurei-lhe os braços.

 

- Não Henrique. Sou eu que vos beijo.

 

Oh, como ficou inflamado, quando encostei o meu corpo ao seu, procurei os lábios dele com os meus e usei a língua à maneira francesa para provar a doçura íntima da sua boca.

 

Durante o beijo tomou-me nos braços e foi difícil soltar-me. Mas quando por fim, tudo terminou, separámo-nos sem fôlego e ele sorriu.

- A vencedora deste assalto - disse, fazendo uma profunda reverência. - A minha senhora, Ana Bolena.

 

Com tantas palavras atrevidas e inteligentes artifícios, juro que não me sinto vencedora, mas apenas uma pobre menina a perder o pé. Mas continuo.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

Enorme serpente viva cobria quase uma légua de caminho, formada por um milhar de ruidosos e trovejantes anéis que levantavam uma espessa nuvem de poeira na escaldante tarde de julho. Para fugir ao calor e à pestilência de Londres, a comitiva real avançava pelo condado de Kent, pela primeira vez, desde que Isabel subira ao trono. Partira havia menos de uma semana, mas já carroças e carros, pesadamente carregados, rebanhos e gado, bem como várias mulas transportando a equipagem da corte e os mantimentos, alteravam a tranquilidade das pequenas aldeias que, com grande regozijo, viam passar a comitiva.

 

James Thomas, Joan a sua nutrida mulher e sete filhos espantados tinham, com a permissão do seu senhor, abandonado o trabalho durante uma boa parte do dia. Sentavam-se agora nas mantas, sobre as quais havia também queijo, pão duro e jarros de cerveja para um almoço campestre e, ao mesmo tempo, viam passar deslumbrados, o desfile que sem dúvida era um dos maiores espectáculos da sua vida. A equipagem e o gado que desfilavam pela estrada não eram mais que o início de um notável cortejo, pois após a sua passagem, deixando para trás poeira e excrementos, vinham escudeiros, cavalariços e porta-estandartes, transportando coloridos pendões com os escudos de armas que, na impossibilidade de ondularem ao vento, pendiam no calor sufocante. Guardas e lanceiros a cavalo vigiavam o caminho. Logo a seguir vinham, também a cavalo, jovens damas de honor, alegremente engalanadas. Levavam os lenços ao nariz para se protegerem da poeira sufocante. Seguia-as uma companhia de guardas de libré, erguidos na sela das suas montadas.

 

- Olhai - ordenou James Thomas à família, pois já uma vez, durante a sua infância vira um cortejo assim, no reinado do rei Henrique e não mais esquecera o seu esplendor e ordem.

 

Desde as carroças e manadas de gado até às elegantes carruagens das damas e cavalheiros, os lordes do Conselho e finalmente os regimentos de guardas armados anunciavam que Sua Majestade se aproximava.

 

- Deve ser a rainha que aí vem. Levantai-vos todos! - ordenou, obrigando-os a porem-se de pé. - O rei Henrique veio a cavalo, de modo que o pude ver. Oh, como era bem-parecido, alto e forte. Mas agora uma mulher... julgo que virá numa carruagem, abrigada do pó e do mau cheiro.

 

Mas, para grande alegria sua, James Thomas enganou-se e, logo atrás dos guardas, pôde ver, tal como toda a família, uma mulher ruiva montada numa formosa égua, sentada no alto da sela, resplandecente de prata e brocados, como que rodeada do esplendor do sol.

 

- Lá vem ela! - exclamou Joan. - A rainha! - James ouvia as crianças murmurarem, ”a Rainha, a Rainha!” enquanto o rapaz mais velho comentava a beleza da montada e os seus arreios.

 

- Ora esta! É da altura de Henrique e loira, como ele - exclamou James Thomas, com assombro.

 

- Ainda bem - murmurou a mulher, como se temesse que a dama pálida que lhes acenava e sorria os pudesse escutar. - Com a mãe que teve, é uma bênção que se pareça com o pai.

 

Isabel, com os olhos irritados do pó e da luz forte, ajustando o corpo ao movimento da égua, viu a saudação da família de Thomas e, tal como fazia todos os dias, agradeceu em silêncio aos seus fieis súbditos e a Deus a sua ascensão ao trono.

 

Interrompeu-lhe os pensamentos a ruidosa chegada de um ofegante Robin Dudley, montado num enorme corcel, mais parecendo regressado de uma grande batalha.

 

- Majestade! - ofegou, com a cabeça coberta de suor.

 

- Meu Deus, Robin! Porque vos haveis adiantado? Queríeis vencer São Jorge e o dragão?

 

- Fui até Cantuária para inspeccionar o alojamento para esta noite.

- E haveis regressado? Sois muito tolo, porque não nos aguardastes lá?

- Porque estava desejando ver-vos, minha amada - disse acariciando-lhe o rosto com os olhos brilhantes. Teria de esperar muitas horas. Também gosto muito de vos ver montar... a rainha na sua viagem de Verão. Tão altiva e magnífica.

 

- E com o traseiro muito dorido. Por favor, Robin, pedi que se detenham um pouco lá adiante. Quero desmontar e seguir de carruagem. Ele sorriu com a familiaridade, já habitual, desde que se tinham tornado amantes.

 

Desejais parar para visitar a cabana dos tecelões em Oxted? - perguntou.

 

- Estão à minha espera? - suspirou, exausta.

- Estão, sim.

 

- Então não podemos desapontá-los - protegendo os olhos do sol, espreitou a ondulante planície pontilhada de rebanhos. Era a primeira vez que Isabel via esta região do seu país.

 

- Robin, acreditais que, de facto, toda esta gente gosta que a corte em peso desça sobre eles como uma praga de gafanhotos?

 

- De certo modo é um grande incómodo, mas trata-se de um antigo costume... a hospitalidade rural. E, afinal, trazemos connosco vinho e cerveja - acrescentou com um meio sorriso. Tomou-lhe a mão sem se preocupar com os olhares dos cocheiros atrás deles. - Adoram-vos, Isabel. O vosso povo quer ver a rainha. E aposto que estão a gostar do que vêem.

 

Dudley picou o cavalo e, ao chegar à cabeça da comitiva, ordenou à guarda que se detivesse e permitisse que o cortejo de mantimentos e o gado seguissem adiante. Isabel deixou que um dos seus escudeiros a ajudasse a desmontar do cavalo. Tinha as pernas dormentes da longa cavalgada e dirigiu-se à ornamentada carruagem, feita na Holanda, enquanto sacudia o pó do pesado brocado da saia de montar. Dentro da carruagem, Kat Ashley dormitava, encostada às almofadas de seda rosada, com o rosto levemente contraído coberto com uma fina película de transpiração. Thomas Parry, o idoso e fiel criado de Isabel, estava sentado diante de Kat e curvado sobre um enorme livro de contas observando com os olhos semicerrados uma coluna de números. Levantou-se de um salto, para ajudar a rainha a entrar.

 

- Senhora, não quereis cavalgar mais hoje? - perguntou.

- Não, Thomas. Nem nunca mais na vida.

 

Buscando inconscientemente no rosto de Isabel sinais de fadiga ou indisposição, Parry entregou-lhe um cantil de água fresca, que a Rainha bebeu até ao fim. Parry, tal como Kat Ashley achava-se ao serviço de Isabel, desde que esta era pequena. Blanche, sua mulher embalara a princesa no berço real. A rainha deixou-se cair no assento, com ar cansado e olhou afectuosamente para Kat.

 

- Estava desejando sair daquela casa malcheirosa, infestada de pulgas, mas julgo que ainda detesto mais as viagens - murmurou Isabel, na esperança de não acordar a sua aia.

 

- Pois bem, mas terá de se habituar a elas, não é verdade? De julho a Novembro, todos os anos, a partir de agora - disse Parry.

 

- Espero conseguir visitar grande parte do meu reino.

 

- Claro que sim - Thomas Parry sorriu, ao pensar no reino de Isabel e do perto que estivera de perder tudo, antes que fosse seu.

 

Também Isabel recordava as perigosas atribulações que ela e Kat, Thomas e Blanche Parry tinham sofrido e partilhado. Nos últimos dias tinha pensado muito nesses tempos, desde que estava a ler o diário onde sua mãe descrevia os primeiros meses do namoro de Henrique.

 

Que opção terá uma jovem quando um rei ou um nobre lhe impoe os seus afectos, que opção terá, senão submeter-se, pensou Isabel. Uma mulher não tem outra saída. É como uma corça perseguida por cães de caça. Um espírito feminino anulado pelos rígidos ensinamentos de que um homem deve ter sempre aquilo que deseja. Que o que uma mulher quer nada significa, ou é até menos que nada. A mãe acossada por Henrique. Ela própria, ainda criança, por Thomas Seymour.

 

O lorde-almirante do reino. O seu nome e imagem invadiram os pensamentos de Isabel. Via-o claramente, belo e altivo, de barba ruiva e braços duros como o ferro.

 

Felizmente, Parry tinha voltado às suas contas, por isso não notou o rubor no rosto de Isabel à simples recordação de um homem, que morrera havia mais de dez anos.

 

Fechou os olhos, ainda conseguia sentir o cheiro dele... Deus, até o seu sabor. Ouvia-o ainda vociferar a sua exclamação favorita: ”Pela alma de Cristo!” - uma invocação jovial que lhe atravessava a neblina do sono, um momento antes de se abrirem os pesados cortinados do seu leito e de a imponente presença de Thomas Seymour encher os seus luminosos aposentos.

 

- Levantai-vos, princesa. O dia está bonito demais para se ficar na cama!

 

Isabel corara, enquanto procurava cobrir os pequenos seios nus com os lençóis de linho, esgueirando-se para debaixo das cobertas, incapaz de falar, de tão envergonhada.

 

- Deveríeis ter vergonha, almirante! - exclamara Kat, levantando-se do seu catre aos pés do leito de Isabel. Seymour de pernas nuas e coberto apenas com a camisa de noite, saltara já para dentro da cama de Isabel para fazer cócegas à jovem de treze anos, até os seus gritinhos e risos ecoarem por todo Chelsea Manor. Kat correra a fechar a porta do aposento, e ficara de mãos nas ancas diante dos corpos emaranhados nos lençóis, tentando decidir o que havia de fazer, para terminar tão ofensivo espectáculo.

 

Mas enquanto os observava, o gigante ruivo e a sua querida lady Isabel, sentiu que os lábios apertados esboçavam um sorriso. Faziam um belo par, muito mais belo do que o que Seymour fazia com Catarina a sua simpática esposa de meia-idade. Kat arrependeu-se imediatamente de tão escandalosos pensamentos, mas tinha de admitir que Isabel e Catarina não eram as únicas mulheres daquela casa que Thomas Seymour enfeitiçara.

 

Seymour voltou-se de costas e sorriu a Kat.

 

- Pronto mulher! Vesti depressa a vossa protegida porque, esta manhã, vamos caçar.

 

- Saí já dessa cama! - ordenou finalmente Kat com uma voz que, para mal dos seus pecados, lhe saíra mais afectuosa que autoritária. - Muito bem, Isabel - acrescentou. - Tendes de vos levantar.

 

- Mandai-o sair.

 

- Fora! - ordenou Kat a Seymour. - A princesa precisa de privacidade.

 

- Volto-me de costas - ripostou ele voltado para a tapeçaria de veludo. - Vá, prometo não espreitar.

 

Kat e Isabel trocaram um olhar de dúvida.

 

- Não me vou embora, de modo que deveis apressar-vos, senhoras. Com um risinho envergonhado, Isabel saltou da cama, envolta no fino lençol e ficou à espera que a aia cobrisse apressadamente o seu corpo magro com uma camisa de algodão.

 

- Vesti a jaqueta vermelha e a saia preta de brocado - exclamou como se estivesse no mar a dar ordens aos seus grumetes.

 

Enquanto Kat lhe atava o espartilho, a princesa perguntava a si própria se a madrasta saberia do esposo, se saberia que ele a estava a pôr em ridículo. Afastou os pensamentos da doce Catarina Parr, pois gostava muito dela. Afinal, fora ela a única mãe que Isabel conhecera. Uma palmada no traseiro, sobre o saiote, arrancou-lhe um grito de surpresa. Voltou-se e viu Thomas Seymour a sorrir descaradamente. Contudo, antes que Kat o pudesse evitar beijou o rosto corado de Isabel e deu um enorme beliscão na coxa da aia.

 

- Maravilhosa - disse, olhando Isabel de alto a abaixo numa rápida inspecção. - Nos estábulos dentro de três quartos de hora, nem um minuto a mais - e saiu porta fora, deixando as duas mulheres perplexas diante de tanta audácia.

 

Agora, que a carruagem real seguia aos solavancos na estrada esburacada, recordava a sua adorada madrasta, Catarina Parr. Isabel tinha nove anos, quando Henrique, envelhecido e doente, casara com Catarina, sua sexta esposa. Por fim, já sem ilusões de encontrar o amor ou de produzir herdeiros varões, contentou-se com uma mulher cujos domínios fortaleceriam as fronteiras da Escócia e que o pudesse consolar na velhice. E foi o que ela fez, sentando-se horas a fio com a perna ferida do rei no colo, discutindo amigavelmente com ele filosofia e religião. Quando Henrique escolheu Catarina, esta tinha sido durante muitos anos a figura central de um círculo de mulheres de espírito forte e pensamentos avançados que, patrocinando grandes sábios e eruditos do continente, introduziam as doutrinas humanistas e a reforma religiosa na corte. Ostentavam assim o primeiro poder efectivo, ainda que limitado, das mulheres inglesas, sobre reis e príncipes.

 

Mesmo assim, pensou Isabel, a sua adoração por Catarina Parr surgiu de algo mais profundo que o respeito, pois poucos meses depois da sua coroação tinha, não só conseguido acalmar o espírito furioso e o corpo doente do esposo, como também arrancar a havia muito afastada bastarda de Ana Bolena de um solitário exílio para o cálido seio da família real. De novo, Henrique dispensou a sua afeição à filha ruiva e encarregou Catarina da brilhante educação clássica de Isabel. Numa rápida manobra a rainha devolvera à enteada o dom mais precioso da sua vida: o recuperar o seu lugar na linha de sucessão ao trono.

 

Henrique morreu quatro anos mais tarde, deixando a sua viúva convertida na mulher mais rica de Inglaterra. Isabel vivia com a Rainha em Chelsea e ela e Eduardo, seu irmão - coroado Rei, com nove anos - foram consolados pelos seus carinhos. Mas depois, passados quatro meses da morte de Henrique tudo mudou mais uma vez. A rainha-viúva apaixonara-se irremediavelmente por Thomas Seymour, tio do jovem rei e lorde-almirante da Marinha Real.

 

Nesses dias mágicos o ambiente da casa de Chelsea estava impregnado de sensualidade e Isabel viu desenvolver-se diante dos seus olhos de menina romântica o alegre e animado namoro de Thomas Seymour e Catarina Parr. Por todo o lado havia risos, música e alegria, bem como um bondoso afecto - uma existência perfeitamente embriagadora para a estudiosa e modesta princesa. Fascinada, Isabel via a até então recatada e séria Catarina transformar-se numa jovem ébria de amor. E assim, quando Thomas Seymour começou a perseguir Isabel, esta não estava preparada para distinguir o assédio de um divertimento inocente.

 

Thomas. Nos jardins, oferecendo-lhe delicados ramos de flores que ele colhera com as suas próprias mãos, de dedos grossos.

 

Thomas. Nos seus aposentos, despertando-a alegremente todas as manhãs.

 

Thomas. Invadindo-lhe a sala de estudo, como um rapazinho endiabrado, quando ela tentava concentrar-se nas lições.

 

Thomas. Gracejando com ela. Perseguindo-a. Tocando-a. Por fim, era já incapaz de ouvir o nome daquele homem sem corar furiosamente. Ensinava-se às mulheres que o interesse romântico por um homem era, só por si, sinal de falta de castidade e que uma donzela não podia vangloriar-se de nunca nenhum homem ter tocado o seu corpo quando este já se introduzira no seu espírito. Thomas Seymour já fizera mais que introduzir-se no espírito de Isabel. Como uma fortaleza com brechas nos muros, a princesa fora invadida e tomada.

 

De nada servira falar com a madrasta.

 

- Como podeis pensar tais coisas de Thomas? - perguntou lady Catarina Seymour, fazendo girar distraída e continuamente no dedo o anel de pérola. - É apenas uma brincadeira, Isabel. É um homem divertido, que vos ama como um pai.

 

- Mas, minha mãe, os criados já falam. Kat diz que a minha reputação...

 

- Kat não passa de uma tonta!

 

Isabel estava preocupada com a madrasta. Sabia que alguma coisa não estava bem. Catarina não estava em si. A majestosa confiança e serenidade que irradiavam do seu ser tinham-se esfumado e sido substituídas por um desconcerto e nervosismo estranhos. Nada fizera para pôr fim às visitas matinais de Thomas aos aposentos de Isabel, nem para calar os rumores que se começavam a espalhar, atrás dos muros da casa de Chelsea.

 

- Escutai, Isabel - ordenou Catarina. - Deveis aprender a primeira regra de uma casa real. Sois a princesa. Eles são os criados. As suas intrigas não vos podem atingir.

 

A sua voz, outrora calma, segura e bem modulada tinha um novo tom estridente. Até uma criança entenderia que as suas palavras não eram lógicas.

 

- Sempre me haveis dito que a modéstia de uma donzela...

 

- Como vos atreveis a contradizer-me com as minhas próprias palavras! - gritou Catarina. - Ide, deixai-me em paz e que não tenha de ouvir de novo as vossas queixas acerca de meu esposo. Tive três antes dele e posso dizer-vos que me diverti mais durante um ano, com Thomas Seymour, do que com os outros três a vida toda!

 

Sozinha na sala de estudo Isabel aproveitava o resto de luz da tarde e semicerrava os olhos para conseguir ler o seu volume de textos de Cícero. O seu amado tutor, Asham, tivera de se recolher ao leito, subitamente apoquentado por uma indisposição. As outras donzelas da casa de lady Catarina que estudavam com Isabel, regozijaram-se com a oportunidade de um dia sem lições, mas Isabel ia a meio de uma tradução de comentários de estadistas romanos acerca dos últimos dias da República. Apenas os estudos lhe davam algum alívio dos seus conturbados pensamentos, pois ultimamente Catarina começara a acompanhar Thomas Seymour nas suas visitas matinais, saltando-lhe na cama com ele e fazendo-lhe impiedosamente cócegas. Na semana anterior a rainha-viúva segurara mesmo os braços de Isabel, enquanto Thomas lhe rasgara a camisa em tiras com uma enorme faca.

 

Era tudo tão confuso. Porque agiria Catarina de um modo tão estranho? Seria por estar finalmente grávida do filho de Seymour? A notícia encheu o coração de Isabel de amor e alegria pela madrasta - ao mesmo tempo que sentia incontrolável ciúme e terrível vergonha pelas suas tórridas fantasias secretas, acerca do esposo da mulher que mais adorava neste mundo. Todos os dias rogava a Deus que a guiasse, mas pouca ajuda recebia do céu. Assim, voltava-se para os livros.

 

Isabel estava tão absorvida na sua tradução que só deu por Thomas Seymour ter entrado quando este pronunciou o seu nome, em voz baixa. Voltou-se, esperando ver o habitual companheiro de folguedos mas, em seu lugar encontrou um cavalheiro sisudo e cortês. Isabel perscrutou o rosto de Seymour e ficou alarmada ao ver-lhe os olhos rasos de lágrimas.

 

- Lady Catarina? Está doente? - perguntou Isabel agarrando com força as mãos de Seymour. Este abanou a cabeça mas não lhe ofereceu qualquer explicação para a sua tristeza. - Que se passa então? Dizei-me, dizei-me!

 

- Não tenho coragem, Isabel - disse, por fim, sem largar as mãos brancas da princesa. - Mas tenho de vos dizer isto, se não enlouqueço. O imenso amor que sinto por vós faz com que o meu casamento com lady Catarina seja para mim uma carga onerosa e pesada.

 

Isabel sentiu que o ar lhe faltava. Não conseguia mexer-se. Com aquela declaração todos os pensamentos lhe tinham fugido da cabeça, qual bando de andorinhas, do telhado de uma catedral.

 

- Casei-me com ela por saber que ficaríeis a seu cargo após a morte de vosso pai - disse em voz baixa. - E nada mais desejava que estar perto da vossa doce presença. Não sabia de que outra forma o poderia conseguir.

 

As lágrimas corriam pelas faces de Thomas Seymour, porém Isabel surpreendeu-se a si própria ao apenas poder pronunciar palavras iradas. - Posso ser míope, mas não sou cega, senhor. Não me quereis pela minha pessoa, mas sim pelo meu sangue real e proximidade do trono!

 

Ao acusá-lo daquela maneira, Isabel ignorava de onde lhe tinham saído aquelas ideias, uma vez que nunca havia reflectido, em consciência, sobre tal questão.

 

- Não me amais! Não me amais! - exclamou, rogando com toda a alma que Thomas Seymour negasse rápida e veementemente a acusação, e lhe provasse que estava redondamente enganada. Não precisou esperar muito. Ele caiu de joelhos, agarrando-lhe a fímbria do vestido.

 

- Tendes-me em tão baixo conceito, para duvidar da minha sinceridade Isabel? - Olhou-a fixamente nos olhos, não permitindo que ela se afastasse. - E tão mal pensais de vós? Pois com tais sentimentos desacreditais-vos como mulher digna de ser adorada por um homem como eu. Não vedes como estais só, como sois desejável? Julgo... - continuou com grande paixão na voz. - Julgo que, sem vós, morrerei.

 

Era encantadora. Era desejável. Era uma mulher, não mais uma criança. E aquele homem tão belo amava-a. Amava-a. Dos lábios de Isabel escapou-se um suspiro de alegria e alívio. O almirante do reino aproveitou o ensejo para se erguer, arrebatar a princesa nos seus braços e beijá-la apaixonadamente como faz um homem que ama uma mulher e como uma jovem só em sonhos espera ser beijada. Isabel afogava-se, levada pela enorme onda de doçura e paixão. Afogava-se, morria...

 

- Oh, meu Deus!

 

Aquelas palavras, ouvidas como que a grande distância, obrigaram Isabel a sair das profundezas. Abriu os olhos para encontrar lady Seymour, com o seu ventre avultado, encostada à porta da sala de estudo.

 

Isabel e Seymour separaram-se imediatamente, trémulos e mortificados. Fez-se silêncio. Isabel mal conseguia respirar sob o peso da insuportável vergonha que sentia. Finalmente, dois pássaros a chilrear no parapeito da janela, quebraram o silêncio. Isabel atreveu-se a olhar para Seymour e viu-lhe os olhos brilhantes, atrevidos. Começara já a imaginar argumentos, desculpas e mentiras.

 

Catarina, fazendo uso da pouca dignidade que lhe restara, voltara-lhes as costas e saíra. E Seymour seguiu-a depois de ter lançado a Isabel um olhar aflito.

 

A aia de Isabel abriu um olho e apercebeu-se que estava sentada diante de Parry, dentro da abafada carruagem, que seguia aos solavancos pela estrada poeirenta.

 

- Oh, ainda não chegámos?

 

Parry indicou-lhe com os olhos que não estavam sós.

 

Kat endireitou-se imediatamente e esboçou um sorriso forçado. Era a companheira mais íntima de Isabel, porém mantinha sempre o rígido código de etiqueta e a distância devida, a uma criada da rainha.

 

- Majestade...

 

- Haveis dormido bem Kat? - perguntou Isabel.

 

- Não posso dizer que sim, com tanto solavanco, mas pelo menos ajudou-me a matar o tempo. Olha Parry, que temos aí no cesto para comer? Tenho sempre fome quando acordo.

 

- Quando não tendes fome, senhora Ashley? Pareceis-me sempre um poço sem fundo.

 

Kat bateu em Parry com o leque e recebeu em troca um beliscão no joelho magro. Isabel observou os gracejos daqueles dois amigos que se sentiam perfeitamente à vontade um com o outro, tal como com a sua ama, outrora princesa, agora rainha. Tempos houvera em que as coisas não tinham sido fáceis para eles.

 

- Continuais com a mesma cantiga? - vociferou lorde Tyrwhitt. Isabel recusou mostrar-se trémula diante do seu inquisidor, embora lhe doesse saber que Kat Ashley e os Parry, encerrados na Torre, estariam a ser igualmente interrogados. A conspiração traiçoeira de Thomas Seymour deixara-os a todos em apuros.

 

- Com efeito, lorde Tyrwhitt, pois a canção é verdadeira e portanto não lhe posso mudar a letra.

 

- Pergunto-vos mais uma vez, princesa. Haveis tido conhecimento da conspiração do almirante do reino para raptar o rei vosso irmão e fomentar um levantamento?

 

- Volto a repetir-vos. De nada sabia e os meus criados também ignoravam tal rebelião.

 

- Mas vós casar-vos-íeis com ele, sendo a sucessora ao trono. Não haveis entendido que casar, sem o consentimento escrito e selado do Conselho é ilegal e teria posto em causa a vossa sucessão?

 

- Não tinha intenções algumas de me casar com Thomas Seymour esforçava-se por manter a voz calma e firme, apesar de não o serem os seus pensamentos.

 

Casar com um homem que tinha traído a própria esposa, obrigando Isabel a fazer o mesmo?

 

Casar com um homem cuja sinistra influência a havia afastado, depois de ter caído em desgraça, da casa da madrasta, a quem a vergonha destruíra a saúde, para a por a ela e aos criados em perigo de morte?

 

- Mas em várias ocasiões, o vosso servidor, Thomas Parry, falou com Seymour dessa possibilidade - insistiu Tyrwhitt.

 

- Apenas falaram de terras, das minhas e das dele, que estão muito próximas. É muito diferente de combinar um casamento.

 

Tyrwhitt inclinou-se para Isabel, com o rosto tão próximo do dela que a princesa lhe sentiu o cheiro a cebola e a cerveja no hálito.

 

- Diz-se que estais grávida de Seymour. Certamente pensáveis casar-vos com ele.

 

- Tal seria impossível - respondeu fitando Tyrwhitt com ar de desafio. - O almirante do reino não se encontra em liberdade. Está preso na Torre de Londres.

 

Isabel recordou o rosto anguloso de Seymour e tentou imaginar que terrível paixão se teria apossado dele, para entrar furtivamente no palácio real, matar o cão de guarda favorito do rei e tentar chegar até ele. De que sofrimentos padeceria agora no seu cativeiro? Estariam a torturá-lo, como haviam ameaçado fazer com Kat e Thomas Parry, para conseguir confissões que ligassem a princesa ao traidor?

 

- Que conhecimento tendes dos movimentos de Seymour para conseguir apoios para a sua rebelião nos condados ocidentais?

 

- Não tenho conhecimento de nada! Quantas vezes tereis de me atormentar com as mesmas perguntas?

 

- Até saber a verdade da vossa boca - ripostou.

 

Isabel ficou rígida. Depois disse, num tom frio e cortante:

 

- Lorde Tyrwhitt, sempre acreditei que fôsseis um homem decidido e inteligente. Não obstante, tratar como uma pedinte uma pessoa que, um dia poderá vir a ser vossa soberana, parece-me uma perfeita estupidez.

 

Isabel viu o ódio brilhar nos olhos azuis de Tyrwhitt... era um ultraje que uma criança de catorze anos - e ainda por cima do sexo feminino - lhe falasse assim. Contudo, Isabel apercebeu-se que Catarina Parr tinha-lhe pelo menos legado a sua intuição para a diplomacia. Quando deveria conter-se; quando deveria manter-se em silêncio, para proteger amigos fiéis; e quando falar com eloquência e sem receio.

 

- Advirto-vos, senhor, para que vos acauteleis - prosseguiu. - Sou filha de meu pai e herdei dele o seu génio e boa memória em relação aos inimigos da coroa.

 

O mestre-cavaleiro de Isabel galopou até à carruagem e ajustou o passo da montada para poder falar pela janela aberta.

 

- Majestade, já estamos perto de Oxted. Quais são as vossas ordens?

- Desejo ver o maior número possível de súbditos. E desejo que todos me vejam. Que preparativos se fizeram?

 

- Os habituais. As ruas foram limpas, as rameiras e os idiotas foram postos fora de circulação, retiraram-se os patíbulos. As casas, lojas e edifícios públicos foram pintados e enfeitados. E na praça há uma multidão que aguarda a vossa chegada.

 

- Mandai avisar que vou entrar na povoação - disse a Dudley. - E que estou muito satisfeita por poder vê-los.

 

- Sim, Majestade.

 

- E, Robin, manda que me tragam a montada. Vou entrar a cavalo na aldeia.

 

Dudley sorriu de modo tão gentil e afectuoso que o porte altivo da rainha vacilou. Depois picou o cavalo e desapareceu. Querido Robin. Tão leal. Tão digno de confiança.

 

Tão diferente de Thomas Seymour...

 

Seymour morrera decapitado. Isabel ainda se sentia trémula ao lembrar-se como estivera prestes de ter o mesmo fim. Lady Catarina não tivera tanta sorte. Três meses depois de ter encontrado Isabel nos braços de Seymour e de a ter expulso de casa, dera à luz uma menina. Adoeceu depois do parto, mas Thomas demorou três dias para chamar um físico. A ex-rainha-viúva ficara extremamente inquieta, talvez suspeitando que o marido desejava a sua morte. À medida que a febre subia, exprimia em voz bem alta as suas suspeitas de traição, acusando-o a ele e a todos os que a rodeavam de não se importarem com ela e de troçarem do seu sofrimento. Diz-se que Thomas se deitou a seu lado para a acalmar com palavras meigas, mas ela empurrara-o, acusando-o de não querer chamar o físico. A febre piorou e morreu dois dias antes do décimo quarto aniversário de Isabel. Todas as acusações, que fizera no leito, tinham sido consideradas delírios. Porém, pareceu suspeito o desgosto de Isabel pela morte da madrasta. Dizia-se que Catarina tinha recuperado temporalmente o tino antes de morrer e ditara um novo testamento ”na posse do seu juízo, memória e discrição”. Nele legou a sua enorme fortuna ao marido. A declaração, feita no leito de morte, foi apressadamente aceite mesmo sem a sua assinatura. Da noite para o dia, Thomas Seymour convertera-se num homem riquíssimo.

 

O caso de Seymour foi a primeira lição que Isabel recebeu acerca dos homens traiçoeiros e ambiciosos. Esquecera Thomas, como quem esquece um sonho mau quando chega a manhã e havia Muitos anos que não pensava nele. Todavia o diário de sua mãe tinha-a obrigado a recuperar imagens e recordações dos cantos mais recônditos do seu espírito.

 

Agora, ouvia-se já ao longe o som dos sinos que repicavam para lhe dar as boas-vindas. Isabel imaginou a sua entrada em Oxted. Seria semelhante à que fizera noutras cidades e aldeias ao longo do caminho. Haveria discursos de boas-vindas, teatro, cortejos e música, crianças a cantar e a recitar, tudo em sua honra. Deter-se-ia para falar ao povo, pronunciando uma espécie de discurso de sua autoria e ouviria atentamente as queixas que os representantes das povoações teriam oportunidade de fazer. Enquanto os seus criados compravam provisões aos agricultores e mercadores locais, ela visitaria a oficina de tecelagem e depois talvez escolhesse uma casa, importante ou humilde e, sem aviso prévio, solicitaria um prato de comida ou uma bebida fresca aos seus anfitriões profundamente honrados, mas muito nervosos.

 

Era fantástico receber aquele banho de afecto e, apesar de se sentir cansada e dorida a rainha apercebeu-se de que o coração lhe batia acelerado, antecipando a alegre entrada na aldeia.

 

Ainda não tenho seis meses de reinado, pensou Isabel, e já me sinto ansiosa pelo amor do meu povo.

 

Os sinos continuaram a tocar e Isabel viu no seu caminho os primeiros habitantes da aldeia: mulheres, com os seus trajes domingueiros, lavradores muito asseados, crianças, aos ombros dos pais e irmãos, para poderem avistar a filha do Grande Henrique, a sua nova e adorada Rainha Isabel. Sim, pensou enquanto alisava os anéis rebeldes do cabelo e endireitava a jaqueta, teriam agora ocasião de a ver. E de a ver em todo os seu esplendor.

 

Mas, no dia seguinte, quando chegasse a Edenbridge e à casa de sua mãe em Hever, seria ela quem observaria tudo ansiosamente.

 

25 de Março de 1527 Diário,

 

Por vezes penso que a vida, que vivo a pouco e pouco, não passa de um sonho e que as cenas da noite são a realidade. Hoje tenho essa sensação. Porque Henrique, rei de Inglaterra pediu-me que fosse sua esposa e a legítima rainha deste país!

 

Perseguiu-me e resisti, tornei-me uma presa ainda mais desejável. Retirei-me para casa da minha família em Hever, onde as suas cartas me seguiram, enviadas por um mensageiro especial. Cartas cheias de apaixonados juramentos de amor, a implorar que me tornasse sua amante. Afirmava que, ”havia mais de um ano fora atingido pelas setas do amor” e pedia desculpa por me perseguir e enfadar. Respondi, recusando-o, citando palavras de sua própria avó, Elizabeth Woodville que, enquanto era assediada por seu avô com intenções de se deitar com ela, respondera: ”Posso não ter suficientes qualidades para ser vossa rainha, senhor, mas tenho demasiadas para ser apenas vossa amante.”

 

Usei os ardis que aprendi em França e que o punham louco de desejo, embora francamente não passassem de um jogo que me era perfeitamente natural. Talvez que, algures nos meus sonhos mais fantasiosos, me visse rainha... mas não passavam disso mesmo, de fantasias! Agora é o rei que afirma que a fantasia pode transformar-se em realidade.

 

Sem enviar mensageiro ou aviso, Henrique cavalgou de manhã cedo até ao fosso de Hever e atravessou a ponte, entrando no pátio empedrado e despertando todos em casa com o ruído dos cascos dos cavalos. Exigiu que o recebesse imediatamente e eu, alvoroçada, vesti-me, lavei o rosto e mastiguei um raminho de hortelã para refrescar o hálito. Depois, valendo-me de toda a dignidade que era possível àquela hora, fui saudar o rei. Estava excitado, sujo de lama, com o rosto vermelho e falava aos gritos. Agarrou-me, puxou-me para si, beijou-me rudemente na boca. Cheirava a suor, a fumo e a cavalos, mas a sua paixão desenfreada parecia-me de uma estranha doçura, tão parecida com a de outro do mesmo nome, que me sinto vacilar ao toque das suas mãos. Começou a caminhar de um lado para o outro e agitava o dedo indicador para reforçar as suas palavras.

 

- já estou farto do meu maldito casamento! - exclamou. - já basta que a mão irada de Deus me tenha impedido de engendrar um filho varão.

 

- Mas Catarina... - tentei dizer.

 

- Catarina é minha cunhada. A esposa de meu irmão. É da minha família e, segundo o direito canónico, estou proibido de me casar com ela devido ao grau de afinidade!

 

- Não compreendo como possais conseguir uma separação da rainha.

 

- O Papa há-de me ajudar. Sou o Defensor da Fé. Clemente já conferiu outras dispensas e invalidou casamentos reais nos quais surgiram problemas de sucessão. Só preciso de o convencer do erro. Há-de ajudar-me!

 

- Se alguém for capaz de o fazer entender - disse eu, com cautela. - Esse alguém sois vós, meu Senhor.

 

- E o cardeal Wolsey também me ajudará nesta questão.

- E o que dirá Catarina?

 

- Há-de concordar. Vou fazê-la entender que vivemos em pecado durante muitos anos. E como é extremamente piedosa desejará professar e passar a ser noiva de Jesus. Oh, Não, Não, Não! - exclamou, como louco. - Não vedes que estou doente de amor? Não consigo dormir. Não consigo comer. já não consigo governar o país. Não penso senão em possuir-vos. Tendes de ser minha! Se não, juro que parto o mundo em dois, com as minhas próprias mãos! - Depois caiu de joelhos. - Desposai-me, desposai-me. Dai-me filhos, para acabar com esta maldição que pesa sobre a minha vida!

 

Fiquei imóvel e silenciosa como uma estátua, enquanto o meu pensamento corria célere: Cristo bendito, o homem que tenho a meus pés quer depor uma rainha por minha causa e mandá-la para um convento! Está disposto a discutir com o Papa por intermédio de Wolsey. Que mau bocado ira passar o cardeal! Assim, por trás do título e do valor que o amor do rei possa ter, sinto, nisto tudo, o perfume da vingança.

 

- Dizei que sim, Ana - exclamou Henrique. - Dizei que sim e sede a minha rainha!

 

Mas ali, em Hever Hall, com um rei ajoelhado a meus pés, debaixo do sol da manhã que aquecia o ar e as pedras do chão, tive um mau presságio que, como um vento maligno, me reteve as palavras na garganta. Levei a mão ao pescoço como se quisesse desfazer um nó, mas foi inútil.

 

- Vou pensar - respondi. - Vou reflectir sobre a vossa proposta e, em devido tempo, vos darei conhecimento da minha resposta. O rei ficou sem fala por eu não ter saltado de alegria com a sua oferta. É verdade seja dita, estava assombrada. Mas uma coisa estranha e fria paralisava-me. Pedi-lhe que partisse e ele assim fez, soltando impropérios contra as mulheres. E é neste estado que me encontro, buscando um sinal que me aclare o futuro, seja ele de perdição ou glória, se eu tomar o caminho que Henrique deseja. É isso que espero.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

Diário, 9 de Abril de 1527

 

Acabei de regressar de Cantuária, na companhia de George. Fui incapaz de pronunciar palavra durante todo o caminho, incapaz de pronunciar palavra e trémula por ter visto diante de mim o meu futuro como um festejo de São João em todas as suas glórias. Se os santos o permitirem serei rainha de Inglaterra e darei a Henrique o seu filho tão desejado. Sei que isto é verdade e, enquanto antes me afundava num mar de receio e indecisão, sei que agora estou a salvo, com os pés firmemente plantados sobre o destino de Inglaterra. Rainha Ana. E soube-o da seguinte maneira.

 

Henrique pressionava-me continuamente, enchendo-me de promessas e beijos. - ”Quero casar convosco” afirmava. ”Casar convosco e repudiar Catarina.” No entanto, as palavras soavam-me a falso, pois Catarina é do mais puro sangue-real de Espanha, estimada por todos e tão devota que deve comunicar directamente com Deus. Porém, Henrique não desistia. Esse homem que declara a guerra a imperadores, impõe leis e conta o ouro da sua infindável fortuna, este homem tentava convencer, de joelhos, uma jovem plebeia a ser sua esposa.

 

Sentia-me terrivelmente indecisa. Passava horas a percorrer o labirinto do jardim, a reflectir sobre o meu destino. Deveria confiar nos fados e pôr a minha vida nas mãos dele? Ou estaria completamente louca, aceitando participar em tal jogo?

 

George, a cujos ouvidos tinha chegado a maledicência do palácio, apressou-se a voltar a casa para estar comigo. Fiquei feliz por ver o rosto firme e o sorriso afectuoso de meu irmão.

 

- Vamos fazer uma visita à Santa Donzela do Kent - sugeriu. Dizem que prevê o futuro.

 

Já tinha ouvido falar daquela jovem camponesa que aconselhava reis e políticos e cujas visões se convertiam em realidade. Vivia agora aqui perto, retirada num convento de Cantuária.

 

Foi uma larga viagem a cavalo, por entre atalhos lamacentos, até ao leste do condado de Kent. E o que vimos! O que ouvimos! Que odores! No dia seguinte havia mercado e vimos desfilar um sem-número de camponesas com cestos carregados de couves, alcachofras, nabos, pêras, groselhas e caranguejos do rio. Soavam os chocalhos das vacas e dos bois e o ranger das carroças que se atolavam na lama até meio das rodas. Pastores, com os seus rebanhos, de ovelhas e cabras e varas de porcos, um homem grosseiro passou com o cavalo a galope e espalhou a lama por toda a parte. Jovens camponesas, com os pés sujos de barro, riam e gracejavam; homens rudes lançavam-me olhares indiscretos. Cheirava a couro molhado e a lã húmida. Depois avistámos ao longe a cúpula da catedral de Cantuária. Fora das muralhas da cidade os aldeãos montavam um tosco acampamento, à espera da primeira luz da manhã para começarem a vender a mercadoria.

 

Entrámos na cidade e dirigimo-nos ao convento do Santo Sepulcro onde, quando pedimos para ver a Santa Donzela, nos fizeram percorrer um corredor estreito e húmido. Via as mulheres... as irmãs, sendo algumas freiras, outras apenas nobres banidas das suas famílias. Os olhos dessas jovens seguiam-me invejosas dos ricos vestidos que nunca mais envergariam. Definhavam no ranço de uma vida sem amor, ocultas atrás dos muros de um convento.

 

Abriram a porta de uma simples cela. Ali estava ela, a jovem camponesa feita freira, de joelhos e de costas voltadas para mim. A porta fechou-se. Ficámos sós dentro da pequena cela de pedra cinzenta, sem adornos, as paredes nuas, sem um tapete sequer para evitar o frio do chão. A cama era estreita, os lençóis ásperos e a cadeira não era estofada. A cela estava quase na penumbra e a luz que entrava pela pequena janela dava em cheio sobre um crucifixo pregado na parede, por cima de um altar, junto ao qual a jovem ajoelhada rezava fervorosamente. Dispus-me a expor-lhe os meus cuidados. Ficou imóvel e não se tinha levantado, nem sequer voltado a cabeça, quando a ouvi murmurar.

 

- Ana! - sabia o meu nome!

 

- Santa irmã - disse eu - venho em busca de...

 

Ela voltou-se e fixou os olhos em mim. Que olhos, nunca tinha visto olhos assim! Pareciam ouro líquido, irrequietos e penetrantes como setas. Terríveis, terríveis e enlouquecidos. Vi-lhe as formas sob o hábito de noviça e era apenas uma jovem camponesa, com a pele ainda crestada do sol. Dizia-se que entrava em transe nos campos e pântanos lamacentos, que ajoelhava e tinha visões - do Céu, do Inferno, do Purgatório, das almas que por lá vagueavam...

 

Voltou a pronunciar o meu nome, numa voz infantil pura e doce e tomou-me as mãos nas suas, ásperas e calosas. Moveu os lábios secos em silêncio. Uma oração? Palavras divinas inspiradas por Deus? Uma resposta ao diabo que se escondia por trás dos seus magros ombros? Deve ter notado a minha rigidez, pois disse:

 

- Não vos alarmeis, bondosa senhora, o vosso destino está traçado. Vejo a vossa vida desenrolar-se diante dos meus olhos. Desejais que vos diga o que vejo?

 

- Sim! Sim! - exclamei. Desejava ouvir, porém alguma coisa dentro de mim me dizia que deveria partir antes de a ouvir descrever o meu futuro.

 

Fechou os olhos perturbados, torceu os lábios exangues e murmurou:

 

- Ai... - não era uma palavra, mas quase um sopro, um demorado suspiro. - Tenho nas minhas, as mãos de uma Rainha.

 

Senti os olhos trémulos, mas resisti e conservei a calma.

- Dizei-me mais.

 

- Sim, há mais. Um herdeiro Tudor surgirá do vosso ventre, para brilhar como a mais bela estrela de Inglaterra e só se apagará duas dezenas e quatro anos depois.

 

- Um varão Tudor! - exclamei. - Um filho para Henrique. Estais certa?

 

A jovem abriu muito os olhos - de um brilho amarelado - mas estou certa de que não me via.

 

- Estou cansada - gemeu.

 

Ajudei-a a sentar-se na cadeira pouco cómoda. Parecia cega, débil, ainda entre dois mundos.

 

- Ide - disse. - Sede Rainha. Sede Rainha.

 

Parti então e regressei a casa, sem trocar uma palavra com o meu irmão, tal era o receio que sentia em falar da profecia. Mas agora aqui, no meu quarto de paredes cinzentas, julgo estar preparada para acreditar que é verdade. A freira do Kent sabia o meu nome e sem fazer perguntas, disse-me a minha vida. O meu destino está decidido. Amanhã escreverei a Henrique, direi ao rei as palavras que deseja escutar. Serei sua esposa, a rainha Ana, e ele terá um filho varão.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

25 de Abril de 1527 Diário,

 

Dei por escrito o meu consentimento a Henrique. Junto enviei-lhe um alfinete de pedrarias para selar o meu assentimento. Tem pintada uma dama sobre um mar embravecido. Essa dama representa a minha pessoa que conhece os perigos de um tal compromisso e, mesmo assim, se atreve a enfrentar o mar violento, nessa pequena embarcação a que se chama Amor.

 

Amor! Foi isso que jurei na minha carta, um amor tão raro como o seu, embora falso. Sei que nunca poderia desejar pretendente mais dedicado e apaixonado e que o presente que me oferece - o ser rainha - é mais do que alguma vez sonhei, porém, no fundo da minha alma, onde guardo os sentimentos mais sinceros... Não o amo. A minha esperança fervorosa, o que mais peço a Deus é que chegue o dia em que o meu coração se abra como uma rosa ao sol da Primavera.

 

Até lá, e embora tenha prometido ser sua, continuo a recusar qualquer pedido seu para me deitar com ele, até que o casamento nos una legalmente, pois por mais que o deseje, a minha virtude proíbe tão íntimos contactos. Nesta questão disse apenas meia verdade. Deveria desejá-lo. O meu futuro esposo é um homem atraente para qualquer mulher - de ombros largos, peito forte e pernas bem musculadas. Um queixo firme e faces saudáveis. É louro, de cabelo arruivado, encaracolado e ainda abundante e olhos azuis muito belos e expressivos. Mas o melhor de tudo é a boca, de lábios carnudos e suaves, dentes fortes e brancos, hálito doce. Gosto do seu modo de beijar - forte insistente, doce e brincalhão - e do seu sorriso. Então parece-me ser o homem mais bonito que já conheci.

 

Quis informar-me junto de minha irmã Mary a respeito das proezas do rei como amante, mas ela manteve-se discreta o que é estranho da sua parte; resolvi então insistir com risinhos e indirectas, mas de nada me serviu. Limitou-se a dizer-me que é prodigiosamente dotado. Mas isso não era novidade para mim, pois sinto a sua virilidade durante os nossos castos abraços.

 

Será que me ama deveras? Creio que sim. Fará de mim sua rainha? Julgo que sim. Oh, diário, estou tão agradecida por ter este espaço para escrever as minhas confidências, pois não tenho a quem confiar estes pensamentos e sucessos. Sois o meu grande segredo e guardar-vos-ei toda a minha vida.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

6 de Maio de 1527 Diário,

 

Depois do meu regresso à Corte, ocupo uma posição elevada, em nada semelhante à que ocupava antes. A causa de tudo isto é o amor declarado do rei pela minha pessoa e as atenções com que me cumula. A maioria julga-me sua amante de corpo e espírito. Ninguém, nem mesmo Wolsey acreditaria na verdade, que me mantenho casta e que quando Henrique me possuir não serei uma concubina... mas a sua rainha.

 

Contudo, rainha ou amante, a consideração em que agora me têm os nobres aumentou substancialmente. Vêm procurar-me em busca de favores, sabendo da minha relação com o rei Henrique. Chamam-me amiga.

 

- Minha senhora Ana, por obséquio, uma palavra vossa para que o filho de meu irmão consiga um lugar na corte.

 

- Gentil senhora, que bela estais hoje - segue-se um beija-mão.

- Poderei dar-vos uma palavra acerca dos meus bosques que estão infestados de caçadores furtivos e precisavam de alguma vigilância do rei?

 

Oh, que prazer me dá este servilismo. Devem julgar-me muito estúpida, para ter esquecido que, há algum tempo, me consideravam uma pessoa inferior. Eu, a filha de um vulgar homem ambicioso, e irmã da rameira do rei.

 

Sim, até mesmo meu pai me presta homenagem, enviando-me todos os dias joalheiros, mulheres para me pentearem, costureiras. Ele, antes tão avarento, quer assegurar-se da boa apresentação da favorita do rei. Tenta saber como estão as coisas entre mim e o monarca, porém nego-me a divulgar-lhe a verdade do que se passa entre nós. Meu pai morre por saber. Como se eu ainda fosse a jovem ingénua de antigamente, quando me puxava as orelhas, ou empurrava, atirando-me ao chão para me obrigar a responder imediatamente a tudo o que me perguntava. Mas já não é assim. No entanto embora me mortifique ainda me inspira um certo temor e respeito. Que bom será ficar livre do seu jugo.

 

Para mim, o mais estranho é a consideração que Catarina, cuja aia ainda sou, continua a ter por mim. Não é nem surda, nem cega e deve saber o lugar que ocupo no coração de Henrique. Mesmo assim, trata-me com a mesma amabilidade de sempre. Enquanto me ocupo das suas necessidades diárias e a observo de perto, apercebo-me que ali está a mulher que mais ama o homem que está apaixonado por mim. Seguramente, ignora os planos que Henrique tem para ela, pois mesmo que conhecesse a profundidade do seu amor por mim, considerar-me-ia apenas uma amante e nada mais. Aos reis, por antigo costume, permitem-se todos os prazeres. Por vezes sinto pena dela e ponho-me no seu lugar. Ama o rei como eu amei Harry Percy, talvez ainda mais, pois eu era apenas uma menina e Henrique é o seu amado já há muitos anos. Vi-me obrigada a ver, embora de longe, como Percy se casava e se deitava com outra, tal como ela teve de suportar todos os dias as infidelidades do marido.

 

Não deveria pensar demasiado nisto, nem na minha deslealdade em relação à rainha, pois vacilaria na resolução que tomei. Devo apoiar a crença de Henrique em que a maior necessidade de Inglaterra é um herdeiro, um filho varão e que serei eu a dar-lho e não a sua estéril esposa.

 

Ultimamente tudo isto me tem dado cuidado. Parece que o tempo passa e nada se faz em relação ao divórcio. Sei que o rei está preocupado com outros assuntos. O enviado francês que veio para estabelecer o tratado entre França e Inglaterra (e declarar guerra ao imperador Carlos) ocupa-lhe grande parte do tempo. Todos os dias ele e Wolsey passam horas a conspirar e a fazer planos e depois convocam reuniões com os diplomatas franceses para discutir e negociar todas estas questões.

 

Quando à noite, Henrique vem ter comigo, depois de todas estas negociações, vejo-lhe as rugas da fronte e escuto o tom de cansaço na sua voz. Se ele e Francisco não unirem esforços contra o imperador, acabarão por permitir que ele governe o mundo. São já suas as terras alemãs e a Espanha. Carlos tem como reféns os dois filhos de Francisco, e já reteve, do mesmo modo, o rei de França, que trocou a liberdade pela prisão dos herdeiros.

 

Que ironia. França e Inglaterra, antigos inimigos, unem agora esforços para evitar uma derrota. A pequena princesa Maria vai ser um peão nestas negociações. Hão-de casá-la com um desses filhos prisioneiros, unindo assim, por meio do matrimónio, o poder e a majestade de dois países.

 

Muitas vezes pergunto a mim mesma como se alterará esta situação quando for rainha, mãe do filho de Henrique. Mas agora sei que as negociações deverão prosseguir, como se tudo estivesse bem entre o rei e a rainha, pois, de contrário, ocorreria a morte de alguns dos participantes. Assim, guardo silêncio e confio na palavra de Henrique.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

20 de Maio de 1527 Diário,

 

A paciência nunca foi a minha maior virtude e senti-me ofendida ao ver o meu destino tomar um lugar secundário na atenção do rei, em relação às negociações entre franceses e ingleses. Mas finalmente terminaram as conversações e preparou-se um banquete e uma festa em honra do embaixador francês, como nunca se tinha visto outro assim, desde a famosa celebração do Campo do Pano de Ouro. Fiz os meus próprios planos. Levei horas e horas de pé, a provar um vestido que suplantasse os de todas as das outras. Recorri a meu pai para comprar vários colares de pedrarias e negociei com um perfumista uma essência conhecida pelos seus efeitos exóticos.

 

Nos últimos dias travei amizade com Maurice Mamoule, actual secretário do embaixador visconde de Tourenne. Recordava-se de mim, em França, na corte de Francisco, quando era uma menina de doze anos, magrizela e ficou encantado ao ver como a minha influência tinha aumentado, apesar de julgar, como quase toda a gente que eu era apenas a rameira do rei. O facto não me rebaixava aos seus olhos, pois vindo de uma corte tão debochada e liberal como a francesa subi ainda mais na sua consideração. Mantinha-me informada de tudo o que se passava e nos dias que faltavam para o banquete, disse-me que nos círculos oficiais soava que Henrique poderia repudiar a esposa. Implorei-lhe que me contasse mais pormenores. O embaixador francês acreditava (tal como desejava Wolsey, pois era partidário dos franceses) que a eleita seria Renée, minha companheira de folguedos e princesa de sangue. O meu coração sobressaltou-se. Comentava-se que Henrique queria ver-se livre de Catarina e eu sabia que a princesa francesa não interessava ao rei. Era de estatura invulgarmente baixa e coxeava, devido a uma deformidade. Sabia que Henrique nunca se contentaria como uma mãe tão imperfeita para os filhos perfeitos que desejava ter.

 

Assim, vesti-me com grande satisfação para aquela festa e enverguei um traje reluzente de cetim negro e púrpura, debruado a arminho, que causou sensação entre as outras damas. O mesmo aconteceu com as jóias e o perfume, quando nos encaminhámos para a festa, acompanhando a rainha. Que belos foram esse dia e essa noite! Henrique estava magnífico com o seu fato de seda amarela e enormes diamantes, dando as boas-vindas a todos os convidados em voz trovejante e com um sorriso que denunciava o êxito obtido com os franceses.

 

O pátio apresentava um fausto que eu nunca tinha visto. Ornamentado com tapetes multicolores de frutas e flores, de cor púrpura, vitrinas cheias com baixelas de ouro e prata, como que para anunciarem: ”Olhai, esta é a nossa riqueza, uni-vos a nós.”

 

Primeiro, teve lugar o torneio, animado e aguerrido, dando-me ideia de sonhos de guerras futuras. Depois, várias representações, numa das quais a princesa Maria tinha o papel principal.

 

Aprisionada nos seus vestidos dourados e nos múltiplos rubis, esmeraldas e pérolas, parecia frágil e mais jovem do que os seus onze anos. A sua vozinha fina não vacilou e recitou as suas falas com toda a dignidade, sem consciência de que estava a chegar ao fim a sua utilidade como peão real.

 

O rei e a rainha presidiram ao banquete lado a lado. Observei o amor que brotava como um rio, da nascente que era Catarina, para o mar revolto na pessoa de Henrique. Porém, nem uma gota contida nesse oceano lhe foi devolvida. Os olhos dele seguiam-me. Fui cautelosa e desviei a minha atenção do rei. Porém, de cada vez que o fitava, apercebia-me dos seus olhos sobre os meus. Outros o notaram. Catarina fingiu não perceber o que se passava.

 

Pouco depois da meia-noite, apareceram todos os lordes de França vestidos à maneira veneziana, de veludo azul e negro. A música encheu o perfumado jardim ao luar e o baile começou. Henrique pediu ao visconde de tourenne que, na primeira dança fizesse par com Maria. Ela curvou-se graciosamente e começaram ambos a dançar. Sua mãe resplandecia de orgulho espanhol. Vi depois que esperava que Henrique lhe pegasse na mão, mas bastou um segundo para que o seu sorriso se tornasse amargo. Henrique atravessou o salão e dirigiu-se a mim e, à vista de todos, estendeu-me a mão. O momento foi terrível para a minha rainha e maravilhoso para mim. Olhei-o nos olhos, agradeci-lhe em silêncio, com toda a sinceridade e estendi-lhe também a mão. Enquanto nos deslocávamos para o centro, não senti qualquer tremor, apenas uma firme resolução. Aos primeiros acordes, começámos uma galharda e foi nesse momento perfeito, que tornou público o seu amor por mim.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

No GRANDE ESPELHO DA SUA SALA DE BANHO, Isabel observava o trabalho das duas damas que lhe entrançavam o cabelo com fios e raminhos de pequenas pérolas negras.

 

- Abri a boca, majestade - ordenou lady Sidney e Isabel obedeceu e sorriu com os lábios afastados, mostrando as gengivas, qual animal selvagem a rugir, para que a aia pudesse limpar os seus reais dentes com um palito de ouro esmaltado.

 

- Desejais empoar-vos esta noite? - inquiriu lady Bolton, segurando na mão um boião de casca de ovo e alúmen finamente moídos.

 

- Creio que não - respondeu Isabel, aceitando das mãos de lady Sidney um copo de água com manjerona. Lavou a boca com ela e cuspiu para uma tigela. - Ainda estou jovem e fresca para passar bem sem pó, não credes? - perguntou a rainha, sabendo muito bem que as suas aias saltariam imediatamente para elogiar a sua juventude e beleza num coro ruidoso que lhe agradaria ouvir.

 

Isabel ergueu-se, mandou embora as aias que se afadigavam em seu redor e entrou no quarto de dormir, onde Kat e várias outras serviçais tinham estendido sobre a cama de madeira pintada o vestuário para aquela noite. Sobre a mesa de tampo de prata, tinham exposto um fabuloso conjunto de jóias e a sua cadeira favorita estava coberta com grande variedade de delicados escarpins. Despindo o roupão deixou-se ficar imóvel, à espera que as aias dispusessem sobre ela a base do seu vestuário tal como um escudeiro pode cobrir com uma armadura o corpo do seu senhor. Primeiro, a cinta foi apertada em redor do corpo já esguio de Isabel, cobrindo-lhe o ventre e os peitos, para formar como que uma tábua em forma de V.

 

- Não tenho um novo par de meias de seda? - perguntou a rainha e lady Springfield apresentou-lhe imediatamente duas fitas de um finíssimo tecido de seda.

 

- Vossa Majestade gosta desta nova moda italiana? - perguntou-lhe a aia envolvendo-lhe as pernas brancas como alabastro.

 

- Adoro coisas bonitas - replicou Isabel, esforçando-se por deixar que Kat lhe enfiasse o pesado vestido de veludo sobra a cabeça e lhe começasse a abotoar nas costas uma centena de botões de pérola. - Porém, vestir bem, para mim é mais um acto de estado, que uma paixão. O embaixador francês veio ratificar o tratado de paz, mas esta será também a primeira ocasião em que me vão conhecer como rainha, de modo que a minha pessoa deverá reflectir a magnificência e a glória de Inglaterra.

 

A rainha pensou, sem que o declarasse em voz alta que, nessa semana, todo aquele fausto tinha um significado mais profundo. Isto porque, não só sua mãe tinha sido educada na corte de Francisco I, como também a amizade com os franceses fora sua grande esperança durante o longo esforço pelo divórcio de seu pai e Catarina de Aragão. Não podiam esquecer que Isabel era filha de Anne de Boullans, famosa pela sua beleza, alegria, encanto e elegância. Enquanto os ingleses desprezavam a Grande Prostituta, na opinião dos franceses, sua mãe era uma figura cujos atributos deveriam ser emulados e até mesmo e, se possível, ultrapassados.

 

Enquanto as mangas de veludo púrpura, com pesados bordados as prata e ouro eram apertadas, Kat ergueu dois relógios incrustados a pedras preciosas, para que a rainha escolhesse.

 

- A flor ou o barco, Majestade?

 

- Nenhum deles. Levarei o pregador de meu pai.

- Como melhor vos aprouver.

 

Kat precisou de ambas as mãos para erguer a gigantesca safira rodeada de diamantes e rubis cor-de-rosa. Ao pregá-la no centro do corpete acolchoado do vestido, Kat murmurou:

 

- Perguntai por vossa prima Maria e pelo esposo que foi recentemente feito rei.

 

- E que hei-de perguntar? - Isabel parecia ligeiramente divertida com a típica impertinência de Kat. - Se ela está a gostar da vida de casada com o seu namorado de infância e a sua autoritária sogra Médicis? Ou se está grávida e vai dar à luz um príncipe francês, que um dia reclamará o meu trono.

 

- Fazeis troça da vossa antiga companheira - disse, com ar de desprezo, enquanto colocava várias fieiras de pérolas em redor do pescoço, dos pulsos e da cintura de Isabel. - Porém, essa jovem rainha da Escócia é sobrinha de vosso pai e deve ser vigiada de perto. Agora que também é rainha de França vai causar-vos problemas. Recordai o que vos digo.

 

- Tenho sempre em conta as vossas palavras, Kat, mas penso que esta noite não será o momento indicado para conversar acerca de minha prima. Esta noite vamos celebrar uma paz conseguida a muito custo. Não concordais?

 

Kat voltou a cara num gesto mal-humorado, contudo Isabel pegou-lhe no queixo e sorriu, conseguindo por fim extrair da idosa aia uma expressão mais agradável.

 

- Tendes um ar radiante, Majestade - disse Kat, com um último e imperceptível toque, para melhor ajustar o vestido da rainha. - A noite será vossa.

 

Isabel saiu majestosamente do seu quarto de dormir, entrando na sala do Conselho, onde ajoelhado e aguardando a chegada da rainha, Robert Dudley, baixou a cabeça em sinal de obediência.

 

- Majestade!

 

A rainha estendeu-Lhe a alva mão, tão coberta de anéis que ele apenas lhe pôde levar aos lábios as pontas dos dedos.

 

- Erguei-vos, Robin. Deixai que vos veja - ordenou.

 

Dudley pôs-se imediatamente de pé, erguendo-se perante ela como uma torre imponente. Apesar da sua estatura, a rainha teve de erguer os olhos para o seu mestre-cavaleiro.

 

Ama-me deveras, pensou Isabel. O que lhe leio no olhar é uma emoção difícil de fingir.

 

De facto, naquela noite, Dudley estava totalmente deslumbrado pela régia presença da sua amiga de infância. Não sabia dizer se o efeito era causado pela sua beleza pálida e luminescente, pela profusão de ouro e pedras preciosas que cintilavam ao pôr do Sol ou pelo perfume hipnótico que espalhava à sua volta com um leque de pequenas plumas de avestruz.

 

- Não tenho palavras, Isabel - murmurou ele, junto à frágil concha da orelha da rainha, pois era-lhe proibido mostrar em público uma tal familiaridade. - Invejo os embaixadores franceses que vos vão monopolizar toda esta noite.

 

- Não penseis que não tenho tempo para me ocupar de vós, Robin - disse ela admirando o bem que lhe assentava o gibão azul de brocado. Espero que sejais o meu par na primeira galharda da noite.

 

- O vosso desejo dar-me-ia um imenso prazer - replicou e, pegando-lhe na mão, colocou-a sobre o seu braço para a escoltar até à câmara, onde se encontravam já reunidos os embaixadores franceses.

 

Whitehall tinha-se rapidamente tornado o palácio preferido de Isabel em Londres, com as suas alas espaçosas, espalhadas sobre mais de oito hectares de terreno à beira-rio. A sua construção fora levada a cabo através de vários séculos, de modo que tinha um desenho arbitrário, já com zonas antiquadas e em franca decadência. Mesmo assim, Isabel adorava as imponentes salas, esplendidamente decoradas, e encantava-se naquela enorme casa cheia de cortesãos e cortesãs, sempre muito elegantes, para os divertimentos nocturnos, que agora se curvavam, em profundas vénias, enquanto ela avançava pelo braço do seu belo acompanhante. Era excelente ser rainha de Inglaterra, por direito e merecimento. Neste momento, pensou, não tenho um único cuidado neste mundo.

 

- Horroriza-os pensar que, quando se inclinam perante vós, estão também a inclinar-se perante mim - declarou Dudley, disfarçando um sorriso.

 

- Tendes razão, Robin. Apostaria que sois o homem mais invejado na corte de Inglaterra.

 

Ele soltou uma pequena gargalhada.

 

- Sem dúvida haverão de ter mais razões de queixa depois desta semana.

 

- E porquê?

 

- Porque me excedi a mim mesmo nos preparativos. Festejos faustosos e magníficos em todos os sentidos. Comida, decoração, música, teatro. Vereis que vos será difícil acreditar que o tesouro está praticamente vazio - disse com um sorriso astuto.

 

- Robin!

 

- Concordastes que o espectáculo para os franceses teria de ser muito interessante - disse, numa tentativa de evitar a fúria súbita da rainha. E custou tudo muito menos do que de facto parece. Por exemplo, todas as flores vieram do vosso castelo de Richmond e as aves de caça...

 

- Pronto, já basta! - detiveram-se diante das enormes portas de madeira trabalhada da câmara real, guardadas pelo que parecia ser um pequeno regimento de soldados franceses e ingleses. - Necessito de um momento para me recompor.

 

- Ficarão deslumbrados convosco, Isabel. Sois como o sol que penetra numa escura tarde inglesa.

 

Isabel respirou fundo, como se quisesse recuperar a coragem que lhe faltava.

 

- Estou pronta - disse por fim, e Dudley fez sinal às sentinelas para que abrissem as portas, deixando a rainha avançar com passo majestoso. Ao seu encontro foram os embaixadores franceses e as suas elegantes damas, ataviadas com sedas reluzentes e saias de balão, e Isabel aceitou fazer-se conduzir pelos dois dignitários, um em cada braço: monsieur Mont Morency e monsieur de Vielleville. Aí, sob a obra-prima de HoIbein, um mural representando toda a família Tudor, Isabel começou a exercer o seu fascínio sobre todos os presentes. Dudley reparou que se havia colocado junto ao enorme e estranhamente fiel retrato de seu pai, com quem tanto se parecia, como que para fazer lembrar a todos que era de inquestionável linhagem real.

 

Isabel era uma mulher e uma rainha magnífica, pensou Robert Dudley, enquanto se dirigia a passos largos para os festejos da noite. Faria tudo o que estivesse ao seu alcance para garantir para si próprio não só o seu amor como também a esquiva coroa de rei consorte.

 

- Quando era princesa, estive dois meses prisioneira na Torre de Londres, juntamente com outros nobres acusados de conspirar para a deposição de minha irmã e para que eu ocupasse posteriormente o trono disse Isabel a Mont Morency e a de Vielleville, enquanto passeavam pelo jardim à luz dos archotes. - Certamente teria sido condenada à morte, se não tivesse sido a lealdade dos meus súbditos.

 

Aproximaram-se do enorme relógio de sol, colocado dentro de uma fonte, por sua vez rodeada por trinta e quatro colunas encimadas por animais dourados com o brasão dos Tudor. Decerto que a grandiosidade do jardim empalideceria, em comparação com muitos jardins de palácios franceses, mas Isabel estava decidida a impressioná-los para os convencer que era, mesmo com a sua juventude e feminilidade, um monarca tão poderoso como o havia sido o seu orgulhoso pai.

 

- Indica as horas de trinta maneiras diferentes - afirmou referindo-se ao relógio.

 

- Quase tantas como opiniões há acerca do caminho para a paz entre os nossos dois países - respondeu Vielleville com uma expressão cínica.

- Ah - suspirou Isabel, pensativa. - Quo homines, tot sententiae.

 

- Tendes razão, Majestade - aquiesceu Mont Morency. - Há tantas opiniões quantos são os homens... e as mulheres, segundo parece - acrescentou, com um respeitoso aceno de cabeça.

 

O som de uma dezena de trombetas veio avisar que o jantar estava servido.

 

- Vamos então, meus senhores?

 

- Tout à vous - responderam os embaixadores espontaneamente e em uníssono. Todos riram alegremente, com um bom humor que todos partilhavam naquele momento perfeito e, como que de propósito, um arco-íris de água colorida saltou das várias fontes.

 

Isabel conduziu os franceses em direcção a uma porta feita de rosas Tudor e folhagem. Ao abri-la, não pôde evitar uma exclamação de prazer, pois dava para uma vasta praça sob as enormes janelas da Galeria de Whitehall.

 

Tinham transformado o espaço num vale encantado. Iluminado por archotes e envolvido na mais suave das músicas para alaúde e virginal, as paredes estavam revestidas com brocados de ouro e prata e praticamente invisíveis sob as inúmeras flores recém-cortadas que as cobriam, bem como o tecto e o solo do pavilhão. Coroas e grinaldas de violetas, goivos, primaveras, botões-de-ouro, e narcisos em grande variedade e profusão, tudo rodeavam e enfeitavam, saindo de traves e arcos. Por detrás do toldo havia um enorme mural de minúsculas rosas, representando a rainha Isabel, montada sobre um alazão branco. Quando a rainha entrou, os seus escarpins afundaram-se num tapete de folhas de alfazema, hissopo e rainha dos prados. As múltiplas fragrâncias eram deliciosas e a rainha, que geralmente não apreciava perfumes fortes, mal conseguia respirar.

 

Fez uma pausa, ladeada pelos embaixadores franceses e todos juntos assistiram a uma improvisada farsa. Cada uma das damas francesas ocupava o espaço de três pessoas, devido à amplitude das suas saias. Assim e de bom grado, as damas inglesas, tinham-se sentado sobre almofadas e, comodamente instaladas, eram servidas, por entre risos, pelos cavalheiros ingleses e mostravam-se muito divertidas.

 

Num extremo do pavilhão, Isabel reparou que Robin Dudley observava de longe a sua fantástica criação, como se fosse um mestre-de-cerimónias. Era seu, de corpo e alma, o seu homem, o seu soldado. O seu leal servidor. O seu amo. Este último atributo produziu nela um calafrio e um rubor cor de morango cobriu-lhe as faces pálidas. De súbito, ele voltou-se e viu-a. Os seus olhos encontraram-se, como se encontram o falcão e a presa, no momento anterior ao ataque mortal, pois o amor que voava tão rapidamente de Isabel para Dudley e vice-versa era ardente e forte, como a morte perpetrada pela ave de rapina.

 

Imediatamente a rainha se viu rodeada por uma dúzia de cortesãos e damas que surgiram para a acompanhar até ao lugar de honra, sob um dossel de lilases, quase da cor do seu vestido, e nesse momento, foi-lhe ocultada a vista do seu bem-fadado. Não importa, pensou Isabel, sentando-se ladeada pelos embaixadores franceses, a noite é ainda uma criança e tratarei de a aproveitar.

 

A porta dos aposentos privados de Dudley abriu-se de rompante para revelar a lareira acesa. Isabel encapuçada numa capa de veludo, ficou na soleira a olhar para Robin que, com o seu gibão húmido de veludo azul, depois de uma noite de grandes danças, a esperava com um agradável sorriso no belo rosto. Desfaziam-se todas as dúvidas que sentia pelo ousado acto de vir aos seus aposentos.

 

- Depressa - murmurou ele, fazendo-a entrar. Retirou-lhe devagar o capuz e viu que Isabel observava os aposentos com uma expressão surpreendida.

 

- Será a modéstia dos meus aposentos que tanta surpresa vos causa, ou o facto de vos terdes atrevido a vir até eles?

 

- Foi o ter vindo até eles - respondeu sorrindo maliciosamente.

- Julgo que, esta noite, já tenhamos causado um grande escândalo disse, enquanto retirava a capa. - Era uma ocasião de Estado. Devíeis ter dançado com outros que não apenas comigo.

 

- E dancei! Dancei com os embaixadores. Uma vez com cada um deles. E também com lorde Cecil.

 

- Isabel!

 

- Ora, que me importa! Sois muito melhor dançarino e eu sou a rainha. Danço com quem me apraz. Além do mais foram apenas os ingleses que repararam - disse Isabel, entrando no quarto. - Os franceses não se escandalizam facilmente. Não haveis visto o modo como madame de Vielleville namorou o jovem lorde North?

 

Dudley riu-se ao recordá-lo.

 

- O pobre estava tão atordoado que não conseguia atinar com o passo.

- Ela é muito bela.

 

- Não é nada comparada convosco - uma expressão de ternura suavizou-lhe o olhar. Isabel viu-o, erguer a mão, com a palma para fora e notou que o coração lhe batia mais acelerado. Para outra, aquela palma não mais seria que uma mera saudação. Porém, para Isabel era um eco do passado, uma demonstração de amor infantil, metade de um semicírculo que apenas ela poderia completar.

 

Recordou o tempo em que se encontrava no bosque por trás de Hatfield Hall. Aí estavam ela e Robin, com apenas nove anos, vestidos para saírem, desgrenhados e cheios de calor devido ao exercício. Dois cavalos castanhos pastavam sossegadamente erva e musgo do chão, sob os ramos de um carvalho. Dudley era o mais pequeno dos dois, pois Isabel sempre fora uma criança alta. Porém o corpo do rapazinho era sólido e forte e movimentava-se com uma graciosidade pouco comum. Quando saíram de Hatfield, como muitas vezes faziam depois de terminadas as suas lições, correndo e saltando muros de pedra e sebes, Robin picou a montada com uma feroz insistência conseguindo que o animal desse saltos altíssimos e atingisse grandes velocidades. Isabel conseguiu o mesmo desempenho do seu cavalo, por força do amor e da vontade

 

Com um sorriso malicioso, as crianças em frente uma da outra, uniam as palmas das mãos - a esquerda de Robin com a direita de Isabel. Robin foi o primeiro a falar:

 

- Formamos ambos um campanário.

 

- Formamos ambos uma amêijoa - disse Isabel, soltando um risinho. A qualidade preferida do seu companheiro de folguedos era a capacidade que tinha de a fazer rir e inspirar acções travessas, talvez a única leviandade permitida na rígida vida real da jovem princesa. Imediatamente, Isabel reparou que a expressão do olhar do seu jovem amigo se tinha alterado. Deixara de ser maliciosa para se tornar séria. Os olhos vivos estavam agora fixos, parecendo observá-la com a mesma atenção com que, por vezes, se examina o interior de uma flor. E quando voltou a falar, também a sua voz parecia alterada.

 

- juntos - disse Robin, em voz baixa. - Somos uma oração.

 

A sensação que roçou a alma de Isabel era subtil como o toque de uma borboleta e sentiu agitar-se o seu coração de menina. Sem palavras para exprimir aquela ternura apertou mais a sua mão na dele. Ele imitou-a e o momento foi mágico. Isabel teve subitamente a sensação de pequenas partículas de poeira girando suspensas no ar quente, iluminadas pelo sol, que cintilava através dos ramos do carvalho. Ouviu o doce trinar dos pássaros tão belo que se comoveu e julgou que ia chorar Reparou no calor do corpo de Robin Dudley que lhe chegava através do gibão azul, envolvendo-a como um abraço. Também ele parecia assombrado por aquele momento estranho e maravilhoso.

 

Depois, como nenhum deles sabia como o interromper, a natureza tomou essa iniciativa. Um sopro de vento nos ramos enviou-lhes uma chuva de folhas que lhes picou as cabeças. Surpreendidos, os dois jovens separaram as mãos por entre risadas.

 

O feitiço quebrara-se.

 

- A que vamos brincar?

- Trouxe uns dados.

 

- Não me apetece jogar aos dados.

 

- Quereis apanhar um sapo para ver como é? - sugeriu, esperando da parte de Isabel um dramático suspiro de recusa. - Que vos parece o jogo da Rainha e do Cortesão?

 

- Robin! - exclamou Isabel.

 

- Que foi? Gostais do jogo e além do mais até o jogais muito bem.

- Pois gosto - admitiu Isabel. - Mas não o deveríamos jogar.

 

- E porque não?

 

- Porque pode ser... traiçoeiro.

 

- Apenas porque sois vós que o jogais - respondeu ele, em voz doce.

- Muito bem. Então...

 

Robin tomou entre os dedos um caracol que tinha escapado do interior da touca de Isabel e acariciou-o, para a arreliar.

 

- Não gostais do jogo porque desejais ser rainha e temeis que tal não aconteça.

 

- Não quero ser rainha! - protestou Isabel, sentindo-se corar. - O meu irmão é o herdeiro e adoro Eduardo!

 

- Perdão, Isabel, não quis ofender-vos. E não faz mal fingir, juro-vos que não.

 

Imediatamente, colocando um pé adiante do outro, Robin inclinou-se numa profunda reverência, com os braços abertos como as asas de um falcão. Ao erguer-se, juntou-os, agitando exageradamente as mãos, num gesto de obediência que arrancou uma gargalhada inesperada da garganta de Isabel.

 

- Majestade - proferiu num tom demasiado lúgubre para os seus nove anos.

 

Isabel colaborou no jogo.

 

- Sir Dinglebelly - respondeu com excessiva seriedade. Robin ergueu uma sobrancelha.

 

- Haveis-me, pois armado cavaleiro?

 

- Oh, sim. Não recordais a festa que dei em vossa honra? Toda a vossa família esteve presente. Vosso pai estava muito orgulhoso e vossos irmãos, cheios de inveja.

 

- Mas claro, como pude olvidar uma tão magnífica celebração? E não me haveis oferecido cinco casas, vinte mil carneiros e um armário com uma baixela de ouro?

 

- Haveis esquecido os cavalos’

 

- Nunca, Majestade! Um estábulo cheio. Fostes extremamente generosa comigo.

 

- Com efeito. E dizei-me, sir Robert o que me haveis trazido vós? Isabel, já plenamente concentrada no seu papel, voltou-se com imperiosos ademanes, distanciando-se do amigo. - Sabeis que, além de lisonja, a vossa rainha exige presentes. Tesouros ricos. Fortunas. Livros raros. jóias. Animais exóticos.

 

- Como o papagaio verde que vos ofereci a semana passada?

 

- Elogia as minhas virtudes com toda a esperteza - replicou Isabel delineando a história num complicado enredo, caminhando sob os ramos com a altivez de quem percorre as salas de um palácio. - ”Deus salve a rainha Bess” - grasnou a jovem, na voz do papagaio imaginário. - ”Sois a mais bela das rosas Tudor e o vosso perfume é mais doce, mais doce, mais doce, aarrgh, aarrrgh!” - depois retomou a sua própria voz. - Mas isso foi a semana passada. Onde está a oferta desta semana? - inquiriu petulante.

 

O rapazinho pegou na mão de Isabel e abriu-lhe os dedos. Colocou-lhe na palma um pequeno objecto. Era uma pedra, vulgar, negra e macia, mas um milagre de forma. Embora fosse obviamente natural e não tivesse sido talhada, tratava-se de um perfeito coração desenhado pela natureza. Abandonando todo o fingimento do jogo, Isabel contemplou a perfeição do objecto e o significado do presente. Pela segunda vez, naquela tarde, encontrou-se sem palavras para responder.

 

Também Robert Dudley abandonara o jogo da Rainha e do Cortesão.

- Gostais? - perguntou emocionado.

 

- Gosto muito, onde o haveis encontrado?

- É um segredo meu.

 

- Então! Dizei-me. É espantoso. Tenho de saber, Robin!

 

- Não vos digo - declarou, erguendo o queixo, num gesto determinado.

 

- Deveis dizer-mo. A rainha exige que o façais - anunciou Isabel em tom altivo.

 

Robin. pensou uns momentos antes de retomar o fio da fantasia.

- Às vossas ordens, Majestade. Os vossos desejos são ordens. Mas primeiro dizei-me: não recebo um beijo, em troca do que vos trouxe?

 

- Não, não recebeis um beijo! - exclamou Isabel fingindo-se ultrajada.

 

De súbito, num gesto esplendidamente teatral, Robin prostrou-se no chão, aos pés de Isabel e começou a beijar-lhe a fímbria de veludo do vestido.

 

- Oh. Majestade! Majestade! Deixai que vos beije a orla do Vestido, os pés, o saiote, os tornozelos!

 

Isabel soltou uma gargalhadinha, quando Robin lhe ergueu a saia até aos joelhos, continuando a enumerar em tom de jocosa cortesia, as várias partes do vestuário e da anatomia de Isabel que poderia beijar. Esta ria às gargalhadas, até as lágrimas lhe correrem pelas faces e ambos tiveram de se agarrar aos respectivos estômagos para recuperar o fôlego.

 

- Vamos cavalgar um pouco - sugeriu Robin, quando o conseguiu.

 

- Onde vamos? - perguntou Isabel, aguardando uma resposta que se transformasse num fecho oportuno para aquele momento intemporal.

 

O jovem olhou-lhe os olhos cor de âmbar e apercebeu-se do desafio lançado por aquela pálida jovem. E como a conhecia tão bem e já então amava, replicou com a energia de um aventureiro, de um pirata de um rei.

 

- Ao futuro - exclamou. - Vamos cavalgar até ao futuro!

 

E de facto assim fora, pensou Isabel, sorrindo, enquanto deixava voar o pensamento, como um grande pássaro invisível, através do tempo, para a fazer de novo poisar nos aposentos aquecidos de Robin. Ali, diante dela, estava o mesmo belo jovem, de gibão azul, com a palma da mão erguida.

 

- juntos somos uma oração - murmurou, ele retribuindo-lhe o sorriso. Lentamente, ela uniu a sua mão à dele. Sim, pensou Isabel, era ainda o mesmo jovem que conseguia diverti-la e fazê-la rir às gargalhadas. O mesmo rapaz leal e que, antes de ela ter qualquer esperança de chegar ao trono, vendera parte das suas propriedades para lhe pagar as dívidas. O homem corajoso que ousara rebelar-se contra a sua irmã Maria e que fora para ela uma rocha durante os tempos terríveis em que tinham estado prisioneiros na Torre. Também, pensou Isabel, tinha sido o único a conseguir percorrer o complicado labirinto que levava ao seu coração.

 

Os olhos dela caíram sobre um grupo de miniaturas, dispostas numa mesa. Aproximou-se para as ver melhor.

 

- A vossa família - disse em voz baixa. - Todos os Dudleys, excepto Robin e o irmão Ambrose, tinham já falecido. - Ergueu uma das molduras douradas, onde estava retratado um homem, de olhar pesado, com cerca de quarenta anos.

 

- O meu avô Edraunci - disse Dudley espreitando sobre o ombro de Isabel. - Leal servidor e instrumento do rei Henrique VII.

 

- Meu avô... - a voz de Isabel calou-se por instantes, recordando histórias que ouvira cerca do primeiro rei Tudor, que tomara à força o trono de Inglaterra. O primeiro rei inglês que se apercebera que o dinheiro significava poder. E aquele homem, cujo retrato segurava na mão, Edimund Dudley fora o instrumento desse rei, para obter a sua enorme fortuna.

 

- Ouvi dizer - prosseguiu Isabel - que Edimund Dudley usava métodos, digamos que pouco edificantes, para enriquecer a coroa.

 

- A extorsão é geralmente um método pouco edificante - concordou Robin, com um sorriso malicioso. - E mostrava uma certa tendência para enriquecer ao mesmo tempo os seus cofres particulares.

 

- Não despertava muitas simpatias? - foi a pergunta, até certo ponto retórica de Isabel.

 

- Falemos antes de desprezo. De facto, muitas vezes foi comparado a um lobo voraz.

 

- Havei-lo conhecido? - perguntou Isabel.

 

- Não tive oportunidade - Dudley inclinou-se como que fazendo menção de limpar com o dedo o pó das miniaturas. Porém Isabel percebeu que o gesto fora um pretexto para ocultar o profundo desconforto de um homem que habitualmente se sentia à vontade.

 

- Porque meu pai o mandou executar - sugeriu Isabel.

 

O leve descer de ombros de Dudley mostrou-lhe que tinha acertado.

- Seria normal que Henrique se sentisse agradecido. Herdou quatro milhões de libras, depois da morte do pai, e essa quantia foi quase toda obtida... pelo meu avô.

 

- Foi no princípio do reinado de meu pai. Queria desesperadamente que o povo o amasse - Isabel engoliu em seco, por estar a defender um comportamento criminoso do seu progenitor, sentindo, ao mesmo tempo, alguma compreensão pelos dilemas que um novo monarca tem de enfrentar. - Julgo que decidiu ceder à pressão popular.

 

- Mas chamar-lhe traição...

 

- Não foi justo, Robin. Mas também sabeis que meu pai não era exactamente conhecido pela sua justeza - Isabel, poisou o retrato de Edimund Dudley e pegou noutra miniatura, esta dentro de uma moldura enfeitada com pequenas pérolas.

 

- Julgo que vos pareceis muito a vosso pai.

 

- Outro traidor à coroa - disse Dudley com amargura. Isabel acariciou-lhe a face com as costas da mão.

 

- Os Tudor e os Dudley. Estamos intimamente ligados uns com os outros. Intimamente ligados.

 

De súbito era a vez de Isabel se sentir pouco à vontade. Afastou o pensamento do espírito, o pensamento que Kat lá tinha insidiosamente plantado, que Robin Dudley descendia de uma longa linhagem de traidores, que tinha ”sangue ruim” nas veias. Voltou-se e poisou de novo na mesa a miniatura de John Dudley.

 

- Gostais então da minha pequena galeria familiar? - perguntou Dudley passando para o lado de Isabel onde se manteve, mas sem lhe tocar. Entre eles havia uma longa corrente de silêncio.

 

- Gosto - respondeu. - Mas, onde está vossa mãe?

 

- Minha mãe era demasiado modesta para posar para um retrato declarou, enquanto Isabel se dirigia à lareira para aquecer as mãos. Dudley ficou imóvel. Havia uma carta aberta sobre a chaminé e os olhos da rainha poisavam já no seu conteúdo íntimo.

 

- ”Meu muito amado esposo...” - leu em voz alta e voltou-se para ele, dirigindo-lhe um olhar de desafio. - Pelo que vejo trocais correspondência com Amy, coitada que está tão afastada da corte.

 

Dudley pôde ver no rosto de Isabel uma tempestade de emoções em conflito. Desejava ardentemente responder de um modo que agradasse à rainha.

 

- Trata dos assuntos de casa, como é próprio das boas esposas e mantêm-me informado de tudo - replicou por fim.

 

- Assuntos de casa, é isso? - Isabel pegou na carta e levou-a até junto do lume para melhor a ler, sabendo que estava a praticar um acto cruel e infantil e sabendo que Robin se sentiria muito incomodado a cada palavra.

 

- ...”Tal como me pedistes apressei-me a vender a lã recém-tosquiada, embora com um lucro um pouco menor, mas não poderia ser de outro modo para poderdes amortizar a dívida que tanto desejais pagar.”

 

Isabel pareceu ficar mais aliviada e, com algum arrependimento colocou de novo a carta sobre a chaminé.

 

- Precisais de dinheiro? Vou tratar de tudo para que possais dispor daquilo que necessitais.

 

- Não quero o vosso dinheiro. Quero-vos, Isabel - estendeu a mão porém ela afastou-se antes que ele lhe pudesse tocar.

 

- Então, Robin, sois completamente louco. Se vos ofereço títulos, propriedades, ouro, deveis aceitá-los e prosperar. Sou a rainha. Afinal não posso ver-me rodeada de pobres.

 

Robin apercebeu-se de que a doçura do momento se esgotava inexoravelmente como a areia de uma ampulheta.

 

- Então ela está bem? Estou a referir-me a Amy - a rainha estava muito séria e tocou numa veia que lhe latejava, cor de púrpura, sob a alvura da sua pele.

 

- Porque fazeis isto, Isabel?

- Ela está bem?

 

- Não muito. Tem um tumor num seio.

 

Parecia que uma mão invisível tinha esbofeteado a rainha. Abandonou toda a arrogância. Olhou de frente para Robert Dudley e perguntou-se com um olhar de criança culpada:

 

- Será muito mau? Conheci uma senhora, lady Windham que morreu desse mal. Foi horrível.

 

- Não, meu amor - e Dudley passou o braço em redor da cintura de Isabel. - Não está a morrer - e perguntou a si mesmo se seria razão para se sentirem felizes ou infelizes.

 

- Oh, Robin, porque haveremos de padecer tanto nesta vida?

 

- Sabeis bem qual a resposta. Porém a razão da nossa tristeza é, ao mesmo tempo, a resposta para os nossos piores cuidados. É vossa a coroa de Inglaterra. A vossa responsabilidade é completa e o vosso poder sem limites. Podeis fazer tudo, como vos aprouver. Podeis enaltecer-me ou rebaixar-me. Podeis fazer de mim rei ou mandar-me executar em Tower Green. Sou vosso servo, Isabel, e o meu destino está nas vossas mãos.

 

Dudley soltou a rainha e voltou-se para esconder dela a sua expressão ferida. Apesar dos seus ares e das intimidades que tinha com a mulher mais poderosa do mundo, sentia-se profundamente humilhado pela verdade que as suas palavras continham.

 

- Robin, de repente senti-me cansada. Perdoais-me se eu não ficar?

- Perdoar-vos, Majestade? - Dudley soltou uma pequena gargalhada e, voltando-se para ela executou uma perfeita vénia de cortesão. Mesmo que me enviásseis para o inferno por toda a eternidade, perdoar-vos-ia, Isabel. Porém, não permito que partais esta noite sem um beijo.

 

Ela correu para ele como uma borboleta em direcção à luz. Enquanto Dudley a estreitava nos braços, sentiram-se ambos alheados da culpa, do medo e da dor e aquele momento foi iluminado pelo brilho do mais puro desejo e do amor mais terno. já não era rainha, nem ele o seu servo.

 

1 de junho de 1527 Diário,

 

Hoje sinto-me muito feliz, pois Henrique já tomou medidas que, por fim, permitem que nos casemos. O cardeal Wolsey concebeu o astuto plano de chamar Henrique a depor como réu perante um tribunal eclesiástico, de modo a poder provar a ilegalidade do seu casamento com Catarina. Não parece ser lógico? Deixai que vos explique, tal como ele o fez, durante a visita desta noite.

 

Em primeiro lugar, Wolsey sabia que o rei desejava obter a separação legal da rainha, mas Henrique não foi totalmente sincero com o cardeal, pois este ainda pensa que o rei deseja casar-se não comigo mas com Renée, a princesa francesa. Assim Wolsey, como legado papal que é (isto significa que age independentemente, sob as ordens de Roma, para vigiar as virtudes das almas de Inglaterra) convocou hoje em York um tribunal secreto, composto por sábios e clérigos respeitados para decidir o destino do rei. Evidentemente que esses clérigos foram cuidadosamente escolhidos, encontrando-se entre eles William Warham, arcebispo de Cantuária, cuja opinião pôs em causa, há muitos anos, a legitimidade da dispensa papal que permitiu a Henrique desposar a viúva de Artur. Henrique diz que, em breve Wolsey ditará a sentença de divórcio e que depois o Papa em Roma, assinará essa inteligente decisão.

 

Contudo, ainda mais importante é o segredo dessa convenção. Se Catarina tiver conhecimento dela, irá seguramente queixar-se ao imperador Carlos e ao próprio Papa. Mas Henrique disse que tudo estava a decorrer com discrição, que todos os participantes chegam, de barco ou barcaça, ao molhe da residência de Wolsey e que os prelados se retiram para um aposento do castelo, sem qualquer pompa ou circunstância.

 

O Papa tem Henrique por amigo e campeão, desde os primeiros tempos em que o príncipe inglês travou uma acalorada batalha contra Lutero. (Uma pequena divagação... nunca contei a Henrique a minha simpatia pelas ideias protestantes e não julgo prudente fazê-lo agora. Não serve a nossa causa actual. Mas um dia, quando formos marido e mulher, ligados pelo amor pelos laços de muitos filhos, então direi o que penso...) Henrique sente pelo Papa grande respeito e é certamente o rei mais fervorosamente católico de toda a cristandade. E apesar do seu plano estar astuciosamente delineado e dele resultarem benefícios materiais, Henrique (sempre citando o Levítico) acredita piamente estar sob a protecção divina.

 

Wolsey goza de grande estima e consideração da parte de Henrique, pela sua participação neste tribunal eclesiástico, pois em lugar de apresentar o rei como um homem que se quer ver livre da esposa, leva Henrique a defender-se da acusação, feita pelo tribunal, de que ele e Catarina infringiram o direito canónico e viviam em pecado. Quando a bula papal que lhes permitiu coabitarem como marido e mulher fora apresentada para justificar as suas acções, o cardeal e os seus homens correrão a demonstrar o seu erro inocente, porém gravoso e de onde resultará uma rápida anulação.

 

Esta noite Henrique estava muito feliz, embora cansado. Tem confiança que a anulação chegue rapidamente para que possamos ser finalmente um só. Rezo do fundo do coração que tal aconteça e que eu possa dar um filho ao rei.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

21 de junho de 1527 Diário,

 

A esperança transformou-se em horror, a alegria em pranto, pois a loucura apoderou-se de Roma. Os alemães e alguns mercenários espanhóis do exército imperial saquearam a cidade santa, provocando um massacre sangrento. Mutilaram, assassinaram, roubaram os tesouros de todas as igrejas. Andaram de porta em porta, torturando e matando padres e cardeais, violando e decapitando freiras. Cometeram atrocidades inconcebíveis: profanaram relíquias dos santos, destruíram altares sagrados. O Vaticano transformou-se num estábulo ensanguentado. O papa Clemente esconde-se agora na outra margem do Tibre, na Fortaleza de Santo Ângelo.

 

E é exactamente aí que reside o problema. Embora lamente a humanidade, prevalecem os meus pensamentos egoístas. O tribunal de Wolsey que deve decidir acerca do casamento do rei Henrique necessita da confirmação do Santo Padre para ter legalidade. Mas sendo este prisioneiro do imperador, não se atreve a desafiar a ira do sobrinho de Catarina, com tal dispensa que transformaria aquele casamento numa farsa, transformando-a a ela numa rameira real e a princesa numa elegante bastarda.

 

Assim, recusando-se a admitir o fracasso, Wolsey reuniu o tribunal secreto (que já não era secreto para ninguém - Catarina teve imediatamente conhecimento dele) e depois partiu com grande pompa para França, onde espera conseguir um pacto, para entrar em guerra com Espanha e auxiliar o Papa, libertando-o, se possível. Porém, tanto eu como Henrique suspeitamos que Wolsey espera que a missão não tenha êxito, para que possa alcançar o papado para si próprio.

 

Assisti ao lado de Henrique à passagem da enorme comitiva que acompanhava Wolsey. Dezenas de homens com trajes de veludo negro, emblemas eclesiásticos e o Grande Selo de Inglaterra saíram os portões de Westminster.

 

- O cardeal prometeu-me retomar o processo assim que se restabeleça a paz - disse-me nessa ocasião. - Julgais que me mentiu, Ana?

 

- Lembrai-vos que é um homem ambicioso - respondi. - Teremos de enfrentar o mundo sozinhos, vós e eu. Enquanto Wolsey estiver ausente em França devemos proceder independentemente.

 

O rei tomou a minha mão e levou-a ao coração que batia acelerado.

 

- Devo enfrentar Catarina. É necessário que rompa com ela e deixemos de viver como marido e mulher.

 

- Sim, deveis fazê-lo - disse eu, colocando-lhe a mão sobre o meu seio. Ele corou e beijou-me apaixonadamente. - Ide amanhã murmurei-lhe ao ouvido.

 

Assim fará, levando-lhe a notícia do fim do casamento. E eu, terei de me preparar para não sentir compaixão por ela, de contrário não mais poderei viver comigo própria.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

6 de Agosto de 1527 Diário,

 

Vim passar os meses de Verão ao Castelo de Hever, enquanto o rei caça com os seus homens. Quando o meu irmão George se separou deles para me vir visitar, fiquei a saber que estava equivocada ao pensar que Henrique e eu éramos as únicas pessoas a desejar o nosso casamento. O caso é que vários membros da minha família - meu pai, meu tio, o duque de Norfolk, meu irmão - se mantêm ao lado de Sua Majestade, intrigando, maquinando, apresentando planos em meu nome (e portanto no próprio). De facto, as suas fortunas têm prosperado, pois são considerados futuros parentes do rei. Henrique deu-lhes terras, títulos e maior proximidade no contacto pessoal. Como uma família de aranhas, tecem a sua teia em redor do rei, atraindo-o com os seus fios brilhantes, caçando a presa para alimentar os seus apetites. Não me agrada esta atitude da minha família mas, por enquanto, não tenho outro remédio. Embora seja eu a governar o coração de Henrique, ainda são os homens que governam o mundo.

 

George trouxe-me notícias de Wolsey que ainda se encontra em França. O porco de chapéu vermelho, como George lhe chama, concentra os esforços em benefício próprio, tentando formar um governo papal no exílio, na cidade de Avinhão. Outorgando a si próprio o título de salvador da Igreja, quer actuar como Papa durante o cativeiro de Clemente. Porém, o plano necessita do apoio de Henrique; este preferiu enviar uma carta directamente ao Papa, solicitando-lhe nada mais que uma autorização para cometer bigamia. Wolsey conseguiu interceptá-la. George disse-me que Wolsey sabe já que o objecto dos desejos do rei sou eu e não a princesa Renée. Ficou furioso, mas está principalmente aterrorizado. Aterrorizado e impotente.

 

George viu a carta que o cardeal Wolsey escreveu ao rei. Nela, implorava-lhe que retirasse o documento e apresentava os seus protestos de que nada mais desejava para além de levar a bom termo o ”assunto secreto” de Henrique. Assinava ”com a mão rude e trémula do vosso mais humilde servo e capelão, T. Carlis Ebor”. Com que então, T. Carlis Ebor! Idiota Gordo. Espero que se afogue nessas suas melífluas palavras.

 

Mais tarde, George mostrou-me uma bolsa de veludo de onde retirou um documento enrolado e lacrado, com o selo escarlate de Henrique. Era uma segunda missiva para o reitor da igreja de Hever, John Barlow, que goza da nossa absoluta confiança, levar ao Papa, ainda retido em Santo Ângelo. George disse-me que não podia abri-la, mas eu desejava ver o conteúdo do documento que certamente tratava do meu casamento com Henrique. Insisti e ameacei George e, na noite anterior à carta chegar às mãos de Barlow, o meu irmão e eu descemos a escada do castelo, até à cozinha escura, agora deserta, com excepção dos ratos. Pusemos uma panela de água a ferver e, com todo o cuidado abrimos a carta com o vapor. Depois, à luz trémula de uma vela lemos o plano concebido pelo Rei e por aqueles que desejam ver-me rainha.

 

Não se mencionava o meu nome, porém a intenção era clara: que o Papa concedesse autorização a Henrique para se casar com uma mulher com quem poderia estar relacionado por uma afinidade de primeiro grau. George deduziu que se tratava de uma alusão à intimidade de Henrique com a nossa irmã Mary. Perguntei a George se achava prudente, pois a relação familiar de Henrique com o irmão Artur fora o pretexto para a anulação do seu casamento. George não me quis dar a sua opinião, apenas insistiu para que terminasse rapidamente a leitura do documento.

 

Seguia-se a questão de Henrique ter ou não o direito de se casar com uma mulher que pudesse anteriormente ter contraído matrimónio (embora sem que este fosse consumado). Referia-se evidentemente a mim e a Henry Percy. Julguei prudente aquela cláusula, pois haveria quem se servisse desse contrato de juventude para se opor ao casamento real. Dominei-me para não pensar no meu doce Percy e no nosso triste destino. Já faz parte do passado. E agora, apenas o futuro interessa.

 

Lemos a parte final da missiva. Não sabia se haveria de rir ou chorar e George estava simplesmente chocado. Permitiria que o rei se casasse com uma pessoa com quem já tinha mantido intimidades!

 

- Esta última cláusula é perfeitamente desnecessária - exclamei e comecei selar o documento. George olhou-me com uma interrogação maliciosa no olhar.

 

- Escuta-me bem, meu irmão. Não sou amante do rei e nunca serei outra coisa senão a rainha. Não me deito com ele, sem primeiro ter a coroa na cabeça e nada me fará mudar de opinião.

 

- E eu que pensava que o nosso pai era a pessoa mais dura desta família - respondeu ele. Depois, com a vela na mão, conduziu-me pela escada de caracol até ao quarto. - Espantas-me, minha doce irmãzinha.

 

E na verdade, querido Diário, também me sinto desconcertada comigo própria.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

22 de Novembro de 1527 Diário,

 

Foi hoje o dia da doce vingança! Passaram duas semanas desde que a corte se mudou para o Palácio de Richmond e eu, o único objecto dos desejos do rei, mudei-me também. Aqui, Henrique goza da minha presença e mantém-me junto a si como se eu fosse um apêndice necessário. Fala livremente com os seus conselheiros na minha presença, embora não me consulte acerca dos assuntos de estado, mas apenas nas questões do divórcio, casamento e sucessão ao trono.

 

Chegaram-nos notícias de Wolsey e da sua missão no estrangeiro que evidenciam que os seus esforços têm sido em vão. Não se conseguiu uma nova sede papal em Avinhão, nem a paz, nem ajuda para o divórcio.

 

Wolsey teve conhecimento da nossa missiva ao Papa e, sem dúvida, se sentiu traído. E, também preocupado pela possibilidade de meu pai sussurrar ao ouvido do rei acusações maliciosas contra ele, o cardeal apressou-se a regressar de França. Voltou debilitado e de mãos vazias e depois de cavalgar directamente de Dover até ao palácio de Richmond, enviou um mensageiro a Henrique, perguntando se e quando o rei o poderia receber.

 

Encontrava-me com Sua Majestade, quando o homem do cardeal veio pedir instruções, sabendo perfeitamente que o Rei o receberia em privado, como sempre fazia. Antes que terminasse de falar, recordei-me de traições passadas e da cruel tomada de posição de Wolse em relação ao meu caso com Percy. Lembrei-me que me considerara ”uma menina tola que andava pela corte”. Agora era ele o tolo e, por isso, falei antes do rei poder dizer o que quer que fosse e respondi à pergunta do mensageiro com ar altivo e imponente: ”Onde haveria o cardeal de ir, senão aqui, onde está o rei?”

 

O homem ficou assombrado com a minha audácia e olhou para Henrique em busca de uma resposta mais oportuna. Porém Henrique deve ter considerado inteligente a minha ou estava ele próprio enfadado com T. Carlis Ebor e respondeu: ”Fazei conforme disse a senhora.”

 

O mensageiro empalideceu ao ouvir estas palavras, apercebendo-se certamente de qual seria a sua próxima tarefa - fazer chegar o recado a Wolsey. Diz-se que a ira recai sempre sobre a cabeça do mensageiro, portador de más notícias. Assim, indisposto Só de pensar que assim seria, deu meia volta e partiu.

 

Henrique nada me disse e também não me pediu que saísse quando Wolsey se apresentasse. Quando por fim o cardeal apareceu, ainda coberto do pó da viagem e sem muita dignidade, ajoelhou-se diante do rei e, como eu estava a seu lado - ajoelhou diante de mim. Tinha as faces ruborizadas, os olhos Postos no chão e a voz embargada pela raiva e pelo medo.

 

Ergueu-se por fim e falaram de muitas coisas, mas juro que não consegui ouvir tudo, pois dentro da minha cabeça, repicavam alegremente os sinos. O homem de vermelho fora suplantado por uma jovem e castigado pelos seus actos cruéis contra ela.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

16 de Janeiro de 1528 Diário,

 

Como é estranho continuar a ser aia da rainha Catarina. Entre ela e o rei prevalecem regras de convencionalismo e civilidade, apesar de um dia eu poder usurpar-lhe o lugar. Quando olho para ela, vejo-lhe os olhos brilhantes de coragem para continuar a lutar, as narinas frementes, a boca dura e resoluta e não posso evitar que me percorra um arrepio. Tenho de admitir que me falta a confiança de Henrique de que Catarina se renda à sua vontade. Diz que a conhece bem, contudo ela não mostra qualquer sinal de fraqueza.

 

Por vezes, à noite, convida-me para jogar às cartas, com ela e com outras damas. Chego a imaginar que estas solicitações sejam o pretexto para me vigiar e afastar de Henrique. Ontem à noite, Catarina e eu sentámo-nos à mesa. Vi que os seus olhos caíam sobre as minhas mãos e que observava o meu sexto dedo, impossível de esconder. A princípio aquilo aborreceu-me, mas logo a seguir resolvi ser mais ousada. Usei a mão com maior frequência, com gestos graciosos e floreados que punham em evidência a minha anormalidade, enquanto as outras damas ocultavam sorrisos provocados pela minha audácia. A rainha manteve-se fria e em silêncio. O jogo continuou e, mais tarde, recebi uma carta valiosa... o Rei de Copas. A envenenada carta estava entre nós, sobre a mesa, com um monarca pintado em cores alegres, deitado de costas. Ninguém se mexeu. Ninguém falou. O ar estava impregnado de ciúmes - os dela, pelo meu futuro, os meus pelo seu passado. Por fim, a rainha quebrou o silêncio e falou com o seu marcado sotaque espanhol, cheio de amargura:

 

- Minha senhora Ana, haveis tido sorte por vos ter calhado um rei. Mas não sois como as outras. Tereis tudo... ou nada.

 

Depois, colocou as suas cartas sobre o rei... e saiu. Senti gelar-se-me o coração dentro do peito. Naquele momento compreendi o que significava ter como inimiga uma grande rainha, com gerações de sangue real a correr-lhe nas veias. Não importava que me casasse com um rei, mesmo quando tivesse a coroa sobre a minha cabeça nunca seria dona da sua majestade, da sua segurança e superioridade.

 

Que tenho eu, então? O amor de Henrique? A ambição da minha família? A promessa de uma freira meia louca? Mas, verdade seja dita, o que me conduz para um destino desconhecido é o meu desejo de conseguir mais do que o que a vida me ofereceu até aqui. Catarina tem razão. Tive a sorte de que me saísse um rei, mas com esta única carta vou apostar num jogo grande e perigoso e ganhar tudo... ou ficar sem nada.

 

Afectuosamente vossa, An

 

29 de Março de 1528 Diário,

 

Desde o seu regresso que o humilhado cardeal tem envidado os maiores esforços para que eu me case com o rei. Meu pai, vangloriando-se da sua participação no caso, chamou-me à parte para me dar conselhos e eu fiz um esforço para me calar e escutei-o. Disse-me que me seria vantajoso tornar-me amiga do cardeal. ”O teu destino está ainda nas suas mãos”, afirmou. Dizia-se que o Papa fugira de Roma e procurara asilo na cidade de Orvieto que, assolada pela peste, era um local fora do alcance dos soldados do imperador. Era de lá que Wolsey esperava uma resposta complacente com as suas súplicas.

 

Enquanto o meu pai me falava de intrigas e planos apercebi-me que o fazia como a um igual e não na sua filha mais nova. juro que, nesse momento, qualquer coisa se agitou dentro de mim, uma força que crescia à medida que ele falava. Senti a alma enorme, imóvel e aberta com um campo iluminado pelo sol. Senti-me satisfeita, magnânima. Assim, agradeci a meu pai os seus bons conselhos e prometi-lhe que, de futuro, mostraria algum respeito e amizade pelo velho Wolsey e pelo papel que desempenha neste assunto.

 

Assim fiz. Ele e Henrique trouxeram agora mais dois cavalheiros para o serviço da nossa causa, o doutor Edward Fox e o doutor Stephen Gardiner que, a caminho de Orvieto com cartas para o Papa, vieram apresentar-me os seus respeitos e declarar o grande afã dos seus senhores por uma rápida conclusão do caso. Trouxeram-me um recado de Henrique a dizer que deveríamos conseguir o nosso objectivo, o que, para além de tudo o mais, traria mais sossego ao seu coração e paz ao meu espírito.

 

Mostraram-me depois uma segunda missiva. Tratava-se de uma lista de todas as minhas virtudes, compilada por Wolsey e pelo rei e que deveria ser lida em voz alta pelos emissários Fox e Gardiner ao Papa. Sorri perante aquela obra-prima de lisonja e, por fim, tive mesmo de soltar uma gargalhada, pois diz que sou uma donzela sensata e dócil, pura e virginal. Sou sábia, bela, tenho sangue nobre, sou educada e capaz de fazer nascer filhos saudáveis.

 

Com o fim de fortalecer as suas esperanças em Clemente, Henrique enviou um arauto à cidade de Burgos, para declarar guerra ao imperador. Era apenas uma ameaça sem sentido, pois nunca entraria em guerra contra a França e a Flandres, já que perderia desse modo os seus mercados de lã. Todavia, Henrique sabia que os franceses avançavam rapidamente pela Itália e, em breve, os seus soldados libertariam o país e também o Santo Padre.

 

Ficámos então à espera. Lá fora, os dias de Inverno são escuros e gelados. Mas aqui, dentro dos muros do castelo, sinto-me abrigada pela capa protectora que é o amor de Henrique. Sinto muita esperança e até felicidade. O rei é quase casto quando me abraça, tão convencido está do seu êxito, de que em breve se casará comigo e me levará para a cama. Mas quem mais me surpreende é o cardeal. Todas as segundas-feiras à noite, quando a corte se encontra em Londres, Wolsey recebe-nos faustosamente. Dá grandes festas e solenes banquetes nas suas residências de York e Hampton Court. Ceamos numa baixela de ouro, dançamos, representamos e divertimo-nos, por vezes até ao amanhecer.

 

Tendo em consideração as suas amabilidades, enviei-lhe recentemente uma carta para lhe agradecer o que tem feito por mim e prometer-lhe outras recompensas quando for rainha. Enquanto escrevia essas palavras elogiosas a seu respeito, tive de me deter para reflectir, pois há muito pouco tempo só lhe desejava mal ou até mesmo a morte. Serei uma pessoa com duas caras, hipócrita por conveniência? Ou será sincero, aquilo que escrevi? Estou extremamente confundida com tudo isto. Acredito que as pessoas mudem. Mas quem será que mudou? O cardeal parece-me sincero. E mesmo que os seus motivos sejam impuros (respeita o rei e receia a sua ira) as suas acções são um facto. Se, por meio de maquinações, me fizer rainha, devo dizer que não gosto dele porque sei que não gosta de mim? Julgo que não. Pelo menos por agora, que esperamos novas de Itália, considero-o meu amigo.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

3 de Maio de 1528 Diário,

 

Depois de enfrentarem as tempestades no mar e os rios fora do leito, os doutores Fox e Gardiner chegaram finalmente a Orvieto e ao Papa. As várias cartas entregues por Clemente deixaram-nos cheios de esperança. O Santo Padre, mesmo encontrando-se em deploráveis condições, nos seus exíguos aposentos de expatriado, prometeu aceder às nossas solicitações. Primeiro: o julgamento para determinar a validade do casamento de Catarina e Henrique deve realizar-se em solo inglês. O Papa deverá enviar o cardeal Campeggio, um juiz reconhecidamente imparcial, para participar no caso, juntamente com Wolsey. Segundo: que depois destes prelados terem dado o seu parecer, este não seja passível de apelo, nem sequer pela Cúria Romana.

 

As cartas dos emissários expunham a intenção de Clemente se manter do lado de Henrique, mesmo contra a vontade do imperador, o que nos encheu a todos de alegria. Durante toda a Primavera esperámos com ansiedade esses documentos. Entretanto o cardeal Wolsey continuou a conferir favores à nossa família: pôs fim à antiga disputa das terras de Piers Butler, conferindo a meu pai não só mais propriedades como também o título de conde de Ormond, distinção que me converte em filha de nobre.

 

Durante esta espera, algumas pessoas adoeceram em Greenwich, vítimas de varíola, o que levou Henrique a querer mudar-me para uns aposentos sobranceiros ao pátio, para maior segurança. Embora nunca tivessem sido usados como quartos de dormir, eram muito alegres - tinham enormes janelas sobre o pátio e eram muito soalheiros. O mais importante era a privacidade, pois Henrique podia vir sempre que lhe aprouvesse e passámos algumas tardes muito divertidas. Escrevia-me canções que cantávamos acompanhadas à flauta a ao virginal. Falou-me de batalhas, do choque das espadas e das armaduras, dos seus homens e da coragem que todos eles demonstravam. É estranho, mas quando fala dessas coisas, parece mais um rapazinho que um rei. Vi nele uma centelha de bondade humana que muito me agradou e me deu a certeza, que este homem, que combate como um soldado, me fará feliz quando nos casarmos. E assim, continuámos à espera dos documentos.

 

Ontem, porém, quando o sol se derramava em luz doirada, vi à entrada dos meus aposentos um homem que quase não reconheci. Era o doutor Fox, salpicado de lama e cansado, tendo cavalgado noite e dia depois da travessia de Calais, na sua pressa de nos fazer chegar as notícias do Papa. Trazia consigo documentos assinados por Clemente que nos davam autorização para reunir o tribunal em Inglaterra! Mandei que lhe servissem vinho, carne e pão e sentei-o junto ao lume. Depois Henrique chegou e, enquanto comia, o enviado referiu toda a argúcia e hábeis manobras do doutor Gardiner junto do Papa, para obter um resultado frutífero. Tinha travado uma terrível batalha contra as fortes objecções de Clemente, opondo-lhes ameaças e lisonja. Por fim, lacrimejante, o Sumo Pontífice cedera, depois do aviso de que o seu fiel monarca inglês lhe retiraria o apoio.

 

Não assinara o segundo documento, aquele que prometia não poder haver apelo da decisão do tribunal, porém deu a sua palavra verbal. Era causa suficiente para uma comemoração. Henrique beijou-me, abraçou-me, levantou-me no ar como se eu fora uma criança e depois abraçou também o doutor Fox, prosseguindo com as suas demonstrações de alegria.

 

Nessa noite, já tarde, depois da partida do doutor Fox, Henrique e eu ficámos abraçados. Beijou-me o rosto, o pescoço, os ombros nus. Com o casamento tão próximo senti que a minha castidade fraquejava, devido à sensação de calor entre as minhas pernas quando o seu corpo se chegou ao meu. Abrindo o corpete à sua boca ávida, encontrou os meus seios com os mamilos duros. ”Vou possuir-vos, Ana, vou possuir-vos meu amor” murmurou em voz baixa e rouca. O meu baixo-ventre dizia que sim, mas respondi ”não”. Tínhamo-nos contido durante tanto tempo. Então ele concordou e soltou-me. Com as pernas e o coração trémulos separámo-nos com doçura, na certeza de que a chegada do cardeal Campeggio estaria para breve e logo poderíamos ter um leito nupcial e engendrar um filho. A doçura da noite primaveril entra pelas janelas, enquanto escrevo à luz da vela.

 

Em breve tudo estará bem.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

15 de junho de 1528 Diário,

 

Jesus nos acuda, chegou nova epidemia’. Quando a corte em Greenwich fazia planos para se mudar para Waltham, chegaram

 

Nota: Sweating sickness: epidemia que grassou em Inglaterra nos séculos XV e XVI, caracterizada por transpiração abundante e quase sempre pela morte do doente. [N. da T.]

 

de Londres essas notícias que deixaram todos em silêncio. Todos os dias morrem milhares de pessoas. Famílias inteiras desaparecem em poucas horas.

 

Fui em busca do rei e encontrei-o nos aposentos do boticário. Tendo sabido da notícia ele e o velho John Coke deitaram mãos ao trabalho, na esperança de encontrar algum remédio. Estavam os dois inclinados sobre um cavalete coberto de boiões e cestos com ervas aromáticas e poções de cores estranhas. Henrique esmagava num almofariz um monte de flores fedorentas, enquanto o mestre Coke lhe segredava receitas ao ouvido.

 

- Henrique - disse eu e ele voltou-se imediatamente. Juro que lhe li no rosto uma certa expressão de felicidade.

 

- Entrai, Ana e vede o que já fizemos - aproximei-me e ele mostrou-me o que tinha já moído. Tratava-se de uma pasta verde-acinzentada com cheiro a bolor.

 

- Vedes este emplastro de ervas? Quando se espalha sobre a pele extrai o veneno da doença.

 

- Sua Majestade é muito sábia nas coisas da medicina - disse o mestre Coke agitando um líquido castanho dentro de um copo. Fez aqui uma mistura com meimendro, vinho e gengibre que uma pessoa que tenha contraído este novo mal deve tomar durante nove dias a fio, seguida por esta outra - levantou aquilo que parecia ser meia tigela de melaço.

 

- Henrique... - tentei fazer-me ouvir.

 

- Escutai, meu amor. Nestes tempos de peste deveis lembrar-vos de comer com frugalidade, beber ainda menos e tomar as pílulas de Rasis uma vez por semana. Eliminai a peçonha dos vossos aposentos com vinagre e braseiros acesos de dia e de noite.

 

- Não é a primeira vez que vejo esta peste - resmungou o velho Coke, voltando-se para a sua mesa de feiticeiro. - Começa com uma dor na cabeça e no coração, depois a pessoa começa a suar e tem uma terrível sensação de medo, de apreensão, se assim quiserdes. É depois atingido como uma pancada desferida com um pau. Não adianta o doente agasalhar-se. Arde em suores malcheirosos desde a cabeça e as axilas, até ao baixo-ventre.

 

- Henrique - exclamei. - A minha aia adoeceu - o rei ficou sério e depois empalideceu. - Significa que não posso ir para Waltham com a corte. Tenho de me despedir de vós. Irei para Hever. Ficarei lá até que tudo termine.

 

- Uma separação, logo agora... não posso suportar tal ideia!

 

- Mas tem de ser, meu senhor - atreveu-se John Coke. - É a lei. Se um membro da casa...

 

- Conheço bem a lei! - exclamou Henrique angustiado com a ideia. - Deixai-nos a sós, mestre Coke - disse, já com mais delicadeza, e o velho saiu, arrastando os pés. Henrique manteve-se um pouco afastado, mas não estendeu o braço para me atrair a si. Parecia totalmente impotente, como nunca antes o vira.

 

- Que devo fazer? Sois o meu amor e quero-vos a meu lado... mas sou o rei e tenho em primeiro lugar de salvar a minha vida.

- Eu vou. Não há mais nada a fazer - preparei-me para partir.

- Levai convosco estas poções, por favor!

 

- Preparai um pacote com as instruções e eu mando alguém cá buscá-las.

 

já tinha a mão na porta quando senti os seus braços rodearem-me trémulos e cheios de paixão. Voltei-me e ficámos frente a frente.

- Deus nos ajude, ana. Por favor, não vos quero morta - beijou-me. O medo tornara amarga a sua boca.

 

- Nem eu a vós, meu amor - soltou-me, com os olhos húmidos. - Ide com Deus - disse eu, e logo parti.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

23 de junho de 1528 Diário,

 

Escrevo com a mão trémula. Este poderá ser o meu fim, pois a morte ronda os muros de Hever e receio que venha atrás de mim. já tantos desapareceram. Antes da minha apressada partida do castelo de Greenwich, morreram centenas de pessoas em poucas horas, muitas pertencentes à casa do rei. Norfolk está doente e o filho mais velho e herdeiro de Suffolk faleceu. A sinistra ceifeira ronda também as estradas entre Greenwich e Edenbridge, onde, com olhos sombrios desfilam cocheiros, camponeses, criadas, em carruagens fechadas sem se saudarem pelo caminho. Os corpos apodrecem no local onde caem e são pasto dos corvos.

 

A morte apoderou-se de Hever. William Carey, marido de minha irmã, já foi ter com o Criador. Meu pai e meu irmão George estão gravemente enfermos. Felizmente minha mãe encontra-se bem, mas tratando do marido e do filho, quem sabe se não acabará também por cair doente.

 

Esta manhã, o jovem Zouche, mensageiro especial do rei, que leva e trás as nossas inúmeras cartas, chegou a Hever logo depois do meio-dia, com um recado da parte de Henrique Rex. Contudo, antes de sair da minha vista, agarrou-se ao ventre, com o rosto muito pálido. Implorou-me que o deixasse partir e certamente que o fiz. Porém, quando os seus olhos se encontraram com os meus vi neles o terror e, depois de me ter despedido, vi-o cair junto à porta e faleceu nos aposentos dos criados, pouco depois das quatro horas.

 

Na carta que me mandou, Henrique diz-me que goza de boa saúde, embora permaneça enclausurado em Waltham. Diz-me que espera que eu não tenha sido afectada pela doença, recordando-me que ”muito poucas mulheres” contraíram a doença e que nenhuma na corte e muito poucas fora dela morreram. Não passam de esperanças vãs e ainda por cima equivocadas. A minha aia morreu. E também a nossa ajudante de cozinha, tal como a irmã de minha mãe. Rezo pela saúde do rei, mas sinto certa amargura pela sua alegre disposição. Mantém-se isolado, caminha sozinho em jardins desertos, medita e escreve acerca da questão do divórcio, esperando o regresso de Campeggio. Não sei como pode pensar nisso quando uma tal pestilência assola as nossas almas. Por vezes receio que o rei seja cruel, estranho e frio.

 

Voltou a anoitecer e os salões ficaram às escuras, sem que os criados tenham deixado luzes acesas nas suas rondas nocturnas. Afinal, fui eu mesma que as fiz, pois os corredores sem iluminação são demasiado sinistros e atraem os demónios. Acendi um a um os candeeiros, porém pouco conforto me deram - apenas sombras mais longas, murmúrios nos cantos escuros e o ranger das portas. Quando finalmente subi a escada de caracol para o meu quarto, pensei ouvir o roçagar de vestidos uns passos atrás de mim. Voltei-me para enfrentar o espectro e apenas encontrei uma imagem furtiva criada pelo medo. Dizem que a doença começa assim. Aqui não há esconderijo possível. Diário, amigo... rezai por mim. Estou certa de que a minha vida está nas mãos de Deus.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

Deus me ajude. O mal ataca-me. já não posso escrever.

 

2 de Julho de 1528 Diário,

 

Encontrei-me com a morte, mas sobrevivi para contar o que aconteceu. Pouco recordo do mal que se apoderou do meu corpo, excepto sentir uma dor aguda nos olhos e um calor tão terrível, que mais parecia que o sangue me fervia nas veias. Chamei minha mãe e o seu rosto foi a última imagem nítida que me ficou na mente, antes de uma noite longa e estranha descer sobre mim. Dizem que estive na cama, troçando da morte, durante cinco dias, estrebuchando debaixo das cobertas, gritando no meu delírio, umas vezes alegre, outras como se travasse um combate mortal com o próprio demónio.

 

Minha mãe, essa mulher fiel e dedicada, disse-me que a doença tomou um curso assustador, pois em vez de transpirar a peçonha, esta recolheu, obrigando o meu corpo a feder com os vapores venenosos. Tão desesperada estava que mandou chamar o capelão Barlow para me dar a extrema-unção e que acabou por sair do quarto depois de se ter despedido da criança que levara à pia baptismal, vinte anos antes.

 

Do meu estado de inconsciência, recordo cores muito brilhantes e sempre em movimento. Por vezes tomavam a forma de elfos, dançando entrelaçados num estranho círculo. Também ouvia música ao longe, o doce e alegre repicar dos sinos das fadas. Porém, outras vezes a escuridão sufocante caía sobre mim. Não havia luz, nem som, apenas um vazio tão negro e esmagador que percebi que tinha morrido e ido para o Inferno, pois o negrume era terrível. Tive a certeza de que Deus e Jesus não residiam nesse local. Por isso, quando as cores e os sons voltaram a explodir naquela negra prisão, devo ter gritado de alegria, pois apercebi-me de que estava viva ou que ia a caminho do céu.

 

Então, momentos antes de regressar a este mundo, tive a visão da mãe de minha mãe, Margaret, falecida há muitos anos. Parecia muito bela, mesmo com o rosto enrugado e o cabelo branco, muito bem vestida e com o corpo de uma jovem. Parecia irradiar luz do seu interior. Tinha na cabeça uma coroa enorme e o pescoço, os pulsos e os dedos cobertos de jóias. Depois vi que não tinha o ventre liso e mais parecia uma doce madona grávida. Cruzou as mãos sobre o ventre e sorriu. De súbito percebi que o rosto não pertencia à minha avó e que, afinal, era o meu. Nesse momento abri os olhos e vi a minha mãe que me olhava a sorrir.

 

Encontrou-me fraca como um recém-nascido depois do meu regresso daquele outro mundo, mas agradeço a Deus não só a minha vida, mas também a de meu irmão George e a de meu pai, que também se restabeleceram. Quando soube da minha enfermidade, Henrique enviou-me o doutor Butts, seu físico particular. O rei ficou enfadado por o seu físico principal se encontrar ausente e não poder vir ver-me, mas esperava que o homem que me enviou me conseguisse curar. Afinal chegou tarde demais para tratar a doença, porém trazia consigo um documento de Henrique que me fez bem ao espírito. Era uma carta do rei de França, confirmando o seu apoio ao divórcio de Henrique, o que para nós é muito importante. Sem a estima de Francisco decerto a nossa causa estaria perdida. O doutor Butts trouxe ainda uma carta particular de Henrique, implorando-me que regressasse à corte no momento em que me sentisse suficientemente forte.

 

Por ora, contento-me com o meu repouso em Hever, rezando para que a viagem do cardeal Campeggio de Itália para França e depois para Inglaterra, se faça em segurança e também para agradecer a Deus o estar viva.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

5 de Agosto de 1528 Diário,

 

Pelas chagas de Cristo! O cardeal Campeggio ainda não partiu para França enquanto que durante todo este tempo, pensávamos, Henrique e eu, que ele vinha a caminho para nos trazer a salvação. O pobre homem sofre de gota, de modo que tem estado acamado em Itália, à espera de melhorar. Entretanto, os soldados franceses perdem diariamente terreno para os soldados imperiais que se aproximam de Orvieto, onde o Papa ainda reside. Que acontecerá se o imperador Carlos tomar como prisioneiro o velho Clemente? Manterá a sua recente simpatia pela nossa causa? Se assim não for, tudo será inútil.

 

Insisto com meu pai e meu irmão e até com meu tio Norfolk, para saber novas da guerra em Itália. Tento dormir de noite, mas apenas consigo rezar e suplicar a Deus que ajude os soldados do rei Francisco, para que lutem com bravura e tenham sorte. Que as suas armaduras, espadas e escudos resistam às investidas dos exércitos do imperador. Henrique deseja que fique com ele em Ampthill durante duas semanas, porém recusei. Regressarei uma vez mais a Edenbridge, pois não desejo dar que falar. Henrique está muito feliz por me ver de novo com saúde e dirige diariamente escandalosas manifestações de amor e luxúria pela minha pessoa, afagando-me em público. Também me pede que faça planos para o casamento, mas é uma loucura! Em breve, o cardeal Campeggio estará recuperado e poderá iniciar a viagem para cá. Quando chegar, não deverá pensar que o rei deseja divorciar-se para casar comigo. Disse-o a Henrique que se riu e me beijou com atrevimento. Mortifica-me ter de o conter, por isso volto para Hever House, onde aguardarei que a gota do velho cardeal melhore e rezarei pela vitória da França. Não posso perder a esperança.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

19 de Outubro de 1528 Diário,

 

Que desventura a minha! Quando regressei da caça com Urían, passei pela cozinha e escutei, por acaso uma conversa entre duas criadas. Não passava de maledicência, porém ofendeu-me profundamente. Comentavam escandalizadas, por entre risos, que a ama daquela casa era objecto de mexericos trazidos de Londres, juntamente com especiarias e lã da Flandres. ”Nan Bolena, a rameira de olhos negros do rei”, era como se referiam a mim. Eu, uma rameira! Eu que sempre mostrei firmeza em querer manter intacta a minha virgindade. A minha conduta tem sido forte e casta, e tenho conseguido afastar um homem cheio de desejos. Acaso discutiria um rei com o papa e o imperador para conseguir um casamento legal com uma rameira?

 

Mas tudo isto não passa de maledicência e não tem qualquer importância. O pior, é não haver progressos no caso do divórcio. Campeggio chegou finalmente a Inglaterra, queixando-se constantemente das pernas gotosas e não convoca o tribunal. Para mim, a doença é um pretexto, com a intenção de atrasar as coisas. Depende do Papa e diz-me o coração que, apesar dos protestos de amizade de Clemente a Henrique, o Santo Padre é um homem como os outros, que teme pela sua vida e bem-estar. Juro que anda a enganar o rei e que este o ignora.

 

Há uma semana que Henrique veio a Hever. Chegou com notícias que decerto me levantariam o ânimo - contou-me como, depois de uma semana acamado no Palácio de Bath, Campeggio se levantou, para lhe solicitar uma audiência e que, enquanto a barcaça do legado descia o Tamisa até Bridewell, caiu uma chuvada de proporções bíblicas. Como não podia andar a cavalo ou a pé, o cardeal teve de ser transportado por quatro homens numa cadeira de veludo vermelho desde a margem do rio até aos degraus do castelo, onde Henrique o aguardava. O velho Wolsey que acompanhava o cardeal montado numa mula ficou encharcado e enlameado até aos ossos. Lá dentro a ocasião foi magnífica. Um enorme festim com belos discursos para celebrar as cartas do Papa. Henrique pôs debaixo do nariz de Campeggio o bispado de Durham, segundo se diz, há muito almejado por ele. Mas mesmo assim, nada aconteceu! Alegando dores e indisposição, o cardeal implorou-lhe que o deixasse regressar e Henrique não teve coragem de recusar.

 

No dia seguinte, Henrique empreendeu a viagem a Bath para lhe expor a questão teológica do casamento, mas Campeggio fez-se desentendido e implorou ao rei que considerasse válido o seu estado matrimonial. Quando Henrique se recusou a fazê-lo, firme mas delicadamente, o cardeal apresentou uma nova sugestão que agradou ao rei. Que a rainha se retirasse para um convento, era o seu conselho; mulher piedosa e razoável, certamente aceitaria a ideia.

 

De facto, no dia seguinte, Campeggio e Wolsey dirigiram-se em peregrinação até à residência de Catarina, em BridewelI, e disseram-lhe que o Papa desejava para ela aquele final feliz. Disse-me Henrique que a rainha adiou a resposta por vários dias e foi ela própria visitar Campeggio a Bath. Dirigiu-lhe então palavras duras que o deixaram aflito e assombrado. Disse-lhe firmemente que tencionava viver e morrer dentro do matrimónio a que Deus a tinha chamado. Nunca tivera relações com Artur, irmão de Henrique, e era certamente virgem quando chegara ao leito do rei. Preferia ser esquartejada e morrer várias vezes a ver alterado o seu estado de casada com o rei, seu esposo legítimo.

 

Como se isto não bastasse para me fazer sentir desgraçada, uma enorme multidão furiosa com estes preparativos para o divórcio, aproximou-se do palácio de BridewelI, aos gritos, aclamando Catarina. ”Vitória sobre os nossos inimigos!” gritavam. Quem é esse inimigo, perguntei a mim própria, senão eu a vossa futura rainha.

 

Fiquei feita uma fúria. Investi contra Henrique qual cão assolado contra um urso. Gostava de saber como se atreve esta insignificante espanhola a opor-se a enviados do Papa, cortesãos e reis. E como pode o rei permitir que o astuto Campeggio finja os ataques de gota e jogue com ele como se de um baralho de cartas se tratasse? O indelicado legado nem sequer me veio visitar, apesar de Henrique mo ter prometido,

 

O rei tentou tomar-me nos seus braços e beijar-me para me acalmar, mas não lho permiti. Tinha de entender que o estavam a pôr a ridículo. Assim acariciou-me o cabelo, afagou-me a mão e prometeu-me que, a partir daí, as coisas se passariam de outro modo. Depois partiu a cavalo cheio de esperanças. Fiquei a rezar.

 

Ontem chegou uma carta em que Henrique me dizia ter emitido uma ordem escrita para que as multidões não mais se pudessem reunir em redor do palácio. Mas o que pensará ele? Que basta que não possam dizer em público que adoram a rainha, para que deixem de o sentir? A seguir, informou-me de que convocara para o seu salão de Bridewell, uma reunião com as autoridades de Londres. Esperava poder garantir a sua lealdade para a causa do divórcio. Mostrou-se extremamente deferente com Catarina, disse que ainda a amava muito, mas que ansiava pela separação, por ter problemas de consciência e necessitar de herdeiros varões. Disse-me também que o presidente e o edis lhe tinham parecido submissos, porém que, ao ouvi-los murmurar entre si, acrescentou mais uma coisa para que percebessem como estava decidido. Que se soubesse de alguém que falasse em termos pouco apropriados do seu Príncipe ”não haveria cabeça, por mais importante que fosse” que não pudesse rolar.

 

O golpe final, escrevia, era que a rainha tinha encontrado, ou talvez forjado uma cópia da dispensa para o seu casamento com Henrique, e que fora entregue, segundo afirma, a sua mãe Isabel, antes desta morrer. Este documento, com um texto diferente daquele que Henrique guarda, lança na maior ansiedade e confusão o cardeal Wolsey e o rei. Agora são eles mesmos que atrasam o julgamento! Os golpes do rei apenas ferem, não matam. E aqui em Hever sinto-me impotente, sem outra compensação para as minhas penas que não seja um corpo cansado, mau humor e uma desagradável alcunha. O futuro afigura-se-me negro.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

2 de Março de 1529 Diário,

 

Receio que a vossa fiel amiga se esteja a transformar numa megera. Sinto-me ferida e choro, devido a tantos vexames e frustrações, que acabo por gritar ao rei toda a minha raiva acumulada. Ele abraça-me ternamente e acalma-me com palavras esperançosas. Quem me vê nestes novos e luxuosos aposentos, aqui em Greenwich, repletos de presentes do meu adorado Henrique, rodeada pela minha família e cortesãos que esperam ver-me rainha, pensa que sou feliz, e me sinto esperançosa e satisfeita. Todavia, os desgostos são muitos. O cardeal Campeggio já está há sete meses em Inglaterra e ainda não considerou oportuno convocar o tribunal. Sete meses de vis adiamentos, de uma permanente troca de correspondência com Roma, que mais parece uma maré circular, cheia de solicitações, argumentos vãos e mentiras.

 

Henrique enviou à rainha uma delegação, de que Warham. fazia parte, para lhe comunicar as duras resoluções que havia tomado em relação a ela. Warham disse-lhe que havia rumores de conspirações contra o rei e das quais Catarina era causa. Tinham-no aconselhado a evitar o leito e a companhia da rainha não fosse ser envenenado por ela ou pelos criados da casa. Dizem que ela tudo escutou, com uma expressão empedernida e lhes ordenou que se retirassem. O rei colocou então espiões em seu redor, para evitar toda a sua correspondência com Mendoza, o embaixador de Espanha. Henrique proibiu ainda a rainha de ver a filha Maria, medida que me parece extremamente cruel. Perguntais se estas medidas foram suficientes para dissuadir a rainha? De modo algum. A sua teimosia é cada vez maior e esta feliz mártir é sustentada com o apoio incondicional dos seus leais súbditos. Há dias em que, num acesso de raiva, tenho vontade de lhe arrancar os olhos piedosos e de estrangular todos aqueles homens de libré, que não conseguem mais do que incomodá-la, pois não compreendem o seu pensamento, nem conseguem desviá-la da sua firmeza.

 

Todavia o pior e mais perigoso para mim é esse maldito Wolsey estar mais uma vez a tramar a minha perdição. A semana passada o deão da capela de Henrique encontrou, entre as minhas coisas, o tratado de Tyndale, ”Obediência de um Cristão”, e levou-o à atenção do cardeal. Wolsey entregou-o ao rei. É verdade que a simples leitura desse livro é considerada um afastamento da fé católica e uma heresia. Imaginei o sorriso complacente de Wolsey, enquanto eu caída em desgraça, transportava o habitual feixe a caminho da prisão. Sabia que era loucura pensar em tais coisas e, na verdade, a raiva era maior que o medo. Jurei a George e aos outros cortesãos alto e bom som que era o melhor livro que alguma vez o deão e o cardeal haviam arrebatado a alguém.

 

Fui ter imediatamente com o rei e ajoelhei para lhe pedir perdão pelo meu acto. Ele disse-me então, para grande alívio meu, que havia reflectido sobre o assunto e que, embora ainda fosse um católico leal, desejava ler o livro para poder dar a sua opinião e talvez escrever também um tratado sobre o assunto. Salvaram-me o espírito e o coração abertos que tanto aprecio em Henrique.

 

Todavia, tenho a certeza absoluta de que Wolsey continua a desejar a minha queda. E, enquanto escrevo, custa-me a crer que o rei compareça alguma vez perante o tribunal ou que consiga separar-se legalmente de Catarina. Campeggio, que é uma raposa astuta, afirma que deixou crescer a barba mal tratada em sinal de luto pela igreja de Inglaterra. Sei que nunca teve intenções de nos alegrar e que o que nos disse foram apenas promessas vãs e mentiras ditas por Clemente. Dói-me a cabeça devido à raiva que sinto e a este Inverno frio que parece não ter fim. Há muitas semanas que não vimos o Sol.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

31 de Maio de 1529 Diário,

 

Que manhã tão bela! Reuniu-se o tribunal do legado pontíficio e o meu casamento está agora assegurado. Ontem à noite, estava muito frio na residência que meu pai tem em Durham, junto ao rio, quando a barcaça dourada do rei Henrique o trouxe até aqui, para aguardar a mudança de maré. Estava muito alegre e seguro, pois tendo deitado para trás das costas todas as desculpas e demoras de Clemente fora ele próprio a convocar o tribunal. Disse que o fizera para evitar que o Papa o mandasse reunir em Roma, pois tal seria desastroso para a nossa causa. O assunto está, pois, em marcha e a esta hora Henrique encontra-se no castelo de Greenwich aguardando a convocatória formal da parte do priorado de Blackfriars, onde o tribunal terá lugar.

 

Ontem à noite distraiu-nos - a mim, a meu pai e a meu irmão George - com eruditas epístolas que escreveu sobre a questão do seu casamento e divórcio à luz do direito canónico. Henrique tornou-se um especialista e está convencido de que os cardeais apoiarão a sua causa. Durante as horas que passou connosco mostrou-se muito satisfeito e à-vontade com a sua nova família, como já nos chama, e comigo, sua ruborizada noiva.

 

Quando a maré mudou e a barcaça de Henrique partiu, encontrei o meu pai sentado diante da enorme lareira, contemplando o lume com ar absorto. Aproximei-me dele, aqueci as mãos, mas deixei-me ficar em silêncio. Os nossos olhos cruzaram-se e li nos dele uma espécie de consternação, talvez de assombro, antes de o ver desviar o rosto. Retirei-me e subi as escadas. Lá em cima, encontrei-me com George no corredor onde ficam os nossos quartos e, à luz das velas, conversámos em surdina. Meu querido George, é agora Escudeiro do Corpo do Rei e Mestre dos Cães de Caça. Perguntei-lhe se sabia quais as ideias de meu pai a respeito da minha pessoa e respondeu-me que sim.

 

- O nosso pai humilha-se diante do rei, tal como eu. Receamos o mínimo deslize, pronunciar uma palavra áspera ou branda demais, que possa ser mal interpretada. Mas tu, Ana, tem-no a teus pés. Juro que se lhe ordenasses, lavava a tua roupa! Gritas, soltas impropérios, amuas. Tens conhecimento de assuntos importantes, como se fosses um homem. E agora apresenta-se diante de um tribunal pontifício para pedir o divórcio de Catarina e a tua mão. Este nosso rei não parece o mesmo e disso és tu, provavelmente, a única causa. O nosso pai já o percebeu e não compreende, nem se sente satisfeito.

 

- Não se sente satisfeito, porquê? A filha vai ser rainha.

- Ainda não há a certeza, Ana.

 

- Mas o rei acredita...

 

- O rei acredita em sonhos.

 

- E eu também! - respondi, com veemência. - Henrique governa este país e nem os Lordes, nem o imperador, nem o Papa, nem até mesmo Deus, o farão desistir do seu intento. E o seu intento sou eu. Garanto-te que é um mistério como isto aconteceu. Usei os artifícios que aprendi em França, o meu espírito, a minha reticência para fazer com que me desejasse mais mas, para ser honesta, meu irmão, não sei porque razão Sua Majestade se apaixonou por mim, com tal ardor. Sei que a sua paixão é tão profunda que há-de mover céus e terra para me ter. Portanto, podes confiar, George. Vou ser rainha. Vais ver.

 

Ele sorriu com tanta esperança e afecto que o meu coração transbordou de amor. Embora meu pai duvide do meu destino e não seja completamente leal, tenho sorte em ter um irmão como George Bolena. Assim, aguardo aqui em Durham e Henrique aguarda em Greenwich. Aguardamos que todos os bispos ingleses e os cardeais do tribunal de Blackfriars se reúnam envergando vestes e chapéus escarlates e se sentem em tronos forrados a ouro, para o chamarem a depor acusando-o, de ter vivido em adultério durante mais de vinte anos.

 

Ide com graça e honra, Henrique. Agitai o mundo e recebei em vossas mãos os pedaços caídos para que sejam nossos e apenas nossos!

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

21 de Junho de 1529 Diário,

 

A batalha está a ser travada pelas duas partes. E embora ambas se encontrem feridas, nenhuma foi ainda derrotada. Contemplei o rio das janelas de Durham e vi a barcaça de Catarina seguir para o tribunal de Blackfriars levada pela maré da manhã.

 

Nas margens do rio juntava-se uma multidão, constituída principalmente por mulheres, que aclamavam a rainha no seu percurso, com gritos de afecto e lealdade. Sei que eram apenas alguns dos muitos apoiantes da rainha que me detestam. Falaram-me das multidões que se juntam à entrada de Blackfriars Hall, à espera dela, que a chamam pelo nome, que lhe dão força para levar a cabo a sua maldita campanha contra o rei.

 

O dia estava diabolicamente quente e não corria qualquer brisa ao longo do rio. Cá dentro, o ambiente tinha o cheiro do medo. As horas passavam lentamente e nem uma palavra de meu pai ou de meu tio Norfolk, acerca do que se estava a passar. Porém, quando a longa tarde se dissolveu num crepúsculo cor de mel, começou o cortejo flutuante de lanchas, barcas e barcaças, transportando rio acima, os participantes do tribunal de volta para Londres. O magnífico barco de Henrique separou-se dos outros e atracou no ancoradouro de Durham.

 

Sorrindo, com ar de desafio, à vista de todos, atravessou o relvado e eu, contagiada por aquela ousadia, fui recebê-lo no meu rico vestido cor de safira, com o cabelo solto pelas costas abaixo. Mas assim que se encontrou dentro de casa, a altivez do rei desvaneceu-se. O sorriso pareceu murchar e transformar-se numa expressão de raiva e de cansaço. Obriguei aquele guerreiro exausto a sentar-se e mostrei-me pródiga nos meus carinhos - limpei-lhe o suor da testa, perfumei-lhe as roupas, trouxe-lhe vinho gelado e beijei-o docemente.

 

Então sorriu, parecendo recordar-se das razões que nos tinham levado a travar tão dura batalha e começou a falar do seu dia no tribunal. Começara com uma sentida declaração, em que expusera os seus terríveis remorsos pelos actos inocentemente adúlteros, cometidos por ele com Catarina, esposa legítima de seu irmão.

 

- Falei bem e durante muito tempo - disse. - Apresentei os meus argumentos para conseguir alguma vantagem, contudo, quando terminei, Catarina ergueu-se e, com a sua altivez de princesa espanhola, atravessou a sala silenciando todos, e ajoelhou a meus pés. Então, Ana, suplicou-me, por todo o amor que houvera entre nós e por amor a Deus, em nome de quem afirmava falar, que a tratasse conforme era de justiça e direito. Pediu piedade e compaixão, por ser estrangeira e acrescentou que não contava com assistência jurídica suficiente. É verdade. os dois advogados imperiais, cuja chegada da Flandres aguardava para defenderem o seu caso, não apareceram... dizem que o sobrinho Carlos não o permitiu, temendo pela segurança dos dois homens. Mas deixai que vos diga que Catarina envergonharia qualquer advogado. Afirmou ter sido sempre uma mulher humilde e obediente, mostrando afecto pelos meus amigos e ódio pelos meus inimigos. Falou dos filhos nados-mortos e de que o seu falecimento não fora culpa sua, mas sim a vontade de Deus.

 

Nesse momento, Henrique deteve-se e lançou a cabeça para trás, como se se recordasse de um acontecimento doloroso.

 

- Que foi, meu amor? - perguntei. - Que mais disse ela?

 

- Que Deus era sua testemunha... quantas vezes invocou o nome de Deus... Que, quando a tomei pela primeira vez no leito, era uma donzela e nunca nenhum homem lhe tinha alguma vez tocado. Chegara virgem ao leito de Artur e virgem de lá saíra.

 

- É o oposto àquilo em que baseais toda a vossa argumentação, não é verdade? - O rei acenou gravemente com a cabeça. - Mas meu pai - prossegui - recorda-se de ter falado com Artur na manhã seguinte ao casamento e de este lhe ter dito claramente: ”Trazei-me um copo de cerveja, pois esta noite estive no meio de Espanha!” Outros afirmam que é verdade, que ela não era virgem quando chegou ao vosso leito, de modo que o vosso caso se justifica, por mais que Catarina invoque o nome de Deus.

 

Henrique escutou os meus argumentos, mas mesmo assim parecia preocupado.

 

- Não haveis visto a multidão quando abandonou a sala. Estavam todos com ela. Os bispos, os clérigos, os advogados e os embaixadores ficaram sentados em silêncio e cheios de assombro, ouvindo as aclamações através das portas abertas. ”Viva Catarina!”, gritava o povo. ”Que bem se defende!” ”Não tem nada a temer!” Oh, Ana, que fortaleza a dela!

 

- E vossa também! - exclamei, tomando nas minhas as mãos de Henrique. Apercebi-me do seu pescoço tenso, do rosto corado, da expressão de infelicidade.

 

- Catarina falou verdade ao dizer que é uma estrangeira. Este país é vosso e ela só foi rainha porque vós o haveis querido!

 

- É verdade, é verdade - concordou o rei, mais animado com as minhas palavras.

 

- O vosso sangue Tudor lutou para obter a coroa e conseguiu-a. Sois o oitavo Henrique a governar esta terra, e sois de longe o maior. Não há princesa espanhola que possa matar os vossos desígnios.

- Nem um maldito cardeal!

 

Erguemos os olhos e vimos que meu pai entrara, vindo do rio.

- Com vossa permissão, Majestade, devo dizer-vos que Wolsey não é para vós um servidor leal. A questão escapa-se-nos das mãos, creio que por sua culpa.

 

- Fazeis um juízo severo, Thomas.

 

- Nem por isso, Senhor. Sois demasiado benévolo. O duque de Norfolk enviado por vós em missão diplomática a França, cita o rei Francisco, quando diz que Wolsey gozava de ”um privilegiado contacto com Roma, tal como o cardeal Campeggio”. Pergunto-vos: onde está a lealdade? Até mesmo Thomas More, esse erudito, qualifica as suas acções de astutas e diz que tem agido perfidamente convosco. O povo também o odeia, Majestade, pois tem lançado impostos exagerados para financiar as guerras no estrangeiro. Digo-vos que o deveis vigiar de perto e não só a ele como também ao cardeal Campeggio que não passa de um lacaio papal, vestido de vermelho.

 

- Obrigado pelos vossos conselhos, lorde Ormond e também pelos vossos, minha querida. Mas embora possais estar certos acerca dos cardeais, acredito do fundo do meu coração que nunca se atreverão a manobrar contra mim. Em Roma, o Papa detestaria perder o seu aliado inglês. Meus amigos, tivemos um dia difícil, mas acabaremos por vencer.

 

Assim, tendo recuperado o bom humor, o rei jantou connosco em Durham. A refeição foi agradável e divertida. Toquei alaúde, cantámos e, depois de meu pai se ter retirado, abraçámo-nos e beijámo-nos. Henrique disse que seria eu que o faria mover céus e terra. Ama-me verdadeiramente e eu espero do fundo do meu coração poder corresponder-lhe do mesmo modo. Sei que um dia o meu amor igualará o dele, mas por agora tenho ainda de fingir. Sou

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

25 de Julho de 1529 Diário,

 

A traição cometida pelo Papa é tão difícil de imaginar, que me custa falar dela. Mas devo fazê-lo, pois o meu destino e o de Henrique estão entrelaçados. O julgamento foi suspenso sem qualquer veredicto, nem favorável, nem contrário ao divórcio do rei. Terminou simplesmente, para que o caso fosse transladado para Roma, o que é pura e simplesmente uma desgraça. Catarina ganhou esta batalha, pois se o caso for julgado nessa cidade, certamente será decidido a seu favor.

 

É muito claro como as coisas chegaram a este ponto e a rainha, embora vitoriosa, não é a causa. Tal como eu, é um mero peão dos homens e das suas guerras. O que aconteceu é que, sem que disso tivéssemos conhecimento, os franceses foram derrotados pelas tropas imperiais em Landriano, no campo italiano e uma peste levou os sobreviventes. Assim, enquanto Henrique suportava um caloroso Verão aqui em Blackfriars, aguardando pacientemente a resolução da sua causa, o papa Clemente foi a Barcelona e assinou um tratado, com o recém-coroado imperador.

 

Depois, o nosso aliado Francisco foi a Cambrai fazer a paz. Tudo isso ignorávamos, apenas tínhamos conhecimento da suspensão do julgamento e a informação de que quando reabrisse em Roma teria uma conclusão justa. Só mais tarde, tudo se tornou claro para os nossos espíritos. O Papa, agora em paz com o imperador Carlos - sobrinho da rainha Catarina - nunca dará o seu consentimento a este divórcio.

 

No dia 23 de Junho, último dia do julgamento e, supostamente, o da leitura da sentença, dirigi-me a Blackfriars, pois enlouqueceria se ficasse à espera em Durham HalI, para saber o que seria de mim, e escondi-me numa galeria. Os cardeais estavam de pé e vi Wolsey, mudo e trémulo, enquanto o cardeal Campeggio, com ar afectado, fazia o seu virtuoso discurso.

 

Declarou temer o desagrado de Deus e a condenação da sua alma, se concedesse favores a um príncipe ou homem de estado e que, por enquanto, não poderia pronunciar qualquer sentença. Henrique, preparado para boas notícias, sentiu-se ofendido e impotente como uma criança pequena. Abandonou a sala, espumando de cólera, fazendo tremer o chão que pisava.

 

O duque de Suffolk falou então em nome do rei, dando largas à sua fúria:

 

- Pela santa missa, vejo agora que é verdade o que diziam os antigos. Nunca ouve legado ou cardeal que favorecesse a Inglaterra. Sozinha na galeria, tenho de confessar que chorei por todo o tempo perdido, por todas as esperanças destroçadas.

 

E onde estava a grande influência do cardeal Wolsey em toda esta questão? Não sei. Velho impotente, que nos fez crer em vão, que aquele tribunal nos seria favorável se reunisse em Inglaterra. Maldito Wolsey, filho de um carniceiro de lpswich, elevado à mais alta glória. A sua estrela perdeu o brilho. Henrique dá-me agora ouvidos, quando lhe falo mal de T Carlis Ebor. E o maldito cardeal há-se sofrer com o meu desagrado. juro que o farei cair, para nunca mais se levantar.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

31 de Agosto de 1529 Diário,

 

O rei e eu, achamo-nos, acompanhados por toda a corte em plena caçada de Verão, tendo-nos alojado em Waltham, Bamett, Tuttenhanger Holbom, Windsor e também Reading. Há sempre murmúrios por entre o seu séquito, quando, ao lado do rei, monto o meu alazão, magnificamente ajaezado e coberto por um caparazão de veludo negro, debruado a ouro. Porém os murmúrios sobem de tom, quando vou com ele na garupa do cavalo. As gentes que nos vêem passar estão plenamente convencidas que sou sua amante de alma e coração.

 

Hoje, cavalgámos por prados e colinas floridas, com o estrépito das trombetas e o latido dos cães, perseguindo majestosos veados, com o vento a bater-nos nas faces queimadas do sol. Henrique adora caçar. É maravilhoso vê-lo montar o seu alazão branco, ousado e viril, com os olhos brilhantes de felicidade. Todos os cuidados desaparecem, sob aqueles cascos trovejantes e esquece mesmo as preocupações acerca do seu divórcio com Catarina.

 

Mandei vir o meu cão Urian, que acaba de matar uma vaca, rasgando-lhe a garganta. Henrique pagou-a ao camponês mas, mesmo assim, murmurou-se que Urian era o nome de um demónio, o que me transforma, mais uma vez, numa bruxa, capaz de prendeu o rei com os seus feitiços. É verdade que ele está muito apaixonado e não oculta o que sente por mim. Não só me cumula de presentes - selas e arneses, vestidos, arco e flechas, luva de caça, e até roupa interior - como mostra publicamente o seu afecto: acaricia-me e beija-me à vista de todos.

 

Esta noite, enquanto ceávamos junto à enorme lareira, acesa nos seus aposentos privados, disse-lhe que não julgava prudentes aquelas demonstrações. Lá longe, em Roma, os seus homens continuam a tentar adiar o julgamento do divórcio. A rainha, embora afastada da vista de Henrique, persiste por sua vez em falar com os embaixadores espanhóis a seu favor. Até que tudo se resolva teremos de manter uma aparência de castidade.

 

Depois, quando terminámos, corados pela boa comida e pelo vinho, ele voltou-se de costas para atiçar o fogo e disse-me em voz baixa e, com alguma astúcia, penso eu, que há uns meses atrás Clemente lhe havia dito que se se mantivesse casado com Catarina, ele, o Papa, conferiria uma dispensa legal, para tornar legítimos os meus bastardos, filhos de Henrique. Não podia acreditar nos meus ouvidos! Ergui-me e preparei-me para abandonar a sua câmara, antes que o rei me visse chorar de raiva. Mas ele agarrou-me, já na soleira da porta.

 

- Ana, ficai. Nunca disse que concordava com tal coisa.

- Então, porque me haveis falado no assunto?

 

- Porque vos digo tudo!

 

- Acredito que haveis apreciado a oferta. Manter a rainha. Possuir-me. Legalizar os nossos bastardos. Continuar amigo do Papa. Sim, Henrique, agrada-vos bastante! - Tentei escapar-me, porém abraçou-me com força e as lágrimas rolaram-me pelas faces. - Meu Deus, como fui insensata! Fiquei à espera tanto tempo, entretanto poderia ter arranjado um casamento vantajoso e ter tido filhos! Posso despedir-me da minha juventude desperdiçada!

 

O rei inclinou a cabeça, com o queixo trémulo e os olhos húmidos.

 

- Escutai, Ana. Hei-de casar-me convosco com ou sem o consentimento do Papa.

 

Ali fiquei, como uma surda que, naquele momento, tivesse recuperado a capacidade de ouvir.

 

- Fá-lo-eis?

 

- Se necessário for.

 

Fiquei em silêncio, sabendo o que tudo aquilo significava para ele. A excomunhão da Igreja. Uma guerra santa contra toda a Inglaterra.

 

- Sabeis que li o vosso livro? - perguntou Henrique, em voz baixa. - A Obediência de um Cristão, de Tyndale.

 

- E o que haveis encontrado nele?

 

- As passagens que marcastes com a unha, para que eu reparasse... li-as várias vezes - olhou para o lume. - É um livro para ser lido por todos os reis. Diz que estes são responsáveis, não só pelos corpos, como pelas almas dos seus súbditos.

 

- Prossegui - pedi eu, já sem lágrimas.

 

- Sou o rei de Inglaterra e, como tal, em virtude de um antigo direito, sou imperador absoluto... e Papa, no meu próprio reino.

- Claro que o sois, Henrique! - exclamei. - E se estais de acordo com as ideias desse livro, tenho outro que podeis examinar.

 

- De que livro se trata? - perguntou, iluminando-se-lhe os olhos com um brilho igual ao que mostrara durante a caçada.

 

- Súplica pelos Mendigos de um tal Simon Fish.

- E que diz?

 

- Que a reforma das igrejas deve ser da responsabilidade do rei e não dos clérigos, pois estes são cruéis e corruptos e que o Purgatório nada mais é do que uma invenção grosseira, para extorquir dinheiro aos bons cristãos, pois estes acreditam erradamente que os sacrifícios monetários podem ajudar os entes queridos presos entre o Céu e o Inferno.

 

- É um título estranho para um livro.

 

- Fish escreve, com inteligência, acerca das hordas de mendigos ingleses, criados, segundo diz, porque o clero lhes rouba o dinheiro que poderiam ganhar com trabalho honesto.

 

Uma sombra passou pelo rosto de Henrique e pareceu nesse momento transformar-se num novo Atlas, com o peso do mundo sobre os ombros.

 

- Essas ideias são certas e verdadeiras, garanto-vos, porém não passam de palavras escritas no papel por autores que apenas têm de cuidar da sua vida. Não me posso arriscar agora a uma guerra com toda a Europa católica. Não disponho de um exército suficientemente numeroso, nem de dinheiro para pagar aos soldados. Toda a Inglaterra sofreria se...

 

- Bem sei.

 

- E também, ainda não perdemos em Roma!

- Também o sei.

 

- Meu Deus, Ana, amo-vos! - exclamou, estreitando-me contra o peito. - Ficai e lutai comigo, pois conseguiremos a vitória. Sei que assim será!

 

- Ficarei, Henrique, ficarei - nesse momento, beijei-o e abracei-o. A nossa batalha será longa e brutal, contudo, esta noite, soube que continuava determinado e, mais importante ainda, soube que ele vira o caminho que leva à nossa meta, iluminado por uma luz diferente - uma luz cuja fonte estava longe de Roma e se chamava Lutero.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

27 de Outubro de 1529 Diário,

 

Que maravilhosa ocasião. O grande cardeal Wolsey caiu do seu pedestal e eu, ”a menina tola da corte” fui o instrumento da sua destruição. Verdadeiramente foi ele que cavou a própria sepultura, fazendo prevalecer a lei estrangeira - a do Papa - sobre a do Rei, desafiando assim a lei inglesa de Praemzinire. Deste modo, numa formosa manhã da passada semana, os duques de Norfolk e de Suffolk dirigiram-se ao palácio de York e exigiram ao chanceler o Grande Selo do Reino, destituindo-o do seu cargo e de todas as suas terras e bens mundanos. Com a cabeça baixa e o rabo entre as gordas pernas, saiu do palácio de York, dentro da sua barcaça pintada, enquanto era vaiado por pelo menos uma centena de cidadãos de Londres que gritavam dos seus barcos na esperança que fosse enviado como prisioneiro para a Torre. Porém o seu destino era outro: o desterro para uma casa fria e distante chamada Esher.

 

A minha participação consistiu em fazer ver a Henrique que Wolsey não era um amigo, mas sim quem, muito pelo contrário, tinha sido a causa de muitos problemas e desgraças para o Rei. Enquanto passeávamos nos jardins de Greenwich, com o vento a fazer rodopiar as folhas junto aos nossos pés, fiz um sermão a Henrique como se fosse um severo preceptor.

 

- O grande empréstimo contraído pelo cardeal para pagar a vossa guerra contra os franceses - disse eu - endividou todos os súbditos ingleses do reino em pelo menos cinco libras. Mas o pior foi que os seus erros diplomáticos nos privaram dos nossos aliados franceses e tornaram inútil toda a subserviência para com o rei Francisco. A Inglaterra perdeu a sua posição entre as potências europeias.

 

Henrique assentiu COM UM gesto grave, sabendo que aquilo que eu dizia era verdade, o que me deu coragem para prosseguir.

 

- Haveis erguido este sacerdote a uma altura tal que a sua riqueza ascende a um terço do vosso tesouro, e ele não tem um país para governar com o seu rendimento. Sabeis que chamam ao vosso cardeal o rei da Europa?

 

Henrique estremeceu como se lhe tivesse desferido um golpe, pois na sua indignação contra o velho Wolsey, misturavam-se também a lealdade e o amor, e sofria por ter de se separar dele. Mas não havia outro remédio. O seu destino estava decidido.

 

Quando Wolsey saiu do palácio de York, Henrique levou-me até lá, para passarmos revista aos seus bens confiscados. Era difícil imaginar as riquezas e a quantidade de coisas que vimos sobre enormes cavaletes e encostadas às paredes. Tapeçarias, dezenas de carpetes, almofadas, reposteiros, dezasseis camas lavradas de dossel, mesas, tronos, arcas, quadros enormes, uma baixela e taças de ouro para servir cem pessoas, cruzes de ouro e pedrarias, cálices e paramentos.

 

- São agora vossos, por direito, Henrique - disse eu, olhando para toda aquela riqueza acumulada. Vi o espanto nos olhos do rei, por possuir agora aquele tesouro.

 

- E vosso também, Ana - disse. Sorri disfarçadamente.

 

- Um presente de casamento de Wolsey, não é verdade?

 

O rei ficou num silêncio triste, pensando talvez nos bons conselhos do cardeal.

 

- Haveis feito bem, Henrique. Era hora de Wolsey partir.

 

- Sim. Agora preciso de um chanceler que não seja clérigo. Que pensais da minha escolha de Thomas More?

 

Demorei a resposta, pois sabia que o advogado e sábio autor da obra Utopia era amigo de Henrique. Era um homem respeitado pela sua justeza e muito apreciado na corte e entre o povo. Mas a sua nomeação fez-me pensar.

 

É um acérrimo católico e opõe-se ao divórcio - disse eu por fim, É verdade. E insisto para que siga a sua consciência. Mas não deverá preocupar-se com o meu divórcio, apenas com assuntos e questões legais. More sempre se mostrou um servidor leal e obediente e apenas me dá opiniões quando insisto para que o faça.

 

Recordei o momento em que vira Thomas More pela primeira vez. Encontrava-me na sala de audiências do rei e, em meu redor, ouvia o arrastar dos vestidos de seda e o tilintar de pesadas correntes de ouro, contra os pregadores de pedras preciosas. O ar estava impregnado de perfume francês, proveniente das dobras e folhos de todos os gibões e corpetes de renda. Depois, por entre este jardim de pavões, surgira uma ave de plumagem diferente - um homem magro envergando vestes simples, negras e grosseiras. Tinha olhos doces e expressão amável.

 

Precedia-o a sua reputação. Amigo de Henrique desde a juventude, seu conselheiro de muitos anos, estimava Catarina e fora o anfitrião de Erasmo, quando este visitara a Inglaterra. Era muito amigo da família, casado há muitos anos com Alice More, mulher de língua afiada, e pai extremoso de uma filha natural e de outra que adoptara, sendo-lhe ambas muito dedicadas. Não consegui desviar os olhos do seu rosto, imaginando as doces palavras que aqueles lábios pronunciavam aos ouvidos das filhas. Educava-as com afecto e oferecia-lhes uma boa orientação para esta vida difícil. Tudo o que nunca recebi da parte de meu pai. Lembrei-me do rosto dele - olhos de aço, boca apertada, dando-me rudes conselhos para a minha ascensão social. O meu valor era apenas medido por essa bitola... regressei ao presente e respondi à pergunta que Henrique formulara.

 

- A veneração de More por Vossa Majestade é admirável e certamente sincera, mas tem uma família a sustentar e precisa progredir na carreira.

 

- Questionais os seus motivos? - perguntou Henrique.

 

- Os motivos, não, mas a propensão para mudar de ideias. Não preconiza, na sua Utopia, a inflexibilidade para quem cometa adultério ou qualquer outro pecado que tenha a ver com o sexo? A primeira ofensa seria castigada com a escravatura. A segunda, nada menos que com a morte.

 

- É verdade. Mas no seu livro, também prevê que o divórcio seja possível. E julgo que, com todos os meus argumentos racionais e teológicos, conseguirei que mude de parecer e que se converta num precioso aliado para a nossa causa.

 

Rezo para que Henrique não se engane, pois afigura-se-me que teremos de enfrentar uma luta e uma batalha terríveis.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

2 de Dezembro de 1529 Diário,

 

Neste dia cinzento e ventoso, vi meu irmão partir para França. Despedimo-nos na praia de Dover, à sombra do castelo. O vento agitava-me o cabelo e a saia com tal força, que mais pareciam velas de lona, e apenas o braço forte de George no meu, conseguiu manter os meus pés em solo inglês. Estava frio, mas sentíamos o calor da nossa afeição. Apertou-me as mãos trémulas dentro do regalo de raposa, enquanto observávamos os pequenos botes cortar as ondas carregados com cestos, baús e barris em direcção ao Princess Mary, que se encontrava ancorado ao largo da costa coberta de espuma.

 

Falámos de muitas coisas, juntando as cabeças. De como o amor de Henríque por mim tinha feito subir a posição e a fortuna da nossa família - o meu pai era agora conde de Wiltshire e de Ormond, George era lorde Rochford e eu, lady Ana Rochford. George fora ainda nomeado embaixador em França, daí a sua partida para esse país.

 

Recordámos o grande banquete que Henrique oferecera em Whitehall para celebrar essa ascensão da nossa família. Foi uma festa magnífica, para onde foram convidados importantes nobres. George disse que tinha visto a irmã do rei, a duquesa de Suffolk ficar mais verde que a seda do seu vestido, ao ver-me sentada à direita de Henrique, lugar reservado a rainhas coroadas. Du Belay, o embaixador francês, observou atentamente todos os pormenores da festa e George teve oportunidade de ver Eustace Chapuys, novo espião do imperador na corte (e conselheiro de Catarina) tomar notas num pequeno caderninho que trazia à cintura. Estou certa de que tudo o que aconteceu terá sido descrito numa carta a seu amo Carlos, para ser utilizado como arma em proveito de sua tia.

 

Houve muitas e variadas iguarias nesse banquete - ganso assado, lebre, cordeiro, pombo, codorniz e veado, bolos de manteiga recheados com frutos de Inverno, enormes quantidades de vinho doce, imensas tartes de pêra e maçã. Os músicos tocaram durante o festim. Depois vieram os bobos e novamente os músicos após as mesas terem sido retiradas. Dançámos, rimos e divertimo-nos até de manhã, quando a luz do sol começou a entrar pelas janelas do palácio. Foi uma noite tão feliz que houve quem murmurasse que a festa parecia um banquete de casamento.

 

Enquanto George e eu nos encontrávamos na praia, chegou um cavalheiro com a esposa e o seu séquito para fazerem a travessia do canal. O homem era bem parecido, a mulher formosa e seguiam-nos as criadas e várias filhas. Detiveram-se contra o vento, estremecendo só de pensar que teriam de realizar a travessia num barco de madeira, sobre o mar revolto.

 

- Oh, George - exclamei. - Acabo de ter uma visão do meu passado! Tinha nove anos. Era alta e muito magra, lembras-te?

 

- Lembro-me de ti assim. Alegre, de temperamento vivo. Olhos negros. A menina de nosso pai.

 

- Não estavas connosco aqui em Dover, no dia em que nossa irmã Mary e eu acompanhámos a princesa na sua viagem nupcial para França?

 

- Nessa altura, encontrava-me em Londres.

 

- Estava um dia parecido com o de hoje, cinzento, frio, com o mar bravo. Estávamos todos na praia, a olhar para os vários navios ancorados ao largo, aguardando o nosso embarque. Foi nesse dia que vi Henrique pela primeira vez. Pareceu-me belo como um deus, coroado rei havia pouco, ainda feliz com a sua esposa espanhola. Viera despedir-se da irmã, que enviara para casar em França com o velho rei Luís. Vi-o na praia, embora ele não tivesse reparado em mim que não passava de uma menina magrizela. Nesses tempos, só tinha olhos para a rainha, a orgulhosa Catarina, grávida, de ventre inchado.

 

- Recordo-me de Henrique nesses tempos - disse George. - Parecia-me desmesuradamente grande, como se as suas vestes estivessem a ponto de rebentar de tanta vitalidade e avidez pelo mundo. A sua infância fora uma espécie de prisão; segundo filho, destinado à igreja, enclausurado nos austeros aposentos do próprio pai. Bem instruído, mas sem poder falar senão com os seus preceptores, caminhava sozinho pelos jardins vazios do palácio. Um jovem isolado. Depois o pai morreu logo a seguir a Artur. Oh, Ana o jovem Henrique parecia uma borboleta acabada de sair de um casulo, completamente formado, para seguir uma vida alegre e emocionante. Henrique, o Grande... um cognome apropriado para um rei maravilhoso. George voltou-se e tomou-me as mãos.

 

- Há-de casar contigo. Sei que arranjará maneira. Tenciono regressar para presenciar a coroação de minha irmã.

 

Nesse momento, surgiu um marinheiro que veio avisar George de que deveria embarcar no pequeno bote, para chegar ao navio que, ao largo, balançava com o embate das ondas. Beijei-o, encomendei-o a Deus e deixei-o ir. Subiu a bordo e vi um golpe de vento arrebatar-lhe o gorro, que afinal conseguiu segurar com a mão. Voltou-se e sorriu de novo, parecendo de novo, com ar traquinas. O caloroso afecto do seu sorriso percorreu a praia e envolveu-me como uma capa de lã. Assim protegida, fiquei a ver partir o navio, que em breve desaparecia na linha do horizonte.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

Nota: Segundo os registros históricos, o príncipe Artur morreu em 1502, cinco meses após o seu casamento com Catarina de Aragão. Henrique VII, seu pai e pai de Henrique VIII, morreu em 1509. [N. da T.]

 

25 de Dezembro de 1529 Diário,

 

Ai que desdita a minha! Escondida nos meus aposentos, oiço o ruído das festividades natalícias no grande salão de Greenwich celebrações grandiosas e públicas presididas pelo rei e pela rainha, enquanto que eu estou apenas acompanhada por minha mãe e irmã, Thomas Cranmer e alguns cortesãos que me são fiéis. George continua em França e meu pai - que julgo ignorar o significado da palavra lealdade - festeja esta noite ao lado do rei.

 

Reprovei veementemente Henrique por esta triste decisão, porém declarou-se impotente para alterar uma antiga tradição.

 

- Enquanto Catarina for rainha - respondeu - deve manter-se como minha consorte oficial, durante as festas de Natal e Páscoa. Noutras ocasiões, meu amor, sereis certamente vós a acompanhar-me. já causámos escândalo por exibir em público o nosso amor, todavia nestes dias sagrados, os meus súbditos não permitiriam a vossa presença a meu lado e revoltar-se-iam. Perdoai-me, Ana, peço-vos.

 

Não perdoei ao rei e, com as lágrimas a correrem-me pelas faces, ordenei-lhe que se afastasse da minha vista. Agora escuto a música que chega do salão lá de baixo, imagino as mesas festivas, iluminadas por um milhar de velas, os esplêndidos convidados de Henrique, as suas jóias, as suas vestes elegantes, a dançar e a rir, com os meus inimigos, encantados com a minha ausência.

 

Confessei estas tristezas a minha irmã viúva, que escutou as críticas que fiz a quem me detesta. Em primeiro lugar, a rainha que, com a sua perseverança e exasperante dignidade, contém as maquinações de Henrique e recusa-se a tratar-me mal. Mary afirma que Catarina não acredita que nos casemos e, que se se mantiver firme no seu lugar e nada disser de ofensivo ou insultuoso, chegará o dia em que recuperará a sua posição no coração do rei bem como a validade do seu casamento. Diz que a rainha não pode odiar-me, pois a sua fé católica e amor piedoso não lho permitem.

 

É bem diferente a atitude da princesa Maria. Tal como eu, minha irmã apercebe-se do veneno do olhar da jovem. Católica ou não, deseja ver-me morta. E embora Henrique despreze cada vez mais Catarina, adora a sua bonita filha Maria, agora com treze anos, inteligente e instruída, a sua Pérola do Mundo. Até que do meu ventre nasça um príncipe, esta frágil menina continua a ser a única herdeira legítima do Rei.

 

Inimigas de menor importância mas, mesmo assim incómodas, são as aias espanholas de Catarina. já afirmei de viva voz que gostaria de as ver afogadas no fundo do mar. Mary perguntou-me se era verdade que eu dissera à aia da Rainha, Maria de Moreto, que preferia ser enforcada a reconhecer Catarina como minha ama. Confessei que sim, que era verdade e Maria soltou uma gargalhada que eu acompanhei. Foi bom sentir erguer-se a nuvem cinzenta do meu coração enquanto arremetíamos contra outros adversários, com gracejos e troças.

 

Depois perguntou-me qual era o meu mais fervoroso desejo. Levei algum tempo a responder. Que Henrique afastasse da corte a rainha Catarina e a princesa Maria, respondi, por fim.

 

- Deixa-me dizer-te como poderás obter tal favor do rei. - Inclinou-se mais. - Henrique é um homem lascivo e nem todos os beijos e carícias deste mundo o contentam.

 

- É como te digo, minha irmã. Nos seus sonhos sou muito melhor do que poderia ser na realidade.

 

- Dá-lhe alguma coisa, Ana, mas mantém a tua virgindade. Adopta a técnica francesa para o satisfazer... com a boca. Juro que para ele será maravilhoso e que nem conseguirás contar os presentes e favores que te concederá depois de uma noite de tais carícias.

 

Senti ferver-me o sangue. Deveria aceitar o conselho de uma concubina usada e desprezada por Henrique?

 

- Queres ensinar-me estratégias de amor, quando estou a um passo da coroa de Inglaterra?

 

- Oh, faz como quiseres, minha irmã. Mas essa coroa está ainda firme sobre a cabeça de Catarina, que não desistirá dela assim com tanta facilidade.

 

- Henrique ama-me!

 

- Henrique é caprichoso.

 

Tive desejos de lhe esbofetear o belo rosto; contive-me, porém. Embora acredite piamente nas boas intenções do rei, sinto-me abandonada e afastada durante as festividades do Natal.

 

Meu Deus, rezo para que minha irmã se engane e que, no próximo Natal eu já seja rainha.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

9 de Junho de 1530 Diário,

 

Estou muito satisfeita por nos últimos tempos estar a ser instruída nas artes da intriga e da política. Os meus professores - Norfolk, Suffolk, Thomas More e lorde Wiltshire, meu pai, são os maiores artistas deste mundo. Observo-os atentamente, enquanto tecem, com fios dourados, juntamente com o rei, a bela tapeçaria de feudos, súbditos, guerras e impostos; a seguir bordam-na com elegante diplomacia e leis e embainham-na com o fio que são os nobres e os guerreiros fiéis.

 

Fui mandada chamar por um tal mestre Cromwell, secretário do cardeal Wolsey e essa audiência deixou-me intrigada. Aquele homenzinho, vestido de negro, como os advogados, de olhos vivos, nariz pontiagudo, boca pequena numa cara redonda, vinha pedir-me, em nome do seu ainda banido e desterrado amo, um gesto amável da minha parte e da de Henrique. Enquanto se referia a Wolsey, muito doente de hidropisia, desesperado e com extrema necessidade de conforto, tive a sensação de que havia naquele homem uma segunda intenção. Nada nas suas palavras me faria suspeitar da sua deslealdade. Apenas um certo brilho nos seus olhos inteligentes, um meio sorriso nos lábios, que falavam de outros objectivos e esquemas. Talvez que este filho de um fabricante de cerveja, que tanto subira na vida, sentisse admiração pela jovem que transformara o outrora poderoso cardeal num pobre suplicante.

 

Este estranho homem provocou a minha curiosidade, de tão seguro e confiante. Todavia evitei interrogá-lo e, com fingida generosidade, entreguei-lhe um pequeno presente para Wolsey - um caderninho dourado que trazia à cintura e onde escrevi algumas palavras de consolo e louvor. Ele agradeceu humildemente, fez uma profunda reverência e retirou-se.

 

Pressinto que Thomas Cromwell fará parte do meu futuro. Decerto que o tempo o dirá.

 

Neste seu apaixonado apego à minha pessoa, o rei delineou uma interessante estratégia para solicitar o divórcio. O novo capelão da minha família, Thomas Cranmer, homem afável e bondoso, vindo de Cambridge, sugeriu ousadamente que Henrique não necessitava da aprovação de Roma, apenas da opinião de vários teólogos europeus que opinassem se o Papa agira bem ou não ao conferir ao rei uma dispensa para se casar com a viúva do irmão. Estes poderiam mesmo julgar o caso. Esta ideia tão simples teve o efeito de uma bomba sobre a cabeça do rei.

 

Impressionado com a opinião do seu clérigo, Henrique declarou que Cranmer tinha toda a razão e, sem demora, enviou emissários a todas as universidades da Europa, com os bolsos cheios de ouro. A finalidade seria guiar o espírito dos eruditos em direito canónico e ajudá-los a ver a lógica do seu divórcio, para que dessem um parecer favorável sobre esta questão. Daqui retiro a lição de que, para obter determinados fins, não importam os meios utilizados. E o nosso futuro casamento é causa bastante para todo o tipo de intrigas maquiavélicas.

 

Contudo, isto causou grande confusão. O povo nas cidades e campos despreza os sacerdotes e bispos ingleses, de modo que quando esses mesmos clérigos defendem nos seus púlpitos o direito de Henrique se divorciar de Catarina e da regra de Roma, insultam-nos e mostram-se ofendidos. O próprio Henrique vacila nas questões heréticas. Furioso com o tratado de Tyndale que crucificava Wolsey e condenava o seu divórcio, ofereceu subitamente a este autor um lugar no Conselho Real, na condição de que se retratasse em público!

 

Por vezes, parece-me que o mundo enlouqueceu e eu com ele. Porém, se queremos atingir a nossa meta, devo continuar firme nos meus propósitos e apoiar Henrique.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

1 de Dezembro de 1530 Diário,

 

T Carlis Ebor morreu. Não decapitado conforme ordem dada por Henrique, mas de vulgar disenteria a caminho da Torre de Londres. Receei que a batalha final de Wolsey pela estima de Henrique obtivesse nova vitória porque, ultimamente, o rei se tem mostrado insatisfeito com os seus conselheiros Wiltshire, Suffolk e Norfolk, lamentando que o cardeal fosse um homem muito melhor do que todos eles juntos. Devolvera-lhe as terras, deixara-o continuar arcebispo de York e fizera-lhe um pequeno presente de três mil libras. Fiquei muito preocupada. E se Henrique reincorporasse esse prelado no seu Conselho? Wolsey continuava a odiar-me. Nas últimas semanas, vim a saber através de certos espiões, que, durante a sua ausência da corte, o cardeal se correspondia traiçoeiramente com o Papa e tinha aprovado um édito para me obrigar a separar do rei.

 

O duque de Norfolk, sem dúvida com interesses egoístas, que coincidiam com os meus desejos, arrancou ao doutor Goatini a declaração de que o cardeal pedira ao Papa a excomunhão de Henrique, a menos que este me expulsasse da corte. Pior ainda, o cardeal preparava um enorme levantamento, para ele próprio conseguir as rédeas do governo. No Parlamento o novo chanceler, Thomas More, falou com rancor de Wolsey, o ”eunuco” caído em desgraça, e da necessidade do rei eliminar do seu rebanho os homens imperfeitos e corruptos. Os meus ruidosos protestos juntamente com a declaração de More e a informação de Norfolk não puderam deixar de ser ignorados. Com expressão impenetrável, silencioso, sem dúvida com o coração partido, Henrique assinou uma ordem para a rápida prisão do cardeal Wolsey.

 

Como faltava decidir quem executaria essa ordem e poucos se mostravam com coragem para tal tarefa, fui eu própria que designei a pessoa. E a minha escolha recaiu, nada mais, nada menos, do que sobre Henry Percy, lorde Northumberland. Oh, que doce vingança! Quem me dera ter sido uma mosca poisada, nessa noite, numa parede da casa do cardeal - justamente na véspera do dia em que ele esperava ser reconduzido no bispado de York. Afinal, viu Percy entrar-lhe na sala de jantar e dizer estas palavras: ”Meu senhor, venho prender-vos, pois sois acusado de alta traição.”

 

Depois, sob pesada escolta armada, e com muito mau tempo, enquanto era conduzido para sul, para a sua inevitável execução, sentiu-se indisposto e caiu. O cardeal Wolsey morreu na Abadia de Leicester, muito mais em paz do que eu esperava, privando os meus olhos do seu humilhante fim.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

7 de Fevereiro de 1531 Diário,

 

Deus abençoe o mestre Cromwell. Em estreita e clandestina relação com Sua Majestade - tem um aposento no palácio de Greenwich, a que o rei tem acesso secreto - delineou um plano tão ousado, brilhante e extraordinário que já se avista o fim da ”grande questão” do rei. Só um espírito brilhante poderia conceber a consagração de Henrique como Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra!

 

No sínodo de Cantuária, Cromwell falou diante dos clérigos reunidos, fazendo notar que os sacerdotes ingleses conferem toda a autoridade a uma potência estrangeira - o Papa. Depois, esgrimindo este facto com uma mão e o terror com a outra, acusou todos os clérigos da ilha de faltarem à lei de Praemlinire, o mesmo crime de traição que ocasionara a queda de Wolsey, Finalmente exigiu que pagassem um preço, por assim dizer um resgate, para obterem o perdão do rei! Cromwell afirma que quando se quebrar a espinha dorsal da Igreja, o Santo Padre cairá do seu trono e Henrique passará a ser o Vigário de Cristo em Inglaterra e poderá então ordenar o prelado mais importante do país - o Arcebispo de Cantuária - que lhe concederá o divórcio. Depois, contrairemos matrimónio. Pois bem, foi enorme a celeuma daquela comunicação. Horrorizados, mas engolindo a sua raiva, os bispos tentaram em vão chegar a uma conclusão menos drástica do que declarar Henrique Protector e Chefe Supremo da Igreja e do Clero em Inglaterra!

 

O lorde-chanceler More ficou lívido. Porém mostrou-se impotente no seu novo cargo que dantes o velho Wolsey manobrava como um garrote. Tal como já antes dissera a Henrique, More não alterou a sua posição acerca do divórcio real, mantendo-se firmemente contra. Porém, Thomas More não passa de um títere do rei, demasiado bondoso e flexível para ir contra a sua vontade. Nas suas funções, este homem tão dedicado à família, com princípios supostamente elevados, tem perseguido impiedosamente os hereges. Afirma que os descrentes nada mais merecem que a exterminação e mostra-se simplesmente intolerante. Os seus escritos constantes sobre a questão desagradam ao rei e com toda a razão. Como se fosse pouco, aos cidadãos encontrados a ler a Prática dos Prelados de Tyndale, atam-lhes essa obra ao pescoço com uma corda e obrigam-nos a desfilar pelas ruas de Londres, para depois queimarem os livros em grandes piras. já mandou chicotear e torturar homens e mulheres, ameaçando lançá-los também à fogueira.

 

Insensível ao incómodo do seu chanceler, o rei ordenou a More que fizesse um discurso na Câmara dos Lordes e a seguir na Câmara dos Comuns, defendendo perante elas os motivos de Henrique para se divorciar de Catarina. Angustiado e humilhado, More argumentou que o seu Rei não agia por amor a uma dama, como alguns diziam, mas puramente por problemas de consciência e escrúpulos. More deve ter-se sentido sufocado por ter pronunciado mentiras tão amargas.

 

Espanta-me esta histórica decisão de Henrique, pois foi só por mim que arrebatou o chapéu ao Papa e o colocou sobre a sua coroa. Tremo só de pensar... mas também sorrio. Sou

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

Espero ter descoberto o que Vossa Majestade deseja - disse o mordomo-mor Francis Knollys, por sobre o ruidoso entrechocar das pesadas chaves na corrente que tinha pendurada à sua fina cintura.

 

O primo de Isabel tinha pernas compridas e era uns centímetros mais alto que a rainha, mas mesmo assim era-lhe difícil acertar o passo pelo dela enquanto atravessavam a longa galeria do castelo de Greenwich.

 

- Minha mãe foi uma das aias da vossa mãe até quase ao fim da vida - declarou. - Segundo me disse, era perigoso mostrar simpatia pela rainha Ana e a maior parte dos seus pertences foram dispersos ou destruídos logo após a sua morte.

 

Isabel sentiu uma sensação dolorosa invadir-lhe o corpo ao pensar naquela mulher, outrora tão amada pelo esposo, cuja memória fora tão rápida e rudemente esquecida. Era-lhe estranho e até incómodo falar abertamente da mãe, condenada por alta traição, cujo nome mal pronunciara nos seus vinte e cinco anos. Porém KnoIlys, seu parente por parte dos Bolena, parecia não ter escrúpulos em falar do assunto.

 

- O nosso amigo Thomas Wyatt, Deus tenha a sua alma em descanso, sempre disse que o pai estivera apaixonado por Ana Bolena. Escrevia-lhe versos e o rei tinha ciúmes. Foi-lhe fiel até ao dia em que ela morreu.

 

Fora o mesmo Wyatt que, não só oferecera o diário a sua mãe, como lhe instilara confiança para nele escrever; tinha também defrontado muitas vezes a ira do rei, mas conseguira viver a sua vida e morrer de morte natural. O filho, do mesmo nome, protestante patriota, morrera havia alguns anos sob o machado do carrasco depois de conduzir uma revolta contra o facto da rainha Maria ter escolhido um noivo espanhol.

 

- Pronto, Majestade - KnoIlys deteve-se ao fundo do corredor, junto a uma porta de madeira trabalhada enquanto escolhia, entre as muitas chaves que trazia à cinta, aquela que servia na fechadura ferrugenta

- Não há aqui muita coisa, contudo, julgo que tudo isto pertenceu à rainha.

 

Abriu de par em par a porta de um quarto que pouco maior era que um armário e que deveria ter servido de aposento privado a alguma aia ou cortesão. Knollys afastou uma pesada tapeçaria, para revelar uma janela suja. O pó rodopiava pelas fitas de luz, que conseguiam a muito custo entrar através do vidro.

 

- Desejais que vos traga um archote?

 

- Não, não. Abri a janela. Será suficiente.

 

Com enorme rangido abriu a vidraça e o quarto encheu-se com a luz da manhã.

 

- Obrigada, Francis, estou-vos muito grata. Podeis retirar-vos.

 

- Majestade - Knollys inclinou-se com as pernas rígidas e saiu, fechando a porta atrás de si e sem fazer ruído. Isabel viu-se por fim sozinha, com tudo o que restava de sua mãe e olhou com avidez para tudo o que a rodeava - aqui uma almofada bordada, ali uma tapeçaria antiga, descuidadamente dobrada, um par de castiçais de bronze, um crucifixo, uma campainha de vidro veneziano ja rachada.

 

Isabel abriu o armário. No seu interior pendia um vestido já desbotado, com enfeites vermelhos e cor-de-laranja, cuja estreita cintura e corpete davam crédito aos rumores acerca da figura de Ana Bolena. As mangas estavam amarrotadas no fundo do armário, com as fitas de seda ainda passadas nas ilhós. Isabel ergueu uma delas e reparou na pequena pala pontiaguda, para tapar o pequeno dedo, próximo do pulso esquerdo. A mãe inspirara aquela moda para esconder aquele diminuto apêndice de carne e unha, a sua ”marca de bruxa”. Isabel encostou a manga ao rosto. Inspirou profundamente, pois os anos haviam disfarçado os odores. Porém restava um doce perfume, juntamente com o cheiro de um corpo humano, uma mistura de essências e almíscar. Sua mãe. Sim. Era-lhe tão distante e, ao mesmo tempo, tão familiar. Fechou os olhos e tentou recordar-lhe o rosto, porém apenas via uma luz ofuscante, a recordação de um riso alegre e partes de uma canção de embalar, francesa, cantados numa voz bem modulada.

 

A rainha fixou a seguir o olhar no catre baixo, agora desprovido de colchão, onde estavam empilhadas várias caixas e um enorme baú pintado, ao estilo italiano. Abriu-o e descobriu uma nuvem de traças mortas e uma mistura de objectos que mostrava bem a pressa com que tinham sido guardados. Havia um cesto com sapatos de salto, um par de cetim verde, debruado a renda, um de brocado de ouro e outro de veludo negro com borlas prateadas. Em todos eles havia a marca do pé esguio de Ana, marca essa de que a rainha tinha dificuldade em afastar o olhar.

 

Porém havia mais. Envolvida num pano fino encontrava-se um regalo de raposa vermelha, quase comido pelas traças e uma caixa de prata para cosméticos - um pó branco, fantasmagórico que havia muito, perdera o perfume, um boião de vermelhão, para dar cor às faces, frascos de loções agora duras e rachadas. Em pequenos sacos, atados com fitas, poções de ervas e preparados medicinais, já transformados em pó. A miniatura de um belo homem, emoldurada a pérolas, talvez seu tio George. Encontrou, cuidadosamente dobrada, a libré de um dos criados de Ana uma jaqueta de veludo púrpura e azul, com as palavras La Plus Hereuse, ”a mais feliz”, bordadas no peito.

 

Isabel fechou o baú com uma pancada seca, enviando outra nuvem de pó para a sua dança rodopiante à luz do sol e abriu uma das caixas de madeira. Livros. Os livros de Ana. Isabel sabia que eram preciosos, pois tinham formado a substância da inteligência e das crenças de sua mãe. A rainha pegou num deles e leu o título gravado a ouro sobre a capa de pele: A Nobre Arte da Montaria e Caça. Lá estavam os muito folheados Contos de Cantuária, de Chaucer, vários livros de cavalaria, vários livros de poesia francesa. Encontrou um volume enorme de desenhos de todas as flores e árvores inglesas e outro de plantas medicinais com as suas utilizações. E ainda outro de capa cor de vinho e com ar de ter tido muito uso: tratava-se da obra de Tyndale Obediência de um Cristão, que sua mãe oferecera a seu pai para que o rei pudesse ler e tomar conhecimento dos princípios da nova religião. Isabel abriu o livro com todo o cuidado, voltando as páginas do mesmo modo que imaginava terem-no feito seus pais. Deteve-se, atraída por um sulco quase invisível, que sublinhava uma passagem da página setenta e um. Falava do dever de Henrique cuidar das almas dos seus súbditos. Era o texto que Ana marcara com a unha para que Henrique o lesse com atenção.

 

A nova religião. Quantos não tinham morrido, pensou Isabel, só pelo direito de acreditar que um homem podia falar directamente com Deus, escolhendo o raciocínio à fé. Se a Reforma tivesse sido um caminho, este teria começado às portas da cidade Wittenberg, a cidade de Lutero, estendendo-se por todo o continente, ramificando-se por todas as cidades e aldeias. Lutero, Calvino, Zwingli, como grandes generais, haviam conduzido exércitos de convertidos pela estrada cheia de mártires sem vida, até uma revolução que mudara para sempre a história do mundo.

 

E, em Inglaterra, pensava Isabel, passando o dedo pela passagem marcada do livro de Tyndale, uma jovem plebeia, tinha, para espanto dos fiéis, afastado de Roma o seu rei, profundamente católico, que assumira a independência da religião. Claro que fora um caminho sinuoso e difícil para os ingleses. Henrique, outrora o soberano mais estimado pelo Papa, estava longe de ser um zeloso reformador. De facto, manteve-se um católico fiel até à morte, em todos os aspectos, excepto em um - a sua descrença na supremacia do Papa. Não fora a cega paixão por sua mãe, pensou Isabel, e a necessidade política de um herdeiro varão que ela lhe prometera e a Inglaterra teria continuado esmagada pelas garras da autoridade papal.

 

A insistência de seu pai em que o casamento com a viúva do irmão fora uma blasfémia aos olhos de Deus, não dava direito aos ingleses de lerem as Escrituras na sua própria língua. Embora Henrique tivesse ele próprio tido conhecimento das obras de Tyndale, condenava do fundo do coração a tradução que esse autor fizera da Bíblia. Isabel recordava-se que o seu preceptor lhe contara que o pai tinha acusado Tyndale de traição simplesmente por ter tentado imprimir a sua Bíblia em Inglaterra e de como os agentes reais o tinham perseguido implacavelmente quando fugiu para a Europa em busca de um editor. Por fim, no ano em que Henrique se apresentou perante o sínodo de Cantuária e se declarou Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra, enfrentando a sua própria excomunhão, ordenou a execução de Tyndale como herege. O homem que tinha dito a um amigo católico: ”Se Deus mo permitir, não hão-de passar muitos anos até que consiga que o simples rapazinho que conduz o arado saiba mais que vós acerca das Escrituras”, foi publicamente afastado e queimado enquanto gritava: ”Que Deus abra os olhos do rei de Inglaterra!”

 

Quando Henrique morrera, agarrado à mão de Thomas Cranmer, seu grande amigo, o rei-menino Eduardo VI, meio-irmão de Isabel, ocupara o trono e conduzira a Inglaterra para o seu primeiro compromisso com o protestantismo fanático e opressor. Contudo, Isabel tinha conhecimento de que os sequazes de Eduardo haviam saqueado as igrejas, não tanto para as despirem dos sagrados símbolos católicos, como para retirarem todo o ouro e prata dos altares e assim enriquecerem o desprovido tesouro real.

 

Mais tarde, durante o reinado de sua irmã Maria, a contra-revolução não passara de outro pesadelo. Os laços com Roma foram restabelecidos, a Reforma apenas sobrevivera na clandestinidade, milhares de hereges protestantes foram mortos, incluindo Thomas Cranmer e a vida da própria Isabel correra sérios riscos. Obrigada a assistir à missa para se fingir crente, rezara todos os dias a Jesus para ter forças para continuar e um dia poder restaurar o verdadeiro destino da sua nação. Uma vez no trono, Isabel cumprira as suas intenções, sem derramamento de sangue.

 

Mesmo assim, a religião era uma questão complicada, pensava Isabel enquanto voltava as páginas da obra Loucura de Tyndale. Mesmo ela, com a sua postura moderada e indulgente, acreditava que os sacerdotes deviam manter-se celibatários. Como poderiam atender com dedicação e honestidade à obra de Deus, mantendo ao mesmo tempo uma mulher na cama e filhos para criar. E tinha de admitir que a sua natureza dramática apreciava os grandes rituais, a música e os ricos paramentos da antiga fé. Era uma questão, concluiu Isabel, enquanto fechava o livro e o metia entre as dobras da sua saia, tão profunda e complicada como a alma das pessoas, uma questão que se manteria sujeita a mudanças durante todo o seu reinado e pelo futuro de Inglaterra. Porém, sentia grande prazer e agrado em saber que os importantes acontecimentos na Igreja e no Estado, embora não tivessem tido origem em Ana e Henrique haviam pelo menos tido os seus mais importantes pontos de viragem em redor de seus pais.

 

Isabel fechou a caixa de madeira e a janela e, com um sorriso satisfeito, saiu do quarto cheio de recordações de sua mãe, tencionando lá voltar num outro dia.

 

15 de Agosto de 1531 Diário,

 

Acusam-me de arrogância e astúcia. Mas, dizei-me, qual a mulher que vive e respira que consegue resistir a ser um pouco arrogante, quando, por sua causa, o próprio rei e Inglaterra expulsa da corte a sua esposa e rainha? Louvado seja Jesus por ter permitido que tal tenha finalmente acontecido. Em todos os palácios de Henrique, lady Ana de Rochford ocupa agora os aposentos que foram de Catarina. Como é agradável não sentir os seus olhares gelados, não ver a sua expressão austera, nem ter de suportar em todos os dias festivos, a sua imponente presença pública e ar piedoso. O rei sente-se aliviado por ter derrubado Catarina do seu trono, sem que se ouvisse falar de qualquer castigo ou excomunhão de Roma.

 

A princesa Maria foi também afastada da corte e Henrique obrigou-a a uma separação da mãe que julgo excessiva e mesmo cruel. Porém, Henrique diz, e com alguma razão que, juntas, são fortes e podem fomentar uma conspiração e talvez mesmo um levantamento contra nós.

 

E que mulher carente de astúcia conseguiria presidir com o rei e o embaixador de França na mesa principal do banquete, acima de seu pai e dos duques de Norfolk e Suffolk, sendo o centro das negociações para a obtenção da sua própria mão. Suponho que sim, que sou astuta. Mas não procurei este caminho estranho e perigoso. Era apenas uma simples jovem que amava um simples rapaz. Mas depois de me haverem arrebatado esse amor e com a presença de Henrique, tenho de confessar que mudei, endureci, granjeei inimigos e aprendi uma forma de guerra cortês em que talvez uma alma mais sensível se sentiria ferida e acabaria por morrer.

 

Mas eu, não. Não, eu não. Uma vez iniciada, esta árdua batalha pela coroa de Inglaterra não poderá ter senão um desfecho. Serei rainha. Os que lutam a meu lado serão bem recompensados. Os que se opõem, vão desejar nunca o ter feito.

 

Nos últimos dias, o rei parece um enorme touro bravo, que avista no horizonte verdes pastagens e para lá se encaminha, pisando tudo o que se encontra no caminho, apesar dos perigosos obstáculos. Infelizmente, não sinto ainda por Henrique um amor profundo. Porém, acredito que algo muito parecido já se forma no meu peito.

 

Seria uma mulher fria se não me sentisse comovida pela sua afeição. Julgo que em breve conseguirei amá-lo.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

29 de Setembro de 1531

 

Oh, diário!

 

O facto de vos escrever hoje e em qualquer outra ocasião, devo-o à boa sorte e a lealdade de uma ajudante de cozinha chamada Margaret. Depois de se ausentar para visitar o irmão doente no sul de Londres, voltou à casa de Durham que meu pai possui perto do rio e encontrou nas ruas uma concentração pouco vulgar de pessoas. Dessas casas e cabanas as mulheres que me odeiam e adoram a rainha lançaram gritos contra a minha pessoa. Eram centenas, ou melhor, milhares que se haviam reunido, empunhando vassouras, facas e paus que brandiam no ar como se me quisessem atingir no peito ou na cabeça. ”Não queremos Nan Bolena. Vamos matar a rameira de olhos esbugalhados”, gritavam.

 

minha serviçal disse que tremera de medo e tivera até de soltar impropérios contra mim, temendo pela sua vida. Ao dirigir-se para casa, a multidão - pois era no que se tinha transformado aumentara. Ao grande número de mulheres, tinham-se juntado vários homens com trajes femininos e empunhando armas assassinas. E, por entre a multidão, correu o rumor de que eu me encontrava na residência de Durham.

 

Margaret desejava poder correr até aqui com a notícia, mas receou que as suas acções se tornassem suspeitas para a multidão em fúria e portanto, viu-se obrigada a procurar um atalho para conseguir chegar a casa de meu pai antes de toda a multidão assassina.

 

O dia estava quente e eu encontrava-me com minha mãe no quarto onde as costureiras me provavam alguns vestidos para a corte. Meu pai encontrava-se em França e Henrique, na caça, estava também distante quando Margaret, vermelha e a suar, ofegante como um cão, entrou de rompante para trazer as novidades.

 

- Peço perdão lady Rochford, mas uma enorme multidão dirige-se para cá, com intenção de vos fazer mal!

 

Minha mãe olhou-me nos olhos.

 

- Ide-vos - disse às costureiras e a Margaret. - Dizei aos outros criados que deixem imediatamente o trabalho e partam. Todos, excepto mestre Richardson. Dizei-lhe que iremos ter com ele na porta que dá para o rio.

 

Envergonho-me de dizer que me senti paralisada de medo e que apenas tive presença de espírito para agarrar no diário, escondê-lo nas minhas saias, antes que a mão segura de minha mãe me conduzisse pelas escadas, entregando-nos aos cuidados do criado. Richardson era um homem forte e calmo e, com uma rapidez de que mal me apercebi, levou-nos pelo enorme relvado até um pequeno barco que balançava no ancoradouro. Depois, ouvi o som trazido pelo vento. Um som que me pareceu familiar, mas não consegui reconhecer. Parei para escutar e, com os pés firmes na relva, tentei lembrar-me.

 

Minha mãe chamava-me: ”Ana, vem depressa!” Percebi então de que se tratava. Era o ruído de vozes, de muitas vozes e os seus gritos pareciam terríveis quando chamavam pelo meu nome, entrechocando armas, batendo com as botas no chão, aproximando-se, cada vez mais...

 

Richardson agarrou-me pelo braço e puxou-me para o barco, onde minha mãe me recebeu com os olhos aterrorizados. Ao afastarmo-nos ouvimos vidros que se partiam, e paus a bater em pedra: avistámos a multidão a invadir a casa de meu pai, gente horrível que saía pelas portas das traseiras para o relvado que dava para o rio. Eram mulheres furiosas que corriam para a margem com o rosto afogueado, brandindo vassouras e paus, soltando impropérios, desejando que o barco se voltasse na esperança de que eu morresse afogada.

 

Agora estou alojada em Greenwich e escrevo com mão trémula, à luz da vela. Não sou perfeita, mas juro que não mereço tanto mal. Peço a Deus que me proteja e veja o meu lado bom.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

14 de Maio de 1532 Diário,

 

O rei e Cromwell travam uma terrível batalha contra o clero inglês e Thomas More, que o apoiou, foi derrotado. Henrique mostrou o seu desagrado pela lealdade da igreja a Roma que tem redundado em prejuízo da fidelidade a Inglaterra e à coroa. Assim, segundo as normas tradicionais, o Papa era o verdadeiro rei e Henrique não passava de um peão. Os bispos Tunstall e Fisher defenderam com toda a veemência essas antigas leis, o que enfureceu Henrique. Apesar da preocupação que sentia para que os súbditos considerassem sagradas as leis da Igreja, e temendo que se passasse o mesmo que nos tempos de Thomas Becket, Henrique e Cromwell apresentaram o caso no Parlamento; os lordes apoiaram a causa. Na sua Súplica contra os Tribunais Ordinários, o Parlamento recusou os julgamentos eclesiásticos e o direito canónico que, redigido em latim, impunha severas medidas aos Ingleses, sem que o pudessem contestar.

 

Por decreto canónico, no julgamento contra um acusado de heresia, crime punido com a pena de morte, podem servir de testemunhas pessoas más e desonestas que podiam desejar-lhe mal, enquanto que nos tribunais comuns as testemunhas têm de provar a sua honestidade e boas intenções antes de falarem contra o acusado. O próprio More, chanceler do reino, católico fervoroso como há poucos, apoia estas normas injustas nos seus escritos, afirmando que a heresia é um crime tão mau que nenhuma lei é dura demais se for eficaz para eliminar os que a cometem, pois as almas são muito mais importantes que o direito civil.

 

Com efeito, More parece provocar não só a oposição ao modo de Henrique agir contra a Igreja, mas também contra o divórcio real. Não se aperceberá que a ira do Rei equivale à morte?

 

Cromwell e Henrique assediaram com intimidações e ameaças os pusilânimes e fracos clérigos, assustados com a perspectiva de ficarem sem as suas terras. Pouco dispostos a servir de mártires renderam-se mais uma vez à vontade do rei. Os cobardes prelados passaram para as mãos de Henrique um documento intitulado A Submissão do Clero. O rei aceitou-o avidamente. Supõe uma enorme mudança dentro da igreja e concede à coroa as suas antigas prerrogativas e autoridade. A partir de agora não se podem fazer leis sem o consentimento real e o sínodo não pode reunir-se sem autorização do rei.

 

Foi um grande dia para o rei, para Cromwell e também para mim, pois pondo fim ao poder da Igreja de Roma, Henrique está mais próximo de conseguir o divórcio e eu de chegar ao trono. No dia seguinte à entrega de A Submissão do Clero, no palácio de York, o chanceler More, completamente derrotado, devolveu a Henrique o Grande Selo do Reino, resignou das suas funções e retirou-se do cargo. Henrique, agora senhor absoluto do seu reino e da igreja, aceitou.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

20 de Agosto de 1532 Diário,

 

Alguma mulher poderá gabar-se de ter mais e mais ferozes inimigos do que eu? Homens do povo e nobres, mulheres, jovens, velhos, clérigos e até crianças. Um dia da última semana, enquanto andava a cavalo com Henrique, um rapazinho com menos de dez anos saiu ao caminho das nossas montadas gritando insultos à ”rameira do rei” para logo desaparecer por entre os altos arbustos. Henrique fez tenções de o mandar capturar, porém pedi-lhe clemência. Era demasiado jovem para conhecer o peso das suas palavras ou as consequências, comentou Henrique, mas há-de detestar-me quando eu for rainha. Porém, a meu pedido deixou ir a criança.

 

Muito mais me perturba a duquesa de Suffolk, irmã de Henrique que, sem dúvida se recorda de mim, quando eu não passava de uma menina pequena, irmã da sua aia, quando há muitos anos partiu para França, para se casar com o velho rei Luís. Agora o irmão quer desposar-me, erguer-me acima dela, fazer de mim a sua rainha. Despreza-me abertamente e os seus insultos outra coisa não são que ciúmes. Foi rainha de França durante três curtos meses e, logo a seguir, casou em segredo e por amor com Charles Brandon, o melhor amigo de Henrique. Agora a paixão transformou-se em azedume. Ele trata-a com brutalidade e desprezo e considera-a propriedade sua.

 

Contudo minha tia a mal-humorada lady Norfolk, tem mostrado ultimamente um ódio ainda mais desprezível à minha pessoa, mostrando-se muito ofendida com a minha subida de posição. É verdade que a linhagem que Henrique encomendou para a família Bolena é tudo menos verdadeira. As raízes da ricamente ornamentada e colorida árvore genealógica não passam de mentiras. O meu mais antigo antepassado era um tal Geoffrey Bolena, mercador de lã, chegado a solo inglês há cem anos atrás, e não, conforme afirmam os heráldicos de Henrique, um lorde normando aportado à ilha quinhentos anos antes. Porém, apesar dos meus avisos e súplicas, sabendo bem que estas invenções apenas haveriam de contrariar os nobres verdadeiramente puros, Henrique insistiu na mentira e exibiu orgulhosamente o documento nos salões da corte. A maioria das damas, ocultando-se por detrás dos seus leques, murmurou, troçando de mim com crueldade. Mas não a duquesa de Norfolk. Essa avançou, Majestosa, na minha direcção, olhou para o documento, pegou nele e rasgou-o em dois!

 

Não admira que a saúde de Henrique se esteja a ressentir. Acabou de fazer quarenta anos e mostra bem a idade que tem, no rosto e no corpo, pois engordou substancialmente. As faces, outrora juvenis, são agora uma máscara de tristeza. Uma enorme úlcera purulenta na coxa causa-lhe dores insuportáveis. Tem constantemente dores de cabeça. Mal consegue montar.

 

Tentei tratar dele. Consultei boticários, e mulheres com fama de bruxas para poder curar os seus males. Por alguns dias, uma poção de calêndula e olmo melhorou bastante a ferida da perna, porém, já se mostra de novo ensanguentada e com muito mau cheiro. Quando geme devido às dores de cabeça, massajo-lhe as frontes e a testa. ”Ah, Nan, que dedos tão frescos, que mãos tão suaves!” exclama, queixoso. Nestes momentos, em que o tenho preso a mim, sinto verdadeiro afecto por ele. Para falar verdade, receio-o, demasiado para o poder amar de todo o coração, tal como amei o meu doce Percy. Quem me ouvir fustigar o rei com palavras ásperas, não imagina o medo que sinto quando se aproxima. Conheço as suas capacidades, o fogo interior que se transforma em loucura. Vejo o campo de batalha que é a sua alma, os aterrorizados demónios na sua cabeça em combate perpétuo contra os anjos da sua inteligência, da razão e da poesia. Apenas Wolsey conhecia bem o rei... e está morto.

 

Os outros vêem apenas a imagem que ele deseja apresentar, magnífico no seu gibão aberto, de ombros largos, coberto de sedas escarlates, peles e ouro, qual Poseidón fazendo estremecer a terra, provocando tempestades. Quer ser temido por todos e, quando sente que assim é, despreza-os. Assusta-me este rei louco, porém tenho de disfarçar o medo com provocantes gargalhadas e palavras semelhantes às suas. Ele não se apercebe da minha primorosa representação e pensa que, exceptuando a ausência de sangue real, sou sua igual. Talvez sejamos parecidos, como um veado o é de quem o persegue, o cavalo e o cão, até à sua morte. Contudo sei que esta igualdade é a causa do amor que sente por mim e, que se necessário for, removerá as sete colinas de Roma para me fazer sua rainha.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

2 de Setembro de 1532 Diário,

 

Pensei ter, em cartas passadas, catalogado todos os meus inimigos. Contudo, chegou um de tão longe (e talvez de tão baixo) que mesmo eu fui apanhada de surpresa. Henrique deixou bem claro a todos que nos casaremos e aqueles que não o desejam tentam, por todos os meios impedir-nos o caminho. Uns argumentam que o casamento do rei com a rainha é legítimo e não pode ser dissolvido. Outros dizem que o divórcio é um erro e contra a vontade de Deus. Há ainda quem afirme que não sou adequada, pois sou plebeia e não posso trazer as vantagens de uma princesa estrangeira.

 

Mas, de súbito, lady Nothumberland irrompeu no cenário da política do reino. Esta mulher amarga e ressentida é afinal a esposa separada do meu querido Henry Percy e avançou com uma carta infame, em que lorde Northumberland afirma ter estabelecido um pré-contrato de casamento com a minha pessoa. Se isto se provar, o meu noivado com Henrique poderá ser anulado. Bom, a acusação é verdadeira e os factos ficaram há muito escritos nestas páginas, porém não passou de uma promessa de casamento entre dois namorados, apesar de se chamar pré-contrato e nos ligar perante a lei. No entanto, não estive disposta a que esta megera deitasse a perder todos os meus planos, de modo que agi com ousadia.

 

Em primeiro lugar, fui eu própria levar ao rei a ofensiva carta e declarei-lhe:

 

- Isto é obviamente mentira. Quem o afirma é uma mulher que deseja apenas o meu mal porque seu marido nunca a amou... porque me amava a mim. Quando éramos jovens, sentíamos uma atracção verdadeira e profunda, mas juro que nunca estivemos prometidos, nem nunca fomos amantes, como é aqui sugerido, antes de o cardeal Wolsey nos ter separado. Imploro-vos, chamai o acusado e deixai que fale a verdade.

 

O rei, que evidentemente desejava que a carta fosse mentira, concordou e mandou que os escrivães redigissem uma intimação a Northumberland.

 

Entretanto, chamei o meu mensageiro para que levasse rapidamente a Percy uma carta minha, marcando-lhe um encontro secreto, num local onde havíamos estado juntos muitos anos antes. Sob a cobertura da noite, velada e disfarçada, passei pelos sonolentos guardas do palácio e entrei sozinha na carruagem que percorreu as ruas empedradas e vazias, só frequentadas por mendigos em busca de comida e pelas prostitutas. Havia muitos anos que não via Percy de perto. Recordo agora o seu rosto, a sua doce expressão, a testa rosada e lisa e o modo como fazia o meu coração bater descompassadamente e os meus pés voarem, para ir ter com ele.

 

A carruagem deixou-me na taberna de Rosewood que também dispunha de quartos. O escasso período de tempo não me permitira aguardar a resposta de lorde Northumberland, mas tinha esperança que haveria de comparecer. Lá dentro, perguntei a um desmazelado criado em que quarto poderia encontrar mestre Longheart (pseudónimo que outrora usávamos para passar recados amorosos). O homem, fedendo a cerveja, lançou-me um olhar lascivo, enrugando o rosto coberto de sujidade.

 

- Que desejais desse homem? - resmungou, em tom impertinente.

 

- Dizei-me onde se encontra - gritei insistente por entre os véus que me cobriam.

 

Apontou para as escadas com o queixo mal barbeado.

- Número três.

 

A porta abriu-se antes de eu ter batido. Percy escutara os meus passos no corredor. Candeeiros fumegantes iluminavam o aposento e o homem curvado que me convidou a entrar. Ah, Senhor! Nem sei como descrever sem lágrimas nos olhos, o retrato daquele rosto desfigurado e lastimoso aspecto. Embora não o queira admitir, Percy está doente. Tem uma cor mortiça, acinzentada, manchas avermelhadas da febre e os olhos encovados. Nada resta do belo jovem que foi, excepto talvez o seu olhar bondoso que agora me fixava.

 

- Entrai, Ana! - disse em voz rouca e logo fechou a porta. Não passámos juntos mais de uma hora arriscando-nos a que se soubesse que nos tínhamos encontrado. Primeiro falámos dos venturosos tempos passados, do que nos acontecera, do estranho rumo que tomara a minha vida, do seu casamento forçado e sem amor com a megera que agora desejava a minha destruição e da sua chamada à presença do rei. Percy sabia que havia apenas uma resposta a dar e que teria de mentir. O rei não desejava saber a verdade, se esta nos separasse. Assim, como amigos e sem necessidade de pretextos, combinei com Henry Percy unirmo-nos uma vez mais e negar que alguma vez os nossos corações se tivessem comprometido com um futuro casamento.

 

Fiquei a ver da galeria, enquanto prestava as suas declarações perante o rei e o Parlamento. Pobre Percy, parecia ainda mais mirrado, cinzento e velho que nos dias anteriores. Em voz rouca mas firme, negou três vezes o nosso pré-contrato, tal como Judas fez com o Senhor. Satisfeitos, o Parlamento e Henrique disseram: ”Podeis retirar-vos” e ali terminou tudo.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

6 de Outubro de 1532 - Ah, diário!

 

Vivemos um idílico Outono. Navegando no Tamisa, numa barcaça dourada, passando por quintas, campos e aldeias, as tardes decorrem com doçura e calma. Nada de olhares curiosos, nem vozes desagradáveis a interromperem-nos estas horas de paz. O rei de Inglaterra e a marquesa de Pembroke (é o meu novo título que me transforma no mais alto par do reino, exceptuando o rei e os duques de Norfolk e Suffolk) percorrem esta estrada de água até Dover para logo atravessarmos o canal para Calais. Aí, conforme foi planeado, reunir-nos-emos com o rei de França que será testemunha do nosso casamento. Deus seja louvado, vamos por fim casar-nos!

 

Uma vez que o arcebispo de Cantuária, Warham, falecera de idade avançada, deixando livre a mais importante sede eclesiástica de Inglaterra, o espírito de Henríque pareceu abrir-se como uma flor ao sol de Primavera, e dele brotavam, como sementes, as possibilidades de mudança que enchiam o ar. Nem mesmo os cortesãos que deram desculpas fingidas para se manterem à margem da nossa viagem nupcial conseguiram alterar o humor de Henrique. O rei não quis levar em conta as minhas dúvidas por não casar em solo inglês, onde as rainhas devem contrair matrimónio e ser coroadas, assegurando-me que o apoio firme de Francisco valia o seu peso em ouro e que a seguir eu seria coroada em Inglaterra. Nem sequer a peste que grassava nas localidades situadas nas margens do rio, conseguiu ensombrar a sua felicidade. Entregou-se a um turbilhão de preparativos - enviou exércitos de ourives, costureiras, rendeiras, peleiros - para me tratarem do enxoval.

 

Partimos de Greenwich na barcaça real, carregada de armários cheios de roupa, caixotes com reposteiros, tapeçarias, uma baixela de ouro e até mesmo a enorme cama de Henrique que foi desmontada para a podermos transportar. Os nossos amigos e favoritos George e Mary, Henry Norris, Francis Bryan e Thomas Wyatt viajarn por terra com as centenas de pessoas que fazem parte do nosso séquito e vão encontrar-se connosco em Dover para fazermos a travessia. O meu coração bate de prazer e ansiedade. Na minha cabeça fervilham pensamentos, planos e sonhos, prestes a serem concretizados.

 

Vi uma miragem na superfície da água. Milhares de velas a cintilar na catedral de Winchester - um baptizado. Junto à pia baptismal estou eu, rainha de Inglaterra, com um bebezinho coberto de sedas nos braços, o rostinho uma miniatura do de Henrique. Vejo o pai que nos sorri - à esposa e ao legítimo príncipe Tudor - toda a dor, toda a raiva já apagadas e esquecidas. Atrás do rei vejo os outrora ressentidos cortesãos, agora elogiosos e alegres, prestando tributo à mãe do seu futuro rei. E atrás de todas essas figuras fantasmagóricas encontra-se meu pai. O rosto suavizado, um sorriso nos lábios, os olhos húmidos. Sente-se orgulhoso de mim, da minha vida, do meu real filho.

 

A visão apaga-se. Uma nuvem tapou o Sol, extinguindo as milhares de velas que ardiam com o reflexo do rio. Nas águas agora sombrias assisto a uma nova fantasia. Vejo os meus piores inimigos: banhado pelo fogo do inferno, está o fantasma do cardeal Wolsey, tendo recuperado a dignidade nas suas vestes vermelhas e segurando nas mãos a cruz de prata e a mitra. Sem pronunciar palavra, mexe os lábios para me amaldiçoar em toda a impotência da sua condenação. Vejo Catarina e Maria e, também, as maldosas duquesas de Norfolk e Suffolk. Envelheceram e parecem repulsivas, corcundas, com a pele manchada, os dentes negros e a voz estridente e aguda.

 

Mais uma vez o sol descobriu, limpando o meu espírito de sonhos purulentos e inundando-os de esperança. Talvez aprenda a comportar-me como convém a uma rainha - com magnanimidade e demonstrando generosidade de espírito para com os inimigos - e descubra o poço de onde brotam todos os actos de benevolência. Ou talvez não.

 

Devo terminar estas divagações e reunir-me a Henrique para jantarmos na coberta, ao pôr do Sol. Prometeu-me uma surpresa, de modo que em breve vos escreverei de novo.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

7 de Outubro de 1532 Diário,

 

Hoje, treme-me a mão ao escrever-vos. Mas não é a humidade da manhã, nem as correntes de ar e o frio que arrefecem as cabinas deste barco e me fazem estremecer a mão que segura a pena. Pelo contrário e, para minha completa surpresa, trata-se de uma profunda emoção que me invade o corpo e a alma. A emoção é o amor doce e sincero pelo meu prometido que me agita o coração e as entranhas. O milagre que tanto esperei e pelo qual rezei, tornou-se realidade.

 

Se alguém soubesse o que se passou ontem à noite, quando Henrique me surpreendeu, concluiria talvez que o que eu sinto não é verdadeiro amor, mas simplesmente gratidão pela sua generosidade. Ontem à noite, quando vim cear à coberta, sobre a mesa não havia carneiro, empadões ou lebre assada, mas sim todas as Jóias de Catarina, os tesouros de família - pulseiras, colares, pregadores, brincos, anéis, pequenas tiaras de pérolas e esmeraldas, diamantes, rubis e safiras - tudo isto cintilava à luz alaranjada do pôr do Sol. O rei mostrava-se orgulhoso, com uma expressão animada no olhar, aguardando, como um rapazito a minha expressão de espanto e gritos de doce alegria. Porém fiquei sem fala, paralisada.

 

- Então? - perguntou. - Que dizeis, Nan? Para conseguir isto tive de lutar contra Catarina como um mastim contra um urso. Sabia que ele esperava abraços, calorosos beijos e extravagantes agradecimentos por um presente tão maravilhoso. Mas apenas consegui rir! Um riso descontrolado e muito ruidoso. juro que as minhas gargalhadas nada tinham a ver com a derrota de Catarina, e mais parecia que tinham arrancado a rolha a um barril de dor que habita a minha alma. Todos os receios, ódios e maldades daqueles últimos seis anos tinham sido cuspidos ao som do meu riso. E acabou por ser contagioso, pois assim que se dispersou a primeira onda de dor, Henrique imitou-me com as suas enormes e sinceras risadas Foi-nos impossível conter-nos, tivemos de nos dobrar agarrados ao ventre já dorido, abraçando-nos, com as lágrimas a correrem pelas faces, até que, aos poucos, conseguimos parar. Olhámo-nos nos olhos. Beijámo-nos. Primeiro ao de leve, nos lábios húmidos e salgados, depois mais demorada e profundamente. Senti o coração bater-me com força no peito. Um calor que descia-me ao baixo-ventre e às coxas. Os joelhos trémulos. E, involuntariamente o meu pensamento repetia este cântico: ”Amo-vos, Henrique, amo-vos Henrique, amo-vos...”

 

Dentro de mim, cresceu uma onda de indescritível alegria. Agarrei-me àquele homem, àquele amigo leal, cujo amor o tinha levado a enfrentar tempestades e mares embravecidos, de onde tinha saído ileso para se casar comigo. Foi tal a ânsia de me agarrar ao seu corpo que foi ele que teve de pôr fim ao nosso apaixonado abraço.

 

- Nan, Nan - murmurou. - Temos de nos conter ou não chegareis virgem à noite de núpcias. - Soltou-me com ar deslumbrado, pois nunca, antes deste momento, sentira tal fervor nos meus beijos. - Olhai, experimentai isto - pediu-me, pondo-me um colar ao pescoço. - Deixai-me ver.

 

Com as mãos sobre os meus ombros, Henrique fez-me dar meia volta. Nos seus olhos vi reflectida a água cintilante, a luz do fim da tarde, o brilho das pedras preciosas do meu pescoço mas, principalmente... o meu amor. Sei que foi isso que viu e sorriu-me, cheio de afecto.

 

- Sou o homem mais feliz de toda a Inglaterra - disse o rei.

- E eu - respondi. - Sou a mais feliz das mulheres.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

18 de Outubro de 1532 Diário,

 

Que dias e noites de gozo e delírio! Ataviada com belos vestidos e jóias principescas, rodeada por um séquito deslumbrante, desfruto de um sem-fim de banquetes, representações e bailes em minha honra. Calais é uma localidade estranha e maravilhosa. Solo francês, governo inglês, o último reduto inglês no continente, recebeu-me melhor do que a terra onde nasci. Quando saímos do edifício do tesouro, onde ficámos luxuosamente alojados, e percorremos a antiga cidade murada, em grande procissão, para ir ouvir missa a S. Nicolau, a multidão aclamou-me a mim e ao rei. As crianças lançavam-me flores, os adultos sorriam-me com ar sincero.

 

Ultimamente acalmei o meu coração enfurecido que ameaçava rebentar quando, ao chegar à cidade de Dover, antes da travessia do canal, chegou a notícia de que Eleanor, rainha de França (e minha antiga ama), juntamente com as outras damas da corte, se recusava a receber-me ou a acompanhar Francisco ao casamento. Compreendo a posição da rainha Eleanor. É irmã do imperador e portanto, sobrinha de Catarina. Porém, a duquesa Marguerite de Alençon, irmã de Francisco, não tem qualquer razão para tomar uma posição tão insultuosa. Sempre a servi com lealdade e grande afeição e, com ela, aprendi não só a cultivar o meu talento como a exercer ousadamente os artifícios de que os homens tanto gostam. Além do mais, não seguia à risca o que estava estabelecido e defendia ideias luteranas no seio da igreja católica. Foi exactamente Marguerite de Alençon quem me deixou ler os tratados, onde o rei encontrou argumentos para submeter a Igreja. Este desaire feriu-me como uma amarga traição, embora não fosse tão desagradável como a oferta do rei France - a que mais vale chamar insulto: fazer-se acompanhar da duquesa de Vendome. Esta mulher é famosa pela sua má reputação: não passa de uma cortesã! As arrogantes damas da corte francesa esquecem que as conheço bem e que sei como todas elas são licenciosas e lascivas. Gostaria de saber qual delas teria conseguido manter à distância os apetites do seu rei. Provavelmente nenhuma.

 

Ao tomar conhecimento destas terríveis notícias nada disse. Mantive a cabeça bem levantada, sem me deixar dominar pelo mau génio. Pedi a Henrique que comunicasse a seu primo Francisco que seria melhor deixar a duquesa de Vendôme em casa e vir sozinho, pois era a sua presença que era para mim da maior importância. Henrique, habituado às minhas birras, pôde ver desta vez a minha nova dignidade de rainha. Orgulhoso e feliz, disse que agora, nem nada nem ninguém, o afastarão do seu caminho. O casamento realizar-se-á com Francisco a nosso lado.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

22 de Outubro de 1532 Diário,

 

Fazendo entrechocar os baldes, as minhas aias conversam enquanto vão enchendo uma banheira de cobre, diante da enorme lareira do meu quarto e acendendo também braseiras para aquecer o gelado aposento, antes do meu banho. Sei que o criado de quarto de Henrique fez exactamente o mesmo nos aposentos contíguos aos meus.

 

Imagino o tema dos comentários das minhas aias quando as dispensar das suas tarefas: ”O rei e a marquesa de Pembroke tomaram banho”, dirão em surdina. ”Jantaram e beberam um pouco, sentimos no hálito dela o cheiro do vinho. Era ainda cedo quando se recolheu aos seus aposentos e nos disse que desejava tomar banho. Quando fomos em busca da banheira de cobre, o mordomo do tesouro disse-nos que os criados do rei tinham feito o mesmo pedido. Quando regressámos, lady Ana cantava, de muito bom humor. Aquecemos a água, salpicámo-la com rosas perfumadas, essências e óleos e ajudámo-la a entrar. Lady Ana não é muito grande, sabeis. Magra, seios pequenos, pescoço longo e esguio. Gostaríamos de saber o que viu o rei nela. Depois do banho, ordenou-nos que envolvêssemos o seu corpo perfumado em vários metros de cetim negro debruado a veludo - uma camisa de dormir magnífica que Henrique lhe ofereceu - e a seguir que lhe soltássemos o cabelo e lho escovássemos até ficar tão brilhante como o que tinha vestido. Depois mandou-nos embora. Vai deitar-se com o rei”, murmurarão escandalizadas, tapando a boca com as mãos. ”Manteve-se virgem todos estes anos. Porque não esperar? Não se compreende.”

 

Passo a explicar o porquê da minha estranha decisão. já escrevi acerca do meu recém-descoberto amor por Henrique e das grandes comemorações anteriores ao nosso casamento realizadas em Calais. É a noite anterior à partida do rei para Bolonha, onde deverá encontrar-se com Francisco e com ele participar em lides e torneios, antes de regressarem ambos para o nosso casamento. Henrique e eu decidimos hoje jantar em privado pois, no seu regresso e com o casamento, haverá muita agitação e será difícil termos privacidade.

 

Assim, ao princípio da noite, pus-me bonita e atravessei a porta secreta entre as nossas câmaras. O rei tinha mandado servir, no seu quarto, uma bela ceia diante da lareira acesa. Depois de ordenar a todos os criados que saíssem, ofereceu-me ele próprio uma cadeira estofada e serviu o vinho em duas taças cravejadas de pedrarias. Inclinou-se e beijou-me o pescoço.

 

- Teremos dois grandes reis no nosso casamento, Ana. Que opinais?

 

Olhei-o nos olhos.

 

- Opino que, dois está muito bem... mas um seria suficiente. Ele apreciou o cumprimento e sorriu, puxou a cadeira para diante da minha e bebeu um grande gole de vinho.

 

- Quereis dizer que pouco vos importa que Francisco aprove ou não o nosso casamento?

 

- De modo algum. Porém, haveis descoberto ultimamente o vosso verdadeiro poder sobre o clero, os cardeais e o Papa. Porquê dividi-lo com outro homem, mesmo sendo, também ele, rei?

 

Henrique reflectiu um pouco, depois esboçou um sorriso fino e calmo como uma meia-lua.

 

- Gosto da vossa maneira de pensar, minha querida - redarguiu. - Gosto mesmo muito. Bebei! - Tocámos as taças.

 

- A Henrique, o maior rei, aquele que não teme ninguém. De tal forma inchou de orgulho que me pareceu ainda maior do que realmente era. O coração parecia querer saltar-me do peito, ao sentir que estava em presença de alguém tão imponente e de tão fina inteligência. Nesse momento, Diário, amei muito esse homem, capaz de fazer mover o mundo por mim..

 

- Vamos cear e beber, meu amor - respondi. - Depois, podeis tomar-me de corpo e alma no vosso grande leito.

 

Dos seus lábios desapareceu o sorriso de meia-lua.

- Agora? Aqui? Antes da nossa noite de núpcias?

 

- Exactamente - tomei-lhe a mão do outro lado da mesa. - Henrique, durante seis anos, quebrámos todas as regras, excepto uma. Sugiro que o façamos agora. Que dizeis?

 

Pôs-se de pé de um salto, arrebatou-me e cobriu-me de beijos, sem deixar de pronunciar o meu nome, como uma ladainha: ”Ana, Ana, Ana...”

 

Assim dirigimo-nos para os nossos respectivos quartos para tomarmos banho. Como um baptismo diante do fogo, juntar-nos-emos para realizar os nossos sonhos. Sempre sonhei casar-me por amor. Henrique quer um filho. Que assim seja!

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

23 de Outubro de 1532 Oh, diário,

 

Juro que Deus no Céu troça de mim! Que outra coisa posso pensar ao recordar a noite passada? A noite que profetizava glória, que me prometia uma bela recompensa por seis anos de sereno sacrifício e castidade da parte de ambos. Henrique, o grande rei, a própria imagem da virilidade, quando confrontado com o objecto dos seus desejos mais sinceros e ardentes, que lhe estendia os braços para o abraçar e os lábios para o beijar... falhou. Falhou completamente.

 

Talvez fosse o excesso do vinho francês. Bebera à ceia e continuara a fazê-lo durante o banho, julgo que para tomar coragem para um tão importante momento. Talvez se deva culpar a tensão da espera de todos estes anos, da nossa viagem para Calais, da sua falta de saúde. Talvez - e é o que mais temo - tenha olhado para mim, nua na sua cama e não tenha visto já a presa fugidia porque tanto ansiava, mas unicamente uma vítima assustada, que, com olhos de pomba, pede uma morte suave. Viu-o e sentiu-se gelar. Nem a terrível necessidade de ter filhos conseguiu reacender o fogo no caçador, fogo esse, que se apagara com a minha rendição.

 

Não houve nada a fazer. Insistências, brincadeiras, abraços à espera do reacender dos desejos. Desejei que se enraivecesse, que se insurgisse contra aquela monstruosa ocasião, pois uma paixão forte dá por vezes origem a outra. Mas pareceu-me cansado, rendido, sem possibilidade de reparação. A sua corpulência pareceu definhar, não conseguia enfrentar os meus olhos marejados de lágrimas, não pelo meu desapontamento ou surpresa, mas pela tristeza do meu amado.

 

Assim, Henrique, o rei e Ana, marquesa de Pembroke, futura rainha, passaram separados a sua noite de comemoração e rebelde união. Eu, rígida, no imponente leito de dossel, ele numa cadeira junto à janela, à espera da madrugada.

 

Por fim, devo ter adormecido, pois quando a luz da manhã me obrigou a abrir os olhos, o rei tinha saído dos seus aposentos, Não chamei as aias e esforcei-me por vestir os voluptuosos metros de cetim da minha camisa de dormir. Pus uma expressão falsa no rost - lânguida e satisfeita - como se pudesse usar uma máscara para enganar a todos com a minha falsa identidade. Regressando aos meus aposentos com boa disposição, perguntei às minhas aias por onde andava o rei. Pelos seus olhares humildes e tímidos, vi que Henrique tinha colocado a máscara de leão triunfante e que agora todos sabiam que a nossa ligação era um facto consumado, pelo que o meu futuro como sua rainha estava assegurado. Disseram-me que, ao amanhecer, o meu noivo partira a cavalo em direcção a Bolonha, acompanhado por um batalhão de soldados.

 

Tenho o coração pesado como chumbo. Que Deus vingador retribui tão grandes esforços com tão pequena recompensa? Devo passar os próximos quatro dias com este segredo. Ninguém pode saber do declínio de Henrique. Absolutamente ninguém. Julgo que a sua fraqueza seja temporária. Talvez necessite do doirado vínculo de um casamento legítimo para endurecer a sua ”resolução”. Penso também que, com esse negro fracasso, nasceu dentro do rei uma coisa monstruosa que nenhuma união legítima com esta que vos escreve, poderá apagar. Como uma semente doente plantada no Inverno, ameaça brotar com a chuva e o sol das estações seguintes, para se transformar numa horrível trepadeira sufocando a alegria da vida e a vida do amor.

 

Todavia de nada servem estas negras conjecturas. Continuarei a afivelar no rosto a minha máscara de felicidade, até que a sua imagem no espelho me engane a mim própria. Endireito-me com firmeza e olho para o futuro. Para o melhor e para o pior, os anos hão-de revelar o que me espera.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

28 de Outubro de 1532 Diário,

 

Continuamos em Calais. Chove e o vento sopra forte. É impossível fazermos a travessia para Inglaterra. Desde que escrevi pela última vez, muitas coisas aconteceram no que diz respeito a circunstâncias e sentimentos. Durante a ausência de Henrique que fora buscar o rei francês esperei, tentando não desesperar, recuperar as forças com os meus amigos e família. George e Mary, felizes por se encontrarem de novo em França, organizaram um piquenique na praia num dia ventoso. Thomas Wyatt, amigo fiel em todos os momentos, ainda me presta respeitosa homenagem e escreveu-me uns versos para a ocasião, falando da sua paixão nunca correspondida e finalmente apagada. Diziam assim:

 

Por vezes sinto um fogo arder em mim No mar, na água em terra, até no vento Sigo então o braseiro até aofim

 

De Dover p’ra Calais, onde perde o alento.

 

Uma fria tarde, sentei-me com Thomas junto à lareira e passámos o dia em calmas reminiscências. Passaram dez anos desde o meu regresso da corte francesa, quando me ofereceu o diário. Perguntou-me se costumava escrever nele e respondi-lhe que fazia alguns versos, anotava várias recordações e pouco mais. Embora Thomas Wyatt seja um amigo sincero, sinto escrúpulos em falar das minhas confidências a este livro.

 

Os reis chegaram com toda a pompa e circunstância, no dia anterior ao do meu prometido casamento porém eu, por razões de dignidade e protocolo, ausentei-me. Henrique veio cumprimentar-me em privado assim que chegou. Nem ele, nem eu falámos do seu triste fracasso na véspera da partida, pois trazia graves novidades. Ao quarto dia da viagem, em Bolonha, o rei retirou o seu apoio ao nosso casamento. Tinham chegado notícias da Áustria, onde as tropas de Carlos haviam derrotado os inimigos turcos. A estrondosa vitória do sobrinho de Catarina deixara os homens ansiosos por um novo campo de batalha e Francisco receava que, se desse agora a sua bênção ao nosso casamento, o imperador - magoado e vexado - lançasse o seu exército contra a França.

 

Não soube o que dizer. Pareceu-me um cruel insulto ao nosso casamento, um obstáculo desagradável e o final de uma longa estrada. Porém, naquele dia sentia-me um poço de calma e razão. Pela primeira vez vi que aquelas circunstâncias nada tinham de pessoal e eram simples factos políticos próprios de reis e papas. Sentia-me Rainha, portanto agi como tal, e em vez de gritos e lágrimas, ofereci a Henrique uma possível solução. Disse-lhe:

 

- Meu amor, não falámos já, de como seria melhor realizarmos o nosso casamento em solo inglês? Os súbditos que não me apreciam adorariam poder considerar o nosso casamento falso e ilegítimo. Juro-vos que aguardarei de bom grado um enlace nas familiares costas da nossa Inglaterra.

 

Henrique manteve-se em silêncio e pareceu digerir estas ideias como se se tratassem de uma opípara refeição. Nesse momento, soou uma pancada na porta. Era o Perfeito de Paris, em pessoa. Viera a mando de Francisco com um presente para mim - um diamante enorme e luminoso numa caixa de veludo púrpura. Depois da partida do Perfeito e com a pedra preciosa (que Henrique calculou valer cerca de quinze mil coroas) cintilando entre nós, o dia pareceu-me muito mais alegre. Concordámos que, se desejávamos que Francisco continuasse nosso aliado, precisava de mais atenções e eu seria a pessoa indicada para lhas dispensar. Depois, Henrique voltou-se para mim, poisou as mãos sobre os meus ombros e olhou-me nos olhos. Parecia querer falar, abriu os lábios mas as palavras não lhe saíram. Deixou cair as mãos e afastou-se com o pretexto de ter outros assuntos a tratar. Senti que, se as tivesse pronunciado, teriam comentado a atitude real que eu ultimamente tomara, para seu grande orgulho.

 

Era pois o momento de fazer planos para o meu encontro com Francisco. Sabia que teria de ser esplêndido, uma ocasião maravilhosa. Seria necessário fornecer-lhe um ambiente faustoso - a melhor música, o vinho mais doce, os mais deliciosos manjares, a melhor decoração, as roupas mais elegantes que imaginar se possa. Tudo isto e até mais poderia eu oferecer-lhe, pois, com a nossa hospitalidade, teríamos de dizer a Francisco que não estávamos zangados, nem lhe guardávamos rancor por nos ter retirado o apoio e que, para ele, seria interessante que, embora tendo-nos publicamente voltado as costas, continuasse a ser um amigo bom e fiel.

 

Na noite em que se teria celebrado o nosso casamento, Henrique e o rei Francisco jantaram juntos na associação dos comerciantes que eu decorara com enorme zelo. Mesas e armários, ornamentados com a baixela de ouro pertencente a Henrique. As paredes cobertas com preciosas tapeçarias e todos os cantos iluminados por velas em candelabros de ouro e pedrarias. Músicos exímios, vindos de Paris, executavam as mais modernas composições e quando os dois grandes reis estavam repletos de comida e bebida, todas as portas se abriram para por elas entrarem, numa onda de luz, oito damas mascaradas dançando ao som de uma bela melodia. As vestes, exoticamente desenhadas eram de gaze, tecido de prata e cetim carmesim, debruado a ouro. Todas as damas misteriosas escolheram um convidado francês para dançar. Um deles foi Francisco, que estava espantoso no seu traje cor de púrpura, com um colar de diamantes, pérolas e esmeraldas maiores que ovos de pata. Depois, a um sinal, todas as damas baixaram as máscaras, revelando o rosto. Era eu o par do rei francês.

 

Os seus olhos iluminaram-se de alegria e surpresa. Via que admirara a minha audaciosa entrada e aquela ideia inteligente. Saltámos e rodopiámos e vi que Henrique nos olhava satisfeito do seu lugar porque o rei de França rendia homenagem à sua amada. Mais tarde, numa conversa privada com Francisco, falámos de muitas coisas. Recordações dos meus anos na corte, muita lisonja de ambas as partes e palavras graves que tocaram ao de leve assuntos de Estado. Ele pediu perdão (imagine-se) por ter discordado publicamente com o nosso casamento e deu-me explicações, que aceitei com real graciosidade. Em lugar do apoio público, ofereceu-me deliciosas intrigas para, com o auxílio dos cardeais franceses de Tournon e Grammont, conseguir que o Papa demorasse o seu julgamento final acerca do Divórcio que parece favorecer Catarina.

 

A noite esteve esplêndida e foi um êxito. Henrique não cabia em si de júbilo. Tentei aproveitar-me do seu bom humor e, quando nos retirámos, já tarde, nessa noite, atirei-me de livre vontade nos seus braços e fui recebida com grande entusiasmo. Foi maravilhosa aquela união imprevista, brusca e terna, dolorosa mas doce. O meu corpo e as minhas entranhas receberam Henrique Rex que me mostrou o seu mais apaixonado afecto. A noite fez-se dia, mas nunca nos afastámos do leito real. Depois começaram as tempestades, tornando impossível a nossa travessia para Inglaterra.

 

Ficámos satisfeitos. As refeições eram-nos servidas à porta do quarto. Durante três noites e três dias não vimos ninguém. Rimos, cantámos, tocámos duetos, comemos, bebemos, tomámos banho juntos diante da lareira e fizemos planos e amor. Finalmente, há duas horas, Henrique vestiu-se, dizendo que o melhor seria tratar dos preparativos para a nossa travessia, pois o temporal estava a amainar. Beijou-me com um sorriso. Nunca o tinha visto tão satisfeito. Depois, deixou-me aqui sozinha e... é por isso que estou a escrever.

 

Os meus receios quase desapareceram. O meu casamento parece assegurado e, se há um Deus no Céu, em breve surgirá um fruto destes dias de sensualidade. Vejo diante de mim um futuro sem nuvens, pois o amor abençoa esta união e como um farol, iluminará para sempre o nosso caminho.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

3 de Janeiro de 1533 Diário,

 

Deus permita que a profecia se torne realidade. Tenho no ventre o filho de Henrique! Desde o nosso regresso de Calais que tenho rezado todos os dias para que esse milagre acontecesse, pois com as festas e os assuntos de Estado, o rei e eu temos tido pouco tempo e menos privacidade para o amor. Toda a corte soube que tínhamos finalmente dormido juntos. Os meus amigos rezaram também para que aquela reclusão em Calais tivesse um feliz resultado. Os meus inimigos tremiam só de pensar.

 

Mal conseguia respirar quando se aproximava o meu período mensal, que afinal não chegou. Alegrei-me abertamente com todos os estranhos arrancos do meu ventre. Comia cestas de maçãs verdes, eu que nunca gostara de fruta. Os meus seios incharam, parecendo querer rebentar os corpetes. O meu rosto arredondou e perdeu os seus ângulos. Nada contei a Henrique, desejando uma verdadeira prova do meu estado. Mas quando a data do segundo período passou, sem que sangrasse, fui ter com ele - dois dias a seguir ao Ano Novo - e disse que me tinha esquecido de um presente. Entreguei-lhe uma bonita caixinha de prata, forrada de tecido. Ele olhou-me, cansado e preocupado com os seus assuntos.

 

- Nada tenho para vos dar em troca, meu amor.

 

- Oh, mas Henrique - disse eu - este presente é para vos agradecer outro que já me haveis dado.

 

Ele inclinou a cabeça e observou o meu sorriso misterioso para logo depois abrir a caixa. Lá dentro, envolvida em tule estava uma minúscula touca de baptizado que eu bordara com fio dourado e púrpura. Ele ficou a olhar, sem que o seu espírito ocupado conseguisse entender do que se tratava.

 

- É verdade? - perguntou num murmúrio e quase sem acreditar.

 

- Estou grávida do vosso filho, Henrique. Do nosso filho. Ele agarrou-me, esmagou-me contra si, gritando o meu nome. Beijou-me a boca, as faces, os olhos, o pescoço. Senti as suas lágrimas quentes no meu peito, e o seu real corpo estremecia de soluços enquanto murmurava:

 

- Muito obrigado, muito obrigado, muito obrigado. Finalmente endireitou-se, com as faces molhadas e os olhos muito brilhantes.

 

- Há muito a fazer - disse-me. - Esse rapaz tem de nascer de uma rainha.

 

Tomei-lhe a mão nas minhas e beijei-a.

 

- Senhor, sou eu que humildemente vos agradeço.

 

Depois deixou-me, partindo com passo forte, decidido a colocar-me na cabeça a coroa de Inglaterra.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

16 de Janeiro de 1533 Diário,

 

Para além da corte oficial, formada por lordes e damas, membros do Parlamento, conselheiros, chanceleres e bispos, há uma corte secreta, um governo clandestino dos poucos que de facto governam o estado. Actualmente são o rei e o secretário Cromwell quem decide a hora do nascer do Sol e da mudança das marés. Conspiram ambos constantemente e Henrique dá cada vez mais importância aos conselhos de Cromwell. É claro que ele é muito inteligente e apoia totalmente o nosso casamento.

 

Este homem estranho que não possui grande estatura física, nem a pompa do cardeal Wolsey - belas residências, jóias maravilhosas, festejos faustosos - parece-me ser uma pessoa muito valiosa. Uma aura de grande e digna autoridade rodeia a sua modesta presença. Sei que a ambição que lhe incendeia os pequenos olhos negros é tão grande como a de Wolsey. Não comete erros, pois a queda de seu amo serviu-lhe de lição. Vejo que Henrique se apoia neste homem como o fez com o cardeal e fico pensativa. Será que Cromwell que de tão alto favor goza agora, irá cair tão baixo como Wolsey, com o caprichoso correr do tempo? Não interessa, pois todos os assuntos importantes, menos um foram, por ora, esquecidos. Este assunto, disse-me Henrique é como uma moeda que tem escrito numa face o nosso casamento e no reverso o seu divórcio de Catarina.

 

Cranmer, embaixador na Corte Imperial de Espanha foi apressadamente chamado a Inglaterra para ser consagrado arcebispo de Cantuária. Entretanto, os agentes de Henrique em Roma procuram obter do Papa as bulas necessárias para essa consagração. O Santo Padre não deverá saber que a nomeação de Cranmer tem apenas um objectivo - conceder o divórcio ao rei - antes de assinar as ditas bulas. De contrário tudo estará perdido. Clemente ainda acredita, conforme Francisco lhe prometeu, que Henrique acatará a decisão sobre a questão do seu casamento, que será tomada esta Primavera, por um tribunal constituído em França.

 

Assim toda as conversas acerca de casamento, gravidez e coroação foram silenciadas. Este frio e calmo mês de Janeiro passa muito devagar. Todas as manhãs, acordo e rezo para não encontrar sangue entre as minhas pernas, sinal de um aborto que poderia desbaratar tão minuciosos planos de batalha.

 

Meu pai, que é dos poucos a saber do meu estado, e veio visitar-me aos meus aposentos onde se exibiam todos os presentes de Henrique: belos tapetes, pratos de ouro, uma nova mesa de jogo ornamentada com mosaicos azuis, parecia triste, e pouco disse enquanto estivemos sentados junto à lareira. Por fim, gracejei:

 

- Pareceis aborrecido, meu pai. Já tendes demasiados netos? Não me respondeu nem me olhou nos olhos. Contudo decidi não me calar em face do seu silêncio e continuei a insistir. - Dizei-me, porque haveis mudado de ideias em relação a este casamento? Porque vos opondes a ele?

 

- Nunca o quis.

 

- Não é verdade! Haveis sido vós quem me colocou ainda menina, sob os olhos ávidos do rei. Haveis-me vestido, penteado, servido como uma iguaria francesa num tabuleiro de prata. Queríeis que ele me quisesse!

 

- Mas não que se casasse contigo!

 

- Porque não, meu pai? Serei rainha. Rainha de Inglaterra. Fechou a boca como uma amêijoa. Parecia ter engolido uma poção venenosa. Na lareira, saltou um carvão incandescente e ao ouvir aquele som, apercebi-me daquilo que meu pai pensava.

 

- Vou ficar acima de vós, não é verdade? Serei a vossa Rainha. Tereis de dobrar o joelho a vossa filha mais jovem, e isso mortifica-vos.

 

- Muito - murmurou, com ar furioso.

 

- Haveis sido vós a arranjá-lo, meu pai. Agora não estais a gostar do preço.

 

- Negas a tua própria ambição?

 

- Certamente que nego! - exclamei. - Quando era apenas uma menina recém-chegada de França, não tinha mais que uma ambição: casar-me por amor, com um belo jovem. Depois vós e o cardeal Wolsey amaldiçoaram o doce ribeiro que era a minha vida, interromperam-no, alterando o seu curso natural e assim, quando o persistente amor de Henrique rompeu o dique, saiu das margens e transformou-se numa torrente tumultuosa, em busca de um novo caudal... que lhe é próprio. Um caudal que afogou Wolsey e que agora ameaça, igualmente, engolir-vos.

 

Vi-lhe no olhar uma expressão dura e fria.

 

- Escuta Ana. Esse jogo é mais perigoso que o que pensas. Brincas com reis e bispos, até mesmo com Roma. Transformas os homens em tolos. E outros morrerão por tua causa. Vais acabar mal e arrastarás a tua família atrás de ti.

 

Retirou-se abruptamente, deixando a sua filha mais nova assustada e raivosa contra aquele insensível pai.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

27 de Janeiro de 1533 Diário,

 

A pena treme enquanto escrevo, pois desposei o rei de Inglaterra. Passaram seis anos desde que me propôs este casamento. Seis anos! Espantam-me todas as montanhas que foram movidas para esta rara ocasião, apesar de o casamento não ter sido aquilo que imaginara. Celebrou-se à pressa e em segredo, às primeiras horas da manhã, enquanto todos dormiam.

 

O secretário Cromwell, Henrique e eu concebemos juntos o plano. As testemunhas - eram poucas - meu pai, minha mãe, George, Thomas Wyatt e sua irmã Margaret Lee - foram acordadas do sono e avisadas pelos nossos mensageiros de que deveriam vestir-se rapidamente à luz dos archotes. Usando de toda a possível discrição, avançaram como ladrões junto aos muros do palácio deserto, até à capela, onde Henrique, Cromwell e eu própria os aguardávamos. Em voz baixa, tremendo de frio, pedimos-lhes paciência e boa disposição, sem lhe revelarmos o nosso plano. Só quando chegou Thomas Cranmer, com o seu ar sombrio e oficial se aperceberam do objectivo daquela reunião. Pediu a todos que se aproximassem para ser testemunhas do solene casamento do rei com Ana Bolena.

 

Foi uma troca de votos breve e simples. O som das nossas vozes ecoava na capela vazia. Ouvi minha mãe chorar. Não me atrevi a olhar para os olhos de meu pai. Henrique estava de mau humor, rígido de medo e creio que zangado porque o nosso casamento estava desprovido da cerimónia apropriada, sendo apenas aquele ritual pobre e fugidio. Quando Henrique me colocou o anel no dedo, a porta da capela rangeu ruidosamente. Fora apenas uma corrente de ar que empurrara a porta, mas os olhos do rei sobressaltaram-se como os de um animal assustado e praguejou em surdina. Desejei acalmá-lo e coloquei-lhe a mão sobre o meu ventre.

 

- Não precisais ter mais preocupações, meu amor. já está feito disse eu.

 

Cromwell aproximou-se para nos felicitar, depois exigiu ser ele a guardar-nos os anéis para maior segurança. Até à chegada das bulas de Clemente e da consagração de Cranmer esta união deverá manter-se secreta. Assim, um a um, saímos da capela, e partimos em várias direcções. Dirigi-me apressadamente para os meus aposentos. Os corredores estavam escuros e gelados, mas não dei pelo frio nem pela solidão. Senti, sim, o bebé que dormia no meu ventre e fazia parte de mim. Gostaria de saber se consegue sonhar ou se partilho com ele os meus sonhos. Será que quando o meu bobo me faz rir, sente o calor e o efeito benéfico das minhas gargalhadas?

 

Entrei discretamente nos meus aposentos, passando pelas minhas aias sem as despertar. Dirigi-me ao meu leito frio e solitário e dormi pela primeira vez como uma mulher casada.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

24 de Maio de 1533 Diário,

 

Esta noite estou, cheia de felicidade, retirada dentro das muralhas da Torre de Londres, como sempre o fizeram os reis e rainhas antes da sua coroação. É verdade que foi o amor de Henrique e a minha persistência que tornaram possível este dia, mas temos também de dar crédito ao belo plano de Thomas Cromwell. Passo a relatar as suas maquinações, como um capítulo da História, pois o meu casamento com o rei transformou-se em mais um ramo da antiga árvore de linhagens de Inglaterra e deve por isso merecer reconhecimento.

 

O meu casamento manteve-se secreto até chegarem as bulas de Roma e Thomas Cranmer ver a sua consagração como o bispo mais importante de Inglaterra. Porém, antes de jurar fidelidade à Igreja e seguindo o inteligente plano delineado pelo rei e por Cromwell, este homem prestou um juramento insólito, afirmando submeter-se em primeiro lugar ao seu rei e ao seu país. A seguir o Parlamento aprovou rapidamente uma lei que confere ao arcebispo de Cantuária autoridade suprema, no que concerne aos assuntos espirituais, proibindo todos os apelos a Roma. Meu irmão George foi enviado a França para participar o nosso casamento ao rei desse país. Francisco outorgou a sua generosa bênção e sua irmã Marguerite, que meses antes, me havia desprezado em Calais, enviou-nos as suas felicitações. Estava tudo pronto.

 

Henrique anunciou ao Parlamento o nosso casamento e comunicou-o a Catarina por intermédio de um enviado especial. Todavia, com a sua teimosia habitual, Catarina não se deu por vencida. ”Continuo a ser a rainha”, disse aos duques de Norfolk e Suffolk. ”Sê-lo-ei até à morte.” Disseram-me que, recentemente, mandou fazer para os criados librés novas com as iniciais H, de Henrique e C, de Catarina entrelaçadas. Nada sinto por ela, Diário, nem tristeza, nem raiva, nem compaixão. Apenas desejo que, como que por magia de um Merlim, ela possa, pura e simplesmente, desaparecer. É verdade que a sua presença aqui na corte se torna cada vez mais vaga e que as vozes dos que lhe são leais, embora insistentes, poucos mais são agora que débeis sussurros. Mesmo assim, incomoda-me.

 

Mas estou a divagar. O divórcio de Catarina e Henrique foi apresentado há seis dias diante do priorato de Dunstable. Nessa altura, o arcebispo Cranmer, com a autoridade que lhe fora conferida, considerou inválido o casamento e deu a ambas as partes autorização para casarem de novo. A noite passada, numa galeria de Lambeth Manor, esse mesmo bispo afirmou que o meu casamento com Henrique era inteiramente legal e que não havia qualquer impedimento para a minha coroação.

 

O primeiro dia amanheceu azul e perfeito. Em nada me afectaram todos os supersticiosos rumores que vêm maus augúrios para esta ocasião - um peixe com quase trinta metros, que foi encontrado na costa norte, o grande cometa com uma cauda semelhante à barba branca de um velho.

 

Acordei no castelo de Greenwich, ao som de disparos de canhão. As minhas aias obrigaram-me a sair do leito para me envergarem um vestido de ouro com pérola incrustadas nas mangas, no corpete e no pano que me cobria o ventre inchado. Escovaram-me lentamente o cabelo e deixaram-no solto, apenas seguro por um círculo de diamantes de onde partia uma cauda de ouro e tule.

 

Margaret Mortimer olhava o rio pela janela e exclamou: ”Olhai, um grande dragão vermelho, que cospe fogo pela boca!” E assim era. Numa barcaça vinha com efeito um dragão, acompanhado de terríveis monstros e homens que faziam fogo com grande ruído. Essa esplêndida barcaça conduzia uma pequena armada - centenas de embarcações, com bandeiras coloridas e sinos vinham buscar-me, deixando no Tamisa uma esteira de música. E assim, por entre esse espectáculo flutuante, levaram-me rio acima em direcção à Torre de Londres, cujos canhões disparavam para me receber.

 

Perto das escadas da fortaleza, juntara-se uma enorme multidão que se apartou, quando entrei, para me deixar ver ao fundo, como o meu esposo me sorria, de braços abertos, para me receber. Com o olhar preso no seu, percorri a distância que nos separava. Foram certamente passos felizes, mais felizes ainda quando cheguei junto a ele e colocou ambas as mãos sobre o filho que carrego no ventre e me beijou com toda a reverência. Sou incapaz de dizer o quanto me reconfortou aquela exibição pública do seu amor.

 

Depois, o idoso lorde Kingston, guardião da Torre, atravessou o pátio e, com Henrique, escoltou-me até aos aposentos da rainha, renovados para a ocasião. Não consegui perceber se a expressão de amargura que lhe li no rosto, resultava da dor do seu pobre corpo aleijado ou do seu bem conhecido amor por Catarina e pelo desgosto que lhe causava ver-se obrigado a ser meu anfitrião. Contudo, até aqui, tem-se mostrado delicado e nada ensombra este alegre retiro de três dias, de onde ressurgirei rainha.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

30 de Maio de 1533 Diário,

 

Será verdade? Atrever-me-ei a escrever estas palavras? Fui coroada rainha de Inglaterra. Rainha Ana. Ana, a Rainha. Anna Rainha. As palavras assim ligadas parecem-me justas. O meu coração bate agora a ritmo normal, mas nessas horas que duraram o cortejo e as cerimónias, receei várias vezes poder rebentar de alegria e terror.

 

No sábado de manhã percorri em cortejo as ruas de Londres, engalanadas a seda e veludo, com pendões multicolores ondulando na brisa e fontes de onde o vinho brotava. Os nobres assistiam das suas janelas e os plebeus, guardas, artesãos e autoridades municipais estavam presentes nas ruas para assistir ao maravilhoso desfile. Havia franceses ataviados de azul e amarelo, cavalgando esplêndidos corcéis; damas em carruagens escarlates, vestidas da mesma cor, o lorde Chanceler do Reino, o alcaide de Londres, todos com os seus trajes de cerimónia. Com o ventre inchado para que todos vissem, sentei-me imponente, no meu belo vestido branco debruado a arminho, numa liteira aberta sob um dossel de pano dourado, transportado por quatro cavaleiros que marchavam a meu lado. Logo atrás seguiam as damas da nobreza e, a seguir, a guarda real fechava o cortejo.

 

Foi um espectáculo maravilhoso embora, para falar verdade, poucos assistentes gritassem ”Deus Salve a Rainha” ou sequer erguessem os barretes. O meu bobo provocava-os dizendo: ”Tendes tinha na cabeça e não quereis que se saiba!”, mas apenas alguns lhe fizeram a vontade. Porém nada disto me surpreendeu. Sei que o povo não me ama. Muito provavelmente queriam ver o meu sexto dedo, quando lhes acenava ou procuravam-me no pescoço uma marca de feitiçaria.

 

Só no dia seguinte fui levada para a abadia de Westminster para a minha coroação. Neste momento solene e triunfante, vi a altiva duquesa de Norfolk pegar-me na cauda e o duque de Suffolk, que tentara com todas as suas forças evitar aquele dia, segurar na coroa diante de mim, junto ao altar, onde se encontrava o Arcebispo Cranmer. Aí ajoelhei e me prostrei nas lajes antes de me erguer para ser ungida. Henrique, bendito seja, manteve-se na sombra, para que eu brilhasse sozinha e de um local onde apenas podia ser visto por mim, lançava-me olhares de encorajamento. Pouco ouvi dos antigos rituais da coroação que Cranmer pronunciou em latim, mas senti o doce peso da Coroa de Santo Eduardo sobre a minha cabeça, o frio do ceptro de ouro na minha mão direita, e a suavidade da vara de marfim na esquerda. Já coroada, percorri os poucos passos até ao trono de ouro e veludo e nele me sentei.

 

Ao olhar para o mar de rostos daqueles que agora eram meus súbditos e naquele meu primeiro momento como rainha, senti um medo terrível. Desejei sorrir, mas senti as feições rígidas, como se me tivesse transformado em estátua de gelo. O ceptro e a vara pareceram-me demasiado pesados e imaginei que me poderiam escorregar das mãos e cair no chão. Se tal tivesse ocorrido, todos aqueles rostos fechado soltariam gargalhadas. ”Ana, a rainha impostora - uma plebeia, uma rameira, que tenta converter o seu bastardo em rei de Inglaterra.” Porém, e sempre recordarei esse momento, senti que a bendita criança se mexia no meu ventre como que para dizer: ”Não temais, minha mãe, pois estou aqui convosco.” Como um ofuscante sol de Verão, aquele sinal interior fez-me sentir um calor tão íntimo que as minhas feições rígidas se dissolveram e consegui sorrir. Sei que foi um sorriso deslumbrante e cheio de amor que iluminou a austera abadia e os rostos sombrios e atravessou os vidros pintados para brilhar sobre Londres, proclamando o meu direito a sentar-me neste trono.

 

Afectuosamente vossa, Rainha Ana

 

Era tal o silêncio no castelo que, quando Isabel fechou o diário no colo, conseguiu ouvir o sangue latejar-lhe nos ouvidos. Esboçou um leve sorriso ao pensar que se tratava da mãe e da sua coroação. Fora de facto um pequeno pontapé seu, que tinha dado a Ana a coragem para enfrentar o mundo como rainha. Sim, percebera de repente que a mãe tinha sido muito corajosa. Tinha resistido com firmeza a todos os embates. Dela, Isabel herdara a sua coragem e não de seu pai, como sempre julgara. Desde a mais tenra infância que ouvira dizer que a mãe fora uma traidora e que todos os traidores eram cobardes. A dor de o saber e de conhecer a reputação de Ana como adúltera e rameira tinha abalado a sua delicada alma de criança e feito com que, enquanto jovem, a pequena princesa deixasse de pensar na mãe e nunca mais pronunciasse o seu nome. Porém, Isabel apercebia-se agora de que Ana fizera uma coisa maravilhosa. Um perfeito milagre. Uma vitória contra o impossível. Durante seis anos contivera as investidas do rei de Inglaterra para poder usar a coroa e assegurar a legitimidade dos filhos que tivesse.

 

Havia vários meses que Isabel lia o diário em momentos esquivos e as palavras e a história tinham-na comovido, educado e, por vezes, enfurecido. Ali, nas últimas passagens estava relatado o caminho percorrido pela mãe para se transformar de plebeia em rainha, numa cerimónia que mais parecia um funeral que uma comemoração com o ódio do povo, dos súbditos, quando por fim recebeu a coroa. E aquelas palavras fizeram com que Isabel se recordasse da sua própria coroação.

 

Mesmo sendo filha de rei, Isabel travara uma dura batalha para subir ao trono. Em pequena, vivera sempre à sombra de Eduardo, o herdeiro incontestável. O pai, embora bondoso, pouco tempo tinha para dispensar àquela criança alegre e ruiva que era, sem dúvida, uma recordação do seu mais apaixonado amor, então perdido. Embora Isabel tivesse passado a infância afastada da corte - fora da vista e do pensamento do pai - quando Henrique, o Grande, morreu, foi para ela como se o Sol se tivesse posto e não voltasse a nascer. Num abrir e fechar de olhos, terminara também o breve e turbulento reinado de Eduardo, seu irmão e amigo, bem como a cobiça dos homens que o tentaram controlar.

 

Seguira-se o reinado de Maria, a seguinte, na linha de sucessão, que se agarrara ao trono com garras de ave de rapina. A sua infância, como única filha de Henrique e Catarina fora doce e suave. Porém, Ana Bolena entrara nas suas vidas e tudo envenenara. A fria dança de amargura e ódio de Maria girara em torno da mãe de Isabel e, em menor grau, da pequena irmã mais nova.

 

De facto, Maria mostrara notável contenção em relação a Isabel, durante o seu breve reinado. Diante das numerosas intrigas, destinadas a livrar o país da rainha católica e fazer subir ao trono a popular princesa, que tanto se parecia com Henrique, em jovem, todos os conselheiros de Maria eram de opinião que deveria eliminar a ”pequena rameira”, a herege protestante e possível usurpadora da coroa.

 

Isabel levantou-se da cadeira e sentiu o cansaço sobre os seus frágeis ombros, cobertos por uma pesada capa de arminho. Apagou as velas, uma a uma e subiu para a enorme cama de dossel. Os tijolos quentes, que Kat colocara entre os lençóis, estavam já frios, de modo que se enrolou para conseguir aquecer. Porém o sono teimava em não vir e as recordações do tortuoso caminho para a sua própria coroação, flutuavam-lhe diante dos olhos, como uma peça de sonho em que os actores eram ela e a sua família.

 

O ano em que Maria ficou grávida do seu amado Filipe foi para Isabel um dos tempos mais desanimadores da sua vida. Com um herdeiro legítimo prestes a nascer, todas as esperanças de vir a ser rainha se esmagaram como o corpo de uma gaivota contra um rochedo. Fora chamada de um longo exílio para acompanhar a rainha durante a sua estada em Greenwich. Sabia que a sua presença ofereceria a Maria e aos seus conselheiros uma alegria perversa. Para eles seria maravilhoso verem murchar a pretensão de Isabel ao trono, à medida que o ventre de Maria florescia.

 

Poder-se-ia pensar que aqueles dias mais abençoados e fecundos suavizariam o tratamento cruel dos hereges protestantes ordenado pela rainha Maria, mas não fora esse o caso. Do seu quarto, onde se resguardava, possuída por um frenesim assassino, Maria ordenava o aumento das perseguições e mortes na fogueira, como se exigisse a erradicação de todos os infiéis de Inglaterra, antes de trazer ao mundo o filho que esperava.

 

Durante esse resguardo, Filipe interessara-se pela cunhada de vinte e um anos. Passavam juntos muitas horas, discutindo as perspectivas de casamento de Isabel, todas elas capazes aumentar o poder já substancial do rei de Espanha na Europa, porém delicada e firmemente recusadas por Isabel. Recordava-se de ter achado o rei de Espanha melancólico mas atraente, um pouco mais baixo do que ela e sempre com problemas de saúde, sofrendo de um mal persistente no estômago. Porém, Filipe encantara-se naquela robusta jovem cujo espírito e erudição contrastavam com a piedosa devoção de sua esposa. Isabel supunha que o interesse de Filipe por ela obedecia pelo menos em parte a razões práticas. Na possibilidade de Maria morrer de parto e se ele quisesse manter o domínio de Inglaterra, teria certamente de procurar casar-se com a irmã da mulher. Todavia, ao recordar os dias em que aguardavam a chegada da criança prometida pelas parteiras, Isabel pensava que o interesse de Filipe por ela não era apenas prático. Tinha a certeza de que se apaixonara e que a teria preferido para compartilhar o trono de Inglaterra.

 

O filho de Maria não chegou a nascer. A data esperada chegou e passou sem que a rainha sentisse os sinais de parto. Maria permaneceu durante horas sentada no chão, entre almofadas, vendo, triste e horrorizada, o seu ventre a diminuir de volume. E, enquanto desinchava, o poder e a importância de Isabel aumentavam na proporção inversa. Era evidente que Maria sofrera uma falsa gravidez e que, já idosa, poderia afinal ser estéril. Mortificada pelo seu fracasso, Maria saiu do seu resguardo e anunciou que a corte se mudaria para o palácio de Oatlands. Isabel foi sumariamente despedida e enviada de novo para o seu exílio.

 

Nas suas viagens, Maria e Isabel haviam cavalgado separadas por entre o povo e descobriram que era escasso o apoio dos súbditos à rainha. Já ninguém com menos de trinta anos era católico e o tratamento assassino dado aos hereges enfurecia a populaça. A desilusão da falsa gravidez fora o golpe final que, qual machado do carrasco, arrancara, por fim, Maria do coração dos ingleses. Segundo Isabel veio a saber, a pomposa comitiva para Oatlands encontrara na estrada rostos sombrios e os gritos de ”Deus Salve a Rainha” tinham sido forçados. Por sua vez, a modesta caravana em que Isabel regressava a Hatfield encontrara os caminhos cheios de camponeses que a saudavam calorosamente, o que provocou na princesa o espanto de perceber que o povo de Inglaterra a amava profundamente e via nela uma encarnação feminina do amado rei Henríque VIII e acreditava que viria a ser a próxima rainha.

 

No ano seguinte, Maria estava a morrer. No fim, foi a sua condição de mulher que a atraiçoou e os órgãos femininos apodreceram-lhe no ventre. Filipe, muito interessado, cumprira o seu papel, convencendo Maria, nos últimos dias de vida, a nomear Isabel sua sucessora. Assim, quando os mensageiros reais entraram em Hatfield com as muito esperadas notícias, Isabel estava mais que preparada para ser rainha. Preparada e ansiosa.

 

Minha pobre mãe, pensou Isabel, quase ninguém descobrira a cabeça de bom grado, naquela coroação de Primavera. Quando chegara a vez de Isabel, no pino do Inverno, milhares de barretes tinham sido atirados ao céu gelado e azul. Nesse dia glorioso, as pessoas tinham-na envolvido no seu amor. O espectáculo ultrapassara mesmo a imaginação de Isabel. As ruas estavam cheias de gente. Um milhar de cavaleiros em orgulhoso desfile, a sua liteira de ouro, seguida pelo seu amado Robin, cavalgando o alazão branco, enormes gritos, preces e felicitações, palavras ternas que a iam reconfortando. Fora um momento da mais pura alegria.

 

- Deus salve Vossa Graça! - exclamavam.

 

- E Deus vos salve a todos! - respondera cheia de emoção. Em cada paragem do cortejo, havia uma pequena representação, recitava-se um poema, cantava-se. E, em cada uma delas, Isabel ouvia com atenção e juntava-se aos celebrantes, para que, no momento em que retomasse o seu caminho, tivesse dado a cada um dos seus súbditos uma pequena parte do seu coração. A promessa de ser uma boa rainha para o seu povo, feita em Cheapside, perante a entusiasmada e ruidosa multidão dos habitantes de Londres, fora um desafio, tanto para ela como para os que a escutavam, pois Isabel sabia que lhes devia o trono. Sabia que sem o amor do povo, Maria teria tido a coragem de a mandar executar por heresia. Sem o amor do povo nunca teria sentido o peso da coroa de Inglaterra sobre a sua cabeça.

 

Por fim, Isabel sentiu, que as pálpebras lhe pesavam de sono. Foi este amor que minha mãe não teve, pensou antes de adormecer. Ana fora simplesmente incompreendida. Incompreendida até à morte.

 

4 de Junho de 1533 Diário,

 

Este é o Verão mais doce da minha vida. Em Windsor os dias são longos e calmos e o ar está impregnado do perfume das rosas e da relva cortada.

 

Henrique decidiu não sair para caçar, para poder ficar mais próximo de mim e assim, sai por vezes por um dia para se dedicar à caça e à falcoaria, mas regressa ao cair da noite, trazendo-me provas do seu amor - ramos das minhas violetas preferidas, cestos de sumarentas amoras, uma pena de mocho, um laço de erva entrançada com folhas de salgueiro e lírios. O rei sente orgulho no meu belo ventre e, atrevo-me a dizer que, mulher alguma se poderia sentir mais estimada do que eu.

 

Do enxoval de Catarina, recebi grande quantidade de jóias, taças de prata, bacias, camas e tamboretes. Através do meu Conselho Privado posso receber os rendimentos das minhas muitas propriedades. E Henrique honrou-me com a condição de femme sole, o que me permite administrar os meus assuntos sem a sua interferência.

 

Felizmente não nos chegaram aos ouvidos protestos de Roma ou do Imperador Carlos. Devem ter compreendido que quem se opõe a Henrique corre sérios riscos. Francisco mantém-se nosso amigo e enviou-nos um maravilhoso presente de casamento - quatro mulas e uma bela liteira ao estilo italiano, ricamente trabalhada e dourada, fechada por antigas tapeçarias e enfeitada com almofadas acolchoadas de veludo púrpura. A carta que a acompanhava dizia esperar que o presente fosse digno de tão bela rainha.

 

Os meus aposentos são noite e dia palco de todo o tipo de divertimentos. Música, danças, jogos e representações. Tenho um novo bobo - uma mulher, veja-se! Faz-nos rir com as suas partidas e comentários inteligentes. Entre as minhas aias e cavalheiros surgem muitos romances, com as suas pequenas intrigas e enredos. Mas, no seu todo, mantenho uma casa virtuosa e sossegada. Proibi as discussões e que os meus servidores frequentem locais de má nota ou sejam vistos em companhias pouco recomendáveis. As minhas aias nunca incentivam ou permitem condutas licenciosas e são mantidas ocupadas a coser para os pobres, devendo também assistir diariamente ao serviço divino. Por vezes julgo estar a ficar um pouco séria demais, mas agora, depois da nomeação de Henrique como Chefe Supremo da Igreja e do Estado, a rainha tem de dar exemplo cristão. E também porque Deus abençoa os verdadeiros crentes com filhos varões, devo conduzir-me segundo a moral e as suas leis.

 

Há um jovem cortesão que atrai as minhas atenções. Chama-se Mark Smeaton e é um óptimo músico e cantor. É bonito, honesto e gracioso, no que me recorda o jovem Percy, por quem estive apaixonada. Mark presta-me mais do que a devida homenagem a uma rainha, o que para mim tem semelhanças com o amor cortês. Senta-se a meus pés, toca alaúde e canta baladas doces com a sua voz de anjo. Não deveria encorajá-lo, mas a sua devoção toca-me e muitas vezes reclamo a sua presença nas minhas reuniões privadas. Até Henrique gosta do jovem Smeaton e lhe dedica uma atenção paternal.

 

Estou de boa saúde e com boas cores no meu rosto geralmente pálido. O rapaz dá voltas e pontapés com toda a energia e ninguém se atreve a falar de abortos ou nados-mortos. Mas para falar com franqueza, tenho alguns receios de morrer de parto e, como tal, enviei uma mensagem à freira de Kent, solicitando mais uma vez a sua colaboração. Já que na profecia em que falou do meu filho Tudor e do seu longo e próspero reinado não mencionou a minha pessoa ou a minha vida, quis recorrer a ela para que, com a ajuda das suas terríveis visões, possa conhecer também o meu destino. Isto porque, se vier a morrer, há disposições que devo tomar e cartas que tenho de escrever. Porém, segundo a resposta da abadessa, a santa irmã mantém-se em rigorosa clausura, não vê ninguém e todos os assuntos mundanos foram relegados em prol da espiritualidade. Assim, o meu destino será revelado com o lento correr do tempo e terei de viver com a minha impaciência.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

12 de julho de 1533 Diário,

 

Por fim chegaram notícias de Roma e são muito desagradáveis. Há dois dias, quando Henrique saiu para a caça, senti uma estranha inquietação. Receei que a sua vida pudesse estar em perigo e que os meus terrores fossem proféticos. juro que, depois de ter ficado grávida, desenvolvi outro sentido, Para além da vista e do ouvido, uma espécie de conhecimento, sem justificação. Mesmo assim, quando Henrique partiu e não regressou ao cair da noite, não receei que tivesse adoecido ou estivesse ferido. No momento em que me ia recolher ao leito, o conde de Shrewsbury chegou para me dizer que, tendo cavalgado até mais longe que o previsto, sua Majestade passaria a noite em Buckdon Lodge, continuaria a caçar durante o dia seguinte e regressaria depois. Percorreu-me um gélido arrepio e perguntei ao conde se o rei estava bem e se a caçada fora bem sucedida. O conde respondeu que o rei se encontrava perfeitamente e quanto ao resto, os veados mostravam-se arredios e ainda não apanhara nenhuma peça. Adormeci, mas com sono leve e passei todo o dia seguinte numa estranha disposição.

 

Nessa noite, o rei regressou com vários homens, de humor alegre e ruidoso. Porém, quando veio ter comigo aos meus aposentos e, dispensando-me sorrisos e abraços, me perguntou pela minha saúde e pela do nosso filho, senti nele uma dor surda e um certo desassossego. Insisti e afirmou estar apenas cansado pela longa distância percorrida. Porém, pedi-lhe que se sentasse, massajei-lhe as têmporas e a testa e insisti de novo, mas com cautela. Soltou um longo suspiro que pareceu esvaziar o seu enorme corpo. Fez tenção de falar, mas as palavras não lhe saíram. Cobriu os olhos com a enorme mão, cheia de anéis e pronunciou o meu nome, com voz triste.

 

- Ana... não estive a caçar.

- Onde haveis estado, então?

 

- Em Guildford, com os homens do meu Conselho Privado. Não desejava preocupar-vos, meu amor, mas a verdade é que tive notícias de Clemente acerca do meu divórcio.

 

- Não quer concedê-lo?

 

- Pior ainda. Anulou o nosso casamento e declarou ilegítima toda a nossa descendência. Se até Setembro não me tiver separado de vós e retomado Catarina... serei excomungado. E o mesmo se passará com o arcebispo Cranmer - soltou novo suspiro e pareceu subitamente abatido.

 

Ajoelhei para ficar numa posição inferior à sua e, quando falei, as palavras soaram-me na cabeça, como se esta não passasse de uma concha vazia.

 

- Não era o que já esperávamos, Henrique?

 

- Era, claro que sim. Mas o saber que se avizinha uma grande tempestade, não evita os estragos quando ela finalmente chega. Os campos e as culturas são destruídos, as árvores arrancadas, as praias inundadas e as pessoas morrem - abanou a cabeça, perturbado. - Não esperava sentir-me tão... vazio. A Igreja Católica foi para mim uma mãe, durante toda a minha vida. Tenho sido o seu filho mais fiel e sempre me prestou grande auxílio.

 

Nada podia argumentar contra aquelas palavras e sabia que seria imprudente falar com aspereza da mãe a um filho, mesmo que ele tivesse antes utilizado esse tom de voz.

 

- Agora o filho ingrato corta a cabeça da mãe e substitui-a pela sua - olhou-me com uma expressão de desespero no olhar. - Não tinha outra alternativa, Ana. Não tinha outra alternativa!

 

Peguei-lhe docemente nas mãos.

 

- Escutai. Há mães que recusam deixar que os filhos cresçam e assumam os seus direitos. E Henrique, como rei de Inglaterra, tendes antigos direitos de soberania. Se ela não os reconhecer, tereis de os tomar à força. Para o bem de Inglaterra!

 

Acenou com a cabeça, sem pronunciar palavra, concordando, ainda que de má vontade.

 

- Não se pode fazer nada? - perguntei.

 

- Os meus conselheiros de direito canónico sugerem que ultrapasse Clemente e apele a um concílio geral. Mas isso apenas atrasaria a sentença.

 

- Francisco não poderá ajudar-vos? Está de boas relações com o Papa. E que diz de tudo isto o secretário Cromwell?

 

Henrique soltou uma fria gargalhada.

 

- O mesmo que vós, acerca dos meus direitos de Rei estarem à frente da Igreja. Porém às vezes faz-me pensar. Parece não sentir temor a Deus.

 

- Julgo que mestre Cromwell sente temor a Deus, tal como nós, Henrique. Pura e simplesmente não receia a Igreja. E nisso creio que tem razão.

 

Henrique esboçou um sorriso estranho e tocou-me ternamente no rosto.

 

- A minha esposa luterana. Arrebatou-me a minha mãe, seduzindo-me com promessas maiores do que as do Céu.

 

O meu corpo estremeceu ao ouvir estas palavras, pois sempre julgara ter sido ele a arrebatar-me. Mas guardei para mim essas ideias e não o contradisse, pois sabia que tinha feito uma promessa, cujo cumprimento o compensaria da perda da Santa Madre Igreja. O nosso filho. O seu pequeno príncipe. E a sucessão ininterrupta dos grandes reis Tudor.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

5 de Agosto de 1533 Diário,

 

Fui vítima de uma terrível traição e o traidor foi Henrique. Um golpe inesperado, sobretudo porque meu marido teve a bondade de enviar há pouco tempo para os meus aposentos em Greenwich, a que em breve me recolherei para o parto, uma esplêndida e luxuosa cama, com dossel de cetim escarlate debruado a ouro, escolhida por ele na casa do tesouro. E, para meu benefício e grande irritação de Catarina, mandou pedir-lhe um rico pano de linho de Espanha, o qual enfaixou todos os bebés reais no dia do baptismo.

 

Mas na quarta-feira passada, chegou-me aos ouvidos a história das escapadelas de Henrique com Elizabeth Carew, minha aia, uma jovem de grande beleza, mas pouca inteligência. Mentiras mal intencionadas, pensei, oportunamente espalhadas por eu estar já no fim do tempo e porque a minha língua, geralmente afiada se tinha suavizado, devido à gravidez. Não me parecia possível, pois Henrique possuíra-me de corpo e alma ainda não havia um ano. Um curto ano, depois de tantos a combater lado a lado como soldados numa grande cruzada.

 

Mas quando, na missa de domingo, entre o toque dos sinos e o sussurro dos tafetás, ouvi o nome dos nobres que apoiavam esse romance, percebi que era verdade. Sabia que nada significa para a minha alta posição, pois a coroa está segura na minha cabeça. Sabia também que a conduta de Henrique não era errada, nem sequer extraordinária, segundo os padrões reais. Mas, mesmo assim, a ideia de que a sua paixão se dirigisse a outra mulher que não eu, fez estremecer o frágil amor que sentia por ele. Tantos anos de dor e luta desperdiçados nos braços de uma tonta.

 

Dirigi-me aos aposentos do rei, o mais depressa que a minha figura de rosto e ventre grotescamente inchados mo permitiram e atirei-me a ele, com uma incontrolável fúria.

 

- Porco! - gritei, ao mesmo tempo que o esbofeteava, deixando-lhe a face quente e vermelha. O meu amante infiel, esposo e rei ficou abismado. Olhou-me com uma calma de morte, porém os seus olhos diziam que os rumores eram verdadeiros e os meus ardiam-me de lágrimas amargas. - Onde está o homem doce e terno que me prometeu adoração eterna, que antes de assinar as suas cartas dizia não buscar mais ninguém - olhei para um lado e para outro, como se procurasse esse homem. - Onde está ele, pois aqui apenas vejo um traidor de duas caras!

 

O olhar de Henrique fitou-me com tal desprezo que me surpreendeu, já que eu esperava um sinal dos seus remorsos. Porém, pelo contrário, paralisou-me com um olhar firme e respondeu friamente:

 

- Fechareis os olhos, minha querida, e suportareis o que outras, melhores que vós, suportaram. Deveis saber que a qualquer momento vos posso fazer descer, tal como vos fiz subir - tocou na face avermelhada e demorou perigosamente a mão enorme no meu pescoço. Mal conseguia respirar. - Rainha Ana... - murmurou com ar de desprezo e retirou a mão. - Ide.

 

- Vou, Henrique - repliquei, encarando-o e sem retroceder. - Mas sabei que haveis ofendido vergonhosamente a vossa fiel esposa, mãe de vosso filho.

 

Voltei-me e abandonei com altivez os aposentos do rei, para voltar aos meus e chorar o meu desgosto. Porque não há ninguém senão vós, Diário que conheça a profundidade desta traição. Estou muito sozinha.

 

Henrique e eu não falamos um com o outro há vários dias. A criança dá pontapés no meu ventre e na dor que me causa encontro consolo, pois se o amor do rei se dissipou, este menino continuará ser um cordão dourado entre sua Majestade e eu - cintilante, inquebrável e para sempre.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

29 de Agosto de 1533 Diário,

 

Foi um dia glorioso! Entre o som dos tambores e das alegres trombetas, os estandartes agitam-se. Na suave brisa de Agosto, tomo o meu lugar na barcaça real. Henrique despediu-se com beijos e mostras de regozijo (esquecidas que foram todas as discussões). Abraçou-me com força e ternura.

 

- Amo-vos Nan - murmurou-me ao ouvido. - Somos um só nesse menino - e poisou a mão, como uma bênção, sobre o meu ventre. Partiu, depois de ouvir inúmeras aclamações.

 

O momento foi só meu, mais memorável que a minha coroação. As árvores balançavam nas margens, o rio Tamisa era verde e dourado e a maré-cheia levou-nos pelo sinuoso caminho para Greenwich, cheio de gente que acenava, mas não sorria. Quem me dera que o tivessem feito, para mim, para a rainha, para o meu ventre que albergava o herdeiro Tudor. Porém a maioria continua leal a Catarina e à filha. Vão mudar de opinião quando ele nascer e com certeza que me vão adorar e desejar longa vida e saúde à rainha Ana. Os muros e ameias do castelo de Greenwich brilhavam à luz do pôr do Sol quando chegámos. Lordes e damas, muito bem vestidos, aguardavam-nos na margem e vieram ajudar-me a recolher aos meus aposentos. Foi há muitos anos que o pai de Henrique, o primeiro rei Tudor criou este cerimonial. Talvez por ter conseguido a coroa pela força das armas e não por linhagem, quis que fosse assim o nascimento dos filhos.

 

O grande rio da história, pensei, corre sob esta barcaça real e Henrique, eu e o nosso filho, desaguamos nele, como pequenos ribeiros, entrando para sempre nos seus anais. Com discreta pompa, fui conduzida à capela, onde me aguardava o meu bom amigo Cranmer. Recebi a comunhão das suas mãos e os nobres presentes rezaram com ele para que Deus me desse uma boa hora. Ao sairmos, vi a princesa Maria, magra e hirta, com os olhos escuros a seguirem-me o caminho. Sorri-lhe bondosamente ao passar, disposta a oferecer-lhe o amor que tinha para dar, mas vi que interpretou o meu gesto como provocação. Não importa, pensei. Sei que deseja a morte do meu filho e a minha.

 

Os lordes e as damas escoltaram-me então à minha câmara, serviram-me vinho aromático e brindaram em minha honra. Meu irmão George estava entre os homens, a rebentar de orgulho por mim e muito feliz. Peguei-lhe na mão e murmurei:

 

- Meu fiel irmão, pensas que isto fará com que mudem as coisas entre eles e eu?

 

- Penso - respondeu. - Quando fores a mãe do futuro Rei será como se lhes arrancassem dos olhos um véu e, por fim, poderão perceber a mulher delicada que é a minha irmã.

 

Subiram-me as lágrimas aos olhos, tal foi a onda de amor e gratidão que senti por George. Porém, antes que começasse a chorar, ele e meu tio lorde Rochiord pegaram-me na mão e conduziram-me até à entrada dos meus aposentos, desejaram-me boa sorte e aí me deixaram. Quando todos os cavalheiros se retiraram, as minhas aias seguiram-me e fecharam a porta atrás de mim. Segundo a lei, não posso abandonar estas paredes senão depois do parto e apenas poderei ver estas mulheres que comigo se retiraram.

 

O lugar era escuro e mal arejado, com pesadas tapeçarias a cobrirem todas as paredes, tectos e janelas excepto uma. Vi a cama estreita, onde teria lugar o parto, as braseiras para aquecer o quarto, os frascos de perfume para cobrirem o cheiro pegajoso do sangue e estremeci ao reparar nas panelas e bacias, nos montes de panos rasgados, num enorme conjunto de lancetas e noutros assustadores instrumentos de parteiras.

 

A outra câmara era mais alegre. A minha cama era de madeira trabalhada e tinha um rico dossel. Imaginei-me mãe orgulhosa, naquele leito, recebendo visitas importantes, sentada entre os lençóis, com uma capa de veludo escarlate, forrada de arminho. E quando me viessem apresentar os seus respeitos, veriam o pequeno príncipe, adormecido no seu imponente berço, com quatro remates de ouro e prata e uma colcha tecida a ouro e debruada a arminho.

 

Dizem-me que em breve entrarei em trabalho de parto. Rezo do fundo do coração para ter coragem, para não gritar, para me preparar para a dor. Há quem me odeie tanto que espera à porta dos meus aposentos para ouvir os meus gritos de agonia. Imploro-vos, meu Deus que me deis forças nesta hora e para que meu filho nasça saudável e formoso.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

8 de Setembro de 1533 Diário,

 

Tenho uma filha a quem chamei Isabel. Vivi o seu nascimento, terrível e sangrento, como um sonho sombrio em que, como bruxas, as parteiras murmuravam feitiços por entre as minhas pernas. As repetidas orações para pedir um filho foram missas vãs por entre os meus gritos e impropérios. Nem um sopro de brisa no ar fedorento e húmido fazia ondular as cortinas escarlates da minha cama de dossel, quando Henrique entrou, cheio de sorrisos, para ver o seu pequeno príncipe, trazendo no hálito o odor da comernoração. Não reparou na expressão de terror das minhas aias, que, para que não as visse, voltaram o rosto acobardadas, murmurando assustadas, não fosse, mais tarde, considerá-las testemunhas do crime daquela noite. Ouviu apenas os fortes vagidos do herdeiro que tanto desejara.

 

- Onde está, Ana? Onde está o meu filho? - Os meses, não, os anos de tensão tinham-se dissipado das suas feições. Tinha o ar jovem e bem-parecido de quando me começara a cortejar, sete anos atrás.

 

- Mostrai-me o meu filho - olhou em seu redor, de aia para aia, fitou o berço dourado e sentiu o frio do medo inundar-lhe o coração.

 

- Tendes uma filha muito formosa - disse eu, com o que me restava de coragem.

 

- Uma filha... - murmurou. - Uma filha?! - Li-lhe nos olhos um brilho assassino, contra mim, contra a criança. Receei que arrebatasse o pequeno bebé enrugado e lhe abrisse a cabeça como se faz a um melão maduro, ou que a esmagasse contra a coluna da cama até a matar. A sua raiva indescritível era uma terrível onda de silêncio que se abatia contra o meu corpo exausto.

 

- Sois uma mentirosa! - exclamou. - Uma mentirosa! Haveis-me prometido um filho. Por esta mulher queixosa renunciei à minha piedosa rainha, ao amor dos meus súbditos e até a Roma! Vós senhora, pagareis por tudo isto! - E retirou-se dos meus aposentos, escarlate e coberto de suor.

 

Um filho varão! Essa simples promessa que fizera a Henrique, mantivera vivo o nosso sonho e haveria de ser a minha perdição. Mas, oh! Algumas promessas são difíceis de cumprir, outras seria melhor não terem sido feitas, outras ainda são mentiras que nunca tivemos intenções de dizer.

 

Sinto a cabeça girar como um moinho de papel. E que dizer da freira de Kent e do meu ”filho Tudor” que, prometeu, surgiria do meu ventre? Um filho, dissera, iluminaria as terras britânicas. Teria percebido mal? Referir-se-iam as suas palavras a algo da órbita celeste?’ Teria eu ficado ofuscada com o significado da palavra? Quando naquele dia, sendo ainda uma jovem magra, me encontrei na cela nua, sob o olhar meio enlouquecido daquele oráculo e escutei a profecia saída dos lábios gretados da freira, terei, na minha terrível ânsia, captado apenas o que desejava ouvir? Deve ter sido assim, pois essa adivinha nunca se enganava. Como fui tola!

 

Depois de terem banhado e enfaixado a recém-nascida em metros de pano, de modo que só o pequeno rosto sobressaísse, colocaram-na nos meus braços. Olhei para aquela criaturinha rosada, causadora da minha destruição. Chorava, sem dentes, esforçando-se por se libertar da sua prisão de musselina. Abriu os olhos e quase fiquei sem fôlego... eram os olhos de Henrique! Os olhos furiosos de Henrique.

 

Nota: A palavra ”son”, filho, em inglês e ”sun”, sol, têm quase a mesma sonoridade. Daí a possível confusão. N. da T.

 

Isabel, oh meu Deus, és bem filha de teu pai. Nasceste do meu ventre, do meu sangue, com as minhas orações, mas mostras a raiva de teu pai. Permitirá ele que continues viva? Permitirá que eu continue viva? Minha inocente menina, minha filha, em que mundo terrível te fiz nascer? Os meus seios choram por ti e, neste momento, nada mais desejo do que chegar-te ao coração para que te alimentes do amor de tua mãe. Mas eis que chega a ama, gorda, macia e reconfortante para te arrebatar dos meus braços doridos. É com um humilde sorriso que pega em ti, mas sabe que será ela a sentir a tua boca a mamar, será ela que há-de contar os teus dedinhos, que penteará a seda dos teus cabelinhos, que secará as lágrimas que eu nunca verei. Não, nunca me deixarão ficar perto de ti, minha filha, poisvão criar-te como princesa. Receberás cortesias e não beijos, abraços sobre ”metros de cetim engomado, lisonjas dos cortesãos, não ternas palavras de amor.

 

Oh, Isabel, pequenina, oiço-te chorar no aposento ao lado. Escuto-te, sinto-te, recordo-me de ti, dentro do meu ventre. Pedirei para te ver e vão trazer-te esta noite, mas amanhã terás partido, ficarás sequestrada nos aposentos das crianças, afastados dos meus por corredores escuros e cheios de correntes de ar. Henrique não quer que uma criança impertinente lhe estrague os seus festejos, as suas reuniões do conselho, os seus namoros. Ver-te-ei cada vez menos. O leite secará nos meus seios que deixarão de te desejar. Terei de cantar e dançar, conversar alegremente com as minhas aias, jogar às cartas. Ser rainha e nunca te pegar ao colo.

 

Recordo-me de uma patrícia romana, cujo nome esqueci, encerrada numa escura prisão por carcereiros que pretendiam matá-la à fome. Conseguiu manter-se viva devido à filha que a vinha visitar todos os dias e a alimentava em segredo. Essa bondosa jovem, que acabara também ela de ser mãe, com fingidos abraços deixava que, escondida pelas muitas dobras das suas vestes, a mãe mamasse nos seus seios cheios de leite. A idosa mulher não enfraqueceu nem morreu e, quando os guardas descobriram o subterfúgio, enterneceram-se, talvez devido a recordações das suas mães e libertaram-na. Mãe e filha, filha e mãe. Estimavam-se muito uma à outra. Oh, Isabel...

 

Henrique odeia-me, diz que o enganei, que o cobri de vergonha. Todos os grandiosos e fantásticos festejos e torneios para o pequeno príncipe foram anulados e substituídos por brindes à saúde da princesa e orações para que o meu ventre albergue, enfim, o tão desejado herdeiro. E tentaremos de novo trazer ao mundo esse varão filho de tua mãe Ana e de teu pai Henrique. Juntaremos com raiva os nossos corpos, implorando que, a cada investida, da próxima vez que estiver nesta câmara, seja para dar à luz o almejado varão.

 

Mas falharemos sempre. Sei-o, com uma terrível certeza. A freira louca vaticinou o meu sol Tudor e, quando olho nos teus olhos, nos olhos que herdaste de teu pai, sei que o sol és tu, Isabel. Brilharás sobre o mundo com glória e esplendor, apesar da fúria do rei teu pai. Disso estou certa.

 

O futuro chega até mim, como um vento escuro e uivante. Estou perdida, minha filha, mas tu foste encontrada. E serás rainha.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

12 de Outubro de 1533 Diário,

 

Fiquei ciente de factos bem desagradáveis. Mente-se às rainhas grávidas, a bem da sua saúde, ou melhor, a bem da saúde da criança. Mantiveram-me na ignorância de um enorme escândalo em cujo centro se encontra a Santa Freira de Kent. Tem falado contra mim e contra Henrique, dizendo que não teremos bom fim, rogando pragas sobre a nossa casa e afirmando a legitimidade do casamento do rei com Catarina. Sua Majestade está furiosa e Cromwell mandou prender a freira, acusando-a de traição. O secretário tem uma lista com os nomes dos seus simpatizantes e todos estremecem só de pensar que podem fazer parte dela. Fala-se que a freira confessará ser culpada de corrupção, tendo sido aliciada por vários cortesãos, entre os quais Thomas More.

 

Sinto-me como um peixe retirado da água. Que hei-de pensar? Terá mentido ou a sua confissão tem por fim escapar à morte? Será que nunca teve o dom de adivinhar e as palavras que me disse há anos não passavam de ilusões de uma louca camponesa, transformada em profetisa pelos bispos sedentos de milagres?

 

Naquela ocasião acreditei nela, mas tomei as suas palavras como melhor me serviam. Porém, diz-mo o coração, Isabel há-de reinar, embora seja necessário que eu contribua com mão firme para o cumprimento de tal promessa. O rei, meu esposo, cansou-se de mim e tenho de me esforçar para reacender o seu amor. Está satisfeito com a sua filhinha, já me falou de um Acto de Sucessão que garanta a sua ascensão ao trono adiante de Maria, mas apenas após o filho que pensa que em breve lhe darei. Assim, mostro-me terna e submissa e incentivo-o a fazer passar a lei. Os que me detestam, agora mais que nunca, sorriem desdenhosos e murmuram que sigo o rei como se fosse um cãozinho. Embora me desagrade, devo humilhar-me, pois diz-me o coração que não terei filhos varões com Henrique e tenho de preservar a coroa para Isabel.

 

É estranho pensar no dia da coroação de minha filha, que é ainda muito pequenina e frágil. Rosada, com cabelo alourado, olhos doces, reconhece-me como sua mãe, reconhece o meu corpo como tendo sido a sua casa e, para além de serem poucos os momentos em que a posso abraçar, nunca terei autorização de lhe dar o seio. Mas, sabe quem sou, aninha-se confortavelmente a mim, sorri-me. Amo esta criança sem necessitar de estímulos, como um dia amei o jovem Percy, só que ainda mais. Sempre que me sento, peço que ma tragam numa almofada de veludo que é colocada a meus pés. Todas as minhas aias dizem que é muito bonita, com os seus caracóis e a sua pele acetinada que cheira tão bem.

 

Implorei a Henríque que dispensássemos as Convenções, que Isabel pudesse ficar connosco e não fosse enviada para a sua residência, longe da corte. Mas ele troçou.

 

- Gosto muito da minha filha, mas é uma filha, Ana. Não será melhor que vos esforceis por me dar filhos varões em vez de passar o tempo a olhar para essa menina?

 

Disse-o num tom frio, vazio, como uma sebe no Inverno. Sabia que seria inútil implorar, mas esperava que mudasse de ideias e me permitisse o conforto de ter comigo a minha filha.

 

- As crianças reais partem para a sua própria residência quando têm apenas três meses de idade - expliquei. - Essa regra foi feita por homens que nada entendem da necessidade de uma mãe ter os filhos junto a si.

 

Ele voltou-se, grunhindo como um urso.

 

- Trata-se de um ritual de Reis, senhora, de Reis! Como vos atreveis a criticá-lo?

 

Caí de joelhos e beijei-lhe a mão para o acalmar, murmurando desculpas. Envergonho-me de descer tão baixo, mas não quero pôr Isabel em perigo, com a minha arrogância.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

Isabel olhava aturdida para os círculos em redor das velas tremeluzentes, com as lágrimas a correrem-lhe pelas faces frias.

 

- Minha mãe - disse num murmúrio. Suspirou, exalando todo o ar que tinha nos pulmões, parecendo-lhe difícil voltar a respirar. Aquela revelação comovera-a profundamente. Sua mãe amara-a.

 

Adorara-a. Esforçara-se por mantê-la a seu lado. Não obstante, lendo nas entrelinhas, Isabel apercebia-se de que aquele amor maternal tinha sido tão surpreendente para Ana, como o era agora para a própria filha. Ana lutara tanto pela coroa, esforçara-se tanto por amar Henrique, tivera de se defender dos seus inimigos, com tal afinco que, no seu pensamento, a criança que ia dar à luz acabara por converter-se no tão almejado príncipe.

 

Como deveria ter sido grande aquele amor, pensou Isabel, para que a mãe tivesse ultrapassado o desapontamento de ter tido uma filha em vez do desejado varão. Ou talvez fosse aquele o significado da maternidade. A criança nasce do corpo de sua mãe, que nada mais pode fazer do que amá-la quer seja do sexo feminino ou masculino, dócil ou terrivelmente impertinente, bela ou monstruosamente deformada. Mas Isabel tinha a sensação de que Ana sentira esse amor mais profundamente, lutara com mais coragem, humilhara-se com maior resignação e acreditara no destino de Isabel com mais convicção do que qualquer outra mãe faria por uma filha.

 

Amara-a. E Henrique, o seu pai infiel? Que deveria pensar dele? Sabia que não seria correcto vilipendíá-lo. Era o rei e, segundo a antiga lei não escrita de Inglaterra, tinha direito a ter uma amante, por muito que gostasse da rainha.

 

Falecera no ano em que Isabel fizera catorze anos e, nessa altura, transformara-se já do belo monarca glorioso, robusto e animado retratado em quadros, tapeçarias, jóias, mobiliário e moedas, numa obscena montanha de carne, cujos olhos eram meras fendas num rosto inchado e lascivo e que, pela sua corpulência e devido à perna doente, tinha de ser transportado de aposento para aposento, numa liteira carregada por seis homens. Isabel conheceu-o nesse estado e sabia que o pai pouco se preocupara com ela. Isabel fora sempre um precioso trunfo político para Henrique, uma princesa que poderia casar com um príncipe estrangeiro e que, durante aqueles anos, raramente se dera ao trabalho de querer ver.

 

Sempre que o rei a mandava chamar, o seu coração de criança estremecia com o medo que as pessoas reservam para o Juízo Final. Não se atrevia a olhá-lo nos olhos, pois sabia que lhe exigia submissão e obediência cega. Era esse o dever inalterável de um filho para com o progenitor. E, claro, Henrique era o rei e estava habituado a contar com o preito de todos os seus súbditos, mesmo dos mais nobres e importantes. Durante essas audiências, Isabel tinha de cair várias vezes de joelhos e manter-se em silêncio a seus pés, sentindo o cheiro da carne em decomposição e das pútridas ligaduras da sua perna ferida. Por vezes, esquecia-se mesmo da presença da filha, passando a outros assuntos e permitindo apenas que se erguesse da sua prostração quando já tinha os joelhos negros e quase perdera os sentidos, devido aos desagradáveis vapores.

 

Porém, pensou Isabel, sempre amara seu pai, admirava o poder e lealdade que inspirava aos seus súbditos e enchia-se de orgulho, quando os cortesãos lhe garantiam a semelhança do seu carácter e físico com os do rei quando jovem. Encontrava sempre um pretexto para lhe perdoar os excessos, o facto de quase ignorar a sua pessoa e os seus acessos de mau humor. Até mesmo o ter mandado matar sua mãe.

 

Basta, ordenou Isabel a si própria, voltando a guardar o diário na arca. Não devia pensar mais naquilo. Fora suficiente por uma noite o ter sabido que a mãe a amara. A jovem rainha sentiu que alguma coisa se expandia no seu interior, como uma semente que brota da terra macia para se abrir ao sol e ao calor. Enquanto a luz da manhã entrava pelas janelas dos seus aposentos, Isabel Tudor, filha de Ana Bolena, descobriu surpreendida que estava a sorrir.

 

- Majestade!

 

Isabel voltou-se e viu o seu secretário real, William Cecil aproximar-se a correr durante o seu passeio pela galeria do Palácio de Richmond, único exercício possível naquela tarde fria e chuvosa. Cecil abriu caminho por entre as damas que, qual bando de pássaros coloridos, rodeavam a rainha, e chegou a seu lado.

 

- Bom-dia, meu senhor. Espero que estejais de boa saúde. Senti a falta da nossa conversa matinal.

 

- O debate com o Conselho Privado foi acalorado e não está ainda concluído, Majestade.

 

Com um gesto, a rainha ordenou-lhe que começasse a falar, porém Cecil hesitou, lançando um olhar reprovador às ruidosas aias.

 

- Tendes toda a minha atenção - garantiu Isabel.

 

Porém Cecil recusou-se teimosamente a tratar dos assuntos diante de um público tão ruidoso.

 

- Muito bem!

 

A rainha voltou-se para as suas damas e erguendo o queixo ordenou-lhes que se retirassem. Estas dispersaram e desapareceram como que por magia. Ela e Cecil ficaram, por fim a sós, na longa galeria, onde ecoava o bater da chuva nas janelas.

 

- Deixai que adivinhe - comentou Isabel. - A Escócia. Quereis que gaste mais dinheiro com os rebeldes protestantes.

 

- É imperioso - implorou Cecil.

 

- já lhes enviei demasiado. Sou muito pobre, Cecil. Além do mais, duvido que os Franceses apreciem o facto de eu me opor abertamente aos seus aliados.

 

- Desejais então que os católicos governem o país? - Isabel suspirou exasperada. - Enviai então as vossas tropas para lhes opor resistência.

 

- Não. Não o farei.

 

- Fazeis mal, senhora. Essa decisão é mal aconselhada.

 

Isabel voltou-se para o seu conselheiro como se desejasse lançar-se furiosamente contra ele. Porém, o olhar de Cecil era tão sincero e determinado que se deteve. Tratava-se do mais avisado dos seus conselheiros, do mais prodigiosamente informado. Seu antigo servidor e protestante fiel, conseguira tornar-se indispensável a Maria, sua irmã católica durante o reinado desta, sem renunciar a sua fidelidade a Isabel.

 

Mostrava-se invariavelmente partidário de uma intervenção armada na Escócia e acreditava na justiça de tal medida desde que, em 1540, ele próprio participara na batalha de Pinkie.

 

- Não me sinto inclinada a concordar convosco, lorde Cecil. Falai-me no assunto dentro de uma ou duas semanas.

 

- Nesse caso, renunciarei ao meu cargo - disse inesperadamente.

- Como assim?

 

- É esta a minha postura. Será um erro sem paralelo e não mais poderei considerar-me vosso conselheiro, se insistirdes nesta desastrosa estratégia.

 

Isabel fitou o secretário, buscando-lhe no rosto o menor sinal de indecisão. Porém, tal não existia. Não se lia nele a menor partícula de dúvida.

 

- Muito bem. Tratai dos pormenores e mantende-me ao corrente de tudo.

 

- Agradeço a Vossa Majestade. Prometo que haveis de vos alegrar com essa decisão.

 

- Também me prometeis que, quando acabarmos de pagar uma guerra no estrangeiro haverá dinheiro para a nossa governação?

 

- Não, senhora. Mas prometo que as vossas fronteiras a norte estarão, de futuro, a salvo de uma invasão católica.

 

- Pois bem, já é alguma coisa - replicou Isabel asperamente. - já é alguma coisa.

 

2 de Dezembro de 1533 Diário,

 

A raiva corrói-me as entranhas como se de uma ratazana negra se tratasse. Levaram-me Isabel, levaram-na para Hatfield, onde viverá com gente que lhe é estranha, e que em breve se transformará na sua família. Sou a rainha e nada posso fazer para impedir esta atitude contrária à natureza. Estou separada da minha filha, encurralada por uma fria tradição criada por homens, que não têm em conta os sentimentos femininos.

 

Sinto também um ódio cada vez maior por lady Maria. Triste sorte a minha que, quando finalmente terminou a terrível batalha com sua mãe Catarina, não me concede tréguas. Como um dragão que se ergue das cinzas da sua predecessora, Maria surge ameaçando-me com as garras de fora, olhos soltando fogo, fixados na coroa que considera sua. Desafia seu pai. Teimosa e doce como outrora sua mãe, mas mesmo assim, desafia-o. Quando lhe disseram que lhe tinha sido retirado o título de Princesa de Inglaterra e que passaria a ser simplesmente lady Maria, replicou que não tinha conhecimento de nenhuma outra Princesa de Inglaterra e recusou-se a responder por outro nome que não fosse o que, assegura, lhe corresponde diante de Deus e da lei do seu país.

 

A jovem, com apenas dezassete anos, brinca com a traição, pois sabe que tais palavras e atitudes rebeldes inflamam a população que continua a detestar-me, considerando-me a ”Grande Prostituta” e a Isabel a ”Pequena Prostituta”. De bom grado veriam no trono essa cabra espanhola.

 

Oh, Diário, com quanto fervor rezei para que os meus súbditos me amassem, a mim e à minha filha. Mas são perversos. Quando faço generosos donativos aos pobres das localidades por onde passamos quando a corte se translada - dez libras por uma vaca para lhes alimentar os filhos, quando poucos xelins chegariam para a adquirir - dizem que tento comprar o amor dos meus súbditos. E embora o povo odeie a ruindade do Papa e de todo o clero e se indigne contra a corrupção e concessão de indulgências, gostariam de ter uma rainha papista e sentem saudades dos rituais católicos. Não compreendo!

 

Aqui na corte, lady Maria tem os seus leais seguidores que, se lhes fosse concedida oportunidade, ergueriam o seu traiçoeiro estandarte em nome dela, para que todo o povo a seguisse. Há sempre maledicência que vaticina a minha merecida queda. E esta maledicência tem sempre Maria no seu centro. Impõe-se dobrar o atrevimento desta jovem, porém receio que o plano de Henrique para o fazer acabe por ser posto de parte. Ordenou a Maria que vá viver para Hatfield e sirva de dama de honor de sua meia-irmã Isabel. Perguntei ao rei o porquê de colocar uma víbora junto da nossa filha, mas ele não deu importância aos meus cuidados, dizendo que Maria era desobediente, mas não perigosa.

 

Talvez eu veja inimigos a espreitar em cada canto, mas sinto que o plano de Henrique e a pouca importância que dá aos meus receios são uma pequena vingança contra mim- Vingança pela humilhação que o fiz passar ao dar à luz uma filha e não um filho varão. Embora prossiga no seu intento de passar a lei o Acto de Sucessão, continua distante da minha pessoa, vindo ao meu leito apenas quando disso tem necessidade. De facto seria cega, se não visse o modo como devora com o olhar as minhas formosas aias, ou surda se não ouvisse o tom amargo com que me chama sua rainha.

 

O amor por Henrique que cultivei até o ver crescer, definha agora, pois não se alimentou de uma nascente no meu interior, mas sim da sua volúvel paixão. A falta desse amor da parte do rei, um amor que pensei receber diariamente, deixa-me vazia e desconsolada. George, meu irmão e amigo, continua no estrangeiro, embaixador em França. E agora arrebatam-me a minha filha dos braços. Aqui me encontro, entre os lobos da corte que, se tivessem a mínima oportunidade, me arrancariam a carne.

 

Tenho de ter forças para recomeçar. Os meus inimigos não devem conseguir os seus intentos. Lutei para conseguir esta posição e este nome, e não hão-de fazer-me vacilar. Sou a rainha Ana. Eles que tentem derrubar-me do trono. Eles que tentem...

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

7 de Abril de 1534 Diário,

 

Estou de novo grávida. Henrique está encantado com a notícia e cheio de esperanças que desta vez nasça um varão. Porém, querendo prevenir outra desilusão, mostra-se distante e até um pouco cruel. A maledicência da corte fez-me chegar aos ouvidos que dorme não só com damas, mas também com as mais baixas prostitutas que vai visitar à cidade. Estou preocupada que possa trazer doenças para o nosso leito, de modo que resolvi visitar uma velha que dizem ter melhores curas que os remédios do boticário.

 

No primeiro dia de Primavera deste ano, vesti-me modestamente e sem confessar a ninguém onde ia, mandei vir uma carruagem simples, conduzida pelo meu habitual cocheiro. Como companheiro de viagem levei Ptirkoy, um cachorro que me foi oferecido por meu primo Francis Bryan. Instala-se comodamente no meu colo e aceita sempre as minhas festas e carícias sobre o seu pêlo aveludado. Segue-me constantemente e é um súbdito doce e engraçado que me ama incondicionalmente.

 

O Sol brilhava sobre as minhas costas, quando passei o portão do palácio. Várias pessoas olharam, mas ninguém falou comigo, limitando-se a inclinarem-se à minha passagem. Quando a carruagem chegou, vi que o meu bom cocheiro tinha sido substituído por um desconhecido de libré, alto e bem-parecido - Jolin, como disse que se chamava. Quando me ajudou a subir, lançou-me um sorriso um pouco atrevido, mas mesmo assim tive esperanças que fosse bom homem e amasse a sua rainha. Porém decidi ter algumas precauções, para que ele não visse a velha que eu ia visitar, não fosse ele fiel a outras pessoas e me acusasse de conspirar com bruxas. Sei que é assim que começa a maledicência.

 

Partimos enfim naquela bela manhã, John, o cocheiro, Ptirkoy e eu. Percorremos primeiro ruas empedradas e depois caminhos mais estreitos até chegarmos a uma pequena casa a necessitar de reparações. Com Ptirkoy debaixo do braço, assegurei-me que John não visse a velha enrugada que me abria a decrépita porta.

 

- Bem vinda, gentil senhora - disse ela, fazendo-me entrar. Não era o lugar escuro e mórbido que eu imaginara, e que agourava o exterior do edifício. O sol entrava pela porta do jardim e as janelas lançavam luz e sombra sobre as mesas, onde se empilhavam flores e ervas a secar e até insectos vivos fechados em frascos. Das vigas do tecto, pendiam mais plantas, lançando pela casa o seu perfume e numa concha nacarada fervia um líquido de onde se erguia um vapor de aroma açucarado. Perto da janela, e sem qualquer gaiola estava poisado um papagaio cinzento, de cauda escarlate e bico negro e curvo. Com a cabeça de lado, a ave ladrou como um cão, deixando o pobre Ptirkoy a tremer de medo nos meus braços.

 

A velha desconhecia a minha verdadeira identidade, pois embora me parecesse bondosa não se inclinou nem ajoelhou diante de mim. Senti-me satisfeita por poder manter o anonimato, pois todas as pessoas mudam de conduta, quando sabem quem sou. Assim, ocultei as minhas mãos não fosse ela ver o meu famoso dedo e reconhecer-me e apresentei-me apenas como lady Ana.

 

- Poisai o cachorro no chão, senhora, para que possa farejar à vontade. Vai encontrar muitos cheiros agradáveis. Então de que se trata? - perguntou enquanto eu fazia conforme me tinha dito.

 

A velha começara a esmagar sementes amarelas dentro de um almofariz de madeira.

 

- Alguma coisa para a vossa gravidez?

 

Soltei uma gargalhada, pois não havia maneira dela saber que eu estava de esperanças.

 

- Não é disso que necessito, mas podeis dizer-me se será rapaz ou menina?

 

- Não. Está para além das minhas capacidades. Posso ter muitos conhecimentos medicinais, mas não sou vidente, senhora. Imitando Ptirkoy, tomei a liberdade de observar de perto os frascos que enchiam as prateleiras, sendo-me familiares alguns dos seus conteúdos. Havia-os exóticos, uns secos, outros em forma de poção. Todos despertavam a minha curiosidade. Vi flores amarelas de retama, que Henrique toma destiladas em água para o estômago, e bagas de bérberis, boas para a diarreia e para as febres.

 

- O meu marido anda com outras mulheres e receio que me infecte.

 

- Sim, fazeis bem em preocupar-vos. E ele? Apresenta algum sinal de doença, como erupções avermelhadas no corpo, na palma das mãos ou na planta dos pés, uma ferida no membro, perda de cabelo no rosto ou na cabeça?

 

- Não, nada disso.

 

A velha olhou para mim e observou-me o rosto, mais parecendo sondar-me a alma.

 

- já não sois jovem, mas sois ainda muito bonita. Porque pensais que procura outras?

 

Soltei uma gargalhada que soou amarga aos meus ouvidos.

- É uma história longa e triste para ser contada numa fria noite de Inverno - respondi.

 

Ela sorriu, mostrando dentes surpreendentemente saudáveis, pequenos e brancos.

 

- Talvez que um dia ma contareis. E eu contar-vos-ei outra. Velha como sou, os homens ainda me confundem, pela maneira como encontram e perdem o amor. Se ao menos amassem as esposas como amam as mães...

 

Abanou a cabeça e pediu que me aproximasse da luz. Olhei pela janela, para o jardim emaranhado, enquanto ela me observava o cabelo, as unhas, a pele, os olhos e o hálito. Ergueu os braços rígidos para que eu a imitasse e palpou-me os seios.

 

- Estais de boa saúde - disse por fim. - Dentro das vossas veias correm humores saudáveis, mas estais um pouco melancólica. Posso dar-vos uma coisa para isso - dirigiu-se às prateleiras, observou-as com atenção e, por fim, os seus olhos poisaram sobre o desejado frasco. Aproximei-me para ver o que continha - um pó verde-escuro.

 

- Como se chama?

 

- Matricária. Um simples tónico para beber com água. Não há outra erva para eliminar do coração os vapores melancólicos, para o fortalecer e tornar-vos alegre e feliz como já haveis sido.

 

- Tendes a certeza de que já fui feliz?

- A certeza absoluta, senhora.

 

- Como assim?

 

- Porque há ainda uma leve centelha nos vossos olhos tristes.

 

Ptirkoy ficou debaixo do poleiro do papagaio a ladrar-lhe, e o pássaro respondia imitando-lhe os latidos. Peguei-lhe, enquanto a velha senhora embrulhava um pouco de matricária num pergaminho que selava com cera cor de laranja. Paguei-lhe o que me pediu.

 

- Voltai se virdes sinais em vós ou em vosso marido - abriu a porta. - Boa sorte, senhora e boa viagem.

 

Era estranho, mas não tinha vontade de partir. A companhia daquela mulher numa morada tão humilde, animara-me e sentia-me mais à vontade do que nos ricos confortos da corte. Porém não podia ficar nem falar-lhe dos verdadeiros desejos do meu coração. Recebi o embrulho com a matricária e depois tomei-lhe as mãos.

 

- Sois muito boa - disse-lhe, apertando-lhe suavemente os dedos. Ouvi o papagaio dizer ”Bom-dia! Bom-dia!” e fechei a porta. John desceu do seu assento para me ajudar a subir. A cortesia proibia-o de me perguntar o que fora ali fazer, porém via a curiosidade a queimar-lhe o olhar. Voltou para a almofada, contudo, antes de picar os cavalos, a idosa mulher abriu de novo a porta e saiu sorrindo com os seus belos dentes, quase sem fôlego.

 

- Senhora! - chamou. Inclinei-me da janela e atirou-me para o colo outro embrulho de pergaminho. - Um remédio para a vossa gravidez. Uma poção muito boa para os rins e para o fígado.

 

Procurei o dinheiro na mínha bolsa, porém segurou-me a mão.

- Não. É um presente meu - e pronto. Desapareceu dentro de casa.

 

Os cavalos, sentindo o chicote, fizeram avançar a carruagem e as lágrimas assomaram-me aos olhos. Não eram causadas pela dor, ou pela fúria, simplesmente pela simpatia da idosa mulher. Puxei Ptirkoy mais para junto de mim, mas ele é um fraco substituto para a pequenina que eu tanto desejo abraçar.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

4 de Julho de 1534

 

Acaso todos os homens serão traidores? Não haverá entre o sexo masculino um único que seja fiel? Por toda a corte correm rumores de que há uma conspiração para envenenar lady Maria com uma poção mágica, preparada por mim. Sem desejar acrescentar achas à fogueira desta maledicência, mas necessitando saber a sua origem, enviei os meus espiões. Regressaram da caça trazendo na boca retalhos da mentira que consegui reconstituir por completo. Lady Maria está, como sempre, no centro da questão, queixando-se de indisposição, devido a uma poção que, alegadamente, lhe misturaram na comida. E como os magros rendimentos que aufere não lhe permitem ter um provador ao seu serviço, não tem mais remédio senão comer o que lhe põem na frente, para não morrer de fome. A base das suas queixas eram os seus criados fiéis e partidários que correram a levar, o mais rapidamente possível, as notícias de Hatfield Hall até à corte. Acrescentam-se os olhos do cocheiro John que viu e contou o meu encontro com a velha que falou de poções e a quem decerto hão-de chamar bruxa. Mas quem foi a boca que espalhou estes rumores? Foi uma amarga surpresa até para mim, que estou tão habituada a traições: nem mais nem menos que Henry Percy, o meu antigo namorado, a cujo serviço esteve John o cocheiro.

 

Percy. Meu amado e amigo que até há pouco tempo conspirara comigo para que o nosso passado compromisso não pusesse em perigo o actual. A princípio, não pude acreditar que tivesse sido ele a levantar falsos testemunhos. Porém, escutei essa versão de várias fontes e, quando na missa de domingo olhei para ele, desviou imediatamente a cabeça para não ter de me fitar. Tive pois a certeza de que era verdade. Nunca saberei a razão porque se voltou contra mim e se tornou meu inimigo. Talvez que a triste enfermidade do seu corpo lhe tivesse agarrado a alma com dedos gelados. Talvez tivesse encontrado um novo bode expiatório para a história da sua amarga vida - eu própria. Talvez uma obscura vantagem política seja a recompensa que espera obter com a minha queda. Não sei, nem me interessa averiguá-lo. Apenas posso negar essa conspiração assassina e remendar o melhor possível o tecido danificado que é a minha reputação.

 

Com esse fim e também para ver Isabel, dirigi-me a Hertfordshire e Hatfield Hall. Apesar dos amplos pátios e jardins e do seu arborizado parque de caça, a casa é muito pequena. É de tijolo vermelho, ao estilo antigo, com ameias e torreões, muito fria e feia por dentro. Penso que se aquela criança tivesse sido um varão, teria uma residência real muito mais imponente.

 

Reservando-me o doce prazer de beijar minha filha, recuperei a compostura e benevolência e mandei as minhas saudações a lady Maria, pedindo-lhe que me visitasse e honrasse como rainha. Com toda a franqueza, disse-lhe que, se o fizesse, seria bem recebida e recuperaria as boas graças e os favores de seu pai.

 

Esperei que a jovem, que tanto deseja o amor do rei, obedecesse para o conseguir. Mas não. A resposta ao meu convite foi como que uma bofetada no rosto - recebi uma nota seca, escrita por sua mão a dizer que a única rainha de Inglaterra que conhecia era sua mãe. E que se ”a amante do rei e marquesa de Pembroke” desejasse falar a seu pai em seu favor, ficaria muito grata. Senti uma mão fria apertar-me o coração com aquela resposta.

 

Mandei então chamar a senhora Shelton que supervisiona essa maldita bastarda e dei-lhe novas instruções para que qualquer insubordinação fosse tratada com força e intolerância. ”Batei-lhe, se preciso for”, disse-lhe eu. ”Deixai que conheça a força do desagrado da rainha como já conhece o de seu pai.”

 

Assim me despedi de tudo o que era desagradável e apressei-me a chegar aos aposentos soalheiros de Isabel, onde esta dormia no seu berço real. Os seus servidores, em número de oitenta, rodeavam-na de todos os confortos - uma ama seca para lhe tratar da roupa confeccionada por costureiras e bordadoras, todo o tipo de ajudantes para os mais diversos trabalhos e três criadas para lhe embalarem o berço.

 

Minha prima, lady Bryan que é a governanta principal, veio cumprimentar-me, satisfeita com aquela visita oportuna, Secara-se o leite de Agnes, a ama que alimentara a princesa desde o seu nascimento e era imperioso encontrar outra. Lady Bryan apresentou-me vários nomes com variadas recomendações e passámos algum tempo a decidir, já que a saúde e a conduta das amas são de grande importância. Não precisa de ser bem-nascida, se bem que deve provir de uma família saudável, livre de qualquer ascendente de criminalidade ou loucura. Até o que come e bebe, enquanto dá de mamar à criança, tem de ser cuidadosamente vigiado, pois os humores do seu corpo passam para o do bebé. Concordámos por fim que Mary Gibbons de Hampstead substituiria Agnes.

 

Também tive de dar a minha opinião sobre outro assunto - a chegada do enviado francês que dentro de dez dias viria fazer uma inspecção à princesa, tendo em vista o seu noivado com o terceiro filho do rei Francisco. Se bem que os banhos não se publiquem senão dentro de sete anos, estes diplomatas exigem poder informar-se satisfatoriamente sobre a candidata. Poderão ver Isabel envolta nas ricas vestes que lhe correspondem como princesa e, mais tarde no seu ambiente natural, para que se assegurem de que não tem qualquer defeito físico, pois os boatos maliciosos acerca das deformidades de minha filha chegaram a todas as cortes da Europa. Embora não concorde com estes costumes que rebaixam a minha filha à condição de bem móvel, não tenho outro remédio se não aceitá-los e fico até satisfeita por saber que se casará, nada menos que com um príncipe de França.

 

Por isso, exibiram diante de mim, o belo trabalho das costureiras para que o examinasse - vestidos e roupa para o berço confeccionados especialmente para aquela ocasião. Era um trabalho maravilhoso e apreciei enormemente a minúcia e a pequenez dessas peças, bem como a sua riqueza. Cetim amarelo pálido em que uma rosa Tudor bordada a fio de ouro e prata, representava Isabel entre outras duas maiores, simbolizando a minha pessoa e a de Henrique, Os vestidos eram da mais fina seda e tule brancos, em camadas sobre renda francesa e enfeitados com fitas e laços carmesim. E a touca, como uma pequena coroa estava bordada toda em volta com pequenos diamantes e pérolas.

 

Por fim, a minha doce menina acordou e trouxeram-ma de rosto vermelho a chorar com toda a força. Parecia demasiado quente na capa apertada de musselina, de modo que pedia à ama que lha desapertasse. Assim que se sentiu à vontade, deixou de chorar e veio bem disposta aninhar-se nos meus braços. Oh, quanto amor sinto por esta criança, talvez a única coisa boa desta minha vida infeliz. A tarde foi deliciosa e a minha única tristeza foi a hora da partida, quando tive de me retirar. Poderia ter ficado mais um pouco, porém Henrique nunca vê com bons olhos o tempo que passo em Hatfield nem a viagem até lá, pensando que é difícil e que poderá prejudicar a criança que trago no ventre. Cedo aos seus desejos e tento não o contrariar, evitando falar em voz muito alta. Porém, não quero afastar-me de Isabel e faço esta calma peregrinação sempre que possível.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

22 de Setembro de 1534 Diário,

 

O cisma da Igreja católica paira como uma nuvem negra sobre a já tempestuosa Inglaterra. Os súbditos de Henrique sentem-se feridos por ter de jurar que apoiam o nosso casamento, sem levarem em conta qualquer autoridade ou potentados estrangeiros. Também lhes é exigido que rejeitem o casamento do rei com Catarina e que aceitem que Isabel seja colocada em primeiro lugar na linha de sucessão ao trono. Nas cidades e aldeias há um clima de irritação contra os padres que afirmam que o Papa é apenas o bispo de Roma e que, para os ingleses, o nosso arcebispo de Cantuária é o mais importante representante de Deus. Não apreciam tais mudanças. Todos, homens e mulheres, nobres e plebeus são obrigados, sob pena de tortura, morte ou amputação a jurar que amam a ”rameira” que é agora rainha e a negar que o rei seja um tirano herege.

 

A Santa Freira de Kent, que por fim se retratou das suas profecias contra mim e contra o rei, foi enforcada em Tybum, aberta ainda viva e retiradas as entranhas, para depois ser esquartejada e as partes do corpo espalhadas pelos quatro cantos de Londres. Atormenta-me a sua morte e, em sonhos, vejo os seus olhos enlouquecidos. As suas profecias alteraram o curso da minha vida e, embora depois viesse a mudar de opinião, continuo a acreditar que as primeiras palavras inocentes foram proferidas com honestidade e por inspiração divina.

 

Thomas More recusou teimosamente o juramento. jurará o Acto de Sucessão, mas não pode - porque a sua consciência não lho permite - negar a validade do primeiro casamento do rei. Homem inteligente, rodeou o juramento desejando longa vida a Henrique, a mim e a nossa nobre descendência, mas nunca afirmou que o nosso casamento fosse legítimo. Recusou-se terminantemente a jurar a questão do rei ser o chefe supremo da igreja de Inglaterra, utilizando como argumento os primeiros escritos de Henrique, a Declaração dos Sete Sacramentos em que afirma a suprema autoridade do Papa. Afirmou que o Papa colocara a coroa de Inglaterra sobe a cabeça de Henrique e que se o desejasse poderia depô-lo. Henrique ficou furioso com tal raciocínio e com a recusa de More que logo mandou prender. A sua actual residência é a câmara dos traidores na Torre de Londres.

 

Henrique lamenta a decisão e prisão de More e questiona as suas próprias crenças. Mas eu, pelo contrário, desafio essa ”consciência” que More considera tão sagrada e que certamente fará dele um mártir muito amado, se por acaso vier a ser morto por traição. Só pergunto para que serve a consciência quando conduz uma pessoa ao caminho errado? Um louco pode seguir a sua que lhe diz que deve assassinar a mulher e os filhos. Deveremos então perdoar-lhe o crime? A consciência de More que é tida por todos em tão alta estima, diz-lhe que o Papa - um simples mortal - não é apenas o Príncipe de Roma, mas foi colocado no trono pelo próprio Deus e deve por isso sentir-se no direito de dar ordens aos reis de terras distantes. Decerto não tem razão, conforme já o sabem os membros do cada vez mais numeroso exército de Lutero. Este Papa é um homem, nasceu de uma mulher e não tem mais comunicação com Deus do que qualquer outro homem ou mulher.

 

Onde estava a consciência de More quando aceitou o cargo de chanceler, sabendo perfeitamente que a intenção de Henrique era fazer-me sua rainha? Talvez na bolsa que necessitava encher para sustentar a família. E onde estava a sua consciência quando, depois de ter dependido de Thomas Wolsey para subir, lhe voltou as costas no Parlamento, com declarações vis e impiedosas que fizeram tremer mesmo os seus apoiantes.

 

Vejo o turbilhão causado pelo amor de Henrique por mim. É irónico, não é verdade? Esse amor já não existe, as leis de Inglaterra foram alteradas, o rei controla a igreja e a minha filha poderá herdar o trono. Quando empreendi este caminho, nunca pensei que as coisas se passassem assim. Mas enganei-me. E a história não tem fim. Veremos como prossegue.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

Isabel ergueu os olhos dos documentos que se amontoavam sobre a sua mesa para fitar a formosa cabeça de Robert Dudley curvada sobre o pergaminho em que escrevia, com cuidadosos gestos de pena. Tinham passado quase todo o dia sós, encerrados nos aposentos privados da rainha e esta tinha-se recusado a receber quase todos os conselheiros que lhe haviam solicitado uma audiência. Aquilo era demasiado bom para poder permitir que os seus velhos e vaidosos servidores quebrassem o feitiço de sonho que ela e Robin haviam criado. Quando sacudia de cima de si a rigidez e os procedimentos formais, conseguia, horas a fio, imaginar que ela e Dudley eram o rei e a rainha, tratando dos assuntos do Estado com calma e em boa harmonia.

- A quem escreveis, Robin? - perguntou, delicadamente.

 

- A lorde Sussex, representante da coroa na Irlanda - replicou ele, prosseguindo a sua escrita. - Solicitei-lhe que vos enviasse alguns cavalos irlandeses - terminou com um floreado e ergueu o olhar para Isabel. Disse-lhe que vos haveis tornado uma óptima caçadora e que necessitais de montadas especialmente fortes e capazes de galopar. Que sois louca pela velocidade e cavalgais os animais obrigando-os a correr quase até à morte.

 

Robin sorriu-lhe com tanta ternura que Isabel percebeu que corava. Aquelas sessões a dois tinham-se tornado frequentes, durante a viagem de William Cecil à Escócia, para negociar o tratado de paz de Edimburgo. Acabavam geralmente com Isabel nos braços de Dudley, quando o crepúsculo de Verão dava lugar às cálidas noites. Tinha plena consciência de que todos na corte estavam escandalizados e até mesmo o povo murmurava acerca do comportamento indecoroso da rainha, porém não conseguia obrigar-se a voltar a proceder como seria próprio. Mais tarde, teria mais do que tempo para o fazer. Além do mais tratavam de muitos assuntos durante aquelas sessões.

 

Tinha supervisionado as negociações com a Escócia, revisto os despachos que Cecil diariamente lhe enviava, fazendo-lhe chegar prontamente as suas impressões e opiniões. Mantivera-se ao corrente dos movimentos de sua ambiciosa e traiçoeira prima Maria, rainha dos Escoceses, viúva recente de Francisco, jovem rei de França, que ameaçava regressar às ilhas britânicas, com a sua ridícula pretensão ao trono de Inglaterra. Havia também examinado e acrescentado o projecto de lei dos seus conselheiros para a reforma da moeda.

 

Por seu lado, Robin, devido à sua recente influência como favorito, atraíra tantos seguidores como inimigos. Aprendera bastante sobre a máquina governamental e as propriedades da coroa e oferecia-lhe bons conselhos acerca de várias questões.

 

Era verdade que, nas últimas semanas, pouco tempo tivera para actividades que não incluíssem o seu amado. Quando não estavam a trabalhar como agora, cavalgavam, caçavam ou permaneciam juntos, sem outra companhia. A rainha evitava com toda a delicadeza, discussões com os seus conselheiros que esperavam vê-la casada com um príncipe estrangeiro. Nem tinha continuado a ler o diário de sua mãe, pois tornara-se-lhe extremamente doloroso assistir ao desenrolar da perdição de Ana Bolena. Para dizer a verdade, as noites de Isabel estavam apaixonadamente ocupadas por Dudley e não permitiam passatempos tão privados e solitários como a leitura de um diário íntimo.

 

- Tenho diante de mim um interessante documento, Robin - disse Isabel.

 

De que se trata, meu amor? - perguntou Robin, com ar distraído. É a nomeação de conde... para um tal Robert Dudley - respondeu ela, ocultando um sorriso.

 

Quando a rainha pronunciou tais palavras, os ouvidos de Dudley, ou melhor o rosto e todo o seu corpo ficaram alerta. Ambos sabiam que o elevar de Dudley a par do reino era um dos pré-requisitos para o casamento.

 

- Não sabia que havíeis mandado redigir esse documento - disse ele, erguendo-se da cadeira. Espreguiçou-se languidamente e tentou manter uma aparente indiferença.

 

Porém, Isabel sabia que o coração dele batia forte e que desejava ver o documento com os seus próprios olhos, sentir o pergaminho entre os seus dedos. Embora apaixonada pelo seu mestre palafreneiro e acreditando ser correspondida com amor ardente, Isabel não tinha ilusões a respeito de Robert Dudley. Este era o homem mais ambicioso que alguma vez conhecera e aceitara de bom grado todos os presentes de propriedades ou títulos que lhe fizera.
Atravessou o aposento com aquele passo tão do seu agrado - ao mesmo tempo gracioso e viril - e inclinou-se sobre o ombro dela para lhe beijar o pescoço nu, demorando nele os seus lábios. A rainha teve vontade de saber se os olhos dele a fitavam a si ou à patente do título de conde que tinha entre mãos

 

- Quando o assinará Vossa Majestade? - perguntou em voz contida.

- Quando nos aprouver - respondeu, com altivez, usando o plural majestático que ele tanto desprezava.

 

Ofendido, mas sem o querer mostrar, Dudley ergueu uma madeixa de cabelo dos ombros luminosamente alvos de Isabel e beijou-os. Ela voltou-se para ele, que percorreu com os lábios quentes a superfície dos pequenos seios a erguerem-se-lhe do decote quadrado do corpete. Isabel deixou escapar num suspiro todo o ar que respirava e, fechando os olhos, introduziu os dedos nas ondas de cabelo castanho de Robin. Sentiu-se de súbito perdida, tão perdida que o pergaminho que fazia de Robert Dudley conde de Leicester, caiu lentamente no chão.

 

Isabel apressou-se a percorrer os verdejantes jardins do Palácio de Richmond para ir ter com Robin aos estábulos. Este prometera-lhe uma corrida veloz num novo cavalo cinzento a que pusera o nome de Speedwell. Tão desejosa estava de ver o seu amor, que mal reparava nas belas flores ou nos canteiros de ervas perfumadas que enfeitavam os caminhos de pedra. Foi, por isso, tomada de surpresa ao ver-se diante do seu secretário, William Cecil, que a aguardara no atalho.

 

- Meu senhor Cecil! Haveis-me assustado! - Fez-lhe sinal para que se aproximasse e a cumprimentasse, o que ele fez com a devida cortesia, mas com pouca da sua habitual amabilidade. Isabel conhecera no ano anterior a teimosia de Cecil, quando hesitara em enviar o exército inglês para apoiar na Escócia os rebeldes protestantes. Deixara que fosse dele a decisão que, afinal, não podia ter sido mais acertada.

 

Nesse dia, para além de parecer cansado depois da viagem de regresso de Edimburgo, a expressão severa e zangada do seu rosto, dava a entender um grande desassossego, para o qual a rainha não ignorava o motivo.

 

Cecil começou a falar, sem pedir autorização, com a voz trémula de raiva e contenção diplomática.

 

- Majestade, sinto-me confundido. Não consigo compreender como as coisas se deterioraram assim durante a minha ausência - disse. Porém, Isabel não estava disposta a facilitar-lhe o caminho.

 

- Coisas? Que coisas, William?

 

- Os assuntos de Estado, senhora... e o que resta da vossa reputação.

- Tenho tratado dos assuntos de Estado, lorde Cecil, tal como vós haveis feito na Escócia. Estou muito satisfeita com o tratado. Assim, não precisaremos de nos preocupar com uma aliança franco-escocesa ou que exércitos nos invadam, vindos de norte. Também estabelecemos, de uma vez por todas, o protestantismo nas ilhas britânicas. Quanto à minha reputação...

 

- Diz-se que vos tendes fechado e que pouco apareceis, tão envolvida estais com lorde Robert.

 

É verdade. Tenho passado momentos muito agradáveis com Robin. Cecil sentia-se a perder a compostura.

 

- Não vedes como a vossa boa reputação está a ser destruída? Que perdeis as oportunidades de fazer um bom casamento no estrangeiro? Maria, a vossa prima escocesa, declara que estais decidida a casar com o vosso mestre-cavalariço. O pai do arquiduque dá ouvidos aos rumores do vosso escandaloso comportamento. As calúnias do embaixador Quandra são ainda mais perigosas. Foi contar ao rei Filipe que sois uma mulher completamente dominada pela luxúria, sem inteligência ou consciência, possuída por uma centena de demónios!

 

- O embaixador espanhol nunca gostou de mim e julga-me uma mulher indigna até que me case.

 

O silêncio de Cecil neste último ponto inflamou imediatamente o génio de Isabel.

 

- Concordais com ele, não é verdade?

 

A rainha voltou-se de costas para que o conselheiro não pudesse ver as lágrimas de fúria que lhe assomavam aos olhos.

 

- Não há qualquer dúvida de que vos deveis casar, senhora - replicou Cecil, mais delicado e seguindo atrás dela. - Mas sabeis que não é de modo algum verdade que vos ache indigna se não o fizerdes. A vossa conduta com lorde Robert - escolhia as palavras com todo o cuidado mesmo que seja só aparentemente errada, é mais séria do que julgais. E também contribuiu para degradar a minha posição...

 

- Não é verdade - disse Isabel, com toda a energia.

 

Mas Cecil estava decidido a que a rainha o escutasse e continuou como se ela nada tivesse dito.

 

- ...De tal forma que, se insistirdes em manter esse homem como vosso conselheiro principal e continuardes a insistir na ideia de o desposar...

- Como pensais que posso casar-me com lorde Robert, secretário Cecil? - interrompeu Isabel. - Ele tem esposa.

 

- Uma esposa doente, como toda a corte bem sabe.

 

- Atreveis-vos a sugerir que Robin e eu estejamos à espera da morte de Amy Dudley?

 

- Podeis negá-lo, senhora? - replicou Cecil, em voz baixa.

 

Isabel sentia o pescoço arder de fúria, por Cecil ter dado voz ao seu terrível e inconfessável desejo.

 

- Como vos dizia, Majestade, se estais determinada a prosseguir por este perigoso caminho, não poderei continuar ao vosso serviço como secretário.

 

William!

 

A rainha voltou-se e viu Cecil com uma expressão de tristeza e impotência no rosto e os braços caídos. Isabel sentiu embotarem-se-lhe os sentidos, como se lhe tivessem lançado uma pesada capa sobre a cabeça. As palavras de Cecil chegaram-lhe distantes e apagadas.

 

- De bom grado vos servirei em qualquer outro cargo, Majestade. Na vossa cozinha, no vosso jardim... Sei que é uma loucura pedir que escolhais entre mim e lorde Robert e não insisto na vossa resposta imediata. Mas peço a Vossa Majestade para pensar no assunto durante as próximas semanas e que depois mande avisar-me da decisão tomada.

 

Cecil implorou-lhe com os olhos que o deixasse partir. Com um aceno de cabeça, Isabel acedeu e o conselheiro desapareceu no caminho empedrado.

 

Isabel ali ficou, imóvel como um pilar do jardim e deu por si a discutir em silêncio com o secretário ausente.

 

Não me obrigueis a escolher, Cecil, imploro-vos! Tenho sido tão feliz. Dudley é o homem em que confio e que adoro. Não vedes que não desejo na minha cama o corpo de um estranho, de um rude estrangeiro? Desejo casar-me com o meu amigo, o meu compatriota, o meu amor. Posso fazer como entender. Não sou uma jovem impotente, usada pelo pai para negociar e vender a quem preferir. Sou a rainha de Inglaterra e, por Deus, hei-de fazer como bem entender!

 

De súbito, como que saindo de um denso nevoeiro, Isabel sentiu o Sol do meio-dia na sua cabeça descoberta, aspirou os vários perfumes vindos do jardim, ouviu as vozes das damas no peral. E depois invadiu-lhe o crânio uma dor enorme, como se uma dezena de agulhas lá se tivessem espetado com terrível violência. Cambaleou e quase caiu, sem ter onde se apoiar.

- Kat, ajudai-me - murmurou, quasenuma prece.

 

Sabia que os jardins do palácio estavam cheios de cortesãos, alabardeiros, serventes e jardineiros, mas receou ser vista naquele estado de fraqueza, de modo que apelou para todas as suas forças para se manter direita, conseguindo a compostura suficiente para acenar com ar altivo a cavalheiros e damas e se dirigir ao palácio e aos seus aposentos.

 

A aflição de Isabel fora certamente evidente para todos, pois quando chegou, pálida como um cadáver, Kat tinha já aberto o seu leito real. A rainha atirou-se nos braços da sua aia e deixou que ela a ajudasse a deitar. Aos confusos murmúrios de Isabel a aia respondia em voz baixa: ”Descansai, minha querida, descansai.”

 

Isabel passou três dias de cama, atormentada por um fogo na cabeça que parecia absorver-lhe todo o calor dos membros e do ventre. Delirava de dor e chorava, mesmo enquanto dormia. Chamava alternadamente por Robin Dudley e por Cecil e até, para grande aflição de Kat, por sua mãe, Ana Bolena. Foram chamados os três físicos reais, que se reuniram junto ao leito em que Isabel continuava prostrada para sugerirem, num murmúrio, inúteis remédios. Tomaram-lhe o pulso e julgaram-no forte, Não sofria de defluxo ou varíola, mas continuou tão doente que, durante esses três dias, Kat não dormiu, receando que a sua querida menina morresse sem ter a seu lado alguém que a amasse.

 

Isabel abriu os olhos na terceira noite e encontrou a sua aia a acender velas para iluminar a sua vigília dentro do abafado aposento. Via que a idosa companheira se movia com lentidão, com as pálpebras pesadas sobre os olhos cansados.

 

- Kat!

 

A primeira palavra pronunciada por Isabel, depois de um tão prolongado silêncio foi surpreendentemente forte e clara. A aia voltou-se ao ouvir o seu nome e viu que a rainha se tentava sentar, desperta e com os olhos brilhantes.

 

- Isabel! - exclamou e caiu sobre a sua ama, abraçando-a por entre copiosas lágrimas. Kat afastou o cabelo frisado da testa da rainha e procurou ler-lhe nos olhos uma resposta.

 

- Estou bem, Kat. Sinto-me bem. Um pouco fraca, talvez, mas nada que algum alimento leve não possa curar.

 

- Lady Sidney! - chamou Kat e a porta abriu-se instantaneamente, pois a dama aguardava do outro lado. Mary Sidney entrou, enquanto Kat afofava as almofadas nas costas da rainha.

 

- Majestade, como me alegra ver-vos restabelecida - lady Sidney aproximou-se do leito. Ajoelhou e beijou a mão de Isabel. - Dizei-me o que vos apetece.

 

- Um caldo. Salgado. Peras cortadas. E um pano molhado. Cheiro pior que uma cabra.

 

- Sim, senhora - disse lady Sidney com um sorriso. A rainha regressava à vida com o temperamento intacto. Fez uma venia e apressou-se a sair.

 

- Só mais uma coisa, Mary, quando voltardes fazei com que Kat se deite imediatamente a dormir

 

- Como desejardes - disse e saiu do aposento.

- Majestade... - objectou Kat.

 

Mas agora que o perigo passara, Isabel apercebia-se de que o cansaço vencia a amiga.

 

- Katherine Champemowne Ashley - disse em tom severo mas, ao mesmo tempo, bem-disposto. - A vossa rainha tem para convosco uma dívida pelos vossos cuidados e inigualável devoção, mas deu-vos uma ordem e não tolerará qualquer desobediência a ela.

 

- Sim, Majestade - submissa, Kat inclinou a cabeça e abdicou dos cuidados que prodigalizara à rainha, pois via-a melhor.

 

- Então trazei-me aquele jarro turco da minha mesa - Kat entregou-lhe o pequeno recipiente de onde a rainha retirou uma chave. - Abri a arca que está aos pés da cama e trazei-me o livro de capa de pele vermelho-escura. Depois aproximai as velas da minha cabeceira.

 

Kat moveu-se devagar, já aturdida pelo sono. Quando entregou o diário de Ana Bolena nas mãos de Isabel estava demasiado cansada para perguntar que livro era aquele que tinha de ser fechado à chave, aos pés da cama da rainha.

 

Ao receber o volume, Isabel murmurou suavemente:

- Esta noite sonhei com minha mãe.

 

- Ah, haveis pronunciado o nome dela, durante o sono.

- Ah, sim? - Isabel sorriu e recordou o seu sonho.

 

- Que haveis sonhado?

 

- Que ela se encontrava no alto da torre de um palácio, ou pelo menos julgo que era ela, embora não lhe visse o rosto, já que estava iluminado por uma intensa luz. Chamava-me pelo nome: ”Aproxima-te Isabel”, dizia. ”Quero dizer-te uma coisa.”

 

- E que vos disse?

 

- Nada - respondeu Isabel, apertando o diário contra o peito. - Não teve tempo, pois o castelo começou a desmoronar-se. As pedras e o estuque caíam em seu redor, mas vi-a sentada sobre um tamborete com as muralhas do castelo amontoadas junto dela. - Isabel tomou as mãos de Kat e acariciou-lhe a pele, seca e manchada. - Ide, deixai que lady Sidney vos deite. Descansai. Amanhã já estarei de pé e preciso de vós recuperada.

 

A idosa aia retirou-se da presença da rainha, agradecida mas com certa relutância. Isabel abriu o diário de Ana na página em que o tinha deixado. Despertara com um receio terrível, juntamente com um desejo, não menos intenso de saber os pormenores mais íntimos do final infeliz de sua mãe. De súbito, teve a certeza que naquelas páginas não estava apenas a sua história, mas também a chave do seu futuro. Devia estudar o diário e aprender com ele, como se fosse um general a estudar os pormenores de uma grande batalha. Isabel sabia que se encontrava na primeira de muitas encruzilhadas, e que era o único mapa de que se poderia servir para lhe guiar os passos.

 

Começou a ler avidamente, decidida a terminar o diário antes do nascer do dia. Em poucos momentos, ficou tão absorvida pelas páginas que, quando Mary Sidney regressou com o caldo e as pêras, a rainha nem deu pela sua presença.

 

12 de Dezembro, de 1534 Diário,

 

Sinto-me completamente transtornada por ter visto uma pessoa agir de modo tão vil e malicioso que me fez doer o coração. Essa pessoa baniu da corte uma pobre viúva, abandonada pela família, e cujo único crime fora casar por amor e ter ficado grávida após essa união. A pobre viúva, agora uma noiva feliz era, Mary Bolena Carey e a pessoa cruel era pura e simplesmente, sua irmã... eu mesma.

 

Quando reflicto no assunto, apercebo-me que o que me levou a tal acto de maldade talvez tenha sido o facto de a minha gravidez ter terminado num aborto, no próprio dia em que me inteirei da questão de minha irmã. Estava ainda recolhida no leito, sem encontrar palavras para contar ao rei o que me acontecera - dorida, fraca, lamentando-me por esta desgraça que viera somar-se a tudo o resto quando recebi minha irmã, acabada de chegar de Calais, radiante e com uma nova vida no ventre. O fel subiu-me à garganta e, mesmo antes de medir as possíveis consequências, gritei acusando-a de ser uma desgraça para si própria e de trazer o escândalo para a corte, só para desonrar o meu nome. Mesmo cega de fúria vi surgir no rosto alegre de Mary uma expressão de assombro e os olhos marejarem-se-lhe de lágrimas. Voltou-se para se afastar da minha nefasta presença, porém, como um arqueiro soltando setas envenenadas, lancei-lhe estas palavras do meu leito:

 

- Quem te deu autorização para te retirares da presença da rainha? - Mary imobilizou-se. - Volta-te para mim, Mary. Deixa-me ver o rosto da irmã ingrata que se atreveu a entregar a sua pessoa a um simples soldado, sem autorização do rei, quando se poderia obter alguma vantagem com uma aliança matrimonial.

 

- Deves perdoar-me, minha irmã, mas ele é jovem e o amor foi mais forte que a razão. Estava convencida que a vida me guardava tão pouca coisa e ele tanta, que pensei não haver melhor caminho que escolhê-lo e levar uma existência honrada a seu lado. Nossos pais e até nosso irmão George foram cruéis e voltaram-me as costas.

 

- E o mesmo farei eu! - gritei-lhe. - Sai! Na minha corte só há lugar para um bobo!

 

Embora ofendida pelas minhas palavras, manteve uma postura orgulhosa, sem dúvida apoiada no amor de seu esposo e saiu dos meus aposentos. Se já me sentia mal, pior fiquei. Chorei e gritei de fúria até vomitar, odiando a minha irmã tão feliz e odiando-me também a mim própria.

 

Quando falei com o secretário Cromwell no seu gabinete privado, este mostrou-me uma carta que recebera de minha irmã, implorando-lhe que falasse em seu favor a Henrique, confiando que este intercederia por ela para me acalmar a raiva. Dizia saber que poderia ter casado com um homem de melhor nascimento, mas não com quem a amasse tanto e fosse tão honesto. ”Preferia mendigar o pão com ele do que ser a maior rainha de toda a Cristandade”, escrevera.

 

- Se me atrevo a dar-vos um conselho, Majestade - disse o secretário Cromwell -, deveis perdoar vossa irmã. Afinal, é do vosso sangue... e o mal está feito. O rei... - fez uma pausa como se se tivesse esquecido do que ia dizer.

 

- Que se passa com o rei?

 

- Julgo que Sua Majestade não gostaria de ser incomodado com esta questão.

 

- Muito bem - disse eu, em voz firme.

 

Evitei comentar que o rei interpretaria como uma ofensa a menção do nome de uma antiga amante sua e nem sequer me dignei informá-lo dos remorsos que sofria, devido ao meu comportamento para com minha irmã.

 

- Enviai a Mary e a seu esposo a minha bênção e a do rei. E quando a criança nascer mandai-lhe um rico presente, para que saiba que o nosso amor é sincero.

 

- Muito bem, Majestade. Podeis deixar o assunto nas minhas mãos.

 

Quando saí dos aposentos de Cromwell espantei-me que um homem tão próximo do rei vivesse de forma tão modesta. Decerto se poderia dar ao luxo de ter uma almofada mais macia na cadeira, tapetes mais novos no chão e alguns reposteiros que melhor impedissem as correntes de ar. Talvez que na sua integral e indivisa dedicação ao serviço do monarca, não sinta o frio ou a pobreza dos seus aposentos.

 

Por essa altura, já Henrique recebera a notícia do meu aborto e, em público, mostrava-se um pouco mais frio do que antes. Porém no meu leito, onde veio exercer os seus direitos a altas horas da noite - nunca mais viera ter comigo por prazer - tratou-me com rudeza e crueldade. Cheirava a cerveja e senti no seu corpo o perfume de outra mulher.

 

- Como está a minha rainha? - perguntou naquele desagradável tom de voz em que tão bem se nota o seu desagrado. - Tentaremos de novo, Ana, embora o vosso ventre pareça ser um local pouco confortável para os meus filhos varões.

 

Contive-me, para não pronunciar algumas palavras amargas. Abri as pernas, suportei o seu hálito e recebi a sua odiosa semente, pois foi esta a cama que eu própria fiz e não tenho outro remédio senão deitar-me nela.

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

24 de Fevereiro de 1535 Diário,

 

Apesar da minha desdita, passei com as minhas aias uma noite animada, pois o bobo que tenho ao meu serviço - uma mulher chamada Niniane - diverte-nos a todas. Arranja maneiras maravilhosas de troçar dos nossos inimigos. Diz disparates e trocadilhos, entoa canções maliciosas, cujos versos cantamos todas juntas. Faz contorções, quase impossíveis, com o corpo e com o rosto, malabarismos, conta histórias libertinas que completa com o som de cascos de cavalos, toque de sinos e ribombar de trovões. A maior parte das vezes e para nosso deleite faz dos homens o alvo das suas piadas e cómicos relatos. Descreve-os como nobres de pouca inteligência, janotas presunçosos, tolos desajeitados e bispos concupiscentes. Retratou um homem enganado, que encontrara a mulher na cama com o amante, como sendo um cão, caído de uma janela. Soltámos enormes gargalhadas até as lágrimas nos correrem pelo rosto, mas pedimos-lhe que contasse mais, o que fez, até quase não se poder manter de pé. Paguei-lhe muito bem em elogios e dinheiro e pedi-lhe que se mantivesse junto a mim, pois com tantos cuidados a multiplicarem-se de dia para dia, bem preciso de algum alívio, de vez em quando.

 

Não contente com as rameiras que mantém em bordéis privados, nem sequer com as donzelas que chama aos seus aposentos para satisfazer os seus venais desejos, Henrique voltou a tomar Elizabeth Carew como amante. Parece não se tratar de um interesse passageiro e não escondem da minha vista a ligação amorosa, exibindo mesmo o romance para que toda a corte veja.

 

Ultimamente, esta bela aia aparece com o pescoço coberto de ricas jóias que apenas podem ser de origem real e um sorriso confiante devido à protecção conferida por Henrique. Durante vários meses, suportei esta humilhação em silêncio e, depois, deixei que a fúria que sentia vencesse a razão, ordenando à senhora Carew que se retirasse da corte. Henrique soube e anulou imediatamente a minha ordem, enviando-me uma severa mensagem onde me dizia que seria melhor contentar-me como que ele fizera por mim, pois não o repetiria, nem que fosse necessário. Meu Jesus, este homem, meu esposo, humilha-me até a alma. Depois de ter sofrido como o alvo do seu amor não correspondido, sou tratada como o foi a pobre rainha Catarina. E não se ficou por aqui.

 

Henrique começou agora a mostrar afecto por sua filha Maria. Enviou-lhe uma nova liteira e belos reposteiros para os seus aposentos em Hatfield Hall. Mas o meu maior receio é que fale dela aos seus cortesãos, com mais amor do que de Isabel. Na última visita que fiz a nossa filha, fiz-me acompanhar a Hertfordshire de alguns lordes e damas, entre os quais estavam os duques de Suffolk e Norfolk. A viagem foi muito agradável e esperava poder passar umas horas felizes nos aposentos de Isabel, com todos os cortesãos a renderem-lhe as devidas homenagens. Todavia, quando chegámos aos portões de Hatfield e nos levaram cavalos e carruagens, todos excepto duas das minhas aias, desapareceram, como por encanto (certamente se tratava de um plano já preparado) e dirigiram-se aos aposentos de Maria para lhe prestarem homenagem! Fiquei muda de espanto junto às minhas fiéis aias que tentavam conter a minha indignação. Também elas tinham sido tomadas de surpresa por tão indelicado motim, mas disfarçaram e aconselharam-me a ir ter directamente com minha filha, pois sabiam que ao vê-la, melhoraria de disposição.

 

Isabel ainda não tem dois anos, mas mostra um espírito vivo e move-se como um redemoinho sobre os seus pequeninos pés. É uma criança feliz e tão bonita que me comove. Falei com lady Bryan, que diz que minha filha sofre muito com o nascimento dos dentes molares, pois rompem com grande lentidão. Prometi-lhe enviar óleo de alfazema para lhe aliviar a dor das gengivas e acalmar o choro nocturno.

 

A tarde poderia ter decorrido tranquilamente mas acabou por terminar de modo desagradável quando recebi um insultuoso recado de lady Maria, que se recusou a sair dos seus aposentos pois não desejava ver-me. E, quando mais tarde dei ordens à senhora Shelton para que a jovem fosse castigada pela sua indelicadeza, Henrique tratou de me contrariar.

 

Confesso que, se um dia estremeci com as suas acusações de a querer envenenar, hoje penso que a sua execução seria o único fim para uma pessoa tão traiçoeira. Ela e a sua escabrosa mãe! Continuam ambas a recusar pronunciar o juramento obrigatório que todos têm de prestar, sob pena de serem executados. Que Deus me oiça! Hei-de ser o fim dessa jovem ou ela acabará por ser o meu!

 

Afectuosamente vossa, Ana

 

2 de Março de 1535 Diário,

 

Receio que os franceses me estejam a abandonar como ratazanas que fogem de um navio a afundar-se! Os meus bons aliados, gente do país em que fui educada, apoiantes do meu casamento, dão agora poucas mostras de amizade. Tive disso a prova com a chegada da delegação do rei Francisco, chefiada pelo almirante de França e meu bom amigo Chabot de Brion, que recebi com todas as honras nas suas várias visitas a Inglaterra, assim como em Calais anteriormente ao meu casamento. Eu e ele compreendemo-nos perfeitamente, falamos a mesma língua, pensamos do mesmo modo. Acreditei na sinceridade das suas prodigiosas lisonjas.

 

Nesta ocasião em que veio discutir um casamento real, Chabot não fez qualquer tentativa para conseguir uma audiência comigo, como impõe a cortesia. Tão-pouco trouxe qualquer presente como prova da amizade de Francisco, nem sequer me apresentou os cumprimentos do seu rei. Quando Henrique perguntou se o almirante desejava ver a rainha este respondeu que apenas o faria se assim aprouvesse ao Rei! Absteve-se de todos os festejos, justas e jogos de ténis que eu preparara para ele com tanto cuidado. E, quando por acaso me viu, foi tão frio e pouco gracioso que me passou pela ideia um estranho pensamento - que aquele homem não seria Chabot, mas um desconhecido que se fazia passar por ele. Senti-me confundida com tal comportamento e assim me mantive até se darem início às negociações para uma aliança franco-britânica e ao pedido da mão de minha filha.

 

Parece que as lealdades do rei Francisco