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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O DOCUMENTO R / Irving Wallace
O DOCUMENTO R / Irving Wallace

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O DOCUMENTO R

 

            Em 1787, depois dos delegados reunidos em Filadélfia terem assinado a nova Constituição dos Estados Unidos, uma mulher chegou junto de Benjamim Franklin e perguntou: "Bem, Doutor, conseguimos uma república ou uma monarquia?"

Franklin respondeu: "Uma república, se a conseguirmos manter.''

            ''Aqueles que desistirem das liberdades essenciais para adquirirem uma segurança temporária não merecem nem a liberdade nem a segurança.''

                                                                               BENJAMIN FRANKLIN

 

 

            A visita fora completamente inesperada - tinha esquecido aquele compromisso e tinha esquecido de o cancelar, depois de ter prometido ir jantar com o Presidente- e agora estava a tentar descartar-se o mais rápida e amavelmente possível.

            Na verdade, Christopher Collins não queria magoar o homem que estava sentado em frente dele, porque aparentemente era uma excelente pessoa, sensível, delicada e amável, e noutras circunstâncias Collins teria até apreciado conversar com ele. Mas não agora, nunca nessa noite, com uma pilha de papéis ainda por ler e com um longo e tenso serão na Casa Branca à sua frente.

            Tinha de tratar do assunto cuidadosamente, decidiu Collins. Não apenas porque não queria magoar os sentimentos do homem, mas também porque não queria ofender o diretor do F.B.I, Tynan. Era óbvio que o diretor tinha encorajado o homem, ou talvez lhe tivesse mesmo dito diretamente para entrevistar Collins para a autobiografia que estavam a escrever em conjunto. Ninguém era suficientemente tolo para ofender Tynan, e muito menos Collins, recém-chegado ao seu cargo.

            Os olhos de Collins deslizaram para o gravador portátil que o visitante colocara à beira da secretária há dez minutos. Continuava a gravar, embora nada de importante ainda se tivesse dito. Os olhos de Collins voltaram a enquadrar aquele homem maduro, talvez já bem entrado nos cinqüenta, que estudava a lista de perguntas, consciente de que o tempo urgia e procurando selecionar as mais pertinentes e reveladoras.

            Estudando o visitante, Collins percebeu subitamente da incongruência da aparência do homem e do seu nome. Um nome totalmente deslocado: Ishmael Young, o "jovem" Ishmael. Collins esperou ter tempo para lhe perguntar onde fora arranjar tal nome. Ishmael Young era um indivíduo baixo e atarracado, provavelmente da Nova Inglaterra, talvez presbiteriano e escocês (com um leve toque judaico), que transbordava no seu amarrotado terno cinzento. A calva na parte superior da cabeça era ladeada por dois tufos de cabelo invulgares que ele penteava lamentavelmente para cima, fazendo parecer que tinha queimaduras na cabeça. Também tinha dois queixos e prenúncios de um terceiro. O seu corpo protuberante enchia a cadeira, parecendo apoiar-se apenas nos rebordos. Assemelhava-se a uma baleia arrastada para a praia. Collins concluiu que, no final das contas, talvez Ishmael fosse o nome certo.

            Não tinha a menor aparência de escritor, pensou Collins. Exceto pelos óculos de armação de chifre, que bem precisavam de limpeza, e pelo cachimbo castanho de urze queimada, nada nele indicava o escritor. Mas ele próprio dissera logo de início que era um escritor-fantasma. E Collins nunca encontrara nenhum dessa espécie.

            Certamente um escritor-fantasma dos bem sucedidos - daqueles que escrevem livros para atrizes depravadas, olímpicos heróis negros, gênios militares. Collins tentou lembrar-se se tinha lido algum dos seus livros. Sabia que não, mas talvez Karen tivesse. Não se esqueceria de lhe perguntar.

            Percebeu que Ishmael tinha erguido a cabeça, procurando timidamente a sua atenção, e que já lhe punha a pergunta seguinte.

            Ao ouvi-la, descobriu imediatamente uma saída, uma maneira de terminar esta entrevista tão depressa e airosamente quanto possível. Tinha apenas de ser honesto.

            - O que penso de Vernon T. Tynan? - repetiu Collins.

            - Sim. Quero dizer, que opinião tem dele?

            Collins pensou imediatamente no aspecto físico de Tynan: um gigantesco e tonitroante homem de Brobdingnag, quase tão legendário como qualquer deles, com pequenos olhos de lince numa cabecita redonda pregada ao largo e curto pescoço que encimava uma peitaça musculosa, um homem quase tão alto como ele próprio, e de voz áspera.

            Essa imagem era bem clara. Mas do Tynan interior não sabia praticamente nada. Bastava-lhe dizer isso, honestamente, e a conversa acabaria, Ishmael iria bater a outra porta.

            - Francamente, não conheço o diretor Tynan muito bem. Ainda não tive tempo para isso. Estou neste lugar há apenas uma semana.

            - É Procurador-Geral há apenas uma semana - retificou Ishmael delicadamente-, mas, segundo as minhas notas, esteve no Departamento de Justiça, ou melhor, esteve aqui, quase dezoito meses. Pelo que sei, foi Adjunto do Procurador-Geral anterior, o coronel Noah Baxter, durante treze meses.

            - É verdade - admitiu Collins. - Mas como Adjunto do Procurador tive muito poucos contatos com o diretor Tynan. Ele lhe confirmará, se lhe perguntar. Era o coronel Baxter que contatava com ele, de resto com grande freqüência. Eram amigos.

            As sobrancelhas de Ishmael Young ergueram-se.

            - Não sabia que o diretor Tynan tinha amigos. Pelo menos foi isso que deduzi das conversas com ele. Pensei que o único íntimo era o assistente Harry Adcock, mas encarei essa situação como uma relação de trabalho.

            - Não -insistiu Collins -, ele também era amigo íntimo do coronel Baxter, mais do que de qualquer outro. Embora me pareça que de certo modo tem razão. Na verdade, o diretor Tynan é um solitário. Mas se olhar para o passado, encontrará outros diretores do FBI que também foram solitários. É da própria natureza do trabalho. Seja como for, a verdade é que nunca contatei muito com ele nem o conheci bem.

            O escritor não se dava por vencido. Retirou o velho cachimbo da boca e chupou os lábios.

            - Mas, senhor Collins... - fez uma pausa. - Basta o senhor, ou devo tratá-lo por Procurador-Geral Collins, ou talvez só Geral?

            Collins sorriu.

            - Basta o senhor Collins.

            - Muito bem. O que eu ia dizer é que depois de o coronel Baxter ter sofrido o ataque, há já cinco meses, o senhor dirigiu temporariamente este departamento, foi oficiosamente o chefe da Justiça, até chegar a confirmação oficial há uma semana. E como se sabe, o FBI está a um nível inferior da hierarquia. O diretor do FBI, Tynan, é seu subordinado, portanto devem ter de contatar...

            - O diretor Tynan meu subordinado? Senhor Young, ainda tem muito a aprender.

            - É para isso que aqui estou, senhor Collins - disse Young rispidamente -; estou aqui para aprender. Não posso ser o escritor-fantasma de uma autobiografia do diretor do FBI sem conhecer com precisão as suas relações com o Procurador-Geral, com o Presidente, com a CIA, com todos os membros do governo. Pode pensar que devo então dirigir-me ao diretor. Já o fiz, creia-me. Mas ele é estranhamente vago quanto ao processo governativo e ao papel que nele desempenha. Há certas coisas que não posso esclarecer com ele.

Não que se recuse a contar - mas, só que não está interessado e fica impaciente. O que lhe interessa é contar os seus feitos no FBI dirigido por J. Edgar Hoover, a sua posterior demissão e o regresso. Também eu estou interessado nisso. É uma parte do livro. Mas estou igualmente interessado em saber que posição ocupa na estrutura global do poder em relação aos outros elementos.

            Collins decidiu ser prestável, esclarecê-lo, mesmo que isso lhe levasse mais alguns minutos.

            - Pois bem, senhor Young, vamos assentar idéias. Diz o Manual do Governo que o diretor do FBI depende do Procurador-Geral. Segundo o livro, é isso que se passa. Mas a realidade é bem diferente. De acordo com a Lei Pública número 90-351, a nomeação do diretor do FBI não incumbe ao Procurador-Geral, mas sim ao Presidente, com o parecer e o consentimento do Senado. Apesar de o diretor do FBI me consultar e trabalhar comigo, não tenho autoridade suprema sobre ele. Só o Presidente o pode afastar sem a aprovação do Senado. Assim, o diretor Tynan só é meu subordinado no papel. Um homem como Tynan, como já deve ter percebido, nunca é subordinado. Estou certo de que ele, como todos os outros diretores do FBI, considera o seu cargo como vitalício se o quiser, e vê os procuradores-gerais como transitórios. Portanto, voltando à sua pergunta inicial, ele não tem trabalhado para mim e eu pouco contatei com ele. Não, nem sequer como Adjunto do Procurador-Geral, quando fiquei encarregado do departamento depois de o coronel Baxter ter ido para o Centro Médico da Armada em Bethesda. Lamento não lhe poder ser útil. De fato, não sei o que terá levado o diretor Tynan a mandá-lo aqui.

            Young endireitou-se ligeiramente.

            - Ah, não foi ele. Era eu que queria ter este contato.

            Collins também moveu o seu corpo seco na cadeira giratória de couro e espaldar alto, típica do executivo.

            - Então está tudo explicado.

            Sentiu-se aliviado. Nada devia ao diretor Tynan. Podia acabar imediatamente a entrevista sem ofender Tynan. Contudo, continuava a querer ser educado com Young. Queria atirar-lhe um osso, mesmo que pequeno, e despedi-lo feliz.

            - Mas, voltando ao assunto, o que queria saber era a minha opinião sobre o diretor, para o seu livro...

            - Para o meu livro, não - cortou Young -, para o livro de Tynan. Terá o nome dele. Tenho estado apenas a tentar compreender a estrutura que o rodeia a partir dos que trabalham com ele. Embora não o conheça bem, esperei que me pudesse ajudar.

            - Pois bem, deixe-me apresentar-lhe a idéia que tenho dele nestes instantes que nos restam, procurando algo simples e seguro. A minha opinião é que o diretor é um típico homem de ação, um prático, um indivíduo de resposta pronta. Talvez esteja perfeitamente adequado ao trabalho que realiza.

            - Em que sentido?

            - O seu trabalho é investigar o crime, investigar as contravenções federais. O seu trabalho é desenterrar fatos e comunicá-los. Não tira conclusões das descobertas, nem sequer apresenta recomendações. O meu trabalho é fazer o resto, as diligências processuais baseadas nas suas descobertas.

            - Então é você o homem de ação.

            Collins atentou no entrevistador ainda com mais respeito.

            - Não é assim na realidade - disse.- Pode parecer, mas não é isso que se passa. Eu sou apenas um dos muitos advogados da Justiça. Nós seguimos a via lenta e cuidadosa, Tynan e os seus agentes fazem o trabalho direto e perigoso. Mas, voltando ao que nos interessa, uma outra opinião que tenho sobre ele é que... Bem, quando ele se envolve em qualquer coisa, qualquer coisa em que acredita realmente, não abandona a luta. É muito obstinado, no bom sentido. É o caso da 35.a emenda à Constituição que espera a ratificação. Uma vez lançada pelo Presidente, logo Tynan a apoiou...

            Ishmael Young interrompeu:

            - Senhor Collins, não foi o Presidente quem lançou a emenda, foi o diretor Tynan.

            Espantado, Collins fixou o escritor.

            - Onde é que foi buscar essa idéia?

            - Ao próprio diretor. Ele fala da emenda como de um filho.

            - Pense ele o que pensar, não é verdade. Mas o que disse vem apenas dar-me razão. Quando ele acredita apaixonadamente em qualquer coisa, torna-a sua. E efetivamente, agora é ele o principal sustentáculo da emenda. É tão responsável como qualquer outro, talvez mais que qualquer outro, pela sua aprovação.

            - Ainda não foi aprovada - disse Young calmamente. Desculpe-me, mas ainda não foi ratificada por três quartos dos Estados.

            - Bem, mas será - atalhou Collins um tanto impaciente pela digressão. - Já só falta a aprovação demais dois Estados.

            - E já só restam três para votar.

            - Dois deles votam hoje à noite e creio que hoje mesmo a emenda fará parte da Constituição. Contudo, ela só está onde está devido ao papel do diretor Tynan. – Olhou para o relógio. - Bem, parece-me que é tudo.

            - Senhor Collins, só mais uma coisa, se me permite...

            Collins ergueu o olhar e observou a expressão séria do rosto do visitante. Esperou.

            - Sei... sei que isto nada tem a ver com a entrevista - continuou Young -, mas gostaria de conhecer a resposta. - Hesitou. Agrada-lhe essa 35.a emenda, senhor Collins?

            Pestanejando, Collins ficou em silêncio por alguns instantes. A pergunta fora inesperada. Além disso, nunca a tinha respondido claramente a ninguém, nem sequer à sua mulher Karen ou a si próprio.

            - Se me agrada? - repetiu lentamente. - Não particularmente. Realmente, não. Para lhe dizer a verdade, não tenho pensado muito nisso. Tenho estado ocupado na reorganização. Confiei no Presidente e... e no diretor...

            - Mas é um assunto que lhe diz respeito, a si e ao seu departamento.

            - Bem sei - resmungou Collins. - Todavia, parece-me que o Presidente se pode encarregar perfeitamente disso. Talvez eu faça algumas reservas, mas não consigo sugerir nada melhor.

            Notou que o simpático Sr. Young se tornava menos simpático. Ficou tentado a perguntar-lhe, e perguntou-lhe mesmo:

            - E a si, senhor Young? Agrada-lhe a emenda?

            - Fica rigorosamente entre nós?

            - Rigorosamente.

           - Odeio-a - respondeu Young peremptoriamente. - Odeio tudo o que afeta a Declaração de Direitos.

            - Parece-me que exagera. A emenda vem alterar e sobrepor-se à Declaração de Direitos, mas só em certas condições, só perante um acontecimento de máxima emergência interna que possa paralisar ou ameace destruir o país. É bem evidente que é para aí que caminhamos e assim a emenda será uma base para fazermos nascer a ordem nesse caos...

            - Irá trazer-nos a repressão. Irá sacrificar as liberdades em troca da paz.

            Collins começou a sentir-se aborrecido e decidiu pôr termo à discussão. Toda a gente julgava ter a solução para tudo, para todos os problemas, até se ter a oportunidade de tentar realmente.

            - Muito bem, senhor Young. Sabe o que se passa nas ruas. É a pior crise de crime e violência da nossa história. Veja o ataque à Casa Branca feito por aquele bando organizado de bandidos, há dois meses. Lembre-se das bombas, das metralhadoras... da morte dos treze guardas e agentes secretos, do assassínio de sete turistas indefesos, da destruição da Sala Este... ninguém atentou de tal maneira contra a Casa Branca desde o ataque dos marinheiros ingleses em 1814. Mas os Ingleses eram nossos inimigos nessa época e estávamos em guerra. O ataque de há dois meses foi perpetrado por americanos... por americanos. Nada está a salvo. Ninguém está a salvo. Viu o noticiário da televisão hoje de manhã?

            Young disse que não com a cabeça.

            - Então deixe-me contar-lhe - prosseguiu Collins. - Peoria, Illinois. Departamento da polícia. O turno da manhã apresentou-se ao serviço, recebeu ordens e os agentes começavam a dirigir-se para as motorizadas e para os carros, quando sofreram uma emboscada de um bando que os esperava. Foram dizimados, um verdadeiro banho de sangue. Pelo menos um terço da força morta ou ferida. Que me diz a isto? Ou ao fato (apresentado hoje por um matemático) de que uma em cada nove pessoas nascidas este ano em Atlanta, caso ficassem na cidade, acabariam assassinadas? Repito, nunca tivemos uma crise de crime como esta na nossa história. O que proporia para a resolver? Que faria?

            Era evidente que Ishmael Young já tinha discutido o assunto, pois a resposta foi pronta.

            - Poria a nossa casa em ordem reconstruindo-a. Dos pés à cabeça. Como dizia George Bernard Shaw: "O mal a atacar não é o pecado, o sofrimento, a voracidade, o abuso de poder, a demagogia, a monopolização, a bebida, a guerra, a doença, nem nenhuma das outras conseqüências da pobreza, mas a própria pobreza." Tomaria medidas drásticas para acabar com a pobreza, para pôr fim à opressão econômica, à desigualdade, à injustiça, para pôr fim ao crime...

            - Já não estamos a tempo da alteração radical. Veja que eu não discordo de si quanto ao que há que fazer basicamente. Tudo isso virá no devido tempo.

            - Nunca virá se a emenda passar.

            Collins não estava com disposição para prosseguir o debate.

            - Desperta-me a curiosidade, senhor Young. Fala assim quando trabalha com o diretor Tynan?

            Young abanou os ombros.

            - Não estaria aqui neste momento se o fizesse. Falo-lhe assim porque... porque me parece uma pessoa honesta.

            - Sou uma pessoa honesta.

            - E... Espero que não se importe que lhe diga... Não consigo compreender o que faz no meio dessa gente.

            Young atingira um ponto nevrálgico. Karen fizera-lhe a mesma pergunta há um mês, quando decidira aceitar o cargo de Procurador-Geral. Nessa altura conseguira dar-lhe algumas respostas, mas não ia incomodar-se a repeti-las a um estranho. Em vez disso, disse:

            - Gostaria de ver outra pessoa neste lugar? Alguém recomendado pelo diretor Tynan? Porque pensa que o aceitei? Porque acredito que as pessoas honestas acabam sempre por vencer. - Olhou novamente para o relógio e levantou-se. - Lamento, senhor Young. Esgotamos o tempo. Disse-lhe assim que entrou que tenho uma pilha de casos para rever. A seguir tenho de ir para a Casa Branca. Ouça, daqui a uns meses já saberei muito mais e talvez lhe possa dar uma ajuda maior. Porque não contata comigo nessa altura?

            Ishmael Young já estava de pé, afastando o bloco de notas, pegando no gravador e desligando-o.

            - Contatarei consigo. Se ainda aqui estiver, e espero que esteja.

            - Estarei.

            - Então cá me terá. Muito obrigado.

            Chris Collins aproximou-se, apertou a mão do escritor e ficou a vê-lo bambolear-se a caminho da sala de conferências que levava à sala da recepção e ao átrio do elevador.

            Subitamente desejou fazer uma última pergunta ao escritor:

            - Já agora, senhor Young, há quanto tempo trabalha com o diretor Tynan?

            Ishmael Young parou no limiar da porta.

            - Há quase seis meses. Uma vez por semana... desde há seis meses.

            - Mas acabou por não me dizer o que pensa dele... Young apresentou um sorriso forçado.

            - Senhor Collins - disse ele - eu estaria a infringir o artigo quinto. Ainda existe esse quinto, não é verdade? - resmungou.- Este trabalho é o meu ganha-pão. Nunca arrisco isso. Além disso, fui de certa forma pressionado para aceitar esta incumbência. Mais uma vez, obrigado.

            Saiu.

            Estático, Collins ficou a pensar na conversa, na crise do país, na nova emenda que a solucionaria, no próprio diretor Tynan, meditando no que pensava sobre tudo isso. Mas compreendeu que era um "inventário demasiado longo e que havia muito trabalho para fazer. Sentou-se, fez a cadeira rolar para junto da secretária e começou a examinar os papéis jacentes.

            Pouco tardou que esquecesse completamente o visitante. Ficou profundamente absorvido nos casos que requeriam atenção imediata: um rapto interestatal, uma violação da lei da Energia Atômica, uma queixa sobre terras de índios, uma ação antitrusts, um terrível caso de narcóticos, uma informação de um juiz federal, uma conspiração subversiva contra o Congresso, uma deportação, uma série de problemas relativos a tumultos, algumas pistas sobre cinco conjuras tendentes a aniquilar ou derrubar o governo.

           Embora absorvido, Collins mantinha-se extremamente sensível aos ruídos. Nesse preciso instante, na quietude do seu amplo gabinete de vinte e muitos metros, percebeu do deslizar dos passos dela sobre o espesso tapete oriental. Levantou o olhar por sobre os dois montes de papelada para ver Marion Rice, a sua secretária, aproximar-se apressadamente vinda do gabinete adjacente. Trazia um grande sobrescrito.

            - Acaba de chegar, por mão própria, do outro lado da rua - disse ela.

            Do outro lado da rua da Avenida Pensilvania, era o edifício J. Edgar Hoover, o FBI, e o diretor Tynan.

            - Tem carimbado Confidencial e Importante - acrescentou. Deve ser do diretor.

            - É estranho - disse Collins -, geralmente a correspondência chega cedo.

            Ela estendeu-lhe o sobrescrito por cima da mesa e hesitou por instantes.

            - Se não tem mais nada para mim, vou-me embora. Collins ficou surpreso.

            - Que horas são?

            - Seis e vinte.

            - Meu Deus! Ainda nem cheguei a meio. Não devia ter deixado o tal escritor roubar-me tanto tempo. - Recordou a conversa. - Bem, talvez tenha sido útil. Era uma pessoa interessante. - Olhou tristemente para um dos montes de papéis. - Parece-me que tenho de levar grande parte para casa. Muito bem, Marion, pode fechar as portas e sair.

            - Não vai ter tempo para trabalhar mais. Não se esqueça que tem um jantar às sete e um quarto na Casa Branca.

            Collins fez um trejeito.

            - Isso também vai ser trabalho.

            Ela continuava a hesitar, depois um sorriso reticente aflorou-lhe o rosto liso e alongado.

            - Eu... queria ainda dar-lhe os parabéns pela sua primeira semana como Procurador-Geral. Estamos todos muito contentes. Boa noite.

            - Boa noite, Marion. Agradeço-lhe.

            Depois de ela sair, quando ficou só, fitou o grande sobrescrito. Nos dias que corriam, raramente vinham boas notícias do FBI, por isso foi com relutância que abriu o sobrescrito.

            Retirou o que parecia ser meia dúzia de páginas de estatísticas datilografadas. Por cima delas vinha uma nota manuscrita. Pela intrincada letra que já lhe era familiar, pela pontuação errada (muitos travessões), pelas abreviaturas impacientes, soube que a nota fora escrita pelo diretor Vernon T. Tynan, antes mesmo de ler a assinatura.

            Despertada a curiosidade, Collins começou a ler a nota.

            Caro Chris.

            Aqui tem os números mais recentes dos últimos meses referentes às estatísticas do crime - de longe os piores até agora, os piores da nossa história - envio uma cópia para a Imprensa e outra para si a fim de que possa vê-los antes de nos encontrarmos com a Imprensa logo à noite. Note a subida vertical em assassínios, tumultos, roubos à mão armada, raptos de Estado para Estado. Veja o meu P. S. sobre pistas quanto a conspirações prováveis e revolucionários organizados- estamos numa camisa de onze varas e acabaremos por cair - a única coisa que nos pode safar é a aprovação definitiva da 35.a emenda - reze por isso hoje à noite.

            Já comuniquei pelo telefone estas estatísticas para os legisladores de Albany e Columbus, para que eles conheçam a verdadeira situação antes de votarem logo. Lamento ter de lhe dar um relatório tão terrível, mas parece-me vital que se atualize antes de se encontrar com a Imprensa. Ainda está em esboço verifico com atenção antes de tornar público amanhã. Vejo-o no jantar.

            Atenciosamente, Vernon.

            Enquanto dobrava a nota de Tynan, Collins deu uma vista de olhos pelos relatórios criminais, voltando vagarosamente as páginas. Comparando o número de crimes violentos incluindo assassínio, no último mês com os do mês precedente, notava-se uma subida de 18 %; os estupros tinham aumentado 15%, os roubos e assaltos com agravantes, 30%; os tumultos, 20%.

            Pousou as páginas de Tynan. Recordou outras estatísticas. Devido a esse aumento de criminalidade as prisões estavam repletas. Cinco anos antes, a média anual de pessoas temporária ou permanentemente detidas nas 250 principais prisões ou reformatórios era de dois milhões de pessoas. Apesar de um grande esforço para dominar os infratores da lei, apesar dos 45 000 advogados e agentes do FBI a trabalharem para o Departamento de Justiça, apesar das três divisões especiais de tropas do Exército destinadas ao controle interno pelo Pentágono, apesar dos 22 bilhões de dólares a gastar no reforço da lei durante o corrente ano (tinham sido apenas 3 1/2 bilhões em 1960), a média de crimes continuava a subir em espiral. O cancro já não podia ser mantido em respeito pela força, segundo parecia. Mais um ano e poderia ser o fim, a proclamação da morte da sociedade organizada.

            Recostou-se na cadeira, com as mãos juntas no peito, como se rezasse. Estava certo que era o período mais negro da história americana desde a guerra civil. A anarquia e o terror dominavam cada novo dia. Quando se acordava de manhã, não se sabia se se veria a noite. Quando se adormecia, não se sabia se se veria a manhã. Quando dava diariamente o beijo de despedida a Karen antes de sair para o trabalho, sentia a terrível incerteza de poder não a encontrar (e ao filho que ela trazia no ventre) quando chegasse a casa.

            Sentiu a mão invisível do medo apertar-lhe o estômago. Não era a primeira vez. Por instantes, os seus pensamentos afastaram-se do caos das ruas para a compaixão por si próprio. Na verdade, ele, ele e Tynan, tinham o pior, o mais difícil trabalho da terra. A compaixão por si próprio levou-o a uma mórbida autofascinação. Mas então porque teria ele, Christopher Collins -previdente, nada vaidoso, ponderado, por vezes egoísta (também sabia ser objetivo) -, tomado a seu cargo este trabalho impossível de agente número um da lei e de cabeça da mais importante firma de leis da nação? Teria chegado a essa posição sem convicções apaixonadas (exceto, como Ishmael Young dissera, a de que a sociedade democrática tinha de ser reestruturada), nem soluções, apenas pelo desejo de poder? Ou teria sido para cumprir um dever patriótico? Ou por um sentimento cavaleiresco de que podia fazer algum bem? Ou teria sido afinal a vítima de uma deformação masoquista ou até suicida da sua personalidade? Não sabia. Pelo menos nessa noite.

            Ouviu então o telefone tocar. Voltou-se para a esquerda, encarando o móvel de carvalho em que estava instalado o P.B.X., e viu que a sua linha pessoal (para Karen, para os amigos, diferente das outras linhas para o Presidente, para o diretor, para o seu adjunto, Ed Schrader) tinha o botão iluminado.

            Levantou o auscultador.

            - Fala Collins.

            - Querido, espero não te interromper... - Era a voz de Karen.

            - Não, não. Estava a tratar de uns assuntos de última hora. Como estás, amor?

            Ela não respondeu diretamente. Limitou-se a dizer:

            - Sei que vamos jantar fora hoje à noite. Queria saber a hora a que o teu motorista me vem buscar. É às sete?

            - Um quarto para as sete. Encontramo-nos às sete. Somos esperados na Casa Branca quinze minutos depois. O Presidente quer que cheguemos a horas. Ficaremos a ver a reportagem especial da televisão de Nova Iorque e Ohio. Já estás vestida?

            - Ainda só tenho a roupa interior, mas já estou maquiada. Agora é só vestir qualquer coisa por cima. Que tipo de recepção é? Posso levar o vestido vermelho de malha?

            - Veste o que achares melhor. A secretária do Presidente disse que seria muito informal.

            - Então acho que o vermelho serve. Deve ser a última vez que o posso usar antes de a barriga se começar a conhecer.

            - Algum movimento hoje?

            - Onde? Ah, sim, lá dentro. Algumas tentativas de pontapés.

            - Ótimo. Os Redskins precisam de um avançado. Mas ainda não me disseste como te sentes.

            - Parece-me que estou muito bem. Atendendo às circunstâncias.

            - Quais circunstâncias? - ele sabia, mas mesmo assim tinha de perguntar.

            - Sabes bem o que penso de todos esses protocolos. Só estive uma vez contigo na Casa Branca, na altura em que fomos com os Baxter à Sala de Jantar do Estado. E foi terrível. Mas agora dizes que se trata de uma coisa restrita, íntima, e isso é duplamente assustador. Não saberei que dizer.

            - Não terás de dizer absolutamente nada. Ficamos todos a ver televisão.

            - Porque tens de lá ir? Há alguma coisa tão importante para teres de estar presente?

            - Já não te lembras? Contei-te de manhã.

            - Desculpa...

            - Não tem importância. Eu repito. Primeiro, o Presidente quer que vá. Isso é quanto basta. Depois, eu sou o Procurador-Geral, a 35.a emenda passa por uma votação crucial esta noite e isso cai na minha esfera. Todos me julgam um dos principais interessados. Há reportagens especiais à noite sobre as sessões das Câmaras baixas de Nova Iorque e Ohio, feitas em direto. Como dois dos três Estados que ainda não votaram vão fazê-lo hoje, faltando apenas dois para a 35.a emenda se tornar parte integrante da Constituição, é uma grande noite. Compreendeste?

            - Sim, percebi. Não te zangues comigo, Chris. É que não percebia bem o que se ia passar. - Fez uma pausa. - Queres que seja aprovada? Li algumas coisas duras a respeito dela.

            - Também eu, amor. Não sei. Realmente não sei o que será melhor. A emenda pode ser boa se forem boas as pessoas que dirigem o país. Mas pode ser má, se essas pessoas forem más. Só posso dizer que, se passar, o meu trabalho se tornará mais fácil.    - Então espero que passe - mas a sua voz não tinha convicção.

            - Bem, como dizem no misterioso Médio Oriente: será o que tiver de ser. Limitemo-nos a comer o jantar do Presidente, a ver e a ouvir. - Viu as horas. - É bom ires vestir-te. O motorista deve estar a chegar. Amo-te. Até já.

            Depois de desligar, de colocar um monte de papéis no tabuleiro dos DESPACHADOS, de meter o resto na pasta, ficou sentado a pensar em Karen. Lamentava ter sido um pouco rude para com ela. Ela merecia mais, o seu melhor. Sabia que essa noite iria ser uma provação para ela. Karen opusera-se desde início à mudança, ao seu cargo de Adjunto do Procurador-Geral, à saída da advocacia privada em Los Angeles em troca do cargo público em Washington, e ainda com maior veemência, ao cargo governamental de Procurador-Geral.

            Embora ela geralmente não se manifestasse e se pretendesse apolítica, ele sabia qual era a sua posição. Tudo ficara claro quando ele entrara para o Departamento de Justiça. Ela não gostava nem confiava nas pessoas com quem ele trabalhava, desde o Presidente Wadsworth ao diretor Tynan. Além disso, tentara explicar-lhe que era um cargo de bode expiatório. O país afundava-se rapidamente e ele seria o primeiro a cair. E também não gostava do trabalho que se fazia no gabinete. Acima de tudo, Karen não queria viver numa roda-viva, não desejava as amizades forçadas, nem a sociabilidade imposta, nem a nudez perante os mass media exigida pela sua posição. Nessa altura eram recém-casados - ambos pela segunda vez -, agora eram-no há dois anos, ela estava já no quarto mês de gravidez e só desejava recato, intimidade, tranqüilidade, e não queria compartilhá-lo.

            Collins levantou-se da cadeira, decidido a ficar junto dela durante toda a noite, por mais difícil que isso pudesse ser, e a ser meigo. Ergueu-se a toda a altura do seu 1,83 m, até ouvir os ossos rangerem. Fitou por instantes o seu rosto cadavérico, mas não deselegante, penteou o cabelo negro ao espelho e viu que tinha doze minutos até à chegada do carro. Encaminhou-se para a sala de estar privativa, por trás do gabinete da secretária, para se lavar e mudar de roupa, perguntando-se se seria realmente uma noite histórica e memorável.

            Quando o Cadillac passou pelo portão de ferro negro, hoje aberto, do gradeamento que corria ao longo da Avenida da Pensilvania, e entrou na sinuosa rua que levava à Casa Branca, Collins notou de imediato a presença de um grande número de jornalistas em frente da fachada norte, esperando com o equipamento de iluminação ligado.

            Mike Hogan, o agente do FBI que desempenhava as funções de seu guarda costas, voltou-se no lugar da frente e perguntou-lhe:

            - Quer falar-lhes, senhor Collins?

            Collins apertou a mão de Karen e respondeu:

            - Não, se o puder evitar. Vamos diretamente para dentro.

            Depois de saírem do carro no Pórtico Norte, Collins esquivou-se delicadamente à imprensa. Pegando no braço de Karen, seguiu apressado atrás de Hogan em direção à entrada da Casa Branca. Respondeu apenas a uma pergunta antes de entrarem. Um repórter da televisão chamou-o:

            - Senhor Collins, soubemos que vem assistir ao programa da televisão. O que lhe parece que vai acontecer?

            Collins respondeu de passagem:

            - Vamos assistir à reposição de E o vento levou. Suponho que é o Norte quem vence.

            Lá dentro, esperavam-no duas surpresas.

            Julgara que a reunião se realizaria na Sala Vermelha, ou numa das outras salinhas menores do primeiro andar, mas em vez disso ele e Karen foram acompanhados ao gabinete de trabalho, na ala Oeste. Julgara que estariam presentes umas trinta ou quarenta pessoas, mas eram apenas umas doze além de Karen e dele próprio.

            Na parede fronteira às tapeçarias verdes que cobriam as portas francesas que levavam aos roseirais da Casa Branca, junto das prateleiras de livros, tinha sido instalado um grande móvel de televisão a cores. Várias pessoas viam de pé o filme, embora o som tivesse sido desligado. Metade das cadeiras de couro que rodeavam a comprida e resplandecente mesa escura (que fazia lembrar a Collins um esquife para o gigante de Cardiff) tinham sido viradas de frente para a televisão. Do lado oposto da mesa, por baixo do brasão pendurado na parede de este e entre as bandeiras americana e presidencial, o Presidente Wadsworth mantinha animada conversa com os dirigentes da maioria do Senado e da Câmara dos Representantes, acompanhados pelas mulheres.

            Embora Collins já tivesse estado no gabinete de trabalho uma meia dúzia de vezes - cinco delas como Adjunto do Procurador-Geral em substituição do coronel Baxter, e no princípio desta mesma semana já como Procurador - a sala pareceu-lhe estranha. Isso porque toda ela tinha sido reformulada. Muitas cadeiras tinham sido aproximadas da televisão; no extremo da mesa, em frente do retrato de Washington pintado por Gilbert Stuart que pendia por cima do fogão de sala, os hors d'oeuvres eram conservados quentes em brilhantes travessas de cobre aquecidas, dispostas sobre a toalha verde e sob a vigilância de um chefe de cozinha de alto barreto branco. O sóbrio gabinete tinha sido transformado, devido à confusão informal, numa sala de estar confortável e mais ampla.

            Enquanto Collins, de braço dado com Karen, examinava a cena, o adjunto principal do Presidente, McKnight, aproximou-se sem detença para lhes dar as boas-vindas. Circundaram o gabinete, cumprimentando sucessivamente, pela primeira vez ou de novo, o Vice-Presidente Frank Loomis e a mulher; Miss Ledger, a secretária particular do Presidente; Ronald Steedman, o consultor particular do presidente da Universidade de Chicago; o Secretário do Interior, Martin; os dirigentes do Congresso e as respectivas mulheres, e, por fim, o próprio Presidente Wadsworth.

            O Presidente, um homem simples, delicado e urbano, quase galanteador, de cabelo preto a acinzentar nas têmporas, nariz pontiagudo, queixo retraído, pegou na mão de Karen, apertou a de Collins, e começou quase de imediato a desculpar-se.

            - Marta - referia-se à Primeira Dama - tem muita pena de não poder estar presente para os conhecer melhor, mas está de cama com um princípio de gripe. Ah, mas vai curar-se e haverá outras ocasiões... Bem, Chris, parece que vamos ter uma noite feliz.

            - Assim o espero, senhor Presidente - disse Collins. - Há alguma novidade?

            - Como sabe, os Senados estaduais de Nova Iorque e Ohio ratificaram ontem a 35.a emenda. Agora estamos nas mãos da Assembléia de Nova Iorque e da Câmara de Ohio. Logo a seguir às votações de ontem, Steedman pôs os seus grupos de conselheiros a formigarem em Albany e Columbus, falando com os legisladores estaduais. Ohio parece garantido. Steedman tem os números e são convincentes. Nova Iorque é um pouco mais duvidosa. Pode cair para qualquer dos lados. A maioria dos deputados contatados estavam indecisos ou não queriam fazer comentários, mas entre os que responderam houve um ganho apreciável em relação às últimas sondagens. A situação parece ser-nos favorável. Além disso julgo que as últimas estatísticas do FBI... Boa noite, Vernon.

            O diretor Vernon T. Tynan acabava de se juntar a eles, ocupando todo o espaço vazio com a sua presença imponente. Apertou a mão do Presidente, a mão de Collins, cumprimentou Karen pelo seu ótimo aspecto.

            - Estava precisamente a dizer, Vernon - prosseguiu o Presidente com a sua voz vibrante -, que os números que me mandou há uma hora devem ter grande impacto em Albany. Ainda bem que os conseguiu a tempo.

            - Não foi fácil - disse Tynan. - Foi uma grande luta. Mas tem razão. Devem ajudar. Ronald Steedman parece menos certo. Acabo de falar com ele. Pelas suas previsões, Ohio deve estar do nosso lado, mas Nova Iorque anda a vogar. Não parece muito confiante nesta votação.

            - Pois eu estou confiante - disse o Presidente. - Daqui a duas horas já teremos trinta e oito dos cinqüenta Estados, e uma nova emenda à Constituição. E teremos finalmente meios para preservar este país, se tanto for necessário.

            Collins acenou com a cabeça na direção da televisão colocada do outro lado da mesa.

            - Quando começa, senhor Presidente?

            - Daqui a dez ou quinze minutos. Estão a preparar o terreno com alguns comentários.

            - Bem, nós vamos dar uma olhadela - disse Collins. - E tomar uma bebida.

            Enquanto conduzia Karen, notou que Tynan continuava ao seu lado.

            - Parece-me que também vou tomar uma bebida - disse Tynan. Caminharam em silêncio para a mesa onde o criado do Presidente Charles, servia as bebidas por entre filas de copos e garrafas, baldes de gelo e um refrigerador de champanhe.

            Adiantando-se, Tynan espreitou para Karen e perguntou-lhe:

            - Como se sente, senhora Collins? Tem passado bem?

            Surpreendida, Karen alisou o curto cabelo castanho, baixando a mão logo de seguida, num gesto automático, para o cinto folgado.

            - Nunca me senti melhor, obrigado.

            - Ainda bem, ainda bem que a ouço dizer isso - volveu Tynan. Collins, depois de ter pegado numa taça de champanhe e uma tosta de caviar para Karen, e de ter retirado um Scotch com água para si, quando se dirigiam para duas cadeiras vazias em frente da televisão, sentiu que a mulher lhe puxava a manga. Inclinou a cabeça.

            - Ouviste-o - murmurou ela.

            - Quem?

            - Tynan. A súbita preocupação com a minha saúde... se me sentia bem. Estava praticamente a dizer-nos, à sua maneira, que sabe perfeitamente da minha gravidez.

            Collins parecia confuso.

            - Não pode saber. Ninguém sabe.

            - Ele sabe - sussurrou Karen.

            - Mas mesmo que tenha descoberto, que importa?

            - Quer recordar-te que é omnisciente. Para te manter na linha, a ti e a todos os outros.

            - Acho que estás a exagerar. Ele não é assim tão sutil. Estava apenas a ser mundano, foi uma observação inocente.

            - Claro, como o lobo do Chapeuzinho Vermelho.

            - Chiu, baixa a voz.

            Tinham chegado às cadeiras quase em frente do grande aparelho de televisão e sentaram-se.

            Beberricando, Collins tentou concentrar-se no programa. O conhecido comentador dizia que seriam consagrados alguns minutos a recordar o processo seguido para realizar novas emendas na Constituição, e mais especificamente a rememorar o trajeto da 35.a emenda, desde o seu nascimento até a este momento em que estava à beira da ratificação.

            "Há duas maneiras de iniciar o processo de emendas à Constituição dos Estados Unidos"-começou o comentador.

            Collins pousou o copo, acendeu um cigarro a Karen e outro para si, e recostou-se, prestando uma vaga atenção.

            "Um dos meios para iniciar o processo tendente a realizar uma emenda, é propô-la no Congresso. O outro meio é vê-la apresentada numa convenção nacional convocada pelo Congresso a pedido de dois terços dos Estados. Até hoje, nenhuma emenda partiu de tal convenção. Todas elas tiveram início no Congresso, em Washington. Uma vez apresentada uma resolução propondo uma nova emenda, quer no Senado quer na Câmara dos Representantes, são ouvidos os Comitês de Leis e os Judiciários. Depois de ser aprovada por esses comitês, a emenda segue para o plenário do Senado e da Câmara dos Representantes. Para ser aprovada, são necessários dois terços dos votos de cada um desses corpos legislativos. Uma vez aprovada, não carece da assinatura do Presidente dos Estados Unidos. Em vez disso, são enviadas cópias aos Serviços Gerais de Administração, que por sua vez distribuem a emenda pelos governadores dos cinqüenta Estados. Os governadores limitam-se a encaminhar a emenda para as legislaturas dos seus Estados, para aí ser debatida e votada. Se três quartos das legislaturas estaduais - isto é, 38 dos 50 Estados - ratificarem a emenda, esta torna-se oficialmente parte da Constituição."

            Collins deitou o cigarro para o cinzeiro, pegou novamente no copo e continuou a ver o programa.

            O comentador continuava a falar:

            "Desde que as primeiras dez emendas foram integradas na Constituição, ou melhor, desde 1789, foram apresentadas cinco mil e setecentas resoluções no Congresso para emendar a Constituição num ou noutro ponto. Foram sugeridas emendas de todos os tipos: para substituir a Presidência por um conselho governativo composto por três pessoas, para abolir a Vice-Presidência, para mudar o nome de Estados Unidos da América para Estados Unidos da Terra, para alterar o sistema de votação em colégio eleitoral, para erradicar o sistema de livre iniciativa de modo a que nenhum indivíduo possuísse mais de dez milhões de dólares. Desse aglomerado de cinco mil e setecentas propostas de emendas, das que não morreram logo no Congresso, das que foram enviadas aos Estados, só trinta e quatro foram ratificadas pelos dois terços dos Estados necessários. Em geral, até agora não houve limitação do tempo que os Estados têm para ratificar ou rejeitar. A emenda mais rapidamente aprovada da nossa história foi a 26.a, concedendo o direito de voto aos dezoito anos. E assim chegamos à mais recente emenda, a 35.a, que poderemos ver morrer ou tornar-se lei desta terra hoje à noite.''

            Collins ouviu o movimento dos corpos, o arrastar das cadeiras e viu os convidados amontoarem-se pouco a pouco em frente da televisão. Depois concentrou-se totalmente no aparelho.

            "A controversa 35.a emenda, destinada a substituir as dez primeiras emendas, ou a Declaração de Direitos, em certas situações de emergência, nasceu do desejo dos dirigentes do Congresso e do Presidente Wadsworth de forjar uma arma para impor a lei e a ordem na nação, se tanto for necessário."

            - Arma? - interrompeu o Presidente, que acabava de se sentar junto de Collins. - Que quer ele dizer com arma? Se é verdade que a linguagem pode ser prejudicial, aqui está um exemplo. Quem me dera ver uma emenda aprovada para poder tratar de comentadores destes.

            - Estamos a aprovar uma - bramou o diretor Tynan da sua cadeira no lado oposto. - A 35.a tratará destes perturbadores.

            Collins entreviu o olhar cortante de Karen. Incomodado, voltou a prestar atenção à televisão.

            "...e assim, depois de ter saído dos comitês e de ter sido apresentada sob a forma de resolução - prosseguia o comentador -, passou ao plenário do Senado e da Câmara para a votação final. Apesar da oposição oral, mas reduzida, dos blocos liberais, ambos os corpos do Congresso deram à emenda ampla aprovação, que excedeu em muito os dois terços de votos necessários. Em seguida, a nova emenda foi enviada para os cinqüenta Estados. Isso passou-se há quatro meses e dois dias. Após uma aprovação relativamente fácil nos primeiros Estados que votaram, a viagem da 35.a emenda tornou-se cada vez mais tempestuosa, à medida que a oposição se organizava contra ela. Até à data, já a votaram quarenta e sete dos cinqüenta Estados. Onze rejeitaram-na. Trinta e seis deram-lhe a sua aprovação. Mas como a emenda precisa de ser aprovada por trinta e oito, ainda faltam dois Estados. Ora, neste momento, apenas três Estados ainda não votaram: Nova Iorque, Ohio e Califórnia. Nova Iorque e Ohio realizam a votação hoje mesmo, acontecimento histórico que presenciaremos daqui a pouco, enquanto a Califórnia marcou a votação para daqui a um mês. Mas será necessária a Califórnia? Se Nova Iorque e Ohio rejeitarem hoje a emenda, ela ficará imediatamente posta de lado. Se, pelo contrário, ambos os Estados a ratificarem, tornar-se-á de imediato parte da Constituição, e o Presidente Wadsworth terá o seu arsenal para combater a crescente criminalidade e a desordem que pouco a pouco vão sufocando a nação. A votação desta noite em Nova Iorque e Ohio poderá ser histórica, poderá mudar o rumo da história americana para o próximo século. Dentro de momentos, após um breve intervalo para publicidade, iremos levá-los até à Assembléia estadual de Albany, Nova Iorque, onde o debate no plenário está a chegar ao fim, precedendo a realização da votação final nominal."

            O anúncio de uma grande companhia de petróleo, que declarava estar finalmente ao dispor do público, uma companhia que pretendia apenas ser um serviço público destinado a tornar a vida mais fácil e feliz ao povo, foi rapidamente abafado pela elevação das vozes que conversavam na sala.

            Collins levantou-se, aproveitando para ir encher de novo o copo. Karen tinha tapado o seu com a mão, indicando que não beberia mais champanhe. Ele deixou-a e abriu caminho por entre os convidados em direção ao bar improvisado na mesa. Viu o Presidente acompanhado pelo seu consultor, Steedman, por Tynan e McKnight, e supôs que estivessem uma vez mais a rever as informações de última hora sobre as intenções da Assembléia de Nova Iorque.

            Quando Collins voltou para a cadeira, com um Scotch gelado na mão, viu que a televisão focava um grande plano da Assembléia.

            - O que é que se vai seguir? - perguntou a Karen.

            - Está mesmo a começar - respondeu ela. - O debate no plenário está a chegar ao fim. O último orador está a concluir o discurso a favor da emenda.

            Collins bebeu um grande gole de Scotch e atentou no grande plano de um indivíduo, identificado como o deputado Lyman Smith, que perorava. Collins ouviu-o.

            "...e embora a Constituição dos Estados Unidos, tal como foi escrita pelos nossos antepassados, seja um nobre instrumento legal dizia o orador -, repito-vos que não é sacrossanta. Não foi feita para petrificar com o correr dos anos. Pretendeu-se que fosse flexível (e por isso se estabeleceram provisões para ser alterada), suficientemente flexível e mutável para ir ao encontro das necessidades de cada nova geração e para acompanhar o progresso humano. Lembrem-se, meus amigos, que esta nossa Constituição foi escrita por um grupo composto na sua maioria por jovens radicais, homens que vieram à sessão de assinatura em carruagens puxadas por cavalos, homens que usavam perucas, homens que se serviam de penas para escrever. Esses homens nunca ouviram falar de canetas, máquinas de escrever, calculadoras eletrônicas. Não conheciam a televisão, os aviões a jato, as bombas atômicas nem os satélites espaciais. E certamente nunca ouviram falar do Sábado Especial. Mas introduziram na sua Constituição o instrumento que permitiria ajustar as nossas leis federais ao que o futuro pudesse trazer. Esse futuro somos nós, a mudança bate-nos à porta e chegou o momento de alterar a nossa lei suprema de acordo com as necessidades da nossa presente cidadania. A velha declaração de Direitos, tal como foi estabelecida por esses fundadores de perucas, é demasiado ambígua, demasiado geral, demasiado branda para enfrentar a vaga dos acontecimentos que conspiram para destruir o funcionamento da nossa sociedade e a estrutura da nossa democracia. Só a aprovação da 35.a emenda pode dar aos nossos dirigentes uma mão mais firme. Só a 35.a emenda nos pode salvar. Por favor, caros amigos e colegas, votai pela ratificação!"

            Enquanto o orador retomava o seu lugar, a câmara da televisão girou pela Assembléia, mostrando uma trovoada de aplausos.

            No gabinete, à volta de Collins, também se ouviam aplausos calorosos.

            - Bravo! - exclamou o Presidente, pousando o charuto Upperman para bater palmas. Olhou para trás por cima do ombro. McKnight, quem é o deputado que acaba de falar? Qualquer coisa... Smith? Há de ver quem é. Pode ser-nos útil na Casa Branca uma pessoa que pensa tão corretamente e, além disso, é eloquente. - O seu olhar regressou à televisão. - Tomem todos atenção. A chamada vai começar.

            Já estava a começar, e Collins ouvia os nomes dos deputados e os seus sins e nãos. Dentro da sala, ouvia o diretor Tynan prever que seria uma corrida de cavalos. Atrás de si, ouvia a voz sussurrante de Steedman afirmar que o veredicto ainda ia demorar, pois a Assembléia tinha 150 membros.

            Porque ia demorar e porque estava cansado, Collins deixou a sua atenção deslizar da televisão. Concentrou-a em Tynan, de pé, com o rosto de bulldog afogueado pela ansiedade, os olhos enevoados, seguindo a votação. Olhou para trás, para o Presidente, cuja atitude era granítica, impassível, estática, como se estivesse a posar para uma escultura talhada no Monte Rushmore, absorvido pela televisão.

            Homens honestos e dedicados, pensou Collins. Pouco interessava o que os outros diziam - críticos como Ishmael Young, ou até reticentes como Karen. Estas pessoas eram seres humanos responsáveis. Sentiu-se bem dentro deste círculo de poder. Sentiu que lhe pertencia. Era uma sensação maravilhosa. Desejou poder agradecer à pessoa que ali o colocara: o coronel Baxter, que ali faltava, que jazia em coma no leito de um hospital em Bethesda.

            Collins tinha acreditado que devia tudo ao coronel Baxter, mas agora, pensando bem, viu que tinha sido uma série de acasos e de equívocos a elevá-lo à posição de Procurador-Geral. Era o filho mais novo e o coronel Baxter tinha sido companheiro de quarto em Stanfor e amigo íntimo do seu pai nos primeiros anos de luta pós-graduação. O pai de Collins, que sempre tinha desejado praticar advocacia, acabara por se lançar nos negócios, chegando a ser um abastado fabricante de acessórios eletrônicos. Collins lembrava-se do grande orgulho que o pai tinha por ele: o seu advogado. Tinha sempre mantido o coronel Baxter e outros amigos ao corrente dos progressos do filho e da sua crescente reputação na advocacia.

            Dois acontecimentos distintos, há já alguns anos, tinham atraído ainda mais a atenção do coronel Baxter para ele. Um foi a sua breve mas bem publicitada atividade como advogado da União das Liberdades Civis, em São Francisco. Tinha defendido com êxito os direitos civis de uma organização claramente fascista, porque acreditava na liberdade de expressão para todos. Tinha sido uma questão de princípios e não uma concordância de opiniões. Mas o coronel Baxter, um conservador, tinha ficado impressionado por razões enganosas. Pouco depois, quando servia como Procurador do distrito de Oakland, Collins tinha chamado a atenção nacional ao fazer condenar três assassinos negros que tinham cometido crimes particularmente horrendos. Isso tinha impressionado ainda mais o coronel, mostrando que ele não era um homem de coração fraco que procurava uma justiça mais compassiva para os negros que para os brancos. Só que a imprensa nunca tinha dito quais eram as verdadeiras opiniões de Collins: que esses negros criados na doença, na pobreza e no desemprego tinham sido as verdadeiras vítimas, vítimas da sociedade. Infelizmente, a lei não tinha disposições mitigadoras que contemplassem a infelicidade de possuir aqueles genes malfadados.

            Sim, foram esses fatos de primeira página que impressionaram o coronel Baxter. O fato de Collins, na advocacia privada em Los Angeles, ter também defendido com êxito os direitos e a vida de diversas organizações de negros e mexicanos, ter conseguido salvar o pescoço a dezenas de dissidentes brancos, tinha sido visto por Baxter como uma aberração da juventude ou uma ilusão da consciência de um jovem advogado em ascensão. Assim, apoiado nessas credenciais e na velha amizade do seu pai, Collins tinha sido chamado a Washington para se tornar Adjunto do Procurador-Geral Baxter e, devido às circunstâncias, devido ao mal arterial do coronel, acabara por ser Procurador-Geral dos Estados Unidos e parte deste grupo de elite. Os pensamentos que lhe dominavam o espírito pareceram-lhe estranhamente ruidosos e percebeu então que isso se devia ao estranho silêncio que reinava na sala. Começou a olhar à sua volta, quando viu subitamente o Presidente pular da cadeira e ouviu rebentarem aplausos calorosos em uníssono. Espantado, olhou para a televisão e para Karen, que não aplaudia e lhe sussurrou:

            - Acaba de passar. A Assembléia de Nova Iorque ratificou a 35.a emenda. Consegues ouvir o locutor? Está a dizer que agora já só falta um Estado para a emenda entrar em vigor. Ligarão para Columbus depois de um intervalo e de um breve resumo.

            Estavam todos de pé, jubilosos. Steedman encobriu momentaneamente a televisão enquanto dizia:

            - Parabéns, senhor Presidente. Temos de admitir que foi uma viragem, uma surpresa. As percentagens eram-nos favoráveis, mas não haviam nenhuma indicação para um resultado destes.

            O diretor Tynan apertou o ombro de Collins até lhe fazer doer.

            - Grande notícia, meu amigo, não acha? Grande notícia!

            - Vernon... - chamou o Presidente.

            - Sim, senhor Presidente.

            - Sabe o que nos deu a vitória? Sabe o que trouxe Nova Iorque para o nosso lado? Foi o último discurso feito por aquele deputado, o tal Smith. Aquele discurso foi perfeito. Era como se tivesse sido escrito por você.

            Tynan sorriu ironicamente.

            - Talvez eu o tenha escrito.

            Todos os que o ouviam, riram como se disfrutassem um segredo compartilhado. Collins também riu, porque não percebeu mas queria continuar a pertencer ao grupo.

            Uma voz aguda interrompeu-os:

            - O jantar volante está pronto - informava Miss Ledger, secretária particular do Presidente, dirigindo os convidados para o extremo oposto da mesa. - Está tudo preparado de maneira a poderem ficar com os pratos em cima dos joelhos. Não há facas, só garfos. É melhor servirem-se, antes que comece a votação de Ohio.

            Collins pegou no braço de Karen e levantaram-se. Podia ver a parte da mesa que tinha sido transformada em bufê. Ele e Karen eram quase os últimos da fila – quando chegou a altura de se servirem já os outros voltavam aos seus lugares. A votação do Ohio devia estar a começar na transmissão a cores.

            Pouco depois, com o prato repleto de febras de frango, salmão frio com molho de pepino, salada variada e fruta fresca - mas sem pão -, seguia Karen para junto do semicírculo de convidados que rodeavam o aparelho de televisão. Viu que o Presidente tinha tomado o seu lugar, por isso guiou Karen para as cadeiras de trás. Espreitou por entre os convidados que estavam à sua frente. Na tribuna da Câmara dos Representantes do Estado de Ohio, estava alguém a ler uma resolução. Collins desistiu de tentar ver e recostou-se para prestar atenção, enquanto comia as febras de frango.

            A voz no aparelho de televisão atroava:

            "Proposta de emenda à Constituição dos Estados Unidos para salvaguarda da segurança interna. Foi resolvido pelo Senado e pela Câmara dos Representantes dos Estados Unidos da América, reunidos no Congresso, concorrendo para tanto dois terços de cada órgão, propor uma emenda à Constituição dos Estados Unidos, que será válida para todos os fins e efeitos como parte da Constituição se for ratificada por três quartos das legislaturas dos diversos Estados. A referida emenda será a seguinte: As emendas à Constituição números 1 a 10 serão substituídas em caso de emergência nacional interna pela seguinte emenda: Secção 1. Número 1. Nenhum dos direitos ou liberdades garantidos pela Constituição podem ser tomados como permissão para pôr em perigo a segurança nacional. Número 2. Na eventualidade de perigo claro e imediato, uma Comissão de Segurança Nacional, nomeada pelo Presidente, deverá reunir-se em sessão conjunta com o Conselho de Segurança Nacional. Número 3. Considerando-se que a segurança nacional está em perigo, a Comissão de Segurança Nacional proclamará o estado de emergência e assumirá poderes plenipotenciários, sobrepondo-se à autoridade constitucional até o perigo em causa ter sido controlado e/ou eliminado. Número 4. O presidente da Comissão será o diretor do FBI. Número 5. A proclamação manter-se-á apenas durante o período em que se considerar que a emergência continua a existir, e terminará automaticamente com a declaração formal do fim da emergência. Secção 2. Número 1. Durante o período da suspensão, os restantes direitos e privilégios garantidos pela Constituição continuarão a ser invioláveis. Número 2. Todas as ações da Comissão deverão ser decididas por unanimidade."

            Collins já tinha lido várias vezes tudo aquilo, mas agora que o ouvia em voz alta soava-lhe mal. Aborrecido, recostou-se a petiscar.

            - Vão fazer a chamada na Câmara - disse o Presidente. - Está a começar a chamada nominal. Bem, são favas contadas. É certo. A emenda está no saco. Cá está, já começou. Estão a chamar os nomes dos noventa e nove deputados.

            Collins pousou o prato, e prestou novamente atenção. Podia ver os grandes planos dos diversos deputados da Câmara dos Representantes do Ohio premindo os botões das suas carteiras. Podia ver os votos a serem registados num dos dois grandes quadros das duas extremidades da Câmara. Sins e nãos a par e passo, muito próximos. A sala estava em silêncio, cortado apenas pelas interrupções momentâneas da voz do repórter da televisão que repetia as marcações. Os minutos corriam compassados. A votação prosseguia ininterrupta. O grande quadro indicava os votos. Sim. Não. Não. Não. Sim. Não. Sim. Não. Não.

            A voz do locutor sobrepôs-se à votação:

            ''Os nãos acabam de passar à frente. É uma surpresa. A ratificação parece estar comprometida. Apesar da propaganda e das sondagens, parece estar a dar-se uma viragem."

            Mais minutos. Mais votos. Tão subitamente como começara, tudo acabou. A 35.a emenda tinha sido posta de lado, rejeitada pela Câmara dos Representantes de Ohio.

           Houve resmungos e desabafos de desapontamento e desgosto por parte dos que estavam na sala. Inesperadamente, Collins sentiu o coração a bater mais depressa. Lançou um longo olhar de soslaio a Karen. Estava impassível, mas tentava esconder um sorriso. Collins franziu os sobrolhos e desviou o olhar.

            Começaram todos a levantar-se. Quase todos estavam de cara fechada. Confusos, muitos dos convidados reuniram-se à volta do Presidente.

            Encolhendo os ombros, o Presidente olhava para o conselheiro.

            - Pensei que eram favas contadas, Ronald. O que foi que correu mal?

            - Pelas sondagens tínhamos previsto uma vitória por margem confortável - respondeu Steedman. - Mas a última amostragem dos deputados foi feita há trinta e seis horas. Quem poderá dizer que variáveis entraram em jogo ou o que aconteceu entre os deputados durante as últimas trinta e seis horas?

            O ajudante do Presidente, McKnight, agitava o braço.

            - Senhor Presidente, o locutor... parece que ele vai dar uma explicação...

            O Presidente e os convidados, incluindo Collins, voltaram-se de novo para a televisão. De fato, o comentador parecia ter uma resposta.

            "...e acaba de chegar agora mesmo à nossa cabina esta informação. Ainda não a pudemos confirmar, mas vários deputados indicaram ao nosso repórter presente no plenário que na noite passada e hoje de manhã houve uma campanha intensiva, um esforço relâmpago de Anthony Pierce, ou Tony Pierce, o dirigente do DDD, o grupo nacional conhecido como Defensores da Declaração de Direitos, que só há cerca de um mês iniciou a campanha entre os legisladores dos últimos Estados a votarem a emenda e que acaba de obter um êxito retumbante em Ohio. Dizem-nos que às onze horas, Pierce encontrou-se com muitos indecisos e até com defensores da emenda, apresentando-lhes documentação demonstrativa de que a emenda causaria danos irreparáveis ao país, e parece ter sido coroado de êxito na tentativa de arrastar consigo um número suficiente para rejeitar a emenda, a qual, ainda há uma hora, parecia imbatível em Ohio. Tony Pierce, como muitos espectadores devem recordar-se, é um antigo agente do FBI que se tornou famoso como escritor, advogado e defensor dos direitos civis. A sua história..."

            Uma voz rouca baixou o som da televisão:

            - Já conhecemos a sua história!-rosnou o diretor Tynan, pulando para a frente da televisão, apontando-lhe o punho. - Sabemos tudo sobre esse filho de uma cadela!

            Deu meia-volta, com o rosto afogueado, observando os outros e fixando depois o Presidente.

            - Desculpe a minha linguagem, mas conhecemos demasiado bem o pulha desse Pierce. Sabemos que encabeçou um grupo de ativistas radicais na Universidade de Wisconsin. Sabemos como ganhou uma medalha que não merecia em Vietnã. Sabemos como conseguiu furar até ao FBI, fingindo-se herói de guerra, mentindo até ao nosso grande diretor Hoover que o tentou ajudar. Sabemos que era negligente no cumprimento do dever: soltando criminosos que devia prender, intelectualizando os relatórios, tentando valorizar-se, insubordinando. Foi por isso que corri com ele do FBI. Sabemos os nomes dos quatro grupos radicais a que a mulher pertence. Sabemos que um dos seus filhos teve um filho fora das relações matrimoniais. Sabemos de pelo menos nove organizações subversivas que a sua firma legal representou. Conhecemos Tony Pierce por dentro e por fora, e sabíamos que ele nada valia antes de tudo isto começar. Devíamos ter acabado com ele assim que encabeçou o DDD. Mas não o fizemos porque não queríamos dar a um antigo agente do FBI tão más referências, porque não queríamos prejudicar a imagem do Serviço, e além disso nunca pensamos que alguém pudesse tomar a sério um mistificador tão desprezível.

            - Não se importe, Vernon, os cães ladram e a caravana passa disse o Presidente, tentando acalmá-lo. - O mal que ele tinha a fazer já está feito, se é que é ele realmente o responsável. Agora o que é preciso é não deixarmos isto acontecer outra vez.

            Observando a cena, Chris Collins descobriu-se embaraçado e confundido. Tinha ficado surpreso com a explosão inicial de Tynan. Esta tinha sido venenosa e revelara uma faceta inquisitorial do diretor do FBI que Collins ainda não conhecia.

            Collins tinha pegado no braço de Karen, como se quisesse compartilhar com ela a sua perturbação, quando viu o Presidente dirigir-se-lhe. Largando a mão de Karen, abriu caminho por entre McKnight e o dirigente da maioria do Senado para se juntar ao Presidente, que já estava acompanhado por Tynan.

            Por instantes, o Presidente ficou a friccionar o queixo pensativamente.

            - Bem, meus senhores, ganhamos uma inesperadamente e perdemos outra também inesperadamente. Isto mostra-lhes como o país é volúvel. Mas não podemos deixar que isto aconteça de novo. Já só falta um Estado. Todas as nossas esperanças se jogam na Califórnia. Daqui a um mês. - Fez uma pausa. - Não tenho prestado muita atenção às sondagens dessa costa. Ronald diz-me que vamos à frente na sondagem do Estado Dourado. Isso não me chega. A Califórnia deve preocupar-nos. Sabem bem como eles são imprevisíveis. É a nossa última oportunidade e jogo tudo nela. Quero que você, Vernon, e você, Chris, dêem tudo o que puderem neste caso. Temos de ganhar.

            Collins e Tynan assentiram energicamente com a cabeça. O Presidente puxou outro charuto e esperou que Tynan lhe acendesse. Soprando o fumo, virou-se para Collins.

            - Tenho uma idéia para começar, Chris. Você veio da Califórnia, não é verdade?

            - Sim, é verdade. Sou da região da Baía, mas também exerci advocacia em Los Angeles.

            - Ótimo. Penso que será útil voltar lá daqui a uma ou duas semanas. Pode fazer um trabalho sutil e efetivo para a causa.

            - Bem - disse Collins perturbado -, não sei se terei assim tanta influência. O único filho da terra realmente popular (é praticamente um ídolo na Califórnia) é o Presidente do Supremo Tribunal Maynard.

            O Presidente abanou negativamente a cabeça.

            - Não, Maynard não serve. Soube de fontes seguras que ele não está do nosso lado. Além disso, não é ativo. Mas mesmo que assim não fosse, não ficaria bem o Presidente do Supremo pronunciar-se numa questão política como esta.

            - Graças a Deus que assim é - interrompeu Tynan. - Eu não confiaria nele num verdadeiro problema legal como o da 35.a emenda.

            - Não precisamos de Maynard - continuou o Presidente, dirigindo-se a Collins. - Mas talvez precisemos de si. E não se deve subestimar, Chris. Você é o Procurador-Geral, e isso ainda tem algum valor. As pessoas de bem ouvi-lo-ão. Sim, agrada-me a idéia de o mandar para a Califórnia. Podemos arranjar um motivo para a sua ida. Deixe-me pensar nisso.

            Embora a idéia lhe desagradasse, Collins sabia que não se atreveria a resistir.

            - Farei o que desejar. Se achar que é importante...

            - Terrivelmente importante - intrometeu-se Tynan. - Não há nada mais importante. Já o disse mil vezes e continuo a repeti-lo. Trata-se da peça legislativa mais importante que jamais foi votada pelos Estados. Sem ela, teremos... ou melhor, deixaremos de ter um país.

            - Vernon tem razão - disse o Presidente. - Precisamos de alguém na Califórnia. Ou você ou... talvez uma outra figura de peso que esteja na Administração há mais tempo. - Fez uma pausa, depois acrescentou com ênfase: - Não vamos perder neste Estado. Não o permitirei. Não deixarei que as coisas corram como até agora. Hoje de manhã fui à Sala Este para ver o andamento dos trabalhos que lá estão a fazer. Que destruição, que vergonha! Quando já nem a casa do Presidente está a salvo, estamos muito mal. E pode acontecer novamente. Sabem dos pastores alemães e dos Doberman que me fizeram soltar nos jardins? Medidas de segurança, disseram-me. Pois na noite passada perdemos o sexto por causa dos atiradores emboscados. Agora até já me aconselham a deixar instalar uma rede elétrica à volta da Casa Branca, isolando-me, tornando-me prisioneiro dentro da minha própria casa, tal como os cidadãos honestos deste país que foram forçados a confinar-se atrás de fechaduras elétricas e alarmes. Pois bem, meus senhores, não permitirei isso. Vamos fazer regressar a civilização a esta nossa terra com a 35.a emenda. E vamos consegui-lo ganhando na Califórnia.

            - Amém - disse Tynan.

            Nesse momento surgiu miss Ledger.

            - Desculpe-me, senhor Presidente... Senhor Collins, o seu guarda-costas está à porta. Tem de lhe falar. Diz que é urgente.

            - Obrigado - disse Collins. Voltou-se para o Presidente. - Estou pronto a fazer o que for preciso.

            - Dir-lhe-ei na próxima semana. Agora é melhor ir tratar dos seus assuntos.

            Depois de ter ido buscar Karen para agradecerem o serão ao Presidente, Collins despediu-se formalmente dos convidados que estavam mais perto.

            Precedendo Karen, atravessou apressadamente a sala em direção à porta, onde o guarda-costas, o agente Mike Hogan, o esperava.

            - Que se passa - perguntou Collins quando chegou junto dele.

            - É por causa do coronel Noah Baxter - respondeu Hogan em surdina. - Saiu do estado de coma. Está consciente, mas à beira da morte.

            - Diabos, é terrível. Tem certeza?

            - Absoluta. Não restam dúvidas. A chamada foi feita pela própria senhora Baxter para o Departamento de Justiça, de onde me ligaram para o carro. As primeiras palavras do coronel Baxter, assim que recobrou a consciência, foram para dizer que o queria ver. Que tinha de o ver. Deve ser qualquer coisa urgente. Quer dizer-lhe qualquer coisa importante. A senhora Baxter pediu-me veementemente que o levasse até junto dele antes que fosse demasiado tarde.

            Collins pegou no braço de Karen e dirigiu-a para o corredor.

            - Bem, vamos então para Bethesda. É melhor não perdermos tempo. - Olhou para Karen. - Não tenho a menor idéia do que será.

            O Cadillac tinha seguido a uma velocidade estonteante para norte, pela Avenida Wisconsin, cruzou a linha Maryland, deixou para trás o campo de golfe de Chevy Chase, abrandou no movimentado centro de Bethesda, entrou pela sinuosa rua de acesso ao hospital, e estacou em frente da entrada principal da torre branca que era o edifício central do complexo formado pelo Centro Médico Naval Nacional de Bethesda.

            Pedindo a Karen que ficasse no carro com Hogan e Pagano, o condutor, Chris Collins apressou-se a entrar no edifício. A entrada, foi interceptado por um oficial da marinha que usava dois galões na camisa aberta.

            - Procurador-Geral Collins?

            - Sim.

            - Siga-me, por favor. É no quarto andar.

            Enquanto subiam no elevador, Collins perguntou:

            - Como está o coronel Baxter?

            - Quando desci, há vinte minutos, estava preso por um fio, lamento dizê-lo.

            - Espero chegar a tempo. Quem está a acompanhá-lo?

            - A esposa, é claro. E o pequenito neto, Rick Baxter. Ficou com os avós enquanto os pais estão no Quênia em serviço oficial do Governo. Tentamos contatar com eles hoje à noite, mas não conseguimos. Estão também presentes dois médicos e uma enfermeira de serviço. Ah, quase me esquecia... está lá também o padre Dubinski. É da igreja da Santíssima Trindade de Georgetown, a igreja que os Kennedy frequentavam... Cá estamos.

            Enquanto percorriam rapidamente o corredor, passaram por vários oficiais médicos de uniforme. Para Collins, Bethesda assemelhava-se mais a uma instituição militar que a um hospital.

            Quando chegaram a um quarto privativo que tinha a porta aberta, o guia de Collins apontou-lhe a entrada.

            - É aqui. O coronel tem dois quartos adjacentes: este serve de sala de estar, ele está no outro.

            Ao entrar na sala de estar temporária, que estava vazia, Collins ouviu um leve soluçar, virou-se e viu que a porta do outro quarto estava entreaberta. Conseguia ver apenas uma parte da cama, mas a sua atenção centrou-se no quadro que se lhe deparava num canto obscuro. Lá estava a encanecida Hannah Baxter, por quem tinha o maior respeito, sentada numa cadeira, de lenço nos olhos, soluçando inconsolavelmente. Lá estava também o rapaz, o neto, Rick (que tinha doze anos, recordou-se Collins), agarrando-lhe o pulso, de ar pálido, atônito, choroso. Observando-os estava um padre vestido de negro.

            - Espere aqui, por favor - pediu o oficial que o escoltara. - vou dizer-lhes que já chegou.

            Desapareceu no quarto contíguo, fechando a porta atrás de si.

            Collins procurou um cigarro, acendeu-o com o isqueiro e vagueou nervosamente pelo quartinho sombrio. Pôs-se a pensar, pela décima vez, no que teria de tão urgente o coronel Baxter para lhe dizer na sua última noite na terra. Embora Collins conhecesse relativamente bem o coronel e a mulher de convites sociais fortuitos, nunca tinha sido um amigo íntimo e grande parte da sua relação com o coronel tivera apenas um caráter de trabalho. Que poderia o coronel ter para lhe dizer num momento fatal como aquele?

            A porta do quarto abriu-se, Collins deitou fora automaticamente o cigarro e esperou, rígido. O oficial, que não voltou a encará-lo, saiu, seguido pela enfermeira e pelo rapazito. Passaram por Collins sem se lhe dirigirem e saíram para o corredor. Segundos depois, a porta do quarto foi preenchida por uma figura de indumentária negra. Era obviamente o padre Dubinski, da igreja da Santíssima Trindade.

            Enquanto fechava a porta cuidadosamente mas com firmeza, o padre acenou em silêncio para Collins, e atravessou o quarto para fechar a porta do corredor. Collins observou-o: um homem pequeno, entroncado, tranqüilo, o clérigo, com cabelo negro espetado, olhos azuis espantosamente brilhantes, maçãs do rosto cavadas, boca bem desenhada; um homem talvez de quarenta e tal anos.

            - Senhor Collins? Sou o padre Dubinski - tinha chegado junto de Collins e olhava para o chão.

            - Sim, eu sei - disse Collins. - Estava na Casa Branca quando recebi a mensagem de Hannah... da senhora Baxter, dizendo que o coronel estava moribundo, que me queria ver urgentemente, que tinha qualquer coisa importante para me dizer. Vim o mais depressa que pude. Ele está consciente? Posso vê-lo?

            O padre pigarreou.

            - Receio bem que não. Lamento ter de lhe dizer que é tarde demais. O coronel Baxter morreu ainda não há dez minutos. - Fez uma pausa. - Que a sua alma descanse em paz por toda a eternidade.

            Collins não sabia o que dizer.

            - É... é uma tragédia - disse finalmente. - Morreu há dez minutos? Nem posso crer.

            - Infelizmente, é verdade. Noah Baxter era um bom homem. Sei o que sente, porque também é isso que sinto. Mas, mais uma vez, foi feita a vontade de Deus.

            - Sim - concordou Collins.

            Não sabia se seria próprio, neste momento de luto, tentar descobrir porque teria o coronel solicitado a sua presença. Mas próprio ou não, ele sabia que tinha de perguntar.

            - Ah, padre, o coronel estava lúcido antes de morrer? Era capaz de falar?

            - Falou um pouco.

            - Disse a alguém, a si ou à senhora Baxter, para que me queria ver?

            - Não, não o fez. Limitou-se a informar a esposa que era urgente vê-lo, falar-lhe.

            - E não disse mais nada?

            O padre mexeu nervosamente no rosário.

            - Bem, depois disso falou por instantes comigo. Avisei-o de que estava presente para lhe administrar os sacramentos da Reconciliação, Extrema Unção e Viático se ele o desejasse. Ele pediu-me que lhe desse esses sacramentos e pude fazê-lo a tempo de o reconciliar com Deus Todo Poderoso, como bom católico. Instantes depois, fechava os olhos para sempre.

            Collins decidiu interromper a dissertação espiritual.

            - Padre, quer dizer que ele fez uma confissão final?

            - Sim, ouvi-o em confissão final.

            - E havia alguma coisa nessa confissão que me possa dar uma pista, uma idéia sobre o que ele me queria dizer com tanta urgência?

            O padre Dubinski cerrou os lábios.

            - Senhor Collins - replicou amavelmente -, a confissão é confidencial.

            - Mas se ele lhe disse qualquer coisa que queria que eu soubesse...

            - Não posso permitir-me um juízo sobre o que seria para si e o que seria para Deus. Repito: a confissão do coronel Baxter terá de permanecer confidencial. Não posso revelar nenhuma parte dela. Agora tenho de voltar para junto da senhora Baxter. - Fez uma pausa. - Desculpe-me mais uma vez, senhor Collins.

            O padre encaminhou-se para a porta do quarto contíguo e Collins saiu lentamente para o corredor.

            Minutos depois já abandonara o hospital e sentava-se ao lado de uma Karen ansiosa. Ordenou ao condutor que os levasse para casa, para McLean.

            Quando o automóvel começou a andar, virou a cabeça para Karen.

            - Cheguei demasiado tarde. Já estava morto.

            - É terrível. Soubeste... descobriste o que ele te queria dizer?

            - Não, não faço a menor idéia. - Afundou-se mais no assento, preocupado e pensativo. - Mas tenciono descobrir... seja como for. Para que quereria ele desperdiçar as últimas palavras comigo? Eu nem sequer era um amigo íntimo.

            - Mas és o Procurador-Geral. Sucedeste-lhe no cargo.

            - Era precisamente nisso que eu estava a pensar - disse Collins quase de si para si. - Devia ser qualquer coisa desse tipo. Devia ser relativo ao cargo. Ou a um assunto nacional. Ou uma coisa ou outra. Qualquer coisa que devia ser importante para todos nós. Ele disse que era importante quando me mandou chamar. Não posso deixar o caso em aberto. Ainda não sei como, mas hei de saber o que ele me queria dizer.

            Sentiu a mão de Karen apertar-lhe o braço.

            - Não, Chris, não te deixes envolver mais. Não te consigo explicar, mas isso assusta-me. Não gosto de viver assustada.

            Ele olhou para a noite através da janela.

            - E eu não gosto de viver com mistérios - retorquiu.

 

 

            Enterraram o coronel Noah Baxter, anterior Procurador-Geral dos Estados Unidos, numa fria manhã de Maio num dos poucos espaços livres do cemitério Nacional de Arlington, do outro lado do rio Potomac, em Washington. Parentes, amigos, membros do governo, o próprio Presidente Wadsworth, estiveram junto da sepultura enquanto o padre Dubinski entoou a oração final.

            A cerimônia já acabara, e os vivos, cheios de tristeza, empreenderam o caminho de regresso para os trabalhos da vida.

            O diretor Vernon T. Tynan, o seu vigoroso e atarracado assistente, o diretor-adjunto Harry Adcock, e o Procurador-Geral Christopher Collins, que tinham vindo juntos para a cerimônia, saíam agora também juntos. Caminharam em silêncio pela Avenida Sheridan, passando pelos jazigos de Pierre Charles L'Enfant e do general Philip H. Sheridan, pela chama eterna que arde sobre a sepultura de John F. Kennedy, em direção ao carro oficial à prova de bala de Tynan.

            O silêncio só foi quebrado uma vez, por Tynan, quando passaram por um grupo de lápides da Guerra Civil.

            - Vêem estas lápides de unionistas e confederados? - perguntou Tynan, apontando. - Sabem como se podem distinguir as da União e as da Confederação? Os mortos da União têm lápides com a parte superior arredondada. Os mortos confederados têm lápides com a parte superior pontiaguda... Afiada, diziam eles, "para evitar que o diabo dos ianques se sentem sobre elas". Sabem quem me contou isto? Noah Baxter. O velho Noah Baxter contou-me um dia que por aqui passávamos como hoje, vindos do funeral de um qualquer general de três estrelas. - Resfolegou. - Suponho que Noah Baxter nunca imaginou que estaria aqui tão cedo. - Virou o rosto para o céu. Parece-me que temos chuva para todo o dia. Bem, o melhor é voltarmos ao trabalho.

            Tinham chegado ao carro de Tynan, onde um agente mantinha a porta de trás aberta. Harry Adcock entrou, seguido por Tynan e Collins.

Instantes depois já tinham saído pelo grande portão do cemitério à memória de Arlington, seguindo pela ponte dos mortos da Guerra Civil, passando pelas estátuas dos cavalos que ladeavam o extremo da ponte e seguindo para a cidade.

            Tynan foi o primeiro a reatar a conversa.

            - Vou sentir a falta do velho Noah. Não fazem idéia de como éramos íntimos. Eu gostava do pobre velho.

            - Era boa pessoa - concordou Adcock, que em público era geralmente um eco do seu superior.

            - Também sentirei a sua falta - acrescentou Collins para não ficar atrás. - No fundo é por causa dele que hoje estou onde estou.

            - Sim - disse Tynan. - Só tenho pena que ele não tenha aguentado por cá o suficiente para ver os frutos do seu trabalho para criar a 35.a emenda. Toda a gente julga que ela partiu do Presidente, mas, na verdade, foi Noah o responsável pela sua criação. Acreditava nela como numa religião que nos podia salvar. Devemos-lhe a aprovação na Califórnia.

            - Tentarei - disse Collins.

            - Temos de fazer mais do que tentar, temos de ter certeza de ganhar - lançou a Collins um olhar calculador. - Sei que o velho Noah contaria consigo, Chris, para lhe dar um empurrão na ponta final como ele próprio faria se cá estivesse. Digo-lhe, Chris, que o coronel Noah Baxter considerava a aprovação da emenda como o assunto de maior prioridade e urgência.

            Sentado no banco traseiro do automóvel, apertado contra a chapa de aço pelo corpo transvazante de Tynan, Collins apanhou a palavra urgência. O seu espírito recordou instantaneamente a cena noturna no hospital, quando o padre lhe confirmara que o coronel Baxter lhe tinha querido falar sobre qualquer coisa urgente. Seria a respeito da 35.a emenda? Posteriormente, Collins tinha dito à mulher que não gostava de mistérios, que tencionava solucionar este. Nessa altura não tinha a menor idéia sobre por onde começar. Agora, parecia já ter um ponto de partida. Talvez Tynan, que tinha sido amigo íntimo do coronel, pudesse auxiliá-lo, dar-lhe uma pista.

            - Veron - disse Collins-, a propósito das prioridades do coronel, sei de uma coisa que talvez tenha interesse e que se passou na noite em que estivemos na Casa Branca. Foi muito estranho. Lembra-se que tive de sair à pressa? Bem, foi porque recebi uma mensagem de Bethesda dizendo que o coronel estava moribundo e que me queria falar sobre um assunto urgente, para me dizer qualquer coisa de importância vital. Corri para o hospital e fui ao quarto dele. Mas já era demasiado tarde. Ele tinha morrido poucos minutos antes.

            - Ah, sim? - disse Tynan. - É realmente estranho. E descobriu o que é que ele tinha de tão importante para lhe dizer?

            - Aí é que está o problema. Não soube. As últimas palavras, pouco antes de morrer, não foram para mim mas para o padre. Confessou-se ao padre, aquele que estava hoje em Arlington, o padre Dubinski. Quando o padre me disse isso, pensei que talvez nos últimos momentos o coronel tivesse contado qualquer coisa do que me queria dizer. Mas o padre não conta. Limitou-se a dizer que o ouvira em confissão e que as confissões são confidenciais.

            - E são - intrometeu-se Adcock.

            - O que eu gostava de saber - continuou Collins -, é se tem alguma idéia sobre a informação que o coronel me queria comunicar: algum assunto por terminar no Departamento que possa ter discutido consigo, algum programa de trabalho que eu devesse conhecer. Estou deveras intrigado.

            Tynan fixou os olhos nas costas do motorista por uns instantes.

            - Lamento, mas a mim também me intriga. Não faço idéia do que Noah pretenderia. Não estou a ver nada importante que tenhamos discutido antes do ataque de há cinco meses. Só lhe posso repetir o que ele achava mais importante. Das milhares de coisas em que estava envolvido, uma dominava todas as outras: era ver a 35.a emenda ratificada e fazer dela lei. Talvez o que ele lhe queria dizer tivesse a ver com isso.

            - Talvez. Mas exatamente o quê sobre a 35.a emenda? Tinha de ser qualquer coisa de especial para me chamar ao seu leito de morte.

            - É claro que ele não sabia que estava a morrer. Portanto, talvez não fosse nada de especial.

            - Ele disse que era urgente - insistiu Collins. - Eu até estava a pensar em voltar a falar com o padre e fazer outra tentativa.

            Adcock inclinou-se por cima de Tynan. O seu rosto, marcado pelo acne, estava solene.

            - Se conhecesse os padres tão bem como eu, saberia que é tempo perdido. Só Deus pode tirar alguma coisa deles.

            - Harry tem razão - concordou Tynan. Inclinou-se e espreitou pela janela. - Ora, cá estamos no Departamento de Justiça. De novo em casa.

            Collins olhou para o exterior.

            - Sim. São horas de trabalhar. Obrigado pela carona.

            Abriu a porta e saiu para a Avenida da Pensilvania, em frente do Departamento.

            - Chris - chamou Tynan -, é melhor ir preparando as malas. O Presidente ainda está a pensar em mandá-lo para a Califórnia na próxima semana. Está apenas a tentar decidir-se.

            - Assim que ele me disser para ir, eu parto.

            Tynan e Adcock observaram Collins a entrar no edifício enquanto o automóvel os conduzia às traseiras do edifício J. Edgar Hoover e ao estacionamento privativo do diretor no segundo dos três andares do subsolo.

            Enquanto o veículo rodeava o prédio e entrava na Rua E, os olhos de Tynan encontraram os de Adcock.

            - Ouviu bem o que ele disse, não ouviu, Harry?

            - De ponta a ponta, chefe.

            - Que lhe parece que o velho Noah lhe queria dizer de tão urgente para ter de ser comunicado antes de morrer?

            - Não tenho idéia, chefe - respondeu Adcock. - Ou talvez até saiba, mas não quero saber.

            - Talvez eu também saiba. Parece-lhe que Noah Baxter foi apanhado pela religião no último minuto e quis despejar o saco?

            - Pode ter sido isso. Não posso ter certeza. Quem sabe... Graças a Deus que não teve tempo de dar à língua.

            - Mas fê-lo, Harry. Você bem ouviu. Ele confessou qualquer coisa ao padre.

            - Apre, chefe, mas isso era uma confissão. Um moribundo que se confessa não fala de... de negócios.

            Tynan ficou carrancudo.

            - Não podemos estar tão certos. Chame-lhe o que quiser, uma confissão ou seja lá o que for, mas o fato é que Noah falou a alguém sobre o que o preocupava quando estava a passar desta para melhor. Falou, percebeu? Queria falar a alguém sobre qualquer coisa urgente e acabou por falar. Não me agrada. Quero saber sobre que falou Noah e quanto falou. Tenho o maior interesse em saber.

            O Cadillac mergulhou na rampa que levava às caves do edifício. Adcock pegou num lenço, tossiu e expectorou para dentro dele.

            - É um caso complicado, chefe - disse finalmente.

            - Todos eles são complicados, Harry. Passado algum tempo já não são tanto. Sejamos honestos, Harry: os casos complicados são o pão nosso de cada dia. Era o patrão, Edgar Hoover, que costumava dizer isso. Existimos por causa deles. São eles que nos sustentam. A função do FBI é fazer as pessoas falarem. Especialmente quando estão na posse de informações que põem em perigo a segurança do governo. Não há razão para que esse padre... chame-se lá como se chamar...

            - Padre Dubinski, da Santíssima Trindade de Georgetown. É onde vão todos os católicos do governo.

            - Pois bem, é aí mesmo que eu quero que vá, Harry. O FBI faz as pessoas falarem, e não vejo porque haveria esse Dubinski de ser uma exceção. Acho que é altura de ir a essa igreja. Faça uma visita amigável ao bom padre. Descubra quais foram as últimas palavras que Noah Baxter lhe disse. Descubra o que Dubinski sabe. Se ele souber alguma coisa que não deve, arranjaremos maneira de o calar. Harry, quero que trate já disso.

            - Chefe, sabe que eu faço tudo o que for preciso. Mas neste caso, não me parece que tenhamos hipóteses.

            - Ah, não? Pois eu digo-lhe que temos todas as hipóteses. De fato, até lhe digo que não pode falhar se tratar corretamente do caso. Pelo amor de Deus, Harry, não lhe estou a pedir que lá vá desarmado. Primeiro ponha o Departamento a fazer uma investigação rigorosa sobre o padre. Esses amantes de Deus não são diferentes dos outros homens. Você conhece o nosso axioma. Todas as pessoas têm qualquer coisa a esconder. O padre está nessa situação. Ele é humano. Deve ter vícios. Ou teve-os. Talvez se embriague às escondidas. Talvez tenha abusado de um menino de coro. Talvez se meta na casa de banho com a criada de dezoito anos para a maltratar. Talvez a sua mãe fosse comuna. Há sempre qualquer coisa. Vá ter com esse amante de Deus e leve-lhe aquilo que ele não confessou, atire-lhe à cara. Verá que ele fala. Nem vai ser capaz de o calar. Ele dará qualquer coisa em troca do nosso silêncio.

            O Cadillac tinha chegado à segunda cave, parando no lugar reservado.

            Tynan ficou por instantes a olhar em frente, estático.

            - Estou a falar muito a sério, Harry. Estamos demasiado perto da meta para permitir obstáculos. Apague a sua ardósia. Isto tem prioridade absoluta. Certo, Harry?

            - Certo, chefe. Está entendido.

            Vernon T. Tynan trabalhou à secretária até duas horas depois do funeral. Depois, precisamente ao meio-dia e quarenta e cinco, levantou-se da cadeira, foi ao banheiro privativa arranjar-se, retirou do arquivo ultra-secreto uma pasta do ficheiro Oficial e Confidencial, e caminhou apressado para o elevador.

            Lá embaixo, no segundo piso subterrâneo, entre a secção de balística e o ginásio, encontrou o motorista e o carro ainda à espera.

            - Alexandria - disse Tynan ao motorista.

            - Sim, chefe - respondeu o condutor automaticamente, e segundos depois estavam a caminho.

            Era sábado. E todos os sábados a essa hora, como sempre fizera desde que se tornara diretor do FBI, Tynan respeitou o ritual sagrado de ir almoçar com a mãe ao bairro dos Cidadãos dos Anos Dourados.

            Soubera, alguns anos depois da morte de J. Edgar Hoover, que o Velhote tinha vivido com a mãe até esta morrer em 1938. Hoover tinha tratado a mãe com carinho e respeito, exemplo que Tynan tomou a sério. Os grandes homens - sabia-o bem - sempre tiveram um grande lugar no coração para as suas mães. Não só Hoover. Veja-se também Napoleão. O mal do país era já não haver jovens, nem mesmo adultos, em número suficiente a prestar o devido respeito às mães. Haveria menos criminalidade no país se os jovens irrequietos começassem a visitar regularmente as mães, em vez de se ocuparem das armas, todos os sábados à noite.

            Quando chegaram ao bairro, Tynan apeou-se em frente do edifício em que comprara um confortável apartamento de quatro divisões para a mãe, e lembrou ao motorista:

            - Uma hora.

            - Uma hora, chefe.

            Tynan entrou no edifício e dirigiu-se para a porta do apartamento, à esquerda. Tinha uma chave normal e uma chave do alarme. Premiu o botão vermelho do alarme para ver se estava a funcionar. Não estava. Teria de lembrar-lhe novamente que deixasse o alarme ligado mesmo estando em casa. Nenhuma precaução era demais, especialmente nesta época de bandidos, assassinos e terroristas esquerdistas. Não estava fora de causa que conspiradores revolucionários tentassem apoderar-se da mãe do diretor do FBI para pedirem um resgate inadmissível, como a exigência de libertação das centenas de esquerdistas atualmente encarcerados nas penitenciárias federais (que era onde deviam estar). Sim, tinha de alertar a mãe peremptoriamente.

            Meteu a chave na porta, abriu-a e entrou. Encontrou-a no lugar do costume: a cadeira almofadada em frente da televisão a cores.

            - Olá, mamã - disse.

            Ela agitou a mão raiada de veias, sem sequer o olhar, profundamente concentrada nas palhaçadas que a televisão transmitia. Apesar de ela estar embrenhada no seu concurso favorito, Tynan aproximou-se e deu-lhe um beijo leve na testa coberta de pós. Ela correspondeu com um sorriso rápido e levou o indicador aos lábios, dizendo:

            - O almoço já está pronto. Isto está quase a acabar. Despe o casaco.

            Voltou a prestar atenção ao programa, levou as mãos às ancas e riu à gargalhada. Tynan pousou a pasta, tirou o casaco e colocou-o cuidadosamente nas costas de uma cadeira. Retirou um charuto do bolso do peito, desembrulhou-o, cortou-lhe a ponta e acendeu o isqueiro sem deixar a chama tocar no tabaco (como o Presidente fazia sempre), inalando e saboreando o aroma.

            Ficou ao lado da mãe, a fumar e a ver o programa totalmente oco. Depois contemplou a mãe com orgulho.

            Tinha feito muito por ela. Se J. Edgar Hoover o pudesse ver neste momento, tê-lo-ia louvado. Aos oitenta e quatro anos, Rose Tynan ainda estava sã como uma abcassiana - não, nada de lugares comuns -, sã como uma camponesa vilcambana - sim, isso sim. Era uma irlandesa dos pés à cabeça: ombros largos, forte, com o aspecto nutrido de uma batata irlandesa. Atendendo à idade, estava bem conservada, excetuando um ligeiro encurvar das costas, o coxear artrítico e ocasionais falhas de memória.

            Por fim, o concurso acabou. Rose Tynan levantou-se, gemendo, apagou a televisão, pegou no filho pelo braço, conduziu-o para a pequena casa de jantar e sentou-o à cabeceira da mesa.

            - O almoço já aí vem - disse ela.

            - Mamã, o alarme estava desligado quando eu entrei. Devia tê-lo sempre a funcionar. Para minha tranqüilidade.

            - Às vezes esqueço-me. Vou tentar tomar mais atenção.

            - Nunca se esqueça.

            - Como vão as coisas lá pelo serviço?

            - Como de costume. Muito que fazer.

            - Não te vou prender por muito tempo.

            - Mamã, eu estou aqui porque quero. Gosto de a visitar.

            - Então passemos a almoçar juntos duas vezes por semana.

            Desapareceu na cozinha e voltou com uma travessa de carne de conserva com couves. O almoço habitual - que também tinha sido o do Velhote - era canja de galinha e queijo caseiro. Mas hoje era sábado.

            - Cheira tão bem, mamã.

            - Há pão na mesa. Pão integral. Come um bocado. Tens certeza que não queres uma fatia maior? Ah, lá me esqueci da cerveja.

            Foi à cozinha e voltou com uma caneca de cerveja cheia de espuma. Colocou a cerveja diante dele e deixou-se cair ruidosamente na cadeira.

            - Então, Vern, que tal foi a manhã?

            - Não foi das mais alegres. Acompanhei o funeral de Noah Baxter.

            - O funeral foi hoje? Sim, é verdade.

            - Foi hoje de manhã.

            - Pobre Hannah Baxter. Bem, pelo menos tem o filho e o neto. Tenho de a convidar.

            - Deve, mamã.

            - Falo com ela amanhã. Como está a carne? Tem muita gordura?

            - Está ótima, mamã.

            - Ainda bem. Então, conta-me novidades.

            - Comece a mamã.

            Caíram na imutável rotina de sábado.

            Rose Tynan começou. Contou as últimas intrigas sobre os vizinhos do bairro. A meio da semana tinha havido um filme sobre um homem, um órfão e um cão. Ela fez uma extensa sinopse do argumento. Depois falou das cartas que tinha escrito e das que recebera.

            Chegou a vez de Vernon T. Tynan. Falou de Harry Adcock.

            - Como está ele?

            - Manda cumprimentos.

            - É um bom rapaz.

            Falou de Christopher Collins, o novo Procurador-Geral.

            - É boa pessoa, Vern?

            - Ainda não sei, mamã. Veremos.

            Falou do Presidente Wadsworth. Contou a história de dois assassinos da lista dos dez mais procurados que tinham sido presos em Minneapolis e Kansas City. Chegou à 35.a emenda quando comia a última garfada da escassa carne.

            - Não te preocupes, Vern. Vais ganhar.

            - Precisamos demais um Estado e já só resta um.

            - Vais ganhar.

            O almoço acabou à hora do costume. Sobravam dez minutos até à chegada do motorista.

            - Está pronta para o ficheiro confidencial, mamã?

            - Estou sempre pronta - respondeu ela com um largo sorriso. Ele levantou-se da mesa, foi à sala de estar e trouxe o ficheiro ultra-secreto Oficial e Confidencial. Esse ficheiro era, nos dez minutos seguintes, a sua prenda dos sábados para a mãe. O ficheiro continha as informações semanais do FBI, em grande parte assuntos sexuais e potencialmente escandalosos, relativos a celebridades do teatro, do cinema e do mundo do desporto, com um sumarento acepipe adicional sobre uma série de políticos, industriais e espiões da indústria famosos. Rose Tynan, que lia todas as revistas sobre estrelas do mundo do espetáculo e todos os semanários nacionais, deliciava-se com o lavar da roupa suja.

            Tynan sentiu novamente que se J. Edgar Hoover ali estivesse teria aprovado. Afinal de contas, fora Hoover quem recolhera informações sobre a vida sexual e o alcoolismo de americanos proeminentes, entregando regularmente esse material secreto ao Presidente Lyndon B. Johnson, para que o chefe do executivo tivesse umas horas de leitura deleitada ao deitar.

            Tynan abriu a pasta e retirou um a um os memorandos confidenciais.

            - Para começar, um verdadeiro regalo, mamã. A sua estrela de cinema preferida. - Ele leu o nome do simpático ator liberal que a sua mãe adorava e ela cacarejou antecipadamente. - Na semana passada foi a um salão de massagens de Las Vegas , despiu-se todo, e duas raparigas também nuas amarraram-no e chicotearam-no.

            - É tudo!? - disse, desapontada, Rose Tynan, profunda conhecedora de todos os escândalos.

            - Bem, há quem pense que esta é das fortes - disse Tynan.

            - Mas eu tenho melhor. Conhece aquela congressista que faz discursos contra o Pentágono? - Disse o nome à mãe. - Ninguém sabe disto, mas descobrimos que é lésbica. Anda com a secretária de imprensa, uma rapariga de Radcliff, de vinte e dois anos...

            Atrás deste caso veio outro e mais outro, preenchendo os dez minutos e provocando o deleite de Rose Tynan. Quando ele acabou e fechou a pasta, a mãe disse-lhe:

            - Obrigado, Vern. És um bom rapaz. Pensas sempre na tua mãe.

            - Obrigado, mamã.

            À porta, ela estudou-lhe o rosto.

            - Estás cheio de preocupações. Vê-se bem.

            - O país está a passar por maus momentos, mamã. Há muito que fazer. Se não conseguirmos a 35.a emenda, não sei o que acontecerá.

            - Tu sabes o que é melhor para todos. Ainda outro dia disse à senhora Grossman (aquela que mora no apartamento aqui em cima) que tu saberias bem o que fazer se fosses Presidente. E acredito nisso. Devias ser Presidente.

            Ele piscou-lhe o olho enquanto abria a porta.

            - Talvez venha a ser mais do que isso - retorquiu Tynan. Veremos.

            Tinha sido um longo dia para Chris Collins. Tentando recuperar o tempo que perdera durante a manhã no funeral do coronel Baxter, tinha trabalhado sem parar, sacrificando a hora habitual para o almoço. Agora, sentado com a mulher e dois dos amigos mais íntimos junto da lareira de mármore pário da sala de jantar do restaurante 1789 na 36.a Rua em Georgetown, Collins começava a satisfazer a fome.

            Dois scotches, uma almoçadeira de sopa de alhos franceses e a salada César que partilhara com Karen, tinham-lhe proporcionado os primeiros momentos de descanso do dia. Enquanto trinchava e comia o pato com molho de laranja, tentava ver se Ruth e

Paul Hilliard estavam a gostar das entradas que tinham pedido. Era evidente que sim. Collins observou Hilliard com afeto (era difícil pensar nele como o senador mais novo da Califórnia). Tinha conhecido Hilliard quando estavam ambos no início das suas carreiras: Hilliard era então vereador em São Francisco e ele procurador da ACLU. Nesses primeiros anos jogavam handebol três vezes por semana no Clube Y e Collins acabara por ser padrinho de casamento de Hilliard. Agora, passados alguns anos, aqui estavam ambos em Washington, o Procurador-Geral Collins e o seu amigo Senador Paul Hilliard. Tinham rejubilado com o encontro.

            Hilliard era um homem agradável, enterrado nos seus óculos, de tipo erudito, moderado, de fala suave, um companheiro perfeito para uma noite como esta. Como de costume, a conversa era simples: tagarelices sobre os Kennedy, as perspectivas do decadente grupo de futebol dos Washington Redskins, mais um filme de Lizzie Borden que todos queriam ver.

            Hilliard acabou o filet mignon, arrumou o garfo e a faca no prato vazio e começou a encher o seu novo cachimbo dinamarquês.

            - Que me dizes do vinho, Paul? - perguntou Collins. - É da Califórnia, sabias?

            - Olha para o meu copo - respondeu, apontando para o copo vazio. - É o melhor testemunho para as nossas parreiras.

            - Queres mais?

            - Já me chega de vinho da Califórnia - disse Hilliard acendendo o cachimbo. - Mas não da Califórnia. Queria discutir esse assunto contigo. Parece-me que é aí que tudo se joga a partir de agora.

            - Tudo se joga? Ah, referes-te à 35.a emenda.

            - Desde a votação de Ohio que tenho estado a receber telefonemas constantes da Califórnia. Todo o Estado está em efervescência.

            - Qual é a tendência? - Hilliard soprou um anel de fumo. - Pelo que sei, a ratificação tem mais probabilidades. O governador vai anunciar o seu apoio ainda esta semana.

            - Isso vai agradar ao Presidente - disse Collins.

            - Aqui para nós, trata-se de um contrato - continuou Hilliard.

            - O governador vai concorrer ao Senado no termo do mandato. Quer o apoio do Presidente, mas Wadsworth nunca lhe deu esperanças.

Assim, fizeram um negócio. O governador apoiará a 35.a emenda se o Presidente o apoiar. - Fez uma pausa. - É lastimável.

            Collins, que mastigava a última garfada de pato, parou de comer.

            - Que quer isso dizer, Paul. - Engoliu a comida. - O que... o que é que te parece lastimável?

            - Que os grandes trunfos estejam a alinhar pela 35.a emenda na Califórnia.

            - Julguei que eras a favor.

            - Não era a favor nem contra. Fiz o papel de observador inocente. Limitei-me a observar e esperei para ver o que acontecia. Suponho que foi assim que pensaste em particular. Mas agora que a decisão nos bate à porta, tenho de agir, tenho de tomar posição.

            - De que lado? Contra a emenda?

            - Contra.

            - Não te precipites, Paul - disse Ruth Hilliard nervosamente. Porque não esperas para veres o que o povo pensa?

            - Nunca saberemos o que o povo pensa até ele saber o que nós pensamos. O povo espera que os seus dirigentes lhe digam o que é melhor. No fundo...

            - Estás certo do que é melhor? - interrompeu Collins.

            - Estou cada vez mais certo - disse Hilliard calmamente. Baseado naquilo que vou sabendo gradualmente sobre a situação lá na terra, posso afirmar que as medidas da emenda são excessivas. Essa lei está sobrecarregada com um armamento demasiado pesado para um inimigo tão pequeno. É isto que Tony Pierce também pensa. Vai agora para a Califórnia para combater a emenda.

            - Pierce não merece crédito - disse Collins, lembrando-se da tirada do diretor Tynan contra o defensor dos direitos civis, na noite em que estivera na Casa Branca.

            - Os motivos de Pierce são suspeitos. Ele fez da emenda uma vingança pessoal. Está a combater Tynan através da emenda, porque ele o expulsou do FBI.

            - Tens provas disso? - perguntou Hilliard.

            - Bem, foi o que ouvi dizer, mas não verifiquei.

            - Pois tenta verificar, porque a versão que conheço é muito diferente. Pierce ficou desiludido com o FBI quando lhe pertencia. Retirou o apoio a alguns agentes especiais que Tynan manipulava. Como retaliação, Tynan decidiu exilá-lo para longe, Montana ou Ohio ou outro lugar igualmente distante, e isso levou Pierce a demitir-se para combater pelas suas reformas a partir do exterior. Disseram-me que Tynan tinha posto a correr a história da expulsão.

            - Não importa - disse Collins, mostrando sinais de impaciência. - O que importa é que tu disseste que decidiste colocar-te do lado dos que se opõem à emenda.

            - Porque essa lei me preocupa, Chris. Eu sei qual é a intenção subjacente, mas é demasiado violenta e cada vez mais me parece que as suas medidas podem ser ultrapassadas ou usadas indevidamente. Francamente, a única coisa que me dá alguma confiança no caso de ser aprovada, é o fato de John Maynard ocupar o lugar de Presidente do Supremo Tribunal. Ele velaria pela sua aplicação honesta. Mesmo assim, a possibilidade dessa aprovação preocupa-me.

            - Mas há um aspecto positivo, Paul. Ela evitará que o crime nos venha a submergir. A criminalidade na Califórnia, por exemplo, atingiu níveis inadmissíveis...

            - Sim? - retorquiu Hilliard.

            - Porque duvidas, se tens ao teu dispor as estatísticas do FBI ?

            - Estatísticas, números. Quem foi que disse que os números não mentem, mas as mentiras contabilizam-se? -Hilliard mexeu-se incomodado na cadeira. Pousou o cachimbo e olhou penetrantemente para Collins. - Há muito que as desejava discutir contigo. Refiro-me às estatísticas. Estive um pouco hesitante em levantar a questão porque se trata do teu departamento e receei melindrar-te.

            - Porque haveria de me melindrar? Raios, somos amigos, Paul. Fala à vontade.

           - Está bem. - Hesitou ainda, mas acabou por se decidir. - Recebi ontem um telefonema inquietante. De Olin Keefe.

            O nome não era conhecido de Collins.

            - É um legislador novo eleito por São Francisco - explicou Hilliard. - É boa pessoa. Havias de gostar dele. O caso é que pertence a uma comissão que o encarregou de falar com um certo número de chefes de polícia da área da Baía. Dois deles, dois desses chefes da polícia, queixaram-se que o FBI estava a tentar colocá-los mal. Afirmaram que o número de crimes que apresentaram ao diretor Tynan e que apuraram com todo o cuidado não tinham a menor semelhança com os números elevadíssimos que tu tornaste públicos.

            - Eu não tenho nada a ver com esses números, exceto tecnicamente- disse Collins, levemente irritado. - É Tynan que os reúne quando chegam das diversas comunidades locais e os computa. Depois, o meu departamento publica-lhes. Mas isso pouco importa. Que me querias dizer mais, Paul?

            - Estava a tentar dizer-te que o jovem Keefe, o deputado à Assembléia Keefe, suspeita que o diretor Tynan tem alterado essas estatísticas nacionais da criminalidade, que as tem adulterado, especialmente no que se refere à Califórnia. Está a apresentar-nos uma onda de criminalidade maior do que a que existe realmente.

            - Porque haveria de fazer uma coisa dessas? Isso não faz sentido.

            - Até faz muito sentido. Tynan está a proceder assim (se é que está efetivamente a fazê-lo) para amedrontar os nossos legisladores de modo a aprovarem a 35.a emenda.

            - Bem, eu sei que Tynan dá tudo por tudo para ver a emenda aprovada. Sei que o FBI tem sempre as estatísticas mais convenientes. Mas porque é que havia de se dar ao trabalho de fazer uma coisa arriscada como falsificar números? O que é que ganhava com isso?

            - Poder.

            - Ele já tem poder - disse Collins terminantemente.

            - Mas não a espécie de poder que teria como chefe do comitê de Segurança Nacional se a disposição de emergência prevista na emenda viesse a ser invocada. Então seria Vernon T. Tynan úber Alies, o chefe supremo.

            Collins abanou a cabeça.

            - Não acredito nisso. Nem um pouco. Paul, eu vivo no meio da Justiça. Já faço parte dela há dezoito meses, num cargo ou noutro. Sei o que se passa no departamento. Tu estás afastado. E esse jovem deputado, o teu amigo Keefe, também está do lado de fora. Não pode fazer a menor idéia do que se passa.

            Hilliard não se deu por vencido. Empurrou os óculos sem armação para a ponta do nariz e disse firmemente:

            - Pela nossa conversa telefônica, parece que sabe bastante. Há outras coisas que ele sabe e que também não são nada agradáveis. Não tens de as conhecer por meu intermédio. Começa por informar-te pessoalmente. Há pouco disseste que devias ir em breve à Califórnia. Ótimo. Porque não me deixas marcar-te um encontro com Olin Keefe? Ficas a saber de tudo diretamente. - Fez uma pausa. - A menos que, por qualquer razão, não o queiras fazer.

            - Acaba com isso, Paul. Conheces-me demasiado bem para dizeres isso. Não há nenhuma razão para que eu não queira tomar conhecimento dos fatos - se forem fatos. Não estou enfeudado a nenhum grupo. Estou interessado na verdade, como tu.

            - Então queres falar com Keefe?

            - Combina o encontro, que eu não faltarei.

            - De espírito aberto, espero. A sorte de toda esta República pode depender do que se passar na Califórnia. Não me agradam certas coisas que por lá acontecem. Peço-te que ouças tudo o que ele tiver para te dizer e forma então a tua opinião.

            - Ouvirei - disse Collins com firmeza. Pegou na ementa. - Este molho de laranja que acompanhava o pato estava um pouco ácido. Agora, para variar, vamos comer qualquer coisa doce.

            No dia seguinte, exatamente ao meio-dia, como fazia uma vez por semana desde há seis meses, Ishmael Young chegou à cave do edifício J. Edgar Hoover, vindo do seu apartamento alugado de Fredericksburg, na Virgínia. Embora fosse domingo, ele sabia que nos tempos críticos que corriam, a semana tinha sete dias para todos os funcionários da Justiça ou do FBI. Tynan estaria à sua espera. Young estacionou o seu automóvel de desporto comprado em segunda mão, saiu a custo e encontrou o agente especial O'Dea em frente do elevador privativo do diretor. Às vezes era o diretor-adjunto Adcock que o aguardava. Hoje era O'Dea, a antiga vedeta do desporto.      Subiram no elevador até ao sétimo andar, separaram-se, Young seguiu sozinho -levando consigo o gravador e uma pasta- pelo corredor ladeado por duas filas de gabinetes e, instantes depois, entrava nos aposentos do diretor Tynan.

            Já no espaçoso gabinete de Tynan lá no alto da Avenida Pensilvania, Ishmael Young arrastou uma pesada poltrona para junto da mesa baixa e circular onde se servia o café, ficando de frente para o sofá onde dentro em pouco o diretor se sentaria, pegou nos seus papéis e preparou-se. Ao meio-dia e quinze, a secretária do diretor, Beth, já tinha colocado na mesa uma cerveja para Tynan e uma Pepsi-Cola para o escritor. A seguir trouxe dois almoços embalados, fornecidos por uma pastelaria próxima da Rua 9. Deixou uma canja de galinha e queijo caseiro para o diretor e uma salada de batata, pickles e ovo, comprimida no embrulho de papel fino, para o escritor. Depois saiu. Por fim, Tynan levantou-se da cadeira por trás da pavorosa secretária, depois de ter dito a alguém pelo telefone que só recebia chamadas do Presidente, e fechou o gabinete, trancando as duas portas. Passou por Young, atravessou o quarto de vestir e entrou na casa de banho. Um minuto depois, reapareceu refrescado, esfregando as mãos para as secar, e afundou-se no sofá para beber a cerveja.

            Vernon T. Tynan gostava destas sessões autobiográficas. Naturalmente, porque lhe diziam respeito. Ishmael Young odiava-as.

            Young gostava do FBI, mas detestava o diretor Tynan. Gostava do FBI não pela sua razão de ser, mas porque era extremamente eficiente, o que Young não era. Apreciava todas as grandes organizações que funcionavam bem: a IBM, o partido comunista russo, o Vaticano, a Máfia, o FBI, independentemente dos seus objetivos. Desagradava-lhe a maneira como essas máquinas gigantescas manobravam e exploravam o povo, mas apreciava a eficiência dessas máquinas - maiores que a vida - que funcionavam impavidamente.

            Ele trabalhava com um lápis, uma máquina de escrever, um maço de papéis e sob tensão nervosa, mas isso não era maneira de viver.

            Tinha apreciado e respeitado o FBI até à primeira sessão com o diretor Tynan, há seis meses, quando o diretor adjunto Adcock o tinha levado a dar uma volta pelo serviço para lhe dar uma "sensação". Tinha havido a parte turística do passeio. Mais de meio milhão de turistas vinham ver anualmente as exposições: o átrio dos criminosos famosos, onde eram mostradas as armas de John Dillinger, o seu terno à prova de bala e uma máscara do seu rosto no momento da morte; "O Crime do Século - O caso dos Espiões da Bomba Atômica", exibindo Julius e Ethel Rosenberg; a lista dos dez fugitivos mais procurados; a exposição do caso do roubo de Brink; "A Mão Sinistra da Espionagem Soviética", com o coronel Abel como vedeta; a carreira de tiro, onde de nove em nove minutos um agente especial fazia uma demonstração do poder mortífero da destruição humana, usando um revólver de serviço de calibre 38 ou uma metralhadora automática de calibre 45 sobre um alvo de cartão com uma figura humana.

            Acima de tudo - já para além dos limites facultados aos turistas Ishmael Young tinha ficado apaixonado pelos arquivos do FBI. Neste gigantesco arquivo para a detenção de criminosos, havia impressões digitais demais de 250 milhões de pessoas. Se Deus tivesse mãos, pensara Young, o FBI teria as suas impressões digitais. Entre as 8 700 caixas de ficheiros cinzentas, havia um ficheiro das escritas de máquinas, com a reprodução do tipo de letra de todas as máquinas de escrever, normais ou de brinquedo, fabricadas até à data (nunca mais pensaria em escrever à máquina uma carta anônima). Tinha visto também o arquivo das marcas de água, o arquivo das notas de banco falsas, o arquivo de roubos a bancos. Mas havia muito mais para ver: a secção de serologia, onde eram analisados o soro sangüíneo e o sangue; a secção de química, onde os órgãos humanos eram vaporizados; a sala do espectógrafo, onde eram examinadas partículas de tinta. Tinha sido difícil decidir-se a sair da secção de pêlos e fibras. "Quando as pessoas lutam", explicara-lhe Adcock, "as fibras do vestuário podem aderir ao do opositor. Raspamos todas as fibras da roupa e examinamo-las para saber se pertencem ao assaltante ou à vítima." E Adcock acrescentara ainda: "O laboratório é a nossa arma secreta silenciosa. É invencível. J. Edgar Hoover montou-o em 1932. Como ele disse certa vez: 'A mancha de sangue minúscula, o documento falsificado, a carteira de fósforos encontrada na cena do roubo, a marca de um calcanhar ou a mancha de poeira podem ser a prova essencial para associar o criminoso ao crime ou para ilibar uma pessoa inocente'."

            Quando teve de sair, no seu espírito agitavam-se centenas de idéias. Era o paraíso para um escritor. Tinha perguntado a si próprio se seria possível um criminoso escapar ao FBI. Mas não tinha posto a questão a Adcock, porque a nação estava receosa do crime e não eram poucos os criminosos que conseguiam prosseguir a sua ação.

            Depois, tinha sido levado para a primeira sessão oficial com o diretor Vernon T. Tynan, para começar a escrever o livro.

            Supusera que parte da sua admiração pelo FBI recairia sobre o diretor. Mas não, e não tinha ficado surpreso. Odiara Tynan desde o princípio, mesmo antes de lhe pôr os olhos em cima. Tynan tinha desejado uma autobiografia e Young fora recomendado. Tynan tinha lido dois dos livros fantasmas de Young e aprovara. Young tinha resistido. Conhecia a reputação de Tynan, a sua egomania, e tinha rejeitado o convite de colaboração. Por pouco tempo. Tynan tinha feito chantagem, forçando a escrever o livro.

Nunca pôde esquecer o primeiro encontro com Tynan neste mesmo gabinete. Lá estava o diretor -uns olhos de gato num focinho de bulldog - dizendo: "Até que enfim, Sr. Young. Prazer em conhecê-lo, Sr. Young." Ele tinha respondido friamente: "Pode chamar-me Ishmael." O diretor olhara-o inexpressivamente. Só então Young pôde perceber como ele era e qual o caminho a seguir. O diretor nunca o chamava Ishmael. Talvez tivesse pensado que era um nome estrangeiro. Decidiu tratá-lo por Young ou apenas ''você''.

            Agora já tinham passado seis meses, e estavam sentados frente a frente mais uma vez: Ishmael Young bebendo a sua Pepsi e Vernon T. Tynan engolindo o resto da sua cerveja. Quando Tynan pôs de lado a caneca de cerveja e começou a comer a sopa, Young percebeu que era o sinal de partida. Inclinou-se, premiu o botão de gravação do gravador portátil, deu uma garfada na salada de ovo e reviu as notas do bloco. O diretor tinha-lhe comunicado o tema desta sessão uma semana antes e Young tinha-se preparado em casa. Não ia ser fácil. Lembrou-se que se devia mostrar coibido.

            - Vamos falar sobre J. Edgar Hoover - começou Tynan, tirando uma colherada de queijo -, sobre a maneira como me iniciou e fez de mim o que sou. Quando ele morreu, em 1972, não quis trabalhar com Gray, nem Ruckelhaus, nem Kelley, nem com nenhum dos que se seguiram. Eram bons homens, mas depois de se trabalhar com o Velhote - era assim que nós nos costumávamos referir a Hoover, o Velhote-, depois de se ter trabalhado com ele, nenhum outro interessava. Foi por isso que resolvi demitir-me depois de ele morrer, montando a minha própria agência de investigações. Só mesmo o Presidente me podia fazer abandonar a minha agência particular para vir chefiar o Serviço. Creio que já lhe tinha dito tudo isto.

            - Sim, tudo isso está transcrito e redigido.

            - Com as coisas a deteriorarem-se da maneira que estavam, o Presidente precisava outra vez do Velhote. Uma vez que já não o podia ter - refiro-me ao Presidente -, decidiu que precisava de um autêntico homem feito do estofo de Hoover. Assim, fez-me regressar. Nunca se arrependeu. Antes pelo contrário. Já lhe contei, não é verdade?, que ele me chamou há um mês e me disse: "Vernon, nem mesmo J. Edgar Hoover podia ter feito o que você está a fazer." Foram as suas palavras textuais.

            - Lembro-me - disse Young. - Foi uma verdadeira homenagem.

            - Bem, Young, não quero que esta parte do livro seja uma homenagem à minha pessoa. Que o seja antes ao Velhote, para que os leitores saibam que o respeito e quanto aprendi com ele.

            - Sim, andei a ler bastante sobre Hoover durante a semana.

            - Esqueça as suas leituras. Essa gente viciosa da imprensa nunca foi justa para com o Velhote, sobretudo nos seus últimos tempos. Ouça o que eu tenho para lhe dizer e ficará elucidado.

            - Com certeza.

            - Transcreva com o maior cuidado o que lhe vou dizer a seguir, para ter certeza de que não surgiram equívocos.

            - Tenho o gravador ligado, não há necessidade de escrever.

            - É verdade, já me esquecia. Agora ouça. Foi J. Edgar Hoover quem introduziu o profissionalismo na defesa da lei. Pôs de lado a imagem do chui brutal -isto já não foi nada mau, e você explore bem este fato - e fez o público respeitar-nos. O FBI surgiu com Teddy Roosevelt, quando o Procurador-Geral era Charles Bonaparte. Bonaparte nasceu nos Estados Unidos, mas era neto do irmão mais novo de Napoleão. Depois houve uma série de diretores, mas todos eles foram medíocres ou francamente maus. O último antes do Velhote foi William J. Burns, que era terrivelmente mau. Segundo Harlan Foske Stone, no tempo de Burns o FBI tornou-se um serviço secreto privado que apoiava forças corruptas dentro do governo. Assim, um ano antes de ir para o Supremo Tribunal, Stone arranjou um rapaz de vinte e nove anos chamado J. Edgar Hoover e colocou-o à frente do FBI. Hoover já tinha trabalhado como bibliotecário do governo. Tomou conta do FBI quando este tinha 657 funcionários. Quando morreu, os funcionários já eram 20000. Foi ele que montou o laboratório criminal, o arquivo de impressões digitais, a escola de formação de quântico, o Centro Nacional de Informação criminal com os seus computadores e quase três milhões de fichas. Foi o Velhote que fez tudo isto, e no tempo dele - como no meu - nenhum agente do FBI cometeu um ato criminoso ou corrupto. Isto tem que ser dito.

            - Com certeza - concordou Young.

            - Pense bem no que J. Edgar Hoover fez - prosseguiu Tynan, acabando o seu queijo caseiro. - Foi ele que caçou John Dillinger, Pretty Boy Floyd, Alvin Karpis, Kelly Machine Gun, Baby Face Nelson, Ma Barker, Bruno Hauptmann, os oito sabotadores

nazis que desembarcaram em submarinos, Julius e Ethel Rosenberg, Klaus Fuchs, os ladrões de Brink, James Earl Ray... A lista é de quilômetros.

            Muitos, muitos quilômetros, pensou Ishmael Young, lembrando-se dos triunfos que Tynan não tinha mencionado por conveniência. Durante a maior parte da sua carreira, Hoover tinha ignorado a Máfia, recusando-se a dar crédito à sua existência. Só em 1963, quando Valachi se decidiu a falar, é que Hoover reconheceu o crime organizado. Impossibilitado de recusar a evidência, Hoover nunca se lhe referiu com o nome de Máfia, mas sim através do eufemismo de La Cosa Nostra. Alguns apologistas pretendem que o Velhote ignorou a Máfia porque tinha receio que o mundo subterrâneo subornasse e corrompesse os seus agentes, como já tinha acontecido à polícia comum, arruinando assim o seu registro de escândalos. Os cínicos afirmam que ele evitou o sindicato do crime porque as investigações seriam tão demoradas que podiam fazer baixar o número impressionante das suas estatísticas criminais. Ishmael Young pensou ainda noutros feitos de Hoover sobre os quais Tynan passara por cima candidamente. Hoover tinha apodado o Dr. Martin Luther King Júnior de acabado mentiroso e tinha mantido sob escuta o seu telefone para gravar pormenores da sua vida sexual; Hoover tinha apodado de medusa o antigo Procurador-Geral Ramsey Clark. Hoover tinha acusado o padre Berrigan e outros católicos romanos pacifistas de raptores e conspiradores antes dos seus casos terem sido apresentados em tribunal. Hoover tinha desprezado os Porto-Riquenhos e os Mexicanos, afirmando que as gentes dessas duas nacionalidades não podiam comportar-se corretamente. Hoover tinha insultado congressistas, partidários dos direitos civis e da não-violência, e antimilitaristas. Tinha chegado ao ponto de fazer investigações sobre um rapaz de catorze anos que queria ir passar as férias do Verão na Alemanha Oriental e sobre um instrutor de escuteiros do Idaho que pretendia levar o seu grupo à Rússia.

            Ishmael Young recordava-se de um artigo de Pete Hamill que tinha lido: "Nos últimos trinta anos, não houve pior subversivo neste país que J. Edgar Hoover. Este homem subverteu a fé que tínhamos em nós próprios, a nossa crença numa sociedade aberta, a nossa esperança de que homens e mulheres pudessem viver num país livre de

polícia secreta, da vigilância encoberta, da perseguição pelas idéias políticas." Havia tudo isso para discutir, mas Young conteve-se.

            - E vou contar-lhe um pequeno fato pessoal que poucas pessoas conhecem sobre J. Edgar Hoover - prosseguiu Tynan. - Eu sempre disse que se pode ficar a saber muito sobre um indivíduo pela maneira como trata os pais. Pois, Hoover viveu com a mãe, Anna Marie, até aos quarenta e três anos. Um homem que procedeu assim, tinha de ser um homem decente.

            Ou pelo menos um ótimo caso para Freud analisar, pensou Young.

            - Mas deixe-me contar-lhe uma outra história que lhe dará uma idéia de como o Velhote era respeitado e de como eu, particularmente, o respeitava. Quando J. Edgar Hoover tinha setenta anos, exerceram-se grandes pressões sobre o Presidente Lyndon Johnson para o reformar. O Presidente, para mérito seu, respondeu: "Prefiro tê-lo dentro de casa a mijar para fora, do que fora a mijar para dentro!" Tynan deu uma palmada na coxa e pôs-se a rir roucamente. - Esta é das boas!

            - Sem dúvida - disse Young para comprazer. - Não sei se devo usar esta história no meu livro.

            - Ah, mas é claro! -disse Young rapidamente. - É uma história engraçada. Temos de utilizar todas as anedotas que pudermos.

            - Talvez você possa escrever que o Presidente disse aquilo a mim - sugeriu Tynan piscando o olho. - Ninguém saberá a verdade. Johnson está morto. Quem nos poderá desmentir?

            - Ou que o Presidente Johnson lhe podia ter dito - corrigiu Young. - Acho que podemos apresentar o caso assim. Dá mais força à anedota.

            - Sim, ponha o caso assim. Você é que sabe como isso se faz. E pode acrescentar mais uma coisa. Foi um sonho que tive há talvez uma semana. Sonhei que J. Edgar lá em cima estava roído de inveja por mim. Tinha inveja por eu estar a chegar à grande solução para a criminalidade na América - a 35.a emenda -, por isso ficar a ser o meu monumento e ele sempre ter desejado ter essa oportunidade. Então eu disse-lhe que, de certo modo, ele era tão responsável como eu pela emenda, pois se não fosse ele eu não seria diretor do FBI neste momento. - Sorriu para Young. - Foi este o sonho que tive. Que me diz desta?

            Antes que Ishmael Young pudesse dizer qualquer coisa, o intercomunicador zumbiu na secretária de Tynan.

            O diretor pareceu surpreso, levantou-se rapidamente e dirigiu-se para a secretária.

            - Que será agora? Espero que Beth me diga que é o Presidente. Levantou o auscultador.

            - Sim, Beth? - e pôs-se a escutar. - Harry Adcock? Bem, pergunte-lhe se não pode esperar. Será assim tão importante? - Continuou de pé a ouvir com atenção. - Baxter o quê? O caso da Santíssima Trindade? Ah, sim, claro, o assunto de Collins. Bem, diga a Harry que estarei pronto a recebê-lo dentro de instantes.

            Colocou o auscultador no descanso, perdido em cogitações. Por fim, voltou-se vagarosamente, reparou na presença de Ishmael Young e ficou pasmado.

            - Você... Esqueci-me que ainda cá estava. Ouviu a conversa?

            - O quê? - disse Young, fingindo não ter ouvido.

            - Nada - disse Tynan satisfeito. - Lamento terem surgido assuntos urgentes. Continuamos a dirigir o país, bem vê. Lastimo ter de encurtar a conversa desta vez, Young, mas dar-lhe-ei mais meia hora na próxima semana. De acordo?

            - Certamente. Como quiser.

            Enquanto desligava obedientemente o gravador e metia rapidamente os papéis na pasta, Young pensava que não se poderia esquecer de ouvir em casa o final da fita, pois desejava saber o que o diretor não queria que ele ouvisse. Pelo que pôde entender, Harry Adcock pretendia falar-lhe imediatamente por causa de Baxter (era certamente o anterior Procurador-Geral que tinha sido enterrado na véspera, de um caso da Santíssima Trindade (que devia ser um nome de código, ou talvez a igreja da Santíssima Trindade em Georgetown) e do assunto de Collins. Este devia ser com certeza Christopher Collins. Mas que haveria por trás de tudo isso? Resolveu fixar cuidadosamente essas peças do que poderia ser um interessante quebra-cabeças. Talvez acrescentando-as a outras lhe pudessem dar uma idéia mais precisa das atividades de Tynan.

            Como ele gostaria de saber mais a respeito de Tynan! -pensou, enquanto pegava na pasta. Qualquer coisa que contrabalançasse e extirpasse o que Tynan tinha contra ele. Qualquer coisa que lhe permitisse abandonar este projeto podre.

            Com um suspiro, levantou-se e atravessou o gabinete enquanto Tynan abria a segunda porta. Tynan esperava-o, segurando a porta, para dar passagem ao seu escritor fantasma.

            - Acho que não foi uma má sessão - disse Tynan amavelmente. - Na próxima semana talvez ainda seja melhor. Vamos entrar no que aprendi com o Velhote e falaremos do contributo pessoal de Vernon T. Tynan para o FBI. Que tal?

            - É formidável - disse Ishmael Young. - Deixa-me ansioso. Mas, matutava Young, que teriam que ver um Procurador-Geral morto, uma igreja católica em Georgetown e o assunto Collins com o governo de um país? Talvez se falasse com Collins ele o esclarecesse. Ou, decidiu Young, talvez fosse melhor, por amor à pele, esquecer que tinha ouvido fosse o que fosse.

            - Não ligue para aqui -ordenou Tynan pelo intercomunicador - a menos que seja da Casa Branca. - Desligou e voltou-se para Harry Adcock que se sentara na cadeira em frente da secretária.- Muito bem, Harry, então o que temos?

            - Fizemos a investigação sobre o padre Dubinski da igreja da Santíssima Trindade. Não havia muita coisa. Só um ponto, há já muito tempo. Esteve uma vez envolvido num caso de droga em Trenton, mas a polícia ilibou-o. Mesmo assim, nós...

            Tynan endireitou-se na cadeira giratória.

            - É mais do que suficiente. Vá lá, atire-lhe com isso e então havemos de ver...

            - Já lá fui, chefe - disse Adcock rapidamente. - Fui visitá-lo ao fim da manhã. Acabo de chegar.

            - Bem, diabos o levem, o que lhe disse ele? Revelou a confissão de Noah?

            Harry Adcock era ordenado e cronológico em todas as suas narrativas. Nunca dava respostas fora da devida ordem, ao jeito dos jornalistas quando escrevem notícias, porque pensava que isso levava a omissões, distorções e equívocos. Tynan habituara-se a aceitar esse hábito, por isso deixou-o prosseguir.

            - Hoje de manhã cedo, telefonei ao padre Dubinski, identifiquei-me e disse-lhe que tinha de fazer uma investigação sobre um assunto de segurança do governo - começou Adcock. - Encontrei-o na reitoria às onze e cinco em ponto. Mostrei-lhe a minha identificação, o distintivo, e ele deu-se por satisfeito. A meu pedido, ficamos sozinhos, apenas nós os dois.

            - Que tipo de homem é ele? - perguntou Tynan.

            - Cabelo negro ondulado, rosto esguio, moreno, como já sabe. Um metro e oitenta. Quarenta e quatro anos. Está na Santíssima Trindade há cerca de doze anos. Um homem extremamente calmo e frio.

            - Prossiga, Harry.

            - Não perdi tempo. Disse-lhe que sabíamos que tinha sido o confessor do coronel Noah Baxter na noite em que ele expirou. Disse-lhe que Baxter não tinha falado com mais ninguém senão com ele, isto é, com o padre Dubinski, antes de morrer. Perguntei-lhe se confirmava tudo isso. Ele disse que era verdade. - Adcock procurou no bolso do casaco e retirou um sobrescrito dobrado com apontamentos anotados. - Tomei notas da conversa enquanto vinha para aqui. Deu-lhes uma vista de olhos. - Ah, sim. Então ele, o padre Dubinski, perguntou se eu tinha obtido essas informações através do Procurador-Geral Christopher Collins e respondi-lhe que não.

            - Muito bem.

            - Depois disse-lhe: ''Como deve saber, o coronel Baxter estava de posse de alguns dos mais altos segredos do governo. Qualquer coisa que ele tenha dito a alguém estranho ao governo, quando estava mal ou sem domínio completo das suas faculdades, pode ser do maior interesse para o FBI. Temos estado a tentar descobrir uma fuga num assunto da maior confidencialidade e seria útil sabermos se o coronel Baxter lhe falou nisso.'' A seguir acrescentei: ''Gostaríamos de saber quais foram as suas últimas palavras, as palavras que lhe confiou." Adcock levantou os olhos. - O padre Dubinski respondeu: "Lamento muito. As suas últimas palavras foram em confissão. A confissão é sagrada. Como confessor do coronel Baxter, não posso revelar as suas últimas palavras a ninguém."

            - O filho de uma cadela - murmurou Tynan. - O que é que lhe respondeu?

            - Disse-lhe que já sabíamos que não revelaria o conteúdo da confissão a ninguém. Mas esta informação era pedida pelo governo. Ele retorquiu imediatamente que a Igreja não estava subordinada ao governo. Recordou-me a separação da Igreja e do Estado. Disse-me que eu representava o Estado e ele a Igreja. Um não podia sobrepor-se ao outro. Vi que estava a ir demasiado depressa, por isso abrandei.

            - Ótimo, Harry. Foi melhor.

            - Disse-lhe que... Não me lembro das palavras exatas. Disse-lhe que apesar do colarinho clerical, ele não estava acima da lei. Na realidade, disse-lhe, tínhamos conhecimento que ele já tinha estado envolvido com a lei.

            - Puseste o assunto nesse pé? Bem, bem. Como é que ele reagiu?

            - Primeiro não disse nada. Deixou-me prosseguir. Eu expus-lhe a evidência de que tínhamos acusações contra ele por possível posse de drogas em Trenton, há quinze anos. Não o negou; para dizer a verdade, nem sequer respondeu. Disse-lhe que embora ele não tivesse cadastro, esta informação, caso fosse publicada, colocá-lo-ia em maus lençóis. Reparei que ficou furioso, e não foi pouco. Uma cólera fria. Só disse uma coisa. Foi: "Senhor Adcock, está a ameaçar-me?" Respondi-lhe que o FBI não ameaçava ninguém. Disse que o FBI se limitava a coligir fatos. O Departamento de Justiça é que agia com base neles. Fui muito cuidadoso. Se bem que não temos nenhuma acusação real contra ele. Só lhe podemos causar problemas com os paroquianos.

            - Todos os padres são vulneráveis no campo das relações públicas - disse Tynan doutoralmente.

            Adcock continuou:

            - Era com isso que eu contava; era por aí que tinha de pegar. Mas tentei fazer mais do que isso. Disse-lhe que, devido à sua posição, podia ter tomado conhecimento, sem o pretender, de alguma informação vital para a segurança. Disse-lhe que se a encobrisse, então seria inevitável o seu nome e o seu passado virem a lume quando a quebra de segurança fosse provada. "Mas se cooperar desde já com o nosso governo", disse-lhe eu, "nesse caso o seu passado não se tornará público". Avisei-o violentamente de que devia cooperar. Recusou redondamente.

            Tynan deu um murro na secretária.

            - Filho da puta.

            - Chefe, quando lidamos com padres, não estamos a tratar com homens comuns. Não reagem como seres humanos vulgares. Têm aquela lábia toda do Deus que está por trás. Depois de se ter recusado a cooperar, pôs-se de pé para me despedir e disse qualquer coisa deste gênero: ''Já me ouviu. Agora pode fazer o que quiser, mas eu tenho de cumprir o meu voto, feito a uma autoridade mais alta que a sua, uma autoridade que considera a confissão sagrada e inviolável." Sim, foi isto exatamente que ele disse. Quando já estava a retirar-me, pensei que lhe devia deixar um último aviso. Disse-lhe que reconsiderasse, pois se não quisesse cooperar a bem do país, teríamos de falar dele e do seu comportamento passado aos seus superiores eclesiásticos.

            - E mesmo assim não rachou?

            - Nicles.

            - Acha que ainda o fará?

            - Receio que não, chefe. Pelo que pude avaliar, não há nada que o faça falar. Mesmo se trouxermos a público o seu lado sujo, penso que preferirá o martírio a falar traindo os seus votos. - Adcock estava ofegante. Tornou a meter o sobrescrito dobrado no bolso. - Que vamos fazer a seguir, chefe?

            Tynan levantou-se, enfiou as mãos nos bolsos das calças e ficou a pensar durante uns momentos.

            - Nada - disse por fim -, não fazemos nada. O que julgo é o seguinte: se o padre Dubinski não lhe disse nem uma palavra, apesar do que lhe podia acontecer, não falará

a ninguém. - Tynan suspirou. - Pouco importa o que ele sabe. Estamos safos.

            - Ainda posso ir junto dos seus superiores, apertá-los e pode ser que...

            A campainha do telefone retiniu. Tynan acercou-se.

            - Não pense nisso por agora, Harry. Fez um bom trabalho. Dê uns toques em Dubinski de vez em quando, só para ele andar na linha. É o suficiente. Obrigado.

            Quando Adcock saiu da sala, Tynan pegou no telefone. Levantou o auscultador.

            - Sim, Beth?... Então pode ligar. - Esperou. - Olá, miss Ledger. - Ficou a ouvir.- Ótimo, com certeza. Diga ao Presidente que eu vou imediatamente.

            Vernon T. Tynan não sabia línguas estrangeiras e conhecia apenas umas poucas palavras dispersas que tinha apanhado ao sabor do acaso. Duas dessas palavras eram francesas:

déjà vu. Sabia-as porque um agente especial as tinha usado num relatório de uma missão, provocando-lhe uma tal fúria que escreveu ao agente dizendo-lhe que no FBI só se falava e escrevia em inglês e que utilizasse esta língua se não queria ser transferido para Butte, em Montana. Contudo, tinha ficado com uma vaga idéia do que essas palavras queriam dizer. Sempre que visitava o Gabinete Oval da Casa Branca (o que era cada vez mais freqüente), quando entrava tinha a mesma sensação de déjà vu, de reviver uma experiência anterior. O Presidente Wadsworth, grande admirador do Presidente John F. Kennedy, senão da sua política pelo menos da sua imagem, tinha restaurado o Gabinete Oval exatamente como ele era quando Kennedy dirigia o executivo. O diretor Tynan, na altura um jovem agente do FBI, tinha em várias ocasiões acompanhado J. Edgar Hoover ao Gabinete Oval, quando o diretor era chamado por Kennedy para presenciar a assinatura de qualquer lei criminal. Nessa época, havia a secretária Buchanan trabalhada, com um candeeiro verde pálido de que pendia uma lâmpada fluorescente. Havia, por trás da secretária, os reposteiros verdes, que escondiam os jardins da Casa Branca, e as seis bandeiras: a americana, a presidencial, a do exército, a da marinha, a da aviação, e também a dos corpos especiais. Havia duas lanternas quadradas, como as dos coches, na parede e, no parapeito da lareira, dois modelos de navios. As paredes curvas estavam pintadas de branco marfim, e o teto, com o selo presidencial impresso, olhava sobranceiro para o tapete verde acinzentado com a águia americana entretecida. Havia a lareira, com os sofás em frente, e a cadeira de balanço entre eles. E na alta e negra cadeira giratória, por trás da secretária castanha, estava o presidente John F. Kennedy. Agora, enquanto o secretário encarregado dos encontros, Nichols, o introduzia no Gabinete Oval, Vernon T. Tynan tinha novamente a sensação de déjà vu. Por instantes, pareceu-lhe ver o Presidente Kennedy sentado à secretária, falando a alguém, e o diretor Hoover ao seu lado, junto dele outra vez, jovem. Mas no momento em que foi anunciado, o passado dissipou-se. O homem que estava ao seu lado, que recuava e saía, era Nichols e não Hoover. O homem que estava por trás da secretária era o Presidente Wadsworth e não Kennedy. E a pessoa com quem falava não era um ajudante de Kennedy, mas Ronald Steedman, o conselheiro pessoal do Presidente para a sondagem da opinião pública.

            - Ainda bem que pôde vir, Vernon - disse o presidente Wadsworth. - Puxe uma cadeira. Pode tirar esses jornais da cadeira, até os pode deitar fora, é no lixo que eles estão bem. Já leu algum deles?

            Tynan tirou os jornais da cadeira. Deu-lhes uma vista de olhos The New York Times, Sun-Times de Chicago, Post de Denver e Chronicle de São Francisco- antes de os atirar para o cesto dos papéis.

            Sem esperar por resposta, o Presidente continuou.

            - Estão a pressionar-nos de costa a costa. Como um bando de lobos uivando pelo nosso sangue. Estamos a tentar amordaçar o país, sabia, Vernon? Deve ler o editorial do New York Times. Dizem que a assembléia do seu Estado se desonrou por ter ratificado a 35.a emenda. Publicam uma carta aberta aos legisladores da Califórnia dizendo-lhes que o destino da liberdade está nas mãos deles, implorando que derrotem a emenda. E já nos informaram que as próximas edições do Times e da Newsweek irão exprimir os mesmos sentimentos derrotistas.

            - São interesses particulares - disse Steedman. - A imprensa está preocupada com o seu futuro.

            - E têm razões para isso - grunhiu Tynan. - O tom inflamado que propalam dia após dia e a desaprovação manifesta são tão responsáveis pela criminalidade e pela violência como qualquer outra coisa. - Aproximou-se do Presidente. - Mas, pelo que sei, eles não estão todos do mesmo lado, senhor Presidente. Ternos tantos aliados como inimigos.

            - Não sei - disse o Presidente com ar de dúvida.

            - O Daily News de Nova Iorque e o Tribune de Chicago - citou Tynan. E acrescentou - O U.S. News and World Report também é a favor da emenda, está do nosso lado. Dois dos canais de televisão têm-se mantido neutrais, mas soube que apoiarão a emenda antes da votação da Califórnia.

            - Espero que isso seja verdade - disse o Presidente. - Afinal, caberá ao povo a decisão, conforme a pressão que exercer sobre os seus representantes. Ronald e eu estávamos justamente a discutir isso. E voltamos ao assunto. De fato, foi por causa dessa conversa que quis vê-lo. Preciso que me aconselhe.

            - Estou sempre pronto para ajudar no que puder, senhor Presidente - disse Tynan, puxando a cadeira para a imitação da secretária de Kennedy.

            O Presidente girou a cadeira, voltando-se para Steedman.

            - Para esses últimos números que tem da Califórnia, Steedman, qual foi a extensão da sondagem?

            - Foram contactadas exatamente 2455 pessoas. Foi-lhes feita uma única pergunta dividida em três partes. Concorda que o órgão legislativo da Califórnia aprove a 35.a emenda? Ou é contra a ratificação? Ou está indeciso?

            - Repita novamente os resultados para que Vernon os fique a conhecer.

            - Com certeza - disse Steedman. Pegou numa folha de computador preenchida e começou a ler. - Os resultados do nosso inquérito à opinião pública, relativo a 2455 votantes da Califórnia, datam de dois dias após a aprovação da emenda em Nova Iorque e da rejeição de Ohio, e são os seguintes - com o dedo apontava para os números da página: - Há 41 % a favor da aprovação, 27 % contra e 32% de indecisos.

            - Há imensos indecisos - disse o Presidente. - Agora leia a sondagem no Senado e na Assembléia da Califórnia.

            Steedman acenou com a cabeça, procurando nos papéis, e pegou noutra folha de computador.

            - Estes são menos satisfatórios. Os legisladores estão a ser naturalmente cautelosos, esperando ouvir a opinião clara dos eleitores. Temos 40% de indecisões ou de recusas em responder ao inquérito. Depois, dos 60% que se exprimiram, 52% foram a favor da passagem e 48% contra.

            O Presidente abanou a cabeça, mal humorado.

            - Há muitos que se põem de fora, na expectativa. Isso não me agrada.

            Foi a vez de Tynan se pronunciar.

            - Senhor Presidente, a nossa tarefa é tirá-los dessa expectativa que os põe de fora e fazê-los inclinarem-se para o nosso lado.

            - Foi por isso que quis que viesse cá, Vernon. Quero discutir a estratégia... Obrigado, Ronald. Quando é que o volto a ver?

            Steedman levantou-se.

            - De acordo com as suas instruções, senhor Presidente, estamos a fazer inquéritos semanais na Califórnia. Devo ter os resultados desta semana na próxima segunda-feira.

            - Telefone a miss Ledger e marque uma entrevista assim que tiver mais alguma informação.

            Depois de ter reunido os papéis, Steedman saiu, deixando o Presidente e Tynan sozinhos no Gabinete Oval.

            - Bem, aí tem, Vernon - disse o Presidente. -O nosso destino está inteiramente nas mãos das pessoas que ainda não se decidiram. Portanto, sabemos o que há a fazer. Temos de os instigar por meio de todos os estratagemas, exercendo todas as pressões possíveis para os fazer ver as coisas à nossa maneira... para seu próprio bem. A sobrevivência da nossa última esperança está comprometida, Vernon.

            - Estou confiante na vitória, senhor Presidente.

            O Presidente estava menos confiante.

            - Não podemos deixar o assunto ao Deus dará. O futuro está nas nossas mãos.

            - Tem toda a razão - concordou Tynan. - Já tomei várias disposições. Estou a dar a maior urgência ao relatório do FBI sobre crimes comuns. Notifiquei todos os oficiais da polícia da Califórnia para que passem a enviar estatísticas de criminalidade todas as semanas, e já não todos os meses. Recebemos os relatórios todos os sábados e são publicados aos domingos. Já temos o relatório de ontem, mostrando o aumento da taxa de criminalidade.

            - Excelente - disse o Presidente. - O problema é que o povo habitua-se à repartição dos números. Só as estatísticas não basta para dramatizar a situação. - Alcançou por cima do mata-borrão verde o bloco de notas e escreveu alguns apontamentos. - Muitas vezes, um discurso bem feito pode dramatizar melhor uma situação. E consegue maior difusão. Estava a pensar em encarregar um certo número de membros da Administração - elementos do gabinete, chefes de serviço - para falarem em reuniões ou convenções já marcadas nas maiores cidades da Califórnia. Tinha aqui uma lista com alguns nomes. Contudo, é difícil saber quais serão os mais eficientes.

            Tynan empurrou a cadeira para a frente.

            - Só uma pessoa pode ser realmente eficaz. - Estendeu o dedo. O senhor Presidente. Pode reagrupar o povo à volta da 35.a emenda e pedir-lhe que, para sua própria segurança futura, faça pressão sobre os seus representantes em Sacramento.

            O Presidente Wadsworth considerou a sugestão, mas a resposta pouco tardou. Abanou negativamente a cabeça.

            - Não, Vernon. Receio não poder fazer isso. Na verdade, o efeito poderia ser o oposto - um efeito negativo. Os legisladores e os cidadãos comuns poderiam considerar

que uma diretiva que parta de mim, um discurso consagrado a uma decisão que lhes pertence, é uma intromissão federal. Poderiam ficar ressentidos com um presidente que lhes diz o que têm a fazer. Parece-me que temos de ser mais sutis.

            - Bem - disse Tynan-, então e se fosse eu ? Podia ir à Califórnia e afastar as indecisões, fazendo-os votar a emenda.

            - Não, você é a imagem da lei. Não o considerariam objetivo e razoável. Toda a gente diria que está a preparar o cutelo. Qualquer pessoa do FBI seria suspeita. Como já lhe disse, tenho estado a pensar em Collins. Prefiro mandar alguém como ele. Não usa uniforme, por assim dizer. Um Procurador-Geral é geralmente considerado como um civil.

            - Hum, Collins... Também tenho pensado nele... Mas não estou muito seguro a respeito dele. Não sei se tem influência ou a convicção necessária...

            - Por isso mesmo. A sua fraqueza pode ser benéfica neste caso. Dá maior credibilidade. Vernon, não tenho a menor dúvida a respeito dele. Está claramente do nosso lado. Ele sabe porque ocupa esse cargo. Não satisfaz plenamente, o que na atual circunstância é bom, mas tem atrás dele toda a autoridade do seu departamento. Na semana passada, falamos em enviá-lo à Califórnia. Mas agora acho que deve desempenhar um papel mais importante.

            - O que é que tem em mente? Incumbi-lo de discursar por todo o Estado?

            - Não, isso pareceria demasiado preparado, uma propaganda programada - o Presidente refletiu. - Algo menos evidente - estalou os dedos. - Agora me lembro. Tive ontem uma idéia. Sim, talvez resulte. Pedi a miss Ledger para se ocupar do assunto. Veja, Vernon: ocorreu-me que se Collins tivesse de estar na Califórnia, por precisar de tratar de qualquer assunto, tudo seria mais natural. Espere um momento.

            Tocou, chamando miss Ledger.

            Quase instantaneamente, a porta do lado oposto da sala abriu-se e ela apareceu.

            - Miss Ledger, ontem quando eu estava de saída pedi-lhe para ver que convenções estão marcadas para a Califórnia, nas próximas duas semanas... Um local em que seja normal o Procurador-Geral falar...

            - Sim - disse ela -, recebi uma resposta há cerca de uma hora, mas não o quis incomodar.

            - Então, há alguma coisa?

            - Está com sorte, senhor Presidente. A Associação Americana do Foro realiza a sua reunião anual em Los Angeles de segunda a sexta-feira.

            O Presidente pôs-se de pé, sorridente.

            - Perfeito. Magnífico. Pegue já no telefone e ligue para o presidente da Associação. É um velho amigo meu. Diga-lhe que eu gostaria muito se ele pudesse convidar o Procurador-Geral Collins para orador principal no último dia da Convenção.

            Miss Ledger parecia confusa.

            - Não vai ser fácil, senhor Presidente. Soube que já têm a lista de todos os oradores convidados. E o programa indica que na sexta-feira, às três da tarde, o orador convidado é o Presidente do Supremo Tribunal, John G. Maynard.

            - Mas qual é o problema? - disse o Presidente. - Passam a ter dois oradores principais. O Procurador-Geral Collins pode preceder ou seguir-se ao Presidente do Supremo. Diga-lhe que considero a sua anuência como um favor pessoal.

            - Vou telefonar imediatamente, senhor Presidente.

            Depois de miss Ledger ter saído para o seu gabinete, o Presidente continuou de pé.

            - Bem, já está tratado. Informarei Collins. Vou instruí-lo para fazer um discurso muito geral sobre a mudança que se avizinha para a justiça criminal. Poderá aludir à 35.a emenda como a esperança do futuro e ao papel histórico que a Califórnia desempenhará quando a ratificar. Penso que estará no auditório um grande número de deputados estaduais. Pode ser que Collins consiga oferecer-lhes um cocktail informal, aproveitando a ocasião para fazer a nossa campanha. Espero bem que isto chegue...

            Olhava para os memorandos espalhados pela secretária. De repente, pegou numa folha.

            - Quase me esquecia, Vernon. Há outro assunto. Um programa na televisão. Já lhe falei disso?

            - Não, senhor Presidente.

            - Há um programa na rede de televisão nacional com base num assunto em foco no noticiário da semana. Uma tal... - procurou no memorando - Monica Evans, a produtora deste programa de meia hora, telefonou a McKnight. Parece que são velhos amigos. No final da próxima semana pretende gravar um debate em Los Angeles sobre as possibilidades de ratificação da emenda na Califórnia. O programa chama-se A procura da verdade. Tem dois convidados, cada um com uma versão diferente do tema. Já viu alguma vez?

            - Receio que sim - disse Tynan, fazendo um trejeito.

            - Bem, eles querem-no no próximo programa, Vernon. Querem que apresente os argumentos a favor da emenda. Seria no mesmo dia em que Chris fala na Associação. Podiam seguir juntos de avião. Penso que a sua exposição poderia ser importante para nós.

            - E quem estará do outro lado? - perguntou Tynan. - Quem é o outro convidado?

            O Presidente consultou uma vez mais o memorando.

            - Tony Pierce.

            Tynan deu um salto na cadeira.

            - Senhor Presidente, perdoe-me, mas parece-me que será um erro o diretor do FBI aparecer no mesmo programa com um antigo agente que traiu o seu serviço. Penso que não devo dar cobertura a um porco comuna como Pierce, participando no programa com ele.

            O Presidente encolheu os ombros.

            - Se você lhe tem um tal ódio, não o forçarei. Mas parece-me que a exposição dos nossos pontos de vista é importante, é mesmo de extrema importância num programa nacional de televisão como este. Tem de estar lá uma pessoa do nosso lado.

            - E porque não Collins? - sugeriu Tynan. - Ele tem de ir a Los Angeles de qualquer maneira nessa ocasião. Podia entrar no programa além de fazer o discurso. Como Procurador-Geral os produtores recebê-lo-iam bem.

            O Presidente Wadsworth pareceu satisfeito.

            - Boa idéia - disse. - É muito boa idéia. Falarei a McKnight para ele telefonar a essa tal Monica Evans confirmando Collins como substituto. - Balançou a cabeça pensativamente. - Bem, Collins vai ter muito que fazer pela nossa causa. E terá de dar resultado.

            Estendeu a mão e Tynan levantou-se para a apertar.

            - Obrigado por tudo, Vernon - murmurou. - Bem, Califórnia, cá vamos nós. - Alcançou o telefone. - Procurador-Geral Collins, agora é consigo.

            No seu gabinete do Departamento de Justiça, com o auscultador seguro entre o ouvido e o ombro, Chris Collins escrevia os pontos principais das instruções do Presidente na folha de papel que tinha à frente. Embora fosse pronunciando palavras amáveis enquanto ouvia as propostas do Presidente, Collins não gostava do que estava a ouvir. Não se importava de ir à Califórnia. Seria uma ocasião para recordar a sua velha casa, uma oportunidade para rever o filho já crescido, para se reunir com amigos e para apanhar sol. O que não lhe agradava era ser forçado a defender a 35.a emenda publicamente, a debatê-la com uma personalidade como Tony Pierce perante todo o auditório nacional da televisão. Já tinha visto várias vezes o programa À procura da verdade e tinha gostado, mas sabia que o convidado não podia equivocar-se nem dar um passo em falso nesse programa. Os debates levavam muitas vezes a tremendas altercações, a posições exageradas, e o seu lugar no programa podia ser um lugar escaldante. Sentia igualmente desagrado pela idéia de aparecer na mesma tribuna que o Presidente do Supremo Maynard, um homem cujo apego à liberdade respeitava e cujas decisões a respeito dos direitos civis admirava, sendo forçado a defender perante ele uma posição favorável à 35.a emenda. Até então, Collins tinha evitado tudo o que fosse além de um leve comprometimento com a política da Administração. Agora tinha de alinhar, de desempenhar o papel de adepto do Presidente. Fazê-lo perante Maynard seria embaraçoso. Contudo, não tinha por onde escolher.

            - Pois é assim, Chris - ouviu o Presidente dizer-lhe. - Tomou nota de tudo como deve ser?

            - Julgo que sim, senhor Presidente. Na próxima sexta-feira em Los Angeles. À uma hora da tarde, À procura da verdade, nos estúdios da televisão. Às três horas, Associação Americana do Foro, no hotel Century Plaza.

           - Não se poupe a esforços em ambos os casos. Não deixe Pierce pisá-lo na discussão da emenda. Aperte-o o mais que puder.

            Collins assentiu sem convicção.

            - Farei o melhor que puder, senhor Presidente.

            - Quanto à Associação, prepare um discurso firme, Chris. Terá um auditório diferente do da televisão. A sala estará cheia de profissionais. Não lhes atire com a emenda demasiado cedo. Tente guardá-la para um final bem forte. Mostre que os destinos da nação dependem do discernimento da Califórnia.

            - Tentarei.

            - Dependemos totalmente de si. Gostaria de o ver antes de partir.

            Depois de desligar, Collins deixou-se ficar melancolicamente à janela. Passados alguns instantes, afastando a folha com os apontamentos, voltou ao trabalho. Pouco tardou que estivesse novamente mergulhado nos assuntos legais. O telefone tocava incessantemente, mas não queria ser interrompido. Marion devia ser capaz de tratar dos telefonemas pessoalmente. Quando voltou a desviar o olhar para se descontrair, para espreitar a rua, a noite já tinha caído. Viu o relógio. Eram horas de parar o trabalho no Departamento de Justiça. Se ele também o desse por terminado neste momento, seria a primeira vez há muitos meses que chegaria a casa a horas para jantar. Decidiu fazer uma surpresa a Karen, regressando a casa a uma hora conveniente.

            Levantou-se de pasta na mão e começou a enchê-la com os papéis que faltava analisar.

            O telefone tocou. Ignorou-o. Ouviu então o som do intercomunicador e a voz de Marion:

            - Senhor Collins, é uma chamada do padre Dubinski. Não conheço o nome. Ele diz que se deve lembrar. Não me quis dar o recado. Diz que é importante falar-lhe pessoalmente.

            Collins reconheceu imediatamente o nome e a curiosidade invadiu-o.

            - Eu atendo, obrigado. Até amanhã de manhã.

            Sentou-se, levantou o auscultador e carregou no botão de ligação.

            - Padre Dubinski? Daqui fala Christopher Collins.

            - Não sabia se conseguiria falar consigo. - A voz do padre parecia vir de muito longe. - Não sei se se lembra. Encontrámo-nos na noite em que o coronel Baxter faleceu em Bethesda.

            - Claro que me lembro de si, padre. Até pensei em procurá-lo pessoalmente. Desejava falar-lhe...

            - Foi exatamente por isso que telefonei - disse o padre. Gostava de me encontrar consigo. O mais depressa possível. Se pudesse, gostaria de o ver ainda esta noite. É um assunto que deve interessar-lhe. Mas não é coisa que possa dizer pelo telefone. Se não puder esta noite, talvez amanhã de manhã...

            Collins estava excitado, com a curiosidade totalmente desperta.

            - Posso ir esta noite. Daqui a meia hora.

            - Ainda bem - disse o padre, parecendo aliviado. - Será demasiado pedir-lhe que venha ter comigo à igreja? É que, bem... seria um tanto despropositado ser eu a visitá-lo.

            - Com certeza que vou ter consigo. Igreja da Santíssima Trindade, não é?

            - É na Rua 36, entre as ruas N e O em Georgetown. A entrada principal é na Rua 36, mas acho melhor não a utilizar. Prefiro que venha à reitoria, onde lhe poderei falar em particular. Na Rua 35 volta à esquerda, ou seja para a Rua O, e é o primeiro edifício da igreja do lado esquerdo. - Fez uma pausa, como se hesitasse dizer mais. Depois acrescentou: - Acho que lhe devo uma explicação. A entrada principal está a ser vigiada. Será melhor para ambos que a sua visita não seja conhecida. Compreenderá quando tivermos ocasião de falar. Então, dentro de meia hora?

            - Ou antes - respondeu Collins.

            Durante todo o percurso para Georgetown, no assento de trás do carro oficial, Chris Collins perguntava a si próprio o que levaria o padre a querer vê-lo com tanta pressa. Não encontrava explicação. Da última vez que lhe falara, em Bethesda, o padre tinha recusado firmemente revelar a confissão do coronel Baxter. Não havia razão para pensar que fosse agora desprezar os seus votos de segredo. Talvez tivesse obtido qualquer outra informação que achasse que Collins devia conhecer. Mas que tipo de informação? Mais desconcertante tinha sido o aviso de que a entrada principal da igreja da Santíssima Trindade estava a ser vigiada. Se isso não era sintoma de loucura, mas um fato, vigiada por quem e por que motivo? Era estranhíssimo. Collins estava tentado a falar no enigma aos dois homens que se sentavam no banco da frente: Pagano, um ex-combatente de rosto arrasado que ele tinha trazido da Califórnia como seu motorista. Tinha-se em tempos travado de amizade com Pagano, quando o defendera num processo crime em Oakland, e ele ficara-lhe grato para sempre. Era da maior confiança. Ao lado estava o agente especial Hogan, seu guarda-costas do FBI, cuidadosamente escolhido e também de confiança. Collins viu que não precisava de pedir opiniões. Um padre tinha-o chamado por causa de um assunto importante, mas nem sequer se fizera alusão ao tema. Na verdade, não havia nada para discutir, a não ser a sua sensação inexplicável de mau presságio. Notou então que já estavam na Rua 35 e que se aproximavam da Rua O. Inclinou-se para a frente.

            - Pagano, pára na esquina da Rua 35 com a O. Não quero que ninguém veja o carro.

            Quando chegaram à esquina, Collins abriu a porta rapidamente. Ao sair disse para trás:

            - Leva o carro pela Rua 35, anda um ou dois quarteirões e estaciona onde puderes. Eu vou lá ter. Não tenho idéia do tempo que demorarei. Talvez quinze ou vinte minutos.

            Fechou a porta e afastou-se com Hogan ao lado. Ficaram a ver o carro subir a rua. Collins fixou o guarda-costas.

            - Bem, podes vir comigo até à reitoria da igreja. Depois entro sozinho. Ficas à espera cá fora, mas não dês nas vistas.

            Atravessaram a rua e percorreram uns metros. Collins apontou para a esquerda.

            - Cá estamos.

            A reitoria era um edifício de tijolo vermelho pintado de branco.

            - Deixo-o aqui.

            Quando Collins chegou à porta, esta foi aberta inesperadamente por uma mão invisível. Ouviu e reconheceu a voz.

            - Entre, senhor Collins.

            Penetrou num pequeno vestíbulo fracamente iluminado e encontrou-se perante a figura escura do padre - indumentária e cabelos negros, pele morena. Depois de um rápido aperto de mão, o padre Dubinski convidou Collins a segui-lo. Passaram por uma porta que dava para um átrio. A meio deste havia outra porta. O padre abriu-a.

            - A nossa maior sala da reitoria - disse o padre, acrescentando : - É à prova de som.

            Na sala de estar, Collins inventariou de relance todo o mobiliário: à direita havia uma secretária com duas cadeiras; do outro lado da sala, na parede oposta à porta, havia uma credencia sobre a qual estava pendurada uma pintura moderna de Jesus Cristo a ser retirado da cruz. O padre Dubinski pegou no cotovelo de Collins e levou-o para o sofá junto da mesa de café, à esquerda.

            - Ninguém me viu entrar - disse Collins. - Quem é que está a vigiar a porta da entrada principal?

            - O FBI.

            - O FBI ? - disse Collins, incrédulo. - A vigiá-lo? Por que motivo?

            - Vou explicar-lhe - disse o padre Dubinski. - Sente-se, por favor. Prefere chá ou café?

            Collins recusou ambos e sentou-se na beira do sofá junto de uma mesinha-candeeiro.

            O padre Dubinski instalou-se noutro sofá a curta distância dele. Não perdeu tempo:

            - Tive uma visita ao fim da manhã. Um tal senhor Harry Adcock, cujo cartão de identificação indicava delegado, ou seria adjunto?, do diretor do FBI.

            - É o adjunto do diretor Tynan. Que veio ele cá fazer?

            - Queria saber o que o coronel Noah Baxter me confessou na noite em que morreu. Disse-me que isso podia estar relacionado com um assunto de segurança nacional. Eu poderia ter considerado o inquérito bem intencionado, embora um tanto deslocado, mas um fato não me permitiu. Quando me recusei a repetir a confissão do coronel Baxter, Adcock ameaçou-me.

            - Ameaçou-o? - repetiu Collins, descrente.

            - Sim. Mas antes de passarmos a isso, há uma coisa que me intriga. Como podia ele saber que o coronel Baxter teve tempo para me falar, para se confessar, antes de morrer? Contou-lhe?

            Collins manteve-se calado, tentando lembrar-se. Por fim, recordou-se com exatidão.

            - De fato, falei nisso. Quando regressávamos, Tynan, Adcock e eu, do funeral de Baxter e falávamos dele, da sua morte. Com a maior inocência (porque era nisso que estava a pensar), contei que tinha sido chamado ao hospital na noite em que morreu. Contei que ele me tinha querido ver com urgência, mas que eu chegara demasiado tarde. Ele já estava morto. Depois devo ter falado... sim, estou certo que fiz, do encontro consigo. Que as últimas palavras do coronel foram a confissão que lhe fez, mas que um padre não podia repetir o que lhe é dito em confissão. - As sobrancelhas de Collins franziram-se. - Falei nisso a Tynan e a Adcock, porque pensei que eles me podiam dar uma pista sobre o que Baxter me queria dizer. É que eu sabia que Tynan era amigo íntimo de Baxter. Infelizmente, eles não me puderam ajudar. - Fez uma pausa.- Então Tynan mandou Adcock vir aqui (é sempre Adcock quem faz os trabalhos sujos) para conhecer a confissão? E quando se recusou a cooperar, Adcock ameaçou-o? É incrível.

            - Talvez não seja assim tão incrível. Só você pode ser o supremo juiz neste caso.

            - Como é que o ameaçou?

            O padre Dubinski fixou o olhar na mesa de café.

            - A ameaça não foi implícita nem indireta. Foi uma ameaça clara e direta, enfim, chantagem. Ao que parece, o FBI tinha estado a fazer uma investigação sobre mim, sobre o meu passado; suponho que isso é rotineiro nos dias que correm, não?

            - É o processo corrente quando o FBI está a investigar alguém.

            - Ou quando quer fazer alguém falar? Mesmo que essa pessoa esteja inocente?

            Collins mexeu-se no sofá.

            - Isso não faz parte do processo. Mas ambos sabemos que isso acontece. Houve abusos.

            - Parece-me que esta investigação do meu passado só pode ter sido instigada pelo diretor Tynan. Você afirmou que Adcock não passa de um... de um lacaio.

            - É verdade.

            - Pois bem, o FBI desenterrou o que há muito estava enterrado, um incidente infeliz no meu passado. Quando era um jovem padre, ocupando o meu primeiro cargo (dirigia uma igreja em Trenton, Nova Jersey, num ghetto), iniciei um programa de combate à droga. Para impedir a minha cruzada, alguns dos jovens delinquentes mais empedernidos, plantaram um pequeno arbusto de droga no meu passal e a seguir informaram as autoridades para me comprometerem. A polícia apareceu e deu com o arbusto. Tinham sido avisados que eu andava a plantar droga. Podia ter sido o fim da minha carreira. Felizmente, o escândalo foi evitado, pois o meu bispo fez pressão sobre a polícia para me deixar testemunhar em audiência privada. Devido a esse testemunho, fui ilibado. Mas como os culpados nunca foram descobertos, o caso ficou dependente apenas da minha palavra. Posso compreender, recordando o incidente agora, que haja quem possa considerar-me culpado, ou, por falta de provas, apenas não condenado. Ora, o que é fato é que o caso prematuramente encerrado, entrou nos ficheiros do FBI. Foi isso que Harry Adcock me lançou à cara hoje de manhã.

            Collins estava estupefato.

            - Custa... custa a acreditar.

            - Mas é assim. Tem de acreditar. Adcock ameaçou-me de tornar pública esta informação sobre o meu passado se eu continuasse a recusar divulgar a confissão derradeira do coronel Baxter. Foi peremptório. Decidi que os meus votos sagrados eram mais importantes que a ameaça de assassínio moral. Seja como for, se a história viesse a lume, pouco afetaria o meu estatuto. Poderia ser embaraçoso, mas pouco mais. Disse a Adcock que fizesse o que entendesse. Eu não cooperaria com ele. Mandei-o embora. Depois, durante toda a tarde, fiquei furioso. O que mais me preocupou (agora que já tenho uma experiência pessoal), foram os métodos violentos usados por um serviço do governo contra os cidadãos que diz proteger.

            - Ainda me parece inacreditável. O que haveria de tão importante na confissão do coronel Baxter para fazer Tynan chegar a tais extremos?

            - Não sei - disse o padre Dubinski. - Julguei que você soubesse. Foi por isso que o contatei.

            - Não sei o que o coronel Baxter lhe disse. Por isso, não tenho maneira...

            - Vai passar a saber parte do que o coronel me disse, porque eu lhe vou contar.

            Collins sentiu um arrepio de excitação. Contendo a respiração, esperou.

            O padre Dubinski prosseguiu, falando vagarosamente:

            - A visita de Adcock deixou-me tão irritado que passei longas horas durante a tarde a reconsiderar a minha posição. Sabia que não podia cooperar com ele nem com o diretor Tynan. Mas comecei a encarar o seu pedido de Bethesda sob uma luz diferente. É óbvio que o coronel Baxter confiava em si. Quando já estava moribundo, foi só por si que chamou. Portanto, ele queria dizer-lhe parte do que me disse. Comecei também a ver que muito do que ele me contou talvez lhe fosse dirigido. E compreendi mais claramente que os meus deveres não eram só espirituais, mas também temporais, e que talvez eu fosse apenas o guarda da informação que o coronel Baxter lhe queria fazer chegar. Foi assim que cheguei à decisão de lhe repetir as suas últimas palavras.

            Collins sentiu o coração bater mais depressa.

            - Aprecio profundamente a sua atitude, padre.

            - Quando faleceu, o coronel Baxter estava preparado, segundo as palavras de S. Paulo, ''para desaparecer e reunir-se a Cristo'' - disse o padre Dubinski. - Estava reconciliado com Deus. Depois de lhe ter dado os Sacramentos e de ter terminado a confissão, ele fez um esforço final para referir um assunto terreno que perduraria. As suas últimas palavras, ditas quase na agonia final... - O padre procurou por entre as pregas da batina. - Escrevi-as depois de Adcock sair para não as adulterar.

            - Abriu uma tira de papel amarrotada. - As últimas palavras do coronel Baxter, que acredito plenamente serem-lhe dirigidas, foram as seguintes: "Sim, pequei, padre...E o meu maior pecado... Tenho de o contar... Já não me podem controlar... Estou livre, já não preciso de ter medo... É sobre a 35.a emenda..."

            - A 35.a emenda - murmurou Collins.

            O padre Dubinski lançou-lhe um longo olhar e voltou à leitura da tira.

            - "É sobre a 35.a emenda". Depois disse algumas coisas sem sentido e a seguir apanhei isto: "O Documento R... perigo... perigoso... deve ser revelado imediatamente, a todo o custo... O Documento R é..." Desfaleceu, depois tentou novamente. É muito difícil reproduzir o que ele tentava dizer, mas estou quase certo que era: "Eu vi... grave... grave ação... vá ver..." Soltou o suspiro final, recuperou, mas instantes depois estava morto.

            Collins sentia-se enregelado. Tinha ouvido uma voz saída do túmulo. Confuso e perturbado, disse:

            - O Documento R ? Foi disso que falou?

            - Por duas vezes. Era evidente que queria dizer qualquer coisa sobre ele, mas não pôde.

            - Tem certeza que não disse mais nada?

            - Foram estas as únicas palavras compreensíveis. Disse mais, mas não as pude entender.

            - Padre, tem a mais leve idéia do que possa ser o Documento R?

            - Esperava que me pudesse dizer.

            - Nunca tinha ouvido falar dele - disse Collins.

            Ponderou nas últimas palavras do coronel Baxter que eram certamente a sua mensagem urgente para o novo Procurador-Geral.

            - Ele disse que tinha pecado por se ter envolvido nesse... bem, em qualquer coisa. Que foi forçado a envolver-se. Qualquer coisa relacionada com a 35.a emenda e um tal Documento R, uma grave ação que era perigosa e que tinha de ser revelada. Mandou-me chamar para me dizer isso.

            - Era o seu legado para os vivos, o desejo de corrigir uma falta.

            - O seu legado para mim, para o sucessor - disse Collins quase de si para si. - Porque não para o Presidente? Ou para Tynan? Ou mesmo para a sua mulher? Só para mim. Mas porquê para mim?

            - Talvez por confiar mais em si que no Presidente ou no diretor. Possivelmente porque você compreenderia aquilo que nem a mulher seria capaz.

            - Mas eu não compreendo - disse Collins desesperado. O Documento R. Sentia-se perdido. Procurava mas não conseguia encontrar nada. Que seria?

            O padre Dubinski tinha-se posto de pé.

            - Talvez seja bom descobrir. Descobrir o mais depressa possível. - Entregou a tira de papel a Collins. - Agora já sabe tudo o que eu sei e tudo o que Noah Baxter lhe queria dizer na agonia final. O resto está nas suas mãos. - Respirou fundo. - Há um perigo no ar. Rezarei pelo seu êxito e pela sua segurança. Deus seja consigo.

                                                  

 

            Acordara cedo na manhã seguinte, tomara uma ducha, vestira-se e saíra de sua casa de nove divisões em McLean, na Virgínia, para fazer as sete milhas até ao serviço, sem que tivesse falado à mulher na aventura da noite anterior na Igreja da Santíssima Trindade.

            Durante o jantar da véspera e por todo o serão, tencionara contar a Karen o episódio com o padre Dubinski. Mas uma espécie de instinto natural de cuidado e proteção para com a sua amada, coibira-o de revelar o encontro. Sabia que isso a perturbaria e preocuparia, pois o mesmo se passara com ele. Em vez disso, falara-lhe sobre o telefonema do Presidente que tornava certa a viagem à Califórnia. As suas únicas incumbências eram dirigir um discurso à Associação Americana do Foro, aparecer num programa de televisão, e, se possível fazer propaganda informal junto de alguns legisladores estaduais. Tirando isso, ficaria livre, e talvez pudessem gozar alguns dias de sol da Califórnia. Pedira a Karen que o acompanhasse. Ela resistira, argumentando com a gravidez e o estado de cansaço. Afirmara que ele poderia aproveitar melhor o tempo livre, vendo o filho, Josh, e encontrando-se com alguns velhos amigos. Collins não insistira. Sabia que poderia aproveitar o tempo que lhe restasse para falar não só com o jovem Josh, mas também com o homem que Paul Hilliard queria que encontrasse, o deputado à Assembléia Olin Keefe, o homem que afirmava que o FBI estava a falsificar as estatísticas criminais da Califórnia. Desde o encontro que tivera com o padre ao princípio da noite, Collins começara a nutrir certas dúvidas sobre o FBI.

            Quando se deitara na noite anterior, Karen ainda estava acordada. Ao dar-lhe o beijo de boas-noites, percebeu que ela queria fazer amor. Estivera tão absorvido pelo mistério do Documento R que o amor era a última coisa em que pensava. No entanto, porque não lhe queria desagradar, e especialmente porque estaria longe dela por alguns dias, acompanhara-a. Após uns minutos de preparação, já tinha esquecido todos os problemas e estava tão desejoso como ela de fazer amor. Apesar do cuidado em não lhe comprimir o ventre -temia constantemente que ela tivesse um aborto - a relação tinha sido longa e vibrante. Tinha sido natural e de entrega mútua, de uma maneira que nunca tinha conseguido com a mãe de Josh - porque pensaria na primeira mulher, Helen, apenas como mãe de Josh? - e, logo que terminada, ambos tinham adormecido quase instantaneamente.

            Mas quando acordara de manhã, já não era em Karen que pensava, mas no Documento R. A caminho do Departamento de Justiça, recordou a urgência do desejo do coronel Baxter em que tomasse conhecimento do assunto e o divulgasse. Tomar conhecimento e expor o quê? Alguma atuação grave que o coronel presenciara. Mas como descobri-la? Por onde começar? Tentou pensar no problema de forma lógica e ordenada. O ponto de partida devia ser alguém ou alguma coisa relacionada com o falecido coronel Baxter. Antes demais, havia os arquivos particulares de Baxter. O coronel tinha-os mantido separados dos documentos relacionados com o seu cargo de Procurador-Geral, que estavam guardados nos arquivos normais do gabinete de Marion. Collins teria de examinar ambos os arquivos. Pensou longamente nessa tarefa. Parecia simples, mas onde procurar? E procurar o quê? Em R, de Documento R? Em T, de 35.a, ou em E de emenda? Em S de Secreto, ou em P de Perigo? Não tinha grandes esperanças nos arquivos. O tom da mensagem de Baxter dava a entender claramente que as informações complementares não seriam de fácil obtenção nem se encontrariam em lugares óbvios.

            Era tudo quanto aos pertences de Baxter. Isso resumia o campo às pessoas íntimas de Baxter: família, associados, amigos - qualquer pessoa que pudesse tê-lo ouvido mencionar, num qualquer momento, um papel chamado Documento R. Por quem começar? O diretor Vernon T. Tynan parecia ser a melhor aposta. As últimas palavras de Baxter não o tinham mencionado nem alertavam contra ele. Da mensagem final, deduzia-se que Collins devia começar por alguém próximo. Quereria Baxter que começasse por Tynan ou que o evitasse? Prudentemente, Collins ponderou a hipótese Tynan. Havia dois pontos significativos a ter em atenção. Porque não teria o coronel chamado Tynan para ouvir o aviso? Porque não confiava em Tynan? Nada permitia inferi-lo. Contudo, pensou Collins, seria Tynan de confiança? O segundo ponto a ter em atenção agitou-se à sua frente como uma bandeira vermelha. No regresso do cemitério, Collins fizera algumas observações inocentes sobre a confissão derradeira de Baxter. Tynan enviou imediatamente um emissário ao padre Dubinski para descobrir, a bem ou a mal, se necessário através de chantagem, qual fora o conteúdo da confissão. Procuraria Tynan alguma informação que lhe escapava? Ou queria saber se Baxter deixara escapar alguma informação secreta que compartilhavam? Em qualquer dos casos, era possível que Tynan conhecesse o significado do Documento R. E talvez estivesse pronto a explicá-lo a um colega e superior. Era ele a pessoa indicada. Mas a bandeira vermelha continuava a agitar-se em frente de Collins. Age com cautela!

            A prioridade deslizou de imediato para uma pessoa menos duvidosa, de maior confiança, e que podia estar igualmente ao corrente dos segredos do coronel. Era a viúva do coronel Baxter, Hannah. A bandeira vermelha desapareceu. Era uma pessoa prestável. Seria compreensiva. Collins tinha excelentes relações com Hannah, que sempre o olhara maternalmente. E quanto a resultados? Afinal de contas, tinha sido casada com o coronel quase quarenta anos. Baxter não podia estar envolvido em questões graves sem que ela o soubesse. Mas, por outro lado, atendendo à forma como se davam, porque não teria o coronel moribundo confiado nela em vez de chamar Collins para ouvir o seu aviso? Baxter tinha-a utilizado apenas como um meio para chegar a Collins. Talvez a explicação não fosse difícil. O coronel podia ser do tipo de pessoas que pensam que o trabalho dos homens é um assunto para homens, especialmente envolvendo um antigo Procurador-Geral e o seu sucessor.

            Quando chegou ao seu gabinete, Chris Collins ainda continuava indeciso quanto ao primeiro passo a dar.

            Sentado à secretária, ignorando as mensagens escritas no bloco, continuou a remoer o assunto. Quando Marion chegou com a chávena de chá forte, já tinha decidido por onde começar. Partiria de uma fonte menos complicada que os seres humanos.

            - Marion, onde estão os arquivos do coronel Baxter?

            - Bem, ele tinha dois arquivos distintos...

            - Eu sei.

            - O principal, o que tinha os ficheiros mais importantes, está no meu gabinete. Além desse, tinha um arquivo pessoal (com a correspondência particular, memorandos, etc.) numa caixa à prova de fogo na sala de estar do meu gabinete.

            - Ainda lá está?

            - Não. Um mês depois de ter entrado para o hospital, o arquivo foi transferido para a sua residência em Georgetown.

            - Então agora está lá?

            - Sim. Se deseja examinar alguma coisa, posso encarregar-me disso.

            - Não, não vale a pena. Eu mesmo o farei.

            - Quer que telefone à senhora Baxter?

            Já não restavam dúvidas quanto à pessoa com quem devia falar primeiro sobre o Documento R.

            - Sim, telefone-lhe e pergunte-lhe se me pode receber por uns minutos hoje à tarde. - Quando Marion se preparava para sair, acrescentou com ar desinteressado: -Já agora, Marion, tenho andado à procura de um memorando chamado Documento R. Isso diz-lhe alguma coisa?

            Ela tentou lembrar-se.

            - Receio que não. Nunca arquivei tal documento.

            - Era um memorando relacionado com a 35.a emenda. É capaz de dar uma vista de olhos no ficheiro normal?

            - Imediatamente.

            Enquanto bebia o chá, Collins despachou os assuntos da manhã rapidamente. Discutiu ao telefone uma nota do governo com o Solicitador-Geral, depois telefonou ao seu assistente para tratar de um assunto de pessoal. Teve um breve encontro com o Diretor das Relações Públicas, que estava a orientar a preparação do seu discurso em Los Angeles. Conferenciou à pressa com Ed Schrader, adjunto do Procurador-Geral, sobre um caso de fuga coletiva aos impostos, prisões por tumultos em Kansas City e Denver, e as últimas descobertas relativas aos conspiradores do grupo Luta pela Liberdade Interna.

            Por volta do meio-dia já tinha atendido a secretária em dois assuntos importantes. Primeiro, ela tinha procurado no ficheiro oficial. Não havia a menor referência, disse ela, ao tal Documento R. Isso nada o surpreendeu. Depois, ela disse-lhe que tinha contactado com Hannah Baxter, e que esta teria o maior prazer em recebê-lo às duas horas.

            Depois de almoçar na sua sala de jantar privativa com três Procuradores do Ministério Público recém-chegados da província, e de atender mais quatro telefonemas, Collins estava pronto para iniciar a sua investigação particular sobre o Documento R.

            Pagano conduziu-o, e Hogan acompanhou-o a Georgetown. Chegaram à casa de tijolo branco nos seus três andares velhos de quase duzentos anos, situada numa rua de árvores frondosas, quando faltavam precisamente cinco minutos para as duas. Deixando o motorista e o guarda-costas no automóvel, Collins subiu a magnífica escadaria ornamentada por ferro forjado, tocou à campainha e foi recebido pela amável criada preta.

            - Vou chamar a senhora Baxter - disse a criada. - Deseja esperar no pátio? Está um dia tão agradável.

            Collins concordou, seguiu-a até às portas envidraçadas e entrou para o pátio lajeado. Observou o seu reflexo na piscina, voltou-se para se sentar numa cadeira de ferro trabalhado junto de uma mesa de tampo de cerâmica, e acendeu um cigarro.

            - Olá, senhor Collins - exclamou uma voz jovem.

            Olhou para trás e viu Rick Baxter, o neto de Hannah Baxter, de joelhos no chão, a mexer num gravador portátil.

            - Olá, Rick. Então não foste hoje à escola?

            - O motorista está doente, por isso a avó deixou-me ficar em casa.

            - Os teus pais ainda estão em África?

            - Estão. Não podiam vir a tempo do funeral do avô, por isso ainda ficam mais um mês.

            - Parece que tens problemas com essa engenhoca. Está avariado?

            - Não consigo pô-lo a trabalhar - respondeu Rick. - Estou a tentar consertá-lo para poder gravar hoje à noite o programa especial da televisão sobre a banda desenhada na América. Mas não consigo...

            - Deixa-me experimentar, Rick. Não sou mecânico, mas talvez consiga ajudar.

            Rick levou o gravador para junto de Collins. Rick era um rapaz de cabelo castanho e olhos vivos, com o gancho habitual nos dentes. Collins lembrou-se que ele era um rapaz esperto e amadurecido, para a idade de doze anos. Collins pegou no gravador, examinou todos os botões para verificar se estavam nas posições corretas, e em seguida abriu a caixa.

            Viu imediatamente o que estava mal, fez um simples ajuste e experimentou o aparelho. Já trabalhava.

            - Obrigado!-exclamou Rick. - Agora já posso gravar o programa. Devia ver a minha coleção. Gravo os melhores programas e as melhores entrevistas da rádio e da televisão. Tenho a melhor coleção lá da escola. É o meu passatempo favorito.

            - E um dia terá muito valor - disse Collins. Estamos na era dos gravadores, pensou.

            Perguntou a si próprio se algum desses miúdos, mesmo espertos como Rick, ainda saberiam escrever. E o pior ainda estaria para vir, com a aprovação da 35.a emenda. A escuta telefônica, os microfones escondidos, as escutas por processos eletrônicos, teriam aprovação pública.

            - Olá, avó - ouviu Rick dizer.

            Collins pôs-se imediatamente de pé, voltando-se para cumprimentar Hannah Baxter. Quando ela chegou junto dele, abraçou-a e beijou-a afetuosamente no rosto. Era uma mulher pequena e anafada, em decrepitude mas com faces ainda brilhantes e quentes e traços de extrema bondade.

            - Os meus sentimentos - disse Collins. - Lamento muito.

            - Obrigado, Christopher. Felizmente que tudo acabou. Não podia suportar o sofrimento dele nem vê-lo para ali prostrado como um vegetal, um homem da sua vitalidade. Sinto a falta dele. Não pode imaginar as saudades que tenho. Mas é a vida. Temos de a enfrentar. - Voltou-se. - Rick, vai para dentro. E nada de programas de televisão nem de gravações até à noite. Pega nos livros da escola. Não quero que reproves, senão o teu pai fica zangado comigo.

            Quando o rapaz os deixou, Hannah sentou-se no tampo de cerâmica da mesa e Collins reocupou o seu lugar.

            Hannah falou nostalgicamente de Noah Baxter por mais algum tempo, recordando os bons momentos que tinham passado juntos, mas a sua voz começava gradualmente a arrastar-se.

            - Não me deixe continuar. Como vai o seu trabalho?

            - Não é fácil. Posso avaliar o que Noah passou.

            - Ele costumava dizer que era como ter um gabinete sobre areias movediças. Por mais que se fizesse ia-se sempre afundando. Mas se há alguém apto para lhe suceder, é você, Christopher. Sei que Noah sempre teve grandes esperanças em si.

            - Foi por isso que ele me mandou chamar na última noite, Hannab?

            - Claro.

            - O que foi que ele lhe disse?

            - Estava ao lado dele quando saiu do estado de coma. Sentia-se terrivelmente fraco e não se exprimia bem. Reconheceu-me e murmurou umas palavras afetuosas. Depois pediu-me que lhe fizesse um favor: ''Chama Chris Collins. Preciso o ver. É um assunto urgente. É importante. Preciso de falar com ele." Não falou com esta clareza, mas foi isto que tentou dizer. Por isso, mandei chamá-lo. Tenho imensa pena que não tenha conseguido chegar a tempo.

            - Hannah, porque me queria ele falar?

            Ela ainda não tinha pensado nisso.

            - Porque é que ele o queria ver? Eram assuntos a tratar, certamente. Ele raramente conversava comigo sobre o trabalho. Tratava esses assuntos diretamente com os interessados. Naquela ocasião, ele tinha qualquer coisa para lhe dizer. É uma pena que não o tenha conseguido.

            Collins sentiu vontade de lhe dizer que o coronel tivera essa oportunidade através do padre Dubinski, mas uma vez que ela não sabia, Collins resolveu instintivamente não a envolver no caso.

            - Gostava de ter falado com ele - disse Collins. - Podia ter-me dado solução a uma série de assuntos. Por exemplo, há certos ficheiros que não encontro. Já estive a ver o arquivo oficial, mas o arquivo pessoal de Baxter, segundo me diz a minha secretária, foi trazido para aqui depois de ele adoecer.

            - É verdade. Guardei-o no escritório.

            - Poderei consultá-lo por uns minutos, Hannah?

            - Já não o tenho. Esse arquivo já cá não está. Foi levado no dia em que Noah morreu. Vernon Tynan telefonou-me para me dizer que precisava dele por um ou dois meses, que desejava examiná-lo para se certificar de que não tinha assuntos ultra-secretos no ficheiro. Fiquei aliviada por lhe dar. Todos os assuntos secretos de Noah me punham nervosa. Portanto, se lá estiver alguma coisa de que precise, tem de ir ter com Vernon. Com certeza que ele cooperará.

            É estranho, pensou Collins. Que quereria Vernon T. Tynan dos papéis pessoais do coronel Baxter? Mas o tempo urgia e a pergunta ficou no ar.

            - Na verdade, aquilo que procuro é um papel do Departamento de Justiça relacionado com a 35.a emenda. Tem nome. Chama-se Documento R. Por acaso chegou a ver o ficheiro?

            - Nunca mexi nas fichas. Não tinha motivo para o fazer.

            - Claro, mas lembra-se se Noah alguma vez lhe falou desse tal documento?

            Ela abanou negativamente a cabeça.

            - Não, que me lembre nunca falou nisso. Como já lhe disse, ele raramente me fazia confidências sobre os assuntos do serviço.

            Desapontado, Collins prosseguiu:

            - E não sabe de alguém a quem ele possa ter falado a esse respeito? Ela apontou para o maço de cigarros que estava em cima da mesa.

            - Posso tirar um, Christopher?

            Ele tirou rapidamente um cigarro do maço aberto, ofereceu-lhe e acendeu-o.

            - Voltei a fumar depois do funeral. - Soprou o fumo, pensativa. - Noah não tinha muitos amigos íntimos. Era uma pessoa bastante ciosa da sua vida privada, como deve saber. Havia algumas pessoas com quem se relacionava no trabalho, como Vernon Tynan e Adcock, mas não passavam de relações de serviço. No aspecto particular... um amigo pessoal? - Calou-se para pensar. - Bem, parece-me que o único que podia chamar-se amigo era Donald, Donald Radenbaugh. Ele e Noah eram amigos íntimos, até à altura do problema do pobre Donald.

            O nome pareceu-lhe desconhecido, mas subitamente captou-o e recordou-se das parangonas dos jornais.

            - Depois de Donald ter sido julgado, condenado e encarcerado na Penitenciária Federal de Lewisburg - continuou Hannah Baxter Noah nunca mais o pôde ver. Atendendo à posição de Noah, seria muito embaraçoso. Foi como no tempo em que Robert Kennedy era Procurador e o seu amigo James Landis esteve envolvido num caso de fuga aos impostos. Kennedy demitiu-o. Não podia interferir. O mesmo se passou com Noah no caso de Donald Radenbaugh. Mas Noah acreditou sempre na inocência de Donald e achava que o caso tinha sido um engano completo da justiça. De qualquer forma, Donald foi um dos melhores amigos de Noah.

            - Donald Radenbaugh - repetiu Collins. - Lembro-me do nome. O caso teve muita publicidade nessa altura, há dois ou três anos. Foi um escândalo financeiro, não é verdade? Não me recordo bem dos pormenores.

            - Foi um caso muito feio. Também já não me lembro perfeitamente dos pormenores. Donald era advogado e exercia a profissão aqui em Washington quando foi nomeado conselheiro presidencial na anterior administração. Foi acusado de conspiração para defraudar ou extorquir (não me lembro bem) um milhão de dólares através de contratos governamentais com grandes companhias. Na verdade, o dinheiro provinha de contribuições ilegais para campanhas. Quando o FBI deitou a mão a um tal Hyland, este procurou afastar de si as provas para conseguir uma sentença leve e deitou todas as culpas para cima de Donald Radenbaugh. Afirmou que Donald estava a caminho de Miami Beach para entregar o dinheiro a um terceiro conspirador. Quando o FBI apanhou Donald em Miami, ele não tinha o dinheiro. Insistia que nunca o tivera. No entanto, com base principalmente no testemunho de Hyland, Donald foi julgado e declarado culpado.

            - Sim, já me recordo - disse Collins. - Parece-me que apanhou uma sentença pesada, não foi?

            - Quinze anos - respondeu Hannah. - Noah ficou muito perturbado. Sempre disse que Donald tinha sido usado como bode expiatório por ter ajudado o anterior presidente a manter a administração limpa. Noah não podia interferir no tribunal. Ainda tentou aligeirar a sentença, mas não conseguiu. Sei que esperava fazê-lo sair sob fiança passados cinco anos, mas agora já cá não está para o ajudar. Seja como for, Donald Radenbaugh é a única pessoa que julgo poder ajudá-lo... além de Vernon Tynan.

            - Quer dizer que Radenbaugh talvez saiba alguma coisa a respeito do Documento R?

            - Não sei, Christopher. Realmente, não sei. Mas se esse documento era um papel ou um projeto em que Noah participou, podia muito bem ter conversado a esse respeito com Donald Radenbaugh. Era freqüente pedir conselho a Donald em assuntos melindrosos. Apagou a ponta do cigarro. - Podia visitar Lewisburg no exercício das suas funções, arranjar maneira de ver Donald e dizer-lhe que deseja ajudá-lo como Noah pretendia fazer. Talvez ele coopere. Pode ser que lhe dê a informação de que precisa. Posso escrever-lhe a dizer que pode confiar em si, uma vez que era protegido e amigo de Noah.

            - Seria capaz de o fazer? - perguntou Collins ansioso. - É claro que vou ajudá-lo.

            - Pode estar certo que o farei. De qualquer maneira, já tencionava escrever-lhe algumas palavras sobre o que se passou. Ele deve sentir a falta da correspondência, só a filha lhe deve escrever. Tem uma filha encantadora, chamada Susie, que vive atualmente em Filadélfia. Dir-lhe-ei que o vai visitar. Sabe quando?

            Collins voltou mentalmente uma folha do calendário.

            - Tenho de estar na Califórnia no fim de semana para fazer um discurso. Voltarei alguns dias depois. Pois bem, pode dizer a Radenbaugh que o irei ver dentro de uma semana. Sim, daqui a uma semana. É uma boa pista, Hannah, agradeço-lhe muito. - Levantou-se, aproximou-se dela e deu-lhe um beijo na face. - Obrigado por tudo, Hannah. Não ande a pensar no que aconteceu, mantenha-se ocupada. Se Karen ou eu pudermos fazer alguma coisa, não hesite em telefonar.

            À saída, a caminho do carro, sentia-se melhor. Radenbaugh era uma hipótese concreta. Mas o seu ar cerrou-se de imediato. Primeiro teria de confrontar Vernon T. Tynan com o mistério do Documento R. Não sabia como iria fazê-lo, mas isso teria de acontecer mais cedo ou mais tarde. Entrou no carro já com a decisão tomada: quanto mais depressa melhor.

            Na manhã seguinte, às dez e meia, Chris Collins encontrava-se com Vernon T. Tynan na sala de conferências do diretor, adjacente ao seu gabinete, no sétimo andar do edifício J. Edgar Hoover. Collins tinha desejado que a reunião se realizasse no gabinete de Tynan, pois pretendia verificar se o arquivo particular de Noah Baxter lá se encontrava. Mas Tynan esperara por ele no átrio do sétimo andar e conduzira-o para a sala de conferências. Aí, Tynan insistira que Collins se sentasse à cabeceira da mesa, enquanto ele ocupava uma cadeira à direita do Procurador-Geral.

            Enquanto tirava da mala de couro a pasta que continha as últimas estatísticas criminais da Califórnia, Collins observou o diretor e ouviu os seus gracejos para a secretária que servia chá e café. Desde o encontro com o padre Dubinski na igreja da Santíssima Trindade, Collins tinha crescentes suspeitas sobre o diretor do FBI. Mas agora, observando a descontracção de Tynan com a secretária, a suspeita parecia não ter razão de ser e desvanecia-se gradualmente. O rosto belicoso de Tynan abria-se num sorriso. Havia nele uma franqueza e cordialidade que desarmavam Collins. Como suspeitar do principal defensor da lei no país? Talvez o padre tivesse compreendido mal ou exagerado a ameaça do emissário de Tynan.

            - Não se esqueça, Beth - disse o diretor à secretária quando ela ia a sair - nada de interrupções. - A porta fechou-se e Tynan consagrou-se ao visitante. - Então, Chris, em que lhe posso ser útil?

            - Preciso apenas de poucos minutos - disse Collins, tirando os papéis. - Tenho estado a rever o meu discurso para Los Angeles, que inclui os últimos relatórios do FBI sobre criminalidade na Califórnia.

            - Sim, recebemo-los diretamente da Califórnia. É onde precisamos atuar neste momento. Já os tem? Enviei-lhes ontem.

            - Tenho-os aqui - disse Collins. - Quero ter certeza de que estou na posse dos últimos números. Se chegar mais qualquer coisa...

            - Está perfeitamente atualizado - disse Tynan. - São os piores até hoje. Faça-os compreender que são eles, mais do que os cidadãos de qualquer outro Estado, que precisam do apoio constitucional.

            Collins considerou a primeira folha.

            - Na verdade, estas estatísticas da Califórnia são excepcionalmente elevadas em comparação com as dos outros Estados.

            - Levantou os olhos. - Serão absolutamente exatas?

            - Tão exatas quanto os chefes da polícia da Califórnia o quiserem - respondeu Tynan. - Pode verificar os números deles lá na Califórnia.

            - Só queria saber se piso terreno firme.

            - Pisa terreno bem firme. Com esses números terá uma boa introdução para defender a 35.a emenda.

            Collins tomou um gole de chá tépido.

            - É claro que vou falar da emenda. Mas tenho de ser cuidadoso para não exagerar. Custa-me ter de entrar num debate sobre este tema. E não me entusiasma o programa de televisão. Francamente, não tive tempo de estudar a lei em pormenor, com todas as suas implicações, desde que me tornei Procurador-Geral.

            - Estou convencido que se sairá bem - disse Tynan com desenvoltura.- No Congresso discutiu-a esplendidamente. Sabe exatamente o que é preciso.

            - Mas talvez... - Collins hesitava - talvez não saiba tudo... Tynan deu mostras de aborrecimento.

            - Que mais haveria de saber?

            Chegara o momento. Collins fechou os olhos mentalmente e mergulhou.

            - Há mais qualquer coisa... uma espécie de suplemento... um certo Documento R. O que há a respeito disso? Em que medida se relaciona com a 35.a emenda?

            Collins esboçava uma expressão ingênua no seu rosto esguio. Todo ele era curiosidade inocente. Fixou o olhar em Tynan para ver se a sua reação traía alguma coisa. As pálpebras semicerradas de Tynan abriram-se. Os seus pequenos olhos escuros cresceram. Mas mantiveram-se inexpressivos. Ou era um ator consumado ou a referência ao Documento R não lhe dizia nada.

            Collins quebrou o silêncio interpelando-o:

            - O que é que preciso saber sobre o Documento R?

            - O quê? - perguntou Tynan.

            - O Documento R. Pensei que me poderia elucidar, para eu ficar preparado contra tudo.

            - Chris, não tenho a menor idéia do que está a falar. Onde é que foi buscar isso? O que é?

            - Não sei. Tenho estado a desfazer-me de alguns papéis velhos de Noah Baxter e calhou ver esse nome num dos memorandos relativos à 35.a emenda. Tratava-se de examiná-lo juntamente com a emenda. Era tudo o que o memorando dizia.

            - Ainda tem esse memorando? Gostaria de vê-lo. Talvez me refresque a memória.

            - Ah, que pena! Já não o tenho. Foi para o lixo com um molho de papéis do tempo de Noah. Mas ficou-me na idéia, e pareceu-me que o devia mencionar. Pensei que se você o conhecesse, talvez me pudesse ajudar. - Encolheu os ombros. - Mas se não conhece...

            - Repito-lhe - disse Tynan com firmeza - que não tenho a menor idéia do que está a falar. Provavelmente era um código (ou o que lhe quiser chamar) que Noah utilizava para se referir à emenda. Não posso imaginar outra coisa. De qualquer maneira, não sei nada a respeito disso. Pode ter certeza de que possui todas as informações de que precisa para fazer um trabalho formidável na Califórnia. Você vai fazer o seu trabalho e nós faremos o nosso. Pode ter certeza de que a Califórnia vai ratificar. Apostamos tudo nisso, e, Chris, não tenciono perder a partida.

            - Nem eu - disse Collins, guardando os papéis. - Penso que estou em perfeita forma.

            Uma vez no átrio, e sozinho, Collins desceu pensativamente para o sexto andar, refletindo na reunião. Não tinha havido fendas na armadura de Tynan. Não tinha havido nada na sua resposta nem na sua atitude que indicasse que ele tinha conhecimento do documento - um documento perigoso, chamara-lhe Baxter no leito de morte- designado pelo nome de Documento R. No entanto... Quando se dirigia para o elevador, os seus olhos pousaram no grande espaço aberto no centro do sexto andar. Aproximou-se e olhou para cima. Não havia telhado lá no alto. Da primeira vez que tinha visitado o novo edifício do FBI, perguntara ao guia, um agente especial, porque é que havia aquela grande abertura no centro do edifício e porque era descoberta. O guia respondera-lhe:

            - Para tornar o nosso quartel-general menos secreto, menos fechado, menos ameaçador e sinistro. Fizemo-lo parecer completamente aberto para que o público pense que nós também estamos abertos ao público.

            Para parecerem abertos ao público, pensou Collins. Talvez o diretor tivesse assumido o ar do seu edifício, um ar de franqueza para encobrir a verdade. Collins continuou a andar vagarosamente para o elevador, onde o esperava Oakes, o seu guarda-costas de serviço. Chegou à conclusão que talvez só na Califórnia poderia saber mais a respeito de Tynan e das suas manobras. Depois disso, restava-lhe ainda Lewisburg, onde poderia saber ainda mais a respeito de Tynan e do Documento R.

            Noah Baxter, na sua agonia, tinha-o chamado com a maior urgência para lhe falar de uma grave atuação presente no Documento R. Teria Noah compreendido que o estava a meter num labirinto sem saída? Não, Noah não o encaminharia para uma odisséia cega se não houvesse uma saída.

            Ao entrar no elevador, prometeu a si próprio descobri-la rapidamente.

            De novo no seu gabinete, o diretor Tynan ficou de pé no centro da sala, de sobrolho carregado, à espera de Harry Adcock.

            Quando Adcock entrou, fechando a porta suavemente, Tynan estava absorto, com os olhos fixos no tapete. Sem levantar a cabeça, disse:

            - Acabou de sair.

            - Que queria ele? - perguntou Harry Adcock, dirigindo-se para o meio da sala.

            - Tentou jogar às escondidas comigo. Disse que desejava que o ajudasse no discurso que vai fazer em Los Angeles. - Tynan praguejou: - Merda!

            - Mas que queria ele afinal, chefe?

            - Queria saber se eu tinha ouvido falar de uma coisa chamada Documento R.

            - E tinha?

            Tynan ergueu a cabeça.

            - Eu nem sequer sabia do que ele estava a falar.

            - Onde é que ele ouviu tal coisa?

            - Não sei. Disse que tinha visto uma referência num dos memorandos de Noah. - Grunhiu: - Estava a mentir. - Procurou os olhos de Adcock. - É um belo intrometido; este nosso Collins, tem o nariz muito comprido. Parece que anda à procura de sarilhos.

            Adcock assentiu com a cabeça.

            - Sente-se, Harry.

            Tynan rodeou a secretária e instalou-se na cadeira giratória, enquanto Adcock se sentava numa cadeira à sua frente. Tynan recostou-se, com os braços cruzados sobre o peito atlético e os olhos postos no teto. Passados instantes, falou:

            - Eu julgava que ele era bom rapaz, um daqueles intelectuais superficiais, ainda de olhos fechados. Também pensava que, tendo sido trazido para cá por Noah, pertencia ao nosso grupo. Agora já não tenho certeza. Parece-me que ele é um burro a dar-se ares de sabido e que anda a ver se arranja problemas.

            - Como, chefe?

            - Pensando, por exemplo, que pode ser mais esperto que Vernon T. Tynan. - A cadeira giratória rangeu quando ele se endireitou.- Sabe que este edifício é um monumento a J. Edgar Hoover, Harry. Pois eu sei muito bem como quero que seja o meu monumento. Quero que seja a ratificação da 35.a emenda integrada na Constituição. Não me importo de não vir a ser recordado por mais nada, desde que seja por isso.

            - E há de ser, chefe - disse Adcock com fervor.

            - Sim? Pois bem, quero estar certo de que o senhor Collins também percebe isso. Parece-me que é melhor começarmos a vigiá-lo. Não só aqui, também na Califórnia...- A pausa foi quase uma ameaça. - Especialmente na Califórnia. Sim. Vamos falar um pouco a respeito disso, a respeito do senhor Collins e da Califórnia. Tenho uma série de idéias. Vamos ver se servem.

                                                

 

 

            Apesar do discurso que estava encarregado de fazer e do malfadado programa de televisão, Chris Collins ficara ansioso pela viagem à Califórnia. Tinha aligeirado propositadamente o plano. Chegaria a S. Francisco na quinta-feira à tarde, instalar-se-ia nos seus aposentos favoritos do Hotel S. Francisco, e teria um encontro bem regado com dois delegados do Ministério Público dos quatro distritos judiciais da Califórnia. Depois, esperaria a visita do seu filho Josh, de dezenove anos, vindo da Universidade de Berkeley. A seguir a essa reunião (não via o rapaz há oito meses), iriam ao restaurante Ernie e poderiam deliciar-se com um longo e calmo jantar. Mas o plano não tinha resultado. Dois dias antes da partida de Washington, Collins tinha telefonado a Josh para confirmar a data. Primeiro tinham vindo as perguntas habituais e as correspondentes respostas breves.

            - Como tens passado, Josh?

            - Atarefado como o diabo. O trabalho de casa é demasiado. Imensas atividades externas.

            - Bem, e como vai a escola?

            - Já sabe, o costume.

            - Continuas entusiasmado com as ciências políticas?

            - Claro, mas eles tornam tudo muito maçador.

            - Tens visto a tua mãe ultimamente?

            - Não a vejo desde o aniversário dela. Estive em Santa Bárbara dois dias. Helen está bem. Só que não me larga.

            - E o marido?

            - Parece-me que se entendem bem. Mas eu não posso com ele. De que é que se pode falar com um tarado pelo tênis, cheio de artrite? E o pior é que ele insiste em chamar-me "filho".

            Collins não pudera conter o riso e Josh acabara por o acompanhar. Não era um rapaz mal humorado, sabia até ser espirituoso quando lhe parecia valer a pena. Vivia muito intensamente o mundo que o rodeava. Fisicamente, era bastante parecido com o pai. Era alto (cerca de um metro e noventa), rijo e tinha um rosto magro.

Collins perguntara-lhe se ainda usava barba. Ele respondera-lhe que já a tinha muito mais curta. Mary tinha insistido que a aparasse. Sim, continuava a viver com Mary em felicidade extramatrimonial. Ela tinha redecorado o apartamento da Rua Stuart e pintara pessoalmente o interior. Josh era suficientemente delicado para perguntar por Karen, que só tinha visto duas vezes. Collins hesitara em falar-lhe da gravidez, mas acabara por lhe contar que ia ter um irmão ou uma irmã dentro de cinco meses. Para alívio de Collins, Josh ficara encantado e felicitara-o.

            - Quando é que nos vemos? - perguntara Josh.

            - Foi por isso que telefonei. Podes encontrar-te comigo esta semana se estiveres livre. vou de avião para São Francisco na quinta-feira.

            Collins explicara-lhe os fins da visita à Califórnia. Depois de um breve silêncio, Josh interrogara-o:

            - Vai defender a 35.a emenda nesse discurso, pai? Collins hesitara, percebendo a tempestade.

            - Sim, vou.

            - Porquê?

            - Bem, porque faz parte do meu trabalho. Pertenço à Administração.

            - Penso que essa razão não é suficiente, pai.

            - Bem, há outras razões. Há muito que dizer a favor da 35.a emenda.

            - Não consigo encontrar uma única. Vou ser franco consigo. Disse-lhe que tenho andado com atividades exteriores à Universidade. Pois tenho estado ocupado, durante todo o tempo livre de que disponho, no combate à aprovação da emenda. Também lhe posso dizer que pertenço ao grupo de Tony Pierce; sou investigador dos Defensores da Declaração de Direitos. Vamos lutar aqui na Califórnia.

            - Desejo-te boa sorte. Mas receio que percam. O Presidente está empenhado em apoiar por todas as formas essa lei.

            - O Presidente - dissera Josh com desprezo - tem a cabeça tão vazia como uma bola de voleibol. Se pudesse, adormeceria todo o país. Tynan é o único que nos preocupa. Ele é uma nova edição de Hitler.

            - Eu não seria tão duro a seu respeito, Josh. É um policial com um trabalho difícil a realizar. Não tem nada de parecido com Hitler.

            - Posso provar-lhe que está enganado - desabafara Josh.

            - Que queres dizer com isso?

            - Os defensores da emenda estão sempre a argumentar que não será aplicada senão em sérias emergências, como por exemplo, no caso de atentados para derrubar o governo.

            - Mas isso é absolutamente correto.

            - Pai, eu penso que as pessoas que estão por trás da lei (não me refiro a si, falo em Tynan e na sua quadrilha) pretendem ir muito mais longe assim que tiverem a emenda.

            - Ir muito mais longe? Que queres dizer?

            - Não quero falar nisto pelo telefone. Mas posso prová-lo.

            - Provar o quê? - perguntou Collins, tentando conter-se.

            - Mostrar-lhe-ei. Eu levo-o lá; temos estado a investigar e vamos abrir-lhe os olhos. Vai ver pessoalmente e então acreditará. Nós (quer dizer, os que trabalham no grupo de Pierce), estamos a guardar o maior trunfo, pois queremos apresentá-lo poucos dias antes de o órgão legislativo votar a emenda. Mas os meus amigos não se vão importar se eu lhe mostrar, atendendo a quem é. Talvez o faça mudar de opinião.

            - Estou sempre receptivo a tudo o que for razoável. Se não me queres dizer do que se trata pelo telefone, talvez me possas dizer onde é. Tens de compreender que o meu tempo é limitado.

            - Vai valer bem o tempo que perder. Eu levo-o lá. Faça-me um favor, pai. Faça-me este favor.

            Collins vacilara. Há muito que o filho não lhe pedia um favor.

            - Bem, vou ver se arranjo tempo. Como vamos fazer?

            - Encontramo-nos em Sacramento, quinta-feira ao meio-dia.

            - Em Sacramento?

            - Iremos a um lugar chamado Newell...

            Por isso, porque era pai além de Procurador-Geral e porque gostava do filho, decidira voar para Sacramento em vez de se dirigir a S. Francisco, depois de ter transferido o encontro com os delegados do Ministério Público para Los Angeles. Chegara a Sacramento pouco antes do meio-dia. Josh, aprumado, bronzeado, de barba bem cortada, esperava-o, claramente cheio de emoção contida. Depois de o abraçar, tinham entrado diretamente para um Mercury alugado. Com eles seguia o agente especial Hogan, enquanto o agente substituto Oakes ficaria à espera que regressassem à tarde, pois Collins teria de voar diretamente para Los Angeles.

            Agora, depois de terem percorrido quilômetros que pareciam não ter fim, Josh assegurava-lhe que estavam perto do destino. Não tinha querido e continuava a não querer divulgar o objetivo.

            - Vai ver com os seus próprios olhos - repetia várias vezes. Como o motorista tivesse seguido inicialmente para Norte, pela estrada nacional número 5 em direção a Weed, voltando depois para Nordeste na estrada número 97, para Klamath Fali, no Oregon, para reentrar depois no sentido da Califórnia, Collins teve a crescente sensação de ter sido arrastado para uma brincadeira, para uma aventura paranóica de um jovem. No entanto, procurou continuar bem disposto, fumando, tentando distrair-se com a conversa ligeira, porque sentia prazer pela presença do seu filho aventureiro. Por seu turno, Josh, embora se mantivesse impenetrável a respeito do que pretendia mostrar ao pai, não parava de arengar sobre o que ele e o seu grupo pensavam da 35.a emenda.

            - Uma das poucas coisas grandiosas deste país é a Declaração de Direitos - dizia ele. - As primeiras dez emendas garantem a liberdade religiosa, de imprensa, de expressão, de reunião, de petição, libertam-nos do arbítrio, dão proteção aos acusados de crimes, garantem o julgamento por um júri, não permitem penas excessivas nem punições cruéis...

            Collins remexia-se incessantemente no assento. Porque julgarão os filhos que os pais não sabem nada? Ou que se esqueceram de tudo?

            - ...Mas agora aparece a 35.a emenda para suspender todas estas liberdades e estes direitos.

            - Qualquer declaração de direitos se refere a liberdades relativas e não absolutas - esclareceu Collins calmamente. - Como disse Emerson, as Constituições são apenas sombras alongadas dos homens. Foram inventadas por estes para se protegerem uns dos outros. Quando não o conseguem, então o destino da sociedade humana é posto em causa; têm de ser tomadas medidas drásticas para a própria segurança da sociedade.

            Josh recusou-se a aceitar essa idéia.

            - Nem pensar. Só há um aferidor. Veja o que se passa no mundo. Todos os governos verdadeiramente livres têm uma declaração de direitos que não pode ser repudiada pelo governo. Só as ditaduras, as tiranias e os governos que não são livres é que não têm declaração de direitos ou têm declarações que são condicionadas e podem

ser revogadas pelos partidos no poder mesmo em tempo de paz. A Inglaterra tem a Magna Carta de 1215 e a Declaração de Direitos de 1689; estas e outras leis trouxeram aos Ingleses o fim das prisões arbitrárias, a garantia do julgamento com um júri. A liberdade de expressão e de reclamação, o habeas corpus, a proteção da vida, a liberdade, a propriedade. A França tem uma Declaração de Direitos baseada nos Direitos do Homem e do Cidadão, promulgada em 1789, seis semanas depois da queda da Bastilha. Também neste caso, os direitos consagrados de igualdade para todos os cidadãos, de proteção à mulher, à criança e à terceira idade, de trabalho sem discriminação, de segurança social, de educação, etc., não são coarctadas por embustes como a 35.a emenda. O mesmo se verifica na Alemanha Ocidental e na Itália. Porque é que na Alemanha Ocidental a Declaração de Direitos não pode ser alterada como nós estamos a pretender fazer? Mas noutros países que também têm declarações de direitos, principalmente países comunistas ou ditatoriais, encontra-se sempre uma carta na manga. Veja Cuba: a liberdade de expressão é garantida, claro, mas a propriedade privada pode ser confiscada "se o governo o achar necessário para combater atos de sabotagem, terrorismo, ou outras atividades contra-revolucionárias". Veja a Rússia: direitos iguais para todos, independentemente da nacionalidade ou do sexo, exceto para os "inimigos do socialismo". Ou veja a Iugoslávia: a Constituição declara a liberdade de expressão, de imprensa, etc.; mas depois vem a carta escondida: "Estas liberdades e estes direitos não podem ser usados por ninguém para abalar as bases da ordem democrática socialista... para fazer perigar a paz... para difundir o ódio ou a intolerância nacional, racial ou religiosa... para incitar ao crime ou ofender de qualquer forma a decência pública.'' Mas quem é que decide? Agora o nosso Presidente e o diretor do FBI estão a tentar jogar essa cartada contra as nossas liberdades. Acredito que se a Califórnia disser sim à emenda, será o fim da liberdade e da justiça para todos nós. Que diabo, até fiquei sem fôlego para o convencer.

            Exausto por o ouvir, Collins disse circunspectamente:

            - Josh, os horrores que receias nunca acontecerão. A 35.a emenda será usada para te proteger e, de fato, pode até nunca ser invocada.

            - Nunca ser invocada? Espere pelo que lhe vou mostrar daqui a pouco.

            - Estamos a chegar?

            Josh espreitou por cima do motorista e de Hogan que ocupava o banco da frente.

            - Sim.

            Collins olhou para o brilho do sol pela janela lateral. A América era uma amálgama de terras com paisagens dramaticamente diferentes, mas esta era a mais desolada de todo o país. Na última hora só tinha visto lagos secos, leitos alcalinos, quintas abandonadas cobertas de mato, uma ou outra estação de serviço dando-se ares de cidade. Agora atravessavam um terreno rude e sinistro, coberto de resíduos de antigas correntes de lava, de pedra-pomes vulcânica e sem sinais de vida. De repente, essa vida surgiu, algumas pessoas conversavam em frente de uma loja, outras reuniam-se junto do posto de gasolina, viam-se uns tantos casebres e uma tabuleta batida pelo tempo dizia: NEWELL.

            Josh deu instrução ao motorista e depois de breves momentos disse-lhe que parasse.

            Collins estava atônito.

            - Onde é que estamos?

            - Lago Tule - anunciou Josh, triunfante.

            Collins franziu o sobrolho. Lago Tule. O nome tinha o sabor de um velho lugar familiar.

            - Criado em 1942, oito semanas após Pearl Harbor, pelo decreto presidencial número 9066 de Roosevelt - explicou Josh. - Os Americanos de origem japonesa foram considerados um perigo para a segurança. Por isso, apesar de dois terços serem cidadãos americanos, 110.000 foram concentrados, aprisionados em dez campos ou centros de deslocados. O lago Tule era um deles, era um dos piores campos de concentração da América, e foram aqui internados 18.000 americanos japoneses.

            - Não gosto dessa mancha na nossa história mais do que tu disse Collins. - Mas que tem isso a ver com a 35.a emenda?

            - Pode verificar pessoalmente.

            Josh abriu a porta de trás do Mercury e saiu. Collins seguiu o filho, com o vento seco e quente a bater-lhe no rosto, tentando descobrir qualquer relação. Percebeu que estavam perto do que parecia ser uma vasta fazenda moderna ou uma instalação fabril:

uma série de edifícios de tijolo e de barracas de chapa ondulada, por trás de uma nova barreira de arame farpado.

            - Isto é o lago Tule?

            - Era - disse Josh com ênfase -, mas agora já não é. Foi o nosso campo de concentração mais duro, construído em 26 mil acres do leito seco do lago. Agora é algo mais, e foi por isso que o trouxe aqui.

            - Onde queres chegar, Josh?

            - Antes de lhe dizer, deixe-me mostrar-lhe uma coisa que o vai esclarecer. -       Segurava um grande sobrescrito, que abriu. Retirou meia dúzia de fotografias e passou-as ao pai.

            - Primeiro veja isto. Foram obtidas através da Liga dos cidadãos americanos de origem japonesa. Estas fotografias do antigo campo foram tiradas precisamente deste ponto, há exatamente um ano. O que é que vê?

            Collins examinou a fotografia. O que via eram fragmentos destroçados da barreira de arame farpado assentado em suportes de cimento. Atrás, via alguns restos de barracões em ruínas, edifícios de paredes esburacadas e uma torre de vigia em desagregação.

            - E então? - perguntou Collins, devolvendo as fotografias.- Não se vê nada.

            - Exatamente - disse Josh. - Aí é que bate o ponto. Foram tiradas há um ano e não se via nada. Só ruínas. - Abarcou com um gesto a cena que presenciavam. - Veja agora o lago Tule e diga-me o que lhe parece. - Confuso, Collins perscrutava o horizonte enquanto o filho prosseguia: -Uma nova barreira de segurança com fios eletrificados a encimar os alicerces de betão reforçado. E lá adiante, veja os edifícios. Uma nova torre de vigia gigantesca, com holofotes. Três edifícios de cimento novos em

folha e mais quatro em construção. Que quer isto dizer?

            - Que estão a fazer novas construções. Só isso.

            - Mas que espécie de construção? Vou dizer-lhe do que se trata. É um projeto secreto do governo. Estão a reconstruir um novo lago Tule. Estão a preparar um futuro

campo de concentração para as vítimas das prisões em massa assim que a 35.a emenda entrar em vigor.

            Collins estava surpreso e irritado. Tinha perdido um dia, sofrido incômodos desnecessários para ver o que não passava de um produto da imaginação imatura e tonta do seu filho.

            - Ora, Josh, certamente não esperas que eu acredite nisso. Onde é que foste buscar tal idéia?

            A boca de Josh comprimiu-se.

            - Temos as nossas fontes. É uma obra do governo. É nova. Não restam dúvidas de que se trata de uma espécie de campo de internamento ou prisão. Se não é, porque foi reconstruída a torre de vigia?

            - Há um cento de projetos do governo que podem tê-las por motivos de segurança.

            - Não tão grandes nem do tipo desta.

            - Apre, é evidente que não se trata de um campo de concentração ou lá o que queiras chamar-lhe. Já não temos disso no país e nunca mais voltaremos a ter. Meu Deus, Josh, o que dizes é o mesmo tipo de disparate, o mesmo tipo de boato infundado que corria em 1971 quando um punhado de jornais clandestinos acusavam o presidente Nixon e o Procurador-Geral Mitchell de fazerem reviver os centros de deslocados japoneses, como campos prisionais para os dissidentes e manifestantes. Nunca ninguém o conseguiu provar.

            - Mas também ninguém o refutou.

            Pelo canto do olho, Collins viu que, por trás da barreira, vinham dois homens a caminho do portão da entrada.

            - Pois bem, eu vou refutar a idéia que fazes deste projeto - disse Collins com determinação. - Espera aqui.

            Quando Collins se dirigiu ao portão, viu os dois homens, um de uniforme militar e o outro de camiseta e calças de ganga, apertarem as mãos e separarem-se. Enquanto o uniformizado ficava junto do portão, o outro dirigia-se novamente para o local das construções lá ao longe. Collins apressou o passo ao aproximar-se do militar, que observava a sua chegada com um olhar inquiridor.

            - O senhor é guarda aqui? - perguntou Collins.

            - Sou.

            - É uma propriedade privada ou do Estado?

            - É do governo federal. Posso ser-lhe útil em alguma coisa?

            - Pertenço ao governo. Gostava de dar uma olhadela, se me permitir.

            O guarda avaliou Collins rapidamente.

            - Não sei se posso. Se é do governo... - Olhou à volta, pôs a mão em concha junto da boca e gritou: - Eh, Tim! - O vulto que se retirava parou e voltou atrás. - Este amigo diz que é do governo. É melhor falares com ele.

            A outra figura, um homem corpulento de rosto avermelhado, aproximou-se.

            Collins esperou. Quando o homem corpulento de camiseta e calças de ganga chegou ao portão, o guarda desviou-se para o lado.

            - Sou Nordquist, o encarregado da obra - disse o homem corpulento. - Em que posso servi-lo?

            - Bem... Eu queria dar uma volta por aí. - Esteve tentado a mostrar as suas credenciais, a identificar-se como Procurador-Geral dos Estados Unidos, mas achou melhor não o fazer. Poderia propalar-se a sua participação nesta brincadeira de crianças, neste disparate, e faria figura de tolo. - Faço parte do... do governo... do Departamento

de Justiça, em Washington.

            - Precisa ter uma autorização para entrar. Ou pelo menos uma palavra do Pentágono ou da Armada...

            - Não tenho - disse Collins, sem convicção.

            - Lamento, mas não posso deixá-lo entrar sem uma autorização especial - disse Nordquist. - Esta área é interdita.

            - Disse da Armada?

            - Não é segredo - explicou o encarregado das obras. - Isto é um ramo do Projeto Sangüíneo. Chama-se FUB. Conhece?

            - Não sei bem...

            - FUB: Freqüência Ultra-Baixa. É uma iniciativa da Armada dos Estados Unidos. Um sistema de comunicação para contatar submarinos imersos. Se lê os jornais, já deve ter ouvido falar nisso.

            - Não tenho podido lê-los durante a minha viagem de inspeção. De qualquer maneira, parece-me que vim a um lugar errado.

            - Parece que sim. Mas volte com a devida autorização e terei muito gosto em lhe mostrar tudo isto.

            - Bem, obrigado, de qualquer forma.

            Viu o homem retirar-se. Então, sentindo-se tolo e manipulado, arrastou-se penosamente para junto de Josh que o esperava em frente do carro. Tentou não se mostrar ressentido com o filho. Explicou a situação a Josh, repetindo exatamente o que Nordquist lhe dissera.

            - E é tudo - concluiu. - E agora podes dizer a Pierce e a todos os teus amigos que as suspeitas são totalmente fantasistas. Trata-se de um empreendimento da Armada e nada mais.

            Josh não estava convencido.

            - Ora, pai, não estava certamente à espera que eles lhe chamassem um campo de detenção, pois não? - Persistia obstinado. - E para que são todos aqueles barracões, aquelas prisões? - perguntou.

            - Só tu é que dizes que são prisões.

            - O pessoal da marinha não precisa daquele tipo de instalações. E continuo na minha: porque é que há uma torre de vigia? Para que são as barreiras eletrificadas? Porquê tanto segredo?

            - Ele disse que não era segredo, que tinha vindo nos jornais.

            - Apostava. Escute, pai, nós temos fontes seguras. O que não quer é encarar o que o Presidente e o FBI estão a planejar fazer. Estão a mistificá-lo de toda a maneira.

            Collins dirigiu-se para o automóvel.

            - Talvez sejas tu quem está a ser mistificado - retorquiu para trás. - Vamos embora, voltemos à civilização.

            A longa viagem de regresso foi silenciosa. Só quando chegaram ao Aeroporto Metropolitano de Sacramento e se preparavam para a despedida (seguindo ele para Los Angeles e o filho para Berkeley, via Oakland), é que Collins lhe ofereceu um sorriso.

            Colocou o braço à volta do ombro de Josh.

            - Repara que não tenho nada contra o fato de seres um ativista. Até tenho orgulho nisso. Mas tens de ter muito cuidado ao fazer acusações. Tens de ter certeza dos fatos antes de os tornares públicos.

            - Estou certíssimo a respeito deste.

            A obstinação do rapaz era exasperante. Com grande esforço, Collins conseguiu manter o bom-humor.

            - Muito bem. E se eu conseguir provar-te que aquilo que vimos é um projeto legítimo da Armada? Se o provar, ficarás convencido?

            Josh sorriu pela primeira vez.

            - É uma proposta justa. Se o pai o provar, então admitirei que estava errado. Mas tem de o provar.

            - Dou-te a minha palavra de que o farei. Bem, agora tenho de apanhar o avião. Vou encontrar-me com um deputado que está do teu lado. Mas esse terá de provar-me muitas outras coisas.

            Quando chegou ao Hotel Beverly Hills, vindo do aeroporto internacional de Los Angeles, anunciou à pressa a sua entrada. Mal teve tempo para abrir as malas no apartamento de três divisões que alugara nas traseiras do hotel, para se lavar e mudar de camisa. Instantes depois saía a correr para o parque de estacionamento, pois o encontro

com o deputado Olin Keefe no Hotel Beverly Wilshire estava aprazado para as dez horas e já passavam cinco minutos.

            O guarda-costas Oakes, que substituía Hogan, esperava-o à porta do apartamento. Atravessaram rapidamente os carreiros sinuosos que levavam ao hotel, passaram pelo átrio e entraram no Lincoln Continental que os esperava. Cruzaram o Sunset Boulevard, dirigiram-se para o Wilshire Boulevard e, em cinco minutos, paravam diante do hotel.

            Lá dentro, depois de saberem pelo recepcionista o número da suite alugada no quarto andar, Collins telefonou para cima. Keefe atendeu de imediato.

            - Já comeu? - perguntou Keefe.

            - Não, hoje ainda quase não pude comer. No avião não serviam refeições. Está a oferecer-me alguma coisa?

            - Claro que estou. Vou já encomendar.

            - Nesse caso, peça um sanduíche de pão de centeio com presunto e um chá quente sem limão. Subo já.

            - Ficamos à sua espera.

            Collins percebeu do plural. Pensava que se ia encontrar com Keefe a sós. Afinal ele estava acompanhado, mas talvez fosse apenas a mulher.

            Quando entrou na pequena sala de estar de Keefe, Collins encontrou não um mas dois estranhos, que se levantaram para o cumprimentar, e nenhum deles era a mulher do deputado à Assembléia.

            O afável Keefe, com um sorriso amigável no seu ar de querubim, vestia um casaco desportivo de qualidade e calças de gabardine.

            Apertou a mão de Collins com entusiasmo e apresentou-lhe de imediato os seus companheiros.

            - Espero que não se importe, mas tomei a liberdade de convidar dois dos meus colegas da Assembléia. Dado que temos a sorte de o ter entre nós, pensei que quanto mais informações lhe pudermos dar melhor... para si e para nós.

            - Tenho muito prazer - disse Collins, um tanto desconcertado.

            - Este é o deputado Yurkovich.

            Yurkovich era um jovem sério, de sobrancelhas delgadas, com um tique nervoso nos olhos e um bigode longo mas ralo. Collins apertou-lhe a mão.

            - E este é o deputado Tobias, veterano da Assembléia.

            Tobias era baixo, rubicundo, de olhos castanhos salientes.

            - Faça o favor de se sentar num cadeirão. Vai precisar de estar bem sentado para ouvir o que lhe contarmos - disse Keefe.

            A frase pareceu-lhe um mau augúrio. Sentou-se numa poltrona e concordou que um Scotch com gelo vinha a calhar. Acendeu um cigarro enquanto o hospedeiro preparava a bebida.

            - O seu sanduíche deve estar a chegar - disse Keefe. - com certeza que está terrivelmente cansado com o vôo e a mudança de hora, por isso vamos tentar não lhe tomar muito tempo. O melhor é irmos direto ao assunto.

            - Façam o favor - disse Collins, aceitando o Scotch e bebendo um gole.

            Os outros estavam sentados no sofá; Keefe puxou uma cadeira para junto da mesa de café, em frente de Collins.

            - Este assunto é importante para os quatro, incluindo-o a si - começou Keefe. - Para si pode ser um abrir de olhos, embora eu saiba que o nosso amigo comum, o senador Paul Hilliard, o elucidou na semana passada.

            - Sim, é verdade - disse Collins tentando lembrar-se. Passara-se tanta coisa desde o jantar com Hilliard. Além disso, estava cansado. Já passava da uma da manhã na sua cabeça, ainda pela hora de Washington. Tomou outro gole de Scotch, esperando que lhe devolvesse a memória. - Ele queria chamar-me a atenção para qualquer... qualquer discrepância na taxa de criminalidade... na estatística... É isso, não é?

            - É isso mesmo - confirmou Keefe. - Espero que não se importe que tenhamos uma discussão livre e franca a propósito deste e de outros assuntos que lhe dizem respeito.

            - É claro que não me importo. Sejam tão francos e livres quanto desejarem.

            De repente Keefe tornou-se menos afável, pareceu até ligeiramente perturbado.

            - Comecei assim, porque se está realmente disposto a uma discussão franca, não vai ter um serão agradável.

            O aviso era inesperado.

            - Como é que chegou a essa conclusão? - perguntou Collins, agora mais desperto. - Diga o que tem a dizer.

            - Muito bem. O que quero dizer é que nós os três, bem como muitos outros legisladores do Estado da Califórnia que receiam falar abertamente, estão muitíssimo desanimados com as táticas que você e o seu Departamento de Justiça estão a utilizar para ganhar o apoio deste Estado na votação da 35.a emenda.

            Collins acabou a bebida e apagou o cigarro.

            - Que táticas? - perguntou. - Não empreguei nenhuma tática para influenciar a vossa votação. Dou-lhe a minha palavra. Nada fiz nesse sentido.

            - Então alguém o fez - interrompeu Tobias do sofá. - Alguém do seu departamento está a tentar amedrontar os legisladores deste Estado para que aprovem a emenda.

            Collins franziu a testa.

            - Se isso está a acontecer, digo-lhes de uma vez por todas que não tenho absolutamente nada a ver com o assunto. Estão a fazer alegações vagas. Não poderiam ser mais precisos?

            - Deixem-me ser eu a continuar - disse Keefe aos seus colegas, e voltou-se para Collins. - Muito bem, seremos precisos. Estamos a falar sobre as suas estatísticas criminais, que tiveram aqui a mais ampla publicidade. Essas estatísticas de crimes violentos e conspirações foram deliberadamente exageradas pelo FBI, para amedrontar o povo e os legisladores deste Estado, no sentido de estes apoiarem a 35.a emenda. Já depois da ocasião em que o senador Hilliard discutiu este assunto consigo, entrevistei pessoalmente uma dúzia, dos catorze existentes, de chefes da polícia a esse respeito. Mais de metade concordaram que os números que enviam para o FBI não são os mesmos que o Departamento de Justiça publica. Em qualquer parte, ao longo do caminho, as estatísticas verdadeiras são alteradas, exageradas, falsificadas mesmo.

            Abalado pela veemência do seu interlocutor, Collins disse:

            - Isso é uma acusação grave. Obteve declarações escritas desses policiais que o comprovem?

            - Não, não obtive - retorquiu Keefe. - Os chefes de polícia que se queixam não querem ir tão longe. Estão demasiado dependentes da boa vontade e da cooperação do FBI para o atacarem. No fundo, até simpatizam com o FBI. Estão no mesmo campo de ação e têm um trabalho difícil presentemente. Julgo que os chefes de polícia me falaram no assunto porque estão ressentidos por os terem feito parecer incompetentes. Não, senhor Collins, não temos a menor prova escrita. Pedimos que aceitássemos a sua palavra em como não está envolvido no assunto. Em contrapartida, terá de aceitar a nossa palavra quanto às táticas que estão a ser usadas pelo FBI.

            - Posso estar pronto a fazê-lo, mas receio que o diretor Tynan não dê grande crédito a provas baseadas apenas em palavras. Certamente que compreendem a minha posição. Não posso ir junto do diretor Tynan, duvidar da sua integridade, ou da de todo o Serviço, sem provas por escrito que corroborem as vossas acusações. Agora, se conseguirem que esses chefes de polícia passem qualquer coisa a escrito...

            - Não conseguimos - disse Keefe desanimado. - Já tentei, mas nada feito.

            - Talvez eu possa tentar. Pode ser que eles não se importem de me apresentar uma queixa a mim, como Procurador-Geral, ao passo que com vocês se recusavam a fazê-lo. Têm os nomes dos chefes da polícia que entrevistaram?

            - Tenho-os aqui.

            Keefe ia pegar na sua pasta castanha, que jazia aberta sobre a mesa, quando soou a campainha. Dirigiu-se à porta, deixou entrar o criado de serviço aos quartos e indicou-lhe que o tabuleiro do sanduíche era para Collins. Assinada a conta, esperou que o criado se retirasse para voltar à pasta.

            Collins já tinha perdido o apetite, mas sabia que havia de ter fome se não comesse. Pegou no sanduíche de presunto e queijo, regou-a com mostarda e esforçou-se por comer. Estava a beber o chá quando Keefe voltou com um bloco de notas. Keefe arrancou três páginas e estendeu-as a Collins.

            - Os chefes de polícia que não quiseram falar estão riscados. Os outros oito falaram. Tem aí os endereços e os números de telefone. Espero que tenha sorte. Duvido, mas faço votos que tudo corra pelo melhor.

            - Tentarei - disse Collins, dobrando as páginas e colocando-as no bolso do casaco.

            - O problema fundamental - disse Keefe, voltando a sentar-se é que essas pessoas desconhecidas do departamento em que trabalha estão a desenvolver uma campanha deliberada de temor na Califórnia. Parecem estar decididas a meter-nos a 35.a emenda pela garganta abaixo, custe o que custar - mesmo à custa da honestidade e da decência.

            - Se se refere à alteração das estatísticas...

            - Refiro-me a muito mais coisas - disse Keefe.

            - Conte-lhe - insistiu Yurkovich do sofá. - Conte-lhe toda a verdade.

            - É o que vou fazer - garantiu-lhe Keefe. Esperou que Collins engolisse o que tinha na boca e poisasse o resto do sanduíche, para prosseguir: - Aquilo que lhe vou dizer não é limpo. Alterar as estatísticas é o menos. Alguém, em Washington, está a brincar com as nossas vidas.

            Collins descruzou as pernas e levantou-se.

            - Que diz?

            - Digo que está em curso uma campanha organizada pelo FBI para intimidar certos membros do órgão legislativo, para nos atemorizar, recorrendo à chantagem...

            A palavra chantagem fez a memória de Collins vogar para o encontro com o padre Dubinski na igreja da Santíssima Trindade. O padre falara de chantagem nessa ocasião. Agora este legislador da Califórnia fazia o mesmo. Collins esperou pela continuação.

            - ...Chantagem sutil, mas que não deixa de ser chantagem, do tipo mais vil que é possível. Primeiro foi dirigida aos legisladores que estavam indecisos, que ainda não tinham formado uma opinião sobre a 35.a emenda. O ataque foi dirigido contra os deputados que... bem, que eram vulneráveis.

            - Vulneráveis?

            - Cujas vidas particulares não tinham sido um livro aberto. Deputados que tinham qualquer coisa no passado que não queriam que fosse do domínio público. Muitos recearam objetar ou protestar. Mas os deputados à Assembléia Yurkovich e Tobias, embora pensassem que não era aconselhável denunciar o FBI...

            - Porque a chantagem era demasiado sutil - interrompeu Yurkovich. - Não era evidente. As nossas queixas podiam ser menosprezadas, ou mesmo refutadas.

            Keefe concordou:

           - Sim. De qualquer forma, os meus dois colegas, uma vez que não podiam protestar publicamente, resolveram vir aqui e protestar pessoalmente na sua presença. A princípio receavam que fizesse parte da maquinação. Mas o senador Hilliard convenceu-me (antes mesmo de você o fazer), e eu convenci-os a eles de que era um homem honesto e de confiança, talvez há muito pouco tempo no lugar para perceber o que se passa nas suas costas. - Keefe fez uma pausa. Espero que esta opinião seja correta.

            Collins procurou um cigarro e levou-o à boca. Não se surpreendeu por ver a mão tremer.

            - Honesto e de confiança, sou. Mas o que é que se passa nas minhas costas? Continue, diga-me mais.

            Foi a vez de Yurkovich falar:

            - Vou contar-lhe o que se passou comigo. Houve tempos em que eu era um alcoólico. Até há cerca de oito anos. Finalmente, fui internado numa clínica para me tratar. Deixei-me disso. Tenho levado uma vida correta, desde então. Ninguém soube disso, à exceção da minha família mais chegada. Ora, há uma semana, dois agentes do FBI - um chamava-se Parkhill, o outro Naughton - procuraram-me no meu escritório em Sacramento. Disseram que precisavam da minha ajuda numa investigação de que estavam a tratar. Era uma investigação difícil. Tais inquéritos sobre as transgressões às leis federais tornar-se-iam mais fáceis, diziam eles, assim que a 35.a emenda fosse aprovada. De momento, tinham de seguir o caminho mais penoso. Queriam informações sobre uma certa clínica, uma casa de recolhimento de bêbedos, na qual sabiam que tinha estado internado um legislador da Califórnia durante cinco meses. Talvez eu lhes pudesse dizer mais sobre os proprietários dessa clínica...

            Yurkovich terminou rapidamente a sua declaração, abanando a cabeça com renovada descrença.

            - Foi diabólica a maneira de me insinuarem que sabiam. O meu segredo absoluto estava nas mãos deles. Fiquei perturbadíssimo.

            Collins também estava perturbado.

            - Que é que eu podia dizer? Reconheci que tinha estado doente na clínica e continuei a fingir acreditar que estavam a investigar os proprietários de uma cadeia nacional de clínicas, suspeitos de envolvimento num caso de drogas ilegais. Contei-lhes o que tinha visto e ouvido quando estive internado. Quando acabei, agradeceram-me. Perguntei-lhes se todas essas informações ficavam em segredo. Um deles respondeu: "Bem, isso não está nas nossas mãos. Pode falar com o diretor, se quiser. Talvez ele chegue a um entendimento com o senhor." A seguir retiraram-se. Eu tinha recebido o aviso. A 35.a emenda era boa para o meu país. Vote pela 35.a emenda e o diretor não consentirá que a sua hospitalização se torne pública. Se não cooperar, ela será conhecida.

            - Que vai fazer? - perguntou Collins.

            - Lutei para chegar onde estou - disse Yurkovich simplesmente. - Gosto de estar onde cheguei. Fui eleito por um eleitorado que só confia em pessoas sóbrias. - Não tenho por onde escolher. Tenho de votar a favor da 35.a emenda.

            - Tem certeza que a investigação era legítima? - perguntou Collins. - Não terá interpretado mal o que lhe fizeram?

            - Não me parece, mas é possível. Julgue por si mesmo. Pela minha parte, não me arrisco.

            O homem rotundo, que se sentava ao lado de Yurkovich, levantou o braço.

            - Nem eu - disse o deputado à Assembléia, Tobias.

            - Quer dizer que lhe aconteceu a mesma coisa? - perguntou Collins.

            - Quase o mesmo - disse Tobias. - Foi no dia seguinte. Só que o FBI não me procurou. Foram ter com... Bem, eu tenho uma amante e foi a ela que contactaram. Sou um homem bem casado e com filhos. É pelo menos isso que parece à primeira vista. Mas a minha mulher e eu estamos afastados há muito. No entanto, por amor dos miúdos, continuamos casados; depois dos filhos terem seguido as suas vidas continuamos a manter as aparências. Isso permite-lhe fazer vida social.

E a mim, permite-me fazer a minha vida oficial. Durante a maior parte destes anos, tive sempre outra mulher em residência separada. Ninguém no mundo sabia disto, exceto nós os três. Ora, na semana passada, o FBI contactou a minha amante. O nome de um dos agentes era Lindenmeyer, se bem me lembro. Foram amáveis com ela, assim que viram como estava assustada. Tentaram acalmá-la. Durante um bocado falaram de outras coisas, não pessoais. Falaram mesmo acerca da 35.a emenda... ah, como por mero acaso. Por fim, entraram no assunto. Eu estava num comitê relacionado com os contratos do governo. Estavam a investigar alguém que fazia parte do comitê e era suspeito. Por rotina, investigavam também os outros membros. Desejavam saber se eu tinha alguma vez discutido os contratos do governo com ela. Ela tentou dizer que não me conhecia muito bem. Limitaram-se a ignorar os seus protestos. Estavam a par dos fatos. Sabiam quantos dias e quantas horas por semana eu passara com ela em todos estes anos. Então, deram a entender que ''se fosse preciso'', sim, acentuaram, "se fosse preciso'', tinham de a intimar.

            Collins respirou lentamente.

            - Custa-me a acreditar.

            -Eu acredito - disse Tobias. - Não posso provar que o fizeram com o propósito de influenciar o meu voto, mas resolvi proteger a minha mulher e a outra. E proteger também a mim, naturalmente. Assim, alterei o meu voto. Abomino a emenda, mas vou dizer ''Sim'' em voz alta e clara quando chegar a minha vez de votar. A partir de agora, já sabe tudo, senhor Collins.

            Collins ficou absorto. Sentia-se cada vez mais indisposto.

            - E aconteceu o mesmo a outros deputados?

            - Não sei - disse Tobias. - São coisas em que não posso falar pelos outros. Cada um de nós tem a sua vida privada e quer mantê-la privada.

            Collins olhava o seu hospedeiro.

            - E consigo, que se passou?

            - Ninguém me procurou, porque sabem o que penso, e sabem que os poria na rua. Também tenho a minha vida particular e calculo que eles possam trazer a lume qualquer coisa. Mas mandá-los-ei para o diabo. Não arrisco tanto como os meus amigos. Prefiro expor-me do que ceder a esses canalhas, sejam eles quem forem.

            - Quem pensa que são?

            - Não sei.

            - Também eu não - disse Collins. - Não é o meu gabinete, disso podem estar certos. Se estamos perante uma campanha deliberada, pode ter sido organizada por qualquer pessoa, desde o Presidente ou o diretor do FBI até a um qualquer dos seus subordinados.

            - Pode fazer alguma coisa? - pretendeu Keefe saber. Collins levantou-se.

            - Não tenho certeza, uma vez que não temos provas seguras de que essas visitas significassem intimidação. Podem ter sido investigações em curso, devidamente estruturadas, ou podem ter sido formas de chantagem.

            - Como vai descobrir de qual das coisas se trata?

            - Investigando os investigadores - respondeu Collins.

            De volta ao Hotel Beverly Hills, no balcão da recepção, Chris Collins recebeu do empregado uma mensagem telefônica juntamente com as chaves do seu apartamento. Desdobrou a mensagem. O telefonema chegara há uma hora. Dizia:

            ''O encarregado do lago Tule disse-lhe que o empreendimento não era secreto e que tinha sido publicado na imprensa. Todos nós passamos horas à procura durante a noite. Mas a iniciativa da Armada, que lhe disseram estar em curso no lago Tule, nunca foi referida na imprensa. Nem uma palavra a esse respeito veio a público. Pensei que gostasse de saber. Josh Collins."

            Já quase se tinha esquecido. Havia a promessa feita ao filho de que provaria não ser o empreendimento do lago Tule um futuro campo de concentração. Tinha de tratar disso. Havia também a verificar a alteração das estatísticas da Califórnia. Havia ainda a estranha coincidência das investigações de agentes do FBI, ameaçando os deputados do Estado da Califórnia. E, acima de tudo isso, sobrepondo-se a todos os outros afazeres, havia o Documento R. Primeiro o essencial.

            Deu a volta ao balcão da recepção, recordado que as cabinas telefônicas eram perto da entrada para o campo de pólo. Encontrou-as e estavam vazias.

Fechando-se numa delas, fez uma ligação direta interurbana para o Adjunto do Procurador-Geral Ed Schrader. Sabia que o ia acordar (eram quase três da manhã na Virgínia), mas queria conhecer a realidade o mais depressa possível. No dia seguinte estaria ocupadíssimo.

            Uma voz sonolenta respondeu ao telefone.

            - Está lá, não me diga que marcou um número errado...

            - Não, Ed. É Chris que fala. Ouça, quero que me descubra uma coisa o mais cedo possível, logo de manhã. Tem um lápis? - Explicou que a Armada dos Estados Unidos tinha uma base terrestre com um sistema de comunicações com submarinos chamado Projeto Sangüíneo. Uma das maiores instalações estava presentemente a ser construída, já em fase de conclusão, no Norte da Califórnia. - Descubra o que puder a esse respeito. Não vou para os estúdios da televisão antes do meio-dia e um quarto; entretanto estarei nos meus aposentos em reuniões. Telefone-me assim que tiver alguma informação. Agora desligue e vá dormir outra vez.

            Saiu de cabina, encontrou o guarda-costas no átrio, acompanhou-o até ao apartamento pelos carreiros sinuosos bordejados de arbustos, deu-lhe as boas-noites e entrou. Estava terrivelmente cansado. Vagueou ruidosamente pela sala de estar, tirando o casaco e a gravata, e tentando sintetizar os acontecimentos do dia - especialmente a reunião com Keefe, Yurkovich e Tobias. As acusações sobre uma seita desconhecida dentro do FBI, ou contra alguém colocado mais alto, tinham sido graves. Tentou julgar a veracidade do que lhe fora dito pelos três deputados. Não conseguia vislumbrar nenhuma razão válida para que mentissem. Que lucrariam em inventar tais histórias? com que fim? Não encontrava resposta. Portanto, deviam estar a falar verdade. No entanto, sabia que não podia agir baseado exclusivamente no que lhe tinham dito, nem contar o que se passara ao Presidente, a Tynan ou a Adcock sem antes fazer uma verificação pessoal. Não sabia por onde começar. Teria de esperar até de manhã, para que o seu espírito fosse mais operacional.

            Tirando a camisa, entrou no quarto mergulhado na escuridão, para passar ao banheiro, acendendo a luz. Despiu-se, lavou-se, escovou os dentes, percebeu que estava com olheiras e procurou o pijama. Não estava pendurado na porta, o que o levou a pensar que a empregada do hotel o teria posto provavelmente no travesseiro da sua cama de casal.

            Apagando a luz da casa de banho, entrou nu no quarto e dirigiu-se às apalpadelas até à cama, onde uma nesga de luz vinda da frincha da porta da sala de estar incidia sobre o pijama. Preparou-se para o vestir, desejoso de se meter na cama e dormir, mas mal tinha pegado nele quando sentiu o pulso direito tocar em qualquer coisa mole e carnuda. Lançou um grito de espanto e baixou a mão, encontrando outra mão que lhe agarrou o pulso.

            O coração pulsava-lhe doidamente.

            - Mas que raio... - bradou.

            - Vem para a cama, querido - murmurou uma voz feminina. Estava demasiado ocupado à procura da luz, tateando desesperadamente em busca do interruptor, para afastar a mão da mulher que lhe acariciava o pênis.

            De repente, uma luz suave lançou um círculo de amarelo sobre a cama e ela apareceu, arrastando-se para o seu lado da cama, sorrindo-lhe, sem retirar a mão de entre as pernas, acariciando-o. Ficou petrificado, demasiado incrédulo para agir ou falar. Ela era uma rapariga bonita, certamente com pouco mais de vinte anos, cabelo solto, castanho-dourado, lábios vermelhos, grandes peitos trêmulos, ventre liso e um longo triângulo de pêlos púbicos.

            - Olá - disse ela numa voz abafada. - Sou a Kitty. Pensava que nunca mais vinha.

            - Mas afinal quem é você? - exclamou ele. Baixou a mão e agarrou na dela, obrigando-a a tirá-la do sexo. - Cometeu um erro, certamente está enganada...

            - É este o apartamento cujo número me indicaram. Disseram-me que esperasse pelo senhor Collins.

            Então não era engano. Quem teria sido o amigo desmiolado que lhe arranjara uma brincadeira de mau gosto como esta?

            - Quem lhe disse para vir aqui?

            - Sou um presente de um amigo seu.

            - Que amigo?

            - Ele não disse o nome. Nunca dizem. Mas pagou-me logo. Duzentos dólares. Sou cara. - Ria-se. - Ele disse que era uma surpresa, que havia de gostar. E prometo-lhe

que há de gostar, senhor Collins. Agora venha para aqui, seja bom menino...

            - Como é que conseguiu entrar?

            - Alguns empregados conhecem-me. Gratifico-os bem. - Ela observava-o. - Ah, és bem bonito. Gosto dos homens altos. Mas falas muito. Vem, vem para a cama com a Kitty. Prometo que vais passar um bom bocado. Ficarei toda a noite.

            - O raio é que você fica! - disse-lhe quase a gritar, agarrando-lhe o pulso quando ela tentou novamente chegar-lhe ao sexo. Afastou-lhe a mão. - Agora saia, imediatamente, saia. Não quero aqui ninguém, nem você nem outra. Alguém esteve a tentar pregar uma partida, uma partida infantil...

            - Fui paga...

            - Ponha-se lá fora! - Agarrou-a pelos braços e fê-la sentar-se. Vista-se e saia daqui imediatamente.

            - Nunca ninguém me tratou assim.

           - Pois eu trato. - Agarrou no pijama. - Enquanto vou ao banheiro, espero que se vista e desapareça.

            Entrou furioso na casa de banho, enfiou as calças e abotoou o casaco.

            Quando voltou, ela tinha acabado de vestir a blusa e enfiava a saia azul marinho.

            - Depressa.

            Ela correu o fecho da saia.

            - O seu amigo disse que se havia de portar assim ao princípio, mas que não o tomasse a sério. - Inclinou a cabeça para ele, sorriu novamente e aproximou-se. - Está a brincar, não está?

            Pegou-lhe no braço com dureza e empurrou-a para a porta.

            - Ponha-se a mexer.

            - Deixe-me, que me está a magoar.

            Ele abrandou a pressão, mas levou-a para a sala de estar e arrastou-a rapidamente para a porta da entrada.

            À porta, respirando fortemente, cedeu um pouco.

            - Lamento que alguém a tenha utilizado desta maneira - disse ele. - Foi um engano e lamento muito. Boa noite.

            Ela tentou compor-se e sair com alguma dignidade.

            - É tempo perdido. Você nem sequer seria capaz de me aguentar. Ele escancarou a porta, e enquanto a rapariga saía divisou uma sombra que se levantava por trás de uma sebe. Era um homem que apontava uma máquina fotográfica.

Por instinto, Collins escondeu-se atrás da porta no preciso instante em que o ''flash'' era disparado. Atirou-se contra a porta, fechando-a com estrondo. Ficou encostado, ofegante, sabendo que o fotógrafo tinha apanhado Kitty mas não a ele.

            Depois, fechou a porta à chave. Abalado, cambaleou até ao bar para preparar uma bebida.

            Se estava indeciso quanto ao significado do que se passara nesse dia, não tinha dúvidas quanto ao que se passara à noite. Não se tratara de uma brincadeira estúpida perpetrada por um amigo de faculdade ou de sociedade. Tinha sido muito mais diabólico. Alguém tinha tentado apanhá-lo em falta, comprometê-lo. Mas quem? E porquê? Proponentes da 35.a emenda? Impossível, visto que sempre se mostrara publicamente do seu lado. A menos que quisessem assegurar-se de que ficava desse lado. Inimigos da emenda? Também era impossível pensar que homens como Keefe ou Pierce chegassem a tais extremos para o obrigar a mudar de posição. Incrível, pensou. Então, ainda abalado, preparou outra bebida, para aguardar a luz do dia, quando as coisas se tornam mais claras.

            A luz do dia trouxera-lhe, de fato, maior claridade para as coisas obscuras que tinham ocupado a sua mente durante o sono conturbado.

            A manhã trouxera alguma luz.

            O pequeno almoço tardio e demorado com os dois Delegados do Ministério Público tinha-lhe permitido tratar de diversos assuntos de rotina do Departamento de Justiça. Uma reunião com uma delegação de três advogados da Associação Americana do Foro tinha sido muito amena. Uma entrevista com uma jovem jornalista do Los Angeles Times tinha sido uma espécie de treino para tentar evitar um excessivo comprometimento com a 35.a emenda, falando das reformas profundas que eram necessárias no sistema judicial americano e procurando conhecer as opiniões de um jornalista sobre a escalada do crime no Sul da Califórnia.

            Por fim, Collins ficara só com o telefone. Pensara telefonar aos oito chefes da polícia que se queixaram ao deputado Keefe das alterações das estatísticas criminais da Califórnia por parte do FBI. Mas acabara por só telefonar a três. Logo que sabiam que estavam a falar com o Procurador-Geral, todos eles evitavam responder às perguntas. Embora um admitisse uma "ligeira discrepância" entre os números apresentados ao FBI e os publicados, imputava esse fato a "um possível erro de computador". Todos eles se recusavam a reconhecer terem-se queixado a Keefe sobre exageros das estatísticas do FBI. Todos eles disseram, à sua maneira, que o deputado Keefe os tinha compreendido mal. Ou os chefes da polícia tinham protestado junto de Keefe mas não desejavam fazer o mesmo junto do Procurador-Geral, ou Keefe os tinha entendido mal. Em qualquer das hipóteses, o inquérito não lhe tinha permitido tirar conclusões.

            Depois, outro fato o viera abalar. Na noite anterior, tinha apontado os nomes dos agentes especiais do FBI que tinham contactado com Yurkovich e Tobias: Parkhill,

Naughton, Lindenmeyer. Collins tinha pensado se seria melhor tentar descobri-los através das delegações do FBI na Califórnia ou falando diretamente com Tynan ou Adcock. Acabara por decidir ser mais circunspecto. Passado algum tempo, telefonara a Marion, a sua secretária.

            - Marion, quero que faça uma pergunta ao FBI. Não deve partir de mim. Diga que se trata apenas de uma investigação rotineira de alguém do serviço de Conselho Legal. Tem um lápis? Bem, pergunte-lhes se dois agentes especiais do FBI na Califórnia, um chamado Parkhill e o outro Naughton, entrevistaram o deputado Yurkovich na semana passada. - Soletrou o nome do deputado. - E pergunte também se um tal agente Lindenmeyer contactou... - Viu que não tinha o nome da amante do deputado Tobias. - Se... se contactou alguém em Sacramento no decurso de uma investigação sobre um comitê da Assembléia em que participa o deputado Tobias. Estou no hotel. Telefone-me assim que puder.

            Vagueara pela sala de estar enquanto esperava. Depois pegara numa cópia do discurso e burilara algumas frases. Passados quinze minutos, o telefone tocara. Era Marion.

            - É muito estranho, senhor Collins. O FBI diz que não tem na Califórnia agentes especiais chamados Parkhill, Naughton ou Lindenmeyer. De fato, nem sequer têm pessoas com esse nome em todo o país.

            Como tudo o mais, também isso se tornara um quebra-cabeças. Não havia agentes chamados Parkhill, Naughton ou Lindenmeyer. No entanto, o deputado Yurkovich tinha sido entrevistado por Parkhill e Naughton, e a amante do deputado Tobias tinha sido contactada por Lindenmeyer. Isso podia significar que Yurkovich e Tobias tinham percebido nomes errados. Impossível. Ou então tinham ambos mentido a Collins. Estava fora de questão. Ou podia ainda querer dizer outra coisa - igualmente improvável, mas muito mais sinistra. Podia querer dizer que o FBI mantinha um corpo especial de agentes - um corpo secreto, não referenciado - usado para intimidar os legisladores da Califórnia. Collins encarou essa possibilidade. Em geral, Collins era uma pessoa realista que se atinha aos fatos, raramente dada a vôos fantasiosos ou à imaginação de melodramas. Em circunstâncias normais, teria afastado a possibilidade de um corpo secreto por demasiado sinistra para ser tomada a sério - exceto por uma razão. O seu predecessor no cargo tinha guardado as últimas palavras para o avisar de um perigo terrível: um perigo chamado Documento R. Se era possível aceitar como um fato a existência de tal documento que ameaçava a... a quê?... a segurança do país?... também se podia aceitar a possibilidade de agentes desconhecidos do FBI ameaçar os deputados da Califórnia, tal como um conhecido ameaçara o padre Dubinski.

            Não lhe agradava a evolução das coisas. Enquanto se dirigia para o quarto para vestir um terno, antes de ir gravar o programa de televisão com Pierce e pronunciar o discurso na Associação, não lhe agradou a idéia de ter sido alcandorado a uma posição em que devia conhecer tudo sobre o crime no país. Contudo, decorriam atividades à sua volta, atividades que tudo se assemelhavam a atos criminosos e de que não sabia praticamente nada. Tudo isso tinha sido gerado, de uma maneira ou de outra, pela atmosfera criada pela 35.a emenda. Que aconteceria então se a emenda se tornasse efetivamente lei deste país, pensou. Tinha acabado de mudar de terno, quando o telefone começou a tocar na sala de estar. Acorreu à sala e levantou o auscultador ao quinto toque. Ouviu a voz de Ed Schrader em Washington.

            - Chris, é sobre a tarefa que me destinou esta noite.

            Quase se tinha esquecido do telefonema para Schrader na noite anterior. Tinha-lhe falado do empreendimento do lago Tule apresentado pelo filho, da construção de um novo ramo do Projeto Sangüíneo. Desejava que Schrader lhe confirmasse a existência das instalações da Armada para poder provar ao filho, Josh, que ele estava errado na sua paranóia de campos de concentração e para o chamar à razão.

            - Sim, Ed. O que descobriu?

            - Recebi esta informação de fontes autorizadas do Pentágono. O Projeto Sangüíneo da Armada ficou concluído há três anos. Não há novas instalações em construção nem reparações nas existentes. Nenhuma das instalações se situa perto do lago Tule.

            Nem queria acreditar no que ouvia.

            - Está a dizer-me que a Armada não tem nenhum projeto no lago Tule?

            - Nenhum.

            - Mas o encarregado da obra disse-me... Não, não tem importância. Mas estão a construir lá alguma coisa. É um projeto do governo. Estão a construir qualquer coisa.

            - Bem, então não é certamente o que julgou.

            - Não, pois não... - disse vagarosamente. - Obrigado, Ed.

            Admitia pela primeira vez a possibilidade de o seu filho, Josh, poder ter razão. E Keefe, Yurkovich e Tobias, também podiam ter razão.

            Durante os vinte minutos de percurso para os estúdios da televisão, reviu as crescentes provas de que se passava algo sinistro. O Documento R, que era um perigo que devia ser exposto. Falsificação das estatísticas criminais da Califórnia. Um campo de detenção secreto na Califórnia. Contudo, fora o menor acontecimento aquele que mais o perturbara. O seu espírito voltou ao fotógrafo escondido junto do apartamento na noite anterior, tentando caçá-lo com a pega que tinham metido lá dentro. Isso não era um boato. Isso era uma experiência pessoal.

            Estava cheio de suspeitas e dúvidas sobre os que o rodeavam, os paladinos da 35.a emenda, bem como sobre a própria emenda. Acima de tudo, não estava com disposição para defender a emenda num programa de televisão de âmbito nacional. Repugnava-lhe o papel que tinha de desempenhar. Desejava dar meia volta e ir-se embora.

Mas era demasiado tarde. Já tinham chegado à Beverley Boulevard e já via lá no alto os estúdios da televisão.

            Collins sentou-se na cadeira da sala de caracterização, com um pano a proteger-lhe a camisa, observando os reflexos no espelho enquanto o caracterizador lhe aplicava

um pó enfarinhado de tom castanho no rosto pálido.

            Viu também, no espelho, a produtora de À Procura da Verdade, uma jovem mulher de ar fino chamada Monica Evans, quando ela apareceu à porta por trás dele.

            - Como vai isso, senhor Procurador-Geral? - perguntou.

            - Creio que estou quase pronto - respondeu Collins.

            - Mais alguns minutos, Monica, e é todo seu - prometeu o caracterizador.

            - Espero que se cumpra o horário - acrescentou Collins. - Logo a seguir, sou esperado no Century Plaza para discursar na Associação do Foro. Vai ser apertado.

            - Ficará despachado muito antes - assegurou-lhe Monica Evans. - Tony Pierce já está no estúdio com o nosso moderador, Brant Vanbrugh. Já estão caracterizados. Estão preparados para começar assim que estiver pronto.

            Para Collins, isso era um pequeno alívio. Receara a possibilidade de ser engaiolado com Tony Pierce nesta sala de caracterização antes de começar o programa e de ser forçado a conversar com ele. Uma discussão formal com Pierce, na televisão, já era bastante desagradável. Mas uma conversa privada teria sido insuportável.

            - Ficarei à sua espera no átrio para o levar ao estúdio - disse Monica Evans, desaparecendo de imediato.

            Collins continuou a observar-se no espelho e não gostou do que viu. Apesar dos cosméticos, dos cremes e dos pós que lhe cobriam todas as rugas e todos os sulcos do rosto, aparecia aos seus próprios olhos como um cadáver que um agente funerário tentava tornar apresentável. Porque estaria aqui, pensou, para defender uma bomba que arrancaria a Declaração de Direitos da Constituição? O que o teria feito alinhar, pensou, com antiliberais como o Presidente Wadsworth e Vernon T. Tynan? Como se teria tornado um prosélito da horrenda 35.a emenda? Na difusa claridade das lâmpadas teatralmente dispostas à volta do espelho, houve uma súbita iluminação. Até agora, tinha racionalizado constantemente a sua posição com sofismas. Como um bom entre os maus, poderia modificar-lhes o rumo. Contudo, não tinha conseguido fazê-lo, ou nem sequer tentara realmente. Como membro do Gabinete, tinha escolhido permanecer, porque tinha assuntos inacabados, a sua própria solução para a criminalidade, que era mais humana e decente. No entanto, não tinha tratado desses assuntos. Como Procurador-Geral, podia realizar coisas mais importantes que a 35.a emenda. Mas sabia que esse outro trabalho não tinha significado comparado com a extrema importância da nova emenda. Em resumo: todas as suas racionalizações não tinham passado de fogo de vista. Sabia porque estava aqui. Sabia o que o trouxera aqui. Sabia como isso tinha acontecido. Estava a descoberto, visto à claridade do espelho, e era fácil de identificar. Era a ambição. Sim, a ambição tinha sido o motor que o levou pelo caminho errado. A ambição de conseguir uma posição, para mostrar ao pai. De conseguir um lugar à sua própria custa. A explicação era de um freudismo elementar, mas era precisamente essa. Ser o que não era, para vencer. Para mostrar ao pai. Ser alguém por qualquer preço. Agora, tudo isso era ridículo. Nada havia para mostrar ao pai. O pai estava morto. Havia apenas ele. E já pouco dele restava.

            - Pronto, senhor Collins - disse o caracterizador, retirando o pano. - Já pode ir.

            Ir aonde? Saiu da cadeira. Agradeceu.

            No átrio, encontrou Monica Evans e seguiu-a rapidamente até ao amplo estúdio de televisão.

            Emergiram de um monte de cenários para um brilhante quadrado de luzes. Havia três câmaras volumosas, duas delas móveis. Os técnicos andavam numa roda viva. A atenção centrava-se numa pequena plataforma que tinha sido decorada como uma pequena biblioteca particular, com três cadeiras giratórias agrupadas à volta de uma mesa maciça.

            Dois homens conversavam na plataforma.

            - Deixe-me apresentar-lhe Brant Vanbrugh, o moderador, e Tony Pierce - disse a produtora.

            Embora Collins nunca tivesse encontrado Pierce pessoalmente, reconheceu-o de imediato dos retratos dos jornais e de anteriores presenças na televisão. Ver Pierce em pessoa foi uma desilusão. Collins desejava um vilão, mas o que viu foi um ser humano simples e insinuante. Pierce tinha cabelos ruivos e um rosto de meia idade sardento e franco, animado pelo entusiasmo. Era elegante, ágil, media cerca de um metro e sessenta, vestia um terno simples de bom corte.

            O coração de Collins caiu-lhe aos pés. Tinha esperado não só um vilão mas também um inimigo, mas agora o único inimigo que conseguia descobrir não era senão ele próprio.

            Monica Evans aproximou-o e fez as apresentações.

            - Tenho muito prazer em encontrá-lo finalmente, senhor Collins - disse Pierce. - O pouco que sei de si vem-me do que li e do seu filho, Josh. É um ótimo rapaz.

            - Ele diz muito bem de si - respondeu Collins, desgraçadamente convencido de que Pierce o observava para descobrir como tal pai tinha produzido tal filho.

            - Meus senhores - interrompeu o moderador. - Receio que não disponhamos de muito tempo.

            Era um homem novo, vivo, com um falso ar de dirigente juvenil, mas com um espírito (Collins já tinha visto o programa) que parecia feito de aço. Um ambicioso, pensou Collins. Depois pensou: olha quem fala.

            Vanbrugh conduziu-os às cadeiras respectivas, que o ladeavam. Enquanto alguém apertava o pequeno microfone à volta do pescoço de Collins, ouviu Vanbrugh dirigir-se-lhe de novo.

            - Começaremos a gravar dentro de dois minutos. Esta emissão de À Procura da Verdade estará no ar de costa a costa às primeiras horas da noite. O que fizerem vai tal qual. Não há arranjos. Haverá duas paragens para a publicidade. Eis as linhas gerais. Eu abro com a questão a ser discutida: "A Califórnia deve ratificar a 35.a emenda?" Apresento a seguir umas notas introdutórias sobre a emenda. Direi o que é e qual é a sua situação presente. A câmara estará focada sobre mim. Depois a câmara recuará para o mostrar, senhor Collins. Apresentá-lo-ei à audiência como Procurador-Geral dos Estados Unidos e indicarei algumas das suas credenciais. Em seguida, a câmara voltar-se-á para o senhor Pierce e para mim, e eu irei apresentá-lo, senhor Pierce, como um ex-agente especial do FBI, exercendo atualmente a advocacia, e chefe do grupo que se opõe à 35.a emenda e apoia a Declaração de Direitos. Depois dar-lhe-ei a palavra, senhor Collins. Terá cerca de dois minutos para fazer uma declaração inicial. Sugiro que se concentre nas razões que o levam a apoiar a emenda. Suponho que quererá pintar um quadro carregado da situação da criminalidade na América de hoje, e argumentar que são necessárias medidas drásticas para preservar a nossa sociedade. Em seguida, será a sua vez, senhor Pierce. Poderá dispor dos seus dois minutos iniciais. Não rebata logo o senhor Collins. Limite-se a apresentar as suas razões para se opor à emenda. A seguir passaremos a falar do que vier a propósito. Poderão começar o debate. Podem fazer interrupções, mas não obstruam as intervenções. - Olhou para a frente. - Estamos quase a começar. Quando a luz vermelha se acender na câmara central estamos a gravar. Felicidades e mantenham a vivacidade.

            A luz vermelha da câmara central começou a brilhar.

            Sentindo-se indisposto e atordoado, Collins mal ouviu as observações iniciais de Vanbrugh.

            Ouviu o seu nome e compreendeu que estava a ser apresentado. Correspondeu com um sorriso macilento para a câmara.

            Depois, ouviu o nome de Tony Pierce. Espreitou para além do moderador. O rosto aberto e franco de Pierce estava grave.

            Ouviu novamente o seu nome, e a pergunta.

            Lá ao longe, ouviu-se a falar.

            - Em nenhum momento desde a Guerra Civil estiveram as nossas instituições democráticas tão seriamente ameaçadas como estão hoje. A violência tornou-se banal. Em 1975, dez em cada 100.000 americanos morriam assassinados. Hoje, vinte e dois em cada 100.000 americanos morrem assassinados. Há alguns anos, três matemáticos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, depois de fazerem um estudo sobre o nível crescente da criminalidade, concluíram: "Um rapaz americano citadino nascido em 1974 tem mais probabilidades de morrer assassinado do que um soldado da II Guerra Mundial tinha de morrer em combate.'' Hoje, essa cruel possibilidade duplicou. Foi desta necessidade de travar a crescente espiral de violência, incluindo o assassínio, que nasceu a congeminação da 35.a emenda.

Continuou laboriosamente até ver o cartão dos quinze segundos, e foi com alívio que concluiu a declaração inicial.

            Agora ouvia Tony Pierce falar, cada frase um golpe, e retraía-se sobre si próprio e tentava não ouvir.

            Passaram dois minutos, e compreendeu que o debate tinha começado.

            Ouvia Tony Pierce a falar novamente.

            - Os seres humanos combateram pela liberdade, para se libertarem da tirania, durante pelo menos 2500 anos. Agora, repentinamente, se a 35.a emenda passar, esse combate morrerá na América. De um dia para outro, por um capricho do diretor do FBI e do seu Comitê de Segurança Nacional, a Declaração de Direitos poderá ser suspensa indefinidamente...

            - Indefinidamente, não - interrompeu Collins. - Só numa emergência e apenas por um curto período, talvez alguns meses.

            - Foi isso que disseram na Índia em 1962 - retorquiu Pierce. Tiveram uma emergência e suspenderam a Declaração de Direitos. Esteve suspensa por seis anos. Depois, voltaram a suspendê-la em 1975. Quem nos garante que isso não acontecerá aqui? E se acontecer, significa o fim da nossa liberdade. Temos provas disso. Já houve situações desse tipo nos Estados Unidos e foram sempre sinônimo de calamidade.

            - Que diz, senhor Pierce? - intrometeu-se Vanbrugh. - Pretende afirmar que a Declaração de Direitos já foi suspensa anteriormente na nossa história?

            - Sim, embora não oficialmente. A nossa Declaração de Direitos foi suspensa de fato, ou desprezada, ou ignorada, numerosas vezes no nosso passado, e sempre que isso aconteceu sofremos profundamente.

            - Pode citar exemplos concretos? - pediu o moderador.

            - Certamente - disse Pierce. - Em 1798, depois da Revolução Francesa, os Estados Unidos temeram a infiltração de conspiradores radicais franceses que poderiam tentar derrubar o nosso governo. Numa atmosfera de histeria, o Congresso ignorou a Declaração de Direitos e aprovou as leis sobre os estrangeiros e a sedição. Foram detidas centenas de pessoas. Os redatores que escreveram contra essas leis foram metidos na prisão. Cidadãos comuns que se manifestaram contra o Presidente John Adams também foram encarcerados. Foi por Thomas Jefferson ter feito uma campanha contra essa loucura, contra essa suspensão da Declaração de Direitos, que as pessoas foram chamadas à razão e Jefferson foi eleito Presidente - fez uma pausa.

            - Mas não faltam outros exemplos - continuou Pierce. Durante a Guerra Civil, a lei do habeas corpus foi ignorada, e os tribunais civis cederam o lugar a tribunais militares. Depois da I Guerra Mundial, o Procurador-Geral A. Mitchell Palmer invocou a ameaça vermelha e desencadeou uma caça às bruxas que levou à detenção, sem a aplicação das garantias, de 3500 pessoas e à deportação de 700 estrangeiros. O Presidente do Supremo Tribunal, Charles Evans Hughes, caracterizou essas detenções como uma das "piores práticas de tirania". Com o início da II Guerra Mundial, os cidadãos americanos que tinham a infelicidade de descenderem de Japoneses, foram desapossados da sua propriedade e confinados em campos de detenção. Passado pouco tempo, em 1954 para ser exato, o senador Joseph R. McCarthy acusou temerariamente 205 pessoas empregadas no Departamento de Estado de serem membros do Partido Comunista, instigando assim o terror vermelho. McCarthy, um ousado demagogo sedento de publicidade e um beberrão incurável, difamou e destruiu um número gigantesco de americanos inocentes, catalogando os dissidentes e os inconformistas de traidores. Por fim, devido aos seus excessos, acabou por ser destruído antes da nação, durante os trinta e seis dias das audiências Exército-McCarthy - fez outra pausa.

            - Mais recentemente - prosseguiu Pierce - a Lei de Controle do Crime Organizado, de 1969, a filha querida do Presidente Richard M. Nixon e do Procurador-Geral John N. Mitchell, suspendeu de fato a Declaração de Direitos ao estipular a detenção preventiva de suspeitos de crimes, a entrada não autorizada nos domicílios, a limitação do direito dos acusados verem as provas ilegalmente obtidas contra eles, e a escuta eletrônica por quarenta e oito horas sem autorização legal e por mais tempo com essa autorização. Comentando esta lei, o senador Sam J. Ervin da Carolina do Norte chamou-a ''um caixote do lixo da legislação mais repressiva, inepta, intolerante, injusta e vindicativa jamais apresentada ao Senado... Esta lei bem pode ser intitulada uma lei para abolir as 4.a, 5.a, 6.a e 8.a emendas da Constituição".

            - No entanto, a democracia sobreviveu - disse Collins.

            - Mal, mal, senhor Collins. E um dia pode não sobreviver a tais assaltos à nossa liberdade. Como Charles Péguy observou algures, a tirania está sempre melhor organizada que a liberdade. Se todos os horrores que mencionei foram cometidos com uma Declaração de Direitos em vigor, imagine o que acontecerá sem uma Declaração de Direitos, quando a 35.a emenda for aprovada. Senhor Collins, a nossa Constituição, com a sua Declaração de Direitos, sobrevive há mais tempo que qualquer outra constituição escrita da Terra. Não a destruamos com as nossas próprias mãos.

            - Senhor Pierce - disse Collins -, fala da nossa Constituição como se tivesse sido cinzelada na pedra ou tivesse caído do céu; como qualquer coisa inflexível, não sujeita à mudança. No entanto, a nossa Constituição é um mero produto de compromisso. Antes de ser assinada, houve muitas versões, houve muitas mudanças e pode ainda haver muitas outras...

            - A questão não é essa, senhor Collins - interrompeu Pierce. A questão é...

            Vanbrugh interpôs-se rapidamente.

            - Um momento. Gostaria que o Procurador-Geral Collins desenvolvesse o que ia dizer. Estava a dizer, senhor Collins, que houve muitas versões da Constituição...

            - E também da Declaração de Direitos - acrescentou Collins.

            -...Antes da versão final ser assinada. Parece-me que isso é interessante. Muitas pessoas da nossa audiência podem não o saber. Quer explicar?

            - Tenho muito prazer. Estou apenas a tentar provar que não estamos a adulterar a Constituição quando a pretendemos mudar. Estou apenas a dizer que passou por muitas mudanças no início, e que ainda pode passar por mais. É para isso que existem as emendas. A palavra emenda deriva da palavra latina emendare, que significa corrigir um defeito ou modificar qualquer coisa para melhor.

            - Mas essas diferentes versões da Constituição e da Declaração de Direitos... - insistiu Vanbrugh.

            - Sim. Bem, como deve saber, um grupo de cinqüenta e cinco homens de doze Estados reuniram-se de Maio a Setembro de 1787 na Assembléia do Estado da Pensilvania (que hoje se chama Independence Hall) para forjarem uma Constituição que ligaria treze Estados numa Nação. A idade média desses homens era de quarenta e três anos. Talvez o patriotismo e a sobrevivência não fossem os únicos incentivos desses delegados. Metade deles possuíam bens públicos. Se conseguissem escrever uma Constituição que formasse um novo governo, os seus bens aumentariam de valor. De qualquer maneira, se pensa que a Presidência, tal como está hoje estabelecida na Constituição, é sagrada, considere o fato de Alexander Hamilton ter pretendido um Presidente nomeado vitaliciamente. Edmund Randolph e George Mason pretenderam que três homens servissem simultaneamente como Presidente, ao passo que Benjamin Franklin queria que fosse um conselho a governar os Estados Unidos. A Convenção votou cinco vezes a favor da proposta de um Presidente indicado pelo Congresso. Foi a delegação da Virgínia a primeira a sugerir um único "executivo nacional". Nem sequer o chamaram Presidente. Foi Randolph quem se opôs a este tipo de presidencialismo, descrevendo-o como "o feto da monarquia". - Collins olhou para o moderador. - Tenho tempo para mais?

            - Faça favor de continuar - incitou-o Vanbrugh.

            - Talvez muitas pessoas pensem que a criação do Senado, como se apresenta na Constituição, também é sagrada. Não era assim no princípio. Alguns membros da Convenção queriam que fossem os órgãos legislativos dos Estados a indicar os senadores. Hamilton pretendia senadores vitalícios. James Madison sugeriu que os senadores exercessem o cargo por nove anos. Quando ficou resolvido que os senadores deviam ser eleitos pelo povo, alguns delegados entenderam por isso pessoas com propriedade, isto é, pessoas com estabilidade. Foi Jay quem disse: "O povo que possui o país é que deve governá-lo." Por fim, alcançou-se um compromisso. Os órgãos legislativos dos Estados podiam votar os senadores e estes serviriam por seis anos. Só em 1913 é que a 17.a emenda veio alterar esta situação, dando a todos os cidadãos o direito de elegerem os senadores. Quanto à Declaração de Direitos, não existia tal coisa, nem pouco mais ou menos, quando a Constituição foi assinada. A maioria dos Antepassados Fundadores sentiram que a própria Constituição era uma Declaração de Direitos, não tendo de se acrescentar nenhuma emenda. Repito, os homens mais avisados da América não pensaram nessa ocasião que fosse necessária uma Declaração de Direitos. À luz do nosso passado, não vejo que atentado estamos a fazer contra a Constituição no presente século por lhe acrescentarmos uma 35.a emenda que se limitará a suspender temporariamente a Declaração de Direitos se isso for necessário para preservar o nosso país.

            - Senhor Vanbrugh? - Era Tony Pierce tentando fazer-se ouvir. - Posso responder à versão da história americana do Procurador-Geral?

            - É a sua vez, senhor Pierce - disse o moderador.

            - Senhor Collins - começou Pierce -, apesar de tudo o que disse, o que é fato é que temos hoje uma Declaração de Direitos. Como a conseguimos? Omitiu esse fato. Temo-la porque o povo a quis, porque o povo sentiu que a Convenção Constitucional tinha errado ao pô-la de parte. Os diversos Estados desejavam que os direitos do povo e os direitos dos Estados fossem exarados, queriam que isso fosse feito antes de ratificarem a Constituição. Patrick Henry, da Virginia, sugeriu vinte emendas, entre as quais as primeiras dez que viriam depois a ser aprovadas. Massachusetts apoiava as dez emendas. E o mesmo faziam outros Estados. Quando o primeiro Congresso se reuniu em 1791, Madison propôs doze emendas. O Congresso concordou com dez e enviou-as para os treze Estados para serem ratificadas. Foram ratificadas e a Declaração de Direitos tornou-se um fato em Dezembro de 1791.

           - Está a insinuar que todos esses Estados pretendiam uma Declaração de Direitos - disse Collins -, mas isso não tem fundamento. Três dos treze Estados iniciais recusaram-se a ratificar a Declaração de Direitos. Na verdade, só o fizeram em 1939, um século e meio depois.

            - Parece-me que está a sofismar - ripostou Pierce. - O que importa é que tivemos desde o início uma Declaração de Direitos que garantia a todo o nosso povo três direitos essenciais: liberdade de religião, liberdade de expressão e imparcialidade do julgamento. Foi Thomas Jefferson quem acentuou: "Uma Declaração de Direitos é o que o povo pode exigir de qualquer governo do mundo, geral ou particular, e o que nenhum governo justo pode recusar ou deixar de lado.'' A nossa Declaração de Direitos foi e continua a ser importante. É evidente que Jefferson se oporia à sua 35.a emenda tão veementemente como eu o faço agora. Aquilo que está a defender é uma emenda para anular a Declaração de Direitos, e eu digo-lhe que fazer isso é anular a própria democracia.

            Collins sentiu-se sem resposta e desamparado, e por se sentir assim recorreu à animosidade.

            - Senhor Pierce, é para preservar a democracia que eu apóio a 35.a emenda - disse calorosamente. - O que destruirá a democracia é permitir que a presente praga de desrespeito da lei e de anarquia nos escape totalmente ao controle, é permitir os assassínios, os raptos, os atentados bombistas, as conspirações, as revoluções - deixar que isso nos submerja. Daqui a poucos anos não haverá democracia. Nem sequer haverá um país.

            - Prefiro não ter país a ter um país sem liberdade - retorquiu Pierce. - Mas existirá país enquanto existir povo, povo livre e não escravos. Há melhores maneiras de controlar o crime do que oferecendo a ditadura. Podemos começar por oferecer ao povo alimentação, trabalho, habitação, justiça, compaixão, igualdade.

            - Também eu acredito em todas essas coisas, senhor Pierce. Mas primeiro temos de pôr fim à matança. A 35.a emenda pode acabar com essa matança. Depois disso, com a ordem restaurada, podemos começar a atentar nas nossas outras prioridades.

            Pierce abanou a cabeça.

            - Não poderemos ocupar-nos de nada, pois teremos perdido os nossos direitos humanos. Ontem à noite, estive precisamente a reler um livro... - Pegou num papel que estava em cima da mesa e abriu-o. - ...um livro intitulado As Vossas Liberdades: A Declaração de Direitos, de Frank K. Kelly, vice-presidente da Reserva da República. Ouça o que ele tem a dizer: "Se perdêssemos a nossa Declaração de Direitos, o que aconteceria à nossa maneira de viver? Eis algumas das coisas que poderiam acontecer: o governo poderia ocupar os jovens em serviços militares por períodos indefinidos, sem dar a menor explicação ou justificação dessa política. Os jovens rapazes e raparigas que saem do ensino poderiam ser designados para tarefas nas nossas indústrias onde parecesse ao governo que eram necessários. Os estudantes que protestassem contra a política do governo poderiam ser lançados para as prisões federais por ordem do Presidente. Os americanos, velhos e novos, poderiam ver a sua propriedade expropriada por utilidade pública sem direito a indenização. Os nomes das pessoas que escrevessem cartas críticas aos seus congressistas poderiam ser entregues à polícia, e tais pessoas poderiam ser detidas e encarceradas. Os editores que publicassem artigos nos seus jornais, criticando o governo, ficariam sujeitos à detenção em qualquer momento, de dia ou de noite...

            Pierce não parava de falar e Collins foi-se afundando inconscientemente na cadeira. A luta que tinha tentado acalentar abandonara-o. Não estava bem ali, pelo menos do lado em que se sentava, e sentia dentro de si, intensa aversão pelo outro homem, o monstro ambicioso que ali o pusera.

            Esperou. Ouviu. Tentou mais algumas defesas fracas e sem convicção. Fez o seu dever. Os minutos passavam, os infindáveis trinta minutos, e por fim a tortura acabou. Tentou tirar o microfone enquanto Vanbrugh e Pierce se levantavam, ambos amigáveis, ambos prontos para conversar. Collins ignorou-os.

            - Desculpe-me - disse ele a Vanbrugh -, indicava-me onde é o banheiro?

            - Passado o átrio, à esquerda.

            Collins voltou-se, atravessou apressadamente o estúdio de televisão, passou ao átrio e virou à esquerda. Encontrou o banheiro e precipitou-se para dentro. Felizmente estava vazio. Chegou à privada mesmo a tempo. Durante instantes ficou apoiado sobre ela, pálido. Depois vomitou. A seguir lavou as mãos e o rosto, e tentou retomar a compostura. Fixou a sua imagem no espelho. Se tivera dúvidas sobre que posição tomar relativamente à 35.a emenda, agora já sabia. E, estranhamente, não fora a consciência a ditar-lhe essa posição. Fora o estômago.

            Uma hora mais tarde, já decidira o que devia fazer. Não era precisamente o que desejava, mas era um começo: um bom começo.

           Quando saiu do elevador que o levara dois pisos abaixo do salão principal do Hotel Century Plaza, sabia estar tomada uma decisão definitiva quanto ao seu próximo ato. Com a ajuda dos guarda-costas e dos oficiais da polícia local que o ajudavam a atravessar a multidão dos fotógrafos e dos espectadores, Collins percorreu o vasto salão inferior e entrou na Sala Los Angeles do hotel.

            Escoltado ao longo da primeira fila de mesas, não estava preparado para o impacto de tantos corpos aglomerados nesta sala cavernosa, iluminada apenas por um paquidérmico candeeiro central e uma fila de quatro candeeiros na parte mais afastada. Segurando na mão esquerda a pasta de couro onde levava o discurso, subiu para o estrado brilhante do palco, onde os dirigentes da Associação Americana do Foro se levantaram para o saudar.

            Era ainda pouco conhecido publicamente, mas uma salva de aplausos vindos de baixo acompanhou-o até ao seu lugar.

            Banalidades, cumprimentos, enquanto era dirigido para o lugar ao lado do Presidente do Supremo John G. Maynard.

            Ao apertar a mão ao Presidente do Supremo, Collins mais uma vez se sentiu impressionado pelo ídolo da sua mocidade. Maynard era um dos poucos homens públicos da América que pareciam moldados para o cargo que desempenhavam. A sua grande cabeleira branca, os olhos profundos e indagadores sob as espessas sobrancelhas, o nariz arqueado, o queixo quadrado davam-lhe um ar de um César honesto. A aparência, o porte direito como uma régua davam-lhe um ar de vigor e juventude notáveis para um homem bem entrado nos setenta.

            Para Collins, o movimento seguinte era difícil. Conhecia mal o Presidente do Supremo Maynard. Só o tinha encontrado três vezes, de passagem, durante recepções do governo e nunca lhe tinha falado demoradamente. Na verdade, tinha havido um quarto encontro muito recentemente: a ocasião em que o Presidente do Supremo Maynard o ajuramentara, como Procurador-Geral, na Casa Branca.

            Vendo que o presidente da Associação já se dirigira para a tribuna, que a sessão estava prestes a começar, Collins foi pressionado pela necessidade a agir de imediato. Chamou a atenção de Maynard, viu que ele estava a falar com a senhora à sua esquerda, e aguardou pacientemente a sua vez. Instantes depois, Maynard afastou-se da senhora para se consagrar ao discurso de apresentação.

            Collins tocou-lhe na manga e inclinou-se para ele.

            - Senhor Presidente... Maynard aproximou-se de Collins.

            - Sim?

            - Gostava que me dispensasse cinco minutos em particular, depois de sairmos daqui.

            - Com certeza, senhor Collins. Temos aposentos lá em cima, no terceiro andar. Só regressaremos a Washington à noite. A senhora Maynard foi às compras, por isso podemos ficar a sós.

            Satisfeito, Collins recostou-se novamente, sentindo-se melhor. Mas enquanto ouvia a sua apresentação palavrosa como primeiro orador, o seu espírito foi absorvido pela 35.a emenda e a sensação de opressão voltou. No colo tinha o discurso que relatava o aumento da criminalidade nos Estados Unidos e as maneiras como a lei e os procedimentos judiciais se tinham desenvolvido e transformado para acompanhar esse aumento. No princípio e no final do discurso argumentava-se a favor da necessidade de revisão constitucional, quando necessária, com particular ênfase na importância e valia da 35.a emenda. Revendo as declarações que em breve ia fazer, Collins sentiu-se incomodado. Pegando na caneta, releu rapidamente três citações nas páginas iniciais. Examinou a primeira: ''Como o Presidente George Washington declarou no seu discurso de despedida à nação, em Setembro de 1796: 'A base do nosso sistema político é o direito do povo elaborar e alterar as suas formas de governo'." Collins riscou o parágrafo.

            Examinou o parágrafo seguinte.

            "E como Alexander Hamilton disse doze anos depois, numa comunicação ao Senado dos Estados Unidos, 'As Constituições devem consistir apenas em disposições gerais; a razão é que devem ser necessariamente permanentes e não podem por isso prever as possíveis mudanças das coisas.' É a natureza geral dos artigos que permite a realização de emendas que vão ao encontro das emergências históricas. É a natureza geral da nossa Declaração de Direitos que permite incorporarmos-lhe a 35.a emenda, para resolver os problemas desta geração, sem alterar a integridade do documento como um todo." Collins fez deslizar a caneta por este parágrafo, cortando-o também. Entrou na terceira página. "Em 1816, Thomas Jefferson escreveu o seguinte a um amigo: 'Alguns homens encaram as constituições com sacrossanta reverência e consideram-nas como a Arca da Aliança, sagrada demais para se lhe tocar. Atribuem aos homens das gerações anteriores uma sabedoria sobre-humana, e julgam que o que eles fizeram não está sujeito a alterações.' Jefferson pensava que a nossa Constituição era passível de revisões..." com traços firmes, Collins cortou mais este parágrafo.

            Feitos estes cortes, o que restava era ainda uma argumentação a favor da flexibilidade, da aplicação de novas leis aos novos problemas, mas agora os argumentos eram mais suaves, esbatidos - pareciam mais uma sugestão oferecida para debate.

            Ouviu o Presidente do Supremo Maynard sussurrar-lhe:

            - Isso é que é escrever à pressa!

            Ele olhou para Maynard.

            - Segundos pensamentos - respondeu.

            Ouviu então o Presidente da Associação dizer da tribuna:

            - Senhoras e senhores, tenho o maior prazer em apresentar-lhes o Procurador-Geral dos Estados Unidos: Christopher Collins!

            Enquanto os aplausos estalavam, ele levantou-se para falar.

            Duas horas depois, com o seu discurso túrgido deitado para trás das costas, com o brilhante discurso do Presidente do Supremo ainda a retinir-lhe nos ouvidos, Collins sentou-se à beira da cadeira de costas altas da tranqüila suite de Maynard, tentando traduzir em palavras o que lhe ocupara o espírito durante toda a tarde.

            - Senhor Presidente do Supremo - começou Collins -, vou dizer-lhe o que me levou a querer falar-lhe em particular. Vou direto ao assunto. Gostava de conhecer a sua opinião sobre a 35.a emenda. Que pensa dela?

            O Presidente do Supremo, recostado num sofá, enchendo o cachimbo com tabaco de uma bolsa de couro, levantou a cabeça, de sobrancelhas franzidas.

            - A sua pergunta... é inspirada pelo Executivo ou é pessoal?

            - Não é inspirada por ninguém. É pessoal, nasceu da minha própria preocupação.

            - Compreendo.

            - Tenho grande respeito pela sua opinião - continuou Collins. Gostaria imenso de saber o que pensa sobre a lei que é talvez a mais controversa e decisiva jamais apresentada ao povo americano.

            - A 35.a - murmurou Maynard, acendendo o cachimbo. Puxou o fumo durante alguns segundos, depois estudou Collins. - Como pode supor, sou contra ela. Oponho-me radicalmente a legislação tão drástica. Se for mal aplicada, pode sufocar a Declaração de Direitos, tornar a nossa democracia um Estado totalitário. É verdade que enfrentamos um problema sério no país. O crime e o desrespeito pela lei crescem como nunca se viu na nossa história. Mas a limitação das liberdades não proporciona uma solução definitiva. Pode trazer-nos a paz, mas é uma paz resultante da morte. A pobreza, como bem sabemos, é a mãe do crime. Acabe-se com a pobreza e estaremos a aproximar-nos do fim da criminalidade. Não há outra forma. Estou com Benjamim Franklin: quem entrega a liberdade para comprar a segurança, não merece nem uma nem outra. A 35.a emenda pode comprar a segurança. Mas será pelo preço da liberdade humana. É um mau negócio. Oponho-me fortemente.

            - Porque não diz isso em público? - perguntou Collins.

            O Presidente do Supremo Maynard recostou-se, inspirando o fumo, e olhou maliciosamente para Collins.

            - E porque não o faz você? - retorquiu. - Você é o Procurador-Geral. Porque não se pronunciar contra ela?

            - Porque deixaria de ser Procurador-Geral.

            - E isso é assim tão importante?

            - Sim... porque penso que posso ainda fazer algum bem onde estou. Além disso, a minha voz não teria o mesmo impacto que a sua. Se não considerarmos a minha posição oficial, sou quase um desconhecido. Não tenho a sua credibilidade. Deve ter visto a recente sondagem em todo o Estado da Califórnia sobre os Americanos mais admirados. Obteve 87%. A si, o povo escutá-lo-ia, e o mesmo aconteceria com os legisladores do Estado.

            - Espere um instante, senhor Collins - disse Maynard, pousando o cachimbo num cinzeiro. - Parece que não me percebeu bem. Quando me perguntou porque não falava contra a lei, respondi fazendo-lhe a mesma pergunta. Esperava que me dissesse que não se pronunciava contra porque é a favor. Em vez disso, deu a entender que está do meu lado. No entanto, quer que seja eu a denunciá-la publicamente. Não o consigo perceber. Pensei que você, tal como o Presidente, os dirigentes do Congresso e o diretor do FBI, estavam todos por trás da emenda. Embora o seu discurso de hoje parecesse indicar que se devia fazer uma análise cuidadosa da emenda. Tudo isto é confuso.

            Collins abanou a cabeça.

            - Talvez porque eu próprio tenho andado vacilante. O discurso foi escrito há já alguns dias, e foi preparado por instigação do Presidente Wadsworth. Desde ontem que tenho alimentado crescentes dúvidas sobre a emenda, e que temo uma má utilização. Parece-me que agora concordo totalmente consigo a esse respeito. Parece-me que prefiriria demitir-me a defendê-la novamente. Mas, por agora, prefiro manter-me no meu cargo. Tenho à minha frente alguns assuntos por concluir. Quero terminá-los antes de tomar uma posição definitiva. Entretanto, o tempo escoa-se aqui na Califórnia. Era preciso que o povo e os legisladores ouvissem alguém que respeitam. É por isso que lhe peço que se manifeste. Só o senhor a pode liqüidar

            - Pode ser liqüidada sem a minha ajuda.

            - Duvido. Pelo menos de acordo com as sondagens particulares do Presidente.

            - Pois bem, vou dizer-lhe porque não posso opor-me a ela. Não sei se tem conhecimento disto, mas há um ano e meio os juízes do Supremo Tribunal chegaram a um acordo ético. Ninguém daria a sua opinião, verbalmente ou por escrito, sobre assuntos legais que pudessem um dia vir a ser apresentados no tribunal. Ser-me-ia impossível discutir em público uma emenda que mais tarde poderei ter de interpretar ou julgar no meu cargo.

            - Sim, compreendo - disse Collins desesperado. - Parece-me então que não há maneira de dizer ao público o que pensa realmente da 35.a emenda.

            - Não vejo nenhuma forma - disse Maynard vagarosamente. Pelo menos enquanto estiver no Supremo Tribunal. - Ficou pensativo por instantes. - É claro que haveria uma maneira. Posso sair do Supremo em qualquer momento. Posso demitir-me. Então estaria livre para falar. - Abanou a cabeça. - Mas as circunstâncias atuais não parecem exigir uma medida tão drástica.

            - As circunstâncias atuais - repetiu Collins. - Mas é capaz de encarar circunstâncias futuras que possam levá-lo a demitir-se e a pronunciar-se contra a emenda?

            Maynard pensou na pergunta.

            - Sim, é claro, suponho que há várias possibilidades que me podem levar a agir. É evidente que se eu estivesse convencido que os homens e os motivos que estão por trás da 35.a emenda são maus, se estivesse certo de que nessas mãos a emenda representaria um perigo imediato para o país, demitir-me-ia do meu cargo e falaria ao povo. De momento, ainda não estou plenamente convencido. Mas se estivesse, deixaria tudo e ergueria a minha voz imediatamente. Em resumo, se existisse mais alguma coisa do que aquilo que vejo...

            Nesse instante, Collins pensou no Documento R, no perigo que não se via mas era real, no aviso de agonia do coronel Baxter.

            - Senhor Presidente- interrompeu Collins -, já ouviu falar de um tal Documento R?

            - O Documento R? Não, parece-me que não. O que é?

            - Não tenho certeza. Deixe-me explicar-lhe. - Lentamente, relatou a Maynard as circunstâncias da morte do coronel e as suas agourentas palavras finais. - Tanto quanto posso deduzir, parece tratar-se de um documento ou de um plano existente que se destina a... a acrescentar de qualquer forma a 35.a emenda. Como lhe disse, é qualquer coisa que Baxter considerava perigosa. Deve estar relacionado com a 35.a emenda, deve ser uma parte que não se vê.

            - Talvez - disse Maynard. - É realmente sinistro.

            - Se eu descobrisse o que se trata e provasse que é um perigo, isso levá-lo-ia a agir?

            - Talvez - disse Maynard cautelosamente. - Dependeria do conteúdo. Mostre-me primeiro, o documento ou qualquer outra coisa, e então dar-lhe-ei a minha resposta.

            - Ótimo. - Collins levantou-se. - Vou apressar a investigação. Se e quando encontrar o Documento R, será o primeiro a conhecê-lo.

            Maynard ergueu-se.

            - Fico à espera de notícias. Assim que as tiver, estarei pronto para tomar uma decisão.

            Quando Collins saiu da suite de Maynard, o seu espírito sentia-se mais desanuviado. Sabia finalmente que posição tomar face à emenda. Sabia que tinha um aliado para o ajudar a detê-la, se conseguisse a prova concludente que faltava. E sabia também de uma fonte para encontrar a ponta do fio.

            Tinha de regressar a Washington. Mas depois, num dia da próxima semana, teria de contatar com alguém na Penitenciária Federal de Lewisburg, na Pensilvania.

            Na manhã seguinte, por trás das portas trancadas do gabinete do diretor do FBI, no edifício J. Edgar Hoover em Washington, duas figuras imóveis estavam sentadas a ouvir uma gravação que passava lentamente no grande gravador dourado colocado em cima da mesa de café, entre elas. Vernon T. Tynan e Harry Adcock tinham estado a ouvir em silêncio durante cerca de um quarto de hora. A fita estava a chegar ao fim.

            Fiéis à vida, as vozes saíam do reprodutor de som.

            "Como lhe disse, é qualquer coisa que Baxter considerava perigosa. Deve estar relacionado com a 35.a emenda, deve ser uma parte que não se vê."

            "Talvez. É realmente sinistro."

            "Se eu descobrisse o que se trata e provasse que é um perigo, isso levá-lo-ia a agir?"

            "Talvez. Dependeria do conteúdo. Mostre-me primeiro, o documento ou qualquer outra coisa, e então dar-lhe-ei a minha resposta."

            "Ótimo. Vou apressar a investigação. Se e quando encontrar o Documento R, será o primeiro a conhecê-lo."

            ''Fico à espera de notícias. Assim que as tiver, estarei pronto para tomar uma decisão."

            Silêncio, só cortado pelo deslizar do resto da fita virgem.

            - Filho da puta! - exclamou Tynan, de rosto lívido, pondo-se de pé num salto. - Esse pulha desse vira-casacas, a virar-se assim contra nós! Desligue esse raio dessa fita, Harry.

            Adcock desligou rapidamente o gravador e deu meia-volta para observar o seu superior, que vagueava pelo gabinete.

            Tynan bateu fortemente com o punho na palma da outra mão.

            - O grande porco, o pulha que me saiu esse Collins. Vai-lhe custar o pescoço. Não vai mexer uma palha, a tentar subverter, mas nós vamos afastá-lo do caminho e depressa. O Maynard é que me preocupa mais. Esse nojento liberal amigalhaço dos vermelhos... esse é que nos pode arranjar sarilhos se andar pela Califórnia a dizer mal de nós e da emenda.

            - Não pode, chefe, não tem provas. Ele disse que não fazia nada sem provas.

            - Não confio nele. Pode dar-lhe na cabeça meter-nos na berlinda. Não vou dar-lhe asas... nunca mais, a nenhum deles. Vamos dar cabo de Maynard e de Collins.

            - Collins deve ser fácil de anular - disse Adcock. - Basta levar esta gravação ao Presidente... ele despede o seu Procurador-Geral num minuto.

            Tynan levantou a mão.

            - Não, Harry. Você e os seus rapazes fizeram um bom trabalho em Los Angeles. As gravações são preciosas, todas elas, mas parece-me que não será prudente dar a conhecer os nossos processos ao Presidente. Pode ficar com dúvidas. Além disso, ele pôs o assunto nas nossas mãos. Não quer ser envolvido. Não, acho que é melhor encarregarmo-nos do senhor Procurador-Geral Collins e do senhor Presidente do Supremo Maynard à nossa maneira.

            Adcock ficou a vê-lo passear pensativamente por trás da cadeira giratória da secretária. Esperou um pouco e perguntou-lhe:

            - Tem alguma idéia, chefe?

            O diretor abanou a cabeça.

            - Algumas. Não sei se eles irão mais longe. Collins afirmou que sim, mas penso que não sabe aonde se dirigir. De qualquer modo, são ambos potencialmente perigosos para o país... e para nós. Até aqui temos estado de sobreaviso; agora temos de estar preparados para a defesa. Temos de estar prontos para qualquer eventualidade. Se tivermos munições, podemos enfrentá-los, e usá-las se a isso formos forçados.

            - Tira-me as palavras da boca, chefe.

            - Parece-me que podemos começar pelo nosso Procurador-Geral Collins. Quero que o FBI proceda a uma investigação secreta a seu respeito.

            - Mas ele foi sujeito a uma investigação cuidadosa antes de o Congresso o confirmar como Procurador-Geral - protestou Adcock.

            Tynan agitou a mão, como se apagasse as primeiras diligências feitas.

            - Rotina, as primeiras investigações foram de rotina. Quero um grupo de escol, uma pequena força de choque formada pelos seus melhores agentes, que começará a investigar ainda hoje. Escolha-os a dedo, Harry. Só aqueles que sabem ocupar-se de uma tarefa de espionagem da maior importância. Aqueles que são de absoluta confiança, que têm lealdade total ao seu diretor. Quero que Collins seja investigado com dez vezes mais cuidado que da primeira vez.

            - Até onde podemos ir?

            - Sem limites. Procurem toda a gente que tiver contactado com ele em qualquer altura da vida. Procurem a primeira mulher, Helen Collins... por este nome ou pelo que agora tiver. Procurem o filho. Procurem a segunda mulher, Karen Collins, e a governanta. Passem a pente fino os parentes mais chegados. Não se esqueçam dos amigos, como o senador Hilliard. Não menosprezem nada nem ninguém.

            Adcock tomava agora uma atitude que parecia de atenção.

            - Assim se fará. É como se já estivesse feito, chefe.

            - Uma semana. Quero as investigações terminadas dentro de uma semana.

            - Uma semana - prometeu Adcock.

            - Muito bem. A seguir, John G. Maynard. Parece-me que o nosso ilustre Presidente do Supremo também pode merecer um pouco de atenção. Sei que foi feita uma investigação antes de ser confirmado. Mas isso foi há... há...

            - Há quinze anos.

            - Ponha a nossa força especial a investigá-lo, como se isso ainda nunca tivesse sido feito. Mande-os passar pela peneira amigos e inimigos, associados, família e pessoas que tiveram contatos com ele nos últimos sete anos. Quero que cada passo que Maynard tenha dado, cada declaração, carta, investimento, atividade, seja observado à lupa. Se Collins se manifestar publicamente contra nós, pode prejudicar-nos um pouco na Califórnia, mas não decisivamente. Mas se Maynard se resolver a voltar-se contra nós, pode destruir-nos. Quero estar preparado. Apenas isso, Harry, estar preparado.

            Adcock aproximou-se da secretária.

            - Chefe, se quer a minha opinião, mesmo que encontremos qualquer coisa contra Maynard, isso não chegará para o travar se decidir opor-se à emenda.

            - Mas pode desacreditá-lo.

            - Talvez. Mas bem viu pelos inquéritos como ele é admirado.

            - Sei-o bem. Vamos tentar obter coisas, de qualquer maneira, e esperemos que sejam bastante fortes.

            Tynan refletiu.

            - Tem razão, Harry. Collins é fácil de eliminar. Maynard é diferente. Vai ser mais difícil. - Parecia falar consigo mesmo. - Se se demitisse para nos combater, nada o faria parar. Iria até ao fim. – O semblante de Tynan carregou-se. - Nesse caso, também nós teríamos de ir até ao fim. Seria ele ou nós. Estou a pensar... Mergulhara em profundas congeminações.

            - Sim, chefe - acorreu Adcock.

            Tynan agitou a mão por cima da cadeira.

            - Preciso pensar melhor. - Depois acrescentou: - Mas é preciso muito dinheiro, montes de dinheiro...

            - O Presidente tem um fundo...

            - Não - interrompeu Tynan -, dá demasiado nas vistas. Além disso, como já lhe disse, não quero o Presidente envolvido no assunto. Temos de levar a cabo a tarefa com os nossos recursos, para colhermos os resultados. Precisamos de um fundo de guerra vindo de uma fonte que... que não deixe rastos. - Subitamente bateu com o punho na palma da mão. - Raios, Harry, achei!

            Galvanizado pela idéia, Tynan deu a volta à cadeira, sentou-se e chamou a secretária pelo intercomunicador.

            - Beth? Pegue no telefone... Bem, traga-me a ficha de Donald Radenbaugh. Traga-me depressa.

            Desligou e recostou-se, sorrindo para o adjunto. Adcock estava verdadeiramente pasmado.

            - Radenbaugh está preso em Lewisburg...

            - Eu sei.

            - Julguei que estava à procura de muito dinheiro. Tynan sorriu.

            - Pois estou. E sei quem o vai arranjar sem nunca falar. Espere um instante, Harry, tenha paciência e confie no velho Vernon T. Tynan.

            Minutos depois, Beth aparecia com o dossier.

            - Isto é só um resumo do caso. Temos arquivos completos...

            - Isto serve, Beth. Obrigado.

            Quando ficou só com Adcock, Tynan abriu a capa e começou a passar as folhas de papel datilografado com o dedo molhado. Enquanto folheava as páginas, parava aqui e ali, lendo alguns fatos.

            - Radenbaugh, Radenbaugh... Extorsão... Entregou o dinheiro em Miami Beach, segundo Hyland... Não foi encontrado o dinheiro... depois veio o tribunal... Culpado. Quinze anos... Hum, dois anos e oito meses cumpridos... Sim.

            Fechou o dossier. Ergueu o olhar para o adjunto, dando um estalo de satisfação com a língua.

            - Perfeito. Devo dizer-lhe que se isto resultar, sou um gênio. Se o nosso Presidente do Supremo interferir, estaremos preparados para o receber.

            - Não compreendo, chefe.

            - Vai compreender daqui a pouco. A partir de agora, cumpra apenas as instruções. Depois poderá passar à investigação sobre Collins. Primeiro vai-me fazer isto. - Fez uma pausa para remoer mentalmente a hipótese. - Faça assim: tranque-se no seu gabinete e telefone ao diretor da Prisão Federal de Lewisburg, Bruce Jenkins. Telefonema confidencial. Diga-lhe que o assunto fica entre nós dois, que é completamente confidencial. Ele é de confiança. O diretor deve-me muito. Bem, diga-lhe que quero falar com um dos condenados, Donald Radenbaugh, fora dos muros da prisão, ainda esta noite, depois da meia-noite, digamos às duas da manhã. Arranje um lugar para o encontro onde ninguém nos importune, onde eu possa ter uma bela conversa privada com o senhor Donald Radenbaugh. Está muita coisa em jogo, Harry, está tudo em jogo, por isso veja se corre tudo bem.

                                                    

 

            Faltava um quarto para as duas da manhã e, apesar da lua, estava muito escuro. Harry Adcock conduzia lentamente na escuridão.

            Pela terceira vez nessa hora, Vernon T. Tynan, sentado no lugar da frente ao lado dele, perguntou:

            - Tem certeza que ninguém sabe que saímos da cidade?

            - Absoluta - confirmou Adcock. - Até arranjei uma lista falsa das suas atividades em Washington durante a noite e distribuí-a por lá.

            - Ótimo, Harry, muito bem.- Tynan esgueirou-se para a frente, espreitando pelo pára-brisas para a densa vegetação e para o arvoredo que ladeavam a estrada raramente utilizada. - Não vejo absolutamente nada... Tem certeza que sabe onde estamos?

            - Estou a seguir à letra as instruções do diretor - disse Adcock. - Jenkins explicou tudo minuciosamente.

            - Quanto falta para lá chegarmos?

            - Poucos minutos, chefe.

            Tinha voado num pequeno jato privativo de Washington para Harrisburg, na Pensilvania. Por especial favor, tinham conseguido ser os únicos passageiros do avião. Em Harrisburg, um Pontiac alugado esperava-os no aeroporto. Adcock tinha-se sentado ao volante desde o início, com Tynan ao lado e um mapa topográfico de Lewisburg marcado a vermelho entre ambos. Tinham saído de Harrisburg, cruzado a ponte sobre o rio Susquehanna e avançado para norte pela auto-estrada número 15, ao longo da margem ocidental do rio. Tinham demorado uma hora e meia cobrindo aproximadamente cinqüenta milhas, até chegarem ao primeiro ponto de referência, a Universidade de Bucknell, situada à direita. Tinham continuado, atravessando a cidade de Lewisburg, uma cidade fantasma que dormia àquelas horas da madrugada. Ao passarem pela escola superior, Adcock tinha abrandado para consultar o mapa. Tinha estendido o mapa e procurado a estrada que se estendia à sua frente. Tinham chegado ao extremo da cidade. Adcock tinha apontado para a esquerda.

            - É aqui que se vira para a entrada da Penitenciária. Jenkins disse que não fizesse caso, que me dirigisse para nordeste pela auto-estrada número 15, que virasse depois à esquerda no Hospital Evangélico e que seguisse para norte, passando pelo outro lado da Penitenciária...

            - Poderá alguém ver-nos lá? - perguntara Tynan preocupado.

            - Não, chefe, não podemos ser vistos. Além disso, veja as horas que são. Mesmo assim, vamos em frente e depois voltamos novamente atrás quando chegarmos à estrada secundária que atravessa a floresta. Seguimos pelos bosques até ao extremo sul e daí veremos os muros e a torre de vigia da Penitenciária. É aí que esperamos.

            Agora seguiam em marcha lenta através da floresta.

            Adcock inclinou-se sobre o volante e Tynan esgueirou-se ao mesmo tempo, espreitando através do pára-brisas para o que parecia ser o fim da estrada e o limite da área florestal.

            - Parece que chegamos - murmurou Adcock. - Ele disse que havia uma clareira entre as árvores, à direita. Olhe, ali está ela.

            Saiu da estrada para a direita, depois virou rapidamente para a esquerda e parou. A pouca distância, podiam distinguir a silhueta da parte fronteira do muro de cimento que rodeava a prisão, os cumes dos edifícios mais altos do recinto da prisão e duas torres com depósitos de água, uma à direita e outra atrás da Penitenciária Federal de Lewisburg.

            Adcock alcançou o tablier e desligou os faróis. Apontou para as silhuetas do lado de trás.

            - É ali que estão os duros, no buraco da maior segurança.

            - Alguns - disse Tynan. - Donald Radenbaugh não pertence a esse número. É um dos inofensivos, um dos presos políticos.

            - Não sabia que ele era preso político.

            - Tecnicamente não é. Mas no fundo, é. Sabia demasiado sobre o que se passava. Isso também pode ser um crime.

            Tynan agitava-se na escuridão do assento da frente, espreitando pelo pára-brisas e esperando.

            Já tinham passado alguns minutos quando Adcock puxou pela manga de Tynan.

            - Chefe, parece-me que os vejo chegar.

            Tynan olhou sofregamente pelo pára-brisas, quase fechando os olhos, e acabou por ver dois focos de luz a aproximarem-se.

            - Deve ser Jenkins - disse ele. - Só trás os mínimos.

            Calou-se, continuando a seguir o avanço do outro carro que se acercava.

            - Bem - disse Tynan de repente -, eis o que vamos fazer. Eu vou para o banco de trás, para ficar ao lado dele. Você fica onde está, ao volante. Pode ouvir. Não diga nada. Quem fala com ele sou eu. Você limita-se a ouvir. Estamos ambos metidos nisto.

            Tynan abriu a porta da frente do Pontiac, saiu, fechou-a, abriu a porta traseira, entrou e anichou-se no canto do assento.

            O outro carro já tinha entrado na clareira e estacou a dez metros deles. O motor parou de trabalhar. Os mínimos apagaram-se. Uma porta abriu-se e fechou-se.

            Ouviu-se o ruído de passos.

            O rosto seco do diretor Bruce Jenkins aproximou-se até ficar junto da janela de Adcock, que agitou o polegar para o assento detrás. Jenkins assentiu com a cabeça e recuou. Agora o seu rosto surgia à janela das traseiras. Tynan abriu metade do vidro.

            - Jenkins, como tem passado?

            - É um prazer encontrá-lo, diretor. Estou ótimo. Trago comigo o que quer.

            - Algum problema?

            - Problema, problema, não. Só que ele não tinha muita vontade de o ver...

            - Ele não gosta de mim - disse Tynan.

            - ...Mas veio. É curioso...

            - Olá se veio - disse Tynan. - É melhor não perdermos tempo. É bastante tarde. Traga-o para aqui. Deixe-o entrar pelo outro lado e sentar-se ao pé de mim.

            - Muito bem.

            - Depois de acabarmos, volte cá. É possível que também queira falar consigo. Posso querer mais alguma coisa.

            - Entendido.

            - Outra coisa, Jenkins. Este encontro nunca existiu. O rosto do diretor abriu-se num sorriso.

            - Que encontro?

            Tynan esperou. Não tinha ainda passado um minuto, quando do outro lado do carro se abriu uma porta. Jenkins meteu a cabeça.

            - Cá o tem.

            Donald Radenbaugh estava de pé, muito direito, junto do diretor. Tynan não lhe podia ver a cara; só via que os pulsos estavam juntos.

            - Está algemado? - perguntou Tynan.

            - Está, sim.

            - Tire-lhe o raio das algemas, sim? Este encontro não é desse gênero.

            Tynan ouviu o tilintar de chaves e viu o diretor abrir as algemas e tirá-las. Observou o prisioneiro a esfregar os pulsos magoados. Depois ouviu o diretor dizer:

            - Pode entrar para o banco de trás.

            Donald Radenbaugh baixou-se para entrar no carro. A cabeça e a cara ficaram à vista. Não tinha mudado muito nos quase três anos de prisão. Parecia apenas ligeiramente mais magro dentro do uniforme cinzento da prisão, demasiado largo. Tinha a cabeça completamente calva, só com um tufo de cabelo louro nas têmporas, os olhos semicerrados pelos papos, atrás de uns óculos de armação de aço, um rosto pálido e fino, um nariz estreito e pontiagudo, com um bigode loiro, pequeno e mal cuidado, por baixo, e um queixo curto. Estava pálido e soturno. Talvez tivesse um metro e setenta e oitenta quilos, calculou Tynan. Tinha entrado no carro, e afundou-se no assento de trás, tão longe quanto possível de Tynan.

            Tynan não fez o menor esforço para lhe apertar a mão.

            - Olá, Don - disse-lhe.

            - Olá.

            - Já passou muito tempo.

            - Suponho que sim.

            - Quer um cigarro? Harry, dê-lhe um cigarro e o seu isqueiro. Radenbaugh estendeu a mão para aceitar o cigarro e o isqueiro.

            Depois de acender o cigarro, devolveu o isqueiro. Aspirou o cigarro duas vezes, exalando uma nuvem de fumo. Pareceu mais descontraído.

            - Então, Don - começou Tynan - , como tem passado?

            Radenbaugh sorriu ironicamente.

            - É uma pergunta infernal.

            - É assim tão mau? - perguntou Tynan, solícito. - Pensei que o tinham na biblioteca da prisão.

            - Estou numa cela - disse Radenbaugh amargamente. - Estou na prisão encarcerado como um animal e estou inocente.

            - Sim, bem sei - continuou Tynan. - Realmente, não deve ser agradável.

            - É só podridão - disse Radenbaugh. - Há tudo para vos proteger de nós: portas de aço corrediças, fechaduras triplas, vigias nas paredes de betão. Mas não há nada que nos proteja lá dentro: pancadaria, facadas, violações, droga. Os guardas prisionais, os carcereiros, os vendidos, rafeiros dos guardas (parece-me que já estou a falar como os outros), todos eles tentam agir pior que os outros. Comida estragada, falta de exercício e uma cela de dois metros por três e meio. Gostaria de passar os seus melhores anos num planeta de dois metros por três e meio? O maior acontecimento é a ida ao barbeiro. Ou talvez uma carta da minha filha. É terrível. Especialmente quando se está inocente. Não há a menor esperança.

            Caiu num silêncio agressivo, inspirando e expirando o fumo do cigarro.

            Tynan observava-o na obscuridade.

            - Pois é, a perda da esperança... Suponho que isso é o pior de tudo - disse simpaticamente. - Foi uma pena o que aconteceu ao Noah Baxter. Ele era a sua penúltima hipótese de sair daqui mais depressa. Foi uma pena.

            Radenbaugh olhou-o profundamente.

            - A minha penúltima hipótese? - repetiu.

            - Sim, a penúltima hipótese, Don; eu sou a última. Radenbaugh fixou-o bem nos olhos.

            -Você?

            - Eu. - Tynan abanava a cabeça. - Sim, eu. Vim aqui para lhe oferecer um contrato, Don. Um negócio entre nós os dois. Posso dar-lhe aquilo que quer: liberdade. E você dar-me-á o que eu quero: dinheiro. Está disposto a ouvir-me?

            Radenbaugh não respondeu. Mas estava a ouvir.

            - Muito bem - continuou Tynan -, vou dizer-lhe tudo de uma vez, em poucas palavras. Você tem um milhão de dólares em dinheiro escondido em qualquer parte na Flórida. Não vamos discutir se o tem ou não. Estive a ler atentamente o processo. Uma testemunha fidedigna jura que você saiu de Washington com o dinheiro para o entregar em Miami. Nunca o entregou. Quando foi preso não o tinha.

            - Talvez nunca o tivesse - disse Radenbaugh calmamente. Talvez eu estivesse a dizer a verdade.

            - Talvez - disse Tynan para ser agradável. - Mas talvez não. Talvez o tenha enterrado. Num dia de chuva. Partamos dessa hipótese. Se assim foi, então há um lindo milhão em notas num lugar qualquer da Flórida. Dinheiro que não rende juros... E devia render. Devia servir-lhe para qualquer coisa... não daqui a doze anos, mas desde já, hoje mesmo. O que é que tanto dinheiro poderá comprar? O que é que deseja acima de tudo no mundo? A liberdade? Você mesmo disse que a prisão é podridão. Quer sair. Eu não posso torná-lo inocente, uma vez que o tribunal o declarou culpado. Mas posso torná-lo um homem livre. Quer continuar a ouvir-me?

            Radenbaugh chegou-se para a porta, abriu uns centímetros do vidro e deitou fora a ponta do cigarro. Encostando-se novamente, voltou a cabeça para Tynan.

            - Continue - disse-lhe.

            - Esse milhão de dólares... - prosseguiu Tynan - Preciso de parte dele. Não sou uma pessoa suja. Podia pedir-lhe todo e talvez o conseguisse. Mas não lhe estou a pedir todo. Só quero parte dele... digamos que é para um investimento. Em troca, reduzirei a sua sentença ao tempo já cumprido até esta noite, ou até daqui a algumas noites. Não é fácil, mas posso consegui-lo. Pela sua parte, irá a Miami, desenterrará o dinheiro e entregará parte dele a um intermediário. Entregará setecentos e cinqüenta mil dólares e poderá ficar com os restantes duzentos e cinqüenta mil para recomeçar a sua vida. E o negócio ficará satisfatoriamente concluído. Que lhe parece?

            Olhou para Radenbaugh, mas este não lhe deu resposta. Continuava sentado a olhar em frente, os lábios comprimidos, o rosto impassível.

            - Muito bem, suponho que quer conhecer alguns pormenores continuou Tynan. - Há um óbice. Terá de se haver com ele, ou o negócio vai ao ar. Disse-lhe que não era fácil. E não é. Não tenho poderes para o afiançar ou libertar. Ninguém os possui, exceto os membros da comissão de fianças e acontece que sei que eles não o autorizarão a sair durante os doze anos que lhe falta cumprir. Eu não posso libertar Donald Radenbaugh da Penitenciária Federal de Lewisburg. Mas posso libertá-lo a si.

            Radenbaugh olhava agora para o diretor.

            - Trata-se de um truque, mas eu posso fazê-lo. Para nos protegermos a ambos, tem de assumir uma nova identidade no dia em que for solto. Não é simples, mas pode fazer-se. Não é a primeira vez que se faz isso com êxito. Desde 1970 que pelo menos quinhentos informantes, testemunhas do governo, pessoas que falsearam provas, receberam novas identidades dadas pelo diretor dos Serviços Criminais do Departamento de Justiça. Isto tem acontecido e pode repetir-se. Só que desta vez não o posso fazer por intermédio do Departamento de Justiça. Tenho de tratar do assunto pessoalmente.

            Tynan percebeu que não havia nenhuma reação por parte de Radenbaugh.       Continuou:

            - Primeiro fazemos desaparecer Donald Radenbaugh. É uma necessidade fazê-lo desaparecer. O diretor Jenkins poria a correr a história de que tinha morrido de um ataque cardíaco ou de uma facada. Diria provavelmente que tinha morrido de causas naturais. Isso dá menos nas vistas. A seguir, podíamos soltá-lo. Fazíamos desaparecer as suas impressões digitais, alterávamos a sua aparência, dávamos-lhe uma identidade completamente nova, um novo nome e novos papéis, desde uma certidão de nascimento até um cartão da Previdência, uma carta de crédito para aluguel de automóveis, uma carta de condução, tudo com o novo nome. Poderia ser um homem novo a partir da próxima semana: completamente livre, tão vivo como nunca e com uma conta choruda no banco. Mas teria de se lembrar: Donald Radenbaugh deixaria de existir. Sei que tem uma filha e mais alguns parentes e amigos: todos eles ficariam de luto. Nunca viriam a conhecer a verdade. Compreendo que deve ser duro para si, mas faz parte do preço que terá de pagar pelo acordo - isso e os setecentos e cinqüenta mil dólares.

            Tynan parou e olhou abstraído para fora. Depois voltou-se novamente para Radenbaugh.

            - Aí tem - disse Tynan. Tentou ver os ponteiros do relógio de pulso.- Já excedemos o tempo, Don. Ouviu a minha primeira e última oferta. Tem de resolver: sim ou não. Se escolher não e preferir ficar fechado na prisão por mais doze anos (se tiver a sorte de não ser esfaqueado e morto), para sair quando já for velho... bem, então pode guardar o seu dinheiro e conservar o seu nome... a escolha é sua. Se preferir dizer sim, então não haverá mais prisão, fica livre e ainda conservará uma parte importante do dinheiro, fará uma vida nova e poderá disfrutá-la como qualquer outra pessoa. Também neste caso, é a si que compete a escolha.

            Tynan fez uma pausa para o deixar refletir. Passados alguns minutos, disse com ênfase:

            - Tem de escolher uma ou outra hipótese esta noite. Mais precisamente: nos próximos cinco minutos. Se for não, pode abrir a porta e ir-se embora. Jenkins está à sua espera com as algemas para o levar para a sua cela. Se for sim, basta dizer a palavra; nesse caso dar-lhe-ei instruções, e ao diretor também, sobre o que tem a fazer, como lhe expliquei, e dentro de uma semana terá um quarto de um milhão de dólares e uma vida livre. Quando deixar a prisão, só terá de seguir as instruções simples que estarão no bolso do seu terno novo, com um bilhete de avião para Miami e uma reserva de hotel.

            Tynan parou.

            - Muito bem, Don - disse suavemente -, é a sua vez. Qual é a decisão?

            Foi só cinco dias mais tarde que Chris Collins se deslocou à Penitenciária Federal de Lewisburg.

            Após a viagem de regresso de Los Angeles para Washington, Collins tinha relatado ao Presidente Wadsworth a sua visita à Califórnia. O relatório tinha sido breve, pois Collins omitira muitas das suas atividades. Tinha resolvido que, pelo menos por enquanto, não revelaria ao Presidente a visita ao lago Tule, a conferência com os deputados Keefe, Yurkovich e Tobias, o encontro particular com o Presidente do Supremo Maynard. Não podia falar desses assuntos porque não estava ainda seguro sobre o papel do Presidente nos acontecimentos suspeitos da Califórnia. Pelo contrário, tinha discutido o debate televisivo com Tony Pierce. Depois tinham falado bastante sobre o discurso na Associação Americana do Foro. Tinha tentado apresentá-lo como um êxito, mas o Presidente, bem informado, expressara-lhe rudemente o seu descontentamento.

            - Você defendeu mal e subestimou a nossa luta pela 35.a emenda. Na verdade, eu desejava que tivesse sido mais incisivo. No entanto, as coisas parece que estão a correr bem por lá. Tivemos hoje boas notícias.

            As boas notícias tinham sido as últimas sondagens de Ronald Steedman nos órgãos legislativos da Califórnia. Na Assembléia do Estado, entre os deputados que já tinham uma posição tomada, os que estavam a favor da emenda ultrapassavam os que se lhe opunham: 65% contra 35%. No Senado, os resultados eram mais equilibrados: 55% a favor e 45% contra. Collins dificilmente dissimulara o seu desagrado. Collins ficara obcecado pelo desejo de visitar Lewisburg, para se encontrar com a última fonte que lhe restava para descobrir o segredo do Documento R, e tinha contado fazer a viagem no segundo ou terceiro dia após o regresso a Washington. Mas solicitações do Presidente e da sua própria secção criminal e da secção de direitos civis, tinham tornado a deslocação impossível. Por fim, graças aos seus subordinados do Serviço Prisional, tinha conseguido preparar a viagem.

            Sabendo que não podia explicar nem justificar o verdadeiro fim da visita, tinha inventado um pretexto. Estava a trabalhar em alterações a introduzir na Lei de Reabilitação de Prisioneiros, e para o fazer teria de visitar a Penitenciária Federal de Lewisburg. E assim, lado a lado com o diretor Bruce Jenkins, estava agora a fazer uma rápida inspeção à prisão. Já tinha percorrido as oficinas de roupas e de chapas metálicas; tinha visitado as salas de aulas, o hospital, a biblioteca; tinha suportado entrevistas rigorosamente vigiadas com prisioneiros dentro das suas celas. Agora, estava terminada a última parte da inspeção, e começava para Collins a parte mais importante.

            Tinha evitado o almoço, alegando um compromisso inadiável em Nova Iorque.

            - Deseja mais alguma coisa de mim? - inquiriu o diretor Jenkins.

            - Já me ajudou muito - disse Collins sorridente. - Tenho os elementos de que preciso. Acho que... - Hesitava. - Na verdade, há mais uma coisa. Temos a correr um caso de impostos e o nome de um dos seus pensionistas tem vindo constantemente à baila. Gostaria de falar com ele em particular durante cinco ou dez minutos... Será possível?

            - Com certeza - disse o diretor Jenkins. - Basta dizer-me quem é e trago-o imediatamente para lhe poder falar a sós.

            - O seu nome é Radenbaugh. Donald Radenbaugh. Gostava de o ver.

            O diretor Jenkins não escondeu a sua surpresa.

            - Quer dizer que não leu os jornais da manhã? Nem viu televisão?

            - Não, não pude.

            - Donald Radenbaugh está morto. Lamento dizer-lhe. Morreu há três dias. Caiu fulminado por um ataque cardíaco. Retardei a notícia até saber onde poderíamos encontrar o seu parente mais próximo. Enterrámo-lo a noite passada. A notícia saiu hoje de manhã cedo.

            - Morto - disse Collins surdamente. Sentia-se mal. A sua grande esperança de vir a saber o que era o Documento R também estava morta.

            - Chegou atrasado três dias - disse Jenkins. - Pouca sorte. Desesperado, Collins preparava-se para partir imediatamente, quando de repente lhe ocorreu um pensamento.

            - Disse que tinha retardado a notícia três dias para localizar o parente mais próximo?

            - Sim, ele tinha uma filha em Filadélfia, mas ela estava ausente da cidade. Acabamos por a encontrar: tínhamos de lhe comunicar o falecimento e de lhe perguntar qual o destino a dar ao corpo. Com o acordo dela, enterrámo-lo no cemitério local, a expensas do governo.

            - Como é que ela recebeu a notícia?

            - É claro que ficou muito perturbada.

            - Quer dizer que Radenbaugh estava muito ligado à filha?

            - À exceção do antigo Procurador-Geral Baxter, que foi seu amigo, Susie era a única pessoa que contatava com ele regularmente.

            - Tem a morada dela?

            - Não...

            - Como é que lhe participou?

            - Ela tem uma caixa postal na central dos correios em Filadélfia. Telegrafamos-lhe e quando ela recebeu o telegrama, telefonou-nos.

            - Pode dar-me o número da caixa postal?

            - Claro. - Dirigiu-se à secretária, procurou entre uma série de pastas e abriu uma. - É a caixa postal 153, da estação de correios William Penn, Filadélfia, 19105.

            - Obrigado. Disse que ela contatava regularmente com o pai?

            - Sim.

            - Talvez ela saiba alguma coisa dos seus negócios. Talvez me possa informar.

            - Talvez, mas não creio.

            - Eu também duvido - disse Collins desanimado. - Vamos ver.

            Tinha sido uma operação delineada com incrível rigor. Até agora não tinha havido o menor problema.

            Sentado na cabina fechada do lustroso barco a motor que deslizava pelo canal artificial que separa a ponta sul da praia de Miami da Ilha dos Pescadores, ele tentou rever os acontecimentos da semana anterior. Há seis noites, numa zona arborizada do exterior da Penitenciária Federal de Lewisburg, tinha-se separado do diretor do FBI Vernon T. Tynan, concordando em aceitar o estranho acordo proposto a Donald Radenbaugh, o prisioneiro. Há duas noites, aninhado no banco traseiro do carro do diretor, tinha sido conduzido para fora da prisão adormecida como Herbert Miller, cidadão e homem livre. Desde o encontro com Tynan, só tinha recebido um visitante cujo nome conhecia: Harry Adcock. Tinha havido mais três, mas eram pessoas anônimas. Radenbaugh recordou-se que tinha sido posto na solitária, para ficar isolado dos outros condenados. Aí tinha recebido um homem idoso e coxo que lhe aplicara ácido para apagar - e com que dor! - as impressões digitais. A seguir tinha vindo um oculista para lhe tirar os óculos com armação de aço e lhe colocar lentes de contato. Depois tinha sido a vez de o barbeiro lhe cortar o bigode e as patilhas, lhe pintar os restos de cabelos louro de cor negra, e lhe colocar um chino. Finalmente, tinha vindo Adcock com os documentos (uma certidão de nascimento, uma caderneta militar com louvores) e os cartões (carta de condução, cartão de crédito para alugar automóveis, cartão da Previdência) que substituiriam os documentos da sua velha carteira e o transformariam oficialmente no respeitável Sr. Herbert Miller de cinqüenta e nove anos.

Tinham-lhe dado um terno castanho-escuro, de corte moderno, em substituição do que vestia na prisão, que estava fora de moda e podia parecer estranho.

Tinha recebido instruções verbais de Adcock. Assim que o soltassem, devia dirigir-se imediatamente para Miami de avião. Em Miami, tinha sido reservado um quarto em nome de Herbert Miller no Hotel Bayamo, situado na Rua West Flager. No dia ou na noite seguinte, estaria livre para desenterrar o milhão de dólares escondidos. Não seria seguido. Ao fim da manhã do dia seguinte, deveria encontrar-se com um contato chamado Senhora Remos, no bairro suburbano de Coconut Grove e receberia dela o nome de um cirurgião plástico da maior confiança que lhe faria a operação plástica à volta dos olhos antes de deixar Miami. Nessa noite, deveria dirigir-se a um barco a motor que estaria à sua espera no cais municipal da praia de Miami para o levar à Ilha dos Pescadores. Aí, junto do primeiro depósito de petróleo, alguém o chamaria pelo nome de Miller. Ele diria duas vezes a senha, que era "Linda". Abandonaria então o pacote contendo os três quartos de milhão de dólares e regressaria ao barco. De regresso a Miami, poderia continuar a operação plástica. Depois seria totalmente livre para ir aonde quisesse e para fazer o que lhe apetecesse.

            - Receberá o terno novo pouco antes de sair da prisão - dissera-lhe Adcock. - No bolso direito do casaco encontrará um sobrescrito. Contém o bilhete de avião para Miami, o lugar de encontro com o barco, um mapa da Ilha dos Pescadores com o local da entrega assinalado e dinheiro suficiente para as primeiras despesas até que possa ter nas suas mãos o quarto de milhão que lhe pertence. Faça apenas o que lhe foi dito e não tenha a menor veleidade de usar truques. Só lhe fariam mal à saúde. Compreendido?

            Ele tinha compreendido bem.

            Tinha tomado o avião especial e chegado à tabela ao aeroporto internacional de Miami.

            Tinha-se registrado à tabela no decadente Hotel Bayamo.

            Tinha alugado um carro, certificando-se constantemente que não era seguido nem vigiado, e dirigira-se para os pântanos a oeste de Miami. Aí, calcorreara a pé o caminho até à margem do pântano coberto de vegetação tropical onde tinha escondido o milhão de dólares numa caixa metálica, há três anos. Esvaziara o conteúdo da caixa para dentro de sacos de mercearia que metera numa mala, e a seguir regressara ao carro. O resto tinha decorrido facilmente. No quarto do hotel separara um quarto de milhão, metendo-o noutra mala que tinha preparada. À noite, pegara na mala que continha a sua parte do dinheiro e levara-a para o aeroporto de Miami, metendo-a num cofre de aluguel. Depois de sair do aeroporto, comprara um exemplar do Herald de Miami, já com a data do dia seguinte. Examinando-o atentamente, pretendera verificar se a notícia do falecimento de Donald Radenbaugh já tinha sido publicada. Na sexta página encontrara uma fotografia pouco favorecida e já velha de três anos de um Radenbaugh careca e de óculos, e o seu obituário. Provocara-lhe uma sensação estranha ler a notícia da sua própria morte, saber quão pouco tinha feito e como isso ficara encoberto pela condenação por felonia. Era injusto. Nem sequer diziam que estava inocente. Por fim, afligira-o a sua amada Susie, a quem deixara um tal legado. Perguntara a si próprio se alguma vez se atreveria a contatar com ela e a revelar-lhe a verdade. Sabia que não. As pessoas que podiam inventar um ser humano não eram para brincadeiras.

           No dia seguinte, de acordo com as instruções, só tivera um contato antes da crítica missão noturna. Ao fim da manhã, guiara até Coconut Grove e tivera um encontro breve e satisfatório com a Senhora Remos, uma mulata idosa que já o esperava no seu apartamento.

            - Tem sorte, senhor Miller, está cheio de sorte - dissera a Senhora Remos. - Perdemos recentemente o cirurgião que sempre utilizamos, mas há dois dias arranjamos um substituto. É o doutor Garcia, um homem extremamente competente que, devido à sua situação atual, pode ser considerado seguro. Escapou recentemente de Cuba, e até lhe arranjarmos documentação é um emigrante ilegal. Temos de agir com cautela. Está disponível esta noite? Ah, só depois das dez horas. Muito bem. O doutor Garcia estará à sua espera no seu quarto do hotel às dez e quinze. É preferível ele não perguntar por si na recepção. Seria melhor ele ficar à espera no seu quarto. Tem a chave consigo? Ah, ótimo, eu fico com ela. O hotel deve ter uma chave extra para si no cacifo. O doutor Garcia irá examiná-lo, informá-lo-á do que pode fazer e indicar-lhe-á a ocasião e o lugar da operação. Então, às dez e um quarto? Está combinado.

            Radenbaugh ocupara parte da tarde a passear e a fazer compras e regressara depois ao quarto do hotel para esperar pela noite. Ao anoitecer, pegara a pesada mala, descera as escadas, saíra e seguira de táxi pela MacArthur Causeway até à praia de Miami, até ao cais municipal. Por volta das oito horas, encontrara o contato, entregara a mala ao fleumático cubano proprietário do barco a motor, e embarcara.

            Agora, tal como fora planejado, ia a caminho. Faltava menos de meia milha para a Ilha dos Pescadores, para o pagamento final e para o clímax do seu negócio.

            Abriu uma vez mais o mapa desdobrável que levava no bolso do casaco e tentou decorá-lo.

            A Ilha dos Pescadores era um pedaço de terra de 213 acres, totalmente desabitada, ostentando algum arvoredo de pinheiros bravos australianos, o esqueleto apodrecido de uma casa numa propriedade particular que outrora pertencera ao fundador de Miami e dois depósitos de petróleo.

            Esta noite, refletiu Radenbaugh, a sua população seria de pelo menos duas pessoas: ele próprio e um desconhecido.

            O barco a motor abrandou e preparou-se para parar.

            Radenbaugh espreitou para a frente e viu o piloto a fazer-lhe sinal. Pegou nervosamente na mala e, baixando-se, saiu da cabina para pular para o cais de madeira. O piloto chamou-o e ele lembrou-se, voltando atrás para receber a potente lanterna.

            Já em terra, começou a subir o carreiro. Os pontos de referência que tinha decorado eram claros. As únicas dificuldades eram a escuridão, apesar da lanterna, e o peso da mala, com três quartos de um milhão de dólares no interior. Algum tempo depois (tinha perdido totalmente a noção do tempo), divisou o primeiro dos depósitos de petróleo, cercou o lugar da entrega com a luz da lanterna e dirigiu-se para lá.

            Estava a escassos dez metros do tanque, arfando da longa caminhada no silêncio, quando ouviu um ruído. Parou. Ouviu uma voz.

            - É o senhor Miller?

            A voz era aguda e com um sotaque claramente espanhol.

            - Sou.

            - Apague a lanterna. Desligou rapidamente a luz.

            A voz com sotaque irrompeu novamente da escuridão. Estava perto.

            - Qual é a sua senha?

            Já quase se tinha esquecido. Mas lembrou-se:

            - Linda - disse em voz alta, e repetiu: -Linda.

            Houve um murmúrio.

            - Deixe ficar o que traz no local onde está. Volte pelo mesmo caminho, volte para o barco.

            Pousou a mala no chão, à sua frente.

            - Está bem - disse. - Vou-me embora.

            Deu meia volta rapidamente e apressou o passo assim que encontrou o caminho. Na escuridão, sem acender a lanterna, atrapalhou-se, tropeçou e caiu. Depois de se levantar, seguiu mais devagar. Minuto depois, parou para retomar o fôlego. Percebeu então de qualquer coisa. Um murmúrio de vozes, duas vozes, que falavam animadamente por trás de um renque de árvores. Ainda mal tinha pensado no dinheiro depois de o retirar da margem do pântano coberto de vegetação tropical. Agora, quase um homem livre, permitiu-se pensar nele. Perguntou a si próprio para que quereria Tynan uma quantia tão avultada, sem barulho. Talvez tivesse problemas financeiros particulares. Perguntava-se porque teria sido confiado a duas pessoas, uma das quais pelo menos era de origem espanhola. Perguntou-se quem seriam. Talvez agentes do FBI. Estava tentado a espreitar. Donald Radenbaugh não cairia em tal tentação. Herbert Miller sim, e foi o que fez. Em vez de voltar ao caminho, cortou em diagonal por entre pinheiros dispersos. Andava cautelosamente, para não tropeçar e cair de novo. Passados cinco minutos, viu uma luz.

            Aproximou-se a rastejar, deslizando de árvore para árvore, até ficar a cerca de dez metros de distância. Parou e observou, e ouviu, sustendo a respiração.

            Lá estavam efetivamente dois homens.

            Um, completamente iluminado pela lanterna do companheiro, estava ajoelhado diante da mala aberta, contando ou examinando o dinheiro. O companheiro, de pé a segurar na lanterna, não se podia reconhecer.

            O mais alto, que segurava a lanterna, perguntou em inglês sem sotaque :

            - Está tudo?

            O que estava de joelhos, atarefado, respondeu:

            - Está tudo.

            O homem da lanterna gracejou:

            - Ah, vais ficar riquíssimo... o rico Seftor Ramon Escobar.

            - Santo Deus, vê se te calas, Fernandez! - grunhiu o que estava de joelhos, olhando diretamente para a luz da lanterna e acrescentando qualquer coisa em espanhol.

            Radenbaugh viu-o distintamente: baixo, cabelo negro encaracolado, patilhas compridas, cara horrível com maçãs do rosto profundamente cavadas e uma cicatriz lívida ao longo do maxilar.

            Enquanto o indivíduo chamado Escobar se consagrava novamente ao conteúdo da mala, os dois homens continuaram a conversar, mas agora apenas em espanhol. Continuar a espiá-los não levava a nada; Radenbaugh afastou-se e dirigiu-se cautelosamente para o caminho. A sua curiosidade não ficara saciada. Não podia crer que este par, Escobar e Fernandez, fossem agentes do FBI. Quem eram, então? Que teriam a ver com o diretor Tynan?

            Quando descobriu o caminho e começou a caminhar para o embarcadouro, deixou de especular sobre o que vira. Estava mais ocupado consigo próprio, com o seu futuro. A travessia de regresso a Miami pareceu mais rápida e foi infinitamente mais calma.

            De novo em terra, e desembaraçado, sabia que agora estava livre e completamente senhor de si.

            Não, reconsiderou, ainda não estava. Faltava realizar uma cláusula do negócio. De manhã tinha combinado (gentileza de Vernon T. Tynan, através do contato chamado Senhora Remos) encontrar-se no hotel com um emigrante clandestino, o cirurgião chamado Dr. Garcia.

            Ao dirigir-se para uma paragem de táxi, Radenbaugh lembrou-se que o encontro era para as dez e um quarto. Lembrou-se também que não comia há longas horas e estava terrivelmente esfomeado e com vontade de celebrar os acontecimentos. A opção era voltar para o seu deprimente quarto de hotel, cheio de fome, para esperar pelo Dr. Garcia, ou satisfazer a fome, o que o faria chegar atrasado ao encontro. Não queria perder o Dr. Garcia. A cirurgia plástica era vital e Radenbaugh estava ansioso por saber o que o cirurgião poderia fazer aos olhos, e aos papos que os ornavam. Também queria saber quanto tempo teria de esperar pela operação, e quanto tempo demorariam as cicatrizes a desaparecer. Todavia, tinha a certeza que o Dr. Garcia não se importaria que chegasse um pouco atrasado, que esperaria, pois tinha a chave do quarto e podia instalar-se confortavelmente. Sim, o Dr. Garcia esperaria. Não estava em posição de conseguir trabalhos daqueles todos os dias.

            Quando chegou à paragem, a decisão estava tomada.

            Sentou-se no banco traseiro do primeiro táxi.

            - Há um restaurante na Avenida Collins, mais ou menos a uma milha do Hotel Fontainebleau... não sei o nome, mas indico-lhe o local - disse ao motorista.

            Calculou que podia ter um jantar repousante regado com uma garrafa de vinho sem chegar mais de meia hora atrasado ao encontro com o Dr. Garcia. O mais importante era que nessa noite tinha cumprido a sua parte do contrato e Tynan correspondera: o negócio estava encerrado. Era altura de comemorar.

            Uma hora e quinze minutos depois, com a barriga cheia, Radenbaugh sentia-se melhor e estava pronto para se encontrar com o Dr. Garcia e colaborar na transformação final de Radenbaugh em Miller. Vendo que chegaria três quartos de hora atrasado, Radenbaugh apressou-se a apanhar outro táxi, mandou-o seguir para o Hotel Bayamo, atravessou a ponte da Baía Byscane e entrou no centro de Miami.

            Quando o táxi voltou para a Rua West Flagler e se aproximou do Hotel, viu uma multidão aglomerada à frente da entrada: muita gente na rua, um carro dos bombeiros a afastar-se e dois carros da polícia. O problema era nas vizinhanças do hotel.

            - Pode deixar-me aqui na esquina - disse ao taxista. Avançou rapidamente pelo quarteirão até ao local onde se desenrolava uma cena de atividade frenética. Quando chegou junto da multidão viu que todas as atenções se concentravam no Hotel Bayamo. Bombeiros de capacete retiravam as mangueiras do átrio. O fumo ainda saía em rolos das janelas destroçadas do terceiro andar. Radenbaugh estremeceu ao lembrar-se que o seu quarto era no terceiro andar.

            Dirigiu-se ao espectador mais próximo, um jovem barbudo com uma camisola da Universidade de Miami:

            - Ena, o que é que aconteceu?

            - Houve uma explosão seguida de incêndio no terceiro andar, há cerca de uma hora. Destruiu quatro ou cinco quartos. Parece-me que ouvi alguém dizer que houve um morto e dois feridos.

            Radenbaugh esgueirou-se e viu três ou quatro homens e mulheres, um deles de microfone (obviamente jornalistas) a entrevistarem um bombeiro, provavelmente o chefe. À pressa, Radenbaugh acotovelou e abriu caminho através da massa, murmurando que era da imprensa, até chegar à primeira fila dos espectadores. Pôs-se atrás do porta-voz do departamento de incêndios.

            Esforçou-se por ouvir o que diziam.

            - Houve um morto? - perguntou o repórter.

            - Sim, tanto quanto sei, morreu apenas uma pessoa. O ocupante do quarto onde a explosão se deu. Deve ter morrido instantaneamente. O quarto foi destruído pelo fogo e ele estava completamente calcinado. Chamava-se... deixe-me ver... Sim, aqui está (encontramos alguns restos de documentos), o seu nome era provavelmente... Herbert Miller. Não temos mais indicações.

            Radenbaugh tapou a boca para sufocar um grito. Um outro repórter perguntou:

            - Já determinaram a causa da explosão? Foi uma fuga de gás ou uma bomba?

            - Ainda não podemos dizer. É muito cedo para responder. Só amanhã é que teremos mais informações para dar.

            Trêmulo, Radenbaugh afastou-se e voltou a empurrar a multidão até ao passeio.

            Confuso, tentava refletir no que tinha acontecido. Raramente um homem escapa para assistir a uma, quanto mais a duas necrologias.

            Tynan tinha matado Radenbaugh para o fazer ressurgir como Miller. Assim que teve os três quartos de milhão, tinha tratado de matar Miller. E, de fato, oficialmente matara-o. O pulha, o grande pulha! Mas não podia fazer nada, nem agora nem mais tarde, Radenbaugh sabia-o bem. Era um morto, um ninguém, sem identidade. Compreendeu então que, no final das contas, talvez isso lhe trouxesse segurança, na medida em que nunca viria a ser reconhecido, nem como Radenbaugh nem como Miller. No entanto, precisava de um cirurgião plástico -pobre Dr. Garcia-, o mais depressa possível. Para isso, precisava de um lugar para se esconder e de alguém em quem pudesse confiar. Não havia ninguém... Sim, havia uma pessoa. Começou a andar, à procura de outro táxi, um táxi que o levasse ao aeroporto internacional de Miami.

            Na manhã seguinte, Chris Collins, sentado à secretária no Departamento de Justiça em Washington, recebeu avidamente o telefonema do adjunto do Procurador-Geral.

            - Então, Ed, o que é que descobriu?

            - A caixa postal número 153 da estação William Penn de Filadélfia estava e ainda está alugada a Susan Radenbaugh.

            - E a morada? Os correios têm a morada?

            - Está com sorte. É a Rua South Jessup, número 419. Ouça, Chris, para que é tudo isto?

            - Conto-lhe quando nos virmos. Obrigado, Ed.

            Collins desligou, assentando o endereço no bloco. Durante instantes ficou a contemplar a direção. Bem, pensou, talvez Lewisburg não fosse tempo completamente perdido. Tinha perdido a grande hipótese por Radenbaugh ter falecido três dias antes. Mas ficara um leve fio que podia conduzi-lo ao Documento R: o parente mais próximo, Susan Radenbaugh, a filha adorada. Ela tinha sido muito íntima do pai. Tinha continuado em contato com ele. Se ele sabia do Documento R, talvez ela tivesse ouvido falar a esse respeito. Seria muita sorte, mas é a última hipótese, refletiu Collins. Levantou-se, atravessou o amplo gabinete e enfiou a cabeça na sala da sua secretária.

            - Marion, como estamos de marcações para o resto do dia?

            - Já há muita coisa para um sábado.

            - Não há nada que se possa cancelar ou adiar?

            - Receio que não, senhor Collins.

            - E para amanhã?

            - Deixe-me ver... Tem coisas ligeiras da parte da manhã...

            - Ótimo. Adie todos os encontros. Pegue no telefone e marque-me uma reserva no primeiro vôo da manhã para Filadélfia. É importante. Pelo menos espero que seja.

                                                

 

            Era uma pequena casa de madeira inexpressiva, por trás de uma grande residência na Rua South Jessup, em Filadélfia. Talvez tivesse sido em tempos um anexo para convidados, mas presentemente era uma casa de aluguel própria para uma pessoa só que desejasse tranqüilidade.

            Antes de sair de Washington, Chris Collins tinha procurado recolher elementos sobre Susan Radenbaugh. Pouco havia a saber. Era filha única de Donald Radenbaugh. Tinha vinte e seis anos. Tirara o curso na Universidade de Pittsburgh. Estava empregada no Inquirer de Filadélfia como redatora de biografias.

            Quando Collins lhe tinha telefonado pessoalmente para o jornal, para lhe marcar um encontro, fora informado de que ela se encontrava em casa, doente. Collins compreendera. Ela tinha perdido o pai. Precisaria de algum tempo para se recompor. Collins não se dera ao trabalho de lhe telefonar para casa. Tinha a certeza de a encontrar. Uma vez chegado a Filadélfia, tinha dito ao motorista do carro alugado para o levar diretamente ao endereço da Rua South Jessup. Deixara o carro com o condutor e o guarda-costas à distância de meio quarteirão e dirigira-se a pé até ao local.

            Agora, no passeio, observava o alpendre da casa de madeira. Atravessou a rua a pensar no que diria a Susan Radenbaugh. Mas pouco havia para pensar. Ou o pai lhe tinha contado alguma coisa sobre o Documento R ou não tinha. Era a última e incerta esperança. Susan era a derradeira hipótese.

            Atravessou o pequeno quintal das traseiras, chegou à porta principal e tocou à campainha.

            Esperou. Não teve resposta.

            Voltou a tocar sem melhores resultados. Já conjecturava que ela teria ido às compras ou consultar o médico, quando a porta se entreabriu. Uma mulher jovem espreitava pela frincha. Era atraente, com cabelo louro até aos ombros e um rosto fatigado que parecia de palidez e rigidez irreais.

            - Susan Radenbaugh? - perguntou Collins.

            Ela esboçou um gesto de assentimento.

            - Telefonei para o seu jornal esta manhã, para marcar um encontro. A telefonista disse-me que estava em casa doente. Vim de Washington para a ver.

            - O que é que deseja?

            - Desejo falar-lhe por uns instantes a respeito do seu pai. Lamento...

            - Não posso receber ninguém agora - disse ela abruptamente. Estava fortemente agitada.

            - Deixe-me explicar-lhe...

            - Quem é você?

            - Sou Christopher Collins. Sou o Procurador-Geral dos Estados Unidos. Eu...

            - Christopher Collins? - Ela reconheceu o nome. - O que é...

            - Preciso falar consigo. O coronel Noah Baxter era meu amigo e...

            - Conhecia Noah Baxter?

            - Sim. Por favor, deixe-me entrar. Só por alguns minutos.

            Ela hesitava, mas acabou por abrir a porta.

            - Está bem, mas só alguns minutos.

            Seguiu-a até à pequena mas agradável sala de estar, profusamente decorada com almofadas coloridas. À esquerda havia uma porta que dava provavelmente para o quarto. Um arco, à direita, deixava ver uma pequena mesa de sala de jantar e a entrada para a cozinha.

            - Pode sentar-se - disse ela.

            Ele sentou-se à beira do móvel mais próximo, uma otomana. Ela ficou de pé à sua frente, alisando nervosamente o cabelo.

            - Lastimo imenso o que aconteceu ao seu pai. Se eu puder ser-lhe útil...

            - Obrigado. É realmente o Procurador-Geral?

            - Sou.

            - Não foi mandado pelo FBI ?

            Collins sorriu.

            - Eu é que mando neles, não são eles que mandam em mim. Não, estou aqui por minha vontade. Devido a um assunto pessoal.

            - Disse que era amigo do coronel Baxter?

            - Era, e creio que o seu pai também era.

            - Eram muito íntimos.

            - Foi por isso que vim cá - disse Collins. - Porque o seu pai e o coronel eram amigos. Na noite em que morreu, o coronel deixou-me uma mensagem do que foram as suas últimas palavras. Falava de um assunto que desde então me tem ocupado. Já não consegui falar com ele, mas ocorreu-me que o seu pai podia saber alguma coisa a esse respeito, de conversas com ele. Sei que o coronel lhe fazia muitas confidências.

            - É verdade - disse Susan Radenbaugh. - Como soube disso?

            - Através de Hannah Baxter, que me sugeriu que visitasse o seu pai em Lewisburg. Ela pensava que talvez ele conhecesse o assunto. E eu fui a Lewisburg há dois dias, sabendo então que ele tinha falecido. Entretanto, informaram-me que você era a única pessoa com quem o seu pai contatava. Ocorreu-me que talvez ele lhe tivesse falado no assunto. Estive a investigar e decidi vir cá para falar consigo.

            - O que é que quer saber?

            Collins respirou fundo e fez-lhe a pergunta:

            - O seu pai falou-lhe acerca de um tal Documento R? Ela ficou impassível.

            - De que se trata?

            O coração de Collins caiu-lhe aos pés.

            - Não sei. Esperava que soubesse.

            - Não - disse ela firmemente -, nunca ouvi falar disso.

            - Raios - murmurou Collins, ofegante. - Desculpe-me, mas fiquei desapontado. Você e o seu pai eram as minhas últimas esperanças. Bem, tentei... - Levantou-se da otomana. - Não a aborrecerei mais. - Ainda hesitava. - Permita-me que lhe diga só mais uma coisa: o coronel Baxter acreditava no seu pai. Antes do ataque estava até a tentar que lhe aceitassem uma fiança. Depois disso, fiz uma revisão do caso e concordei com ele: o seu pai foi uma vítima. Eu também tencionava conseguir-lhe uma fiança. Prometi à senhora Baxter que havia de discutir esse assunto com o seu pai, quando o fosse procurar para tratar do Documento R. Hannah Baxter disse-me que lhe ia escrever para cooperar comigo. - Encolheu os ombros. Bem, infelizmente cheguei tarde demais.

            Viu os olhos da rapariga dilatarem-se enquanto levava a mão à boca, como se olhasse para trás dele. De repente, ouviu-se uma terceira voz na sala.

            - Não chegou tarde desta vez - disse alguém por trás de Collins.

            Voltou-se e viu-se perante um estranho, de pé sob o arco que ligava à casa de jantar.

            O homem idoso parecia-lhe vagamente familiar, embora não o conhecesse.

            O homem avançou para ele e parou.

            - Sou Donald Radenbaugh - disse calmamente. - Que queria saber sobre o Documento R?

            Passou mais de meia hora antes de o Documento R voltar a ser mencionado.

            Primeiro, surgira a incredulidade de Collins. Radenbaugh depressa a dissipara.

            - Radenbaugh escapou à morte - disse ele. - Só estou morto oficialmente. De fato, até estou bem vivo. Mas teremos tempo para falar de mim quando eu souber mais a seu respeito e depois de me contar como chegou até aqui.

            Em seguida, surgira a incredulidade de Susan. Radenbaugh depressa a dissipara.

            - Não compreendes como me arrisquei a aparecer, Susie? Especialmente perante uma pessoa do Departamento de Justiça? É porque preciso de alguém em quem confie, além de ti. Parece-me que posso confiar no Procurador Collins. Ele mostrou-se simpático mesmo antes de saber que eu estava aqui. Preciso de ajuda, Susie. Talvez se eu o ajudar, ele também me ajude.

            Por fim, surgira a incredulidade do próprio Radenbaugh. Dissipara-a pedindo que Collins lhe explicasse como tinha tomado conhecimento do Documento R e como suspeitara que Radenbaugh o conhecia.

            - Talvez já tenha explicado à minha filha, mas não consegui ouvir o princípio da conversa. Estava escondido na cozinha. Só depois é que me aproximei, para escutar. Antes de continuarmos, poderia começar por me dizer como veio aqui ter.

            Tinham-se sentado frente a frente no sofá-cama, encostados às almofadas empilhadas contra a parede da sala de estar.

            Collins falara com atenção, devagar, com franqueza, apresentando todos os pormenores sobre os acontecimentos ocorridos desde a morte do coronel Baxter. Por fim, falara na visita a Hannah Baxter.

            Embora declarando desconhecer o documento, ela tinha afirmado que se Noah tivesse confiado o seu conteúdo a alguém, poderia ter sido a Donald Radenbaugh.

            - Sim, ela escreveu-me para que aguardasse a sua visita - dissera Radenbaugh.

           - E eu fui visitá-lo - respondera Collins. - O diretor disse-me que tinha morrido, mas afinal está aqui.

            - Agora que já sei como cá chegou, deixe-me contar-lhe o que me aconteceu. E a sorte que tenho em estar aqui. Tem de pôr de parte toda a descrença.

            Collins ouvira-o, em silêncio, muitas vezes incapaz de esconder a dúvida. O encontro secreto de Tynan com Radenbaugh e a oferta da liberdade em troca dos três quartos de milhão, tinham-no deixado atordoado. E tinham também levantado a questão de saber para que quereria Tynan tão veementemente tal soma a ponto de correr riscos tão grandes, mas Collins não tinha querido interromper com perguntas. Continuara a ouvir, enquanto Radenbaugh relatava a sua história até ao momento da destruição do quarto do hotel onde o seu alter ego, Herbert Miller, fora indubitavelmente eliminado. No fim da narrativa, Collins deixara de ter dúvidas sobre o que se passara na Califórnia.

            - Tynan - dissera ele em voz alta.

            - É ele quem está por trás de tudo - concordara Radenbaugh. É fácil dizer porquê. Eu li a 35.a emenda. Ela irá torná-lo o homem mais poderoso da América. Mais poderoso que o Presidente. Mas aposto que não há a menor prova contra ele.

            Collins tinha estado a pensar nisso.

            - Até agora nenhuma. A menos... a menos que esteja envolvido no Documento R. Podemos passar a esse assunto?

            - Sim. Mas antes quero pedir-lhe três coisas.

            - Diga.

            - Primeiro, quero que me façam a operação plástica no rosto. Pelo menos nos olhos. Talvez seja o suficiente. Não me parece que possa ser reconhecido atualmente, mas se fosse, seria um homem morto. Tynan encarregar-se-ia disso.

            - Não há problemas. Temos um cirurgião em Carson City, no Nevada, que o FBI desconhece. Tanto a Cosa Nostra como a CIA

recorrem aos seus serviços, se quer garantias. Quando pretende tratar disso?

            - Imediatamente. Pode ser já amanhã.

            - De acordo.

            - Segundo, preciso de uma nova identidade. Donald Radenbaugh morreu em Lewisburg; Herbert Miller morreu em Miami. - Tinha puxado da carteira, retirando três cartões para os entregar a Collins. Uma carta de condução, um cartão de crédito para aluguel de automóveis e um cartão da Previdência Social... é tudo o que resta de Herbert Miller. Já não servem. Preciso de novos documentos. Tenho de ser alguém.

            - Têm de ser preparados em Denver - dissera Collins. - Tem-nos dentro de cinco dias... Que mais? Disse que havia mais uma coisa.

            - Sim, uma promessa solene da sua parte.

            - Continue.

            - Que se acaso eu disser a verdade acerca de Tynan, acerca da minha morte simulada, e restituir a minha parte do dinheiro, me ajudará a retomar o meu verdadeiro nome e a conseguir a fiança ou a anistia.

            - Não sei se isso será possível.

            - Mas se for?

            Collins refletira rapidamente no dilema. Poderia ele, enquanto primeiro magistrado da nação, fazer um acordo com um condenado por burla? Sabia que o seu dever legal era claro: não fazer promessas a Radenbaugh e pô-lo sob prisão. Mas também sabia que, atendendo à singularidade das circunstâncias, tinha um dever mais alto, um dever para com o seu país. Era este que estava em primeiro lugar. Transcendia todos os legalismos mesquinhos. Dera a resposta:

            - Nessa altura, se for possível, fá-lo-ei - dissera Collins. - Sim, ajudá-lo-ei. Juro fazê-lo.

            - Agora já posso falar do Documento R.

            Tudo isto tinha levado a primeira meia hora. Chegavam finalmente àquilo que para Collins era o momento da verdade.

            Radenbaugh pediu um cigarro à filha, sorriu-lhe enquanto o acendia e voltou-se para Collins.

            - Não sei tudo sobre ele - disse vagarosamente -, mas talvez saiba coisas que o possam ajudar. A 35.a emenda... O Documento R faz parte dela, embora não seja escrito...

Quer dizer, é uma parte secreta... A emenda, dizia eu, foi forjada antes de eu ir para a cadeia. Era um motivo de preocupação para Noah Baxter. É verdade que ele era um conservador e um retrógrado em relação a muitas coisas, mas era um homem honesto e um constitucionalista ferrenho. Não gostava de adulterar a Constituição nem de pervertê-la. Mas como a criminalidade aumentava cada vez mais no país e a pressão era constantemente maior, foi encurralado a um canto. Tinha uma tarefa a cumprir e compreendia que não o podia fazer; que a ordem só podia ser restaurada no país se a lei fosse alterada. Pensava que a 35.a emenda era muito drástica. Tinha graves suspeitas sobre ela. Mas continuou. Percebi que lamentava tais medidas. No final, suponho que estava tão comprometido que não podia desligar-se.

            - Penso que foi exatamente isso que aconteceu - disse Collins. - Como lhe contei, ele disse na agonia: "Tenho de o contar... Já não me podem controlar... Estou livre, já não preciso ter medo...'' Livre de quê? Receoso de quem ou de quê?

            Radenbaugh abanou a cabeça.

            - Não sei. Só lhe posso dizer que estava mais comprometido do que desejava, que estava muito preocupado e não tinha mais ninguém para fazer confidências senão a mim. Quando estava mais aborrecido, contava-me o que se passava. Foi assim que me mencionou o Documento R. Referiu-se-lhe várias vezes. Preferia que Tynan não o tivesse comprometido com a emenda nem com o Documento R.

            - Tynan?... - disse Collins com surpresa. - Pensava que tinha sido o Presidente Wadsworth a instigar a emenda e tudo o que se relaciona com ela.

            - Não, foi tudo obra de Tynan. Ele é que é o autor e criador da emenda e do documento. Vendeu a idéia ao Presidente e ao Congresso. Pelo menos, vendeu-lhes a emenda. Não sei se alguém além de Tynan e Baxter (e eu, é claro), já ouviu falar do Documento R.

            - Mas afinal do que se trata?

            - O R é inicial de Reconstrução. É o Documento da Reconstrução.

            - Reconstrução de quê? Dos Estados Unidos?

            - Exatamente. O Documento R foi concebido secretamente como um plano suplementar à emenda. É um projeto para reconstruir os Estados Unidos, tornando-o um país sem criminalidade graças à 35.a emenda. O Documento divide-se em duas partes. Baxter conhecia apenas uma parte. A segunda, de acordo com o que me disse, ainda estava a ser elaborada por Tynan. A primeira parte era o programa piloto.

            Confuso, Collins perguntou:

            - O programa piloto? O que é isso?

            - Era isso que eu lhe ia explicar. Disse-lhe que foi Tynan quem concebeu a emenda. Vou dizer-lhe de onde lhe veio a idéia. Ao tentar elaborar novas leis a recomendar ao Presidente e ao Congresso, novas leis que pudessem travar a crescente escalada da taxa da criminalidade da nação, Tynan lembrou-se de fazer um estudo sobre as comunidades sem criminalidade ou com índices muito baixos nos Estados Unidos. Se havia cidades com índices baixos, quais seriam os elementos na estrutura dessas comunidades que tornavam tal fato possível?

            - Até aí é compreensível.

            - Até aí -repetiu Radenbaugh. - Bem, os auxiliares de Tynan alimentaram os computadores e eles lançaram-se ao trabalho. Depois indicaram uma mão cheia de comunidades praticamente sem criminalidade. Em todos os casos, essas comunidades eram cidades pertencentes a companhias.

            - Cidades de companhias?

            - Os Estados Unidos estão cheios delas. Geralmente são cidades construídas e administradas para uso exclusivo do pessoal das companhias. Podemos citar casos típicos como Morenci no Arizona, onde Phelphs Dodge abriu as suas minas de cobre. Todas as casas, os armazéns e as casas comerciais pertencem a Phelphs Dodge. A vida da cidade é integralmente dominada pela companhia. Ora, nem todas as cidades de companhias estão livres da criminalidade. Não sei se é o caso de Morenci. Mas em algumas delas, o crime é praticamente inexistente. Isso acontece com maior freqüência em comunidades pequenas e remotas, onde uma única companhia ou pessoa domina toda a vida da cidade.

            - Uma ditadura!?

            - De certo modo. Pelo menos um lugar onde há controles econômicos e sociais poderosos e rígidos. Entre essas comunidades que Tynan descobriu serem quase isentas

de crime, havia uma que o fascinava. Possuia o melhor registro histórico. Não havia praticamente crimes nem desordens. Chamava-se Argo City e era propriedade exclusiva da Companhia Argo de Fundição e Refinação do Arizona. Tynan fez uma investigação aturada sobre essa comunidade e encontrou o segredo dos resultados de Argo City. Descobriu que nessa cidade a Declaração de Direitos, ou a maior parte das liberdades consagradas na Declaração, tinham sido suspensas. Os habitantes pareciam não se importar. Mostravam-se satisfeitos na medida em que se sentiam seguros econômica e fisicamente. Baseando-se na estrutura legal dessa cidade, Tynan criou a 35.a emenda. Pensou que o que funcionava bem em Argo City, poderia resultar perfeitamente em todos os Estados Unidos da América.

            - Fascinante - disse Collins. - É diabólico.

            - Mas muito mais diabólico foi o que Tynan fez a essa cidade. Precisava ter certeza de que todos os pormenores da emenda funcionariam na vida real. Assim, usou o povo de Argo City como cobaia. Como conseguiu meter lá os seus agentes e fazê-lo? Investigou a companhia que governava a cidade e descobriu que a Fundição e Refinação Argo estava a cometer fraudes nos impostos há já vários anos. Fez pressão sobre os administradores e eles logo chegaram a acordo. Se Tynan não denunciasse ao Departamento de Justiça o que tinha descoberto, eles deixavam-lhe as mãos livres, a ele e aos seus agentes, para dirigirem a comunidade. Assim, Tynan, tal como poderá ficar à cabeça do comitê de Segurança Nacional sob a égide da 35.a emenda, ficou à cabeça de um protótipo de comitê de segurança em Argo City. Era o seu campo de ensaio para ver como a emenda funcionaria quando entrasse em vigor.

            - Meu Deus, é incrível - disse Collins. - Quer dizer que existe atualmente essa cidade sem Declaração de Direitos?

            - Tanto quanto sei, existe.

            - Mas isso não pode ser consentido numa democracia. É ilegal.

            - Passará a ser legal quando a emenda for aprovada na Califórnia - disse Radenbaugh. - Portanto, os resultados da experiência constituem a primeira parte do Documento R.

            - E a segunda parte?

            Radenbaugh levantou as mãos.

            - Não sei.

            Collins refletiu no que tinha ouvido.

            - Não posso acreditar que isso tenha dado resultado. O que aconteceu? Funcionou bem em Argo City?

            Radenbaugh fixou Collins.

            - Terá de ver pelos seus próprios olhos. - Fez uma pausa. Gostaria de ver?

            - É claro. Quero chegar ao cerne da conspiração de Tynan. Está muita coisa em jogo. E será seguro?

            - Pouca gente visita a cidade; pelo menos era assim quando ouvi falar disso pela última vez. Mas se formos só os dois talvez não pareça estranho.

            - Seremos três.

            - Três! - disse Radenbaugh. - Assim já pode ser perigoso.

            - Vale bem o risco - concluiu Collins.

            Mal chegara a Washington, Chris Collins tinha posto em ação um profundo projeto de investigação sobre as cidades de companhias nos Estados Unidos - cidades de companhias em geral e Argo City, no Arizona, em particular.

            A investigação fora feita sem ruído e rapidamente, e neste momento, passados quatro dias, já tinha os dossiers com os fatos básicos espalhados sobre o mata-borrão da sua ampla secretária, no Departamento de Justiça.

            Começou a rever os fatos. Viu de imediato que as cidades de companhias eram um fenômeno natural e inocente ligado ao crescimento da nação. Quando uma companhia abria uma mina numa região remota, precisava de homens que nela trabalhassem. Para conseguir empregados para essas regiões longínquas do país, as companhias tinham de construir cidades para as famílias viverem. Para construírem cidades, tinham de fazer casas, criar lojas, facultar divertimentos e assistência médica. As companhias eram também obrigadas a criar a administração local e a oferecer a proteção da polícia. Enfim, as companhias faziam tudo para o povo e em troca o povo submetia-se ao seu domínio e passava a pertencer-lhes.

            Collins leu o registro. Tinha existido Pullman no Dlinois, a dez milhas de Chicago, construída por George M. Pullman, o milionário que possuía o monopólio das carruagens-camas dos caminhos de ferro. Pullman alojava os seus 12.000 empregados na sua cidade particular. Segundo uma fotocópia de um Harper's New Monthly Magazine do princípio do século: "As companhias Pullman possuem tudo. Nenhum indivíduo possui hoje um centímetro que seja de terra nem uma única estrutura em toda a cidade. Nenhuma organização, nem mesmo uma igreja, pode ocupar outra coisa que não sejam bens alugados. São patentes alguns aspectos desagradáveis da vida social: má administração... favoritismo e nepotismo... a sensação obsessiva de insegurança. Ninguém considera Pullman como a sua verdadeira terra. O poder de Bismarck na Alemanha é insignificante quando comparado com o poder das autoridades que governam no Palácio Pullman da companhia de carruagens, em Pullman. Cada homem, mulher ou criança da cidade está totalmente à sua mercê. Estamos perante uma população em que nem um único residente ousa exprimir livremente a sua opinião sobre a cidade em que vive.''

            O fato de George M. Pullman sufocar os seus dependentes, impondo encargos e rendas mais elevadas que nas comunidades vizinhas, levou os habitantes a revoltarem-se. Chegaram a processar e a destruir o seu domínio sobre a propriedade da comunidade. Mas Pullman, no Illinois, tinha sido uma exceção. A maior parte das cidades de companhias modernas pareciam suficientemente suportáveis. Era o caso de Scotia, na Califórnia, pertencente à companhia de Madeiras do Pacífico; Anaconda, em Montana, pertencente à Companhia dos Cobres de Anaconda; Louviers, no Colorado, da E.I. du Pont de Nemours; Sunnyside, no Utah, da Companhia Petrolífera do Utah; Trona, na Califórnia, da Corporação Americana da Potassa e Produtos Químicos.

            Por fim, na última folha, lá estava Argo City, no Arizona, pertencente à Companhia de Fundição e Refinação... e a Vernon T. Tynan e ao FBI. O material disponível sobre Argo City era parco, estranhamente parco. A investigação mostrava claramente a diferença entre Argo City e as outras cidades de companhias que existiam por todo o lado. Na generalidade das cidades, nem tudo era propriedade da companhia e nem todas as pessoas lhe estavam sujeitas. Por vezes as pessoas podiam comprar e possuir as suas casas. Por vezes, pessoas de fora podiam abrir lojas. Em geral, as pessoas que não trabalhavam para a companhia nem por isso eram proibidas de viver na cidade. Mas em Argo City não era assim. Tudo pertencia à companhia: casas, comércio, instituições, governo. Nada levava a crer que um estranho, uma pessoa que não trabalhasse para a companhia, tivesse podido adquirir uma casa ou abrir uma loja em toda a história da cidade. E não havia crimes sérios ou desordens em Argo City há cinco anos. Era demasiado bom, ou demasiado horrível para ser verdade.

            Collins fechou a capa.

            Só havia uma maneira de conhecer a realidade: ir ver pessoalmente. Se o que presenciassem fosse uma antevisão da América sob à égide da 35.a emenda, então mais alguém, além dele e de Radenbaugh, devia ver o espetáculo, alguém que pudesse travar a emenda, se necessário. A sua decisão estava tomada.

            Levantou o telefone e ligou para a secretária.

            - Marion, estes telefones foram vistoriados?

            - Já não é necessário, senhor Collins. O equipamento de interferências foi instalado esta manhã.

            A sua preocupação desvaneceu-se. O telefone tinha finalmente um aparelho de interferências, o que significava que as chamadas que fizesse só seriam inteligíveis ao chegarem ao destinatário. Sentindo-se mais descansado com essa precaução, pegou no telefone e preparou o passo seguinte.

            - Ligue para o Presidente do Supremo Maynard, imediatamente. Se não estiver, localize-o, quero falar já com ele.

            Ao fim da manhã de uma sexta-feira quente e seca do fim de Junho, tinham chegado de avião a Phoenix, no Arizona, vindos de três lugares diferentes. Chris Collins, com a reserva no avião feita em nome de C. Cutshaw, proveniente do aeroporto Friendship de Baltimore, via Chicago, tinha chegado ao aeroporto de Sky Harbor, em Phoenix, num jato 727, precisamente às onze horas. Era o primeiro.

            Donald Radenbaugh, viajando com o novo nome de Dorian Schiller, chegara pouco depois de Carson City, via Reno e Las Vegas, num DC-9. Deveria ter sido o primeiro, mas o vôo tinha sido atrasado uma hora e quinze minutos.

            Por fim, o Presidente do Supremo, John G. Maynard, sob o pseudônimo de Joseph Lengel, chegara de Nova Iorque num 707 à hora combinada, às onze e quarenta e seis.

            Tinham combinado antecipadamente que Collins e Radenbaugh não esperariam por Maynard, pois seria arriscado entrarem em Argo City e registarem-se no Hotel Constellation ao mesmo tempo. Tinha ficado combinado que Collins e Radenbaugh partiriam para Argo City imediatamente, sendo seguidos depois por Maynard quando chegasse.

            Collins esperara impacientemente no terminal até ao aviso de que o vôo atrasado de Radenbaugh tinha pousado. Só reconhecera Radenbaugh a curta distância. O cirurgião de Nevada tinha feito um bom trabalho. Tinha havido uma mudança no nariz de Radenbaugh, que ainda estava ligeiramente inchado. Quando ele tirara os grandes óculos escuros, Collins tinha notado o desaparecimento dos papos por baixo dos olhos, substituídos por cicatrizes esbatidas; os próprios olhos tinham ficado menores, parecendo orientais. Todo o seu aspecto tinha sido alterado consideravelmente.

            - Senhor Cutshaw? - dissera ele divertido.

            - Senhor Dorian Schiller - respondera Collins, entregando-lhe um sobrescrito. - O seu batismo oficial está aqui dentro. As pessoas de Denver foram eficientes. Tudo o que pretender saber sobre Dorian Schiller vai nesse sobrescrito.

            - Não tenho palavras para lhe agradecer.

            - Eu é que agradeço pelo local onde nos vai levar hoje. Espero que seja como ouviu dizer. Se assim for, ficará tudo nas mãos de John Maynard. - Olhara para o relógio do terminal. - Ele estará aqui dentro de uns vinte minutos. Tomará um táxi para Argo City. Collins apontou para a saída. - Tenho um Ford alugado à nossa espera.

            Tinham seguido para sudoeste através de campos verdes recortados por brilhantes valas de irrigação, até entrarem na imensidão do deserto. Tinham continuado então a caminho da fronteira do México.

            Por fim, tinham encontrado uma tabuleta amarela que dizia: ARGO CITY. População: 14.000 habitantes. Sede da Companhia Argo de Fundição e Refinação.    Radenbaugh, ao volante, tinha apontado para o lado de Collins.

            - Lá está o poço da mina de cobre. Tem 2500 metros de extensão e perto de 200 metros de profundidade. É onde trabalha a maior parte da população masculina.

            Minutos depois estavam no centro de Argo City: uma única avenida larga, alcatroada, com quatro ou cinco ruas laterais. Collins tinha conseguido identificar alguns dos edifícios alvos e bem conservados: um grande supermercado, construído horizontalmente e com a fachada envidraçada; a seguir, a estação de correios; o teatro; qualquer coisa chamada Loja de Manutenção da Cidade; um pequeno jardim asseado, com áleas que iam até à Biblioteca Pública; uma igreja episcopal com campanário; um prédio de tijolo com dois andares e um letreiro dizendo que se tratava do Bugie, provavelmente o jornal da cidade.

            O edifício mais alto era o Hotel Constellation: quatro andares, bem conservado, de estilo espanhol, apesar do nome.

            Tinham parado no estacionamento junto do prédio do lado, passando em seguida por uma loja índia que exibia bonecas de navajos, cestos, artigos de couro, prataria e cerâmica no átrio coberto de azulejos do hotel, que circundava um pátio central descoberto.

            - Parece uma miniatura do edifício J. Edgar Hoover - dissera Collins. - Provavelmente foi Tynan que o mandou construir.

            Radenbaugh levara um dedo aos lábios.

            - Não fale nisso, senhor Cutshaw - murmurara em voz baixíssima.

            Na recepção tinham-se registrado como Cutshaw e Schiller, de Bisbee, no Arizona. Tinham pedido quartos contíguos, apenas para a tarde.

            Um mandarete pegara na pasta de Radenbaugh e na maleta de Collins, acompanhara-os ao terceiro andar e conduzira-os aos quartos no fundo do corredor ventilado, tendo o cuidado de abrir a porta de comunicação entre eles; verificara o ar condicionado, esperara a gorjeta e partira.

            Agora estavam sós no quarto de Collins.

            Tinham combinado esperar pelo Presidente Maynard antes de saírem para a cidade.

            - Assim que chegar, ele manda embora o táxi - disse Collins. Partiremos juntos para Phoenix. Nessa altura já não haverá perigo.

            - Coçou a cabeça. - A mim, a cidade parece-me bastante vulgar. É tudo perfeitamente normal, tanto quanto pude ver.

            - Espere pelo que vai ver - disse-lhe Radenbaugh. Abriu a pasta. - Na noite passada fiz uma lista de tudo o que consegui lembrar, sobre o que Noah me disse deste lugar quando conversamos acerca do Documento R.

            - E eu tenho uma lista de coisas a visitar ou a espiar, feita na base das pesquisas que o meu pessoal efetuou. Vamos juntar as duas listas. Quando Maynard chegar podemos ver o que parece mais prometedor e dividir o trabalho.

            Trabalharam durante quinze minutos na composição de uma lista única com tudo o que Argo City tinha demais prometedor, e quando acabaram sentiram-se satisfeitos.

            - Só faço votos que possamos achar o que queremos em quatro horas - disse Collins.

            - Vamos tentar - disse Radenbaugh. - Tudo depende agora das pessoas que virmos e com quem falarmos aceitarem a nossa história de fachada. Tem a carta?

            Collins apalpou a frente do casaco.

            - Está aqui. Não há problema. Alguém do meu Departamento conseguiu arranjar papel timbrado das Indústrias Phillips durante a noite. Não sei como foi, mas conseguiram. Eu próprio ditei a carta de recomendação.

            Recordaram e repisaram a história de fachada, ensaiando as perguntas difíceis e suspeitas. O disfarce consistia em estarem em Argo City como representantes das Indústrias Phillips, que tinham obtido autorização da Companhia de Fundição e Refinação para o exame de certas realizações cívicas em Argo City. Essas realizações seriam estudadas pelas Indústrias Phillips com vista a remodelações a fazer e iniciativas cívicas a tomar, em breve, em Bisbee, no Arizona.

            - E Maynard, que justificação apresenta? - quis saber Radenbaugh.

            - A história dele é um pouco diferente. Nós pedimos quartos até ao fim da tarde. Ele pedirá para passar a noite, embora parta conosco. Fará de turista. Será um advogado reformado, cidadão conceituado de Los Angeles. Dirá que está de viagem de Los Angeles para Tucson, para visitar o filho e a nora e um neto recém-nascido. Parou em Argo City não só para passar a noite, depois de uma viagem fatigante, mas também para ver as possibilidades de comprar aqui uma casa. Dirá que já cá esteve uma vez e que ficou encantado com o ambiente da comunidade, estando a pensar em estabelecer-se cá.

            Radenbaugh franziu o nariz inchado.

            - Não me parece uma boa história.

            - Deve servir para quatro horas. Tentar morar em Argo City... Deve resultar.

            - Talvez. - Collins tinha mais uma coisa em mente.

            - Acha que pode haver aqui alguém, o administrador da cidade, o editor do jornal, o chefe da polícia... qualquer pessoa... que tenha ouvido falar no Documento R?

            - Ninguém, nem sequer os administradores da Companhia de Fundição e Refinação. Ninguém sabe que servem de cobaia do grande plano de Tynan para os Estados Unidos, a executar no próximo ano e para todo o sempre. O Documento R só deve ser conhecido pelo próprio Tynan e talvez pelo seu lacaio... Como se chama ele?

            - Harry Adcock.

            - Sim, Adcock. E, naturalmente, era do conhecimento do falecido Noah Baxter. Eu, a minha filha, o padre que lhe falou dele pela primeira vez, e você, conhecemo-lo de nome. Duvido que mais alguém o tenha ouvido mencionar.

            - Você disse que Argo City era apenas uma parte do Documento R. Quero conhecer o resto. Tenho esperança de podermos descobrir aqui alguma indicação.

            - Pode ser que sim, mas não conto com isso.

            - Bem, o que importa é o que descobrirmos hoje - disse Collins.

            - Para derrotar a emenda na Califórnia?

            - Sim. Mas se não encontrarmos nada... - Ou se formos apanhados e denunciados...

            - Nesse caso, teremos de desistir. É assim, Donald. Vai ser uma tarde de grande tensão.

            - Eu sei.

            Collins olhou para o relógio.

            - John Maynard deve estar a chegar.

            Dez minutos depois, John Maynard batia levemente à porta e entrava no quarto de Collins. Parecia tudo menos o digno e imponente Presidente do Supremo Tribunal dos Estados Unidos. Com o seu chapéu castanho de abas largas, óculos de sol, camisa aberta, caqui amarrotado e botas altas, parecia um velho pesquisador que tivesse vagabundeado até à cidade depois de duas semanas no deserto ardente.

            - Cá estamos - disse ele - neste lugar esquecido por Deus. Foi uma viagem dura, num táxi desde Phoenix. Mandei o carro embora. Fiz bem, não fiz?

            - Sim - respondeu Collins -, regressaremos juntos. Maynard pousou o chapéu na cama e sentou-se.

            - Mas vamos ao trabalho. Temos pouco tempo. - Olhou para Radenbaugh. - Você, suponho que é Donald Radenbaugh.

            - Desculpe - disse Collins rapidamente, para logo os apresentar formalmente.

            Maynard fixou os olhos em Radenbaugh.

            - Espero que não nos esteja a fazer perder tempo. O seu relato de Argo City era chocante, para não dizer mais. Espero que seja exato.

            - Relatei só o que soube pelo coronel Baxter - disse Radenbaugh, na defensiva. - O Documento da Reconstrução baseia-se no estudo do diretor Tynan sobre Argo City.

            - Hum. Então vamos ver os futuros Estados Unidos em miniatura, o nosso país como será depois de aprovada e promulgada a 35.a emenda. Olhe, senhor Radenbaugh, digo-lhe honestamente que me é difícil crer que as condições que o coronel Baxter lhe disse existirem aqui, continuem a subsistir. Não me parece que nenhuma comunidade dos Estados Unidos aceitasse essa situação por muito tempo.

            - Muitas aceitaram, pelo menos até certo ponto - esclareceu Collins. - Fiz estudos sobre as cidades de companhias. Embora não existisse nenhuma tão totalitária como esta parece ser, encontrei algumas práticas espantosas e restrições muito fortes.

            - Hum. Tudo é possível. Se isso acontecer aqui... - Mergulhou nos seus pensamentos. - Isso traria nova luz aos acontecimentos. Mas antes temos de ver pelos nossos próprios olhos, e rapidamente. Senhor Collins, por onde começamos?

            Collins estava preparado. Pegou nos apontamentos.

            - Queria sugerir-lhe, senhor Presidente, que começasse por visitar a Companhia de Argo. Afinal de contas, deve parecer que pretende viver aqui. Portanto, desempenhando o papel de um advogado reformado, pode ir ter com o juiz local e tentar chegar através dele ao xerife. Faça também uma visita a um dos armazéns, um supermercado por exemplo, e meta conversa com os clientes.

            - Mais devagar - disse Maynard, que tomava apontamentos num papel colocado sobre o joelho.

            Collins esperou um pouco e continuou:

            - Se tiver tempo, visite o Bugie. Procure exemplares antigos. Não deve ter tempo para mais nada, mas tente contatar com um jornalista ou com o editor.

            - Vai ser precisa uma boa dose de ingenuidade - disse Maynard.

            - Estaremos de volta demasiado cedo para levantarmos suspeitas - disse Collins. - Quanto a Donald e eu, iremos à biblioteca, aos correios, tentaremos falar com o administrador da cidade. Iremos o mais longe que for possível. Todos nós devemos contatar com o maior número possível de cidadãos comuns. Por exemplo, à hora do almoço falaremos com uma ou duas criadas. Ou podemos pedir indicações a transeuntes, e aproveitar para meter conversa. Deixe-me ver... - Viu as horas no relógio de pulso. - É uma e um quarto. Devemos estar todos aqui no meu quarto às cinco horas. Compararemos as nossas descobertas e possivelmente saberemos então a verdade. Vamos? O senhor sai primeiro, senhor Presidente.

            Maynard levantou-se, pôs o chapéu na cabeça e saiu. Cinco minutos depois, Collins fez sinal a Radenbaugh e saíram juntos do quarto, a caminho do elevador, para descerem a Argo City.

            O administrador da cidade empurrou os óculos dourados para o alto do nariz, e a sua cara redonda e rosada, que encimava o nó da gravata, inclinou-se para eles por cima do tampo vazio da secretária.

            - Lamento não lhes poder conceder mais tempo - disse, apontando para o relógio elétrico na parede. - Quatro e um quarto. Tenho outro encontro.

            Levantou-se e rodeou a secretária para conduzir Collins e Radenbaugh à porta.

            - Tive muito prazer na visita. Espero ter-lhes dado alguma ajuda. Recordem-se que uma terra simpática produz gente simpática e promove a paz. Como lhes disse, e o xerife confirmará, em Argo City há anualmente uma meia-dúzia de delitos de pequena importância, mas não há crimes. Em cinco anos, não tivemos a menor desordem pública, isto é, desde que aplicamos a lei local sobre reuniões públicas. Os nossos empregados civis sentem-se satisfeitos e produtivos. Por vezes, aparece um fruto podre, como aquela professora cuja história lhes contei, mas deitámo-lo fora rapidamente e não há danos. - Abriu a porta para os deixar sair. - Bem, felicidades no vosso trabalho de remodelação e reconstrução de Bisbee. Se conseguirem fazer metade do que aqui fizemos, podem ter orgulho nos resultados. Quando vir o senhor Pitman das Indústrias Phillips, dê-lhe lembranças minhas.

            Ficou a ver Collins e Radenbaugh afastarem-se. Quando voltava para o gabinete, viu que a secretária o seguia.

            Notando-lhe uma expressão perplexa, perguntou:

            - O que há, Hazeltine?

            - Esses dois homens que acabaram de sair... Ouvi-o dizer que eles tinham vindo cá para colher informações que os ajudassem a remodelar e reconstruir Bisbee...

            - É verdade.

            - Mas deve haver engano. A cidade de Bisbee foi integralmente modernizada, planejada de novo e reconstruída há poucos anos. Tenho uma ficha da Câmara do Comércio de Bisbee que diz isso mesmo.

            Era a vez de o administrador parecer perplexo.

            - Não pode ser.

            - Vou mostrar-lhe.

            Minutos depois, o administrador já tinha visto o dossier com recortes, fotografias e mapas de Bisbee, demonstrativo do trabalho já finalizado de reconstrução de partes da cidade. Parecia abalado. Pediu imediatamente uma chamada pessoal para o Sr. Pitman das Indústrias Phillips, em Bisbee.

            Depois, telefonou ao xerife.

            - Mac, estiveram aqui dois estranhos que se apresentaram como empregados das Indústrias Phillips, ramo Bisbee, e fizeram toda a espécie de perguntas suspeitas. Tinham

uma carta de apresentação de Pitman das Indústrias Phillips, mas soube agora mesmo que ele nunca tinha ouvido falar neles. Não gosto disto, Mac. Pode prendê-los?

            - Não, não posso enquanto não souber quem são. Conhece as ordens.

            - Mas, Mac...

            - Deixe o assunto comigo. Vou já pôr-me em contato com Kiley. Ele dirá o que se há de fazer.

            No segundo andar do liceu de Argo City, Miss Watkins, uma mulher de meia-idade, empertigada e de aspecto severo, tinha abandonado a aula para ir ao encontro de Collins e Radenbaugh no átrio.

            - O reitor telefonou e disse que me queriam ver. Em que lhes posso ser útil?

            - Soubemos que tinha sido despedida, miss Watkins - começou Collins. - Desejávamos fazer-lhe algumas perguntas.

            - Quem são os senhores?

            - Fazemos parte da administração da escola de Bisbee. Estamos a fazer um inquérito sobre o sistema de ensino em Argo City. Acabamos de falar com o administrador da cidade e foi ele que mencionou o seu caso. Disse que tinha pisado o risco...

            - Pisado o risco? - repetiu confusa. - Sempre cumpri a minha obrigação. Estive a ensinar a história da América.

            - De qualquer forma, despediram-na.

            - Sim, é hoje o meu último dia de trabalho.

            - Pode contar-nos o que se passou? - pediu Radenbaugh.

            - Quase tenho vergonha - disse ela. - É demasiado ridículo. A minha turma estava a começar o estudo dos Antepassados Fundadores. Para animar a lição, lembrei-me de um velho recorte de um jornal de Wyoming que guardei antes de vir para aqui. - Procurou na bolsa, tirou um recorte amarelecido e entregou-o a Collins. - Li-o à turma do décimo ano de História...

            Collins e Radenbaugh leram o artigo da Associated Press:

            ''Só uma em cinqüenta pessoas contactadas nas ruas de Miami por um repórter, concordou em assinar uma cópia datilografada da Declaração de Independência. Duas chamaram-lhe um 'disparate dos comunas', outra ameaçou chamar a polícia..."

            Miss Watkins apontou para a última parte da notícia.

            "Outras pessoas, que acharam ameaçadores a leitura dos três primeiros parágrafos, teceram comentários semelhantes. Uma afirmou : 'Isto é obra de um louco.' Outra disse: 'O FBI devia ser avisado sobre esta porcaria.' Outra ainda chamou ao autor da Declaração 'um revolucionário de idéias vermelhas'. O repórter fez circular um questionário contendo um excerto da Declaração de Independência por entre 300 membros de um grupo de juventude religiosa, e 28% responderam que pensavam que o excerto tinha sido escrito por Lenine."

            Guardou novamente o recorte.

            - Depois de ter lido isto aos meus alunos, disse-lhes que não prosseguiria o curso sem que lessem primeiro cuidadosamente a Declaração de Independência e a Constituição e sem que tivessem compreendido esses documentos clássicos.

            - Referiu-se à Declaração de Direitos? - perguntou Collins.

            - De fato discuti com os meus alunos as liberdades básicas e os direitos civis. Os estudantes pareciam altamente interessados. No entanto, alguns foram para casa e falaram nisso aos pais. Os fatos foram exagerados e destorcidos, e, antes que me desse conta, o presidente do conselho escolar dizia que eu era uma perturbadora, que vinha causar distúrbios. Mas que distúrbios? Respondi que me limitava a ensinar história. Ele insistiu que eu estava a fomentar dissidentes e comunicou-me que tinha de me retirar. Para lhes dizer a verdade, ainda não consegui compreender o que aconteceu.

            - Não vai protestar contra o despedimento? - quis saber Radenbaugh.

            Miss Watkins pareceu sinceramente surpresa com a sugestão.

            - Protestar? A quem?

            - Com certeza que deve haver alguém a quem protestar.

            - Não há. E mesmo que houvesse, teria de pensar bem antes de o fazer.

            - Porquê? - insistiu Radenbaugh.

            - Porque não me quero envolver nessas coisas. Só quero que me deixem sossegada. Gosto da vida e quero viver.

            Collins intrometeu-se novamente.

            - Mas não a querem deixar viver, miss Watkins. Pelo menos à sua maneira.

            Ficou momentaneamente confusa.

            - Não sei. Parece-me que aqui têm regras, como em toda a parte. Devo ter desrespeitado uma por acaso. Mas isso não é razão para fazer... para me meter num escândalo público. Não, nunca me passaria pela cabeça fazer tal coisa.

            - O que é que aconteceu das outras vezes que ensinou a Constituição? - perguntou Collins.

            - Ainda nunca a tinha ensinado. Costumava dar história da Europa. A mulher do administrador da cidade é que ensinava história da América, mas reformou-se no último semestre e eu fui encarregada de a substituir.

            - E agora que vai fazer? Fica em Argo City?

            - Ah, não, não me deixam. A não ser que se trabalhe para a companhia ou para a cidade, não se pode viver cá. Não me dariam outro emprego. Acho que vou regressar à Wyoming. Não sei. É muito desencorajador. Nem sequer sei o que fiz de mal.

            - Quer contar-nos mais coisas? - perguntou Collins.

            - Sobre quê?

            - Sobre o que se passa aqui.

            - Aqui não se passa nada. Nada - disse ela enfaticamente.- Parece-me que é melhor voltar para a aula. Se me desculpam...

            Radenbaugh olhou para Collins.

            - Quem foi que disse, Chris: "Se o fascismo se implantar nos Estados Unidos, será por o povo votar nele?"

            - Amém! - disse Collins, pegando no braço de Radenbaugh. - É melhor voltarmos para o hotel. Temos muito para decidir.

            Às cinco e cinco, os três homens tinham-se reunido no quarto de Collins do Hotel Constellation.

            Collins foi o primeiro a falar, dirigindo-se ao Presidente do Supremo Maynard, que se tinha sentado na dura cama, pousando o chapéu, e estava agora a enxugar a testa

suada.

            - Então, senhor Presidente, que descobriu? Maynard parecia atordoado.

            - Numa palavra, é... é chocante.

            - Inacreditável - concordou Collins.

            - Quem poderia imaginar que isto se passa nos Estados Unidos?

            - E afinal é verdade - disse Collins severamente. - A população está tão doutrinada que nem sabe o que se passou.

            Maynard abanou fortemente a cabeça.

            - Sim, também é essa a minha impressão.

            - É tarde - disse Collins - e parece-me que o melhor é sairmos daqui quanto antes e voltarmos para Phoenix. Podemos discutir o assunto pormenorizadamente no carro. Mas, para já, deixe-me resumir o que Donald e eu descobrimos. Soubemos muitas coisas, falamos a muitas pessoas.

            - Eu também - disse Maynard. - Cheguei mesmo a falar com o xerife e com o editor do jornal. Falam, mas não compreendem o que estão a dizer. Tornou-se um hábito. Nunca, com toda a minha experiência do país e do estrangeiro, pelo menos desde a II Guerra Mundial, nunca vi uma população viver assim, numa existência de autômatos. Ou a viver sob uma opressão tão insidiosa.

            Collins levantou-se e começou a vaguear pelo quarto.

            - Deixe-me dizer-lhe rapidamente o que Donald e eu descobrimos. A Companhia Argo de Fundição e Refinação é dona dos únicos armazéns de alimentação e vestuário da cidade. Os empregados das minas recebem salários, mas também lhes dão livros de senhas que só podem ser usadas nos armazéns da companhia. Quando se lhes esgota o dinheiro, podem usar as senhas para comprar a crédito. Assim, a maior parte deles estão empenhados à companhia.

            - É uma forma sutil de escravatura ou de servidão econômica. - comentou Radenbaugh.

            - Mas há muitas outras coisas que não são tão sutis. A companhia é proprietária do menor terreno, possui ou domina a Câmara Municipal, o posto de xerife, as escolas, o hospital, o teatro, os correios, a igreja, as oficinas de reparações, o jornal da cidade, e até o hotel. A companhia proibe livros (menos os livros sexuais que os de política e história). Os correios registam toda a correspondência recebida ou expedida. O conselho escolar determina o que os professores devem ensinar. O xerife impede que os vendedores ambulantes e os caixeiros viajantes entrem na cidade. O hotel não permite que ninguém permaneça mais de dois dias. Os estranhos são expulsos por vagabundagem ao fim de três dias. A companhia censura os sermões do sacerdote. Os homens e mulheres solteiras, são separados, conforme os sexos, por quatro pousadas da companhia, que estão cheias de informantes. Quanto às habitações comuns...

            - Isso vi eu - disse Maynard. - Fiz de conta que queria comprar uma casa e estabelecer-me aqui. Em vão. Só os empregados da companhia Argo são autorizados a comprar habitações. A companhia fica com uma hipoteca sobre cada casa que é vendida. Os pagamentos da hipoteca são deduzidos do salário. Se o comprador resolver ir-se embora, tem de vender novamente a casa à companhia. Nas casas alugadas, as rendas também são deduzidas dos salários.

            - Mais escravatura - comentou Radenbaugh.

            Collins aproximou-se de Maynard.

            - Que descobriu mais?

            A cabeça grisalha de Maynard abanava.

            - O suficiente para me enojar. Nunca encontrei semelhante desrespeito pela Declaração de Direitos. A certa altura, parei para comer uma salada no café da companhia. Enquanto estava à mesa, coberto de curiosos, peguei num guardanapo de papel, ou melhor, foram dois, e escrevi os direitos básicos concedidos pelas dez primeiras emendas à Constituição: a Declaração de Direitos aprovada em Dezembro de 1791. A seguir a cada emenda indiquei a situação respectiva em Argo City. Ouçam isto...             Tirou os dois guardanapos de papel do bolso do casaco de caqui e trocou os óculos de sol por outros de lentes quadradas.

            - Ouçam bem - prosseguiu Maynard. - A primeira emenda garante a liberdade de religião e de expressão e institui os direitos de reunião e reclamação. Aqui em Argo City só se pode freqüentar uma igreja. Só se lê um jornal. Todos os jornais de fora e a maior parte das revistas são proibidas. Sabiam disto? A televisão consiste numa estação local, UHF - dominada pela companhia, é claro. Os programas nacionais são gravados e só alguns são retransmitidos. O mesmo quanto à rádio. Só transmitem programas gravados. Todos os receptores são vendidos pela companhia e têm um filtro especial, para não poderem apanhar Phoenix ou outras cidades. A liberdade de expressão está totalmente banida. Se se sai da casca, um informador faz uma denúncia. Fica-se sem emprego e sem casa. Não são permitidas reuniões públicas nem manifestações. A última ocorreu há quatro anos. Foi reprimida, e os trabalhadores que protestavam contra a falta de segurança no trabalho foram presos. A prisão era demasiado pequena para os conter, mas, ignorado por toda a gente, há um campo de internamento fora da cidade, no deserto...

            - Um campo de internamento? - Collins estremeceu, lembrando-se do seu filho Josh e da viagem ao lago Tule.

            - Sim, quatro semanas nesse campo acabaram com os protestos. Desde então, nunca mais houve manifestações. - Maynard tentava decifrar o que tinha escrito no guardanapo.

            - A 2.a emenda dá ao cidadão o direito de possuir e deter armas, isto é, dá a cada Estado o direito de ter uma milícia. Mas isso não acontece em Argo City. Só um grupo de escol de empregados da companhia, altamente colocados e de absoluta confiança, podem usar armas. A 3.a emenda diz que nenhum militar se pode aboletar em casas particulares sem consentimento do dono da casa. Há cinco anos foi feita uma postura que permite à polícia, em caso de emergência, mudar-se para a casa de qualquer pessoa e instalar-se lá. A 4.a emenda dá ao povo o direito de não ser sujeito a buscas indevidas. Uma postura de Argo City permite que os homens do xerife entrem em qualquer casa sem mandato. A 5.a emenda protege o acusado de crime capital (de resto, só um grande júri pode inculpar um civil), garante o processo legal e diz que ninguém pode ser obrigado a testemunhar contra si próprio. Ora, não há grande júri em Argo City. É um juiz que decide se a prova exige um julgamento. É evidente que os juízes são indicados pela companhia. A 6.a emenda garante que os acusados de crimes terão direito a um rápido julgamento, a um júri imparcial, a serem acareados com as testemunhas de acusação, a terem a assistência de um advogado. Em Argo City pode-se definhar indefinidamente na prisão à espera de julgamento. Aqui não há júris. Um dos juízes desempenha simultaneamente a função de juiz e a de júri. As testemunhas de acusação não precisam estar presente. A defesa é fornecida pela companhia. - Maynard soltou um suspiro. - Como disse um dia Stanislaw Lee: "A distribuição da injustiça está sempre em boas mãos."

            - Apre! - murmurou Radenbaugh. - Apesar de se terem enganado, sempre tive doze jurados, e escolhi o meu advogado.

            Maynard pegou no segundo guardanapo e começou a lê-lo.

            - A 7.a emenda. Bem, esta também garante o julgamento por um júri nos casos da lei comum. Isto tem sido totalmente ignorado em Argo City. A 8.a emenda garante uma fiança razoável, protege os cidadãos contra multas excessivas ou penas cruéis e infamantes. Bem, aqui, por uma coisa de somenos, um delite sem importância, a fiança é tão alta que o acusado fica na prisão até ser julgado. Não é possível saber o montante das multas. Mas, aparentemente, as penas cruéis e infamantes são a regra. Os culpados perdem as casas. Os protestos ou crimes levam os condenados a um campo de detenção rodeado de arame farpado, no deserto escaldante. Só Deus sabe o que mais aí os espera. A 9.a emenda salvaguarda outros direitos não especificados na Constituição. Não descobri muito a este respeito, exceto que os cidadãos de Argo City não parecem ter outros direitos que não sejam os de comer e dormir, em certas condições. A 10.a emenda reserva todos os poderes que não sejam delegados ao Governo pela Constituição, aos Estados e ao povo. Aqui, obviamente, todos os poderes reservados pela Constituição ao Governo, aos Estados e ao Povo, estão nas mãos da companhia.

            - Ou nas de Vernon T. Tynan - acrescentou Collins.

            - Ou nas de Tynan, sim - concordou Maynard, voltando a meter os guardanapos no bolso. - Como poderá isto ter acontecido? Tenho certeza que o governo federal não tem conhecimento do que aqui se passa. Mas o Estado de Arizona! O Estado devia saber e atuar.

            - Não, eu calculo como se gerou tal situação - disse Radenbaugh. - Aposto que a Comissão das Corporações do Arizona, que deveria pretensamente controlar as corporações, é dominada pela Companhia Argo. Então Tynan arranjou qualquer coisa contra esta companhia e passou a dominá-la para realizar a sua grande experiência.

            Maynard estava mais perturbado que nunca.

            - É a situação mais aterradora que jamais encontrei.

            - Não podemos continuar sentados e deixar correr - disse Collins. - Como Procurador-Geral, tenho de atuar. Posso mandar cá uma equipe de investigadores...

            Maynard ergueu a mão.

            - Não, não é isso que é prioritário. Argo City e os seus 14.000 habitantes não são o fim. São meramente parte de um objetivo mais vasto. Você mesmo o disse, Collins. Há muito mais em jogo, muitíssimo mais.

            - Refere-se à 35.a emenda?

           - Sabemos que Argo City, por estar isenta de crimes, inspirou o diretor Tynan a elaborar a emenda. Sabemos que ele experimentou e apurou aspectos da emenda, usando Argo City como um laboratório para a supressão das liberdades e para a repressão nos últimos quatro anos. Sabemos que vimos hoje uma perspectiva dos Estados Unidos daqui a um ano, se a Califórnia ratificar a emenda e a integrar na Constituição.

            Maynard levantou-se e vagueou pelo quarto, imerso num conflito íntimo. Quando voltou para junto de Collins e Radenbaugh o seu ar pensativo tinha-se desvanecido.

            - Meus senhores - disse ele -, tomei a minha decisão. Se depender de mim, a Califórnia não pode nem deve aprovar a emenda.

            Collins não pôde esconder o seu júbilo.

            - Vai... Que vai fazer, senhor Presidente?

            - Vou fazer o que lhe prometi se me provasse concretamente que a nossa democracia está realmente em perigo. Deram-me a conhecer uma parte do Documento R, aparentemente o plano de Tynan. Vi o fascismo ser aceito pelo preço da segurança. Já posso imaginar o fascismo tornado lei em toda a nação. Não quero nem posso admitir que isso aconteça. - Os seus olhos pousaram em Collins. - Primeiro vou falar com o Presidente. Vou tentar persuadi-lo a inverter a sua posição. Se falhar, então irei para a frente e far-me-ei ouvir. Se a minha influência é tão grande como você pensa, não haverá 35.a emenda, não haverá mais cidades como Argo City na América, e a nossa agonia terá terminado.

            Collins agarrou na mão de Maynard e apertou-a calorosamente. Radenbaugh acenava com a cabeça em sinal de aprovação.

            - É melhor irmos embora - disse Maynard bruscamente. - Vou para o quarto arranjar as minhas coisas. Encontramo-nos no átrio daqui a dois minutos.

            Maynard apressou-se a sair.

            Rejubilantes, Collins e Radenbaugh pegaram nos seus haveres e prepararam-se para sair. À porta, Collins deteve Radenbaugh.

            - Depois de Phoenix, para onde vai?

            - Tenciono regressar a Filadélfia.

            - Venha para Washington. Não o posso pôr na lista de pagamentos federal. Mas posso pô-lo na minha lista privada. Preciso de si. O nosso trabalho ainda não terminou. Quando Maynard derrotar a emenda, precisaremos de um programa novo para a substituir, um programa que leve à redução da criminalidade sem sacrificar os nossos direitos civis.

            Radenbaugh parecia comovido.

            - Poderá realmente utilizar-me? Estou muito satisfeito, mas...

            - Vamos embora, não percamos tempo.

            No corredor, encontraram Maynard que saía do quarto. Desceram juntos de elevador. Collins parou no balcão da recepção para assinalar a partida. Depois, os três, lado a lado, atravessaram o átrio e saíram para o calor do fim de tarde.

            Enquanto Collins e Radenbaugh, silenciosos avançavam para o estacionamento, Maynard apressou-se a comprar a última edição do Bugie de Argo City a um vendedor cego e barbudo, que se sentava numa banca perto da entrada do hotel. Quando o vendedor ouviu o tilintar das moedas, os seus olhos mantiveram-se parados por trás dos óculos, mas a boca abriu-se num sorriso de agradecimento.

            Maynard apressou o passo para alcançar os companheiros. Minutos depois, Radenbaugh conduzia o Ford para fora do parque de estacionamento, em direção ao centro de Argo City, a Phoenix e ao ar livre.

            Em frente do Hotel Constellation, o vendedor cego meteu o dinheiro no bolso, levantou-se e colocou o que restava da pilha de jornais em cima da banca. Batendo com a bengala branca, passou titubeante em frente do hotel, ultrapassou o parque de estacionamento e virou à direita para a estação de serviço da esquina. Seguindo a bengala, apontou em linha reta para a cabina telefônica mais próxima. Entrou na cabina, fechou a porta de vidro e arrumou a bengala a um canto. Por fim, olhando para trás, tirou os óculos escuros, meteu-os no bolso, pegou no auscultador, meteu uma moeda na ranhura e olhou com um ar indiferente para os números do disco enquanto esperava.

            A telefonista surgiu na linha. Ele indicou-lhe um número. Instantes depois, depositou as moedas que faltavam. Esperou. O telefone estava a tocar. Uma voz chegou da outra extremidade do fio. O vendedor encobriu o bocal do telefone.

            - Faça o favor de ligar ao diretor Vernon T. Tynan - disse num tom de urgência. - Diga-lhe que é o agente especial Kiley a falar do gabinete de campo R.

            Ficou à espera. Poucos segundos.

            - Diretor Tynan? Aqui Kiley, em R. Vieram três. Só reconheci dois. Um era o Procurador-Geral Collins. O outro era o Presidente do Supremo Maynard... Não, não tenho dúvidas. Collins e Maynard.

                                              

 

            Estava-se a meio da manhã do dia seguinte, e o Presidente Wadsworth já tinha telefonado duas vezes nos últimos quinze minutos. Que se lembrasse, era a primeira vez que tinha evitado receber um telefonema do Presidente. Acompanhado por Harry Adcock, por trás de portas trancadas, o diretor Tynan tinha estado profundamente ocupado a ouvir uma gravação que Adcock lhe entregara. Era uma gravação feita uma hora antes de uma conversa telefônica entre o Presidente do Supremo Maynard e o Presidente Wadsworth. Maynard é que tinha feito a chamada, e a sua curta conversa com o Presidente não durara mais de cinco minutos.

            O primeiro telefonema do Presidente para Tynan tinha chegado no preciso instante em que Adcock lhe trouxera a gravação.

            - Diga-lhe que ainda não cheguei ao gabinete - respondera Tynan à secretária. - Diga-lhe que vai tentar localizar-me.

            O segundo telefonema do Presidente tinha chegado enquanto Tynan ainda ouvia a gravação.

            - Diga-lhe que ainda não cheguei - ordenara ele à secretária -, mas que me espera a todo o momento.

            Ouvira a gravação até ao fim. Adcock desligou o gravador.

            - Quer ouvir outra vez, chefe?

            - Não, uma vez chegou. - Tynan recostou-se na cadeira.- Devo dizer-lhe que não estou surpreso. Depois do aviso de Kiley, de Argo City, na noite passada, já suspeitava que isto iria acontecer. Agora confirma-se. Bem, é melhor telefonar ao Presidente e ver a reação dele.

            Segundos depois, Tynan obtinha a ligação com o Gabinete Oval da Casa Branca.

            - Desculpe não estar para o atender - disse Tynan, resfolegando. - Cheguei agora mesmo. Tive dois encontros no exterior e esqueci-me de avisar a Beth. Há alguma coisa urgente?

            - Vernon, estamos tramados. Podemos considerar a 35.a emenda antecipadamente morta.

            Tynan simulou espanto.

            - O que diz, senhor Presidente?

            - Antes de lhe telefonar, recebi uma chamada do Presidente do Supremo Maynard.

            - E então?

            - Queria saber se eu conhecia um lugar chamado Argo City, no Arizona. Eu lembrei-me imediatamente. Era o lugar de que me falou ontem à noite, quando me veio pôr ao corrente das últimas atividades do FBI. Respondi a Maynard que sim, que era uma comunidade que o FBI estava a acompanhar de perto há vários anos. Disse-lhe que você estava a conduzir pessoalmente as investigações dos crimes federais nessa cidade e que ia submeter brevemente as informações descobertas ao Procurador-Geral Collins.

            - Correto.

            - Bem, Maynard pensa de maneira diferente quanto às suas atividades em Argo City.

            Tynan fingiu-se extremamente confundido.

            - Não compreendo. Que opinião diferente é que pode ter?

            - Ficou com a idéia de que você tem estado a usar Argo City como campo de ensaio para a 35.a emenda. E os resultados, embora a si lhe possam ter agradado, para ele foram horríveis.

            - É absurdo.

            - Eu também lhe disse que era absurdo... empreguei precisamente esse termo. Mas o velho casmurrão não se deixou convencer.

            - Saiu da casca - disse Tynan.

            - Seja como for, está contra nós. Disse que nunca se tinha pronunciado publicamente contra a emenda, mas que agora estava disposto a fazê-lo. Então tentou forçar-me.

            - Forçá-lo, senhor Presidente? A quê?

            - Disse que se eu retirasse publicamente o meu apoio à emenda, ele teria o maior prazer em continuar calado. Mas se eu me recusasse a fazê-lo, se recusasse inverter a minha posição, então ele entraria na liça.

            - Que diabo pensa ele que é para ameaçar o Presidente da República? - disse Tynan num tom indignado. - Como é que lhe respondeu?

            - Disse-lhe que sempre tinha estado ao lado da emenda e que era aí o meu lugar. Disse-lhe que acreditava nela e que a queria ver ratificada como parte da Constituição.

            - E ele, como reagiu?

            - Disse: "Então força-me a agir, senhor Presidente; demito-me do meu cargo e entro na arena política, para poder manifestar-me enquanto é tempo." Disse que ia de avião para Los Angeles hoje à tarde. Passará todo o dia de amanhã na sua casa de Palm Springs. Depois de amanhã, regressa a Los Angeles. Ele disse: "vou dar uma conferência de imprensa no Hotel Embaixador para anunciar a minha resignação do Supremo Tribunal, e vou anunciar o meu desejo de comparecer como testemunha perante o comitê judicial da Assembléia e do Senado da Califórnia para me manifestar contra a aprovação da 35.a emenda."

            - Estará realmente decidido a fazer isso?

            - Não duvido, Vernon. Tentei incutir-lhe algum bom senso, mas não consegui. Estará na Califórnia dentro de poucas horas. E nós levaremos sopa. No momento em que ele se manifestar contra a emenda, estamos arrumados. Vai virar a legislatura de pernas para o ar. Quem podia imaginar que tal havia de acontecer? Todos os nossos esforços, todas as nossas esperanças destruídas pela interferência de um homem. Que havemos de fazer, Vernon?

            - Combatê-lo.

            - Como?

            - Não sei bem. Vou pensar numa maneira.

            - Pense em qualquer coisa... seja o que for.

            - Tratarei disso, senhor Presidente.

            Tynan desligou, sorriu para o telefone, levantou a cabeça e sorriu para Adcock. Piscou os olhos.

            - É claro que descobriremos uma maneira, não é, Harry?

            Chris Collins estava bem disposto nessa tarde. Sentia-se aliviado da tensão das últimas semanas e pronto a descontrair-se. De regresso do trabalho, assim que entrara em casa, recebera o esperado telefonema de Maynard. O Presidente do Supremo tinha chegado há minutos ao aeroporto internacional de Los Angeles, mas antes de se dirigir com a mulher para o carro que os levaria a Palm Springs, tinha querido informar Collins das ocorrências da manhã. Tinha efetivamente falado ao telefone com o Presidente. Tinha-lhe pedido que modificasse a sua posição quanto à emenda. O Presidente tinha recusado. Maynard tinha então avisado o Presidente que partia para Los Angeles, onde anunciaria a resignação do Supremo Tribunal, e tinha-lhe dito que tencionava manifestar-se, em Sacramento, contra a aprovação da emenda. Passaria um dia na casa de Palm Springs para escrever o discurso

de resignação e a dura declaração aos comitês dos órgãos legislativos.

            - Espero que isto seja suficiente - dissera Maynard.

            - Será, será - prometera Collins, a arder em excitação. - Obrigado, senhor Presidente.

            - Eu é que lhe agradeço, senhor Collins.

            Karen tinha estado a rondar por ali, desejando saber o que se passava, e, depois de desligar, Collins pusera-se de pé, aproximara-se dela, começara a levantá-la no ar, lembrara-se da gravidez, e limitara-se a abraçá-la e beijá-la. Collins tinha-lhe explicado sucintamente, sem entrar em pormenores, sem referir Argo City, a decisão do Presidente do Supremo de se manifestar publicamente contra a emenda.

            Karen tinha ficado verdadeiramente emocionada.

            - Que maravilha, querido. Finalmente, boas notícias.

            - Vamos comemorar - tinha proposto Collins. Tinha sentido a cabeça e o corpo mais leves, como se se tivesse libertado de quilos de pressão. - Vamos à cidade. Escolhe

o que quiseres.

            - O Jockey Club e tornedos Rossini - tinha dito Karen melodiosamente.

            - Vai vestir-te enquanto marco mesa. Só nós dois. Nada de negócios, só divertimento, prometo-te.

            Meia hora mais tarde, depois de tomarem juntos uma ducha, estavam no quarto, quase vestidos.

            Collins enfiava as calças do seu melhor terno azul-marinho, metia as fraldas da camisa para dentro, quando o telefone tocou.

            - Atende tu - disse Karen do toucador. - O verniz das unhas ainda não está seco.

            Collins foi ao toucador, rezando para que não fosse trabalho. Poucas pessoas que tinham o seu número não estavam relacionadas com o Departamento de Justiça. Levantou o auscultador.

            - Está lá?

            - Senhor Collins?

            - Sim.

            - Daqui fala Ishmael Young. Não sei se se lembra...

            Collins sorriu. Como se alguém pudesse esquecer aquele nome.

            - Claro que me lembro. É o fantasma do diretor Tynan.

            Ishmael Young respondeu muito sério:

            - Espero não ser recordado assim. Mas é verdade. Estou a trabalhar na autobiografia de Tynan e o senhor teve a amabilidade de me receber no mês passado. - Hesitava, procurando as palavras. Depois, com um tom de urgência, desembuchou: -Sei que é uma pessoa muito ocupada, senhor Collins, mas seria humanamente possível falar-lhe esta noite? Não lhe ocuparei muito tempo...

            Olhando para a mulher, Collins interrompeu-o:

            - Lamento, mas já estou comprometido para a noite, senhor Young. Talvez me possa telefonar para o gabinete na segunda-feira, para combinarmos...

            - Senhor Collins, creia-me, não quero aborrecê-lo, mas é realmente importante. Tanto para si como para mim.

            - Bem... não sei...

            - Por favor.

            O tom de voz de Ishmael fez Collins capitular.

            - Está bem. Para lhe dizer a verdade, ia agora jantar ao Jockey Club com a minha mulher.

            - Lamento imenso. Mas...

            - Não faz mal. Encontramo-nos lá às oito e meia.

            Depois de desligar, viu Karen olhá-lo interrogativa. Collins resmungou:

            - É o escritor fantasma de uma autobiografia de Vernon Tynan. Precisa falar comigo esta noite. Infelizmente tenho curiosidade em saber porquê. Pelo menos é um tipo simpático. Espero que não te importes, amor.

            - Tolo, nunca me convenci que íamos estar só os dois. - Apontou para o telefone. - É melhor ligares para o Jockey Club e fazeres a marcação para três. Além disso, estou tão curiosa como tu.

            O Jockey Club, situado no Hotel Fairfax da Avenida Massachusetts, estava a transbordar por volta das nove horas dessa noite.

            No entanto, a melhor mesa do restaurante tinha sido reservada e guardada para Chris Collins e os seus convidados.

            - Vês - sussurrou Collins à mulher - , há algumas vantagens em ser Procurador-Geral.

            - Ou em dar boas gorjetas - retorquiu Karen.

            Ishmael Young, que tinha esperado por eles na esquina da rua, tinha-se mostrado invulgarmente ansioso, pedindo constantemente desculpa desde o encontro. Agora, depois de as bebidas chegarem, olhando abstraído para o seu Jack Daniels com soda, Young desculpava-se novamente:

            - Lamento imenso imiscuir-me nesta noite privada.

            - Temos muito prazer na sua companhia - disse Collins expansivo. Sentia-se maravilhosamente e ergueu o seu Scotch com água num brinde irônico. - Pela derrota da 35.a emenda. - Esperou que Karen levantasse sua vodka com água tônica e que o escritor se lhes juntasse no brinde, e bebeu. Pousando o copo, disse a Young: - Não sabia, pois não, que eu já deixei de apoiar a 35.a emenda?

            - Sei, sei - respondeu Young.

            Collins não escondeu a sua surpresa.

            - Como é que soube? Foi uma decisão particular. Ainda não a tornei pública. E mais, não a tornarei pública enquanto pertencer ao governo. - Baixou a cabeça para Young. - Como descobriu?

            - Esquece-se - disse Young -, que trabalho com o diretor Tynan. Ele sabe tudo e eu sou o seu fantasma.

            O aspecto de Collins tornou-se sisudo.

            - Estou a ver. Então ele também sabe?

            - Sim.

            - Devia ter imaginado. - Tomou um grande gole da sua bebida. - Tenho tendência para o menosprezar, mas devo lembrar-me que ele é formidável.

            Caíram num breve silêncio. Ishmael Young brincava com o copo, como se não fosse capaz de formular um pensamento. Por fim, decidiu-se.

            - Quis vê-lo esta noite por... por duas razões. Uma diz-lhe respeito. A outra tem que ver comigo. Primeiro a sua.

            Mas não continuou imediatamente e Collins interrogou-o:

            - Então, que tem a dizer?

            - Queria discutir sobre Tynan.

            Collins ficou exasperado.

            - Se isso quer dizer que me pretende fazer mais perguntas sobre o que eu penso de Tynan para o seu livro, deixe-me avisá-lo que não tem sorte. Não tenho mais nada a dizer.

            - Não, não é isso - disse Young rapidamente. - Não é nada a respeito do livro. Não o incomodava durante o jantar para lhe perguntar coisas sobre Tynan. Vim porque

lhe queria falar sobre Tynan. Queria...

            - Dizer-me o quê? - interrompeu Collins impaciente. - O que é que me quer contar?

            Karen aproximou-se dele e tocou-lhe no braço.

            - Por favor, Chris, deixa-o falar.

            Ishmael Young dirigiu um gesto de agradecimento a Karen, puxou o nó da gravata e alisou os restos de cabelo, penteado de maneira a cobrir a calva.

            Embora irritado pela agitação do escritor e pela sua relutância em entrar no assunto, Collins acedeu ao pedido e esperou.

            - Ele não gosta de si, como sabe - disse Young.

            - Quem, Tynan?

            - Não gosta mesmo nada de si - repetiu Young.

            - Isso não me admira - disse Collins. - Como descobriu?

            - Estou com ele todas as semanas. Estou com ele, mas ultimamente ele nem sequer parece dar-se conta disso durante metade do tempo. Conversa e torna a conversar. Responde ao telefone. Faz chamadas. Deixa apontamentos e memorandos por todo o lado. Deixou de ser cauteloso comigo. É como se eu não existisse. Talvez ele tenha razão. Sou apenas um escrevinhador.

            - Então ele não gosta de mim! - repetiu Collins.

            - Eu decidi que se ele não gostava de si, isso era razão suficiente para eu ter a opinião contrária. Quando Tynan se põe contra qualquer coisa, ou qualquer pessoa, é porque é boa. Como sabe, quando nos encontramos pela primeira vez, disse-lhe que ele não era pessoa do meu gênero. Cheguei à conclusão que também não era do seu. Compreendi, quer o admita ou não, que estamos do mesmo lado. Foi por isso que o quis ver imediatamente, para o avisar de uma coisa.

            Karen parecia preocupada, mas Collins continuava impassível.

            - Continue.

            - Está bem. - Baixou a voz. - Tynan e o FBI têm andado a investigá-lo.

            - Oh, Chris - suspirou Karen.

            Ele fez um gesto para ela se calar. Dirigiu-se ao escritor:

            - Isso não é novidade. Se é tudo...

            - Mas eu pensei...

            - Evidentemente que fui investigado pelo FBI. É esse o seu papel. Tiveram de investigar quando o Presidente me nomeou Procurador-Geral. É costume.

            - Não, não compreendeu bem, senhor Collins. Sei bem que o investigaram há semanas. Foi a tal rotina. O que lhe quero dizer é que Tynan ordenou uma nova investigação secreta a seu respeito, há poucos dias. Ainda está em curso.

            Collins semicerrou os olhos, tentando assentar idéias e compreendendo finalmente. Respirou fundo e disse:

            - Ah, bem... Tem certeza?

            - Absoluta. De resto, não é a primeira investigação. No mês passado, ouvi-o falar ao telefone sobre Baxter e a igreja da Santíssima Trindade, e nessa altura aludiu ao caso Collins...

            Collins interrompeu:

            - Bem sei. Mas agora interessa-me mais o que disse antes. Tem certeza absoluta? Ouviu Tynan dizer que me estavam a investigar de novo?

            - Estou certíssimo. Estive ontem com ele durante muito tempo. Recebeu essa chamada. Quando lá vou e estamos a trabalhar, ele geralmente só atende chamadas do Presidente ou de Adcock. Mas esta chamada não era do Presidente. Enquanto ele estava ao telefone, fui ao banheiro, mas deixei a porta entreaberta. Consegui ouvir o que ele dizia. O seu nome nunca foi mencionado. Mas houve uma referência... não me recordo exatamente o que foi... que me esclareceu que estavam a falar sobre si. Era em relação às investigações que estão a decorrer. No final, Tynan disse a Adcock: "Bem, continue a tentar, e trate também dos outros."

            Karen notara as últimas palavras.

            - Os outros? Que queria ele dizer?

            - Não faço idéia - respondeu Ishmael Young. Voltou-se para Collins. - Mas não tenho dúvidas que a conversa era a seu respeito. Faz sentido? Haverá alguma razão para que ele o investigue agora?

            - Talvez. Sim, talvez haja - disse Collins lentamente.

            - Bem, pensei que não devia perder tempo. Preveni-o e assim pode estar de sobreaviso.

            - Agradeço-lhe - disse Collins sinceramente. - Muito obrigado, Ishmael... - Olhou distraidamente à sua volta, viu o criado e chamou-o. - Acho que isto está a pedir

mais uma rodada de bebidas.

            Depois de Collins ter feito o pedido, Karen chegou-se para mais perto do marido. Tentava conter a agitação que a dominava.

            - Que quer isto tudo dizer, Chris?

            - Não tenho certeza, querida, provavelmente nada. - Tentou animá-la: -Nem todas as investigações são sinistras. Às vezes fazem-nas por causa de alguém que está relacionado com a pessoa, para nos protegerem.

            - Pode ser isso - concordou Young rapidamente, também ele desejoso de acalmar Karen.

            - Mas pelo menos deviam dizer-te - alegou Karen, dirigindo-se ao marido -, em vez de fazerem as coisas nas tuas costas. Afinal tu és seu superior hierárquico. Realmente, ele é um homem horrível.

            A segunda rodada de bebidas chegara e Young ergueu o copo.

            - Ora aí temos um motivo de brinde, senhora Collins, bebo à sua opinião.- Deu uma vista de olhos pelas proximidades para ver se alguém estava a escutar. - Ele... bem sabem a quem me refiro... é o pior pulha... desculpem, o pior egomaníaco e o maior desonesto que conheci.

            Beberam, e antes que pudessem retomar o fio da conversa, o criado de mesa apareceu para saber o que queriam.

            Concordaram todos na sopa de cebola para começar. Depois Collins encomendou tornedos Rossini para Karen, esperou que Young examinasse novamente a ementa, e pediu finalmente um bife Stroganoff para o escritor e Coq au Vin para si.

            Ishmael Young tinha voltado ao seu Jack Daniels.

            - De fato, voltando a Tynan - disse Young, dirigindo-se a Karen -, acho que ninguém gosta dele, exceto, e estou só a alvitrar, a mãe e Adcock. Todos os outros, ou se limitam a respeitá-lo, ou o temem, ou o odeiam profundamente.

            Collins interessou-se.

            - Exceto a mãe e Adcock, disse você. Isso da mãe foi só uma suposição ou é verdade? Será que ele tem uma mãe?

            - Talvez não acredite, não é? Que Vernon T. Tynan possa ter uma mãe. Pois tem. Aqui perto. Rose Tynan. Oitenta e quatro anos de idade. Vive no Bairro dos Anos Dourados, em Alexandria. Ninguém sabe disto, exceto Adcock e eu, mas Tynan vai vê-la todos os sábados. Sim, o monstro tem uma mãe.

            - Já a viu? - perguntou Collins.

            - Ah, não. Verboten, proibidíssimo. Uma vez, quando falava com ele acerca da sua juventude, não conseguiu lembrar-se de nada, mas disse que a mãe devia saber. Eu disse-lhe que não sabia que a mãe ainda era viva. Ele respondeu: pois é, mas não falo nela por razões de segurança, para que possa estar tranqüila. Ele quis ter certeza que eu não diria isso no livro... não diria que a mãe ainda estava viva; mas permitiu-me que me referisse a ela e disse coisas bonitas a seu respeito.

            Contou-me até um pouco do seu passado. É tudo o que sei.

            - Interessante - disse Collins.

            - Nem sequer imaginava que Tynan tivesse mãe - disse Karen. - Isso torna-o quase humano.

            - Não se iluda - comentou Ishmael Young -, Calígula também teve mãe, e Jack o Estripador.

            Collins achava graça, mas Karen insistia em que Tynan continuasse a ser revelado por Ishmael Young.

            - Senhor Young, se não gosta do diretor Tynan...

            - Nunca disse que não gostava dele. Odeio-o.

            - Muito bem, se o odeia, porque é que trabalha com ele na autobiografia?

            - Porquê?! Vou dizer-lhe porquê...

            Mas não prosseguiu, porque o criado tinha trazido um carrinho com as sopas de cebola e começava a servi-las. Mal o criado se retirou, Young retomou a conversa no ponto em que tinha ficado.

            - Quando me encontrei com o seu marido, disse-lhe que tinha sido forçado a escrever este livro. Agora quero explicar-lhes, se me permitirem. Vou apresentar-lhe a outra razão que me levava a querer falar-lhe esta noite. Disse-lhe que o primeiro motivo se relacionava consigo e o segundo comigo. Espero que não se importe que o aborreça com um problema pessoal. Tem a ver com Tynan e com o motivo que me leva a escrever o seu Mein Kampf.

            - Por favor, continue - disse Collins.

            - Fui intimidado para escrever este livro dum raio - continuou Young. - Não queria fazê-lo, mas Tynan obrigou-me. O que aconteceu foi o seguinte: vivi em Paris durante algum tempo, colhendo material para um livro que queria escrever, não como fantasma, mas mesmo meu -um livro sobre a Comuna de Paris. Entre as pessoas que entrevistei nessa altura, há dois anos, havia um professor britânico exilado e a mulher. O professor Henderson, que era um perito da Comuna e que tinha sido deportado dos Estados Unidos há muito tempo devido a ter-se envolvido em atividades anarquistas. Os Hendersons tinham uma filha, Emmy, por quem me apaixonei profundamente. A primeira e única vez na minha vida. E ela também me amava. Resolvemos casar. O único problema era que eu... estava casado. Separado há algum tempo, mas casado. Combinamos que eu voltaria a Nova Iorque, obteria o divórcio e mandaria vir Emmy para casar com ela. Bem, o divórcio deu muito que fazer...

            - Sei como essas coisas são - disse Collins, pegando na mão de Karen.

            - Mas lá acabei por conseguir. Tinha um modesto best-seller, uma biografia política. Concedendo todos os direitos de autor à minha mulher, obtive o divórcio. Preparei-me para mandar vir Emmy. Entretanto, Vernon T. Tynan descobriu-me e decidiu que eu era a única pessoa capaz de escrever a sua autobiografia. Recusei, mas Tynan não gosta de ser contrariado. Fez investigações a meu respeito e soube tudo acerca de Emmy e dos seus pais. Teve conhecimento de que Emmy, como os pais, tinha sido uma anarquista convicta. Mas, ao contrário deles, era apenas passiva, uma intelectual. É uma pessoa delicada, doce e, politicamente, uma teórica, nada mais. Bem, Tynan já tinha o que queria. Atirou-me com ela. Se eu recusasse cooperar com ele no livro, impediria a entrada de Emmy nos Estados Unidos, na medida em que era uma imigrante indesejável. Pelo contrário, se eu colaborasse, faria vista grossa e permitiria a entrada dela quando o livro estivesse pronto. Era uma cenoura pendurada à minha frente. O que é que eu podia fazer? Tinha de a morder. Foi assim que concordei em escrever o livro.

            - Espantoso. Obrigá-lo a trabalhar dessa maneira - disse Karen.

            - Então qual é o seu problema? - quis Collins saber.

            - O meu problema é que Tynan enganou-me duas vezes. Há duas semanas, veio-me parar às mãos todo um novo arquivo de material de pesquisas complementares para o livro: papéis, gravações, papeleiras. Tynan deu-me para copiar. Muita coisa era do antigo Procurador-Geral, mas a maior parte era material novo de Tynan. Eu tinha de tirar os meus apontamentos e devolver depois os originais a Tynan. Ora, ontem, ao passar uma vista de olhos por esses papéis, cheguei a um memorando que Tynan tinha escrito a Baxter (com certeza esqueceu-se que ele ali estava), avisando-o que Emmy Henderson, entre outras pessoas, devia ser proibida de entrar nos Estados Unidos por ser uma imigrante indesejável. O memorando tinha sido escrito depois da promessa dele. Ainda pretende castigar-me por me ter recusado ao princípio. Podem imaginar como fiquei. Desejava atirar-lhe à cara este jogo duplo, mas tive medo. Não sabia o que fazer. Foi então que me lembrei que devia existir uma cópia deste memorando nos arquivos dos Serviços de Imigração e Naturalização e que estes Serviços estão sob a sua alçada. É esta a outra razão por que desejava falar consigo hoje. Para lhe perguntar se me podia ajudar.

            Collins não hesitou.

            - Sim, a Imigração é um dos meus departamentos. Posso intervir na admissão de imigrantes. Terei muito prazer em ver a ficha da sua Emmy. Pela sua parte, mande-me os papéis que tem do pedido de imigração. Vou rever o caso. Se ele for como diz...

            - Garanto que está limpa.

            - Então passarei por cima da recomendação de Tynan e verei se ela é autorizada.

            - Senhor Collins, não posso exprimir-lhe a alegria que me deu. Não sabe como apreciei a sua atitude, o que ela significa para mim. Não faz idéia de quanto lhe devo.

            Collins sorriu.

            - Sei o que eu lhe devo. Mas isso não está em causa. É um assunto de justiça.

            Karen era a única pessoa à mesa que ainda estava perturbada.

           - Desejo que o faças, Chris. Mas estou preocupada com Tynan. Ele não vai gostar. Pode vingar-se.

            - Não te aflijas - disse-lhe Collins. - Sei como hei de tratar do assunto. - Olhou para Young. - Continue a tratar do seu livro como se não soubesse de nada. Encarregar-me-ei do caso pessoalmente. Ele nunca há de chegar a saber o que se passou.

            Karen pareceu aliviada, embora ainda pensasse em Tynan:

            - Ele costuma fazer coisas destas muitas vezes? Refiro-me ao diretor Tynan e às suas interferências na vida das pessoas. Comportar-se dessa maneira! É incrível!

            Ishmael Young fez que sim com a cabeça, antes de continuar a comer.

            - Não há ninguém como ele. Com o seu aparelho de investigação, é o Grande Irmão. Tenho certeza de que não há nada na sua vida, senhora Collins, ou na sua vida, senhor Collins, ou na minha própria vida, que Vernon T. Tynan não saiba. Cheguei à conclusão que ele é o homem mais poderoso do país. Ou se ainda não o é, vai sê-lo assim que a 35.a emenda for aprovada.

            - Não será aprovada - disse Collins tranqüilamente - Depois de amanhã estará morta e nós voltaremos a viver. Portanto, não se preocupe com Tynan. Coma, acabe de beber e seja feliz. Esta noite estamos a comemorar.

            Quando Karen Collins, vestindo uma fina camisa de noite azul-claro, emergiu para o quarto, todas as luzes estavam apagadas, exceto o candeeiro da sua mesinha de cabeceira. O relógio elétrico por baixo da luz disse-lhe que faltavam dez minutos para a uma da manhã. No extremo oposto da cama, já enfronhado na roupa, o marido estava estendido com a cabeça mergulhada na almofada, de costas para ela.

            Ela levantou a roupa e deslizou para o seu lado da cama espaçosa. Soerguendo-se, inclinou-se para ele. Collins tinha os olhos fechados.

            - Obrigado por esta noite encantadora, querido - murmurou.

            - Hum, hum - respondeu ele fatigado.

            Ela baixou a cabeça e tocou-lhe com os lábios no rosto.

            - Boa noite, amor. Estás tão cansado. Dorme bem. Pareceu-lhe ouvi-lo dar-lhe as boas-noites.

            Olhou-o por breves instantes, depois voltou a deitar-se, deslizou para o seu lado da cama e deitou-se de costas, sem apagar a luz. Ficou a olhar pensativamente para o teto. O seu espírito voltou à noite, ao Jockey Club, aquele escritorzinho rechonchudo chamado Ishmael Young. Ele tinha dito ao princípio: o diretor sabe tudo.

Ele tinha dito mais tarde: tenho certeza de que não há nada na sua vida, senhora Collins, ou na sua vida, senhor Collins, ou na minha própria vida, que Vernon T. Tynan não saiba. Ela pensou nisso, enquanto olhava para o teto, e pensou nos tempos de Fort Worth, no Texas. Sentia a agitação a crescer dentro de si, e subitamente teve medo. Virando a cabeça para ele na almofada, fixou o olhar na sua nuca, e umideceu os lábios secos. Ainda estava a tempo de falar. Talvez não fosse conversa para a cama, talvez não fosse bom tema para um momento em que ele estava tão cansado - mas chegara o momento de lhe falar.

            - Chris - chamou-o ela. - Amor, tenho de te dizer uma coisa... uma coisa que ainda não tive oportunidade de te contar. Parece-me que chegou a ocasião. Já te devia ter dito, mas de qualquer forma é uma coisa que deves saber. Passou-se pouco antes de nos conhecermos. Ouve-me, amor. Deixa-me contar-te tudo de uma vez. Está bem?

            Esperou pela resposta, e acabou por a ouvir.

            Ele ressonava levemente.

            Demasiado tarde.

            Com um suspiro preocupado, afastou-se, levantou a mão para apagar a luz, depois deixou-se afundar profundamente na almofada, de olhos abertos na escuridão.        Estremeceu: recordando o passado, antevendo o futuro.

            Fechou os olhos, vivendo por trás deles algum tempo, até o sono começar a espalhar a escuridão dentro dela. Talvez, pensou, num último pensamento reconfortante, talvez esteja a ser infantil e tonta, talvez esteja com medo da noite. Não há monstros lá fora. Só pessoas. Pessoas como tu e eu. Boa noite, Chris. Juntos, estamos em segurança, não é verdade?

            Sentiu-se mergulhar para o fundo, sempre mais para o fundo, até à terra onde começam os sonhos.

            No edifício J. Edgar Hoover, Harry Adcock, tendo acabado o almoço ligeiro, deixou o seu gabinete no sétimo andar e dirigiu-se ao elevador. O seu destino nesta tarde de domingo, como acontecia todos os dias desde que o chefe lhe dera essa ordem de prioridade absoluta, era o complexo de informática do FBI nas traseiras do primeiro andar.

            Ao descer no elevador, Adcock recordava as palavras exatas de Tynan:

            "Comece pelo nosso Procurador-Geral Collins. Quero que o FBI proceda a uma investigação secreta a seu respeito... Quero que Collins seja investigado com dez vezes mais cuidado que da primeira vez... Procurem toda a gente que tiver contactado com ele em qualquer altura da vida."

            Adcock apressara-se a reunir duas das mais duras forças de choque. A maior, cuidadosamente escolhida entre 10.000 agentes especiais no exterior, estava a trabalhar por todo o país. Estes agentes tinham sido selecionados não só pela sua experiência e perícia, mas também pela sua lealdade para com o chefe. A menor tinha sido formada pelos agentes de maior confiança e mais discretos do quartel general, e estavam concentrados no chamado trabalho documental. As duas forças tinham mergulhado imediatamente na investigação de Collins. Tinham realizado o seu trabalho no maior sigilo e sem dar nas vistas (na medida do possível), produzindo resmas de material nesses dias de trabalho intenso, A vida de Collins tinha sido dissecada, bem como as vidas dos seus parentes, associados e amigos. Até à data, pelo menos até à véspera, os resultados tinham sido terrivelmente desapontadores para Adcock. Tudo o que se tinha descoberto sobre Collins e os que lhe eram chegados era legítimo, legal, correto, honesto e decente, confirmando a investigação anterior do FBI. Quase todas as portas fechadas tinham sido escancaradas. Nenhuma escondia um esqueleto. Era estranhíssimo e Adcock não queria crer em tal. Já estava no serviço há muito tempo, tinha visto muita maldade nos seres humanos para acreditar em pureza. Se se cavar bem fundo e na extensão conveniente, se se cavar duramente, surge lama mais cedo ou mais tarde.

            É claro que tinha mantido Tynan ao corrente das investigações. Todavia, uma vez que Tynan não estava interessado em conhecer pormenores, mas sim resultados finais, Adcock não lhe contara os insucessos diários em desenterrar qualquer coisa de valor prático. Limitara-se a dizer-lhe que o trabalho estava a andar; que estavam a ser seguidas hipóteses e pistas desde Oaklandaté Albany.

            Felizmente, o dia de hoje seria melhor e haveria qualquer coisa satisfatória e útil para relatar ao chefe.

            Chegado ao primeiro andar, Adcock saiu do elevador e ultrapassou a fonte ornamental do complexo de informática do FBI.

            Lá dentro, deitou os olhos à placa mural em que se lia: CENTRO NACIONAL DE INFORMAÇÃO CRIMINAL. Sentiu-se mais seguro. Os seus olhos deslizaram então pela aparelhagem da ampla sala: a máquina de escrever automática, as unidades de gravação magnética, o impressor de 1100 linhas por minuto. Sentia-se cada vez mais seguro. Nenhuma impureza humana podia escapar à detecção daquelas máquinas, tal como nenhuma fraqueza humana podia deixar de ser detectada pelos persistentes rastrejadores de sangue do país.

            Vagueando pelo complexo, Adcock procurou Mary Lampert. Era a oficial mais graduada das comunicações e o seu principal contato ali embaixo. Incapaz de a localizar, parou para perguntar por ela a um operador. Soube que tinha saído há pouco e que voltaria daí a poucos minutos.

            Descobriu uma cadeira e sentou-se para esperar.

            Observando novamente a rede de computadores, lembrando-se da divisão de identificação lá em cima, pensando nos agentes do exterior, Adcock ficou certo de que teria boas notícias para o chefe mais cedo ou mais tarde. Era só uma questão de tempo. A linguagem na cabeça de Adcock era a linguagem das infindáveis estatísticas. Para se sentir ainda melhor, recordou-as. Rede de computadores. Provenientes de 40.000 delegações federais, estaduais e regionais, os dados vinham alimentar os computadores. Eram recolhidos e arquivados dados não só de pessoas com cadastro, não só de potenciais criminosos ou perturbadores da ordem, mas de dissidentes em geral, de congressistas, de membros do governo, de críticos dos Estados Unidos, enfim, de praticamente todos os indivíduos com mais de dez anos de idade. Considere-se apenas o registro de cadastros. Cerca de 49% da população seria presa pelo menos uma vez na vida, tendo em conta as infrações ao código da estrada. 90% dos adultos negros seriam presos pelo menos uma vez na vida e o mesmo aconteceria a 60% dos adultos brancos do sexo masculino. Tudo o que se referia a essas prisões estava registrado em bancos de dados. Com um nível tão elevado na taxa de criminalidade, mesmo excluindo as violações de tráfego, cerca de nove milhões de pessoas seriam presas nesse ano. Perto de metade não seriam condenadas ou veriam os processos arquivados ou seriam julgadas e absolvidas, mas todas elas passariam a constar nos bancos de dados. Além das informações de 275 milhões de registros de polícia havia também dados, devidamente guardados, de 350 milhões de notas de casos médicos, de 290 milhões de relatórios psiquiátricos e de 125 milhões de dossiers de crédito comercial.

            Divisão de identificação. Em cada dia, em cada vinte e quatro horas, chegavam ao FBI cerca de 34 mil jogos de impressões digitais, sendo 15 mil provenientes das esquadras de polícia e 19.000 dos serviços governamentais, bancos, companhias de seguros, repartições de licenças e outras fontes. Num único dia, recorde-se. Em 1975, o FBI tinha 200 milhões de jogos de impressões digitais nos arquivos. Hoje, devia ter 250 milhões. Um terço dos cartões estava nos arquivos criminais e dois terços em arquivos comuns.

            Agentes do FBI no exterior. Eram mais de 10.000, incluindo a força de choque que estava a trabalhar nesta investigação. A força de choque tinha andado a contatar com familiares, amigos, conhecidos, associados em negócios, a visitar escolas, clubes, donos de lojas, banqueiros, médicos, advogados. Eles lá andavam, sim, a gravar e a instalar escutas, a espiar como sombras e a seguir o rastro, a contatar informantes, a tirar fotografias. Eles lá andavam a entrar em apartamentos e casas de proprietários ausentes, a examinar o conteúdo de caixotes de lixo, a abrir e inspecionar a correspondência que voltavam a fechar.

            Maravilhoso. Quem podia escapar ao exército de Tynan? Se houvesse impurezas, seriam encontradas, sem dúvida que seriam encontradas.

            Harry Adcock estava contente por ter feito o inventário mental. Sentia-se cada vez melhor.

            As suas divagações foram interrompidas por um rosto feminino que se aproximou do seu. Sentiu o perfume, e ouviu-a sussurrar:

            - Olá, Harry.

            Ele levantou a cabeça. Miss Lampert tinha voltado.

            - Fi-lo esperar muito?

            - Não, não. O que temos hoje?

            - Venha ao gabinete.

            No austero cubículo, sentou-se em frente da secretária dela. Viu-a dirigir-se ao arquivo à prova de fogo e abri-lo. Mary Lampert tinha 32 anos e 1,70 m de altura. Usava um penteado fofo e tinha olhos verdes frios, nariz curto e largo, lábios carnudos, úmidos e sensuais. O vestido não era à medida dos seus peitos altos e firmes, nem das generosas coxas, revelando a linha das calças.

            O rosto cravado de acne de Adcock descontraiu-se com aquela visão de prazer.

            Ela regressou para junto dele.

            - Aqui tem - disse ela, entregando-lhe uma pasta de papel.- São os últimos dados relativos às últimas vinte horas.

            Ele abriu a pasta e esquadrinhou, voltando as páginas. Quando acabou, o prazer tinha-lhe abandonado o rosto, substituído pelo desgosto.

            - Que diabo - disse. - Nada.

            Mary fez que não com a cabeça.

            - Foi o que também me pareceu. Parece uma investigação feita ao Clube dos Escuteiros e Guias da América.

            - Temos de continuar a tentar, Mary. O chefe espera...

            O telefone tocou e ele interrompeu a conversa enquanto Mary atendia.

            - Ah sim? - disse ela ao telefone. - Vou imediatamente. -

            Adcock olhava-a interrogativamente.

            - Divisão de identificação - disse ela. - Espere aqui; volto num instante. É sobre o nosso caso, mas não sei o quê.

            Dirigiu-se à porta. Adcock viu-a sair, com o elástico das calças marcado ao longo das ancas. Não se podia esquecer de lhe dizer para levar aquele vestido da próxima vez que fosse chamada ao chefe. Isso orientou os seus pensamentos para Vernon T. Tynan, para a sua responsabilidade perante Tynan: sempre tinha feito tudo para agradar a Tynan, para o fazer feliz, e não o podia abandonar nesta perseguição ao traidor do Collins. Nunca tinha deixado ficar mal o chefe até então e não queria que isso acontecesse agora, especialmente num momento em que estava tanta coisa em jogo. Tynan tinha-o protegido sempre, e, raios!, daria a vida por Tynan se fosse necessário. Sabia perfeitamente que as pessoas desta cidade mesquinha falavam das relações entre eles, entre ele e Tynan. Sempre tinha suspeitado de tais conversas, acabando por ter a confirmação numa festa da alta sociedade de Washington -gente do Congresso, do Ministério dos Estrangeiros, enfim, o costume- durante a qual gravou um grupo que conversava. Ouviu-os chicanar e rir de Vernon T. Tynan e Harry Adcock, a quem chamavam homossexuais. Sempre soubera que falavam deles, mas ali tinha a prova: Tynan e ele, duas belas!

            Nunca tinha ficado tão furioso.

            Não que se importasse, mas era uma brincadeira falsa e injusta.

           Na verdade, Adcock amava Tynan, mas como um homem pode amar outro, sem ser homossexual. Que diabo, ele amava Tynan e venerava-o. Quanto ao resto, Adcock já tivera uma mulher - há tanto tempo que já não se lembrava do seu aspecto. Mas ela tinha morrido antes de poderem casar, muito antes de ter entrado para o FBI. Tynan não era um substituto dela, era antes o pai que jamais tinha conhecido, pois passara a mocidade num orfanato. De fato, dera-se com algumas mulheres, poucas, durante os primeiros anos de FBI, simples companheiras de cama; mas assim que começou a trepar no serviço, Tynan impôs-se e não houve mais nenhuma. Tinha-se dedicado ao serviço - a Tynan e ao serviço - e a mais ninguém. Tinha jurado celibato, tomando o FBI como ordem religiosa.

            Quanto a Vernon T. Tynan, que estupidez! Aqueles pedantes não viam que Tynan era normal quanto a mulheres, mas era cuidadoso e discreto, dada a sua posição crítica.

            Certo dia - recordava Adcock vagamente -, Tynan tinha sido visitado por algumas raparigas, enviadas por uma senhora agradecida de Baltimore. Mas como Tynan não gostava nem ousava comprometer-se muito, tinha-as mantido à distância. Consentira apenas que falassem com ele. Mas há três anos, quando a tal senhora morreu ou se retirou do negócio, Tynan tinha descoberto outra saída para as suas necessidades sexuais. Tinha de ser cauteloso, mas felizmente tinha conseguido uma solução brilhante. O FBI estava a aumentar os seus quadros de pessoal feminino, não só de secretárias e simples empregadas, mas também de agentes especiais e operadoras de computadores; Tynan tinha alvitrado que o seu velho ajudante Adcock filtrasse as concorrentes femininas e fizesse uma prova com as melhores a respeito da sua experiência com computadores e da sua condescendência sexual, escolhendo apenas as mais qualificadas. Mary Lampert tinha conseguido o emprego. O seu trabalho normal era de cinco dias por semana no quartel general do FBI e uma noite por semana na casa suburbana de Vernon T. Tynan.

            Uma noite por semana (todas as sextas-feiras à noite), Mary Lampert, disfarçada com pastas debaixo do braço, ia a casa de Tynan, uma casa bem protegida na Geórgia, perto de Rock Creak Park. Acompanhava o chefe em três ou quatro bebidas, despia-o e despia-se. Brincavam na cama. Depois, metia a cabeça entre as pernas dele. Era como um relógio, todas as semanas, uma vez por semana, durante anos. Quem se julgavam aqueles pedantes para dizerem que Tynan não era normal?

            Ena, pensou Adcock, como ficariam espantados aqueles pedantes da capital se soubessem que o diretor e o adjunto eram seres humanos normais: provavelmente os únicos seres humanos normais (à exceção do Presidente) no meio dessa comunidade depravada. E também era normal, pensou Adcock, que ele se fizesse valer junto de Tynan pela sua lealdade e dedicação como servidor daquele que era efetivamente o maior homem dos Estados Unidos da América.

            Era por isso que não podia desapontar Tynan neste importantíssimo assunto da investigação sobre Collins. No entanto, apesar da aplicação e dos esforços, não tinham ainda conseguido abrir uma brecha. Estava novamente a ficar desolado e desanimado, quando viu que Mary Lampert, a primeira oficial das comunicações, se encontrava à sua frente, sorrindo-lhe. Com um floreado, pousou uma ficha de impressões digitais e um molho de papéis agrafados no colo de Adcock.

            - Boas notícias, Harry. Ele ficou pasmado.

            - O que é?

            - A investigação Collins. Acaba de chegar. Veja você mesmo. Ele pegou no molho de papéis, examinou a ficha de impressões digitais, confuso, e começou a folhear os papéis um a um. A perplexidade depressa se desvaneceu.

            - Meu Deus! - disse ele, sorrindo finalmente.

            Faltavam cinco minutos para as oito da manhã. Chris Collins, em frente do espelho da casa de banho, acabava de se barbear. Ensaboou mais uma vez a cara, curvou-se sobre o lavatório, espalhou água quente pelo rosto e limpou o sabão.

            Endireitando-se, começou a cantarolar enquanto se via ao espelho. Nos últimos tempos, o espelho tinha refletido uma cara esguia e magra que parecia constantemente macilenta e carregada de anos. Mas nessa manhã, o seu rosto estava (ou parecia estar) tão saudável e fresco como o de um jovem atleta.

            Talvez a transformação se devesse ainda à sua alegria.

            Desde o telefonema do Presidente do Supremo Maynard, dois dias antes, quando ele lhe confidenciara que ia resignar do cargo e manifestar-se contra a 35.a emenda, Collins tinha ficado realmente animado. Nem mesmo as últimas notícias, durante o jantar da noite anterior (o aviso de Ishmael Young de que estava a ser secretamente investigado) tinham destruído a sua boa disposição. No dia anterior, refletindo sobre o comportamento de Tynan, tinha considerado várias vezes a hipótese de enfrentar o diretor e revelar o que sabia. Claro que isso embaraçaria Tynan e levaria ao fim imediato da investigação. Mas tinha acabado por decidir não se importar com isso. Deixaria Tynan fazer o seu jogo inútil. Afinal, Tynan nada descobriria. Não havia nada a esconder no passado de Collins nem na sua presente atividade. Além disso, a sua competição com Tynan estava prestes a terminar. Collins sabia que agora tinha todos os trunfos.

            Persuadir John G. Maynard a manifestar-se tinha sido a vitória final. Desse modo, todas as táticas da oposição seriam anuladas. O sonho de glória de Tynan, o sonho de conseguir poderes ditatoriais através da emenda, terminaria no momento em que Maynard erguesse a voz em Sacramento contra a emenda. Mesmo a arma misteriosa de Tynan, o Documento R, fosse ele o que fosse, poderia ser esquecido. Apesar do aviso, feito por Baxter no leito de morte, de que devia ser exposto, o Documento R tornar-se-ia inoperante e inofensivo com a declaração de Maynard hoje em Sacramento.

            Esfregando a cara para a secar, Collins tirou uma camisa azul de um cabide e vestiu-a. Enquanto a abotoava, calculava qual seria o momento exato da vitória da democracia nos Estados Unidos. O relógio da prateleira de azulejos sob o espelho da casa de banho marcava exatamente oito horas aqui em Washington. Portanto, eram cinco da manhã na Califórnia. Neste momento, Maynard devia estar a levantar-se e a preparar-se para a viagem de duas horas de Palm Springs a Los Angeles. Aí, às nove horas, quando Collins interrompesse o trabalho para almoçar, Maynard estaria a dar a conferência de imprensa, espantando a nação com a resignação e espantando a Califórnia com a comunicação de que ia voar para a capital no sentido de exortar os órgãos legislativos a derrotar a 35.a emenda. Na capital estadual, às três horas, quando Collins regressasse do serviço para jantar, Maynard estaria a ler a sua declaração escaldante contra a emenda, primeiro perante o comitê judicial da Assembléia, depois no comitê judicial do Senado. Daí a algumas horas, a Assembléia da Califórnia estaria a votar a emenda à Constituição, sendo depois a vez do Senado. Mas nem sequer seria necessário o Senado. Morreria para sempre na primeira apresentação à Assembléia. A opinião de Maynard, a sua influência e o seu prestígio, dominariam o dia.

            Collins deu-se conta que estava a assobiar o "Glory, glory, hallelujah", achou que isso estava desatualizado e parou. Tinha posto a gravata e dado o nó, preparando-se para tomar um pequeno almoço apressado com Karen antes de correr para o serviço, quando ouviu bater à porta da casa de banho.

            - Chris?

            - Sim?

            - Está aqui um indivíduo que quer falar contigo, um tal Dorian Schiller. Diz que é um amigo...

            Collins abriu a porta.

            - Dorian Schiller?

            - Não conheci o nome. Por isso não o deixei entrar. Vou dizer-lhe...

            Karen preparava-se para se afastar, quando Collins se aproximou e a agarrou pelo ombro.

            - Não, espera Karen. É o nome falso que dei a Donald Radenbaugh.

            - Quem?

            - Não interessa. Explico-te depois. É um amigo. Deixa-o entrar. Eu já vou.

            Enquanto ela se dirigia à porta da rua para receber Radenbaugh, Collins foi buscar o casaco do terno ao quarto de toilette. Vestindo-o, interrogava-se sobre o que quereria Radenbaugh àquela hora. Após o regresso de Argo City, ainda só o vira uma vez, embora falasse diariamente com ele pelo telefone. Tinha instalado Radenbaugh num apartamento de duas divisões do Madison Hotel, na 15.a Avenida, esquina da Rua M, e tinha-lhe levado todos os apontamentos disponíveis e investigações feitas sobre um plano alternativo de combate à criminalidade e ao desrespeito pela lei no país. Era um plano alternativo à 35.a emenda, que Collins pretendia apresentar ao Presidente na primeira reunião subseqüente à rejeição da emenda.

            O aparecimento de Radenbaugh era uma surpresa. Collins tinha-lhe dito claramente que seria melhor não se aventurar além das proximidades do hotel, que se fechasse no seu apartamento. Ele tinha sido muito conhecido em Washington. Embora o seu aspecto tivesse sido consideravelmente alterado, alguém que o tivesse conhecido poderia reconhecê-lo. Isso poderia trazer problemas, possivelmente até a sua morte. Collins queria-o em Washington apenas durante o tempo necessário para desenvolver a nova lei criminal, enquanto se desenvolviam esforços para lhe arranjar um emprego numa pequena comunidade de uma região remota do país.

            Preocupado, Collins saiu do quarto de toilette, atravessou o banheiro e o quarto, percorreu o corredor e entrou na sala de estar. Esperava que Radenbaugh se tivesse sentado, mas estava de pé, passeando agitado. Karen estava junto da mesa, pousando o tabuleiro do pequeno almoço.

            - Donald - cumprimentou-o Collins -, não o esperava por cá. Já conhece a minha mulher...?

            Randenbaugh parou, como se não tivesse ouvido, mas Karen declarou que já se tinham apresentado mutuamente. Acrescentou:

            - Vou buscar suco, café e torradas e deixo-os conversar.

            Karen saiu.

            Radenbaugh fixou Collins, com a desgraça estampada no rosto.

            - Más notícias - disse finalmente -, muito más notícias, Chris. Antes que Collins pudesse reagir, Radenbaugh continuou rapidamente. - Estão a dar na televisão desde as seis da manhã. Ligo sempre o aparelho quando me levanto. Tentei telefonar-lhe imediatamente, mas esqueci-me do seu número. Por isso, vim cá.

            Collins não se mexeu. Palpitava-lhe um desastre.

            - O que foi, Donald. Você parece um frangalho.

            - A pior notícia possível - disse Radenbaugh, respirando como um asmático. - Chris, não sei como dizer-lhe...

            - Diabos, o que foi?

            - O Presidente do Supremo e a mulher foram assassinados na cama, esta noite, mortos por um vulgar assaltante de casas.

            Collins sentiu os joelhos fraquejarem.

            - Não posso acreditar.

            - Em Palm Springs, na Califórnia, por volta das duas da manhã. Maynard e a mulher, Abigail, estavam na cama a dormir. Aquilo que percebi foi que alguém entrou pelo portão de serviço. Essa pessoa introduziu-se no quarto. Parece que Maynard já estava acordado. Tentou sair da cama ou fez um movimento. O pistoleiro atirou duas vezes com uma Walter de 9 mm P-38. Atingiu-o no peito e na cabeça... teve morte instantânea. O barulho acordou a mulher e o assassino alvejou-a com três balas...

            - Meu Deus, nunca ouvi uma coisa assim!

            - Até fiquei arrepiado. Não sabia como lhe havia de comunicar.

            Collins vagueava desconsolado pela sala, batendo constantemente com o punho na palma da mão.

            - Uma tragédia assim. Quem podia imaginar? E não é só o assassinato sem sentido de um dos maiores homens da nação, é também a destruição da nossa última esperança em acabar com a ameaça de uma ditadura. Que diabo, para onde vai este país?

            - Quer dizer, para onde irá - corrigiu Radenbaugh. - Onde tem o aparelho de televisão?

            - Aqui - disse Collins dirigindo-se para o corredor.

            Radenbaugh seguiu-o.

            - Estão a transmitir direto de Palm Springs desde as seis da manhã. Vamos ver o que se está a passar.

            Entraram no escritório coberto de prateleiras de livros. A televisão estava anichada na parede. Radenbaugh sentou-se no sofá em frente, enquanto Collins ligava o aparelho e o sintonizava.

            Collins sentou-se no braço de uma cadeira e empurrou-a para perto da televisão. A câmara focava a frontaria da casa moderna e deserta onde a tragédia tinha ocorrido. Um cordão de policiais estacionava no passeio em frente. Detetives à paisana entravam e saíam pela porta principal. No exterior, dezenas de vizinhos, muitos ainda em pijama, observavam a cena, abalados.

            Agora a câmara móvel focava o repórter da televisão, aproximava-se dele.

            "Foi este o palco da tragédia, ainda não há três horas -informava o locutor. - Aqui, nesta rua lateral, calma e pacífica do mais famoso refúgio da Califórnia, quase deserto no tempo quente de Verão, o Presidente do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América, John G. Maynard, e a sua esposa, encontraram a morte violentamente, às mãos de um assaltante desconhecido. - O locutor, segurando o microfone, apontava para a casa vivamente iluminada pelos projetores da polícia e da televisão.

            - Os corpos foram retirados há pouco mais de uma hora. Não só os corpos do Presidente do Supremo e da esposa, mas também o do assassino ainda não identificado, que foi abatido pelas balas da polícia antes de poder fugir. - O locutor levantava o microfone à medida que se acercava da câmara. Vou recapitular uma vez mais o que se sabe sobre o que aconteceu aqui em Palm Springs nesta madrugada..."

            Collins sentou-se hipnotizado em frente da televisão, escutando.

            Tudo levava a crer que o intruso estava familiarizado com a disposição da casa de Maynard. Depois de entrar pelo portão de serviço, dirigira-se ao quarto para se apoderar dos valores da Senhora Maynard. Ao entrar no quarto, acordara o Presidente Maynard. A polícia pensava que Maynard, percebendo o que se estava a passar, se teria soerguido, premindo um botão de alarme colocado na parede. O alarme tinha sido instalado seis anos antes pela polícia local para dar maior segurança ao eminente cidadão. O alarme silencioso estava diretamente ligado à esquadra. A polícia tinha sido alertada imediatamente. Entretanto, assim que vira Maynard mexer-se, o assassino tinha aberto fogo sobre ele. Quando a Senhora Maynard acordara, erguendo-se, o assassino também tinha disparado sobre ela. Tinham morrido ambos em poucos segundos. Então, em vez de fugir, o assassino tinha continuado no quarto para completar a sua tarefa. Desconhecendo que a primeira vítima tinha acionado o alarme silencioso, esquadrinhara o quarto à procura de dinheiro e jóias. Depois de ter metido ao bolso o colar e os brincos da Senhora Maynard e a carteira do Presidente tinha-se retirado pelo mesmo caminho por onde entrou. No passeio fronteiro, dirigira-se para o Plymouth, anteriormente alugado em Los Angeles, que estava estacionado à distância de dois quarteirões. De repente, fora apanhado pelo holofote de um carro da polícia que se dirigia para ele. Tinha começado a correr, parando depois para abrir fogo sobre os policiais quando estes tinham saído do carro. Os policiais tinham-lhe respondido com uma saraivada de balas, que o deixaria morto no passeio. Além dos objetos roubados que levava nos bolsos, não tinha nada de pessoal. A sua identidade continuava a ser desconhecida.

            O repórter da televisão tinha acabado a recapitulação.

            - Agora voltamos aos estúdios em Los Angeles para conhecermos as últimas notícias sobre o assassínio do Presidente Maynard e da sua esposa.

            Na cadeira de braços, observando, ouvindo, Collins sentia um amargo desespero.

            - Com que fim? - perguntou-se.

            - Tem aqui um cigarro - disse Radenbaugh, oferecendo-lhe o maço aberto.

            Collins tirou um cigarro, mas pousou-o depois na mesa.

            - É melhor tomar primeiro um café.

            Levantou-se e voltou à sala. Pegou no tabuleiro que Karen lá deixara e levou-o para o escritório. Serviu o café morno a Radenbaugh e a si próprio. Enquanto bebia, Collins sentou-se novamente na cadeira e prestou atenção à televisão.

            Um locutor, sentado atrás de uma mesa em meia-lua, pegou numa folha que acabara de ser posta à sua frente.

            ''É outra informação de última hora - anunciou. - O Presidente do Supremo Maynard tinha chegado ontem inesperadamente a Los Angeles. Nem os membros do seu pessoal em Washington nem os seus colegas do Supremo Tribunal sabem explicar esta viagem repentina que não estava programada. Mas já possuímos alguns elementos. Logo após a chegada a Los Angeles, o Presidente e a esposa partiram para a residência de Inverno em Palm Springs. Na manhã seguinte, o Presidente Maynard contactou com um velho amigo em Sacramento, James Guffey, porta-voz da Assembléia do Estado, e declarou que tencionava voar para a capital no dia seguinte (isto é, hoje à tarde) para comparecer perante o comitê judicial da Assembléia. Disse que queria discutir a 35.a emenda com os membros do comitê antes de ela ser posta à votação. Guffey ficou encantado e informou o Presidente do Supremo que seria ouvido na qualidade de última testemunha e mais importante. Guffey afirmou esta manhã que não fazia idéia do que Maynard ia dizer sobre a emenda e que ele não lhe tinha revelado se tomaria uma posição contrária ou favorável. Guffey acrescentou que durante a conversa telefônica tinha criticado o Presidente do Supremo por ir para Palm Springs fora da estação: 'O que é que está aí a fazer?', perguntou-lhe Guffey, e Maynard respondeu: 'Precisava de um lugar onde tivesse paz para pensar. Tencionava escrever a minha comunicação aqui. Mas resolvi levar o dia a pensar e amanhã falarei de improviso perante o comitê. Já tenho uma idéia geral do que vou dizer'."

            "Agora, a morte calou o Presidente do Supremo e nunca saberemos o que ele tencionava dizer sobre este importante assunto: a votação crucial da 35.a emenda na Califórnia. Também soubemos que, antes de seguir para Sacramento, o Presidente do Supremo tencionava dar uma conferência de imprensa no Hotel Embaixador, em Los Angeles. Se ele ainda estivesse vivo, a conferência realizar-se-ia daqui a poucas horas. Acabei de ser informado que o secretário de imprensa do Presidente dos Estados Unidos irá ler daqui a pouco uma comunicação do Presidente Wadsworth sobre a morte violenta e intempestiva do Presidente do Supremo. Agora vamos passar ao nosso repórter em Washington, junto da Casa Branca..."

            Collins olhou para Radenbaugh.

            - Parece-me que é também o nosso funeral, Donald. Radenbaugh acenou tristemente com a cabeça.

            Collins ergueu os olhos. O choque inicial tinha passado e só restava uma intensa depressão.

            - Sabe, não me lembro de ter acontecido nada pior na minha vida. - Com um gesto indicou a televisão. - Agora o país é deles.

            - Tudo leva a crer - concordou Radenbaugh.

            Ficaram ambos em silêncio, concentrados no aparelho de televisão.

            O secretário de imprensa da Casa Branca estava a acabar de ler o elogio e as condolências do Presidente Wadsworth. A atenção de Collins diminuiu.

            A declaração do Presidente consistia nas palavras habituais, ocas, banais, por vezes sem sinceridade: quando um grande homem morre, parte da humanidade morre com ele. Não restam dúvidas acerca da grandeza de John G. Maynard. Agora pertence ao panteão dos imortais que tentaram dar uma verdadeira justiça à sua terra. Lá estão Marshall, Brandeis, Holmes, Warren, e, acima deles, bem alto, John G. Maynard. Passa a pertencer à história.

E, juntamente com Maynard, também a democracia passa à história, pensou Collins. Morto. Uma relíquia do passado. Sem Maynard a vaga do futuro era a 35.a emenda, Vernon T. Tynan - a nação seria fundida no seu molde.

            Mal pensara em Tynan, quando ouviu o seu nome anunciado pelo repórter da televisão em serviço na Casa Branca.

            "...Vernon T. Tynan. Vamos passar ao gabinete do diretor do FBI."

            Instantaneamente, a familiar cabecinha pequena de Tynan e os seus ombros largos apareceram na televisão. A sua cara fechada tinha assumido o conveniente aspecto de pesar e luto. Começou a ler um papel que tinha na mão:

            ''Esta morte brutal e insensata que levou um dos mais renomados humanitários da nação foi uma perda que não pode ser expressa por simples palavras. O Presidente do Supremo Tribunal era um amigo da nação, meu amigo pessoal, um amigo da verdade e da liberdade. A sua perda feriu a América, mas em atenção a ele a América tornar-se-á suficientemente forte para sobreviver e sobreviverá a todos os crimes, a todos os desrespeitos da lei, a todas as violências. Estou certo de que se o Presidente do Supremo estivesse vivo, quereria que encarássemos esta tragédia num sentido mais amplo. Esta sistemática dizimação dos nossos dirigentes e da nossa cidadania tem de ser estancada, para que os Americanos possam passear nas ruas e dormir com a certeza absoluta de que estão a salvo e livres."

            Tynan olhou para a câmara e pareceu encontrar os olhos de Collins, que o fixava ferozmente. Pigarreou e continuou a falar:

            "Felizmente, o degenerado assassino não escapou. Também encontrou a sua morte violenta. Acabei de ser informado que esse assassino foi identificado. A sua identidade será indicada em breve pelo FBI. Basta dizer, por agora, que era um antigo condenado, um homem com um longo cadastro, a quem se permitiu que andasse em liberdade e vagueasse pelas nossas ruas ao abrigo das disposições ambíguas e frouxas da Declaração de Direitos. Se a Declaração de Direitos tivesse sido alterada há um mês, este terrível crime poderia ter sido evitado. Embora a emenda só possa entrar em vigor em caso de conspiração ou rebelião, o simples fato de ser aprovada geraria uma atmosfera positiva que relegaria as mortes como esta para os anais do passado.   Senhoras e senhores, recebemos hoje uma lição, neste dia de pesar. Vamos trabalhar juntos, de mãos dadas, para tornar a América segura e forte."

            A cara de Tynan desapareceu para dar lugar à do locutor no estúdio da televisão em Washington.

            Ignorando o aparelho, Collins aproximou a cadeira de Radenbaugh. Estava furioso.

            - Este pulha! Como se atreve? Ouviu-o? A fazer a cama à maldita emenda antes do corpo de Maynard ter arrefecido.

            - E lançando-a ao ar de tal maneira que até parece que Maynard a teria recebido de braços abertos - disse Radenbaugh. Apontou para a televisão. - Olhe, parece que vão identificar o assassino.

            - Que interessa isso agora... - disse Collins, que no entanto prestou atenção.

            "Sim, já sabemos a identidade do indivíduo que assassinou o Presidente do Supremo - dizia o locutor. - Acaba de ser confirmada e comunicada. O assassino foi definitivamente identificado como um tal Ramon Escobar, de trinta e dois anos de idade, cidadão americano de origem cubana, residente em Miami, na Flórida. Temos aqui as fotografias retiradas dos arquivos do FBI..."

            Surgiram de imediato duas fotografias de Ramon Escobar, uma de frente, outra de perfil. Mostravam um homem novo, moreno, mal encarado, de cabelo preto encaracolado, patilhas compridas, maçãs do rosto salientes e com o traço lívido de uma cicatriz no maxilar.

            - Ah, não! - arquejou Radenbaugh. - Não!

            Collins, estupefato, voltou-se para ele a tempo de o ver pôr-se de pé num salto. Os seus olhos estavam arregalados, as feições raiadas de sangue e continuava a apontar um dedo para a televisão, tentando dizer qualquer coisa.

            Confuso, Collins aproximou-se do companheiro, tentando acalmá-lo. O dedo que Radenbaugh apontara para a televisão dera lugar a um punho. Radenbaugh ameaçava a televisão com o punho crispado.

            As palavras cavernosas irromperam finalmente.

            - É ele, Chris!-bradou Radenbaugh. - É ele, é ele.

            Collins agarrava-o.

            - Donald, domine-se. O que é?

            - Olhe para ele, olhe para o homem que matou Maynard. É um dos que eu vi. Ouviu o nome? Ramon Escobar. Eu ouvi... Ouvi esse nome na Ilha dos Pescadores, ao largo de Miami, naquela noite. O rosto... É o mesmo rosto, exatamente, reconheço-o... o homem da Ilha dos Pescadores... o homem a quem Vernon Tynan me mandou entregar os 750.000 dólares... é ele, o homem que me tirou o dinheiro. Meu Deus, Chris, sabe o que isso significa?

            O rosto de Ramon Escobar tinha desaparecido, substituído uma vez mais pelo locutor. Collins atravessou o escritório e fechou a televisão. Voltou-se, chocado, lembrando-se da história de Radenbaugh, da sua saída de Lewisburg, da recuperação do milhão de dólares nos pântanos, do transporte dos três quartos de milhão para a Ilha dos Pescadores e da sua entrega a dois homens que Tynan tinha designado.

            Agora descobria-se que o assassino de Maynard era um deles.

            - Acredite que é o mesmo homem - dizia Radenbaugh. - Isso quer dizer que Tynan queria o meu dinheiro para se livrar de Maynard. Isso quer dizer que me tirou da prisão para deitar a mão a dinheiro suficiente para pagar a um assassino profissional, dinheiro que não deixasse rastos, inidentificável. Foi Tynan quem preparou o assassínio.

            Estava decidido a ir até onde fosse preciso para evitar que Maynard liquidasse a 35.a emenda, mesmo que fosse preciso matar o próprio Maynard.

            - Acabe com isso - disse Collins severamente. - Não pode provar nada.

            - Meu Deus, homem, precisa de maior prova? Eu estava com Tynan quando ele me fez a oferta. Tirou-me da prisão, deu-me uma identidade nova, enviou-me a Miami e à Ilha dos Pescadores, mandou-me entregar três quartos de milhão a... a quem? Ao mesmo homem que assassinou o Presidente Maynard na noite passada. Que mais provas precisa?

            Collins tentava pensar, deslindar a trama.

            - Eu não preciso de mais provas, Donald. Acredito. Mas quem mais vai acreditar?

            - Posso ir à polícia. Posso contar-lhes o que aconteceu. Posso dizer-lhes que entreguei o dinheiro a este assassino por ordem de Tynan.

            Collins abanou a cabeça.

            - Não dará resultado.

            - Porque é que não dará resultado? Harry Adcock conhece a verdade. O diretor Jenkins também...

            - Mas não falarão.

            Radenbaugh pegou nas abas do casaco de Collins.

            - Ouça, Collins. A polícia há de acreditar-me. Ainda sou eu. Estive na Ilha. Podemos ver-nos livres de Tynan. Posso contar toda a verdade.

            Collins tirou-lhe as mãos do casaco.

            - Não. Donald Radenbaugh não pode dizer a verdade, porque Donald Radenbaugh não existe: a testemunha não existe.

            - Mas eu estou aqui.

            - Não, quem está aqui é Dorian Schiller. Radenbaugh morreu. Nada prova que esteja vivo. Não existe.

            Subitamente, Radenbaugh sucumbiu. Compreendera finalmente. Olhou para Collins desanimado.

            - Tem razão.

            Como se se tivesse transformado, inspirado por uma nova deliberação, Collins reanimou-se.

            - Mas eu existo - disse Collins. - Vou já direito ao Presidente. De ouvido ou não, acredito em tudo o que você me disse, porque também aprendi à minha custa, e vou apresentar os fatos ao Presidente. É demasiado para ser ignorado. Ele tem de conhecer a realidade, tem de saber que o verdadeiro desrespeito pela lei e os crimes neste país estão a ser cometidos por Tynan. O Presidente não pode deixar de enfrentar a verdade, de forma nenhuma. Uma vez que a saiba, compreenderá o que Maynard queria fazer e fá-lo-á em vez dele: falar ao público, repudiar Tynan, denunciar a 35.a emenda e derrotá-la de uma vez para sempre. Anime-se também, Donald. O nosso pesadelo vai acabar.

                                              

 

            O Presidente dos Estados Unidos empertigou-se na cadeira giratória de couro preto por trás da secretária Buchanan, no Gabinete Oval da Casa Branca.

            - Demiti-lo? - repetiu com uma ligeira elevação do tom de voz. - Quer que demita o diretor do FBI ?

            Tinham estado a falar, sentados neste Gabinete Oval (o Presidente Wadsworth atrás da secretária, Chris Collins na cadeira estofada de madeira preta em frente da secretária), durante vinte minutos. Ou antes, Collins tinha estado a falar, e o Presidente a ouvir.

            Quando Collins solicitara a entrevista nessa manhã, a agenda do Presidente já estava cheia. Collins tinha invocado uma ''emergência'' e o Presidente tinha concordado em conceder-lhe meia hora depois do almoço, às duas horas.

            Assim que entrara no Gabinete Oval, Collins tinha ignorado as formalidades, plantara-se imediatamente em frente do Presidente e enfronhara-se numa narrativa desapaixonada.

            - Julgo que deve conhecer algumas coisas que se estão a passar nas suas costas, senhor Presidente, coisas terríveis - começara Collins -, e já que mais ninguém lhes conta, terei de ser eu a fazê-lo. Não será fácil, mas cá vai.

            Então, quase num monólogo, Collins tinha recitado os incidentes e as ocorrências com que tinha esbarrado desde o aviso do coronel Baxter sobre o Documento R até à identificação do assassino de Maynard por Donald Radenbaugh. Tinha contado tudo sem interrupções, com a clareza de um advogado no tribunal, sem omitir o menor pormenor.

            Tinha concluído:

            - Não há nada na terra que possa justificar a desobediência à lei para preservar a lei. O diretor tem sido a principal mola de tudo isto. Baseado nas provas que acabo de lhe apresentar, senhor Presidente, julgo que não tem outra hipótese senão demiti-lo.

            - Demiti-lo? - repetiu o Presidente. - Quer que demita o diretor do FBI ?

            - Sim, senhor Presidente. Tem de se ver livre de Vernon T. Tynan. Se não para o punir pelos seus atos criminosos, pelo menos para restaurar o seu prestígio e salvaguardar o processo democrático. Embora isso lhe custe a 35.a emenda, preservará a Constituição. Podemos criar um plano melhor para garantir a lei e a ordem neste país, baseado não na repressão e na tirania potencial, mas no melhoramento das estruturas econômica e social da nossa sociedade. Contudo, nada disso é possível enquanto Tynan continuar.

            O Presidente tinha-se mantido extraordinariamente calmo durante a exposição de Collins. Tinha ouvido tranqüilamente e sem manifestações de emoção, a não ser o alisar do seu cabelo grisalho, o esfregar o nariz aquilino, e o pôr a mão em concha no queixo.

            Agora, a sua atitude continuava a ser fleumática. O único movimento que fez, foi levantar um corta-papéis lavrado, sopesando-o na mão numa atitude abstrata, para logo o voltar a pousar na mesa.

            Falou novamente:

            - Então, pensa realmente que o diretor Tynan merece ser demitido?

            - Absolutamente - disse Collins com ênfase. - As razões para a demissão são inúmeras. Tynan deve ser demitido por conspiração ilegal, por abuso do poder, tentando fazer aprovar uma lei que lhe daria um poder supremo. Deve ser demitido por chantagem e interferência nos processos legais. A única coisa de que não o posso acusar é de assassínio, porque não tenho provas. O resto é evidente. Com o seu afastamento (com o fundamento que escolher, baseado nas provas que os meus serviços lhe podem fornecer ainda esta noite), a 35.a emenda morrerá por si. Mas o senhor pode desfazer todo o mal que Tynan fez até hoje, realizando pessoalmente o que o Presidente do Supremo pretendia fazer: manifestando-se contra a emenda e levando a Califórnia a votar contra. Não me parece que isso seja necessário depois de se ver livre de Tynan, mas será um ato consciencioso que lhe conquistará ainda maior respeito.

            O Presidente manteve-se em silêncio por algum tempo, parecendo contemplar tudo o que tinha ouvido. Inesperadamente, levantou-se da cadeira de couro preto, virou as costas a Collins, deslocou a sua figura aprumada para a janela da esquerda, adornada com cortinados verdes, e aí ficou a olhar fixamente para o relvado da Casa Branca e para o roseiral.

            Tenso, Collins esperava. Cruzou os dedos mentalmente. O júri do caso Tynan estava a deliberar. O veredicto não tardaria. O veredicto correto resolveria tudo. Hirto, Collins tinha esperança.

            Depois de uns momentos que lhe pareceram intermináveis, o Presidente afastou-se da janela e dirigiu-se para a sua cadeira. Parou atrás dela, pousou levemente os braços sobre o espaldar, enlaçou os dedos e assentou os olhos em Collins.

            - Bem, bem... - começou. - Tenho estado a pensar em tudo o que disse. Examinei tudo cuidadosamente. Deixe-me dizer-lhe que me espanta. Deixe-me ser tão franco consigo como foi comigo.

            Collins fez um ligeiro sinal com a cabeça e esperou.

            - As suas razões para demitir Tynan! - disse o Presidente. Chris, vamos tentar ser tão objetivos quanto possível. Conhece melhor a lei que qualquer outra pessoa. É o principal advogado do país. Sabe que uma pessoa é considerada inocente até se provar que é culpada. Teorias, boatos, insinuações indiretas, suspeitas, coisas que se sabem por ouvir dizer e deduções não são fatos, provas evidentes e irrefutáveis. A sua prova está assentado em conversas e não em fatos.

            Collins inclinou-se para a frente para interromper, mas o Presidente levantou as palmas das mãos e prosseguiu:

            - Espere! Deixe-me dizer o que tenho a dizer. Quais são as acusações que apresenta contra Tynan? Vejamos. Diz que Tynan empolou as estatísticas criminais da Califórnia. Pode prová-lo efetivamente? Diz que Tynan está a construir campos de concentração por toda a nação. Pode prová-lo? Pode dizer qual é o serviço que está a construir esses campos? Pode demonstrar, sem margem para dúvidas, que essas estruturas se destinam a dissidentes? Temos o contrato de Tynan com Radenbaugh, libertando o condenado de Lewisburg e dando-lhe outra identidade. Pode prová-lo? Pode provar que o acordo foi feito? E que foi Tynan que o fez? E que Radenbaugh não morreu como a prisão anunciou? Temos Tynan a mandar que o dinheiro, de origem pouco clara, fosse entregue ao assassino de Maynard. Pode prová-lo? Pode mesmo? Temos Tynan a utilizar os habitantes de uma cidade de companhia, no Arizona, como cobaias da 35.a emenda. Pode prová-lo? Nós sabíamos que Tynan estava a fazer investigações nessa cidade, mas pode provar que em vez disso estava a utilizá-la com intuitos nefandos? Considera Tynan como o professor Moriarty de uma sinistra conspiração corporizada numa coisa, num plano: o Documento R. Pode prová-lo? Pode dizer se quer que o soube pessoalmente do coronel Baxter? Pode provar que tal documento existe? Ou se existe, que é perigoso? Pode dizer-me o que é e onde está?

            O Presidente Wadsworth retomou o fôlego e prosseguiu:

            - Chris, o que conseguiu senão um tecido de especulações fantásticas e conjecturas? Baseado nessas acusações, a que falta a prova irrefutável, pretende que eu demita o diretor do FBI, um dos homens mais eficientes e populares do país? Chris, perdeu a cabeça? Demitir Tynan? Porquê? A sua causa é indefensável, Chris, impossível.

            Collins afundara-se na cadeira durante a parte final, derrotado, abatido. Contava com dúvidas por parte do Presidente, com alguma discussão, mas não com um ataque declarado contra ele.

            Desesperado, tentou voltar ao ataque.

            - Senhor Presidente, as provas são de vários tipos. Sei que lhe posso trazer provas suficientes para o satisfazer, mas isso leva tempo. E não temos tempo. Primeiro retire Tynan do caminho. É perigoso. Podemos formular depois as provas criminais contra ele. Digo-lhe pelo que ouvi e testemunhei que Tynan há de fazer tudo, absolutamente tudo, para se ver livre da Declaração de Direitos, para ver a 35.a emenda transformada em lei, para destruir a democracia...

            A cara do Presidente tornou-se glacial.

            - Eu também quero ver a emenda aprovada - disse ele. - Isso significa que pretendo destruir a nossa democracia?

            - Não, certamente que não, senhor Presidente - concordou Collins à pressa. - N&ati