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O Domínio do Hipno / Clark Darlton
O Domínio do Hipno / Clark Darlton

 

 

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O Domínio do Hipno

 

                  

 

Mais uma vez, Marte.

O major Deringhouse, o comandante, contemplou, de olhos semicerrados, os infindáveis desertos vermelhos, cortados a espaços regulares por largas faixas verdes.

O planeta Marte era desabitado, ao menos no que dizia respeito a seres inteligentes. Havia alguma vegetação primitiva, especialmente nas partes mais profundas das faixas verdes e nas encostas suaves das montanhas. Nos desertos, viviam insetos e pequenos mamíferos, mas nenhum deles poderia representar um perigo para o homem.

Embora isso ocorresse, era justamente em Marte que o major Deringhouse procurava o mais perigoso dos homens vivos e o inimigo número um da Humanidade. Todas as pistas deixadas pelo criminoso em fuga apontavam para Marte.

Deringhouse suspirou e empinou a nave, fazendo-a subir até que Marte se transformasse num brilhante globo avermelhado, que logo mergulhou nas profundezas do espaço. Passando por Fobos, a nave esférica Good Hope-VII disparou para o espaço vazio.

Imprimindo à nave uma aceleração quase inacreditável, Deringhouse correu em direção ao ponto de encontro combinado. A Good Hope-VII tinha formato esférico e seu diâmetro era de cerca de sessenta metros. Os quinze homens da tripulação perdiam-se no seu interior, mas não havia necessidade de maior número de pessoas para manobrar o artefato, pois quase todos os comandos eram automáticos. Nos grandes hangares daquele gigante, havia espaço para dez destróieres espaciais do tipo mais moderno, que eram tripulados por três homens e alcançavam a velocidade da luz.

Deringhouse pretendia se encontrar com esses dez destróieres.

Não tinha muita certeza de que o Supercrânio poderia ser encontrado em Marte. Era bem verdade que todas as pistas apontavam para o planeta vermelho, mas o sistema solar era muito grande. Havia muitos planetas inexplorados e numerosos satélites nos quais um homem poderia fixar residência por algum tempo, desde que dispusesse dos necessários recursos técnicos. Por que teria escolhido justamente Marte?

O comandante contemplou a tela de popa, onde se via a imagem do planeta, que se desvanecia no espaço. Deringhouse estava sozinho na cabina de controle da nave, e no momento não tinha nada a fazer. Dali a dez minutos teria início a desaceleração automática, que conduziria a nave às coordenadas previamente convencionadas. Talvez os destróieres já se encontrassem lá. Por motivos facilmente compreensíveis, tomou-se a precaução de não recorrer às comunicações pelo rádio.

O Supercrânio era o homem mais perigoso do sistema solar!

Parecia um exagero. Mas Deringhouse conhecia perfeitamente o poder daquele homem. Clifford Monterny, que a si mesmo se chamava de Supercrânio, era um mutante. Seu pai, um cientista muito famoso no seu tempo, fora atingido pelas radiações de um reator atômico avariado; o substrato hereditário do cientista sofrerá uma alteração. Ao nascer, Clifford parecia ser uma criança normal, igual a qualquer outra. Só bem mais tarde revelaram-se suas capacidades extraordinárias. Era um hipno e um sugestor; sabia impor sua vontade a qualquer ser humano, mesmo que se encontrasse no lado oposto do globo terrestre. Mais tarde o dom da telepatia veio se juntar a essas qualidades. As três faculdades reunidas fizeram de Clifford Monterny um homem de extraordinária inteligência. Ajudado pela fortuna que herdara de seu pai, obteve acesso aos círculos mais influentes.

O aspecto exterior de Monterny não era o de uma pessoa atraente. O rosto inchado e a calva reluzente não levavam ninguém a disputar sua companhia. Talvez essa circunstância tivesse tido uma influência na formação de seu caráter.

Clifford Monterny era um mutante e sabia que no mundo havia outros mutantes além dele. Perry Rhodan chegara mesmo a formar um exército de mutantes, e com o auxílio do mesmo construíra um pequeno império. Por que ficaria inativo enquanto outros estavam agindo?

Suas faculdades permitiram que descobrisse treze mutantes e os submetesse ao seu controle mental. Juntamente com eles, começou a campanha contra o maior de seus inimigos, Perry Rhodan.

O rosto do major Deringhouse abriu-se num largo sorriso. Esticou o corpo comprido e soltou um bocejo descontraído.

Pois bem, até mesmo um homem superinteligente como o Supercrânio cometera um erro. Perry Rhodan não era fácil de ser enganado, ainda mais por quem quisesse combatê-lo com suas próprias armas.

Monterny abandonara seus mutantes para fugir com uma nave espacial roubada. E agora ele, o major Deringhouse, fora incumbido por Perry Rhodan de procurar o fugitivo. As buscas já duravam quase trinta dias. E ainda não haviam produzido qualquer resultado.

Voltou a olhar para a tela. Marte transformara-se numa estrela reluzente, que brilhava como um olho avermelhado na noite eterna. Já não se viam seus dois satélites. Deringhouse suspirou e dedicou sua atenção à tela frontal. Uma vez que, segundo se combinara, as comunicações pelo rádio só seriam utilizadas em caso de emergência, o contato com os dez destróieres teria de ser estabelecido através do aparelho de localização ótica.

“Perry Rhodan não ficará muito satisfeito com os resultados de minha missão”, pensou Deringhouse. “Ainda bem que tem bastante que fazer na Terra, pois assim me deixará em paz. Talvez eu tenha sorte e...”

Um relampejo ofuscante arrancou-o de suas reflexões. As mãos hábeis passaram pelo contraste do rastreador ótico. O aspecto tridimensional do espaço vazio desapareceu da tela, reflexos brancos e pretos correram pela lâmina translúcida, agruparam-se e se transformaram numa nova imagem. Viam-se menos estrelas, e as que apareciam estavam inalteradas. Mas o relampejar surgira de novo, desta vez mais perto e mais nítido. E continuou. Deringhouse acenou com a cabeça.

Um dos destróieres já estava ali.

Meia hora depois o envoltório gigantesco da Good Hope-VII havia acolhido em seu interior as pequenas naves recém-chegadas. Deringhouse pediu que os comandantes comparecessem à sala de comando e relatassem as ocorrências.

— Tenente Hill, você teve a seu cargo o setor BNZ. Observou alguma coisa?

Um homem ainda jovem, com o uniforme da Terceira Potência, adiantou-se e fez continência. Seu rosto delicado apresentava rugas causadas pela apreensão.

— Sou o tenente Hill, comandante do destróier Z-VII-1. Nenhuma ocorrência especial. Patrulhamos o setor do espaço que nos foi indicado e prestamos atenção especialmente a eventuais emissões de rádio. Não captamos nenhuma. Também a localização ótica não produziu qualquer resultado. Nada mais a relatar.

— Capitão Berner, comandante da Z-VII-7. Também não registramos qualquer acontecimento digno de nota. Passamos a uma distância segura por uma chuva de meteoritos.

Os relatórios dos outros comandantes não foram muito diferentes. Quando o comandante do nono destróier concluiu seu relato, Deringhouse lançou um olhar sobre a tela do localizador ótico. Sacudiu a cabeça.

— Onde ficou o Z-VII-3? — perguntou. — Já devia ter chegado há muito tempo.

Não obteve resposta. E nunca obteria, pois a nave Z-VII-3 continuaria desaparecida.

 

O sargento Raab sentiu um tédio terrível, pois aqueles incessantes vôos de reconhecimento lhe caíam sobre os nervos. Aquilo já durava uns trinta dias. Quem sabia onde esse lendário Supercrânio teria se metido, se é que ainda existia. Haviam revistado todos os cantos de Marte, chegaram mesmo a pousar nas duas pequenas luas e não se esqueceram de examinar o espaço interplanetário entre Marte e o anel de asteróides. Não descobriram nada, absolutamente nada.

A missão de hoje os levaria mais uma vez para as imediações do planeta vermelho. O pouso não estava previsto. O tenente Yomo, um japonês que exercia as funções de comandante do destróier Z-VII-3, compartilhou do desinteresse de seu sargento e admitiu automaticamente que o terceiro membro da tripulação, o cadete Fouler, só não revelava sua opinião em consideração à sua posição subalterna.

— O que há com Deimos? — resmungou Raab e contemplou a figura irregular da rocha. — Não é possível que ali se esconda uma nave e, se me lembro bem das informações que nos foram dadas, o Supercrânio ainda possui dois dos destróieres roubados de Rhodan.

— Concordo inteiramente com a sua opinião, sargento — confirmou Yomo, que era um daqueles superiores que tomam em consideração as opiniões de seus subalternos. — De qualquer maneira, devemos dar uma olhada. Raras vezes uma ordem parece ter uma finalidade razoável. Cadete Fouler, circule em torno de Deimos a uma distância segura. Sargento Raab, o senhor fica incumbido da observação da superfície do satélite. Eu cuidarei do localizador ótico. Dessa forma não perderemos qualquer detalhe.

Se o tenente Yomo não tivesse levado seus deveres tão a sério, ainda estaria vivo dali a uma hora. Mas como poderia saber? Ninguém sabia.

Não havia nada em Deimos; bastaram duas voltas em torno do local para que o notassem. As rochas entrecortadas daquela lua anã e sem atmosfera lançavam sombras nítidas e muito contrastantes, muito embora o Sol estivesse muito distante e não derramasse muita luz e calor sobre o local. Aquele bloco de pedra de menos de dezesseis quilômetros circulava em torno do planeta a cada trinta horas, a uma distância de pouco menos de vinte mil quilômetros.

Depois de algum tempo, o sargento Raab sacudiu a cabeça e disse:

— Não adianta fazermos uma corrida de seis dias conosco mesmos; nunca nos alcançaremos. Nem mesmo um rato está escondido nesse bloco de pedra morta.

— Concordo plenamente com o senhor — admitiu o tenente Yomo. — Cadete Fouler, tome o novo curso. Fobos.

— Ainda isso! — gemeu Raab. — Esse montão de sujeira ainda é um pouco menor.

— Ordens são ordens — retrucou Yomo num tom solene e voltou a dedicar sua atenção aos instrumentos. — Fouler, tome a rota que acabo de indicar.

O esguio destróier passou para a tangente e disparou diretamente na direção de Marte, uma esfera enorme que mantinha Fobos sob sua influência.

Fobos distava pouco mais de nove mil quilômetros de seu planeta e completava sua órbita em poucas horas. Essa órbita parecia a de um satélite artificial, isso, porém, acontece com a órbita de qualquer satélite natural. A suposição que certos cientistas terrenos haviam formulado sobre este ponto não se confirmara; Fobos, tal qual Deimos, era um astro natural.

E, como este, não tinha o menor interesse para os três tripulantes da Z-VII-3.

Nada ali chamou a atenção deles.

Nos últimos trinta dias sempre tora a mesma coisa, e tudo indicava que nos próximos trinta dias não seria diferente.

O tenente Yomo lançou um olhar para o relógio.

— Ainda temos tempo para dar uma voltinha em torno de Marte. É bem verdade que o major Deringhouse tomou a si uma missão idêntica, mas não iremos topar justamente com ele. Toda atenção será pouca.

Com a velocidade bastante reduzida, o destróier baixou para a atmosfera rarefeita, desceu e, a pouca altura, passou acima do deserto desolado.

O sargento Raab sacudiu a cabeça e, dirigindo-se ao cadete Fouler, disse:

— Mesmo que desça mais ainda, não acredito que encontremos qualquer coisa. O Supercrânio não será tolo para expor suas naves roubadas por aí. Se ainda estiver vivo, deve estar escondido no círculo de asteróides. Quer apostar?

— Não aposto por princípio — disse Fouler para escapar a uma definição. — Mas, se desejar, estou disposto a concordar com o senhor.

Raab resmungou algumas palavras incompreensíveis e olhou para o tenente Yomo. O japonês confirmou com um aceno de cabeça.

— Ainda vamos dar uma olhada naquela cordilheira. Depois estará na hora de voltar. O major Deringhouse não gosta que a gente se atrase.

Quando a Z-VII-3 cruzava os cumes das montanhas e se aproximava do platô que ficava atrás das mesmas, o sargento Raab notou uma coisa estranha. Um círculo de ferro parecia envolver sua testa e comprimir sua cabeça. Alguma coisa parecia querer agarrar seu cérebro. Antes que compreendesse o que aquilo significava, Yomo berrou:

— Coloquem os capacetes! Rápido!

Enquanto falava, tirou um objeto estranho do armário que se encontrava nas proximidades e enfiou-o na cabeça. Parecia um capacete de aviador coberto por uma tela de arame. Dois minúsculos bastões metálicos destacavam-se na altura da testa. Tratava-se de um artefato especial, destinado a proteger o cérebro humano contra qualquer influência hipnótica.

Uma vez enfiado o capacete, o sargento Raab logo sentiu o alívio. A pressão na cabeça cessou. O cadete Fouler sentiu a mesma coisa.

Como poderiam saber que seria justamente esse fato que selaria seus destinos?

Lá embaixo, sob a superfície do platô, o Supercrânio empenhava suas imensas energias mentais para submeter os tripulantes da Z-VII-3 ao seu controle hipnótico. Quando essa tentativa falhou, graças à imediata utilização dos capacetes especiais, percebeu que teria de fazer alguma coisa para que os três homens jamais pudessem revelar a localização de seu esconderijo.

Tudo aconteceu com a rapidez de um raio.

No mesmo instante em que a nave esguia passava lentamente sobre as montanhas inóspitas de Marte, na tentativa de localizar a causa da súbita influência mental, a cabina de proa foi esfacelada por uma explosão ofuscante. O vapor atômico espalhou-se numa questão de segundos e devorou a nave. As peças semiderretidas balouçaram em direção ao solo e caíram em qualquer ponto da rocha. Uma nuvem de fumaça deslocou-se preguiçosamente para o leste, tangida pelo vento fraco.

Dali a pouco não havia mais nada.

 

Quatro horas já se haviam passado desde a hora em que a Z-VII-3 deveria ter comparecido ao ponto determinado pelas coordenadas pré-escolhidas. O major Deringhouse perdera a paciência. Mais uma vez convocou os comandantes dos destróieres à cabina de comando. Seu rosto tinha uma expressão rígida e severa. O sorriso costumeiro estava ausente.

— Cavalheiros, a ausência do tenente Yomo permite várias conclusões; teremos de optar por uma delas.

Os comandantes aguardavam com o espírito tenso. Sabiam que as perspectivas que Deringhouse lhes ofereceria não seriam nada animadoras.

— É possível que a Z-VII-3 tenha encontrado o esconderijo do Supercrânio, tendo sido destruída ou aprisionada por ele. Se tivesse ocorrido a última dessas hipóteses, nosso rádio, mantido constantemente em recepção, deveria ter recebido a mensagem combinada para o caso. Ainda existe a possibilidade de que o tenente Yomo tenha sido vítima de uma falha técnica de sua nave. Finalmente, pode ter sido atingido por um meteoro.

O tenente Hill pigarreou de forma bem perceptível. Deringhouse fez um gesto animador.

— Talvez estejamos vendo as coisas pretas demais — disse Hill. — É possível que o tenente Yomo apenas se tenha atrasado. Qual foi a rota que lhe foi destinada? Deringhouse sacudiu a cabeça.

— Isso é praticamente impossível, tenente Hill. A Z-VII-3 recebeu a incumbência de pesquisar a área de Marte e suas adjacências. Eu mesmo estive lá com a Good Hope-VII, mas não encontrei nada de suspeito. Uma vez que, segundo se supõe, o Supercrânio se dirigiu a Marte, a ausência do tenente Yomo me parece altamente suspeita. Devo confessar que estou muito preocupado.

— Por que não vamos dar uma olhada? — perguntou alguém.

Deringhouse lançou os olhos na direção daquele que acabara de falar.

— É o que estamos fazendo há quase um mês.

— É verdade, major. Mas, se sua tese sobre a Z-VII-3 for correta, o tenente Yomo deve ter encontrado alguma coisa. Se o Supercrânio se encontrar em Marte, deve dispor de um bom esconderijo. É bem possível que Yomo o tenha encontrado por acaso. Não sabemos o que terá acontecido depois disso. Mas podemos tentar descobrir.

— Se o entendi bem, você sugere uma busca intensa em Marte.

— Perfeitamente.

Deringhouse olhou para os outros oficiais.

— O que acham cavalheiros?

— Achamos que a idéia não é má — disse o capitão Berner, que comandava a Z-VII-7. — De qualquer maneira será melhor que ficarmos parados por aqui.

O major Deringhouse refletiu por alguns segundos. Finalmente o sorriso costumeiro se esboçou em seu rosto.

— A ação terá início dentro de dez segundos. As tripulações deverão ocupar os destróieres. A ejeção será realizada imediatamente.

Os comandantes das pequenas naves de guerra fizeram continência e se retiraram. O major Deringhouse seguiu-os com os olhos. De um instante para outro o sorriso se apagou em seu rosto. Tomou lugar na poltrona diante do painel de controle. Esperou cinco minutos e ligou o intercomunicador. O tenente Hill respondeu:

— Tudo preparado no hangar 1. Nove destróieres prontos para a ejeção.

— Está bem — respondeu Deringhouse e lançou um olhar para o mapa de coordenadas. — Daqui a dois minutos mandarei abrir a comporta. Decolem imediatamente e mantenham-se nas proximidades do girino. Entendido?

— Entendido — respondeu Hill.

Dois minutos depois da ligeira palestra, um pedaço do envoltório da gigantesca nave esférica deslizou para um lado, deixando livre uma abertura. Profusamente iluminadas, as naves, pequenas e versáteis, descansavam nos trilhos de decolagem do hangar. Subitamente, a primeira se movimentou e, numa aceleração louca, disparou espaço afora. Antes que pudesse descrever a primeira curva, foi seguida pela segunda. Toda a manobra consumiu menos de dois minutos. Depois disso a luz se apagou no hangar e a escotilha foi fechada. O movimento da Good Hope-VII foi acelerado. Os destróieres entraram em formação, com a nave capitania no meio, e se adaptaram à velocidade desta.

Longe dali, em meio à profusão de estrelas que emitiam uma luz fria, havia uma de luminosidade vermelha e cintilante: era o planeta Marte. As calotas polares e a confusão de canais destacavam-se nitidamente na monotonia das superfícies desérticas.

Com o rosto indiferente, o major Deringhouse contemplou seu destino.

Parecia adivinhar que alguma coisa horrível o aguardava por lá.

 

O recinto ficava bem embaixo do solo.

As paredes eram formadas de rocha nua, apenas desbastada. O teto era nu. Um fino tapete de plástico cobria o chão. As lâmpadas ofuscantes espalhavam uma luminosidade desagradável. Ao que tudo indicava, o habitante do subterrâneo não tinha muito senso de comodidade. Num dos lados, uma infinidade de instrumentos dos tipos mais diversos esforçava-se para esconder a rocha. Fios e cabos corriam confusamente pelo chão e, passando por uma pequena abertura, desapareciam no recinto vizinho. Em algum lugar um reator emitia seu zumbido monótono; era o único ruído que se ouvia por ali.

O ar daquele subterrâneo era perfeitamente respirável; recendia ao frescor sintético das naves espaciais. Um ventilador zunia no teto.

A luz insuportável se apagou. Por um instante a escuridão pareceu tomar conta de tudo. Mas logo uma tela se iluminou na parede livre, espalhando sua luz fria, mas suave. Uma mesa e vários painéis de controle destacaram-se na penumbra. Diante dela, um homem estava sentado. Usava traje de passeio cinza-escuro, de feitio bastante simples. A cabeça calva e maciça brilhava sob a luz mortiça da tela. Mal se reconhecia o rosto balofo, os grandes olhos frios, as orelhas muito pequenas e os lábios grossos, agora estreitados.

Essa cabeça assentava num pescoço curto e gordo. O corpo gigantesco descansava numa larga poltrona de aço que, segundo tudo indicava, provinha de uma nave espacial. As pernas robustas estavam estendidas sob a mesa. As mãos grossas e curtas repousavam, tranqüilamente, diante dos painéis de controle.

Era Clifford Monterny, o Supercrânio; ele já fora senhor de treze mutantes que, obedecendo às suas ordens, ameaçavam destruir o poder de Perry Rhodan. Este, no entanto, os derrotou — e libertou — usando um poder igual aos daqueles homens. Clifford Monterny, o inimigo número um da Terra e o ser mais perigoso do sistema solar, estava escondido pouco abaixo da superfície de Marte, aguardando sua chance.

Ainda possuía dois dos três destróieres que havia roubado. Mas era pouco para lutar contra a Terra. Precisava de mais naves e mais homens. Uma vez que submetesse alguém à sua vontade hipnotizante, este obedeceria cegamente às suas ordens. Era difícil exercer influência mental sobre um desconhecido que se encontrasse a grande distância, mas o Supercrânio sabia, por experiência própria, que isso era possível. Não foi à toa que instalou um conjunto completo de televisão em seu esconderijo. A visão de um rosto projetado na tela bastava-lhe para reconhecer o modelo de ondas cerebrais do indivíduo, e isso, por sua vez, lhe bastava para submetê-lo à sua vontade.

O quadro projetado na tela se alterou.

As cores se desmancharam e voltaram a assumir contornos ordenados. O cintilar das estrelas se apagou, quando as mesmas foram encobertas pela sombra de uma gigantesca esfera metálica. Por um instante teve a impressão de que um buraco circular se formara no meio do universo. Só quando a automática de precisão entrou em funcionamento o quadro assumiu contornos mais reais, apresentando a Good Hope-VII em tamanho natural.

O Supercrânio voltou a efetuar uma regulagem. O quadro representava apenas um setor na nave. Mas isso não lhe adiantou muito. Precisava ver os rostos; só assim poderia contar com um êxito total. Um êxito parcial poderia ser contraproducente. Se os tripulantes da gigantesca nave percebessem sua influência antes da hora e colocassem os capacetes isoladores, estaria reduzido à impotência, e nada lhe restaria senão destruir o veículo espacial. Acontece que precisava dele para realizar seus planos.

Queria que o comandante da nave esférica acreditasse que ele, o Supercrânio, só estava interessado na destruição da nave. Para incutir-lhe essa idéia desviacionista teria que destruir um dos destróieres que a acompanhavam.

Mais uma vez o quadro que o Supercrânio tinha diante de si se alterou. O veículo espacial esférico foi substituído pelos novos destróieres em formação.

O Supercrânio contemplou-os com os olhos semicerrados. Seus lábios contorceram-se num sorriso de deboche. Se esses pobres coitados soubessem como estavam indefesos nas suas naves, fariam meia-volta a toda pressa e fugiriam à velocidade da luz, sem se importarem para onde.

Ninguém sabia como era terrível a arma que ainda possuía.

Elogiou-se a si mesmo por ter tido a precaução de instalar a base em Marte antes de declarar guerra a Perry Rhodan. O que mais o orgulhava era o fato de ter levado Ivã Goratchim a esse planeta. Ivã Goratchim, a arma mais potente e horrorosa, contra a qual não havia defesa.

Examinou as escalas existentes na parte inferior da tela.

A frota inimiga encontrava-se a uma distância de vinte mil quilômetros. Como sua velocidade estivesse sendo reduzida constantemente, era de esperar que dentro de dez minutos penetrasse na atmosfera de Marte. Havia tempo para tomar as providências necessárias.

Por um instante Clifford Monterny, um monstro em figura de homem, indagou a si mesmo se aquela gente sabia da destruição de um destróier ou se fora o puro acaso que os fizera se aproximarem de seu esconderijo em formação cerrada.

Lançou mais um olhar para a tela; depois levantou seu corpo balofo da poltrona e se dirigiu à porta. Trancou-a cuidadosamente e, a passos rápidos, atravessou um longo corredor, ladeado de portas tanto à esquerda como à direita.

Finalmente parou. Seus dedos treinados tocaram uma fechadura magnética. Uma porta metálica deslizou para dentro da rocha, deixando livre uma abertura. Entrou no recinto que ficava atrás dela.

A sala não continha muitos móveis. Só se via uma cama colocada no canto oposto à porta.

Alguém estava sentado nessa cama...

A figura horripilante faria congelar o sangue nas veias de qualquer ser humano; mas o Supercrânio apenas sorriu e disse:

— Levante-se e venha comigo, Ivã. Temos trabalho para você.

O monstro obedeceu; levantou-se e acompanhou seu mestre e senhor.

 

Mais ou menos na altura de Fobos, a Good Hope-VII entrou numa órbita estável em torno de Marte. Os nove destróieres seguiram-na sem que tivessem recebido ordem específica para isso.

O major Deringhouse deu-se conta que, dali em diante, os contatos teriam de ser mantidos em nível reduzido. Pelo intercomunicador estabeleceu contato com a sala de rádio.

— Cadete Renner, chame os destróieres e passe a ligação para mim.

— Sim senhor. Com que potência?

— A potência mínima. As ondas de rádio não devem atingir a superfície de Marte.

Menos de trinta segundos depois, os comandantes dos destróieres responderam à mensagem. Deringhouse indicou a posição das naves e instruiu-as a se manterem à vista uma da outra. A superfície de Marte teria de ser revistada numa ação conjunta. Quem encontrasse qualquer indício, por menor que fosse, devia avisar imediatamente os outros. Em hipótese alguma qualquer das naves deveria empreender uma ação independente. Por enquanto os telecomunicadores não seriam utilizados.

A navegação que possibilitava a visão das outras naves constituía um requisito fundamental, quando por outra coisa não fosse, em virtude das comunicações extremamente reduzidas pelo rádio. Sem ela não haveria possibilidade de manter qualquer contato. Ninguém fazia a menor idéia do que havia acontecido com a Z-VII-3, mas ninguém tinha a menor vontade de compartilhar seu destino.

Seguindo as instruções recebidas, a nave Z-VII-7, comandada pelo capitão Berner, desviou-se para o lado, ocupando a posição que lhe fora indicada. Também os outros destróieres espalharam-se, cada qual dirigindo-se à sua posição.

Berner deixou a direção da nave a cargo do co-piloto e dedicou-se inteiramente à observação da superfície de Marte. Através de seu telegrafista mantinha contato permanente com Deringhouse.

O veículo espacial esférico também abandonou sua órbita, descendo lentamente em direção à superfície de Marte. Os destróieres seguiram-no. A formação bastante alargada permitia que a observação se estendesse a uma faixa bem ampla.

O capitão Berner contemplava a superfície avermelhada e juraria que nenhum Supercrânio estava escondido por ali. Nas montanhas ainda seria possível, mas na areia do deserto nem poderia se pensar nisso. As pesquisas haviam revelado que a areia chegava a uma profundidade de cinqüenta metros. Não era concebível que alguém construísse um esconderijo subterrâneo em pleno deserto de Marte.

— Tomem a rota da cordilheira oeste — soou a instrução vinda da nave capitania. — Desçam mais. Utilizem os telescópios. Avisem de qualquer indício de uma escavação.

Berner seguiu rigorosamente as Instruções. Sabia que a Z-VII-2 se encontrava a seu lado e, mais para fora, a Z-VII-5. À sua frente a Z-VII-4 estava rompendo as camadas superiores da atmosfera rarefeita de Marte.

As montanhas se aproximaram. A flotilha passou a pequena altura sobre as encostas suaves, seguiu a linha das cumeeiras e os vales não muito profundos, permaneceu por um instante sobre uma depressão do terreno e prosseguiu no seu vôo.

As montanhas passaram a se achatar e o deserto voltou a surgir diante deles. A próxima cordilheira surgiu no horizonte. Berner já sabia, face aos vôos anteriores, que era a maior cordilheira de Marte, embora não fosse a mais alta. A cordilheira lembrava um continente de contornos bastante regulares, que se destacava no mar do deserto formando uma gigantesca ilha.

Mas havia uma coisa que Berner não sabia. O Supercrânio considerava essa cordilheira como sua propriedade pessoal, e aguardava a frota que dela se aproximava.

Esperava pouco abaixo da superfície rochosa.

O capitão Berner viu surgir diante de si a extensa área do platô, que já sobrevoara tantas vezes. Nunca notara nada de suspeito, e estava convencido de que também hoje a busca seria em vão.

Um pequeno vale lateral desfilou lentamente diante dele. A rocha nua foi substituída pela vegetação rala. Ainda não havia a menor indicação.

Mas subitamente Berner sentiu-se ofuscado; fechou os olhos. Bem à sua frente, no lugar em que se encontrara a Z-VII-4, um sol atômico apareceu de repente. O calor desprendido pelo mesmo consumiu o destróier. O metal derretido pingou da bola de fogo e choveu sobre o platô. Os pingos escaldantes deixaram atrás de si finas nuvens de fumaça.

Quando a luminosidade ofuscante diminuiu um pouco, permitindo que Berner abrisse os olhos, a Z-VII-4 deixara de existir. Uma nuvem de formato estranho ocupava o lugar em que antes se encontrava; lentamente foi sendo dissipada pelo vento.

Tudo fora tão rápido que nem Berner nem o co-piloto tiveram tempo para esboçar qualquer reação. Atravessaram os vestígios do destróier, reduzido a gases, e desmancharam a nuvem.

No mesmo instante viram um relampejo à sua esquerda. Dessa vez a vítima do ataque traiçoeiro e imprevisível fora a Z-VII-2. Poucos segundos depois a Z-VII-5 também foi destruída.

Sem se preocupar com a proximidade, agora evidenciada, do inimigo que há tanto tempo procuravam, o major Deringhouse transmitiu sua ordem pelo rádio:

— Os destróieres restantes entrarão imediatamente no hangar!

A manobra foi realizada com uma rapidez quase incrível, mas poucos metros antes da escotilha salvadora ainda explodiu o destróier Z-VII-10. O vento escaldante da aniquilação atômica penetrou no hangar da Good Hope-VII.

As cinco naves menores que ainda restaram se encontravam em segurança.

Ninguém desconfiava de que a segurança era apenas aparente; mas era exatamente isso que o Supercrânio queria.

O major Deringhouse cometeu um erro fatal, pois ainda não se lembrara dos capacetes defensivos. O súbito ataque aos seus destróieres, a destruição inexplicável dos mesmos e a proximidade evidente do inimigo roubaram-lhe parte do seu proverbial sangue-frio.

Deu uma ordem a si mesmo: a retirada.

Mas não o fez sem cometer um segundo engano.

O motivo era bem compreensível. Pelos tripulantes dos quatro destróieres destruídos não se poderia fazer mais nada; quanto a isso não havia a menor dúvida. Mas, mesmo que colocasse em segurança a si e ao seu girino e retornasse à Terra em busca de reforços, ele não o faria sem deixar uma indicação do esconderijo do Supercrânio. Não havia a menor dúvida de que a Good Hope-VII fora descoberta. Mas ninguém acreditava que o Supercrânio estava em condições de atacar, quanto mais de danificar a gigantesca nave. O campo energético impenetrável já voltara a envolver o veículo esférico.

Seria mesmo impenetrável?

Talvez o fosse para toda e qualquer espécie de matéria, mesmo quando investisse contra a nave sob a forma de radiações energéticas mortais; mas em hipótese alguma o seria para os fluxos mentais hipnóticos do Supercrânio.

O segundo erro do major Deringhouse consistiu em retardar a retirada e ativar o rastreador ótico. De qualquer maneira pretendia estabelecer contato com o inimigo. Precisava de uma prova irrefutável.

Por isso não ligou apenas o rastreador ótico, mas também o respectivo receptor, a fim de possibilitar o intercâmbio visual.

Era isso que o Supercrânio esperava. Nas telas da sala de comando, à qual acabara de regressar, não se via apenas a Good Hope-VII em tamanho natural, mas também o rosto de Deringhouse.

Dali a dois segundos Deringhouse perdeu sua identidade.

Transformou-se num instrumento daquele ser horroroso, cujos fluxos hipnóticos se apoderaram de sua vontade, transformando seu corpo numa ferramenta dócil do mestre.

O major Deringhouse não percebeu nada, menos ainda as pessoas que se encontravam nas suas proximidades.

Voltou a desligar o rastreador ótico e, assim que os comandantes dos cinco destróieres que haviam escapado à destruição entraram na sala, levantou os olhos. O tenente Hill anunciou seu regresso e o de seus companheiros e aguardou a decisão do superior. Essa decisão foi muito diferente da qual Hill esperara.

— Pousaremos no platô — disse Deringhouse em tom seguro. — O esconderijo do Supercrânio deve ficar por lá. De forma alguma poderemos regressar à Terra sem apresentar um resultado palpável.

Hill não conseguiu esconder a perplexidade.

— Quatro dos nossos destróieres acabam de ser destruídos. Enfrentaremos um perigo gravíssimo.

— Será que devemos ter medo do perigo? — disse Deringhouse com um ligeiro tom de censura na voz. — Nossa responsabilidade não é muito maior que todos os perigos?

— Devíamos saber ao menos com que tipo de arma fomos atacados e como foram destruídas nossas naves. Não se esqueça de que os campos protetores haviam sido ativados.

Deringhouse acenou com a cabeça; parecia muito sério.

— Não me esqueci de nada disso. Não podemos descansar enquanto não conhecermos a arma do inimigo. Por isso dei ordens para que os senhores se preparassem para o pouso. Avisem a tripulação da nave. Outra coisa: depois de pousar, sairemos da nave. Não levaremos armas; apenas o equipamento de respiração.

— Sairemos sem armas? — exclamou o tenente Hill estupefato. — Quer se defrontar com o Supercrânio sem armas na mão? Não compreendo!

— Pois é tão simples, tenente. Sabemos que o Supercrânio possui uma arma desconhecida, face à qual até nossos campos energéticos revelaram-se inúteis. Até é de supor que, se assim o desejar, está em condições de destruir a Good Hope-VII. Ele não o fez e, mais do que isso, poupou cinco dos nossos destróieres. Por quê?

O tenente Hill deu de ombros. Um ligeiro sorriso condescendente passou pelos lábios do major Deringhouse.

— É porque quer mostrar que está disposto a entrar em contato conosco, sob o signo de sua superioridade. Pois bem; vamos reconhecer formalmente essa superioridade, indo desarmados ao lugar em que se encontra. O que temos a perder sob esse aspecto? Nada, tenente Hill. Mas, conforme as circunstâncias, teremos muito a ganhar.

O tenente não pôde deixar de reconhecer que havia uma certa dose de razão na exposição de seu superior, mas esse fato não o tranqüilizava. Hill não era nenhum covarde, mas não gostava de lutar contra um inimigo desconhecido e invisível; se tivesse de fazê-lo, preferia ter uma arma na mão.

— Seja o que o senhor quiser — disse depois de algum tempo, quando viu que, nos rostos desorientados de seus companheiros, também não havia qualquer resposta. — Instruirei a tripulação e transmitirei aos homens tudo que devem saber. Não seria preferível avisar a Terra do que pretendemos fazer?

O major Deringhouse sacudiu a cabeça muito depressa, talvez depressa demais. Mas quem haveria de notar isso?

— Isso seria um erro, talvez um erro fatal. O Supercrânio deve se sentir em segurança. Se captar nossa mensagem, conhecerá nossos planos e saberá que só aparentemente nos submetemos às suas condições. Pode se retirar, tenente. Não temos tempo a perder.

Quarenta homens seguiram as ordens de Deringhouse; não se sentiam muito à vontade. Sabiam que o comandante era um homem audaz, mas cauteloso, que costumava evitar qualquer risco desnecessário. Tudo indicava que desta vez subestimava o perigo. O Supercrânio também era um telepata; adivinharia seus pensamentos. Saberia que vinham sem armas, embora fossem inimigos. Isso modificaria alguma coisa? Não modificaria nada.

A Good Hope-VII desceu lentamente sobre o platô, passou sobre ele a pouca altura e acabou pousando ao lado de um pequeno rochedo, que se erguia em meio à planura.

O major Deringhouse colocou todos os controles na posição de repouso, olhou para as telas apagadas por alguns segundos, como que imerso em seus próprios pensamentos, e ligou o intercomunicador. Qualquer pessoa na nave entenderia o que pretendia dizer.

— Sairei da nave com dez pessoas e procurarei o Supercrânio. Os cinco comandantes de destróieres e cinco dos oficiais do girino irão comigo. Não levaremos armas. Na minha ausência, Smith assumirá o comando. Qualquer comunicação radiofônica com a Terra está proibida, e eventuais chamados não serão respondidos. Entendido?

Da sala de telegrafia saiu uma confirmação proferida em tom um tanto perplexo.

Também as confirmações dos outros setores da nave não revelavam muito entusiasmo. Ninguém gostou da perspectiva de se colocar à mercê de um inimigo que, segundo se dizia, era cruel e insensível. E tudo isso não combinava com a personalidade de Deringhouse.

Dali a dez minutos a escotilha de saída se abriu. Deringhouse foi o primeiro a pisar a superfície do planeta vermelho; os dez oficiais seguiram-no. Todos eles traziam os leves trajes protetores e as indispensáveis máscaras de oxigênio. Nenhum deles portava uma arma.

— É ali — disse Deringhouse, apontando para a rocha. — A entrada para o esconderijo do Supercrânio fica nessa rocha.

Sem aguardar uma resposta, colocou-se em movimento.

O tenente Hill ficou parado. Passou a mão pelos olhos.

— Como é que o senhor sabe que o esconderijo que procuramos há semanas fica ali, comandante? Acho que o senhor nos deve uma explicação.

A pressão sobre seu cérebro se intensificou. Viu que também Berner pôs a mão na cabeça e murmurou algumas palavras incompreensíveis. Não havia como entendê-lo atrás da máscara de respiração.

Uma suspeita terrível se apossou dele. Mas antes que pudesse soltar um grito de advertência, já era tarde.

Subitamente ficou bem quieto.

Caminhando a passos firmes, seguiu atrás de Deringhouse, que não se preocupava com os homens que o acompanhavam. Fazia exatamente aquilo que o Supercrânio mandava.

E o comando era dirigido a ele e aos dez oficiais.

 

Muita coisa acontecera na Terra durante as últimas semanas.

Perry Rhodan estava empenhando todos os meios de que dispunha para promover a formação do governo mundial. Possuía poder suficiente para isso, pois dispunha dos infinitos recursos dos arcônidas. Nos últimos meses os seres extraterrenos que havia salvo na Lua tinham desistido de repetir constantemente as suas exigências. Desejavam regressar ao seu mundo natal; Rhodan sabia disso. O planeta Árcon distava trinta e quatro mil anos-luz da Terra.

A nave estelar Stardust-III poderia perfeitamente vencer esse trajeto. Mas Rhodan tinha seus motivos para adiar o regresso de Crest e Thora. Não queria que os arcônidas tivessem conhecimento da existência da Terra, que sem dúvida pretenderiam incorporar ao seu império. Só quando a Terra fosse forte e unida não haveria mais qualquer impecilho ao estabelecimento de um contato.

Esse contato inevitável não poderia ser adiado mais por muito tempo, a não ser que quisesse chocar profundamente os dois arcônidas, aos quais devia tanto. Era essa a causa de seus esforços tremendos para criar sem mais demora o governo único da Terra.

Por isso uma extraordinária atividade diplomática se desenvolvia em Terrânia. Após as primeiras conferências com os presidentes dos blocos de potências terrestres, os plenipotenciários dos mesmos reuniram-se na capital da Terceira Potência, o império fundado por Rhodan no lugar em que antes existia o deserto de Gobi. Terrânia era a cidade mais moderna do mundo, contava um milhão e meio de habitantes e dispunha de um amplo espaçoporto, além de um exército de dez mil soldados e robôs de guerra de concepção arcônida e produção terrana.

As instalações principais estavam constantemente cobertas por uma abóbada energética, que já havia resistido a ataques atômicos.

Perry Rhodan tomou um elevador o subiu ao último andar do ministério da segurança, onde Reginald Bell, o ministro, estava realizando uma conferência com os representantes das potências mundiais.

Entrou sem se fazer anunciar, cumprimentou Bell e as outras pessoas presentes com um gesto cordial e sentou numa das cadeiras desocupadas. Não pretendia intervir nos debates, apenas queria se manter informado sobre o estado das negociações.

Reginald Bell, o ministro da segurança, retribuiu o gesto de Rhodan com um ligeiro aceno de cabeça. Em seus olhos havia um brilho disfarçado.

Dirigiu-se aos participantes da conferência. O representante da Federação Asiática, um chinês gordo, olhou de esguelha para seu vizinho, o representante da OTAN, antes de soltar a próxima pergunta:

— Os preparativos para a eleição mundial já estão sendo tomados, senhor Bell, mas, para falar com franqueza, devo dizer que duvido do êxito de seu projeto ambicioso. E os programas de esclarecimento irradiados por suas emissoras de televisão nada poderão alterar nesse fato. O nacionalismo está no sangue de nossa geração.

— Quer dizer que o senhor acredita — Bell se inclinou para a frente e lançou um olhar perscrutador sobre o chinês — que a Humanidade não está interessada em se unir?

— Não foi isso que eu afirmei — procurou se defender o chinês. — Apenas ressaltei as dificuldades que terão de ser vencidas. Tenho certeza de que meus colegas poderão confirmar essas dificuldades.

O representante do Bloco Oriental confirmou com um aceno de cabeça.

— O nacionalismo, que vem sendo rejeitado há cinco decênios, está profundamente enraizado em todos os homens e costuma se manifestar quando menos se precisa dele. Devo confessar que também entre nós existe certa oposição contra a idéia de um governo mundial. E os círculos oposicionistas simplesmente ignorarão as eleições mundiais.

Bell olhou para o americano. O delegado, um tanto idoso, pigarreou e disse:

— Antigamente, as potências do Ocidente costumavam se considerar as representantes do mundo livre. Evidentemente preferimos não extirpar o nacionalismo à força; queríamos que morresse por si. Também nos países de nosso bloco surgiram vozes que rejeitam o governo mundial, por verem nele um tipo de tutela.

Os outros delegados responderam com um gesto de aprovação, o que Perry Rhodan, que se encontrava num lugar mais retirado, não deixou de notar com certo interesse. Reginald Bell, porém, limitou-se a dar de ombros.

— Os chefes dos governos das três potências estão de acordo em que um governo mundial representará a única possibilidade de enfrentar as dificuldades que se aproximam. Além disso, todo e qualquer homem que viva nesta Terra finalmente deve dar-se conta de que não somos os únicos seres inteligentes no Universo. Há vários anos-luz daqui existem grupos de estrelas que compreendem muitos sistemas solares. A relação das respectivas dimensões é mais ou menos a mesma que existe entre uma de nossas grandes potências e uma família. Uma família isolada não pode existir permanentemente; da mesma forma a Terra não poderá continuar a existir se não se adaptar às exigências da era cósmica. O primeiro conquistador que a descobrisse iria incorporá-la ao seu império.

Calou-se. Diante de seus olhos desfilaram mais uma vez os acontecimentos dos últimos trinta dias. Enquanto a frota comandada pelo major Deringhouse procurava capturar o Supercrânio, na Terra tomavam-se os preparativos para o maior empreendimento eleitoral jamais levado a efeito. A Humanidade em conjunto deveria decidir se queria governos nacionais, ou se preferia um governo mundial. Há anos os satélites artificiais possibilitavam a recepção das emissões de televisão em qualquer ponto da Terra. Com isso criavam-se condições para uma atividade publicitária mais intensa e um esclarecimento mais amplo. Dia e noite os filmes da Terceira Potência davam a volta pelo mundo. Os tradutores simultâneos robotizados proporcionavam os esclarecimentos falados.

Esses filmes mostravam os ataques de inteligências extraterrenas contra mundos inocentes e desprevenidos, e o fim desses mundos. Mais uma vez se relatou o que acontecera tempos atrás no sistema do sol Vega, quando os tópsidas, seres em forma de crocodilo, procuraram conquistar o mundo dos ferrônios. Sem o auxílio de Perry Rhodan, os infelizes habitantes do sistema Vega não teriam conseguido repelir o invasor.

A Terceira Potência procurou esclarecer pela forma mais crua o que poderia acontecer aos homens se estes insistissem em seus pontos de vista estreitos.

Perry Rhodan em pessoa quase sempre realizava “viagens políticas”. Falava nas estações de televisão de todo o mundo sobre a missão da Humanidade unida, que se estenderia muito além dos limites do sistema solar. Lembrou que o contato com os arcônidas

— É claro que temos toda compreensão para seu ponto de vista, Rhodan. Sabemos que não pode estabelecer contato com nosso império enquanto não tiver unido a Terra. Acontece que não podemos esperar para sempre. Você tem possibilidade de nos levar a Árcon?

— Não se trata apenas do contato com os arcônidas — explicou Rhodan tranqüilamente. — Você sabe disso, e Thora também. Mas há um ponto que deve ser ponderado. Sabemos perfeitamente que seu império já não é aquilo que foi há dez mil anos. Está se esfacelando, sacudido pelas revoluções. Sistemas solares inteiros rebelam-se contra os arcônidas e atravessam o universo, roubando e saqueando tudo. Duas dessas raças já encontraram a Terra por coincidência. Conseguimos repeli-las. Mas se os levarmos para Árcon, todo o império ficará conhecendo a posição da Terra. Uma invasão em regra seria lançada contra nosso mundo rico, mas indefeso. Não estaríamos em condições de nos defender de tantos inimigos. É este o motivo por que ainda não pude cumprir minha promessa.

— Compreendo perfeitamente — disse Crest. — Acontece que há alguns anos vivemos num exílio voluntário. Prestamos-lhe todo o auxílio possível, e sempre o ajudamos com a nossa experiência. Não acha que toda dívida deve ser paga um belo dia?

— Acho, sim — confirmou Rhodan. — Peço-lhe que acredite que estarei pronto para pagar assim que o momento adequado tenha chegado. Até estou disposto a pagar com juros.

— Juros? — perguntou Crest espantado.

— Isso mesmo, juros — confirmou Rhodan e voltou a sorrir. — Seu império está em dificuldades. Quando chegar a hora de os levarmos a Árcon, não iremos apenas com a Stardust-III, mas com uma grande frota de guerra. Coloco-me à sua disposição juntamente com essa frota, e prometo-lhe que porei seu império em ordem. Ao que parece, a habilidade diplomática dificilmente poderá salvar o Grande Império. Portanto, só nos resta a ação violenta, ou ao menos uma demonstração de violência. Sua raça é muito velha e decadente para esse tipo de demonstração. Por isso os homens lhes prestarão auxílio. Acho que dessa forma minha dívida estará paga e bem paga.

Crest olhou para Thora. A bela arcônida hesitou, mas acabou confirmando com um movimento de cabeça.

— Está bem, Rhodan. Aceitamos sua palavra. Assim que o governo mundial esteja formado...

— Há mais um detalhe — interrompeu-o Rhodan. — Não se esqueça do Supercrânio. Dez mutantes monstruosos como este podem conquistar um sistema solar. Um deles representa um sério perigo. Quando o mesmo tiver sido liquidado...

— Também neste ponto você pode contar com nossa compreensão. — disse Crest com um sorriso. — Reconheço que os mutantes são um fenômeno que ainda não conhecemos, ao menos sob essa forma. Em nosso império existem raças pouco dotadas, para as quais a telecinésia apenas representa um substituto para os membros que faltam. Ninguém possui ambas as coisas. Mas com os habitantes da Terra acontece precisamente isso. Vejo nesse fato uma ameaça à ordem existente.

— Seria preferível que visse nisso um auxílio ao seu império — constatou Rhodan e levantou os olhos quando a porta se abriu e deixou entrar um homem que envergava o uniforme da equipe de rádio. O recém-vindo segurava um bilhete e ficou em posição de sentido quando o olhar de Rhodan caiu nele.

— Tenho uma mensagem para o coronel Freyt — anunciou e fez continência. — Parece ser importante; por isso resolvi entregá-la pessoalmente.

— Passe para cá! — disse Freyt e pegou o bilhete. Enquanto lia, uma ruga vertical formou-se em sua testa. Se a notícia não era de molde a causar preocupações, ao menos devia dar o que pensar.

— O que houve? — perguntou Rhodan em tom impaciente. — Deringhouse deu sinal de vida?

Freyt levantou os olhos.

— Sim, deu sinal de vida, embora não o tenha feito pela forma esperada. A nave Z-45 enviou uma mensagem urgente. Girino VII retornou de Marte e passou à pouca distância de Z-45 sem dar atenção às suas mensagens. O major Deringhouse não reagiu sequer aos sinais luminosos convencionados. Passou pela Z-45 sem se deter e tomou a rota da Terra. Há poucos segundos o girino VII passou pela Lua e aproxima-se do território da Terceira Potência em órbita parabólica.

Rhodan estreitou os olhos.

— Procurou estabelecer contato? Freyt fez que sim.

— O major Deringhouse não responde. Ao que parece, não está em recepção.

— Isso contraria nossas instruções — disse Rhodan em tom pensativo. Trocou um olhar ligeiro com Bell, cujo rosto revelava uma atitude de espreita. — Recomendo toda vigilância. Bell, dê alarma à frota. Deve ficar de prontidão para decolar.

Por um instante o coronel Freyt perdeu a tranqüilidade que invariavelmente costumava exibir.

— Prontidão para decolar? Alarma? O que significa isso?

Com uma seriedade fora do comum Rhodan respondeu:

— Já ressaltei que corremos um perigo constante enquanto o Supercrânio estiver em liberdade; ou melhor, enquanto estiver vivo. É um hipno; não se esqueça. Pense nos mutantes que conseguiu dominar por tantos anos. Se tirarmos as conclusões desse fato, o comportamento de Deringhouse parece bastante suspeito, não acha?

Bell já se recuperara da surpresa. Correu para a porta. Enquanto abria a mesma, voltou-se e disse:

— Rhodan, será que você acredita mesmo que o Supercrânio se apoderou de Deringhouse?

— Não acredito, mas conto com a possibilidade. Só ficarei tranqüilo depois que o girino tiver pousado e toda a tripulação tiver sido examinada por John Marshall. Mas apresse-se; Deringhouse não deve demorar.

Crest estava ao lado de Thora, um tanto inseguro. Tornara-se pálido. Também o Dr. Manoli havia esquecido os problemas sobre os quais discutira com Haggard. Procurou descobrir uma resposta no rosto de Marshall.

Rhodan fez um sinal ao coronel Freyt:

— Providencie para que as mensagens de rádio dirigidas a Deringhouse sejam expedidas ininterruptamente. Explique-lhe que, se não responder, abriremos fogo contra ele. Também dê alarma para as unidades robotizadas.

Freyt hesitou.

— Acho que essa desconfiança é excessiva. Só espalhará o desassossego. Afinal, o que é que Deringhouse poderia fazer, mesmo que estivesse sob o domínio do Supercrânio?

— Quero que cumpra minhas ordens — disse Rhodan com uma aspereza a que não estava habituado e lançou um olhar contrariado para seu representante. — Tenho meus motivos para agir desta forma. Prefiro um alarma desnecessário a uma Terra destruída. Vá andando!

Freyt se virou sem dizer uma palavra e saiu em companhia de seu telegrafista.

— Manoli e Haggard — disse Rhodan, dirigindo-se aos dois médicos. — Dirijam-se imediatamente ao hospital. Aguardem minhas instruções.

— Mas... — principiou Manoli, apenas para ser interrompido imediatamente.

— O que está havendo com todo mundo? Será que ninguém vê o perigo que nos ameaça? O Supercrânio é o hipno mais potente que já houve. É possível que tenha se apossado de Deringhouse, e o mandado para cá a fim de nos atacar. Não se esqueçam de que Deringhouse não deu resposta às mensagens de rádio que lhe foram dirigidas. Por quê? Ah, não têm nenhuma explicação. Logo, peço-lhes que...

Os dois médicos retiraram-se sem dizer uma palavra. Os que ficaram para trás fitaram-se numa atitude de insegurança. Rhodan nunca os vira assim. Crest quase chegou a se assustar quando este lhe dirigiu a palavra:

— É preferível que se dirija à sua residência, Crest. Você também, Thora. Acho que o espaço situado embaixo da abóbada energética é o lugar mais seguro.

— E você? — perguntou Crest.

— Cuidarei dos mutantes juntamente com Marshall. Se é que alguém pode dar uma resposta às perguntas com que logo mais nos defrontaremos, esse alguém será um mutante. Venha, Marshall. Tenho a leve impressão de que não demoraremos a descobrir quanto vale nosso Exército de Mutantes.

Enquanto desciam pelo elevador, as sereias de alarma começaram a uivar no espaçoporto.

 

Bell sentia-se no seu elemento, embora estivesse convencido de que estava realizando um ensaio de alarma. Se é que o Supercrânio realmente conseguira, através de um estratagema, se apossar da Good Hope-VII — assim raciocinou naquele instante — ele não seria leviano a ponto de expor a valiosa presa a um risco tão grave. De qualquer maneira, prosseguiu no seu raciocínio, não se podia deixar de lado o fato de que o major Deringhouse, geralmente tão correto, estava agindo de forma bastante estranha.

Não respondia a qualquer mensagem; inexoravelmente e num mutismo impenetrável aproximava-se da Terra. Deixara de enviar o relatório de rotina. Suspendera antes do tempo a busca do Supercrânio, sem fornecer qualquer explicação de tal procedimento.

No fundo, havia motivo para desencadear o alarma em Terrânia, concluiu Bell.

Atrás das extensas áreas dos estaleiros do espaçoporto, as unidades robotizadas assumiam suas posições. Evidentemente os radiadores nada poderiam fazer contra a Good Hope-VII com seus campos energéticos, mas o procedimento de Bell foi puramente instintivo. O espaçoporto ficava fora da área protegida pela abóbada energética, e esse fato teria que ser considerado nos preparativos. Uma decisão definitiva e uma série de medidas defensivas só se tornariam possíveis quando os piores temores se confirmassem. E Bell não contava com essa hipótese.

No mesmo instante Rhodan estava transmitindo as necessárias informações ao Exército de Mutantes. Preferiu não recorrer aos membros mais novos; contentou-se com os homens da velha guarda. Receberam a notícia com a maior tranqüilidade; apenas Gucky mostrou-se bastante nervoso.

O rato-castor, de um metro de comprimento, saltitava de um lado para outro, reforçava cada passo com uma forte pancada de sua cauda achatada, exibia o dente roedor e arrepiava o pêlo marrom-avermelhado. Quem quisesse ver nesse rato-castor um bicho como qualquer outro, estaria cometendo um grande erro. Era muito mais que isso. Gucky viera de um planeta solitário e, em virtude de suas faculdades telecinéticas, fora incorporado ao Exército de Mutantes. Além disso, Gucky era telepata e, como tal, não tivera a menor dificuldade em aprender as principais línguas terrenas.

— Esse Supercrânio! — chiou com sua voz extremamente fina. — Desta vez darei cabo dele. Afinal, não pude participar da última luta.

— Não o subestime — advertiu-o Rhodan, reprimindo um sorriso. — Além disso, nem sabemos se realmente estamos sendo atacados. Apenas suspeitamos e temos de aguardar para ver se nossa suspeita tem fundamento. Marshall, escolha as pessoas adequadas e procure manter contato indireto com Deringhouse. Recorra aos localizadores, espias, goniômetros e telepatas. Marten tentará penetrar no espírito de Deringhouse e procurará ver através de seus olhos. Há muita pressa. Gucky irá comigo ao espaçoporto. Betty Toufry, você também irá comigo. Marshall, você assumirá o comando sobre todo o Exército de Mutantes e o fará entrar em ação. O alarma real será desencadeado assim que a situação tiver sido esclarecida. Entendido?

O australiano confirmou com um aceno de cabeça.

— Entendido.

— Ficaremos em contato pelo rádio. Em hipótese alguma deixe a proteção da abóbada energética sem que tenha recebido ordem expressa para isso.

Acompanhado de Gucky e Betty Toufry, saiu apressadamente do edifício e entrou num carro veloz, que os levou ao espaçoporto.

Não foi sem motivo que Rhodan fez questão de levar justamente Gucky e Betty.

Gucky era o telecineta mais potente que já se vira. Às vezes chegava a teleguiar formações inteiras de aviões velozes, por mais que os pilotos se opusessem. Betty Toufry era telepata e telecineta. Era uma moça muito jovem, mas possuía o cérebro superior e as faculdades de um gênio. De si para si, Rhodan era de opinião que pertencia a um tipo humano ainda em formação. Estava à frente do seu tempo em todos os sentidos.

Em virtude do alarma, as ruas pareciam mortas. Era bem verdade que o crepúsculo já havia descido sobre a terra, e logo mais seria noite. Mas geralmente a essa hora começava a vida noturna de Terrânia. Hoje não se notava nada disso. As pessoas que regressavam do trabalho haviam corrido para os abrigos mais próximos. Esses abrigos ainda davam mostras dos tempos de desassossego que acompanharam a formação da Terceira Potência. Os funcionários administrativos ficavam nas casas e, quando muito, iam aos porões, seguindo as instruções em vigor. As ruas de fitas transportadoras continuavam a rolar em direção à cidade, mas estavam praticamente vazias. De espaço a espaço, um policial solitário patrulhava as ruas e praças.

Deixando a cidade à sua direita, Rhodan correu pela pista de dez metros em direção à área do espaçoporto. À sua esquerda estendia-se o deserto. No horizonte a escuridão já havia descido à terra, enquanto no oeste o céu brilhava num vermelho sangüíneo, anunciando o fim de mais um dia.

Rhodan ligou o dispositivo direcional automatizado de radar do veículo e, através do minitransmissor de pulso, entrou em contato com o coronel Freyt, que se encontrava nas instalações centrais.

— Alô, Freyt! Estou a caminho do espaçoporto, onde Deringhouse deverá pousar, se é que pousa. O que há de novo? Já conseguiu estabelecer contato com o girino VII?

— Nada — respondeu Freyt. — A Good Hope-VII não responde a qualquer mensagem. Talvez o rádio da nave esteja com defeito.

— Também é uma possibilidade — confessou Rhodan, sem abandonar a atitude de ceticismo. — Mas acredito que nessa hipótese Deringhouse teria transmitido alguma notícia através da Z-45. Sabe perfeitamente que qualquer nave que não se identifique antes do pouso é tratada como inimiga. Está bem; ficarei em recepção. Entre em contato comigo assim que haja qualquer novidade.

— Perfeitamente.

Os olhos de Betty Toufry estavam sérios e muito abertos. Rhodan olhou-a de lado, enquanto sua mão esquerda afagava o pêlo de Gucky.

— Será que as coisas ficarão muito ruins? — perguntou ao ler a preocupação nos pensamentos de Rhodan. — O que terá acontecido?

— Muita coisa pode ter acontecido, Betty. Não sabemos, e quando soubermos talvez seja tarde. A que distância você pode captar fluxos de pensamento? Acredita que conseguirá ler os pensamentos de Deringhouse enquanto ele ainda se encontrar além da atmosfera terrestre?

— Talvez. Preciso conhecer a direção exata para me concentrar ao máximo.

— No devido tempo saberemos a direção, Betty.

Rhodan voltou a olhar para a frente e desligou a direção automática. Os estaleiros surgiram na semi-escuridão. Raríssimas luzes estavam acesas, e o campo de pouso, que costumava ficar profusamente iluminado, jazia numa escuridão completa.

Rhodan parou diante do edifício principal. Segurando a mão de Betty, correu para a entrada. Foi seguido pelos passos balouçantes de Gucky, que xingava em sua voz chilreante.

Quando Rhodan entrou, Bell soltou um suspiro de alívio. Estava sentado à frente do quadro de chaves de um gigantesco painel de controle. Lidava simultaneamente com os diversos aparelhos de rádio, através dos quais controlava as unidades do exército e cuidava da entrada em ação dos robôs de combate. Transmitiu mais algumas instruções, colocou várias chaves na posição de repouso e se levantou.

— Ainda bem que você veio — disse. — Sozinho não agüentaria isto por muito tempo.

— De resto tudo em ordem? — perguntou Rhodan.

— Pelo que vejo, sim. Mas chego a acreditar que você vê as coisas pretas demais. Deringhouse dará risada ao ver que confusão causou. É possível que seu rádio esteja com defeito...

— Não temos muito tempo para especular sobre o sentido e a finalidade das medidas de precaução que estamos adotando. A hora logo chegará — comunicou Rhodan.

No mesmo instante o receptor de Rhodan emitiu um zumbido. Era Freyt.

— Já está na sala principal do espaçoporto?

— Sim, pode mudar a ligação.

Dali a poucos segundos o rosto de Freyt surgiu na tela. Olhou para a sala por alguns segundos e começou a falar.

— Deringhouse reduziu a velocidade de seu veículo esférico. A nave penetrou na atmosfera terrestre e continua a baixar. Se continuar na mesma direção, deverá pousar no território da Terceira Potência.

Fez uma pausa. Depois prosseguiu:

— Já conseguimos estabelecer contato visual com o girino VII. Quanto ao aspecto externo não se nota qualquer alteração. Os destróieres não estão à vista. Continua a se aproximar. O campo energético protetor não foi ativado. Começo a acreditar que andamos vendo fantasmas.

— Não acredito em fantasmas — retrucou Rhodan e deu fim à palestra. Chamou John Marshall. O telepata respondeu imediatamente.

— O Exército de Mutantes está entrando em ação. Wuriu Sengu já conseguiu captar uma imagem, ainda pouco nítida, da sala de comando do girino VII.

Sengu era um japonês dotado de uma capacidade extraordinária. Via através da matéria opaca, mesmo a grande distância.

— Diz que a nave está sendo dirigida por Deringhouse. Ao menos é ele que se encontra no assento do piloto. É estranho, não acha? — completou Marshall.

— Por que o comandante de uma nave não vai assumir a direção durante o pouso? — disse Rhodan, um tanto admirado. — Há mais algum detalhe?

— Fellmer Lloyd, nosso localizador, captou modelos de ondas cerebrais muito débeis, mas não conseguiu identificá-las. Afirma que retratam principalmente a indiferença. E captou mais uma coisa indefinível. Não consegue descrever os. sentimentos do portador desse modelo de ondas cerebrais.

— Deve continuar a se concentrar — ordenou Rhodan. — Avise-me assim que haja algo de anormal.

Mais uma vez entrou em contato com Freyt.

— Coronel, preciso imediatamente da posição exata do girino número sete.

Dali a dois minutos, Betty estava reclinada numa poltrona confortável. De olhos fechados, olhava obliquamente para o teto da sala, que não representava qualquer obstáculo aos seus pensamentos tateantes.

Aflito, Rhodan aguardava o resultado.

Subitamente os traços do rosto da jovem se contraíram. Os lábios estreitaram-se e as mãos tremeram. Parecia que Betty procurava ouvir vozes distantes, que mal entendia. De repente abriu os olhos.

— Quem dirige a nave é Deringhouse, mas também não é. Seu modelo de ondas cerebrais é idêntico ao de alguns dos mutantes do Supercrânio que nós aprisionamos. Receio que...

Rhodan não perdeu um segundo. Chamou Freyt e ordenou-lhe que imediatamente desencadeasse o alarma 1. Marshall também foi avisado. Bell transmitiu as necessárias instruções ao exército. Os robôs apontaram os canhões para o céu, que nesse meio tempo havia enegrecido.

Terrânia estava preparada para receber o Supercrânio, que vinha oculto no espírito de Deringhouse.

Todos sabiam que o major Deringhouse estava perdido.

O tenente Carell da guarda fronteira também não o ignorava. Era bem verdade que não tinha sob seu comando qualquer canhão de radiação capaz de destruir a Good Hope-VII; cabia-lhe vigiar, com sua pequena unidade, a fronteira leste da Terceira Potência.

Estava realizando uma inspeção. O pequeno rádio que trazia consigo permitia-lhe um contato permanente com os postos de comando. Uma vez que nenhum perigo real ameaçava a fronteira, andou ao longo do campo de pouso e controlou as sentinelas ali postadas.

Uma sombra imensa destacou-se no horizonte escuro. Era a Stardust-III, a maior nave espacial que existia. Com oitocentos metros de diâmetro, alcançava velocidade superior à da luz, tinha a bordo um armamento inconcebível e abrigava uma tripulação permanente de quinhentos homens. Rhodan apreendera a nave dos tópsidas, quando estes tentaram conquistar o sistema Vega.

Ao lado dela estavam estacionados dois cruzadores pesados da classe Terra, construídos em nosso planeta: o Terra e o Solar System. Seu diâmetro atingia duzentos metros. Também tinham forma esférica, que oferecia grandes vantagens. Os doze girinos, de tamanho idêntico ao das naves da classe Good Hope, encontravam-se a certa distância, prontos para decolar. Aguardavam instruções para entrar em ação.

O tenente Carell constatou esses fatos, enquanto ouvia distraidamente as últimas instruções de alarma de Rhodan. Parecia que a situação começava a ficar séria. E nem havia certeza se Deringhouse...

Foi o último pensamento de Carell. Há um instante caminhara pelo concreto do campo de pouso, vivendo com todas as células de seu corpo. Dentro de um segundo transformou-se numa bomba atômica em detonação, que derreteu o concreto numa grande extensão. A imensa bola de fogo iluminou o gigantesco campo de pouso, fazendo com que todos os detalhes se tornassem nitidamente perceptíveis. Um cogumelo de fumaça negra abriu-se e foi subindo lentamente. Aos poucos a bola de fogo foi se apagando.

A onda de compressão e de calor percorreu o campo de pouso em direção às naves que se mantinham prontas para decolar.

Rhodan e Bell viram o relampejo. Pela forma da explosão concluíram imediatamente que tipo de descarga energética tinham diante de si. Enquanto os dois homens se atiravam ao solo, Rhodan chamou as quinze naves espaciais:

— Decolem! Decolem imediatamente! Mantenham contato e coloquem-se numa distância segura.

Sentado no chão, Bell ligou o aparelho que lhe permitia controlar toda a cidade de Terrânia. Dentro de poucos segundos vinte telas iluminaram-se, retratando todo o território da Terceira Potência, visto de cima. Como numa figura em alto-relevo, a cidade estendia-se embaixo do observador. As ruas iluminadas formavam retas perfeitas. Ao lado desse quadro o deserto estendia-se até o espaçoporto. As telas do meio mostravam o território situado embaixo da abóbada energética. Era ali que se situava o verdadeiro centro do poder de Rhodan.

Com o rosto transformado em máscara, Bell viu que numa das extremidades do campo de pouso um canhão de radiações robotizado se desmanchou numa nuvem de incandescência radiativa. A tela retratou o fenômeno em todos os seus detalhes, tornando-o ainda mais misterioso. Nenhum tiro havia sido disparado, e ninguém atirara uma bomba. A Good Hope-VII ainda se encontrava a uma distância muito grande para fazer uma pontaria tão precisa.

Apesar disso as bombas atômicas estavam explodindo no território da Terceira Potência.

— Não é possível! — disse Bell com um gemido.

Betty continuava reclinada em sua poltrona. As ondas de choque desencadeadas pelas explosões percorriam a área. O calor começava a se tornar insuportável.

— Deve haver alguma explicação — murmurou Rhodan, embora soubesse que não a tinha à mão.

Em vários pontos as telas se iluminavam.

As bombas atômicas detonavam em toda parte, vindas do nada. Unidades completas do exército de robôs desmanchavam-se no ar, antes que pudessem entrar em ação... contra quem? Mesmo Rhodan ainda não percebia que os próprios robôs se transformavam em bombas atômicas.

O coronel Freyt chamava com urgência, usando todas as faixas disponíveis.

— Perry Rhodan! Alarma máximo. O girino número sete está atacando. Só pode ser o girino número sete sob o comando de Deringhouse. Crest recomenda o uso da bomba gravitacional. Supõe que Deringhouse esteja usando a nova arma do Supercrânio, que lhe permite desencadear a grande distância um processo de fusão em qualquer porção de matéria. Aguardo suas instruções.

De uma hora para outra um silêncio apavorante espalhou-se naquela sala do edifício principal.

Rhodan fitou os olhos muito arregalados de Freyt. Pela primeira vez lia neles uma desorientação completa — e era precisamente o que ele mesmo sentia.

— A bomba gravitacional? — disse, estremecendo. — Em plena Terra? Pode ser o fim, Freyt. Diga a Crest que não quero assumir o risco de utilizar a arma definitiva. Devemos encontrar outra saída. Por enquanto os senhores, que estão sob o abrigo da abóbada energética, estão em segurança.

No mesmo instante viu a prova da falsidade de suas palavras. Pelo canto do olho Rhodan viu perfeitamente que na tela do centro surgiu uma mancha de fogo, que aumentou rapidamente e voltou a se apagar.

A arma do Supercrânio podia romper o envoltório protetor dos arcônidas, que nem mesmo os foguetes atômicos das superpotências haviam conseguido destruir.

Era o fim, se não acontecesse um milagre.

— Bell! — a voz de Rhodan continuava calma e controlada. — Pegue um destróier de três homens e suba imediatamente à estratosfera. Betty e Gucky irão com você. Procurem entrar em contato com Deringhouse. Vamos logo, não percam tempo. Bell não se mexeu.

— E você?

— Faça o que digo. Não se preocupe comigo. Irei nos outros destróieres e assumirei o comando da Stardust-III. Talvez nossos hipnos consigam romper a vontade do Supercrânio.

Bell se levantou lentamente. Olhou para Betty.

— Quer que numa missão de vida e morte leve uma moça?

— Sou membro do Exército de Mutantes como qualquer outro — protestou Betty cheia de indignação.

Parecia não sentir medo.

— Betty é a mais potente das nossas telepatas — confirmou Rhodan. — Se é que alguém pode descobrir as intenções do Supercrânio encarnado em Deringhouse, é Betty. Ficaremos em contato.

Ao mesmo tempo Rhodan pôs em estado de alarma os destróieres guardados nos hangares. Freyt foi avisado. Marshall e seus mutantes correram para o campo de pouso, enquanto mais dois robôs de combate desfizeram-se numa detonação atômica.

Bell, Betty e Gucky entraram no Z-13, que estava pronto para decolar. Mal a escotilha se fechou, a nave deslizou pelo trilho horizontal e, uma vez do lado de fora, subiu numa trajetória inclinada. Numa aceleração louca, disparou para o céu negro do deserto.

Subitamente uma das áreas situadas lá embaixo, do lado esquerdo, transformou-se num inferno de fogo. Era o pequeno hangar com os dois destróieres de reserva. Bell, que por acaso olhara para a tela de popa, fechou os olhos diante da luminosidade ofuscante. Num cálculo veloz certificou-se de que nem Rhodan nem Marshall com seus mutantes podiam ter chegado aos dois destróieres.

A tela de proa!

Ligou o rastreador de escuridão e dentro de dez segundos viu a Good Hope-VII, que surgiu nitidamente na tela. Ao que parecia Deringhouse não tinha a intenção de pousar; mantinha-se acima de Terrânia, numa altitude de dez quilômetros.

— Deve ser este — chiou Gucky, que se encontrava mais aos fundos, recuperando-se do cansaço da corrida. — Não o vejo atirar bombas.

Bell não tirou os olhos da tela, enquanto reduzia a velocidade da Z-13.

— Nem pode ver. Está usando uma arma nova. Você acredita que conseguiria assumir o controle telecinético dessa canoa?

— Talvez — disse Gucky, duvidando de sua capacidade. — Vou tentar.

Mas não chegou a tentar.

De repente, a Good Hope-VII descreveu uma curva elegante e, com a aceleração máxima, disparou para o espaço, deixando para trás o Z-13 e os destróieres que acabavam de decolar da Terra.

Será que o Supercrânio desistira do ataque?

 

Em agosto de 1949 a primeira bomba atômica da União Soviética explodiu na Sibéria. O acontecimento surpreendeu e apavorou o mundo ocidental. Mas também apavorou os cientistas soviéticos, ao menos alguns dos que assistiram pessoalmente à explosão.

Ivã Vassilevitch Goratchim e sua jovem esposa Ludmila pertenciam à equipe pioneira. As condições meteorológicas desfavoráveis que surgiram logo após a explosão fizeram com que a nuvem de poeira radiativa se abatesse sobre eles. Os exames realizados imediatamente após o acidente revelaram que a dose de radiatividade a que ambos estiveram expostos era mortal.

Goratchim não concordou em se separar da esposa e ser internado num hospital. No fundo do coração sabia que só viveria mais alguns meses, talvez um ano; e ainda tinha um pressentimento de que o destino que o atingira ainda seria o de várias gerações futuras.

Fugiu com a esposa para as tundras da Sibéria, apagou todas as pistas e desapareceu.

Na beira de algum rio entrou em contato com madeireiros que viviam principalmente da caça e só a contragosto se desincumbiram dos seus deveres para com o Estado. Não se mostraram interessados em saber quem eram o homem e a mulher em busca de refúgio. Acolheram-nos, ajudaram o homem a construir uma cabana e, em recompensa, valeram-se dos seus serviços de conselheiro no soviet da aldeia. Sabia preencher os documentos de entrega exigidos pelo governo de tal forma que dali em diante não houve mais problemas com as comissões de controle que a cada três ou quatro anos surgiam na aldeia. Ludmila deu à luz um filho. Era um monstro de duas cabeças. Ao nascer pesava sete quilos e meio, tinha pele verde e escamosa, e pernas compridas e robustas.

Só com grande esforço Ivã conseguiu impedir que os habitantes da aldeia matassem seu filho. Invocou os direitos do indivíduo e a igualdade dos homens. Os madeireiros cederam, mas passaram a evitar os fugitivos que se haviam instalado em seu meio.

De qualquer maneira, o mutante foi criado na aldeia solitária. Quando chegou aos três anos, todo mundo havia se acostumado à sua figura, mas os pais estavam mortos.

Um belo dia Ivã Vassilevitch desaparecera. Ludmila pedira aos madeireiros que não o procurassem. Só ela sabia que o esposo queria evitar aos outros homens a visão do quadro que seu corpo oferecia. Pouco depois sentira que sua hora também havia chegado. O filho de duas cabeças estava com três anos. Já sabia se alimentar e ajudava os madeireiros em seu trabalho na floresta.

De forma que também Ludmila desaparecera um dia, e nunca mais fora vista. Tal qual o marido, morrera sozinha na tundra solitária.

Com quinze anos, Ivã era um membro da comunidade, tratado de igual para igual pelos outros. Ninguém pensaria em zombar dele por causa das duas cabeças. Quando apareciam pessoas de fora, ele se escondia. Não queria que ninguém soubesse de sua existência.

E assim Ivã atingiu a idade de vinte e três anos. Sua autoconfiança crescera. Certo dia, quando uma comissão visitou a aldeia, não se escondeu mais.

Seu aspecto provocou horror, e depois despertou a admiração dos visitantes.

Um deles passou a demonstrar um interesse todo especial por Ivã.

— Amigo, você não está com vontade de ir comigo para as grandes cidades?

— Não, não estou com vontade — respondeu Ivã. Sem dizer mais uma palavra retirou-se e encontrou-se com os amigos na beira do rio, onde pescavam pelos buracos abertos no gelo.

Dali a quatro meses, o estranho voltou. Mas dessa vez não veio só. Trouxe consigo quatro soldados uniformizados que traziam fuzis nas mãos. Vinham a mando do governo, e deviam levar Ivã, segundo diziam.

A aldeia não fazia nenhuma questão de chamar a atenção do governo. Ivã reconheceu isso e compreendeu seu ponto de vista. No fundo era um sujeito bonachão, e no seu enorme corpo de dois metros e meio de comprimento palpitava um coração russo do dobro do tamanho normal. E esse coração sabia odiar com intensidade dobrada, quando fosse necessário.

Dessa vez era necessário.

Ivã não resistiu quando os soldados o colocaram entre si e o levaram. O estranho, que trajava um grosso casaco de pele, ia à pequena distância atrás deles. Mantinha ambas as mãos enterradas nos bolsos e Ivã sabia que neles guardava suas pistolas.

Os madeireiros seguiram o grupo com os olhos e conformaram-se com a idéia de que nunca mais chegariam a ver Ivã. Só agora começaram a dar-se conta do que valia. Não salvara a vida de alguns deles quando estavam perdidos no mato e não tinham mais nenhum fósforo? Fazia um frio terrível, a lenha estava dura e congelada. Não havia fogo. Foi quando Ivã acendeu uma fogueira, uma fogueira enorme que não se apagou mais. Apenas olhara para certo lugar... e as chamas começaram a se erguer. Não demoraram em recuperar as forças; assim puderam voltar à aldeia, que logo encontraram.

Ninguém se dera ao trabalho de refletir sobre a maneira pela qual Ivã pudera pôr fogo na lenha congelada.

Quando Ivã voltou já era escuro. Sua perna sangrava; havia sido perfurada pela bala disparada por aquele estranho. Os lenhadores cobriram-no de perguntas, mas Ivã não respondeu. Limitava-se a fitar a floresta e a encosta suave, atrás da qual ficava a tundra que se tinha de atravessar para chegar às cidades feitas pelos homens.

Um brilho súbito surgiu em seus olhos.

— Estão voltando — murmurou.

Os madeireiros estremeceram: olhavam para a noite, mas não viam nada além dos troncos escuros das árvores.

Os homens calaram-se e acompanharam seu olhar vidente, sem descobrir o objetivo. O morro ficava a quase dez quilômetros, e a noite estava escura como breu.

Ivã fechou os quatro olhos. Estava sentado num tronco e apoiou as mãos no mesmo. Tinha o corpo ligeiramente inclinado para a frente. Sabia para onde devia dirigir seus fluxos mentais; por alguns segundos uma lamparina se acendeu.

E o inconcebível aconteceu.

De repente viu-se uma terrível explosão na floresta. Uma bola de fogo ofuscante formou-se e subiu lentamente em direção às estrelas. Quando a bola se apagou e escureceu, restou uma nuvem que emitia uma luminosidade débil. Parecia um gigantesco cogumelo que se espalhou e assumiu formas apavorantes.

Depois disso, uma onda de calor passou pela aldeia, derreteu a neve que ainda restava e abriu grandes fendas no gelo fino do rio. As mulheres soltaram gritos de pavor e atiraram-se ao solo. Ivã soltou uma terrível gargalhada, mas em sua risada ouvia-se o pavor pelo que acabara de fazer. Os homens fizeram o sinal-da-cruz.

Por muito tempo falaram sobre o milagre, mas ninguém soube dar uma explicação. Ivã retirou-se para sua cabana e não quis falar com ninguém.

Quando o dia amanheceu, todos dirigiram-se para o morro. O que lhes foi dado ver era um mistério ainda maior que a pavorosa explosão da noite anterior. Uma gigantesca cratera havia sido aberta em plena rocha, arrastando consigo as árvores, os arbustos e as neves. Num círculo de dois quilômetros não havia nenhuma planta viva. A mancha negra da devastação formava um círculo quase perfeito, em cujo centro ficava a cratera.

Dos cinco caçadores de gente não sobrava mais que isso.

Dali em diante Ivã se transformou numa supercriatura. Ao que parecia gostava do papel que passara a desempenhar, e não se fazia rogado para dar pequenos exemplos de sua força misteriosa. Não poderia saber que aquela força não era outra coisa senão a herança deixada por seus infelizes pais, cujas células genéticas haviam sofrido tamanha alteração em virtude das radiações a que estiveram expostas.

Dali a alguns anos, Clifford Monterny começou a formar seu exército de mutantes. Ivã nunca teria acompanhado espontaneamente aquele estranho inchado que certo dia apareceu nas terras solitárias da Sibéria. Acontece que aquele estranho era o hipno mais potente do mundo. Obrigou Ivã a se submeter à sua vontade e ordenou-lhe que dali por diante fosse seu servo fiel.

Ivã obedeceu e acompanhou Clifford Monterny para a América, onde ficava o quartel-general do Supercrânio. Ali lhe foi dispensado o treinamento que o transformou na arma mais perigosa do mundo. Sob a orientação do Supercrânio, Ivã não demorou em captar, ótica e espiritualmente, qualquer alvo situado a muitos quilômetros de distância, transformando-o em energia atômica.

Monterny levou o mais precioso de seus mutantes para Marte, onde acabara de instalar uma base. Depois disso, a guerra contra a Terceira Potência foi iniciada.

A batalha terminara com a vitória de Rhodan. Mas Monterny conseguiu escapar e fugiu para Marte, onde Ivã e duas dezenas de ajudantes, aos quais fora aplicado um bloqueio hipnótico, estavam à sua espera. Muitas vezes Monterny escolhera seus aliados entre certos elementos criminosos, porque o desaparecimento destes era menos notado pela sociedade humana do que seria o de bons pais de família ou personalidades desconhecidas.

E agora, quando o major Deringhouse com a Good Hope-VII esteve a ponto de descobrir a base de Marte, tão bem escondida, o Supercrânio agiu. Além do mais, não quis perder essa chance única de se apoderar da nave esférica.

Tudo saiu segundo o planejado.

Deringhouse ordenou aos seus homens que saíssem da nave. Poucos segundos depois estavam sob o controle do Supercrânio, que lhes aplicou um bloqueio hipnótico. Os cinco destróieres que restavam encontraram seu porto num desfiladeiro. Os tripulantes foram trancafiados.

O major Deringhouse e vinte e cinco dos seus homens receberam ordens para desencadear um ataque decisivo contra o quartel-general de Perry Rhodan em Terrânia.

Ivã Ivanovitch seria a arma principal.

 

O major Deringhouse despediu-se do Supercrânio, pelo qual não sentia simpatia nem antipatia. O mesmo não lhe provocava qualquer sentimento e o aspecto apavorante de Ivã deixava-o completamente frio. O mesmo acontecia a seus homens.

Apesar disso, os homens submetidos ao controle do Supercrânio não poderiam ser considerados seres cem por cento automatizados. Ao menos com Ivã isso não acontecia, pois, no curso dos últimos três anos, ele havia recuperado parte de sua capacidade individual de pensar. A independência mental não foi suficiente para libertá-lo do domínio do Supercrânio, mas permitiu-lhe que refletisse sobre certos problemas; por enquanto tratava-se dos problemas de natureza secundária.

Havia, por exemplo, o problema de qual das duas cabeças era a mais velha e, portanto, a que recebia mais intensamente os impulsos nervosos.

A cabeça do lado direito foi chamada de Ivã — o que no fundo era uma falsidade e uma tolice — e afirmava que sua consciência havia despertado três segundos antes da outra cabeça. O tema deu margem a discussões que duravam horas. Essas discussões sempre terminavam no nada, pois ambas as cabeças dispunham de um só corpo e um único sistema nervoso.

Da mesma forma que era errôneo chamar a cabeça do lado direito de Ivã, não se justificava que a outra fosse tratada de Ivanovitch. A atribuição desses nomes resultará de um engano do Supercrânio, que nunca dera a menor atenção ao fato de que os costumes russos exigem dois nomes para cada pessoa; no caso de Goratchim, Ivã era o nome propriamente dito, enquanto Ivanovitch apenas significava “filho de Ivã”.

Mas aconteceu o que tantas vezes se vê: do erro resultou um nome chistoso e permanente...

A Good Hope-VII decolou. Marte não demorou a mergulhar na imensidão do espaço. Quando passou pela nave Z-45, o major Deringhouse teve a impressão de que deveria fazer alguma coisa, mas a voz do Supercrânio logo soou em sua mente:

“Prossiga no seu vôo, Deringhouse. Não se incomode com nada que aconteça fora de sua nave. Está ouvindo? Não precisa se incomodar com coisa alguma, pois cuidei de tudo. Voe para Terrânia sem se anunciar. Fique parado acima da cúpula energética de Terrânia, numa altitude de dez quilômetros, e não faça nada.”

Bem no subconsciente, o último comando tranqüilizou Deringhouse. Sentiu-se aliviado por não ter que lançar mão de suas armas, muito embora não pudesse deixar de dar a devida atenção a uma ordem desse tipo, se a mesma fosse dada.

E a Good Hope-VII ficou parada acima de Terrânia. Conforme as instruções recebidas, todos os aparelhos de comunicação e localização haviam sido desligados. Dessa forma Deringhouse não ouviu os chamados insistentes de Rhodan e do coronel Freyt. Contemplou indiferente os lampejos das explosões atômicas que se verificavam lá embaixo. Acreditava que as mesmas não eram causadas nem por ele, nem por seus homens.

Mais uma vez seu subconsciente, ainda não inteiramente adormecido, sentia-se tranqüilizado.

Ivã Ivanovitch, sentado na cama, estava sozinho no seu camarote. Seus olhos inexpressivos fitavam as telas de imagem. Voltava constantemente a emitir seus olhares concentrados, até que estes encontraram a primeira vítima em movimento.

Foi o tenente Carell.

Carell era um homem, isto é, um organismo vivo, e como tal consistia em parte de átomos de cálcio e carbono, e suas combinações. Os fluxos mentais de Ivã, quando bastante concentrados, produziam nas mais diversas substâncias o efeito que um detonador causa num explosivo perigoso. Liberavam a energia contida na matéria. Isso significava que Ivã podia transformar qualquer ser humano numa bomba atômica em detonação sempre que o desejasse.

E não sabia produzir esse tipo de transformação apenas nos seres humanos. Quase todas as substâncias compostas do universo contêm carbono. Por isso não se limitou a fazer explodir seres humanos; dirigiu seus ataques também contra os robôs de combate da Terceira Potência. Ia desencadeando a esmo as explosões aniquiladoras lá na Terra, sem se dar conta do mal que causava com isso.

Enquanto isso, o Supercrânio encontrava-se bem longe, em Marte, e dirigia as atividades de seu detonador, nome que dera ao mutante duplo Ivã Ivanovitch. Era essa sua arma misteriosa e desconhecida; com ela esperava infligir a derrota final a Rhodan.

Os acontecimentos haviam chegado a esse estágio quando surgiu um imprevisto, com o qual nem o Supercrânio contara. Seu bloqueio hipnótico era firme, e não podia ser afetado, muito menos eliminado, mesmo a grande distância. Acontece que Rhodan também tinha seus mutantes.

Como, por exemplo, Betty Toufry.

O primeiro contato, bastante débil, que estabeleceu com Deringhouse, fez com que a vontade extremamente forte do Supercrânio, que se encontrava a uma distância muito grande, recebesse seu primeiro golpe, ao menos no que dizia respeito ao bloqueio hipnótico a que Deringhouse estava sujeito.

Ainda havia André Noir, o hipno.

Evidentemente as faculdades de Noir não eram tão potentes como as do Supercrânio, mas bastavam para fazer com que um ser que se encontrava a bordo da Good Hope-VII vacilasse, no sentido em que o Supercrânio empregava o termo, mesmo durante a fuga precipitada. Enquanto fugia em direção ao espaçoporto de Terrânia, Noir conseguiu estabelecer contato com sua vítima, removendo parcialmente o bloqueio hipnótico do Supercrânio.

Enquanto isso, John Marshall, o telepata, captava fragmentos de idéias verdadeiramente pavorosas. No primeiro instante não julgou possível que se tratasse de pensamentos humanos. Mas se lembrou de que Fellmer Lloyd captara estruturas mentais semelhantes por ocasião do primeiro contato.

Não havia dúvida de que vinham da Good Hope-VII.

De uma hora para outra os impulsos mentais cessaram. Também não houve mais nenhuma explosão atômica. Nem mesmo Rhodan desconfiou de que houvesse alguma relação entre os dois fenômenos.

No mesmo instante, a Good Hope-VII acelerou loucamente e desapareceu em direção a Marte.

 

Bell estava perplexo. Olhou para a tela, onde o tamanho da nave esférica diminuía tão depressa que até parecia uma bola que caía no abismo da eternidade.

Gucky viu que lhe fora roubada a oportunidade de dar prova do seu saber.

— Está fugindo de mim — consolou-se com um chiado agudo, que exprimia ao mesmo tempo a alegria e a contrariedade. — Percebeu que eu pretendia agarrá-lo. O Supercrânio é um covarde!

— Você não devia tirar conclusões apressadas e por isso mesmo falsas — advertiu-o Betty Toufry, que estava sentada numa grande poltrona. — Você é um ótimo telecineta, mas um péssimo telepata...

— ...e você é uma ótima telepata, mas uma péssima telecineta — defendeu-se Gucky, que parecia furioso.

— Isso mesmo — confirmou a moça, sem demonstrar a menor contrariedade. — E é por isso que sua conclusão, segundo a qual o Supercrânio está com medo de você, é falsa.

— Estabeleceu contato com Deringhouse? — interveio Bell, enquanto, em vão tentava estabelecer contato pelo rádio com Rhodan ou o coronel Freyt.

— Diretamente não — Betty sacudiu a cabeça. — Por um instante acreditei que sentia sua insegurança, mas logo seus débeis fluxos mentais foram superados por um outro, mais próximo e mais forte...

— O Supercrânio — conjeturou Bell sem refletir.

Mais uma vez Betty sacudiu a cabeça.

— Eu disse: mais próximo. O Supercrânio está em Marte. Deve ter um representante habilitado na Good Hope-VII, que dá as ordens a Deringhouse. Foram estes os pensamentos que captei.

— E daí? — perguntou Bell, tenso de curiosidade. Girou os botões do receptor e ouviu um zumbido monótono. Era o sinal de chamada da Terceira Potência.

— Mandou que Deringhouse se retirasse imediatamente até as proximidades da Lua.

— Da Lua? — perguntou Bell, abrindo o volume. — Por que justamente nas proximidades da Lua?

— Não sei — respondeu a moça; parecia desorientada. — De qualquer maneira, nos pensamentos do estranho não havia o menor sinal de medo. Antes notava-se uma certa superioridade e alguns traços de arrependimento. Já não entendo mais nada.

— De arrependimento? — Bell lançou um olhar indagador para Betty. — Por que teria ordenado a destruição da Terceira Potência, para depois sentir arrependimento? Ah... aí está Rhodan.

Regulou o som e ligou a imagem. Poucos instantes depois o rosto de Rhodan surgiu na enorme tela. Via-se nele uma expressão de enorme surpresa. As rugas profundas faziam-no parecer alguns anos mais velho.

— Alô, Bell. O que houve? Perdemos Deringhouse?

— O que houve aí embaixo? — indagou Bell.

— Alguma destruição, mas o bombardeio terminou de repente — apressou-se Rhodan em responder, pois sabia perfeitamente que antes disso Bell não lhe contaria nada. — O Exército de Mutantes está nos destróieres juntamente comigo. Pretendia-mos iniciar a caçada, mas Deringhouse desapareceu.

— Retirou-se para a Lua — disse Bell. — Betty conseguiu captar alguns pensamentos.

— Está bem. Embarcarei na Stardust-III com os mutantes e iniciarei a perseguição. Freyt irá atrás de mim com seus destróieres de combate. Você procurará localizar a pista. Betty fará o possível para continuar a manter contato com Deringhouse.

— Há alguém a bordo da Good Hope-VII — disse Bell com a voz insegura. — Alguém que desencadeou as explosões na Terra e agora está arrependido. É o que Betty afirma. Esse alguém também deve estar habilitado para dar instruções a Deringhouse.

— Será? — disse Rhodan. Ficou calado por alguns segundos. — Não seria nada mau se conseguíssemos capturar esse alguém vivo.

— Faremos o possível — prometeu Bell.

— Iniciem a perseguição — concluiu Rhodan. — Seguiremos atrás de vocês a uma distância segura. Fiquem em recepção. Fim.

Bell dedicou sua atenção aos controles. Não demorou que voltasse a captar a imagem da Good Hope-VII. A nave esférica entrara em órbita em torno da Lua.

A Terra afundou atrás da Z-13 tal qual uma pedra no mar. A esfera metálica que aparecia na tela aumentava a olhos vistos. Bell acompanhava todas as mensagens trocadas entre Rhodan e as outras naves. Dessa forma conseguiu pôr-se a par do que acontecia atrás dele. Rhodan assumiu o controle da Stardust-III e seguiu a Z-13 numa aceleração bastante reduzida. Apesar do perigo que Deringhouse representava, parecia ter desistido do intento de destruir a Good Hope-VII. Bell imaginava que Rhodan estava tão interessado na arma secreta que não tinha a intenção de privar-se dela através da perda total do girino número sete.

Dali a dez minutos, Bell e seus amigos alcançaram a Lua. Entrou numa órbita aproximadamente igual à da Good. Hope-VII e seguiu o girino numa distância segura. Evidentemente qualquer estimativa teria uma precisão apenas relativa, mas confiava nas assertivas de Betty, segundo a qual no momento não corriam o menor perigo.

Quando soube, por intermédio do contato de rádio com a Stardust-III, que Rhodan estava pronto para intervir, Bell agiu.

— Gucky, você se teleportará no momento exato e desligará as máquinas da Good Hope-VII. Já sabe como tem que fazer para colocar a parede divisória entre os dois elementos do reator. Acha que sua energia telecinética basta para isso? Basta? Muito bem. Betty, você manterá contato com Deringhouse e o homem que o vigia. Previna-nos assim que for emitido um comando para o ataque ou para uma ação de defesa de grande envergadura. Talvez tenhamos sorte. Vamos adiante!

Colocou a mão direita sobre o acionador do canhão de impulsos, usou a esquerda para imprimir uma aceleração média à nave e fez com que a Z-13 disparasse em direção à Good Hope-VII como uma bala.

Gucky estava sentado numa enorme poltrona. Fechou os olhos.

Sua grande hora havia chegado.

— Morte para o Supercrânio! — chiou sua voz aguda. Depois disso começou a se concentrar para a teleportação.

 

Ivã Ivanovitch sentiu que alguma coisa começava a remexer nos cérebros de suas duas cabeças.

De repente teve a impressão de que uma argola de metal colocada em torno das duas testas se soltava.

Onde estava?

A mente de Ivã começou a funcionar como uma máquina em aquecimento. Recordações já esquecidas surgiam das profundezas do subconsciente e foram completando o quadro de sua situação, que estava sendo traçado.

Sacudiu ambas as cabeças, levantou-se e dirigiu-se à sala de comando da nave. Ao passar pelas portas teve de se abaixar.

Quando o mutante entrou, o major Deringhouse levantou os olhos.

— O que houve, Ivã? Tudo liquidado?

— O que devia estar liquidado? — disse Ivã num tom de espreita, sem permitir que a cabeça irmã Ivanovitch, que contava menos três segundos de idade, fizesse uso da palavra. Sentou numa das poltronas e fitou Deringhouse com os olhos atentos. Mais uma vez sentiu a busca martirizante em seu cérebro, mas ao mesmo tempo sentiu uma pressão diferente, que trazia todos os indícios de uma hostilidade apavorada.

— Só podia ser Terrânia — respondeu Deringhouse em tom maquinal, sem pensar. — Afinal, nossa missão é destruir Terrânia.

— O que vem a ser Terrânia? — indagou Ivã. — Quem nos incumbiu de destruir Terrânia? E por quê?

— Não sei por quê. Só sei que... — Deringhouse interrompeu-se quando a pressão em seu cérebro cresceu a ponto de se tornar dolorosa. Uma voz passou a lhe falar, e ele a entendia perfeitamente:

“Regresse, major Deringhouse. Pouse em Marte, exatamente no lugar de que decolou.”

O Supercrânio havia registrado as alterações ocorridas com seu mutante Ivã. Depois de mais uma tentativa frustrada, reconheceu que a uma distância de vários milhões de quilômetros não estava em condições de realizar a correção. Ainda percebeu que mesmo um bloqueio hipnótico tem de ser renovado a intervalos regulares. Seu erro consistira em descobrir isso muito tarde.

— Regressar — disse Deringhouse, repetindo o comando mental do hipno e pôs as mãos nos controles. A Good Hope-VII descreveu uma curva e, numa aceleração enorme, disparou espaço afora.

Ivã perscrutou seu interior, como se ouvisse vozes. O Supercrânio? Não era o homem que o tirara do mato, naquele tempo recuado, há alguns anos? O homem ao qual desde então obedecia — ou melhor, tinha de obedecer? Por que tinha de obedecer?

De forma suave e quase carinhosa, certos pensamentos sugestivamente reforçados penetraram em sua mente. Eram diferentes daqueles que conhecia. Não traziam em si nada de ameaça ou violência; eram apenas insistentes e amáveis.

“Torne-se livre, Ivã”, pareciam dizer. “Liberte-se do jugo do Supercrânio, Ivã, e comece a pensar com sua própria cabeça.”

Pensar com a própria cabeça, pensou o mutante cheio de espanto e indagou de si para si o que significaria isso. Voltou a dedicar sua atenção ao major Deringhouse, que se mantinha imóvel diante dos controles, levando a nave em direção a Marte.

Em Marte o Supercrânio os aguardava. Quanto mais se aproximassem dele, tanto mais forte se tornaria a pressão em sua cabeça. Novas ordens seriam dadas. Teria que voltar a fazer fogo...

Ivã levantou devagar e colocou-se ao lado de Deringhouse.

— Ali fica a Lua. Não passe dela.

Deringhouse levantou os olhos. Havia neles uma expressão de pavor.

— Mas o Supercrânio...

— Quem manda aqui sou eu, não o Supercrânio — esclareceu Ivã em tom áspero. De uma hora para outra teve a impressão de que devia agir com a maior energia, se não quisesse perder uma grande oportunidade. Por enquanto tudo era confuso e indeterminado. Agia instintivamente, mas não inconscientemente.

O major Deringhouse recebeu a contra-ordem do Supercrânio, mas não a cumpriu. A figura gigantesca e ameaçadora de Ivã, que se encontrava a seu lado, representava um perigo muito maior e mais próximo. Fez o que lhe fora mandado: entrou com a Good Hope-VII numa órbita em torno da Lua.

Mas o Supercrânio não iria desistir por tão pouco. Seus comandos martelaram os cérebros dos tripulantes, que não haviam entrado em contato com os mutantes de Rhodan. André Noir não podia atingir todos ao mesmo tempo com os seus fluxos mentais carregados de força hipnótica.

Ivã virou-se apressadamente quando a porta foi aberta e dois homens de pistola em punho precipitaram-se para dentro da sala de comando.

Os punhos de Ivã precipitaram-se para a frente. O do lado esquerdo foi dirigido por Ivanovitch, e o do lado direito por Ivã. Os dois homens nem souberam o que estava acontecendo com eles. Os punhos produziram seu impacto nos queixos dos homens, que subitamente tiveram a impressão de que escamas lhes cobriam os olhos. A pressão do cérebro cessou. Os comandos do Supercrânio deixaram de ser percebidos.

Só deixaram de ser percebidos porque André Noir começou a dispensar seu tratamento aos dois infelizes.

Mas havia mais vinte e três homens a bordo; e eram homens que dariam a vida pelo Supercrânio, se este o exigisse.

Ivã saltou para a frente, segurou os dois homens na queda e deitou-os suavemente no duro chão metálico. Depois trancou a porta do corredor com a fechadura magnética, que não poderia ser aberta do lado de fora. Dali a dez segundos as primeiras pancadas começaram a ser desferidas contra a mesma.

Deringhouse estava indeciso.

Aquela voz voltou a soar nitidamente, e ao que tudo indicava estava sendo reforçada pelo projetor mental, pois de outra forma não conseguiria captá-la.

“Deringhouse, você me ouve? Não dê atenção às ordens do Supercrânio. Entendeu? Aqui fala Betty Toufry. Ainda se lembra de mim, não é? Estamos bem perto um do outro. Não faça nada. Deixe a nave vagar pelo espaço. Se entendeu, responda em pensamento. Eu o entendo.”

Ao mesmo tempo outra voz, mais potente, se fez ouvir:

“Deringhouse, obedeça somente a mim. Imprima à nave a aceleração máxima e volte para Marte. Não dê atenção a mais ninguém. Quero que seus subordinados prendam Ivã. Obedeça!”

Deringhouse colocou a mão sobre a chave do acelerador. Ivã não tirava os olhos dele... e tinha quatro.

Deringhouse hesitou. A voz suave voltou a soar, mais insistente e de certa forma mais próxima:

“Ouça o que Betty tem a lhe dizer, Deringhouse. Será que quer trair a mim e a Perry Rhodan? O Supercrânio é nosso inimigo. Ele o matará se voltar para Marte. Aguarde até que estejamos aí. E não obedeça ao Supercrânio.”

Ivã viu que a mão de seu companheiro era tirada da chave, devagar, num gesto hesitante.

— Vamos esperar — disse a Deringhouse com toda calma, mas não sem certa energia. — Ligue as telas de imagem, para que possamos observar o que se passa ao nosso redor.

Na escuridão do infinito surgiram as estrelas e encheram as telas. Bem perto deles estava uma sombra arredondada, que se tornou comprida e reluziu num brilho prateado quando a luz da Lua não muito distante caiu sobre ela. Deringhouse lembrou-se vagamente de que sabia — ou já soubera — que naves exatamente iguais se encontravam no hangar da Good Hope-VII. Face a isso, seu cérebro, que voltava a raciocinar, lhe disse que aquela nave não podia ser inimiga.

Em seu esconderijo de Marte, o Supercrânio sentiu que estava perdendo o domínio sobre Deringhouse. Fez mais uma tentativa com Ivã.

“Ponha fogo nos seus perseguidores, Ivã. Eles querem matar você e a mim — a mim, que sou a pessoa à qual você deve tudo. Não demore mais; obedeça às minhas ordens. Elimine Deringhouse.”

Ivã sacudiu lentamente as duas cabeças e disse em voz alta, para que Deringhouse também ouvisse:

— Não, Supercrânio, não obedecerei. Nem matarei Deringhouse. Aguardarei, pois estou curioso. Quero saber o que aquela gente nos fez; não devo destruí-los.

Do longínquo planeta Marte não veio nenhuma resposta.

Deringhouse e Ivã fitavam passivamente a tela de imagem e deixaram que a nave cruzasse em torno da Lua sem alterarem sua rota. O destróier se aproximou por trás. A uma distância maior, revelava o rastreador ótico, havia outras naves, entre elas um veículo espacial esférico de dimensões inacreditáveis. Mantinha-se a uma distância segura, e subitamente Ivã começou a imaginar o motivo por que agia assim.

Mas por que aquele destróier isolado se arriscava a chegar tão perto?

Ele o descobriria mais cedo do que imaginava.

 

Bell sabia perfeitamente que o campo energético da Z-13 não oferecia a menor proteção contra a arma terrível do Supercrânio. Sabia que o alcance aproximado da arma era de cerca de dez quilômetros. Ao ultrapassar essa marca e reduzir a distância ainda mais, sabia que expunha a si mesmo e aos seus companheiros a um perigo imediato. Mas confiava em Betty.

— Já estabeleceu contato com Deringhouse? — perguntou e precipitou-se em direção ao objetivo. Lançou um olhar de esguelha para Gucky, que acabara de saltar de volta: — Já conseguiu alguma coisa?

— Acho que essa gente já não dispõe de qualquer suprimento de energia, além das baterias de emergência — cochichou o rato-castor. — Consegui. Quer que os agite um pouco?

— Espere um pouco — pediu Bell. — Betty, o que houve?

— Noir conseguiu estabelecer um controle parcial sobre o representante do Supercrânio. Este vive lhe ordenando que nos queime; não sei o que quer dizer com isso.

— Que nos queime? — murmurou Bell. Seus olhos estreitaram-se. Lembrou-se das explosões atômicas de Terrânia. — E o representante do Supercrânio não cumpre a ordem?

— Noir incutiu-lhe a insegurança. Ele não quer.

— Excelente! E Deringhouse?

— Acho que este fará o que eu quiser — disse Betty. — O que pretende fazer?

O próprio Bell não sabia exatamente. Dirigiu-se a Gucky:

— Será que você pode pôr fora de ação todos os tripulantes da nave sem machucar ninguém?

Gucky ergueu-se sobre as patas traseiras, apoiando-se na cauda larga. Cruzou as patas sobre o peito e começou a se concentrar. Nesse instante, Bell conseguiu estabelecer contato visual com a Stardust-III, que o seguia a grande distância, tendo a bordo Rhodan e seus mutantes.

Não sobrou muito tempo para falar.

— Noir está controlando um certo Ivã — apressou-se Rhodan em esclarecer. — Mas não sabemos quanto tempo isso durará.

— Gucky já entrou em ação — tranqüilizou-o Bell com certa dose de orgulho. — Os propulsores da Good Hope-VII foram inutilizados. A nave ficou sem energia.

— Acho que já conheço essa maneira de trabalhar — retrucou Rhodan.

— De qualquer maneira está consagrada — respondeu Bell imediatamente. — Agora Gucky vai colocar os tripulantes fora de ação. Quando isso acontecer, estará na hora de recorrer aos nossos mutantes. Para que servem os outros teleportadores?

— Kakuta e Ras Tshubai já estão aguardando o sinal para entrarem em ação — disse Rhodan laconicamente. — Quando poderão fazer isso?

Bell viu que Gucky acenava a cabeça, muito distraído.

— Fique em recepção. Assim você saberá quando os dois saltadores de desmaterialização poderão iniciar sua viagem.

A testa de Rhodan se enrugou.

— Será que este é um novo sinônimo do termo teleportador?

Bell não respondeu. Betty disse:

— Acho que por enquanto Deringhouse se manterá na expectativa. Ao que parece o tal do Ivã libertou-se completamente da pressão que o Supercrânio exercia sobre ele. Pelo que deduzo dos seus pensamentos confusos, chegou a se livrar de dois membros da tripulação que, juntamente com Deringhouse, queriam obrigá-lo a ir para Marte.

Gucky, que já havia desaparecido, chamou pelo microtelecomunicador.

— Estão todos grudados na parede; nem conseguem se mexer — anunciou em tom exultante. — Mas não agüento isto por muito tempo.

— Rhodan! — gritou Bell o mais alto que pôde. — Mande Ras e Kakuta. Acho que já está na hora. Assim que você me der o sinal, chegarei mais perto e penetrarei na esfera.

— Quer um bom conselho? Deixe disso. Irei pessoalmente. Basta que Gucky tenha cuidado para que não haja qualquer imprevisto. Enquanto Deringhouse e seus homens não puderem se mexer, estaremos a salvo dessa arma dos infernos.

Bell praguejou de si para si. Mais uma vez tivera de realizar os trabalhos da fase preparatória, que eram os mais perigosos, e agora teria de ficar parado enquanto os outros completavam a obra. Bem, ele lhes estragaria a sopa. Ele...

Não chegou a levar o pensamento até o fim. Gucky voltou a chamar. Exibiu seu dente irritante, alisou o pêlo arrepiado da nuca e agachou-se numa posição de repouso.

— Acho que os dois teleportadores poderão cuidar do resto — chiou.

Ao que parecia o fato de que outros terminariam o trabalho por ele iniciado não o entristecia muito.

— Bell, grudei os homens na parede e segurei-os por lá. Consegui fazer isso com a metade da minha concentração. Mas não posso continuar aqui durante dias a fio. É preciso libertar os homens do domínio do Supercrânio.

Bell lançou um olhar para a tela.

— Aí vem Rhodan.

A gigantesca nave esférica, a Stardust-III, aproximava-se e, juntamente com a Good Hope-VII, a Z-13 e os destróieres que haviam acorrido ao local, passou a descrever uma órbita vertiginosa em torno da Lua.

Um pedaço do envoltório prateado deslizou para o lado, deixando livre uma abertura. Era a escotilha do grande hangar, que podia abrigar várias naves do tamanho da Good Hope-VII. Um raio refulgiu, e a nave aprisionada, juntamente com Deringhouse, Ivã e mais vinte e cinco homens, deslizou para o interior do ventre guloso da gigantesca esfera.

Bell soltou um suspiro de resignação. Olhou para Betty.

— Então, minha pequena, o que está pensando Deringhouse a esta hora?

A moça passou a mão pela testa.

— Para dizer a verdade, não está pensando absolutamente nada. Ao menos não constato coisa alguma.

Bell sorriu e olhou para a tela que mostrava a Stardust-III.

— Gostaria de saber o que se passa nesta bola de traças.

Rhodan sorriu na tela.

— Você logo saberá, Bell. Vá entrando. Depressa!

Dali a dez segundos, a Z-13 entrou pela escotilha ainda aberta e parou junto à Good Hope-VII.

Gucky parou de sorrir. Da tela do comunicador visual acenou para Betty, como se tivesse entendido o que ela pensara para ele. Afinal, o rato-castor também era um telepata.

— Eu os seguro — chiou.

— Quem é que você segura? — indagou Bell.

— Não incomode Gucky, por favor — disse Betty com uma seriedade fora do comum. — Captei pensamentos malignos, dirigidos para a destruição. De repente o tal do Ivã pretende fazer fogo...

Bell, que já se havia levantado, voltou a afundar na poltrona. Teve a impressão de estar paralisado. Acreditava que a qualquer momento se transformaria numa bomba atômica em detonação, que destruiria sua nave e a própria Stardust-III.

 

Ivã Ivanovitch Goratchim sabia que conseguira romper a força que por alguns anos dominara sua existência. Começou a imaginar que tipo criminoso seria este que o escolhera como vítima.

Os pensamentos do Supercrânio eram maus e exigentes, enquanto os outros, que também penetravam em seu cérebro, revelavam amabilidade e boa vontade. Era possível que tudo isso não passasse de um engano. Mas, para que havia recuperado sua capacidade de raciocinar? Ele mesmo decidiria de que lado estava a justiça.

Finalmente veio o instante em que Gucky interferiu nos acontecimentos. De início a luz e a ventilação falharam. Deringhouse logo constatou, muito nervoso, que o suprimento de energia dos reatores havia sido eliminado. As baterias de emergência logo puseram a funcionar a iluminação. Mas a renovação de ar continuou parada. A sala de comando tornou-se mais fria, e também mais abafada.

Poucos segundos depois, Ivã percebeu que uma força invisível o levantava e comprimia fortemente contra a parede. Sentiu-se totalmente desamparado quando o punho de ferro comprimiu as duas cabeças contra o envoltório redondo da janela. Conseguia enxergar, mas via apenas o espaço vazio. Os atacantes vinham do outro lado.

Sua primeira reação foi a de raiva contra aqueles que pretendiam reduzi-lo à impotência. Será que conheciam seu segredo? Se conhecessem, eles se expunham voluntariamente a um perigo muito grave. Naquele instante Ivã teria transformado qualquer pessoa que aparecesse diante da janela numa bomba em detonação. Acontece que nem sequer conseguia ver Gucky. O rato-castor encontrava-se fora de seu campo de visão.

Mas logo os pensamentos tranqüilizantes voltaram a surgir em seus dois cérebros.

“Não tenha medo, Ivã, queremos ajudar. Mas precisamos agir com cautela, para que você não possa usar sua arma. Apenas queremos paz com você e sua gente.”

Um segundo depois:

“Nós o traremos para dentro de nossa nave.”

Ivã nem conseguia virar a cabeça. Pelos cantos dos olhos viu Deringhouse, que estava estendido no painel de controle sem poder levantar a cabeça por um milímetro que fosse.

De repente a visão do espaço desvaneceu-se, para ser substituída por um recinto bem iluminado, em que os homens corriam nervosamente de um lado para outro.

No cérebro de Ivã começou a germinar uma idéia de destruição. Via perfeitamente os homens que corriam por ali, e não teria a menor dificuldade em transformar qualquer um deles numa bomba que destruiria a nave que o havia trazido até ali. Mas, antes que pudesse realizar seu intento, dois fatores o impediram.

Conhecia perfeitamente os efeitos de seu dom terrível e sabia muito bem que também seria destruído se detonasse um daqueles homens. E ainda havia os pensamentos tranqüilizadores em seu cérebro. Aquela voz suave exercia uma influência inacreditável em seu espírito. Sentiu o desejo de conhecer a dona da mesma. E, se pusesse fogo em alguém, seu parceiro mental também seria destruído.

Ainda havia um terceiro fator: uma nova voz dirigiu-se a ele com frieza e insistência, mas de forma totalmente diferente da do Supercrânio.

“Ivã, você não deve fazer mais nenhum mal! Você está com amigos que querem ajudar. Nunca mais você deve empregar seu dom formidável na destruição, mas apenas na construção.”

Ivã hesitou. Um instante depois soube que obedeceria àquele comando. E obedeceria espontaneamente, porque decidira assim. Havia naquilo algo de novo, uma experiência que o fazia feliz.

Deringhouse, porém, podia sentir tudo, menos felicidade. Era bem verdade que também ouvia em seu cérebro os pensamentos tranqüilizantes, sentiu as intenções benévolas em que os mesmos se inspiravam, mas o bloqueio hipnótico do Supercrânio continuava presente. O comando de retornar a Marte percorreu os nervos e atingiu as mãos, mas estas não conseguiam se mover. Tal qual o resto do corpo, estavam condenadas à imobilidade, pois alguém as comprimira contra o painel de controle.

A mesma coisa acontecia com os vinte e cinco membros restantes da tripulação.

Deringhouse e Ivã ouviram quando a escotilha se abriu, embora fosse totalmente impossível atingir os controles internos do lado de fora — e ainda havia a circunstância de que a Good Hope-VII não dispunha de qualquer suprimento energético. Deringhouse lembrou-se vagamente de que havia mutantes cujos fluxos mentais conseguiam realizar as coisas mais inacreditáveis.

André Noir cuidou de Deringhouse assim que entrou na sala de comando. O aspecto apavorante do monstro de duas cabeças não o demoveu de seu intento. Os dois teleportadores penetraram nos alojamentos da tripulação e puseram-se a amarrar os vinte e cinco homens. No momento não havia outra alternativa, pois o Exército de Mutantes de Rhodan dispunha de apenas um hipno capaz de romper o bloqueio do Supercrânio.

Nesse meio tempo Bell e Betty já haviam saído do destróier e foram se encontrar com Rhodan no hangar da Stardust-III.

— Foi um serviço bem feito — apressou-se Rhodan em elogiar.

— Hum! — resmungou Bell num tom de inveja. — Betty também contribuiu para o êxito da operação.

— Não me esqueci disso — disse Rhodan com um sorriso e colocou a mão sobre o ombro da moça. — Ainda está em contato com Deringhouse?

— Não — para sua surpresa Betty sacudiu a cabeça. — Daqui por diante deixo a tarefa por conta de Noir. Estou mantendo contato com Ivã. É um sujeito estranho. Não consigo entendê-lo. De qualquer maneira é a pessoa que lida com aquela arma terrível. O bloqueio hipnótico em torno de seu cérebro foi eliminado quase totalmente. O Supercrânio não exerce mais qualquer influência sobre ele.

— Neste caso, tudo bem — suspirou Bell, aliviado.

— De forma alguma — decepcionou-o Betty.

Rhodan sobressaltou-se.

— Por que não?

— Pelo que leio nos pensamentos de Ivã, ele ainda está em condições de nos destruir. Mesmo que o imobilizássemos, não conseguiríamos impedir que ele o fizesse.

— Por que não o faz?

Betty enrubesceu.

— Está curioso, curioso para me conhecer — declarou com a voz tímida.

Rhodan lançou um rápido olhar de advertência em direção a Bell.

— Está curioso para conhecê-la? Pois devemos corresponder quanto antes ao seu desejo. Vamos até a Good Hope-VII para dar uma olhada no tal do Ivã.

Deixaram que os mutantes entrassem antes deles na comporta da nave.

Betty tornava-se cada vez mais inquieta. Captou os pensamentos confusos de Noir e adivinhou que os mesmos se referiam a Ivã. Andou tão depressa que Rhodan e Bell mal conseguiam manter passo com ela.

Betty chegou antes deles.

Parada ao lado de André Noir, fitou o gigante de duas cabeças, cujos quatro olhos retribuíram seu olhar com uma expressão de assombro.

Cada um dos dois parceiros mentais imaginara que o outro fosse totalmente diferente.

No rosto de Betty lia-se o susto juntamente com um medo terrível. Acreditara que se defrontaria com um homem, talvez mesmo com um mutante. Nunca pensaria que fosse um monstro de duas cabeças.

E Ivã? Desde o instante em que a voz telepática com a tonalidade tão meiga penetrou pela primeira vez em sua mente, sentiu o desejo de conhecer o dono da mesma. E agora via diante de si uma moça muito jovem.

Rhodan entrou, seguido de Bell e Gucky.

Com um rápido olhar compreendeu a situação. Sentiu o choque da jovem e seu instinto adivinhou o perigo que poderia surgir se o monstro sentisse a verdade. Ivã só perdera a vontade de desencadear outras explosões porque achara que Betty era simpática.

Cumprimentou o mutante com um aceno de cabeça, sem deixar que seu rosto revelasse qualquer emoção.

— O senhor é Ivã, não é? Meu nome é Perry Rhodan. Vim para negociar com o senhor.

Não aludiu nem de leve ao que havia acontecido. Não mencionou o fato de que conseguira fazer de Ivã e Deringhouse seus prisioneiros. Não deu sinal de que o aspecto do monstro o assustara. Nada disso: apenas a gentileza e uma atmosfera de igualdade de direitos.

A atenção de Ivã foi desviada de Betty.

— Meu nome é Ivã Ivanovitch Goratchim.

Ambas as cabeças confirmaram essas palavras com um ligeiro aceno.

— Meu senhor é... ou melhor, foi Clifford Monterny, o Supercrânio. Tenho a impressão de que cometi vários erros.

— A culpa não foi sua, Ivã. Apenas utilizou uma arma contra alguém que o senhor não conhece. Estava sob o domínio de um grande mutante, que infelizmente tomou um caminho errado. Faço questão de ressaltar mais uma vez, Ivã, que a culpa não foi sua, e ninguém o recriminará. O único culpado é o Supercrânio, que será responsabilizado por tudo.

— Estou disposto a auxiliá-lo nessa tarefa — declarou Ivã, lançando um olhar indagador sobre Betty. — Todas as faculdades que possuo estão à sua disposição, desde que não se incomode com meu aspecto um tanto estranho...

— Dê uma olhada em Gucky — pediu, afastando-se para que o rato-castor pudesse sair do seu esconderijo. — Ninguém dirá que tem o aspecto de um ser humano normal, mas assim mesmo todos nós gostamos muito dele.

— Não é um ser humano — murmurou Ivã em tom amargo. — Mas eu devia ser considerado como tal.

— O único fator decisivo são as qualidades de caráter — ressaltou Rhodan. — Assim que o pensamento cósmico tenha entrado em voga, não mais serão reconhecidas diferenças entre as raças apenas em virtude do aspecto exterior das criaturas. O Supercrânio tem um aspecto humano, mas é um verdadeiro monstro. Quanto ao senhor, Ivã, acredito que no fundo do coração é mais humano que muita gente que exibe um rosto lindo e sabe dizer palavras bonitas.

O olhar dos dois rostos desviou-se e pousou em Betty, que já havia compreendido o comando mental de Rhodan. Muito valente, engoliu em seco e conseguiu esboçar um sorriso. Estendeu a mãozinha para Ivã.

— Fomos os primeiros que se tornaram amigos, Ivã, e vamos continuar amigos. Se quiser chame-me de Betty.

Um sorriso feliz espalhou-se pelos rostos do homem; Rhodan sentiu-se profundamente abalado. Percebeu a infelicidade que aquele ser tinha sentido até então: era uma criatura rejeitada pelos homens, e que servira de instrumento para as práticas abusivas do Supercrânio. Talvez fosse a primeira vez que conhecia o respeito e a verdadeira amizade.

Ivã segurou a mãozinha de Betty com sua enorme pata, apertou-a cautelosamente, executou um princípio de mesura e respondeu:

— Obrigado, Betty. Nunca me esquecerei de que somos amigos, mesmo que eu... — interrompeu-se; por um instante parecia bastante confuso. Mas logo prosseguiu em tom decidido: — Mesmo que eu seja diferente.

Perry receara que Betty não conseguisse disfarçar o espanto. Mas sempre se insistira junto aos membros do Exército de Mutantes para que nunca julgassem qualquer criatura por seu aspecto exterior, mas apenas pelas suas faculdades e qualidades de caráter.

Gucky não agüentou mais. Comprimindo-se entre Betty e os outros circunstantes, avançou em direção a Ivã, ergueu-se sobre as patas traseiras e estendeu ambas as patas dianteiras para o gigante perplexo.

— Também devíamos ser amigos, mesmo que eu o tenha grudado na parede. Não acha? Apenas fiz isso para que você não nos despedaçasse numa explosão.

Ivã pegou as patas, apertou-as suavemente e disse:

— Apesar de tudo poderia tê-los destruído, se quisesse. Mesmo a esta hora ainda estaria em condições de fazê-lo sem sair do lugar.

As palavras do mutante duplo fizeram com que Rhodan se lembrasse da tarefa mais urgente.

— Estou interessado em conhecer a arma do Supercrânio — disse, dirigindo-se a Ivã. — Talvez tenhamos de recorrer à mesma, se ele a utilizar mais uma vez contra nós.

Por um instante Ivã parecia bastante confuso; mas logo compreendeu. Um sorriso de quem sabia mais que o outro, em que transparecia certo orgulho, tomou conta de ambos os rostos.

— Não tenha receio, Perry Rhodan. O Supercrânio ficou sem sua arma; nunca mais poderá utilizá-la contra o senhor.

Rhodan já não estava compreendendo mais nada. Apenas Betty, que perscrutava os pensamentos do mutante, empalideceu de repente. Rhodan notou-o e se assustou. O que significava isso? Fitou os olhos de Ivã, sem saber se devia preferir os da cabeça da direita ou da esquerda. O mutante facilitou-lhe a decisão. Acenou com a cabeça da direita.

— Por que não pode utilizar a arma contra nós?

— Porque a arma sou eu. Sei transformar em energia qualquer porção de matéria que contenha cálcio ou carbono. Basta detoná-la.

— Como é que faz isso? — perguntou Rhodan. Também empalidecera um pouco, pois dentro de sua mente passaram vertiginosamente centenas de maneiras pelas quais esse monstro, com um único dos seus pensamentos, poderia destruir a ele e a toda a Terra. Bell manteve-se imóvel.

— Não sei — confessou Ivã. — O senhor seria capaz de dizer como vê ou cheira? O senhor ouve, mas não sabe como nem por quê. Simplesmente ouve, instintivamente e sem nenhuma contribuição consciente. É possível que um dia a ciência encontre uma explicação para minha faculdade. Vejo um objeto, sempre com os olhos, concentro-me sobre ele... e logo o mesmo se transforma numa bomba atômica.

Rhodan recuperou o autocontrole.

— Sabe que de certa forma substitui o Supercrânio? Até hoje Clifford Monterny foi considerado o homem mais perigoso do sistema solar. Mas acredito que hoje é você, Ivã. Depende de você se o dom que lhe foi conferido será empenhado em prol do bem, ou se servirá ao mal.

Ivã sorriu e olhou para André Noir, que acabara de voltar à sala de comando.

— Não acha que já me decidi? Acredita que ainda estariam vivos se tivesse optado pelo mal? Não tenha receio, Rhodan. Sempre ficarei do lado em que estiver Betty. Na verdade, é a ela que devo minha libertação. Foram seus pensamentos meigos que romperam o círculo que se apertava em torno de minha cabeça. Jamais poderei esquecer o que ela fez por mim.

Betty acenou com a cabeça.

— Sei que você realmente pensa o que diz, Ivã. Sempre gostarei de vocês dois, e quando disser Ivã também estarei me referindo a Ivanovitch.

Rhodan sentiu um alívio, não apenas porque sabia que Ivã estava de seu lado, mas principalmente porque tinha todos os motivos para acreditar que, sem o detonador, o Supercrânio estava praticamente indefeso. Para concluir, pigarreou.

— Ficarei muito grato se fizer amizade também com os outros membros do Exército de Mutantes. Precisamos de gente como o senhor para reconstituir a história da Humanidade. Juntos, liquidaremos o inimigo comum.

— Isso mesmo! — chiou Gucky alegremente. De repente foi subindo, até que flutuou no ar diretamente diante do rosto de Ivã. — Morte para o Supercrânio. Eu o entregarei à Justiça.

André Noir se aproximou, empurrou o rato-castor para o lado com um gesto brusco e estendeu a mão a Ivã.

— Seja bem-vindo em nosso meio, Ivã. Sei que conseguiu se livrar definitivamente do bloqueio hipnótico do Supercrânio. É um dos nossos.

— Obrigado — disse Ivã comovido.

— Obrigado — também disse Ivanovitch, que até então ficara com a boca calada.

O mutante bicéfalo estava de acordo consigo mesmo.

 

Há muitas semanas a nave Z-45 circulava em torno de Marte a uma distância constante de quinze milhões de quilômetros. Só trazia a bordo uma tripulação de dois homens, o tenente Bings, que era o comandante, e o sargento Adolfo, que desempenhava as funções de telegrafista. Há vários anos os dois mantinham uma estreita amizade, e haviam freqüentado juntos a Academia Espacial, onde se submeteram aos exames. Mais tarde Rhodan os escolhera para servirem em sua frota.

Bings tinha um hobby: era um colecionador apaixonado de borboletas. Só por si essa atividade não tinha nada de extraordinário, embora fosse algo incomum para um astronauta. Infelizmente seu amigo Adolfo também tinha um hobby: tal qual seu amigo, colecionava borboletas. Evidentemente dessa coincidência resultavam lutas apaixonadas, que sempre traziam o mesmo resultado: o sargento Adolfo perdia um exemplar raro, que passava às mãos de Bings. Ambos os homens guardavam seus tesouros a sete chaves. Sempre que um deles conseguia incorporar um exemplar extraordinariamente belo à sua coleção, trazia água à boca do outro, que por sua vez não dava sossego até que o novo espécime lhe era apresentado, o que lhe aguçava ainda mais o apetite.

Há cinco anos os dois estavam sem suas coleções, que se encontravam em seus aposentos em Terrânia, onde aguardavam seus admiradores constantes. Por isso os dois amigos aproveitavam o tempo livre para, ao menos em teoria, levar o outro a abandonar seus tesouros.

— Não faço muita questão de sua borboleta venusiana de olhos trêmulos — disse Bings, lançando um olhar de tédio para a tela ligada. — Acontece que falta na minha coleção. Um belo dia vou consegui-la, mas gostaria de recebê-la agora.

— No momento é impossível — disse Adolfo, trazendo à sua lembrança a realidade de sua situação. — Mas admitamos o caso de que mais tarde eu possa dá-la a você. O que poderia oferecer em troca?

— Que tal a borboleta da couve em mutação, de que você sempre gostou tanto? Como sabe, só existe um único exemplar.

— Você vive dizendo isso — resmungou o sargento Adolfo bastante contrariado. — Acontece que gosto mais da minha borboleta venusiana.

— Ela não vale tanto assim — ponderou Bings com uma expressão de tédio no rosto; até parecia que a conversa o cansava. — A qualquer momento posso ir buscar o olho trêmulo em Vênus, ou pedir a alguém que o traga.

— Pois tente — sugeriu Adolfo e calou-se um tanto contrafeito. A borboleta venusiana era seu maior orgulho, especialmente porque seu amigo Bings não a possuía.

O tenente Bings pretendia começar novamente a derramar elogios sobre a borboleta da couve em mutação; no entanto, estreitou os lábios e apontou para a tela. Bem no meio da mesma via-se uma pequena mancha, que se deslocava lentamente para a direita. Dirigiu-se apressadamente a Adolfo:

— A ampliação, rápido! Que nave será essa? É muito pequena para ser um girino.

— Talvez seja uma borboleta da couve em mutação — resmungou o sargento em tom irreverente e pôs-se a lidar com os instrumentos. O ponto móvel parecia querer sair da tela pelo lado direito. Adolfo regulou a ampliação e o enfoque setorial do ponto, que se tomou mais nítido. O planeta Marte com sua luminosidade vermelha ficou à esquerda.

A nave, se é que se tratava de um veículo espacial, vinha de Marte.

— É um destróier — disse o tenente Bings em voz baixa, quando o quadro se tornou mais nítido. — Será que é um dos nossos?

— O Supercrânio coleciona destróieres — observou Adolfo. — É bem possível que seja ele. Desde que o girino número sete passou ao nosso lado sem dar um pio não duvido de mais nada.

Encontravam-se numa posição em que Marte ficava entre eles e a Terra. Por isso não era impossível que uma nave vinda da Terra, ao aproximar-se de Marte, parecesse vir desse planeta. O comandante da Z-45 admitia essa possibilidade, quando menos para não ter que dar razão ao seu sargento.

— Que tolice! O Supercrânio não se exporá inutilmente a um risco. Ficará em Marte até o dia do juízo final, a não ser que nós lhe esquentemos as caldeiras do inferno.

— Dizem que nas areias de Marte há besouros bem estranhos...

— Não se distraia; cuide do seu serviço — advertiu-o Bings em tom furioso e fitou a tela, cuja objetiva seguia o ponto móvel, mantendo a mesma velocidade que este. — A nave está tomando um curso que há de levá-la inevitavelmente para Júpiter — disse em tom incrédulo. — Já não entendo mais nada.

— Quem está interessado em entender? — perguntou Adolfo sem aguardar resposta. Realmente não recebeu nenhuma. Mais por tédio que por obrigação passou a estudar as outras telas. De repente soltou um grito de espanto. — Que coisa! Onde já se viu uma confusão dessas? Dentro de pouco tempo teremos por aqui os mesmos problemas de tráfego que na Terra, onde já se tem de recorrer a campos antigravitacionais para estacionar os automóveis no ar.

— O que houve? — indagou Bings.

— Aí vem outra nave — respondeu o sargento.

O tenente Bings estremeceu. Ficou sem saber a qual das duas naves dedicaria sua atenção. Felizmente o dispositivo automático livrou-o do martírio da escolha. Bastou que Adolfo comprimisse um botão para que ambas as telas seguissem seus objetivos.

A segunda nave aproximava-se deles numa rota quase direta. Essa rota só não se desenvolvia numa reta perfeita porque contornava o planeta Marte. Não demoraram a descobrir que também era um destróier. Quando a nave se encontrava a poucos quilômetros de distância, conseguiram ler o nome na proa: Z-13.

— Logo um treze! — suspirou o sargento Adolfo. — Não sou supersticioso, mas...

— Cuide dessa nave! — recomendou Bings ao companheiro. — Consta da lista das naves roubadas?

Não constava. Resolveram esperar. Os receptores estavam funcionando. A tela de recepção se iluminou. Um rosto largo e redondo de olhos cinzentos e boca sorridente surgiu na mesma.

— Somos nós — disse Bell e logo acrescentou: — Há algo de novo?

— Nada de especial — disse Bings em tom oficial, mas logo se lembrou daquela nave. — Aliás, há uma coisa. Observamos um destróier que mantém a rota para fora.

Na linguagem dos astronautas a expressão para fora significava para a parte externa do sistema solar em relação à posição atual.

Bell fez um sinal para alguém que se encontrava a seu lado e disse:

— Iremos até aí. Preparem o passadiço de vácuo.

— Eu logo disse, esse maldito treze...

— Nossa missão não consiste em liquidar o Supercrânio — resumiu Bell, lançando um olhar pensativo para o rosto do sargento Adolfo, que não exprimia muito entusiasmo. — Tatiana conseguia, a grande distância, notar uma atividade extraordinária em Marte. Graças às suas defesas naturais pode exercer vigilância telepática sobre o Supercrânio, sem que este possa lhe impor seus comandos hipnóticos. Quanto a nós, os capacetes de absorção oferecem uma proteção razoável. Devíamos dar uma olhada em Marte para ver o que acontecia por lá. O comunicado dos senhores confirmou nossas suposições. O Supercrânio fugiu num destróier assim que tomou conhecimento da derrota sofrida na Terra. O que devemos fazer? Persegui-lo ou regressar à Terra?

— Morte para o Supercrânio! — ressoou a voz de Gucky, vinda de um canto. Sentado nas patas traseiras e apoiado sobre a cauda, roía alegremente uma cenoura fresca que o tenente Bings lhe havia trazido do frigorífico. — É claro que vamos persegui-lo e destruí-lo.

— Cale a boca! — ordenou Bell em tom furioso e segurou-se numa barra de suporte, para que Gucky não tivesse a idéia de se vingar por essa espécie de tutela. — Nossa missão consiste em investigar; apenas isso. Rhodan quer ter plena certeza quanto à fidelidade de Ivã antes de empregá-lo contra o Supercrânio.

— Podemos dar conta do Supercrânio — resmungou Gucky.

— Acontece que não temos ordem para isso — advertiu Bell e dirigiu-se a Bings e Adolfo. — Só recebemos instruções para verificar o que está acontecendo em Marte. Como já lhes disse, Tatiana...

— O senhor acredita que o destróier que acabamos de observar tem algo a ver com o Supercrânio? — perguntou o sargento Adolfo.

Bell lançou um olhar perscrutador para Tatiana Michalovna, a telepata. A jovem russa, que era uma das pessoas que vivera sob a influência hipnótica de Monterny e fora libertada por Rhodan, fez que sim.

— Estou captando seus pensamentos. Estão carregados de raiva e pânico. Giram em torno da fuga. O Supercrânio já vê Marte sob a forma de uma reluzente estrela vermelha. Daí se conclui que se encontra no espaço. Sim, sargento, acredito que esteja a bordo do destróier que está fugindo.

— O que estamos esperando? — gritou Gucky cheio de indignação. Sua voz era tão forte e aguda que Bell pensou que seus tímpanos iriam estourar. Apesar disso não deu atenção a essas palavras e mandou que o tenente Bings estabelecesse contato pelo rádio.

Bings parecia desorientado, o que causou uma alegria secreta no sargento Adolfo.

— Existe uma proibição de usar o rádio. Só em caso de emergência podemos...

— Este é um caso de emergência! — berrou Bell. — Vamos logo!

Tatiana Michalovna sacudiu a cabeça de forma quase imperceptível. Nunca vira Bell tão exaltado. E não havia a menor causa para tamanho nervosismo. Será que tinha medo de um confronto direto com o Supercrânio? Ou fazia realmente tanta questão de cumprir as instruções? Por um instante procurou ler seus pensamentos, depois esboçou um sorriso de compreensão.

O tenente Bings fez um sinal a seu sargento. Adolfo ligou o comunicador visual. Dentro de alguns segundos seu colega da Stardust-III apareceu na tela.

— Há uma mensagem urgente para Perry Rhodan. É estritamente pessoal.

— Um momento.

Dali a mais alguns segundos o rosto de Rhodan surgiu na tela.

— O que houve, Z-45?

— É o tenente Bings — Bings empurrou o sargento para o lado. — Reginald Bell deseja entrar em contato com o senhor.

Bell, por sua vez, empurrou Bings para o lado.

— O Supercrânio acaba de sair de Marte e está fugindo em direção a Júpiter. Devo persegui-lo? Só tem um destróier.

— Não sei se já posso contar com o Ivã.

Será preferível que eu os siga com os mutantes num dos girinos.

— Não há necessidade disso, Rhodan — asseverou Bell em tom enérgico. — Daremos conta do recado. Tatiana está em contato com o Supercrânio; nós o perseguiremos.

Rhodan refletiu por um instante; depois disse:

— Está bem. Persigam-no; mas tenham cuidado. Por enquanto não posso ir, porque tenho de ajudar Betty a cuidar de Ivã. Acho que ainda seria muito arriscado deixá-lo só. Boa sorte. De qualquer maneira serão dois destróieres contra um.

A tela escureceu.

O sargento Adolfo parecia confuso no seu canto. Lançou um olhar de censura para Bings.

— Maldito treze! — resmungou. — Bem que eu sabia!

O tenente Bings não deu atenção ao amigo. Dirigiu-se a Bell:

— O senhor vai com certa freqüência a Vênus, não vai? Será que oportunamente poderia trazer uma borboleta de olhos trêmulos para mim?

Ao que tudo indicava, Bell nunca havia feito uma cara tão tola. Gucky irrompeu numa gargalhada chilreante. Rebolava no chão. A cauda achatada bateu contra as chapas de metal e o animal chiou:

— Uma borboleta de olhos trêmulos! O homem quer uma borboleta de olhos trêmulos! Não quer mais nada, tenente?

Bings parecia ofendido. Não respondeu. Bell, um tanto desorientado, disse:

— Quem sabe se essa borboleta não existe em Júpiter...

 

Clifford Monterny sentiu que seu contato telepático com o mutante Ivã ficava cada vez mais fraco. Deu mais uma ordem desesperada de detonar tudo que se encontrasse ao seu alcance, mas a única resposta foi um contra bloqueio hipnótico que se interpôs entre ele e Ivã, isolando o cérebro deste.

O Supercrânio sabia que com isso perdera sua melhor arma, e com ela mais um round da luta. Rhodan e seus mutantes eram mais poderosos que ele.

Devia desistir?

Sacudiu lentamente a cabeça e mais uma vez passou os olhos sobre tudo aquilo que no último ano construíra sob a superfície de Marte. Na sua maioria os objetos ali existentes provinham de um destróier, até mesmo os geradores e os respectivos micro-reatores. A nave não estava mais em condições de ser usada.

Se resolvesse fugir, só poderia fazê-lo com um dos dois destróieres. Dos homens que lhe restavam só poderia levar dois; os outros teriam de ficar para trás.

E para onde poderia fugir?

Para encontrar uma relativa segurança teria que se aventurar na imensidão do espaço situado além de Marte. Teria que procurar encontrar uma base provisória naquele setor do universo. Depois disso, um belo dia talvez pudesse voltar...

A idéia da vingança restituiu-lhe a energia de que precisava.

Levantou-se de um salto, desligou as telas que ainda reluziam e com isso rompeu todo o contato com o mundo exterior.

Com um último relance de olhos despediu-se do esconderijo que até então ocupara e saiu para o corredor. Parou diante de uma porta e abriu. Alguns homens fitaram-no com os rostos curiosos.

Seus olhos brilharam. Teria vindo para avisá-los de que seu exílio havia chegado ao fim?

Clifford Monterny leu seus pensamentos e decidiu responder aos mesmos. Dessa forma o bloqueio hipnótico não seria tão afetado.

— Temos que tomar mais algumas providências; depois disso o tempo de atividade em Marte terá chegado ao fim — disse com a voz firme. — Mas antes disso preciso realizar um vôo de reconhecimento. Vocês ficarão aqui e aguardarão meu regresso. Se alguém tentar se apoderar da fortaleza, vocês o impedirão com todos os meios ao seu alcance. Wallers e Raggs, vocês irão comigo. Vamos pegar a Z-35 para explorar a área.

Dois homens se levantaram. Um deles vestiu uma jaqueta, como se apenas pretendesse dar um passeio. Ambos pegaram as máscaras de oxigênio. O hangar com o destróier intacto e aquele do qual haviam sido retiradas peças também ficava embaixo da superfície. Um corredor ligava-o ao quartel-general. Um e outro não eram servidos pelos aparelhos de suprimento de ar.

O Supercrânio fechou cautelosamente a porta e, acompanhado dos dois homens, dirigiu-se ao depósito. Vestiu um casaco de pele e também pegou uma máscara de oxigênio. Por um instante pensou nos cinco destróieres capturados e nos quinze homens de sua tripulação, que envergavam o uniforme da Terceira Potência. Mas deu de ombros. Mesmo que tripulasse as naves com seus homens, isso não aumentaria sua segurança. Com uma só nave a chance de não ser descoberto era muito maior. O poder de fogo de seis destróieres era maior, mas Monterny começou a se dar conta de que não era mais isso que importava.

E foi assim que os quinze tripulantes dos cinco destróieres capturados — que pertenciam à Good Hope-VII e permaneciam intactos, de forma a poderem ser utilizados a qualquer momento, num desfiladeiro próximo ao platô — continuaram imóveis nos seus alojamentos, sem que soubessem que, de certa forma, eram homens livres.

Monterny manipulou os controles da comporta primitiva que tinha por fim evitar uma transferência excessivamente rápida do ar da fortaleza para a atmosfera de Marte. Foi para o corredor com seus dois acompanhantes. Atravessaram apressadamente o túnel derretido na pedra até chegarem ao hangar propriamente dito. Entre este e a superfície só havia uma fina tela de arame. Musgos e líquens espalhados sobre a mesma camuflavam a entrada.

O Supercrânio tangeu os dois homens para o interior da Z-35, mandou que sentassem ao lado do radiador de popa e do radiador instalado na cabina e fechou a comporta de ar.

Não havia mais nada que pudesse detê-los.

Os geradores emitiram um zumbido. O fluxo de energia ativou os campos antigravitacionais e os propulsores de radiações. Uma vibração atravessou a nave. Subitamente a popa levantou-se, os suportes telescópicos foram encolhidos, a proa rompeu a rede de camuflagem e a profusão de estrelas da noite marciana apareceu diante deles.

Desenvolvendo a aceleração máxima, o destróier disparou para o espaço, passou a grande distância da nave Z-45 e dirigiu-se ao anel de asteróides que separa Júpiter dos planetas interiores do sistema solar.

Essa faixa de planetóides pequenos e minúsculos cerca o Sol como um anel. Alguns desses fragmentos de um antigo planeta não eram maiores que o punho de um homem, mas outros eram pequenos astros capazes de abrigar e ocultar uma nave. Sem se fazerem notar, percorriam o setor do espaço situado entre Marte e Júpiter, davam uma volta em torno do Sol a cada dois ou três anos e nunca voltavam exatamente ao mesmo lugar. Outros descreviam uma órbita perfeitamente determinada e fácil de calcular. Eram os maiores dentre os asteróides e seu diâmetro era de cem quilômetros ou mais.

Monterny não teria tido a menor dificuldade em passar por cima do perigoso anel em que gravitavam os fragmentos, para após isso retornar ao plano espacial interplanetário. Acontece que o caminho mais curto também era o mais seguro. Além disso, depois de refletir melhor, chegou à conclusão de que o asilo numa das luas de Júpiter não seria tão seguro como acreditara. Sua fuga devia ter sido notada, e não seria difícil determinar a direção que havia tomado. Logo pensariam em Júpiter. Face à gravitação excessiva do gigantesco planeta, só se poderia cogitar de uma de suas luas. Com os recursos de que Rhodan dispunha não demoraria muito até que os fugitivos fossem localizados.

Já os asteróides eram em grande parte desconhecidos e não constavam separadamente dos mapas estelares.

Clifford Monterny sorriu gostosamente quando passou a doze quilômetros à esquerda da Z-45. Sabia que a nave de Rhodan não poderia abandonar seu posto sem mais nem menos. Sentiu-se absolutamente seguro. Mas os tripulantes da Z-45 comunicariam a Rhodan que o Supercrânio havia fugido em direção a Júpiter. Antes de iniciar a perseguição, Rhodan dedicaria sua atenção ao esconderijo abandonado de Marte. Enquanto isso ele, Monterny, encontraria outro esconderijo num dos planetóides situados entre os dois planetas. Com o mecanismo desligado, a descoberta através dos instrumentos ultra-sensíveis se tornaria impossível, face ao elevado conteúdo de minério das rochas do asteróide.

Só reduziu a velocidade quando viu bem à frente da proa da Z-35 o brilho da luz refletida pelos pequeninos planetas. Dali em diante teria de abrir caminho bem devagar entre a profusão de fragmentos, até encontrar um asteróide que servisse aos seus propósitos.

Monterny virou a proa da nave e seguiu a direção geral dos asteróides que vinham ao seu encontro. Não seria tolo a ponto de procurar seu esconderijo bem diante da porta de Rhodan. Naquela oportunidade nem desconfiava de que seu erro era justamente este, pois de outra forma não teria hesitado: pousaria no primeiro planetóide e nele instalaria seu esconderijo.

Acontece que Clifford Monterny, o todo-poderoso Supercrânio, era um hipno e um telepata, mas não possuía o dom de uma clarividência infalível.

Por isso não sabia que iria ser justamente a penetração na órbita dos asteróides, ainda mais contra a corrente dos fragmentos que deslizavam com tamanha lentidão, que causaria sua desgraça.

 

A praga que Bell soltou depois de ter passado um bom tempo procurando em vão não foi digno de sua pessoa. Tatiana também foi dessa opinião. A moça operava o rádio e com isso também o rastreador ótico. A pequena porta para a sala de telegrafia estava aberta, motivo por que havia uma ligação direta entre a mesma e a sala de comando.

— Bell, você devia se envergonhar de pôr na boca uma palavra dessas. Não seria suficiente pensá-la?

— Isso seria um puro desperdício de energia — disse Bell em tom professoral, sem tirar os olhos da tela frontal. — Se solto uma praga, só o faço para reduzir minha carga de nervosismo. Para conseguir isso, também devo perceber a praga por meios acústicos. Logo, devo pronunciá-la em voz alta para alcançar o efeito tranqüilizante. Quanto às suas orelhas supersensíveis, acho que seria um sacrifício inútil apenas pensar as palavras sem proferi-las. O motivo é simples. Você é telepata, e de qualquer maneira conheceria os termos do meu desabafo.

Tatiana, perplexa, ouvira o discurso em silêncio. Sacudiu a cabeça.

— Muito grata pelo esforço de explicar seu comportamento segundo as leis da lógica. Uma vez que sou telepata, sabia de qualquer maneira o que pretendia dizer...

Como de costume, Gucky estava agachado num dos cantos da sala de comando e brincava com uma cenoura ressequida. Deixou que flutuasse no centro da sala e balançou-a suavemente por meio de seus fluxos mentais telecinéticos. No momento em que Bell pretendia agarrá-la, ela se esquivou rapidamente e foi pousar na poltrona do co-piloto, onde perrnaneceu de pé sobre a ponta.

— A cenoura é para comer, não para brincar! — gritou Bell em tom furioso para o rato-castor. — Sabe perfeitamente que as brincadeiras telecinéticas foram proibidas terminantemente.

— Estou treinando — procurou se desculpar Gucky. — No momento decisivo quero estar em condições de dar o tratamento adequado ao Supercrânio.

— Teria sido preferível que o sujeito não tivesse escapado. Confiamos demais em Tatiana e nos nossos instrumentos — resmungou Bell.

— Não poderia adivinhar que Monterny sabe isolar seus pensamentos. Os modelos mentais de seus acompanhantes também estão protegidos parcialmente por um bloqueio hipnótico. Estamos na dependência do acaso.

— Não a estou recriminando, Tatiana. Nós o encontraremos. Foi em direção a Júpiter; a hipótese não oferece maiores dificuldades.

— Ou para os asteróides — disse a moça.

— É outra possibilidade — admitiu Bell e lançou os olhos pela janela; viu a Z-45 a uma distância regular. O tenente Bings havia abandonado seu posto na órbita de Marte e teve de acompanhar Bell. Dois rastreadores envergavam mais que um só. O contato radiofônico entre as duas naves era mantido por meio das ondas ultracurtas.

De repente Bell virou lentamente a cabeça e encarou Tatiana.

— O que disse? Asteróides? Acredita que o Supercrânio tentará se esconder no meio dos asteróides?

— Por que não? A idéia não seria nada má.

Bell confirmou com um aceno de cabeça.

— Se for assim, teremos muito para procurar.

— Rhodan não deve demorar muito. Com os instrumentos de um girino não deverá ser difícil localizar um destróier em meio ao anel, por melhor que seja seu esconderijo.

— Hum! — fez Bell num tom de ceticismo. — Prefiro confiar no acaso. Ele tem me ajudado muito mais.

— Pois da minha parte prefiro uns bons instrumentos de busca e minha capacidade de telepata — retrucou Tatiana e deixou que os rastreadores percorressem o espaço. Na tela de imagem natural deslizava o setor de espaço que se estendia diante da Z-13; todos os detalhes eram perfeitamente visíveis. Os primeiros asteróides de grandes dimensões do círculo giravam preguiçosamente na luz do sol que brilhava atrás da popa da nave. — Monterny não conseguirá isolar seus pensamentos para sempre, pois com isso ficaria totalmente desgastado. É bem possível que afrouxe os controles quando estiver dormindo.

— Vejo que você também confia no acaso — constatou Bell em tom de malícia e esboçou um sorriso de escárnio. — Bem, talvez consigamos. E se isso acontecer? Rhodan só nos incumbiu de perseguir o Supercrânio. Prefere liquidá-lo pessoalmente...

— Eu lhe mostro... — principiou Gucky, mas calou-se abruptamente quando viu o brilho furioso nos olhos de Bell.

Com a cara mais inocente deste mundo, Gucky esboçou um sorriso com seu dente roedor e deixou que sua cauda brincasse. Ao que parecia esquecera a cenoura no assento do co-piloto. Perplexo, Bell notou que ela ainda continuava em pé, como se uma mão invisível a segurasse. Será que o rato-castor não podia apenas movimentar objetos por via telecinética, mas também sabia prendê-los a determinado lugar, condenando-os à imobilidade? Talvez se encontrasse diante de uma faculdade que ainda não havia aflorado à consciência de Gucky e era desempenhada pelo subconsciente. Bell resolveu calar a boca e observar o animal às escondidas. Se sua suposição fosse confirmada, possibilidades nunca antes sonhadas se abririam diante deles.

Não pôde deixar de voltar a dedicar sua atenção à pilotagem do destróier, já que os primeiros asteróides se aproximaram a ponto de causar preocupações. Um pedaço bem grande, com um diâmetro de pelo menos cinqüenta quilômetros e de formato bastante irregular, deslocava-se lentamente em direção ao Sol, no sentido dos ponteiros do relógio. Era feito de rocha nua entrecortada por grotas íngrimes, nas quais uma nave de pequenas dimensões poderia se esconder perfeitamente, sem que houvesse a menor possibilidade de ser descoberta.

A Z-13 reduziu a velocidade. A Z-45 fez a mesma coisa. Bell chamou a Z-45:

— Não observou nada, tenente Bings?

— Nada — respondeu prontamente o interlocutor. — É um mundo pequeno e morto.

— Ninguém espera encontrar vida nos pequenos asteróides — disse Bell em tom professoral. — Contorne esse bloco pela direita. Vamos nos encontrar no outro lado.

A Z-45 não respondeu; desviou-se para a direita e desapareceu sob o horizonte daquele pequeno mundo.

Bell desceu até ter a superfície entrecortada do planeta de rocha bem debaixo da sua nave. Fez com que ele se desenrolasse diante de sua vista como se fosse um mapa em baixo-relevo. Uma vez que não havia atmosfera, todos os detalhes podiam ser percebidos nitidamente. Nenhuma pedra escapou ao olhar perscrutador de Bell.

Tatiana se concentrou sobre fluxos cerebrais que pudessem estar presentes e tentou captá-los. Estava convencida de que a uma distância tão reduzida não poderia deixar de sentir o Supercrânio, por mais que procurasse se isolar.

Gucky não fez absolutamente nada. Quieto e tranqüilo, aguardava sua chance.

Não havia ninguém no pequeno planeta. Para pesquisar as profundezas dos principais desfiladeiros, Bell teria que pousar. Mas receava que com isso perderia muito tempo. Por isso deu ordem de prosseguir na viagem quando o tenente com a Z-45 surgiu no horizonte e anunciou que não tinha encontrado nada.

Depois de realizar dez tentativas de localizar o Supercrânio num dos asteróides, Bell suspirou apavorado:

— Pelo que sei, existem umas cinqüenta mil pedronas desse tipo em nosso sistema solar. Se formos revistar uma por uma, ficaremos velhos antes de encontrar o Supercrânio. Quem sabe se não estamos procurando na direção errada?

Tatiana sacudiu a cabeça.

— Clifford Monterny pensa logicamente, por isso irá em sentido contrário ao deslocamento dos asteróides; é o que estamos fazendo.

— Por que vai fazer isso? — perguntou Bell.

— Porque dessa forma poderá voar a pequena velocidade e deixar que os blocos de pedra se aproximem dele. Não levará tanto tempo para encontrar um esconderijo.

Bell não viu nisso tanta lógica como Tatiana, mas não deixou de reconhecer que a hipótese era perfeitamente razoável.

Sem dizer nada, aproximou-se do décimo primeiro asteróide que encontraram no seu caminho.

 

Uma nave esférica pousou no platô de Marte.

O major Deringhouse fizera questão de dirigir pessoalmente a ação contra a fortaleza do Supercrânio situada em Marte. Achou que era seu dever redimir-se da falta involuntária por ele cometida.

Além dos vinte e cinco tripulantes, havia alguns membros do Exército de Mutantes a bordo da Good Hope-VII. A missão de André Noir, o hipno, consistia em libertar os homens que ainda se encontravam sob a influência hipnótica do Supercrânio. Sabiam que Monterny havia fugido com uma única nave; dessa forma não era difícil calcular quantos homens deixara em Marte. Betty Toufry, a mais potente das telepatas, foi a primeira a estabelecer contato com os homens de Monterny. Estes estavam sujeitos a um bloqueio hipnótico, mas não possuíam qualquer tipo de isolamento mental, motivo por que não havia nenhuma dificuldade em ler seus pensamentos.

— Receberam instruções para se defender — disse Betty com o rosto desolado. — Noir, será que conseguiremos evitar uma luta insensata?

O hipno deu de ombros.

— Sengu deve apurar onde essa gente nos espera, caso já nos tenha visto. Você me ajudará, para que possa me concentrar na direção exata. Depois procurarei romper o bloqueio hipnótico do Supercrânio. Já conseguiu estabelecer contato com os tripulantes de nossos destróieres que foram aprisionados?

— O bloqueio hipnótico deles é muito fraco. Talvez seja conveniente que o senhor tente libertá-los. Poderiam representar uma boa ajuda para nós.

O major Deringhouse saiu da nave em companhia de Betty Toufry e André Noir.

 

Sentados na sala de comando da Z-VII-1, o capitão Berner e o tenente Hill passavam o tempo com conversas estranhas. Uma pessoa estranha que os ouvisse ficaria mais que espantada.

— Se esta dor de cabeça não passar logo, acabo enlouquecendo — queixou-se Hill, colocando a mão na testa. — Talvez já esteja.

— Eu também — disse Berner em tom indiferente. — Por exemplo, não sei por que estamos aqui em Marte, esperando alguma coisa que não sabemos o que é. Até então estava como que sujeito a um comando que me dirigia e me dava ordens. A partir de ontem essa influência cessou. Mas a dor de cabeça continua, tal qual em você. Tenho a impressão de que posso fazer e deixar de fazer o que me dá na cabeça. Mas não tenho vontade, pois não sei o que quero fazer.

Hill sacudiu a cabeça.

— Comigo acontece a mesma coisa. E com os seus e os meus subordinados também. Sei perfeitamente que o Supercrânio conseguiu nos agarrar. O método que usou é chamado de bloqueio hipnótico, se não me engano. Esquecemo-nos de colocar os capacetes de absorção. Sei de tudo isso, mas não tenho forças para fazer qualquer coisa. Será que deve ser assim mesmo?

— Para o Supercrânio não deve, e para Rhodan também não.

— Quer dizer que somos hermafroditas mentais — disse Hill e pôs-se a rir, como se acabasse de contar a melhor piada de todos os tempos.

Não achou nada de estranho naquilo que seu companheiro acabara de dizer. Mas depois de algum tempo pôs a mão na cabeça e disse:

— Tenho a impressão de que essa pressão está ficando mais forte e ao mesmo tempo vai diminuindo. Quero sair da nave. Tenho que sair. Vem comigo?

Hill não respondeu. Levantou-se sem dizer uma palavra e caminhou na frente do companheiro. Os dois tripulantes seguiram-nos em silêncio.

Não mostraram qualquer dose de espanto ao constatarem que, lá no desfiladeiro, os tripulantes dos outros destróieres também haviam saído de suas naves e ficaram parados sem saberem o que fazer. Ao que parecia haviam obedecido ao mesmo comando, que penetrara em seus cérebros, vindo do nada.

Três vultos surgiram na saída do desfiladeiro. Aproximavam-se devagar. Hill sentiu perfeitamente que o comando vinha de um dos três. Aproximou-se do homem juntamente com os companheiros.

“Estão livres do Supercrânio”, disse de forma bem perceptível a voz em seu cérebro, enquanto a dor de cabeça cessou como por encanto. Uma argola parecia se soltar, uma argola que até então lhes apertara a cabeça. Tinha a impressão de que era a primeira vez que respirava livremente depois de muitos dias.

Apressou os passos. De repente deu-se conta de que se livrara da força que o dominava, força que o terrível Supercrânio colocara em sua mente e na de seus companheiros. Estava livre; não mais podia ser obrigado a ser o servo incondicional de Clifford Monterny.

Pararam diante do major Deringhouse, André Noir e Betty Toufry.

— Os senhores vão desculpar, mas...

— Não precisa dizer nada, tenente — disse Deringhouse com um gesto. — Também passei por isso. Até cheguei a voar para a Terra e causei estragos consideráveis no território de Terrânia — percebeu que o tenente Hill se assustou. — Também eu fui libertado por Noir, que me restituiu a vida. Naquela oportunidade conseguimos nos apoderar da arma mais perigosa do Supercrânio, que fugiu na direção de Júpiter e está sendo perseguido.

O tenente Hill pretendia dar uma resposta, mas não teve tempo para isso. Subitamente Betty Toufry deu um empurrão em Noir e Deringhouse e se atirou ao chão.

— Abriguem-se! — gritou desesperadamente. — Haverá um ataque.

Os homens se espalharam e se agacharam atrás de blocos de pedra e reentrâncias da rocha. Mal acabaram de fazê-lo e chamas surgiram ao seu lado. Com um chiado agudo, o primeiro projétil ricocheteou acima deles.

André Noir rastejou para junto de Betty.

— Qual é a direção principal?

— À esquerda da metralhadora. Os homens do Supercrânio estão planejando um ataque com armas manuais. Felizmente não dispõem de radiadores. Acontece que não temos nenhuma arma. Se você não conseguir romper o bloqueio hipnótico antes que consigam realizar seu intento...

Noir ignorou os projéteis explosivos que passavam pelo ar chiando e concentrou-se sobre os atiradores invisíveis. Não foi muito fácil localizar um espírito aprisionado, mas uma vez feito isso, o resto foi bastante rápido.

De uma hora para outra o fogo cessou.

Deringhouse e Hill continuaram deitados com os outros, mas Noir e Betty levantaram-se sem demonstrar qualquer receio e caminharam em direção ao ninho de metralhadora bem camuflado. De lá não saiu nenhum tiro. Em compensação três vultos surgiram atrás das rochas. Logo foram seguidos por outros.

Eram os defensores da fortaleza de Monterny.

Seu bloqueio hipnótico se esfacelou quando foram submetidos ao tratamento intensivo de Noir, que eliminou os últimos vestígios da vontade estranha. Dali a dez minutos não havia em Marte qualquer homem que não fosse livre.

Não poderia se afirmar que Clifford Monterny havia recrutado seus colaboradores entre o melhor material humano. Por outro lado, porém, Rhodan não manifestara o desejo de incorporar os mesmos nos seus quadros. Seriam levados à Terra e entregues aos governos dos países de que provinham. Até então foram encaminhados a um recinto da Good Hope-VII, do qual não poderiam sair.

Já não havia qualquer impedimento para as comunicações radiofônicas. Deringhouse informou Rhodan sobre as últimas ocorrências e explicou a maneira pela qual haviam encontrado o esconderijo abandonado do Supercrânio. Finalmente pediu licença para entrar em contato com Bell. Rhodan não demorou em concedê-la.

— Tenho assuntos urgentes a tratar. As negociações em torno da formação de um governo mundial chegaram a uma fase decisiva. Não quero deixar de comparecer às próximas sessões. Além disso, Ivã tem de ser vigiado até que possamos confiar integralmente nele. Não tenho nada a opor caso você queira participar da caçada. Procure remover o maior perigo que a Terra já enfrentou. Se o Supercrânio conseguir se esconder e não for encontrado, retornará um belo dia com algumas experiências a mais. No momento está fraco e desgastado.

 

O planetóide não tinha nome, e sua órbita nunca fora calculada por qualquer homem. Seu diâmetro não ultrapassava oitenta quilômetros, e tinha um formato quase quadrangular. Possuía um movimento de rotação extremamente veloz; levava menos de uma hora para girar em torno do seu eixo. Sua superfície era formada por uma profusão de montanhas íngremes e profundos desfiladeiros, nos quais reinava uma eterna escuridão. As rochas mais elevadas eram iluminadas a intervalos regulares pelo sol distante.

Com poucos minutos de intervalo as pontas das montanhas interceptavam os raios solares, e por isso alguém que contemplasse o asteróide a grande distância teria a impressão de que uma luz se acendia e apagava no mesmo.

Esse fenômeno trouxe consigo certas conseqüências.

De início o Supercrânio ficou intrigado com a luminosidade intermitente; Redobrou sua vigilância. Mas quando o quadro ampliado do asteróide foi projetado na tela, encontrou a explicação do fenômeno. Decidiu que esse planetóide lhe serviria de esconderijo provisório. Nunca saberia explicar por que escolhera justamente este.

Adaptou a velocidade da nave à do asteróide e começou a circular em torno do mesmo. Ficou satisfeito ao constatar que havia muitos lugares adequados para o pouso. Mesmo que uma das naves de Rhodan cruzasse acima do asteróide, ainda era duvidoso que fosse descoberto. Se isso acontecesse, ainda poderia contar com o excelente armamento do destróier e com o campo energético que o protegeria.

Não demorou em encontrar um desfiladeiro largo com rochas que sobressaíam na parte superior.

O Supercrânio era um excelente piloto. Pousou sem maiores problemas. Aguardou calmamente até que a vibração da nave cessasse e ordenou aos seus acompanhantes que permanecessem em seus postos e dirigissem os raios dos canhões sobre qualquer nave que se aproximasse. Depois se dirigiu à comporta de ar, envergou o traje espacial e saiu da nave.

Sem que o soubesse, passou por aquilo que Bell sempre considerava uma atração toda especial. Como um peixe na água, flutuava pelo vácuo quase livre de gravidade. Sentiu-se livre e independente. O Supercrânio começou a dar-se conta de que além da riqueza e do poder existiam outras coisas que faziam com que valesse a pena viver. Ao chegar ao limiar da comporta deu um empurrão com a perna e deslizou sobre o desfiladeiro, descendo lentamente. Quando tocou o solo rochoso fez um movimento precipitado e subiu como uma pena carregada pelo vento, chegando quase à extremidade superior do paredão de rocha. Só lentamente retornou ao fundo do desfiladeiro.

Esqueceu a situação em que se encontrava. Uma verdadeira embriagues se apossou de seu espírito. Com um forte empurrão subiu como um foguete para o espaço salpicado de estrelas. Evidentemente acompanhou o movimento de rotação do asteróide, motivo por que permaneceu praticamente acima do mesmo lugar. Mas continuava a subir, embora mais devagar. Dali a pouco atingiria o ponto em que a velocidade de seu corpo não mais seria suficiente para superar a reduzida força gravitacional. Esta voltaria a puxá-la para baixo, mas em câmara lenta.

Lembrou-se de sua missão. Olhando para baixo, não viu a nave. As rochas salientes encobriam a mesma. A camuflagem não poderia ser melhor.

Esperou pacientemente até que voltasse a descer. Teve uma sensação nunca antes conhecida de superioridade e de verdadeira liberdade. Não podia influenciar a direção da queda enquanto não usasse seu radiador manual, mas isso não tinha a menor importância. Havia espaço de sobra; dispunha de um mundo todo só para si.

Percebeu a ironia do destino e conformou-se com a mesma. Queria possuir o mundo, e agora tinha o seu mundo. Era menor que a Terra e nele não havia nenhuma vida, mas era um mundo cuja posse não seria contestada por ninguém. Era exclusivamente dele.

Pousou suavemente no fundo do desfiladeiro, a mais de quinhentos metros de sua nave. Desta vez resolveu tirar proveito da experiência que já havia acumulado. Com um movimento cauteloso deu um empurrão em sentido oblíquo e, depois de descrever uma parábola suave, atingiu o destróier sem se afastar do solo mais que vinte metros. Atingiu-o com dois saltos. Com um terceiro salto subiu à comporta de entrada.

Parou por um instante para controlar seus sentimentos. Eram sentimentos que nunca antes haviam penetrado em sua mente. Ao flutuar livremente sobre um mundo pequeno e vazio, certas cordas de seu ser começaram a vibrar, cordas que até então nunca haviam soado. Quase chegou a esquecer o motivo de sua presença no asteróide e o inimigo ameaçador que o perseguia.

Na extremidade do desfiladeiro, os raios do sol correram sobre a rocha como se fossem um ser vivo e desapareceram nas sombras do desfiladeiro. Dali a uma hora correriam pelo mesmo caminho, e voltariam a fazer a mesma coisa, sempre e sempre.

Pela primeira vez o Supercrânio começou a compreender como o mundo podia ser belo... até mesmo este mundo desolado e vazio. Seu espírito abriu-se e absorveu o milagre com que se defrontava.

Naquele mesmo instante percebeu uma voz silenciosa e implacável em seu cérebro.

“Clifford Monterny, finalmente o encontramos! Talvez nunca o tivéssemos localizado, se afinal não tivesse se transformado... num ser humano.”

O Supercrânio estremeceu. A proteção das ondas cerebrais. Esquecera-se dela. Seus fluxos mentais corriam livremente pelo espaço, e um telepata acabara de captá-los. Um dos telepatas de Rhodan.

Era tarde para voltar a se isolar.

“Quem é o senhor?”, foi sua resposta mental.

“Não me conhece? Sou Tatiana Michalovna.”

Com amargura no coração, o Supercrânio percebeu que Rhodan fora bastante inteligente para mandar atrás dele uma telepata que não poderia ser influenciada contra a vontade. Tatiana era capaz de instalar um bloco isolador próprio sempre que isso se tornasse necessário. Não devia estar só.

“Ah, então é Tatiana? Já me traiu uma vez. Será que isso não basta? Ainda quer me matar. Não acha que é muito para você?”

“Nada disso, Supercrânio. Você até pode escolher a forma de morrer. Apresse-se, pois não podemos perder muito tempo.”

Pela primeira vez o Supercrânio teve uma idéia do que suas vítimas deviam ter sofrido. Estava tendo o mesmo destino. Davam-lhe um prazo para morrer. Por quê?

Só porque se esquecera por um instante do seu poder e da sua grandeza, transformando-se num ser humano. Porque havia reconhecido a beleza de um pôr de sol. Porque por dez segundos deixara de ser um monstro.

Será esta a vingança que se sofre por se ter sido mais humano?

— Já vou! — disse em voz alta e sabia que Tatiana o entendia.

Lançou mais um olhar para aquele mundo morto, que por alguns minutos fora seu, virou-se lentamente e entrou na comporta de ar do destróier.

A escotilha pesada, que aqui se tornara leve, fechou-se sem o menor ruído.

 

Bell notou a luminosidade intermitente.

Nem por isso interrompeu sua palestra com o major Deringhouse, que o seguia na Good Hope-VII e havia pedido uma indicação da posição. Corrigiu o curso da Z-13 e fez com que a Z-45 o seguisse.

— Então quer participar da caçada? — perguntou, enquanto refletia febrilmente sobre o significado daquela luminosidade. — Não acha que seria recomendável seguir na direção oposta?

— Por quê? — indagou Deringhouse numa atitude de espreita. Sabia muito bem quem era Bell. — Descobriu uma pista por aí?

— Nada disso. Onde está no momento?

— Duzentos milhões de quilômetros atrás de você.

— Pois venha para cá. É possível que chegue na hora exata.

Evidentemente naquele instante Bell nem desconfiava de que suas palavras se transformariam em realidade. Desligou a tela e transmitiu algumas instruções ligeiras ao tenente Bings. Depois voltou a observar aquela estranha luminosidade.

Só depois que a Z-13 se havia aproximado do asteróide, Bell reconheceu a verdadeira natureza do fenômeno. Xingou-se de idiota por não se ter lembrado antes dessa possibilidade. Nem mesmo o sorriso sofisticado de Tatiana conseguiu perturbá-lo.

Tatiana estava novamente em recepção enquanto se moviam lentamente sobre a superfície entrecortada do asteróide, que já devia ser o qüinquagésimo que estava sendo examinado por eles.

Subitamente pensamentos estranhos começaram a cochichar em seu cérebro.

De início não acreditou que pudessem ser os pensamentos do Supercrânio, pois eram bons e em parte belos. Um cérebro monstruoso como aquele nunca seria capaz de concebê-los. Mas logo todas as dúvidas foram espantadas.

O Supercrânio se encontrava bem próximo dali. A estranha beleza do planetóide morto comovera-o profundamente, e por isso se esquecera de isolar seu cérebro.

— Clifford Monterny — disse Tatiana em tom frio. — Finalmente o encontramos...

 

Ficaram aguardando a uma boa distância do asteróide. O tenente Bings estava na Z-45, quase do lado oposto do mesmo, e mantinha contato visual com Bell. Dessa forma a nave do Supercrânio não lhes escaparia se realizasse uma tentativa de fuga.

Os dois homens que se encontravam na Z-45 estavam usando seus capacetes de absorção, tal qual Bell na Z-13. Só Tatiana não possuía qualquer proteção contra um eventual ataque mental do Supercrânio, mas dispunha do seu dom natural. E Gucky sabia cercar o espírito de um bloqueio total.

— Não seria preferível prendê-lo? — sugeriu Bell em tom de gracejo.

O rato-castor procurou dar um brilho ameaçador aos olhos. Sua cauda tremia nervosamente.

— Experimente — sugeriu Gucky de sua parte. Avaliou Bell com os olhos. — Acho que você só está com medo de que eu liquide o Supercrânio sozinho.

— Que tolice! — disse Bell, enfurecido. — Mas se a coisa atingir você, e você se puser a brincar como costuma fazer, poderemos contar com as piores desgraças. Você sabe dirigir a nave contra minha vontade e além disso...

— O Supercrânio nada pode fazer contra mim — interrompeu-o Gucky tranqüilamente. — Possuo dons de que nem você nem Rhodan suspeitam.

Bell deu de ombros e voltou a dedicar sua atenção ao astro que girava constantemente. A Good Hope-VII ainda se encontrava a uma distância tão grande que não poderia participar da ação.

Subitamente sentiu um zumbido martirizante na cabeça. De início pensou que fosse simples coincidência, mas um ligeiro olhar para a tela que mostrava o interior da Z-45 fez com que despertasse imediatamente. O tenente Bings e o sargento Adolfo também revelavam sintomas inconfundíveis de um súbito mal-estar acompanhado de dores de cabeça. Os olhos de Bings chegaram a ficar vidrados e fixaram-se em algum ponto situado no infinito.

— Tatiana! — gemeu Bell com grande esforço, reunindo as últimas forças da vontade que se apagava. — É o Supercrânio! Está tentando...

A russa já o havia percebido. Não sentiu os incômodos que costumam surgir no início do processo de instalação de um bloqueio hipnótico, mas os comandos telepáticos do Supercrânio chegaram a ela, embora não produzissem qualquer efeito em sua mente.

Seus olhos localizaram a nave do Supercrânio, que disparou da superfície do planetóide numa velocidade tresloucada e tomou rumo contrário à sua órbita. Ao que parecia, o Supercrânio não pretendia perder tempo com a destruição de seus inimigos. Prosseguiu na sua fuga para um destino desconhecido.

Bell permaneceu imóvel no assento. Não reagiu quando Tatiana gritou para ele.

Gucky continuava sentado no seu canto; sorria. E o fez com um deboche que Bell teria ficado furioso se o visse. Mas Bell não via mais nada. Seu cérebro havia sido colocado fora de ação.

Gucky se aproximou a passo balouçante e, num salto elegante, colocou-se no assento vago do co-piloto. Com um gesto de pedantismo empurrou para o lado a cenoura que continuava de pé e olhou pela janela. A nave em que o Supercrânio estava fugindo ainda era visível a olho nu. Corria vertiginosamente pela órbita dos asteróides. Era de recear que dali a pouco desaparecesse naquela confusão aparente.

— Pois bem! — resmungou o rato-castor e estreitou os olhos aparentemente inofensivos num gesto de extrema concentração.

Não podia mover diretamente o destróier do Supercrânio, pois seu peso era excessivo para isso. Mas uma concentração bastante intensa permitia-lhe manipular seus controles. Porém, com o tempo, o cansaço se tornaria insuportável. Por isso recorreu ao processo já duas vezes consagrado: teleportou-se e colocou fora de ação o reator que supria a nave de energia. Para isso separou os dois elementos propulsores. Mantendo a mesma velocidade, o destróier do Supercrânio se precipitou para o interior do círculo de asteróides. Gucky regressou.

 

O major Deringhouse empalideceu ao receber o chamado de Tatiana.

— Não posso libertar Bell do bloqueio hipnótico e não sei dirigir um destróier. Gucky também não sabe. Estamos girando em torno de um asteróide. Enquanto isso o Supercrânio foge. Felizmente não pode dirigir sua nave.

Relatou em poucas palavras a maneira pela qual Gucky interviera nos acontecimentos e concluiu:

— Você tem que intervir quanto antes. É possível que o Supercrânio dê novas ordens a Bell, e nesse caso não poderei fazer nada.

— Sua posição?

Tatiana indicou-a.

— Muito bem. Tentarei um hipersalto. Dentro de um minuto estarei aí.

Um hipersalto!

Tatiana não sabia o que vinha a ser isso, embora já tivesse ouvido a palavra. A nave se deslocava para a quinta dimensão e no mesmo instante voltava a se materializar na quarta. O fator tempo era excluído por completo.

Antes que pudesse pensar no assunto, viu que entre ela e a Z-45, bem perto do asteróide, a nave esférica surgia em meio ao espaço. No início as estrelas apagaram-se num setor circular do universo, e logo se verificou a materialização da Good Hope-VII.

Poucos segundos depois a rigidez do olhar de Bell desapareceu. Seu cérebro voltou a funcionar normalmente, mas não se lembrava do que lhe acontecera. Em poucas palavras Tatiana o informou a esse respeito, enquanto o hipno André Noir, que se encontrava a bordo da Good Hope-VII, pôs-se a chamar o tenente Bings e o sargento Adolfo de volta para a realidade.

Gucky estava acomodado no assento do co-piloto e esboçou um sorriso alegre.

Bell lançou um olhar estranho sobre ele e, com um gesto abrupto, pegou os controles da nave. A Z-13 descreveu uma curva repentina e passou a se deslocar na direção em que o Supercrânio desaparecia no espaço.

O girino número sete e o destróier Z-45 seguiram-no.

— O Supercrânio não pode dirigir sua nave? — procurou certificar-se Bell. Gucky confirmou com um aceno de cabeça. — E não pode acelerar?

— Está sem energia — chiou a voz estridente de Gucky. — Dentro de poucas horas estará morto, porque o ar de sua nave não será renovado.

Na tela frontal um ponto luminoso caminhava entre os asteróides que se moviam lentamente. Bell ampliou a imagem. Era o destróier do Supercrânio.

Tatiana disse:

— Não vale a pena se aproximar. Se ele notar nossa presença, tentará novamente instalar um bloqueio hipnótico...

De repente um relampejo ofuscante surgiu bem ao longe, diante da Z-13.

Entre os pontinhos luminosos formados pelos asteróides surgiu um pequeno sol branco, muito luminoso, que logo se apagou. Quando os olhos voltaram a se acostumar à escuridão do espaço, o pontinho luminoso que representava o destróier do Supercrânio havia desaparecido.

Bell acelerou e só reduziu a velocidade quando chegou ao pequenino asteróide que penetrara na trajetória imutável da nave desgovernada. Seu diâmetro devia ser de cerca de três quilômetros. Sua massa era tamanha que o impacto não pudera modificar sua órbita. Continuava a caminhar tranqüilamente pelo espaço.

Mas em sua superfície havia uma enorme cratera, cujo interior continuava em incandescência.

Sem dizer uma palavra, Bell contemplou o túmulo do supercrânio. Tatiana, que captara aqueles poucos pensamentos do monstro, murmurou:

— Seu último desejo foi cumprido. Queria um mundo que pudesse dominar sozinho. Ele já tem este mundo. Ninguém lhe disputará a posse.

Falando de dentro da tela, o major Deringhouse disse:

— Com isso o capítulo Supercrânio está encerrado. Convém que informemos Rhodan. Ficará satisfeito em saber que poderá se dedicar a missões mais importantes que o combate contra esse brutal reformador do mundo.

— Estragador do mundo — resmungou Bell, retificando as palavras de Deringhouse. Mas acabou concordando com um aceno de cabeça. — Pois bem, cuide disso.

Lançou um olhar para o mapa estelar estendido diante dele e disse em tom pensativo.

— Vá logo com a Z-45. Irei depois. Deringhouse demonstrou ligeiro espanto.

Também Tatiana parecia estranhar a atitude de Bell. Apenas o tenente Bings, que se encontrava na Z-45, passou a demonstrar muito Interesse. Um brilho curioso surgiu em seus olhos.

Gucky estava roendo sua cenoura. Ao que parecia, não se importava em dar qualquer volta que desse na cabeça de Bell.

— O que pretende fazer? — perguntou Deringhouse.

Bell piscou em direção à outra tela, onde estava projetada a imagem do tenente Bings.

— Ainda tenho que cumprir uma promessa feita a mim mesmo. O Supercrânio está morto. Logo, não posso deixar de cumpri-la. Sabe o que vem a ser uma borboleta venusiana de olhos trêmulos?

O major Deringhouse sacudiu a cabeça como quem não entende nada.

— Não faço a menor idéia — disse em tom desolado.

— Pois recomendo-lhe que tome uma aula de zoologia extraterrena — disse Bell e interrompeu a comunicação visual.

Por isso não ouviu o grito alegre de colecionador emitido pelo tenente Bings.

A Z-13 descreveu uma curva e tomou o curso do distante planeta Vênus. Dentro de poucos segundos desapareceu em meio à profusão de estrelas.

 

                                                                                            Clark Darlton

 

 

                      

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