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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O DOMÍNIO / Steve Alten
O DOMÍNIO / Steve Alten

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

                               HÁ 65 MILHÕES DE ANOS, VIA LÁCTEA

Uma galáxia espiral – uma das 100 bilhões de ilhas de estrelas que atravessam a matéria escura do uni­verso. Girando como um luminoso cata-vento cósmico na imensidão do espaço, a galáxia arrasta mais de 200 bilhões de estrelas e incontáveis outros corpos celestes em seu vórtice titânico.

Examinemos este círculo galáctico. Observando a formação dentro dos nossos limites tridimensionais, nosso olhar é atraído inicialmente para o bojo da galá­xia, composto de bilhões de estrelas vermelhas e laranja, rodopiando dentro de nuvens de poeira estelar de uns 15 mil anos-luz de diâmetro (um ano-luz equivalendo aproximadamente a 9 trilhões e meio de quilômetros). Girando ao redor dessa região de formato de lente está o disco achatado da galáxia, com 2 mil anos-luz de es­pessura e 120 mil anos-luz de diâmetro, que contém a maior parte da massa galáctica. Percorrem esse disco os braços em espiral da galáxia, lares de estrelas brilhantes e luminosas nuvens de gás e poeira — incubadoras cósmicas que originam novas estrelas. Acima desses braços, estende-se o halo galáctico, uma região esparsa­mente povoada contendo aglomerados globulares que sustentam os membros mais antigos da família galáctica.

Dali passamos para o verdadeiro coração da galáxia, uma região comple­xa, rodeada por nuvens rodopiantes de gás e poeira. Escondida dentro desse núcleo, está a verdadeira central de energia da formação celeste — um mons­truoso buraco negro —, um vórtice denso de energia gravitacional, 3 milhões de vezes mais pesado que o Sol. Essa insaciável máquina cósmica engole tudo o que está ao seu alcance incomensurável — estrelas, planetas, matéria, até luz —, enquanto movimenta os corpos celestes da galáxia em espiral.

Agora vejamos a galáxia de uma dimensão superior — uma quarta di­mensão do tempo e do espaço. Ramificando-se através do corpo galáctico como artérias, veias e capilares, existem vasos invisíveis de energia, alguns tão imensos que poderiam transportar uma estrela; outros, cordões delicados e microscópicos. Todos são alimentados pelas inimagináveis forças gravitacionais do buraco negro, localizado na Central Galáctica. Atravesse o portal de um desses vasos e você terá acesso a uma rodovia dimensional que cruza os limites do tempo e do espaço, contanto, é claro, que o seu veículo possa sobreviver à viagem.

Enquanto a galáxia gira ao redor de seu centro descomunal, também esses fluxos de energia serpenteiam, sempre circulando, e continuam sua eter­na jornada ao redor da planície galáctica, como peculiares raios de uma roda cósmica em perene rotação.

Como um grão de areia apanhado na poderosa corrente de um fluxo gravita­cional, o projétil do tamanho de um asteróide corre pelo canal dimensional, um portal do tempo e do espaço atualmente localizado no braço de Órion da espiral galáctica. A massa ovóide, com mais de 11 quilômetros de diâmetro, é protegida do abraço esmagador do tubo por um campo de força antigravitacional verde-esmeralda.

O viajante celestial não está só.

Escondida dentro do rastro do objeto esférico, que está carregado de magnetismo, e imersa na cauda protetora do campo de força, está outra nave — menor, esguia, seu achatado casco em forma de adaga composto de brilhan­tes painéis solares dourados.

Navegando através da dimensão do espaço e do tempo, a rodovia cósmi­ca deposita seus viajantes numa região da galáxia localizada na borda interior do braço de Órion. À frente deles, um sistema solar contendo nove corpos planetários, governado por uma única estrela de um amarelo-pálido.

Correndo impelida pelo campo gravitacional da estrela, a imensa nave de irídio se aproxima rapidamente de seu alvo — Vênus —, o segundo planeta a partir do Sol, um mundo de calor intenso, envolto numa capa de densas nu­vens ácidas e de dióxido de carbono.

A nave menor se aproxima por trás, revelando sua presença ao inimigo.

Imediatamente, o transporte de irídio altera o seu curso, aumentando a velocidade graças à atração gravitacional do terceiro planeta do sistema, um mundo azul e aquoso contendo uma atmosfera tóxica de oxigênio.

Com um clarão brilhante, a nave menor emite um pulso incandescente de energia de uma antena que se estende de sua proa. A carga corre pelo feixe de íons da cauda eletromagnética da esfera como um raio percorrendo um cabo de metal.

A carga é detonada sobre o casco de irídio como uma aurora, a explosão elétrica pondo em curto o sistema de propulsão da nave, jogando violenta­mente o gigante para fora de sua rota. Em poucos momentos, a massa avariada sucumbe ao letal abraço do campo gravitacional do planeta azul.

O projétil do tamanho de um asteróide se precipita rumo à Terra, fora de controle.

Com um estrondo supersônico, a esfera de irídio viola a hostil atmosfera. O casco exterior, semelhante a um espelho, se racha e afunda. Então, se infla­ma brevemente numa ofuscante bola de fogo antes de mergulhar num mar raso e tropical. Sem sofrer quase nenhuma desaceleração pelas centenas de metros de água, bate no fundo numa fração de segundo, criando, por um momento surreal, um cilindro sem água até o leito do oceano.

Um nanossegundo depois, o impacto do corpo celeste cria uma detona­ção de um branco brilhante, liberando 100 milhões de megatons de energia.

A fragorosa explosão abala todo o planeta, gerando temperaturas que ex­cedem os 17 mil graus centígrados, mais quentes que a superfície do Sol. Duas bolas de fogo gasosas explodem simultaneamente. A primeira é uma nuvem de poeira incandescente formada por rocha pulverizada e irídio, proveniente da desintegração do casco exterior da nave. Ela é seguida por enormes nuvens de vapor e dióxido de carbono em alta pressão, os gases liberados na evaporação do mar e do seu leito calcário.

Os fragmentos e gases superaquecidos sobem para a atmosfera devastada, im­pelidos para cima através do vácuo criado pela queda do objeto. Enormes ondas de choque se espalham pelo mar, gerando monstruosos tsunamis que atingem alturas de 90 metros ou mais ao alcançarem águas rasas e correrem para a costa.

 

 

 

 

                                      Costa Sul da América do Norte

Em silêncio mortal, o bando de velociraptors se aproxima da presa, uma fêmea de Corythosaurus de 9 metros de comprimento. Pressentindo o perigo, o réptil de pés palmados levanta sua magnífica crista em forma de leque e fareja o ar úmido, detectando o cheiro do bando. Soltando um grito de aviso para o resto do grupo, a fêmea corre pela floresta, galopando em direção ao mar.

Sem aviso, um clarão brilhante atordoa o animal em fuga. O réptil cam­baleia, agitando sua enorme cabeça, tentando enxergar novamente. Quando sua visão clareia, dois raptors saltam da vegetação e guincham, bloqueando sua fuga enquanto o resto do bando pula sobre as costas da Corythosaurus, perfurando-lhe a carne com as garras mortais das patas traseiras. Um dos primeiros caçadores encontra a garganta da fêmea e morde seu esôfago, afundando as garras curvas na carne macia abaixo do esterno. O réptil ferido emite um grito sufocado, engasgando-se com o próprio sangue, ao mesmo tempo em que ou­tro raptor morde seu focinho achatado, afundando as garras dianteiras em seus olhos. O pesado réptil é levado ao chão.

Em poucos momentos, tudo está acabado. Os predadores rosnam, ameaçando-se mutuamente enquanto arrancam bocados de carne de sua presa ainda trêmula. Ocupados com a matança, os velociraptors ignoram o chão que treme sob suas patas e o trovão que se aproxima.

Uma sombra escura passa acima deles. Os dinossauros olham para cima ao mesmo tempo, o sangue pingando de suas mandíbulas, e rosnam para a imensa parede de água.

A onda da altura de um prédio de 22 andares atinge seu ápice — e então cai — esmagando os caçadores surpresos, liquefazendo seus ossos sobre a areia com um estampido ensurdecedor. A onda segue para o norte, sua energia ciné­tica obliterando tudo o que encontra no caminho.

O tsunami inunda a terra, varrendo vegetação, sedimentos e criaturas terrestres com seu volume estrondoso, submergindo a costa tropical por cente­nas de quilômetros em todas as direções. O pouco de floresta que permanece fora do caminho do vagalhão pega fogo quando tórridas ondas de choque transformam o ar numa verdadeira fornalha. Um par de Pteranodons tenta fu­gir do holocausto. Voando acima das árvores, suas asas reptilianas pegam fogo, incinerando-se no vento térmico.

Lá no alto, fragmentos de irídio e rocha que foram lançados ao céu come­çam a voltar para a atmosfera como meteoros incandescentes. Dentro de horas, todo o planeta está envolto numa nuvem densa de poeira, fumaça e cinzas.

As florestas arderão durante meses. Por quase um ano, nenhuma luz solar penetrará o céu enegrecido para atingir a superfície desse mundo que um dia foi tropical. A interrupção temporária da fotossíntese vai obliterar milhares de espécies de plantas e animais na terra e no mar, e à volta do Sol vão se seguir anos de inverno nuclear.

Num momento cataclísmico, os 140 milhões de anos de dominio dos dinossauros chegam abruptamente ao fim.

Durante dias, a esguia nave dourada permanece em órbita acima do mundo devastado, seus sensores rastreando continuamente o local do impacto. A es­trada quadridimensional para casa foi-se faz tempo, pois a rotação da galáxia já moveu o ponto de acesso do canal para vários anos-luz dali.

No sétimo dia, uma luz verde-esmeralda começa a brilhar sob o leito rachado do oceano. Segundos depois, um potente sinal de rádio subespacial é emitido, o pedido de ajuda dirigido para os confins externos da galáxia.

Os seres a bordo da nave em órbita distorcem o sinal tarde demais.

O mal se enraizou em mais um jardim celestial. É só uma questão de tempo até que ele acorde.

A nave dourada se move numa órbita geossíncrona diretamente acima de seu inimigo. Um sinal automático de hiperondas de rádio é ativado, blo­queando todas as transmissões recebidas ou enviadas pelo planeta. Então a nave se desativa, dirigindo sua energia para os casulos de sobrevivência.

Para os habitantes da espaçonave, o tempo agora está imóvel.

Para o planeta Terra, o relógio começou a andar...

 

       8 DE SETEMBRO DE 2012, MIAMI, FLÓRIDA

O Centro de Avaliação e Tratamento do Sul da Flórida é um edifício de concreto branco de sete andares, decorado com sempre-vivas e localizado num esquálido bairro latino a oeste da cidade de Miami. Como a maio­ria dos prédios comerciais da área, possui rolos de arame farpado ao redor do teto. Diferentemente dos outros es­tabelecimentos, o arame farpado não está lá para impedir a entrada de ninguém, e sim a saída dos internos.

Dominique Vazquez, de 31 anos, costura em meio ao trânsito da hora do rush, xingando alto enquanto ace­lera pela Route 441. É o seu primeiro dia de residência e já está atrasada. Desviando de um adolescente vindo na contramão de skate motorizado, entra no estacionamen­to para visitantes e para o carro. Enquanto corre para a entrada, prende apressadamente seus longos cabelos ne­gros num coque.

Portas magnéticas se abrem, dando-lhe acesso a um saguão com ar-condicionado.


Uma mulher latina de 40 e tantos anos está atrás do balcão da recepção, lendo o noticiário matutino num computador do tamanho de uma prancheta, fino como uma folha de papelão. Sem levantar os olhos, ela pergunta:

Posso ajudar?

Sim. Tenho hora marcada com Margaret Reinike.

—        Não tem, não. A dra. Reinike não trabalha mais aqui. — A mulher aperta a tecla page down, visualizando outra notícia no monitor.

Mas isso não faz sentido. Falei com a dra. Reinike há duas semanas.

A recepcionista finalmente olha para cima.

Qual o seu nome?

Vazquez, Dominique Vazquez. Vim fazer um ano de residência como pós-graduanda da Universidade Estadual da Flórida. A dra. Reinike seria mi­nha supervisora. — Ela observa a mulher pegar o telefone e teclar um ramal.

Dr. Foletta, uma jovem chamada Domino Vass...

Vazquez. Dominique Vazquez.

Perdão. Dominique Vazquez. Não, senhor, ela está aqui no saguão. Diz que vai fazer residência e que a dra. Reinike seria sua supervisora. Sim, senhor. Após desligar o telefone, ela se volta para Dominique. Pode sentar ali. Daqui a alguns minutos o dr. Foletta vai descer para falar com você. A mulher gira a cadeira, dando as costas para Dominique, e volta a ler no monitor.

Dez minutos se passam antes que um homem corpulento, de uns 50 anos, desponte de um corredor.

Anthony Foletta destoaria menos num campo de futebol americano, trei­nando quartos-zagueiros, do que andando pelos corredores de uma instituição estatal para psicopatas criminosos. Uma juba de cabelo grisalho cobre uma ca­beça enorme, que parece grudada diretamente nos ombros. Acima de bochechas carnudas, seus olhos azuis piscam sob pálpebras sonolentas. Embora esteja aci­ma do peso, seu tronco é firme, a barriga saltando um pouco do jaleco aberto.

Abre um sorriso forçado e uma mão grossa é estendida.

Anthony Foletta, novo chefe de psiquiatria. A voz é profunda e áspera, como um velho cortador de grama.

O que aconteceu com a dra. Reinike?

Problemas pessoais. Dizem que o marido dela tem câncer em fase terminal. Acho que ela decidiu se aposentar mais cedo. Mas ela me falou sobre você. Se não tiver nenhuma objeção, vou supervisionar a sua residência.

Nenhuma objeção.

Ótimo.

Ele se vira e volta pelo corredor, e Dominique aperta o passo para alcançá-lo.

Dr. Foletta, há quanto tempo o senhor está na instituição?

Dez dias. Fui transferido para cá da unidade estatal em Massachusetts. Eles se aproximam de um vigia no primeiro posto de verificação.

Deixe a sua carteira de motorista com o vigia.

Dominique procura em sua bolsa e entrega ao homem o cartão plastifi­cado, recebendo em troca o crachá de visitante.

—        Use isto por enquanto — diz Foletta. — Não se esqueça de devolvê-lo no fim do dia. Vamos providenciar um crachá codificado de residente antes do fim da semana.

Ela prende o crachá na blusa e o segue até o elevador. Foletta ergue três dedos para uma câmera montada acima de sua cabeça. As portas se fecham.

Você já esteve aqui? Conhece a planta do prédio?

Não. Só falei com a dra. Reinike por telefone.

São sete andares. A administração e a central de segurança ficam no primeiro. A central controla os elevadores dos funcionários e dos internos. O segundo andar tem uma pequena unidade médica para idosos e doentes termi­nais. No terceiro andar você encontra nosso refeitório e as salas de convivência. Ele também dá acesso ao mezanino, ao jardim e às salas de terapia. O quarto, quinto, sexto e sétimo andares hospedam os internos. — Foletta ri. — O dr. Blackwell os chama de "clientes". Eufemismo interessante, considerando que todos vieram para cá algemados.

Eles saem do elevador, passando por um posto de segurança idêntico ao do primeiro andar. Foletta acena e entra no curto corredor para a sua sala. Caixas de papelão estão empilhadas por toda parte, cheias de pastas, diplomas emoldurados e artigos pessoais.

—        Desculpe a bagunça, ainda estou me ajeitando. — Foletta tira uma impressora de cima de uma cadeira, indicando que Dominique se sente, e se aperta desconfortavelmente atrás da escrivaninha, encostando-se na cadeira de couro para dar espaço à sua barriga.

Ele abre o arquivo pessoal dela.

Hum. Vejo que está completando seu doutorado na Universidade Estadual da Flórida. Vai a muitos jogos de futebol?

Na verdade, não. — Aproveite a brecha. -— O senhor parece já ter jogado.

É uma boa aposta e faz o rosto rechonchudo de Foletta brilhar.

Fighting Blue Hens of Delaware, turma de 1979. Zagueiro avançado. Teria começado nas divisões de base da Liga Nacional se não tivesse estourado o joelho contra o Lehigh.

Por que o senhor optou pela psiquiatria criminal?

Meu irmão mais velho sofria de uma obsessão patológica. Vivia en­crencado com a lei. O psiquiatra dele era formado em Delaware e era fanático por futebol. Eu o levava para o vestiário depois dos jogos. Quando machuquei o joelho, ele mexeu os pauzinhos e eu fui admitido como aluno de graduação. Foletta inclina-se para a frente, colocando a pasta sobre a mesa. Vamos falar de você. Estou curioso. Há várias outras instituições mais próximas da universidade. O que trouxe você até aqui?

Dominique pigarreia.

—        Meus pais moram em Sanibel. Fica a apenas duas horas de Miami. Não consigo visitá-los com muita frequência.

Foletta corre seu indicador roliço pelas fichas do arquivo.

Diz aqui que você nasceu na Guatemala.

Sim.

Como veio parar na Flórida?

Meus pais... meus pais biológicos morreram quando eu tinha 6 anos. Fui enviada para um primo em Tampa.

Mas isso não durou muito?

Isso é importante?

Foletta ergue os olhos, que não estão mais sonolentos.

Não gosto muito de surpresas, residente Vazquez. Antes de designar internos, gosto de conhecer a psique dos meus funcionários. A maioria dos in­ternos não nos dá muitos problemas, mas é importante lembrar que lidamos com alguns indivíduos violentos. Pra mim, a segurança é uma prioridade. O que aconteceu em Tampa? Como foi que você veio parar num lar adotivo?

Basta dizer que as coisas não correram bem com meu primo.

Ele estuprou você?

Dominique fica chocada com a pergunta direta.

Se você realmente quer saber, sim. Eu só tinha 10 anos na época.

Você ficou sob os cuidados de um psiquiatra?

Ela olha para Foletta. Mantenha a calma, ele está te testando.

Sim, até os 17 anos.

Tocar no assunto te incomoda?

Aconteceu. Acabou. Com certeza influenciou a escolha da minha car­reira, se é o que quer saber.

—        E os seus interesses também. Diz aqui que você tem faixa preta de segundo grau em tae kwon do. Já teve que usá-la?

—        Só em torneios.

As pálpebras se erguem muito, os olhos azuis provocando-a com sua intensidade.

Diga, residente Vazquez, você imagina o rosto do seu primo quando golpeia seus oponentes?

Às vezes. — Ela tira um cacho de cabelos dos olhos. — Em quem você fingia que estava batendo quando jogava futebol pelo Fighting Blue Hens?

—        Touché. — Os olhos voltam para a pasta. — Você namora muito?

—        Minha vida social também interessa?

Foletta se recosta na cadeira.

Experiências sexuais traumáticas muitas vezes levam a desequilíbrios sexuais. Repito, só quero saber com quem estou trabalhando.

Não tenho aversão ao sexo, se é o que está perguntando. Tenho, sim, uma desconfiança saudável de homens enxeridos.

Isso não é um retiro espiritual, residente Vazquez. Vai precisar criar uma casca mais grossa pra lidar com internos criminosos. Esses homens fize­ram suas reputações deitando e rolando com universitárias bonitas como você. Vindo da Universidade Estadual, achei que iria agradecer o alerta.

Dominique respira fundo, relaxando seus músculos tensos. Cacete, dê um jeito no seu ego e preste atenção.

—        Tem razão, doutor. Peço desculpas. Foletta fecha a pasta.

—        A verdade é que estou pensando em indicar você para um trabalho especial, mas preciso ter certeza de que estará à altura.

Dominique volta a se animar. —- Pode me colocar à prova.

Foletta retira um grosso envelope marrom da primeira gaveta da escrivaninha.

—        Como sabe, esta instituição acredita numa abordagem multidis­ciplinar. Para cada interno são destacados um psiquiatra, um psicólogo clínico, um assistente social, um enfermeiro psiquiátrico e um terapeuta ocupacional. Minha reação inicial, ao chegar aqui, foi achar tudo isso um pouco excessivo, mas não posso contestar os resultados, especialmente para pacientes viciados em drogas e na preparação de indivíduos para julgamen­tos futuros.

—        Mas não nesse caso?

Não. O interno que quero pôr sob seus cuidados é paciente meu, veio do sanatório onde eu era diretor de serviços psicológicos.

Não entendo. Ele veio para cá com você?

Nossa instituição perdeu o financiamento há cerca de seis meses. Ele certamente não está pronto para voltar à sociedade e precisava ser transferido para algum lugar. Como sou a pessoa mais familiarizada com o histórico dele, achei que seria menos traumático para todos os envolvidos se ele continuasse sob os meus cuidados.

Quem é ele?

Já ouviu falar do professor Julius Gabriel?

Gabriel? — O nome parecia familiar. — Espere aí, não é o arqueólogo que caiu morto no meio de uma palestra em Harvard há alguns anos?

Há mais de dez anos. — Foletta sorri. — Depois de três décadas recebendo financiamento para suas pesquisas, o Julius Gabriel voltou para os Estados Unidos e se apresentou perante uma platéia repleta de colegas, alegan­do que os egípcios antigos e os maias construíram as pirâmides com a ajuda de extraterrestres para salvar a humanidade da destruição. Consegue imaginar? Ele foi expulso do púlpito a gargalhadas. Deve ter morrido de humilhação. — As bochechas de Foletta tremem com sua risada. — O Julius Gabriel era um caso clássico de paranóia esquizofrênica.

E quem é o paciente?

O filho dele. — Foletta abre o envelope. — Michael Gabriel, 34 anos. Prefere ser chamado de Mick. Passou os primeiros 20 e tantos anos de sua vida trabalhando ao lado dos pais em escavações arqueológicas, o que deve bastar para deixar qualquer criança psicótica.

Por que ele foi preso?

O Mick perdeu a cabeça durante a palestra do pai. O tribunal o diag­nosticou paranóico-esquizofrênico e o enviou para o Hospital Psiquiátrico Estadual de Massachusetts. Lá fui psiquiatra dele e continuei sendo mesmo depois de ser promovido a diretor em 2006.

Ele tem as mesmas ilusões que o pai?

-— Claro. Pai e filho estavam convencidos de que uma calamidade terrí­vel varrerá a humanidade do planeta. O Mick também sofre das costumeiras manias paranoicas de perseguição, a maioria causada pela morte do pai e por seu próprio confinamento. Alega que uma conspiração do governo o manteve trancado todos esses anos. Na mente do Mick Gabriel, ele é a maior das víti­mas, um inocente tentando salvar o mundo, atingido pelas ambições imorais de um político egocêntrico.

—        Desculpe, me perdi nessa última parte.

Foletta folheia as fichas, retirando várias Polaroids de um envelope. Este é o homem que ele atacou. Dê uma boa olhada na foto. Trate de não baixar a guarda.

E um close-up do rosto de um homem, brutalmente espancado. A órbita do olho direito está coberta de sangue.

—        O Mick arrancou o microfone do pedestal e bateu na vítima até ela desmaiar. O pobre homem acabou perdendo um olho. Acho que vai reconhe­cer o nome. Pierre Borgia.

—        Borgia? Está brincando? O secretário de Estado?

—        Isso foi há quase 11 anos, antes que o Borgia fosse nomeado delegado da ONU. Ele era candidato a senador, na época. Há quem diga que a agressão o ajudou a se eleger. Antes que a máquina política dos Borgia o empurrasse para a vida pública, parece que o Pierre era um acadêmico e tanto. Ele e o Julius Gabriel estavam no mesmo programa de doutorado em Cambridge. Acredite se quiser, mas os dois chegaram a trabalhar juntos depois de formados. Explo­raram ruínas antigas por uns cinco ou seis anos antes de terem um desenten­dimento sério. A família de Borgia finalmente o convenceu a voltar para os Estados Unidos e entrar na política, mas o ressentimento nunca foi embora.

Foletta faz uma pausa e logo prossegue.

—        O fato é que foi o Borgia que apresentou o Julius como o principal palestrante. O Pierre provavelmente disse algumas coisas que não deveria ter dito, que ajudaram a provocar o público. O Julius Gabriel tinha coração fraco. Depois que ele morreu nos bastidores, Mick foi à forra. Foram precisos seis policiais para controlá-lo. Está tudo no arquivo.

—        Isso me parece mais uma explosão emocional isolada, provocada por...

—        Esse tipo de fúria leva anos para se acumular, residente. O Michael Gabriel era um vulcão à espera da erupção. Aqui temos um filho único, cria­do por dois arqueólogos de renome nas áreas mais desoladas do mundo. Ele nunca foi à escola, nem teve a oportunidade de conviver com outras crianças, e tudo isso contribuiu para um caso extremo de distúrbio de personalidade antissocial. Caramba, acho que o menino nunca nem namorou. Tudo o que ele aprendeu foi ensinado por seus únicos companheiros, seus pais, e pelo menos um dos dois era comprovadamente psicótico.

Foletta lhe entrega o arquivo.

—        O que aconteceu com a mãe dele?

—        Morreu de câncer no pâncreas enquanto a família morava no Peru. Por algum motivo, sua morte ainda o assombra. Uma ou duas vezes por mês ele acorda gritando. Tem terrores noturnos pavorosos.

Quantos anos Mick tinha quando ela morreu?

Doze.

Sabe por que a morte dela ainda causa tamanho trauma a ele?

—        Não. Mick se recusa a falar sobre isso. Foletta se ajeita, incapaz de ficar confortável na pequena cadeira. A verdade, residente Vazquez, é que Michael Gabriel não gosta muito de mim.

—        Transferência de neurose?

—        Não. Mick e eu nunca tivemos esse tipo de relacionamento médico-paciente. Eu me tornei seu carcereiro, personagem de sua paranoia. Parte disso, sem dúvida, se originou em seus primeiros anos como interno. Ele teve difi­culdades para se adaptar ao confinamento. Uma semana antes de sua avaliação semestral, ele perdeu a cabeça com um de nossos vigias. Quebrou os dois bra­ços dele e deu vários pontapés na virilha. Causou tantos danos que seus dois testículos tiveram que ser removidos. Tem uma foto no arquivo, se quiser...

—        Não, obrigada.

—        Como punição pela agressão, Mick passou a maior parte dos últimos dez anos em confinamento solitário.

—        Isso é um pouco severo, não é?

—        A meu ver, não. Ele é muito mais esperto do que os homens que con­tratamos para vigiá-lo. É melhor para todos se ele for mantido em isolamento.

—        Ele vai ter permissão para participar de atividades coletivas?

—        A instituição tem regras rígidas para a reintegração de internos, mas por enquanto a resposta é não.

Dominique olha novamente as Polaroids.

—        O quanto devo me preocupar com um provável ataque desse paciente?

—        No nosso ramo, residente, precisamos nos preocupar sempre. Mick Gabriel pode atacar? Sempre. Será que ele vai atacar? Duvido. Os últimos dez anos não foram fáceis para ele.

—        Ele vai ser reintegrado à sociedade um dia?

Foletta balança a cabeça.

Nunca. Na estrada da vida, esta é a última parada de Mick Gabriel. Ele nunca vai ser capaz de enfrentar os rigores da sociedade. Tem medo.

Medo de quê?

De sua própria esquizofrenia. Mick diz que pode sentir a presença do mal ficando mais forte, se alimentando do ódio e da violência na sociedade. Sua fobia chega ao ponto de explosão toda vez que um adolescente revoltado pega a arma do pai e entra atirando numa escola. Esse tipo de coisa realmente o afeta.

Isso também me afeta.

Não da mesma forma. Mick vira um tigre.

Ele está sob medicação?

—        Administramos Zyprexa duas vezes ao dia. Tira a maior parte de seu ímpeto de luta.

—        E o que você quer que eu faça com ele?

—        A lei estadual exige que ele receba terapia. Use a oportunidade para adquirir uma experiência valiosa.

Ele está escondendo alguma coisa.

—        Agradeço a oportunidade, doutor. Mas por que eu?

Foletta se afasta da escrivaninha e fica de pé, a mobília rangendo com seu peso.

—        Como sou diretor desta instituição, muitas pessoas interpretariam como um conflito de interesses se só eu tratasse dele.

—        Mas por que não destacar uma equipe completa para...

—        Não. — A paciência de Foletta já se esgotava. — Michael Gabriel ainda é meu paciente, e eu vou determinar que tipo de terapia é melhor pra ele, não um conselho diretor. O que você logo vai descobrir por si mesma é que Mick é uma espécie de artista. É bastante esperto, muito eloquente e inteligen­te. O QI dele é de quase 160.

—        Isso é bastante incomum para um esquizofrênico, não é?

—        Incomum, mas não inédito. O que quero dizer é que ele só manipu­laria um assistente social ou um terapeuta ocupacional. É preciso alguém com o seu preparo pra não cair na dele.

—        E quando vou conhecê-lo?

—        Agora mesmo. Ele está sendo trazido para uma sala isolada para que eu possa observar o primeiro encontro de vocês. Contei a ele tudo sobre você hoje de manhã. Ele está ansioso para conhecê-la. Mas tome cuidado.

Os quatro últimos andares da instituição, chamados de unidades pelos fun­cionários do Centro, abrigam 48 internos cada. As unidades são divididas em alas norte e sul, cada ala contendo três núcleos. Um núcleo consiste em uma pequena sala de convivência com sofás e um aparelho de TV no centro de oito dormitórios particulares. Cada andar tem segurança e enfermarias próprias. Não há janelas.

Foletta e Dominique tomam o elevador dos funcionários até o sétimo andar. Um vigia afro-americano está conversando com uma das enfermeiras no posto central. A sala isolada fica à sua esquerda.

O diretor cumprimenta o guarda e apresenta a nova residente. Marvis Jones tem quase 50 anos e olhos castanhos gentis que transmitem a confiança adquirida com a experiência. Dominique nota que o vigia está desarmado. Foletta explica que armas nunca são permitidas nos andares dos internos.

Marvis os leva por meio do posto central para um espelho de segurança de um lado só, através do qual se vê a sala isolada.

Michael Gabriel está sentado no chão, com as costas apoiadas na parede oposta à janela. Usa camiseta e calça brancas, e seu físico está surpreendente­mente em forma, com o tórax bem definido. Ele é alto, com quase 1,96 metro, e pesa 100 quilos. O cabelo é castanho-escuro, um tanto longo e cacheado nas pontas. O rosto é bonito e bem barbeado. Uma cicatriz de 7 centímetros se estende do lado direito da mandíbula, perto da orelha. Seus olhos estão prega­dos no chão.

—        Ele é bonito.

—        O Ted Bundy[1] também era — diz Foletta. — Vou observar você da­qui. Tenho certeza de que Mick vai usar todo o seu charme para te impressio­nar. Quando achar que você aguentou o suficiente, mando a enfermeira entrar e dar a medicação dele.

Certo. — Sua voz treme.

Fica calma, caramba.

Foletta sorri.

Está nervosa?

Não, só um pouco na expectativa.

Ela sai do posto de segurança, acenando para que Marvis destranque a sala isolada. A porta se abre, fazendo as borboletas no seu estômago alçarem voo. Parando o suficiente para que seu ritmo cardíaco volte ao normal, ela entra, sentindo um calafrio ao ouvir o duplo clique da porta se fechando atrás dela.

A sala isolada mede 3 por 4 metros. Tem uma cama de ferro presa ao chão e à parede à sua frente, suportando um colchão bem fino. Uma cadeira solitária, também parafusada ao chão, está diante da cama. O vidro fume na parede, à sua direita, é a janela de observação. O quarto cheira a antisséptico.

Mick Gabriel se levanta. Sua cabeça está levemente inclinada, e ela não consegue ver seus olhos.

Dominique estende a mão, forçando um sorriso.

—        Dominique Vazquez.

Mick ergue o olhar, revelando olhos animalescos, tão intensamente ne­gros que é impossível determinar onde a pupila termina e a íris começa.

—        Dominique Vazquez. Dominique Vazquez. O interno pronuncia cada sílaba com cuidado, como que as gravando na memória. E um praze...

Seu sorriso desaparece de repente, a expressão sóbria e analítica fica neutra.

O coração de Dominique lateja em seus ouvidos. Fique calma. Não se mexa.

Mick fecha os olhos. Algo inesperado está acontecendo com ele. Do­minique vê sua mandíbula se levantar um pouco, revelando a cicatriz. Suas narinas se abrem como as de um animal farejando sua presa.

—        Posso me aproximar, por favor? As palavras são ditas mansamente, quase sussurradas. Ela sente uma barragem emocional se rompendo por trás da voz.

Dominique luta contra o ímpeto de correr para o vidro fumê. Os olhos voltam a se abrir.

—        Juro pela alma da minha mãe que não vou te machucar.

Vigie as mãos dele. Se ele avançar, mete o joelho.

—        Pode se aproximar, mas sem movimentos bruscos, está bem? O dr. Foletta está olhando.

Mick dá dois passos para a frente, ficando a meio braço de distância. Ele aproxima o rosto, fechando os olhos e inspirando como se o rosto dela fosse uma garrafa de excelente vinho.

A presença do homem está fazendo os pelos dos braços da residente fi­carem de pé. Ela observa que os músculos faciais dele se relaxam, sua mente abandona a sala. Seus olhos fechados se enchem d'água. Várias lágrimas esca­pam, escorrendo livremente pelo seu rosto.

Por um breve momento, o instinto materno a faz baixar a guarda. Será que ele está fingindo? Seus músculos se retesam.

Mick abre os olhos, agora dois lagos negros. A intensidade animalesca desapareceu.

Obrigado. Acho que a minha mãe usava o mesmo perfume. Ela dá um passo para trás.

É Calvin Klein. Traz lembranças felizes?

E algumas ruins também.

O encanto se quebra. Mick se dirige para o catre.

Você prefere a cadeira ou a cama?

Pode ser a cadeira mesmo. — Ele espera que ela se sente, e então se posiciona na beirada da cama para se encostar na parede. Mick se move como um atleta.

Você conseguiu se manter em forma.

Pra quem tem a mente disciplinada, esse pode ser um resultado da vida na solitária. Faço mil flexões e abdominais por dia. — Ela sente os olhos dele absorvendo sua silhueta. — Você também parece malhar bastante.

Eu tento.

Vazquez. É com s ou com z?

Z.

Porto Rico?

Sim. Meu... meu pai biológico cresceu em Arecibo.

É a sede do maior radiotelescópio do mundo. Mas seu sotaque parece da Guatemala.

Fui criada lá. — Ele está controlando a conversa. — Presumo que tenha visitado a América Central?

Visitei muitos lugares. — Mick cruza as pernas, assumindo a posição de lótus. — Então você foi criada na Guatemala. Como veio parar nesta gran­de terra de oportunidades?

Meus pais morreram quando eu era criança. Fui enviada para morar com um primo na Flórida. Mas vamos falar de você agora.

Você disse "pai biológico". Achou importante identificá-lo assim. Quem é o homem que você considera seu verdadeiro pai?

Isadore Axler. Ele e a esposa me adotaram. Passei algum tempo num orfanato depois de sair da casa dos meus primos. Iz e Edith Axler são pessoas maravilhosas. Os dois são biólogos marinhos. Operam uma estação SOSUS na ilha de Sanibel.

SOSUS?

É um sistema submarino de vigilância sonora, uma rede mundial de microfones submarinos. A Marinha usava o SOSUS durante a guerra fria para detectar submarinos inimigos. Agora os biólogos dominam o campo; usam o sistema para bisbilhotar a fauna marinha. Ele é tão sensível que permite ouvir grupos de baleias a centenas de quilômetros de...

Os olhos penetrantes a interrompem.

—        Por que você saiu da casa do seu primo? Algo traumatizante deve ter acontecido, se você foi parar num orfanato.

Ele é pior que o Foletta.

Mick, estou aqui pra falar de você.

Sim, mas talvez minha infância também tenha sido traumatizante. Talvez sua história possa me ajudar.

Duvido. Tudo acabou bem. Os Axler me devolveram minha infância, e eu...

Mas não sua inocência.

Dominique sente o sangue fugir de seu rosto.

Muito bem. Agora que já sabemos que você aprende rápido, vejamos se consegue concentrar esse incrível QI em si próprio.

Pra você então me ajudar?

Pra que possamos nos ajudar mutuamente. — Você ainda não leu meu arquivo, leu?

Não, ainda não.

Sabe por que o Foletta me indicou pra você?

Por que não me conta?

Mick olha para as próprias mãos, pensando numa resposta.

Tem um estudo escrito por Rosenhan. Você já leu?

Não.

—        Se importa de ler antes da nossa próxima sessão? O dr. Foletta com certeza tem uma cópia em alguma daquelas caixas de papelão que ele chama de arquivos.

Ela sorri.

Se é importante pra você, vou procurar.

Obrigado. — Ele se curva para a frente. — Gosto de você, Domini­que. Sabe por que eu gosto de você?

Não. — As lâmpadas fluorescentes dançam como o luar nos olhos dele.

Gosto de você porque sua mente ainda não está institucionalizada. Você ainda é novata, e isso é importante pra mim. Quero me abrir de verdade com você, mas não posso, pelo menos não nesta sala com o Foletta olhando. Também acho que você vai se identificar com alguns dos percalços que en­frentei. Por isso, gostaria de falar com você sobre muitas coisas, coisas muito importantes. Acha que poderemos conversar em particular, da próxima vez? Talvez no jardim?

Vou pedir ao dr. Foletta.

Quando perguntar, lembre o doutor das regras da instituição. Pode também pedir o diário do meu pai? Se você vai ser minha terapeuta, acho que é de vital importância que o leia. Você se importaria?

Será uma honra ler o diário.

Obrigado. Poderia lê-lo logo, talvez no fim de semana? Odeio passar dever de casa, afinal, hoje é seu primeiro dia, mas é vital que você o leia o quanto antes.

A porta se abre, a enfermeira entra. O vigia está lá fora, olhando para a porta.

Hora do seu remédio, sr. Gabriel. — Ela lhe entrega o copo descartá­vel com água, depois o comprimido branco.

Mick, preciso ir. Foi um prazer conhecê-lo. Farei o melhor que puder pra terminar meu dever de casa até segunda, está bem? — Ela fica de pé e se vira para ir embora.

Mick olha para o comprimido.

Dominique, os seus parentes maternos são maias quiches, não são?

Maias? Eu... eu não sei. — Ele sabe que você está mentindo. — Bem, é possível. Meus pais morreram quando eu era muito...

Os olhos se erguem de repente, com um efeito desarmante.

Quatro Ahau, três Kankin. Sabe que dia é esse, não sabe, Dominique?

Merda...

Vejo... vejo você mais tarde. — Dominique sai da sala, esbarrando no vigia.

Michael Gabriel coloca cuidadosamente o comprimido na boca. Esva­zia o copo de água, depois o amassa com a mão esquerda. Ele abre a boca, permitindo que a enfermeira a inspecione com seu depressor de língua e sua mini-lanterna, verificando se o comprimido foi engolido.

—        Obrigada, sr. Gabriel. O vigia vai acompanhá-lo de volta ao seu quar­to daqui a alguns minutos.

Mick permanece no catre até a enfermeira fechar a porta. Ele fica de pé, voltando para a parede oposta, de costas para a janela. Casualmente, com o indicador da mão direita, tira o comprimido do copo de papel e o esconde na palma da mão. Voltando a se sentar no chão na posição de lótus, joga o copo amassado sobre a cama e enfia o comprimido branco no sapato.

O Zyprexa será jogado no vaso sanitário quando ele voltar para a cela.

 

           8 de setembro de 2012, CASA BRANCA

O secretário de Estado Pierre Robert Borgia olha para a sua imagem no espelho do lavabo. Ele ajusta o tapa-olho sobre a órbita direita, depois ajeita os curtos tufos de cabelo grisalho dos dois lados da cabeça calva. O terno preto e a gravata combinando estão imaculados, como de costume.

Borgia sai do lavabo executivo e vira para a direita, acenando para os membros do gabinete enquanto anda pelo corredor até o Salão Oval.

Patsy Goodman ergue o olhar do teclado. — Pode entrar. Ele está esperando. Borgia balança a cabeça e entra. O rosto magro e pálido de Mark Maller mostra o desgaste de quase quatro anos no cargo de presidente. O cabelo negro encaneceu ao redor das têmporas; os olhos, de um azul penetrante, estão rodeados por mais rugas. Seu físico de 52 anos, notavelmente mais magro, ainda continua firme.


Borgia diz que o presidente parece ter perdido peso.

Maller sorri.

É a chamada dieta do estresse de Viktor Grozny. leu o relatório matinal da CIA?

Ainda não. O que o novo presidente da Rússia aptontou desta vez?

Convocou uma reunião com os líderes militares da China, Coréia do Norte, Irã e Índia.

Com que propósito?

Conduzir um exercício nuclear retaliatório conjunto, em resposta aos nossos últimos testes envolvendo o Escudo Antimíssil.

Lá vai o Grozny tentando aparecer. Ele continua furioso porque o FMI cancelou aquele pacote de 20 bilhões de dólares em empréstimos.

Seja qual for o motivo, ele está conseguindo inflamar a paranoia nu­clear na Ásia.

Marko, a reunião do Conselho de Segurança é hoje à tarde, sei que você não me chamou aqui para discutir política externa.

Maller balança a cabeça e esvazia sua terceira xícara de café.

—        O Jeb decidiu renunciar ao cargo de vice-presidente. Não pergunte. Pode chamar de motivos pessoais.

Borgia congela.

Meu Deus, a eleição é daqui a menos de dois meses...

Já fiz uma reunião extraoficial com os líderes do partido. E você ou o Ennis Chaney.

Jesus...

—        Já falou com ele?

—        Não. Quis avisar você primeiro, achei que te devia isso.

Borgia dá de ombros, sorrindo nervosamente.

O senador Chaney é um bom homem, mas não chega nem perto de mim quando o assunto é política externa. E minha família ainda tem muita influência...

Não tanto quanto você pensa, e as pesquisas mostram que a maioria dos americanos não está interessada na militarização da China. O povo vê o Escudo Antimíssil como a solução final contra a guerra nuclear.

Tenho que ser curto e grosso, senhor. O Comitê Nacional Republica­no acha mesmo que o país está pronto para um vice-presidente republicano[2] afro-americano?

A eleição vai ser apertada. Veja como o Lieberman ajudou o Gore. O Chaney nos daria a vantagem que precisamos tanto na Pensilvânia quanto no Sul. Relaxe, Pierre. Nenhuma decisão será tomada antes de pelo menos trinta a 45 dias.

Me parece inteligente. A imprensa vai ter menos tempo para nos massacrar.

Precisamos nos preocupar com alguma mancha no seu passado?

Tenho certeza de que a sua equipe já está verificando isso. Mark, diga a verdade, o Chaney leva vantagem no páreo?

As pesquisas de opinião mostram que a popularidade dele cruza fron­teiras partidárias e raciais. Ele tem os pés no chão. O público confia até mais nele do que no Colin Powell.

Não confunda confiança com qualificações. — Borgia fica de pé e anda de um lado para outro. — As pesquisas também mostram que os ameri­canos estão preocupados com o colapso da economia russa, e como ele afetaria o mercado europeu.

—        Pierre, calma. Muita coisa pode acontecer em 45 dias.

Borgia expira.

—        Desculpe, presidente. Já é uma grande honra ser levado em conta. Escute, preciso ir. Tenho que me reunir com o general Fecondo antes do pro­nunciamento de hoje à tarde.

Borgia aperta a mão do amigo e se dirige à porta camuflada na parede revestida. Ele se vira antes de sair.

—        Marko, você tem algum conselho? O presidente suspira.

—        Não sei. Mas Heidi falou uma coisa no café. Já pensou em trocar esse tapa-olho por um olho de vidro?

 

Dominique sai do saguão do Centro, o calor do verão do sul da Flórida atinge seu rosto em cheio. Um raio distante corta o ameaçador céu vespertino. Passando o diário encadernado em couro da mão direita para a esquerda, ela pressiona o po­legar sobre a fechadura, destrancando a porta do motorista de seu Pronto Spyder preto. O conversível, novinho em folha, foi um presente adiantado de formatura de Edie e Iz. Ela põe o diário no banco do passageiro, afivela o cinto de segurança e aperta o polegar sobre a ignição, sentindo a incômoda picada microscópica. O computador do painel ganha vida, piscando a mensagem:

 

Ativando seqüência de Ignição.

Identidade Verificada. Sistema Antifurto Desativada.

 

Ela sente o familiar solavanco das travas da coluna de direção se soltando.

 

Verificando Nível de Álcool no Sangue. Por Favor. Aguarde...

 

Dominique encosta a cabeça no banco de couro, olhando as primeiras gotas pesadas de chuva que atingem a capota de tereftalato de polietileno de seu carro esporte. Paciência é uma necessidade com os novos recursos de igni­ção segura, mas ela sabe que vale a pena esperar os três minutos a mais. A em­briaguez ao volante se tornou a principal causa de mortes nos Estados Unidos. Até o outono do próximo ano, todos os veículos deverão obrigatoriamente ter instalados os dispositivos de medição de álcool no sangue.

A ignição é ativada.

 

Nível Aceitável de Álcool no Sangue. Por Favor, Dirija com Cuidado.

 

Dominique ajusta o ar-condicionado e em seguida aperta o botão do CD player Digital DJ. O processador interno reage ao tom de voz ou ao toque, in­terpretando o humor do motorista e selecionando uma música adequada entre centenas de combinações pré-programadas.

O baixo pesado do último disco dos Rolling Stones, Past Our Prime, tro­veja dos alto-falantes do som surround. Ela sai do estacionamento de visitantes e começa a viagem de quarenta minutos até sua casa.

Não foi fácil convencer o dr. Foletta a ceder o diário de Julius Gabriel. Sua ob­jeção inicial foi que o trabalho do falecido arqueólogo havia sido patrocinado pelas Universidades de Harvard e Cambridge, e que, legalmente, seria preciso obter permissão por escrito dos dois departamentos de pesquisa antes de libe­rar quaisquer documentos. Dominique argumentou que precisava ter acesso ao diário, não só para fazer seu trabalho direito como para conquistar a confiança de Michael Gabriel. Uma tarde inteira ligando para chefes de departamento em Harvard e Cambridge confirmou que o diário era mais um volume de me­mórias do que um documento científico, e que ela poderia usá-lo à vontade, contanto que não levasse a público nenhuma informação. Foletta finalmente capitulou, trazendo o caderno de 5 centímetros de espessura no fim do dia. O acesso ao diário veio apenas depois de Dominique assinar um acordo de confidencialidade de quatro páginas.

 

Já sem a presença da chuva, Dominique entra na garagem escura da torre de apartamentos em Hollywood Beach. Ela desliga o motor do carro, olhando para uma imagem fantasmagórica que aparece no visor instalado no pára-brisa. A imagem fornecida pela câmera do radiador do carro confirma que a garagem está vazia.

Dominique sorri da própria paranóia. Toma o antiquado elevador até o quinto andar, segurando a porta para que a sra. Jenkins e seu poodle branco possam entrar.

O apartamento de um dormitório, propriedade de seus pais adotivos, fica no fim do corredor. É o último à direita. Enquanto ela digita o código de segurança, a porta às suas costas se abre.

—        Dominique, como foi seu primeiro dia de trabalho?

O rabino Richard Steinbetg a abraça, um sorriso terno se abre por trás da barba grisalha. Steinberg e sua esposa, Mindy, são grandes amigos de seus pais. Dominique conhece o casal desde que foi adotada, há quase vinte anos.

Mentalmente exaustivo. Acho que vou pular o jantar e entrar numa banheira quentinha.

Escute, Mindy e eu queremos te chamar pra jantar lá em casa semana que vem. Pode ser na terça?

—        Acho que sim. Obrigada.

—        Que bom, que bom. Ah, falei com o Iz ontem. Sabia que ele e sua mãe estão querendo vir pra cá nas Grandes Festas?

—        Não, eu não...

—        Olha, preciso ir, não posso me atrasar para o Shabbat. Até semana que vem.

Ela acena, vendo-o andar apressado pelo corredor. Dominique gosta de Steinberg e da esposa, acha os dois afetuosos e autênticos. Ela sabe que Iz lhes pediu para dar uma atenção paternal a ela.

Dominique entra no apattamento e abre as portas da sacada, deixando a brisa do oceano encher a sala abafada com uma lufada de ar marinho. O agua­ceiro da tarde espantou a maioria dos frequentadores da praia, e os últimos raios de sol escapam de trás das nuvens, lançando um brilho rubro sobre a água.

E sua hora favorita do dia, a hora da confortante solidão. Ela pensa em andar sossegadamente pela praia, depois muda de ideia. Enchendo um copo com vinho de uma garrafa aberta na geladeira, ela tira os sapatos e volta para a sacada. Deixando o copo sobre a mesa de plástico, junto com o grosso diário, ela se deita na espreguiçadeira, esticando-se e sentindo seu corpo afundar nas almofadas macias.

O mantra sincopado das ondas logo faz sua mágica. Ela toma um gole de vinho e fecha os olhos, seus pensamentos voltam mais uma vez ao encontro com Michael Gabriel.

Quatro Ahau, três Kankin. Dominique não ouve essas palavras desde a infância.

Os pensamentos se transformam num sonho. Ela está de volta às colinas da Guatemala, com 6 anos de idade, sua avó materna ao seu lado. As duas estão de joelhos, labutando sob o sol da tarde nas plantações de cebola. Uma brisa fresca, o xocomil, sopra do lago Atitlán. A criança ouve com atenção a voz áspera da velha. "O calendário nos foi passado por nossos ancestrais olmecas, e sua sabedoria vem do nosso mestre, o grande Kukulcán. Muito antes de os espanhóis invadirem nossa terra, o grande mestre nos avisou sobre os dias desastrosos que estavam por vir. Quatro Ahau, três Kankin, o último dia do calendário maia. Cuidado com esse dia, minha filha. Quando a hora chegar, você deve voltar para casa, pois o Popol Vuh diz que somente aqui poderemos voltar à vida."

Dominique abre os olhos, fitando o oceano negro. Cristas de espuma cor de alabastro rolam sob o luar parcialmente oculto.

Quatro Ahau, três Kankin — 21 de dezembro de 2012.

O dia do profetizado fim da humanidade.

 

             Diário de Julius Gabriel, 24 DE AGOSTO DE 2000

Meu nome é professor Julius Gabriel.

Sou um arqueólogo, um cientista que estuda relí­quias do passado para entender culturas antigas. Uso evi­dências deixadas pelos nossos ancestrais para tecer hipóteses e formular teorias. Peneiro milhares de anos de mitos para encontrar isolados veios de verdade.

Através das eras, cientistas como eu aprenderam do jeito mais difícil que o medo do homem muitas vezes supri­me a verdade. Rotulada como heresia, seu ímpeto é sufocado até que a Igreja e o Estado, o juiz e o júri sejam capazes de deixar seus medos de lado e aceitar o que é real.

Sou um cientista. Não sou um político. Não estou in­teressado em apresentar anos de teorias apoiadas em fatos para uma assembleia de autodenominados acadêmicos, para que eles votem no que pode ou não pode ser uma verdade aceitável sobre o destino da humanidade. A natureza da verdade não tem nada a ver com o processo democrático. Como um repórter investigativo, só me interessa o que real­

 

mente aconteceu e o que pode de fato acontecer. E se a verdade resultar tão inacre­ditável que me rotulem como herege, que seja.

Afinal, estou em boa companhia: Darwin era um herege; e Galileu antes dele; há quatrocentos anos, Giordano Bruno foi condenado à fogueira por insistir que existiam outros mundos além do nosso.

Como Bruno, estarei morto bem antes que o amargo fim da humanidade chegue. Aqui jaz Julius Gabriel, vítima de um coração doente. Meu médico impõe seus cuidados, avisando que meu coração não passa de uma bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento. Que exploda, eu digo. Esse órgão inútil só me fez sofrer desde que se rompeu, há 11 anos, quando minha amada se foi.

Estas são minhas memórias, o relato de uma jornada que começou há uns 32 anos. Meus objetivos em coletar essas informações são dois. Primeiro, a natureza da pes­quisa é tão polêmica, e seus desdobramentos, tão aterrorizantes, que agora percebo que a comunidade científica fará tudo o que estiver ao seu alcance para sufocar, abafar e negar a verdade sobre o destino do homem. Por último, sei que há indiví­duos em meio ao povo que, como meu próprio filho, preferem lutar a ficar passivos enquanto o fim se aproxima. Para vocês, meus "guerreiros da salvação", eu deixo este diário, passando com ele o bastão da esperança. Décadas de labuta e sofrimento se escondem nestas páginas, neste pedacinho da história do homem, extraída de anos de calcário. O destino da nossa espécie está agora nas mãos do meu filho — e talvez nas suas. Na pior das hipóteses, vocês não farão mais parte da maioria que Michael chama de "inocentes ignorantes". Rezem para que homens como meu filho possam resolver o antigo enigma dos maias. E rezem por vocês mesmos.

Dizem que o medo da morte é pior do que a própria morte. Eu acredito que testemunhar a morte de um ente querido seja pior ainda. Ter visto a vida da minha alma gêmea escapar diante de meus olhos, ter sentido o seu corpo esfriar em meus braços — isso é desespero demais para um coração aguentar. As vezes, chego a ficar grato por estar morrendo, pois nem consigo imaginar a angústia de testemunhar toda uma população sofrendo em meio ao holocausto planetário que está por vir.

Para aqueles dentre vocês que riem de minhas palavras, um aviso: o dia do acerto de contas se aproxima rapidamente, e ignorar o fato não mudará em nada o resultado.

Hoje, aguardo nos bastidores, em Harvard, organizando estes textos enquanto es­pero minha vez na tribuna. Tanta coisa depende do meu discurso, tantas vidas. Minha maior preocupação é que os egos dos meus colegas sejam grandes demais para permitir que as minhas descobertas sejam ouvidas com mente aberta. Se eu tiver a chance de apresentar os fatos, sei que poderei instigá-los como cientistas. Se eu for ridicularizado, meu medo é que tudo estará perdido.

Medo. Não tenho dúvidas quanto ao efeito motivador que essa emoção tem sobre mim agora. Porém, não foi o medo que me pôs nesta jornada naquele fatídico dia de maio de 1969, e sim o desejo de conseguir fama e fortuna. Na época, eu era jovem e imortal, ainda cheio de empáfia e cinismo, tendo recebido recentemente meu título de doutor cum laude da Universidade de Cambridge. Enquanto o resto dos meus colegas estava ocupado protestando contra a guerra do Vietnã, fazendo amor e lutando por igualdade, eu parti com a herança do meu pai, acompanhado de dois colegas arqueólogos e companheiros: meu (ex) melhor amigo, Pierre Borgia, e a es­tonteante Maria Rosen. Nosso objetivo — desvendar o grande mistério que cercava o calendário maia e sua profecia de 2.500 anos que anunciava o fim do mundo.

Nunca ouviu falar da profecia do calendário maia? Não estou surpreso. Hoje em dia, quem tem tempo para se preocupar com um oráculo de morte originado numa antiga civilização mesoamericana?

Daqui a 11 anos, quando vocês e seus entes queridos estiverem se retorcendo no chão, lutando para puxar o último hausto de ar, com sua vida passando diante de seus olhos — pode ser que se arrependam de não ter tido tempo.

Vou até dizer o dia em que vocês vão morrer: 21 de dezembro do ano de 2012.

Pronto, vocês foram oficialmente avisados. Agora podem agir ou enfiar a cabeça na areia da ignorância, como o resto de meus cultos colegas.

Naturalmente, é fácil para seres humanos racionais desprezar a profecia maia do Juízo Final como uma mera bobagem supersticiosa. Ainda me lembro da reação do meu professor ao descobrir a área em que eu pretendia me especializar: Está perdendo o seu tempo, Julius. Os maias eram bárbaros, um bando de selvagens que moravam no mato e acreditavam em sacrifícios humanos. Pelo amor de Deus, eles não conheciam nem a roda...

Meu professor estava ao mesmo tempo certo e errado, e esse é o paradoxo. Embora seja verdade que os antigos maias mal entendiam a importância da roda, eles conseguiram, de fato, adquirir conhecimentos avançados de Astronomia, Arquitetura e Matemática que, de muitas maneiras, rivalizavam e até superavam os nossos. Em termos laicos, os maias eram equivalentes a uma criança de 4 anos que consegue tocar a Sonata ao Luar de Beethoven no piano, enquanto continua incapaz de martelar "O Bife".

Vocês acham difícil acreditar nisso, tenho certeza; a maioria dos autodenomi­nados "cultos"acha. Mas as evidências são esmagadoras. E foi isso que me impeliu a começar minha jornada, pois simplesmente ignorar a riqueza de conhecimentos do calendário por causa de sua inimaginável profecia teria sido um crime tão grande quanto menosprezar sumariamente a teoria da relatividade porque Einstein já trabalhou como contínuo.

Então, o que é o calendário maia?

Uma breve explicação:

Se eu pedisse para vocês explicarem a função de um calendário, sua resposta imediata provavelmente seria descrever o dispositivo como um meio de lembrar seus compromissos semanais ou mensais. Indo além desse âmbito limitado, vejamos o calendário como o que ele realmente é— uma ferramenta projetada para deter­minar (tão precisamente quanto possível) a órbita anual da Terra ao redor do Sol.

Nosso calendário ocidental moderno foi introduzido pela primeira vez na Europa, em 1582. Foi baseado no calendário gregoriano, que calculava a órbita da Terra ao redor do Sol com uma duração de 365,25 dias. Ele incorporava um minúsculo erro de 0,0003 dia por ano para mais, algo bastante impressionante para cientistas do século XVI.

Os maias derivaram seu calendário de seus ancestrais, os olmecas, um povo misterioso cujas origens remontam a uns 3 mil anos atrás. Imaginem-se por um momento vivendo há milhares de anos. Não existe televisão, rádio, telefones ou relógios, e sua tarefa é mapear as estrelas para determinar a passagem de tempo que equivale a uma órbita planetária. De alguma forma, os olmecas, sem instrumentos de precisão, calcularam a duração do ano solar em 365,2420 dias, incorporando um erro ainda menor de 0,0002 por dia.

Deixe-me repetir para que vocês entendam as implicações: o calendário maia tem 3 mil anos de idade e é um décimo milésimo de dia mais preciso do que o ca­lendário que o mundo usa atualmente!

Tem mais. O calendário solar maia é só uma parte de um sistema com três calendários. O segundo, o "calendário cerimonial", funciona junto com ele e consis­te em vinte meses de 13 dias. A terceira parte, o "calendário venusiano" ou "Con­tagem Longa", foi baseado na órbita do planeta Vénus. Combinando esses três calendários num só, os maias conseguiram determinar eventos celestiais ao longo de enormes passagens de tempo, não só de milhares, mas de milhões de anos. (Num monumento mesoamericano em particular, uma inscrição se refere a um período de tempo iniciado há 400 milhões de anos.)

Já estão impressionados?

Os maias acreditavam em Grandes Ciclos, períodos de tempo que registra­vam as criações e destruições previstas do mundo. O calendário demarcou os cinco Grandes Ciclos, ou Sóis, da Terra. O ciclo atual, o último, começou em 4 Ahau 8 Cumku, data correspondente a 13 de agosto de 3.114 a.C., considerada pelos maias como a data de nascimento do planeta Vênus. Está previsto que esse último Grande Ciclo terminará com a destruição da humanidade em 4 Ahau 3 Kankin, data determinada como 21 de dezembro do ano de 2012 — o dia do solstício de inverno.

O Dia dos Mortos.

Quão convencidos estavam os maias da veracidade de sua profecia? Depois da partida de seu grande mestre, Kukulcán, os maias começaram a praticar rituais bárbaros envolvendo sacrifícios humanos, arrancando os corações de dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças.

O sacrifício supremo — tudo para impedir o fim da humanidade.

Não peço que vocês recorram a expedientes tão bizarros, mas apenas que abram sua mente. O que não conhecemos pode nos afetar, o que nos recusamos a en­xergar pode nos matar. Existem mistérios que nos cercam cujas origens não podemos compreender, mas precisamos! As pirâmides de Gizé e Teotihuacán, os templos de Angkor no Camboja, Stonehenge, a incrível mensagem inscrita no deserto de Nazca e, acima de tudo, a pirâmide de Kukulcán em Chichén Itzá. Todos esses sítios anti­gos, todas essas maravilhas magníficas e inexplicáveis não foram criados para serem atrações turísticas, mas são peças de um único e intrigante quebra-cabeça que pode evitar a aniquilação de nossa espécie.

Minha jornada pela vida está quase no fim. Deixo essas memórias, um resumo das provas esmagadoras que acumulei durante três décadas, para o meu filho Michael e para todos aqueles que querem continuar o meu trabalho ad finem — até o fim. Enquanto apresento as pistas e a forma como as encontrei, tentarei pintar um quadro histórico com os fatos e seu acontecimento ao longo da linha do tempo da história do homem.

Quero deixar registrado que não sinto satisfação nenhuma por estar certo. Quero deixar registrado que peço a Deus que eu esteja errado.

Eu não estou errado...

 

— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,

     Ref. Catálogo J G 1969-70 páginas 12-28


 

         11 DE SETEMBRO DE 2012, MIAMI, FLÓRIDA

Michael Gabriel está sonhando.

Mais uma vez, ele está sentado no chão, nos bas­tidores de um auditório, a cabeça de seu pai apoiada em seu peito enquanto esperam a ambulância. Julius acena para que o filho aproxime o ouvido, para que ele possa sussurrar um segredo que guarda desde a morte de sua esposa, 11 anos antes.

—        Michael... a pedra central.

—        Não tente falar, papai. A ambulância está chegando.

Escute, Michael! A pedra central, o marco do cam­po. Eu coloquei de volta.

Não estou entendendo. Que pedra?

Em Chichén Itzá.

Os olhos cansados ficam baços, o peso do corpo do pai amolece contra o seu peito.

—        Pai... PAI!

Mick acorda com o corpo banhado de suor.


Dominique acena distraidamente para a recepcionista e segue direto para o posto central da segurança. Um vigia musculoso sorri quando ela se aproxima, o bigode ruivo do homem se ergue e se espalha por seu lábio superior, revelan­do dentes amarelados.

Bom dia, gatinha. Meu nome é Raymond, e aposto que você é a nova residente.

Dominique Vazquez. Ela aperta sua mão calejada, notando gotículas de transpiração em seu antebraço grosso e sardento.

Desculpe, acabei de chegar da academia. Raymond enxuga os bra­ços com uma toalha de mão, exagerando os movimentos para flexionar os mús­culos. Vou competir no torneio regional pra Mister Flórida em novembro. Acha que tenho chances?

Hã, claro. Meu Deus, por favor, tomara que ele não comece a posar...

Você podia ir junto e me ver competir, viu? Torcer por mim? Os pálidos olhos castanhos se abrem sob as sobrancelhas curtas e avermelhadas.

Seja gentil.

Muitos funcionários vão?

Alguns, mas vou te garantir um lugar perto do palco. Vem pros fundos, gatinha, preciso fazer o teu crachá e gravar uma imagem térmica do teu rosto.

Raymond destranca o portão de aço e o segura aberto para ela, flexionan­do o tríceps. Dominique sente os olhos dele correndo pelo seu corpo ao passar.

—        Senta aí, vamos fazer o crachá primeiro. Vou precisar da sua carteira de motorista.

Ela entrega o documento e se senta numa cadeira reta, posicionada diante de uma máquina preta do tamanho de uma geladeira. Raymond enfia um disquete quadrado numa fenda lateral, depois digita as informações no computador.

—        Sorria. O flash explode em seus olhos, deixando uma mancha incômoda. — O crachá fica pronto no fim do dia. Ele devolve a carteira de motorista. Certo, agora pode sentar na frente desta câmera infravermelha. Já mapeou seu rosto?

Já depilou suas costas?

Hã, que eu saiba, não.

A câmera infravermelha cria uma imagem única do seu rosto, regis­trando o calor emitido pelos vasos sanguíneos sob a pele. Até gêmeos idênticos têm padrões faciais diferentes para o infravermelho, e esses padrões nunca mu­dam. O computador registra 1.900 pontos térmicos distintos. O rastreamento da pupila usa 266 características mensuráveis, e as impressões digitais, só quarenta...

Ray, tudo isso é fascinante, de verdade, mas é mesmo necessário? Não vi ninguém usando sensores infravermelhos.

É porque você não esteve aqui à noite. A tarja magnética do seu crachá é tudo que você precisa para entrar ou sair da instituição durante o dia. Mas depois das sete e meia da noite, vai precisar digitar sua senha e se identificar para o sensor infravermelho. A máquina vai comparar sua imagem térmica facial com as imagens que vamos registrar no seu arquivo permanente. Nin­guém entra ou sai deste prédio à noite sem ser identificado, e nada engana a máquina. Sorria.

Dominique olha desanimadamente para a câmera esférica por trás da chapa de vidro, sentindo-se boba.

—        Certo, vire pra esquerda. Ótimo. Agora pra direita. Agora olhe pra baixo. Acabou. Ei, gatinha, você gosta de comida italiana?

Pronto.

De vez em quando.

Tem um restaurante ótimo aqui pertinho. A que horas você sai?

Hoje à noite não é um bom...

Quando é bom?

Ray, preciso ser sincera, eu nunca saio com colegas de trabalho.

Quem falou em sair? Só falei de jantar.

Se é só pra jantar, então tudo bem, eu adoraria ir um dia, mas hoje não dá mesmo. Me dê algumas semanas pra me ajeitar. — E pra inventar outra desculpa. Ela abre um sorriso doce, esperando diminuir a dor da rejeição. — Além do mais, se você está treinando não pode se encher de comida italiana.

Tudo bem, então, mas vou te cobrar. — O ruivão sorri. — Escute, se precisar de alguma coisa, é só chamar.

Não vou precisar. Preciso ir. O dr. Foletta está esperando...

O Foletta só chega à tarde. Está na reunião mensal do conselho. Ei, ouvi dizer que ele te destacou pra aquele paciente dele. Como é o nome dele mesmo?

Michael Gabriel. O que você sabe sobre ele?

Não muito. Foi transferido de Massachusetts junto com o Foletta. Eu sei que o conselho e a equipe médica ficaram muito putos quando ele chegou. O Foletta deve ter mexido uns pauzinhos.

—        Como assim?

Raymond vira a cabeça, evitando o olhar dela.

Ah, deixa pra lá.

Vamos, me conte.

Não, preciso aprender a fechar a matraca. O Foletta é o seu chefe. Não quero dizer nada que possa causar uma má impressão.

Fica só entre nós dois.

Mais dois vigias entram, acenando para Raymond.

—        Tudo bem, eu conto, mas não aqui. Ouvidos atentos e bocas grandes demais. A gente conversa no jantar. Eu saio às seis. — Os dentes manchados aparecem num sorriso triunfante.

Raymond abre o portão para ela. Dominique sai do posto de segurança e espera pelo elevador de funcionários sorrindo amarelo. Parabéns, gatinha. Você devia ter imaginado que ia dar nisso.

 

Marvis Jones a observa sair do elevador em seu monitor de segurança.

Bom dia, residente. Se está aqui para ver o interno Gabriel, ele está confinado no quarto.

Posso vê-lo?

O vigia ergue o olhar dos papéis.

—        Talvez seja melhor esperar que o diretor volte.

—        Não. Quero falar com ele agora. E não na sala isolada.

Marvis parece contrariado.

—        Te aconselho a não fazer isso. Esse sujeito tem um histórico de vio­lência e...

—        Não sei se eu caracterizaria um episódio em 11 anos como um histórico.

Seus olhares se cruzam. Marvis percebe que Dominique não vai ceder.

—        Certo, moça, como quiser. Jason, acompanhe a residente Vazquez ao quarto 714. Dê o seu transponder de segurança para ela e tranque-a lá dentro.

Dominique segue o vigia por um corredor curto, entrando no núcleo central de três situado na ala norte. A área da entrada está vazia.

O vigia para diante do quarto 714 e fala no interfone do corredor.

—        Interno, sente na cama, onde eu possa vê-lo. — Ele destranca a porta e entrega a Dominique o que parece uma caneta grossa. — Se precisar de mim, dê dois cliques nesta caneta. — Ele faz uma demonstração, e o receptor em sua cintura vibra. — Mas tome cuidado. Não o deixe chegar muito perto.

—        Obrigada. — Ela entra no quarto.

A cela mede 3 metros por 4. A luz do dia entra por uma tira de plástico de 8 centímetros de largura que percorre verticalmente uma das paredes. Não há janelas. A cama é de ferro, presa ao chão. Uma escrivaninha e alguns escaninhos estão parafusados ao lado dela. Uma pia e uma privada de aço ficam na parede à direita, fora do rumo do corredor para dar ao ocupante alguma privacidade.

A cama está arrumada, o quarto imaculado. Michael Gabriel está sentado sobre o colchão da espessura de uma revista. Ele se levanta, cumprimentando-a com um sorriso afetuoso.

—        Bom dia, Dominique. Vejo que o dr. Foletta ainda não chegou. Que sorte.

—        Como você sabe?

—        Porque estamos conversando na minha cela, e não na sala de entre­vista. Por favor, sente na cama, eu fico no chão. A menos que prefira sentar na privada?

Ela retribui o sorriso, sentando-se na beirada do colchão. Mick se apoia na parede à esquerda. Seus olhos negros brilham sob a luz fluorescente.

Ele não perde tempo para começar a interrogá-la.

—        Como foi o seu fim de semana? Leu o diário do meu pai?

—        Desculpe. Só consegui ler as primeiras dez páginas. Mas terminei de ler o estudo do Rosenhan.

—        Sobre ser são em lugares insanos. O que achou?

Achei interessante, talvez até um pouco surpreendente. A equipe dele teve bastante dificuldade em distinguir os voluntários dos pacientes. Por que você quis que eu lesse?

Por que você acha? Os olhos de ébano cintilam para ela, refletindo sua inteligência felina.

—        Obviamente quer que eu considere a possibilidade de você não ser louco.

—        Obviamente. Ele se endireita, cruzando os calcanhares na posição de lótus. Vamos fazer um jogo. Volte no tempo 11 anos e imagine que você é o Michael Gabriel, filho do arqueólogo Julius Gabriel, a poucos minutos do ridículo e de uma morte fulminante. Você está nos bastidores, na Universidade de Harvard, diante de uma plateia lotada, ouvindo seu pai compartilhar uma vida de informações com algumas das maiores mentes da comunidade cientí­fica. Seu coração está acelerado pela adrenalina, porque você trabalhou ao lado dele desde que nasceu, e sabe o quanto essa palestra é importante, não só para ele, mas para o futuro da humanidade. Aos dez minutos da palestra, você vê o arqui-inimigo de longa data de Julius cruzar o palco até outra tribuna. Pierre Borgia, o filho pródigo de uma dinastia política, decide desafiar a pesquisa do meu pai ali mesmo, no palco. Na verdade, a palestra toda é uma grande cilada, preparada pessoalmente por Borgia para promover um ataque verbal ao meu pai e destruir sua credibilidade. Pelo menos 12 pessoas na plateia sabiam da brincadeira. Depois de dez minutos, Julius mal conseguia se fazer ouvir em meio às risadas dos colegas.

Mick para, momentaneamente perdido na lembrança.

Meu pai era um homem altruísta e brilhante que dedicou sua vida à busca da verdade. No meio do pronunciamento mais importante de sua carrei­ra, viu sua existência inteira roubada, seu orgulho destruído, o trabalho de uma vida, 32 anos de sacrifício, desmoralizado num piscar de olhos. Pode imaginar a humilhação que ele sentiu?

O que aconteceu depois?

Ele cambaleou para os bastidores e caiu nos meus braços, com a mão no peito. Julius tinha o coração fraco. Com suas últimas energias, murmurou algumas instruções pra mim e morreu nos meus braços.

E foi aí que você atacou o Borgia?

O desgraçado ainda estava no palco cuspindo ódio. Apesar do que com certeza te disseram, não sou um homem violento. Seus olhos escu­ros se arregalam. Mas, naquele momento, eu queria enfiar o microfone na garganta dele. Lembro que andei em volta da tribuna, o mundo ao meu redor se movendo em câmera lenta. Só conseguia ouvir a minha respiração e só con­seguia ver o Borgia, mas parecia que eu estava olhando pra ele através de um túnel. Quando dei por mim, ele estava no chão e eu estava amassando a cabeça dele com o microfone.

Dominique cruza as pernas, disfarçando um calafrio.

O corpo do meu pai foi parar no necrotétio municipal e foi crema­do sem nenhuma cerimônia. O Borgia passou as três semanas seguintes num quarto de hospital particular, de onde a família dirigia a campanha dele pro Senado, construindo o que a imprensa chamou de "uma virada sem preceden­tes". Eu estava apodrecendo numa cela de cadeia, sem amigos ou família pra pagar a minha fiança, esperando enfrentar uma acusação de agressão. Mas o Borgia tinha outras idéias. Usou a influência política da família e manipulou o sistema, entrando num acordo com o promotor e o defensor público que foi indicado pra mim. No final, fui declarado maluco e o juiz me mandou pra um sanatório decrépito em Massachusetts, onde, com o perdão pelo trocadilho, o Borgia podia ficar com um olho em mim.

Você disse que o Borgia manipulou o sistema judiciário. Como?

Da mesma forma que ele manipula Foletta, meu guardião nomeado pelo Estado. Pierre Borgia recompensa a lealdade, mas que Deus ajude quem vai pra lista negra dele. O juiz que me sentenciou foi promovido à Corte Su­prema do Estado três meses depois de me declarar criminalmente insano. Pou­co tempo depois, nosso bom doutor foi nomeado diretor da instituição, de al­guma forma saltando por cima de uma dúzia de candidatos mais qualificados. Os olhos negros lêem os pensamentos dela.

Me diga o que está pensando, Dominique. Você acha que eu sou um paranóico-esquizofrênico iludido.

Eu não disse isso. E o outro incidente? Você nega ter atacado brutal­mente um vigia?

Mick olha para ela com uma expressão perturbadora.

—        Robert Griggs era mais sádico do que homossexual, um vigia cujos atos você provavelmente diagnosticaria como estupro motivado por raiva e excitação. Foletta o indicou de propósito pra ronda noturna na minha ala um mês antes da minha primeira avaliação. O velho Griggsy costumava fazer a ronda às duas da manhã.

Dominique sente seu coração bater mais forte.

—        Trinta internos por ala, todos dormindo com um pulso e um torno­zelo algemados na cama. Uma noite, Griggs chegou bêbado me procurando. Acho que tinha decidido me acrescentar ao harém dele. Pra começar, me lubri­ficou um pouco enfiando um cabo de vassoura...

—        Pare! Onde estavam os outros vigias?

—        Ele era o único. Como eu não podia fazer nada pra impedi-lo, falei manso, tentando convencê-lo de que iria ser mais prazeroso se minhas duas pernas estivessem livres. O otário soltou a algema do meu tornozelo. Não vou te entediar com detalhes do que aconteceu a seguir...

Fiquei sabendo. Você fez ovos mexidos com ele, por assim dizer.

Eu podia tê-lo matado, mas não matei. Não sou um assassino.

—        E por causa disso passou o resto dos seus dias na solitária? Mick faz que sim com a cabeça.

—        Onze anos no útero de concreto. Duro e frio, mas sempre lá. Agora me conte. Que idade você tinha quando seu primo te sodomizou?

Desculpe, mas não me sinto à vontade pra discutir isso com você.

Porque você é a terapeuta e eu sou o psicótico?

Não. Quer dizer, sim. Porque sou a médica e você é meu paciente.

—        Somos mesmo tão diferentes? Você acha que a equipe do Rosenhan saberia determinar qual de nós dois deve ocupar esta cela? — Ele se apóia na parede. — Posso te chamar de Dom?

—        Pode.

Dom, o isolamento na solitária pode esgotar um homem. Posso estar sofrendo de privação sensorial, e talvez até parecer um pouco assustador, mas sou tão são quanto você, o Foletta e o vigia do outro lado da porta. O que posso fazer pra te convencer disso?

Não sou eu quem você precisa convencer. É o dr. Foletta.

Já falei, o Foletta trabalha pro Borgia, e o Borgia nunca vai me deixar sair daqui.

Posso falar com ele. Forçá-lo a te dar os mesmos direitos e privilégios dos outros internos. Com o tempo, posso...

Nossa, já estou até ouvindo o Foletta: "Acorde, residente Vazquez. Você já está caindo na famosa teoria da conspiração do Gabriel." Ele deve ter te convencido de que eu sou o novo Ted Bundy.

De jeito nenhum. Mick, eu quis ser psiquiatra pra ajudar gente como...

Gente como eu. Malucos?

Me deixa terminar. Você não é maluco, mas acho que precisa de aju­da. O primeiro passo é convencer o Foletta a designar uma equipe de avaliação pra você...

Não. Ele não vai permitir uma coisa dessas. E mesmo se permitir, não há tempo.

Por que não há tempo?

A avaliação e a audiência que tenho que fazer todo ano é daqui a seis dias. Você ainda não entendeu por que o Foletta te indicou pra cuidar de mim? Você é uma residente, facilmente manipulável. "O paciente mostra sinais encorajadores de melhora, residente Vazquez, mas ainda não está pronto para voltar à sociedade." Você vai concordar com o diagnóstico dele, e isso é tudo que a junta de avaliação precisa ouvir.

O Foletta tem razão, ele é bom. Talvez não seja tão bom quando não está controlando a conversa.

Mick, vamos falar um pouco sobre o trabalho do seu pai? Na sexta, você mencionou quatro Ahau, três Kankin...

O dia do fim da humanidade. Eu sabia que você reconheceria a data.

É só uma lenda maia.

Muitas lendas contêm verdades.

Então você acredita mesmo que vamos todos morrer em menos de quatro meses?

Mick olha para o chão, balançando a cabeça.

Um simples sim ou não já basta.

Sem joguinhos psicológicos, Dominique.

Que joguinhos psicológicos?

Você sabe muito bem que a pergunta, formulada desse jeito, cheira a esquizofrenia paranóica e ilusões de...

Mick, é uma pergunta simples. — Ele está ficando nervoso. Ótimo.

Você está me desafiando a uma batalha de intelectos pra encontrar pontos fracos. Não faça isso. Não é muito eficaz e você vai perder, o que signi­fica que vamos todos perder.

Você me pediu pra avaliar sua capacidade de voltar à sociedade. Como posso fazer isso sem perguntar?

Pergunte o que quiser, mas não arme ciladas. Terei prazer em discutir as teorias do meu pai com você, mas só se estiver realmente interessada. Se o seu objetivo é descobrir qual o meu limite, me passe a porra do Teste de Rorschach ou de Percepção Temática e acabe logo com isso.

Que ciladas você acha que estou armando?

Mick fica de pé e se aproxima dela. O coração de Dominique dispara. Ela pega a caneta.

A própria natureza da pergunta me condena. É como perguntar a um sacerdote se a esposa dele sabe que ele se masturba. De um jeito ou de outro, fica ruim pra ele. Se eu responder "não" sobre a previsão do Juízo Final, terei que explicar por que mudei repentinamente de opinião depois de 11 anos. O Foletta vai interpretar isso como uma farsa destinada a enganar o comitê de avaliação. Se eu disser que sim, você vai concordar que eu só sou mais um psicótico que acredita que o céu vai desabar.

Então como sugere que eu avalie a sua sanidade? Não posso evitar esse assunto.

Não, mas pode ao menos examinar as provas com a cabeça aberta antes de tirar conclusões. Algumas das maiores mentes da História foram cha­madas de loucas, até que a verdade foi revelada.

Mick se senta na outra ponta da cama. A pele de Dominique formiga. Ela não sabe ao certo se está excitada ou assustada, ou talvez ambas as coisas. Muda de posição, descruza as pernas, segurando a caneta disfarçadamente. Ele está perto o suficiente pra me estrangular, mas se estivéssemos num bar, eu provavel­mente já estaria dando em cima dele...

Dominique, é muito importante, muito, muito importante que a gente confie um no outro. Preciso da sua ajuda, e você da minha, embora ainda não saiba disso. Juro pela alma da minha mãe que jamais vou mentir pra você, mas precisa prometer que vai me ouvir com a mente aberta.

Tudo bem, vou ouvir objetivamente. Mas a pergunta permanece. Você acredita que a humanidade vai ter fim em 21 de dezembro?

Mick se inclina para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele olha para o chão, apertando o meio do nariz com os dois dedos indicadores.

—        Presumo que você seja católica?

Nasci católica, mas fui criada numa família judaica desde os 13 anos. E você?

Minha mãe era judia, e meu pai, episcopal. Você se considera uma pessoa religiosa?

Não muito.

Acredita em Deus?

Sim.

Acredita no mal?

No mal? — A pergunta a surpreende. — Isso é meio amplo. Pode explicar melhor?

Não estou falando de homens cometendo assassinatos brutais. Me refiro ao mal como uma entidade autônoma, parte da própria trama da exis­tência. — Mick ergue a cabeça, fixando os olhos nela. — Por exemplo, a crença judaico-cristã é de que o mal tomou forma pela primeira vez ao entrar no Jar­dim do Éden disfarçado de serpente, tentando Eva a morder a maçã.

Como psiquiatra, não acredito que nenhum de nós nasça mau, nem bom, aliás. Acredito que temos capacidade para ambas as coisas. O livre-arbítrio nos permite escolher.

—        E se... se algo estiver influenciando o seu livre-arbítrio sem que você saiba?

—        O que você quer dizer?

Algumas pessoas acreditam que existe uma força maligna, parte da natureza. Uma inteligência autônoma que existiu neste planeta durante toda a história do homem.

Estou meio perdida. O que tudo isso tem a ver com a profecia do Juízo Final?

Como pessoa racional, você me pergunta se acredito que a humanida­de está pra acabar. Como pessoa racional, peço que você me explique por que toda civilização antiga e bem-sucedida previa o fim da humanidade. Como pes­soa racional, peço que me diga por que todas as principais religiões anunciam um apocalipse e esperam que um Messias volte pra livrar nosso mundo do mal.

—        Não posso responder. Como a maioria das pessoas, não sei.

—        Meu pai também não sabia. Mas por ser um homem racional, um cientista, ele queria descobrir. E por isso dedicou a vida e sacrificou a felicidade de sua família em busca da verdade. Passou décadas investigando ruínas anti­gas à procura de pistas. E no fim, o que ele encontrou era tão insondável que literalmente o deixou à beira da loucura.

—        O que ele encontrou?

Mick fecha os olhos e a inflexão de sua voz fica mais suave.

—        Provas. Provas deliberadamente deixadas para nós com grande sacrifí­cio. Provas que apontam para a existência de uma presença, uma presença tão maligna que o fim da humanidade será marcado por sua ascensão.

—        Mais uma vez, não entendo.

—        Não posso explicar, só sei que, de alguma forma, sinto essa presença ficando mais forte.

Ele está se esforçando pra continuar racional. Faça-o falar mais.

Você diz que essa presença é maligna. Como sabe?

Simplesmente sei.

Você não está me dando muitos dados. E o calendário maia não é algo que eu chamaria de prova...

O calendário é só a ponta do iceberg. Existem lugares extraordinários, inexplicáveis, espalhados por este planeta, maravilhas astronômicamente ali­nhadas, todas partes de um único quebra-cabeça gigante. Nem os maiores cé­ticos do mundo podem refutar sua existência. As pirâmides de Gizé e Chichén Itzá. Os templos de Angkor Wat e Teotihuacán, Stonehenge, os mapas de Piri Reis e os desenhos do deserto de Nazca. Foram necessárias décadas de trabalho intenso para erguer essas maravilhas antigas, e o método de sua construção ain­da é um mistério para nós. Meu pai descobriu uma inteligência unificada por trás de tudo isso, a mesma inteligência responsável pela criação do calendário maia. Mais importante ainda é o fato de que cada um desses locais está ligado a um propósito comum, cujo significado se perdeu no último milênio.

E esse propósito é?

A salvação da humanidade.

O Foletta tem razão. Ele realmente acredita nisso.

—        Me deixe ver se entendi. Seu pai acreditava que cada um desses locais antigos foi projetado pra salvar a humanidade. Mas como uma pirâmide ou um monte de desenhos no deserto podem nos salvar? E nos salvar de quê? Dessa presença maligna?

Os olhos negros penetram-lhe a alma.

—        Sim, mas é algo infinitamente pior. Algo que virá pra destruir a hu­manidade no solstício de dezembro. Meu pai e eu estávamos prestes a resolver o mistério quando ele morreu, mas ainda faltam peças importantes do quebra-cabeça. Se os códices maias não tivessem sido destruídos...

—        Quem os destruiu?

Mick balança a cabeça, como que decepcionado.

—        Você nem conhece a história dos seus próprios ancestrais? O criador do calendário do Juízo, o grande mestre, Kukulcán, deixou informações cruciais nos antigos códices maias. Quatrocentos anos depois de sua partida, a Espanha invadiu o Yucatán. Cortez era branco e usava barba. Os maias o confundiram com Kukulcán, e os astecas com Quetzalcoatl. Ambas as civilizações basica­mente depuseram as armas e se deixaram conquistar, achando que seu Mes­sias caucasiano havia voltado para salvar a humanidade. Os padres católicos se apossaram dos códices. Devem ter ficado bastante assustados com o que leram, porque os burros queimaram tudo, essencialmente nos condenando à morte.

Ele está ficando exaltado.

Não sei, Mick. As instruções pra salvar a humanidade parecem im­portantes demais pra serem deixadas com um bando de índios mesoamericanos. Se Kukulcán era tão sábio, por que não deixou essas informações em outro lugar?

Obrigado.

Por quê?

Por pensar. Por usar o hemisfério lógico do seu cérebro. A informação realmente era importante demais pra ser deixada com uma cultura vulnerá­vel como a maia, ou com qualquer outra cultura antiga, aliás. No deserto de Nazca, no Peru, há uma mensagem visual, simbólica, inscrita no pampa em ideogramas precisos, de 120 metros de largura. Meu pai e eu estávamos quase chegando ao significado da mensagem quando ele morreu.

Ela olha inocentemente para o relógio.

Mick salta de pé como um gato, assustando-a ao segurar seus ombros.

—        Pare de tratar isso como uma parte do seu currículo de graduação e ouça o que estou dizendo. Tempo é um luxo que nós não temos...

Ela o olha nos olhos enquanto ele esbraveja, seus rostos separados apenas por centímetros.

Mick, me solte... — Ela mexe na caneta.

Me escute. Você perguntou se eu acredito que a humanidade vai aca­bar daqui a quatro meses. A resposta é sim, a menos que eu possa completar o trabalho do meu pai. Caso contrário, vamos todos morrer.

Dominique clica a caneta sem parar, seu coração disparado, sua mente cheia de medo.

—        Dominique, por favor. Preciso que você me tire deste hospício antes do equinócio de outono.

Por quê? — Faça-o continuar falando...

O equinócio é daqui a apenas duas semanas. Sua chegada será anun­ciada em todos os locais que eu mencionei. A pirâmide de Kukulcán, em Chitchén Itzá, vai marcar o evento em sua balaustrada setentrional, com a descida da sombra da serpente. Naquele momento, a Terra vai entrar num alinhamen­to galáctico extremamente raro. Um portal vai começar a se abrir no centro da faixa escura da Via Láctea. Será o começo do nosso fim.

Ele está delirando... Lembrando-se da foto de Borgia com um olho só, ela se move, preparando o joelho.

Dominique, não sou maluco. Preciso que você me leve a sério...

Você está me machucando...

Desculpe, desculpe... — Ele a solta. — Escute, isso é vital. Meu pai acreditava que ainda é possível impedir a ascensão do mal. Preciso da sua ajuda. Preciso que você me tire daqui antes do equinócio...

Mick se vira e vê Marvis pondo o punho diante de seu rosto, cegando-o com o spray de pimenta.

—        Não! Não, não, não...

Agitada demais para falar, Dominique empurra o vigia para o lado e sai correndo do quarto. Ela para no corredor, seu coração disparado.

Marvis tranca o quarto 714 e a acompanha para fora do núcleo.

Mick continua esmurrando a porta, gritando para ela como um animal ferido.

 

                               DIÁRIO DE JULIUS GABRIEL

E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da Terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram... Naqueles dias, os NEFILINS estavam na Terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os VALENTES que houve na ANTIGUIDADE, os HOMENS DE FAMA.

— GÊNESIS, 6: 1 -2, 4

 

A Bíblia. O livro sagrado das religiões judaica e cristã. Para o arqueólogo em busca da verdade, esse documento da antiguidade pode oferecer pistas importantes para preencher as lacunas na história da evolução do homem.

O capítulo 6 do Gênesis talvez seja a passagem menos compreendida de toda a Bíblia, mas pode vir a ser a mais reveladora. Ela se passa pouco antes de Deus dar instruções a Noé e se refere aos filhos de Deus e aos Nefilins, um nome que se traduz literalmente como "os caídos" ou "aqueles que caíram do céu com o fogo".

Quem eram esses "caídos", esses "homens de fama"? Uma pista importante pode ser encontrada na Apócrifa do Gênesis, um dos textos antigos descobertos entre os Manuscritos do Mar Morto. Numa passagem importante, Lameque, pai de Noé, confronta sua esposa por achar que a concepção de seu filho tinha sido o resultado de uma copulação com um anjo ou com um de seus filhos, um Nefilim.

Será que corria sangue extraterrestre nas veias de Noé? O conceito de anjos "caídos" ou "homens de fama" miscigenando-se com mulheres humanas pode pa¬recer mirabolante, mas deve haver algum elemento de verdade nele, pois o relato, como a história de Noé e o Grande Dilúvio, se repete em diferentes culturas e religiões de todo o mundo.

Como já mencionei, passei a vida investigando maravilhas misteriosas, estruturas magníficas, deixadas na face deste planeta, que sobreviveram aos rigores do tempo. Acredito que essas estruturas foram criadas por esses "homens da antiguidade, homens de fama" com uma única finalidade: salvar a nossa espécie da aniquilação.

Talvez nunca venhamos à saber quem eram os Nefilins, mas provas geológicas nos permitem agora determinar o período em que eles apareceram pela primeira vez. O fato é: houve um grande dilúvio. A culpada foi a última era glacial da Terra, um acontecimento que remonta há cerca de 115 mil anos atrás. Na época, geleiras enormes cobriam a maior parte dos hemiférios norte e sul, avançando e recuando, finalmente atingindo o ápice há cerca de 17 mil anos. A maior parte da Europa foi soterrada sob uma camada de gelo de 3 quilômetros de espessura. As geleiras da América do Norte avançaram para o sul até o vale do Mississipi, atingindo o 37º paralelo.

Era a época do Homo sapiens neanderthalensis, o Homem de Neandertal. Foi também por volta desse momento na história dos nossos antepassados que os misteriosos "caídos" chegaram.

Talvez os clãs dos primeiros Homo sapiens não tivessem impressionado muito esses homens de fama. Talvez os Nefilins achassem melhor devolver o esboço do homem à prancheta evolutiva. Qualquer que tenha sido a reação deles, só sabemos que, milagrosa e repentinamente, o mundo começou a derreter.

Aconteceu rápido, em decorrência de algum desdobramento desconhecido e cataclísmico. Milhões de quilômetros cúbicos degelo que haviam levado mais de 40 mil anos para avançar de repente derreteram em menos de dois milênios. O mar subiu de 100 a 120 metros, inundando o solo. Partes da Terra, antes comprimidas por bilhões de toneladas de gelo, começaram a se elevar, causando terremotos terríveis. Vulcões entraram em erupção, expelindo enormes quantidades de dióxido de carbono na atmosfera, aumentando o aquecimento global. Ondas gigantes varreram selvas, dizimando animais e devastando a Terra.

O planeta se tornou um lugar muito hostil.

Entre 13.000 a.C. e 11.000 a.C., a maior parte do gelo havia derretido, e o clima havia se estabilizado. E daquela gosma lamacenta emergia uma nova subespécie: Homo sapiens sapiens, o homem moderno.

Evolução ou criação bíblica — onde está a verdade sobre o surgimento do homem moderno? Como cientista, me sinto inclinado a acreditar no darwinismo, mas como arqueólogo, também reconheço que a verdade muitas vezes se esconde em mitos transmitidos ao longo de milênios. A profecia do calendário maia se enquadra na mesma categoria. Como já mencionei anteriormente, o calendário é um instrumento científico preciso que utiliza princípios avançados de Astronomia e Matemática para efetuar seus cálculos. Ao mesmo tempo, as origens do calendário se concentram na mais importante lenda da história maia — o Popol Vuh, o livro maia da criação.

O Popol Vuh é a Bíblia dos índios mesoamericanos. Segundo o Popol Vuh, escrito centenas de anos depois da morte de Kukulcán, o mundo foi dividido em um Mundo Superior (Paraíso), um Mundo Médio (Terra) e um Mundo Inferior, um antro do mal conhecido como Xibalba. Ao olharem para o céu noturno, os antigos maias viam a fenda escura da Via Láctea e a interpretavam como sendo uma serpente escura ou Estrada Negra (Xibalba Be), que levava ao Mundo Inferior. Bem perto da fenda ficam as três estrelas do cinturão de Orion. Para os maias, essas estrelas eram as três pedras da criação.

Como disse anteriormente, o calendário maia se divide em cinco Grandes Ciclos, o primeiro dos quais começou há cerca de 25-800 anos. Esse período de tempo não é arbitrário, mas o intervalo real, em anos, que a Terra leva para completar um ciclo de precessão, a lenta oscilação do nosso planeta sobre seu eixo. (Mais sobre isso depois.)

A história da criação contada no Popol Vuh começa há cerca de 25.800 anos, quando o gelo ainda cobria boa parte da Terra. O herói da história é um homem primitivo conhecido como Hun (Um) Hunahpu, mais tarde reverenciado pelos maias como "Primeiro Pai". A maior paixão da vida de Hun Hunahpu era jogar o antigo jogo de bola conhecido como Tlachtli. Um dia, os Senhores do Mundo Inferior, falando através de Xibalba Be (a Estrada Negra), desafiaram Hun Hunahpu e seu irmão para um jogo. Hun Hunahpu aceitou e entrou no portal para a Estrada Negra, que era representado nas lendas maias como a boca de uma grande serpente.

Mas os Senhores do Mundo Inferior não tinham nenhuma intenção de jogar. Usando truques e armadilhas, derrotaram os irmãos e os decapitaram, pendurando a cabeça de Hun Hunahpu no ramo de um cabaceiro. Os Senhores do Mal, então, isolaram a árvore, proibindo a todos de visitá-la.

Depois de muitos e muitos anos, uma jovem corajosa chamada Lua de Sangue se aventurou pela Estrada Negra para ver se a lenda era verdade. Aproximando-se da árvore para colher alguns frutos, ela se assustou ao encontrar a cabeça de Hun Hunahpu, que cuspiu na palma da mão dela, magicamente engravidando-a. A mulher fugiu, e os Senhores do Mundo Inferior não conseguiram destruí-la antes que escapasse.

Lua de Sangue (também conhecida como Primeira Mãe) deu à luz filhos gêmeos. Com o passar dos anos, os meninos cresceram, tornando-se guerreiros fortes e hábeis. Quando chegaram à idade adulta, sua vocação genética os impeliu a seguir pela Estrada Negra até Xibalba: desafiariam os Senhores do Mal e vingariam a morte de seu pai. Novamente, os Senhores do Mundo Inferior usaram trapaças, mas dessa vez os Gêmeos Heróis triunfaram, repelindo o mal e ressuscitando seu falecido pai.

O que podemos inferir do mito da criação? O nome, Hun ou Um Hunahpu, refere-se à data de Um Ahau no calendário, cujo nome significa primeiro sol. O primeiro sol do ano-novo é o do solstício de dezembro. A data profetizada do Juízo Final acontece no solstício de inverno do ano de 2.012, exatamente um ciclo precessional de 25-800 anos depois do primeiro dia do calendário maia!

Usando um programa de computador que permite prever o cosmos em qualquer momento da história, calculei como o céu noturno estará em 2012. Começando na época do equinócio outonal, um alinhamento astronômico extremamente raro entre os planos galáctico e solar vai acontecer. A fenda escura da Via Láctea parecerá estar na altura do horizonte terrestre, e o Sol começará a entrar em alinhamento com seu ponto central. Esse movimento estelar vai culminar no dia do solstício de inverno, um dia considerado pela maioria das culturas antigas como o Dia dos Mortos. Nessa data, pela primeira vez em 25- 800 anos, o Sol irá se mover em conjunto com o ponto de cruzamento da Via Láctea com a eclíptica de Sagitário, marcando o alinhamento do Equador Galáctico, o centro exato da galáxia.

De alguma forma, o calendário maia previu com exatidão esse evento celeste há mais de 3 mil anos. Interpretando o mito da criação, o alinhamento galáctico culminará com a abertura de um portal cósmico que cobre a distância entre o nosso planeta e o Mundo Inferior maia, Xibalba.

Chamem de ficção, chamem de fato, mas de alguma forma esse alinhamento intergaláctico resultará na morte de cada homem, mulher e criança na face do nosso planeta.

— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,

Ref. Catálogo 1978-79 páginas 43-52

       Catálogo 1998-99 páginas 11-75

 

                     11 DE SETEMBRO DE 2012, MIAMI, FLÓRIDA

- Acorde, residente Vazquez. Você está caindo na famosa teoria da conspiração do Gabriel.

—        Eu discordo. — Dominique devolve o olhar frio que o dr. Foletta lhe direciona do outro lado da mesa. — Não há nenhum motivo para Mick Gabriel não receber uma equipe de apoio completa.

Foletta se recosta na cadeira giratória, ameaçando romper as molas com seu peso.

—        Vamos nos acalmar um pouco. Olhe pra você. Falou com o interno duas vezes e já está fazendo diagnósticos. Na minha opinião, você está se envolvendo emocionalmente, e nós falamos sobre isso na sexta. É exatamente por isso que recomendei ao conselho não designar uma equipe neste momento.

—        Senhor, eu garanto que não estou emocionalmente envolvida. Só me parece que as pessoas julgaram precipitadamente este caso. Sim, concordo que ele tem ilusões, mas elas poderiam facilmente ser atribuídas ao fato de ele ter passado os últimos 11 anos na solitária. E quanto à violência, não vi nada no arquivo que indicasse algo mais do que um caso isolado de agressão.

—        E quanto ao ataque ao vigia?

—        Mick me disse que o vigia tentou estuprá-lo.

Foletta belisca o alto do nariz com dois dedos grossos, sorrindo mansamente enquanto balança sua grande cabeça para a frente e para trás.

—        Ele te enganou, residente Vazquez. Eu avisei que ele era esperto.

Dominique sente um tremor na boca do estômago.

—        Está dizendo que é tudo mentira?

—        Claro. Ele apostou no seu instinto materno e tirou a sorte grande.

Dominique olha para baixo, sem palavras. Mick mentiu? Será que ela foi realmente tão ingênua? Idiota! Você queria acreditar nele. Caiu na armadilha.

—        Residente, você não vai muito longe com seus pacientes se acreditar em tudo que eles dizem. Só falta ele te convencer de que o mundo está pra acabar.

Dominique se encolhe na cadeira, sentindo-se tola.

Foletta vê a expressão no rosto dela e ri alto, suas bochechas rechonchudas corando e fazendo covinhas. Ele respira fundo, enxugando os olhos, e mexe numa caixa de papelão sob a mesa. Tira uma garrafa de uísque e duas canecas e serve duas doses.

Dominique enxuga a caneca, sentindo o líquido ardendo na mucosa de seu estômago.

—        Está se sentindo melhor? — As palavras, murmuradas e roucas, são ditas de maneira paternal.

Ela faz que sim.

—        Apesar do que ele diz, residente, eu gosto do Mick. Também odeio vê-lo na solitária.

O telefone toca. Foletta atende e olha para ela.

—        É um dos vigias. Diz que está te esperando lá embaixo.

Merda.

—        Pode dizer que estou numa reunião importante? Diga que hoje à noite não posso.

Foletta dá o recado e desliga.

—        Doutor, e quanto à avaliação anual do Mick? Também é mentira?

—        Não, é verdade. Aliás, está na minha lista de coisas a discutir com você. Sei que é um tanto incomum, mas vou precisar que você assine a avaliação pra mim.

—        O que você recomenda?

—        Depende de você. Se conseguir se manter objetiva, vou recomendar que continue como psiquiatra do Mick durante sua permanência aqui.

—        O Mick está sofrendo de privação sensorial. Gostaria que tivesse aces¬so ao jardim e ao resto das instalações de reabilitação.

—        Ele acabou de te atacar...

—        Ele não me atacou. Só ficou um pouco agitado e eu me desesperei.

Foletta relaxa e olha para o forro, como se estivesse ponderando uma grande decisão.

—        Bem, residente, façamos assim: assine a minha avaliação anual e eu devolverei a ele todos os privilégios. Se ele melhorar, designarei uma equipe completa de reabilitação em janeiro. Certo?

Dominique sorri.

—        Certo.

 

                   22 DE SETEMBRO DE 2012, MIAMI, FLÓRIDA

O jardim do Centro de Avaliação e Tratamento do Sul da Flórida é um gramado retangular cercado pelos quatro lados. O formato em L do prédio principal fecha o perímetro a leste e ao sul, e os lados norte e oeste são murados por uma barreira de concreto branco de 6 metros de altura com arame farpado no alto.

Não há portas para o jardim. Para sair do átrio gramado, é preciso subir três lances de degraus de cimento que levam a uma passarela aberta que percorre o lado sul do prédio. Esse mezanino dá acesso ao ginásio do terceiro andar, às salas de terapia de grupo, a um centro de artesanato, à sala de informática e ao cinema.

Dominique se abriga sob o toldo de alumínio que se estende da passarela do terceiro andar quando vê as nuvens cinzentas chegando do leste. Duas dúzias de internos abandonam o jardim quando os primeiros pingos de chuva vespertina começam a martelar o toldo.

Uma figura solitária fica para trás.

Mick Gabriel continua percorrendo o perímetro do jardim, com as mãos enfiadas no fundo dos bolsos. Ele sente o ar úmido esfriando quando as nuvens se abrem no céu. Em segundos, está imerso no aguaceiro, seu uniforme branco encharcado, aderindo ao corpo magro e definido.

Ele continua andando, seu ensopado tênis de lona afundando na grama macia, suas meias molhadas fazendo barulho ao andar. A cada passo, recita o nome de um ano do calendário maia, um exercício mental que usa para manter sua mente afiada. Três Ix, quatro Cauac, cinco Kan, seis Muluc...

Os olhos escuros se concentram na parede de concreto, procurando por falhas, sua mente, em busca de opções.

Dominique o observa através de um véu de chuva, sentindo remorso. Você estragou tudo. Ele confiava em você. Agora acha que você o traiu.

Foletta se aproxima. Acena para vários internos curiosamente exultantes e vai falar com ela.

—        Ele ainda se recusa a falar com você? Dominique balança a cabeça.

—        Já faz quase duas semanas. Todo dia é a mesma coisa. Ele toma café, vai pra minha consulta e olha pro chão por uma hora. Quando chega ao jar¬dim, anda pra lá e pra cá até a hora do jantar. Nunca se mistura com os outros internos e nunca diz uma palavra. Só anda.

—        Ele devia era ficar agradecido. Afinal, você é a responsável pela nova liberdade dele.

—        Isso não é liberdade.

—        Não, mas depois de 11 anos na solitária é um grande passo.

—        Acho que ele realmente acreditava que eu podia tirá-lo daqui. A expressão de Foletta o denuncia.

—        O que foi, doutor? Ele tinha razão? Eu poderia...

—        Ei, calma aí, residente. O Mick Gabriel não vai a lugar nenhum, pelo menos não agora. Como você mesma viu, ele ainda é muito instável e representa uma ameaça tanto pra si próprio quanto para os outros. Continue trabalhando com ele, o encoraje a participar da terapia. Tudo pode acontecer.

—        Você ainda está pensando em designar uma equipe de reabilitação, não está?

—        Nosso acordo é pra janeiro, isso, se ele se comportar. Você devia falar com ele sobre isso.

—        Eu tentei. — Ela olha Mick passando pelo lance de escadas diretamente abaixo deles. — Ele não confia mais em mim.

Foletta lhe dá uns tapinhas no ombro.

—        Conforme-se.

—        Eu não estou fazendo bem a ele. Talvez ele precise de alguém com mais experiência.

—        Bobagem. Vou dizer aos enfermeiros para não deixá-lo sair do quarto a menos que ele participe ativamente das sessões de terapia.

—        Forçá-lo a falar não vai ajudar em nada.

—        Isso não é um clube de recreação, residente. Temos regras. Se um interno se recusa a cooperar, perde os privilégios. Já vi casos assim. Se você não agir agora, o Mick vai se encolher dentro da própria mente e você vai perdê-lo pra sempre.

Foletta chama um enfermeiro.

—        Joseph, tire o sr. Gabriel da chuva. Não podemos deixar que nossos internos fiquem doentes.

—        Não, espere, ele é meu paciente. Eu vou buscá-lo. — Dominique enrola o cabelo num coque, tira os sapatos e desce os dois lances de escada até o jardim. Ela já está encharcada ao alcançar Mick. — E aí, companheiro, posso te fazer companhia?

Ele a ignora.

Dominique aperta o passo, a chuva bombardeando o seu rosto.

—        Vamos, Mick, fale comigo. Passei a semana inteira pedindo desculpas. O que queria que eu fizesse? Eu precisava assinar o relatório do Foletta.

Ela ganha um olhar duro.

A chuva aumenta, obrigando-a a gritar.

—        Mick, espere.

Ele continua andando.

Ela corre, passando por ele, e fica em pose de luta, com os punhos erguidos, impedindo a passagem.

—        Não me obrigue a te dar porrada.

Mick pára. Ele ergue os olhos, a chuva escorrendo por seu rosto anguloso.

—        Você me decepcionou.

—        Me desculpe — murmura ela, baixando os punhos. — Por que mentiu pra mim sobre o ataque do vigia?

Com uma expressão de dor, ele responde.

—        Então você não julga mais o que é verdade com seu coração, mas com sua ambição. É isso? Pensei que fôssemos amigos.

Ela sente um nó crescendo em sua garganta.

—        Eu quero ser sua amiga, mas também sou sua psiquiatra. Fiz o que pensei ser o melhor.

—        Dominique, prometi que nunca mentiria pra você. — Ele levanta a cabeça, apontando para a cicatriz em seu maxilar. — Antes de tentar me estuprar, o Griggs ameaçou cortar minha garganta.

Foletta, seu desgraçado.

—        Meu Deus, Mick, me desculpe. Naquela consulta, quando você perdeu o controle...

—        Foi culpa minha. Fiquei agitado. Estou trancado há tanto tempo... Às vezes... bom, às vezes é difícil me manter calmo. Não sou muito sociável, mas juro que jamais machucaria você.

Ela vê lágrimas nos olhos dele.

—        Eu acredito em você.

—        Sabe, poder sair um pouco me ajudou. Me fez pensar sobre muitas coisas... meio egocêntricamente, na verdade. Minha infância, o modo como fui criado... como vim parar aqui e se um dia vou sair. Tem tanta coisa que eu nunca fiz... tantas coisas que eu mudaria, se pudesse. Eu amava meus pais, mas pela primeira vez me dei conta de que realmente odeio o que eles fizeram. Odeio o fato de nunca terem me dado uma chance de escolher...

—        Não escolhemos nossos pais, Mick. O importante é que você não se culpe. Nenhum de nós tem controle sobre o jogo ou as cartas que recebemos. O que temos é total responsabilidade sobre como jogamos com essas cartas. Acho que posso ajudar você a recuperar esse controle.

Ele se aproxima, a chuva escorrendo dos lados do seu rosto.

—        Posso te fazer uma pergunta pessoal?

—        Pode.

—        Você acredita em destino?

—        Destino?

—        Você acha que nossa vida, nosso futuro foi... Não, deixa pra lá, esquece...

—        Se eu acho que o que acontece com a gente está predestinado?

—        É.

—        Acho que temos escolhas. Acho que depende de nós escolhermos o destino certo.

—        Você já se apaixonou por alguém?

Ela olha, involuntariamente, em seus olhos brilhantes e carentes.

—        Já cheguei perto algumas vezes. Mas nunca parecia dar certo. — Ela sorri. — Acho que eles não faziam parte do meu destino.

—        Se eu não estivesse... aprisionado. Se a gente tivesse se conhecido em circunstâncias diferentes. Você acha que poderia me amar?

Merda... Ela engole em seco, sua pulsação fazendo o fundo de sua garganta tremer.

—        Mick, vamos sair da chuva. Venha...

—        Tem alguma coisa especial em você. Não é só atração física, é como se eu já te conhecesse, ou tivesse te conhecido em outra vida.

—        Mick...

—        Às vezes eu tenho algumas premonições. Tive uma na primeira vez em que vi você.

—        Você disse que era o perfume.

—        Era algo mais. Não consigo explicar. Só sei que gosto de você, e os sentimentos são um pouco confusos.

—        Mick, estou lisonjeada, de verdade, mas acho que você tem razão. Seus sentimentos estão confusos, e...

Ele sorri tristemente, ignorando as palavras dela.

—        Você é tão linda. — Inclinando-se, ele toca sua face, depois estica o braço e solta os seus cabelos negros.

Ela fecha os olhos, sentindo o cabelo se desenrolar em suas costas e tornar-se pesado com a chuva. Pare com isso! Ele é seu paciente, um paciente psiquiátrico, meu Deus.

—        Mick, por favor. O Foletta está olhando. Vamos entrar? A gente pode conversar lá dentro...

Ele a olha com seus olhos melancólicos, revelando uma alma torturada pela beleza proibida.

—        "Ela é que ensina as tochas a brilhar. E no rosto da noite tem um ar de joia rara em rosto de carvão..."

—        O que você disse? — Dominique sente as rápidas batidas de seu coração.

—        Romeu e Julieta. Era o que eu lia pra minha mãe quando ela estava de cama. — Ele levanta a mão dela, aproximando-a dos seus lábios. — "Para com a mão dela, a minha abençoar. Já amei antes? Não, tenho certeza; pois nunca havia eu visto tal beleza."

A chuva para. Ela vê dois enfermeiros se aproximando.

—        Mick, escute. Obriguei o Foletta a te designar uma equipe de reabilitação. Você tem a chance de sair daqui em seis meses.

Mick sacode a cabeça.

—        A gente não vai ver esse dia, meu amor. Amanhã é o equinócio de outono... — Ele se vira e fica ansioso ao avistar os homens de branco. — Leia o diário do meu pai. O destino do mundo está prestes a cruzar outro limiar, empurrando a espécie humana pro alto da lista das espécies em extinção...

Os dois enfermeiros seguram seus braços.

—        Ei, não o machuquem!

Mick se vira para olhá-la enquanto é arrastado, a umidade saindo de seu corpo como vapor.

—        "A voz do amor na noite é som de prata, parece música a quem o escuta." Você está no meu coração, Dominique. O destino nos uniu. Posso sentir. Posso sentir...

 

                           Diário de Julius Gabriel

Antes de continuarmos nossa viagem pela história do homem, me permitam apresentar um termo desconhecido da maioria do público: arqueologia proibida. Parece que, quando o assunto é a origem e a antiguidade do homem, a comunidade científica nem sempre tem a mente aberta para provas que possam contradizer os modelos de evolução já estabelecidos. Em outras palavras, às vezes é mais fácil simplesmente refutar os fatos do que tentar pensar numa explicação plausível ao que não pode ser explicado.

Ainda bem que Colombo usou um mapa de Piri Reis em vez da versão aceita na Europa, senão ele teria navegado para fora da beira do mundo.

Quando o homem acha que sabe tudo, ele para de aprender. Essa infeliz realidade levou à supressão de muitas pesquisas importantes. Como ninguém consegue publicar nada sem a aprovação de uma grande universidade, torna-se quase impossível desafiar as visões dominantes de uma época. Vi colegas cultos tentarem fazê-lo e amargarem o ostracismo, suas reputações destruídas e suas carreiras arruinadas, embora as provas que corroboravam seus polêmicos pontos de vista parecessem irrefutáveis.

Os egiptólogos egípcios são os piores. Odeiam quando cientistas tentam desa¬fiar a história aceita de seus sítios arqueológicos, e se tornam especialmente perversos quando estrangeiros questionam a idade e a origem de suas estruturas monolíticas.

Isso nos traz para os métodos de datação, o aspecto mais polêmico da Arqueologia. O uso da datação por carbono-14 em ossos e resíduos de carvão é tão fácil quanto exato, mas a técnica não pode ser aplicada à pedra. Em decorrência disso, os arqueólogos muitas vezes datam um sítio de acordo com outros achados mais datáveis encontrados nos arredores da escavação ou, quando nenhum é encontrado, datam meramente por conjectura, levando a uma larga margem de erro humano.

Tendo afirmado isso, voltemos à nossa viagem através da História e do tempo.

Foi algum tempo depois do Grande Dilúvio que as primeiras civilizações começaram a aparecer por todo o mundo. O que aceitamos agora como verdade ê que a História escrita começou na Mesopotâmia, no vale dos rios Tigre e Eufrates, por volta de 4.000 a.C., com alguns dos mais antigos restos urbanos encontrados em Jericó remontando até 7.000 a.C. Mas novas evidências indicam agora que outra civilização, uma civilização superior, havia florescido ainda antes, às margens do rio Nilo. E foi essa cultura mais antiga e seu sábio líder que nos deixaram a primeira das misteriosas maravilhas que podem salvar nossa espécie da aniquilação.

Há muitos templos, pirâmides e monumentos espalhados pela paisagem egípcia, mas nenhum se compara às maravilhas magníficas construídas em Gizé. E aqui, na margem ocidental do Nilo, que um plano arquitetônico incrível foi traçado, consistindo na Esfinge, seus dois templos e as três grandes pirâmides do Egito.

For que estou falando das grandes pirâmides de Gizé? Como esses monumentos antigos podem estar relacionados com o calendário maia e a cultura mesoamericana, situada do outro lado do mundo?

Depois de três décadas de pesquisa, finalmente percebi que, para desvendar o profético enigma do Juízo Final, é preciso deixar de lado as idéias preconcebidas de tempo, distância, culturas e impressões superficiais, para assim analisar as pistas antigas que cercam o grande mistério da humanidade.

Permitam-me um momento para me aprofundar.

As maiores e mais inexplicáveis estruturas já erguidas pelo homem são as pirâmides de Gizé, os templos de Angkor, localizados nas selvas do Camboja, as pirâmides na antiga cidade mesoamericana de Teotihuacán (também conhecida como "lugar dos deuses"), Stonehenge, os desenhos de Nazca, as ruínas de Tiahuanaco e a pirâmide de Kukulcán em Chichén Itzá. Cada uma dessas maravilhas antigas, construídas por diferentes culturas, em diferentes partes do mundo, durante períodos muito diferentes da pré-história do homem, está, ainda assim, ligada ao fim da humanidade mencionado no calendário maia. Todos os arquitetos e engenheiros que construíram essas cidades possuíam um vasto conhecimento de Astronomia e Matemática, que facilmente excedia o cabedal existente em sua época. Além disso, a localização de cada uma das estruturas antigas foi cuidadosamente planejada de acordo com o equinócio e o solstício e, por incrível que pareça, com as outras estruturas, pois se alguém desejasse dividir a superfície do nosso planeta usando marcos distintos, essas estruturas facilmente cumpririam a tarefa.

Mas é aquilo que não podemos ver que eternamente liga essas estruturas maciças umas às outras, pois no âmago de seu projeto reside uma equação matemática comum que demonstra um conhecimento avançado — o conhecimento da precessão.

Mais uma vez, uma breve explicação:

À medida que flutua pelo espaço em sua jornada anual ao redor do Sol, nosso planeta gira sobre seu eixo uma vez a cada 24 horas. Quando a Terra gira, a atração gravitacional da Lua a faz inclinar-se aproximadamente 23,5 graus na vertical. Somando a atração gravitacional do Sol sobre a saliência equatorial do nosso planeta, temos uma oscilação do eixo da Terra, parecida com a de um pião girando. Essa oscilação é chamada de precessão. Uma vez a cada 25.800 anos, o movimento do eixo traça um círculo no céu, relocalizando a posição dos poios e equinócios celestiais. Esse desvio gradual para o oeste também faz com que os signos do zodíaco não correspondam mais às suas respectivas constelações.

O astrônomo e matemático grego Hiparco é considerado o descobridor da precessão em 127 a.C. Hoje sabemos que os egípcios, maias e hindus já entendiam a precessão centenas, se não milhares, de anos antes.

No início da década de 1990, a arqueoastrônoma Jane Sellers descobriu que o mito de Osíris do Egito antigo continha chaves numéricas que os egípcios usavam para calcular os vários graus de precessão da Terra. Dessas chaves, um conjunto de dígitos em particular se destacava: 4320.

Mais de mil anos antes do nascimento de Hiparco, os egípcios e maias, de alguma forma, haviam conseguido calcular o valor de pi, a razão do diâmetro de um círculo, uma esfera ou um hemisfério para a sua circunferência. Com 146,729 metros, a altura da Grande Pirâmide, multiplicada por 2pi, éprecisamente igual à sua base (921,46 metros). Por incrível que pareça, o perímetro da pirâmide equivale ao diâmetro da Terra com um erro de 6 metros, quando as dimensões do nosso planeta são reduzidas numa razão de 1:43.200, números que representam nosso código matemático de precessão. Usando a mesma razão, o raio polar da Terra equivale à altura da pirâmide.

Resulta que a Grande Pirâmide é um marcador geodésico localizado quase exatamente no 30º paralelo. Se suas medidas fossem projetadas numa superfície plana (com o ápice representando o Polo Norte e o perímetro, o equador) as dimensões do monumento equivaleriam ao Hemisfério Norte, reduzido para, mais uma vez, 1:43.200.

Sabemos que o Sol equinocial leva 4.320 anos para completar um movimento precessional de duas constelações zodiacais ou 60 graus. Esse número multiplicado por cem é igual 43.200, o número de dias que no Calendário Longo Maia equivale a 6 Katuns, um dos valores numéricos chave que os antigos maias usavam quando eles calculavam a precessão. Um ciclo completo de precessão leva 25.800 anos. Se somarmos todos os anos dos cinco ciclos do Popol Vuh, o período de tempo equivale exatamente a um ciclo precessional.

Escondidos dentro da densa selva de Kampuchea, no Camboja, estão os magníficos Templos Hindus de Angkor. Os baixos-relevos e estátuas que abundam no conjunto incluem símbolos precessionais, sendo os mais populares uma serpente gigante (Naga), com seu corpo enrolado em volta de uma montanha sagrada no oceano leitoso, ou Via Láctea. As duas extremidades da serpente estão sendo usadas como corda numa competição cósmica de cabo de guerra entre duas equipes: uma representando a luz e o bem, a outra, as trevas e o mal. Esse movimento, combinado com a rotação da Via Láctea, representa a interpretação hindu da precessão. As Puranas, escrituras sagradas dos hindus, referem-se às quatro idades da Terra como Yugas. Nossa Yuga atual, a Kali Yuga, tem uma duração de 432 mil anos mortais. No final dessa época, as escrituras dizem que a humanidade irá ao encontro da destruição.

Egípcios, maias e hindus antigos — três culturas distintas localizadas em partes distintas do mundo, cada uma existindo num período diferente do nosso passado. Três culturas que compartilhavam um conhecimento avançado da ciência, cosmologia e matemática, e usavam sua sabedoria para criar misteriosas maravilhas arquitetônicas, cada estrutura construída para um único propósito oculto.

As mais velhas entre essas estruturas são as grandes pirâmides de Gize e sua guardiã atemporal, a Esfinge. Localizada a noroeste do templo conhecido como Casa de Osíris, a magnífica figura de calcário do leão com cabeça de gente é a maior escultura do mundo, com a altura de um prédio de seis andares e 73 metros de comprimento. A própria criatura é um marco cósmico, com seu olhar orientado precisamente para o leste, como se esperando o Sol nascer.

Qual a idade do complexo de Gizé? Egiptólogos garantem a data de 2.475 a.C. (um período que, por acaso, se encaixa no folclore egípcio). Por muito tempo, foi difícil discutir isso, pois nem as Grandes Pirâmides nem a Esfinge deixaram nenhum marco determinante.

Era o que pensávamos.

Aparece o estudioso americano John Anthony West. West descobriu que a vala de 7 metros e meio de profundidade que rodeia a Esfinge exibe sinais inconfundíveis de erosão. Investigando mais, um grupo de geólogos determinou que os danos não haviam sido causados pelo vento ou pela areia, mas unicamente pela chuva.

A última vez que o vale do Nilo viu esse tipo de clima foi há uns 13 mil anos, resultado da Grande Inundação que aconteceu no final da última era glacial. No ano 10.450 a.C., Gizé não era apenas fértil e verde, mas seu céu oriental também ficava em frente à própria figura que a Esfinge retrata, a constelação de Leão.

Enquanto tudo isso acontecia, Robert Bauval, engenheiro civil belga, percebeu que as três pirâmides de Gizé (quando vistas do alto) estavam precisamente alinhadas com as três estrelas do cinturão de Órion.

Usando um sofisticado programa de computador projetado para calcular todos os movimentos precessionais de qualquer vista do céu noturno em qualquer localização geográfica, Bauval descobriu que, embora as pirâmides de Gizé e as estrelas do cinturão de Órion estivessem um tanto alinhadas em 2.475 a.C., um alinhamento infinitamente mais preciso havia acontecido em 10.450 a.C. Nessa época, a faixa escura da Via Láctea não só aparecia sobre Gizé, mas espelhava o curso meridional do rio Nilo.

Conforme já mencionei, os antigos maias consideravam a Via Láctea uma serpente cósmica, e chamavam sua faixa escura de Xibalba Be, a Estrada Negra para o Mundo Inferior. Tanto o calendário maia quanto o Popol Vuh se referem aos conceitos de criação e morte como originários desse canal cósmico de nascimento.

Por que as três pirâmides de Gizé estão alinhadas com o cinturão de Órion? Qual o significado do número precessional 4.320? Qual foi a verdadeira motivação que impeliu nossos ancestrais a construir os monumentos de Gizé, as pirâmides de Teotihuacán e os templos de Angkor?

Como esses três locais estão ligados à profecia maia do Juízo Final?

— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,

Ref. Catálogo 1993-94 páginas 3-108

       Disquete 4: Nome do arquivo: ORION-12

 

                   23 DE SETEMBRO DE 2012 , MIAMI, FLÓRIDA

3h30

O sonho de Michael Gabriel se transforma em terror noturno. Pior do que qualquer pesadelo, é um sonho violento e recorrente que toma conta de seu subconsciente — um murmúrio em seu cérebro que o leva de volta a um momento crucial de seu passado.

Ele está de volta ao Peru, um menino de novo, com menos de 12 anos. Olhando pela janela de seu quarto para a sonolenta aldeia de Ingenio, ele escuta as vozes abafadas que vêm do quarto ao lado. Ouve seu pai falando com o médico em espanhol. Ouve seu pai soluçando. A porta se abre. — Michael, entre, por favor.

Mick sente o cheiro da doença. E um cheiro rançoso, um odor de lençóis suados e frascos de soro, de vômito, dor e angústia.

Sua mãe jaz na cama, seu rosto amarelado. Ela o olha com seus olhos melancólicos e aperta-lhe a mão fracamente.

—        Michael, o médico vai te ensinar a administrar os remédios da sua mãe. É muito importante que você preste bastante atenção e faça tudo corretamente.

O médico de cabelos prateados olha para ele.

—        Ele é um pouco jovem, Señor...

—        Mostre a ele.

O médico puxa os lençóis, revelando um cateter venoso central saindo do ombro direito enfaixado de sua mãe. Mike vê o tubo e sente medo.

—        Papai, por favor, a enfermeira não pode...?

—        Não podemos mais pagar a enfermeira, e eu preciso completar o meu trabalho em Nazca, já conversamos sobre isso, filho. Você consegue. Eu vou estar em casa toda noite. Agora se concentre e preste atenção no que o médico vai mostrar.

Mick fica ao lado da cama, olhando de perto o médico enchendo a seringa com morfina. Ele memoriza a dose e sente seu estômago revirar quando a agulha é injetada no cateter, os olhos da mãe virando para cima...

—        Não! Não! Não!

Os gritos de Michael Gabriel acordam todos os internos do núcleo.

 

                   Espaço Profundo

A sonda leve Expresso Plutão-Kuiper voa pelo espaço, há oito anos, dez meses e 13 dias de casa, a apenas 58 dias e 11 horas de seu destino: o planeta Plutão e sua lua, Caronte. Com a aparência de uma antena parabólica high-tech, o aparato científico continua a transmitir seu sinal não codificado para a Terra através de sua antena de alto ganho de um metro e meio.

Sem aviso, um imenso oceano de energia eletromagnética radiante corta o espaço na velocidade da luz, e a porção inferior de um pulso de hiperondas banha o satélite em sua transmissão de alta potência. Num nanossegundo, o subsistema de telecomunicações e os circuitos integrados monolíticos de micro-ondas (CIMMs) são completamente torrados.

 

               NASA: Laboratório de Rede do Espaço Profundo

14h06

Jonathan Lunine, chefe da equipe científica da Expresso Plutão, se apoia numa fileira de bancadas de controles da missão, ouvindo distraidamente oengenheiro, dr. Jeremy Armentrout, dirigindo-se aos novos membros da equipe de terra.

—        ... a antena de alto ganho da EPK transmite continuamente um entre três tons possíveis. Eles se traduzem, essencialmente, como: está tudo bem, os dados estão prontos para a transmissão, ou há um problema sério que precisa de atenção imediata. Nos últimos oito anos, esses sinais foram monitorados por...

Lunine suprime um bocejo. Os três turnos consecutivos de 18 horas se fazem sentir, e ele está mais do que pronto para começar o fim de semana. Mais uma hora na sala de reuniões, depois casa e cochilo. O Redskins pega o Eagles amanhã, esse jogo vai ser bom...

—        Jon, posso falar com você, por favor?

Um técnico está de pé ao lado de seu console, fazendo sinais urgentes. Lunine nota gotas de suor na testa do homem. Os operadores dos dois lados parecem trabalhar febrilmente.

—        Qual a situação?

—        Perdemos contato com a EPK.

—        Vento solar?

—        Desta vez não. Meu painel mostra uma sobrecarga maciça de energia que afeta todo o sistema de comunicações do SDST e dos dois computadores de voo. Sensores, dispositivos eletrônicos, corretores de atitude... tudo inoperante. Pedi uma análise completa de sistemas, mas só Deus sabe como isso está afetando a trajetória da EPK.

—        E os sistemas de reserva?

—        Todos inoperantes.

—        Droga. — Armentrout esfrega a têmpora. — A prioridade, claro, é restabelecer contato. Também é fundamental relocalizar e continuar rastreando a sonda antes que passe muito tempo e a gente perca a EPK no espaço.

—        Você tem alguma sugestão?

—        Lembra quando perdemos contato por um mês com o SOHO no verão de 1998? Conseguimos localizá-lo antes de restabelecer contato. Transmitimos sinais de rádio para o satélite com a antena grande de Arecibo e captamos os ecos com a antena da NASA na Califórnia.

—        Vou ligar para Arecibo.

 

                 Centro Nacional de Astronomia e Ionosfera

Arecibo, Porto Rico

— Entendido, Jon. — Robert Pasquale, diretor de operações de Arecibo, desliga o telefone, depois assoa o nariz pela enésima vez antes de interfonar para seu assistente. — Arthur, venha aqui, por favor.

O astrofísico Arthur Krawitz entra no escritório do diretor.

—        Meu Deus, Bob, você está um trapo.

—        É essa maldita sinusite. Primeiro dia do outono e a minha cabeça já está latejando. Aqueles astrônomos russos já terminaram com a antena grande?

—        Há uns dez minutos. O que aconteceu?

—        Acabei de receber um chamado de emergência da NASA. Parece que eles perderam contato com a Plutão-Kuiper e querem que a gente ajude a localizá-la. Estão mandando as últimas coordenadas válidas da sonda pro seu computador e pedem que a gente use a antena grande pra mandar um feixe de rádio pro espaço. Com sorte, a NASA vai conseguir detectar um eco usando a antena grande de Goldstone.

—        Vou cuidar disso. Ah, e a SETI? Você sabe que o Kenny Wong vai querer ficar na escuta usando os receptores da SERENDIP. Não vai dar problema se...?

—        Ah, Arthur, estou me lixando. Se o garoto quer passar o resto da vida esperando o ET ligar, não tenho nada a ver com isso. Se você precisar de mim, estarei no meu quarto enchendo a cara de remédio.

Quando a Escola de Engenharia da Universidade de Cornell teve a idéia de construir o radiotelescopio mais potente do mundo, procurou durante anos um local que oferecesse uma depressão geológica natural com as dimensões aproximadas de um gigante prato refletor. O local precisava estar sob a jurisdição dos Estados Unidos, e como o prato não se mexeria, sua localização também precisava estar o mais perto possível do equador, para que a Lua e os planetas aparecessem quase totalmente a pino. Essa busca levou ao desfiladeiro de montanhas calcárias de carste do norte de Porto Rico, uma área verdejante e isolada, com vales profundos rodeados por enormes colinas que protegeriam o telescópio de qualquer radiointerferência.

Completado em 1963, com reformas em 1974, 1997 e 2010, o telescópio de Arecibo parece, para quem o visita pela primeira vez, uma enorme estrutura alienígena de aço e concreto. O prato de 300 metros de diâmetro, formado por quase 40 mil painéis perfurados de alumínio, tem o lado côncavo para cima, preenchendo toda a bacia de carste como uma gigante saladeira de 51 metros de profundidade. Pendurados 130 metros acima do centro do prato estão o braço de azimute do radiotelescopio, o telescópio gregoriano e as antenas secundária e terciária. Essa teia de aço de 600 toneladas é mantida suspensa por 12 cabos presos a três imensos obeliscos de sustentação e numerosos blocos de ancoragem localizados no perímetro do vale.

Construído na encosta calcária montanhosa que tem vista para o telescópio, o laboratório de Arecibo é um prédio de concreto que abriga os computadores e equipamentos técnicos usados para controlar a instalação. Ao lado do laboratório ficam quatro andares de dormitórios com refeitório e biblioteca, bem como uma piscina aquecida e uma quadra de tênis.

O gigantesco telescópio de Arecibo foi projetado para ser usado por cientistas em quatro campos diferentes. Radioastrônomos usam a antena para analisar as radioemissões naturais de galáxias, pulsares e outros corpos celestes a até 10 milhões de anos-luz de distância. Astrônomos especializados em radar vêm a Arecibo para lançar poderosos feixes de rádio contra objetos dentro do nosso sistema solar e depois gravar e estudar os ecos. Cientistas atmosféricos e astrônomos usam o telescópio para estudar a ionosfera da Terra, analisando a atmosfera e sua relação dinâmica com o nosso planeta.

O último campo de estudo envolve o programa SETI, ou Busca de Inteligência Extraterrestre. O objetivo da SETI é localizar vida inteligente no cosmos usando a abordagem em duas frentes. A primeira é lançar transmissões de rádio para o espaço profundo na esperança de que um dia alguma espécie inteligente receba nossa mensagem de paz. A segunda usa o telescópio gregoriano e suas duas antenas menores para receber ondas de rádio vindas do espaço profundo, tentando distinguir nelas padrões inteligíveis para provar que não estamos sós no universo.

Os astrônomos se referem à tarefa de buscar sinais de rádio na imensidão do espaço como procurar uma agulha no palheiro cósmico. Para simplificar a busca, o prof. Frank Drake e seus colegas do Projeto Ozma, fundadores da SETI, concluíram que qualquer vida inteligente existente no cosmos teria (logicamente) que ser associada à água. Com tantas frequências de rádio à disposição, os astrônomos supuseram que uma inteligência extraterrestre emitiria seus sinais de rádio em 1,42 gigahertz, o ponto do espectro eletromagnético no qual a energia é liberada pelo hidrogênio. Drake batizou essa região de espectro de olho-d'água, e desde então ela tem sido o único alvo da caça por sinais de rádio interestelares.

Um projeto adjunto da SETI é a SERENDIP, ou Busca por Emissões de Rádio Extraterrestre de Populações Próximas Desenvolvidas e Inteligentes. Como o tempo de telescópio é caro e difícil de se obter, a SERENDIP simplesmente acopla seus receptores à antena maior durante todas as observações. A principal limitação desses cientistas da SETI é que eles não escolhem o que vão escutar. Seus alvos são escolhidos pelo anfitrião.

Kenny Wong está no terraço localizado à frente das grandes janelas panorâmicas do laboratório. Emburrado, o estudante de graduação de Princeton se apoia no balaústre e olha para o emaranhado de metal e cabos suspensos sobre o centro da grande antena.

Essa porra de NASA. Além de cortar o nosso orçamento, fica monopolizando o telescópiopra localizar aquela droga de sonda...

—        Ei, Kenny...

Captar sinais é perda de tempo se não for no olho-d'água. Eu devia ir à praia, não adianta porra nenhuma ficar aqui...

—        Kenny, vem pra cá, caramba. O seu equipamento está me dando dor de cabeça!

—        Hã?

O estudante corre para dentro do laboratório, seu coração batendo forte quando ele ouve um som que jamais ouviu antes.

—        Essa droga de computador está tocando esse bipe faz cinco minutos. — Arthur Krawitz tira os óculos bifocais e lhe lança um olhar furioso. — Dá pra desligar essa merda? Está me deixando louco.

Kenny o empurra e digita comandos freneticamente para ativar o programa de busca e identificação do computador. O programa SERENDIP-IV consegue examinar simultaneamente 168 milhões de frequências a cada 1,7 segundo.

Em segundos, uma resposta surge na tela, deixando-o sem fôlego.

 

Sinal Candidato: Detectado

 

—        Meu Deus do céu...

Kenny corre para o analisador de espectro, com o coração latejando em seus ouvidos. Ele verifica que o sinal analógico está sendo gravado e formatado digitalmente.

 

Sinal Candidato: Não Aleatório

 

—        Jesus Cristo... é um sinal de verdade! Puta que pariu, Arthur, preciso ligar pra alguém, preciso verificá-lo antes que a gente o perca!

Arthur cai na gargalhada.

—        Kenny, é só a sonda Plutão. A NASA deve ter restabelecido a comunicação.

—        O quê? Ah, merda. — Kenny desmorona numa cadeira, sem fôlego. — Meu Deus, por um momento achei...

—        Por um momento, você pareceu o Curly, dos Três Patetas. Fique sentado aí e se acalme enquanto eu ligo pra NASA e verifico, certo?

—        Certo.

O físico aperta uma tecla pré-programada em seu videocomunicador, que o coloca em ligação direta com a NASA. O rosto do dr. Armentrout aparece no monitor.

—        Arthur, é bom ver você. Ei, obrigado por nos ajudar.

—        Obrigado por quê? Vi que já restabeleceram contato com a EPK.

—        Negativo, continua tudo morto aqui. O que te fez pensar isso?

Kenny pula da cadeira.

—        NASA, aqui é Kenny Wong, da SETI. Estamos recebendo uma transmissão de rádio do espaço profundo. Achamos que fosse a EPK.

—        O sinal não é nosso, mas não se esqueça que a sonda Plutão usa onda portadora não codificada. Tem muito engraçadinho por aí, SETI. Qual a frequência do sinal?

—        Um momento. — Kenny volta para o seu computador e digita uma série de comandos. — Caramba, é em 4.320 MHz. Porra, Arthur, essa faixa de micro-ondas é alta demais pra ser de qualquer telecomunicação terrestre, ou mesmo de um satélite geossíncrono. Espere um pouco, vou pôr o sinal nos alto-falantes pra gente ouvir.

—        Kenny, espere...

Um tom agudo perfurante sai dos alto-falantes, a explosão sonora pulveriza os óculos de Arthur e faz as vidraças trepidarem nos caixilhos.

Kenny puxa o cabo, esfregando os ouvidos.

Arthur olha para os cacos de vidro em suas mãos.

—        Inacreditável. Qual a potência do sinal? De onde está vindo?

—        Ainda estou calculando a origem, mas a potência está totalmente fora da minha escala. E um brilho de rádio cerca de mil vezes mais forte do que qualquer coisa que podemos transmitir de Arecibo. — Um arrepio percorre a espinha de Kenny. — Cacete, Arthur, é pra valer, é de verdade!

—        Calma aí um minuto. Antes que a gente vire os Patetas do milênio, comece a verificar o sinal. Comece com o Very Large Array, no Novo México. Vou entrar em contato com a Universidade de Ohio...

—        Arthur...

Krawitz se vira para o videocomunicador.

—        Pode falar, Jeremy.

Meia dúzia de técnicos se aglomeram em volta de um pálido dr. Armentrout.

—        Arthur, acabamos de confirmar o sinal.

—        Vocês confirmaram... — Krawitz se sente meio zonzo, como se estivesse vivendo um sonho. — Já localizaram a origem?

—        Ainda estamos tentando. Estamos recebendo muita interferência por causa da...

—        Arthur, já tenho uma trajetória preliminar! — Kenny está de pé, empolgado. — O sinal está vindo da constelação de Órion, em algum lugar nas proximidades do cinturão.

 

                   Chichén Itzá, Península de Yucatán

16h00

A antiga cidade maia de Chichén Itzá, localizada nas terras baixas da península de Yucatán, é uma das grandes maravilhas arqueológicas do mundo. Várias centenas de construções ocupam esse sítio de 1.200 anos cercado pela selva, incluindo alguns templos e santuários com as esculturas mais intrincadas de toda a Mesoamérica.

As verdadeiras origens da cidade conhecida como Chichén remontam a 435 d.C. Depois de um período de abandono, a cidade foi redescoberta pelos itzás, uma tribo que falava o idioma maia e ocupou a região até o final do século VIII, quando os toltecas migraram para o leste de Teotihuacán. Sob a tutela e liderança do grande mestre, Kukulcán, as duas culturas se fundiram e a cidade floresceu, dominando a região como um centro religioso, cerimonial e cultural. A partida de Kukulcán no século XI levaria à decadência da cidade, seu povo perdido, levado por sua depravação a formas diabólicas de sacrifício humano. Por volta do século XVI, o pouco que restava da cultura havia caído rapidamente sob o domínio dos espanhóis.

Dominando Chichén Itzá está, possivelmente, a estrutura mais magnífica de toda a Mesoamérica: a pirâmide de Kukulcán. Apelidada de El Castillo pelos espanhóis, esse imponente zigurate de nove terraços se ergue quase 30 metros acima de um campo aberto de grama baixa.

Kukulcán é bem mais do que uma pirâmide — é um calendário de pedra. Cada um de seus quatro lados tem 91 degraus. Com a plataforma, o total perfaz 365, igual aos dias do ano.

Para arqueólogos e cientistas, a pirâmide de cor encarnada continua um enigma, pois seu projeto revela um conhecimento de Astronomia e Matemática que rivaliza com o do homem moderno. A estrutura foi geologicamente alinhada de tal maneira que duas vezes ao ano, nos equinócios da primavera e do outono, estranhas sombras começam a ondular ao longo da balaustrada norte. À medida que o sol do fim de tarde se põe, a enorme sombra de um corpo de serpente começa a deslizar pelos degraus até se encontrar com sua cabeça esculpida, que jaz na base da estrutura. (Na primavera, a serpente desce a balaustrada; no outono, a ilusão é invertida.)

No alto da pirâmide fica um templo de quatro lados, inicialmente usado para adoração, e somente mais tarde, depois da partida de Kukulcán, para sacrifícios humanos. Erguida, segundo se acredita, em 830 d.C., Kukulcán foi originalmente construída sobre uma estrutura muito mais antiga, cujas ruínas só podem ser acessadas por meio de um portão localizado na base norte. Uma passagem claustrofóbica leva a uma escada estreita, cujos degraus de calcário ficam lisos com a umidade. Subindo a escada, chega-se a duas pequenas câmaras interiores. A primeira contém a figura reclinada de um Chac Mool, uma estátua maia segurando uma bandeja cerimonial cuja função era conter os corações das vítimas dos sacrifícios. Atrás da cerca de segurança da segunda câmara fica o trono de um jaguar vermelho, com verdes olhos brilhantes de jade.

Brent Nakamura aperta a tecla que elimina imagens tremidas, e então, com sua câmera de vídeo Sony, faz uma panorâmica pelo mar de corpos suados. Meu Deus, deve ter umas 100 mil pessoas aqui. Vou ficar um tempão preso no trânsito.

O rapaz de San Francisco aponta a câmera para a balaustrada norte, fechando o zoom na sombra da cauda da serpente, que continua sua jornada de 202 minutos pela parede calcária da pirâmide de 1.200 anos.

O aroma acre de suor humano paira pesadamente na tarde úmida. Nakamura grava um casal canadense discutindo com dois funcionários do parque, depois desliga a câmera quando um turista alemão e sua família se apertam para passar por ele.

Olhando para o relógio, Nakamura decide que é melhor fazer algumas imagens do cenote sagrado antes que escureça. Depois de passar por cima de uma miríade de pessoas fazendo piquenique, ele ruma para o norte pelo antigo sacbe, um caminho elevado de terra bem perto da face norte de Kukulcán.

O sacbe é o único meio de correr pela densa selva para chegar ao segundo lugar mais sagrado de Chichén Itzá — um poço de água doce conhecido como cenote, ou poço maia de sacrifício.

Cinco minutos de caminhada o levam até a boca do abismo de 58 metros de largura, um lugar onde milhares de virgens morreram sacrificadas. Ele olha para baixo. Dezoito metros abaixo, as águas escuras e infestadas de algas fedem à estagnação.

O som de um trovão distante atrai sua atenção para o céu. Que estranho, não tem uma nuvem no céu. Será que foi um avião a jato? O som fica mais alto. Centenas de turistas se entreolham, inquietos. Uma mulher grita.

Nakamura sente seu corpo tremer. Ele olha para o poço. Círculos estão se formando na superfície antes tranquila. Puta que pariu, é um terremoto1.

Sorrindo entusiasmado, Nakamura aponta a câmera para a boca do cenote. Depois de sobreviver ao grande terremoto de 2005, a psique desse nativo de San Francisco precisa de muito mais do que alguns tremores para se abalar.

A multidão retrocede à medida que o tremor aumenta. Muitos correm pelo sacbe para a saída do parque. Outros gritam quando o chão sob seus pés pula como um trampolim.

Nakamura para de sorrir. Que porra...?

A água dentro do poço forma um redemoinho.

E então, tão abruptamente como começaram, os tremores cessam.

 

                       Hollywood Beach, Flórida

A sinagoga está lotada neste Yom Kippur, o dia mais sagrado do calendário judaico.

Dominique está sentada entre seus pais adotivos, Edie e Iz Axler. O rabino Steinberg está de pé no púlpito, ouvindo a voz angelical de sua chazan, que entoa uma pungente prece para a congregação.

Dominique está com fome, depois de jejuar quase 24 horas desde o início do Dia do Perdão. Ela também está no período pré-menstrual. Talvez por isso esteja tão emocionada, incapaz de se concentrar. Talvez por isso seus pensamentos fiquem voltando para Michael Gabriel.

O rabino começa a ler de novo:

—        No Rosh Hashana, nós refletimos. No Yom Kippur, consideramos. Quem viverá pelo bem dos outros? Quem, morrendo, deixará uma herança de vida? Quem arderá no fogo da ganância? Quem se afogará nas águas do desespero? Quem passará fome para fazer o bem? Quem terá sede de justiça e retidão? Quem sofrerá com o medo do mundo? Quem sufocará por falta de amigos? Quem descansará no final do dia? Quem ficará insone num leito de dor?

Suas emoções se agitam ao imaginar Mick deitado em sua cela. Pare com isso...

—        A língua de quem será uma espada em riste? As palavras de quem vão trazer a paz? Quem seguirá em busca da verdade? Quem ficará trancado na prisão do ego?

Em sua mente, ela vê Mick andando pelo jardim enquanto o sol do equinócio se põe atrás da muralha de concreto.

—        ... os anjos, tomados pelo medo e por tremores, declaram, assombrados: Este é o Dia do Juízo! Pois até as hostes celestes serão julgadas, como todos que habitam a Terra agora estão diante de Vós.

A barragem emocional se abre, as lágrimas quentes mancham seu rosto com a maquiagem. Confusa, ela passa por Iz e corre pelo corredor para fora do templo.

 

                 25 DE SETEMBRO DE 2012, WASHINCTON, DC

Ennis Chaney está exausto. Já se passaram dois anos desde que o senador republicano da Pensilvânia enterrou a mãe, e ele ainda sente imensamente sua falta. Sente falta das visitas ao lar de idosos, onde sempre levava para a mãe seu leitão assado especial, e sente falta de seu sorriso. Também sente falta da irmã, que morreu 11 meses depois de sua mãe, e de seu irmão mais novo, que o câncer lhe roubou no mês passado.

Ele aperta as mãos com força, sua filha mais nova tenta confortá-lo com um carinho nas costas. Quatro longos dias se passaram desde que ele recebeu o telefonema no meio da noite. Quatro dias desde que seu melhor amigo, Jim, morreu de um ataque cardíaco fulminante.

Ele vê, através da janela do salão de jantar, a limusine e o carro dos seguranças parando na entrada. Solta um suspiro. Nenhum descanso para os exaustos, nenhum descanso para os enlutados. Ele puxa para si a esposa e as três filhas, abraça a viúva de Jim mais uma vez e sai da casa, acompanhado pelos dois guarda-costas. Enxuga uma lágrima de seus olhos fundos, o pigmento escuro ao redor das órbitas criando a sombra da máscara de um guaxinim. Os olhos de Chaney são o espelho de sua alma. Eles revelam sua paixão de homem, sua sabedoria de líder. Contrarie-o, e os olhos se tornam adagas fixas.

Ultimamente, os olhos de Chaney têm estado vermelhos de tanto chorar.

Com relutância, o senador se senta no banco de trás da limusine que o aguardava, enquanto os dois guarda-costas entram no outro carro.

Chaney odeia limusines. Aliás, odeia tudo que chama atenção para si ou cheira ao tipo de tratamento preferencial que se associa ao privilégio político. Ele olha pela janela e pensa na sua esposa, perguntando-se se está para cometer um grande erro.

Ennis Chaney nasceu há 67 anos no bairro negro mais pobre de Jacksonville, na Flórida. Foi criado pela mãe, que sustentava a família fazendo faxina nas casas dos brancos, e pela tia, que muitas vezes ele chama de mãe. Nunca conheceu seu verdadeiro pai, um homem que saiu de casa poucos meses depois que ele nasceu. Quando ele tinha 2 anos, sua mãe se casou de novo, e seu padrasto se mudou com a família para New Jersey. Foi ali que o jovem Ennis cresceu. Foi ali que desenvolveu suas habilidades de líder.

A quadra era o único lugar onde Chaney se sentia em casa, o único lugar onde a cor não importava. Embora fosse menor que seus colegas, não se deixava intimidar por ninguém. Depois das aulas, forçava-se a cumprir milhares de horas de treinos, canalizando sua agressão para o desenvolvimento de suas habilidades atléticas, aprendendo também disciplina e autocontrole. Nos últimos anos do colégio, fazia parte do segundo time municipal de futebol como zagueiro e da seleção estadual de basquete. Poucos defensores se atreviam a desafiar o pequeno e valente armador, que preferia lhes quebrar os tornozelos a deixar que roubassem a bola; mas, fora das quadras, não se podia encontrar um jovem mais gentil e afetuoso.

Sua carreira no basquete acabou quando ele lesionou o tendão patelar em seu primeiro ano na universidade. Embora estivesse mais interessado na carreira de treinador, permitiu que sua mãe, uma mulher que crescera na época da segregação, o convencesse a ingressar na arena política. Por também ter convivido o suficiente com o racismo, Ennis sabia que a política era o principal ambiente que precisava de mudanças.

Seu padrasto tinha contatos no Partido Republicano na Filadélfia. Apesar de democrata ferrenho, Chaney acreditava que poderia produzir mais mudanças como candidato republicano. Aplicando a mesma ética de trabalho, a paixão e a intensidade que lhe permitiram brilhar nas quadras esportivas, Ennis rapidamente galgou os degraus mais baixos da política municipal, nunca temendo expressar sua opinião, sempre disposto a se arriscar para ajudar os oprimidos.

Desprezando a preguiça e a falta de autocontrole dos seus pares, ele se tornou uma brisa de ar fresco e uma espécie de herói popular na Filadélfia. O vice-prefeito Chaney logo se tornou o prefeito Chaney. Anos depois, concorreu ao cargo de senador pela Pensilvânia e ganhou disparado.

E agora, a menos de dois meses da eleição de novembro de 2012, o presidente dos Estados Unidos liga para pedir que ele concorra em sua chapa. Ennis Chaney — o garoto miserável de Jacksonville, Flórida —, a um passo do cargo mais poderoso do mundo.

Ele olha pela janela enquanto a limusine vira para a Capital Beltway. A morte apavora Ennis Chaney. Não há como se esconder dela ou argumentar com ela. Ela não traz nenhuma resposta, apenas perguntas e confusão, lágrimas e tributos no enterro, tributos até demais. Como resumir a vida de um ente querido em vinte minutos? Como esperar que se traduza uma vida de afeto em meras palavras?

Vice-presidente. Chaney balança a cabeça, deixando sua mente às voltas com o seu futuro.

Não é o seu futuro que o preocupa, mas o fardo que a candidatura representaria para a sua esposa e a sua família. Ser eleito senador é uma coisa, aceitar a indicação republicana como o primeiro vice-presidente afro-americano é algo totalmente diferente. O último e único negro que teve uma chance legítima de ser eleito para a Casa Branca foi Colin Powell, e o general acabou desistindo, alegando preocupações familiares. Se Maller for reeleito, Chaney será o candidato favorito para 2016. Como Powell, ele sabe que sua popularidade cruza fronteiras políticas e raciais, mas há sempre uma pequena parte da população que, como a morte, não aceita argumentos.

E ele já fez sua família enfrentar tanta coisa.

Chaney também sabe que Pierre Borgia deseja entrar na chapa, e se pergunta até onde o secretário de Estado está disposto a ir para conseguir o que quer. Borgia é tudo o que Chaney não é: impulsivo, interesseiro, motivado politicamente, egoísta, solteiro, pró-guerra — e branco.

Os pensamentos de Chaney voltam para o seu melhor amigo e sua família. Ele chora abertamente, sem se importar nem um pouco com a presença do motorista.

Ennis Chaney demonstra suas emoções facilmente, algo que aprendeu há muito tempo com a mãe. A força interior e a tenacidade para comandar são inúteis se alguém não se permite ter sentimentos, e Chaney tudo sente. Pierre Borgia não sente nada. Criado entre os ricos, o secretário de Estado tem uma visão bitolada da vida, jamais parando para pensar no que o outro lado pode estar sentindo. Esse último fato tem um grande peso para o senador. O mundo se torna um lugar mais complicado e perigoso a cada dia. A paranóia nuclear na Ásia está aumentando. Borgia é a última pessoa que ele quer ver comandando o país numa situação de crise.

—        O senhor está bem, senador?

—        Claro que não. Que pergunta idiota é essa? — A voz de Chaney é áspera e grave, a menos que ele esteja gritando, algo que faz com freqüência.

—        Desculpe, senhor.

—        Cale a boca e dirija.

O motorista sorri. Dean Disangro trabalha para o senador Chaney há 16 anos e o ama como a um pai.

—        Deano, que diabos pode ser tão importante pra NASA me querer no Goddard num domingo?

—        Não faço idéia. O senhor é o senador, eu sou só um subalterno mal pago...

—        Ah, fica quieto. Você é mais bem-informado que a maioria daqueles tontos no Congresso.

—        O senhor é adido da NASA, senador. Se tiveram coragem de convocá-lo durante o fim de semana, é óbvio que algo importante aconteceu.

—        Obrigado, Sherlock. Você tem um monitor de notícias aí?

O motorista lhe passa o aparelho do tamanho de uma prancheta, já ligado no Washington Post. Chaney corre os olhos pelas manchetes e vê os preparativos para os testes nucleares retaliatórios na Ásia. Grozny marcou os testes uma semana antes do Natal. Muito esperto. Sem dúvida queria estragar o espírito natalino.

Chaney joga o monitor para o lado.

—        Como está sua esposa? Está pra dar à luz, não é?

—        Daqui a duas semanas.

—        Maravilha. — Chaney sorri, enxugando outra lágrima de seus olhos injetados.

 

                 NASA: Centro de Vôo Espacial Goddard

Greenbelt, Maryland

O senador Chaney sente sobre si os olhos ansiosos da NASA, da SETI, de Arecibo, e só Deus sabe de quem mais. Ele termina de folhear o relatório de vinte páginas e pigarreia, silenciando a sala de conferências.

—        Vocês têm certeza absoluta de que o sinal de rádio veio do espaço?

—        Sim, senador. — O tom de Brian Dodds, diretor executivo da NASA, é quase de desculpas.

—        Mas não conseguiram determinar a origem exata do sinal?

—        Não, senhor, ainda não. Temos quase certeza de que a fonte está localizada no braço de Órion, o nosso braço na espiral da galáxia. O sinal atravessou a Nebulosa de Órion, uma enorme fonte de interferência, o que torna difícil determinar exatamente quanto viajou. Presumindo que tenha vindo de um planeta dentro do cinturão de Órion, podemos considerar uma distância mínima entre 1.500 e 1.800 anos-luz da Terra.

—        E esse sinal durou três horas?

—        Três horas e 22 minutos, para ser exato, senador — Kenny Wong exclama, levantando-se.

Chaney, com um gesto, indica que ele se sente.

—        E não houve outros sinais, sr. Dodds?

—        Não, senhor, mas continuaremos monitorando a freqüência e a direção do sinal.

—        Muito bem. Imaginando que o sinal seja real, quais são as implicações?

—        Bem, senhor, a implicação mais óbvia e entusiasmante é que agora temos a prova de que não estamos sós, de que existe pelo menos mais uma forma de vida inteligente em algum lugar da nossa galáxia. Nosso próximo passo é determinar se padrões ou algoritmos específicos estão ocultos dentro do próprio sinal.

—        Você acha que o sinal pode conter alguma espécie de comunicação?

—        Achamos bastante possível. Senador, este não é um sinal aleatório viajando pela galáxia. O feixe foi propositalmente direcionado para o nosso sistema solar. Existe outra inteligência que sabe que estamos aqui. Dirigindo o sinal para a Terra, estão nos avisando que existem.

—        Uma espécie de "Oi, como vai" entre vizinhos, é isso?

O diretor da NASA sorri.

—        Sim, senhor.

—        E quando o seu pessoal vai terminar a análise?

—        Difícil dizer. Se um algoritmo alienígena existe, estou confiante que nos¬sos computadores e nossa equipe de matemáticos e criptógrafos vai encontrá-lo. Mesmo assim, pode levar meses, anos. Ou pode nunca acontecer. Como pensar como um extraterrestre? Tudo isso é entusiasmante, mas é muito novo para nós.

—        Isso não é exatamente verdade, certo, sr. Dodds? — Os olhos de gua¬xinim fitam o diretor. — O senhor e eu sabemos que a SETI vem usando o grande radiotelescópio de Arecibo para transmitir mensagens para o espaço há algum tempo.

—        E as redes de televisão têm lançado sinais de TV para o espaço na velocidade da luz desde a estréia do I Love Lucy.

—        Não faça piadinhas, sr. Dodds. Não sou astrônomo, mas li o suficiente para saber que os sinais de TV são fracos demais para chegar a Orion. Quando essa descoberta for anunciada, muita gente vai ficar furiosa e com medo, e insistir que a SETI atraiu esse terror desconhecido.

Dodds silencia as objeções de seus assistentes.

—        Tem razão, senador. As transmissões da SETI são mais potentes, mas os sinais de TV são infinitamente mais amplos, espalhando-se pelo espaço em todas as direções. Entre os dois, é muito mais provável que os sinais de TV alcancem aleatoriamente um receptor do que o feixe estreito de Arecibo. Não se esqueça que o sinal de rádio que detectamos foi produzido por um transmissor alienígena muito superior ao nosso. Precisamos presumir que a inteligência por trás do sinal também tenha receptores capazes de detectar nossos sinais mais fracos.

—        Mesmo assim, sr. Dodds, a realidade da situação é que milhões de pessoas ignorantes vão acordar amanhã morrendo de medo, esperando que homenzinhos verdes invadam suas casas, estuprem suas esposas e raptem seus bebês. Essa situação precisa ser controlada com delicadeza ou vai explodir na nossa cara.

O diretor da NASA balança a cabeça.

—        Por isso chamamos o senhor, senador.

Os olhos fundos perdem um pouco de sua dureza.

—        Muito bem, vamos falar desse novo telescópio que vocês estão propondo. — Chaney folheia sua cópia do relatório. — Aqui diz que a antena teria 48 quilômetros de diâmetro e seria construída no lado escuro da Lua. Isso vai custar uns trocados. Por que diabos precisam construí-lo na Lua?

—        Pelo mesmo motivo que lançamos o Telescópio Hubble. A Terra libera radiointerferência demais. O outro lado da Lua está sempre oposto à Terra, oferecendo uma zona naturalmente livre de sinais de rádio. A idéia é construir a concha no fundo de uma cratera imensa, como foi feito com a concha de Arecibo, só que milhares de vezes maior. Já escolhemos um local: a cratera Saha, que fica só três graus dentro do lado escuro da Lua, perto do equador lunar. Um telescópio lunar vai permitir que nos comuniquemos com a inteligência que fez contato conosco.

—        E por que iríamos querer esse tipo de contato? — A voz de Chaney ecoa pela sala de conferências, perdendo a aspereza ao ficar mais alta. — Sr. Dodds, esse sinal de rádio pode ser a descoberta mais importante da história da humanidade, mas o que a NASA propõe vai assustar a população. E se o povo americano disser que não? E se ele disser que não quer gastar alguns bilhões de dólares pra falar com um ET? Vocês querem enfiar um comprimido bem grande na goela do Congresso.

Brian Dodds conhece Ennis Chaney, e sabe que o homem quer testar sua convicção.

—        Senador, o senhor tem razão. Essa descoberta vai amedrontar muita gente. Mas me deixe dizer o que apavora muitos de nós mais ainda. Temos medo quando pegamos o monitor de notícias e lemos a respeito das armas nucleares do Irã. Temos medo quando lemos sobre a crescente carestia na Rússia ou sobre a acumulação de armas estratégicas na China, outro país capaz de destruir o mundo. Parece que toda nação que sofre de instabilidade política e econômica está armada até os dentes, senador Chaney, e essa realidade é muito mais apavorante do que qualquer sinal de rádio vindo de 1.800 anos-luz de distância.

Dodds fica de pé. Com pouco mais de 1,85 metro e pesando 100 quilos, parece mais um lutador do que um cientista.

—        O que o público precisa entender é que estamos lidando com uma espécie inteligente, muito mais avançada que a nossa, e que conseguiu fazer o primeiro contato. Sejam o que forem, estejam onde estiverem, estão longe demais para nos fazer uma visita. Construindo esse radiotelescópio, poderemos nos comunicar com outra espécie. Com o tempo, poderemos aprender com eles, compartilhar nossas tecnologias e entender melhor o universo, talvez até nossa própria origem. Essa descoberta pode unir a humanidade. Esse projeto pode ser o catalisador que afastará a humanidade da aniquilação nuclear.

Dodds olha Chaney diretamente nos olhos.

—        Senador, um ET ligou, e é de suma importância para o futuro da humanidade que retornemos a ligação.

 

                 26 DE SETEMBRO DE 2012, MIAMI, FLÓRIDA

Cinco internos estão reunidos no núcleo conhecido como 7-C. Dois estão sentados no chão, jogando o que pensam ser xadrez, e outro está dormindo no sofá. O quarto está perto da porta, esperando que um membro de sua equipe de reabilitação chegue para levá-lo até sua sessão matinal de terapia.

O último interno do 7-C está parado diante de um aparelho de TV suspenso acima de sua cabeça. Ele ouve o presidente Maller elogiar o tremendo trabalho dos homens e mulheres da NASA e da SETI. Ouve o presidente falando, empolgado, de paz mundial e cooperação, do programa espacial internacional e o seu impacto sobre o futuro da humanidade. A aurora de uma nova era está chegando, ele anuncia. Não estamos mais sós.

Diferente dos outros bilhões de espectadores que assistem à coletiva ao vivo em todo o mundo, Michael Gabriel não está surpreso com o que está ouvindo, só entristecido. Os olhos de ébano não piscam, o corpo, rígido, não se move. Sua expressão neutra não muda, nem mesmo quando o rosto de Pierre Borgia aparece na tela sobre o ombro esquerdo do presidente. E difícil até saber se Mick está respirando.

Dominique entra no núcleo. Ela para por um momento para observar seu paciente assistindo ao boletim extraordinário enquanto verifica se o gravador preso sob sua camiseta está escondido pelo jaleco branco.

Ela fica ao lado dele, os dois ombro a ombro, agora, diante da televisão, a mão direita dela perto da esquerda dele.

Seus dedos se entrelaçam.

—        Mick, quer ver o resto da coletiva ou podemos conversar?

—        No meu quarto.

Ele a leva pelo corredor e entra no quarto 714. Mick anda pela cela como um animal enjaulado, sua mente sobrecarregada tentando organizar mil detalhes de uma vez.

Dominique se senta na beira da cama, olhando para ele.

—        Você sabia que isso ia acontecer, não sabia? Como? Como você sabia? Mick...

—        Eu não sabia o que ia acontecer, só que algo ia acontecer.

—        Mas você sabia que seria um evento celeste, alguma coisa a ver com o equinócio. Mick, pare de andar, é difícil conversar assim. Venha cá. Senta perto de mim.

Ele hesita, e então se senta ao lado dela. Ela pode ver suas mãos tremendo.

—        Fale comigo.

—        Eu posso sentir, Dom.

—        O que você pode sentir?

—        Não sei... não consigo descrever. Algo está vindo, uma presença. Ainda está distante, mas está se aproximando. Já senti isso antes, mas nunca assim.

Ela toca o cabelo que cobre o pescoço dele, enrolando um grosso cacho castanho em seu dedo.

—        Tente relaxar. Vamos falar dessa transmissão de rádio do espaço. Quero que me conte como sabia que o maior evento na história da humanidade estava pra acontecer.

Ele olha para ela, medo em seus olhos.

—        Isso não é nada. É só o começo do último ato. O maior evento vai acontecer no dia 21 de dezembro, quando bilhões de pessoas vão morrer.

—        E como você sabe? Eu sei o que o calendário maia diz, mas você é inteligente demais pra simplesmente aceitar uma profecia de 3 mil anos sem provas científicas. Me explique os fatos, Mick. Nada de folclore maia, apenas as evidências que comprovam. Ele balança a cabeça.

—        Por isso pedi que você lesse o diário do meu pai.

—        Eu comecei a ler, mas prefiro que você mesmo me explique. Da última vez que conversamos, você me alertou sobre algum tipo de alinhamento galáctico raro em que a Terra ia entrar, começando no equinócio de outono. Me explica isso.

Mick fecha os olhos, respirando lentamente para obrigar seus músculos carregados de adrenalina a se acalmarem.

Dominique consegue ouvir o zumbido do gravador. Ela pigarreia, acobertando o ruído.

Ele reabre os olhos, seu olhar mais suave, agora.

—        Você conhece o Popol Vuh?

—        Eu sei que é o livro maia da criação, o equivalente à nossa Bíblia pra eles.

Ele concorda com a cabeça.

—        Os maias acreditavam em cinco sóis ou cinco Grandes Ciclos da criação, sendo que o quinto e último deve terminar em 21 de dezembro, o dia do solstício de inverno deste ano. De acordo com o Popol Vuh, o universo foi dividido em um Mundo Superior, um Mundo Médio e um Mundo Inferior. O Mundo Superior representa o céu, o paraíso, e o Mundo Médio representa a Terra. Os maias se referiam ao Mundo Inferior como Xibalba, um lugar escuro e terrível que seria governado por Hurakan, o deus da morte. A lenda maia diz que o grande mestre, Kukulcán, estava empenhado numa longa batalha cósmica contra Hurakan, lançando as forças do bem e da luz contra as trevas e o mal. Está escrito que o quarto ciclo teve um fim abrupto quando Hurakan fez um grande dilúvio inundar o mundo. A palavra "furacão" vem do nome maia "Hurakan". Os maias acreditavam que essa entidade demoníaca existia dentro de um violento redemoinho. Os astecas acreditavam na mesma lenda, só que o nome deles para o grande mestre era Quetzalcoatl, e a divindade do mundo inferior era conhecida como Tezcatilpoca, um nome que se traduz como "espelho enfumaçado".

—        Mick, espere. Pare um momento, está bem? Esqueça o mito maia. Preciso que você se concentre nos fatos referentes ao calendário e em como ele se relaciona com essa transmissão do espaço.

Os olhos negros chispam para ela como lasers de ônix, e o olhar faz Dominique se encolher.

—        Não posso discutir os aspectos científicos que confirmam a profecia do Juízo Final sem explicar o mito da criação. Tudo está relacionado. Um paradoxo envolve os maias. A maioria das pessoas acha que os maias eram só um bando de selvagens que moravam na floresta e construíam umas pirâmides legaizinhas. A verdade é que os maias eram astrônomos e matemáticos incríveis, que tinham uma incomensurável compreensão da existência do nosso planeta dentro da galáxia. E foi esse conhecimento que permitiu que eles previssem o alinhamento celeste que levou ao sinal de ontem.

—        Não entendo...

Mick se agita, depois começa a andar pelo quarto de novo.

—        Temos provas que mostram que os maias e seus antepassados, os olmecas, usavam a Via Láctea como um marcador celestial pra calcular o calendário maia. A Via Láctea é uma galáxia espiral com cerca de 100 mil anos-luz de diâmetro, formada por aproximadamente 200 bilhões de estrelas. O nosso Sol está localizado num dos braços espirais, o braço de Orion, a cerca de 35 mil anos-luz do centro da galáxia, que os astrônomos agora acreditam ser um gigantesco buraco negro que atravessa a constelação de Sagitário. O centro da galáxia funciona como uma espécie de ímã celeste, movendo a Via Láctea num vórtice poderoso. Neste exato momento, nosso sistema solar está voando ao redor do ponto central da galáxia a uma velocidade de 217 quilômetros por segundo. Apesar dessa velocidade, a Terra leva 226 milhões de anos pra com¬pletar uma revolução ao redor da Via Láctea.

A fita está acabando.

—        Mick, o sinal...

—Tenha paciência. Ao se mover pela galáxia, nosso sistema solar segue uma trajetória de 14 graus de largura chamada de eclíptica. A eclíptica cruza a Via Láctea de tal forma que periodicamente se alinha com a saliência central da galáxia. Quando olhavam pro céu noturno, os maias viam uma fenda escura, uma faixa escura alongada de densas nuvens interestelares que começava onde a eclíptica cruza a Via Láctea, na constelação de Sagitário. O mito da criação do Popol Vuh se refere a essa fenda escura como Estrada Negra, ou Xibalba Be, um nexo na forma de uma grande serpente que liga a vida e a morte, a Terra e o Mundo Inferior.

—        Já falei, tudo isso é fascinante, mas que relação tem com o sinal de rádio vindo do espaço?

Mick para de andar.

—        Dominique, esse sinal de rádio não foi só uma transmissão aleatória lançada através do universo. Foi propositalmente direcionado pro nosso sistema solar. Do ponto de vista tecnológico, você não pode simplesmente transmitir um feixe de rádio do outro lado da galáxia e torcer pra que ele alcance um determinado grão de poeira planetário como a Terra. Quanto mais o feixe viaja, mais o sinal se distorce e perde a força. A transmissão de rádio que a SETI detectou era um feixe muito poderoso, preciso e estreito. Pelo menos pra mim, isso indica que quem quer, ou o que quer que o tenha mandado precisou de um alinhamento galáctico particular, uma espécie de corredor celeste que dirigisse a transmissão de sua origem até a Terra. Essencialmente, o sinal viajou dentro de uma espécie de corredor cósmico. Não sei explicar por que nem como, mas senti quando o portal desse corredor começou a se abrir.

Dominique vê o medo nos olhos dele.

—        Você sentiu que ele se abria? O que sentiu?

—        Era uma sensação repugnante, como de dedos gelados se movendo dentro do meu intestino.

—        E você acredita que esse corredor cósmico se abriu só o suficiente pra permitir a passagem do sinal?

—        Sim, e o portal está se alargando um pouco mais a cada dia. No solstício de dezembro, vai se abrir completamente.

—        O solstício de dezembro. O Dia do Juízo maia?

—        Isso mesmo. Os astrônomos já sabem há anos que o nosso Sol vai se alinhar com o ponto exato do centro da galáxia em 21 de dezembro de 2012, o último dia do quinto ciclo do calendário. Ao mesmo tempo, a fenda escura da Via Láctea vai entrar em alinhamento com o nosso horizonte oriental, aparecendo diretamente sobre a cidade maia de Chichén Itzá à meia-noite do solstício. Essa combinação de eventos galácticos acontece somente uma vez a cada 25.800 anos, e mesmo assim, de alguma forma, os maias foram capazes de prever o alinhamento.

—        E a transmissão vinda do espaço, qual a finalidade dela?

—        Não sei, mas é um presságio de morte. Justifique a esquizofrenia dele. Culpe os pais.

—        Mick, eu acho que, à parte um episódio isolado de violência, seu aprisionamento constante tem mais a ver com sua crença fanática no apocalipse, que é uma crença compartilhada por dezenas de milhões de pessoas. Quando você diz que a humanidade está perto do fim, o que eu ouço é um credo que provavelmente foi martelado em você desde que nasceu. Não seria possível que seus pais...

—        Meus pais não eram fanáticos religiosos nem arautos do milênio. Não passavam o tempo construindo abrigos subterrâneos. Não amontoavam armamentos pesados e comida se preparando pro Dia do Juízo. Aliás, eles não acreditavam no Segundo Advento de Cristo, nem do Messias, e não acusavam qualquer líder mundial autocrático de bigodinho de ser o Anticristo. Eles eram arqueólogos, Dominique. Cientistas inteligentes o bastante pra não ignorar os marcos que apontam pra um desastre que aniquilará toda a nossa espécie. Chame de Armagedom, chame de Apocalipse, de profecia maia, do que você preferir, mas me tire daqui pra que eu possa fazer alguma coisa pra impedi-lo!

—        Mick, fique calmo. Sei que você está frustrado, mas estou tentando te ajudar, mais do que imagina. Só que pra conseguir sua alta, preciso pedir outra avaliação psiquiátrica.

—        Quanto tempo isso vai levar?

—        Não sei.

—        Meu Deus... — Ele anda mais rápido.

—        Digamos que você fosse solto amanhã. O que faria? Pra onde iria?

—        Pra Chichén Itzá. A única chance que temos de nos salvar é conseguir entrar na pirâmide de Kukulcán.

—        O que há dentro da pirâmide?

—        Não sei. Ninguém sabe. Nunca ninguém encontrou a entrada.

—        Então como...

—        Porque sinto que há algo lá dentro. Não me pergunte como, eu sinto e pronto. É como quando você está andando na rua e consegue sentir que alguém está te seguindo.

—        Os membros da junta vão querer algo mais palpável do que uma sensação.

Mick pára de andar e lhe lança um olhar exasperado.

—        Por isso pedi que você lesse o diário do meu pai. Duas estruturas em Chichén Itzá estão ligadas à nossa salvação. A primeira é o Grande Campo, que foi alinhado precisamente pra espelhar Xibalba Be, a fenda escura da Via Láctea, do jeito como ela vai aparecer em 4 Ahau, 3 Kankin. A segunda é a pirâmide de Kukulcán, a estrutura mais importante de toda a profecia do fim do mundo. A cada equinócio, a sombra de uma serpente aparece na balaustrada norte da pirâmide. Meu pai acreditava que esse efeito era um aviso que Kukulcán nos deixou, representando a ascensão do mal sobre a humanidade. A sombra dura exatamente três horas e 22 minutos. O mesmo intervalo de tempo da transmissão vinda do espaço.

—        Tem certeza disso? — Lembre-se de verificar esses fatos no seu relatório.

—        A mesma certeza de que estou aqui, na sua frente, apodrecendo nesta cela. — Ele começa a andar de novo.

Ela ouve o clique do gravador se desligando quando a fita chega ao fim.

—        Dom, a CNN deu outra notícia, só peguei o final dela. Algo sobre um terremoto na bacia de Yucatán. Preciso descobrir o que aconteceu. Preciso saber se o terremoto se originou em Chichén Itzá ou no Golfo do México.

—        Por que o Golfo?

—        Você não leu nem a parte do diário que fala dos mapas de Piri Reis?

—        Desculpe. Estou muito sem tempo.

—        Meu Deus, Dom, se você fosse minha residente, já tinha te mandado embora. Piri Reis era um famoso almirante turco que, no final do século XIV, de alguma forma teve acesso a uma série de misteriosos mapas do mundo. Usando-os como referência, o almirante criou um conjunto de mapas que os historiadores agora acreditam que foram usados por Cristóvão Colombo pra navegar pelo Atlântico.

—        Espere, esses mapas existiram mesmo?

—        Claro que existiram. E revelam detalhes topográficos que só poderiam ter sido detectados usando sondas sísmicas sofisticadas. Por exemplo, a costa da Antártida aparece como se não existisse nenhuma calota polar.

—        O que tem de tão significativo nisso?

—        Dom, o mapa tem mais de quinhentos anos. A Antártida só foi descoberta em 1818.

Ela olha para ele, sem saber em que acreditar.

—        Se duvida de mim, fale com a Marinha dos Estados Unidos. Foi a análise deles que confirmou a precisão da cartografia.

—        E o que esse mapa tem a ver com o Golfo ou com a profecia do fim do mundo?

—        Há 15 anos, meu pai e eu localizamos um mapa parecido, só que esse era um original de milhares de anos atrás, como aquele que Piri Reis encontrou. Ele estava selado num recipiente de irídio, enterrado num local preciso do platô de Nazca. Consegui tirar uma Polaroid antes que o pergaminho se desfizesse. Você pode ver a foto no final do diário do meu pai. Quando a vir, você vai notar uma área com um círculo vermelho, no Golfo do México, um pouco ao norte da península de Yucatán.

—        O que o círculo representa?

—        Não sei. Encerre a conversa.

—        Mick, não duvido de nada que você me contou, mas e se... bom, e se essa transmissão não tiver nada a ver com a profecia maia? A NASA diz que o sinal se originou em algum ponto distante, a mais de 1.800 anos-luz daqui.

Isso deve te tranqüilizar, certo? Afinal, convenhamos — ela sorri —, é meio improvável que algum extraterrestre chegue do cinturão de Órion nos próximos sessenta dias.

Os olhos de Mick ficam esbugalhados, enormes. Ele recua, apertando as têmporas com as duas mãos.

Merda, ele surtou. Você o pressionou demais.

—        Mick, o que foi? Você está bem?

Ele ergue um dedo, pedindo que ela se afaste, que fique em silêncio.

Dominique o vê ajoelhando-se no chão, seus olhos — janelas escuras para uma mente que rodopia a mil quilômetros por hora. Talvez você esteja enganada sobre ele. Talvez ele seja mesmo doido.

O longo momento passa. Mick ergue a cabeça, e a intensidade de seu olhar é positivamente assustadora.

—        Tem razão, Dominique. Você tem toda a razão — murmura ele. — Seja o que for, aquilo que está predestinado a erradicar a humanidade não vai chegar do espaço. Está no Golfo. Já está aqui.

 

                      Diário de Julius Gabriel

Para melhor entender e finalmente desvendar os mistérios que cercam o calendário maia e sua profecia do fim do mundo, é preciso explorar as origens das primeiras culturas que ganharam destaque no Yucatán.

Os primeiros mesoamericanos eram seminômades e apareceram na América Central por volta de 4.000 a.C. Finalmente, tornaram-se fazendeiros, desenvolvendo o milho, um híbrido da grama selvagem, bem como abacate, tomates e abóbora.

Então, por volta de 2.500 a.C., Ele chegou.

Ele era um caucasiano de rosto alongado, com barba e cabelo brancos e compridos, um sábio que, de acordo com a lenda, chegou por mar às planícies tropicais do Golfo do México para educar e transmitir grande sabedoria aos nativos da região.

Atualmente nos referimos a esses nativos educados como os olmecas (que significa: moradores da terra da borracha), e eles acabaram se tornando a "Cultura Mãe" de toda a Mesoamérica, a primeira sociedade complexa das Américas. Sob a influencia do "homem barbado", os olmecas unificaram a região do Golfo, e suas realizações na Astronomia, Matemática e Arquitetura influenciaram os zapotecas, maias, toltecas e astecas — culturas que acabaram tomando o poder nos milênios seguintes.

Quase da noite para o dia, esses simples fazendeiros que moravam na selva começaram a estabelecer estruturas complexas e grandes centros cerimoniais. Técnicas avançadas de Engenharia foram incorporadas aos projetos arquitetônicos e obras públicas de arte. Foram os olmecas que originaram o antigo jogo de bola, bem como o primeiro método de registrar os eventos. Eles também criaram grandes cabeças monolíticas de basalto, de 3 metros de altura, muitas delas pesando até 30 toneladas cada. Como essas enormes cabeças olmecas eram transportadas continua sendo um mistério.

Mais importante, os olmecas foram a primeira cultura mesoamericana a erguer pirâmides usando um conhecimento avançado de Astronomia e Matemática. São essas estruturas, alinhadas com as constelações, que revelam o entendimento que os olmecas tinham da precessão, uma descoberta que deu origem ao mito da criação registrado no Popol Vuh.

Portanto, foram os olmecas, e não os maias, que usaram seus inexplicáveis conhecimentos de Astronomia para criar o Calendário Longo e sua fatídica profecia.

No âmago do calendário do fim do mundo está o mito da criação, o relato histórico de uma batalha contínua da luz e do bem contra as trevas e o mal. O herói da história, Um Hunahpu, é um guerreiro capaz de acessar a Estrada Negra (Xibalba Be). Para os indígenas mesoamericanos, Xibalba Be equivalia à fenda escura da Via Láctea. O portal para Xibalba Be era representado, tanto nos artefatos olmecas quanto nos maias, como a boca de uma grande serpente.

Podemos imaginar os olmecas primitivos olhando para o céu noturno, apontando para a fenda escura da galáxia como uma serpente cósmica.

Por volta de 100 a.C., por motivos ainda desconhecidos, os olmecas decidiram abandonar suas cidades e se dividir em dois acampamentos, diversificando-se em duas regiões distintas. Aqueles que se mudaram para o oeste, na direção do centro do México, ficaram conhecidos como toltecas. Aqueles que foram para o leste ocuparam as selvas do Yucatán, Belize e Guatemala, e se denominaram maias. Só em 900 d.C. as duas civilizações se reunificaram sob a influência do grande mestre, Kukulcán, em sua majestosa cidade de Chichón Itzá.

Mas estou me adiantando demais.

Cambridge, 1969. Foi dali que meus dois colegas e eu partimos para desvendar os mistérios da profecia maia. Por unanimidade, decidimos que nossa primeira parada deveria ser o sítio olmeca de La Venta, pois foi ali, vinte anos antes, que o arqueólogo americano Matthew Stirling trouxe à luz a sua mais assombrosa descoberta, uma enorme fortificação olmeca, consistindo numa muralha de seiscentas colunas, cada uma pesando mais de 2 toneladas. Adjacente a essa estrutura, o explorador havia localizado uma rocha magnífica, coberta de intrincados entalhes olmecas. Depois de dois dias de trabalho intenso, Stirling e seus homens conseguiram desenterrar a monumental escultura, de 4 metros de altura e 2 metros de largura, e quase um metro de espessura. Embora alguns dos entalhes tivessem sido danificados pela erosão, a imagem de uma figura magnífica permanecia: um grande homem caucasiano de cabeça alongada, nariz adunco e barba branca comprida.

Imagine o choque entre meus colegas arqueólogos ao encontrar uma estátua de 2 mil anos claramente retratando um caucasiano, um artefato criado 1.500 anos antes que o primeiro europeu pusesse o pé nas Américas! Igualmente intrigante era o retrato de um homem barbado entre os olmecas, pois é um fato genético que os ameríndios de sangue puro não têm barba. Como todas as formas de expressão artística devem ter raízes em algo, a identidade do branco barbado era mais um enigma a ser resolvido.

Quanto a mim, imediatamente expus a teoria de que o caucasiano era um ancestral do grande mestre maia Kukulcán.

Não sabemos muito sobre Kukulcán ou seus ancestrais, embora todo grupo mesoamericano pareça ter idolatrado uma divindade masculina que se encaixa na mesma descrição física. Para os maias, ele era Kukulcán, para os astecas, Quetzalcoatl — um lendário sábio barbado que trouxe paz, prosperidade e grande sabedoria para o povo. Registros indicam que, por volta de 1.000 d.C., Kukulcán/Quetzalcoatl foi obrigado a abandonar Chichón Itzá. Reza a lenda que, antes de ir embora, o misterioso sábio prometeu ao seu povo que um dia voltaria para livrar o mundo do mal.

Depois da partida de Kukulcán, uma influência demoníaca se espalhou rapidamente pela região. Tanto os maias quanto os astecas se voltaram para os sacrifícios humanos, matando com selvageria dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças, tudo num esforço para invocar o retorno de seu amado deus-rei e impedir o fim profetizado da humanidade.

Foi no ano de 1519 que o conquistador espanhol Hernán Cortez chegou da Europa para invadir o Yucatán. Embora em vantagem numérica sobre o inimigo, os indígenas mesoamericanos confundiram Cortez (um branco barbado) com o Segundo Advento de KukulcánlQuetzalcoatl e depuseram as armas. Depois de conquistar os selvagens, Cortez mandou chamar os padres espanhóis, os quais, ao chegarem, ficaram horrorizados ao saber dos sacrifícios humanos e de outro ritual chocante: as mães maias estavam atando tábuas de madeira na cabeça dos bebês, na tentativa de deformar o crânio em desenvolvimento dos recém-nascidos. Com o crânio alongado, os maias pareceriam mais divinos, uma crença inspirada, sem dúvida, por indícios de que o grande mestre, Kukulcán, tinha o crânio igualmente alongado.

Proclamando rapidamente a prática maia como uma influência do demônio, os padres espanhóis mandaram queimar vivos os xamãs e converteram o resto dos indígenas ao cristianismo — sob ameaça de morte. Em seguida, os tolos supersticiosos jogaram na fogueira todos os códices maias importantes que existiam. Milhares de volumes de textos foram destruídos — textos que sem dúvida se referiam à profecia do fim do mundo, e poderiam conter instruções vitais, deixadas por Kukulcán, para salvar nossa espécie da aniquilação.

E foi assim que a Igreja, há uns quinhentos anos, tentando salvar nossas almas do diabo, muito provavelmente condenou nossa espécie à ignorância.

Enquanto Borgia e eu discutíamos a identidade do homem barbado retratado na escultura olmeca, nossa colega, a bela Maria Rosen, fez uma descoberta que redirecionaria nossos esforços para longe da América Central, rumo ao trecho seguinte da nossa jornada.

Enquanto escavava um sítio olmeca em La Venta, Maria descobriu um túmulo real e desenterrou os restos de um crânio alongado. Embora esse bizarro crânio, aparentemente não humano, não tivesse sido o primeiro do tipo localizado na Mesoamérica, resultaria ser o único encontrado na pátria olmeca chamada de Santuário da Serpente.

Maria decidiu doar o crânio ao Museu de Antropologia em Mérida. Ao falarmos com o curador, descobrimos, para nossa grande surpresa, que crânios parecidos haviam sido recentemente encontrados em escavações localizadas no platô de Nazca, no Peru.

Será que havia uma ligação entre as civilizações maia e inca?

Nós três nos vimos numa encruzilhada arqueológica. Deveríamos seguir para Chichén Itzá, uma antiga cidade maia crucial para a profecia do fim do mundo, ou deixar o México e seguir a pista no Peru?

O instinto de Maria foi de viajar para a América do Sul, por acreditar que o calendário maia não era senão uma peça importante do quebra-cabeça da profecia. E assim, nós três tomamos um avião para Nazca, sem saber aonde nossa jornada nos levaria.

Enquanto sobrevoávamos o Atlântico, eu refletia sobre algo que o médico em Mérida me revelara. Ao examinar o crânio alongado, o perito médico, homem de boa reputação, declarara, com bastante ênfase, que a maciça deformação óssea daquele espécime em particular não poderia ter sido causada por nenhuma técnica conhecida de alongamento. Para corroborar sua tese, ele pediu que um dentista examinasse os restos dos dentes, e o resultado mostrou algo ainda mais aterrador.

 

Artefato no 114:

crânio alongado — descoberto por Maria Rosen, La Venta, 1969

É fato que os adultos humanos têm 14 dentes na arcada inferior. O crânio alongado que Maria encontrara tinha apenas dez.

— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,

Ref. Catálogo 1969-73 páginas 13-347

       Diário Fotográfico, Disquete 4: Nome do arquivo:

       OLMECA-1-7

 

               9 DE OUTUBRO DE 2012, WASHINGTON, DC

O presidente Mark Maller entra no Salão Oval, vindo de seu escritório particular, e assume seu lugar atrás da mesa. Sentados diante dele estão os membros de gabinete da Casa Branca.

—        Bem, pessoal, vamos lá. Vamos começar falando sobre a indicação de um novo candidato à vice-presidência. Kathie?

A chefe de gabinete, Katherine Gleason, lê de seu laptop.

—        Estes são os resultados de uma pesquisa de opinião pública realizada na última quinta. Quando perguntamos quem eles preferiam ver na chapa do partido, os eleitores registrados preferiram Ennis Chaney a Pierre Borgia por 53% contra 39%. O quesito confiança parece ser o principal fator de motivação. No entanto, quando pedimos que identificassem aquela que achavam a questão central para a eleição de novembro, 89% do público citou o acúmulo de armas estratégicas na Rússia e na China como sua preocupação principal, com apenas 34% dos eleitores registrados interessados na construção de um radiotelescópio na Lua. Numa tradução livre: Chaney vai para a chapa, nós concentramos nossa campanha na estabilização das relações com a Rússia e a China, e o senhor se mantém neutro sobre o radiotelescópio, pelo menos até ser reeleito.

—        De acordo. Alguma novidade na NASA?

—        Sim, senhor — diz Sam Blumner, o principal assessor econômico do presidente. — Analisei o orçamento preliminar da NASA para a construção dessa geringonça na Lua.

—        Qual o tamanho do estrago?

—        Deixe-me colocar a questão desta forma, presidente: o senhor tinha duas chances de ganhar aprovação do Congresso: pouca e nenhuma. E "pouca" foi embora junto com o ex-vice-presidente.

—        Pensei que a NASA tivesse embutido o projeto na proposta da base lunar que já passou pela Comissão de Orçamento.

—        Eles tentaram. Infelizmente, aquela base lunar foi projetada para ser construída do lado de cá da Lua, perto da região polar, onde a NASA localizou formações de gelo, e não do lado escuro. Desculpe o trocadilho, mas em termos orçamentários, a diferença é igual à do dia pra noite, pois os painéis solares não serão mais uma alternativa quando o Sol não estiver brilhando.

Kathie Gleason balança a cabeça em desaprovação.

—        Sam, um dos motivos de o público americano ser tão contrário a essa empreitada é o fato de que a vêem como um projeto internacional. O sinal de rádio não foi transmitido só para os Estados Unidos. Foi recebido por todo o planeta.

—        E no final, ainda serão os Estados Unidos que arcarão com a maior parte da conta.

Cal Calixte, secretário de Imprensa do presidente, levanta a mão.

—        Presidente, na minha opinião, o radiotelescópio nos dá um meio de transferir fundos para a economia da Rússia, especialmente em vista dos cortes recentes do FMI. Talvez o senhor pudesse até ligá-lo ao novo tratado START-V.

—        Disseram a mesma coisa da Estação Espacial Internacional — interrompe Blumner. — Aquele brinquedinho gigante custou 20 bilhões de dólares aos Estados Unidos, mais os bilhões que emprestamos aos russos para que eles pudessem participar. E no fim são os russos que ficam atrasando a conclusão do projeto.

—        Sam, pare de ver tudo do ponto de vista financeiro — diz Kathie. — Essa é uma questão política, não é só um programa espacial. Proteger a democracia russa vale mais do que o próprio telescópio.

—        Democracia? Que democracia? — Blumner afrouxa a gravata. — Uma rápida lição de direitos civis pra você, Kathie. O que nós criamos foi uma economia de extorsão, em que os russos ricos ficam mais ricos, os pobres morrem de fome, e todos parecem estar cagando, contanto que chamemos aquilo de democracia. Os Estados Unidos e o FMI deram bilhões de dólares aos russos. Pra onde foi todo o dinheiro? Do ponto de vista fiscal, minha filha de 3 anos é mais responsável do que o Yeltsin ou o Viktor Grozny jamais foram.

Blumner se vira para o presidente, seu rosto rechonchudo, em tom de vermelho.

—        Antes de começar a distribuir bilhões, temos que ter em mente que esse sinal de rádio vindo do espaço pode muito bem não dar em nada. Pelo que entendi, a NASA ainda não encontrou um padrão subjacente que indique que a transmissão seja uma tentativa genuína de comunicação. E por que ainda não houve nem sinal de uma segunda transmissão?

Cal balança a cabeça.

—        Você não está enxergando a importância disso. O povo de Grozny está com fome. Os tumultos populares estão atingindo proporções perigosas. Não podemos dar as costas pra uma nação desesperada que tem um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo uma dúzia de vezes.

—        Pra mim, ainda é extorsão — diz Blumner. — Estamos criando um projeto de fachada como meio de pagar bilhões de dólares a uma superpotência capenga e aos seus líderes corruptos. E isso só pra que não nos desafiem pra uma guerra nuclear que eles jamais poderiam vencer.

O presidente levanta a mão para fazer um aparte.

—        Mesmo assim, acho que o argumento de Cal tem mérito. O FMI já deixou claro que não dará mais um centavo à Rússia, a menos que o dinheiro seja investido em tecnologias que possam ajudar a impulsionar sua economia. Mesmo se esse sinal de rádio se mostrar inútil, o telescópio dará aos cientistas uma verdadeira oportunidade para explorar o espaço profundo.

—        A gente ajudaria mais o povo russo se abrisse alguns milhares de McDonald's e deixasse todo mundo comer de graça.

Mailer ignora o comentário de Blumner.

—        A reunião do G-9 é daqui a duas semanas. Quero que você e Joyce preparem uma proposta preliminar, usando o radiotelescópio como veículo para direcionar divisas para a Rússia. Na pior das hipóteses, talvez possamos aplacar um pouco a paranóia provocada pelos exercícios nucleares retaliatórios na Ásia.

O presidente se levanta.

—        Cal, pra que hora está marcada a coletiva de hoje à noite?

— Nove horas.

—        Ótimo. Vou me reunir com o novo vice-presidente daqui a uma hora, depois quero que você faça a ele um relatório sobre a reeleição. E diga pra ele fazer a mala. Quero que o Chaney comece a seguir o itinerário da campanha a partir de hoje à noite.

 

                           Universidade Estadual da Flórida

Dominique está sentada no corredor, na porta da sala de sua orientadora, remexendo-se desconfortavelmente sobre um banco de madeira sem estofamento. Ela pondera se deve arriscar mais uma ida ao banheiro, quando a porta da sala se abre.

A dra. Marjorie Owen, com o celular encostado a uma orelha, convida-a a entrar com um gesto apressado. Dominique entra no santuário do atulhado escritório da chefe do departamento e se senta, esperando que sua professora termine de falar ao telefone.

Marjorie Owen leciona psiquiatria clínica há 27 anos. E solteira e livre de compromissos, e seu físico magro e forte de 57 anos é conservado razoavelmente em forma pelo alpinismo. Mulher de poucas palavras, é respeitada e um tanto temida por seus funcionários não efetivados, e tem a reputação de ser rígida com seus alunos de graduação.

A última coisa que Dominique quer é entrar na lista negra dela.

A dra. Owen desliga o telefone, ajeitando seu curto cabelo grisalho atrás da orelha.

—        Muito bem, mocinha, já ouvi sua fita e li seu relatório sobre Michael Gabriel.

—        E?

—        E o quê? Ele é exatamente o que o dr. Foletta diz, um paranóico-esquizofrênico com um QI incomumente alto. — Ela sorri. — Mas devo acrescentar que é alguém que produz algumas ilusões deliciosas.

—        Mas isso justifica mantê-lo trancafiado? Ele está preso há 11 anos, e não vi nenhuma prova de comportamento criminoso.

—        De acordo com o dossiê que você me mostrou, o dr. Foletta acaba de completar sua avaliação anual, uma avaliação que você assinou. Se tinha alguma objeção, deveria tê-la apresentado na ocasião.

—        Só depois percebi isso. Tem alguma coisa que você possa me recomendar, algo que eu possa fazer para questionar as recomendações de Foletta?

—        Quer questionar a avaliação do seu supervisor? Baseada em quê?

Lá vamos nós...

—        Baseada na minha convicção pessoal de que... bem, de que as alegações do paciente merecem ser investigadas.

A dra. Owen encara Dominique com seu famigerado "olhar perplexo", um olhar que já destruiu as esperanças de formatura de muitos alunos.

—        Mocinha, está me dizendo que o sr. Gabriel realmente te convenceu de que o mundo vai acabar?

Meu Deus, estou ferrada...

—        Não, senhora, mas ele parecia saber sobre o sinal de rádio vindo do espaço e...

—        Não, na verdade, de acordo com a fita, ele não fazia idéia do que ia acontecer, só de que algo ia acontecer no equinócio.

O olhar silencioso volta, fazendo gotas de suor aparecerem nas axilas de Dominique.

—        Dra. Owen, minha única preocupação é garantir que meu paciente esteja recebendo os melhores cuidados possíveis. Ao mesmo tempo, também me preocupa que... bom, que ele talvez não tenha sido avaliado com justiça.

—        Entendo. Então me deixe recapitular. Depois de trabalhar com seu primeiro paciente por quase um mês... — Owen verifica suas anotações. — Não, espere, engano meu, na verdade faz mais de um mês. Cinco semanas, pra ser exata. — A dra. Owen anda até a porta da sala e a fecha com autoridade. — Cinco semanas inteiras de trabalho, e você não só questiona os últimos 11 anos do tratamento do paciente, mas está disposta a desafiar o diretor do Centro, esperando devolver o sr. Gabriel à sociedade.

—        Sei que sou só uma residente, mas, se vejo algo que não está certo, não tenho a obrigação moral e profissional de denunciar?

—        Certo. Então, baseada em sua infinita experiência na área, você acha que o dr. Anthony Foletta, um psiquiatra clínico respeitado, é incapaz de avaliar adequadamente o seu paciente. É isso?

Não responda. Morda a língua.

—        Não fique aí mordendo a língua. Responda.

—        Sim, senhora.

Owen se senta na beirada de sua mesa, posicionando-se propositalmente acima de sua aluna.

—        Me deixe dizer o que eu acho, mocinha. Eu acho que você perdeu a sua objetividade. Acho que cometeu o erro de se envolver emocionalmente com o paciente.

—        Não, senhora, eu...

—        Ele é esperto, não resta dúvida. Ao contar pra sua nova e jovem psiquiatra, uma mulher, que foi molestado sexualmente na prisão, ele esperava atingir um ponto fraco, e atingiu. Acorde, Dominique. Não percebe o que está acontecendo? Você está se identificando emocionalmente com o seu paciente por causa do seu próprio trauma de infância. Mas o sr. Gabriel não foi sodomizado por um primo durante três anos, foi? Ele não foi espancado quase até a morte...

Cala a boca, cala a porra da boca...

—        Muitas mulheres que passaram por experiências como a sua costumam lidar com os sintomas pós-traumáticos aderindo a movimentos feministas ou aprendendo defesa pessoal, como você fez. Escolher a psiquiatria clínica como profissão foi um erro se você planeja usá-la como sua terapia alternativa. Como pode esperar ajudar seus pacientes se você se deixa envolver emocionalmente?

—        Sei o que está dizendo, mas...

—        Mas nada. — Owen balança a cabeça. — Na minha opinião, você já perdeu a objetividade. Pelo amor de Deus, Dominique, esse maluco te convenceu de que todas as pessoas do mundo vão morrer daqui a dez semanas.

Dominique enxuga as lágrimas dos olhos e sufoca uma risada. É verdade. Mick mexeu tanto com ela emocionalmente que ela não estava mais apenas ouvindo o que ele dizia como parte da terapia. Estava se deixando cooptar pelas ilusões apocalípticas do paciente.

—        Estou me sentindo envergonhada.

—        É pra ficar envergonhada mesmo. Ao sentir pena do sr. Gabriel, você estragou a dinâmica do relacionamento médico-paciente. Isso me obriga a falar com o dr. Foletta e intervir em nome do sr. Gabriel.

Cacete.

—        O que a senhora vai fazer?

—        Vou solicitar que o Foletta transfira você para outro interno. Imediatamente.

 

                     Miami, Flórida

Mick Gabriel está andando no jardim há seis horas.

Andando no piloto automático, ele desvia dos mentalmente incapazes e criminalmente loucos enquanto sua mente se concentra em reorganizar as peças do quebra-cabeça da profecia que flutuam em seu cérebro.

O sinal de rádio e a descida da serpente emplumada. A fenda escura e Xi-balba. Não cometa o erro de amontoar tudo junto. Separe causas e ações, morte e salvação, bem e mal. Duas facções estão agindo aqui, duas entidades diferentes envolvidas na profecia maia. O bem e o mal, o mal e o bem. O que é bom? Avisos são bons. O calendário maia é um aviso, como também são os desenhos de Nazca e a sombra equinocial da serpente na pirâmide de Kukulcán. Cada um desses avisos deixado por um sábio caucasiano barbado, e todos anunciando a chegada do mal. Mas o mal já está aqui, já estava aqui. Já o senti antes, mas nunca assim. Será que essa transmissão do espaço o ativou? Reforçou-o de alguma forma? Nesse caso, onde ele está?

Ele pára, deixando o sol do fim de tarde aquecer seu rosto.

Xibalba — o Mundo Inferior. Posso sentir a Estrada Negra que leva ao Mundo Inferior ficando mais forte. O Popol Vuh alega que os Senhores do Mundo Inferior influenciaram o mal na Terra. Como isso é possível... a menos que a presença malévola na Terra tenha estado sempre aqui?

Mick abre os olhos.

E se ela não esteve sempre aqui? E se chegou há muito tempo, antes da evolução do homem? E se estava dormente, esperando que essa transmissão a acordasse?

O alarme das cinco no alto-falante, anunciando o jantar, desperta uma lembrança distante. Mick se imagina de volta ao deserto de Nazca, vasculhando o platô com seu detector de metais. O alarme elétrico do detector o fez cavar na areia macia e amarela, com seu pai, adoentado, ao seu lado.

Em sua mente, ele desenterra o recipiente de irídio, retirando dele o antigo mapa. Concentrando-se no círculo vermelho... Demarcando o misterioso local no Golfo do México.

O Golfo do México... o recipiente — feito de irídio! Seus olhos se arregalam, incrédulos.

—        Puta merda, Gabriel, como você pôde ser tão cego!

Mick sobe correndo os dois lances da escada de concreto até o mezanino e anexo de terapia do terceiro andar. Ele empurra vários internos e entra na sala de computadores.

Uma mulher de meia-idade o recebe.

—        Olá. Meu nome é Dorothy, sou a...

—        Preciso usar um dos computadores!

Ela vai até o seu laptop.

—        Qual o seu nome?

—        Gabriel. Michael Gabriel. Procure por Foletta.

Mick vê um terminal ligado. Sem esperar, se senta, e então nota que o sistema de comando de voz não está funcionando. Usando o mouse, ele ativa a conexão com a Internet.

—        Um momento, sr. Gabriel. Temos regras aqui. Não pode simplesmente ir usando o computador. Precisa obter permissão do seu...

 

Acesso Negado. Por Favor. Digite a Senha.

 

—        Preciso da senha, Dorothy. Só vai levar um minuto. Pode me dar sua senha, por favor?

—        Não, sr. Gabriel, nada de senha. Há três internos na sua frente, e vou precisar falar com o seu terapeuta. Depois posso...

Mick olha para o crachá da mulher: DOROTHY HIGGINS, No G45927. Ele começa a digitar senhas.

—... marcar um horário pro senhor. Está me ouvindo, sr. Gabriel? O que está fazendo? Ei, pare com...

Uma dúzia de senhas não dão resultado. Ele olha novamente para o crachá.

—        Dorothy. Que nome bonito. Seus pais gostam de O Mágico de Oz, Dorothy?

Sua expressão de assombro a denuncia. Mick digita OZG45927.

 

Senha Inválida.

 

—        Pare com essa bobagem agora mesmo, sr. Gabriel, ou vou chamar a segurança.

—        A Bruxa Má, o Homem de Lata, o Espantalho... Vamos perguntar ao Mágico. — Ele digita MAG45927.

 

Conectando à Internet...

 

—        Já chega. Vou chamar a segurança!

Mick a ignora enquanto busca na Web, digitando CRATERA DE CHICXULUB enquanto se lembra das palavras que disse a Dominique. O maior evento da História vai acontecer em 21 de dezembro, quando a humanidade vai ao encontro da destruição. Não é exatamente verdade, ele percebe agora. O maior evento da História, pelo menos até agora, aconteceu há 65 milhões de anos, e o local foi o Golfo do México.

O primeiro arquivo aparece na tela. Sem se dar ao trabalho de ler, ele aperta IMPRIMIR TUDO.

Ele ouve a segurança se aproximando no corredor ao lado. Vamos, vamos...

Mick arranca as três páginas impressas e as enfia no bolso da calça enquanto vários vigias entram na sala de computadores.

—        Pedi três vezes que ele se retirasse. Ele conseguiu até roubar minha senha.

—        A gente cuida disso, madame. — O ruivo musculoso acena para seus dois homens, que agarram Mick pelos braços.

Mick não oferece resistência e o ruivo se adianta, seu rosto bem próximo ao dele.

—        Interno, pediram que você saísse desta sala. Algum problema com isso?

Mick vê com o canto do olho o dr. Foletta entrar na sala. Ele olha para o crachá do vigia e abre um sorriso para o ruivo.

—        Sabe, Raymond, não adianta ficar se matando na academia, você nunca vai pegar mulher com esse bafo de alho...

Foletta se aproxima.

—        Raymond, não...

O soco atinge em cheio o plexo solar de Mick, expulsando o ar de seus pulmões. Ele cai para a frente, dobrado pela dor, seu corpo ainda sustentado pelos dois vigias.

—        Caramba, Raymond, mandei esperar!

—        Desculpe, achei que o senhor...

Mick recobra o equilíbrio e num só movimento curva as costas, levanta os joelhos até o peito antes de estender as pernas para a frente e enfia os calcanhares de seus tênis com toda a força no rosto do ruivo, esmaga o nariz e o lábio superior do homem, fazendo o sangue espirrar longe.

Raymond desaba no chão de uma vez.

Foletta se inclina sobre o vigia aturdido, olhando para o rosto dele.

—        Isso foi desnecessário, Mick.

—        Olho por olho, doutor.

Mais dois enfermeiros entram, empunhando Tasers. Foletta balança a cabeça.

—        Acompanhem o sr. Gabriel para o seu quarto, depois mandem um médico cuidar deste idiota.

 

Já é tarde quando Dominique pára seu Pronto Spyder preto no estacionamento do Centro. Ela entra no saguão e passa o crachá magnético no primeiro bloqueio de segurança.

—        Não vai funcionar, gatinha. A voz é fraca e um tanto abafada.

—        Raymond, é você? — Dominique mal consegue ver o ruivo grandalhão pelo portão da segurança.

—        Use a varredura facial.

Ela digita o código, pressiona o rosto contra a moldura de borracha e o raio infravermelho percorre seu rosto. O portão se abre.

Raymond está jogado em sua cadeira. Uma bandagem pesada envolve o seu rosto, cobrindo o nariz. Seus dois olhos estão pretos.

—        Meu Deus, Ray, o que aconteceu com você?

—        A porra do teu paciente surtou na sala de computadores e me deu um pontapé na cara. O filho da puta quebrou o meu nariz e amoleceu dois dentes.

—        O Mick fez isso? Por quê?

—        Como é que eu vou saber? O cara é um psicopata, cacete. Olha pra mim, Dominique. E agora, como vou competir no concurso de Mr. Flórida deste jeito? Juro por Deus que pego aquele filho da puta, nem que seja a última coisa que eu...

—        Não, senhor. Não vai fazer nada com ele. E se algo acontecer, não vou pensar duas vezes antes de te entregar à polícia.

Raymond se inclina para a frente, ameaçador.

—        É assim que vai ser entre a gente? Primeiro você me despreza, depois manda me prender?

—        Ei, não desprezei você. Eu estava em reunião com o Foletta. Você é que foi transferido pro turno da noite. Quanto ao Michael Gabriel, ele é meu paciente, e não vou permitir...

—        Não é mais. O Foletta recebeu um telefonema da tua orientadora hoje à tarde. Parece que o teu rol de pacientes aqui vai mudar.

Cacete, Owen, precisa ser sempre tão eficiente?

—        O Foletta ainda está aqui?

—        A esta hora? Você está brincando.

—        Ray, escute, sei que você está bravo com o Mick, mas... quero fazer um acordo com você. Fique longe dele e... e eu te ajudo a se preparar pro concurso de fisiculturismo. Vou até aplicar maquiagem nesses seus olhos de guaxinim pra não assustar os juízes.

Raymond cruza os braços sobre o peito inchado.

—        Não basta. Você ainda me deve um encontro. — Ele abre um sorriso mostrando os dentes amarelos. — E não vai ser só um jantarzinho italiano. Quero me divertir, sabe, dançar um pouco, namorar um pouco...

—        Um encontro, só isso, e não quero saber de namorar.

— Me dá uma chance, gatinha. Eu acabo envolvendo as pessoas.

Como micose de pele.

—        Um encontro, e você fica longe do Gabriel.

—        Combinado.

Ela passa pelo bloqueio de segurança e entra no elevador.

Raymond a admira indo embora, seus olhos cheios de desejo focados no contorno dos glúteos dela.

Só um vigia está de serviço no sétimo andar, e sua atenção está concentrada no campeonato da Liga Nacional.

—        Olá, Marvis. Quem está ganhando?

Marvis Jones desvia o olhar da TV.

—        O Cubs está com dois de vantagem no final do oitavo inning. O que faz aqui tão tarde?

—        Vim ver meu paciente.

Marvis parece preocupado.

—        Não sei, Dom. É meio tarde... — O barulho da multidão o obriga a olhar para a tela. — Que bosta, o Phillies acaba de empatar.

—        Vamos, Marvis.

Marvis olha para o relógio.

—        Já sei. Vou fechar você na cela dele por 15 minutos, mas você sai quando a enfermeira entrar pra dar a medicação.

—        Combinado.

O vigia a acompanha até o quarto 714 e lhe entrega a caneta transmissora que aciona o seu bipe.

—        É melhor você levar. Ele estava violento hoje.

—        Não, eu vou ficar bem.

—        Leve a caneta, Dominique, senão não entra.

Ela sabe que não adianta discutir com Marvis, que é tão meticuloso quanto gentil, e enfia o dispositivo no bolso. Marvis ativa o interfone.

—        Interno, você tem visita. Vou deixá-la entrar assim que vir você vestido e sentado na cama. — Marvis olha pela janelinha. — Ele está pronto. Pode entrar. — Marvis abre a porta e a tranca atrás de Dominique.

As luzes no quarto estão fracas. Ela vê uma silhueta escura sentada na cama.

—        Mick, sou eu, Dom. Você está bem?

Mick está apoiado na parede. Dominique vê o rosto dele ao se aproximar, a face esquerda com um feio hematoma e o olho fechado de tão inchado. O coração dela dispara.

—        Meu Deus, o que fizeram com você? — Ela pega uma toalha de rosto, molha na água fria e a aperta contra o rosto dele.

—        Ai.

—        Desculpe. Ponha isto no seu olho. O que aconteceu?

—        De acordo com o relatório oficial, escorreguei no chuveiro. — Ele olha para ela, seu meio sorriso causando dor. — Senti sua falta. Como foram as coisas na universidade?

—        Nada boas. Minha orientadora não acha que estou lidando com as minhas responsabilidades de maneira profissional.

—        Ela acha que eu te perturbo emocionalmente. É isso?

—        Sim. A partir de amanhã vou trabalhar com outro interno. Sinto muito, Mick.

Ele aperta a mão dela e a coloca sobre seu coração.

—        Se faz alguma diferença — ele sussurra —, você foi a única pessoa que conseguiu mexer comigo.

Ela engole o nó na garganta. Não desmorone de novo,

—        O que aconteceu hoje? Vi o que você fez com o Raymond.

—        Ele atacou primeiro.

—        Ouvi dizer que você não queria sair da sala de computadores.

—        Eu precisava entrar na Internet. — Ele solta a mão dela e tira várias folhas impressas amassadas do bolso. — Hoje descobri uma peça importante do quebra-cabeça da profecia. É tão inacreditável que eu precisava verificar os fatos antes de aceitá-la.

Ela pega as páginas da mão dele e começa a ler.

 

                             A CRATERA DE CHICXULUB

Em 1980, o físico ganhador do Nobel Luis Alvarez propôs que um impacto extraterrestre acontecido 65 milhões de anos atrás foi a causa da extinção em massa que acabou por encerrar o reinado dos dinossauros, mudando para sempre o rumo evolucionário da vida na Terra. Essa ousada teoria resultava da descoberta de Alvarez de uma camada de argila sedimentar de um centímetro de espessura depositada sobre toda a superfície do planeta na época do impacto do asteróide, entre os períodos geológicos cretáceo (K) e terciário (T). Verificou-se que essa camada de argila K/T contém altas concentrações de irídio, um metal extremamente raro que, acredita-se, existe no centro da Terra. O irídio é o único metal capaz de sobreviver a temperaturas acima dos 2.200 graus centígrados, e é praticamente invulnerável à corrosão, mesmo aos ácidos mais fortes. O fato de altas concentrações de irídio terem sido encontradas em meteoritos levou Alvarez a propor sua teoria de que o sedimento K/T era formado pelos resíduos de uma nuvem de poeira criada pelo impacto de um grande asteróide (11 quilômetros de diâmetro) que atingiu a Terra 65 milhões de anos atrás. Tudo que Alvarez precisava para provar sua teoria era encontrar o local do impacto.

Em 1978, um piloto de helicóptero e geofísico chamado Glenn Pennfield estava sobrevoando o Golfo do México, fazendo um rastreamento aéreo para medir tênues variações no campo magnético terrestre que poderiam indicar a presença de petróleo. Ao sobrevoar uma área do mar a noroeste da península de Yucatán, Pennfield detectou um anel simétrico de material altamente magnético, com 160 quilômetros de diâmetro, um quilômetro e meio sob o leito do oceano. A análise desse imenso anel magnético veio a confirmar, mais tarde, que a área, cobrindo tanto mar quanto terra firme, era uma cratera — o local do impacto de um asteróide gigante.

Batizada com o nome da cidade do Yucatán, localizada entre Progreso e Mérida, a cratera de Chicxulub é a maior bacia de impacto que se formou no nosso planeta no último bilhão de anos. O centro aproximado da área fica debaixo d'água, a 21,4 graus de latitude norte por 89,6 graus de longitude oeste, enterrado sob 300 a 900 metros de calcário.

A cratera é imensa, com diâmetro entre 175 e 290 quilômetros, estendendo-se pela costa noroeste da península de Yucatán e o Golfo do México. Ao redor da porção terrestre da cratera, há um anel de poços naturais. Acredita-se que essas fontes de água doce, chamadas de cenotes pelos mexicanos, tenham se formado na geografia do Yucatán como resultado das enormes fraturas que a bacia de calcário sofreu durante o impacto do asteróide.

Há 65 milhões de anos, o território da América Central ainda estava debaixo d'água.

 

Dominique ergue os olhos, levemente irritada.

—        Não entendo. Onde está a grande pista?

—        No mapa de Piri Reis, aquele que achei no platô de Nazca. Eu o encontrei selado num recipiente de irídio. O mapa indicava o local da cratera de Chicxulub. Chichén Itzá fica bem no perímetro do círculo do impacto. Quando você traça uma linha da pirâmide de Kukulcán até o centro da cratera, o ângulo mede 23,5 graus, exatamente o ângulo do eixo de rotação da Terra, a inclinação que nos dá as estações do ano.

Pronto, lá vamos nós de novo.

—        Tá, e o que isso tudo significa?

—        O que isso significa? — Mick faz uma careta de dor ao se levantar. — Significa que a pirâmide de Kukulcán foi intencional e cuidadosamente posicionada na península de Yucatán, em relação com a cratera de Chicxulub. Não pode ser outra coisa, Dominique. Não existe nenhuma outra estrutura antiga perto do local do impacto, e o ângulo é exato demais pra ser acidental.

—        Mas como os antigos maias saberiam do impacto de um asteróide há 65 milhões de anos? Olhe o tempo que o homem moderno levou pra descobri-lo.

—        Não sei. Talvez tivessem a mesma tecnologia que o autor do mapa de Piri Reis usou pra desenhar a topografia da Antártida, mesmo ela estando toda encoberta por gelo.

—        Então qual é a sua teoria: a humanidade vai ser destruída por um asteróide em 21 de dezembro?

Mick se ajoelha aos pés dela, com agonia em seu rosto inchado.

—        A ameaça à humanidade não é um asteróide. A probabilidade de outro asteróide passar pelo mesmo local é astronômica demais pra ser levada em conta. Além disso, a profecia maia aponta pra fenda escura, não pra um projétil celeste.

Ele apóia a cabeça dolorida sobre o joelho dela. Dominique alisa sua longa cabeleira castanha, suja de suor e oleosa.

—        Talvez seja melhor você descansar um pouco.

—        Não consigo, minha mente não deixa. — Ele fica de pé, apertando a compressa sobre o olho inchado. — Algo sempre me incomodou na localização da pirâmide de Kukulcán. Diferente de suas similares no Egito, no Camboja e em Teotihuacán, a estrutura sempre pareceu fora de lugar. Como um belo polegar, geograficamente situado sem razão, enquanto os outros dedos ficam a intervalos regulares sobre a face da Terra. Agora acho que entendi.

—        Entendeu o quê?

—        O bem e o mal, Dominique, o bem e o mal. Em algum lugar dentro da pirâmide de Kukulcán está o bem, a chave pra nossa salvação. Em algum lugar da cratera de Chicxulub está uma força maligna que se torna cada vez mais forte com a aproximação do solstício.

—        Como sabe...? Não, esqueci, desculpe. Você sente.

—        Dom, preciso da sua ajuda. Você tem que me tirar daqui.

—        Eu tentei...

—        Esqueça das apelações, não há tempo. Preciso sair agora!

Ele está perdendo o controle.

Mick a segura pelo pulso.

—        Me ajude a fugir. Preciso chegar a Chichén Itzá...

—        Me solta! — Ela pega a caneta com a outra mão.

—        Não... espere, não chame o vigia...

—        Então se afaste, assim você me assusta.

—        Desculpe. Desculpe. — Ele a solta. — Só me escuta, está bem? Não sei como a humanidade vai sucumbir, mas acho que sei qual a finalidade daquela transmissão do espaço.

—        Continue.

—        O sinal era um despertador, viajando pela Estrada Negra, um corredor celestial que está se alinhando com o que quer que esteja soterrado no Golfo.

Foletta tinha razão. As ilusões dele estão piorando.

—        Mick, calma. Não tem nada ali...

—        Você está errada! Eu consigo sentir, como consigo sentir a Estrada Negra pra Xibalba se abrindo. O caminho está ficando mais pronunciado...

Ele está delirando...

—        Sinto que se espalha. Não sei como, mas consigo sentir, eu juro! E tem outra coisa...

Ela vê lágrimas de frustração brotando nos olhos dele, ou será realmente medo?

—        Sinto uma presença na outra ponta da Estrada Negra. E ela consegue me sentir!

A enfermeira entra, seguida por três enfermeiros corpulentos.

—        Boa noite, sr. Gabriel. É hora do seu remédio.

Mick vê a seringa.

-— Isso não é Zyprexa!

Dois enfermeiros agarram seus braços, e o terceiro lhe segura as pernas. Dominique assiste a tudo, impotente, enquanto ele luta.

—        Enfermeira, o que está acontecendo?

—        O sr. Gabriel deve receber três injeções de Thorazine por dia.

—        Três?

—        O Foletta quer me transformar num vegetal! Dom, não deixe... — Mick se agita com violência sobre a cama, os enfermeiros se esforçando para controlado. — Não deixe que façam isso. Dominique, por favor...

—        Enfermeira, sou a psiquiatra do sr. Gabriel e...

—        Não é mais. O dr. Foletta assumiu o seu lugar. Amanhã você pode conversar com ele sobre isso. — A enfermeira passa álcool no braço de Mick. — Imobilizem o paciente.

—        Estamos tentando. Dê logo a injeção...

Mick levanta a cabeça, as veias saltando do seu pescoço.

—        Dom, você precisa fazer alguma coisa! A cratera de Chicxulub... o relógio está andando... o relógio...

Dominique vê os olhos negros rodando nas órbitas, sua cabeça caindo sobre o travesseiro.

—        Pronto, assim está melhor — diz a enfermeira suavemente, retirando a seringa. — Pode ir, residente Vazquez. O sr. Gabriel não precisa mais dos seus serviços.

 

                    21 DE OUTUBRO DE 2012, PENTÁGONO

ARLINGTON, VIRGÍNIA

Pierre Borgia entra na sala de reuniões e toma o seu lugar à mesa oval de conferências entre o secretário de Defesa, Dick Przystas, e o chefe de gabinete do Exército, general James Adams. Sentados do outro lado da mesa estão o diretor da CIA, Patrick Hurley, o chefe de gabinete da Aeronáutica, general Arne Cohen, e o chefe de operações navais, Jeffrey Gordon. Este último, um homenzarrão de 1,98 metro, cumprimenta Borgia com um rápido aceno de cabeça.

O general "Big Mike" Costolo, comandante dos fuzileiros navais, entra depois de Borgia e se senta à direita de Gordon.

À cabeceira da mesa está o general Joseph Fecondo. O comandante do Estado-Maior das Forças Armadas e veterano das guerras do Vietnã e do Golfo passa a mão bem cuidada por sua careca incipiente e bronzeada e olha para Borgia e Costolo com ar aborrecido.

—        Bem, agora que estamos todos aqui, acho que finalmente podemos começar. Diretor Hurley?

Patrick Hurley assume seu lugar na tribuna. Magro e em forma, o ex-armador da seleção de Notre Dame, de 52 anos, parece ainda jogar basquete profissional.

Hurley aperta um botão na tribuna. As luzes diminuem e uma foto aérea em preto e branco aparece na grande tela à direita do diretor da CIA.

Borgia reconhece a qualidade da imagem. A foto digitalizada é da câmera térmica de alta resolução C-8236, montada no avião ultrassecreto Darkstar, da Aeronáutica. O Veículo Aéreo Não Tripulado (VANT), camuflado, é uma aeronave fina, em forma de concha e com enormes asas. O Darkstar opera em altitudes de 20 mil metros e pode transmitir imagens detalhadas em qualquer condição climática, de dia ou à noite.

Um quadrado computadorizado aparece em vermelho. Hurley o posiciona, depois amplia a imagem dentro dele. Detalhes de uma pequena escola com playground ficam visíveis. Ao lado da escola, um estacionamento de concreto bem cercado.

O diretor da CIA pigarreia.

—        As fotografias que vocês vão ver foram tiradas sobre uma área a nordeste de Pyongyang, na costa oeste da Coréia do Norte. Aparentemente, o local é apenas uma escola elementar. Mas 1,3 quilômetros abaixo deste estacionamento fica a instalação subterrânea de armas nucleares de Kim Jong II, a mesma instalação que os norte-coreanos usaram quando começaram a testar mísseis de médio alcance de dois estágios em 1998. Suspeitamos que o local também possa abrigar o novo míssil Taepo Dong-2, um ICBM com alcance de 3.540 quilômetros, capaz de carregar ogivas nucleares múltiplas.

Hurley clica na foto seguinte.

—        O Darkstar está monitorando a instalação há duas semanas. As fotografias que vou mostrar foram tiradas ontem à noite, entre 23 horas e uma da manhã, horário de Seul.

Hurley amplia a imagem para revelar dois homens saindo de um Mercedes-Benz preto.

—        O cavalheiro da direita é o presidente iraniano, Ali Shamkhani. O da esquerda é o novo líder do Partido Comunista chinês e ex-comandante militar, general Li Xiliang. Como Pierre pode atestar, o general é um comunista linha-dura.

Hurley clica em várias outras fotos, parando na de um homem vestindo um longo casaco de couro preto, que olha para o céu como se soubesse que alguém o está fotografando.

—        Meu Deus — murmura Borgia —, é Viktor Grozny.

—        Parece até que está olhando pra nossa câmera — acrescenta o general Cohen.

—        A lista de chamada ainda não está completa. — O diretor da CIA muda a imagem. — E o anfitrião da noite...

O coração de Borgia bate mais forte.

—        Kim Jong II.

Hurley reacende as luzes e volta para o seu lugar à mesa.

—        A reunião de cúpula com Viktor Grozny pela não proliferação de armas nucleares aconteceu semanas atrás. Então por que os líderes de quatro países que representam 38% das armas nucleares do planeta se reuniriam em segredo naquele lugar específico?

O secretário de Defesa, Dick Przystas, se recosta na cadeira e alisa seu topete de cabelo branco.

—        Almirante Gordon, pode divulgar a informação sobre a qual conversamos antes?

O magro almirante aperta uma tecla em seu laptop.

—        Nossa vigilância por satélite mais recente indica que os iranianos reforçaram sua presença militar na costa norte do Golfo Pérsico. Além de reposicionar seus canhões Howitzers e suas plataformas de mísseis terra-ar móveis, o Irã adquiriu recentemente da China mais 46 barcos de patrulha da classe Hudong. Cada um desses barcos é equipado com mísseis de cruzeiro antinavio C-802. Os iranianos também estão duplicando seus silos de mísseis chineses Bicho da Seda no litoral e, apesar dos protestos da ONU, continuaram a fortalecer suas baterias de mísseis terra-ar e terra-terra em Qeshm, Abu Musa, e nas ilhas Sirri. Essencialmente, o Irã está se preparando para efetuar um bloqueio na parte reduzida de Hormuz, que tem apenas 50 quilômetros de largura.

—        Os iranianos alegam que a escalada militar é uma preparação para as manobras militares de Grozny em dezembro — diz o secretário de Defesa Przystas. — Naturalmente, se eclodissem hostilidades no Oriente Médio, o bloqueio iraniano impediria que nossa frota chegasse ao Golfo Pérsico.

—        Sem querer aumentar a paranóia geral, mas e as bombas nucleares? — O general Costolo se afasta da mesa. — Os israelenses dizem que Grozny vendeu mísseis Sickle com ogivas nucleares aos iranianos quando ajudou a negociar o Acordo de Paz no Oriente Médio de 2007.

O almirante Gordon vira-se para Costolo.

—        O Irã tem a força e a posição geográfica para estabelecer um novo domínio no Oriente Médio. Se uma guerra começasse, a Rússia teria condições de consolidar o Oriente Médio como uma hegemonia.

—        Grozny parece mesmo estar se preparando para uma guerra nuclear — declara Borgia.

—        Pierre, a Rússia está se preparando para a guerra nuclear há sessenta anos — interrompe o general Fecondo. — Não podemos esquecer que foi nossa própria antecipação, ao construir o Escudo Antimíssil, que aumentou a paranóia deles.

—        Pode haver mais uma variável oculta a se considerar, general — diz o diretor da CIA. — A Agência de Segurança Nacional interceptou uma comunicação entre o premier russo, Makashov, e o ministro chinês da Defesa. A conversa falava de algum novo tipo de arma de alta tecnologia.

—        Que tipo de arma? — pergunta Przystas.

—        Eles mencionaram fusão, nada mais.

 

                         Ilha de Sanibel, Costa Oeste da Flórida

Dominique diminui a velocidade do Pronto Spyder conversível preto, conservando o carro esporte abaixo dos 80 km/h ao passar pela cabine de pedágio da ilha de Sanibel. Sensores eletrônicos gravam a placa e o número de identificação do veículo de seu carro e a informação é passada instantaneamente para o Departamento de Trânsito, que soma o valor do pedágio à sua conta mensal. Ela mantém o carro abaixo de 80 km/h por mais um quilômetro e meio, sabendo que ainda está ao alcance do radar automático do sistema.

Dominique dirige o Spyder sobre a ponte para a ilha de Sanibel e Captiva, uma área residencial e de lazer aninhada numa pequena ilha na costa do Golfo da Flórida. Ela ruma para o norte por uma estrada bastante arborizada de uma pista, depois segue para o oeste, passando por vários hotéis grandes antes de entrar numa área residencial.

Edith e Isadore Axler moram numa casa de praia cúbica de dois andares, situada num terreno de esquina de um quinto de hectare com vista para o Golfo do México. À primeira vista, as pranchas de sequóia do exterior que envolvem a casa lhe dão o aspecto de uma enorme lanterna de festa, especialmente à noite. Essa camada exterior protege a estrutura dos furacões, criando, efetivamente, uma casa dentro da casa.

A ala sul da residência dos Axler foi reformada para abrigar um sofisticado laboratório acústico, um dos únicos três na costa do Golfo interligados com o SOSUS, o Sistema de Vigilância Sonora Submarina da Marinha dos Estados Unidos. A rede de microfones submersos de 16 bilhões de dólares, construída pelo governo federal durante a guerra fria para espionar submarinos inimigos, é uma teia global conectada às estações terrestres da Marinha por uns 45 mil quilômetros de cabos submarinos.

Quando a importância militar do SOSUS começou a diminuir, no inicio da década de 1990, cientistas, universitários e empresas privadas pediram à Marinha e receberam acesso à rede acústica. Para os oceanógrafos, o SOSUS se tornou o Telescópio Hubble da exploração submarina. Os cientistas podiam agora ouvir as vibrações de freqüência super baixa produzidas por blocos de gelo se partindo, leitos tremendo e vulcões submarinos entrando em erupção, sons que normalmente ficam bem abaixo do espectro da audição humana.

Para biólogos marinhos como Isadore Axler, o SOSUS proporcionou uma nova maneira de estudar as formas de vida mais inteligentes do oceano: os cetáceos. Com o apoio da Fundação Nacional para a Pesca e Vida Selvagem, o lar dos Axler se tornou uma estação acústica SOSUS, voltada especificamente para os habitantes cetáceos do Golfo do México. Usando o SOSUS, os Axler podiam agora gravar e analisar vozes de baleias, identificar espécies, contar populações, até rastrear espécimes individuais por todo o Hemisfério Norte.

Dominique vira à esquerda numa rua sem saída, depois à direita na última casa, reconfortada pelo som familiar do cascalho sendo esmagado pelo peso do carro.

Edith Axler a cumprimenta enquanto a capota do conversível se fecha. Edie é uma mulher de ar astuto e cabelo grisalho, de 70 e poucos anos, com olhos castanhos que transpiram a sabedoria de uma professora e um sorriso meigo que transmite amor de mãe.

—        Olá, querida. Como foi a viagem?

—        Tudo bem. — Dominique abraça apertado sua mãe adotiva.

—        Algum problema? — Edith recua, notando as lágrimas. — O que foi?

—        Nada. Só estou feliz por estar em casa.

—        Não me trate feito uma velha caduca. É aquele seu paciente, não é? Qual o nome dele, Mick?

Dominique balança a cabeça.

—        Meu ex-paciente.

—        Venha, vamos conversar um pouco antes que o Iz apareça. — Edith a leva pela mão para o canal de acesso ao Golfo localizado no lado sul da propriedade. Dois barcos estão atracados na doca de concreto, sendo que o menor é um pesqueiro de 35 pés pertencente aos Axler.

Elas se sentam, de mãos dadas, num banco de madeira de frente para a água.

Dominique olha para um pelicano cinza e branco que alisa as penas sobre um dos mourões de madeira.

—        Lembro que quando eu era criança, sempre que eu tinha um dia ruim, você me trazia pra sentar aqui.

Edie faz que sim.

—        Este sempre foi o meu lugar favorito.

—        Você dizia: "As coisas não podem estar tão ruins se ainda podemos apreciar uma vista tão linda." — Ela aponta para a traineira rústica de 48 pés atracada atrás do pesqueiro dos Axler. — De quem é aquele barco?

—        Pertence ao Clube dos Caçadores de Tesouros de Sanibel. Você deve se lembrar do Rex e da Dory Simpson. O Iz aluga a vaga pra eles. Está vendo aquela lona? Tem um minissubmarino de dois lugares preso ao convés debaixo dela. Amanhã o Iz pode te levar pra dar uma volta, se quiser.

—        De minissubmarino? Vai ser divertido.

Edie aperta a mão da filha.

—        Me fale do Mick. Por que você está tão chateada? Dominique enxuga uma lágrima.

—        Desde que aquele gordo de merda do Foletta me trocou de paciente, ele vem mantendo o Mick sob doses maciças de Thorazine. Meu Deus, Edie, é muita crueldade, não consigo... não agüento nem olhar pra ele mais. Está tão drogado. Fica só sentado, amarrado numa cadeira de rodas, como um vegetal babão. Todas as tardes o Foletta o empurra pro jardim e o deixa lá, parado na área de artesanato, como se fosse um paciente geriátrico irrecuperável.

—        Dom, sei que você se preocupa muito com o Mick, mas precisa se lembrar que você é uma só. Não pode achar que vai salvar o mundo.

—        O quê? O que você disse?

—        Só quis dizer que, como psiquiatra, não pode achar que pode ajudar todo interno com o qual tem contato. Você trabalhou com o Mick por um mês. Gostando ou não, ele não é mais responsabilidade sua. Você precisa saber quando deve se afastar.

—        Você sabe que não sou assim. Não consigo simplesmente me afastar quando alguém está sofrendo abusos.

Edie aperta a mão da filha de novo. Elas ficam em silêncio, observando o pelicano bater as asas para manter o equilíbrio precário sobre o mourão.

Quando alguém está sofrendo abusos. Ao ouvir essas palavras, Edie se lembra da primeira vez que viu a garotinha assustada da Guatemala. Ela trabalhava meio período como enfermeira escolar e orientadora pedagógica. A menina de 10 anos havia sido trazida para ela, queixando-se de cãibras no estômago. Edith segurou a mão da garotinha até que a dor diminuiu. Esse gesto singelo de amor maternal ligaria Dominique para sempre à mulher, cujo coração se partiu quando soube do abuso sexual praticado pelos primos mais velhos da criança. Edie deu queixa e providenciou um lar temporário. Ela e Iz adotaram Dominique seis meses depois.

—        Tudo bem, querida, me diga o que podemos fazer pra ajudar o Mick.

—        Só há uma solução. Precisamos tirá-lo dali.

—        Por "tirar", presumo que queira dizer levar pra outro hospital.

—        Não, quero dizer tirar mesmo, pra sempre.

—        Uma fuga?

—        Bem, sim. O Mick pode estar um pouco confuso, mas não é louco. O lugar dele não é num hospício.

—        Tem certeza? Porque nem você me parece muito convencida. Você não me disse que o Mick está certo de que o mundo vai acabar?

—        Não o mundo, a humanidade, e sim, ele acredita nisso. Está só um pouco paranóico, mas quem não estaria, depois de passar 11 anos na solitária?

Edie vê Dominique se remexer.

—        Tem alguma coisa que você não está me contando. Dominique se vira para ela.

—        Você vai achar loucura, mas parece que muitas das ilusões do Mick têm um fundo de verdade. A teoria do fim do mundo dele se baseia numa profecia maia de 3 mil anos atrás. Estou lendo o diário do pai dele, e alguns dos achados são inacreditáveis. O Mick praticamente previu a chegada daquele sinal de rádio vindo do espaço no equinócio de outono. Edie, quando eu morava na Guatemala, minha avó costumava me contar histórias sobre meus ancestrais maternos. As coisas que ela dizia eram bastante assustadoras.

Edie sorri.

—        Você está começando a me dar medo.

—        Eu sei que são só bobagens supersticiosas, mas sinto que estou em dívida com o Mick, que devo ao menos verificar essas coisas. Pode ajudar a aliviar os temores dele.

—        Que coisas?

—        Ele está convencido de que aquilo que vai destruir a humanidade está escondido no Golfo do México. — Dominique enfia a mão no bolso do jeans e tira várias páginas dobradas, passando-as a Edie.

Edie corre os olhos pelas folhas.

—        A cratera de impacto de Chicxulub? Como uma depressão enterrada um quilômetro e meio abaixo do leito do oceano vai matar a humanidade?

—        Não sei. O Mick também não. Mas eu esperava...

—        Você esperava que o Iz pudesse verificar usando o SOSUS.

Dominique sorri.

—        Faria com que eu me sentisse muito melhor.

Edie abraça a filha.

—        Vamos. O Iz está no laboratório.

O professor Isadore Axler está sentado na estação SOSUS, com fones de ouvido e de olhos fechados. Seu rosto manchado pela idade está sereno enquanto ele ouve os pungentes ecos dos cetáceos. Dominique bate no ombro dele.

Iz abre os olhos, seu ralo cavanhaque grisalho se abrindo num sorrisinho, e tira os fones.

—        Jubarte.

—        É assim que você me cumprimenta, Jubarte?

Iz se levanta e a abraça.

—        Você parece cansada, menina.

—        Estou bem.

Edie se aproxima.

—        Iz, a Dominique quer pedir um favor.

—        O que, mais um?

—        Quando foi a última vez que eu pedi um favor?

—        Quando você tinha 16 anos. Pediu o carro emprestado. Foi a noite mais traumatizante da minha vida. — Iz lhe dá um tapinha carinhoso no rosto. — Diga lá.

Ela lhe entrega as informações sobre a cratera de Chicxulub.

—        Preciso que você use o SOSUS e me diga se ouve algo lá embaixo.

—        E o que eu devo procurar?

—        Não sei. Qualquer coisa fora do comum, eu acho.

Iz faz o seu famoso olhar de "pare de desperdiçar meu tempo" franzindo o cenho grisalho.

—        Iz, pare de olhá-la desse jeito e faça o que ela pediu — ordena Edie.

O velho biólogo volta a se sentar, resmungando.

—        Qualquer coisa fora do comum, é? Talvez a gente ouça uma baleia peidando. — Ele digita as coordenadas no computador e recoloca os fones.

Dominique o abraça por trás e beija-lhe a bochecha.

—        Tudo bem, tudo bem, chega de subornos. Escute, minha filha, não sei o que você quer com isso, mas a cratera cobre uma área imensa. Vou calcular o centro dela, que parece ficar perto do atol de Campeche, a sudoeste do recife de Alacan. Vou programar o computador pra fazer uma busca nas baixas freqüências. Começaremos na faixa de um a 50 hertz e aumentaremos gradualmente os ciclos. O problema é que você visa uma área cheia de jazidas de petróleo e gás. A bacia do Golfo é toda feita de calcário e aloés, e contém bolsões geológicos porosos. Petróleo e gás vazam constantemente das rachaduras no leito, e o SOSUS vai registrar cada um desses vazamentos.

—        O que você sugere, então?

—        Que a gente vá almoçar. — Iz termina de programar o computador. — O sistema vai automaticamente analisar quaisquer perturbações na área.

—        Quanto tempo você acha que o SOSUS vai levar pra encontrar alguma coisa? — A pergunta de Dominique provoca mais um olhar.

—        Quem você acha que eu sou, Deus? Horas, dias, semanas, a vida toda, talvez. Que diferença faz? No final, provavelmente só vamos ter um monte de ruídos de fundo inúteis.

 

                               Washington, DC

O maître abre um sorriso ao ver a quarta pessoa mais poderosa dos Estados Unidos entrando no luxuoso restaurante francês.

—        Bon soir, monsieur Borgia.

—        Bon soir, Felipe. Acho que estão me esperando.

—        Oui, certainement. Venha comigo, por favor. — O maître o conduz entre mesas iluminadas por candelabros até uma saleta particular ao lado do balcão. Ele bate duas vezes na porta dupla e se vira para Borgia. — O seu grupo já está lá dentro.

—        Merci. — Borgia põe uma nota de vinte na mão enluvada, e a porta é aberta por dentro.

—        Pierre, entre. — O co-presidente do Partido Republicano, Charlie Myers, aperta a mão de Borgia e bate em seu ombro com afeição. —Atrasado, como sempre. Já estamos duas rodadas na sua frente. Bloody Mary, certo?

—        Sim, pode ser.

A sala particular de reuniões é, como o resto do restaurante, revestida por painéis de nogueira escura. Meia dúzia de mesas com toalhas brancas preenchem o recinto à prova de som. Sentados à mesa central estão dois homens. O cavalheiro mais velho, de cabelo branco, é Joseph H. Randolph, Sr., um bilionário texano, amigo e figura paterna para Borgia há mais de vinte anos. Borgia não reconhece o homem corpulento sentado à frente dele. Randolph fica de pé para abraçado.

—        Pierre, seu sortudo, é bom te ver, filho. Deixe-me ver. Engordou uns quilinhos?

Borgia enrubesce.

—        Talvez alguns.

—        Junte-se aos bons.

O homem corpulento se levanta e estende uma mão roliça.

—        Pete Mabus, da Mabus Tech Industries.

Borgia reconhece o nome da empresa licitada pela Defesa.

—        Prazer em conhecê-lo.

—        O prazer é todo meu. Sente-se e relaxe.

Charlie Myers traz a bebida de Borgia.

—        Cavalheiros, com licença, preciso ir ao toalete.

Randolph espera que Myers saia da sala para falar.

—        Pierre, estive com sua família semana passada em Rehobeth. Estamos todos muito chateados por você não ter sido indicado a vice. O Maller está prestando um desserviço a todo o partido.

Borgia balança a cabeça.

—        A preocupação do presidente é se reeleger. As pesquisas mostram que o Chaney vai trazer o apoio que o partido precisa no Sul.

—        O Maller não está pensando a longo prazo. — Mabus aponta com seu grosso dedo. — O que este país precisa agora é de liderança forte, não de mais um cordeirinho que nem o Chaney como segundo em comando.

—        Concordo plenamente, mas não tenho nenhuma influência na escolha.

Randolph curva-se para a frente.

—        Talvez não agora, filho, mas daqui a quatro anos vai ter uma grande influência. Já falei com alguns figurões, e o consenso é que você vai representar o partido em 2016.

Borgia reprime um sorriso.

—        Joe, é ótimo ouvir isso, mas quatro anos é muito tempo.

Mabus balança a cabeça.

—        Você precisa se preparar agora, filho. Vou te dar um exemplo. O meu menino, Lucien, é um gênio. Sem brincadeira, o moleque tem 3 anos e já sabe mexer na Internet. Estou criando-o pra assumir a Mabus Tech quando tiver 16 anos. Se a gente der as cartadas certas na política, ele vai ser trilionário quando tiver a sua idade. O que quero dizer é que todos nós precisamos estar preparados bem antes da oportunidade bater à porta, e pra você ela já está batendo. Veja esse exercício militar conjunto dos russos e dos chineses que vem por aí. Muitos eleitores registrados estão putos da vida, o que torna essa picuinha algo que pode decidir a sorte de um candidato à presidência.

—        O Pete tem razão, Pierre. O modo como o público enxergar a sua presença de comando nos próximos meses pode ajudar a determinar o resultado da próxima eleição. O povo precisa ver um cara que toma as rédeas, um líder agressivo que não vai deixar as porras dos russos ou os crioulos das Arábias ditarem as regras do nosso governo. Caramba, a gente não tem uma presença forte na Casa Branca desde que Bush saiu de lá.

Mabus agora está tão perto que Borgia consegue saber o que ele comeu no almoço pelo cheiro.

—        Pierre, esse conflito nos dá uma excelente oportunidade pra mostrar ao público a força do seu caráter.

Borgia se apóia na cadeira.

—        Entendido.

—        Ótimo, ótimo. Agora temos um último item na nossa pauta, algo que precisamos passar a limpo.

Mabus mexe em sua cutícula.

—        Um esqueleto no seu armário, digamos assim.

Randolph balança a cabeça enquanto acende um cigarro.

—        É esse tal de Gabriel, Pierre, o cara que você mandou internar depois do seu acidente. Assim que anunciarmos a sua candidatura, a imprensa vai começar a cavucar. Logo vão descobrir o que você fez pra manipular as coisas em Massachusetts. Pode dar uma encrenca danada.

O rosto de Borgia fica rubro.

—        Está vendo este olho, sr. Mabus? Aquele doido filho da puta fez isso comigo. Agora querem que eu o solte?

—        Preste atenção, filho. O Pete não falou nada de você soltá-lo. Apenas amarre essa merda de fio solto antes que a campanha comece. Porra, todos nós que valemos alguma coisa na política guardamos nossos esqueletos. Só queremos que você enterre o seu... presidente.

Borgia respira fundo para se acalmar e balança a cabeça.

—        Entendo o que querem dizer, cavalheiros, e agradeço o seu apoio. Acho que sei o que precisa ser feito.

Mabus estende a mão.

—        E nós agradecemos, secretário. Também sabemos que, quando chegar a hora, o senhor não vai esquecer quem são seus amigos.

Borgia aperta a mão suada de Mabus.

—        Me digam sinceramente, cavalheiros, à parte a presença política da minha família. Quando me escolheram, quanto pesou o fato de o senador Chaney ser negro?

Randolph abre um sorriso matreiro.

—        Bem, filho, digamos que o lugar não se chama Casa Branca à toa.

 

                             Diário de Julius Gabriel

O platô deNazca, no sul do Peru, é um deserto árido, com 64 quilômetros de comprimento e 10 quilômetros de largura. E uma planície desolada e inóspita, uma zona morta aninhada nos Andes. Ele também tem uma geologia extraordinariamente peculiar, pois o subsolo de Nazca contém altos níveis de gipsita, um adesivo natural. Reumidificada todo dia pelo orvalho da manhã, a gipsita literalmente mantém as pedras locais de ferro e sílica, que se espalham pelo deserto, grudadas à sua superfície. Essas pedras escuras retêm o calor do sol, fazendo surgir um escudo protetor de ar quente que virtualmente elimina os efeitos do vento. Ele também toma o platô um dos lugares mais secos da Terra, com menos de 25 milímetros de chuva por década.

Para o artista que deseja se expressar na mais grandiosa das escalas, o platô de Nazca se torna a tela perfeita, pois o que é desenhado naquele platô tende a ficar ali. No entanto, só quando um piloto o sobrevoou em 1947 o homem moderno descobriu os misteriosos desenhos e linhas geométricas entalhadas nessa paisagem peruana há milhares de anos.

Mais de 13 mil linhas cruzam o deserto de Nazca. Alguns desses marcos se estendem por mais de 8 quilômetros, riscando terrenos acidentados e se mantendo milagrosa e perfeitamente retos. Embora alguns queiram crer que as linhas representam pistas de pouso pré-históricas para antigos astronautas, agora sabemos que elas são astronomicamente alinhadas, marcando as posições do solstício de inverno, do equinócio, da constelação de Órion e talvez de outros corpos celestes ainda desconhecidos para nós.

Mais bizarras são as centenas de ícones ilustrando animais. Ao nível do chão, esses zoomorfos colossais parecem apenas sulcos aleatórios causados pela remoção de toneladas de pedras vulcânicas pretas, o que seria feito com a intenção de expor a gipsita amarela subjacente. Mas, quando vistos do alto, os desenhos de Nazca tomam vida, representando uma visão artística unificada e uma façanha de engenharia que sobreviveu sem danos por milhares de anos.

A arte do platô de Nazca foi completada em dois intervalos de tempo bastante distintos. Embora isso contrarie nossa idéia de evolução, os desenhos mais antigos são de longe superiores. Eles incluem o macaco, a aranha, a pirâmide e a serpente. Não só as formas retratadas são incrivelmente precisas, mas as próprias figuras, muitas delas maiores que um campo de futebol, foram desenhadas usando uma linha contínua, sem interrupções.

Quem eram os artistas misteriosos que criaram essas imagens no deserto? Como foram capazes de realizar uma façanha tão magnífica, numa escala tão grandiosa? E o mais importante: qual foi a motivação para entalhar as figuras no platô?

 

Foi no verão de 1972 que Maria, Pierre e eu chegamos pela primeira vez a esse deplorável deserto sul-americano. Na época, não estávamos nem um pouco interessados nos desenhos; nosso propósito era unicamente determinar a relação entre os crânios alongados da Mesoamérica e aqueles encontrados em Nazca. Ainda me lembro da primeira semana trabalhando no platô, amaldiçoando o perverso sol peruano que me torturava diariamente, cobrindo meu rosto e meus braços de bolhas. Se alguém me dissesse, então, que eu acabaria voltando para aquele purgatório de areia e pedras para viver o resto dos meus dias, eu o chamaria de louco. Louco.

Luto até para escrever essa maldita palavra. A esta altura, muitos de vocês devem estar se perguntando se estão lendo o relato de um cientista ou de um lunático. Devo confessar que não há um dia que passe sem que eu mesmo debata essa questão. Se perdi mesmo o juízo, foi Nazca que me levou a isso, seu incessante calor fazendo o meu cérebro inchar, sua superfície inóspita martelando a artrite nos meus ossos durante décadas. Qualquer chance de atingir a paz interior me escapou no dia em que condenei minha família àquele deserto. Rezo para que Michael me perdoe por tê-lo criado naquele inferno, e pelas outras injustiças que infligi à sua alma torturada na infância.

Do verão de 1972 ao inverno de 1974, nosso pequeno trio labutou em Nazca, desenterrando centenas de crânios deformados encontrados em túmulos cerimoniais localizados perto das montanhas andinas. Um exame completo de cada crânio revelou que as deformações haviam sido causadas pelo uso de tábuas de madeira sobre a cabeça da criança em tenra idade.

Foi em janeiro de 1974 que descobrimos um túmulo real situado perto dos Andes. As paredes dessa incrível tumba eram feitas de enormes colunas de pedra, cada uma pesando entre 10 e 20 toneladas. Dentro da câmara subterrânea havia 13 múmias de homens, o crânio de cada uma delas alongado. Nosso entusiasmo atingiu novas proporções depois que radiografias meticulosas e outros testes revelaram que os mortos, como o crânio de La Venta que Maria havia encontrado, tinham o crânio nesse formato puramente como resultado da genética!

Descobrir uma nova raça de homens provou ser tão polêmico quanto estarrecedor. Ao ficar sabendo da nossa descoberta, o presidente do Peru ordenou que todos os nossos artefatos fossem colocados numa câmara subterrânea do Museu Arqueológico de Lea, longe dos olhos do público. (Até hoje, os crânios só podem ser vistos pelos portadores de um convite especial.)

 

Que raça misteriosa era aquela? O que a fazia nascer com crânios duas vezes o tamanho normal?

Sabemos que as primeiras pessoas a chegarem à região andina eram caçadores e pescadores que se estabeleceram ao longo da costa peruana por volta de 10.000 a.C. Então, por volta de 400 a.C., outro grupo chegou ao platô de Nazca. Pouco sabemos sobre esse povo misterioso, só que chamavam seus líderes de Viracochas, semideuses que diziam ter migrado para a América do Sul logo depois do Grande Dilúvio. Os Viracochas eram descritos como sábios pálidos com olhos de um azul profundo como o do oceano, e longa barba e cabelo brancos. Esses antigos governantes, aparentemente, possuíam inteligência superior e crânios maiores do que o normal, sua aparência bizarra sem dúvida influenciou seus seguidores a praticar a arte da deformação dos crânios numa tentativa de emular seus nobres líderes.

A semelhança física entre os Viracochas e o grande mestre maia, Kukulcán, é incrível demais para ser ignorada. O fato de caucasianos altos e barbados aparecerem também nas lendas de várias outras culturas andinas dá mais pistas de uma ligação entre os indígenas mesoamericanos e aqueles da América do Sul.

 

A civilização indígena mais dominante que surgiu nas selvas montanhosas da América do Sul foi a inca. Como os maias, eles também idolatravam um grande mestre, um sábio que fez o seu povo progredir através do ensino da Ciência, Agricultura e Arquitetura. Embora saibamos agora que a maioria das façanhas creditadas à genialidade inca na verdade tenha se originado de grupos étnicos mais antigos, relatos escritos nos contam que foi esse caucasiano barbado que inspirou a criação das grandes estradas incas, bem como dos famosos terraços agrícolas construídos em encostas íngremes. Acredita-se que o barbado também tenha sido o artista criador dos desenhos mais antigos e sofisticados de Nazca. Embora fosse conhecido por vários nomes entre as culturas andinas, os incas o idolatravam simplesmente como Viracocha, que significa "espuma do mar".

Como Kukulcán entre os maias e Quetzalcoatl para os astecas, Viracocha é a figura mais reverenciada da história inca. Seriam os Viracochas de 400 a.C. seus ancestrais? Seria ele um parente distante de Kukulcán? Nesse caso, sua presença na antiga América do Sul teria algo a ver com o calendário maia e sua previsão de fim do mundo?

Em busca de respostas, abandonamos o deserto de Nazca e rumamos para os Andes, determinados a explorar dois sítios antigos que se acreditava terem sido criados pela divindade inca. O primeiro deles era a fortaleza de Sacsayhuaman, uma monstruosa estrutura erguida ao norte de Cuzco. Como o túmulo real, as muralhas dessa assombrosa cidadela são formadas por blocos de granito de formas irregulares que foram milagrosamente encaixados tão perfeitamente que eu não conseguia enfiar a lâmina de meu canivete entre as pedras.

Sobrecarrega a imaginação pensar como os indígenas andinos conseguiram transportar pedras pesando 100 toneladas ou mais por 15 quilômetros de terreno montanhoso da pedreira distante, depois encaixá-las perfeitamente no lugar em volta da fortificação. (Um desses monstros, de 8 metros e meio de altura, pesa mais de 320 toneladas.) Arqueólogos, ainda procurando explicar essa façanha indecifrável, tentaram duplicar uma pequena parte do legado de Viracocha, transportando um bloco de tamanho médio de uma pedreira distante usando princípios avançados de engenharia e um pequeno exército de voluntários. Até hoje, todas as tentativas fracassaram miseravelmente.

Sabemos que a fortaleza de Sacsayhuaman foi construída para proteger seus habitantes de forças hostis. O verdadeiro propósito por trás do projeto da outra estrutura de Viracocha, a antiga cidade andina de Tiahuanaco, continua um mistério.

Situadas 380 metros acima do Pacífico, nos Andes bolivianos, as ruínas de Tiahuanaco repousam na antiga margem do lago Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo. Depois de examinar as façanhas impossíveis de engenharia de Sacsayhuaman, eu poderia jurar que nada mais me surpreenderia. Apesar disso, o sítio de Tiahuanaco era simplesmente aterrador. A planta dessa cidade antiga consiste em três templos de calcário e quatro outras estruturas, todas colocadas sobre uma série de plataformas elevadas e retângulos escavados. Como em Sacsayhuaman, a maior parte da construção consiste em blocos de pedra impossivelmente grandes, encaixados com perfeição.

Mas há claramente mais coisas em Tiahuanaco do que o olho pode enxergar. Um plano secreto está presente ali — um plano que pode ter relação com a salvação da nossa espécie.

Os restos de Akapana, uma pirâmide em degraus cujos quatro lados, direcionalmente orientados, medem 210 metros cada, dominam a cidade. A função de Akapana, infelizmente, permanecerá um mistério, pois os invasores espanhóis usaram a estrutura como uma pedreira, roubando o templo de 90% de seu revestimento.

A estrutura mais maravilhosa de Tiahuanaco é o Portal do Sol, um único bloco maciço de pedra pesando 100 toneladas. Essa monumental obra de arte fica no canto noroeste do complexo, como um Arco do Triunfo pré-histórico. De alguma forma, seu criador conseguiu transportar esse enorme bloco de pedra de uma pedreira a quilômetros de distância, escavar um portal perfeito usando só Deus sabe que tipo de ferramenta e depois alinhar verticalmente a peça.

Colunas gigantes se espalham por toda a cidade. No meio de uma bacia retangular ao ar livre fica uma escultura de 2 metros, em pedra vermelha, do próprio Viracocha. O crânio alongado está presente, bem como a testa pronunciada, o nariz fino e reto, e o queixo coberto de barba. Os braços e as mãos estão cruzados. Uma última característica digna de nota: dos dois lados da túnica do sábio surgem duas serpentes, parecidas com aquelas retratadas por toda a Mesoamérica.

A estrutura mais polêmica de Tiahuanaco é o Kalasasaya, um templo subterrâneo localizado no centro da cidade, rodeado por grandes muralhas. Blocos de pedra de 3 metros e meio foram erguidos dentro de seus limites. Embora Pierre tivesse concluído que o Kalasasaya deveria ter sido uma fortaleza, Maria discordava, reconhecendo que o alinhamento dos monolíticos blocos verticais era similar àqueles encontrados em Stonehenge.

Como de costume, Maria estava correta. O Kalasasaya não é uma fortaleza, e sim um observatório celeste, o mais antigo do mundo, talvez.

Então, o que tudo isso significa?

Cinco anos depois de sair de Cambridge, meus colegas arqueólogos e eu havíamos encontrado provas esmagadoras que indicavam que uma raça caucasiana superior influenciara o desenvolvimento tanto dos indígenas mesoamericanos como dos sul-americanos. Esses homens barbados, com seus crânios geneticamente deformados, de alguma forma projetaram e supervisionaram a construção de monumentos magníficos, cuja finalidade ainda nos intrigava.

Maria estava convencida de que o projeto do observatório de Kalasasaya era parecido demais com o de Stonehenge para ser uma simples coincidência. Ela acreditava que era imperativo continuarmos seguindo o rastro dessa raça caucasiana e sua sabedoria antiga para o leste para ver aonde isso nos levaria.

Pierre Borgia não estava contente com isso. Dois anos em Nazca haviam sido mais do que suficientes para saciar seu apetite pela Arqueologia, e ele estava sendo pressionado por sua abastada família para retornar aos Estados Unidos e fazer carreira na política. O problema era que ele amava Maria; aliás, os dois iam se casar na primavera.

Por mais que gostasse de Pierre, Maria não estava preparada para abandonar sua busca pela solução da profecia maia, insistindo que continuássemos a seguir o rastro dos barbados até Stonehenge.

A idéia de voltar à Inglaterra era toda a motivação de que precisávamos, e assim reservei as passagens e voamos para a perna seguinte da nossa jornada, a qual, eu sabia, estava destinada a dissolver nosso pequeno triunvirato para sempre.

— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,

 

Ref. Catálogo 1972-75 páginas 6-412

Diário Fotográfico, Disquete 2: Nome do arquivo: NAZCA, Foto 109

 

                   26 DE OUTUBRO DE 2012 , ILHA DE SANIBEL, FLÓRIDA

DOMINGO, 5h20

Acorde, querida! Dominique abre os olhos, bocejando.

—        O que aconteceu?

—        O Iz quer que você vá para o laboratório. O SOSUS localizou alguma coisa.

Com a adrenalina subindo, ela joga longe o cobertor e segue Edie pela escada dos fundos até o laboratório acústico.

Iz está sentado no terminal do SOSUS com os fones de ouvido, de costas para ela. Dominique nota que o sistema de som está gravando dados.

Ele gira na cadeira para olhá-la. Ela vê que ele está só de roupão e chinelos. Tufos de seu cabelo ralo e grisalho brotam ao redor dos fones. A expressão séria em seu rosto sufoca a risada de Dominique.

—        Verifiquei o sistema ontem à noite, antes de ir dormir. A única coisa fora do comum que o SOSUS havia localizado era o que chamamos de uma "zona morta", uma área sem vida marinha. Isso não é tão fora do comum assim. O Golfo sofre zonas mortas anuais todo verão, quando proliferações de plâncton criadas pelo despejo de fertilizantes privam a água de oxigênio. Mas essas zonas mortas costumam ocorrer na costa do Texas e da Louisiana, e nunca em águas tão fundas. De qualquer forma, reprogramei o SOSUS pra se concentrar nessa área e deixei o sistema em modo de busca a noite toda. O alarme tocou há uns 15 minutos. — Iz tira os fones e passa para ela. — Escute isso.

Ela ouve estática, como o som que uma lâmpada fluorescente faz antes de queimar.

—        Parece só ruído.

—        Foi o que eu disse. Continue escutando. — Iz muda o ajuste para uma freqüência mais alta.

O ruído desaparece. Agora Dominique ouve um som incessante de batidas surdas, metálicas.

—        Uau. Parece um mecanismo hidráulico.

Iz balança a cabeça.

—        Pergunte pra sua mãe. Eu falei a mesma coisa. Aliás, achei que o SOSUS tivesse captado um submarino parado no fundo do mar. Aí verifiquei de novo a posição. — Iz lhe entrega uma folha impressa pelo computador. — Os sons não estão vindo do fundo do mar, estão vindo de baixo do fundo do mar. De 1.426 metros abaixo do fundo do mar, pra ser exato.

O coração de Dominique está batendo feito um tambor.

—        Mas como isso é possível...

—        Me diga você! O que estou ouvindo, Dominique? E alguma brincadeira? Porque se for...

—        Iz, pare de dizer bobagens. — Edie passa um braço protetor pela cintura de Dominique. — Dom não fazia idéia do que você iria encontrar. A informação foi dada a ela por um... bom, por um amigo.

—        Quem é esse amigo? Quero conhecê-lo.

Dominique esfrega os olhos sonolentos.

—        Não pode.

—        Por que não? Edie, o que está acontecendo?

Dominique olha para Edie, que balança a cabeça.

—        Ele... ele é um ex-paciente meu.

Iz olha de Dominique para a esposa, depois para Dominique de novo.

—        Seu amigo é doente mental? Oy vey...

—        Iz, que diferença faz? Tem algo lá embaixo, não tem? Precisamos investigar...

—        Calma aí, menina. Não posso simplesmente ligar pra Administração Oceânica e Atmosférica Nacional e dizer que localizei sons hidráulicos um quilômetro e meio abaixo do atol de Campeche. A primeira coisa que vão querer saber é como eu descobri os sons. O que devo dizer, que um maluco deu as coordenadas pra minha filha de sua cela em Miami?

—        Faria alguma diferença se o Stephen Hawking te desse as coordenadas?

—        Sim, faria, na verdade, faria muita diferença. — Iz esfrega a testa. — A velha história do touro na loja de porcelanas não funciona mais, Dominique, pelo menos não com o SOSUS. Há uns três anos, usei o sistema pra detectar vibrações que vinham de baixo do leito do Golfo e pareciam sinais de um maremoto. — Iz balança a cabeça ao se lembrar. — Conte a ela, Edie.

Edie sorri.

—        Seu pai achou que a gente estava a minutos de ser atingido por um enorme tsunami. Ele entrou em pânico e mandou a Guarda Costeira evacuar todas as praias.

—        Eu tinha calibrado o sistema com sensibilidade demais. O que pensei ser um maremoto era a companhia telefônica dragando cabos a 100 quilômetros da costa. Eu me senti um imbecil. Pedi favores a muita gente pra ligar nossa estação ao SOSUS. Não posso me dar ao luxo de fazer outra merda dessas.

—        Então não vai investigar?

—        Eu não disse isso. Vou abrir um dossiê e continuar a gravar e monitorar a área com atenção, mas não vou entrar em contato com nenhum órgão federal até ter certeza absoluta de que essa sua descoberta justifica uma atitude dessas.

 

                       Miami, Flórida

22h17

Mick Gabriel está sentado em sua cama, balançando-se em silêncio. Seus olhos negros estão perdidos, seus lábios levemente abertos. Um fio fino de saliva escorre de seu queixo barbado.

Tony Barnes entra no quarto de Mick. O enfermeiro acaba de voltar de uma suspensão de três semanas.

—        Doce ou travessura, vegetal? Hora da sua injeção noturna. — Ele levanta o braço direito de Mick, que está inerte em seu colo, e examina a série de hematomas roxos no lado de dentro do antebraço.

—        Ah, foda-se. — O enfermeiro espeta a agulha no braço de Mick, injetando o Thorazine numa veia já estourada.

Os olhos de Mick rolam para cima e seu corpo cai para a frente, amontoando-se aos pés do enfermeiro.

O enfermeiro cutuca a cabeça dele com seu tênis. Olha para trás, verificando que estão a sós, e lambe a orelha de Mick.

Barnes ouve Marvis fazendo sua ronda.

—        Bons sonhos, amor. — Ele sai apressadamente.

A porta se fecha com um clique duplo. As luzes do núcleo diminuem. Mick abre os olhos.

Ele cambaleia até a pia e lava o rosto e a orelha com água fria. Xingando baixinho, aperta a veia ensangüentada e arroxeada com o polegar. Então, sentindo a tontura se aproximando, cai dolorosamente de joelhos e fica em posição de flexão de braço.

Nas duas horas seguintes, Mick submete seu corpo a um agonizante ritual de ginástica. Flexões de braço, abdominais, polichinelos, correr sem sair do lugar — qualquer coisa para manter seu metabolismo acelerado, qualquer coisa para neutralizar o tranqüilizante antes que ele possa afetar seu sistema nervoso central.

Das três, a dose matinal era sempre a pior. O próprio Foletta a administrava, monitorando o paciente e murmurando suavemente no ouvido de Mick de forma zombeteira. Quando a droga fazia efeito, punha Mick numa cadeira de rodas e o empurrava de núcleo em núcleo durante sua ronda matinal, mandando um aviso para os outros internos de que nenhuma dissidência seria tolerada.

Os exercícios noturnos depois da terceira dose do dia eram um esforço válido. Acelerando seu metabolismo, Mick descobriu que era capaz de neutralizar mais rapidamente os efeitos da droga, reconquistando gradualmente sua sanidade. Na quarta manhã, havia recobrado seu equilíbrio mental o suficiente para se concentrar num plano.

Daquele momento em diante, representou o papel de morto-vivo. Os enfermeiros do sétimo andar o encontravam toda manhã deitado no chão da cela, num estupor profundo, totalmente incoerente. Isso enfurecia os funcionários, que agora eram obrigados a alimentar o paciente incapacitado e, para total asco deles, até trocar sua roupa quando ele se sujava. Depois de uma semana dessa rotina, Foletta se viu obrigado a reduzir a dosagem de Mick de três vezes ao dia para apenas duas injeções, uma à tarde e outra à noite.

Nas últimas semanas, a agenda de Foletta ficou tomada por outros assuntos. Ele parou de visitar Mick, confiando seus cuidados aos enfermeiros.

Pela primeira vez em seus 11 anos de cativeiro, a segurança ao redor de Michael Gabriel ficou relaxada.

 

                       NASA: Centro de Vôo Espacial Goddard

Greenbelt, Maryland

O diretor da NASA, Brian Dodds, olha, incrédulo, para o imenso rolo de papel de impressora estendido sobre sua mesa.

—        Me explique de novo, Swicky.

O assistente de Dodds, Gary Swickle, aponta com o grosso indicador para o padrão xadrez, consistindo em 13 quadrados pretos cobrindo a largura da impressão, que continua por milhares de folhas de papel.

—        O sinal de rádio é formado por 13 harmônicos diferentes, representados aqui por estas 13 colunas. Cada harmônico pode ser tocado em qualquer uma de vinte freqüências distintas e consecutivas. Isso permite a combinação de 260 trechos sonoros ou comandos diferentes.

—        Mas você diz que o padrão não se repete?

—        Só no início. — Swickle localiza a primeira página da impressão. — Quando o sinal começa, os harmônicos são bem simples, algumas notas tocadas em uma só freqüência, mas repetidas várias vezes. Agora veja aqui. Na marca de 17 minutos, tudo muda, todos os 13 harmônicos e as vinte freqüências começam a ser usadas de repente. Desse ponto em diante, o sinal nunca se repete. Os 185 minutos restantes usam todas as 260 combinações de trechos sonoros, indicando uma comunicação altamente estruturada.

—        Tem certeza de que não há nenhuma base nos primeiros 17 minutos? Nenhuma equação matemática? Nada que indique algum tipo de instruções para tradução?

—        Nada.

—        Droga. — Dodds esfrega os olhos avermelhados.

—        O que está pensando, chefe?

—        Lembra quando perdemos contato com o SOHO no verão de 1998? Antes que Arecibo localizasse de novo o satélite, ficamos repetindo o mesmo sinal de rádio simples, tentando restabelecer contato com o computador principal do satélite. É isso que os primeiros 17 minutos desse sinal lembram. Nenhuma base, nenhuma instrução ou código, só um sinal vindo do espaço se repetindo como um telefone que toca, esperando que o outro lado atenda pra que a informação possa ser transmitida.

—        Concordo, mas não faz sentido. Os extraterrestres que transmitiram esse sinal não poderiam esperar que nossa espécie fosse capaz de traduzir todas essas informações sem uma base.

Swickle nota que o rosto do diretor ficou pálido.

—        O que foi?

—        Só uma idéia maluca. Esqueça, estou muito cansado.

—        Vamos, chefe.

—        Bem, eu estava pensando no SOHO. Nossa transmissão obviamente não precisava de uma base, pois o computador do SOHO já tinha sido programado pela gente. Talvez esse sinal não contenha uma base porque ela não é necessária.

—        Quer dizer que o sinal não foi enviado pra ser traduzido?

—        Não, Swick. — Dodds lança um olhar preocupado para o seu assistente. — Quero dizer, e se o sinal não foi enviado para nós?

 

               5 de Novembro de 2012, Ilha de Sanibel, Flórida

O cântico de "mais quatro anos — mais quatro anos" acorda Edith Axler. Ela se apruma e olha para o relógio, depois desliga a TV e desce para o laboratório. Isadore ainda está curvado sobre a estação SOSUS, escutando.

—        Iz, pelo amor de Deus, são 11 e meia da...

—        Shhh. — Ele tira os fones e liga o alto-falante. — Escute.

Ela ouve um zumbido grave.

—        Parece um gerador.

—        Isso não é nada. Espere.

Momentos se passam, e então o gemido agudo do que parece ser uma broca hidráulica sai do alto-falante, seguido imediatamente por batidas metálicas que continuam por vários minutos.

Iz sorri para a esposa.

—        Não é incrível?

—        Parece o som de algo sendo montado. Provavelmente é uma plataforma petrolífera se preparando pra perfurar.

—        Ou isso, ou é mais uma daquelas expedições geológicas investigando a cratera. Seja o que for, o nível de atividade se intensificou nas últimas trinta horas. Mandei um e-mail pedindo que a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional verifique ambas as possibilidades, mas ainda não recebi resposta. Quem ganhou a eleição?

—        O presidente Maller.

—        Ótimo. Agora que isso acabou, talvez alguém do Departamento de Estado me responda.

—        E se não responderem?

Iz olha para a esposa e dá de ombros.

—        Não importa. Como você disse, deve ser só uma plataforma petrolífera. O Carl e eu vamos fazer nossa pescaria anual nas próximas duas semanas. Talvez a gente estique a viagem até lá pra dar uma olhada mais de perto, só pra ter certeza.

 

                           Miami, Flórida

Dominique olha, enojada, o grandalhão ruivo enfiando mais uma garfada de berinjela na boca. Talvez ele morra engasgado.

—        E então, gatinha, está orgulhosa de mim?

Uma gota de molho de tomate cuspido a atinge na bochecha.

—        Meu Deus, Ray, sua mãe não te ensinou a não falar de boca cheia?

Ele sorri, revelando um naco de berinjela preso entre os dentes amarelados. — Desculpe. Estou de dieta há seis meses. É bom voltar a comer. E então, o que acha?

—        Já falei, achei o sexto lugar ótimo, especialmente considerando que é o seu primeiro concurso.

—        O que posso dizer? Você foi minha inspiração.

—        Agora me fale do Foletta. Quando nos conhecemos, você disse que o conselho diretor e a equipe médica não gostaram nada quando ele chegou de Massachusetts. O que você quis dizer?

—        Isso fica só entre nós, certo?

—        Certo.

Raymond empurra a comida goela abaixo com um gole de cerveja.

—        O pai de um grande amigo meu faz parte do conselho regional. Aliás, foi ele que me ajudou a conseguir o emprego no Centro. Bom, dizem que a dra. Reinike, que trabalhava lá antes do Foletta, vai voltar mês que vem pra reassumir o comando.

—        É mesmo? Achei que ela tivesse se aposentado. O Foletta me disse que o marido dela estava morrendo de câncer.

Ray balança a cabeça, enfiando mais comida na boca.

—        Tudo mentira. Meu amigo me contou que a Reinike está de licença remunerada desde setembro. Ao que parece, um asilo novinho em folha vai ser inaugurado em Tampa daqui a três semanas, e prometeram o cargo de diretor pro Foletta.

—        Espere aí. Se o Foletta vai embora daqui a três semanas, então ele já devia saber antes de vir pra Miami que ia conseguir o emprego em Tampa. Por que tirar a dra. Reinike do cargo pro Foletta ficar só por três meses?

Ray aponta o garfo para ela.

—        Por causa do teu ex-paciente. O instituto de Massachusetts ia fechar e o de Tampa ainda não estava pronto. A Reinike é louca por detalhes. Parece que alguém bem poderosão queria o Foletta no comando pra não ter risco do teu queridinho Gabriel ser reposicionado no sistema.

Ou receber uma avaliação decente. Foletta, seu desgraçado.

—        O que foi, gatinha?

—        Fiz um acordo com o Foletta. Ele me prometeu que o Mick seria colocado sob os cuidados de uma das equipes de reabilitação até janeiro, no máximo.

Os dentes amarelados aparecem de novo.

—        Acho que mentiram pra você, garota. Daqui a três semanas o Michael Gabriel já vai estar longe.

 

O motor elétrico do arrojado Dodge Intrepid ESX2 vermelho zumbe ao ser ativado, auxiliando o motor diesel 1.5 de três cilindros a acelerar pela rampa íngreme da 1-95.

Dominique olha pela janela do passageiro enquanto Raymond costura no trânsito. Ela range os dentes, furiosa com a mentira de Foletta. Eu devia ter imaginado. Devia ter acreditado no que meu coração dizia.

Ela fecha os olhos, lembrando-se de uma das primeiras conversas que teve com Mick.

"O Pierre Borgia manipulou o sistema judiciário. O promotor fez um acordo com o defensor público que foi indicado pra mim e me mandou pra um sanatório em Massachusetts. O Foletta se tornou meu guardião nomeado pelo Estado. O Pierre Borgia recompensa a lealdade, mas que Deus ajude quem vai pra lista negra dele."

Ela foi manipulada, e mais uma vez Michael Gabriel sofrerá as conseqüências.

—        Ray, não estou a fim de dançar. Você se importa de me levar pra casa?

—        Pra casa? Já estamos quase em South Beach.

—        Por favor.

Raymond olha para as pernas bronzeadas e esculturais saindo da saia preta, imaginando-as cruzadas ao redor do seu tronco musculoso.

—        Certo, gatinha, pra casa, então.

 

O Intrepid para no estacionamento do prédio de Dominique vinte minutos depois.

Ela sorri.

—        Obrigada pelo jantar. Desculpe por estragar a noite, mas não estou me sentindo bem mesmo. Da próxima vez eu convido, está bem?

Ele desliga o motor.

—        Eu te acompanho.

—        Não precisa, estou bem. Te vejo no trabalho. — Ela abre a porta e ruma para o elevador.

Ray corre atrás dela.

Droga.

—        Ray, já falei, não precisa me acompanhar.

—        Ei, não tem problema. Eu adoraria conhecer a tua casa. — Ele espera que ela chame o elevador.

—        Ray, esta noite não.

—        Não foi isso que combinamos — diz ele, passando o grosso braço pela sua cintura, puxando-a para perto.

—        Não...

Antes que ela possa impedi-lo, ele a empurra para a parede de concreto, enfiando a língua em sua boca, apertando seus seios com a pata direita.

Uma onda de pânico incandescente toma conta dela quando dezenas de lembranças da infância passam por sua mente de uma só vez.

Reaja! Ela sente ânsia de vômito com o gosto em sua boca, depois morde a língua intrusa, tirando sangue.

—        Ai! Puta que pariu... — Raymond lhe dá um tapa na cara, depois a pressiona contra a parede com uma mão enquanto rasga a sua saia com a outra.

—        Solta ela!

Dominique vê o rabino Steinberg e a esposa se aproximando. Raymond continua segurando o braço dela.

—        Cai fora, isso não é da tua conta.

—        Solte ela, ou vamos chamar a polícia. — Mindy Steinberg mostra o alarme portátil.

Raymond dá um passo ameaçador na direção do casal, arrastando Dominique com ele.

—        Não seja burro — diz Steinberg, apontando para as câmeras de segurança.

—        Ei, Ray...

Raymond se vira.

A ponta do salto alto de Dominique esmaga com força o dedão de Raymond. Ele geme de dor, soltando-a. Num só movimento, o lado do pulso dela atinge o halterofilista em cheio no pomo de adão, silenciando seu grito.

Raymond põe as mãos na garganta, lutando para respirar. Enquanto ele cai de joelhos, Dominique gira o corpo, preparando-se para atingi-lo na nuca exposta com o salto.

—        Dominique, não. — Steinberg a segura pelo braço antes que ela dê o pontapé. — Deixe a polícia cuidar dele.

Mindy abre o elevador e os três entram.

Raymond luta para ficar de pé. Ele se vira para Dominique, seus olhos enlouquecidos, sua boca tentando emitir sons. Quando as portas do elevador começam a se fechar, ele forma a palavra "Gabriel" com os lábios e passa um dedo sobre a garganta, simulando o movimento de uma faca.

 

                         18 DE NOVEMBRO DE 2012 , MIAMI, FLÓRIDA

As salas de terapia em grupo do Centro de Avaliação e Tratamento do Sul da Flórida ficam no terceiro andar, em frente à sala de ginástica, entre o cinema e a sala de computadores.

Dominique está sentada no fundo da sala 3-B, ouvindo distraidamente a sessão vespertina de terapia de grupo do dr. Blackwell, quando nota um enfermeiro empurrando Michael Gabriel, semi-consciente na cadeira de rodas, para dentro do cinema. Ela espera o enfermeiro ir embora e sai da sala.

O cinema está às escuras. A única luz vem do telão de TV. Oito internos, espalhados pelas três dúzias de cadeiras dobráveis, estão assistindo ao último filme de Jornada nas Estrelas.

A cadeira de rodas está na última fila. Dominique se senta, deslizando sua cadeira para perto de Mick. Ele está apoiado de lado, curvado para a frente. Um cinto preso sobre seu peito é a única coisa que o impede de cair de cara no chão. Os olhos negros, antes faróis intensos, agora são poças sem vida que refletem a tela da TV. O longo cabelo castanho de Mick está preso num rabo de cavalo. Dominique sente o cheiro do cabelo sujo e o fedor que emana de suas roupas imundas. A barba incipiente só não cobre a cicatriz em seu maxilar.

Foletta, seu desgraçado. Ela tira um lenço de papel do bolso do jaleco e enxuga a baba que escorre de seu lábio inferior.

—        Mick, não sei se pode me entender, mas sinto sua falta, de verdade. Odeio o que o Foletta fez com você. Você tinha toda a razão sobre ele, e me sinto muito culpada por não ter acreditado. — Ela põe sua mão sobre a dele.

—        Queria que você pudesse me entender.

Para sua surpresa, Mick vira a mão esquerda, cruzando seus dedos com os dela.

—        Meu Deus — ela sussurra.

Mick pisca.

Ela mal consegue conter seu entusiasmo.

—        Mick, preciso te contar tantas coisas...

—        Shhh. — Seus olhos continuam perdidos.

Ela se inclina para a frente distraidamente, fingindo interesse pelo filme.

—        O Raymond, o vigia que te atacou, tentou me estuprar. Foi suspenso, mas ouvi dizer que talvez volte a trabalhar já na semana que vem. Tome cuidado, ele ameaçou te machucar pra se vingar de mim. — Ela aperta a mão dele. — Lembra que eu falei do SOSUS? Convenci o Iz a usar o sistema pra verificar as coordenadas no Golfo que você me deu. Mick, você tinha razão. Realmente tem alguma coisa lá, enterrado mais ou menos um quilômetro e meio abaixo do leito do oceano. O Iz prometeu que iria investigar.

Mick aperta mais a mão dela.

—        Perigoso demais — ele murmura, praticamente sem mexer os lábios.

—        Perigoso demais? Por quê? O que você acha que tem lá embaixo? — Ela solta a mão dele quando a sessão de terapia do dr. Blackwell termina. — Mick, o Foletta mentiu a respeito de tudo. Descobri que ele vai pra Tampa dirigir um novo sanatório de segurança máxima. Você vai ser transferido semana que vem.

—        Me ajude a fugir.

—        Não posso...

Ela se levanta quando o dr. Blackwell se aproxima.

—        Residente, não sabia que você era tão fã de Jornada nas Estrelas. Presumo que este filme seja mais importante do que minha sessão de terapia?

—        Não, senhor. Só... só vim olhar este paciente. Ele estava caindo da cadeira de rodas.

—        Temos enfermeiros pra isso. Tome. — Ele lhe entrega um grosso maço de fichas de pacientes e a afasta de Mick. — Quero que atualize todas as planilhas e as envie para o faturamento em uma hora. Não se esqueça de anotar a sessão de hoje. Quando terminar, pode ir para a nossa reunião no segundo andar.

—        Sim, doutor.

—        E fique longe do paciente do dr. Foletta, residente.

 

                             Golfo do México

O pesqueiro Manatee, de 48 pés, singra os mares rumo ao sudoeste através de ondas de meio a um metro, sua proa banhada pela luz dourada do sol que se põe, beijando o horizonte.

Na cabine, Iz Axler enche sua caneca de café enquanto o seu melhor amigo, Carl Reuben, prepara o jantar na pequena cozinha.

O dentista aposentado passa uma toalha de mão por sua careca incipiente, depois enxuga o vapor das grossas lentes bifocais.

—        Meu Deus, como está quente aqui. Estamos perto desse seu local misterioso?

—        Mais 5 quilômetros. O que vamos comer no jantar?

—        Já falei, dourado-do-mar grelhado.

—        Comemos isso no almoço.

—        Pesque lagosta e comerá lagosta. Me fale desse local. Você disse que lá não tem peixe?

—        Isso mesmo. É o que chamamos de zona morta.

—        Por que está morta?

—        Não sei. Por isso quero dar uma olhada.

—        E por quanto tempo pretende nos manter nessa zona morta?

—        Daqui a quanto tempo sai o jantar?

—        Vinte minutos.

—        Bem, se tiver uma plataforma petrolífera na área como eu desconfio que tenha, sairemos de lá antes da sobremesa.

Iz sai da cabine e sobe no convés, saboreando o cheiro do ar salgado temperado pelo aroma do peixe grelhado. Para ele, Carl e Rex Simpson, os cinco dias anuais de pescaria são o ponto alto do ano. Depois de uma longa temporada de furacões, as águas do Golfo se acalmaram e o tempo se abrandou, oferecendo condições ideais para passeios de barco. Em dois dias, eles pescaram uma dúzia de dourados-do-mar, oito olhos-de-boi e uma garoupa. Virando-se para o sol poente, Iz fecha os olhos e inspira, deixando os haustos tépidos do vento aliviarem seu rosto queimado pelo sol.

Uma pancada seca o faz virar. Rex recoloca o tanque de ar e termina de afivelado nas costas do colete com o compensador de flutuação.

—        Vai mergulhar um pouco, Rex?

O proprietário do Clube dos Caçadores de Tesouros de Sanibel, de 52 anos, olha por cima do ombro.

—        Por que não? Já que não podemos pescar nesse seu lugar secreto, pensei em fazer um mergulho noturno.

—        Não sei se vai ter muita coisa pra ver. — Iz retoma seu lugar no assento do capitão. Ele pega os binóculos e vasculha o horizonte vazio, depois verifica a posição do barco no GPS. — Que estranho.

—        O que é estranho?

Iz desativa o piloto automático e desliga os motores do Manatee.

—        Chegamos. É aqui, este é o lugar que eu falei.

—        Aqui só tem água. — Rex enrola seu longo cabelo grisalho num rabo de cavalo. — Você não disse que teria uma plataforma petrolífera?

—        Devo ter me enganado. — Iz ativa o rádio para falar com a costa. — Manatee chamando Alfa-Zulu-três-nove-seis. Alfa-Zulu, responda. Edie, está me ouvindo?

—        Prossiga, Manatee. Como vai a pescaria?

—        Vai bem. Muitos olhos-de-boi e dourados-do-mar. O Rex pegou uma garoupa hoje de manhã. Edie, acabamos de chegar ao local acima da cratera de Chicxulub. Não tem nada aqui.

—        Nenhuma plataforma?

—        Nada. Mas o tempo está perfeito e o mar está calmo. Acho que vamos passar a noite aqui enquanto faço alguns testes.

—        Tome cuidado.

—        Pode deixar. Falo com você mais tarde.

O Sol, agora, é uma bola vermelha de lava pondo-se espetacularmente a bombordo da proa. Iz esvazia a caneca de café e ativa o sonar do barco para verificar a profundidade do mar.

Pouco mais de 600 metros.

Rex vê Isadore fuçando num compartimento estanque.

—        Ei, Iz, olhe a sua bússola, está dançando mambo.

—        Eu sei. Tem uma cratera enorme sob o leito do oceano, de uns 100 quilômetros de diâmetro. Estamos perto do centro, que possui um campo magnético muito forte.

—        O que você está fazendo?

Iz termina de conectar um microfone submarino a um grande carretel de cabo de fibra óptica.

—        Quero ouvir o que está acontecendo lá embaixo. Pegue esse microfone e coloque do lado de estibordo da proa. Vá soltando o cabo devagar.

Iz pega a outra ponta do cabo e a conecta a um modulador de amplitude. Ele liga o computador, enfia o plugue dos fones na tomada do sistema acústico e escuta.

Jesus Cristo...

Rex volta.

—        Já baixei o microfone. O que está ouvindo? Sinatra?

Iz lhe passa os fones.

Sons mecânicos metálicos, como de estridentes pistões hidráulicos e engrenagens inundam os ouvidos de Rex.

—        Que porra é essa?

—        Não sei. O SOSUS detectou os sons há algumas semanas. Estão vindo de uns 1.500 metros abaixo do fundo do mar. Achei que fosse uma plataforma petrolífera.

—        Coisa bizarra. Falou com alguém a respeito disso?

—        Fiz um relatório pra Marinha e pra Administração Nacional, mas ninguém me deu nenhuma resposta ainda.

—        Pena que não trouxemos o Barnacle.

—        Não sabia que o seu submarino podia descer tanto.

—        Claro que pode. Já desci 1.800 metros com ele nas Bahamas.

Carl aparece no convés, seu rosto rubro.

—        Ei, vocês vêm comer ou não?

 

21h22

Uma tapeçaria de estrelas cobre o limpo céu noturno.

Carl está debruçado sobre a travessa da popa, organizando sua caixa de pesca pela terceira vez naquele dia. Rex está na cabine, lavando a louça, enquanto Iz escuta os sons submarinos no posto do piloto.

—        Manatee, responda.

—        Prossiga, Ead.

—        Eu estava monitorando o SOSUS. Os ruídos estão ficando mais altos e mais rápidos.

—        Eu sei. Parece quase uma locomotiva desgovernada.

—        Iz, acho que vocês deviam sair daí. Iz?

O silvo hiper agudo queima o seu canal auditivo como um ferro em brasa. Iz arranca os fones da cabeça e cai de joelhos, desorientado, com um insuportável zumbido nos ouvidos.

—        Rex! Carl! — Ele ouve só um eco abafado.

Uma fantasmagórica luz verde o faz erguer os olhos. O interior da cabine está brilhando com um halo esmeralda iridescente que irradia da água. Rex ajuda Iz a ficar de pé.

—        Você está bem?

Iz faz que sim, com os ouvidos ainda zumbindo um pouco. Os dois homens cambaleiam por cima dos trajes de mergulho e vão para a proa, onde está Carl, atento demais à luz brilhante para notar a fumaça saindo dos circuitos eletrônicos torrados do modulador de amplitude.

Santo Deus. Iz e seus dois amigos olham estarrecidos para o mar, seus rostos banhados no verde fantasmagórico do brilho luminoso.

O Manatee está flutuando na superfície de uma porção circular de mar luminescente, com pelo menos 1.500 metros de diâmetro. Iz se curva sobre a água, estupefato pela visibilidade surreal criada pelo feixe incandescente, vindo de algum lugar no fundo do mar, uns 600 metros abaixo do barco.

—        Iz, Rex, o cabelo de vocês!

Carl aponta para o cabelo dos amigos, que está de pé. Rex toca seu rabo de cavalo, ereto como a pena de um índio. Iz esfrega a palma da mão nos pelos do seu antebraço, provocando faíscas de eletricidade estática.

—        Que diabos está acontecendo? — murmura Carl.

—        Não sei, mas vamos sair daqui agora. — Iz volta rapidamente para a cabine e aperta o botão da ignição.

Nada.

Ele aperta o botão mais três vezes. Verifica o rádio e o sistema de navegação por GPS.

—        Qual o problema? — Carl pergunta nervosamente.

—        Nada funciona. Aquilo que está brilhando lá embaixo pôs todos os nossos dispositivos eletrônicos em curto. — Iz se vira e vê Rex vestindo o traje de mergulho. — O que está fazendo?

—        Quero ver o que tem lá embaixo.

—        É perigoso demais. Pode ser radioativo.

—        Então estarei mais seguro no traje de mergulho do que vocês dois aqui em cima. — Ele afivela o colete com o tanque de ar, verifica os manômetros e calça os pés de pato. — Carl, minha câmera submarina está perto de você.

Carl joga-lhe a câmera.

—        Rex...

—        Iz, emoções fortes são meu hobby. Vou tirar umas fotos rapidinho e voltar pra cá em cinco minutos.

Iz e Carl veem Rex se jogar da lateral, impotentes.

—        Carl, pegue um remo. Vamos mover o barco.

 

O mar está tão visível que Rex se sente nadando em direção às luzes submersas de uma piscina profunda. Ele paira 2 metros abaixo do casco, sentindo-se totalmente em paz, seu corpo e as bolhas de ar que escapam imersos no suave brilho verde-esmeralda.

O movimento acima de sua cabeça o faz olhar para cima. Meu Deus...

Rex pisca duas vezes, olhando incredulamente para a criatura grotesca que grudou por todo o comprimento bem no centro da quilha do Manatee. Dez metros de tentáculos fibrosos ondulam de um cilindro gelatinoso que lembra uma lagarta. Nada menos que cem estômagos em forma de sino atravessam o corpo encordoado e cor creme da criatura, cada abertura digestiva contendo sua própria boca hedionda e projeções venenosas parecidas com dedos.

Incrível. Rex nunca viu um espécime vivo, mas sabe que a criatura é uma Apolemia, uma espécie de sifonóforo. Esses seres bizarros, que podem medir de 25 a 30 metros de comprimento, habitam apenas as águas mais profundas e, em decorrência disso, raramente são vistos pelo homem.

A luz deve tê-la afugentado para a superfície.

Ele tira várias fotos, mantendo o que espera ser uma distância segura dos tentáculos venenosos da criatura, e em seguida solta ar de seu compensador de flutuação e afunda.

A iluminação surreal lhe dá a estranha sensação de estar caindo em câmera lenta. Rex bate as pernas a 18 metros para diminuir a velocidade da descida, a pressão aumentando em seus ouvidos. Ele aperta o nariz e equaliza, mas fica surpreso ao descobrir que a dor está piorando. Então, olhando para baixo, nota algo subindo em sua direção, vindo do vazio luminoso.

Rex sorri e estende os braços. Milhares de bolhas de ar do tamanho de Fuscas sobem ao redor dele.

Incrível.

A dor nos seios nasais o obriga a se concentrar. Um rugido abafado de barítono enche seus ouvidos, reverberando em sua máscara, que faz cócegas no seu nariz.

Rex Simpson para de sorrir ao notar uma sensação torturante no fundo do seu estômago, parecida com os efeitos de estar suspenso no ponto mais alto de uma imensa montanha-russa. O rugido fica mais alto.

E um terremoto submarino!

Seiscentos metros abaixo, uma enorme seção do leito de calcário desmorona, revelando uma abertura enorme em forma de túnel. O mar começa a girar ao ser sugado para o buraco crescente, a correnteza puxando tudo para o redemoinho que afunda.

A luz verde-esmeralda se intensifica, quase deixando-o cego.

 

Iz e Carl conseguiram remar com o Manatee até o perímetro da área brilhante do mar quando uma força invisível parece agarrar a proa, puxando o pesqueiro para trás. Os dois homens se viram, horrorizados, e vêem o mar se abrindo num grande vórtice que gira no sentido anti-horário. — E um redemoinho! Reme mais rápido!

Em segundos, o Manatee é capturado, movendo-se para trás na borda exterior do redemoinho.

 

A poderosa sucção aferrou o corpo de Rex com uma força assustadora, puxando-o para águas mais fundas. Ele mexe as pernas mais depressa, a pressão aumentando em seus ouvidos enquanto ele luta para soltar seu cinturão de pesos com uma das mãos e agarrar a mangueira descontrolada atrás de sua cabeça com a outra.

O cinturão escorrega da sua cintura, desaparecendo na luz intensa. Rex tateia o dispositivo do compensador de flutuação e aperta uma alavanca, inflando-o.

Sua descida fica mais lenta, mas não para.

Uma corrente indescritivelmente forte o joga para o lado de repente, como se ele estivesse sendo sugado para fora de um avião. Ele se agita, a corrente ameaçando arrancar o respirador e a máscara de seu rosto. Ele morde com força e segura sua preciosa máscara, lutando futilmente contra a irresistível turbulência.

O mar se abre abaixo dele. Ele olha como se estivesse do alto de cem andares lá para baixo, para o brilhante olho verde do vórtice, um buraco no mar cuja força centrífuga agora o mantém grudado à parede interior de seu crescente funil giratório.

O medo faz o coração de Rex bater loucamente. A força sobre o seu tronco aumenta, forçando as fivelas de velcro, que é tudo o que evita que o tanque de ar seja arrancado do colete. Ele fecha os olhos, sentindo náusea, enquanto o redemoinho o gira em sua parede interior numa velocidade estonteante, ao mesmo tempo que o suga cada vez mais fundo para a sua bocarra.

Eu vou morrer, meu Deus, por favor, me ajude...

O vidro da máscara racha. A pressão de uma morsa lhe espreme o rosto. Sangue escorre de suas narinas. Ele sufoca, depois fecha os olhos com todas as forças, gritando no respirador, sentindo que seus globos oculares estão sendo arrancados dos nervos ópticos, saltando das órbitas. Um grito final é obliterado quando o cérebro de Rex Simpson implode.

As monstruosas forças G criadas pelo funil de água empalam o casco do Manatee contra as paredes íngremes e rodopiantes, destroçando partes do barco a cada revolução. A força centrífuga pregou o corpo inconsciente de Carl Reuben sobre a parte de trás das pernas de Iz, esmagando o apavorado biólogo contra o convés de fibra de vidro.

Iz se segura ao balaústre diante dele com as duas mãos. O redemoinho ruge em seus ouvidos, sua velocidade estonteante empurrando-o para a inconsciência.

Ele se força a abrir os olhos, dirigindo-os para a fonte da luz verde. A morte está a poucos minutos dali, e de alguma forma a idéia é simultaneamente assustadora e reconfortante.

O feixe brilhante fica mais fraco de repente. Iz estica o pescoço para a frente, inclinando-se precariamente sobre uma viga. Ele vê uma gosma borbulhante como alcatrão esguichando de um enorme buraco no fundo do oceano. A substância negra arrota — Iz pode sentir o seu fedor pútrido e sulfuroso — e depois termina de recobrir o brilho esmeralda enquanto continua a subir pelo funil de água, escurecendo o mar ainda revolto.

Iz fecha os olhos, obrigando-se a pensar em Edie e Dominique enquanto a correnteza enlouquecida empurra o Manatee para o fundo do vórtice.

Meu Deus, que seja rápido.

Carl estica o braço. Ele aperta a mão de Iz quando a gosma preta sobe para engoli-los.

O barco bate no líquido espesso como piche e vira, jogando Iz e Carl de cabeça na garganta do redemoinho de tinta.

 

             23 DE NOVEMBRO DE 2012 , PRAIA DE PROCRESO , PENÍNSULA DE YUCATÁN

6h45

Bill Godwin beija o rosto de sua esposa adormecida, pega seu microdisc player e sai do quarto de hotel no segundo andar do Holiday Inn. Mais uma manhã perfeita.

Ele desce a escadaria de alumínio e concreto até a piscina, depois sai da área cercada e atravessa a Route 27 até a praia, a luz da manhã forçando-o a cerrar os olhos. Diante dele se estendem quilômetros de imaculadas areias brancas virgens e águas azuladas transparentes como cristal.

Lindo...

Fiapos dourados brilham sobre uma faixa de nu¬vens no horizonte oriental quando ele chega à beira da água. Uma adolescente mexicana desliza sobre as águas serenas do Golfo num jet ski roxo e branco. Bill admira a silhueta da moça enquanto se alonga, depois coloca os fones e começa a correr num ritmo suave.

O analista sênior de mercado da Waterford-Leeman, de 46 anos, começou a correr três vezes por semana depois de se recuperar de seu segundo ataque cardíaco, há seis anos. Ele calcula que a "corridinha matinal", como sua esposa a chama, deve ter somado mais uns dez anos à sua expectativa de vida, e está mantendo seu peso sob controle pela primeira vez desde a época da universidade.

Bill passa por outro corredor e acena, momentaneamente apertando o passo. Uma semana de férias no Yucatán fez maravilhas por sua pressão arterial, mas a farta cozinha mexicana não ajudou sua cintura. Ele chega ao posto de salva-vidas deserto, mas decide ir um pouco além. Cinco minutos e 800 metros depois ele para, totalmente exausto. Curvando-se, tira os tênis, enfia o player num deles e vai para as convidativas águas do Golfo para o seu mergulho matinal.

Bill entra na água até que as ondas batam em seu peito. Ele fecha os olhos e relaxa no mar morno, organizando mentalmente o seu dia.

—        Filha da puta... — Bill salta para o lado, segurando o braço, procurando a água-viva que o queimou. — Mas que porra...?

Uma substância preta como alcatrão grudou em seu antebraço, queimando-lhe a carne.

—        Malditas companhias petrolíferas. — Ele balança o braço para a frente e para trás na água, sem conseguir limpar a gosma.

A dor ardente aumenta.

Xingando alto, Bill se vira e dá vários passos em direção à terra. Quando ele finalmente cambaleia até a praia, sangue já está escorrendo de suas duas narinas. Manchas vermelhas tiram-lhe a visão. Sentindo-se zonzo e confuso, ele cai de joelhos na areia.

—        Preciso de ajuda! Alguém pode me ajudar? Um velho casal mexicano se aproxima e pára.

—        Qué pasó, Señor?

—        Sinto muito, não falo espanhol. No hablo. Preciso de um médico. El doctor.

O homem olha para ele.

—        El doctor?

Uma dor penetrante inflama os olhos de Bill. Ele grita, agonizante, e enfia os punhos cerrados nos olhos.

—        Meu Deus, minha cabeça!

O homem olha para a esposa.

—        Por favor, llame a un médico.

A mulher sai correndo.

Bill Godwin sente como se seus olhos tivessem sido perfurados. Ele arranca tufos de cabelo, depois se curva e vomita uma bílis negra ensangüentada e ácida.

O velho mexicano está abaixado, tentando inutilmente ajudar o americano doente quando recua de repente e segura seu tornozelo.

— Hijo de la chingada!

O vômito fumegante respingou no pé do homem, queimando-lhe a carne.

 

                             Casa Branca, Washington, DC

Ennis Chaney sente sobre si os olhos do presidente Maller e de Pierre Borgia ao ler o relatório de duas páginas.

—        Nenhuma pista de onde veio essa porcaria tóxica?

—        Veio do Golfo, provavelmente de um dos campos petrolíferos da PEMEX — diz Borgia. — O mais importante é que uma dúzia de americanos e várias centenas de mexicanos morreram. As correntes confinaram a maré negra à costa do Yucatán, mas é importante que monitoremos a situação para garantir que o vazamento não chegue à costa americana. Também achamos importante manter uma presença diplomática no México durante essa crise ambiental.

—        Traduzindo?

Chaney nota o desconforto de Maller.

—        O Pierre acha que seria melhor você liderar a investigação. O problema do tráfico de drogas desgastou nossa relação com o México. Achamos que essa situação pode nos dar a oportunidade de consertar a cerca, por assim dizer. A imprensa acompanhará você...

Chaney suspira. Embora seu mandato oficial como vice-presidente só comece em janeiro, o Congresso já confirmou sua indicação para o posto vago. O novo cargo e a tarefa de ajudar seu gabinete a preparar sua saída do Senado o estão esgotando.

—        Deixe-me ver se entendi. Estamos nos preparando para um potencial conflito no Golfo Pérsico, mas o senhor quer que eu chefie uma missão diplomática no México? — Chaney balança a cabeça. — Que diabos posso fazer lá, além de oferecer minhas condolências? Com todo o respeito, presidente, nosso embaixador no México pode cuidar disso.

—        Isso é mais importante do que você imagina. Além disso — diz o presidente abrindo um sorriso forçado —, quem mais teria estômago para tanto? Você já trabalhou no Centro de Controle de Doenças Infectocontagiosas. E o seu trabalho durante a epidemia de dengue em Porto Rico há três anos foi uma tremenda cartada de relações públicas.

—        Minha participação não teve nada a ver com relações públicas.

Borgia fecha sua valise com estrondo.

—        O presidente dos Estados Unidos acaba de lhe dar uma ordem, vice-presidente. O senhor pretende cumprir o seu dever ou está pensando em renunciar?

Os olhos de guaxinim se arregalam, lançando setas contra Borgia.

—        Pierre, pode nos dar uns minutos?

O secretário de Estado tenta devolver o olhar de Chaney com seu único olho sadio, mas está em desvantagem.

—        Pierre, por favor.

Borgia sai.

—        Ennis...

—        Presidente, se está pedindo que eu vá, naturalmente eu irei.

—        Obrigado.

—        Não precisa me agradecer. Apenas informe àquele ciclope que Ennis Chaney não renuncia pra ninguém. Aquele moleque acaba de ir pro alto da minha lista negra.

 

O vice-presidente sobe a bordo do Sikorsky MH-60 Pave Hawk duas horas depois. Seu recém-promovido assistente, Dean Disangro, já está a bordo, junto com dois agentes do Serviço Secreto e meia dúzia de jornalistas.

Chaney está furioso. Durante toda a sua carreira política, ele jamais permitiu que o tratassem como um lacaio de relações públicas. As fronteiras partidárias e o politicamente correto nada significam para ele. Pobreza e violência, educação e igualdade racial, essas são as lutas que vale a pena travar. Ele costuma se imaginar como um Dom Quixote moderno — lutando contra os moinhos de vento. Aquele caolho de merda pode achar que me controla, mas acabou de comprar briga com um cara que não pensa duas vezes antes de pisar em cima.

Dean traz para o vice-presidente um copo de café descafeinado. Ele sabe que Chaney detesta voar, especialmente em helicópteros.

—        O senhor parece nervoso.

—        Cale a boca. O que é isso que eu ouvi sobre sairmos da rota?

—        Vamos parar no Forte Detrick pra pegar o pessoal do USAMRIID antes de ir para Yucatán.

—        Maravilha. — Chaney fecha os olhos e segura o braço da poltrona quando o Sikorsky salta para o céu.

Treze minutos depois, o helicóptero pousa no Instituto. De sua janela, Chaney vê dois homens supervisionando o carregamento de várias caixas grandes.

Os dois homens sobem a bordo. Um oficial de cabelo prateado se apresenta.

—        Vice-presidente, sou o coronel Jim Ruetenik, um especialista militar em ameaças biológicas destacado para a sua equipe. Este é o meu colega, dr. Marvin Teperman, um exobiólogo emprestado de Toronto.

Chaney examina o canadense baixinho, de bigode fininho e irritante sorriso amigável.

—        O que é um exobiólogo, exatamente?

—        A exobiologia trata do estudo da vida fora do nosso planeta. Essa gosma pode conter uma cepa de vírus que jamais vimos antes. O AMRIID achou que eu poderia ajudar.

—        O que há nas caixas?

—        Trajes anti-contaminação — responde o coronel. — Trajes espaciais portáteis e pressurizados que usamos quando saímos a campo e lidamos com agentes potencialmente ativos.

—        Já conheço os trajes, coronel.

—        É verdade, o senhor esteve em Porto Rico durante a epidemia de dengue de 2009.

—        Temo que isto vá ser um pouco mais nojento — diz Marvin. — Pelo que fiquei sabendo, o contato físico com a substância causa hemorragia generalizada por todos os orifícios do corpo.

—        Eu agüento. — Chaney se segura no assento durante a decolagem. — É a porcaria do helicóptero que me dá enjôo.

O coronel sorri.

—        Assim que pousarmos, nossa primeira preocupação será ajudar os mexicanos a estabelecer zonas cinza, quer dizer, áreas intermediárias entre os locais contaminados e o resto da população.

Chaney ouve um pouco mais, depois reclina o assento da poltrona e fecha os olhos. Trajes anti-contaminação. Hemorragia generalizada. Que diabos estou fazendo aqui?

 

Quatro horas depois, o Sikorsky diminui a velocidade e paira sobre uma praia branca, manchada por uma substância preta como alcatrão. Partes infectadas do litoral foram isoladas com barreiras de madeira laranja.

O helicóptero percorre a praia deserta para o leste, aproximando-se de uma série de barracas da Cruz Vermelha que foram erguidas num trecho isolado. Uma fogueira gigantesca arde a 50 metros do local, sua fumaça marrom deixando um rastro espesso de quilômetros no céu sem nuvens.

O Sikorsky voa lentamente e pousa num estacionamento cercado adjacente à área das barracas.

—        Vice-presidente, acho que este traje é do seu tamanho. — O coronel Ruetenik lhe entrega um traje laranja de astronauta.

Chaney vê Dean vestindo um traje.

—        Errado. Sente a bunda aí, vovô, você fica aqui. A imprensa e os seguranças também.

—        Meu trabalho é ajudar o senhor...

—        Me ajude ficando aqui.

Chaney sai do helicóptero vinte minutos depois, acompanhado por Teperman e pelo coronel. Os três estão usando os volumosos trajes laranja e os tanques de ar.

Um médico os recebe na entrada da barraca principal. Chaney nota uma gosma verde pingando do traje branco do homem.

—        Sou o dr. Juarez. Obrigado por virem tão rápido. O coronel Ruetenik faz as apresentações.

—        Isso é a substância tóxica no seu traje, doutor? — Chaney pergunta, apontando para o líquido verde.

—        Não, senhor. É Envirochem, uma aliada nossa. Usamos como desinfetante. Não deixe de borrifá-la no seu traje antes de se trocar. Venham comigo, vou mostrar a nossa inimiga.

Chaney sente gotas de suor escorrendo dos lados do seu rosto ao seguir os outros para a área de quarentena.

Dúzias de pessoas jazem em macas de plástico na barraca da Cruz Vermelha. A maioria usa trajes de banho. Todas estão cobertas de manchas negras de sangue e bílis. Os que estão conscientes gemem de dor. Trabalhadores usando trajes de plástico e pesadas botas e luvas de borracha estão removendo sacos com cadáveres da barraca no mesmo ritmo em que novas vítimas são trazidas para dentro.

O dr. Juarez balança a cabeça.

—        Este lugar virou uma zona de guerra. O maior estrago aconteceu nas primeiras horas da manhã, antes que se percebesse o quanto a gosma era contagiosa. Isolamos as praias ao meio-dia, mas a primeira leva de médicos e voluntários se contaminou, o que piorou muito as coisas. Começamos a identificar as vítimas e queimar os cadáveres para diminuir o alastramento.

Eles entram na barraca adjacente. Uma bonita enfermeira mexicana de traje anti-contaminação está sentada ao lado de uma maca, segurando a mão de um americano de meia-idade em sua mão enluvada.

O dr. Juarez dá um tapinha afetuoso no ombro dela.

—        Enfermeira, quem é esse cavalheiro?

—        É o sr. Ellis, um artista da Califórnia.

—        Sr. Ellis, está me ouvindo?

O sr. Ellis está de costas, com o olhar perdido, os olhos arregalados. Ennis Chaney estremece. Os globos oculares do homem estão completamente pretos.

O coronel puxa o médico para o lado.

—        Como a infecção está se espalhando?

—        Pelo contato físico com a maré negra ou com as excreções de alguém contaminado. Não há nada que sugira que o vírus se espalhe pelo ar.

—        Marvin, pegue o gravador de microfita, por favor, e fique a postos com a caixa de amostras.

O coronel pega o gravador em miniatura da mão de Teperman e começa a falar enquanto assiste o dr. Juarez com o exame.

—        O paciente parece ter entrado em contato com a substância no polegar, indicador e médio direitos. A carne dos três dedos foi corroída até o osso. Os globos oculares estão imóveis, sangrando e completamente enegrecidos. O paciente parece em choque. Enfermeira, há quanto tempo o sr. Ellis entrou em contato com a maré negra?

—        Não sei, senhor. Duas horas, talvez.

Marvin fala ao ouvido de Chaney.

—        Essa coisa age bem rápido.

O coronel ouve o comentário e balança a cabeça.

—        A pele do paciente está úmida, amarelada, com manchas negras aparecendo nos membros superiores e inferiores. — O coronel Ruetenik toca com cuidado as bolhas de sangue sob a pele de Ellis. — Bolhas são evidentes em ambos os membros superiores...

O dr. Juarez se senta ao lado do paciente, que parece estar saindo do estupor.

—        Tente não se mexer, sr. Ellis. O senhor entrou em contato com alguma espécie de...

—        Minha cabeça está me matando. — Ellis levanta o corpo de repente, o sangue negro pingando das narinas. — Quem são vocês, caralho? Ai, meu Deus... — Sem aviso, uma enorme quantidade de sangue negro e espesso, misturado com tecidos, esguicha com força da boca de Ellis. A bílis fumegante escorre pelo seu peito e espirra nos capacetes de Teperman e da enfermeira.

Chaney se afasta vários passos, a visão da bílis negra causa-lhe ânsia. Ele engole o vômito que sobe pela sua garganta e desvia o olhar, tentando se recompor.

A enfermeira continua ajoelhada diante do paciente, segurando as duas mãos de Ellis, a compaixão impedindo-a de desviar o olhar do rosto horrorizado do moribundo.

O sr. Ellis olha para o dr. Juarez e o coronel com dois buracos negros, uma expressão inerte em seu rosto ensangüentado, sentado rigidamente, como se temesse se mover.

—        Estou derretendo por dentro — ele geme.

Chaney vê o tronco do homem começando a tremer e se retorcer. Com um estertor revoltante, ele vomita mais bílis negra, que desta vez flui também das narinas e dos olhos. Ela escorre pelo pescoço de Ellis, seguida por um rio de sangue rubro e brilhante.

O dr. Juarez segura o corpo pelos cotovelos e o tronco da vítima sofre violentos espasmos. Chaney fecha os olhos e reza.

O médico e a enfermeira deitam o saco inerte de órgãos infectados sobre a maca.

O coronel Ruetenik continua de pé ao lado do cadáver ensangüentado e prossegue friamente com o exame.

—        O paciente aparenta ter sofrido uma hemorragia generalizada e maciça. Marvin, traga a caixa de amostras. Quero várias ampolas desse excremento negro, bem como amostras de tecido e órgãos.

Ennis Chaney precisa de toda a sua força de vontade para não vomitar dentro do capacete. Suas pernas estão tremendo visivelmente enquanto vê Marvin Teperman ajoelhado ao lado do morto, enchendo vários pequenos recipientes com o sangue contaminado. Cada amostra é cuidadosamente colocada na caixa, um cilindro de papelão encerado.

Chaney sua profusamente. Ele se sente sufocar dentro do traje.

Os quatro homens deixam a enfermeira fazendo a limpeza.

O coronel puxa Chaney para o lado.

—        O Marvin vai voltar pra Washington com o senhor pra completar a análise dessas amostras. Eu gostaria de ficar um pouco mais. Se o senhor pu¬desse providenciar...

—        Diego! — A enfermeira sai da barraca de isolamento, cambaleando e gritando em espanhol. O dr. Juarez segura-a pelos pulsos.

—        Carajo! — Juarez olha para o pequeno rasgo no cotovelo esquerdo do traje dela. A pele do braço exposto está fumegando, uma mancha de vômito preto do tamanho de uma moeda já queimando a maior parte da carne até o osso.

O coronel Ruetenik lava o braço dela com o desinfetante verde.

—        Calma, Isabel, acho que agimos a tempo. — O dr. Juarez olha para o vice-presidente, seu rosto desesperado, com lágrimas nos olhos. — Minha esposa...

Chaney sente um nó crescendo em sua garganta ao olhar nos olhos apavorados da mulher condenada.

—        Diego, ampute o meu braço!

—        Isa...

—        Diego, vai infectar o bebê!

Chaney fica o suficiente para ver Juarez e Ruetenik levando a mulher aos gritos para a cirurgia. Depois sai correndo da barraca, tentando tirar o capacete e tropeçando num monte de areia. Ele cai de joelhos, procurando o zíper na gola do traje, sentindo a bílis subindo em sua garganta.

—        NÃO! — Marvin segura Chaney pelo pulso, impedindo por um triz que ele retire o capacete. O exobiólogo borrifa desinfetante verde no traje laranja do vice-presidente, que vomita sobre a viseira do capacete.

Marvin espera-o terminar, depois o pega pelo braço e o conduz até os chuveiros químicos. Os dois homens entram debaixo do jato de desinfetante com os trajes anti-contaminação, depois passam para um segundo chuveiro de água, onde tiram os trajes.

Chaney joga a camisa suja num saco plástico. Ele lava o rosto e o pescoço, depois se senta num banquinho, sentindo-se fraco e vulnerável.

—        O senhor está bem?

—        Merda. Estou muito longe disso. — Ele balança a cabeça. — Perdi o controle.

—        O senhor se saiu bem. Esta é a quarta vez que visito uma zona de contágio. O coronel já esteve em pelo menos uma dúzia.

—        Como vocês agüentam? — ele arfa, suas mãos ainda tremendo.

—        Fazemos o melhor que podemos para nos distanciar enquanto estamos ali, depois vamos pro chuveiro, tiramos o traje e vomitamos.

Distanciar. Malditos moinhos de vento. Estou ficando velho demais pra lutar contra eles.

—        Vamos pra casa, Marvin.

Chaney segue Teperman de volta para o helicóptero. Ao subir a bordo, ele se vira e vê dois homens jogando mais um cadáver na pira funerária.

É a enfermeira.

 

             24 DE NOVEMBRO DE 2012, HOLLYWOOD BEACH, FLÓRIDA

As lágrimas escorrem tão copiosamente de seus olhos que Dominique mal consegue ver a imagem de Edie no vídeo-comunicador. O rabino Steinberg aperta com mais força a sua mão enquanto a esposa dele esfrega as suas costas.

—        Edie, não entendo. O que aconteceu? O que o Iz estava fazendo lá?

—        Investigando aqueles sons vindo da cratera.

Um uivo sobe de sua garganta. Ela esconde o rosto no peito do rabino, soluçando incontrolavelmente.

—        Dominique, olhe pra mim! — Edie ordena.

—        É minha culpa.

—        Pare. Isso não teve nada a ver com você. O Iz estava lá fazendo o trabalho dele. Foi um acidente. A Guarda Costeira mexicana está investigando...

—        E a autópsia?

Edie desvia olhar, lutando para conter sua própria dor.

O rabino Steinberg encara Dominique.

—        Os três corpos foram infectados pela maré negra. Tiveram que ser queimados.

Dominique fecha os olhos, seu corpo tremendo.

O rosto de Edie volta a ocupar a tela.

—        Escute, querida. Vamos fazer o funeral daqui a dois dias. Quero que você venha pra casa.

—        Eu vou. Vou ficar em casa por uns tempos. Tudo bem?

—        E a sua residência?

—        Já não importa mais. — Ela enxuga as lágrimas. — Edie, eu sinto muito...

—        Apenas venha pra casa.

 

O céu cinza da tarde está ameaçador quando Dominique sai do portão térreo do prédio em Hollywood Beach. Ela atravessa a A-l-A e destranca a porta do Pronto Spyder, jogando sua valise no banco do passageiro. Ela inspira profundamente, sentindo o cheiro do mar e da chuva iminente, depois entra no carro.

Dominique gira a chave na ignição e aperta o botão da partida, apoiando a testa no volante enquanto espera que o sistema antifurto e de segurança complete sua análise.

Iz morreu. Ele morreu, e a culpa é minha. Ela fecha os olhos e balança a cabeça. A culpa é toda minha.

O CD player liga.

O aparelho está programado no modo Digital DJ. O computador de bordo do carro esporte registra a temperatura de suas mãos no volante, interpretando o seu humor.

O CD Best of the Doors é selecionado.

Pense bem. O tempo estava calmo, e Iz era experiente demais no mar pra deixar o barco simplesmente afundar. Algo terrível e imprevisto deve ter acontecido.

O som familiar de baquetas dançando sobre o prato da bateria se entrelaça com seus pensamentos. Notas pungentes de uma guitarra oriental a tocam, alimentando o seu sofrimento, mas de alguma forma também a acalmam. Lembranças de Iz cruzam sua mente. Uma profunda tristeza recarrega suas emoções esgotadas quando a letra da música chega ao seu coração, empurrando-a mais uma vez para o abismo. Lágrimas quentes a cegam quando a estrofe melódica de Jim Morrison ecoa em seus ouvidos.

 

This is the End... beautiful friend,

This is the End... my only friend, the End.

 

Hipnotizada pelo surreal epitáfio, ela levanta a cabeça do volante e vê os primeiros pingos de chuva batendo no pára-brisa. Ela fecha os olhos para o aguaceiro, e as lembranças de Iz, Edie e Mick rodopiam em sua mente, fora de controle.

 

—        Você parece cansada, menina...

—        Apenas venha pra casa...

 

Lost in a romance, wilderness of pain.

 

—        Se eu não estivesse... aprisionado... você acha... você acha que poderia me amar?

 

And all... the children... are insane,

Waiting for the summer rain, yeahhh...

 

—        Quatro Ahau, três Kankin. Você sabe que dia é esse, não sabe, Dominique?

—        Você acredita em Deus?

—        Você parece cansada, menina...

—        Você acredita no mal?

 

There's danger on the edge of town...

 

—        Você precisa fazer alguma coisa! A cratera de Chicxulub... o relógio está andando...

—        Querida, você é uma só. Não pode achar que vai salvar o mundo...

—        O relógio está andando... e nós vamos todos morrer!

—        Não pode achar que vai salvar o mundo...

—        O relógio está andando...

 

Father, I want to kill you...

 

Dominique cai sobre o volante, seus soluços competindo com as vociferações de luxúria edipiana de Jim Morrison.

Abrandando-se de novo, as notas orientais retomam o controle.

 

This is the End... beautiful friend,

This is the End... my only friend, the End.

 

—        Nenhum de nós tem controle sobre o jogo ou as cartas que recebemos. O que temos é responsabilidade total sobre como jogamos com essas cartas.

O motor do Spyder arranca, assustando-a.

 

This is the End...

 

Ela desliga o som e enxuga as lágrimas, enquanto a chuva continua bombardeando o pára-brisa. Ela olha para cima e se vê no espelho retrovisor. Jogar com as cartas que recebemos.

Por vários minutos, ela continua a olhar para a frente, a determinação substituindo a dor, sua mente se concentrando num plano. Então ela ativa o telefone do carro e tecla o número do rabino Steinberg.

—        Sou eu. Não, ainda estou aqui embaixo. Tenho que fazer uma coisa importante antes de ir pra Sanibel, mas vou precisar da sua ajuda.

 

                       25 DE NOVEMBRO DE 2012, MIAMI, FLÓRIDA

21h54

O Pronto Spyder preto vira à direita na 23rd Street, faz uma conversão e estaciona ao lado de um poste telefônico na calçada, em frente ao muro de concreto branco de 6 metros de altura. A rua lateral, que ladeia o sanatório ao norte, vira para o oeste por mais duas quadras antes de terminar numa tecelagem abandonada. O bairro é esquálido e a rua está deserta, exceto por um furgãozinho Dodge estacionado no fim da quadra.

Dominique sai do carro, sentindo a adrenalina. Ela abre o porta-malas, olha se não há ninguém por perto, e tira 15 metros de uma corda branca de náilon de um centímetro e meio de espessura. A corda tem nós a intervalos de meio metro. Abaixando-se como se quisesse verificar o pneu traseiro direito, ela amarra uma ponta da corda na base do poste, voltando depois para o porta-malas.

Ela abre a caixa grande de papelão e tira dela o modelo de helicóptero de controle remoto de 80 centímetros. Ele tem uma garra mecânica sob o minúsculo trem de pouso. Dominique posiciona o último nó da ponta solta da corda na garra e a fecha.

Certo, não estrague tudo agora. Mantenha a corda longe do arame farpado.

Ela liga o motor à bateria do helicóptero, fazendo uma careta ao ouvir o zumbido agudo e barulhento dos rotores. O brinquedo decola, balançando ao lutar para puxar a corda. Dominique manobra o aeromodelo numa subida em vertical bem acima do muro de concreto, usando todo o comprimento da corda.

Isso, com calma...

Usando o controle, ela guia o helicóptero para além do muro, sobre o jardim, e, acionando a garra, solta a corda.

A ponta livre cai no jardim e o resto da corda cai entre as voltas de arame farpado, pousando no topo da barreira de concreto.

Perfeito. Vai! Dominique empurra o controle para a direita. O aeromodelo voa para a tecelagem no fim da rua e desaparece por cima do telhado do imóvel abandonado. Ela desliga o controle remoto e ouve o som revelador do plástico se despedaçando a distância.

Fechando o porta-malas, ela volta para o carro e entra no estacionamento dos funcionários.

Dominique olha o relógio: 22:07. Quase na hora. Ela tira do porta-luvas, a vela queimada e a chave de vela, desliga o motor do carro e abre o capô.

Fecha o capô três minutos depois, usando um pano úmido para limpar a graxa das mãos. Depois de retocar a maquiagem, ajeita por um momento o top aderente e cobre seu decote revelador com o suéter de cashmere cor-de-rosa.

Certo, Mick, agora é com você.

Ela corre para a entrada do Centro, rezando para que Mick estivesse lúcido quando eles conversaram naquela tarde.

 

22h14

Michael Gabriel está sentado na beirada do colchão fino, seus olhos negros perdidos, olhando para o chão. Sua boca está aberta e a saliva pinga do lábio inferior. O lado de dentro do antebraço esquerdo, coberto de hematomas, está virado para cima, apoiado na coxa, um convite ao açougueiro. O braço direito está ao lado do corpo, o punho semicerrado. Ele ouve o enfermeiro se aproximando.

—        Ei, Marvis, é verdade? É a última noite do vegetal aqui?

Mick respira fundo, tentando acalmar seu coração acelerado. A presença do vigia do sétimo andar complica as coisas. Você tem só uma chance. Derrube os dois, se precisar.

Marvis desliga o televisor do núcleo e termina de limpar as manchas de suco de uva da mesinha de café.

—        Sim. Amanhã o Foletta vai levá-lo pra Tampa.

As portas se abrem. Com sua visão periférica, Mick vê o sádico se aproximando, a sombra do outro homem esperando perto da porta.

Ainda não. O Marvis vai fechar a porta se você pular. Espere até ele ir embora. Deixe o animal te espetar.

O enfermeiro segura o pulso esquerdo de Mick e empurra a seringa na veia inchada, quase quebrando a ponta da agulha ao injetar o Thorazine no vaso sanguíneo danificado.

Mick contrai os músculos abdominais com a dor, forçando seu tronco a não se encolher.

—        Ei, Barnes, vá devagar com ele, ou eu te denuncio de novo.

—        Vá se foder, Marvis.

Marvis balança a cabeça e se afasta.

Os olhos de Mick giram para o alto. Seu corpo vira gelatina e ele desaba sobre o lado esquerdo, olhando para o teto, como um zumbi.

Barnes verifica que Marvis foi embora e abre o zíper da calça.

—        Ei, amor, quer provar uma coisa? — Ele se curva e se aproxima do rosto de Mick. — Por que não abre essa boquinha linda e...

O enfermeiro não vê o punho, só a explosão de luz avermelhada quando os nós dos dedos médio e anular de Mick atingem sua têmpora exposta. Barnes desaba no chão, abalado, mas ainda consciente. Mick o puxa pelo cabelo e o olha nos olhos.

—        Doce ou travessura, filho da puta? — Ele enfia o joelho no rosto de Barnes, tomando cuidado para não deixar o sangue espirrar no uniforme do enfermeiro.

 

22h18

Dominique digita a senha numérica e espera que a câmera infravermelha percorra o seu rosto. A luz vermelha se torna verde, deixando-a entrar no posto central da segurança.

Raymond se vira para encará-la.

—        Ora, olha só quem está aqui. Veio se despedir do seu namorado psicótico?

—        Você não é meu namorado.

Raymond dá um murro nas barras de ferro da porta.

—        Nós dois sabemos de quem eu estou falando. Daqui a pouco vou fazer uma visitinha pra ele. — Os dentes amarelos aparecem. — E, gatinha, eu e o seu garoto vamos nos divertir.

—        Faça o que quiser — diz ela, se encaminhando para o elevador.

—        Que história é essa?

—        Eu vou embora. — Dominique tira um envelope da bolsa. — Está vendo isto? É uma carta de demissão. Vou largar a residência e abandonar o curso. O Foletta está na sala dele?

—        Você sabe que não.

—        Ótimo, então vou deixar isso com o Marvis. Se não for muito além das suas capacidades, libere o acesso pro sétimo andar.

Raymond a olha com desconfiança. Ele ativa o elevador, apertando o botão do sétimo andar no seu painel, depois fica olhando para ela no monitor das câmeras de segurança.

 

Marvis está para deixar sua mesa e ir procurar Barnes quando as portas do elevador se abrem.

—        Dominique? O que você está fazendo aqui?

Ela pega Marvis pelo braço e dá a volta na mesa com ele, virando-o de costas para o elevador e o corredor até o núcleo de Mick.

—        Eu queria falar com você, mas não queria que aquele enfermeiro, o Barnes, ouvisse.

—        Ouvisse o quê?

Dominique lhe mostra o envelope.

—        Estou indo embora.

—        Por quê? O semestre está quase acabando.

Seus olhos se enchem de lágrimas.

—        Meu... meu pai morreu num acidente de barco.

—        Caramba. Eu sinto muito.

Ela soluça e deixa que Marvis a console, encosta a cabeça no ombro dele, seus olhos sempre no corredor que leva para o núcleo 7-C.

Mick cambaleia para fora do seu quarto, usando o uniforme e o boné de beisebol de Barnes. Ele bate a porta e se dirige para o elevador.

Dominique põe a mão no pescoço de Marvis, como se o estivesse abraçando, impedindo que ele se vire.

—        Você me faria o favor de entregar esta carta pro dr. Foletta?

—        Claro. Você quer sair, conversar, fazer alguma coisa?

As portas do elevador se abrem. Mick cambaleia para dentro. Ela se afasta.

—        Não, já estou atrasada. Preciso pegar a estrada. O funeral é amanhã de manhã. Barnes, segure o elevador, por favor...

Um braço impede que as portas se fechem. Dominique dá um beijo no rosto de Marvis.

—        Se cuida.

—        Você também.

Dominique entra no elevador e as portas se fecham atrás dela. Em vez de olhar para Mick, ela dirige o olhar diretamente para a câmera localizada no canto do teto do elevador.

Distraidamente, ela mexe na bolsa.

—        Qual o andar, sr. Barnes?

—        Terceiro.

Ela ouve o cansaço na voz dele. Ergue três dedos para a câmera, depois um dedo, e continua a olhar para a lente enquanto Mick pega o pesado alicate de corte da outra mão dela e o enfia no bolso.

O elevador para no terceiro andar. As portas se abrem.

Mick sai, trôpego, quase caindo de cara no chão.

As portas se fecham.

Mick se vê sozinho no corredor. Cambaleia para a frente, os azulejos verdes do corredor girando em sua cabeça. A dose maciça de Thorazine o está derrotando, e não há nada que ele possa fazer para reagir, agora. Cai duas vezes, depois se apóia na parede e usa todas as forças para sair no jardim.

O ar noturno o reanima momentaneamente. Ele consegue alcançar os degraus de concreto e abraçar o corrimão de aço. Três lances íngremes de escada rodopiam em sua visão. Ele pisca com força, incapaz de desanuviar os olhos. Muito bem, você consegue. Um passo... agora ponha o pé no chão. Ele tropeça ao descer os três primeiros degraus, depois consegue se segurar. Se concentra! Um de cada vez. Não se incline...

Ele rola os últimos 3 metros, batendo dolorosamente com as costas no chão.

Por um momento perigoso, ele deixa que seus olhos se fechem, dando ao sono uma oportunidade de tomar conta. Não! Ele se vira, fica de pé e arrasta as pernas dolorosamente rumo ao monstro de concreto que rodopia à sua frente.

 

Dominique desabotoa o suéter de cashmere, respira fundo e sai do elevador. Ao se aproximar do posto de segurança, corre os olhos pela dúzia de monitores às costas de Raymond, que mostram continuamente imagens de vários pontos do prédio.

Ela avista a câmera do jardim. Uma figura de uniforme está lutando para escalar o muro nu de concreto.

Raymond ergue a cabeça e olha para o seu decote.

 

Os braços de Mick parecem de borracha. Por mais que ele tente, não consegue fazer os músculos obedecerem aos seus comandos.

Ele sente o nó da corda escorregar dos seus dedos e cai de 2 metros e meio de altura, quase quebrando os dois tornozelos na terra dura.

 

Dominique vê Mick cair e sufoca um grito. Antes que Raymond possa reagir, ela tira o suéter, revelando o seu decote.

—        Meu Deus, por que vocês deixam isso aqui tão quente?

Os olhos de Raymond estão saltados. Ele se levanta da cadeira e fica de pé ao lado da porta.

—        Você gosta de me provocar, não gosta?

Com a visão periférica, ela vê Mick ficar de pé. Ele começa a subir de novo. A imagem muda.

—        Ray, vamos ser francos, com tantos anabolizantes nesse seu corpo, você não consegue ficar de pau duro tempo suficiente pra me dar prazer.

Raymond abre a porta.

—        Pra alguém que quase quebrou meu pescoço há três semanas você tem uma boca bem suja.

—        Você não entende mesmo, não é? Nenhuma mulher gosta de ser forçada.

—        Sua vagabundinha. Você quer me fazer violar a condicional, não quer?

—        Talvez eu só esteja tentando pedir desculpas.

Vamos, Mick, mexa-se...

 

A dor o mantém consciente.

Mick cerra mais os dentes, gemendo ao se puxar para cima, andando na parede como um alpinista. Mais três passos. Só mais três, seu babaca, vamos. Dois agora. Mais dois, mexa esses braços, aperte mais a corda. Isso, isso. Pare, respire fundo. Certo, o último, vamos...

Ele chega ao alto do muro. Segurando-se de forma precária, enrola rapidamente algumas voltas da corda no braço esquerdo para não cair. O rolo de arame farpado está a centímetros de sua testa. Mick pega o alicate do bolso de trás e abre as lâminas sobre uma parte do arame à direita da corda.

Ele aperta o alicate com toda a força, até que o aço se quebra. Reposicionando o alicate, luta para se concentrar na outra parte do arame através do nevoeiro do Thorazine, que já toma conta de sua visão periférica.

 

Raymond se apóia na parede e olha para os dois volumes perfeitos sob o top de Dominique.

—        O acordo é o seguinte, gatinha. A gente faz bem gostoso, e eu prometo que deixo teu garoto em paz.

Ela finge se coçar e olha rapidamente para o monitor através das barras da porta. Mick ainda está cortando o arame farpado.

Enrole esse porco.

—        Quer fazer aqui mesmo?

A mão dele lhe sobe pelo braço.

—        Você não vai ser a primeira.

Uma onda de náusea toma conta dela quando ele passa a ponta do indicador na auréola do seu mamilo.

 

Mick retira a seção do arame farpado e sobe no alto do muro, equilibrando-se precariamente sobre o peito. Ele se aproxima da beirada e olha para o outro lado, para a queda de 6 metros.

—        Caramba...

Grunhindo, ele puxa a ponta livre da corda em sua direção e a enrola várias vezes nas outras voltas de arame farpado, cortando-se nas farpas. Enrolando a corda nos pulsos, ele passa por cima do muro — e cai.

Mick cai 3 metros e meio antes que a corda se enrosque no arame farpado, detendo a sua queda. Pendurado pelos pulsos, sente seu peso puxando as voltas de arame do alto do muro enquanto cai para a calçada.

Segundos depois, ele está de quatro, olhando para os faróis que se aproximam como um animal desorientado.

 

— Espere, Ray, eu disse pra parar! — Dominique tira a mão dele de seu seio e puxa uma latinha de spray de pimenta da bolsa.

—        Sua puta, você está brincando comigo!

Ela recua.

—        Não, apenas decidi que a vida do Mick não vale o que você está pedindo.

—        Sua piranha...

Ela se vira e apóia o rosto sobre o sensor. Vamos... Ela espera pelo barulho da trava, depois abre a porta e sai.

—        Tudo bem, gatinha, você fez sua escolha. Agora o seu garoto vai ter que agüentar. — Raymond abre a gaveta da escrivaninha, tira uma mangueira de um centímetro e meio de espessura e vai para o elevador.

 

Dominique chega ao estacionamento, aliviada ao ver o furgãozinho Dodge pegando a Route 441. Ela abre o capô do carro e aperta a tecla pré-programada com o número do serviço mecânico de emergência.

 

O elevador para no sétimo andar. Raymond desliga a energia e sai dele.

Marvis ergue o olhar.

—        Algum problema?

—        Continue vendo TV, Marvis. — Raymond anda pelo núcleo 7-C, parando no quarto 714. Ele digita a senha.

O quarto está mal iluminado. O cheiro azedo de desinfetante e roupas sujas enche o ar.

O ocupante da cela está deitado no colchão, de costas para Raymond, com o lençol puxado até as orelhas.

—        Boa noite, babaca. Estou trazendo um presentinho da tua namorada.

Raymond desce a mangueira com força no rosto do homem adormecido.

Um grito agonizante. O homem tenta se levantar. O grandalhão o derruba de novo com um pontapé, depois espanca suas costas e seus ombros várias vezes, até descarregar toda a testosterona.

Raymond fica perto do corpo, ofegante com o esforço.

—        Foi bom pra você, seu merda? Espero que tenha sido, porque foi muito bom pra mim.

Ele puxa o lençol.

—        Puta que pariu...

 

O rabino Steinberg para o furgãozinho Dodge no acostamento, perto do latão de lixo atrás da loja de conveniência. Ele abre a porta lateral, tira a corda de náilon e a joga rapidamente no lixo. Depois, entra na traseira e ajuda Mick a se levantar e a se sentar no assento.

—        Você está bem?

Mick lhe dirige um olhar sem foco.

—        Thorazine.

—        Eu sei. — O rabino levanta a cabeça de Mick e lhe dá um gole d'água, fazendo uma careta ao ver os hematomas no seu braço. — Você vai ficar bem. Descanse, a viagem é longa.

Mick está inconsciente antes que sua cabeça pouse no banco do carro.

 

O guincho já está puxando o Pronto Spyder sobre a sua traseira quando as primeiras viaturas da polícia de Dade County chegam.

Raymond sai do prédio para recebê-los e vê Dominique.

—        É ela! Prendam essa mulher! Dominique finge surpresa.

—        Do que você está falando?

—        Vá se foder, você sabe do que estou falando. Gabriel fugiu.

—        O Mick fugiu! Meu Deus, como? — Ela olha para os policiais. — Não podem achar que eu tive alguma coisa a ver com isso. Estou parada aqui há vinte minutos.

O motorista do guincho balança a cabeça.

—        É verdade, agente. Eu sou testemunha. E nós não vimos nada.

Um Lincoln Continental freia diante da entrada principal. Anthony Foletta sai do carro usando um agasalho esportivo amarelo-claro.

—        Raymond, o que... Dominique, que diabos você está fazendo aqui?

—        Vim entregar minha carta de demissão. Meu pai morreu num acidente de barco. Estou largando a residência. — Ela olha para Raymond. — Parece que o seu capanga aqui fez uma besteira e tanto.

Foletta olha para ela e puxa um dos policiais para o lado.

—        Agente, sou o dr. Foletta, diretor deste Centro. Essa mulher trabalhava com o interno que fugiu. Se os dois planejaram isso juntos e ela ia dar carona pra ele, é bem provável que ele ainda esteja aqui dentro.

O policial instrui seus homens a entrarem no Centro com os cães, depois volta a sua atenção para Dominique.

—        Moça, pegue suas coisas, você vem comigo.

 

 

                     Diário de Julius Gabriel

Foi no final do outono de 1974 que meus dois colegas e eu chegamos à Inglaterra, todos muito felizes por voltar para a "civilização". Eu sabia que Pierre havia perdido o apetite pelo trabalho e queria voltar para os Estados Unidos. A pressão de sua família politicamente poderosa estava finalmente persuadindo-o a se candidatar. O que eu mais temia era que ele insistisse que Maria o acompanhasse.

Sim, temia. Para dizer a verdade, eu estava apaixonado pela noiva do meu melhor amigo.

Como alguém permite que algo assim aconteça? Ponderei essa questão mil vezes. Os assuntos do coração são difíceis de justificar, embora, de início, eu tenha certamente tentado. Era luxúria, me convenci, causada pela própria natureza do nosso trabalho. A arqueologia tende a ser uma profissão isolada. Equipes muitas vezes são obrigadas a morar e trabalhar em condições primitivas, abrindo mão dos prazeres mais simples da privacidade e da higiene para poder completar suas tarefas. O pudor perde lugar para a praticidade. O banho noturno numa fonte de água doce, o ritual diário de se vestir e se despir — a própria coabitação pode se tornar um festim para os sentidos. Um ato aparentemente inocente pode inflamar as gônadas e ativar o coração, enganando facilmente a mente enfraquecida.

No meu íntimo, eu sabia que tudo isso eram desculpas, pois a beleza morena de Maria havia me intoxicado desde que Pierre nos apresentara, no nosso primeiro ano juntos em Cambridge. Aquelas maçãs do rosto altas, o longo cabelo negro, aqueles olhos de ébano que irradiavam uma inteligência quase animal — Maria era uma visão que capturou a minha alma, um relâmpago que atingiu o meu ser, mas me proibia de agir, sob pena de destruir minha amizade com Borgia.

Mas eu não me entreguei. Convencido de que Maria devia continuar sendo uma garrafa de vinho delicioso que eu ansiava por saborear, mas jamais poderia abrir, trancafiei minhas emoções e joguei fora a chave diabólica — ou pensei ter feito isso.

Ao viajarmos de Londres para Salisbury naquele dia de outono, senti que uma bifurcação na estrada esperava o nosso trio, e que um de nós, provavelmente eu, seguiria por um caminho solitário.

Stonehenge é sem dúvida um dos lugares mais misteriosos da Terra, um templo bizarro de monumentais pedras verticais, dispostas num círculo perfeito como que por gigantes. Como havíamos visitado o sítio durante nosso curso de graduação, nenhum de nós esperava realmente encontrar qualquer nova revelação naquelas extensas planícies verdejantes do sul da Inglaterra.

Estávamos enganados. Mais um pedaço do quebra-cabeça estava lá, olhando-nos de frente.

Embora nem de longe tão antigo quanto Tiahuanaco, Stonehenge incorpora as mesmas façanhas aparentemente impossíveis de Engenharia e Astronomia que já vimos antes. Acredita-se que o próprio local fosse um ímã espiritual para os fazendeiros que chegaram às planícies depois do fim da última Era do Gelo. A encosta da colina devia certamente ser considerada sagrada, pois num raio de 3 quilômetros do monumento ficam nada menos que trezentos túmulos, vários dos quais nos forneceriam pistas vitais ligando a área a artefatos encontrados nas Américas Central e do Sul.

A datação por carbono nos conta que Stonehenge foi construído aproximadamente 5 mil anos atrás. A primeira fase da construção começou com um traçado preciso e circular de 56 mastros de madeira parecidos com totens, cercados por uma vala e uma lombada. Pequenas pedras azuis, transportadas de uma cordilheira a 150 quilômetros dali, substituiriam mais tarde esses marcos de madeira.

Elas, por sua vez, seriam substituídas por pedras monumentais, cujos restos ainda estão presentes nos dias de hoje.

 

As monstruosas pedras verticais que formam Stonehenge são chamadas pedras sarsan. São feitas da rocha mais dura da região e são encontradas na cidade de Avery, uns 30 quilômetros ao norte. A planta original de Stonehenge consistia em trinta dessas pedras, cada uma pesando incríveis 25 a 40 toneladas. Cada uma das grandes colunas de pedra precisava ser transportada por muitos quilômetros de terreno acidentado, depois posta de pé para formar um círculo perfeito de 30 metros de diâmetro. Lintéis de 9 toneladas ligavam o alto dos sarsans, trinta ao todo. Cada lintel precisou ser erguido a 6 metros do chão, depois colocado no lugar sobre os sarsans. Para assegurar um encaixe perfeito, os engenheiros antigos escavaram projeções arredondadas no alto de cada coluna. Esses "plugues" se encaixavam em "soquetes" ocos na parte inferior de cada lintel, permitindo que as peças se unissem como blocos de Lego gigantescos.

Depois que o monumental círculo de pedra estava completo, os construtores ergueram cinco conjuntos de trilithons, dois sarsans verticais unidos por um só lintel. Cada um desses trilithons, formados pelas maiores pedras do complexo, tem 7 metros e meio de altura, com mais um terço de sua massa enterrado no chão.

Cinco trilithons foram dispostos dentro do círculo, formando uma ferradura cuja boca dá para um altar de pedra alinhado com o solstício de verão. O trilithon central, o maior de todos, foi alinhado com o solstício de inverno, 21 de dezembro, o dia da profecia maia, um dia que a maioria das culturas antigas associa com a morte.

Como os aldeões da Idade da Pedra, na Inglaterra antiga, foram capazes de arrastar sarsans de 36 toneladas por 30 quilômetros de terreno acidentado, irregular? Como conseguiram levantar lintéis de 8 mil quilos a 6 metros do chão e encaixá-los perfeitamente no lugar? Além disso, que missão poderia ser importante a ponto de motivar esse povo pré-histórico a completar uma tarefa tão incrível?

Não sobreviveram registros escritos que identificassem os construtores de Stonehenge, mas uma lenda popular (embora absurda) aponta Merlin, o mago da corte do rei Artur, como o cérebro por trás da empreitada. Diz-se que o sábio barbado projetou o templo para funcionar como observatório cósmico e calendário celestial, além de um lugar de comunhão e adoração, até que foi misteriosamente abandonado em 1.500 a.C.

Enquanto Pierre voltava para Londres, Maria e eu saímos de Stonehenge para explorar os grandes túmulos em formato de morros que rodeiam o monumento, esperando encontrar os restos de crânios alongados que ligariam os sítios das Américas Central e do Sul àquele cemitério antigo. O maior túmulo da área é um subterrâneo de 100 metros, também construído com sarsans. Dentro desse túmulo estão os esqueletos de 47 indivíduos. Por algum motivo, os ossos foram anatomicamente separados em câmaras diferentes.

O que encontramos não foi tão surpreendente quanto o que não encontramos — faltavam ao menos uma dúzia de crânios dos maiores indivíduos!

Passamos os quatro meses seguintes indo de túmulo em túmulo, sempre com os mesmos resultados. Finalmente, chegamos ao que muitos arqueólogos consideravam o mais sagrado deles, uma fortificação de pedra localizada sob um túmulo em Loughcrew, região remota do centro da Irlanda.

Entalhados nas paredes de sarsan desse túmulo estão hieróglifos magníficos, o principal desenho sendo uma espiral. Eu me lembro do rosto de Maria, iluminado pela lanterna, quando seus olhos escuros examinaram os bizarros emblemas. Meu coração pulou quando seu rosto se acendeu, reconhecendo-os. Arrastando-me da tumba para a luz do dia, ela correu até o nosso carro e começou a abrir caixas contendo centenas de fotos que tiramos juntos, sobrevoando o deserto de Nazca num balão de ar quente.

— Julius, olhe, é aqui!— ela proclamou, enfiando-me uma fotografia em preto e branco sob os olhos.

A foto era da pirâmide de Nazca, um dos desenhos mais antigos do deserto, que acreditávamos ser de extrema importância. Dentro de seus contornos triangulares estão duas figuras: uma, um animal invertido de quatro patas, a outra, uma espiral.

A espiral era idêntica à dos entalhes encontrados dentro do túmulo.

Maria e eu estávamos empolgados com a descoberta. Ambos compartilhávamos havia algum tempo a convicção de que os desenhos de Nazca representavam uma mensagem antiga de salvação relacionada com a profecia do fim do mundo, a qual era destinada ao homem moderno. (Por que outro motivo o artista misterioso desenharia figuras tão grandes que só poderiam ser vistas de uma aeronave?)

Nosso entusiasmo foi esvaziado pela próxima pergunta lógica: Que pirâmide o desenho de Nazca representava?

Maria insistia que a estrutura tinha que ser a Grande Pirâmide de Gizé, o maior templo de pedra do mundo. Pela sua lógica, Gizé, Tiahuanaco, Sacsayhuaman e Stonehenge eram todos formados por pedras colossais, suas datas de construção eram próximas (ou nós pensávamos que fossem) e o ângulo da pirâmide de Nazca se parecia muito com as laterais íngremes da pirâmide egípcia.

Eu não me convenci tão facilmente. Minha teoria era de que muitos dos desenhos mais antigos de Nazca serviam como marcos de navegação, referências para nos apontar a direção certa. Ao redor da pirâmide de Nazca havia várias pistas que eu acreditava terem sido deixadas para que identificássemos a misteriosa figura triangular.

 

O mais importante desses ícones aparece dentro da borda da pirâmide, abaixo da espiral. É a imagem de um animal invertido de quatro patas, que eu supus ser um jaguar, talvez o bicho mais reverenciado de toda a Mesoamérica.

A segunda pista é o macaco de Nazca. Esse imenso ícone, desenhado numa só linha ininterrupta, tem uma cauda que termina em espiral, idêntica à forma que aparece dentro da pirâmide.

 

Os maias glorificavam o macaco, tratando-o como outra espécie de pessoa. O mito da criação do Popol Vuh diz que o quarto ciclo do mundo foi destruído por um grande dilúvio. As poucas pessoas que sobreviveram, acredita-se, foram transformadas em macacos. O fato de macacos não existirem em Gizé e na região sul do Peru indica, para mim, que a pirâmide retratada nos pampas de Nazca deve se localizar na Mesoamérica.

Baleias tampouco existem no deserto, no entanto, há desenhos de três desses animais majestosos no platô de Nazca. Expondo a teoria de que o misterioso artista usara as baleias para representar no pampa a água cercando três lados, tentei convencer Maria de que a pirâmide em questão devia representar um dos templos maias localizados na península de Yucatán.

De sua parte, Pierre Borgia não estava interessado em nenhuma das teorias. Perseguir fantasmas maias não importava mais para o noivo de Maria; o que importava era o poder. Como já falei, eu previra esse fato havia algum tempo. Enquanto Maria e eu estávamos ocupados explorando os túmulos, Pierre concluía seus planos de voltar aos Estados Unidos e se candidatar ao Congresso. Dois dias depois de termos feito nossa descoberta, ele anunciou, com grande pompa e circunstância, que já era tempo, para ele e a futura sra. Borgia, de se dedicarem a coisas mais importantes.

Aquilo partiu o meu coração.

Os planos para o casamento foram feitos rapidamente. Pierre e Maria se casariam na Catedral de São João, e eu seria o padrinho.

O que eu podia fazer? Me sentia desesperado, acreditando de todo coração que Maria estava destinada a ser minha alma gêmea. Pierre a tratava como uma posse, não como sua parceira. Ela era o seu troféu, a sua Jackie Onassis — um enfeite para o seu braço, que ele achava útil para suas ambições políticas como primeira-dama. Ele a amava? Talvez, pois que homem seria capaz de não amá-la? Mas será que ela o amava de verdade?

Isso eu precisava saber.

Foi só na véspera do dia do casamento que consegui tomar coragem de confessar-lhe o meu amor em voz alta. Olhando naqueles lindos olhos, nadando em lagos negros de veludo, eu podia imaginar os deuses sorrindo para a minha alma torturada quando Maria puxou minha cabeça para o seu peito e soluçou.

Ela sentia a mesma coisa por mim! Maria confessou que vinha rezando para que eu tomasse a iniciativa e a salvasse de uma vida com Pierre, que tinha o seu carinho, mas não o seu amor.

Naquele momento abençoado, eu me tornei sua salvação e ela, a minha. Como amantes desesperados, fugimos naquela noite, cada um deixando um bilhete para Pierre, pedindo perdão por nossos atos e nossas intenções imperdoáveis, nenhum dos dois forte o suficiente para encarar o homem.

Vinte horas depois, chegamos ao Egito — o sr. e a sra. Julius Gabriel.

— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,

Ref. Catálogo 1974-75 páginas 45-62

Diário Fotográfico, Disquete 2: Nome do arquivo: NAZCA,

Fotos 34 & 65

Diário Fotográfico, Disquete 3: Nome do arquivo: STONEHENGE, Desenho 6

 

         27 DE NOVEMBRO DE 2012, ILHA DE SANIBEL, FLÓRIDA

O grasnar agudo de uma gaivota faz Mick abrir os olhos.

Ele está deitado numa cama de casal, com os dois pulsos atados às laterais do estrado. Seu antebraço esquerdo está enfaixado. Um tubo de soro está espetado no direito.

Ele está num quarto residencial. Faixas de sol dourado refletem-se na parede oposta, entrando pelas venezianas que se agitam sobre sua cabeça. Ele sente o cheiro de sal no ar. Consegue ouvir o som da arrebentação do oceano entrando pela janela aberta.

Uma mulher grisalha, de uns 70 anos, entra no quarto.

—        Então você acordou. — Ela abre o velcro de seu pulso direito e verifica o frasco de soro.

—        A senhora é a Edie?

—        Não, sou Sue, esposa do Carl.

—        Quem é Carl? O que estou fazendo aqui?

—        Achamos perigoso levar você pra casa da Edie. A Dominique está lá, e...

—        Dominique? — Mick se esforça para erguer o corpo, mas a tontura o empurra para baixo de novo como uma mão pesada e invisível.

—        Calma aí, amigo. Você logo, logo, vai ver a Dominique. No momento, a polícia está de olho nela, esperando que você apareça. — Ela retira o tubo de soro e aplica um Band-Aid no seu braço.

—        A senhora é médica?

—        Fui assistente no consultório odontológico do meu marido por 38 anos. — Metodicamente, ela enrola o tubo no frasco de soro.

Mick nota seus olhos vermelhos.

—        O que tinha no soro?

—        Sobretudo vitaminas. Você estava mal quando chegou, dois dias atrás. Nada mais do que desnutrição, embora o seu braço esquerdo estivesse num estado deplorável. Você dormiu por quase 48 horas. Na noite passada, teve um pesadelo feio, gritava no sono. Tive que prender seus braços para que não arrancasse o soro.

—        Obrigado. E obrigado por me tirar daquele hospital.

—        Agradeça à Dominique. — Sue enfia a mão no bolso do casaco.

Mick fica surpreso ao vê-la puxar um revólver Magnum .44. Ela aponta a arma para a sua virilha.

—        Ei, espere aí...

—        Meu marido se afogou há alguns dias, a bordo do barco do Isadore. Três homens morreram enquanto investigavam o lugar do Golfo que você falou à Dominique. O que tem lá embaixo?

—        Não sei. — Ele olha para a arma, que treme nas mãos da idosa. — A senhora poderia mirar num órgão menos vital?

—        A Dominique contou tudo a seu respeito; por que você estava preso, sobre o biruta do seu pai e suas histórias do fim do mundo. Pessoalmente, estou me lixando se você acredita nessas maluquices apocalípticas, a única coisa que me importa é descobrir o que aconteceu com meu Carl. Pra mim, você é um fugitivo perigoso. Basta que me olhe torto e vou meter bala em você.

—        Entendi.

—        Não entendeu não. A Dominique se arriscou muito pra te libertar. Até agora, tudo na sua fuga aponta pra uma falha do enfermeiro, e não pra ela, mas a polícia ainda está desconfiada. Estão vigiando a Dominique de perto, o que significa que estamos todos em risco. Esta noite vamos te levar pro barco do Rex. Tem um minissubmarino a bordo...

—        Um minissubmarino?

—        Isso mesmo. O Rex o usava pra procurar navios naufragados. Você vai usá-lo pra descobrir o que está enterrado no leito do oceano. Até lá, vai ficar neste quarto e descansar. Se tentar fugir, te mato e entrego seu corpo à polícia pra pegar o dinheiro da recompensa.

Ela levanta o lençol. O tornozelo esquerdo de Mick está algemado ao estrado.

—        Agora você entendeu.

 

         NASA: Centro de Vôo Espacial Goddard, Greenbelt, Maryland

Ennis Chaney, contrariado, segue o técnico da NASA pelo corredor antisséptico de azulejos brancos.

O vice-presidente não está de bom humor. Os Estados Unidos estão à beira da guerra, e seu lugar é com o presidente e o Estado-Maior, não à disposição do diretor da NASA. Maldito caolho, com certeza me botou em mais uma de suas canoas furadas...

Ele fica surpreso ao ver um vigia parado à porta da sala de reuniões.

Ao ver Chaney, o vigia digita uma senha e abre a porta.

—        Pode entrar, senhor, estão à sua espera.

O diretor da NASA, Brian Dodds, está sentado à cabeceira da mesa de reuniões. Ao seu lado estão Marvin Teperman e uma mulher de 30 e tantos anos, de jaleco branco.

Chaney nota as olheiras escuras de Dodds.

—        Vice-presidente, entre. Obrigado por ter vindo tão prontamente. Esta é a dra. Debra Aldrich, uma das principais geofísicas da NASA, e acho que já conhece o dr. Teperman.

—        Olá, Marvin. Dodds, é bom que isso seja importante...

—        É. Sente-se, senhor. Por favor.

Dodds toca num botão do teclado à sua frente. As luzes da sala enfraquecem e uma imagem holográfica do Golfo do México aparece sobre a mesa.

—        Esta imagem vem do satélite de observação oceanográfica SEASAT, da NASA. Como o senhor pediu, começamos a rastrear o Golfo para tentar isolar as origens da maré negra.

Chaney observa a imagem mudar, passando para um trecho de mar rodeado pela sobreposição de um círculo pontilhado branco.

—        Usando o Radar de Abertura Sintética da Faixa X, conseguimos rastrear a maré negra até estas coordenadas, uma área localizada a uns 56 quilômetros a noroeste da península de Yucatán. Agora observe.

Dodds aperta outro botão. O mar holográfico se dissolve em manchas brilhantes verdes e azuis, no centro das quais está um círculo branco brilhante, sua borda se esfumando em tons mais frios de amarelo, depois vermelho.

—        Estamos vendo uma imagem térmica da área em questão. Como pode ver, algo muito grande está lá embaixo, irradiando um calor tremendo.

—        De início, pensamos ter encontrado um vulcão submarino — acrescenta a dra. Aldrich —, mas o levantamento geológico realizado pela Companhia Petrolífera Nacional do México confirma que não há vulcões na região. Fizemos mais alguns testes e descobrimos que o local libera muita energia eletromagnética. Isso não é tão surpreendente. Ele fica quase no centro da cratera de impacto de Chicxulub, uma área com fortes campos magnéticos e gravitacionais...

Chaney levanta a mão.

—        Desculpe interromper, doutora. Sei que certamente esse assunto é fascinante para vocês, mas...

Marvin segura o pulso do vice-presidente.

—        Eles estão tentando dizer que há algo lá embaixo, Ennis. Algo mais importante do que a sua guerra. Brian, o vice-presidente é um homem ocupado. Por que não pula as leituras de gradientes gravitacionais e vai direto para as imagens de tomografia acústica?

Dodds muda o holograma. As manchas coloridas se transformam numa imagem em preto e branco do leito do oceano. Uma abertura profunda e bem definida, como um túnel, aparece em preto no cinza cheio de rachaduras do leito.

—        Senhor, a tomografia acústica é uma técnica sensorial remota que lança pro leito do oceano feixes de radiação acústica, neste caso, pulsos de ecos ultrassônicos, permitindo que vejamos objetos enterrados.

Chaney observa, intrigado, um enorme objeto ovóide tridimensional começando a se definir sob o buraco maior. Dodds manipula a imagem, tirando o objeto do leito do oceano e fazendo-o flutuar sobre suas cabeças.

—        Que diabos é isso? — diz Chaney, com voz rouca. Marvin sorri.

—        Simplesmente a descoberta mais magnífica da história da humanidade. O sólido ovóide flutua acima da cabeça de Chaney.

—        Que papo-furado é esse, Marvin? O que é essa porcaria?

—        Ennis, há 65 milhões de anos, um objeto de uns 11 ou 12 quilômetros de diâmetro, pesando cerca de um trilhão de toneladas e voando a 56 quilômetros por segundo, caiu num raso mar tropical que hoje é o Golfo do México. O que estamos vendo são os restos do próprio objeto que atingiu nosso planeta e matou os dinossauros.

—        Ora, Marvin, essa coisa é imensa. Como algo tão grande pode sobreviver a um impacto assim?

—        A maior parte não sobreviveu. O objeto que vemos só tem aproximadamente um quilômetro e meio de diâmetro, mais ou menos um oitavo do tamanho original. Cientistas debatem há anos se o objeto que atingiu a Terra era um cometa ou um asteróide. Mas e se não fosse nenhum dos dois?

—        Pare de fazer charadas.

Marvin olha para a imagem holográfica em rotação como se estivesse hipnotizado.

—        O que estamos vendo é uma estrutura uniforme, feita de irídio e só Deus sabe que outros materiais compostos, enterrada um quilômetro e meio abaixo do fundo do mar. O casco é grosso demais para ser penetrado pelos sensores do satélite...

—        O casco? — Os olhos de guaxinim estão esbugalhados. — Está me dizendo que esse objeto enterrado é uma espaçonave?

—        Os restos de uma nave, talvez até um casulo interno separado, posicionado dentro da nave como o núcleo de uma bola de golfe. O que quer que seja, ou fosse, conseguiu sobreviver enquanto o resto do aparelho se desintegrou com o impacto.

Dodds levanta a mão.

—        Um momento, dr. Teperman. Vice-presidente, essas são todas suposições.

Chaney olha para Dodds.

—        Sim ou não, diretor. Essa coisa é uma espaçonave?

Dodds enxuga o suor da testa.

—        No momento, não sabemos...

—        Esse buraco no fundo do oceano... ele leva até a nave?

—        Não sabemos.

—        Por Deus, Dodds, o que é que vocês sabem, afinal?

Dodds respira fundo.

—        Pra começar, sabemos que é imperativo mandar nossos navios pra área antes que outro país encontre o objeto enterrado.

—        Você está se esquivando pra todo lado feito um político, diretor, e sabe que isso me irrita. Tem alguma coisa que não está me contando. O que é?

—        Sinto muito, tem razão. Tem mais, muito mais. Acho que eu mesmo ainda estou meio atordoado. Alguns de nós, inclusive eu, acreditamos agora que o sinal de rádio que recebemos do espaço não era pra nós. Pode... pode ter sido transmitido pra ativar algo dentro dessa estrutura alienígena.

Chaney olha para Dodds, incrédulo.

—        Com "ativar", você quer dizer despertar?

—        Não, senhor. Ativar mesmo.

—        Explique.

Debra Aldrich tira um relatório de seis páginas de sua pasta.

—        Senhor, isto é uma cópia de um relatório do SOSUS enviado mês passado para a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional por um biólogo da Flórida. Ele dá detalhes de sons não identificados vindos do subsolo oceânico dentro da cratera de impacto de Chicxulub. Infelizmente, o diretor da Administração em exercício foi um pouco lento em verificar as informações, mas agora confirmamos que os sons agudos estão se originando dentro dessa estrutura ovóide enterrada. Muita atividade complexa parece estar acontecendo dentro do objeto, sobretudo de natureza mecânica.

O diretor da NASA balança a cabeça.

—        Em seguida, pedimos que a estação receptora central da Marinha em Dam Neck fizesse uma análise completa de todos os picos acústicos registrados na área do Golfo nos últimos seis meses. Embora os sons pareçam ser só estática, os dados confirmam que os ruídos subterrâneos começaram em 23 de setembro, exatamente no mesmo momento em que o sinal de rádio chegou à Terra.

Chaney fecha os olhos e massageia as têmporas, sentindo-se sobrecarregado.

—        Tem mais uma coisa, Ennis.

—        Meu Deus do céu, Marvin. Não posso ter nem um minuto pra engolir isso antes de... deixa pra lá, pode falar.

—        Desculpe, eu sei que tudo isso é demais pra cabeça.

—        Continue...

—        Completamos a análise da maré negra. Quando a toxina entra em contato com tecidos orgânicos, ela não decompõe simplesmente as paredes da célula, mas altera sua composição química básica no nível molecular, levando a uma perda total da integridade das paredes. A substância age como ácido, e o resultado, como vimos, é uma hemorragia total. Mas o interessante é isto: a substância não é um vírus, nem mesmo um organismo vivo, porém contém grandes quantidades de silício e um DNA bizarro.

—        DNA? Meu Deus, Marvin, o que está dizendo?

—        É só uma teoria...

—        Chega de joguinhos. O que é?

—        Resíduos animais. Fezes.

—        Fezes? Está dizendo que é merda?

—        Ha, sim, mas merda alienígena, mais precisamente. Merda alienígena muito velha. A gosma contém traços de elementos que acreditamos terem origem num organismo vivo, um ser baseado em silício.

Chaney desmorona na cadeira, mentalmente esgotado.

—        Dodds, por favor, desligue essa bosta de holograma, está me dando dor de cabeça. Marvin, você está dizendo que algo pode ainda estar vivo lá embaixo?

—        Não, de maneira alguma, senhor — interrompe Dodds.

—        Perguntei ao dr. Teperman. Marvin sorri.

—        Não, vice-presidente, não estou insinuando nada disso. Como falei, as fezes, se são mesmo fezes, são muito velhas. Ainda que uma forma de vida alienígena tivesse conseguido sobreviver ao impacto, com certeza está morta há mais tempo do que nossa própria espécie habita o planeta. E uma espécie baseada em silício como essa provavelmente nem poderia existir num ambiente com oxigênio.

—        Então me explique que diabos está acontecendo.

—        Certo. Por mais incrível que pareça, uma nave alienígena, obviamente anos-luz à frente da nossa tecnologia, caiu na Terra há 65 milhões de anos. Esse impacto foi um acontecimento tremendo na história humana, pois o cataclisma, dizimando os dinossauros, levou à eventual evolução da nossa espécie. Fosse qual fosse a forma de vida dentro dessa nave, ela provavelmente mandou um SOS para o seu planeta natal, que acreditamos estar localizado em algum lugar dentro da constelação de Órion. Isso seria um procedimento padrão. Nossos astronautas fariam a mesma coisa se se vissem isolados em Alfa Centauri ou algum outro mundo a anos-luz daqui. Naturalmente, as distâncias envolvidas deixavam uma missão de resgate fora de questão. Quando nossos equivalentes do Controle da NASA alienígena receberam o SOS, sua única atitude podia ser tentar reativar os computadores alienígenas a bordo da espaçonave e coletar os dados que pudessem.

A dra. Aldrich balança a cabeça, concordando.

—        A gosma preta provavelmente foi liberada automaticamente quando o sinal reativou algum tipo de sistema vital alienígena.

O diretor da NASA mal consegue conter o entusiasmo.

—        Esqueça o transmissor na Lua. Se o Marvin estiver certo, podemos acessar a nave e talvez até nos comunicarmos diretamente com a inteligência alienígena usando o próprio equipamento deles.

—        Você está presumindo que o planeta alienígena ainda existe — diz Marvin. — O sinal do espaço teria sido transmitido há milhões de anos. Até onde sabemos, o sol do planeta pode ter se tornado uma supernova...

—        Sim, sim, claro que você tem razão quanto a isso. A questão é que temos uma oportunidade incrível de acesso a tecnologias avançadas que podem ter sobrevivido dentro da nave. A potencial riqueza de conhecimentos lá embaixo pode acelerar nossa civilização um milênio ou mais.

O vice-presidente sente suas mãos tremendo.

—        Quem mais sabe disso?

—        Só as pessoas nesta sala e um punhado de diretores da NASA.

—        E o tal biólogo do SOSUS, aquele da Flórida?

—        O biólogo está morto — Aldrich declara. — A Guarda Costeira Me¬xicana tirou seu corpo do Golfo no começo desta semana, recoberto da gosma.

Chaney xinga baixinho.

—        Muito bem. Obviamente, preciso pôr o presidente a par disso o quanto antes. Enquanto isso, quero todo acesso público ao SOSUS vedado imediatamente. Informações só devem ser passadas a quem precisa saber. De agora em diante, esta operação é secreta, entenderam?

—        E as fotos de satélite? — pergunta Aldrich. — O objeto pode representar apenas um pontinho no Golfo, mas é um pontinho bem brilhante. Um satélite GOES ou SPOT vai acabar por encontrá-lo. Assim que mandarmos um navio da Marinha ou mesmo uma embarcação científica para a área, vamos revelar nosso segredo para o resto do mundo.

O diretor da NASA balança a cabeça concordando.

—        Senhor, a Debra tem razão. No entanto, acho que sei um jeito de manter a operação em segredo, mesmo permitindo que nossos cientistas tenham acesso ilimitado ao que está lá embaixo.

 

                         Washington, DC / Miami, Flórida

Anthony Foletta tranca a porta da sua sala antes de se sentar para atender a comunicação de longa distância.

A imagem de Pierre Borgia aparece no telemonitor.

—        Alguma novidade, diretor?

Foletta fala baixinho.

—        Não, senhor, mas a polícia está vigiando a garota de perto. Tenho certeza de que ele vai procurá-la a qualquer momento...

—        A qualquer momento? Escute, Foletta, deixe bem claro que o Gabriel é perigoso, entendeu? Instrua a polícia a atirar pra matar. Eu o quero morto, ou pode dizer adeus ao cargo de diretor em Tampa.

—        O Gabriel não matou ninguém. Nós dois sabemos que a polícia não vai matá-lo...

—        Então contrate alguém que esteja disposto a fazê-lo.

Foletta olha para baixo, como se estivesse absorvendo as palavras do secretário de Estado. Na verdade, ele já previa essa diretriz desde que seu interno fugiu.

—        Acho que sei de alguém que poderia fazer isso, um serviço benfeito vai custar caro.

—        Quanto?

—        Trinta. Mais despesas.

Borgia ri.

—        Você é um péssimo jogador de pôquer, Foletta. Vou mandar vinte, nem um centavo a mais. Vai receber o dinheiro dentro de uma hora.

O sinal de linha aparece no telemonitor.

Foletta desliga o sistema, depois se certifica de que a conversa foi gravada. Por um longo momento, pensa em sua próxima ação. Então tira o celular da gaveta da escrivaninha e liga para o pager de Raymond.

 

                       Ilha de Sanibel, Flórida

O Lincoln branco para sobre o cascalho. Karen Simpson, de 31 anos, uma loura oxigenada e bronzeada usando vestido azul-claro, sai do carro e anda cerimoniosamente até a porta do passageiro para ajudar sua mãe, Dory, a descer.

À meio quarteirão dali, um policial à paisana vê, do furgão de campana, as duas mulheres enlutadas, de braço dado, caminharem lentamente para os fundos do lar dos Axler, onde a shivah, a reunião do luto judaico, está acontecendo.

Mesas com comida foram montadas para os familiares e amigos dos falecidos. Três dúzias de convidados circulam, conversando, comendo, contando histórias — fazendo o que podem para consolar uns aos outros.

Dominique e Edie estão sentadas a sós num banco estofado de frente para o Golfo, olhando o sol que começa a se pôr no horizonte.

A uns 800 metros da costa, um pescador a bordo do pesqueiro Hatteras, de 52 pés, luta para puxar sua linha.

Edie aponta.

—        Parece que finalmente pegaram alguma coisa.

—        E só o que vão pegar.

—        Querida, prometa que vai tomar cuidado.

—        Prometo.

—        E você tem certeza de que sabe como operar o minissubmarino?

—        Sim, o Iz me mostrou... — Seus olhos se enchem de lágrimas com a lembrança. — Tenho certeza.

—        A Sue acha que você devia levar a arma dela.

—        Não tive tanto trabalho pra libertar o Mick só pra atirar nele.

—        Ela acha que você não deve confiar tanto.

—        A Sue sempre foi paranóica.

—        E se ela estiver certa? E se o Mick for realmente um psicótico? Ele pode ficar violento e te estuprar. Afinal, está preso há 11 anos e...

—        Ele não vai fazer isso.

—        Leve ao menos o meu Taser. É pequeno, parece um isqueiro. Cabe na palma da mão.

—        Tudo bem. Vou levar, mas não vou precisar dele.

Edie se vira e vê Dory Simpson se aproximando e sua filha, Karen, entrando na casa.

Dominique se levanta e abraça a senhora.

—        Quer tomar alguma coisa?

Dory se senta perto de Edie.

—        Sim, aceito uma soda diet. Infelizmente, não podemos ficar por muito tempo.

 

A bordo do Hatteras, o detetive Sheldon Saints vê Dominique rumar para a casa através de um potente binóculo montado num tripé dentro da cabine do barco.

Outro detetive, usando bermuda jeans, camiseta do Tampa Bay Buccaneers e um boné de beisebol, entra na cabine.

—        Ei, Ted, acabei de pegar um peixe.

—        Já era tempo. Estamos aqui há oito horas, cacete. Me passa o binóculo noturno, está ficando escuro demais.

Saints encaixa o binóculo ITT Night Mariner-260 no tripé e olha, ajustando o controle que transforma a luz fraca em tons de verde, permitindo que ele enxergue. Cinco minutos depois, ele observa a bela suspeita, com seu comprido cabelo preto, sair da casa, levando uma lata de soda em cada mão. Ela se aproxima do banco, oferece uma lata para cada mulher e se senta entre as duas.

Mais vinte minutos se passam. Agora o detetive vê a loura bronzeada de vestido azul sair da casa e se juntar às três mulheres. Ela abraça a sra. Axler, depois ajuda a mãe a se levantar do banco e acompanha até a entrada.

Saints olha por um momento, depois volta a apontar o binóculo para o banco, onde a mulher mais velha e a bela morena estão sentadas, de mãos dadas.

 

Dory Simpson se senta no banco da frente do Lincoln enquanto a jovem dá a partida. A loura dá ré sobre o cascalho e ruma para sudoeste, para a estrada principal da ilha.

Dominique enfia a mão por baixo da peruca para coçar a cabeça.

—        Eu sempre quis ser loura.

—        Não tire até sairmos do cais. — Dory lhe entrega o pequeno Taser, do tamanho de um isqueiro a gás. — A Edie pediu que você sempre carregasse isso com você. Prometi que te faria obedecer. Tem certeza de que vai conseguir operar o minissubmarino?

—        Vou, sim.

—        Eu posso ir com vocês.

—        Não, fico mais tranqüila sabendo que você e a Karen estão aqui, cuidando da Edie pra mim.

 

É tarde quando elas chegam ao cais particular em Captiva. Dominique se despede da idosa com um abraço, depois anda pelo molhe de madeira até o barco a motor Grady-White de 24 pés.

Sue Reuben pede que ela desamarre a corda da popa. Segundos depois, eles estão cruzando o Golfo.

Dominique tira a peruca antes que o vento a arranque, depois puxa a lona cinza.

Mick está deitado de costas, seu pulso direito algemado ao pé do banco do passageiro. Ele sorri para ela, depois faz uma careta quando a proa salta sobre as ondas de meio a um metro, fazendo-o bater a cabeça dolorosamente no convés de fibra de vidro.

—        Sue, onde está a chave?

—        Acho que você devia deixá-lo aí mesmo até chegarmos ao barco. Não faz sentido se arriscar...

—        Desse jeito ele vai enjoar antes de chegarmos lá. Me dê a chave. — Dominique abre a algema e o ajuda a se sentar. — Como você está?

—        Melhor. A enfermeira Ratched aí fez um bom trabalho.

Eles chegam à traineira de 48 pés. Sue desliga o motor, deixando que o impulso termine de aproximar o barco. Mick sobe a bordo. Sue abraça Dominique.

—        Tome cuidado. — Ela enfia o revólver na mão da garota.

—        Sue...

—        Quieta. Não faça estardalhaço. Estoure os miolos dele se tentar alguma coisa.

Dominique enfia a arma no bolso da jaqueta, depois sobe a bordo, acenando enquanto o barco a motor se afasta velozmente.

Agora tudo está tranqüilo, a traineira balançando num mar negro sob um céu estrelado.

Dominique olha para Mick, sem conseguir ver seus olhos no escuro.

—Acho melhor a gente ir, não é? — Relaxe, você parece uma pilha de nervos.

—        Dom, antes preciso dizer uma coisa.

—        Esqueça. Pode me agradecer me ajudando a descobrir o que aconteceu com o Iz.

—        Farei isso, mas não era o que eu ia dizer. Sei que você ainda tem dúvidas a meu respeito. Precisa saber que pode confiar em mim. Sei que já te pedi muita coisa, mas juro pela alma da minha mãe que prefiro me machucar a deixar que qualquer coisa aconteça com você.

—        Eu acredito.

—        E eu não sou louco. Sei que às vezes pareço, mas não sou. Dominique desvia o olhar.

—        Eu sei. Mick, realmente precisamos ir, a polícia vigiou a casa o dia todo. As chaves devem estar na cabine, debaixo da almofada do passageiro. Você pega?

Mick vai para a cabine. Ela espera até ele desaparecer antes de tirar a arma do bolso da jaqueta. Ela olha para o revólver, lembrando o alerta de Foletta. Tenho certeza de que Mick vai usar todo o seu charme para te impressionar.

O motor parte.

Ela olha para a arma, hesita, depois a joga no mar.

Meu Deus, me ajude...

 

                 29 DE NOVEMBRO DE 2012 , GOLFO DO MÉXICO

5h14

A traineira Jolly Roger, de 48 pés, continua sua viagem para o oeste sob o céu estrelado da madrugada. Dominique está no banco do piloto, lutando para se manter acordada, suas pálpebras ficando pesadas. Exausta, ela encosta a cabeça no banco de vinil e volta a forçar a atenção para o livro que está lendo. Depois de reler a mesma frase pela quarta vez, decide dar um momento de descanso a seus olhos vermelhos.

Só alguns segundos. Não durma...

O livro cai de sua mão e o barulho a acorda. Ela inspira o ar fresco e olha para a entrada escura que leva à cabine sob o convés. Mick está lá dentro, dormindo nas sombras. A idéia a reconforta e ao mesmo tempo a apavora. Apesar de o barco estar no piloto automático, ela se recusou a dormir. Sozinha na cabine do piloto, sua imaginação deixou que seus medos mais secretos tomassem conta dela.

Isso é ridículo. Ele não é o Ted Bundy. Jamais te machucaria...

Ela nota que o horizonte está ficando cinza atrás dela. O medo a convenceu de que dormir durante o dia é a melhor opção. Ela decide acordar Mick ao amanhecer.

—        Jolly Roger, responda. Alfa-Zulu-três-nove-seis chamando Jolly Roger, responda por favor...

Dominique pega o microfone.

—        Jolly Roger, prossiga, Alfa-Zulu.

—        Como você está aí, querida?

—        Agüentando. O que aconteceu? Você parece nervosa.

—        Os federais fecharam o SOSUS. Dizem que é só um problema técnico, mas eu não acredito.

—        Droga. Por que você acha...

—        Ahhhhh... Ahhhhhh... — O grito de Mick faz o coração de Dominique pular no peito. — Meu Deus, Edie, eu falo com você depois...

—        Isso é alguém gritando?

—        Está tudo bem. Já falo com você.

Ela desliga o rádio e desce correndo a curta escada, ligando as luzes.

Mick está sentado no beliche do canto, como um animal assustado e confuso. Seus olhos negros estão arregalados, brilhando com a lâmpada nua perto da sua cabeça.

—        Mãe? — A voz é rouca. Apavorada.

—        Mick, está tudo bem...

—        Mãe? Quem está aí? Não consigo te ver.

—        Mick, sou eu, Dominique. — Ela liga mais duas lâmpadas, depois se senta na beira da cama. Mick está de peito nu, seus músculos rijos encharcados de suor frio. Ela vê que as mãos dele tremem.

Ele a olha nos olhos, ainda confuso.

—        Dominique?

—        Sim. Você está bem?

Ele olha para o seu rosto, depois para a cabine ao seu redor.

—        Preciso sair daqui... — Ele a empurra e sobe a escada de madeira, trôpego, saindo no convés.

Dominique o segue rapidamente, temendo que ele pule.

Ela o encontra de pé na proa, o vento frio soprando em seu rosto. Dominique pega um cobertor de lã e o joga sobre seus ombros nus. Ela vê lágrimas em seus olhos.

—        Você está bem?

Por um longo momento, ele apenas olha para o horizonte escuro.

—        Não. Não, acho que não. Eu achava que estava, mas agora acho que estou todo ferrado.

—        Pode me contar o seu sonho?

—        Não. Agora não. — Ele olha para ela. — Aposto que você levou o maior susto.

— Tudo bem.

—        A pior coisa da solitária... o que me dava mais medo... era acordar gritando e ver que eu estava sozinho. Você nem imagina o vazio.

Ela o leva de volta para o convés. Ele se encosta no pára-brisa da cabine do piloto e abre o lado esquerdo do cobertor, chamando-a para junto de si.

Dominique se encosta ao lado dele, deitando a cabeça em seu peito frio. Mick puxa o cobertor ao redor dos ombros dela.

Dali a minutos, os dois estão dormindo profundamente.

 

16h50

Dominique tira duas latas de chá gelado de pêssego do refrigerador, verifica a posição do barco no GPS e volta para a proa. O sol do fim de tarde ainda é intenso, e seu reflexo no convés branco a faz cerrar os olhos. Ela põe os óculos de sol e se senta perto de Mick.

—        Está vendo alguma coisa? Mick baixa o binóculo.

—        Nada ainda. A que distância estamos?

—        Uns 8 quilômetros. — Ela lhe entrega uma lata. — Mick, eu queria te perguntar uma coisa. Lembra no hospital, quando você me perguntou se eu acreditava no mal? O que você quis dizer com isso?

—        Também perguntei se você acreditava em Deus.

—        Está me perguntando do ponto de vista religioso? Mick sorri.

—        Por que os psiquiatras nunca conseguem responder a uma pergunta sem fazer outra?

—        Acho que gostamos de deixar as coisas claras.

—        Eu só queria saber se você acredita num poder superior.

—        Acredito que alguém olha por nós, toca nossas almas num plano mais alto da existência. Sei que uma parte de mim acredita nisso porque preciso acreditar, porque isso me reconforta. E você, o que acha?

Mick se vira, olhando o horizonte.

—        Acredito que a gente possui uma energia espiritual que existe numa dimensão diferente. Acredito que um poder superior existe nesse outro nível, e só temos acesso a ele quando morremos.

—        Acho que nunca ouvi uma descrição assim do paraíso. E quanto ao mal?

—        Todo Yin tem seu Yang.

—        Está dizendo que acredita no demônio?

—        No demônio, Satanás, Belzebu, Lúcifer, que diferença faz o nome? Você disse que acredita em Deus. Você diria que a presença de Deus na sua vida te influencia a ser uma pessoa boa?

—        Se sou uma pessoa boa, é porque escolhi ser. Acredito que os seres humanos receberam liberdade de escolha.

—        E o que influencia essas escolhas?

—        As coisas de sempre... a família, a pressão dos colegas, o ambiente, as experiências de vida. Todos temos certas predisposições, mas no final é nossa capacidade de entender o que está acontecendo conosco que permite que nosso id tome decisões diariamente. Se você quer dividir essas decisões em bem e mal, tudo bem. Mas é livre escolha mesmo assim.

—        Você falou como uma verdadeira psiquiatra. Mas me deixe perguntar uma coisa, srta. Freud. E se essa liberdade de escolha não for tão livre quanto pensamos? E se o mundo ao nosso redor estiver exercendo uma influência sobre o nosso comportamento como espécie que não podemos ver nem entender?

—        O que quer dizer?

—        A Lua, por exemplo. Como psiquiatra, você com certeza está familiarizada com o efeito da Lua sobre a psicose.

—        Os efeitos da Lua são polêmicos. Podemos ver a Lua. Portanto, seu efeito sobre a psique pode ser auto-induzido.

—        Você pode sentir a Terra se movendo?

—        O quê?

—        A Terra. Neste exato momento, ela não está apenas girando, está voando pelo espaço a 77 quilômetros por segundo. Pode sentir isso?

—        O que quer dizer?

—        Coisas estão acontecendo ao nosso redor, coisas que nossos sentidos não percebem, mas que existem mesmo assim. E se essas coisas estiverem exercendo uma influência sobre a nossa capacidade de raciocínio, nossa capacidade de escolher entre o certo e o errado? Você acha que tem vontade própria, mas o que faz você realmente decidir algo? Quando perguntei se você acreditava no mal, estava me referindo ao mal como uma entidade invisível, cuja presença pode cegar nosso juízo.

—        Não sei se entendo o que você está falando.

—        O que influencia um adolescente a metralhar um playground lotado com uma Uzi? Por que uma mãe desesperada tranca suas crianças num carro e o empurra pra dentro de um lago? O que faz um homem estuprar sua enteada ou... ou sufocar sua amada?

Ela vê uma lágrima se formando no olho dele.

—        Você acha que existe uma força maligna que influencia nosso comportamento? Mick?

—        Às vezes... às vezes acho que posso sentir alguma coisa.

—        O que você sente?

—        Uma presença. Às vezes sinto os dedos gelados dela me alcançando de uma dimensão superior. Sempre que sinto essas coisas, parece que coisas terríveis acontecem.

—        Mick, você ficou preso na solitária por 11 anos. Seria estranho se você não ouvisse vozes...

—        Não são vozes, é mais como um sexto sentido — diz ele, massageando os olhos.

Esta viagem pode ter sido um grande erro. Ele precisa de ajuda. Pode estar à beira de um colapso nervoso. De repente, Dominique se sente muito sozinha.

—        Você acha que eu sou um psicótico...

—        Eu não disse isso.

—        Não, mas está pensando. — Ele se vira e olha para ela. — Os maias antigos acreditavam no bem e no mal como presenças físicas. Acreditavam que o grande mestre Kukulcán foi banido por uma força maligna, um deus do mal que os astecas chamavam de Tezcatilpoca, o espelho enfumaçado. Diziam que Tezcatilpoca podia penetrar na alma do homem, enganando-o, fazendo-o cometer grandes atrocidades.

—        Mick, tudo isso é folclore maia. Minha avó costumava me contar as mesmas histórias.

—        Não são só histórias. Quando Kukulcán morreu, os maias começaram a chacinar dezenas de milhares de pessoas do seu próprio povo. Homens, mulheres e crianças foram sacrificados em rituais sangrentos. Muitos foram levados pro templo no alto da pirâmide de Kukulcán, onde o coração foi arrancado dos seus peitos. Virgens eram conduzidas pela antiga estrada elevada até o cenote sagrado, onde suas gargantas eram cortadas e elas eram atiradas no poço. Os templos de Chichén Itzá são decorados com os crânios dos mortos.

Os maias viveram em paz por mil anos. Algo deve tê-los influenciado pra que de repente começassem a se matar dessa forma.

—        De acordo com o diário do seu pai, os maias eram supersticiosos e acreditavam que os sacrifícios impediriam o fim do mundo.

—        Sim, mas havia outra influência, o culto de Tezcatilpoca, que dizem também ter influenciado as atrocidades.

—        Nada do que você me contou até agora prova a existência do mal. O homem massacra sua própria espécie desde que nossos ancestrais desceram das árvores. A Inquisição espanhola assassinou milhares, Hitler e os nazistas mataram 6 milhões de judeus nos fornos e em câmaras de gás. A violência irrompe a toda hora na África. Os sérvios chacinaram milhares em Kosovo...

—        É exatamente isso que eu estou dizendo. O homem é fraco, permite que sua vontade seja corrompida por influências exteriores. As provas estão em toda parte.

—        Que provas?

—        A corrupção está se espalhando nos membros mais inocentes da sociedade. Crianças estão usando sua liberdade de escolha pra cometer atrocidades, sua consciência incapaz de entender a diferença entre o certo e o errado, a fantasia e a realidade. Vi na CNN, alguns dias atrás, uma notícia sobre um menino de 10 anos que levou a pistola automática do pai pra aula e matou dois garotos que caçoavam dele. — Mick fita o mar com os olhos novamente rasos d'água. — Um menino de 10 anos, Dominique.

—        É um mundo doente...

—        Exatamente. Nosso mundo está doente. A trama da sociedade está infestada por uma influência maligna, uma espécie de câncer, e nós a procuramos só nos lugares errados. Charles Baudelaire disse uma vez que o maior truque do demônio é nos persuadir de que ele não existe. Dominique, posso sentir a influência ganhando força. Sinto que ela se aproxima à medida que o portal galáctico se abre e nos aproximamos do solstício de inverno.

—        E se essa sua presença maligna não aparecer daqui a três semanas? O que você vai fazer?

Mick parece intrigado.

—        Como assim?

—        O quê? Você nunca considerou a possibilidade de talvez estar enganado? Mick, toda a sua vida foi devotada a resolver a profecia maia e salvar a humanidade. Sua consciência, sua própria identidade, foi influenciada pelas crenças infundidas em você pelos seus pais. Fortalecidas, desconfio, por esse trauma que você sofreu, que continua assombrando seus sonhos. Não é preciso ser um Sigmund Freud para ver que essa presença que você sente está dentro de você.

Os olhos de Mick se arregalam enquanto ele absorve suas palavras.

—        O que vai acontecer quando o solstício de inverno chegar, passar e todos nós continuarmos aqui? O que você vai fazer da sua vida, então?

—        Eu... eu não sei. Pensei nisso, mas nunca me permiti pensar muito. Temia que se eu pensasse em levar uma vida normal, acabaria perdendo de vista o que realmente importa.

—        O que realmente importa é que você viva a sua vida plenamente. — Ela segura a mão dele. — Mick, use essa sua mente brilhante pra olhar pra dentro de si mesmo. Você sofreu lavagem cerebral desde que nasceu. Seus pais te condenaram a salvar o mundo, mas a pessoa que precisa realmente ser salva é o Michael Gabriel. Você passou toda a sua vida seguindo coelhos brancos, Alice. Agora precisamos te convencer de que o País das Maravilhas não existe.

Mick se deita, olhando para o sol do fim de tarde, as palavras de Dominique ecoando em seus ouvidos.

—        Mick, me fala da sua mãe.

Ele engole em seco, limpando a garganta.

—        Ela era minha melhor amiga. Foi minha professora e constante companhia por toda a minha infância. Enquanto o Julius passava semanas a fio analisando o deserto de Nazca, mamãe me dava sua ternura e seu amor. Quando ela morreu...

—        Como ela morreu?

—        De câncer no pâncreas. Foi diagnosticado quando eu tinha 11 anos. No fim, virei o enfermeiro dela. Ela ficou tão fraca... O câncer a devorava viva. Eu lia pra ela pra fazê-la esquecer a dor.

—        Shakespeare?

—        Sim. — Ele se senta. — A peça favorita dela era Romeu e Julieta. "A morte, que sugou todo o mel de teu doce hálito, não teve poder nenhum sobre tua beleza."

—        Onde estava o seu pai, enquanto isso?

—        Onde mais? No deserto de Nazca.

—        Seus pais se amavam?

—        Muito. Sempre diziam que eram almas gêmeas. Quando ela morreu, levou o coração dele pro túmulo. Levou um pedaço do meu também.

—        Se ele a amava tanto, como pôde deixá-la à beira da morte?

—        Minha mãe e o Julius me disseram que a busca era mais importante, mais nobre do que ficar esperando, vendo a morte invadir seu corpo. Aprendi desde cedo sobre o destino.

—        Como?

—        Minha mãe acreditava que certas pessoas foram abençoadas com dons especiais que determinam seus caminhos na vida. Esses dons vêm acompanhados de grandes responsabilidades, e manter-se no caminho exige grandes sacrifícios.

—        E ela acreditava que você tinha sido abençoado?

—        Sim. Dizia que eu herdei uma visão e uma inteligência únicas dos ancestrais maternos dela. Me explicou que quem não tivesse esse dom jamais iria entender.

Meu Deus, os pais do Mick ferraram com a cabeça dele. Serão necessárias décadas de terapia pra colocá-lo nos eixos. Dominique balança tristemente a cabeça.

—        O que foi?

—        Nada. Só estava pensando em Julius, deixando seu filho de 11 anos com o fardo de tomar conta da mãe doente.

—        Não era um fardo, era o meu modo de agradecer por tudo o que ela tinha me dado. Analisando agora, não sei se eu ia querer fazer alguma coisa diferente.

—        Ele estava presente quando ela morreu?

Mick franze o cenho ao ouvir as palavras.

—        Sim, e como estava.

Ele olha para o horizonte e seus olhos endurecem com a lembrança. Depois, de repente, se aguçam como os de uma águia. Ele pega o binóculo. Um objeto se tornou visível, crescendo a oeste no horizonte. Mick aponta.

—        Tem uma plataforma petrolífera ali, das grandes. Você não disse que o Iz não viu nada nas imediações?

—        Não viu mesmo.

Mick ajusta o foco.

—        Não é da PEMEX, tem a bandeira americana. Algo está errado.

—        Mick... — Dominique aponta.

Ele vê o barco se aproximando e focaliza o binóculo.

—        Droga, é a Guarda Costeira. Desligue o motor. Quanto tempo leva pra pôr aquele submarino na água?

Dominique corre para a cabine.

—        Cinco minutos. Você quer ir pro fundo agora?

—        É agora ou nunca. — Mick corre para a popa, puxando a lona cinza de cima do submarino em formato de cápsula. Ele liga o guindaste. — A Guarda Costeira vai nos identificar. Vamos ser presos na hora. Ah, e pegue suprimentos.

Dominique joga latas de comida e galões de água numa mochila, depois entra no submarino enquanto...

... a lancha está a 100 metros, o comandante gritando um aviso sobre a água.

—        Mick, vamos!

—        Ligue o motor, eu já vou! — Mick entra na cabine e procura o diário do pai.

—        AQUI É A GUARDA COSTEIRA DOS ESTADOS UNIDOS. VOCÊS ENTRARAM NUMA ÁREA RESTRITA. PAREM TODAS AS ATIVIDADES E SE PREPAREM PARA SEREM ABORDADOS.

Mick pega o diário quando a lancha da Guarda Costeira alcança a proa da Jolly Roger. Ele volta para a popa, soltando o cabo do guindaste...

—        Parado!

Ignorando a ordem, ele salta para dentro da esfera protetora interna do minissubmarino de 5 metros e meio de comprimento, equilibrando-se precariamente na escada de ferro para puxar e fechar a escotilha.

—        Pro fundo, rápido!

Dominique está no assento do piloto, tentando lembrar tudo o que Iz lhe mostrou. Ela empurra o timão para baixo para submergir — enquanto a quilha da lancha da Guarda Costeira colide com a parte de cima do submarino.

—        Se segura...

O submarino desce vertiginosamente num ângulo de 45 graus, as placas de liga de titânio rangendo nos ouvidos de Mick. Ele se abaixa e segura um tanque de mergulho que está rolando para a proa.

—        Ei, capitã, sabe mesmo o que está fazendo?

—        Não banque o co-piloto. — Ela diminui o ângulo de descida. — Certo, e agora, o que devemos fazer?

Mick se aperta ao passar pela escada e vai para perto de Dominique.

—        Descobrir o que está acontecendo aqui embaixo, depois ir pra costa de Yucatán. — Mick se abaixa para olhar por uma das janelinhas de 20 centímetros de diâmetro e 10 de espessura.

Na água azul-escura, uma miríade de bolhas minúsculas envolve o casco.

—        Não consigo ver nada. Espero que esta banheira tenha um sonar.

—        Bem na minha frente.

Mick olha por cima do ombro dela para a tela laranja brilhante. Ele nota o sensor de profundidade: 105 metros.

—        Que profundidade esta coisa alcança?

—        Esta coisa se chama Barnacle. Pelo que sei, é um submarino francês muito caro, uma versão menor do Nautile. A capacidade nominal dele é de 3.300 metros.

—        Tem certeza de que sabe pilotá-lo?

—        O Iz e o proprietário me levaram num fim de semana e me deram um curso de imersão total.

—        Imersão total, era isso que eu temia — diz Mick, olhando ao seu redor.

O interior do Barnacle é uma esfera reforçada de 3 metros de diâmetro situada dentro do casco retangular da embarcação. Equipamentos para processamento de dados forram o apertado compartimento, como um papel de parede tridimensional. A estação de controle do braço mecânico e da cesta isotérmica retrátil de amostras ocupa uma parede, e monitores submarinos high-tech e transponders acústicos ocupam a outra.

—        Mick, faça algo de útil e ative a câmera térmica. É esse monitor em cima da sua cabeça.

Ele liga o dispositivo. O monitor é ativado e revela uma tapeçaria de tons verdes e azuis. Mick puxa um joystick curto, apontando o sensor externo para o leito do oceano.

—        Ei, o que temos aqui? — O monitor revela uma luz branca brilhante no alto da tela.

—        O que é?

—        Não sei. A que profundidade estamos?

—        A 330 metros. O que devo fazer?

—        Continue indo pra oeste. Tem alguma coisa enorme ali na frente.

 

             Golfo do México, 1,8 quilômetro a oeste do Barnacle

A plataforma da Exxon, Scylla, é uma unidade de perfuração flutuante Bingo série 8000, semissubmersa, de quinta geração. Diferente das antigas plataformas, a superestrutura flutua quatro andares acima da superfície (e três andares abaixo) sobre colunas verticais de 25 metros de altura encaixadas em dois enormes pontões de 120 metros de comprimento. Doze cabos prendem a estrutura ao leito do oceano.

Três deques contínuos se apóiam sobre a base da Scylla. O deque superior, aberto, das dimensões de um campo de futebol, sustenta o guindaste de 22 metros de altura que opera a broca, feita de tubos de aço de 10 metros de comprimento. Duas gruas imensas estão posicionadas nos lados norte e sul, com um heliponto octogonal elevado cobrindo o deque oeste. As salas de controle e engenharia, bem como a cozinha e as cabines para duas pessoas, ficam no deque do meio ou principal. O deque inferior ou das máquinas abriga os três motores de 3.080 hp da plataforma, além do equipamento necessário para extrair 100 mil barris de óleo cru por dia.

Embora a superestrutura esteja com a lotação máxima de 110 pessoas, nem uma gota de petróleo está saindo de sua broca. O deque inferior da Scylla foi desocupado às pressas para acomodar miríades de sensores multiespectrais high-tech, computadores e sistemas de mapeamento da NASA. Equipamentos de apoio, cabos submarinos e as mesas de controle de três VORs (Veículos de Operação Remota) estão ao lado de feixes de tubos de aço empilhados na lateral do semi-aberto deque inferior.

Posicionado no centro exato da plataforma de concreto e aço, um buraco circular de 3 metros e meio de diâmetro deveria servir para a passagem da broca. Um brilho esmeralda suave sobe do mar, passando pela abertura e inundando o teto e a área de trabalho ao redor com uma irreal luz verde. Técnicos, vencidos pela curiosidade, param de vez em quando para dar uma olhadinha no fundo do mar artificialmente iluminado, localizado 656 metros abaixo da superestrutura flutuante. A Scylla está posicionada diretamente acima de uma enorme abertura, um túnel no leito do oceano. Em algum lugar daquele misterioso poço de 1.500 metros está a fonte da incandescente luz verde.

O comandante naval Chuck McKana e o diretor da NASA Brian Dodds estão encurvados sobre os dois técnicos que operam o Sea Owl, um VOR de 2 metros, ligado ao guindaste da Scylla por um cordão umbilical de 2 mil metros. Eles olham para o monitor do VOR enquanto o pequeno submarino chega ao leito rachado do oceano e começa a sua descida no vórtice brilhante.

—        A energia eletromagnética está aumentando — diz o piloto virtual do VOR. — Estou perdendo dirigibilidade...

—        Sensores falhando...

Dodds fecha os olhos para o brilho ofuscante do monitor da mini-câmera do submarino.

—        A que profundidade está o VOR?

—        A menos de 30 metros da boca do poço. Cacete, lá se vai o sistema elétrico do Sea Owl.

O monitor se apaga.

O comandante McKana passa os dedos curtos pelo cabelo escovinha grisalho.

—        Esse é o terceiro VOR que perdemos nas últimas 24 horas, diretor.

—        Eu sei contar, comandante...

—        Vocês deviam se concentrar em encontrar uma maneira alternativa de entrar.

—        Já estamos trabalhando nisso. — Dodds aponta para onde uma dúzia de trabalhadores estão ocupados, conectando tubos de aço no guindaste do alto. — Vamos baixar a broca dentro do buraco. Os sensores vão descer presos à primeira seção.

O capitão da plataforma, Andy Furman, se aproxima.

—        Temos um problema, cavalheiros. A Guarda Costeira avisou que duas pessoas a bordo de uma traineira acabam de lançar um minissubmarino 3 quilômetros a leste da Scylla. O sonar mostra que estão rumando para o objeto.

Dodds parece alarmado.

—        Espiões?

—        Parecem civis. A traineira está registrada em nome de uma empresa de busca submarina americana, licenciada na ilha de Sanibel.

McKana não parece preocupado.

—        Deixe que olhem. Quando voltarem à tona, mande a Guarda Costeira prendê-los.

 

                                 A bordo do Barnacle

Mick e Dominique apertam os rostos contra o vidro LEXAN reforçado das janelinhas, enquanto o minissubmarino se aproxima do irreal feixe de luz, o clarão que sobe do fundo do oceano como um holofote de 51 metros de largura.

—        Que diabos pode haver lá embaixo? — Dominique pergunta. — Mick, você está bem?

Os olhos de Mick estão fechados, sua respiração irregular.

—        Mick?

—        Estou sentindo a presença. Dom, a gente não devia estar aqui.

—        Não cheguei até aqui pra dar meia-volta. — Uma luz vermelha pisca acima de sua cabeça. — Os sensores do submarino estão malucos. Uma fortíssima energia eletromagnética está saindo do buraco. Será que não é isso que você está sentindo?

—        Não passe pelo feixe de luz, senão vai pôr em curto todos os sistemas de bordo.

—        Certo, talvez tenha outra entrada. Vou contornar a área enquanto você rastreia com os sensores.

Mick abre os olhos, fitando as fileiras de consoles de computador que forram a cabine.

—        O que quer que eu faça? Ela aponta.

—        Ative o gradiômetro, é um sensor eletromecânico de gravidade acoplado à parte de baixo do Barnacle. O Rex o usava pra detectar gradientes de gravidade sob o fundo do mar.

Mick liga o monitor do sistema, que revela uma tapeçaria de laranja e vermelhos, as cores mais brilhantes indicando altos níveis de energia eletromagnética. O buraco emite um brilho branco quase cegante. Mick puxa o joystick do gradiômetro ampliando o campo para examinar o resto da topografia do leito do oceano.

O brilho intenso se reduz a um ponto branco. Tons de verde e azul criam uma borda circular ao redor dos vermelhos e laranja.

—        Peraí. Acho que encontrei alguma coisa.

Ao redor da área da cratera há uma série de pontos escuros dispostos perimetralmente num padrão preciso, eqüidistante e circular.

Mick conta os buracos. Ele sente seu estômago se contraindo e um suor frio brotando de seu corpo. Folheia as páginas amareladas do diário do pai até encontrar a anotação de 14 de junho de 1997.

Ele olha para a fotografia do ícone circular de 3 metros, localizado no ponto central do platô de Nazca. Dentro de sua borda, Mick encontrou o mapa original de Piri Reis, selado num recipiente de irídio. Ele conta 23 linhas estendendo-se da figura como os raios de um sol, a última delas aparentemente infinita.

Vinte e três pontos escuros rodeiam o buraco monstruoso no leito do oceano.

—        Mick, o que foi? Você está bem? — Dominique ativa o piloto automático para olhar o monitor. — O que é isso?

—        Não sei, mas um padrão idêntico foi desenhado no platô de Nazca há milhares de anos.

Dominique olha para o diário.

—        Não é exatamente idêntico. Você está comparando linhas escavadas no deserto com um monte de buracos escuros no fundo do mar...

—        Vinte e três buracos. Vinte e três linhas. Você acha que é só uma coincidência?

Ela lhe dá um tapinha na bochecha.

—        Calma, iluminado. Vou me aproximar do buraco mais próximo, vamos olhar mais de perto.

O Barnacle diminui a velocidade e flutua acima de um túnel escuro de 6 metros de diâmetro que cospe bolhas em profusão. Dominique aponta uma das luzes externas do submarino para a garganta íngreme. O feixe de luz revela um túnel extenso, penetrando no fundo do mar num ângulo de 45 graus.

—        O que você acha?

Mick olha para o túnel, a familiar sensação de pavor crescendo em suas entranhas.

—        Não sei.

—        Sugiro que a gente investigue.

—        Você quer entrar nesse buraco infernal?

—        É pra isso que estamos aqui, não é?

Pensei que você quisesse entender a profecia maia.

—        Não assim. É mais importante irmos pra Chichén Itzá.

—        Por quê? — Ele está com medo.

—        A salvação está na pirâmide de Kukulcán. A única coisa que nos espera nesse buraco é a morte.

—        Bem, eu não joguei sete anos de faculdade na privada nem me arrisquei a ir pra cadeia pra você ir atrás de uma profecia maia idiota. Estamos aqui porque minha família e eu precisamos encerrar o caso, saber o que realmente aconteceu com o Iz e os amigos dele. Não te culpo pela morte do meu pai, mas já que foi você que nos pôs nesta aventura vai seguir nela até o final.

Dominique empurra o timão, mergulhando o minissubmarino bem no meio do túnel.

Mick se segura numa barra da escada enquanto o Barnacle acelera no poço escuro.

Um som líquido ecoa dentro do submarino. Dominique olha pela janelinha.

—        O som está vindo das paredes desta passagem. O revestimento interior parece funcionar como uma espécie de esponja gigante. Mick, à sua esquerda tem um sensor, o espectro fotômetro...

—        Estou vendo. — Ele ativa o sistema. — Se estou fazendo a leitura direito, o gás que sai deste buraco é oxigênio puro.

Uma nota de barítono reverbera pela cabine, aumentando à medida que eles descem. Mick está para dizer algo quando o Barnacle dá um tranco para a frente, acelerando túnel adentro.

—        Ei, vá mais devagar...

—        Não fui eu. Fomos pegos por uma espécie de correnteza. — Ele ouve o pânico na voz dela. — A temperatura exterior está aumentando. Mick, acho que estamos sendo sugados num tubo de lava!

Ele se segura mais forte na escada. As graves pulsações fazem os vidros dos instrumentos diante dele vibrarem.

O minissubmarino mergulha, girando cegamente pelo túnel como um besouro numa galeria pluvial.

—        Mick! — Dominique grita ao perder o controle do Barnacle. Ela fecha os olhos com força e se segura no assento, quando a energia é interrompida e a escuridão os envolve.

Ela sente que está hiper ventilando, esperando o tranco que fará o submarino se desintegrar e ser invadido pelo mar. Meu Deus, eu vou morrer, me ajude, por favor...

Mick cruzou os braços e as pernas ao redor da escada, suas mãos segurando as barras de aço como morsas. Não reaja, deixe acontecer. Deixe que a loucura termine...

Vertigem intensa. O minissubmarino rodopia sem parar, como se estivesse numa máquina de lavar gigante.

Um estrondo — um solavanco de partir os ossos: Mick sai voando cega¬mente pela escuridão, e o Barnacle é empurrado de cabeça contra uma força invencível e invisível. O ar explode de seus pulmões quando seu rosto e seu peito colidem contra uma fileira de consoles de computador.

 

                 GOLFO DO MÉXICO

2.185 METROS ABAIXO DA SUPERFÍCIE

O latejar incessante de sua cabeça força Mick a abrir os olhos.

Silêncio.

Ele está deitado de costas, com as pernas para o ar, seu tronco preso num emaranhado fumegante de equipamentos quebrados. A cabine está úmida e escura como breu, à exceção do esmaecido brilho de um console laranja bruxuleando em algum lugar. Tudo está de cabeça para baixo, e um líquido quente escorre em sua garganta, sufocando-o.

Ele se vira dolorosamente, cuspindo uma golfada de sangue, sua cabeça ainda rodando. Verificando que o sangue vem de suas narinas, ele as aperta para estancar a hemorragia.

Por um longo momento ele fica sentado ali, apoiando-se precariamente em fragmentos pontiagudos de monitores de computador e equipamentos de navegação estilhaçados, enquanto tenta lembrar seu nome e onde está.

O minissubmarino. O túnel... Dominique!

—        Dom? — Ele cospe mais sangue e escala uma pilha de equipamentos que bloqueia o caminho até o assento do piloto. — Dom, está me ouvindo?

Ele a encontra inconsciente, ainda presa pelo cinto de segurança, o queixo apoiado no peito. Seu coração dispara de medo enquanto ele reclina cuidadosamente o assento ao máximo, segurando-lhe a cabeça ensangüentada antes de apoiá-la no encosto. Verifica sua respiração, e vê como está fraca. Depois de soltar o cinto, cuida do profundo corte na testa de Dominique.

Mick tira a camiseta, rasgando o tecido empapado de suor em longas tiras. Improvisa uma bandagem sobre o ferimento, depois vasculha a cabine destroçada em busca da caixa de primeiros socorros.

Dominique geme. Ela ergue o corpo dolorosamente, vira a cabeça e tosse.

Mick localiza a caixa e uma garrafa de água. Voltando para perto dela, lava o ferimento e tira uma bolsa de gelo da caixa.

—        Mick?

—        Aqui. — Ele aperta a bolsa de gelo, furando o conteúdo, e a comprime contra a cabeça dela, amarrando-a com o resto da camiseta. — Você está com um ferimento feio na cabeça. A hemorragia diminuiu, mas você deve ter sofrido uma concussão.

—        Acho que quebrei uma costela, está difícil de respirar. — Ela abre os olhos e olha para Mick, a dor em seu rosto. — Você está sangrando.

—        Quebrei o nariz. — Ele lhe passa a garrafa d'água. Ela fecha os olhos e toma um gole.

—        Onde estamos? O que aconteceu?

—        Descemos pelo túnel e batemos em alguma coisa. O minissubmarino está inoperante. O sistema de subsistência mal funciona.

—        Ainda estamos no buraco?

—        Não sei — diz Mick, indo para a janela dianteira e olhando para fora. A luz de emergência do exterior do Barnacle revela uma câmara escura

e pequena, sem água do mar. A popa do submarino parece alojada entre duas barreiras escuras e verticais. O espaço entre as duas paredes se estreita abruptamente antes de terminar numa fenda curva e metálica.

—        Meu Deus, onde viemos parar?

—        O que é isso?

—        Não sei. Uma espécie de câmara subterrânea. O submarino está enfiado entre duas paredes, mas não tem água lá fora.

—        Será que a gente pode sair daqui?

—        Não sei. Nem sei ao certo onde é aqui. Já notou que aquelas vibrações graves pararam?

—        Tem razão. — Ela o ouve vasculhar os destroços. — O que você está fazendo?

—        Procurando o equipamento de mergulho. — Ele localiza o traje de neoprene, a máscara e os tanques de ar.

Dominique geme ao erguer o corpo, depois recosta a cabeça novamente, vencida pela dor e pela vertigem.

—        O que vai fazer?

—        Onde quer que a gente esteja, estamos presos. Vou ver se encontro uma maneira de nos tirar daqui.

—        Mick, espere. Devemos estar a uns 1.500 metros de profundidade. A pressão vai nos esmagar assim que você abrir a escotilha.

—        Não tem água na câmara, o que significa que ela deve ser despressurizada. Acho que precisamos arriscar. Se ficarmos aqui, vamos morrer do mesmo jeito. — Ele tira os tênis e veste o apertado traje de neoprene.

—        Você tinha razão. A gente não devia ter entrado no túnel. Foi idiotice. Eu devia ter te ouvido.

Ele para de se vestir para se curvar sobre ela.

—        Se não fosse por você, eu ainda seria um vegetal nas mãos do Foletta. Fique aí e tente não se mexer enquanto eu tiro a gente daqui.

Ela luta contra o choro.

—        Mick, não me deixe aqui. Por favor, não quero morrer sozinha...

—        Você não vai morrer...

—        O ar, quanto ar ainda temos?

Ele procura o painel de controle e verifica o manômetro.

—        Quase três horas. Tente ficar calma...

—        Espere, não vá ainda. — Ela segura a mão dele. — Só me abrace um pouco. Por favor.

Ele se ajoelha, apoiando a face direita suavemente contra a dela, sentindo os músculos da moça tremendo ao abraçá-la e inalar seu perfume.

—        Vou tirar a gente daqui, prometo — ele sussurra. Ela o abraça com força.

—        Se você não conseguir, se não houver saída... Me prometa que vai voltar.

Ele engole o nó na garganta.

—        Prometo.

Eles ficam abraçados por mais alguns minutos, até que o aperto do traje de neoprene no corpo de Mick fica insuportável.

—        Mick, espere. Olhe debaixo do meu assento. Deve ter um kit de suprimentos de emergência.

Ele puxa a maleta de metal e a abre, retirando dela um canivete, um punhado de sinalizadores e um isqueiro a gás.

—        Tem um pequeno tanque de ar aí também. Oxigênio puro. Leve com você.

Ele retira o tanque, ligado a uma máscara de plástico.

—        É muita coisa pra carregar. É melhor eu deixar isso com você.

—        Não, leva. Se você ficar sem ar, nós dois vamos morrer.

Ele volta a calçar os tênis, prende o canivete ao tornozelo com fita adesiva, depois abre a válvula do tanque maior de ar para verificar se o regulador está funcionando. Põe o compensador de flutuação e o tanque nas costas e prende o tanque menor de oxigênio na cintura com a tira de velcro. Enfia os sinalizadores e o isqueiro no colete, e então, sentindo-se um burro de carga, sobe a escada do minissubmarino, que agora está num ângulo de 30 graus.

Mick destrava a escotilha, respira fundo e tenta abri-la.

Nada.

Se eu estiver errado sobre a pressão, vamos os dois morrer aqui. Ele para, ponderando suas alternativas, e tenta de novo, desta vez empurrando a tampa de titânio com o ombro. Com um chiado, a escotilha se desprende da guarnição de borracha e se abre.

Mick força a passagem para fora do submarino, subindo sobre o casco, deixando que a escotilha se feche ao ficar de pé...

Bam! Ele morde o regulador ao bater dolorosamente a cabeça numa superfície dura como pedra.

Agachado, equilibrando-se sobre o submarino, ele esfrega o galo na cabeça e olha ao redor. Do alto do Barnacle, percebe que está num toro gigante, uma câmara em formato de rosca, iluminada pelas luzes de emergência do submarino, a proa da nave bem presa entre duas lâminas curvas de 2 metros de altura. O feixe de luz de sua lanterna revela a parte de cima de pelo menos 12 dessas divisórias, todas se originando de um centro curvo, como as várias pás de uma hélice horizontal.

Mick olha para a estrutura, analisando os arredores, o regulador chiando em seus ouvidos com sua respiração. Eu sei o que é isto. E uma turbina, uma turbina gigante. A gente deve ter sido sugado para um duto de entrada. A pulsação grave parou. O minissubmarino está bloqueando a rotação das pás, paralisando a turbina e entupindo o duto.

Mick desce do Barnacle e pisa numa superfície metálica lisa e envelhecida. O que aconteceu com a água do mar?

De repente, ele cai para trás. Seus pés escorregam e ele perde o equilíbrio, seu cotovelo e flanco direitos batem na superfície dura e limosa com um barulho oco. Mick geme de dor, depois olha para cima.

A lanterna revela uma substância porosa, preta e esponjosa recobrindo toda a parte central do teto. Pingos de água do mar caem sobre sua cabeça.

Mick fica de pé e estica o braço, surpreso ao constatar que o material poroso é extremamente quebradiço, como isopor, só que mais duro. Ele pega o canivete e golpeia a substância, desprendendo vários fragmentos de rocha friável, parecendo gesso embebido em água marinha.

Mick para. O som de ar soprando por um duto ecoa em algum lugar à sua direita. Ele estica o braço, se segura no alto da divisória metálica à sua direita, apontando o feixe de luz da lanterna para o teto metálico.

O som vem de um duto oco de um metro de largura, situado no teto, sobre a lâmina imediatamente ao lado. Subindo num ângulo quase vertical, a passagem escura parece atravessar o teto como uma bizarra calha de lavanderia.

Mick sobe na parede de aço e fica sob a abertura, sentindo o ar quente soprando em seu rosto.

Um duto de saída?

Passando à lâmina seguinte, ele sobe na barreira e monta sobre a parede de 5 centímetros de espessura. Começa a apalpar a boca do duto, suas mãos sondando a inclinação, íngreme, mas escalável.

Cuidadosamente, Mick se apóia no teto e fica de pé, equilibrando-se precariamente sobre o alto da lâmina e se movendo para cima, para a cavidade escura, arrastando-se de barriga para dentro do duto. Virando de lado, ele estende as pernas até o outro lado do cilindro de um metro de diâmetro, com o tanque de ar e os cotovelos apoiados na parede às suas costas. Olhando para cima, o vento quente em seu rosto, sua luz lhe revela um enorme tubo, perdendo-se na escuridão num ângulo vertiginoso de 70 graus.

Isto vai ser difícil...

Mantendo as costas e os pés pressionados firmemente contra as paredes interiores, ele escala duto acima, centímetro por centímetro, dolorosamente, como um alpinista subindo por uma fenda vertical. Para cada metro e meio que consegue subir, ele desliza uns 30 centímetros para baixo, descendo e gemendo até conseguir limpar o suor das mãos e firmar sua pele escoriada na escorregadia superfície metálica.

Ele leva vinte minutos para subir os 26 metros até o topo. A sua espera no ápice trevoso está um beco sem saída.

Mick bate a cabeça na parede e geme no regulador, desesperado. Os músculos das pernas, exaustos com a escalada, começam a tremer, ameaçando despencá-lo lá de cima. Sentindo-se escorregar, ele se segura com as duas mãos, derrubando a lanterna.

Merda...

Rodeado pela escuridão, ele a ouve caindo pelo duto, destroçando-se ao atingir a superfície abaixo.

Se não tomar cuidado você é o próximo.

Com movimentos desesperadoramente lentos, ele retira o isqueiro e um dos sinalizadores que enfiou no traje. Pingando de suor, gasta os cinco minutos seguintes tentando futilmente acender o sinalizador.

Mick olha para o isqueiro, que está cheio, mas se recusa a acender. Não dá pra fazer fogo sem oxigênio, seu burro.

Respirando fundo, ele tira o regulador da boca e aperta o botão de limpeza, soltando um jato de ar na direção do isqueiro. Uma chama amarela surge, permitindo que ele acenda o sinalizador.

A faiscante luz cor-de-rosa revela o que parecem ser duas pequenas mangueiras ligadas a uma junta hidráulica. Usando o canivete, ele corta as duas mangueiras, que deixam pingar um fluido quente e azul-escuro sobre seu traje. Ele põe o regulador na boca, depois força a tampa com a cabeça.

A escotilha se move um centímetro.

Trabalhando tão perto da tampa quanto pode, Mick empurra a escotilha até abrir uma fenda e enfia a mão no buraco. Num só movimento ele rola, ficando pendurado na escuridão antes de conseguir se puxar para fora do duto, sobre o que parece ser uma grade metálica. Ele cai de quatro, seu corpo tremendo de exaustão, enquanto o calor intenso de seu novo ambiente faz sua máscara se embaçar e o cega.

Mick tira a máscara, mas sua boca está seca demais para cuspir. Ele enxuga as lágrimas do rosto afogueado e olha para cima.

Meu Deus...

Ele se senta, aturdido, seus membros tremendo fora de seu controle. Arregala os olhos, sua mente rodando tão rápido que ele não consegue produzir um só pensamento coerente. O suor lhe escorre do rosto e do corpo no calor de fornalha, formando poças em seu traje. Seu coração bate tão forte que parece oprimi-lo, pressionando-o contra o metal em brasa que raspa no seu corpo.

Estou no inferno...

Ele está numa câmara descomunal, escura, ovóide, do tamanho de um estádio como o New Orleans Superdome, esvaziado de todo o seu conteúdo.

Uma camada de chamas rubras e incandescentes lambe a superfície das paredes, subindo pela câmara em ondas como uma cachoeira invertida e desaparecendo na escuridão do alto.

Mas não é escuridão! Girando centenas de metros acima de sua cabeça, iluminando o centro do imponente abismo, está um vórtice brilhante e esmeralda de energia rodopiante — uma galáxia espiralada em miniatura, rodando num majestoso, lento, onipotente movimento anti-horário, como um ventilador de teto cósmico, pulsando energia.

Mick olha para o brilho irreal da galáxia, hipnotizado por sua beleza, esmagado por sua magnitude e totalmente aterrorizado por suas implicações. Ele se força a fechar as pálpebras sobre as pupilas doloridas, tentando desesperadamente desanuviar a cabeça.

Dominique...

Lutando para ficar de pé, ele volta a abrir os olhos e absorve o resto da paisagem etérea.

Ele está de pé numa plataforma, uma grade metálica presa à escotilha que tampava o duto cilíndrico. Um metro abaixo, preenchendo toda a câmara, como um lago numa cratera de montanha, há um líquido semelhante ao mercúrio, ondulante e prateado. Sua superfície, brilhante e espelhada, reflete as chamas rubras e dançantes. Filetes de fumaça negra flutuam acima do agitado mar de metal derretido, como vapor saindo de um caldeirão fervilhante.

Mick se vira para a parede em brasa. Logo abaixo das chamas há uma grelha que percorre todo o interior da câmara. A distorção da luz revela gases invisíveis saindo das frestas minúsculas da grelha, como o calor que irradia do asfalto de uma estrada deserta.

O túnel de entrada... um duto de ventilação?

Mick olha para a surreal parede de fogo, que não queima nem consome, mas flui para cima pelo espaço vertical como um rio caudaloso de sangue. Pensamentos febris giram em sua mente. Estou morto? Será que morri no submarino? Será que estou no inferno?

Ele cai na beirada da plataforma, meio sentado, meio deitado, fraco e zonzo demais para se mover. Consegue cuspir na máscara e recolocá-la, e então se lembra do tanque menor. Soltando-o, ele suga vários haustos de oxigênio puro, conseguindo clarear a mente.

É então que ele nota o rasgo no traje. A pele de seu joelho direito está exposta, o ferimento sangrando profusamente. Intrigado, ele toca o sangue quente, examinando-o como se fosse algum tipo de caldo alienígena.

O sangue está azul.

Onde eu estou? O que está acontecendo comigo?

Como que em resposta, um clarão de energia violeta irrompe de algum lugar do outro lado do lago. Ele se curva para a frente, esforçando-se para enxergar através da máscara, que embaçou de novo apesar da camada de saliva.

E então acontece outra coisa bizarra. Quando ele tira a máscara, uma poderosa onda de energia invisível se eleva como uma lufada de ar da superfície do lago e atinge o seu braço. A máscara levita e fica pairando no ar, um metro acima de sua cabeça.

Mick fica de pé. Ao erguer o braço para pegá-la, ele sente um campo intenso de energia eletromagnética, que ressoa em seu cérebro como um diapasão reverberando.

Desorientado, ele tateia cegamente à procura do tanque de oxigênio, enquanto as chamas altas dançam em sua visão desfocada. Desistindo, ele cai novamente sobre o metal e suga mais oxigênio, fechando os olhos para a vertigem.

Michael...

Mick abre os olhos, prendendo a respiração. Michael...

Ele olha para o lago. Será que estou delirando? Chegue perto de mim, meu filho. O bocal do oxigênio cai de sua boca.

—        Quem está aí? Senti sua falta.

—        Quem é você? Onde estou? Que lugar é este?

Agente chamava Nazca do nosso purgatório particular, lembra, Michael? Ou será que essa sua mente brilhante finalmente desmoronou, depois de tantos anos solitários no hospício?

Mick sente o coração falhar. Lágrimas ardentes escorrem por suas faces avermelhadas.

—        Papai? Pai, é você mesmo? Estou morto? Pai, onde você está? Não consigo te ver. Como você pode estar aqui? Onde é aqui?

Chegue perto de mim, Michael, e eu vou te mostrar.

Num estado hipnótico, ele pisa para fora da grade e cai no lago.

—        Merda... meu Deus!

Mick olha para baixo, sua mente vencida pelo que os sentidos estão relatando. Ele está sem peso, desafiando a gravidade, flutuando sobre a superfície prateada num colchão verde-esmeralda de energia que atravessa cada fibra do seu ser, inebriando-o. Sensações eufóricas lhe sobem pelos ossos e saem pelo couro cabeludo, fazendo cada fio de cabelo ficar de pé. A adrenalina e o medo lutam pelo controle de sua bexiga. Sentindo o tanque de ar flutuando para longe de suas costas, ele apressadamente aperta o fecho de velcro ao redor da cintura e põe o regulador na boca. Chegue perto de mim, Michael.

Um único passo o impele sobre o campo de energia como um imponderável Baryshnikov. Tomando coragem, ele dá mais alguns passos, e se vê ganhando altura sobre a superfície espelhada do lago, um anjo sem asas guiado por uma força invisível.

—        Papai?

Um pouco mais...

—        Papai, onde você está?

Ao se aproximar do outro lado da câmara, ele vê uma plataforma imensa e enegrecida, pairando uns 10 metros acima da superfície brilhante como uma balsa infernal. Uma onda de terror percorre sua alma quando ele se dá conta de que não pode parar, de que o impulso através desse mundo imponderável o guia na direção do objeto, contra a sua vontade.

Estou aqui.

Em pânico, Mick se vira para fugir, mas descobre que suas pernas se movem em vão enquanto ele é puxado para cima, para longe da superfície do lago. Ele mergulha de barriga no ar, aferrando-se inutilmente ao campo de energia, mas seu corpo é jogado para trás sobre a plataforma por uma presença invencível, gélida e malevolente.

Mick é jogado de joelhos, caindo para a frente, como que obrigado a se prostrar diante de um soberano. Com o cérebro hiper ventilado e tomado pelo medo, ele ergue o olhar para ver o seu captor.

É um casulo, tão alto e largo quanto uma locomotiva, tão longo quanto um campo de futebol. Uma miríade de dutos chamuscados, semelhantes a tentáculos, saem da parte de baixo da plataforma e vão até o objeto vítreo e escuro, como milhares de tubos intravenosos.

Por que tem medo de mim, Michael?

Um clarão de energia violeta irrompe dentro do cilindro, revelando por um momento a presença sombria de um ser imenso.

Mick fica paralisado, seu rosto é uma máscara congelada de terror e os membros são incapazes de sustentar seu peso.

Olhe para mim, Michael. Olhe para o rosto que é sangue do seu sangue!

Os pensamentos de Michael se despedaçam quando ele é empurrado por uma força invisível e vai de cabeça contra a superfície vítrea. Ele consegue sentir a presença dentro da câmara enfumaçada — uma presença de puro mal que faz uma bílis sulfúrica subir por sua garganta e sufocá-lo. Fecha os olhos com força, sua mente incapaz de entender o terror que o aguarda.

Uma onda de energia abre-lhe as pálpebras à força.

Ele vê um rosto surgindo no casulo através de uma névoa amarelada. O coração de Mick salta em seu peito.

Não...

É Julius, o cabelo branco de seu pai revolto como o de Einstein, o rosto bronzeado e enrugado parecendo couro velho. Os ternos e familiares olhos castanhos estão pregados nele.

Michael, como pode temer seu próprio pai?

Você não é meu pai...

Claro que sou. Lembre-se, Michael. Não lembra como sua mãe morreu? Você sentiu tanta raiva de mim. Me odiou pelo que eu fiz. Você me olhou nos olhos, como está olhando agora — E ME CONDENOU AO INFERNO!

A voz monstruosa fica mais grave ao ecoar em seus ouvidos. Mick grita no regulador, sentindo sua mente ceder, e o rosto de Julius se dissolve num par de olhos injetados, demoníacos, reptilianos, do tamanho de faróis — as pupilas, duas fendas douradas e diabólicas que queimam sua alma e incineram a sua sanidade.

Mick solta um grito de gelar o sangue, sentindo sua mente atormentada sendo acariciada pelos dedos gélidos da morte. Num só movimento, impelido pela adrenalina, ele salta da plataforma, mas é agarrado no ar e suspenso.

Você é minha carne, é meu sangue. Eu estava te observando, esperando este dia chegar. Sei que sentiu a minha presença. Logo estaremos juntos. Unidos... Pai e filho.

Em meio ao delírio, Mick olha para cima e vê a galáxia acima de sua cabeça girando mais rápido. À medida que sua velocidade aumenta, um cilindro imenso e oco de energia esmeralda se forma no centro do lago derretido, subindo até a abóbada como um tornado verde e luminoso. O funil de energia se mistura ao vórtice, os dois rodopiando em sincronia, cada vez mais rápido.

A mente de Mick está gritando, seus olhos saltando das órbitas. Em meio à loucura, ele vê um círculo solitário se formando no centro do lago, uma onda criada por algo que assoma à superfície derretida.

E agora ele pode vê-lo — subindo pelo funil de energia esmeralda —, um ser negro como a noite, uma criatura predadora, reptiliana, com 9 metros de envergadura das asas. Duas garras, cada uma com três pontas, pendem de seu tronco. Um crânio sem rosto, em formato de bigorna, termina numa saliência curva, como um chifre, sua cauda cônica com a metade do tamanho das asas.

Um globo incandescente, cor de âmbar, brilha de seu pescoço, como um olho sem pupila.

Mick vê, hipnotizado, a abóbada acima da galáxia de energia aparente¬mente se desfazendo, revelando um túnel vertical aberto através da rocha até o leito do oceano. A água dentro do túnel também está girando, formando a base de um monstruoso redemoinho.

Mick segura o pequeno tanque de oxigênio com força contra o peito. Ele arranca a máscara, apontando a válvula selada para longe de seu corpo.

Com um chiado penetrante, o centro da abóbada se retrai e um rugido retumbante preenche a câmara. Mick sente seus ouvidos estalando quando o mar invade o espaço, a torrente de água escorrendo pelos lados do campo de força vertical como as cataratas do Niágara.

Desesperado, Mick percorre o perímetro da câmara com o olhar, seus olhos se concentrando nos 23 dutos idênticos, todos, menos um, aspirando a maré crescente.

Ouve-se um som de trovão quando as turbinas gigantes da nave alienígena começam a reverter a rotação para expelir a água do mar.

Mick segura o isqueiro a gás, depois abre a válvula do pequeno tanque, encostando a chama num fluxo invisível e inflamável de oxigênio puro. O gás pressurizado se inflama como um foguete, empurrando a base do tanque contra o seu estômago e impelindo-o para trás no ar, longe do casulo.

Mick voa por cima do lago de metal derretido, depois mergulha no caudaloso rio de água marinha que escorre sobre a superfície metálica.

Mick solta o tanque vazio ao ser tragado pela correnteza, o medo e a adrenalina movimentando seus braços e suas pernas, dirigindo-o para o duto inoperante de onde ele saiu. Ele se segura na grade e puxa o corpo para cima, enquanto a maré crescente vem em seu encalço.

Mick abre a escotilha e olha para o duto escuro. Não pare, não pense, pule de uma vez!

Ele pula, precipitando-se de pé pelo duto íngreme e totalmente às escuras. O tanque de ar range às suas costas, e o rugido acima de sua cabeça diminui por um momento. Pressionando os antebraços contra a lisa superfície metálica, ele tenta desesperadamente brecar sua queda, usando o traje de neoprene como freio.

Mick é atirado pela boca do duto, caindo de cabeça sobre uma das lâminas do rotor. Atordoado, ele fica de pé, trôpego, sentindo as potentes vibrações da turbina ganhando vida sob seus pés.

- Suba — volte pro submarino!

Mick sobe e passa por cima da lâmina de 2 metros no momento em que um rio de água marinha explode do alto. Ele cai de pé, em pânico ao ver as lâminas começarem a rodar e mudando de direção, lutando para desalojar o Barnacle.

Não deixe o submarino ir embora sem você!

Mick cambaleia através da água, que está na altura de seu joelho. Enche os pulmões de ar e solta o volumoso tanque de suas costas. Livre do peso, salta sobre o casco de titânio ao mesmo tempo em que uma parede de água o atinge em cheio nas costas, quase derrubando-o do casco.

A câmara toroidal se enche rapidamente de água, a pressão aumentando, ameaçando desalojar o submarino a qualquer momento. Mick sobe até o alto do Barnacle, sentindo a pressão aumentar na sua cabeça enquanto abre a escotilha e se joga pela abertura, fechando a comporta atrás de si e girando a trava.

Uma explosão de água joga o minissubmarino de lado.

Mick cai escada abaixo, aterrissando dolorosamente sobre cacos de equipamentos enquanto o Barnacle é libertado.

Ouve-se um gemido agudo e ensurdecedor quando a turbina gigante acelera para cem rotações por segundo, empurrando o minissubmarino de volta duto acima, rápido como um projétil.

 

                           A bordo da Scylla

20h40

— É um redemoinho! — O capitão Furman é arremessado sobre um painel de controle, o chão fugindo-lhe dos pés enquanto 12 toneladas de canos de perfuração se espalham pelo deque inferior.

Sons de metal rangendo rasgam o ar. Com um gemido agonizante, o deque superior da plataforma de sete andares balança sobre a monstruosa correnteza, e a Scylla se inclina 60 graus quando meia dúzia de cabos submersos, presos a um dos pontões, se recusam a ceder para o vórtice crescente.

Técnicos e equipamentos deslizam pelo deque aberto, precipitando-se no agitado mar esmeralda.

O resto dos cabos se rompe, soltando a plataforma do leito do oceano. A superestrutura flutuante endireita — depois gira, balançando e saltando dentro da boca rodopiante do redemoinho luminescente.

Os alarmes cortam a noite. Tripulantes atordoados cambaleiam de suas cabines e são atingidos por destroços voadores. Enquanto o mundo roda em revoluções vertiginosas, eles se precipitam por escadas de alumínio, indo para o deque inferior, onde uma dúzia de botes salva-vidas pende dos guinchos.

Brian Dodds segura as cordas de um bote, seus ouvidos ressoando o rugido ululante do redemoinho. A embarcação está suspensa 2 metros abaixo, mas a Scylla se agita tão violentamente que descer até o bote é impossível.

A plataforma petrolífera vira para o lado, à mercê da força centrífuga do redemoinho, que prende a Scylla contra a parede do funil. O diretor da NASA abre os olhos, obrigando-se a olhar para a fonte cegante da energia que irradia do centro do mar turbulento. Dodds se segura, puxando ar desesperadamente antes que um vagalhão de 12 metros passe por cima dele, destruindo o deque inferior e arrancando o último dos botes em sua fúria.

O estômago de Dodds se contrai, e seus olhos arregalam-se de choque quando o centro do vórtice subitamente desce até o leito do oceano, a plataforma girando precariamente sobre o precipício líquido de 600 metros. Dentro daquele cegante delírio esmeralda, ele vê algo — uma criatura negra, alada, levitando redemoinho acima como um demônio saindo do inferno.

A besta alada passa por ele, desaparecendo no céu noturno — enquanto a Scylla cai para o lado, despencando rumo à sua aniquilação.

 

O ser sem vida voa sobre a superfície do Golfo em velocidade supersônica, planando sem esforço sobre um denso colchão de gravidade negativa. Indo para o sudoeste, ele ascende para uma altitude maior, seu rastro de energia per¬turbando os picos montanhosos do México em sua viagem rumo ao Pacífico.

Ao chegar ao oceano, seus sensores pré-programados alteram o curso para uma rota ocidental mais precisa. O ser diminui a velocidade, ajustando-a para permanecer no lado escuro do planeta por toda a duração de sua fatídica jornada.

 

                     Diário de Julius Gabriel

Nossa lua de mel no Cairo foi maravilhosa.

Maria era tudo para mim — minha alma gêmea, meu amor, minha companheira, minha melhor amiga. Dizer que a presença dela me consumia não é exagero. Sua beleza, seu perfume, sua sexualidade — tudo nela era tão inebriante que muitas vezes eu me sentia bêbado de amor. Me sentia pronto, às vezes até ansioso, para abdicar do meu juramento de desvendar o enigma do calendário maia, só para voltar aos Estados Unidos com minha jovem consorte.

Formar uma família. Viver uma vida normal.

Maria tinha outros planos. Depois de uma semana de lua de mel, ela insistiu que continuássemos nossa jornada ao passado do homem, procurando na Grande Pirâmide pistas que ligassem essa magnífica estrutura egípcia ao ícone desenhado no platô de Nazca.

Como discutir com um anjo?

 

Quando se trata de Gizé, a questão de quem construiu as pirâmides é tão importante quanto quando, como e por quê.

E que as estruturas de Gizé são elas próprias um paradoxo, erguidas com incompreensível precisão e um propósito que continua sendo um mistério milhares de anos depois de sua conclusão. Diferentes dos outros monumentos antigos do Egito, as pirâmides de Gizé não foram construídas como túmulos; aliás, não trazem nenhum hieróglifo, inscrição interna ou sarcófago que as identifique, nem quaisquer tesouros importantes.

Como já mencionei antes, a erosão na base da Esfinge provaria mais tarde que as estruturas de Gizé foram erguidas em 10.450 a.C., distinguindo-se como as mais antigas em todo o Egito.

Vocês devem ter notado que não me refiro a essas maravilhas como as pirâmides de Khufu, Khafre e Menkaure, seus nomes de origem. Os egiptólogos querem que acreditemos que esses três faraós mandaram construir os monumentos. Que grande bobagem! Khufu teve tanto a ver com o projeto e a construção da Grande Pirâmide quanto Artur, um rei cristão, poderia ter mandado construir Stonehenge, que foi abandonado 1.500 anos antes de Cristo.

A falácia remonta a 1837, quando o coronel Howard Vyse foi destacado para escavar em Gizé. O arqueólogo, não tendo feito nenhuma descoberta significativa (e bastante desesperado por financiamento), convenientemente descobriu marcas com o nome de Khufu num túnel um tanto obscuro que ele próprio escavara dentro da pirâmide. Por algum motivo, ninguém questionou o fato de as marcas terem sido pintadas de cabeça para baixo (algumas até com erros de grafia), e nenhuma outra inscrição ter sido encontrada em nenhum outro lugar da Grande Pirâmide.

Os egiptólogos, naturalmente, consideram a descoberta de Vyse uma verdade incontestável.

Muitos anos depois, uma estela de inventário seria descoberta pelo arqueólogo francês Auguste Mariette. O texto que aparece nessa pedra, o equivalente antigo de uma placa histórica para turistas, claramente indica que as pirâmides foram construídas bem antes do reinado de Khufu, referindo-se às estruturas de Gizé como a Casa de Osíris, Senhor de Rostau.

Osíris — talvez a figura mais reverenciada de toda a história egípcia — foi um grande professor e sábio que aboliu o canibalismo e deixou um legado duradouro para o seu povo.

Osíris... o deus-rei barbado.

Maria e eu passamos a maior parte do tempo examinando a Grande Pirâmide, embora todo o sítio arqueológico de Gizé tenha um propósito misterioso bastante distinto.

 

O exterior da Grande Pirâmide é tão assombroso quanto o seu interior. Tendo já discutido as medidas do templo em relação ao valor de pi, à precessão e às dimensões da Terra, falarei agora dos quatro lados da estrutura, feitos de blocos de calcário. Por incrível que pareça, cada lado tem 230 metros, e à pirâmide faltam meros 20 centímetros para ser um quadrado perfeito. Cada lado é também alinhado aos verdadeiros pontos cardeais, norte, sul, leste e oeste, um fato que causa ainda mais impacto quando nos damos conta de que a Grande Pirâmide é formada por 2.300.000 blocos de pedra, cada um pesando entre 2,5 e 15 toneladas. (Na menor das três pirâmides de Gizé há uma única pedra que pesa 320 toneladas. No momento em que registro estas palavras, no ano 2.000, só existem três guindastes em todo o mundo que poderiam erguer esse peso monumental do chão.) No entanto, como no caso de Tiahuanaco e Stonehenge, nenhuma máquina foi usada para mover esses pesos incríveis, que tiveram de ser transportados de uma pedreira distante, e posicionados muitas vezes a dezenas de metros do chão.

A maioria das pessoas que vêem a Grande Pirâmide não se dá conta de que as paredes da estrutura tinham, originalmente, um revestimento de pedras altamente polidas, cada um dos 144 mil blocos pesando 9 toneladas. Hoje só restam resíduos dessas pedras de revestimento, a maioria tendo sido destruída num forte terremoto em 1.301 d.C. Porém, sabemos que os blocos de calcário haviam sido cortados com tal precisão e habilidade que a lâmina de um canivete não entrava nas fendas entre eles. Agora só podemos imaginar como a Grande Pirâmide era há milhares de anos — uma estrutura de 6 milhões de toneladas, cobrindo 5 hectares —, brilhando como vidro sob o sol do Egito.

Embora o exterior da pirâmide seja uma visão maravilhosa, é o interior dessa misteriosa estrutura que talvez esconda sua verdadeira finalidade.

A Grande Pirâmide contém várias passagens que levam a duas salas vazias, inocentemente batizadas de Câmara do Rei e Câmara da Rainha. A verdadeira finalidade dessas salas ainda é desconhecida. Uma entrada escondida na face norte leva a uma estreita passagem de ligação até um corredor que sobe diretamente para o coração da pirâmide. Depois de uma breve subida, pode-se entrar num claustrofóbico túnel horizontal de 40 metros que leva à Câmara da Rainha, ou então continuar subindo ainda mais pela Galeria Central, um impressionante corredor que leva à Câmara do Rei.

A Câmara da Rainha é uma sala de 5,2 por 5,5 metros, com 6 metros de pé-direito e forro no formato de um teto com duas águas. Sua única característica notável é um estreito duto de ventilação com uma abertura retangular de apenas 20 por 23 centímetros. Esse duto, bem como os dois encontrados na Câmara do Rei, ficaram fechados até 1993, quando os egípcios, procurando melhorar a ventilação da pirâmide, contrataram o engenheiro alemão Rudolf Gantenbrink para usar seu robô em miniatura e escavar os dutos entupidos. Imagens feitas com a câmera em miniatura do robô revelaram que os dutos não estavam entupidos, mas fechados por dentro com um mecanismo deslizante, uma pequena porta presa com pinos de metal. Quando está solto, o duto se abre diretamente para o céu.

Usando um sofisticado inclinômetro, Gantenbrink foi capaz de calcular os ângulos exatos de projeção no céu noturno. Com 39 graus e 30 minutos, o duto sul da Rainha aponta diretamente para a estrela Sirius. O duto do Rei, com 45 graus, aponta para Al Nitak, a mais baixa das três estrelas do Cinturão de Órion.

Astrônomos descobriram logo depois que as três pirâmides de Gizé foram cuidadosamente alinhadas para espelhar as três estrelas do Cinturão como elas apareciam em 10.450 a.C. (A lenda de Osíris também está ligada a Órion; sua esposa, Ísis, à estrela Sirius.)

Será que o alinhamento cósmico era a verdadeira finalidade por trás da escavação dos dutos, ou eles teriam sido projetados para desempenhar outra junção?

A própria Galeria Central é uma incrível façanha de Engenharia. Com menos de 2 metros de largura ao nível do chão, as paredes desse túnel se estreitam gradualmente de ambos os lados para se unirem ao teto, a 8 metros e meio do piso. Com uma inclinação de 26 graus, a estreita passagem sobe mais de 45 metros, uma assombrosa realização arquitetônica, considerando que a abóbada da galeria sustenta todo o peso dos três quartos superiores da pirâmide.

No ápice da Galeria Central fica uma misteriosa antecâmara cujas paredes são feitas de granito vermelho. Estranhos pares de sulcos paralelos, parecendo trilhos para um antigo conjunto de divisórias, foram escavados nas paredes. Dali, um pequeno túnel leva à Câmara do Rei, a sala mais impressionante da pirâmide. A câmara é um retângulo perfeito, com 5,23 metros de largura, 10,46 metros de comprimento e pé-direito de 5,81 metros. Toda a câmara formada por cem blocos de granito vermelho, cada um pesando mais de 70 toneladas!

Como os construtores da antiguidade conseguiram levantar esses blocos de granito até seus lugares, especialmente num espaço tão apertado?

Somente um objeto ocupa a Câmara do Rei: um bloco solitário de granito cor de barro, seu interior escavado como uma banheira gigante. Situada na parede ocidental, a peça tem 2,28 metros de comprimento por um metro de largura e um de altura. O bloco maciço de granito foi cortado com inexplicável precisão mecânica. A tecnologia usada para cortar esse objeto era superior a qualquer ferramenta à disposição do homem moderno.

Embora nenhuma múmia tenha sido encontrada nele, os egiptólogos continuam a identificar esse objeto oco como um sarcófago sem tampa.

Eu tenho outra teoria.

A Câmara do Rei parece funcionar como um instrumento acústico, coletando e amplificando sons. Em várias ocasiões, me vi sozinho na sala e aproveitei a oportunidade para entrar no bloco em forma de banheira. Ao me deitar nele, fui tomado pelo que pareciam profundas reverberações, como se eu tivesse entrado no canal auditivo de um gigante. Não exagero quando digo que meus ossos chocalhavam com as esmagadoras vibrações de som e energia. Discussões posteriores com enge¬nheiros eletrônicos revelaram que a geometria do ápice da Grande Pirâmide (% 377 ohms) faz dela um reverberador perfeito, igualando-se à impedância do espaço.

Por mais bizarra que pareça, minha teoria é que a Grande Pirâmide foi projetada para funcionar como um incrível, imenso diapasão canalizador de energia, capaz de reverberar correntes como as ondas de rádio, ou talvez alguns outros campos de energia ainda desconhecidos.

 

Mais fatos esclarecedores: além de investigarmos a Grande Pirâmide, Maria e eu passamos incontáveis horas entrevistando alguns dos principais arquitetos e enge¬nheiros do mundo. Depois de calcular o peso e os requerimentos de mão de obra e de espaço para a construção da estrutura, cada um desses profissionais chegou à mesma e estarrecedora conclusão: a Grande Pirâmide não poderia ser duplicada — nem mesmo nos dias de hoje.

Me deixem reiterar a informação: mesmo usando nossos guindastes mais sofisticados, os seres humanos da nossa época jamais poderiam erguer a Grande Pirâmide.

No entanto, a Grande Pirâmide foi construída há cerca de 13 mil anos! Então, quem construiu a Grande Pirâmide?

Como procurar respostas para o impossível? O que é o impossível? Maria o descrevia como "uma conclusão equivocada tirada por um observador desinformado, a cuja experiência limitada falta a base de informações para adequadamente compreender algo que simplesmente não está dentro de seus parâmetros aceitáveis de realidade".

O que minha amada estava tentando expressar é isto: mistérios permanecem mistérios até que o observador abra sua mente para novas possibilidades. Ou, mais sucintamente: para encontrar uma solução para o que é percebido como impossível, busque soluções impossíveis.

Foi o que nós fizemos.

A lógica dita que, se os seres humanos não poderiam ter construído as pirâmides de Gizé sozinhos, alguém os assistiu, neste caso outra espécie obviamente de inteligência superior.

Essa conclusão simples, porém perturbadora, não surgiu do nada, mas derivou de evidências palpáveis e empíricas.

Os crânios alongados encontrados nas Américas Central e do Sul nos revelam que os membros dessa espécie misteriosa tinham aparência humanóide. Várias lendas os descrevem como caucasianos altos, com olhos azuis da cor do mar, barbas longas e cabeleiras brancas. Várias das culturas antigas mais bem-sucedidas da História, incluindo os egípcios, os incas, os maias e os astecas, reverenciaram esses seres como homens de grande sabedoria e paz que chegaram para estabelecer a ordem no caos. Todos eram grandes mestres, possuindo um conhecimento avançado de Astronomia, Matemática, Agricultura, Medicina e Arquitetura que fez nossa raça selvagem evoluir para nações com sociedades organizadas.

As evidências físicas que restaram para confirmar sua existência são incontestáveis.

Essa espécie humanóide também tinha um plano claro: preservar o futuro da humanidade, seus filhos adotivos.

Com que conclusão bizarra e assustadora Maria e eu nos deparamos. Ali estávamos, dois pensadores modernos, doutorandos de Cambridge, apresentando um ao outro teorias que deixariam Erich von Däniken orgulhoso. Mas não estávamos orgulhosos. Aliás, nossa reação inicial foi de vergonha. Não éramos como ele, hoteleiros suíços transformados em escritores. Éramos cientistas, arqueólogos renomados. Como poderíamos apresentar aos nossos colegas tais idéias absurdas de intervenção alienígena? No entanto, pela primeira vez, minha jovem esposa e eu sentíamos que nossos olhos finalmente, verdadeiramente, se abriam. Podíamos sentir um grande plano em ação, mas ainda nos frustrava não poder decifrar seu significado oculto. Nossos anciãos humanóides nos deixaram instruções nos códices maias, duplicando com exatidão a mensagem do platô de Nazca, mas os códices haviam sido queimados pelos padres espanhóis, e o significado da mensagem de Nazca ainda nos escapava.

Maria e eu nos sentíamos apavorados e sozinhos, com a terrível profecia do calendário maia pendendo como a espada de Dâmocles sobre nossas cabeças.

Lembro que eu abraçava minha esposa, me sentindo como uma criança perdida que, depois de tomar conhecimento da morte, se esforça para compreender o conceito de seus pais de paraíso. A idéia me fez perceber que, apesar de todas as suas façanhas e realizações, nossa espécie, do ponto de vista evolucionário, realmente ainda está na infância. Talvez por isso sejamos tão propensos à violência, ou continuemos sendo criaturas tão carentes e emocionais, sempre buscando o amor, sempre nos sentindo sozinhos. Como bebês de 30 mil anos, simplesmente não sabemos fazer outra coisa. Somos um planeta de crianças, e a Terra — um imenso orfanato, sem mentes adultas para nos guiar nos caminhos do universo. Fomos obrigados a aprender sozinhos, do jeito mais difícil, à medida que caminhamos, vivendo e morrendo como glóbulos vermelhos, circulando com abandono imprudente pelo corpo da humanidade — tão jovem, tão inexperiente e tão ingênua. Os dinossauros dominaram a Terra por 200 milhões de anos, mas nossos primeiros ancestrais caíram das árvores há menos de 2 milhões de anos. Em nossa incrível ignorância, nos imaginamos superiores.

A verdade é que não passamos de uma espécie de crianças — crianças curiosas e ignorantes.

Os Nefilins, os "caídos", eram nossos tutores. Estiveram aqui há muito tempo, tomaram fêmeas de Homo sapiens como esposas, fornecendo seu DNA à nossa espécie. Eles nos ensinaram o que acharam que compreenderíamos, e nos deixaram marcos claros de sua presença. Também tentaram nos avisar de uma calamidade futura, mas, como a maioria dos filhos, não lhes demos ouvidos, recusando-nos a acatar o alerta de nossos pais.

"Ainda somos crianças", lembro de ter dito a Maria. "Somos crianças frágeis e ingênuas, achando que sabemos tudo, balançando despreocupadamente em nosso berço enquanto a serpente entra pela janela aberta da creche para nos aniquilar."

Maria concordava. "E você sabe que a comunidade científica vai nos desprezar."

"Então não devemos contar a eles, pelo menos não por enquanto", eu disse. "A profecia da humanidade pode estar gravada em pedra, mas ainda podemos determinar o futuro. Os Nefilins não teriam se dado a todo esse trabalho para nos avisar sobre 4 Ahau, 3 Kankin sem também nos deixar alguma arma, algum meio de nos salvarmos da aniquilação. Precisamos encontrar o meio de nos salvar — então, e somente então, o resto do mundo ouvirá com mente aberta."

Maria me abraçou, concordando com minha lógica. "Não encontraremos as respostas aqui, Julius. Você tinha razão desde o início. Embora a Grande Pirâmide faça parte do quebra-cabeça da profecia, o templo que aparece no platô de Nazca fica na Mesoamérica."

— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,

 

Ref. Catálogo 1975-77 páginas 12-72

Diário Fotográfico, Disquete 4: Nome do arquivo: GIZÉ, Diagrama 17

 

               1º DE DEZEMBRO DE 2012, PLANÍCIE DE NULLARBOR, AUSTRÁLIA

5h08

A planície de Nullarbor, a maior área plana do planeta, é uma erma região de calcário que se estende por 245 mil quilômetros quadrados, beirando a nua costa sul do Pacífico na Austrália. É uma região inabitável, sem fauna ou vegetação.

Mas para o naturalista amador Saxon Lennon e sua namorada, Reneè, a planície de Nullarbor sempre representou a fuga perfeita. Nada de pessoas, de barulho, de gerentes de projeto gritando — somente os sons relaxantes das ondas, que arrebentavam nos penhascos verticais de calcário 30 metros abaixo do acampamento do casal.

A reverberação sônica faz Saxon se espreguiçar em seu saco de dormir. Ele abre os olhos, afastando as abas da barraca para olhar a abóbada estrelada.

Reneè passa o braço pela cintura dele e brinca com sua genitália.

—        Já acordou, amor?

—        Espera um pouco... você ouviu alguma coisa passando aqui?

—        Tipo o quê?

—        Não sei...

O enorme estrondo faz o solo sob a barraca tremer, e Saxon se desvencilhar do abraço da namorada.

—        Vamos!

O jovem casal sai correndo da barraca, seminu, calçando as botas de caminhada sem se dar ao trabalho de amarrar os cadarços. Eles pulam no jipe e rumam para o leste, Saxon tomando cuidado para manter o veículo a uma distância segura da beira dos penhascos da costa, alinhados à sua direita.

O horizonte escuro já está cinza quando eles chegam.

—        Caramba, Sax, o que é aquilo?

—        Eu... eu não sei.

O objeto é enorme, da altura de um sobrado, com asas reptilianas que se expandem uns 18 metros de ponta a ponta. A criatura é negra como a noite e está encarapitada sobre um par de garras com três pontas que parecem aferrar a superfície nua de calcário. Uma cauda enorme, espelhada e em forma de leque, está imóvel, metros acima do chão, enquanto uma série de tentáculos sai do abdômen. A cabeça sem rosto, em forma de chifre, parece apontada para o céu. O ser parece sem vida como uma estátua, exceto pelo brilho âmbar-dourado de um órgão em forma de disco num dos lados de seu tronco.

—        Será que é um daqueles aviões de controle remoto que a Força Aérea está sempre usando por aqui?

—        Será que a gente precisa ligar pra alguém?

—        Liga você. Eu vou tirar umas fotos. — Saxon aponta sua câmera, batendo várias fotos enquanto a namorada tenta ligar do carro.

—        O telefone está mudo, só ouço estática. Tem certeza de que pagou a conta?

—        Absoluta. Tome, tire uma foto de mim perto dessa coisa pra mostrar o tamanho dela.

—        Não chega muito perto, amor.

Saxon entrega a câmera a Reneè, depois fica a 4 metros e meio do ser.

—        Acho que essa coisa nem está viva. Só está empoleirada aqui, como um condor carbonizado.

Um brilho dourado aparece no horizonte.

—        A hora é perfeita. Espere o sol nascer, a foto vai ficar melhor.

Os primeiros raios da aurora surgem sobre o Pacífico, a luz solar beijando a superfície da cauda espelhada da criatura.

Saxon dá um salto quando a cauda se ergue com um chiado hidráulico.

—        Puta merda, acho que ela está se ativando.

—        Sax, olha, o olho dela está começando a piscar.

Saxon olha para o disco âmbar, que está piscando cada vez mais rápido, sua cor escurecendo para um tom escarlate.

—        Vem... — Ele pega Reneè pelo pulso e corre de volta para o jipe. Pondo em marcha o veículo, acelera para o norte através da imensa expansão plana.

O disco fica mais vermelho, cor de sangue, depois para de piscar. Uma centelha surge na borda das asas abertas, explodindo numa chama brilhante, incandescente e prateada.

Com um clarão cegante, a criatura é detonada, liberando uma quantidade indescritível de energia combustível que se expande por todo o platô de Nullarbor na velocidade do som. Ondas de choque da explosão nuclear penetram na rocha calcária porosa.

Vaporizando tudo em seu caminho.

Saxon sente a tórrida explosão de 9 mil graus um nanossegundo antes que seu corpo, sua namorada, o jipe e o solo se evaporem num gás tóxico e escaldante que sobe pela atmosfera, num vácuo infernal de chamas e poeira cósmica.

 

                         Golfo do México

A fragata USS Boone (FFG-28), com mísseis teleguiados classe Oliver Hazard Perry, flutua silenciosamente num tenebroso mar cinza-chumbo, sob o ameaçador céu da tarde. Ao redor do vaso de guerra, espalhado pela superfície num raio de 3 quilômetros, está tudo o que resta da plataforma petrolífera semissubmersa Scylla. Uma dúzia de botes infláveis motorizados navegam cuidadosamente em meio aos destroços, e marinheiros emocionalmente esgotados puxam cadáveres inchados a bordo.

O guarda-marinha Zak Wishnov fecha mais um cadáver num saco, enquanto o subtenente Bill Blackmon manobra o bote lentamente através dos fragmentos flutuantes.

—        Zak, tem outro ali, a estibordo da proa.

—        Meu Deus, odeio isso. — Wishnov se debruça sobre a proa e fisga o cadáver com um croque. — Caramba, este aqui está sem um braço.

—        Tubarão?

—        Não, o corte é perfeito demais. Mas agora que você falou, não vi um só tubarão desde que chegamos aqui.

—        Nem eu.

—        Não faz sentido. Tem sangue pra todo lado, e estas águas são infestadas de tubarões. — Zak rola o corpo mutilado para dentro do bote, enfiando-o rapidamente num saco. — É aquela coisa lá embaixo, não é, tenente? A fonte daquele brilho verde. Por isso os tubarões não chegam perto.

O tenente concorda.

—        Os tubarões sabem de algo que não sabemos. Quanto antes o capitão nos tirar daqui, melhor.

 

O capitão Edmund O. Loos III está imóvel sobre a ponte, seus olhos castanhos fitando o tenebroso horizonte, seu maxilar contraído pela raiva. O 13º oficial a comandar a Boone e sua tripulação de 42 oficiais e 550 marinheiros está espumando por dentro. Isso porque seu oficial em comando ordenou que ele se apresentasse no Golfo do México e, conseqüentemente, afastasse seu navio de guerra do grupo de batalha que seguia ao Golfo Pérsico.

Fazer a porra de uma operação de resgate no meio do que pode ser o maior conflito dos últimos vinte anos. Vamos ser motivo de piada pra toda a Marinha.

O comandante Curtis Broad, oficial executivo da embarcação e segundo em comando, se aproxima.

—        Com licença, capitão. Um dos LAMPS localizou um submarino flutuando 1,7 quilômetro a oeste. Dois sobreviventes a bordo. Um deles diz que sabe o que destruiu a Scylla.

—        Traga-o para a sala de reuniões. Quando o vice-presidente vai chegar?

—        Daqui a 35 minutos.

Um raio explode silenciosamente a distância, seguido, pouco depois, pelo rugido do trovão.

—        Recolha todos os botes, comandante. Estarei na sala de reuniões. Me avise quando o vice-presidente chegar.

—        Sim, senhor.

 

O helicóptero antissubmarino Kaman SH-2G Seasprite, também conhecido como LAMPS, balança duas vezes antes de pousar no heliporto do cruzador.

Mick Gabriel segura uma das pontas da maca de Dominique e um tripulante levanta a outra. Quando as portas deslizantes do helicóptero se abrem, o médico do navio e sua equipe se juntam a eles.

O oficial médico se curva sobre a beldade hispânica inconsciente. Ele verifica que ela está respirando, toma seu pulso, depois aponta uma lanterna para os olhos dela.

—        Esta moça sofreu uma concussão grave e pode ter ferimentos internos. Precisam