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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O DON TRANQUILO - 2º Vol. / Mikhail Cholokhov
O DON TRANQUILO - 2º Vol. / Mikhail Cholokhov

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O DON TRANQUILO

2º Volume

 

ERA uma noite de Outubro de 1916, na Poléssia. Chovia e ventava. Ao longo de um pântano orlado de amieiros, rasgavam-se trincheiras, reforçadas à frente por arame farpado. Nas trincheiras, havia uma lama gélida. Molhada da chuva, a chapa de protecção da sentinela brilhava dèbilmente. Nos abrigos, as luzes eram raras. À entrada de um dos abrigos dos oficiais, um vulto atarracado parou um instante; passou os dedos encharcados pelos botões do capote, desabotoou-o rapidamente, sacudiu-lhe a água da gola, limpou com força os pés a um feixe de palha mergulhado na lama, empurrou a porta e entrou, baixando-se.

 

Um raio de luz amarela e como que oleosa, que um candeeirinho de petróleo projectava, iluminou-lhe a cara. Um oficial de dólman desabotoado soergueu-se na cama de tábuas, meteu as mãos por entre os cabelos grisalhos, despenteados, e bocejou.

 

Está a chover?      

 

Está respondeu o recém-chegado. E pendurou num prego, à entrada, o capote e o boné, mole da humidade. Aqui dentro está calor. Deve ser da vossa respiração.

 

Acabámos de acender o lume. A desgraça é a água que surde do chão. Este raio desta chuva acaba por nos atirar daqui para fora. Que lhe parece, Buntchu?


Buntchuk curvou-se, estendendo as mãos, e acocorou-se em fiente do fogãozinho.

Vocês precisam de assentar aqui   tábuas. No nosso abrigo, é outra coisa: podemos andar descalços. Onde está o Lisstnítzki?

 

Está a dormir.

 

Há muito tempo?

 

Fez a sua ronda e deitou-se.

 

Já se pode acordar?

 

Acho que sim. Jogaremos o xadrez.

 

Buntchuk passou o dedo indicador direito sobre as sobrancelhas largas e espessas, para as enxugar da água da chuva, e disse em voz branda, sem levantar a cabeça:

 

Evguéni Níkoláievitch!

Lisstnítzki ergueu-se sobre um cotovelo.        

 

Hã?

Vamos jogar o xadrez?

Sentou-se Lisstnítzki à borda da cama, e esfregou demoradamente, com a palma de uma mão rosada e gorda, o peito rechonchudo.

 

Dois oficiais do quinto esquadrão, o capitão Kalmíkov e o tenente Tchubov, chegaram no fim do primeiro jogo.

Uma novidade! gritou Kalmíkov, mal entrou. Parece que o regimento vai ser rendido.

Como sabes tu isso? inquiriu o capitão Merkulov, com um sorriso céptico.

-Não me acreditas, meu velho Pétia?

Confesso que não

-Comunicação telefónica do comandante da bateria. Como o sabe ele? Pois bem: acaba de voltar do Estado-Maior da Divisão.

 

Tomava agora de bom grado um banho de vapor. Sorrindo beatificamente, Tchubov fez menção de fustigar as nádegas com um molho de raminhos de árvores. Merkulov desatou a rir.


Só o que nos falta é a caldeira. Água temo-la nós com fartura.

 

Está húmido, muito húmido, realmente, meus senhores rosnou Kalmíkov, considerando as paredes de toros de madeira e o chão ensopado.

 

Estamos à beira de um pântano.

 

-Agradeçam ao Altíssimo: à beira deste pântano, estão vocês como no céu interveio Buntchuk. Onde a terra é seca, eles atacam; num sítio destes gasta-se um carregador por semana.

 

Mais valia atacarmos que apodrecermos para aqui vivos.

 

O papel dos cossacos não é morrerem numa ofensiva, meu velho Pétia. Armas em mais ingénuo do que és.

 

E que papel é então o deles, na tua opinião?

 

Quando o achar necessário, o governo apoiar-se-á neles, seguindo a velha tradição.

 

Isso é uma heresia! replicou Kalmíkov com um gesto de repúdio.

 

Como é que é uma heresia?

 

Está claro que é.

 

Deixa-te disso, Kalmíkov. Não serve de nada negar a verdade.

 

Não sei a que verdade te referes...

 

-Mas toda a gente sabe. Porque finges tu não saber?

 

Atenção, se-nhores oficiais! clamou Tchubov, apontando Buntchuk teatralmente. Dentro de alguns momentos, o alferes Buntchuk vai prever o futuro, em conformidade com a oniromancia social-democrata!

 

Estás a fazer de palhaço? observou Buntchuk a sorrir, mas fitando Tchubov de modo a fazer-lhe baixar o olhar. Podes continuar: cada um tem a sua vocação. Estou eu a dizer-lhes que desde os meados do ano passado nós não sabemos o que seja a guerra. A partir do começo da guerra de posições, os regimentos cossacos foram deslocados para os sítios tranquilos, e aí ficarão de reserva o tempo que seja necessário.


E depois? perguntou Lisstnítzki, que estava a arrumar na caixa as peças do xadrez.

 

Depois, quando estalarem na frente os primeiros motins, e isso é inevitável, porque os soldados principiam a estar fartos’ da guerra, como o prova o aumento do número de desertores, mandar-se-ão os cossacos reprimir, esmagar os rebeldes. O governo guarda as tropas cossacas como a sua última pedra. Chegado o momento, servir-se-á dela para partir os dentes à revolução.

 

Estás a exagerar! As tuas suposições são pouco consistentes. Em primeiro lugar, não se podem prever os acontecimentos. Como sabes tu que haverá motins e tudo o mais que afirmas? Suponhamos o seguinte: os aliados batem os alemães, a guerra acaba por uma vitória brilhante. Que papel será, então, o dos cossacos? objectou Lisstnítzki.

 

Buntchuk sorriu discretamente.

 

O fim da guerra é que nós não vemos próximo, e, muito menos, brilhante.

 

Sim, a guerra prolonga-se...

 

E há-de prolongar-se mais ainda garantiu Buntchuk.

 

Quando voltaste tu de licença? indagou Kalmíkov.

 

Anteontem.

 

Buntchuk estendeu os lábios, expeliu uma nuvenzinha de fumo, e deitou fora a ponta do cigarro.

 

Onde estiveste?

 

Em Petrogrado.

 

E como vai lá vida? Continua a haver a mesma animação na capital? Ah, diabos, o que eu daria para lá passar nem que fossem oito dias.

 

A alegria é pouca retorquiu Buntchuk, pesando as palavras. O pão falta. Nos bairros operários há fome, e sente-se um descontentamento, um protesto surdo crescer.

 

Esta guerra não vai acabar bem para nós. Que lhes parece, meus senhores? lançou Merkulov, com um olhar interrogativo à roda.

 

A guerra russo-japonesa desencadeou a revolução de

  1. Também o fim desta será uma revolução. E não só uma revolução, como uma guerra civil.

 

Lisstnítzki, que escutava Buntchuk com atenção, havia feito um vago gesto, como que para o interromper no meio de uma frase; e depois erguera-se e pusera-se a andar de um lado para o outro do abrigo, de expressão carregada. Findou por dizer, com contida raiva:

 

Surpreende-me verificar que existem entre os nossos oficiais indivíduos desta espécie. E apontou Buntchuk, que se sentara. Surpreende-me isso, porque até agora não percebi bem qual seja a atitude deles em relação à pátria e à guerra... Este exprimiu-se um dia, em conversa comigo, de modo muito nebuloso, mas suficientemente claro, no entanto, para eu poder compreender que era partidário da nossa derrota. Compreendi-te bem, Buntchuk?

 

Sim, sou pela derrota.

 

Mas porquê? Quanto a mim, sejam quais forem as tuas opiniões políticas, desejar a derrota da pátria... é uma traição, uma infâmia, aos olhos de qualquer homem honrado.

 

Lembrem-se vocês de que o grupo bolchevique da Duma (1) se manifestou contra o governo e trabalha em prol da derrota interveio Merkulov.

 

O teu ponto de vista é o mesmo, Buntchuk? perguntou-lhe Lisstnítzki.

 

Visto que sou partidário da derrota, evidentemente que o meu ponto de vista é o mesmo. Aliás, seria cómico que eu, que sou membro do Partido Social-Democrata, bolchevique, da Rússia, não partilhasse os, seus pontos de vista. O que me admira, Evguéni Nikoláievitch, é que tu, um homem ilustrado como és, sejas politicamente analfabeto.

 

O que eu sou, antes do mais, é um soldado devotado

 

(1) Etimològicamente, pensamento. Assim se designava o Parlamento do Império.

 

ao monarca. A simples presença de «camaradas socialistas» me desgosta.

 

«Antes do mais, o que tu és é um imbecil e, ainda por cima, um militarão feliz de si» pensou Buntchuk, reprimindo um sorriso.

 

Só Alá é Deus...

 

Sempre os militares constituíram um corpo à parte disse Merkulov, como que à laia de desculpa. Sempre nos mantivemos arredados da política. A política não é connosco.

 

O capitão Kalmíkov estava sentado, mordiscando o bigode caído, com os seus olhos de mongol a luzirem-lhe. Estendido numa cama, Tchubov examinava, ao mesmo tempo que seguia a conversa, um desenho de Merkulov, pregado na parede, e que o fumo do tabaco amarelara: uma mulher meio nua, com cara de Madalena, de sorriso langoroso e lascivo, fitando o peito descoberto. Apertava entre dois dedos da mão esquerda um dos mamilos castanhos, de mendinho afastado, em riste; a luz quente das pupilas filtrava-se-lhe por entre as pálpebras semicerradas; um ombro um pouco subido impedia-lhe a camisa de descair por completo; uma mancha doce de luz enchia-lhe as fossas supraclaviculares. Tanta graça natural e tanta verdade havia na posição daquela mulher, tão agradável era o colorido do desenho, que Tchubov, sorridente sem dar por isso, se absorveu na sua contemplação; e a pouco e pouco se foi alheando da conversa.

 

Está muito bem! comentou ele, desviando os olhos do desenho, e muito pouco a propósito, porque, naquele momento, Buntchuk acabava assim uma frase:

 

... o tsarismo será destruído, podem ter a certeza. Enrolando um cigarro, com um sorriso sarcástico, Lisst-nítzki olhava alternadamente Buntchuk e Tchubov.

 

Buntchuk! exclamou   Kalmíkov. Espera aí, Lisstnitzki!... Buntchuk!... Estão-me a ouvir?... Admitamos que esta guerra se transforme em guerra civil... E depois?... Vocês deitam abaixo a monarquia... Mas que governo implantariam vocês a seguir? A quem dariam vocês o poder?

 

Ao proletariado.

 

Vocês querem um parlamento, não é isso?

 

Não é bem! E Buntchuk sorriu.

 

Então que é, exactamente?

- Uma ditadura operária.

 

É isso, então?... E os intelectuais e os camponeses que papel desempenhariam?

 

Os camponeses seguir-nos-ão, e uma parte dos intelectuais conscientes igualmente... Quanto aos outros, aqui está o que lhes faremos... Buntchuk torceu com um movimento brusco um papel que tinha nas mãos, brandiu-o no ar e repetiu entre os dentes: Aqui está o que lhes faremos.

 

Vocês sonham com altos voosdisse Lisstnítzki, trocista.

 

E voaremos alto replicou Buntchuk.

 

Pois despachem-se em arranjar palha que lhes amorteça a queda...

 

Mas por que diabos se alistou você para vir para a frente de batalha e procurou que o promovessem a oficial? Como concilia você isto com as suas concepções? É extraordinário! Ora aqui está um homem que é contra a guerra... hã-hã!... contra a exterminação dos seus... irmãos de classe, como ele diz... e é alferes!

 

E Kalmíkov deu uma palmada nos canos das botas e rompeu a rir, com um riso sincero.

 

Quantos operários alemães mataram vocês com o vosso grupo de metralhadoras? inquiriu Lisstnítzki.

 

Buntchuk tirou de uma algibeira interior do capote um maço de papéis, que folheou algum tempo, de costas viradas para Lisstnítzki; em seguida, dirigiu-se para a mesa, sobre a qual endireitou com a mão larga, de veias salientes, uma velha folha amarela.

 

Quantos operários alemães matei? Aí está um problema!

 

Eu alistei-me, porque, de qualquer modo, ter-me-iam mobilizado. Penso que os conhecimentos que adquiri nas trincheiras me serão úteis mais tarde... mais tarde. Ora escutem vocês isto...

 

E pôs-se a ler este artigo de Lénine:

 

«Vejamos o exército actual. Eis um bom exemplo de organização. E esta organização só é boa porque é maleável, e porque é capaz, a par disso, de imprimir a milhões de homens uma vontade única. Um dia, esses milhões de homens estão nas suas casas, por todos os cantos do país. No dia seguinte, chega uma ordem de mobilização, e eles concentram-se nos pontos para que foram convocados. Um dia, estão nas trincheiras, e demoram-se lá por vezes meses seguidos. No dia seguinte, lançam-se num ataque, numa nova formação de combate. Um dia, fazem milagres, para se livrarem das balas e das granadas. No dia seguinte, fazem milagres num combate a descoberto. Um dia, os seus elementos avançados colocam minas debaixo do chão. No dia seguinte, deslocam-se para verstás de distância, guiados pelas indicações de aviadores que sobrevoam a terra. Uma organização é isto: para um mesmo fim, animados de uma mesma vontade, milhões de homens modificam a forma das suas relações mútuas e, dos seus actos, mudam de lugar e de modo de actividade, de ferramentas e de armas, conforme as modificações das circunstâncias e as exigências da luta.

 

A mesma doutrina é de aplicar à luta da classe operária contra a burguesia. Actualmente, não estamos perante uma conjuntura revolucionária...» «

 

Que é isso de «conjuntura»? interpelou-o Tchubov.

 

Buntchuk reagiu como um homem a quem tivessem acordado de repente, buscando compreender a pergunta, enquanto coçava a testa proeminente com a base de um polegar.

 

Pergunto eu o que quer dizer aqui a palavra «conjuntura».

 

Compreender o que é compreendo-o bem. Vamos a ver se sou capaz de o explicar com exactidão. Buntchuk teve um sorriso límpido, simples, um sorriso de criança, estranho na sua face severa, como a passagem fugaz, num campo outoniço, entristecido pela chuva, de uma lebrezinha cinzenta-clara, a brincar e às cabriolas. Conjuntura... é uma situação, um conjunto de circunstâncias, enfim. Estão a perceber?

 

Lisstnítzki aquiesceu imperceptivelmente com a cabeça.

 

Continua a ler!

 

«Actualmente, não estamos perante uma conjuntura revolucionária. Faltam para isso as condições de uma fermentação de massas, de um aumento da sua actividade. Se vos puserem hoje um boletim de voto na mão, aceitai-o, e procurai organizar-vos para o utilizar contra os vossos inimigos, não para mandar para o Parlamento, para lugarzinhos cómodos, homens que se agarrarão às suas cadeiras, com medo da prisão. Se amanhã, em vez do vosso boletim de voto, vos puserem nas mãos uma carabina ou um soberbo canhão de tiro rápido, fruto da última palavra da técnica, aceitai esses engenhos de morte e de destruição, não escuteis os choramingas sentimentais a quem a guerra assusta; há ainda no mundo muitas coisas que devem ser destruídas a ferro e fogo, em prol da libertação da classe operária; e, se a cólera e o desespero crescerem nas massas, se se criar uma conjuntura revolucionária, preparai-vos para constituir novas organizações epôr em acção esses engenhos tão úteis de morte e de destruição contra o vosso governo e a vossa burguesia...»

 

Antes de Buntchuk haver terminado a leitura, batia à porta e entrava no abrigo o ajudante do quinto esquadrão.

 

Vossa Nobreza disse ele a Kalmíkov , está lá fora um estafeta que veio do Estado-Maior do regimento.

 

Kalmíkov e Tchubov vestiram-se e saíram. Merkulov pôs-se a desenhar, assobiando. Lisstnítzki continuava a andar de um lado para o outro do abrigo, cofiando o bigode e meditando. Não tardou que Buntchuk se despedisse e abalasse. Segurando a gola do capote com a mão esquerda, e com a direita mantendo-lhe as abas cruzadas, meteu pela trincheira adiante, chapinhando na lama líquida. O vento, encanado pela passagem estreita, assobiava e redemoinhava nos ângulos dela. Buntchuk caminhava na obscuridade, com um sorriso nos lábios. Ao chegar ao seu abrigo, estava de novo encharcado e impregnado do cheiro das folhas de amieiro podres. O comandante do grupo de metralhadores dormia. A cara dele, tisnada, de bigode preto, tinha sinais lívidos de insónia: três noites seguidas ele havia jogado as cartas. Buntchuk remexeu na sacola que guardara do tempo em que era simples soldado, queimou junto à porta um maço de papéis, meteu nas algibeiras umas latas de conservas e algumas mãos-cheias de balas de revólver, e voltou a sair. O vento penetrou um instante pela porta novamente aberta, espalhou a cinza dos papéis queimados, e apagou o candeeirinho fumarento.

 

Depois da abalada de Buntchuk, Lisstnítzki havia continuado a andar cerca de uns cinco minutos, depois do que se acercou da mesa. De cabeça inclinada a um lado, Merkulov desenhava. O lápis dele, finamente afiado, ia espalhando sombras leves no papel, de cujo fundo branco sobressaía a cara de Buntchuk, cortada pelo seu sorriso discreto e como que contrafeito.

 

É uma cara expressiva disse Merkulov, tirando a mão de cima do desenho, e erguendo os olhos para Lisstnítzki.

 

A tua opinião sobre ele? inquiriu este.

 

O diabo o entende ripostou Merkulov, que penetrou o sentido da pergunta. É um homem esquisito. E hoje, que se abriu, percebi muitas coisas que ainda não tinha conseguido decifrar. Sabes que ele é muito popular entre os soldados, em especial os de metralhadoras? Não tinhas reparado nisso?

 

Já replicou Lisstnítzki, em tom vago.

 

Os soldados de metralhadoras, todos sem excepção, são bolcheviques. Ele deu-lhes volta ao miolo. Estou surpreendido de que tenha posto o seu jogo à mostra. com que propósito? Para nos irritar, com certeza! Sabendo como sabe que nenhum de nós é da opinião dele, para que terá ele feito isto? Não é um exaltado. É um tipo perigoso.

 

A reflectir sobre o comportamento estranho de Buntchuk, Merkulov pôs o seu desenho de banda e principiou a despir-se. Pendurou do fogão as meias húmidas, deu corda ao relógio, fumou um cigarro, e deitou-se. Pouco depois, estava a dormir. Lisstnítzki sentou-se no banco que Merkulov ocupara um quarto de hora antes, e em letra rasgada, nas costas do desenho, partindo o bico aguçado do lápis, escreveu:

 

«Vossa Alta Nobreza:

 

As suspeitas que eu lhe havia já precedentemente comunicado confirmaram-se hoje por completo. No decurso de uma conversa que hoje teve com alguns oficiais do nosso regimento (estando presentes, além de mim, o capitão Kalmíkov e o tenente Tchubov, do quinto esquadrão, e o capitão Merkulov, do terceiro), o alferes Buntchuk expôs, com um fim que, confesso-o, não entendo, as ideias que o movem, conformes às suas convicções políticas, e certamente em obediência às ordens do seu partido. Tinha na sua posse um maço de papéis de carácter ilegal. Leu, assim, extractos do órgão do mesmo partido, «O Comunista», que se publica em Genebra. O alferes Buntchuk faz sem dúvida um trabalho clandestino no nosso regimento (é legítimo pensar que foi para isso que se alistou) e os soldados de metralhadoras são o objectivo imediato da sua propaganda. Esses soldados estão desmoralizados. A perniciosa influência dele exerce-se sobre o espírito de todo o regimento: já tivemos casos de recusa em executar ordens de combate, e outros equivalentes, do que em tempo devido informei a Repartição Especial do Estado-Maior da Divisão.

 

O alferes Buntchuk voltou de licença há dias (esteve em Petrogrado), com uma abundante literatura subversiva; deve tentar agora intensificar a sua actividade.

 

Apoiando-me nos pontos acima expostos, cheguei às seguintes conclusões: a) a culpabilidade do alferes Buntchuk é indubitável (os senhores oficiais que assistiram à conversa podem, sob juramento, confirmar o meu relatório); b) é indispensável, para pôr termo à sua actividade revolucionária, prendê-lo e julgá-lo em tribunal militar; c) deve-se, com urgência, depurar o grupo de metralhadoras, prender os elementos particularmente perigosos e mandar os outros para a retaguarda, ou dispersá-los por regimentos vários.

 

Peço-lhe que creia no meu sincero desejo de servir os interesses da pátria e do monarca. Uma cópia do presente relatório vai ser por mim enviada ao general comandante do Corpo do Exército.

 

Capitão Evguéni Lisstnítzki.

20 de Outubro de 1916. Sector Nº.º 7.»

 

No outro dia de manhã, Lisstnítzki enviou um estafeta com o seu relatório ao Estado-Maior da Divisão, almoçou e saiu do abrigo. Por trás do parapeito peganhento, por sobre o pântano, um nevoeiro flutuava, em flocos que pareciam agarrar-se aos dentes do arame farpado. Uma polegada de lama líquida cobria o fundo das trincheiras. Regueiras castanhas corriam dos sulcos cavados pelo apoio das armas. Alguns cossacos acocorados, de capotes ensopados e sujos, ferviam chá nas gamelas, por sobre as chapas de protecção, e fumavam, de carabinas arrimadas à parede.

 

Quantas vezes já se lhes disse que é proibido acender lume nessas chapas? Não percebem o que se lhes diz, súcia de malandros? gritou raivosamente Lisstnítzki, ao aproximar-se do primeiro grupo de homens que viu assim de cócoras em torno das chamas fumarentas.

 

Dois deles levantaram-se de má vontade, ao passo que os outros continuaram a fumar, com as abas dos capotes apanhadas. Um cossaco barbudo, com uma argola de prata pendente do lobo negro de uma orelha, respondeu, enfiando um feixe de raminhos por baixo da gamela:

 

Muito felizes nos sentiríamos nós se pudéssemos passar sem elas. Mas como quer Vossa Nobreza que se acenda o lume? Veja a água toda que aqui há. Tem bem um quarto de archine de altura.

 

-Tira imediatamente essa chapa daí!

 

Temos então que ficar sem comer? É isso?... proferiu um cossaco de larga face bexigosa, virando-lhe as costas, com ar sombrio.

 

Estou a falar contigo... Tira daí a chapa!

 

E Lisstnítzki espalhou os raminhos que ardiam por baixo da gamela.

 

com um sorriso de atrapalhação e de ódio, o cossaco barbudo, da argola na orelha, entornou a gamela de água a ferver e rosnou:

 

Já bebemos o chá, rapazes...

 

Os cossacos seguiram com os olhos, em silêncio, o capitão que se afastava. O olhar húmido do barbudo despedia chispas.

 

Ofendeu-nos, o cão!

 

Aaaah!... rouquejou   outro e enfiou   no ombro   a bandoleira da carabina.

Quando chegou ao sector ocupado pelo quarto pelotão, Lisstnítzki foi abordado por Merkulov. Este estava ofegante, o casaco de coiro novo rangia-lhe, o hálito dele cheirava fortemente a tabaco ordinário. Afastou-se para um lado com Lisstnítzki e sussurrou-lhe rapidamente:

 

Sabes a novidade? Buntchuk desertou a noite passada.

 

Buntchuk? Quê?

 

Desertou... Estás a compreender? Ignátitch, o comandante do grupo de metralhadoras, que, como sabes, dorme no mesmo abrigo em que ele dormia, disse que ele não se tinha recolhido à noite. Isto significa que, depois de nos deixar, se raspou... Aqui tens tu.

 

Lisstnítzki limpou demoradamente as lunetas, de testa franzida.

 

Dir-se-ia que isto te perturbou? observou Merkulov, com um olhar penetrante.

 

A mim? Olha que ideia! Tu és maluco! Porque havia isso de me perturbar? Fiquei surpreendido, simplesmente. Não o esperava.

 

No dia seguinte de manhã, o ajudante entrou contrafeito no abrigo de Lisstnítzki e anunciou-lhe, depois de um momento de hesitação:

 

Os homens encontraram esta manhã estes papéis nas trincheiras, Vossa Nobreza... Isto é um pedaço maçador. Eu vim imediatamente comunicar-lho. Poderíamos vir a ter aborrecimentos...

 

Que papéis são? perguntou Lisstnítzki, levantando-se da cama.

 

O ajudante estendeu-lhe várias folhas que trazia amarrotadas numa das mãos. Em papel de má qualidade, viam-se as mesmas palavras impressas em todas. Lisstnítzki leu de um fôlego:

 

«Próletários de todos os países, uni-vos!

 

CAMARADAS   SOLDADOS!

 

Há dois anos que dura esta maldita guerra. Há dois anos que vós sofreis nas trincheiras por interesses que não são os vossos. Há dois anos que corre o sangue dos operários e dos camponeses de todos os países. Centenas de milhares de mortos e de mutilados, centenas de milhares de órfãos e de viúvas são o resultado desta chacina. Por quem estais em guerra? De quem são os interesses que defendeis? O governo tsarista mandou milhões de soldados para as linhas de fogo, para se apoderar de novas terras e oprimir as suas populações, como oprime a Polónia e as outras nacionalidades que domina. Quando os industriais do mundo inteiro não conseguem pôr-se de acordo sobre a divisão dos mercados por que poderiam escoar a produção das suas fábricas e oficinas, quando não conseguem dividir à boa paz os seus lucros, essa divisão efectuam-na pela força das armas, e vós, os pequenos, caminhais para a morte, combatendo pelos interesses deles, e matando outros homens que são trabalhadores como vós.

 

Basta de sangue fraterno vertido! Trabalhadores, reflecti! O vosso inimigo não é o soldado austríaco ou alemão, enganado como vós, mas o vosso próprio tsar, os vossos industriais, os vossos proprietários rurais. Virai contra eles as vossas armas. Confraternizai com os soldados alemães e austríacos. Através do arame farpado, por meio do qual vos separam, estendei uns aos outros as vossas mãos. Sois irmãos pelo trabalho. As vossas mãos estão ainda marcadas pelos calos sangrentos do trabalho. Não tendes nada a perder. Abaixo a autocracia! Abaixo a guerra imperialista! Viva a unidade indestrutível dos trabalhadores do mundo inteiro!»

 

Lisstnítzki leu as últimas linhas, sufocado. «Ora aqui está! A coisa começa!» pensou ele, tomado de ódio, esmagado ao peso de pressentimentos que o invadiam. Telefonou ao general comandante do regimento e explanou-lhe o que se havia passado.

 

Que ordens dá Vossa Excelência? rematou ele. Através do zumbido de mosquito do telefone e do tinido das suas campainhas longínquas, as palavras do general ressoavam pesadamente no auscultador:

 

Proceda imediatamente a uma busca, com o ajudante e os oficiais comandantes de pelotão. Reviste-se toda a gente, incluindo os oficiais. Hoje mesmo perguntarei para o Estado-Maior da Divisão quando tenciona render o regimento. Vou ver se isso se consegue depressa. Se descobrir qualquer coisa durante a busca, comunique-mo imediatamente.

 

Tenho a impressão de que é trabalho dos soldados de metralhadoras.

 

Ah, sim? Vou também dar ordens a Ignátitch para fazer o mesmo com os homens dele. Até outra vez.

 

Lisstnítzki reuniu os oficiais comandantes de pelotão no abrigo dele e comunicou-lhes as ordens do general.

 

Mas isso é odioso! desabafou   Merkulov. Vamos então passar busca uns aos outros?

 

O senhor primeiro, Lisstnítzki propôs o jovem   e imberbe tenente Razdórtsev.

 

Tira-se à sorte.

 

Não. Por ordem alfabética.

 

Meus senhores, deixemo-nos de brincadeiras cortou Lisstnítzki com severidade. O nosso velho exagera, bem entendido: os oficiais deste regimento estão acima de toda a suspeita, como a mulher de César. Suspeito havia um, o alferes Buntchuk, mas desertou; o que é preciso é fazer uma busca aos cossacos. Chamem o ajudante.

 

Entrou o ajudante, um cossaco já idoso, cavaleiro de São Jorge de terceira classe. A tossir, considerou os oficiais.

 

Na tua opinião, quais são os suspeitos do esquadrão? Quem te parece que pudesse ter distribuído estes manifestos? inquiriu Lisstnítzki.

 

Ninguém. Vossa Nobreza respondeu o ajudante com segurança.

 

No entanto, eles foram encontrados no sector do nosso esquadrão. Veio alguém dos outros esquadrões às nossas trincheiras?

 

Ninguém. Não veio ninguém dos outros esquadrões.

 

Temos que lhes passar uma busca a um e um disse Merkulov, com um gesto de lassidão, dirigindo-se para a porta.

 

A busca começou. As faces dos cossacos exprimiam sentimentos diversos: uns mostravam-se carrancudos e admirados, outros olhavam receosamente para os oficiais que remexiam nos seus pobres equipamentos de soldados, outros ainda riam-se. Um sargento batedor, perguntou resolutamente:

 

Mas digam-nos o que procuram. Se roubaram qualquer coisa, talvez a gente saiba onde esteja.

 

Não deu qualquer resultado a busca. Só um cossaco do primeiro pelotão é que tinha um manifesto, amarrotado, num bolso do capote.

 

Leste isto? interrogou-o Merkulov, atirando a folha para o chão com um gesto cómico.

 

Apanhei-o para enrolar cigarros-replicou o cossaco, com um sorriso, baixando os olhos.

 

Estás a sorrir? berrou Lisstnítzki, corando e aproximando-se dele, com as pestanas curtas e doiradas a tremerem-lhe nervosamente por trás das lunetas.

 

A cara do cossaco fez-se subitamente séria, como se um sopro de vento lhe tivesse varrido o sorriso.

 

Ora, Vossa Nobreza! Mas eu quase não tenho instrução. Leio muito mal. Apanhei isso porque não tinha mortalhas. Tabaco tenho, mas papel não. Não foi por mais nada.

 

O cossaco falava em voz alta, ofendida, em que lhe transparecia a irritação.

 

Lisstnítzki cuspiu para o lado e afastou-se, com os oficiais atrás.

 

No outro dia, o regimento foi rendido e transferido para a retaguarda, a uma dezena de verstás da frente. Dois homens do grupo de metralhadoras foram presos e julgados em tribunal militar, e dos outros uma parte passada para regimentos de reserva, e outra parte dispersa pelas unidades da 2.ª Divisão cossaca. Ao fim de alguns dias de descanso, o regimento tinha um aspecto relativamente decente. Os cossacos tinham-se lavado, limpado tudo o que lhes pertencia, e barbeado cuidadosamente. Não tinham feito isto como nas trincheiras, em que libertavam as faces da sua vegetação por uma forma simples, mas dolorosa: pegando fogo aos pêlos com um fósforo; mal o fogo, queimada a barba, chegava à pele, aplicavam-lhe por cima, à pressa, uma toalha molhada. A isto chamavam eles «barbear à porco».

 

Queres que eu te barbeie à porco? perguntavam os barbeiros dos pelotões aos seus clientes.

 

O regimento descansava. Os cossacos tinham um aspecto mais arranjado e mais alegre, mas Lisstnítzki sabia, e como ele todos os oficiais, que aquela alegria era incerta, como o tempo em Novembro. Bastava falar de partida para a frente, para que a expressão das faces imediatamente se lhes mudasse, com um descontentamento, uma hostilidade manifesta a assomar-lhes por entre as pálpebras. Sentia-se neles uma lassidão mortal, um esgotamento, que os mantinha moralmente instáveis. Lisstnítzki sabia bem quanto os homens são terríveis em tal estado, se se empenham nalgum propósito.

 

Em 1915, tinha ele visto uma companhia de infantaria lançar-se em cinco ataques sucessivos, sofrer perdas tremendas, e aceitar de cada uma das vezes a mesma ordem de voltar a atacar. Finalmente, os restos da companhia tinham abandonado as suas posições, sem autorização de o fazerem, e dirigiram-se para a retaguarda. Lisstnítzki recebera ordem de os fazer parar; mas ao tentá-lo, com o seu esquadrão em linha, eles haviam desatado a atirar. Da companhia não restavam mais de sessenta homens; ele notara, no entanto, com que valentia insensata, desesperada, aqueles homens se defendiam dos cossacos, baixando a cabeça às sabradas, deixando-se matar, precipitando-se ao encontro da destruição, do aniquilamento, indiferentes ao modo de morrer.

 

Acudia-lhe aquele incidente à memória, como uma recordação cruel, e perscrutava, cheio de angústia e com olhos novos, as caras dos cossacos, interrogando-se: «Também eles um dia virarão as costas e se irão embora, sem que nada, excepto a morte, os faça parar?» E, reparando-lhes no olhar fatigado e irritado, a si próprio respondia honestamente: «com certeza que sim.»

 

Os cossacos estavam radicalmente mudados em relação aos anos precedentes. Até as canções deles não eram as mesmas, mas outras novas, nascidas da guerra, impregnadas de uma negra desolação. À tardinha, ao passar ao lado do vasto armazém de uma fábrica em que o esquadrão se aboletara, Lisstnítzki ouvia a maior parte das vezes uma canção melancólica, de uma indefinível tristeza. Era sempre cantada a três ou quatro vozes. Uma voz de tenor, de uma pureza e de uma força raras, erguia-se, estridente, sobre as dos baixos profundos:

 

Ò meu país, minha terra natal, Nunca mais te verei! Nunca mais verei, nunca mais ouvirei O rouxinol de madrugada, no jardim.

 

Mas não chores por mim, Minha mãe, minha terra, Porque nem todos nós, minha mãe querida, - Morreremos na guerra.

 

Lisstnítzki parava, escutava, e sentia que aquela tristeza singela se lhe comunicava também com violência. No coração, que lhe rompia a bater mais rápido, uma corda tensa vibrava-lhe dolorosamente à voz do tenor. De pé, perto do armazém, Lisstnítzki fixava as sombras do crepúsculo outonal, de olhos molhados de lágrimas, e uma dor viva e doce a pruir-lhe as pálpebras.

 

Aqui vou, aqui vou, numa planície rasa,

 

E dentro de mim o meu coração sente.

 

Ai, o meu coração sente e pressente.

 

Que o rapaz que sou não voltará para casa.

 

Ainda os baixos não tinham terminado as últimas palavras, já o tenor lhes dominava as vozes com a dele, palpitante como as asas de uma abetarda de peito branco, e cantava:

 

Uma bala assobiou Que no peito me feriu E a crina do meu cavalo Do meu sangue se tingiu.

 

Durante todo o tempo que o descanso durou, só uma vez Lisstnítzki ouviu as palavras entusiásticas e desafiadoras de uma velha canção cossaca. Foi uma tardinha, em que ele, como habitualmente, passava junto do armazém. Vozes e gargalhadas avinhadas feriram-lhe os ouvidos. Pensou com os seus botões que o furriel, que fora buscar mantimentos ao burgo de Nezvisska, havia trazido samogone (2) e o distribuíra pelos cossacos. Estes, emborrachados, questionavam e riam, não se percebia porquê. No regresso do passeio, ouviu ele o estridor violento de uma canção e um assobio selvático, estrídulo, mas harmonioso:

 

Quem nunca esteve na guerra É que não sabe o que é medo. De dia encharcado, à noite a tremer, Nem um instante se tem sossego. Fi-iú-iú-iú-iú-iú-iú! Fi-iú-iú-iú-iú-iú-iú! Fiú-iú-iú!

 

E o assobio modulado, ininterrupto, subia e descia como que em espiral, com trinta vozes retumbantes, pelo menos, a cobrirem-no:

 

Em campanha, o medo e a desgraça Não nos largam, a todas as horas.

 

Um folião qualquer, por certo um jovem, assobiando com fúria e rapidez, dançava uma prissiadka no pavimento de madeira. As calcanharadas dele ressoavam distintamente a par do canto.

 

O mar Negro ruge. Nos barcos há luzes. As luzes apagaremos, E os turcos esganaremos. Glória aos cossacos do Don!

 

Lisstnítzki afastou-se, com um sorriso involuntário, procurando acertar o passo pelo ritmo das vozes. «Talvez a nostalgia da terra seja menos viva nos soldados de infantaria»

 

(2) Aguardente de cereais, distilada pelos camponeses.      

 

pensou ele. Mas logo a razão lhe insinuou frias objecções: «Mas porque hão-de os soldados de infantaria ser diferentes dos outros? Sem dúvida, os cossacos reagem pior a esta inacção forçada das trincheiras: o trabalho deles habituou-os a um contínuo movimento. E há dois anos que os obrigam a estar para aqui sem fazer nada, sem irem além de umas tentativas infrutíferas de ofensivas. O exército está, como nunca esteve, enfraquecido. Era preciso que uma mão forte, um grande êxito, uma avançada os sacudisse. Mesmo os exércitos mais valentes e disciplinados se vão moralmente abaixo ao fim das guerras prolongadas. O próprio Suvórov passou por isso... Mas os cossacos hão-de aguentar-se. Se cederem, serão os últimos. No fim de contas, sempre são uma espécie de uma nação, tradicionalmente guerreira, e não um amontoado qualquer de operários e de camponeses.»

 

Como que para o desenganar, uma voz aguda entoou no armazém a «Kalínuchka». Outras vozes intervieram e Lisstnítzki sentiu, enquanto se afastava, a angústia que enchia aquela velha canção:

 

O jovem oficial a Deus ergue preces.

 

O jovem cossaco pensa no regresso.

 

Meu jovem oficial,

 

Deixa-me ir para casa,

 

Deixa-me ir para casa,

 

Para ao pé do meu pai,

 

Do meu pai e da minha mãe querida.

 

Do meu pai e da minha mãe querida

 

E da minha jovem mulher      

 

Três dias depois de ter abandonado as trincheiras, Buntchuk chegou uma noite a um grande burgo comercial, situado na zona da frente. Já as casas tinham as luzes acesas. Cobria os charcos uma camada fina de gelo e os passos dos raros transeuntes ouviam-se de longe. De ouvidos atentos, Buntchuk evitava as ruas iluminadas e escolhia as mais estreitas e desertas. À entrada do burgo, por pouco não esbarrou com uma patrulha. Caminhava agora como um lobo, rapidamente cingindo-se às sebes, sem tirar a mão direita da algibeira do capote incrivelmente sujo: passara o dia num armazém, deitado por entre folhelho.

 

O burgo servia de base ao corpo de exército, com várias unidades nele aboletadas, de modo que a possibilidade de encontrar uma patrulha era constante. Na algibeira do capote, os dedos peludos de Buntchuk não largavam a coronha estriada do revólver.

 

À outra ponta do burgo, demoradamente perscrutou os portões e examinou a uma e uma as casas pobres de uma ruazinha sem ninguém. Ao fim de uns vinte minutos, acercou-se de uma, miserável, a uma esquina, espreitou por uma frincha da janela, sorriu, e entrou no pátio, com decisão. Bateu. Abriu-lhe uma mulherzinha, enrolada num xaile.

 

Boriss   Ivánovitch   mora   em   sua   casa? perguntou Buntchuk.

 

Mora. Faça favor de entrar.

 

Buntchuk entrou, encolhendo-se. Atrás dele, ouviu o ruído do trinco que se fechava. No quarto de tecto baixo, iluminado por uma lâmpada minúscula, sentado a uma mesa, estava um homem de meia-idade, de uniforme militar. Os olhos dele preguearam-se para fitar o recém-chegado. Depois ergueu-se, com uma satisfação contida.

 

Donde vens tu?

 

Da frente.

 

Sério?

 

É como estás a ver. Buntchuk sorriu, e tocando com um dedo num ombro do homem fardado, ciciou: Há um quarto para mim?

 

Há. Vem comigo.

 

Introduziu Buntchuk num quarto ainda mais pequeno, sem acender a luz, fê-lo sentar numa cadeira, fechou a porta, correu a cortina da janela, e atirou:

 

A partida foi definitiva? Foi definitiva.

 

-Como vão as coisas por lá?

Está tudo pronto.

 

Os rapazes são de confiança?

Ah, são!

 

Cuido que seria melhor mudares primeiro de roupa. Depois falaremos. Dá-me cá o capote. Vou trazer-te água para te lavares.

 

Enquanto Buntchuk se lavava numa bacia de cobre esverdeada, o honem fardado ia dizendo, em voz suave e cansada, a par afagando os cabelos em escova:

 

Por agora, eles são incomparavelmente mais fortes que nós. O nosso papel consiste em crescermos, ao alargarmos a nossa influência, em explicarmos sem desfalecimento as causas verdadeiras da guerra. E a nossa organização há-de aumentar, podes ter a certeza. Tudo o que a eles os enfraquece nos fortalece a nós. O adulto é incontestavelmente mais forte que a criança, mas, quando se torna decrépito, toma-lhe a criança o lugar. E, neste momento, não é apenas a uma decrepitude que assistimos, mas à paralisia progressiva de um organismo inteiro.

 

Buntchuk, que acabara de se lavar, e se limpava a uma toalha grossa de pano cru, pôs-se a contar:

 

Antes de partir, expus o que pensava aos meus oficiaizinhos... Garanto-te que foi divertido... com certeza devem ter atazanado os soldados de metralhadoras, e é natural que um ou outro seja mesmo julgado em conselho de guerra. Mas, como não há provas, que lhes poderá suceder? Espero que os dispersem por unidades várias, que é precisamente o que nos convém: que eles espalhem a boa semente... Ah, que belos rapazes ali há! Talhados em rochedos!

 

Recebi um recado do Stepane. Pede-me para lhe mandarmos um camarada que perceba de assuntos militares. Irás tu. Mas os documentos? Poderão arranjar-se?

 

De que trabalho se trata? inquiriu Buntchu, que se ergueu na ponta dos pés, para pendurar a toalha num prego.

 

Instrução militar dos rapazes. Mas tu nunca mais cresces? ironizou o homem.

 

Não preciso retorquiu   Buntchuk. Principalmente, na situação actual. Do tamanho de uma ervilha gostaria eu de ser, para ninguém dar por mim.

 

Conversaram até de madrugada. No dia seguinte, Buntchuk, irreconhecível, de cabelos pintados de outra cor e roupa diferente, munido de documentos com o nome de Nikolai Ukhvátov, soldado do 441.º regimento de Orcha, reformado por causa de uma ferida no peito, saiu do burgo em direcção à estação.

 

Nos últimos dias de Setembro, o comando resolveu desencadear uma ofensiva na zona de Vladímir-Volínsskoi a Kovel, quer dizer no sector de operações do exército Especial. (Na realidade, tratava-se do 13.º Exército, crismado de «Exército Especial», por o número 13 ser tido supersticiosamente por aziago mesmo pelos grandes generais). Escolheu-se, não longe da aldeia de Sviniúkhi, uma zona propícia à ofensiva, e a preparação da artilharia principiou.

 

Uma quantidade incrível de peças de artilharia havia sido ali concentrada. Centenas de milhares de granadas de calibres diversos caíram»durante nove dias no espaço ocupado por duas linhas de trincheiras alemãs. Logo no primeiro dia, mal o bombardeamento intenso se iniciara, os alemães abandonaram a primeira daquelas linhas, nela deixando apenas alguns observadores. Alguns dias mais tarde, abandonaram a segunda linha, e recuaram para uma terceira.

 

No décimo dia, os atiradores do Corpo de Exército do Turquestão passaram à ofensiva. Avançavam à francesa, em vagas sucessivas. Dezasseis vagas se levantaram das trincheiras russas. Vacilantes, as vagas cinzentas daquele mar humano rebentavam, minguadas e refervendo, contra os medonhos novelos do arame farpado desfeito. Do lado alemão, de detrás dos troncos carbonizados de um amial pardacento e de montículos corcovados de areia, um bramido pesado e ininterrupto soava, e um incêndio crepitante de tiros desarraigava, abalava, revolvia, queimava a terra.

 

Guuuuú... Guuuuú... Guque! Gaque! Buuuuum!

 

De quando em quando, ouvia-se uma salva de uma bateria isolada, mas de novo, cobrindo, invadindo, enchendo um espaço de várias verstás à roda, reboava:

 

Guuuuú... Guuuuú... Guuuuú...

 

E as metralhadoras alemãs, insanamente,   açodavam-se:

 

Trrrrraaá-rrraá-tá-tá-tá-tá!

 

Na extensão de uma verstá, as colunas de fumo negro das explosões estorciam-se por sobre o terreno arenoso, mutilado, e as vagas dos assaltantes fragmentavam-se, agitavam-se, estalavam, esparrinhando lama, em torno das covas abertas, e rastejavam, rastejavam...

 

Os estoiros lúgubres, cada vez mais numerosos, que sacudiam a terra, a chuva oblíqua, cada vez mais densa, das granadas uivantes, as chicotadas, cada vez mais violentas, das metralhadoras, ao rés do solo, esforçavam-se por impedir os assaltantes de ultrapassarem o arame farpado. E os assaltantes não o ultrapassaram. Das dezasseis vagas, só as três últimas lhe alcançaram a barreira batida pelo fogo, com as suas estacas queimadas erguidas para o céu, por entre o arame torcido, mas para refluírem, destroçadas, em regueiras, em gotículas...

 

Mais de nove mil vidas se perderam nesse dia na terra arenosa e triste, não longe da aldeia de Sviniúkhi.

 

Duas horas volvidas, a ofensiva recomeçou. Foram mandadas avançar agora a 2.ª e a 3.ª Divisões do Corpo de Atiradores do Turquestão. À esquerda delas, elementos da 53.ª Divisão de Infantaria e a 307.ª Brigada de Atiradores Siberianos progrediam ao longo das valas de acesso, em direcção à primeira linha das trincheiras, e, à direita, alguns batalhões da 3.ª Divisão de Granadeiros marchavam a passo.

 

O tenente-general Gavrílov, comandante do 30.º Corpo do Exército Especial, recebera do Estado-Maior ordem de enviar duas divisões para o sector de Sviniúkhi. O 320.º Regimento, de Tchemebar, o 319.º, de Bugulma, e o 318.º, de Tchórni-Iar, que pertenciam à 80.ª Divisão, foram rendidos durante a noite por atiradores letões e soldados recentemente chegados. Ao entardecer, um destes regimentos havia feito, ostensivamente, um movimento numa direcção falsa, e só depois de andadas doze verstás ao longo da frente fora mandado voltar para trás. Por caminhos diferentes, todos se orientavam para um mesmo fito. À esquerda da 80.ª Divisão, marchavam o 283.º Regimento, de Pavlograd, e o 284.º, de Venegrov, da 71.ª Divisão, seguidos imediatamente por um regimento de cossacos do Ural e o 44.º Regimento de Cossacos a pé.

 

O 318.º, de Tchórni-Iar, ocupava, antes desta transferência, o sector da aldeia de Stokhod, não longe da herdade de Rudka-Merínsskoiê. De manhã, após uma primeira marcha, instalou-se numa floresta, nos abrigos abandonados, e durante quatro dias se instruíram os soldados no sistema de ataque à francesa, em linhas de atiradores, por meias companhias e não por batalhões, aos granadeiros se ensinando a cortar o mais rapidamente possível o arame farpado e uma nova forma de lançamento das granadas. Depois, novamente o regimento partiu. Três dias caminhou através de florestas, de clareiras, de estradas vicinais, invadidas pela erva e retalhadas pelas rodas dos carros. Um nevoeiro flocos e, em farrapos, flutuava, impelido pelo vento, prendendo-se ao alto dos pinheiros, deslizando ao longo das clareiras, e, como um milhafre sobre um cadáver, rodando por entre os amieiros, sobre a verdura azulada e as exalações dos charcos. Do céu ressumava uma chuva miúda. Os homens avançavam ensopados, irritados. Ao cabo de três dias de marcha, pararam, não longe do sector da ofensiva, nas aldeias de Bólchiê Porek e de Máliê Porek, onde descansaram um dia, antes de retomarem o rumo da morte.

 

Nessa mesma altura, um esquadrão cossaco isolado dirigia-se também, com o Estado-Maior da 80.ª Divisão, para o local dos próximos combates. Havia sido completado com cossacos da segunda reserva, originários de Tatársski. O segundo pelotão contava apenas homens da aldeia: Martine e Prokhor, os dois irmãos de Alekcei Chamil; Ivane Alekcêievitch, que fora mecânico da moagem de Mokhov; Afonka Osérov, picado das bexigas; Manítzkov, o antigo atamane da aldeia; Evlánti Kalínine, o coxo, vizinho dos Chamiles, que tinha uma grande poupa de cabelos caída para a testa; Borchtchov, um latagão, alto e mal feito; Zakhar Koroliov, com o seu pescoço curto, e desajeitado como um urso; o folgazão do esquadrão, Gavrila Likhóvidov, homem de aspecto francamente selvagem, conhecido por apanhar pancada da mãe, septuagenária, e da mulher, franzina, mas muito senhora do seu nariz; e muitos outros mais, como, aliás, no resto do esquadrão. Alguns deles haviam sido, primeiro, estafetas do Estado-Maior da Divisão, mas substituídos mais tarde por lanceiros. O esquadrão fora enviado para a primeira linha por ordem do comandante da Divisão, o general Kitchenko.

 

Ao amanhecer de 3 de Outubro, o esquadrão entrou na aldeia de Máliê Porek, no momento em que o primeiro batalhão do 318.º de Tchórni-Iar de lá partia. Os soldados saíam à pressa dos casebres abandonados, meio destruídos, e formavam em filas na rua. Um jovem aspirante trigueiro caminhava ao longo do pelotão da vanguarda, mastigando um pedaço de chocolate que tirara da bolsa (com as comissuras dos lábios húmidos e vermelho todos besuntados) e o capote comprido e amarrotado, de orla suja de lama seca, agitando-se-lhe por entre as pernas, como a cauda grossa de um carneiro. Os cossacos passaram para o lado esquerdo da rua. O mecânico Ivane Alekcêievitch ia à ponta direita da sua fila. Cuidadosamente fitava o chão que pisava, para evitar as poças. Como do outro lado da rua alguém lhe gritasse o nome, virou a cabeça e passeou o olhar pelas filas dos soldados.

 

Ivane Alekcêievitch! Meu querido amigo!...

 

Um soldadito despegou-se do seu pelotão e deu uma corridinha para ele, bandeando-se como um pato, a atirar para trás a carabina, cuja bandoleira teimava em lhe descair para a frente, e cuja coronha lhe batia no cantil, com um ruído surdo.

 

Não me reconheces? Esqueceste-te de mim?

 

A custo Ivane Alekcêievitch reconheceu naquele soldadito, de faces cobertas até aos malares por um denso matagal cor de cinza, o seu amigo Valete.

 

Donde vens tu, diabo?

 

Como vês, sou soldado.

 

De que regimento?

 

Do 318, de Tchórni-Iar. O que eu não esperava... o que eu não esperava era encontrar aqui patrícios.

 

Ivane Alekcêievitch sorria, comovido e feliz, apertando na mão rude a mãozinha encardida de Valete. Este recomeçou a sua corridinha, para acompanhar o passo largo de Ivane Alekcêievitch, a quem fitava nos olhos, olhando-o de baixo para cima, com os olhinhos estreitos e maldosos, agora ternos e húmidos como nunca o haviam sido.

 

Vamos atacar... É como vês...

 

Também nós...

 

E como estás tu, Ivane Alekcêievitch?

 

Ora! Que queres tu que eu te diga?

 

É o mesmo que eu. Desde novecentos e catorze que não saio das trincheiras. Nunca tive um tecto nem família, e agora tenho de arriscar a pele nem eu sei por quem... Atrela-se a égua, tem o poldro de a seguir.

 

Lembras-te de Chtókman? Nunca conheci ninguém como o nosso Ossip Davídovitch! Estivesse ele aqui, explicava-nos tudo isto. Aquilo é que era um homem... ha? Era alguém... ha?

 

Tudo isto ele nos punha a claro! corroborou Valete, com entusiasmo, brandindo o seu punho pequeno, de face hirsuta franzida num sorriso. Se eu me lembro dele? Tenho mais respeito por ele que pelo meu pai. O meu pai para mim a importância que tem... E soube-se alguma coisa a respeito dele? Ou não se soube nada?

 

Está na Sibéria disse Ivane Alekcêievitch, com um suspiro. Lá continua.

 

Como? alvoroçou-se Valete, saltando como um pardal ao lado do seu avantajado companheiro e estendendo para ele uma orelha pontiaguda.

 

Está preso. A não ser que tenha morrido.

 

Valete andou um bocado mais, em silêncio, quer olhando para a sua companhia, que se ia formando, quer para o queixo duro de Ivane Alekcêievitch, cortado ao meio por uma fosseta profunda.

 

Adeus! atirou ele, ao libertar a mão dos dedos glaciais do outro. O mais certo é não nos tornarmos a ver.

 

Ivane Alekcêievitch tirou o boné com a mão esquerda, e vergando-se, apertou as costas débeis de Valete. Abraçaram-se com força, como dois homens que se despedem um do outro para sempre, e Valete deixou-se ficar para trás. De súbito, encolheu a cabeça entre os ombros, a ponto de só as pontas das orelhas lhe ultrapassarem a gola cinzenta do capote, e abalou, curvado, aos tropeções, apesar do chão direito.

 

Ivane Alekcêievitch saiu da forma e chamou-o em voz trémula:

 

Eh, irmãozinho! Eh lá, pulga! Tu eras ruim... Lembras-te? Eras rijo... ha?

 

Valete virou para ele uma face que parecia envelhecida pelas lágrimas, e bradou, dando punhadas no peito ossudo, que o capote escancarado e a gola desabotoada do dólman punham a descoberto:

 

Era duro, era! Mas deram cabo de mim!... Estou como um cavalo esfalfado!...

 

Bradou ainda qualquer coisa mais, mas o esquadrão dobrou para a rua seguinte e Ivane Alekcêievitch perdeu-o de vista.

 

É o Valete, não é? perguntou a este Prokhor Chamil, que ia atrás dele.

 

É um homem respondeu surdamente Ivane Alekcêievitch, de lábios trémulos, acariciando a carabina que levava ao ombro, como se fosse uma mulher.

 

À saída da aldeia, começaram a encontrar-se feridos, isolados primeiro, depois aos grupinhos, e mais longe em massas compactas. Os poucos carros que transportavam os feridos graves iam apinhados e com dificuldade avançavam. Os cavalos que os puxavam impressionavam, de magros. Nos dorsos salientes, lacerados pelas incessantes chicotadas, assomavam-lhes ossos rosados, mosqueados de vermelho, a que nalguns pontos aderiam tufos de pêlos. Arquejando, esticavam-se tanto entre os varais, que as ventas espumantes quase lhes roçavam a lama da estrada. De espaço a espaço, um ou outro parava, enchia com esforço o peito escavado, de costelas salientes, e baixava a cabeça, que a magreza dir-se-ia avolumar. Uma chicotada impunha-lhe de novo que andasse, e, oscilando primeiro a um lado, depois ao outro, lá quebrava a fugaz imobilidade, e arrancava. A par dos carros, agarrados aos dois lados deles, seguiam outros feridos.

 

De que unidade és tu? indagou o comandante do esquadrão, ao ver uma cara mais enérgica que as outras.

 

Do Corpo de Exército do Turquestão, Terceira Divisão.

 

Foste ferido hoje?

 

O soldado virou-lhe a cara, sem lhe retorquir. O esquadrão abandonou a estrada e dirigiu-se para um bosque, que se avistava a meia verstá dali. Atrás deles, os cossacos ouviam o passo pesado e arrastado dos soldados do 318.º Regimento de Infantaria, de Tchórni-Iar, que acabavam de sair da aldeia. Ao alto, no céu soturno, descolorido pelas chuvas, um balão-cativo alemão punha uma mancha cinzenta-amarelada.

 

Olhem, rapazes, o que ali está suspenso!

 

É uma salsicha.

 

Lá de cima vêem os malandros os movimentos das tropas.

 

Julgavas, se calhar, que aquilo estava ali para coisa nenhuma?

 

Eh, se está alto!

 

Querias que estivesse baixo? Eu acho até que nem os canhões lhe chegam!

 

No bosque, a primeira companhia do 318.º Regimento de Tchórni-Iar juntou-se aos cossacos. E ali esperaram até anoitecer, cerrados contra os pinheiros molhados; a água escorria-lhes pelas golas dos capotes, provocando-lhes arrepios nas costas: era proibido acender lumes, o que, aliás, com a chuva, seria difícil. No momento em que a noite caía, os soldados entraram nas valas de ligação das trincheiras. Pouco profundas, apenas ligeiramente mais que a altura de um homem, estas valas tinham água até meio archine de altura. Cheirava a lama, a caruma podre, a chuva: era um cheiro enjoativo, doce, como um veludo. Arregaçadas as abas dos capotes, os cossacos acocorados fumavam, desenrolando o fio cinzento e frágil das suas conversas. Após terem dividido a ração de tabaco recebida antes de para ali partirem, os cossacos acumulavam-se num cotovelo de uma vala, em torno do sargento. Este, sentado em cima de um rolo de arame farpado abandonado, contava as suas recordações acerca do general Kopilóvsski, morto na segunda-feira anterior, e sob cujo comando ele servira em tempo de paz. Ainda ele não tinha acabado, gritou o comandante do pelotão: «Às armas!» Levantaram-se os homens de um salto, e avidamente, queimando os dedos, puxaram as últimas fumaças. Ao sair da vala, o esquadrão desembocou novamente no pinhal, que a noite escurecia. Enquanto caminhavam, os homens confortavam-se mutuamente com gracejos. Um assobiava.

 

Numa clareirazinha, descobriu-se uma enfiada de cadáveres. Estavam estendidos ao lado uns dos outros, em posições diversas, algumas delas desrespeitosas ou horríveis. Um soldado rondava, de carabina ao ombro e máscara contra os gases pendente do cinturão. A terra húmida, à roda dos cadáveres, por toda a parte estava revolvida, com inúmeras marcas de passos e sulcos fundos na erva, feitos pelas rodas dos carros. O esquadrão ia a alguns passos dos cadáveres, de que se exalava já o cheiro repugnante e adocicado da putrefacção. O comandante do esquadrão mandou os homens fazer alto, e dirigiu-se para o soldado de sentinela, acompanhado dos oficiais comandantes dos pelotões. Trocaram entre si algumas palavras. Entretanto, os cossacos, saídos da forma, haviam-se acercado dos cadáveres. De cabeça descoberta, examinavam-nos com o sentimento secreto e inquietante de terror e a curiosidade animal que são comuns aos vivos perante o mistério da morte. Eram todos oficiais. Os cossacos contaram quarenta e sete. Quase todos aparentavam ser novos: de vinte a vinte e cinco anos; apenas o primeiro da direita, que tinha dragonas de capitão, era um homem idoso. Um espesso bigode preto pendia-lhe sobre a boca escancarada, em que parecia ecoar-lhe mudamente o último grito, e sobrancelhas largas franziam-se-lhe ao alto da face empalidecida pela morte. Alguns dos mortos tinham casacos de coiro, salpicados de lama, e outros, capotes. Os cossacos miraram demoradamente um tenente a quem a morte não alterara a beleza. Jazia de costas, de mão esquerda muito apertada contra o peito, e a direita atirada para longe do corpo, crispada para sempre na coronha do revólver. Era visível que haviam tentado tirar-lho: as costas da mão, amarela e larga, tinha arranhões; mas dir-se-ia que o aço se lhe soldara à pele, porque a mão não cedera. A cabeça coberta de caracóis loiros, de que o boné caíra, apoiava no solo uma das faces, como que numa carícia, mas os lábios alaranjados, com manchas azuis, ’torciam-se-lhe numa expressão de tristeza e de dúvida. O vizinho da direita dest estava de borco; o capote, a que tinham arrancado a correia da patrona, fazia-lhe um fole nas costas, deixando-lhe a descoberto as pernas robustas, de músculos sólidos, cingidas numas calças de caqui, com as suas botas curtas, de cabedal amarelo e tacões cambados. Este perdera não só o boné, como a parte superior da cabeça, levada por um estilhaço de granada; a água da chuva, rosada de sangue, enchia-lhe a caixa craniana esvaziada, enquadrada de cabelos coroados de palhetas de gelo. Ao lado dele, via-se um homem robusto, de meia estatura, de capote aberto e dólman rasgado, sem cara: o maxilar inferior repousava-lhe de esguelha no peito desnudo; por baixo dos cabelos aparecia-lhe uma nesga de testa, estreita e branca, limitada por um retalho de pele queimada; no meio, entre o maxilar e o cimo da testa, tudo eram detritos de ossos e uma massa mole, negra e vermelha. Mais adiante, havia fragmentos de membros, pedaços de capotes em montão, uma perna esmagada, estendida, no lugar de uma cabeça. Mais adiante ainda, notava-se um rapazinho novo, um verdadeiro garoto, de lábios túrgidos e a cara oval dos adolescentes; uma rajada de metralhadora crivara-lhe o peito, e pelos quatro buracos que lhe abrira no capote saíam flocos de lã tisnada.

 

Este... este aqui, no momento de morrer, por quem terá chamado? Pela mãe? comentou Ivane Alekcêievitch, a bater os dentes. E, virando-se bruscamente, despediu dali como um cego.

 

Rapidamente, os cossacos afastaram-se, benzendo-se e sem olhar para trás. E por muito tempo continuaram calados, enquanto atravessavam as clareiras estreitas das florestas, esforçando-se por esquecer depressa o que tinham visto. Foram mandados parar à beira de uma longa linha de abrigos abandonados. Os oficiais entraram num deles, juntamente com um estafeta acabado de chegar do Estado-Maior do Regimento de Tchórni-lar. E só então é que Afonka Osérov, o bexigoso, murmurou, apertando um braço de Ivane Alekcêievitch:

 

O rapazito... aquele último... com certeza nunca na vida dele beijou uma mulher... E mataram-no! Como é isto possível?

 

E onde teriam arranjado aquele monte de mortos? interveio Zakhar Koroliov.

 

Tinham tomado parte num ataque. Disse-mo a sentinela de guarda a eles esclareceu Borchtchov, após um instante de silêncio.

 

Os cossacos estavam em «descanso». As trevas cerraram-se por sobre o bosque. O vento afastava e rasgava as nuvens, deixando a descoberto as cintilações violáceas das estrelas longínquas.

 

Entrementes, no abrigo em que os oficiais se haviam reunido, o comandante de esquadrão, depois de ter mandado regressar o estafeta, abriu o sobrescrito que ele lhe trouxera, e leu primeiro para si e a seguir em voz alta, à luz de um coto de vela:

 

«No dia 3 de Outubro, ao amanhecer, os alemães, tendo usado gases asfixiantes, intoxicaram três batalhões do 256.º Regimento, e ocuparam a primeira linha das nossas trincheiras. Ordeno que essas forças avancem até à segunda linha de trincheiras e, estabelecida ligação com o primeiro batalhão do 318.º Regimento, de Tchórni-Iar, tomem posição no sector dessa segunda linha, a fim de desalojarem da primeira o inimigo, esta mesma noite. No vosso flanco direito, estarão duas companhias do segundo batalhão e um batalhão do Regimento de Fanagória, da 3.ª Divisão de Granadeiros.

 

Os oficiais discutiram a situação, fumaram o seu cigarro e saíram. O esquadrão reatou a marcha.

 

Enquanto os cossacos descansavam ao lado dos abrigos, o primeiro batalhão do 318.º Regimento, de Tchórni-Iar, ultrapassava-os e alcançava a ponte sobre o Stokhod. Defendiam esta um forte destacamento de metralhadoras e um dos regimentos de granadeiros. O ajudante explicou a situação ao comandante do batalhão, e o batalhão atravessou a ponte e dividiu-se: duas companhias cortaram à direita, uma à esquerda, e a quarta ficou de reserva, com o comandante do batalhão. Avançava-se em linha de atiradores. A floresta estava encharcada e cheia de covas. Ao avançarem, os soldados tenteavam cautelosamente o terreno com os pés; de vez em quando, um caía, praguejando a meia voz. A companhia de Valete constituía a ala direita, e Valete era o sexto homem a partir da ponta. Dada a voz de «preparar!», armou a carabina, e com ela em riste prosseguiu, arranhando aqui e além os arbustos e os troncos dos pinheiros. Dois oficiais passaram à beira dele, falando em surdina. O comandante da companhia lamentava-se, com a sua voz quente e firme de barítono:

 

Lá se reabriu a minha velha ferida. Diabos levem este tronco de árvore! Está a ver, Ivane Ivánovitch? Esbarrei contra um tronco na escuridão, e dei com a perna nele. O resultado é ter-se-me a ferida reaberto e eu não poder andar. Tenho de voltar para trás.

 

Calou-se um minuto a voz de barítono do comandante da companhia, mas um bocado adiante, mais baixo, reatou:

 

O senhor toma o comando da primeira meia companhia, e Bogdanov o da segunda. Eu... palavra de honra, não posso mais. Sou forçado a voltar para trás.

 

A voz rouca de tenor do aspirante Belíkov uivou em réplica:

 

É esquisito! Sempre que temos de atacar, as suas velhas feridas abrem-se.

 

Peço-lhe o favor de se calar, senhor aspirante impôs o comandante da companhia, erguendo a voz.

 

Ora essa! Pode-se ir embora!

 

Atento aos seus próprios passos e aos dos outros, Valete ouviu atrás de si uma crepitação precipitada de ramos, e compreendeu que o comandante da companhia abalava para a retaguarda. Um momento volvido, Belíkov, encaminhando-se em direcção do ajudante, que ia na ponta esquerda, passava por diante dele, a rosnar:

 

São uns espertalhões estes malandros! Mal a coisa se torna séria, caem doentes, ou abre-se-lhes uma velha ferida. E tu, que acabas de sair da escola, és encarregado de comandar metade de uma companhia...   Safados! Eu   a estes...   e   os soldados...

 

Calaram-se de súbito as vozes. E Valete passou a ouvir apenas o ruído dos próprios pés patinhando lama, e na cabeça o som de um guizo.

 

Eh, patrício! sibilou um qualquer à esquerda.

 

Que é?

 

Tu avanças?

 

Avanço replicou Valete, ao tempo de lhe faltar o chão debaixo dos pés e cair num buraco cheio de água.

 

Que escuro que está! acrescentou o da esquerda.

 

Um bocado os dois caminharam, sem se verem um ao outro, até que de repente Valete ouviu, mesmo junto a um ouvido, a voz sibilante:

 

É melhor irmos a par! Não teremos tanto medo...

 

De novo se calaram, arrastando as botas cheias de água no terreno encharcado. A Lua em quarto minguante, toda malhada, surdiu subitamente de detrás da orla de uma nuvem; luzidia, como se a cobrissem escamas amarelas, mergulhou alguns segundos, como um caracino, na onda movediça de outras nuvens, e logo, emergindo novamente, derramou sobre a terra uma luz crepuscular; a caruma molhada dos pinheiros brilhou, fosforescente, e, àquela claridade, o cheiro deles pareceu mais intenso, e mais áspero o hálito frio do solo empapado. Valete fitou o companheiro. De repente, este parou, abanou a cabeça, como se lhe tivessem dado nela uma pancada, e descerrou os lábios.

 

Olha! murmurou ele.

 

A três passos de ambos, debaixo de um pinheiro, estava um homem, de pernas abertas.

 

Um   homem! disse   Valete,  se é que   não   cuidou apenas dizê-lo.

 

Quem está lá? bradou o soldado, companheiro dele, apontando rapidamente a carabina. Quem és tu? Responde, ou atiro.

 

O homem não respondeu. A cabeça pendia-lhe a um lado, como uma flor de girassol.

 

Está a dormir! comentou Valete, com um riso forçado; e, todo ele numa tremura, continuando a rir para se encorajar, deu um passo em frente.

 

Aproximaram-se do homem. Valete olhava, de pescoço estendido. O companheiro dele tocou com a coronha da carabina no vulto cinzento e imóvel.

 

Olá, compincha! Estás a dormir? Patrício!... disse ele, em tom de graça. Isso é paródia, ou que é isso? Mas a voz transtornou-se-lhe. Está   morto! gritou   ele recuando um passo.

 

Batendo os dentes, Valete deu um salto para trás; onde um segundo antes ele tinha os pés, o homem que estava encostado ao pinheiro caiu como uma árvore serrada. Viraram-lhe a cara para eles e compreenderam finalmente que por baixo daquele pinheiro procurara o seu último abrigo, a fugir à morte por asfixia, que levava já nos pulmões, aquele soldado de um dos três batalhões do 256.º Regimento de Infantaria. Era um homenzarrão, de costas largas. A cabeça dele estava tombada a um lado; a face sujara-se-lhe da lama peganhenta, ao cair; os olhos, corroídos pelo gás, haviam-se-lhe liquefeito; e entre os dentes cerrados assomava-lhe a língua carnuda, negra e reluzente, semelhante a uma pedra de amolar.

 

Vamo-nos embora! Vamo-nos embora, por amor de Deus! sussurrou o companheiro de Valete, puxando-o por um braço.

 

Foram-se dali; mas imediatamente deram com outro cadáver. À medida que prosseguiam, tornavam-se os mortos mais numerosos. Em certos pontos eram aos montões; alguns haviam morrido de cócoras, outros estavam de gatas, como animais pastando, e um havia, enrolado em bola, exactamente à entrada de uma vala de acesso à segunda linha de trincheiras, que metera um punho na boca e, do sofrimento, o mordera.

 

Valete e o soldado que se lhe juntara alcançaram os camaradas que iam à frente; ultrapassaram-nos e continuaram juntos. Juntos saltaram ainda para dentro do fosso de uma trincheira, que na escuridão se sumia em ziguezague, e aí decidiram tomar cada um por seu lado.

 

Temos que rebuscar nos abrigos. Talvez haja qualquer coisa que se coma propôs, sem convicção, o companheiro de Valete.

 

Vamos a isso.

 

Tu vais pela direita e eu pela esquerda. Enquanto os outros não chegam, há tempo.

 

Valete riscou um fósforo e penetrou no primeiro abrigo, pela porta que estava aberta, mas para logo recuar, de um salto, como se uma mola o houvesse projectado: deitados em cruz um em cima do outro, dois cadáveres jaziam lá dentro. Sem resultado entrou em mais três abrigos, e com um pontapé abriu a porta de outro. O timbre metálico da voz de um estrangeiro quase o fez cair de costas.

 

Wer ist da? (3)

 

Inundado por um fluxo de sangue ardente, Valete recuou, sem uma palavra.

 

Das bist du, Otto? Weshalb bist du so spat gekommen? (4) perguntou o alemão, saindo do abrigo, a ajeitar com um movimento indolente o capote pendente dos ombros.

 

Mãos ao alto! Mãos ao alto! Rende-te! gritou Valete em voz rouca; e vergou as pernas, como se lhe tivessem dado ordem de «apontar».

 

Mudo de espanto, o alemão levantou lentamente os braços, e virou-se de lado, fixando, com um olho como que hipnotizado,

 

(3) Quem está aí?

(4) És tu, Otto? Porque te demoraste tanto?

 

a ponta da baioneta direita a ele. O capote tombou-lhe dos ombros; o dólman cinzento-esverdeado, com uma fila de botões, franzia-se-lhe nas axilas; e as mãos grandes de operário tremiam-lhe, de dedos inquietos, como se tocassem num teclado invisível. Valete, imóvel, considerou o corpanzil poderoso do alemão, os botões metálicos do uniforme, as botas curtas, de costura ao lado, o boné sem pala, posto um pouco de esguelha. Depois, moveu-se, indeciso, pareceu que qualquer coisa o impelia para fora do capote demasiado largo, emitiu um estranho som gutural, não se percebeu se tosse, se soluço, e deu um passo para o alemão.

 

Foge! disse-lhe ele em voz átona e trémula. Foge, alemão! Eu não te tenho ódio. Não atiro.

 

Pousou a carabina contra a parede da trincheira, e, erguendo-se nos bicos dos pés, tocou no braço direito do alemão. Os gestos seguros dele fascinavam o prisioneiro, que baixou os braços, e escutou com atenção as intonações esquisitas daquela voz russa.

 

Sem hesitação, Valete estendeu-lhe a mão rude, deformada por vinte anos de trabalho, apertou nela a do alemão, fria e inerte, e mostrou-lhe a palma da dele, em que os relevos de velhos calos punham manchas castanhas, e se desfolhavam as pétalas azuladas da Lua a declinar.

 

Sou um operário explicou Valete, a tremer como se tivesse febre. Porque havia eu de te matar? Foge! com a mão direita empurrou de leve as costas do alemão, e indicou-lhe o pântano escuro. Foge, idiota, que os outros não tardam aí.

 

O alemão olhava a mão baixada de Valete, tenso, um pouco curvado para diante, tentando adivinhar o sentido daquelas palavras que não entendia. Isto durou um ou dois segundos; em seguida os olhos dele encontraram os de Valete, e neles lhes dançou um sorriso feliz. Recuou um passo, adiantou as mãos num gesto largo, cerrou com força as mãos de Valete, sacudiu-lhas, iluminado pelo seu sorriso, e fitando o olhar de Valete, dobrou-se para ele.

 

Du entlàsst mich?... O, jetzt hab’ich verstanden! Du bist ein russischer Arbeiter? Sozial-Demokrat, wie ich? So? O! O! Das ist wie im Traum... Mein Bruder, wie kann ich vergessen? Ich finde keine Worte. Nur du bist ein wunderbarer wagender Junge... Ich... (5)

 

Daquela onda efervescente de palavras estrangeiras. Valete só reconheceu «sozial-demokrat», pronunciada em tom interrogativo.

 

Sou, pois, sou social-democrata. Mas tu foge... Adeus, irmão. Deixa ver esses ossos.

 

Tinham-se instintivamente compreendido, e encaravam-se nos olhos, o bávaro, alto e robusto, e o soldadinho russo. O bávaro murmurou:

 

In   den zukiinftigen Klassenkãmpfen werden wir in denselben Schiitzengrãben sein, nicht wahr, Genosse? (6)

 

E, como um grande bicho cinzento, saltou para o parapeito da trincheira.

 

Os outros estavam já próximos. Ouvia-se-lhes a mastigação ruidosa dos passos na floresta. Um destacamento de batedores checos, com o respectivo oficial, vinha à frente. Ao verem um soldado sair de um abrigo, em que rebuscara com a esperança de encontrar que comer, por pouco o iam matando.

 

Eu sou amigo! Vocês não estão a ver?... exclamou o soldado, atentando no olho negro da carabina dirigido para ele. Eu sou amigo repetiu, apertando contra o peito, como se fosse uma criança, um naco de pão escuro.

 

Um sargento, que reconheceu Valete, saltou por cima da trincheira e deu-lhe com toda a gana uma coronhada nas costas.

 

(5) Deixas-me ir embora?... Oh, agora percebo. És um operário russo? És social-democrata como eu? ÉS? Oh, oh! Isto parece um sonho... Meu irmão, como te poderei eu esquecer? Nem sei o que te diga. Simplesmente, que és um rapaz extraordinário, um valente... Eu...

(6) Nas lutas de classe do futuro, estaremos nas mesmas trincheiras; não é isto verdade, camarada?

 

Eu rebento-te! Ponho-te as trombas em sangue! Onde estavas tu?

 

Valete avançou para ele, mole e exausto. A própria coronhada pouco o havia afectado. A cambalear, surpreendeu o sargento pela bonomia desabitual da resposta:

 

Passei adiante dos outros. E tu não me batas.

 

E tu não andes como te apetece, como os cães. Tão depressa ficas para trás, como vais à frente de todos. Não conheces o regulamento? Já não és nenhum recruta. Ou és? E, após uma pausa, acrescentou: Tens tabaco?

 

Só muito desfeito.

 

Dá cá.

 

O sargento acendeu um cigarro e voltou para a retaguarda do pelotão.

 

Era quase dia, quando os batedores checos encontraram um posto de observação alemão. Os alemães quebraram o silêncio com uma salva. Duas outras salvas se lhe seguiram, com intervalos iguais. Um foguetão vermelho subiu por sobre as trincheiras, soaram vozes, e, ainda as centelhas cor de púrpura do foguetão não se tinham apagado no ar, já o fogo da artilharia alemã se iniciava.

 

Bum! Bum! E logo, como um eco das duas primeiras explosões, outras duas reboaram: Bum! Bum!

 

Clé-clé-clé-clé-vzziii... cacarejaram as granadas, com um rumor crescente, perfurando o espaço como verrumas, ao passarem, rangendo, por cima dos soldados da primeira meia companhia; houve uma pausa de um instante, e logo ao longe, perto da ponte sobre o Stokhod, um barulho atenuado de novas explosões soou: Bah! Bah!

 

A linha de atiradores que seguia os batedores checos a quarenta ságenas de distância, lançou-se ao chão, após a primeira salva. À luz escarlate de outro foguetão, Valete viu os soldados rastejarem, como formigas, por entre as moitas de arbustos e por entre as árvores, cingindo-se sem repugnância à terra lamacenta, em cata de protecção. Não havia charco que não refervesse de homens, prega de terreno, por pequena que fosse, por trás da qual eles se não escondessem, buraco que encontravam em que não encafuassem a cabeça. Mas quando o tiroteio tagarela das metralhadoras prorrompeu a martelar a floresta, a inundá-la como uma bátega do mês de Maio, não se aguentaram mais, e puseram-se a rastejar para trás, de cabeça encolhida entre os ombros até mais não poderem, colando-se ao solo como lagartas, e deslocando-se sem dobrarem nem os braços nem as pernas, serpenteando e deixando rastos na lama... Alguns ergueram-se e desataram a correr. Pela floresta inteira, rasgando as árvores, quebrando a caruma dos pinheiros, as balas explosivas mergulhavam no chão, com silvos de víbora, ou ricocheteavam, para estalarem como beijos sonoros.

 

Faltavam dezassete homens à primeira meia companhia, quando se tornou para a segunda linha de trincheiras. Não longe dali, os cossacos do esquadrão especial reconstituíam as fileiras. Tinham avançado com prudência à direita da primeira meia companhia, e teriam podido apanhar os alemães de surpresa, porque haviam começado por matar as sentinelas; mas a salva atirada contra os batedores checos pusera de sobreaviso todo o sector. Fazendo fogo ao acaso, os alemães tinham morto dois cossacos e ferido um. Tendo levado para a retaguarda os seus dois mortos e o ferido, e reconstituído as fileiras, os cossacos puseram-se a discutir:

 

Temos de enterrar os nossos mortos.

 

Mesmo sem nós, eles se enterram.

 

Nos vivos é que é preciso pensar. Os mortos não precisam de nada.

 

Meia hora mais tarde, chegou uma ordem do Estado-Maior do Regimento:

 

«Depois de uma preparação da artilharia, o batalhão, em conjunto com o esquadrão cossaco especial, atacará o inimigo e desalojá-lo-á da primeira linha de trincheiras.»

 

A preparação da artilharia, mais fraca que forte, durou até ao meio-dia. Os cossacos e os soldados de infantaria tinham instalado postos de vigilância e descansavam nos abrigos. Ao meio-dia, iniciaram o ataque. À esquerda deles, no sector principal, os canhões roncavam: também ali, o combate recomeçava.

 

À ponta do flanco direito estavam os cossacos da Transbaicália, à esquerda deles o regimento de Tchórni-Iar, com o esquadrão cossaco especial, mais longe o Regimento de Granadeiros de Fanagória, e mais longe ainda os regimentos de Tchemebar, de Bugulma, o 208.º e o 211.º de infantaria, e os regimentos de Pavlograd e de Venegrov; os regimentos da 53.ª Divisão atacavam ao centro; todo o flanco esquerdo era ocupado pela 2.ª Divisão de Atiradores do Turquestão. Por todo o sector, a barulheira era atroadora: os russos atacavam por todos os lados.

 

O esquadrão avançava em linhas espaçadas. A sua ala esquerda apoiava-se na ala direita do Regimento de Tchórni-Iar. Mal os russos avistaram a crista do parapeito da trincheira, os alemães começaram a atirar em rajadas. Lançou-se o esquadrão a correr, sem um grito: os homens deitavam-se, esvaziavam os carregadores, retomavam a corrida para diante. Estacaram por fim a cinquenta passos do inimigo. Disparavam sem levantar a cabeça. Os alemães haviam colocado cavalos-de-frisa e arame farpado a todo o comprimento da linha das trincheiras. Duas granadas atiradas por Afonka Osérov rebentaram, depois de terem ricocheteado na rede de arame farpado. Ao erguer-se ligeiramente para lançar terceira granada, uma bala entrou-lhe abaixo do ombro esquerdo, para lhe sair perto do sacro. Ivane Alekcêievitch, estendido não longe dele, viu-o torcer por breve espaço as pernas e quedar-se inerte. Prokhor Chamil, irmão de Alekcei, o maneta, foi morto também, e depois Manítzkov, o antigo atamane; logo a seguir à morte deste, uma bala atingiu o vizinho dos Chamiles, Evlánti Kalínine, o coxo, que tinha uma poupa de cabelos muito linda.

 

Em meia hora, o segundo pelotão perdeu oito homens. O capitão comandante do esquadrão foi morto, bem como dois oficiais comandantes de pelotão. Sem comando, o esquadrão recuou. Uma vez fora da zona de fogo, os cossacos reuniram-se: metade deles faltava. Também os homens do Regimento de Tchórni-Iar haviam batido em retirada. No primeiro batalhão, as perdas eram mais consideráveis ainda. Apesar disso, o Estado-Maior da Divisão deu a ordem seguinte:

 

«Recomeçar imediatamente o ataque, e desalojar o inimigo, custe o que custar, da primeira linha de trincheiras. Do regresso à situação inicial depende o êxito final da operação em todo o sector.»

 

Dispôs-se o esquadrão em linha ainda mais espaçada e voltou a avançar. Sob o fogo mortífero dos alemães, os homens arremessaram-se para o chão a uns cem passos das trincheiras. De novo, as unidades começaram a ser dizimadas, com os homens dementados, enraizados no solo, estendidos sem erguer a cabeça, quietinhos, paralisados pelo medo de morrer.

 

Para a tardinha, a segunda meia companhia do Regimento de Tchórni-Iar fraquejou e fugiu. Ouvindo gritar «estamos cercados!», os cossacos puseram-se de pé, precipitaram-se para a retaguarda, partindo os arbustos, tropeçando, abandonando as armas. Chegado a um ponto seguro, Ivane Alekcêievitch deixou-se cair debaixo de um pinheiro que uma granada quebrara, recuperou o fôlego, e reparou em Gravila Likhóvidov, que caminhava ao encontro dele. Caminhava atirando as pernas para os lados, como se estivesse bêbedo, de olhos baixos, dir-se-ia que procurando agarrar o que quer que fosse no ar com uma das mãos, e com a outra arrancando da face uma invisível teia de aranha. Vinha sem carabina nem sabre, com os cabelos castanhos-escuros, lisos e molhados de suor, tombados para os olhos. Cruzou a clareira em vários sentidos, e acercou-se de Ivane Alekcêievitch. Parou, olhando a terra com um olhar oblíquo, incerto e indefinível. Ivane Alekcêievitch via-lhe os joelhos tremerem-lhe um pouco e vergarem-se-lhe, como que tomando balanço para despedir voo.

 

Estás a ver?...principiou Ivane Alekcêievitch, para dizer qualquer coisa.

 

Mas uma convulsão crispou a face de Likhóvidov. Espera aí! clamou ele. Agachou-se, abriu os dedos, e olhou à roda, com expressão assustadora. Ora escuta! Vou-te cantar uma canção. É a de uma pobre avezinha que foi ter com uma coruja. Disse-lhe ela assim:

 

Diz-me cá, minha coruja,

 

De cauda tão bonita.

 

Quem é maior que tu,

 

Quem é mais importante?

 

A águia é o tsar.

 

O abutre o major, &

 

O busardo o tenente.

 

Os falcões os do Ural,

 

Os pombos os da Guarda,        

 

As abecoinhas praças,

 

Os estorninhos kalmukes,

 

As gralhas os ciganos,I

 

As pegas damas nobres,

 

Os patos os recrutas,          

 

As patas as moldávias  

 

Olha   lá! E   Ivane   Alekcêievitch   estava   lívido. Likhóvidov, que tens tu?   Estás doente? Ha?

 

Não me interrompas.

 

Likhóvidov fez-se roxo, os lábios distenderam-se-lhe novamente num sorriso insano, e prosseguiu o seu sinistro recitativo:

 

As patas as moldávias, As abetardas estúpidas.

 

Os alcaravões brigões,

 

Os gralhos artilheiros, Os corvos os valáquios,

 

Os guinchos violinistas...

 

Ivane Alekcêievitch levantou-se de um salto:

 

Anda comigo! Vamos ter com os outros. Senão, os alemães apanham-nos. Estás-me a ouvir?

 

Likhóvidov soltou-se dele e continuou a berrar cada vez mais depressa, com uma saliva morna a escorrer-lhe da boca:

 

Os rouxinóis cantores. As andorinhas ricos, As toutinegras pobres. Os melharucos aios, E os pardais fiscais...

 

Repentinamente, a voz falhou-lhe, e entoou um canto arrastado e rouco, ou nem um canto, um uivo de lobo, que se lhe soltava, crescendo, da boca torcida num esgar. A saliva punha-lhe nos caninos aguçados um brilho de madrepérola. Ivane Alekcêievitch fitava-lhe com terror os olhos, que pouco antes eram os de um camarada e que a loucura agora envesgava, os cabelos colados ao crânio, as orelhas como de cera. com uma espécie de raiva, Likhóvidov ululava:

 

Soam as trompas da glória. Para lá do rio Danúbio. Vencemos o sultão turco, E os cristãos os libertámos. Voámos sobre as montanhas, Ao modo dos gafanhotos, Disparando as carabinas, Como cossacos do Don. Matar-vos-emos as frangas, E os perus vos mataremos, E   aos vossos   filhos   e   filhas Levaremos prisioneiros.

 

Martine! Martine, chega aqui! bradou   Ivane Alekcêievitch, ao ver Martine Chamil, que atravessava uma clareira, a coxear.

 

Este aproximou-se, amparando-se à carabina.

 

Ajuda-me a levá-lo. Estás a ver? E Ivane Alekcêievitch indicava com os olhos o louco. Está de todo... Subiu-lhe o sangue à cabeça.

 

Chamil ligou a perna ferida com uma manga que arrancou à camisa, e, sem olhar para Likhóvidov, pegou-lhe por um braço, enquanto Ivane Alekcêievitch lhe pegava pelo outro, e lá foram os três.

 

Voámos sobre as montanhas, Ao modo dos gafanhotos...

 

Agora, Likhóvidov cantava mais baixo. De cara dolorosamente contraída numa careta, Chamil suplicava-lhe:

 

Pára com isso! Não faças tanto barulho! Pára com isso, por amor de Deus! Já voaste tudo o que tinhas de voar. Pára com isso!

 

Matar-vos-emos as frangas, E os perus vos mataremos...

 

O louco tentava libertar-se das mãos dos dois homens, sem cessar de cantar, apenas de vez em quando apertando as fontes com as mãos, a ranger os dentes, de maxilar inferior tremendo-he, e abanando de espaço a espaço para os lados a cabeça que um bafo tórrido escandecia.

 

A umas quarenta verstás mais abaixo, perto do rio Stokhod, travavam-se combates. Os urros dos canhões duravam, sem parar, havia quinze dias; à noite, os feixes de luz dos projectores rasgavam até longe o céu violáceo, cintilantes, brilhantes, semelhantes a radiações de fogachos de todas as cores do arco-íris, despertando uma inexprimível angústia em todos os que os viam a distância.

 

O Sector do 12.º Regimento de Cossacos era pantanoso e agreste. Durante o dia, atirava-se de longe em longe contra os austríacos, que se viam passar, correndo, nas suas trincheiras pouco fundas; à noite, dormia-se ou jogavam-se as cartas, sob a protecção do pântano; só as sentinelas observavam os sinistros e pálidos jactos luminosos, lá longe, na zona em que se combatia.

 

Numa noite gélida, em que os clarões longínquos esmaltavam o céu com particular intensidade, Grigóri Melekhov saiu do abrigo, meteu por uma vala de acesso, e alcançou a floresta, que se erguia por trás das trincheiras, como uma grenha grisalha no crânio negro de uma colina baixa, e estendeu-se na vasta terra odorífera. No abrigo escuro e malcheiroso, uma fumaceira densa flutuava, como uma toalha de franjas, por sobre a mesinha em que oito cossacos jogavam as cartas. Mas ali, na floresta, no cimo da colina, soprava uma brisa ligeira, que parecia levantada pelas asas de uma invisível ave; um cheiro, indizivelmente triste, subia das ervas mortificadas pela geada. Ao alto das árvores, monstruosamente tosqueadas pelas granadas, na escuridão intensa do céu, o braseiro das Pleiades consumia-se, a Ursa Maior, perto da Via Láctea, fazia lembrar um carro virado, de eixo espetado obliquamente no espaço, e ao norte a Estrela Polar derramava serenamente a sua luz tremulante.

 

Grigóri fitava-a, de olhos franzidos, e aquela luz álgida, muito viva não obstante a sua lividez, fazia-lhe vir aos olhos lágrimas tão frias como ela.

 

Deitado naquela colina, ocorreu-lhe, sem saber porquê, a noite em que calcorreara de Níjni-Iablonóvsski a lagodnói para ir ter com Akcínia; e, de repente, a lembrança dela pungiu-o dolorosamente. As feições, infinitamente queridas e agora estranhas da cara dela, esfumadas, diluídas pelo tempo, desenharam-se-lhe na memória. Tentou, de coração inesperadamente a bater-lhe mais forte, reconstituir-lhe a imagem, tal como a vira pela última vez, desfigurada pelo sofrimento, com o vergão roxo do chicote na face; mas a que lhe acudia obstinadamente era outra, um pouco inclinada para um lado, com um sorriso triunfante. E aí voltava ela a cabeça para ele, provocante e amorosa, fixando-o com o olhar baixo dos olhos negros como carvões; os lábios vermelhos, ávidos e sensuais, murmuravam-lhe palavras ardentes; depois, lentamente, desviava o olhar, virava a cabeça, mostrando-lhe na nuca dois caracóis largos e macios... que ele gostava muito de beijar, antigamente .

 

Grigóri estremeceu. Por um momento, sentira o perfume delicadíssimo de meimendro dos cabelos de Akcínia; encolheu-se, inflou as narinas... Mas não: era o cheiro perturbador das folhas podres. A cara oval de Akcínia empalideceu, sumiu-se. Grigóri fechou os olhos, pousou as mãos na pele rugosa da terra, em seguida, demoradamente, desta vez sem pestanejar, fitou, nos confins do céu, por trás de um pinheiro partido, a Estrela Polar que tremeluzia, como uma linda borboleta azul batendo as asas, num voo imóvel.

 

Retalhos de recordações esparsas obscureciam-lhe a imagem de Akcínia. Lembrou-se das semanas que passara em Tatársski, em casa da família, depois do rompimento com ela; à noite, as carícias ávidas, devastadoras, de Natalia, que parecia querer desforrar-se da sua anterior frieza de esposa incipiente; de dia, os cuidados atentos, quase obsequiosos, dos seus, a consideração dos habitantes da aldeia pelo seu primeiro cavaleiro de São Jorge. Por todos os lados, mesmo entre os membros da família, ele notava olhares que o espreitavam, admirados e respeitosos, como se não se acreditasse que ele fosse o Grigóri de antes, atrevido e alegre. Os velhos conversavam com ele de igual para igual na praça do mercado, e respondiam-lhe aos cumprimentos descobrindo-se, e as raparigas e as mulheres contemplavam-lhe com indissimulado enlevo a figura máscula, um pouco curva, de capote, com a sua cruz pendente de uma fitinha listrada. Via que Pantelei Prokófievitch se orgulhava de o acompanhar à igreja ou à praça. E aquele veneno ténue e complexo, feito de lisonjas, de deferências, de admiração, gradualmente destruía e extirpava-lhe da consciência os germes da doutrina que nela Garanja havia semeado. Ao voltar para a frente, Grigóri não era o mesmo que à chegada. O que fizera dele o que ele era, um cossaco, e que ele mamara com o leite materno e desde que nascera o havia acalentado, dominara nele a grande vaidade dos homens.

 

Eu sabia, Grichka disse-lhe Pantelei Prokófievitch, comovido e um pouco pingado, alisando os cabelos cor de prata salpicados de fios pretos , eu sabia há muito tempo que havias de ser um bom cossaco. Quando fizeste um ano, escarranchei-te no pátio em cima de um cavalo, à antiga moda cossaca. (Lembras-te, velha?) E tu, bandido, agarraste-te logo às crinas dele com as tuas mãozinhas .. Nesse dia compreendi que havias de ser alguém. E foi o que aconteceu.

 

E como bom cossaco Grigóri voltou para a frente: se bem que no fundo da alma continuasse a não aceitar a absurdidade da guerra, à glória cossaca a zelava honradamente...

 

Estava-se no mês de Maio de 1915. Perto da aldeia de Olkhóvtchik, num prado de um verde brilhante, o 13.º Regimento de Ferro de infantaria alemã atacava. As metralhadoras cantavam como cigarras. A de uma companhia russa, entrincheirada por trás do rio, crepitava pesadamente. O 12.º regimento de cossacos contra-atacou. Grigóri avançava, alinhado com os outros homens do seu esquadrão; ao virar-se para trás, viu o disco flamejante do Sol a pino no céu, e ao mesmo tempo numa curva do rio, orlado da astracã amarela dos salgueiros. Do outro lado da água, os guardas dos cavalos escondiam-se por detrás de uns choupos. Diante dele, a linha dos alemães avançava, com o amarelo das águias de cobre dos capacetes reluzindo. O vento agitava o fumo azulado e acre dos tiros.

 

Grigóri atirava sem pressa, apontando cuidadosamente; e entre dois tiros, atento às vozes de comando do seu comandante de pelotão, teve até tempo de sacudir com cautela um bichinho sarapintado que lhe subira por uma manga do dólman. Depois, fora o ataque... com uma coronhada da carabina, Grigóri derrubou um tenente alemão de alta estatura, capturou três soldados, e, atirando-lhes por sobre as cabeças, forçou-os a correr para o rio. Em frente de Rava-Rússkaia, em Julho de 1915, com um pelotão cossaco, retomou uma bateria que caíra nas mãos dos austríacos. Durante o combate, penetrou na retaguarda do inimigo, e, com uma espingarda-metralhadora, pôs os assaltantes em debandada.

 

Depois de se haver passado Badanetz, fez prisioneiro, numa escaramuça, um corpulento oficial austríaco, atravessou-o na sela como um carneiro, e continuou a galope, sentindo o cheiro repugnante dos excrementos que subia dele e a tremura do corpo húmido de terror.

 

Mas o que lhe acudia com particular nitidez, estendido na calvície negra daquela colina, era o encontro com o seu inimigo figadal, Stepane Asstakhov. O 12.º regimento havia sido retirado da frente e enviado para a Prussia Oriental. Os cavalos cossacos pisavam os campos cuidados dos alemães, os cossacos incendiavam-lhes as casas. Fumos fulvos e ruínas carbonizadas de paredes e de telhados, acabados de arder, assinalavam-lhes a passagem. Perto da cidade de Stolipine, o regimento havia tentado uma ofensiva juntamente com o 27.º regimento de Cossacos do Don. Num relance de olhos, Grigóri havia avistado o irmão, emagrecido, a face bem barbeada de Stepane, e alguns outros cossacos da aldeia. Os dois regimentos foram batidos.

 

Os alemães cercaram-nos; e quando os doze esquadrões cossacos, um após outro, procuraram romper o cerco que sobre eles se fechava, Grigóri viu Stepane saltar do seu cavalo morzelo, que havia tombado morto, e rodopiar como um pião. Animado de súbito por uma viva decisão, Grigóri a grande custo conteve o cavalo, e depois de o último esquadrão ter passado, galopou em direcção a Stepane, a quem por um triz ia pisando, e gritou-lhe:

 

Agarra-te ao estribo!

 

Stepane agarrou-se-lhe com força à correia e correu cerca de meia verstá ao lado do cavalo de Grigóri.

 

Não corras tanto! Não vás a galope, por amor de Deus! suplicou ele, arquejante.

 

Conseguiram romper o cerco. Faltavam para aí umas cem ságenas para alcançar o bosque em que os que se haviam libertado se apeavam dos cavalos, quando uma bala atingiu Stepane numa perna; largou o estribo e caiu de costas. O vento arrancou o boné de Grigóri e atirou-lhe a poupa de cabelos para os olhos. Grigóri sacudiu os cabelos para trás e virou-se. A coxear, Stepane corria direito a um bosque; e, chegado lá, escondeu o seu boné de cossaco, sentou-se e pôs-se à pressa a tirar as calças tufadas, de listras vermelhas. Os alemães aproximavam-se rapidamente, vindos de trás de um montículo. Grigóri compreendeu que Stepane queria fazer-se passar por soldado de infantaria: é que naquela época os alemães não faziam prisioneiros cossacos... Ouvindo o próprio coração, Grigóri forçou o cavalo a dar meia volta, galopou em direcção ao bosque, e saltou, sem parar:

 

Monta!

 

Nunca mais ele se esqueceria do olhar rápido de Stepane. Ajudou-o a saltar para a sela, e correu a par do cavalo, num charco de suor, segurando o estribo.

 

Tsiú-iú-iúuu...

As balas passavam com um silvo escaldante, que terminava bruscamente: iút.

 

Por sobre a cabeça de Grigóri, por sobre a face cor de greda de Stepane, aos ouvidos de ambos, aquele silvo penetrante como uma verruma não cessava tsiú-iú-iúuu-iút, tsiúuu-iút e por trás deles o estampido dos tiros, como vagens maduras de acácias estoirando: puque-paque, puque-paque, ta-taque-aque-aque!

 

Uma vez internados no bosque, Stepane desmontou do cavalo, de cara crispada pela dor; arremessou as rédeas, e afastou-se coxeando. O sangue escorria-lhe através do cano da bota esquerda, e, a cada passo da perna ferida, um esguichozinho cor de cereja saía-lhe do intervalo da sola solta. Apoiou-se ao tronco de um castanheiro copado e chamou Grigóri com um dedo. Este acercou-se dele.

 

Tenho a bota cheia de sangue disse Stepane. Grigóri olhou para o lado, sem lhe responder.

 

Grichka!... Há bocado, quando atacávamos... Estás-me a ouvir, Grigóri? enunciou Stepane, procurando com os olhos encovados os olhos do outro. Quando atacávamos, atirei contra ti, pelo menos três vezes... Deus não quis que eu te matasse.

 

Encontraram-se os olhos de ambos. Nas suas órbitas fundas, os de Stepane, muito fitos, chispavam agudamente. Quase sem descerrar os dentes, Stepane proferiu:

 

Salvaste-me da morte. . Obrigado... Mas, por causa da Akcínia. não te posso perdoar. É superior às minhas forças... Não exijas isso de mim, Grigóri...

 

Não exijo respondeu o outro.

 

E separaram-se sem se haverem reconciliado.

 

Mas já outra recordação lhe acudia... No mês de Maio, o regimento, com outras unidades do Exército de Brussílov, abrira uma brecha nas linhas do inimigo, perto de Lutzk, e, alternadamente avançando e recuando, desorganizara-lhe a retaguarda. Em frente de Lvov, Grigóri havia arrastado, por sua iniciativa, o esquadrão ao ataque, e tomado aos austríacos uma bateria de artilharia, com a respectiva guarnição. Um mês depois, atravessou o Bug a nado, para aprisionar um homem.

 

Meio nu, derrubou uma sentinela que estava no seu posto; demoradamente, o alemão, forte e atarracado, havia lutado com ele, tentando gritar e impedir que ele o amarrasse.

 

E, ao recordar-se disto, Grigóri sorriu.

 

Muitos dias semelhantes, recentes uns, distantes outros, ele tinha vivido nos campos de batalha. Como firme guardião da honra cossaca, Grigóri aproveitava todas as ocasiões para mostrar a sua inesgotável bravura, arriscando a vida, cometendo loucuras, penetrando disfarçado na retaguarda dos austríacos, e apoderando-se-lhes de postos sem derramar sangue; comportava-se como um cossaco autêntico, alheado definitivamente do sofrimento dos homens, que nos primeiros tempos da guerra o atormentava. O coração ressequira-se-lhe, endurecera-lhe, como as terras salgadas nos períodos de seca, e, do mesmo modo que as terras salgadas não absorvem água, também o coração se lhe fechara à piedade. Brincava com um frio desprezo com a vida dos outros, como com a própria, e assim adquirira a reputação de valente e ganhara quatro cruzes de São Jorge e quatro medalhas. Nas paradas, agora mais raras, alinhava ao lado da bandeira do regimento, coberta pelo pó de muitas guerras; mas sabia que nunca mais se riria como dantes; sabia que se lhe haviam encovado os olhos e acentuado as maçãs do rosto; sabia que lhe doía, ao beijar uma criança, encarar-lhe o olhar límpido; sabia bem por que preço havia pago as suas cruzes e as suas promoções.

 

Naquela colina em que estava estendido, apoiado ao cotovelo esquerdo, com uma aba do capote dobrada por baixo dele, revinha-lhe à memória quanto vivera, e aos fragmentos esparsos das recordações de guerra misturava-se por vezes o ténue fio azul de um acontecimento da infância. Grigóri demorava um instante nele um olhar interior, terno e triste, e em seguida tornava às lembranças recentes. Nas trincheiras austríacas, alguém tocava bandolim à perfeição. Os sons ténues, soprados pelo vento, transpunham o Stokhod e vibravam sobre aquela terra tantas vezes embebida de sangue humano. Ao alto as estrelas brilhavam mais, a sombra adensava-se, e uma corcova de nevoeiro nocturno avolumava-se sobre o pântano. Grigóri fumou dois cigarros, um atrás do outro, acariciou rudemente a correia da carabina, e, apoiando-se nos dedos da mão esquerda, ergueu-se da terra acolhedora e voltou para a trincheira.

 

No abrigo, os outros continuavam a jogar as cartas. Grigóri atirou-se para cima da cama de campanha. Quis ainda errar através das recordações, pelos caminhos antes trilhados, mas o sono venceu-o. Adormeceu numa posição incómoda, e viu em sonhos a planície imensa, queimada pela seca, a profusão arroxeada das perpétuas, e, por entre os tufos violáceos de tomilho, as marcas dos cascos de cavalos por ferrar .. A planície deserta tinha uma serenidade que assustava. Ele caminhava num solo duro de areia e de argila, mas sem ouvir os próprios passos, o que o enchia de terror . Acordou, alçou a cabeça; a posição incómoda deixara lhe na face vergões oblíquos; demoradamente moveu os lábios, como um cavalo que houvesse sentido momentaneamente, e logo perdido, o cheiro de alguma erva preciosa. Depois, readormeceu e não sonhou mais.

 

No dia seguinte, levantou-se com uma angústia inexplicável a oprimi-lo.

 

Estás hoje com cara de enterro! Sonhaste com a aldeia? perguntou-lhe o Cabeludo.

 

Adivinhaste. Sonhei com a estepe. Parece-me que tenho a alma vazia... Queria estar em casa. Estou farto de servir o tsar.

 

O Cabeludo sorriu, compreensivo. Continuava a ocupar o mesmo abrigo que Grigóri e tinha por ele a estima de um animal forte por outro de força igual. Desde a contenda de 1914 que não houvera entre eles qualquer zanga, e a influência do Cabeludo marcara nitidamente o carácter e a psicologia de Grigóri. A guerra modificara muito o conceito que o Cabeludo tinha do mundo. Lentamente, mas com segurança, resvalara para o repúdio da guerra, falando agora muito de generais traidores e dos alemães emboscados no palácio do tsar. De uma vez saiu-lhe esta frase: «Não há nada de bom a esperar, porque a própria tsarina tem sangue alemão. É só ela poder, vende-nos por coisa nenhuma...»

 

Expôs-lhe Grigóri um dia a súmula do que aprendera com Garanja; mas o Cabeludo não o aprovou.

 

A cantiga é bonita, mas a voz desafinada comentou ele, com um sorriso irónico, dando palmadas na careca azulada. Também o Michka Kochevói canta loas dessas, como um galo empoleirado numa sebe. Essas revoluções não têm ponta por onde se lhes pegue; criancices é o que são. Nós, os cossacos, do que precisamos é de um governo nosso, de mais nada. Devíamos ter era um tsar firme, no género de Mikolai Mikoláitch (7). O nosso caminho não pode ser o mesmo que o dos mujiques: um ganso e um porco não fazem boa companhia. Os mujiques querem obter terras e os operários que lhes aumentem os salários; e a nós que nos caberia? Terras temos nós com fartura! De que mais necessitamos? Lérias! O nosso tsar pode-se dizer que é um sendeiro. O pai dele era, mais rijo. com este há-de acabar por haver uma revolução, como em 1905; e aí teremos nós o mundo de pernas para o ar. Isso para nós não é bom. Se, por desgraça, o tsar for deitado abaixo, nós é que acabamos por pagar as favas: hão-de vir à tona os velhos ódios e querer-se dividir as nossas terras pelos mujiques. Temos de ter muito cuidado...

 

Não és capaz de pensar noutra coisa disse Grigóri, franzindo os sobrolhos.

 

E tu não sabes o que dizes. Ainda és muito novo: falta-te

 

(7) Correctamente, Nikolai Nikoláievitch. Grão-duque, nascido em 1856 e morto em 1929, foi comandante-chefe do exército russo desde o começo da guerra. Refugiado no estrangeiro durante a guerra civil, apoiado por Vrangel e pela maioria dos monárquicos, foi, depois da revolução, um dos pretendentes ao trono da Rússia.

 

a experiência. Espera um pouco mais, que te dêem uns abanões maiores, e verás de que lado está a razão.

 

As conversas deles findavam em geral assim. Grigóri calava-se e o Cabeludo mudava de assunto.

 

Naquele dia, o acaso enredou Grigóri numa história desagradável. Ao meio-dia, como habitualmente, a cozinha de campanha parou do outro lado da colina. Pelas valas de comunicação, os cossacos acorreram, procurando cada qual chegar primeiro que os outros. Coube a Michka Kochevói ir buscar a sopa do terceiro pelotão. Apareceu com as marmitas fumegantes enfiadas num pau comprido, e, mal entrou no abrigo, gritou:

 

Isto não pode ser, irmãos! Que é lá isto? Seremos nós cães?

 

Porque dizes tu isso? inquiriu o Cabeludo.

 

Dão-nos de comer carne podre exclamou Kochevói com indignação.

 

Sacudiu para trás, com um movimento da cabeça, a sua poupa doirada, como um cacho de lúpulo bravo, pousou as marmitas em cima das camas, e, com uma olhadela de través ao Cabeludo, propôs-lhe:

 

Ora cheira a sopa.

 

O Cabeludo curvou-se sobre a marmita dele, aspirou-a e fez uma careta. Imitando-o involuntariamente, Kochevói mexia também as narinas, franzindo a cara mal-humorada.

 

Cheira a carne podre declarou o Cabeludo. Afastou de si a marmita, com repulsa, e fitou Grigóri. Este saltou da cama, estendeu para a sopa o nariz, já de si comprido, recuou, e, com a ponta vagarosa de um pé atirou para o chão a marmita da ponta.

 

Porque   fizeste   tu   isso? observou-lhe   o   Cabeludo, indeciso.

 

Não vês? Olha bem. Ou és cego? Isto aqui que é? Grigóri apontava o líquido turvo que lhe alastrava aos pés.

 

Oh-oh!   Bichos!...   Ah,   minha   mãe!...   Eu   não   tinha visto!... Isto não é sopa; é aletria... Em vez de carne, dão-nos bichos.

 

No chão, junto de um pedaço de carne, de um vermelho de putrefacção, no meio de olhas de gordura, viam-se vermes cozidos, esbranquiçados, inchados, enrolados.

 

Um, dois, três, quatro...contou Kochevói, a meia voz, sem perceber porquê.

 

Houve um momento de silêncio. Grigóri cuspia por entre os dentes. Kochevói desembainhou o sabre.

 

Devemos levar esta sopa debaixo de escolta ao comandante do esquadrão.

 

Estou   de acordo! Boa ideia! aprovou   o Cabeludo. soltou a baioneta da carabina e propôs:

 

Nós escoltamos a sopa, e tu, Grichka, vais connosco. Farás tu o relatório ao comandante.

 

E lá foram, o Cabeludo e Kochevói, de sabre em punho, com uma marmita cheia de sopa pendurada da baioneta, e Grigóri atrás deles. Os cossacos saíam dos abrigos e seguiam-nos, pelos ziguezagues das trincheiras, como uma grande vaga cinzenta-esverdeada.

 

Que se passa?

 

É alguma alerta?

 

Talvez seja a paz!

 

Não querias mais nada! A paz! Talvez queiras também um biscoito.

 

Foram eles que aprisionaram a sopa de bichos!

 

O Cabeludo e Kochevói estacaram à porta do abrigo dos oficiais. De boné na mão esquerda, Grigóri entrou, baixando-se no «covil das raposas».

 

Não empurrem! rosnou o Cabeludo, arreganhando os dentes a um cossaco que lhe tinha dado um encontrão.

 

O comandante do esquadrão apareceu, a abotoar o capote, lançando os olhos perplexos e o seu tanto desassossegados a Grigóri, que lhe vinha às espaldas.


Que há, rapazes? perguntou ele, relanceando agora as cabeças dos cossacos.

 

Grigóri avançou e ripostou-lhe, no meio do silêncio geral: Trouxemos um prisioneiro.

 

Qual prisioneiro?

 

Este...E Grigóri mostrou a marmita de sopa no chão, diante do Cabeludo. O prisioneiro é isto... Faça o favor de ver o que se dá de comer aos seus cossacos.

 

Uma das sobrancelhas ergueu-se-lhe em bico, estremeceu-lhe de leve, e voltou a endireitar-se-lhe. O comandante do esquadrão reparou com atenção na expressão de Grigóri; e, com ar carregado, deitou os olhos à marmita.

 

Agora dão-nos carne podre a comer? soltou Michka Kochevói, com arrebatamento.

 

Tem de se mudar o rancheiro!

 

O safado!...

 

Malandro, que engorda à nossa custa!

 

Ele come sopa com rins de vaca...

 

E, para nós, bichos!...Apoiaram os mais próximos. O comandante do esquadrão esperou que o besoirar das

 

vozes se calasse e bradou em tom cortante:

 

Si-lêncio! Agora calem-se. Já chega. Hoje mesmo substituirei o rancheiro. Vou nomear uma comissão de inquérito à actividade dele. Se a carne está em mau estado...

 

É julgá-lo em conselho de guerra! rugiram algumas vozes à retaguarda.

 

Uma nova onda de gritos cobriu a voz do comandante do esquadrão.

 

A substituição do rancheiro fez-se durante a marcha. Algumas horas depois de os cossacos revoltados terem «aprisionado» e levado a sopa ao comandante do esquadrão, o Estado-Maior do 12.º Regimento recebeu ordem de abandonar as posições que ocupava e dirigir-se para a Roménia, em conformidade com um itinerário anexo. Os cossacos foram rendidos durante a noite por atiradores siberianos. Retomaram posse dos cavalos na aldeia de Rinvítchi, e abalaram ao alvorecer para a Roménia, a marchas forçadas.

 

Após derrota sobre derrota, os romenos haviam recebido importantes reforços de tropas. A prova disso teve-se logo no primeiro dia: enviados antes do anoitecer para a aldeia indicada no itinerário, na qual deviam pernoitar, os rancheiros regressaram descoroçoados; a aldeia estava cheia de soldados de infantaria e de artilharia, que por igual se dirigiam para a frente romena. Para se aboletar, foi o regimento obrigado a fazer um desvio de oito verstás.

 

Durante dezassete dias caminharam. Os cavalos, mal alimentados, emagreciam a olhos vistos. Na zona da frente, devastada pela guerra, as forragens faltavam; os habitantes tinham fugido para o interior da Rússia, ou ocultavam-se nas florestas; pelos buracos negros das portas escancaradas, as casas mostravam as suas paredes nuas, e os raros habitantes, sombrios e assustados, que os cossacos encontravam nas ruas abandonadas, apressavam-se a esconder-se, mal viam militares. Esgotados por aquela caminhada interminável, gelados, furiosos do seu próprio estado e do dos cavalos, por tudo o que haviam sido forçados a suportar, onde quer que alguma aldeia houvesse escapado à destruição, os cossacos arrancavam a palha dos telhados das casas e não hesitavam em roubar os pobres alimentos que topavam, não havendo ameaça de superior que os retivesse na pilhagem, ou os impedisse de fazer o que lhes apetecia.

 

Pouco antes da fronteira romena, numa aldeola mais rica, o Cabeludo conseguira palmar um alqueire de cevada. O proprietário, um bessarábio sossegado, apanhara-o em flagrante, mas o Cabeludo espancara-o e abalara com a cevada, para a dar ao cavalo. O comandante do pelotão surpreendeu-o perto dele. O Cabeludo pendurara-lhe a sacola da cabeça, e, andando de um lado para o outro, acariciava-lhe com as mãos trémulas os flancos escavados, e ossudos, e fitava-lhe os olhos, como se fossem os de um homem.

 

Uríupine! Vai já devolver essa cevada, filho de uma cadela! Olha que te fuzilam por isso, imbecil!

 

O Cabeludo deitou de esguelha um olhar ruim ao oficial, arremessou o boné ao chão e, pela primeira vez desde que era militar, rompeu a berrar, aos uivos:

 

Julguem-me!   Fuzilem-me!   Podem   matar-me   imediatamente. Mas a cevada não a devolvo. . Querem que o meu cavalo morra de fome? Ha? A cevada não a devolvo. Nem um grão!

 

Tão depressa deitava as mãos à cabeça, como às crinas do cavalo, que mastigava avidamente, como ao sabre .

 

Quedou-se um bocado o oficial sem dizer nada, mirou os jarretes descarnados do cavalo, e proferiu, abanando a cabeça:

 

Dás então cevada a um cavalo cansado desta maneira? E a voz dele traía um nítido constrangimento.

 

Ele já descansou um pedaço replicou o Cabeludo, quase num cicio, apanhando nas palmas das mãos os grãos que caíam, para os pôr de novo na sacola.

 

O regimento chegou ao seu destino nos primeiros dias de Novembro. O vento redemoinhava por sobre as montanhas da Transilvânia, um nevoeiro glacial acumulava-se nos desfiladeiros, os pinheiros queimados pelas geadas espalhavam um cheiro intenso, e na neve muito limpa os olhos dos homens descobriam cada vez com mais frequência rastos de animais, lobos, alces, cabras-monteses, apavorados pela guerra, que haviam abandonado os seus refúgios solitários para mergulharem no interior da região.

 

A 7 de Novembro, o 12.º Regimento lançou-se ao assalto da cota 320. As trincheiras estavam ocupadas na véspera por austríacos, que haviam sido substituídos na manhã do ataque por saxónios, transferidos de fresco da frente francesa. Os cossacos trepavam a pé as vertentes pedregosas, levemente salpicadas de neve, esboroando sob os pés a terra gelada e à neve a levantando em forma de poalha fina. Grigóri ia ao lado do Cabeludo e dizia-lhe com um sorriso contrafeito, desusualmente tímido:

 

Não sei porquê, mas sinto-me hoje inquieto... É como se fosse este o meu primeiro combate.

 

Essa agora!...admirou-se o Cabeludo.

 

Levava a espingarda a tiracolo, e chupava os pedacinhos de gelo que lhe pendiam do bigode.

 

Os cossacos progrediam na colina em linhas irregulares, sem atirarem. A crista das trincheiras inimigas conservava-se num silêncio ameaçador. Lá no cimo, por detrás dos parapeitos, um tenente saxónio de cara avermelhada pelo vento, nariz pelado, e torso fortemente arqueado, bradava, sorridente, aos seus soldados:

 

Kameraden! Wir haben die Blaumántel oft genug gedroschen! Da wollen wir’s auch diesen einpfeffern, was es heisst mit uns’n Hiihnchen zu rupfen! Ausharren! Schiesst noch nicht (8).

 

Os cossacos avançavam. As rochas friáveis desfaziam-se-lhe sob os passos. Grigóri sorria nervosamente, enquanto erguia a borda do capuz desbotado do uso. As faces dele, cavadas, cobertas do colmo negro da barba, que havia muito tempo não rapava, e o nariz adunco tinham reflexos azuis-amarelados, e, sob as sobrancelhas cobertas de geada, os olhos luziam-lhe torvamente, como pedaços de antracite. A serenidade habitual abandonara-o. Para esmagar aquele funesto sentimento de medo que inesperadamente o tornara a assaltar, falava ao Cabeludo, piscando os olhos inquietos em direcção à crista alvejante das trincheiras que uma neve ligeira toucava:

 

(8) Camaradas! Já batemos mais de uma vez os capotes azuis. Vamos mostrar a estes o que é haverem-se connosco. Aguentem-se! Não atirem ainda!

 

Não se ouve nada. Estão a deixar-nos aproximar. E eu tenho medo, não tenho vergonha de o confessar... Que aconteceria se tornássemos para trás?

 

Que conversa é essa? sobressaltou-se   o   Cabeludo, irritado. Aqui, meu caro, é como a jogar as cartas: quem não tem confiança em si está perdido. Tens a cara toda amarela, Grichka... Ou estás doente, ou então... apanhas hoje um balázio. Repara! Não viste?

 

Um soldado alemão, de capote curto e capacete rematado em ponta tinha-se aprumado um segundo por sobre as trincheiras e desaparecido imediatamente.

 

À esquerda de Grigóri, um belo cossaco de cabelo castanho-claro, da stanitsa de Elánsskaia, descalçava e calçava incessantemente a luva da mão direita, a andar em passo apressado, dobrando os joelhos com dificuldade, e tossindo muito. «Parece que vai a avançar de noite e a tossir para se encorajar» pensou Grigóri. Atrás dele, viu a face coberta de sardas do sargento Makssáiev, e a seguir Emeliane Grochov, que segurava com firmeza a carabina, de baioneta torcida. Grigóri lembrou-se de que Emeliane roubara um saco de milho a um romeno, alguns dias antes, servindo-se da baioneta para lhe forçar a fechadura do celeiro. Muito perto de Makssáiev, ia Michka Kochevói. Fumava avidamente, assoava-se com frequência aos dedos, que depois limpava a uma aba do capote.

 

Estou com sede proferiu Makssáiev.

 

As botas apertam-me, Emeliane. Não posso andar queixou-se Michka Kochevói.

 

Grochov interrompeu-o, exasperado:

 

Ora não haviam de ser as botas!... Espera e verás como os alemães nos vão dar, não tarda nada, uma boa esfrega com as metralhadoras.

 

Logo à primeira salva, atingido por uma bala, Grigóri tombou, com um urro. Quis ligar o braço, estendeu a mão para a patrona, em que tinha uma ligadura, mas a sensação de sangue quente, que lhe espirrava com força do cotovelo para o interior da manga, enfraqueceu-o. Deitou-se ao comprido, e, escondida a cabeça pesada por trás de uma pedra, pôs-se a lamber com a língua subitamente seca os flocos de neve macia. De lábios trémulos, sorvia sequiosamente aquela poalha fresca e esparsa, escutando com terror, com uma tremura interior até ali desconhecida, a crepitação seca e brutal dos tiros, o fragor crescente das salvas. Levantou a cabeça e viu os homens do esquadrão dele descendo a encosta a correr, escorregando, caindo, atirando ao calhar para trás, para o cimo da colina. Um medo incompreensível, injustificável, fê-lo pôr-se de pé e correr, ele também, encosta abaixo, para a orla dentada do pinhal, donde o ataque partira. Ultrapassou Emiliane Grochov, que arrastava o comandante do pelotão, que fora ferido. Grochov amparava-o na descida íngreme; o tenente metia os pés um pelo outro, como os bêbedos, e deixava descair de vez em quando a cabeça para o ombro de Grochov, para vomitar um sangue negro e coalhado. Os esquadrões rolavam como uma enxurrada para a floresta. Os mortos acumulavam-se em montículos cinzentos nos declives cinzentos; os feridos que não houvera tempo de recolher desciam de rastos. As metralhadoras retalhavam-nos.

 

U-u-u-cá-cá-cá-cá!. .faziam os tiros delas, como uma chuva cerrada.

 

Grigóri mergulhou na floresta, apoiado a um braço de Michka Kochevói. Numa ladeira suave em frente dela, as balas ricocheteavam. Ouvia-se uma metralhadora crepitar no flanco esquerdo dos alemães. Lembrava uma pedra atirada com força, em saltos sucessivos sobre o gelo recente e frágil de um rio.

 

U-u-u-u-cá-cá-cá-cá-cá! ..

 

Cascaram-nos bem! exclamou o Cabeludo, em tom admirativo.

 

Encostado ao tronco arruçado de um pinheiro, atirava vagarosamente contra os alemães que corriam na crista das trincheiras.

 

É bom que os imbecis aprendam! Pois então! berrou Kochevói, sufocado de ira, soltando o braço a que Grigóri se apoiava. O povo é como uma cadela! Pior ainda! Há-de perder o seu sangue todo, antes de compreender por que se bate.

 

Que conversa é essa? lançou o Cabeludo, pregueando os olhos.

 

Os inteligentes hão-de compreender sozinhos. Quanto aos imbecis... com os imbecis não há que contar.

 

Esqueceste-te   do   juramento que   prestaste?   Prestaste juramento, ou não? insistiu o Cabeludo.

 

Kochevói tombou de joelhos, sem responder, fez um montinho de neve com as mãos trementes, e pôs-se a sorvê-la, com sofreguidão, arrepiado e cheio de tosse.

 

No céu enrugado de nuvens brancas, o Sol outoniço rodava sobre a aldeia de Tatársski. Ao alto, um vento leve empurrava lentamente as nuvens, fazendo-as deslizar para oeste, ao passo que em baixo, na aldeia, na planície verde-escura do Don, e nas florestas desnudas, curvando os cimos dos salgueiros e dos choupos, encrespando a água do rio, e enxotando rebanhos de folhas mortas pelas ruas, um vendaval violento soprava. Uma meda de palha mal feita desgrenhava-se no pátio de Khrisstónia; o vento cavou-a por baixo, fez-lhe cair a vara delgada que a mantinha, e depois, subitamente, como uma forquilha, ergueu o fardo doirado por sobre o pátio, fê-lo rodopiar por cima da rua e, juncando generosamente o caminho, arremessou um monte eriçado de palha para o telhado de Stepane Asstakhov. Em cabelo, apertando a saia entre os joelhos, a mulher de Khrisstónia surgiu precipitadamente de casa, contemplou aquele trabalho do vento, e de novo se recolheu.

 

O terceiro ano de guerra era bem sensível na aldeia. Nas herdades que haviam ficado sem homens, os armazéns escancaravam-se, as sebes destroçavam-se, uma ruína progressiva marcava-as miseravelmente. A mulher de Khrisstónia tratava do que lhes pertencia, sozinha com o filho de nove anos; a de Anikuchka não se incomodava a trabalhar, aproveitando a ausência do marido para se ocupar apenas de si própria: pintava-se, embelezava-se, e, à falta de homens feitos, recebia em casa garotos de catorze anos e menos, o que com eloquência comentava o portão copiosamente lambuzado de pinceladas de alcatrão, acusadoras(9). A casa de Stepane Asstakhov estava vazia: antes de abalar, o proprietário reforçara-lhe as janelas com tábuas; o telhado, coberto de bardana, desabara nalguns sítios; a fechadura da porta enferrujara-se; e pelo portão, aberto de par em par, do pátio coberto de ervas maninhas, os animais errantes, em busca de abrigo contra o calor ou contra o mau tempo, entravam à vontade. A parede da casa de Ivane Tomíline estava quase a cair para a rua, aguentada por uma escora em forma de corno: sem dúvida, vingança do destino, por todas as casas alemãs e russas que o valente artilheiro havia destruído.

 

O mesmo se passava em todas as ruas, em todos os becos. Exceptuava-se, à ponta inferior da aldeia, a herdade de Pantelei Prokófievitch: aí, tudo mantinha o seu aspecto habitual, tudo estava intacto. Ou, melhor: nem tudo. Os galos de lata tinham tombado de velhice do telhado do celeiro, e este estava um pouco inclinado: uma certa falta de cuidados não passaria despercebida a um olhar atento. As mãos do velho não podiam fazer tudo, de modo que se tinham reduzido as sementeiras, mais valendo não falar do resto; só a família não diminuíra: para substituir Petro e Grigóri, enquanto eles eram atirados de uma frente para outra, no Outono anterior Natalia deitara ao

 

(9) Nas aldeias da Rússia, fazia-se isto às portas das mulheres mal-comportadas.

 

mundo um casal de gémeos, um rapaz e uma rapariga, com grande alegria dos avós. A gravidez de Natalia fora penosa; por vezes, dias inteiros não podia andar, tanto as pernas a incomodavam, crispando-se ao arrastar os pés, mas suportando em silêncio as dores, sem nada deixar transparecer na face tisnada, emagrecida, feliz. Quando, porém, as cãibras eram mais fortes, o suor borbulhava-lhe nas fontes; então, Ilínitchna percebia-lhe o sofrimento e ralhava-lhe, abanando a cabeça:

 

Raio de mulher, porque não te deitas? Queres dar cabo de ti?

 

Num dia claro de Setembro, ao sentir vir as dores do parto, Natalia saiu de casa.

 

Onde vais tu? perguntou-lhe a velha.

 

Vou lá abaixo ao prado. Vou ver as vacas. Estugando o passo, deixou a aldeia, a gemer, de mãos no

 

ventre, meteu-se por uma moita densa de ameixieiras bravas, e deitou-se. Ao voltar para casa, pelas traseiras das propriedades, caía a noite. Trazia os gémeos no avental de pano grosso.

 

Minha querida! Estupor de mulher! Que fizeste tu?... Onde é que estiveste?...gemeu Ilínitchna.

 

Tive vergonha... Por causa do pai... Eu estou lavada, mãezinha, e também a eles os lavei... Pegue-os lá...desculpou-se Natalia, empalidecendo.

 

Duniachka foi a correr chamar a parteira. Daria pôs-se a arranjar uma caminha numa joeira. A rir e a chorar ao mesmo tempo, Ilínitchna gritou-lhe:

 

Dachka! Larga essa joeira! Mas isto são gatos, para os quereres pôr aí?... Oh, Senhor, dois gémeos! E um deles, Senhor, um rapaz!... Nataliúchka!... Metam-na já na cama!

 

Pantelei Prokófievitch, que estava na corte do gado quando soube que a nora tivera um casal de gémeos, primeiro deixou cair os braços, de espanto, e depois, torcendo a barba, rompeu a chorar de alegria, e a invectivar disparatadamente a parteira, mal ela apareceu a correr.

 

Estás enganada, estafermo! berrava ele, brandindo um dedo em gancho por baixo do nariz da velha. Estás enganada! Ainda não é desta que a raça dos Melekhoves acaba. A minha nora deu-me um cossaco e uma rapariga. Isto é que é uma nora! Oh, Senhor, meu Deus! Como hei-de eu pagar um presente destes àquele anjo?

 

O ano ia fértil: a vaca teve dois vitelos, cada uma das ovelhas dois cordeirinhos, e as cabras… Maravilhado daquelas coincidências, Pantelei Prokófievitch dizia para consigo:

 

Feliz e proveitoso ano! Tudo vem aos dois. Está tudo a medrar agora, cá em casa É verdade.

 

Natalia alimentou os filhos ao peito até à idade de um ano. Em Setembro tirou-lhes a mama; mas só lá para o fim do Outono se restabeleceu por completo; os dentes dela brilhavam-lhe, como leite, na face macilenta, e os olhos, que lhe pareciam enormes por causa da magreza, luziam-lhe, ardentes e húmidos. Consagrava-se inteiramente aos filhos, não cuidando dela, e gastando com eles todo o tempo que sobrava do trabalho da casa: lavava-os, lavava-lhes a roupa, fazia malha para eles, passajava-lhes o que eles rompiam, e várias vezes por dia, sentada de esguelha à borda da cama, com uma perna pendente, tirava os gémeos do berço, libertava da camisa larga, com um movimento dos ombros, os grandes seios túrgidos, brancos-amarelados como melões, e ao mesmo tempo os amamentava aos dois.

 

Já te chuparam até à última gota. Dás-lhes de mamar vezes de mais dizia-lhe Ilínitchna, dando palmadinhas nas pernocas rechonchudas e cheias de refegos dos netos.

 

Alimenta-os bem! Não poupes o leite. Não precisas dele para fazer manteiga intervinha Pantelei Prokófievitch, com ciumenta aspereza.

 

A vida escoava-se com moleza, como a água do Don depois das grandes cheias. Os dias, lânguidos e aborrecidos, seguiam-se insensivelmente uns aos outros, em incessantes trabalhos, obrigações insignificantes, alegrias breves, e a grande angústia vigilante pelos que estavam na guerra. De Petro e de Grigóri raras cartas chegavam da frente, em sobrescritos sujos, cobertos de carimbos do correio. A última carta de Grigóri havia passado por mãos alheias: metade do texto fora cuidadosamente borrado com tinta cor de violeta e o papel cinzento com que a tinham fechado trazia um sinal incompreensível. Petro escrevia mais vezes que Grigóri, e nas cartas dele ameaçava Daria, pedia-lhe que renunciasse à sua vida dissoluta, sem dúvida por lhe haverem chegado rumores do seu comportamento leviano. com as cartas dele, Grigóri mandava dinheiro: o soldo e as subvenções de cavaleiro de São Jorge; prometia em todas vir de licença, mas nunca vinha. Os caminhos dos dois irmãos afastavam-se: a guerra vergara Grigóri, roubara-lhe as cores da cara, dando-lhe um tom bilioso; cuidava ele que não lhe veria o fim; Petro, por seu lado, subia rápida e regularmente de posto; um pouco antes do Outono, recebera duas cruzes, à custa da simpatia do comandante de esquadrão; e contava que estava a fazer o possível para o mandarem para uma escola de oficiais. No Verão, havia mandado para casa, por Anikuchka, que fora de licença, um capacete e um capote alemães, e uma fotografia sua. Num quadradinho de cartão, a cara dele, envelhecida, exibia um ar satisfeito, e, sob o nariz arrebitado, o bigode loiro e frisado erguia-se-lhe em duplo gancho, e os lábios duros torciam-se-lhe no seu sorriso habitual. É que a vida sorria a Petro, e a guerra agradava-lhe, porque lhe abria extraordinárias perspectivas: simples cossaco, agarrado desde a infância à cauda dos bois, como poderia ele antes aspirar a ser oficial e a viver diferentemente? E eis que a guerra se havia ateado: ao clarão dela, ele entrevia agora distintamente um futuro mais livre... Só uma nuvem lhe escurecia a vida: os mexericos desagradáveis que corriam na aldeia a respeito da mulher. Stepane Asstakhov estivera lá de licença no Outono, e gabara-se, ao voltar, diante do esquadrão em peso, de se ter fartamente divertido com a mulher de Petro. Este a princípio não ligara importância aos ditos dos camaradas; a cara dele carregava-se ao ouvi-los, mas sorria e comentava:


O Stepane mente. Diz isso para se vingar em mim do que lhe fez o Grigóri.

 

Um dia, porém, fosse por acaso ou de propósito, ao sair de um abrigo, Stepane deixou cair no chão um lenço bordado; Petro, que ia atrás dele, apanhou o lenço, que tinha uma renda e era muito bem bordado, e reconheceu o trabalho da mulher. Entre Petro e Stepane havia-se dado mais um nó de rancor. Petro esperava apenas a ocasião. A morte espreitava Stepane era mais que certo que cairia perto do Dvina Ocidental, com a marca do sabre de Petro no crânio. Mas as coisas sucederam de outro modo: pouco tempo depois, Stepane ofereceu-se como voluntário para um assalto a um posto alemão, e não regressou. Segundo os cossacos que tinham partido com ele, a sentinela alemã surpreendera-os a cortar o arame farpado, e lançara contra eles uma granada; ainda tinham conseguido alcançá-la, Stepane derrubara-a com um murro, mas uma segunda sentinela fizera fogo e Stepane havia caído. Tinham degolado esta segunda sentinela, arrastaram com eles a que Stepane derrubara com o seu punho de chumbo, e ainda tentaram levantar Stepane para o trazerem; mas, como ele era muito pesado, não tiveram outro remédio senão abandoná-lo. Stepane, ferido, suplicava: «Irmãos, não me deixem morrer! Irmãos, porque me abandonam?...» Naquele momento, uma metralhadora varrera a sebe de arame farpado, e eles tinham abalado, rastejando. «Cossacos! Irmãos!» gritara Stepane. Mas a caridade bem entendida começa por cada qual.

 

Ao saber o que acontecera a Stepane, Petro sentiu-se aliviado, como se lhe tivessem untado uma arranhadela com óleo de marmota. Mesmo assim, decidiu: «Em indo de licença, sangro a Daria. Eu não sou o Stepane; o caso, comigo, é outro...» Pensou em matá-la; mas imediatamente pôs a ideia de parte. «Se mato uma porcaria daquelas, dou cabo da minha vida toda. Vou parar à prisão e todos os meus esforços se perdem: lá se vai tudo!...» Decidiu, simplesmente, dar-lhe uma sova, mas de tal ordem que ela perdesse para sempre a vontade de dar ao rabo. «Arranco-lhe um olho, à víbora, de maneira que nem o diabo a queira.» Assim cogitava Petro nas trincheiras, não longe da margem de greda do Dvina Ocidental.

 

O Outono franzia a erva e as folhas, as geadas queimavam-nas, a terra arrefecia, e as noites iam-se tornando mais compridas e mais escuras. Nas trincheiras, os cossacos cumpriam enfadonhamente os seus deveres, atirando contra o inimigo, trocando palavrões com os ajudantes, a ver se obtinham roupas mais fortes, comendo mal, mas nem um se esquecendo da região do Don, longe daquela terra inóspita da Polónia.

 

Entretanto, naquele Outono, Daria Melekhova desforrava-se de todo o tempo que havia passado sem homem. No dia da festa da Intercessão, Pantelei Prokófievitch, que fora como sempre o primeiro a acordar, ao sair do pátio, deitou as mãos à cabeça: o portão, arrancado dos gonzos por mãos insolentes, tinha sido arrastado para o meio da rua. Era um enxovalho. O velho colocou imediatamente o portão no seu lugar, e, depois do almoço, chamou Daria à cozinha de Verão. O que eles disseram não se sabe: mas Duniachka viu Daria sair da cozinha ao fim de alguns minutos, de lenço descaído para os ombros, desgrenhada e a chorar. Encolhia os ombros, com os traços pretos e agudos das sobrancelhas a tremerem-lhe na cara lacrimosa e perversa.

 

Deixa estar, miserável!... Hás-de-te lembrar de mim! murmurava ela, por entre os lábios inchados.

 

A blusa rasgada nas costas mostrava-lhe na pele branca uma equimose recente, azul e vermelha. Subiu a correr os degraus do patamar, com a saia a dar a dar, e sumiu-se no vestíbulo; ao mesmo tempo, Pantelei Prokófievitch surgia da cozinha, a coxear, furioso como um demónio, dobrando em quatro umas rédeas novas,’de cabedal.

 

E Duniachka ouviu o pai rosnar em voz rouca:

 

... Não era ainda só assim que tu devias apanhar, cadela vadia!...

 

Restabelecera-se a ordem na herdade. Durante três dias, Daria andou mais macia que um veludo, mais rasteira que a erva, deitando-se antes do resto da família e respondendo ao olhar compadecido de Natalia com um sorriso frio, arqueando os ombros e as sobrancelhas, como significando: «Não tem importância; havemos de ajustar as contas.» Mas ao quarto dia houve um incidente cujo segredo ficou entre ela e Pantelei Prokófievitch. A seguir a ele, o sorriso dela tornou-se triunfante, e durante uma semana o velho se mostrou perturbado, confuso, como um gato que tivesse feito uma maldade; não disse nada à velha; e ao próprio padre Vissarione, ao confessar-se, escondeu o caso e os pensamentos culposos que nele haviam despertado.

 

Ora o que sucedera fora o seguinte.

 

Logo após a Intercessão, Pantelei Prokófievitch, convencido da emenda definitiva de Daria, havia dito a Ilínitchna:

 

Não poupes a Dachka. Quanto mais trabalho ela tiver, melhor. Enquanto trabalha, não tem tempo da pouca-vergonha. Tu bem sabes de que força ela é. Só no que pensa é em sair e se divertir.

 

com este fito, obrigara Daria a limpar a eira, a empilhar a lenha no pátio das traseiras da casa, a acomodar o palheiro com ele. À tardinha do quarto dia, lembrou-se de transportar a tarara do armazém para o palheiro, e chamou a nora:

 

Daria!

 

Que é, pai? replicou ela, do palheiro.

 

Vem cá. Vamos levar para aí a tarara.

 

Ela compôs o lenço na cabeça, sacudiu a poeira de folhelho que lhe havia penetrado pela gola da blusa, saiu do palheiro, atravessou a eira e dirigiu-se para o armazém. Pantelei Prokófievitch, que vestia um casaco preto enchumaçado de algodão e umas calças rasgadas, coxeava à frente dela. O pátio estava deserto. Duniachka e a mãe fiavam lã recentemente cardada e Natalia amassava. O vermelho do crepúsculo extinguia-se por trás da aldeia, os sinos tocavam a vésperas. Ao alto, no céu transparente, via-se, imóvel, uma nuvenzinha carmezim; do outro lado do Don, nos ramos nus e grisalhos dos choupos, as gralhas-calvas pareciam farrapos escuros e queimados. No meio do silêncio puro e suspensivo, o menor ruído soava nítido, definido, rigoroso. Do estábulo vinha um cheiro penetrante de estrume húmido e de feno. Ajudado por Daria, Pantelei Prokófievitch, a gemer do esforço, levou para o palheiro a tarara vermelha, descorada, instalou-a a um canto, ancinhou a moinha que se soltara do folhelho amontoado, e dispunha-se a ir-se embora, quando Daria o chamou em voz baixa e chilreada:

 

Pai!

 

Sem suspeitar do que se tratava, ele dirigiu-se para o lado da tarara e perguntou:

 

Que há?

 

Daria estava diante dele, de blusa largamente aberta e mãos atrás da cabeça, a arranjar os cabelos. Coado por uma fresta da parede, um raio cor de sangue do sol poente incidia sobre ela.

 

Olhe, pai. Veja isto... Venha cá ver... disse ela inclinando-se para um lado, com um olhar de ladra, por cima do ombro do sogro, para a porta escancarada.

 

O velho acercou-se dela. E de repente ela deitou-lhe os braços à roda do pescoço, de mãos enganchadas uma na outra, e recuou, arrastando-o com ela e murmurando:

 

Ali, pai... Ali é fofinho...

 

Que queres tu dizer com isso? perguntou Pantelei Prokófievitch, assustado.

 

Agitando a cabeça, procurava libertar o pescoço dos braços de Daria; mas ela puxava-lha cada vez mais contra a cara, e sussurrava-lhe o que quer que fosse por entre a barba, com a boca ardente a rir.

 

Deixa-me, desavergonhada! gritou o velho, que ao empertigar-se sentiu contra ele o ventre firme da nora.

 

Ela atirou-se de costas, colada a ele, arrastando-o na queda.

 

És maluca, diabo!... Larga-me já!

 

Não queres? atirou-lhe Daria, ofegante. E, descerrando os braços, com um empurrão no peito o repeliu. Não queres?... Ou talvez não possas!... Nesse caso, não tens nada que me julgar!... É assim mesmo!

 

Ergueu-se de um salto, endireitou rapidamente a saia, limpou o folhelho das costas e berrou em frente da cara de Pantelei Prokófievitch atordoado:

 

Porque me bateste no outro dia? Achas que eu sou velha? Quando eras novo, não fazias a mesma coisa? Há um ano que estou para aqui sem marido!... Ou queres que eu me governe com algum cão? Vai bardamerda, coxo! Engole lá isto!

 

Fez-lhe um gesto obsceno e, movendo as sobrancelhas, encaminhou-se para a porta. Perto desta, examinou-se com atenção uma vez mais, sacudiu a poeira da blusa e do lenço, e proferiu, sem olhar para o sogro:

 

Sem isso não posso passar... Preciso de um cossaco. E, se tu não queres, hei-de encontrar algum. Mas tu cala-te!

 

Alcançou a eira a passo rápido e ondulante, e desapareceu sem se virar. Pantelei Prokófievitch continuava ao lado da tarara vermelha, mordiscando a barba e olhando, com expressão perplexa e culpada, o palheiro e as biqueiras das botas remendadas. «Será possível que ela tenha razão? Talvez eu devesse dividir o pecado ao meio com ela» cogitava ele, confusamente, ainda tonto com o que se havia passado.

 

No mês de Novembro veio um frio de rachar. Caíram as primeiras neves. No sítio em que faz um cotovelo, diante da parte alta de Tatársski, o Don gelou. Sobre o gelo azulado e frágil, raras pessoas o atravessavam; mais abaixo, apenas ao longo das margens havia uma camadinha de gelo esponjoso, e no meio a corrente cachoava, de vagas verdes umas atrás das outras, meneando as suas cristas cinzentas. No buraco em frente da Barroca Negra, nos ramos submersos, a onze ságenas de profundidade, havia muito tempo que os siluros se tinham instalado para o Inverno, em companhia das carpas viscosas; só o peixe miúdo continuava a percorrer o rio, e nos rápidos as percas perseguiam as mugens. As solhas repousavam na areia do fundo. Os pescadores esperavam pelos frios maiores, para abrirem buracos no gelo e apanharem algum caracino doirado.

 

Nesse mês, os Melekhoves receberam uma carta de Grigóri. Escrevia de Kuvínsski, a contar que havia sido ferido no seu primeiro combate em território romeno, por uma bala que lhe partira um osso do braço esquerdo, e que fora mandado, até se curar, para a Região Militar, na stanitsa de Kaménsskaia. Logo a seguir a ter-se recebido esta carta, outra desgraça desabou sobre os Melekhoves: cerca de ano e meio antes, Pantelei Prokófievitch tivera necessidade de dinheiro e pedira emprestados cem rubles a Serguei Platónovitch Mokhov. No Verão, Atiópine-Tsatsa chamara-o ao armazém e dissera-lhe, de lunetas de armação de oiro presas no nariz, fitando a barba do velho por sobre as lentes:

 

Então, Pantelei Prokófievitch, queres pagar, ou não? Pantelei Prokófievitch considerou as prateleiras vazias e o

balcão luzidio do uso e respondeu, após um momento de hesitação:

 

Espera um pouco mais, Emeliane Konstantínitch. Deixa-me desembaraçar, que eu pago.

 

A conversa tinha ficado por aqui. Mas o velho não conseguira desembaraçar-se, porque a colheita fora má e ele não tinha gado para vender. E eis que um belo dia um oficial de diligências apareceu na aldeia, mandou chamar o mau pagador, e sem mais tir-te nem guar-te lhe declarou:

 

Tem de pagar imediatamente os cem rublos que deve Não havia nada a replicar. Lá estava escrito num papel grande, pousado em cima da mesa do quarto do oficial de diligências, na estalagem.

 

EXECUÇÃO

«Em nome de SUA MAJESTADE IMPERIAL. Nós, juiz de paz da Sétima Circunscrição da Região do Don, depois de examinada a acção cível movida pelo burguês Serguei Mokhov contra o sargento-chefe de cavalaria Pantelêimone Melekhov, por falta de pagamento deste da soma de cem rublos que aquele lhe emprestou, em conformidade com os artigos 81, 100,

129, 133 e 145 do Código de Processo Civil, despachamos, com data de 27 de Outubro de 1916, o que segue:

 

Proceder-se-á à respectiva cobrança, na pessoa do devedor, o sargento-chefe de cavalaria Pantelêimone Melekhov, em proveito do credor, o burguês Serguei Mokhov, da soma de cem rublos, por este emprestada àquele, na data de 21 de Junho de 1915, acrescida de três rublos de custas do processo. O presente despacho é interlocutório e será tornado público imediatamente.

 

A presente sentença, em conformidade com o parágrafo 3 do artigo 156 do Código de Processo Civil é declarada executória por provisão, sem embargo de recurso. Em nome de SUA MAJESTADE IMPERIAL, Nós, juiz de paz da Sétima Circunscrição da Região do Don, ordenamos a todas as pessoas e autoridades, a quem a presente sentença interesse, que a executem e auxiliem, e, às autoridades policiais e militares locais, que prestem sem qualquer dilação, ao oficial de diligências encarregado de a executar, o concurso previsto pela lei.»

 

Depois de ouvir o oficial de diligências, Pantelei Prokófievitch pediu licença para ir a casa e prometeu pagar no próprio dia. Da estalagem meteu direitinho a casa do compadre Korchunov. Na praça, encontrou Alekcei Chamil, o maneta.

 

Sempre coxo, Melekhov? disse-lhe Chamil, à laia de cumprimento.

 

Um pedacinho.

 

Vais muito longe?

 

A casa do meu compadre. Por causa de um negócio.

 

Ah, sim? Mas hoje há lá festa. Não sabias? O filho de Mirone Grigóritch, o Mitka, voltou da frente, ao que para aí dizem.

 

É sério?

 

Foi o que eu ouvi disse Chamil, com um espasmo do olho e da face, aproximando-se de Pantelei Prokófievitch e puxando da bolsa do tabaco. Vai uma cigarrada, avô? Eu dou o papel, e tu o tabaco.

 

Pantelei Prokófievitch começou a fumar, a si próprio perguntando se iria ou não a casa de Korchunov; havendo por fim decidido ir, despediu-se do maneta e lá foi, a coxear.

 

Também o Mitka foi condecorado. Quer apanhar o teu filho berrou Chamil atrás dele. Agora há mais cavaleiros de São Jorge que pardais por esse arbusto.

 

Sem se apressar, Pantelei Prokófievitch chegou à extremidade da aldeia; em frente da casa de Korchunov, mirou as janelas e dirigiu-se para a porta. O próprio Korchunov veio ao encontro dele; de alegria, a cara parecia-lhe literalmente lavada, mais lisa e com menos sardas.

 

Soubeste da nossa felicidade? perguntou ele a Pantelei Prokófievitch, apertando-lhe a mão.

 

Soube-o no caminho, por Alekcei Chamil   Venho por causa de um negócio, compadrinho...

 

-Não fales em negócios agora. Entra lá, para veres o nosso militar. Confesso-te que já bebemos uma pinga a mais, para festejar o caso A minha mulher tinha posto de banda uma garrafa de vodka boa para uma ocasião solene.

 

Não precisavas de mo dizer. Pantelei Prokófievitch sorriu, de narinas palpitando. Já de longe me tinha cheirado.

 

Mirone Grigórievitch abriu a porta, para o compadre passar. Este, mal entrou, deu logo com os olhos em Mitka, sentado à mesa, no lugar de honra.

 

Aqui está o nosso militar! exclamou o avô Grichaka, choramingando, e cingindo Mitka contra um ombro, no momento em que ele se ia levantar.

 

Bem-vindo à aldeia, moço cossaco!

 

Pantelei Prokófievitch apertou a mão comprida de Mitka, deu um passo à retaguarda, e examinou-o com expressão admirada

 

Que tens tu que olhar para mim dessa maneira, compadre? proferiu Mitka, em voz baixa e rouca.

 

Estou a olhar para ti e não caibo em mim de espanto: quando eu e o teu pai os levámos para o exército, ao Grichka e a ti, eram vocês dois garotos; e agora, sim senhor, estás um verdadeiro cossaco, mesmo a calhar para a Guarda.

 

Lukínitchna, que não despegava do filho os olhos chorosos, vazou um copo de vodka sem reparar no que fazia, de modo que a vodka se entornou.

 

Olha lá, sarnosa! Dessa maneira estragas uma coisa tão boa? berrou-lhe Mirone Grigórievitch.

 

À alegria de todos e ao teu feliz regresso, Mítri Mirónitch!

 

Pantelei Prokófievitch rebolava para todos os lados os globos azulados dos olhos e esvaziava às goladinhas, sem tomar a respiração e de pálpebras a tremerem-lhe, o seu copinho barrigudo. Limpou devagar com a palma da mão os lábios e o bigode, fitando sempre o fundo do copo, inclinou a cabeça para trás, e deixou cair na boca escancarada, de dentes escuros, uma última gota solitária; e só depois respirou, e mastigou um pepino de conserva, semicerrando demoradamente os olhos, com ar de beatitude. com segundo copo que a velha lhe sorviu, de súbito ficou comodamente bêbedo. Mitka observava-o, sorrindo. As suas pupilas de gato, tão depressa se estreitavam, até os olhos lhe ficarem completamente verdes, como se alargavam e lhos ensombreciam. Aqueles anos tinham-no tornado irrreconhecível. Naquele cossaco alto e vigoroso, de bigode preto, quase nada subsistia do Mitka delgado e franzino que três anos antes fora para a tropa. Desenvolvera-se muito: estava mais largo de ombros, um pouco arqueado, mais gordo, não pesando com certeza menos de cinco pudes, e a voz e a cara haviam-lhe endurecido, com tudo isso aparentando ser mais velho do que era. Só os olhos é que lhe não tinham mudado, sempre inquietos e inquietadores; a mãe afogava-se neles, rindo, chorando, tocando constantemente com uma mão franzina e seca os cabelos curtos e a testa branca e estreita do filho.

 

Foste   condecorado? interrogou-o   Pantelei   Prokófievitch, com um sorriso de bêbedo.

 

Qual é o cossaco que não tem uma cruz? retorquiu Mitka, franzindo os sobrolhos. Três ganhou Kriutchkov, à força de fazer vénias no Estado-Maior.

 

Está   vaidoso   como   todos   nós apressou-se   o   avô Grichaka a dizer. O patife) Sou eu, é o avô escarrado. Curvar a espinha não é com ele.

 

Parece-me que também dão cruzes por outras coisas começou Pantelei Prokófievitch.

 

E já a expressão se lhe carregava. Mas Mirone Grigórievitch arrastou-o para o quarto de cama, fê-lo sentar numa arca, e atirou:

 

A Natalia como vai, mais os pequenos? Todos estão bons? Ora seja Deus louvado! Não me disseste tu que vinhas cá por causa de um negócio? Que negócio é esse então? Conta lá, antes de continuarmos a beber e nos embebedarmos?

 

Preciso de dinheiro. Empresta-mo, por amor de Deus! Ajuda-me, ou fico na miséria.

 

Pantelei Prokófievitch falava com a humildade excessiva dos bêbedos. O compadre interrompeu-o:

 

Quanto?

 

Cem notas.

 

Quais notas? Notas há muitas.

 

Cem rublos.

 

Podias tê-lo dito logo.

 

Mirone Grigórievitch foi à arca, tirou dela um lenço encardido, desfez-lhe o nó que o atava, e contou dez notas vermelhas (10), com um ruído seco do papel.

 

Obrigado, compadrinho... Salvaste-me de uma desgraça

 

Pronto! Não se fala mais nisso! Entre parentes, tudo se arranja.

 

Mitka demorou-se cinco dias na aldeia. As noites passava-as em casa da mulher de Anikuchka, simplória e dócil, compadecido da sua amarga solidão. Durante o dia, visitava os parentes e os amigos. Alto, enfiado numa simples blusa de campanha, ufano da sua resistência ao frio, deambulava pelas ruas da aldeia, de boné ao lado, bandeando os ombros. Uma tardinha foi a casa dos Melekhoves. com ele penetrou na cozinha bem aquecida uma baforada álgida e o cheiro característico e penetrante dos soldados. Um bocado ali se demorou a falar da guerra e das notícias da terra; antes de se levantar par; abalar, fitou em Daria os seus olhos verdes, cor de junco Daria, que não cessara de o olhar, oscilou como a chama de uma vela, quando ele, ao sair, atirou com a porta; premiu os lábios e pôs um xaile por sobre os ombros; mas Ilínitchn; perguntou-lhe:

 

Dachka, onde vais tu?

 

Vou lá fora... fazer as minhas necessidades.

 

Eu vou contigo.

 

Pantelei Prokófievitch manteve-se sentado, sem sequer erguer a cabeça, como se não tivesse ouvido a conversa. Dária passou-lhe por diante, ocultando por trás das pálpebras descidas um olhar de raposa; pesadamente, a sogra seguia-a, gemendo Mitka estava ao pé do portão, tossicando, fazendo ranger as botas, de cigarro aceso no côncavo da mão. Ao rumor do trinco da porta, deu um passo em direcção a ela.

 

És tu, Mítri? Perdeste-te no nosso pátio? lançou-lhe perfidamente Ilínitchna. Corre o trinco ao fechares o portão

 

(10) Notas de 10 rubles.

 


não o vá o vento fazer bater toda a noite... Está hoje uma destas ventanias!...

 

Não, não me perdi... Eu ia já sair... respondeu Mitka, irritado, após um momento de silêncio.

 

Tossiu, e resolutamente atravessou a rua, cortando a direito para casa de Anikuchka.

 

Mitka vivia como uma ave, despreocupadamente, sem pensar no dia de amanhã. Servia no exército sem entusiasmo, e, embora não soubesse o que fosse medo, não procurava em especial qualquer promoção; a sua folha de serviço estava longe de ser brilhante: por duas vezes havia sido julgado em conselho de guerra, uma acusado de violação de uma polaca, súbdita russa, a outra por pilhagem; e os castigos que sofrera em três anos eram inúmeros; uma ocasião, por pouco não fora mesmo condenado à morte. Mitka, porém, safara-se sempre, e, se bem que mal reputado no regimento, os cossacos estimavam-no pelo seu carácter alegre e folgazão, as canções obscenas em que era verdadeiramente mestre, o seu espírito de camaradagem e a sua desafectação, e os oficiais pela sua audácia nos combates. Sempre sorridente, Mitka pisava o chão com pés leves de lobo; com os lobos tinha ele, aliás, muitos traços comuns, desde os passos lentos, medidos, e os olhos verdes, de olhar baixo, até ao modo como virava o corpo todo, para observar atrás dele, porque uma contusão no pescoço o impedia de mover só a cabeça. Todo feito de músculos tensos a cobrirem-lhe um esqueleto sólido, era, no entanto, lesto e de movimentos precisos, e dele emanava um acre cheiro de saúde e de força, como o da terra negra revolvida pelo ferro das charruas. A vida de Mitka era simples e rectilínea como um rego; e ele vivia-a, como senhor dela, seguro dos seus direitos. Por igual elementares e ingénuos eram os pensamentos dele. Havendo fome, não só achava um direito como um dever roubar, mesmo os próprios camaradas; e assim, se tinha fome, roubava. Tendo-se as botas gastas, o mais natural figurava-se-lhe descalçar um prisioneiro alemão. Desde que se cometesse uma falta, forçoso considerava que se pagasse; e Mitka pagava as faltas que cometia, trazendo sentinelas alemãs, meio estranguladas, dos reconhecimentos de que participava, e oferecendo-se como voluntário para os cometimentos mais arriscados. Em 1915, havia sido feito prisioneiro, sovado e ferido à baionetada; mas à noite, gastando as unhas até ao sabugo, fizera um buraco no tecto do cubículo em que o tinham fechado, e por ali se evadira, levando com ele uns arreios de cavalo como recordação. E era por tudo isto que se lhe desculpava muita coisa.

 

Ao cabo de seis dias, Mirone Grigórievitch acompanhou o filho à estação de Milerovo, até ele entrar na carruagem, ouviu o rumor do comboio verde que se afastava, e demoradamente ali se quedou, a remexer com o cabo do chicote um monte de detritos que se acumulara contra o cais, sem pespregar do chão os olhos perturbados. Lukínitchna chorava. O avô Grichaka gemia, assoando-se com um ruído de corneta à mão, que limpava ao capote seboso. Também a mulher de Anikuchka chorava, a pensar no corpanzil ávido de carícias do soldado e a sofrer do esquentamento que ele lhe havia deixado.

 

O tempo ia entrançando os dias, como o vento enreda as crinas dos cavalos. E de repente, antes do Natal, principiou o degelo; durante um dia inteiro a chuva caiu, jorrando em torrentes pela colina que limitava o Don; a erva do ano anterior e o musgo que cobria as camadas de greda davam uma coloração verde às línguas de terra libertas da neve; a água espumosa depositava-se, como um sarro, nas margens, e, no meio do rio, o gelo inchava e assumia uma cor azul de cadáver. Um cheiro de um inexprimível adocicado subia da terra negra posta a nu. Na estrada dos Atamanes, a água refervia nos velhos trilhos. Do outro lado da aldeia, os barrancos argilosos escancaravam as bocarras dos aluimentos recentes. O vento do sul trazia do Tchir o hálito deletério da erva podre, e, já ao meio-dia, como na Primavera, apareciam no horizonte laivos azulados e brandos. Na aldeia, poças variegadas cercavam os montículos de cinzas erguidos contra as sebes. Junto às medas, as eiras degelavam, e o bafo adocicado da palha em decomposição impressionava as narinas de quem passava. Todo o dia, das cornijas dos telhados de colmo uma água escura escorria, nas sebes as pegas pairavam sem descanso, e o toiro comunal, que passava o Inverno à guarda de Mirone Grigórievitch, assaltado precocemente pelos pruídos da Primavera, mugia, quebrava à cornada a paliçada do pátio, roçava-se contra o arado de velho castanho, e patinhava a neve friável e liquescente do solo.

 

No dia seguinte ao de Natal, o gelo fendeu-se no Don. com estalidos e rangidos, o meio do rio rompeu a mover-se. Contra as margens, como enormes peixes adormecidos, blocos de gelo estacavam Do lado oposto do Don, perseguidos pelo vento sul, os choupos arquejavam, numa vacilante corrida imóvel.

 

Chuuuuuuu... ouvia-se surdamente assobiar.

 

E um pouco antes de anoitecer, a colina rugiu. Na praça, os corvos desataram a crocitar, o porco de Khrisstónia passou a correr em frente da propriedade dos Melekhoves, com um tufo de feno no focinho, e Pantelei Prokófievitch sentenciou: «Está a Primavera tramada. Amanhã vai gelar.» E com efeito, durante a noite, o vento começou a soprar de leste, e uma leve camada cristalina de geada substituiu o gelo derretido dos charcos. No outro dia de manhã, o vento soprava rijo das bandas de Moscovo. O Inverno voltava. Recordação única do degelo, blocos de gelo flutuavam, como folhas brancas, a meio do Don, e o cimo desnudo da colina fumegava, com o frio.

 

Pouco depois do Natal, o secretário da stanitsa informou Pantelei Prokófievitch, no decurso de uma reunião, que encontrara Grigóri em Kaménsskaia, e que ele lhe havia pedido para informar os pais da sua próxima chegada com as suas mãozinhas crestadas, cobertas de pêlos luzidios e ralos, Serguei Platónovitch Mokhov sondava a vida em todos os sentidos. Umas vezes ela sorria-lhe, outras pesava-lhe como uma pedra atada ao pescoço de um afogado. Durante a sua existência, Serguei Platónovitch tinha visto muitas coisas e passado por muitas tribulações. Uma ocasião, ainda ele negociava em cereais, havia comprado por baixo preço a uns cossacos quatro mil pudes de trigo fermentado, que tivera de deitar fora, por um barranco abaixo, longe da aldeia. Recordava-se também do ano de 1905, em que, numa noite de Outono, tinham disparado contra ele uma caçadeira. Mokhov enriquecera, arruinara»se, enriquecera de novo, até juntar finalmente sessenta mil rublos, que depositara no Banco do Volga e do Kama. O faro apurado dele dizia-lhe, porém, que uma era de grandes convulsões se acercava. Esperava por dias sombrios, e não se enganava. Em Janeiro de 1917, o professor Balanda, que lentamente se finava de tuberculose, lamentava-se diante dele:

 

E dizer que a revolução vai estalar, exactamente no momento em que eu estou à beira de morrer da mais sentimental e estúpida das doenças! É aborrecido, Serguei Platónovitch!... É aborrecido que eu não possa ver o dia em que os seus capitais se vão água abaixo e o senhor seja corrido do seu aconchegado ninho.

 

Mas porque é que isso o aborrece?

 

Porquê? Porque me seria agradável, fique sabendo, ver desfazer-se tudo em nada.

 

Não, meu caro! Primeiro que eu hás-de tu morrer dizia-lhe Serguei Platónovitch, com recalcado ódio.

 

Desde o mês de Janeiro que nas stanitsas e nos khutores mais longínquos ressoavam os ecos do que na capital circulava acerca de Rasputine e da família imperial. No princípio de Março, a notícia da queda do tsarismo tombou sobre Serguei Platónovitch como uma rede sobre uma abetarda. Tal notícia de o regime haver mudado acolheram-na os cossacos com reserva e contida inquietação. No dia em que a souberam, os velhos e alguns jovens juntaram-se em frente do armazém fechado de Mokhov. O atamane da aldeia, Kiriúchka Soldátov (sucessor de Manítzkov, que havia sido morto), um cossaco corpulento, de bigode ruço, um bocado zarolho, sentia-se demolido e quase não participava da conversa animada que se desencadeara, limitando-se a passear o olhar torvo por sobre os cossacos e a atirar de espaço a espaço alguma exclamação desolada:

 

Ora uma destas!... Ai-ai-ai!... E como é que nós vamos viver agora?...

 

Ao ver, pela janela da casa, a multidão aglomerada diante do armazém, Serguei Platónovitch decidiu ir conversar com os anciães. Enfiou a sua peliça de pele de rato e apareceu no patamar, apoiando-se a uma bengala castanha, discretamente ornada com as suas iniciais de prata. Da rua subia um alarido.

 

Então, Platónitch? Tu, que és um homem instruído, diz-nos lá o que se irá passar, a nós que não sabemos nada lançou Matvei Kachúline, com um sorriso timorato, que o enchia de rugas oblíquas em torno do nariz gelado.

 

Os anciães responderam ao cumprimento de Serguei Platónovitch, tirando respeitosamente os gorros, a par se arredando para lhe dar lugar entre eles.

 

Vamos viver sem tsar...articulou, hesitante, Serguei Platónovitch.

 

Os velhos puseram-se a falar todos ao mesmo tempo:

 

Mas como é que isso pode ser?

 

Os nossos pais e os nossos avós viveram debaixo do governo de tsares, e agora os tsares já não são precisos?

 

Cortada a cabeça, não sei como as pernas possam andar sozinhas.

 

E quem é que vai governar em vez dele?

 

Não te acanhes, Platónitch! Fala-nos com franqueza De que tens tu medo?

 

Talvez ele mesmo o não saiba observou Avdeitch, por alcunha o Mentiroso, com um sorriso que lhe cavou mais fundas as covinhas das faces rosadas.

 

Serguei Platónovitch olhou fixamente as suas velhas botas de borracha, e disse, arrancando custosamente de si as palavras:

 

Quem vai governar é a Duma do Estado   Vamos ter uma República.

 

Ao que nós chegámos, com os diabos!

 

Quando eu servi na tropa, sendo tsar o falecido Alexandre Segundo     começou Avdeitch.

 

Mas o velho Bogatíriov interrompeu-o com severidade:

 

Já sabemos! Mas não é disso que se está a tratar.

 

Quer isto dizer que é o fim dos cossacos?

 

Enquanto entre nós se fazem greves, vão os alemães chegar a São Petersburgo com   a   igualdade,   hão-de querer   comparar-nos   aos mujiques.

 

Vão-nos, então, bulir nas terras?

 

Esforçando-se por sorrir, Serguei Platónovitch fitou as faces transtornadas dos velhos, e um sentimento amargo e desagradável subiu nele. Separou em duas, com o seu gesto habitual, a barba ruça, e proferiu, com uma raiva não sabia exactamente contra quem:

 

Vejam lá, velhos, ao que se fez chegar a Rússia! Vão-se igualar os cossacos aos mujiques. Retirar-vos-ão os vossos privilégios, e os antigos rancores virão à tona. Os tempos que vão vir hão-de ser duros     É preciso saber a que mãos irá parar o poder. Tudo depende disto. Podemos até ser levados à ruína completa

 

O tempo é que o há-de dizer! considerou Bogatíriov, abanando a cabeça, e mirando Serguei Platónovitch com os seus olhos incrédulos, por sob o matagal das sobrancelhas. Tu, Platónitch, vês as coisas à tua maneira. Mas talvez para nós a vida se torne mais fácil!...

 

E como é que isso seria? disse Serguei Platónovitch, sarcástico.

 

Talvez o novo governo acabe com a guerra... Pode ser que sim! Ha?

 

Serguei Platónovitch sacudiu os ombros e encaminhou-se, claudicando, de costas vergadas, para a elegante escada azul da sua casa. Pensando simultaneamente no dinheiro, no moinho, no comércio, que ia de mal a pior, lembrou-se de Elisaveta que estava naquela altura em Moscovo, e de Vladimir, que não devia tardar em regressar de Novotcherkassk. Esta surda inquietação pelos filhos não lhe quebrou o fio incoerente dos pensamentos. com o sentimento de que a vida se entenebrecera de um dia para o outro, e de que ele próprio, ao peso das suas cogitações dolorosas, se deixara intimamente ir abaixo, chegou à entrada de casa. Um gosto acre de ferrugem na boca encheu-lha de saliva. Voltou-se para os anciães, juntos em frente do armazém, cuspiu por sobre a balaustrada esculpida do patamar e atravessou o terraço, em direcção às salas de habitação, arrastando a perna. Ana Ivánovna veio ao encontro do marido à casa de jantar, deixou divagar-lhe pela cara o olhar indiferente e átono, e disse-lhe:

 

Queres comer qualquer coisa antes do chá?

 

Não quero nada. É mesmo ocasião para comer! recusou Serguei Platónovitch, com expressão amarga.

 

Tirou o capote. A boca continuava a saber-lhe a ferrugem, e sentia na cabeça um enorme vazio.

 

Está aqui uma carta de Lisa.

 

Ana Ivánovna foi ao quarto de cama em passo sonolento (desde que se casara, por virtude da enormidade do trabalho que pesava sobre ela, andava sempre assim), e tornou de lá com um sobrescrito aberto.

 

«Uma rapariga fútil e parece-me que pouco esperta» formulou em pensamento pela primeira vez Serguei Platónovitch; e o perfume que se exalava do sobrescrito grosso fez-lhe franzir o nariz. Distraidamente percorreu a carta, estacou sem saber porquê na expressão «estado de alma», e demoradamente reflectiu sobre ela, procurando devassar-lhe o sentido incompreensível. No fim da carta, Elisaveta pedia para lhe mandarem dinheiro. Serguei Platónovitch leu aquelas últimas linhas, com a mesma sensação de vazio na cabeça, e, subitamente, deu-lhe vontade de chorar. Toda a sua vida erguida perante ele lhe mostrava num relance o nada que albergava.

 

«É uma pessoa estranha para mim» pensou ele da filha «exactamente como eu sou um estranho para ela. Sentimentos filiais só os tem quando precisa de dinheiro... É uma desavergonhada. Tem amantes... E em pequena era tão loira e tão carinhosa!... Meu Deus, como tudo muda!... Até envelhecer, fui sempre um parvo, à espera de uma vida feliz mais tarde; afinal, estou mais só que uma capela numa encruzilhada... Enriqueci porcamente (mas será possível enriquecer-se com limpeza?), fui um intrujão, fui um avarento; agora vem a revolução, e amanhã os meus criados são capazes de correr comigo da minha própria casa... Para que me serviu tudo o que fiz? E os meus filhos? O Vladimir é um imbecil... Mas isto que me importa? Tanto se me dá como se me deu!...»

 

Por uma confusa associação de ideias, ocorreu-lhe um incidente já antigo, no moinho. Um freguês cossaco tinha protestado por achar excessivamente elevado o preço da moenda, e recusava-se a pagar; naquele momento, estava ele, Serguei Platónovitch, na sala das máquinas; acudiu ao barulho, e, informado do que se tratava, deu ordem aos moleiros e ao peneireiro para não entregarem a farinha. O freguês, que era um cossacozito fracote, puxava o saco por um lado, e o moleiro Zavar, forte e espadaúdo, pelo outro. O cossacozito deu um murro no moleiro, que reagiu, atingindo-o numa fonte com um punho enorme. Caiu o cossacozito, mas logo se reergueu, cambaleante, com a fonte a sangrar. De repente, avançou um passo para Serguei Platónovitch, e atirou-lhe em voz sibilante:


Fica lá com a farinha! E come-a! E foi-se dali, numa tremura.

 

Sem qualquer motivo aparente, Serguei Platónovitch lembrava-se deste episódio e da sua continuação. A mulher do cossacozito havia aparecido, a suplicar que lhe entregassem a farinha, chorando e lamentando-se, para concitar a compaixão da mais freguesia:

 

Mas que é isto, boa gente? Será isto justo? Dêem-me a farinha!

 

Vai-te embora, mulherzinha, ou arranco-te os cabelos ripostava-lhe Zavar, a rir.

 

A Serguei Platónovitch fora desagradável e irritante ver Valete, tão fracalhote e baixo como o cossacozito, lançar-se contra Zavar, para a seguir, duramente sovado, lhe vir pedir contas e deixar o moinho. Enquanto virava e revirava entre os dedos a carta já lida, de olhos fitos, mas sem ver nada, tudo aquilo lhe perpassava fugazmente pela memória.

 

Aquele dia deixou-lhe uma pungente mágoa. À noite dormiu mal, às voltas na cama, torturado por pensamentos sem significação e por desejos vagos; só passada a meia-noite adormeceu. De manhã, ao saber que Evguéni Lisstnítzki, de regresso da frente de batalha, chegara a casa do pai, em lagodnói, decidiu ir lá falar com ele, para tirar a limpo o que sucedia, e expulsar da mente a espuma azeda dos pressentimentos que o agitavam. A chupar o seu cachimbo, Emeliane atrelou um cavalo ao trenó de passeio, e levou o patrão a lagodnói.

 

Como um damasco cor de laranja, o Sol amadurecia por sobre a aldeia; nuvens vaporosas consumiam-se a alturas diversas. Saturava o ar cortante e frio um aroma penetrante de fruta. O gelo da estrada rangia sob os cascos do cavalo, de cujas narinas saíam rolos de vapor, que soprados pelo vento, se lhe depositavam nas crinas, em forma de cristais de geada. Serenado pelo frio e pela velocidade em que ia, Serguei Platónovitch dormitava, baloiçava-se, de costas roçando o espaldar do trenó. Entretanto, na aldeia, uma multidão escura de cossacos, com os seus agasalhos de peles, enchia a praça, de mulheres apartadas deles como um rebanho de ovelhas, encafuadas nas suas peliças orladas de lontra castanha.

 

No meio da multidão, o professor Balanda arengava, com um lenço na boca esverdeada, uma fita vermelha na botoeira da peliça curta, e os olhos a arderem-lhe em febre:

 

... Como vêem, acabou-se a autocracia maldita! Nunca mais se mandarão os vossos filhos chicotear os operários. Nunca mais servireis o tsar, bebedor de sangue. Quem governará a nova Rússia será uma Assembleia   Constituinte. Ela saberá construir uma vida diferente, quer dizer uma vida luminosa!

 

Por trás dele, a amante puxava-o pelas abas da peliça curta e murmurava, em tom suplicante:

 

Deixa lá isso, Mítia! Sabes perfeitamente que isso te faz mal, que não deves falar! Vais mais uma vez deitar sangue pela boca... Mítia!

 

Os cossacos escutavam Balanda, de olhos baixos, hesitantes, tossicando e sorrindo à socapa. Mas não o deixaram acabar o discurso. Uma voz de baixo, compassiva, provinda de uma das primeiras filas, interrompeu-o:

 

Pode muito bem ser que a vida venha a ser luminosa; mas tu, rapaz, é que lá não chegas. É melhor que vás para casa, que aqui está fresco...

 

Balanda balbuciou algumas palavras, que não terminou, e saiu dali extenuado.

 

Serguei Platónovitch chegou a lagodnói ao meio-dia. Emeliane conduziu o cavalo pela arreata para uma manjedoira exterior, ao lado da cavalariça, e, enquanto o patrão descia do trenó e afastava uma das abas do capote para tirar um lenço, já ele o tinha desaparelhado e aliviado do xairel. Um galgo grande, cinzento com manchas ruças, acolheu Serguei Platónovitch à entrada do patamar. Ergueu-se, esticou as patas compridas e nervosas, e bocejou; com igual indolência se ergueram também os outros cães que ao lado dele estavam deitados, semelhantes a novelos negros.

 

«Oh, diabo, são muitos! ..» pensou Serguei Platónovitch, olhando receosamente em torno; e subiu os degraus às arrecuas.

 

O vestíbulo vasto, seco e claro, cheirava a cães e a vinagre. Por sobre uma arca, pendiam dos cornos ramalhudos de um veado um gorro de oficial, de astracã, um capuz com fechos de prata e um capote de feltro. Por um momento, Serguei Platónovitch cuidou ver um vulto peludo e escuro de pé sobre a arca, erguendo os ombros com perplexidade. Uma mulher opulenta, de olhos pretos, surgiu de uma porta lateral. Fitou com atenção Serguei Platónovitch, que estava a despir o seu capote de pele, e disse, sem se lhe alterar a expressão séria da bela face tisnada:

 

Quer falar com Nikolai Alekcêievitch? Eu vou anunciá-lo.

 

Entrou na sala sem bater, e fechou a porta. A custo Serguei Platónovitch reconhecera Akcínia Asstakhova naquela mulher robusta e bela, de olhos pretos. Ela que, em contrapartida, o havia reconhecido imediatamente, apertara os lábios cor de cereja e sumira-se com uma rigidez voluntária, mexendo apenas de leve os cotovelos nus e trigueiros. Um minuto depois, foi o próprio velho Lisstnítzki quem apareceu. Sorrindo com afabilidade distante e condescendente, exclamou na sua

voz grave:

 

Ah! O comerciante! Que bom vento o traz por cá? Faça favor   E, afastando-se para um lado, com a mão o convidou a entrar na sala.

 

Serguei Platónovitch inclinou-se com a deferência a que havia muito tempo se habituara perante as pessoas de categoria, e entrou. Franzindo os olhos por trás das lunetas, Evguéni Lisstnítzki avançou para ele.

 

Foi muito amável em vir visitar-nos, meu caro Serguei Platónovitch. Como está? Mas quê? Dir-se-ia que está a envelhecer! Ha?

 

Ora agora, Evguéni Nikoláievitch! Tenho a certeza de que hei-de morrer depois do senhor. E o senhor como vai? Rijo e são?

 

com um sorriso que lhe punha à mostra os dentes de oiro, Evguéni apontou ao visitante uma cadeira de braços. Sentados em frente de uma mesinha, trocaram algumas frases insignificantes, procurando cada um deles descobrir na cara do outro as mudanças nela havidas desde que se tinham encontrado a última vez. O dono da casa, que havia ido dar ordem para se lhes servir chá, reapareceu, a fumar, de grande cachimbo curvo seguro entre os dentes. Parou diante da cadeira de Serguei Platónovitch, e perguntou-lhe, pousando na mesa a sua mão comprida, velha e ossuda:

 

Como vão as coisas na sua aldeia? Já lhe chegaram... as lindas notícias?

 

Serguei Platónovitch levantou os olhos para as pelancas que pendiam do queixo e do pescoço escanhoados do general, e suspirou:

 

Como haviam de não ter chegado?...

 

Era fatal que isto acontecesse!...-A maçã-de-adão do general oscilou, com o movimento da aspiração de uma fumaça. Desde   o começo   da guerra eu   o havia previsto. O caso... é que a dinastia estava condenada. Ocorreu-me imediatamente Merejkóvsski... Lembras-te, Evguéni, do livro dele, «Pedro e Aleixo»? Depois de ter sido torturado, o tsárevitch Aleixo adiz ao pai: «O meu sangue recairá sobre os teus descendentes...»

 

Ao certo, ao certo, pouco sabemos suspirou Serguei Platónovitch, numa grande agitação. Não parava um momento quieto na cadeira. Acendeu um cigarro, e prosseguiu: Há já uma semana que não recebemos jornais. Correm os boatos mais inverosímeis; anda toda a gente de cabeça perdida. É uma catástrofe, meu Deus! Mal soube que Evguéni Nikoláievitch estava cá de licença, decidi vir inquirir do que se passa, do que nos ameaça.

 

Evguéni, cuja face branca, bem barbeada, já não sorria, replicou:

 

Passam-se factos terríveis... Os soldados estão literalmente desmoralizados, e não querem continuar a bater-se. A verdade é que já não há nesta altura, soldados propriamente. Há bandos de criminosos desencadeados e selvagens. Aqui tem, por exemplo, o meu pai... Pois nem ele consegue apreender a que ponto de decomposição desceu o exército... Os soldados abandonam as suas posições, pilham, assassinam as pessoas, matam os oficiais, vagueiam por onde lhes apetece... A recusa de execução das ordens de combate é agora uma coisa vulgar.

 

O peixe começa sempre a apodrecer pela cabeça atirou o velho Lisstnítzki, por entre uma nuvem de fumo.

 

Eu não penso assim. Evguéni havia franzido a testa, um tique agitava-lhe as pálpebras venosas. Eu penso de outro modo... É pela base que o exército apodrece, dissolvido pelos bolcheviques. As próprias unidades cossacas, sobretudo as que contactaram estreitamente com a infantaria, se tornaram moralmente instáveis. É a extrema fadiga, é a nostalgia da aldeia... E, por cima de tudo isto, os bolcheviques...

 

Mas que querem eles? não se conteve Serguei Platónovitch que não perguntasse.

 

Oh!... E Lisstnítzki sorriu. O que eles querem... é pior que a cólera. É pior, porque contamina mais facilmente os homens, porque penetra mais facilmente nas massas militares. Estou a referir-me às ideias deles. E contra isto não há quarentenas que valham. Há entre os bolcheviques, incontestavelmente, homens de talento; aconteceu-me discutir com alguns. Há também autênticos e simples fanáticos. A maioria esmagadora deles, porém, é constituída por indivíduos à solta, sem fé nem lei. A esses o que interessa não é o fundo da doutrina bolchevique, mas unicamente a possibilidade de roubarem e de abandonarem a frente de batalha. O que eles querem, antes de tudo, é assaltar o poder, pôr termo à guerra «imperialista», como eles dizem, não importa em que condições, mesmo por uma paz separada, e dar a terra aos camponeses e as fábricas aos operários. Está claro que isto é tão utópico como estúpido, mas é com meios assim primários que se conquista a simpatia dos soldados.

 

Lisstnítzki discorria, dominando a sua raiva surda. A boquilha de marfim rolava-lhe entre os dedos. Serguei Platónovitch escutava-o dobrado para diante, como se se preparasse para saltar. O velho Lisstnítzki passeava pela sala, assentando com força no chão as suas botas escuras de feltro felpudo, e mordiscando o bigode esverdinhado.

 

E Evguéni referiu que, mesmo antes da mudança do regime, tivera de fugir do regimento, receoso da vingança dos cossacos, e narrou os acontecimentos de Petrogrado, de que havia sido testemunha.

 

Decaiu um momento a conversa. Fixando Serguei Platónovitch acima dos olhos, o velho Lisstnítzki perguntou-lhe:

 

Sempre queres comprar o cavalo ruço que viste no Outono, o filho da «Boiarínia»? (11).

 

Quem tem cabeça para pensar nisso agora, Nikolai Alekcêievitch? retorquiu Mokhov, com uma careta de fazer dó e um gesto desesperado das mãos.

 

Entrementes, no pavilhão do pessoal, Emeliane aquecia-se, bebia chá, enxugava a um lenço encarnado o suor que lhe corria pelas bochechas cor de beterraba, e falava da aldeia e das últimas notícias. De pé à beira da cama, de peito encostado ao espaldar torneado, estava Akcínia, enrolada num xaile penugento.

 

Calculo que a minha casa já tenha caído arriscou ela.

 

Não caiu. Porque havia ela de ter caído? Lá está! Que querias tu que lhe tivesse acontecido? retorquiu Emeliane, arrastando penosamente as palavras.

 

E os nossos vizinhos, os Melekhoves, como vão eles?

 

Lá vão andando.

 

(11) Castelã. À letra: filha de boiardo.

 

O Petro não foi de licença à aldeia?

 

Cuido que não.

 

E o Grigóri? O Grichka foi?

 

O Grichka esteve lá a seguir ao Natal. A mulher dele teve dois gémeos o ano passado... E o Grigóri... pois é verdade... esteve lá por causa das feridas.

 

Foi ferido?

 

E de que maneira! Num braço. Ficou tão cheio de buracos como um cão depois de uma zaragata com outro: não se sabe se tem mais cruzes, se cicatrizes.

 

E como está ele, o Grichka? inquiriu Akcínia, a quem um soluço reprimido obrigou a tossir, para aclarar a voz que lhe enrouquecera.

 

Está como sempre... Escuro e de nariz comprido... Um autêntico turco, como está bem de ver.

 

Não é isso o que eu quero saber... Está mais velho? Não está mais velho?

 

A peste é que o sabe! Talvez um pedaço!... Mas, se a mulher teve dois filhos, é porque, mesmo assim, não envelheceu muito.

 

Está gélido, aqui... disse Akcínia, que, estremecendo, abandonou o quarto.

 

Emeliane, que estava a vazar a sua oitava chávena de chá, seguiu Akcínia com o olhar; e comentou com lentidão, como os cegos avançam os pés:

 

Porcaria mal cheirosa! Pior que isto não sei eu o que haja! Ainda não há muito tempo andava de patas ao léu e já não sabe dizer que está «frio»... Para mim, mulheres destas só trazem dano ao mundo. A coirões assim, pudesse eu... Serpente! E larga-me ela esta: «Está gélido, aqui!» Burra ranhosa! Uma destas!...

 

De indignado, não acabou de beber o chá, levantou-se, benzeu-se, e saiu com ar indiferente, riscando de propósito com as botas o chão encerado.

 

Durante todo o regresso, manteve-se sempre tão carrancudo como o patrão. Toda a ira que Akcínia lhe provocara a fazia ele pagar ao cavalo, chicoteando-o nas partes pudendas e chamando-lhe vadio e coxo. Contra o seu hábito, até à aldeia, nem uma só vez dirigiu a palavra a Serguei Platónovitch. Este, por seu turno, também não quebrou nunca o seu silêncio de medo.

 

A primeira brigada de uma das divisões de infantaria da frente do sudoeste, com o seu reforço do 27.º Regimento de Cossacos do Don, havia sido retirada da frente, em que estava de reserva, antes da revolução de Fevereiro; devia ser transferida para os arrabaldes da capital, para reprimir os motins que principiavam. Fora enviada para a retaguarda com equipamentos novos de Inverno, abundantemente alimentada durante um dia, para, no seguinte, embarcar em vagons e partir. Os acontecimentos anteciparam-se-lhe, no entanto, quando ela se acercava de Minssk. Já no dia da partida corria seriamente que o imperador assinara a sua abdicação no Grande Quartel General.

 

Houve, pois, que arrepiar caminho a meio da viagem. Na estação de Razgone, o 27.º Regimento recebeu ordem de se apear dos vagons. Os comboios atravancavam as linhas. Os soldados, que haviam colocado fitas vermelhas nos capotes, andavam de um lado para o outro nos cais, com sólidas carabinas novas de tipo russo, mas de fabrico inglês. A maior parte deles mostrava-se excitada e olhava com receio para os cossacos, que se iam formando em esquadrões.

 

O dia escuro estava no fim. Dos telhados dos edifícios da estação a água pingava; nas linhas, as poças cobertas de manchas de petróleo reflectiam a pele de carneiro, cinzenta e espessa, do céu. O mugido das locomotivas em manobras reboava, quebrado e roufenho. Por trás do armazém das mercadorias, o regimento montado esperava o general comandante da brigada. As pernas dos cavalos fumegavam de alto a baixo. Os corvos pousavam sem medo atrás das fileiras, debicando e espalhando o excremento alaranjado.

 

Montado num grande morzelo regulamentar, o general aproximou-se dos cossacos, acompanhado do coronel comandante do regimento. Retesou as rédeas, considerou os esquadrões, e em seguida começou a falar, parecendo afastar de si com as mãos as palavras surdas e inseguras que lhe saíam da boca:

 

Cossacos! Por vontade do povo, o imperador Nicolau II, que até agora reinou... ha... foi destronado. O poder foi transferido para a Comissão Provisória da Duma do Estado. Como todo o exército, devemos aceitar... ha... esta notícia com serenidade. O dever dos Cossacos é defender a pátria dos inimigos externos, e . ha... como direi? .. dos inimigos do exterior. Manter-nos-emos à margem das perturbações que estalaram e deixaremos à população civil o cuidado de escolher os meios de organizar o novo governo. Devemo-nos manter à margem. Para o exército, a guerra e a política são incompatíveis... Nestes dias em que todas as nossas bases... ha... estão a ser abaladas, devemos conservar-nos firmes como (aqui, o general, velho soldado pouco habituado a discursos e pouco dotado para eles, hesitou na escolha de um termo de comparação apropriado; da dolorosa mudez, as sobrancelhas moviam-se-lhe na cara gorda; o regimento esperava com paciência)... ha... como o aço. O dever militar dos cossacos é obedecer aos seus chefes. Continuaremos a combater o inimigo com valentia, como até aqui, enquanto na capital (e com um largo gesto apontou a retaguarda) .. a Duma decide da sorte do país. Terminemos a guerra, e, em seguida, também nós poderemos, por nosso lado, participar da vida dele. Mas até lá... ha... não o podemos fazer. Não podemos sacrificar o exército... No exército não deve haver política!

 

Alguns dias depois, naquela mesma estação, os cossacos prestaram juramento ao Governo Provisório; e embora assistissem aos comícios, organizados por regiões de origem, mantinham-se afastados dos outros soldados que tinham invadido a estação. Demoradamente discutiam os discursos que haviam escutado, repetiam-lhes frases, medindo com desconfiança o significado de cada palavra duvidosa. Sem saberem bem porquê, tinham chegado todos à mesma conclusão de que a liberdade significava o fim da guerra; e os oficiais que, por seu lado, afirmavam que a Rússia devia bater-se até ao fim, viam-se em grandes dificuldades para disso os convencer.

 

A confusão que se apossara do comando após a mudança do regime repercutia-se nos escalões inferiores; o Estado-Maior da Divisão esqueceu-se positivamente da existência da brigada que parara a meio caminho. Esta havia comido a ração de oito dias de víveres que recebera, e, abandonando o comboio, os soldados arriscavam-se em grupos até às aldeias vizinhas; álcool de proveniência desconhecida apareceu à venda; e não tardou a ser vulgar encontrar soldados e oficiais bêbedos.

 

Arrancados à rotina habitual das suas obrigações, os cossacos exasperavam-se nos seus vagons de mercadorias, à espera de que os recambiassem para o Don (com grande insistência corria que a primeira reserva seria desmobilizada); descuravam os cavalos, passeavam dias inteiros na praça do mercado, negociavam com toda a casta de coisas provenientes da frente e susceptíveis de interesse: cobertores alemães, baionetas, serras, capotes, mochilas de cabedal, tabaco...

 

A ordem de voltarem para a frente foi acolhida com indissimulados murmúrios. O segundo esquadrão começou mesmo por se recusar a partir, tendo os cossacos impedido de ligar a locomotiva ao comboio; com a ameaça, porém, do coronel, de os desarmar, a agitação diminuiu, até que serenou de todo. E os comboios retomaram o caminho da frente de batalha.

 

Que quer isto dizer, rapazes? Falam-nos de liberdade, mas temos de suportar a guerra e tornar a verter nela o nosso sangue.

 

É a velha opressão que recomeça.

 

Mas, então, para que se deitou abaixo o tsar?

 

Tão bem estamos sem o tsar como estávamos com ele!

 

Afinal, as calças são as mesmas, vestidas do avesso,

 

Ora aí é que está!

 

Quanto tempo irá durar isto ainda?

 

Há três anos que não largamos as carabinas!

 

Era só o que se ouvia. Na estação de um entroncamento, como se tivessem passado palavra, os cossacos abandonaram os vagons, e, indiferentes às exortações e às ameaças do coronel, organizaram um comício. Em vão o comissário militar e o velho chefe da estação se agitavam por entre a massa cinzenta dos capotes, suplicando aos cossacos que voltassem para os vagons, para se desobstruírem as linhas: com viva atenção, eles continuavam a escutar o discurso de um sargento do terceiro esquadrão. A seguir a ele, falou um cossaco baixo, mas robusto, Manjúlov. Da boca lívida e torcida pela ira, saíam-lhe a custo palavras raivosas:

 

Cossacos! Isto não pode ser! Mais uma vez não nos deixam ver claro. Querem-nos enganar! Se houve uma revolução e se deu a liberdade a toda a gente, quer isso dizer que tem de se parar com a guerra, visto nem o povo nem nós a querermos! É justo, ou não é justo o que eu digo? Tenho, ou não tenho razão?

 

Tens razão, pois!

 

Merda para a guerra.

 

   Já estamos todos fartos dela.

Os calções que temos já não aguentam mais. Como é que se pode combater assim?

 

Estamos faaaartos! Vamos para casa!

 

Desatrelem a locomotiva. Fédote, vamos a isso!

 

Cossacos! Esperem aí! Cossacos! Diabos, calem-se aí, súcia de safados!... Irmãos! esfalfava-se Manjúlov a gritar, tentando cobrir com a dele as vozes de um milhar de homens. Esperem aí! Não toquem na locomotiva! Não é disso que se trata. Do que se trata é que nos estão a enganar... Sua Nobreza, o coronel comandante do regimento, tem de nos mostrar a ordem: queremos saber se nos mandam ir para a frente, ou se é um capricho de Sua Nobreza!...

 

Só depois de o coronel, perturbado, sem domínio de si, de lábios a tremer, lhes ter lido em voz alta o telegrama que havia recebido do Estado-Maior da Divisão, mandando regressar o regimento à frente de batalha, é que os cossacos tornaram de novo para os vagons.

 

Seis homens de Tatársski, pertencentes todos ao 27.º regimento, viajavam juntos num mesmo vagom: Petro Melekhov, Nikolai Kochevói, tio de Michka Kochevói, Anikuchka, Fédote Bodóvsskov, Merkulov, que parecia um cigano, com a sua barba preta e anelada e os seus olhos castanhos de louco, e Makcime Griáznov, vizinho dos Korchunoves, um rapaz alegre e despreocupado, que adquirira durante a guerra, por toda a parte, a reputação de ladrão de cavalos. Constantemente, para se divertirem à custa dele, lhe diziam: «Merkulov, com o seu ar de cigano, é que devia roubar cavalos, e não os rouba. E tu então, Makcime, mal vês a cauda de um cavalo, dá-te a febre!» Griáznov corava, piscava um olhinho azul como uma flor de linho, e respondeu com uma graça de mau gosto: «A mãe do Merkulov dormiu com um cigano, e com certeza que a minha a invejou... Sem isso, como havia Deus de me deixar fazer o que eu faço?...»

 

Soprava no vagom um vento encanado; presos às manjedoiras instaladas à pressa, iam os cavalos; a meio do vagom, troços húmidos de madeira ardiam sobre um montículo de terra gelada, e o fumo acre escoava-se-lhe pelas frinchas da porta. Sentados nas selas à roda daquele lume, os cossacos secavam as tiras de pano que lhes serviam de meias, fétidas de suor e de humidade. Fédote Bodóvsskov aquecia as suas pernas arqueadas e nuas, e na cara de kalmuk, de malares salientes, errava-lhe um sorriso de satisfação. Cosendo conforme podia com um cordel uma das solas arrancada, Griáznov pôs-se a contar, em voz que o fumo lhe enrouquecia, dirigindo-se a um auditor indeterminado:

 

Quando eu era pequeno, tinha o hábito, no Inverno, de trepar para cima da lareira, e a minha avó (que naquela altura tinha já mais de cem anos!) caçava-me os piolhos às cegas e dizia-me: «Meu Makcímuchka, minha florinha, antigamente as pessoas não viviam como agora; viviam como era devido, segundo as regras; e não havia desgraças. Tu, meu lindo, hás-de viver o bastante para veres a terra toda enredada de arames, e no céu azul pássaros com bicos de ferro, capazes de picar os homens como as gralhas-calvas picam as melancias... E há-de vir a peste, e a fome, e os irmãos erguerem-se contra os irmãos, e os filhos contra os pais... Dos homens ficarão tantos como fica de erva depois de um incêndio». Pois bem prosseguiu ele após uma pausa foi isso o que aconteceu. Inventou-se o telégrafo: aí estão os arames. Os pássaros de ferro são as eroplanos, que já deram cabo de mais de um de nós. E a fome também há-de vir. A minha família, por exemplo, está a semear metade do trigo que semeava nos outros anos. E por todos os lados é o mesmo. Nas stanitsas o que há são crianças e velhos; bastava uma colheita má, e a fome aí estava.

 

Mas os irmãos contra os irmãos é que eu acho história! disse Petro Melekhov, espevitando o lume.

 

Espera, que lá chegaremos.

 

Não conseguirão arranjar um governo, e vai haver sarilho interveiu Fédote Bodóvsskov.

 

Lá teremos nós de ir mais uma vez restabelecer a ordem.

 

Trata, mas é de acabar primeiro com os alemães ripostou-lhe Kochevói, a rir.

 

Pois bem! É o que nós vamos fazer...

 

com terror simulado, Anikuchka franziu a sua face glabra de mulher, e exclamou:

 

Santa Maria, Rainha do Mundo, até quando teremos nós que nos batermos?

 

Até ao dia em que os pêlos da barba te cresçam, capado! atirou-lhe Kochevói, imitando-o.

 

Os homens sentados à roda do lume deram uma gargalhada em uníssono. Petro aspirou fumo e rompeu a tossir, de olhos cheios de lágrimas, apontando um dedo para Anikuchka.

 

Os pêlos não sabem o que fazembalbuciou Anikuchka, atrapalhado. Nascem às vezes onde não deviam. Escusas de estar para aí a impar, Kochevói...

 

Pronto! Já chega! Estamos todos já fartos e refartos! estoirou de repente Griáznov. Para aqui estamos como uns desgraçados, consumidos de piolhos, enquanto as nossas famílias vivem na miséria, e que miséria! É cortar-lhes a pele, e nem sangue corre!

 

Que raio de mosca te mordeu? lançou Petro, ironicamente, mordiscando o bigode loiro como trigo.

 

A mosca que lhe mordeu toda a gente sabe qual é...

replicou Merkulov em lugar de Griáznov; e ocultou um sorriso na sua barba anelada de cigano. Toda a gente sabe que os cossacos sofrem... que não podem mais... Quando um pastor leva um rebanho a pastar, enquanto o sol enxuga o orvalho, os animais conservam-se sossegados, mastigando; mas, mal o sol sobe e os atabões se põem a zumbir e a picar, então...

 

Merkulov deitou uma olhadela maliciosa aos outros, e prosseguiu, virado para Petro então, senhor sargento, entra o diabo no corpo dos animais. Mas tu sabes bem isso! Tu não és um intelectual, ha! Também guardaste bois... Em geral, a coisa começa por uma vitela que se sacode com o rabo, que dá um mugido... e ela aí vai! E logo o rebanho todo dispara atrás dela! Corre o pastor: «Ai-ai-ai!...» Mas não há nada a fazer. O rebanho avança como uma carga de cavalaria, como nós contra os alemães em Ne?visska. Que se há-de fazer numa altura dessas? Quem é que pode parar aquilo?

 

Onde queres tu chegar?

 

Merkulov não respondeu logo. Tinha enrolado num dedo um anel da barba preta como alcatrão; puxou-o com raiva, e reatou, mas desta feita por modo concreto e sem sorrir:

 

Há três anos que andamos na guerra. Há três anos que nos acachapamos nas trincheiras. Para quê e porquê? Ninguém o sabe. Por mim, estou em dizer que de um momento para o outro um Griáznov ou um Melekhov qualquer se raspa, e atrás dele o regimento todo, e atrás do regimento o exército em peso... Estamos todos fartos...

 

Era então aí que tu querias chegar!  

 

Exactamente! Eu não sou cego; tenho olhos para ver: isto está por um fio! Basta um assopro para tudo cair, como um capote velho nos cai das costas. Em três anos de guerra, o Sol já subiu no céu também para nós.

 

Mais cuidado! aconselhou Bodóvsskov. O Petro   é sargento.

 

Acho eu que nunca fiz mal a nenhum camarada observou Petro, encavacado.

 

Não te zangues. Eu disse isto por brincadeira. Bodóvsskov, confuso, mexeu durante um bocado os dedos nodosos dos pés nus, após o que se levantou e se encaminhou para o lado do cavalo, a passo lento.

 

A um canto, perto dos fardos de feno, uns cossacos de outras aldeias conversavam a meia voz. Dois deles, Fadéiev e Kárguine, eram de Karguínsski, os outros oito de stanitsas e khutores diversos.

 

Ao fim de algum tempo, puseram-se a cantar. Alímov, do Tchir, cantava a primeira voz. Tinha ele principiado uma cantiga de dança, quando outro qualquer lhe deu uma palmada nas costas e lhe gritou em voz rouca:

 

Deixa lá isso!

 

Vocês aí, órfãos, venham para aqui, que está quente! convidou-os Kochevói.

 

Avivou-se o lume com uns pedaços de madeira, de uma paliçada arrancada na última paragem do comboio, e as vozes ergueram-se, mais alegres.

 

O cavalo de batalha, selado e aprestado.

 

Relincha ao pé da igreja, à espera de alguém.

 

No pátio a avó chora abraçada ao neto.

 

A mulher do cossaco está em pranto também.

 

Da porta da igreja

 

Saiu o cossaco armado.

 

A mulher conduz-lhe o cavalo pelas rédeas.

 

Um sobrinho dele entrega-lhe a lança.

 

No vagom anterior, um harmónio de som roufenho tocava uma dança cossaca. Ouvia-se o martelar furioso dos tacões das botas. Uma voz desafinada berrava deploràvelmente:

 

Malditos sejam os amargos cuidados. São apertadas as coleiras do tsar. Magoam os pescoços dos pobres cossacos, A quem não deixam sequer respirar. Ao longo do Don, Pugatchov, clama, A chamar os cossacos de toda a região: Atamanes, cossacos...

 

Dominando a primeira, uma segunda voz irrompeu, a ganir com insensata fúria:

 

Servimos o tsar com sincera fé,

 

Mas sentimo-nos tristes sem as nossas mulheres.

 

Se encontrarmos outras, deixaremos de o estar.

 

Que se lixe o tsar!

 

Oh, vasa! Oh, queima!

 

Uh-uh! Uh-uh-ah!

 

Ah-ah-ih-oh-uh-ah-ah

 

Havia já muito que os cossacos tinham deixado de cantar e que, escutando o barulho despreocupado que no vagom anterior crescia, trocavam piscadelas de olhos e sorriam com ar aprovador. Não se contendo mais, Petro Melekhov largou uma gargalhada:

 

Estão endiabrados de todo!

 

Os olhos castanhos de Merkulov, salpicados de pontinhos amarelos, despediam chispas alegres. De um salto ergueu-se, espalhou com a ponta de uma bota, para apreender o ritmo, o milho miúdo das notas, e de súbito, com os pés ágeis e elásticos, rompeu a dançar uma prissiadka em redor do lume. Sucessivamente, todos dançaram, aquecendo-se com o movimento. O harmónio do vagom anterior acabara por calar-se: agora o que lá se ouvia eram injúrias violentas, proferidas por vozes roucas. O ímpeto da dança excitava os cavalos. Só pararam de dançar quando Anikuchka, de cabeça perdida, caiu de cu no lume, ao executar um passo excepcionalmente complicado. Levantaram-no os outros, rindo às gargalhadas, e à luz de um coto de vela lhe examinaram os calções novos, cujos fundilhos estavam irremediavelmente queimados, bem como a borda do dólman acolchoado.

 

Tira os calçõesaconselhou-lhe Merkulov, compadecido.

 

Estás maluco, Cigno? E que vou eu vestir? Merkulov remexeu na sacola e tirou dela uma camisa de

 

mulher, de pano cru. Reavivou-se o lume. Merkulov segurava a camisa pelas ombreiras estreitas e dizia, todo inclinado para trás, a gemer de riso:

 

Pega lá!... Oh-oh! Roubei isto à pressa, de uma sebe... Trouxe-a para a fazer em tiras para os pés... Oh! Mas não a vou rasgar... Pega-a lá!

 

Apesar dos palavrões dele, à força a enfiaram em Anikuchka: e tanto e tão gostosamente riam que às portas dos vagons mais próximos assomaram cabeças curiosas, e vozes invejosas berravam no meio da noite:

 

Que é que vocês estão a fazer?

 

Súcia de malandrões!

 

De que riem vocês assim?

 

Que se passa aí, parvalhões do diabo?

 

Na paragem seguinte, agregaram a eles o tocador de harmónio do vagom anterior; do comboio todo apareciam cossacos, que, aos encontrões, partiam as manjedoiras, se amontoavam e empurravam os cavalos. No meio de um circulozinho Anikuchka exibia-se. A camisa branca, que com certeza pertencera a uma mulher robusta, era comprida de mais para ele, que nela encalhava. Mas a risota encorajava-o: dançou até cair.

 

Por sobre a Rússia Branca, empapada em sangue, as estrelas choravam tristemente. O céu nocturno, negro, fluido e fumarento, lembrava a bocarra de um abismo. O vento soprava contra a terra impregnada do cheiro acre das folhas mortas, da argila húmida, da neve de Março...

 

Vinte e quatro horas decorridas, já o regimento não estava muito longe da frente. Os comboios haviam parado num entroncamento. Os sargentos deram ordem de apear. Os cossacos faziam descer à pressa os cavalos, selavam-nos, corriam pelos vagons fora em cata dos objectos esquecidos, atiravam directamente para a areia húmida das linhas os fardos de feno um pouco desfeitos, agitavam-se.

 

O impedido do coronel comandante do regimento chamou Petro Melekhov:

 

Vai à estação. O coronel quer falar contigo.

 

Petro compôs o boldrié sobre o capote e dirigiu-se vagarosamente para o cais.

 

Anikei, toma conta do meu cavalo! pediu ele a Anikuchka, que ficara de plantão aos animais.

 

Sem lhe responder, Anikuchka seguiu-o com o olhar; e na face dele, habitualmente franzida, ao tédio de todos os dias misturavam-se novas preocupações. Petro avançava, mirando as botas salpicadas de argila amarela, e a si próprio perguntando que lhe quereria o coronel. Um ajuntamento pequeno, que se formara à ponta do cais, perto da cuba da água fervente, chamou-lhe a atenção. Caminhou em direcção a ele, e, ainda de longe, procurou ouvir o que ali se dizia. Uns vinte soldados rodeavam um cossaco ruivo, que estava de pé, encostado à cuba, numa atitude de atrapalhação, como a de um homem perseguido. Erguendo a cabeça, Petro viu a face barbuda do ruivo, um cossaco da Guarda (aquela cara afigurou-se-lhe não lhe ser estranha de todo), e o número 52 num ombro, sobre as divisas de sargento; e de si para si quase jurou ter já visto aquele homem em qualquer parte.

 

Como é que tu fizeste uma coisa destas? E ainda por cima sargento como és!...censurava com uma alegria ruim o ruivo, um alistado voluntário, de cara inteligente, cheia de sardas.

 

Que há? inquiriu Petro, com uma palmada nas costas de um soldado de infantaria que estava à frente dele.

 

O soldado virou a cabeça, e respondeu de mau modo:

 

É um desertor que foi apanhado... Um dos vossos, um cossaco.

 

Esforçava-se Petro por se recordar onde tinha visto aquela face larga, de bigode e barba ruiva. Sem dar troco às perguntas insistentes do alistado voluntário, o desertor ia bebendo água quente às goladinhas por um vaso de cobre, feito do invólucro de uma granada, e comendo um biscoito escuro que na água molhava. Piscava os olhos afastados, à flor da pele, e, enquanto mastigava e bebia, movia as sobrancelhas, e fitava o chão e tudo à roda. Guardava-o um velho soldado atarracado, que segurava a carabina pela baioneta. Ao acabar de beber, o desertor passeou um olhar cansado pelas caras dos soldados que o observavam sem cerimónia, e um lampejo duro incendeu-lhe bruscamente os olhos azuis e simples como os de uma criança.

 

Rapidamente engoliu a última golada, lambeu os lábios, e bradou, numa voz de baixo, sem hesitações:

 

Isto diverte-os? Não me podem deixar comer em sossego, súcia de safados? Nunca viram um homem, se calhar!

 

Os soldados desataram a rir. Mas, mal ouviu a voz do desertor, Petro lembrou-se de repente, com surpreendente precisão, como é frequente acontecer, que aquele homem era da aldeia de Rubéjine, da stanitsa de Elánsskaia, e que se chamava Fómine. Antes da guerra, na feira anual de Elánsskaia, Pedro e o pai tinham regateado com ele um toiro de três anos.

 

Fómine! lakov! gritou ele, abrindo passagem, direito ao outro.

 

com um gesto desastrado e confuso, este pousou a vasilha em cima da cuba; e, continuando a mastigar, fixou Petro com ar perplexo e disse:

 

Não te reconheço, irmão...

 

Não és de Rubéjine?

 

Sou. E tu és por acaso de Elánsskaia?

 

Não.   Sou   de   Viochénsskaia.   Mas recordo-me   de   ti. Juntamente com o meu pai, há cinco anos, regateei um toiro contigo.

 

Sempre com o mesmo sorriso contrafeito e infantil, Fómine tentava visivelmente lembrar-se.

 

Não, não tenho ideia... Não te reconheço enunciou ele, com evidente pena.

 

Eras do 52?

 

Era.

 

E fugiste? Como foi isso possível, irmão?

 

Fómine tirou o gorro de pele, e de dentro dele uma bolsinha de tabaco, toda amachucada; depois curvou-se, enfiou devagar o gorro debaixo de um braço, rasgou um pedaço de papel para enrolar um cigarro, e, fixando finalmente em Petro um olhar grave e húmido, tornou-lhe em voz quase imperceptível:

 

Eu já não podia aguentar mais aquilo, irmãozinho...

 

Aquele olhar perturbou Petro, que tossicou e se pôs a mordiscar o bigode loiro.

 

Vamos lá, rapazes, acabem com a conversa, que não estou para arranjar alguma chatice por causa de vocês suspirou o robusto soldado que guardava o preso, pondo a carabina ao ombro. Anda daí, paizinho!

 

Fómine encafuou à pressa a sua vasilha na sacola, despediu-se de Petro sem olhar para ele, e partiu para o comissariado da estação, num passo pesado como o de um urso.

 

Na sala que havia sido o bufete da estação, o coronel e dois comandantes de esquadrão estavam curvados sobre uma mesinha.

 

Fizeste-nos esperar, Melekhov atirou o coronel, semicerrando com fadiga os olhos ruins.

 

Petro foi informado de que o esquadrão dele ficava dependente do Estado-Maior da Divisão, e que a ele lhe incumbia vigiar cuidadosamente os seus homens, e informar o comandante do esquadrão de todas as mudanças que notasse no comportamento deles. Sem pestanejar, encarava o coronel nos olhos, enquanto o escutava com atenção; mas o olhar húmido e a voz tranquila de Fómine não lhe saíam da memória: «Eu já não podia aguentar mais aquilo, irmãozinho. »

 

Saiu da sala quente e húmida e encaminhou-se para o seu esquadrão. O comboio do regimento estava também na estação. Ao chegar perto do seu vagom, e ao ver os homens do comboio e o ferrador do esquadrão, a recordação de Fómine e da conversa com ele dissipou-se-lhe. Estugou o passo para ir falar ao ferrador, a lembrar-lhe que lhe ferrasse o cavalo (de novo enredado nas suas preocupações e cuidados quotidianos), quando viu surgir de detrás de um dos vagons vermelhos uma mulher elegantemente toucada de uma mantilha de pelúcia branca e vestida de modo diferente das mulheres da região. Aquela figura estranhamente familiar, fê-lo olhá-la melhor. De súbito, a mulher virou-se para ele e caminhou-lhe ao encontro, baloiçando de leve os ombros e o busto esbelto, menos um busto de mulher que de rapariga. Sem lhe distinguir ainda bem a cara, pelo andar leve e ondulante Petro reconheceu a sua própria mulher. Alvoroçou-se-lhe agradavelmente o coração. A alegria dele era tanto maior quanto menos esperada. Dirigiu-se para ela, de propósito retardando o passo, para que os soldados do comboio, que o observavam, lha não notassem. Demoradamente abraçou a mulher, beijou-a três vezes, e dispunha-se a perguntar-lhe qualquer coisa, quando a comoção o venceu, e os lábios se lhe puseram a tremer, mal o deixando falar.

 

Não te esperava... pronunciou ele finalmente, gaguejando.

 

Meu querido! Como tu estás mudado!...disse Daria, juntando as mãos. Não pareces o mesmo... Como vês, vim saber notícias   tuas...   A família   não queria deixar-me vir: «Nunca se sabe o que pode suceder...» Mas eu disse que vinha mesmo, que vinha ver como estava o meu querido... E fazia um grande alarido, cerrando-se muito contra ele, e fitando-lhe os olhos com os olhos húmidos.

 

Rodeava-os uma multidão de soldados, que tossicavam, se entreolhavam maliciosamente, mas se sentiam desamparados.

 

Tem sorte, o Petro.

 

A minha loba é que não vem. Nem ela tem mais nada que fazer!

 

Sem mim, homens em casa tem a minha os que quer!

 

O Melekhov bem podia emprestar a mulher ao pelotão por uma noitezinha... À míngua como andamos!... Ah!

 

Vamo-nos embora, rapazes! Só de a ver agarrada a ele, até podemos dar um estoiro!

 

Esquecido da intenção de lhe dar uma sova mestra, Petro acariciava-a diante de todos, passava-lhe um polegar queimado do tabaco pelas belas sobrancelhas arqueadas, a estalar de contente. E também Daria já se não lembrava de que duas noites antes dormira numa carruagem com um veterinário de um regimento de dragões, que com ela viajava desde Kharkov, a caminho da sua unidade. Esse veterinário tinha um bigode extremamente preto e sedoso. Mas aquilo passara-se havia duas noites. E agora ela beijava o marido com lágrimas de sincera alegria, e era com um olhar claro e franco que o fitava.

 

De volta da licença, o capitão Evguéni Lisstnítzki foi incorporado no 14.º Regimento dos Cossacos do Don. Em vez de regressar ao seu regimento, de que tivera vergonhosamente de fugir antes da revolução de Fevereiro, dirigiu-se ao Estado-Maior da Divisão, cujo comandante, um jovem general, pertencente a uma família da alta nobreza cossaca, lhe arranjou com facilidade aquela mudança.

 

Eu sei, capitão disse ele a Lisstnítzki, a sós com ele, no seu gabinete , que lhe seria difícil manter-se na sua antiga unidade, porque os cossacos estão irritados contra si. O seu nome não lhes é simpático. É evidentemente mais razoável ir para o 14.º Regimento. Há lá um grupo de oficiais excepcional, e os cossacos são lá mais seguros, menos contaminados: pertencem na sua maioria às stanitsas do sul da circunscrição de Usst-Medvéditzkaia. Estará lá melhor O senhor é o filho de Nikolai Alekcêievitch Lisstnítzki, não é assim? perguntou o general, após um momento de silêncio; e, obtida resposta afirmativa, prosseguiu: No que me diz respeito, posso declarar-lhe que me agradam os oficiais como o senhor. Actualmente, os próprios oficiais jogam na sua maioria com pau de dois bicos. Não há nada mais fácil que mudar de ideias, ou servir dois deuses ao mesmo tempo . terminou ele, com amargor

 

Lisstnítzki sentia-se muito feliz daquela mudança. No próprio dia partiu para Dvinssk, onde estava o 14.º Regimento; vinte e quatro horas depois apresentava-se ao coronel Bikadórov, que comandava o regimento, e verificava com satisfação a justeza das palavras do chefe do Estado-Maior: os oficiais eram quase todos monárquicos; os cossacos, um terço dos quais eram velhos-crentes, originários principalmente das stanitsas de Usst-Khopérsskaia, Kumiljénsskaia e Glazunóvsskaia, estavam longe de ter qualquer espírito revolucionário, tendo prestado de má vontade juramento ao Governo Provisório e não compreendendo nada nem querendo compreender dos acontecimentos que em torno deles referviam: o Conselho do Regimento e os Conselhos dos Esquadrões eram compostos por cossacos servis e sossegados... Lisstnítzki estava contente no seu novo meio.

 

Entre os oficiais, foi encontrar dois dos seus camaradas do regimento Atamánsski, que se mantinham à parte; os outros eram excepcionalmente unidos e unânimes, e abertamente falavam em restaurar a dinastia.

 

Cerca de dois meses o regimento se conservou em descanso em Dvinssk, em que foi reposto sob um comando único. Até ali, os seus esquadrões tinham sido muitas vezes incorporados numa ou noutra divisão de infantaria, tão depressa num sítio como noutro, ao longo da frente de Dvinssk a Riga, até que em Abril uma mão previdente os reunira; agora, o regimento estava pronto a entrar em acção. Estreitamente vigiados pelos oficiais, os cossacos faziam os seus exercícios, davam de comer aos seus cavalos, viviam uma vida de caracol, pautada, isolada de qualquer influência exterior.

 

As suposições que entre eles corriam acerca do seu destino eram confusas; os oficiais, por ”seu lado, diziam abertamente que o regimento não tardaria, guiado por certa mão muito firme, em alterar o curso da História.

 

A frente estava próxima. Os exércitos, sem munições nem mantimentos, sentiam-se tomados de uma febre mortal estendendo as suas mãos inúmeras para a ideia fantasmagórica da paz; nem todos acolhiam do mesmo modo o chefe do Governo Provisório, Kerénsski; apesar do estímulo dos seus gritos histéricos, falharam na ofensiva de Junho; como a água de uma fonte profunda, uma violenta cólera subia neles...

 

Entretanto, em Dvinssk, os cossacos viviam plàcidamente; os estômagos dos cavalos iam digerindo as rações; e das próprias memórias a lembrança do que haviam sofrido na frente dissipava-se-lhes; os oficiais reuniam-se com frequência, comiam bem, e ardorosamente discutiam a sorte da Rússia.

 

Até aos primeiros dias de Julho assim foi. Mas em 3 de Julho, chegou a ordem de partida imediata, e o regimento embarcou em direcção a Petrogrado. A 7 de Julho, as ferraduras dos cavalos ressoavam já nos pavimentos de madeira das ruas da capital.

 

O regimento instalou-se na Perspectiva Névsski. O esquadrão de Lisstnítzki foi aquartelado num armazém comercial desocupado. O cuidado posto pelas autoridades da capital em arranjar os locais a eles destinados testemunhava bem a impaciência e a alegria com que eram esperados os cossacos. As paredes caiadas de fresco luziam, os pavimentos lavados estavam num brinco, as tarimbas novas, de pinho, cheiravam a resina; a cave limpa e clara tinha um aspecto quase confortável. Franzindo o nariz sob as lunetas, Lisstnítzki examinou tudo com atenção, reparou na brancura ofuscante das paredes, e concluiu não haver nada a dizer. Satisfeito da sua inspecção, dirigia-se para a porta que dava para o pátio, juntamente com um representante da administração municipal, um homem baixo, bem posto, encarregado de receber os cossacos, quando surgiu um incidente desagradável: ao pousar a mão na aldraba, viu na parede um desenho executado por mão de mestre, representando uma cabeça de cão mostrando os dentes, e uma vassoura. Os operários que ali haviam trabalhado deviam saber perfeitamente a quem aquele desenho se destinava...

 

Que é isto? perguntou Lisstnítzki, de sobrancelhas tremendo-lhe, ao funcionário que o acompanhava.

 

Este fitou o desenho com os seus olhos cinzentos e vivos, e fungou medonhamente. O sangue afluiu-lhe com tal intensidade à cara, que o próprio colarinho de goma pareceu rosar-se-lhe...

 

Desculpe, senhor oficial...   Qualquer mão mal-intencionada...

 

Espero que não fosse do seu conhecimento estar aqui o emblema da Oprítchina (12).

 

Como? Como? Ora, por favor!... Isto é uma partida dos bolcheviques... O patife que se atreveu a fazer isto!... Vou já dar ordem para se pintar de novo a parede. A mim mesmo pergunto...   Desculpe... É um incidente estúpido... Acredite que estou envergonhado desta baixeza...

 

Lisstnítzki tomou-se de uma pena sincera por aquele insignificante civil, tão perturbado. Adoçou o olhar impiedosamente frio e disse:

 

Houve um errozinho de cálculo do artista: é que os cossacos não conhecem a história da Rússia. Em todo o caso, não se pode dizer que seja encorajador este acolhimento.

 

com as suas unhas bem tratadas, erguido nos bicos dos pés contra a parede, o funcionário esgaravatou o desenho feito na cal, levantando uma fina poeira branca que lhe sujou o fato de boa fazenda inglesa. A limpar as lunetas, Lisstnítzki sorria; mas o que naquele instante sentia era uma amarga tristeza.

 

«Aqui está como nos recebem, e que é o reverso do que nos mostram!... Mas se fosse verdade que aos olhos da Rússia inteira nós assumíssemos a imagem da Oprítchina?» cogitava ele, ao atravessar o pátio para visitar as cavalariças, desatento e indiferente ao que lhe dizia o funcionário que atrás dele trotava.

 

Os raios do sol caíam a prumo no poço vasto e profundo do pátio. Pessoas debruçadas das janelas dos prédios altos da vizinhança observavam os cossacos,-que enchiam o pátio e conduziam os cavalos para a cavalariça; os que já estavam

 

(12) Força policial, criada por Ivane o Terrível, para assegurar a defesa do regime contra os boiardos, e que deixou na Rússia uma negra recordação.

 

despachados encostavam-se à parede, de cócoras ou de pé, aos grupinhos, à sombra.

 

Porque não vão vocês lá para dentro, rapazes? atirou-lhes Lisstnítzki.

 

Temos tempo, meu capitão.

 

Tanto nos aborrecemos nós lá como aqui.

Em os cavalos estando todos arrumados, iremos. Lisstnítzki passou em revista o depósito transformado em cavalariça e disse em tom severo, esforçando-se por tratar com a dureza inicial o funcionário que o acompanhava:

 

Dirija-se a quem de direito para se mandar abrir aqui uma porta mais. O senhor bem vê que não nos chegam duas portas para vinte cavalos. Em caso de alerta, precisávamos de meia hora para os pôr cá fora   . É incrível. Não podiam ter pensado nisso mais cedo? Vou ser obrigado a informar do caso o coronel.

 

Obtida a garantia de que, não uma, mas duas novas portas seriam abertas ainda naquele mesmo dia, Lisstnítzki despediu-se do funcionário, agradecendo-lhe com secura o incómodo que tivera, deu instruções sobre o serviço da guarda, e subiu ao primeiro andar, que servia de alojamento aos oficiais. Enquanto subia pela escada de serventia, desabotoou o dólman e pôs-se a enxugar o suor que lhe escorria pela testa; e foi com prazer que, chegado ao cimo, sentiu o frescor levemente húmido dos quartos. A não ser o capitão Atarchtchíkov, não estava lá ninguém.

 

Onde estão os outros? inquiriu Lisstnítzki, estirando-se sobre a cobertura da cama de campanha, e afastando pesadamente as pernas, enfiadas nas suas botas poeirentas.

 

Saíram. Andam a ver Petrogrado.

 

E tu?

 

Ora! Acho que não vale a pena. Mal chegámos, já estão todos na cidade. Eu estava a ler o que se passou nestes últimos dias. É interessante.

 

Lisstnítzki continuava deitado, agora sem dizer palavra; a camisa encharcada em suor, ao arrefecer-lhe nas costas, dava-lhe uma sensação agradável; fatigado da viagem, faltava-lhe a coragem de se levantar e ir lavar-se. Por fim, com um esforço de vontade saltou da cama, e demoradamente se lavou, resfolegando de felicidade.

 

Vai-te lavar, Vânia aconselhou ele a Atarchtchíkov, enquanto esfregava com uma toalha esfiampada o pescoço gordo, marcado pelo sol. Ficas mais bem disposto... E os jornais que dizem?

 

Realmente, talvez me devesse ir lavar. Ficava mais bem disposto, dizes tu?... Que dizem os jornais? Relatam a manifestação dos bolcheviques, as medidas do governo... Lê.

 

Retemperado pela lavagem, Lisstnítzki ia pôr-se a ler, quando o coronel o mandou chamar. Tornou a erguer-se, contrariado, enfiou um dólman limpo, que cheirava a sabão, amarrotado ainda da mala, cingiu o sabre e saiu. Atravessou para o outro passeio da avenida, e virou-se para ver o edifício em que o esquadrão estava aquartelado. Exteriormente, em nada se distinguia dos outros, alinhado com eles, com os seus quatro andares e a sua fachada de pedra cinzenta e porosa. Acendeu um cigarro, e lentamente seguiu passeio fora. Via-se uma multidão de chapéus de palha e de coco, de bonés, de chapéus de senhora, uns elegantes, outros de uma simplicidade procurada. E de longe em longe, no meio daquele mar, um boné de soldado punha uma nota democrática, para logo desaparecer, sorvido pelas ondas multicolores.

 

Uma brisa fresca e estimulante soprava do mar em baforadas que embatiam nas massas enormes dos edifícios, e se espalhavam desigualmente em correntes húmidas. No céu de uma palidez de aço azulado, as nuvens vogavam para o sul, de orlas leitosas eriçadas de dentes pontiagudos. Um calor viscoso, anunciador de chuva, envolvia a capital. Cheirava a asfalto quente, a gasolina queimada, ao mar próximo, aos perfumes das mulheres, indefiníveis e embriagantes, e àquela mistura confusa de cheiros vários, característica das grandes cidades.

 

Lisstnítzki caminhava devagar, a fumar, pelo passeio da direita, de espaço a espaço reparando no olhar respeitoso de algum transeunte. A princípio sentira um certo constrangimento, pelo seu dólman amarrotado e o seu boné sujo, mas acabou por dizer de si para consigo que um combatente não tem que se envergonhar do seu aspecto, e muito menos ele, que havia pouco saíra do comboio.

 

Os toldos que cobriam as portas das lojas e dos cafés projectavam no passeio manchas preguiçosas de sombra amarela-esverdeada. O vento agitava-lhes os panos queimados do sol, a par se lhes movendo e lacerando as sombras do passeio, sob os passos arrastados das pessoas. Embora já tivesse passado a hora do almoço, a avenida fervilhava de gente. Lisstnítzki, a quem os anos de guerra haviam desabituado da cidade, deixava-se invadir com delícia pelo rumor das vozes entrecortadas de risos, das buzinas dos automóveis, dos gritos dos vendedores de jornais; no meio daquela multidão bem vestida e bem nutrida, sentia-se entre os seus; no entanto, pensava:

 

«Como vocês todos hoje, comerciantes, corretores de câmbios, funcionários de todas as categorias, proprietários, nobres, estão contentes, alegres, felizes! Mas que diziam vocês há três ou quatro dias? Que ar teriam quando o populacho e a soldadesca corriam como um metal em fusão, aqui mesmo, nesta avenida, e por essas ruas? Em consciência, sinto-me contente e não me sinto contente de os ver. E não sei se hei-de regozijar-me da vossa satisfação...»

 

Tentou analisar o seu sentimento contraditório, perscrutar-lhe as origens, e sem custo chegou à conclusão de que, se pensava e sentia assim, era porque a guerra, com tudo o que nela havia sofrido, o afastara daquela massa de pessoas ditosas e bem alimentadas.

 

«Aquele rapaz de aspecto farto, por exemplo», pensou ele de um jovem gordo, sem bigode, de bochechas vermelhas «porque não estará na frente de batalha? É com certeza filho de algum industrial ou de algum bonzo do comércio, safou-se ao serviço militar, o malandro, está-se nas tintas para a pátria, ”trabalha em prol da defesa nacional”, engorda, tem as mulheres que quer...»

 

«Mas com quem estás tu, afinal?» acabou ele por perguntar a si próprio, e a si próprio respondeu, sorrindo: «Está visto que estou com estes! Há neles uma parcela de mim, do mesmo modo que eu sou uma parcela deles... Tudo o que neles existe de bom e de mau em mim existe também, mais ou menos. Talvez eu tenha a pele mais fina que aquele porco a abarrotar de sopa, e é porventura por isso que reajo mais dolorosamente a tudo, e por isso com certeza que honradamente combato na guerra, em vez de ”trabalhar em prol da defesa nacional”, e por isso também que este Inverno, em Moguilev, quando vi o deposto imperador deixar, de automóvel, o Quartel-General, com os seus lábios tristes, a sua mão impotente pousada num joelho, daquele modo inexprimível, pungente, caí sobre a neve a soluçar como um garoto... Não, honestamente, não aceito a revolução, não posso aceitá-la. O meu coração e a minha razão opõem-se a que a aceite... Ofereceria a minha vida pelo antigo regime, dá-la-ia sem hesitação, sem prosápia, com simplicidade, como soldado que sou. Haverá muitos que a isto estejam prontos?»

 

com uma nitidez extrema, perturbadora, empalidecendo, recapitulou aquele colorido fim de dia de Fevereiro, a cara do governador de Moguilev, a grade de ferro fundido coberta de geada, e, por trás da grade, a neve que o sol baixo, um pouco velado, salpicava de manchas escarlates. Por detrás da margem inclinada do Dniepr, o céu laivava-se de azul, de vermelho, de oiro-velho, e o horizonte era tão impalpável, tão aéreo, que era doloroso tocar-lhe com o próprio olhar. Em frente da entrada, havia um grupinho de personalidades do Quartel-Gfeneral, militares, funcionários... Um automóvel fechado saiu. Através do vidro adivinhavam-se Fredericks e o tsar, este tombado contra o espaldar do assento. A cara dele, escavada, tinha como que um tom violáceo O hemiciclo da borda do gorro de pele negra dos cossacos da Guarda cortava-lhe de través a testa pálida.

 

Lisstnítzki corria agora quase por entre as pessoas, que o fitavam com expressão admirada. Os olhos dele viam a mão do tsar caindo da borda do gorro negro, no gesto de continência, e aos ouvidos acudia-lhe de novo o rumor leve do automóvel e o silêncio humilhante da multidão, que sem uma palavra deixava partir o último imperador...

 

com lentidão subiu a escada da casa em que o Estado-Maior do Regimento se havia instalado. As bochechas ainda lhe tremiam, e nos olhos inchados e vermelhos tinha ainda lágrimas. No patamar do primeiro andar, fumou dois cigarros de enfiada, limpou as lunetas, e subiu ao segundo andar, galgando os degraus a dois e dois.

 

O coronel designou-lhe, numa planta de Petrogrado, o sector em que o esquadrão dele tinha de guardar os edifícios oficiais, enumerou-lhos, indicou-lhe com toda a minúcia em que pontos e em que ocasiões devia postar ou recolher as sentinelas, e acabou por estas palavras:

 

No Palácio de Inverno, onde vive Kerénsski

 

Não me fale de Kerénsski!... retorquiu Lisstnítzki em voz surda, pálido como um morto.

 

Evguéni Nikoláievitch, tem de se dominar...

Meu coronel, peço-lhe o favor...

 

Mas, meu caro...

 

Tenha paciência!... Os seus nervos...

 

As patrulhas para a fábrica Putilov, quer que as mande imediatamente? inquiriu Lisstnítzki, respirando a custo.

 

O coronel mordeu os lábios, sorriu, encolheu os ombros, e respondeu:

 

Sim, imediatamente. E sob o comando de um oficial. É indispensável.

 

Lisstnítzki deixou o Estado-Maior moralmente vazio, oprimido pelas suas recordações e pela conversa com o coronel. Já perto do edifício em que o esquadrão dele estava aquartelado, encontrou uma patrulha do 4.º Regimento dos Cossacos do Don, de guarnição em Petrogrado. Umas flores murchas pendiam tristemente das rédeas do cavalo baio do oficial, que sorria por entre o bigode loiro.

 

Vivam os salvadores da pátria! gritou um senhor velho, exaltado, que desceu do passeio, a agitar o chapéu.

 

Amavelmente, o oficial levou a mão à pala do boné. A patrulha meteu a trote. Lisstnítzki olhou a face do senhor que vitoriara os cossacos, os seus lábios húmidos, o nó composto da sua gravata, e rapidamente enfiou pelo portão, bruscamente vergado e de feições crispadas.

 

A nomeação do general Kornilov para o posto de comandante-chefe da frente do sudoeste foi acolhida com grande satisfação pelos oficiais do 14.º Regimento. Dele falavam com estima e respeito, como de um homem de têmpera de ferro, capaz de fazer sair o país da situação em que o Governo Provisório o havia mergulhado.

 

Disto se mostrava Lisstnítzki particular entusiasta. Por intermédio dos oficiais do seu esquadrão e de alguns soldados que conhecia bem, procurou saber como tinham os cossacos recebido aquela nomeação. As informações que colheu não lhe deram, porém, prazer nenhum. Os cossacos ou não diziam nada, ou limitavam-se a respostas dúbias:

 

Para nós, tanto faz assim como assado...

 

Alguém sabe quem ele seja?...

 

Se ele fizer alguma coisa em favor da paz, então, está claro...

 

Quem não ganha nada com a promoção dele somos nós...

 

Alguns dias mais tarde, correram entre os oficiais, que tinham relações com certos círculos civis e militares da capital, rumores insistentes de que Kornilov fazia pressão sobre o Governo Provisório para conseguir o restabelecimento da pena de morte na frente de batalha e a aplicação de múltiplas medidas de que dependiam a sorte do exército e o desfecho da guerra. Dizia-se que Kerénsski tinha medo de Kornilov e que, sem dúvida, tudo faria para o substituir no comando da frente do sudoeste por um general mais maleável. E citavam-se os nomes de alguns generais conhecidos nos meios militares.

 

Em 19 de Julho, a decisão governamental de nomear Kornilov comandante supremo surpreendeu toda a gente. Pouco depois, o capitão Atarchtchíkov, que tinha grandes relações com a Comissão Directiva da União dos Oficiais, contou, fundamentado em informações absolutamente fidedignas, que, num memorial destinado a ser apresentado ao Governo Provisório, Kornilov insistia na necessidade de se promulgarem as medidas seguintes: estabelecimento em todo o território, inclusivamente para as tropas da retaguarda e para a população civil, de tribunais militares de campanha e aplicação da pena de morte; restabelecimento do poder disciplinar dos comandantes militares; limitação estreita da actividade das comissões dentro das unidades militares; e assim por diante.

 

Na noite desse mesmo dia, no decurso de uma conversa com os oficiais do seu e de outros esquadrões, Lisstnítzki apresentou com clareza o problema: quem estavam eles dispostos a seguir?

 

Senhores oficiais disse ele com contida comoção , nós constituímos uma família unida. Sabemos o que cada um de nós representa; mas, até agora, ainda não foram esclarecidas entre nós muitas questões fundamentais. Hoje, que vemos esboçar-se nitidamente um conflito entre o Alto-Comando e o Governo, a nós próprios devemos perguntar, francamente, com quem estamos e por quem somos. Falemos, pois, como camaradas, sem subterfúgios.

 

O capitão Atarchtchíkov foi o primeiro a responder.

 

Pelo general Kornilov, estou pronto a verter o meu sangue e o dos outros! É um homem de uma pureza de cristal e o único capaz de endireitar a Rússia. Vejam o que ele faz no exército! Graças a ele é que os chefes militares voltam a ter em parte liberdade de acção; antes, o que vigorava eram o poder absoluto das comissões, a confraternização, as deserções. Não há discussão possível: todos os homens honrados estão com Kornilov.

 

Atarchtchíkov falava com calor. As pernas dele eram delgadas, o peito desmedidamente desenvolvido, os ombros largos. O caso apaixonava-o visivelmente. Ao acabar, relanceou os oficiais reunidos à volta da mesa, e bateu com um cigarro na cigarreira, à espera de réplica. Tinha na pálpebra inferior direita uma excrescênciazinha castanha, que lhe impedia de fechar completamente o olho, e parecia, a quem o via pela primeira vez, que o olho lhe sorria constantemente, com expressão de condescendência e de desafio.

 

Se tem de se escolher entre os bolcheviques, Kerénsski e Kornilov, então é evidente que somos por Kornilov.

 

É difícil saber o que Kornilov quer: simplesmente restabelecer a ordem na Rússia, ou instaurar qualquer outra coisa...

 

Isso não é uma resposta a uma questão de princípio!

 

Ai isso é que é!

 

Pois se é uma resposta, não é inteligente.

 

Que receia, tenente? A restauração da monarquia?

 

Não só não a receio, como, pelo contrário, a desejo.

 

Onde está, então, a dúvida?

 

Meus senhores começou em voz surda e rouca Dolgov, antigo sargento, promovido havia pouco a tenente em combate , porque são essas discussões? Pensem antes que nós, os cossacos, nos devemos agarrar ao general Kornilov como uma criança às saias da mãe. E sem pensamentos reservados, com toda a franqueza. Se nos arredarmos dele, estamos perdidos. A Rússia atira connosco para uma estrumeira. O caso é claro: para onde quer que ele vá, iremos nós.

 

É assim mesmo!

 

Atarchtchíkov deu uma palmada de aplauso num ombro de Dolgov e fixou em Lisstnítzki os olhos risonhos. Este, sorridente, comovido, alisava nos joelhos as rugas das calças.

 

Então, senhores oficiais, atamanes? exclamou Atarchtchíkov, em voz forte. Somos por Kornilov?

 

Naturalmente que sim!

 

Dolgov cortou o nó górdio.               

 

Todos os oficiais estão com ele.

Não serei eu a excepção!

Pelo nosso   estimado Lavr   Gueórguievitch Kornilov, cossaco e herói, hurrá!

 

A rir, os oficiais tocaram com os copos uns nos outros e beberam o chá. Toda a tensão havia desaparecido. Agora, a conversa girava em torno dos acontecimentos dos últimos dias.

 

-Todos nós somos partidários do general, mas os cossacos hesitam...observou Dolgov, pouco seguro.

 

Como é que «hesitam?» ripostou Lisstnítzki.

 

-Hesitam. O facto é esse... Querem voltar para casa, os safados, para junto das mulheres... Estão fartos desta vida pouco amena .

 

O nosso papel é arrastar os nossos homens connosco! E o tenente Tchernokútov deu uma punhada na mesa. Arrastá-los! Não é para mais nada que usamos galões de oficiais.

 

Temos que explicar-lhes com paciência a quem é do interesse deles que sigam.

 

Lisstnítzki bateu com a colherinha no copo dele, e, obtida a atenção dos outros, atirou, acentuando bem as palavras:

 

Peço-lhes licença para lhes lembrar, meus senhores, que o nosso trabalho deve consistir agora, como disse Atarchtchíkov, em explicar aos cossacos a situação real. Precisamos de os arrancar à influência das comissões. Isso exige um rompimento com os nossos hábitos, tão considerável, se é que não mais, que o suportado, digamos, pela maioria de nós, a seguir à revolução de Fevereiro. Antigamente, em 16, por exemplo, eu podia bater num cossaco, e tudo a que me arriscava era a apanhar um tiro pelas costas no decurso de um combate; a seguir a Fevereiro, teve de se recuar: se eu batesse num imbecil qualquer, ali mesmo, na trincheira, ele me podia matar, sem esperar por ocasião mais propícia. Actualmente, as coisas são outras ainda. Temos e Lisstnítzki acentuou a palavra de confraternizar com os cossacos. Tudo depende disto. Sabem os senhores o que se passa neste momento no 1.º e no 4.º Regimentos?

 

Isso é um pesadelo!

 

É esse o termo: um pesadelo! prosseguiu Lisstnítzki.

 

Os oficiais não abateram o velho muro que os separava dos respectivos homens, e o resultado é que os cossacos caíram sem excepção sob a influência dos bolcheviques, e em bolcheviques se tornaram noventa por cento deles. Está visto que também nós estamos ameaçados de acontecimentos terríveis... Os dias 3 e 5 de Julho não passaram de um aviso severo para todos os despreocupados. Por isso, ou nos batemos em apoio de Kornilov, contra as tropas da democracia revolucionária, ou os bolcheviques continuarão a juntar forças, a alargar a sua influência, e desencadearão uma nova revolução. Nesta altura, sem cuidar de mais nada, juntam eles todas as forças que podem; e entre nós é um pagode... Será isso admissível? O certo é que os cossacos leais podem representar um papel importante durante os abalos que se anunciam...

 

Sem homens, evidentemente, somos menos que nada suspirou Dolgov.

 

Tem razão, Lisstnítzki!

 

Tem mesmo muita razão.

 

A Rússia está à beira de um abismo...

 

Julgas tu que não   compreendemos isso? Compreendêmo-lo. O que não temos, por vezes, é força para fazer o que quer que seja. A «Ordem N.º i» e a «Pravda das Trincheiras» (13) fazem a sua sementeira.

 

E nós admiramos os rebentos que crescem, em lugar de os cortarmos e queimarmos! exclamou Atarchtchíkov.

 

Não, não admiramos. O que não temos é força bastante.

 

Isso não é verdade! O que somos é negligentes.

 

Prove-o.

 

Serenidade, meus senhores!

 

A redacção da «Pravda» foi assaltada... Kerénsski não tem o sentido da oportunidade...

 

Mas que é isto? É uma feira, ou quê? Isto não pode ser!

 

Gradualmente, aquela gritaria absurda foi-se atenuando. Um comandante de esquadrão, que havia escutado Lisstnítzki com marcado interesse, pediu silêncio.

 

Proponho que se dê ao capitão Lisstnítzki a possibilidade de exprimir por inteiro o seu pensamento.

 

Ele que fale, então.

 

Esfregando com as mãos os ângulos agudos dos joelhos, Lisstnítzki reatou:

 

Penso eu que nessa altura, quero dizer por ocasião dos combates futuros, na guerra civil, convencido como estou agora de que ela é inevitável, teremos necessidade de cossacos leais. Temos de lutar e arrancar os cossacos à influência das comissões que gravitam em torno dos bolcheviques. É isto uma necessidade vital. Os senhores sabem perfeitamente que, no caso de novas perturbações, os oficiais do 1.º e do 4.º Regimento serão fuzilados pelos seus homens...

 

Isso é evidente.

 

(13) A «Ordem N.º i», de i de Março de 1917, da Comissão Executiva do Soviete de Petrogrado, preconizava organizações electivas nas unidades militares e a fiscalização por elas da actividade dos antigos quadros do exército csarista. A «Pravda das Trincheiras», criada no mesmo ano, era o quotidiano bolchevique de propaganda revolucionária no exército.

 

Não hesitarão mesmo nada.

 

... Precisamos de tirar todas as ilações da experiência deles, devemos dizer que amarga. Aos cossacos do 1.º e do4.º Regimentos, se é que se pode ainda chamar cossacos àquilo, há que enforcar um em cada dois, ou, talvez, executá-los a todos... Temos de arrancar a erva ruim. Preservemos, portanto, os nossos cossacos de erros que se arrisquem a ter de pagar mais tarde.

 

A seguir a Lisstnítzki, tomou a palavra o comandante de esquadrão que o havia escutado com uma atenção vivíssima. Velho oficial do activo, que servia no regimento havia nove anos e fora ferido quatro vezes, disse quanto era penoso antes o serviço. Os oficiais cossacos eram relegados para segundo plano, faziam-lhes a vida num inferno, e as promoções eram para eles difíceis, não indo a maioria além de tenente-coronel. Na opinião dele, isto explicava a inércia dos comandantes cossacos no momento da queda da monarquia. No entanto, em seu entender, devia-se apoiar Kornilov e estabelecer com ele contactos mais estreitos, por intermédio da União dos Oficiais.

 

A salvação dos exércitos cossacos está em Kornilov se tornar ditador. com ele, estaremos talvez melhor que com o Tsar.

 

Já passava muito da meia-noite. Uma noite esbranquiçada envolvia a cidade no seu véu de nuvens desgrenhadas. Através da janela, via-se a flecha escura do Almirantado e um oceano de luzes amarelas.

 

Os oficiais continuaram a conversar até ao amanhecer. Decidiram organizar, três vezes por semana, conversas com os cossacos sobre temas políticos, e recomendar aos comandantes de pelotão que promovessem exercícios quotidianos de ginástica, para ocuparem o tempo livre e arrancar o espírito dos cossacos à atmosfera corrupta da política.

 

Por despedida, cantaram em coro o «Cresce e agita-se o ortodoxo Don tranquilo», e beberam o décimo samovar, entre’chocando os copos em saúdes fantasistas. Mas, no momento em que iam separar-se, após ter trocado a meia voz algumas palavras com Dolgov, Atarchtchíkov bradou:

 

Para sobremesa, vamos-lhes cantar uma velha canção cossaca. Silêncio, façam favor! E abram a janela, que está aqui uma fumaceira terrível.

 

A princípio, as duas vozes, a de baixo, forte e áspera, de Dolgov, e a de tenor, doce e agradável, de Atarchtchíkov, não acertaram uma com a outra, cada qual cantando no seu ritmo, mas não tardou que poderosamente se casassem numa melodia de uma irresistível beleza.

 

... É altivo o nosso Don, o Don tranquilo, nosso pai. Não se dobrou aos muçulmanos,

 

nem a Moscovo pediu que a viver o ensinasse. Aos turcos saudou-os sempre, com os sabres afiados no pescoço...

 

Ano atrás de ano, a planície nossa mãe,

   Pela pura Mãe de Deus e a nossa fé,

   E pelo nosso livre Don de ondas mugindo, chama à luta contra os nossos inimigos.

 

De dedos cruzados nos joelhos, Atarchtchíkov mantinha-se sempre num tom alto, sem se atrapalhar nunca com as variações da potente voz grave de Dolgov; a expressão dele tinha uma seriedade desabitual; e só no fim Lisstnítzki lhe apercebeu uma lagriminha brilhante e fria no rebordo das pálpebras trigueiras.

 

Depois de os oficiais dos outros esquadrões terem abalado, e de os que haviam ficado se disporem a ir-se deitar, Atarchtchíkov foi sentar-se na cama de campanha de Lisstnítzki, e, esticando para a frente os suspensórios azuis, desbotados, murmurou:

 

Compreendes, Evguéni... Eu amo apaixonadamente o Don e toda a vida cossaca, afeiçoada por séculos e séculos. Quero aos meus cossacos, amo as mulheres cossacas: a tudo isso eu amo. O cheiro do absinto da estepe dá-me vontade de chorar... O mesmo acontece quando os girassóis florescem, e cheira às vinhas molhadas pela chuva, nas margens do Don... Tudo isso eu o amo profundamente, até à dor... estás a compreender-me?... E por isso a mim pergunto: não estaremos nós a preparar-nos para enganar os cossacos? Será este o caminho que a eles convém?...

 

Que queres tu dizer? inquiriu Lisstnítzki, atento.

 

O pescoço bronzeado de Atarchtchíkov erguia-se-lhe, grácil e impressionante de juventude, da gola da camisa branca. A pálpebra azulada caía-lhe pesadamente sobre a verruga castanha; Lisstnítzki via-lhe, de perfil, o brilho húmido do olho semicerrado.

 

Cogito eu: é isto útil para os cossacos?

 

E que seria então útil para eles?

 

Não sei .. Mas porque se afastam eles assim, espontaneamente, de nós? A revolução separou-nos, literalmente, como ao trigo do joio; dir-se-ia que os nossos interesses divergem.

 

É que começou com cuidado Lisstnítzki a nossa interpretação dos acontecimentos é diferente. Nós temos mais cultura, somos capazes de uma apreciação crítica dos factos, ao passo que neles tudo é mais primitivo, mais elementar. Os bolcheviques enchem-lhes os ouvidos de que é preciso pôr ponto à guerra, ou então transformá-la em guerra civil. Excitam os cossacos contra nós; e como eles estão cansados, e mais próximos que nós dos animais, sem esta firme consciência moral do dever e da responsabilidade para com a pátria, que nós temos, é perfeitamente compreensível que aquilo encontre neles eco. Que é a pátria para eles? Uma noção inteiramente abstracta. Dizem eles para consigo: «A Região do Exército do Don está longe da frente de batalha e os alemães não chegam lá.» É esta a desgraça toda. Necessitamos de lhes explicar com clareza as consequências que para eles adviriam da transformação desta guerra em guerra civil.

 

No fundo de si próprio, Lisstnítzki sentia que as suas palavras não atingiam o alvo, e que Atarchtchíkov se ia meter na concha.

 

E foi isso o que sucedeu: Atarchtchíkov balbuciou algumas frases confusas, e acabou por se calar. Em vão Lisstnítzki procurava perceber em que trevas errava o pensamento do seu camarada.

 

«Fiz mal em não o deixar explicar-se completamente» pensou ele, arrependido.

 

Atarchtchíkov deu-lhe as boas-noites, e foi-se sem adiantar mais nada. Por um momento havia desejado uma conversa sincera e levantado uma ponta da cortina escura por trás da qual cada homem se esconde dos outros; mas logo a deixara cair.

 

Esta impossibilidade de conhecer os outros, os seus segredos, irritava Lisstnítzki. Acendeu um cigarro, quedou-se um pedaço de olhos fixos, na obscuridade cinzenta e densa, e lembrou-se de Akcínia, dos dias de licença, todos cheios dela. E, apaziguado por aquele pensamento e pelas recordações desconexas das mulheres cujo caminho alguma vez se cruzara com o dele, adormeceu.

 

Lisstnítzki tinha no seu esquadrão um cossaco da stanitsa de Bukanóvsskaia, chamado Ivane Lagútine. Nas primeiras eleições, fora escolhido para a comissão militar revolucionária do regimento; até à chegada a Petrogrado, não se tinha feito especialmente notar, mas num dos últimos dias de Julho, o oficial ao pelotão havia informado Lisstnítzki de que Lagútine frequentava a secção militar do Soviete dos Deputados Operários, e Soldados, e de que por certo estava em ligação estreita com ele, visto ter-se notado que fazia discursos frequentes aos cossacos do pelotão e sobre eles exercia uma influência nefasta.

 

Tinha havido no esquadrão dois casos de recusa, uma a fazer guarda e a outra a participar de uma patrulha, e o oficial atribuía-os à acção de Lagútine.

 

Resolveu Lisstnítzki, por lhe parecer isso indispensável, conhecer Lagútine um pouco melhor, e tenteá-lo. Convocá-lo para uma conversa franca com ele pareceu-lhe estúpido e imprudente, de modo que decidiu esperar. A ocasião não tardou. No fim de Julho, coube ao terceiro pelotão a vez de patrulhar as ruas próximas da fábrica de Putilov.

 

Eu vou com os cossacos comunicou Lisstnítzki ao oficial do pelotão. Mande selar o meu morzelo.

 

Lisstnítzki tinha dois cavalos, «para o que desse e viesse», como ele dizia. Vestiu-se com a ajuda da ordenança e desceu ao pátio. O pelotão já estava montado. No meio da escuridão brumosa, salpicada de estrelas, percorreram-se várias ruas. Lisstnítzki deixou o pelotão ultrapassá-lo, e chamou Lagútine. Este virou a pileca que montava e colocou-se a par do capitão, a quem observou de esguelha, com olhar interrogativo.

 

Que   há   de   novo   na   vossa   comissão? perguntou Lisstnítzki.

 

Não há nada.

 

De que stanitsa és tu, Lagútine?

 

De Bukanóvsskaia.

 

De que aldeia?

 

De Mitiakine.

 

Os cavalos deles avançavam ao lado um do outro. Pelo canto do olho, à luz dos candeeiros, Lisstnítzki examinava a face barbuda do cossaco. Algumas mechas de cabelo liso saíam-lhe de sob o boné, uma barbicha irregular e arruçada cobria-lhe as faces cheias, e nos olhos inteligentes dele, profundamente encovados e protegidos por arcadas supraciliares salientes, luzia uma ponta de malícia.

 

«Tem um ar simples e reservado. Mas que pensará ele realmente? com certeza que me odeia, como a tudo o que esteja ligado ao antigo regime, ao «bastão do cabo»... cogitou Lisstnítzki, a quem de súbito assaltou o desejo de conhecer o passado de Lagútine.

 

Tens família?

 

Sim, meu capitão. Mulher e dois filhos.      

 

E propriedades?

 

Ora, o que eu tenho! disse Lagútine ironicamente, e com uma vaga tristeza. Vai-se vivendo como se pode. O boi trabalha para o cossaco e o cossaco para o boi. É assim a vida... A terra lá para os meus sítios é arenosa acrescentou ele gravemente, depois de um momento de reflexão.

 

Lisstnítzki tinha um dia passado pela stanitsa de Bukanóvsskaia, a caminho da estação de Sebriákovo. Lembrou-se nitidamente daquela stanitsa perdida, afastada da estrada principal, que confinava ao sul com um prado raso que o olhar não abrangia, e contornada pelas curvas caprichosas do Khopr. Do alto de uma colina, no termo do território da stanitsa de FJánsskaia, a uma dúzia de verstás de distância, avistara a mancha verde de uns jardins e um grande campanário branco, desnudo como um osso,

 

O que temos é terra arenosa suspirou Lagútine.

 

Gostavas de voltar para casa, ha?

 

De que maneira, meu capitão! É claro que estou impaciente por voltar. Já chega de miséria, nesta guerra.

 

Não acho que se possa voltar tão cedo para casa, meu Velho...

 

Isso é que voltamos.

 

Mas a guerra ainda não acabou!

 

Não há-de durar muito mais... Não tarda a estarmos em casa repetiu, obstinadamente, Lagútine.

 

Teremos ainda de nos bater entre nós. Que pensas tu disso?

 

Após um silêncio, sem erguer os olhos do arção da sela, Lagútine atirou: com quem teremos de nos bater?

 

O que não falta é com quem. com os bolcheviques, por exemplo.

 

Novamente Lagútine se quedou calado um pedaço, como que adormentado pelo ruído seco e cadenciado dos cascos do cavalo. Três minutos assim decorreram. Devagar, articulando as palavras a uma e uma, Lagútine disse por fim:

 

Contra esses não temos nós nada.

 

E a terra?

 

Terra há-a que chegue para toda a gente.

 

Sabes o que querem os bolcheviques?

 

Ouvi qualquer coisa a esse respeito...

 

E que pensas tu que devemos fazer, se os bolcheviques decidirem tirar-nos as terras e dominar os cossacos? Já te bateste contra os alemães, em defesa da Rússia.

 

Os alemães são outra coisa.

 

E os bolcheviques?

 

Ora, meu capitão! começou Lagútine, agora visivelmente disposto a falar, e procurando insistentemente com os olhos o olhar de Lisstnítzki. Os bolcheviques não me vão roubar a terra que eu tenho. O que eu tenho é só um bocadinho. Para que quereriam eles a minha terra?... Ao passo que, por exemplo, o senhor seu pai, seja isto dito sem ofensa, tem mais de dez mil deciatinas...

 

Dez, não. Quatro.

 

6a mesma coisa. Pois sejam quatro! Vamos lá, que já é um bom tassalho, ha? Raio de justiça esta, é o caso de se dizer! E se olharmos para a Rússia toda, gente como o senhor seu pai há muita. Reflita bem, meu capitão: todas as bocas desejam o seu naco de pão. Se o senhor precisa de comer, também os outros precisam. Houve uma vez um cigano que quis ensinar uma égua que tinha a não comer. Dizia ele para consigo que ela se habituaria. Foi-se o pobre animal habituando, e ao fim de dez dias estava morto... No tempo do tsar as coisas não estavam bem; a vida era dura para os pobres... Ao senhor seu pai deram-lhe quatro mil diciatinas, como quem dá uma fatia de empada; e, no entanto ele não tem duas bocas para comer; come com uma só como os mais. Está visto que isto é vexatório para o povo!... Os bolcheviques têm razão; e o senhor fala em nos batermos contra eles!...

 

Lisstnítzki escutava-o, escondendo o seu alvoroço. Sentia-se impotente para lhe opor qualquer argumento de peso, ao passo que o outro, com o seu arrazoado elementar, tremendamente simples, o entupia. E como, no fundo da consciência, surdamente entrevia que quem estava errado era ele, perdeu a cabeça, e berrou, colérico:

 

És, então, bolchevique?

 

O   rótulo   não   importa...retorquiu   Lagútine com ironia, em voz arrastada. A questão não é de rótulos, é de justiça. O povo do que precisa é de justiça, e à justiça o que se quer é enterrá-la. Cuido mesmo que já morreu há muito tempo.

 

É isso que os bolcheviques do soviete te ensinam... Vejo que te aproveita andar de gorra com eles.

 

Ah, meu capitão! Quem nos ensina, aos burros de carga como   eu,   é   a   vida.   Aos   bolcheviques   basta-lhes   atear   o rastilho...

 

Acaba lá com as gracinhas! O caso não é para rir! replicou Lisstnítzki, furioso. Ora diz-me cá! Falas das terras do meu pai, das terras senhoriais, em geral. Mas isso é a propriedade. Se tu tiveres duas camisas e eu nenhuma, na tua opinião deves-me dar uma?

 

Lisstnítzki não viu a cara de Lagútine, mas pelo som da voz adivinhou que ele sorria.

 

-A que eu tivesse a mais por mim próprio a daria. Na frente de batalha, dei a minha última camisa, e andei de capote em cima da pele. Mas, quanto a terra, não há ninguém que a dê aos outros.

 

Mas tu não tens terra bastante? O que tens não te chega?disse Lisstnítzki, elevando a voz.

 

Lagútine empalideceu, e quase gritou, de garganta estrangulada pela comoção:

 

Julgas tu então que eu só penso em mim? Estivemos na Polónia. Reparaste como as pessoas lá vivem? Viste ou não viste?... E, na Rússia, sabes como vivem os camponeses? Pois eu vi!... Até o sangue me fervia... E julgas tu que a vida daquela gente me não faz pena? A Polónia pôs-me doente, à força de pensar na crueldade da terra.

 

Preparava-se Lisstnítzki para lhe dar uma resposta mordente, quando um grito penetrante soou, vindo de um dos edifícios pesados e cinzentos da fábrica de Putilov: «Agarrem-no!» Ouviu o barulho dos cascos dos cavalos percutindo o pavimento, e o estalido de um tiro varou-lhe os ouvidos. Brandiu o pingalim e lançou o cavalo a galope.

 

Não tardou que Lagútine e ele alcançassem juntos a patrulha, que se aglomerava numa encruzilhada. Os cossacos haviam desmontado, e ressoavam-lhes os sabres; um homem, que eles haviam prendido, debatia-se-lhe no meio.

 

Que é isso? Que há? gritou Lisstnítzki, abrindo caminho com o cavalo.

 

Foi este miserável que nos atirou uma pedra... Atirou-nos uma pedra e fugiu.

 

Dá-lhe, Arjanov!

 

Malandro! Achas bem atirares-nos pedras?

 

O sargento do pelotão, Arjanov, dobrado na sela, segurava pela gola um homenzinho vestido de uma camisa preta, sem cinto. Três cossacos que haviam acorrido imobilizaram-no, torcendo-lhe os braços atrás das costas.

 

Quem és tu? bradou-lhe Lisstnítzki, fora de si.

 

     O prisioneiro levantou a cabeça, de lábios mudos, crispados na face de um branco-acinzentado.

 

Quem és tu? repetiu Lisstnítzki. Atiras então pedras, ha? Não dizes nada? Arjanov!...

 

Arjanov desmontou, largou a gola do prisioneiro e com toda a força deu-lhe uma bofetada.

 

Cheguem-lhe! ordenou Lisstnítzki; e com brusquidão

 

virou o cavalo.

 

Três ou quatro cossacos atiraram o homem ao chão e desataram a chicoteá-lo. Lagútine saltou do cavalo e precipitou-se para Lisstnítzki.

 

Meu capitão!... Que está o senhor a fazer?... Meu capitão!

 

Agarrava-se com os dedos trémulos a um joelho de Lisstnítzki e gritava:

 

Não pode ser!...   É um homem! Que está o senhor a fazer?

 

Lisstnítzki não lhe retorquiu e esporeou o cavalo. Lagútine foi direito aos cossacos e agarrou Arjanov; oscilando nas pernas, que se lhe enredavam no sabre, tentava arrastá-lo com ele. O outro resistia, resmungando:

 

Não te metas nisto! Deixa-nos cá! Ele atira-nos pedras, e nós não havíamos de fazer nada?... Larga-me!... Larga-me, digo-te para teu bem!...

 

Um dos cossacos curvou-se, libertou a carabina do ombro, e pôs-se a dar coronhadas no corpo mole e rangente do homem estendido no chão. Um momento depois, um grito pungente, animalesco, selvático, ergueu-se do pavimento da rua.

 

Fez-se um silêncio de alguns segundos, e de novo a mesma voz soou, mas agora mais débil, como a de um adolescente, entrecortada, dilacerada pela dor, por entre o rouquejar que se seguia a cada pancada.

 

Bandidos!...   Contra-revolucionários!...   Batam   à   vontade!... Ooh!... Aaaaah!...

 

Trás! Trás! Trás! ressoavam as pancadas, umas após outras.

 

Lagútine correu direito a Lisstnítzki, cingiu-se-lhe contra o joelho, de unhas fincadas no coiro da sela, arquejando:

 

- Tem piedade!

-Sai-me daqui!

 

-Capitão!... Lisstnítzki!... Estás a ouvir-me? Responde!

 


Vai bardamerda! exclamou Lisstnítzki em voz sibilante, atirando o cavalo contra Lagútine.

 

Irmãos! berrou este, correndo para os cossacos que a um lado se conservavam alheados. Sou membro da Comissão Revolucionária do Regimento... Ordeno-lhes que salvem aquele homem da morte!... Todos... serão todos responsáveis!... Os tempos mudaram!...

 

Um ódio cego, irraciocinado, submergiu Lisstnítzki. Vergastou o cavalo entre as orelhas, avançou para Lagútine, pôs-lhe sob o nariz o revólver negro, que cheirava à gordura das armas de fogo, e ganiu:

 

Cala-te, traidor, bolchevique, ou mato-te!

 

Só por um enorme esforço de vontade não disparou; por fim, tirou o dedo do gatilho, empinou o cavalo, e partiu a galope.

 

Alguns minutos volvidos, três cossacos seguiram-no; entre os respectivos cavalos, Arjanov e Lápine, levavam o prisioneiro. De pernas inertes, camisa ensopada, colada ao corpo, aguentado pelas axilas pelos dois soldados, cambaleava ligeiramente, de pés de rojo no pavimento. Entre os ombros pontiagudos, a cabeça, caída para trás, baloiçava-lhe, sangrenta, reduzida a uma massa de carne, em que o queixo espetado punha uma mancha branca. O terceiro cossaco, a cavalo também, seguia a curta distância. À esquina de uma ruazinha iluminada, viu um trem de praça; ergueu-se nos estribos e alcançou-o a trote. Disse algumas palavras ao cocheiro, fez estalar com eloquência o chicote contra o cano da bota, e o trem acercou-se, solicitamente, de Arjanov e de Lápine, que haviam parado.

 

No dia seguinte, Lisstnítzki acordou com a consciência de ter cometido um enorme e irreparável erro. Mordendo os lábios, recordou a sova no homem que apedrejara os cossacos e o que em seguida se passara entre Lagútine e ele. Fez uma careta, e tossicou, pensativo. Enquanto se vestia, decidiu não fazer nada, imediatamente, contra Lagútine, por receio de exacerbar as suas relações com a Comissão do Regimento; seria melhor esperar que a altercação com Lagútine se desvanecesse na memória dos cossacos que haviam assistido à cena, para só nessa altura se desembaraçar dele sem consequências.

 

«É o que se chama confraternizar com os cossacos.. » cogitou ele, com amarga ironia; e uns poucos de dias a impressão penosa do que se havia passado o dominou.

 

No princípio do mês de Agosto, num belo dia de sol saiu a dar uma volta pela cidade com Atarchtchíkov. Desde a conversa que haviam tido a seguir à reunião dos oficiais, nada havia acontecido que tivesse dissipado a reserva surgida então entre eles. Atarchtchíkov mantinha-se fechado, ocultando os seus pensamentos; a todas as tentativas de Lisstnítzki para provocar uma franca explicação, opunha ele a barreira opaca por trás da qual a maior parte das pessoas esconde a sua verdadeira face dos olhares estranhos. Sempre a Lisstnítzki se afigurara que cada homem, nas suas relações com os outros, guarda, por sob a sua face exterior, outra que lhes não confia espontaneamente, e que só esgaravatando tal invólucro se poderá desnudar a verdadeira essência, despojada de mentiras, de cada um. Por isso, havia sempre dolorosamente desejado saber o que se esconde por trás da fachada grosseira, ou grave, ou intrépida, ou insolente, ou feliz, ou alegre das pessoas. Ora, ao pensar em Atarchtchíkov, só uma coisa entrevia: que aquele homem escondia penosamente uma ânsia de sair das contradições que o enleavam, esforçando-se por coadunar as posições cossaca e bolchevique. Esta suposição levara-o a não fazer qualquer tentativa de aproximação com Atarchtchíkov, a conservar-se distante dele.

 

Caminhavam eles pela Perspectiva Névsski, trocando apenas de longe em longe alguma frase insignificante, quando, apontando com o olhar a porta de um restaurante, Lisstnítzki propôs:

 

Vamos comer qualquer coisa?

Pois sim! concordou Atarchtchíkov.

 

Entraram, estacaram a meio, e relancearam em torno os olhos sem esperança: todas as mesas estavam tomadas. Já Atarchtchíkov se resolvia a abalar, quando, de uma mesa perto de uma janela, um senhor bochechudo, bem vestido, que estava acompanhado por duas senhoras, os fitou e se aproximou deles, tirando respeitosamente o chapéu

 

Façam o favor de tomar a nossa mesa. íamos sair. Sorria, mostrando os dentes ralos, amarelados do tabaco, a par reforçando o convite com um gesto. Sinto-me feliz por poder prestar um serviço aos senhores oficiais. Os senhores são o nosso orgulho.

 

Ergueram-se as senhoras. Uma, alta e morena, demorou-se a compor o chapéu, ao passo que a outra, mais nova, esperava, a brincar com o guarda-chuva.

 

Os oficiais agradeceram ao senhor que tão amavelmente lhes cedera a mesa, e instalaram-se perto da janela. O sol, que atravessava a cortina baixada, punha na toalha tracinhos amarelos. O cheiro da cozinha sobrepujava o aroma delicado e perturbador das flores frescas que ornavam as mesas.

 

Lisstnítzki pediu uma botvínia (14) gelada; e enquanto ela não vinha, pôs-se, pensativo, a desfolhar uma chaga que tirara do respectivo vaso. Atarchtchíkov enxugava com o lenço a testa suada, de olhos baixos, fatigados, atentos a um reflexo do sol que tremeluzia num pé da mesa próxima.

 

Ainda eles não tinham acabado de comer, entraram no restaurante dois outros oficiais, falando alto.

 

Ao procurar com a vista uma mesa livre, o que entrara à frente virou para Lisstnítzki a cara uniformemente tisnada. E um clarão de alegria brilhou-lhe nos olhos pretos e amendoados.

 

És tu, Lisstnítzki?...exclamou com segurança, sem a menor hesitação, encaminhando-se para ele.

 

Sob o bigode preto reluziam-lhe os dentes. Lisstnítzki reconheceu o capitão Kalmfkov, que vinha acompanhado por

 

(14)   Sopa fria, preparada com kvass, folhas de beterraba e peixe.

 

Tchubov. Vigorosamente apertaram as mãos. Lisstnítzki apresentou Atarchtchíkov aos seus antigos camaradas:

 

Que bom vento vos traz por cá?

 

Cofiando o bigode e olhando à roda, Kalmíkov fez com a cabeça sinal de não poder falar no caso ali:

 

’É uma missão especial. Depois te conto. Fala-me de ti. Como vai isso no teu regimento?

 

Saíram juntos os quatro. Kalmíkov e Lisstnítzki, que iam atrás, dobraram à primeira rua lateral. Meia hora depois, tinham abandonado a parte mais animada da cidade, e caminhavam, conversando baixo e lançando em torno olhares circunspectos.

 

O nosso 3.º Corpo está actualmente de reserva   na frente romena contava Kalmíkov, com animação. Há uns dez dias, o coronel deu-me ordem para abandonar a minha companhia e me colocar à disposição do Estado-Maior da Divisão, com o tenente Tchubov. Assim fiz. Passei o meu comando a outro. Chegámos ao Estado-Maior da Divisão. O coronel M., da secção de operações, que tu conheces, anunciou-me confidencialmente que eu me devia apresentar sem mais delongas ao general Krimov. E aí partimos nós para o Estado-Maior do Corpo de Exército. Krimov recebeu-me, e como sabe que espécie de oficiais lhe mandam, declarou-me sem reservas: «Estão no poder homens que deliberadamente conduzem o país à ruína. É absolutamente necessário mudar os governantes, substituir mesmo o Governo Provisório por uma ditadura militar.» Apontou-me Kornilov como o candidato provável, e em seguida decidiu que eu me dirigisse a Petrogrado, a pôr-me à disposição da Comissão Directiva da União dos Oficiais. Actualmente, cá estamos, agrupados, várias centenas de oficiais seguros. Calcularás em que consiste a nossa incumbência! A Comissão Directiva da União dos Oficiais trabalha em contacto com o nosso Conselho da União dos Exércitos Cossacos, e organiza batalhões de choque nos entroncamentos ferroviários e nas divisões. Tudo isto será útil num futuro próximo.

 

Onde iremos nós parar? A ti que te parece?

 

Olha que pergunta! Pois é crível que, vivendo aqui, ainda não tenhas compreendido a situação? O governo vai cair, disso não há dúvidas, e Kornilov assumirá o poder. Todo o exército o apoia. Na nossa opinião, só há duas possibilidades: Kornilov ou os bolcheviques. Kerénsski não tem qualquer saída: se não for um, são os outros que o esmagam. Ele que vá dormindo, até lá, na cama da Alice (15). Por pouco tempo será califa.

 

Calou-se Kalmíkov por um momento, mas logo reatou, pensativo, brincando com o fiador do sabre:

 

De facto, o que nós somos é peões de xadrez, e os peões não sabem a que jogadas a mão do jogador os levará... Eu, por exemplo, ignoro em absoluto o que se prepara no Quartel-General. Sei só que entre os generais Kornilov, Lukómsski, Romanóvsski, Krimov, Denikine, Kalédine, Erdéli, e muitos outros, há uma ligação misteriosa, um acordo...

 

Mas o exército... todo o exército apoiará Kornilov? perguntou Lisstnítzki, estugando o passo.

 

Os soldados está claro que não. Nós os arrastaremos.

 

Sabes que, apertado pela esquerda, Kerénsski quer exonerar o comandante-chefe?

 

Não se atreverá a isso! Seria derrubado no dia seguinte. A Comissão Directiva da União dos Oficiais apresentou-lhe o seu ponto de vista por forma suficientemente categórica.

 

Ontem recebeu ele os delegados do Conselho da União dos Exércitos Cossacos disse Lisstnítzki, sorrindo. Declararam-lhe eles que os cossacos nem sequer o pensamento admi-

 

tiam da exoneração de Kornilov. E sabes tu o que ele retorquiu? «São insinuações. O Governo Provisório não pensa em nada disso.» O que ele quer é tranquilizar a opinião pública,

 

(15)   Alekssandra Fiodórovna, esposa de Nicolau II, era, originariamente, a princesa Alice de Hesse.

 

ao mesmo tempo que faz tagatés, como uma prostituta, à Comissão Executiva do Soviete.

 

A caminhar sempre, Kalmíkov tinha tirado de uma algibeira o seu caderno de oficial em campanha. Leu alto:

 

«A conferência dos homens públicos saúda-vos como chefe supremo do Exército Russo. A conferência declara considerar como criminosa qualquer tentativa susceptível de causar prejuízo à vossa autoridade no exército e na Rússia, e une a sua   voz à dos oficiais,   dos condecorados com a cruz de São-Jorge e dos cossacos. Nesta hora terrível das difíceis provações, toda a Rússia que pensa vos considera com esperança e confiança. Deus vos ajude na grande obra de reconstituição de um exército poderoso e de salvação da Rússia. Assinado: Rodzianko.» É claro, acho eu. Nem pensar numa exoneração de Kornilov!. . A propósito, viste a chegada dele, ontem?

 

Não. Ontem voltei já de noite de Tsárskoiê Sielo. Kalmíkov sorriu, mostrando uma fiada de dentes iguais e as gengivas sadias. Os olhos amendoados pregueavam-se-lhe numa profusão de ruguinhas delgadas.

 

Foi o que era de calcular! Como guarda-de-honra, um esquadrão do Turquestão. Automóveis armados de metralhadoras. E tudo aquilo a caminho do Palácio de Inverno. Um aviso inequívoco. . ah-ah-ah! Devias ter visto aquelas caras, com os seus gorros de pele, que valia bem a pena. Causava uma impressão bastante curiosa.

 

Depois de uma volta pelo bairro de Moscovo-Narva, os dois oficiais separaram-se.

 

Temos de continuar a encontrar-nos, Evguéni disse Kalmíkov ao despedirem-se. Estão-se a preparar dias duros. É preciso estarmos firmes, para não caírmos. E, já Lisstnítzki ia uns passos adiante, gritou-lhe: Ia-me esquecendo de te dizer. Merkulov, não sei se estás lembrado... o nosso pintor!

 

Que lhe aconteceu?

 

Foi morto, em Maio. Não pode ser!

 

E de que maneira! Por mero acaso! Não pode imaginar-se morte mais absurda. Uma granada que rebentou nas mãos de um dos nossos batedores. O batedor perdeu apenas um braço, ao passo que de Merkulov se encontrou, por junto, um pedaço de intestino e os restos do binóculo. Durante três anos a morte o tinha poupado...

 

Kalmíkov disse mais qualquer coisa, mas o vento que de repente soprou, levantando um turbilhão de poeira, não lhe deixou ouvir as palavras. Lisstnítzki fez um gesto com uma das mãos e prosseguiu o seu caminho, olhando de espaço a espaço para trás.

 

No dia 6 de Agosto, o general Lukómsski, chefe do Estado-Maior do comandante-chefe do Exército, recebeu por intermédio do general Romanóvsski, primeiro major-general do Quartel General, ordem de concentrar o 3.º Corpo de Cavalaria da Divisão Indígena (16), no sector de Nevelh - Novo-Sokólhnik - Velíkiê Lúki.

 

Nesse sector porquê? Essas unidades fazem parte da reserva da frente romena disse Lukómsski, admirado.

 

Não sei, Alekssandr Serguêievitch. Transmito-lhe exactamente a ordem do comandante-chefe.

 

Quando a recebeu?

 

Ontem o comandante-chefe convocou-me para as onze horas da noite e ordenou-me que lha transmitisse hoje de manhã.

Romanóvsski pôs-se a andar de um lado para o outro, silenciosamente, em frente da janela do gabinete de Lukómsski;

 

(16) A Divisão Indígena, também chamada Divisão Selvagem, era constituída por montanheses do Cáucaso.

 

depois, parou diante de um mapa estratégico da Europa Central, que ocupava metade da parede, examinou-o com fingida atenção, de costas viradas para Lukómsski, e disse-lhe:

 

Entenda-se com ele... com certeza o encontra agora. Lukómsski tomou alguns papéis de cima da secretária,empurrou a cadeira, e dirigiu-se para a porta, no passo ostensivamente firme de todos os militares idosos que começam a engordar. À porta, deixando passar primeiro Romanóvsski, proferiu, seguindo aparentemente os seus pensamentos íntimos:

 

Pois claro. Tem razão.

 

Um coronel alto e desengonçado, que Lukómsski não conhecia, saía precisamente naquele momento do gabinete de Kornilov. Respeitosamente se desviou para lhes dar passagem, e afastou-se, corredor fora, claudicando francamente, e com uma contracção, ao mesmo tempo cómica e desagradável, de um ombro contuso.

 

Kornilov, um pouco dobrado para diante, com as duas mãos pousadas obliquamente na mesa, dizia a um velho oficial, de pé em frente dele:

 

...Era de esperar. Compreendeu-me? Peço-lhe que me comunique   imediatamente   a   sua   chegada   a Pskov.   Pode retirar-se.

 

Esperou que a porta se fechasse atrás do oficial, deixou-se cair na cadeira com um movimento jovem e ágil, e, empurrando outra cadeira para Lukómsski, atirou-lhe:

 

Romanóvsski transmitiu-lhe as minhas instruções sobre a transferência do 3.º Corpo?

 

Transmitiu. Vinha falar-lhe sobre isso. Porque escolheu como zona de concentração o sector que me indicou?

 

Lukómsski fitava com atenção a cara bronzeada de Kornilov, impenetrável, impassível, como as caras asiáticas; nas faces, vincos oblíquos, que toda a gente conhecia, desciam-lhe das asas do nariz à boca implacável, sobrepujada por um bigode descaído e ralo. Apenas uma mecha de cabelos, que lhe tombava puerilmente para a testa, lhe contradizia a expressão dura e severa. De cotovelo apoiado na secretária e o queixo na palma de uma mão escorrida, Kornilov franziu os olhos mongóis, que lhe brilhavam, e respondeu, aflorando com as pontas dos dedos da outra mão um joelho de Lukómsski:

 

Quero concentrar   a cavalaria   num   sector que não dependa exclusivamente da frente norte, mas do qual ela possa ser transferida com facilidade, caso seja preciso, para as frentes norte ou oeste. Na minha opinião, é o sector que escolhi o que melhor corresponde a esta exigência. Pensa de outro modo, não é verdade?

 

Lukómsski teve uma vaga encolhedela de ombros.

 

Não há nada a recear do lado da frente oeste. Valia mais concentrar a cavalaria no sector de Pskov.

 

De Pskov? repetiu Kornilov.

 

Inclinara o busto todo para diante, de face crispada, avançando ligeiramente o lábio inferior fino e pálido. Abanou a cabeça, em sinal de rejeição da ideia.

 

Não! O sector de Pskov não convém.

 

com um gesto fatigado, um gesto de homem velho, Lukómsski pousou as mãos nos braços da cadeira, e disse, escolhendo com prudência as palavras:

 

Lavr Gueórguievitch, you transmitir imediatamente as instruções necessárias, mas tenho a impressão de que não me diz tudo... O sector que escolheu para zona de concentração seria muito bom se se pensasse em lançar a cavalaria contra Petrogrado ou contra Moscovo, mas não tem qualquer interesse para a frente do norte, pela simples razão de ser difícil transportar as tropas. Se me não engano, se efectivamente me não diz tudo, peço-lhe que me mande para a frente, ou me comunique inteiramente as intenções que tem. Um chefe de Estado-Maior só pode manter-se no seu lugar se tiver a confiança total do comandante-chefe.

 

Kornilov escutava-o com atenção, de cabeça descaída, mas reparando, não obstante, com o seu olhar acerado, nas ligeiras manchas vermelhas, quase imperceptíveis, que a comoção fizera assomar na cara aparentemente fria de Lukómsski. Reflectiu alguns segundos, e replicou:

 

Tem razão. Há certas considerações de que eu lhe não falei... Peço-lhe que dê as ordens da transferência da cavalaria e que convoque com urgência o general Krimov, comandante do 3.º Corpo. Em ele voltando de Petrogrado, teremos o senhor e eu, uma conversa minuciosa. Acredite-me, Alekssandr Serguêievitch, que não o deixarei na ignorância seja do que for.

 

Kornilov acentuou esta última frase. E, como naquele momento batessem à porta, virou-se com vivacidade.

 

Entre.

 

Acompanhado de outro general, baixo e loiro, o general von Vízine, adjunto do comissário junto do Quartel-General, entrou. Lukómsski ergueu-se; ao sair, ouviu Kornilov responder secamente a uma pergunta de von Vízine:

 

Não tenho tempo agora de examinar o caso do general Miller. Quê?... Sim, bem sei.

 

Regressando ao seu gabinete, Lukómsski demorou-se largo tempo à janela, acariciando a ponta grisalha da barba, e olhando, sonhador, como o vento afagava a cabeleira espessa dos castanheiros e fazia ondular a erva vergada, quase transparente ao sol.

 

Uma hora mais tarde, o Estado-Maior do 3.º Corpo de Cavalaria recebia do chefe do Estado-Maior do comandante-chefe ordem de se preparar para uma operação. No mesmo dia, o general Krimov, comandante do 3.º Corpo, que anteriormente recusara, em conformidade com os desejos de Kornilov, o comando do n.º Exército, era convocado com urgência para o Quartel-General, por telegrama cifrado.

 

Em 9 de Agosto, escoltado pelo seu esquadrão turquemeno, Kornilov partia em comboio especial para Petrogrado.

 

No dia seguinte, corria no Quartel-general o rumor de que o comandante-chefe havia sido exonerado, e mesmo preso. Mas a 11, de manhã, Kornilov regressava a Moguilev.

 

Logo após o regresso, convocou Lukómsski a ir falar com ele. Sem parar de ler os Telegramas e os comunicados, compunha cuidadosamente os punhos irrepreensivelmente brancos da camisa, com os quais lhe contrastavam as mãos esguias, cor de azeitona. Os seus movimentos rápidos e febris traíam nele uma emoção desabitual.

 

Podemos agora acabar a nossa conversa do outro dia disse ele em voz baixa. Refiro-me às considerações que me levaram a deslocar o 3.º Corpo para Petrogrado, e que então lhe não comuniquei. Aquando da reunião governamental de 3 de Agosto, em Petrogrado, a que assisti, Kerénsski e Savínkov advertiram-me de que eu não devia aludir aos problemas particularmente importantes da defesa, visto haver, segundo eles, entre os ministros, pessoas pouco seguras. Assim, eu, comandante-chefe, ao fazer o meu relatório ao governo, não posso falar dos planos de operações, por não haver garantia de as minhas palavras não serem conhecidas, passados alguns dias, do comando alemão! Mas é isto um governo? Como posso eu acreditar, depois de uma coisa destas, que ele salve o país? Kornilov dirigiu-se à porta a passo firme e rápido, fechou-a à chave, tornou até à secretária, e prosseguiu, passeando de um lado para o outro com agitação. É amargo, é revoltante pensar que o país seja governado por tais moluscos. Ausência de vontade, fraqueza de carácter, incapacidade, irresolução, e a maior parte das vezes cobardia pura e simples, eis o que comanda a acção deste «governo», se assim se lhe pode chamar. com a benevolente participação do senhor Tchernov e outros que tais, os bolcheviques deitarão Kerénsski abaixo. . E aí está, Alekssandr Serguêievitch, em que situação a Rússia se encontra. Guiado pelos princípios que o senhor conhece, posso preservar a pátria de novos abalos. Desloco o 3.º Corpo de Cavalaria, essencialmente, para que, em fins de Agosto, esteja concentrado próximo de Petrogrado, e, se os bolcheviques atacarem, acabar, como convém, com esses traidores à pátria. Encarrego o general Krimov da direcção imediata das operações. Estou convencido de que, em caso de necessidade, ele não hesitará em prender todo o Soviete dos Deputados Operários e Soldados. Quanto ao Governo Provisório... depois veremos... Para mim, não quero nada. Salvar a Rússia... salvá-la, custe o que custar!...

 

Kornilov, que cessara de passear, parou diante de Lukómsski, e perguntou-lhe abruptamente:

 

Partilha a minha convicção de que só tais medidas poderão assegurar o futuro do país e do exército? Está disposto a acompanhar-me até ao fim?

 

Lukómsski ergueu-se e apertou com força, comovidamente, a mão seca e ardente de Kornilov.

 

Partilho inteiramente o seu ponto de vista! Acompanhá-lo-ei. É preciso reflectir, sopesar tudo bem, e dar o golpe. Conte comigo, Lavr Gueórguievitch.

 

Elaborei um plano, cujos pormenores o coronel Lébedev e o capitão Rojenko estão estudando. O senhor está cheio de trabalho, Alekssandr Alekcêievitch. Confie em mim. Temos tempo ainda de discutir tudo isto, e, se for necessário, de o corrigir.

 

Uma actividade febril reinou no Quartel-general durante dias. Quotidianamente se apresentavam no Palácio do Governador de Moguilev oficiais tisnados, queimados do sol, vestidos de dólmanes de combate poeirentos, vindos de todas as frentes, de todas as unidades, a propor os seus serviços, e elegantes i representantes da União dos Oficiais e da União dos Exércitos Cossacos, mensageiros, vindos do Don, enviados por Kalédine, o primeiro atamane designado (17) de origem cossaca da Região do Exército do Don. Apareciam também alguns civis. Havia entre eles homens que sinceramente pretendiam ajudar Kornilov a reerguer a velha Rússia que caíra em Fevereiro, mas, a par desses, abutres que por antecipação farejavam uma grande sangueira, e que, adivinhando a mão firme que abriria

 

(17) Os chefes dos exércitos cossacos, designados pelo Governo, eram habitualmente oficiais generais de origem não cossaca.

 

as veias do país, se haviam precipitado para Moguilev, na esperança de algo lhes caber. Os nomes de Dobrínsski, de Zavóito, de Aládine citavam-se com frequência no Quartel-General, como o de pessoas em relações estreitas com o comandante-chefe. No quartel-general e no estado-maior do atamane de campanha (18) do Exército do Don, repetia-se que Kornilov era demasiado confiante, e que se deixara rodear de aventureiros. Prevalecia, contudo, na maioria dos oficiais, a convicção de que Kornilov era o porta-estandarte da reedificação da Rússia. E todos os que apaixonadamente desejavam uma restauração acudiam de todos os lados, a colocar-se sob as suas ordens.

 

Em 13 de Agosto, Kornilov partiu para assistir à Conferência do Estado, em Moscovo.

 

O dia estava quente, levemente nublado. O céu azulado parecia de alumínio. De uma nuvem a prumo, lanugenta e orlada de um tom lilás, pôs-se a cair sobre os campos, sobre as calhas que o comboio percorria com fragor, sobre a floresta com o seu manto fantástico de folhas mortas, sobre os perfis aguardados das bétulas, sobre todo o solo, com as suas cores de viuvez, a adivinhar o Outono, uma chuva oblíqua, benéfica, cheia de reflexos de arco-íris.

 

Deixando atrás de si um rasto de fumo arruivado, o comboio galgava o espaço. Numa carruagem, de pé em frente de uma janela aberta, ia um general baixo, de uniforme de campanha, condecorado com várias cruzes de São Jorge. Franzindo os olhos amendoados, pretos como o carvão, deitou a cabeça de fora. Gotas de chuva tépida molharam-lhe abundantemente a cara tisnada e o bigode preto descaído, e o vento atirou-lhe para trás a mecha pueril que lhe tombava para a testa.

 

(18)   Em tempo de guerra, cada unidade cossaca tinha a comandá-la um atamane eleito, chamado atamane de campanha.

 

Na véspera da chegada de Kornilov a Moscovo, havia ali chegado o capitão Lisstnítzki, encarregado pelo Conselho da União dos Exércitos Cossacos de uma missão de particular importância. Ao entregar um sobrescrito no estado-maior do regimento cossaco de Moscovo, soube que Kornilov era esperado no dia seguinte.

 

Ao meio-dia, Lisstnítzki lá estava na estação de Alekssandróvsski. Uma densa massa humana, sobretudo de militares, enchia a sala de espera e os bufetes da primeira e da segunda classes. A guarda-de-honra, constituída por cadetes do Instituto Militar de Alekssandróvski, estava formada no cais; perto do viaduto, estava o Batalhão Feminino da Morte (19) da região de Moscovo. Cerca das três horas, surgiu o comboio. De súbito, todas as conversas se calaram. Ruidosamente uma música irrompeu, encheu o espaço, e passos múltiplos soaram no solo. A multidão desordenada arrastou Lisstnítzki, envolveu-o, atirou com ele para o cais. Ao libertar-se finalmente dela, reparou nos turquemenos alinhados em dupla fila em frente da carruagem do comandante-chefe. Os capotes deles, de um vermelho-vivo, reflectiam-se, às ondas, no verniz das carruagens. Acompanhado por vários oficiais, Kornilov apeou-se e passou em revista a guarda-de-honra e as delegações da União das Cruzes de São Jorge, da União dos Oficiais do Exército e da Marinha, e do Conselho da União dos Exércitos Cossacos.

 

Entre as pessoas importantes que se apresentaram ao generalíssimo, Lisstnítzki reconheceu Kalédine, o atamane do Don, e o general Zaiontchkóvsski: os nomes dos outros ouviu-os ele

 

(19) Era um dos numerosos batalhões de choque criados naquela época, e compostos unicamente de voluntários. Em fins de Outubro havia quarenta e três batalhões destes, bem como outros inteiramente compostos de cavaleiros de São Jorge.

 

a oficiais que o cercavam, e os iam dizendo servilmente, em voz respeitosa:

 

Kissliakov, ministro adjunto das Vias de Comunicação.

 

Rudnev, governador de Moscovo.

 

O príncipe Trubetzkói, chefe da chancelaria diplomática do Quartel-General.

 

Mussine-Púchkine, membro do Conselho de Estado.

 

O coronel Cailleaux, adido militar francês.

 

O príncipe Galítzine.

 

O príncipe Manssírev.

 

As damas elegantes que se amontoavam ao longo do cais cobriam de flores Kornilov, que avançava. Uma flor cor-de-rosa prendeu-se-lhe nas agulhetas da farda. com um gesto indeciso, um pouco contrafeito, Kornilov sacudiu-a. Um velho cossaco barbudo do Ural, começou gaguejando, um discurso, em nome dos doze exércitos cossacos. Lisstnítzki não conseguiu ouvir-lhe o fim, porque o empurraram contra uma parede, por pouco lhe não arrancando a correia de suspensão do sabre. Depois do discurso de Rodítchev, membro da Duma do Estado, Kornilov reatou o seu caminho, apertado no meio da multidão. Vários oficiais, dando as mãos uns aos outros, formaram uma cadeia protectora, mas foram levados de vencida. Dezenas de mãos estendiam-se para Kornilov. Uma senhora gorda, esguedelhada, que o não desamparava, tentava beijar-lhe a manga da farda verde-clara. À saída do cais, por entre um barulho ensurdecedor de gritos de boas-vindas, Kornilov foi erguido do chão e levado em triunfo. com um brusco movimento de um ombro, Lisstnítzki afastou um senhor importante e conseguiu agarrar uma das botas de polimento de Kornilov, que lhe luzia em frente dos olhos, e dextramente lhe meteu o ombro por sob a perna. Não lhe sentia o peso, sufocado pela comoção, esforçando-se apenas por manter o equilíbrio e o passo certo, avançando arrastado lentamente pela multidão, atordoado pela gritaria das pessoas e pelo som da música. Fora da estação, endireitou rapidamente a camisa, que na barafunda se lhe enrodilhara. Descidos uns degraus, estava na praça. Viu diante a multidão, as fileiras verdes das tropas, um esquadrão de cavalaria cossaca. De mão na pala do boné, piscando os olhos húmidos, Lisstnítzki tentava em vão dominar a tremura incoercível dos lábios. Mais tarde, recordar-se-ia dos estalidos das máquinas fotográficas, da loucura da multidão, das paradas dos alunos das escolas militares e do generalzinho de face mongol, muito direito, esbelto, a vê-los desfilar.

 

No dia seguinte, Lisstnítzki regressou a Petrogrado. Estendido na cama superior, com o capote por cima, pôs-se a fumar, pensando em Kornilov:

 

«com risco da própria vida, evadiu-se do cativeiro, como se soubesse que a pátria tinha necessidade dele. Que face! Talhada em pedra, sem um traço supérfluo ou comum... O mesmo, quanto ao carácter. Tudo nele é claro e meditado. No momento preciso conduzir-nos-á. É estranho, mas nem sequer sei o que ele é politicamente. Será monárquico? Uma monarquia constitucional... Se todos nós estivéssemos tão seguros dele como ele próprio!»

 

Mais ou menos à mesma hora, em Moscovo, num corredor do Grande Teatro, durante um intervalo da sessão da Conferência de Estado, dois generais, um delgado, de tipo mongol, e o outro forte, de cabeça solidamente implantada entre os ombros, cabelo em escova e orelhas coladas ao crânio, que se tinham afastado dos outros, passeavam de um lado para o outro numa estreita faixa do pavimento, conversando a meia-voz

 

Esse parágrafo da declaração prevê a supressão das comissões nas unidades do exército?

 

Prevê.

 

A frente única, a coesão são absolutamente forçosas. Sem a aplicação das medidas que eu indiquei, não há salvação possível. O exército está organicamente incapacitado de se bater. Tal como está, não só não conquistará qualquer vitória, como não será capaz de aguentar uma pressão por pouco séria que seja. As unidades estão corrompidas pela propaganda bolchevique. E aqui, na retaguarda? É ver como os operários reagem a qualquer tentativa de os meter na ordem: greves e manifestações. Os membros da Conferência obrigados a andar a pé!... Que vergonha! O nosso papel imediato é conseguir a militarização da retaguarda, a instituição de castigos severos, a exterminação impiedosa de todos os bolcheviques, fautores de paralisação. Posso, a partir de agora, contar com o seu apoio, Alekcei Makcímovitch?

 

Estou a seu lado, sem reservas.

 

Tenho a certeza disso. Como vê, é preciso agir com decisão e firmeza, ao passo que o governo se contenta com frases sonoras deste teor: «Pelo ferro à custa de sangue, esmagaremos qualquer tentativa dos que, como nos dias de Julho, atentaram contra o poder do povo.» Não. O nosso hábito é agir primeiro e falar depois. Eles fazem o contrário. Pois bem... está próximo o tempo em que eles recolham os frutos da sua política de meias medidas. Não estou disposto a participar deste jogo desonesto. Fui sempre e continuo a ser partidário da luta   franca; a tagarelice não é própria do meu carácter.

 

O generalzinho havia parado, torcendo um botão do dólman do interlocutor; em seguida reatou, gaguejando levemente, de comovido:

 

Desaçaimaram a sua democracia revolucionária, e agora, com medo dela, suplicam-nos que tiremos da frente unidades seguras, para as colocarmos próximas da capital, e simultaneamente, por complacência para com essa democracia, não se atrevem a empreender a mínima acção efectiva. A cada passo que dão para diante, dão outro para trás... Só pela consolidação total das nossas forças, por uma moral muito forte, é que conseguiremos arrancar concessões ao governo. Ou então... pois bem, veremos! Não hesitarei em desguarnecer a frente de batalha, a fim de os alemães lhes darem uma boa lição.

 

Falámos com Dutov. Os cossacos dão-lhe o apoio necessário, Lavr Gueórguievitch. Resta-nos apenas examinar a questão da coordenação das nossas acções futuras.

 

Depois da sessão, espero-o no meu gabinete com os outros. Qual é o estado de espírito das suas tropas, no Don?

 

O general forte apoiou o queixo quadrado, bem escanhoado, contra o peito, e olhou tristemente em frente, com ar duvidoso. Respondeu, e, enquanto o fazia, as comissuras dos lábios tremiam-lhe sob a bigodaça:

 

Já não tenho a mesma confiança de antigamente nos cossacos... E, seja como for, é difícil apreciar o estado de espírito deles. É necessário um acordo. Os cossacos terão que fazer algumas concessões aos colonos de outras regiões. Estamos a tomar medidas para o conseguir, mas não respondo pelo êxito. Receio que o conflito de interesses entre uns e outros provoque uma ruptura...   terra... É em volta dela que os pensamentos de uns e de outros giram.

 

É forçoso pôr à sua disposição unidades cossacas de confiança, para obviar a toda a casta de acidentes internos. Quando eu voltar ao Quartel-General, falarei no caso a Lukómsski. Por certo acharemos maneira de enviar para a frente alguns regimentos do Don.

 

Muito reconhecido eu lhe ficaria.

 

Falaremos, pois, hoje, da coordenação das acções futuras. Creio firmemente no triunfo do nosso projecto. Mas a sorte é pérfida, general... Se, contra o que penso, ela me virar as costas, posso esperar que me dê asilo nas suas terras do Don?

 

Não só asilo, como protecção. Os cossacos têm uma reputação antiga de hospitalidade.

 

E, pela primeira vez desde o começo da conversa, Kalédine, atamane do Don, teve um sorriso que lhe varreu do olhar desconfiado a fadiga que o toldava.

 

Uma hora mais tarde, lia ele, perante a Conferência, a «Declaração dos Doze Exércitos Cossacos».

 

A partir daquele dia, no Don, no Kúbano, no Térek, no Ural, no Ussúri, em todas as regiões cossacas, de fronteira a fronteira, de stanitsa a stanitsa, se começou a tecer a teia de aranha negra da grande conspiração

 

A uma verstá de distância das ruínas de uma aldeola destruída pela artilharia por ocasião dos combates de Junho, à beira de um bosque, as trincheiras ziguezagueavam caprichosamente. Um esquadrão cossaco especial ocupava o sector à orla do bosque.

 

Por trás de um aglomerado verde de álamos e de bétulas novas, um jazigo de turfa, explorado durante algum tempo antes da guerra, punha uma mancha cor de ferrugem. Uns pilriteiros exibiam com alacridade as suas bagas vermelhas. À direita, por trás de um grupo saliente de árvores, passava uma estrada esburacada pelas granadas; na orla do bosque, viam-se ervas daninhas, miserandas, rasgadas pelas balas, tocos de árvores carbonizados, e a lama amarela dos parapeitos; em todas as direcções, as brechas das trincheiras corriam através dos campos nus. À retaguarda, o jazigo de turfa, ainda com marcas do trabalho, e a própria estrada destruída cheiravam a vida, a actividade suspensa; mas à orla do bosque, o terreno apresentava aos olhos humanos um quadro triste e desolado.

 

Naquele dia, Ivane Alekcêievitch, o antigo mecânico do moinho de Mokhov, tinha ido à povoação próxima, onde se encontravam os serviços do primeiro destacamento, e só voltou à noite. Ia ele a recolher-se ao abrigo, topou com Zakhar Koroliov, que vinha em sentido oposto, espetando com o sabre os sacos de terra, agitando os braços numa dobadoira, quase correndo. Ivane Alekcêievitch afastou-se para o deixar passar, mas Zakhar agarrou-lhe um botão do dólman e segredou-lhe, rebolando os olhos de um amarelo doentio:

 

Já sabes? A infantaria, à nossa direita, vai-se embora. São capazes de ir abandonar a frente.

 

A barba de Zakhar, que lembrava um metal negro, estava desgrenhada, e os olhos exprimiam-lhe avidez, ansiedade, angústia.

 

Quê? Abandonam a frente?

 

Que se vão embora, vão. Porquê é que eu não sei.

 

Talvez vão ser substituídos. Vamos perguntar isso ao comandante do pelotão.

 

Zakhar voltou para trás e dirigiu-se para o abrigo do comandante do pelotão, escorregando no chão húmido e lamacento.

 

Uma hora depois, o esquadrão, rendido por infantaria do Exército, alcançava a aldeola. No outro dia de manhã, os cossacos reapossavam-se dos seus cavalos e partiram para a retaguarda, a marchas forçadas.

 

Uma chuva começava a cair. As bétulas vergavam-se tristemente. A estrada metia por um bosque. Ao sentirem a humidade e o acre e melancólico cheiro das folhas velhas do ano anterior, os cavalos resfolegaram e romperam a avançar com mais vivacidade. As pérolas róseas das dafnes molhadas brilhavam nas moitas, as flores alvas do trevo, lavadas pela chuva, eram de um brilho luminoso. O vento fazia tombar pesadamente gotas grossas de água sobre os cavaleiros. Os capotes e os bonés, como crivados de chumbo de caça, negrejavam. O fumo do tabaco ordinário flutuava por sobre as fileiras.

 

O diabo sabe para onde nos levam.

 

     Se calhar, divertias-te nas trincheiras!

 

Seja como for, para onde nos levarão?

 

Uma transferência qualquer.

 

Não tem o ar disso.

 

Vá mais uma cigarrada, e adeus desgosto.

 

Eu o desgosto levo-o na sacola...

 

Meu capitão, pode-se cantar uma cantiga?

 

Pode, pois!... Começa tu, Arkhip.

 

Um qualquer de uma das primeiras filas pigarreou e principiou:

 

Findo o serviço, os cossacos voltavam.

 

De dragonas nos ombros, e cruzes ao peito.

 

Vozes roucas entraram molemente, mas logo se calaram. Zakhar Koroliov, que ia ao lado de Ivane Alekcêievitch, empinou-se nos estribos e gritou em tom de troça:

 

Eh, súcia de velhos ceguinhos! É assim que vocês cantam lá na terra? Para o que vocês servem é para lamuriar à porta de uma igreja, de mão estendida à caridade. Raio de cantores estes!...

 

Canta lá tu, então!

 

O pescoço dele é curto de mais; não lhe chega para a voz.

 

Estavas com prosápias, e agora calas-te!

 

Koroliov apanhou com uma das mãos a barba negra e piolhenta, cerrou por um momento os olhos, agitou com violência as rédeas, e lançou:

 

Alegrai-vos, valentes cossacos do Don...

 

Literalmente sacudido por aquele apelo, o esquadrão berrou:

 

Trazeis honra e glória!        

 

E o canto ergueu-se por sobre as árvores molhadas e a estrada:

 

Mostrai a todos os vossos amigos

 

Como o inimigo sabemos bater!

Batemo-lo sem romper as fileiras.

 

Sempre obedecendo à voz do comando.

 

Onde o pai-comandante nos manda que vamos

 

Aí nos batemos, com os sabres e as lanças!

 

Todo o caminho o percorreram cantando, felizes de se terem retirado do «cemitério dos lobos». Nessa mesma tarde tomaram um comboio que partiu em direcção a Pskov. Na terceira paragem que tiveram, souberam que o esquadrão, com as outras unidades do 3.º Corpo, se dirigia para Petrogrado, para reprimir os motins que haviam começado. Tal notícia pôs ponto nas conversas. Por largo espaço, um silêncio sonolento pairou no interior dos vagons vermelhos.

 

Caímos do fogo no lume! disse o trangalhadanças de Borchtchov, exprimindo o pensamento da maioria.

 

Na paragem seguinte, Ivane Alekcêievitch, que era, desde Fevereiro, o presidente permanente da comissão do esquadrão, procurou o respectivo comandante.

 

Os cossacos estão inquietos, meu capitão.

 

O capitão olhou demoradamente a covinha funda do queixo de Ivane Alekcêievitch, e replicou-lhe, sorrindo:

 

Inquieto também eu o estou, meu caro.

 

Para onde nos levam?

 

Para Petrogrado.

 

Para reprimir os motins?

 

Pensavas, se calhar, que para participar deles!

 

Nós não queremos nem uma coisa nem outra.

 

Mas, precisamente, ninguém nos pergunta o que nós queremos.

 

Os cossacos...

 

Os cossacos quê? interrompeu-o o capitão, irritado. Eu sei muito bem o que os cossacos pensam. Julgas que esta missão me é agradável? Aqui tens isto, para leres ao esquadrão. Na próxima paragem, falarei aos homens.

 

O capitão estendeu-lhe um telegrama, e pôs-se a mastigar com visível repugnância, fazendo uma careta, uns pedaços de carne de conserva, cobertos de bolinhas de gordura.

 

Tornou Ivane Alekcêievitch para o seu vagom, de telegrama na mão, a escaldá-la como uma brasa.

 

Chamem os homens dos outros vagons.

 

Já o comboio ia em andamento, continuavam ainda alguns cossacos a subir para o vagom dele. Juntaram-se uns trinta.

 

O capitão recebeu um telegrama. Li-o agora mesmo.

 

Que é que ele diz? Lê-o lá!

 

Lê, não te demores.

 

É o armistício?

 

Calem-se!

 

No meio de um silêncio absoluto, Ivane Alekcêievitch leu em voz alta o apelo do generalíssimo Kornilov. Depois, a folha de papel, com as palavras aglomeradas pelo telégrafo, passou de mão em mão.

 

«Eu, general Kornilov, comandante supremo, declaro perante o povo inteiro que o meu dever de soldado, a minha abnegação de cidadão da livre Rússia e o meu amor patriótico sem reservas me obrigaram, nestes momentos graves da existência da pátria, a não me submeter às ordens do Governo Provisório e a manter o comando supremo do Exército e da Marinha. Apoiado nesta decisão por todos os comandantes das frentes, declaro a todo o povo russo que prefiro a morte à destituição do meu posto de comandante supremo. Um verdadeiro filho do povo russo cai no seu posto e sacrifica à pátria o que mais precioso tem, a vida.

 

Nestes momentos verdadeiramente terríveis da história da pátria, com o caminho das duas capitais por assim dizer aberto a um movimento vitorioso do inimigo, o Governo Provisório, esquecendo inclusivamente o grande problema da existência independente do país, agita perante o povo o espectro terrífico da contra-revolução, que ele próprio fomenta, pela sua incapacidade de governar, a sua fraqueza no poder, a sua irresolução na acção.

 

Não sou eu, autêntico filho do meu povo, que, conforme todos sabem, consagrei a minha vida inteira a servi-lo sem reservas, não sou eu quem deixará de defender as grandes liberdades do grande futuro do meu povo. Agora, porém, esse futuro está em mãos fracas e sem vontade. O inimigo arrogante, usando da corrupção e da traição manda na nossa terra como se fosse sua, e ameaça não só a liberdade, mas a própria existência do povo russo. Despertai, homens da Rússia, e mergulhai os olhos no abismo sem fundo para que a nossa pátria está a ser irresistivelmente arrastada.

 

A fim de impedir qualquer espécie de alterações, de evitar qualquer efusão de sangue russo, qualquer guerra interna, esquecendo as injúrias e as ofensas, dirijo-me, perante o povo todo, ao Governo Provisório, para lhe dizer que venha ele ao Quartel-General, onde a sua liberdade e a sua segurança serão garantidas pela minha palavra de honra, para trabalhar comigo numa organização da defesa nacional que, assegurando a liberdade, possa conduzir o povo russo a um grande futuro, digno de um poderoso povo livre

General Kornilov».

 

O comboio parou na estação seguinte. Enquanto esperavam que ele voltasse a partir, os cossacos, agrupados junto dos vagons, discutiam o telegrama de Kornilov, e outro de Kerénsski que o capitão lhes viera ler, em que se declarava Kornilov traidor e contra revolucionário. Sentiam-se desorientados. Por seu lado, o comandante do esquadrão e os oficiais comandantes dos pelotões não sabiam que pensar.

 

Tudo se me baralha na cabeça queixava-se Martine Chamil. Vá lá perceber-se qual dos dois é o traidor!

 

Descompõem-se uns aos outros, e o exército é que paga.

 

Que mais hão-de eles inventar?

 

Todos querem é o penacho.

 

Bulham os grandes e quem se trama são os cossacos.

 

Isto anda tudo sem rei nem roque... É uma desgraça! Um grupo de homens foi ter com Ivane Alekcêievitch e exigiu-lhe:

 

Vai falar com o capitão, para sabermos o que havemos de fazer.

 

Foram dali todos direitos à carruagem do comandante do esquadrão. Os oficiais estavam reunidos, a deliberar, Ivane Alekcêievitch entrou.

 

Meu capitão, os homens perguntam o que se vai passar.

 

Eu vou já lá.

 

O esquadrão esperava, aglomerado junto do primeiro vagom. O capitão penetrou na multidão, abriu caminho até ao meio, e levantou uma das mãos.

 

Nós não estamos sob as ordens de Kerénsski, mas sob as do comandante-chefe e dos nossos chefes imediatos. É assim, ou não? Devemos, portanto, cumprir sem protesto a ordem dos nossos superiores e prosseguir até Petrogrado. O que podemos é, uma vez chegados à estação de Dnô, esclarecer a situação com o comandante da 1.ª Divisão do Don. Depois, veremos. Peço aos cossacos que não percam a cabeça. Temos que pensar na época em que vivemos!

 

Falou ainda, demoradamente, do dever militar, da pátria, da revolução, esforçando-se por tranquilizar os homens, e respondendo evasivamente às perguntas deles. E assim alcançou o que queria: enquanto ele perorava, engatou-se uma locomotiva ao comboio. Os cossacos é que ficaram sem saber que dois oficiais do esquadrão, ameaçando o chefe da estação com as suas armas, haviam conseguido antecipar a partida; e nessa ignorância subiram para os vagons.

 

Um dia inteiro o comboio se arrastou em direcção a Dnô. Mais uma vez parou durante a noite e foi desviado para uma via de resguardo, para deixar passar os comboios de cossacos do Ussúri e do Regimento do Daguestão. Os vagons do Regimento do Daguestão passaram, de luzes todas acesas, na escuridão opalina da noite. Ouviam-se o ruído das vozes guturais, o gemido da zurná (20), melodias exóticas.

 

Era meia-noite quando o esquadrão reatou a viagem. A locomotiva pouco potente havia muito tempo que estava postada ao lado do depósito da água, sob a luz turva da lanterna. O maquinista, fumando, olhava pela sua janela, como se esperasse o que quer que fosse. Um dos cossacos do primeiro vagom, inclinou-se todo para fora e gritou:

 

Eh lá! Ou arrancas, ou apanhas um tiro.

 

O maquinista cuspiu o cigarro, sem responder, seguindo-lhe a trajectória curva, tossicou, e ripostou por fim:

 

Vocês não podem dar tiros em toda a gente: E virou-lhe as costas.

 

Passados alguns minutos, a locomotiva deu um esticão aos vagons, que entrechocaram; e os cavalos, aos quais a sacudidela fizera perder o equilíbrio, percutiram os pavimentos com os cascos. O comboio passou por diante do depósito da água, dos raros rectângulos de luz das janelas iluminadas e das moitas escuras das bétulas. Depois de terem dado a ração aos cavalos, os cossacos haviam adormecido; apenas um ou outro se mantinha acordado, fumando à beira das portas entreabertas, olhando o céu majestoso, pensando na sua vida.

 

Ivane Alekcêievitch, que estava deitado ao lado de Koroliov, olhava através da nesga da porta as estrelas dispersas deslizando.

 

(20)   Instrumento de sopro, usado no Cáucaso e na Ásia Central.

 

Após ter reflectido todo o dia, havia tomado a decisão de, a todo o custo, impedir o esquadrão de prosseguir até Petrogrado; deitado ao lado de Koroliov, cogitava na maneira de convencer os cossacos a agir conforme lhes parecesse.

 

Já antes da declaração de Kornilov, ele tivera a clara consciência de que os cossacos não o deviam seguir, e o instinto dizia-lhe que também nada tinham a ganhar em defender Kerénsski; à força de dar voltas à cabeça, chegara a esta conclusão: que não devia deixar chegar o esquadrão a Petrogrado, e, se ele tivesse de se bater, que fosse contra Kornilov, embora não em favor de Kerénsski e do seu governo, mas sim do que a ele se seguisse. Que o governo que desejava se sucederia ao de Kerénsski era para ele mais que certo. Durante o Verão tinha ido a Petrogrado, à secção militar da Comissão Executiva do Soviete, enviado pelo esquadrão, por virtude de um conflito entre os soldados e o capitão; tinha observado o trabalho da Comissão, conversado com camaradas bolcheviques, e dissera de si para consigo: «Em este esqueleto estando coberto de carne operária, será ele o verdadeiro governo. Mesmo que isto te custe a vida, Ivane, agarra-te a ele, agarra-te como uma criança às mamas da mãe!»

 

Deitado em cima de uma manta, evocava naquela noite, mais do que de costume, com uma paixão que nunca sentira por mais ninguém, o homem sob a orientação do qual havia encontrado o seu duro rumo. Meditando no que devia dizer aos cossacos, recordava as opiniões de Chtókman a respeito deles e repetia-as, como quem bate num prego: «O povo cossaco é essencialmente conservador. Quando quiseres convencer os cossacos da justeza das ideias bolcheviques, não te esqueças, age com prudência, reflecte, adapta-te cuidadosamente às circunstâncias. A princípio, reagirão como Michka Kochevói contra ti, e como tu próprio havias reagido contra mim, mas não desanimes, cava o teu buraco obstinadamente, e o triunfo será nosso.»

 

Ivane Alekcêievitch estava convencido de que o seu esforço para convencer os cossacos a não seguirem Kornilov esbarraria em certas objecções da parte deles, mas no dia seguinte, mal começou com cuidado a dizer no vagom que se devia exigir o regresso à frente de batalha, de preferência a irem bater-se contra irmãos em Petrogrado, os cossacos aquiesceram logo, decidindo com entusiasmo recusarem-se a prosseguir a viagem. Zahkar Koroliov e um cossaco da stanitsa de Tchernichévsskaia, Turíline, eram os cúmplices mais activos de Ivane Alekcêievitch. Todo o dia, indo de vagom em vagom, eles falaram aos homens, e um pouco antes da noite, num momento em que o comboio afrouxava o andamento ao passar por uma estaçãozinha, Pchenítchnikov, o sargento do terceiro pelotão, precipitou-se para o vagom de Ivane Alekcêievitch.

 

O esquadrão desce na próxima estação! bradou-lhe ele, numa agitação enorme. De que te serve seres o presidente da Comissão, se não sabes o que os cossacos querem! Já chega de sermos parvos! Não vamos mais longe. Os oficiais põem-nos a corda ao pescoço, e tu ficas na mesma! Foi para isto que te elegeram? E ainda por cima te pões a rir?

 

Há muito tempo que tu devias ter dito isso retorquiu-lhe Ivane Alekcêievitch, sorrindo.

 

Quando o comboio voltou a parar, foi ele o primeiro a saltar do vagom. Acompanhado de Turíline, dirigiu-se ao chefe da estação:

 

Escusas   de   pensar na   continuação   da   viagem.   Nós saímos aqui.

 

Como é lá isso? atirou o chefe da estação, atrapalhado. Eu tenho instruções... uma ordem de marcha ..

 

Cala   o   bico! interrompeu-o   asperamente   Turíline. Puseram-se à procura da Comissão da estação, e, quando a encontraram, explicaram o caso ao presidente, um telegrafista alto e ruivo; alguns minutos depois, o maquinista arrumava, solícito, o comboio numa via de resguardo.

 

Apressaram-se os cossacos a colocar as pranchas e a apear os cavalos. Ivane Alekcêievitch estava de pé, ao lado da locomotiva, de pernas abertas, limpando o suor da sua cara sorridente. Lívido, o comandante do esquadrão acercou-se dele.

 

Que estás tu a fazer?... Tu sabes que...

 

Pois sei! interrompeu-o Ivane Alekcêievitch. E tu, capitão, caladinho! E empalidecendo, de narinas arfando, acrescentou sem papas na língua: Já gritaste o que tinhas a gritar, rapaz! Agora, é a nossa vez. São assim as coisas!

 

O   general   Kornilov...gaguejou   o   capitão,   coradíssimo.

 

Mas Ivane Alekcêievitch, fixando os olhos nas botas gastas, profundamente enterradas na areia friável, fez um gesto despiciente com uma mão e aconselhou-o:

 

Pendura-o ao pescoço como medalha, que nós não o queremos para nada.

 

O capitão deu meia volta sobre os calcanhares e abalou a correr para a sua carruagem.

 

Uma hora mais tarde, sem nenhum oficial, mas em perfeita formação de combate, o esquadrão abandonava a estação a caminho do sudoeste. Ivane Alekcêievitch assumira o comando e ia no pelotão da frente, ao lado dos metralhadores, com o seu ajudante, o pequeno Turíline.

 

Orientando-se a custo por um mapa tirado ao capitão, os cossacos alcançaram a aldeia de Goréloiê, onde decidiram passar a noite. Ao fim de uma discussão colectiva, tomaram a decisão de voltar para a frente de batalha, e, no caso de lhes pretenderem travar o passo, de se baterem.

 

Pearam os cavalos, postaram sentinelas, e deitaram-se para dormir. Não acenderam qualquer lume. O moral da maior parte deles era baixo, de modo que se deitaram sem as conversas e os gracejos habituais, cada qual dissimulando o seu pensamento.

 

«Que acontecerá se eles se arrependerem e decidirem tornar para trás?» disse para consigo Ivane Alekcêievitch, com alguma inquietação, enrolando-se no capote.

 

Como se lhe tivesse adivinhado a apreensão, Turíline ’acercou-se dele:

 

Estás a dormir, Ivane?

   Ainda não.

 

Turíline sentou-se-lhe aos pés, de cigarro luzindo, e sussurrou:

 

Os homens estão desassossegados... Tomaram uma decisão, e agora temem-na. Não achas... que fomos um pedaço longe de mais? Ha?

 

-Depois se verá respondeu Ivane Alekcêievitch. Tu, ao menos, não tens medo?

 

Turíline coçou a nuca abaixo do boné, e sorriu de esguelha.

 

Para falar com franqueza, sossegado não estou... A princípio, senti-me forte, mas não tardou que me assustasse.

 

É na altura de pagar que o avarento se mostra. Que queres tu, Ivane? Quem tem a força são eles.

 

Um bocado se conservaram sem falar. Na aldeia extinguiam-se as luzes. Uns patos grasnavam algures, nas angras dos pântanos marginados de salgueiros, a perder de vista.

 

Olha uma pata! disse Turíline, pensativo, para logo de novo se calar.

 

O silêncio brando e caricioso da noite pesava sobre o prado. O orvalho cobria a erva. Um vento leve soprava para o acampamento cossaco os cheiros misturados das plantas dos pântanos, de junco podre, do solo lamacento, da erva molhada. De espaço a espaço, uma peia metálica tinia, ou o barulho da queda de um cavalo, que se atirava para o chão, a relinchar e a rebolar-se na erva. Depois, novamente um silêncio dormente pesava, ou ouvia-se o apelo de um pato selvagem, ao longe, muito ao longe, quase imperceptível, e mais perto a resposta da fêmea. Nas trevas, soava um rumor potente, precipitado, de asas invisíveis. Era a noite. Era o silêncio. Era a humidade brumosa dos prados. A oeste, na base do céu, uma massa de nuvens violáceas parecia fermentar. E por sobre a velha região de Pskov, ao alto, como uma advertência incessante, como uma estrada larga e luzente, a Estrada de Bati (21).

 

O esquadrão retomou a marcha ao alvorecer, e atravessou a aldeia de Goréloiê; demoradamente, as mulheres e as crianças que saíam com as vacas para os pastos o seguiram com o olhar. Ao cimo de uma colina, que o sol nascente banhava de cor de tijolo, Turíline, que se havia virado para trás, tocou com o pé o estribo de Ivane Alekcêievitch.

 

Repara naqueles cavaleiros que vêm atrás de nós... Envoltos num manto de poeira, três cavaleiros haviam ultrapassado a aldeia e acercavam-se a galope.

 

Esqua-drão! Alto! comandou Ivane Alekcêievitch.

 

com a rapidez habitual, os cossacos pararam, em forma de quadrado cinzento. A um pouco mais de meia verstá, os cavaleiros meteram a trote. Um deles, um oficial cossaco, tirou um lenço de um bolso e agitou-o acima da cabeça. Os cossacos não despegavam os olhos dos advenientes. O oficial que vinha à frente trazia uniforme de campanha, e os dois outros, que guardavam certa distância dele, envergavam tcherkesskas.

 

De que se trata? inquiriu Ivane Alekcêievitch, avançando-lhes ao encontro.

 

Vimos negociar replicou o oficial, fazendo continência. Quem tomou o comando do esquadrão?

 

Fui eu.

 

Trago plenos poderes da 1ª Divisão dos Cossacos do Don, e estes senhores, que me acompanham, representam a Divisão Indígena. com os olhos designou os dois montanheses, esticou as rédeas do cavalo e acariciou-lhe o pescoço molhado e reluzente de espuma. Se quer negociar, mande apear o esquadrão. Tenho instruções orais do major-general Grekov, comandante da Divisão, a transmitir-lhes.

 

Apearam-se os cossacos. Os delegados apearam-se por seu

 

(21) A Via Láctea, ou Estrada de Santiago. O Khan Bati chefiava as hordas tártaras que invadiram a Rússia no século XIII.

 

turno, mergulharam por entre os cossacos, e estacaram a meio. O esquadrão arredou-se um pouco, formando em redor deles um círculo.

 

Foi o oficial cossaco o primeiro a falar:

 

-Cossacos! Estamos aqui para vos convidar a reflectir e para evitar as ruins consequências do vosso acto. O Estado-Maior da Divisão soube ontem que, por virtude de uma propaganda criminosa, os senhores abandonaram, por decisão própria, o comboio em que iam, e mandou-nos aqui para lhes transmitir a ordem de regressarem sem demora à estação de Dnô. As tropas da Divisão Indígena e outras unidades de cavalaria ocuparam ontem Petrogrado; acabámos de receber o telegrama com a notícia. A nossa guarda-avançada entrou na capital, ocupou os edifícios governamentais, os bancos, o telégrafo, as centrais telefónicas, e todos os locais de importância. O Governo Provisório está em fuga e considerado como deposto. Reflitam, compatriotas. O caminho por que tomaram é o da perdição! Se não quiserem submeter-se à ordem do general comandante da divisão, serão mandadas forças armadas contra os senhores. O vosso acto é considerado como uma traição, como uma recusa de execução de uma ordem de combate. Só a submissão total poderá impedir uma efusão de sangue fraterno.

 

Ao aparecimento dos delegados, Ivane Alekcêievitch, em vista do estado de espírito dos cossacos, havia compreendido a necessidade de entabular negociações, porque uma pura recusa de negociar acarretaria por força consequências negativas. Por isso, após um instante de reflexão e um consequente sinal a Turíline, ele havia mandado apear os cossacos, e se aproximara dos delegados. Durante a alocução do oficial, os cossacos mantiveram-se carrancudos, de cabeça baixa, e alguns murmurando entre si. Zakhar Koroliov sorria de viés, de barba preta caída sobre a camisa, como um jacto de metal; Borchtchov brincava com o chicote e olhava de soslaio; Martine Chamil acariciava as bochechas com uma mão suja, piscando os olhos; atrás dele, via-se a face amarela e simplória de Bagrov; o metralhador Krássnikov, pregueava as pálpebras, em ar de expectativa; Turíline respirava ruidosamente; Obnízov, de cara toda sardenta e de boné atirado para trás, sacudia a cabeça ornada da sua longa poupa, como um toiro a esquivar-se ao jugo; o segundo pelotão inteiro mostrava-se cabisbaixo, como se rezasse; os homens mantinham-se calados, respirando ruidosamente e a custo, com a perturbação, como uma vaga, percorrendo-lhes as faces...

 

Ivane Alekcêievitch percebeu que chegara o momento crítico: uns minutos mais, e o oficial bem-falante virava-lhe o esquadrão do avesso. Era preciso, custasse o que custasse, desfazer a impressão causada pelas palavras dele, abalar a resolução, ainda inexpressa, mas já formada no espírito dos cossacos. Levantou um braço, e passeou sobre a multidão os olhos esbugalhados, estranhamente brancos.

 

Rapazes! Esperem um bocado! E, dirigindo-se ao oficial: Traz o telegrama consigo?

 

Qual telegrama? obtemperou o oficial. -O que diz que Petrogrado foi tomado.

 

O telegrama?... Não. O telegrama para quê?

 

Ah, não o traz!...

 

Como um só homem, o esquadrão emitiu um suspiro de alívio. Muitos dos cossacos ergueram a cabeça e viraram para Ivane Alekcêievitch os olhos esperançados. Este gritava com a sua voz rouca, reencontrada a sua malícia, a sua segurança, a sua cólera, concitando vitoriosamente a atenção geral.

 

Não o trazes, ha? E devíamos acreditar em ti? Querias, então, intrujar-nos?

 

Era uma mentira! rosnou o esquadrão.

 

O telegrama não veio dirigido a mim, cossacos! E o oficial espalmava as mãos no peito, em atitude convincente.

 

Simplesmente, ninguém o escutava. Sentindo que reconquistara a simpatia e a confiança no esquadrão, Ivane Alekcêievitch prosseguiu, cortante como um diamante num vidro:

 

E, mesmo que Petrogrado tenha caído, nós é que não vamos com vocês. Não queremos bater-nos contra os nossos. Não iremos contra o povo. Querem acirrar-nos uns contra os outros? Na! Deixámos de ser imbecis. Não estamos dispostos a impor um regime de generais. Tenho dito!

 

A multidão dos cossacos rompeu a falar toda ao mesmo tempo, agitando-se e berrando.

 

É assim mesmo.

 

Acertou em cheio.

 

Pois então!...

 

Ala, Suas Nobrezas! Ala, que se faz tarde!

 

Olhem o raio de compadres que nos mandaram!

 

Há   três   regimentos   de cossacos em   Petrogrado em Petersburgo e parece que hesitam em ir contra o povo.

 

Ivane, escusas de ter cerimónias contra eles. Eles que se ponham a andar!

 

Ivane Alekcêievitch fitou os delegados: o oficial cossaco esperava com paciência, cerrando os lábios, com os dois montanheses atrás dele, de ombro contra ombro. Os olhos oblíquos de um deles, um jovem e esbelto oficial inguche, de braços cruzados sobre a sua elegante tcherkesska, brilhavam por sob o gorro preto; o outro, um osseta arruivado, mais velho, com um dos pés negligentemente avançado e uma das mãos pousada no punho da espada, considerava os cossacos com um olhar irónico e penetrante. Ivane Alekcêievitch ia declarar interrompidas as negociações, mas o oficial cossaco antecipou-se-lhe; depois de algumas palavras trocadas em voz baixa com o inguche, gritou:

 

Cossacos do Don! Vocês consentem que este representante da Divisão Selvagem lhes diga umas palavras?

 

Sem esperar pela resposta, o inguche avançou para o meio do círculo que os cossacos formavam, com o andar suave que lhe davam as botas sem tacões, a endireitar nervosamente o boldrié estreito e ornamentado.

 

Irmãos cossacos! Para que é preciso tanto aranzel? Podemos conversar sem nos zangarmos. Vocês não querem o general Kornilov? Vocês querem a guerra? Pois de acordo. Travaremos guerra. Não temos medo! Não temos mesmo medo nenhum Hoje mesmo nós os esmagaremos. Atrás de nós, estão dois regimentos de montanheses. É verdade! Não há necessidade de fazer barulho. Barulho para quê? Ao princípio mantivera-se ostensivamente sereno, mas para o fim as frases tinham-lhe começado a sair ardentes e violentas, com um ou outro termo da sua língua materna a misturar-se-lhe ao discurso inseguro e gutural. Quem vos engana é esse cossaco, um bolchevique, e vocês seguem-no! Ba! Pois eu não vejo? Prendam-no! Desarmem-no!

 

com gesto atrevido, designou Ivane Alekcêivitch, agitando-se, muito pálido, a gesticular apaixonadamente no meio do círculo estreito. O companheiro, o osseta arruivado, mais velho, conservava uma tranquilidade glacial; o oficial dava esticões ao fiador da espada. De novo os cossacos se calaram, de novo se lhes lia a indecisão nos olhos. Ivane Alekcêievitch não despegava os dele do oficial inguche, dos seus dentes alvos como os de um animal selvagem, do traço de suor cinzento que lhe atravessava obliquamente a fonte esquerda, a pensar com angústia que deixara passar a ocasião de interromper com uma palavra as negociações, e arrastar com ele os cossacos. Foi Turíline quem salvou a situação. Saltou para o meio do círculo, agitou furiosamente os braços, todo ele sacudido de tremuras, a espumar de raiva, e desatou a berrar em voz rouca, com tal ímpeto que lhe saltaram os botões da gola da camisa:

 

Bichos nojentos!... Miseráveis!... Súcia de patifes!... Eles fazem-lhes namoro, como se vocês fossem putas, e vocês arrebitam logo as orelhas. O que eles querem é servir-se de vocês!... E vocês que fazem? Que fazem, digam lá?... Quando os deviam rachar, escutam-nos! O que devíamos era cortar-lhes a cabeça, sangrá-los. Enquanto vocês para aí conversam, estão a cercar-nos!... Vão ceifar-nos à metralhadora... É mesmo a altura de comícios!... Enquanto as tropas deles se aproximam, vão-nos eles embarrilando... Ah-ah-ah, cossacos isto! Só para o que vocês servem é para andar atrás das mulheres.

 

A cavalo! rugiu Ivane Alekcêievitch, em voz tonitruante.

 

A ordem dele reboou por sobre a multidão como a explosão de uma granada. Precipitaram-se os cossacos para os cavalos. E, num minuto, o esquadrão estava formado em colunas.

 

O oficial cossaco corria para todos os lados:

 

Oiçam, cossacos!

 

Ivane Alekcêievitch desprendeu a carabina do ombro, apoiou com firmeza no gatilho o indicador direito, de grossas articulações, e bradou, retezando as rédeas do cavalo, que curveteava:

 

As negociações acabaram. Agora   quem quiser falar connosco, é nesta língua.

 

E brandiu a carabina, em atitude significativa.

 

Pelotão após pelotão, o esquadrão pôs-se em marcha. Olhando para a retaguarda, os cossacos viram os delegados, que haviam tornado a montar, discutirem entre eles. Franzindo os olhos, o inguche explicava o que quer que fosse com ardor, erguendo as mãos; e o forro de seda da manga arregaçada da tcherkesska reluzia-lhe, de uma brancura de neve.

 

Ao virar-se para trás uma vez mais, Ivane Alekcêievitch, viu aquela mancha ofuscante da seda, e, sem perceber porquê, foi como se de súbito se lhe representasse diante, como um cavalo, o Don agitado pelo vento seco, com as suas ondas de crinas verdes, e as asas brancas, inclinadas, de uma gaivota roçando-as.

 

Logo em 29 de Agosto Kornilov compreendeu, pelos telegramas que recebeu de Krimov, que o golpe de estado militar havia abortado.

 

Às duas horas da tarde, um oficial enviado por Krimov, chegou ao Quartel-General. Kornilov teve com ele uma demorada conversa, e, após ela, chamou Romanóvsski e disse-lhe, amachucando nervosamente um pedaço de papel:

 

Está tudo a desabar. Perdemos a partida... Krimov não conseguirá concentrar a tempo o seu Corpo perto de Petrogrado. Lá se vai o momento propício. O que parecia tão fácil de realizar esbarra em milhares de obstáculos... Temos que admitir que falhámos... Repare... Veja a disposição das tropas.

 

Estendeu a Romanóvsski um mapa em que estavam indicadas as posições mais recentes dos comboios do 3.º Corpo e da Divisão Indígena, e uma crispação percorreu-lhe a cara enérgica, marcada pela insónia.

 

Toda esta choldra dos caminhos-de-ferro nos cria dificuldades. Não percebem que em caso de êxito lhes mandarei enforcar um homem em cada dez. Aqui tem o relatório de Krimov.

 

Enquanto Romanóvsski lia, passando uma mãozorra pela cara oleosa e opada, Kornilov pôs-se a escrever rapidamente:

 

«Ao atamane Alekcei Maxímovitch Kalédine, em Novotcherkassk.

 

O conteúdo do seu telegrama ao Governo Provisório chegou ao meu conhecimento. Tendo esgotado a paciência num combate infrutífero contra os desleais e os traidores, perante a catástrofe que ameaça a pátria, os gloriosos cossacos defendem, de armas na mão, a vida e a liberdade do país, que cresceu e se desenvolveu graças aos seus esforços e ao seu sangue. Manter-nos-emos em contacto estreito por algum tempo. Peço-lhe que aja em conformidade comigo, como lhe indiquem o amor da pátria e a honra cossaca.

General Kornilov.»

 

Mande este telegrama sem demora disse ele a Romanóvsski, mal acabou de escrever.

 

Quer que eu mande outro ao príncipe Bagratione, para ele continuar a avançar pelas estradas?

 

Mande, mande.

 

com expressão sonhadora, após um silêncio, Romanóvsski acrescentou:

 

Na minha opinião,   Lavr Gueórguievitch,   não temos razão até agora para pessimismos. Está a apreciar os acontecimentos com exagero.

 

Atirando a mão direita para todos os lados, Kornilov tentava apanhar uma borboletazinha cor de malva que esvoaçava em torno dele. Os dedos cerravam-se-lhe em vão, enquanto que a face se lhe mantinha atenta e um pouco tensa. A borboleta vacilava nas correntes de ar, descia de asas abertas, esforçava-se por alcançar a janela escancarada. Tendo conseguido finalmente apanhá-la, Kornilov teve um suspiro de alívio e deixou-se cair contra as costas da cadeira.

 

Esperava Romanóvsski uma réplica à sua objecção; mas Kornilov, com um sorriso melancólico e evocativo contou:

 

Sonhei esta noite que comandava uma brigada de uma divisão de-atiradores. Atacávamos nos Cárpatos. Cheguei a uma herdade com o meu estado-maior. Veio ao nosso encontro um velho ruteno, com o seu fato de cerimónia. Ofereceu-me leite, e disse-me, num alemão muito correcto, tirando o chapéu de feltro branco: «Bebe, general. Este leite tem extraordinárias propriedades curativas.» Bebi, e vi sem espanto o ruteno bater-me familiarmente num ombro. Em seguida, caminhámos por umas montanhas, que já não eram os Cárpatos, mas outras quaisquer, no Afganistão, ao longo de um caminho de cabras... Isso mesmo: um caminho de cabras. Por sob os nossos pés rolavam pedras, calhaus castanhos, e por baixo de nós, por detrás de uma garganta, avistava-se uma sumptuosa paisagem meridional, banhada pela luz de um sol branco...

 

Uma corrente de ar, provinda da janela, agitava os papéis em cima da secretária. O olhar toldado e longínquo de Kornilov errava algures, do outro lado do Dniepr, por sobre as vertentes dos vales, salpicadas das manchas dos prados.

 

Romanóvsski seguiu aquele olhar, e ele próprio, com um imperceptível suspiro, pousou os olhos no brilho vivo do Dniepr, que a falta do vento tornava como que de vidro, e nos campos vaporosos, que a proximidade do Outono brandamente esfumava.

 

As unidades do 3.º Corpo de Cavalaria e da Divisão Indígena, que haviam sido enviadas para Petrogrado, convergiam numa enorme extensão ao longo de oito linhas de caminho-de-ferro. Revelh, Vesenberg, Narva, lamburg, Gátchina, Somrino, Víritsa, Tchudovo, Gdob, Novgorod, Dnô, Pskov, Luga, e todas as estações intermédias, bem como as de resguardo, estavam pejadas de comboios, que se deslocavam com lentidão ou se quedavam bloqueados. A influência moral do Alto Comando sobre os regimentos era nenhuma, e os esquadrões, separados, perdiam toda a ligação entre si. Aumentava a confusão o facto de o 3.º Corpo e a Divisão Indígena, que lhe fora adjunta, se deverem fundir num exército, durante o próprio movimento; para isso, era preciso deslocar e reunir certas unidades, reagrupar certos comboios. Tudo isto originava situações sem saída, ordens absurdas, com frequência contraditórias, e aumentava a tensão e o nervosismo.

 

Não admirava ser lentamente que as tropas de Kornilov avançavam para Petrogrado, dada a oposição dos operários e dos empregados dos caminhos-de-ferro com que esbarravam, constantemente obrigadas, como eram, a vencer novos obstáculos, acumulando-se nos entroncamentos, desorganizando-se.

 

Nos seus vagons vermelhos, ao lado dos cavalos esfomeados e desselados, homens esfomeados amontoavam-se: cossacos do Don, do Ussúri, de Orenburg, de Nertchinssk, do Amur, inguches, tcherkesses, ossetas, daguestanianos. Os comboios paravam durante horas nas estações, os cavaleiros saíam em massa dos vagons, enchiam os cais, como gafanhotos, obstruíam as vias, devoravam tudo o que se pudesse comer e restasse dos comboios anteriores, assaltavam as casas dos habitantes, pilhavam os armazéns de víveres.

 

Por todos os lados eram faixas amarelas e vermelhas de cossacos, capotes elegantes dos dragões, tcherkesskas dos montanheses. Nunca a natureza monótona do norte havia visto tão rica profusão de cores.

 

Em 29 de Agosto, perto de Pavlovssk, a 3.ª Brigada da Divisão Indígena, sob o comando do príncipe Gagárine, entrou em contacto com o inimigo. Chegados a um ponto em que as calhas tinham sido levantadas, os regimentos inguche e tcherkess, que formavam a vanguarda da divisão, tinham descido do comboio e continuado a cavalo em direcção a Tsársskoi e Sielo. Algumas patrulhas inguches avançaram mesmo até à estação de Somrino. Os dois regimentos progrediam vagarosamente. Tendo repelido a Guarda, esperavam agora a chegada das outras unidades da divisão, as quais, por sua vez, esperavam em Dnô que pudessem partir; algumas nem sequer ainda ali tinham chegado.

 

O príncipe Bagratione, comandante da Divisão Indígena, encontrava-se numa propriedade a pouca distância da estação, e esperava que as outras unidades se concentrassem, sem se arriscar a tomar pela estrada até Víritsa.

 

Em 28 de Agosto, recebera ele do Estado-Maior da frente uma cópia deste telegrama:

 

«Peço que se transmita ao comandante do 3.º Corpo de Exército e aos comandantes da 1.ª Divisão do Don, da Divisão do Ussúri e da Divisão Indígena do Cáucaso, a ordem seguinte do comandante-chefe: se, por virtude de obstáculos imprevistos, as tropas encontrarem dificuldade em prosseguir o seu avanço pelo caminho-de-ferro, o comandante-chefe ordena-lhes que o continuem a cavalo. 27 de Agosto de 1917. N.º 6411.

 

Romano vsskí.»

 

À roda das 9 horas da manhã, Bagratione informou telegràficamente Kornilov de que recebera às 6 horas e 40 minutos, por intermédio do coronel Bagratúni, chefe do Estado-Maior da Região Militar de Petrogrado, uma ordem de Kerénsski para fazer recuar todas as tropas, e que, por outro lado, os comboios da divisão estavam bloqueados entre as estações de Gatchka e de Orédej, porque os caminhos-de-ferro, em conformidade com as ordens do Governo Provisório, não lhes forneciam o pessoal necessário A isto, Kornilov respondeu-

 

«Ao príncipe Bagratione. Prosseguir o avanço pelo caminho-de-ferro. Se isto for impossível, alcançar Luga pela estrada e colocar-se à inteira disposição de general Krimov.»

 

Não obstante isto, Bagratione não se atreveu a continuar pela estrada, e deu ordem ao seu estado-maior para tornar a subir para o comboio.

 

O regimento em que Evguéni Lisstnítzki antes servira progredia para Petrogrado com os outros regimentos que constituíam a 1.ª Divisão Cossaca, pela linha Revel-Vesenberg-Narva. No dia 28, às 5 horas da tarde, um comboio que transportava dois esquadrões do regimento chegou a Narva, onde o seu comandante foi informado de que era impossível tornar a partir durante a noite, porque a via havia sido danificada entre Narva e lamburg, de que já uma unidade do batalhão ferroviário para ali se dirigira em comboio especial, e de que o comboio poderia prosseguir viagem no dia seguinte de manhã, se a reparação se conseguisse efectuar com vontade ou sem ela, não teve o comandante do comboio outro remédio senão conformar-se. A praguejar, voltou para a sua carruagem, informou os oficiais do que se passava, e instalou-se para beber chá. Caiu a noite, negra de breu. Um vento húmido e penetrante soprava do lado do golfo. Nos vagons, os cossacos discutiam em voz baixa, e os cavalos, excitados pelos apitos das locomotivas, percutiam as tábuas dos pavimentos com os cascos. À retaguarda do comboio, a voz fresca de um cossaco cantava, lamentosa, na escuridão:

 

Adeus cidade e aldeia.

 

Adeus, minha terra natal!

 

Adeus rapariga fresca!

 

Adeus, minha túlipa azul!

 

Outrora deitado, da tardinha, à alvorada,

 

Era a minha querida que eu cingia com as mãos.

 

Agora, de pé, da tardinha à alvorada,

 

É a carabina que eu aperto nas mãos ..

 

Um homem saiu de detrás da massa enorme do armazém das mercadorias. Parou, escutou a canção, examinou as vias, estriadas de riscos de luz amarela, e dirigiu-se sem hesitação para o comboio. Os passos dele soavam brandamente nas chulipas, e tornavam-se surdos na terra argilosa, calcada a maço. No momento em que ele passava por trás do último vagom, o cossaco que cantava de pé à porta, calou-se para o interpelar:

 

Quem és tu?

 

E a ti que te importa? replicou o outro, de mau modo, e afastando-se.

 

A passear à noite, ha? Olha que nós aos ladrões atiramos-lhes. Andas a ver se pilhas alguma coisa?

 

Sem tornar resposta, o homem alcançou o meio do comboio, enfiou a cabeça pela abertura de uma porta e perguntou:

 

Que esquadrão é este?

 

Disciplinar! gracejaram   no   escuro algumas   vozes.

 

Estou a falar a sério: que esquadrão é este?

 

O segundo.

 

Onde está o quarto pelotão?

 

No sexto vagom a contar da cabeça do comboio.

 

Ao lado do sexto vagom, três cossacos fumavam, um de cócoras, os outros dois de pé. Em silêncio fitaram o homem que deles se acercava.

 

Saúde, cossacos!

 

Saúde! replicaram eles, observando a cara do recém-chegado.

 

Nikita Dúguine está vivo? Está aqui?

 

Sou eu respondeu com a sua voz de tenor o homem acocorado, que se levantou e esmagou sob um tacão a ponta do cigarro. Não te reconheço. De que unidade és tu? Donde vens? Estendia a cara barbuda, buscando ver as feições do desconhecido de capote e boné velhos de soldado; e de súbito emitiu um grito de admiração:

 

Iliá! Buntchuk! Meu velho! Donde diabo vens tu? Apertou na mão rugosa a mão peluda de Buntchuk, e disse-lhe em voz baixa, curvando-se para ele:

 

Os rapazes, aqui, estão connosco. Não tens que ter medo. Donde vens tu? Fala lá, diabo!

 

Buntchuk apertou a mão aos outros cossacos, e respondeu na sua voz de cana rachada, um pouco rouca:

 

Venho de Petrogrado. Tive dificuldade em os encontrar. Trata-se de uma coisa importante. Precisamos de conversar. Sinto-me contente de te ver são e salvo, irmão.

 

Conversar? disse a voz cantante do tenor barbudo. És oficial e não desprezas a nossa companhia? Obrigado, Iliá. Deus te proteja. Não costumamos ouvir muitas palavras amáveis. E um riso de bom-rapaz tremia-lhe na voz.

 

Buntchuk respondeu, em tom brincalhão:..

 

Pronto, pronto! Mesmo com essa barba até ao umbigo, não deixas de brincar.

 

A barba pode-se cortar quando se queira. Mas conta lá. Que se passa em Petrogrado? Há por lá motins?

 

Entremos para aqui propôs Buntchuk em tom resoluto.

 

Subiram para o vagom. Dúguine sacudiu um dos cossacos pelos pés e disse a meia voz:

 

A pé, rapazes! Está aqui uma pessoa amiga que nos veio ver. Vá, despachem-se, militares, depressa.

 

Os cossacos ergueram-se, resmungando. Uma mãozorra que tresandava a tabaco e a suor de cavalo palpou com precaução, na sombra, a cara de Buntchuk, que se havia sentado numa sela; e uma voz de baixo, pastosa como um óleo pesado, perguntou:

 

És o Buntchuk?

 

Sou. E tu és o Tchikamássov?

 

Sou, sim. Olá, meu velho!

 

Olá!

 

Vou   num   instante   chamar   os   rapazes   do   terceiro pelotão.

 

Vai lá!... Vai.

 

O terceiro pelotão apareceu quase inteirinho; apenas dois homens não vieram, por terem ficado com os cavalos. Os cossacos cerravam-se à roda de Buntchuk, estendendo-lhe as mãos ásperas, inclinando-se para ele, para lhe verem o carão grave. Tratavam-no uns por Buntchuk, outros por Iliá Mítritch, outros por Iliúcha; mas todas as vozes exprimiam a mesma calorosa fraternidade.

 

Fazia agora no vagom um calor abafado. Manchas de luz dançavam nas paredes de tábuas, sombras monstruosas vacilavam e aumentavam, a lanterna fumarenta de azeite emitia uma luz baça.

 

Fizeram sentar Buntchuk de modo a que a luz lhe batesse, e dispuseram-se em torno dele, os que estavam mais perto agachados, os outros de pé. Dúguine, o tenor, pigarreou para aclarar a voz.

 

Recebemos a tua carta ainda não há muito tempo, Iliá Mítritcb, mas gostaríamos que nos dissesses o que devemos fazer agora, e que nos aconselhasses. Levam-nos para Petrogrado; que havemos nós de fazer?

 

O que acontece é isto, Mítritch principiou de pé à porta do vagom, um cossaco, com uma arcada pendente do lobo de uma orelha, o mesmo que um dia havia irritado Lisstnítzki, quando este proibira que se aquecesse o chá nas chapas de protecção das trincheiras. Passam por aqui propagandistas de toda a casta, que nos dizem: «Não vás para Petrogrado», e que nos explicam que não nos devemos bater contra irmãos, e mais isto, e mais aquilo, sempre do mesmo género. Escutá-los escutamos; mas a confiança neles é que não é muita. Não sabemos o que eles pretendem de nós. Ninguém os conhece. Se nos recusarmos a ir, Kornilov manda os tcherkesses, e o sangue correrá à mesma. Mas tu és como nós; és um cossaco; em ti temos mais confiança; e até te agradecemos muito teres-nos escrito cartas e mandado jornais de Petrogrado... É que falta papel para enrolar o tabaco, e com os jornais...

 

Que estás tu para aí a dizer, que palermices são essas, cabeça de burro? interrompeu-o outro cossaco com indignação. Como não sabes ler, julgas que toda a gente é tão estúpida como tu? Como se nos servíssemos só dos jornais para fazer cigarros! Antes disso, líamo-los de ponta a ponta, Iliá Mítritch.

 

É só abrir a boca e falar, o malandro, o safado!

 

«Para fazer cigarros» tem piada!

 

Quando se é parvo daquela maneira!...

 

Irmãos! E o cossaco da argola na orelha tentava justificar-se. Não é isso que eu queria dizer. Está claro que primeiro os líamos...

 

Também os lias, tu?

 

Eu não aprendi a ler... Quero eu dizer que se começava por lê-los, e só depois é que nos servíamos deles para enrolar o tabaco...

 

Sentado na sela, Buntchuk fitava os cossacos, com o seu sorriso discreto; como não gostava de falar sentado, pôs-se de pé e, de costas voltadas para a lanterna, começou com lentidão e esforço:

 

Vocês não têm nada que fazer em Petrogrado. Não há motins nenhuns. Sabem vocês para que os mandam ir para lá? Para derrubar o Governo Provisório... Aí está! E quem os manda? O general tsarista Kornilov. E para que quer ele derrubar Kerénsski? Para lhe tomar o lugar. Atenção, cossacos! Querem tirar-lhes um jugo de madeira, para lhes porem um jugo de aço. Entre dois males, devemos escolher o menor. Não é isto verdade? Julguem-no vocês mesmos. No tempo do tsar, batiam-lhes nas ventas e faziam-lhes dar na guerra o corpinho ao manifesto, em proveito de outros. com Kerénsski, continuam a dar o corpinho ao manifesto, mas já não lhes batem nas ventas. Outra coisa será quando os bolcheviques tomarem o poder. Os bolcheviques não querem a guerra. Se o poder estivesse nas mãos deles, haveria paz imediatamente. Eu não sou> a favor de Kerénsski, o diabo o leve, que são todos feitos da mesma massa. Buntchuk sorriu, limpou com uma manga o suor da testa, e prosseguiu: Mas exorto-os a não verter o sangue dos operários. Se Kornilov ganhasse, a Rússia mergulhava em sangue até aos joelhos, e seria muito mais difícil arrancar-lhe o poder a ele, para o pôr nas mãos do povo trabalhador.

 

Espera   aí   um   bocado,   Iliá   Mítritch!...disse   um cossaco baixo, tão baixo e atarracado como Buntchuk, que saiu de uma das últimas filas. Pigarreou, esfregou as mãos grandes, que mais pareciam raízes de um velho castanheiro, lavadas pela chuva, e fixou em Buntchuk o olhar risonho, verde-claro e suave como as folhas novas. Falaste-nos em jugos... E os bolcheviques, em tomando o poder, que jugo é que nos põem?

 

Olha lá! Tu punhas um jugo a ti próprio?

 

A mim próprio, como?

 

Pois claro! com os bolcheviques, quem é que estará no poder? És tu, se fores eleito, ou Dúguine, ou aquele companheiro lá do fundo. O poder eleito, o soviete. Percebes?

 

Mas em cima, quem é que está?

 

É a mesma coisa. Está quem for eleito. Se fores tu eleito, estás tu.

 

Ora! Estás a falar a sério, Mítritch?

 

Desataram os cossacos a rir e a falar todos ao mesmo tempo; e até a sentinela saiu um momento da porta, para intervir na conversa.

 

Mas a respeito da terra, que querem eles?

 

Não querem tirá-la à gente?

 

E a guerra, acabam com ela? Ou talvez eles prometam isso, apenas para nós votarmos por eles.

 

-Fala-nos com franqueza, sem esconderes nada.

 

Estamos mesmo às escuras.

 

Ontem, vimos nós um marinheirozito que veio para aí choramingar a favor de Kerénsski. Agarrámo-lo pelos cabelos e pusemo-lo a andar.

 

«Vocês são todos contra-revolucionários» gritava ele. O estupor

 

E nós que nem sabemos o que isso quer dizer, nem com que se come!

 

Buntchuk virava-se para todos os lados, perscrutando os cossacos com atenção, à espera de que eles sossegassem. A incerteza que a princípio tivera do êxito da sua empresa tinha-lhe desaparecido; seguro agora do moral dos homens, tinha a certeza de que, custasse o que custasse, impediria o comboio de ir além de Narva. Ao apresentar-se na véspera à comissão do Partido para o distrito de Petrogrado, e ao oferecer-se para o trabalho de agitação nas unidades da 1.ª Divisão do Don a caminho da capital, estava seguro de ter êxito; ao chegar, porém, a Narva sentira tal segurança afrouxar-lhe. Sabia que aos cossacos se não devia falar com as palavras de toda a gente, e aterrorizava-o a ideia de não encontrar talvez a linguagem adequada; havia nove meses que regressara à, massa operária, de novo se sentia radicado nela, e habituara-se, ao falar, a ser entendido por meias palavras; mas, com os seus compatriotas, precisava de empregar uma linguagem diferente, a linguagem do terrunho, e de ter uma agilidade de lagarto e uma maior força de persuasão, não só para estimular os cossacos, mas para os inflamar, para lhes destruir o medo da desobediência, acumulada neles pelos séculos, para destruir a rotina, convencê-los das suas razões, arrastá-los com ele.

 

Ao começar a falar, ele próprio sentia na voz uma hesitação que a tolhia, uma afectação, como se aquelas palavras descoloridas lhe fossem estranhas; assustava-o a pouca força dos seus argumentos, e dolorosamente excogitava, à procura de grandes blocos de palavras pesadas, com que fosse capaz de quebrar, de demolir... Em vez disso, com uma amargura inexprimível lhe parecia que da boca só lhe saíam frases leves como bolas de sabão, e que os pensamentos se lhe baralhavam na cabeça, impotentes e moles. O suor alagava-o, e respirava com dificuldade. Falava, e, enquanto o fazia, um pensamento o não largava: «Confiaram-me um papel tão importante, e vou estragar tudo... Não consigo ligar duas razões... Que se passa comigo? Outro qualquer, no meu lugar, falaria e convenceria mil vezes melhor... Oh, diabo, que falta de habilidade a minha!»

 

A interpelação do cossaco do olhar verde e suave, que havia falado em jugos, arrancara-o àquele seu quebranto medonho, e a conversa que se seguira permitira-lhe espevitar-se, refazer-se; aqueceu, ele próprio admirado do afluxo extraordinário de forças que lhe adveio, e da riqueza de palavras brilhantes, cortantes, percucientes, que lhe acudiu; escondendo a excitação sob uma aparência de serenidade, implacàvelmente derribava as perguntas pérfidas, conduzindo a conversa como um cavaleiro dominando um cavalo coberto de espuma, que pela primeira vez montasse.

 

Perguntavam os cossacos:

 

- Mas ouve lá: que mal há numa Assembleia Constituinte?

 

E o teu Lénine, não foram os alemães que o trouxeram? Onde o foram eles buscar? Caiu do céu?

 

Mítritch, vieste aqui por ti mesmo, ou foram outros que te mandaram?

 

A que mãos irão parar as terras dos Exércitos Cossacos? Porque dizes tu que se vivia mal no tempo do tsar?

 

Os mencheviques não são também a favor do povo?

 

Se nós temos a nossa assembleia cossaca, que é um poder popular, para que nos servirão os sovietes?

 

Separaram-se à meia-noite, depois de haverem decidido convocar no dia seguinte de manhã os dois esquadrões para um comício. Buntchuk ficou no vagom, para dormir. Tchikamássov ofereceu-lhe um lugar ao lado dele. Ao benzer-se, no momento de se deitar, disse-lhe:

 

Talvez tu te deites sem receio, Iliá Mítritch; mas desculpa: nós temos piolhos, meu velho. Se os apanhares, não nos leves isso a mal. Criamos tantos que é de meter raiva. É cada um, do tamanho de uma vitela de Kholmogóri! E, após um silêncio, acrescentou: De que nação é Lénine, Iliá Mítritch? Quero eu dizer: onde nasceu ele, onde foi criado?

 

Lénine? É russo.

 

Ah!

 

É verdade. É russo.

 

Não, irmão! Vejo que não sabes grande coisa a respeito dele disse Tchikamássov, na sua voz de baixo, em tom de condescendência. Sabes de que terra ele é? Da nossa. É um cossaco do Don, da circunscrição de Salssk, da stanitsa de Velikoknhájesskaia, estás a perceber? Parece que foi artilheiro. De resto, vê-se-lhe bem na cara que é um cossaco do Baixo-Don: pelas maçãs do rosto salientes, pelos olhos.

 

A quem ouviste tu essa?

 

Aos cossacos, em conversa uns com os outros.

 

Não, Tchikamássov. É russo, da região de Simbirssk.

 

Não   te   acredito.   Não acredito.   Pugatchov   não era cossaco? E Stepane Rázine? E Ermak Timofêievitch? É sempre o mesmo. Todos os que levantaram os pobres contra o tsar eram cossacos. Faz-me pena, Mítritch, ouvir uma coisa dessas.

 

Buntchuk sorriu.

 

Diz-se então que ele é cossaco?

 

Está claro que é cossaco; o que é é que por enquanto não o diz. Eu, quando olho para uma cara, nunca me engano. Tchikamássov acendeu um cigarro, e tossiu, pensativo, atirando contra a cara de Buntchuk uma baforada espessa de fumo de tabaco forte. Há só uma coisa que me espanta, e sobre isto as discussões são tais que até se tem chegado a jogar à pancada: é que se ele, Vladimir Ilitch, é um cossaco como nós, um artilheiro, onde é que ele foi arranjar uma instrução daquelas? Diz-se que no começo da guerra foi aprisionado pelos alemães, e que na Alemanha estudou muito, que aprendeu todas as ciências, mas que, quando começou a revoltar os operários e a meter num chinelo os sábios deles, lhes fez um medo mortal. Então eles disseram-lhe: «Volta para a tua terra, com essa grande cabeça que tens, e que Deus te proteja, porque senão armas entre nós uma desordem tamanha que nem a nossa vida inteira chegaria para a remediar.» E foi assim que, por medo de ele lhes revoltar os operários, o mandaram para a Rússia. Oh-oh! Aquilo, meu irmão, é um finório -E, tendo dito estas últimas palavras com alguma vaidade, Tchikamássov acrescentou, contente, na obscuridade: Tu nunca o viste, Mítritch, pois não? É pena. Parece que tem uma cabeçorra enorme. Depois tossiu, expeliu pelas narinas uma baforada de fumo arruçado, e prosseguiu, puxando as derradeiras fumaças: As mulheres deviam fazer mais tipos destes. Um espertalhão, digo-to eu! Ainda há-de atirar outros de cangalhas, além do tsar. Suspirou. Não Mítritch, não discutas: Lénine é um cossaco... Para que serve esconder isso? Na região de Simbirssk não nascem homens daqueles.

 

Buntchuk não replicou; e, durante muito tempo, se quedou sorridente, de olhos abertos.

 

Não conseguiu dormir, realmente devorado pelos piolhos que, por baixo da camisa o assaltavam, como uma sarna ardente, exasperadora; ao lado dele, Tchikamássov suspirava e coçava-se, enquanto um cavalo agitado, empinando-se, ajudava a não o deixar adormecer. Estava ele, finalmente, a mergulhar no sono, quando os cavalos, furiosos, romperam a lutar uns contra os outros, a percutir o chão com os cascos, relinchando ameaçadoramente.

 

Aí, quieto, diabo!... Aí-oh, bicho maldito! gritou Dúguine na sua voz de tenor ensonada, levantando-se e batendo no cavalo mais próximo com o primeiro objecto pesado a que deitou mão.

 

Atormentado pelos piolhos, Buntchuk virava-se e revirava-se; irritado por verificar que dificilmente adormeceria, pôs-se a pensar no comício do dia seguinte. Tentando imaginar a forma que assumiria a resistência dos oficiais, sorriu de si para consigo: «O mais certo, se os cossacos protestarem em massa, é porem-se a andar. Mas quem sabe lá? Pelo sim, pelo não, vou pôr-me em contacto com a comissão da guarnição.» Ocorreu-lhe um episódio da guerra, um ataque em Outubro de 1915; depois, como se à memória lhe fosse grato haver enveredado por aquele caminho familiar e gasto, com maligna insistência lhe acudiram fragmentárias imagens: faces, posições monstruosas de mortos russos e alemães, vozes várias dialogando, troços de paisagens sem cor, desvanecidos pelo tempo, pensamentos inexpressos, inexplicavelmente retidos, ecos confusamente perceptíveis de bombardeamentos, a crepitação tão sua conhecida da metralhadora, com o rumor da fita, uma música heróica, o desenho apenas um pouco apagado, mas bonito, doloroso de recordar, da boca de uma mulher que tinha amado, e novamente, retalhos da guerra, mortos, os montículos deprimentes da terra sobre os covais...

 

Buntchuk agitou-se, levantou-se, sentou-se, e disse em voz alta, ou pensou tê-lo dito: «Até morrer, estas recordações não me largarão; e isso não sucederá só comigo, mas com todos os que salvarem a pele. Mutilaram-nos, deram-nos cabo da vida!...

 

Malditos! Malditos sejam!... Nem mesmo a morte lhes lavará o crime!...»

 

Lembrou-se de Lucha, uma garota de doze anos, filha de um metalúrgico de Petrogrado, morto na guerra, camarada seu, com quem em tempos havia trabalhado em Tula. Era de noite e numa avenida. Ela estava sentada num banco, franzina e angulosa na sua adolescência, de pernas magras, abertas, fumando com ar desafiador. Na face cansada, os olhos revelavam-lhe fadiga, e lia-se-lhe amargura nas comissuras dos lábios pintados, alongados por uma maturidade precoce. «Não me reconhece?» perguntara-lhe ela em voz áspera, com um sorriso postiço e profissional; erguera-se do banco, e amargamente rompera a chorar, de cabeça apoiada a um braço dele, como uma criança sem defesa.

 

A esta recordação, uma onda de ódio mortal, como um gás asfixiante, sufocou-o; empalideceu, rilhou os dentes, soltou um gemido. Demoradamente esfregou o peito cabeludo, de lábios a tremerem-lhe; o ódio que refervia dentro dele pareceu-lhe uma bola ardente de escórias fundentes, que o não deixava respirar e lhe cerrava o coração.

 

A noite inteira não conseguiu dormir. De manhãzinha, amarelento, mais carrancudo que nunca, dirigiu-se à comissão dos empregados do caminho-de-ferro, a quem convenceu a não deixarem o comboio cossaco sair de Narva, e uma hora depois largou em cata dos membros da comissão da guarnição.

 

Voltou para o comboio, eram oito horas. Sentia no corpo toda a frescura doce da manhã, confusamente contente, ao mesmo tempo, das probabilidades de êxito do seu propósito, do sol que ultrapassava o telhado ferrugento do armazém das mercadorias, e da voz agradável de uma mulher que cantava por ali, algures. Antes do nascer do Sol, caíra uma breve e forte chuvada. A terra arenosa do espaço entre as calhas estava empapada, sulcada de regueiras delgadas e salpicada de minúsculas crateras, quase enxutas, semelhantes a marcas de bexigas, nos pontos em que haviam caído as últimas gotas, e exalava um cheiro adocicado de humidade.

 

Um oficial de capote e botas enlameadas, que vinha de dar uma volta ao comboio, caminhava ao encontro dele. Buntchuk, que reconheceu o capitão Kalmíkov, retardou um pouco o passo, hesitante sobre o que fazer. Ao cruzarem-se, Kalmíkov estacou, com um fulgor frio nos olhos pretos e oblíquos.

 

Tenente Buntchuk? Estás em liberdade? Desculpa-me, mas não te estendo a mão...

 

Apertou com força os lábios e meteu as mãos nas algibeiras do capote.

 

Antecipaste-te a   mim replicou   Buntchuk em tom trocista Também eu não fazia tenção de te estender a minha.

 

Estás então aqui para salvar a pele? Ou não vieste antes de Petrogrado, da parte desse querido Kerénsski!

 

Isso que é? É um interrogatório?

 

É a legítima curiosidade pela sorte de um camarada que desertou

 

Buntchuk dissimulou um sorriso e encolheu os ombros.

 

Posso sossegar-te: não venho da parte de Kerénsski. -Mas em face do perigo comum, unem-se todos de um

 

modo comovente. Que vens tu, então, fazer aqui? Sem dragonas de oficial, com um capote de soldado...De narinas frementes, Kalmíkov considerava a figura curva de Buntchuk, com desprezo e pena. És um caixeiro-viajante político? Adivinhei?

 

E, sem esperar pela resposta, abalou a grandes passadas.

 

Em frente do vagom em que havia passado a noite, Buntchuk encontrou Dúguine.

 

Que andas tu a fazer por aqui? O comício já principiou.

 

Quê?

 

É o que te digo. O nosso comandante de esquadrão, o capitão Kalmíkov, que estava em Petrogrado, chegou numa locomotiva, e convocou os soldados. Há um instantinho que foi para lá, para lhes falar.

 

Buntchuk demorou-se um bocado mais com Dúguine, a quem perguntou havia quanto tempo Kalmíkov fora enviado a Petrogrado. E assim soube que havia cerca de um mês.

 

«É um desses estranguladores da revolução que Kornilov enviou a Petrogrado, com o pretexto de estudar o lançamento de bombas» pensou ele, rapidamente, enquanto se dirigia com Dúguine para o local do comício. «Um bom kornilovista, portanto. Bem, vamos a ver!»

 

Por detrás do armazém das mercadorias, os dólmanes e os capotes cossacos formavam uma barreira verde-acinzentada. No meio, cercado dos outros oficiais, de pé em cima de uma barrica, Kalmíkov gritava em voz forte e clara:

 

... até à vitória final! Mostrar-nos-emos dignos da confiança depositada em nós. Vou ler-lhes o telegrama que o general Kornilov dirige aos cossacos.

 

Tirou apressadamente de uma algibeira do capote uma folha de papel amachucada, e trocou algumas palavras com o comandante do comboio.

 

Buntchuk e Dúguine aproximaram-se e misturaram-se à multidão cossaca.

 

«Cossacos, queridos compatriotas!» leu Kalmíkov com convicção e calor. «Não foi à custa do sangue dos nossos antepassados que as fronteiras do Estado Russo se alargaram e firmaram? Não deve a grande Rússia a sua força à vossa decidida valentia, às vossas grandes acções, aos vossos sacrifícios, ao vosso heroísmo? Filhos livres do Don tranquilo, do belo Kúbano, do fogoso Térek, águias poderosas das estepes e das montanhas do Ural, de Orenburg, de Astracã, do Semirétchkiê, da Sibéria, da Transbaicália, do Amur e do Ussúri, haveis sempre mantido a honra e a glória das vossas bandeiras, e a terra russa está cheia de lendas que relatam os altos feitos dos vossos pais e dos vossos avós. É agora a vossa vez de ajudar a pátria. Acuso o Governo Provisório de indecisão nos seus actos, de incapacidade e inaptidão para governar, e de consentir que os alemães ajam no nosso país com inteira liberdade, como o prova a explosão de Kazanhe, que fez ir pelos ares mais de um milhão de granadas e destruiu doze mil metralhadoras. Mas há mais. Acuso certos membros do governo de puros e simples traidores à pátria, e disso apresento esta prova: quando da reunião governamental de 3 de Agosto, no Palácio de Inverno, a que assisti, Kerénsski e Savínkov declararam-me que eu não podia falar à vontade, visto que, segundo eles, havia entre os ministros homens pouco seguros. É claro que um tal governo conduz o país à sua perda, que um tal governo não é digno de confiança, e que é impossível, com ele, salvar a desgraçada Rússia... Foi por isso que ontem o Governo Provisório exigiu de mim, no interesse do inimigo, o abandono do meu posto de comandante-chefe do Exército, e eu, cossaco, fui obrigado, pela minha consciência e pela minha honra, a responder a essa exigência com uma recusa, preferindo a morte no campo de batalha à vergonha e à traição à pátria. Cossacos, cavaleiros da terra russa! Haveis prometido seguir-me, para salvação da pátria, quando eu o julgasse necessário. A hora chegou, porque a pátria está em perigo de morte! Não me submeto às ordens do Governo Provisório, e, para salvar a livre Rússia, ergo-me contra ele e contra esses conselheiros irresponsáveis que vendem a pátria. Cossacos, mantende a honra e a glória dos valentes exércitos cossacos, assim salvando a pátria e a liberdade conquistada pela revolução. Obedecei-me e executai as minhas ordens! Segui-me. 28 de Agosto de 1917. General Kornilov, comandante-chefe.»

 

Kalmíkov calou-se, dobrou a folha de papel, e depois exclamou:

 

Os agentes dos bolcheviques e de Kerénsski entravam o avanço das nossas unidades por caminho-de-ferro. Recebemos do comandante-chefe ordem de, no caso de o avanço por via férrea se mostrar impossível, nos dirigirmos para Petrogrado a cavalo. Partimos hoje mesmo. Preparem-se para abandonar o comboio.

 

Abrindo caminho à força com os cotovelos, Buntchuk alcançou o meio da multidão; sem se acercar do grupo dos oficiais, bradou em voz estentória, de comício:

 

Camaradas cossacos! Fui enviado para junto de vós pelos operários e pelos soldados de Petrogrado. Estão a conduzi-los para uma guerra fratricida, com o fito de esmagar a revolução. Se vocês querem combater o povo, se vocês querem restaurar a monarquia, então vão... Mas os operários e os soldados de Petrogrado esperam que vocês não sejam Cains. Enviam-lhe uma ardente saudação fraterna e gostariam de ver em vocês não inimigos, mas aliados...

 

Não o deixaram concluir. Um tumulto medonho estalou. Como se projectado de lá pela tempestade dos gritos, Kalmíkov saltou da barrica. Todo inclinado para diante, foi direito a Buntchuk a passo rápido; e, chegado ao pé dele, deu meia volta sobre os calcanhares.

 

Cossacos! O tenente Buntchuk desertou da frente o ano passado, como vocês sabem. Vamos dar ouvidos a um tal cobarde, a um tal traidor?

 

O tenente-coronel Súkine, comandante do sexto esquadrão, cobriu a voz de Kalmíkov com a sua, poderosa, de baixo:

 

Prendam esse canalha! Enquanto nós vertíamos o nosso sangue, estava ele a salvo na retaguarda. Prendam-no!

 

Não há pressa!

 

Deixem-no falar!

 

Toda a gente tem o direito de falar. Deixem-no explicar-se.

 

Prendam-no!

 

Não queremos desertores!

 

Fala, Buntchuk!

 

Mítritch! Explica lá tu!

Fora!

 

Cala-te, parvalhão!

 

Fala, fala, Buntchuk. Abate-lhes a proa! Vamos a isso!

 

Um cossaco alto, sem boné, de cabeça à escovinha, membro da Comissão Revolucionária do regimento, trepou para cima da barrica. com ardor, exortou os cossacos a não obedecerem ao general Kornilov, estrangulador da revolução, disse quanto era perniciosa uma guerra contra o povo, e terminou, dirigindo-se a Buntchuk:

 

E tu, camarada, não cuides que nós somos como os senhores oficiais e que te desprezamos. Estamos contentes por te ver entre nós e respeitamos-te como representante do povo, e também porque no tempo em que foste oficial não vexavas os soldados e eras para nós como um irmão. Nunca foste grosseiro para nós; e não julgues que, por não termos instrução, não compreendemos essas coisas: até os animais compreendem as boas palavras, quanto mais os homens! Respeitamos-te, e pedimos-te que transmitas aos operários e aos soldados de Petrogrado que não ergueremos a mão contra eles.

 

Um clamor de aprovação subiu, semelhante a um fragor de timbales; depois, gradualmente se atenuou, até se restabelecer o silêncio.

 

De novo em cima da barrica, Kalmíkov barafustava, de torso inclinado para diante. Falava da glória e da honra do velho Don, da missão histórica dos cossacos, do sangue derramado em comum pelos oficiais e pelos soldados, ofegando e de uma palidez mortal.

 

Seguiu-se-lhe um cossaco robusto e loiraça, com um discurso quezilento contra Buntchuk; mas não chegou a acabá-lo: puxaram-no pelas mangas e obrigaram-no a descer. Saltou para cima da barrica Tchikamássov; agitando os braços, como se estivesse a rachar lenha, bradou:

 

Não vamos. Não saímos do comboio. O telegrama diz que os cossacos prometeram apoiar Kornilov; mas a nós ninguém nos perguntou nada. Não prometemos nada. Quem prometeu foram os oficiais do Conselho da União dos Oficiais Cossacos. O general Grekov, que anda para aí a abanar o rabo, que vá sozinho ajudar Kornilov.

 

Os oradores sucediam-se a um ritmo cada vez mais rápido. Buntchuk não se movia, com a ampla fronte vergada, a face de um vermelho cor de tijolo, o sangue pulsando-lhe com violência nas fontes e no pescoço. A atmosfera electrizada espessava-se. Mais qualquer coisinha, um acto irreflectido, e o sangue correria.

 

Os soldados da guarnição acorriam em massa à estação; e os oficiais abandonaram o comício.

 

Meia hora mais tarde, Dúguine, arquejando, veio ter com Buntchuk.

 

Que devemos fazer, Mítritch?... Kalmíkov está a tramar qualquer coisa. Estão a tirar as metralhadoras do comboio, e mandaram um estafeta a cavalo.

 

Vamos lá! Arranja uns vinte cossacos. Depressa! Perto da carruagem do comandante do comboio, Kalmíkov e três outros oficiais carregavam as metralhadoras em cima de cavalos. Buntchuk foi o primeiro a aproximar-se deles; depois de se ter virado para os cossacos, meteu a mão direita na respectiva algibeira do capote e dela sacou um revòlverzito de oficial, novinho em folha, muito reluzente.

 

Kalmíkov, estás preso. Mãos ao ar!

 

Kalmíkov saltou do cavalo, levou a mão à cinta, ao coldre, mas não teve tempo de tirar dele o revólver: uma bala assobiou-lhe por sobre a cabeça; antes, porém, de haver atirado, Buntchuk novamente gritara, em voz surda e má:

 

Mãos ao ar!

 

E outra vez o cão do revólver se ergueu lentamente, até meia altura, ameaçador. Kalmíkov seguiu-lhe o movimento, de olhos franzidos, e com esforço levantou os braços, fazendo estalar os nós dos dedos.

 

Contrariados, os oficiais entregaram os revólveres.

 

Também querem que lhes demos os sabres? perguntou respeitosamente um jovem alferes metralhador.

 

Também.

 

Os cossacos descarregaram os cavalos e recolheram as metralhadoras ao vagom.

 

Ponham   aqui   sentinelas   de   guarda   a   estes disse Buntchuk a Dúguine. Tchikamássov prenderá os outros e os trará para aqui. Estás a ouvir, Tchikamássov? Tu e eu, vamos levar Kalmíkov à comissão revolucionária da guarnição. Capitão Kalmíkov, faz o favor de ir à frente.

 

bom trabalho! bom trabalho! disse com admiração um oficial, que saltou para o vagom e ficou a seguir com os olhos Buntchuk, Dúguine e Kalmíkov, que se afastavam.

 

Meus senhores, isto é uma vergonha! Portámo-nos como crianças. Ninguém se lembrou de atirar contra aquele safado no momento preciso. No momento em que ele ameaçava Kalmíkov com o revólver, era só atirar, e estava o caso arrumado!

 

E o tenente-coronel Súkine fitava os oficiais com indignação, de dedos tão trémulos que não conseguia tirar um cigarro da cigarreira.

 

É que eles são um pelotão inteiro... observou o jovem alferes com expressão culpada. Eles tinham-nos fuzilado.

 

Os oficiais fumavam, em silêncio, entreolhando-se de espaço a espaço, aturdidos pela rapidez do que se passara.

 

Um pedaço Kalmíkov caminhou sem dizer uma palavra, mordiscando uma ponta do bigode preto. A bochecha esquerda, abaixo do malar, ardia-lhe como se tivesse levado uma bofetada. Os habitantes que viam passar o grupinho miravam-no com espanto, e paravam, conversando a meia voz. Sobre Narva, o céu toldado ia perdendo as cores, a anunciar o anoitecer. As folhas caídas das bétulas, que o mês de Agosto ia deixando atrás de si, pareciam, entre as calhas, lingotes de oiro vermelho. Gralhas-das-torres esvoaçavam em torno da cúpula verde da igreja. Para lá da estação, por detrás dos campos que o crepúsculo escurecia, era já noite, começava a soprar de lá um vento frio, e nuvens esfarrapadas, cor de chumbo, corriam de Narva em direcção a Pskov e a Luga, pelas frinchas do céu sem caminhos; por sobre uma invisível fronteira, a noite repelia o crepúsculo.

 

Passada a estação, Kalmíkov virou-se bruscamente e escarrou direito à cara de Buntchuk.

 

Bandalho!

 

Buntchuk desviou-se do escarro, franziu os sobrolhos, e a custo se dominou, para não levar a mão direita à algibeira em que tinha o revólver.

 

Marcha!...pronunciou ele com esforço. Recomeçou Kalmíkov a andar, proferindo insultos e palavrões medonhos.

 

És um traidor! Um traidor! Hás-de pagar tudo! berrava ele, com  frequência   virando-se   e   dando   um   passo   para Buntchuk.

 

Faz o favor de marchar!...repetia este de cada vez. E Kalmíkov prosseguia, cerrando os punhos, avançando aos sacões, como um cavalo com pulmoeira. Chegaram ao depósito da água. Kalmíkov rilhou os dentes e bradou:

 

Vocês não são um partido. O que são é a escória da sociedade. Por quem são vocês dirigidos? Pelo Grande Estado-Maior Alemão! Bolcheviques... Aaah! Abortos! Abortos! O que vocês são não é um partido, mas uma choldra, que se vende como as putas. Choldra! Choldra!... Venderam a pátria! O que se devia era enforcá-los todos... Ooooh! Mas lá se chegará. Não foi por trinta marcos, não, que Lénine vendeu a Rússia, mas por mais de um milhão... E escondeu-se... O bandido!...

 

Encosta-te a essa parede! gritou Buntchuk, em voz arrastada, gaguejando.

 

Dúguine, inquieto, quis interpor-se.

 

Iliá Mítritch, espera aí! Que vais tu fazer? Espera aí!... De face ensombrecida, deformada pela fúria, Buntchuk precipitou-se contra Kalmíkov e agrediu-o com brutalidade numa fonte. Calcando-lhe aos pés o boné, que lhe fizera saltar da cabeça, arrastou-o até ao muro de tijolo escuro do reservatório da água.

 

Encosta-te aí.

 

Que estás tu a fazer? Tu... Eu proibo-te de me bateres!... Não tens o direito de me bater!...uivava Kalmíkov, tentando resistir.

 

As costas embateram-lhe surdamente na parede do reservatório. Então, empertigou-se, compreendeu.

 

Queres-me matar?

 

Inclinado para diante, Buntchuk procurava empunhar rapidamente o revólver, cujo cão se prendera ao forro da algibeira.

 

Kalmíkov deu um passo, e, num movimento vivo, abotoou o capote de cima a baixo.

 

Atira, filho de uma cadela! Atira!... Vê como sabem morrer os oficiais russos... Em frente da mor...

 

A bala entrou-lhe pela boca. Por trás do reservatório da água, o eco repetiu-lhe um grito agónico. Kalmíkov oscilou, como se fosse avançar outro passo, levou a mão esquerda à cabeça, e caiu, dobrado em dois, cuspindo no peito alguns dentes sujos de sangue, com um estalido breve da língua. Mal as costas, que ainda tentou endireitar, lhe tocaram as pedras molhadas, Buntchuk disparou segunda vez. Kalmíkov torceu-se, rebolou para um lado, encolheu a cabeça entre os ombros, como uma ave para dormir, e emitiu um curto soluço.

 

Dúguine   alcançou   Buntchuk na primeira encruzilhada.

 

Mítritch... Que fizeste tu?... Para que o mataste?

 

Buntchuk agarrou Dúguine pelos braços, mergulhou-lhe nos olhos o olhar de aço, inflexível, e disse-lhe numa estranha voz, surda e serena:

 

Ou os matamos a eles, ou eles a nós! Não há meio termo. É sangue por sangue! Ou o deles ou o nosso... Percebes? É preciso destruir, esmagar como víboras os homens como Kalmíkov. E os que se apiedarem deles fuzilam-se... percebes? Que tens tu que choramingar? Endurece! Torna-te mau! Se Kalmíkov estivesse por cima, fuzilava-nos a nós, sem tirar o cigarro da boca. E tu, tu... O choramingas!

 

Durante um bom pedaço a cabeça de Dúguine tremeu-lhe, bateram-lhe os dentes, e os pèzorros, calçados de botas arruçadas de gastas, lhe hesitaram.

 

Em silêncio caminhavam pelo leito da rua vazia. De espaço a espaço, Buntchuk virava-se para trás. Por sobre eles, muito baixas, nuvens escuras e leves corriam para leste. A um canto por uma nesga aberta, naquele céu de Agosto, lavado pela chuva da véspera, a Lua, como um olho verde, espreitava de esguelha. Na encruzilhada seguinte, um soldado e uma mulher de xaile branco pelos ombros cerravam-se um contra o outro. O soldado abraçava a mulher, murmurava-lhe o que quer que fosse, e ela, empurrando-lhe o peito com as mãos, inclinava a cabeça para trás, e dizia-lhe baixo, em voz entrecortada, com um riso jovem e abafado: «Não te acredito! Não te acredito!»

 

O general Krimov, convocado por Kerénsski, suicidou-se em Petrogrado, em 31 de Agosto

 

Então, várias delegações e comandantes das unidades do Exército de Krimov acorreram ao Palácio de Inverno, a submeterem-se. Homens que pouco tempo antes se erguiam contra o Governo Provisório curvavam-se agora diante de Kerénsski e afirmavam-lhe o seu fiel apoio.

 

Moralmente destroçado, o Exército de Krimov agonizava: por inércia, as suas unidades continuavam a avançar para Petrogrado, mas aquele movimento perdera qualquer significado, dado como a tentativa do golpe de Kornilov se desfizera, terminada em fogo-de-vista a explosão reaccionária; e o chefe do Governo Provisório, que, mesmo assim, perdera naqueles últimos dias as suas belas faces bochechudas, ensaiava atitudes napoleónicas, de pernas apertadas nas suas grevas, e afirmava em conselho de ministros «uma inteira estabilização política».

 

Na véspera do suicídio de Krimov, fora nomeado comandante supremo o general Alekcêiev. Consciente da terrível ambiguidade da sua posição, o correcto e escrupuloso Alekcêiev começara por recusar a nomeação, só por fim a aceitando, movido pelo desejo de aliviar a sorte de Kornilov e de quantos, de uma forma ou de outra, haviam participado da organização do movimento sedicioso.

 

Logo em seguida, por linha directa, tinha entrado em comunicação com o Quartel-General, para saber qual a atitude de Kornilov em relação à sua nomeação e à sua próxima chegada.

As negociações, fastidiosas, prosseguiram, com algumas interrupções, pela noite fora.

 

Naquele mesmo dia, Kornilov havia reunido à sua volta os oficiais do seu estado-maior e as pessoas mais devotadas. À pergunta que ele lhes fez, sobre a utilidade da continuação da luta contra o Governo Provisório, a maioria pronunciou-se afirmativamente.

 

Peço-lhe que me dê a sua   opinião, Alekssandr Serguêievitch disse   Kornilov,   dirigindo-se   a   Lukómsski,   que desde o começo da conferência não abrira a boca.

 

Em termos ponderados, mas firmes, este declarou-se contra o prosseguimento da acção.

 

Capitular? interrompeu-o com brusquidão Kornilov. Lukómsski encolheu os ombros.

 

O caso impõe-se por si próprio.

 

A discussão durou ainda uma meia hora. Fazendo um visível esforço de vontade para se dominar, Kornilov manteve-se calado. Uma hora após ter encerrado a sessão, convocou Lukómsski.

 

Tem razão, Alekssandr Serguêievitch. Fez estalar os dedos, fitos no vago os olhos apagados, sem brilho, como que cobertos de cinza. Toda a resistência seria estúpida e criminosa.

 

Demoradamente tamborilou com os dedos no tampo da mesa, de ouvido atento, como que escutando o tumulto dos próprios pensamentos. E, depois de uma pausa, inquiriu:

 

Quando chega Mikhail Vassílievitch?

 

Amanhã.

 

Alekcêiev chegou em 1 de Setembro. Na noite desse mesmo dia, por ordem do Governo Provisório, prendeu Kornilov, Lukómsski e Romanóvsski. Antes de os mandar recolher ao Hotel Metrópole, onde deviam manter-se sob vigilância, Alekcêiev tivera uma conversa a sós com Kornilov. Ao sair do gabinete dele, vinha profundamente perturbado, a custo dominando os nervos. A Romanóvsski, que havia querido falar com Kornilov, lhe embargara o passo a mulher deste:

 

Desculpe-me. Mas Lavr Gueórguievitch pediu-me para não deixar entrar ninguém.

 

Romanóvsski lançou-lhe um olhar rápido à face descomposta, e retirou-se de pálpebras batendo-lhe e maçãs do rosto vermelho.

 

No dia seguinte, o general Denikine, comandante da frente do sudoeste, o seu chefe de estado-maior, o general Markov, o general Vanóvsski, e o general Erdéli, comandante do Exército Especial, foram presos em Berditchev.

 

Foi em Bikhov, no liceu das raparigas, que terminou sem glória o movimento de Kornilov, estrangulado pela História. Terminou ele, mas alguma coisa dele nasceu: pois onde foi, senão ali, que germinaram os planos da guerra civil futura e da grande ofensiva contra a revolução?

 

Uma manhã cedo, num dos últimos dias de Outubro, o capitão Lisstnítzki recebeu do coronel comandante do regimento ordem de se dirigir com o esquadrão a pé para a Praça do Palácio de Inverno.

 

Lisstnítzki deu as suas instruções ao sargento-ajudante, e vestiu-se à pressa.

 

Os oficiais levantaram-se, bocejando e praguejando.

 

Mas que há?

 

São os bolcheviques.

 

Qual dos senhores me tirou as balas?

 

Onde vamos nós?

 

Não ouvem tiros?

 

Quais tiros? Isso são alucinações auditivas. Desceram os oficiais para o pátio. O esquadrão formou.

 

Lisstnítzki fê-lo sair do pátio em marcha acelerada. A Perspectiva Névsski estava deserta. Ouviam-se, efectivamente, algures, alguns tiros isolados. Um automóvel blindado ia e vinha através da Praça do Palácio, que os cadetes da Escola Militar patrulhavam. Nas ruas havia um silêncio de deserto. O esquadrão foi acolhido ao portão principal do palácio por um destacamento de cadetes e pelos oficiais cossacos do quarto esquadrão. Um deles, o comandante, dirigiu-se a Lisstnítzki: -O esquadrão veio todo consigo?

 

Veio. Porquê?

 

É que o segundo, o quinto e o sexto esquadrões não estão aqui: os homens recusaram-se a vir. O grupo de metralhadores é que está connosco. E os seus cossacos?

 

Lisstnítzki teve um breve gesto de desalento.

 

Isto está mau. E o primeiro e quarto esquadrões?

 

Não vêm. Sabe que se espera para hoje um movimento dos bolcheviques? O diabo é que sabe o que acontecerá! E suspirou, melancolicamente. O que eu queria era raspar-me para o Don, ver-me livre desta embrulhada...

 

Lisstnítzki mandou entrar o esquadrão dele no pátio. Os cossacos enfeixaram as armas e dispersaram, no enorme recinto, vasto como a parada de um quartel. Reunidos numa ala afastada do Palácio, os oficiais fumavam e discutiam.

 

Um regimento de cadetes e o batalhão feminino chegaram uma hora mais tarde. Os cadetes instalaram-se no vestíbulo do Palácio. As «mulheres de choque» conservaram-se aglomeradas no pátio. Os cossacos andavam à volta delas, proferindo graçolas pesadas. O sargento Arjanov descobriu uma atarracada, de capote acanhado, e deu-lhe uma palmada nas costas.

 

O que tu devias, tiazinha, era fazer meninos. Isto é negócio de homens

 

Porque não os fazes tu? ripostou a «tiazinha» em voz grave, mostrando os dentes.

 

Vocês estão, então, connosco, minhas queridas? repetia Tiukóvnov, um velho-crente femeeiro.

 

Devíamos era dar-lhes com um chicote!

 

Olhem os soldados de pernas abertas!

 

Era melhor que estivessem em casa. Quem as mandou vir para cá?

 

Isto são espingardas de dois canos, de modelo comunitário!

 

Pela frente, soldados, mas por trás, meio padre, meio uma coisa que eu cá sei... Dá-me é vontade de cuspir.

 

Eh, lá tu, mulher de choque! Mete o cu para dentro, ou ferro-te uma coronhada nele.

 

Riam os cossacos às gargalhadas, divertidos a olhar para as mulheres Mas cerca do meio-dia a alegria sumiu-se. As «mulheres de choque», por pelotões, trouxeram da praça grossos barrotes de pinho, e barricaram o portão principal. Comandava-as uma mulheraça de porte masculino, que trazia uma cruz de São Jorge no capote de corte elegante. Na praça, o automóvel blindado intensificava as suas idas e vindas, e os cadetes carregavam para dentro, a braço, caixas de cartuchos e fitas de metralhadoras.

 

Agora, rapazes, atenção!

 

Mas vamos, então, bater-nos?

 

Que é que tu julgavas? Que te tinham trazido para aqui para te meteres com o batalhão feminino?

 

Em torno de Lagútine havia-se formado um grupo: patrícios dele, das aldeias de Bukanóvsskaia e de Slachtchóvsskaia. Discutiam e moviam-se de um lado para o outro. Os oficiais tinham desaparecido. Só estavam agora no pátio os cossacos e as «mulheres de choque». Junto ao portão, havia metralhadoras abandonadas pelos homens; a humidade embaciava-lhes os escudos de protecção.

 

Para a tardinha, pôs-se a cair uma chuva miúda. Os cossacos começaram a agitar-se.

 

Que raio é isto? Mandam-nos para aqui e deixam-nos sem comida?

 

Temos de ir à procura de Lisstnítzki.

 

Pois então vai lá! Está no Palácio, e os cadetes não nos deixam entrar.

 

Temos de mandar alguém em cata da cozinha: é preciso que ela apareça.

 

E para isso se delegaram dois cossacos.

 

Vão sem carabinas, não lhas vão tirar! aconselhou Lagútine.

 

Esperaram-se duas horas. Nem da cozinha nem dos dois delegados havia notícia. Soube-se mais tarde que uns soldados do Regimento de Semionóvsski tinham apanhado a cozinha no momento em que ela saía do pátio da casa que servia de boleto ao esquadrão e a haviam feito voltar para trás. Um pouco antes do crepúsculo, as «mulheres de choque», agrupadas ao pé do portão principal, formaram em linha de atiradores; a coberto dos barrotes de pinho, principiaram a atirar por sobre a praça. Os cossacos não tomaram parte no fogo: fumavam e aborreciam-se. Lagútine reuniu o esquadrão junto ao muro, e disse, lançando olhares inquietos para as janelas do Palácio:

 

Ora bem, cossacos! Nós não temos nada aqui que fazer! Ou nos vamos embora, ou pagamos pelos outros. Não tarda que comecem a atirar contra o Palácio; e nós porque estamos aqui? Oficiais não se vê um... Que raio de mal fizemos nós, para morrermos assim? Vá, vamo-nos embora; não há razão nenhuma para aqui ficarmos! Quanto ao Governo Provisório, que se lixe! Que dizem vocês, rapazes?

 

Se saírmos do pátio, os guardas-vermelhos liquidam-nos à metralhadora.

 

Não escapa um! Não pode ser...

 

Depois é que é tarde para pensar.

 

O melhor é ficarmos aqui até ao fim.

 

Estamos como os vitelos: é a hora do estábulo.

 

Façam vocês como quiserem; o nosso pelotão vai-se embora.

 

E nós a mesma coisa!

 

Temos que mandar alguém falar com os bolcheviques: se eles não nos tocarem, também nós lhes não tocaremos.

 

O primeiro e o quarto esquadrão juntaram-se a eles. A deliberação não demorou muito. Três cossacos, um de cada esquadrão, saíram pelo portão principal, e voltaram uma hora depois, acompanhados de três marinheiros. Estes saltaram por sobre os barrotes que barricavam a entrada, e atravessaram o pátio com uma desenvoltura forçada; aproximaram-se dos cossacos e cumprimentaram-nos. Um deles, um rapaz novo e bem-parecido, de bigode preto, o capote todo desabotoado e a boina deitada para a nuca, enfiou pelo meio da multidão dos cossacos.

 

Camaradas cossacos! Nós somos os representantes da Frota Revolucionária do Báltico, e vimos propor-lhes que abandonem o Palácio de Inverno. Não lhes compete a vocês defender os filhos dos burgueses, os cadetes. Nem um só soldado apareceu para defender o Governo Provisório, e os vossos irmãos cossacos do 1.º e do 4.º Regimento juntaram-se a nós. Os que quiserem vir connosco coloquem-se à esquerda!

 

Pois sim, irmão! replicou um sargento do primeiro esquadrão, dando um passo para ele. Irmo-nos embora íamos nós com prazer. Mas se os bolcheviques desatam a atirar-nos para cima?

 

Camaradas! Em nome da Comissão Revolucionária de Petrogrado, prometemos-lhes uma segurança total. Ninguém lhes fará mal.

 

Outro marinheiro, bexigoso e atarracado, juntou-se ao do bigode preto. Considerou os cossacos, rodando o pescoço de toiro, e deu um murro no peito, que arqueou por sob a blusa.

 

Nós acompanhamo-los. Não há motivo para desconfianças, porque não somos vossos inimigos; os proletários de Petrogrado não   são   vossos   inimigos;   os   vossos   inimigos estão ali...

 

com um polegar indicou o Palácio, e um sorriso ruim descobriu-lhe os dentes cerrados.

 

Os cossacos hesitaram; algumas «mulheres de choque» acercaram-se, escutaram a arenga, e, depois de os fitarem, tornaram para o portão.

 

Eh, vocês, mulheres! Vocês vêm connosco? bradou um cossaco alto e barbudo.

 

Não se ouviu resposta.

 

Peguem nas carabinas e para a frente é que é o caminho! disse Lagútine com decisão.

 

Os cossacos foram buscar as carabinas e formaram.

 

Levamos as metralhadoras, ou não? perguntou um cossaco metralhador ao marinheiro do bigode preto.

 

Levem. Não vamos deixá-las aos cadetes (22). Quando os cossacos se preparavam para partir, os oficiaisdos três esquadrões apareceram na sua totalidade. Formavam um grupo compacto e não despegavam os olhos dos marinheiros. Uma vez formada, a coluna pôs-se em movimento. O grupo dos metralhadores ia à cabeça, com as suas metralhadoras, cujas rodinhas rangiam sobre as pedras molhadas. O marinheiro sem capote ia à frente do pelotão da vanguarda do primeiro esquadrão. Um cossaco robusto e loiro da stanitsa de Fedossêievsskaia agarrava-se-lhe a uma manga e dizia-lhe em voz comovida e culposa:

 

(22) jogo de palavras, porquanto, por um lado, cadetes são os alunos das escolas militares, e, por outro, cadete se chamava o principal partido da burguesia russa, o partido Constitucional Democrata, cujas iniciais, K. D., se lêem em russo Ká-Dê.

 

Tu com certeza não julgavas que nós tínhamos vontade de ir contra o povo! Foi por estupidez que para aqui viemos. Se soubéssemos, julgas tu que tínhamos vindo? E abanou com tristeza a cabeça, com a sua grande poupa. Julgas tu que tínhamos vindo? Meu Deus!

 

O quarto pelotão foi o último a partir. Estacou ao portão, em que todo o batalhão feminino se havia aglomerado. Um cossaco enorme subiu acima de uns barrotes e agitou gravemente o indicador direito, escuro e de unha comprida.

 

Oiçam lá, atiradores! Nós vamo-nos embora, e vocês, com a vossa estupidez de mulheres, ficam cá! Está bem. Mas cuidado, nada de brincadeiras: se nos atirarem pelas costas, voltamos atrás e cortamo-las aos pedacinhos. Parece-me que falei claro. bom, está bem. Então, adeus, até à próxima!

 

Saltou dos barrotes e, a correr, juntou-se aos outros, olhando para trás de vez em quando.

 

Iam os cossacos a meio da praça, quando um deles, que olhara à retaguarda, disse com emoção:

 

Olhem, rapazes! Um oficial vem connosco!

 

Muitos viraram a cabeça para ver, enquanto continuavam a andar. Um oficial alto atravessava a praça a correr, segurando o sabre e gesticulando.

 

É Atarchtchíkov, do terceiro esquadrão.

 

Quem?

 

Aquele alto, que tem uma verruga num olho.

 

Quer vir connosco.

 

É um bom tipo.

 

Atarchtchíkov aproximava-se com rapidez, e via-se-lhe a distância bailar um sorriso na face. Os cossacos faziam-lhe sinais e riam-se.

 

Corre mais depressa, capitão!

 

Mais depressa!

 

Ao portão do Palácio, um tiro isolado estalou como uma bofetada. Atarchtchíkov ergueu os braços no ar, inclinou-se para trás, e caiu de costas, de pernas vergadas; a cabeça bateu-lhe no chão; tentou ainda levantar-se. Como a uma voz de comando, os três esquadrões voltaram-se para o Palácio e apontaram as metralhadoras. Houve um rumor das respectivas fitas. Mas ao portão não se via ninguém, por detrás dos barrotes de pinho. Dir-se-ia que o tiro afugentara as «mulheres de choque-) e os oficiais que um instante antes lá estavam. Os três esquadrões tornaram a formar-se rapidamente, e de novo partiram, acelerando o passo. Dois cossacos do pelotão da cauda acorreram do sítio em que Atarchtchíkov havia caído. Muito alto, para o esquadrão todo o ouvir, um deles gritou:

 

Foi atingido na espádua esquerda. Está morto.

 

Os passos soaram fortes e mais nítidos. O marinheiro sem capote comandou:

 

À esquerda, em frente... marche!...

 

E a coluna virou à esquerda, deixando atrás de si o Palácio silencioso.

 

O Outono avançava. Chovia. Era raro o sol exangue mostrar-se por sobre Bikhov. Em Outubro começaram as emigrações das aves selvagens. Os apelos tristes e angustiosos dos grous ressoavam, mesmo à noite, por sobre a terra fria e negra. Os bandos migradores fugiam a toda a pressa das primeiras geadas e dos ventos altos e frios que sopravam do norte.

 

Havia mês e meio que os prisioneiros de Bikhov, que ali estavam desde o caso de Kornilov, esperavam pelo julgamento. A vida deles estabilizara-se, assumindo uma forma, se não habitual, pelo menos pautada e rigorosa. De manhã, depois da primeira refeição, os generais davam o seu passeio; ao voltarem dele, abriam a correspondência, recebiam as visitas dos parentes ou amigos, almoçavam, e, após a sesta, cada qual trabalhava no seu quarto; à tardinha, reuniam-se nos aposentos de Kornilov e longamente conversavam.

 

No liceu de raparigas, transformado em prisão, a vida não era desprovida de conforto.

 

A guarda exterior era assegurada por soldados do batalhão de São Jorge, e a guarda interior por turquemenos. Se, em certa medida, esta guarda limitava a liberdade dos prisioneiros, por outra, em contrapartida, apresentava uma vantagem importante: é que estava organizada de tal modo que eles podiam fugir com facilidade e sem risco, quando quisessem. Durante toda a sua estadia em Bikhov, se mantiveram em contacto constante com o mundo exterior, influenciando a opinião burguesa, exigindo que se acelerasse a instrução do processo e se apressasse o julgamento, baralhando as provas do levantamento, sondando o estado de espírito do corpo dos oficiais, e preparando a evasão para o caso de as coisas caminharem mal.

 

Preocupado em manter a fidelidade dos seus devotados turquemenos, Kornilov pôs-se em contacto com Kalédine, e este, a seu pedido, mandou para o Turquestão vários vagons de trigo, para as famílias indigentes. Para ajudar as famílias dos oficiais que tinham participado no seu movimento, Kornilov dirigiu uma carta violentíssima aos grandes banqueiros de Moscovo e de Petrogrado, os quais não tardaram em lhe enviar algumas dezenas de milhares de rublos, com receio de revelações comprometedoras da parte dele. Até ao mês de Novembro, seguiu-se entre ele e Kalédine uma correspondência abundante. Numa carta a Kalédine, dos meados de Outubro, inquiria da situação no Don e da forma como os cossacos poderiam reagir à sua aparição entre eles. E a resposta de Kalédine foi alentadora.

 

A revolução de Outubro abalou o solo sob os pés dos prisioneiros de Bikhov. Logo no dia seguinte partiram estafetas em todas as direcções, e oito dias mais tarde, em conformidade com a inquietação de certas pessoas quanto à sorte dos prisioneiros, o general Dukhónine, que a si próprio se nomeara comandante-chefe, recebeu uma carta de Kalédine, a pedir-lhe instantemente que libertasse, sob palavra, Kornilov e os outros. O Conselho da União dos Exércitos Cossacos e a Comissão Directiva da União dos Oficiais do Exército e da Marinha faziam diligências no mesmo sentido, junto do Quartel-General. Dukhónine ia arrastando o caso.

 

No dia 1 de Novembro, Kornilov escreveu-lhe. As notas de Dukhónine à margem da carta dele são o testemunho claro da importância do Quartel-General, que perdera por completo a autoridade sobre o exército e vivia os seus últimos dias numa completa prostração.

 

«Prezado Nikolai Nikoláievitch!

 

A sorte colocou-o numa situação tal que depende do senhor mudar o curso dos acontecimentos, que tomaram por um rumo catastrófico para o país, por virtude, principalmente, da indecisão e da complacência do Alto-Comando. O momento de ousar ou ir-se embora, sob pena de arcar com a responsabilidade da ruína do país e da vergonha da desagregação definitiva do exército, chegou para o senhor.

 

Segundo as informações incompletas, fragmentárias, que me chegam, nem por ser muito séria, a situação é ainda desesperada. Mas virá a sê-lo, se o senhor deixar os bolcheviques apoderarem-se do Quartel-General, ou reconhecer a autoridade deles.

 

As unidades de que o senhor dispõe ou sejam o batalhão de São Jorge, meio corrompido pela propaganda, e o fraco regimento turquemeno, são mais que insuficientes.

 

Prevendo os acontecimentos que se vão seguir, considero indispensável que tome sem tardança as medidas necessárias não só para proteger o Quartel-General, como para garantir a organização da luta contra a anarquia que nos ameaça.

 

Estas medidas são as seguintes:

 

1.” Transferência imediata para Moguilev de um dos regimentos checos e do regimento de lanceiros polaco.

 

Nota de Dukhónine: O Quartel-General não as considera como suficientemente seguras. Estas fazem parte das primeiras que estabeleceram o armistício com os bolcheviques.

 

2.” A ocupação de Orcha, de Smolenssk, de Jlóbine e de Cornei por unidades do corpo de exército polaco, previamente reforçado por elementos de artilharia tirados das baterias polacas da frente.

 

Nota: Para a ocupação de Orcha e de Smolenssk concentrámos a 2.ª Divisão do Kúbano e a Brigada dos Cossacos de Astracã. No próprio interesse da segurança dos internados, não é desejável retirar de Bikhov o regimento da 1.ª Divisão polaca que lá se encontra. As unidades dessa 1.ª Divisão têm quadros fracos, e por isso não representam uma força real. O Corpo de Exército Polaco está decidido a não se imiscuir nas questões internas da Rússia.

 

3.” Concentração na linha Orcha-Moguilev-Jlóbine de todas as unidades do Corpo de Exército Checoslovaco e do Regimento Kornilov, a pretexto de transferência para Petrogrado e para Moscovo, e de uma ou duas divisões cossacas, escolhidas entre as mais seguras.

 

Nota: Os cossacos tomaram a decisão irrevogável de não se baterem contra os bolcheviques.

 

4-1 Concentração na mesma zona de todos os automóveis blindados ingleses e belgas, empregando exclusivamente neles oficiais.

 

5- Concentração em Moguilev e num ponto próximo, sob uma boa guarda, de uma reserva de carabinas, de cartuchos, de metralhadoras, de carabinas automáticas e de granadas de mão, para as distribuir aos oficiais e aos voluntários que aí se deverão reagrupar.

 

Nota: Isto pode ocasionar excessos.

 

  1. Estabelecimento de uma ligação estável e de um acordo preciso com os atamanes dos exércitos do Don, de Térek e do Kúbano e as Comissões polacas e checoslovacas. Os cossacos pronunciaram-se nitidamente em favor do restabelecimento da ordem no país; quanto aos polacos e aos checos, a sua própria existência depende do restabelecimento da ordem na Rússia.

 

De dia para dia, as notícias que chegavam eram mais alarmantes. Em Bikhov, a inquietação aumentava. Os automóveis dos amigos de Kornilov não paravam entre Moguilev e Bikhov; exigia-se de Dukhónine a libertação dos internados. O Conselho da União dos Exércitos Cossacos chegava mesmo às francas ameaças.

 

Esmagado pelo peso dos acontecimentos, Dukhónine hesitava. A 18 de Novembro, deu ordem de se transferirem os presos para o Don, e imediatamente a anulou.

 

No dia seguinte de manhã, um automóvel coberto de uma espessa camada de lama estacou em frente da entrada principal do liceu-prisão de Bikhov. O condutor abriu-lhe cerimoniosamente a porta e dele saiu um oficial já velho, de porte distinto, que apresentou ao oficial da guarda papéis com o nome do coronel do estado-maior Kussónsski.

 

Venho do Estado-Maior. Sou portador de uma mensagem pessoal para o general Kornilov. Onde posso encontrar o comandante da guarda?

 

O comandante, que era o tenente-coronel Erhardt do regimento turquemeno, conduziu imediatamente o oficial à presença de Kornilov. Depois de se ter apresentado, Kussónsski declarou, separando as palavras, com uma pontinha de afectação:

 

Dentro de quatro horas, Moguilev será entregue sem combate pelo Alto-Comando. O general Dukhónine encarregou-me de lhe fazer saber que é indispensável que todos os internados abandonem Bikhov sem demora.

 

Após ter interrogado Kussónsski acerca da situação em Moguilev, Kornilov convocou o tenente-coronel Erhardt e disse-lhe, apoiando com firmeza a mão esquerda na borda da mesa.

 

Liberte   imediatamente   os   generais.   Os   turquemenos devem estar prontos a partir à meia-noite. Eu parto com o regimento.

 

Todo o dia os foles de campanha arquejaram, bufaram, as brasas cintilaram, os martelos bateram, e os cavalos excitados lelincharam nas suas estalas. Os turquemenos ferravam os cavalos, consertavam os arreios, limpavam as carabinas.

 

No decurso do dia, os generais deixaram, um após outro, o lugar da sua detenção. E já tarde, pela meia-noite escura, com a cidadezinha de província a dormir profundamente, sem uma luz acesa, começaram a sair cavaleiros, em filas de três, do pátio do liceu das raparigas. As suas silhuetas cor de carvão recortavam-se contra o fundo cinzento do céu. Semelhantes a aves negras, de penas eriçadas, friorentamente curvados nas selas e de bonés enfiados nas cabeças, encafuavam nos capuzes as faces carregadas e luzidias como azeite. No meio da coluna, ao lado do coronel Kinguélguene, comandante do regimento, Kornilov baloiçava-se, curvado, num cavalo alto e delgado. Do vento frio que soprava nas ruazinhas de Bikhov a face arrepiava-se-lhe, e, piscando os olhos amendoados, fitava o céu estrelado.

 

O ruído dos cascos ferrados de novo ressoou nas ruas, até se perder na orla da cidade.

 

Havia dois dias que o 12.º Regimento batia em retirada, lentamente e a combater, bem entendido, mas batendo em retirada. As carretas dos exércitos russo e romeno alongavam-se pelas estradas de terra solta. As unidades austro-húngaras, reunidas, envolviam os exércitos que retiravam, num movimento de flanco, procurando fechar-se sobre eles em tenaz.

 

Para o fim da tarde, soube-se que o regimento e a Brigada Romena, sua vizinha, estavam ameaçados de cerco. Ao pôr do sol, o inimigo tinha expulsado os romenos da aldeia de Khovinévsski e avançado até à cota 480, confinante com o desfiladeiro de Golche.

 

Durante a noite, o 12.º Regimento, reforçado por uma bateria de montanha a cavalo, recebeu ordem de tomar posição no vale.

 

Depois de ter instalado os seus postos avançados, preparava-se para um recontro. Nessa noite, Michka Kochevói e o tonto de Alekcei Bechniak, seu patrício, estavam de guarda num posto de escuta. Tinham-se escondido numa concavidade do terreno, ao lado de um poço abandonado e destruído, e respiravam o ar frio e cortante. Uns bandos tardios de patos selvagens atravessavam de espaço a espaço o céu nevoento e ralo, lançando aqui e além gritos tímidos. Exasperado de não fumar, Kochevói dizia entre dentes:

 

A vida é esquisita, Alekcei... As pessoas andam às apalpadelas, como se fossem cegas, encontram-se, separam-se, de vez em quando uma esmaga outra... À força de vivermos assim, mesmo à beira da morte, acabamos por perguntar a nós próprios para que serve toda esta pena. Cuido que não há nada no mundo mais terrível que o interior dos homens, que nunca se consegue iluminar até ao fundo... Por exemplo, agora mesmo, estou deitado ao teu lado, mas não sei o que tu pensas, nem nunca na minha vida o saberei, e a vida que tu deixaste para trás não a conheço, como tu não conheces nada da minha... Talvez me apeteça matar-te, e tu, como estás a ver, dás-me um biscoito, sem de nada suspeitares... As pessoas não sabem grande coisa de si próprias. Este Verão, estive eu no hospital. O meu vizinho de cama era um soldado de infantaria, um rapaz de Moscovo. Admirava-se de tudo, e fazia-me perguntas sobre a vida dos cossacos, e mais isto e mais aquilo. Julgam eles que os cossacos só sabem o que seja o seu chicote, que são selvagens, e que em vez de alma têm uma garrafa; e, afinal, nós somos como todos os homens: gostamos das mulheres como os outros, acariciamos as raparigas, choramos as nossas mágoas, e não nos alegramos das desgraças alheias... Que te parece, Alekcei? Eu, meu rapaz, tornei-me ávido de viver: quando penso em todas as belas mulheres que há no mundo, aperta-se-me o coração. E quando digo para comigo que nunca as poderei possuir todas, apetece-me gritar de tristeza. Tornei-me tão terno para as mulheres que gostava de as afagar a todas, até não poder mais... Montava as galdérias, montava as mais safadas, desde que fossem bonitas... Foi uma linda ideia, não haja dúvida, organizar a vida assim: impingem-nos uma mulher uma vez por todas, e temos de a aturar até à morte... Não há-de a gente aborrecer-se? E esta guerra, então, que eles inventaram!...

 

Que tal está o toiro cobridor! rosnou Bechmiak, sem malícia.

 

Deitado de costas, Kochevói não replicou; demoradamente olhou o espaço vazio por sobre ele, sorrindo sonhadoramente e acariciando com as mãos, com uma inquieta ternura, a terra fria, desesperadamente indiferente.

 

Uma hora antes de deverem ser rendidos, foram apanhados pelos alemães. Bechniak, que ainda tivera tempo de disparar, flectiu as pernas, rilhando os dentes, numa reverência mortal: uma baioneta alemã rasgara-lhe as entranhas e a bexiga, e vibrava com força, espetada na coluna vertebral. Kochevói foi derrubado com uma coronhada. Um robusto soldado do Landsturm carregou-o às costas e assim andou com ele meia verstá. Ao recuperar a consciência, sentiu que o sangue o afogava, respirou, e reunindo todas as forças que tinha, sem custo se safou das costas do alemão. Atiraram contra ele uma salva de tiros. Mas a noite e os arbustos favoreceram-no, e fugiu.

 

Quando a retirada cessou e as forças russo-romenas evacuaram a bolsa em que estavam, o 12.º Regimento foi rendido, enviado para a retaguarda, a algumas verstás do seu antigo sector, mas mais à esquerda. Uma ordem do dia prescreveu-lhe uma missão de polícia: patrulhar as estradas, impedir que os desertores alcançassem a retaguarda, prendê-los, sem hesitação em utilizar as armas, e mandá-los sob escolta para o Estado-Maior da Divisão.

 

Um dos primeiros a ficar de guarda foi Michka Kochevói. Uma manhã, com outros três homens, saiu da aldeia, e, em conformidade com as indicações do ajudante, tomaram posição não longe da estrada. Esta contornava um bosquezinho e perdia-se na planície irregular, dividida em talhões para ser lavrada. Os cossacos vigiavam, revezando-se. À tarde, notaram um grupo de uma dezena de soldados que caminhava em direcção a eles, com a intenção evidente de evitar a aldeia, que dali se avistava, no sopé da colina. Chegados à altura do bosquezinho, os soldados estacaram, acenderam cigarros, visivelmente consultando-se, e depois tornaram a partir, numa direcção muito diferente: para a esquerda, em ângudo recto.

 

Chamamo-los? disse   Kochevói,   emergindo   do   milheiral.

 

Disparamos para o ar.

 

Eh, lá! Parem aí!

 

Os soldados, que estavam a umas dezenas de ságenas dos cossacos, suspenderam a marcha por um momento, mas logo reataram o caminho, como que contrariados.

 

Aaalto! bradou um dos cossacos, e despejou de enfiada um carregador para o ar.

 

Os quatro cossacos romperam a correr, de baioneta apontada, para alcançar os soldados, que caminhavam com toda a pachorra.

 

Porque diabo não param vocês? A que unidade pertencem? Onde vão? Os vossos papéis? exclamou o sargento Kolitchev, ao chegar ao pé deles.

 

Os soldados pararam. Três deles empunharam sem pressa as carabinas.

 

O último dobrou-se para o chão e apertou com um fio de telefone a sola solta de uma das botas. Todos eles vinham incrivelmente porcos e esfarrapados. Os capotes cheios de espinhos castanhos de mato, mostravam que eles haviam dormido na floresta. Dois deles traziam bonés de Verão, e os outros gorros de lã, de um cinzento sujo, de presilhas desabotoadas e gastas. O primeiro, aparentemente o chefe, alto e curvado como um velho, berrou em voz impertinente e fanhosa, com as bochechas flácidas a tremerem-lhe:

 

Que é que vocês querem? Alguém os chateia? Porque não nos deixam em paz?

 

Os papéis? cortou o sargento, com postiça serenidade.

 

Um soldado de olhos azuis, vermelho como um tijolo acabado de cozer, tirou do cinturão uma granada de mão, agitou-a diante do sargento, e disse-lhe, rápido, à maneira da gente de larosslav, ao mesmo tempo que se virava para os companheiros:

 

Aqui tens, pequeno, os nossos papéis! São isto! Uma ordem de missão permanente. Pensa na carcaça, porque, se te atiro com isto, nunca mais achas nem o fígado nem o baço. Compreendeste? Compreendeste ou não? Compreendeste? .

 

Deixa-te   de   parvoíces proferiu   o   sargento,   carregando o cenho, e dando um empurrão no peito ao soldado. Deixa-te- de parvoíces e não penses em nos meter medo, que medo sabemos nós o que é. Mas, já que são desertores, vamos a voltar para trás, até ao Estado-Maior. Eles é que sabem como se trata com tipos como vocês.

 

Consultaram-se os soldados, entreolhando-se, e ergueram as carabinas. Um deles, magro e de bigode preto, que tinha ar de ser mineiro, rosnou, relanceando o olhar de Kochevói para os outros cossacos:

 

Cuidado ou apanham uma espetadela de baioneta!... Ala! Ponham-se a andar! Por Deus que ao primeiro que avance, atiro!...

 

O soldado dos olhos azuis agitava a granada por sobre a cabeça; o alto e curvado roçou com a ponta enferrujada da baioneta o capote do sargento; o que tinha ar de mineiro praguejava e erguia a coronha da carabina contra Kochevói, cujo dedo tremia no gatilho da sua, que por sua vez lhe tremia, encostada à anca. Um dos cossacos agarrara um soldado baixinho pelas abas do capote, e sacudia-o, deitando olhadelas para trás, com receio de apanhar algum tiro pelas costas.

 

As folhas secas do milheiral rumorejavam ao vento. No extremo da planície irregular, os contrafortes das montanhas surgiam com todos os tons do azul. Vacas amarelas erravam nos prados em torno da aldeia. Por trás da floresta, o vento levantava em turbilhão uma poalha de geada. O pálido dia de Outubro era sonolento e doce, e da paisagem, salpicada por um sol avaro, exalavam-se serenidade e mansidão. E, perto da estrada, aqueles homens excitados por uma cólera absurda estavam prestes a envenenar com o seu sangue a terra semeada, gorda, e que a chuva empapava.

 

Um pouco apaziguados depois de terem feito muita bulha, puseram-se os soldados e os cossacos a falar mais pacificamente.

 

Há três dias que nos retiraram das nossas posições. Nós não somos desertores. E vocês raspam-se. É uma vergonha. Abandonaram os camaradas. Quem aguentará a frente de batalha? Raio de gente que vocês são!... Ao meu lado, caiu morto à baioneta um camarada, e vens-me tu dizer que nós não sabemos o que é a guerra. Eu é que gostava que tu o soubesses como nós! dizia Kochevói, com irritação.

 

Não vale a pena mais conversa interrompeu-o outro cossaco. Vamos ao Estado-Maior, e acaba-se com isto.

 

Deixem-nos passar, cossacos, ou juro que disparo repetia em voz persuasória o soldado que tinha ar de mineiro.

 

O sargento abria os braços, com expressão desolada:

 

Não podemos fazer isso, irmãozinhos! Mesmo que nos matem, vocês não conseguirão passar: o nosso esquadrão está acolá, na aldeia...

 

O soldado alto e curvado passava da ameaça à persuasão e da persuasão à súplica humilde. Por fim, remexeu na sacola suja, tirou dela uma garrafa revestida de palha entrançada, e disse baixo, com uma piscadela de olhos servil a Kochevói:

 

Aqui   têm vocês dinheiro, cossacos...   e uma   vodka alemã...   e ainda se arranja mais qualquer coisinha. .   Deixem-nos passar, em nome de Cristo... Eu tenho filhos em casa; percebes?... Estamos derreados; não podemos mais... Até quando vai isto durar?... Meu Deus!... Vocês não podem, realmente, deixar-nos passar? Tirou rapidamente do cano de uma bota uma bolsinha de tabaco e dela duas notas amachucadas que meteu à força numa das mãos de Kochevói. Pega lá, pega lá. Oh, Senhor!... Não te rales; passamos bem sem dinheiro... O dinheiro não tem importância... passamos sem ele... Pega lá! E ainda não é tudo.

 

A arder de vergonha, Kochevói recuou, de mãos atrás das costas, a abanar negativamente a cabeça. O sangue subira-lhe à cabeça e as lágrimas aos olhos. «Foi por causa de Bechniak que perdi a cabeça... Que é que me deu?... Eu, que sou contra a guerra, a não deixar passar estes homens! com que direito?... Mãe do Céu, que estou eu a fazer? Cachorro de mim!»

 

Chamou o sargento à parte e disse-lhe, sem lhe fitar os olhos:

 

Deixemo-los   lá   ir!   Que   te   parece,   Kolitchev?   Deixamo-los, ha?...

 

Como se cometesse um acto vergonhoso, de olhar igualmente fugidio, o sargento respondeu:

 

Eles que vão à vontade! Que diabo queres tu que se faça deles? Talvez não tarde muito, estaremos nós nas mesmas condições... Não vale a pena armarmos em espertos.

 

E, voltando-se para os soldados, gritou-lhes com indignação:

 

Súcia de malandros! Nós a tratarmo-los como bons rapazes, e vocês a quererem-nos dar dinheiro! Acham vocês que não temos que chegue? Estava vermelhíssimo. Guarda lá a bolsinha, ou levo-te ao Estado-Maior!

 

Prosseguiram os cossacos o seu caminho. Kochevói olhou, ao longe, as ruazinhas desertas da aldeia, e gritou aos soldados, que por seu lado prosseguiam o deles:

 

Eh, burros! Onde é que vocês vão, pelo campo a descoberto? Há ali um bosquezinho; fiquem ali o resto do dia, e abalem só à noite. Ou querem topar outra patrulha e serem presos?

 

Os soldados olharam à roda, pararam por um momento, indecisos, e como lobos, atrás uns dos outros, abalaram, numa bicha cinzenta e suja, até desaparecerem por entre uns choupos na concavidade de um vale.

 

No início de Novembro, começaram a chegar aos cossacos os primeiros rumores contraditórios sobre a revolução de Petrogrado. As ordenanças do Estado-Maior, em geral bem informadas, afirmavam que o Governo Provisório tinha fugido para a América, mas que Kerénsski fora preso por uns marinheiros, que depois de lhe raparem o cabelo e o pintarem com alcatrão, o haviam passeado durante dois dias pelas ruas de Petrogrado, como uma prostituta.

 

Um pouco mais tarde, ao chegar a notícia oficial do derrubamento do Governo Provisório e da tomada do poder pelos operários e pelos camponeses, os cossacos fecharam-se num silêncio vigilante. Muitos deles regozijavam-se, por pensarem que a guerra não tardaria a acabar; não obstante, uma inquietação alastrava, devida a uns vagos rumores, segundo os quais

O 3.º Corpo de Cavalaria, com Kerénsski e o general Krassnov, avançava contra Petrogrado, apoiado no sul por Kalédine, que parecia ter conseguido conduzir para o Don alguns regimentos cossacos.

 

A frente ruía. Já em Outubro os soldados fugiam em grupinhos isolados, sem organização. Em fins de Novembro, porém, era às companhias, aos batalhões, aos regimentos, que abandonavam as suas posições. Algumas unidades partiam sem nada, mas a maioria delas levava o material todo, pilhava os armazéns, fuzilava os oficiais, roubava o que calhava, e rolava em multidão tumultuaria pelas estradas que conduziam às respectivas terras.

 

Em tais condições, era insensato incumbir o 12.º Regimento de prender os desertores. Por isso o tinham mandado retomar as suas posições, onde ele em vão tentava tapar os buracos e as brechas abertas pela infantaria que abandonava as linhas. Em Dezembro, foi ele retirado da frente, alcançou em formação de marcha a estação mais próxima, embarcou todo o seu material, metralhadoras, reservas de cartuchos e cavalos, e mergulhou no interior da Rússia, refervente de combates...

 

O comboio atravessou a Ucrânia, em direcção ao Don. Não longe de Znamenka, os guardas-vermelhos tentaram desarmá-lo. As negociações duraram meia-hora. Kochevói e mais cinco cossacos, presidentes das comissões revolucionárias dos esquadrões, pediram que os deixassem passar armados.

 

Para que precisam vocês das armas? perguntavam os membros do soviete da estação.

 

Para combatermos os nossos burgueses e os nossos generais! Para ir ao pêlo a Kalédine! retorquiu Kochevói, em nome de todos.

 

As armas são nossas, são do Exército Cossaco. Não as damos a ninguém! diziam os cossacos, indignados.

 

Deixaram-nos passar. Em Kremetchug, de novo os quiseram desarmar. Só lhes deram passagem depois de as metralhadoras terem sido apontadas das portas encarnadas dos vagons para a estação, e de um dos esquadrões se haver postado em linha de atiradores ao longo da via férrea. Perto de Ekaterinosslav, após uma troca de tiros com um destacamento de guardas-vermelhos, o regimento foi parcialmente desarmado: apreenderam-lhe as metralhadoras, mais de cem caixas de cartuchos, os aparelhos telefónicos e vários rolos de arame. Mas, quando lhes sugeriram que prendessem os oficiais, os cossacos recusaram-se. Só perderam um em todo o trajecto: Tchirkóvsski, oficial às ordens do regimento, que foi condenado à morte pelos próprios cossacos e executado pelo Cabeludo e por um marinheiro guarda-vermelho.

 

Em 17 de Dezembro, antes do anoitecer, na estação de Sinelníkovo, fizeram-no sair do vagom em que ia.

 

Era mesmo este que traía os cossacos? inquiriu com ar satisfeito, o marinheiro, que era bexigoso, pertencia à frota do mar Negro, e estava armado de uma máuser e de uma carabina japonesa.

 

Achas que nos enganámos? Não, não nos enganámos: é ele mesmo! retorquiu o Cabeludo, em voz estrangulada.

 

O oficial, um jovem capitão, olhava em torno, como um bicho acossado, e passava pelos cabelos uma mão húmida, insensível ao frio que lhe regelava a face e às dores das coronhadas. O Cabeludo e o marinheiro afastaram-se um pouco com ele.

 

É por causa de malandros como este que as pessoas se revoltam, e que há revolução... Então, queridinho, não tremas assim, que te desbagoas todo disse-lhe entre dentes o Cabeludo, que tirou o boné e se benzeu. Aguente-se, senhor capitão.

 

Estás   pronto? perguntou   o   marinheiro,   brincando com a máuser, com um sorriso garoto que lhe descobriu os dentes brancos.

 

Estou pronto!

 

O Cabeludo benzeu-se outra vez, lançou uma olhadela de esguelha ao marinheiro, que havia avançado uma perna, e apontava a pistola, franzindo os olhos com expressão concentrada, sorriu sem amenidade e atirou primeiro que ele.

 

Perto de Tcháplino, o regimento foi envolvido por acaso num combate entre anarquistas e ucranianos, em que perdeu três homens, e só a grande custo se conseguiu safar, depois de ter libertado as linhas, pejadas pelos vagons de uma divisão de atiradores.

 

Três dias mais tarde, o primeiro comboio do regimento chegava à estação de Milerovo, onde os cossacos se apearam.

 

Os outros comboios tinham ficado bloqueados em Luganssk.

 

Reduzido a metade (os que haviam parado em Luganssk tinham voltado para as suas terras pelos seus próprios meios) o regimento chegou finalmente à aldeia de Kárguine. No dia seguinte, os cossacos venderam em leilão o seu espólio de guerra, os cavalos tomados aos austríacos e que tinham trazido da frente, e dividiram entre si o dinheiro do regimento e os equipamentos.

 

Kochevói e os outros cossacos de Tatársski para lá partiram ao entardecer do mesmo dia. Ao alcançarem o alto da colina que se segue a Kárguine, avistaram em baixo a aldeia, a mais bela aldeia do Alto-Don, dominando a curva branca do Tchir gelado. O fumo borbotava em rolos, que logo se desfaziam, da chaminé da fábrica de moagem a vapor; a praça estava negra de gente; os sinos tocavam para o ofício da tarde. Para lá da colina de Kárguine, distinguiam-se com dificuldade os cimos dos salgueiros da aldeia de Klimóvsski, e mais além, por trás do cinzento-azulado, cor de absinto, do horizonte coberto de neve, o sol poente flamejava, imprecisamente, com a sua luz púrpura, invadindo metade do céu.

 

Os dezoito cavaleiros passaram em frente do cabeço das três macieiras selvagens, e a trote mais vivo, que lhes fazia ranger as selas, tomaram a direcção nordeste. A noite gélida escondia-se, como uma ladra, por detrás da crista da colina. Os cavaleiros embuçavam-se nos capuzes dos capotes, e de quando em quando metiam os cavalos a galope. Os cascos ressoavam com uma dureza tal que feria os ouvidos. Em baixo a estrada plana corria para o sul; de ambos os lados dela, uma película de neve rija, que um degelo recente adelgaçara, mas se agarrava ainda aos caules das ervas, brilhava ao luar, com fugitivos reflexos cor de greda.

 

Em silêncio, os cavaleiros estimulavam as montadas. A estrada corria para o sul. A floresta circundava a oriente o barranco de Dubovénki. A rede dos rastos das lebres cintilava sob as patas dos cavalos. Por sobre a estepe, como um elegante cinto cossaco, entalhado, a Via Láctea abraçava o firmamento.

 

Ía o Outono de 1917 muito adiantado quando os cossacos começaram a voltar da frente de batalha. Khrisstónia, envelhecido, regressou com três camaradas do 52.” Regimento. Depois apareceram Anikuchka, imberbe como sempre, os artilheiros Tomíline e Iakov-o-Ferradura, em seguida Martine Chamil, Ivane Alekcêievitch, Zakhar Koriolov, e o pernilongo Borchtchov, todos por si próprios licenciados; em Dezembro, quando já ninguém o esperava, surgiu Mitka Korchunov, seguido, uma semana mais tarde, pelo grupo todo dos cossacos do 12.º Regimento: Michka Kochevói, Prokhor Zikov, Andrei Kachúline, filho do velho Kachúline, Epifane Makssáiev e Égor Siníline.

 

Fédote Bodóvsskov, o que parecia um kalmuk, chegou directamente de Veróneje, onde abandonara o regimento, montado num lindo cavalo isabel que tomara a um oficial austríaco; e durante muito tempo teve que contar como se havia escapulido, nas barbas dos destacamentos de guardas-vermelhos, graças à ligeireza do animal, por entre as aldeias do distrito de Veróneje, completamente desorganizadas pela revolução. Merkulov, Petro Melekhov e Nikolai Kochevói, que haviam largado em Kaménsskaia o 27.º Regimento, passado para os bolcheviques, chegaram após ele. Foi por estes que a aldeia soube que Grigóri Melekhov, que nos últimos tempos servira no 2.º Regimento da reserva, aderira aos bolcheviques e tinha ficado em Kaménsskaia, bem como Makcime Griáznov, o estoira-vergas, antigo ladrão de cavalos, que se sentia no 27.º Regimento nas suas sete quintas, ligado aos bolcheviques pela novidade daquela era de perturbação e de esperança numa vida sem limitações. Constava que Makcime arranjara um cavalo de uma espantosa fealdade e de um ímpeto bravio não menos espantoso; dele se dizia que era baixo, mas comprido, e da cor ruça dos bois, com uma listra de pêlos prateados, de nascença, ao longo de toda a espinha. Falava-se pouco de Grigóri, até por desejo de não falar, visto como o caminho dele e o da aldeia se haviam separado, sem se saber se alguma vez voltariam a juntar-se.

 

As propriedades a que os homens tornavam, donos delas ou outros cuja volta se esperava, transbordavam de alegria. Duro, impiedoso era o desgosto surdo e familiar dos que haviam perdido para sempre os pais ou próximos parentes. Muitos cossacos, faltavam, caídos nos campos da Galícia, da Bucovina, da Prussia Oriental, dos Cárpatos, da Roménia, e cujos cadáveres apodreciam sob as salvas dos canhões. Já os montões de terra sobre as fossas comuns se cobriam de ervas maninhas, abatiam de chuvada para chuvada, desapareciam sob a neve movediça. Por mais que algumas mulheres cossacas saíssem à rua em cabelo, de mãos em pala sobre os olhos, nunca mais elas cessariam de esperar pelos que lhes eram queridos. Por mais que as lágrimas lhes corressem dos olhos inchados e baços, nunca mais elas aliviariam as suas mágoas! Por mais que elas gemessem nos dias dos aniversários e nas refeições funerárias, nunca o vento de leste lhes faria chegar as vozes à Galícia, à Prussia Oriental, aos montões de terra acumulada sobre as fossas comuns!...

 

A erva some os covais; com o tempo se somem as dores. O vento apagou os passos dos que partiram; o tempo apagará a dor sangrenta e a memória das que não voltaram nem voltariam a ver os seus amados, porque a vida humana é curta e estreito o pedaço de erva que nos cabe pisar...

 

Ao ver o irmão do seu defunto marido, Martine Chamil, acariciar a mulher grávida, amimar os filhos e dar-lhes presentes, a mulher de Prokhor Chamil batia com a cabeça contra a terra dura, mordia o solo batido. Esmurraçava o chão, rastejando, convulsa, e ao lado dela, em magote, como borregos, os filhos berravam, de olhos aterrorizados fitos nela.

 

Rasga, pobre mulher, a gola da tua última camisa! Arranca os cabelos, que a vida sem alegria, a vida cruel te embranqueceu; morde os lábios até te sangrarem; torce as mãos, que o trabalho te deformou; espoja-te no limiar da tua casa vazia! A tua casa já não tem amo, nem tu marido, nem os teus filhos pai; pensa que ninguém tornará a acariciar-te, e que nem os teus órfãos nem ninguém te livrará do trabalho arrasante e da miséria; que ninguém, à noite, te cerrará a cabeça contra o peito, quando te deitares, vencida pelo cansaço; que ninguém mais te dirá, como ele outrora te dizia: «Não te apoquentes, Anisska, que cá nos arranjaremos.» Não acharás outro marido, porque o trabalho, as necessidades e os filhos te secaram, te desfearam; os teus filhos ranhosos, seminus, não acharão novo pai; tu própria lavrarás, estorroarás o campo, arquejando do esforço excessivo para ti, ceifarás e carregarás o trigo no carro, erguendo-lhe os feixes pesados com a forquilha de três dentes, e sentirás no baixo-ventre qualquer coisa rasgar-se-te, e te torcerás nos teus trapos, a perder sangue.

 

A arrumar a velha roupa branca do filho, a mãe de Alekcei Bechniak chorava lágrimas amargas, que parcamente lhe corriam dos olhos; aspirava-a profundamente, mas só a última camisa dele, que Michka Kochevói trouxera, é que dele ainda guardava, por entre as pregas, o cheiro do suor; a velha encafuava a cabeça nela, estremecendo e gemendo lamentosamente, enquanto as lágrimas lhe iam deixando marcas no tecido de algodão com o carimbo da tropa.

 

Órfãs também o estavam as famílias de Manítzkov, de Afonka Ozérov, de Evlánti Kalínine, de Likhóvidov, de Ermákov e de outros cossacos.

 

Só a Stepane Asstakhov ninguém chorava, nem disso se lembraria. A casa dele, meia em ruínas, de portas e janelas pregadas com tábuas, escura mesmo no Verão, estava vazia. Akcínia vivia em lagodnói, e nem na aldeia se ouvia falar grande coisa dela, nem ela lá aparecia nunca, o que queria dizer que ir lá lhe não interessava.

 

Os cossacos das stanitsas da parte superior do distrito do Donetz regressavam em bandos, às aldeias inteiras. No mês de Dezembro, os da stanitsa de Viochénsskaia tinham voltado quase todos.

 

Dia e noite, grupos de dez a quarenta cavaleiros atravessavam a aldeia de Tatársski, a caminho da margem esquerda do Don.

 

Donde são vocês, militares? perguntavam os velhos assomando às portas.

 

Do rio Tchórnaia.

 

De Zimóvnaia.

 

De Dubrovka.

 

De Rechetóvsski.

 

De Dudárevka.

 

De Gorókhovka.

 

De Alinovka.

 

Já estão fartos de se baterem? diziam-lhe perfidamente os velhos.

 

Alguns, bem dispostos e serenos, respondiam a isto, sorrindo:

 

Já cá temos a nossa conta, avô. Basta o que basta.

 

Para miséria, já chega. Voltamos para casa. Outros, mais azedos, mais ruins, diziam, de mistura com

 

todas as pragas que sabiam:

 

Vai lá tu ver, velho, que vens de rabo entre as pernas.

 

Que queres tu saber? Importa-te?

 

Vocês por aqui falam de mais.

 

Nos fins do Inverno, começavam a surgir os primeiros germes de guerra civil à roda de Novotcherkassk, mas as stanitsas e as aldeias do Alto-Don mantinham uma tranquilidade de ossuário. Nas propriedades, no entanto, desenrolavam-se surdas lutas familiares, que por vezes vinham à tona: é que os velhos não se entendiam com os regressados da frente.

 

Daquela guerra, em vias de desenvolvimento perto da capital da Região do Exército do Don (1), mal ainda se tinha ouvido falar; as pessoas perdiam-se na embrulhada das novas tendências políticas, esperavam pelos acontecimentos, atentas.

 

Em Tatársski viveu-se em sossego até ao mês de Janeiro. Os homens que haviam voltado da frente descansavam ao lado das mulheres, engordavam, sem se aperceberem de que bem perto os espreitavam penas e misérias mais amargas que as que haviam sofrido durante a guerra.

 

Em Janeiro de 1917, Grigóri Melekhov fora promovido a tenente por feitos em combate, e nomeado comandante de pelotão do 2.º Regimento da reserva.

 

Em Setembro, a seguir a uma pneumonia, obtivera uma licença; uma vez restabelecido, depois de mês e meio passado em casa, comparecera perante a comissão médica do distrito, e fora reenviado para o regimento. Após a revolução de Outubro, havia recebido o comando de um esquadrão. Desta época se podia datar a reviravolta nele produzida pelos acontecimentos e pela influência das suas relações com um dos oficiais do regimento dele, o tenente Efime Izvárine.

 

Grigóri travara conhecimento com ele no próprio dia em que regressara da licença; desde então com ele convivia constantemente, no serviço ou fora do serviço, por ele sendo influenciado sem disso se dar conta.

 

1)   Ou seja Novotcherkassk, a que antes se alude.

 

Efime Izvárine era filho de um cossaco abastado da stanitsa de Gurondóvsskaia; frequentara o Instituto Militar de Novotcherkassk, e fora enviado para a frente, para o 10.º Regimento Cossaco do Don; ali havia servido cerca de um ano, obtivera, como ele gostava de dizer, «a cruz de São Jorge dos oficiais no peito e catorze estilhaços de granada em todos os sítios honestos e desonestos do corpo», e por fim, para coroar a sua curta carreira, tinha ido parar ao 2.º Regimento da reserva.

 

Era um homem de capacidades excepcionais, de dotes incontestáveis, muito mais cultivado que a maioria dos oficiais cossacos, e autonomista cossaco encarniçado. A revolução de Fevereiro despertara-o e permitira-lhe revelar-se; ligara-se aos círculos cossacos de tendência separatista, e fazia uma propaganda hábil em prol da autonomia geral da Região do Exército do Don, do restabelecimento do sistema de governo existente no Don antes da dominação do povo cossaco pela autocracia. Conhecia admiravelmente a História, tinha a cabeça ardente, mas o espírito claro e sensato, e descrevia quadros de uma beleza exaltadora sobre a liberdade que o Don bem-amado conheceria mais tarde, quando o governasse a Assembleia Regional soberana, quando não houvesse um só russo no interior da Região, e quando o povo cossaco, com os seus postos estabelecidos ao longo das fronteiras do estado, falasse de igual para igual, sem ter de se desbarretar, com a Ucrânia e com a Grande-Rússia, com elas praticando comércio e trocas. Izvárine dava volta às cabeças dos simples cossacos e dos oficiais pouco instruídos. Foi assim que Grigóri caiu sob a influência dele. A princípio haviam tido discussões apaixonadas; mas Grigóri, meio iletrado, não tinha armas que chegassem para o adversário, de modo que Izvárine com facilidade o vencia naqueles torneios oratórios. Discutiam em geral a um canto da caserna; e a simpatia dos auditores pendia sempre para Izvárine, que se lhes impunha pela argumentação, ao falar-lhes da independência futura, com isso tocando a maior parte dos cossacos abastados do Baixo-Don no mais íntimo, no mais recôndito de si próprios.

 

Mas como viveremos nós sem a Rússia, se não temos mais nada além do trigo? perguntava Grigóri.

 

com paciência, Izvárine replicava-lhe:

 

Eu não penso numa existência independente e isolada exclusivamente da Região do Don. Penso numa federação, numa união com o Kúbano, o Térek e o Cáucaso é rico em minerais. Assim, teríamos tudo.

 

E carvão?

 

Temos a bacia do Donetz pertinho.

 

Mas essa pertence à Rússia.

 

A quem ela pertence, em que território está, é isso ainda para discutir. Mas, mesmo que a bacia do Donetz ficasse nas mãos da Rússia, a perda para nós não seria grande. A nossa união federativa não se basearia na indústria. Por natureza, somos um país agrário; o carvão necessário para a nossa magra indústria à Rússia o compraríamos. E não seria só o carvão, mas muito mais o que compraríamos aos russos: madeiras, objectos manufacturados, e outras coisas; em troca, fornecer-lhes-íamos nós toda a espécie de cereais e petróleo.

 

Mas que vantagem temos nós em nos separarmos deles?

 

Uma imediata. Antes de mais nada, libertarmo-nos da sua tutela política, restaurando o nosso próprio regime, destruído pelos tsares russos, e expulsando todos os estrangeiros. Dentro de dez anos, mandando vir máquinas do estrangeiro, teremos elevado de tal modo a nossa economia que seremos dez vezes mais ricos do que somos agora. Esta terra é nossa, foi regada pelo sangue dos nossos antepassados, alimentada pelos seus corpos; e nós, oprimidos pela Rússia, defendemos-lhe os interesses durante quatrocentos anos sem pensarmos em nós. Temos saídas para o mar. Teremos o exército mais forte e mais apto para combater, de forma que nem a Rússia nem a Ucrânia ousarão atentar contra a nossa independência.

 

De estatura média, esbelto, largo de ombros, Izvárine era um cossaco típico: de cabelos ondulados, a atirarem para amarelo, da cor da aveia pouco madura, a face crestada, e a testa oblíqua e branca, porque o tom escuro da cara lhe parava à altura das sobrancelhas claras. Tinha voz de tenor, aguda e dócil, e o hábito de, quando falava, erguer em ângulo a sobrancelha esquerda e torcer o narizinho arqueado, de um modo seu especial, como que para fungar.

 

O passo enérgico, a segurança do porte, e o ar franco com que fitava tudo com os seus olhos castanhos distinguiam-no dos outros oficiais do regimento. Os cossacos tinham por ele um evidente respeito, talvez mesmo maior que pelo comandante.

 

Izvárine tinha longas conversas com Grigóri, que ao ouvi-lo sentia de novo vacilar-lhe sob os pés um terreno ainda pouco firme, como antes em Moscovo, na clínica de olhos do Dr. Sneguiriov, ao escutar Garanja.

 

Pouco depois da revolução de Outubro se travou entre eles o seguinte diálogo, em que Grigóri inquiriu com cuidado Izvárine acerca dos bolcheviques:

 

Ora diz-me cá, Efime Ivânitch. Na tua opinião, os argumentos dos bolcheviques são justos, ou não são?

 

Erguendo as sobrancelhas e franzindo do seu modo engraçado o nariz, Izvárine deu uma gargalhada:

 

Os argumentos deles? Ah-ah!... Mas, meu caro, parece que nasceste agora... Os bolcheviques têm o seu programa, as suas perspectivas, as suas esperanças. Segundo o seu ponto de vista, os bolcheviques têm razão, tal como nós, segundo o nosso. Sabes como o partido bolchevique se chama? Não sabes? Como é que tu não sabes uma coisa destas? Partido operário social-democrata russo. Compreendes? Operário! Por enquanto, fazem namoro aos camponeses, fazem namoro aos cossacos; mas o principal, para eles, é a classe operária. Para essa, o triunfo deles seria uma verdadeira libertação, mas, para os camponeses, uma nova escravidão, se é que não pior. Igualdade é coisa que não existe na vida. Se eles ganharem, será bom para os operários, e mau para os outros. Se a monarquia voltar, será bom para os proprietários e outros que tais, e mau para os outros. Ora nós não queremos nem os bolcheviques nem a monarquia. Do que nós precisamos é de um governo nosso, e, antes do mais, de sacudirmos todas as tutelas, quer seja a de Kornilov, quer seja a de Kerénsski, quer seja a de Lénine. Não precisamos desses sujeitos para nada. Deus nos proteja dos nossos amigos, que para os nossos inimigos havemos nós de chegar sozinhos.

 

Mas a maior parte dos cossacos é pelos bolcheviques... pois não sabes?

 

Gricha, meu amigo, tens de compreender isto, que é essencial: por ora os cossacos e os camponeses acompanham os bolcheviques. E sabes porquê?

 

Porque é então?

 

Porque...Izvárine franziu o nariz, torceu-o todo a um lado, e disse, a rir: Porque os bolcheviques são pela paz, pela paz imediata, e os cossacos estão fartos da guerra até aqui.

 

E levou uma das mãos ao pescoço tisnado e firme. Depois, baixou a sobrancelha e exclamou:

 

É por isto que os cossacos seguem os bolcheviques e acertam o passo com eles. Mas, mal a guerra a-ca-be, e os bolcheviques estendam as unhas para as terras cossacas, o caminho do povo cossaco afastar-se-á do deles. Isto é indiscutível, e historicamente inevitável. Entre a forma de vida actual dos cossacos e o socialismo, remate da revolução bolchevique, há um abismo intransponível...

 

Devo-te dizer... murmurou surdamente Grigóri que não compreendo nada... Custa-me desenredar tudo isto... Sinto-me perdido, como no meio de uma tempestade de neve em pleno campo...

 

Assim não te desenrascas. A vida te obrigará a ver os factos com clareza, e não só te obrigará como te arrastará à força para um lado ou para outro.

 

Passou-se isto num dos últimos dias de Outubro. Em Novembro, Grigóri encontrou por acaso outro cossaco, que havia de vir a desempenhar um papel importante na história da revolução no Don, Fiodor Podtiólkov; e, após um curto período de hesitação, venceram nele as suas antigas ideias.

 

Naquele dia, desde o meio-dia que caía uma chuva miúda. Para o fim da tarde houve uma aberta, e Grigóri decidiu ir visitar Drozdov, seu patrício, aspirante do 28.º Regimento. Um quarto de hora depois, limpava ele a sola das botas à entrada da casa de Drozdov, e batia. Drozdov não estava só no compartimento, cheio de plantas carnosas enfezadas e de móveis velhos; sentado numa cama de campanha, de oficial, de costas para a janela, estava um cossaco robusto e corpulento, com divisas de sargento-ajudante de artilharia da Guarda. Curvado, de pernas largamente abertas, enfiadas em calções de fazenda preta, tinha as mãozorras, cobertas de pêlos ruivos, pousadas nos joelhos redondos e vastos. O dólman muito apertado cingia-lhe as ancas, franzia-se-lhe nas axilas, quase lhe estalava no peito arqueado. Ao rangido da porta, virou o pescoço grosso e sanguíneo, considerou com frieza Grigóri, e logo ocultou sob as pálpebras inchadas, nas suas fendas estreitas, o brilho glacial dos olhos.

 

Não se conhecem? É quase um vizinho nosso, Gricha: Podtiólkov, de Usst-Khopérsskaia.

 

Grigóri e Podtiólkov apertaram as mãos, sem uma palavra. Sentou-se Grigóri, e disse ao dono da casa:

 

Sujei-te o chão. Não ralhas comigo por isso?

 

Não, está sossegado. A hospedeira o lava... Queres chá? Baixo, irrequieto como uma enguia, Drozdov bateu no samovar com uma unha amarelada do tabaco, e acrescentou, pesaroso:

 

Tens de o beber frio.

 

Não quero. Não te incomodes.

 

Grigóri ofereceu um cigarro a Podtiólkov. Durante um pedaço, em vão este tentou, com os dedos grossos e vermelhos, tirar um de entre os outros, apertados como estavam, e comentou, irritado e corado:

 

Não consigo agarrar este estupor!

 

Lá fez rolar um, finalmente, para cima da tampa da caixa; e ergueu então para Grigóri os olhos franzidos por um sorriso que lhe estreitava ainda mais as fendas das pálpebras. Aquela sem-cerimónia agradou a Grigóri, que lhe perguntou:

 

De que aldeia és tu?

 

Sou de Krutóvsski respondeu prontamente Podtiólkov. Foi lá   que me criei. Mas nos últimos tempos vivi em Usst-Kalinóvsskaia. Conheces Krutóvsski? Já ouviste falar? Fica quase paredes-meias com Elánsskaia. E a aWeia de Plechakóvsski, conheces? Logo a seguir avista-se Matvêiev, e mesmo ao lado Tiukovnóvsski, que faz parte da nossa stanitsa. Pois bem, depois, é a região em que eu nasci: as aldeias de Krutóvsski, de Cima e de Baixo.

 

O tempo todo que durou a conversa, tão depressa tratou Grigóri pela segunda pessoa do singular como pela do plural, falando à vontade, e chegando mesmo de uma vez, já mais familiarizado com ele, a bater-lhe num ombro com a sua mão pesada. Na cara grande, o seu tanto bexigosa, o bigode meticulosamente enrolado luzia-lhe, e os cabelos, acamados com água, tufavam-se-lhe em torno das orelhas pequenas e encaracolavam-se-lhe levemente do lado esquerdo. Causaria uma impressão agradável, se não fossem o grande nariz proeminente e os olhos. À primeira vista, estes nada tinham de extraordinário; mas, à força de os fitar, Grigóri sentiu que eles pesavam em cima dele como chumbo. Pequenos, redondos como zagalotes, brilhavam no meio das suas fendas estreitas como por trás de seteiras, fazendo baixar os olhares alheios e sendo capazes de fixar demoradamente um mesmo ponto, com dura tenacidade.

 

Grigóri, que o observava com curiosidade, notou uma característica de Podtiólkov: é que quase não piscava as pálpebras. Nas conversas, enquanto o interlocutor falava, fitava nele um olhar triste; mas, ao falar ele próprio, os olhos saltitavam-lhe de objecto para objecto, com as sobrancelhas curtas, queimadas pelo sol, constantemente baixadas e imóveis. De longe em longe, deixava cair as pálpebras superiores, inchadas, para logo as erguer bruscamente, olhando as pessoas em torno com os seus olhos como zagalotes.

 

É interessante esta época, rapazes! começou Grigóri, dirigindo-se ao dono da casa e a Podtiólkov. Mal a guerra acabe, iniciaremos uma vida nova. Na Ucrânia, a Rada (2), e na nossa terra, a Assembleia Regional.

 

O atamane Kalédine corrigiu Podtiólkov a meia voz.

 

É o mesmo. Qual é a diferença?

 

com efeito, não há diferença concordou Podtiólkov.

 

E adeus, nossa mãezinha Rússia continuou Grigóri, repetindo uma frase de Izvárine, para ver como reagiriam Drozdov e aquele homenzarrão da artilharia da Guarda Teremos o nosso próprio governo e as nossas próprias leis. Acabam-se os ucranianos na terra cossaca; rua com eles! Traçaremos a nossa fronteira, e fica proibida a entrada! Viveremos como antigamente, como os nossos antepassados. Na minha opinião, a revolução serve-nos às maravilhas. Que te parece, Drozdov?

 

A isto, Drozdov sorriu, e, agitando-se todo, replicou: com certeza que há-de ser melhor. Os mujiques adquiriram força demasiada; deixarão de mandar na nossa terra. E, depois, que diabo, os atamanes designados (3) são todos alemães: von Taube, von Grabbe e companhia! E toda a terra a

 

(2) A «Rada Central», constituída em 4 (17) de Março de 1917 em Kiev, proclamou, em 7 (20) de Novembro do mesmo ano, a independência da Ucrânia e a formação da República Popular da Ucrânia. Contra ela, no mês seguinte, em 12 (25) de Dezembro, o 1.º Congresso Pan-Ucraniano dos Sovietes, reunido em Kharkov, proclamou a República Soviética da Ucrânia. A guerra civil da Ucrânia, que então começou, deveria durar até 1921.

(3) Como já se disse em nota anterior, os chefes dos exércitos cossacos eram designados pelo governo, e, habitualmente oficiais generais de origem não cossaca.

 

davam   a   esses   senhores   do   Estado-Maior!,..   Agora, vamos respirar.

 

E a Rússia aceitará isso? atirou Podtiólkov, sem encarar nenhum dos dois.

 

- Não tenhas medo, que aceita assegurou Grigóri.

 

E continua a ser a mesma coisa... A mesma sopa, nem mais grossa, nem mais rala.

 

Como é lá isso?

 

É assim mesmo. Podtiólkov moveu os olhos de zagalote um pouco mais vivamente do que era hábito, e acabou por fixá-los com dureza em Grigóri. Os atamanes continuarão a chuchar do povo trabalhador, e nós a pormo-nos em sentido diante de Suas Nobrezas, para lhes recebermos os punhos nas ventas. Ora esta!... Uma bela vida... Melhor é atarmos uma pedra ao pescoço e atirarmo-nos à água!

 

Grigóri levantou-se, deu alguns passos no quarto estreito, várias vezes se roçando pelos joelhos afastados de Podtiólkov, até que acabou por parar e lhe perguntou:

 

Que havemos então de fazer?

 

Ir até ao fim.

 

Até qual fim?

 

Já que começámos, é continuarmos. Visto que deitámos abaixo o tsar e a contra-revolução, é preciso que o poder passe para as mãos do povo. Tudo o mais, são contos para entreter crianças. No tempo antigo era-se oprimido pelos tsares; agora, se já não forem os tsares, serão outros que nos oprimirão e nos farão gemer...