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O DOSSIE PELICANO / Jonh Grisham
O DOSSIE PELICANO / Jonh Grisham

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O DOSSIE PELICANO

 

Parecia incapaz de criar tamanho caos, mas grande parte do que acontecia lá na rua era obra sua. E isso era ótimo. Estava com noventa e um anos, paralítico, preso a uma cadeira de rodas e ligado a um balão de oxigênio. O segundo derrame, há sete anos, fora quase fatal, mas Abraham Rosenberg ainda estava vivo, e mesmo com os tubos no nariz a sua autoridade legal era maior que a dos outros juízes. Era a única lenda viva do Supremo, e o fato de ainda continuar a respirar irritava grande parte da multidão lá em baixo. Sentado na pequena cadeira de rodas, no escritório do andar térreo do prédio do Supremo Tribunal, tocou com os pés no parapeito da janela e inclinou-se para frente, quando a agitação aumentou na rua. Abraham Rosenberg detestava polícias, mas vê-los naquele momento, em fileiras cerradas, lá em baixo, era de certo modo reconfortante. Em posição de sentido, conseguiam conter a multidão de pelo menos cinqüenta milpessoas que queriam sangue.

- A maior multidão de todos os tempos! - gritou Rosenberg, da janela. Estava quase surdo. Jason Kline, seu primeiro-assistente, observava de pé, atrás da cadeira. Era a primeira segunda-feira de Outubro, o fim das férias judiciais, e aquela era uma comemoração tradicional em honra da Primeira Emenda. Uma comemoração gloriosa. Rosenberg estava entusiasmado. Para ele, liberdade de expressão significava liberdade de protesto.

- Os índios também lá estão? - perguntou em voz alta.

Jason Kline inclinou-se para o ouvido direito dele.

- Estão!

- Com as pinturas de guerra deles?

- Sim! Com o uniforme completo de batalha.

- Estão dançando?

- Estão!

Os índios, os negros, os brancos, os mulatos, mulheres, homossexuais, ecologistas, cristãos, ativistas a favor do aborto, arianos, nazis, ateus, caçadores, defensores dos animais, defensores da supremacia branca, defensores da supremacia negra, os que protestavam contra os impostos, madeireiros. fazendeiros - formavam um mar de protesto. E os polícias a favor da ordem apertavam nas mãos os seus cassetetes negros.

- Os índios devem adorar-me!

- Tenho certeza de que sim - Kline meneou a cabeça afirmativamente e sorriu para o homem pequeno e frágil que olhava lá de cima com os punhos fechados. A ideologia dele era simples. O governo acima dos negócios, o indivíduo acima do governo, o ambiente acima de tudo.

Quanto aos índios, dar-lhes o que queriam. Os gritos, preces, cantos e protestos aumentavam de volume e os polícias cerraram mais as fileiras.

Era a maior e mais ruidosa multidão dos últimos anos. As coisas estavam ficando tensas. A violência tinha-se tornado um ato habitual. Explodiam bombas em clínicas de aborto. Havia médicos atacados e espancados. Um fora morto em Pensacola, amordaçado, amarrado na posição fetal e queimado com ácido. Lutas de rua aconteciam todas as semanas. Igrejas e padres eram espancados por militantes gays. Os partidários da supremacia branca operavam por meio de urna dúzia de organizações paramilitares clandestinas e tornavam-se cada vez mais ousados nos seus ataques aos negros, hispânicos e asiáticos. O ódio era agora o passatempo favorito da América.

E o Supremo Tribunal, evidentemente, era alvo fácil. O número de ameaças sérias contra os juizes era agora dez vezes maior do que em 1990. O contingente da polícia do Supremo Tribunal era três vezes maior. Pelo menos dois agentes do FBI eram designados para proteger cada um dos juizes e outros cinqüenta encarregavam-se de investigar as ameaças.

- Eles me odeiam, não é? - disse ele, em voz alta. Olhando pela janela.

- Sim, alguns o odeiam - respondeu Mine, com um sorriso.

Rosenberg gostava de ouvir isso. Sorriu e respirou fundo. Oitenta por cento das ameaças de morte eram dirigidas a ele.

- Está vendo algumas daquelas faixas? - perguntou. Estava quase cego.

- Muitas.

- O que dizem elas?

- O mesmo de sempre. Morte a Rosenberg. Reforma para Rosenberg. Desliguem o oxigênio.

- Há anos que acenam com essas mesmas faixas. Porque não criam algumas novas?

O assistente não respondeu. Abe devia ter se reformado há muitos anos, mas um dia destes seria transportado numa maca. Os seus três assistentes faziam a maior parte do trabalho de pesquisa, mas Rosenberg insistia em redigir os próprios pareceres com um marcador e as palavras espalhadas na folha branca eram como as de uma criança aprendendo a escrever.

Trabalho lento, mas, com um emprego vitalício, quem se importava com o tempo? Os assistentes verificavam os seus pareceres e raramente encontravam algum engano.

Rosenberg riu satisfeito.

- Devíamos dar Runyan aos índios, como jantar.

O presidente do Supremo Tribunal era John Runyan, um conservador convicto, designado por um republicano e detestado pelos índios e por quase todas as outras minorias. Sete dos nove juízes haviam sido designados por presidentes republicanos. Há quinze anos que Rosenberg esperava por um democrata na Casa Branca. Ele queria aposentar-se, precisava, mas não suportava a idéia de ser substituído no seu amado posto por um tipo de direita, como Runyan.

Podia esperar.

Podia ficar ali sentado na cadeira de rodas, respirando oxigênio e protegendo os índios, os negros, as mulheres, os pobres, os desprivilegiados e o meio ambiente até aos cento e cinco anos.

E ninguém no mundo inteiro poderia fazer nada a respeito disso, a não ser que o matassem. O que também não seria uma má idéia.

A cabeça do grande homem caiu para frente, depois balançou um pouco e descansou sobre o ombro. Estava outra vez dormindo.

Kline afastou-se em silêncio, regressando à sua pesquisa na biblioteca. Voltaria dentro de meia hora para verificar o oxigênio e dar o remédio a Abe.

O gabinete do presidente do tribunal, no primeiro andar, é maior e mais luxuoso do que os outros oito. A primeira sala é usada para pequenas recepções e reuniões formais, e o gabinete interno é onde o presidente trabalha. No gabinete, com a porta fechada, estavam o presidente do Supremo, os seus três assistentes, o chefe da polícia do Supremo Tribunal, três agentes do FBI e K. O. Lewis, diretor-assistente do FBI.

Todos estavam sérios, esforçando-se por não ouvir o barulho da rua. Era difícil. O presidente e Lewis falavam sobre a última série de ameaças de morte e os outros apenas ouviam.

Os assistentes tomavam notas.

Nos últimos sessenta dias, o FBI tinha registrado mais de duzentas ameaças, um novo recorde. Havia as faixas habituais de "Ponham uma bomba no Tribunal!", mas a maior parte vinha com especificações - como nomes, processos e casos legais.

Runyan não tentava disfarçar a ansiedade. Lera no relatório confidencial do FBI os nomes dos indivíduos e grupos suspeitos da autoria das ameaças. O Klan, os arianos, os nazis, os palestinos, os separatistas negros, os pró-vida, os homófobos. Até o IRA. Aparentemente todos, exceto os rotários e os escoteiros. Um grupo do Médio Oriente, apoiado pelos iranianos, ameaçava inundar de sangue o solo da América para vingar as mortes de dois ministros da Justiça, em Teerã.

Não havia nenhuma prova de que os assassinatos tivessem alguma ligação com o atentado à bomba que provocara a morte de um juiz federal, no Texas, atribuído à nova unidade de terroristas domésticos dos Estados Unidos, conhecida como Exército Subterrâneo. Não fora efetuada nenhuma prisão, mas o ES assumia publicamente a responsabilidade. Era também o principal suspeito numa dúzia de atentados à bomba nos escritórios da ACLU, mas o seu trabalho era muito limpo.

- O que me diz daqueles terroristas porto-riquenhos? - perguntou Runyan, sem erguer os olhos.

- Peso leve. Não nos preocupam - respondeu K. O. Lewis, calmamente. - Há vinte anos que fazem ameaças.

- Bem, talvez tenha chegado a hora de fazerem alguma coisa. O clima é propício, não acha?

- Esqueça os porto-riquenhos, chefe - Runyan gostava de ser chamado assim. Não "presidente do tribunal”, não "senhor presidente do tribunal". Apenas "chefe" - Ameaçam porque todo mundo faz isso agora.

- Muito engraçado - disse o chefe, sem sorrir. – Muito engraçado. Não me agrada deixar um grupo de fora – Runyan atirou o relatório para cima da mesa e passou as mãos pelas têmporas.

Vamos falar de segurança - e fechou os olhos.

K. O. Lewis pôs a sua cópia do relatório na mesa do chefe.

- Bem, o diretor acha que devemos designar quatro agentes para cada juiz, pelo menos durante os próximos noventa dias. Usaremos limusines com acompanhantes para irem para o trabalho e para quando voltarem para casa, e a polícia do Supremo Tribunal dará todo o apoio e se encarregará da segurança do prédio.

- E quanto a viagens?

- Não é uma boa idéia, pelo menos por agora. O diretor acha que os juízes devem permanecer na área do Distrito Federal até ao fim do ano.

- Está maluco? Ele está maluco. Se eu pedir aos meus companheiros que aceitem essa sugestão, todos sairão da cidade esta noite e ficarão fora durante um mês. Isso é absurdo.

Runyan olhou de testa franzida para os assistentes, que abanaram as cabeças, concordando. Absurdo total. Lewis ficou impassível. Já estava à espera disso.

- Como queira. Foi só uma sugestão.

- Uma sugestão idiota.

- O diretor não estava à espera da sua cooperação nesse ponto. Entretanto, espera ser notificado com antecedência sobre qualquer plano de viagem, para que possamos providenciar o esquema de segurança.

- Quer dizer que pretendem acompanhar cada um dos juízes, cada vez que um deles sair da cidade?

- Sim, chefe. É esse o nosso plano.

- Não vai funcionar. Estas pessoas não estão acostumadas a andar com babás.

- Não, senhor. E também não estão acostumadas a serem vítimas de atentados. Estamos apenas tentando protegê-lo e à sua honrada irmandade, senhor. É claro que não há nada que nos obrigue a isso. Acho que foi o senhor quem nos chamou. Podemos ir embora, se desejar.

Runyan balançou a cadeira para frente e atacou um clipe, desfazendo as curvas, tentando transformá-lo num pedaço de metal completamente direito.

- É por aqui?

Lewis suspirou e quase sorriu.

- Não estamos preocupados com este prédio, chefe. É fácil para a segurança. Não esperamos problemas por aqui.

- Então, onde?

Lewis indicou a janela com uma inclinação de cabeça. O barulho estava mais intenso.

- Lá fora, num lugar qualquer. As ruas estão cheias de idiotas, de maníacos e de fanáticos.

- E todos nos odeiam.

- Evidentemente. Escute, chefe, estamos muito preocupados com o juiz Rosenberg. Ele não permite o acesso dos nossos homens a casa dele, Têm de ficar na rua, no carro, a noite toda. Ele permite que o funcionário favorito dele do Supremo Tribunal... como se chama ele, Ferguson?...

Fique sentado do lado de fora da porta dos fundos, mas só das dez da noite às seis da manhã.

Ninguém entra na casa a não ser o juiz Rosenberg e o seu enfermeiro. Não é um lugar seguro.

Runyan limpou as unhas com o clipe e sorriu levemente para si mesmo. A morte de Rosenberg, por qualquer meio ou método, seria um alívio. Não, seria uma ocasião gloriosa. O chefe teria de vestir-se de preto e fazer o panegírico, mas atrás das portas fechadas daria belas gargalhadas com os seus assistentes. Runyan gostava de pensar nisso.

- O que é que sugere? - perguntou.

- Não quer falar com ele?

- Já tentei. Expliquei-lhe que é provavelmente o homem mais odiado da América, que milhões de pessoas o amaldiçoam todos os dias, que quase todos gostariam de vê-lo morto, que ele recebe quatro vezes mais cartas cheias de ódio e protestos do que nós todos juntos, e que seria um alvo perfeito e fácil para um assassino.

Lewis esperou.

- E então?

- Mandou-me levar no cu e caiu no sono.

Os assistentes riram, como deviam, e então o homem do FBI, percebendo que o humor era permitido, acompanhou-os com um riso breve.

- Então, o que vamos fazer? - perguntou Lewis, sem nenhum sinal de humor.

- Protejam-no o melhor possível, ponham tudo no papel e não se preocupem. Ele não tem medo de nada, nem da morte, e se não liga a mínima importância. Porque é que vocês hão de se preocupar?

- O diretor preocupa-se, portanto eu preocupo-me, chefe. É muito simples. Se um de vocês for ferido, quem fica mal é o FBI.

O chefe balançou rapidamente a cadeira. O barulho que vinha da rua era enervante. A reunião estava sendo longa demais.

- Esqueça o Rosenberg. Talvez ele morra durante o sono. Estou mais preocupado com o Jensen.

- O Jensen é um problema - disse Lewis, folheando as páginas do relatório.

- Sei que ele é um problema - disse Runyan, devagar. - Ele é um constrangimento. Agora, pensa que é liberal. Vota com o Rosenberg sempre. No mês que vem passa a defender a supremacia branca e a segregação nas escolas. Depois. Vai apaixonar-se pelos índios e vai querer dar-lhes o estado de Montana. É como ter um filho retardado.

- Ele já fez tratamento para a depressão, o senhor deve saber.

- Eu sei, eu sei. Está sempre me falando nisso. Eu sou a figura paterna dele. Qual foi o tratamento?

- Prozac.

O chefe limpou outra vez as unhas com o clipe.

- E aquela professora de ginástica aeróbica com quem ele andava? Ainda anda por aí?

- Não, chefe. Acho que ele não se interessa por mulheres - Lewis fez cara de quem sabia muito mais. Olhou rapidamente para um dos seus agentes, confirmando a informação. Runyan ignorou a insinuação, não queria ouvir.

- Ele está disposto a cooperar?

- É claro que não. De certo modo, é pior do que Rosenberg. Permite que o acompanhemos até ao prédio, e depois faz-nos ficar sentados no estacionamento a noite toda. Lembre-se de que ele mora no sétimo andar. Não nos podemos sequer sentar na portaria. Os vizinhos podem não gostar, diz ele. Por isso, ficamos no carro. O prédio tem dez entradas e saídas e é impossível protegê-lo. Gosta de jogar às escondidas conosco. Sai freqüentemente escondido, e nunca sabemos se está em casa ou não. Pelo menos com o Rosenberg sabemos onde está durante toda a noite. Com o Jensen é impossível

- Ótimo. Se vocês não conseguem segui-lo, como é que um assassino vai conseguir?

Lewis não tinha pensado nisso. Não percebeu a piada.

- O diretor está muito preocupado com a segurança do juiz Jensen.

- Ele não recebe assim tantas ameaças.

- É o sexto da lista, apenas um pouco menos do que o senhor, senhor juiz.

- Oh... Então, estou em quinto lugar.

- Sim. Logo depois do juiz Manning que, a propósito, tem cooperado. Inteiramente.

- Esse tem medo da própria sombra - disse o chefe, e depois hesitou. - Não devia ter dito isto. Peço desculpa.

Lewis ignorou a retratação.

- Na verdade, a cooperação tem sido razoavelmente boa, exceto por parte de Rosenberg e Jensen. O juiz Stone reclama um bocado, mas acata os nossos conselhos.

- Reclama com todo mundo, portanto não tem nada de pessoal. Para onde é que pensa que o Jensen vai quando foge de vocês?

Lewis olhou para um dos seus agentes.

- Não fazemos idéia.

Uma grande parte dos grupos de protesto uniu-se num coro selvagem e todo mundo na rua parecia alinhar com eles. O chefe já não conseguia ignorar o barulho. As janelas vibravam.

Levantou-se e deu por encerrada a reunião.

O gabinete do juiz Glenn Jensen ficava no segundo andar, longe da rua e do barulho. Era uma sala espaçosa, embora a menor das nove salas. Jensen era o mais novo e podia dar-se por feliz por ter um gabinete. Quando foi indicado para o cargo, seis anos antes, com quarenta e dois anos, era considerado um construtivista convicto, com profundas tendências conservadoras, exatamente como o homem que o indicara. A sua confirmação pelo Senado fora uma verdadeira luta. Jensen tivera um fraco desempenho à frente do Comitê Judiciário. Nos casos mais sensíveis, era encostado à parede, atacado pelos dois lados. Os republicanos ficavam embaraçados. Os democratas sentiam o cheiro do sangue. O presidente insistiu junto de alguns senadores e acabou por convencê-los e Jensen foi confirmado, com muita relutância.

Mas conseguira o cargo vitalício. Nos seis anos de atividade no Supremo não agradara a ninguém. Profundamente ofendido com a oposição ferrenha à sua confirmação no cargo, prometera encher-se de compaixão e agir de acordo com ela. Isso irritou os republicanos.

Sentiram-se traídos, especialmente quando ele descobriu a sua paixão latente pelos direitos dos criminosos.

Sem nenhum problema de tensão ideológica, logo abandonou a direita, passou para o centro, depois para a esquerda. Então, enquanto os juristas cofiavam as barbas perplexos, Jensen saltou para a direita, apoiando uma das irritantes dissertações antifeministas do juiz Sloan. Jensen não gostava de mulheres. Era neutro a respeito de religião, cético quanto à liberdade de expressão, via com simpatia os que protestavam contra os impostos, era indiferente aos índios, temia os negros, era rigoroso com todo tipo de pornografia, brando para com os criminosos, e bastante incisivo na defesa do meio ambiente. E para grande desapontamento dos republicanos que tinham dado o próprio sangue para vê-lo confirmado no cargo, Jensen demonstrava uma simpatia suspeita para com os homossexuais. A seu pedido, fora encarregado de um caso escabroso, chamado Dumond.

Ronald Dumond vivia com o amante há oito anos.

Formavam um casal feliz, completamente devotado um ao outro e satisfeito em partilhar as experiências da vida. Queriam casar, mas as leis do Ohio proibiam esse tipo de união. Então, o amante contraíra o vírus da AIDS e tivera uma morte horrível. Ronald sabia exatamente como devia enterrá-lo, mas nessa altura a família do morto entrara em cena e excluíra Ronald do serviço fúnebre e do enterro. Revoltado, Ronald processara a família, alegando danos morais e psicológicos. O caso fora transitando de tribunal distrital para tribunal distrital, durante seis anos, e então, de repente, fora parar a mesa de Jensen.

Estavam em debate os direitos de companheiros dos gays.

Dumond passou sendo o grito de guerra dos ativistas gays. A mera menção de Dumond já provocara lutas nas ruas. E Jensen ficou com o caso. A porta do seu gabinete, o menor, estava fechada. Jensen e os seus três assistentes sentavam-se em volta da mesa de conferência. Há duas horas que estudavam o caso Dumond e não tinham chegado a lugar algum. Estavam cansados de discutir. Um dos assistentes, um liberal de Cornell, queria um pronunciamento amplo que abrangesse os direitos dos companheiros de gays. Jensen queria isso também, mas não estava disposto a admiti-lo. Os outros dois assistentes encaravam o caso com ceticismo. Sabiam, como Jensen sabia também, que seria impossível uma maioria de cinco. Falaram sobre outros assuntos.

- O chefe está preocupado consigo, Glenn - disse o assistente da Universidade de Duke.

Em particular, tratavam-no pelo primeiro nome. "Juiz" era um título tão desajeitado...

Glenn esfregou os olhos.

- Qual é a outra novidade?

- Um dos assistentes informou-me que o chefe e o FBI estão preocupados com a sua segurança. Dizem que não está colaborando e o chefe está muito perturbado. Ele me disse que lhe desse o recado. - Todas as novidades eram transmitidas através da rede de assistentes. Tudo.

- Tem mesmo de se preocupar. É o trabalho dele.

- Ele quer designar mais dois polícias federais como guarda-costas e querem acesso ao seu apartamento. E o FBI quer levá-lo de carro para o trabalho e para casa. E restringir as suas viagens...

- Já ouvi isso tudo.

- Claro, nós sabemos. Mas o assistente do chefe disse que ele quer que a gente procure convencê-lo a cooperar com o FBI para que possam salvar-lhe a vida.

- Compreendo.

- Assim, aqui estamos tentando convencê-lo.

- Obrigado. Volte à rede de intrigas e diga ao assistente do chefe que não só me convenceram, como também armaram uma cena dos diabos comigo e que eu apreciei muito esse método de persuasão e a insistência infernal dele, mas que tudo me entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Diga-lhes que Glenn se considera um garoto crescidinho.

- Está bem, Glenn. Não está com medo, ou está?

- Nem um bocadinho.

 

Thomas Callahan era um dos professores mais populares de Tulane, principalmente porque se recusava a marcar qualquer aula para antes das onze horas da manhã. Bebia um bocado, como a maioria dos seus alunos, e para ele as primeiras horas da manhã tinham de ser dedicadas ao sono e a seguir à ressurreição. Aulas às nove ou às dez eram abominações. Era popular também por ser moderno - jeans desbotados, casacos de tweed com reforços de couro muito gastos nos cotovelos, nunca usava meias nem gravata. Era o ar liberal-chique acadêmico.

Tinha quarenta e cinco anos, mas com o cabelo escuro e os óculos de aros de tartaruga podia passar por trinta e cinco, se bem que não desse a menor importância a isso. Fazia a barba uma vez por semana, quando o rosto começava a arranhar, e quando estava frio, o que era raro em Nova OrIeans, deixava crescer a barba. Tinha uma longa história de intimidades com estudantes do sexo feminino.

Era popular também porque ensinava direito constitucional, uma matéria nada popular, mas obrigatória. Devido ao seu puro brilhantismo e modernidade, conseguia fazer do direito constitucional uma matéria interessante. Ninguém mais em Tulane era capaz disso. Na verdade, ninguém queria essa glória, portanto, os estudantes disputavam a matrícula na cadeira de direito constitucional, com Callahan, as onze horas, três vezes por semana. Oitenta deles, sentados na seis filas de bancos em forma de anfiteatro, conversavam em voz baixa, enquanto Callahan limpava os óculos, de pé ao lado da mesa. Faltavam exatamente cinco minutos para as onze, cedo ainda, pensou ele.

- Quem pode explicar o parecer contrário de Rosenberg em Nash contra Nova Jersey?

Todas as cabeças se inclinaram e a sala ficou em silêncio.

Devia ser uma ressaca enorme. Os olhos de Callahan estavam vermelhos. Quando ele começava com Rosenberg, geralmente isso significava um longo discurso. Não apareceu nenhum voluntário.

Nash? CalIahan olhou lenta e metodicamente pela sala e esperou. Silêncio de morte.

O ruído metálico da maçaneta quebrou a tensão. A porta abriu-se e uma jovem atraente, com uns jeans justos e desbotados e uma camiseta de algodão, entrou na sala e deslizou com elegância até a terceira fila, passando pelas cadeiras ocupadas, até chegar à sua. Os rapazes da quarta fila observaram com admiração. Os da quinta fila esticaram o pescoço para ver melhor. Há dois longos e árduos anos, um dos poucos prazeres na Faculdade de Direito era vê-la a enfeitar as salas e os corredores com as suas longas pernas e suas camisetas largas. Por baixo daquilo devia haver um corpo fabuloso, era fácil de adivinhar. Mas ela não era do tipo que se expõe. Era apenas mais uma aluna da turma, e acompanhava o código de vestuário da faculdade, jeans, camisas de algodão ou de lã e algodão e blusões largos e velhos. O que eles não dariam por uma mini-saia de couro negro!

Brindou o rapaz a seu lado com um rápido sorriso e por um momento Callahan e a sua pergunta sobre Nash foram esquecidos. O cabelo negro dava-lhe pelos ombros. Era a perfeita animadora das claques de ginástica, com dentes e cabelos perfeitos, por quem todos se apaixonavam pelo menos duas vezes no liceu. E, provavelmente, pelo menos uma vez na Faculdade de Direito.

Callahan ignorou aquela entrada. Se ela fosse caloura, ainda com medo dele, poderia ter chamado a sua atenção dela, aos gritos, repetindo, “Nunca se chega atrasado ao tribunal", a frase célebre e tradicional dos professores da Faculdade.

Mas Callahan não estava com vontade de gritar, Darby Shaw não tinha medo dele e, por unia fração de segundo, ele pensou se alguém saberia que dormiam juntos. Provavelmente não.

Darby insistia em manter segredo absoluto.

Alguém leu a dissensão de Rosenberg em Nash contra Nova Jersey?

De repente ele voltou sendo o foco das atenções e voltaram ao silêncio completo. Erguer a mão podia significar um interrogatório impiedoso de trinta minutos. Nenhum voluntário.

Os fumantes na última fila, acenderam os cigarros. A maioria dos oitenta alunos começou a escrever furiosamente nos seus blocos de apontamentos. Todas as cabeças estavam inclinadas.

Seria muito óbvio e arriscado folhear o livro de casos célebres e encontrar Nash. Tarde demais para isso. Qualquer movimento atrairia a atenção. Alguém estava prestes sendo sacrificado. Nash não estava no livro.

Era um dos doze casos menores mencionados rapidamente por Callahan uma semana antes, e agora estava ansioso para saber se alguém o tinha lido. Callahan era famoso por fazer isso. O seu exame final cobria mil e duzentos casos, dos quais mil não constavam do livro. O exame era um pesadelo, mas ele era um amor, bom para dar notas, e raramente um ou outro ignorante era reprovado na cadeira dele.

Mas não parecia um amor naquele momento. Olhou para a classe. Estava na hora de escolher a vítima.

- E então, Mr. Sallinger? Pode explicar a dissensão de Rosenberg?

Sallinger, na quarta fila, respondeu imediatamente.

- Não, senhor.

- Compreendo. Será porque não leu a dissensão de Rosenberg?

- Pode ser. Sim, senhor.

Callahan olhou furioso para ele. Os olhos vermelhos tornavam a carranca mais ameaçadora. Porém, só Sallinger viu, todos os outros estavam com os olhos colados nos blocos de apontamentos.

- E porque não?

- Porque procuro não ler pareceres contrários. Especialmente os de Rosenberg.

Burrice. Burrice. Burrice. Sallinger acabava de optar pela guerra, mas não possuía munições suficientes.

- Alguma coisa contra o dr. Rosenberg, Mr. Sallinger?

Callahan adorava Rosenberg. Idolatrava-o mesmo. Lia livros sobre o homem e sobre os seus pareceres. Estudava tudo dele e sobre ele. Tinha até jantado com ele uma vez. Sallinger remexeu-se nervosamente na cadeira.

- Oh, não, senhor, apenas não gosto de dissensões.

Havia uma pitada de humor nas respostas de Sallinger, mas não apareceu nenhum sorriso.

Mais tarde, com um copo de cerveja, ele e os companheiros iam rir às gargalhadas, contando e recontando a história de Sallinger e a sua aversão por dissensões, especialmente as de Rosenberg. Mas não naquele momento.

- Compreendo. O senhor lê os pareceres favoráveis?

Um momento de hesitação. A fraca tentativa de Sallinger para iniciar uma discussão estava a ponto de se transformar em humilhação.

- Sim, senhor. Muitos.

- Ótimo. Então, quer ter a bondade de explicar o parecer da maioria em Nash contra Nova Jersey?

Sallinger nunca ouvira falar em Nash, mas a partir daquele momento jamais o esqueceria pelo resto da sua vida fora.

- Acho que não li esse.

- Então, não lê dissensões, Mr. Sallinger, e agora ficamos sabendo que negligencia também os pareceres favoráveis. O que lê então, Mr. Sallinger, romances, tablóides?

Alguns risos muito leves soaram atrás da quarta fila, de alunos que se sentiam obrigados a rir naquele momento, mas não queriam chamar a atenção. Sallinger, muito corado, apenas olhou para Callahan.

- Porque não leu o caso, Mr. Sallinger? - quis saber Callahan.

- Não sei. Eu, bem, acho que por distração.

Callahan aceitou bem a resposta.

- Não me surpreende. Eu mencionei-o na semana passada. Na última quarta-feira, para ser exato. É matéria do exame final. Não compreendo como pode ignorar um caso que vai ter de explicar no exame final.

Callahan começou a andar de um lado para o outro em frente da mesa, olhando para os alunos.

- Alguém se deu ao trabalho de ler o caso?

Silêncio. Callahan olhou para o chão, prolongando o silêncio.

Todos os olhos estavam baixos, todas as canetas, todos os lápis paralisados. O fumaça subia da quinta fila. Finalmente, da quarta carteira na terceira fila, Darby Shaw levantou a mão timidamente e toda a classe respirou aliviada. Salvos por ela outra vez. De certo modo, todos esperavam isso de Darby. A segunda da classe, muito perto do primeiro, ela era capaz de recitar os fatos, concordâncias e assentimentos, dissensões e pareceres favoráveis de praticamente todos os casos que Callahan atirava para cima deles. Não deixava escapar nada. A perfeita namoradinha da escola era formada magna cum laude em Biologia e pretendia formar-se em Direito magna cum laude, para depois viver confortavelmente, processando companhias de produtos químicos por poluição ambiental.

Callahan olhou para ela, fingindo frustração. Três horas antes, Darby saía do seu apartamento, depois de uma longa noite de vinho e muita discussão alegre. Mas ele não havia mencionado Nash naquela noite.

- Ótimo, ótimo, Miss Shaw. Por que razão diverge Rosenberg da maioria?

- Ele acha que as leis de Nova Jersey violam a Segunda Emenda. - Ela não olhou para o professor.

- Muito bem. E para benefício do resto da classe, o que diz a lei?

- Entre outras coisas, proíbe metralhadoras semi-automáticas.

- Maravilhoso. E só por curiosidade, o que tinha Mr. Nash na sua posse quando foi preso?

- Uma metralhadora AK-47.

- E o que é que lhe aconteceu?

- Foi condenado, sentenciado há três anos e apelou da sentença.

- Ela conhecia os detalhes.

- Qual era a profissão de Mr. Nash?

- O parecer não é específico sobre esse assunto, mas há menção de acusação de tráfico de drogas. Ele tinha cadastro quando foi preso.

- Ele era então um traficante com uma AK-47. Mas encontrou um amigo em Rosenberg, não foi?

- É claro - nessa altura, Darby olhou para ele. Passada a tensão, vários olhos acompanhavam o seu vaivém, à frente da mesa, observando a classe, pronto para escolher a próxima vítima. Quase sempre Darby dominava completamente as aulas e Callahan queria uma participação mais ampla da turma.

- Por que razão supõem vocês que Rosenberg ficou a favor do réu? - perguntou para a turma.

- Ele adora traficantes. - Foi Sallinger quem respondeu, ferido, mas tentando reagir.

Callahan adorava uma discussão em aula. Sorriu para a presa, como convidando-a a voltar à luta.

- Acha que é isso, Mr. Sallinger?

- Claro. Traficantes, violadores de crianças, comerciantes de armas, terroristas. Rosenberg admira muito essa gente. São os seus filhos fracos e maltratados, portanto precisa protegê-los.

Sallinger tentava parecer virtuosamente indignado.

- E, na sua abalizada opinião, Mr. Sallinger, o que deveria ser feito com essa gente?

- É muito simples. Deviam ter um julgamento justo, com um bom advogado, depois um apelo justo e rápido, depois a punição, se fossem culpados. - Sallinger estava perigosamente perto de parecer um direitista fanático pela lei e pela ordem, o pecado mortal entre os estudantes de Direito de Tulane.

Callahan cruzou os braços.

- Por favor, continue.

Sallinger farejou a armadilha, mas foi em frente. Não tinha nada a perder.

- Quero dizer, temos lido casos e casos onde Rosenberg tenta modificar a Constituição, a fim de criar uma nova brecha na lei, que exclua a evidência, para que um acusado obviamente culpado possa escapar. É quase nojento. Para ele, todas as prisões são lugares cruéis e estranhos; em vista disso, de acordo com a Oitava Emenda, todos os prisioneiros deviam ser libertados. Felizmente, ele agora está em minoria, uma minoria cada vez menor.

- O senhor gosta das decisões do Supremo, não gosta, Mr. Sallinger? - Callahan sorriu e franziu a testa ao mesmo tempo.

- Pode estar certo que sim.

- Será que é um desses americanos normais, de sangue vermelho, patriota moderado, que desejam que o velho filho da mãe morra durante o sono?

Ouviram-se risos abafados. Agora já podiam rir. Sallinger não era idiota a ponto de dizer a verdade.

- Eu não desejaria isso a ninguém - disse ele, quase embaraçado.

Callahan começou a andar novamente.

- Bem, muito obrigado, Mr. Sallinger. Ouço sempre com prazer os seus comentários. Como sempre, o senhor brindou-nos com a opinião do leigo sobre as leis e o Direito.

Os risos soaram mais fortes. Corando intensamente, Sallinger sentou-se. Callahan não sorriu.

- Eu gostaria de elevar o nível intelectual desta discussão. Agora, Miss Shaw, por que razão iria Rosenberg em defesa de Nash?

- A Segunda Emenda garante ao cidadão o direito de ter e de usar armas. Para o juiz Rosenberg, a Emenda é literal e absoluta. Nada deve ser excluído. Se Nash quer ter uma AK-47, ou granada de mão, ou uma bazuca, o Estado de Nova Jersey não pode criar uma lei que o proíba.

- Concorda com ele?

- Não, e não sou a única. É uma decisão de oito contra um, Ninguém o acompanhou.

- Qual foi o argumento dos outros oito?

- Na verdade, é óbvio. Os estados têm fortes razões para proibir a venda e a posse de certos tipos de armas. O interesse do Estado de Nova Jersey supera os direitos concedidos pela Oitava Emenda a Mr. Nash. A sociedade não pode permitir que indivíduos possuam armas sofisticadas.

Callahan observava-a atentamente. Era raro em Tulane encontrar uma estudante de Direito atraente, mas, quando ele avistava uma, não perdia tempo. Nos últimos oito anos, nunca tinha deixado de ser bem sucedido. Trabalho fácil, quase sempre. As mulheres chegavam à Faculdade de Direito livres e sem compromissos. Darby foi diferente. A primeira vez que a viu foi na biblioteca, no segundo semestre do primeiro ano dela, e só ao fim de um mês conseguiu levá-la para jantar.

- Quem redigiu o parecer da maioria? - perguntou.

- Runyan.

- E concorda com ele?

- Concordo. Na verdade é um caso fácil.

- Então, o que se passa com Rosenberg?

- Acho que ele odeia o resto do Supremo Tribunal.

- Então, ele diverge só para contrariar.

- Geralmente, sim. As suas opiniões estão ficando cada vez mais indefensáveis. Veja Nash. Para um liberal como Rosenberg, o detalhe do controle de armas é fácil. Ele devia ter concordado com o parecer da maioria e há dez anos atrás era exatamente o que teria feito. Em Fordice contra Oregon, um caso de 1977, ele defende uma interpretação muito menos ampla da Segunda Emenda. As inconsistências dele são quase embaraçosas. Callahan tinha-se esquecido de Fordice.

- Está sugerindo que o juiz Rosenberg está senil?

Como um rufião bêbado, Sallinger cambaleou para o último assalto.

- Está completamente doido e o senhor sabe disso. Não consegue defender as suas próprias opiniões.

- Nem sempre, Mr. Sallinger, mas pelo menos ele ainda aí está.

- O corpo dele está, mas o cérebro esta morto.

- Respire, Mr. Sallinger.

- Eu sei, respira através de uma máquina. Eles são obrigados a enfiar-lhe oxigênio pelo nariz abaixo.

- Mas isso conta, Mr. Sallinger. Ele é o último dos grandes ativistas jurídicos e ainda respira.

- Acho melhor telefonar a verificar isso - disse Sallinger.

Já tinha dito o suficiente. Não, tinha falado demais. Baixou a cabeça, sob o olhar furioso do professor. Olhou para o bloco de apontamentos, perguntando a si mesmo por que diabo tinha dito tudo aquilo. Callahan olhou fixamente para ele e recomeçou o seu passeio. Era mesmo uma ressaca daquelas.

 

Tinha toda a aparência de um fazendeiro, com um chapéu de palha, um macaco limpo, uma camisa de trabalho caqui, bem passada, botas. Mascava tabaco e cuspia-o para a água escura sob o pontão. Mascava como um fazendeiro. A sua pick-up, embora de modelo recente, estava castigada pelas intempéries e parecia habituada à poeira das estradas de terra. Matrícula da Carolina do Norte. Estava a uns cem metros, parada na areja, na outra extremidade do cais.

Era meia-noite da primeira segunda-feira de Outubro e durante os trinta minutos seguintes ele ia esperar, no frio, na ponta do molhe deserto, mascando pensativamente, com os braços apoiados na grade e os olhos fixos no mar. Estava sozinho, como sabia que ia estar. De acordo com o plano. O molhe, àquela hora, estava sempre deserto. Os faróis de um carro piscavam ocasionalmente ao longo da praia, mas nenhum ali parava àquela hora.

Observou as luzes vermelhas e azuis do canal, longe da praia. Consultou o relógio sem mexer a cabeça. As nuvens espessas estavam baixas e só ia conseguir ver aquilo de que estava à espera quando estivesse muito perto do molhe. Também de acordo com o plano.

A pick-up não era da Carolina do Norte, nem o fazendeiro. As chapas tinham sido roubadas de um caminhão, num ferro-velho, perto de Durham. A pick-up fora roubada em Baton Rouge. O fazendeiro não era de lugar nenhum e não praticara os roubos. Era um profissional, portanto o trabalho sujo e sem importância devia ser feito por outros.

Esperava há vinte minutos quando um objeto escuro flutuou na direção do molhe. O ruído abafado do motor tornou-se mais forte. O objeto transformou-se numa pequena embarcação com um vulto agachado manejando o motor. O fazendeiro não fez o menor movimento. O zumbido parou e o barco negro de borracha ondulou na água escura, a dez metros do molhe. Não se via nenhuma luz ao longo da praia.

O fazendeiro levou lentamente tinha cigarro à boca, acendeu-o, deu duas tragadas e atirou-o para a água, a uns cinco metros do barco.

- Que marca de cigarros é? - perguntou o homem do barco, olhando para cima. Via o vulto do fazendeiro encostado a grade, mas não podia ver o rosto dele.

- Lucky Strike - respondeu o fazendeiro.

Aquelas senhas eram uma idiotice. Quantos outros barcos negros de borracha podiam sair do Atlântico e navegar diretamente para aquele molhe, exatamente àquela hora? Idiota, mas importante.

- Luke? - perguntou a voz do barco.

- Sam? - disse o fazendeiro. O nome era Khamel, não Sam, mas Sam serviria para os cinco minutos seguintes, enquanto Khamel ancorava o barco.

Khamel não disse mais nada. Não precisava dizer. Ligou o motor rapidamente e, seguindo o molhe, levou o barco até a praia. Luke acompanhou-o Ia de cima. Encontraram-se ao lado da pick-up sem um aperto de mão. Khamel pôs a sacola Adidas negra entre os dois, no banco do carro, e partiram seguindo a linha da praia.

Luke conduzia e Khamel fumava, ignorando-se um ao outro com perfeição. Os seus olhos não ousavam encontrar-se. Era impossível identificar o rosto de Khamel, ameaçador, com a barba espessa, óculos escuros, camisola preta de gola alta.

Luke não queria vê-lo. Parte da sua missão, além de receber o estranho do mar, consistia em evitar olhar para ele. Na verdade, era fácil. Aquele rosto era procurado em nove países.

Quando atravessaram a ponte, em Manteo, Luke acendeu outro Lucky Strike e teve certeza de que já se tinham encontrado antes. Fora um contato breve, mas de uma precisão perfeita, no aeroporto, em Roma, cinco ou seis anos atrás, se estava bem lembrado. Não houve nenhuma apresentação.

Encontraram-se no banheiro. Luke, então um executivo americano, impecavelmente vestido, colocou a sua pasta de pele de enguia perto da parede, ao lado do lavatório. Começou a lavar as mãos e de repente a pasta desapareceu. Ele viu o homem durante uma fração de segundo – esse mesmo Khamel, tinha certeza, no espelho. Trinta minutos depois, a pasta explodia entre as pernas do embaixador britânico na Nigéria.

Entre os murmúrios discretos da sua irmandade invisível, Luke várias vezes ouvira o nome de Khamel, um homem de muitos nomes, muitas faces e muitas línguas, um assassino, que atacava rapidamente e não deixava nenhuma pista, um assassino meticuloso que percorria o mundo todo e nunca fora apanhado.

Seguindo para norte na noite escura, Luke recostou-se no banco, baixou a aba do chapéu quase até ao nariz e, com as mãos no volante, tentou recordar as histórias ouvidas sobre o seu passageiro. Fantásticas proezas de terror. O embaixador britânico. A emboscada contra dezessete soldados israelitas, na Margem Ocidental, em 1990, fora atribuída a Khamel. Ele era o único suspeito do atentado à bomba, e morte, de um banqueiro rico e da sua família. Diziam que por esse crime tinha recebido três milhões, em dinheiro. Vários especialistas dos serviço secretos acreditavam que o atentado ao papa, em 1981, fora planejado por ele. Mas a verdade era que culpavam Khamel por quase todos os atentados e assassinatos terroristas.

Era fácil atribuir-lhe a culpa porque ninguém tinha certeza da sua existência.

Para Luke, tudo isso era excitante. Khamel ia agir em solo americano. Luke não sabia quem eram os alvos, mas sangue muito importante estava prestes sendo derramado.

Ao nascer do dia, a pick-up roubada parou na esquina da Trinta e Um com a Rua M, em Georgetown. Khamel agarrou na sua sacola de ginástica e sem uma palavra desceu do carro.

Andou alguns quarteirões para leste, até ao Hotel Quatro Estações, comprou o Post no átrio e tranqüilamente tomou o elevador para o sétimo andar. Exatamente às sete e quinze, bateu a uma porta no fim do corredor.

- Sim? - perguntou uma voz nervosa.

- Procuro Mr. Sneller - disse Khamel, falando devagar, num inglês perfeito, pondo o polegar sobre o óculo da porta.

- Mr. Sneller?

- Sim. Edwin F. Sneller.

A maçaneta não girou, a fechadura não fez nenhum som e a porta não se abriu. Alguns segundos depois, um envelope foi passado por baixo da porta. Khamel apanhou-o.

- Certo - disse ele, erguendo a voz o suficiente para que Mr. Sneller, ou fosse quem fosse, pudesse ouvir.

- É no quarto vizinho - disse Sneller.

- Fico a espera do seu telefonema. - Parecia americano. Ao contrário de Luke, nunca vira Khamel e, na verdade, não queria ver. Era a segunda vez que Luke o via e tinha de dar graças por estar vivo.

O quarto de Khamel tinha duas camas e uma mesinha ao lado da janela. As cortinas estavam completamente fechadas. Nem um raio de sol podia passar por elas. Khamel pôs a sacola na cama, ao lado de duas malas cheias. Foi até à janela e olhou para fora, depois pegou no telefone.

- Sou eu - disse a Sneller. - Fale sobre o carro.

- Está estacionado na rua. Ford branco com placas de Connecticut. As chaves estão em cima da mesa - Sneller falava pausadamente.

- Roubado?

- É claro. Mas esterilizado. Está limpo.

- Eu deixo-o no aeroporto Dulles um pouco depois da meia-noite. Quer que seja destruído, não é? - O inglês dele era perfeito.

- São essas as minhas instruções. Sim. - Sneller era educado e eficiente.

- É muito importante, não é verdade? É minha intenção deixar a arma no carro. Armas deixam balas e pessoas vêem carros, por isso é muito importante destruir o carro e tudo o que estiver dentro dele. Compreendeu?

- São essas as minhas instruções - repetiu Sneller. Não estava gostando de receber ordens. Não era novato no jogo da morte.

Khamel sentou-se na borda da cama.

- Os quatro milhões foram recebidos há uma semana, com um dia de atraso, devo acrescentar. Estou agora na capital, portanto quero os outros três.

- Serão enviados antes do meio-dia. Foi isso o combinado.

- Efetivamente, mas estou preocupado com o acordo. Vocês atrasaram um dia, lembra-se?

Isto irritou Sneller e, como o assassino estava no quarto ao lado e falando ao telefone, achou que podia demonstrar um pouco dessa irritação.

- Culpa do Banco, não nossa.

Isto irritou Khamel.

- Ótimo. Quero que vocês e seu Banco mandem a ordem de pagamento dos três milhões restantes para a conta em Zurique, assim que abrirem, em Nova Iorque. O que será daqui a duas horas. Eu vou verificar.

- Tudo bem.

- Tudo bem, e não quero problemas quando o trabalho estiver terminado. Estarei em Paris dentro de vinte e quatro horas e de lá vou diretamente para Zurique. Quero a totalidade do dinheiro à minha espera, quando chegar.

- Lá estará, se o trabalho for feito.

Khamel sorriu.

- O trabalho será feito, Mr. Sneller, à meia-noite. Isto é, se a sua informação for correta.

- Até ao momento, é correta. E não esperamos nenhuma mudança hoje. A nossa gente está na rua. Está tudo nas duas malas, mapas, diagramas, horários, os instrumentos e os artigos que pediu.

Khamel olhou para as malas, atrás dele. Passou a mão direita pelos olhos.

- Preciso dormir um pouco - murmurou ao telefone. – Não durmo há vinte horas.

Sneller não encontrou nenhuma resposta para isso. Tinham muito tempo e se Khamel queria dormi, então que dormisse. Pagavam-lhe dez milhões pelos seus serviços.

- Quer comer alguma coisa? - perguntou Sneller, com voz hesitante.

- Não. Acorde-me daqui a três horas, às dez e meia em ponto.

Desligou o telefone e deitou-se atravessado na cama.

As ruas estavam desertas e quietas no segundo dia do início daquele semestre. Os juízes passaram o dia no tribunal, ouvindo advogados, seguindo uns aos outros, argumentando sobre casos complexos e maçantes. Rosenberg dormiu durante quase o tempo todo. Voltou à vida brevemente quando o secretário de justiça, do Texas, argumentou que um certo ocupante do corredor da morte devia ser medicado a fim de estar lúcido no momento de tomar a injeção letal.

Se ele está mentalmente doente, como pode ser executado, perguntou Rosenberg, incrédulo. É fácil, disse o promotor do Texas, a doença dele pode ser controlada com medicamentos; portanto, basta dar-lhe uma injeção para que recupere a razão e depois, outra, para matá-lo. Pode ser tudo muito limpo e constitucional. Rosenberg discutiu e resmungou durante alguns segundos, depois perdeu todo o gás. A sua pequena cadeira de rodas ficava muito abaixo dos tronos maciços de couro dos seus pares. Ele era uma figura digna de pena. No passado, fora um tigre, um intimidador impiedoso, capaz de confundir o mais brilhante advogado. Mas agora não. Começou a resmungar e por fim calou-se, O promotor do Texas sorriu com desprezo e continuou.

Durante a última alegação oral do dia, um caso enfadonho de desagregação, na Virgínia, Rosenberg começou a ressonar. O chefe Runyan olhou furioso, do alto da sua cátedra, e Jason Kline, primeiro-assistente de Rosenberg, compreendeu a censura. Lentamente, puxou a cadeira de rodas para trás, afastando-a da mesa, e saiu com ela da sala, empurrou rapidamente o velho juiz pelo corredor dos fundos.

O juiz acordou no gabinete, tomou o remédio e informou os assistentes de que queria ir para casa. Kline notificou o FBI e, momentos depois, a cadeira era empurrada para dentro de um furgão, estacionado na garagem do prédio. Dois agentes do FBI vigiavam o movimento. Um enfermeiro, Frederic, prendeu a cadeira no interior do carro e o sargento Ferguson, da polícia do Supremo Tribunal, sentou-se à frente, para conduzir o furgão. O juiz não permitia que nenhum agente do FBI chegasse perto de si. Podiam segui-lo em outro carro, podiam vigiar a casa dele, da rua, e deviam dar-se por felizes por poderem chegar tão perto. Ele não confiava em polícias, e certamente não confiava nos agentes do FBI. Não precisava de proteção, Na Rua Volta, em Georgetown, o furgão diminuiu o andamento e entrou de marcha atrás numa pequena entrada de veículos.

Frederic, o enfermeiro, e Ferguson, o policial, levaram a cadeira para dentro. Os agentes observavam da rua, de dentro do Dodge Aries preto, do governo. O jardim na frente da casa era pequeno e eles estavam a poucos metros da porta. Eram quase quatro horas da tarde. Alguns minutos depois, Ferguson saiu e falou com os agentes. Uma semana antes, depois de muita discussão, Rosenberg concordara que Ferguson inspecionasse cada uma das divisões da casa, quando ele chegava, à tarde.

Depois, Ferguson tinha de sair, mas podia voltar às dez da noite em ponto e sentar-se do lado de fora da porta de serviço até às seis da manhã em ponto. Só Ferguson podia fazer isso, mais ninguém, e ele estava cansado dessas horas extras.

- Está tudo bem - disse ele aos agentes. - Acho que estarei de volta às dez.

- Ele ainda está vivo'? - o agente fez a pergunta da praxe.

- Receio bem que sim. - Ferguson caminhou para o furgão, parecendo cansado.

Frederic era gorducho e fraco, mas não era preciso ter força para tratar do seu paciente.

Depois de arrumar os travesseiros na posição correta, ergueu o juiz da cadeira e pô-lo cuidadosamente no sofá, onde ficaria imóvel durante duas horas, dormindo e vendo a CNN.

Frederic, com um sanduíche de presunto e um prato de biscoitos, leu rapidamente o National Enquirer, sentado à mesa da cozinha. Rosenberg resmungou qualquer coisa e mudou de canal com o controle remoto.

Às sete horas em ponto, o jantar de canja de galinha, batatas cozidas e cebolas escaldadas  - dieta para vítima de derrame – foi posto cuidadosamente na mesa e Frederic levou-o até à sala de jantar, na cadeira de rodas. O juiz insistia em comer sozinho e não era nada agradável de se ver. Frederic ficava vendo televisão. Mais tarde limparia a porcaria.

As nove horas, depois do banho, Frederic vestiu o juiz com a camisa de dormir e levou-o para a cama, entalando bem os cobertores. O juiz dormia numa cama de hospital, estreita, reclinável, verde-clara, com colchão duro, botões de controle e grades de correr que o juiz insistia em manter para baixo.

Usava agora o quarto atrás da cozinha, que durante trinta anos servira de gabinete, antes do primeiro derrame. Cheirava a desinfetante e à proximidade da morte. Ao lado da cama havia uma mesa grande com um candeeiro de hospital e uns vinte frascos de comprimidos. Livros de Direito, pesados e grossos, estavam arrumados em pilhas à volta do quarto. O enfermeiro sentou-se numa cadeira-cama, ao lado da mesa, e começou a ler um dossiê em voz alta. Era o ritual de todas as noites. Lia até ouvir o juiz ressonar. Frederic lia devagar, em voz muito alta, e Rosenberg ouvia, com o corpo rígido e imóvel. Era o dossiê de um caso sobre o qual ele devia redigir o parecer majoritário. O juiz absorveu cada palavra, durante algum tempo.

Passada uma hora, a ler aos berros, Frederic estava cansado e o juiz quase dormindo.

Rosenberg ergueu um pouco a mão e fechou os olhos. Apertou um botão da cama e diminuiu a luz.

O quarto ficou quase às escuras. Frederic empurrou o corpo para trás e a cadeira transformou-se em cama. Pôs o dossiê no chão e fechou os olhos. Rosenberg ressonava. Não ia ressonar por muito tempo.

Pouco depois das dez, com a casa escura e quieta, a porta de um armário no andar superior foi aberta cautelosamente e Khamel saiu devagar. As luvas, o boné de nylon e o short de ginástica eram azuis. A camisa de mangas compridas, meias e tênis Reebok eram brancos, com riscas azuis. Perfeita combinação de cores. Khamel saiu para o corredor. Tinha feito a barba. E debaixo do boné o cabelo muito curto era agora louro, quase branco. O quarto de dormir estava escuro e o corredor também. A escada rangeu um pouco sob os tênis. Khamel tinha um metro e setenta e cinco de altura e pesava menos de setenta quilos, sem nenhum sinal de gordura.

Mantinha-se em forma e magro para que os seus movimentos fossem rápidos e silenciosos. A escada terminava no halI, não muito longe da porta da frente. Sabia que os dois agentes do FBI estavam no carro, na rua, provavelmente sem sequer olhar para a casa.

Sabia que Ferguson tinha chegado sete minutos antes. Ouvia o ressonar no quarto de trás.

Escondido no armário, pensou em atacar mais cedo, antes da chegada de Ferguson, para não ter de matar o policial também. Matar não era problema, mas significava outro corpo com que se preocupar. Porém, supôs, erradamente, que Ferguson ao chegar verificasse junto do enfermeiro se tudo estava em ordem. Nesse caso encontraria a carnificina e Khamel perderia mais algumas horas. Por isso tinha esperado. Deslizou pelo hall sem um som. Na cozinha, a luz do exaustor acesa representava maior risco para ele.

Khamel censurou a própria falta de cuidado, por não ter verificado antes e soltado a lâmpada. Erros pequenos como esse eram imperdoáveis. Agachado, espreitou pela janela para o quintal. Não podia ver Ferguson, mas sabia que o policial tinha mais de um metro e oitenta e cinco de altura, sessenta e um anos, sofria de cataratas e não era capaz de acertar num celeiro com a sua Magnum 357.

Estavam os dois ressonando. Sorrindo, Khamel agachou-se na porta e tirou rapidamente a automática calibre .22 e o silenciador de dentro da faixa adesiva à volta da cintura. Aparafusou o cano de quatro polegadas na arma e entrou no quarto. O enfermeiro estava esparramado na cadeira-cama, com os pés para fora, as mãos dependuradas dos lados, a boca aberta. Com a ponta do silenciador a dois centímetros da têmpora do homem, Khamel atirou três vezes. As mãos contraíram-se, os pés estremeceram no ar, mas os olhos continuaram fechados. Rapidamente Khamel estendeu o braço, apontou para a cabeça pálida e enrugada do juiz Abraham Rosenberg e deu mais três tiros.

O quarto não tinha janelas. A olhar para os corpos, esperou um minuto. Os pés do enfermeiro estremeceram mais umas duas vezes, depois nada mais. Estavam ambos imóveis.

Khamel queria matar Ferguson dentro de casa. Passavam onze minutos das dez, boa hora para algum vizinho resolver sair com o cão, antes de se ir deitar. No escuro, foi silenciosamente até à porta dos fundos e viu o policial andando devagar, ao lado da cerca, a seis metros da casa. Num gesto instintivo, Khamel abriu a porta, acendeu a luz do pátio e chamou em voz alta, "Ferguson".

Deixou a porta aberta e escondeu-se no canto, ao lado do frigorífico. Ferguson, obedientemente, atravessou o pátio e entrou na cozinha. Isso era normal. Frederic chamava-o muitas vezes depois do juiz estar dormindo. Bebiam café instantâneo e jogavam cartas.

Não havia café e Frederic não estava à espera dele. Khamel disparou três vezes na nuca do policial, que caiu pesada e ruidosamente sobre a mesa da cozinha.

Khamel apagou a luz do pátio e retirou o silenciador da arma. Não ia precisar mais dele.

Ajeitou-o, com a pistola, dentro da fita adesiva. Espreitou pela janela da frente. Os agentes estavam lendo, com a luz interna do carro acesa. Passou por cima de Ferguson, fechou a porta das traseiras e desapareceu na escuridão do pequeno relvado. Saltou duas cercas silenciosamente e chegou à rua. Começou a correr. Khamel, o atleta.

No balcão escuro do cinema Montrose, Glenn Jensen estava sozinho, observando a atividade dos homens nus, na tela, mais abaixo. Enquanto comia pipocas, não via nada, só aqueles corpos. Estava vestido tradicionalmente, cardigã de lã, calças de desporto de algodão, mocassins.

Mais uns enormes óculos escuros e um chapéu de suede para esconder a cabeça. Por sorte tinha um rosto fácil de esquecer, e, assim disfarçado, impossível de ser reconhecido. Especialmente num balcão deserto de uma casa gay pornográfica quase vazia, à meia-noite. Nada de brincos, lenços coloridos, bijuterias, nada que indicasse que estava no mercado, à procura de um companheiro. Jensen queria ser ignorado. Na verdade, esse jogo de gato e de rato com o FBI e com o resto do mundo tinha-se transformado num grande desafio. Nessa noite, como sempre, dois agentes tinham-se instalado no parque de estacionamento, ao lado do seu prédio. Outros dois estavam ao lado da saída próxima da varanda, nos fundos, e Jensen esperou quatro horas e meia antes de, disfarçado, caminhar calmamente para a garagem subterrânea e sair com o carro de um amigo. O prédio tinha várias saídas e os pobres polícias federais não podiam controlar todas.

Simpatizava com o problema deles, até certo ponto. Afinal, também precisava viver a vida dele. Se os federais não conseguiam encontrá-lo, muito menos um assassino.

O balcão era dividido em três pequenas alas, com seis filas cada uma. A única luz era o do feixe azulado do projetor, atrás dele. Cadeiras partidas e mesas fechadas amontoavam-se nas passagens laterais. Cortinas de veludo, rasgadas e caídas, cobriam as paredes. Um esconderijo perfeito.

Antigamente ele preocupava-se com a possibilidade de ser apanhado. Passara alguns meses apavorado, logo a seguir à sua nomeação para o Supremo. Não podia comer as suas pipocas e muito menos deliciar-se com os filmes. Dizia a si mesmo que, se fosse apanhado ou reconhecido, ou exposto de qualquer outro modo, diria simplesmente que andava fazendo pesquisas para um caso de obscenidade, que tinha de resolver. Havia sempre um caso desses para ser julgado e talvez acreditassem na sua história.

Repetindo constantemente para si mesmo que essa desculpa ia funcionar, começou a ficar mais ousado. Mas certa noite, em 1990, houve um incêndio num cinema e quatro pessoas morreram.

Os nomes saíram nos jornais. Grande história. O juiz Glenn Jensen estava nos lavabos quando ouviu os gritos e sentiu o cheiro de fumaça. Correu para a rua e desapareceu. Os mortos estavam todos no balcão. Jensen conhecia um deles. Passou dois meses sem ir ao cinema, mas depois recomeçou as suas visitas.

Precisava de mais dados para a pesquisa, dizia a si mesmo. E se fosse apanhado? O seu cargo era vitalício. Os eleitores não podiam destituí-lo. Jensen gostava do Montrose porque às terças-feiras funcionava a noite inteira, mas nunca estava cheio. Gostava das pipocas e a cerveja em lata custava cinqüenta centavos.

Dois velhos, no centro do balcão, trocavam carícias. Jensen olhou para eles rapidamente e voltou a concentrar-se no filme.

É triste, pensou, ter setenta anos, ver a morte a seu lado, tentar escapar da AIDS e ter de procurar a felicidade num balcão sujo de cinema. Uma quarta pessoa juntou-se a eles no balcão.

Olhou para Jensen, para os dois velhos abraçados e caminhou lentamente, com as suas pipocas e a sua cerveja, para a fila mais alta do centro. Ficou bem na frente da cabina de projeção. À sua direita, três filas abaixo, estava o juiz. Na sua frente, os velhos amantes beijavam-se, murmuravam e riam baixinho, esquecidos do mundo.

O homem estava vestido a rigor. Jeans muito justos, camisa de seda negra, um brinco, óculos escuros de aros de tartaruga, o cabelo e o bigode muito bem cortados e penteados. O típico gay. Khamel, o homossexual. Esperou alguns minutos, depois passou para a direita, para a cadeira ao lado da passagem.

Ninguém notou. Quem se ia importar com a sua escolha de lugar? À meia-noite e vinte, acabou o entusiasmo dos velhos. De braço dado, saíram nas pontas dos pés, ainda murmurando e discutindo. Jensen não olhou para eles. Estava absorto no filme, uma orgia passada num iate, no meio de uma tempestade. Khamel deslizou como um gato para o outro lado da passagem e sentou-se na terceira fila, atrás do juiz. Bebeu um gole de cerveja. Estavam sozinhos. Esperou um minuto e rapidamente desceu para a fila seguinte. Jensen estava a dois metros e meio dele.

À medida que o furacão no mar ficava mais intenso, o mesmo acontecia com a orgia. O rugido do vento e os gritos dos personagens enchiam a pequena sala do cinema. Khamel pôs a caixa de pipocas e a lata de cerveja no chão e tirou da cintura uma corda de esqui de um metro de comprimento. Enrolou as extremidades nas duas mãos e passou por cima da fila de cadeiras que o separava de Jensen. A sua presa respirava pesadamente. A caixa das pipocas tremia na mão dele.

O ataque foi rápido e brutal. Khamel passou a corda abaixo da laringe e puxou violentamente. Depois, com um esticão, puxou as duas pontas para baixo e, com um estalo, a cabeça de Jensen caiu sobre as costas da cadeira. O pescoço foi quebrado limpamente. Khamel enrolou a corda e amarrou-a na nuca de Jensen. Passou um cano de aço de quinze centímetros por dentro do nó e girou o torniquete até sair sangue. Não levou mais de dez segundos.

De repente, o furacão acabou e começou outra orgia. Jensen escorregou pesadamente na cadeira. As pipocas estavam espalhadas sobre os sapatos. Khamel não perdeu tempo admirando o próprio trabalho. Saiu do balcão, passou calmamente entre as estantes de revistas e outras coisas no corredor e desapareceu na rua. Entrou no Ford branco, com matrícula de Connecticut, e seguiu para o aeroporto Dulles. Mudou de roupa no banheiro e esperou o seu vôo para Paris.

 

A Primeira Dama estava na costa Oeste, para uma série de Cafés da Manhã de cinco mil dólares por pessoa, onde os ricos e pretensiosos gastavam todo esse dinheiro em troca de ovos frios e champanhe barato e da oportunidade de serem vistos e fotografados ao lado da rainha, como ela era chamada. Por isso o presidente estava dormindo sozinho quando o telefone tocou.

No passado, para seguir a tradição dos presidentes americanos, pensara em arranjar uma amante. Mas agora isso parecia tão anti-republicano. Além de tudo, estava velho e cansado.

Geralmente dormia sozinho, mesmo quando a rainha estava na Casa Branca.

O presidente tinha o sono pesado. O telefone tocou onze vezes antes que ele ouvisse.

Pegou no auscultador e olhou para o relógio. Quatro e meia da manhã. Ouviu a voz, saltou da cama e em oito minutos estava na sala oval. Sem chuveiro, sem gravata. Olhou para Fletcher Coal, seu chefe da Casa Civil, e sentou-se atrás da sua mesa de trabalho.

Coal sorria. Os seus dentes perfeitos e a sua careca reluziam. Com apenas trinta e sete anos, era o garoto maravilha que, quatro anos antes, havia salvo do fracasso uma campanha política, levando o seu chefe para a Casa Branca. Era um manipulador hábil e um "guarda-costas" fiel e agressivo que, abrindo caminho com unhas e dentes, chegara ao mais alto degrau e era agora o segundo no comando. Para muitos, era o verdadeiro chefe. A simples menção do seu nome apavorava os funcionários menos graduados.

- Que aconteceu? - perguntou o presidente, falando devagar.

Coal pôs-se a andar para trás e para diante em frente da mesa.

- Não sei muita coisa. Ambos estão mortos. Os agentes do FBI encontraram Rosenberg mais ou menos à uma da manhã. Morto na cama. O enfermeiro e um policial do Supremo Tribunal foram também assassinados. Os três com tiros na cabeça. Trabalho muito limpo. Quando o FBI e a polícia de Washington começaram as investigações, receberam a informação de que Jensen fora encontrado morto num desses clubes gays. Encontraram-no há poucas horas. Voyles telefonou-me as quatro e eu lhe telefonei. Ele e Gminski estarão aqui dentro de alguns minutos.

- Gminski?

- A CIA precisa ser incluída, pelo menos por hora.

O presidente cruzou as mãos atrás da cabeça e espreguiçou-se.

- Rosenberg está morto.

- Sim, e bem morto. Sugiro que fale à nação dentro de algumas horas. Mabry está trabalhando num resumo do discurso. Eu farei o resto. Vamos esperar até ao nascer do dia. Pelo menos até às sete horas. Se for cedo demais, perdemos grande parte da audiência.

- A imprensa...

- Sim. Já conhece o caso. Filmaram o pessoal da ambulância levando o corpo de Jensen para o Necrotério.

- Eu não sabia que ele era gay.

- Não temos dúvidas a esse respeito, agora. Esta é a crise perfeita, senhor presidente.

Pense bem. Não foi criada por nós. Não é culpa nossa. Ninguém pode acusar-nos. E o choque coletivo irá criar uma espécie de solidariedade em toda a nação. É o momento de cerrar fileiras ao lado do líder. Simplesmente maravilhoso. Nenhuma rampa de descida.

O presidente tomou um gole de café e olhou para os papéis sobre a mesa.

- E eu posso reestruturar o Supremo Tribunal.

- Essa é a melhor parte. Será o seu legado. Já telefonei para Duvall, no Supremo, e dei instruções para entrar em contato com Horton e começar a elaboração de uma lista de candidatos.

Horton fez um discurso em Ornalia, a noite passada, mas vem agora de avião a caminho. Sugiro que nos encontremos com ele mais tarde, esta manhã.

O presidente fez um gesto afirmativo, como sempre aprovando a sugestão de Coal.

Deixava que Coal quebrasse a cabeça com os detalhes. Não era homem de detalhes.

- Algum suspeito?

- Ainda não. Francamente, não sei. Eu disse a Voyles que o senhor espera um relatório, assim que ele chegar.

- Tive a impressão de ter ouvido dizer que o FBI estava dando proteção ao Supremo.

Com um largo sorriso, Coal disse:

- Exatamente. A bomba estourou na cara de Voyles. Na verdade, é bastante embaraçoso para ele.

- Ótimo. Quero que Voyles assuma a sua parte da culpa. Trate da imprensa. Quero que ele seja humilhado. Depois, talvez possamos dar-lhe um pontapé no traseiro.

Coal adorou a idéia. Parou de andar e escreveu no seu caderno de apontamentos. Um segurança bateu à porta e abriu-a. Os diretores Voyles e Gminski entraram juntos. Num ambiente agora soturno, trocaram apertos de mão. Sentaram-se ambos em frente da mesa do presidente e Coal ocupou o seu lugar habitual, perto da janela, ao lado do seu chefe. Coal detestava Voyles e Gminski e ambos lhe retribuíam na mesma moeda. Coal gostava de ser odiado. Tinha a atenção do presidente e isso bastava. Ficando calado por alguns minutos. Era importante deixar que o presidente tomasse a iniciativa, na presença de outras pessoas.

- Lamento muito ter que chamá-los, mas agradeço por terem vindo - disse o presidente. Os dois concordaram gravemente com a mentira óbvia.

- Que aconteceu?

Voyles falou rapidamente, indo direto ao assunto. Descreveu a cena na casa de Rosenberg, quando os corpos tinham sido descobertos. A uma hora da manhã o sargento Ferguson costumava se comunicar com os agentes que estavam no carro, na rua. Quando ele não apareceu, eles investigaram. Foi um trabalho limpo e profissional. Disse o que sabia sobre Jensen. Pescoço partido.

Estrangulamento. Encontrado no balcão do cinema por outro espectador. E claro que ninguém viu coisa alguma. Voyles não estava agressivo e direto como habitualmente. Era um dia negro para o FBI e ele sentia o cheiro da ruína. Mas era um sobrevivente de cinco presidências e com certeza que conseguia lidar com aquele idiota.

- É evidente que há uma relação entre essas mortes - disse o presidente, olhando para Voyles.

- Talvez. Sem dúvida, é o que parece, mas...

- Ora, vamos, senhor diretor. Em duzentos e vinte anos nós assassinamos quatro presidentes, dois ou três candidatos, uma porção de líderes dos direitos civis, alguns governadores, mas nunca um juiz do Supremo. E agora, numa noite, no espaço de duas horas, são assassinados dois. E o senhor diz que não há relação entre os crimes?

- Eu não disse isso. Deve haver uma ligação em algum lugar. Acontece que os métodos foram diferentes. E muito profissionais. Deve estar lembrado das milhares de ameaças feitas ao Supremo.

- Ótimo. Então, quem são seus suspeitos?

Ninguém interrogava F. Denton Voyles. Olhando furioso para o presidente, disse:

- É muito cedo para suspeitos. Estamos ainda reunindo provas.

- Como é que o assassino entrou em casa de Rosenberg?

- Ninguém sabe. Nós não o vimos entrar, o senhor compreende? Sem dúvida já estava lá há algum tempo, escondido em um armário, ou no sótão. Não fomos convidados a entrar na casa.

Rosenberg não permitia. Ferguson fazia uma vistoria de rotina todas as tardes, quando o juiz chegava do trabalho. Ainda é muito cedo, mas não encontramos nenhum sinal do assassino. Nada, exceto os corpos. Esta tarde teremos os resultados da balística e das autópsias.

- Quero ver esses resultados assim que forem entregues.

- Sim, senhor presidente.

- Quero também uma pequena lista de suspeitos às cinco horas da tarde. Está claro?

- Sim, senhor presidente.

- E quero um relatório sobre o seu esquema de segurança e onde é que ele falhou.

- Está insinuando que houve falhas na segurança.

- Temos dois juizes mortos, ambos protegidos pelo FBI. Acho que o povo americano merece saber o que estava errado, senhor diretor. Sim, houve uma falha.

- Transmito a informação ao senhor presidente ou ao povo americano?

- A mim.

- Então, o senhor presidente convoca uma conferência de imprensa e informa o povo americano, certo?

- Está com medo da investigação, senhor diretor?

- Claro que não. Rosenberg e Jensen estão mortos porque se recusaram a cooperar conosco. Conheciam muito bem o perigo, mas não queriam ser incomodados. Os outros sete estão cooperando e continuam vivos.

- Por enquanto acho prudente verificar. Eles estão morrendo como moscas.

O presidente sorriu para Coal, que riu discretamente e quase com desprezo se dirigiu a Voyles. Resolveu que estava na hora de falar.

- Senhor diretor, sabia que Jensen freqüentava aqueles lugares?

- Ele era um homem adulto com um cargo vitalício. Se resolvesse dançar nu em cima de uma mesa, ninguém podia impedi-lo.

- Sim, senhor - disse Coal, delicadamente. - Mas não respondeu à minha pergunta.

Voyles respirou fundo e olhou para o lado.

- Sim, suspeitávamos que ele fosse homossexual e sabíamos que gostava de certos filmes.

Mr. Coal, não queremos e não temos autoridade para divulgar essa informação.

- Quero os relatórios esta tarde - disse o presidente.

Voyles olhava pela janela, ouvindo, em silêncio. O presidente olhou para Robert Gminski, diretor da CIA.

- Bob, quero uma resposta direta.

Gminski ficou tenso e franziu a testa.

- Sim, senhor. De que se trata?

- Quero saber se esses crimes estão ligados a alguma agência, operação, grupo, seja o que for, que pertença ao governo dos Estados Unidos.

- Ora! Não está falando sério, senhor presidente! Isso é um absurdo.

Gminski parecia chocado, mas o presidente, Coal e até Voyles sabiam que tudo era possível, nos tempos que corriam, com a CIA.

- Muito a sério, Bob.

- Pois eu também estou falando sério. Garanto que não tivemos nada a ver com isso. Fico chocado com o fato do senhor pensar nessa possibilidade. Ridículo!

- Verifique, Bob. Quero ter absoluta certeza. Rosenberg não acreditava na segurança nacional. Fez milhares de inimigos nos serviços secretos. Verifique apenas, está bem?

- Está bem, está bem.

- E quero o relatório até às cinco horas, hoje.

- Claro, claro, mas é perda de tempo.

Fletcher Coal aproximou-se da mesa do presidente.

- Proponho que nos encontremos aqui às cinco horas da tarde, cavalheiros. Os senhores estão de acordo?

Os dois acenaram afirmativamente com a cabeça e levantaram-se. Coal acompanhou-os até a porta sem uma palavra. Fechou a porta.

- O senhor fez as coisas na perfeição - disse ele para o presidente. - Voyles sabe que é vulnerável. Já sinto cheiro de sangue. Vamos pôr a imprensa em cima dele.

- Rosenberg está morto - repetiu o presidente, para si mesmo. - Não posso acreditar.

- Tenho uma idéia para a televisão. - Coal começou a andar outra vez, completamente senhor da situação. - Precisamos tirar partido do choque. O senhor presidente deve parecer cansado. como se tivesse passado a noite toda tratando da crise. Certo? A nação inteira vai assistir, esperando que o senhor a tranqüilize. Acho que deve vestir alguma coisa quente e confortável. Terno e gravata às sete horas da manhã podem parecer uma coisa ensaiada. Vamos descontrair um pouco.

O presidente ouvia com atenção.

- Um roupão de banho?

- Nem tanto. Mas, que tal uma camisola de lã e umas calças esportivas? Sem gravata.

Camisa branca, social. Assim, a imagem do avô.

- Quer que me dirija à nação, nesta hora de crise, em suéter de lã?

- Sim. Gosto da idéia. Suéter castanha com camisa branca.

- Não sei.

- É uma boa imagem. Escute, chefe, as eleições vão ser daqui a um ano e um mês. Esta é a nossa primeira crise em noventa dias e que crise maravilhosa. O povo precisa vê-lo de modo diferente, especialmente às sete horas da manhã. Precisa parecer por acaso, à vontade, mas com completo controle da situação. Pode valer cinco, talvez dez pontos nas sondagens de popularidade. Confie em mim, chefe.

- Não gosto de suéteres.

- Confie em mim.

- Francamente, não sei.

 

Darby Shaw acordou antes de ser dia com uma leve ressaca. Depois de quinze meses na Faculdade de Direito, a cabeça recusava-se a qualquer descanso de mais de seis horas.

Geralmente levantava-se ao nascer do dia e por isso não dormia bem com Callahan. O sexo era maravilhoso, mas o sono era geralmente um campo de batalha de travesseiros e lençóis, puxados de um lado para o outro.

Olhou para o teto, ouvindo o ressonar ocasional de Callahan, mergulhado no seu coma alcoólico. O lençol estava enrolado como uma corda em volta dos joelhos. Darby estava descoberta mas não sentia frio, Outubro, em Nova Orleans, era ainda úmido e quente. O ar pesado subia da Rua Dauphine, galgando a pequena varanda e entrando pelas portas de vidro abertas.

Trazia com ele os primeiros raios de sol da manhã. Vestida com o roupão de Caliahan, ficou de pé, do lado de dentro da porta. O sol subia no horizonte, mas a Rua Dauphine estava escura. O nascer do dia passava despercebido no French Quarter. Tinha a boca seca. Darby desceu para a cozinha e fez café forte do Mercado Francês. Os números azuis no microondas diziam que faltavam dez para as seis. Para quem não bebia demais, a vida com Callahan era uma luta constante.

O limite de Darby eram três copos de vinho. Não tinha diploma de advogada, nem emprego e não podia dar-se ao luxo de se embriagar e dormir até tarde todas as noites. Além disso, pesava cinqüenta e um quilos e queria manter esse peso. Ele não tinha limites. Bebeu três copos de água gelada, depois encheu uma caneca de café. Subiu a escada acendendo as luzes e voltou para a cama. Ligou o controle remoto e lá estava o presidente atrás da sua mesa, meio esquisito com um suéter castanho sem gravata. Era uma reportagem especial da NBC.

- Thomas! - Deu uma palmada no ombro dele. Nenhum movimento. - Thomas! Acorde! -

Apertou num botão, aumentando o volume. O presidente disse bom dia. - Thomas! - Inclinou-se para frente. Callahan desvencilhou os pés do lençol e sentou-se na cama esfregando os olhos, tentando focalizá-los na tela.

Darby deu-lhe a caneca de café.

O presidente tinha notícias trágicas. Os olhos dele estavam cansados e parecia triste, mas a bela voz de barítono exalava confiança. Tinha algumas notas mas não as consultou. Olhando diretamente para a câmara, explicou ao povo americano os acontecimentos chocantes da noite anterior.

- Que diabo - murmurou Callahan.

Depois de anunciar as mortes, o presidente começou um elogio fúnebre de Abraham Rosenberg. Uma lenda formidável, foi como ele lhe chamou. Era difícil, mas o presidente conseguiu elogiar, impassível, a carreira notável de um dos homens mais odiados da América.

Callahan olhava boquiaberto para a televisão. Darby arregalou os olhos.

- Muito comovente - disse ela. Permanecia imóvel aos pés da cama.

Fora informado pelo FBI e pela CIA, continuou o presidente, e ao que parecia havia ligação entre os dois crimes. Ordenara uma investigação imediata e completa e os responsáveis seriam entregues à justiça.

Callahan endireitou o corpo e cobriu-se com o lençol. Piscou os olhos e passou os dedos pelo cabelo despenteado.

- Rosenberg? Assassinado? - murmurou, olhando para a tela. A sua mente ficou clara num instante e a dor continuava, mas ele não a sentia.

- Repare no pulôver - disse Darby, bebendo um gole de café, com os olhos no rosto coberto de maquiagem e no cabelo cuidadosamente penteado. Ele era um homem maravilhosamente belo, com uma voz suave. Daí o seu sucesso na política. As rugas acentuavam-se na testa franzida, e ele parecia ainda mais triste quando começou a falar do seu grande amigo, o juiz Glenn Jensen.

- O cinema Montrose, à meia noite - repetiu Callahan.

- Onde fica isso? - perguntou ela. Callahan tinha terminado o curso de Direito em Georgetown.

- Não tenho certeza. Mas acho que no bairro gay.

- Ele era gay?

- Ouvi alguns boatos. Evidentemente.

Estavam sentados aos pés da cama, com as pernas cobertas pelo lençol. O presidente decretava uma semana de luto nacional. Bandeiras a meia haste. Repartições federais fechadas no dia seguinte. Os preparativos para os funerais não estavam terminados. Falou durante mais alguns minutos, sempre profundamente triste, até mesmo chocado, muito humano, mas sem dúvida o presidente, com as rédeas nas mãos. Terminou com o seu sorriso patenteado de bom avô, de confiança, sabedoria e segurança completas.

Um repórter da NBC apareceu nos jardins da Casa Branca e completou a informação. A polícia não fizera nenhum comentário, mas aparentemente não tinham nenhum suspeito e nenhuma pista ainda. Sim, os dois juizes estavam sob a proteção do FBI, que também não fazia nenhum comentário. Sim, Montrose era freqüentado por homossexuais. Sim, os dois homens haviam recebido muitas ameaças, especialmente Rosenberg. E poderiam aparecer vários suspeitos antes de tudo estivesse terminado.

Callahan desligou a televisão e foi até às portas de vidro, onde o ar estava ficando cada vez mais espesso.

- Nenhum suspeito - resmungou.

- Posso pensar em vinte, no mínimo - disse Darby. - Claro, mas porquê esta combinação?

Rosenberg é fácil, mas porquê Jensen? Por que não McDowell ou Yount, considerados mais liberais do que Jensen? Não faz sentido – Callahan sentou-se na cadeira de vime ao lado da porta e, com a mão, despenteou o cabelo.

- Vou trazer mais café - disse Darby.

- Não, não, estou acordado.

- E a sua cabeça?

- Ótima, se tivesse dormido mais três horas. Acho que vou cancelar a aula. Não estou em condições.

- Formidável.

- Que diabo, não acredito. Aquele idiota tinha duas nomeações. Isso significa que oito, dos nove, serão escolhidos pelos republicanos.

- Precisavam da confirmação, primeiro.

- Só vamos reconhecer a Constituição daqui a dez anos. Isto é terrível.

- Por isso foram assassinados, Thomas. Alguém ou algum grupo quer um Supremo Tribunal diferente, com maioria conservadora. As eleições vão ser no ano que vem. Rosenberg tem, ou tinha, noventa e um anos. Manning tem oitenta e quatro. Yount oitenta e poucos. Tanto podem morrer já ou viver mais dez anos. Um democrata pode ser eleito presidente. Por quê arriscar?

Matem todos agora, um ano antes das eleições. A lógica perfeita, para quem pretende isso.

- Mas por quê Jensen?

- Ele era um motivo de embaraço. E obviamente um alvo fácil.

- Sim, mas basicamente era moderado, com ocasionais impulsos para a esquerda. E foi indicado por um republicano.

- Quer um Bloody Mary?

- Boa idéia. Daqui a um minuto. Estou tentando pensar.

Reclinada na cama, Darby tomou café enquanto via a luz do sol infiltrando-se na varanda.

- Pense bem, Thomas. O momento certo. Reeleição, nomeações, política, tudo isso. Mas pense na violência e nos radicais, nos fanáticos, em todos os que odeiam os gays e o aborto, os arianos e os nazis, pense em todos os grupos capazes de matar e em todas as ameaças contra o Supremo, e é o momento exato para um grupo desconhecido e apagado acabar com todos eles. É mórbido, mas é o momento exato.

- E que grupo é esse?

- Quem sabe?

- O Exército Subterrâneo?

- Não é propriamente apagado ou discreto. Eles mataram o juiz Fernandez, no Texas.

- Eles não usam bombas?

- Usam, são especialistas em explosivos plásticos.

- Elimine-os da lista.

- Não estou eliminando ninguém por enquanto.- Darby levantou-se e atou outra vez o cordão do robe. - Venha. Vou preparar-lhe um Bloody Mary.

- Só se tomar um comigo.

- Thomas, você é professor. Pode cancelar as suas aulas quando quiser. Eu sou uma aluna e...

- Compreendo a diferença.

- Não posso faltar mais.

- Eu reprovo-a em Direito Constitucional se não faltar às aulas e beber comigo. Tenho um livro com os pareceres de Rosenberg. Vamos lê-lo, enquanto bebemos o Bloody Mary, e depois vinho, e depois qualquer outra coisa. Já estou sentindo falta dele.

- Tenho Procedimento Federal às nove e não posso faltar.

- Vou telefonar para o reitor e pedir o cancelamento de todas as aulas. Então bebe comigo?

- Não. Venha, Thomas.

Desceram para a cozinha, para o café e para a bebida.

 

Sem tirar o auscultador do ombro, Fletcher Coal apertou outro botão da mesa telefônica da sala oval. Havia três linhas de espera piscando. Enquanto andava lentamente ao lado da mesa, ouvia e, ao mesmo tempo, olhava relatório de duas páginas, de Horton, do Tribunal, não prestava a mínima atenção ao presidente que, com o corpo inclinado, próximo a janela, segurava com força o taco de golfe nas mãos enluvadas, olhando ferozmente, primeiro para a bola amarela, depois, devagar, para a taça de bronze, a 5 metros de distância, na outra extremidade do tapete azul.

Coal resmungou alguma coisa ao telefone. O presidente não o ouviu e bateu levemente com o taco na bola, que rolou com exatidão para dentro da taça. A taça estalou e depois rejeitou a bola que rolou para o lado.

O presidente, só de meias, deu alguns passos e atirou a bola seguinte. Esta, cor de laranja.

Outra tacada e a bola rolou diretamente para dentro da taça. Oito bolas seguidas. Vinte e sete em trinta.

- Era o chefe Runyan - disse Coal, batendo o telefone.

- Está muito perturbado. Quer falar com o senhor esta tarde. - Diga-lhe para se informar sobre a senha.

- Eu mandei-o vir amanhã às dez. O senhor tem uma reunião com o conselho de ministros às dez e meia e outra com o conselho de segurança nacional às onze e meia. Sem erguer os olhos, o presidente segurou o taco com força e estudou a bola seguinte.

- Mal posso esperar. Que tal a sondagem de opinião?

Deu a tacada, cuidadosamente, e acompanhou a bola.

- Acabei de falar com Nelson. Ele fez duas, tendo começado ao meio-dia. O computador está agora digerindo-as, mas ele acha que a percentagem de aprovação vai ficar entre cinqüenta e dois ou cinqüenta e três.

O golfista ergueu os olhos rapidamente e sorriu, depois voltou ao jogo.

- Qual foi a percentagem na semana passada?

- Quarenta e quatro. Foi o suéter sem gravata. Exatamente como eu tinha dito.

- Pensei que tivessem sido quarenta e cinco - disse, batendo na bola amarela que rolou diretamente para dentro da taça.

- Tem razão. Quarenta e cinco.

- A mais alta em...

- Onze meses. Não alcançamos cinqüenta e cinco desde o vôo 4O2, em Novembro do ano passado. Esta é uma crise maravilhosa, chefe. O povo está chocado, mas muita gente está feliz.

Rosenberg foi-se. E o senhor é o homem do centro. Uma maravilha. - Coal apertou um dos botões iluminados e pegou no auscultador. Desligou violentamente sem uma palavra. Ajeitou a gravata e abotoou o casaco.

- São cinco e meia, chefe. Voyles e Gminski estão à espera.

O presidente deu outra tacada e observou a bola. Ficou dois centímetros à direita da taça e ele fez uma careta.

- Deixe-os esperar. Vamos marcar uma conferência de imprensa para as nove da manhã.

Vou levar Voyles comigo mas não vou deixá-lo dizer uma palavra. Faça com que ele fique atrás de mim. Vou dar mais alguns detalhes e vou responder a algumas perguntas. As redes de televisão podem transmitir ao vivo, que acha?

- É claro. Boa idéia. Vou providenciar isso.

Tirou as luvas e atirou-as para um canto.

- Faça-os entrar. Encostou o taco cuidadosamente à parede e calçou os mocassins Bally.

Como de costume, já havia mudado de roupa seis vezes, desde o café da manhã, e estava agora com um terno de xadrez e gravata de bolas vermelhas e azuis. Trajes para o escritório. O casaco estava no cabide ao lado da porta. Sentou-se à mesa de trabalho e franziu a testa para os papéis.

Cumprimentou Voyles e Gminski com um leve movimento de cabeça mas não lhes estendeu a mão. Sentaram-se no outro lado da mesa e Coal, como sempre, ficou de pé, como uma sentinela ansiosa por disparar. O presidente apertou com dois dedos a base do nariz, como se estivesse com dor de cabeça devido à tensão daquele dia.

- Foi um longo dia, senhor presidente - disse Bob Gminski, para quebrar o gelo. Voyles olhou para as janelas. Coal fez um gesto afirmativo e o presidente disse:

- Sim, Bob. Um dia muito longo. E eu tenho um grupo de etíopes convidados para o jantar, portanto vamos ser breves. Comecemos por você, Bob. Quem os matou?

- Eu não sei, senhor presidente. Mas garanto que nós não tivemos nada com isso.

- Garante mesmo, Bob? - O tom era quase de prece.

Gminski ergueu a mão direita, com a palma para fora.

- Juro. Juro sobre o túmulo da minha mãe.

Coal balançou a cabeça afirmativamente, como se acreditasse nele, e a sua aprovação era tudo. O presidente olhou carrancudo para Voyles, que com o seu corpo atarracado enchia a cadeira e ainda por cima vestia um colete forrado. O diretor mastigou a pastilha elástica muito devagar e fez um sorriso amarelo para o presidente.

- Balística? Autópsias?

- Estão aqui - Voyles abriu a pasta.

- Limite-se a resumir. Eu leio mais tarde.

- Arma de pequeno calibre, provavelmente um .22. À queima-roupa Rosenberg e o enfermeiro, como indicam as queimaduras de pólvora. Difícil dizer, no caso de Ferguson, mas os tiros foram dados a menos de trinta centímetros. Nós não assistimos, compreende? Três balas em cada cabeça. Extraíram duas de Rosenberg e encontraram a terceira no travesseiro. Ao que parece, ele e o enfermeiro estavam dormindo. O mesmo tipo de balas, a mesma arma, o mesmo atirador, evidentemente. Estão sendo preparados os resumos completos das autópsias, mas não houve nenhuma surpresa. As causas das mortes são óbvias.

- Impressões digitais?

- Nenhuma. Ainda andamos à procura, mas foi um trabalho muito limpo. Tudo indica que só deixou as balas e os corpos.

- Como entrou na casa?

- Nenhum sinal aparente de entrada forçada. Ferguson revistou a casa quando Rosenberg chegou, mais ou menos às quatro horas. Procedimento de rotina. No relatório dele, feito duas horas depois, diz que inspecionou dois quartos, um banheiro e três armários no andar térreo e não encontrou nada, evidentemente. Diz que verificou as portas e janelas. Seguindo as instruções de Rosenberg, os nossos agentes ficaram fora da casa e calculam que a inspeção das quatro horas, feita por Ferguson, tenha durado três a quatro minutos. Suponho que o assassino já estava escondido na casa quando o juiz chegou e que Ferguson não o viu.

- Por quê? - insistiu Coal.

Os olhos avermelhados de Voyles não se desviaram do presidente, ignorando o seu homem de confiança.

- O homem é evidentemente muito esperto. Matou um juiz do Supremo Tribunal - talvez dois - e praticamente não deixou nenhuma pista. Um assassino profissional, diria eu. Entrar em casa não foi problema para ele. Deve ser muito paciente. Não arriscaria entrar quando estivesse alguém em casa e polícias por todos os lados. Acho que entrou durante a tarde e simplesmente esperou, talvez num armário no segundo andar, ou no sótão. Encontramos dois fragmentos de material de vedação do sótão no chão, debaixo da escada articulada, o que sugere que deve ter sido usada recentemente.

- Na verdade, não é importante saber onde ele se escondeu - disse o presidente. - Ele não foi descoberto.

- Tem razão. Não nos permitiam que inspecionássemos a casa, o senhor compreende?

- Eu compreendo que ele está morto. E o que me diz de Jensen?

- Está morto também. Pescoço partido, estrangulado com uma corda de nylon amarela, que pode ser comprada em qualquer loja de ferragens. Os médico-legistas duvidam que a morte tenha sido causada pela fratura do pescoço. Acreditam que a corda o matou. Nenhuma impressão digital.

Nenhuma testemunha. Não é o tipo de lugar em que as testemunhas aparecem por vontade própria, portanto não espero encontrar ninguém disposto a falar. Hora provável da morte, meia-noite e meia. Uma diferença de duas horas entre os dois crimes.

O presidente tomava notas.

- Quando é que Jensen saiu do seu apartamento?

- Não sei. Lembre-se, nós só podíamos ficar no estacionamento. Nós o seguimos até sua casa, mais ou menos às seis horas da tarde, depois vigiamos o prédio durante sete horas, até sermos informados de que fora estrangulado num cinema gay. Obedecíamos às exigências dele, é claro. Ele saiu do prédio às escondidas, no carro de um amigo. Encontrado a dois quarteirões do cinema.

Coal deu dois passos para frente, com as mãos cruzadas nas costas.

- Senhor diretor, acha que o mesmo assassino cometeu os dois crimes?

- Que diabo, quem pode saber? Os corpos ainda estão quentes. Dê-nos um tempo. Até agora, não temos nenhuma prova concreta. Sem testemunhas, sem impressões digitais, nenhum erro do assassino, precisamos de algum tempo para formar um quadro razoável. Pode ser o mesmo homem, não sei. E cedo demais.

- Decerto que o senhor tem uma suspeita - disse o presidente.

Voyles olhou para a janela.

- Pode ter sido o mesmo homem, mas nesse caso deve ser um super-homem.

Provavelmente dois ou três, mas mesmo assim precisariam de muita ajuda. Alguém lhes forneceu muita informação.

- Por exemplo?

- Por exemplo, com que freqüência Jensen ia ao cinema, onde costumava sentar-se, a que horas chegava, se ia sozinho, se ia com algum amigo. Informações que evidentemente nós não temos. Veja o caso de Rosenberg. Alguém tinha de saber que a pequena casa não tinha sistema de segurança, que os nossos homens ficavam do lado de fora, que Ferguson chegava às dez e saía as seis e tinha de ficar no quintal, que...

- Vocês sabiam de tudo isso - interrompeu o presidente.

- É claro que sabíamos. Mas garanto que não contamos a ninguém.

O presidente lançou um olhar conspirador para Coal que coçava o queixo, pensativo.

Voyles mudou de posição na cadeira, movendo o traseiro avantajado, e sorriu para Gminski, corno que a dizer, "Vamos fazer o jogo deles".

- Está sugerindo uma conspiração - disse Coal inteligentemente, com o sobrolho franzido.

- Não estou sugerindo coisa nenhuma. Estou lhe dizendo, Mr. Coal, e ao senhor, senhor presidente, que sim, de fato muita gente deve ter conspirado para matar aqueles dois. Pode haver apenas dois assassinos, mas tiveram muita ajuda. Foi muito rápido, muito limpo e muito bem organizado.

Coal pareceu satisfeito. Empertigou o corpo e cruzou as mãos nas costas outra vez.

- Então, quem são os conspiradores? - perguntou o presidente. - Quem são os seus suspeitos?

Voyles respirou fundo e acomodou-se melhor na cadeira. Fechou a pasta e colocou-a no chão, ao seu lado.

- Não temos um suspeito especial neste momento, apenas algumas boas hipóteses. E isto deve ser mantido em segredo.

Coal praticamente deu um salto para perto dele.

- É claro que é confidencial - disse, irritado. - O senhor está na sala oval.

- E já estive aqui muitas vezes. Na verdade, eu já vinha aqui quando o senhor ainda andava por aí, de fraldas sujas, Mr. Coal. Os segredos têm um modo muito especial de transpirarem.

- Acho que vocês tiveram algumas "transpirações" – disse.

O presidente ergueu a mão.

- E confidencial, Denton. Tem a minha palavra.

Coal recuou um passo.

Voyles olhou para o presidente.

- O Supremo reabriu na segunda-feira, como sabe, e os fanáticos já estavam na cidade há alguns dias. Nas últimas duas semanas filmamos vários movimentos. Sabemos de pelo menos onze membros do Exército Subterrâneo que estiveram na área do distrito de Colúmbia durante uma semana. Interrogamos alguns hoje, e depois os soltamos. Sabemos que o grupo tem capacidade e vontade. Por enquanto, é a nossa mais forte possibilidade. Amanhã, isso pode mudar.

Coal não ficou impressionado. O Exército Subterrâneo estava na lista de todos.

- Já tinha ouvido falar deles - disse o presidente, estupidamente.

- Oh, sim. Estão ficando cada vez mais populares. Acreditamos que tenham morto um juiz no Texas. Mas não podemos provar. São muitos eficientes com explosivos. Suspeitamos que sejam responsáveis pelo menos por cem atentados à bomba em clínicas de aborto, escritórios da ACLU, lojas de pornografia, clubes gays, por todo o país. São exatamente os que odiavam Rosenberg e Jensen.

- Outros suspeitos? - perguntou Coal.

- Há um grupo ariano chamado Resistência Branca, que andamos vigiando há dois anos.

Tem sede em ldaho e no Oregon. O líder fez um discurso na Virgínia Ocidental, na semana passada, e esteve na área durante alguns dias. Foi visto segunda-feira numa manifestação em frente do Supremo Tribunal. Vamos tentar falar com ele amanhã.

- Mas essas pessoas são assassinos profissionais? – perguntou Coal.

- Eles não andam a apregoar, compreende? Duvido que qualquer grupo tenha perpetrado o crime. Apenas contrataram os assassinos e providenciaram a informação.

- Então, quem são os assassinos? - perguntou o presidente.

- Francamente talvez nunca se chegue a saber.

O presidente levantou-se e estendeu as pernas para descansar. Outro dia de trabalho duro no gabinete. Sorriu para Voyles.

- A sua tarefa é muito difícil. - Era a voz do avô, repleta de calor e compreensão. - Não o invejo. Se fosse possível, eu gostaria de um relatório de duas páginas, datilografado, a dois espaços, às cinco horas da tarde, todos os dias, sete dias por semana, sobre o andamento da investigação. Se fizerem alguma descoberta, espero que me telefone imediatamente.

Voyles fez um gesto afirmativo, sem dizer nada.

- Tenho uma conferência de imprensa amanhã de manhã cedo, às nove. Gostaria que comparecesse.

Voyles fez novamente um gesto afirmativo sem uma palavra. Decorreram alguns segundos sem ninguém falar. Voyles levantou-se ruidosamente e apertou o cinto do colete forrado.

- Muito bem, vou indo. O senhor tem os etíopes e todo o resto. - Entregou os relatórios da balística e das autópsias a Coal, sabendo que o presidente não ia ler nenhum deles.

- Muito obrigado por terem vindo, cavalheiros - disse o presidente com amabilidade.

Coal fechou a porta depois de eles terem saído e o presidente apanhou o taco de golfe.

- Não vou jantar com os etíopes - disse, olhando para o tapete e para a bola amarela.

- Eu sei. Já enviei as suas desculpas. Este é o momento de uma grande crise, senhor presidente, e todos esperam que esteja aqui, no seu gabinete, com os seus conselheiros, trabalhando.

Ele deu a tacada e a bola rolou diretamente para a taça.

- Quero falar com Horton. Essas indicações devem ser perfeitas.

- Ele mandou uma lista com dez nomes. Parecem bons.

- Quero homens jovens, conservadores, contra a liberalização do aborto, a pornografia, os homossexuais, o controle de armamento, a igualdade racial, toda essa besteira. - Errou uma tacada

e tirou os mocassins, atirando-os para o lado. – Quero juizes que detestem drogas e criminosos e que sejam a favor da pena de morte. Compreende?

Coal meneou a cabeça afirmativamente, enquanto digitava números no telefone. Escolheria os nomes e depois convenceria o presidente a aceitá-los.

K. O. Lewis e o diretor saíram da Casa Branca na limusine silenciosa que seguiu lentamente pelo meio do tráfego intenso daquela hora. Voyles não tinha nada a dizer. Naquelas primeiras horas da tragédia o assédio da imprensa fora brutal.

Os abutres voavam em círculo, famintos. Nada menos que três Comitês do Congresso já estavam formados para Investigar os crimes. E os corpos estavam ainda quentes. Os políticos, inquietos, disputavam as luzes da ribalta. Uma declaração absurda dava origem a outra mais absurda ainda. O senador Larkin, de Ohio, detestava Voyles e Voyles detestava o senador Larkin, de Ohio, e o senador convocara uma conferência de imprensa, três horas antes, para anunciar que o seu Comitê começaria a investigar imediatamente a proteção do FBI aos dois juízes mortos. Mas Larkin tinha uma namorada bastante jovem e o FBI tinha algumas fotografias. Voyles estava certo de que essa investigação seria adiada.

- Como está o presidente? - perguntou Lewis, quebrando o silêncio.

- Qual deles?

- Não me refiro a Coal. O outro.

- Ótimo. Realmente ótimo. Mas muito sentido com a morte de Rosenberg.

- Calculo que sim.

Seguiram outra vez em silêncio para o edifício Hoover. Ia ser uma longa noite.

- Temos um novo suspeito - disse Lewis, nesse momento.

– Vá dizendo.

- Um homem chamado Nelson Muncie.

Voyles abanou a cabeça devagar.

- Nunca ouvi esse nome.

- Nem eu. É um longa história.

- Vamos lá ouvir a versão mais curta.

- Muncie é um industrial da Florida, muito rico. Há dezesseis anos a sobrinha dele foi violada e assassinada por um afro-americano chamado Buck Tyrone. A garota tinha doze anos.

Um estupro e assassinato extremamente brutais. Não vou descrever os detalhes. Muncie não tem filhos e adorava a sobrinha. Tyrone foi julgado em Orlando e condenado à morte. Ficou sob forte vigilância por causa das ameaças à sua vida. Um grupo de advogados judeus, de uma firma de Nova York, recorreu da sentença com vários recursos e em 1984 o caso chegou ao Supremo. Já deve ter adivinhado. Rosenberg toma-se de amores por Tyrone e inventa o argumento ridículo da auto-incriminação, baseado na Quinta Emenda, a fim de excluir do processo a confissão feita pelo bandido uma semana depois da sua prisão. Uma confissão de oito páginas, escrita pelo próprio Tyrone. Sem a confissão, deixou de existir o caso. Rosenberg redige então um parecer confuso, anulando a sentença. Uma decisão extremamente controversa. Tyrone é libertado. Dois anos

depois desaparece e ninguém mais soube dele. Dizem que Muncie pagou para que fosse castrado, esquartejado e atirado aos tubarões. Apenas histórias, dizem as autoridades da Florida. Então, em 1989, o principal advogado de defesa de Tyrone, chamado Kaplan, é morto a tiro por um suposto assaltante, à porta do seu prédio de apartamentos, em Manhattan. Pura coincidência.

- Como é que conseguiu essas Informações?

- Pelo telefone, através da nossa agência da Florida, às duas horas de hoje. Estão convencidos de que Muncie desembolsou bom dinheiro para eliminar Tyrone e o advogado. Mas não podem provar. Um informador relutante que diz conhecer Muncie deu algumas informações. Disse que há anos Muncie fala em eliminar Rosenberg. Todos acham que ele ficou um pouco desequilibrado depois da morte da sobrinha.

- Quanto dinheiro ele tem?

- O suficiente. Milhões. Ninguém sabe ao certo. É tudo muito sigiloso. As autoridades da Florida acreditam que Muncie é capaz.

- Vamos verificar. Parece interessante.

- Vou começar esta noite. Tem certeza de que quer trezentos agentes neste caso?

Voyles acendeu o charuto e abriu um pouco a janela do carro.

- Quero. Talvez quatrocentos. Precisamos descalçar esta bota antes que a imprensa nos devore vivos.

- Não vai ser fácil. A não ser as balas e a corda de nylon, não deixaram coisa alguma.

Voyles expeliu o fumaça pela janela.

- Eu sei. É quase limpo demais.

 

O chefe estava refestelado na cadeira, com o nó da gravata frouxo, o rosto abatido. Três dos seus pares e uma meia dúzia de assistentes falavam em voz baixa. O choque e a fadiga eram evidentes. Jason Mine, o principal assistente de Rosenberg, parecia muito traumatizado. Olhava fixamente para o chão enquanto o juiz Archibald Manning, agora presidente do Supremo Tribunal, falava sobre protocolo e funerais.

A mãe de Jensen queria uma cerimônia discreta na igreja episcopal, na sexta-feira, em Providence.

O filho de Rosenberg, advogado, entregara a Runyan uma lista das últimas vontades do juiz, feita depois do segundo derrame. Queria ser cremado, depois de uma cerimônia não militar, e as cinzas deviam ser espalhadas na reserva índia dos Sioux, no Dakota do Sul. Rosenberg era judeu mas tinha abandonado a religião, dizendo-se agnóstico. Queria ser enterrado com os índios.

Runyan achava que era bastante apropriado, mas não disse isso a ninguém.

No gabinete exterior, seis agentes do FBI tomavam café e falavam nervosamente em voz baixa. Tinham recebido mais ameaças durante o dia, várias horas depois do discurso do presidente na televisão. Já era noite, quase hora de acompanhar os outros juizes a casa. Cada um deles tinha quatro agentes como guarda-costas.

O juiz Andrew McDowelI, de sessenta e um anos, agora o membro mais jovem do Supremo, de pé, ao lado da janela, fumava o seu cachimbo e olhava o tráfego. Se Jensen tinha um amigo no Supremo Tribunal, esse amigo era McDoweli. Runyan fora informado por Fletcher Coal de que o presidente, além de comparecer à cerimônia, pretendia fazer um discurso laudatório ao juiz morto.

Ninguém queria que o presidente dissesse coisa alguma. O chefe pediu a McDowell para preparar um discurso breve. McDowelI, um homem tímido, que evitava falar em público, ajeitou o papillon, tentando imaginar o amigo no balcão do cinema com uma corda em volta do pescoço. Era uma idéia terrível. Um juiz do Supremo Tribunal, um dos seus pares, um dos nove, escondido naquele lugar, assistindo àqueles filmes e expondo-se de modo tão indigno. Um constrangimento trágico.

Imaginou-se de pé, em frente do público, na igreja, a olhar para a mãe e para a família de Jensen, sabendo que todos estavam pensando no cinema Montrose.

Perguntariam em voz baixa, uns aos outros, "Sabia que ele era gay?”, McDowell não sabia, nem suspeitava. E não queria dizer coisa alguma na cerimônia fúnebre. O juiz Ben Thurow, sessenta e oito anos, estava mais interessado em apanhar os assassinos do que em enterrar os mortos. Desde o tempo de promotor federal, no Minnesota, que tinha uma teoria. Dividia os suspeitos em duas classes: os que matam por ódio e vingança e os que matam com o fim de afetar decisões futuras. Os seus assistentes já tinham recebido ordem para começar as investigações.

Thurow andava para trás e para diante na sala.

- Temos vinte e sete assistentes e sete juizes - disse ele, para ninguém em particular. - Evidentemente não faremos muita coisa nas duas próximas semanas e todas as decisões definitivas terão de esperar até que tenhamos quorum. Isso pode levar meses. Sugiro que todos os assistentes comecem o trabalho de investigação dos crimes.

- Não somos polícias - disse Marnning, pacientemente.

- Não podemos esperar pelo menos até depois dos enterros para começarmos a agir como Dick Tracy? - perguntou McDowelI, voltando-se para os homens presentes na sala.

Como sempre, Thurow ignorou-o.

- Eu vou dirigir a investigação. Emprestem-me os seus assistentes durante duas semanas e acho que conseguiremos elaborar uma lista de possíveis suspeitos.

- O FBI é muito eficiente, Ben - disse o chefe. - Não pediram a nossa ajuda.

- Prefiro não discutir o FBI - respondeu Thurow. – Podemos ficar parados, observando o luto oficial, sem fazer nada, durante duas semanas, ou podemos trabalhar para encontrar esses safados.

- Por que está tão certo de que conseguimos resolver este caso? - perguntou Manning.

- Não tenho certeza de poder resolvê-lo sozinho, mas acho que vale a pena tentar. Os nossos colegas foram assassinados por um motivo e esse motivo está diretamente ligado a um processo, um caso já decidido por este tribunal, ou que depende da nossa decisão. Se foi vingança, então a tarefa é quase Impossível. Que diabo, todo mundo nos odeia, por esta ou por aquela razão. Mas se não foi vingança ou ódio, então talvez haja alguém que esteja interessado num Supremo diferente para uma decisão futura. É isso que me intriga. Quem é que iria liquidar Abe e Glenn por causa dos votos deles acerca de uma decisão, este ano, no ano que vem ou daqui a cinco anos? Quero que os assistentes examinem todos os casos pendentes nos onze tribunais distritais.

O juiz McDowell balançou a cabeça.

- Ora, vamos, Ben. São mais de cinco mil casos, dos quais uma fração mínima chega ao Supremo. É um trabalho inútil.

Manning também não ficou entusiasmado com a sugestão.

- Ouçam, amigos. Eu trabalhei com Rosenberg durante trinta e um anos e muitas vezes pensei em dar-lhe um tiro. Mas eu gostava dele como um irmão. As suas idéias liberais foram aceitas nas décadas de 60 e 70, envelheceram na década de 80 e agora, nos anos 90, são anátemas. Ele tornou-se o símbolo de tudo quanto está errado neste país. Em minha opinião, foi assassinado por um desses grupos radicais de direita, e podemos investigar casos até o inferno ficar gelado que não vamos encontrar coisa alguma. É vingança, Ben. Pura e simples.

- E Glenn?-perguntou Thurow.

- Evidentemente que o nosso amigo tinha certas fraquezas estranhas. A notícia deve ter-se espalhado e ele tornou-se um alvo fácil para esses grupos. Eles odeiam homossexuais, Ben.

Ben continuava a andar pela sala, continuando a ignorar as opiniões contrárias.

- Eles nos odeiam e, se o motivo tiver sido ódio, a polícia vai encontrá-los. É possível. Mas e se mataram para manipular este tribunal? E se algum grupo aproveitou um momento de inquietação e violência para eliminar dois de nós, provocando assim uma reestruturação do Supremo? Acho isso muito possível.

O chefe pigarreou.

- Pois eu acho que não vamos fazer nada antes de serem enterrados, ou das cinzas espalhadas. Não estou dizendo que não, Ben, apenas que espere alguns dias. Deixe assentar a poeira. Estamos todos ainda em estado de choque.

Thurow pediu licença e saiu da saia. Os guarda-costas acompanharam-no. O juiz Marming levantou-se, apoiado na bengala, e voltou-se para o chefe.

- Não vou a Providence. Detesto voar e detesto funerais. Em breve terei o meu próprio e não gosto de pensar nisso. Vou enviar os meus pêsames à família. Quando tiver oportunidade, por favor, apresente as minhas desculpas. Sou um homem muito velho.

Saiu com um assistente.

- Acho que o juiz Thurow tem razão - disse Jason Kline. - De qualquer modo, precisamos rever os casos pendentes e os que têm possibilidade de chegar ao Supremo, vindos dos tribunais distritais. Não é muito provável, mas talvez encontremos alguma Coisa.

- Concordo - disse o chefe. - Acho apenas um pouco prematuro.

- Tem razão, mas eu gostaria de começar, mesmo assim.

- Não. Espere até segunda-feira e eu empresto-o ao juiz Thurow.

Mine encolheu os ombros e saiu da sala. Dois assistentes acompanharam-no até ao gabinete de Rosenberg. Sentaram-se os três no escuro para tomar o último brandy de Abe.

No seu gabinete de estudo privado, no quinto andar da biblioteca de Direito, entre estantes de livros grossos, raramente usados, Darby Shaw examinava o impresso do computador com a relação e descrição dos casos pendentes no Supremo Tribunal. Era a terceira vez que lia o impresso e embora fossem muitas as controvérsias, não encontrou nada que a interessasse.

Dumond estava provocando protestos ruidosos.

Havia um caso de pornografia infantil, em Nova Jersey, um caso de sodomia, no Kentucky, dezenas de apelos de penas de morte, outros tantos de direito civil e a coleção habitual de casos de impostos, de loteamento, dos índios e de leis antitruste. Darby leu mais de duas vezes todos os resumos dos casos. Os suspeitos possíveis da sua primeira lista eram óbvios demais. A lista já estava no cesto dos papéis. Callahan estava certo de que era tudo obra dos arianos, dos nazis ou da Man, uma coleção identificável de terroristas domésticos ou de bandos de vigilantes radicais.

Tinha de ser gente de direita, isso era mais do que evidente, pensava ele. Darby não estava tão certa disso. Esses grupos eram muito óbvios. Faziam muitas ameaças, atiravam muitas pedras, faziam muitas passeatas de protesto, muitos discursos. Precisavam de Rosenberg vivo porque ele era o alvo irresistível do seu ódio. Rosenberg era a razão da sua atividade. Para Darby, a coisa era muito mais sinistra.

Callahan estava num bar em Canal Street, bêbado, à espera dela, embora Darby não tivesse prometido aparecer. À hora do almoço ela tinha-o visto no balcão do segundo andar, bebendo e lendo o livro de pareceres de Rosenberg. As aulas de Direito Constitucional estavam canceladas durante uma semana. Callahan dissera que talvez nunca mais conseguisse lecionar aquela matéria, agora que o seu ídolo estava morto. Darby aconselhou-o a curar a bebedeira e voltou para a sala de estudo no quinto andar.

Um pouco depois das dez, foi à sala do computador, no quarto andar, vazia àquela hora.

Digitou o seu pedido e logo a impressora começou a emitir páginas e mais páginas de apelos pendentes dos onze tribunais federais de apelação de todo o país. Uma hora depois, a impressora parou. Darby tinha agora um volume de impressos com 12 centímetros de espessura, contendo todos os casos pendentes nos tribunais de apelação.

Voltou para o quinto andar e pôs os impressos sobre a mesa atulhada de livros e papéis.

Passava das onze horas e o quinto andar estava deserto. Da janela estreita via-se apenas o parque de estacionamento e algumas árvores. Darby tirou os sapatos e examinou o verniz vermelho das unhas dos pés. Tomou um gole de refrigerante morno e olhou pensativa para o estacionamento. A primeira sugestão era fácil, os dois crimes tinham sido perpetrados pelo mesmo grupo e pela mesma razão. Do contrário, seria uma procura infrutífera. A segunda era difícil, o motivo não era ódio nem vingança, mas manipulação.

Havia um caso ou um problema a caminho do Supremo Tribunal e alguém queria que fosse julgado ou apreciado por juízes diferentes. A terceira suposição era um pouco mais fácil, o caso, ou questão, envolvia muito dinheiro. Não ia encontrar a resposta nos impressos do computador que estavam sobre a sua mesa. Darby estudou-os até à meia-noite, quando a biblioteca fechou as portas.

 

Ao meio-dia de quinta-feira, uma secretária entrou na úmida sala de conferências, no quinto andar do edifício Hoover, com um saco de papel gorduroso, cheio de sanduíches e rodelas de cebola. No centro da sala quadrada, em volta da mesa de mogno com vinte cadeiras, estavam os chefes das agências do FBI em todo o país. Tinham alargado o nó das gravatas e as mangas arregaçadas. Uma nuvem fina de fumaça envolvia o lustre barato um metro acima da mesa.

O diretor Voyles falava. Cansado e tenso, tirava baforadas do seu quarto charuto naquela manhã e andava devagar entre a tela na parede e a extremidade da mesa. Metade dos homens ouvia. A outra metade lia os resultados das autópsias, o exame de laboratório da corda de nylon, o memorando sobre Muncie e outros assuntos variados, resultados das primeiras investigações.

Diversas cópias dos relatórios, bastante concisos, estavam empilhadas na mesa.

O agente especial Eric East ouvia e ao mesmo tempo lia com atenção. Há dez anos no FBI, era um investigador brilhante. Seis horas antes fora escolhido por Voyles para chefiar a investigação. Os outros tinham sido escolhidos naquela manhã e essa reunião tinha por fim a organização da equipe. East ouvia o que já sabia. A investigação podia levar semanas, talvez meses. A não ser as balas - nove ao todo - a corda, a barra de aço usada como torniquete, não tinham nenhuma outra pista concreta. Os vizinhos, em Georgetown, não haviam testemunhado nada, nenhum tipo excepcionalmente suspeito fora visto no cinema Montrose. Nenhuma impressão digital. Nenhuma fibra. Nada. Só um talento notável pode matar com tanta limpeza e só muito dinheiro pode pagar esse talento. Voyles não tinha muita esperança de encontrar os assassinos.

Precisavam se concentrar nos autores.

Voyles falava e soltava baforadas de fumaça.

- Há um memorando na mesa, sobre um tal Nelson Muncie, um bilionário de Jacksonville, Florida, que, segundo dizem, já tinha feito várias ameaças a Rosenberg. As autoridades da Florida estão convencidas de que Muncie pagou muito bem para mandar matar o violador e o seu advogado. O relatório explica isso. Dois dos nossos homens procuraram o advogado de Muncie e foram recebidos com muita hostilidade. Muncie está fora do país e, segundo o advogado, não sabem quando voltará. Designei vinte homens para essa investigação.

Voyles reacendeu o charuto e olhou para um papel sobre a mesa.

- O número quatro é um grupo chamado Resistência Branca, pequeno, formado por comandos de meia idade, que mantemos sob vigilância há três anos. Vocês podem ler isso tudo no relatório. Na verdade, não encaixa muito como suspeito. Eles preferem atirar bombas incendiárias e queimar cruzes. Não são muito sofisticados. E o mais importante, não têm muito dinheiro. Duvido que possam contratar assassinos profissionais deste gabarito. Mesmo assim, designei vinte homens.

East desembrulhou um sanduíche, cheirou-o e perdeu o apetite. As rodelas de cebola estavam frias. Continuou a ouvir e a tomar notas. O número seis da lista era um pouco diferente.

Um psicopata chamado Clinton Lane, que havia declarado guerra aos homossexuais. O seu único filho abandonara a fazenda, onde morava com a família, em Iowa, para viver na comunidade gay de São Francisco e tinha acabado por morrer de AIDS. Lane teve um colapso nervoso e colocou fogo no escritório da União Gay, em Des Moines. Preso e condenado há três anos, fugiu da prisão em 1989 e nunca mais foi encontrado. Segundo o memorando, Lane criou uma extensa operação de tráfico de cocaína e ganhou milhões. Passou a usar o dinheiro na sua guerra particular contra gays e lésbicas. Há cinco anos que o FBI tentava apanhá-lo mas, ao que parecia, a sede da sua organização ficava no México. Durante muitos anos Lane enviara cartas violentas de ameaças ao Congresso, ao Supremo Tribunal, ao presidente. Voyles não achava que Lane fosse um suspeito provável. Não passava de um louco, esquerdista, sem dúvida.

Mas o diretor não pretendia deixar pedra sobre pedra. Designou seis agentes.

Havia dez nomes na lista. Entre cinco e vinte agentes especiais foram designados para cada suspeito. Um líder foi escolhido para cada unidade. Deviam prestar contas diariamente a East, que entraria em contato com o diretor de manhã e à tarde. Cerca de cem agentes percorreriam as ruas à procura de pistas.

Voyles falou então acerca do sigilo. A imprensa ia segui-los como cães de caça, de modo que a investigação devia ser estritamente confidencial. Só ele, o diretor, falaria à imprensa e nunca teria muito para dizer.

Voyles sentou-se e K. O. Lewis começou um monólogo entediante sobre funerais, segurança e sobre o oferecimento do chefe Runyan para auxiliar na investigação. Eric East tomava café frio e examinava atentamente a lista.

Nos seus trinta e quatro anos de carreira, Abraham Rosenberg escrevera nada menos que mil e duzentos pareceres. A sua produtividade era motivo de constante espanto para os estudiosos de direito constitucional. Ocasionalmente ele ignorava os casos mais aborrecidos, como os que envolviam o antitruste e os apelos nos casos de impostos, mas se aparecesse em algum desses casos a menor insinuação de controvérsia, Rosenberg mergulhava nele de cabeça. Escreveu pareceres da maioria, concordâncias com a maioria, concordâncias com dissensões e muitas, muitas dissensões.

Geralmente o seu era o único parecer contrário em muitos casos. Todos os assuntos "quentes" dos últimos trinta e quatro anos tinham merecido o parecer de Rosenberg. Os acadêmicos e críticos adoravam-no. Publicavam livros e ensaios a respeito dele e do seu trabalho. Darby encontrou cinco volumes só com os seus pareceres, com notas editoriais e anotações. Um dos livros continha apenas os seus pareceres contrários.

Na quinta-feira, faltou às aulas e foi para a salinha de estudo no quinto andar da biblioteca.

Os impressos do computador estavam no chão, os livros de Rosenberg abertos, marcados e empilhados.

Havia um motivo para os crimes. Vingança e ódio só seriam aceitáveis no caso da morte de Rosenberg. Adicionando Jensen à equação, vingança e ódio deixavam de ter sentido. Sem dúvida, Jensen podia ser odiado, mas nunca provocara sentimentos e reações fortes como Yount e Marming.

Não encontrou nenhuma obra de crítica ao pensamento do juiz Glenn Jensen. Em seis anos, Jensen escrevera apenas vinte e oito pareceres da maioria, o índice mais baixo de produção do Supremo. Escrevera algumas dissensões e algumas concordâncias, mas era extremamente lento no seu trabalho. As vezes lúcido e claro, outras, confuso e patético.

Darby estudou os pareceres de Jensen. A ideologia dele mudava radicalmente de ano para ano. De modo geral, era consistente na proteção dos direitos dos criminosos, mas havia exceções suficientes para deixar estarrecido qualquer estudante de direito. Em sete tentativas, Jensen votara cinco vezes com os índios. Redigira três pareceres majoritários enfaticamente em defesa do meio ambiente. Era quase perfeito na proteção dos que protestavam contra os impostos.

Mas não encontrou nenhuma pista. Jensen era errático demais para ser levado a sério.

Comparado com os outros oito, era inofensivo.

Darby acabou de tomar o refrigerante morno e pôs de lado, provisoriamente, as notas de Jensen. O seu relógio estava na gaveta. Não fazia idéia das horas.

Callahan, sóbrio, finalmente dissera que queria jantar mais tarde, no Mr. B, no Quarter.

Precisava lhe telefonar.

Dick Mabry, o redator de discursos, o mágico das palavras, esperava que Coal e o presidente terminassem de ler a sua terceira minuta do discurso para os funerais do juiz Jensen.

Coal tinha rejeitado as duas primeiras e Mabry não sabia ainda exatamente o que eles queriam. Coal dava uma sugestão, o presidente dava outra, diferente. Naquela manhã Coal telefonara dizendo a Mabry que esquecesse o discurso porque o presidente não iria aos funerais.

Logo a seguir, o presidente tinha telefonado pedindo-lhe para preparar umas poucas palavras, porque Jensen era um amigo e mesmo sendo gay continuava sendo um amigo.

Mabry sabia que Jensen não era um amigo, mas um juiz do Supremo, recentemente assassinado, que ia ter um enterro bastante concorrido.

Mais tarde Coal tinha telefonado dizendo que não sabiam se o presidente iria à cerimônia, mas que ele podia preparar algumas palavras apesar disso. O gabinete de Mabry ficava no prédio do antigo executivo, ao lado da Casa Branca, e os funcionários tinham começado a fazer apostas.

Uns apostavam que o presidente iria aos funerais, outros garantiam que não iria. A proporção era de três contra um a favor da segunda hipótese.

- Muito melhor, Dick - disse Coal, dobrando o papel.

- Eu também gostei - disse o presidente.

Mabry já tinha notado anteriormente que o presidente esperava sempre pela opinião de Coal para dar a sua.

- Posso fazer outro - disse Mabry, levantando-se.

- Não, não - disse Coal. - Este está ótimo. Muito comovente. Eu gosto. – Acompanhou Mabry até a porta e fechou-a, assim que ele saiu.

- Que acha? - perguntou o presidente.

- Vamos cancelar. Estou com um mau pressentimento. Seria uma boa publicidade, mas estas belas palavras seriam ditas ao lado de um corpo encontrado numa casa porno-gay. Muito arriscado.

- Sim, acho que tem...

- Esta é a nossa crise, chefe. Os índices das sondagens continuam em alta e não quero arriscar nada agora.

- Devemos mandar alguém.

- É claro. Que tal o vice-presidente?

- Onde está ele?

- Está chegando de avião da Guatemala. Chega esta noite. - De repente, Coal sorriu. – Uma grande missão para o vice, sabe. Um funeral gay.

O presidente riu.

- Perfeito.

Coal ficou sério e começou a andar em frente da mesa.

- Um pequeno problema. Os funerais de Rosenberg, no sábado, a oito quarteirões daqui.

- Prefiro passar um dia no inferno.

- Eu sei. Mas a sua ausência seria muito notada.

- Posso ser internado no Walter Reed, com dores nas costas. Já antes deu resultado.

- Não, chefe. As eleições estão próximas. Precisa manter-se longe de hospitais.

O presidente apoiou as palmas das mãos na mesa e levantou-se.

- Que diabo, Fletcher! Não vou conseguir conter o riso durante a cerimônia. Noventa por cento dos americanos odiavam Rosenberg. Todos vão adorar se eu não comparecer.

- Protocolo, chefe. Bom gosto. Será crucificado pela imprensa se não for. Ouça, não vai ser difícil. Não precisa dizer uma palavra. É só entrar e sair, com uma cara triste, o tempo suficiente para ser visto pelas câmaras. Não vai levar mais de uma hora.

O presidente segurava o taco, atento à bola cor de laranja.

- Então, tenho de comparecer ao do Jensen.

- Exatamente. Mas esqueça o discurso.

Ele bateu com o taco na bola.

- Só estive com ele duas vezes, você sabe isso.

- Eu sei. Vamos comparecer discretamente às duas cerimônias, não dizemos nada e depois desaparecemos.

O presidente deu outra tacada.

- Acho que tem razão.

 

Thomas Callahan acordou tarde e sozinho. Na noite anterior fora para a cama sóbrio e sozinho. Há três dias que cancelava as suas aulas. Era sexta-feira e os funerais de Rosenberg seriam no dia seguinte. Em sinal de respeito pelo seu ídolo, não daria aulas enquanto o homem não estivesse finalmente em descanso.

Fez café e sentou-se na varanda, só de roupão. A temperatura era de 17 graus, a primeira sugestão de frio do início do Outono, e a Rua Dauphine, lá em baixo, vibrava, movimentada e cheia de energia. Cumprimentou com uma inclinação de cabeça a mulher anônima na varanda, do outro lado da rua. O Bourbon ficava a um quarteirão dali e os turistas já enchiam a rua com mapas e máquinas fotográficas. O nascer do dia passava despercebido no Quarter, mas às dez horas as ruas estreitas estavam repletas de caminhões de distribuição e de táxis.

Sempre que acordava tarde, o que acontecia com frequência, Callahan saboreava a sua liberdade. Os seus antigos colegas, formados como ele há vinte anos, estavam acorrentados a empregos de setenta e duas horas por semana, em gabinetes com ar condicionado. Callahan não agüentou mais de dois anos esse esquema.

Logo que se formou em Georgetown, foi contratado por uma firma monumental no distrito de Colúmbia que tinha duzentos advogados e passou seis meses confinado num cubículo, redigindo processos.

Depois passou para a Iinha de montagem, preenchendo formulários doze horas por dia, na expectativa de conseguir fazer dezesseis horas diárias. Se conseguisse condensar vinte anos nos dez anos seguintes, chegaria a sócio da firma, certamente exausto, aos trinta e cinco anos.

Callahan queria passar dos cinqüenta, por isso resolveu abandonar o tédio daquele trabalho. Fez mestrado de Direito e passou a lecionar. Dormia até tarde, trabalhava cinco horas por dia, escrevia um ou outro artigo e o resto do tempo era dedicado à vida. Sem família para sustentar, o salário de setenta mil por ano era mais do que suficiente para pagar a casa, o Porsche e a bebida. Se a morte chegasse cedo, seria por causa do uísque e não por excesso de trabalho.

Claro que isso implicava um certo sacrifício. Vários amigos da Faculdade eram sócios de grandes firmas, com papel de correspondência timbrado e renda de meio milhão de dólares.

Conviviam com os grandes da IBM, da Texaco e da State Fann. Compartilhavam o poder com senadores. Tinham gabinetes em Tóquio e em Londres. Mas Callahan não os invejava.

Um dos seus melhores amigos da Faculdade era Gavin Verheck, outro que tinha desistido da atividade particular e trabalhava agora para o governo. Começou na divisão de direitos civis, no Ministério da Justiça, e depois foi transferido para o FBI. Era agora conselheiro especial do diretor.

Na segunda-feira Callahan iria a Washington, D.C., para uma conferência de professores de Direito Constitucional.

Combinara com Verheck um jantar e muita bebida para aquela noite.

Precisava telefonar para saber se o programa estava ainda de pé. Sabia de cor o número do telefone. A chamada percorreu vários canais e depois de cinco minutos Gavin Verheck atendeu, dizendo:

- Seja rápido.

- É bom ouvir a sua voz - disse Callahan.

- Como vai isso, Thomas?

- São dez e meia. Não estou vestido. Estou aqui sentado no French Quarter, tomando café e olhando o movimento da Rua Dauphine. E você, o que está fazendo?

- Isso é que é vida! Aqui são onze e meia e não saí do escritório desde que os corpos foram encontrados, na quarta-feira.

- Isso é repulsivo, Gavin. Agora o outro vai indicar dois nazis para as vagas.

- Bem, é claro que na minha posição não posso comentar esse assunto. Mas desconfio que tenha razão.

- Desconfia uma ova. Já viu a pequena lista dos nomeados, não viu, Gavin? Já estão investigando todos eles, não estão? Ora, vamos Gavin, quem está na lista? Não digo a ninguém.

- Nem eu, Thomas. Mas posso garantir que o seu nome não está entre os poucos.

- Fico desiludido.

- Como vai o carrão?

- Que carrão?

- Ora, deixe disso, Thomas.

- O carrão. É lindo, brilhante, macio e delicado...

- Continue. Quem os matou, Gavin? Tenho o direito de saber. Pago impostos e tenho direito de saber quem os matou.

- Como é que ela se chama?

- Darby. Quem os matou e por quê?

- Você sempre soube escolher nomes, Thomas. Estou lembrando-me das mulheres maravilhosas que você rejeitou por não gostar dos nomes delas. Mulheres quentes, maravilhosas, mas com nomes inexpressivos. Darby. Tem uma bela aura erótica. Que nome! Quando vou conhecê-la?

- Não sei.

- Está morando com você?

- Não é da tua conta, diabos te levem. Gavin, ouça. Quem foi?

- Nenhum. Nada. Não lê os jornais? Não temos nenhum suspeito.

- Certamente já sabem o motivo...

- Muitos motivos. Um monte de ódio, Thomas. Uma combinação sinistra, não acha? Jensen é mais difícil. O diretor mandou investigar casos pendentes e decisões recentes, padrões das votações, essa estupidez toda.

- Formidável, Gavin. Todos os estudantes de Direito Constitucional do país andam brincando de detetives.

- E você não?

- Não. Embarquei em uma ressaca quando soube dos crimes, mas agora estou sóbrio. Mas Darby já mergulhou na mesma investigação que vocês andam fazendo. Pôs-me de lado completamente.

- Darby. Que nome! De onde é ela?

- De Denver. O programa de segunda-feira está de pé?

- É possível. Voyles quer todo mundo trabalhando dia e noite até que os computadores nos digam quem são os culpados. Mas é minha intenção arranjar tempo para você.

- Obrigado. Espero um relatório completo, Gavin. Não apenas os boatos.

- Thomas, Thomas. Sempre à procura de informação. E eu, como sempre, sem nenhuma para dar.

- Você vai ficar bêbado e contar tudo, Gavin. É o que acontece sempre.

- Por que não trazes a Darby? Quantos anos tem ela? Dezenove?

- Vinte e quatro e não foi convidada. Mais tarde, talvez.

- Talvez. Tenho de ir. Vou me encontrar com o diretor dentro de meia-hora. A tensão é tão espessa por aqui que dá para lhe sentir o cheiro.

Callahan ligou para a biblioteca de Direito e perguntou se alguém tinha visto Darby. Não, ninguém.

Darby parou o carro no estacionamento quase vazio do tribunal federal, em Lafayette, e entrou no escritório do primeiro andar. Era meio-dia de sexta-feira, o tribunal não estava em sessão e os corredores estavam vazios. Parou no guichê e esperou. Uma funcionária, com cara de quem está atrasada para o almoço, veio até o guichê.

- Posso ajudá-la? - perguntou como perguntam em geral os funcionários públicos de baixa categoria, prontos para qualquer coisa, menos para ajudar.

Darby passou um papel pela janela do guichê.

- Eu gostaria de ver este dossiê.

A mulher leu rapidamente o nome escrito no papel e olhou para Darby.

- Por quê? - perguntou.

- Não sou obrigada a dar explicações. É um arquivo público, não é?

- Semipúblico.

Darby recolheu e dobrou o papel.

- Por acaso conhece a Lei da Liberdade de Informação?

- A senhora é advogada?

- Não preciso ser advogada para ver este dossiê.

A funcionária tirou um molho de chaves da gaveta debaixo do balcão. Inclinou a cabeça para o lado.

- Venha comigo.

A placa na porta dizia SALA DO JÚRI, mas lá dentro não havia cadeiras nem mesas, apenas arquivos e caixas encostadas às paredes. Darby examinou a sala. A funcionária apontou para uma parede.

- Está ali. Naquela parede. O resto é só outro tipo de lixo. O primeiro arquivo contém todos os arrazoados e as concordâncias. O resto é de escolha do júri, a apresentação de provas e julgamento.

- Quando foi o julgamento?

- No Verão passado. Demorou vários meses.

- Onde está a apelação?

- Ainda não foi apresentada. Acho que o prazo é até Novembro. A senhora é jornalista, ou coisa assim?

- Não.

- Ótimo. Então, como deve saber, estes são arquivos públicos. Mas o juiz do caso impôs certas restrições. Primeiro, preciso do seu nome e da hora da sua visita a esta sala. Segundo, nada pode ser retirado da sala. Terceiro, nada pode ser copiado antes da entrada da apelação. Quarto, qualquer coisa que usar deve voltar ao lugar original. Ordens do juiz.

Darby olhou para os arquivos encostados à parede.

- Por que não posso copiar nada?

- Pergunte ao meritíssimo, está bem? Agora, como é que se chama?

- Darby Shaw.

A funcionária anotou a informação numa prancheta pendurada atrás da porta.

- Quanto tempo vai demorar?

- Não sei. Três ou quatro horas.

- Fechamos às cinco. Procure-me no escritório, quando sair.

Fechou a porta com um sorriso sem humor.

Darby abriu uma gaveta e começou a examinar as pastas, tornando notas. O processo tinha sete anos, um queixoso e oito acusados ricos que haviam contratado e despedido nada menos que quinze firmas de advocacia do país inteiro. Grandes firmas, algumas com centenas de advogados e dezenas de escritórios diferentes. Sete anos de uma dispendiosa guerra na justiça e o resultado era ainda incerto. Um litígio extremamente amargo. O veredicto do julgamento era uma vitória apenas temporária dos acusados. No seu pedido de novo julgamento o queixoso alegava que o veredicto fora comprado ou obtido por meio de outra forma ilegal. Havia caixas repletas de moções e propostas. Acusações e contra-acusações. Pedidos de sanções e multas fluíam de um lado para o outro. Páginas e páginas de sessenta e sete declarações ajuramentadas com detalhes de mentiras e abusos da parte dos advogados de ambas as partes e dos seus clientes.

Um dos advogados estava morto. Outro tentara o suicídio, segundo um colega de turma de Darby que tinha trabalhado nos detalhes secundários do caso, por ocasião do julgamento. O colega dela fizera um estágio, nas férias de Verão, numa grande firma de Houston e não tivera acesso a nenhuma informação importante, mas tinha ouvido muitos comentários.

Darby sentou-se na cadeira móvel e olhou para os arquivos. Precisaria de cinco horas para encontrar tudo o que queria.

A publicidade não favoreceu o Montrose. A maioria dos freqüentadores usava óculos escuros à noite e entrava e saía rapidamente do cinema. Agora, com a morte de um juiz do Supremo Tribunal no balcão, o lugar ficou famoso e os curiosos passavam por ele o tempo todo, apontando e a tirando fotografias. A maior parte dos freqüentadores habituais procurou outro lugar.

Os mais corajosos entravam rapidamente, quando o movimento era menos intenso.

Ele parecia um freqüentador habitual quando entrou apressado e pagou o bilhete do lado de dentro da porta, sem olhar para o bilheteiro. Boné de beisebol, óculos muito escuros, jeans, cabelo curto e bem penteado, colete de couro. Um bom disfarce, mas não era um homossexual procurando não ser visto naquele lugar.

Meia noite. Ele subiu a escada para o balcão, sorrindo ao pensar em Jensen com o torniquete, no balcão do cinema. A porta estava trancada. Escolheu um lugar na seção do centro, no chão, longe dos outros espectadores.

Nunca tinha assistido a filmes de orgias homossexuais e depois daquela noite não pretendia assistir a mais nenhum. Era a terceira casa daquele tipo que visitava nos últimos noventa minutos. Não tirou os óculos e tentou não olhar para a tela. Mas era difícil e isso irritava-o.

Havia mais cinco pessoas no cinema. À sua direita, quatro filas acima, estava um casal de namorados, trocando beijos e carícias. Ali, se tivesse um taco de beisebol, ele os livraria daquela vida miserável. Ou um bom pedaço de corda de nylon.

Sofreu durante vinte minutos e ia levar a mão ao bolso quando sentiu que tocavam seu ombro. Um toque delicado. Procurou manter a calma.

- Posso sentar-me ao seu lado? - perguntou uma voz grossa e profunda.

- Não, e faça o favor de tirar a mão do meu ombro.

A mão foi retirada. Alguns segundos passaram e tudo indicava que o outro não ia insistir.

Finalmente, o homem afastou-se.

Para um homem que se opunha violentamente a qualquer tipo de pornografia, estar ali era uma tortura. Tinha vontade de vomitar. Olhou para trás, depois tirou cuidadosamente do bolso do colete uma caixinha negra, de doze por dez centímetros e seis de espessura. Com a caixa no chão, entre as pernas, tirou uma faca do bolso e fez uma pequena incisão no assento da poltrona.

Depois, olhando para os lados para se certificar de que não estava sendo observado, introduziu a caixa na abertura, ajeitando-a entre as molas de metal da poltrona antiga, girando-a devagar, até o interruptor e o tubo ficarem bem escondidos no assento da cadeira.

Respirou fundo. A caixa era obra de um profissional, um gênio lendário na fabricação de miniaturas de explosivos. Mesmo assim não tinha sido nada agradável transportar aquela coisa maldita no bolso do casaco, a poucos centímetros do coração e de outros órgãos vitais. E não era agradável estar agora sentado ao lado dela. Era a terceira que colocava nessa noite e faltava uma, destinada a um cinema de filmes pornográficos heterossexuais, antigos. Não via a hora de lá chegar e isso irritava-o. Olhou para os dois namorados, esquecidos do filme, cada vez mais excitados, e desejou que ainda estivessem ali quando a pequena caixa negra começasse a libertar gás e quando, trinta segundos depois, a catapulta de fogo reduzisse a cinzas tudo que estava entre a tela e a máquina das pipocas.

Gostaria de assistir a esse espetáculo. Mas pertencia a um grupo não-violento que desaprovava o assassinato indiscriminado de pessoas inocentes e/ou insignificantes. Até então só tinham perpetrado uns quantos assassinatos necessários. A especialidade dele era a destruição das estruturas usadas pelo inimigo. Escolhiam alvos fáceis: clínicas de aborto sem guardas armados, escritórios da ACLU desprovidos de segurança, casas pornográficas clandestinas.

Estavam com sorte. Nenhuma prisão nos últimos dezoito meses.

Meia noite e quarenta, hora de sair, andar rapidamente até o carro, a quatro quarteirões do cinema, apanhar a última caixa negra e percorrer mais seis quarteirões até ao cinema Pussycat, que fechava à uma e meia. O Pussycat era o décimo oitavo ou décimo nono da lista, não estava bem lembrado, mas sabia com certeza que, exatamente dentro de três horas e vinte minutos, a atividade dos cinemas pornográficos em Washington iria sofrer um golpe tremendo. Vinte e dois daqueles buracos iam receber caixinhas negras nessa noite e às quatro da manhã estariam vazios e seriam demolidos. Três cinemas que funcionavam a noite toda foram riscados da lista, porque o seu grupo não era violento.

Ajeitou os óculos escuros e olhou para a poltrona ao seu lado. A julgar pelos copos de plástico e caixas de pipocas no chão, o cinema só era varrido uma vez por semana. Ninguém ia notar a caixinha entre as molas da poltrona. Cuidadosamente ligou o interruptor e saiu do Montrose.

 

Eric East nunca tinha estado com o presidente, nem na Casa Branca. Também não conhecia Fletcher Coal, mas sabia que não ia gostar do homem.

Entrou na sala oval às sete horas da manhã de sábado, com o diretor Voyles e K. O. Lewis. Não houve sorrisos nem apertos de mão. East foi apresentado por Voyles. O presidente cumprimentou-o com uma leve inclinação de cabeça, sem se levantar. Coal estava lendo qualquer coisa.

Vinte cinemas pornográficos tinham sido incendiados na área do distrito de Colúmbia e muitos deles estavam ainda em chamas. Os três homens viram a fumaça pelo vidro traseiro da limusine, quando se dirigiam para a Casa Branca. Em um dos cinemas, o Angels, houve uma vítima, um empregado da limpeza que talvez não resistisse às queimaduras. Uma hora depois uma estação de rádio fora informada, por um telefonema anônimo, que o Exército Subterrâneo assumia a responsabilidade dos incêndios e prometia outros atentados do mesmo tipo, para comemorar a morte de Rosenberg.

O presidente foi o primeiro a falar. Parecia cansado, notou East. Sete horas da manhã era decerto cedo demais para ele.

- Quantos cinemas foram destruídos?

- Vinte, aqui - disse Voyles. - Dezessete em Baltimore e uns quinze em Atlanta. Ao que parece foi muito bem coordenado porque todas as explosões ocorreram às quatro da manhã.

Coal ergueu os olhos do memorando que estava lendo.

- Senhor diretor, acredita que foi o Exército Subterrâneo?

- Até agora, só eles assumiram a responsabilidade. Parece trabalho deles. Talvez seja. - Voyles falou sem olhar para Coal.

- Então, quando vão começar as prisões? - perguntou o presidente.

- Assim que tivermos um motivo provável, senhor presidente. Essa é a lei, o senhor compreende.

- Eu compreendo que esse grupo é o principal suspeito das mortes de Rosenberg e Jensen, que o FBI tem certeza de que foi autor do assassinato de um juiz no Texas e que é extremamente provável que tenha incendiado pelo menos cinqüenta e dois cinemas pornográficos esta noite. Mas não compreendo por que estão explodindo bombas e matando impunemente. Que diabo, senhor diretor, estamos sendo atacados por todos os lados.

O pescoço de Voyles ficou vermelho mas não disse nada. Desviou os olhos do olhar furioso do presidente. K. O. Lewis pigarreou.

- Sr. presidente, se me permite, não estamos convencidos que o Exército Subterrâneo tenha alguma coisa a ver com os assassinatos de Rosenberg e Jensen. Na verdade, não temos nenhuma prova. O exército é apenas um entre dezenas de suspeitos. Corno eu disse antes, os crimes foram executados com extrema habilidade e perfeição, muito bem organizados.

Extremamente profissionais.

Coal deu um passo à frente.

- O que está tentando dizer, Mr. Lewis, é que vocês não têm idéia de quem os matou e que talvez nunca venham a descobrir.

- Não, não é isso que estou dizendo. Vamos encontrá-los, mas vai levar algum tempo.

- Quanto tempo? - perguntou o presidente.

Era uma pergunta tola, sem resposta possível e East desprezou o presidente por isso.

- Meses - disse Lewis.

- Quantos meses?

- Muitos meses.

O presidente olhou para o teto e abanou a cabeça. Depois, evidentemente aborrecido, levantou-se e foi até à janela.

- Não posso acreditar que não haja nenhuma relação entre o que aconteceu na noite passada e os dois assassinatos. Não sei. Talvez eu esteja ficando paranóico.

Voyles e Lewis trocaram um olhar rápido e irônico. Paranóico, inseguro, idiota, completamente em órbita. Voyles podia citar muitos outros adjetivos apropriados.

O presidente continuou, olhando pensativamente pela janela.

- Acontece que fico nervoso quando andam assassinos à solta nas ruas e bombas explodindo por toda a parte. Não podem culpar-me por isso. Há mais de trinta anos que não matamos nenhum presidente.

- Oh, acho que está perfeitamente seguro, senhor presidente disse Voyles, com uma leve sugestão de ironia. - Os serviços secretos têm tudo sob controle.

- Ótimo. Então, por que será que tenho a impressão de estar em Beirute? - Falou quase num murmúrio, sem se afastar da janela.

Percebendo o constrangimento no ar, Coal pegou um memorando em cima da mesa. Com o papel na mão, voltou-se para Voyles e disse, com o tom de um professor dando aula.

- Esta é uma pequena lista de possíveis nomeados para o Supremo Tribunal. São oito nomes, com as respectivas biografias. Foi preparada pelo procurador-geral. Começamos com vinte nomes, depois o presidente, o general Horton e eu reduzimo-os a oito. Nenhum deles sabe que está sendo considerado para o cargo.

Voyles não olhou para Coal. O presidente voltou vagarosamente para a mesa e pegou uma cópia do memorando. Coal continuou.

- Alguns deles vão provocar muitas controvérsias e, se forem nomeados, teremos uma pequena guerra para conseguir a aprovação do Senado. Preferimos não começar a batalha agora.

Isto deve ser mantido em sigilo.

De repente, Voyles voltou-se furioso para Coal.

- Você não é idiota, Coal! Já fizemos isso antes e sabe que, assim que começarmos a investigar esses nomes, adeus sigilo. Você quer um levantamento completo de todo o passado de oito homens e espera que as pessoas envolvidas fiquem caladas? Isso não é possível.

Coal aproximou-se mais de Voyles. Os seus olhos eram duas brasas.

- Pois trate de rebentar o traseiro, se for preciso, para que esses nomes não sejam descobertos pela imprensa até a indicação oficial. Faça isso, senhor diretor. Impeça todas as fugas de informação e mantenha isso longe dos olhos e dos ouvidos da imprensa, compreendeu?

Voyles estava de pé, apontando para Coal.

- Ouça, seu cretino, se quer investigar esses nomes, investigue você mesmo. Não comece a dar-me essas ordens de escoteiro.

Lewis colocou-se entre os dois, o presidente continuou sentado e por um ou dois segundos ninguém disse nada. Coal pôs o memorando na mesa e deu dois passos para trás, olhando para o lado. Só então o presidente procurou acalmar os ânimos.

- Sente-se, Denton, sente-se.

Voyles obedeceu, olhando furioso para Coal. O presidente sorriu para Lewis e todos se sentaram.

- Estamos sob forte pressão - disse o presidente, compreensivo.

Lewis falou com calma.

- Vamos proceder com a investigação de rotina de todos esses nomes, senhor presidente, e tudo no maior sigilo. Entretanto, sabe perfeitamente que não podemos controlar todas as pessoas com quem temos de falar.

- Sim, Mr. Lewis, eu sei disso. Mas quero extrema cautela. Esses homens são jovens e vão mexer e remexer na Constituição, mesmo depois da minha morte. São conservadores convictos e a imprensa vai devorá-los vivos. Não podem ter nenhum defeito nem escândalos na família. Nada de drogas, nada de filhos ilegítimos, nem DIUs, nem atividades radicais no tempo de estudante, nada de divórcios. Compreende? Nada de surpresas.

- Sim, senhor presidente. Mas não podemos garantir sigilo total nas nossas investigações.

- Mesmo assim, tentem, está bem?

- Sim, senhor - Lewis entregou o memorando a Eric East.

- É tudo?-perguntou Voyles.

O presidente olhou para Coal, que estava perto da janela, ignorando todos os outros.

- Sim, Denton, é tudo. Gostaria que esses nomes fossem investigados dentro de dez dias. Quero agir rapidamente.

Voyles estava de pé.

- Terá o resultado dentro de dez dias.

Callahan bateu à porta do apartamento de Darby. Estava irritado, perturbado e pensando em tudo que queria dizer, mas achou melhor não começar uma discussão porque havia algo que desejava mais do que descarregar a sua irritação. Há quatro dias que Darby o evitava, fechada no seu gabinete de estudo da biblioteca, bancando a detetive. Não comparecera nas aulas e não respondera aos seus telefonemas, abandonando-o, por assim dizer, num momento de crise. Tinha certeza de que ela ia abrir a porta com um sorriso que o faria esquecer tudo isso.

Callahan tinha nas mãos uma garrafa de vinho e uma pizza do Mama Rosa. Eram mais de dez horas da noite de sábado. Bateu outra vez e olhou para os lados, para a fila de casas térreas e de dois andares. A corrente de segurança foi aberta e ele sorriu. Todo o seu ressentimento desapareceu.

- Quem é? - perguntou ela, sem soltar a corrente da porta.

- Thomas Callahan, sabe quem é? Estou diante da sua porta, implorando que me deixe entrar para nos divertirmos um pouco e sermos amigos outra vez.

A porta abriu-se e CalIahan entrou. Darby pegou a garrafa de vinho e beijou-o de leve, no rosto.

- Amigos? - perguntou ele.

- Sim, Thomas. Tenho estado muito ocupada.

Atravessaram a sala em desordem e foram para a cozinha. Sobre a mesa estavam o computador e muitos livros.

- Eu telefonei. Por que não me ligou?

- Estive fora - disse ela, tirando um saca-rolhas da gaveta. - Falei uma porção de vezes para o gravador.

- Está com vontade de discutir, Thomas?

Callahan olhou para as pernas nuas dela.

- Não. Juro que não estou zangado. De verdade. Por favor, perdoe-me se pareço irritado.

- Pare com isso.

- Quando podemos ir para a cama?

- Está com sono?

- Mais ou menos.

- Ora, Darby, deixe disso. Três noites!

- Cinco. A pizza é de quê? - Tirou a rolha da garrafa e dois copos de vinho. Callahan não tirava os olhos dela.

- Oh, uma daquelas especiais da noite de sábado, com tudo o que eles não querem jogar fora. Cauda de camarão, ovos, cabeça de peixe. Vinho barato também. Estou mal de massas e, como amanhã vou viajar, não quero gastar muito. Assim, uma vez que devo partir amanhã, pensei em passar por aqui e estar com você para não ser tentado por uma mulher qualquer com alguma coisa contagiosa. O que é que acha?

Darby olhava para a caixa da pizza.

- Parece de salsicha e pimenta.

- Mesmo assim, podemos ir para a cama?

- Talvez, mais tarde. Beba o seu vinho e vamos conversar. Há muito tempo que não temos uma boa conversa.

- Eu tive. Falei com o seu gravador a semana toda.

Foram para a sala, levando a garrafa e os copos. Darby pôs música. Sentaram-se no sofá.

- Vamos embriagar-nos - disse ele.

- Você é tão romântico.

- Tenho um pouco de romance para você.

- Está bêbado a uma semana.

- Não é verdade. Oitenta por cento da semana. E a culpa é sua, por andar me evitando.

- Thomas, o que é que está acontecendo com você?

- Estou abalado, tenso demais e preciso de companhia para limar as arestas da minha irritação. O que me diz?

- Vamos ficar só um pouquinho bêbados. - Tomou um gole de vinho e pôs a perna no colo dele. Callahan conteve a respiração, como se sentisse uma dor.

- A que horas sal o avião?

Callahan engoliu em seco.

- Uma e meia. Vôo direto até ao National. Devo inscrever-me às cinco horas e tenho um jantar às oito. Depois disso, talvez seja obrigado a vaguear pelas ruas à procura de amor.

Darby sorriu.

- Tudo bem. Tudo bem. Mais um minuto. Vamos conversar primeiro.

Callahan respirou, aliviado.

- Posso agüentar dez minutos de conversa, depois entro em coma.

- O que tem programado para segunda-feira?

- As habituais oito horas de debates sobre a Quinta Emenda, depois um Comitê vai propor o relatório da conferência, que não será aceito por ninguém. Mais debates na terça-feira, outro relatório, uma ou duas discussões, depois encerramos a reunião sem ter resolvido coisa alguma e voltamos para casa. Vou chegar tarde na terça-feira e gostaria de marcar encontro num bom restaurante. Depois podemos ir até minha casa para uma discussão intelectual e um pouco de sexo animal. Onde está a pizza?

- Na cozinha. Vou buscá-la.

Callahan acariciava as pernas dela.

- Não se mexa. Não tenho fome nenhuma.

- Por que vai a essas conferências?

- Porque sou membro, sou professor e, de certa forma, todos esperam que os professores percorram o país para reuniões com outros idiotas instruídos e adotem relatórios que ninguém lê.

Se eu não for, o diretor vai achar que não estou contribuindo para o meio acadêmico.

Darby encheu novamente de vinho os dois copos.

- Está tenso, Thomas.

- Eu sei. Foi uma semana difícil. Detesto imaginar um bando de homens das cavernas revendo a Constituição. Dentro de dez anos estaremos vivendo num estado policial. Não posso fazer nada, talvez por isso e recorra ao álcool.

Darby olhou para ele, bebendo o vinho devagar. A música era suave, a luz discreta.

- Estou ficando tonta - disse ela.

- Claro, é a sua dose. Um copo e meio e passou à história. Se fosse irlandesa, poderia beber a noite toda.

- O meu pai era meio escocês.

- Não é suficiente. - Callahan cruzou os pés sobre a mesa de centro, descontraído agora.

Acariciou os tornozelos dela.

- Posso pintar as suas unhas dos pés?

Darby não respondeu. Callahan tinha um fetiche pelos dedos dos pés e insistia em pintar as unhas com verniz vermelho vivo, pelo menos duas vezes por mês. Tinham visto isso em Bull Durham e, embora não fosse tão meticuloso e sóbrio como Kevin Kostner, Darby acabou por gostar da intimidade daquela prática.

- Nada de dedos de pés esta noite? - perguntou ele.

- Talvez mais tarde. Parece cansado.

- Estou começando a descontrair, mas repleto de eletricidade viril, e não vai conseguir evitar-me, dizendo que pareço cansado.

- Beba mais um pouco de vinho.

Callahan bebeu um pouco de vinho e afundou mais o corpo no sofá.

- Então, Miss Shaw, quem foi?

- Profissionais. Não leu os jornais?

- É claro. Mas quem está por trás dos profissionais?

- Não sei. Depois da noite passada, parece que a escolha unânime é o Exército

Subterrâneo.

- Mas não está convencida disso.

- Não. Não houve nenhuma prisão. Não estou convencida.

- E tem um suspeito secreto, desconhecido do resto do país.

- Tinha um, mas agora não estou tão certa disso. Passei três dias investigando essa possibilidade, cheguei a fazer um resumo claro e limpo no meu computador e passei para a impressora o rascunho de um breve dossiê, no qual já não acredito.

Callahan olhou para ela.

- Esta dizendo que faltou às aulas durante três dias, me ignorou por completo, trabalhou sem descanso, transformada em Sherlock Holmes, e jogou tudo fora?

- Está ali em cima da mesa.

- Não acredito. Enquanto eu desesperava sozinho uma semana inteira, pensava que era por uma boa causa. Sabia que o meu sofrimento era para o bem do país porque você ia pegar na batata quente e dizer-me hoje à noite, ou talvez amanhã, quem são os assassinatos.

- Não é possível, pelo menos não com investigação de documentos legais. Não existe um padrão, nenhuma pista comum para os assassinatos. Eu quase queimei os computadores da Faculdade.

- Ah! Eu bem dizia. Está esquecendo, minha querida, que sou um gênio em Direito constitucional e percebi imediatamente que Rosenberg e Jensen não tinham nada em comum, a não ser as togas negras e as ameaças de morte. Os nazis, arianos, a Klan ou a Máfia, ou outro grupo qualquer matou-os porque Rosenberg era Rosenberg e porque Jensen era o alvo mais fácil e, de certo modo, um constrangimento.

- Muito bem, por que não telefona para o FBI e compartilha com ele as suas conclusões?

Tenho certeza de que estão sentados bem perto do telefone.

- Não fique zangada. Desculpe. Por favor, perdoe-me.

- Você é um idiota, Thomas.

- Sou, mas você me ama, não ama?

- Não sei.

- Apesar disso, podemos ir para a cama? Você prometeu.

- Veremos.

Callahan pôs o copo na mesa e atacou-a.

- Ouça, minha querida. Vou ler o seu dossiê. Depois falaremos sobre ele, está bem? Mas não tenho as idéias muito claras neste momento e não vou conseguir agüentar-me muito antes de convidá-la para a cama.

- Esqueça o meu dossiê.

- Por favor, que chatice. Por favor, Darby.

Darby puxou-o pelo pescoço e beijaram-se, um beijo ardente, molhado, quase violento.

 

O policial apertou o botão ao lado do nome de Gary Grantham durante vinte segundos.

Depois, uma pausa breve. Mais vinte segundos. Pausa. Vinte segundos. Pausa. Vinte segundos. O policial sorriu. Grantham era uma ave noturna, provavelmente não tinha dormido mais de duas ou três horas, e agora a campainha insistente vibrava no seu corredor. Apertou o botão outra vez e olhou para a sua viatura estacionada em local proibido, sob a luz da rua. Era quase madrugada de domingo e a rua estava deserta. Vinte segundos. Pausa. Vinte segundos. Talvez Grantham estivesse morto. Ou talvez em coma alcoólico, resultado da noite anterior na cidade. Talvez estivesse dormindo com a mulher de alguém e não tivesse a menor intenção de abrir a porta.

Pausa. Vinte segundos. O intercomunicador estalou.

- Quem é?

- Polícia! - respondeu o policial, que era negro e enfatizava o “po” de polícia, só por brincadeira.

- Que é que quer? - perguntou Grantham.

- Talvez eu tenha um mandado de busca. - O policial continha-se para não dar uma gargalhada.

Com voz mais suave, quase ofendida, Grantham perguntou:

- É você, Cleve?

- O próprio.

- Que horas são, Cleve?

- Quase cinco e meia.

- Deve ser alguma coisa muito importante.

- Não sei. Sarge não disse. Só me mandou acordá-lo porque quer conversar um pouco.

- Por que é que ele quer conversar sempre antes do nascer do sol?

- Pergunta idiota, Grantham.

Uma pequena pausa.

- Pois, acho que sim. Suponho que ele quer conversar agora mesmo.

- Não. Tem trinta minutos. Ele disse para estar lá às seis.

- Lá aonde?

- Há um pequeno café na Rua Catorze, perto do Playground Trinidad. É escuro e seguro e Sarge gosta disso.

- Como é que ele descobre esses lugares?

- Quer saber uma coisa, para um repórter você faz as perguntas mais cretinas que já ouvi.

O nome do lugar é Glenda's e sugiro que se mexa, se não vai chegar atrasado.

- Vai estar lá?

- Vou aparecer, só para ver se está tudo bem com você.

- Pensei que tinha dito que era seguro.

- É seguro, para aquela parte da cidade. Acha que consegue encontrar?

- Consigo. Estarei lá assim que for possível.

- Então bom dia, Grantham.

Sarge era velho, muito negro, com cabelos brancos e brilhantes, espessos e eriçados.

Usava óculos escuros com lentes grossas sempre que começava a acordar e muitos dos seus companheiros de trabalho na ala oeste da Casa Branca pensavam que ele era quase cego. Tinha o hábito de inclinar a cabeça para o lado e sorrir, como Ray Charles. Às vezes ia de encontro a portas e mesas quando esvaziava caixotes de lixo e limpava o pó dos móveis. O andar era vagaroso e inseguro, como se contasse os passos. Trabalhava pacientemente, sempre com um sorriso, sempre com uma palavra gentil para quem se dignasse falar com ele. De um modo geral era ignorado e aceito como qualquer empregado de limpeza, velho, negro, amistoso e parcialmente incapacitado.

Sarge conseguia enxergar além dos corredores. O seu território era a ala oeste, onde trabalhava há trinta anos. Limpava e ouvia. Limpava e via. Prestava uma atenção especial às pessoas importantes, quase sempre ocupadas demais para se preocuparem com o que diziam, especialmente na frente do pobre Sarge.

Sabia quais as portas que ficavam abertas, quais as paredes que eram finas e quais as correntes de ar que transmitiam sons. Era capaz de desaparecer num instante e de reaparecer num canto escuro onde não era visível para as pessoas extremamente importantes. Guardava quase tudo o que ouvia para si mesmo. Porém, uma vez por outra, captava uma informação que se encaixava em outra e Sarge então dava um telefonema. Era muito cuidadoso.

Faltavam-lhe três anos para a aposentadoria e Sarge não se queria arriscar. Ninguém alguma vez suspeitou que Sarge passava informações à imprensa. Havia muitos tagarelas dentro da Casa Branca e acusavam-se uns aos outros quando havia uma fuga de informação. Na verdade, era hilariante. Sarge falava com Grantham, do Post, e esperava ansiosamente a reportagem.

Depois ouvia a gritaria e as lamúrias quando as cabeças começavam a rolar. Sarge era uma fonte impecável e só falava com Grantham. O filho, Cleve, o policial, arranjava os encontros, sempre a horas estranhas, em lugares escuros e pouco freqüentados.

Sarge usava os óculos escuros. Grantham, também de óculos escuros, usava sempre um chapéu ou um boné. Geralmente Cleve sentava-se com eles e ficava observando o movimento.

Grantham chegou ao Glenda's às seis e cinco e foi direito ao fundo do café. Havia mais três fregueses. Glenda estava fritando ovos na grelha ao lado da caixa registradora. Cleve sentou-se na banqueta do balcão e ficou observando o trabalho dela. Os dois trocaram um aperto de mão. O café de Grantham já estava na xícara.

- Desculpe o atraso - disse ele.

- Não tem problema, meu amigo. É bom vê-lo. - Sarge tinha uma voz áspera, com uma sonoridade teimosa. Mas ninguém estava ouvindo.

Grantham tomou um grande gole de café.

- Semana agitada na Casa Branca.

- Pode crer. Muito agitada. Muita felicidade.

- Não me diga. - Grantham não podia tomar notas durante esses encontros. Seria óbvio demais, dissera Sarge quando determinou as normas básicas.

- Isso mesmo. O presidente e sus muxoxos ficaram extasiados com a morte do juiz Rosenberg. Foi uma grande felicidade para eles.

- E o juiz Jensen?

- Bem, como deve ter notado, o presidente compareceu na cerimônia mas não disse nada.

Tinha pensado em fazer um discurso, mas desistiu porque iria dizer coisas bonitas sobre um tipo gay.

- Quem escreveu o discurso?

- Os redatores de discursos. Especialmente Mabry. Trabalhou nele o dia inteiro, na quinta-feira, e depois o presidente desistiu.

- Ele compareceu também nos funerais de Rosenberg.

- Sim, compareceu. Mas não queria ir. Disse que preferia passar um dia no inferno. Mas no fim, acovardou-se e foi. Ele está muito feliz com a morte de Rosenberg. Na quarta-feira o ambiente era quase festivo. O destino deu ao presidente um trunfo maravilhoso. Ele agora pode reestruturar o Supremo e está muito entusiasmado com isso.

- Grantham ouvia atentamente. Sarge continuou: - Há uma lista pequena de nomes indicados. A lista original tinha vinte e tantos, mas acabou só com oito.

- Quem fez a redução?

- Quem é que você acha? O presidente e Fletcher Coal. Estão apavorados com a possibilidade de fugas de informação sobre essa lista. Evidentemente só contém juizes jovens e conservadores, quase todos obscuros.

- Algum nome?

- Só dois. Um tal Perece, de ldaho, e um MacLawrence, de Vermont. São os únicos que eu sei. Acho que ambos são juizes federais. Nada mais sobre esse assunto.

- E sobre a investigação?

- Não ouvi multa coisa, mas como sempre, mantenho os meus ouvidos abertos. Parece que ainda não conseguiram quase nada.

- Mais alguma coisa?

- Não. Quando é que publica Isto?

- De manhã.

-Vai ser divertido.

- Obrigado, Sarge.

O sol apareceu e o café ficou mais barulhento. Cleve caminhou lentamente do balcão até a mesa e sentou-se ao lado do pai.

- Já terminaram?

- Já - disse Sarge.

Cleve olhou em volta.

- Acho que temos de ir embora. Grantham vai primeiro, eu saio depois e o pai, aqui, pode ficar o tempo que quiser.

- Que amabilidade a sua - disse Sarge.

- Obrigado, amigos - disse Grantham, encaminhando-se para a porta.

 

Verheck estava atrasado como sempre. Nos vinte e três anos daquela amizade, nunca tinha chegado à hora marcada, e nunca era caso de um ou dois minutos. Não tinha a noção do tempo e não se preocupava com isso. Usava relógio mas nunca olhava para ele. Atrasado, para Verheck, significava pelo menos uma hora, às vezes duas, especialmente quando o encontro era com um amigo que sabia que ele se ia atrasar e que desculparia a falta.

Por isso, Callahan ficou sentado no bar durante uma hora, o que para ele era ótimo. Depois de oito horas de debate acadêmico, sentia um profundo desprezo pela Constituição e por todos os que lecionavam Direito constitucional. Precisava de um Chivas nas veias e depois de dois duplos, só com gelo, começou a sentir-se melhor. Via a sua imagem no espelho, atrás das filas de garrafas, no bar, e ao mesmo tempo controlava a porta, à espera de Gavin Verheck. Não era de admirar que o amigo não tivesse conseguido se adaptar a um escritório de advocacia, onde a vida dependia do relógio.

Quando foi servida a terceira dose dupla, uma hora e onze minutos depois das sete, Verheck entrou no bar e pediu uma Moosehead.

- Desculpe o atraso - disse ele, estendendo a mão. - Eu sabia que ia apreciar ficar um pouco a sós com o seu Chivas.

- Você parece cansado - disse Callahan, olhando atentamente para o amigo. Velho e cansado. A idade não estava sendo simpática com Verheck e ele estava mais gordo. A testa tinha mais uma polegada do que da última vez que o vira e a palidez do rosto acentuava as olheiras escuras. - Quanto está pesando?

- Isso não é da sua conta. Qual é a nossa mesa?- disse ele, bebendo a cerveja.

- Está reservada para as oito e meia. Calculei que você se atrasaria pelo menos uns noventa minutos.

- Então cheguei muito cedo.

- Digamos que sim, Veio diretamente do trabalho?

- Eu vivo no escritório, agora. O diretor quer nada menos que cem horas por semana até descobrirmos alguma coisa. Eu disse à minha mulher que devo estar em casa no Natal.

- Como está ela?

- Muito bem. Uma senhora muito paciente. Damo-nos muito melhor quando estou vivendo no escritório.

Era a terceira mulher em dezessete anos.

- Gostaria de conhecê-la.

- Não, não gostaria. Eu casei com as duas primeiras por sexo e elas gostaram tanto que resolveram compartilhar com outros. Casei com esta por dinheiro e ela não é nenhuma beleza. Não ia gostar. - Esvaziou a garrafa de cerveja.

- Duvido que consiga esperar até que ela morra. Quantos anos tem?

- Não pergunte. Eu a amo de verdade, sabe. Estou falando sério. Mas ao fim de dois anos começo a ver que não temos nada em comum a não ser um profundo interesse no mercado de ações. - Olhou para o homem do bar. - Outra cerveja, por favor.

Callahan riu e tomou um gole de Chivas.

- Quanto vale ela?

- Não tanto quanto eu pensava. Na verdade, nem tenho certeza. Uns cinco milhões mais ou menos. Limpou completamente os maridos um e dois e acho que me escolheu pela aventura de se casar com um cidadão comum. Isso e o sexo, que é fantástico, disse ela. Todas dizem isso, você sabe.

- Você sempre escolheu perdedoras, Gavin, desde a faculdade. Sente-se atraído por mulheres neuróticas e deprimidas.

- E elas sentem atração por mim. - Bebeu metade da garrafa de cerveja. - Por que é que comemos sempre aqui?

- Não sei. É mais ou menos tradicional. Traz lembranças agradáveis da Faculdade.

- Nós detestávamos a Faculdade, Thomas. Todo mundo detesta a Faculdade de Direito.

Todo mundo odeia advogados.

- Está num estado de espírito ótimo.

- Desculpe. Dormi seis horas apenas desde que os corpos foram encontrados. O diretor berra comigo pelo menos cinco vezes por dia. Eu berro com todos os meus subordinados. É um campo de batalha.

- Beba a cerveja, homem. A nossa mesa está pronta. Vamos beber, comer e conversar e aproveitar estas poucas horas juntos.

- Gosto mais de você do que da minha mulher, Thomas. Sabia?

- Não é grande coisa.

- Tem razão.

O maitre conduziu-os a uma pequena mesa no canto, a mesa que eles pediam sempre.

Callahan pediu outra rodada de bebida e explicou que não tinham pressa de jantar.

- Você viu aquela porcaria no Post? - perguntou Verheck.

- Vi. De onde veio a fuga de informação?

- Sabe-se lá. O diretor recebeu a lista no sábado de manhã, das mãos do presidente, com recomendações explícitas de segredo. Não mostrou a lista a ninguém e esta manhã o jornal cita os nomes de Perece e MacLawrence. Voyles ficou louco quando viu o jornal e logo a seguir o presidente telefonou. Voyles foi correndo para Casa Branca e tiveram uma grandessíssima discussão. Voyles tentou atirar-se em Fletcher Coal mas foi agarrado por Lewis. Muito deselegante.

Callahan ouvia atentamente.

- Isto é ótimo.

- Bem, estou contando essa parte porque, mais tarde, depois de mais alguns copos, você está esperando que eu diga quem mais está na lista mas não vou dizer. Estou tentando ser um bom amigo, Thomas.

- Continue assim.

- De qualquer modo, a fuga de informação não pode ter partido de nós. Impossível. Foi na Casa Branca. Aquele lugar está cheio de gente que odeia Coal e passa informações como quem muda de camisa.

- Provavelmente foi Coal.

- Talvez. Ele é um filho da mãe muito astuto e uma das teorias é a de que deixou escapar os nomes de Perece e MacLawrence para assustar todo mundo e depois anunciar dois nomes aparentemente mais moderados. Parece que ele é capaz disso.

- Nunca ouvi falar de Perece ou MacLawrence.

- Entre para o clube. São ambos muito jovens, quarenta e poucos anos, com pouquíssima experiência como juizes. Não os investigamos ainda, mas parecem conservadores radicais.

- E o resto da lista?

- Que rapidez! Tomei apenas duas cervejas e já passou ao ataque.

As bebidas foram servidas.

- Quero um pouco daqueles cogumelos recheados com siri - disse Verheck ao empregado.

- Só para acompanhar a bebida. Estou faminto.

Callahan estendeu o copo vazio.

- Traga-me outro destes.

- Não pergunte novamente, Thomas. Talvez tenha de me levar nas costas daqui a três horas, mas não vou dizer nada. Sabe disso. Digamos que Perece e MacLawrence parecem refletir o resto da lista.

- Todos desconhecidos?

- Basicamente, sim.

Callahan bebeu um gole do uísque e abanou a cabeça. Verheck tirou o casaco e desapertou a gravata.

- Vamos falar de mulheres.

- Não.

- Que idade é que ela tem?

- Vinte e quatro, mas muito madura.

- Você podia ser pai dela.

- Talvez seja. Sabe-se lá!

- De onde é ela?

- De Denver. Já te disse isso.

- Adoro garotas do Oeste. São tão independentes e despretensiosas e costumam usar jeans e têm pernas altas. Acho que vou casar com uma delas. Ela tem dinheiro?

- Dá para viver.

- Aposto que sim. Tem alguma fotografia?

- Não. Ela não é minha neta, nem o meu poodle.

- Por que não trouxe uma fotografia?

-Vou pedir para te mandar uma. Por que acha isso tão divertido?

- É hilariante. O grande Thomas Callahan, ele, o das mulheres descartáveis, está completamente apaixonado.

- Nada disso.

- Deve ser um recorde. Quanto tempo? Nove, dez meses? Na verdade, já estão juntos há quase um ano, certo?

- Oito meses e três semanas, mas não diga a ninguém, Gavin. Não é fácil para mim.

- O teu segredo está seguro. Mas quero saber os detalhes. Quanto mede?

- Um metro e setenta e dois, cinqüenta e um quilos, pernas altas, jeans justos,

independente, despretensiosa, a típica garota do Oeste.

- Preciso encontrar uma para mim. Vai casar com ela?

- Claro que não! Acabe a sua bebida.

- Você está, quero dizer, monógamo agora?

- E você?

- É claro que não. Nunca estive. Mas não estamos falando de mim, Thomas, estamos falando deste Peter Pan aqui, Callahan, o sabido, o homem com a versão do mês da mulher mais bela do mundo. Diga, Thomas, e não minta para o seu melhor amigo, olhe bem nos meus olhos e diga-me se sucumbiu finalmente à monogamia.

Verheck estava inclinado sobre a mesa, atento, com um sorriso idiota.

- Não fale tão alto - disse Callahan, olhando em volta.

- Responda.

- dê os outros nomes da lista que eu respondo.

Verheck recuou, recostando-se na cadeira.

- Bela tentativa. Acho que a resposta é sim. Acho que está apaixonado por essa garota, mas é covarde demais para admitir. Acho que ela te apanhou direitinho, companheiro.

- Tudo bem, tem razão. Sentes-se melhor agora?

- Claro, muito melhor. Quando posso conhecê-la?

- Quando posso conhecer a sua mulher?

- Está confundindo as coisas, Thomas. Há uma diferença básica nisso tudo. Você não quer conhecer minha mulher, mas eu quero conhecer a Darby. Tem de entender isso. Garanto que elas são completamente diferentes.

Callahan sorriu e tomou um gole de Chivas. Verheck descontraiu-se na cadeira, cruzando as pernas. Levou a garrafa verde aos lábios.

- Você está tenso.

- Desculpe. Estou bebendo o mais depressa possível. Os cogumelos foram servidos ainda fervendo, em tigelas de barro. Verheck enfiou dois na boca e mastigou avidamente. Callahan observava. O Chivas tinha-lhe feito perder o apetite e resolveu esperar mais alguns minutos. De qualquer modo, preferia álcool à comida.

Quatro árabes barulhentos ocuparam a mesa ao lado deles, falando e rindo sem parar.

Todos quatro pediram Jack Daniel's.

- Quem os matou, Gavin?

Gavin mastigou durante um minuto, depois engoliu.

- Se eu soubesse, não diria. Mas juro que não sei. É frustrante. Os assassinos desapareceram sem deixar nenhuma pista. Foi tudo meticulosamente planejado e perfeitamente executado. Nem uma pista.

- Qual a razão da escolha daquelas vítimas?

Pôs outro cogumelo na boca.

- Muito simples. Tão simples que pode ser facilmente ignorada. Eram dois alvos naturais.

Rosenberg não tinha sistema de segurança em casa. Qualquer ladrãozinho de galinha podia entrar e sair. E o pobre Jensen estava sempre naqueles lugares à meia-noite. Estavam ambos expostos.

No momento exato em que morreram, os outros sete juízes do Supremo tinham agentes do FBI em suas casas. Por isso foram escolhidos. Dois idiotas.

- Então, e quem fez a escolha?

- Alguém com muito dinheiro. Os assassinos são profissionais e provavelmente saíram do país poucas horas depois dos crimes. Pensamos que deviam ser três, talvez mais. A carnificina na casa de Rosenberg pode ter sido feita por um único homem. Calculamos que pelo menos dois trataram de Jensen. Um, ou mais, tomando conta, enquanto o assassino fazia o seu trabalho.

Afinal, era um lugarzinho imundo e pequeno mas aberto ao público e por isso bastante arriscado. Mas eles são bons, muito bons.

- Eu li uma teoria sobre um único assassino.

- Esqueça. Seria impossível um único homem matar os dois. Impossível.

- Quanto é que você acha que esses assassinos cobram?

- Milhões. E foi preciso muito dinheiro para planejar tudo.

- E vocês não têm nenhuma idéia?

- Ouça, Thomas. Não estou envolvido na investigação, portanto, tem de perguntar aos outros tipos. Tenho certeza de que sabem muito mais do que eu. Não passo de um insignificante advogado do governo.

- Eu sei que trata o presidente do Supremo pelo primeiro nome.

- Ele telefona ocasionalmente. Isto é muito chato. Voltemos às mulheres. Detesto conversas de advogado.

-Tem falado com ele ultimamente?

- À pesca, Thomas, sempre à pesca. Sim, conversamos rapidamente esta manhã. Ele pôs os vinte e sete assistentes investigando os tribunais federais, de alto a baixo, à procura de pistas. É inútil e foi o que eu lhe disse. Todos os casos que chegam ao Supremo têm pelo menos duas partes e cada parte envolvida certamente seria beneficiada se um, dois ou três juízes desaparecessem e fossem substituídos por um, dois ou três mais simpáticos à sua causa. Existem milhares de recursos que podem chegar ao Supremo e não se pode escolher um e dizer: - É este!

Este foi a causa dos assassinatos. É estupidez.

- Que disse ele?

- É claro que concordou com minha brilhante análise. Acho que telefonou depois de ter lido a reportagem do Post, para ver se podia obter alguma informação. Dá para acreditar?

O garçom andava em volta da mesa com ar preocupado. Verheck olhou rapidamente para cardápio, fechou-o e entregou-o ao garçom.

- Peixe grelhado, queijo bleu, sem legumes.

- Eu fico com os cogumelos - disse Callahan.

O garçom afastou-se. Callahan tirou do bolso um envelope grosso e colocou-o na mesa, ao lado da garrafa vazia de cerveja.

- Dá uma olhada nisso, quando tiver tempo.

- O que é?

- Uma espécie de dossiê.

- Detesto dossiês, Thomas. Na verdade, detesto a lei e os advogados e, à exceção de você, detesto professores de Direito.

- Foi a Darby que escreveu esse.

- Vou lê-lo esta noite. Qual é o assunto?

- Acho que já te disse. Ela é brilhante, inteligente e uma estudante muito agressiva. Escreve melhor do que a maioria dos advogados. A paixão dela, além de mim, é claro, é o Direito Constitucional.

- Pobrezinha.

- Durante quatro dias, na semana passada, ignorou-me por completo, bem como ao resto do mundo, e criou uma teoria, que agora rejeita. Mas apesar disso leia. É fascinante.

- De quem é que ela suspeita?

Os árabes explodiram em gargalhadas dando palmadas nas costas uns dos outros e entornando uísque por todo lado. Ambos os observaram até se acalmarem.

- Você não detesta um bando de bêbados? - disse Verheck.

- É nojento.

Verheck guardou o envelope no bolso do casaco que estava nas costas da cadeira.

- Qual é a teoria dela?

- Um bocado diferente. Mas leia. Quero dizer, não pode fazer mal nenhum, não é? Vocês precisam de ajuda.

- Vou ler só porque foi escrito por ela. Como é que ela é na cama

- Como é que é a sua mulher?

- Rica. No chuveiro, na cozinha, no supermercado. Ela é rica em tudo que faz.

- Não pode durar.

- Ela vai pedir o divórcio no final do ano. Talvez eu fique com a casa na cidade e alguns trocados.

- Não têm contrato pré-nupcial?

- Sim, temos, mas não se esqueça que sou advogado. O contrato tem mais buracos do que uma lei de reforma fiscal. Foi um amigo meu que o preparou. Você não adora a advocacia?

- Falemos de outra coisa.

- De mulheres?

- Tenho uma idéia. Quer conhecer a garota, não é?

- Estamos falando da Darby?

- Sim, da Darby.

- Adoraria conhecê-la.

- Vamos a St. Thomas no feriado do Dia de Ação de Graças. Por que não aparece por lá?

- Tenho de levar a minha mulher?

- Não. Ela não é convidada.

- A Darby vai andar pela praia com um fio dental? Assim, como um espetáculo só para nós dois?

- Provavelmente.

- Formidável! Mal posso acreditar.

- Podes alugar um apartamento ao lado do nosso e vamos nos divertir a valer. 

- Lindo, lindo. Simplesmente lindo.

 

O telefone tocou quatro vezes, a secretária atendeu, a voz gravada ecoou pelo apartamento, depois o bip, depois nenhuma mensagem. Tocou outra vez, a mesma coisa, nenhuma mensagem. Um minuto depois voltou a tocar e Gray Grantham atendeu, sem se levantar da cama. Sentou-se encostado no travesseiro, tentando localizar os olhos.

- Quem fala? - perguntou com voz de sofrimento. Nenhuma luz vinha da janela.

A voz no outro lado era baixa e tímida.

- É Gray Grantham, do Washington Post?

- Exatamente. Quem fala?

- Não posso dizer o meu nome.

A névoa dissipou-se e ele olhou para o relógio. Quatro e quarenta e cinco.

- Tudo bem, o nome não tem importância. Por que está telefonando?

- Li a sua reportagem ontem sobre a Casa Branca e os Indicados.

- Ótimo. Você e mais um milhão de pessoas. Por que me telefona a esta hora imprópria?

- Desculpe. Estou a caminho do trabalho e parei num telefone público. Não posso telefonar de casa, nem do escritório.

Era uma voz clara, articulada e parecia inteligente.

- Que tipo de escritório?

- Sou advogado.

Grande. Washington tinha mais de meio milhão de advogados.

- Particular ou do governo? Uma breve hesitação.

- Bem, prefiro não dizer.

- Tudo bem. Escute, eu preferia estar dormindo. exatamente, por que é que me telefonou?

- Acho que sei alguma coisa sobre Rosenberg e Jensen.

Grantham sentou-se na beira da cama.

- O quê, por exemplo? Uma pausa mais longa.

- Está gravando esta conversa?

- Não. Devo gravar?

- Não sei. Na verdade, estou muito assustado e confuso, Mr. Grantham. Preferiria que não gravasse isto. Talvez o próximo telefonema, está bem?

- Como quiser. Sou todo ouvidos.

- Este telefonema pode ser localizado?

- Possivelmente, acho eu. Mas você está num telefone público, então? Que diferença faz?

- Não sei. Estou muito assustado.

- Tudo bem. Juro que não estou gravando e juro que não vou procurar localizar a chamada.

Agora, qual é o seu problema?

- Bem, eu acho que talvez saiba quem os matou.

Grantham estava de pé.

- É uma informação muito valiosa.

- Que me pode matar. Acha que eles andam me seguindo?

- Quem? Quem pode andar seguindo-o?

- Não sei. - Parou de falar, como se estivesse olhando por cima do ombro. Grantham andava para trás e para frente ao lado da cama.

- Acalme-se. Por que não me diz seu nome? Juro que é confidencial.

- Garcia.

- Não é o seu nome verdadeiro, não é?

- É claro que não, mas é o máximo que posso fazer.

- Tudo bem, Garcia. Fale comigo.

- Não tenho certeza, entende? Mas acho que, por acaso, descobri alguma coisa no escritório, que não devia ter descoberto.

- Tem uma cópia?

- Talvez.

- Escute, Garcia. O senhor me telefonou, está bem? Quer falar ou não?

- Não sei bem. O que faria se eu lhe contasse alguma coisa?

- Ia verificar minuciosamente. Se vamos acusar alguém do assassinato de dois juizes do Supremo, creia, a história tem de ser tratada com todo o cuidado.

Um longo silêncio. Grantham ficou imóvel ao lado da cadeira e esperou.

- Garcia. Ainda está aí?

- Estou. Podemos falar mais tarde?

- É claro. Podemos falar agora.

- Preciso pensar. Há uma semana que não como e não durmo e não consigo raciocinar decentemente. Pode ser que eu lhe telefone mais tarde.

- Tudo bem, tudo bem. Pode telefonar para o jornal...

- Não. Não posso. Desculpe tê-lo acordado.

O homem desligou. Grantham digitou sete números no seu telefone, esperou, depois mais seis, depois quatro. Escreveu um número no bloco de notas ao lado do aparelho e desligou. O telefone público ficava na Rua Quinze, em Pentagon City.

Gavin Verheck dormiu quatro horas e acordou bêbado. Quando chegou ao edifício Hoover, uma hora depois, o álcool estava desaparecendo e a dor de cabeça tomava o lugar dele.

Amaldiçoou-se a si mesmo e a Callahan, que sem dúvida ia dormir até o meio dia e acordar descansado e cheio de vida, pronto para o vôo de volta a Nova Orleans. Na noite anterior tinham saído quando o restaurante fechara, à meia noite, passado por alguns bares, falado na brincadeira em ver algum filme pornográfico, mas como o cinema favorito deles fora destruído por uma bomba, isso era impossível. Assim, apenas beberam até às quatro horas. Verheck tinha um encontro marcado com o diretor Voyles às onze horas e era imperativo parecer sóbrio e alerta. O que seria impossível. Mandou a secretária fechar a porta e explicou que havia apanhado um vírus terrível, talvez uma gripe, e não queria ver ninguém, a não ser que fosse muito importante. Observando os olhos dele, ela fungou mais que de costume. O cheiro da cerveja nem sempre se evapora com o sono.

A secretária saiu e fechou a porta. Verheck trancou-a. Para equilibrar as coisas, telefonou para o quarto de Callahan, mas ninguém atendeu.

Que vida. O seu melhor amigo ganhava quase tanto como ele, mas trabalhava trinta horas, numa semana muito movimentada, e podia dormir com coisinhas vinte anos mais novas do que ele.

Lembrou-se então dos grandes planos para o feriado do Dia de Ação de Graças em St. Thomas e pensou em Darby andando pela praia. Ele iria, nem que isso provocasse um divórcio.

Uma náusea subiu-lhe à garganta e vomitou rapidamente no chão. Carpete barato do governo. Respirou fundo e as pancadas começaram no alto da sua cabeça. O teto não estava andando à roda, o que era animador. Três minutos depois, era evidente que não ia vomitar, pelo menos, não por hora.

A pasta estava ao alcance da mão e ele puxou-a para perto de si. Tirou o envelope e o jornal da manhã. Abriu o dossiê e segurou-o com as duas mãos a doze centímetros do rosto. Eram treze folhas de impresso de computador, a dois espaços e com margens largas. Dava para segurar naquela posição. Havia anotações feitas à mão nas margens e algumas passagens estavam sublinhadas. As palavras PRIMEIRA MINUTA estavam escritas também à mão, com marcador na parte de cima. O nome, endereço e telefone de Darby estavam datilografados na primeira folha.

Iria dar uma vista de olhos rápida ali deitado e a seguir, esperava, poder se sentar à secretária para continuar o seu papel de importante advogado do governo. Pensou em Voyles e a cabeça latejou mais ainda.

Ela escrevia bem, no estilo acadêmico-legal, com frases compridas repletas de palavras também elas compridas. Mas com muita clareza. Evitava as ambigüidades e o jargão legal que a maioria dos estudantes procura dominar. Ela nunca poderia vir a trabalhar como advogada para o governo dos Estados Unidos.

Gavin nunca ouvira falar naquela pessoa e certamente ela não estava em nenhuma lista de suspeitos. Tecnicamente, não era um dossiê, mas uma história sobre um processo na Louisiana.

Ela descrevia os fatos sucintamente e de modo interessante.

Fascinante, mesmo. Gavin tinha deixado de dar apenas uma vista de olhos.

Os fatos ocupavam quatro páginas e as outras três continham as histórias das partes envolvidas. Tornava-se um quase monótono nesse ponto, mas ele continuou a ler com atenção.

Estava completamente absorto na leitura. Na página oito, o dossiê, ou lá o que aquilo era, fazia um sumário do julgamento. Na página nove, mencionava o recurso e nas três últimas páginas apresentava um motivo plausível para a retirada de Rosenberg e Jensen do Supremo. Segundo Callahan, Darby já tinha abandonado a sua teoria e no final parecia ter perdido o entusiasmo. Mas era uma leitura fascinante. Por um momento esqueceu a ressaca dolorosa, e leu treze páginas do dossiê de uma estudante de Direito, deitado no chão, no carpete sujo, com um milhão de outras coisas para fazer.

Bateram discretamente na porta. Verheck sentou-se devagar, levantou-se cuidadosamente e foi até a porta.

- Sim.

Era a secretária.

- Não queria incomodá-lo, mas o diretor quer vê-lo no escritório dentro de dez minutos.

Verheck abriu a porta.

- O quê?

- Sim, senhor. Daqui a dez minutos.

Ele esfregou os olhos e respirou rapidamente.

- Para quê?

- Descerei de posto se fizer essa pergunta, senhor Verheck.

- Tem alguma coisa para lavar a boca?

- Sim, acho que tenho. O senhor precisa?

- Não perguntaria se não precisasse. Traga-me já. Tem chicletes?

- Sim, senhor. Quer chicletes também?

- Traga o líquido para lavar a boca, as chicletes e algumas aspirinas, se tiver.

Foi até à mesa e sentou-se, segurando a cabeça com as duas mãos e massageando as

têmporas. Ouviu a secretária abrindo e fechando gavetas e em seguida apareceu com o material pedido.

- Obrigado. Desculpe a minha irritação. - Apontou para o dossiê, sobre a cadeira, ao lado da porta. - Mande aquele dossiê para Eric East, no quarto andar. Escreva uma nota por mim. Diga-lhe para o ler quando tiver tempo.

Ela saiu com o dossiê.

Fletcher Coal abriu a porta da sala oval e falou com K. O. Lewis e Erie East com ar muito sério. O presidente estava em Porto Rico verificando os prejuízos de um furacão e o diretor Voyles recusava-se a falar com Coal a sós. Por isso tinha mandado os seus subordinados.

Coal convidou-os a sentarem-se no sofá e sentou-se do outro lado da mesa do centro.

Tinha o casaco abotoado e a gravata perfeita. Coal nunca se apresentava à vontade. East ouvira histórias sobre os hábitos dele. Trabalhava vinte horas por dia, sete dias por semana, só bebia água e quase todas as suas refeições vinham da máquina da garagem da Casa Branca. Lia como um computador e passava muitas horas por dia revisando relatórios, memorandos, correspondência e montanhas de casos pendentes. A memória dele era perfeita. Há uma semana que recebia relatórios diários sobre a investigação.

Devorava-os e memorizava tudo rapidamente para a reunião seguinte. Qualquer erro nos relatórios era severamente censurado. Coal era odiado, mas era impossível não o respeitar. Era mais esperto do que eles e trabalhava mais. E sabia isso.

Sozinho na sala oval, parecia perfeitamente à vontade. O seu chefe estava fora, representando para as câmaras, mas o poder verdadeiro continuava ali, a dirigir o país. K. O. Lewis pôs uma pilha dos últimos relatórios sobre a mesa.

- Alguma novidade? - perguntou Coal.

- Talvez. As autoridades francesas, numa revisão de rotina dos filmes feitos pela segurança no aeroporto de Paris, acham que reconheceram um homem. Compararam com os filmes de outras câmaras, tirados de ângulos diferentes, e depois informaram a Interpol. O rosto está disfarçado, mas a Interpol acredita que se trata de Khamel, o terrorista. Estou certo de que já ouviu...

- Já ouvi.

- Estudaram o filme gravado cuidadosamente e estão quase certos de que ele desembarcou de um vôo sem escala que partiu do aeroporto de Dulles na última quarta-feira, dez horas depois do corpo de Jensen ser encontrado.

- O Concorde?

- Não, United. Baseados no tempo e localização das câmaras, eles podem determinar os portões e os vôos hoje.

- E a Interpol entrou em contato com a CIA?

- Sim, falaram com Gminski mais ou menos à uma hora da tarde.

Coal ficou impassível.

- Até que ponto é que eles têm certeza?

- Oitenta por cento. Ele é um mestre do disfarce, e seria um tanto estranho estar viajando desse modo. Portanto, há um certo espaço para dúvidas. Temos fotografias e um resumo para o presidente. Para ser franco, estudei as fotografias e não posso afirmar nada. Mas a Interpol o conhece.

- Há anos que ele não se deixa fotografar, certo?

- Não que se saiba. E dizem que faz uma plástica de dois em dois ou de três em três anos.

Coal pensou um segundo.

- Certo. E se for Khamel e estiver envolvido nos crimes? O que é que isso significa?

- Significa que nunca o encontraremos. Pelo menos nove países, incluindo Israel, andam neste momento à procura dele. Significa que recebeu muito dinheiro para usar as suas habilidades aqui nos Estados Unidos. Desde o princípio que andamos dizendo que o assassino ou assassinos são profissionais que desapareceram do país antes mesmo que os corpos esfriassem.

- Então, não significa muita coisa.

- Exatamente.

- Ótimo. Que mais têm?

Lewis olhou rapidamente para Eric East.

- Bem, o resumo diário de sempre.

- Bem pouco informativo, nos últimos dias.

- Sim, tem razão. Temos trezentos e oitenta agentes trabalhando doze horas por dia. Ontem entrevistaram cento e sessenta pessoas em trinta estados. Temos...

Coal ergueu a mão.

- Deixe pra lá. Vou ler o relatório. Parece que podemos dizer que não há nenhuma novidade.

- Talvez uma visão um pouco diferente. - Lewis olhou para Eric East que estava com o dossiê na mão.

- O que é? - perguntou Coal.

Eric mudou de posição no sofá, um tanto constrangido. O dossiê fora passado de mão em mão, durante o dia, até chegar a Voyles, que o lera e gostara. Achou que era um tiro no escuro que não merecia muita atenção, mas o dossiê mencionava o presidente, e ele adorava a idéia de fazer

Coal e o seu chefe suarem um pouco. Mandou Lewis e East entregarem o dossiê a Coal, dizendo que era uma teoria importante que o FBI pretendia investigar a fundo. Pela primeira vez naquela semana, Voyles sorriu, imaginando os idiotas na sala oval lendo o dossiê e correndo à procura de proteção. Exagerem a coisa, dissera Voyles. Digam que pretendemos designar vinte agentes para a investigação.

- É uma teoria que surgiu nas últimas vinte e quatro horas e o diretor Voyles está bastante intrigado. Teme que possa ser prejudicial ao presidente.

Coal continuou impassível.

- De que se trata?

Eric pôs o dossiê na mesa.

- Está tudo aí, nesse relatório.

Coal olhou para o dossiê, depois para East.

- Ótimo. Vou lê-lo mais tarde. É tudo?

Lewis levantou-se e abotoou o casaco.

- Sim, vamos embora.

Coal acompanhou-os até à porta.

O Air Force One aterrou no aeroporto Andrews um pouco depois das dez, sem fanfarras ou recepção especial. A rainha estava fora da cidade, recolhendo fundos, e nenhum amigo ou parente foi receber o presidente quando ele caminhou para a limusine. Coal estava à espera. O presidente afundou-se no banco do carro.

- Eu não o esperava - disse ele.

- Desculpe. Precisamos conversar. - A limusine saiu em direção à Casa Branca.

- É tarde e estou cansado.

- Como foi o furacão?

- Impressionante. Destruiu um milhão de barracas e de abrigos de papelão e agora nós vamos cooperar com uns dois milhões para construir novas casas e centrais elétricas. Eles precisam de um bom furacão de cinco em cinco anos.

- Já preparei as declarações sobre o desastre.

- Tudo bem. O que é que há de tão importante?

Coal estendeu uma cópia do que era agora conhecido por Dossiê Pelicano.

- Não quero ler - disse o presidente. - Diga-me de que se trata?

- Voyles e a equipe tropeçaram num suspeito que ninguém mencionou até agora. Um suspeito obscuro e pouco provável. Uma estudante muito dedicada, de Tulane, escreveu esta maldita coisa que de algum modo chegou às mãos de Voyles, que leu e achou que tinha algum mérito. Lembre-se, eles estão desesperados por suspeitos. A teoria é absurda e incrível e na verdade não me preocupa. Mas Voyles preocupa-me. Resolveu que deve investigar essa possibilidade a fundo e a imprensa está de olho em cada movimento dele. Pode haver fuga de informação.

- Não podemos controlar as investigações de Voyles.

- Podemos manipulá-las.

- Está à espera na Casa Branca e... Gminski?

- Acalme-se, chefe. Eu pessoalmente lhe entreguei uma cópia há três horas e o fiz jurar que mantinha segredo. Ele pode ser incompetente, mas sabe guardar um segredo. Confio muito mais nele do que em Voyles.

- Eu não confio em nenhum deles.

Coal gostou de ouvir isto. Queria que o presidente confiasse unicamente nele.

- Acho que deve pedir à CIA para investigar isso imediatamente. Eu gostaria de ter toda a informação antes que Voyles comece a escavar. Nenhum dos dois vai encontrar coisa alguma, mas se soubermos mais do que Voyles, o senhor pode convencê-lo a desistir. Faz sentido, chefe.

O presidente sentiu-se frustrado.

- É um caso interno. A CIA não tem o direito de investigar. Provavelmente é ilegal.

- Tecnicamente é ilegal. Mas Gminski o fará e pode fazê-lo rapidamente, em segredo e com maior eficiência do que o FBI.

- É ilegal.

- Isso já foi feito antes, chefe. Muitas vezes.

O presidente olhou o tráfego. Estava com os olhos inchados e vermelhos, mas não de cansaço. Dormira três horas no avião. Mas tinha passado o dia tentando parecer triste e preocupado para as câmaras e era difícil ver-se livre disso agora. Pegou no dossiê e pô-lo no banco a seu lado.

- Alguém que conhecemos?

- Sim

 

Porque é uma cidade da noite, Nova Orleans acorda devagar. É tranqüila até depois do nascer do dia; livra-se, então, das teias de aranha e desliza manhã dentro. Não há movimento intenso matinal, a não ser nas vias de acesso entre a cidade e os subúrbios, e nas rijas comerciais do centro. É a mesma coisa em todas as cidades. Mas no French Quarter, a alma de Nova Orleans, o cheiro do uísque da noite anterior, da jambalaia e do peixe frito paira acima das ruas

desertas, até o sol aparecer. Uma ou duas horas depois, é substituído pelo aroma do café e dos fritos do French Market e as calçadas, relutantemente, mostram então os primeiros sinais de vida.

Enroscada na cadeira, na pequena varanda, Darby tomava café e esperava o sol. Callahan estava no quarto, ainda enrolado nos lençóis e morto para o mundo. Àquela hora corria uma brisa mas a umidade estaria de volta ao meio dia. Darby levantou a gola do roupão e respirou fundo o perfume da água-de-colônia de Callahan. Lembrou-se das camisas largas de algodão que o pai a deixava usar quando era menina. Enrolava as mangas até os cotovelos e deixava-as por fora das calças, até aos joelhos, para passear pelos centros comerciais com os amigos, certa de que ninguém podia estar mais na moda. O pai era seu amigo.

Quando Darby terminou o liceu, podia usar todas as roupas dele, desde que depois fossem lavadas, passadas e devolvidas aos cabides. Podia sentir ainda o cheiro da água-de-colônia Grey

Flannel que ele passava no rosto, todos os dias.

Se fosse vivo, teria quatro anos mais do que Callahan. A mãe tinha casado novamente e fora morar em Boise. Darby tinha um irmão na Alemanha. Raramente falavam uns com os outros.

O pai era o elo de união numa família desunida e a morte separou-os.

Mais vinte pessoas tinham morrido no desastre de avião e, antes mesmo dos funerais, os advogados começaram a aparecer. Tinha sido o primeiro contato real dela com o mundo da lei e nada agradável. O advogado da família era especialista em imóveis e não entendia nada de litígios daquele tipo. Numa conversa de porta de hospital aproximara-se do irmão e convenceu a família a entrar imediatamente com um processo. O nome dele era Herschel e durante dois anos a família sofreu com a morosidade, as mentiras e as confusões de Herschel. Uma semana antes do julgamento, tinham chegado a um acordo, aceitando meio milhão, descontando os honorários de Herschel, e Darby recebeu cem mil dólares.

Resolveu então estudar Direito. Se um palhaço como Herschel podia ser advogado e ganhar bom dinheiro, criando um verdadeiro caos na sociedade, então decerto que ela conseguiria ser advogada com um objetivo mais nobre. Darby lembrava-se freqüentemente de Herschel. Assim que acabasse a licenciatura, o seu primeiro processo seria contra Herschel por prática irregular da profissão. Ela queria trabalhar para uma firma ecológica. Sabia que não ia ser difícil arranjar emprego. Os cem mil estavam intactos. O novo marido da mãe era executivo numa companhia, um pouco mais velho e mais rico, e logo depois do casamento dividira a parte dela da indenização entre Darby e o irmão. Disse que o dinheiro a fazia lembrar o falecido marido e que aquele era um gesto simbólico. Embora ela amasse ainda o pai deles, tinha agora uma nova vida, em outra cidade, com um novo marido, que ia se aposentar dentro de cinco anos, com muito dinheiro. Darby achou um tanto confuso o gesto simbólico, mas gostou e aceitou o dinheiro.

Os cem mil já tinham duplicado. A maior parte estava aplicada em fundos mútuos, mas apenas nos que não eram ligados a companhias que produzissem produtos químicos. Darby tinha um carro Accord e vivia modestamente. O guarda-roupa era basicamente o de uma estudante, comprado em lojas de fábricas.

Ela e Callahan freqüentavam os melhores restaurantes da cidade e nunca comiam duas vezes no mesmo lugar. Dividiam sempre as despesas ao meio.

Callahan não ligava muito para o dinheiro e nunca fazia perguntas a esse respeito. Darby tinha mais do que a maioria dos estudantes de Direito, mas em Tulane havia também alunos ricos.

Tinham saído juntos durante um mês, antes de irem para a cama. Darby determinou as regras e ele concordou imediatamente. Callahan não devia ter outras mulheres. Seriam muito discretos. E ele devia beber menos.

Callahan obedeceu às duas primeiras, mas continuou a beber demais. O pai, o avô, os irmãos, todos bebiam e, de certo modo, esperavam que ele fizesse o mesmo. Porém, pela primeira vez na vida, Thomas Callahan estava apaixonado, Loucamente apaixonado, e sabia até que ponto a bebida interferia no seu relacionamento. Procurava ser cauteloso. Excetuando a última semana e o choque pessoal da morte de Rosenberg, nunca bebia antes das cinco da tarde. Quando estavam juntos, deixava de lado o Chivas, quando percebia que podia interferir no seu comportamento.

Era divertido ver um homem de quarenta e cinco anos apaixonado pela primeira vez.

Callahan procurava manter um certo controle, mas nos momentos mais íntimos parecia um garoto.

Darby beijou-o na face e cobriu-o com um edredon. As roupas dela estavam dobradas na cadeira. Fechou a porta silenciosamente ao sair. O sol já tinha aparecido e espreitava por entre os prédios mais altos. A calçada da Rua Dauphine estava vazia.

Darby tinha uma aula daí três horas, depois, Direito Constitucional, com Callahan, às onze.

Daí a uma semana teriam um exercício de tribunal de apelação. O caderno de apontamentos estava cheio de pó, o trabalho atrasado em duas cadeiras. Estava na hora de voltar a ser uma estudante. Tinha perdido quatro dias brincando de detetive, e agora arrependia-se disso. O Accord estava na esquina, a meio quarteirão da casa de Callahan.

Eles vigiavam-na. Era um trabalho interessante.

Jeans justos, camisola larga, pernas altas, óculos escuros para esconder os olhos sem maquiagem. Viram-na fechar a porta e caminhar rapidamente pela Rua Royale e desaparecer na esquina. O cabelo chegava aos ombros e parecia vermelho-escuro. Era ela.

Ele guardou almoço dentro de um saco de papel pardo, ele sentou-se no banco do parque, de costas para New Hampshire. Detestava Dupont Circle, com os seus mendigos, drogados, pervertidos, hippies velhos e punks vestidos de couro preto, cabelo vermelho espetado e boca suja.

No outro lado da fonte, um homem bem vestido, com um megafone, reunia o seu grupo de ativistas defensores dos direitos dos animais para uma marcha até à Casa Branca. Os punks vaiavam e xingavam, mas quatro polícias montados garantiam a manutenção da ordem.

Ele consultou o relógio e descascou uma banana. Meio-dia, e preferia comer em outro lugar qualquer. O encontro seria breve. Ouvia os gritos de protesto, os insultos, e viu o seu contato sair do meio da multidão. Os seus olhares cruzaram-se, uma pequena inclinação de cabeça e o homem estava no banco, ao seu lado. O nome dele era Booker, de Langley. Encontravam-se ali ocasionalmente, quando as linhas de comunicação se tornavam difíceis ou pouco claras e os seus chefes precisavam ouvir palavras verdadeiras que não ouviam em mais lugar nenhum.

Booker não tinha trazido nenhum almoço. Começou a comer amendoins, atirando as cascas para debaixo do banco redondo.

- Como está Mr. Voyles?

- Rabugento como sempre.

Atirou alguns amendoins pra dentro da boca.

- Gminski esteve na Casa Branca até à meia-noite, ontem disse Booker.

Nenhuma resposta. Voyles já sabia isso.

Booker continuou.

- O pessoal entrou em pânico. Esse tal Dossiê Pelicano assustou-os para valer. Nós também o lemos, o senhor sabe, e temos quase certeza de que vocês não se deixaram impressionar, mas por qualquer motivo Coal está apavorado e apavorou o presidente. Pensamos que vocês estão só divertindo-se à custa de Coal e do chefe e uma vez que o dossiê menciona o presidente e tem aquela fotografia, achamos que deve ser divertido para você. Entende o que quero dizer?

Deu uma dentada na banana e não disse nada. Os amigos dos animais afastaram-se numa formação um tanto desordenada, sob as vaias dos amigos do couro.

- De qualquer modo não é da nossa conta e não devíamos tomar conhecimento, mas acontece que agora o presidente quer que investiguemos secretamente o Dossiê Pelicano, antes que vocês comecem a trabalhar nele. Está convencido de que não vamos encontrar nada, e quer ter certeza de que não há mesmo nada, para convencer Voyles a desistir da investigação.

- Há qualquer coisa nele.

Booker observou um bêbado urinando na fonte. Os polícias afastavam-se do calor do sol.

- Então o Voyles está se divertindo um pouco, não é verdade?

- Estamos investigando todas as pistas.

- Mas não têm nenhum suspeito, não é?

- Não. - A banana já tinha desaparecido.

- Por que estão tão preocupados com a investigação dessa coisa insignificante?

Booker mordeu um amendoim com casca.

- Bem, para eles é muito simples. Estão furiosos com a fuga de informação dos nomes de Perece e MacLawrence na lista dos indicados e naturalmente é tudo culpa sua. Eles não confiam nem um pouquinho em Voyles. E se vocês começarem a investigar o Dossiê Pelicano, morrem de medo de que a imprensa descubra e que a popularidade do presidente vá por água abaixo. A reeleição é no próximo ano, etc, etc...

- O que é que Gminski disse ao presidente?

- Que não faz pretende interferir numa investigação do FBI, que temos coisas melhores para fazer e que seria ilegal. Mas como o presidente pediu com tanta insistência e Coal fez tantas ameaças, afinal vamos ter de investigar. E aqui estou, falando com você.

- Voyles agradece.

- Vamos começar hoje, mas a coisa é totalmente absurda. Vamos iniciar os movimentos da praxe, ficar fora do caminho e, dentro de uma ou duas semanas, diremos ao presidente que a teoria não passa de um tiro no escuro.

Dobrou a parte de cima do saco de papel e levantou-se.

- Ótimo. Vou dizer isso a Voyles. Obrigado. - Caminhou na direção do Connecticut, evitando os punks, e desapareceu.

O monitor estava sobre uma mesa atulhada de papéis, no centro da sala, e Gray Grantham estava olhando para ele, no meio da gritaria da sala do jornal. As palavras não queriam vir e ele limitava-se a olhar. O telefone tocou. Apertou o botão da sua extensão e atendeu, sem tirar os olhos do monitor.

- Gray Grantham.

- É Garcia.

Esqueceu o monitor.

- Sim, o que aconteceu?

- Tenho duas perguntas. Primeira, vocês gravam as chamadas? E segunda, podem localizá-las?

- Não e sim. Só gravamos quando temos autorização e podemos localizar, mas não localizamos. Pensei que tinha dito que não podia telefonar para o jornal.

- Quer que desligue?

- Não. Tudo bem. Prefiro falar às três da tarde, no escritório, do que às seis da manhã, na cama.

- Desculpe. Estou muito assustado, é isso. Vou falar com você enquanto o achar digno da minha confiança, mas se mentir, Mr. Grantham, eu paro de falar.

- Combinado. E quando é que vai começar a falar?

- Não posso agora, estou num telefone público, no centro da cidade, e estou com pressa.

- Disse que tinha uma cópia de alguma coisa.

- Não. Eu disse que poderia ter uma cópia de alguma coisa.

- Veremos.

- O.K. Então, quando vai telefonar novamente?

- Preciso marcar hora?

- Não. Mas eu entro e saio a todo o momento.

- Telefono à hora do almoço, amanhã.

- Estarei aqui à sua espera.

Garcia desligou. Grantham digitou sete números, depois seis, depois quatro. Escreveu o número e procurou nas páginas amarelas. Telefones Públicos Inc. O número ficava na avenida Pensilvânia perto do Ministério da Justiça.

 

A discussão começou com a sobremesa, uma parte da refeição em que Callahan preferia beber a comer. Delicadamente ela enumerou as bebidas que ele já tinha tomado. Dois uísques duplos, enquanto esperavam mesa, outro antes de fazer o pedido e, a acompanhar o peixe, duas garrafas de vinho das quais ela havia bebido dois copos. Estava bebendo muito depressa e começava a ficar bêbado. Quando acabou a enumeração, Callahan ficou zangado. Pediu um licor como sobremesa, porque gostava e porque, de repente, era uma questão de princípio. Bebeu-o rapidamente e pediu outro e ela ficou furiosa.

Darby mexeu o café com a colher, sem olhar para ele.

O Mouton's estava cheia e ela só queria sair dali sem provocar uma cena e ir sozinha para casa. A discussão tornou-se mais agressiva na rua, quando saíram do restaurante. Callahan tirou do bolso as chaves do Porsche e Darby disse que ele estava bêbado demais para dirigir. Ela devia levar o carro. Com as chaves na mão ele cambaleou em direção ao estacionamento, a três quarteirões de distância. Ela disse que ia voltar a pé. Faça um bom passeio, respondeu-lhe ele.

Darby seguiu, um pouco atrás dele, embaraçada, vendo-o cambalear pela rua. Implorou-lhe que não fizesse isso. O nível de álcool no sangue devia estar pelo menos a 2O. Que diabo, ele era um professor de Direito. Podia matar alguém. Callahan cambaleou mais depressa, em ziguezague, aproximando-se perigosamente da beira do passeio e voltou para dentro. Gritou qualquer coisa acerca de conduzir melhor bêbado do que sóbrio. Darby ficou mais para trás. Já tinha andado de carro com ele na mesma situação e sabia o que um bêbado podia fazer com um Porsche.

Callahan atravessou a rua as cegas, com as mãos nos bolsos, como se estivesse dando um tranqüilo passeio noturno. Calculou mal a altura, bateu com a ponta do pé na divisória central e espalhou-se ao comprido no chão. Levantou-se rapidamente, antes que ela o alcançasse.

Deixe-me em paz, que diabo, disse ele. Só quero as chaves, pediu ela. Se não der, vou a pé. Ele empurrou-a. Pois faça um bom passeio, disse, rindo. Era a primeira vez que Darby o via tão bêbado. Jamais lhe tinha tocado com tanta raiva, bêbado ou não.

Ao lado do estacionamento havia um barzinho cheio de anúncios luminosos com marcas de cerveja nas janelas. Darby olhou lá para dentro, pensando em pedir ajuda. Que estupidez. Estava cheio de bêbados.

Gritou, quando Callahan chegou próximo do Porsche.

- Thomas! Por favor! Deixe-me levar o carro! - Ficou parada no passeio. Não ia passar dali.

Callahan continuou, fazendo sinal para ela ir embora, resmungando baixinho. Abriu a porta do carro, dobrou-se e desapareceu por detrás dos outros carros. O motor pegou imediatamente e ele acelerou. Darby encostou-se à parede do prédio, a poucos metros da saída do estacionamento.

Olhou para a rua e quase desejou ver um policial. Preferia ver Callahan preso do que morto.

Era longe demais para ir a pé. Ia esperar que ele saísse, chamar um táxi e ignorá-lo durante uma semana. Pelo menos. Faça um bom passeio, repetiu ela. Ele acelerou outra vez e saiu, fazendo chiar os pneus.

A explosão a fez cair no passeio, momentaneamente atordoada, e sentiu imediatamente o calor e os estilhaços de metal e ferro em brasa que caíam na rua. Darby olhou horrorizada para o estacionamento. O Porsche subiu, deu uma cambalhota perfeita e caiu de capota para baixo. Os pneus, as rodas, as portas e os pára-lamas voaram. O carro era uma bola de fogo brilhante, consumindo-se em chamas.

Darby correu para o carro, aos gritos, chamando por ele. Os pedaços de metal caíam à sua volta e o calor fez-lhe abrandar o passo. Parou a dez metros, gritando, tapando a boca com as mãos.

Em seguida, uma segunda explosão a fez recuar. Tropeçou e bateu com a cabeça no pára-choques de outro carro. O rosto bateu no chão quente e isso foi a última coisa que sentiu, durante um momento.

Os bêbados do pequeno bar espalharam-se por toda a parte. Parados no meio da rua, alguns apenas olhavam. Dois deles tentaram avançar, mas o calor impediu-os. Uma fumaça espessa e pesada erguia-se da bola de fogo e, em poucos segundos, dois outros carros estavam em chamas. Ouviam-se gritos e vozes em pânico.

- De quem é o carro?

- Telefone para 911

- Está alguém lá dentro?

- Telefone para o 911!

Eles arrastaram-na pelos braços até a calçada, para o centro da multidão. Ela repetia o nome de Thomas. Alguém do bar lhe pôs uma toalha molhada e fria na testa. A multidão aumentou.

Sirenes, ouviu sirenes quando voltou a si. Sentia uma dor na nuca e uma coisa fria no rosto.

Tinha a boca seca.

- Thomas, Thomas - repetia.

- Tudo bem, tudo bem - disse um rosto negro, logo acima do seu.

O homem segurava-lhe cuidadosamente a cabeça e tocava-lhe de leve no braço. Havia mais caras olhando para ela, lá de cima. Todos abanaram afirmativamente as cabeças.

- Está tudo bem.

As sirenes estavam muito próximas agora. Darby tirou o pano da testa e conseguiu ver melhor. Luzes azuis e vermelhas giravam e piscavam na rua. As sirenes eram ensurdecedoras.

Sentou-se no passeio. Obrigaram-na a encostar-se à parede, sob os anúncios luminosos do bar.

Começaram a afastar-se, observando-a com cuidado.

- Está bem, menina? - perguntou o negro.

Darby não conseguia responder. Nem tentou. A cabeça parecia que estourava.

- Onde está Thomas? perguntou, olhando para uma fenda na calçada.

Eles entreolharam -se. O primeiro carro de bombeiros parou a poucos metros de onde estavam e a multidão abriu caminho. Os bombeiros saltaram e espalharam-se em todas as direções.

- Onde está Thomas? - repetiu ela.

- Menina, quem é Thomas? - perguntou o homem negro.

- Thomas Callahan - disse ela, em voz baixa, como se todos o conhecessem.

- Ele estava no carro?

Darby fez que sim com a cabeça e fechou os olhos. As sirenes soaram e cessaram e no intervalo ela ouviu os gritos ansiosos dos homens e os estalidos do fogo. Sentiu o cheiro de queimado.

O segundo e o terceiro carros de bombeiros chegaram, barulhentos, de diferentes direções.

Um policial abriu caminho entre a multidão.

- Polícia. Abram caminho. Polícia.

Ele empurrou e abriu caminho até chegar junto dela. Ajoelhou e pôs o distintivo debaixo do nariz de Darby.

- Minha senhora, sargento Rupert, departamento da Polícia de Nova Orleans.

Darby ouviu mas não enxergou. O homem estava na frente dela, aquele Rupert com cabelo encarapinhado, um boné de beisebol, blusão negro e dourado. Olhou para ele sem entender.

- Aquele carro é seu, minha senhora? Houve alguém que disse que era o seu carro.

Ela abanou a cabeça. Não. Rupert segurou-a pelo cotovelo para levantá-la do chão. Falava com ela, perguntando-lhe se estava bem, e ao mesmo tempo puxava-a para cima, e a dor era quase insuportável. A cabeça estava partida, rachada, estava em estado de choque, mas aquele idiota pouco se importava com isso. Agora já estava de pé. Os joelhos recusavam-se a sustentar o corpo. Ele continuava a perguntar se ela estava bem. O homem negro olhava para Rupert como se o polícia fosse louco.

Pronto, as pernas funcionaram finalmente e ela e Rupert estavam andando pelo meio da multidão, passando por trás de um carro de bombeiros, contornando outro e chegando junto de um carro da polícia, sem nenhuma identificação. Darby baixou a cabeça e não olhou para o estacionamento. Rupert falava sem parar. Qualquer coisa sobre uma ambulância. Abriu a porta da direita do carro e a fez sentar-se no banco da frente.

Outro policial agachou-se ao lado do carro e começou a fazer perguntas. Estava de jeans e de botas de cowboy de biqueira pontiaguda. Darby inclinou a cabeça para frente e apoiou-a nas mãos.

- Acho que preciso de ajuda - disse ela.

- Claro, minha senhora. A ajuda está chegando. Só duas perguntas. Como se chama?

- Darby Shaw. Acho que estou em estado de choque. Estou muito tonta e acho que vou vomitar.

- A ambulância está a caminho. Aquele carro é seu?

- Não.

Outro carro da polícia, cheio de insígnias, palavras e luzes, parou fazendo chiar os pneus na frente do carro de Rupert.

Rupert desapareceu por um momento. O polícia cowboy, de repente, fechou a porta e ela ficou sozinha no carro. Inclinou-se para frente e vomitou. Começou a chorar. Estava gelada.

Encostou a cabeça cuidadosamente no assento e encolheu as pernas. Silêncio. Depois a escuridão.

Alguém estava batendo na janela. Darby abriu os olhos e viu o homem de uniforme com um distintivo no boné. A porta estava trancada.

- Abra a porta, minha senhora - gritou ele.

Darby sentou-se no banco e abriu a porta.

- Está bêbada, minha senhora?

A cabeça latejava.

- Não - disse ela, desesperadamente. Ele abriu completamente a porta.

- Este carro é seu?

Ela esfregou os olhos. Precisava pensar.

- Minha senhora, este carro é seu?

- Não - olhou furiosa para ele. - Não. É de Rupert.

- Muito bem. Quem é Rupert?

Só um carro de bombeiros ainda estava no local e a multidão tinha desaparecido. Aquele homem na porta era sem dúvida um policial.

- Sargento Rupert. Um dos seus homens - disse ela.

Ele ficou zangado.

- Saia do carro, minha senhora.

- Com prazer.

Darby saiu e ficou de pé no passeio. Lá longe um bombeiro solitário apontava a mangueira para o que restava do Porsche. Outro policial uniformizado apareceu e ambos se aproximaram dela. O primeiro perguntou:

- Como se chama?

- Darby Shaw.

- Por que estava desmaiada naquele carro?

Ela olhou para o carro.

- Não sei. Eu estava ferida e Rupert meteu-me no carro. Onde está Rupert?

Os polícias entreolharam -se.

- Que Rupert?- perguntou o primeiro. Nesse momento Darby zangou-se e a raiva acabou com o atordoamento.

- Rupert disse que era policial.

O segundo policial perguntou:

- Como foi que se feriu?

Darby olhou para ele furiosa. Apontou para o estacionamento, no outro lado da rua.

- Eu devia estar dentro daquele carro. Mas não estava, por isso estou aqui, ouvindo as suas perguntas idiotas. Onde está Rupert?

Entreolharam-se outra vez sem entender nada. O primeiro policial disse:

- Espere aqui. - Atravessou a rua e aproximou-se de outro carro da polícia, onde um homem de terno falava com um pequeno grupo de pessoas. Os dois homens cochicharam alguma coisa, depois o primeiro policial voltou para onde Darby o esperava, com o homem do terno. O homem disse:

- Sou o tenente Olson, departamento de Polícia de Nova Orleans. Conhece o homem que estava no carro? - Apontou para o estacionamento.

Os joelhos enfraqueceram e ela mordeu o lábio. Fez um gesto afirmativo.

- Quem era ele?

- Thomas Callahan.

Olson olhou para o primeiro policial.

- Foi o que o computador disse. Agora, quem é Rupert?

Darby começou a gritar.

- Ele disse que era um policial!

Olson fez uma cara de pena.

- Desculpe. Não há nenhum policial chamado Rupert.

Darby soluçava alto. Olson a fez encostar-se no capô do carro de Rupert e segurou-a pelos ombros, até o choro diminuir e ela tentar controlar-se.

- Verifique as chapas de matrícula - disse Olson para o segundo policial, que anotou rapidamente o número da chapa do carro de Rupert e afastou-e para pedir informações pela rádio.

Olson segurou-a gentilmente pelos ombros e olhou-a nos olhos.

- Estava com Callahan?

Ela fez um sinal afirmativo, ainda chorando, porém mais calma. Olson olhou para o primeiro policial.

- Como é que chegou a este carro? lenta e suavemente.

Darby enxugou os olhos com os dedos e olhou para o tenente.

- Esse cara, Rupert, que disse que era policial, chegou e trouxe-me dali do passeio até aqui.

Colocou-me no carro e o outro policial com botas de cowboy começou a fazer-me perguntas. Chegou outro carro da polícia e eles foram embora. Acho que desmaiei depois disso.

Gostaria de ser vista por um médico.

- Traga o meu carro - disse Olson para o primeiro policial.

O segundo policial voltou e parecia intrigado.

- O computador não tem registro desta matrícula. Devem ser chapas falsas.

Olson segurou o braço de Darby e levou-a para o seu carro. Disse rapidamente para os dois policiais:

- Vou levá-la ao Charity. Terminem tudo aí e encontrem-me no hospital. Confisquem o carro. Verificaremos mais tarde.

Darby sentou-se no carro de Olson, ouvindo os estalidos e a voz fanhosa do rádio e olhou para o estacionamento. Quatro carros incendiados. O Porsche estava de rodas para o ar, no centro, nada mais que um chassi retorcido. Alguns bombeiros e homens de outras equipes de emergência estavam em volta dele. Um policial cercava o lugar com a fita amarela que indicava local de crime. Darby tocou no galo na parte de trás da cabeça. Nenhum sangue. As lágrimas caíam-lhe do queixo.

Olson entrou, bateu com a porta e saíram por entre os carros parados, na direção de St. Charles. As luzes azuis giravam mas a sirene não estava ligada.

- Está disposta a falar? - perguntou ele.

Estavam em St. Charles.

- Acho que sim - disse ela. - Ele morreu, não morreu?

- Sim, Darby. Sinto muito. Está falando do homem do carro, certo?

- Sim.

- Como é que se feriu?

Deu-lhe um lenço e Darby enxugou os olhos.

- Caí em cima de qualquer coisa. Houve duas explosões e acho que a segunda me fez cair.

Não me lembro de tudo. Por favor, Diga-me quem é Rupert.

- Não faço idéia. Não conheço nenhum policial chamado Rupert e não havia nenhum policial por aqui com botas de cowboy.

Darby pensou nisso tudo durante um quarteirão e meio.

- O que fazia Callahan?

- Era professor de Direito em Tulane. Sou aluna da Faculdade.

- Quem podia querer matá-lo?

Ela olhou para o sinal luminoso e balançou a cabeça.

- Tem certeza de que foi intencional?

- Não tenho qualquer dúvida. Um explosivo muito forte. Encontramos um pedaço do pé numa cerca de ferro, a quase três metros de distância. Sinto muito. Ele foi assassinado.

- Talvez se tenham enganado no carro.

- Isso é sempre possível. Vamos verificar tudo. Suponho que você devia estar também no carro?

Ela tentou falar, mas não conseguiu conter as lágrimas. Levou o lenço ao rosto. Ele estacionou entre duas ambulâncias perto da entrada de urgências do Charity e deixou as luzes azuis acesas. Ajudou-a a descer e entrar rapidamente numa sala suja, onde cinqüenta pessoas esperavam, em vários graus de sofrimento e desconforto. Darby sentou-se ao lado da máquina da água. Olson falou com a mulher que estava atrás do guichê e ergueu a voz, mas Darby não percebeu o que diziam. Um menino com o pé enrolado numa toalha ensangüentada chorava no colo da mãe. Uma jovem negra estava quase dando à luz.

Não se via nenhum médico, nenhuma enfermeira. Ninguém tinha pressa. Olson ajoelhou-se em frente dela.

- Vai demorar alguns minutos. Acalme-se. Vou estacionar o carro e volto já. Está disposta a falar?

- Sim, claro.

Ele saiu, Darby apalpou outra vez o alto da cabeça. Nada de sangue. As portas duplas foram abertas e duas enfermeiras com um ar aborrecido levaram a jovem em trabalho de parto.

Praticamente arrastaram-na para a outra sala. Darby esperou um pouco e seguiu-as. Com os olhos vermelhos e o lenço, parecia a mãe de alguma criança ferida. A sala era um verdadeiro jardim zoológico, com enfermeiras e empregados e gente ferida gritando e andando de um lado para o outro. Darby olhou para o lado e viu uma porta onde estava escrito SAÍDA. Passou a porta para outra sala muito mais silenciosa, e mais outra porta e chegou a uma plataforma de carga e descarga. A pequena passagem estava iluminada. Não corra. Seja forte. Está tudo bem. Ninguém está vendo. Por fim, estava na rua, andando rapidamente. O ar frio clareou-lhe a visão. Darby não ia chorar mais.

Olson não ia apressar-se e, quando voltasse, pensaria que a tinham chamado e que ela estava sendo tratada. Iria esperar. E esperar.

Dobrou várias esquinas e viu Rampart. O Quarter ficava logo adiante. Podia desaparecer ali. Havia muita gente na Royal, turistas passeando calmamente. Sentiu-se mais segura. Entrou no Holiday Inn, pagou com cartão de crédito e foi para um quarto no quinto andar. Depois de trancar a porta com a corrente de segurança, Darby encolheu-se na cama, com todas as luzes acesas.

A Sra. Verheck girou o traseiro gorducho, mas rico, do centro da cama e atendeu ao telefone.

- É para você, Gavin - gritou. Gavin saiu do banheiro com a cara meia ensaboada e tirou o telefone da mão da mulher, que voltou a aninhar-se na cama. Como uma porca a chafurdar na

lama, pensou ele.

- Alô - atendeu, secamente. Uma voz feminina, desconhecida, disse:

- Aqui é Darby Shaw. Sabe quem sou? Ele sorriu imediatamente e por um segundo pensou no fio dental em St. Thomas.

- Bem, sim. Acho que temos um amigo comum.

- Leu a minha pequena teoria?

- Ah, sim. O Dossiê Pelicano, como nós lhe chamamos.

- Nós quem?

Verheck sentou-se na cadeira ao lado da mesa-de-cabeceira. Não era um telefonema social.

- Por que está telefonando, Darby?

- Preciso de algumas respostas, Mr . Verheck. Estou morta de medo.

- Gavin, certo?

- Gavin. Onde está o dossiê agora?

- Aqui e ali. O que aconteceu?

- Vou lhe dizer daqui a um minuto. Diga-me apenas o que fez com o dossiê.

- Bem, eu o li, depois o mandei para outra seção, e foi lido por algumas pessoas do FBI, depois mostrado ao diretor Voyles, que gostou muito.

- O dossiê saiu do FBI?

- Não posso responder a isso, Darby.

- Então também não lhe vou contar o que aconteceu com Thomas.

Verheck pensou durante um longo minuto. Ela esperou pacientemente

- Claro. Sim, foi lido fora do FBI. Por quem ou por quantos, não sei.

- Ele morreu, Gavin. Foi assassinado mais ou menos às dez horas da noite passada.

Alguém pôs uma bomba no carro para nós dois. Eu tive sorte, mas agora estão atrás de mim.

Verheck, inclinado sobre o telefone, tomava notas.

- Darby, está ferida?

- Fisicamente, estou bem.

- Onde está?

- Em Nova OrIeans.

- Tem certeza, Darby? Quero dizer, sei que tem certeza, mas, que diabo, quem ia querer matar Thomas?

- Eu vi dois deles.

- Como é que...

- É uma longa história. Quem viu o dossiê, Gavin? Recebeu-o do Thomas na segunda-feira à noite. Passou de mão em mão e quarenta e oito horas depois ele estava morto. E eu devia estar morta também. Não acha que deve ter caído em mãos erradas?

- Você está em lugar seguro?

- Sei lá!

- Onde está? Qual é o número do telefone?

- Vá com calma, Gavin. Estou me mexendo muito devagar por hora. Estou num telefone público, portanto, nada de espertezas.

- Ora, vamos, Darby! Dê-me uma oportunidade! Thomas CaIlahan era o meu melhor amigo. Tem de procurar proteção.

- E o que significa isso, exatamente?

- Escute, Darby, dê-me quinze minutos e mandarei uma dúzia de agentes buscá-la onde estiver. Tomo um avião e chego aí antes do meio-dia. Não pode ficar na rua.

- Por quê, Gavin? Quem é que anda atrás de mim? Fale comigo, Gavin.

- Falo com você quando chegar aí.

- Não sei. Thomas está morto porque falou com você. Não estou muito ansiosa por encontrá-lo neste momento.

- Darby, ouça, eu não sei quem ou porquê, mas garanto-lhe que está numa situação muito perigosa. Nós podemos protegê-la.

- Talvez mais tarde.

Ele respirou fundo e sentou-se na beirada da cama.

- Pode confiar em mim, Darby.

- Tudo bem, confio em você. Mas e os outros dois? Aquilo é pessoal da pesada, Gavin. O meu pequeno dossiê perturbou profundamente alguém, não acha?

- Ele sofreu?

Darby hesitou.

- Acho que não - disse, com voz trêmula.

- Quer me telefonar dentro de duas horas? Para o escritório. Vou dar-lhe o número.

- Dê-me o número que eu vou pensar.

- Por favor, Darby. Vou falar diretamente com o diretor, assim que chegar ao escritório.

Telefone às oito, hora de Nova Orleans.

- Dê-me o número.

A bomba explodiu tarde demais para sair na edição matutina do Times-Picayune. Darby procurou a notícia, rapidamente, no quarto do hotel. Nada. Ligou a televisão e lá estava. A imagem ao vivo do Porsche queimado, ainda no meio do parque de estacionamento, protegido pela tira de fita amarela. A polícia estava tratando do caso como homicídio. Nenhum suspeito.

Nenhum comentário. A seguir, o nome de Thomas Callahan , quarenta e cinco anos, eminente professor de Direito em Tulane. Apareceu o reitor da faculdade com o microfone, falando sobre o professor Callahan e sobre o grande choque.

O choque, o cansaço, o medo, a dor e Darby escondeu o rosto no travesseiro. Detestava chorar e esta seria a última vez. Lamentar-se só podia trazer-lhe a morte.

 

Embora fosse uma crise maravilhosa, com os índices de popularidade em alta e Rosenberg morto, com a sua imagem limpa e reluzente, e a América satisfeita porque ele estava no comando, com os democratas apavorados e a reeleição do próximo ano garantida, ele estava farto da crise e daquelas reuniões intermináveis antes do nascer do sol. Estava farto de F. Denton Voyles, da sua superioridade e arrogância, da sua figura atarracada, do outro lado da mesa, com o colete amarrotado e olhando pela janela enquanto falava com o presidente dos Estados Unidos. Voyles estava chegando para outra reunião antes do café da manhã, outro daqueles encontros em que o diretor diria apenas metade do que sabia.

Estava farto de ser mantido no escuro, contentando-se com as migalhas atiradas por Voyles, e mais umas quantas, atiradas por Gminski. Eles achavam que devia aceitar o que lhe davam, aceitar todas aquelas reuniões e ficar satisfeito. Comparado com eles, o presidente não sabia nada. Pelo menos tinha Coal para estudar e memorizar todos os relatórios, garantindo a sua veracidade.

Estava farto de Coal também. Farto da sua perfeição e das suas poucas horas de sono.

Farto do seu brilhantismo, do seu gosto para começar o dia quando o Sol ainda estava num lugar qualquer distante no Atlântico, planejando cada maldito minuto de cada maldita hora até ele desaparecer no Pacífico. Nessa altura, ele, Coal, enchia uma caixa com o lixo do dia, levava tudo para casa, lia, decifrava, guardava, e aparecia algumas horas depois recitando toda aquela aborrecida informação que acabara de devorar. Quando Coal estava cansado, dormia cinco horas por noite, mas normalmente só dormia três. Deixava o escritório na ala oeste às onze horas da noite, lia o tempo todo na limusine, a caminho de casa, e mal o motor da limusine começava a esfriar, Coal lá estava de novo à espera que ela o levasse de volta à Casa Branca. Para ele, era um pecado grave chegar ao escritório depois das cinco da manhã. E se ele podia trabalhar cento e vinte horas por semana, então todo mundo deveria trabalhar pelo menos oitenta. Ele exigia oitenta.

Ao fim de três anos, ninguém naquele governo era capaz de se lembrar de todas as pessoas despedidas por Fletcher Coal, por não cumprirem as oitenta horas semanais de trabalho. Isso acontecia pelo menos três vezes por mês.

Coal sentia-se mais feliz durante as primeiras horas da manhã, quando a tensão era forte e estavam marcadas reuniões desagradáveis. Durante toda a última semana, Coal tinha se divertido com a disputa com Voyles. Estava de pé, ao lado da mesa, examinando a correspondência, o presidente lia o Post e duas secretárias trabalhavam diligentemente.

O presidente olhou para ele. Terno escuro, impecável, camisa branca, gravata de seda vermelha, excesso de brilhantina no cabelo, acima das orelhas. Estava farto dele, mas isso ia passar com a crise e poderia voltar ao seu golfe, deixando os detalhes para Coal. Disse para consigo que, aos trinta e sete anos, também tinha aquela energia e resistência para o trabalho, mas no íntimo sabia que não era verdade. Coal estalou os dedos, olhou severamente para as secretárias e as duas saíram correndo da sala oval.

- E ele disse que não vinha se eu estivesse presente. É hilariante - Coal estava achando tudo muito divertido.

- Acho que ele não gosta de você - disse o presidente.

- Ele adora gente em quem possa mandar.

- Suponho que tenho de tratá-lo com delicadeza.

- Faça pressão, chefe. Ele tem de desistir. Esta teoria é tão inconsistente que chega a ser cômica, mas nas mãos dele pode ser perigosa.

- E a estudante de Direito?

- Estamos verificando. Parece inofensiva.

O presidente levantou-se da cadeira e espreguiçou-se. Coal arrumou alguns papéis. A secretária anunciou a chegada de Voyles.

- Vou embora - disse Coal.

Ia ver e ouvir numa outra sala. Por insistência sua tinham sido instaladas três câmaras de vídeo de circuito fechado no gabinete oval. Os monitores estavam numa salinha da ala oeste, da qual ele tinha a única chave.

Sarge sabia da salinha, mas nunca se dera ao trabalho de entrar nela. Até àquele momento.

As câmaras eram invisíveis e supostamente um grande segredo. O presidente ficou mais tranqüilo sabendo que Coal, pelo menos, estava observando e ouvindo. Em conformidade com o espírito do momento, Voyles tirou o blusão e pendurou-o nas costas de uma cadeira. Não quis café. O presidente cruzou as pernas. Estava com o cardigã castanho. A imagem do avô.

- Denton - disse ele, com voz grave. - Quero pedir desculpa por causa de Fletcher Coal. Ele não tem muito tato.

Voyles inclinou levemente a cabeça. Seu cretino estúpido. Este gabinete tem fios elétricos suficientes para eletrocutar metade dos burocratas da cidade. Coal devia estar em qualquer lugar ouvindo aquela opinião sobre a sua falta de tato.

- Ele sabe ser burro, quando quer, certo? – resmungou Voyles.

- Sim, sabe. Tenho de vigiá-lo de perto. E um homem brilhante e agressivo, mas às vezes exagera.

- Coal é um filho da puta e eu sou capaz de lhe dizer isto na cara. - Voyles olhou para um ponto no ar, acima do retrato de Thomas Jefferson, de onde uma câmara observava.

- Sim, está bem. Vou mantê-lo fora do seu caminho até tudo isto terminar.

- Faça isso.

O presidente tomou um gole de café, pensando no que ia dizer em seguida. Voyles não era famoso pelos seus dotes de conversa.

- Preciso de um favor.

Voyles olhou fixamente para ele, sem pestanejar.

- Sim, senhor.

- Preciso resolver esse tal pelicano. É uma idéia maluca, mas, que diabo, menciona o meu nome, na sua opinião, qual a importância desse dossiê?

Oh, aquilo era muito engraçado. Voyles controlou-se para não sorrir. Tinha funcionado. O presidente e Coal tinham começado a suar com o Dossiê Pelicano. Tinham-no recebido na terça-feira à tarde, suaram durante toda a quarta-feira e agora, nas primeiras horas da manhã de quinta-feira, estavam de joelhos, implorando por uma coisa que era pouco menos que urna piada.

- Estamos investigando, senhor presidente. - Era mentira, mas como é que ele poderia saber? - Estamos seguindo todas as pistas, todos os suspeitos. Eu não o teria enviado ao senhor se não achasse que devia ser levado a sério. – As linhas da testa uniram-se e Voyles fez um esforço para não rir.

- O que é que já descobriu?

- Não muito. Mas apenas começamos. Recebemos o dossiê há menos de quarenta e oito horas e designei catorze agentes. Na sua Nova Orleans para começar a investigação. Mera rotina.

– As mentiras pareciam tão reais que ele quase conseguia ouvir Coal engasgando-se.

Catorze! O golpe acertou em cheio, com tamanha violência que ele pousou a xícara de café na mesa. Catorze polícias federais mostrando distintivos, fazendo perguntas, e era só questão de tempo para que tudo viesse à superfície.

- Você disse catorze. Parece bastante sério.

Voyles ficou impassível.

- Estamos levando isto muito a sério, senhor presidente. Há quase uma semana que as mortes ocorreram e a pista está ficando fria. Procuramos seguir o que temos o mais depressa possível. Os meus homens trabalham noite e dia.

- Compreendo tudo isso, mas até que ponto esse Dossiê Pelicano é importante?

Diabo, aquilo era divertido. O dossiê ainda não estava em Nova Orleans. Na verdade, não tinham entrado em contato com Nova Orleans. Eric devia mandar uma cópia do dossiê ao escritório daquela cidade, com ordens para iniciar uma investigação muito discreta. Era um beco sem saída, com centenas de outras pistas que estavam sendo seguidas.

- Duvido que exista alguma coisa, senhor presidente, mas precisamos verificar. As rugas ficaram menos acentuadas e sorriu levemente.

- Não preciso lhe dizer, Denton, como esta investigação pode ser prejudicial se a imprensa descobrir.

- Não consultamos a imprensa nas nossas investigações.

- Eu sei. Não vamos falar disso. Mas eu gostaria que desistisse dessa coisa, quero dizer, que diabo, é absurdo e eu posso ser prejudicado. Sabe do que estou falando?

Voyles foi brutal.

- Está me pedindo que ignore um suspeito, senhor presidente?

Coal inclinou-se para a tela do monitor.

Não, estou dizendo para esquecer o Dossiê Pelicano, quase disse, em voz alta.

Ele podia deixar as coisas bem claras a Voyles. Podia explicar pormenorizadamente e depois esbofetear o cretino, se ele bancasse o esperto. Mas estava escondido numa sala fechada, fora da arena. E, naquele momento, compreendeu que era exatamente onde devia estar. O presidente descruzou as pernas e tornou a cruzá-las do outro lado.

- Ora, vamos, Denton, você sabe aquilo a que me refiro. Temos peixes maiores no lago. A imprensa está de olho na investigação, ansiosa por descobrir quem é o suspeito. Sabe como eles são. Não preciso lhe dizer que não tenho amigos na imprensa. Até o meu secretário de imprensa me detesta. Esqueça esse assunto durante algum tempo. Desista e vá atrás dos verdadeiros suspeitos. Esta coisa é uma brincadeira, mas pode causar-me embaraços.

Denton olhou para ele impassível. Impiedoso. O presidente mudou de posição outra vez na cadeira.

- Esse tal Khamel? Parece muito bom, não acha?

- Talvez seja.

- E. Já que estamos falando em números, quantos homens designou para Khamel?

Voyles respondeu:

- Quinze - e quase desatou a rir.

O presidente olhou para ele, boquiaberto. O suspeito mais quente do jogo tem quinze e o maldito pelicano tem catorze.

Coal sorriu e balançou a cabeça. Voyles fora apanhado pelas próprias mentiras. No fim da página quatro do relatório de quarta-feira, Eric East e K. O. Lewis citavam trinta homens, não quinze. Acalme-se, chefe, murmurou Coal para a tela. Ele está brincando com você.

O presidente não estava nada tranqüilo.

- Meu Deus, Denton. Porquê apenas quinze? Achei que era uma pista muito importante.

- Talvez um pouco mais do que isso. Eu é que dirijo esta investigação, senhor presidente.

- Eu sei. E está fazendo um ótimo trabalho. Não quero interferir. Só gostaria que resolvesse empregar o tempo em outras coisas. É tudo. Quase vomitei quando li o Dossiê Pelicano. Se a imprensa puser as mãos nele e começar a investigar, serei crucificado.

- Então está me pedindo que desista?

O presidente inclinou-se para frente e olhou ferozmente para Voyles.

- Não estou pedindo, Denton. Estou dizendo-lhe que deixe isso de lado. Ignore o dossiê durante algumas semanas. Dedique o seu tempo a outra coisa. Se ele aparecer novamente, dê outra espiadela breve. Eu ainda sou o chefe por aqui, lembra-se?

Voyles cedeu e sorriu.

- Vamos combinar uma coisa. O seu carrasco, Coal, armou-me uma com a imprensa.

Fartaram-se de comentar o tipo de segurança que nós demos a Rosenberg e Jensen.

O presidente meneou a cabeça solenemente.

- Tire esse touro bravo das minhas costas, mantenha-o longe de mim e eu esqueço o Dossiê Pelicano.

- Eu não faço tratos.

Voyles sorriu com desprezo, mas manteve a calma.

- Ótimo. Vou mandar cinqüenta agentes a Nova Orleans, amanhã. E cinqüenta depois de amanhã. Vamos exibir os nossos distintivos por toda cidade e fazer o máximo para chamar a atenção.

O presidente levantou-se de um salto e foi até à janela que dava para o jardim das rosas.

- Está bem, está bem. Está combinado. Eu consigo controlar Fletcher Coal.

Voyles levantou-se e caminhou devagar até a mesa.

- Não confio nele e se sentir o cheiro dele outra vez durante esta investigação, desfaço o acordo e vamos investigar o Dossiê Pelicano com tudo que temos.

O presidente ergueu a mão e sorriu amigavelmente.

- Combinado.

Voyles e o presidente sorriam e, na salinha ao lado, Fletcher Coal sorria para a tela.

Carrasco, touro bravo. Adorava isso. De palavras como essas nasciam as lendas. Desligou o monitor, saiu da sala e trancou a porta. Falariam mais uns dez minutos sobre as investigações dos nomes da lista e ele poderia ouvir do seu escritório, onde tinha o áudio, sem o vídeo. Tinha uma reunião às nove. Ia despedir um funcionário às dez. E precisava datilografar algumas coisas. A maioria dos memorandos ditava-os simplesmente para a máquina e entregava a fita à secretária.

Mas ocasionalmente achava necessário recorrer ao memorando fantasma. Este tipo de memorando circulava extensamente na ala oeste, era sujeito a multa controvérsia e geralmente acabava por ser conhecido pela imprensa. Como não era assinado, aparecia em quase todas as mesas. Coal gritava e acusava. Já tinha despedido funcionários por causa de memorandos fantasmas, todos saídos da sua máquina de escrever.

Eram apenas quatro parágrafos, a um espaço, numa única página, um resumo de tudo o que ele sabia sobre Khamel e a sua visita recente a Washington. Tinha vagas sugestões de envolvimento de palestinos e de líbios. Coal admirou o próprio trabalho.

Daqui a quanto tempo estaria no Post ou no Times? Apostou mentalmente em qual dos dois jornais iria aparecer primeiro. O diretor estava na Casa Branca e dali ia voar diretamente para Nova Iorque, de onde só voltaria no dia seguinte.

Gavin pôs-se diante do escritório de Lewis até conseguir uma brecha. Entrou. Lewis ficou irritado, mas não perdeu o seu cavalheirismo.

- Parece assustado.

- Acabo de perder o meu melhor amigo.

Lewis esperou.

- O nome dele era Thomas Callahan. O cara de Tulane que me trouxe o Dossiê Pelicano, que depois de passar por aqui foi parar à Casa Branca e só Deus sabe onde mais, e agora ele está morto. Feito em pedaços por uma bomba colocada no seu carro, na noite passada, em Nova Orleans. Assinado, K. O.

- Lamento muito.

- Não é uma questão de lamentar muito. Evidentemente a bomba era para Callahan e para a estudante que escreveu o dossiê, uma garota chamada Darby Shaw.

- Vi o nome dela no dossiê.

- Claro. Eles namoravam e deviam estar juntos no carro, quando este explodiu. Mas ela sobreviveu e hoje, às cinco horas da manhã, telefonou-me. Morta de medo. Lewis ouviu, mas já estava à procura de uma negativa.

- Tem certeza de que foi uma bomba?

- Ela disse que foi uma bomba. Fez BUUUM! e mandou tudo pelos ares, certo? Eu tenho certeza de que ele está morto.

- E acha que há uma conexão entre a morte dele e o dossiê?

Gavin era advogado, não conhecia a arte da investigação e não queria parecer ingênuo.

- Pode haver. Acho que sim. Você não acha?

- Não importa, Gavin. Acabo de falar com o diretor ao telefone. O pelicano está fora da nossa lista. Acho que nunca esteve, mas não vamos perder mais tempo com essa investigação.

- Mas o meu amigo foi assassinado com uma bomba no carro.

- Lamento muito. Tenho certeza de que as autoridades locais estão investigando.

- Ouça, K. O. Estou lhe pedindo um favor.

- Ouça você, Gavin. Não tenho nenhum favor a fazer-lhe. Já temos muitos coelhos para perseguir e, se o diretor manda parar, nós paramos. Pode falar com ele. Mas não o aconselho.

- Talvez eu não esteja conduzindo isto como devia. Pensei que me ia ouvir e pelo menos fingir que estava interessado.

Lewis contornou a mesa.

- Gavin, você está horrível. Tire o dia de folga.

- Não. Vou para o meu escritório, espero uma hora e volto. Podemos tentar de novo, dentro de uma hora?

- Não. Voyles foi explícito.

- A garota também, K. O. Ele foi assassinado e ela está agora escondida num lugar qualquer de Nova Orleans, com medo da própria sombra, pedindo a nossa ajuda e nos estamos muito ocupados para atendê-la.

- Tenho muita pena.

- Não, não tem. E a culpa é minha. Eu devia ter jogado no lixo aquela maldita coisa.

- Serviu a um objetivo valioso, Gavin. - Lewis pôs a mão no ombro dele, como se o tempo de que dispunha se tivesse esgotado e estivesse cansado da discussão. Gavin sacudiu o ombro, furioso, e encaminhou-se para a porta.

- Eu sei, serviu de brinquedo para vocês. Eu devia ter queimado aquele dossiê.

- E bom demais para ser queimado, Gavin.

- Não desisto. Volto daqui a uma hora e vamos tratar disto tudo outra vez. Não foi nada como devia ser. Verheck saiu e bateu a porta.

Ela entrou no Rubinstein Brothers pela Canal Street e caminhou entre as araras com camisas de homem. Não entrou ninguém atrás dela. Escolheu rapidamente um blusão masculino azul-marinho, tamanho pequeno, óculos escuros de aviador e um boné inglês, também masculino, tamanho pequeno. Pagou com cartão de crédito. Enquanto o vendedor tomava nota do seu cartão, retirou as etiquetas com o preço e vestiu o blusão com capuz.

Era grande como tudo o que usava na Faculdade. Enfiou o cabelo para dentro da gola alta.

O vendedor observava, discretamente. Saiu pela porta da Rua Magazine e desapareceu no meio dos transeuntes.

De volta à Canal. Um grupo de turistas desceu do ônibus e entrou no Sheraton. Ela entrou com eles. Foi até os telefones, procurou o número e ligou para a Sra. Chen, que morava no duplex vizinho do seu. Vira ou ouvira alguma coisa ou alguém? Muito cedo, tinham batido à porta. Estava escuro e eles acordaram. Ela não viu ninguém, só ouviu as pancadas. O carro dela ainda estava na rua. Está tudo bem? Sim, tudo ótimo. Obrigada.

Enquanto olhava para os turistas, ligou para o número particular, dado por Gavin Verheck.

Particular significava pouca confusão, e três minutos depois de recusar dar o nome e de repetir o dele, conseguiu.

- Onde é que está falando? - perguntou ele.

- Deixe-me explicar-lhe uma coisa. Por enquanto, não vou dizer a ninguém onde estou.

Portanto, não me pergunte.

- Está bem. Acho que tem direito a estabelecer as regras.

- Obrigada. O que disse Mr. Voyles?

- Mr. Voyles estava na Casa Branca. Vou tentar falar com ele mais tarde.

- Isso é muito pouco, Gavin. Você está no escritório há quatro horas e não tem nada. Eu esperava mais.

- Tenha paciência, Darby.

- Paciência é coisa que vai fazer com que me matem. Estão me perseguindo, não estão, Gavin?

- Não sei.

- O que é que faria se soubesse que devia estar morto e que as pessoas que querem matá-lo assassinaram dois juizes do Supremo Tribunal e liquidaram um simples professor de Direito e têm bilhões de dólares disponíveis para matar? O que é que faria, Gavin?

- Procuraria o FBI.

- Thomas procurou o FBI e está morto.

- Obrigado, Darby. Isso não é justo.

- Não estou preocupada em ser justa nem em ferir sentimentos. Estou mais preocupada em continuar viva até ao meio-dia.

- Não vá ao seu apartamento.

- Não sou idiota. Eles já estiveram lá. E tenho certeza de que estão vigiando o prédio.

- Onde está a família dele?

- Os pais moram em Nápoles, Florida. Acho que a Universidade vai entrar em contato com eles. Não sei. Tem um irmão em Mobile e pensei em telefonar-lhe e explicar tudo. Ela fixou uma cara. O homem passou entre os turistas que estavam no balcão de recepção do hotel. Carregava um jornal dobrado na mão e tentava parecer à vontade, mas os passos eram hesitantes e os olhos procuravam alguma coisa. Era um rosto longo e magro, com óculos redondos e testa alta e brilhante.

- Gavin, ouça. Escreva isto. Estou vendo o mesmo homem que vi há pouco. Há uma hora, talvez. Um metro e oitenta e cinco ou pouco mais, magro, uns trinta anos, óculos, um pouco careca, cabelo escuro. Desapareceu. Desapareceu.

- Quem diabo é ele?

- Não fomos apresentados, bolas!

- Ele a viu? Onde é que está?

- No hall de um hotel. Não sei se ele me viu. Vou embora.

- Ouça. Faça o que fizer, mantenha-se em contato comigo, certo?

- Vou tentar.

O banheiro ficava perto do hall. Darby entrou na última cabina, trancou a porta e ficou lá dentro durante uma hora.

 

O fotógrafo chamava-se Croft e trabalhava há sete anos no Post, quando foi condenado pela terceira vez, por uso de drogas, a nove meses de prisão. Quando saiu em liberdade condicional, indicou a sua profissão como artista free-lance e pôs anúncio nas páginas amarelas. O telefone dele raramente tocava. Fazia algum trabalho do tipo fotografar pessoas sem que elas soubessem. Muitos dos seus clientes eram advogados especialistas em divórcio que precisavam de material sujo para o julgamento. Dois anos depois, aprendera alguns truques e considerava-se agora um investigador particular. Cobrava quarenta dólares por hora, quando conseguia algum cliente.

Outro cliente era Gray Grantham, um velho amigo do tempo do jornal que telefonava quando precisava abordar material sujo. Grantham era um repórter sério, ético e raramente usava truques baixos, então telefonava. Croft gostava de Grantham porque ele era sincero em relação aos próprios truques, Os outros bancavam sempre os santos. Estava no Volvo de Grantham porque o carro tinha telefone. Era meio-dia e ele fumava o seu almoço, imaginando se o cheiro iria ficar no carro, mesmo com o vidro aberto. Trabalhava melhor meio dopado. Quando se ganha a vida vigiando motéis, a droga é uma necessidade.

Uma brisa fresca entrava pela janela direita do carro e levava a fumaça para fora, para a Rua Pensilvânia. Estacionara em local proibido, estava fumando maconha e não parecia nada preocupado. Tinha menos de trinta gramas no bolso e o funcionário da justiça que o supervisionava também fumava, portanto, estava tudo bem.

O telefone público ficava a um quarteirão e meio, no passeio, bem afastado da rua. Com as suas lentes telescópicas quase que conseguia ler o catálogo dependurado na estante. Trabalho fácil. Uma mulher enorme enchia toda a cabina e falava com as mãos. Croft deu uma tragada e olhou pelo retrovisor para verificar se não havia nenhum policial à vista. Era uma zona de reboque.

O trânsito era intenso na Pensilvânia.

Ao meio-dia e vinte, a mulher saiu com dificuldade da cabina e um jovem com um belo terno apareceu, vindo do nada, entrou e fechou a porta. Croft pegou sua Nikon e apoiou a lente no volante do carro. O dia estava frio e ensolarado e era grande o movimento de peões à hora de almoço. Ombros e cabeças passavam rapidamente. Uma aberta. Clique. Uma aberta. Clique. O homem digitava os números no telefone e olhava à sua volta. Era aquele o seu homem.

Quando o homem já estava falando há trinta segundos, o telefone do carro tocou três vezes e parou. Era o sinal de Grantham, no Post. Aquele era o seu homem e estava falando.

Croft disparou outra vez. Tire tantas quantas puder, fora a ordem de Grantham. Uma aberta.

Clique. Clique. Cabeças e ombros. Uma aberta. Clique. Clique. Ele olhava para os lados enquanto falava, mas sempre de costas para a rua. De frente. Clique. Croft usou um rolo de trinta e seis  fotografias para cada dois minutos e pegou a outra Nikon. Aparafusou a lente e esperou que um grupo de pessoas passasse. Deu a última tragada e atirou o cigarro para a rua. Aquilo era tão fácil.

É claro que precisava ter talento para captar a imagem num estúdio, mas o trabalho na rua era muito mais divertido. Havia qualquer coisa de ilegal em roubar uma cara com uma máquina escondida.

O seu alvo era homem de poucas palavras. Desligou, olhou em volta, abriu a porta e começou a andar na direção de Croft. Clique, clique, clique. A cara de frente. O corpo de frente, apressando o passo, chegando mais perto, lindo, lindo. Croft trabalhou freneticamente e então, no último momento, pôs a Nikon no banco do carro e olhou para a rua, enquanto o homem passava e desaparecia, no meio de um grupo de secretárias. Que tolo. Quando tiver de se esconder, nunca use o mesmo telefone público duas vezes.

Garcia estava se arriscando. Tinha mulher e filho, disse ele, e estava com medo. Uma carreira promissora aguardava-o, com muito dinheiro, e se pagasse as suas contas e permanecesse calado, rapidamente seria um homem rico. Mas queria falar. Repetiu inúmeras vezes, a necessidade de falar que sentia, que tinha uma coisa a dizer e tudo o mais, mas não conseguia decidir-se.

Não confiava em ninguém.

Grantham não insistiu. Deixou que ele falasse o tempo suficiente para Croft fazer o trabalho dele. Era o seu terceiro telefonema e começava a sentir-se à vontade com seu amigo Grantham, que já tinha feito esse jogo muitas vezes e sabia como funcionava. O primeiro passo consiste em na pessoa se acalmar e inspirar confiança, tratar o outro com delicadeza e respeito, falar sobre o que está certo e o que está errado e sobre moral. Nessa altura, eles começam a, falar.

As fotografias tinham ficado uma beleza. Croft não tinha sido a sua primeira escolha. Ele geralmente estava tão dopado que dava para perceber nas fotografias. Mas Croft era astuto e discreto, com algum conhecimento prático de jornalismo e estava sempre disponível sem aviso prévio. Escolheu doze e fez ampliações de 10 x 15 que ficaram ótimas. Perfil direito. Perfil esquerdo.

De frente, falando ao telefone. De frente, olhando para a máquina fotográfica. Corpo inteiro a menos de seis metros. Trabalho fácil, disse Croft.

Garcia era um advogado com menos de trinta anos, bonito, bem-vestido. Cabelo escuro, curto. Olhos escuros. Talvez de origem espanhola, mas a pele não era morena. Roupas caras.

Terno azul-marinho, provavelmente de lã. Sem riscas, nem desenhos. Colarinho baixo e gravata de seda. Sapatos pretos, de biqueira larga, bem engraxados. Grantham ficou intrigado com a ausência de uma pasta de executivo. Mas afinal era hora de almoço e ele provavelmente saíra do escritório só para telefonar e regressar a seguir. O Ministério da Justiça ficava a um quarteirão do telefone público.

Grantham estudou as fotografias, enquanto vigiava a porta.

Sarge nunca se atrasava. Estava escuro e o clube começava a ficar cheio. Grantham era o único rosto branco em três quarteirões. Entre as dezenas de milhares de advogados do governo no distrito de Colúmbia, Grantham conhecia alguns que sabiam se vestir, mas eram poucos. Especialmente entre os mais jovens.

Começavam por ganhar quarenta por ano e a roupa não era importante. Ora, a roupa era importante para Garcia e ele era muito jovem e muito bem-vestido para ser advogado do governo.

Então devia trabalhar numa firma particular, há uns três ou quatro anos, ganhando mais ou menos oitenta mil por ano. Ótimo. Isso reduzia as possibilidades para cinqüenta mil advogados, um número que certamente aumentava a cada momento.

A porta abriu-se e um policial entrou. Através da fumaça e da névoa ele reconheceu Cleve.

Era um bar respeitável, sem jogo de dados nem prostitutas, portanto à presença de um policial não era motivo de alarme. Cleve sentou-se em frente de Grantham.

- Foi você quem escolheu este lugar?

- Isso mesmo. Gostou?

- Vejamos a coisa do seguinte modo. Estamos tentando não chamar a atenção, certo?

Estou aqui para ouvir segredos de um empregado da Casa Branca. Coisa da pesada. Agora, diga-me, Cleve, acha que não chamo a atenção, sentado aqui, com toda a minha brancura?

- Detesto ter de dizer isto, Grantham, mas não é nem metade tão famoso quanto pensa.

Está vendo aqueles caras no bar?

- Olharam para uns operários de construção, enfileirados no balcão. - Aposto o meu ordenado que nenhum deles alguma vez leu o Washington Post, ou ouviu falar em Gray Grantham, ou liga a mínima importância ao que acontece na Casa Branca.

- Está bem. Tudo bem. Onde está Sarge?

- Sarge não se sente bem. Mandou-lhe um recado.

Não servia. Ele usava Sarge como fonte anônima, mas não o filho de Sarge ou qualquer outra pessoa com quem Sarge tivesse falado.

- Que é que ele tem? Perguntou Grantham.

- Velhice. Ele não queria falar esta noite, mas disse que é urgente.

Grantham esperou.

- Tenho um envelope no meu carro, bem fechado. Sarge foi muito explícito e severo quando me disse para não abrir. Limite-se a levá-lo ao Sr. Grantham. Acho que é importante.

- Vamos.

Abriram caminho até à porta. O radio-patrulha estava estacionado em local proibido. Cleve abriu a porta direita da frente e tirou o envelope do porta-luvas.

- Ele conseguiu isto na ala oeste. - Grantham guardou o envelope no bolso. Sarge não era do tipo de roubar coisas e durante todo o seu relacionamento nunca apresentara nenhum documento.

- Obrigado, Cleve.

- Ele não me quis dizer o que era. Disse que eu tinha de esperar para ler no jornal.

- Diga a Sarge que o adoro.

- Tenho certeza de que ele vai ficar muito feliz com isso.

A viatura afastou-se e Grantham caminhou apressadamente para o Volvo, que tresandava a maconha. Trancou a porta, acendeu a luz e rasgou a parte de cima do envelope. Era um memorando interno da Casa Branca e era sobre um assassino chamado Khamel.

Atravessou a cidade voando baixo. Saiu de Brightwood, entrou na dezesseis e seguiu para sul, na direção do centro de Washington. Eram quase sete e meia e, se pudesse organizar tudo numa hora, dava para sair na edição Late City, a maior da meia dúzia de edições que começavam a sair das rotativas às dez e meia.

Agradecia agora o pequeno telefone do carro, que tanta relutância tinha tido em comprar.

Ligou para Smith Keen, o editor assistente que estava ainda na sala do quinto andar. Telefonou para um amigo na seção de assuntos externos e pediu para descobrir tudo que tivessem sobre Khamel.

Grantham não confiava no memorando. As palavras eram sensíveis demais para serem escritas e depois distribuídas no escritório como as últimas determinações sobre água engarrafada, café ou férias. Alguém, provavelmente Fletcher Coal, queria que o mundo soubesse que Khamel acabava de surgir como suspeito e que ele era árabe, nem mais nem menos, com estreitas ligações com a Líbia, o Irã e o Iraque, países governados por ferozes idiotas que odiavam a América. Alguém na Casa Branca dos tolos queria essa história na primeira página.

Mas era uma história e tanto e sem dúvida notícia de primeira página. Ele e Smith Keen

terminaram às nove horas. Encontraram duas antigas fotografias do homem que acreditavam ser Khamel, uma tão diferente da outra que pareciam de duas pessoas diferentes. Keen achava que deviam publicar as duas. As informações sobre Khamel eram poucas. Muito boato, muita lenda, pouca substância.

Grantham mencionou o papa, o diplomata britânico, o banqueiro alemão e a emboscada contra os soldados israelitas. E agora, segundo uma fonte confidencial da Casa Branca, uma fonte extremamente fiável, Khamel era suspeito de ser o autor das mortes dos juizes Rosenberg e Jensen.

Vinte e quatro horas depois de sair para a rua, ela ainda estava viva. Se conseguisse chegar até à manhã seguinte, podia começar outro dia com novas idéias sobre o que fazer e para onde ir. Mas agora estava cansada. Estava no quarto do décimo quinto andar do Marriott, com a porta fechada à chave, as luzes acesas e uma poderosa lata de Mace, o spray paralisante, sobre a colcha da cama.

O cabelo vermelho-escuro e abundante estava quase todo num saco de papel no armário.

A última vez que tinha cortado o cabelo sozinha tinha três anos e tinha levado uma surra da mãe.

Levou duas horas dolorosas, com uma tesoura, para o cortar e conseguir uma aparência decente. Ia esconder o que restara debaixo de um chapéu ou boné, não sabia até quando. Levou mais duas horas para o tingir de preto. Podia ter feito uma descoloração para ficar loura, mas seria óbvio demais. Supunha que estava lidando com profissionais e sabe-se lá porquê, quando estava na farmácia, deduziu que eles esperavam que ela se tornasse loura. Afinal, não tinha importância.

A tintura vinha num frasco e, se no dia seguinte acordasse com um cabelo muito estranho, podia passar para louro. A estratégia do camaleão. Mude de cor todos os dias e confunda os inimigos.

Claro tinha pelo menos oitenta e cinco tonalidades.

Estava morta de cansaço, mas com medo de dormir. Não vira o seu amigo do Sheraton durante o dia todo, mas quanto mais ela se movimentava na cidade, mais as caras pareciam repetir-se.

Ele estava lá fora, Darby sabia. E tinha amigos. Se tinham conseguido assassinar Rosenberg e Jensen, fazer explodir Thomas Callahan, ela seria fácil.

Não podia aproximar-se do seu carro e não queria alugar um. As agências de aluguel têm um arquivo dos clientes. E provavelmente eles estavam vigilantes. Podia tomar um avião, mas eles vigiavam os aeroportos. Um ônibus, mas nunca tinha comprado uma passagem nem conhecia a estação do Greyhotind.

E quando verificassem o seu desaparecimento, decerto que iam deduzir que andava fugindo deles. Não passava de amadora, uma estudante com o coração partido depois de ver o namorado feito em pedaços e queimado. Ela ia tentar fugir desesperadamente para qualquer lugar fora da cidade e então eles a apanhariam.

Darby preferia a cidade naquele momento. Tinha um milhão de quartos de hotel, quase o mesmo número de ruas e bares e multidões estavam sempre passando pela Bourbon, Chartres, Dauphine e Royal. Ela conhecia bem Nova Orleans, especialmente o Quarter, onde a vida estava sempre ao alcance da mão. Iria de hotel em hotel durante alguns dias, até quando? Não sabia quando. Não sabia porquê. Manter-se em movimento parecia a coisa mais inteligente dadas as circunstâncias. Tentaria dormir de manhã e não sair à rua. Mudaria constantemente de roupa, de chapéu, de óculos escuros.

Começaria a fumar e teria sempre um cigarro nos lábios. Ia manter-se em movimento até se cansar, e então talvez deixasse a cidade. Era normal ter medo. Não podia deixar de pensar. Ia sobreviver.

Pensou em chamar a polícia, mas não agora. Eles anotavam nomes e arquivavam informações, e podiam ser perigosos. Pensou em telefonar para o irmão de Thomas, em Mobile, mas o pobre homem não podia fazer coisa alguma por ela naquele momento.

Pensou em telefonar para o reitor da Faculdade, mas como ia explicar o dossiê, Gavin Verheck, o FBI, a bomba no carro, Rosenberg e Jensen e sua condição de fugitiva, de modo que ele pudesse acreditar? Esqueça o reitor. De qualquer modo, nem sequer gostava dele. Pensou em telefonar para amigos da Faculdade, mas as pessoas falam, as pessoas escutam, e eles podiam estar por perto, ouvindo os comentários sobre o pobre Callahan. Queria falar com Alice Stark, a sua melhor amiga. Alice devia estar preocupada

e Alice avisaria a polícia de que a sua amiga Darby Shaw tinha desaparecido. Telefonaria para Alice no dia seguinte.

Ligou para o serviço de quartos e pediu uma salada mexicana e uma garrafa de vinho tinto.

Beberia a garrafa inteira, depois se sentaria na cadeira com a lata de spray na mão, de frente para a porta, até adormecer.

 

A limusine de Gminski fez uma volta completa na Canal Street, como se fosse dona da rua, e parou em frente do Sheraton. As duas portas traseiras abriram-se rapidamente. Gminski saiu primeiro, seguido por três ajudantes apressados, com sacos e malas.

Eram quase duas horas da manhã e o diretor evidentemente estava com muita pressa. Não parou na recepção, mas foi direito aos elevadores. Os homens correram, seguraram-lhe a porta do elevador e subiram para o sexto andar, sem uma palavra.

Esperavam-nos três agentes num quarto no fim do corredor. Um deles abriu a porta e Gminski entrou como um furacão, sem cumprimentar ninguém. Os ajudantes atiraram as malas para cima da cama.

O diretor tirou o casaco e atirou-o para uma cadeira.

- Onde está ela? - perguntou ao agente Hooten.

O outro, chamado Swank, abriu as cortinas e Gminski foi até a janela.

Swank apontou para o Marriott, do outro lado da rua a um quarteirão do Sheraton.

Ela está no décimo quinto andar, terceiro quarto a contar da rua. As luzes ainda estão acesas.

Gminski olhou para o Marriott.

- Tem certeza?

- Tenho. Vimos quando chegou e pagou com cartão de crédito.

- Pobre garota - disse Gminski, afastando-se da janela. Onde estava ela ontem à noite?

- No Holiday Inn, na Royal. Pagou com cartão de crédito.

- Viram se alguém a está seguindo?

- Ninguém.

- Quero um copo de água - disse ele para um ajudante, que pegou o balde de gelo imediatamente. Sentado na beira da cama, Gminski cruzou as mãos e estalou os dedos.

- O que acha? - perguntou a Hooten, o mais velho dos três agentes.

- Andam atrás dela. Andam à procura por toda a parte. Ela usa cartões de crédito. Estará morta dentro de quarenta e oito horas.

- Ela não é muito tola - observou Swank. - Cortou o cabelo e tingiu-o de preto. Está sempre em movimento. Aparentemente pretende sair da cidade muito em breve. Não dou mais de setenta e duas horas para que eles a encontrem.

Gminski bebeu um gole de água.

- Isso significa que o pequeno dossiê dela atingiu o alvo. E significa que o nosso amigo é agora um homem desesperado. Onde está ele?

Hooten respondeu rapidamente.

- Não fazemos idéia.

- É preciso encontrá-lo.

- Desapareceu há três semanas.

Gminski pôs o copo na mesa e agarrou uma chave do quarto.

- Então, que acha? - perguntou a Hooten.

- Vamos apanhá-la? - perguntou Hooten.

- Pode não ser fácil - disse Swank. - Talvez ela tenha uma arma. Alguém pode ficar ferido.

- É uma garota que está assustada - disse Gminski. Além disso, é uma cidadã comum, não um membro da CIA. Não podemos andar por aí apanhando cidadãos comuns na rua.

- Então ela não vai durar muito - disse Swank.

- Como é que a apanharíamos? - perguntou Gminski.

- De várias maneiras - respondeu Hooten. – Nós a apanharíamos na rua. Ou no quarto.

Posso estar dentro do quarto dela em menos de dez minutos, se sair agora. Não é tão difícil. Ela não é profissional.

Gminski começou a andar pelo quarto e todos tinham os olhos pregados nele. Consultou o relógio.

- Não estou inclinado a trazê-la até nós. Vamos dormir quatro horas e encontramo-nos aqui às seis e meia. Durmam sobre o assunto. Se conseguirem convencer-me a apanhá-la, tudo bem.

Certo?

Todos concordaram, obedientemente.

O vinho funcionou. Darby adormeceu na cadeira, depois foi para a cama e dormiu pesadamente. O telefone estava tocando. O cobertor estava quase todo no chão e os pés no travesseiro. O telefone continuava tocando. As pálpebras pareciam que estavam coladas. A mente atordoada, parecia perdida em sonhos, mas, bem lá no fundo, em qualquer canto escondido, havia uma coisa que lhe dizia que o telefone estava tocando.

Os olhos abriram-se mas viram muito pouco. O sol ia alto, as luzes acesas e ela olhou para o telefone. Não, não pedira para ser acordada. Pensou por um segundo e teve certeza. Não pedira para ser acordada. Sentou-se na beira da cama, ouvindo o telefone.

Cinco, dez, quinze, vinte vezes. Não ia parar. Podia ser engano, mas nesse caso teria parado ao fim de vinte toques. Não era engano. A névoa começou a abrir-se e ela aproximou-se do aparelho. A exceção do recepcionista e do chefe dele, e talvez do serviço de quartos, ninguém mais sabia que ela estava naquele quarto. Só tinha usado o telefone para pedir comida. Parou de tocar. Ótimo, número errado. Darby foi para o banheiro e o telefone recomeçou. Pôs-se a contar.

Depois do décimo quarto toque, ergueu o auscultador.

- Alô.

- Darby. É Gavin Verheck. Você está bem?

Ela sentou-se na cama.

- Como conseguiu este número?

- Temos nossos métodos. Ouça, Darby...

- Espere, Gavin. Espere um minuto. Deixe-me pensar. O cartão de crédito, certo?

- Sim, o cartão de crédito. A pista dos documentos e registros. Sou do FBI, Darby. Temos nossos meios. Não é assim tão difícil.

- Então, eles também podem descobrir.

- Acho que sim. Fique em hotéis pequenos e pague com dinheiro.

Darby deitou-se na cama com um nó no estômago. Era assim tão simples. Nenhuma dificuldade. A pista dos documentos. Ela podia estar morta. Morta na pista dos documentos.

- Darby, está me ouvindo?

- Estou. - Olhou para a porta para ter certeza de que estava trancada e com a corrente de segurança. - Sim, estou ouvindo.

- Está em segurança?

- Pensei que estivesse.

- Conseguimos alguma informação. Amanhã, às três horas, vai haver uma cerimônia no campus e depois o enterro, na cidade. Falei com o irmão dele e a família quer que eu ajude a carregar o caixão. Estarei aí hoje à noite. Acho que devemos encontrar-nos.

- Porquê?

- Tem de confiar em mim, Darby. A sua vida está em perigo neste momento e precisa me ouvir.

- O que é que vocês estão tramando?

Uma pausa e a seguir:

- O que quer dizer?

- O que disse o diretor Voyles?

- Não falei com ele.

- Pensei que fosse advogado dele, por assim dizer. O que é que está se passando, Gavin?

- Não vamos fazer coisa alguma por enquanto.

- E o que significa isso, Gavin? Diga-me.

- Por isso é que precisamos nos encontrar. Não quero falar pelo telefone.

- O telefone está ótimo, e é tudo o que vai ter por enquanto. Portanto, comece a falar, Gavin.

- Por que não confia em mim? - Estava ofendido.

- Vou desligar, está bem? Não gosto disto. Se vocês sabem onde estou, então pode haver alguém à minha espera no corredor.

- Que tolice, Darby. Use a cabeça. Consegui o número do seu quarto a uma hora e limitei-me a telefonar. Estamos do seu lado, juro.

Darby pensou um instante. Fazia sentido, mas tinham-na encontrado com tanta facilidade.

- Estou ouvindo. Não falou com o diretor, mas o FBI não vai agir. Por que não?

- Não tenho certeza. Ele resolveu ontem desistir do Dossiê Pelicano e deu instruções para ninguém fazer nada mais. E tudo quanto sei.

- Não é muita coisa. Ele sabe do Thomas? Sabe que eu devia estar morta porque escrevi o dossiê e que quarenta e oito horas depois de Thomas o ter entregado a você, o seu melhor amigo da Faculdade, eles, seja lá quem for, tentaram matar-nos? Ele sabe tudo isso, Gavin?

- Acho que não.

- Isso quer dizer não, certo?

- Sim. Quer dizer não.

- Muito bem, então ouça. Acha que ele foi morto por causa do dossiê?

- Provavelmente.

- E isso quer dizer sim, certo?

- Sim.

- Obrigada. Se Thomas foi assassinado por causa do dossiê, então nós sabemos quem o matou. E se sabemos quem matou Thomas, sabemos quem matou Rosenberg e Jensen. Certo?

Verheck hesitou.

- Diga que sim, que chatice! - irritou-se Darby.

- Direi provavelmente.

- Ótimo. Provavelmente significa sim para um advogado. Sei que é o melhor que pode fazer.

E um provavelmente muito forte, e você está dizendo que o FBI está dando proteção ao meu suspeito.

- Procure acalmar-se, Darby. Vamos encontrar-nos esta noite e conversar. Eu posso salvar-lhe a vida.

Darby com muito cuidado pôs o auscultador debaixo do travesseiro e foi para o banheiro.

Lavou os dentes e o que restava do seu cabelo, depois guardou todos os artigos de toalete num saco de lona. Vestiu o blusão com capuz, pôs o boné na cabeça, os óculos escuros e saiu, fechando a porta silenciosamente. O corredor estava vazio. Subiu pela escada até ao décimo sétimo andar, tomou o elevador para o décimo e desceu calmamente pela escada até ao hall. A porta da escada ficava perto dos banheiros e ela entrou rapidamente na das mulheres. O hall parecia deserto.

Darby entrou num dos boxes, fechou a porta e esperou. Manhã de sexta-feira no Quarter. O ar estava frio e limpo com os restos dos odores de comida e pecado. Oito horas da manhã, cedo demais para qualquer movimento. Andou dois quarteirões para desanuviar a cabeça e planejar o dia.

Na Dumaine, perto de Jackson Square, havia um café em que ela já tinha reparado. Estava quase vazio e tinha um telefone público lá atrás. Serviu-se de café forte e espesso e sentou-se na mesa ao lado do telefone. Ali podia falar. Verheck atendeu em menos de um minuto.

- Estou ouvindo - disse ele.

- Onde é que vai ficar esta noite? - perguntou Darby, ao mesmo tempo em que vigiava a porta da frente.

- No Hilton, ao lado do rio.

- Sei onde fica. Eu telefono tarde, à noite, ou amanhã de manhã. Não tente localizar-me outra vez. Estou pagando com dinheiro agora. Nada de cartão de crédito.

- Isso é bom, Darby. Continue em movimento.

- Posso estar morta quando você chegar aqui.

- Não, não vai estar. Pode comprar o Washington Post?

- Talvez. Por quê?

- Compre um agora mesmo. O número desta manhã. Uma linda historia sobre Rosenberg e Jensen e talvez sobre quem os matou.

- Vou fazer isso. Telefono depois.

A primeira banca não tinha o Post. Darby caminhou para Canal Street, dando voltas, mudando de direção, olhando para trás, passando pela St. Ann, pelas lojas de antiguidades da Royal, diante dos bares de terceira classe nos dois lados da Bienville, e finalmente do French Market, pela Decatur e North Peters.

Andava depressa, mas aparentemente descontraída, como quem tem muito que fazer, a olhar para todos os lados, examinando as sombras. Se eles estavam escondidos em algum lugar, vigiando e a acompanhando, deviam ser muito bons.

Comprou o Post e o Times Picayune, na rua, e sentou-se a uma mesa num canto deserto do Café du Monde.

Primeira página. Citando uma fonte confidencial, a reportagem falava da lenda de Khamel e do seu envolvimento nos assassinatos. Quando era jovem, dizia o artigo, Khamel matava pelas suas crenças, mas agora só o fazia por dinheiro. Muito dinheiro, calculava um agente aposentado, citado, mas não identificado. As fotografias eram escuras e pouco nítidas, mas absurdamente postas uma ao lado da outra. Não podiam ser da mesma pessoa. Porém, dizia o especialista, era impossível identificá-lo e há mais de dez anos que não era fotografado.

Um empregado apareceu finalmente e Darby pediu café e um pão simples. O artigo dizia que muita gente pensava que Khamel tinha morrido. A Interpol acreditava que ele tinha cometido um assassinato há menos de seis meses. O ex-agente duvidava que ele viajasse em aviões comerciais comuns. Khamel estava no topo da lista do FBI.

Darby abriu devagar o jornal de Nova Orleans. Thomas não estava na primeira página, mas na segunda, com fotografia e uma longa reportagem. A polícia estava tratando o caso como homicídio, mas não tinham muito com que começar a investigação. Uma mulher branca fora vista no local, logo depois da explosão. Segundo o reitor, a faculdade de Direito estava em estado de choque. A polícia dizia pouca coisa. A cerimônia seria no dia seguinte, no campus. Fora cometido um erro terrível, dizia o reitor. Se era de fato assassinato, tinham certamente eliminado a pessoa errada.

Com os olhos cheios de lágrimas, Darby sentiu de repente outra vez medo. Talvez fosse simplesmente um engano. Era uma cidade violenta, cheia de doidos, e talvez alguém tivesse entendido mal e escolhido o carro errado. Talvez ninguém estivesse à sua procura.

Pôs os óculos escuros e olhou para a fotografia dele.

Era uma cópia do álbum anual da faculdade e lá estava o sorriso irônico que ele usava nas aulas. Tinha a barba feita e estava muito bonito.

A reportagem de Grantham sobre Khamel eletrizou Washington naquela manhã. Não mencionava o memorando nem a Casa Branca, e o jogo mais animado da cidade passou a ser a especulação sobre a fonte. O jogo estava particularmente animado no edifício Hoover. No escritório do diretor, Eric East e K. O. Lewis andavam nervosamente de um lado para o outro, enquanto Voyles falava com o presidente pela terceira vez em duas horas. Voyles praguejava, não diretamente para o presidente, mas para o mundo a sua volta. Amaldiçoou Coal, e quando o presidente respondeu na mesma moeda, Voyles sugeriu que todo o pessoal da Casa Branca, a começar por Coal, fosse submetido ao detector de mentiras para descobrir o autor da fuga de informação. Sim, que maçada, sim, ele, Voyles faria o teste, bem como todos os que trabalhavam no edifício Hoover. E continuaram a trocar despropósitos. Voyles estava vermelho e suando, e não se importava nem um pouco com o fato de estar berrando no telefone, com o presidente no outro lado da linha. Sabia que Coal estaria ouvindo, em qualquer lugar.

Como era de esperar, o presidente tomou as rédeas da conversa e começou um longo sermão. Voyles enxugou a testa com o lenço, sentou-se na sua antiga cadeira giratória e começou um exercício de respiração controlada para baixar a tensão. Tinha sobrevivido a um enfarte e estava a ponto de ter outro e muitas vezes dissera a K. O. Lewis que Coal e o seu chefe idiota iam acabar por matá-lo.

Mas Voyles dissera anteriormente o mesmo sobre três presidentes. Com a mão na testa, Voyles afundou-se mais na cadeira.

- Podemos fazer isso, senhor presidente. - Estava quase delicado agora. Era um homem capaz de mudar radicalmente de atitude e, de repente, passou a ser cortês. E encantador. Muito obrigado, senhor presidente. Estarei aí amanhã.

Desligou cuidadosamente e falou, com os olhos fechados.

- Ele quer o repórter do Post sob vigilância. Diz que já fizemos isso em outras ocasiões, portanto, podemos voltar a fazê-lo. Eu disse que íamos vigiá-lo.

- Que tipo de vigilância? - perguntou K. O.

- Vamos apenas segui-lo pela cidade. Dia e noite, com dois homens. Verificar onde é que ele vai à noite, com quem é que ele dorme. É solteiro, não é?

- Divorciado há sete anos - respondeu Lewis.

- Tenham muito cuidado para não serem apanhados. Quero homens com roupas civis, substituídos de três em três dias.

- Será que ele acredita mesmo que a fuga de informação partiu daqui?

- Não, acho que não. Se acreditasse, por que iria querer que vigiássemos o repórter? Acho que ele sabe que é coisa da sua própria gente. E quer apanhar o culpado.

- Um pequeno favor - acrescentou Lewis.

- Certo. Mas, não se deixem apanhar, está bem?

O escritório de L. Matthew Barr ficava no terceiro andar de um prédio de escritórios, velho e mal cuidado, na rua M, em Georgetown. Não tinha nenhuma placa nas portas. Um guarda armado, de casaco e gravata, orientava as pessoas no elevador. O carpete estava gasto e os móveis muito velhos. O pó cobria tudo e aparentemente a Unit não gastava dinheiro com mulheres a dias.

Barr dirigia a Unit, uma pequena divisão não oficial e disfarçada do Comitê de Reeleição do Presidente. O CRP ocupava uma suíte de escritórios luxuosos no outro lado do rio, em Rossilyn.

Tinha janelas que podiam ser abertas, secretárias sorridentes e mulheres a dias que faziam a limpeza todas as noites. Mas não naquele monte de lixo.

Fletcher Coal saiu do elevador e cumprimentou o guarda de segurança com uma pequena inclinação de cabeça. O homem respondeu do mesmo modo. Eram velhos conhecidos. Coal passou pelo labirinto de pequenos escritórios, na direção do de Barr.

Orgulhava-se de ser honesto consigo mesmo e honestamente não temia nenhum homem em Washington, à exceção, talvez, de Matthew Barr.

Às vezes tinha medo dele, outras não, mas admirava-o sempre.

Barr era ex-fuzileiro, ex-agente da CIA, ex-espião com duas condenações por quebra de segurança, com as quais ganhou milhões, que desbaratou. Serviu alguns meses num dos country clube, mas não cumpriu pena realmente. Coal recrutou-o pessoalmente para dirigir a Unit, que, oficialmente, não existia. Tinha um orçamento anual de quatro milhões, tudo em dinheiro tirado de várias "caixinhas", e Barr supervisava um pequeno bando de capangas altamente treinados que se encarregavam de fazer, discretamente, o trabalho da Unit.

A porta de Barr estava sempre trancada. Abriu-a e Coal entrou. Como sempre, ia ser um encontro rápido.

Deixe-me adivinhar - disse Barr. Quer que eu descubra a origem da fuga de informação.

- De certo modo, sim. Quero que siga esse repórter, Grantham, dia e noite e veja com quem ele fala. Está conseguindo material muito bom e acho que vem todo da Casa Branca.

- Vocês têm mais furos que um cano furado.

- Temos alguns problemas, mas a história de Khamel foi especial. Eu mesmo a escrevi.

Barr sorriu.

- Foi o que pensei. Pareceu-me muito limpa e perfeita.

- Já encontrou esse Khamel alguma vez?

- Não. Há dez anos tínhamos certeza de que estava morto. É disso que ele gosta. Não tem ego, portanto nunca será apanhado. Pode viver numa barraca de papel em São Paulo, durante seis meses, comendo raízes e ratos, depois voar para Roma para assassinar um diplomata, depois passar alguns meses em Singapura. Ele não lê as notícias dos jornais a respeito dele.

- Que idade ele tem?

- Por que está interessado?

- Estou fascinado. Acho que sei quem o contratou para matar Rosenberg e Jensen.

- Ora, não me diga que acredita nessa besteira toda.

- Não, ainda não.

- Deve ter entre quarenta a quarenta e cinco, o que não é muito, mas matou um general libanês aos quinze anos. Portanto, já tem uma longa carreira. Tudo isso é lenda, compreende. Ele pode matar com qualquer uma das mãos, com o pé, com uma chave de carro, um lápis, qualquer coisa. É um ótimo atirador com qualquer tipo de arma. Fala doze línguas. Já ouviu tudo isso, não ouviu?

- Já, mas é interessante.

- Certo. É considerado o mais eficiente e mais caro assassino do mundo. Quando jovem era apenas um terrorista, mas talentoso demais para ficar apenas lançando bombas. Depois, tornou-se um assassino de aluguel. Está um pouco mais velho, e só mata por dinheiro.

- Quanto dinheiro?

- Boa pergunta. Provavelmente está na faixa de dez a vinte milhões e só existe outro cara, que eu saiba, que cobre isso. Há uma teoria que diz que ele divide o dinheiro com os grupos terroristas. Ninguém sabe ao certo. Deixe-me adivinhar, quer que eu encontre Khamel e o traga, vivo.

- Deixe o Khamel em paz. Eu gostei do trabalho que ele fez.

- Tem muito talento.

- Quero que siga Gray Grantham e descubra com quem é descubra onde que ele se encontra.

- Alguma pista?

- Sim. Há um homem chamado Milton Hardy, zelador da ala oeste. - Coal atirou um envelope para cima da mesa. - Está lá há muito tempo, parece quase cego, mas acho que ele vê e ouve muito bem. Vigie o homem durante uma ou duas semanas. Todos lhe chamam Sarge. Faça planos para tirá-lo da toca.

- Isso é grande, Coal. Vamos gastar todo este dinheiro para vigiar negros cegos.

- Faça o que estou dizendo. Digamos, três semanas.

Coal encaminhou-se para a porta.

- Então você sabe quem contratou o assassino? – disse Barr.

- Estamos nos aproximando.

- A Unit está mais do que ansiosa por ajudar.

-Tenho certeza disso.

 

A Sra. Chen era proprietária do duplex e há quinze anos que alugava a outra metade a estudantes de Direito. Era exigente mas discreta, do tipo viva e deixe viver, desde que a calma fosse mantida. Ficava a seis quarteirões da Universidade.

Estava escuro quando ela abriu a porta a uma jovem atraente, de cabelo curto e escuro, com um sorriso nervoso. Nervoso demais. A Sra. Chen olhou para ela com a testa franzida e esperou.

- Sou Alice Stark, amiga da Darby. Posso entrar? - Olhou para trás. A rua estava silenciosa e vazia. A Sra. Chen morava sozinha com portas e janelas trancadas, mas a garota era bonita, tinha um sorriso inocente e se era amiga de Darby, então podia confiar nela. Abriu a porta e Alice entrou,

- Algum problema? - perguntou a Sra. Chen.

- Sim. Darby está com um pequeno problema, mas não podemos falar disso. Ela telefonou

esta tarde?

- Telefonou. Disse que uma garota viria visitar o apartamento dela.

Alice respirou fundo, tentando aparentar calma.

- Não demoro mais de um minuto. Ela disse que há uma porta interna em qualquer parte.

Eu prefiro não usar a porta da frente ou a dos fundos.

A Sra. Chen franziu a testa e os seus olhos perguntaram porquê, mas não disse nada.

- Alguém esteve no apartamento nos dois últimos dias? perguntou Alice, acompanhando a Sra. Chen no corredor estreito.

- Não vi ninguém. Ontem, muito cedo, ouvi baterem a porta, mas não fui ver quem era. -

Afastou uma mesa, girou a chave e abriu uma porta.

Alice entrou à frente dela

- Darby quer que eu entre sozinha, está bem?

A Sra. Chen queria dar uma espiada, mas, com um gesto afirmativo, fechou a porta. Alice entrou num pequeno corredor, escuro. À esquerda ficava a sala de estar e um interruptor que não podia ser usado. Alice ficou imóvel, no escuro. O apartamento estava às escuras, o ar viciado, com um forte cheiro a lixo velho. Sabia que ia estar sozinha, mas que diabo, era apenas uma estudante de Direito do segundo ano, não uma detetive particular experiente.

Controle-se. Procurou na carteira e encontrou uma lanterna do tamanho de um lápis. Tinha três daquelas na carteira. Para o caso de precisar. Precisar de quê? Alice não sabia. Darby fora bem específica. Nenhuma luz devia ser vista de fora. Eles podiam estar vigiando.

Quem diabo eram eles? Alice quis saber. Darby não sabia, disse que lhe explicaria mais tarde, mas primeiro o apartamento precisava de ser revistado. Alice já tinha estado muitas vezes no apartamento, mas entrara sempre pela porta da frente, com as luzes acesas e todas as outras coisas necessárias funcionando.

Conhecia todas as divisões e tinha certeza de poder andar nelas na escuridão. Certeza desapareceu de repente, substituída por um medo aterrador.

Controle-se. Está sozinha. Eles não iam acampar aqui com uma mulher curiosa do outro lado da porta. Se tinham estado no apartamento, fora para uma breve visita. Olhou para a pequena luz da lanterna, para ver se funcionava. Brilhava com toda a energia de um fósforo prestes a apagar-se. Apontou para o chão e viu um círculo de luz desbotado, do tamanho de uma laranja pequena. O circulo tremia.

Foi na ponta dos pés até um canto, na direção da sala. Darby tinha dito que havia uma pequena lâmpada na estante dos livros ao lado da televisão, que ficava sempre acesa. Ela usava-a como luz de presença e a luz atravessava a sala e ia até a cozinha. Ou Darby tinha mentido ou a lâmpada estava queimada ou, então, alguém a tinha desatarraxado. Na verdade, naquela altura isso não tinha importância porque a sala e a cozinha estavam escuras como breu.

Ela estava no tapete no centro da sala, dirigindo-se devagar para a cozinha onde devia estar o computador. Bateu com o pé na mesa de centro e a lanterna se apagou. Alice sacudiu-a.

Nada.

Pegou a segunda, na carteira.

O cheiro era mais forte na cozinha. O computador estava na mesa ao lado de uma porção de pastas e cadernos de anotações.

Examinou o aparelho com a lanterna. O botão para ligar ficava na frente. Alice apertou-o e a tela aqueceu devagar. A luz esverdeada iluminou a mesa, mas não passou da cozinha.

Alice sentou-se na frente do teclado e começou a digitar.

Menu. List. File. O diretório cobria a tela toda. Estudou-o atentamente. Devia haver cerca de quarenta itens, mas ela só via dez. A maior parte da memória fora apagada. Ligou a impressora laser e em poucos segundos o diretório estava no papel. Alice tirou-o da máquina e guardou-o na carteira. Com a lanterna, examinou a desordem em volta do computador. Darby calculava que devia haver uns vinte disquetes, mas não havia nenhum. Os livros eram de Direito Constitucional e Procedimento Civil, tão chatos e genéricos que ninguém queria aquilo. Os arquivos vermelhos estavam empilhados por ordem, mas vazios.

Fora um trabalho perfeito e paciente. Ele ou eles tinham passado algumas horas apagando e compilando informações e deviam ter saído apenas com uma mala pequena ou um saco de papel.

Na sala, ao lado da televisão, Alice olhou pela janela lateral. O Accord vermelho continuava lá, a menos de um metro e meio da janela. Parecia estar tudo normal.

Alice atarraxou a lâmpada da estante e acendeu-a e apagou-a rapidamente. Estava perfeita. Desatarraxou-a, e deixou-a. Exatamente como a tinha encontrado.

Os seus olhos estavam agora mais habituados ao escuro. Via os contornos das portas e dos móveis. Desligou o computador e passou para o corredor.

A Sra. Chen estava à espera exatamente onde Alice a tinha deixado.

- Tudo bem? - perguntou ela.

- Tudo ótimo - respondeu Alice. - Fique bem atenta. Eu telefono daqui a um ou dois dias para saber se alguém veio aqui. E, por favor, não deixe ninguém entrar no apartamento.

A Sra. Chen ouviu com atenção enquanto encostava outra vez a mesa à porta.

- E o carro dela?

- Não há problema. Tome conta dele também.

- Ela está bem?

Estavam na sala, quase na porta da frente.

- Vai ficar bem. Acho que voltará dentro de poucos dias. Muito obrigada, Sra. Chen.

A Sra. Chen fechou a porta, trancou e espiou pela janelinha. A garota chegou ao passeio e a seguir desapareceu na noite.

Alice andou três quarteirões até ao seu carro.

Sexta-feira à noite, no Quarter, Tulane ia jogar no Dome no dia seguinte e os Saints jogavam no domingo. Os milhares de adeptos estavam chegando, estacionando por toda a parte, bloqueando as ruas, andando de lá para cá em grupos barulhentos, bebendo em copos de papel, enchendo os bares, divertindo-se a valer com toda aquela desordem. O Quarter fechava às nove.

Alice estacionou na Poydras, longe do lugar em que pretendia estacionar, e chegou uma hora atrasada ao bar apinhado de gente, na St. Peter, no interior do Quarter. Não havia mesa. Os fregueses amontoavam-se em fila tripla em frente do bar. Ela ficou num canto, ao lado da máquina de cigarros. A maior parte dos fregueses eram estudantes que tinham vindo para assistir aos jogos.

Um empregado dirigiu-se a ela.

- Está à procura de outra garota? - perguntou.

Alice hesitou.

- Eu, bem, estou.

Ele apontou para o bar.

- No fim do balcão, primeira sala à direita, vai encontrar algumas mesas pequenas. Acho que a sua amiga está lá.

Darby estava inclinada sobre a garrafa de cerveja, de óculos escuros e chapéu. Alice apertou-lhe a mão.

- Prazer em vê-la. - Examinou o corte de cabelo e achou graça.

Darby tirou os óculos. Os olhos estavam vermelhos e cansados.

- Eu não tinha mais ninguém a quem pudesse telefonar.

Alice ficou impassível, incapaz de pensar em alguma coisa apropriada para dizer e sem tirar os olhos do cabelo de Darby.

- Quem te fez isso ao cabelo?

- Bonito, não é? Mais ou menos a moda punk que, julgo eu, está voltando e certamente vai causar boa impressão quando eu for entrevistada para um emprego.

- Porquê?

- Alguém tentou me matar, Alice. O meu nome está numa lista de gente muito perigosa.

Acho que andam me seguindo.

- Matar? Você disse "matar"? Quem é que ia querer isso?

- Não sei ao certo. Que tal o meu apartamento?

Alice desviou os olhos do cabelo de Darby e entregou o impresso do diretório. Darby examinou-o. Era real. Não era um sonho, ou um engano. A bomba tinha encontrado o carro certo.

Rupert e o cowboy quase a tinham apanhado. A cara que ela conhecia estava à sua procura. Tinham ido ao seu apartamento e tinham apagado tudo o que lhes deu vontade. Estavam lá fora, em um lugar qualquer.

- E os disquetes?

- Nenhum. Nem sinal. Os arquivos na mesa da cozinha estavam muito bem arrumados e completamente vazios. Todo o resto parecia em ordem. Desatarraxaram a lâmpada da luz de presença, portanto está tudo às escuras. Eu verifiquei. A lâmpada está perfeita. É uma gente muito paciente.

- E a Sra. Chen?

- Não viu nada.

Darby guardou o impresso no bolso.

- Ouça, Alice. De repente, estou com medo. Você não precisa que te vejam comigo. -

Talvez isto não tenha sido uma boa idéia.

- Quem é essa gente?

- Não sei. Eles mataram Thomas e tentaram matar-me. Tive sorte e agora andam atrás de mim.

- Mas, porquê, Darby?

- Você não quer saber e eu não te vou contar. Quanto mais souber, maior será o perigo.

Confie em mim, Alice. Não te posso contar o que sei.

- Mas eu não conto a ninguém, juro.

- E se te obrigarem a contar?

Alice olhou em volta para ver se estava tudo bem. Olhou para Darby. Eram amigas desde que tinham entrado para a faculdade. Tinham estudado juntas durante horas, compartilhado apontamentos, feito exames juntas, organizado julgamentos fictícios juntas, tinham falado sobre homens. Darby pensava que Alice era a única aluna da Faculdade que sabia o que se passava entre ela e Callahan.

- Quero ajudar, Darby. Não tenho medo.

Darby não tinha tocado na cerveja. Girou a garrafa devagar.

- Bem, pois eu estou apavorada. Eu estava lá quando ele morreu, Alice. O chão tremeu. Ele foi feito em pedaços e eu devia estar também no carro. A bomba era para mim.

- Então, vá a polícia.

- Ainda não. Mais tarde, talvez. Tenho medo de ir à polícia. Thomas procurou o FBI e dois dias depois nós dois devíamos ter morrido.

- Então o FBI está a sua procura?

- Acho que não. Eles falaram e alguém estava por perto ouvindo e tudo foi parar nos ouvidos errados.

- Falar do quê! Vamos, Darby. Sou eu. A sua melhor amiga. Pare com esse jogo.

Darby bebeu o primeiro gole de cerveja. Evitou olhar para a amiga.

- Por favor, Alice. Me de algum tempo. Não adianta contar uma coisa que pode causar a sua morte. - Uma longa pausa. - Se quer ajudar, vá ao funeral amanhã. Observe tudo. Espalhe a notícia de que eu telefonei de Denver, da casa de uma tia cujo nome você não sabe e que vou faltar este semestre, mas volto na Primavera. Faça o possível para espalhar essa história. Acho haverá alguém ouvindo atentamente.

- Está bem. O jornal menciona uma mulher branca perto do local, quando ele foi morto, como se ela pudesse ser suspeita do crime, ou coisa assim.

- Ou coisa assim. Eu estava lá e devia ser a vítima. Tenho lido os jornais com uma lente de aumento. A polícia não têm nenhuma pista.

- Tudo bem, Darby. Você é mais esperta do que eu. Mais inteligente do que qualquer outra pessoa que eu conheça. E agora, o que é que eu faço?

- Primeiro, saia pela porta dos fundos. Há uma porta branca no fim do corredor onde ficam os banheiros. Dá para uma área, que sai na cozinha, e depois fica a porta dos fundos. Não pare. A passagem atrás do bar vai dar na Royal. Tome um táxi até o seu carro. Veja se não está sendo seguida.

- Está falando sério?

- Está vendo este cabelo, Alice? Acha que eu iria me mutilar desta maneira só por brincadeira?

- Está bem. E depois?

- Vá ao funeral amanhã, espalhe o boato e eu telefono daqui a dois dias.

- Onde está hospedada?

- Aqui e ali. Mudo muito de hotel.

Alice levantou-se, beijou rapidamente Darby e saiu.

Durante duas horas Verheck andou furioso de um lado para o outro, apanhando revistas, atirando-as para longe, pediu o serviço de quarto, desfez as malas, continuou a andar. A seguir, durante mais duas horas, ficou sentado na cama, bebendo uma cerveja quente e olhando para o telefone. Ia fazer isso até a meia-noite, pensou, e depois, depois o quê?

Ela tinha dito que ia telefonar. Verheck podia salvar-lhe a vida se Darby telefonasse. A meia noite, atirou outra revista para longe e saiu do quarto. Um agente do escritório de Nova Orleans tinha ajudado um pouco com uma lista dos lugares preferidos pelos estudantes de Direito, mais próximos do campus. Pretendia ir a todos, misturar-se com os estudantes, tomar uma cerveja e ouvir. Os estudantes estavam na cidade para o jogo. Ela não devia estar, e mesmo que estivesse não adiantava, porque ele não a conhecia. Mas talvez ouvisse alguma coisa, e podia dizer um nome, deixar um cartão, fazer amizade com alguém que a conhecesse ou que conhecesse alguém que a conhecia.

Uma probabilidade muito remota, mas melhor e mais produtiva do que ficar olhando para o telefone. Conseguiu uma mesa num bar chamado Barrister's, a três quarteirões do campus. Tinha um ar universitário, com programas dos jogos de futebol e posters de mulheres nas paredes. A freguesia era barulhenta e todos tinham menos de trinta anos. O barman parecia um estudante. Ao fim de duas cervejas, a freguesia diminuiu e o bar ficou quase vazio. Mais tarde entraria outra leva.

Verheck pediu a terceira cerveja. Uma e meia da manhã.

- Você é estudante de Direito? - perguntou ao barman.

- Infelizmente, sou.

- Não é assim tão ruim, não é?

Ele passava o pano em volta do recipiente dos amendoins.

- Já me diverti mais.

Verheeck sentiu saudades dos barmen que serviam cerveja no seu tempo de estudante.

Aqueles tipos conheciam a arte da conversa. Ninguém era estranho para eles. Falavam acerca de tudo.

- Eu sou advogado - disse Verheck.

- Que formidável, este cara é advogado. Que coisa rara. Uma pessoa especial.

O rapaz foi para a outra extremidade do bar.

O filho da mãe. Espero que seja reprovado. Verheck pegou a garrafa e virou-se de frente para as mesas. Sentia-se como um avô entre aquelas crianças. Embora tivesse detestado a faculdade e detestasse a lembrança dela, tivera algumas longas noites de sexta feira, nos bares de Georgetown, com o amigo Callahan. Eram boas recordações.

- Então, que tipo de Direito? - O garoto estava de volta.

Gavin voltou-se para o bar e sorriu.

- Conselheiro especial, FBI.

Ele continuava a enxugar o balcão.

- Então, trabalha em Washington?

- Isso mesmo, estou na cidade para o jogo de domingo. Sou fã dos Redskins. – Detestava os Redskins e todos as equipes de futebol. Não deixe o garoto começar a falar de futebol.

- Onde é que estuda?

- Aqui, em Tulane. Termino em Maio.

- E depois?

- Provavelmente Cincinnati para um ou dois anos de estágio.

- Deve ser um bom aluno.

O rapaz encolheu os ombros.

- Outra cerveja?

- Não. Foi aluno de Callahan?

- Claro. O senhor o conhece?

- Estudei com ele em Georgetown. - Verheck tirou um cartão do bolso. - Sou Gavin Verheck.

O rapaz olhou para o cartão e delicadamente o colocou ao lado do gelo. O bar estava sossegado e ele estava cansado de conversa.

- Conhece uma aluna chamada Darby Shaw? O rapaz olhou rapidamente para as mesas.

- Não, não a conheço, mas sei quem é. Acho que está no segundo ano. - Uma pausa longa, desconfiada. - Porquê?

- Nós precisamos falar com ela. - Nós, enquanto FBI. Não simplesmente ele, enquanto Gavin Verheck. O pronome plural parecia muito mais sério. - Ela costuma aparecer por aqui?

- Eu a vi algumas vezes. É difícil não dar por ela.

- Ouvi dizer. - Gavin olhou para as mesas. - Acha que aqueles ali a conhecem?

- Duvido. São todos do primeiro ano. Não percebeu? Estão ali discutindo direitos de propriedade, mandatos de busca e apreensão.

Sim, bons tempos aqueles. Gavin tirou uma dúzia de cartões do bolso e os colocou em cima do balcão.

- Estarei no Hilton durante alguns dias. Se a vir ou ouvir alguma coisa, dê-lhe um desses cartões.

- Certo. Um policial esteve aqui a noite passada fazendo perguntas. Vocês acham que ela está envolvida na morte dele?

- Não, nada disso. Só queremos falar com ela.

- Vou ficar de olhos abertos.

Verheck pagou as cervejas, agradeceu outra vez e saiu para a rua. Andou três quarteirões até ao Half Shell. Eram quase duas horas. Estava morto de cansaço, quase bêbado, e uma banda começou a tocar no momento em que entrou no bar.

O lugar estava escuro, apinhado, e cinqüenta universitários com as suas universitárias começaram a dançar em cima das mesas. Verheck abriu caminho e encontrou um porto seguro, na parte de trás, perto do balcão. A fila era tripla, ao lado do balcão, ombro a ombro, e ninguém se mexia. Aos empurrões e às cotoveladas, conseguiu pedir uma cerveja e notou novamente que era o mais velho de todos naquela multidão. Voltou-se para um canto escuro, mas cheio de gente. Não era possível. Não dava para ouvir os próprios pensamentos, muito menos conversar.

Observou os barmen, todos jovens, todos estudantes. O mais velho parecia perto dos trinta, manejava a caixa registradora freneticamente, preparando-se para fechar. Estava com muita pressa, como se fosse hora de largar o trabalho. Gavin observou-o com atenção.

Ele tirou rapidamente o avental, atirou-o para um canto, passou por debaixo do balcão e desapareceu. Gavin abriu caminho por entre a multidão e o alcançou quando ele ia sair pela porta da cozinha. Com o cartão do FBI na mão, disse:

- Desculpe. Sou do FBI. - Encostou o cartão ao nariz do homem.

- Como se chama?

O rapaz ficou imóvel e olhou inquieto para Verheck.

- Ah, Fountain, Jeff Fountain.

- Ótimo, Jeff. Ouça, não há problema nenhum. Apenas algumas perguntas. - A cozinha estava fechada há duas horas e eles estavam sozinhos. - Só um segundo.

- Tudo bem, certo. O que há?

- Você é estudante de Direito, certo? Por favor, diga que sim.

O amigo dele dissera que a maior parte dos barmen eram estudantes de Direito.

- Sim. Na Loyola.

- Loyola! Onde diabo ficava isso!

- Sei, tudo bem, era o que eu pensava. Ouviu falar do que houve com o professor Callahan, de Tulane? Os funerais são amanhã.

- É claro. Vem em todos os jornais. Quase todos os meus amigos estudam em Tulane.

- Conhece uma aluna do segundo ano, de Tulane, chamada Darby Shaw? Uma garota muito atraente?

Fountain sorriu.

- Conheço. Ela namorou um amigo meu no ano passado. Aparece por aqui às vezes.

- Quando é que ela esteve aqui?

- Há um mês, talvez dois. O que é que aconteceu?

- Precisamos falar com ela. - Entregou uma porção de cartões a Fountain. - Fique com isto.

Estarei no Hilton durante alguns dias. Se a vir, ou se ouvir alguma coisa, entregue um desses cartões.

- O que é que eu sou capaz de ouvir?

- Alguma coisa sobre Callahan . Precisamos muito falar com ela, compreende?

- Certo. - Enfiou os cartões no bolso.

Verheck agradeceu e voltou para a confusão do bar. Andou vagarosamente, procurando ouvir pedaços de conversa. Mais fregueses estavam chegando e ele dirigiu-se para a porta.

Estava velho demais para aquilo.

Seis quarteirões adiante, estacionou ilegalmente na frente de um dormitório no campus. A sua última parada naquela noite ia ser um escuro salão de bilhar que, naquele momento, não estava cheio.

Pegou a cerveja no bar, pagou e examinou o local. Quatro mesas de bilhar e pouca gente.

Um jovem, de camiseta, foi até o bar e pediu outra cerveja. A camiseta era verde e cinza com as palavras FACULDADE DE DIREITO TULANE estampadas na frente e o que parecia ser um número de identificação, sob as palavras.

Verheck disse, sem hesitar:

- É estudante de Direito?

O jovem olhou rapidamente para ele, enquanto tirava o dinheiro do bolso dos Jeans.

- Infelizmente, sou.

- Conhece o Thomas Callahan?

- Quem é você?

- FBI. Callahan era meu amigo.

O estudante tomou um gole de cerveja e disse, desconfiado:

- Eu estava na turma dele de Direito Constitucional. Grande Darby também.

Verheck procurou parecer desinteressado.

- Conhece Darby Shaw?

- Por que quer saber?

- Nós precisamos falar com ela. Só isso.

- Nós quem? - Estava mais desconfiado. Deu um passo para Gavin, como que exigindo a verdade.

- FBI - disse Verheck, calmamente.

- Tem um distintivo ou coisa assim?

- É claro - tirou um cartão do bolso.

O estudante leu atentamente e devolveu o cartão.

- Você é advogado, não agente.

Uma observação muito pertinente e o advogado sabia que perderia o emprego se o seu chefe soubesse que andava fazendo perguntas e, de certo modo, fazendo-se passar por agente.

- Sim, sou advogado. Callahan e eu andamos juntos na faculdade.

- Então, por que quer falar com Darby Shaw?

O barman aproximara-se e estava ouvindo a conversa.

- Conhece-a?

- Não sei - disse o estudante e era claro que a conhecia, mas não ia dizer. - Ela está metida em alguma encrenca?

- Não. Conhece-a, não conhece?

- Talvez sim, talvez não.

- Ouça. Como se chama?

- Mostre-me o seu distintivo que eu digo-lhe o meu nome.

Gavin bebeu um longo gole da garrafa e sorriu para o barman.

- Preciso vê-Ia, está bem? É muito importante. Vou ficar no Hilton durante alguns dias. Se a vir, peça-lhe para me telefonar. - Estendeu o cartão ao estudante, que se limitou a olhar para ele e afastou-se.

As três horas abriu a porta do quarto e verificou o telefone. Nenhum recado. Onde quer que estivesse, Darby não tinha telefonado. Supondo, é claro, que ainda estivesse viva.

 

Garcia telefonou pela última vez. Grantham atendeu o telefone na madrugada de sábado, menos de duas horas antes do encontro que tinham combinado. Ele ia desistir. Não era o momento propício.

Se a história aparecesse nos jornais, alguns advogados poderosos e seus clientes muito ricos iam sofrer uma violenta queda e essa gente não estava acostumada a ser derrubada, e possivelmente arrastariam muitos outros consigo. E Garcia podia ser prejudicado. Tinha mulher e uma filha pequena. Tinha um emprego que conseguia suportar porque era bem pago. Porquê arriscar tudo isso? Não tinha feito nada de mal. Tinha a consciência tranqüila.

- Então, por que me telefonou tantas vezes? – perguntou Grantham.

- Acho que sei por que razão eles foram mortos. Não tenho certeza, mas tenho uma boa idéia. Eu vi qualquer coisa, percebe?

- Andamos conversando durante uma semana, Garcia. Você viu qualquer coisa ou tem qualquer coisa. E não tem interesse nenhum se não me mostrar o que é. - Grantham abriu a gaveta do arquivo e tirou as fotografias do homem ao telefone. - O senhor rege-se por um sentido de moralidade, Garcia. Por isso quer falar.

- É, mas eles podem saber que eu sei. Eles andam tratando-me de modo estranho, como se quisessem perguntar se eu vi. Mas não podem perguntar porque não têm certeza.

- Os caras da sua firma?

- Sim. Não. Espere. Como sabe que trabalho numa firma? Eu não lhe disse.

- É fácil. Começa a trabalhar cedo demais para trabalhar para o governo. Está numa daquelas firmas com duzentos advogados onde esperam que os contratados e os sócios mais novos trabalhem cem horas por semana. A primeira vez que telefonou disse que estava a caminho do escritório e eram mais ou menos cinco horas da manhã.

- Ora, ora, e que mais sabe o senhor?

- Não muito. Andamos brincando, Garcia. Se não quer falar, então desligue e deixe-me em paz. Estou perdendo horas de sono.

- Então, bons sonhos - Garcia desligou.

Grantham ficou olhando para o telefone durante algum tempo.

Três vezes, nos últimos oito anos, ele tinha retirado o seu nome da lista. Vivia do telefone e as suas maiores reportagens tinham vindo de lugar nenhum, pelo telefone. Mas depois, ou durante cada uma delas, recebia milhares de informações insignificantes de pessoas que achavam melhor ligar a qualquer hora da noite para transmitir as suas pequenas novidades. Era conhecido como o repórter capaz de enfrentar um pelotão de fuzilamento para não revelar as suas fontes, por isso telefonavam e telefonavam. Ficou farto disso e pediu um novo número, que não constasse da lista.

Então, veio uma fase de falta completa de assuntos interessantes. Correu de volta à lista dos telefones da cidade.

Estava na lista agora. Gray S. Grantham. O único com esse nome. Podiam falar com ele no jornal doze horas por dia, mas era maior a privacidade e o segredo no seu telefone particular, especialmente nas horas mais mortas, quando ele estava tentando dormir.

Durante trinta minutos ficou furioso com Garcia, depois adormeceu. Estava no ritmo certo, morto para o mundo, quando o telefone voltou a tocar. Pegou no auscultador sem acender a luz.

- Alô.

Não era Garcia. Voz de mulher.

- É Gray Grantham, do Washington Post?

- Sim, e quem é você?

- Ainda está interessado no caso Rosenberg e Jensen?

Ele sentou-se no escuro e olhou para o relógio. Cinco e meia.

- É uma grande reportagem. Temos uma porção de gente trabalhando nela, mas, sim, ando investigando.

- Ouviu falar no Dossiê Pelicano?

Grantham respirou fundo e tentou pensar.

- O Dossiê Pelicano. Não. O que é?

- Uma pequena teoria inofensiva sobre quem os matou. Foi levado para Washington no último domingo por um homem chamado Thomas Callahan, professor de Direito em Tulane.

Entregou-o a um amigo do FBI e o dossiê passou de mão em mão. As coisas transformaram-se numa bola de neve e Callahan foi morto por uma bomba instalada no carro, na noite de quarta-feira, em Nova Orleans.

A lâmpada estava acesa e ele tomava notas.

- De onde está telefonando?

- De Nova Orleans. De um telefone público, portanto não se dê ao trabalho de localizar.

- Como sabe todas essas coisas?

- Fui eu que escrevi o dossiê.

Grantham estava agora completamente acordado, com os olhos muito abertos e a respiração acelerada.

- Muito bem. Se o escreveu, fale-me acerca dele.

- Não quero fazer isso assim, porque, mesmo que o senhor tivesse uma cópia, não ia publicar a história.

- Tente.

- Não seria possível. Precisa de ser minuciosamente verificado.

- Tudo bem. Temos o Klan, o terrorista Khamel, o Exército Subterrâneo, os arianos, os...

- Nada disso. Não é nenhum deles. São todos um tanto óbvios. O dossiê é sobre um suspeito muito obscuro.

Grantham andava de um lado para o outro.

- Por que não pode me dizer quem é?

- Talvez daqui a uns tempos. O,senhor ao que parece tem certas fontes mágicas. Vamos ver o que consegue descobrir.

- Callahan é fácil de verificar. Basta um telefonema. Dê-me vinte e quatro horas.

- Vou tentar telefonar segunda de manhã. Se fizermos negócio, senhor Grantham, vai ter de me mostrar alguma coisa. Da próxima vez, mostre-me qualquer coisa que eu não saiba ainda.

Ela estava num telefone público, às escuras.

- Você corre perigo? - perguntou ele.

- Acho que sim. Mas por enquanto estou bem.

Parecia jovem, vinte e poucos anos, talvez. Tinha escrito o dossiê. Conhecia o professor de Direito.

- É advogada?

- Não, e não perca tempo me investigando. Tem muito que fazer, senhor Grantham, de contrário procuro outra pessoa.

- Ótimo, você precisa de um nome.

- Eu tenho um.

- Quero dizer, um nome de código.

- Quer dizer como os espiões e isso? Boa idéia, isso pode ser divertido.

- Isso, ou então diga-me o seu nome verdadeiro.

- Muito esperto. Pode chamar-me Pelicano.

Os pais eram irlandeses católicos, mas ele abandonara a religião há muitos anos.

Formavam um belo casal, muito dignos no seu sofrimento, bronzeados de sol e bem vestidos. Ele raramente falava dos pais. Entraram na Capela Rogers de mãos dadas, acompanhados pelo resto da família. O irmão, de Mobile, era mais baixo e muito mais velho. Thomas tinha dito que ele tinha problemas de alcoolismo.

Durante meia hora entraram estudantes e professores na capela. O jogo era naquela noite e o campus estava repleto. O carro da televisão estava parado na rua. O cameraman, a uma distância respeitosa, filmava a frente da capela. Um policial do campus observava-o atentamente, para evitar que se aproximasse demais.

Era estranho ver aqueles estudantes de Direito de casaco e gravata, de vestidos e saltos altos. Numa sala escura no terceiro andar do Newcomb Hall, estava Pelicano, vendo pela janela os estudantes que chegavam, conversavam em voz baixa e apagavam os cigarros, antes de entrar na capela. Sob o banquinho de lona tinha quatro jornais, já lidos.

Ela estava ali há duas horas, lendo à luz do sol e a espera do funeral. Não podia estar em outro lugar. Com certeza que os bandidos deviam estar à espreita, atrás dos arbustos, em volta da capela, mas ela começava a aprender a ser paciente. Chegara cedo, pretendia ficar até muito tarde, e, depois, sair escondendo-se nas sombras. Se eles a encontrassem, talvez fizessem um trabalho rápido e tudo estaria acabado.

Enxugou os olhos com o lenço de papel. Podia chorar agora, mas era a última vez. Todos tinham entrado e o pessoal da televisão foi embora. O jornal dizia que ia haver aquela cerimônia e depois o enterro, só para a família. Não havia nenhum caixão na capela.

Tinha pensado em aproveitar esse momento para fugir, alugar um carro e ir para Baton Rouge, depois apanhar o primeiro avião para qualquer lugar que não fosse Nova Orleans. Sairia do país, talvez Montreal ou Calgary. Permaneceria escondida durante um ano à espera que o crime fosse resolvido e os bandidos presos. Mas era um sonho. O caminho mais rápido para a justiça passava diretamente por ela. Ela sabia mais do que qualquer pessoa. A polícia federal tinha andado perto, depois tinham desistido, e agora andavam a perseguir sabia-se lá quem. Verheck não tinha conseguido coisa nenhuma, e trabalhava muito próximo do diretor. Ela teria de juntar as peças. O seu pequeno dossiê matara Thomas, e agora andavam atrás dela. Sabia a identidade do homem responsável pelos assassinatos de Rosenberg, Jensen e Callahan e isso a tornava única naquela história toda.

Num gesto rápido, inclinou-se para frente. As lágrimas secaram-lhe no rosto. Lá estava ele!

O homem magro, de cara afilada! Estava de casaco e gravata e caminhava para a capela com ar devidamente compungido. Era ele! O homem que ela vira no hall do Sheraton, quando é que tinha sido, na quinta-feira de manhã? Ela estava falando com Verheck quando ele passara, com atitude suspeita.

Parou à porta, olhou nervosamente para os lados - era um cretino, não sabia disfarçar. O homem olhou por um segundo para três carros estacionados ao acaso na rua, a menos de cinqüenta metros. Abriu a porta e entrou na capela. Bonito! Os filhos da mãe tinham-no matado e depois iam prestar os últimos respeitos ao lado da família e dos amigos.

Encostou o nariz no vidro da janela. Os carros estavam muito longe, mas tinha certeza de que em um deles havia um homem a espera dela. Sem dúvida sabiam que não era assim tão idiota, nem estava infeliz a ponto de se mostrar, para chorar o namorado. Eles sabiam isso. Há dois dias e meio que ela os enganava.

As lágrimas desapareceram.

Dez minutos depois, o homem magro saiu sozinho, acendeu um cigarro e foi, com as mãos nos bolsos, em direção aos três carros. Estava triste. Que grande cara! Passou pela frente dos carros mas não parou. Quando já não conseguia vê-lo, a porta abriu-se e um homem com uma camiseta verde da Tulane saiu do carro do centro. Andou na direção do homem magro. Ele não era magro. Era pequeno, atarracado e musculoso. Um perfeito tronco de árvore. Desapareceu no passeio, atrás do homem magro, por trás da capela.

Darby sentou-se na beira do banquinho desdobrável. Passado um minuto, reapareceram no passeio. Vinham agora juntos e cochichavam. Depois, o homem magro afastou-se e desapareceu na rua. O entroncado seguiu rapidamente para o carro e entrou.

Ficou sentado, à espera do fim da cerimônia para uma última verificação, a fim de ver se ela era, afinal, suficientemente idiota para aparecer. O homem magro não precisara de mais de dez minutos para entrar na capela, examinar cerca de duzentas pessoas e resolver que ela não estava lá dentro. Talvez estivesse à procura do cabelo vermelho. Ou louro. Não, o mais certo era que já tivessem alguém lá dentro, fingindo tristeza e rezando pelo morto, à procura de Darby ou de alguém parecido com ela. Podiam fazer um pequeno sinal ao homem magro. O lugar estava infestado deles.

Havana era um santuário perfeito. Não importava que tivesse a cabeça a prêmio em dez ou cem países. Fidel era um admirador e cliente ocasional. Bebiam juntos, compartilhavam mulheres e fumavam charutos. Ele podia ir onde bem entendesse. Tinha um pequeno e belo apartamento na rua da Torre, na parte antiga da cidade, um carro com motorista, um banqueiro que era um verdadeiro mágico, e que manejava dinheiro pelo mundo afora, qualquer embarcação que escolhesse, um avião militar, se fosse preciso, e muitas mulheres jovens. Ele falava a língua e a sua pele não era muito branca.

Adorava aquele lugar.

Certa vez tinha concordado em matar Fidel, mas não conseguiu. Estava no lugar certo, faltavam duas horas para executar o trabalho, mas não conseguiu ir até o fim. Havia muita admiração entre eles.

Desde os tempos em que ele nem sempre matava por dinheiro. Traiu os homens que o tinham contratado e confessou tudo a Fidel. Encenaram uma emboscada e correu o boato de que o grande Khamel fora morto nas ruas de Havana.

Nunca mais viajaria em aviões comerciais. As fotografias tiradas em Paris eram embaraçosas para a sua profissão. Estava perdendo a classe, tornando-se descuidado, no ocaso da sua carreira. A sua fotografia estava nas primeiras páginas dos jornais da América. Uma vergonha. O cliente não estava nada satisfeito.

Era um barco à vela de quarenta pés, com dois tripulantes e uma jovem, todos cubanos. A mulher estava na cabina. Ele acabou o que estava fazendo com ela alguns minutos antes de verem as luzes de Bronx. Alerta agora, examinou o barco de borracha, pegou o saco, sem dizer uma palavra. Os tripulantes, agachados no convés, procuravam ficar longe dele.

Às nove horas em ponto desceram o bote para a água. Atirou o saco lá para dentro e desapareceu. Ouviram o barulho do motor afastando-se na escuridão do Sound. Deviam ficar ancorados até o nascer do dia, depois voltar para Havana. Tinham documentos perfeitos que os identificavam como americanos, para o caso de serem descobertos, detidos e interrogados.

Ele seguiu pacientemente pelas águas calmas, desviando-se das bóias de luz e de uma ou outra embarcação que aparecia. Também tinha documentos perfeitos e três armas no saco de lona.

Há muitos anos que não fazia dois trabalhos num mês.

Depois da sua suposta morte em Cuba, ficara parado durante cinco anos. A paciência era o seu forte. A média dele era um trabalho por ano. E aquela pequena vítima não seria notada.

Ninguém suspeitaria dele. Era um trabalho pequeno, mas o cliente tinha insistido, por acaso ele estava perto e o dinheiro era muito, por isso estava outra vez num bote de borracha de seis pés, navegando para a praia, esperando ardentemente que o seu companheiro Luke estivesse onde devia estar, desta vez não vestido de fazendeiro, mas de pescador.

Este seria o último durante um longo tempo, talvez até definitivamente. Tinha mais dinheiro do que podia gastar ou dar. E começava a cometer pequenos deslizes. Viu o cais ao longe, e afastou-se dele.

Tinha ainda trinta minutos. Acompanhou a linha da costa uns trezentos metros, depois aproou à praia. A duzentos metros, desligou o motor, retirou-o do suporte e atirou-o na água.

Deitado no fundo do bote, usando um remo de plástico quando era necessário, seguiu suavemente para um ponto escuro, atrás de uma fila de pequenas casas de tijolo, a uns dez metros da praia. De pé em cinqüenta centímetros de água, fez diversos furos no bote com um pequeno canivete. O bote afundou e desapareceu. A praia estava deserta.

Luke estava sozinho na ponta do cais. Eram onze horas em ponto, e lá estava ele de vara de pesca e molinete. A pala do boné branco movia-se de um lado para o outro, à procura do bote na água escura. Viu as horas.

De repente, um homem apareceu ao lado dele, vindo do nada, como um anjo.

- Luke? - disse ele.

Não era a senha combinada. Luke sobressaltou-se. Tinha uma arma na caixa de pesca aos seus pés, mas não dava tempo.

- Sam? - perguntou. Talvez tivesse acontecido alguma coisa, talvez Khamel não tivesse conseguido encontrar o cais.

- Sim, Luke, sou eu. Desculpe a mudança de planos. Problemas com o bote.

O coração de Luke acalmou-se e respirou aliviado.

- Onde está o veículo? - perguntou Khamel.

Luke ergueu os olhos por uma fração de segundo. Sim, era Khamel e estava olhando para o mar através dos óculos escuros. Com um movimento de cabeça, Luke indicou uma casa.

- Pontiac vermelho, perto da loja de bebidas.

- A que distância fica Nova Orleans?

- Meia hora - disse Luke, rodando o molinete e recolhendo a linha vazia.

Khamel recuou e golpeou Luke duas vezes, na base do pescoço. Uma vez com cada uma das mãos. As vértebras partiram-se e seccionaram a medula. Luke caiu pesadamente com um único gemido. Khamel esperou que estivesse morto e meteu as chaves no bolso. Com o pé, empurrou o corpo para a água.

Edwin Sneller, ou fosse qual fosse o seu nome, não abriu a porta, mas passou a chave por debaixo dela. Khamel pegou-a e abriu a porta do quarto ao lado. Entrou e foi rapidamente até à cama, onde deixou o saco, depois até à janela, com as cortinas abertas, de onde se avistava o rio ao longe. Fechou a cortina e olhou para as luzes do Quarter, lá em baixo. Foi até ao telefone e ligou para Sneller.

- Fale-me dela - disse Khamel, suavemente, olhando para o chão.

- As fotografias estão na mala.

Khamel abriu a mala e tirou as fotografias.

- Estou com elas na mão.

- Estão numeradas, número um e dois. Uma é do álbum anual da faculdade. Foi tirada há quase um ano e é a mais recente que temos. É ampliação de uma fotografia muito pequena, portanto muitos detalhes foram perdidos. A outra é de dois anos. Nós a tiramos de um álbum anual da universidade estadual do Arizona.

Khamel examinou as fotografias.

- Uma bonita mulher.

- Sim, muito bonita. Mas, todo esse belo cabelo foi cortado. Na quinta-feira à noite ela pagou um quarto de hotel com cartão de crédito. Quase a apanhamos na sexta de manhã.

Encontramos fios de cabelo no chão e um pouco de tinta preta para cabelo. Muito preta.

- Uma pena.

- Não a vemos desde a noite de quarta-feira. Ela sabe desaparecer. Cartão de crédito para um quarto, na quarta-feira, cartão de crédito em outro hotel, na quinta, e depois, nada a noite passada. Retirou cinco mil do banco na sexta-feira à tarde, e a seguir perdemos o rastro.

- Talvez tenha ido embora.

- Pode ser, mas não acredito. Alguém esteve no apartamento dela ontem à noite. Fomos lá e chegamos com dois minutos de atraso.

- Estão trabalhando muito devagar, não acha?

- É uma cidade grande. Temos gente no aeroporto e nas estações de ônibus. Estamos vigiando a casa da mãe, em ldaho. Nem sinal. Acho que ela ainda está aqui.

- E onde é que pode estar?

- Em movimento, mudando de hotéis, usando telefones públicos, evitando os lugares que costumava freqüentar. A polícia de Nova Orleans também anda à procura dela. Os polícias falaram com ela depois da bomba, na quarta-feira, e perderam-na. Nós andamos à procura, a polícia anda à procura, ela vai aparecer.

- O que aconteceu com a bomba?

- Muito simples. Ela não entrou no carro.

- Quem fez a bomba?

Sneller hesitou.

- Não posso lhe dizer.

Khamel sorriu e tirou da maleta alguns mapas da cidade.

- Fale-me dos mapas.

- Ah, sim, alguns pontos de interesse na cidade. A casa dela, a casa dele, a Faculdade de Direito, os hotéis nos quais ela esteve, o local da bomba, alguns bares que ela freqüentava.

- Até agora não saiu do Quarter.

- Ela é esperta. Há milhares de bons esconderijos. - Khamel pegou na fotografia mais recente e sentou-se na outra cama. Gostou daquele rosto. Mesmo com cabelo curto e escuro, devia ser interessante. Podia matá-la, mas não ia ser agradável. - É uma pena, não acha? – disse ele, quase para si mesmo.

- Sim. É uma pena.

 

Gavin Verheck era um homem velho e cansado quando chegou a Nova Orleans e depois de duas noites, vagueando de bar em bar, estava exausto e desanimado. Entrou no primeiro bar um pouco depois do enterro e durante sete horas bebeu cerveja com os jovens incansáveis que falavam sobre agravos, contratos, firmas de Wall Street e de outras coisas que ele desprezava.

Não devia dizer a estranhos que era do FBI. Não era do FBI. Não tinha nenhum distintivo.

Sábado à noite percorreu cinco bares. Tulane perdeu outra vez e depois do jogo os bares ficaram cheios de adeptos. Qualquer conversa era impossível e ele desistiu à meia noite. Estava num sono pesado, com os sapatos nos pés, quando o telefone tocou. Atendeu imediatamente.

- Alô! Alô!

- Gavin? - perguntou ela.

- Darby! É você?

- Quem mais podia ser?

- Por que não telefonou antes?

- Por favor, não comece com perguntas cretinas. Estou em um telefone público, portanto, nada de espertezas.

- Ora, vamos, Darby. Sabe que pode confiar em mim.

- Tudo bem, confio em você. E o que é que acontece agora?

Ele olhou para o relógio e começou a desatacar os sapatos.

- Bem, isso pergunto eu. O que é que acontece agora? Durante quanto tempo pretende esconder-se em Nova Orleans?

- Como sabe que estou em Nova Orleans?

Pausa de um segundo.

- Estou em Nova Orleans - disse ela - e suponho que queira encontrar-se comigo, para ficarmos muito amigos, e depois eu "entro", como vocês dizem, e confio em vocês para me protegerem eternamente.

- Correto. Se não fizer isso, dentro de dias estará morta.

- Você vai direito ao assunto, não é?

- Sim. Você está tentando jogar e não tem idéia do que está fazendo.

- Quem é que anda atrás de mim, Gavin?

- Pode ser uma porção de gente.

- Quem?

- Não sei.

- Agora é você que está jogando, Gavin. Como posso confiar em você se não fala claro comigo?

- Tudo bem. Acho que lhe posso dizer que o seu dossiê acertou em alguém em cheio. Você adivinhou a verdade, as pessoas erradas ficaram sabendo do dossiê e agora Thomas está morto.

E vão matá-la assim que a encontrarem.

- Nós sabemos quem matou Rosenberg e Jensen, não sabemos, Gavin?

- Acho que sabemos.

- Então, por que é que o FBI não faz alguma coisa?

- Podemos estar no meio de um processo de despiste.

- Que Deus o abençoe por dizer isso. Que Deus o abençoe.

- Sou capaz de perder o emprego.

- E a quem é que eu vou contar, Gavin? Quem está despistando e o que.

- Não tenho certeza. Estávamos muito interessados no dossiê até a Casa Branca começar a fazer pressão e agora desistimos de investigar.

- Compreendo. Por que é que acham que se me matarem ninguém vai ficar sabendo de nada?

- Não sei responder a isso. Talvez pensem que você sabe demais.

- Posso dizer uma coisa? Logo a seguir à bomba, enquanto Thomas estava ardendo dentro do carro e eu semi-inconsciente, um policial chamado Rupert levou-me para dentro do carro dele.

Outro policial, com botas de cowboy e jeans, começou a me fazer perguntas. Eu estava tonta e em estado de choque. Ambos desapareceram depois, Rupert e o cowboy, e não voltaram. Não eram policiais, Gavin. Eles viram a bomba explodir e passaram para o plano B, quando perceberam que eu não estava no carro. Eu não sabia, mas estive a um minuto de levar uma bala na cabeça.

Verheck ouviu, com os olhos fechados.

- O que é que lhes aconteceu?

- Não tenho certeza. Acho que tiveram medo quando os policiais verdadeiros apareceram.

Eles sumiram. Eu estava no carro deles, Gavin. Nas mãos deles.

- Você tem que deixar que o FBI a proteja, Darby. Ouça o que eu digo.

- Lembra-se da nossa conversa ao telefone na quinta-feira de manhã, quando eu vi um rosto familiar e o descrevi?

- Claro que me lembro.

- Aquele rosto estava na cerimônia no campus, ontem, com alguns amigos.

- Onde é que estava, Darby?

- Observando. Ele chegou alguns minutos atrasado, ficou lá dez minutos, depois saiu e teve uma conversa com o Tronco.

- Tronco?

- Sim, um do bando. Tronco, Rupert, Cowboy e o Homem Magro. Tipos grandes. Tenho certeza de que há outros, mas ainda não me encontrei com eles.

- O próximo encontro será o último, Darby. Você tem mais umas quarenta e oito horas de vida.

- Veremos. Quanto tempo vai ficar na cidade?

- Poucos dias. Tinha planejado ficar até a encontrar você.

- Estou aqui. Talvez lhe telefone amanhã.

Verheck respirou fundo.

- Tudo bem, Darby. Como queira. Mas tenha cuidado.

Ela desligou. Verheck atirou o telefone para o outro lado do quarto, praguejando em voz alta.

A dois quarteirões e quinze andares acima, Khamel via televisão, resmungando baixinho.

Era um filme sobre gente numa cidade grande. Falavam inglês, a sua terceira língua, e ele repetia cada uma das palavras com a mais perfeita pronúncia americana. Fez isso durante horas.

Aprendera a pronúncia americana quando esteve escondido em Belfast e nos últimos vinte anos tinha visto milhares de filmes americanos. O seu favorito era o Três Dias do Condor.

Assistiu quatro vezes antes de ter entendido quem matava quem e porquê. Ele teria assassinado Redford. Repetia as palavras em voz alta.

Tinham lhe dito que a pronúncia dele podia passar por americana, mas bastava um descuido, um pequeno erro, para que ela desaparecesse.

O Volvo estava estacionado a um quarteirão do lugar onde ele trabalhava, no era um GL 1986, sem sistema de alarme, e em poucos segundos abriram a porta do motorista. Um deles sentou-se em cima da mala e acendeu um cigarro. Eram quase quatro horas da manhã de domingo. O outro abriu uma caixinha de ferramentas que tirou do bolso e começou a trabalhar no telefone do carro, que Grantham tinha tido tanta relutância em comprar. A luz do teto do carro era suficiente e o homem trabalhava com rapidez. Trabalho fácil. Abriu o auscultador, instalou um

diminuto transmissor e fixou-o com cola. Um minuto depois, saiu do carro e abaixou-se perto do pára-choques traseiro. O homem do cigarro entregou-lhe um pequeno cubo negro que ele colou debaixo do carro, numa grade, atrás do tanque de gasolina.

Era um transmissor magnético que enviaria sinais durante seis dias, até que perderia a força e precisaria ser substituído. Em menos de sete minutos estava tudo feito e foram embora. Na segunda-feira, assim que o vissem entrar no prédio do Post, na Rua Quinze, entrariam no apartamento e poriam os telefones dele sob escuta.

 

A segunda noite naquela pensão, com cama e café da manhã, foi melhor do que a primeira. Dormiu até tarde. Talvez estivesse ficando habituada. Olhou para a cortina na janela estreita, lembrando-se do sono sem pesadelos, sem movimentos no escuro, sem revólveres e facas a aparecerem de repente. Foi um sono pesado e ela pôs-se a estudar as cortinas durante muito tempo, até acordar totalmente.

Tentou pôr a mente em ordem. Era o seu quarto dia como Pelicano e, para haver mais um, precisava pensar como um assassino pensaria. Era o dia número quatro do resto da sua vida. Já

podia ter sido morta.

Mas depois de abrir os olhos e de se convencer de que estava viva e a salvo, que o soalho não rangia e que não havia nenhum homem armado no armário, o seu primeiro pensamento, como sempre, foi para Thomas. A sensação de choque era menos intensa agora e era mais fácil deixar de ouvir a explosão e o crepitar das chamas. Sabia que a morte fora instantânea. Sabia que Thomas não tinha sofrido.

Assim, pensou em outras coisas, tais como a sensação do corpo dele ao lado do seu, as palavras murmuradas quando, depois de fazerem amor, ele queria aconchegar-se a ela. Thomas era carinhoso, gostava de beijar e acariciar depois de fazer amor. E ria e brincava. Ele a amava realmente e, pela primeira vez na vida, permitia a si mesmo ser tolo como um adolescente. Muitas vezes, durante uma aula, Darby lembrava-se daqueles carinhos e daquelas brincadeiras e mordia o lábio para não rir.

Ela também o amava. E era tão doloroso. Tinha vontade de ficar na cama e de chorar durante uma semana inteira. No dia seguinte ao enterro do seu pai, um psiquiatra dissera que a alma precisa de um período breve e intenso de luto e dor para só depois passar para a fase seguinte. Mas precisa da dor, precisa sofrer sem restrições para poder seguir adiante.

Ela aceitou o conselho e sofreu desamparadamente por duas semanas, depois cansou-se e passou para o estádio seguinte. Tinha funcionado.

Mas não estava funcionando com Thomas. Não podia gritar e atirar coisas contra as parede, como queria. Rupert, o Homem Magro e o resto do bando não lhe permitiam um período necessário de dor e luto.

Depois de alguns minutos com Thomas, pensou neles. Onde estariam agora? Aonde podia ir sem ser vista? Depois de duas noites naquele lugar, devia procurar outro? Sim, faria isso. No começo da noite. Faria por telefone a reserva em outra pensão. Onde é que eles estariam hospedados? Estariam patrulhando as ruas, esperando encontrá-la por acaso? Sabiam onde ela estava naquele momento?

Não. Se soubessem, já estaria morta. Sabiam que o seu cabelo era agora louro?

Lembrando-se disso, levantou-se e foi até ao espelho. O cabelo estava mais curto ainda e completamente branco. Um bom trabalho de três horas, na noite anterior. Se vivesse mais dois

dias, cortaria mais e o tingiria de preto outra vez. Se vivesse mais uma semana, talvez ficasse careca.

Sentiu fome e por um segundo pensou em comida. Não se alimentava como devia e isso tinha de mudar. Eram quase dez horas. Estranhamente, aquele quarto com café da manha não servia café aos domingos. Tinha de sair para comer e comprar o Post e verificar talvez se podiam reconhecê-la, agora que estava loura.

Tomou um rápido banho de chuveiro e em menos de um minuto penteou o cabelo. Nada de maquiagem. Vestiu umas calças não usadas ainda, estilo militar, um novo blusão de aviador e ficou pronta para a batalha. Os olhos estavam tapados pelos óculos de aviador.

Há quatro dias que ela não saía de um prédio pela porta da frente, embora tivesse entrado por algumas. Atravessou silenciosamente a cozinha escura e foi sair na passagem atrás da pequena pensão.

Estava suficientemente frio para usar um blusão de aviador sem chamar a atenção. Que estupidez, pensou ela. No French Quarter podia usar a pele e a cabeça de um urso polar que ninguém notaria.

Caminhou rapidamente pela passadeira, com as mãos nos bolsos da calças e os olhos vigiando todos os lados, debaixo dos óculos.

Ele avistou-a quando ela chegou ao passeio, perto da rua Burgundy. O cabelo sob o boné estava diferente, mas ela continuava com o metro e setenta e dois de altura e não podia alterar isso. As pernas continuavam sendo altas e o andar o mesmo. Ao fim de quatro dias, seria capaz de encontrá-la no meio de uma multidão, independentemente do cabelo e do rosto. As botas de cowboy pele de cobra e bico fino - começaram a segui-la.

Ela era esperta, virava em todas as esquinas, mudando de rua em cada um dos quarteirões, andando nem muito devagar, nem muito depressa. Ele calculou que ela devia estar dirigindo-se para Jackson Square, onde, aos domingos, havia sempre muita gente. Podia misturar-se com os turistas e com os habitantes do bairro, comer talvez qualquer coisa, apanhar um pouco de sol, comprar um jornal.

Sem parar, Darby acendeu um cigarro. Não conseguia fumar. A primeira vez que tinha tentado, três dias antes, tinha ficado tonta. Um hábito horrível. Seria irônico se conseguisse sobreviver a tudo isto para morrer de cancro no pulmão. Por favor, deixe-me morrer de cancro.

Estava sentado a uma mesa no passeio, no café bastante movimentado, na esquina de St. Peter e Chartres e a menos de três metros, quando ela o viu. Menos de um segundo depois, ele também a viu e provavelmente não a teria reconhecido se Darby não hesitasse, engolindo em seco. Essa hesitação e o modo como olhou para ele traíram-na.

Continuou a andar, apressando o passo.

Era o Tronco. O homem estava de pé, passando por entre as mesas, quando ela o perdeu de vista. Visto assim, no mesmo plano, não tinha nada de gordo ou de pesado. Era ágil e musculoso. Perdeu-o por um segundo, na Chartres, quando passou debaixo dos arcos da Catedral de São Luís. A igreja estava aberta e Darby pensou em entrar, como se fosse um santuário, aonde ele não iria matá-la. Sim, ele a mataria dentro da igreja ou na rua, ou no meio da multidão. Em qualquer lugar. Estava chegando e Darby queria saber quanto tempo faltava para alcançá-la.

Estaria apenas andando depressa, fingindo despreocupação? Ou fingindo que corria para fazer exercício? Ou disparado, atropelando as pessoas, preparando-se para o golpe, assim que a alcançasse? Darby continuou a andar.

Entrou à esquerda na St. Ann, atravessou a rua e, quase na Royal, olhou rapidamente para trás. Ele estava do lado oposto da rua, perseguindo a caça.

O olhar nervoso por cima do ombro identificou-a definitivamente. Darby começou a correr.

Precisava chegar à Rua Bourbon, pensou. Faltavam ainda quatro horas para o começo do jogo e os adeptos dos Saints comemoravam a todo vapor, antes do jogo, porque teriam pouco para comemorar depois. Entrou na Royal e correu, depois começou a andar normalmente. O homem estava pronto para correr a qualquer momento. Darby passou para o meio da rua, misturando-se com um grupo de torcedores. Entrou à esquerda na Dumaine e começou a correr outra vez. Bourbon estava logo adiante e cheia de gente.

Podia ouvi-lo agora. Já não precisava olhar para trás. O homem corria, e estava se aproximando. Quando ela entrou na Bourbon, o Sr. Tronco estava a quinze metros dela e a corrida tinha chegado ao fim. Ela viu os seus anjos saírem barulhentamente de um bar. Três jovens enormes, fortes, com o uniforme negro e dourado dos Saints, saíram para a rua e Darby correu para eles.

- Ajudem-me! - gritou ela, desesperadamente, apontando para o Tronco. - Ajudem-me!

Aquele homem está me perseguindo! Quer me violentar!

Bem, que diabo, sexo, nas ruas de Nova Orleans não é exatamente novidade, mas não iam permitir que aquela jovem fosse atacada.

- Por favor, me ajudem! - implorou ela.

De repente a rua ficou silenciosa. Todos ficaram imóveis, incluindo o Tronco, que parou um instante e depois se pôs novamente a correr. Os três Saints postaram-se à frente dele de braços cruzados e olhos ameaçadores. Tudo acabou em segundos. O Tronco usou as duas mãos ao mesmo tempo, um direto ao pescoço do primeiro e um murro violento na boca do segundo. Eles gritaram e caíram pesadamente. O terceiro não pensou em fugir. Os companheiros estavam feridos e isso o fez ficar furioso. Seria um alvo fácil para o Tronco, mas o número um agarrou o pé do Tronco e o fez perder o equilíbrio. Quando ele conseguiu livrar o pé, acertou um pontapé na virilha do atacante e o Tronco estava dominado. Darby desapareceu no meio do povo, ouvindo o grito de dor do homem.

Quando caiu, Mr. Chop desatou a chutar as costelas dele. O número dois, com o rosto ensangüentado, atacou ferozmente e começou o massacre do Tronco. Este encolheu-se no chão, com as mãos nos testículos doloridos, e os outros continuaram a dar-lhe pontapés e a insultá-lo impiedosamente até alguém gritar, "A polícia vem aí !" Foi isso que salvou a vida do Tronco. O Sr. Chop e o número dois ajudaram o número um a levantar-se e os Saints desapareceram rapidamente num bar. O Tronco levantou-se com dificuldade e arrastou-se dali para fora como um cão atropelado por um caminhão, mas ainda vivo e resolvido a morrer em casa.

Mr. Benjamin Ela escondera-se num canto escuro de um bar na Decatur, bebendo um gole de café, um gole de cerveja, um gole de cerveja, um gole de café. As mãos tremiam e o estômago subia e descia . O cheiro dos pãezinhos era delicioso, mas ela não conseguia comer. Ao fim de três cervejas em três horas, pediu um prato de camarões cozidos e mudou para água pura.

A bebida acalmou-a e os camarões chegaram ao estômago. Estava a salvo ali, pensou, portanto, por que não assistir ao jogo e ficar quieta onde estava, até o bar fechar? Quando o jogo começou, o bar estava cheio. Todos olhavam para a tela da televisão, enquanto se embriagavam.

Darby agora era uma fã dos Saints.

Esperava que seus três amigos estivessem bem e aproveitando o jogo. Os espectadores gritavam e insultavam os Redskins. Darby ficou no cantinho escuro até muito depois do fim do jogo, depois saiu para a escuridão da noite.

Mais ou menos no quarto tempo do jogo, quando os Saints perdiam por quatro pontos, Edwin Sneller desligou o telefone e a televisão. Deu alguns passos para esticar as pernas e ligou para Khamel, no quarto vizinho.

- Ouça o meu inglês - disse o assassino. - Veja se percebe algum sotaque.

- Tudo bem. Ela está aqui - disse Sneller. - Um dos nossos homens a viu esta manhã, na Jackson Square. Ele a seguiu ao longo de três quarteirões e depois voltou a perdê-la.

- Como é que a perdeu?

- Não importa. Ela fugiu, mas está aqui. O cabelo está muito curto e quase branco.

- Branco?

Sneller detestava repetir o que dizia, especialmente para aquele estupor.

- Ele disse que não é louro, mas branco, e que ela estava de calças verdes estilo militar e com um blusão castanho de aviador. Ela o reconheceu e conseguiu fugir.

- Como é que ela o reconheceu? Já o tinha visto?

Que perguntas idiotas. Era difícil acreditar que estava falando com um super-homem.

- Não sei.

- Que tal o meu inglês?

- Perfeito. Há um cartão debaixo da sua porta, que tem que ver.

Khamel pôs o auscultador em cima do travesseiro e foi até a porta. Num segundo estava de volta.

- Quem é?

- O nome é Verheck, holandês, mas ele é americano. Trabalha para o FBI, em Washington.

Evidentemente era amigo de Callahan. Formaram-se juntos em Direito, em Georgetown, e Verheck simbolicamente foi um dos que carregaram o caixão, na cerimônia de ontem. À noite ele esteve num bar perto do campus, fazendo perguntas sobre a garota Duas horas antes, um dos nossos homens estava no mesmo bar, fazendo se passar por agente do FBI, e começou a conversar com o barman, que é estudante da faculdade e conhece a garota. Eles assistiram ao jogo e conversaram durante algum tempo, nessa altura o rapaz mostrou o cartão.

Veja do lado de trás. Ele está no quarto 1909 do Hilton.

- Cinco minutos a pé, de onde estamos. - Os mapas da cidade estavam abertos sobre uma das camas.

- Sim. Demos alguns telefonemas para Washington. Ele não é agente, apenas advogado.

Conhecia Callahan e talvez conheça a garota. É evidente que anda tentando encontrá-la.

- Ela seria capaz de falar com ele, certo?

- Provavelmente.

- Que tal o meu inglês?

- Perfeito.

Uma hora depois, Khamel saiu do hotel. De casaco e gravata, era um cidadão comum, passeando por Canal Street, ao cair da noite, em direção ao rio. Levava um saco de ginástica e fumava um cigarro. Cinco minutos depois, entrou no hall do Hilton. Abriu caminho por entre os adeptos que voltavam do Dome. O elevador parou no vigésimo andar e ele desceu pela escada para o décimo nono.

Bateu à porta do 1909 mas ninguém respondeu. Se a porta fosse aberta com a corrente de segurança, ele pediria desculpa, dizendo que tinha se enganado no quarto. Se a porta se abrisse só um pouquinho, sem a corrente, e alguém aparecesse na abertura, com um pontapé violento, ele entraria. Mas ninguém atendeu. O seu novo amigo Verheck devia estar em algum bar, distribuindo cartões e pedindo aos estudantes informações sobre Darby Shaw. Que idiota.

Bateu outra vez e, enquanto esperava, enfiou uma pequena régua de plástico de doze centímetros entre a porta e o batente e movimentou-a lentamente, até a fechadura se abrir.

Fechaduras eram coisas sem importância para Khamel. Sem chave, ele podia abrir um carro e ligar o motor em menos de trinta segundos.

Entrou, trancou a porta e pôs o saco em cima da cama. Como um cirurgião, calçou as luvas que levava no bolso. Pôs o .22 e o silenciador sobre a mesa.

O trabalho no telefone foi rápido. Ligou o gravador na tomada sob a cama, onde podia ficar durante semanas sem ser notado. Telefonou para o serviço de meteorologia duas vezes, para testar o gravador. Perfeito.

O seu novo amigo Verheck era muito desmazelado. A maior parte da roupa no quarto estava suja e atirada descuidadamente na direção da mala em cima da mesa. A mala não estava desfeita.

Uma capa barata de plástico, pendurada no armário, continha apenas uma camisa.

Khamel eliminou todos os sinais da sua presença e sentou-se dentro do armário. Era um homem paciente, capaz de esperar durante horas. Ficou com o 22 na mão, para o caso do palhaço abrir de repente a porta do armário, obrigando-o a matá-lo. Se isso não acontecesse, ele ia limitar-se a ouvir, apenas.

 

No domingo, Gavin desistiu dos bares. Não conseguia nada.

Darby tinha telefonado e não freqüentava aqueles lugares nos últimos tempos. Ele andava bebendo demais, comendo demais e farto de Nova Orleans. Tinha uma reserva no vôo de segunda-feira, à tarde, e se ela não telefonasse novamente, ia desistir de bancar o detetive.

Não conseguia encontrá-la e a culpa não era dele. Até motoristas de táxi se perdiam naquela cidade. Ao meio dia Voyles estaria aos berros. Tinha feito o melhor que era possível.

Estava deitado na cama, em cuecas, folheando uma revista e ignorando a televisão. Eram quase onze horas. Esperaria até a meia noite, depois tentaria dormir.

O telefone tocou às onze em ponto. Desligou a televisão com o controle remoto.

- Alô.

Era ela.

- Sou eu, Gavin.

- Então, está viva.

- Só por sorte.

Ele sentou-se na beira da cama.

- Que aconteceu?

- Eles me viram hoje e um dos parceiros, o meu amigo Tronco, me perseguiu no Quarter.

Gavin não conhece o Tronco, mas ele esteve na capela observando-o a você e aos outros.

- Mas escapou.

- Sim, por milagre, mas escapei.

- O que aconteceu com o Tronco?

- Foi gravemente ferido. Provavelmente está deitado em qualquer lado, com um saco de gelo no interior das cuecas. Estava a poucos passos de mim quando se envolveu numa cena de pancadaria com quem não devia. Estou com medo, Gavin.

- Ele a seguiu a partir de algum lugar?

-Não, foi um encontro casual, na rua.

Verheck fez uma pausa. A voz dela tremia, mas parecia sob controle. Estava perdendo a calma.

- Ouça, Darby, tenho passagem de avião reservada para amanhã à tarde. A Darby sabe como é, tenho aquele emprego e o meu patrão está à minha espera no escritório. Por isso não posso ficar um mês em Nova Orleans, à espera que você não seja morta e à espera de que tome juízo e que confie em mim. Parto amanhã e acho que deve ir comigo.

- Ir para onde?

- Para Washington. Para minha casa. Para qualquer outro lugar que não seja Nova Orleans.

- E depois, o que é que acontece?

- Bem, para começar, ficar viva. Vou pedir ao diretor e prometo que terá proteção. Nós faremos alguma coisa, que diabo. Qualquer outra situação é melhor do que esta.

- Por que é que acha que eu posso simplesmente tomar um avião e ir embora?

- Porque teremos três agentes do FBI ao seu lado. Porque não sou assim tão burro. Ouça, Darby, diga-me onde podemos encontrar e estarei lá daqui a quinze minutos. Vou encontrá-la acompanhado de três agentes. Esses tipos estão armados e não têm medo do seu Tronco, nem dos amigos dele. Nós a tiraremos da cidade esta noite mesmo e amanhã levo-a para Washington.

Prometo que poderá falar pessoalmente com o meu chefe, o honorável F. Denton Voyles, amanhã, e começaremos daí.

- Pensei que o FBI não estivesse envolvido.

- Não está, mas pode envolver-se.

- Então, de onde vieram os três agentes?

- Eu tenho amigos.

Pensou por um momento e então a voz ficou mais segura.

- Atrás do seu hotel tem um lugar chamado Riverwalk. É um centro comercial com restaurantes e...

- Passei lá duas horas esta tarde.

- Ótimo. No segundo andar há uma loja de roupas chamada Frenclimen's Bend.

- Sim, eu vi.

- Ao meio-dia em ponto, amanhã, espere cinco minutos à entrada da loja.

- Ora, Darby. Não estará viva amanhã ao meio-dia. Já chega desta brincadeira de gato e de rato.

- Faça o que estou dizendo, Gavin. Não nos conhecemos, portanto não tenho idéia de como você é. Use uma camisa preta e um boné vermelho de beisebol.

- E onde é que vou encontrar isso?

- Trate de comprá-los.

- Certo, certo, vou arranjá-los. Suponho que vai querer examinar o meu nariz com uma lente, ou coisa assim. Isso é besteira.

- Não estou disposta a fazer besteiras, e se não calar a boca cancelamos tudo.

- É o seu pescoço.

- Por favor, Gavin.

- Desculpe. Vou fazer o que mandou. É um lugar muito movimentado.

- Sim, é. Sinto-me mais segura no meio de muita gente. Fique à porta uns cinco minutos, entre na loja e vá para os fundos, à direita, onde estão os blusões tipo safári. Ande por ali um pouco que eu o encontro.

- E como é que estará vestida?

- Não se preocupe comigo.

- Tudo bem. Depois, o que é que fazemos?

- Gavin e eu, e só Gavin e eu, sairemos da cidade, não quero que ninguém mais fique sabendo. Compreendeu?

- Não, não compreendi. Posso arranjar segurança.

- Não, Gavin. Quem manda sou eu, certo? Mais ninguém. Esqueça os três agentes seus amigos. Combinado?

- Combinado. Como pretende deixar a cidade?

- Tenho um plano para isso também.

- Não gosto de nenhum dos seus planos, Darby. Esses assassinos estão em cima de você e agora começo a estar também exposto. Não era o que eu queria. É muito mais seguro fazer à minha maneira. Mais seguro para você, mais seguro para mim.

- Mas vai estar lá ao meio-dia, não vai?

De pé, ao lado da cama, Verheck fechou os olhos.

- Sim, estarei. E espero que Darby também esteja.

- Quanto mede?

- Um e setenta e cinco.

- Quanto pesa?

- Já estava com medo disso. Geralmente não digo a verdade. Noventa quilos, mas pretendo emagrecer,juro.

- Vejo-o amanhã, Gavin.

- Espero vê-la, querida.

Desligou, Verheck fez o mesmo.

- Filha da mãe! - gritou ele para as paredes. - Filha da mãe.

Andou durante algum tempo junto dos pés da cama, depois foi para o banheiro, fechou a porta e abriu o chuveiro. No chuveiro, esteve mais de dez minutos, depois saiu e enxugou-se. Eram mais de noventa e sete quilos, muito mal distribuídos no metro e setenta e dois de altura. Não era um espetáculo bonito de se ver. Ali estava ele, prestes a conhecer aquela mulher maravilhosa, que de repente tinha resolvido confiar-lhe a vida e imaginem a figura ridícula.

Abriu a porta. O quarto estava escuro. Escuro? Deixara as luzes acesas. Que diabo estava acontecendo? Foi até o interruptor perto da cômoda.

O primeiro golpe desfez-lhe a laringe. Um golpe perfeito, vindo de um dos lados, junto da parede. Gemeu de dor e caiu de joelhos, facilitando o segundo golpe, como um machado num pedaço de madeira. Atingiu a nuca com a força de uma rocha e Gavin estava morto.

Khamel acendeu a luz e olhou para a figura nua e morta no chão. Não costumava parar para admirar o próprio trabalho. Não queria marcas no tapete, por isso ergueu o corpo gorducho e deitou-o na cama. Com rapidez e economia de movimentos, Khamel ligou a televisão e pôs o volume no máximo, abriu o fecho do saco, tirou uma automática barata calibre .25 e encostou-a na têmpora direita do finado Gavin Verheck. Cobriu a arma e a cabeça com dois travesseiros e puxou o gatilho. Agora a parte mais delicada.

Pôs o travesseiro debaixo da cabeça do morto, atirou-o para o chão e cuidadosamente curvou os dedos da mão direita de Verheck sobre a coronha da arma, ajeitando-a a vinte centímetros da cabeça.

Agarrou o gravador debaixo da cama e estendeu o fio do telefone ao longo da parede.

Apertou um botão, escutou e lá estava ela. Khamel desligou a televisão.

Cada trabalho era diferente. Certa vez tinha seguido a presa durante três semanas, na cidade do México, para apanhar o homem na cama com duas prostitutas. Fora um erro idiota e durante a sua carreira muitas vezes teve a ajuda de erros idiotas das suas vítimas. Este tipo era um idiota, um advogado estúpido, que falava com todo mundo, espiando, olhando, distribuindo cartões com o número do quarto na parte de trás. Tinha metido o nariz no mundo dos especialistas em

assassinatos e o resultado estava à vista.

Com um pouco de sorte, os policiais dariam uma vista de olhos ao quarto e concluiriam que se tratava de suicídio. Seguiriam a rotina, tentando responder a perguntas sem resposta, mas apesar de tudo tinham certas normas. Porque ele era um advogado importante do FBI, fariam autópsia, dentro de um ou dois dias e, provavelmente, na terça-feira uni legista descobriria que não era um caso de suicídio.

Na terça-feira, a garota estaria morta e ele em Manágua.

 

As suas fontes oficiais na Casa Branca negaram ter conhecimento do Dossiê Pelicano.

Sarge nunca tinha ouvido falar. Telefonemas exploratórios para o FBI não obtiveram resultado. Um amigo, no Tribunal Federal, nunca tinha ouvido falar. Procurou durante todo o fim de semana e não encontrou nada. A história sobre Callahan só foi confirmada quando conseguiu um jornal de Nova Orleans.

Quando o telefone tocou, no jornal, na segunda-feira, Grantham não tinha nenhuma novidade para ela. Mas pelo menos ela estava telefonando.

Pelicano disse que estava num telefone público, portanto não adiantava tentar localizá-la.

- Ainda estou investigando - disse ele. - Se esse dossiê está na cidade, está muito protegido.

- Garanto-lhe que está na cidade e sei por que está sendo protegido.

- Estou certo de que é capaz de me dizer mais alguma coisa.

- Muitas coisas. O dossiê quase provocou a minha morte ontem, portanto posso estar preparada para falar mais cedo do que pensava. Preciso dizer o que sei enquanto estou viva.

- Quem está tentando matá-la?

- As mesmas pessoas que mataram Rosenberg e Jensen e Thomas Callahan.

- Sabe os nomes dessas pessoas?

- Não, mas já vi pelo menos quatro, desde quarta-feira. Estão aqui em Nova Orleans, à espreita, à espera que eu faça alguma tolice, para que possam me matar.

- Quantas pessoas sabem do Dossiê Pelicano?

- Boa pergunta. Callahan levou-o ao FBI, e acho que depois foi para a Casa Branca, onde, evidentemente, provocou um grande reboliço e a partir daí só Deus sabe. Dois dias depois de ter entregado ao FBI, Callahan estava morto. E eu, é claro, devia estar morta também.

- Estava com ele?

- Estava perto, mas não o suficiente.

- Então, você é a mulher não identificada da cena do crime?

- Foi assim que o jornal me descreveu.

- Nesse caso a polícia sabe o seu nome?

- O meu nome é Darby Shaw. Estou no segundo ano de Direito da Faculdade de Tulane.

Thomas Callahan era meu professor e meu namorado. Eu escrevi o dossiê, dei a ele e o senhor sabe o resto. Está tomando nota de tudo isto?

Grantham escrevia furiosamente.

- Sim. Estou ouvindo.

- Estou farta do French Quarter e a minha intenção é ir embora hoje. Telefono-lhe amanhã, de outro lugar qualquer. O senhor tem acesso aos formulários sobre as doações para a campanha das eleições presidenciais?

- Faz parte do arquivo público.

- Eu sei. Mas quanto tempo leva para obter a informação?

- Que informação?

- Uma lista de todos os que contribuíram com grandes quantias para a última eleição presidencial.

- Não é difícil. Posso conseguir isso esta tarde.

- Faça isso e eu telefono de manhã.

- Tudo bem. Você tem cópia do dossiê?

Ela hesitou.

- Não, mas sei de cor.

- E sabe quem anda cometendo os crimes?

- Sei e quando eu falar o nome há de ir também parar à lista.

- Conte-me agora.

- Vamos com calma. Telefono amanhã.

Grantham ficou à escuta durante mais alguns segundos e depois desligou. Com o bloco de notas na mão, passou entre as mesas e entrou no escritório do editor, Smith Keen, separado da sala dos repórteres por uma janela de vidro. Keen era um homem vigoroso e jovial, com uma política de portas abertas, que contribuía para o caos no escritório. Estava acabando uma conversa ao telefone quando Grantham entrou e fechou a porta.

- A porta é para estar aberta - disse Keen, severamente.

- Precisamos conversar, Smith.

- Conversaremos com a porta aberta. Abra a maldita porta.

- Abro num segundo. - Grantham ergueu as duas mãos com as palmas voltadas para o editor. Era sério.

- Vamos conversar.

- Tudo bem. De que se trata?

- Coisa grande, Smith.

- Já sei que é grande. Fechou a maldita porta, portanto eu sei que é grande.

- Acabei de falar ao telefone pela segunda vez com uma jovem chamada Darby Shaw e ela sabe quem matou Rosenberg e Jensen.

Keen sentou-se devagar e olhou zangado para Grantham.

- Sim, filho, isso é grande. Mas como é que sabe? Como é que ela sabe? Que provas é que você tem?

- Não tenho a história toda ainda, Smith, mas ela vai me contar. Leia isto. – Grantham entregou-lhe o jornal com a reportagem sobre a morte de Callahan.

Keen leu devagar.

- Muito bem. Quem é Callahan?

- Há uma semana, ele entregou um pequeno trabalho conhecido como Dossiê Pelicano, ao FBI, aqui na cidade. Evidentemente, o dossiê implica uma pessoa desconhecida. O dossiê passa de mão em mão e vai parar na Casa Branca; depois disso, ninguém mais sabe dele. Dois dias depois, Callahan liga o motor do seu Porsche pela última vez. Darby Shaw afirma que é a mulher não identificada mencionada no jornal. Ela estava com Callahan e devia morrer com ele.

- Por que é que ela devia morrer?

- Foi ela que escreveu o dossiê, Smith. Pelo menos é o que ela diz. Keen recostou-se na cadeira e pôs os pés em cima da mesa. Estudou a fotografia de Callahan.

- Onde está o dossiê?

- Não sei.

- Que diz ele?

- Também não sei.

- Então, não temos coisa nenhuma, certo?

- Por enquanto não. Mas e se ela me disser tudo o que está no dossiê?

- E quando é que ela vai fazer isso?

Grantham hesitou.

- Em breve, acho eu. Muito em breve.

Keen abanou a cabeça e atirou o jornal para cima da mesa.

- Se tivéssemos o dossiê, teríamos uma reportagem sensacional, Gray, mas não poderíamos publicá-la. Seria preciso uma investigação da pesada, morosa, impecável e Exata, para se poder publicar.

- Mas tenho sinal verde para investigar?

- Certo, mas quero que me informe de hora a hora. Não escreva uma palavra sem falar comigo.

Grantham sorriu e abriu a porta.

Não era um trabalho de quarenta dólares por hora. Nem mesmo de trinta, ou de vinte, Croft teria sorte se conseguisse arrancar quinze de Grantham por aquela besteira de ter de procurar uma agulha num palheiro. Se tivesse outra coisa para fazer, teria dito a Grantham para procurar outra pessoa, ou melhor ainda, para ser ele próprio a fazê-lo.

Mas os negócios não iam bem e havia coisas muito piores do que quinze dólares à hora.

Apagou o cigarro que estava fumando no último banheiro dos lavados, atirou-o fora e abriu a porta.

Pôs os óculos escuros e entrou no corredor que levava ao hall onde as quatro escadas rolantes transportavam milhares de advogados até aos seus pequenos escritórios, onde passavam o dia ganhando por hora para cavaquearem e fazerem ameaças. Lembrava-se perfeitamente de Garcia.

Sonhava até com o rapaz de cara lavada e bonito, de corpo magro, e de terno caro. Ele o reconheceria se o visse.

Ficou ao lado de uma coluna, com o jornal aberto, óculos escuros, tentando observar todos os que passavam. Advogados por toda a parte, apressados, com expressão arrogante, com as suas arrogantes pastas de executivo. Deus, como ele detestava advogados e por que é que todos se vestiam do mesmo modo? Ternos escuros. Sapatos escuros. Rostos sombrios. Um ou outro não conformista, com um ousado e pequeno laço em vez de gravata . De onde vinham todos eles?

Logo a seguir a sua prisão por uso de drogas, os primeiros advogados formavam um grupo de homens zangados, contratados pelo Post. Depois, contratou um outro, um cretino que cobrava caro demais e que mal conseguia encontrar a sala do tribunal. Ah, o promotor era evidentemente, advogado. Advogados, advogados.

Duas horas de manhã, duas horas à hora do almoço, duas horas no fim do dia e então Grantham mandaria espiar em outro prédio. Noventa dólares por dia era pouco e ele ia largar esse trabalho assim que aparecesse outro melhor. Disse a Grantham que não ia dar em nada, que era um tiro no escuro. Grantham concordou com ele e mandou-o continuar atirando... Era o melhor que podiam fazer. Disse-lhe que Garcia estava assustado e não queria lhe telefonar mais. Precisavam encontrá-lo.

Croft tinha duas fotografias no bolso, por segurança, e copiara da lista os nomes das firmas que funcionavam no prédio. Eram doze andares quase só de firmas com aqueles pequenos fidalgos. Estava num ninho de cobras.

Às nove e trinta o movimento acabou, e algumas caras já vistas anteriormente desciam as escadas rolantes a caminho, sem dúvida, dos tribunais, das agências e das comissões. Croft saiu pela porta giratória e limpou os pés no passeio.

A quatro quarteirões dali, Fletcher Coal andava de um lado para o outro, em frente da mesa do seu chefe, ouvindo com atenção o que alguém dizia ao telefone. Franziu a testa, fechou os olhos e olhou para o presidente, como quem diz, "Más notícias, chefe. Notícias péssimas". O presidente, com um jornal na mão, olhou para Coal por cima dos óculos de leitura.

Aquela mania de Coal de andar de um lado para o outro, como Hitler, irritava-o, e pensou em dizer alguma coisa a esse respeito, daí a pouco. Coal desligou o telefone violentamente.

- Não bata assim com o maldito telefone! - disse o presidente.

Coal não se perturbou.

- Desculpe. Era Zikman. Gray Grantham telefonou há meia hora e perguntou-lhe se sabia de um Dossiê Pelicano.

- Maravilhoso, fantástico. Como é que ele conseguiu a cópia?

Coal continuou a andar.

- Zikman não sabe nada sobre o dossiê, portanto, a ignorância dele foi autêntica.

- A ignorância dele é sempre genuína. É a pessoa mais burra da minha equipe, Fletcher, e quero que o despeça.

- Como quiser. - Coal sentou-se na cadeira na frente da mesa e apoiou o queixo nas pontas unidas dos dedos das duas mãos. Estava imerso nos seus pensamentos e o presidente tentou ignorá-lo. Os dois ficaram pensando durante um tempo.

- Voyles deixou escapar a informação? - perguntou o presidente, por fim.

- Talvez. Se é que foi uma fuga de informação. Grantham é famoso pelos seus furos. Não podemos ter certeza de que ele viu reboliço e a partir daí só Deus sabe. Talvez só tenha ouvido falar dele e está apalpando o terreno.

- Talvez, uma ova. E se publicarem alguma história maluca sobre aquela maldita coisa? O que é que acontece? – O presidente bateu com as mãos na mesa e levantou-se rapidamente. – O que é que acontece, Fletcher? Aquele jornal odeia-me. - Foi até à janela, carrancudo.

- Não podem publicar sem outra fonte e não pode haver outra fonte porque é tudo mentira.

É uma idéia maluca que foi mais longe do que devia.

O presidente ficou parado algum tempo, olhando através do vidro da janela.

- Como é que Grantham soube?

Coal levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, agora mais devagar. Estava ainda pensando profundamente.

- Sabe-se lá. Ninguém aqui sabe do dossiê, a não ser o senhor e eu. Só nos trouxeram uma cópia, que está no cofre do meu escritório. Eu pessoalmente fiz uma fotocópia que entreguei a Gminski. Ele jurou guardar segredo.

O presidente sorriu ironicamente para a janela. Coal continuou.

- Está bem, o senhor tem razão. Pode haver milhares de cópias por aí, agora. Mas sãoinofensivas, a não ser, é claro, que o nosso amigo tenha realmente feito essa porcaria toda, nesse caso...

- Nesse caso, fico com o rabo ardendo.

- Sim, eu diria que os nossos traseiros estão ardendo.

- Quanto dinheiro é que nós aceitamos?

- Milhões, direta e indiretamente. - E legal e ilegalmente, mas o presidente pouco sabia daquelas transações e Coal preferia não falar a respeito disso. O presidente caminhou vagarosamente para o sofá.

- Por que não telefona a Grantham? Para descobrir o que ele sabe. Se estiver blefando, vai ser fácil perceber. Que acha?

- Não sei.

- Já falou com ele antes, não falou? Todo mundo o conhece.

Coal andava agora por trás do sofá.

- Sim, já falei com ele. Mas se eu telefonar assim de repente vai suspeitar de qualquer coisa.

- Sim, tem razão. - O presidente andava agora de um dos lados do sofá e Coal do outro.

- Quais são as possibilidades?

- O nosso amigo pode estar envolvido. O senhor pediu a Voyles que deixasse em paz o nosso amigo. O nosso amigo pode ser denunciado pela imprensa. Voyles cobre a retaguarda dele e diz que recebeu ordens suas para procurar outros suspeitos e ignorar o nosso amigo. O Post entra com outra campanha difamatória. E podemos esquecer as eleições.

- Mais alguma coisa?

Coal pensou um segundo.

- Sim, isto é uma loucura completa. O dossiê é uma fantasia. Grantham não vai descobrir nada e eu estou atrasado para a reunião do grupo. - Encaminhou-se para a porta. - Tenho um jogo de squash marcado para a hora do almoço. Volto à uma.

O presidente viu a porta fechar-se e respirou aliviado. Tinha dezoito buracos de golfe marcados para aquela tarde, portanto era melhor esquecer o pelicano. Se Coal não estava preocupado, ele também não estava. Pegou no telefone, digitou o número, esperou pacientemente e por fim Bob Gminski atendeu. O diretor da CIA jogava golfe muito mal, era um dos poucos que o presidente conseguia envergonhar e ele convidou-o para uma partida naquela tarde. Certamente, disse Gminski, um homem com milhares de coisas para fazer, mas que diabo, era o presidente, portanto aceitava com prazer.

- A propósito, Bob, o que me diz daquele assunto do pelicano em Nova Orleans?

Gminski pigarreou, tentando parecer despreocupado.

- Bem, chefe, eu disse ao Fletcher Coal, na sexta-feira, que era muito imaginativo, uma bela

obra de ficção. Acho que a autora deve esquecer a faculdade de Direito e começar a escrever.

- Ótimo, Bob. Nada importante, então.

- Estamos investigando.

- Nos vemos às três. - O presidente desligou e foi direito ao seu taco de golfe.

 

RiverwaIk estende-se por quatrocentos metros ao longo do rio e está sempre cheio. Tem duzentas lojas e cafés e restaurantes em vários pisos, a maior parte sob o mesmo teto e alguns de frente para o passeio, ao lado do rio. Fica na extremidade da Rua Poydras, perto do Quarter.

Ela chegou às onze horas e bebeu um expresso na parte de trás de um pequeno café, tentando ler o jornal e parecer calma. Frenchmen's Bend ficava no nível inferior, logo depois da esquina. Estava nervosa e o café não ajudava.

Tinha no bolso uma lista do que precisava fazer, passos específicos em momentos determinados, até palavras e sentenças decoradas, para o caso das coisas saírem muito erradas e Verheck perder a calma. Dormira apenas duas horas e tinha passado o resto do tempo fazendo planos e diagramas num bloco de apontamentos. Se ela morresse, não seria por falta de preparação.

Não podia confiar em Gavin Verheck. Ele trabalhava para uma agência que muitas vezes agia de acordo com as próprias regras. Recebia ordens de um homem com uma história de paranóia e de truques baixos. Esse homem estava subordinado a um presidente chefe de um governo dirigido por idiotas. O presidente tinha amigos ricos e astutos que lhe forneciam muito dinheiro.

Neste momento, minha menina, já não tem mais ninguém em quem confiar. Ao fim de cinco dias e de ter escapado por pouco duas vezes, Darby ia jogar a cartada final. Nova Orleans deixara de ter encanto. Precisava de ajuda e, se ia confiar na sorte, os policiais federais eram tão bons como qualquer outro.

Onze e quarenta e cinco. Pagou o café, esperou que passasse um grupo de pessoas que andavam fazendo compras e saiu atrás delas. Ela via uma dezena de pessoas no Frenchmen's Bend quando passou pela porta onde o seu amigo deveria estar dentro de dez minutos. Entrou numa livraria, duas portas adiante. Havia pelo menos três lojas por perto, onde ela podia andar e esconder-se, enquanto vigiava a entrada da Frenchmen's Bend.

Escolheu a livraria porque os vendedores não importunam os fregueses e é normal que estes se demorem, vendo um livro ou outro. Folheou primeiro as revistas, e depois, quando faltavam três minutos, parou no meio de duas filas de livros de cozinha e esperou por Gavin.

Thomas tinha dito que ele nunca chegava na hora. Uma hora de atraso era habitual nele, mas Darby esperaria apenas quinze minutos antes de ir embora.

Tinha marcado ao meio-dia em ponto e lá estava ele. Camiseta preta, boné vermelho de beisebol, jornal dobrado. Era um pouco mais magro do que tinha imaginado, mas mesmo assim podia perder alguns quilos. O seu coração começou a bater desordenadamente. Calma, disse Darby. Procure agir com calma.

Pegou um livro de cozinha e fingiu que estava lendo. Gavin tinha cabelos escuros e pele morena. Os olhos estavam escondidos pelos óculos escuros. Parecia inquieto e irritado.

Exatamente como no telefone. Passava o jornal de uma das mãos para a outra, apoiava o peso do corpo ora num pé, ora no outro, e olhava em volta nervosamente.

Gavin era moreno. Darby gostou da aparência dele. Algo de vulnerável e não profissional dizia que também estava com medo. Ao fim de cinco minutos, entrou, como estava combinado, e foi direto ao fundo da loja.

Khamel fora treinado para aceitar bem a morte. Muitas vezes estivera perto dela, mas nunca sentira medo. E depois dessa espera constante, durante trinta anos, nada, nada o deixava tenso. A única coisa que o excitava um pouco era sexo, nada mais. Todo aquele nervosismo era fingido. Os movimentos inquietos, ensaiados. Sobrevivera a confrontos com homens quase tão talentosos como ele e certamente podia enfrentar esse pequeno encontro com uma criança desesperada. Fingiu que escolhia uma camisa tipo safári, sempre com gestos nervosos.

Levava um lenço no bolso porque tinha apanhado um resfriado e a voz estava um pouco áspera e rouca. Ouvira a gravação uma centena de vezes e tinha certeza de ter apanhado a inflexão e o ritmo do leve sotaque do middle-west. Mas a voz de Gavin era um pouco mais nasal, por isso precisava do lenço.

Era difícil deixar que alguém se aproximasse dele pelas costas mas tinha de fazer isso. Não a viu. Darby estava por trás dele e muito perto quando disse:

- Gavin.

Ele virou-se bruscamente. Não falava com ele, mas com um chapéu panamá que tinha na mão.

- Darby - disse ele, tirando o lenço do bolso para um espirro fingido. - O cabelo dela estava dourado e mais curto que o dele. Khamel espirrou e tossiu. - Vamos embora daqui – disse ele. -Não gosto desta idéia.

Darby também não gostava. Era segunda-feira, os seus colegas de turma tratavam dos seus deveres na faculdade e ela estava ali, disfarçada e brincando de capa e espada com aquele homem que podia provocar a sua morte.

- Faça só o que eu mandar, certo? Onde arranjou esse resfriado? Ele espirrou no lenço e falou o mais baixo possível, como se falar fosse doloroso e difícil.

- Na noite passada. Deixei o ar condicionado muito alto. Vamos sair daqui.

- Siga-me.

Saíram da loja, Darby deu-lhe a mão e desceram rapidamente alguns degraus para o passeio na margem do rio.

- Você os viu? - perguntou ele.

- Não. Ainda não. Mas tenho certeza de que estão por perto.

- Onde diabo é que vamos? - A voz era seca e áspera. Estavam no passeio, ao lado do rio, quase correndo, e falando sem olhar um para o outro.

- Limite-se a vir comigo.

- Está andando muito depressa, Darby. Vai levantar suspeitas. Mais devagar. Ouça, isto é uma loucura. Deixe-me fazer um telefonema e ficaremos a salvo e em segurança. Posso ter três agentes aqui em dez minutos. - Estava indo muito bem. A coisa funcionava. De mãos dadas, os dois corriam para salvar a vida.

- Nada disso. - Ela diminuiu o passo. O passeio estava cheio e havia uma fila ao lado do Bayou Queen, um barco com roda de pá. Pararam no fim da fila.

- Que diabo é isto? - perguntou ele.

- É costume resmungar por tudo e por nada? - perguntou ela, em voz muito baixa.

- Sim. Especialmente por causa de coisas idiotas e isto é muito idiota. Vamos entrar nesse barco?

- Vamos.

- Por quê? - Espirrou outra vez, depois teve um acesso de tosse

Podia tirá-la dali só com uma das mãos, mas havia muita gente por toda parte. Gente à frente, gente atrás. Orgulhava-se muito da perfeição do seu trabalho e aquele era um lugar imundo para fazer fosse o que fosse. Entre no barco, continue a farsa durante mais alguns minutos e vamos ver o que acontece. Podia apanhá-la no convés superior, matá-la, atirar o corpo ao rio e começar a gritar. Outro terrível caso de afogamento. Talvez desse certo. De contrário, teria de ser paciente. Estaria morta dentro de uma hora. Gavin era um chato, portanto vamos continuar a resmungar.

- Porque eu tenho um carro a dois quilômetros rio acima, num parque de estacionamento, um ancoradouro em que o barco para meia-hora - explicou ela, em voz baixa. - Saímos do barco, entramos no carro e vamos embora.

A fila avançava.

- Não gosto de barcos. Fico enjoado. Isto é perigoso, Darby. - Tossiu e olhou em volta, como um homem perseguido.

- Calma, Gavin. Tudo vai dar certo.

Khamel puxou as calças para cima. Tinha oitenta centímetros de cintura e cobrira-a com oito camadas de cuecas e shorts. A camiseta era super larga e ao invés dos seus setenta quilos parecia pesar noventa e cinco. Tudo bem. Parecia que tudo estava correndo bem. Estavam quase nos degraus do Bayou Queen.

- Não gosto nada disto - resmungou ele, para ela ouvir.

- Ora, cale-se - disse Darby.

O homem com o revólver correu para o fim da fila e abriu caminho, empurrando e acotovelando as pessoas com os seus sacos e máquinas fotográficas. Os turistas estavam muito

juntos como se um passeio pelo rio fosse a maior viagem do mundo. Ele já tinha matado anteriormente, mas nunca no meio de tanta gente. Via perfeitamente a parte de trás da cabeça dela.

Foi abrindo caminho, desesperadamente, entre os que estavam na fila. Alguns reclamavam, mas era como se ele não os ouvisse. Quando chegou perto da garota, tirou a arma do bolso e segurou-a encostada à perna direita. Ela estava nos degraus, quase no barco. Empurrou com mais força, afastando as pessoas do seu caminho. Quando viram a arma, os protestos transformaram-se em gritos de medo. Ela estava de mãos dadas com o homem, que falava sem parar. Darby estava no último degrau, quando ele afastou a última pessoa da sua frente e encostou o cano do revólver à nuca, logo abaixo do boné vermelho de beisebol. Disparou uma vez e todo mundo gritou e se atirou ao chão.

Gavin caiu pesadamente nos degraus. Darby gritou e recuou, horrorizada. Os seus ouvidos zumbiam por causa do tiro e havia pessoas que gritavam e apontavam. O homem com a arma correu para uma fila de lojas onde havia muita gente. Um homem gordo, com uma câmara, gritou-lhe e Darby o viu desaparecer.

Talvez já o tivesse visto, mas agora não era capaz de se lembrar. Gritava completamente descontrolada.

- Ele tem uma arma! - gritou uma mulher, perto do barco, e todos começaram a afastar-se de Gavin, que estava de abaixada com uma pequena pistola na mão direita.

Ele balançava pateticamente para trás e para frente, como uma criança que aprende a andar. O sangue escorria-lhe pelo queixo abaixo, formando uma poça debaixo do rosto. A cabeça estava quase no chão. Os olhos fechados. Moveu-se para frente alguns centímetros, com os joelhos agora na poça vermelha.

A multidão recuou, apavorada com o espetáculo daquele homem ferido lutando contra a morte. Ele procurou avançar mais um pouco, para lugar nenhum, apenas para fazer um movimento, para viver. E então começou a gritar. Longos gemidos, altos e dolorosos, numa língua que Darby não entendia.

O sangue jorrava do nariz e do queixo. Os lamentos continuavam naquela língua estranha.

Dois tripulantes do barco ficaram parados na escada, olhando, com medo de se mexerem. A arma na mão dele os aterrorizava.

Uma mulher começou a chorar, depois outra. Darby recuou mais um pouco.

- Ele é egípcio - disse uma mulher baixa e morena.

A informação não Interessou a ninguém. Estavam todos estupefatos.

Ele balançou-se para frente, para a beira do passeio. A arma caiu na água. O homem caiu de bruços, com a cabeça pendurada para fora, com o sangue pingando no rio. Ouviram gritos atrás da multidão e dois polícias correram para ele.

Uma centena de pessoas adiantou-se então para ver o homem morto. Darby recuou devagar e desapareceu. Os policiais iam fazer perguntas e, como não tinha respostas a dar, preferia não dizer nada. Sentia as pernas fracas, precisava se sentar um instante e pensar. Havia um bar no interior do Riverwalk.

Era hora do almoço e o bar estava cheio. Darby encontrou os lavabos, nos fundos. Trancou a porta e sentou-se no vaso.

Logo que anoiteceu, saiu de Riverwalk. O Hotel Westin ficava a dois quarteirões e esperava chegar até lá sem levar um tiro no meio da rua. Estava com outra roupa e um casaco novo, preto.

Os óculos escuros e o chapéu também eram novos. Estava cansada de gastar dinheiro em roupas descartáveis. Estava cansada de uma porção de coisas.

Chegou inteira ao Westin. Não tinham vagas e ela sentou-se uma hora no átrio bem iluminado, para tomar café. Estava na hora de fugir, mas não podia ser descuidada. Precisava pensar. Talvez andasse pensando demais. Talvez eles a vissem agora como uma pensadora, e estivessem fazendo planos de acordo com essa idéia.

Saiu do Westin e andou pela Poydras, onde fez sinal a um táxi. O motorista era velho e negro.

- Preciso ir a Baton Rouge - disse ela.

- Mas, minha menina, isso é uma viagem e cara.

- Quanto? - perguntou rapidamente.

Ele pensou um segundo.

- Cento e cinqüenta.

Darby sentou-se no banco de trás e atirou duas notas para o da frente.

- Aí tem duzentos. Chegue Ia o mais depressa possível e veja se não vem ninguém atrás de nós. Pode ser que haja alguém seguindo-nos.

Ele baixou a bandeira e guardou o dinheiro no bolso da camisa. Darby deitou-se no banco e fechou os olhos. Não estava procedendo inteligentemente, mas, calculando as porcentagens, o que tinha feito até então não tinha corrido bem. O velho gostava de andar depressa e em poucos minutos entraram na auto-estrada.

O zumbido nos ouvidos passou, mas ainda ouvia o tiro e o via, balançando-se para frente e para trás, vendo se vivia um pouco mais. Certa vez Thomas tinha chamado Verheck de holandês, mas tinha lhe dito que o apelido fora abandonado quando se formaram e começaram a encarar as suas carreiras. O holandês Verheck não era egípcio.

Darby tinha visto de relance o assassino. Havia qualquer coisa de familiar nele. Ele olhou para a direita apenas uma vez enquanto fugia, e qualquer coisa surgiu um breve instante na sua memória. Mas ela estava gritando, histérica, e tudo parecia desfocado.

Tudo desfocado. A meio caminho para Baton Rouge, mergulhou num sono profundo.

 

O diretor Voyles estava de pé atrás da sua cadeira giratória, sem casaco e com quase todos os botões da camisa, amarrotada e suja, abertos. Eram nove horas da manhã e, a julgar pela camisa, há quinze horas que não saía do escritório. E nem sequer estava pensando em sair.

Com o auscultador no ouvido, ouviu com atenção, resmungou quaisquer instruções e desligou. K. O. Lewis estava sentado em frente da mesa. A porta aberta, as luzes acesas. Ninguém tinha saído ainda. O ambiente era sombrio, e, aqui e ali, pequenos grupos falavam em voz baixa - Era Eric East ao telefone - disse Voyles, sentando-se lentamente na cadeira. - Está lá há umas duas horas e já terminaram a autopsia. Eric assistiu, foi a primeira vez para ele. Uma bala na têmpora direita, mas ele morreu antes, devido a um único golpe em C-2 e C-3. As vértebras ficaram reduzidas a pedaços e a lascas. Não há sinal de pólvora na mão. Outro golpe feriu gravemente a laringe, mas não o matou. Estava nu. Hora presumível da morte, entre as dez e as onze, na noite passada.

- Quem o encontrou? - perguntou Lewis.

- As empregadas de quarto, quando chegaram, às onze horas da manhã. Quer ser você a dar a notícia à mulher dele?

- Sim, claro - disse K. O. - Quando é que o corpo vem para cá?

- East disse que devem liberá-lo dentro de duas horas, e que deve chegar aqui mais ou menos às duas da manhã. Diga a ela que faremos o que ela quiser. Diga-lhe que vou enviar cem agentes, amanhã, para cobrir a cidade. Diga-lhe que vamos descobrir o assassino, etc., etc.

- Alguma pista?

- Provavelmente nenhuma. East disse que estiveram examinando o quarto de hotel desde as três da tarde e que parece um trabalho muito perfeito. A porta não foi arrombada. Nenhum sinal de resistência. Nada que possa ajudar, mas é um pouco cedo ainda. - Voyles esfregou os olhos vermelhos e pensou durante alguns instantes.

- Como é possível ele ter ido a um simples funeral e acabar morto? - perguntou Lewis

- Ele estava investigando esse tal pelicano. Um dos nossos agentes, um cara chamado Carlton, disse a East que Gavin andava à procura da garota e que ela tinha telefonado e que ele talvez precisasse de ajuda para trazê-la até nós. Carlton falou com ele algumas vezes e deu-lhe o nome de alguns lugares freqüentados pelos estudantes de Direito. Foi tudo, diz ele. Carlton diz que ele, CarIton, estava um pouco preocupado com o fato de Gavin estar usando o FBI na sua investigação. Disse que Gavin era completamente inexperiente.

- Alguém viu a garota?

- Provavelmente está morta. Dei ordens a Nova Orleans para a encontrarem, se for possível.

- O dossiê está matando gente por toda a parte. Quando é que vamos atribuir-lhe a importância que ele merece?

Voyles indicou a porta com uma inclinação de cabeça e Lewis levantou e fechou-a. O diretor estava de pé novamente, fazendo estalar os dedos e pensando em voz alta.

- Temos de proteger o couro. Acho que devemos designar pelo menos duzentos agentes para o pelicano, mas procurar manter o maior sigilo possível. Não se esqueça de que ele me pediu pessoalmente para desistir do pelicano e eu disse que sim, em parte porque pensei que era uma

brincadeira. - Voyles riu amarelo. - Bem, gravei nossa conversa quando ele fez esse pedido. Acho que ele e Coal gravam tudo num raio de oitocentos metros da Casa Branca; portanto, por que não posso fazer o mesmo? Usei o meu melhor microfone e já ouvi a gravação. Clara e cristalina.

- Não estou entendendo.

- É simples. Nós vamos e investigamos como loucos. Se for a pista certa, resolvemos o caso, conseguimos apontar os suspeitos e todo mundo fica feliz. Mas não vai ser fácil fazer isso com rapidez. Durante esse tempo, o idiota e o Coal não devem saber nada acerca da investigação.

Se a imprensa souber e se o Dossiê Pelicano for o alvo certo, então eu encarrego-me de informar o país de que o presidente me pediu para desistir da investigação, por se tratar de um dos seus amigos.

Lewis sorriu.

- Isso vai matar o homem.

- Sim! Coal vai ter uma hemorragia e o presidente nunca mais vai se recuperar. As eleições serão no ano que vem, certo?

- Gosto da idéia, Denton. Mas temos de resolver este caso.

Denton começou a andar vagarosamente atrás da cadeira e tirou os sapatos. Ficou mais baixo ainda.

- Vamos procurar debaixo de cada pedra, K. O., mas não vai ser fácil. Se for Mattiece, então temos um homem muito rico, com um plano sofisticado para usar assassinos de muito talento para eliminar dois juizes do Supremo. Essa gente não fala e não deixa pistas. Veja o que aconteceu ao nosso amigo Gavin. Vamos passar duas mil horas investigando aquele hotel e aposto que não vamos encontrar nada que sirva de prova. Exatamente como com Rosenberg e

Jensen.

- E Callahan.

- E Callahan. E provavelmente a garota, se algum dia viermos a encontrar o seu corpo.

- De certa forma eu sou o responsável, Denton. Gavin me procurou na quinta-feira de manhã, quando soube da morte de Callahan , e eu não quis ouvi-lo. Eu sabia que ele ia a Nova Orleans, mas não prestei a menor atenção.

- Ouça. Lamento muito que ele esteja morto. Era um bom advogado e eu podia confiar na lealdade dele. Dou muito valor a isso. Eu confiava em Gavin, mas ele foi assassinado porque entrou em área proibida. Não tinha nada que bancar o policial e tentar encontrar a garota.

Lewis levantou e espreguiçou-se.

- Acho melhor ir falar com a Sra Verheck. Até que ponto é que lhe posso explicar?

- Vamos dizer-lhe que parece um caso de assalto com morte, que a polícia de Nova Orleans não tem certeza, ainda estão investigando, que amanhã saberemos mais qualquer coisa, etc. Diga-lhe que eu estou arrasado e que faremos tudo o que ela mandar.

A limusine de Coal parou bruscamente, encostada à divisória central para dar passagem à ambulância. A limusine circulava pela cidade, sem destino, um ritual comum quando Coal e Matthew Barr se encontravam para tratar de negócios escusos.

Recostados no banco, bebiam calmamente. Coal bebia água mineral. Bari--- bebia cerveja, comprada numa loja de um posto de gasolina. Ignoraram ambos a ambulância.

- Preciso saber o que Grantham sabe - dizia Coal. - Hoje ele telefonou para Zikman, para o ajudante de Zikman, Tiranden e Nelson De Van, um dos meus diversos ex-assistentes, que está agora com o Comitê de Reeleição. E esses são apenas os telefonemas de que tenho conhecimento. Todos no mesmo dia. Ele está aproximando-se muito da pista desse Dossiê Pelicano.

- Acha que ele viu o dossiê?

A limusine estava outra vez em movimento.

- Não. De modo algum. Se ele soubesse do que se trata, não estaria andando às cegas.

Mas, que diabo, ele sabe da existência do dossiê.

- Ele é bom. Eu o vigiei durante anos. Parece mover-se nas sombras e mantém contato com uma antiga rede de fontes de informação. Tem escrito algumas reportagens malucas, mas todas extremamente precisas.

- É isso que me preocupa nesta história.

- É muito obstinado e fareja sangue. - Barr bebeu um gole da lata de cerveja. - É claro que seria pedir muito perguntar o que diz o dossiê.

- Não pergunte. É tão confidencial que chega a ser assustador.

- Então, como é que Grantham sabe da existência dele?

- A pergunta perfeita. É isso que eu quero saber. Como é que ele descobriu e o que sabe ele. Quais são as suas fontes.

- Pusemos o telefone do carro dele sob escuta mas ainda não entramos no apartamento.

- Por que não?

- Quase fomos apanhados esta manhã pela empregada. Vamos tentar novamente amanhã.

- Não se deixe apanhar, Barr. Lembre-se de Watergate.

- Aqueles caras eram burros, Fletcher. Nós, por outro lado, somos muito espertos.

- Tem razão. Então, diga-me, será que você e os seus sócios espertos conseguem pôr o telefone de Grantham no Post sob escuta?

Barr olhou para Coal com a testa franzida.

- Está louco? Isso é impossível. Aquele lugar está cheio de gente de dia e de noite. Eles têm guardas de segurança. Têm tudo e mais alguma coisa.

- Poderia ser feito.

- Pois então faça, Coal. Se é tão sabido, faça você mesmo.

- Pense numa maneira, certo? Ao menos, pense um pouco

- Está bem! Já pensei! É impossível!

A idéia parecia divertir Coal e Barr ficou irritado. A limusine chegou ao centro da cidade.

- Ponha o apartamento dele sob escuta - ordenou Coal. - Quero que me informe duas vezes por dia sobre todos os telefonemas.

A limusine parou e Barr desceu.

 

Café da manhã no Dupont CircIe. Estava frio, mas pelo menos os drogados e travestis estavam ainda inconscientes nos seus pequenos mundos doentios. Alguns bêbados dormiam no passeio, como pedaços de madeira trazidos pelo rio. Mas o sol já tinha aparecido e ele sentia-se seguro e, de qualquer modo, era ainda um agente do FBI, com um coldre a tiracolo e uma arma debaixo do braço. De quem é que ele ia ter medo? Há quinze anos que não usava a arma e raramente saía do escritório, mas bem gostaria de tirá-la do coldre e de dar uns tiros.

O nome dele era Trope, um assistente muito especial de Mr. Voyles, tão especial que ninguém, a não ser ele e Mr. Voyles, sabia dos encontros secretos com Booker, de Langley. Estava sentado num banco circular, de costas para New Hampshire, com o café ainda no saco de papel, uma banana e pãezinhos comprados num cafezinho. Viu as horas. Booker nunca se atrasava.

Trope chegava sempre primeiro, e Booker cinco minutos depois, e conversavam sempre rapidamente e Trope saía primeiro e Booker um pouco depois. Eram agora dois office-boys, com a juventude já distante, mas muito próximos dos seus chefes, que, uma vez por outra, ficavam fartos de tentar adivinhar que raio é que o outro andava tramando, ou precisavam saber qualquer coisa com muita urgência.

O seu nome verdadeiro era Trope e punha-se a pensar se Booker seria também um nome verdadeiro. Provavelmente não. Booker era de Langley e eram todos tão paranóicos que até os funcionários de escritório tinham de ter nomes falsos. Comeu um pedaço de banana. Que diabo, provavelmente as secretárias, em Langley, tinham três ou quatro nomes diferentes.

Booker apareceu ao lado da fonte, andando devagar, com um copo de café na mão. Olhou em volta e sentou-se ao lado do amigo. Aquele encontro fora pedido por Voyles, por isso Trope falou primeiro.

- Perdemos um homem em Nova Orleans - disse ele.

Booker segurou o copo de café com as duas mãos e bebeu um gole.

- A culpa foi dele.

- Foi, mas mesmo assim está morto. Vocês estavam lá?

- Estávamos, mas não sabíamos que ele também estava lá. Andávamos perto, mas vigiando outras pessoas. O que é que ele estava fazendo?

Trope desembrulhou o pãozinho frio.

- Não sabemos. Foi ao funeral, tentou encontrar a garota, encontrou outra pessoa e aqui estamos nós. - Outra dentada e terminou a banana. Chegou a vez do pãozinho. - Foi um trabalho limpo, não foi?

Booker encolheu os ombros. O que é que o FBI sabia acerca de se matarem pessoas?

- Foi bom. Uma tentativa muito fraca de fazer parecer suicídio. - Bebeu outro gole do café quente.

- Onde está a garota? - perguntou Trope.

- Nós a perdemos no O'Hare, em Chicago. Talvez esteja em Manhattan, mas não temos certeza. Andamos à procura.

- E os outros também. - Trope bebeu um gole de café frio.

- Tenho certeza que sim.

Ambos viram um bêbado levantar-se do banco e cair no chão. A cabeça bateu com uma pancada surda, mas provavelmente não sentiu nada. Virou-se de lado, com a cabeça sangrando.

Booker olhou para o relógio. Aqueles encontros eram extremamente breves.

- O que Mr Voyles pretende fazer?

- Oh, vai entrar na dança. Mandou cinqüenta homens ontem à noite, e vai mandar mais hoje. Não gosta de perder gente sua, especialmente alguém que ele conhece.

- E a Casa Branca?

- Não vai dizer nada e talvez não descubram. Que sabem eles?

- Eles sabem quem é MattIece.

Trope teve um sorriso fugaz.

- Onde está Mr. Mattiece ?

- Vá-se lá saber! Nos últimos três anos foi visto poucas vezes neste país. Tem pelo menos meia dúzia de residências em países diferentes, aviões a jato e barcos, portanto, sabe-se lá! Trope acabou de comer o pãozinho e guardou o no saco de papel.

- O dossiê o apanhou de surpresa, certo?

- E de que maneira! E se ele tivesse mantido a calma, o dossiê seria ignorado. Mas perdeu o controle, começou a matar gente e, quanto mais ele mata, mais credibilidade dá ao dossiê.

Trope olhou para o relógio. Estavam demorando muito, mas eram informações muito importantes.

- Voyles diz que talvez precisemos da sua ajuda.

Booker fez um gesto afirmativo.

- Combinado. Mas vai ser uma coisa muito difícil. Primeiro, o assassino provável está morto.

Segundo, o mandante provável é difícil de encontrar. Foi uma conspiração sofisticada, mas os conspiradores desapareceram. Vamos tentar encontrar Mattiece .

- E a garota?

- Sim. Vamos tentar.

- O que será que ela está pensando?

- Em como continuar viva.

- Não pode trazê-la para dentro? perguntou Trope.

- Não. Não sabemos onde está e não podemos andar por aí seqüestrando cidadãos inocentes pelas ruas. No momento, ela não confia em ninguém.

Trope levantou-se com o saco de papel na mão.

- Não a culpo por Isso. - E foi embora.

Grantham olhou para uma fotografia muito escura, mandada por fax, de Phoenix. Ela estava na Universidade do estado do Arizona, uma jovem de vinte anos, muito atraente. O currículo dizia que era formada em Biologia e era de Denver. Grantham telefonou para vinte Shaw em Denver, e desistiu. O segundo fax fora enviado por um funcionário da Associated Press em Nova Orleans.

Era uma cópia da fotografia do primeiro ano dela em Tulane. O cabelo estava mais comprido.

O homem da AP encontrara também, no meio do livro do ano, uma fotografia de Darby Shaw bebendo uma Diet Coke num piquenique da faculdade. Estava com uma camisola muito larga, jeans desbotados e muito justos, e era evidente que a fotografia fora inscrita no livro do ano por um grande admirador. Parecia uma coisa tirada da Vogue. Estava rindo de qualquer coisa, ou de alguém. Os dentes eram perfeitos e o rosto cheio de vida. Grantham pregou-a no quadro de cortiça, ao lado da secretária, no jornal.

Havia um quarto fax, uma fotografia de Thomas Callahan, só para registro.

Pôs os pés em cima da mesa. Eram quase nove e meia de terça-feira. A sala vibrava e murmurava como uma manifestação de protesto bem organizada. Grantham tinha feito oitenta telefonemas nas últimas vinte e quatro horas sem conseguir nada, além das fotografias e de uma pilha de formulários de financiamento de campanha eleitoral. Não conseguia chegar a parte nenhuma e, na verdade, por que é que havia de se preocupar? Ela estava disposta a contar tudo.

Deu uma olhadela no Post e viu a estranha história de um tal Gavin Verheck e da sua morte. O telefone tocou. Era Darby.

- Leu o Post? - perguntou ela.

- Sou eu quem escreve o Post, não se lembra?

Ela não estava para conversas.

- A reportagem sobre o advogado do FBI assassinado em Nova Orleans, leu?

- Estou lendo neste momento. Significa qualquer coisa para você?

- Digamos que sim. Ouça com atenção, Grantham. Callahan deu o dossiê a Verheck, que era o seu melhor amigo. Na sexta-feira, Verheck veio a Nova Orleans para o enterro. Falei com ele pelo telefone. Ele queria me ajudar, mas eu tive medo. Concordamos em nos encontrar ontem, ao meio-dia. Verheck foi assassinado no quarto do hotel mais ou menos às onze horas da noite de sábado. Entendeu tudo?

- Sim, entendi.

- Verheck não compareceu ao encontro. Já estava morto àquela hora. Assustei-me e saí da cidade. Estou em Nova York.

- Consegui entender tudo. - Grantham escrevia furiosamente. - Quem matou Verheck?

- Não sei. Mas há mais. Eu li o Post e o New York Times de ponta a ponta e não encontrei nada acerca de outra morte em Nova Orleans. A morte de um homem que estava comigo e que eu pensei que fosse Verheck. É uma longa história.

- Parece mesmo. Quando é que vou conseguir ouvir essa longa história?

- Quando é que pode vir a Nova York?

- Posso estar aí ao meio-dia.

- É um pouco rápido demais. Vamos combinar para amanhã. Eu telefono amanhã a esta hora, dando-lhe instruções. Precisa ter muito cuidado, Grantham.

Ele admirou os jeans e o sorriso no seu quadro de cortiça.

- É Gray, está bem? Não Grantham.

- Seja. Gente muito poderosa está com medo do que eu sei. Se eu lhe disser, eles podem matá-lo. Eu vi os corpos, Gray. Ouvi as bombas e os tiros. Ontem vi o cérebro de um homem, e não tenho idéia de quem ele era, nem por que foi morto, a não ser pelo fato de estar a par do Dossiê Pelicano. Pensei que ele fosse meu amigo. Confiei-lhe a minha vida a ele, e ele levou um tiro na cabeça na frente de umas cinqüenta pessoas. Enquanto eu o via morrer, ocorreu-me que talvez não fosse meu amigo. Li os jornais esta manhã e compreendi que definitivamente não era.

- Quem o matou?

- Falaremos disso quando você chegar aqui.

- Certo, Darby.

- Há ainda mais uma coisinha. Vou contar-lhe tudo o que sei, mas não pode nunca usar o meu nome. Já escrevi o bastante para provocar a morte de pelo menos três pessoas e tenho certeza de que eu serei a próxima. Mas não quero arranjar mais encrencas. Continuarei anônima, certo, Gray?

- Combinado.

- Não sei porque confio tanto em você. Se tiver qualquer dúvida a seu respeito, desapareço.

- Tem a minha palavra de honra, Darby. Juro.

- Acho que está cometendo um erro. Isto não é o tipo de investigação que você costuma fazer. Podem matá-lo por isto.

- Os mesmos que mataram Rosenberg e Jensen?

- sim.

- Sabe quem matou Rosenberg e Jensen?

- Sei quem pagou para matá-los. Sei o nome dele. Sei o que faz. Conheço a política dele.

- E vai me contar isso amanhã?

- Se ainda estiver viva.

Fizeram uma longa pausa, ambos pensando no que iam dizer. Quem sabe se não era melhor conversarmos imediatamente disse ele.

- Talvez. Mas telefono amanhã de manhã.

Grantham desligou e admirou um Instante a fotografia um pouco escura daquela linda estudante de Direito, convencida de que em breve estaria morta. Por um segundo entregou-se a sonhos de cavalheirismo, coragem e proteção. Ela estava com vinte e poucos anos, gostava de homens mais velhos, segundo indicava a fotografia de Callahan, e de repente confiava nele, com exclusão de todos os outros. Ele ia fazer com que tudo corresse bem. Ele a protegeria.

A fila de automóveis saiu silenciosamente do centro da cidade. Ia fazer um discurso em College Park dali a uma hora, e sentado no carro, sem casaco, lia o que Mabry tinha escrito.

Meneava a cabeça e fazia apontamentos à margem. Num dia normal, seria um passeio agradável fora da cidade, até ao belo campus, para um breve discurso, mas não era isso o que sentia.

Coal estava ao seu lado, na limusine.

O chefe da Casa Civil geralmente evitava essas viagens. Gostava de desfrutar os momentos em que o presidente deixava a Casa Branca nas suas mãos. Mas precisavam conversar.

- Estou farto dos discursos de Mabry - disse o presidente, desanimado. - São todos iguais.

Juro que fiz este mesmo na semana passada, na convenção dos rotários.

- Ele é o melhor que temos, mas ando à procura de outro - disse Coal, sem erguer os olhos do que estava lendo. Já tinha lido o discurso e não tinha achado assim tão mau. Mas Mabry escrevia para o presidente há seis meses e as idéias começavam a repetir-se e, de qualquer forma, Coal queria mesmo despedi-lo. O presidente olhou para o memorando na mão de Coal.

- O que é isso?

- A lista.

- Quem ficou de fora?

- Siler-Spence, Watson e Calderon. - Coal virou a página.

- Isso é ótimo, Fletcher. Uma mulher, um negro e um cubano. O que aconteceu aos brancos? Se não me engano, eu disse que queria homens jovens e brancos. Juizes jovens, mas conservadores com credenciais impecáveis e muitos anos para viver. Não foi isso que eu disse?

Coal continuou a ler.

- As indicações têm que ser confirmadas, chefe.

- Faremos com que sejam confirmadas. Vou fazer tanta pressão quanta for necessária, mas serão confirmadas. Já alguma vez pensou que nove em cada dez homens brancos deste país votaram em mim?

- Oitenta e quatro por cento.

- Certo. Então, o que é que se passa com a nomeação de homens brancos?

- Isto não é exatamente uma troca de favores políticos.

- Uma ova que não é. É isso mesmo, pura e simplesmente. Eu recompenso os meus amigos e castigo os meus inimigos. É assim que se sobrevive na política. É costume dançar com quem nos elege. Não posso acreditar que queira uma mulher e um negro. Está se tornando fraco, Fletcher.

Coal virou outra página. Já ouvira tudo isso anteriormente.

- Estou mais preocupado com a reeleição - disse, em voz baixa.

- E eu não estou? Indiquei tantos asiáticos e hispânicos, mulheres e negros que dava para pensar que sou democrata. Que diabo, Fletcher, qual é o problema com os brancos? Ouça, deve haver uma centena de bons juizes, qualificados e conservadores por aí, certo? Por que não pode escolher dois, apenas dois, que se pareçam comigo e pensem como eu penso?

- O senhor teve noventa por cento dos votos dos cubanos.

O presidente atirou o discurso para cima do banco do carro e pegou a edição matutina do Post.

- Muito bem, ficamos com o Calderon. Que idade tem ele?

- Cinqüenta e um. Casado, oito filhos. Católico, família pobre, trabalhou para estudar em Yale, muito sólido. Muito conservador. Nenhum segredo, nenhum escândalo familiar, a não ser uma cura de alcoolismo há vinte anos. Desde então, deixou de beber. Completamente.

- Alguma vez usou drogas?

- Ele diz que não.

- Gosto dele. - O presidente lia a primeira página do jornal.

- Eu também. O Tribunal Federal e o FBI investigaram a roupa de baixo e ele é muito asseado. Agora, quer Siler-Spence ou Watson?

- Que nome é esse, Siler-Spence? Quero dizer, o que é essa coisa esquisita dessas mulheres que têm um hífen no nome? E se fosse Skowinski e ela casasse com um tipo chamado Levondowski? A sua alma de mulher livre ia exigir que passasse o resto da vida como F.

Gwendolyn Skowinski-Levondowski? Essa não, Coal. Nunca indicarei uma mulher com hífen.

- Já indicou.

- Quem?

- Kay Jones-Roddy, embaixadora no Brasil.

- Pois então, chame-a outra vez e despeça-a.

Coal sorriu ligeiramente e pôs o memorando no banco. Olhou para o tráfego através da janela do carro. Depois decidiriam sobre o segundo nome. Calderon estava no papo, e ele queria Linda Siler-Spence, portanto continuaria a fazer pressão a favor do negro e da mulher. Manobra elementar.

- Acho que devemos esperar mais duas semanas antes de anunciar os nomes - disse ele.

- Como queira - disse o presidente, lendo a reportagem da primeira página. Ele os anunciaria quando estivesse pronto, independentemente do tempo marcado por Coal. Não estava ainda convencido de que deviam ser anunciados juntos.

- O juiz Watson é um juiz negro muito conservador com fama de severo. Seria ideal.

- Não sei - murmurou o presidente, lendo a reportagem sobre Gavin Verheck.

Coal vira a notícia na segunda página. Verheck encontrado morto num quarto do Hilton, em Nova Orleans, em circunstâncias estranhas. Segundo o jornal, oficialmente o FBI estava ainda às escuras e nada tinha a dizer sobre o motivo da viagem de Verheck a Nova Orleans. Voyles estava extremamente triste. Um funcionário muito bom, leal, etc.

O presidente virou a página do jornal.

- O nosso amigo Grantham está muito quieto.

- Anda investigando. Acho que ouviu falar do dossiê, mas não o viu ainda. Já telefonou para todo mundo na cidade, mas não sabe o que deve perguntar. Anda sondando.

- Bem, ontem joguei golfe com Gminski - disse o presidente, com cara de gato que comeu o canário. - E ele me garantiu que está tudo sob controle. Tivemos uma conversa muito amiga durante os dezoito buracos. Ele joga pessimamente, não consegue evitar que a bola caia na areia ou na água. É muito engraçado.

Coal nunca tinha tocado num taco de golfe e detestava conversas vazias sobre handicaps e coisas do gênero.

- Acha que Voyles anda investigando em Nova Orleans?

- Não. Deu a sua palavra de que não ia investigar. Não que eu confie nele, mas Gminski não mencionou Voyles.

- Até que ponto confia em Gminski? - perguntou Coal, olhando rapidamente para o presidente, com a testa franzida.

- Não confio. Mas se ele soubesse qualquer coisa sobre o Dossiê Pelicano, acho que me diria... - Não terminou a frase, percebendo que estava sendo ingênuo.

Coal rosnou, incrédulo.

Atravessaram o rio Anacosta e entraram no condado de Prince Georges. O presidente pegou o discurso e olhou para fora. Duas semanas depois dos assassinatos e as sondagens de popularidade continuavam acima de cinqüenta por cento. Os democratas não possuíam nenhum candidato viável. Ele estava forte e ficava cada vez mais forte. Os americanos estavam fartos de drogas e de violência, e da atenção dada às minorias ruidosas, e de idiotas liberais que interpretavam a Constituição a favor de criminosos e de radicais. Era este o momento propício.

Duas indicações para o Supremo ao mesmo tempo. Seria o seu legado. Sorriu. Que tragédia maravilhosa.

 

O táxi parou bruscamente na esquina da Quinta com a Cinqüenta e Dois e Gray, seguindo à risca as ordens de Darby, pagou rapidamente e saltou do carro com a mala. O condutor do carro de trás buzinava e praguejava e ele pensou como era bom voltar à cidade de Nova York.

Eram quase cinco horas da tarde e a Quinta Avenida estava repleta de transeuntes, exatamente o que ela queria, pensou Grantham. Darby foi muito específica. Tome o avião tal do Nacional para o La Guardia. Tome um táxi até o Vista Hotel, no World Trade Center. Vá até um bar, tome uma bebida, talvez duas, vigie as suas costas e, uma hora depois, tome um táxi até a esquina da Quinta com a Cinqüenta e Dois. Faça tudo rapidamente, use óculos escuros e fique atento a tudo porque, se for seguido, podemos ser mortos.

Ela o fez tomar nota de todas as instruções. Era um pouco tolo, um pouco exagerado, mas era impossível discutir com Darby. Na verdade, Grantham não queria discutir. Só por sorte ainda estava viva, disse ela, e não queria arriscar-se mais. E se queria aquele encontro, então devia fazer exatamente o que ela lhe dizia.

Ele tomou nota de tudo. No meio da multidão, andou o mais depressa possível pela Quinta, até ao Plaza, na Cinqüenta e Nove, subiu os degraus, entrou no átrio e saiu pelo outro lado na Central Park South. Ninguém podia segui-lo. E se ela tivesse cuidado, ninguém iria segui-la.

O passeio da Central Park South estava apinhado de gente e, quando se aproximou da Sexta Avenida, apressou mais ainda o passo. Estava tenso e por mais que procurasse controlar-se a idéia de conhecê-la era extremamente excitante. Ao telefone, Darby mostrou-se fria e metódica, mas dava a impressão de medo e de incerteza. Era apenas uma estudante de Direito, disse, e não sabia o que estava fazendo e provavelmente estaria morta daí a uma semana, ou antes, mas de qualquer modo eram essas as regras do jogo. Pense sempre que está sendo seguido, disse ela.

Consegui sobreviver durante sete dias, sempre acossada por cães de caça, por isso, por favor, faça o que lhe digo.

As instruções eram para entrar rapidamente no St. Moritz, na Sexta, e ele obedeceu. Tinha um quarto reservado, sob o nome de Warren Clark. Pagou com dinheiro e apanhou o elevador para o nono andar. Ali devia esperar. Apenas esperar, dissera ela. Grantham ficou em pé, ao lado da janela, durante uma hora, vendo a noite descer no Central Park. O telefone tocou.

- Sr. Clark? - perguntou uma voz de mulher.

- Ah, sim.

- Sou eu. Veio sozinho?

- Sim. Onde é que está?

- Seis andares acima. Tome o elevador para o décimo oitavo e desça pela escada até ao décimo quinto. Quarto 1520.

- Está bem. Agora?

- Sim. Estou à sua espera.

Grantham tornou a lavar os dentes, verificou o cabelo e dez minutos depois estava em frente da porta do quarto 1520, sentindo-se como um calouro no seu primeiro encontro. Desde o futebol do liceu que não sentia tanto frio no estômago.

Mas ele era Gray Grantham, do Washington Post, aquela era apenas mais uma reportagem e ela apenas mais uma mulher, portanto, melhor se controlar, meu amigo. Bateu e esperou.

- Quem é?

- Grantham - disse ele, para a porta.

A fechadura de segurança estalou e ela abriu a porta devagar. O cabelo tinha desaparecido, mas ela sorriu e lá estava a garota da capa. Apertou a mão dele com firmeza.

- Entre.

Darby fechou e trancou a porta.

- Quer uma bebida? - perguntou ela,

- Claro, o que tem?

- Água, com gelo.

- Perfeito.

Foi até a saleta onde a televisão estava ligada sem som.

- Venha cá - disse Darby.

Grantham pôs a mala em cima da mesa e sentou-se no sofá. Ela estava de pé, ao lado do bar, e por um momento admirou os jeans. Descalça. Camiseta super larga, com a gola um pouco caída, deixando ver a alça do soutien. Ela estendeu-lhe o copo com água e sentou-se numa cadeira ao lado da porta.

- Obrigado - disse Grantham.

- Comeu alguma coisa?

- Não me mandou comer, Darby.

Darby riu.

- Desculpe. Passei por tanta coisa. Vamos pedir o serviço de quarto.

Ele fez um gesto afirmativo e sorriu.

- Certo. O que quiser está ótimo para mim.

- Eu gostaria de um cheeseburger com gordura, batatas fritas e uma cerveja gelada.

- Perfeito.

Darby fez o pedido. Grantham foi até à janela e olhou para as luzes que pareciam arrastar-se pela Quinta Avenida.

- Tenho vinte e quatro anos. E você? - Ela estava no sofá, bebendo água. Grantham aproximou-se dela com uma cadeira e sentou-se.

- Trinta e oito. Casado uma vez. Divorciado há sete anos e três meses. Sem filhos. Vivo sozinho com um gato. Por que escolheu o St. Moritz?

- Tinha vagas e eu os convenci de que era importante para mim pagar em dinheiro e não apresentar nenhuma identificação.

- Gosta?

- É bom. Já teve dias melhores.

- Isto não é propriamente uma viagem de férias.

- Está ótimo. Quanto tempo acha que vamos ficar aqui?

Darby olhou atentamente para ele. Seis anos antes Grantham tinha publicado um livro sobre os escândalos HUD e, embora tivesse ficado na prateleira, ela conseguira encontrar um exemplar em Nova Orleans. Ele parecia exatamente seis anos mais velho do que na fotografia da orelha do livro, mas a idade estava sendo generosa, tingindo-lhe de cinza as têmporas.

- Eu não sei quanto tempo você vai ficar - disse ela. - Os meus planos são sujeitos a mudanças, de um minuto para outro. Posso ver uma cara na rua e voar para a Nova Zelândia.

- Quando é que saiu de Nova Orleans?

- Segunda à noite. Tomei um táxi até Baton Rouge e até ali é possível que tenham conseguido seguir-me. Voei para Chicago, onde comprei quatro passagens para quatro cidades diferentes, incluindo Boise, onde vive a minha mãe. Tomei o avião para La Guardia no último momento. Acho que não fui seguida.

- Está em segurança.

- Talvez, por enquanto.

- Nós dois vamos ser caçados quando esta história for publicada. Se for publicada. Gray chocalhou o gelo no copo e olhou para ela.

- Depende do que me contar. E depende do que puder ser verificado com outras fontes.

- A verificação é tarefa sua. Eu digo o que sei e o resto corre por sua conta.

- Muito bem. Quando começamos?

- Depois do jantar. Prefiro falar de barriga cheia. Não está com pressa, ou está?

- É claro que não. Tenho a noite toda e todo o dia de amanhã, e o próximo e o próximo ainda. Quero dizer, você está falando da maior reportagem dos últimos anos, portanto, fico por aqui o tempo que quiser.

Darby sorriu e desviou os olhos. Precisamente há uma semana que ela e Thomas estavam à espera do jantar no bar do Mouton's. Ele estava com um blazer de seda negro, camisa de linho, gravata vermelha e calças de caqui muito vincadas. Sapatos sem meias. A camisa desabotoada e a gravata com o nó alargado. Tinham falado sobre as Ilhas Virgens, os feriados do Dia de Ação de Graças e de Gavin Verheck enquanto esperavam que vagasse uma mesa. Bebia muito depressa, o que não era raro. Thomas ficaria bêbado mais tarde e isso salvara-lhe a vida a ela.

Os últimos sete dias pareciam um ano na sua vida e agora estava falando com uma pessoa em carne e osso, que não queria matá-la. Cruzou os pés sobre a mesa de centro. A presença dele era reconfortante. Darby descontraiu-se. O rosto de Grantham dizia, "confie em mim". E por que não? Em quem mais podia confiar?

- Em que está pensando? - perguntou ele.

- Foi uma longa semana. Há sete dias eu era apenas uma estudante, queimando as pestanas para ser a melhor. Agora, olhe para mim...

Ele estava olhando, tentando parecer indiferente, não um calouro deslumbrado, mas estava olhando. O cabelo era escuro e muito curto, bem na moda, mas ele preferia a versão do fax.

- Fale-me de Thomas Callahan - disse ele.

- Porquê?

- Não sei. Ele é parte da história, não é?

- Sim, é. Chego lá mais tarde.

- Ótimo. A sua mãe vive em Boise?

- Vive, mas não sabe de nada. Onde vive a sua?

- Em Short Hins, Nova Jersey - respondeu ele, com um sorriso. Mastigou um cubo de gelo e esperou. Ela estava pensando.

- Do que é que mais gosta em Nova York? – perguntou Darby.

- Do aeroporto. É a saída mais rápida.

- Thomas e eu estivemos aqui no Verão. E mais quente do que Nova Orleans.

De repente, Grantham compreendeu que ela não era apenas uma estudante atraente, mas uma viúva, ainda de luto. A pobre garota sofria ainda. Não reparava no cabelo dele, na maneira como estava vestido ou nos seus olhos. Ela sofria. Que chatice!

- Lamento muito que aconteceu ao Thomas - disse Grantham. - Não vou perguntar mais nada acerca dele.

Ela sorriu e não disse nada. Bateram à porta com força. Darby tirou os pés da mesa bruscamente e olhou para a porta. Depois, respirou fundo. Era o jantar.

- Eu vou abrir - disse Grantham -, acalme-se.

 

Uma batalha feroz da Natureza, silenciosa, mas imensa, assolou, livremente, durante séculos a costa do que viria a ser mais tarde a Louisiana. Uma batalha pela conquista do território.

Até há pouco tempo, nenhum ser humano estivera envolvido nisso. Do sul, o oceano avançava para a terra com as suas marés, os seus ventos e cheias. Do norte, o rio Mississipi despejava um suprimento inexaurível de água doce e sedimentos, fornecendo aos pântanos o solo de que precisavam para a vegetação crescer. A erosão causada pela água salgada do golfo destruira a linha da costa e queimara os pântanos de água doce, matando a vegetação que os mantinha. O rio transbordou, drenando metade do continente e depositando o solo na Louisiana. Aos poucos construiu uma longa sucessão de deltas, que, com o tempo, bloqueou o leito do rio, obrigando-o a mudar de curso outra vez. As terras verdes e exuberantes foram criadas pelos deltas.

Foi uma luta épica de dar e de tirar novamente, sob o controle firme das forças da Natureza.

Com a realimentação constante do rio imenso, os deltas não só resistiram aos ataques do golfo como também se expandiram.

As terras pantanosas eram uma maravilha da evolução natural. Alimentadas pelos ricos sedimentos, transformaram -se num paraíso verde de ciprestes e carvalhos, com moitas densas de damas-do-lago, juncos e amentilhos. A água encheu-se de peixes de várias espécies, como pampos, linguados, além de camarões, ostras, caranguejos e jacarés.

A planície costeira era um santuário da vida animal, de centenas de espécies de pássaros migratórios. As terras pantanosas eram vastas, ricas, ilimitadas e abundantes.

Então, em 1930, descobriram petróleo e começou a devastação.

As companhias exploradoras de petróleo dragaram quinze mil quilômetros de canais para chegar às jazidas. O delta foi cruzado por uma rede de pequenas valas destruidoras. O pântano cortado em tiras.

Escavaram, encontraram petróleo, depois dragaram como loucos para chegarem lá. Os canais eram condutores perfeitos para a água salgada do golfo, que devorou a vegetação do pantanal.

Desde a descoberta do petróleo, dezenas de milhares de acres do pantanal foram devorados pelo oceano. Sessenta quilômetros quadrados da Louisiana desaparecem todos os anos. De catorze em catorze minutos, mais um acre desaparece debaixo de água.

Em 1979, uma companhia exploradora perfurou profundamente o solo em Terrebone Parish e encontrou petróleo. Era um dia normal, uma perfuradora normal, mas não foi uma descoberta de rotina. Havia muito petróleo. Perfuraram novamente a uma distância de duzentos metros e encontraram outro velo importante. Recuaram dois quilômetros, perfuraram e encontraram outro, maior ainda. A cinco quilômetros de distância, mais outro poço. A companhia tapou os poços para estudar a situação, que tinha todas as características de um imenso lençol de petróleo.

O dono da companhia era Victor Mattiece , um cajun de Lafayette que tinha feito e perdido muitas fortunas, à procura petróleo no sul da Louisiana. Em 1979, estava numa fase de prosperidade, e, o que era mais importante, tinha acesso ao dinheiro de outras pessoas.

Convenceu-se de que tinha encontrado uma reserva muito importante. Começou a comprar as terras em volta dos poços tapados.

Nos campos de petróleo, o segredo tem Importância capital, mas dificilmente é guardado.

Mattiece sabia que, se começasse a gastar muito dinheiro, imediatamente haveria uma corrida de novos perfuradores em volta da sua nova mina de ouro. Homem de paciência infinita e de grandes planos, examinou a situação e disse não ao dinheiro rápido. Resolveu ficar com tudo.

Conversou com advogados e outros conselheiros e criaram um plano para comprar metodicamente todas as terras vizinhas dos poços, em nome de diversas instituições. Formaram novas companhias, usaram algumas que já possuíam, compraram todas, ou parte de firmas em ma situação financeira, e começaram a comprar terras.

Todos os que trabalhavam no ramo conheciam Mattiece e sabiam que ele tinha dinheiro e podia arranjar mais. Mattiece sabia que eles sabiam; assim, lançou duas dúzias de testas-de-ferro para negociar com os proprietários de terras de Terrebone Parish. Tudo funcionou sem qualquer problema.

O plano consistia em consolidar território, depois dragar outro canal através do pantanal assolado e violado, para que os homens e o equipamento pudessem chegar às perfuradoras e o petróleo pudesse ser retirado rapidamente. O canal teria cinqüenta e cinco quilômetros de comprimento e seria duas vezes mais largo do que os outros. Precisavam de espaço de movimentação.

Com todo aquele dinheiro, Mattiece era popular entre os políticos e os burocratas. Fazia habilmente o jogo deles. Distribuía dinheiro onde precisava. Adorava os políticos mas detestava publicidade. Era paranóico e recluso.

A aquisição de terras corria sem percalços quando, de repente, Mattiece se viu sem dinheiro. A indústria sofreu uma queda no começo da década de oitenta e os seus outros poços pararam de bombear petróleo. Precisava de muito dinheiro e queria sócios capazes de fornecê-lo e guardar segredo acerca do assunto. Por isso, foi procurá-lo longe do Texas. Saiu do país e conheceu alguns árabes que estudaram os mapas e acreditaram na sua estimativa da imensa reserva de gás natural. Compraram a sua parte na exploração dos poços e Mattiece conseguiu o dinheiro de que precisava.

Usou novamente o suborno e conseguiu autorização oficial para penetrar no delicado pantanal e nos bosques de ciprestes. Tudo corria como ele queria e Victor Mattiece farejava o cheiro de bilhões de dólares. Uns dois ou três bilhões, talvez.

Foi então que aconteceu algo estranho. Um processo deu entrada na justiça para que ele parasse a dragagem e a perfuração. A autora do processo era uma pequena entidade de defesa do meio ambiente, chamada Fundo Verde.

O processo foi inesperado porque há cinqüenta anos que a Louisiana permitia que as companhias de petróleo e gente como Victor Mattiece a devorassem e poluíssem. Era uma troca de favores. As companhias de petróleo eram grandes fontes de emprego e pagavam bem. Os impostos sobre petróleo e gasolina, auferidos em Baton Rouge, pagavam os salários dos funcionários do estado. As pequenas comunidades do bayou tinham se transformado em grandes centros. Os políticos, incluindo o governador, aceitavam o dinheiro do petróleo e faziam a sua parte. Tudo ia muito bem, portanto, que importância tinha a destruição do pantanal?

O Fundo Verde entrou com o processo no Tribunal Distrital dos Estados Unidos em Lafayette. Um juiz federal suspendeu o projeto até ao julgamento de todos os pontos do processo.

Mattiece ficou louco. Passou semanas com os seus advogados, conspirando e fazendo planos. Não pouparia despesas para ganhar a causa. Façam tudo o que for preciso, foram as suas instruções. Desobedeçam a todo e qualquer regulamento, violem qualquer princípio de ética, contratem qualquer especialista, paguem qualquer estudo, cortem qualquer pescoço, gastem qualquer quantia de dinheiro. Mas ganhem essa maldita causa.

Mattiece mergulhou mais profundamente no anonimato. Mudou-se para as Bahamas e passou a dirigir os negócios de uma fortaleza em Clyford Cay. Ia a Nova Orleans uma vez por semana, de avião, para conferenciar com os seus advogados, e depois voltava para a ilha.

Embora estivesse completamente recluso, agora, teve o cuidado de aumentar as suas contribuições aos políticos. O seu tesouro continuava a salvo sob Terrebone Parish e algum dia iria extraí-lo do solo, mas nunca se sabe quando é que uma pessoa vai precisar de certos favores.

Quando os dois advogados do Fundo Verde começaram a aprofundar o caso, identificaram mais de trinta acusados diferentes. Alguns eram proprietários de terras. Outros exploravam petróleo. Outros colocavam as condutas. Outros ainda faziam as perfurações. As joint ventures, sociedades limitadas e sociedades anônimas formavam um labirinto impenetrável.

Os acusados e as respectivas legiões de advogados caríssimos responderam com violência. Entraram com uma longa moção, pedindo ao juiz a anulação do processo, considerando-o uma acusação frívola. A moção foi negada. Pediram autorização ao juiz para continuar com as perfurações, enquanto esperavam pelo julgamento. Negada. Gritaram de dor e entraram com outra longa moção explicando quanto dinheiro já estava investido na exploração, na perfuração, etc. Negada também.

Entraram com uma quantidade absurda de moções e quando todas foram negadas compreenderam que o caso chegaria aos tribunais, para um julgamento com júri. Então, os advogados começaram com os jogos desonestos.

Felizmente para o processo do Fundo Verde, o coração da nova reserva de petróleo ficava perto de um círculo de pântanos que era, há muitos anos, o refúgio de várias aves aquáticas.

Águias-pescadoras, garças brancas, pelicanos, garças azuis, patos, gansos e muitas outras aves migravam para aquele lugar. Embora a Louisiana nem sempre tivesse tratado bem a sua terra, sempre demonstrara uma certa simpatia pelos seus animais.

Uma vez que o veredicto seria dado, um dia, por um júri formado por pessoas comuns, os advogados do Fundo Verde investiram com força nos pássaros.

O pelicano tornou-se o herói da batalha. Trinta anos depois da insidiosa contaminação através do DDT e de outros pesticidas, o pelicano-castanho da Louisiana corria risco de extinção.

Quase tarde demais foi classificado entre as espécies ameaçadas e com direito a proteção especial. O Fundo Verde adotou o majestoso pássaro e contratou meia dúzia de especialistas para testemunhar a seu favor.

Com cem advogados envolvidos, o processo prosseguia lentamente. Às vezes não chegava a lado nenhum, o que convinha aos interesses do Fundo Verde. As perfuradoras estavam paradas.

Sete anos depois da primeira vez que o helicóptero a jato de Victor Mattiece sobrevoou a baía de Terrebone, acompanhando ao longo do pantanal o traçado do seu futuro e precioso canal, o processo pelicano foi a julgamento em Lake Charles. Foi um julgamento extremamente amargo que durou dez semanas. O Fundo Verde exigiu indenização pela destruição já infligida, e queria a proibição permanente de futuras perfurações.

As companhias de petróleo contrataram um famoso advogado litigioso de Houston para convencer o júri. Ele usava botas de pele de elefante e um enorme chapéu de feltro Stetson, e sabia falar cajun quando era necessário. A figura dele contrastava terrivelmente com a dos advogados do Fundo Verde, que usavam barba e tinham cara de quem vivia as coisas muito intensamente.

O Fundo Verde perdeu, o que não causou grande surpresa. As companhias de petróleo gastaram milhões e é difícil vencer um urso com um simples chicote. David conseguiu, mas as maiores apostas são sempre a favor de Golias. Os jurados não se impressionaram com asadvertências sobre a poluição e a fragilidade da ecologia do pantanal. Petróleo significava dinheiro e o povo precisava dos empregos.

O juiz manteve a interdição por dois motivos. Primeiro, considerou que o Fundo Verde tinha provado a sua tese sobre o pelicano, uma espécie com direito a proteção federal. E era evidente que o Fundo Verde pretendia apelar, portanto o assunto não estava de modo algum resolvido.

A poeira assentou durante algum tempo e Mattiece obteve uma pequena vitória. Mas ele sabia que outros dias viriam, em outros tribunais. Era um homem de paciência infinita e de vista larga.

 

O gravador estava no centro da mesinha, rodeado por quatro garrafas vazias de cerveja.

Gray tomava notas enquanto ela falava.

- Como é que teve conhecimento desse processo?

- Um cara chamado John Del Greco me contou. Estuda em Tulane, um ano mais adiantado do que eu. No último Verão, estagiou numa grande firma de Houston que fez alguns trabalhos periféricos para o processo. Ele não teve oportunidade de chegar perto do julgamento, mas os comentários e boatos eram muitos e constantes.

- Todas as firmas eram de Nova Orleans e Houston?

- Sim, as principais firmas que tratam daquele tipo de litígio. Mas as companhias são de várias cidades, portanto, cada uma trouxe a sua equipe de advogados também. Havia advogados de Dallas, de Chicago e de muitas outras cidades. Um verdadeiro circo.

- Qual é a situação atual do processo?

- Ao nível de julgamento, a apelação será encaminhada para o Quinto Tribunal Distrital de Apelação. Ainda não deram entrada, mas darão dentro de um ou dois meses.

- Onde fica o Quinto Tribunal Distrital?

- Em Nova Orleans. Mais ou menos vinte e quatro meses depois da apelação dar entrada no tribunal, três juizes ouvirão o caso e darão o parecer final. A parte perdedora sem dúvida pedirá nova audiência com todos os juízes e isso levará mais três ou quatro meses. Existem falhas suficientes no veredicto para garantir uma revogação ou devolução.

- Que significa uma devolução?

- O Tribunal de Apelação pode fazer uma de três coisas. Confirmar o veredicto, revogar o veredicto, ou encontrar erros suficientes para devolver tudo para novo julgamento. Neste último caso, diz-se que houve uma devolução. Podem também confirmar parte, revogar parte, devolver parte, misturar tudo.

Gray balançou a cabeça, frustrado, sem parar de tomar notas.

- Não entendo como uma pessoa pode querer estudar advocacia.

- Nesta última semana fiz essa pergunta a mim mesma algumas vezes.

- Tem alguma idéia sobre aquilo que o Quinto Tribunal Distrital pode fazer?

- Nenhuma. Ainda não viram o caso. Os queixosos alegam uma enorme quantidade de ilegalidades no procedimento dos acusados, e dada a natureza da conspiração, muitos deles provavelmente são verdadeiros. O caso pode ser revogado.

- E nesse caso, o que é que acontece?

- Recomeça o processo. Se o Quinto Tribunal Distrital descontentar as duas partes, ambas podem apelar para o Supremo Tribunal.

- Surpresa, surpresa.

- Todos os anos, o Supremo Tribunal recebe milhares de apelações, mas é muito exigente na escolha. Devido ao dinheiro e as pressões envolvidas, este caso tem chance de ser aceito.

- A partir de hoje, daqui a quanto tempo é que o caso será decidido pelo Supremo Tribunal?

- Entre três e cinco anos.

- Rosenberg teria morrido de morte natural antes disso.

- Sim, mas nesse caso poderia haver um democrata na Casa Branca. Portanto, vamos tirá-lo agora do caminho enquanto é possível, e de certa forma influir na escolha do seu substituto.

- Faz sentido.

- Oh, é uma maravilha. Se você fosse o Victor Mattiece e só tivesse cinqüenta milhões, e quisesse ser bilionário e não se importasse de matar uns dois juízes do Supremo, então este seria o momento propício.

- Mas, e se o Supremo Tribunal recusar o apelo?

- Ele ficará bem, se o Quinto Tribunal Distrital confirmar o veredicto. Mas se for revogado e o Supremo negar o certificado, ele vai ter problemas. A minha impressão é de que ele vai voltar ao ponto de partida, começar outro litígio e tentar tudo novamente. Há muito dinheiro envolvido para apenas lamber as feridas e voltar para casa. Se eliminou Rosenberg e Jensen, é possível supor que tenha se comprometido totalmente com a causa.

- Onde é que ele estava durante o julgamento?

- Completamente invisível. Você tem que se lembrar que não é do domínio público o fato de ele ser o cabeça de todo aquele litígio. Quando o julgamento começou, havia trinta e oito companhias no banco dos réus. Das trinta e oito, sete são empresas públicas e ele não tem mais de vinte por cento em cada uma. São firmas pequenas que funcionam normalmente. As outras trinta e uma são firmas particulares, e não consegui obter muita informação. Mas fiquei sabendo que muitas dessas companhias particulares pertencem umas às outras e algumas são propriedade de consórcios públicos. É um labirinto quase impenetrável.

- Mas ele controla tudo.

- Sim. Calculo que ele é o dono ou tem o controle de oitenta por cento do projeto.

Investiguei quatro das companhias particulares e três têm sede fora do continente. Duas nas Bahamas e uma nas Caiman. Del Greco ouviu dizer que Mattiece opera a partir de companhias e bancos fora do continente.

- Lembra-se dos nomes das sete empresas públicas?

- De quase todas. São citadas em notas de rodapé, no dossiê, do qual não tenho cópia. Mas reescrevi quase tudo à mão.

- Posso ver?

- Pode ficar com tudo. Mas é letal.

- Vou ler isso mais tarde. Fale-me acerca da fotografia.

- Mattiece é de uma cidadezinha perto de Lafayette e na juventude distribuía muito dinheiro entre os políticos, no sul da Louisiana. Era um tipo misterioso, sempre na sombra, dando dinheiro. Gastou uma fortuna com os democratas, a nível local, e com os republicanos, a nível nacional, e há anos que convive amigavelmente com os grandes de Washington. Nunca procurou publicidade, mas é difícil esconder tanto dinheiro, especialmente quando é dado a políticos. Há sete anos, quando ainda era vice, o presidente foi a Nova Orleans a fim de levantar fundos para o partido republicano. Todos os grandes contribuintes estavam presentes, incluindo Mattiece. Era um jantar de dez dólares por cabeça, portanto a imprensa tentou entrar na festa. Um fotógrafo conseguiu tirar uma fotografia de Mattiece apertando a mão do vice-presidente. O jornal de Nova Orleans publicou-a no dia seguinte. É uma fotografia maravilhosa. Sorriem os dois como se fossem os melhores amigos do mundo.

- Vai ser fácil conseguir essa fotografia.

- Eu colei-a na última página do dossiê, só por brincadeira.

- É mesmo divertido, não é?

- Nunca me diverti tanto.

- Mattiece desapareceu há alguns anos e, agora, dizem que vive em diversos lugares. É muito excêntrico. Del Greco disse-me que há muita gente que acha que é meio doido.

O gravador deu sinal de que a fita estava no fim e Gray trocou-a. Darby levantou-se para descansar as compridas pernas. Grantham observava-a enquanto lidava com o gravador. Já tinha duas outras fitas gravadas e etiquetadas.

- Está cansada? - perguntou ele.

- Não tenho dormido muito bem. Faltam muitas perguntas ainda?

- Que mais sabe?

- Já abordamos os pontos básicos. O que faltar podemos completar amanhã.

Gray desligou o gravador e pôs-se de pé. Darby estava ao lado da janela, espreguiçando-se e bocejando. Ele recostou-se no sofá.

- O que aconteceu ao seu cabelo? - perguntou.

Darby sentou-se na poltrona, com as pernas dobradas sob o corpo. Unhas dos pés vermelhas. Apoiou o queixo no joelho.

- Deixei-o num hotel de Nova Orleans. Como é que sabia?

- Vi uma fotografia.

- De onde?

Na verdade, três fotografias. Duas do livro do ano de Tulane e uma do colégio estadual do Arizona.

- Quem as mandou?

- Tenho contatos. Foram enviadas por fax, portanto não são muito boas. Mas lá está o belíssimo cabelo.

- Eu gostaria que não tivesse feito isso.

- Porquê?

- Cada telefonema deixa uma pista.

- Ora, vamos, Darby. Tenha confiança em mim.

- Andou investigando-me.

- Apenas alguma coisa sobre o seu passado. Muito pouco.

- E chega, está bem? Se quiser saber mais alguma coisa, pergunte a mim. Se eu não quiser contar, não insista.

Grantham encolheu os ombros e concordou:

- Esqueça o cabelo. Vamos ao assunto mais importante. Então, quem escolheu Rosenberg e Jensen? Mattiece não é advogado.

- Rosenberg é fácil. Jensen escreveu pouco sobre o meio ambiente, mas sempre foi veemente nisso, votando contra todo tipo de grandes projetos imobiliários. Pode dizer-se que sempre concordaram em matéria de proteção do meio ambiente.

- E você acha que Mattiece descobriu tudo isso sozinho?

- É claro que não. Uma mente muito perversa lhe deu os dois nomes. Mattiece tem centenas de advogados.

- Nenhum em Washington?

Darby ergueu o queixo e franziu a testa.

- O que disse?

- Nenhum dos advogados dele trabalha em Washington?

- Eu não disse isso.

- Pensei que tivesse dito que as firmas de advocacia eram basicamente de Nova Orleans, Houston e de outras cidades não mencionou Washington.

Darby abanou a cabeça.

- Está tirando muitas conclusões. Posso citar pelo menos duas firmas de Washington que encontrei na minha investigação. Uma é White e Blazevich, uma firma republicana muito antiga, muito rica e muito poderosa, com quatrocentos advogados.

Gray sentou-se na beira do sofá.

- Que aconteceu? – perguntou ela. Grantham, de repente, estava mais do que alerta.

Levantou-se, foi até à porta e voltou para o sofá.

- Isso talvez se encaixe. Pode ser isso, Darby.

- Estou ouvindo.

- Está ouvindo?

- Juro que estou.

Ele estava junto da janela.

- Muito bem, na semana passada recebi três telefonemas de um advogado de Washington, um tal Garcia, mas este não é o seu nome verdadeiro. Disse que sabia qualquer coisa e tinha visto qualquer coisa sobre Rosenberg e Jensen e que me queria contar. Mas entrou em pânico e desapareceu.

- Existe um milhão de advogados em Washington.

- Dois milhões. Mas eu sei que ele trabalha para uma firma particular. Praticamente admitiu isso. Parecia sincero e muito assustado, achava que estava sendo seguido. Perguntei por quem e naturalmente ele não me disse.

- O que aconteceu com ele?

- Marcamos um encontro no último sábado, de manhã, e ele telefonou dizendo-me para eu esquecer tudo. Disse que era casado e que tinha um bom emprego e não queria arriscar. Ele nunca admitiu isso, mas eu acho que ele tem uma cópia de qualquer coisa que queria me mostrar.

- Ele pode servir como uma fonte de verificação.

- E se ele trabalhar para White e Blazevich? De repente, limitamos o nosso número para duzentos advogados.

- O palheiro fica muito menor.

Grantham foi até à sua mala, remexeu alguns papéis, tirou a ampliação em preto e branco e colocou-a no colo de Darby.

- Este é Mr. Garcia.

Darby examinou a fotografia. Um homem numa rua movimentada. Via-se claramente o rosto.

- Imagino que não tenha posado para esta fotografia.

- Não exatamente - Grantham andava de um lado para o outro.

- Então, como a conseguiu?

- Não posso revelar as minhas fontes. Darby pôs a fotografia sobre a mesa do centro e esfregou os olhos.

- Está assustando-me, Grantham. Isto parece ser coisa um bocado ilegal. Diga-me que não é ilegal.

- Está bem, é um pouco. O rapaz estava sempre usando o mesmo telefone público e isso é um grande erro.

- Sim, eu sei. É um grande erro.

- E eu queria saber como ele era.

- Perguntou se podia tirar aquela fotografia?

- Não.

- Então é ilegal, porra.

- Pronto. É ilegal mesmo. Mas foi tirada, e aí está e pode ser o nosso elo principal com Mattiece.

- Nosso elo?

- Sim, nosso elo. Pensei que quisesse apanhar Mattiece.

- Eu disse isso? Quero que ele pague, mas prefiro deixá-lo em paz. Ele fez de mim uma obstinada, Gray. Já vi sangue suficiente para uma vida inteira. Agora fique com a bola e jogue com ela.

Grantham não ouviu. Passou por trás dela, na direção da janela, depois voltou para o bar.

- Mencionou duas firmas. Qual é a outra?

- Brim, Stearns e qualquer coisa. Não tive oportunidade de investigar. É estranho, porque nenhuma delas aparece nas laudas do processo como defensora dos acusados, mas ambas, especialmente White e Blazevich, apareciam aqui e ali, quando consultei os arquivos.

- Brim, Stearns e não sei o quê, é uma firma grande?

- Posso descobrir isso amanhã.

- Tão grande quanto White e Blazevich?

- Duvido.

- Dê um palpite. De que tamanho?

- Duzentos advogados.

- Certo. Agora temos seiscentos advogados em duas firmas. Você é a advogada, Darby. Como é que nós podemos encontrar Garcia?

- Não sou advogada, e não sou detetive particular. Você é repórter de investigação. – Darby não tinha gostado daquele "nós".

- Eu sei, mas eu nunca vi um escritório de advocacia, a não ser quando me divorciei.

- Então, é um homem de sorte.

- Como podemos encontrá-lo?

Darby bocejou outra vez. A conversa já durava há quase duas horas e ela estava exausta.

Podiam continuar no dia seguinte.

- Não sei, e na verdade não pensei muito sobre isso. Vou dormir sobre o assunto e explico-lhe amanhã cedo.

De repente, Grantham acalmou-se. Darby foi até ao bar para um copo de água.

- Vou arrumar as minhas coisas - disse ele, pegando as fitas.

- Quer me fazer um favor? - perguntou ela.

- Talvez.

Darby olhou para o sofá.

- Importa-se de dormir no sofá esta noite? Quero dizer, há muito tempo que não durmo bem e preciso descansar. Seria, bem, seria bom saber que você está aqui.

Grantham engoliu em seco e olhou para o sofá. Os dois olharam para o sofá. Tinha um metro e meio de comprimento, no máximo, e não parecia nada confortável.

- É claro - sorriu ele. - Eu compreendo.

- Estou apavorada, entende?

- Eu sei.

- É bom ter alguém como você por perto. - Ela sorriu e Gray cedeu completamente.

- Eu não me importo. Tudo bem.

- Obrigada.

- Tranque a porta, vá para a cama e durma bem. Vou ficar aqui mesmo e está tudo certo.

- Obrigada. - Fez um gesto afirmativo, sorriu outra vez, depois fechou a porta do quarto.

Grantham ouviu com atenção.

Ela não fechara a porta à chave. Ele sentou-se no sofá, no escuro, olhando para a porta do quarto. Um pouco depois da meia-noite, passou pelas brasas e por fim adormeceu, com os joelhos muito próximos do queixo.

 

O seu patrão era Jackson Feldman, o editor executivo e aquele era o seu território e ela não recebia ordens de ninguém, a não ser de Mr. Feldman. Muito menos de um rapaz insolente como Gray Grantham que estava de pé, de guarda à porta de Mr. Feldman, como um dobermann. Olhou furiosa para ele e ele sorriu, e isto durava dez minutos, desde que os outros dois tinham entrado no escritório e tinham fechado a porta. Por que razão Grantham estava à espera do lado de fora, ela não sabia. Mas aquele era o território dela. O telefone tocou e Grantham desatou aos berros:

- Ele não atende!

Ela corou violentamente e abriu a boca. Pegou no auscultador, ouviu um segundo, depois disse:

- Sinto muito, mas Mr. Feldman está em reunião. – Olhou para Grantham, que abanava a cabeça ameaçadoramente. - Sim, direi para ligar logo que for possível. - Desligou.

- Obrigado! - disse Grantham, com uma delicadeza inesperada. Ela ia para dizer qualquer coisa desagradável, mas aquele "obrigado" apanhou-a de surpresa. Grantham sorriu para ela. E ela ficou ainda mais furiosa.

Eram cinco e meia, hora de ir para casa, mas Mr, Feldman tinha pedido que ficasse.

Grantham continuava com aquele sorriso irritante, de pé junto da porta, a menos de três metros dela. Não gostava de Gray Grantham. Mas, na verdade, gostava de pouca gente do Post.

Apareceu um ajudante e dirigiu-se diretamente para a porta do editor, quando o dobermann se pôs na frente dele.

- Desculpe, mas não pode entrar aí agora - disse Grantham.

- Porquê?

- Estão em reunião. Entregue isso a ela. – Apontou para a secretária, que detestava aquele gesto e detestava que a tratassem simplesmente por "ela". Trabalhava no jornal há vinte e um anos. O ajudante não se deixou intimidar.

- Tudo bem. Mas Mr. Feldman mandou trazer-lhe estes papéis às cinco e meia em ponto. E são cinco e meia em ponto, e eu estou aqui e aqui estão os papéis.

- Ouça, temos muito orgulho de você. Mas não pode entrar, compreende? Agora, entregue os papéis àquela simpática senhora e o sol vai voltar a nascer amanhã. - Grantham aproximou-se mais da porta, pronto para o combate, se o garoto insistisse.

- Eu fico com os papeis - disse a secretária. Pegou-os e o garoto saiu.

- Obrigado! - repetiu Grantham, em voz alta.

- Acho que você é muito mal-educado - respondeu ela, secamente.

- Eu disse "obrigado". - Grantham fez cara de ofendido.

- É mesmo espertinho!

- Obrigado!

A porta abriu-se de repente e alguém chamou.

- Grantham.

Ele sorriu para a mulher e entrou. Jackson Feldman estava de pé atrás da mesa, com o nó da gravata à altura do segundo botão da camisa e as mangas arregaçadas até aos cotovelos.

Tinha mais de um metro e noventa de altura e era magro. Com cinqüenta e oito anos, corria duas maratonas por ano e trabalhava quinze horas por dia. Smith Keen também estava de pé, com as oito páginas dos apontamentos de Grantham na mão e uma cópia da reprodução do Dossiê Pelicano escrita por Darby. A cópia de Feldman estava sobre a mesa. Ambos pareciam atônitos.

- Feche a porta - disse Feldman a Grantham.

Gray obedeceu e sentou-se na ponta da mesa. Ninguém disse nada. Feldman esfregou os olhos, depois olhou para Keen.

- Que coisa! - disse, finalmente.

Gray sorriu.

- E tudo que tem a dizer? Eu trago a maior reportagem dos últimos vinte anos e você fica tão excitado que só diz "que coisa"?

- Onde está Darby Shaw? - perguntou Keen,

- Não posso lhe dizer. Faz parte do acordo.

- Que acordo? - quis saber Keen.

- Também não posso dizer.

- Quando falou com ela?

- Ontem à noite e hoje de manhã.

- Em Nova York? - perguntou Keen.

Que importância é que tem onde falei com ela? Conversamos, certo? Ela falou. Eu ouvi. Voei para cá. Escrevi o resumo. Então, o que acham?

Num movimento lento, Feldman sentou-se na cadeira giratória.

- O que sabe a Casa Branca?

- Não tenho certeza. Verheck disse a Darby que tinha sido entregue na Casa Branca na semana passada, e o FBI achou que devia ser investigado. Depois, por qualquer motivo, assim que chegou à Casa Branca o FBI desistiu. É tudo o que sei.

- Com quanto é que Mattiece contribuiu para a campanha do presidente, há três anos?

- Milhões. Praticamente tudo através de uma porção de empresas controladas por ele. O tipo é muito esperto. Tem advogados de todos os tipos, que arranjam meios para empregar o dinheiro aqui e ali. Provavelmente, tudo dentro da lei.

Os editores estavam ainda pensando devagar, atordoados, como se tivessem acabado de sobreviver à explosão de uma bomba. Grantham, orgulhoso, dobrou as pernas para baixo da mesa onde estava sentado, como um garoto no pontão de um cais.

Feldman pegou nos papéis presos com um clipe e folheou-os até encontrar a fotografia do presidente com Mattiece e meneou a cabeça.

- Gray, isto é nitroglicerina pura - disse Keen. - Não podemos publicar sem uma boa base de confirmação. Que diabo, você está falando da maior investigação jornalística do mundo. Isto é coisa da pesada, meu filho.

- Como vai investigar? - perguntou Feldman.

-Tenho algumas idéias.

- Gostaria de ouvi-Ias. Pode ser morto por causa disso.

Grantham levantou-se, com as mãos nos bolsos.

- Primeiro, tenho de encontrar Garcia.

- A garota também está metida nisso? - perguntou Keen.

- Não posso responder. Também faz parte do acordo.

- Responda à pergunta - disse Feldman. - Pense como vamos ficar se ela for morta por o ajudar na investigação. É muito arriscado. Onde é que ela está e o que é que vocês dois estão pensando?

- Não vou dizer onde ela está. Ela é uma fonte, e eu sempre protejo minhas fontes. Não, ela não vai ajudar na investigação. É apenas a fonte, certo?

Olharam para ele, sem acreditar. Entreolharam-se e finalmente Keen encolheu os ombros.

- Você precisa de qualquer ajuda? - perguntou Feldman.

- Não. Ela insiste que eu faça tudo sozinho. Está muito assustada e não podem culpá-la por isso.

- Eu fiquei assustado só de ler esta maldita coisa – disse Keen. Feldman recostou-se na cadeira e cruzou os pés em cima da mesa. Sapatos quarenta e dois. Sorriu pela primeira vez.

- Tem de começar pelo Garcia. Se não conseguir encontrá-lo, então pode procurar Mattiece durante meses e não conseguir nada. Antes de começar a procurar Mattiece e, vamos ter uma longa conversa. Eu gosto de você, Grantham, mas isto não vale uma vida.

- Quero ver cada palavra que você escrever, certo? – disse Keen.

- E eu quero um relatório diário.

- Não há problema.

Keen foi até à parede de vidro e olhou para a loura da sala da redação. Ao longo do dia, o caos ia e vinha uma meia dúzia de vezes. As coisas atingiam o auge às cinco e meia. As reportagens estavam sendo redigidas e a reunião da segunda reportagem estava marcada para as seis e meia. Da sua mesa, Feldman observou o movimento.

- Isto pode ser o fim da falta de grandes furos - disse para Gray, sem olhar para ele. – Há quantos anos, cinco, seis?

- Pode dizer sete respondeu Keen.

- Escrevi algumas boas reportagens - disse Grantham na defensiva.

- Certo - disse Feldman, sem tirar os olhos da sala de redação. - Mas histórias que apareceram em mais dois ou três jornais. O último grande furo foi há muito tempo.

- Houve também muitos tiros no escuro - disse Keen.

- Acontece a todos - observou Gray. - Mas esta jogada será maior do que a jogada vitoriosa do final do campeonato mundial. - Abriu a porta.

Feldman olhou muito sério para ele.

- Não se machuque e não deixe que ela saia machucada, compreendeu?

Gray sorriu e saiu do escritório.

Estava quase no Thomas Circle quando viu as luzes azuis. O policial não passou. Ele não pensava no limite de velocidade, ou no seu velocímetro. Seria a terceira multa em dezesseis meses. Parou em um pequeno estacionamento ao lado de um prédio de apartamentos. Estava escuro e a luzes azuis ofuscavam-lhe os retrovisores. Massageou as têmporas.

- Saia do carro - ordenou o policial, ao lado do pára-choques.

Gray abriu a porta e obedeceu. O polícia era negro e sorria. Era Cleve. Apontou para a radiopatrulha.

- Entre ali. Sentaram-se no carro, sob as luzes azuis, olhando para o Volvo.

- Por que razão está fazendo isto? - perguntou Gray.

- Igualdade racial, Grantham. Temos de fazer parar um certo número de brancos e perturbar a vida deles. O chefe quer igualar as coisas. Os polícias brancos atormentam negros inocentes e pobres, e então nós, os polícias negros, temos de atormentar brancos inocentes e ricos.

- Suponho que vai me algemar e me dar uma surra.

- Só se me pedir. Sarge não pode falar mais.

- Sou todo ouvidos.

- Ele farejou qualquer coisa por lá. Percebeu alguns olhares estranhos e ouviu uma ou duas coisas.

- Como por exemplo?

- Por exemplo, que andam falando de você e que precisam saber o que é que você sabe.

- Ora, vamos, Cleve. Ele está falando sério?

- Ele os ouviu falar de você, dizendo que anda fazendo perguntas sobre um tal pelicano, ou coisa parecida. Eles têm medo de você.

- Que ouviu ele sobre o tal pelicano?

- Só que você anda investigando e eles levam isso muito a sério. Aquela gente é cruel e paranóica, Gray. Sarge disse para ter cuidado com os lugares onde anda e com quem fala.

- E não podemos nos encontrar mais?

- Não durante algum tempo. Ele quer ficar na sombra e mandar recados por mim.

- Pois vamos a isso. Preciso da ajuda dele, mas diga ao Sarge que tenha cuidado. Isto é muito perigoso.

- Que história é essa do pelicano?

- Não posso lhe dizer. Mas diga ao Sarge que pode ser morto por causa disso.

- Sarge não. Ele é mais esperto do que eles todos juntos.

Gray abriu a porta e saiu.

- Obrigado, Cleve.

Ele desligou as luzes azuis.

- Vou andar por perto. Estou no turno da noite nos próximos seis meses, por isso vou andar de olho em você.

- Obrigado.

Rupert pagou o bolinho com canela e sentou-se no banco do balcão, olhando para o passeio. Era meia-noite, exatamente meia-noite, e o movimento começava a diminuir em Georgetown. Poucos carros passavam pela Rua M e os raros transeuntes regressavam para casa.

Ainda havia fregueses no bar, mas não eram muitos. Bebeu um gole de café.

Reconheceu um rosto na rua e logo depois o homem sentou-se no banco ao seu lado. Era uma espécie de homem de recados, que tinha conhecido dias antes, em Nova Orleans.

- Então, quais são as novidades? - perguntou Rupert.

- Não conseguimos encontrá-la. E isso nos preocupa por que tivemos más notícias.

- Continue.

- Bem, ouvimos rumores não confirmados de que os bandidos enlouqueceram e o chefe dos bandidos quer começar a matar todo mundo. O dinheiro não é problema e dizem os rumores que ele está disposto a gastar o que for necessário para abafar a coisa. Vai mandar uns caras com armas pesadas. É claro que dizem que ele está louco, mas é mau como o diabo e o dinheiro pode matar muita gente.

Rupert não ficou impressionado com aquela conversa de matar gente.

- Quem está na lista?

- A garota. E acho que qualquer pessoa de fora que tenha conhecimento do dossiê.

- Então, qual é o plano?

- Fique por aqui. Nos encontramos aqui mesmo amanhã à noite, à mesma hora. Se encontrarmos a garota, ela é toda sua.

- Como pretendem encontrá-la?

- Achamos que está em Nova York. Temos os nossos meios.

Rupert meteu um pedaço do bolinho de canela na boca.

- Para onde vai?

O mensageiro pensou numa dezena de lugares para onde poderia ir, mas que diabo, Paris, Roma e Monte Carlo, eram lugares que conhecia e para onde todo mundo ia. Não conseguia pensar num lugar exótico e distante onde gostasse de se esconder para o resto da vida.

- Não sei. E você?

- Cidade de Nova York. A gente pode viver anos em Nova Iorque e nunca ser visto por ninguém. Falamos a língua e conhecemos as regras. É o esconderijo perfeito para um americano.

- Isso é verdade, acho que tem razão. Acha que ela está em Nova York ?

- Não sei. As vezes ela é muito esperta. Mas tem momentos ruins.

O mensageiro levantou-se.

- Amanhã à noite - disse ele.

Rupert despediu-se com um aceno. Que cretino mais idiota, pensou. Correndo de um lado para o outro e cochichando recados importantes em cafés e bares. Depois volta a correr para o patrão e repete tudo, com detalhes. Atirou o copo de café no lixo e saiu para a rua.

 

Brim, Stearns e KudIow tinha cento e noventa advogados, segundo o último número do Diretório de Direito Martindale Hubben. White e Blazevich tinha quatrocentos e doze, assim, se tivessem sorte, Garcia era um dos possíveis seiscentos e dois. Mas se Mattiece usava outras

firmas de Washington, o número seria maior e eles não teriam nenhuma chance.

Como esperavam, White e Blazevich não tinha nenhum advogado chamado Garcia. Darby procurou outro nome hispânico, mas não encontrou. Era uma daquelas firmas de meias de seda e imaculadas como o lírio, repleta de ex-alunos das melhores universidades do país, com nomes compridos que terminavam em números. Tinha um ou outro nome de mulher, mas só duas eram sócias. A maioria delas tinha entrado para a firma depois de 1980. Se ela vivesse o suficiente para se formar em Direito, nunca pensaria em trabalhar numa fábrica como White e Blazevich.

Grantham sugeriu que procurasse um nome hispânico porque Garcia era um tanto estranho para um nome falso. Talvez fosse hispânico e, uma vez que Garcia é um nome comum entre eles, com a pressa podia ter dado o nome verdadeiro. Mas não funcionou. Não havia hispânicos naquela firma.

De acordo com o diretório, os clientes eram poderosos e ricos. Bancos, Fortune 500 e uma porção de companhias. Tinha quatro dos acusados no processo na sua lista de clientes, mas não Mr. Mattiece. Tinha companhias de produtos químicos e de navegação, e White e Blazevich representava também os governos da Coréia do Sul, da Líbia e da Síria. Que absurdo, pensou ela.

Alguns dos nossos Inimigos contratam os nossos advogados para representá-los junto ao nosso governo Mas, afinal, podem-se contratar advogados para qualquer coisa.

Brim, Stearns e KudIow era uma versão reduzida da White e Blazevich, mas, tinha quatro nomes hispânicos na lista. Darby tomou nota deles. Dois homens e duas mulheres.

Imaginou que a firma devia ter sido processada por discriminação racial e sexual. Nos últimos dez anos tinham contratado gente de todo tipo. A lista de clientes era previsível: petróleo e gasolina, seguros, bancos, firmas relacionadas com o governo. Tudo muito chato.

Darby passou uma hora num canto da biblioteca de Direito Fordham. Era manhã de sexta-feira, dez horas em Nora York, nove em Nova Orleans e, ao invés de se esconder numa biblioteca onde nunca tinha estado, devia estar agora na aula de Procedimento Federal, com Aneck, um professor de quem não gostava, mas do qual sentia saudades agora. Alice Stark estaria ao seu lado. Um dos seus cretinos favoritos, D. Ronald Petrie, estaria sentado atrás das duas, insistindo para sair com ela e dizendo coisas indecentes. Também sentia falta dele. Sentia falta das manhãs tranqüilas na varanda de Thomas, tomando café e esperando o Quarter acordar. Sentia a falta do perfume da água-de-colônia no roupão dele.

Agradeceu à bibliotecária e saiu do prédio. Na Sessenta e Dois, caminhou para leste, na direção do parque. Era uma clara manhã de Outubro, com céu perfeito e vento frio. Dadas as circunstâncias, não poderia apreciar a mudança agradável do clima de Nova Orleans. Estava de óculos Ray-ban novos e com um cachecol até ao queixo. O cabelo estava ainda escuro, mas não ia cortá-lo mais. Tinha resolvido andar sem olhar para trás.

Provavelmente eles não estavam por perto, mas muitos anos iam passar antes que pudesse andar na rua sem ter medo.

As árvores do parque eram um espetáculo magnífico de amarelo, laranja e vermelho. As folhas caíam suavemente, dançando na brisa. Virou para o sul da Central Park West. Ia sair da cidade no dia seguinte e passaria algum tempo em Washington.

Se sobrevivesse, sairia do país, talvez fosse para as Caraíbas. Estivera lá duas vezes e havia multas ilhas onde todos falavam mais ou menos a sua língua. Agora era o momento para sair do país. Tinham perdido a sua pista e já tinha verificado o horário dos vôos para Nassau e Jamaica. Podia chegar lá ao anoitecer.

Encontrou um telefone público no fundo de uma delicatessen, na Sexta, e ligou para Gray, no Post.

- Sou eu - disse ela.

- Ora, ora. Estava com receio de que já tivesse saído do país.

- Estou pensando nisso.

- Não pode esperar uma semana?

- Talvez. Estarei aí amanhã. Que descobriu?

- Estou só juntando lixo. Tenho as cópias dos balanços de sete companhias envolvidas na acusação.

- Envolvidas no processo, não na acusação.

- Mil perdões! Mattiece não é diretor, ou qualquer outra coisa de nenhuma delas.

- Que mais?

- Só os milhares de telefonemas de praxe. Passei três horas ontem vagueando pelos tribunais, à procura de Garcia.

- Não o encontraremos num tribunal, Gray. Ele não é esse tipo de advogado. Trabalha numa firma de Direito Comercial.

- Suponho que você tem uma idéia melhor.

- Tenho várias.

- Muito bem. Estou aqui sentado à sua espera.

- Telefono quando chegar.

- Não telefone para minha casa.

Passado um segundo, ela perguntou:

- Posso saber porquê?

- É possível que alguém esteja à escuta, e talvez me seguindo. Uma das minhas melhores fontes acha que pus os cabelos em pé me muita gente, o bastante para estar sob vigilância.

- Fabuloso. E quer que eu vá correndo para ser vigiada com você?

- Estaremos a salvo, Darby. Só precisamos ter cuidado.

Ela apertou o auscultador com a mão e disse, furiosa:

- Como é que se atreve a me dizer que preciso ter cuidado! Há dez dias que ando desviando-me de bombas e de balas e você vem me dizer para ter cuidado. Ora, vá para o inferno, Grantham. Talvez seja melhor eu ficar longe de você.

Uma pausa e Darby examinou o pequeno café. Dois homens, numa mesa próxima, olharam para ela. Estava falando alto demais. Virou-lhes as costas e respirou fundo. Grantham falou devagar.

- Desculpe. Eu...

- Esqueça. Esqueça.

Ele esperou um pouco.

- Está bem?

- Estou ótima. Nunca estive melhor.

- Vem a Washington?

- Não sei. Estou segura aqui, e estarei muito mais segura quando tomar o avião e sair do país.

- Certo, mas pensei que tinha uma idéia maravilhosa para encontrar Garcia, e depois chegarmos talvez a Mattiece. Pensei que estivesse ofendida, indignada moralmente e motivada por um sentimento de vingança. O que aconteceu com você?

- Bem, para começar, tenho um desejo ardente de estar presente no meu vigésimo quinto aniversário. Não sou egoísta, mas talvez queira até ver o trigésimo. Seria agradável.

- Compreendo.

- Não tenho certeza disso. Acho que está mais preocupado com Pulitzers e com a glória do que com meu belo pescocinho.

- Garanto-lhe que não é verdade. Confie em mim, Darby. Estará a salvo. Contou-me a história da sua vida. Tem de confiar em mim.

- Vou pensar nisso.

- Isso não é uma resposta definitiva.

- Não, não é. Dê-me algum tempo.

- Está bem.

Ela desligou e pediu um pãozinho doce. O café ficou cheio de repente e uma dezena de idiomas ouvia-se por toda a parte. Fuja, menina, fuja, ditava-lhe o bom senso. Tome um táxi para o aeroporto. Pague em dinheiro uma passagem para Miami. Procure o primeiro vôo para o Sul e embarque nele. Deixe a investigação a cargo de Grantham e deseje-lhe boa sorte. Ele foi muito bom e vai encontrar um meio de publicar a história toda. E um dia iria ler a história no jornal, deitada numa praia ensolarada, bebendo uma pinha-colada e apreciando os surfistas.

O Tronco passou coxeando pela rua. Ela viu-o rapidamente, pela janela. Sentiu a boca seca e a cabeça rodando. Ele não olhou para dentro. Apenas passou, parecendo completamente perdido. Darby andou rapidamente por entre as mesas e chegou à porta. Coxeando ligeiramente, ele foi até à esquina da Sexta com a Cinqüenta e Oito e esperou que o sinal abrisse. Começou a atravessar a Sexta, mudou de idéias e atravessou a Cinqüenta e Oito. Um táxi quase o atropelou. Ele não ia a parte alguma, estava apenas passeando, coxeando um pouco.

Croft viu o rapaz quando ele ia saindo do elevador. Estava com outro advogado jovem, não traziam pasta, portanto, era evidente que saíam para um almoço tardio. Ao fim de cinco dias vigiando advogados, Croft já lhes conhecia os hábitos.

O prédio ficava na rua Pensilvânia, e a Brim, Stearns e Kudlow ocupava do terceiro ao décimo primeiro andares. Garcia saiu do prédio com o amigo, os dois rindo, e chegaram à rua.

Devia ser qualquer coisa muito engraçada. Croft manteve-se o mais próximo possível.

Andaram cinco quarteirões, sempre rindo, e então, exatamente como ele esperava, entraram num bar yuppie para um almoço rápido.

Só ao fim de três telefonemas Croft encontrou Grantham. Eram quase duas horas, estavam acabando de almoçar e, se Grantham queria apanhar o tipo, tinha de ficar perto do maldito telefone. Gray desligou, rapidamente. Ia encontrar-se com ele no prédio da firma.

Garcia e o amigo regressaram andando mais devagar. O dia estava lindo, era sexta-feira e queriam aproveitar aquela breve pausa do aborrecido trabalho de processar pessoas, ou fosse o que fosse que faziam a duzentos dólares por hora.

Croft procurou ficar invisível, mantendo-se à distância. Gray estava à espera dele no átrio, ao lado dos elevadores. Croft estava colado a eles quando passaram pela porta giratória. Apontou rapidamente para Garcia. Gray apertou o botão do elevador. A porta abriu-se e ele entrou com  Garcia e o amigo.

Croft ficou no átrio. Garcia apertou o botão do sexto andar uma fração de segundo antes de Gray apertar o mesmo botão.

Gray lia o jornal e ouvia os dois rapazes falando de futebol. Garcia não tinha mais de vinte sete ou vinte oito anos. A voz era vagamente familiar, mas tinha falado ao telefone e não tinha nenhuma característica especial. Apesar da proximidade, Gray não podia observá-lo à sua vontade. Tudo parecia indicar que era o homem certo. Parecia-se muito com o da fotografia e trabalhava para Brim, Stearns e KudIow, e um dos seus inúmeros clientes era o Sr. Mattiece. Por segurança, era melhor agir com cautela. Era repórter. A sua função era fazer perguntas.

Saíram do elevador no sexto andar, falando ainda sobre os Redskins, e Gray seguiu-os calmamente, enquanto lia o jornal. O hall de entrada da firma era rico e opulento, com luminárias e tapetes orientais, e numa parede o nome da firma em letras douradas. Os advogados pararam em frente da mesa de recepção e pegaram nos seus recados telefônicos. Gray passou pela frente da recepcionista, que olhou para ele, indecisa.

- Em que posso ajudá-lo? - perguntou ela, com o ar de quem diz "que diabo quer este?

Gray não parou.

- Tenho hora marcada com Roger Martin. - Era um nome tirado da lista telefônica da firma e um pouco antes de subir tinha telefonado para saber se o Dr. Martin estava no escritório. O diretório dizia que a firma ocupava do terceiro ao décimo primeiro andar do prédio, mas não dava a relação dos duzentos e noventa advogados. Nas páginas amarelas ele fizera uma dúzia de telefonemas rápidos para encontrar um advogado em cada andar. Roger Martin era o homem no sexto andar. Franziu a testa para a recepcionista.

- Estive em reunião com ele, durante duas horas.

EIa ficou intrigada, mas não disse nada. Gray já estava no corredor. Viu Garcia entrar no escritório, quatro portas adiante. O nome ao lado da porta era David M. Underwood. Gray não bateu. Queria atacar rapidamente e talvez sair rapidamente. O dr. Underwood estava pendurando o casaco no cabide.

- Olá, sou Gray Grantham, do Washington Post. Estou à procura de um homem chamado Garcia.

Underwood ficou imóvel, atônito.

- Como entrou aqui? - perguntou.

De repente, a voz pareceu-lhe familiar.

- Andando. Você é Garcia, não é?

Apontou para a placa na mesa com o nome em letras douradas.

- David M. Underwood. Não há ninguém neste andar chamado Garcia. Não conheço nenhum Garcia nesta firma.

Gray sorriu. Underwood estava assustado. Ou irritado.

- A sua filha está boa? - perguntou Grantham.

Underwood estava ao lado da mesa, de repente muito perturbado.

- Qual delas?

Não batia certo. Garcia estava muito preocupado com a filha, bebê ainda, e se tivesse mais do que uma, teria mencionado.

- A mais nova. E a sua mulher? Underwood estava agora muito perto e aproximava-se mais.

Era óbvio que não tinha medo de contato físico.

- Não tenho mulher. Sou divorciado. - Ergueu a mão direita fechada e, por um momento, Gray pensou que ia ser atacado.

Então viu o quarto dedo sem aliança. Não tinha mulher. Não tinha aliança. Garcia adorava a mulher e certamente devia usar aliança. Estava na hora de ir embora.

- O que quer aqui?-perguntou Underwood.

- Pensei que Garcia trabalhasse neste andar - disse, recuando para a porta.

- O seu amigo Garcia é advogado?

- É.

Underwood ficou menos tenso.

- Não nesta firma. Temos um Perez e um Hernandez, e talvez mais um. Mas não conheço nenhum Garcia.

- Bem, é uma firma grande - disse Gray, da porta. – Desculpe tê-lo incomodado.

Underwood seguiu-o.

- Ouça, Mr. Grantham, não estamos habituados a ser invadidos por repórteres, aqui. Vou chamar a segurança, talvez eles possam ajudá-lo.

- Não é necessário. Obrigado. - Grantham já tinha desaparecido no corredor. Underwood informou a segurança. No elevador vazio, Grantham censurou-se em voz alta. Pensou então em Croft estava vociferando contra ele quando a porta se abriu e lá estava Croft no átrio, ao lado dos telefones.

Tem calma, pensou Grantham. Saíram juntos do prédio.

- Não funcionou - disse Gray.

- Falou com ele?

- Falei. Homem errado.

- Ora, bolas! Eu sabia que era ele. Era o rapaz da fotografia, não era?

- Não. Parecido, mas não era ele. Continue tentando.

- Eu estou farto disto, Grantham, eu...

- Está sendo pago, não está? Mais uma semana, certo? Existem trabalhos mais pesados.

Croft parou e Gray continuou andando.

- Mais uma semana e deixo isto - gritou Croft.

Grantham apenas sacudiu a mão no ar.

Abriu o Volvo estacionado em lugar proibido e voltou para o Post. Não tinha sido uma atitude muito inteligente. Na verdade, uma burrice, e ele tinha bastante experiência para cometer um erro daquele calibre. Pretendia omiti-lo na sua conversa diária com Jackson Feldman e Smith Keen.

Feldman está à sua procura, disse um repórter, e Grantham foi imediatamente para o escritório do editor. Sorriu docemente para a secretária, que estava em posição de ataque. Keen e Howard Krauthammer, o diretor de redação, esperavam-no, com Feldman. Keen fechou a porta e entregou a Gray um jornal.

- Leu isto?

Era o jornal de Nova Orleans, o Times-Picayune, e trazia na primeira página a reportagem sobre as mortes de Verheck e Callahan, com fotografias bem grandes. Gray leu rapidamente, observado pelos três homens. Falava da amizade dos dois, e das suas mortes estranhas, num intervalo de seis dias. E mencionava Darby Shaw, que estava desaparecida. Mas nada sobre o dossiê.

- Parece que o coelho saiu da toca - disse Feldman.

- São só os fatos básicos - observou Gray. - Podíamos ter publicado isto há três dias atrás.

- Por que não publicamos? - perguntou Krauthammer.

- Não há aqui nada de importante. Dois mortos, o nome da garota e milhares de perguntas, todas sem resposta. Encontraram um policial disposto a falar, mas ele não sabe de nada, além do sangue e da tragédia.

- Mas andam investigando, Gray - disse Keen.

- Querem que eu os impeça de investigar?

- O Times está interessado - disse Feldman. - Vão publicar qualquer coisa amanhã ou domingo. Que pensa que eles possam saber?

- Por que me pergunta? Ouçam, é possível que tenham uma cópia do dossiê. Pouco provável, mas possível. Mas não falaram com a garota. Nós temos a garota, certo? Ela é nossa. - Esperamos que sim - disse Krauthammer.

Feldman esfregou os olhos e olhou para o teto.

- Suponhamos que eles têm uma cópia do dossiê, que sabem quem o escreveu e que sabem que ela está desaparecida. Não podem verificar imediatamente, mas não têm medo de mencionar o dossiê sem citar Mattiece. Suponhamos que eles sabem que Callahan era professor dela, entre outras coisas, e que ele trouxe o dossiê para cá e o entregou ao seu bom amigo Verheck. E agora eles estão mortos e ela em fuga. É uma história muito boa, não acha, Gray?

- Uma grande história - disse Krauthammer.

- Migalhas, comparado com o que está para vir - disse Gray. - Não quero publicar porque é a ponta do iceberg e vai atrair todos os jornais do país. Não queremos uma porção de repórteres acotovelando-se uns aos outros.

- Acho que devemos publicar - disse Krauthammer. - Caso contrário, o Times vai dar-nos um banho.

- Não podemos publicar - disse Gray.

- Porquê? - perguntou Krauthammer.

- Porque não vou escrever essa reportagem e, se for escrita por outra pessoa, perdemos a garota. Só isso. Neste momento, ela está resolvendo se toma ou não um avião para sair do país.

Um erro nosso e a perdemos para sempre.

- Mas ela já disse tudo que sabia - disse Keen.

- Dei a minha palavra, está bem? Não vou escrever nada enquanto não tiver todas as peças nos lugares certos e então podemos citar o nome de Mattiece. É muito simples.

- Está usando a garota, não está? - perguntou Keen.

- É uma fonte. Mas não está nesta cidade.

- Se o Times tiver o dossiê, então eles estão a par de Mattiece e - disse Feldman. - E se estão a par de Mattiece, pode apostar que andam investigando como loucos para chegar à história.

E se nos passarem à frente?

Krauthammer rosnou, zangado.

- Vamos ficar sentados em cima do rabo e perder a maior história dos últimos vinte anos.

Digo que devemos publicar o que temos. É superficial, mas é uma grande história mesmo assim.

- Não - disse Gray. - Não vou escrever enquanto não tiver toda a história.

- E quanto tempo é que acha que isso vai demorar? – perguntou Feldman.

- Uma semana, talvez.

- Não temos uma semana - interveio Krauthammer.

Gray estava desesperado.

- Posso descobrir o que o Times sabe. Dêem-me quarenta e oito horas.

- Vão publicar qualquer coisa amanhã ou domingo – repetiu Feldman.

- Que publiquem. Aposto quanto quiserem que vai ser a mesma história, provavelmente com as mesmas fotografias. Vocês estão fazendo muitas suposições. Acham que podem ter uma cópia do dossiê, quando a autora não tem nenhuma. Nós não temos. Vamos esperar, ler a historia deles, e então resolveremos.

Os editores entreolharam -se. Krauthammer frustrado, Keen ansioso. Mas o patrão era Feldman e ele disse:

- Está bem. Se publicarem qualquer coisa de manhã, encontramo-nos aqui ao meio-dia para estudar o assunto.

- Ótimo - disse Gray, dirigindo-se rapidamente para a porta.

- Acho bom que você se apresse, Grantham Não podemos esperar muito tempo.

Grantham já tinha saído.

 

A limusine seguia pacientemente, acompanhando o trânsito, em Beltway. Estava escuro e Matthew Barr lia com a luz do teto do carro. Coal tomava Perrier e olhava o tráfego intenso.

Sabia o dossiê de cor e podia simplesmente explicar tudo a Barr, mas queria ver a reação.

Barr não demonstrou coisa alguma até chegar à fotografia e, então, abanou a cabeça lentamente.

Pousou o dossiê no banco e pensou um momento.

- Muito feio - disse ele.

Coal rosnou.

- O que há de verdade nisto? - perguntou Barr.

- Adoraria saber.

- Quando é que o viu pela primeira vez?

- Na terça-feira da semana passada. O FBI juntou-o a um dos seus relatórios diários.

- O que disse o presidente?

- Não ficou nada satisfeito, mas não tinha motivo para alarme. É apenas outro tiro no escuro, pensamos. Ele falou com Voyles e Voyles concordou em não investigar durante algum tempo. Agora, não estou tão certo.

- O presidente pediu a Voyles que desistisse? - Barr falou lentamente.

- Pediu.

- Isso está muito perto de obstrução da justiça, presumindo, é claro, que o dossiê venha a ser comprovado.

- E se for?

- Então o presidente está com problemas. Eu já fui condenado uma vez por obstrução, portanto sei o que é. É o mesmo que violação de correspondência. Uma acusação ampla, abrangente, fácil de provar. Você estava metido nisso?

- O que acha?

- Acho que então também está com problemas.

Durante algum tempo ficaram calados, olhando o movimento. Coal tinha pensado na possibilidade de obstrução da justiça, mas queria a opinião de Barr. Não estava preocupado em ser acusado do crime. O presidente tinha tido uma breve conversa com Voyles, tinha-lhe pedido para ele olhar para outro lado durante uns tempos, e nada mais. Ninguém podia chamar a isso crime.

Mas Coal estava extremamente preocupado com a reeleição e um escândalo envolvendo um dos principais contribuintes da campanha, como Mattiece, seria devastador.

Era uma idéia terrível - um homem que o presidente conhecia e de quem aceitava milhões de dólares, acusado de matar dois juizes do Supremo Tribunal para que o seu amigo, o presidente,

pudesse indicar homens mais razoáveis que não o impedissem de explorar os seus poços de petróleo. Os democratas iam sair para as ruas, uivando de alegria. Todos os sub Comitês do Congresso iriam dar início a interrogatórios.

Todos os jornais iam publicar os fatos durante um ano. O Ministério da Justiça seria obrigado a investigar. Coal podia ser obrigado a assumir a culpa e pedir a demissão. Diabo, todos na Casa Branca, exceto o presidente, seriam postos fora.

Era um pesadelo de proporções horripilantes.

- Temos de descobrir se o dossiê diz a verdade - disse Coal, olhando para fora do carro.

-Se há gente morrendo, então é verdade. Dê-me uma razão melhor para as mortes de Callahan e Verheck.

Não havia qualquer outra razão e Coal sabia isso.

- Quero que me faça uma coisa.

- Encontrar a garota.

- Não. Ela está morta, ou escondida numa caverna qualquer. Quero que fale com Mattiece.

- Tenho certeza de que ele está nas páginas amarelas.

- Você pode encontrá-lo. Precisamos estabelecer o fato de que o presidente não sabia nada a respeito disso. Precisamos primeiro apurar o que há de verdade nisto tudo.

- E acha que Victor vai confiar em mim e contar-me todos os seus segredos.

- Sim, é quase certo. Você não é um policial, lembre-se.

- Suponha que é verdade e que ele acha que vai ser descoberto. Está desesperado e matando todas as pessoas. E se lhe disser que a imprensa já sabe da história e que o fim está próximo e que se ele quiser desaparecer, ainda há tempo? Você é um enviado de Washington, lembra-se? De dentro. Do presidente, ou pelo menos é o que ele deve pensar. Ele vai ouvi-lo.

- Está bem. E se ele me disser que é verdade? O que ganhamos com isso?

- Eu tenho algumas idéias, todas na categoria de controle de avarias. A primeira coisa que faremos será indicar imediatamente dois amantes da natureza para o Supremo Tribunal. Quero dizer, fanáticos radicais, observadores de pássaros. Isso mostrará que, no fundo, somos ambientalistas convictos. E pode matar Mattiece e os seus poços de petróleo, etc., etc.

Podemos fazer isso numa questão de horas. Quase simultaneamente, o presidente chama Voyles e o ministro da Justiça e exige uma investigação imediata de Mattiece. Deixamos "fugir" cópias do dossiê para todos os repórteres da cidade, depois arriamos as velas e enfrentamos a tempestade.

Barr sorria, cheio de admiração. Coal continuou:

- Não vai ser bonito, mas é muito melhor do que ficar sentado desejando que o dossiê seja uma obra de ficção.

- Como vai explicar a fotografia?

- Não posso. Vai incomodar por algum tempo, mas foi tirada há sete anos e qualquer pessoa pode ficar maluca de uma hora para a outra. Diremos que Mattiece era um cidadão honrado naquele tempo, mas que agora está louco.

- Ele é louco.

-Sim, é. E neste momento é como um cão ferido encurralado num canto. Tem de convencê-lo a deixar tudo e fugir daqui. Acho que ele vai ouvi-lo. E acho que vamos descobrir, por ele, que nada disso é verdade.

- Muito bem, e como encontro o homem?

- Tenho alguém trabalhando nisso. Vou usar fazer alguns contatos. Esteja pronto para partir

no domingo.

Barr sorriu para a janela. Queria conhecer Mattiece. O trânsito ficou menos denso. Coal continuou bebendo água devagar.

- Alguma coisa acerca de Grantham?

- Nada ainda. Estamos à escuta e vigiando, mas nada de interessante por enquanto. Ele fala com a mãe e com uma ou duas mulheres, mas nada importante. Trabalha um bocado. Saiu da cidade na quarta-feira e voltou na quinta.

- Onde foi?

- Nova York. Provavelmente por causa de qualquer reportagem.

Cleve devia estar na esquina da Rhode Island com a Rua Seis. Exatamente às dez horas da noite, mas não estava. Gray devia sair a toda velocidade pela Rhode Island, até Cleve o apanhar; assim, se alguém os estivesse a seguir, iria pensar que se tratava apenas de um motorista perigoso. Ele voou pela Rhode Island e atravessou a Rua Seis a noventa à hora, à procura das luzes azuis. Nada. Deu a volta e quinze minutos depois voou outra vez pela Rhode

Island. Lá estava ele! Viu as luzes azuis e encostou junto da divisória central.

Não era Cleve. Era um polícia branco e muito agitado. Pegou a carteira de Gray, examinou-a com atenção e perguntou-lhe se tinha bebido. Não, senhor, disse ele. O policial passou a multa e estendeu-a orgulhosamente a Gray, que ficou sentado no carro, olhando para o papel, até ouvir vozes que vinham de trás do seu carro.

Outro policial entrou em cena e começaram ambos a discutir. Era Cleve e ele queria que o polícia branco esquecesse a multa, mas o polícia branco explicou-lhe que já a tinha registrado e além disso o cretino passara pelo cruzamento a noventa por hora.

- É Um amigo meu, - disse Cleve.

- Pois então ensine o seu amigo a guiar, antes que mate alguém, - disse o policial branco, entrando no carro e indo embora. Cleve ria, quando olhou pela janela do carro de Gray.

- Desculpe - disse ele.

- A culpa foi sua.

- Da próxima vez, ande mais devagar.

Gray atirou a multa no chão do carro.

- Vamos falar rapidamente. Você disse que, segundo Sarge, os caras da ala oeste andam falando a meu respeito. Certo?

- Certo.

- Muito bem. Quero que Sarge descubra se andam falando acerca de outros repórteres, especialmente do New York Times. Preciso saber se eles acham que há mais alguém a par da história.

- Mais nada?

- Não. Mas preciso saber isso rapidamente.

- Ande mais devagar - disse Cleve, em voz alta, dirigindo-se ao carro-patrulha.

Darby pagou sete dias pelo quarto, em parte porque queria um lugar conhecido para voltar, se fosse necessário, e em parte porque queria guardar algumas roupas novas que tinha comprado.

Era pecaminoso andar sempre fugindo, deixando tudo para trás. As roupas não tinham nada de especial, tipo safári usadas nas faculdades de Direito, um pouco sofisticadas, mas eram mais caras em Nova York e seria bom poder conservá-las. Não ia correr riscos por causa de roupa, mas gostou do quarto e da cidade e queria guardar as novas roupas.

Estava na hora de fugir outra vez, e pretendia viajar com pouca bagagem. Saiu rapidamente do St. Moritz e tomou um táxi, levando apenas um saco de lona. Eram quase onze horas da noite de uma sexta-feira e a Central Park South estava movimentada. No outro lado da avenida, as carruagens com cavalos enfileiravam-se, a espera de fregueses para um passeio no parque.

O táxi levou dez minutos para chegar à esquina da Setenta e Dois com a Broadway, a direção oposta à que pretendia, mas foi uma viagem longa e provavelmente não a tinham seguido.

Darby andou dez metros e desapareceu na escada do metro. Depois de estudar um mapa e o guia dos ônibus, esperava acertar facilmente o caminho. O metro de Nova York não era urna perspectiva agradável, por ser a primeira vez que o usava e porque tinha ouvido muitas histórias.

Mas aquela era a linha da Broadway, a mais usada de Manhattan e, segundo diziam, era segura, às vezes. Afinal, as coisas não estavam muito boas para ela, lá em cima. Dificilmente o metro podia ser pior.

Esperou no lugar certo com um grupo de adolescentes bêbados, mas bem-vestidos, e o ônibus chegou daí a poucos minutos. Não estava cheio. Darby sentou-se perto das portas centrais.

Olhe para o chão e segure o saco, repetia ela, mentalmente. Olhou para o chão, mas, por trás dos óculos escuros, observava as pessoas. Era a sua noite de sorte. Nada de punks com facas.

Nenhum mendigo. Aparentemente, nenhum pervertido. Mesmo assim, metia medo.

Os rapazes embriagados desceram em Times Square e Darby na estação seguinte. Nunca tinha estado na estação Penn, mas não era hora de fazer turismo. Talvez um dia pudesse voltar e passar um mês, para admirar a cidade, sem se preocupar com o Tronco e o Homem Magro e Deus sabe quem mais. Mas agora não.

Ela tinha cinco minutos e encontrou o ônibus que devia tomar.

Sentou-se outra vez na parte de trás, observando os passageiros um a um. Nenhuma cara conhecida. Certamente, certamente não a tinham seguido nesta fuga. Mais uma vez, o erro dela tinham sido os cartões de crédito. As quatro passagens, compradas no aeroporto O'Hare, em Chicago, tinham sido pagas com o American Express; portanto, eles deviam supor que ela estava em Nova York. Tinha certeza de que o Tronco não a vira, mas ele estava na cidade, e certamente tinha amigos. Podiam ser vinte. Mas, afinal, Darby não podia ter certeza de coisa alguma. O ônibus partiu com sete minutos de atraso. Estava quase vazio. Darby tirou um livro de bolso do saco e fingiu que lia. Quinze minutos depois, o ônibus parou em Newark e ela desceu.

Estava com sorte. Tinha uma fila de táxis à frente da estação e, dez minutos depois, estava no aeroporto.

 

Era manhã de sábado, a rainha estava na Florida, arrancando dinheiro dos ricos, e o dia estava claro e frio. Ele queria dormir até tarde e jogar golfe quando acordasse. Mas eram sete horas e estava sentado à secretária, de gravata, ouvindo as sugestões de Fletcher Coal sobre o que deviam fazer sobre isto e aquilo. Richard Horton, o ministro da Justiça, telefonara para Coal e agora Coal estava assustado.

Alguém abriu a porta e Horton entrou sozinho. Trocaram apertos de mão e Horton sentou-se diante da mesa. Coal ficou de pé, perto dele, e isso irritou o presidente.

Horton era chato mas sincero. Não era tolo, nem de compreensão lenta, apenas se limitava pensando cuidadosamente antes de agir. Media cada palavra antes de começar a falar. Era leal ao presidente e o seu julgamento merecia confiança.

- Estamos ponderando seriamente uma investigação formal do grande júri, sobre as mortes de Rosenberg e Jensen – anunciou ele, gravemente. - Em vista do que se passou em Nova Orleans, acho que devemos começar imediatamente.

- O FBI anda investigando - disse o presidente. – Designaram trezentos agentes para o caso. Por que havemos de nos envolver?

- Estão investigando o Dossiê Pelicano? - perguntou Horton.

Ele sabia a resposta. Sabia que Voyles estava em Nova Orleans naquele momento, com centenas de agentes. Sabia que tinham falado com centenas de pessoas, reunido uma pilha de provas inúteis. Sabia que o presidente pedira a Voyles para desistir, e sabia que Voyles não tinha contado tudo ao presidente.

Era a primeira vez que Horton mencionava o Dossiê Pelicano ao presidente e o fato de ele saber da maldita coisa era irritante. Quem mais é que sabia? Provavelmente milhares de pessoas.

Coal sorriu, contendo uma gargalhada. Trocou um rápido olhar com o presidente e Horton começou a ferver.

- Eles estão seguindo todas as pistas - disse Coal. - Recebemos uma cópia há quase duas semanas, portanto supomos que estejam investigando.

- Qual é o problema de esperar mais uma semana? - perguntou o presidente.

- Nenhum - apressou-se a dizer Coal.

Exatamente o que Horton esperava de Coal.

- A minha opinião é que o governo deve investigar este assunto imediatamente. – Falava como se tivesse decorado as palavras e isso irritava o presidente. A coisa pode explodir antes disso - disse ele, sem convicção.

- Porquê? - perguntou o presidente. - Espere uma semana - ordenou o presidente. – Nos encontramos aqui na próxima sexta-feira, e então resolvemos.

Nesse momento, ficou decidido que iam esperar uma semana, e Horton sabia isso.

- O que é que vai acontecer se o dossiê estiver certo? Se não fizermos nada e a verdade vier, o prejuízo será irreparável.

- Acredita sinceramente que pode haver qualquer verdade no dossiê?

- Não estou dizendo que não, Richard, apenas que espere mais sete dias.

- É extremamente suspeito. Os dois primeiros homens que o viram estão mortos e a pessoa que o escreveu desapareceu. É perfeitamente lógico, se alguém está resolvido a matar juizes do Supremo. Não há outros suspeitos prováveis. Ao que sei, o FBI está no escuro. Sim, a investigação precisa ser feita.

As investigações de Horton tinham mais fugas de informação do que a Casa Branca, e Coal ficava apavorado só em pensar na possibilidade de aquele palhaço formar um grande júri e começar a chamar testemunhas. Horton era um homem honrado, mas o Ministério da Justiça estava cheio de advogados que falavam demais.

- Não acha que é um pouco prematuro? - perguntou Coal.

- Não, não acho.

- Deve estar brincando.

- Leu os jornais desta manhã? - Horton tinha olhado rapidamente para a primeira pagina do Post e passou diretamente para a seção desportiva. Afinal de contas, era sábado. Ouvira dizer que Coal lia oito jornais nascer do dia e, portanto, não gostou da pergunta. - Eu li vários - disse Coal, modestamente. - Não encontrei nem uma palavra sobre os dois advogados mortos, a garota, Mattiece ou qualquer coisa relacionada com o dossiê. Se começar uma investigação formal, neste momento, estará nas primeiras paginas durante um mês.

- E acha que o caso vai simplesmente desaparecer? - perguntou Horton a Coal.

- É possível. Por motivos óbvios, espero.

- Acho que está sendo muito otimista, Mr. Coal. Normalmente não ficamos sentados, à espera que a imprensa faça as nossas investigações.

Horton encolheu os ombros. Era mais do que esperava. A sua retaguarda estava protegida.

Pretendia ir diretamente para o seu gabinete, onde ditaria um memorando detalhado de tudo o que conseguisse lembrar acerca do encontro e o pescoço dele estaria a salvo. Coal adiantou-se e entregou-lhe um papel.

- O que é isto?

- Mais nomes. Conhece-os? - Era a lista dos observadores de pássaros. Quatro juízes, excessivamente liberais, mas o Plano B exigia ativistas radicais na defesa do meio ambiente, no Supremo Tribunal. Horton piscou várias vezes os olhos e estudou a lista atentamente.

- Verifique esses nomes – disse o presidente

- Estes caras são liberais alucinados - resmungou Horton.

- Sim, mas adoram o sol e a lua, as árvores e os pássaros como você deve saber - disse o presidente.

Horton compreendeu e de repente sorriu.

- Compreendo. Eles adoram os pelicanos.

Coal dirigiu-se para a porta.

- Eu gostaria que tivessem sido exterminados há dez anos.

Às nove horas, quando Gray chegou à sala da redação, Darby não tinha telefonado. Leu o Times. Não encontrou nada. Abriu o jornal de Nova Orleans sobre os papéis da sua mesa e examinou-o atentamente. Nada. Tinham publicado tudo o que sabiam.

Callahan, Verheck, Darby e milhares de perguntas sem resposta. Gray tinha de supor que o Times e talvez o Times-Picayune, em Nova Orleans, tinham visto o dossiê, ou ouvido falar nele, e, portanto, sabiam da existência de Mattiece. E devia supor também que estavam investigando como loucos. Mas ele tinha Darby e ia encontrar Garcia, e se pudessem localizar Mattiece, iam conseguir.

No momento não tinha qualquer plano alternativo. Se Garcia desapareceu ou se recusasse a cooperar, seriam obrigados a explorar o mundo obscuro e lamacento de Victor Mattiece e Darby não ia agüentar tanto tempo e não a culpava por isso. Gray não tinha idéia de até quando ela agüentaria.

Smith Keen apareceu com um copo de café e sentou-se na mesa de Grantham.

- Se o Times tivesse a reportagem, acha que iam agüentar até amanhã?

Gray abanou a cabeça.

- Não. Se tivessem mais do que o Times-Picayune, teriam publicado hoje.

- O Krauthammer quer publicar o que temos. Ele acha que podemos citar o Mattiece.

- Não entendi.

- Ele está pressionando o Feldman. Diz que podemos publicar a história toda sobre Callahan e Verheck terem sido assassinados por causa do dossiê, no qual consta o nome de Mattiece, que por acaso é amigo do presidente, sem fazer nenhuma acusação direta. Garante que será extremamente cauteloso, publicando apenas o fato de Mattiece ser citado no dossiê, mas não por nós. E uma vez que o dossiê está provocando todas essas mortes, a veracidade dele está comprovada até certo ponto.

- Ele quer esconder-se atrás do dossiê.

- Exatamente.

- Mas é tudo especulação, até ser confirmado. Krauthammer está perdendo a classe.

Imagine, um segundo que seja, que Mattiece não tem nada a ver com tudo isso. Que é completamente inocente. Publicamos a história com o nome dele e depois? Vamos parecer idiotas e seremos processados durante dez anos, pelo menos. Eu não escrevo a reportagem.

- Ele quer que outra pessoa a escreva.

- Se este jornal publicar uma reportagem sobre o pelicano, que não seja escrita por mim,