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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O DOUTOR OX / Julio Verne
O DOUTOR OX / Julio Verne

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O DOUTOR OX

 

Em como é escusado procurar, ainda nos melhores mapas, a cidadezinha de Quiquendone

SE procurarem num mapa das Flandres, antigo ou moderno, a pequena cidade de Quiquendone, é provável que não a encontrem. Será Quiquendone alguma cidade que deixasse de existir? Não. Alguma cidade futura? Também não. Mau grado os geógrafos, existe, e a sua existência tem já uns oito ou nove séculos. Conta, por sinal, duas mil trezentas e oitenta e três almas, isto na hipótese de cada habitante ser proprietário de uma alma. Está situada a treze quilómetros a noroeste de Audenarde e a quinze quilómetros a sueste de Bruges, isto é, no coração das Flandres.

Por baixo das suas três pontes, cobertas ainda de um telhado da Idade Média, como em Tournay, corre o Vaar, pequeno afluente do Escalda.

Em Quiquendone notam‑se um castelo antigo, cuja primeira pedra foi colocada, em 1197, pelo conde Baudoin, futuro imperador de Constantinopla, e uma casa da Câmara, com janelas góticas, coroada de um renque de ameias e sobrepujada por um campanário de torrinhas que fica a trezentos e cinquenta pés acima do solo. De hora em hora, ouve‑se um carrilhão de cinco oitavas, verdadeiro piano aéreo, que excede em fama o celebrado carrilhão de Bruges. Os estrangeiros ‑ se é que alguma vez apareceram estrangeiros em Quiquendone ‑ não deixam esta cidade curiosa sem visitarem a sua sala dos Stathouders, ornada do retrato, em tamanho natural, de Guilherme de Nassau, devido ao pincel de Brandon; o tribunal da Igreja de Sainte Magloire, obra‑prima de arquitectura do século xiv; o poço de ferro batido no meio da grande praça de Saint Enurph, cuja admirável ornamentação é devida ao pintor‑ferreiro Quintino Metsys; o túmulo levantado em outros tempos a Maria de Borgonha, filha de Carlos o Temerário, que se acha agora na Igreja de Nossa Senhora de Bruges, etc. Finalmente, Quiquendone tem por principal indústria a fabricação em grande escala de rebuçados e batidos de creme.

Há muitos séculos que esta cidade é administrada pelos van Tricasse, que no seu cargo se sucedem de pais a filhos. Apesar de tudo quanto se refere, Quiquendone não figura no mapa das Flandres! Será esquecimento? Será omissão voluntária dos geógrafos? É o que não posso dizer aos leitores, mas a verdade é que Quiquendone existe realmente, com as suas ruas estreitas, o seu recinto fortificado, as suas casas de estilo espanhol, o seu mercado e o seu burgomestre, e, por sinal, foi ainda recentemente teatro de fenómenos surpreendentes, extraordinários, tão inverosímeis como verídicos; vão, ser, tais fenómenos, fielmente relatados na presente narrativa.

É fora de dúvida que não há motivo para dizer nem pensar mal dos flamengos da Flandres Ocidental. São gente de bem, cordatos, parcos, sociáveis, pacíficos, hospitaleiros‑ talvez um pouco pesados no espírito e no falar; mas nada disto explica a razão por que uma das mais interessantes cidades do seu território ainda não ocupa um lugar na cartografia moderna.

É na verdade para lastimar a omissão. Se ao menos a história ou, à falta de história, as crónicas e, ainda, à falta destas, a tradição do país fizessem menção de Quiquendone! Mas qual! Nem os atlas, nem os guias, nem os itinerários falam disso. Nem o próprio Senhor Joanne, o perspicaz descobridor de aldeolas, diz palavra a esse respeito.

Compreende‑se o prejuízo que tal silêncio deve causar ao comércio e à indústria da cidade. Nós, porém, devemos acrescentar que Quiquendone não tem indústria nem comércio e que passa perfeitamente sem ambas as coisas. Os rebuçados e os cremes batidos consome‑os ela própria.

Em suma, os quiquendonianos não carecem de ninguém. Têm apetites limitados, existência modesta. São sossegados, moderados, frios, fleumáticos ‑ numa palavra, flamengos, como se encontram alguns entre o Escalda e o mar do Norte.

 

Em que o burgomestre van Tricasse

                  e o conselheiro Niklausse conversam

                  a respeito dos negócios da cidade

 

- PARECE‑LHE isso? ‑ perguntou o burgomestre.

‑ Sim ‑ respondeu o conselheiro, após alguns momentos de silêncio.

‑ É que não devemos proceder levianamente ‑ volveu o burgomestre.

‑ Há dez anos que falamos deste negócio tão grave ‑ replicou o conselheiro Niklausse‑e confesso‑lhe, meu digno van Tricasse, que não me animo a resolvê‑lo.

‑ Compreendo a sua hesitação‑retorquiu o burgomestre, que falou depois de um bom quarto de hora de reflexão‑, compreendo a sua hesitação e partilho‑a. Faremos muito bem em não decidir coisa alguma sem um mais amplo exame da matéria.

‑ O que é certo é que este cargo de comissário civil se torna desnecessário numa cidade tão sossegada como Quiquendone.

‑ O nosso predecessor ‑ ponderou van Tricasse em tom grave ‑, o nosso predecessor nunca afirmava, nunca se atreveria a afirmar, a certeza de qualquer coisa. Toda a afirmativa está sujeita a desagradáveis reconsiderações.

O conselheiro meneou a cabeça em sinal de assentimento; depois, conservou‑se silencioso cerca de meia hora. Decorrido este espaço de tempo, durante o qual o conselheiro e o burgomestre não mexeram sequer um dedo, Niklausse perguntou a van Tricasse se, vinte anos atrás, o seu predecessor não tivera, como ele, a ideia de suprimir aquele lugar de comissário de polícia, que todos os anos onerava a cidade de Quiquendone com um encargo de mil trezentos e setenta e cinco francos e alguns cêntimos.

‑ De facto assim sucedeu ‑ disse o burgomestre, erguendo com uma lentidão cheia de majestade a destra à fronte límpida. ‑ Mas esse homem respeitável faleceu antes de se atrever a tomar uma resolução, quer a este respeito, quer a respeito de outras medidas administrativas. Era um sábio! Porque não hei‑de eu fazer o mesmo que ele?

O conselheiro não era sujeito capaz de imaginar qualquer razão que pudesse combater a opinião do burgomestre.

‑ O homem que morre sem se ter decidido a coisa alguma na vida ‑ sentenciou gravemente van Tricasse ‑ esteve por pouco a atingir a perfeição possível neste mundo!

E, expelida esta sentença, o burgomestre carregou com a cabecinha do dedo mínimo num timbre de velada sonoridade, que produziu mais um suspiro do que um som.

Quase no mesmo instante, uns passos ligeiros deslizaram docemente.

Um ratinho correndo por um tapete bem felpudo não faria menos ruído. A porta do quarto abriu‑se, girando nos gonzos azeitados.

Apareceu uma menina, loira, de compridas tranças. Era Suzel van Tricasse, a filha única do burgomestre.

Entregou ao pai um cachimbo bem atestado e um braseirinho de cobre, não proferiu palavra; depois desapareceu, sem que à saída produzisse mais rumor do que à entrada.

O respeitável burgomestre acendeu a enorme chaminé do cachimbo e envolveu‑se numa nuvem de fumo azulado, deixando o conselheiro Niklausse mergulhado nas mais absorventes reflexões.

O compartimento em que assim conversavam estas duas notáveis personagens encarregadas da administração de Quiquendone era uma sala ricamente ornada de esculturas de madeira escura. Uma alta chaminé, vasta lareira em que podia arder um carvalho ou assar‑se um boi, fazia frente a uma janela de grade, cujos vidros, pintados de várias cores, coava suavemente a claridade do dia.

Por cima da chaminé, em quadro antigo, atribuído a Hemling, via‑se o retrato de um homenzito, que devia representar, certamente, um antepassado dos van Tricasse, família cuja genealogia ascende, autenticamente, ao século xiv, época em que os Flamengos e Gui Dampierre tiveram de lutar contra o imperador Rodolfo de Habsburgo.

Era uma das mais agradáveis de Quiquendone a casa do burgomestre. Ao gosto flamengo e com todo o imprevisto, caprichoso, pitoresco e fantasista que a arquitectura ogival comporta, citavam‑na entre os mais curiosos monumentos da cidade.

Não podia ser mais silencioso do que esta residência um convento de cartuxos, ou mesmo um estabelecimento de surdos‑mudos. Ali não existia o ruído. Naquela casa não se andava, deslizava‑se; não se falava, murmurava‑se. E não era por falta de mulheres, porque nela residiam Erigida van Tricasse, mulher de van Tricasse, a filha deste, Suzel van Tricasse, e a criada, Lotché Jansheu. Devemos também mencionar a irmã do burgomestre, a tia Hermância, solteirona já nada moça que dava ainda pelo nome de titi‑Mancia, como outrora lhe chamava a sobrinha Suzel, quando era ainda pequena. Pois apesar de todos estes elementos de discórdia, de ruído, de tagarelice, a casa do burgomestre era sossegada como o deserto.

Contava os seus sessenta anos o burgomestre‑sujeito nem gordo nem magro, nem velho nem moço, nem corado nem pálido, nem alegre nem triste, nem paciente nem agastadiço, nem fraco nem enérgico, nem orgulhoso nem humilde, nem bom nem mau, nem valente nem cobarde, nem cá nem lá ‑ ne quid nimis ‑, um homem em tudo meio termo. Mas ao ver‑lhe a lentidão invariável dos movimentos, o queixo inferior um pouco descaído, a pálpebra superior constantemente levantada, a fronte lisa, sem uma prega, como chapa de latão, e os músculos pouco perceptíveis, qualquer fisionomista reconheceria sem dificuldade que o burgomestre era a fleuma personificada.

Nunca‑quer por efeito da exaltação, quer por efeito da cólera ‑, nunca a comoção acelerara os movimentos do coração, nem enrubescera o rosto daquele homem; nunca, por influência da mais leve irritação, se lhe contraíram as sobrancelhas. Trajava invariavelmente fato de boa qualidade, nem muito largo nem muito apertado, fato que não conseguia estragar com o uso. Calçava sapatos fortes, de três solas, quadrados, com fivelas de prata, sapatos cuja excessiva duração fazia desesperar o sapateiro. Usava um grande chapéu, que datava da época em que a Flandres foi definitivamente separada da Holanda, o que fazia atribuir àquele venerável casquete uma existência de quarenta anos. Mas que querem? São as paixões que vão gastando o corpo, assim como vão gastando a alma, o fato do mesmo modo que o corpo, e o nosso digno burgomestre, apático, indolente, indiferente, por nada se apaixonava.

Como não se gastava a si próprio, também não gastava coisa alguma, e, por isso mesmo, era o sujeito mais adequado à administração da cidade de Quiquendone e dos seus pacíficos habitantes.

Com efeito, a cidade não era menos sossegada do que a residência de van Tricasse. Nesta tranquila habitação contava o burgomestre alcançar os limites mais extremos da existência humana, mas isso só depois de ver a boa senhora Erigida van Tricasse, sua mulher, precedê‑lo no túmulo, onde ele por certo não ia encontrar mais profundo sossego do que o sossego que desfrutava havia sessenta anos sobre a face da Terra.

O que acabamos de dizer precisa de explicação.

A família van Tricasse merecia com muita razão chamar‑se a família Jeannot(*).

Eis porquê:

Sabe toda a gente que a faca desta típica personagem é tão célebre e tão duradoura como o seu dono, graças

 

*1. Personagem duma comédia francesa que ficou a personificar a toleima exagerada e grotesca. Verne refere‑se decerto à passagem em que Jeannot dá uma faca a outra personagem e lhe diz «Aí tens; não há melhor; já me usou dois cabos e três folhas e está que parece a mesma!» (N, do T.)

 

à dupla operação, constantemente repetida, que consiste em substituir o cabo quando está muito usado e a folha quando já não presta. Tal era a operação absolutamente idêntica que se praticava desde tempos imemoriais na família van Tricasse, à qual a natureza se prestava com uma complacência um pouco extraordinária. Desde 1340 que se via um van Tricasse, quando enviuvava, tornar a casar com uma van Tricasse mais moça do que ele, a qual, enviuvando por seu turno, se matrimoniava com um van Tricasse mais moço que ela, que enviuvava e... assim por diante, sem solução de continuidade. Cada qual morria por sua vez com uma regularidade mecânica.

Ora a digna senhora Erigida estava no seu segundo marido e, desde que não faltasse aos seus deveres, havia de preceder no outro mundo seu marido, dez anos mais moço do que ela, para ceder o lugar a uma nova van Tricasse.

E com isto contava absolutamente o respeitável burgomestre, a fim de não interromper as tradições de família.

Tal era esta casa, tranquila e silenciosa, cujas portas não rangiam, cujos vidros não tilintavam, cujos sobrados não gemiam, cujas chaminés não roncavam, cujas ventoinhas não chiavam, cujos móveis não estalavam, cujas fechaduras não guinchavam e cujos moradores não faziam mais ruído do que a própria sombra.

O divino Harpócrates tê‑la‑ia decerto escolhido para templo do silêncio.

 

Em que o comissário Passauf faz uma entrada

                  tão ruidosa como inesperada

 

ERAM duas e três quartos da tarde quando principiara entre o conselheiro e o burgomestre a interessante conversa que acima transcrevemos.

Foi às três e quarenta e cinco que van Tricasse acendeu o seu vasto cachimbo, em cuja chaminé cabia uma quarta de tabaco, e só às cinco e trinta e cinco minutos é que acabou de fumar.

Durante todo este tempo os dois interlocutores não trocaram uma só palavra.

Por volta das seis horas, o conselheiro, que sempre procedia por pretermissão ou aposiopese, continuou nestes termos:

‑ Portanto, resolvemos?...

‑ ... Nada resolver ‑ ajuntou o burgomestre.

‑ Afinal, parece‑me que tem razão, van Tricasse.

‑ Também me parece o mesmo, Niklausse. Quanto ao comissário, tomaremos a esse respeito uma resolução, mais tarde... quando tivermos mais dados... O negócio não está por um mês.

‑ Nem por um ano‑redarguiu Niklausse, puxando do seu lenço de assoar, do qual, aliás, se serviu com uma perfeita discrição.

Estabeleceu‑se novo silêncio, que durou seguramente uma hora. Nada perturbou esta nova intermitência na conversa, nem sequer a aparição do cão da casa, o comedido «Lento», que, não menos fleumático que o dono, veio dar cortesmente um giro pela sala. Digno quadrúpede. Modelo da sua espécie. De papelão que fosse, com rodinhas, não faria menos barulho durante a visita.

Pelas oito, depois de Lotché trazer o candeeiro antigo de vidro fosco, o burgomestre perguntou ao conselheiro:

‑ Não temos por aí algum outro negócio urgente, Niklausse?

‑ Não, van Tricasse; que eu saiba, nenhum.

‑ Mas não me disseram que a torre da porta de Audenarde ameaçava ruína?

‑ Efectivamente‑respondeu o conselheiro‑, e não admirava que qualquer dia esmagasse algum transeunte.

‑ Oh! ‑ acudiu o burgomestre ‑, tenho boas esperanças de que tomaremos alguma decisão a respeito dessa torre antes que suceda tal desgraça.

‑ São as minhas esperanças também, van Tricasse.

‑ Há questões mais urgentes a resolver?

‑ Decerto ‑ respondeu o conselheiro ‑, a questão do mercado dos curtumes, por exemplo.

‑ Continua a arder o mercado? ‑ perguntou o burgomestre.

‑ Há três semanas que arde.

‑ Não decidimos em conselho deixá‑lo arder?

‑ Sim, van Tricasse, e por proposta sua.

‑ Pois não era o meio mais seguro e simples de dominarmos esse incêndio?

‑ Sem dúvida.

‑ Bem, deixemos correr o tempo. Mais nada?

‑ Mais nada ‑ respondeu o conselheiro, que coçava na cabeça, como que para ver se lhe esquecia algum negócio importante.

‑ Ah! ‑ exclamou o burgomestre ‑, não ouviu também falar de uma ruptura no cano da água, que ameaça inundar toda a parte baixa do bairro de São Jacques?

‑ Efectivamente ‑ volveu o conselheiro. ‑ É pena até que a ruptura não fosse por cima do mercado dos curtumes! Combatia muito a propósito o incêndio e poupava‑nos o incómodo de tantas discussões.

‑ Que quer, Niklausse ‑ tornou o digno burgomestre‑, nada há tão falto de lógica como os acidentes. Não têm nexo entre si, e não se pode, como era para desejar, aproveitar uns para remédio de outros.

Esta sagacíssima observação de van Tricasse exigiu algum tempo para ser saboreada pelo seu interlocutor e amigo.

Passado um pedaço, o conselheiro Niklausse disse:

‑ Mas nós não falámos ainda da nossa grande questão!

‑ Qual questão? Pois nós temos alguma grande questão?‑ inquiriu o burgomestre.

‑ Decerto, a iluminação da cidade.

‑ Ah, agora!‑retorquiu o burgomestre. ‑ Mas, se a memória não me falta, o conselheiro refere‑se à iluminação do Doutor Ox?

‑ Exactamente.

‑ O negócio caminha, Niklausse ‑ informou o burgomestre. ‑ Estão a colocar‑se os canos e o gasómetro está pronto.

‑ Talvez andássemos um pouco mais depressa do que devíamos neste negócio ‑ fez notar o conselheiro, abanando a cabeça.

‑ Talvez ‑ retrucou o burgomestre ‑, mas a nossa desculpa é que o Doutor Ox fez todas as despesas da experiência. Não nos custará nada.

‑ Efectivamente, é a nossa desculpa. Depois é preciso irmos com o século. Se acaso sair bem, será Quiquendone a primeira cidade da Flandres iluminada a gás oxi... oxi... Como é que se chama?

‑ Gás oxídrico.

Neste momento abriu‑se a porta e Lotché veio anunciar que a ceia estava pronta.

O conselheiro levantou‑se para dizer adeus a van Tricasse, a quem tantas resoluções tomadas e tantos negócios debatidos tinham excitado o apetite. No final concordou‑se em se fazer reunir, num prazo bastante afastado, o conselho dos notáveis, a fim de se ver se deviam provisoriamente tomar uma resolução sobre o caso, deveras urgente, da torre de Audenarde.

Os dois dignos administradores dirigiram‑se para a porta da rua. Van Tricasse acompanhava o colega.

Chegando ao último patamar, o conselheiro acendeu uma lanterna para se alumiar pelas ruas escuras de Quiquendone, às quais faltava ainda a iluminação do Doutor Ox. A noite estava escura como breu: corria o mês de Outubro e a névoa escurecia a cidade.

Exigiram um bom quarto de hora os preparativos do conselheiro Niklausse, porque, depois de acender a lanterna, teve de calçar os seus grandes socos articulados em pele de vaca e de enfiar as suas espessas mitenes de carneiro. Em seguida levantou a gola forrada da sobrecasaca, puxou o chapéu de feltro para os olhos, segurou com firmeza o pesado guarda‑chuva com o cabo e dispôs‑se a sair.

No momento em que Lotché ia destrancar a porta ouviu‑se da banda de fora um ruído inesperado.

Sim, por muito inverosímil que o caso parecesse, um ruído, um verdadeiro ruído, tal como a cidade não havia decerto ouvido, depois da tomada da torre da cidade pelos Espanhóis, em 1513, um temeroso ruído despertou os ecos tão profundamente adormecidos da velha casa de van Tricasse. Batiam violentamente àquela porta, virgem até então de todo o choque brutal. Davam nela repetidas bordoadas com um instrumento contundente, que devia ser um bordão nodoso manejado por vigoroso pulso. Com as bordoadas intercalavam‑se gritos. Ouvia‑se distintamente:

‑ Senhor van Tricasse! Senhor burgomestre! Abra, depressa!

O burgomestre e o conselheiro, com a cabeça perdida, olhavam um para o outro sem dizerem palavra. Aquilo excedia todos os limites. Se tivessem disparado na sala a velha colubrina do castelo, que não funcionava desde 1385, os moradores da casa van Tricasse não ficariam mais assarapantados!

Permita‑se‑nos a expressão: é vulgar, mas bem cabida.

Aumentavam os gritos, as pancadas, os chamamentos.

Recuperando o seu sangue‑frio, Lotché animou‑se enfim a falar.

‑ Quem está aí? ‑ perguntou.

‑ Sou eu! Sou eu! Sou eu!

‑ Quem?

‑ O comissário Passauf!

O comissário Passauf! O mesmo que desempenhava o cargo cuja supressão se discutia havia dez anos.

Que sucederia? Teriam os borguinhões invadido Quiquendone, como no século xiv? Era preciso nada menos que um acontecimento de semelhante ordem para alterar a tal ponto o comissário Passauf, que em serenidade e fleuma não ficava atrás do próprio burgomestre.

A um sinal de Tricasse ‑ porque o bom do homem estava incapaz de articular uma palavra‑destrancou‑se a porta.

O comissário Passauf precipitou‑se na antecâmara. Dir‑se‑ia um furacão.

‑ O que é isso, senhor comissário? ‑ perguntou Lotché, rapariga às direitas que não perdia a cabeça nas circunstâncias mais graves.

‑ Pergunta‑me o que é isso? ‑ explodiu Passauf, cujos grandes olhos redondos manifestavam verdadeira comoção.

‑ Venho de casa do Doutor Ox, onde havia reunião, e lá...

‑ Lá? ‑ interrompeu o conselheiro.

‑ Fui testemunha de uma alteração tal que... Senhor burgomestre, falou‑se em política!

‑Em política! ‑ repetiu van Tricasse, metendo os dedos pelo chino.

‑ Em política!‑confirmou o comissário Passauf‑, coisa em que não se conversava em Quiquendone havia talvez dez anos. A discussão tomou calor. O advogado André Schut e o médico Domingos Custos questionaram com tanta violência que talvez cheguem a um duelo...

‑ A um duelo!‑exclamou o conselheiro.‑Um duelo em Quiquendone!

‑ E que expressões empregaram o advogado Schut e o médico Custos?

‑ Palavras textuais: Senhor‑disse o médico ao seu adversário‑, o senhor excede‑se, parece‑me, e não mede convenientemente as suas palavras!

O burgomestre van Tricasse juntou as mãos. O conselheiro empalideceu e deixou cair a lanterna. O comissário abanou a cabeça.

Era uma frase evidentemente provocante, proferida por dois notáveis do país!

‑ Aquele médico Custos ‑ murmurou van Tricasse ‑ é decididamente um homem perigoso, uma cabeça exaltada! Venham, meus senhores!

E, dito isto, o conselheiro Niklausse e o comissário tornaram a entrar na sala com o burgomestre van Tricasse.

 

Em que o Doutor Ox se revela fisiologista

                  de primeira ordem e atrevido empreendedor

 

QUEM é a personagem conhecida pelo esquisito nome de Doutor Ox? Um original por certo, mas ao mesmo tempo um sábio atrevido, um fisiologista cujos trabalhos são conhecidos e apreciados de toda a Europa científica, um afortunado rival dos Davy, dos Dalton, dos Bostock, dos Menzies, dos Godwin, dos Vierordt, de todas as notabilidades que têm dado à fisiologia um dos primeiros lugares entre as ciências modernas.

O Doutor Ox era homem um pouco cheio, de estatura mediana, de idade..., mas não podemos dizer ao certo a sua idade, como também não podemos dizer qual a sua nacionalidade. Depois é coisa que pouco importa. Basta saber‑se que era um tipo singular, de índole ardente e impetuosa, verdadeiro excêntrico escapo de algum volume de Hoffmann e que, como se vê claramente, fazia extraordinário contraste com os habitantes de Quiquendone.

Tinha em si e nas suas doutrinas imperturbável confiança. Sempre risonho, de cabeça bem levantada, ares desempenados, olhar seguro, ventas dilatadas, boca de boas proporções, pela qual sorvia o ar em aspirações formidáveis, era sujeito cujo todo agradava. Respirava vida, tinha o que se pode chamar um bem equilibrado mecanismo, e, na maneira como se movia e lidava, lembrava um desses indivíduos de quem se diz que não podem parar e que têm azougue nas veias.

Não se conservava muito tempo no mesmo lugar e todo se desfazia em palavras precipitadas e se desmanchava em gestos superabundantes.

Seria rico aquele Doutor Ox, para assim vir empreender à sua custa a iluminação de toda uma cidade?

Provavelmente, visto que se metia em tais despesas; eis a única resposta que poderíamos dar a esta pergunta indiscreta.

O Doutor Ox chegara havia cinco meses a Quiquendone em companhia do seu preparador, que dava pelo nome de Gedeão Ygène, homem alto, magro, seco, tão alto, mas menos vivo que seu amo.

Mas porque é que o Doutor Ox empreendia à sua custa a iluminação da cidade? Porque escolhera exactamente os pacíficos quiquendonianos, os mais flamengos de todos os flamengos, e queria dotar a sua cidade com o benefício de uma iluminação fora do comum?

Não pretendia fazer, sob este pretexto, alguma grande experiência fisiológica, operando in aniria vili!

Finalmente, o que ia tentar aquele original?

É o que não sabemos, porque o Doutor Ox não tinha outro confidente senão o seu preparador Ygène, que demais lhe obedecia cegamente.

Na aparência, pelo menos, o Doutor Ox apenas se comprometera a iluminar a cidade, que bastante precisava de ser iluminada, «de noite principalmente», dizia com finura o comissário Passauf.

Para esse fim construíra‑se uma oficina destinada à produção do gás iluminante.

Os gasómetros estavam prontos e os canos condutores, circulando por baixo das ruas, deviam dentro em pouco abrir‑se em forma de leque nos edifícios públicos e mesmo nas casas particulares de certos amigos do progresso.

Van Tricasse na qualidade de burgomestre, Niklausse na de conselheiro, e mais algumas outras personagens importantes, tinham entendido que deviam autorizar nas suas residências a introdução deste moderno sistema de iluminação.

Se o leitor deve estar bem lembrado, no decurso da comprida conversa do conselheiro e do burgomestre disse‑se que a iluminação da cidade seria obtida, não pela combustão do vulgar hidrogénio carburado fornecido pela destilação da hulha ou carvão de pedra, mas sim pelo emprego de um gás mais moderno e vinte vezes mais brilhante, o gás oxídrico, produzido pela mistura do hidrogénio e do oxigénio.

Químico hábil e físico engenhoso, o doutor sabia obter este gás em grande porção e por preço módico, não empregando o manganato de sódio, segundo os processos de Tessié du Motay, mas simplesmente decompondo a água, levemente acidulada por meio de uma pilha composta de elementos novos e inventada por ele. Portanto, não se fazia uso de substâncias dispendiosas, nem da platina, nem de retortas, nem de combustível, nem se empregava nenhum aparelho delicado para se obter o isolamento dos dois gases. Uma corrente eléctrica atravessava vastas tinas cheias de água e o elemento líquido decompunha‑se nas suas duas partes constitutivas: oxigénio e hidrogénio.

O oxigénio ia para um lado; o hidrogénio, em volume que formava o duplo do seu antigo associado, ia para outro.

Eram ambos recolhidos em reservatórios separados ‑ precaução essencial, porque da mistura, se se inflamasse, podia resultar uma espantosa explosão ‑ e iam ter, por meio de tubos, aos diversos bicos, cuja disposição havia de ser tal que evitasse a catástrofe. A chama obtida seria de um brilho soberbo, brilho que rivaliza com o da luz eléctrica, a qual ‑ como todos sabem ‑, segundo as experiências de Casselmann, iguala a de mil cento e setenta e uma velas ‑ nem uma a mais, nem uma a menos.

Não havia dúvida de que a cidade de Quiquendone, com esta generosa combinação, ia ganhar uma iluminação esplêndida. Mas, como se verá pela continuação da narrativa, era isto com que o Doutor Ox menos se preocupava.

Exactamente no dia seguinte àquele em que o comissário Passauf aparecera de modo tão ruidoso em casa do burgomestre, Gedeão Ygène e o Doutor Ox conversavam no seu gabinete de trabalho, no rés‑do‑chão da principal dependência da oficina.

‑ Então, então, Ygène! ‑ exclamava o doutor, esfregando as mãos ‑, não os viu ontem, na nossa recepção, os bons quiquendonianos de sangue‑frio que, em vista da vivacidade dos seus ímpetos, se podem considerar como intermediários entre as esponjas e as excrescências coralígenas! Não os viu em disputa, a provocarem‑se com o gesto e com a voz? Já estão metamorfoseados física e moralmente! Espere pelo momento em que os tratarmos a grandes doses!

‑ Efectivamente, mestre‑concordou Gedeão Ygène, coçando com a cabecinha do indicador na ponta do nariz‑, a experiência começa bem e, se eu não tivesse fechado tão depressa a torneira, não sei que sucederia.

‑ Ouviu o advogado Schut e o médico Custos? ‑ continuou o Doutor Ox. ‑ A frase em si não era ofensiva, mas na boca de um quiquendoniano vale toda a série de injúrias que os heróis de Homero dirigem uns aos outros antes de começarem a bater‑se.

Ah, verá o que havemos de fazer um dia destes flamengos!

‑ Faremos decerto uns ingratos ‑ retorquiu Gedeão Ygène, no tom de um homem que tem na devida conta a espécie humana.

‑ Ora, pouco importa que eles se mostrem ou não agradecidos; o essencial é que a nossa experiência dê bom resultado!

‑ Depois ‑ acrescentou o preparador, sorrindo com malícia ‑, não será para recear que, produzindo tamanha excitação no seu aparelho respiratório, nós desorganizemos um pouco os pulmões a estes excelentes habitantes de Quiquendone?

‑ O mal é para eles! ‑ observou o Doutor Ox. ‑ É no interesse da ciência! Que diria o senhor se os cães e as rãs se recusassem às experiências de vivissecção! É de crer que, se se consultassem os cães e as rãs, estes animais fariam algumas objecções às práticas dos vivíssectores.

Não obstante, o doutor parece que julgou irrefutável o argumento porque soltou um grande suspiro de satisfação.

‑ Afinal tem razão, mestre. Não podia encontrar coisa melhor do que estes habitantes de Quiquendone.

‑ Não podíamos, não ‑ repetiu o doutor, acentuando cada sílaba.

‑ Tomou alguma vez o pulso a estas criaturas?

‑ Muitas e muitas vezes.

‑ E qual é a média das pulsações observadas?

‑ Não chega a cinquenta por minuto. Ora veja: uma cidade onde, vai para um século, não há sombra de discussão, onde os carreiros não praguejam, os cocheiros não se injuriam, os cavalos não se desbocam, os cães não se mordem, os gatos não arranham! Uma cidade onde até os tribunais não têm que fazer em todo o ano! Uma cidade onde não há entusiasmo por coisa alguma, nem pela arte nem pelo negócio! Uma cidade onde os gendarmes ainda não passam de mitos e onde há cem anos não se instaura um processo! Uma cidade, enfim, onde no espaço de três séculos não se deu um soco nem se trocou um sopapo!

Deve compreender, Ygène, que isto não pode durar e que devemos modificar tudo isto!

‑ Muito bem!, muito bem! ‑ apoiou o preparador, entusiasmado. ‑ E o ar que se respira nesta cidade, analisou‑o?

‑ Não me esqueci de o fazer. Setenta e nove partes de azoto, ácido carbónico e vapor de água em quantidade variável! São as proporções ordinárias!

‑ Bem, doutor, bem ‑ replicou mestre Ygène. ‑ Far‑se‑á a experiência em ponto grande, e será decisiva.

‑ E se decisiva for ‑ acrescentou o Doutor Ox com modos triunfantes ‑ reformaremos o mundo!

 

Em que o conselheiro e o burgomestre vão fazer uma

        visita ao doutor e do que daí resulta

 

SOUBERAM finalmente o conselheiro Niklausse e o burgomestre van Tricasse o que era uma noite agitada.

Causou‑lhes verdadeira insónia o que se passara em casa do Doutor Ox.

Quais seriam as consequências de semelhante caso? Não podiam imaginar. Teriam de tomar alguma decisão? A autoridade municipal, representada por eles, ver‑se‑ia obrigada a intervir? Teriam de publicar editais para que semelhante escândalo não se repetisse?

Tais dúvidas não podiam deixar de perturbar aquelas índoles faltas de energia. Por isso, na véspera, antes de se separarem, as duas personagens haviam "decidido» tornar‑se a ver no dia seguinte.

No outro dia, antes de jantar, o burgomestre van Tricasse dirigiu‑se a casa do conselheiro. Achou o amigo mais sossegado.

‑ Nada de novo? ‑ perguntou van Tricasse.

‑ De ontem para cá, nada de novo ‑ respondeu Niklausse.

‑ E o médico Domingos Custos?

‑ Não ouvi falar mais nele, nem no advogado André Schut.

Depois de entreterem uma hora numa conversa que se poderia reproduzir em três linhas e que é inútil relatar, o conselheiro e o burgomestre resolveram ir visitar o Doutor Ox, a fim de tirarem dele esclarecimentos, com ares de quem não indagava coisa alguma.

Tomada esta decisão ‑ o que ia de encontro a todos os seus hábitos ‑, os dois notáveis dispuseram‑se a pô‑la em imediata execução. Saíram e encaminharam‑se para a oficina do Doutor Ox, que ficava fora da cidade, perto da porta Audenarde ‑ exactamente a porta cuja torre ameaçava ruína.

Não iam de braço dado o burgomestre e o conselheiro, mas caminhavam, passibus esquis, em passo lento e solene, que apenas os fazia avançar treze polegadas por segundo. O que, entretanto, era o passo ordinário dos seus administrados, que, de memória de homem, ninguém vira correr nas ruas de Quiquendone.

De tempos a tempos, nalguma encruzilhada pacífica e sossegada, ao voltar dalguma rua tranquila, os dois paravam para cumprimentar os transeuntes.

‑ Bons dias, senhor burgomestre ‑ dizia um.

‑ Bons dias, meu amigo ‑ respondia van Tricasse.

‑ Nada de novo, senhor conselheiro? ‑ perguntava outro.

‑ Nada de novo ‑ respondia Niklausse.

Mas, em vista de alguns ares maravilhados, de certos olhares interrogadores, adivinhava‑se que a altercação da véspera era conhecida na cidade.

Bastaria a direcção que van Tricasse levava para os mais obtusos dos quiquendonianos conhecerem que o burgomestre ia tratar de alguma coisa importante.

O caso Custos e Schut ocupava todas as imaginações, mas ainda não tinham tomado partido nem por um nem por outro. Em suma, o advogado e o médico eram duas pessoas estimadas. O advogado Schut, como nunca tivera ensejo de advogar numa cidade onde advogados, escrivães e toda a mais gente de justiça só existiam por lembrança, nunca perdera processo algum.

Quanto ao médico Custos era um honrado clínico que, à semelhança dos colegas, curava os enfermos de todas as doenças, excepto daquela de que morriam.

Mau hábito contraído, infelizmente, por todos os membros das faculdades de medicina, em todos os países onde existem médicos.

Chegados à porta de Audenarde, o conselheiro e o burgomestre fizeram prudentemente um desviozinho, para não passarem próximo da torre, não fosse o diabo fazê‑la cair; depois puseram‑se a olhá‑la com atenção.

‑ Parece‑me que vem a cair ‑ advertiu van Tricasse.

‑ Também me parece ‑ tornou Niklausse.

‑ Salvo se a especarem ‑ observou van Tricasse. ‑ Mas é ou não preciso especá‑la? A questão está nisto.

‑ Efectivamente, está nisto a questão ‑ confirmou o conselheiro.

Pouco depois apresentavam‑se à porta da oficina.

‑ Pode‑se falar ao Senhor Ox? ‑ perguntaram.

O doutor estava sempre à disposição das primeiras autoridades da cidade, pelo que ambos foram logo introduzidos no gabinete do célebre fisiologista.

Os dois esperaram talvez uma boa hora que o doutor aparecesse. Há, pelo menos, razões para supor isso, porque o burgomestre ‑ o que nunca lhe sucedera na sua vida ‑ mostrou alguma impaciência, do que também não se mostrou isento o seu companheiro.

Afinal, o Doutor Ox apareceu, e começou por desculpar‑se de haver feito esperar aqueles senhores; mas um projecto de gasómetro a aprovar, um encanamento a rectificar...

Entretanto, tudo caminhava. Estavam já colocados os canos destinados ao oxigénio. Em poucos meses achar‑se‑ia dotada a cidade com uma esplêndida iluminação. As duas importantes personagens podiam até ver os orifícios dos tubos que se abriam no gabinete do doutor.

Tratou o sábio de perguntar qual o motivo que lhe proporcionava a honra de receber em sua casa o burgomestre e o conselheiro.

‑ Ora, doutor, vê‑lo ‑ respondeu van Tricasse. ‑ Há muito que não tínhamos este prazer. Nesta nossa boa cidade de Quiquendone pouco se sai. Contam‑se, por assim dizer, as passadas que se dão e os negócios que se tratam.

É uma fortuna quando alguma coisa vem interromper a nossa uniformidade...

Niklausse olhava para o seu amigo. Nunca lhe ouvira dizer tanto ‑ pelo menos Sem interrupções e sem espaçar as frases com grandes pausas. Parecia‑lhe que van Tricasse falava com uma volubilidade que não era natural nele.

Ele mesmo sentia também uma irresistível tentação de falar.

Quanto ao Doutor Ox, observava atentamente o seu hóspede com olhar malicioso.

Van Tricasse, que nunca discutia sem se repoltrear comodamente numa boa poltrona, levantara‑se desta vez. Não se sabe que excitação nervosa, muito contrária ao seu temperamento, se apoderara dele.

Não gesticulava ainda, mas devia estar por pouco.

O conselheiro, esse coçava na barriga das pernas e respirava com lentidão e valentia. Pouco a pouco, o olhar animava‑se‑lhe, e estava «decidido» a sustentar, se tanto fosse mister, o seu confidente e amigo burgomestre.

Van Tricasse dera alguns passos no aposento e depois viera pôr‑se outra vez em frente do doutor.

‑ E em quantos meses ‑ perguntou, em tom um tanto acentuado ‑, em quantos meses diz o senhor que estarão concluídos os seus trabalhos?

‑ Em três ou quatro meses, senhor burgomestre.

‑ Três ou quatro meses é muito tempo! ‑ exclamou van Tricasse.

‑ Muitíssimo tempo! ‑ reforçou Niklausse, que, não podendo já conter‑se, se levantara também.

‑ Precisamos deste prazo para concluir os nossos trabalhos ‑ tornou o doutor. ‑ Os operários, que tivemos de escolher entre a população de Quiquendone, não são muito expeditos.

‑ O que diz, não são expeditos? ‑ exclamou o burgomestre, que pareceu considerar o termo como ofensa pessoal.

‑ Não, senhor burgomestre ‑ confirmou o Doutor Ox, insistindo.

‑ Um operário francês faria num dia o trabalho dos seus administrados! Bem sabe, são uns verdadeiros flamengos!...

‑ Flamengos! ‑ regougou Niklausse, cujos punhos se contraíam. ‑ Em que sentido, senhor, emprega essa palavra?

‑ Ora... no sentido amável em que toda a gente a emprega ‑ respondeu o doutor, sorrindo.

‑ Mas, meu senhor ‑ tornou o burgomestre, medindo a passos largos o gabinete de um extremo ao outro ‑, não gosto dessas insinuações. Os operários de Quiquendone valem tanto como os operários de qualquer outra cidade do mundo, sabe, e não é a Paris ou Londres que iremos buscar modelos! Quanto aos trabalhos que lhe dizem respeito, peço‑lhe que os apresse. Temos as ruas desempedradas para a colocação dos canos, o que é um estorvo à circulação. O comércio há‑de acabar por se queixar, e eu, administrador responsável, não estou disposto a incorrer em censuras imerecidas!

Bravo burgomestre! Falara de comércio, de circulação, e estas palavras, a que não estava habituado, não lhe esfolaram os lábios! Que se passava então nele?

‑ Demais ‑ acrescentou Niklausse ‑, a cidade não pode estar mais tempo privada de iluminação.

‑ Contudo ‑ observou o doutor ‑, numa cidade que há oitocentos ou novecentos anos espera que...

‑ Mais uma razão, senhor ‑ redarguiu o burgomestre, acentuando as sílabas. ‑ Outros tempos, outros costumes! O progresso caminha, e não queremos ficar parados! Dentro de um mês exigimos que estejam iluminadas as nossas ruas, de contrário o senhor pagará avultada indemnização por cada dia de demora! E se, nas trevas, se desse alguma rixa?

‑ Decerto ‑ exclamou Niklausse ‑, basta uma faísca para incendiar um flamengo! Flamengo, fiam, flama!...

‑ E a propósito ‑ disse o burgomestre, cortando a palavra ao amigo ‑, o chefe da polícia municipal, o comissário Passauf, deu‑nos parte de que ontem à noite se travou uma discussão nas suas salas, senhor doutor. Foi uma discussão política, afirmou. Será verdade?

‑ É verdade, senhor burgomestre ‑ respondeu o doutor, que a custo reprimia um suspiro de satisfação.

‑ E não houve uma altercação entre o médico Domingos Custos e o advogado André Schut?

‑ Sim, senhor conselheiro, mas as expressões trocadas não tiveram nada de grave.

‑ Nada de grave! ‑ exclamou o burgomestre ‑, nada de grave, quando um homem diz a outro' que não mede o alcance das suas palavras! Mas o que é que lhe corre nas veias, senhor?

Não sabe que em Quiquendone não é preciso mais nada para sucederem coisas desagradáveis? Oh!, se o senhor, ou alguém, tomasse a liberdade de me falar por semelhante modo...

‑ Ou a mim... ‑ acrescentou o conselheiro Niklausse. E, proferindo estas palavras em tom ameaçador, as

duas personagens, de braços cruzados, cabelos eriçados, olhavam de frente a frente para o Doutor Ox, prontas a dar‑lhe uma correcção, se um gesto, menos que um gesto, um olhar, fizesse supor que ele não concordava com aquelas ideias.

Mas o doutor não pestanejou sequer.

‑ Em todo o caso, senhor ‑ tornou o burgomestre ‑, estou resolvido a torná‑lo responsável pelo que se passa na sua casa. Sou responsável pela tranquilidade desta terra; não quero, pois, que a tranquilidade seja perturbada. Os acontecimentos que ontem se deram não se renovarão ou, senão, cumpro o meu dever, senhor. Ouviu? Responda, senhor!

E, falando deste modo, o burgomestre, sob a influência de uma extraordinária excitação, elevava a voz ao diapasão da cólera.

Estava furioso o respeitável van Tricasse, e com certeza o haviam de ouvir da rua. Finalmente, fora de si, vendo que o doutor não respondia às suas provocações, disse:

‑ Venha daí, Niklausse.

E, fechando a porta com uma violência que abalou a casa, o burgomestre arrastou o conselheiro atrás de si.

Pouco a pouco, depois de darem uns vinte passos ao ar livre, as dignas personagens foram sossegando. Começaram a andar mais devagar, os seus ares modificaram‑se.

Apagou‑se‑lhes a animação do rosto. De vermelhos tornaram‑se cor‑de‑rosa.

Um quarto de hora depois de saírem da oficina, van Tricasse dizia com suavidade ao conselheiro Niklausse:

‑ É um homem muito amável aquele Doutor Ox! Hei‑de sempre falar‑lhe com a maior satisfação.

 

Em que Frants Niklausse e Suzel van Tricasse

        formam vários projectos futuros

 

SABEM os leitores que o burgomestre tinha uma filha. Chamava‑se Suzel. Mas, por muito perspicazes que sejam, não puderam por certo adivinhar que o conselheiro Niklausse tinha um filho, que se chamava Frantz. E, ainda que o adivinhassem, nada lhes permitiria imaginar que Frantz fosse o prometido esposo de Suzel.

Acrescentaremos que estes dois entes estavam talhados um para o outro, e que se amavam à maneira por que é costume amar em Quiquendone.

Não se deve supor que os corações juvenis não batem naquela cidade excepcional. Batem, porém com certa lentidão. Casavam‑se ali os namorados como em todas as mais cidades do mundo, mas levava seu tempo.

Antes de se prenderem com tão terríveis laços, os futuros esposos queriam estudar‑se, e os estudos duravam pelo menos dez anos, como no colégio. Era raro, antes deste prazo, o matrimoniamento.

Sim, dez anos! Namorava‑se por espaço de dez anos! Pois é muito quando se trata de uma ligação que tem de durar toda a vida? Estuda‑se dez anos para engenheiro ou médico, para advogado ou conselheiro de prefeitura, e quer‑se adquirir em menos tempo os conhecimentos necessários para ser um bom marido? É inadmissível, e, questão de temperamento ou de razão, os quiquendonianos parecem‑nos acertar prolongando os seus estudos.

Quando se vê, em outras cidades livres e ardentes, fazerem‑se os casamentos em alguns meses, a gente deve encolher os ombros e mandar quanto antes os rapazes e raparigas para os colégios de pensionistas em Quiquendone.

Havia meio século que só se citava um casamento ajustado e realizado em dois anos, e esse mesmo por pouco que não provou mal.

Frantz Niklausse amava, pois, Suzel van Tricasse, mas pacificamente, como a gente ama quando tem diante de si dez anos para adquirir o objecto amado. Uma vez por semana, e a hora certa, Frantz vinha buscar Suzel, e acompanhava‑a às margens do Vaar. Tinha o cuidado de levar a linha de pesca, e Suzel não se esquecia do seu bordado, no qual os seus lindos dedos casavam as flores mais inverosímeis.

Convém dizer que Frantz era um mancebo de vinte e dois anos, em cujas faces se notava uma penugem de pêssego, e cuja voz mal acabava de descer uma oitava.

Suzel era rosada e loira. Contava dezassete anos e não desgostava de pescar à linha.

Singular ocupação, na verdade, a que obriga uma pessoa a lutar em astúcia com qualquer peixinho! Mas Frantz gostava disto. Semelhante ocupação quadrava perfeitamente ao seu temperamento.

Paciente tanto quanto se pode ser, gostando de seguir com olhar um tanto cismador um pedacinho de cortiça que se agitava ao lume de água, sabia esperar, e quando, depois de uma demora de seis horas, um modesto barbozinho, apiedando‑se dele, consentia finalmente em se deixar apanhar, sentia‑se feliz, mas sabia conter a sua comoção.

Naquele dia os dois jovens, e podia‑se dizer os dois noivos, estavam sentados na margem verdejante.

Um pouco abaixo deles murmurava o límpido Vaar. Suzel crivava indolentemente com a agulha a tela em que trabalhava. Frantz puxava automaticamente a linha de pescar da esquerda para a direita, e depois deixava‑a descair na corrente da direita para a esquerda.

Os barbozinhos descreviam na água caprichosos giros que se cruzavam em volta do pedaço de cortiça, ao mesmo tempo que o anzol passeava isolado nas camadas inferiores.

De tempos a tempos travava‑se o seguinte diálogo:

‑ Parece‑me que o peixe está a morder o anzol, Suzel ‑ anunciava Frantz, sem levantar sequer os olhos para a jovem.

‑ Parece‑lhe, Frantz? ‑ volvia Suzel, que, largando por um momento a tarefa, seguia com olhar distraído a linha do noivo.

‑ Mas não ‑ tornava Frantz. ‑ Parecera‑me sentir um pequeno movimento. Enganei‑me.

‑ Há‑de morder, Frantz ‑ retorquia Suzel, com a sua voz pura e doce. ‑ Mas não esqueça de puxar a tempo. Demora‑se sempre alguns segundos e o peixe aproveita‑se disso e foge.

‑ Quer pegar na linha, Suzel?

‑ Com todo o gosto, Frantz.

‑ Então dê‑me o seu bordado. Vamos a ver se sou mais hábil com a agulha do que com o anzol.

E a jovem pegava na linha com a mão trémula e o mancebo fazia correr a agulha pelas malhas da tela.. E por espaço de algumas horas trocavam assim doces palavras, e o coração palpitava‑lhes quando a cortiça se agitava na água.

Ah! Pudessem eles nunca esquecer aquelas horas deliciosas, durante as quais, sentados um ao lado do outro, escutavam o murmúrio das águas!

Naquele dia já o Sol ia muito baixo e, apesar dos talentos combinados de Suzel e de Frantz, o peixe não tinha mordido. Os barbozinhos não se haviam mostrado compassivos, e riam dos dois jovens, os quais eram demasiado justos para lhes quererem mal.

‑ Para a outra vez seremos mais felizes, Frantz ‑ disse Suzel, quando o pescador tornou a cravar o seu anzol ainda virgem na tabuinha de pinho.

‑ Devemos alimentar essa esperança ‑ volveu ele. Depois, ao lado um do outro, tornaram a tomar ambos o caminho de casa, sem trocarem uma palavra, tão calados como a própria sombra que se estirava em frente deles.

Suzel via‑se alta, muito alta, por efeito dos raios oblíquos do Sol poente. Frantz parecia magro, muito magro, como a comprida cana que levava na mão.

Chegaram a casa do burgomestre. Matizavam o empedrado das ruas verdejantes montinhos de erva, mas não os arrancavam, de propósito, porque alcatifavam a rua e amorteciam o ruído dos passos.

Quando a porta se ia abrir, Frantz entendeu que devia dizer à sua namorada:

‑ Sabe, Suzel, o grande dia aproxima‑se.

‑ Efectivamente, aproxima‑se, Frantz! ‑ respondeu a jovem, baixando as compridas pálpebras.

‑ Sim ‑ tornou Frantz ‑, daqui a cinco ou seis anos...

‑ Até à vista, Frantz ‑ despediu‑se Suzel.

‑ Até à vista, Suzel ‑ disse‑lhe Frantz.

E, depois de se fechar a porta, o mancebo tomou a passo lento e igual o caminho da casa do conselheiro Niklausse.

 

Onde os "andante" se tornam "allegro"

                           e "vivace" os "allegro"

 

A comoção causada pelo incidente do advogado Schut e do médico Custos passara. Não tivera consequências o caso. Havia pois motivos para esperar que Quiquendone voltaria à sua apatia habitual, apatia que um acontecimento inexplicável por um momento perturbara.

Ia‑se colocando rapidamente a canalização destinada à condução do gás oxídrico para os principais edifícios da cidade. Os canos gerais e as ramificações iam pouco a pouco alastrando sob o solo empedrado de Quiquendone. Faltavam ainda os bicos, porque, como a sua execução era muito delicada, tinha sido preciso fabricá‑los no estrangeiro. O Doutor Ox multiplicava‑se. Ele e o seu preparador Ygène não perdiam um instante, incitando os operários, concluindo os delicados órgãos do gasómetro, alimentando dia e noite as pilhas gigantescas que decompunham a água sob a influência de uma poderosa corrente eléctrica. Sim! o doutor já fabricava o seu gás, apesar de não estar ainda terminada a canalização‑o que, aqui para nós, devia parecer bastante singular. Mas, dentro em pouco ‑ havia razões para o esperar ‑ dentro em pouco, no teatro da cidade, o Doutor Ox faria a inauguração de uma nova iluminação.

Porque Quiquendone possuía um teatro, belo edifício, por minha fé, cuja disposição interior e exterior lembrava todos os estilos. Era ao mesmo tempo bizantino, gótico, romano, Renascença, com portas de arco interior, janelas ogivais, florões deslumbrantes, agulhas fantasistas, numa palavra, um espécime de todos os géneros, meio Pártenon, meio Grande Café parisiense, o que não é para admirar, porque, principiado em tempos do burgomestre Ludwig van Tricasse, em 1175, só foi concluído no tempo do burgomestre Natalis van Tricasse, em 1837.

Haviam levado setecentos anos a construí‑lo, e sucessivamente se fora conformando com a moda arquitectónica de todas as épocas.

Em todo o caso era um belo edifício, cujos pilares romanos e abóbadas bizantinas não estariam em grande desarmonia com a iluminação do gás oxídrico.

Representava‑se um pouco de todos os géneros no teatro de Quiquendone, e principalmente ópera séria e ópera cómica. Devemos porém declarar que os compositores não seriam capazes de reconhecer as suas obras, tanto ali alteravam os andamentos.

Com efeito, como se não fazia nada depressa em Quiquendone, as obras dramáticas tinham de se apropriar ao temperamento dos quiquendonianos. Apesar de as portas se abrirem habitualmente às quatro horas e se fecharem às dez, não havia exemplo de que durante estas seis horas se representassem mais de dois actos. "Roberto do Diabo», «Huguenotes», «Guilherme Tell», gastavam ordinariamente três noites, tão lenta era a execução destas obras‑primas. Os vivace no teatro de Quiquendone deslizavam quais verdadeiros adágios. Os allegro arrastavam‑se lentamente. As semifusas não valiam as breve ordinárias de qualquer outro país. As escalas mais rápidas, executadas no gosto dos quiquendonianos, davam ares de um triste cantochão. Os trilos tornavam‑se indolentes compassos, a fim de não ferirem os ouvidos dos diletantes. Para tudo dizer num exemplo, a ária rápida de Fígaro, no primeiro acto do «Barbeiro de Sevilha», media‑se pelo número 33 do metrónomo e durava cinquenta e oito minutos, e para isto havia de ser o actor um exaltado.

Como bem se imagina, os artistas que vinham de fora tinham de se conformar com esta moda; mas, como lhes pagavam bem, não se queixavam e obedeciam fielmente à batuta do director da orquestra, que nos allegro não batia mais de oito compassos por minuto.

Mas também que aplausos não acolhiam estes artistas, que encantavam, sem nunca os fatigar, os espectadores de Quiquendone! Todas as mãos batiam umas nas outras com intervalos bastante espaçados, o que as apreciações dos jornais traduziam por aplausos frenéticos. E se uma ou duas vezes a sala admirada não veio abaixo com os bravos, é que no século XII não se poupavam nos alicerces nem a pedra.

Além de tudo isto, para não se exaltarem aqueles temperamentos entusiastas dos flamengos, o teatro não representava senão uma vez por semana, o que permitia aos actores estudarem mais a fundo os seus papéis e aos espectadores digerirem por mais tempo as obras‑primas da arte dramática.

Havia muito tempo que as coisas caminhavam assim. Os artistas estrangeiros tinham por costume escriturarem‑se no teatro de Quiquendone quando queriam descansar das fadigas de outros teatros, e parecia que coisa alguma modificaria aqueles hábitos inveterados quando, quinze dias depois do caso Schut‑Custos, um incidente inesperado veio pôr em alvoroço e desassossego toda a população quiquendoniana.

Era um sábado, dia de ópera.

Como se deve supor, não se tratava ainda de inaugurar a nova iluminação. É verdade que os canos já chegavam à sala do teatro, mas, pelos motivos acima indicados, os bicos não tinham ainda sido colocados e as velas do lustre continuavam a projectar a sua claridade suave sobre os numerosos espectadores acumulados no teatro.

Haviam‑se aberto as portas ao meio‑dia e às quatro horas estava quase cheia a sala. Houve um momento em que o público fez uma fileira que principiava na praça de Saint Enurph, em frente da farmácia Josse Liefrinck.

Uma afluência assim fazia pressentir uma bela representação.

‑ Vai esta noite ao teatro? ‑ perguntou naquela mesma manhã o conselheiro ao burgomestre.

‑ Não falto ‑ respondeu van Tricasse ‑ e levo comigo a senhora van Tricasse, como também a nossa filha Suzel e a nossa querida titi‑Mancia, que gostam imenso de boa música.

‑ A menina Suzel vai? ‑ perguntou o conselheiro.

‑ Sem dúvida, Niklausse.

‑ Então, o meu filho Frantz há‑de ser um dos primeiros a fazer apertão ‑ volveu Niklausse.

‑ Aquilo é um rapaz ardente, Niklausse ‑ observou doutoralmente o burgomestre ‑, é uma cabeça esquentada! É preciso andar com olho nele.

‑ Ama, van Tricasse, ama a sua linda Suzel.

‑ Bem, casará com ela. Desde o momento que nós concordámos neste casamento, que mais há‑de ele querer?

‑ Não quer nada, van Tricasse, não quer nada aquele belo moço! Mas, em suma, não digo mais ‑ não há‑de ser dos últimos a comprar bilhete!

‑ Ah! vivaz e ardente mocidade! ‑ retorquiu o burgomestre, sorrindo‑se com a lembrança do passado. ‑ Também nós fomos assim! Até à noite, pois! A propósito, sabe que é um grande artista aquele grande Fioravanti! Também, que acolhimento não se lhe fez! Tarde esquecerá os aplausos de Quiquendone.

Tratava‑se efectivamente do tenor Fioravanti, que, pelo seu virtuoso talento, voz simpática e método perfeito, despertava nos amadores da cidade verdadeiro entusiasmo.

Havia três semanas que Fioravanti obtinha nos Huguenotes um êxito imenso. O primeiro acto, interpretado ao gosto dos quiquendonianos, tomaria uma noite inteira da primeira semana do mês. Outra noite da segunda semana, alongada por meio de muitos andante, rendera ao célebre cantor uma verdadeira ovação.

O êxito tornara‑se mais estrondoso ainda com o terceiro acto da obra‑prima de Meyerbeer.

Era porém no quarto acto que se esperava Fioravanti, e o quarto acto havia de ser cantado naquela mesma noite em presença de um público impaciente. Ah! Aquele duo de Raul e de Valentina, aquele hino de amor, largamente sussurrado, aquela stretta onde se multiplicam os crescendo, os stringendo, os piú presto, os piú crescendo, tudo cantado, lenta, compendiosa, interminavelmente! Ah! que encantadora coisa não havia de ser!

Como dissemos, achava‑se completamente cheia a sala às quatro horas. Camarotes e plateia estavam a deitar por fora. Nas frisas de boca davam mostra de si a pessoa do burgomestre van Tricasse, a senhora van Tricasse e a amável titi‑Mancia, de chapéu verde; não muito longe destes, o conselheiro Niklausse e a sua família, sem esquecermos o amoroso Frantz. Viam‑se também as famílias do médico Custos, do advogado Schut, do juiz Honorato Syntax, de Soutman (Norberto), director da companhia de seguros, e o importante banqueiro Collaert, doido por música alemã, e o preceptor Rupp, e o director da Academia, e tantas outras notabilidades da cidade que não se poderiam aqui enumerar sem abusar da paciência do leitor.

Ordinariamente, enquanto o pano não subia, os quiquendonianos conservavam‑se quietos; uns liam o jornal, outros trocavam raras palavras em voz baixa, e alguns, poucos, ousavam elevar um olhar meio apagado para as beldades amáveis que ocupavam os camarotes. Regra geral, quando se dirigiam para os seus lugares, era sem pressa e sem ruído.

Mas, naquela noite qualquer observador teria notado que, ainda antes de subir o pano, reinava desacostumada animação na sala. Viam‑se remexer pessoas que costumavam ser a imobilidade personificada. Os leques das senhoras agitavam‑se com uma rapidez anormal. Parecia ter invadido todos os peitos um ar mais vivo.

Respirava‑se com mais desafogo.

Alguns olhares brilhavam, e pode‑se dizer quase tanto como as luzes do lustre, que pareciam dardejar na sala um esplendor fora do costume.

A verdade é que se via tudo mais claro que nas outras noites, apesar de não ter sido aumentada a iluminação. Ah! Se os aparelhos do Doutor Ox já funcionassem! Mas ainda não funcionavam!

Finalmente, achava‑se no seu posto toda a orquestra. O primeiro rabeca passa por entre as estantes para dar um lá modesto aos colegas. Estão afinados os instrumentos de corda, os instrumentos de vento, os instrumentos de percussão. O director da orquestra só espera o sinal para bater o primeiro compasso.

Soa o sinal. Começa o quarto acto. O allegro appassionato do entreacto é cantado pela forma do costume, com uma lentidão majestosa, que teria feito dar um pulo ao ilustre Meyebeer, e cuja majestade os diletantes quiquendonianos apreciam.

Mas, momentos depois, o director da orquestra não se sente senhor dos executantes. Com dificuldade os contém, eles que usualmente eram tão tranquilos, tão obedientes. Os instrumentos de sopro revelam uma tendência para apressar os movimentos, e é preciso refreá‑los com mão firme, senão ganhariam dianteira aos instrumentos de corda, o que, sob o aspecto harmónico, produziria desgraçado efeito. O próprio rabecão, o filho do farmacêutico Josse Liefrinck, moço de tão boa educação, tende a exaltar‑se.

Valentina começa o seu recitativo:

Estou em casa só...

Mas apressa o andamento. O director da orquestra e todos os músicos seguem‑na, talvez sem quererem, no contabile, que deveria medir‑se em largo, na sua qualidade de dez por oito.

Quando Raul aparece na porta do fundo, entre o momento em que Valentina se lhe dirige e o momento em que o oculta no quarto ao lado, medeia apenas um quarto de hora, enquanto que outrora, segundo a tradição do teatro de Quiquendone, este recitativo de trinta e sete compassos durava exactamente trinta e sete minutos.

Saint Bris, Nevers, Cavannes e os senhores católicos entraram em cena, um pouco precipitadamente talvez. Allegro pomposo indicou o compositor na partitura. A orquestra e os senhores vão efectivamente em allegro, mas allegro nada em pomposo, e no trecho em coro, na página magistral da conjuração e da bênção dos punhais, deixam de seguir o allegro regulamentar.

Cantores e músicos correm em desatino. O director da orquestra já não procura contê‑los. Demais, o público não reclama; pelo contrário. Conhece‑se que ele próprio vai arrastado, que está no movimento, e que este movimento corresponde às aspirações da sua alma:

De incessantes revoltas, de ímpias guerras, Quereis, como eu quero, livrar a pátria?

Promete‑se, jura‑se. Nevers quase que não tem tempo para protestar e cantar que «entre os seus avós conta soldados e não um assassino». Os homens de armas aparecem e juram rapidamente ferir todos ao mesmo tempo. Saint Bris assalta, como uma verdadeira canção das barreiras, o recitativo que chama os católicos à vingança. Os três monges, munidos de faixas brancas, entram precipitadamente ao fundo, pela porta do aposento de Nevers, sem se importarem com a mise‑en‑scène, que lhes recomendava se adiantassem lentamente. Os circunstantes desembainharam já as espadas, que os três monges abençoaram num abrir e fechar de olhos. Sopranos, tenores, baixos, atacam com gritos de raiva o allegro furioso, e de um seis por oito, dramático fazem um seis por oito de quadrilha. Depois, saem berrando:

À meia‑noite, Em silêncio! Deus o quis!

Sim, à meia‑noite!

Neste momento o público acha‑se em pé. Agita‑se tudo nos camarotes, nas galerias, na plateia. Parece que todos os espectadores vão saltar ao palco, com o burgo‑mestre à frente, a fim de se unirem aos conjurados e aniquilarem os huguenotes, cujas opiniões religiosas, aliás, eles partilham. Aplaudem, aclamam, chamam fora os actores! A titi‑Mancia agita com a mão febril o chapéu verde. As luzes têm um esplendor ardente...

Raul, em vez de levantar lentamente o tapiz, rasga‑o com um gesto magnífico e acha‑se em frente de Valentina.

Finalmente, é chegado o grande duo. Cantam‑no em allegro vivace. Raul não espera as perguntas de Valentina e Valentina não espera as respostas de Raul. O trecho adorável:

O perigo é grande E o tempo voa...

O andamento amoroso:

Tu o disseste: Sim, tu amas‑me!

passa a ser um vivace furioso, e o violoncelo da orquestra deixa de se preocupar com a imitação da voz do cantor, imitação que se acha indicada na partitura do mestre.

Debalde Raul exclama:

Fala, fala e prolonga

Do meu coração o inefável estado.

Valentina não pode satisfazer o pedido. Conhece‑se que desusado fogo a consome. Os seus si e os seus dó, acima da escala ordinária, têm um vigor de espantar. Raul gesticula, desmancha‑se, está abrasado.

Ouve‑se o sino. A voz do campanário ressoa no espaço. Mas que voz ofegante! Vê‑se que o sineiro já não está senhor de si.

É um rebate espantoso e assustador, que rivaliza em violência com os furores da orquestra.

Finalmente, a stretta que vai rematar este acto magnífico:

Não mais amor, não mais loucura, O remorso já me tortura.

Que o compositor indica allegro con moto, enfurece‑se num prestissimo desencadeado.

Dir‑se‑ia um expresso que passa.

O sino torna a começar. Valentina cai desmaiada. Raul precipita‑se da janela.

Era tempo. Verdadeiramente embriagada, a orquestra não poderia continuar. A batuta do director não é mais que um pedaço de madeira quebrada. As cordas das rabecas estão partidas, os braços torcidos. No seu furor o timbaleiro rebentou os timbales. O rabecão grande está empoleirado no alto do seu edifício sonoro. O primeiro clarinete engoliu a palheta do seu instrumento, e o segundo oboé mastiga entre os dentes as chaves de madeira respectivas. Está amolgada a bomba do trombone, e finalmente o desgraçado trompa não pode tirar a mão que meteu muito profundamente na boca da sua trombeta.

E o público? O público, ofegante, exaltado, gesticula, berra!

Todos os rostos estão vermelhos como se um incêndio abrasasse interiormente todas aquelas criaturas! Magoam‑se, apertam‑se à saída, os homens sem chapéu, as mulheres sem manto. Nos corredores há empurrão, atropelamentos, disputas, pancadaria. Já não há autoridades, já não há burgomestre! São todos iguais perante uma sobreexcitação infernal...

E, momentos depois, quando tudo se acha na rua, readquire cada qual a sua habitual placidez e recolhe‑se sossegadamente a casa com a recordação confusa do que sentiu.

O quarto acto dos "Huguenotes", que outrora durava seis horas, contadas pelo relógio, tendo naquela tarde principiado às quatro e meia, estava terminado às cinco menos doze minutos!

Durara dezoito minutos!

 

Em que a antiga e solene valsa alemã se

transforma em turbilhão

 

MAS se os espectadores, depois de saírem do teatro, readquiriram a sua habitual tranquilidade, se placidamente regressaram a suas casas, achavam‑se contudo, em consequência da extraordinária exaltação por que tinham passado, prostrados, aniquilados como se houvessem cometido algum excesso à mesa, e caíram na cama como pedra em poço.

No dia seguinte a todos se deparou uma espécie de lembrança do que se passara na véspera. Com efeito, a um faltava o chapéu, perdido no tumulto, a outro um pedaço da casaca, rasgado na refrega, a esta um sapato fino de fivela, àquela o seu manto dos dias de festa.

Voltava a memória àqueles honrados burgueses, e com a memória certa vergonha da sua inqualificável efervescência. Afigurava‑se‑lhes aquilo uma orgia de que tivessem sido os heróis inconscientes.

Não falavam, não queriam pensar mais no que lhes sucedera.

Mas a personagem que mais espantada ficou foi, incontestavelmente, o burgomestre van Tricasse.

No dia seguinte, ao acordar, não encontrou o chino. Lotché procurou‑o por toda a parte. Nada. O chino ficara no campo de batalha.

Quanto a fazê‑lo reclamar por João Mistrol, o trombeta ajuramentado da cidade, não. Mais valia fazer o sacrifício daquele adorno postiço do que tornar‑se assim falado, ele que tinha a honra de ser o primeiro magistrado da cidade.

Assim pensava o digno van Tricasse, dentro da cama, com o corpo quebrado, a cabeça pesada, a língua grossa, o peito a escaldar.

Não tinha desejos de se levantar, pelo contrário; e o seu cérebro trabalhou talvez naquela manhã mais do que trabalhara durante quarenta anos.

O respeitável magistrado passava pela memória todos os incidentes daquela inexplicável representação. Cotejava‑os com os factos que ultimamente se haviam dado na noite da reunião em casa do Doutor Ox.

Procurava as razões daquela singular excitabilidade que por duas vezes se manifestara nos seus administrados mais respeitáveis.

‑ Mas que se passa? ‑ perguntava ele a si mesmo. ‑ Que espírito de vertigem se apoderou da minha sossegada cidade de Quiquendone? Iremos todos endoidecer e será preciso fazer da cidade um vasto hospital? Porque, em suma, ontem, estávamos ali autoridades, conselheiros, juizes, advogados, médicos, e todos, se a memória me não falha, todos tivemos o mesmo acesso de loucura furiosa! Mas o que havia naquela música infernal? É inexplicável. Nada tinha comido, nada tinha bebido que pudesse produzir em mim uma tal exaltação. Não! Ontem, ao jantar, um pedaço de vitela muito cozida, algumas colheres de espinafres com açúcar, dois ovos e dois copos de cerveja fraca, destemperada com água pura; não, isto não pode subir à cabeça. Nada, há alguma coisa que eu não sei explicar, e como, afinal de contas, eu é que sou responsável pelos actos dos meus administrados, vou proceder a um inquérito o mais breve possível.

Mas o inquérito que foi decidido pelo conselho municipal não deu resultado. Se os factos eram patentes, as causas escapavam à sagacidade dos magistrados. Depois, a tranquilidade havia‑se restabelecido nos espíritos, e com a tranquilidade o esquecimento dos excessos.

Até evitaram falar em tal os jornais da localidade, e a notícia da representação, que apareceu no «Memorial de Quiquendone», não fez alusão alguma àquele estado febril de toda uma sala.

Mas, se a cidade readquiria a fleuma habitual, se se tornava, na aparência, flamenga como antes, conhecia‑se que o carácter e o temperamento dos seus habitantes se iam pouco a pouco modificando. Era para dizer, como dizia Domingos Custos, que lhes nasciam nervos.

Expliquemo‑nos.

Esta mudança incontestável e incontestada só se dava em certas condições. Quando os quiquendonianos iam pelas ruas e praças da cidade, ao longo do Vaar, ao ar livre, continuavam a ser aquelas excelentes criaturas, frias e metódicas, de outrora. Do mesmo modo, quando se metiam em casa, uns entregando‑se a trabalhos manuais, outros a trabalhos da cabeça, os primeiros não faziam nada, os segundos não pensavam. A sua vida privada era inerte, silenciosa, vegetativa como em outros tempos. Nenhuma altercação, nenhuma zanga no lar doméstico, nenhuma aceleração nos movimentos do coração, nenhuma sobreexcitação da medula encefálica. A média das pulsações continuava a ser a que fora nos bons tempos: de cinquenta e duas por minuto.

Mas, fenómeno absolutamente inexplicável, capaz de lograr a sagacidade dos mais hábeis fisiologistas da época! Se os habitantes de Quiquendone não se modificavam na vida privada, metamorfoseavam‑se pelo contrário visivelmente na vida comum, a propósito das relações que uma tal vida origina.

Por isso, reuniam‑se num edifício público? Já a coisa não'corria bem, conforme a expressão do comissário Passauf.

Na Bolsa, na casa da Câmara, no anfiteatro da Academia, nas sessões do Conselho e nas reuniões dos sábios, dava‑se uma espécie de revivificação, apoderava‑se uma singular sobreexcitação dos circunstantes.

No fim de uma hora havia já azedume nas palavras. No fim de duas horas, a discussão degenerava em disputa. Esquentavam‑se as cabeças, e passavam às alusões pessoais. Até na igreja, durante a prédica, os fiéis não podiam ouvir com sangue‑frio o ministro van Stahel, que também, pela sua parte, se agitava na cadeira e os admoestava mais severamente do que tinha por costume.

Afinal, este estado de coisas originou infelizmente alterações mais graves que as do médico Custos e do advogado Schut, e, se não foi precisa a intervenção da autoridade, foi porque os desordeiros, quando se recolhiam a casa, encontravam ali com a tranquilidade o esquecimento de todas as ofensas feitas e recebidas.

Contudo esta particularidade não chegou a impressionar aqueles espíritos, absolutamente incapazes de reconhecer o que se passava no seu íntimo. Só uma personagem, aquela mesma cujo cargo o Conselho pensava, havia trinta anos, em suprimir, o comissário civil Miguel Passauf, fizera reparo em que a sobreexcitação, nula nas casas particulares, se manifestava prontamente nos edifícios públicos, e perguntava a si mesmo, não sem alguma ansiedade, o que seria se aquele eretismo viesse a propagar‑se até às casas burguesas, e se a epidemia ‑ era o termo de que se servia ‑ se espalhasse nas ruas da cidade.

Então, adeus esquecimento de injúrias, adeus sossego, adeus intermitências no delírio, mas sim uma inflamação permanente que inevitavelmente atiraria os quiquendonianos uns contra os outros.

‑ Que sucederia então? ‑ perguntava com terror o comissário Passauf. ‑ Como reprimir aqueles furores selvagens? Como conter aqueles temperamentos excitados? Deixará então o meu cargo de ser uma sinecura, e não terá remédio o Conselho senão dobrar‑me o ordenado... salvo se for preciso prender‑me a mim mesmo... por infracção e desatenção à ordem pública!

Estes justos receios começaram a confirmar‑se. Da Bolsa, do templo, do teatro, da casa pública, da Academia, do mercado, o mal começou a fazer invasão na casa dos particulares, e isto em menos de quinze dias depois da terrível representação dos -"Huguenotes".

Foi em casa do banqueiro Collaert que se declararam os primeiros sintomas dessa epidemia que devastou a cidade inteira.

Esta rica personagem dava um baile, ou pelo menos uma «soirée» dançante, às notabilidades da cidade. Meses antes emitira um empréstimo de trinta mil francos, que fora subscrito nas três quartas partes, e, como reconhecimento a este acto financeiro, abrira os seus salões e dera uma festa aos seus compatriotas.

Sabe‑se o que são as recepções flamengas, puras e tranquilas, cuja animação é alimentada a cerveja e xaropes. Algumas conversas a respeito do tempo, o aspecto, o bom estado dos jardins, da cultura das flores e mais especialmente das tulipas; de tempos a tempos uma dança lenta e compassada como um minuete, por vezes uma valsa, mas uma dessas valsas alemãs em que não se dá mais que um giro por minuto e durante as quais os valsistas se abraçam a tamanha distância quanto o comprimento dos braços lhes permite, tais são ordinariamente estes bailes, que a alta sociedade de Quiquendone costumava frequentar.

A polca, apesar de ser posta em quatro tempos, procurara ali aclimatar‑se; mas os dançadores ficavam sempre para trás da música, por muito lentamente que se batesse o compasso, e não houve remédio senão desistir.

Nunca tinham tido animação inconveniente aquelas pacíficas reuniões, onde os rapazes e as meninas encontravam um prazer moderado e honesto. Mas, porque foi que naquela noite, em casa do banqueiro Collaert, os xaropes pareceram transformar‑se em vinhos generosos, em champanhe saltitante, em ponches incendiários? Porque é que para o meio da festa uma espécie de embriaguez inexplicável se apossou de todos os convidados? Porque se transformou em saltarelo o minuete? Porque apressaram o compasso os músicos da orquestra? Porque, à semelhança do teatro, as velas apresentaram um brilho fora do comum? Que corrente eléctrica invadia as salas do banqueiro? Por que razão os músicos se aproximaram, as mãos se apertaram mais convulsivamente, e alguns cavalheiros isolados se tornaram salientes, executando alguns passos atrevidos durante aquela dança pastoril, tão grave, tão solene, tão majestosa, tão decente?

Ah! que Édipo poderia responder a todas estas questões insolúveis? O comissário Passauf, presente à soirée, bem via vir a tempestade, mas não podia dominá‑la, não podia evitá‑la, e sentia uma espécie de embriaguez subir‑lhe ao cérebro. Todas as suas faculdades fisiológicas e afectivas criavam mais vigor.

Mais de uma vez o viram atirar‑se impetuosamente aos doces e varrer as bandejas como se acabasse de sair de uma demorada dieta.

A animação do baile ia aumentando. De todos os peitos saía uma espécie de zumbido abafado. Dançava‑se, valsava‑se a valer. Os pés agitavam‑se com um frenesi crescente.

Purpureavam‑se os rostos como faces de Sileno. Brilhavam os olhos como carbúnculos. Chegara ao mais alto grau a fermentação geral.

E quando a orquestra entoou a valsa «Freyschutz», quando esta valsa, tão alemã e de um movimento tão vagaroso, foi atacada a braços desenlaçados pelos dançadores, ah! deixou de ser uma valsa, foi um redemoinho desvairado, uma rotação vertiginosa, um voltear digno de ser dirigido por algum Mefistófeles batendo o compasso com um tição.

Em seguida, um galope, um galope infernal, que durou uma hora, sem que ninguém o pudesse desviar, sem que ninguém o pudesse suspender, arrastou na sua vertigem através das salas, dos salões, das antecâmaras, pelas escadas, da adega ao celeiro da opulenta residência, os mancebos, as jovens, os pais, as mães, os indivíduos de todas as idades, de todos os pesos, de ambos os sexos, o gordo Collaert, a senhora Collaert, os conselheiros, os magistrados, o juiz, e Niklausse, e a senhora van Tricasse, o burgomestre van Tricasse, e o próprio comissário Passauf, que nunca se pôde lembrar de quem fora o seu par durante aquela noite de embriaguez!

Ela, porém, é que nunca o esqueceu. E dali em diante tornou muitas vezes a ver em sonho o ardente comissário, enlaçando‑a com apaixonada ânsia. E ela era a amável titi‑Mancia!

 

Em que o Doutor Ox e o seu preparador Ygène

dizem apenas algumas palavras

 

‑ ENTÃO Ygène.

‑ Está tudo pronto! A colocação dos tubos acha-se concluída.

‑ Finalmente! Agora vamos operar em ponto grande, sobre as massas!

 

Em que se verá que a epidemia invadiu toda a

                  cidade e qual o efeito que ela produziu

 

DURANTE os meses que se seguiram, o mal, em vez de dissipar‑se, não fez senão aumentar e espalhar‑se. Das casas particulares a epidemia passou às ruas.

Já não era a mesma cidade de Quiquendone.

Fenómeno mais extraordinário ainda que os que até então tinham sido observados! Não só o reino animal, mas nem o próprio reino vegetal escapavam àquela influência.

Ordinariamente as epidemias são especiais. As que ferem o homem poupam os animais, as que atacam os animais poupam os vegetais. Nunca se viu um cavalo atacado de varíola nem um homem atacado de peste bovina, e os carneiros não apanham a doença das batatas.

Porém, em Quiquendone todas as leis da natureza pareciam transtornadas. Não só o carácter, o temperamento, as ideias dos habitantes de Quiquendone se haviam modificado, mas os próprios animais domésticos, cães ou gatos, bois ou cavalos, burros ou cabras, passavam por esta influência epidémica, como se o seu meio habitual tivesse sido mudado. As próprias plantas, se nos permitem a expressão, emancipavam‑se.

Efectivamente, nos jardins, nas hortas, nos vergéis, manifestavam‑se sintomas extremamente curiosos. As plantas trepadeiras trepavam com mais audácia. As que faziam cama bracejavam com mais vigor. Os arbustos tornavam‑se árvores. As sementes, apenas caíam na terra, germinavam, e no mesmo lapso de tempo ganhavam em polegadas o que outrora, nas circunstâncias mais favoráveis, ganhavam em linhas. Os espargos atingiam dois pés de altura; as alcachofras chegavam ao tamanho de melões, os melões ao tamanho de abóboras, as abóboras à grossura de abóboras‑meninas, e estas pareciam o sino do campanário, que media, com a fortuna, nove pés de diâmetro!

As couves lembravam árvores e os cogumelos chapéus de sol.

Os frutos não tardaram a seguir o exemplo dos legumes. Só duas pessoas davam conta de um morango; eram precisas quatro para comer uma pêra. Os cachos de uvas lembravam aquele cacho fenomenal pintado pelo Poussin no seu «Regresso dos Enviados à Terra Prometida».

Sucedia o mesmo com as flores. Violetas de grandes dimensões espalhavam nos ares perfumes penetrantes; rosas exageradas resplandeciam com mais vivas cores; os lilases formavam em poucos dias cerrados impenetráveis; gerânios, margaridas, dálias, camélias, rododendros, invadindo as alamedas, sufocavam‑se mutuamente! E as tulipas, as estimadas liliáceas que são o enlevo dos flamengos, que de comoções não causaram aos amadores!

O respeitável van Bristom quase caiu desmaiado quando um dia viu no seu jardim uma simples tulipa gesneriana enorme, monstruosa, gigantesca, cujo cálice servia de ninho a uma família inteira de pintarroxos!

Acudiu toda a cidade para ver aquela tulipa fenomenal e conferiu‑se‑lhe o nome de tulipa quiquendonia.

Mas, ai!, se estas plantas, estes frutos e estas flores cresciam a olhos vistos, se todos os vegetais tomavam proporções colossais, se a vivacidade das suas cores e dos seus perfumes embriagava o olhar e o olfacto, em compensação murchavam depressa. Queimava‑os rapidamente o ar que absorviam, e depressa morriam exaustos, murchos, devorados.

Tal foi a sorte da famosa tulipa, que definhou após poucos dias de esplendor.

Sucedeu o mesmo com os animais domésticos, desde o cão de casa até o porco do chiqueiro, desde o canário de gaiola até o peru no pátio das residências quiquendonianas.

Convém dizer que em tempos ordinários estes não eram menos fleumáticos que os seus donos. Cães ou gatos não viviam, vegetavam. Nunca se lhes observava um frémito de prazer, ou um movimento de cólera. Mexiam tanto a cauda como se esta fosse de bronze. Desde tempos imemoriais que não se citava nem uma dentada nem uma unhada. Quanto aos cães danados, consideravam‑nos como animais imaginários, que se deviam incluir, como os grifos e outros que tais, na caterva do Apocalipse.

Mas, durante os poucos meses de que procuramos reproduzir os menores incidentes, que mudança! Cães e gatos começaram a mostrar dentes e unhas. Viu‑se pela primeira vez um cavalo tomar o freio nos dentes e desbocar‑se nas ruas de Quiquendone, um boi precipitar‑se de fronte baixa sobre um dos seus congéneres, um burro deitar‑se no chão, de pernas para o ar, na praça de Saint Enurph, e soltar uns zurros que não pareciam de um bruto, e um carneiro, um simples carneiro, defender valentemente do cutelo do magarefe as costelas que trazia consigo!

O burgomestre van Tricasse viu‑se obrigado a publicar editais contra os animais domésticos, que, atacados de loucura, comprometiam a segurança das ruas de Quiquendone.

Mas, ai, se os animais eram loucos, os homens não tinham mais juízo.

O flagelo não poupou idade alguma.

Tornaram‑se insuportáveis as crianças, elas que tão fáceis eram de criar, e o supremo juiz Honorato Syntax teve de castigar corporalmente a sua tenra primogenitura.

No colégio houve uma espécie de motim, e os dicionários traçavam deploráveis trajectórias nas aulas. Já não era possível conservar seguros os alunos, e depois a sobre‑excitação era tal que chegava aos próprios professores, que os cobriam de extravagantes epítetos.

Outro fenómeno! Todos os quiquendonianos, tão sóbrios até então, e que faziam das espumas a sua principal alimentação, praticavam verdadeiros excessos na comida e bebida. Não bastava o seu regime ordinário. Os estômagos transformavam‑se em abismos, e os abismos era preciso enchê‑los com os meios mais enérgicos.

Triplicou o consumo da cidade. Em vez de duas refeições tomavam‑se seis. Apontavam‑se numerosas indigestões. O conselheiro Niklausse não podia saciar a fome.

Não podia saciar a sede o burgomestre van Tricasse, e já não saía de uma espécie de meia embriaguez raivosa.

Afinal os sintomas mais assustadores foram‑se manifestando e multiplicando de dia para dia.

Encontrava‑se pelas ruas gente embriagada, e muitas vezes, entre esta, pessoas importantes.

As gastralgias deram imenso que fazer ao médico Domingos Custos, como também as neuroflogoses, o que evidentemente demonstrava a que extraordinário grau de irritabilidade tinha chegado a população de Quiquendone.

Houve desordens, altercações quotidianas, nas ruas outrora tão desertas, hoje tão frequentadas, de Quiquendone, porque ninguém já podia conservar‑se em casa.

Foi preciso criar uma polícia nova para conter os perturbadores da ordem pública.

Estabeleceu‑se uma nova prisão na casa da Câmara; estava sempre cheia de gente. O comissário Passauf já não podia consigo.

Concluiu‑se um casamento em dois meses ‑ o que nunca se vira. Sim, o filho do preceptor Rupp desposou a filha da formosa Augustina de Rovere, e isto cinquenta e sete dias depois de ter pedido a mão da noiva!

Decidiram‑se outros casamentos, que em melhores tempos andariam em projecto anos inteiros. O burgomestre custava‑lhe a crer o que via, e sentia a sua filha Suzel escapar‑lhe das mãos.

Quanto à querida titi‑Mancia, atreveu‑se a sondar o comissário Passauf a respeito de uma união que lhe parecia reunir todos os elementos de felicidade: riqueza, honradez e mocidade!...

Finalmente ‑ para cúmulo de abominação ‑, houve um duelo! Sim, um duelo à pistola, com pistola de cavalaria, a setenta e cinco passos.

E entre quem?

Os leitores com dificuldade o hão‑de acreditar.

Entre Frantz Niklausse, o manso pescador à linha, e o filho do opulento banqueiro, o jovem Simão Collaert.

E a causa do duelo era a própria filha do burgomestre, pela qual Simão se sentia louco de amor e que não queria ceder às pretensões de um rival audacioso!

 

Em que os quiquendonianos tomam

                           uma resolução heróica

 

BEM se vê em que estado deplorável se achava a população de Quiquendone. As cabeças fermentavam. Ninguém se conhecia nem se reconhecia. As pessoas mais pacíficas tinham‑se tornado desordeiras.

Não se podia olhar para qualquer de soslaio. Mandava logo testemunhas.

Alguns deixaram crescer o bigode, e, destes, os mais belicosos retorciam as guias.

Nestas condições, a administração da cidade, a manutenção da ordem pública nas ruas e nos edifícios públicos tornavam‑se muito difíceis, porque os diversos serviços não tinham sido organizados para um tal estado de coisas. O burgomestre ‑ aquele digno van Tricasse que nós conhecemos tão pacífico, tão falto de animação, tão incapaz de tomar uma decisão qualquer ‑, o burgomestre andava sempre exaltado. Atroava a casa com os seus berros. Dava vinte ordens por dia, ralhava com os seus agentes, e até se mostrava disposto a executar por si mesmo os actos da sua administração.

Ah!, que mudança! Amável e tranquila morada do burgomestre, excelente residência alemã, onde estava o teu sossego de outrora?

Que cenas domésticas ali não se sucediam agora? A senhora van Tricasse tornara‑se impertinente, rabugenta e caprichosa. O marido o muito que conseguia era berrar mais alto do que ela, mas não fazê‑la calar. O génio irascível daquela boa dama pegava por tudo. Estava tudo parado! Não se fazia nada. Demoras para tudo! Acusava titi‑Mancia, sua cunhada, que, de não melhor humor, lhe respondia asperamente.

Como era natural, o senhor van Tricasse punha‑se do lado da criada Lotché, conforme se vê nas casas mais respeitáveis.

Daqui, exasperação permanente da senhora burgomestra, objurgatórias, discussões, disputas, cenas que eram um nunca acabar.

‑ Mas o que é isto, o que é isto? ‑ exclamava o desgraçado burgomestre. ‑ Que fogo é este que me devora? Estaremos nós possessos? Ah! senhora van Tricasse, senhora van Tricasse, a senhora há‑de acabar por me fazer morrer antes de si e faltar deste modo a todas as tradições da nossa família!

Esta última parte da frase deve ser inteligível para o leitor, porque ainda não há‑de estar esquecido daquela particularidade bastante extraordinária de dever o senhor van Tricasse ficar viúvo e tornar a casar, para não interromper a cadeia das conveniências.

Esta disposição dos espíritos produziu ainda outros efeitos bastante curiosos e que importa indicar. Uma tal sobreexcitação, cuja causa nos tem escapado até aqui, originou várias modificações fisiológicas, pelas quais não se devia esperar. Talentos, destinados a ficarem desconhecidos, sobressaíam de entre o vulgo. Revelaram‑se várias aptidões. Alguns artistas, até então medíocres, apareceram sob diverso aspecto. Tanto na política como nas letras surgiram celebridades. Nas mais árduas discussões se criaram oradores que inflamaram em toda a casta de discussões um auditório aliás disposto a inflamar‑se.

Das sessões do Conselho passou o movimento às reuniões políticas, e fundou‑se em Quiquendone um clube, ao mesmo tempo que vinte jornais. O «Investigador de Quiquendone», o «Imparcial de Quiquendone», o «Radical de Quiquendone», o «Intransigente de Quiquendone», escritos com furor, levantavam as mais graves questões sociais.

Mas a que propósito? A propósito de tudo e de nada; a propósito da torre de Audenarde que tombava, que uns queriam derribar e outros endireitar; a propósito dos editais da polícia publicados pelo Conselho, a que alguns exaltados queriam resistir; a propósito da limpeza das ruas e da conservação dos canos, etc.

E, depois, se os ardentes oradores se limitassem à administração da cidade! Mas não; levados pela corrente, não ficavam por ali, e, se a Providência não interviesse, iam arrastar, impedir, precipitar os seus semelhantes nos perigos da guerra.

Havia oitocentos a novecentos anos que Quiquendone tinha no seu saco um casus belli da melhor qualidade, mas guardava‑o extremosamente, como uma relíquia, e já havia receios de se estragar e não poder servir.

Eis a que propósitos se produziu aquele casus belli.

Geralmente ignora‑se que Quiquendone é vizinha, naquele sossegado recanto da Flandres, da pequena cidade de Virgamen.

Confinam um com o outro os territórios daquelas duas comunas.

Em 1135, um pouco antes da partida do conde de Baudoin para as cruzadas, uma vaca de Virgamen ‑ note‑se bem, não a vaca de um habitante, mas uma vaca comunal ‑ veio pastar no território de Quiquendone. O desgraçado ruminante o muito que lambeu do prado foi três vezes o comprimento da própria língua.

Mas o delito, o abuso, o crime, como queiram, foi cometido, e confirmado no auto que então se levantou, porque naquele tempo já começavam os magistrados a saber escrever.

‑ Nós nos vingaremos quando chegar ocasião disso ‑ disse simplesmente Natalis van Tricasse, o trigésimo segundo predecessor do actual burgomestre ‑ e os virga‑menenses não perderão por esperar!

Os virgamenenses estavam prevenidos. Deixaram‑se ficar na expectativa, fiados, não sem razão, em que a lembrança da injúria enfraqueceria com o tempo; efectivamente, durante muitos séculos, viveram em muito bons termos com os seus semelhantes de Quiquendone.

Não contavam, porém, com aquela epidemia singular

que, operando uma completa transformação no carácter dos seus vizinhos, despertou naqueles corações a vingança adormecida.

Foi no clube da Rua Monstrelet que o irrequieto advogado Schut, atirando de chofre a questão à face dos seus ouvintes, os exaltou empregando as expressões e as metáforas que são de uso nestas circunstâncias. Lembrou o delito, a ofensa feita à comuna de Quiquendone, e para a qual uma nação ciosa dos seus direitos não podia admitir prescrição.

Mostrou a injúria ainda viva, a ferida ainda a verter sangue; referiu‑se a certos movimentos de cabeça particulares aos habitantes de Virgamen, e que davam a conhecer o desprezo em que estes tinham os habitantes de Quiquendone; suplicou aos seus compatriotas que, inconscientemente talvez, haviam suportado durante séculos tão mortal injúria, implorou aos filhos da velha cidade que não tivessem dali em diante outro objectivo que não fosse obter uma reparação estrondosa!

Finalmente, fez um apelo a todas as forças vivas da nação!

O entusiasmo com que foram acolhidas estas palavras, tão novas para os ouvidos quiquendonianos, sente‑se mas não se pode descrever.

Todos os ouvintes se ergueram e, com os braços estendidos, pediram a guerra em altos brados.

Nunca o advogado Schut obtivera tal êxito, e devemos confessar que fora deveras eloquente.

O burgomestre, o conselheiro, todas as personagens de importância que assistiam àquela memorável sessão, debalde tentariam conter o ímpeto popular.

Depois, nem tinham desejos disso, porque bradavam, se não mais, pelo menos tão alto como os outros: ‑À fronteira! À fronteira!

Ora, como a fronteira estava apenas a três quilómetros dos muros de Quiquendone, é incontestável que os virga‑menenses corriam risco de se verem invadidos antes de terem tempo de se reconhecerem.

Não obstante, o respeitável farmacêutico Josse Lie‑frinck, que fora o único que naquelas graves circunstâncias conservara o seu bom senso, quis fazer ver que faltavam espingardas, artilharia e generais.

Responderam‑lhe, agredindo‑o ao mesmo tempo, que generais, espingardas e peças de artilharia improvisavam‑se e que o direito incontestável e o amor pátrio bastavam a tornar irresistível um povo.

Nisto, o próprio burgomestre tomou a palavra, e num improviso sublime tratou como mereciam os indivíduos pusilânimes que disfarçam o medo sob o véu da prudência, e este véu rasgou‑o ele com a mão patriota.

Neste momento foi de recear que a sala viesse abaixo com aplausos.

Pediu‑se que se procedesse à votação.

Esta fez‑se por meio de aclamações, e os gritos redobraram:

‑ A Virgamen! A Virgamen!

Então o burgomestre comprometeu‑se a pôr os exércitos em movimento, e, em nome da cidade, prometeu ao general que, se vencesse, as honras do triunfo lhe seriam endereçadas, como era uso no tempo dos Romanos.

Entretanto, o farmacêutico Josse Liefrinck, que era um cabeçudo e que não se dava por vencido, apesar de realmente já o estar, quis ainda apresentar uma observação.

Fez notar que em Roma as honras do triunfo só se concediam aos generais vencedores quando tinham morto cinco mil homens ao inimigo.

‑ Então! então! ‑ exclamou o auditório em delírio.

‑ ... É que, elevando‑se apenas a três mil quinhentos e setenta e cinco habitantes a população da comuna de Virgamen, tornar‑se‑ia difícil, pelo menos, matar a mesma pessoa muitas vezes...

Não deixaram o pobre arrazoador concluir. Puseram‑no na rua, todo moído e contuso.

‑ Cidadãos ‑ interveio então Silvestre Plumacher, que vendia especiarias por miúdo ‑; cidadãos, apesar do que disse aquele cobarde boticário, comprometo‑me, eu sozinho, a matar cinco mil virgamenenses, se quiserem aceitar os meus serviços.

‑ Cinco mil e quinhentos! ‑ exclamou um patriota mais resoluto.

‑ Seis mil e seiscentos! ‑ tornou o especieiro.

‑ Sete mil! ‑ exclamou o confeiteiro da Rua Hemling, João Orbideck, que estava em via de fazer a sua fortuna nas espumas.

‑ Adjudicado! ‑ bradou o burgomestre van Tricasse, vendo que ninguém oferecia maior lanço.

E eis como o confeiteiro veio a ser o general em chefe das tropas de Quiquendone.

 

Em que o preparador Ygène apresenta um

                  parecer razoável, que é com vivacidade

                  rejeitado pelo Doutor Ox

 

- ENTÃO, mestre? ‑ perguntava no dia seguinte o preparador Ygène, deitando baldes de ácido sulfúrico nas filas das suas enormes pilhas.

‑ Então ‑ tornou o Doutor Ox ‑, não tinha razão? Veja de que dependem, não só o desenvolvimento físico de uma nação inteira, como a sua moralidade, a sua dignidade, o seu talento e o seu senso político. É uma simples questão de moléculas...

‑ Decerto, mas...

‑ Mas o quê?...

‑ Não acha que as coisas foram longe de mais, e que não convém excitar demasiado esses pobres diabos?

‑ Não, não! ‑ exclamou o doutor. ‑ Não! Hei‑de ir até ao fim.

‑ Como quiser, mestre. Contudo, a experiência parece‑me concludente, e parece‑me que seria tempo de...

‑ De?...

‑ De fechar a torneira.

‑ Ora essa! ‑ exclamou o Doutor Ox. ‑ Lembre‑se disto: que o esgano!

 

Em que se prova mais uma vez que de um lugar

elevado se dominam todas as misérias humanas

 

- Diz então? ‑ perguntou o burgomestre van Tricasse ao conselheiro Niklausse.

‑ Digo que esta guerra é indispensável ‑ respondeu o conselheiro em tom firme ‑ e que é chegada a ocasião de vingarmos as injúrias.

‑ Pois bem, eu ‑ acrescentou com azedume o burgomestre ‑ repito‑lhe que, se a população de Quiquendone não aproveitasse esta ocasião de reivindicar os seus direitos, seria indigna do seu nome.

‑ Eu sustento que devemos sem demora reunir as nossas coortes e fazê‑las avançar.

‑ Com efeito!, senhor, com efeito! ‑ replicou van Tricasse ‑, e é a mim que o senhor fala desse modo?

‑ Ao senhor mesmo, senhor burgomestre, e ouvirá a verdade, por muito dura que lhe pareça.

‑ E também o senhor a ouvirá, senhor conselheiro ‑ volveu van Tricasse fora de si ‑, porque sairá melhor da minha boca que da sua! Sim, senhor, sim, toda a demora seria desonrosa. Há muitos anos que a cidade de Quiquendone espera o momento de tirar a sua desforra, e diga o senhor o que disser, convenha‑lhe ou não, marcharemos contra o inimigo.

‑ Ah!, encara as coisas assim? ‑ observou o conselheiro Niklausse com desabrimento. ‑ Pois nós lá iremos sem o senhor, se não lhe aprouver o vir connosco.

‑ O lugar de um burgomestre é na primeira fila, senhor.

‑ E o de um conselheiro também, senhor.

‑ O senhor insulta‑me, opondo‑se abertamente a todas as minhas vontades ‑ exclamou o burgomestre, cujos punhos mostravam uma tendência para se transformarem em projécteis percutantes.

‑ E o senhor insulta‑me igualmente, duvidando do meu patriotismo ‑ bradou Niklausse, que também se pusera em bateria.

‑ Digo‑lhe, senhor, que o exército quiquendoniano se porá em marcha dentro de dois dias!

‑ E eu repito‑lhe que em menos de quarenta e oito horas estaremos a caminho do perigo e da glória!

Por este fragmento de conversa é fácil observar que os interlocutores sustentavam exactamente a mesma ideia. Ambos queriam guerra, mas, como a sua excitação os levava a disputar, Niklausse não escutava van Tricasse e van Tricasse não escutava Niklausse.

Se fossem de opinião contrária sobre esta grave questão, e se o burgomestre quisesse a guerra e o conselheiro quisesse a paz, não teria sido mais violenta a altercação.

Os dois antigos amigos lançavam um ao outro olhares ferozes. O movimento acelerado do coração, a face avermelhada, as pupilas contraídas, o tremor dos músculos, a voz em que havia rugidos, tudo indicava que estavam prestes a precipitar‑se um sobre o outro.

Mas o toque sonoro de um relógio de parede deteve felizmente os adversários no momento em que iam agredir‑se.

‑ Eis a hora! ‑ exclamou o burgomestre.

‑ Que hora? ‑ perguntou o conselheiro. ‑ A hora de ir à torre de rebate.

‑ É justo e, quer lhe agrade ou não, eu irei, senhor!

‑ Eu também.

‑ Partamos!

‑ Partamos!

Estas últimas palavras poderiam fazer supor que ia haver um duelo, e que os adversários se dirigiam para o lugar do combate; mas não sucedia assim.

Combinara‑se que o burgomestre e o conselheiro ‑ que afinal eram as duas primeiras notabilidades da terra ‑ se dirigissem à casa da Câmara, subissem à torre, muito elevada, que a dominava, e observassem os arredores, a fim de se tomarem as melhores disposições estratégicas que pudessem proteger a marcha das tropas.

Apesar de ambos estarem muito de acordo a esse respeito, não cessaram durante o trajecto de altercar com a mais repreensível vivacidade. Ouviam‑se‑lhes os berros nas ruas por onde passavam, mas, como todos os transeuntes tinham subido àquele diapasão, parecia natural o seu exaspero, e não lhes davam importância.

Em circunstâncias tais, um homem sossegado houvera parecido um monstro.

Quando chegaram à porta da torre, o burgomestre e o conselheiro achavam‑se no paroxismo do furor.

Já não estavam vermelhos, estavam pálidos. Aquela temível discussão, apesar de se acharem de acordo, produzira‑lhes alguns espasmos nas vísceras, e é sabido que a palidez prova que a cólera atingiu o máximo limite.

Ao pé da estreita escada da torre houve uma verdadeira explosão. Quem devia passar adiante? Quem devia ser o primeiro a pôr o pé nos degraus da escada de caracol?

Obriga‑nos a verdade a dizer que houve encontrão, e que o conselheiro Niklausse, esquecendo tudo o que devia ao seu superior, ao magistrado supremo da cidade, empurrou violentamente van Tricasse e foi o primeiro que se precipitou na escura espiral.

Ambos começaram a subir a quatro e quatro, mimoseando‑se mutuamente com os mais desagradáveis e furibundos epítetos.

Era para fazer recear que se desse algum terrível desenlace no alto daquela torre, que ficava a trezentos e cinquenta e sete pés do solo da cidade.

Mas dali a nada os dois inimigos achavam‑se esfalfados, e no fim de um minuto, no octogésimo degrau, já subiam pesadamente e respirando com ruído.

Mas então ‑ seria consequência do cansaço? ‑, se a sua cólera não desapareceu, deixou pelo menos de se manifestar por uma série de qualificativos inconvenientes.

Estavam calados e ‑ coisa singular ‑ parecia que diminuía a sua exaltação à medida que se elevavam acima da cidade. Ia‑lhes como que sossegando o espírito. A efervescência do seu cérebro acalmava‑se‑lhes como a fervura de uma cafeteira que se tira do lume. Porquê?

Não podemos dar resposta a este porquê. A verdade, porém, é que chegando a um certo patamar, duzentos e sessenta e seis pés acima do nível da cidade, os adversários sentaram‑se, e, verdadeiramente mais sossegados, olharam um para o outro sem cólera.

‑ Como isto é alto! ‑ exclamou o burgomestre, passando o lenço pelas faces rubicundas.

‑ Muito! ‑ confirmou o conselheiro. ‑ Bem sabe que excedemos catorze pés São Miguel de Hamburgo.

‑ Sei muito bem ‑ acrescentou o burgomestre, com uns ares de vaidade, bem perdoável na primeira autoridade de Quiquendone.

Instantes depois, as duas notabilidades continuavam a sua ascensão, relanceando curiosos olhares através das seteiras abertas nas paredes da torre.

O burgomestre pusera‑se à frente, sem que o conselheiro fizesse a mais pequena observação.

Sucedeu até que ao fim de trezentos e quatro degraus, sentindo‑se van Tricasse absolutamente derrancado, Niklausse ajudou‑o empurrando‑o complacentemente pelos rins.

O burgomestre consentiu no que ele fazia, e quando chegou à plataforma da torre dirigiu‑se‑lhe afàvelmente nos seguintes termos:

‑ Obrigado, Niklausse, eu lho pagarei.

Havia pouco, em baixo, eram dois animais ferozes que se queriam dilacerar; agora eram dois amigos que chegavam ao cume da torre.

Estava magnífico o tempo. Corria o mês de Maio. O sol absorvera todos os vapores. Que atmosfera pura e límpida! O olhar distinguia os mais pequenos objectos a uma distância considerável.

A poucas milhas avistavam‑se os muros de deslumbrante alvura, os telhados vermelhos que surgiam em bico num ou noutro ponto, os campanários banhados de luz da cidade de Virgamen.

E era ela que estava de antemão destinada a todos os horrores do saque e do incêndio!

O burgomestre e o conselheiro tinham‑se sentado ao lado um do outro, num banquinho de pedra que havia ali, como duas excelentes pessoas cujas almas se confundem em estreita simpatia.

Ao mesmo tempo que respiravam com força, olhavam em volta. Após alguns instantes de silêncio o burgomestre exclamou:

‑ Como é belo!

‑ Oh!, admirável! ‑ acrescentou o conselheiro. •‑ Não lhe parece, meu digno amigo van Tricasse, que a humanidade foi destinada mais a habitar nestas alturas do que a rastejar na crusta do Globo?

‑ Sou do mesmo parecer, honrado Niklausse ‑ respondeu o burgomestre. ‑ Compreende‑se melhor o sentimento que dimana da natureza. Aspiramo‑lo por todos os sentidos. É nestas altitudes que os filósofos se deviam formar, era aqui que os sábios deveriam viver, acima das misérias deste mundo!

‑ Damos uma volta pela plataforma? ‑ propôs o conselheiro.

‑ Dêmos uma volta pela plataforma ‑ aquiesceu o burgomestre.

E os dois amigos, de braço dado e metendo grandes intervalos entre as perguntas e as respostas, puseram‑se a examinar todos os cantos do horizonte.

‑ Há pelo menos dezassete anos que eu não subia a esta torre ‑ disse van Tricasse.

‑ Parece‑me que nunca aqui subi ‑ declarou o conselheiro Niklausse ‑ e é pena, porque desta altura o espectáculo é sublime! Olhe, meu amigo, o lindo rio Vaar que serpenteia por entre as árvores!

‑ E, mais além, as alturas de Santa Hermandad! Como fecham graciosamente o horizonte! Olhe aquele matiz de árvores verdejantes que a natureza tão pitorescamente bordou! Ah!, a natureza! A natureza, Niklausse! Poderá jamais a mão do homem rivalizar com ela?

‑ É encantador, meu excelente amigo ‑ tornava o conselheiro. ‑ Olhe os rebanhos a banquetearem‑se nos prados verdejantes, os bois, as vacas, os carneiros...

‑ E os lavradores que vão para o campo! Parecem pastores da Arcádia. Só lhes falta a flauta pastoril.

‑ E sobre toda esta fértil campina, o formoso céu azul puro de todo o vapor! Ah! Niklausse, aqui um homem tornava‑se poeta! Olhe, não compreendo porque é que São Simão o Estilita não saiu um dos melhores poetas do mundo!

‑ Talvez porque a sua coluna não era bastante alta! ‑ lembrou o conselheiro, sorrindo meigamente.

Neste momento o carrilhão de Quiquendone pôs‑se em movimento. Os sinos tocaram uma das suas árias mais límpidas e melodiosas.

Os dois amigos ficaram em êxtase.

Afinal o burgomestre disse com a sua voz sossegada:

‑ Mas o que viemos nós aqui fazer ao alto desta torre, amigo Niklausse?

‑ Efectivamente ‑ respondeu o conselheiro ‑, nós deixámo‑nos levar pelos devaneios...

‑ Mas o que viemos aqui fazer? ‑ repetiu o burgomestre.

‑ Viemos respirar este ar puro que as fraquezas humanas não viciaram ‑ explicou Niklausse.

‑ Pois então tornemos a descer, amigo Niklausse.

‑ Tornemos a descer, amigo van Tricasse.

As duas notabilidades deitaram um último olhar ao esplêndido panorama que se desdobrava diante delas.

O burgomestre tomou a dianteira e começou a descer a passo lento e cadenciado.

O conselheiro seguiu‑o alguns passos atrás.

Chegaram ao patamar, onde tinham parado à subida.

Já começavam a purpurear‑se‑lhes as faces.

Depois de pararem por um instante, continuaram a descer.

No fim de um minuto, van Tricasse pediu a Niklausse que moderasse o passo, porque o sentia em cima das costas, o que o incomodava.

Vinte degraus mais abaixo, fez mais do que incomodá‑lo, porque ordenou ao conselheiro que parasse, a fim de poder tomar alguma dianteira.

O conselheiro respondeu que não estava disposto a ficar de perna no ar à espera de que o burgomestre fizesse o que lhe apetecia, e continuou o seu caminho.

Van Tricasse replicou com uma frase dura.

O conselheiro treplicou com uma alusão ofensiva à idade do burgomestre, destinado pelas tradições da família a meter‑se em segundas núpcias.

O burgomestre desceu mais vinte degraus, prevenindo muito claramente o conselheiro Niklausse de que as coisas não ficariam assim.

Niklausse replicou que, fosse como fosse, ele é que havia de ir adiante, e, como a escada era muito estreita, houve colisão entre as duas respeitáveis personagens, que então se achavam numa escuridão profunda.

As palavras «bruto» e «malcriado» foram os mais doces epítetos que então se trocaram.

‑ Há‑de‑se ver, toleirão ‑ gritava o burgomestre ‑, que figura fazes nesta guerra e em que lugar vais?

‑ Hei‑de ir mais à frente que tu, imbecil ‑ retrucou Niklausse.

A isto seguiram‑se outros gritos, e dir‑se‑ia que dois corpos vinham de roldão pela escada.

Que se passou? Porque houve uma mudança tão repentina na disposição das duas personagens?

Porque é que os dois cordeiros da plataforma se metamorfosearam em dois tigres duzentos pés mais abaixo?

Fosse o que fosse, o guarda da torre, ao ouvir um tal barulho, veio abrir a porta inferior, exactamente no momento em que os dois adversários, contusos, com os olhos a saírem‑lhes das órbitas, arrancavam os cabelos um ao outro.

‑ Há‑de dar‑me uma satisfação! ‑ exclamou o burgomestre, chegando o punho ao nariz do adversário.

‑ Quando quiser ‑ berrou o conselheiro Niklausse, dando ao pé direito um temível balanço.

O guarda, que também estava desesperado, não se sabe porquê, achou muito natural esta cena de provocação.

Ignora‑se que sobreexcitação pessoal o impelia a intro meter‑se na questão.

Conteve‑se, porém, e foi espalhar por todo o bairro que ia haver um duelo entre o burgomestre van Tricasse e o conselheiro Niklausse.

 

Em que as coisas vão tão longe que os habitantes

de Quiquendone, leitores e o próprio autor,

exigem um imediato desenlace

 

SABENDO o que se passou, o Doutor Ox não pôde conter a alegria. Resistiu aos argumentos do seu preparador, que não gostava do caminho que as coisas iam tomando. Depois, também eles participavam da exaltação geral.

Não estavam menos excitados que o resto da população, e chegaram a desavir‑se exactamente como o conselheiro e o burgomestre.

Entretanto, uma questão sobrelevava a todas as mais e fizera adiar os duelos projectados. Era a questão virgamenense.

Ninguém tinha direito de derramar o seu sangue inutilmente quando o sangue pertencia até à última gota à pátria em perigo.

Efectivamente eram graves as circunstâncias, e não se podia recuar.

Apesar de todo o ardor bélico que o animava, o burgomestre entendeu não dever arremeter contra o inimigo sem o prevenir.

Por intermédio do guarda campestre, o senhor Hottering, emprazou os virgamenenses a darem‑lhe uma reparação da transgressão cometida em 1135, no território de Quiquendone.

A princípio as autoridades de Virgamen não puderam adivinhar qual o assunto de que se tratava, e o guarda campestre, apesar do seu carácter oficial, foi despedido com muita sem‑cerimónia.

Van Tricasse enviou‑lhes então um ajudante de campo do general confeiteiro, o cidadão Hildevert Shuman, fabricante de confeitos, homem muito firme, muito enérgico, que levou às autoridades de Virgamen a própria minuta do auto redigido em 1135 por ordem do burgomestre Natalis van Tricasse.

As autoridades de Virgamen desataram a rir, e sucedeu ao ajudante de campo o mesmo que ao guarda campestre.

Então o burgomestre reuniu os habitantes de mais importância. Uma carta, notável e vigorosamente redigida, foi enviada ao inimigo à maneira de ultimato.

O casus belli era apresentado muito terminantemente naquele documento, e concedia‑se à cidade de Virgamen um prazo de vinte e quatro horas para que pudesse reparar a ofensa feita à cidade de Quiquendone.

A carta foi enviada ao seu destino e voltou dentro em pouco feita em pedaços, os quais constituíam outros tantos insultos.

Os virgamenenses conheciam havia muito a longanimidade dos quiquendonianos, e zombavam deles, do seu casus belli e do seu ultimato.

Só restava uma coisa: recorrer à sorte das armas, invocar o deus das batalhas, e, segundo o processo prussiano, caírem sobre os virgamenenses antes que eles estivessem de todo preparados.

Foi isto o que decidiu o conselheiro numa sessão solene, em que os gritos, as objurgatórias, os gestos ameaçadores se cruzavam com extrema violência.

Uma assembleia de doidos, uma reunião de possessos, um clube de endemoninhados não seriam mais tumultuosos.

Assim que se tornou pública a declaração de guerra, o general João Orbideck reuniu as suas tropas, ou, por outra, dois mil trezentos e noventa e três combatentes, tirados de uma população de duas mil e trezentas e noventa e três almas.

Mulheres, crianças, velhos, reuniram‑se aos homens feitos.

Todo o objecto cortante ou contundente se transformou em arma.

Fez‑se requisição das espingardas existentes na cidade. Encontrando‑se cinco, das quais duas sem cão, distribuíram‑se à vanguarda.

Compunha‑se a artilharia da velha colubrina do castelo, tomada em 1336 no ataque de Quesnoy, uma das primeiras bocas de fogo de que a história faz menção, e que não atirava havia cinco séculos. Demais, não havia projécteis que se lhe metessem, o que era uma fortuna para os serventes da dita peça, mas, tal como era, este engenho podia impor receio ao inimigo.

Quanto às armas brancas, foram‑se buscar ao museu de antiguidades machados de sílex, elmos, maças de armas, frâncicas, bisar mas, partazanas, chuços, durindanas, etc., e também se recorreu aos arsenais particulares conhecidos pelos nomes de copas e cozinhas.

Mas a coragem, o direito, o ódio ao estrangeiro, o desejo de vingança, deviam suprir a falta de engenhos mais aperfeiçoados e substituir ‑ pelo menos assim se esperava ‑ as metralhadoras modernas e as peças de carregar pela culatra.

Passou‑se uma revista. Nenhum cidadão faltou ao apelo. O general Orbideck, pouco firme no seu cavalo, que era um animal manhoso, caiu três vezes em frente do seu exército.

Levantou‑se sem sofrimento algum, o que se julgou um favorável agouro.

O burgomestre, o conselheiro, o comissário de polícia, o juiz, o preceptor, o banqueiro, o reitor, finalmente todas as notabilidades da cidade, marchavam na frente.

Não houve uma lágrima de mãe, de irmã ou de filha. Elas próprias incitavam os pais, os maridos e os irmãos ao combate, e até os seguiram, formando a retaguarda, sob o comando da intrépida senhora van Tricasse.

Soou a trombeta do pregoeiro João Mistrol.

O exército moveu‑se, pôs‑se a caminho e, soltando gritos ferozes, dirigiu‑se para a porta de Audenarde.

No momento em que a testa da coluna ia transpor as muralhas da cidade, correu‑lhe um homem ao encontro.

‑ Parem!, suspendam! Não sejam doidos! ‑ exclamou o recém‑aparecido. ‑ Não atirem! Deixem‑me fechar a torneira! Não estão sedentos de sangue, não! São gente sossegada e pacata! Se sentem esse ardor, é por culpa do mestre, o Doutor Ox! É uma experiência! Sob pretexto de os alumiar com gás oxídrico, saturou...

O preparador estava fora de si; mas não pôde concluir.

No momento em que o segredo do doutor ia sair‑lhe dos lábios, o próprio Doutor Ox, movido de um furor indescritível, precipitou‑se sobre o desventurado Ygène e fê‑lo fechar a boca à força de soco.

Foi uma batalha. O burgomestre, o conselheiro, as notabilidades da terra, que tinham parado à vista de Ygène, levados também da sua exasperação, precipitaram‑se sobre os dois estrangeiros, sem quererem ouvir nem um nem outro.

O doutor e o seu preparador, ofendidos, maltratados, iam ser, por ordem de van Tricasse, levados para a prisão, quando...

 

                           Em que rebenta o desenlace

 

... QUANDO soou uma formidável explosão. Pareceu abrasar‑se toda a atmosfera de Quiquendone.

Uma chama de intensidade, de vivacidade fenomenal elevou‑se como um meteoro às profundezas do firmamento.

Se fosse noite, o abrasamento ter‑se‑ia avistado de dez léguas em redondo.

Todo o exército de Quiquendone foi a terra como um exército de cartas. Felizmente não houve vítimas; apenas alguns axes e esfoladuras.

O confeiteiro, que por um favor do acaso não caíra do cavalo naquela ocasião, ficou com o penacho chamuscado, e saiu do lance sem mais dano ou agravo.

Que sucedera?

Soube‑se depois que apenas a oficina do gás fora pelos ares.

Provavelmente, na ausência do doutor e do ajudante, cometera‑se alguma imprudência.

Não se sabe como nem porque se estabelecera comunicação entre o reservatório que continha o oxigénio e o que conservava o hidrogénio.

Da reunião dos dois gases resultara um misto explosivo, a que por descuido pegara fogo.

Este facto operou completa mudança nos acontecimentos;‑ mas quando o exército se levantou, o Doutor Ox e o preparador Ygène tinham desaparecido.

 

Em que o leitor inteligente

vê claramente que tinha adivinhado

apesar de todas as precauções do autor

 

DEPOIS da explosão, Quiquendone tornara‑se imediatamente a cidade sossegada, fleumática e flamenga de outrora.

Apesar do profundo abalo causado pelo fenómeno, todos, sem saberem porquê, maquinalmente tomaram o caminho de casa, o burgomestre pelo braço do conselheiro, o advogado Schut pelo braço do médico Custos, Frantz Niklausse pelo braço do seu rival Simão Collaert, e todos tranquilamente, sem ruído, sem terem sequer consciência do que se passara, já esquecidos de Virgamen e da sua vingança. O general voltou para os seus bolos, e o seu ajudante de campo para as suas especiarias.

Recaíra tudo no anterior sossego, volvera tudo à vida habitual, homens e animais, animais e plantas, e até a própria torre de Audenarde, que a explosão ‑ as explosões são às vezes admiráveis ‑, que a explosão fizera tornar à sua perpendicular.

E dali em diante, nunca uma palavra mais alta, nunca uma discussão na cidade de Quiquendone. Não mais política, não mais clube, não mais processos, não mais polícia! O lugar do comissário Passauf tornou a ser uma sinecura, e se não lhe cortaram o ordenado foi porque o burgomestre e o conselheiro não puderam resolver‑se a tomar uma decisão a tal respeito.

Não obstante, de tempos a tempos, sem que suspeitasse tal, perpassava pelos sonhos da inconsolável titi‑Mancia a recordação de certa valsa.

Quanto ao rival de Frantz, abandonou generosamente a encantadora Suzel ao seu namorado, que se apressou a desposá‑la, cinco ou seis anos depois destes acontecimentos.

E pelo que diz respeito à senhora van Tricasse, morreu dez anos depois do prazo exigido, e o burgomestre casou com a menina Pelágia van Tricasse, sua prima, em condições excelentes... para o feliz mortal que lhe sucedesse.

 

                  Em que se explica a teoria do Doutor Ox

 

QUE fizera então aquele misterioso Doutor Ox? Apenas uma experiência fantasista, nada mais. Depois de colocar as canalizações de gás, saturou de oxigénio puro, sem nunca lhes fornecer um átomo de hidrogénio, os edifícios públicos, depois as casas particulares, e por fim as ruas de Quiquendone.

Este gás, sem gosto, sem cheiro, espalhado em grande dose na atmosfera, produz, quando aspirado, sérias perturbações no organismo.

Num meio saturado de oxigénio, está o indivíduo excitado, sobreexcitado, ardendo!

Quando volve para a atmosfera ordinária, torna ao estado anterior, como por exemplo sucedeu com o burgomestre e o conselheiro que, ao subirem ao alto do campanário, se acharam em meio do ar respirável, porque o oxigénio conservava‑se, em razão do seu peso, nas camadas inferiores.

Mas também quem vive em tais condições, quem respira aquele gás, que transforma fisiologicamente tanto o corpo como a alma, morre cedo, como os libertinos que levam vida estagnada.

Foi pois uma fortuna para os quiquendonianos que uma explosão providencial terminasse aquela perigosa experiência, destruindo a oficina do Doutor Ox.

Em resumo, a virtude, a coragem, o talento, o espírito, a imaginação, todas as faculdades não serão uma questão de oxigénio?

Tal é a teoria do Doutor Ox, mas estamos no nosso direito não a admitindo, e pela nossa parte rejeitamo‑la, sob todos os aspectos que se considere, apesar da caprichosa experiência de que foi teatro a respeitável cidade de Quiquendone.

 

MESTRE ZACHARIUS

                                      UMA NOITE DE INVERNO

 

A cidade de Genebra está situada na extremidade ocidental do lago a que deu o nome. O Ródano, que a atravessa ao sair do lago, divide‑a em dois bairros distintos, e ele mesmo é dividido, no centro da cidade, por uma ilha situada entre as duas margens. Esta disposição topográfica reproduz‑se muitas vezes nos grandes centros do comércio ou da indústria. Decerto que os primeiros indígenas se sentiram tentados pela facilidade de transporte que lhes ofereciam as rápidas correntes dos rios, essas estradas que caminham por si mesmas, segundo a expressão de Pascal. Com o Ródano, as tais estradas não caminham, correm.

No tempo em que as construções regulares e ao gosto moderno não se elevavam ainda nesta ilha, ancorada como uma galeota holandesa a meio do rio, a admirável acumulação das suas casas empoleiradas umas sobre as outras oferecia à vista um quadro a um tempo confuso e encantador. A limitada extensão da ilha tinha feito com que algumas dessas construções se elevassem sobre estacas e se metessem pelas águas revoltas do Ródano. Aqueles grossos madeiros, enegrecidos pelo tempo, gastos pelas águas, pareciam as pernas de imenso caranguejo e produziam fantástico efeito. Algumas linhas de pesca, amarelecidas pelo uso, verdadeiras teias de aranha estendidas no seio desta substrução secular, agitavam‑se na sombra, semelhando a folhagem daqueles velhos troncos de carvalho, e o rio, engolfando‑se no meio daquela floresta de estacas, escumava, mugindo de modo lúgubre.

Uma das habitações da ilha impressionava pelo seu aspecto de estranha vetustez. Era a casa do velho relojoeiro, mestre Zacharius, de sua filha Gérande, de Alberto Thun, seu aprendiz, e da sua velha criada Escolástica.

Que homem extraordinário não era aquele Zacharius! A sua idade parecia indecifrável. O velho mais idoso de Genebra não poderia dizer há quanto tempo a sua cabeça magra e afilada lhe vacilava sobre os ombros, nem qual fora o dia em que pela primeira vez o tinham visto andar pelas ruas da cidade, deixando flutuar ao vento a sua longa cabeleira branca. Este homem não vivia. Oscilava à maneira do pêndulo dos seus relógios. O seu todo, magro e cadavérico, tinha toques sombrios. Como os quadros de Leonardo da Vinci, enegrecera com o tempo.

Gérande habitava o mais belo aposento da velha casa, donde, passando por uma janela estreita, o seu olhar ia melancólico demorar‑se sobre os cumes nevados do Jura; porém o quarto de dormir e oficina do Velho ocupava uma espécie de subterrâneo, que tocava quase na superfície do rio e cujo sobrado se apoiava sobre as próprias estacas. Desde tempos imemoriais, mestre Zacharius só de lá saía às horas de comer ou quando ia regular os relógios da cidade. O resto do tempo passava‑o junto de uma mesa coberta de numerosos instrumentos de relojoaria, que ele havia, na sua maior parte, inventado.

Porque ele era um homem hábil. Em toda a França e Alemanha as suas obras eram muito estimadas. Os mais peritos operários de Genebra reconheciam francamente a sua superioridade, o que era uma honra para esta cidade, cujos habitantes o apontavam dizendo:

‑ A ele cabe a glória de ter inventado o scapo!

Efectivamente, desta invenção, que os trabalhos de Zacharius mais tarde farão compreender, data a origem da verdadeira relojoaria.

Depois de trabalhar habilmente e por muito tempo, Zacharius arrumava vagarosamente a ferramenta, cobria com leves mangas de vidro as peças que acabava de ajustar, e fazia descansar a roda activa do torno; em seguida, levantava uma espécie de alçapão aberto no sobrado do seu reduto, e debruçado horas inteiras, enquanto o Ródano se precipitava ruidosamente por baixo dele, embriagava‑se aspirando‑lhe os caliginosos vapores.

Certa noite de Inverno, a velha Escolástica serviu a ceia, na qual, segundo costume velho, participava o moço aprendiz. Apesar dos manjares cuidadosamente preparados que tinha diante de si em bonita loiça azul e branca, mestre Zacharius não comeu. Mal respondeu às palavras meigas de Gérande, a quem a taciturnidade mais sombria de seu pai preocupava visivelmente, e a própria tagarelice de Escolástica passou‑lhe tão despercebida como os bramidos da torrente, a que já não prestava atenção. Depois desta refeição silenciosa, o velho relojoeiro levantou‑se da mesa sem abraçar a filha, sem dar a todos as boas‑noites do costume. Desapareceu pela porta estreita que ia ter ao seu aposento, e sob os seus passos pesados a escada soltou profundos gemidos.

Gérande, Alberto e Escolástica ficaram por alguns momentos sem falar. Naquela noite o tempo estava sombrio; as nuvens arrastavam‑se com dificuldade ao longo dos Alpes e ameaçavam desfazer‑se em chuva; a temperatura inclemente da Suíça enchia a alma de tristeza, e os ventos do sul vagueavam nos arredores e soltavam agudos silvos.

‑ Sabe, minha querida menina ‑ disse por fim Escolástica ‑, que o nosso mestre anda há uns dias muito metido consigo? Valha‑me Nossa Senhora! Não me admira que ele não tivesse fome, porque as palavras ficaram‑lhe no bucho, e muito fino havia de ser o diabo para lhe apanhar alguma!

‑ Meu pai tem algum pesar secreto que não posso sequer imaginar ‑ redarguiu Gérande, ao mesmo tempo que uma dolorosa inquietação se lhe manifestava no rosto.

‑ Menina, não se entregue à tristeza. Conhece os singulares costumes de mestre Zacharius. Quem pode ler‑lhe na fronte os seus pensamentos secretos? Teve decerto algum motivo de zanga, mas amanhã não se lembrará disso, e arrepender‑se‑á deveras de ter causado algum desgosto a sua filha.

Era Alberto quem assim falava, fitando os formosos olhos de Gérande. Alberto, o único operário que mestre Zacharius admitiu à intimidade dos seus trabalhos, porque lhe conhecera a inteligência, a discrição e a bondade natural. Alberto afeiçoara‑se a Gérande com a fé misteriosa que preside à dedicação heróica.

Gérande tinha dezoito anos. O oval do seu rosto lembrava o das cândidas madonas que a veneração suspende ainda nos cantos das ruas das velhas cidades da Bretanha. Nos olhos manifestava‑se‑lhe uma infinita ingenuidade. Inspirava amor, como a mais suave realização de um sonho de poeta. Nos vestidos ostentava cores pouco vistosas, e o alvo corpete, que lhe velava o seio, tinha o tom e o cheiro próprios das vestimentas de igreja. Gérande passava a existência mística naquela cidade de Genebra, que ainda não se entregara naquele tempo à aridez do calvinismo.

Ao mesmo tempo que lia de manhã e de tarde as orações latinas no seu missal com fechos de ferro, Gérande lera também o sentimento que se abrigava no coração de Alberto Thun, e adivinhara a profunda dedicação que o operário lhe votava. Efectivamente, aos olhos do mancebo, o mundo todo resumia‑se na velha casa do relojoeiro, e quando, acabado o trabalho, largava a oficina de mestre Zacharius, ia passar o resto do tempo junto da jovem.

A velha Escolástica via isto, mas não dizia palavra. A sua loquacidade exercia‑se de preferência sobre as desgraças do tempo e as pequenas misérias do lar doméstico. Ninguém procurava fazê‑la calar. Sucedia com ela o mesmo que sucedia com as caixas de música que se fabricavam em Genebra: depois de lhe dar corda, seria preciso quebrá‑la para não tocar todas as suas árias.

Vendo Gérande mergulhada numa dolorosa taciturnidade, Escolástica levantou‑se da velha cadeira de pau, pôs uma vela num castiçal, acendeu‑a e colocou‑a diante de uma pequena imagem da Virgem abrigada no seu nicho de pedra. Era costume ajoelharem‑se diante desta madona padroeira do lar doméstico, pedindo‑lhe a sua graça protectora para a noite que se seguia; mas naquela noite Gérande permaneceu silenciosa no seu lugar.

‑ Ora bem, minha querida menina ‑ observou Escolástica com admiração ‑, a ceia acabou e são horas de dar as boas‑noites. Quererá cansar a vista com prolongadas vigílias?... Valha‑me Nossa Senhora! É tempo de dormir e de procurar alguma alegria em sonhos agradáveis! Nestes tempos malditos em que vivemos, quem pode contar com um dia feliz?

‑ Não será preciso mandar chamar algum médico para meu pai? ‑ perguntou Gérande.

‑ Um médico! ‑ exclamou a velha criada. ‑ Mestre Zacharius deu alguma vez ouvidos às suas invenções e sentenças? Para os relógios pode haver remédios, mas não para o corpo!

‑ Que se há‑de então fazer? ‑ murmurou Gérande.

‑ Ele iria trabalhar? Iria descansar?

‑ Gérande ‑ acudiu Alberto com doçura ‑, alguma contrariedade moral magoa mestre Zacharius; não é mais nada.

‑ E conhece essa contrariedade? ‑Talvez, Gérande.

‑ Conte‑nos isso ‑ acudiu Escolástica com vivacidade, apagando a vela por economia.

‑ Há alguns dias, Gérande ‑ começou o jovem operário ‑, que se dá um facto absolutamente incompreensível. Todos os relógios que seu pai tem feito e vendido param de repente. Têm‑lhe trazido um grande número deles. Desmanchou‑os com cuidado: as molas estavam em bom estado e as rodas perfeitamente colocadas. Tornou a montá‑los com mais cuidado, mas, apesar da sua habilidade, os relógios conservaram‑se parados.

‑ Isso é coisa do diabo! ‑ exclamou Escolástica.

‑ O que quer dizer com isso? ‑ perguntou Gérande.

‑ O facto parece‑me natural. Tudo na Terra tem um limite, e o infinito não pode ser obra dos homens.

‑ Entretanto, nem por isso deixa de ser verdade que anda nisto o que quer que seja de extraordinário, misterioso ‑ redarguiu Alberto. ‑ Eu mesmo ajudei mestre Zacharius a procurar a causa do desarranjo dos seus relógios; não a pude achar, e, mais de uma vez, desesperado, os instrumentos me caíram das mãos.

‑ Também ‑ replicou Escolástica ‑ para que se hão‑de entregar a um trabalho de réprobos? Pois é natural que um pequeno instrumento de cobre possa caminhar sozinho e marcar precisamente as horas?' Deviam ter‑se contentado com o quadrante solar.

‑ Não há‑de falar desse modo, Escolástica, quando souber que o quadrante solar foi invenção de Caíra.

‑ Meu Deus! Que me está a dizer?

‑ Parece‑lhe ‑ perguntou Gérande com ingenuidade ‑ que se pode pedir a Deus que restitua a vida aos relógios de meu pai?

‑ Sem dúvida alguma ‑ respondeu o jovem operário.

‑ Bom, aí temos rezas inúteis ‑ resmungou a velha ‑, mas Deus perdoá‑las‑á em vista da intenção.

Tornou‑se a acender a vela. Escolástica, Gérande e Alberto ajoelharam sobre as lajes do quarto, e a jovem rezou pela alma de sua mãe, pela santificação da noite, pelos presos e os viajantes, pelos maus e pelos bons, e principalmente pelos desconhecidos pesares de seu pai.

Em seguida, estas três devotas criaturas levantaram‑se com alguma confiança no coração, porque tinham depositado as suas mágoas no seio de Deus.

Alberto recolheu‑se ao seu quarto, Gérande assentou‑se, muito pensativa, ao pé da janela, ao tempo que a última claridade do dia de todo se apagava na cidade de Genebra, e Escolástica, depois de ter deitado uma pouca de água sobre os tições e corrido os dois enormes ferrolhos da porta, meteu‑se na cama, onde não tardou a sonhar que morria de medo.

Entretanto o horror desta noite de Inverno aumentava. De quando em quando, de envolta com os vagalhões do rio, o vento engolfava‑se por entre a estacaria, e a casa tremia toda; mas a jovem, absorta na sua tristeza, só pensava em seu pai. Depois das palavras que ouvira a Alberto Thun, a doença de mestre Zacharius tomara a seus olhos proporções fantásticas, e parecia‑lhe que aquela existência tão querida, tendo‑se tornado puramente mecânica, só com dificuldade se movia nos eixos já gastos.

De repente o guarda‑vento, violentamente impelido pela ventania, bateu na janela do quarto. Gérande estremeceu e levantou‑se sobressaltada, sem compreender a causa do ruído que a fazia sair do seu torpor.

Depois de se tranquilizar um pouco, abriu a vidraça. As nuvens tinham rebentado, e uma chuva torrencial ressaltava sobre os telhados vizinhos. A jovem debruçou‑se para agarrar o postigo balouçado pelo vento, mas teve medo. Pareceu‑lhe que as águas do rio e do céu, confundindo‑se tumultuosamente, submergiam aquela frágil casa, cujo vigamento rangia por todos os lados. Quis fugir do seu quarto, mas notou por baixo dele a reverberação de uma luz que devia vir do quarto de mestre Zacharius, e, num momento em que os elementos se calavam, chegaram‑lhe aos ouvidos alguns queixumes. Tentou fechar a janela, mas não pôde. O vento empurrava‑a com violência, como um malfeitor que se introduz numa casa.

Gérande julgou que enlouquecia de terror! Que estaria seu pai a fazer? Abriu a porta, que lhe escapou das mãos e bateu ruidosamente, impelida pela tempestade. Gérande achou‑se então na casa onde tinha ceado, que estava às escuras, e, conseguindo às apalpadelas chegar à escada que ia dar à oficina de mestre Zacharius, desceu por ela, pálida e meio morta de susto.

O velho relojoeiro estava em pé no meio daquele aposento onde ecoavam os mugidos do rio. Os cabelos eriçados davam‑lhe um aspecto sinistro. Falava, gesticulava sem ver, sem ouvir! Gérande ficou junto do limiar da porta.

‑ É a morte! ‑ dizia mestre Zacharius com voz cava. ‑ É a morte!... Que tempo me resta agora de vida, depois de haver dispersado a minha existência pelo mundo? Porque eu, mestre Zacharius, sou na verdade o criador de todos os relógios que fabriquei! Foi uma parte da minha alma que encerrei nessas bocetas de ferro, de prata ou de ouro! De cada vez que pára um desses relógios malditos, conheço que o meu coração cessa de bater, porque eu regulei‑os pelas minhas pulsações!

E, falando deste modo estranho, o velho dirigiu a vista para a sua mesa de trabalho. Achavam‑se ali todas as peças de um relógio que ele tinha cuidadosamente desmanchado. Pegou num cilindro oco, chamado tambor, no qual está metida a mola, e tirou para fora a espiral de aço, que, em vez de se desenrolar, segundo as leis da elasticidade, ficou enrolada como uma víbora adormecida. Parecia paralisada, como esses velhos impotentes cujo sangue afinal se enregelou. Debalde mestre Zacharius procurou distendê‑la com os seus dedos emagrecidos, cuja sombra se alongava desmedidamente sobre a parede, mas não o conseguiu, e instantes depois, soltando uma imprecação terrível, arremessou‑a pelo alçapão aos vagalhões do Ródano.

Gérande, como que pregada no chão, estava sem fôlego, sem movimento. Queria e não podia aproximar‑se de seu pai. Apoderava‑se dela uma alucinação vertiginosa. De súbito ouviu uma voz na escuridão murmurar‑lhe ao ouvido:

‑ Gérande, minha cara Gérande! A dor ainda a conserva de pé? Recolha‑se; a noite está fria.

‑ Alberto! ‑ murmurou a jovem, a meia voz. ‑ Aqui?

‑ Não devia inquietar‑me com o mesmo que a inquieta? ‑ redarguiu Alberto.

Estas meigas palavras fizeram reviver a jovem. Encostou‑se ao braço do operário e disse‑lhe:

‑ Meu pai está bastante doente, Alberto! Só o senhor o poderá curar, porque aquela doença da alma não cederá às consolações da filha. Tem o espírito afectado por um acidente muito natural, e o senhor, trabalhando com ele no conserto dos seus relógios, conseguirá restituir‑lhe a razão. Alberto, não é verdade ‑, ajuntou ainda impressionada pelo que vira ‑ não é verdade que a vida de meu pai se confunde com a dos seus relógios?

Alberto não respondeu.

‑ Mas será uma ocupação condenada pelo céu a que meu pai exerce? ‑ exclamou Gérande, estremecendo.

‑ Não sei ‑ respondeu o artífice, aquecendo com as suas mãos as mãos geladas da jovem. ‑ Mas volte para o seu quarto, minha pobre Gérande, e com o repouso recupere alguma esperança!

Gérande voltou vagarosamente para o seu quarto e aí permaneceu até ao romper do dia, sem que o sono lhe fizesse cerrar as pálpebras, enquanto mestre Zacharius, mudo e imóvel, via o rio correndo ruidosamente a seus pés.

 

                                              O ORGULHO DA CIÊNCIA

 

É proverbial a severidade do mercador genebrês em matéria de negócios. É um mercador de rígida probidade e excessiva rectidão. Qual não foi, pois, a vergonha de mestre Zacharius quando viu os relógios, que ele tinha fabricado com tamanha solicitude, serem‑lhe devolvidos de todos os lados!

Ora ele estava certo de que aqueles relógios paravam de súbito sem nenhuma razão aparente. As rodas achavam‑se em bom estado e perfeitamente colocadas, mas as molas haviam perdido toda a elasticidade. O relojoeiro debalde procurou substituí‑las; as rodas conservaram‑se imóveis. Estes transtornos inexplicáveis fizeram um mal imenso a mestre Zacharius. As suas magníficas invenções tinham levantado contra ele suspeitas de bruxaria, que então tomaram corpo. O boato chegou até ao conhecimento de Gérande, e muitas vezes ela receou pela sorte de seu pai, quando olhares mal‑intencionados se fixavam nele.

Entretanto, no dia que se seguiu a esta noite de angústias, mestre Zacharius pôde entregar‑se ao trabalho com alguma confiança. O sol matutino restituiu‑lhe em parte a coragem. Alberto não tardou a reunir‑se‑lhe na oficina e recebeu dele um bom‑dia cheio de afabilidade.

‑ Vou melhor ‑ declarou o velho relojoeiro. ‑ Não sei que esquisitas dores de cabeça ontem me molestavam, mas o sol afugentou‑as juntamente com as nuvens da noite.

‑ Palavra, mestre ‑ redarguiu Alberto ‑, nem por mim nem por si eu gosto da noite!

‑ E tens razão, Alberto. Se vieres a ser um homem superior, compreenderás que o dia te é tão necessário como o sustento! Um sábio de grande mérito deve‑se às homenagens do resto dos homens.

‑ Mestre, olhe o pecado do orgulho que está consigo outra vez.

‑ Do orgulho, Alberto! Destrói o meu passado, aniquila o meu presente, dissipa o meu futuro, e então ser‑me‑á permitido viver na obscuridade! Pobre rapaz, que não compreende as coisas sublimes a que a minha arte se liga intimamente. Não serás tu então mais do que um instrumento nas minhas mãos?

‑ Entretanto, mestre Zacharius, mais de uma vez tenho merecido os seus cumprimentos pela forma como ajusto as peças mais delicadas dos seus relógios e pêndulas.

‑ Sem dúvida alguma, Alberto ‑ volveu mestre Zacharius ‑, tu és um bom operário a quem eu estimo; mas quando trabalhas não julgas ter entre os dedos senão cobre, ouro, prata, e não sentes estes metais, que o meu génio anima, palpitarem como carne viva! Por isso hás'‑de morrer da morte das tuas obras!

Mestre Zacharius ficou silencioso após estas palavras; mas Alberto procurou reatar a conversa.

‑ Por minha fé, mestre ‑ continuou ele ‑, gosto de o ver trabalhar assim sem descanso! O mestre há‑de estar preparado para a festa da nossa corporação, porque vejo que o trabalho deste relógio de cristal avança rapidamente.

‑ Decerto, Alberto ‑ exclamou o velho relojoeiro ‑, e não será para mim pequena honra o ter podido cortar e talhar esta matéria que tem a dureza do diamante! Ah! Luís Berghen fez bem em aperfeiçoar a arte dos lapidários, que me permitiu polir e furar as pedras mais duras!

Mestre Zacharius tinha neste momento na mão pequenas peças de relojoaria feitas de cristal e delicadamente trabalhadas. As rodas, os eixos, a caixa deste relógio eram da mesma matéria, e neste artefacto da maior dificuldade tinha manifestado um talento incrível.

‑ Não é verdade ‑ acrescentou ele, ao mesmo tempo que as suas faces se faziam purpúreas ‑ que será belo ver palpitar este relógio através do seu invólucro transparente, e poder contar as palpitações do seu coração!

‑ Aposto, mestre, que ele não há‑de variar um segundo por ano!

‑ E hás‑de ganhar a aposta, decerto! Não empreguei eu nele a mais pura essência de mim mesmo? Por acaso o meu coração varia?

Alberto não se atreveu a levantar os olhos para o mestre.

‑ Fala‑me francamente ‑ tornou o velho com melancolia. ‑ Nunca me tomaste por um louco? Não me julgas entregue às vezes a deploráveis alucinações? É verdade, não é? Nos teus olhos e nos de minha filha tenho muitas vezes lido a minha condenação. Oh! ‑ exclamou ele com mágoa ‑, não ser mesmo compreendido dos entes a quem mais se ama no mundo! Mas, diante de ti, Alberto, provarei que tenho razão! Não abanes a cabeça, rapaz, porque vais ficar estupefacto! No dia em que souberes escutar‑me e compreender‑me, verás que descobri os segredos da existência, os segredos da misteriosa união da alma e do corpo!

Assim falando, mestre Zacharius mostrava‑se sublime de orgulho. Brilhavam‑lhe os olhos com um fogo sobrenatural, e a soberba fazia‑lhe tumultuar o sangue. E na verdade, se alguma vez a vaidade tivesse justificação, seria a de mestre Zacharius a mais respeitável de todas.

De facto, até ao seu tempo, a relojoaria permanecera na infância da arte. Desde o dia em que Platão, quatrocentos anos antes da era cristã, inventou o relógio nocturno, espécie de clepsidra que indicava as horas da noite pelo toque duma flauta, a ciência ficou quase estacionária. Os mestres cuidaram mais da arte do que da mecânica, e foi então a época dos belos relógios de ferro, de cobre, de madeira, de prata, delicadamente esculpidos como um gomil de Cellini. Obtinha‑se uma obra‑prima de lavor que media o tempo de um modo muito imperfeito, mas era uma obra‑prima. Quando a imaginação do artista se desviou do lado da perfeição plástica, aplicou‑se a fabricar relógios com personagens que mexiam ao som de toques melodiosos, e cuja apresentação em cena era regulada de um modo muito divertido. Demais, quem se inquietava nessa época em regular a marcha do tempo? As delongas em questões judiciais não se tinham ainda inventado; as ciências físicas e astronómicas não estabeleciam os seus cálculos sobre medidas de tempo escrupulosamente exactas; não havia nem estabelecimentos que fechassem a uma hora certa nem comboios que partissem com uma exactidão levada até aos segundos. Ao cair da noite tocava‑se o sino de correr, e depois diziam‑se as horas em altos gritos no meio do silêncio. Se a existência se regula pela quantidade de negócios realizados, com certeza que se vivia menos tempo, mas vivia‑se melhor. O espírito enriquecia‑se com os nobres sentimentos, filhos da contemplação das obras‑primas, e a arte não se fazia de carreira. Edificava‑se uma igreja em dois séculos. Um pintor só fazia alguns quadros na sua vida, um poeta só compunha uma obra sublime, mas eram outras tantas obras‑primas que os séculos se encarregavam de apreciar.

Quando finalmente as ciências exactas fizeram progressos, a relojoaria seguiu o seu impulso, se bem que sempre sopeada por uma dificuldade que parecia invencível: a medida contínua e regular do tempo.

Ora foi no meio desta estagnação que mestre Zacharius inventou o scapo, que lhe permitiu obter uma regularidade matemática, submetendo o movimento do pêndulo a uma força constante. Esta invenção transtornara porém a cabeça do velho relojoeiro. O orgulho, subindo‑lhe no coração, como o mercúrio sobe no termómetro, atingira a temperatura das loucuras transcendentes. Por analogia, deduzira consequências materialistas, e, fabricando os seus relógios, imaginava ter surpreendido o segredo da união da alma com o corpo.

Por isso, naquele dia, vendo que Alberto o escutava com atenção, disse‑lhe num tom simples e convicto:

‑ Sabes o que é a vida, meu filho? Compreendeste já a acção dessas molas que produzem a existência? Olhaste já para dentro de ti mesmo? Não, e contudo, com os olhos da ciência, podias ter visto a íntima relação que existe entre a obra de Deus e a minha, porque foi da sua criação que eu copiei a combinação das rodas dos meus relógios.

‑ Mestre ‑ replicou Alberto com vivacidade ‑, pode porventura comparar‑se uma máquina de cobre e aço com esse sopro de Deus chamado alma, que anima os corpos como a brisa comunica o movimento às flores? Podem acaso existir rodas imperceptíveis que façam mover as nossas pernas e os nossos braços?

Que peças, por bem combinadas que fossem, podiam gerar pensamentos em nós?

‑ A questão não está nisso ‑ redarguiu Zacharius com doçura, mas ao mesmo tempo com a teimosia do cego que caminha para o abismo. ‑ Para me compreenderes lembra‑te do destino do scapo que inventei. Quando vi a irregularidade da marcha de um relógio, compreendi que o movimento encerrado nele não bastava e que era preciso submetê‑lo à regularidade de uma outra força independente. Entendi por isso que o pêndulo podia prestar‑me esse serviço, se chegasse a regular‑lhe as oscilações! Ora não foi uma ideia sublime, a que eu tive, de lhe restituir a sua força perdida pelo próprio movimento do relógio que ele estava encarregado de regular?

Alberto fez um sinal de aprovação.

‑ Agora, Alberto ‑ continuou o velho relojoeiro, animando‑se ‑, lança um olhar sobre ti mesmo! Não compreendes que há duas forças diferentes em nós: a da alma e a do corpo, isto é, um movimento e um regulador? A alma é o princípio da vida, logo é o movimento. Quer seja produzido por um peso, por uma simples mola, ou por uma influência material, não deixa por isso de residir no coração. Mas, sem o corpo, esse movimento seria desigual, irregular, impossível! Por isso, o corpo serve de regulador da alma, e, como o pêndulo, está submetido a oscilações certas. E é tão verdade isto que a gente passa mal quando o beber, o comer e o dormir, numa palavra, as funções do corpo, não são convenientemente reguladas! Também nos meus relógios, a alma restitui ao corpo a força perdida pelas suas oscilações. Ora bem, quem produz então essa união íntima da alma e do corpo senão um scapo maravilhoso, por meio do qual as rodas de um vêm endentar‑se nas rodas do outro? Eis aí o que eu adivinhei e apliquei, e já para mim não há segredos nesta vida, que não passa, afinal, de uma engenhosa mecânica!

Mestre Zacharius estava sublime nesta alucinação, que o transportava até aos mais profundos mistérios do infinito! Porém, sua filha Gérande, parada no limiar da porta, tudo ouvira. Precipitou‑se nos braços do pai, que a apertou convulsivamente contra o peito.

‑ Que tens, minha filha? ‑ perguntou mestre Zacharius.

‑ Se eu só tivesse aqui uma simples mola ‑ afirmou ela, levando a mão ao coração ‑, não o amaria tanto, meu pai!

Mestre Zacharius fitou a filha e não respondeu.

De repente, soltou um grito, levou precipitadamente a mão ao coração e caiu desfalecido sobre a sua velha poltrona de couro.

‑ Que tem, meu pai?

‑ Socorro! ‑ bradou Alberto. ‑ Escolástica!

Mas Escolástica não apareceu logo. Tinham batido à porta. Fora abrir e quando voltou para a oficina, antes de abrir a boca, o velho relojoeiro, que tornara a si, dizia‑lhe:

‑ Adivinho, minha velha Escolástica. Trazes‑me mais um desses malditos relógios que param!

‑ Jesus! É verdade ‑ confirmou Escolástica, entregando um relógio a Alberto.

‑ O meu coração não se podia enganar! ‑ disse o velho, soltando um suspiro.

Alberto tornara a dar corda ao relógio, mas este continuou imóvel.

 

                                     UMA VISITA SINGULAR

 

SE não fosse a afeição por Alberto, que a prendia ao mundo, a vida de Gérande extinguir‑se‑ia ao mesmo tempo que a de seu pai.

O velho relojoeiro definhava gradualmente. As suas faculdades tendiam evidentemente a enfraquecer, concentrando‑se num só pensamento. Por uma funesta associação de ideias, tudo relacionara com a sua monomania, e a vida terrestre parecia tê‑lo abandonado para dar lugar à existência extranatural das potências intermediárias. Por isso alguns rivais mal‑intencionados fizeram reviver os boatos diabólicos que tinham corrido a respeito dos trabalhos de mestre Zacharius.

A confirmação dos inexplicáveis desarranjos que se deram nos seus relógios fez prodigioso efeito entre os próprios relojoeiros de Genebra.

O que significava aquela súbita inércia das suas rodas, e qual a razão das extraordinárias relações que elas pareciam ter com a vida de Zacharius? Eram mistérios desses que nunca se encaram sem um particular terror. Nas diversas classes da cidade, desde o humilde aprendiz até ao fidalgo, que se serviam dos relógios do velho relojoeiro, não houve ninguém que não pudesse ajuizar por si mesmo da singularidade do facto. Quiseram, mas debalde, aproximar‑se de mestre Zacharius. O relojoeiro caiu gravemente doente ‑ o que permitiu à filha subtraí‑lo às incessantes visitas que degeneravam em censuras e recriminações.

Os médicos e os remédios nada puderam contra aquele definhamento orgânico, cuja causa não descobriram. Parecia por vezes que o coração do velho cessava de bater, e em seguida as suas palpitações tornavam a começar com inquietadora irregularidade.

Estabelecera‑se por aquele tempo o costume de submeter as obras dos mestres à apreciação do populacho. Os mestres dos diferentes ofícios procuravam distmguir‑se pela novidade ou pela perfeição das suas obras, e foi entre eles que o estado de mestre Zacharius encontrou a mais ruidosa piedade, mas piedade interessada. Os seus rivais lastimavam‑no tanto mais quanto menos o temiam. Lembravam‑se ainda dos triunfos do velho relojoeiro, quando ele expunha aqueles magníficos relógios com figuras que se moviam, aqueles relógios com música que causavam geral admiração e obtinham preços tão elevados nas cidades da França, da Suíça e da Alemanha.

Entretanto, graças aos cuidados constantes de Gérande e de Alberto, a saúde de mestre Zacharius pareceu restabelecer‑se um pouco, e, no meio do sossego que lhe dava a convalescença, conseguiu subtrair‑se aos pensamentos que o absorviam. Assim que pôde andar, a filha fê‑lo sair de casa, à qual os fregueses descontentes afluíam continuamente. Alberto, esse ficava na oficina, desmanchando e

armando inutilmente aqueles relógios rebeldes, e o pobre rapaz, nada compreendendo, apoiava muitas vezes a fronte nas mãos com receio de enlouquecer como seu mestre.

Gérande dirigia sempre os passos do pai para os sítios mais aprazíveis da cidade. Amparando mestre Zacharius pelo braço, encaminhava‑se para Santo António, donde a vista se alonga pela colina de Coligne e pelo lago, e donde às vezes, nas manhãs puras, se chegam a distinguir os gigantescos morros do monte Buet erguendo‑se no horizonte. Gérande indicava pelos seus nomes todos estes lugares quase esquecidos de seu pai, cuja memória parecia apagada, e o relojoeiro achava um prazer infantil em reaprender todas estas coisas, cuja lembrança se obliterara no seu cérebro.

Mestre Zacharius encostava‑se à filha, e aquelas duas frontes, uma branca e outra loura, confundiam‑se banhadas pelo mesmo raio do Sol.

Sucedeu também que afinal o velho relojoeiro notou que não estava só no mundo. Vendo a filha tão jovem e formosa, ele, velho e alquebrado, lembrou‑se de que depois da sua morte ela ficaria só, sem protecção, e olhou em volta de ambos. Muitos e jovens operários de Genebra tinham já feito a corte a Gérande, porém nenhum tivera admissão no retiro impenetrável onde vivia a família do relojoeiro.

Foi natural, portanto, que, neste momento lúcido do seu cérebro, a escolha do velho recaísse em Alberto Thun. Logo que esta ideia se apoderou dele, notou que os dois jovens tinham sido educados nas mesmas crenças e nas mesmas ideias, e as oscilações daqueles dois corações pareciam‑lhe «isócronas», como disse um dia a Escolástica.

A velha criada, seduzida com a palavra, que aliás não compreendia, jurou pela santa da sua devoção que a cidade em peso o havia de saber em menos de um quarto de hora. Mestre Zacharius encontrou grande dificuldade em detê‑la, e obteve dela afinal a promessa de guardar segredo sobre o assunto, promessa que ela não cumpriu.

De modo que, sem Alberto e Gérande saberem coisa alguma, em toda a Genebra não se falava de outra coisa senão da sua próxima união. Mas sucedeu também que, durante estas conversações, se ouvia muitas vezes uma singular exclamação de rancor, e uma voz que asseverava:

‑ Gérande não casará com Alberto.

Se os conversadores se voltavam, achavam‑se em presença de um velho que não conheciam.

Que idade teria esta singular criatura? Ninguém o poderia dizer. Adivinhava‑se apenas que poderia existir havia grande número de séculos. A sua grande cabeça achatada descansava nuns ombros cuja largura igualava a altura do corpo, que não passava de três pés. Esta personagem faria boa figura sobre a caixa de um relógio de pêndula, porque o mostrador acomodar‑se‑ia perfeitamente no seu rosto e o pêndulo oscilaria à vontade na vastidão do seu peito. Facilmente se tomaria o nariz daquele homem pelo ponteiro de um quadrante solar, tão delgado e agudo ele era; os dentes, ralos e de superfície epiciclóide, lembravam o dentado de uma roda e rangiam‑lhe sob os lábios; a voz tinha o som metálico de uma campainha, e poder‑se‑ia sentir‑lhe o coração bater como o tiquetaque de um relógio. Tinha uns braços que se moviam à maneira de ponteiros, e caminhava de um modo incerto, sem nunca olhar para trás. Se seguiam aquele homem, observavam que fazia uma légua por hora e que a sua marcha era quase circular.

Havia pouco tempo que esta extraordinária criatura assim vagueava ou antes girava circularmente pela cidade; mas tinha‑se podido já observar que todos os dias, no momento em que o relógio passava pelo meridiano, parava em frente da Catedral de São Pedro, e, depois de darem as doze badaladas do meio‑dia, continuava o seu caminho. Afora este momento exacto, parecia surgir no meio de todas as conversas em que se tratava do velho relojoeiro, e todos perguntavam com terror que relação podia existir entre ele e mestre Zacharius. Além disso, notava‑se que não perdia de vista o velho e a filha durante os seus passeios.

Um dia, na Treille, Gérande reparou naquele monstro que olhava para ela. Chegou‑se muito para o pai, assaltada pelo terror.

‑ Que tens, minha Gérande? ‑ perguntou mestre Zacharius.

‑ Não sei ‑ respondeu a jovem.

- Acho‑te mudada, minha filha! ‑ observou o velho

relojoeiro. ‑ Irás também agora adoecer? Ora bem ‑ acrescentou, sorrindo com tristeza ‑, será preciso que eu cuide de ti, e hei‑de cuidar bem.

- Oh! meu pai, não, isto não há‑de ser nada. Tenho

frio, e parece‑me que é...

‑ O quê, Gérande?

‑ A presença deste homem que nos segue constantemente ‑ respondeu ela em voz baixa.

Mestre Zacharius voltou‑se para o velho.

‑ Palavra, regula bem ‑ disse ele, com ar de satisfação ‑, porque são exactamente quatro horas. Nada receies, minha filha: não é um homem, é um relógio!

Gérande olhou para o pai com terror. Como é que mestre Zacharius tinha podido ler as horas no rosto daquela singular criatura?

- A propósito ‑ prosseguiu o velho relojoeiro, sem se

ocupar mais daquele incidente ‑, não vejo Alberto há alguns dias.

‑ E contudo não nos abandona, meu pai ‑ redarguiu Gérande, cujos pensamentos tomaram uma direcção mais agradável.

‑ Que faz ele então?

‑ Trabalha, meu pai.

‑ Ah! ‑ exclamou o velho ‑, ocupa‑se no conserto dos meus relógios, não é verdade? Mas não conseguirá nunca pô‑los bons, porque não é uma reparação de que eles precisam, mas de uma ressurreição!

Gérande ficou silenciosa.

- É preciso que eu saiba ‑ acrescentou o velho ‑, se

não trouxeram mais alguns desses malditos relógios entre os quais o Diabo espalhou uma epidemia.

Em seguida, mestre Zacharius recaiu num silêncio absoluto. Por fim bateu à porta de casa, e pela primeira vez, depois da sua convalescença, enquanto Gérande se dirigia para o seu quarto, desceu à oficina.

No momento em que ali entrava, um dos numerosos relógios suspensos na parede deu cinco horas.

Ordináriamente os diferentes toques daquelas máquinas, admiravelmente reguladas, faziam‑se ouvir simultaneamente e o seu acorde regozijava o coração do velho; mas naquele dia tocaram todos uns depois dos outros, de modo que durante um quarto de hora os seus sons sucessivos foram de ensurdecer.

Mestre Zacharius padecia de um modo horrível; não podia estar quieto, andava de uns relógios para os outros, e batia‑lhes o compasso como um director de orquestra que já não pudesse ser senhor dos seus músicos.

Quando o último som se extinguiu, a porta da oficina abriu‑se, e mestre Zacharius estremeceu dos pés até à cabeça ao ver diante de si o velho baixo, que, fitando‑o, lhe perguntou:

‑ Mestre, não poderei conversar alguns instantes consigo?

‑ Quem é você? ‑ perguntou o relojoeiro com modo sacudido.

‑ Um companheiro de trabalho. Sou eu que estou encarregado de regular o Sol.

‑ Ah!, é quem regula o Sol? ‑ volveu mestre Zacharius com vivacidade. ‑ Pois não lhe dou os meus emboras por isso! O seu Sol regula mal e, para nos pormos de acordo com ele, somos obrigados ora a adiantar os nossos relógios, ora a atrasá‑los.

‑ E pela pata caprina do Diabo! ‑ exclamou a monstruosa personagem ‑ tem razão, mestre! O meu Sol não indica sempre meio‑dia no mesmo momento em que o indicam os seus relógios; mas um dia virá a saber‑se que isso provém da desigualdade do movimento de translação da Terra, e inventar‑se‑á um meio‑dia médio que porá em ordem essa irregularidade!

‑ Viverei ainda nessa época? ‑ perguntou o velho relojoeiro, cujos olhos se animaram.

‑ Decerto ‑ replicou o velhinho, rindo. ‑ Pois pode imaginar que morre?

‑ Ai, em todo o caso estou bem doente!

‑ A propósito, falemos disso. Por Belzebu! Conduzir‑nos‑á ao assunto de que lhe quero falar.

E assim dizendo, aquela estranha criatura saltou sem cerimónia para a velha poltrona de couro e cruzou as pernas, à maneira dos ossos descarnados que os pintores de telas funéreas traçam por baixo das caveiras. Em seguida, redarguiu num tom irónico:

‑ Ora vejamos, mestre Zacharius, que é que se passa nesta boa cidade de Genebra? Dizem que a sua saúde se altera, que os seus relógios têm bastante necessidade de médicos.

‑ Ah!, julga que há uma relação íntima entre a existência deles e a minha? ‑ exclamou mestre Zacharius.

‑ Eu imagino que esses relógios têm defeitos, vícios até. Se esses maganões não procedem de um modo muito regular, é justo que sofram o castigo do seu desregramento.

‑ A que chama o senhor defeitos? ‑ replicou mestre Zacharius, corando em vista do tom sarcástico com que aquelas palavras tinham sido proferidas. ‑ Não têm eles direito de se mostrarem ufanos da sua procedência?

‑ Muito, muito, não! ‑ redarguiu o velhinho. ‑ Têm, é verdade, nome célebre; sobre o seu mostrador acha‑se gravada uma assinatura ilustre, e gozam do privilégio exclusivo de se introduzirem no seio das mais nobres famílias; mas há um tempo para cá não regulam, mestre Zacharius não lhes dá remédio, e o mais insignificante dos aprendizes de Genebra acha‑lhes defeitos!

‑ A mim, a mim, mestre Zacharius! ‑ exclamou o velho com um terrível movimento de orgulho.

‑ Sim, a si, mestre Zacharius, que não pode restituir a vida aos seus relógios!

‑ Mas é porque eu tenho febre e eles também a têm! ‑ redarguiu o velho relojoeiro, ao mesmo tempo que um suor frio lhe corria por todos os membros.

‑ Bem, então morrerão consigo, visto que o mestre se vê impossibilitado de restituir um pouco de elasticidade às suas molas!

‑ Morrer! Não!‑da sua própria boca o ouvi. ‑ Não posso morrer, eu, o primeiro relojoeiro do mundo, eu que, por meio dessas peças e dessas rodas diversas, soube sujeitar o tempo a leis exactas e não posso dispor dele como soberano? Antes de vir um génio sublime regularizar essas horas desordenadas, em que imensa indecisão não estava mergulhado o destino humano?

Por que momento determinado se podiam regular os actos da vida? Mas tu, homem ou Diabo, quem quer que sejas, tu não reflectiste na magnificência da minha arte, que chama todas as ciências em seu auxílio? Não! Não! Eu, mestre Zacharius, eu não posso morrer, visto que, tendo regulado o tempo, o tempo morreria comigo! Voltaria a esse infinito de que o meu génio o soube arrancar, e perder‑se‑ia irreparàvelmente no abismo do nada! Não, é tão impossível eu morrer como o Criador deste universo submetido às suas leis. Tornei‑me seu igual e partilhei do seu poder! Se Deus criou a eternidade, mestre Zacharius criou o tempo.

O velho relojoeiro parecia então o anjo caído, erguendo‑se contra o Criador. O velhinho afagava‑o com o olhar e parecia inspirar‑lhe toda aquela cólera ímpia.

‑ Bem falado, mestre! ‑ replicou. ‑ Belzebu tinha menos direitos do que o mestre de se comparar com Deus! Convém que a sua glória não pereça! Por essa razão o seu servo quer dar‑lhe o meio de dominar esses relógios rebeldes.

‑ Qual é, qual é esse meio? ‑ exclamou mestre Zacharius.

‑ Sabê‑lo‑á no dia seguinte àquele em que me houver concedido a mão de sua filha.

‑ Da minha Gérande?

‑ Dela mesma!

‑ O coração de minha filha não é livre ‑ respondeu mestre Zacharius àquela proposta, que não pareceu nem admirá‑lo nem impressioná‑lo.

‑ Ora... não é o menos formoso dos seus relógios, mas há‑de por fim parar também.

‑ Minha filha, a minha Gérande!... Não!...

‑ Pois bem, mestre Zacharius! Volte para os seus relógios! Arranje‑os e desmanche‑os! Prepare o casamento de sua filha e do seu oficial! Tempere as molas feitas do seu melhor aço! Abençoe Alberto e a formosa Gérande, •mas lembre‑se bem de que Gérande não casará com Alberto!

E, dito isto, o velho saiu, mas não tão depressa que mestre Zacharius não pudesse ouvir dar‑lhe seis horas no peito.

 

CAPÍTULO IV

 

                                     A IGREJA DE São PEDRO

 

ENTRETANTO, o espírito e o corpo de mestre Zacharius enfraqueciam de dia para dia, com a diferença apenas de que uma sobreexcitação extraordinária o fez aplicar‑se mais profundamente que nunca aos seus trabalhos de relojoaria, dos quais a filha não conseguiu distraí‑lo.

O orgulho criara nele novos alentos, depois daquela crise à qual o seu estranho visitante o havia traiçoeiramente levado, e resolveu dominar, à força de génio, a influência maldita que pesava sobre ele e as suas obras. Visitou primeiramente os diferentes relógios da cidade confiados ao seu cuidado. Certificou‑se com escrupulosa atenção de que as rodas se achavam em bom estado, os eixos sólidos, os contrapesos exactamente equilibrados. Nem mesmo os sinos e mais instrumentos de dar horas deixaram de ser auscultados, o que mestre Zacharius efectuou com o reconhecimento de um médico examinando o peito de um doente. Nada indicava que aqueles relógios estivessem em vésperas de ser atacados de inércia.

Gérande e Alberto acompanhavam muitas vezes o velho relojoeiro nestas visitas. O mestre devia ter encontrado prazer em vê‑los tão interessados em segui‑lo, e por certo ele não se preocuparia tanto com o seu próximo fim se reflectisse que a sua existência devia ser prolongada pela daqueles entes queridos, se compreendesse que nos filhos fica sempre alguma coisa da vida de um pai!

Voltando para casa, o velho relojoeiro prosseguia os seus trabalhos com febril assiduidade. Apesar de muito convencido de que nada podia conseguir, parecia‑lhe impossível que assim devesse ser, e armava e tornava a desarmar os relógios que lhe levavam à oficina.

Por sua parte, Alberto debalde se esforçava por descobrir as causas do mal.

‑ Mestre ‑ sugeriu ele ‑ isto não pode ser senão de estarem já gastos os eixos e as rodas dentadas!

‑ Achas então prazer em me matar a fogo lento? ‑ redarguiu‑lhe violentamente mestre Zacharius. ‑ Estes relógios são obra de alguma criança? Por acaso, com receio de ferir os dedos, modelei ao torno as peças de cobre de que eles se compõem? Não fui eu mesmo que as forjei para obter maior dureza? Não são essas molas temperadas com rara perfeição? Pode alguém empregar óleos mais finos para as humedecer? Tu mesmo concordas em que é impossível, e confessas afinal que o Diabo anda metido nisto!

E depois, desde pela manhã até à meia‑noite, os fregueses descontentes afluíam cada vez em maior número à oficina, e conseguiam chegar até ao velho relojoeiro, que não sabia a quem dar ouvidos.

‑ Este relógio atrasa‑se sem que eu possa acertá‑lo! ‑ queixava‑se um.

‑ Estoutro ‑ prosseguia uma voz diferente ‑ é de uma teimosia incrível, e parou nada mais nada menos como o Sol de Josué!

‑ Se é verdade que a sua saúde ‑ repetia a maior parte dos descontentes ‑ influi na dos seus relógios, mestre Zacharius, cure‑se quanto antes!

O velho punha‑se a olhar para toda aquela gente com ar espantado e só respondia meneando a cabeça ou proferindo tristes palavras.

‑ Esperem pelos primeiros dias bonitos, meus amigos! É a estação em que a existência revive nos corpos fatigados! É preciso que o Sol nos venha aquecer a todos nós.

‑ Que grande vantagem, se os nossos relógios têm de estar doentes todo o Inverno! ‑ retorquiu‑lhe um dos mais desesperados. ‑ Sabe, mestre Zacharius, que o seu nome está inscrito com todas as letras no mostrador? Valha‑o Deus! O mestre não honra a assinatura!

Afinal aconteceu que o velho, envergonhado daquelas censuras, tirou algumas peças de ouro do seu velho cofre e começou a comprar os relógios estragados. A esta notícia, os fregueses acudiram em grande número e o dinheiro daquela pobre casa consumiu‑se bem depressa; porém, a probidade do relojoeiro ficou ilibada. Gérande aplaudiu calorosamente aquela delicadeza de sentimentos, que irremediavelmente a arruinava, e não tardou que Alberto tivesse de oferecer as suas economias a mestre Zacharius.

‑ Que será da minha filha? ‑ suspirava o velho relojoeiro, agarrando‑se, por vezes, neste naufrágio ao sentimento do amor paternal.

Alberto não se atreveu a responder que sentia bastante coragem para o futuro e grande dedicação por Gérande. Naquele dia mestre Zacharius ter‑lhe‑ia dado o nome de genro, desmentindo as funestas palavras que ainda lhe zumbiam aos ouvidos:

«Gérande não desposará Alberto.»

Entretanto, com este sistema, o velho relojoeiro chegou a empobrecer‑se completamente. Os seus velhos vasos, curiosos pela antiguidade, passaram para mãos estranhas e desfez‑se das magníficas almofadas de carvalho, delicadamente esculpidas, que lhe revestiam as paredes da casa; algumas singelas pinturas dos primeiros pintores flamengos deixaram bem depressa de recrear a vista de sua filha, e tudo, inclusivamente as preciosas peças de ferramenta que o seu génio tinha inventado, foi vendido para indemnizar os reclamantes.

Só Escolástica não queria conformar‑se com aquele modo de proceder; os seus esforços, porém, não podiam impedir que os importunos se aproximassem de seu amo e saíssem depois com algum objecto precioso. Então a sua tagarelice fazia‑se ouvir em todas as ruas do seu bairro, onde há muito a conheciam. Ocupava‑se em desmentir os boatos de bruxaria e magia que corriam a respeito de Zacharius; mas, como no fundo estava convencida da verdade desses boatos, fartava‑se de rezar grande número de orações para que lhe fossem perdoadas aquelas piedosas mentiras.

Notara‑se, havia algum tempo, que o relojoeiro deixara de cumprir os seus deveres religiosos. Antigamente acompanhava sempre Gérande às solenidades da igreja, e parecia achar na oração o encanto intelectual que esta derrama nas inteligências elevadas, dado que é o mais sublime exercício da imaginação.

Este afastamento voluntário do velho quanto às práticas religiosas, coincidindo com o proceder particular da sua vida, justificava até certo ponto as acusações de sortilégio levantadas contra o seu trabalho. Por esta razão, com o duplo fim de reconduzir o pai para a graça de Deus e para a graça do mundo, Gérande resolveu chamar a religião em seu socorro. Pensou que o catolicismo podia de algum modo restituir a vitalidade àquela alma moribunda; mas os dogmas da fé e da humildade tinham de lutar na alma de mestre Zacharius com uma soberba invencível, e tropeçavam naquele orgulho da ciência que tudo atribui a si, sem remontar à origem infinita donde derivam os primeiros princípios.

Foi nestas circunstâncias que Gérande empreendeu a conversão de seu pai, e teve tanta influência que o velho relojoeiro prometeu ir no domingo próximo assistir à missa cantada da catedral. A jovem teve um momento de êxtase, como se o céu se entreabrisse diante dela. A velha Escolástica não pôde conter a alegria e achou afinal argumentos irreplicáveis contra as más‑línguas que acusavam o amo de impiedade. Falou nisto às suas vizinhas, às suas amigas e inimigas, tanto a quem a conhecia como a quem não a conhecia.

‑ Palavra, não acreditamos, senhora Escolástica, no que está para aí a anunciar ‑ responderam‑lhe todos. ‑ Mestre Zacharius procedeu sempre de combinação com o Diabo!

‑ Vocês não metem em conta ‑ tornava a boa mulher ‑ os belos campanários onde dão horas os relógios de meu amo. Quantas vezes não têm feito tocar a hora da oração e a da missa.

‑ Decerto ‑ respondiam‑lhe todos. ‑ Mas não inventou ele as máquinas que andam sozinhas e que chegam a fazer o que parece feito por um homem verdadeiro?

Mas a senhora Escolástica replicava, cheia de cólera:

‑ Também o demónio teria podido fabricar aquele belo relógio de ferro do Castelo de Andernatt, que a cidade de Genebra não teve meios bastantes para comprar? A cada hora que dava aparecia uma bela sentença, e qualquer cristão que se conformasse com todas elas iria direitinho para o paraíso. Pois isso é trabalho do Diabo?

Esta obra‑prima, fabricada havia vinte anos, tinha certamente levado às nuvens a glória de mestre Zacharius; mas mesmo naquela ocasião as acusações de bruxo haviam sido gerais. Entretanto a volta de mestre Zacharius à Igreja de São Pedro devia reduzir as más‑línguas ao silêncio.

Sem se lembrar decerto da promessa feita à filha, mestre Zacharius voltara para a oficina. Depois de ter visto a sua impotência quando procurara restituir a vida aos relógios, resolveu ver se poderia fabricar novas máquinas.

Abandonou todos aqueles corpos inertes e entregou‑se ao acabamento do relógio de cristal que devia ser a sua grande obra. Mas debalde se cansou, debalde se serviu da sua ferramenta mais perfeita e empregou o rubi e o diamante próprios para resistirem às fricções; o relógio estalou‑lhe nas mãos à primeira vez que quis dar‑lhe corda!

O velho ocultou aquele acontecimento a toda a gente, até à filha; mas desde então a sua vida começou a declinar rapidamente.

Já não eram as oscilações derradeiras de um pêndulo que vão diminuindo quando nada lhes restitui o movimento primitivo. Parecia que as leis da gravitação, actuando directamente sobre o velho relojoeiro, irresistivelmente o arrastavam para o túmulo.

 

O domingo tão ardentemente desejado por Gérande chegou afinal.

O tempo estava muito belo e a temperatura vivificante.

Os habitantes de Genebra caminhavam tranquilamente pelas ruas da cidade, discursando alegremente a respeito da volta da Primavera. Gérande, tomando carinhosamente o braço do velho, dirigiu‑se para os lados de São Pedro, seguidos ambos de Escolástica, que levava o livro das orações. Viram‑nos passar com curiosidade. O ancião deixava‑se conduzir como uma criança, ou antes como um cego. Foi quase com um sentimento de terror que os fiéis de São Pedro o viram transpor o limiar da igreja, e fingiram até que se retiravam quando ele se aproximou.

Os cânticos da missa solene já se ouviam.

Gérande dirigiu‑se para o seu banco do costume e ajoelhou‑se no mais profundo recolhimento. Mestre Zacharius ficou junto dela, em pé.

As cerimónias da missa decorreram com a solenidade majestosa daquelas épocas de crença, mas o velho em nada cria.

Não implorou a piedade do céu com os gritos de dor do Kyrie; com o Gloria in Excelsis não cantou as magnificências das alturas celestes; a leitura do Evangelho não o tirou das suas meditações materialistas, e esqueceu‑se de se associar às homenagens católicas do Credo.

Aquele velho orgulhoso permanecia imóvel, insensível e mudo como uma estátua; e até no momento solene em que a campainha anunciou o milagre da transubstanciação, não se curvou, e olhou arrogantemente para a hóstia consagrada que o padre elevava acima dos fiéis.

Gérande fitou o pai, e lágrimas copiosas molharam o seu livro de missa.

Naquele momento o relógio de São Pedro deu onze horas e meia. Mestre Zacharius voltou‑se com vivacidade para o velho campanário que ainda falava. Pareceu‑lhe que o mostrador da banda de dentro o fitava, que os algarismos das horas brilhavam como se tivessem sido gravados com traços de fogo e que os ponteiros dardejavam faíscas pelas agudas extremidades.

A missa acabou. Era costume rezar‑se o Angelus ao meio‑dia; antes de sair da capela-mor, os celebrantes esperavam que desse a hora no relógio do campanário. Mais alguns instantes, e aquela oração ia subir aos pés da Virgem.

Mas, de repente, um ruído estridente fez‑se ouvir. Mestre Zacharius soltou um grito...

O ponteiro grande do mostrador, ao chegar ao meio‑dia, parara de súbito, e não se ouviram as doze badaladas.

Gérande correu em socorro de seu pai, que caíra sem sentidos e fora transportado para fora da igreja.

‑ É o golpe da morte! ‑ disse Gérande, soluçando.

Levado para casa, mestre Zacharius foi deitado no leito, em completo estado de aniquilamento. A vida só nele existia à superfície do corpo, como as últimas nuvens de fumo que vagueiam em redor de uma lâmpada apagada há pouco.

Quando tornou a si, Alberto e Gérande curvaram‑se sobre ele. Naquele momento supremo, o futuro tomou a seus olhos a forma do presente. Viu a filha, só, sem apoio.

‑ Meu filho ‑ disse ele a Alberto ‑, dou‑te minha filha ‑ e estendeu a mão para os dois jovens, que foram assim unidos junto daquele leito de morte.

Mas, no mesmo instante, mestre Zacharius levantou‑se num impulso de raiva. Acudiram‑lhe à mente as palavras do velho.

‑ Não quero morrer! ‑ exclamou ele. ‑ Não quero morrer! Eu, mestre Zacharius, não devo morrer... Os meus livros... as minhas contas!...

E, dizendo isto, saltou para fora da cama, dirigindo‑se a um livro onde se achavam inscritos os nomes dos seus fregueses, assim como o objecto que lhes tinha vendido.

Folheou‑o com avidez e pousou o dedo descarnado numa das folhas.

‑ Eis aqui!... ‑ disse ele. ‑ O velho relógio de ferro vendido àquele Pitonácio! É o único que ainda não me trouxeram. Existe! Anda! Vive ainda! Ah... quero‑o! Hei‑de encontrá‑lo outra vez! Cuidarei dele tão bem que a morte não terá poder sobre mim.

E perdeu os sentidos.

Alberto e Gérande ajoelharam diante do velho e oraram.

 

                                     A HORA DA MORTE

 

DECORRERAM alguns dias, e mestre Zacharius, aquele homem quase morto, levantou‑se da cama e voltou à vida graças a uma excitação sobrenatural. Vivia do orgulho. Mas Gérande não se iludiu. A alma e o corpo de seu pai estavam para sempre perdidos.

Viram então o velho ocupado em reunir os seus últimos recursos, sem se importar com a família.

Desenvolvia uma energia incrível, caminhando, esquadrinhando e murmurando misteriosas palavras.

Certa manhã, Gérande desceu à sua oficina. Mestre Zacharius não se achava ali.

Esperou‑o todo o dia. Mestre Zacharius não voltou.

Gérande chorou o mais que se pode chorar, mas seu pai não tornou a aparecer.

Alberto correu a cidade e obteve a certeza de que o velho saíra para fora do seu recinto.

‑ Tratemos de encontrar nosso pai! ‑ exclamou Gérande quando o jovem lhe trouxe estas dolorosíssimas notícias.

‑ Onde poderá ele estar? ‑ perguntou Alberto. Uma inspiração iluminou‑lhe subitamente o espírito.

Lembrou‑se das últimas palavras do mestre Zacharius. O relojoeiro só vivia da lembrança daquele velho relógio de ferro que não lhe tinham restituído! Mestre Zacharius devia ter‑se posto à procura dele.

Alberto comunicou este pensamento a Gérande.

‑ Vejamos o livro de meu pai ‑ propôs ela.

Ambos desceram à oficina. O livro estava aberto sobre a mesa de trabalho. Todos os relógios feitos pelo velho relojoeiro, e que lhe tinham sido restituídos em razão do seu desarranjo, estavam riscados, menos um.

«Vendido ao Sr. Pitonácio um relógio de ferro, com música e personagens moventes, depositado no seu Castelo de Andernatt.»

Era o relógio «moral», de que a velha Escolástica falara com tantos encómios.

‑ Meu pai deve lá estar! ‑ exclamou Gérande.

‑ Corramos ‑ decidiu Alberto. ‑ Podemos ainda salvá‑lo!...

‑ Não nesta vida ‑ murmurou Gérande ‑, mas ao menos na outra!

‑ Com o auxílio de Deus, Gérande! O Castelo de Andernatt está situado nos desfiladeiros dos Dents‑du‑Midi, a vinte horas de distância de Genebra. Partamos!

Naquela mesma tarde Alberto e Gérande, seguidos da velha criada, caminhavam a pé pela estrada que costeia o lago de Genebra. Andaram cinco léguas naquela noite, não se tendo demorado nem em Bessinge, nem em Ermance, onde se eleva o célebre Castelo dos Mayor. Atravessaram a vau, não sem alguma dificuldade, a torrente do Dranse. Em todos os lugares perguntavam com inquietação por mestre Zacharius, e bem depressa obtiveram a certeza de que lhe seguiam o rasto.

No dia seguinte, ao entardecer, depois de passarem o Thonon, chegaram a Elvian, donde se avista território suíço numa extensão de doze léguas. Mas os dois enamorados nem sequer notaram aqueles lugares encantadores. Caminhavam impelidos por uma força sobrenatural. Alberto, encostado a um bordão nodoso, oferecia o braço, ora a Gérande, ora à velha Escolástica, e procurava no coração uma energia suprema para amparar as suas companheiras.

Falavam todos três dos seus pesares, das suas esperanças, e seguiam a formosa estrada à beira de água, sobre a estreita planura que liga as margens do lago às elevadas montanhas do Chalois. Bem depressa se acharam em Bouveret, no ponto em que o Ródano desagua no lago de Genebra.

A partir desta cidade deixaram o lago, e então, no meio daquela região montanhosa, a jornada tornou‑se‑lhes mais fatigante. Vionnaz, Chesset, Colombay, aldeias meio perdidas naquelas solidões, bem depressa lhes ficaram para trás. Entretanto os joelhos dobravam‑se‑lhes, os pés rasgavam‑se‑lhes nas agudas arestas de que o solo se eriça como de silvestre e rasteira vegetação de granito, e nem um só vestígio de mestre Zacharius!

E era preciso encontrá‑lo; por isso os dois jovens não perderam um momento a repousar nas cabanas isoladas, nem no Castelo de Monthey, o qual, com as suas dependências, constituía o apanágio de Margarida de Sabóia. Finalmente, quase no fim do dia, alcançaram, meio mortos de fadiga, o Eremitério de Nossa Senhora du Sex, situado na base dos Dents‑du‑Midi, seiscentos passos acima do Ródano.

O eremita recebeu‑os ao cair da noite. Não podiam dar nem mais um passo, e tiveram forçosamente de descansar ali um pouco.

O religioso não lhes deu notícia de mestre Zacharius.

Mal o podiam esperar vivo no meio daquelas tristes solidões.

A noite estava tenebrosa, o vendaval assobiava na montanha e os turbilhões de neve precipitavam‑se do cume das rochas abaladas pelo choque.

Os dois jovens, agachados diante da lareira do eremita, contavam‑lhe a sua dolorosa história. Os mantos, impregnados de neve, enxugavam a um canto, e da banda de fora o cão do eremitério soltava uivos lúgubres que se confundiam com os uivos da tormenta.

‑ O orgulho ‑ disse o eremita aos seus hóspedes ‑ perdeu um anjo criado para o bem. É o escolho onde tropeçam os destinos do homem. Ao orgulho, origem de todos os vícios, não se podem opor nenhuns raciocínios, pois que, por sua própria natureza, o orgulho não lhes dá ouvidos... Nada mais resta do que orarem por vosso pai!

Ajoelharam‑se todos quatro, quando os latidos aumentaram e alguém bateu à porta do eremitério.

‑ Abram, em nome do Diabo!

A porta cedeu após violentos esforços e apareceu um homem desgrenhado, de faces cavadas e meio nu.

‑ Meu pai! ‑ exclamou Gérande. Era mestre Zacharius.

‑ Onde estou eu? ‑ exclamou. ‑ Na eternidade!... O tempo acabou... Já não soam as horas... os ponteiros param!

‑ Meu pai! ‑ repetiu Gérande, com uma comoção tão dilacerante que o velho pareceu voltar ao mundo dos vivos.

‑ Tu aqui, minha Gérande! ‑ exclamou ele. ‑ E tu, Alberto!... Ah!, meus queridos filhos, vêm casar‑se na nossa velha igreja!

‑ Meu pai ‑ pediu Gérande, agarrando‑o pelo braço

‑ volte para a sua casa de Genebra, volte connosco!

O velho soltou‑se dos braços da filha e correu para a porta, no limiar da qual a neve se acumulava em montões.

‑ Não abandone seus filhos! ‑ exclamou Alberto.

‑ Porque ‑ redarguiu com tristeza o velho relojoeiro, ‑ porque hei‑de voltar a esses lugares que a minha vida já abandonou ou onde uma parte de mim mesmo está para sempre enterrada?

‑ A sua alma não morreu! ‑ exclamou o eremita com voz grave.

‑ A minha alma!... Oh... não!... As suas rodas são boas!... Sinto‑a bater a tempos iguais...

‑ A sua alma é imaterial! A sua alma é imortal! ‑ replicou o eremita com energia.

‑ Sim... como a minha glória! Mas está encerrada no Castelo de Andernatt e quero vê‑la!

O eremita persignou‑se. Escolástica estava inanimada. Alberto amparava a sua futura noiva nos braços robustos.

‑ O Castelo de Andernatt é habitado por um condenado ‑ observou o eremita ‑, um condenado que não se descobre diante da cruz do meu eremitério!

‑ Meu pai, não vá lá!

‑ Quero a minha alma, porque a minha alma pertence‑me!...

‑ Detenham‑no, detenham meu pai! ‑ suplicou Gérande, no auge da aflição.

Mas o ancião transpusera o limiar da porta e deitara a correr no meio das trevas, bradando:

‑ A mim, A mim, a minha alma!...

Gérande, Alberto e Escolástica precipitaram‑se atrás dele. Caminharam por atalhos intransponíveis, sobre os quais mestre Zacharius deslizava como a tempestade, impelido por força irresistível. A neve redemoinhava em torno deles e misturava os seus alvos flocos com a escuma das torrentes que transbordavam dos leitos.

Ao passarem diante da capela levantada em memória da carnificina da legião tebana, Gérande, Alberto e Escolástica persignaram‑se precipitadamente. Mestre Zacharius não se descobriu.

Finalmente, a aldeia de Evionaz apareceu no meio daquela região inculta. O coração mais insensível comover‑se‑ia ao ver a aldeia assim perdida em tão horrível solidão.

O velho continuou o seu caminho. Dirigiu‑se para a esquerda e internou‑se no mais profundo dos desfiladeiros dos Dents‑du‑Midi, que parecem morder no céu com os seus agudos picos.

Dentro em pouco umas ruínas, vetustas e sombrias como os rochedos que lhes serviam de base, ergueram‑se diante dele.

‑ É acolá... acolá! ‑ exclamou, precipitando‑se novamente na sua carreira desatinada.

Naquela época o Castelo de Andernatt era apenas uma ruína. Uma grande torre, derruída, meio desmantelada, dominava‑o e parecia ameaçar com a sua queda os velhos telhados acoruchados que se lhe erguiam aos pés. Aqueles imensos montões de pedras infundiam horror. Pressentia‑se, no meio de tais destroços, a existência de salas sombrias com tectos arrombados, e de imensos receptáculos de peçonhentas víboras.

Um postigo baixo e estreito, que deitava para um fosso cheio de entulho, dava acesso ao Castelo de Andernatt.

Dizia a lenda que, nas noites de Inverno, Satanás vinha dirigir as suas tradicionais sarabandas à beira dos profundos desfiladeiros onde mergulhava a sombra daquelas ruínas!

Mestre Zacharius não se aterrou com o seu aspecto sinistro. Chegou ao postigo. Ninguém lhe impediu a entrada. Achou‑se num pátio grande e tenebroso. Ninguém obstou que o atravessasse. Trepou por uma espécie de plano inclinado, que ia ter a um dos extensos corredores, cujas arcadas pareciam esmagar a claridade do dia sob as suas pesadas abóbadas. Ninguém se opôs à sua passagem.

Gérande, Alberto e Escolástica continuavam a segui‑lo.

Como se o guiasse mão invisível, mestre Zacharius parecia muito seguro do seu caminho e andava com passo rápido. Chegou a uma porta velha e carunchosa que cedeu, sacudida por ele, ao mesmo tempo que os morcegos descreviam círculos oblíquos em redor da sua cabeça.

Achou‑se numa sala mais bem conservada que as outras. As paredes estavam revestidas de espaçosas almofadas esculpidas, sobre as quais larvas de diferentes espécies pareciam agitar‑se confusamente.

Algumas janelas, altas e estreitas, semelhantes a seteiras, estremeciam sob a violência da tempestade.

Chegando ao meio da sala, mestre Zacharius soltou um grito de alegria.

Sobre um pedestal de ferro, encostado à parede, achava‑se o relógio onde presentemente residia toda a sua vida. Aquela obra sem igual representava uma velha igreja romana, com os seus botaréus de ferro forjado e o seu pesado campanário, onde havia um mecanismo que tocava a antífona do dia, a Ave‑Maria, a missa, as vésperas completas e o Salve. Por cima da porta da igreja, que se abria à hora dos ofícios divinos, via‑se um florão, no centro do qual se moviam dois ponteiros, e cuja arqui‑volta ostentava as doze horas do mostrador em relevo. Entre a porta e o florão, como contara a velha Escolástica, aparecia numa moldura de cobre, uma máxima relativa ao emprego de cada hora do dia. Mestre Zacharius regulara outrora esta sucessão de divisões com solicitude inteiramente cristã; as horas de reza, de trabalho, de refeição, de recreio, de repouso, sucediam‑se segundo a disciplina religiosa e deviam infalivelmente fazer a salvação de um observador escrupuloso no cumprimento das suas recomendações.

Ébrio de alegria, mestre Zacharius ia apoderar‑se do relógio, quando ouviu detrás de si uma risada horrível.

Voltou‑se, e, à luz de uma lâmpada fumegante, reconheceu o velhinho de Genebra.

‑ Aqui! ‑ exclamou ele.

Gérande teve medo e chegou‑se muito para o seu prometido esposo.

‑ Bom dia, mestre Zacharius ‑ bradou o monstro.

‑ Quem é que vejo?

‑ O senhor Pitonácio, para o servir! Vem dar‑me a sua filha? Lembrou‑se das minhas palavras: «Gérande não casará com Alberto?»

O moço operário lançou‑se sobre Pitonácio, que lhe escapou como uma sombra.

‑ Suspende, Alberto! ‑ exclamou mestre Zacharius.

‑ Boa‑noite ‑ bradou Pitonácio, que desapareceu.

‑ Meu pai ‑ exclamou Gérande ‑, fujamos destes lugares malditos!... Meu pai!.

Mestre Zacharius já ali não se achava. Perseguia, subindo pelos andares arruinados, o fantasma de Pitonácio. Escolástica, Alberto e Gérande ficaram como que aniquilados naquela sala imensa. A jovem caíra numa cadeira de pedra; a velha criada ajoelhou junto dela e pôs‑se a rezar. Alberto ficou em pé, a velar pela sua prometida. Pálidos clarões rasgavam as sombras, e o silêncio era apenas interrompido pelo labor daqueles animaizinhos que roíam as madeiras antigas e cujo ruído marca o tempo do «relógio da morte».

Aos primeiros raios do dia aventuraram‑se todos três pelas intermináveis escadas que circulavam sob aquele montão de pedras. Durante duas horas vaguearam assim sem encontrar ninguém e só ouvindo o eco longínquo responder aos seus gritos. Ora se achavam cem pés abaixo do chão, ora dominavam aquelas agrestes montanhas.

O acaso reconduziu‑os afinal à vasta sala que os abrigara durante aquela noite de angústias. Já não estava deserta. Mestre Zacharius e Pitonácio ali conversavam juntos, um de pé e rígido como um cadáver, o outro acocorado sobre uma mesa de mármore.

Avistando Gérande, mestre Zacharius foi buscá‑la pela mão e conduziu‑a para junto de Pitonácio, dizendo:

‑ Eis o teu mestre e senhor, minha filha! Gérande, eis o teu esposo!

Gérande estremeceu da cabeça até aos pés.

‑ Nunca! ‑ exclamou Alberto ‑, porque ela é a minha prometida esposa.

‑ Nunca! ‑ redarguiu Gérande, como um eco plangente.

Pitonácio pôs‑se a rir.

‑ Querem a minha morte? ‑ exclamou o velho. ‑ Acolá, naquele relógio, de todos os que saíram das minhas mãos o único que ainda anda, está encerrada a minha vida, e este homem disse‑me: «Quando eu possuir a tua filha, possuirás tu este relógio.» E aquele homem não quer dar‑lhe corda! Pode despedaçá‑lo e arremessar‑me ao nada. Ah, minha filha, não me amas já!

‑ Meu pai! ‑ murmurou Gérande, recuperando os sentidos.

‑ Se tu soubesses quanto tenho sofrido longe do princípio da minha existência! ‑ volveu o velho. ‑ Talvez não tratassem deste relógio! Talvez deixassem gastar as suas molas, embaraçarem‑se as suas rodas! Mas agora, com as minhas próprias mãos, vou sustentar aquela saúde tão cara, porque é preciso que eu não morra, eu, o grande relojoeiro de Genebra! Olha, minha filha, como os ponteiros avançam com firmeza! Olha, aí vão dar cinco horas! Escuta bem, e repara na bela máxima que te vai aparecer. Soaram cinco horas no campanário do relógio com um estrondo que dolorosamente ecoou na alma de Gérande e apareceram estas palavras em letras vermelhas:

É preciso comer os frutos da árvore da ciência.

Alberto e Gérande olharam um para o outro estupefactos. Já não eram as ortodoxas sentenças do relojoeiro católico! O bafo maldito de Satanás devia por ali ter passado. Mas mestre Zacharius não prestava nenhuma atenção àquilo e prosseguiu:

‑ Ouves, minha Gérande? Eu vivo, vivo ainda!... Não! Tu não havias de querer matar teu pai: aceitarás este homem para esposo, a fim de que eu me torne imortal e alcance o poder de Deus!

A estas ímpias palavras a velha Escolástica benzeu‑se, e Pitonácio soltou um grito de alegria.

‑ E depois, Gérande, serás feliz com ele! Vês este homem? É o tempo! A tua existência será regulada com uma exactidão absoluta! Gérande! Visto que te dei a vida, restitui a vida a teu pai!

‑ Gérande ‑ recordou Alberto ‑, eu sou teu prometido esposo!

‑ É meu pai! ‑ redarguiu Gérande, caindo sem forças.

‑ Pertence‑te! ‑ disse mestre Zacharius. ‑ Pitonácio, cumprirás a tua promessa!

‑ Eis a chave do relógio ‑ volveu a horrível personagem.

Mestre Zacharius apoderou‑se da comprida chave, que semelhava uma cobra desenrolada, e, correndo para o relógio, começou a dar‑lhe corda com fantástica rapidez. O ranger da mola incomodava os nervos. O velho relojoeiro girava, girava sem cessar com a chave, sem que o braço parasse, e parecia que aquele movimento de rotação era independente da sua vontade. Girou com ela cada vez mais depressa e fazendo estranhas contorções até que caiu de cansaço.

‑ Tem corda para um século! ‑ exclamou.

Alberto fugiu da sala como um doido. Depois de longos rodeios, achou a saída daquela morada maldita, e correu para o campo. Voltou à Ermida de Nossa Senhora du Sex e falou ao santo homem com palavras tão desesperadas que este consentiu em acompanhá‑lo ao Castelo de Andernatt.

Se durante estas horas de angústia Gérande não chorou é porque não tinha lágrimas para chorar.

Mestre Zacharius não abandonara a imensa sala. A cada minuto vinha escutar o bater regular do velho relógio.

Entretanto, deram dez horas, e, com grande espanto de Escolástica, apareceram no mostrador de prata estas palavras:

O homem pode tornar‑se igual a Deus.

Não só o velho se não ofendia com tão ímpias palavras, como as lia com delírio e se deleitava com estes pensamentos orgulhosos, enquanto Pitonácio girava em torno dele.

À meia‑noite devia assinar‑se o contrato do casamento. Gérande, quase inanimada, não via nem ouvia nada. O silêncio era apenas interrompido pelas palavras do velho e os rugidos de Pitonácio.

Deram onze horas. Mestre Zacharius estremeceu e com voz vibrante leu esta blasfémia:

O homem deve ser o escravo da ciência e por ela sacrificar a família.

‑ Sim! ‑ exclamou ele ‑, neste mundo só há a ciência!

Os ponteiros giravam sobre o mostrador de ferro, assobiando como víboras, e o movimento do relógio era precipitado.

Mestre Zacharius não falava! Caíra por terra, agonizava, e do seu peito opresso só saíam estas palavras entrecortadas:

‑ A vida! A ciência!

Esta cena tinha então duas novas testemunhas: o eremita e Alberto. Gérande, mais morta do que viva, junto do pai, rezava...

De repente ouviu‑se o ruído que precede o som das horas.

Mestre Zacharius ergueu‑se.

‑ Meia‑noite! ‑ exclamou ele.

Mas o eremita estendeu a mão para o velho relógio... e a meia‑noite não soou.

Mestre Zacharius soltou então um grito, que se deve ter ouvido no inferno, quando estas palavras apareceram:

Aquele que tentar ser igual a Deus ficará condenado para toda a eternidade.

O velho relógio rebentou com o ruído de um raio, a mola desprendeu‑se, fugiu pela porta fora, saltando com mil contorções fantásticas. O velho correu atrás dela, pretendendo debalde apanhá‑la, gritando:

‑ A minha alma! A minha alma!

A mola saltava diante dele, de um lado para o outro, sem se deixar apanhar.

Afinal, Pitonácio agarrou‑a e, proferindo uma horrível blasfémia, desapareceu nas profundezas da Terra.

Mestre Zacharius caiu de costas. Estava morto.

O corpo do relojoeiro foi enterrado no meio dos picos de Andernatt. Em seguida, Alberto e Gérande voltaram para Genebra e, durante os muitos anos que Deus lhes concedeu, diligenciaram remir pela oração a alma do réprobo da ciência.

 

UM DRAMA NOS ARES

 

A minha passagem pelas principais cidades da Alemanha fora brilhantemente assinalada por ascensões aerostáticas; mas, até então, nenhum habitante da Confederação me acompanhara na barquinha, e as magníficas experiências feitas em Paris pelos senhores Green, Eugênio Godard e Poitevin não tinham ainda resolvido os graves alemães a tentar o percurso das regiões aéreas.

Não obstante, apenas se espalhou em Francfort a notícia da minha próxima ascensão, pediram‑me três personagens daquela cidade licença para me acompanharem.

Dali a dois dias devíamos elevar‑nos na Praça da Comédia.

Tratei logo de aprontar o meu balão. Era de seda com preparo de guta‑percha, substância inatacável aos ácidos e aos gases, de absoluta impermeabilidade, e o seu volume ‑ três mil metros cúbicos ‑ permitia‑lhe elevar‑se às maiores alturas.

O dia destinado para a ascensão era o da grande feira de Setembro, que atrai muita gente a Francfort. O gás de iluminação, de qualidade excelente e de grande força ascensional, fora‑me fornecido em boas condições, e pelas onze horas da manhã o balão estava cheio, mas somente nas três quartas partes da sua capacidade, precaução indispensável, porque à medida que se efectua a ascensão diminuem de intensidade as camadas atmosféricas, e o fluido, adquirindo mais elasticidade, podia fazer rebentar as paredes do aeróstato.

Os meus cálculos tinham‑me fornecido exactamente a quantidade de gás necessária para me elevar a mim e aos meus companheiros.

Devíamos partir ao meio‑dia.

Era um magnífico espectáculo o daquela multidão imponente que se apertava em volta do recinto reservado; inundava toda a praça, golfava para as ruas próximas e ocupava as casas das praças desde o rés‑do-chão até aos telhados em bico, revestidos de ardósia.

Tinham‑se acalmado as ventaneiras dos dias antecedentes. Do céu límpido de nuvens baixava um calor sufocante. Nem o mais pequeno sopro refrescava a atmosfera.

Com um tempo daqueles, podia‑se baixar no próprio lugar de onde se partia.

Levava comigo trezentas libras de lastro, repartidas em sacos. A barquinha, perfeitamente redonda, de quatro pés de diâmetro e três de profundidade, estava comodamente instalada; a corda de cânhamo que a segurava estendia‑se sobre o hemisfério superior do aeróstato. A bússola achava‑se no seu lugar, isto é, suspensa do círculo que enfeixava as cordas de suporte, e a âncora cuidadosamente segura.

Podíamos partir.

Entre os indivíduos aglomerados em volta do recinto, notei um mancebo de rosto pálido e feições alteradas.

Impressionou‑me o seu aspecto. Era um assíduo espectador das minhas ascensões, que eu já encontrara em muitas cidades da Alemanha.

Contemplava, com expressão inquieta e ávida, a curiosa máquina, que permanecia imóvel a alguns pés acima do solo, e conservava‑se silencioso no meio do ruído geral.

Deu meio‑dia.

Era a hora. Os meus companheiros de viagem não apareciam.

Mandei procurá‑los aos respectivos domicílios e soube que um deles partira para Hamburgo, outro para Viena e o terceiro para Londres.

Haviam desanimado no momento de empreenderem uma dessas excursões que, graças à perícia dos modernos aeronautas, são isentas de todo o perigo.

Como até certo ponto faziam parte do programa da festa, haviam receado que os obrigasse a executar esse programa fielmente, e tinham fugido para longe do teatro, no momento de se levantar o pano.

Era evidente que a sua coragem estava em razão inversa do quadrado da sua velocidade...

Meio desiludida, a multidão deu mostras de muito mau humor. Não hesitei em partir só.

A fim de restabelecer o equilíbrio entre o peso específico do balão e o peso que devia ser elevado, substituí os companheiros ausentes por novos sacos de areia, e subi para a barquinha.

Os doze homens que retinham o aeróstato por meio de doze cordas deixaram‑nas correr um pouco por entre os dedos e o balão elevou‑se algumas dezenas de centímetros.

Não corria uma aragem e a atmosfera, pesada como chumbo, parecia que não se podia atravessar.

‑ Está tudo pronto? ‑ perguntei eu.

Os homens prepararam‑se. Com um último lance de vista certifiquei‑me de que podia partir.

‑ Atenção! ‑ bradei.

Houve um movimento entre a multidão, que me pareceu querer invadir o recinto reservado.

‑ Larga.

O balão começou a elevar‑se, mas de súbito senti um choque que me fez cair no fundo da barquinha.

Quando me levantei, achei‑me em frente de um viajante que eu não esperava encontrar: o rapaz pálido.

‑ Senhor, apresento‑lhe os meus cumprimentos! ‑ disse‑me com a maior fleuma.

‑ Com que direito?...

‑ Estou aqui?... Com o direito que me confere a impossibilidade em que se acha de me fazer sair.

Eu estava abismado. Aquele aprumo fazia‑me perder a presença de espírito e não sabia que responder.

Olhava para o intruso, mas ele não fazia caso do meu espanto.

‑ O meu peso transtorna‑lhe o equilíbrio? ‑ disse. ‑ Dá licença...

E, sem esperar o meu assentimento, aliviou o balão de dois sacos, que arremessou ao espaço.

‑ Senhor ‑ declarei eu então, tomando a única resolução possível ‑, bem... bem I Ficará!... bem... Mas é só a mim que pertence a direcção do aeróstato...

‑ Senhor ‑ retorquiu ‑, a sua urbanidade é toda francesa. É do mesmo país que eu sou! Aperto‑lhe moralmente a mão que me recusa. Tome as suas disposições e proceda como entender. Esperarei que tenha concluído...

‑ Para?...

‑ Para conversar comigo...

O barómetro descera a vinte e seis polegadas.

Estávamos quase a seiscentos metros de altitude. Mas nada indicava o deslocamento horizontal do balão, porque é a massa de ar que o rodeia que caminha com ele.

Uma espécie de neblina ardente banhava os objectos que se achavam abaixo de nós e dava aos seus contornos uma indecisão lastimável.

Tornei a examinar o meu companheiro.

Era homem de uns trinta anos, trajado com simplicidade.

As suas feições, rudemente angulosas, revelavam uma energia indomável e parecia muito musculoso.

Todo entregue ao pasmo que lhe proporcionava esta ascensão silenciosa, conservava‑se imóvel, diligenciando distinguir os objectos que se confundiam num vago conjunto.

‑ Inconveniente neblina! ‑ observou passados instantes.

Não respondi.

‑ Está ressentido contra mim! ‑ continuou. ‑ Que quer? Não podia pagar a passagem; portanto, era preciso entrar de surpresa na barquinha.

‑ Ninguém lhe diz que desça, senhor!

‑ Pois não sabe que sucedeu coisa semelhante aos condes de Laurencin e de Dampierre, quando se elevaram em Lião, em 15 de Janeiro de 1784? Um jovem negociante, chamado Fontaine, subiu de assalto, com risco de fazer voltar o mecanismo!... Fez a viagem, e ninguém morreu por isso!

‑ Em terra nos explicaremos ‑ tornei eu, ofendido com o tom ligeiro com que ele me falava.

‑ Ora! Não pensemos no regresso!

‑ Pois julga que não desço daqui a pouco?

‑ Descer! ‑ exclamou com surpresa. ‑ Descer! Comecemos por subir.

E, antes que lho pudesse impedir, aliviou a barquinha de mais dois sacos de areia, mesmo cheios!

‑ Senhor! ‑ exclamei, cheio de cólera.

‑ Conheço a sua habilidade ‑ redarguiu pausadamente o desconhecido ‑, e as suas famosas ascensões têm feito ruído. Mas se a experiência é irmã da prática, também é um tanto prima da teoria, e eu tenho estudado muito sobre a arte aerostática. Os estudos deram‑me na cabeça! ‑ acrescentou tristemente, caindo em muda contemplação.

O balão, depois de novamente se elevar, estacionara.

O desconhecido consultou o barómetro e observou:

‑ Eis‑nos a oitocentos metros! Os homens parecem insectos. Olhe! Parece‑me que desta altura é que devíamos sempre considerá‑los, para acertadamente ajuizarmos das suas proporções! A Praça da Comédia está transformada num formigueiro. Olhe a multidão que se amontoa nos cais e o Zeil que diminui. Estamos por cima da igreja do Dom. O Reno já não passa de uma linha esbranquiçada que atravessa a cidade e a ponte Mein‑Brucke parece um fio lançado entre as margens do rio.

A atmosfera esfriara um pouco.

‑ Não há coisa que eu não faça por amor de si, meu hospedeiro ‑ disse‑me o meu companheiro. ‑ Se tem frio, despirei o casaco e emprestar‑lho‑ei.

‑ Obrigado! ‑ respondi secamente.

‑ Ora! A necessidade não conhece lei... Dê‑me a mão; sou seu compatriota, instruir‑se‑á na minha companhia, e a minha conversação indemnizá‑lo‑á do tédio que lhe causo!

Sentei‑me, sem responder, na extremidade oposta da barquinha. O mancebo tirara do casaco um caderno volumoso.

Era um trabalho sobre aerostática.

‑ Possuo ‑ disse ‑, a mais curiosa colecção de gravuras e de caricaturas que se têm publicado a propósito das nossas manias aéreas. Esta preciosa descoberta tem sido ao mesmo tempo admirada e motejada. Já não estamos felizmente no tempo em que os Montgolfier procuravam fazer nuvens factícias com vapor de água e fabricar um gás que imitasse a electricidade, gás que se produzia por meio da combustão da palha molhada e lã cortada.

‑ Quer então amesquinhar o mérito dos inventores? ‑ volvi, porque já me tinha congraçado com a aventura. ‑ Não era grande coisa provar pela experiência a possibilidade de nos elevarmos nos ares?

‑ Oh, senhor! Quem nega a glória dos primeiros navegadores aéreos? Era preciso uma coragem imensa para qualquer se elevar nos ares por meio de tão frágeis invólucros, que só continham ar quente. Mas, pergunto eu, tem por acaso caminhado muito a ciência aerostática depois das ascensões de Blanchard, isto é, quase no espaço de um século? Veja, senhor.

O desconhecido tirou uma gravura da sua colecção.

‑ Eis ‑ afirmou ele ‑, a primeira viagem aérea empreendida por Pilâtre des Rosiers e o marquês de Arlandes depois da descoberta dos balões. Luís XVI não queria dar o seu consentimento a esta viagem e dois condenados à morte deviam ser os primeiros a tentar as vias aéreas. Pilâtre des Rosiers revolta‑se contra esta injustiça, e, à força de subtis intrigas, consegue partir. Ainda não se havia inventado a barquinha, que torna fáceis as manobras, e em volta da parte inferior e apertada do balão havia uma galeria circular. Cada um dos aeronautas devia, portanto, conservar‑se em pontos opostos da galeria, porque a palha molhada que a obstruía impedia‑lhes os movimentos. Por baixo do orifício do balão suspendia‑se um rescaldo com lume. Quando os viajantes se queriam elevar, lançavam palha sobre o braseiro, com risco de incendiarem a máquina, e o ar, aquecendo mais, dava ao balão uma nova força ascensional. Os dois ousados navegadores partiram a 21 de Novembro de 1783 dos jardins de La Muette, que o delfim pusera à sua disposição. O aeróstato elevou‑se majestosamente, costeou a ilha dos Cisnes, passou o Sena na barreira da Conferência, e, dirigindo‑se por entre o domo dos Inválidos e a Escola Militar, aproximou‑se de São Sulpício.

Então os aeronautas atearam o fogo, atravessaram a avenida e desceram para além da Barreira do Inferno. Ao tocar no solo o balão esvaziou e sepultou por instantes sob as suas dobras Pilâtre des Rosiers!(*)

 

*. Já que Júlio Verne o não menciona, não vem fora de propósito lembrar que também nos cabe quinhão, e quinhão importante, na glória do descobrimento dos balões. Mais de setenta anos antes de os irmãos Montgolfier realizarem a sua ascensão, era feita em Lisboa, em tempo de D. João V, a primeira tentativa aerostática. Deve‑se essa tentativa ao jesuíta português Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o qual, segundo parece, se elevou diante da corte, num globo de lona ou papel aquecido pelo fogo.

À semelhança do que sucedeu lá fora com os diferentes exploradores das regiões aéreas, como se vê pela narrativa de Júlio Verne, também a sátira não poupou o jesuíta português.

Entre as diversas composições concernentes a este caso, trasladamos aqui, por nos parecer coisa curiosa para o leitor, a seguinte poesia, por ela se podendo avaliar as mais que sobre o mesmo assunto se publicaram.

AO PADRE‑MESTRE BARTOLOMEU LOURENÇO, INVENTOR DA NAVEGAÇÃO NO AR

Esta maroma escondida

Que abala toda a cidade;

Esta mentira verdade

Ou esta dúvida crida;

Esta exaltação nascida

No português firmamento;

Este nunca visto invento

Do padre Bartolomeu,

Assim fora santo eu

Como ele é coisa de vento.

Esta fera passarola

Que levou, por mais que brame,

Trezentos mil réis de arame

Somente para a gaiola;

Esta urdida paviola

Ou este tecido enredo;

Este das mulheres medo,

E enfim dos homens espanto,

Assim fora eu cedo santo

Como se há‑de acabar cedo.

 

Na sua narrativa, Júlio Verne não faz a mais leve menção do jesuíta português; não obstante, o padre Gusmão é comemorado em muitas obras francesas, o que admira, porque é costume em França saber‑se pouco de Portugal. Quem quiser mais circunstanciadas informações deste caso pode colhê‑las na obra erudita de A. Filipe Simões, intitulada A invenção dos aeròstatos reivindicada. O cónego Francisco Freire de Carvalho também escreveu uma Memória que tem por objecto reivindicar para a nação portuguesa a glória da invenção das máquinas aerostáticas. Também Inocêncio da Silva tratou do assunto com erudição numa nota à tradução das Maravilhas do génio do homem, de Amedée de Bast. (N. do T.)

 

‑ Mau agouro! ‑ comentei, interessado com estas particularidades que me tocavam de perto.

‑ Foi o agouro da catástrofe que devia mais tarde custar a vida ao infeliz! ‑ retorquiu o desconhecido com tristeza. ‑ Nunca lhe sucedeu uma coisa assim?

‑ Nunca!

‑ Ora, as desgraças vêm muito bem sem presságio! ‑ acrescentou o desconhecido.

E ficou silencioso.

Entretanto, íamos avançando para o sul, e Francfort já fugira por debaixo de nós!

‑ Talvez apanhemos uma tempestade ‑ advertiu o mancebo.

‑ Desceremos antes de ela vir ‑ tornei‑lhe eu.

‑ Ora essa! É melhor subir! Escapar‑lhe‑emos com mais certeza.

E dois novos sacos de areia despenharam‑se no espaço.

O balão elevou‑se com rapidez e pairou a mil e duzentos metros.

Fazia um frio bastante penetrante, e os raios do Sol, que dardejavam sobre o invólucro, dilatavam o gás interior e davam‑lhe maior força ascensional.

‑ Nada receie ‑ recomendou‑me o desconhecido. ‑ Temos três mil e quinhentas toesas de ar respirável. Demais, não se preocupe com o que faço.

Quis levantar‑me, mas uma vigorosa mão pregou‑me no banco.

‑ O seu nome? ‑ perguntei.

- O meu nome? Que lhe importa?

‑ Pergunto‑lhe o seu nome!

- Chamo‑me Eróstrato ou Empédocles, como quiser.

Não tinha nada de tranquilizadora esta resposta.

Além disso, o desconhecido falava com tão extraordinário sangue‑frio que perguntei a mim mesmo, não sem inquietação, com quem estaria lidando.

- Senhor ‑ continuou ‑, desde o físico Carlos ainda

não se imaginou coisa alguma nova. Quatro meses depois da descoberta dos aeróstatos, aquele homem hábil inventava a válvula, que deixa escapar o gás quando o balão está muito cheio ou quando se quer descer; a barquinha que facilita a manobra da máquina, a corda que comprime o invólucro do balão e reparte o peso sobre toda a superfície, o lastro que permite subir e escolher lugar de ancoragem; a camada de cauchu que torna o tecido impermeável, o barómetro que indica a altura alcançada. Finalmente, Carlos empregava o hidrogénio, que, catorze vezes menos pesado que o ar, permite chegar às camadas atmosféricas mais elevadas sem risco de combustão aérea. No 1 de Dezembro de 1783 três mil espectadores comprimiam‑se em volta das Tulherias. Carlos elevou‑se, e os soldados apresentaram‑lhe armas. Fez nove léguas pelos ares, conduzindo o seu balão com uma habilidade que os aeronautas actuais não têm excedido. O rei deu‑lhe uma pensão de duas mil libras, porque naquele tempo animavam‑se as invenções!

O desconhecido pareceu‑me então entregar‑se a uma certa agitação.

‑ Eu, senhor ‑ prosseguiu ‑, tenho estudado e convenci‑me de que os primeiros aeronautas dirigiam os seus balões. Sem falar de Blanchard, cujas asserções podem ser duvidosas, Guyton de Morveau, por meio de remos e de leme, imprimiu à sua máquina movimentos sensíveis e uma direcção bem perceptível. Ultimamente, em Paris, um relojoeiro, Julien, fez no Hipódromo convincentes experiências, porquanto, graças a um mecanismo especial, o seu aparelho aéreo, de forma oblonga, dirigiu‑se manifestamente contra o vento. Petin imaginou sobrepor quatro balões de hidrogénio, e, por meio de velas dispostas horizontalmente e colhidas em parte, espera obter uma ruptura de equilíbrio que, inclinando o aparelho, lhe imprimirá um andamento oblíquo. Fala‑se muito em motores destinados a vencer a resistência das correntes, a hélice por exemplo; mas a hélice, movendo‑se num meio móvel, não dará nenhum resultado. Eu, senhor, eu descobri o meio único de dirigir os balões, e nenhuma academia veio em meu auxílio, nenhuma cidade preencheu as listas das minhas subscrições, governo algum me quis ouvir! É infame!

O desconhecido não estava quieto, gesticulava, mexia‑se. A barquinha oscilava violentamente. Custou‑me bastante a contê‑lo.

Entretanto, o balão encontrara uma corrente mais rápida e avançava para o sul, a quinhentos metros de altitude.

‑ Eis Darmstadt ‑ informou o meu companheiro, debruçando‑se da barquinha. ‑ Não avista o castelo? Não muito distintamente, não é verdade? Que quer? Este calor de tempestade faz oscilar o contorno dos objectos, e é preciso um olho vivo para reconhecer as localidades!

‑ Tem a certeza de que é Darmstadt? ‑ perguntei.

‑ Tenho, e estamos a seis léguas de Francfort.

‑ Então é preciso descer.

‑ Descer! O senhor não quer descer sobre as torres das igrejas! ‑ volveu o desconhecido, com rancor.

‑ Não, mas nos arredores da cidade.

‑ Bem, evitemos então as torres!

E, falando deste modo, o meu companheiro agarrou em sacos de lastro. Precipitei‑me sobre ele; mas derrubou‑me com uma das mãos, e o balão, aliviado, atingiu dois mil metros.

‑ Esteja sossegado ‑ disse ele ‑ e não esqueça que Brioschi, Biot, Gay‑Lussac, Bixio e Barrai subiram a alturas consideráveis para fazerem experiências científicas.

‑ Senhor, é preciso descer ‑ tornei eu, diligenciando levá‑lo pela brandura. ‑ A tempestade está‑se formando em volta de nós. Não seria prudente...

‑ Subiremos mais alto que ela, não tenha receio! ‑ exclamou o meu companheiro. ‑ Haverá algo de mais belo do que dominar estas nuvens que esmagam a Terra? Não é uma honra navegar assim sobre as ondas aéreas? Grandes personagens têm viajado como nós! A marquesa e a condessa de Montalembert, a condessa de Podenas, Mlle La Grade, o marquês de Montalembert, partiram do arrabalde de Santo António para estas praias desconhecidas, e o duque de Chartres mostrou muita perícia e presença de espírito na sua ascensão de 15 de Julho de 1784. Em Lião, os condes de Laurencin e de Dampierre; em Nantes, De Luynes; em Bordéus, d'Arbelet des Granges; em Itália, o cavaleiro Andréani, e, nos nossos dias, o duque de Brunswick, têm deixado nos ares vestígios da sua glória. Para superar estas grandes personagens preciso penetrar mais nas profundezas celestes! Aproximar‑se uma pessoa do infinito é compreendê‑lo!

A rarefacção do ar dilatava consideràvelmente o hidrogénio do balão e eu via a parte inferior do invólucro, que de propósito ficara aberta, encher e tornar indispensável o abrir‑se a válvula.

Porém, o meu companheiro não parecia resolvido a deixar‑me manobrar à vontade.

Resolvi, portanto, puxar disfarçadamente pela corda da válvula, enquanto ele falava com animação, porque receava adivinhar com quem estava tratando! Seria horrível! Faltava quase um quarto para a uma hora.

Tínhamos deixado Francfort havia quarenta minutos e do lado do sul avançavam espessas nuvens, que não tardariam a encontrar‑se connosco.

‑ Perdeu completamente a esperança de fazer triunfar as suas ambições? ‑ perguntei com um interesse que não sentia.

‑ Completamente! ‑ respondeu o desconhecido, com voz abafada. ‑ Já magoado pelas recusas, acabaram comigo as caricaturas, esses coices de burro! É o suplício eterno reservado aos inovadores! Veja estas caricaturas de todas as épocas que enchem a minha carteira!

Enquanto o meu companheiro folheava os papéis, deitei a mão à corda da válvula, sem que ele desse por isso. Contudo, era de recear que desse pelo ruído, semelhante a uma queda de água, que o gás produz quando sai.

‑ Que de chascos ao abade Miolan! ‑ comentou ele. ‑ Devia elevar‑se com Janninet e Bredin. Durante a operação pegou fogo à máquina e o populacho ignorante fê‑lo em pedaços.

Puxei pela corda e o barómetro principiou a subir.

Era tempo! Para o sul ribombavam alguns trovões longínquos.

- Veja esta outra gravura ‑ prosseguiu o desconhecido, sem suspeitar das minhas manobras. ‑ É um balão imenso levando pelos ares um navio, grandes castelos, casas, etc. Mal imaginavam os caricaturistas que as suas tolices viriam um dia a tornar‑se em verdades! É um navio completo! À esquerda o leme com o alojamento dos pilotos; à proa casas de recreio, um órgão monstro e uma peça para chamar a atenção dos habitantes da Terra ou da Lua; por cima da popa o observatório e o balão‑lancha; no círculo equatorial, o alojamento do exército; ainda à esquerda o farol, depois as galerias superiores para os passeios, as velas e as grandes asas; por baixo os cafés e a arrecadação geral dos mantimentos. Admire este magnífico anúncio: «Inventado para a felicidade do género humano, este globo andará constantemente na carreira do Levante, e no seu regresso anunciará as suas viagens tanto para os dois pólos como para os extremos do ocidente. Nada deve preocupar; tudo está previsto, tudo caminhará bem. Haverá uma tarifa igual para os diversos lugares de passagem, e o preço será sempre o mesmo para as regiões mais afastadas do nosso hemisfério, isto é, mil luíses para qualquer das ditas viagens. E pode‑se considerar bem módica esta quantia, atendendo à celeridade, à comodidade e aos divertimentos de que se há‑de gozar no dito aeróstato, divertimentos que neste balão sublunar se nos proporcionam, visto que neste encontra cada qual o que a sua imaginação requer. Tão verdade é isto que no mesmo lugar estarão uns no baile e outros estacionários; uns comerão à grande, outros jejuarão; quem quiser encontrar‑se com pessoas de espírito, encontrará com quem falar; quem for estúpido, não lhe faltarão iguais. Portanto, o prazer será a alma da sociedade aérea». Todas estas invenções têm feito rir... Mas se os meus dias não estiverem contados, ver‑se‑á dentro em pouco que estes castelos no ar são realidades! Descíamos sensivelmente. Ele não dava por isso. ‑ Veja esta espécie de jogo de balões ‑ prosseguiu, estendendo algumas das gravuras de que tinha uma tão importante colecção! ‑ Este jogo encerra toda a história da arte aerostática. É para uso de espíritos elevados, e joga‑se com dados, tendo os tentos o valor previamente convencionado, que se paga e cobra segundo as eventualidades.

‑ Mas ‑ volvi eu ‑ o senhor parece‑me ter estudado profundamente toda a ciência da aerostática!

‑ Sim, senhor, sim! Desde Fáeton, ícaro, Arquitas, tudo tenho estudado, compulsado, aprendido! Se Deus me desse vida, por meu intermédio a arte aerostática prestaria imensos serviços ao mundo! Mas não sucederá assim!

‑ Porquê?

‑ Porque me chamo Empédocles ou Eróstrato!

Entretanto, o balão aproximava‑se felizmente de terra;

mas, quando se cai, o perigo é tão grande a cem pés como a cem mil!

‑ Lembra‑se da batalha de Fleurus? ‑ tornou o meu companheiro, cujo rosto se ia animando cada vez mais. ‑ Foi nesta batalha que Coutelle, por ordem do Governo, organizou uma companhia de aeróstatas! No cerco de Maubeuge, o general Jourdan aproveitou tanto com este novo modo de observação que se elevava nos ares duas vezes por dia, acompanhado de Coutelle. A correspondência entre o aeronauta e os aeróstatas que sustinham o balão operava‑se por meio de pequenas bandeiras brancas, vermelhas e amarelas. Muitas vezes se fizeram tiros de carabina e de artilharia sobre o aparelho no momento de este se elevar, mas sem resultado. Quando Jourdan se preparou para investir Charleroi, Coutelle aproximou‑se deste local, elevou‑se da planície de Jumet e manteve‑se sete ou oito horas de observação com o general Morlot, o que decerto contribuiu para nos dar a vitória de Fleurus. E efectivamente o general Jourdan proclamou bem alto a utilidade que havia tirado das observações aeronáuticas. Pois, apesar de todo este resultado e do que se colheu durante a campanha da Bélgica, o ano que vira começar a carreira militar dos balões também a viu terminar! A escola de Meudon, fundada pelo Governo, foi fechada por Bonaparte no seu regresso do Egipto. E, contudo, o que não havia a esperar da criança recém‑nascida?, dissera Franklin. A criança nascera com vida, não se devia sufocá‑la!

O desconhecido ocultou a fronte nas mãos e pôs‑se a reflectir por alguns instantes.

Em seguida, disse‑me sem levantar a cabeça:

‑ Apesar da minha proibição, senhor, abriu a válvula!

Larguei a corda.

‑ Felizmente ‑ prosseguiu ‑, ainda temos trezentas libras de lastro!

‑ Quais são os seus projectos? ‑ disse eu então.

‑ Nunca atravessou os mares? ‑ perguntou‑me. Senti que empalidecia.

‑ É pena que sejamos impelidos para o mar Adriático! É apenas um regato! Mas mais além encontraremos talvez outras correntes.

E, sem olhar para mim, aliviou o balão de alguns sacos de lastro. Em seguida, com voz ameaçadora, declarou:

‑ Deixei‑lhe abrir a válvula porque a dilatação do gás ameaçava rebentar o balão. Mas não torne a fazê‑lo!

E continuou nestes termos:

‑ Conhece a travessia de Douvres a Calais, realizada por Blanchard e Jefferies? Foi magnífica! No dia 7 de Janeiro de 1785, soprando um vento de noroeste, encheram o balão de gás na costa de Douvres. Um erro de equilíbrio obrigou‑os, apenas se tinham elevado, a deitar lastro para não caírem, e só ficaram com trinta libras. Era bem pouco, porque, como o vento não refrescasse, só lentamente avançavam para as costas de França. Demais, a permeabilidade do tecido fazia esvaziar pouco a pouco o aeróstato, e no fim de hora e meia conheciam que desciam.

«‑ O que havemos de fazer? ‑ perguntou Jefferies?

«‑ Estamos apenas a três quartas partes do caminho ‑ respondeu Blanchard ‑, e pouco elevados. Subindo, encontraremos talvez ventos mais favoráveis.

«‑ Deitemos fora o resto da areia.

«O balão readquiriu alguma força ascensional, mas não tardou a descer. Ao meio da viagem, os aeronautas desembaraçaram‑se de livros e utensílios.

«Dali a um quarto de hora dizia Blanchard a Jefferies:

«‑ O barómetro?

«‑ Sobe! Estamos perdidos, e, contudo, eis as costas de França!

«Ouviu‑se um grande ruído!

«‑ Rasgou‑se o balão? ‑ perguntou Jefferies.

«‑ Não, a perda de gás esvaziou‑lhe a parte inferior. Mas continuamos a descer! Estamos perdidos! Fora com todas as coisas inúteis!

«Foram lançadas ao mar as provisões de boca, os remos, o leme.

«Os pobres aeronautas estavam apenas a cem metros de altura.

«‑ Subimos ‑ disse o doutor.

«‑ Não, é o impulso causado pela diminuição do peso! E nenhum navio à vista, nenhuma barca no horizonte. Ao mar o fato!

«Os infelizes despiram‑se; o balão, porém, continuava a descer.

«‑ Blanchard ‑ disse Jefferies ‑, devia ter feito sozinho esta viagem. Consentiu em me trazer; sacrificar‑me‑ei. Vou deitar‑me à água, e o balão, aliviado, subirá!

«‑ Não, não; é horrível!

«O balão cada vez se esvaziava mais, e a sua concavidade, fazendo pára‑quedas, apertava o gás contra as paredes e fazia‑o sair ainda em maior quantidade!

«‑ Adeus, meu amigo ‑ disse o doutor. ‑ Deus o conserve.

«Ia atirar‑se, quando Blanchard o deteve.

«‑ Resta‑nos um recurso!‑ disse. ‑ Podemos cortar as cordas que seguram a barquinha e agarrar‑nos à rede. Talvez o balão se levante! Preparemo‑nos! Mas... o barómetro desce! Subimos! O vento refresca! Estamos salvos!

«Os viajantes avistam Calais! A sua alegria chega quase ao delírio. Instantes depois desciam na floresta de Guines.»

«- Não duvido ‑ acrescentou o desconhecido ‑ de que, em circunstâncias semelhantes, não fizesse o mesmo que fez o Dr. Jefferies!

As nuvens desdobravam‑se debaixo de nós em massas deslumbrantes. O balão projectava grandes sombras sobre esta aglomeração de vapores, e envolvia‑se numa espécie de auréola. O trovão ribombava por baixo da barquinha. Tudo isto era aterrador!

‑ Desçamos! ‑ exclamei.

‑ Descer, quando o Sol nos espera! Fora os sacos!

E o balão foi aliviado de mais de cinquenta libras! A três mil e quinhentos metros ficámos estacionários. O desconhecido falava sem cessar. Eu estava numa

prostração completa, enquanto que ele parecia viver no seu elemento.

‑ Com um bom vento iremos longe! ‑ exclamou.

- Nas Antilhas há correntes de ar que fazem cem léguas por hora! Por ocasião da coroação de Napoleão, Garnerin deitou um balão iluminado com vidros de cores às onze horas da noite. O vento soprava de nor‑noroeste. No dia seguinte, ao romper do Sol, os habitantes de Roma saudavam‑no na sua passagem por cima do domo de São Pedro! Havemos de ir mais longe e mais alto!

Eu quase não ouvia. Zumbia tudo em roda de mim.

Fez‑se uma aberta nas nuvens.

‑ Vê esta cidade? ‑ exclamou o desconhecido. ‑ É Spira!

Debrucei‑me da barquinha. Avistei uma pequena aglomeração escura.

Era Spira. O Reno, tão largo, parecia uma fita desenrolada.

Por cima de nós o céu era de um azul‑carregado.

Os pássaros tinham‑nos abandonado havia muito tempo, porque naquele ar rarefeito tornava‑se impossível o seu voo.

Estávamos sós no espaço e eu em presença do desconhecido.

‑ É escusado saber aonde o levo ‑ disse ele então; e atirou com a bússola fora. ‑ Ah! que bela coisa uma queda! Sabe que se contam poucas vítimas da aerostação desde Pilâtre des Rosiers até ao tenente Gale, e que é sempre à imprudência que se devem as desgraças? Pilâtre des Rosiers partiu de Bolonha com Romain no dia 13 de Junho de 1785. Suspendera do seu balão de gás outro balão com ar quente, a fim por certo de se subtrair à necessidade de perder gás ou deitar lastro fora. Era pôr um rescaldo debaixo de um barril de pólvora! Os imprudentes chegaram a quatrocentos metros e foram apanhados por ventos opostos, que os arremessaram para o mar largo. Para descer, Pilâtre quis abrir a válvula do aeróstato, mas a corda embaraçou‑se no balão e de tal modo o rasgou que a máquina despejou‑se num instante. Caiu sobre o outro balão, fê‑lo redemoinhar e arrastou os infelizes, que em poucos instantes se despedaçaram no solo. É horrível, não acha?

Apenas respondi com estas palavras:

‑ Por piedade, desçamos!

As nuvens condensavam‑se em volta de nós. Horríveis detonações, que se repercutiam na cavidade do aeróstato, cruzavam‑se em todos os sentidos.

‑ O senhor impacienta‑me! ‑ exclamou o desconhecido ‑, e não saberá daqui por diante se subimos ou descemos!

E o barómetro foi fazer companhia à bússola, levando como séquito alguns sacos de areia.

Devíamos estar a cinco mil metros de altitude.

Já aderiam às paredes da barquinha alguns pedaços de gelo e penetrava‑me até à medula dos ossos uma espécie de neve fina.

Entretanto, desencadeava‑se por baixo de nós uma formidável tempestade, mas nós estávamos mais altos do que ela.

‑ Não tenha medo ‑ volveu‑me o desconhecido ‑, só os imprudentes é que são vítimas. Olivari, que pereceu em Orleães, elevava‑se numa máquina de papel; a barquinha, suspensa por cima do rescaldo e cheia de matérias combustíveis, ardeu. Olivari caiu e morreu! Mosment elevava‑se em Lille numa ligeira tábua; uma oscilação fez‑lhe perder o equilíbrio; Mosment caiu e morreu! Bittorf viu em Mannheim incendiar‑se o seu balão de papel; Bittorf caiu e morreu; Harris subiu num balão mal construído, cuja válvula, muito grande, não se pôde fechar; Harris caiu e morreu! Sadler, privado de lastro, em consequência da sua excessiva demora nos ares, foi impelido para a cidade de Boston e chocou com as chaminés; Sadler caiu e morreu. Coking desceu com um pára‑quedas convexo, que ele pretendia ter aperfeiçoado; Coking caiu e morreu! Pois eu amo essas vítimas da própria imprudência e morrerei também assim! Mais alto! Mais alto!

Passavam‑me por diante dos olhos todos os fantasmas desta necrologia.

A rarefacção do ar e os raios do Sol aumentavam a dilatação do gás e o balão continuava a subir!

Tentei maquinalmente abrir a válvula, mas o desconhecido cortou a corda alguns pés por cima da minha cabeça... Estava perdido!

‑ Viu cair madame De Blanchard? ‑ perguntou‑me.

‑ Vi‑a eu! Sim, eu! Estava no Tivoli no dia 6 de Julho de 1819. Madame De Blanchard elevava‑se num balão de pequenas dimensões, para poupar nas despesas do gás. Viu‑se portanto obrigada a enchê‑lo completamente. O gás escapava‑se pelo apêndice inferior, deixando após si um verdadeiro rastilho de hidrogénio. Levava, suspensa da barquinha por um fio de ferro, uma espécie de auréola de fogo de artifício que devia incendiar na ocasião prÓpria. Muitas vezes fizera esta experiência. Além disto, levava naquele dia um pequeno pára‑quedas, munido também de uma peça de fogo que terminava numa bola contendo chuva de prata. Devia largar o aparelho depois de o incendiar com uma lança de fogo preparada para esse efeito. Partiu. A noite estava sombria. No momento em que ia acender o seu fogo, cometeu a imprudência de passar a lança através do rastilho de hidrogénio. Eu tinha os olhos fitos na aeronauta. De repente um súbito clarão rasgou as trevas. Supus uma surpresa da hábil aeronauta. O clarão aumentou, desapareceu de súbito e tornou a aparecer no alto do aeróstato sob a forma de imenso jacto de gás inflamado. O sinistro clarão projectava‑se sobre a avenida e sobre todo o bairro de Montmartre. Vi então a desgraçada levantar‑se, diligenciar por duas vezes comprimir o apêndice do balão para apagar o fogo, depois sentar‑se na barquinha e tratar de preparar a queda.

«A combustão do gás durou muitos minutos.

«O balão diminuía de volume, continuava a descer, mas ainda não era uma queda. O vento soprava do nordeste e impeliu‑o sobre Paris. Por aquele tempo, nos arredores da casa nº 16, na Rua de Provença, havia jardins imensos. A aeronauta podia até cair sem perigo. Mas, fatalidade! A máquina dirigiu‑se para o telhado de uma casa. Foi ligeiro o choque. «Socorro!» ‑ brada a infeliz. ‑ Naquele momento chegava eu à rua. A barquinha resvalou pelo telhado e encontrou um gato de ferro. O abalo produzido pelo choque atirou madame De Blanchard para fora da barquinha e precipitou‑a na calçada. Madame De Blanchard morreu!

Gelavam‑me de horror estas histórias!

O desconhecido estava de pé, com a cabeça descoberta, os cabelos eriçados, os olhos espantados.

Não havia ilusão possível. Eu via finalmente a horrível verdade!

Tinha na minha presença um doido!

Deitou fora o resto do lastro e não nos elevámos decerto menos de mil metros!

O sangue saía‑me pelo nariz e pela boca!

‑ O que há de mais belo que os mártires da ciência? ‑ exclamou o insensato. ‑ São canonizados pela posteridade!

Eu já não ouvia. O doido olhou em roda e, ajoelhando, chegou‑se ao meu ouvido.

‑ E a catástrofe de Zambecarri, já não se lembra? Escute. No dia 7 de Outubro de 1804, o tempo pareceu melhorar um pouco. Nos dias precedentes o vento e a chuva não tinham cessado, mas a ascensão anunciada por Zambecarri não podia adiar‑se. Os seus inimigos já o caçoavam. Era preciso partir para se salvar a si e à ciência da zombaria pública. Era em Bolonha. Ninguém o ajudou a encher o balão.

«Foi à meia‑noite que o ousado aeronauta se elevou, acompanhado de Andréoli e de Grossetti. O balão subiu lentamente, porque a chuva havia‑o rasgado e o gás saía em quantidade pelo rasgão.

«Os três intrépidos viajantes só podiam observar o estado do barómetro com o auxílio de uma lanterna de furta‑fogo.

«Havia vinte e quatro horas que Zambecarri não comia. Grossetti estava também em jejum.

«‑ Meus amigos ‑ disse Zambecarri ‑, o frio invade‑me, estou sem forças. Vou morrer!

«Caiu inanimado.

«Sucedeu o mesmo a Grossetti.

«Só Andréoli ficava senhor de si.

«Conseguiu, com grandes esforços, fazer sair Zambecarri do seu letargo.

«‑ Que há de novo? Para onde vamos? De que lado sopra o vento? Que horas são?

«‑ Duas horas.

«‑ Onde está a bússola?

«‑ Caída no chão.

«‑ Valha‑me Deus! A lanterna apaga‑se!

«‑ Já não pode arder neste ar rarefeito! ‑ informou Zambecarri.

«Não havia luar, e a atmosfera estava horrendamente tenebrosa.

«‑ Tenho frio, tenho frio, Andréoli! Que havemos de fazer?

«Os desgraçados desceram lentamente através de uma camada de nuvens esbranquiçadas.

«‑ Silêncio! ‑ recomendou Andréoli. ‑ Ouves?

«‑ O quê? ‑ volveu Zambecarri.

«‑ Um ruído singular.

«‑ Enganas‑te.

«‑ Não me engano!

«Vê estes viajantes, em meio da noite, a escutarem aquele ruído inexplicável? ‑ interrompeu o desconhecido. ‑ Irão bater de encontro a alguma torre? Serão precipitados sobre os telhados?

«‑ Ouves? ‑ tornou Zambecarri. ‑ Dir‑se‑ia o ruído do mar!

«‑ É impossível!

«‑ É o mugido das vagas!

«‑ É verdade!

«‑ Luz! Luz!

«Após cinco tentativas infrutíferas, Andréoli obteve a luz.

«Eram três horas. Ouviu‑se o violento ruído das vagas.

«Estavam quase a tocar na superfície do mar!

«‑ Estamos perdidos! ‑ gritou Zambecarri, e lançou mão de um grande saco de lastro.

«‑ Socorro! ‑ bradou Andréoli.

«A barquinha tocava na água.

«‑ Ao mar os instrumentos, o fato, o dinheiro!

«Os aeronautas despojaram‑se de tudo.

«O balão, aliviado, elevou‑se com uma rapidez terrível.

«Zambecarri começou com grandes vómitos; Grossetti sangrava abundantemente.

«Os infelizes não podiam falar, tão curta era a sua respiração.

«Entrou outra vez com eles o frio, e ficaram num momento cobertos de gelo.

«A Lua pareceu‑lhes cor de sangue.

«Depois de percorrer por espaço de meia hora estas altas regiões, a máquina tornou a cair no mar.

«Eram quatro horas da manhã.

«Os náufragos tinham metade do corpo na água, e o balão, fazendo as vezes de vela, foi‑os arrastando por espaço de muitas horas.

«Ao romper do dia acharam‑se em frente de Pesaro, a quatro milhas da costa.

«Iam ali abordar, quando um pé de vento os afastou outra vez para o mar largo.

«Estavam perdidos! Os barcos, assustados, fugiam à sua aproximação!...

«Felizmente um navegador mais instruído chegou‑se a eles e içou‑os para bordo.

«Desembarcaram em Ferrada.

«Viagem assustadora, não é verdade? Mas Zambecarri era um homem enérgico e valente. Mal se restabeleceu, recomeçou as suas ascensões.

«Numa delas esbarrou contra uma árvore, e a lâmpada de álcool entornou‑se‑lhe no fato.

«Envolveu‑o a chama, e a máquina começou a arder. Afinal pôde descer, meio queimado.

«Finalmente, a 21 de Setembro de 1812, fez outra ascensão, em Bolonha.

«O balão tornou a prender‑se numa árvore, e a lâmpada pegou‑lhe novamente fogo.

«Zambecarri caiu e morreu!

«Em presença de tais factos havemos de hesitar?

«Não! Quanto mais alto formos, mais gloriosa será a nossa morte!

Aliviado o balão de todos os objectos que continha, fomos elevados a alturas inapreciáveis!

O aeróstato vibrava na atmosfera. O menor ruído fazia eco formidável na abóbada celeste.

O nosso globo parecia prestes a sumir‑se, e por cima de nós escancaravam‑se as tenebrosas profundezas salpicadas de vívidas estrelas.

Vi o desconhecido erguer‑se diante de mim.

‑ Eis chegada a hora! ‑ afirmou. ‑ É preciso morrer.

Somos repelidos pelos homens! Desprezam‑nos. Esmaguemo‑los!

‑ Oh, meu Deus! ‑ exclamei.

‑ Cortemos estas cordas! Larguemos a barquinha no espaço! A força atractiva mudará de direcção e abordaremos no Sol!

O desespero galvanizou‑me.

Atirei‑me ao doido, agarrámo‑nos e houve uma luta terrível.

Fui, porém, derribado e, ao mesmo tempo que me segurava com o joelho, cortava as cordas da barquinha.

‑ Uma!... ‑ exclamou.

‑ Meu Deus!...

‑ Duas!... Três!...

Fiz um esforço sobre‑humano, pus‑me de pé e repeli violentamente o insensato!

‑ Quatro!... ‑ disse ele.

A barquinha desprendeu‑se, mas instintivamente agarrei‑me às cordas e subi pelas malhas da rede que cingia o balão.

O doido desaparecera no espaço.

Subiu a uma altura incomensurável o balão.

Ouviu‑se um estalido!... O gás, muito dilatado, rebentara o invólucro.

Fechei os olhos... Instantes depois reanimou‑me um calor húmido.

Estava no meio das nuvens em chamas.

O balão rodopiava com vertiginosa rapidez.

Levado pelo vento, fazia cem léguas por hora no seu giro e em volta dele cruzavam‑se os raios.

A minha queda não era muito rápida.

Quando tornei a abrir os olhos avistei a campina.

Achava‑me a duas milhas do mar; o tufão para lá me impelia com força, quando um repentino repelão me fez largar a corda a que me segurava.

Abri as mãos, escorregaram‑me os dedos pela corda, e achei‑me em terra!

Era a corda da âncora que, varrendo a superfície do solo, se prendera numa fenda, e o balão, mais uma vez aliviado, desaparecera pelo mar fora.

Quando tornei a mim, estava deitado na habitação de um campónio, em Harderwick, pequena cidade de Gueldre, a quinze léguas de Amsterdão, nas margens do Zuiderzée.

Um milagre me salvara a vida, mas a minha viagem não fora mais que uma série de imprudências, cometidas por um doido, imprudências que eu não pudera evitar.

Que esta terrível narrativa instrua os que a lerem, mas não desanime os exploradores das regiões aéreas.

 

UMA INVERNADA NOS GELOS

BANDEIRA NEGRA

 

O cura da velha igreja de Dunquerque levantou‑se no dia 12 de Maio de 18... para dizer, segundo o seu costume, a primeira missa do dia, a que assistiam alguns devotos pescadores.

Revestido das vestes sacerdotais, encaminhava‑se para o altar quando entrou na sacristia um homem ao mesmo tempo alegre e assustado.

Era um marinheiro de uns sessenta anos, mas ainda bem conservado e robusto, com aspecto simpático e honrado.

‑ Faz favor, senhor cura ‑ disse.

‑ Que é isso logo pela manhã, João Cornbutte? ‑ interrogou o cura.

‑ Que é?... Uma grande vontade de o abraçar, nem mais nem menos!

‑ Isso depois da missa, a que vai assistir...

‑ Depois da missa! ‑ replicou o velho marinheiro, desatando a rir. ‑ Pois julga que vai dizer a missa, que lha deixo dizer?

‑ Então porque não? Explique‑se. Já tocou a terceira vez.

‑ Tocasse lá o que tocasse ‑ retorquiu João Cornbutte‑, muito mais toques há‑de haver hoje, senhor cura, porque me prometeu abençoar com as suas próprias mãos o casamento de meu filho Luís e de minha sobrinha Maria!

‑ Sempre chegou? ‑ perguntou o cura alegremente.

‑ Quase que assim se pode dizer ‑ volveu Cornbutte, esfregando as mãos. ‑ O vigia avistou ao romper do dia o nosso brigue, que o senhor mesmo baptizou com o lindo nome de «Jovem Ousada».

‑ Dou‑lhe os meus sinceros parabéns, meu velho Cornbutte ‑ disse o cura, despindo a estola e a capa. ‑ Sei quais são as nossas convenções. O vigário vai‑me substituir. Estarei pronto para quando chegar seu filho.

‑ E prometo‑lhe que não o fará estar muito tempo em jejum! ‑ tornou o marinheiro. ‑ O senhor mesmo já publicou os banhos, só tem de o absolver dos pecados que houver cometido entre mar e céu, nos mares do Norte. Foi uma grande ideia a que tive de querer que o casamento se fizesse no mesmo dia da chegada, e que meu filho Luís desembarcasse do brigue para logo se dirigir à igreja.

‑ Vá então preparar tudo, Cornbutte.

‑ A correr, senhor cura. Até já.

O marinheiro voltou apressado para casa, situada no cais do porto mercante, e da qual se avistava o mar do Norte, circunstância de que muito se ufanava.

João Cornbutte ajuntara alguma coisa pela sua profissão.

Depois de por muito tempo ter comandado os navios de um armador do Havre, estabeleceu‑se na sua cidade natal, onde fez construir por sua própria conta o brigue «Jovem Ousada».

Fez algumas viagens ao Norte, e o navio pôde sempre vender por bom preço os seus carregamentos de ferro, de madeira e de alcatrão. João Cornbutte deu depois o comando do barco a seu filho Luís, valente marinheiro de trinta anos, e que, no dizer de todos os capitães de cabotagem, era o marítimo mais destemido de Dunquerque.

Luís Cornbutte partira, levando uma grande afeição por Maria, sua prima, que achava bem longos os dias da ausência.

Tinha ela apenas vinte anos.

Era uma formosa flamenga, em cujas veias corriam algumas gotas de sangue holandês.

À hora da morte, sua mãe confiou‑a a seu irmão João Cornbutte.

Por isso este amava‑a como se fosse sua própria filha, e via na projectada união uma fonte de verdadeira e duradoura ventura.

A chegada do brigue, avistado ao longo dos escolhos, era o termo de uma importante operação comercial de que João Cornbutte esperava grande resultado.

A «Jovem Ousada», que partira havia três meses, chegava de Bodoe, na costa ocidental da Noruega, e fizera rápida viagem.

Ao voltar a casa, João Cornbutte achou todos de pé.

Maria, com a fronte radiosa, estava já com o seu trajo de noiva.

‑ Contanto que o brigue não chegue primeiro que nós! ‑ dizia ela.

‑ Avia‑te, pequena, porque a «Jovem Ousada» corre bem quando navega com todo o pano!

‑ Já estão prevenidos os nossos amigos? ‑ perguntou Maria.

‑ Estão!

‑ E o tabelião e o cura?

‑ Descansa! Só tu é que nos farás esperar!

Neste momento entrou o compadre Clerbaut.

‑ Isso é o que se chama ter sorte ‑ exclamou. ‑ O teu navio chega precisamente na altura em que o Governo acaba de pôr em adjudicação grandes fornecimentos de madeira para a marinha.

‑ E que tenho eu com isso? ‑ volveu João Cornbutte. ‑ Agora não se trata de coisas do Governo!

‑ Decerto, senhor Clerbaut ‑ interveio Maria ‑, só uma coisa agora nos ocupa: o regresso de Luís.

‑ Não deixo de convir que... mas, enfim, os fornecimentos...

‑ E há‑de assistir ao casamento ‑ acrescentou João Cornbutte, que interrompeu o negociante e lhe apertou a mão de maneira que quase lha despedaçou.

‑ Os fornecimentos de madeira...

‑ E com todos os nossos amigos da terra e do mar, Clerbaut. Já avisei a minha gente, e convidarei toda a tripulação do brigue!

‑ E vamos esperá‑los à ponte? ‑ perguntou alegremente Maria.

‑ Assim me parece ‑ respondeu João Cornbutte. ‑ Desfilaremos todos a dois e dois, com as rabecas à frente!

Não tardaram os convidados de João Cornbutte. Apesar de ser muito cedo, nenhum faltou.

Despicaram‑se todos em felicitações ao bom marinheiro, a quem estimavam.

Entretanto, Maria, de joelhos, dava a Deus graças pelo que sucedia.

Voltou dali a pouco, formosa e ataviada, à sala comum, e todas as vizinhas a beijaram, e todos os homens lhe apertaram vigorosamente a mão.

Em seguida João Cornbutte deu sinal de se porem a caminho.

Oferecia um espectáculo curioso aquela gente pondo‑se cheia de alegria a caminho ao romper do Sol.

Espalhara‑se no porto a notícia da chegada do brigue, e muitas cabeças com barretes de dormir apareceram nas janelas e nas portas entreabertas.

De todos os lados partia um amável cumprimento e uma lisonjeira congratulação.

A comitiva chegou à estacada no meio de um concerto de louvores e de bênçãos.

O tempo pusera‑se magnífico, e o sol parecia tomar parte na festa. Um ventinho fresco do norte fazia rebentar a vaga, e alguns barcos de pesca, à bolina, para saírem do porto, cortavam rapidamente a água, deixando para trás uma esteira espumosa.

Os dois molhes de Dunquerque, que servem de prolongamento ao cais do porto, avançam muito pelo mar.

Os da comitiva do noivado ocupavam toda a largura do molhe do norte, e não tardaram a chegar a uma casinha situada na sua extremidade, onde o capitão do porto vigiava.

Estava cada vez mais visível o brigue de João Cornbutte.

Refrescava o vento e a «Jovem Ousada» corria com todo o pano.

Era claro que a alegria devia reinar tanto a bordo como em terra.

João Cornbutte, com um óculo de alcance em punho, respondia com satisfação às perguntas dos amigos.

‑ É o meu lindo brigue sem tirar nem pôr! ‑ exclamava. ‑ Limpo e arranjado como se acabasse de largar de Dunquerque! Nem uma avaria, nem um cabo de menos!

‑ Avista seu filho, capitão? ‑ perguntavam‑lhe.

‑ Não, ainda não. Ah! é que está na faina!

‑ Porque não iça ele a sua bandeira? ‑ perguntou Clerbaut.

‑ Não sei, velho amigo, mas há por certo alguma razão.

‑ O seu óculo, meu tio ‑ pediu Maria, arrancando‑lhe o instrumento das mãos ‑, quero ser a primeira a avistá‑lo!

‑ Mas é meu filho, menina.

‑ Há trinta anos que é seu filho ‑ retorquiu a jovem, rindo ‑, e há apenas dois anos que é meu noivo!

A «Jovem Ousada» avistava‑se agora perfeitamente. A tripulação fazia já preparativos para largar ferro. Tinham‑se ferrado as velas altas.

Podiam‑se reconhecer os marinheiros que subiam pelos cabos. Mas nem Maria nem João Cornbutte ainda haviam podido saudar com a mão o capitão do brigue.

‑ Se não me engano, acolá está o imediato, André Vasling! ‑ exclamou Clerbaut.

‑ E Fidèle Misonne, o carpinteiro ‑ acrescentou um dos assistentes.

‑ E o nosso amigo Penellan! ‑ disse um terceiro, fazendo sinal ao marinheiro assim chamado.

Porém, achava‑se a «Jovem Ousada» a três amarras apenas do porto quando subiu uma bandeira negra no penol da carangueja.

Havia luto a bordo!

Um sentimento de terror invadiu todos os espíritos e confrangeu o coração da noiva.

Efectuava‑se no meio de grande tristeza a chegada do brigue, e sobre a sua tolda reinava sepulcral silêncio.

Dali a pouco passava para além da estacada.

Maria, João Cornbutte e todos os amigos precipitaram‑se para o cais onde o barco ia abordar, e num relance achavam‑se a bordo.

‑ Meu filho! ‑ gritou João Cornbutte, que só pôde articular estas palavras.

Os marinheiros do brigue, de cabeça descoberta, apontaram para a bandeira de luto.

Maria soltou um grito de aflição e caiu nos braços do velho Cornbutte.

André Vasling reconduziu a «Jovem Ousada», mas Luís Cornbutte, o noivo de Maria, já não estava a bordo.

 

O PROJECTO DE JOÃO CORNBUTTE

 

ASSIM que a jovem deixou o brigue, confiada ao cuidado de amigos caridosos, o imediato, André Vasling, contou a João Cornbutte o terrível acontecimento que o privara de tornar a ver seu filho e que o diário de bordo referia nos seguintes termos:

Nas alturas do Maelstrom, a 26 de Abril, tendo‑se o navio posto à capa com muito tempo e ventos de sudoeste, deu por sinais de socorro que lhe fazia uma goleta de sotavento. Esta goleta, com o traquete perdido, corria em árvore seca para o abismo. O capitão Luís Cornbutte, vendo o navio caminhar para uma perda iminente, resolveu ir a bordo. Apesar dos desaconselhos da tripulação, fez deitar ao mar a lancha e embarcou nela com o marinheiro Cortrois e Pedro Nouquet, o timoneiro. A tripulação seguiu‑os com a vista, até que desapareceram em meio do nevoeiro. Sobreveio a noite. O mar cada vez se tornava pior. A «jovem Ousada», atraída pelas correntes que reinam nestas paragens, esteve em perigo de se afundar no abismo. Foi obrigada a fugir de vento em popa. Debalde cruzou por alguns dias no lugar do sinistro. A lancha do brigue, a goleta, o capitão Luís e os marinheiros não reapareceram. André Vasling reuniu então toda a tripulação, tomou o comando do navio e fez‑se de vela para Dunquerque.

Depois de ler esta narrativa, secamente traçada como simples facto de bordo que era, João Cornbutte chorou, e, se alguma consolação sentiu, proveio da ideia de que seu filho morrera ao querer socorrer o seu semelhante.

Em seguida o pobre pai deixou o brigue, cuja vista lhe fazia mal, e recolheu‑se à sua casa, onde só reinava a consternação.

A triste nova espalhou‑se logo em Dunquerque.

Os numerosos amigos do velho marinheiro vieram dar‑lhe vivos e sinceros sentimentos.

Depois os marinheiros referiram as mais completas particularidades a respeito do acontecimento, e André Vasling teve de contar a Maria, do modo mais minucioso, como se manifestara a dedicação do seu noivo.

Depois de prantear a sua desdita, João Cornbutte pôs‑se a reflectir.

No dia seguinte, ao ver entrar André Vasling, perguntou‑lhe:

‑ Está bem certo, André, de que meu filho pereceu?

‑ Infelizmente estou, senhor João! ‑ respondeu André Vasling.

‑ E fez tudo quanto era possível para o encontrar?

‑ Tudo o que era humanamente possível, senhor Cornbutte! Mas, infelizmente, não há dúvida alguma de que ele e os seus dois desgraçados marinheiros foram engolidos pelo Maelstrom.

‑ Quer continuar como imediato do barco, André?

‑ Isso depende de quem for o capitão, senhor Cornbutte.

‑ O capitão serei eu, André ‑ respondeu o velho marinheiro. ‑ Vou rapidamente descarregar o navio, formar a tripulação e correr em busca de meu filho!

‑ Seu filho morreu! ‑ respondeu André Vasling, insistindo.

-        É possível, André ‑ retorquiu João Cornbutte com vivacidade ‑, mas também é possível que se salvasse. Quero esquadrinhar todos os portos da Noruega, para onde ele possa ter ido parar, e só depois de obter a certeza de nunca mais o tornar a ver virei morrer para aqui!

Compreendendo que era inabalável esta decisão, André Vasling não Continuou a insistir e retirou‑se.

João Cornbutte revelou logo à sobrinha o projecto que tinha em mente, e viu nos seus olhos, através das lágrimas, brilhar vagamente a esperança.

Ainda não ocorrera à jovem que pudesse ser problemática a morte do noivo, mas, assim que lhe inspiraram esta esperança, entregou‑se a ela sem reserva.

O velho marinheiro resolveu que a «Jovem Ousada» se fizesse imediatamente ao mar.

De sólida construção, o brigue não tinha avaria alguma a reparar.

João Cornbutte fez constar que, se os seus marinheiros quisessem tornar a embarcar, não alteraria a tripulação.

Apenas seu filho era substituído por ele no comando do navio.

Nenhum dos companheiros de Luís Cornbutte faltou ao apelo, e havia entre eles valentes marinheiros: Alain Turquiette, o carpinteiro Fidèlle Misonne, o bretão Pe‑nellan, que substituía Pedro Nouquet como timoneiro da «Jovem Ousada», e Gradlin, Aupic, Gervique, homens do mar corajosos e experimentados.

João Cornbutte tornou a propor a André Vasling que retomasse o seu lugar a bordo.

O imediato do brigue era um capitão hábil, que provara a sua competência reconduzindo a «Jovem Ousada» a salvamento.

Entretanto, não se sabe porquê, André Vasling apresentou algumas dificuldades e pediu tempo para reflectir.

‑ Como quiser, André Vasling ‑ tornou‑lhe Cornbutte. ‑ Lembre‑se somente que, se aceitar, será muito bem recebido por nós.

João Cornbutte tinha um homem dedicado no bretão Penellan, que fora muito tempo seu companheiro de viagem.

Maria, em pequenina, passava compridas noites de inverno nos braços de Penellan, quando este ficava em terra. Por isso o bretão conservava por ela uma amizade de pai, que a jovem retribuía com filial amor.

Penellan apressou quanto pôde o armamento do navio, tanto mais que, na sua opinião, André Vasling não empregara todas as diligências possíveis para encontrar os náufragos, embora o desculpasse disso a responsabilidade que sobre ele pesava na sua qualidade de capitão.

Em menos de oito dias estava a «Jovem Ousada» pronta a fazer‑se ao mar.

Em vez de mercadorias, meteram‑lhe abundante fornecimento de carnes salgadas, de bolacha, de barris de farinha, de batatas, de carne de porco, de vinho, de aguardente, de café, de chá, de tabaco.

Fixou‑se a partida para 22 de Maio.

Na véspera à noite André Vasling, que não dera resposta a João Cornbutte, foi a casa deste.

Estava ainda indeciso e não sabia que resolução tomar.

João Cornbutte não estava em casa, apesar de a porta se achar aberta.

André Vasling entrou na sala comum, contígua ao quarto da jovem, e, ali, chegou‑lhe aos ouvidos o ruído de uma conversação animada.

Escutou atento e reconheceu a voz de Penellan e de Maria.

Decerto que a discussão se prolongava havia muito tempo, porque a jovem parecia opor uma firmeza inabalável às observações do marinheiro bretão.

‑ Que idade tem meu tio Cornbutte? ‑ perguntava Maria.

‑ Terá os seus sessenta anos ‑ dizia Penellan.

‑ E deve com essa idade arrostar os perigos do mar para procurar o filho?

‑ O nosso capitão é homem ainda sólido ‑ replicou o marinheiro. ‑ Tem um corpo de ferro e músculos rijos como a cana do leme. Por isso não me assusta vê‑lo fazer‑se ao mar!

‑ Meu bom Penellan ‑ retorquiu Maria ‑, a gente é robusta quando ama! Demais, tenho plena confiança no auxílio do céu. O Senhor há‑de compreender‑me e ajudar‑me.

-        Não! ‑ contradizia Penellan. ‑ É impossível, Maria. Quem sabe para onde derivaremos e o que teremos de sofrer! Quantos homens vigorosos não tenho eu visto morrer no mar?

- Penellan ‑ insistiu Maria ‑, é o mesmo, e se me recusa ficarei supondo que já me não ama.

André Vasling compreendeu a resolução da jovem, reflectiu um instante e decidiu‑se.

‑ João Cornbutte ‑ disse, encaminhando‑se para o velho marinheiro que entrava ‑, sou dos seus. Desapareceram as causas que me impediam que embarcasse, e pode contar com a minha dedicação.

‑ Nunca duvidei de si, André Vasling ‑ retorquiu João Cornbutte, apertando‑lhe a mão. ‑ Maria, minha filha? ‑ acrescentou, em voz alta.

Maria e Penellan apareceram imediatamente.

‑ Levantamos ferro amanhã ao romper do Sol, com a baixa‑mar ‑ anunciou João Cornbutte. ‑ Pobre Maria, é o último serão que passamos juntos!

‑ Tio! ‑ exclamou Maria, caindo nos braços de João Cornbutte.

‑ Maria, se Deus o permitir, hei‑de tornar a trazer‑te o teu noivo!

‑ Sim, havemos de encontrar Luís ‑ acrescentou André Vasling.

‑ Então vai connosco? ‑ perguntou Penellan com vivacidade.

‑ Sim, Penellan, André Vasling vai como meu imediato ‑ respondeu João Cornbutte.

‑ Oh!, oh! ‑ exclamou o bretão, com expressão singular.

‑ E os seus conselhos servir‑nos‑ão de utilidade, porque André tem muito de hábil e empreendedor.

‑ Mas o senhor mesmo, capitão ‑ volveu André Vasling ‑, nos há-de dar lições a todos nós, porque existe no senhor tanto vigor como saber.

‑ Bem, amigos, até amanhã. Apresentem‑se a bordo e tomem as últimas disposições. Adeus, André! Adeus, Penellan!

O imediato e o marinheiro saíram juntos.

João Cornbutte e Maria ficaram em presença um do outro.

Muitas lágrimas se derramaram naquela triste noite. João Cornbutte, vendo Maria tão consternada, resolveu abreviar a separação, retirando‑se sem a prevenir.

Por isso, naquela noite, deu‑lhe o último beijo. Às três horas da manhã levantou‑se.

Esta partida atraíra à ponte de madeira todos os amigos do velho marinheiro.

O cura, que devia abençoar a união de Maria e de Luís, veio lançar uma última bênção ao navio.

Trocaram‑se em silêncio rudes apertos de mão, e João Cornbutte embarcou.

Estava completa a tripulação.

André Vasling deu as últimas ordens.

Largou‑se o pano, e o brigue afastou‑se rapidamente impelido por uma brisa fresca de noroeste, enquanto o cura, de pé no meio dos espectadores ajoelhados, entregava o barco à protecção de Deus.

Aonde vai o brigue?

Segue a estrada perigosa por onde se têm perdido tantos náufragos!

Não leva destino certo! Deve esperar todos os perigos e saber arrostá‑los sem hesitação! Deus sabe aonde lhe será permitido abordar. Deus o conduza!

 

                                     CLARÃO DE ESPERANÇA

 

ERA favorável a estação e a equipagem pôde conceber esperanças de chegar prontamente ao lugar do naufrágio.

Achava‑se naturalmente traçado o plano de João Cornbutte. Tencionava fazer escala pelas ilhas de Feroe, para onde o vento do norte podia ter levado os náufragos, depois, se adquirissem a certeza de que não tinham sido recolhidos em nenhum porto daquelas paragens, levaria as suas pesquisas para além do mar do Norte, esquadrinharia toda a costa ocidental da Noruega, até Bodoe, o lugar mais próximo do local do naufrágio, e mais para diante se preciso fosse.

Em oposição ao parecer de Cornbutte, André Vasling entendia que deviam ser antes exploradas as costas da Islândia, porém, Penellan observou que, por ocasião da catástrofe, o vendaval vinha de oeste, o que, ao mesmo tempo que inspirava esperanças de que os desgraçados não houvessem sido arrastados para o sorvedouro, permitia supor que se haviam dirigido para as costas da Noruega.

Resolveu‑se portanto que se costeasse esse litoral tão perto quanto possível, a fim de se procurarem vestígios da sua passagem.

No dia que se seguiu à partida, João Cornbutte, com a cabeça inclinada sobre um mapa, estava entregue às suas reflexões quando leve mãozinha se lhe apoiou no ombro, e uma voz meiga lhe murmurou ao ouvido:

‑ Tenha coragem, meu tio!

Voltou‑se e ficou estupefacto. Maria cingia‑o com os braços.

‑ Maria, tu, filha, a bordo! ‑ exclamou.

‑ A mulher pode muito bem ir procurar o marido, quando o pai embarca para salvar o filho!

‑ Infeliz! Como hás‑de suportar as fadigas da viagem? Pois não sabes que a tua presença pode prejudicar as nossas pesquisas?

‑ Não prejudica, meu tio, porque sou forte!

‑ Quem sabe aonde iremos parar? Vês este mapa? Aproximamo‑nos destas paragens tão perigosas, mesmo para nós, marinheiros endurecidos nas canseiras do mar. E tu, fraca criança!

‑ Eu, tio, sou de família de marinheiros! Estou habituada a narrativas de combates e de tempestades! Acho‑me junto de si e do meu velho amigo Penellan!

‑ Penellan! Foi ele que te ocultou a bordo?

‑ Sim, meu tio, mas só se resolveu a isso quando viu que estava decidida a fazê‑lo sem o seu auxílio.

‑ Penellan? ‑ bradou João Cornbutte. Penellan entrou.

‑ O que está feito não se pode desfazer, mas lembra‑te de que és responsável pela existência de Maria.

‑ Esteja descansado, capitão ‑ redarguiu Penellan. ‑ A pequena é dotada de força e coragem e servir‑nos‑á de anjo da guarda.

E depois, capitão, conhece as minhas ideias: tudo o que Deus faz é muito bem feito.

A jovem foi instalada num camarote, que os marinheiros lhe prepararam, tornando‑o tão confortável quanto possível.

Oito dias depois, a «Jovem Ousada» fundeava nas ilhas Feroe, mas não produziram resultado as mais minuciosas indagações.

Nas costas não tinha sido recolhido nenhum náufrago, não se tinham apanhado nenhuns restos de naufrágio. Era até desconhecido ali um tal acontecimento.

Depois de dez dias de demora, a 10 de Junho, o brigue tornou a seguir viagem.

O mar estava bom, os ventos eram constantes.

O barco navegou rápido em direcção às costas da Noruega, que foram exploradas sem melhor resultado.

João Cornbutte resolveu dirigir‑se a Bodoe. Talvez ali se soubesse o nome do navio naufragado, em socorro do qual se precipitaram Luís Cornbutte e os dois marinheiros.

A 30 de Junho o brigue largava ferro neste porto.

As autoridades da terra entregaram a João Cornbutte uma garrafa que viera ter à costa e que encerrava um documento assim concebido:

 

Em 26 de A bril, a bordo da «Frooem», depois de sermos alcançados pela lancha da «Jovem Ousada», fomos arrastados pelas correntes para os gelos! Deus se compadeça de nós!

 

O primeiro impulso de João Cornbutte foi dar graças a Deus. Julgava‑se no rasto do filho!

A «Frooern» era a goleta norueguesa de que já não havia notícias, mas que fora decerto arrastada para o norte.

Não havia um dia a perder. A «Jovem Ousada» foi rapidamente posta em estado de arrostar os perigos dos mares do pólo.

Fidèle Misonne, o carpinteiro, fez‑lhe escrupulosa vistoria e afiançou que a sua construção sólida podia resistir ao choque dos gelos.

Por cuidado e lembrança de Penellan, que já andara à pesca da baleia nos mares árcticos, meteram‑se a bordo coberturas de lã, vestes forradas, grande porção de calçado de pele de foca, e a madeira necessária para o fabrico de trenós destinados a correr sobre as planícies de gelo.

Aumentaram‑se consideràvelmente as provisões de álcool vínico e de carvão, porque podia acontecer talvez verem‑se obrigados a invernar naquele ponto da costa gronelandesa.

Fizeram aquisição, com grande custo e por grande preço, de uma certa quantidade de limões, destinados a evitar ou a curar o escorbuto, essa terrível doença que dizima as tripulações nas regiões geladas.

Todas as provisões de carne salgada, de bolachas, de aguardente, aumentadas em razoável proporção, começaram a encher uma parte do porão do navio, porque a despensa já não chegava.

Abasteceram‑se igualmente de uma grande quantidade de pemmican, preparação índia em que se concentram muitos elementos nutritivos sob um pequeno volume.

Por ordem de João Cornbutte embarcaram‑se serras destinadas a cortar os campos de gelo, assim como alavancas e cunhas próprias para os separar.

O capitão guardou para quando se achasse na Gronelândia a compra dos cães necessários para a tracção dos trenós.

Empregou‑se toda a tripulação nestes preparativos e desenvolveu‑se grande actividade.

Os marinheiros Aupic, Gervique e Gradlin seguiam com boa vontade os conselhos do timoneiro Penellan, que principiou por lhes recomendar que não se habituassem ao vestuário de lã, apesar de já ser baixa a temperatura naquelas latitudes, situadas abaixo do círculo polar.

Sem dizer palavra, Penellan observava as menores acções de André Vasling.

Este homem, filho da Holanda, vindo não se sabe donde mas bom marinheiro, fizera duas viagens a bordo da «Jovem Ousada».

Penellan ainda o não podia censurar por coisa alguma, salvo pela sua assiduidade junto de Maria, mas vigiava‑o de perto.

Graças à actividade da tripulação, o brigue aparelhou pelos meados de Julho, quinze dias depois da sua chegada a Bodoe.

Era então a época favorável para tentar explorações nos mares árcticos.

Operava‑se havia dois meses o degelo, e as pesquisas podiam ir mais longe.

A «Jovem Ousada» levantou ferro e dirigiu‑se para o cabo Brewster, situado na costa oriental da Gronelândia, por setenta graus de latitude.

 

                                     NOS CANAIS

 

ALI por 23 de Julho, um reflexo que se elevava sobre o mar anunciou os primeiros bancos de gelo, os quais, saindo do estreito de Davis, se precipitavam no oceano.

A partir daquele momento recomendou‑se uma vigilância muito activa aos marinheiros de proa, porque importava muito não esbarrar com aquelas massas enormes.

Dividiu‑se a tripulação em dois quartos: o primeiro quarto compunha‑se de Fidèle Misonne, de Gradlin e de Gervique, o segundo de André Vasling, de Aupic e de Penellan. Os quartos só deviam durar duas horas, porque naquelas frias regiões a força do homem fica reduzida a metade. Apesar de a «Jovem Ousada» estar ainda por setenta graus de latitude, o termómetro indicava já nove graus centígrados abaixo de zero.

A chuva e a neve caíam muitas vezes em abundância.

Durante as abertas, quando o vento não soprava com muita violência, Maria conservava‑se na tolda, e os seus olhos habituavam‑se às rudes cenas dos mares do pólo.

No dia 1 de Agosto passeava ela na popa do brigue e conversava com André Vasling e Penellan. Entrava então a «Jovem Ousada» numa passagem da largura de três milhas, através da qual grandes pedaços de gelo desciam rapidamente para o sul.

‑ Quando avistaremos nós terra? ‑ perguntou a jovem.

‑ Daqui a três ou quatro dias o mais tardar ‑ respondeu João Cornbutte.

‑ E acharemos novos indícios da passagem do meu pobre Luís?

‑ Talvez, filha, mas receio bem que estejamos ainda longe do termo da nossa viagem. É para temer que a «Frooern» fosse acossada mais para o norte.

‑ Assim deve ser ‑ interveio André Vasling ‑, porque a tempestade que nos separou do navio norueguês durou três dias, e em três dias um navio caminha muito quando se acha em tal estado que não pode resistir ao vento!

‑ Permita‑me que lhe diga, senhor Vasling ‑ retorquiu Penellan ‑, que era no mês de Abril, que o degelo ainda não tinha começado, e que, por conseguinte, a «Frooern» foi decerto detida logo pelos gelos...

‑ E também decerto feita em mil bocados ‑ replicou o imediato ‑, porque a tripulação já não era senhora do navio!

‑ Mas essas planícies de gelo ‑ objectou Penellan ‑ proporcionavam‑lhe um meio fácil de alcançar a terra, da qual não podia estar afastada.

‑ Esperemos! ‑ disse João Cornbutte, interrompendo uma discussão que todos os dias se renovava entre o imediato e timoneiro. ‑ Creio que avistaremos terra dentro em pouco.

‑ Terra, ei‑la! ‑ exclamou Maria. ‑ Vê aquelas montanhas?

‑ Não, filha ‑ redarguiu João Cornbutte. ‑ Aquilo são montanhas de gelo, as primeiras que encontramos. Esmagar‑nos‑iam como se fôssemos vidro, se nos deixássemos apanhar entre elas. Penellan e Vasling, vigiem a manobra.

Aquelas massas flutuantes, que apareciam então no horizonte, em número superior a cinquenta, foram‑se aproximando pouco a pouco do brigue.

Penellan pôs‑se ao leme, e João Cornbutte, subindo ao cesto da gávea, indicou o rumo que se devia seguir.

Ao cair da noite, o brigue achou‑se completamente preso entre aqueles escolhos movediços, cuja força esmagadora era irresistível.

Tratava‑se agora de atravessar aquela frota de montanhas, porque a prudência prescrevia que se continuasse em frente.

Outra dificuldade se juntava a estes perigos: não se podia verificar com exactidão a direcção do navio, porque todos os pontos adjacentes se deslocavam constantemente e não ofereciam perspectiva estável.

Dali a pouco o nevoeiro aumentou a escuridão.

Maria desceu para o beliche, e por ordem do capitão os oito homens da tripulação tiveram de ficar na tolda,. armados de croques, para perservar o navio do choque dos gelos.

A «Jovem Ousada» entrou num canal tão estreito que por vezes a extremidade das suas vergas tocava nas montanhas de gelo que vinham com a corrente. Até foi preciso orientar a verga grande a ponto de tocar nos ovéns.

Felizmente esta medida não fez perder ao brigue a sua velocidade, porque o vento só lhe apanhava as velas superiores, e estas eram suficientes para o fazerem navegar rapidamente.

Graças à delicadeza das suas formas, meteu‑se pelos vales abertos entre as montanhas de neve, que entretanto caíam, embatendo umas nas outras com sinistros estalidos.

João Cornbutte desceu para a tolda. O seu olhar não podia atravessar as trevas que o rodeavam.

Tornou‑se necessário carregar as velas superiores, porque o navio ameaçava chocar com aqueles enormes blocos de gelo, e se isso sucedesse seria uma desgraça.

‑ Maldita viagem! ‑ resmungava André Vasling, no meio dos marinheiros da proa, os quais, de croque em punho, evitavam os choques mais temíveis.

‑ O facto é que se escapamos devemos uma promessa a Nossa Senhora das Neves! ‑ volveu Aupic.

‑ Quem sabe que montanhas flutuantes teremos de atravessar? ‑ acrescentou o imediato.

‑ E quem sabe também o que nos fica para trás?

‑ Não fales tanto, palrador ‑ recomendou Gervique ‑e toma cuidado a teu bordo. Depois de passarmos será tempo de resmungar! Toma conta no croque!

Neste momento, um enorme pedaço de gelo descia rapidamente pelo estreito canal por onde subia a «Jovem Ousada». Parecia impossível evitar o seu encontro, porque tomava toda a largura do canal, e o brigue achava‑se na impossibilidade de virar de bordo.

‑ Ainda és senhor do leme? ‑ perguntou João Cornbutte a Penellan.

‑ Não, capitão, o navio já não governa!

‑ Olá, rapazes ‑ gritou o capitão à sua gente ‑, não tenham medo, e apoiem os croques contra a borda.

O montão de gelo media quase sessenta pés de altura, e se caísse sobre o brigue ficava este com certeza esmagado.

Houve um momento de indefinível agonia, e a tripulação, abandonando o seu posto, apesar das ordens do capitão, fugiu toda para a proa.

Mas quando o pedaço de gelo estava a meia amarra da «Jovem Ousada», ouviu‑se um ruído abafado e uma verdadeira tromba de água desabou sobre a popa do navio, que em seguida se elevou sobre o dorso de uma vaga enorme.

Os marinheiros soltaram todos um grito de terror, mas quando tornaram a olhar para a proa a mole de gelo havia desaparecido, estava livre o canal, e para lá do canal uma imensa planície líquida, iluminada pelas últimas claridades do dia, assegurava fácil navegação.

‑ O que Deus faz é pelo melhor! ‑ exclamou Penellan. ‑ Orientemos as gáveas e os traquetes!

Acabara de se produzir um fenómeno muito comum nestas paragens. Quando as massas flutuantes se separam umas das outras na época do degelo, vogam em perfeito equilíbrio. Chegando porém ao oceano, onde a água é relativamente mais quente, não tardam a minar‑se pela base, que pouco a pouco se derrete, e, além disso, são abaladas pelo choque de outras montanhas de gelo.

Sobrevêm pois um momento em que se acha deslocado o centro da gravidade destas massas ‑ e viram‑se.

Com a diferença, porém, que, se o montão de gelo se voltasse dois minutos depois, precipitar‑se‑ia sobre o brigue e arrombá‑lo‑ia na queda.

 

                           A ILHA DE LIVERPUL

 

Obrigue navegava agora num mar quase livre. Apenas no horizonte um clarão esbranquiçado, mas imóvel, indicava a presença de planícies instáveis.

João Cornbutte continuava a dirigir‑se para o cabo Brewster, e aproximava‑se já das regiões onde a temperatura é incessantemente fria, porque os raios do Sol só ali chegam enfraquecidos pela sua obliquidade.

A 3 de Agosto, o brigue achou‑se outra vez em presença de gelos imóveis e unidos. Na maioria, os canais não tinham mais de uma amarra de largura, pelo que a «Jovem Ousada» era obrigada a fazer mil rodeios que por vezes lhe prejudicavam o andamento.

Penellan ocupava‑se de Maria com um cuidado fraternal, e apesar do frio obrigava‑a a vir passar todos os dias duas ou três horas sobre a coberta, porque o exercício tornava‑se uma das condições indispensáveis da saúde.

Demais, a coragem de Maria não diminuía. Confortava até os marinheiros do brigue com as suas palavras, e todos sentiam por ela verdadeira adoração.

André Vasling mostrava‑se cada vez mais assíduo, e procurava todas as ocasiões de conversar com ela. Mas a jovem, por uma espécie de pressentimento, só acolhia os seus serviços com certa frieza.

Como facilmente se compreende, o futuro, mais que o presente, era o objecto das conversas de André Vasling, nas quais ele não ocultava as poucas probabilidades que oferecia a salvação dos náufragos.

Na sua opinião, a perda daquela gente era um facto consumado, e a jovem devia portanto confiar o cuidado da sua existência à protecção de outrem.

Maria não tinha contudo compreendido ainda os projectos de André Vasling, porque, com grande zanga do imediato, as suas conversas não se podiam prolongar. Penellan achava sempre pretexto para intervir e destruía com as suas palavras de esperança o efeito do arrazoado de André Vasling.

Maria não se conservava desocupada. Aconselhada pelo timoneiro, preparou o seu fato de inverno, tendo para isso de alterar completamente a maneira de se vestir.

O traje dos seus fatos femininos não convinha naquelas frias latitudes. Fez uma nova espécie de calças forradas, com sapatos aderentes, feitos de pele de foca, e umas saias que só lhe davam por meio da perna, a fim de não tocarem na neve com que o Inverno ia cobrir tudo. Uma espécie de túnica de peles, muito justa ao corpo e munida de um capuz, resguardava‑lhe a parte superior do corpo.

No intervalo dos seus trabalhos, os homens da tripulação fizeram também para si fatos capazes de os resguardarem do frio.

Arranjaram, em grande quantidade, botas altas de pele de foca, que os deviam habilitar para atravessarem impunemente as neves durante as suas viagens de exploração.

Durante o tempo que durou a navegação por entre os gelos não estiveram desocupados.

Hábil caçador, André Vasling abateu muitas aves aquáticas, cujos inúmeros bandos volteavam em roda do navio. Uma espécie de êideres e de ptarmigans forneceram à tripulação carne excelente, que os desenfastiou das carnes salgadas.

Finalmente, depois de milhares de rodeios, o brigue chegou à vista do cabo de Brewster.

Deitou‑se uma lancha ao mar. João Cornbutte e Penellan alcançaram a costa, que estava absolutamente deserta.

O brigue dirigiu‑se logo para a ilha de Liverpul, descoberta, em 1821, pelo capitão Scoresby, e os marinheiros soltaram aclamações ao verem os naturais correrem à praia. Estabeleceram‑se logo as comunicações, graças a algumas palavras da sua língua que Penellan conhecia, e algumas frases usuais que eles mesmo tinham aprendido com os baleeiros que frequentavam as paragens.

Aqueles gronelandeses eram baixos e membrudos: a sua estatura não excedia quatro pés e dez polegadas.

Tinham a cor avermelhada, a cara redonda e a testa deprimida. Os cabelos, lisos e negros, caíam‑lhes pelas costas, tinham maus dentes e pareciam padecer daquela espécie de lepra peculiar às tribos ictiófagas.

Em troca de pedaços de ferro e cobre, a que dão extremo apreço, aqueles infelizes cediam peles de ursos, de vacas‑marinhas, de cães‑marinhos e de todos os animais geralmente compreendidos sob a denominação de focas.

João Cornbutte obteve por preço muito baixo estes objectos, que se iam tornar para ele de tão grande utilidade.

Depois fez compreender aos naturais que andava em busca de um navio que naufragara e perguntou‑lhes se não tinham notícia dele.

Um dos indígenas desenhou, de seguida, na neve, uma espécie de navio e deu a entender que um barco daqueles tinha sido, havia três meses, arrastado na direcção do norte. Indicou igualmente que o degelo e ruptura dos campos de neve os impediram de ir à sua descoberta, com efeito, as suas pirogas, muito ligeiras, que manobram com um remo, não podem resistir ao mar naquelas condições.

Estas novas, apesar da sua insuficiência, fizeram renascer a esperança no coração dos marinheiros, e João Cornbutte não encontrou dificuldade em os fazer avançar pelo mar do pólo.

Antes de largar da ilha de Liverpul, o capitão fez compra de um tiro de seis cães esquimós, que depressa se acharam a bordo. O navio levantou ferro na manhã de 10 de Agosto e, impelido por um vento fresco, meteu‑se pelos canais do norte.

Tinham chegado os dias mais compridos do ano, isto é, o Sol, que naquelas latitudes elevadas nunca se esconde, atingia o ponto mais alto das espirais que descrevia acima do horizonte.

Não era muito sensível a ausência total da noite, porque o nevoeiro, a chuva e a neve rodeavam por muitas vezes o navio de verdadeiras trevas.

Resolvido a ir tão longe quanto possível, João Cornbutte começou a tomar as suas medidas de higiene. Fechou‑se hermeticamente a segunda coberta, havendo todas as manhãs o cuidado de renovar o ar por meio de correntes.

Colocaram‑se os fogões e dispuseram‑se os respectivos canos de maneira que dessem a maior soma de calor possível.

Aos homens da tripulação foi‑lhes recomendado que não trouxessem senão camisa de lã por cima da camisa de algodão, e abotoassem hermeticamente a sua veste de peles.

Todavia, não se acenderam ainda os fogões, porque importava reservar as provisões de lenha e de carvão vegetal para os grandes frios.

As bebidas quentes, tais como o café e o chá, foram distribuídas regularmente aos marinheiros pela manhã e à noite, e, como era conveniente variar a alimentação, deu‑se caça aos patos e narcejas que abundam naquelas paragens.

João Cornbutte instalou também no cume do mastro grande um «ninho‑de‑gralhas», espécie de tonel sem fundo, no qual se achava constantemente um vigia para observar as planícies de gelo.

Dois dias depois de o brigue ter perdido de vista a ilha de Liverpul, a temperatura esfriou subitamente sob a influência de um vento seco.

Havia já indícios do Inverno. A «Jovem Ousada» não tinha tempo a perder, porque não tardaria que se lhe fechasse o caminho.

Meteu‑se portanto pelos canais, entre os quais havia planícies de neve que chegavam a medir trinta pés de largura.

Em 3 de Setembro, pela manhã, a «Jovem Ousada» chegou à altura da baía de Hamkes.

A terra ficava trinta milhas a sotavento.

Pela primeira vez estacou o brigue diante de um banco de gelo que não lhe oferecia passagem e que media pelo menos uma milha de largura.

Foi preciso empregar as serras para cortar o gelo.

Penellan, Aupic, Gradlin e Turquiette tiveram a incumbência de manejar aqueles instrumentos, que haviam sido instalados fora do navio.

Dirigiram‑se os cortes de maneira que a corrente pudesse levar os pedaços de gelo que se despedaçavam. Gastaram‑se quase vinte horas neste trabalho. Os homens só com muita dificuldade se conservavam sobre o gelo. Eram muitas vezes obrigados a meter‑se na água até meio corpo e os fatos de pele de foca só imperfeitamente os preservavam da humidade.

Depois, nestas latitudes elevadas, todo o trabalho excessivo é seguido de extrema fadiga, porque a respiração falta prontamente e o mais robusto é obrigado muitas vezes a parar.

Finalmente, livre a navegação, o brigue foi rebocado para além do banco que por tanto e tanto tempo o detivera.

 

                                     O TREMOR DOS GELOS

 

DURANTE mais alguns dias, a «Jovem Ousada» lutou contra obstáculos quase invencíveis. A equipagem esteve quase sempre de serra na mão, e tornou‑se muitas vezes necessário o emprego da pólvora para fazer saltar os enormes pedaços de gelo que embaraçavam o caminho.

A 12 de Setembro o mar não apresentava mais que uma planície sólida, sem saída, sem passagem, que por todos os lados rodeava o navio, de modo que este não podia avançar nem recuar. A média de temperatura era de dezasseis graus abaixo de zero.

Chegara a invernia com todo o seu cortejo de sofrimentos e de perigos.

Achava‑se então a «Jovem Ousada» quase a trinta e um graus de longitude e setenta e sete de latitude norte.

João Cornbutte fez os primeiros preparativos de invernada.

Tratou primeiro que tudo de procurar um ancoradouro cuja posição abrigasse o navio dos pés de vento e dos grandes degelos.

A terra, que devia estar a uma dúzia de milhas a oeste, podia proporcionar‑lhe seguro abrigo, resolveu, pois, operar nela um reconhecimento.

Pôs‑se a caminho nesse mesmo dia, acompanhado de André Vasling, de Penellan e dos dois marinheiros Gradlin e Turquiette.

Levavam provisões para dois dias, porque não era possível que se prolongasse por mais tempo a sua excursão, e iam munidos também de peles de búfalo, sobre as quais deviam deitar‑se.

A neve, que caíra em grande abundância e cuja superfície não estava ainda solidificada, retardou‑os consideravelmente.

Enterravam‑se muitas vezes até meio corpo e só com extrema prudência podiam avançar, se não queriam cair nas fendas.

Penellan, que marchava à frente, sondava cuidadosamente cada depressão do solo, com o seu bordão ferrado.

Pelas cinco horas da tarde o nevoeiro começou a condensar‑se e a pequena expedição teve de parar.

Penellan procurou um montão de gelo que os pudesse abrigar do vento e, depois de tomarem algum alimento, mas lamentando sempre não terem alguma bebida quente, estenderam sobre a neve as suas peles de búfalo e envolveram‑se nelas. Depois, chegando‑se uns aos outros, deixaram‑se vencer pelo sono.

No dia seguinte, pela manhã, João Cornbutte e os seus companheiros acharam‑se sepultados sob uma camada de neve de mais de um pé de altura.

Felizmente, as suas peles, impermeáveis, tinham‑nos preservado, e a própria neve contribuíra para lhes conservar o calor, porque o não deixava irradiar para fora.

João Cornbutte deu logo o sinal de partida, por volta do meio‑dia avistaram finalmente a costa, que a princípio distinguiram com dificuldade. Na praia erguiam‑se grandes moles de gelo, cortadas perpendicularmente. Os seus cumes variados, de todas as formas e feitios, reproduziam em ponto grande o fenómeno da cristalização.

À aproximação dos marinheiros largaram voo milhares de pássaros, enquanto centenas de focas, preguiçosamente estendidas sobre a neve, mergulharam com precipitação.

‑ Garanto‑vos ‑ disse Penellan ‑ que não nos há‑de faltar nem peles nem lume.

‑ Estes animais ‑ observou João Cornbutte ‑ parece que já tiveram visita de homens, porque em paragens tão desabitadas não deviam ser tão selvagens.

‑ Só os gronelandeses é que frequentam estas terras ‑ retorquiu André Vasling.

‑ Não vejo, porém, vestígio algum da sua passagem, nem o menor acampamento, nem a menor cabana! ‑ objectou Penellan, subindo por um rochedo elevado. ‑ Olá, capitão!‑exclamou ‑, venha daí! Avisto uma língua de terra que nos há‑de preservar muito bem dos ventos do nordeste.

‑ Por aqui, rapazes ‑ ordenou João Cornbutte.

Os companheiros seguiram‑no e dentro em pouco estavam todos com Penellan.

Dissera a verdade o marinheiro. Pelo mar dentro avançava uma espécie de promontório, o qual, curvando na direcção da costa, formava uma pequena baía, de uma milha de profundidade o muito.

Alguns gelos movediços, quebrados pelo extremo do promontório, flutuavam no meio da baía, cujas águas, abrigadas dos ventos mais frios, não estavam ainda completamente congeladas.

Era excelente este local para invernar. Restava poder conduzir para ali o navio. Ora, João Cornbutte notou que a planície de gelo adjacente era de grande espessura, e logo à primeira vista se conhecia que era muito difícil abrir um canal para conduzir para ali o brigue.

Era preciso fazer escolher algum outro abrigo, mas foi debalde que João Cornbutte avançou para o norte. A costa era alta e a prumo numa grande extensão e para lá do promontório achava‑se directamente exposta aos ventos de leste.

Esta circunstância descoroçoou o capitão, tanto mais que André Vasling fez valer a inconveniência da situação fundando‑se em razões peremptórias.

Penellan achou muita dificuldade para provar a si mesmo que naquela conjuntura tudo ia pelo melhor.

Só restava ao brigue a probabilidade de encontrar um local para invernar na parte meridional da costa.

Era voltar para trás, mas não havia que hesitar.

A pequena expedição tornou a pôr‑se a caminho do navio, e tratou de andar rapidamente, porque os víveres começavam a escassear.

Durante a jornada, João Cornbutte foi procurando alguma passagem praticável, ou pelo menos alguma fenda por onde se pudesse abrir um canal através da planície de gelo.

Foram baldadas as suas diligências.

Ao anoitecer, os marinheiros chegaram junto do montão de gelo onde tinham acampado durante a outra noite.

Passara‑se o dia sem nevar, e por isso puderam ainda reconhecer as pegadas no gelo.

Como já tinham a cama feita, estenderam‑se logo nas peles de búfalo.

Bastante contrariado com o mau resultado da sua exploração, Penellan dormia muito mal, quando, num momento de insónia, lhe despertou a atenção um surdo ribombar.

Pôs‑se à escuta, e pareceu‑lhe tão extraordinário aquele ruído que tocou com o cotovelo em João Cornbutte.

‑ Que é? ‑ perguntou este, em quem, como é costume no marinheiro, a inteligência despertou tão depressa como o corpo.

‑ Ouça, capitão! ‑ tornou Penellan.

O ruído ia aumentando com sensível violência.

‑ Numa latitude tão elevada não podem ser trovões! ‑ afirmou João Cornbutte, levantando‑se.

‑ O que me parece é que é algum bando de ursos brancos! ‑ lembrou Penellan.

‑ Ó demónio! Mas nós ainda não vimos dessa casta!

‑ Mais tarde ou mais cedo devemos esperar a sua visita ‑ afirmou Penellan.‑Comecemos por bem os receber.

Penellan, armando‑se de uma espingarda, trepou rapidamente à mole de gelo que os abrigava.

Como a escuridão era muito intensa e o tempo estava encoberto, não pôde descobrir coisa alguma.

Não tardou porém que conhecesse que o perigo estava ainda mais perto do que eles julgavam.

João reuniu‑se‑lhe e observaram ambos com terror que o ribombo, cuja intensidade despertava agora os companheiros, soava por baixo dos seus pés.

Ameaçava‑os um perigo de nova espécie.

Ao ribombo, que parecia agora perfeitamente o de um trovão, juntava‑se um movimento ondulatório muito pronunciado nos campos de gelo.

Alguns dos marinheiros perderam o equilíbrio e caíram.

‑ Atenção! ‑ bradou Penellan.

‑ Sim! ‑ responderam‑lhe.

‑ Turquiette, Gradlin! Onde estão?

‑ Eis‑me aqui ‑ respondeu Turquiette, sacudindo a neve de que estava coberto.

‑ Por aqui, Vasling ‑ gritou João Cornbutte ao imediato. ‑ E Gradlin?

‑ Presente, capitão!... Mas nós estamos perdidos! ‑ exclamou Gradlin com terror.

‑ Qual! ‑ exclamou Penellan. ‑ Estamos talvez salvos!

Apenas concluía estas palavras, ouviu‑se um estalido terrível.

Toda a planície de gelo se quebrou, e os marinheiros tiveram de agarrar‑se à mole de gelo que oscilava perto deles.

A despeito das palavras do timoneiro, achavam‑se numa posição excessivamente perigosa. Dera‑se um tremor. Os gelos acabavam de levantar ferro, segundo a expressão dos marinheiros.

O abalo durou perto de dois minutos, e era para recear que se abrisse uma fenda mesmo debaixo dos pés dos infelizes marinheiros!

Por isso, foi em meio de transes cruéis que esperaram o dia, porque não podiam, sob perigo de perecer, atrever‑se a dar um passo.

Para verem se assim não eram engolidos, conservaram‑se deitados toda a noite.

Ao romper do dia deparou‑se‑lhes um espectáculo bem diferente do da véspera.

A vasta planície, então unida, achava‑se dividida em muitos lugares, e as ondas, revolvidas decerto por alguma comoção submarina, tinham despedaçado a massa espessa que as cobria.

João Cornbutte lembrou‑se do seu brigue.

‑ Meu pobre navio! ‑ exclamou ‑, deve estar perdido!

Na fisionomia dos seus companheiros começou a manifestar‑se o mais sombrio desespero.

A perda do navio era a morte próxima e inevitável.

‑ Coragem, amigos! ‑ bradou Penellan. ‑ Lembrem‑se de que o tremor desta noite nos abriu um caminho através dos gelos, que permitirá conduzir o nosso navio à baía onde devemos invernar! Ora esperemos, não me engano! A «Jovem Ousada» está mais perto de nós uma milha!

Todos se precipitaram para a frente, mas com tanta impaciência que Turquiette escorregou numa fenda e infalivelmente teria perecido se João Cornbutte o não agarrasse pelo capuz.

Apanhou apenas um banho um pouco frio.

Com efeito, o brigue flutuava duas milhas a barlavento.

Depois de grandes trabalhos, o pequeno bando conseguiu alcançá‑lo.

O brigue achava‑se em bom estado, mas o leme, que não tinham tido o cuidado de tirar, fora despedaçado pelos gelos.

 

                                     AS ACOMODAÇÕES DA INVERNADA

 

MAIS uma vez Penellan tivera razão: tudo ia pelo melhor, e o tremor dos gelos abrira ao navio caminho praticável até à baía.

Em 19 de Setembro, o brigue estabeleceu‑se finalmente a duas amarras da terra, na sua baía de invernada, em cujo fundo, que era excelente, lançou ferro com toda a segurança.

Logo no dia seguinte se formou gelo em volta do casco, gelo que tomou bem depressa consistência suficiente para suportar o peso de um homem, circunstância que permitiu estabelecer‑se comunicação directa com a terra.

Segundo o costume dos navegadores árcticos, ficou tal qual estava o arvoredo do navio. As velas foram cuidadosamente colhidas e revestidas da sua capa, e o «ninho‑das‑gralhas» conservou‑se no mesmo lugar, tanto para se poder observar ao longe como para atrair a atenção sobre o navio.

O Sol já mal se elevava acima do horizonte. Desde o solstício de Junho que baixavam cada vez mais as espirais descritas pelo astro do dia, e não tardaria que de todo desaparecessem.

A tripulação apressou os preparativos.

Penellan foi quem presidiu a eles.

O gelo tornou‑se logo muito espesso em roda do navio, e era para recear que a sua pressão fosse perigosa. Penellan esperou que essa espessura, por efeito do vaivém dos gelos e da sua aderência, atingisse uns vinte pés, depois cortou o gelo em roda do casco do navio, de modo que lhe tomou a forma.

Encravado naquela espécie de cama, o brigue nada tinha já que recear da pressão dos gelos, que não faziam nenhum movimento.

Em seguida os marinheiros levantaram ao longo das precintas e até à altura da borda do navio uma muralha, que não tardou a pôr‑se dura como rochedo.

Esta trincheira não deixava o calor irradiar para fora.

Armou‑se uma barraca de pano, coberta de peles e hermeticamente fechada, a qual cobria a tolda em todo o seu comprimento e formava uma espécie de galeria para passeio dos tripulantes.

Também se construiu em terra um armazém de neve, no qual se guardaram os objectos que embaraçavam o navio.

Desmontaram‑se as anteparas dos camarotes, de maneira que toda a coberta ficou formando simplesmente uma vasta câmara da popa à proa.

Este único compartimento era mais fácil de aquecer, porque a neve e a humidade achavam menos cantos por onde se meterem.

Tornou‑se igualmente mais fácil arejá‑lo como convinha, por meio de mangueiras de pano que abriam para a banda de fora.

Todos desenvolveram extrema actividade nestes diversos preparativos, os quais, perto do dia 25 de Setembro, se achavam concluídos.

Não fora André Vasling dos que se mostraram menos hábeis nestes diversos arranjos.

Mostrou principalmente grande cuidado pela jovem, e se esta, toda entregue à lembrança do seu pobre Luís, não deu por isso, João Cornbutte compreendeu imediatamente o que se passava.

O capitão conversou a este respeito com Penellan. Lembrou‑se das muitas circunstâncias que perfeitamente o esclareciam a respeito das intenções do imediato.

André Vasling amava Maria e tencionava pedi‑la ao tio logo que desaparecessem todas as dúvidas a respeito da morte dos náufragos. Voltariam então para Dunquerque, e André Vasling encontraria grande conveniência em esposar uma jovem bonita e rica, que seria então a única herdeira de João Cornbutte.

Apenas, levado da sua impaciência, mostrou muitas vezes falta de habilidade.

Declarava amiúde que seriam baldadas as pesquisas para se encontrarem os náufragos, e não era raro que algum novo indício viesse dar‑lhe um desmentido, que Penellan com satisfação punha em relevo.

Por estas razões, o imediato detestava cordialmente o timoneiro, que lhe pagava com usura.

Penellan só receava uma coisa: que André Vasling conseguisse semear algum germe de discórdia entre a tripulação, e induziu João Cornbutte a não lhe responder senão evasivamente na primeira ocasião que fosse interpelado a respeito do casamento.

Terminados os preparativos de invernada, o capitão tomou diversas medidas próprias para conservar a saúde da tripulação.

Os homens tiveram ordem para arejar todas as manhãs os alojamentos e limpar cuidadosamente as paredes interiores, para as desembaraçar da humidade da noite.

Receberam, pela manhã e à noite, ração de chá ou café a ferver, o que é um dos melhores cordiais que se podem empregar contra o frio, e foram, além disso, divididos em turmas de caçadores que deviam empregar os possíveis esforços para apanhar carne fresca para acrescer ao ordinário de bordo.

Deviam também fazer todos os dias um exercício salutar, e não se exporem sem movimento à temperatura, porque no meio dos frios de trinta graus abaixo de zero podia suceder que alguma parte do corpo subitamente gelasse.

Em tais casos havia que recorrer às fricções de neve, único remédio que pode salvar da perda total a parte doente.

Penellan recomendou também o uso de abluções frias ao levantar. Era preciso bastante coragem para meter as mãos e a cara na neve, que se fazia previamente degelar. Mas Penellan deu valentemente o exemplo, e Maria não foi a última a imitá‑lo.

João Cornbutte também não esqueceu as leituras e as orações, porque era preciso não deixar no coração lugar para o desespero e para o tédio. Não há nada mais perigoso naquelas desoladas latitudes.

O céu, sempre sombrio, enchia a alma de tristeza. Uma neve densa, fustigada por ventos violentos, aumentava o horror costumado. O Sol ia desaparecer dentro em pouco.

Se as nuvens se não aglomerassem sobre a cabeça dos exploradores, poderiam estes gozar da luz da Lua, que ia ser o verdadeiro sol durante aquela longa noite dos pólos. Mas, em consequência dos continuados ventos de oeste, a neve não cessou de cair.

Era preciso todas as manhãs varrer as proximidades do navio e cortar novamente no gelo uma escada para se poder passar para a planície.

Conseguiu‑se isso facilmente com as facas da neve. Talhados os degraus, deitavam por cima deles uma pouca de água, e os degraus endureciam logo.

Penellan mandou abrir um orifício no gelo, não longe do navio. Todos os dias se quebrava a nova crosta que

se formava na superfície do improvisado poço, e a água que se tirava a certa profundidade era menos fria que na superfície.

O navio estava preso para seis ou sete meses, e só o próximo degelo podia abrir‑lhe novo caminho através dos mares.

Devia‑se, pois, aproveitar esta imobilidade forçada para dirigir as explorações do norte.

 

                                     PLANO DE EXPLORAÇÃO

 

No dia 9 de Outubro, João Cornbutte formou conselho para estabelecer a norma das operações, e, para que a solidariedade aumentasse o zelo e a coragem de cada um, admitiu toda a equipagem às deliberações.

De mapa em frente de si, expôs claramente a presente situação.

A costa oriental da Gronelândia avança para o norte em sentido perpendicular.

As descobertas dos navegadores têm determinado o limite exacto destas paragens.

No espaço de quinhentas léguas, que separa a Gronelândia do Spitzberg, não fora ainda reconhecida terra alguma.

Uma ilha só, a ilha Shannon, se achava a umas cem milhas ao norte da baía de Gael-Hamkes, onde a «Jovem Ousada» ia invernar.

Se portanto, como todas as probabilidades indicavam, o navio norueguês tinha seguido aquela direcção, e supondo‑se que não houvesse podido alcançar a ilha Shannon, era ali que Luís Cornbutte e os náufragos deviam ter procurado asilo para o Inverno.

Apesar da oposição de André Vasling, prevaleceu este parecer, e resolveu‑se que se dirigissem as explorações para as bandas da ilha Shannon.

Deu‑se logo começo à empresa.

Na costa da Noruega tinham feito aquisição de um trenó à maneira dos que usam os esquimós, construídos de pranchas recurvas na traseira e na dianteira, e que era próprio para andar sobre a neve.

Media doze pés de comprido por quatro de largo, e podia, por conseguinte, transportar provisões para muitas semanas, se preciso fosse.

Fidèle Misonne depressa o preparou para a viagem, trabalhando nele dentro do armazém de neve, para onde tinham sido transportados os seus utensílios. Colocou‑se ali pela primeira vez um fogão, porque sem isso seria impossível todo o trabalho.

O cano do fogão saía de uma das paredes laterais por um orifício aberto na neve. Mas daqui resultava um grave inconveniente, porque o calor do fogão fazia derreter a neve pouco a pouco no lugar por onde o cano passava, e o orifício alargava‑se consideràvelmente.

João Cornbutte lembrou‑se de rodear esta porção de cano de uma rede metálica, cuja finalidade era impedir que o calor passasse. O resultado foi completo.

Enquanto Fidèle Misonne trabalhava no trenó, Penellan ajudava Maria a preparar os fatos sobresselentes para a jornada.

As botas de pele de foca eram felizmente em grande número.

João Cornbutte e André Vasling ocuparam‑se das provisões e descobriram um barrilinho de álcool vínico destinado a aquecer um rescaldo portátil, muniram‑se de razoável porção de chá e café. Uma pequena caixa de bolachas, duzentas libras de carne de conserva e algumas cabaças de aguardente completaram a parte alimentícia.

A caça devia fornecer todos os dias provisões frescas.

Dividiu‑se por diversos sacos uma porção de pólvora.

A bússola, o sextante e o óculo de ver ao longe foram postos ao abrigo de qualquer choque.

No dia 11 de Outubro, o Sol deixou de aparecer acima do horizonte.

Viram‑se obrigados a ter uma lâmpada continuamente acesa no alojamento da tripulação.

Não havia tempo a perder, era preciso principiar quanto antes as explorações.

Eis as razões:

No mês de Janeiro, o frio aumentaria a tal ponto que se tornaria impossível pôr pé fora do navio, sem perigo de vida.

Durante dois meses, pelo menos, a tripulação ver‑se‑ia obrigada à reclusão mais completa.

Em seguida principiaria o degelo, que se prolongaria até à época em que o navio pudesse deixar os gelos.

O derretimento das neves havia forçosamente de impedir toda a exploração.

Por outro lado, se Luís Cornbutte e os seus companheiros ainda existiam, não era provável que pudessem resistir aos rigores de um Inverno árctico.

Era preciso portanto salvá‑los antes, aliás perder‑se‑ia toda a esperança.

André Vasling sabia todas estas coisas melhor que ninguém.

Resolveu, por isso, levantar os maiores obstáculos a esta expedição.

Para 20 de Outubro estavam terminados os preparativos da viagem.

Tratou‑se por último de escolher os homens que haviam de fazer parte dela.

A jovem não podia deixar de estar sob a vigilância de João Cornbutte ou de Penellan.

Mas nenhum deles podia faltar à caravana.

Era mister então saber‑se se Maria poderia suportar as fadigas de semelhante viagem.

Até ali passara por provas bem rudes, sem muito sofrer com isso, porque era uma filha de marinheiro, habituada desde a infância às fadigas do mar, e na verdade Penellan não se assustava de a ver no meio daqueles terríveis climas em luta contra os perigos dos mares do pólo.

Após longas discussões resolveu‑se que a jovem acompanharia a expedição, e que, em caso de necessidade, lhe seria reservado um lugar no trenó, sobre o qual se construiu um pequeno abrigo de madeira hermeticamente fechado.

Por esta forma, Maria via plenamente satisfeitos os seus desejos, porque lhe repugnava afastar‑se dos seus dois protectores.

A expedição ficou, pois, formada da seguinte maneira:

Maria, João Cornbutte, Penellan, André Vasling, Aupic e Fidèle Misonne.

Alão Turquiette ficou especialmente encarregado da guarda do brigue, no qual se conservavam Gervique e Gradlin.

Muniram‑se de novas provisões de toda a espécie, porque João Cornbutte, a fim de levar a exploração tão longe quanto possível, resolvera estabelecer depósitos ao longo do seu itinerário, de sete em sete, ou de oito em oito dias de marcha.

Logo que se achou pronto o trenó, carregaram‑no e cobriram‑no com um toldo de peles de búfalo.

Perfazia tudo um peso de setecentas libras, que um tiro composto de cinco cães podia facilmente puxar sobre o gelo.

Conforme as previsões do capitão, a 22 de Outubro manifestou‑se súbita mudança na temperatura.

O céu limpou, as estrelas cintilaram com mais viveza, e a Lua começou a brilhar acima do horizonte, para não mais o deixar durante quinze dias.

O termómetro descera a vinte e cinco graus abaixo de zero.

A partida fixou‑se para o dia seguinte.

 

A CASA DE NEVE

 

No dia 23 de Outubro, às onzç da manhã, com um luar esplêndido, a caravana pôs‑se a caminho. João Cornbutte seguiu a costa, subindo na direcção do norte.

Os passos dos caminheiros não deixavam vestígio algum naquele gelo resistente.

Por isso viu‑se obrigado a guiar‑se por meio de pontos de referência que escolhia ao longe. Ora subia uma colina eriçada de picos, ora uma enorme mole de gelo que a pressão fizera erguer sobre a planície.

No fim de quinze milhas, na primeira paragem, Penellan dispôs um acampamento.

O toldo foi encostado a um grande morro de gelo.

Maria não sentira grande incómodo com aquele frio rigoroso, porque por felicidade, tendo‑se acalmado a brisa, o frio tornara‑se mais suportável. Mas, por muitas vezes, a jovem tivera de se apear do trenó, para que o entorpecimento não lhe tolhesse a circulação do sangue.

Demais, o seu pequeno abrigo, forrado de peles graças ao cuidado de Penellan, oferecia todo o conforto possível.

Quando chegou a noite, ou para falar mais propriamente, quando chegou o momento de repouso, este pequeno abrigo ou cabana foi removido para baixo do toldo, onde serviu de quarto de dormir à jovem.

A refeição da noite compôs‑se de carne fresca, de carne de conserva e de chá quente.

Para evitar os funestos efeitos do escorbuto, João Cornbutte mandou distribuir pela sua gente algumas gotas de sumo de limão.

Em seguida adormeceram todos na paz do Senhor.

Após um sono de oito horas, retomou cada qual o seu respectivo posto.

Serviu‑se aos homens e aos cães um almoço substancial, e depois puseram‑se todos a caminho.

O gelo, extremamente plano, permitia aos animais puxarem o trenó com extrema facilidade.

Às vezes, os viajantes só com muita dificuldade o seguiam.

Mas um incómodo logo surgiu: muitos marinheiros começaram a padecer da vista. Em Aupic e Misonne manifestaram‑se oftalmias. O luar, batendo naquelas imensas planícies de cor branca, causava nos olhos ardor insuportável.

Produzia‑se também um efeito de retracção excessivamente curioso. Às vezes, julgando que iam a pôr o pé numa elevação, punham‑no pelo contrário num plano mais baixo, o que ocasionava quedas, felizmente sem gravidade, e das quais Penellan tirava partido para os seus gracejos.

Entretanto, sempre recomendou que nunca se desse um passo sem sondar o solo com o pau ferrado de que todos iam munidos.

Em princípios de Novembro, dez dias depois de se porem a caminho, a caravana achava‑se cinquenta léguas ao norte.

Para todos se ia tornando extrema a fadiga.

João Cornbutte sentia terríveis deslumbramentos, e a vista ia‑se‑lhe alterando sensivelmente.

Aupic e Fidèle Misonne já não andavam sem tactearem o terreno, porque os seus olhos, orlados de vermelho, pareciam queimados pela reflexão da neve.

Maria estava livre deste acidente, porque se conservava a maior parte do tempo no interior do trenó.

Animado por inquebrantável coragem, Penellan resistia a todas estas fadigas.

Quem principalmente passava melhor, e parecia sempre inacessível à fadiga, ao frio e ao deslumbramento, era André Vasling.

O seu corpo de ferro estava habituado a todas as canseiras. Era com prazer que ele via o desânimo invadir os mais robustos, e já previa o momento em que seria preciso voltar para trás.

No dia 1 de Novembro, em consequência dos incómodos da jornada, tornou‑se indispensável uma paragem de um ou dois dias.

Escolhido o lugar do acampamento, procederam à sua disposição. Resolveram construir uma casa de neve, que se apoiaria contra um dos rochedos do promontório. Fidèle Misonne traçou imediatamente os alicerces, que mediam quinze pés de comprido por cinco de largo.

Penellan, Aupic e Misonne, valendo‑se das suas facas, talharam grandes pedaços de gelo, que trouxeram para o lugar designado, e procederam como quaisquer pedreiros na construção de uma parede de pedra e cal.

Em pouco tempo chegava a parede do fundo a cinco pés de altura, e atingia uma espessura quase igual, porque os materiais não faltavam, e importava que o edifício tivesse solidez bastante para durar alguns dias.

Concluíram as quatro paredes quase em oito horas.

Abriram uma porta do lado do sul, e a cobertura do trenó foi colocada sobre o alto das paredes, mas de modo que pendia diante da porta e a fechava.

Faltava apenas cobrir o edifício com grandes pedaços de gelo, destinados a formar o tecto daquela construção efémera.

Depois de mais três horas de árduo trabalho, estava concluída a casa e todos se recolhiam nela, prostrados pelo desânimo e pela fadiga.

João Cornbutte padecia a ponto de não poder dar um passo, e André Vasling explorou tão bem a sua dor que lhe arrancou a promessa de não continuar as suas pesquisas por aquelas horríveis solidões.

Penellan já não sabia a que santo se pegasse.

Achava indigno e cobarde abandonar assim as pesquisas.

Tentou combater tal fraqueza; tudo foi, porém, debalde.

Entretanto, apesar de estar resolvido o regresso, o repouso tornara‑se tão necessário que durante três dias não fizeram nenhum preparativo para se porem a caminho.

No dia 4 de Novembro, João Cornbutte começou a fazer enterrar num ponto da costa as provisões que não lhe eram necessárias.

Pôs um sinal no sítio do depósito, para o caso, pouco provável, de que empreendessem para aqueles lados novas explorações.

De quatro em quatro dias deixaria iguais depósitos pelo caminho‑o que lhe assegurava os necessários víveres para o regresso, e o dispensava de os transportar no trenó.

A partida foi fixada para as dez horas da manhã de 5 de Novembro.

Da pequena caravana apoderou‑se a mais profunda tristeza.

Maria com dificuldade conteve as lágrimas ao ver seu tio desanimado.

Tanto sofrimento inútil! Tantos trabalhos perdidos! Penellan, esse, pôs‑se de um humor insuportável. Mandava tudo para o diabo, e não cessava, todas as vezes que podia, de se zangar contra a fraqueza e cobardia dos seus companheiros, mais tímidos e fatigados ‑ dizia ele ‑ que Maria, a qual iria decerto ao fim do mundo sem se queixar.

Mostrou‑se mais assíduo que nunca junto da jovem, a quem deu esperanças de que se empreenderiam novas pesquisas depois do Inverno, apesar de saber muito bem que seriam já tardias!

 

                                     ENTERRADOS EM VIDA

 

NA véspera da partida, por ocasião da ceia, estando Penellan muito ocupado em escangalhar algumas caixas vazias para as meter no fogão, ficou repentinamente sufocado por espesso fumo.

No mesmo momento, a casa de neve sofreu abalo como se houvesse algum tremor de terra.

Soltaram todos um grito de terror, e Penellan fugiu precipitadamente para fora.

Reinava completa escuridão. Não era um degelo, mas uma tempestade terrível que se desencadeava.

Caíam com extrema violência torvelinhos de neve, e esfriou a um tal grau que o timoneiro sentiu gelar‑se‑lhe a mão.

Viu‑se obrigado a recolher‑se, depois de esfregar com uma pouca de neve o membro gelado.

‑ Eis a tempestade connosco ‑ disse. ‑ Permita Deus que a nossa casa resista, porque se a tempestade a destrói ficamos perdidos.

Ao mesmo tempo que as lufadas se desencadeavam nos ares, ouvia‑se por baixo do solo coberto de neve um terrível ruído.

Os grandes pedaços de gelo, que se despedaçavam na ponta do promontório, batiam e precipitavam‑se uns nos outros com fragor.

O vento soprava com tanta força que às vezes parecia que a casa inteira se deslocava. Clarões fosforescentes, inexplicáveis sob aquelas latitudes, atravessavam os turbilhões de neve.

‑ Maria! Maria! ‑ bradou Penellan, agarrando nas mãos da jovem.

‑ Agora é que estamos prontos! ‑ disse Fidèle Misonne.

‑ E não sei se sairemos desta! ‑ acrescentou Aupic.

‑ Abandonemos a casa de neve! ‑ propôs André Vasling.

‑ É impossível ‑ objectou Penellan. ‑ Lá fora é insuportável o frio, enquanto aqui poderemos talvez arrostá‑lo!

‑ Dê‑me o termómetro ‑ pediu André Vasling.

Aupic passou‑lhe para a mão o termómetro, que marcava dez graus acima de zero no interior da casa, apesar de o lume estar aceso.

André Vasling levantou o pano que tapava a entrada e expôs o instrumento ao ar livre.

Teve porém de retirar a mão precipitadamente para não ser ferida pelos pedaços de gelo que o vento fazia girar nos ares e que formavam verdadeiro granizo.

‑ Então, senhor Vasling? ‑ perguntou Penellan ‑, ainda quer sair?... Bem vê que estamos aqui mais em segurança!

‑ Sim ‑ acrescentou João Cornbutte ‑, e devemos empregar todos os nossos esforços para consolidar interiormente esta casa.

‑ Mas há ainda um perigo mais terrível que nos ameaça ‑ avisou André Vasling.

‑ Que perigo? ‑ perguntou João Cornbutte.

‑ Que o vento despedace o gelo em que nos abrigamos, como quebrou o gelo do promontório, e sejamos arrastados ou submersos!

‑ Parece‑me isso difícil ‑ retorquiu Penellan ‑, porque está um frio que gela todas as superfícies líquidas!... Vejamos qual é a temperatura.

E levantou outra vez o pano da entrada, deitou apenas o braço de fora e procurou o termómetro. Encontrou‑o com dificuldade e, aproximando‑o da lâmpada, informou:

‑ Trinta e dois graus abaixo de zero! É o maior frio que temos sentido até hoje!

‑ Mais dez graus e o mercúrio gelará ‑ observou André Vasling.

Seguiu‑se a esta observação triste silêncio.

Pelas oito horas da manhã Penellan diligenciou segunda vez sair, para ajuizar da situação.

Depois, era preciso dar saída ao fumo, que o vento repetidas vezes fizera afluir para o interior da cabana.

O marinheiro abotoou o fato hermeticamente, segurou o capuz na cabeça com um lenço, e levantou o pano.

A entrada estava completamente obstruída por uma neve resistente.

Penellan pegou no seu pau ferrado e enterrou‑o naquela massa compacta. Mas o terror gelou‑lhe o sangue, ao sentir que a extremidade do pau esbarrava num corpo duro.

‑ Cornbutte! ‑ disse para o capitão, que se aproximara dele ‑, estamos enterrados na neve!

‑ Que estás a dizer? ‑ exclamou João Cornbutte.

‑ Digo que a neve se acumulou sobre nós e em volta de nós, que estamos enterrados em vida!

‑ Procuremos remover esta massa de gelo ‑ retorquiu o capitão.

Os dois amigos meteram ombros contra o obstáculo que obstruía a porta, mas não puderam removê‑lo.

A neve tinha mais de cinco pés de espessura e formava um só corpo com a casa.

João Cornbutte não pôde conter um grito, que acordou Misonne e André Vasling.

O imediato contraiu o rosto e murmurou uma praga.

Neste momento uma fumaceira mais espessa refluiu para o interior, porque não podia achar saída.

‑ Ah! raios! ‑ exclamou Misonne. ‑ O cano do fogão está obstruído pelo gelo.

Penellan tornou a lançar mão do seu pau ferrado e desmontou o fogão, depois de deitar uma pouca de neve sobre as brasas para as apagar, o que produziu uma tal fumaceira que mal se podia distinguir a luz da lâmpada.

Procurou com o pau ferrado desobstruir o orifício, mas encontrou gelo duro como rocha!

Só tinham a esperar um fim terrível, após dolorosa agonia!

O fumo, introduzindo‑se na garganta dos desgraçados, causava‑lhes insuportável sofrimento, e não tardaria que lhes faltasse o ar!

Maria levantou‑se então. A sua presença, que desanimava o capitão, infundiu coragem em Penellan.

O timoneiro disse consigo que aquela pobre rapariga não podia estar destinada a tão horrível morte!

‑ Que é isso? ‑ perguntou Maria. ‑ Fizeram fumo de mais? A casa está cheia de fumo!

‑ Sim... sim... ‑ respondeu Penellan, com voz balbuciante.

‑ Bem se vê ‑ tornou Maria ‑ porque faz frio, e há muito tempo que não sentimos tanto calor!

Penellan não se atreveu a revelar‑lhe a verdade.

‑ Vamos, Maria ‑ disfarçou Penellan ‑, ajuda‑nos a preparar o almoço. Eis aqui o rescaldo, o álcool vínico e o café. Vamos lá, primeiramente uma pouca de carne de conserva, porque este maldito tempo não nos deixa caçar!

Estas palavras reanimaram os seus companheiros.

‑ Tratemos de comer primeiramente e depois veremos como havemos de sair ‑ propôs Penellan.

O timoneiro juntou o exemplo ao conselho e devorou o seu quinhão. Os companheiros imitaram‑no, bebendo todos em seguida uma chávena de café a ferver, o que lhes deu algum ânimo.

No final da refeição, João Cornbutte decidiu com grande energia que iriam tratar imediatamente de se salvarem.

André Vasling fez então a seguinte reflexão:

‑ Se a tempestade ainda dura, o que é provável, devemos estar a dez pés debaixo da neve, porque não nos chega nenhum ruído de fora!

Penellan olhou para Maria, que compreendeu a verdade, mas não tremeu.

Em seguida o marinheiro aqueceu ao rubro na chama do álcool vínico a extremidade do seu pau ferrado, e, sucessivamente, introduziu‑a nas quatro paredes de gelo, mas não achou saída em nenhuma.

João Cornbutte resolveu então fazer uma abertura na própria porta.

O gelo estava tão duro que as machadinhas dificilmente entravam nele.

Dali a pouco obstruíam a cabana os pedaços de gelo que lograram extrair.

Ao fim de duas horas deste árduo trabalho, a galeria aberta não tinha três pés de profundidade.

Era preciso imaginar um meio mais rápido, e que oferecesse menos risco de abalar a casa, porque, quanto mais avançavam, mais o gelo, tornando‑se duro, demandava violentos esforços para ser perfurado.

Penellan lembrou‑se de fazer uso do rescaldo com álcool vínico para derreter o gelo na direcção desejada.

Era um meio arriscado, porque, se viesse a prolongar‑se o encerramento, o álcool vínico, de que os marinheiros tinham pequena porção, far‑lhes‑ia falta para o preparo das refeições.

Não obstante, o projecto obteve a aprovação geral, pelo que foi posto em execução.

Começaram por abrir uma cova de três pés de fundo e um metro de diâmetro para recolherem a água que resultasse do derretimento do gelo, e não tiveram motivo para se arrependerem da precaução, porque não tardou que a água principiasse a escorrer sob a acção do fogo que Penellan ia passando por cima do gelo.

A abertura foi‑se alargando pouco a pouco, mas não se podia continuar por muito tempo um tal género de trabalho, porque a água já lhes encharcava o fato.

Penellan viu‑se obrigado a parar no fim de um quarto de hora e a retirar o rescaldo para ele próprio se enxugar.

Misonne não tardou a tomar o seu lugar, e não procedeu com menos coragem.

No fim de duas horas de trabalho, apesar de a galeria ter cinco pés de profundidade, o pau ferrado não podia ainda achar saída.

‑ Não é possível que a neve caísse com tal abundância! Decerto que foi acumulada pelo vento neste ponto! Deveríamos talvez procurar sair por outro lado?

‑ Não sei ‑ respondeu Penellan ‑; mas ao menos, para não desanimarmos os nossos companheiros, devemos continuar a atravessar a parede no mesmo sentido. É impossível que não arranjemos saída.

‑ O álcool vínico não virá a faltar? ‑ perguntou o capitão.

‑ Espero que tal não suceda ‑ respondeu Penellan ‑, mas com a condição de nos privarmos de café ou de bebidas quentes! Depois, não é isso o que mais me inquieta.

‑ Que é então? ‑ perguntou João Cornbutte.

‑ Que a lâmpada se apague por falta de azeite e nos venham a faltar os víveres!

‑ Em suma, seja o que Deus quiser!

Em seguida, André Vasling foi substituir Penellan, que trabalhava com energia na libertação comum.

‑ Senhor Vasling ‑ recomendou Penellan ‑, vai tomar o meu lugar, mas, tome sentido, rogo‑lhe nos acorde se vir qualquer indício de desmoronamento, para que nós possamos ter tempo de lhe evitarmos as consequências!

Chegara o momento do descanso, e, depois de abrir mais um pé de extensão na galeria, Penellan foi deitar‑se junto dos companheiros.

 

                                     UMA NUVEM DE FUMO

 

QUANDO, no dia seguinte, os marinheiros despertaram,

envolvia‑os completa escuridão.

Tinha‑se apagado a lâmpada. João Cornbutte despertou Penellan para lhe pedir o fuzil. Penellan deu‑lho e levantou‑se para acender o rescaldo. Mas, ao levantar‑se, bateu com a cabeça no tecto de gelo.

Ficou espantado, porque na véspera ainda podia estar de pé.

À luz indecisa do álcool vínico reconheceu que o tecto baixara um pé.

Penellan deitou‑se ao trabalho com desespero.

Ao clarão que o rescaldo projectava sobre o rosto do timoneiro, a jovem compreendeu que naquela rude fisionomia lutavam o desânimo e a boa vontade.

Chegou‑se a ele, pegou‑lhe nas mãos e apertou‑lhas com ternura.

Penellan sentiu voltar‑lhe a coragem.

‑ Oh! Ela não pode morrer assim! ‑ exclamou. Tornou a meter‑se pela estreita abertura!

Com mão vigorosa enterrou o pau ferrado. Não sentiu resistência.

Teria chegado às camadas moles da neve?

Retirou o pau, e um raio brilhante penetrou na casa de gelo.

‑ Amigos! Amigos! ‑ exclamou.

E com os pés e as mãos começou a arredar a neve, mas a superfície exterior não estava degelada ainda, como ele supusera.

Juntamente com o raio de luz penetrou na cabana um frio violento, que solidificou num momento todas as partes húmidas.

Com a ajuda da machadinha, Penellan alargou a abertura e pôde finalmente respirar o ar livre.

Caiu de joelhos para dar graças a Deus, no que depressa lhe fizeram companhia a jovem e os seus companheiros.

Um luar magnífico iluminava a atmosfera, cujo frio rigoroso os marinheiros não puderam suportar.

Antes de se tornarem a recolher, Penellan olhou em volta de si. Já não se via o promontório, e a cabana achava‑se no meio de imensa planície de gelo.

Lembrou‑se de procurar com a vista o trenó, onde estavam as provisões; mas ele desaparecera!

O rigor da temperatura obrigou‑o a entrar outra vez na casa de neve.

Nada disse aos companheiros do que observara.

Era preciso primeiro que tudo enxugar os fatos, o que se fez com o álcool vínico.

Exposto por um momento ao ar livre, o termómetro desceu trinta graus abaixo de zero.

Passada uma hora, André Vasling e Penellan resolveram arrostar com a atmosfera exterior.

Envolveram‑se nas suas vestes ainda húmidas e saíram pela abertura, cujas paredes tinham já adquirido a dureza da rocha.

‑ Derivámos para o nordeste ‑ informou André Vasling, orientando‑se pelas estrelas, que ostentavam brilho extraordinário.

‑ Não teria sido mau, se o trenó nos houvesse acompanhado! ‑ acrescentou Penellan.

‑ Desapareceu o trenó! Então estamos perdidos!

‑ Procuremo‑lo!

Deram um giro em roda da cabana, que formava um morro de mais de quinze pés de altura.

Durante a tempestade caíra imensa quantidade de neve, e o vento acumulava‑se contra a única elevação que aparecia na planície.

O morro inteiro fora arrastado pelo vento, de envolta com os outros pedaços de gelo, a mais de vinte e cinco milhas para o nordeste, e os presos tinham sofrido a sorte da sua prisão flutuante.

O trenó, sustentado por outra mole de gelo, derivara decerto para outro lado, porque não se via sinal dele, e os cães deviam ter sucumbido naquela terrível tempestade.

André Vasling e Penellan sentiram‑se invadir pelo desespero.

Não se atreviam a entrar na casa de neve, nem mesmo a anunciar esta notícia fatal aos seus companheiros de infortúnio.

Treparam pela própria mole de gelo em que se achava sepultada a casa, e só enxergaram a imensidade de neve que por todos os lados os rodeava.

O frio já lhes inteiriçava os membros, e a humidade dos fatos transformava‑se em pedacinhos de gelo, que lhos enfeitavam.

No momento em que Penellan ia descer do morro, relanceou os olhos para André Vasling.

Viu‑o de repente olhar com ânsia para um lado e depois estremecer e fazer‑se pálido.

‑ Que tem, senhor Vasling? ‑ perguntou.

‑ Não tenho nada! ‑ respondeu o imediato. ‑ Desçamos e tratemos de abandonar o mais depressa possível estas paragens, que nunca deveríamos ter pisado!

Mas, em lugar de se conformar com aquela ordem, Penellan tornou a subir e dirigiu o olhar para o sítio que atraíra a atenção do imediato.

Produziu‑se nele um efeito bem diferente, porque soltou um grito de alegria e exclamou:

‑ Deus seja louvado!

Para as bandas do nordeste elevava‑se ligeiro fumo.

Não havia que duvidar. Naquele lado existiam criaturas humanas.

Os gritos de alegria de Penellan atraíram a atenção dos companheiros, e todos se puderam convencer com os seus próprios olhos de que o timoneiro não se enganava.

No mesmo instante, sem se inquietarem com a falta de víveres, sem atenderem ao rigor da tempestade, envolvidos nos seus capuzes, deitaram todos a correr para o lugar indicado.

Ficava este a umas cinco ou seis milhas de distância, e era muito difícil dirigirem‑se para ali. Desaparecera o fumo, e não havia elevação alguma que pudesse servir de ponto de referência.

Contudo, era de toda a importância não se desviarem da linha recta.

‑ Como não nos podemos guiar por nenhum objecto distante ‑ declarou então João Cornbutte ‑, eis os meios que devemos empregar: Penellan vai caminhar à frente, Vasling vinte passos atrás de Penellan e eu vinte passos atrás de Vasling. Por este modo poderei reconhecer se Penellan se afasta da linha recta.

A marcha durou meia hora. De repente, Penellan parou, pondo o ouvido à escuta. Os companheiros reuniram‑se‑lhe.

‑ Não ouviram nada? ‑ perguntou.

‑ Nada ‑ respondeu Misonne.

‑ É singular ‑ exclamou Penellan. ‑ Pareceu‑me que ouvia gritos deste lado.

‑ Gritos? ‑ volveu a jovem. ‑ Estaremos nós perto do local do nosso destino?

‑ Isso não é razão ‑ respondeu André Vasling. ‑ Sob estas latitudes elevadas e no meio destes grandes frios, o som propaga‑se a extraordinárias distâncias.

‑ Seja como for, marchemos, senão ficamos gelados! ‑ ordenou João Cornbutte.

‑ Não! ‑ exclamou Penellan. ‑ Escutem!

Ouviam‑se alguns sons fracos, porém, perceptíveis.

Pareciam gemidos de dor e de aflição. Renovaram‑se duas vezes. Dir‑se‑ia que alguém gritava por socorro. Em seguida recaiu tudo no silêncio.

‑ Não me enganei ‑ disse Penellan. ‑ Para a frente! - E deitou a correr na direcção do lugar donde se ouviam os gritos.

Transpôs assim quase duas milhas e foi grande a sua estupefacção quando descobriu um homem deitado no gelo.

Aproximou‑se dele, levantou‑o e ergueu os braços com desespero.

André Vasling, que o seguia de perto com os restantes marinheiros, acudiu e exclamou:

‑ É um dos náufragos! É o nosso marinheiro Cortrois!

‑ Está morto ‑ declarou Penellan. ‑ Morto de frio!

João Cornbutte e Maria chegaram ao pé do cadáver, que o gelo já inteiriçara.

Manifestou‑se em todos os rostos o mais vivo desespero.

O morto era um dos companheiros de Luís Cornbutte!

‑ Avante! ‑ exclamou Penellan.

Caminharam mais meia hora sem dizer palavra e descobriram uma elevação do solo, que decerto devia ser terra firme.

‑ É a ilha Shannon ‑ informou João Cornbutte.

À distância de uma milha, divisaram distintamente uma espiral de fumo que subia de uma cabana de neve fechada por uma porta de madeira.

Puseram‑se a gritar. Saíram precipitadamente da cabana dois homens, e entre eles Penellan reconheceu Pedro Nouquet.

‑ Pedro! ‑ gritou Penellan.

Pedro conservava‑se pasmado, como um homem idiota que não tivesse consciência de coisa alguma do que se passava em volta dele.

André Vasling olhava com inquietação, misturada de cruel alegria, para os companheiros de Pedro Nouquet, porque entre eles não avistava Luís Cornbutte.

‑ Pedro! ‑ exclamou Penellan. ‑ Sou eu! São todos os teus amigos!

Pedro Nouquet avançou e caiu nos braços do seu velho companheiro.

‑ E meu filho? E Luís? ‑ perguntou João Cornbutte, no tom do mais profundo desespero.

 

                                     REGRESSO AO NAVIO

 

No mesmo momento, um homem quase moribundo saiu da cabana, arrastando‑se pelo gelo. Era Luís Cornbutte.

‑ Meu filho!

‑ Meu esposo!

Foram proferidos ao mesmo tempo estes dois gritos, e Luís Cornbutte caiu desmaiado nos braços de seu pai e da jovem, que o arrastaram para a cabana, onde os seus desvelos o reanimaram.

‑ Meu pai! Maria! ‑ exclamou Luís Cornbutte. ‑ Sempre os vi antes de morrer!

‑ Não morrerás! ‑ assegurou Penellan ‑ porque todos os teus amigos estão junto de ti.

Era preciso que André Vasling tivesse bastante ódio a Luís Cornbutte para não lhe estender a mão, mas não o fez.

Pedro Nouquet não cabia em si de contente.

Pôs‑se a abraçar toda a gente; em seguida deitou lenha no fogão, e dentro em pouco estabelecia‑se na cabana uma temperatura suportável.

Estavam ali mais dois homens, que nem João Cornbutte nem Penellan reconheceram.

Eram Jocki e Herming, os dois únicos marinheiros noruegueses que restavam da tripulação da «Frooern».

‑ Amigos, estamos então salvos! ‑ disse Luís Cornbutte. ‑ Meu pai! Maria! Expuseram‑se a tantos perigos!

‑ Não estamos arrependidos, meu Luís ‑ redarguiu João Cornbutte. ‑ O teu brigue, a «Jovem Ousada», está solidamente amarrado a sessenta léguas daqui. Para lá voltaremos todos.

‑ Quando Cortrois se recolher, há‑de ficar contentíssimo!

A esta observação seguiu‑se triste silêncio, e Penellan anunciou a Pedro Nouquet e a Luís Cornbutte a morte do seu companheiro, que o frio matara.

‑ Meus amigos ‑ decidiu Penellan ‑, esperaremos aqui que o frio diminua. Têm víveres e lenha?

‑ Temos, e queimamos o que nos resta da «Frooern»!

A «Frooern» tinha vindo, batida pela tempestade, naufragar a quarenta milhas do lugar onde Luís Cornbutte invernara.

Ali, fora despedaçada pelos gelos que flutuavam no degelo, e os náufragos, dentro da cabana construída com os restos do navio, haviam derivado até à margem meridional da ilha Shannon.

Os sobreviventes eram então em número de cinco: Luís Cornbutte, Cortrois, Pedro Nouquet, Jocki e Herming.

Quanto ao resto da tripulação norueguesa, submergira‑se com a lancha no momento do naufrágio.

Quando Luís Cornbutte viu os gelos fecharem‑se em volta dele, tomou sem demora todas as precauções para passar o Inverno.

Era um homem enérgico, de grande actividade e coragem.

Mas, apesar da sua energia, fora prostrado por aquele clima horrível, e, quando o pai o encontrou, já não esperava senão morrer.

Depois, não tinha de lutar só contra os elementos, mas também contra a má vontade dos dois marinheiros noruegueses, os quais todavia lhe deviam a vida.

Eram uma espécie de selvagens, quase inacessíveis aos sentimentos mais naturais. Por isso, quando Luís Cornbutte teve ensejo de falar particularmente com Penellan, recomendou ao marinheiro que desconfiasse deles. Por seu lado, Penellan pô‑lo ao facto do procedimento de André Vasling.

Luís Cornbutte não queria crer, mas Penellan provou‑lhe que, depois da sua desaparição, André Vasling manobrara com o fito de alcançar a mão da jovem.

Passaram o dia entregues exclusivamente ao repouso e ao prazer de se tornarem a ver.

Fidèle Misonne e Pedro Nouquet mataram algumas aves aquáticas próximo de casa, da qual não era prudente afastarem‑se.

Este alimento fresco e o lume que se ateou restituíram as forças aos mais doentes.

O próprio Luís Cornbutte experimentou sensíveis melhoras.

Era o primeiro momento de prazer que esta gente gozava. Por isso celebraram‑no com entusiasmo naquela miserável cabana, a seiscentas léguas, nos mares do Norte, com um frio de trinta graus abaixo de zero.

Esta temperatura durou até ao fim da Lua, e só para 17 de Novembro, oito dias depois do seu encontro, é que João Cornbutte e os seus companheiros puderam tratar de partir.

Apenas tinham o clarão das estrelas por guia, mas o frio era um pouco menos vivo, e caía alguma neve.

Antes de abandonarem aqueles lugares, abriram uma sepultura ao pobre Cortrois.

Triste cerimónia que bastante sensibilizou os companheiros!

Era, de entre eles, o primeiro que não tornaria a ver a pátria.

Misonne construíra, com as pranchas da cabana, uma espécie de trenó destinado ao transporte das provisões, e os marinheiros puxavam por ele alternando‑se.

João Cornbutte dirigiu a marcha pelos caminhos já percorridos.

Às horas do descanso os acampamentos organizavam‑se com grande prontidão.

João Cornbutte esperava encontrar os seus depósitos de provisões, que se tornavam quase indispensáveis dado aquele aumento de quatro pessoas.

Tratou por isso de não se afastar do caminho anterior.

Por uma felicidade providencial, tornou a encontrar o trenó, que se achava junto do promontório onde tamanho perigo havia corrido.

Os cães, depois de comerem as correias para satisfazerem a fome, tinham assaltado as provisões do trenó.

Foi o que os reteve, e foram eles mesmos que guiaram o bando até ao trenó, onde havia ainda grande quantidade de víveres.

Tornaram a pôr‑se a caminho da baía da invernada. Atrelaram os cães ao trenó, e nenhum incidente assinalou a nova expedição.

Apenas se observou que Aupic, André Vasling e os noruegueses andavam sempre afastados dos companheiros. Mas, sem o saberem, eram vigiados de perto.

Não obstante, este germe de discórdia infundiu por mais de uma vez terror na alma de Luís Cornbutte e de Penellan.

Em 7 de Dezembro, vinte dias depois da sua junção, avistaram a baía onde invernara a «Jovem Ousada».

Qual não foi a sua admiração ao acharem o navio empoleirado, a quase quatro metros de altura, sobre os pedaços de gelo!

Deitaram a correr muito inquietos quanto à sorte dos seus companheiros, mas foram recebidos com gritos de alegria por Gervique, Turquiette e Gradlin.

Achavam‑se todos de boa saúde, mas também haviam passado pelos maiores perigos.

A tempestade fizera‑se sentir em todo o mar dos pólos.

As moles de gelo haviam sido despedaçadas e deslocadas, e, resvalando umas sobre outras, tinham ido aglomerar‑se no leito onde assentava o navio.

Como, em razão do seu peso específico, tendiam a subir, haviam adquirido uma força incalculável, e o brigue achara‑se de súbito acima do nível do mar.

Os primeiros momentos foram consagrados à alegria do regresso. Os exploradores regozijavam‑se por verem tudo em bom estado, o que lhes garantia um Inverno suportável, embora rude.

A elevação do navio não o arruinara, e achava‑se em bom estado de solidez. Quando chegasse a temporada do degelo bastaria fazê‑lo deslizar sobre um plano inclinado, numa palavra, lançá‑lo ao mar já livre.

Durante o terrível vendaval, o armazém de neve construído sobre a costa fora totalmente destruído. Os víveres ali encerrados haviam sido dispersos, e não foi possível salvar a mais pequena porção.

João e Luís Cornbutte visitaram o porão e a despensa do brigue, a fim de verem com que deviam contar a respeito de mantimentos.

O degelo só chegaria com o mês de Maio, e o brigue não podia deixar a baía antes daquela época.

Eram portanto cinco meses de Inverno que havia a passar nos gelos, durante os quais se tinham de sustentar catorze pessoas.

Feitas as contas, João Cornbutte compreendeu que as provisões chegariam o muito até ao momento da partida, pondo tudo a meia ração.

Tornou‑se, pois, obrigatória a caça, a fim de se obterem alimentos em maior abundância.

Com receio de que se repetisse a catástrofe anterior, resolveram não tornar a depositar provisões em terra.

Foi tudo para bordo do brigue, e prepararam‑se também camas para os recém‑chegados no alojamento comum dos marinheiros.

Turquiette, Gervique e Gradlin, durante a ausência dos companheiros, tinham talhado uma escada no gelo, a qual lhes permitia chegarem sem dificuldade à tolda do navio.

 

                                              OS DOIS RIVAIS

 

ANDRÉ VASLING tomara amizade aos dois marinheiros noruegueses.

Aupic fazia parte deste bando, que geralmente se conservava afastado, como dissemos, e desaprovava claramente todas as novas medidas. Mas Luís Cornbutte, a quem o pai entregara o comando, senhor outra vez do brigue, não admitia reflexões àquele respeito, e apesar dos conselhos de Maria, que o induzira a usar de brandura, fez saber que queria ser obedecido em tudo.

Não obstante, os dois noruegueses conseguiram, dois dias depois, apoderar‑se de uma caixa de carne salgada.

Luís Cornbutte exigiu que a carne lhe fosse entregue imediatamente, mas André Vasling deu até a entender que as medidas concernentes aos alimentos não podiam durar por muito tempo.

De nada servia provar àqueles desgraçados que se procedia no interesse comum, porque eles só procuravam um pretexto para se revoltarem.

Penellan investiu contra os noruegueses, que puxaram das machadinhas, mas, ajudado por Misonne e Turquiette conseguiu sem custo arrancar‑lhas das mãos e reaver a caixa da carne salgada.

Vendo que as coisas se voltavam contra eles, André Vasling e Aupic não se meteram na contenda.

Não obstante, Luís Cornbutte chamou de parte o imediato e disse‑lhe:

‑ André Vasling, você é um miserável. Conheço todo o seu procedimento, e sei a que tendem as suas maquinações. Mas, como me está confiada a sorte de toda a tripulação, se algum se lembrar de conspirar para a perda geral, dou‑lhe eu mesmo uma punhalada.

‑ Luís Cornbutte ‑ replicou o imediato ‑, pode dar todas as ordens que quiser, mas lembre‑se de que a autoridade hierárquica já não existe aqui, e que só reina a lei do mais forte.

A jovem nunca tremera em presença dos perigos do mar dos pólos, mas teve medo daquele ódio de que era a causa, e a energia de Cornbutte mal a pôde tranquilizar.

Apesar desta declaração de guerra, as refeições eram tomadas às mesmas horas e em comum.

A caça forneceu ainda alguns ptarmigans e algumas lebres brancas; mas, com os grandes frios que se aproximavam, este mesmo recurso ia‑lhes faltar.

Estes frios começaram no solstício, em 22 de Dezembro, dia em que o termómetro desceu trinta e cinco graus abaixo de zero.

Os invernadores sentiram dores nas orelhas, no nariz, em todas as extremidades do corpo; invadiu‑os um torpor mortal, de envolta com dores de cabeça, e a respiração tornou‑se‑lhes difícil.

Neste estado já não tinham coragem de sair à caça ou de fazerem algum exercício.

Conservavam‑se agachados em roda do fogão, que lhes dava apenas um calor insuficiente, e, assim que se afastavam um pouco, sentiam o sangue arrefecer‑lhes subitamente.

João Cornbutte viu a sua saúde gravemente comprometida, e já não podia sair do seu alojamento.

Apareceram nele sintomas de escorbuto e as pernas cobriram‑se‑lhe de manchas brancas.

A jovem passava bem e cuidava dos doentes com o interesse e o zelo de uma irmã da caridade.

Por isso todos os bons marinheiros a abençoavam do fundo do coração.

O 1 de Janeiro foi um dos dias mais tristes da invernada.

Soprava com violência o vento e o frio era insuportável.

Ninguém podia expor‑se ao ar livre, sem risco de ficar gelado. Os mais corajosos deviam limitar‑se a passear pela coberta abrigada pelo toldo.

João Cornbutte, Gervique e Gradlin não se levantaram.

Os dois noruegueses, Aupic e André Vasling, cuja saúde se ia aguentando, deitavam olhares ferozes para os companheiros, cuja força viam minguar.

Luís Cornbutte chamou de parte Penellan e perguntou‑lhe em que estado se achava a provisão de combustível.

‑ O carvão acabou‑se há muito ‑ respondeu Penellan ‑ e vamos queimar os restos da lenha!

‑ Se não conseguimos combater este frio ‑ volveu Luís Cornbutte ‑ estamos perdidos.

‑ Resta‑nos um meio ‑ replicou Penellan ‑, é queimar o que pudermos do nosso brigue, desde a borda até à linha de água, e em caso de necessidade podemos escangalhar o navio e fazer depois outro mais pequeno.

‑ É um meio extremo ‑ observou Luís Cornbutte ‑ e de que poderemos lançar mão quando os nossos homens estiverem válidos, porque ‑ acrescentou em voz baixa ‑ as nossas forças diminuem, e as dos nossos inimigos parecem aumentar, o que é uma coisa bastante extraordinária!

‑ É verdade ‑ concordou Penellan ‑ e se não fosse a precaução que temos tido de velar dia e noite...

‑ Peguemos nas machadinhas ‑ acrescentou Luís Cornbutte ‑ e façamos a nossa colheita de lenha.

A despeito do frio, dirigiram‑se às trincheiras da proa e deitaram abaixo a madeira que não era indispensável ao navio.

Em seguida, encheram novamente o fogão, ficando um homem de sentinela, para o lume não se extinguir.

Dentro em pouco Luís Cornbutte e os seus amigos estavam sem forças.

Não podiam confiar nenhuma particularidade da vida comum aos seus inimigos.

Incumbidos de todos os cuidados domésticos, sentiram exaurir‑se‑lhes a coragem.

O escorbuto declarou‑se finalmente em João Cornbutte, que principiou a sofrer dores intoleráveis.

Gervique e Gradlin principiaram também a padecer.

Sem a provisão de sumo de limão, de que se haviam abundantemente fornecido, aqueles desgraçados teriam prontamente sucumbido.

Não pouparam, por isso, aquele remédio santo.

Mas um dia, 15 de Janeiro, quando Luís Cornbutte desceu à despensa para renovar a sua provisão de limões, ficou estupefacto ao ver que os barris onde estes se achavam haviam desaparecido.

Voltou para cima, procurou Penellan e revelou‑lhe aquela nova desgraça.

Cometera‑se um roubo, cujos autores era fácil reconhecer.

Luís Cornbutte compreendeu então porque é que a saúde dos seus inimigos se aguentava! Os seus já não tinham forças para lhes arrancarem aquelas provisões de que dependiam a sua vida e a dos seus companheiros, e caiu pela primeira vez no mais triste desespero!

 

                                     SITUAÇÃO ANGUSTIOSA

 

A 20 de Janeiro a maior parte destes infelizes não se sentia com forças para se levantar.

Todos eles, além dos seus cobertores de lã, tinham uma pele de búfalo, que os abrigava do frio. Mas, quando algum deitava um braço de fora da roupa, sentia tamanha dor que tinha de o recolher imediatamente.

Não obstante, quando Luís Cornbutte acendeu o fogão, Penellan, Misonne e André Vasling saltaram da cama e vieram agachar‑se à roda do lume.

Penellan preparou depois café a ferver, o que lhes restaurou um pouco as forças, como também a Maria, que veio tomar parte na refeição.

Luís Cornbutte aproximou‑se do leito de seu pai, que estava quase tolhido por efeito da doença.

O velho marinheiro murmurava palavras sem nexo, que dilaceravam o coração do filho.

‑ Luís ‑ queixava‑se ‑, vou morrer!... Oh! Como padeço!... Salva‑me!

Luís Cornbutte tomou uma resolução definitiva. Foi ter com o imediato e perguntou‑lhe:

‑ Sabe onde estão os limões, Vasling?

‑ Na despensa, parece‑me ‑ respondeu o imediato, sem se mexer.

‑ Você bem sabe que não estão lá, porque os roubou.

‑ Você é quem manda aqui, Luís Cornbutte ‑ replicou André Vasling, com voz irónica ‑, pode dizer e fazer tudo o que quiser!

‑ Por compaixão, Vasling, meu pai está a morrer! Pode salvá‑lo! Responda!

‑ Não tenho nada a responder ‑ retorquiu André Vasling.

‑ Ah, patife! ‑ exclamou Penellan, arremetendo para o imediato, de faca em punho.

‑ Acudam-me! ‑ bradou André Vasling, recuando.

Aupic e os dois marinheiros noruegueses saltaram da

cama e foram reunir‑se‑lhe.

Misonne, Turquiette, Penellan e Luís prepararam‑se para a defesa. Pedro Nouquet e Gradlin, apesar de muito doentes, levantaram‑se para os ajudar.

‑ São ainda muito fortes para nós! ‑ declarou então André Vasling. ‑ Só nos queremos bater quando tivermos certa a vitória!

Os marinheiros estavam tão fracos que não se atreveram a cair sobre aqueles quatro infames, porque, em caso de derrota, ficariam perdidos.

‑ André Vasling ‑ ameaçou Luís Cornbutte, com voz abafada ‑, se meu pai morrer é sua a culpa, e matá‑lo‑ei como quem mata um cão.

André Vasling e os seus cúmplices retiraram‑se para a extremidade do alojamento e não responderam.

Tornou‑se nessa altura necessário renovar a provisão de lenha, e, apesar do frio, Luís Cornbutte subiu à tolda e pôs‑se a cortar uma parte da borda do brigue, mas viu‑se obrigado a recolher no fim de um quarto de hora, porque se sentiu em risco de cair morto pelo frio.

De passagem deitou um olhar para o termómetro exterior e viu o mercúrio gelado.

O frio descera a mais de quarenta e dois graus abaixo de zero.

O tempo estava seco e límpido, e o vento soprava do norte. A 26 o vento mudou, soprou do nordeste e o termómetro marcou exteriormente trinta e cinco graus. João Cornbutte estava agonizante, e o filho debalde lhe procurava remédio para a doença.

Naquele dia, atirando‑se de repente a André Vasling, conseguiu arrancar‑lhe um limão que o imediato se dispunha a chupar.

André Vasling não fez o mais pequeno movimento para lho tirar. Parecia que esperava melhor ocasião de realizar os seus odiosos projectos.

O sumo de limão restituiu alguma força a João Cornbutte, mas era preciso continuar com este remédio.

Maria ajoelhou aos pés de André Vasling, que não lhe respondeu, e Penellan ouviu dali a pouco o miserável dizer aos seus companheiros:

‑ O velho está moribundo! Gervique, Gradlin e Pedro Nouquet pouco melhor estão. Os outros vão perdendo as forças de dia para dia! Aproxima‑se o momento em que a sua vida nos pertencerá!

Luís Cornbutte e os seus companheiros resolveram então não esperar por mais tempo e aproveitar a pouca força que lhes restava. Combinaram pôr‑se em acção na noite seguinte e matar aqueles miseráveis para não serem mortos por eles.

A temperatura subira um pouco. Luís Cornbutte atreveu‑se a sair com a espingarda para ver se apanhava alguma caça.

Afastou‑se do navio umas três milhas e, enganado muitas vezes pelos efeitos da miragem ou da refracção, distanciou‑se mais do que queria.

Era uma imprudência, porque se viam no solo vestígios recentes de animais ferozes.

Contudo, Luís não queria tornar para trás sem carne fresca, e continuou na sua expedição.

Experimentava porém uma sensação singular que lhe fazia andar a cabeça à roda.

Era o que se chama a «vertigem do branco».

Com efeito, a reflexão da planície e dos montículos de neve produzia‑lhe aquele efeito, e parecia‑lhe que aquela cor o penetrava, causando‑lhe um irresistível enfraquecimento.

Deslumbrava‑lhe e perturbava‑lhe a vista.

Julgou que ia ficar louco com aquela brancura.

Sem explicar a si próprio o que sentia, continuou a sua jornada e não tardou que fizesse levantar um ptarmigan, ao qual perseguiu com ardor.

A ave caiu, e para ir apanhá‑la saltou de um montículo e caiu pesadamente, porque dera um salto de dez pés, quando a refracção lhe fizera crer que só tinha dois a saltar.

Apoderou‑se dele o delírio, e, sem saber porquê, pôs‑se a chamar por socorro durante alguns minutos, apesar de não ter fracturado nenhum membro na queda.

Como o frio principiasse a invadi‑lo, readquiriu o instinto da conservação e levantou‑se a custo.

De repente ‑ coisa inexplicável para ele ‑, chegou‑lhe ao olfacto o cheiro de gordura queimada.

Como estava a sotavento do navio, supôs que vinha de lá o cheiro, mas não compreendeu com que fim procediam a uma operação tão perigosa, visto que tais emanações podiam atrair bandos de ursos brancos.

Luís Cornbutte tornou a tomar o caminho do brigue, entregue a uma preocupação que, no seu espírito sobreexcitado, degenerou bem depressa em terror.

Pareceu‑lhe que via moverem‑se no horizonte vultos colossais, e perguntou a si próprio se não haveria algum outro tremor de gelos.

Muitos dos vultos interpuseram‑se entre ele e o navio, e pareceu até a Luís Cornbutte que subiam pela borda do brigue.

Observou‑os com mais atenção, e foi imenso o terror que se apoderou dele ao reconhecer um bando de ursos gigantescos.

Tinham sido atraídos pelo cheiro de gordura que surpreendera Luís Cornbutte.

O capitão abrigou‑se por trás de um montículo, e contou três animais que escalavam os morros de gelo em que se apoiava a «Jovem Ousada».

Nada lhe fazia supor que dentro do navio se conhecesse o perigo por que se estava passando, e confrangeu‑se‑lhe terrivelmente o coração.

Como fazer frente a tão temíveis inimigos?

André Vasling e os seus companheiros pôr‑se‑iam ao lado de toda a tripulação em presença do perigo comum?

Penellan e os seus amigos, meio privados de alimentos, entorpecidos pelo frio, poderiam resistir àqueles animais ferozes aguilhoados por fome insaciável?

Depois, não os apanharia de surpresa o imprevisto do ataque?

Luís Cornbutte fez estas reflexões num momento.

Os ursos tinham subido pelos gelos e iam assaltar o navio.

Luís Cornbutte pôde então sair de trás do montão de gelo que o abrigava, avançou de rastos, e viu as feras rasgarem o toldo com as garras e saltarem para a tolda.

Lembrou‑se de disparar um tiro para avisar os amigos; mas, se estes subissem sem virem armados, seriam inevitavelmente feitos em pedaços, e nada indicava que eles soubessem daquele novo perigo!

 

                                     OS URSOS BRANCOS

 

DEPOIS de Luís Cornbutte sair, Penellan fechara cuidadosamente a porta do alojamento, que se abria junto à parte inferior da escada da escotilha.

Voltou para junto do fogão, a que ficou de guarda, enquanto os seus companheiros se recolhiam à cama para ver se readquiriam algum calor.

Eram seis horas da tarde e Penellan lembrou‑se de tratar da ceia. Foi à despensa buscar carne salgada, para a amolecer em água quente.

Quando voltou, achou o seu lugar ocupado por André Vasling, que tinha posto alguns bocados de gordura a cozer na caldeira.

‑ Eu já aqui estava ‑ disse Penellan, com modo sacudido, a André Vasling. ‑ Porque me tirou o lugar?

 

‑ Pela razão por que você mo reclama ‑ respondeu do mesmo modo André Vasling ‑, porque preciso de preparar a minha ceia!

‑ Vai tirar tudo isso daqui já ‑ replicou Penellan ‑ ou nós veremos!

‑ Não veremos nada ‑ respondeu André Vasling. ‑ Ou, por outra, veremos cozer a ceia, ainda que você não queira!

‑ Não lhe hás‑de pôr o dente! ‑ exclamou Penellan, atirando‑se a André Vasling, que puxou imediatamente da sua faca, gritando:

‑ Acudam, noruegueses! Acode, Aupic!

Num abrir e fechar de olhos os noruegueses achavam‑se de pé, armados de pistolas e de punhais.

Estava preparado o golpe.

Penellan precipitou‑se sobre André Vasling, que por certo se incumbira dele, porque os seus companheiros correram às camas de Misonne, de Turquiette e de Pedro Nouquet. Este, sem meio de defesa, prostrado pela doença, estava entregue à ferocidade de Herming.

Quanto ao carpinteiro, lançou mão de um machado e correu ao encontro de Aupic.

Turquiette e Aupic lutavam com raiva.

Gervique e Gradlin, sofrendo de um modo horrível, nem tinham consciência do que se passava junto deles.

Pedro Nouquet recebeu dentro em pouco uma punhalada, e Herming voltou‑se para Penellan, que se batia encarniçadamente.

André Vasling arcava com o seu adversário.

Mas, no começo da luta, a caldeira virara‑se sobre a fornalha, e a gordura, espalhando‑se por cima das brasas, impregnava a atmosfera com um cheiro infecto.

Maria levantou‑se, soltando gritos de desespero, e correu para o leito onde agonizava o velho João Cornbutte.

Menos vigoroso que Penellan, André Vasling reconheceu que o seu adversário levava a melhor.

Achavam‑se muito juntos um do outro para fazerem uso das respectivas armas.

Avistando Herming, o imediato bradou:

‑ Acode, Herming!

‑ Acode, Misonne! ‑ gritou Penellan por seu turno.

Mas Misonne revolvia‑se no chão com Aupic, que diligenciava feri‑lo. O machado do carpinteiro era uma arma pouco favorável à sua defesa, porque não podia brandi‑la, e com extrema dificuldade aparava as punhaladas que Aupic lhe atirava.

O sangue ia correndo no meio dos brados e rugidos.

Turquiette, derribado por Jocki, homem de força pouco vulgar, recebera uma punhalada num ombro e debalde diligenciava tirar uma pistola que o seu adversário tinha à cinta.

O norueguês apertava‑o como num torno, e não lhe era possível movimento algum.

Ao grito de André Vasling, que Penellan acantoava contra a porta do alojamento, Herming acudiu.

No momento, porém, em que ia atirar um golpe às costas do bretão, este, com um formidável pontapé, estendeu‑o por terra. O esforço que Penellan empregou para isto deu alguma liberdade ao imediato, que pôde soltar o braço direito. Mas a porta, a que se encostavam com todo o peso, cedeu de súbito, e André Vasling caiu de costas.

De repente ouviu‑se um terrível rugido e apareceu nos degraus da escada um urso gigantesco.

André Vasling foi o primeiro que o avistou.

A fera não estava a quatro passos de distância.

Ouviu‑se no mesmo momento uma detonação, e o urso, ferido ou assustado, voltou costas.

André Vasling, que chegara a levantar‑se, lançou‑se em sua perseguição, abandonando Penellan.

Este ajustou outra vez a porta arrombada e olhou em volta de si.

Misonne e Turquiette, muito bem amarrados pelos adversários, estavam a um canto e empregavam baldados esforços para quebrar os laços que os prendiam.

Penellan correu em seu socorro, mas foi derribado por Aupic e pelos dois noruegueses.

Completamente exausto, não pôde resistir àqueles três homens, que o amarraram de modo que lhe tolheram completamente os movimentos.

Em seguida, aos gritos do imediato, correram à tolda, julgando que iam haver‑se com Luís Cornbutte.

André Vasling lutava ali com um urso, no qual já tinha vibrado duas punhaladas. O animal, agitando no ar as patas formidáveis, procurava alcançar André Vasling.

Este, que fora pouco a pouco recuando para a trincheira, estava perdido, quando se ouviu segunda detonação.

O urso caiu por terra. André Vasling levantou a cabeça e avistou Luís Cornbutte nos enfrechates do mastro do traquete, com uma espingarda na mão.

Luís Cornbutte fizera pontaria ao coração do animal e acertara.

No coração de Vasling prevaleceu o ódio ao reconhecimento.

Mas, antes de satisfazer o ódio, olhou em torno de si.

Aupic tinha a cabeça despedaçada por uma patada do urso, e jazia sem vida na tolda.

Jocki, com um machado na mão, aparava, não sem dificuldade, as investidas que lhe atirava o segundo urso, que acabava de matar Aupic.

O animal recebera duas punhaladas, mas continuava a lutar com encarniçamento.

Para a proa do navio dirigia‑se terceiro urso.

André Vasling não se importou com este, e, seguido de Herming, acudiu em socorro de Jocki; mas Jocki, abraçado pelo urso, foi esmagado, e quando o animal caiu aos golpes de André e de Herming, que descarregaram as suas pistolas, tinha apenas um cadáver entre as patas.

‑ Somos só dois ‑ disse André Vasling, com ar sombrio e feroz ‑, mas, se sucumbirmos, não será sem vingança!

Herming não respondeu e tornou a carregar a pistola. Primeiro que tudo era preciso desembaraçar‑se do terceiro urso.

André Vasling olhou do lado da proa e não o viu.

Levantando os olhos avistou‑o, em pé, sobre a trincheira e trepando já aos enfrechates para alcançar Luís Cornbutte.

Abaixou a espingarda, que já apontava para o animal, e mostrou na fisionomia uma alegria feroz.

‑ Ah! ‑ exclamou ‑ deves‑me bem esta vingança!

O urso continuava a subir, e já não estava senão a três pés de distância de Luís, quando este pôs a arma à cara e fez pontaria ao coração do animal.

Da sua parte, André Vasling também pôs a espingarda à cara, mas para atirar sobre Luís se fosse o urso que caísse.

Luís Cornbutte desfechou, mas não pareceu que o urso ficasse ferido, porque, de um salto, achou‑se sobre a gávea.

O mastro estremeceu todo. André Vasling soltou um grito de alegria.

‑ Herming! ‑ gritou para o marinheiro norueguês ‑, vai‑me buscar Maria, vai‑me buscar a minha noiva!

Herming desceu a escada do alojamento. O animal precipitara‑se sobre Luís Cornbutte, que fugiu para o outro lado do mastro; mas, no momento em que a pata enorme da fera baixava sobre a sua cabeça, o capitão agarrou‑se a um brandal e deslizou por ele abaixo, não sem perigo, porque a meio caminho sibilou‑lhe uma bala aos ouvidos.

Vasling acabara de atirar sobre ele, mas errara o tiro. Os dois adversários acharam‑se, pois, outra vez em frente um do outro e de faca em punho. Devia ser decisivo este combate. Para saciar plenamente a sua vingança, para fazer assistir a jovem à morte do noivo, André Vasling privara‑se do auxílio de Herming.

Não devia, portanto, contar senão consigo mesmo. Luís Cornbutte e André Vasling agarrarram‑se ambos pela gola da veste, de maneira que já não podiam recuar. Dos dois um havia de cair morto. Atiraram um ao outro violentos golpes, que só imperfeitamente apararam, porque o sangue começou a correr de parte a parte.

André Vasling diligenciava deitar o braço direito ao pescoço do adversário para o lançar por terra.

Conhecendo que aquele que caísse ficaria perdido, Luís Cornbutte antecedeu‑se‑lhe e conseguiu cingi‑lo com os braços. Com este movimento, porém, o punhal escapou‑lhe das mãos.

Chegaram‑lhe aos ouvidos gritos horríveis.

Era Maria, a quem Herming queria arrastar. A raiva e o desespero cresceram em Luís Cornbutte. Empregou um esforço violento para fazer vergar André Vasling. Mas neste momento os dois adversários sentiram‑se apertados por uns membros de força irresistível e formidável.

Era o urso que descera da gávea e se precipitara sobre os dois homens.

André Vasling estava de encontro ao peito da fera.

Luís Cornbutte sentia as garras penetrarem‑lhe nas carnes.

O urso apertava‑os a ambos.

‑ Acode‑me Herming, acode‑me! ‑ pôde o imediato bradar.

‑ Acode, Penellan ‑ gritou por sua vez Luís Cornbutte.

Sentiram‑se passos na escada.

Penellan apareceu, engatilhou a pistola e desfechou‑a no ouvido do animal.

O urso soltou um rugido. A dor fê‑lo abrir por um instante as patas, e Luís Cornbutte, exausto, caiu sem movimento na tolda, mas o animal, fechando‑as com força numa suprema agonia, caiu, arrastando na queda o miserável André Vasling, cujo corpo ficou esmagado sob o peso do monstro.

Penellan precipitou‑se em socorro do capitão.

Nenhuma ferida grave lhe punha a vida em perigo; só por um instante lhe faltara o alento.

‑ Maria?... ‑ perguntou, abrindo os olhos.

‑ Está salva! ‑ respondeu Penellan. ‑ Herming jaz além, estendido com uma punhalada no ventre!

‑ E os ursos?

‑ Mortos também, Luís, mortos como os nossos inimigos! Pode‑se dizer que se não fossem estas feras estávamos perdidos. Na verdade, vieram em nosso socorro! Dêmos, pois, graças à Providência!

Luís Cornbutte e Penellan desceram ao alojamento e Maria precipitou‑se nos braços dos seus protectores.

 

CONCLUSÃO

 

HERMING, mortalmente ferido, foi transportado para um leito por Misonne e Turquiette, que tinham conseguido quebrar os laços que os amarravam.

O miserável agonizava já e os dois marinheiros ocuparam‑se de Pedro Nouquet, cuja ferida, felizmente, não oferecia gravidade.

Mas uma desgraça muito maior acabava de atingir Luís Cornbutte.

Seu pai já não dava sinais de vida.

Matara‑o a aflição de ver o filho entregue aos seus inimigos? Sucumbira em presença daquela terrível cena?

Não se sabe; o facto, o terrível facto é que o pobre e velho marinheiro cessara de viver.

Sob este inesperado golpe, Luís Cornbutte e Maria quedaram‑se num profundo desespero e, chorando, ajoelharam e rezaram por alma de João Cornbutte.

Penellan, Misonne e Turquiette deixaram‑nos sós e voltaram para cima. Arrastaram para a proa os cadáveres dos três ursos.

Penellan resolveu guardar as peles, que deviam ser de grande utilidade, mas nem por instantes se lembrou de lhes aproveitar a carne.

Demais, o número de homens a sustentar estava agora bem diminuído.

Os cadáveres de André Vasling, de Aupic e de Jocki foram enterrados numa cova que se abriu na costa.

Depressa lhes foi fazer companhia o de Herming.

O norueguês morrera naquela noite, sem remorsos nem arrependimento, espumando raivosamente pela boca.

Os três marinheiros repararam o toldo, que, esburacado em muitos lugares, deixava cair a neve na tolda.

Estava extremamente baixa a temperatura, e assim se conservou até ao regresso do Sol, que só reapareceu acima do horizonte no dia 8 de Fevereiro.

João Cornbutte foi enterrado naquela noite. Abandonara a pátria para ir procurar o filho, e fora morrer naquele horrível clima!

Abriram‑lhe a sepultura numa elevação, e os companheiros cravaram sobre ela uma simples cruz de madeira.

Daquele dia em diante Luís Cornbutte e os seus companheiros continuaram a passar por cruéis provações; mas os limões que tornaram a encontrar restituíram‑lhes a saúde.

Quinze dias depois daqueles terríveis acontecimentos, Gervique, Gradlin e Pedro Nouquet puderam levantar‑se e fazer algum exercício.

Dali a pouco a caça tornou‑se mais fácil e mais abundante. As aves aquáticas voltavam em grande número.

Caçaram algumas vezes uma espécie de patos bravos, que lhes proporcionaram uma alimentação excelente.

Os caçadores só tiveram de deplorar a falta de dois dos seus cães, que perderam numa exploração que intentaram, vinte e cinco milhas ao sul, com o fim de reconhecerem o estado da planície dos gelos.

Foi assinalado o mês de Fevereiro por fortes tempestades e neves abundantes.

A temperatura média continuou a ser de vinte e seis graus abaixo de zero, .mas, comparativamente, os invernadores não padeceram muito.

Depois, a presença do Sol, que se elevava cada vez mais no horizonte, alegrava‑os, anunciando‑lhes o fim dos seus tormentos.

É para crer que o céu também se apiedasse deles, porque o calor foi precoce naquele ano.

No mês de Março começaram a adejar em volta do navio alguns corvos.

Luís Cornbutte apanhou alguns growns que tinham levado até ali a sua peregrinação setentrional.

Para o sul avistaram‑se também alguns bandos de gansos bravos.

Este regresso dos pássaros indicava uma diminuição do frio.

Entretanto, não era bom fiarem‑se muito naqueles indícios, porque com uma mudança de vento, ou nas luas cheias ou luas novas, a temperatura costumava baixar subitamente, e os marinheiros eram obrigados a recorrer às maiores precauções para se defenderem dos seus rigores.

Era já tempo de acabar a invernada. Felizmente a média de Março não passou de dezasseis graus abaixo de zero.

Maria ocupou‑se em preparar novos fatos para este precoce estio.

Desde o equinócio conservara‑se o Sol acima do horizonte.

O dia de oito meses principiara.

Esta claridade contínua e este sol permanente, apesar de extremamente fracos, não tardaram a actuar sobre os gelos.

Era preciso tomar grandes cautelas para lançar a «Jovem Ousada» do alto leito de gelos em que se achava. Por isso o navio foi solidamente especado e pareceu conveniente esperar que os gelos se desfizessem pela acção do calor; mas os gelos inferiores, que flutuavam numa camada um pouco mais quente, foram‑se desfazendo pouco a pouco, e o brigue desceu insensivelmente.

Em fins de Março o barco readquiriu a sua posição primitiva.

Com o mês de Abril vieram as chuvas torrenciais que, espalhando‑se em ondas sobre a superfície dos gelos, apressaram a sua decomposição.

O termómetro subiu bastante.

Alguns homens despiram os seus fatos de pele de foca, e tornou‑se desnecessário conservar aceso noite e dia o fogão.

A provisão de álcool vínico, que não estava esgotada, começou a ser só empregada na cocção dos alimentos.

Não tardou que os gelos principiassem a despedaçar‑se, dando estalos abafados.

As fendas abriram‑se com grande rapidez, e tornava‑se imprudente andar pela planície sem levar um pau ferrado para a sondar, porque por toda a parte elas serpenteavam em grande quantidade.

Sucedeu até caírem alguns marinheiros à água, mas ficaram quites com um banho um pouco frio.

Voltaram nesta época as focas, às quais deram muitas vezes caça porque a gordura delas lhes era bastante necessária.

O estado sanitário era excelente.

Matava‑se o tempo com as caçadas e os preparativos da partida.

Luís Cornbutte foi muitas vezes estudar os canais da saída e, em vista da configuração da costa meridional, resolveu tentar a passagem mais pelo sul.

Já se dera em alguns sítios o degelo e muitos gelos flutuantes se encaminhavam para o mar alto.

A 25 de Abril prepararam‑se para levantar ferro. As velas, tiradas das suas capas, achavam‑se em perfeito estado de conservação, e foi uma verdadeira alegria para os marinheiros vê‑las ondear ao sopro do vento.

O navio estremeceu, porque volvera à sua linha de flutuação e, apesar de não poder ainda mover‑se, já estava no seu elemento natural.

No mês de Maio o degelo operou‑se rapidamente.

A neve que cobria a margem fundia‑se por todos os lados e formava um lodo espesso, que tornava a costa quase inacessível.

Humildes moitas, com flores rosadas e pálidas, apareceram timidamente através dos restos da neve e como que sorriam àquele fraco calor.

Afinal, o termómetro subiu de novo acima de zero.

A vinte milhas do navio, ao sul, os gelos, completamente desagregados, vogavam para o oceano Atlântico.

Apesar de o mar não estar ainda de todo livre em roda do navio, abriam‑se canais que Luís Cornbutte quis aproveitar.

Finalmente, depois de uma última visita à sepultura de seu pai, Luís Cornbutte abandonou a baía da invernada.

Naquele momento a alegria e a tristeza apossaram‑se ao mesmo tempo do coração daqueles bravos marinheiros, porque não se deixam sem pesar os lugares onde se viu morrer um amigo.

O vento soprava do norte e favorecia a partida do brigue.

Foram muitas vezes detidos pelos bancos de gelo, que tiveram de cortar à serra. Toparam também com grandes moles de gelo, que foram obrigados a fazer saltar por meio de minas.

Durante um mês a navegação ofereceu ainda muitos perigos, que puseram o navio a dois dedos da sua perda, mas a tripulação era atrevida e acostumada a estas perigosas manobras.

Penellan, Pedro Nouquet, Turquiette e Fidèle Misonne faziam, eles só, o trabalho de dez marinheiros, e Maria tinha sorrisos de reconhecimento e de gratidão para todos.

A «Jovem Ousada» viu‑se facilmente livre dos gelos na altura da ilha de João Mayen.

Cerca de meados de Julho, o brigue encontrou muitos navios, que se dirigiam para o norte, à pesca da baleia. Levara quase um mês para sair do mar dos pólos.

A 15 de Agosto, a «Jovem Ousada» achava‑se à vista de Dunquerque.

Foi avistada pela vigia, e toda a população do porto acudiu ao molhe.

Não tardou que os marinheiros do brigue caíssem nos braços dos amigos.

O velho cura estreitou Luís Cornbutte e Maria de encontro ao coração, e, das duas missas que rezou nos dois dias seguintes, a primeira foi pelo descanso da alma de João Cornbutte e a segunda para abençoar os dois noivos, que a desventura unira havia já tanto tempo.

 

QUADRAGÉSIMA ASCENSÃO

FRANCESA AO MONTE BRANCO

 

A 18 de Agosto de 1871, chegava eu a Chamonix na firme intenção de efectuar, custasse o que custasse, a ascensão do Monte Branco.

A minha primeira tentativa, em Agosto de 1869, não fora coroada de êxito. Em consequência do mau tempo só pudera chegar aos Grands‑Mulets.

Desta vez também as circunstâncias não me pareciam muito favoráveis, porque o tempo, que parecia ter‑se posto bom na manhã de 18, mudou repentinamente por volta do meio‑dia.

Segundo o modo de dizer da terra, o Monte Branco «pôs o boné e começou a fumar no cachimbo», o que, em termos menos figurados, significa que se cobriu de nuvens, e que a neve, soprada por um vento do sudoeste, formava no seu cume um comprido penacho na direcção dos insondáveis precipícios da geleira de Brenva.

O penacho indicava aos turistas imprudentes o caminho que tomariam, bem contra sua vontade, se ousassem arrostar os perigos da montanha.

Esteve detestável a noite seguinte. Vento e chuva competiram em violência, e o barómetro, abaixo de variável, conservou‑se em desesperadora imobilidade.

Contudo, ao romper do dia, alguns trovões anunciaram uma modificação do estado atmosférico.

O céu limpou. A cordilheira dos Brevent e das Aiguilles‑Rouges descobriu‑se.

Rodando para o noroeste, o vento fez aparecer por cima da garganta de Balme, que fecha o vale de Chamonix ao norte, algumas ligeiras nuvens isoladas e em farrapos, que eu saudei como mensageiras do bom tempo.

Apesar destes felizes presságios e de o barómetro ter subido um pouco, Balmat, guia em chefe de Chamonix, declarou‑me que não se devia ainda pensar na ascensão.

‑ Se o barómetro continuar a subir ‑ acrescentou ‑ e se o tempo se conservar bom, prometo‑lhe os guias para depois de amanhã, e talvez até lhos dê amanhã. No entanto, para entreter a paciência e para desembaraçar as pernas, aconselho‑lhe a fazer a ascensão do Brevent. As nuvens vão dissipar‑se, e poderá perfeitamente avaliar o caminho que terá de percorrer para chegar ao cume do Monte Branco. Se, apesar de tudo, não lhe faltar o ânimo, tente sempre a empresa.

Este arrazoado, proferido em certo tom, não era muito tranquilizador e fazia reflectir. Não obstante, aceitei a proposta, e designou para meu guia Ravanel (Eduardo), moço muito calmo e dedicado, que sabia muito bem do seu ofício.

Tinha por companheiro de viagem o meu compatriota e amigo Donatien Levesque, turista entusiasta e caminheiro intrépido, que efectuara no ano antecedente uma viagem instrutiva, e muitas vezes árdua, na América do Norte.

Tinha já visitado a maior parte deste continente e dispunha‑se a descer a Nova Orleães pelo Mississipi, quando a guerra lhe veio transtornar os projectos chamando‑o a França.

Havíamo‑nos encontrado em Aix‑l'es‑Bains e resolvido que, depois de concluirmos o nosso tratamento, faríamos juntos uma excursão à Sabóia e à Suíça.

Donatien Levesque estava ao facto das minhas intenções, e como a sua saúde não lhe permitia, imaginava ele, o empreendimento de uma tão importante viagem pelas geleiras, combinámos que esperaria em Chamonix o meu regresso do Monte Branco, fazendo durante a minha ausência a visita tradicional do mar de gelo pelo Montanvers.

Sabendo que eu ia a Brevent, o meu amigo não hesitou em me acompanhar.

Demais, a ascensão do Brevent é uma das digressões mais interessantes que se podem fazer em Chamonix.

Esta montanha, da altura de 2525 metros, é apenas um prolongamento da cordilheira das Aiguilles‑Rouges que corre do sudoeste para o nordeste, em sentido paralelo relativamente ao Monte Branco, formando com este o vale bastante estreito de Chamonix.

O Brevent, pela sua posição central exactamente em face da geleira dos Bossons, permite seguir durante quase todo o seu trajecto as caravanas que empreendem a ascensão do gigante dos Alpes. Por isso é muito frequentado.

Pusemo‑nos a caminho por volta das sete horas da manhã. Durante o trajecto fui pensando nas palavras ambíguas do chefe dos guias.

Davam‑me que cismar. Por isso perguntei a Ravanel:

‑ Já fez a ascensão do Monte Branco?

‑ Sim, senhor ‑ respondeu‑me ele ‑, uma vez só, e é já bastante. Não tenho desejos de repetir.

‑ Ó demónio! E eu que tenciono tentar a sua ascensão!

‑ O senhor pode fazer o que quiser, mas eu é que não o acompanho. Este ano a montanha não está boa. Têm‑se já feito umas poucas de tentativas. Só duas deram bom resultado. A segunda teve de se repetir duas vezes. Demais, o acidente do ano passado esfriou um pouco os amadores.

‑ Um acidente! Então que foi?

‑ Ah!, o senhor não sabe! Eis o caso. Uma caravana, composta de dez guias e condutores e de dois ingleses, partiu em meados de Setembro para o Monte Branco. Viram‑na chegar ao cume do monte, depois, passados alguns minutos, desaparecer no meio de uma nuvem. Desfeita a nuvem, não se viu mais ninguém. Nove pessoas haviam sido arrebatadas pelo vento e precipitadas para os lados de Cormayeur, decerto na geleira da Brenva. Apesar das mais activas pesquisas, não foi ainda possível encontrarem‑se os corpos. Os três indivíduos restantes descobriram‑se a 150 metros abaixo do cume, na direcção dos Petits‑Mulets. Estavam transformados em vultos de gelo.

‑ Mas esses viajantes cometeram por certo alguma imprudência?

‑ perguntei a Ravanel. ‑ Que loucura partir tão tarde para semelhante expedição! Era no mês de Agosto que a deviam ter empreendido!

Debalde lutava comigo mesmo; aquela lúgubre história trabalhava‑me na cabeça.

Felizmente o tempo limpou dali a pouco, e os raios de um belo sol vieram dissipar as nuvens que velavam o Monte Branco e ao mesmo tempo as que me escureciam o espírito.

A nossa ascensão realizou‑se como era de desejar.

Depois de se deixarem os chalés de Planpraz, situados a 2062 metros, sobe‑se por algumas pedras desmoronadas e por vastos lençóis de neve até à base de um rochedo chamado a Cheminée, cuja escalada se faz com o auxílio de pés e de mãos.

Vinte minutos depois está‑se no cume de Brevent, cuja vista é admirável.

A cordilheira do Monte Branco aparece em toda a sua majestade.

O monte gigantesco, solidamente assente nos seus formidáveis alicerces, parece desafiar as tempestades, as quais resvalam sobre a sua armadura de gelo sem nunca a ameigarem, enquanto que aquele sem‑número de agulhas, de montanhas, de picos, que lhe fazem cortejo e se erguem, qual mais alto, em volta dele, sem nunca o poderem igualar, apresentam vestígios de lenta decomposição.

Do miradouro admirável que ocupávamos, já se começam a avaliar, bem que imperfeitamente, as distâncias que há a percorrer para chegar ao cume. Este, que visto de Chamonix parece tão próximo do domo do Goúter, retoma o seu verdadeiro lugar.

As diversas lombas ou planuras, que formam outros tantos patamares, que é preciso subir e que se avistam da parte inferior, fazem parecer ainda mais distante aquele tão desejado cume.

A geleira dos Bossons, em todo o seu esplendor, eriça‑se de agulhas de gelo e de seroes (morros de gelo tendo às vezes dez metros de altura). Agulhas e séracs parecem fustigar, como as ondas de um mar irritado, as paredes dos Grands‑Mulets, cuja base desaparece em meio deles.

Este espectáculo maravilhoso não era de natureza que me esfriasse o ardor, e, pelo contrário, ainda mais me arreigou a ideia de explorar aquele mundo para mim completamente desconhecido.

O meu companheiro de viagem deixava‑se igualmente invadir de entusiasmo, e a partir daquele momento principiei a crer que não iria só ao Monte Branco.

Tornámos a descer a Chamonix; o tempo ia melhorando cada vez mais; o barómetro continuava lentamente o seu movimento ascensional; tudo continuava de melhor a melhor.

No dia seguinte, logo ao romper da aurora, corri a casa do guia em chefe.

O céu estava limpo de nuvens; o vento, quase imperceptível, fixara‑se no nordeste.

A cordilheira do Monte Branco, cujos principais cumes se douravam aos raios do Sol nascente, parecia convidar os numerosos turistas a fazerem‑lhe visita.

Não se podia, sem grosseria, deixar de aceitar tão amável convite. M. Balmat, depois de consultar o seu barómetro, declarou realizável a ascensão, e prometeu‑me os dois guias e o condutor permitidos pelo regulamento. Deixei‑lhe a escolha da gente. Mas um incidente, que eu não esperava, veio transtornar um pouco os preparativos da partida.

Saindo do escritório do chefe dos guias, encontrei Eduardo Ravanel, meu guia da véspera.

‑ Sempre vai ao Monte Branco? ‑ perguntou‑me.

‑ Por certo ‑ respondi. ‑ Não acha propícia a ocasião?

Reflectiu por alguns momentos, e depois respondeu com um ar um tanto constrangido:

‑ O senhor é meu viajante; acompanhei‑o ontem ao Brevent; não posso pois abandoná-lo, e, visto que vai ao cume do monte, irei consigo, se se dignar aceitar os meus serviços. Está no seu direito, porque em todas as expedições perigosas o viajante pode escolher os seus guias. Apenas lhe peço, se aceitar o meu oferecimento, que deixe irem comigo meu irmão Ambrósio Ravanel e meu primo Gaspar Simão. São dois rapazes novos e vigorosos, têm por uma tal expedição tanto gosto como eu, mas não se mostrarão tíbios, e respondo‑lhes por eles como por mim mesmo.

Inspirava‑me toda a confiança este moço.

Aceitei, e fui sem perda de tempo prevenir o chefe dos guias da escolha que fizera.

Durante estes preliminares, M. Balmat começara em ajustes com os guias, consultando‑os pela sua ordem. Só um aceitara, Eduardo Simão.

Esperava‑se pela resposta de outro, chamado João Carrier.

Não era duvidosa a resposta, porque este homem fizera vinte e nove vezes a ascensão do Monte Branco.

Achei‑me em grande embaraço.

Os guias que escolhi eram todos de Argentière, comuna situada a seis quilómetros de Chamonix.

Em consequência disto os de Chamonix acusavam Ravanel de ter influído em mim a favor da sua família, o que era contrário ao regulamento.

Para pôr termo a qualquer discussão, tomei por terceiro guia Eduardo Simão, que já tinha feito os seus preparativos.

Não me servia de nada se eu subisse só, mas tornava‑se indispensável se o meu amigo me acompanhasse.

Reguladas todas as coisas necessárias, fui avisar Donatien Levesque.

Encontrei‑o dormindo o sono do justo que na véspera percorrera quinze quilómetros de montanha.

Houve alguma dificuldade para o acordar; mas tirando‑lhe a princípio os lençóis, depois o travesseiro e afinal o colchão, obtive algum resultado, e consegui fazer‑lhe compreender que me preparava para a grande viagem.

‑ Pois bem! ‑ disse‑me ele, bocejando ‑ acompanhá‑lo‑ei até aos Grands‑Mulets, e esperá‑lo‑ei ali.

‑ Muito bem! ‑ respondi‑lhe ‑, tenho exactamente um guia de mais, e agregá‑lo‑ei à sua pessoa.

Comprámos os objectos indispensáveis às excursões pelas geleiras. Paus ferrados, polainas de pano grosso, óculos verdes hermeticamente aplicados aos olhos, luvas forradas, véus verdes e passa‑montanhas, nada esquecemos.

Tínhamos todos excelentes sapatos de três solas, aos quais os guias fizeram aplicar as ferraduras próprias dos gelos.

Esta última particularidade é de importância considerável, porque há momentos numa expedição em que se tornaria mortal qualquer escorregadela, não somente para a pessoa que escorrega, mas para toda a caravana.

Os nossos preparativos e os dos nossos guias levaram quase duas horas.

Por volta das oito horas chegaram os machos e partimos afinal para o chalé da Pierre Pointue, situado a 2000 metros de altura, ou, por outra, a 1000 metros acima do vale de Chamonix e a 2800 metros abaixo do cume do Monte Branco.

Ao chegarmos à Pierre Pointure, por volta das dez horas, achámos ali um viajante espanhol, M. N., acompanhado de dois guias e de um condutor.

O seu guia principal, chamado Paccard, parente do Doutor Paccard, que foi quem fez com Jacques Balmat a primeira ascensão do Monte Branco, já tinha subido dezoito vezes ao famoso cume.

  1. N. também se dispunha a realizar a ascensão.

Havia viajado muito na América e atravessado as cordilheiras dos Andes ao lado de Quito, efectuando esta passagem em meio das neves e pelas gargantas mais elevadas.

Em vista disto esperava realizar a sua empresa sem grandes dificuldades. Enganava‑se porém.

Não contara com a disposição vertical dos declives e com a rarefacção do ar.

Para honra sua, apresso‑me a acrescentar que, se conseguiu alcançar o cimo do Monte Branco, foi graças a uma energia moral bem rara, porque as forças físicas tinham‑no abandonado havia muito tempo.

Almoçámos na Pierre Pointue o mais copiosamente que nos foi possível.

É uma medida que a prudência aconselha, porque em geral o apetite desaparece assim que se entra nas regiões do gelo.

Pelas onze horas M. N. partiu com os seus guias para os Grands‑Mulets.

Nós só ao meio‑dia é que nos pusemos a caminho.

Na Pierre Pointue cessa o caminho das cavalgaduras.

É preciso então subir em ziguezague um atalho muito íngreme, que segue pela borda da geleira dos Bossons e costeia a base do pico do Midi.

No fim de uma hora de bastante fadiga, em meio de calor intenso, chegámos a um ponto chamado a Pierre‑à‑l'Echelle, situado a 2700 metros.

Ali guias e viajantes amarram‑se uns aos outros por meio de uma corda muito sólida, deixando de intervalo entre si um espaço de três a quatro metros.

Trata‑se com efeito de entrar na geleira dos Bossons.

Esta geleira, de acesso difícil, apresenta por todos os lados fendas cujo fundo não é fácil de calcular.

As paredes verticais destas fendas têm uma cor glauca e indecisa, muito agradável à vista. Quando a gente se aproxima cautelosamente destas fendas, e consegue devassar‑lhe as misteriosas profundezas, sente‑se atraído violentamente, e nada parece mais natural do que ir percorrê‑las.

Avança‑se lentamente, ora contornando as fendas, ora atravessando‑as com uma escada, ou então sobre pontes de neve de problemática solidez.

É então que a corda desempenha o seu papel. Nas passagens perigosas estende‑se a corda; se a ponte de neve vem a faltar debaixo dos pés, guia ou viajante fica suspenso sobre o abismo.

Puxam por ele e sai salvo a troco de algumas contusões.

Quando sucede ser a fenda muito larga, mas pouco profunda, desce‑se ao fundo para se passar para o outro lado.

Neste caso é preciso o corte dos degraus, e os dois guias da frente, munidos de um piolet, espécie de machado, ou, melhor dizendo, de machadinha, entregam‑se a este trabalho difícil e perigoso.

Uma circunstância particular torna perigosa a entrada dos Bossons.

Põe‑se pé na galeria junto do pico do Midi e em frente de um corredor onde caem muitas vezes avalanchas de pedras.

Este corredor tem quase 200 metros de largura.

É preciso atravessá‑lo rapidamente, e durante o trajecto um dos guias faz sentinela para avisar os mais de qualquer perigo.

Em 1869, um guia foi morto naquele lugar, e o seu corpo, arremessado ao espaço pela queda de uma pedra, foi despedaçar‑se nos rochedos 309 metros mais abaixo.

Estávamos prevenidos; por isso apressámos o passo tanto quanto no‑lo permitia a nossa inexperiência.

Porém, ao sair desta zona, outra nos espera que não é menos perigosa. Falamos da região dos séracs, imensas moles de gelo, cuja formação não está bem explicada. Estão geralmente expostas à borda de uma planura e ameaçam todo o vale que se acha por baixo.

Um simples movimento da geleira, ou até uma ligeira vibração da atmosfera, pode determinar a sua queda e ocasionar os mais graves acidentes.

‑ Senhores, aqui, silêncio e passemos depressa.

Estas palavras, proferidas em tom brutal por um dos guias, fizeram cessar a nossa conversa.

Passámos depressa e calados.

Finalmente, de comoção em comoção, chegámos ao que se chama «Jonetion» (junção), e que melhor se poderia chamar separação violenta. O caminho que seguimos foi pela montanha da Cote, geleiras dos Bossons e de Tacounay.

Neste ponto a paisagem toma um aspecto indescritível: fendas revestidas de brilhantes cores, agulhas de gelo de formas elegantes, séracs suspensos e arrendados, lagozinhos de um verde glauco, formam um caos que excede tudo o que se pode imaginar.

Juntai a isso o ribombar das torrentes no fundo da geleira, os estalidos sinistros e repetidos dos gelos que se desprendem e se precipitam em avalancha ao fundo das grandes fendas, os estremecimentos do solo gretando‑se debaixo dos pés, e tereis uma ideia daquelas regiões tristes e desoladas, cuja vida só se revela pela ruína e pela destruição.

Depois de passar a Jonetion, segue‑se por algum tempo a geleira de Tacounay, e alcança‑se a encosta que vai ter aos Grands‑Mulets.

Esta encosta, muito íngreme, sobe‑se em torcicolos; o guia da frente tem o cuidado de os traçar com ângulos de trinta graus quando a neve está fresca, para se evitarem as avalanchas.

Finalmente, depois de três horas de trajecto sobre o gelo e a neve, chegámos aos Grands‑Mulets, rochedos da altura de 200 metros, que de um lado dominam a geleira dos Bossons, e do outro as planícies inclinadas que se estendem até ao domo do Goúter.

Uma pequena cabana construída pelos guias próximo do cume do primeiro rochedo, e situada a 300 metros de altura, dá asilo aos viajantes e permite‑lhes esperarem abrigados a hora da partida para o cume do Monte Branco.

Janta‑se ali como se pode, e do mesmo modo se dorme. Mas o provérbio: «o sono serve de jantar» não tem cabimento naquela altura, porque nem uma nem outra coisa ali se pode fazer capazmente.

‑ Então ‑ perguntei a Levesque, depois do meu simulacro de refeição ‑, exagerei‑lhe o esplendor da paisagem, e está arrependido de ter vindo até aqui?

‑ Estou tão pouco arrependido que me sinto resolvido a ir até ao cume. Pode contar comigo.

‑ Muito bem, mas bem sabe que o mais árduo é o que está por fazer.

‑ Não diga mais nada! ‑ exclamou Levesque. ‑ Havemos de realizar o nosso intento. Entretanto, vamos sempre ver o pôr do Sol, que deve ser magnífico.

Efectivamente o céu conservava‑se de uma pureza notável.

A nossos pés estendia‑se a cordilheira de Brevent e das Aiguilles‑Rouges. Além, os rochedos dos Fiz e o pico de Varan elevam‑se acima do vale de Sallanche e erguem ao terceiro plano toda a cordilheira dos montes Fleury e do Repoussoir. Mais à direita, o Buet, com o seu nevado cume, mais longe o dente do Midi, dominando com as suas cinco pontas o vale do Ródano. Para trás de nós as neves eternas, o domo do Goúter, os montes Malditos e finalmente o Monte Branco.

Pouco a pouco a sombra invade o vale de Chamonix e vai em seguida invadindo cada um dos cumes que o dominam a oeste.

Só a cordilheira do Monte Branco se conserva luminosa, e parece rodeada de um nimbo de ouro.

Não tardou que a sombra envolvesse o domo do Goúter e os montes Malditos.

Respeita porém ainda o gigante dos Alpes.

Seguimos com admiração esta desaparição lenta e progressiva da luz.

Por algum tempo se conserva sobre o último cume, dando‑nos a esperança insensata de que não o deixará.

Mas passados alguns minutos tudo escurece, e a estas cores tão vivas sucedem as cores lívidas e cadavéricas da morte.

Não exagero; quem ama as montanhas há‑de compreender‑me.

Depois de assistirmos a esta grandiosa cena, só tínhamos de aguardar a hora da partida.

Devíamos pôr‑nos a caminho às duas horas da manhã. Estenderam‑se todos no seu colchão.

Dormir, nem pensar nisso; conversar, menos.

Está‑se absorto em ideias riais ou menos sombrias; é a noite que antecede a batalha, com a circunstância especial de nada nos obrigar a travar o combate.

Duas correntes de ideias disputavam a posse do nosso espírito.

É o fluxo e refluxo do mar; vence ora uma, ora outra.

Não faltam objecções a uma tal empresa.

De que serve correr tal aventura? Se vos sairdes bem, qual a vantagem? Se, pelo contrário, sucede algum desastre, que de pesares!

Começa então a imaginação a trabalhar; lembram todas as catástrofes da montanha. Faltam debaixo dos pés as pontes de neve; somos precipitados em escancarados abismos, soam nos ares os terríveis estalidos da avalancha que se desprende e ides ser sepultados, desaparecereis, o frio da morte invade‑vos, e debatei‑vos num supremo esforço!...

Um estridente ruído, alguma coisa horrível se passa naquele momento.

‑ A avalancha! A avalancha! ‑ gritais.

‑ Que tem? Que faz? ‑ exclamou Levesque, acordando sobressaltado.

‑ Ah! É um móvel que, num supremo esforço do pesadelo, acabo de deitar por terra com estrondo.

Esta prosaica avalancha lembra‑me a realidade.

Rio‑me dos meus terrores, a corrente contrária leva desta vez a melhor, e com a vitória sobrevêm‑me as ideias ambiciosas.

Está na minha mão, empregando um pequeno esforço, pisar aquele cume tão raras vezes alcançado! É uma vitória como qualquer outra.

São raros os acidentes, muito raros!

E mesmo ter‑se‑ão dado?

Do cume o espectáculo deve ser tão maravilhoso!

E, depois, que satisfação ter realizado o que tantos outros não têm ousado empreender!

A estes pensamentos, a minha alma readquire ânimo, e é com tranquilidade que espero o momento da partida.

Pela uma hora, os passos dos guias, as suas conversas, o ruído das portas que se abrem, indicam‑nos que se aproxima o momento.

Dali a nada Ravanel entra no nosso quarto e diz‑nos:

‑ Vamos, senhores, a pé, o tempo está magnífico. Às dez horas estaremos no cume.

A estas palavras, saltamos da cama e vestimo‑nos rapidamente.

Dois dos guias, Ambrósio Ravanel e seu primo Simão, partem adiante para explorar o caminho.

Vão munidos de uma lanterna que nos deve indicar a direcção a seguir, e armados do seu piolet para abrir caminho nos lugares muito difíceis.

Às duas horas amarramo‑nos uns aos outros.

Eis a ordem de marcha: à frente de todos e diante de mim, Eduardo Ravanel; atrás de mim, Eduardo Simão e depois Donatien Levesque, e após este os nossos dois condutores, porque tínhamos tomado para segundo condutor o criado da cabana dos Grands‑Mulets, e afinal toda a caravana de M. N.

Depois de os guias e condutores dividirem entre si as provisões, deu‑se o sinal da partida, e pusemo‑nos a caminho em meio de trevas profundas, guiando‑nos por meio da lanterna que os nossos guias mais dianteiros levavam.

Este momento da partida tem o que quer que seja de solene.

Fala‑se pouco, o vago do incógnito preocupa‑nos, mas esta situação nova e violenta exalta e torna o indivíduo insensível aos perigos da situação.

É'fantástica a paisagem que nos rodeia.

Não se lhe distinguem bem os contornos.

Grandes massas esbranquiçadas e indecisas, com manchas negras um pouco mais acusadas, fecham o horizonte.

A abóbada celeste tem um brilho particular.

Avista‑se a uma distância que não se pode calcular a lanterna vacilante dos guias que dirigem o caminho, e o silêncio lúgubre da noite só é perturbado pelo ruído seco e distante do machado abrindo pegadas no gelo.

Trepa‑se lenta e cautelosamente a primeira rampa tomando a direcção da base do domo do Goúter.

Ao fim de duas horas de uma ascensão trabalhosa, chega‑se à primeira planura, chamada Petit Plateau, situada junto do domo do Goúter, a uma altura de 3650 metros.

Depois de alguns minutos de repouso, tornam‑se os viajantes a pôr a caminho, obliquando à esquerda e tomando a direcção da encosta que conduz ao Grand Plateau.

A este tempo já a caravana não é tão numerosa.

  1. N., com os seus guias, separou‑se; a fadiga que sente obriga‑o a tomar algum descanso.

Perto das quatro horas e meia, a alvorada começa a branquear o horizonte.

Neste momento transpomos a rampa que conduz ao Grand Plateau, onde chegámos sem dificuldade. Estávamos a 3900 metros.

Tínhamos ganho bem o nosso almoço.

Contra o costume, eu e Levesque estávamos com bastante apetite.

Era bom sinal.

Instalámo‑nos sobre a neve e tomámos uma refeição apropriada às circunstâncias.

Os nossos guias, alegres, consideravam seguro o êxito.

Eu, por mim, entendia que avançavam muito.

Instantes depois, M. N. reunia‑se‑nos.

Insistimos bastante com ele que tomasse algum alimento. Recusou obstinadamente.

Experimentava a contracção do estômago tão vulgar naquelas paragens, e estava muito abatido.

O Grand Plateau merece descrição especial.

À direita eleva‑se o domo do Goúter. Em frente ergue‑se o Monte Branco, que ainda o domina da altura de uns 900 metros. À esquerda estão os rochedos Vermelhos e os montes Malditos.

Todo este imenso círculo é de uma alvura deslumbrante. Apresenta por todos os lados fendas enormes.

Foi numa destas que desapareceram em 1820 três dos guias que acompanhavam o Dr. Hamel e o coronel Anderson.

Depois desta época, em 1864, outro guia, Ambrósio Gouttet, ali encontrou a morte.

É preciso atravessar esta planura com muitas precauções, porque se encontram muitas fendas ocultas pela neve. Além disto, é frequentemente varrida pelas avalanchas.

Em 13 de Outubro de 1866, um viajante inglês e três guias ficaram debaixo de uma montanha de gelo que rolou do Monte Branco.

Depois de um trabalho dos mais perigosos, conseguiu‑se encontrar os corpos dos três guias.

Esperava‑se a cada momento descobrir o corpo do viajante, quando uma nova avalancha desabou sobre a primeira e obrigou os trabalhadores a desistir das suas pesquisas.

Três caminhos se nos ofereciam.

O caminho ordinário, o que consiste em tomar decididamente à esquerda pela base dos montes Malditos e é uma espécie de vale, chamado Pórtico ou Corredor, conduz por suaves declives ao alto da primeira escarpa dos rochedos Vermelhos.

O segundo caminho, menos frequentado, toma à direita pelo domo do Goúter e conduz ao cume do Monte Branco pela aresta que liga estas duas montanhas. Durante três horas é preciso seguir um caminho vertiginoso e escalar uma muralha de gelo assaz difícil, chamada a Bossa do Dromedário.

O terceiro consiste em subir directamente ao alto do Corredor, escalando um muro de gelo da altura de 250 metros, que costeia a primeira escarpa dos rochedos Vermelhos.

Como os guias declarassem intransitável o primeiro caminho, em razão das fendas recentes que o interceptavam completamente, restava‑nos escolher entre os dois restantes.

Pela minha parte optei pelo da Bossa do Dromedário; foi porém considerado muito perigoso e decidiu‑se que assaltaríamos o muro de gelo que leva ao cume do Corredor.

Quando se toma uma resolução, o melhor é executá‑la sem demora.

Atravessámos pois o Grand Plateau e chegámos ao pé daquele obstáculo verdadeiramente assustador.

Quanto mais se avança, mais parece a sua inclinação aproximar‑se da vertical.

Além disto, muitas fendas que nós não tínhamos avistado se abrem aos nossos pés.

Não obstante, demos princípio a esta difícil ascensão.

O primeiro guia da frente esboça os degraus, o segundo acaba‑os.

Damos dois passos por minuto.

Quanto mais subimos, mais a inclinação aumenta.

Os próprios guias consultam‑se a respeito do caminho que se deve seguir. Falam em algaravia e nem sempre se mostram de acordo, o que não é bom sinal.

Finalmente, torna‑se tal a inclinação que a aba dos nossos chapéus toca nas barrigas das pernas do guia que nos precede.

Um chuveiro de pedaços de gelo produzido pelo corte dos degraus cega‑nos e torna a nossa posição ainda mais difícil.

Então, dirigindo‑me aos guias da frente, bradei‑lhes:

‑ Olá! Acho muito bem entendido subir por aí! Não é muito bom o caminho, mas ainda é praticável. Mas por onde é que nos fará descer?

‑ Oh! senhor ‑ respondeu Ambrósio Ravanel ‑, à volta tomaremos outro caminho.

Finalmente, depois de duas horas de violentos esforços, e de havermos cortado quatrocentos degraus nesta terrível subida, chegámos sem forças ao alto do Corredor.

Atravessámos então uma planura de neve ligeiramente inclinada, e costeámos uma imensa fenda que nos corta o caminho.

Apenas nos achámos do outro lado, soltámos um grito de admiração.

À direita, estão a nossos pés o Piemonte e as planícies da Lombardia. À esquerda, erguem os seus cumes incomparáveis os Alpes Peninos e o Oberland.

Só o monte Rosa e o Cervin ainda nos dominam, mas não tarda que nós os dominemos também.

Esta reflexão faz‑nos lembrar qual o fim da nossa expedição.

Voltámos os olhares para o Monte Branco e ficámos estupefactos.

‑ Oh! meu Deus!... ‑ exclamou Levesque ‑, como fica longe!...

‑ Longe e alto! ‑ acrescentei. Era efectivamente para desesperar.

A famosa muralha da encosta, que ainda nos era absolutamente preciso atravessar, estava em frente, com a sua inclinação de cinquenta graus.

Mas já não assustava quem tinha escalado a muralha do Corredor.

Fizemos meia hora de descanso, depois continuámos o nosso caminho.

Mas bem depressa conhecemos que as condições atmosféricas já não eram as mesmas.

O Sol feria‑nos com os seus raios ardentes, e a reflexão sobre a neve duplicava o nosso suplício.

Começava a fazer‑se cruelmente sentir a rarefacção do ar.

Avançando lentamente, parando frequentes vezes, acabámos por alcançar a planura que domina a segunda escarpa dos rochedos Vermelhos.

Estávamos ao pé do Monte Branco.

Elevava‑se só e majestoso a uma altura de duzentos metros acima de nós.

O próprio monte Rosa lhe havia arriado bandeira!

Estávamos absolutamente exaustos eu e Levesque.

Quanto a M. N., que se nos reunira no cimo do Corredor, pode dizer‑se que era insensível à rarefacção do ar, porque já não respirava, por assim dizer.

Afinal, principiámos a escalar o último degrau.

A cada dez passos que dávamos, tínhamos de parar, na impossibilidade absoluta de ir mais longe.

Uma contracção dolorosa da garganta tornava ainda mais difícil a respiração.

As pernas recusavam‑se a andar, e compreendi então a expressão pitoresca de Jacques Baímac, quando, ao contar a sua primeira ascensão, diz que «as pernas pareciam que já não se lhe seguravam senão com o auxílio das calças!».

Mas um sentimento mais forte dominava a matéria, e, se o corpo pedia misericórdia, o coração, respondendo: «Excelsior! Excelsior!», abafava estas queixas desesperadas, e impelia para a frente e a pesar seu a nossa pobre máquina desarranjada.

Passámos os Petits‑Mulets, rochedos situados a 4666 metros de altura, e, depois de duas horas de esforços sobre‑humanos, .dominámos finalmente toda a cordilheira.

O Monte Branco está a nossos pés!

Era meio‑dia e quinze minutos.

O orgulho do êxito restaurou‑nos prontamente as forças quase exaustas.

Tínhamos finalmente conquistado aquele cume temível.

Dominávamos todos os outros cumes, e este pensamento, que só o Monte Branco pode despertar, causava‑nos profunda comoção.

Era a ambição satisfeita e, para mim sobretudo, um sonho que se tornara realidade!

O Monte Branco é a montanha mais alta que existe na Europa.

Na Ásia e na América há um certo número de montanhas mais elevadas, mas de que serve arrostá‑las se, em razão da impossibilidade absoluta de se lhes chegar ao cume, se deve afinal ficar dominado por elas?

Outras, tais como o Cervin, por exemplo, são de acesso ainda mais difícil, mas o seu cume avistamo‑lo quatrocentos metros abaixo de nós!

E, depois, que espectáculo para nos recompensar das nossas fadigas!

O céu, sempre puro, tomara uma cor de um azul muito carregado.

O Sol, despojado de uma parte dos seus raios, perdera o brilho, como num eclipse parcial.

Este efeito, devido à rarefacção da atmosfera, era tanto mais sensível quanto as montanhas e as planícies circunjacentes estavam inundadas de luz.

Deste modo, nenhum acidente da paisagem nos escapava.

A sueste fechavam o nosso horizonte as montanhas do Piemonte e mais além as planícies da Lombardia. Para oeste as montanhas da Sabóia e as do Delfinado! Além o vale do Ródano. Ao noroeste, o lago de Genebra e o Jura; depois, descendo para o sul, um caos de montanhas e de galerias, o que quer que fosse de indescritível, dominado pela mole do monte Rosa, os Mischabelhoerner, o Cervin, o Weishorn, o mais belo dos cumes, como lhe chama o célebre ascensionista Tyndall, e mais longe, pela Yungfrau, o Monch, o Eiger e o Finsterara-horn.

Não se pode calcular em menos de sessenta léguas a extensão do nosso raio visual.

Descobrimos portanto cento e vinte léguas de país pelo menos.

Veio ainda aumentar a beleza do espectáculo uma circunstância particular.

Formaram‑se nuvens do lado de Itália e invadiram os vales dos Alpes Peninos, mas sem lhes velar os cumes. Tivemos pois sob os olhos um segundo céu, um céu inferior, ou mar de nuvens, donde emergia um arquipélago de picos e de montanhas cobertas de neve.

Era como que uma coisa mágica que o maior dos poetas imperfeitamente descreveria.

O cume do Monte Branco forma uma aresta, dirigida de sudoeste para o nordeste, do comprimento de duzentos pés e da largura de um metro no ponto culminante.

Dir‑se‑ia o casco de um navio, de quilha para o ar.

Coisa muito rara: a temperatura estava então muito elevada ‑ era de dez graus acima de zero.

O ar estava quase sereno.

Por vezes fazia‑se sentir ligeira brisa de leste.

O primeiro cuidado do nosso guia fora colocar‑nos todos em linha sobre a crista, com a frente para Chamonix, para que debaixo nos pudessem facilmente contar e certificarem‑se de que não faltava ninguém.

Bastantes turistas se haviam dirigido ao Brevent e ao Jardim para seguirem a nossa ascensão.

Puderam verificar‑lhe o êxito.

Mas não era tanto o subir; era preciso cuidar em descer.

Faltava fazer, se não o mais difícil, pelo menos o mais fatigante.

E depois deixa‑se com pena uma altura conquistada à custa de tantas fadigas.

O estímulo que vos impelia à subida, o desejo de dominar, tão natural e tão imperioso, já deixou de existir.

Caminhais agora sem ardor e olhando repetidas vezes para trás!

Não tivemos remédio senão decidirmo‑nos.

Após uma derradeira libação do champanhe tradicional, pusemo‑nos a caminho.

Tínhamos estado uma hora no cume.

A ordem da marcha alterara‑se. A caravana de M. N. tomara a dianteira, e, a pedido do guia Paccard, amarrá‑mo‑nos uns aos outros.

O estado de fadiga em que se encontrava M. N., a quem faltavam as forças, embora não faltasse a vontade, faziam recear alguma queda, que talvez os nossos esforços reunidos conseguissem evitar.

Os factos justificaram as nossas apreensões. Ao descer a muralha da encosta, M. N. escorregou muitas vezes.

Os seus guias, muito vigorosos e muito hábeis, puderam felizmente sustê‑lo.

Os nossos guias, temendo, com razão, que toda a caravana fosse arrastada, quiseram separar‑se.

Eu e Levesque opusemo‑nos a isso, e, tomando as maiores precauções, chegámos sem novidade à parte inferior da encosta vertiginosa que é forçoso descer.

Não há ilusão possível: o abismo, a voragem sem fundo abre‑se a nossos pés, e os pedaços de gelo que se despegam e passam ressaltando junto de nós, com a rapidez de uma flecha, mostram perfeitamente o caminho que tomaria a caravana se déssemos um passo em falso.

Vencida esta dificuldade, comecei a respirar.

Descíamos os declives pouco inclinados que conduzem do cume do Corredor.

A neve, amolecida pelo calor, cedia debaixo dos nossos passos.

Enterrávamo‑nos nela até aos joelhos, o que tornava a nossa marcha fatigante.

Continuávamos a seguir o caminho de pela manhã, o que me causou admiração, quando Gaspar Simão, voltando‑se para mim, declarou:

‑ Senhor, não podemos tomar outro caminho; o Corredor está intransitável, e é absolutamente preciso tornar a descer a muralha que esta manhã subimos.

Dera a Levesque esta notícia pouco agradável.

‑ O que apenas me parece ‑ acrescentou Gaspar Simão ‑ é que não podemos continuar todos amarrados. Entretanto veremos como M. N. se comporta ao princípio.

Avançámos para a terrível muralha. A caravana de M. N. começava a descer, e ouvimos as palavras que Paccard lhes dirigia cem vivacidade.

Tornava‑se de tal ordem o declive que já o não víamos a ele nem aos guias, apesar de estarmos todos amarrados uns aos outros.

Assim que Gaspar Simão, que me precedia, pôde saber o que se passava, parou, e depois de travar algumas palavras na sua algaravia com os colegas, declarou‑nos que era preciso desligarmo‑nos da caravana de M. N.

‑ Respondemos pelos senhores ‑ acrescentou ‑, mas não podemos responder pelos mais; e, se eles escorregam, arrastar‑nos‑ão na queda.

E, concluindo estas palavras, desprendeu‑se da outra caravana.

Custava‑nos muito a tomar esta resolução; mas os nossos guias mostravam‑se inflexíveis.

Propusemos então que se enviassem dois dos nossos guias em auxílio dos guias de M. N.

Aceitam de boa vontade, mas como não têm corda não podem pôr em execução este projecto.

Demos então começo à terrível descida.

Só um de nós se movia de cada vez, e no momento em que dava um passo todos os mais faziam firmeza, para aguentarem o abalo se o companheiro viesse a escorregar.

O guia da frente, Eduardo Ravanel, desempenhava encargo importante e extremamente perigoso: tinha de refazer os degraus mais ou menos desfeitos pela passagem da primeira caravana.

Avançámos todos lentamente e tomando as maiores precauções.

O caminho que seguíamos levava‑nos em linha recta a uma das aberturas que se escancaravam junto da escarpa.

À subida, não podíamos vê‑la; mas à descida a sua beca esverdeada e aberta fascinava‑nos.

Todos os pedaços de gelo que se despenhavam na nossa passagem pareciam ter‑se combinado: iam ali engolfar‑se como na boca do Minotauro. Com a diferença, porém, de que, a cada bocado que engolia, a boca do Minotauro fechava‑se, e ali não sucedia assim. A boca saciada continuava aberta e parecia esperar, para então se fechar, um pedaço mais importante.

Era preciso não ser esse pedaço e para isso tendiam os nossos esforços.

Para nos subtrairmos a esta fascinação, a esta vertigem moral, se assim me posso exprimir, procurámos gracejar sobre a posição escabrosa que ocupávamos, e de que nem um cabrito montês gostaria.

Chegámos a trautear alguns «couplets» do maestro Offenbach; mas, para me conservar fiel à verdade, devo convir que os nossos gracejos eram imensamente frios e não cantávamos certo.

Pareceu‑me até, o que não admira, que Levesque teimava em aplicar à grande ária do «Trovador» as palavras do «Barba Azul», o que denotava certa preocupação.

Finalmente, fazíamos até como os poltrões que se põem a cantar às escuras para se animarem.

Assim estivemos suspensos entre a vida e a morte durante uma hora, que nos pareceu eterna, e acabámos por chegar à parte inferior desta terrível escarpa. Ali achámos sãos e salvos M. N. e seus guias.

Depois de tomarmos descanso por alguns minutos, continuámos a nossa marcha.

Ao aproximar‑se do Petit Plateau, Eduardo Ravanel parou e disse‑me:

‑ Veja que avalancha! Cobriu os vestígios dos nossos passos.

Efectivamente, a imensa avalancha de gelo que desabara do Goúter cobria completamente a estrada que havíamos seguido pela manhã para atravessar o Petit Plateau.

Não posso avaliar a massa daquela avalancha em menos de quinhentos metros cúbicos.

Se se tivesse despenhado no momento de nós passarmos, por certo que haveria mais uma catástrofe a acrescentar à lista já muito extensa da necrologia do Monte Branco.

Em presença deste novo obstáculo, era inevitavelmente preciso ou procurar outro caminho ou passar mesmo por pé da avalancha.

Atendendo ao nosso extenuamento, esta última resolução era por certo a mais prudente, mas oferecia perigo muito sério.

Uma parede de gelo de mais de vinte metros de altura, já em parte desprendida do domo do Goúter, ao qual só se segurava por um dos ângulos, dominava o caminho por onde tínhamos de passar.

Este enorme sérac parecia conservar‑se em equilíbrio.

A nossa passagem, abalando a atmosfera, não determinaria a sua queda?

Os guias conferenciaram.

Examinou cada qual com o óculo a fenda que se formara entre a montanha e aquela massa inquietante.

As arestas vivas e nítidas da fenda indicavam uma fractura recente, evidentemente ocasionada pela queda da avalancha.

Depois de pequena discussão, os nossos guias, reconhecendo a impossibilidade de se encontrar outro caminho, resolveram tentar aquela passagem perigosa.

‑ É preciso caminhar muito depressa ‑ recomendaram eles ‑, correr até, se for possível, e dentro de cinco minutos estaremos em segurança. Vamos, senhores, um último esforço!

Uma corrida de cinco minutos é pouca coisa para pessoas apenas fatigadas; mas para nós, que tínhamos as forças completamente exaustas, correr, pouco que fosse, numa neve mole em que nos enterrávamos até aos joelhos, parecia impraticável.

Fizemos contudo um supremo apelo à nossa energia, e depois de três ou quatro quedas, puxados por uns, empurrados por outros, alcançámos finalmente um montículo de neve, sobre o qual caímos exaustos.

Estávamos fora de perigo.

Era preciso algum tempo para nos restabelecermos. Por isso estendemo‑nos na neve com uma satisfação que toda a gente há‑de compreender.

Ficavam vencidas as maiores dificuldades e, se havia ainda alguns perigos a correr, podíamos arrostá‑los sem grandes receios.

Na esperança de assistirmos à queda da avalancha, prolongámos a nossa demora, mas debalde.

Como o dia declinava e não era prudente demorar‑mo‑nos para a noite naquelas solidões glaciais, resolvemos continuar a jornada e por volta das cinco horas chegámos à cabana dos Grands‑Mulets.

Depois de uma noite má e de um violento acesso de febre ocasionado pelas soalheiras que havíamos apanhado nas nossas expedições, dispusemo‑nos a voltar para Chamonix; mas, antes de partirmos, inscrevemos, segundo o uso, no registo para aquele efeito depositado nos Grands‑Mulets, os nomes dos guias e as principais circunstâncias da viagem.

Folheando aquele registo, onde se achava a expressão mais ou menos feliz, mas sempre sincera, dos sentimentos que invadem os turistas à vista de um mundo tão novo, notei um hino ao Monte Branco, escrito em língua inglesa.

Como esse hino resume mais ou menos as minhas próprias impressões, vou tentar traduzi‑lo:

 

Venci‑te, Monte Branco, a ti que usas vencer

Da esplêndida beleza os ciumentos rivais,

Gigante colossal que pareces deter

Em distância e respeito intrépidos mortais.

 

Mau grado teu furor, teu píncaro alteroso,

As nuvens tapetando, orgulhoso pisei,

E a morte face a face em teu manto radioso

De gelo deslumbrante impávido arrostei.

 

Ah! que esplendor depois na paisagem cintila!

Como a alma se inebria ante o caos imponente!

A geleira, o abismo, o rochedo que oscila

Do indómito tufão ao ímpeto potente!

 

Mas que hórrido fragor! Afunde‑se a montanha!

Pelo abismo ressoa um ribombar profundo!

Desprende‑se a avalancha, e se torce e despenha

Na voragem imensa, estremecendo o mundo.

 

Monte Rosa, eis teu cimo alvíssimo e ridente,

Eis‑te, monte Cervin, de fera catadura,

E Wetterhorners também, cujo vulto potente

Oculta da Yungfrau a deslumbrante alvura.

 

Sublimes sois, por certo, e árduos, trabalhosos,

Não vos sobe quem quer, ó montes arrogantes!

A quantos não matais, recostos escabrosos,

Há pouco sem temor dos gelos oscilantes!

 

Montes, bem alto olhai, mais e mais, vos digo eu,

Alçai‑vos à porta porfia, uns aos outros erguei;

Esse morro gigante em que se apoia o céu

É mais que todos vós, de todos vós é rei!

 

Pelas oito horas pusemo‑nos a caminho para Chamonix. A passagem dos Bossons foi difícil, mas fez‑se sem acidente.

Meia hora antes de chegarmos a Chamonix, encontrámos no chalé da cascata do Dardo alguns turistas ingleses que pareciam esperar a nossa passagem.

Assim que nos viram, vieram com simpático afã felicitar‑nos pelo êxito da nossa empresa.

Um deles apresentou‑nos sua mulher, interessantíssima senhora, de distinção perfeita.

Depois de lhe descrevermos a traços largos as peripécias da nossa viagem, disse‑nos com um tom que partia do coração:

‑ How much you are envied here by everybody! Let me touch your alpen stochs!(*)

E estas palavras traduziam perfeitamente o pensamento de todos os turistas.

É muito penosa a ascensão do Monte Branco. Pretende‑se que o célebre naturista genovês de Saussure ali apanhasse o germe da doença de que morreu meses depois.

Por isso mesmo não posso terminar melhor esta narrativa, demasiado extensa, senão citando as palavras de Markham Sherwill:

Em todo o caso ‑ diz ele, rematando a relação da sua extraordinária viagem ao Monte Branco‑, não aconselharei a ninguém uma ascensão cujo resultado não pode ter importância proporcionada aos perigos que uma pessoa corre e faz correr aos mais.

 

                                                                                            Julio Verne  

 

                      

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