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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O ENCONTRO INESPERADO / Zibia Gasparetto
O ENCONTRO INESPERADO / Zibia Gasparetto

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O ENCONTRO INESPERADO

 

O relógio deu três badaladas despertando Gisele, que abriu os olhos assustada. Sentou-se no sofá, apanhou o livro que escorregara no tapete, ajeitou os cabelos, tentando recordar-se do sonho estranho que tivera.

No apartamento vazio, o sol entrando pela fresta da cortina, ela foi aos poucos relaxando e adormeceu quase sem sentir.

Seus dois irmãos tinham ido almoçar fora e ela não quis acompanhá-los, antegozando o prazer de deixar-se ficar sozinha e poder ler, sem ser interrompida a cada pouco por um deles, que a qualquer pretexto lhe pediam alguma coisa.

Com o livro fechado entre as mãos, ela pensou no sonho de momentos antes com emoção. Que saudade! Não queria ter acordado.

Seus pais tinham morrido em um acidente de carro havia mais de cinco anos e pela primeira vez sonhara com eles. Ao abraçá-los, foi tomada de forte emoção, chegou a sentir o leve perfume de alfazema que sua mãe costumava usar. Eles estavam ali, vivos, como se nunca tivessem morrido.

Ainda um pouco perturbada, ela questionou:

— Será que nada aconteceu e que eles ainda estão aqui?

Mas bastou um olhar a sua volta para ter certeza de que fora mesmo um sonho. Aquele pequeno apartamento era muito diferente da bela casa onde eles moravam antes.

Ela se recordou da vida que levava ao lado deles e que fora interrompida pelo acidente naquela madrugada terrível. Eles tinham ido visitar um sobrinho que estava passando por sérios problemas no casamento. Quando regressavam, chovia muito. Um carro desgovernado surgiu, seu pai tentou, mas não conseguiu evitar o acidente. Ambos morreram na hora.

Na ocasião, Gisele estava com dezesseis anos, Carlos com dezoito e Franco com vinte e três. Todos eram estudantes. José Luiz, seu pai, formara-se em Direito, mas nunca exercera essa profissão. Preferiu tornar-se comerciante. Alugou um depósito, abriu uma empresa, ganhou dinheiro comprando e vendendo mercadorias, proporcionando conforto e bem-estar à família. Isaura, sua esposa, era professora concursada, dava aulas na primeira série de uma escola estadual.

Gisele recordava-se de como aquele tempo tinha sido bom. Depois da morte dos pais, muitas vezes ela se revoltava pensando no casal que eles tinham ido visitar. Culpava-os pelo acidente. Tratava-se do filho de sua tia Olga, irmã de seu pai, que se casara e vivia se desentendendo com a esposa.

Muito ciumenta, ela brigava por qualquer coisa e ameaçava suicidar-se, alarmando toda a família. Era uma jovem mimada e, por conta disso, seus pais tinham perdido a vida.

Depois que eles morreram, os três irmãos se reuniram para decidir como tocar a vida adiante. Nunca tinham trabalhado e não sabiam o que fazer.

Tia Olga, desolada com a morte do irmão e da cunhada, que tinham ido à casa de seu filho a pedido dela, fez o que pôde para ajudá-los. Cuidou do enterro, confortou os sobrinhos como pôde, mas a verdade é que José Luiz, apesar de ganhar muito dinheiro, gastava tudo com a família, dando-lhes uma vida boa. Por isso, não lhes deixou nada, nem mesmo a casa onde moravam, que era alugada.

Franco pensou em deixar a faculdade de psicologia e assumir a empresa do pai. Mas os tios não permitiram, alegando que ele não tinha experiência para assumir o negócio e seria uma pena deixar a faculdade no último ano. Seria melhor vender a empresa, colocar o dinheiro na poupança e viver com os juros.

Teriam de se conformar com uma vida mais modesta, mas, com economia, estariam bem até Franco se formar. Davi, marido de Olga, ajudou-os a alugar um apartamento de dois quartos na Mooca e eles se mudaram para lá.

A venda da empresa rendeu menos do que eles esperavam. O depósito era alugado e mais da metade do dinheiro das mercadorias vendidas e dos móveis foi gasto com despesas trabalhistas e com o advogado que tratou das questões legais.

Carlos e Gisele deixaram as escolas particulares em que estudavam e transferiram-se para escolas públicas.

A tragédia dos pais fez com que os três irmãos se unissem mais.

Gisele lembrou-se da primeira noite que passaram no novo apartamento. Reunidos na pequena cozinha, ao redor da mesa, depois de terem como jantar um cachorro quente com guaraná, Gisele disse:

— Não sei se fizemos bem em aceitar a opinião dos tios. Deveríamos ter pensado mais. Talvez tivesse sido melhor tentar tocar a empresa.

Franco suspirou triste:

— Bem que eu queria... Mas nós não temos experiência. Fiquei com medo de perder tudo e termos de parar de estudar.

— Mamãe sempre dizia que nunca deveríamos deixar os estudos — tornou Carlos.

— Eu sei. Por isso aceitei os conselhos do tio Davi. Gisele meneou a cabeça dizendo:

— Ele nos ajudou, mas não sei por que, quando penso nele, sinto um aperto ruim no peito.

— Por que isso agora? Ele é um pouco limitado, mas teve boa intenção.

— Eu sei, Franco, mas sinto que ele não é sincero, não olha a gente nos olhos...

— Isso é verdade! — ajuntou Carlos sorrindo. —Mamãe costumava dizer que ele era um cara dissimulado.

— Você quer dizer falso. É o que eu sinto quando ele fala.

Foi a vez de Franco dizer:

— Seja como for, ele nos ajudou. Vocês dois deveriam ser gratos.

— Mas daqui para a frente, vamos tocar nossa vida, fazer escolhas do nosso jeito. Os três juntos.

— Está certo, Gisele. Vamos aprender a cuidar de nós e fazer como os três mosqueteiros...

— Um por todos e todos por um — concordou Gisele estendendo a mão com a palma para cima, à qual os outros dois juntaram as suas.

A partir daí, eles não pediram mais opinião para os tios, que se sentiram aliviados por não terem de se incomodar com eles.

No início foi difícil adaptar-se à nova vida. Os pais cuidavam de tudo e eles não sabiam lidar com a manutenção da casa. Mas aos poucos foram aprendendo. Gisele comprou um caderno onde anotava as despesas. Era ela quem fazia as compras e cuidava da arrumação. Quanto à cozinha, os três cooperavam.

Enquanto Franco era bom em fazer sanduíches, Carlos, que tinha muito bom apetite, interessou-se por receitas que experimentava nos fins de semana. Gisele não gostava de ir para o fogão, mas cuidava da higiene da casa e das roupas com capricho.

Logo nos primeiros meses eles perceberam que o dinheiro era pouco e não dava para muita coisa, por mais que economizassem.

Decidiram estudar à noite e procurar emprego. Até se formar, Franco deu aulas particulares de inglês, idioma que falava fluentemente. Depois de formado, alugou uma sala que dividia com um colega, atendendo pessoas como psicólogo.

Carlos teve mais dificuldade. Nunca tinha trabalhado. Começou como vendedor de enciclopédias, mas foi desanimador. Em dois meses não vendeu nada.

Acabou desistindo. Vendo-o desanimado, um colega de escola sugeriu:

— Você gosta de cozinhar... Por que não procura emprego nessa área?

A princípio ele não gostou e continuou procurando outro emprego. Gisele conseguiu emprego em uma loja como balconista. Carlos continuava desempregado. Seus irmãos ganhavam pouco, mas pelo menos estavam trabalhando, enquanto ele continuava sendo um peso para a família.

Então decidiu: foi a um restaurante e conseguiu emprego de ajudante de cozinha. Na hora do almoço, o lugar ficava lotado e o corre-corre era intenso. Mas ele gostou do movimento. Adorava ver os pratos sendo criados, enfeitados e degustados com prazer pelos clientes.

Ele estava terminando o ensino médio e queria cursar uma faculdade, mas qual? Teria de ser uma que pudesse frequentar sem deixar o trabalho. O salário era baixo, mas ajudava nas despesas. Ele queria mais, por isso dedicou-se ao trabalho com determinação.

Colecionou receitas, anotou as que viu o cozinheiro fazer e achou boas, fez o que pôde para agradar o patrão e, embora tenha conseguido, o salário continuava o mesmo.

Resolveu procurar um emprego melhor. Comprou o jornal, recortou os anúncios dos hotéis cinco estrelas e foi atrás das vagas. Assim conseguiu um emprego melhor em um hotel de luxo, como camareiro.

O salário não era muito melhor do que o anterior, mas havia as gorjetas, que faziam toda a diferença.

Gisele fazia um retrospecto dos cinco anos decorridos da morte dos pais. Carlos conseguira entrar na faculdade de Administração de Empresas e faltavam dois anos para se formar. De camareiro, acabou trabalhando na administração do hotel. Franco se firmara na profissão, se mudara para um lugar maior e mais bem situado.

Já ela, depois de trabalhar na loja, entrou em uma empresa como auxiliar de escritório. Matriculou-se em um curso de secretariado e foi estudar inglês.

Os três irmãos pensavam em juntar esforços e um dia abrir uma empresa, como os pais fizeram.

Gisele lembrou-se do que acontecera no sonho. Ela entrara no antigo escritório na empresa do pai e eles estavam lá. Vendo-a chegar, abraçaram-na com alegria.

Ambos estavam bem-dispostos e alegres.

— Mãe, pai, que saudade! — disse ela emocionada. — É muito bom recordar o tempo em que vocês estavam aqui. Nossa vida era tão diferente! Tão melhor!

— Não diga isso, minha filha. Nós estamos orgulhosos de vocês — disse José Luiz.

Gisele não concordou.

— Tudo ficou mais difícil. Tem dias em que me revolto com a Miriam. Ela foi a culpada pelo acidente. Isaura colocou a mão na boca da filha:

— Não diga isso! Ela não teve nada a ver com o que aconteceu. Tinha chegado a nossa hora, era fatal. Não se podia evitar.

— Nós não fomos bons pais. Viemos pedir-lhes perdão — disse José Luiz.

Gisele abraçou o pai surpreendida.

— Não diga isso, pai! Vocês foram os melhores pais do mundo. Nos deram amor, respeito e uma vida boa.

— É verdade — reconheceu Isaura —, nós os amamos muito. Mas o amor, para ser eficiente, deve ser inteligente. Não os ensinamos a cuidar melhor de si mesmos.

— Ela tem razão. Não preparamos vocês para enfrentar a vida.

- Vocês não sabiam o que ia acontecer. Nunca imaginaram que iriam morrer num acidente.

— Por isso mesmo, minha filha — acrescentou Isaura. — Quem está vivendo na Terra ignora o momento em que será chamado de volta. E, quem ama seus filhos, precisa ensiná-los a vencer os problemas com coragem.

José Luiz interveio:

— Nós não os ensinamos a assumir a responsabilidade pela própria vida. Ao chegarmos aqui, percebemos isso e sofremos muito por não podermos ajudá-los como sempre fazíamos.

— Não estou entendendo por que estão me dizendo isso. Vocês foram os melhores pais do mundo!

— Nós erramos muito. Eu tinha muito orgulho de haver prosperado, construído aquela empresa, de criar empregos dando chance a outras famílias de se manterem. De que adiantou? Assim que viemos embora, tudo acabou. Quem comprou a empresa não conseguiu levá-la adiante e fechou. Meus funcionários, que se tornaram meus amigos, perderam o emprego.

Foi a vez de Isaura intervir:

— Esqueça. Não se amargure mais. Você não teve culpa de nada. Ao que ele respondeu:

— Se eu tivesse colocado Franco e Carlos para trabalhar na empresa, eles teriam mantido o negócio. Eu sei que eles sentiram muito por ter de vender tudo por um preço irrisório. Só o nosso ativo valia mais do que lhes pagaram pela empresa toda.

Ao dizer isso, José Luiz ficou pálido e Isaura amparou-o pedindo:

— Você sabe que não deve mais voltar a esse assunto. Ele lhe faz mal. Não dá para voltarmos atrás e você sabe disso. Foi difícil conseguir este encontro. Lembre-se de que prometemos só lembrar das coisas boas.

José Luiz fechou os olhos durante alguns segundos e, quando os abriu, seu rosto voltara ao normal. Ele sorriu:

— É verdade. Nós viemos dizer-lhes que estamos bem e felizes por vocês terem sido tão corajosos, estarem trabalhando, estudando, aprendendo a viver.

— Precisamos ir — tornou Isaura.

Gisele abraçou-a:

— Não vão embora. Vamos para casa e tudo voltará a ser como antes.

José Luiz juntou-se ao abraço, dizendo:

— Temos de ir. Mas lembre-se de que o amor que nos une está vivo em nossos corações.     Diga a seus irmãos que estão indo muito bem e que continuem a se esforçar. Estou certo de que vocês três ainda vão conseguir realizar o que desejam.

— Dê um beijo em cada um por mim. Eu amo muito todos vocês.

Em seguida Gisele acordou, e as últimas palavras de Isaura ainda ecoavam em seus ouvidos.

Tanto ela como seus irmãos tinham dos pais as melhores lembranças. Por que José Luiz lhes pedira perdão? Não conseguia entender.

"Um sonho pode ser fruto de uma fantasia", pensou ela. Só podia ser isso. Mas tudo foi tão forte que parecia verdade. Não se lembrava de ter tido um sonho que lhe despertasse tanta emoção. Teria sido por causa da saudade que sentia deles? Reencontrá-los, ainda que em sonho, foi como se estivessem vivos. Falavam como se morassem distante e tivessem vindo visitá-la. Como é que um sonho pode ser assim tão forte?

Gostaria que seus irmãos estivessem em casa para contar-lhes. Mas precisava conter a ansiedade, porque eles não iriam voltar tão cedo. Tinham comentado que depois do almoço cada um iria para outro lugar.

Gisele decidiu estudar um pouco de inglês, pois tinha prova no dia seguinte. Apanhou o livro, abriu na lição que teria de traduzir e tentou começar a escrever o texto. Mas não conseguia se concentrar. Seu pensamento ia para o sonho e a emoção reaparecia forte.

O que estava acontecendo? Por que um sonho lhe provocava tantas emoções? Momentos havia em que lhe parecia estar sentindo o perfume delicado de sua mãe e vendo seus olhos, que se apertavam quando ela sorria.

Tentava voltar ao estudo, mas logo via a fisionomia do pai, pálido, culpando-se e lhe pedindo perdão. Então sentia um aperto no peito e pensava: "Foi só um sonho! Uma fantasia! Isso não aconteceu de verdade".

A calma voltava e ela tentava concentrar-se na tradução. Mas as lembranças do sonho não lhe davam trégua. Por fim desistiu. Não ia conseguir estudar.

O tempo custava a passar. Apesar de ser alegre e dar-se bem com as pessoas, preservava sua intimidade. Não tinha amigas. Sempre que tinha algum problema, era com os irmãos que se aconselhava.

Carlos vivia dizendo que ela precisava ter amigas, sair para passear nos fins de semana, divertir-se. Ao que ela respondia:

— Nunca conheci alguém em quem eu pudesse confiar e com quem pudesse dividir minha intimidade.

— Você é muito exigente. Desse jeito, estará sempre só. Não terá companhia para se divertir como a maioria das meninas da sua idade.

— Tenho algumas colegas no escritório, convivo bem com elas todos os dias. Mas sinto que estão mais interessadas em levar vantagens, não são sinceras umas com as outras. Você sabe como eu sou. Sinto quando uma pessoa está mentindo, sendo maldosa. Então não me envolvo. Sou amável com todas, mas não confio na sinceridade delas.

— Lá vem você com essa mania de achar que sente como as pessoas são. Não será apenas um ponto de vista seu? Como sabe que o que sente é verdade?

— Eu sei que é verdade. Tenho observado que, quando sinto isso de uma pessoa, acabo sempre notando uma atitude nela que comprova meus sentimentos. Quer saber? Você deveria prestar atenção ao que sente. Estou certa de que se livraria de muitos aborrecimentos. Lembra-se do João?

— Aquele mau caráter. Como poderia esquecer? Parecia muito meu amigo, mas, quando fez besteira e deu errado, não hesitou em jogar a culpa em cima de mim. Se não fosse o testemunho de outros colegas provando que ele era o culpado, eu poderia ter perdido o emprego e, o que é pior, ter ficado malvisto na empresa.

— Você precisa prestar mais atenção no que sente. Quando conheci o João, pedi que você fizesse isso. Senti que ele não era confiável.

— Mas eu não sou como você. Muitos pensamentos passam pela minha cabeça. Não quero ser injusto, julgar mal as pessoas.

— Prefere ser prejudicado?

— Claro que não. Mas prejulgar é errado.

— É maldade. Não é isso que eu faço. Às vezes, quando converso ou conheço alguém, sinto que devo prestar atenção e ser cautelosa. É uma coisa natural, sem julgamento. Algum tempo depois, acabo sabendo que ela não era confiável.

Carlos insistia que ela precisava fazer amizades, sair, divertir-se. E Gisele prometia:

— Se aparecer alguém com quem eu me sinta bem, estreitarei a amizade.

Olhando o livro de inglês aberto sobre a mesa, ela decidiu retomar a tradução e, quando se pegava pensando no sonho, esforçava-se para voltar a atenção para o livro.

Já havia escurecido e Gisele sentiu fome. Preparou um sanduíche. Estava começando a comer quando Carlos chegou carregando um pacote que colocou sobre a mesa:

— Cheguei na hora! Trouxe aquele doce de creme de que você gosta.

— Que bom! Você voltou cedo!

— Eu tinha programado ir ao cinema com a Luciana, mas mudei de ideia.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não. Estive pensando... Não sei se vale a pena continuar saindo com ela.

— É uma moça bonita, elegante e muito apaixonada por você.

— Esse é o problema. Ela cola em mim, sinto que quer controlar até meus pensamentos.

Gisele riu gostosamente:

— Logo você, que odeia ser controlado!

— Isso mesmo. Sou livre. Não gosto de rotina nem de ser escravo das regras. Sabe o que ela me disse ontem?

Gisele abanou a cabeça negativamente e ele continuou:

— Veio com uma conversa de que eu deveria trocar de emprego. Que o pai dela é influente e poderia me arranjar outro muito melhor. Ela já conversou com ele, que quer me conhecer.

— Ela gosta de você, mas não da sua profissão, e   quer casar.

— Deus me livre! O que ela quer é botar a coleira em mim. Isso nunca vai acontecer! Ela que vá procurar outro!

Gisele ria sem parar da cara de susto que ele fazia.

— Fui trabalhar no hotel e gostei porque, quando cheguei, me deram um uniforme e a lista das minhas obrigações. Achei justo. Eles me pagam e eu faço o que querem. É uma boa troca. E agora estou como eu quero: sou o chefe da administração, deixo tudo em ordem, eles estão satisfeitos e eu também.

— Você se deu bem lá.

— Os donos são pessoas educadas. Temos um relacionamento respeitoso. Isso é fundamental.

— De fato.

— Mas apesar disso, continuo com meu projeto de montar um negócio próprio. Do meu jeito.

— Você fala igual ao papai.

Ela ficou pensativa e ele notou:

— Você falou do papai e seu rosto ficou diferente. Gisele concordou e contou minuciosamente o sonho que tivera com os pais. E finalizou:

— Foi um sonho diferente. Eles pareciam vivos, falavam como que tivessem voltado de uma viagem. Fiquei impressionada. Cheguei a esquecer que tinham morrido! Como pode ser isso?

Os olhos de Carlos brilharam quando disse:

— Eu adoraria sonhar com eles! Sinto muita saudade!

— Foi maravilhoso! Nos abraçamos, cheguei a sentir o perfume que mamãe usava. Só não entendi por que eles nos pediram perdão. Mas sonho é sonho. Foi uma fantasia.

— Talvez não. Um amigo meu costuma dizer que quem morre vai viver em outra dimensão e volta para conversar com os que ficaram. Ele diz ter provas de que isso é verdade.

Gisele ficou pensativa durante alguns segundos, depois disse:

— Também já ouvi essa teoria. Se isso for verdade, eles vão voltar. Se eu sonhar de novo com eles, vou perguntar-lhes isso.

Eles continuaram conversando mais algum tempo, comentando o assunto até a hora de dormir.

 

Gisele trabalhava em uma empresa de engenharia, que ficava no centro da cidade. Às cinco e meia da tarde, como de costume, deixou o trabalho e decidiu dar uma volta, olhar as vitrines.

A tarde estava bonita e ela gostava de caminhar pelas ruas movimentadas, parando quando via alguma coisa que lhe chamava a atenção. Parou diante de uma livraria e entrou.

A leitura era seu passatempo preferido. Sempre que recebia, ia lá para comprar um livro. Percorreu a loja, parando aqui e ali, quando uma capa ou um título chamava sua atenção.

Ficou olhando alguns romances, pegando ora um ora outro, indecisa.

— Leve este livro. Você vai gostar.

Ela olhou e viu um rapaz do seu lado sorrindo.

— Você é vendedor da loja?

— Não. Mas um amigo meu, ainda ontem, comentou comigo que leu esse livro e adorou.

Gisele fixou-o e correspondeu ao sorriso. Era um rapaz bem-vestido, simpático.

— Obrigada. Vou levar este.

Ela afastou-se, comprou o livro e se dirigia para a porta quando ele a interceptou, curvando-se levemente e estendendo a mão:

— Gostaria de me apresentar. Meu nome é Gino Gouveia.

— Eu sou Gisele.

— Muito prazer.

— Obrigada. Mas tenho que ir. Até outro dia — e saiu apressada, sem olhar para trás.

Ela notou que ele desejava estender a conversa, mas, apesar de ter simpatizado com ele, Gisele não tinha o hábito de conversar com desconhecidos.

No ponto do ônibus, enquanto esperava, olhou furtivamente para a porta da livraria e Gino continuava lá, observando-a.

Notou que Gino a olhara com admiração, mas não queria envolver-se com ninguém. Bonita, elegante, Gisele chamava atenção, os admiradores surgiam, mas ela nunca se interessara por nenhum deles.

Namorar não estava em seus planos. Antes de envolver-se com alguém, desejava realizar os projetos que tinha com os irmãos. Era ainda muito jovem, desejava fazer muitas coisas antes de pensar em dividir a vida com outra pessoa.

O ônibus chegou em seguida. A fila de passageiros era curta, ela subiu e acomodou-se perto da janela. Voltou a cabeça, olhou para a porta da livraria e viu que Gino ainda estava parado lá, olhando para ela.

O ônibus começou a andar, ela abriu o livro e começou a ler. A história era tão envolvente que ela passou do ponto para descer. Quando olhou em volta e notou o que tinha acontecido, tocou o sinal e, assim que o ônibus parou, desceu apressada.

Foi forçada a andar alguns quarteirões. Pensando que ainda teria de fazer o jantar, apressou o passo. Carlos tinha horário e ela queria que ele jantasse antes de ir para a faculdade.

Ao entrar no prédio, o porteiro chamou-a:

— Sua tia Olga esteve aqui e deixou um recado.

— O que foi?

— Precisa falar com você. Não podia esperar. Ficou de voltar mais tarde.

Gisele agradeceu e subiu ao apartamento, tentando imaginar o que sua tia queria. Fazia um bom tempo que ela não aparecia.

Assim que entrou em casa, cuidou de preparar o jantar e deixou a mesa posta. Apanhou o livro e sentou-se no sofá para ler, mas não teve tempo de começar a leitura porque o interfone tocou e o porteiro avisou que sua tia estava subindo.

Gisele abriu a porta e, assim que Olga entrou, percebeu que a tia estava pálida e nervosa.

— Tia, aconteceu alguma coisa?

— Ainda não, mas pode acontecer. Quero falar com o Franco.

— Ele não chegou ainda. Mas sente-se, tia. Acalme-se. Quer uma água, um café?

— Uma água.

Gisele apressou-se a levar-lhe um copo com água. Ela sorveu alguns goles, depois disse:

— Vou esperar por ele. A que horas ele vai chegar?

— Não sei. Não tem horário certo. Depende do número de clientes. Posso ajudar em alguma coisa?

— É só com ele. Hoje, por acaso, estive conversando com a esposa de um amigo do patrão de Davi e ela me contou que sua filha Neide melhorou muito desde que começou a fazer terapia com o Franco.

— Ele é bom no que faz. Tem muitos clientes.

— Pois é. É meu sobrinho e eu nem sabia disso. Vocês nunca aparecem.

— Sabe como é, tia, nós trabalhamos e estudamos. Não sobra tempo para visitar os parentes. A vida tem sido difícil.

— Eu sei, minha filha. Não é fácil para ninguém.

A porta da sala abriu e Carlos entrou. Olga havia se levantado pensando ser Franco, mas, vendo que não era, sentou-se novamente.

Carlos aproximou-se abraçando-a:

— Que bom vê-la, tia. Como vai?

— Mais ou menos.

— A tia veio para conversar com Franco.

— Fique à vontade, tia. Vou me trocar porque tenho que sair em seguida. Com licença.

Ele foi para o quarto e Gisele informou:

— Vou ver a comida. Quero que ele jante antes de ir para a faculdade.

— Não seria mais fácil ele comer um lanche lá?

— Não. Quem trabalha o dia inteiro precisa alimentar-se bem.

Ela foi para a cozinha e Olga seguiu-a admirada.

— O cheiro está bom. É você quem cozinha?

— Carlos cozinha melhor do que eu. Nos fins de semana, é ele quem faz a comida. Mas durante a semana, sou eu.

— Estou vendo que vocês estão se esforçando.

— Precisamos tocar a vida pra frente.

Olga fixou-a pensativa, depois tornou:

— Em vista das circunstâncias, até que vocês se ajeitaram bem. José Luiz trabalhou muito, mas nunca guardou dinheiro. Gastava demais. Vocês ficaram com pouco dinheiro.

Gisele olhou-a séria:

— Ele deu-nos conforto, bons momentos. Quando ele estava vivo, tínhamos uma vida muito boa.

— É, mas se ele tivesse economizado, hoje vocês estariam melhor.

— Nós estamos aprendendo a viver, tia. É muito bom trabalhar, ter o próprio dinheiro. Nada nos falta. Temos uma vida boa. Somos jovens, saudáveis. Fazemos planos para ter um futuro melhor. É questão de tempo.

Olga fez um gesto vago, ia falar, mas Carlos aproximou-se e ela não disse nada.

Carlos sentou-se à mesa e convidou:

— Quer jantar comigo, tia?

— Não, filho. Obrigada. Tomei um lanche antes de sair de casa. Jantem vocês.

— Não quer tomar nada? — indagou Gisele.

— Não, obrigada.

— Estou sem fome. Mais tarde vou tomar um café com leite. Venha, tia, vamos nos sentar na sala. Lá ficaremos mais confortáveis.

Depois de acomodadas lado a lado no sofá, Gisele perguntou:

- Como vai o tio?

— Mais ou menos. Tem andado nervoso nos últimos dias.

— Aconteceu alguma coisa?

— Nada de mais. Problemas na repartição. Sabe como ele é. Quer tudo perfeito e nem sempre os colegas gostam. Será que Franco vai demorar?

— Como eu disse, ele não tem hora para chegar. Depende do número de clientes.

Olga ficou calada durante alguns segundos, depois avaliou:

— Deve estar ganhando bem, tem muitos clientes.

— Tem mesmo. Mas tem despesas.

Carlos aproximou-se:

— Vou para a faculdade. Até outro dia, tia. Um abraço para tio Davi.

Olga levantou-se, deu um beijo na face do sobrinho:

— Vá com Deus, meu filho.

Depois que Carlos saiu, ela sentou-se novamente e perguntou:

— Ele está fazendo faculdade do quê?

— Administração de empresas, tia. Está no terceiro ano.

Elas continuaram conversando, mas Olga não mencionou o nome do seu filho Ivo nem de Miriam, sua nora. Gisele achou bom, porquanto temia deixar escapar o que pensava deles e aborrecer a tia. Não tocou no assunto.

Uma hora depois, quando Franco chegou, ela sentiu-se aliviada. Olga não parecia disposta a confidências, mas Gisele notou que ela estava preocupada. Imaginou que os problemas de Ivo continuasse acontecendo, como sempre fora.

Olga levantou-se, abraçou o sobrinho e comentou:

— Você mudou muito, ganhou corpo, está bonito, elegante.

Franco sorriu e Gisele sentiu-se orgulhosa do irmão. De fato, ele era um rapaz bonito, alto, cabelos castanhos ondulados, olhos cor de mel e, quando sorria, exibindo os dentes alvos e bem distribuídos, duas covinhas apareciam em sua face.

— A tia estava à sua espera havia mais de duas horas. Quer conversar com você.

— Quero sim. Mas você deve estar com fome e eu não tenho pressa. Posso esperar você jantar.

— Eu já comi. Estou à sua disposição. Sente-se por favor.

— Fiquem à vontade. Vou para meu quarto estudar. Gisele apanhou seu caderno, os livros e retirou-se. Olga começou:

— Tenho ouvido falar bem de você, do seu trabalho. Fiquei orgulhosa. Há momentos na vida em que não sei o que fazer. As pessoas são difíceis, sem juízo. Fazem besteira e não aceitam quando dá errado. Não sei mais o que fazer para ajudar o Ivo. Tenho feito de tudo, mas a vida dele é um inferno. Nada dá certo. Também, com aquela mulher que ele tem...

Franco observava calado e ela fez uma pequena pausa. Depois continuou:

— Aí eu pensei... Você é meu sobrinho, tem ajudado muitas pessoas, que eu sei. Então, decidi vir aqui para pedir-lhe uma orientação. Você conhece o problema da Miriam. Ela atormenta o Ivo por qualquer coisa. É muito ciumenta! Eu e Davi sofremos vendo a vida perturbada deles. Gostaríamos que eles fossem felizes. Ivo é nosso único filho!

Olga suspirou triste e perguntou:

— O que devo fazer para ajudá-los?

— Miriam nunca procurou ajuda psicológica?

— Por insistência de amigos, duas vezes ela foi procurar ajuda. Mas não deu certo.

— Como foi isso?

— Primeiro foi a um psiquiatra, mas saiu de lá injuriada. Não sei o que foi que ele lhe disse, só sei que ela nunca mais quis voltar lá. Na segunda vez foi consultar uma psicóloga, mas também não quis fazer terapia.

— Sei que você e o tio desejam ajudar, mas não vai adiantar. Miriam ainda não se convenceu de que precisa se tratar. Só quando ela aceitar isso e desejar se esforçar para melhorar é que vai obter bom resultado.

— Isso não pode ser assim. É desanimador. Nesse caso, ela não vai melhorar nunca.

— Também não é assim. A vida age e ensina a todos nós. Um dia ela vai cansar de sofrer e vai buscar ajuda.

— Não posso aceitar isso! Até quando meu filho vai sofrer com os destemperos dela? Ele não merece!

— Você é que pensa dessa forma. Ele poderia se separar dela. Mas se não o faz é porque prefere viver com ela, apesar de seus destemperos.

Olga olhou-o admirada:

— Você acredita mesmo nisso?

— Talvez ele não esteja vendo essa situação como insuportável. Já conversou com ele sobre isso? Olga hesitou um pouco, depois disse:

— Ele não gosta que eu me envolva, mas quando ela entra em crise, me pede ajuda. E lá vamos nós, eu e Davi, tentar fazer com que ela saia da depressão.

Franco olhou-a e disse sério:

— Ela arma a confusão, incomoda vocês porque sabe que ele irá pedir-lhes ajuda.

— Estou cansada. Não sei por que ela faz tudo isso. Afinal, Ivo tem sido bom marido.

— Ela está brincando com a sorte. Um dia, ele vai se cansar e acabar com o casamento. Ninguém tolera uma situação dessas por muito tempo.

— Ele já pensou em separar-se, mas tem medo. Ela ameaça suicidar-se. Já tentou uma vez. Então, ele cede e tudo continua igual.

Franco ficou pensativo durante alguns segundos, depois tornou:

— Tia, se ela levasse o tratamento a sério, encontraria a solução. Mas como ela se recusa, vocês precisam mudar de atitude.

— Como assim?

— Você e o tio precisam ter uma conversa séria com os dois e se colocar com sinceridade, em vez de pôr panos quentes e confortá-la. Devem dizer que não vão fazer mais nada para ajudá-la. Que ela não é mais criança, é uma mulher, precisa assumir a própria vida e não incomodar a família.

Olga assustou-se:

— Não posso fazer isso! Seria desumano.

— Desumano é o que ela está fazendo com todos. Ela não tem o direito de incomodá-los. Precisa entender que os problemas que tem com o marido devem ser resolvidos entre eles.

— Ela não tem maturidade para isso! Além disso, seria perigoso. Ela poderia suicidar-se e eu morreria de remorso.

— Ao contrário. Vocês estão alimentando suas fraquezas, impedindo que ela cresça e assuma sua responsabilidade. Em vez de ajudá-la, estão fazendo com que ela fique cada dia mais dependente e fraca.

Olga meneou a cabeça, pensativa. Depois disse triste:

— Não posso fazer isso. Vim aqui esperando encontrar uma boa solução, mas estou vendo que foi inútil. Nem vou falar com Davi. Estou decepcionada.

— Sinto muito, tia, mas o que eu disse é verdade. Só quando ela entender que está agindo de forma inadequada e aceitar o tratamento, poderá vir a melhorar. Miriam tem sérios problemas emocionais, olha os fatos de maneira equivocada. É bom que ela aceite o tratamento, se esforce para mudar. Não adianta vocês aconselharem. É ela quem precisa tomar consciência e agir. Esse é um trabalho que ninguém poderá fazer por ela.

Olga levantou-se, estendeu a mão para o sobrinho e disse triste:

— Já vi que você não pode me ajudar. Ela está muito frágil. Como poderei dizer-lhe que é a única culpada da situação? Isso irá derrubá-la de vez! Não vou fazer o que me aconselha. Desculpe tê-lo incomodado com nossos problemas.

— Foi um prazer vê-la, tia. Lamento não poder dizer-lhe algo melhor. Mas saiba que fui sincero. Sempre que precisar estarei à disposição.

— Obrigada. Até outro dia. Despeça-se de Gisele por mim.

— Vou acompanhá-la até a porta.

Depois que ela saiu, Franco sentou-se na sala pensativo. Gisele aproximou-se:

— A tia já foi?

— Já.

— Aposto que veio falar da Miriam.

— É verdade. A situação lá continua igual. Pelo que ouvi, pode até piorar.

— Não sei por que eles têm tanta paciência com ela. É uma mimada destrambelhada. Há muito deveriam tê-la internado.

— Não julgue o que não conhece. Você não sabe o que se passa na cabeça dela.

— Ela sempre foi assim. Acha que todos precisam fazer o que ela quer.

Franco olhou firme nos olhos dela quando respondeu:

— Ela não tem culpa pelo que aconteceu com nossos pais. O acidente foi uma fatalidade.

— Se ela não os tivesse chamado naquela noite, eles ainda estariam aqui, vivos! Eles morreram por causa dela!

— Você está sendo injusta. O destino das pessoas está nas mãos de Deus. Miriam é muito infeliz. Não jogue essa culpa sobre ela, nem carregue esse sentimento no coração.

— Não posso evitar, é o que sinto.

— Experimente olhar a situação por outros lados.

— Para mim está muito claro, a culpa dela é evidente. Franco olhou-a sério:

— Para seu bem-estar, seria muito bom você tentar entender o que se passa com ela. A mágoa acaba destruindo sua imunidade e se transformando em doença. É isso que você quer?

Gisele admirou-se:

— Claro que não. Mas o que sinto é justo. Perdemos nossos pais, nossas vidas virou de pernas para o ar.

— Mas estamos crescendo com tudo isso. Amadurecemos, esse é o lado bom. O que nos aconteceu, fez com que assumíssemos nossas vidas.

— Sinto muita saudade dos nossos pais.

— Acha que eu não? Gostaria que procurasse entender o caso da Miriam. Acredite, ela não está em condições de fazer melhor. É uma pessoa frágil, que tem medo da vida. É insegura, não confia em si mesma. Vive fora da realidade. Nesse estado, pequenas coisas assumem para ela proporções assustadoras.

— Acho que ela está fingindo.

— Não creio. Está sofrendo. Deveria procurar ajuda, submeter-se a um tratamento psicológico. Mas com os pais que tem, fica difícil.

Gisele ficou séria:

— É. Eles sempre a mimaram muito.

— A superproteção enfraquece. A pessoa não sabe o que quer, tem medo de tomar decisões.

— O que você disse para tia Olga? Ela foi embora e nem se despediu de mim.

— Eu disse a verdade.

— Você acha que os pais dela são culpados por ela ter ficado assim?

— Não chego a tanto. Miriam parece ter um temperamento frágil. Os pais dela a protegeram demais e isso a deixou pior. Tia Olga não gostou do que eu disse, mas a situação vai piorar e um dia eles terão que convencer Miriam a aceitar tratamento.

— Quer dizer que Miriam está mesmo doente?

— Está. E só vai começar a melhorar quando entender isso e aceitar um tratamento.

— Nesse caso...

— Seria melhor você perceber que está sendo injusta cobrando atitudes sensatas de alguém que no momento não consegue tê-las. Pense no assunto e livre-se dessa mágoa de uma vez. Nossos pais morreram naquele acidente porque chegou a hora deles.

Gisele baixou a cabeça pensativa. Pela primeira vez começou a perceber que poderia estar enganada com relação a Miriam.

 

Olga deixou o apartamento dos sobrinhos sentindo o coração oprimido. Fora até lá cheia de esperanças, mas saíra decepcionada. Ela queria muito que o filho fosse feliz.

Miriam era diferente das outras moças. Olga percebia que ela era muito frágil. Talvez fosse por isso que Flora a superprotegia. Um simples resfriado da filha fazia com que Flora se desesperasse, rezasse pedindo a Deus que não deixasse a filha sofrer. Uma vez lhe dissera que vivia pedindo a Deus que transferisse para ela todas as doenças e desgostos da filha.

Olga notava que Miriam não fazia nada sem pedir opinião à mãe. Só fazia o que ela dizia. Ela criara Ivo de outra forma, ensinara-o a assumir a própria vida e, desde o começo do namoro, temera que não desse certo.

Muitas vezes conversara com o filho sobre o assunto, mas ele alegava que Miriam era ainda muito jovem e mudaria depois do casamento. Mas isso não aconteceu.

Ela notava que Ivo não era mais o mesmo. Perdera a loquacidade, tornara-se mais sério, não tinha o mesmo entusiasmo de antes. Nos últimos tempos, as crises de Miriam tinham se tornado mais frequentes e Ivo mais irritadiço.

O filho não estava feliz e Olga não aceitava a situação. Desabafava com o marido, que tentava confortá-la, dizendo que ela estava exagerando e as coisas não eram assim tão ruins. Mas em seu íntimo pensava que o filho estava sendo muito condescendente com a esposa. Miriam parecia-lhe muito infantil e Ivo devia exigir que ela mudasse.

Ao deixar a casa dos sobrinhos, Olga foi até a loja de armarinhos em que Ivo trabalhava como gerente.

Ele estava atendendo dois fornecedores e ela ficou olhando as mercadorias expostas, esperando que ele terminasse.

Minutos depois, Ivo aproximou-se beijando-a na face:

— Que surpresa, mãe! Você não costuma aparecer por aqui. Está tudo bem?

— Está — mentiu ela. — Fui visitar Gisele e decidi vir até aqui para saber se está tudo bem com vocês. Ivo balançou a cabeça indeciso:

— Está como sempre. Miriam agora deu para insistir que quer engravidar. Você sabe, nós nunca evitamos. Por três vezes ela engravidou e perdeu. Você lembra como ela ficou no último aborto?

— Lembro. Quase morreu com aquela hemorragia.

— Depois disso, temos evitado. Mas agora ela deu para voltar ao assunto. Chora, diz que não é uma mulher normal porque não consegue me dar um filho.

Olga suspirou:

— Eu sei que você já se conformou.

— Mas ela não. Está fazendo drama por esse motivo.

— Gostaria de poder fazer alguma coisa para ajudar.

— Você não pode fazer nada. As coisas são como são e é preciso aceitar. Vamos tomar um café em minha sala. Venha, mãe.

— Você está trabalhando, não quero atrapalhar.

— Já estamos fechando. Não se preocupe. Uma vez lá, sentados no sofá, enquanto tomavam café, Olga tornou:

— Não é justo. Você tem se esforçado para aceitar, sido muito paciente, mas noto que mudou, perdeu a alegria. Isso me entristece.

Ivo ficou sério, olhou-a nos olhos, pensou um pouco e respondeu:

— Às vezes, me pergunto por que atraí em minha vida uma pessoa desequilibrada como ela.

— Do jeito que você fala, dá impressão de que a culpa de tudo é sua. Você a escolheu sem saber que ela, depois do casamento, se tornaria tão perturbada.

— Durante o tempo de namoro, muitas vezes ela teve crises de ciúme, de depressão. Eu me casei sabendo dos pontos fracos dela. Fui ingênuo imaginando que, depois do casamento, ela se sentiria mais segura e mudaria. Mas me enganei. Ela acha que tem razão em ser como é. Acha que sou eu quem tem de mudar.

— Franco me disse quase a mesma coisa hoje.

— Conversou com ele sobre nós?

— É. Você sabe... ele é psicólogo, entende desses problemas. Perguntei-lhe o que poderia fazer para ajudar Miriam a melhorar.

— E ele respondeu o que eu já sei. Ela não percebe que seu ciúme, sua insegurança, estão nos tornando infelizes. Imagina que tenho outras mulheres e sou culpado pelos nossos problemas. Há momentos em que tenho vontade de me separar. Estou no meu limite.

Olga colocou a mão sobre a dele, dizendo assustada:

— Se fizer isso, ela pode acabar com a vida. Poderá empurrá-la para o suicídio.

— Esse receio é que está me segurando. Mas não sei até quando suportarei. Não tenho um momento de paz. Ela insiste em ter um filho e eu não quero.

— Pode ser que um filho a faça mudar. Uma criança é sempre uma bênção.

— Não para ela. Os médicos não garantem que, a esta altura, uma gravidez possa ser bem-sucedida. Eu não quero passar novamente por tudo que já passamos. Ela não tem estrutura para suportar novo fracasso, nem para criar uma criança, caso consiga ir até o fim. Preciso de paz. É só o que eu quero.

Olga suspirou triste. Tentou dissimular o que sentia para não deixá-lo pior. Permaneceu calada durante alguns segundos. Ivo levantou-se e colocou a mão sobre o ombro dela dizendo:

— Não fique assim, mãe. Não quero que se preocupe por nossa causa. Pode ser que um dia ela perceba que está errada e mude. É minha única esperança.

— É, filho. Tem razão. Devemos ter esperança. Olga levantou-se:

— Tenho que ir. Faz tempo que você não vai em casa. Estamos com saudade. Vá almoçar conosco um dia destes, mas me avise. Vou fazer aquela carne assada que você gosta.

— Hum! Ninguém faz uma carne assada como você. Irei mesmo. Pode esperar.

Ele acompanhou-a até a porta da loja, ela despediu-se e saiu. Durante o trajeto de volta para casa, Olga sentia-se deprimida, triste. Seu único filho! Tinha sonhado para ele tantas coisas e dera tudo errado. Ele se apaixonou por Miriam, largou a faculdade de Direito para se casar com ela e assumir a maior das lojas do sogro.

Ele ganhava bem, tinha uma vida boa, mas tornara-se dependente da família dela. Olga suspeitava que isso também estava infelicitando Ivo. Quando entrou na faculdade, ele conversava com Davi fazendo planos e o pai o apoiava com entusiasmo. Foram momentos de alegria e progresso.

Mas apaixonou-se por Miriam e tudo mudou. Desde o início do namoro, tanto ela como Davi tinham notado o quanto Miriam era mimada. Os pais faziam-lhe todas as vontades.

Ela apaixonou-se por Ivo e não queria esperar que ele se formasse, trabalhasse e ganhasse o suficiente para se casar. Para satisfazer a filha, Jorge o chamou e pediu:

— Quero que venha trabalhar comigo, que seja gerente da minha maior loja. Pagarei muito bem. Não tem cabimento você se casar com minha filha e ter de começar uma carreira que vai demorar para dar-lhe condições de manter uma família. Assim, não precisam esperar mais para se casar.

Olga se recordava de que no início não gostou da ideia. Foi completamente contra e tentou convencer o filho a não aceitar. Mas tanto Flora e Jorge insistiram que Davi começou a achar que seria melhor mesmo concordar.

Revivendo aquele tempo, Olga lamentava não ter feito tudo para impedir o casamento. Já nos primeiros tempos as brigas começaram. Estavam casados havia sete anos e Olga não tinha esperança de que a nora mudasse.

Ela chegou em casa desanimada. Davi estava na sala assistindo à televisão e, vendo-a entrar, levantou-se:

— Estava preocupado. Aonde foi? Aconteceu alguma coisa com Miriam?

Olga sentou-se, respirou fundo e respondeu:

— Não. Está tudo na mesma. Estive na casa dos nossos sobrinhos. Fui conversar com Franco.

— Eles estão bem?

— Melhor do que pensei. Encontrei com Maristela e ela me contou que sua filha Neide, uma moça muito perturbada, melhorou muito depois que fez terapia com o Franco. Fui procurá-lo para ver se ele poderia dar um jeito na Miriam.

— Não foi uma boa ideia. Terapia é conversa e não cura ninguém. Ela deveria ir a um psiquiatra.

— No caso dela isso também não vai funcionar. Franco me explicou que Miriam só vai melhorar no dia em que entender que está errada e quiser mudar.

— Bela resposta! Nesse caso ela nunca vai melhorar.

— Foi o que pensei. Estou desanimada.

— Faz tempo que não os visitamos. Como ele a recebeu?

— Muito bem. Tanto Gisele como Carlos também foram muito gentis. Eles trabalham e estudam e não nos procuraram por falta de tempo.

— Vamos mandar servir o jantar.

— Vá você. Estou sem fome.

— Não fique assim. Vamos pedir a Rosa que sirva o jantar. Você vai comer sim. Não deve se preocupar com os problemas de Ivo, nem perder a esperança. Um dia tudo pode mudar.

— Depois que conversei com Franco, fui até a loja ver o Ivo. Ele já estava fechando, mas deu para conversarmos um pouco. As coisas entre eles vão de mal a pior. Ele tem vontade de se separar, só não o faz com medo de que ela se suicide.

Davi meneou a cabeça negativamente enquanto dizia:

— Aquela maluca pode fazer isso mesmo.

— Ele só não se separa por isso.

Davi passou os braços sobre os ombros dela:

— Esqueça isso agora, Olga. Vamos pensar em nós. É só o que podemos fazer.

Ela concordou com a cabeça e os dois foram para a copa, onde o cheiro gostoso que sentiram indicava que o jantar estava servido.

Depois que a mãe se foi, Ivo sentou-se em sua sala pensativo. Às vezes tinha vontade de largar tudo, emprego, mulher, família. Mas controlava-se, temendo a reação de Miriam. Até quando teria de suportar aquela situação?

A cada dia ficava mais difícil voltar para casa. Ele não sentia mais atração por ela e isso fazia com que ela se queixasse ainda mais. O pior é que reclamava com a mãe, que tomava as dores dela, falava com o marido e, no dia seguinte, ele chamava sua atenção, dizendo que a filha era doente, tinha saúde delicada e ele precisava ser mais carinhoso.

Por isso o relacionamento dele com o sogro não estava bom. Criticava tudo que ele fazia, implicava com as menores coisas, a ponto de não sentir vontade de trabalhar. Às vezes desejava que a loja fosse mal e tivesse de fechar. Assim ele poderia ver-se livre daquele emprego humilhante.

A loja encerrou o expediente, os empregados se foram, Ivo apagou a luz e saiu depois de verificar se tudo estava em ordem. Foi caminhando devagar até o estacionamento, pegou o carro e saiu. Mas parou um pouco adiante.

A ideia de chegar em casa e encontrar a esposa com cara de vítima, deprimida e chorosa, o incomodou. O que tinha feito de sua vida? Por que se casara com Miriam? Várias vezes Olga lhe falara sobre as infantilidades dela, pedira para refletir melhor, mas ele achava que ela era muito jovem e com o tempo aprenderia. Mas não foi isso que aconteceu.

Lembrou-se de alguns amigos do tempo de faculdade e decidiu ir até a lanchonete onde eles, quando estudantes, costumavam reunir-se para conversar. Precisava esfriar a cabeça, esquecer, ainda que por alguns momentos, as preocupações.

Deixou o carro estacionado na esquina e caminhou até a lanchonete observando com prazer o movimento. Entrou, olhou por todos os lados procurando um rosto conhecido, mas não encontrou nenhum. Com dificuldade conseguiu um lugar junto ao balcão, sentou-se, pediu uma cerveja e um sanduíche.

Enquanto comia, pensava como gostaria de ser um daqueles jovens que riam, brincavam, namoravam. Naquele momento, arrependeu-se muito de ter deixado a faculdade. Sentiu-se velho, esquecido de que tinha apenas trinta anos.

Acabou de comer, mas não teve vontade de ir embora. Pediu um café e deixou-se ficar, observando o movimento. Depois de uma hora foi que decidiu sair. Pagou a conta e, ao chegar na porta, deu de cara com Inácio, que estava chegando:

— Inácio! Há quanto tempo!

— Ivo! Seu sumido! O que está fazendo aqui? Depois do abraço forte, Ivo respondeu:

— Bateu saudade dos amigos e do nosso tempo de faculdade.

— Pois é! Você desistiu, largou os estudos, se casou, sumiu, nunca mais nos vimos. Mas eu nunca deixei de vir aqui. Não sei ir para casa sem antes passar aqui. Vamos comemorar, tomar alguma coisa.

— Eu já estava saindo, mas não vou perder esta oportunidade.

Eles entraram e Inácio, que era conhecido do garçom, conseguiu arranjar uma mesa onde eles se sentaram. Ivo sentia-se alegre e relaxado. Enquanto tomavam uma cerveja e comiam alguns bolinhos de carne, relembravam os tempos de estudante.

Ivo quis saber notícias de mais dois amigos que faziam parte do grupo. Um deles fora ao exterior tentar a sorte e nunca mais dera notícias; já o Renato se formara junto com ele, estava advogando no Rio de Janeiro.

Ivo perguntou:

— E você, como vai a vida?

Inácio pensou um pouco e respondeu:

— Bem, mas não tive a sorte que você teve. Não encontrei uma mulher que me suportasse, um sogro rico e continuo batalhando para fazer uma carreira, mas sabe como é, advogar não é fácil. Há muita concorrência. Você sabe, minha família é pobre e até agora não tive condições de montar um escritório.

— Mas você se formou, deve estar trabalhando.

— Estou. Mas começar do nada foi difícil e eu optei por trabalhar com dois advogados famosos para ganhar experiência e ter dinheiro para montar o meu escritório. Estou lá há cinco anos e ainda não consegui realizar meu sonho. Às vezes penso que deveria ter escolhido outra profissão. Invejo você, que não precisa esquentar a cabeça para sobreviver.

Ivo olhou-o sério:

— Pois eu daria alguns anos da minha vida para estar na sua situação.

Inácio arregalou os olhos admirado:

— O quê! Vai me dizer que não está feliz? Ivo pensou um pouco e desabafou:

— Nem um pouco. Daria tudo para poder voltar atrás!

Inácio passou a mão pelo queixo e não respondeu logo. Ivo aproveitou o momento e em poucas palavras resumiu o que lhe estava acontecendo. Quando terminou, Inácio comentou:

— Desculpe ter tocado nesse assunto, eu não imaginava.

Ivo meneou a cabeça negativamente:

— Não se preocupe. Eu estava mesmo precisando desabafar. Foi bom. Sinto-me aliviado.

— Estou contente por tê-lo encontrado. Espero que daqui para a frente nós possamos nos ver mais vezes e trocar ideias sobre nossas vidas. Tenho me sentido muito só. Encontrá-lo foi muito bom.

Eles ficaram conversando algum tempo mais e Ivo assustou-se ao olhar o relógio e ver que passava das dez.

— Preciso ir embora. Eu não costumo chegar tarde em casa. Miriam deve estar aflita.

Inácio tirou um cartão da carteira e deu-o a Ivo:

— Vamos nos encontrar mais vezes. Ligue pra mim.

Ivo concordou, deu-lhe um cartão da loja e pouco depois se despediram. Aquele encontro fê-lo sentir-se muito bem, mais livre, mais dono de si.

Ao chegar em casa, viu as luzes todas acesas e o carro de Jorge parado na porta. A preocupação reapareceu.

Respirou fundo tentando se acalmar e entrou. Foi até a sala, onde viu Miriam deitada no sofá, Flora segurando a mão dela e Jorge acomodado na poltrona ao lado. Vendo-o entrar, Miriam sentou-se, rosto contraído de aflição, enquanto Flora sentou-se ao lado dela e Jorge o olhava com o cenho franzido.

— O que aconteceu, por que demorou tanto? —indagou Miriam nervosa.

— Nada de mais. Encontrei um colega de faculdade que não via desde aquele tempo. Ficamos conversando. Ela olhou para a mãe e disse:

— Está vendo, mamãe, ele não liga para mim. Enquanto eu me acabava de preocupação, imaginando que tivesse acontecido algum acidente grave, ele estava só conversando com um colega. Para ele, qualquer um é mais importante que eu.

Jorge fulminou Ivo com o olhar, enquanto Flora tentava confortar a filha:

— Não chore, minha querida. Nós te amamos, estamos aqui.

— Não há motivo para você incomodar seus pais e fazer toda essa cena. Eu fiquei conversando, me distraí, não vi o tempo passar. Não imaginei que você fosse ficar tão alterada.

Jorge interferiu:

— Você sabe que Miriam é sensível, não deveria ter feito isso.

Ivo sentiu uma onda de indignação e teve de fazer muita força para se controlar. Teve vontade de gritar, mandá-los embora, dizer o quanto estavam prejudicando a filha. Mas conteve-se. Sabia por experiência própria que se o fizesse a situação ficaria ainda pior. Tentou contemporizar.

Aproximou-se da esposa, olhou-a nos olhos e disse:

— Você está exagerando. Não aconteceu nada, eu estou bem, é melhor você se acalmar para não passar mal.

— Você bebeu! Onde foi que esteve de fato? Será que foi com um colega mesmo? Estou sentindo um cheiro diferente. Você esteve com alguma mulher!

Dessa vez Ivo não conseguiu controlar-se. Levantou-se irritado e respondeu:

— Não dá para conversar com você! Eu estive com um amigo para esfriar a cabeça. Não estou suportando mais seu descontrole. Desse jeito não vai dar mais para continuar! Trabalhei o dia inteiro, estou cansado, preciso de paz. Vou dormir no quarto de hóspedes.

E, olhando o sogro, continuou:

— Em vez de vocês ficarem aqui apoiando os caprichos dela, deveriam levá-la a um psiquiatra. A cada dia ela fica pior e eu não sei onde isso vai parar. Boa noite.

Enquanto Miriam caía no choro, os sogros olharam Ivo indignados e abraçaram a filha que não parava de chorar.

Ivo foi para o quarto, trancou a porta à chave, tomou um banho e deitou-se. Sabia que sua atitude teria consequências desagradáveis, mas, apesar disso, sentia-se aliviado. Virou-se para o lado, relaxou e pouco depois adormeceu.

 

Na manhã seguinte, quando o despertador tocou, Ivo abriu os olhos, sentou-se na cama lembrando-se dos acontecimentos da véspera. Coçou a cabeça indeciso. Não sentia nenhuma vontade de ir à loja e enfrentar as reclamações do sogro. Mas se não comparecesse, seria ainda pior. Decidiu ir. Arrumou-se e desceu.

Ao chegar na copa, sentiu-se aliviado por Miriam não estar à sua espera. Havia apenas uma xícara e ele deduziu que ela estivesse no quarto, esperando que ele fosse pedir-lhe perdão. Naquele momento, Ivo não tinha vontade de vê-la, ouvir suas queixas e muito menos de desculpar-se.

Vendo-o chegar, Claudete colocou o bule de café sobre a mesa. Ele serviu-se, terminou de comer e, antes de sair, vendo Claudete retirando a mesa, recomendou:

— Quando Miriam acordar, diga-lhe que hoje voltarei um pouco mais tarde.

— Dona Miriam não está. Dona Flora convidou-a para ir dormir na casa deles. Ela foi.

Ivo pensou um pouco, depois perguntou:

— Ela deixou algum recado para mim?

— Não, senhor.

— Está bem. Se na hora do jantar ela ainda não estiver em casa, você não precisa me esperar. Deixe tudo pronto que eu mesmo esquento. Pode descansar.

— Nada disso. É meu serviço e faço com gosto. Eu não durmo cedo mesmo.

Ivo sorriu e disse:

— Obrigado, Claudete.

Ele saiu e ela sacudiu a cabeça negativamente, dizendo a si mesma:

— Não sei o que essa menina tem na cabeça. Se eu tivesse tido um marido bonito e bom como ele, saberia dar valor. Por que para mim só tem aparecido homem malvado e feio?

Ivo saiu de casa sem vontade de ir à loja. Jorge deveria estar à sua espera para colocar o dedo em riste em sua cara e cobrar suas atitudes. Era inconcebível que um homem vivido como ele fosse tão cego e não percebesse que ele e Flora estavam impedindo a filha de crescer.

Miriam não tinha outro interesse na vida que não fosse ele. Era apegada demais. Seu assunto era sempre o mesmo. Vivia colada nele. Às vezes, ele lhe sugeria que arranjasse algumas amigas, aproveitasse os momentos de lazer, se interessasse por aprender algo, distrair-se. Mas ela recusava. Dizia que não existe amizade sincera e ela queria ser apenas dona de casa e esposa.

Ivo estava no limite de sua resistência, não aguentava mais. Sentia-se preso, humilhado, derrotado. Ao parar o carro na frente da loja, viu, através da vitrine, Jorge atrás do balcão, rosto carrancudo, cenho franzido e      não suportou. Deu partida no carro e saiu.

Rodou durante algum tempo sem saber aonde ir. Depois, sentiu vontade de andar um pouco. Talvez isso o ajudasse a relaxar. Deixou o carro em um estacionamento e caminhou sem destino, sem incomodar-se com a hora. Queria sentir-se livre, acabar com a tensão dos últimos tempos. Quando sentiu fome, tomou um lanche, depois andou até uma praça, observando os pássaros que passavam à sua volta, e sentou-se.

Sabia que sua atitude havia criado um problema maior. Teria coragem de suportar as reclamações de Jorge e as ameaças de Miriam sem reagir? Sentia que não. Naquele momento, lembrou-se de que sua mãe lhe falara de Franco, afirmando que ele era um bom profissional. Fazia meses que não se encontrava com o primo. Como psicólogo, talvez pudesse aconselhá-lo, dizer-lhe como lidar com essa situação.

Subiu ao apartamento, tocou a campainha e, para sua surpresa, foi Franco mesmo quem o atendeu:

— Ivo! Há quanto tempo! Como vai? — disse sorrindo.

— Mais ou menos. Desculpe vir sem avisar.

— Um dos meus clientes desmarcou a sessão. Foi sorte ter me encontrado. Entre, fique à vontade.

Acomodou-o na sala e perguntou:

— Aceita uma água, um café?

— Obrigado, não é preciso.

Franco indicou uma poltrona para que ele se sentasse e acomodou-se na outra.

   Ivo ficou calado durante alguns segundos, sem saber por onde começar. Franco disse com naturalidade:

— Sua mãe esteve aqui ontem. É sobre isso que deseja falar?

— Sim... mas não sei por onde começar.

— Comece expressando sua indignação, seu arrependimento, sua frustração.

— De fato. Estou no auge da indignação. Frustrado, arrependido de não ter ouvido os conselhos de mamãe, ter me casado com uma mulher tão despreparada para a vida. O pior é que os pais dela a tratam como um bebê o tempo todo! Eles estão tornando minha vida um inferno. Vivo pressionado, criticado, sem liberdade para nada. Não sei como lidar com isso, sinto vontade de largar tudo e sumir. Não aguento mais essa pressão.

Ele se calou, respirou fundo, passou a mão pelos cabelos e baixou a cabeça, envergonhado. Vendo que Franco continuava calado, ele continuou:

— Desculpe. Não consegui me conter.

— É bom pôr pra fora o que está sentindo. Alivia a pressão. Deve ter boas razões para estar assim.

Sentindo-se apoiado, Ivo ergueu a cabeça com certa altivez e respondeu:

— Tenho mesmo. Eles me tratam conforme o humor de Miriam. Levo uma vida dedicada ao trabalho, me esforço para não criar motivo de queixa, tento agradar de todas as formas, mas Miriam é ciumenta, mimada, cada dia exige mais provas do meu amor. Está sempre queixosa, chorosa, o que dá motivo a que tanto Jorge como Flora me cobrem e me tratem como se eu fosse o mais perverso dos homens.

Ele fez uma pausa e, como Franco continuasse calado, prosseguiu:

— Não sei por que estou reclamando. A culpa foi minha, fiz tudo errado. Eu sabia que ela era mimada, ciumenta, que seus pais a superprotegiam e, mesmo assim, me casei, pensando que com o tempo ela amadureceria.

— Mas isso não aconteceu, não é mesmo?

— É. E agora estou perdido, não sei o que fazer para que eles mudem.

— Você não pode fazer nada. As pessoas só mudam quando elas acham que precisam. Eles estão confortáveis nesse estado de coisas.

— Não pode ser. Nossa vida é um inferno. Não entendo como podem estar felizes nessa situação.

— Eu não disse que estão felizes, mas que estão confortáveis. Acomodaram-se. Os pais são apegados à filha e acreditam que precisam protegê-la. No fundo não acreditam que ela tenha condições de cuidar de si mesma. Acham que estão dando o melhor de si e pensam que você, como marido, deveria fazer o mesmo que eles.

Ivo olhou-o admirado:

— Será? Como podem ser tão infantis? Miriam já está com vinte e seis anos!

— Eles não enxergam o mal que estão fazendo impedindo-a de cuidar da própria vida. Ela, por sua vez, sente-se amada, protegida incondicionalmente, espera que você, como marido, a cubra de mimos como eles o fazem. Como você não faz isso, ela duvida do seu amor. Para ela, amar é fazer do jeito que seus pais fazem.

— Eu nunca faria isso. Eu a considero uma mulher, não um bebê.

— Eles sentem-se confortáveis agindo assim e não pensam em mudar, e você, que percebe a vida de outra forma, não aceita. É uma situação conflitante.

— É isso mesmo. Eu não aceito mesmo o modo como eles vivem. Eu gosto de paz, sou carinhoso, gostava muito de Miriam quando nos casamos. Mas, nesses sete anos de convivência, esse amor quase desapareceu.

Ivo passou a mão pela testa como querendo tirar da mente esse pensamento. Franco pensou um pouco, olhou-o sério e disse:

— Você está em crise. No momento não sabe o que quer fazer.

— Eu sei o que quero. Por mim não voltava mais para aquela loja nem para minha casa.

— Você precisa arejar a cabeça. Vamos tomar um café e lembrar os velhos tempos, quando éramos crianças e jogávamos pelada no campinho, perto de casa. Você era terrível, sempre rindo, fazendo piadas, roubando pedaços daquele bolo de cenoura que vovó fazia e comíamos escondido. Lembra-se?

O rosto de Ivo distendeu-se e seus lábios abriram-se em largo sorriso:

— Bons tempos aqueles! Não sei o que eu daria para voltar e poder direcionar minha vida de forma diferente.

— Voltar ao que foi é impossível, mas você pode programar as coisas de uma forma melhor.

Franco foi à cozinha e Ivo o seguiu. Enquanto falava, relembrando coisas da infância, ele colocou água para ferver, apanhou xícaras, uma lata de bolachas, passou o café e acomodaram-se na mesa.

— Não sei se o café ficou bom. Tenho me esforçado, mas ainda não posso dizer que sei mexer no fogão, comentou ele enquanto servia o café.

— Deve estar ótimo, tem o carinho da amizade.

Franco olhou-o sério e respondeu:

— É verdade. Nós sempre nos demos muito bem. Pena que a vida tenha nos separado todo este tempo.

— Ninguém lamenta mais do que eu. Você estudou, se formou, enquanto eu parei no meio do caminho. Estou muito arrependido de ter feito isso.

Franco meneou a cabeça negativamente, dizendo:

— Não se culpe por isso. Você fez o que julgou melhor. Mas você pode recuperar o tempo perdido. Ivo olhou-o admirado:

— Você está dizendo para eu voltar a estudar?

— Por que não? Você é jovem, tem muitos anos para viver. O importante é querer.

— Não sei... é difícil, depois de tanto tempo, recomeçar...

— Você não está satisfeito com sua vida. Sente-se desmotivado, angustiado, preso em um círculo vicioso que o está infelicitando.

— Isso mesmo, estou sufocado, me sinto preso.

— Ninguém o está obrigando a nada. Você está apenas colhendo o resultado de suas escolhas. Já sabe que esse caminho não o satisfaz. É hora de mudar, reavaliar seus sentimentos e escolher coisas que o satisfaçam, lhe tragam alegria, realização.

— Mas, fazendo isso, assumi responsabilidades, e  hoje não sei como sair delas sem machucar as pessoas com as quais me envolvi.

— Sei que você tem boa formação, não deseja magoar ninguém. Mas até que ponto é justo se magoar e suportar uma situação tão infeliz? Você ainda a ama? Ivo não respondeu logo, pensou um pouco, depois disse:

— Não sei dizer. Ora a vejo como uma criança mimada, irresponsável, ora como uma mulher ciumenta e controladora. Estou sempre me defendendo. Não sinto vontade de demonstrar amor e ela se ressente disso. Mas não posso fingir o que não sinto.

Franco ficou calado durante alguns segundos esperando que Ivo continuasse. Mas ele não disse nada. Então Franco comentou:

— Você está muito tenso, precisa relaxar. Se continuar dessa forma, estará sujeito a perder o controle e cometer atos que não deseja.

Ivo levantou os olhos e neles havia muita tristeza. Quase gritou ao responder:

— Como posso relaxar se tanto na loja como em casa sou pressionado? Ela já tentou suicídio uma vez e temo que um dia o faça de fato. Como posso lhe dizer que estou arrependido de ter me casado, de ter aceito o emprego que Jorge me ofereceu, que meu amor por ela acabou e que a cada dia fica mais difícil suportar a vida em comum?

Lágrimas desciam pelo seu rosto. Franco levantou-se, apanhou uma caixa de lenços de papel, colocando-a ao alcance das mãos dele, que rapidamente apanhou um e enxugou o rosto molhado.

Franco esperou em silêncio. Os soluços foram diminuindo até que pararam. Então Franco apoiou a mão sobre o braço dele, sem dizer nada. Permaneceram assim durante alguns minutos, até que Ivo respirou fundo e disse:

— Desculpe. Eu não consegui me conter. Você deve me achar um fraco.

— Ao contrário, você é muito forte! Aguentar tanta pressão, por tanto tempo, não é para qualquer um. Foi bom desabafar, jogar fora as energias ruins.

— Obrigado por me escutar. Não tenho ninguém para desabafar. Minha mãe tentou me abrir os olhos antes do casamento, mas eu não lhe dei ouvidos. Sei que eles pensam que devo me separar, mas, tanto quanto eu, temem o pior.

— Você está sendo pressionado constantemente, sua situação externa já é estressante por si mesma. Você não tem como fazer os outros mudarem, mas pode lidar com isso um pouco melhor.

— De que forma?

— Jogando fora a culpa. Naquele tempo você agiu pensando estar fazendo seu melhor. Hoje, sabe que não foi uma boa escolha.

— Estou muito arrependido, sinto-me fracassado.

— Não faça isso com você. As coisas não saíram como esperava, mas o poder de escolha ainda é todo seu. Você pode enfrentar os desafios com coragem, reverter a situação.

— Como?! Estou de mãos amarradas. Miriam é fraca. Se ela se suicidar, minha vida estará destruída. Não poderei suportar.

— Já experimentou expor o que sente para seu sogro?

—      Claro que não! Ele não me ouviria. Não me respeita, não se interessa pelo que penso ou sinto. Seria uma humilhação inútil.

Franco pensou um pouco e seus olhos fixaram os de Ivo quando afirmou:

— Ele não o respeita porque você não se dá ao respeito.

Ivo olhou-o surpreendido e reclamou:

— Agora você está me ofendendo!

— Não, estou apenas lhe mostrando que é você quem não se valoriza.

— Não estou entendendo...

— Desde o começo, você sempre fez tudo que ele quis, mesmo não gostando. Nunca se colocou, nunca lhe disse não. Mesmo não querendo fazer, cedeu, aceitou sem reclamar. Como queria que ele o respeitasse?

Ivo ergueu a cabeça admirado, pensou um pouco e considerou:

— Eu fiz isso por respeito a ele. Achei que discordar seria indelicado. Afinal, ele era o pai da Miriam, eu precisava respeitá-lo.

— Você está confundindo as coisas. O fato de se recusar a fazer algo contra seus verdadeiros sentimentos não é falta de respeito a ninguém, seja quem for. O sim e o não, ditos com sinceridade, valorizam suas atitudes, mostram quem você é. Já a passividade absoluta revela uma personalidade fraca, incapaz de dirigir a própria vida, faz com que os outros desejem monitorá-la. Entendeu?

Ivo passou a mão pela testa como querendo libertar-se do peso dos próprios pensamentos:

— Nunca tinha pensado nisso! Você tem razão. Como tenho sido fraco todos esses anos! Estou aturdido.

Abaixou a cabeça pensativo e ficou alguns segundos em silêncio. Franco sorriu e lembrou:

— Mas você não é assim! Eu me recordo de que você era líder no colégio, sabia o que queria, se colocava com facilidade.

Ivo levantou a cabeça atento, seus olhos brilharam e seu rosto distendeu-se:

— Bons tempos aqueles!

— Mas você ainda é o mesmo! Tem vivido equivocado, não tem usado sua força, mas ela continua dentro de você e pode ser retomada quando achar conveniente. Basta querer!

— Eu adoraria me sentir bem como naquele tempo. Mas as circunstâncias hoje são outras. Se eu fosse agir conforme tenho vontade, jogaria tudo para o alto, casamento, emprego, mulher, e retomaria o controle da minha vida. Mas Miriam não suportaria!

— Você pode fazer isso sem usar de violência. Usando atitudes adequadas, sinalizando o que deseja, reassumindo assim o controle de sua vida.

— Acha possível isso?

— É possível. Mas para isso você terá primeiro de aprender a lidar melhor consigo mesmo, com seus próprios sentimentos, saber o que é importante para a conquista da sua felicidade. Depois será mais fácil encontrar o melhor caminho, que poderá ser natural e consequente.

— Você poderia me ensinar a fazer isso?

— Posso apenas tentar mostrar-lhe o que faz um bom relacionamento, mas é você quem deve escolher por onde deseja ir.

— Conversar com você fez-me olhar a situação de forma mais clara. Reconheço que não tenho me posicionado como deveria.

— Não se culpe por isso, você fez o que pensou ser melhor.

— É verdade. Eu sou uma pessoa de paz, gosto de me dar bem com todos. Mas nem sempre consigo.

Franco sorriu e considerou:

— Ao relacionar-se com os outros, a conquista da paz só acontece quando você for capaz de expressar o que sente, dosando o sim e o não de forma adequada.

— Como fazer isso sem chocar as pessoas?

— Com naturalidade. Sendo sincero, negando-se a fazer coisas que não quer apenas para satisfazer os outros.

Ivo ficou calado durante alguns segundos, pensando o que aconteceria se ele chegasse em casa e dissesse para Miriam que detestava ouvir o tom da voz dela quando reclamava, ou ao sogro o quanto odiava a postura dele, o tom com o qual lhe falava quando mencionava a fragilidade da filha, culpando-o pelos problemas dela. Depois disse:

— Se eu chegasse em casa e fosse dizer o que sinto, provocaria uma tragédia.

— Não se o fizesse no momento certo e de forma adequada.

Ivo meneou a cabeça negativamente:

— Você diz isso porque não os conhece tão bem como eu. Eles estão completamente fora da realidade.

— Pode ser, mas dá para perceber que está acontecendo o mesmo com você. Está paralisado pelo medo e incapaz de olhar os outros lados da situação. Vocês vivem em um círculo vicioso onde todos estão iludidos e fora do mundo real.

Ivo olhou-o sério e observou:

— Às vezes penso que estamos vivendo um pesadelo. Confesso que não estou aguentando mais. Você pode me ajudar? O que posso fazer para mudar isso?

— Você está muito tenso. Precisa relaxar. Venha.

Franco levou-o até o quarto e fê-lo deitar-se.

— Feche os olhos e relaxe.

Ele ligou o som e logo uma música suave encheu o ar. Depois colocou a mão direita sobre a testa de Ivo, dizendo com suavidade:

— Respire lentamente. Este é o seu momento. Esqueça os problemas, relaxe. Você está protegido. Nada de mau vai lhe acontecer. Imagine que está em um jardim florido, em um dia de sol. Sinta a brisa leve que passa acariciando seu rosto. Ouça o cantar alegre dos pássaros que passam em bando, e sinta a beleza da vida cantando as glórias da natureza. A tempestade passou, a atmosfera está renovada, cheia de energia vital.

Franco continuou falando suavemente, até que percebeu que Ivo tinha adormecido. Sem fazer ruído, deixou o quarto às escuras, fechou a porta e saiu.

 

Ivo acordou, olhou em volta estranhando por não estar em casa. Viu Franco adormecido na poltrona e levantou apressado, recordando-se de onde estava. O relógio sobre a mesa de cabeceira marcava três horas. Era madrugada.

Passou a mão pelos cabelos pensativo, sem saber o que fazer. Franco abriu os olhos e, vendo-o, perguntou:

— Como se sente?

— Envergonhado. Por que não me acordou? Eu estava na sua cama!

— Não se preocupe com isso. Como está se sentindo?

— Bem... mais calmo. Estou mais calmo. Apesar dos problemas ainda serem os mesmos. Desculpe, estou abusando. Você ficou mal acomodado.

Carlos remexeu-se na cama e Ivo continuou em voz baixa:

— Vou embora. Carlos vai acordar. O que ele vai pensar de mim?

Franco levantou-se e fez sinal para que Ivo o acompanhasse até a cozinha.

— Que você demorou muito para aparecer. De nós três, Carlos é quem sente mais falta do tempo em que nossos pais estavam vivos.

— Você deveria ter me acordado.

— Você precisava muito desse descanso. Fez-lhe muito bem. Sinto que está mais relaxado.

— Desabafar me fez bem. Mas fico arrepiado só em pensar que terei de voltar para casa e, o que é pior, ir trabalhar naquela loja.

— Será que vale a pena continuar trabalhando lá? Você está pagando um preço muito alto por isso.

— Você acha que eu devo deixar a loja?

— É você quem deve sentir e decidir o que quer fazer. Talvez, olhando os outros lados da questão, mudando o enfoque, possa encontrar saídas menos drásticas. Pense nisso.

— Vou pensar. Agora tenho que ir. Obrigado por tudo. Você me ajudou muito. Você me aceitaria como cliente? Franco sorriu e respondeu:

— Nós somos primos, venha quando quiser.

— Eu me sentiria melhor se você me atendesse como um cliente de forma regular. Eu gostaria de aprender a me colocar de forma adequada, de lidar melhor com as pessoas. Estou certo de que pode me ajudar muito.

— Está bem. Vou ver meus horários e ligarei marcando.

— Não demore. As coisas lá em casa não estão nada bem.

— Amanhã mesmo lhe darei uma resposta.

Ivo despediu-se e saiu. Quando entrou no carro, lembrou-se de que Miriam tinha ido dormir na casa dos pais. Respirou aliviado. Não tinha vontade de encontrar-se com ela.

Foi para casa e, ao entrar, sentiu o coração apertado. E se ela tivesse voltado? Sempre que ela fazia isso, ele ia atrás para buscá-la e acabava trazendo-a de volta. E se ela, vendo que ele não aparecia, tivesse decidido voltar?

Ao entrar no quarto, respirou aliviado. A cama estava arrumada.

Lembrava-se das palavras de Franco e percebia o quanto estava sendo inábil para lidar com a situação. Por outro lado, o que fazer? Deveria ir trabalhar como se não houvesse acontecido nada, ou ir logo cedo à casa do sogro para ver Miriam?

As duas coisas o incomodavam. De um lado, ele preferia ir à loja, enfrentar o sogro e dizer que Miriam fora mimada pelos pais e que, dali para a frente, iria tratá-la como uma mulher adulta, sua esposa, e não como uma criança. Mas sentia medo da reação dele. Não se sentia com coragem para tanto.

Ficou pensando sem ter chegado a uma conclusão. No horário costumeiro, tomou um banho, arrumou-se e desceu para o café.

Claudete já havia colocado o café na mesa e, vendo-o, perguntou:

— Dona Miriam ainda está dormindo?

— Não. Ela ainda não voltou da casa de dona Flora.

Claudete olhou-o admirada, mas não disse nada. Conhecia bem como as coisas funcionavam naquela casa e nunca dava palpite para não se envolver.

Ivo tomou café e saiu. No carro, decidiu ir diretamente à loja. Chegou antes do sogro, abriu e os funcionários entraram. Pouco depois Jorge chegou, colocou seus pertences na outra sala, e chamou Ivo.

Vendo-o entrar, encarou-o e perguntou:

— Por que você não foi buscar sua mulher em minha casa? Claudete não lhe deu meu recado?

— Ela disse que Miriam resolveu ir dormir lá. Eu estava muito cansado e preferi ir dormir.

— Ah! Você estava muito cansado e foi dormir! Como pode ser tão insensível? Você sumiu, não voltou para casa no horário de costume, ela ficou desesperada, imaginando que tivesse lhe acontecido alguma coisa grave, um acidente, nos chamou e, quando chegamos, ela estava a ponto de ter uma crise. Ela não nos deixou dormir a noite inteira por sua causa. Por que não foi buscá-la como de costume?

— Porque eu sabia que ela não iria me deixar dormir. Eu não estava bem, precisava descansar para poder vir trabalhar.

— Você não pensou em nós? A obrigação é sua. Precisa cuidar da sua mulher.

Ivo sentiu um certo prazer por perceber que ele estava muito irritado e disse com naturalidade:

— Eu confio muito no senhor e na dona Flora. Vocês sabem melhor do que eu como cuidar dela. Já notou como ela prefere chamá-los todas as vezes que fica nervosa?

Jorge considerou:

— Ela nos chama porque sabe que a apoiamos. Já você não tem para com ela o carinho que deveria. Miriam sempre foi muito frágil e você sabe disso. Sua atitude é imperdoável. Vá imediatamente lá em casa e veja se pode remediar isso, antes que ela tenha mais uma crise.

Qualquer coisa no tom do sogro irritou Ivo, que não se conteve:

— Miriam precisa crescer, comportar-se como uma mulher. Se continuarmos apoiando suas atitudes, ela nunca vai melhorar!

O rosto de Jorge cobriu-se de rubor e ele disse entre dentes:

— Como pode ser tão insensível? Devia agradecer por ter como esposa uma moça tão amorosa e dedicada. Vá até lá e trate de se desculpar com ela. Talvez assim eu não leve a sério suas palavras.

Ivo sentiu a raiva aumentar. Jorge o tratava como um menino mal-educado, quando, na verdade, eles eram os responsáveis pelos problemas da filha.

— Sinto que pense assim. Não vou me desculpar. Não fiz nada de que possa me arrepender. Encontrei um amigo que não via fazia anos. Ficamos conversando e não vi o tempo passar. Não era motivo para que ela os incomodasse, nem para ir dormir em sua casa. Se ela fosse uma pessoa equilibrada, teria me esperado, conversado comigo para saber o que tinha acontecido e tudo ficaria em paz. Mas não. Ela precisava infernizar a vida de todos nós.

Os olhos de Jorge faiscavam de raiva quando disse:

— O que está acontecendo com você? Por que está agindo assim? Parece que enlouqueceu! Não o estou reconhecendo! O que foi que esse tal amigo lhe disse que virou sua cabeça? Só pode ser isso. Não pode estar falando sério!

Ivo levantou a cabeça com altivez e respondeu:

— Há muito tempo eu devia ter tomado esta atitude. Estou cansado dessa situação humilhante a que estou submetido. Vocês só pensam nela e, enquanto ela se faz de vítima, eu é que sou o ruim. Cheguei ao meu limite. Não suporto mais esta situação. Se quiser, pode me demitir, mas não vou mais fazer coisas que me deprimem.

De tão surpreendido, Jorge, de pronto, não encontrou palavras para responder. Deixou-se cair na poltrona, passando as mãos pelos cabelos, aflito. Parecia-lhe que o mundo estava desabando diante dos seus olhos.

— Sinto muito que as coisas tenham chegado a este ponto. Com licença.

Ivo deixou a sala sentindo-se triste, mas ao mesmo tempo aliviado.

Jorge respirou fundo, tomou um pouco de água, sentou-se novamente pensativo. Não sabia o que fazer. Tinha vontade de demiti-lo pela insubordinação, mas, se o fizesse, o que diria para Miriam? Ela era muito apaixonada pelo marido e não suportaria viver sem ele. Não. Ele não podia fazer isso. Seria muito perigoso.

Apesar de muito contrariado, sentiu que o melhor seria contemporizar. Fingir que, por amor ao casal, não levaria em consideração suas palavras, se ele fosse buscar Miriam e a levasse para casa.

Telefonou para Flora e perguntou:

— Como está Miriam?

— Ivo não apareceu até agora. Ela estava muito deprimida e agitada. Eu dei-lhe um daqueles comprimidos do doutor Norberto, fiquei conversando, tentando acalmá-la, e ela acabou adormecendo. Por que será que Ivo não veio?

— Ele veio trabalhar como se nada houvesse. Sabe o que ele teve o desplante de dizer?

— Não...

— Que não fez nada de mais, atrasou-se porque ficou conversando com um amigo de infância e não viu as horas passar. E que não ia buscá-la nem desculpar-se.

O inesperado emudeceu Flora durante alguns segundos. Depois disse:

— Ele teve coragem de dizer isso?

— Teve. Disse que Miriam não cresceu e que nós dois somos culpados por ela ser como é. Que eu poderia demiti-lo, que não se importaria.

— Que desaforado! Certamente você respondeu à altura e colocou-o no devido lugar!

— Nem isso pude fazer. Estamos de mãos amarradas. Já pensou o que pode acontecer se eu o demitir?

— Não quero nem pensar! Miriam pode fazer uma besteira.

— Nem diga uma coisa dessas!

Jorge respirou fundo e continuou:

— Sabe, eu estive pensando... É melhor eu usar a inteligência, agir com bom senso...

— O que pensa fazer?

— Me fazer de vítima, falar do amor que sentimos pela nossa filha. Para evitar que ela faça uma loucura, estamos dispostos a esquecer o que ele disse. Pedir que vá buscá-la como sempre fez.

— É... Você acha que ele vai voltar atrás?

— Acho. Afinal, ele também morre de medo de que ela faça alguma coisa ruim. Penso que, assim, tudo ficará resolvido.

— Mas que sujeitinho mal-agradecido. Se não fosse por ela, eu o poria para fora não só da loja, mas também de casa. Afinal, tudo que ele tem fornos nós que demos.

— Para você ver, não se pode confiar em ninguém, mesmo depois de termos feito tudo que pudemos para ajudar.

— Fale com ele e depois me ligue. Preciso ter o que lhe dizer quando ela acordar.

— Está bem. Vou esperar um pouco mais, preciso me acalmar para fazer bem a cena de tristeza.

— Não demore muito. Sabe como ela é. Quando põe uma coisa na cabeça, não quer esperar.

— Não vou demorar. Fique tranquila, vai dar tudo certo.

Ele desligou e ficou imaginando como voltaria ao assunto com o genro.

Enquanto ele pensava, Ivo se esforçava para trabalhar como se nada houvesse. Sentia-se aliviado, o desabafo lhe fizera bem, mas, por outro lado, estava receoso de como todos reagiriam. Percebera que a reação do sogro fora causada pela surpresa, mas pelo que conhecia do seu temperamento, sabia que ele encontraria uma forma de revidar. Não aceitaria sua atitude. Estava claro que só não fora demitido para poupar Miriam. Jorge temia contrariá-la.

No fundo não ficou satisfeito com a atitude dele. Teria preferido que ele o tivesse mandado embora, o que lhe daria condições de escapar não só do detestável emprego, como daquele casamento infeliz.

De repente Ivo entendeu: ele controlara a raiva para que a situação continuasse sendo mantida.

Se o casamento acabasse, eles teriam de suportar o descontrole da filha sozinhos, sem ter quem aliviasse seus problemas.

Ficou claro para ele: enquanto continuasse fazendo todas as vontades da esposa, lhes daria menos preocupações.

A sensação de ser usado por eles o irritou e, apesar dos seus receios, resolveu não ceder mais aos caprichos da mulher. Não iria buscá-la na casa dos sogros, como sempre fizera. Desta vez, ela voltaria quando tivesse vontade.

Pouco antes do horário de almoço, Jorge chamou-o novamente. Ivo entrou na sala, notou que ele estava com a fisionomia preocupada. Vendo-o, disse com voz triste:

— Sente-se, Ivo. Precisamos conversar.

Ivo obedeceu e ele prosseguiu no mesmo tom:

— Liguei para Flora e ela me disse que Miriam está muito nervosa. Tomou um calmante, mas já deve estar acordando. Ela pediu que você vá buscá-la o quanto antes, a fim de evitar que ela fique pior.

Ivo olhou-o sério e respondeu com voz calma:

— Eu não pretendo ir buscá-la. Ela saiu de casa por sua livre vontade, sem me consultar ou me dar satisfações. O casamento não aprisiona ninguém, ela é livre para ir e vir. Portanto, estarei em casa para recebê-la quando ela quiser voltar.

Jorge, de tão surpreso, de pronto não encontrou palavras para responder. Seu rosto cobriu-se de rubor e ele levantou-se indignado. Ivo, apesar de sentir o coração bater descompassado diante da reação dele, continuou com voz que procurou tornar firme:

— Eu sempre estive à disposição dela com a maior paciência e boa vontade, apesar de todas as infantilidades que ela comete. Mas eu sei que, enquanto continuar fazendo tudo que ela quer, Miriam continuará a comportar-se como uma criança mimada, nos infelicitando e sendo infeliz. Ela precisa entender, assumir a própria vida e crescer.

Jorge empalideceu, deixou-se cair na cadeira, passou a mão nos cabelos, colocou-a no peito e disse nervoso:

— Você quer me matar! Estou sem ar... Como pode fazer isso comigo?

Ivo apanhou um copo de água e deu-o ao sogro, dizendo:

— Não estou fazendo nada errado. Só quero que minha mulher se torne uma esposa de verdade, porque até agora ela tem sido uma filha mal-educada que preciso suportar e vocês não me têm dado a liberdade de ajudá-la a crescer. Como o senhor pensa que eu tenho me sentido? A cada dia sinto menos vontade de voltar para casa e dificuldade de ter intimidade com ela.

Jorge segurou o copo de água que estava à sua frente e bebeu alguns goles. Ivo prosseguiu:

— Desculpe-me, senhor Jorge. Não tive nenhuma intenção de ofendê-lo. Mas as coisas não podem continuar como estão. Todos estamos tensos, nervosos, infelizes, e Miriam também não é feliz.

— Você está sendo muito cruel! Pensei que o conhecesse bem, mas vejo que estava enganado. Penso que você não ama minha filha. Casou-se com ela por causa do meu dinheiro. É um preguiçoso, não queria estudar e eu fui um tolo em ajudá-lo. Não vou suportar que fale assim de todos nós. Se você não for imediatamente em casa buscar Miriam, vou processá-lo por difamação e fazê-lo pagar caro pela sua atitude.

Ivo empalideceu, endireitou o corpo e respondeu com altivez:

— Faça isso, senhor Jorge. Não me importo com mais nada. Hoje mesmo vou arrumar minhas malas e sair de casa e da vida de vocês.

Ivo deixou a sala pisando firme, enquanto Jorge, com mãos trêmulas, bebia mais alguns goles de água, tentando em vão se acalmar.

Naquele momento Ivo não pensou nas consequências do que fizera. Sentia-se aliviado, livre, como se tivesse acordado de um pesadelo. Foi para casa, arrumou todas as suas coisas e só então pensou no que fazer.

Não queria voltar para a casa da mãe com as malas. Achou melhor ir para um hotel esfriar a cabeça e depois decidir que rumo dar à sua vida.

Levou as malas para o carro, acomodou-se e só então pensou aonde iria. Lembrou-se de um hotel em que estivera para conversar com um fornecedor da loja e decidiu ir até lá. Era de nível mediano, mas lhe pareceu adequado para o momento. Estava desempregado e queria economizar. Era uma emergência, se não gostasse, procuraria outro no dia seguinte.

O que ele queria era sair o mais rápido possível dali, antes que o sogro ou Miriam aparecesse. Foi para o hotel e instalou-se. O quarto era simples, mas limpo e bem arejado. Sentiu-se bem lá. Abriu a janela e respirou satisfeito. Sentia-se de bem com a vida.

Sentou-se diante da pequena mesa, pensando o que seria bom fazer, e decidiu não dizer a ninguém onde estava. Queria que Miriam e os sogros soubessem que a decisão dele era definitiva. Só em pensar como estariam reagindo à sua atitude sentia-se mal.

Sabia que uma hora teria de enfrentá-los e o faria, mas achava melhor esperar que eles refletissem, a poeira baixasse e aceitassem a separação deles.

Naquele momento, foi inevitável pensar que rumo daria à sua vida dali para frente. Se ao menos ele houvesse terminado os estudos, teria uma profissão.

Pensando nisso, sentiu raiva do sogro, de si mesmo, arrependendo-se amargamente de haver aceitado a opinião dele. Com palavras convincentes, ele pintara as vantagens: deixar de "perder tempo na faculdade" e começar a ganhar muito dinheiro rapidamente ao lado dele.

Respirou fundo e pensou:

— O culpado fui eu por fazer o que ele disse!

Apesar de tudo, sentia-se livre e animado para recomeçar. Sentiu fome. Passava das quatro e ele não havia almoçado. O horário de refeição do hotel havia terminado. Ele saiu, foi até a banca na esquina, comprou o jornal e viu um restaurante do outro lado da rua.

Foi até lá, sentou-se, fez o pedido e, enquanto esperava, abriu na seção de classificados e começou a ler as ofertas de emprego.

Não encontrou muita coisa, mas marcou duas empresas cujas ofertas poderiam lhe interessar. Comeu com apetite e voltou ao hotel.

Sentiu vontade de conversar com alguém. Ligou para Franco, contou-lhe tudo, mas pediu-lhe que não desse o endereço dele a ninguém.

— Nem à sua mãe?

— Nem a ela. Por enquanto, não. Conforme for, amanhã eu mesmo ligo e falo com ela.

Franco concordou e ele desligou satisfeito. Depois tirou o paletó, os sapatos e estendeu-se na cama. Queria descansar um pouco. Mais tarde pensaria no que fazer.

Dentro de poucos minutos ele adormeceu.

 

Gisele entrou no apartamento apressada, lavou as mãos e viu Carlos na porta da cozinha:

— Estou atrasada — disse —, vou fritar um bife e fazer uma salada.

— Não precisa. Eu já fiz um macarrão com aquele molho branco que você gosta.

Gisele suspirou aliviada:

— Ainda bem. Eu estava me culpando por causa disso.

— Ponha mais um prato e venha me fazer companhia. Gisele obedeceu satisfeita, serviu-se e comeram com apetite. Depois, ela comentou:

— Adoro seu macarrão. Ainda bem que deixamos um pouco para o Franco. Ele também gosta muito.

— Ainda vou ter um bom restaurante, você vai ver!

— Eu acredito!

Pouco depois que ele se foi, Franco chegou e, após comer, ajudou Gisele na arrumação da cozinha. Estavam terminando quando a campainha tocou e ele foi abrir.

— Tia Olga! Como vai?

— Mais ou menos. Quero falar com você!

— Entre, por favor. Vamos até a sala.

Depois de acomodados, Franco perguntou:

— Então, tia, em que posso ajudar?

— Estou muito nervosa por causa do Ivo. Ele largou tudo e desapareceu. Ninguém sabe onde está. Franco não disse nada e ela continuou:

— Miriam está desesperada, Jorge me procurou para pedir ajuda, Flora não sai do lado dela um minuto. Hoje, não sei como, Miriam pegou um vidro de calmante e tomou inteirinho. Jorge culpou Ivo e ameaçou de dar queixa à polícia. Davi nem foi trabalhar, está lá, tentando acalmar os ânimos. Não sei o que fazer. Vim pedir ajuda. Talvez você possa ir comigo lá, tentar ajudá-la... seria um grande favor.

— Eu posso ir, tia. Mas não sei se poderei fazer alguma coisa. Na semana passada, Ivo me procurou, conversamos, ele desabafou. Não estava suportando mais a situação.

Olga levantou-se aflita:

— Você sabe por que ele fez isso? Sabe para onde ele foi?

— Sei, tia. Mas ele não quer ver ninguém. Acalme-se. Vamos conversar.

— Ele sempre foi calmo, o que aconteceu para ele tomar essa atitude?

— O de sempre. Desde que casou, Ivo tem vivido tenso, se esforçando para não desagradar os sogros e a mulher, fazendo tudo que eles querem. Ninguém pode suportar isso muito tempo. Chega um momento em que a pessoa surta e deixa de se importar com as consequências.

— Mas ele precisa reconsiderar, pensar que Miriam é uma moça frágil. Eu cansei de falar com ele sobre isso antes do casamento. Mas ele não quis me ouvir.

— Ele fez o que julgou melhor na época. Estava apaixonado e imaginou que com o tempo ela aprenderia. Está pagando caro por seu erro.

— Você tem que me dar o endereço, vou falar com ele, convencê-lo a voltar atrás.

— Se fizer isso, tia, vai piorar ainda mais a situação.

— Já pensou o que vai acontecer se essa louca acabar mesmo se matando? Não quero que meu filho carregue essa culpa pelo resto da vida.

— Não creio que ela pense mesmo em se matar. Está apenas fazendo o que sempre fez para conseguir manipular o marido e toda a família. Isso está muito claro.

— É... eu já notei que ela, às vezes, finge para que todos façam o que ela quer. Durante o namoro deles, percebi muitas vezes como ela o manipulava. Ele acabava sempre fazendo tudo que ela queria, ainda que fossem coisas que ele não gostasse.

— Mesmo assim, você quer que Ivo volte, continue se anulando, sendo usado por ela? Acha justo com ele?

— Não... Você tem razão, mas e se ela...

— Sabe, tia, a esta altura Miriam já deve ter percebido que pode perder o marido. Ela já usou tudo que sabia e ele não voltou. Pode esperar. Ela vai mudar de tática, parecer mais controlada, ficar boazinha e tentar fazer Ivo acreditar que ela mudou. Pode esperar.

— Será?

— Vá falar com ela, tia. Vamos ver como se porta.

— Mesmo assim, eu gostaria de falar com Ivo antes disso. Você bem poderia me dar o endereço dele.

— Não posso, eu prometi a ele. Vamos fazer o seguinte, amanhã vou conversar com ele e, se ele concordar, lhe darei o endereço. Está bem?

Olga suspirou pensativa, depois disse:

— Está bem. Você promete que me liga amanhã?

— Ligo sim, tia. O que ele disser eu lhe contarei.

— Está bem, Franco. Obrigada.

Olga saiu do apartamento e foi direto à casa de Flora. A criada abriu a porta e, assim que entrou na sala, viu Jorge sentado. Ele levantou-se ao vê-la e indagou:

— Então, descobriu onde Ivo está?

— Ainda não. Fui falar com Franco. Ele sabe onde Ivo está, mas não quis me dizer.

Jorge levantou-se nervoso:

— Eu logo vi que alguém estava por trás das atitudes de Ivo. Ele nunca agiu assim. Só poderia ser o Franco. Vou falar com ele agora mesmo. Porque é psicólogo, acha que tem o direito de se meter na vida de toda a família.

— É melhor não ir. Ele me prometeu falar com Ivo e nos dar o endereço amanhã.

— Amanhã? Por que não agora? A situação está insustentável. Estamos aqui amarrados. Eu tenho que trabalhar, não posso ficar à mercê dos caprichos do Franco. Flora aproximou-se nervosa:

— Falem baixo! Miriam está descansando, não quero que ela ouça.

— Ela melhorou? — indagou Olga.

— Depois da lavagem estomacal, o médico não queria que ela dormisse. Você falava alto e ela ouviu o nome do Ivo. Queria levantar, mas ainda está tonta. Vou ficar com ela. Falem mais baixo. Ela precisa descansar.

— Franco sabe onde ele está, mas não quis nos dar o endereço. Pode ser uma coisa dessas?

— Vocês precisam entender. Ivo procurou Franco para conversar, desabafar, pedir-lhe conselhos.

— Ele disse isso? — perguntou Jorge.

Olga meneou a cabeça negativamente:

— Não. Mas eu imagino que tenha sido assim. Ivo pediu-lhe que não desse seu endereço a ninguém, nem a mim. Agora, Franco precisa corresponder à confiança dele. Vai falar com ele e pedir permissão para nos dar o endereço.

Jorge tinha se sentado, levantou novamente dizendo irritado:

— Isso não é possível. Seu sobrinho querendo nos prejudicar.

Flora suspirou e tornou:

— Pois eu entendo. Franco está procurando nos ajudar, convencer Ivo a nos dizer onde está.

— Isso mesmo — concordou Olga satisfeita. — Franco nunca nos prejudicaria. Vamos esperar até amanhã. Até lá, Miriam estará melhor e pode ser que tudo se resolva.

— Enquanto isso, nós ficaremos aqui, sem poder fazer nada — reclamou Jorge.

Flora interveio:

— Você não precisa ficar aqui. Vá trabalhar, cuidar dos seus negócios. Eu não arredarei o pé de perto dela. Vá em paz. Não adianta você ficar. Creio que o pior já passou. Miriam está arrependida do que fez. Sabe que desta vez foi longe demais e teme que Ivo não volte mais. Quando ele aparecer, quer lhe pedir perdão e tudo voltará ao normal.

— Isso mesmo. É uma questão de tempo — tornou Olga.

As palavras de Franco não lhe deixavam dúvidas.

Ivo não estava mais aguentando a situação. Mesmo que ele voltasse, sentia que eles nunca seriam felizes juntos.

Olga despediu-se, ficou de voltar no dia seguinte e saiu. Durante o trajeto até sua casa, as palavras de Franco continuavam em sua mente. Ela queria que o filho fosse feliz. Sentia que, enquanto ele continuasse ao lado da esposa, viveria angustiado. Depois, a conduta dos sogros só contribuía para piorar a situação. Sentia que eles eram os responsáveis pelas fraquezas da filha. Não a ensinaram a enfrentar os problemas com coragem e disposição. Nunca a deixaram cuidar de si mesma. Miriam manipulava os pais e queria fazer o mesmo com o marido, agia como uma criança mimada.

Olga sentiu que Franco estava certo e decidiu não intervir nas decisões do filho. Ele é quem deveria decidir se queria ou não continuar mantendo o casamento. Fosse o que fosse que ele decidisse, ela o apoiaria. Sentiu-se mais calma depois disso.

Chegou em casa e encontrou Davi na entrada. Vendo-a, ele perguntou:

— E então? Como vão as coisas? Ivo já apareceu?

— Não. Vamos entrar e conversar.

Uma vez acomodados na sala, Olga contou tudo para o marido e finalizou:

— Sinto que Franco está certo. Eu não vou me meter nessa briga. Nosso filho sabe o que quer da vida e tem o direito de escolher como quer viver. Acho que você deveria fazer o mesmo.

Davi ficou calado durante alguns instantes, depois considerou:

— Sabe que você tem razão? Nós nos cansamos de dizer ao Ivo que esse casamento não daria certo. Mas ele quis pagar para ver e viu. De nada adianta ficarmos lembrando o que já passou. O que importa agora é respeitar o que ele decidir e apoiá-lo. É o que podemos fazer.

— Se ele quiser se separar de Miriam, apoiá-lo não será fácil. Teremos que enfrentar não só a Miriam, mas Flora e Jorge. Os dois podem nos dar mais trabalho do que ela.

Davi pensou um pouco, sorriu e respondeu:

— Posso imaginar o que será isso. Mas, para ser bem sincero, dou razão a Ivo. Eu não suportaria viver com uma mulher como Miriam e muito menos sujeitar-me a trabalhar e depender dos sogros. Você deve lembrar-se de que fizemos tudo para impedir que Ivo largasse a faculdade.

— É verdade. Insistimos para que ele continuasse estudando, mesmo depois do casamento. Mas os sogros insistiram que a filha não ia se casar para ficar sozinha em casa até que ele se formasse.

— Imagino como ele deve estar arrependido de não nos ter ouvido.

— Se queremos ajudá-lo, não vamos remoer o passado. Para quê? Não temos como voltar atrás. O melhor é olhar para a frente.

Rosa aproximou-se e perguntou se podia servir o jantar. Olga concordou e os dois lavaram as mãos e foram sentar-se à mesa na copa.

Os últimos dias tinham sido de preocupação e desconforto. Mas, depois daquela conversa, tendo tomado uma decisão de como agir dali em diante, sentiam-se mais calmos e em paz.

Duas horas depois, estavam na sala vendo televisão quando Ivo chegou. Olga correu para abraçá-lo:

— Estávamos pensando em você! Ainda bem que veio!

Depois de abraçar também o pai, Ivo explicou:

— Franco me disse que você foi procurá-lo.

— Fui... Estava desesperada. Flora e Jorge não me davam sossego... Eles querem que você volte para casa.

— Não sei se quero voltar. Fiz tudo errado, mãe; estou arrependido de não ter escutado seus conselhos. Minha vida virou um inferno. Não aguento mais. Só em pensar em voltar para casa, sinto náuseas e arrepios pelo corpo.

Davi disse com carinho:

— Sente-se, meu filho. Acalme-se. Nós entendemos o que você está passando.

— Eu não queria vir aqui porque imaginei que Flora e Jorge deveriam estar por perto. Não estou em condições de suportá-los. Estou cansado de fazer tudo que eles querem. Sinto-me usado. Na verdade, eles não têm nenhuma consideração por mim. Para eles, sou útil apenas para servir de brinquedinho à filha. Estou me sentindo cansado, infeliz e sem entusiasmo para viver.

Os dois ouviam em silêncio, sentindo que ele precisava desabafar. Ivo continuou:

— Eu não quero mais voltar para casa. É isso. Odeio aquela loja, onde sou tratado como se fosse um incapaz. Não tenho um minuto de lazer. Outro dia, de volta pra casa, senti saudade dos tempos de solteiro e parei na lanchonete onde costumava me reunir com os amigos. Bons tempos aqueles!

Ele fez ligeira pausa e, vendo que os dois ouviam com atenção, prosseguiu:

— Não vi nenhum conhecido. Estava terminando de comer um sanduíche quando Inácio apareceu. Lembram-se dele?

— Claro, esteve várias vezes aqui em casa — disse Olga.

— Para mim foi como se eu tivesse voltado no tempo. Esqueci todos os problemas. Conversamos durante horas. Cheguei em casa passava das dez e o circo já estava armado. O carro de Jorge já estava parado na porta e Miriam passando mal no sofá, com meus sogros em volta. Claro que me repreenderam como se eu fosse o pior dos criminosos.

— Você não explicou o que tinha acontecido? —indagou Davi.

— Eu tentei, mas não me deram crédito. Não me contive e os enfrentei. Disse-lhes que, em vez de ficarem mimando a filha ainda mais, deveriam levá-la a um psiquiatra e depois, sem fazer caso das queixas dela, fui para o quarto de hóspedes, passei a chave na porta e dormi.

Os dois o olharam surpreendidos. Davi deu uma gargalhada e tornou:

— Fez muito bem! Eu teria feito pior.

— Na manhã seguinte, quando acordei, Claudete me disse que haviam levado Miriam para dormir na casa deles. Fiquei tentado a ir embora. Não sentia nenhuma vontade de ir trabalhar naquela loja. Não quero voltar lá nunca mais.

Olga tentou contornar:

— Eu entendo sua situação, mas você não pode ser tão radical.

— Posso, sim. Quero recomeçar minha vida, recuperar o tempo perdido. Trabalhar. Talvez volte a estudar.

— Mas... e Miriam, você não teme o que ela possa fazer?

— Sabe, mãe, está na hora de ela crescer. Durante todos esses anos fiz tudo que podia para fazê-la feliz. Mas nunca consegui. Enquanto os pais continuarem como são, ela não vai mudar e eu não quero participar mais disso. Tenho pensado muito. Se ela cometer algum desatino, não cabe a mim nenhuma responsabilidade. Estou disposto a me libertar.

— Seja como for, você precisa ir vê-la e dizer-lhe tudo que está pensando.

Davi concordou:

— É verdade. Seja o que for que escolher, nós o apoiaremos. Mas você precisa assumir o que quer e sair dessa relação de uma maneira decente.

— Sei disso. Mas preciso de um tempo para me acalmar e fazer tudo da melhor forma que puder. Olga olhou-o preocupada:

— Eles estão atrás de mim. O que devo dizer a eles?

— A verdade. Quando eu achar que estou pronto, irei procurá-los para conversar.

Olga sentou-se pensativa. Sabia que não seria fácil dar esse recado.

Ivo mudou de assunto, falando sobre seus projetos para o futuro e despediu-se sem lhes passar seu endereço, alegando que, se precisassem falar com ele, pedissem a Franco que o avisasse. Não queria correr o risco de ser surpreendido pelos sogros.

Depois que ele se foi, Olga olhou para o marido dizendo:

— Sobrou para mim. Eles não vão me dar sossego.

— Seja sincera. Conte-lhes tudo que Ivo disse. Não tenha medo de nada. Ele está coberto de razão. Nem sei como pôde suportar essa vida durante tantos anos.

— Você acha mesmo?

— Acho. E você não deve ter medo de dizer o que sente. Afinal, essa gente precisa pôr os pés no chão e ver as coisas como elas são. Agora, vamos dormir em paz. Estou feliz por sentir que nosso filho é um homem.

Davi passou o braço sobre os ombros de Olga e, abraçados, foram para o quarto.

 

O dia estava amanhecendo e Miriam revirava-se na cama, nervosa. Isso não podia continuar. Fazia três dias que estava na casa dos pais e Ivo não dera sinal de vida. A princípio tivera certeza de que ele voltaria logo, mas, como ele não aparecera, temia perdê-lo de fato.

Ela precisava saber o que estava acontecendo.

"Será que ele arranjou outra?", pensava. Só podia ser isso. Não encontrava outra explicação.

Levantou e começou a caminhar pelo quarto. E se ele nunca mais voltasse? Se tivesse deixado a cidade, ido para outro Estado e nunca mais o encontrasse?

A esse pensamento, sentiu uma sensação de fraqueza, mas reagiu. Precisava defender-se. Não podia aceitar a separação.

Lembrou-se de Celina, que morava na frente da casa de sua mãe. Ela frequentava uma cartomante e afirmava que ela era maravilhosa. Contava tudo.

Precisava falar com Celina. Abriu a janela e viu que a casa dela estava às escuras. Eles ainda, não tinham acordado. Olhou o relógio: eram cinco horas da manhã.

Respirou fundo, estava difícil esperar que eles acordassem. Tentou se acalmar e esperar o momento certo.

Deitou-se novamente. Não estava com paciência para esperar.

— Vou tentar dormir um pouco. Assim o tempo vai passar depressa.

Acomodou-se e tentou relaxar. Quando queria uma coisa, ela costumava imaginar com detalhes que já a tinha conseguido. Para poder se acalmar, começou a fazer de conta que Ivo estava chegando, arrependido, implorando seu perdão. E ela, altiva, fazendo exigências para que isso nunca mais se repetisse.

Fez isso de forma tão veemente, que acabou relaxando mesmo e por fim adormeceu. Sonhou que estava conversando com Celina, que lhe dizia:

— Você precisa se proteger. Tem uma mulher que está apaixonada pelo Ivo e, se você descuidar, ele acabará ficando com ela.

— Isso não pode ser — respondeu Miriam aflita. —Ele me ama e é fiel. Não vai se deixar dominar por outra. Celina sorriu maliciosa e provocou:

— Quer ver? Neste momento ele está com ela. Por isso não quer mais voltar para casa.

— Não pode ser. Onde está ele?

— Vou lhe mostrar, venha comigo.

A cena mudou: ela viu Ivo em um sofá ao lado de uma linda mulher; beijavam-se com paixão.

Miriam sentiu que as pernas bambeavam e um medo terrível a acometeu. Nervosa, gritou:

— Canalhas! Não vou permitir a traição. Eu acabo com vocês!

Os dois a olharam sorrindo e continuaram aos beijos. Miriam atirou-se sobre eles e acordou suando frio, sem ar, sentindo arrepios pelo corpo.

Sentou na cama, olhou em volta, respirou fundo tentando se recuperar. Apanhou um copo com as mãos trêmulas, encheu-o de água e bebeu alguns goles.

— Foi só um sonho, um pesadelo.

Tomou mais água; todavia, a cena que presenciara reapareceu em sua mente e ela pensou:

"Isso pode ser verdade. Deve estar acontecendo mesmo. Tenho de descobrir a qualquer custo".

Olhou o relógio: seis horas da manhã. Abriu a janela e a casa de Celina ainda estava às escuras.

— Não vou dormir mais, o pesadelo pode voltar. A Celina vai trabalhar às oito da manhã; preciso falar com ela antes que saia. Vou tomar um banho, me arrumar e esperar. Ela vai me dar o endereço. Vou procurar essa cartomante imediatamente e saber a verdade.

Quando Flora levantou-se às sete, como de costume, encontrou Miriam sentada na sala, pronta para sair.

— Não sabia que você estava acordada. Por que não me chamou? Está melhor?

Miriam deu de ombros:

— Como posso melhorar se a cada dia tudo está ficando pior?

— Você está arrumada. Pretende sair?

Miriam levantou-se:

— Eu preciso fazer alguma coisa. Minha vida está desmoronando, tenho que agir.

Flora olhou-a sem entender:

— Como assim? Você vai procurar o Ivo? Nós ainda não sabemos onde ele está!

— Mesmo que eu soubesse não o procuraria. Ele é que terá de vir aonde estou e me pedir perdão.

Flora franziu o cenho:

— Não estou entendendo. Você quer ir ao médico?

— Não é nada disso. Preciso descobrir o que está acontecendo. Ivo nunca agiu dessa forma. Algo aconteceu para que ele fizesse o que fez.

— E como vai descobrir isso?

— Estou esperando a Celina acordar. Ela tem uma cartomante que fala tudo. Quero ir consultá-la.

Flora olhou-a assustada:

— Isso é perda de tempo. Olga vai nos trazer o endereço do Ivo e seu pai irá conversar com ele. É isso que tem de ser feito. Não acredito que uma pessoa qualquer possa responder a essa questão. Isso não funciona.

— Funciona, sim. Tem funcionado para Celina. Sempre que ela precisa de ajuda, vai lá e tudo se resolve do jeito que ela quer. Eu vou sozinha. Você não acredita e pode atrapalhar.

— Sozinha você não vai. Sei lá o que essa mulher vai lhe dizer? Se você for, vou junto, mas depois de você se alimentar direito. Vamos tomar café.

Meia hora depois, quando Celina saiu de casa para o trabalho, encontrou Miriam à sua espera. Elas frequentaram a mesma escola na infância.

Celina deu-lhe o endereço e o telefone para agendar horário.

— Você tem de ligar. Não sei se vai atendê-la hoje. Ela é sempre muito procurada.

— Por favor! Ela tem de me atender agora cedo. Não aguento mais esperar. Estou desesperada!

Celina balançou a cabeça negativamente:

— Acho difícil. Em todo caso, anote o número. Ligue, diga que é minha amiga e que seu caso é urgente.    

Miriam segurou as mãos dela e disse:

— Farei isso. Obrigada!

— Vou torcer por você. Boa sorte!

Miriam entrou em casa e foi direto ao telefone, ligando.

Uma voz de mulher atendeu:

— É da casa de madame Rosana?

— Sim. O que deseja?

— Posso falar com ela?

— Ela está atendendo. Sou a assistente dela. O que deseja?

— Quero marcar uma consulta para hoje.

— Hoje é impossível. Mas vou ver na agenda, um momento.

Pouco depois ela retornou:

— Só tenho hora para o dia quinze do próximo mês.

— Não é possível! Estou desesperada. Por favor, fale com ela. Sou amiga da Celina. Ela jurou que me atenderia. É um caso de vida ou morte.

— Me ligue dentro de uma hora. Vou ver o que posso conseguir. Mas não prometo nada.

Miriam desligou o telefone desanimada. Por que para ela tudo estava tão difícil? Talvez fosse melhor ir ao local e insistir até que Rosana a recebesse. Não estava disposta a esperar a cartomante.

— E então, filha, conseguiu marcar hora?

— Não. A agenda dela está lotada. Só tem vaga para daqui a um mês.

— É melhor desistir disso, filha.

Miriam olhou-a fixamente e respondeu:

— Nunca. Estou disposta a ir à casa dela e insistir. Ela tem de me atender ainda hoje.

Flora olhou-a preocupada. Sabia que ela era capaz de fazer isso mesmo. Quando Miriam queria alguma coisa, não aceitava um não. Precisava evitar que ela fosse. Não sabia que tipo de pessoa era aquela mulher e o assunto poderia acabar mal.

Desejava evitar que ela se expusesse dessa forma, mas não sabia o que fazer para impedi-la. Miriam não ouvia ninguém, muito menos os pais. Às vezes se admirava como uma pessoa que parecia tão frágil se mostrava tão forte quando contrariada.

Se ao menos soubesse onde encontrar Ivo, poderia pedir-lhe ajuda. Mas não tinha como. Precisava convencer a filha a ter calma e esperar. No fundo sentia que Ivo voltaria e tudo se resolveria da melhor forma. Mas como fazer Miriam entender isso?

Olhou para ela desanimada e perguntou:

— Você vai sair, e se Ivo aparecer? Você precisa ficar em casa para poderem conversar. O que direi a ele se não estiver?

Miriam pensou um pouco, depois disse:

— Esperarei mais uma hora, porque a secretária me disse que vai ver se consegue que ela me atenda. Se ele não aparecer, irei até lá.

Flora respirou aliviada. Ela imaginava que Ivo iria aparecer logo. Durante aqueles dias ele teria refletido; ficado mais calmo. Era um rapaz correto, responsável, não desapareceria dessa forma, sem dar satisfação. Estava apenas dando um tempo para pensar melhor, refazer-se. Ela sabia por experiência própria que não era nada fácil lidar com a filha e muito menos com Jorge.

— Filha, pense, logo Ivo voltará para buscá-la. Sempre foi um rapaz correto, não vai desaparecer dessa forma. Pode acreditar.

Miriam fixou-a com raiva:

— Ele vai aparecer, eu sei. Mas terá de me explicar onde esteve todos esses dias para que eu o perdoe.    

Flora meneou a cabeça negativamente e pediu:

— Não faça isso, filha, pode piorar a situação. Ele largou até o emprego. Quando Ivo chegar, converse com calma. Diga que sentiu falta dele. Seja carinhosa e vocês voltarão para casa felizes e em paz.

Miriam olhou-a indignada:

— Não sei o que ele fez durante esses dias todos. Por certo aproveitou para se divertir enquanto eu chorava em casa. Estou quase certa de que deve ter um rabo de saia metido nisso. Ivo nunca agiu assim.

— Você está enganada. Ivo nunca lhe deu motivo para suspeitar de uma coisa dessas. Sempre foi muito fiel. Miriam deu de ombros:

— Quem pode garantir? Eu não confio nele.

O telefone tocou e Miriam correu para atender. Era a secretária da cartomante informando que, por uma concessão especial, ela a atenderia às quatro da tarde.

Miriam desligou o telefone e olhou triunfante para a mãe:

— Consegui! Ela vai me atender esta tarde, e vou sozinha.

Flora olhou-a preocupada, mas não respondeu logo. De que adiantaria? Pensou um pouco e decidiu:

— Nada disso. Eu vou também.

— Não vai, não. Eu quero falar com ela sozinha.

— Não adianta. Você não tem passado bem e pode sentir-se mal. Eu vou mesmo que seja para ficar na sala de espera.

Miriam suspirou e respondeu:

— Está bem. Você pode ir, mas não vai entrar comigo.

— Vamos tomar café. Não comeu nada até agora. O que quer comer? Posso fazer aquele sanduíche com presunto que você gosta tanto.

— Estou sem fome, mas, como você disse, preciso me fortalecer. Não sei o que vou encontrar pela frente.

Flora não respondeu. Passou o braço pelo da filha e conduziu-a até a copa, onde a mesa já estava posta.

Faltavam dez minutos para às quatro quando as duas tocaram a campainha na casa da cartomante. Uma senhora de meia-idade atendeu, mandou-as entrar e sentar-se na sala de espera.

A casa era um sobrado espaçoso, bonito e bem mobiliado. Havia flores no vaso e um cheiro de incenso no ar. Miriam olhava inquieta para o relógio, ansiosa para ser atendida logo, e Flora observava os detalhes da decoração, que era simples, mas de muito bom gosto.

Os dez minutos que esperaram até que Miriam fosse atendida pareceram-lhe séculos. Ela remexia-se ansiosa na cadeira e, chamada a entrar, não se conteve:

— Até que enfim! Não aguentava mais esperar. Flora fez menção de se levantar e Miriam fulminou-a com o olhar, dizendo-lhe entre dentes:

— Nem pense em entrar!

Flora olhou-a preocupada, mas obedeceu.

Miriam entrou na sala da cartomante, inquieta, coração descompassado, cenho franzido.

Rosana era uma mulher bonita, aparentava uns quarenta anos, tinha cabelos cor de mel, olhos verdes, pele clara, estava sentada do outro lado da mesa redonda, forrada com um toalha de veludo vermelho. No canto havia um vaso com rosas brancas. No castiçal, uma vela acesa ao lado dos dois baralhos dava um toque de mistério ao ambiente.

Rosana indicou a cadeira diante da mesa e Miriam sentou-se ansiosa. A cartomante fixou os olhos nos dela e pediu:

— Procure se acalmar. Sua impaciência está tumultuando o ambiente.

Miriam não se conteve:

— Como posso me acalmar se meu marido sumiu há dias, não sei onde ele está! Estou desesperada!

Rosana mandou que Miriam colocasse as mãos sobre a mesa, voltadas para cima, e disse:

— Feche os olhos. Vou tentar ajudá-la.

Miriam obedeceu e Rosana colocou suas mãos sobre as dela, sem tocá-las, fechando os olhos durante alguns segundos. Depois disse:

— Você não pode continuar agindo dessa forma. Está com suas energias tumultuadas e isso não a favorece para conseguir o que deseja.

— Vim aqui porque a Celina me disse que a senhora pode ver tudo que está acontecendo. Meu marido saiu de casa e não sei onde ele está. Ele nunca fez isso. Deve ter arranjado outra mulher. Quero que me conte tudo.

— Vamos ver ...

Rosana olhou-a séria, apanhou as cartas, pediu que ela cortasse e começou a dispô-las sobre a mesa.

Miriam olhava fascinada, sentindo a boca seca e um certo frio na barriga.

Rosana olhava as cartas, pensativa, e Minam perguntou:

— E então, o que está vendo? Quem é ela?

— Você está muito enganada. Não há mulher alguma.

— Não acredito. Olhe direito. Somos casados há sete anos e ele nunca dormiu fora de casa. Sempre fez tudo que eu quis. Desta vez ele mudou. Só pode ser por causa de outra.

Rosana colocou mais algumas cartas, olhou séria e disse com firmeza:

— Ele está cansado, triste, desanimado.

— A senhora tem certeza de que ele não está mesmo com outra?

— Não vejo outra mulher do lado dele.

— Então por que ele não volta para casa?

— Quer mesmo saber?

— Vim aqui para isso.

— Ele cansou da vida que vocês levavam. Não quer mais voltar.

Minam empalideceu:

— Isso não pode ser! Ele jurou nunca me abandonar. Não acredito. A senhora está mentindo para me assustar. Não acredito.

— Estou lhe dizendo a verdade, mas acredite se quiser. Se deseja tê-lo de volta, terá que mudar radicalmente seu comportamento.

— Como assim? Eu vivo para ele, não faço outra coisa senão pensar nele o tempo todo.

Rosana olhou nos olhos dela e disse com voz firme:

— Você precisa crescer, deixar de fazer o papel de menina mimada, frágil, que você não é, e tornar-se uma mulher de verdade. É só o que posso lhe dizer sobre o assunto.

Miriam levantou irritada e considerou:

— Eu vim aqui esperando descobrir a verdade, mas a senhora veio com mentiras, me ofendendo. Estou injuriada. Me arrependo de ter vindo. A senhora não é o que eu pensava.

A cartomante fixou-a e respondeu:

— Sinto muito não poder satisfazer suas expectativas. Pode ir embora e não precisa pagar pela consulta.

Miriam olhou-a com raiva, segurando a bolsa e, Rosana disse calmamente:

— Que Deus a ilumine e esclareça.

Ela saiu batendo a porta e Flora se levantou preocupada.

— Vamos embora, mamãe. Isto aqui é uma arapuca. Essa mulher não sabe de nada. Não acertou nada.

A atendente olhava séria e Flora passou o braço no da filha, dizendo:

— Vamos para casa. Eu sabia que isso não ia dar certo. Por que você não me ouve pelo menos uma vez?

As duas saíram pisando firme. A atendente fechou a porta, entrou na sala de Rosana, que calmamente continuava sentada em frente da mesa, e comentou:

— O que aconteceu com essa moça para ela sair tão revoltada?

Rosana fixou-a e respondeu com voz calma:

— Ela veio aqui esperando que eu lhe dissesse o que queria ouvir. Eu disse a verdade, mas ela não quer aceitar. Prefere continuar se iludindo em vez de enfrentar as coisas como elas são.

— Ela ficou brava e a senhora nem cobrou a consulta. Rosana deu de ombros, sorriu e respondeu:

— É que eu não li as cartas. Apenas lhe transmiti o recado do meu amigo espiritual. Não poderia cobrar.

— A senhora já reparou que sempre que aparece por aqui alguém desesperado, querendo ser atendido na hora, não quer esperar o momento e acaba não conseguindo ser ajudado?

— É por isso que eu não gosto de abrir essas exceções. Nunca dá certo.

No trajeto de volta para casa, Miriam dava vazão à sua raiva e Flora, preocupada, quis saber tudo que Rosana dissera.

Miriam contou exagerando as palavras dela, indignada. Flora ouviu e, embora não dissesse nada, pensou que essa cartomante deveria ser mesmo muito boa porque dissera exatamente o que ela pensava estar acontecendo com o casamento de Miriam.

 

Durante o trajeto de volta, Miriam falou o tempo todo, indignada. Ao entrarem em casa, ela segurou o braço de Flora e disse desesperada:

— Você precisa me ajudar, precisa fazer alguma coisa. Se Ivo não voltar, não vou suportar. Não consigo viver sem ele.

Flora tentou acalmá-la, mas Miriam falava sem parar e não ouvia sequer o que a mãe tentava dizer.

— Você não pode agir assim. Estou certa de que Ivo está apenas dando um tempo para que você se acalme. Enquanto continuar nesse desespero, ele não vai aparecer.

— Vá falar com ele, saber por que ele não aparece. Já pensou se ele resolver sumir, ir para longe e eu nunca mais voltar a vê-lo?

— Vamos esperar um pouco mais. Olga nos prometeu conseguir o endereço dele e então seu pai irá trazê-lo de volta.

Miriam bateu o pé no chão, sacudiu a cabeça e gritou:

— Eu não vou esperar nada! Vocês têm de resolver esta situação agora!

— Não temos como. Pare com isso, senão vou chamar seu pai.

— Chame mesmo. Ele não é como você, sempre faz o que eu peço. Ligue para ele, diga para vir logo! Não aguento mais esta situação.

— Não vou ligar. Se ele tivesse o endereço, já teria vindo nos contar. Vou falar com Olga e saber se ela já tem o endereço.

Assim que Flora ligou, Olga atendeu:

— Flora, como estão as coisas?

— Mal. Miriam está muito nervosa, não estou conseguindo acalmá-la. Já sabe onde Ivo está?

— Ele esteve em casa ontem à noite. Mas não disse onde está. Pediu-me que fosse até sua casa ver como estão as coisas.

— Por que isso? Ele sabe que estão muito mal. Por que não vem e fala conosco? Jorge está inconformado.

— Ivo estava muito nervoso. É melhor deixar ele se acalmar. Ficou de vir novamente amanhã e vou fazer o possível para que tudo se resolva.

— Assim que souber de alguma coisa, me ligue.

— Pode esperar.

Ela desligou e Miriam perguntou ansiosa:

— E então?

Flora repetiu tudo que ouvira e finalizou:

— Acalme-se. Ivo estava muito nervoso e ela espera que amanhã ele esteja mais calmo. É melhor esperar. Miriam suspirou e comentou:

— O tempo vai custar a passar.

Olga não quis ir conversar com ela naquela noite, preferiu contemporizar para tomar coragem de levar o recado do filho. Só no dia seguinte foi que ligou para marcar sua visita:

— Dentro de meia hora estarei aí para conversar com vocês.

— O Ivo virá com você?

— Não. Ele me pediu para eu ir conversar.

— Que bom. Venha logo. Vamos esperá-la. Flora desligou e, voltando-se para Miriam, continuou:

— Viu, sua boba? Ele esteve na casa de Olga e ela está vindo para cá.

— Por que a mandou em vez de vir pessoalmente? Ele não quer falar comigo!

— Depois do que fez, imagino que ele esteja com receio de chegar e não ser recebido. Mandou a mãe para preparar o terreno.

Miriam olhou-a desconfiada:

— Será? Ele é que tem de vir. Não vou aceitar recados de ninguém.

Flora estava no limite de sua paciência. Olhou-a séria e disse com voz firme:

— Trate de se acalmar e ouvir tudo que sua sogra vai lhe dizer. Você não está em situação de impor condições. Do jeito que ele saiu de casa, o melhor que tem a fazer é esperar para saber o que ele quer. Agora, vá lavar esse rosto, arrumar-se. Será que ele não está vindo com ela?

Miriam pensou um pouco, depois decidiu:

— É ... pode ser. Vou subir e me arrumar um pouco, mas não muito. Ele precisa saber o quanto está me fazendo sofrer.

Ela foi para o quarto e Flora respirou aliviada. Não via a hora que tudo se arranjasse e ela pudesse ficar em paz. Sabia que, além da filha, teria de acalmar a revolta do marido. Ivo tinha sido ingrato. Jorge lhe dera emprego, ensinara a profissão, fora um pai para ele. Ivo o ofendera muito.

Meia hora depois, quando Olga chegou, Flora perguntou:

— E então? Ivo não veio com você?

— Não. Miriam está no quarto?

— Sim e muito nervosa. Desde que Ivo sumiu, tem nos dado muito trabalho. Espero que você tenha notícias boas.

— Vamos subir. Tenho de ter com ela uma conversa que não vai ser fácil.

Flora sentiu um aperto no peito e disse aflita:

— Por quê? O que está acontecendo?

— Preciso falar com ela. Podemos subir?

— Vamos. Mas pense bem no que vai dizer. Sabe como minha filha é frágil, delicada e ama o marido. Não provoque uma tragédia!

Olga não respondeu e subiu a escada em silêncio. Parou diante do quarto, bateu levemente, entreabriu a porta e perguntou:

— Posso entrar?

Miriam correu até ela, ansiosa:

— E então, onde está Ivo? Não veio com você?

— Não. Mas pediu-me que viesse conversar com você.

— Não quero falar com você. Preciso falar com ele agora.

— Ele não veio.

— Então me dê o endereço. Meu pai irá buscá-lo. Vocês estão me enganando. Só papai me entende e faz o que eu quero.

— Sente-se, controle-se — tornou Olga com voz firme. — Estou aqui para dar-lhe o recado de Ivo e vou fazê-lo. Depois você age como quiser.

Ela foi tão imperativa que Miriam obedeceu em silêncio, olhando-a assustada.

Olga sentou-se e continuou:

— Vou ser sincera com você. Não estou feliz por estar aqui e me envolver neste assunto. Vocês são adultos e deveriam resolver suas diferenças sozinhos. Na vida de um casal, ninguém deve se meter. Mas ele pediu e eu vim. Vou dar-lhe o recado conforme ele me passou e é só isso.

Miriam a fixava séria, olhos abertos, ouvidos atentos, não querendo perder nada, enquanto Flora sentia o coração apertado e a desagradável sensação de uma tragédia iminente.

— Ivo abriu-se comigo. Disse que o casamento de vocês não deu certo, arrependeu-se de haver deixado os estudos e ter se submetido a trabalhar na loja com seu pai. Alega que se esforçou para fazê-la feliz, mas que nunca conseguiu. Durante esses anos todos de vida em comum, você sempre se queixou, por qualquer coisa reclamava para seus pais, permitindo que eles interferissem. Seu pai estava sempre vigiando, como se Ivo estivesse maltratando você.

Miriam estava pálida, chocada, diante de uma situação que nunca esperara. Olga continuou:

— Naquela noite, Ivo estava deprimido, com saudades do tempo em que era um estudante jovem e livre. Sentiu vontade de passar em uma lanchonete onde costumava se reunir com os colegas. Ficou um pouco lá, então chegou o Inácio, um amigo daqueles tempos do qual ele gostava muito. Ficou feliz, conversaram, recordaram aqueles tempos, esqueceu-se das horas. Mas, ao chegar em casa, você, sem saber o que havia acontecido, já havia chamado seus pais. Ele quis explicar o motivo do atraso, mas ninguém o ouviu. Você, como sempre, imaginou coisas que ele nunca fez. Então, ele entendeu que a união de vocês tinha sido um erro e decidiu ir embora e recomeçar a vida de outra forma.

Ela se calou. Miriam olhou-a assustada e perguntou:

— Isso quer dizer que ele não quer mais voltar? Quer acabar com nosso casamento?

— Foi o que ele disse.

Miriam levantou-se e gritou:

— Isso não é verdade! Você está inventando essa desculpa! Ele quer me abandonar porque já arranjou outra.

Olhos fuzilando de rancor, ela segurou os braços de Olga e continuou:

— Quem é ela? Você vai me contar a verdade, contar onde eles estão. Traidor! Ele é um traidor! Saiba que não vou aceitar o que ele está fazendo. Eles vão me pagar!

Olga tentou desvencilhar-se dela e disse com voz firme:

— Acalme-se, Miriam. Deixe de fantasiar as coisas. Ivo é um homem decente e nunca a traiu. Ele está cansado de seu ciúme, de estar sempre sendo vigiado, de não poder sequer conversar com seus amigos.

Miriam cobriu o rosto com as mãos, soluçando desesperada, e Flora correu para abraçá-la:

— Viu o que fez? Eu sabia que não ia dar certo. Vocês não respeitam minha filha. Ela sempre foi frágil e vocês sabem disso.

— Você e Jorge sempre a protegeram demais. Nunca a deixaram enfrentar as dificuldades comuns da vida. Sempre fizeram tudo por ela que, embora seja uma mulher casada, age como se fosse uma criança irresponsável. Não é Ivo quem tem culpa da fragilidade dela, mas vocês, pais, que não a deixaram aprender a guiar a própria vida! Ao casar-se com ela, Ivo esperava ter uma boa companheira, que o compreendesse, e que fossem felizes. Mas não foi isso que aconteceu. Eles nunca foram felizes juntos. É por esse motivo que ele quer se separar e, se querem saber, acho muito difícil que ele volte atrás.

— Não aceito a separação! — gritou Miriam. — Se ele não voltar, não quero mais viver. Diga isso a ele! Olga olhou-a séria e disse com voz calma:

— Eu darei o recado. Agora preciso ir, mas antes quero dizer que sinto muito as coisas terem chegado a este ponto. Desejo sinceramente que Miriam reflita, perceba a verdade e que vocês, como pais, a auxiliem a crescer, procurando ajuda especializada.

Miriam continuava soluçando desesperada, e, sob o olhar apavorado de Flora, Olga voltou-se e saiu.

Chegou à rua e respirou aliviada. Naqueles minutos desagradáveis ela avaliou o que Ivo teria passado durante os sete anos que vivera com eles. Entendia perfeitamente que ele não tinha mais condições emocionais de continuar suportando aquela vida.

Um pensamento desagradável a acometeu: "E se Miriam cometesse suicídio, como eles ficariam?"

Esse pensamento a incomodou e ela pensou em rezar e pedir a Deus que os auxiliasse. Sentia o corpo dolorido, pesado, e, em vez de ir para casa, resolveu passar na casa de Franco.

Quando tocou a campainha do apartamento dos sobrinhos, foi Gisele quem abriu a porta. Vendo-a, sorriu e a abraçou com carinho. Sentaram-se na sala e Gisele perguntou:

— Você está com a fisionomia cansada. Está tudo bem?

— Estou vindo da casa de Miriam. Desta vez a situação está difícil.

— Um dia isso teria de acontecer, tia. Até que Ivo aguentou tempo demais.

— Ivo pediu que eu fosse vê-la e lhe desse um recado — ela suspirou fundo e continuou: — O que a gente não faz para ajudar um filho! Ele saiu de casa e não quer mais voltar.

— Esse foi o recado?

— Foi. Para você ver o que tive de enfrentar. Miriam gritou, ameaçou, como sempre faz. Mas eu fiquei firme. Só que depois de sair de lá senti medo do que ela possa fazer.

— Você acha que ela...

— Não quero nem pensar no assunto. Se ela concretizar a ameaça, Ivo nunca mais terá paz. Vim aqui para conversar com Franco.

— Ele está no consultório e vai demorar. Você teve sorte de me encontrar aqui, porque hoje fui dispensada mais cedo do trabalho.

— Eu pensei em rezar, pedir a Deus que nos ajude.

— É uma ótima ideia.

Gisele colocou a mão sobre a da tia, fechou os olhos e continuou:

— Acalme-se. O que você teme não vai acontecer. Ela não terá coragem. Vamos pedir a Deus que nos inspire a fazer o que for melhor para todos.

Olga olhou-a surpreendida, mas concordou. Gisele continuou:

— Miriam está fazendo o que sempre fez para conseguir o que quer. Ivo não pode ser conivente com essa chantagem. Ele tem sido um marido atencioso, sincero, presente e tem suportado uma situação desgastante. É hora de ele cuidar do próprio bem-estar.

Olga a ouvia atenta, admirando-se da segurança com que ela falava e do tom de sua voz, que estava ligeiramente modificado.

— Está na hora de ela aprender a enxergar a verdade e mudar sua forma de agir. A vida tem muito a lhe ensinar e não tem tempo a perder. Cada um é responsável por si. Ivo fez a parte que lhe cabia, mas ela não entendeu. Por isso a vida o libertou do compromisso assumido e ele poderá buscar a própria felicidade de outra forma.

Olga não se conteve:

— Mas, se ela fizer uma besteira, ele se sentirá culpado.

Gisele balançou a cabeça:

— Ele tem consciência de que fez o melhor que pôde. Miriam não vai fazer o que vocês temem. Nós somos pessoas do bem. Acreditamos que a Providência Divina nos protege e inspira.

Gisele levantou-se, colocou a mão na testa da tia e continuou:

— Você precisa cuidar de si mesma. Há quanto tempo não faz alguma coisa que lhe dê alegria? É a alegria que fortalece a saúde e faz com que a vida se torne mais produtiva.

— Como posso me sentir alegre vendo o sofrimento de Ivo e a iminência de Miriam provocar uma tragédia?

— Cada pessoa vive no seu tempo e da forma como entende a vida. Mas todas estão aqui para aprender a viver melhor. Acredite, ninguém está só. Deus está no leme e tudo está certo. Confie. Não tema.

Olga franziu a testa e tornou:

— Por que está me dizendo tudo isso? Você nunca foi religiosa!

— Gisele pode não ser, mas eu tenho fé. E, se você observasse como a vida age, também teria. Não pense no pior. Confie no bem.

Olga sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo e não se conteve:

— O que está acontecendo? Você fala como se fosse outra pessoa...

— Sou a Ângela. Lembra-se?

Assustada, Olga viu um rosto de mulher e a custo conteve uma exclamação de susto. Antes que pudesse dizer alguma coisa, Gisele sentou-se, passou a mão pela testa e disse:

— Desculpe-me, tia. Não sei o que houve comigo, mas acho que cochilei.

Olga percebeu que Gisele não se lembrava do que lhe dissera momentos antes e, assustada, levantou-se dizendo:

— Vou tomar um copo de água.

— Não se incomode, vou buscar.

Gisele afastou-se e Olga fechou os olhos para tentar ver novamente aquele rosto que lhe era familiar, mas não conseguiu. A visão fora muito rápida, mas ela tinha certeza de que era o rosto de Ângela, sua colega dos tempos de colégio.

Gisele deu-lhe o copo e Olga tomou alguns goles. Depois perguntou:

— Franco vai demorar, mas eu gostaria de esperar. Você se importa?

— Claro que não.

Um pouco mais calma, Olga fixou-a e perguntou:

— E você, o que tem feito, está tudo bem?

— Está. Temos refeito nossas vidas e, apesar da saudade que sentimos dos nossos pais, estamos nos mantendo com dignidade.

— Temos acompanhado o esforço de vocês.

— Nós nos unimos muito depois que eles partiram. Isso nos tem ajudado a seguir adiante com alegria e paz. Desejamos que eles, lá no outro mundo, sintam-se orgulhosos de nós.

Olga encarou-a séria e perguntou:

— Você acredita que a vida continua depois da morte?

— Sim. Estou certa de que a morte é apenas uma passagem e um dia, quando formos para o outro lado, nos encontraremos.

Olga a olhava admirada. Ela ouvira falar sobre o assunto, mas tinha receio de iludir-se.

— Como é que você sabe que é assim, que provas tem?

— Descobri essa realidade durante o velório dos meus pais. Olhando seus corpos, senti que eles tinham ido embora, que suas almas não estavam mais ali. A doçura de minha mãe, sua alegria contagiante, o entusiasmo de papai, contando suas histórias, os momentos inesquecíveis e as emoções que a presença deles provocavam não estavam mais naqueles corpos mumificados e frios. Não. Eles tinham muita vida e comecei a me perguntar onde estariam. Nesse instante tive a mais absoluta certeza de que a morte não é o fim.

Olga pensou um pouco e respondeu:

— Eu gostaria de ter essa certeza... Mas ainda não consigo.

Gisele sorriu:

— É verdade, tia. Por duas vezes eles apareceram em sonhos, me abraçaram e disseram que estão mais vivos do que antes.

— Isso pode ser uma ilusão. De tanto querer que seja verdade, sua mente criou esse sonho.

Gisele meneou a cabeça negativamente:

— Esses sonhos foram muito mais fortes do que os outros. Fui tomada de forte emoção e eles conversaram de forma coerente, o que não ocorre em um sonho comum. Durante vários dias ficaram na minha lembrança.

— Cuidado, não é bom evocar os mortos.

— Não evoquei ninguém. Às vezes sinto saudade, fico me lembrando dos bons momentos que vivemos juntos. O que aconteceu foi inesperado. Eles vieram, nos abraçamos, conversamos. Ao despedir-se, prometeram voltar a nos visitar sempre que pudessem.

Gisele calou-se e Olga ficou pensativa durante alguns segundos; depois perguntou:

— A que horas você acha que Franco chegará?

Gisele respondeu:

— Não sei dizer. Ele não tem horário certo para chegar em casa. Depende do número de clientes que ele tem para atender.

— Nesse caso, vou até em casa e voltarei mais tarde. Você se incomoda?

— Absolutamente. Volte a hora que quiser. Estarei aqui.

— Prometi a Davi que voltaria logo. Ele queria ir comigo, mas preferi ir só. Sabe como são os homens, às vezes complicam tudo. Ele já deve estar ansioso me esperando.

— Tudo bem, tia. Eu aviso Franco da sua vinda.

— Obrigada, minha filha.

Apesar de não acreditar muito nas palavras da sobrinha, a conversa com ela tivera o dom de acalmá-la um pouco. Durante o trajeto, as palavras de Gisele voltaram à sua mente e ela começou a pensar como seria bom se tudo quanto ela lhe contara fosse verdade. A vida seria bem melhor e a morte deixaria de assombrar tanto as pessoas.

Lembrou-se da dor que sentira com a perda do irmão e da cunhada de forma tão dolorosa e da angústia que sentira vendo os sobrinhos tendo de lutar pela subsistência, sem a proteção dos pais.

Recordou o rosto amigo de Isaura, sua doçura, o rosto bonito de José Luiz e o amor imenso do casal pelos filhos.

Emocionou-se e pensou: "Ah! Se fosse verdade que eles estivessem vivos em algum lugar!".

Ao pensar nisso, sentiu um brando calor envolver seu coração e uma grande sensação de paz.

O que ela não sabia é que, ao chegar à casa de Gisele, angustiada, aflita, os espíritos José Luiz e Isaura estavam à sua espera. Foram eles que envolveram Gisele. O espírito de Ângela, amiga dedicada de Olga, aproveitou o momento para dar-lhe uma prova da continuidade da vida.

Eles sabiam que a certeza da eternidade lhe abriria as portas da espiritualidade e ampliaria sua visão do mundo.

Assim que Olga saiu, Flora ligou para Jorge, apavorada. — Venha para casa imediatamente! Ivo mandou dizer que não vai voltar e Miriam está dando trabalho. Não vou conseguir acalmá-la.

— E essa agora! Aguente firme. Logo estarei aí.

Miriam estava inconformada, gritando enraivecida que, se Ivo não voltasse logo, ela cometeria uma loucura. Jorge ouvira os gritos da filha e ficou apavorado. Deixou a loja nas mãos dos empregados, saiu correndo e entrou no carro.

O correio estava em greve e havia uma passeata dos reclamantes impedindo o trânsito. Jorge, assim que pôde, tentou um caminho alternativo, mas as ruas estavam cheias e os carros parados.

Jorge suava nervoso, pensando no que poderia estar acontecendo com a filha e, quanto mais ele pensava mais raiva sentia do genro. Ivo era o culpado das coisas terem chegado àquele ponto. Antes de se casarem, ele o avisara de que a filha era uma pessoa sensível, fraca e que ele não poderia contrariá-la.

Ivo concordara com essas condições e por esse motivo é que ele lhe dera emprego, apesar de nunca haver trabalhado, e lhe ensinara com paciência como tornar-se um bom vendedor. Fora para ele mais do que um pai, dera-lhe a filha, seu maior tesouro, emprego, casa, tudo.

Não ia aceitar que, agora, ele desistisse. Assim que acalmasse um pouco a filha, iria ter com ele, ainda que fosse preciso ir à polícia para conseguir o endereço, e Ivo teria que voltar atrás.

Nervoso, tendo o carro rodeado por algumas pessoas que gritavam as palavras de ordem, ele mal conseguia sair do lugar. Assim que chegou a uma esquina e notou que a rua estava vazia, entrou e acelerou, sem ver que estava na contramão. Bateu de frente com um carro que vinha em sentido contrário e perdeu os sentidos.

O casal do outro carro desceu assustado, e o homem repetia aflito:

— Ele estava na contramão! A culpa foi dele. Se eu não estivesse devagar, nós poderíamos ter morrido!

A polícia apareceu e tomou as primeiras providências. Jorge, cabeça pendida sobre a direção, permanecia sem sentidos. A ambulância foi chamada e teve alguma dificuldade para chegar até o local. Jorge recebeu os primeiros socorros, foi levado para o hospital e, embora não houvesse sinal de gravidade maior, ele continuava sem sentidos.

Enquanto isso, Flora tentava acalmar a filha. Olhava seguidamente pela janela à espera do marido e repetia:

— Calma, filha. Logo seu pai vai chegar e trazer o Ivo de volta. Não acredito que ele tenha dado aquele recado. Olga mentiu. Vamos esperar.

Miriam sentou-se na cama, olhou-a séria, olhos molhados, rosto contraído e perguntou:

— Você acha que foi isso mesmo? Papai vai trazer o Ivo?

— Vai. É por isso que ele está demorando. Pare de chorar, você tem de ficar bem bonita para receber seu marido. Não pode ficar com essa cara amassada.

Um brilho de esperança passou pelos olhos dela:

— Será? É, não posso recebê-lo com essa cara. Apesar de que ele merece. Mas chega de brigar. Quando ele chegar, vou fazer o que você falou. Ouvir tudo sem reclamar. Quero que ele volte para casa.

— Isso mesmo, filha. Troque de roupa, se apronte, vai dar tudo certo.

Miriam lavou o rosto, arrumou-se o melhor que pôde e sentou-se para esperar. Mas eles não chegavam e a cada minuto Flora ficava mais desesperada, mas disfarçava.

Ela temia que o marido tivesse ido atrás do genro, discutido, brigado. Sabia que Jorge era nervoso e reagiria violentamente caso Ivo não quisesse obedecer.

O telefone tocou e ela sentiu um baque no peito e certo mal-estar. Correu para atender.

— É da casa do senhor Jorge Duarte?

— Sim. Quem está falando? Aconteceu alguma coisa?

— Sim. Seu marido sofreu um acidente de carro e está hospitalizado.

— Meu Deus! É grave?

— Ele perdeu os sentidos e está em observação. É preciso que alguém da família venha até aqui para cuidar da internação. Anote o endereço.

Com mãos trêmulas, Flora anotou tudo. Miriam aproximou-se e Flora disse nervosa:

— Seu pai bateu o carro e está no hospital. Miriam assustou-se:

— Ele está ferido?

— Ainda não sei. Vamos tomar um táxi e ir até lá para saber.

— E Ivo, estava com ele?

— Não sei.

Flora sabia que ele estava sozinho, mas mentiu. Ela não queria deixar a filha sozinha em casa naquelas condições.

— Meu Deus! Ele pode estar ferido. Vamos depressa, mãe.

Flora suspirou, deu uma olhada no espelho, passou o pente nos cabelos, apanhou a bolsa, pegou algum dinheiro e saiu levando Miriam pelo braço.

Chegaram ao hospital meia hora depois, dirigiram-se ao pronto-socorro, mas demorou algum tempo para serem atendidas. O hospital estava movimentado. Por causa da greve, havia tido contenção policial, algumas pessoas reagiram e estavam feridas aguardando atendimento.

Depois de uma hora, finalmente, Flora pôde ser atendida. Recebeu os documentos do marido e foi conduzida à enfermaria onde Jorge estava.

— Como está ele? — indagou Flora aflita à enfermeira.

— Ainda não acordou.

— Como assim?

— Não sei dizer. Tenho que ir. Espere que logo o médico virá e poderá lhe informar.

As duas aproximaram-se do leito de Jorge. Ele parecia adormecido, mas seu rosto estava pálido. Flora sacudiu ligeiramente o braço dele chamando:

— Jorge, acorde. Sou eu, Flora.

— Mãe, ele parece morto!

— Não diga isso, Miriam. Não vê que ele está respirando?

Outra enfermeira entrou, aproximou-se de Flora e perguntou:

— As senhoras são da família dele?

— Esposa e filha.

— Precisam ir até a secretaria preencher a ficha de entrada.

— Antes quero ver o médico. Ele vai demorar? —indagou Flora.

— O médico já esteve aqui, e, pelo que sei, seu marido está apenas em estado de choque. É melhor ir logo fazer o registro.

— Mas ele está pálido, parece morto! — tornou Miriam.

— Há muitos pacientes esperando e os médicos estão fazendo o que podem. É preciso esperar. Venham comigo até a secretaria.

Havia algumas pessoas feridas esperando ansiosas para serem atendidas e o pronto-socorro estava lotado. Flora resignou-se a obedecer. Para fazer o registro precisaram esperar mais de meia hora e, quando foram atendidas, Miriam não se conteve:

— Meu pai parece mal. A senhora precisa mandar logo o médico examiná-lo melhor. Ele parece morto!

— Acalme-se. Não vê que estamos em uma emergência? Todos serão atendidos no devido tempo. Vou encaminhar a ficha ao médico e ele logo irá ver seu pai. Vocês devem sentar-se e esperar.

Miriam ia reclamar, mas Flora puxou-a pelo braço dizendo:

— Reclamar não adianta. Teremos de esperar.

As duas foram à enfermaria e ficaram ao lado de Jorge, que continuava adormecido. Uma enfermeira aproximou-se segurando uma cuba e disse-lhes séria:

— Vocês não podem ficar aqui. É melhor sentarem-se no corredor.

— Não vou sair do lado de meu pai enquanto o médico não examiná-lo e nos dizer como ele está!

— Há outros pacientes, dois deles passando mal e  não é permitido ficar aqui muito tempo. Sentem-se no corredor e podem entrar quando o médico chegar.

Flora olhou em volta e, antes que Miriam dissesse algo, arrastou-a para o corredor. Havia um sofá e elas sentaram-se.

— Mãe, vamos levar papai para outro hospital. Aqui ele não está sendo bem atendido.

— Vamos esperar o médico. Antes disso não podemos nem pensar em tirá-lo daqui.

— A culpa de tudo isso é do Ivo. Se ele não tivesse feito o que fez, papai não teria saído nervoso da loja e nada disso teria acontecido.

Flora estava muito nervosa e não se conteve:

— De nada adianta você agora querer culpar o Ivo. Se você não tivesse criado tantos problemas com seu marido, as coisas não teriam chegado a este ponto.

Miriam ergueu-se nervosa:

— O que você sabe que eu não sei? O Ivo disse mesmo que não vai mais voltar?

— Eu não sei. Ele não me disse nada.

— Foi isso que Olga disse. E, se ele disse isso mesmo, o que vou fazer da minha vida? Se papai morrer e Ivo nunca mais voltar?

Flora estava no limite de sua resistência. Levantou, fez Miriam sentar-se de novo e disse nervosa:

— Sente-se e cale a boca. Nem eu estou mais suportando suas queixas. Se Ivo não voltar, você vai sobreviver, sim. É jovem, forte, e terá de aprender a cuidar da própria vida. Porque do jeito que está, se seu pai morrer e eu também, o que será de você? Ninguém terá a nossa paciência para cuidar de você. Agora é hora de cuidar de seu pai. Não quero mais ouvir você falar do Ivo!

O rosto de Flora estava pálido e Miriam assustou-se. Em toda sua vida nunca a vira daquele jeito. Sentou-se calada, tentando conter-se.

Quando o médico chegou, as duas o acompanharam até o leito de Jorge e se apresentaram. Flora perguntou:

— Como ele está, doutor?

O médico, segurando a ficha que estava pendurada na cama, respondeu:

— Ainda não sei.

Leu as anotações e começou a examiná-lo. As duas esperavam em silêncio. Ele anotou algumas coisas na ficha, depois, voltando-se para elas, disse:

— Não noto nada de sério. Parece estar em estado de choque. Vou pedir alguns exames para ter certeza disso.

— Nós queremos ficar aqui com ele — disse Flora.

— Nesse caso terão de transferi-lo para um quarto particular.

— O senhor acha que ele vai demorar para acordar? — indagou Flora.

— Não saberia precisar. Tanto poderá acordar daqui a pouco como levar um ou dois dias.

— Nesse caso não vou esperar. Quero que ele seja transferido para o quarto.

— Vou autorizar.

— Assim que tiver o resultado dos exames, e o senhor os analisar, gostaríamos de ser informadas.

— Está bem. Agora vamos instalá-lo no quarto. Assim que Flora viu o marido instalado no quarto, ligou para Olga:

— Jorge sofreu um acidente de carro. Eu e Miriam estamos com ele no hospital.

— Foi grave?

— Ainda não sabemos, ele está desacordado. Segundo o médico, ele está em estado de choque. Estão fazendo alguns exames. Temos de esperar para saber.

— Sinto muito.

— Preciso falar com Ivo. É uma emergência.

— Ele ainda não me deu o endereço. O Franco sabe onde ele está.

— Vou ligar para ele.

— Em que hospital estão? Vou para aí agora mesmo.

Depois de fazer o que ela pediu, Flora procurou o número do telefone de Franco e ligou. Uma voz de mulher atendeu e informou que Franco estava atendendo uma cliente e não poderia ser interrompido.

— Estou falando do hospital, é um caso urgente. Tenho de falar com ele!

— Me ligue dentro de dez minutos, vou ver o que posso fazer.

Flora desligou nervosa. Por que tudo estava sendo tão difícil? Aproximou-se de Jorge, sacudiu-o e chamou:

— Acorde, Jorge! Sou eu, Flora! Acorde!

Mas ele não reagiu.

— Mãe, e se ele não acordar mais?

Flora fuzilou-a com o olhar e não respondeu logo. Miriam colocou a mão trêmula sobre o braço dela e disse chorando:

— O que será de nós se ele morrer?

— Por que você só pensa no pior? Está sempre vendo tragédias em todo lugar? O médico disse que o estado dele não parece grave. A qualquer momento Jorge pode acordar, nada de mal vai acontecer.

— Será?

— Em vez de reclamar, seria melhor rezar, pedir a Deus que nos socorra. Eu vou fazer isso.

— Isso não funciona. Eu vivo rezando e nunca fui atendida.

— Por que você só pede coisas impossíveis. Eu tenho fé em Deus.

Flora fechou os olhos e começou a rezar em pensamento. Miriam não fez o mesmo, mas permaneceu em silêncio.

Uma hora depois, quando Olga bateu levemente na porta do quarto de Jorge e entreabriu, com cuidado, Miriam correu para ela dizendo nervosa:

— Está vendo o que Ivo fez? Por causa dele meu pai continua desacordado nessa cama. Por que ele não veio com você?

— Não sei e não vou responder a você.

Flora aproximou-se e abraçou-a nervosa:

— Cale a boca, Miriam. Não é hora disso. Veja, Olga, ele ainda não acordou.

Olga abraçou-a com carinho e respondeu:

— Logo ele vai voltar a si. Vamos ter fé.

— Preciso falar com Ivo. Liguei para o Franco, mas ele estava ocupado e a atendente disse que não podia interrompê-lo. Deixei o recado e estou esperando ele me ligar. Falei com um dos empregados da loja, contei o que aconteceu e pedi-lhe para fechar no horário de costume. Mas eu não sei quando Jorge vai poder voltar a trabalhar e o Ivo precisa tomar conta da loja, pelo menos por enquanto. Senão teremos de deixá-la fechada.

— Ele não sabe do acidente. Estou certa de que não se negará a cooperar.

— Ele tem de voltar, falar comigo, estou disposta a perdoar tudo que ele fez, a mudar daqui para frente, fazer as coisas como ele deseja. Eu não quero mais brigar.

— É melhor assim — tornou Olga.

— Eu quero dizer isso a ele.

— Você vai ter essa oportunidade. Agora temos de cuidar de seu pai.

— Isso mesmo — reforçou Flora. — A recuperação de Jorge está em primeiro lugar. E você, quando ele acordar, não vai reclamar mais do Ivo diante dele. Jorge vai precisar de calma e um ambiente sereno para poder se curar. Ainda nem sabemos direito o estado dele. No momento não consigo pensar em outra coisa.

O telefone tocou e Flora atendeu:

— É o Franco. Recebi seu recado. Como está seu marido?

— Continua desacordado. Estamos esperando o resultado de alguns exames. Preciso falar com Ivo. Pode me passar o número do telefone dele?

— Farei melhor. Vou pedir-lhe que lhe telefone imediatamente.

— Ficarei muito grata se ele ligar. Estamos muito preocupadas.

— Faço votos de que não seja nada grave. Vou informá-lo do ocorrido. Ele vai entrar em contato.

— Obrigada.

Durante a conversa, Miriam fazia gestos desesperados para a mãe lhe passar o telefone, mas Flora não o fez. Assim que desligou, olhou nos olhos da filha e disse com voz firme:

— O Ivo vai ligar e você não vai abrir a boca. Vou pedir-lhe para vir aqui e você vai me prometer que vai ficar quieta, que não vai fazer nenhuma cena. Senão, vou pedir a Olga que leve você para a casa dela. O assunto agora é Jorge. Você não vai criar nenhum caso.

O tom firme de Flora e o olhar indignado que ela lhe dirigiu a fizeram baixar a cabeça e dizer:

— Está bem. Eu não farei nada. Não precisa me mandar embora. Vou ficar quieta.

— Assim ele vai perceber que você está mais calma — reforçou Olga.

Dez minutos depois, quando Ivo ligou, Flora atendeu e contou o que havia acontecido. Ele apenas disse:

— Logo estarei aí. Podem esperar.

Flora desligou o telefone, sentou perto da cama e não conteve mais a emoção. As lágrimas desceram pelas suas faces, enquanto Olga a abraçava comovida e Miriam, emocionada, alisava a mão da mãe com carinho.

 

Quando Ivo abriu a porta do quarto de Jorge, Miriam correu para ele chorando:

— Você veio! Estou desesperada, não nos abandone!

Flora aproximou-se e segurou o braço da filha dizendo com voz firme:

— Fique quieta senão a porei para fora do quarto! Olga interveio, abraçando Miriam, que soluçava:

— Controle-se. Depois vocês conversam. Ivo abraçou a sogra, que tentava segurar as lágrimas, e perguntou:

— Como está ele?

— Ainda não voltou a si. Estou com muito medo.

— O que disse o médico?

— Que ele está em estado de choque e pode recobrar os sentidos de uma hora para outra. Fez alguns exames e estamos esperando os resultados.

— Logo ele vai recobrar os sentidos e tudo vai ficar bem.

Ivo quis saber como foi o acidente e Flora relatou o que sabia. Miriam estava ansiosa para conversar com o marido, mas Olga tentava acalmá-la falando em seu ouvido que era preciso esperar o momento certo.

Ivo aproximou-se do leito e, ao fixar a fisionomia de Jorge, sentiu certo mal-estar e reagiu. Apesar do ressentimento que sentia, era seu dever fazer o que pudesse para auxiliá-lo a recuperar-se.

— Não sei o que fazer, Ivo. Estou precisando muito da sua ajuda.

— Pode contar comigo, dona Flora. O que deseja que eu faça?

— Que cuide da loja enquanto Jorge não se recupera. Não podemos deixá-la nas mãos dos empregados. Fará isso por nós?

— Está bem.

— Liguei para a loja e pedi ao Adão que fechasse no fim do expediente, mas eu ficaria mais tranquila se você fosse lá e cuidasse de tudo.

— Vou até lá ver como estão as coisas. Gostaria que me mantivesse informado sobre o estado dele. Miriam não se conteve:

— Antes de ir eu quero conversar com você! Não vai dar para esperar mais.

Ivo fixou-a e respondeu com voz firme:

— Agora não tenho tempo. Nosso assunto ficará para depois que seu pai se recuperar.

— Mas eu quero falar agora. Quero que saiba como estou sofrendo com o que me fez!

Flora segurou o braço da filha e disse entre dentes:

— Agora não é hora. Quando vai aprender a comportar-se de forma adequada? Pode ir, Ivo. Fico-lhe muito grata por ter vindo nos ajudar. Obrigada.

Ivo saiu em silêncio e Miriam começou a chorar desalentada:

— Até minha mãe agora está contra mim! O que eu fiz para sofrer tanta injustiça?

— Se quer saber mesmo, vou dizer. Foi você quem me atormentou tanto, que eu, para contê-la, pedi para seu pai ir acalmá-la. Sinto-me culpada por tê-lo chamado, deveria ter agido de outra forma. Mas daqui para frente você pode esperar. Eu vou mudar e fazer o que sempre deveria ter feito. Terá de aprender a crescer, assumir a responsabilidade pela sua vida, nem que eu tenha de dar-lhe todas as palmadas que não dei.

O olhar e o tom na voz com que Flora disse essas palavras fez Miriam fixá-la assustada. Ia responder mas a mãe não lhe deu tempo e continuou:

— Não quero mais ouvir sua voz. Cale-se ou a colocarei para fora do quarto. Jorge precisa de um ambiente sereno e você com suas queixas está atrapalhando.

Olga ouvia aliviada. Havia muito esperava que Flora reagisse às imposições da filha. Teria ainda tempo para fazer com que Miriam mudasse?

Miriam sentou-se em um canto amuada e Olga aproximou-se de Flora:

— Estou com vontade de tomar um café. Você quer?

— Estou com um bolo no estômago, agora não consigo tomar nada.

Olga voltou-se para Miriam:

— Venha, Miriam. Vamos tomar alguma coisa. Assim o tempo passará mais depressa.

Miriam levantou-se. Estava aflita, queria conversar com Olga, fazer perguntas sobre o marido e viu nesse convite uma chance.

As duas deixaram o quarto. Flora sentou-se ao lado da cama e aproveitou o silêncio para fazer uma oração em favor do marido.

Assim que saíram do quarto, Miriam apressou-se a dizer:

— Penso que aquele recado que Ivo me mandou foi apenas para assustar-me. Ele me ama. Não pode querer se separar. Diga a verdade, não foi isso que aconteceu?

— Não. Pareceu-me seguro do que quer.

Miriam apertou nervosa o braço de Olga fazendo-a parar:

— Não pode ser. Tantos anos de amor e dedicação não desaparecem assim.

Olga fixou-a e respondeu:

— Vocês eram muito jovens e inexperientes quando decidiram se casar. Teria sido melhor esperar um pouco mais, ele teria se formado e teriam tido tempo para tomar uma decisão mais adequada.

— Está dizendo que nosso casamento foi um erro?

— O que importa é o que vocês dois querem. Tudo vai ser o que vocês dois acharem melhor. Contenha sua ansiedade. Neste momento precisamos cuidar de Jorge, deixá-lo fora dessa discussão. Ele ainda nem voltou a si e não sabemos as consequências do acidente. Quando ele acordar vai precisar de calma para se refazer. Você entende isso, não é?

— Meu pai é meu ídolo. Farei tudo para que ele fique bem.

— Ainda bem que entende.

Chegaram à lanchonete, acomodaram-se, Olga pediu um café e Miriam um refrigerante. Depois de alguns momentos de silêncio, Miriam disse:

— Depois de fechar a loja, Ivo deverá vir até aqui e vou aproveitar para falar com ele.

Olga moveu a cabeça negativamente e respondeu:

— Você não aprende mesmo! Ivo tem estado muito nervoso. Se não fosse o acidente, ele não teria aparecido. Ele anda esgotado, nem para mim ele deu o endereço de onde estava. Não queria aparecer para ninguém. Por que você não espera um pouco mais? O tempo passa e ele vai se acalmando, então poderão conversar e decidir sobre o futuro.

— Eu não preciso de tempo. Já decidi. Sei o que quero! Não vou esperar nada.

— Você se esquece de que, para viver juntos, os dois precisam querer. No momento, Ivo afirma que não quer manter o casamento.

Miriam levantou irritada:

— Dá para perceber que a senhora está contra mim. Sempre foi contra. Quando meu pai, com todo carinho, se dispôs a ajudar o Ivo, ofereceu uma vida boa, muito melhor do que vocês tinham, vocês foram contra. Queriam que ele ficasse estudando, só para impedir nosso casamento.

Olga não respondeu. Continuou tomando seu café calmamente, depois levantou-se e saiu, enquanto Miriam, irritada, caminhou de volta ao quarto do pai.

Ao se aproximar do quarto de Jorge, Olga viu uma enfermeira saindo e perguntou:

— Ele já voltou a si?

— Não.

— Eu gostaria de conversar com o médico que o está atendendo. A que horas ele vai vir vê-lo?

— Já começou a visitar todos desta área. Olga fixou os olhos dela e considerou:

— Você acha natural ele demorar tanto para voltar a si?

— Só o médico pode responder essa pergunta. Eu não sei de nada.

— Está demorando demais. Como é o nome do médico que o atendeu?

— Doutor Gilberto Miranda.

— Onde é a sala dele?

— Ele está circulando, não vai encontrá-lo lá agora. É melhor esperar. Logo ele passará por aqui.

A enfermeira se foi e Olga entrou no quarto. Jorge continuava dormindo. Sentada ao lado da cama, Flora segurava a mão dele, olhos fechados.

Miriam levantou-se dizendo nervosa:

— Onde está o médico, que não aparece? Ele ainda não voltou a si.

Flora abriu os olhos:

— Acalme-se, Miriam. O médico disse que ele pode demorar a acordar. Precisamos esperar.

Olga aproximou-se do leito, fixou o rosto pálido de Jorge e sentiu um aperto no peito. Por que o médico demorava tanto?

Meia hora depois ele apareceu acompanhado de outro médico e depois de cumprimentá-las, apresentou o companheiro dizendo:

— Este é o doutor Frederico Borges e vai examinar o paciente.

Flora levantou-se e perguntou:

— Os senhores já têm o resultado dos exames?

— Já. Não tem nenhuma fratura. Depois falaremos sobre isso. O doutor Frederico vai examiná-lo. Ele é neurologista.

Olga passou o braço no de Miriam dizendo:

— Vamos esperar lá fora.

— Não vou sair. Quero saber como ele está. O médico interveio:

— É melhor sair. A esposa dele pode ficar. Olga quase arrastou Miriam para fora do quarto.

— Você devia ter me deixado ficar.

— Os médicos precisam de silêncio para trabalhar, fazer um bom diagnóstico. Esse momento é muito importante para a recuperação dele.

As duas sentaram-se no corredor. Depois de algum tempo, Flora saiu e explicou:

— Vão levá-lo para fazer mais alguns exames. Olga guardou silêncio. Miriam perguntou:

— Por quê?

— Os médicos querem ter certeza de que tudo está bem. Apenas isso.

Olga notou que Flora estava nervosa, mas não quis perguntar os detalhes.

O tempo foi passando e eles não voltavam. Olga convidou-as para tomar um lanche.

— Vão vocês, eu vou esperar no quarto. Estou ansiosa para saber como ele está.

— Venha, Miriam. Vamos comer alguma coisa e trazer algo para sua mãe.

— Eu não quero nada. Eu gostaria que o Ivo estivesse aqui. Já deve ter fechado a loja. Será que vai demorar?

— Não sei se ele virá hoje. Eu prometi ligar para o Davi, dar notícias e ele deve estar esperando. Vou falar com ele, tomar um café e já volto.

Ela deixou o quarto e foi telefonar. Davi atendeu e perguntou:

— Jorge já acordou?

— Não. Não estou gostando nada da situação. Ele está muito pálido e há pouco o médico trouxe um neurologista para examiná-lo. Levaram-no para fazer outro exame há quase uma hora e ainda não voltaram. Estou com medo de que o caso dele seja grave. Seria bom que você viesse. Se acontecer alguma coisa pior, as duas vão dar trabalho.

— Você acha bom?

— Pode ser que não seja nada, mas é melhor prevenir.

— Está bem. Irei imediatamente.

Ela desligou, foi à lanchonete, comeu um lanche, tomou um café com leite, comprou mais alguns sanduíches, refrigerante e foi para o quarto.

Jorge ainda não havia voltado do exame.

— Por que será que estão demorando tanto? —indagou Miriam.

— Há exames que demoram mesmo. Depois, nós vimos, o hospital está lotado.

Flora trocou com Olga um olhar preocupado mas não se atreveu a comentar nada. Sentia o coração apertado, mas não queria mostrar sua preocupação para Miriam.

Olga colocou sobre a mesa as coisas que trouxera, dizendo:

— Vocês precisam se alimentar. Eu adorei esses sanduíches e trouxe alguns para vocês.

— Obrigada, Olga, mas estou sem fome. Coma você, Miriam.

— Eu também não tenho fome.

— É melhor comer. Com certeza terão de passar a noite aqui. Jorge vai precisar de vocês quando acordar.

— É isso mesmo, Olga. Coma, filha. Mais tarde eu também vou comer um.

Olga abriu o pacote, deu um sanduíche para Miriam:

— Experimente, veja como está gostoso.

Miriam deu uma mordida e comentou:

— Está bom mesmo.

Olga encheu um copo com o refrigerante e colocou-o na frente dela, que, apesar de não querer, comeu e bebeu tudo.

Meia hora depois Davi chegou. Beijou a mulher, abraçou Miriam. Flora, vendo-o, levantou-se dizendo aflita:

— Davi, ele ainda não voltou! Estou muito preocupada! Ele abraçou-a com carinho:

— Calma, Flora. Não vai acontecer nada. Logo ele estará aqui, você verá!

Fundo suspiro escapou do peito de Flora ao dizer:

— Tomara. Não estou aguentando essa situação. Estou pensando em sair daqui e procurar saber para onde o levaram. Não dá para esperar mais.

— Acalme-se. Eu vou ver como estão as coisas e não demoro.

— Faça isso. Mas assim que tiver notícias venha nos contar.

Davi deixou o quarto e Olga o acompanhou. No corredor ele comentou:

— Vai ver que não é nada grave. Logo ele estará bem. Olga balançou a cabeça e respondeu:

— Estou impressionada. Ele estava muito pálido, sinto o peito oprimido.

— É melhor você ficar com elas e tentar acalmá-las. Vou me informar e voltarei o mais rápido que puder.

— Olha, Davi, os médicos estão voltando!

Assim que se aproximaram, Olga indagou:

— Então, doutor, como está ele?

— Os senhores são parentes dele?

— Meu filho é genro dele. A esposa e a filha estão no quarto.

— Viemos para conversar com elas. O caso é cirúrgico e mais grave do que parecia.

— O que ele tem? — indagou Olga.

— Além do hematoma, há um coágulo no lóbulo esquerdo do cérebro.

Os dois se entreolharam preocupados e Davi perguntou:

— Qual é o risco se não operar?

— É a única saída no caso dele. A cirurgia é uma tentativa para salvar-lhe a vida. Viemos apresentar a situação para a família. O doutor Frederico tem essa especialidade. Queremos falar com a família e pedir autorização.

— E se elas não autorizarem?

— Ele irá a óbito. Será fatal.

Nesse momento, Miriam abriu a porta e vendo-os, disse aflita:

— Eu ouvi que estavam conversando. Por que não trouxeram meu pai de volta?

— Vamos entrar e lhe explicar.

Miriam abriu completamente a porta e, voltando-se para a mãe, disse chorando:

— Eles voltaram e não trouxeram o papai. Olga abraçou Miriam e disse com voz emocionada:

— Eles vieram falar sobre o estado dele.

— Estou com medo! Ele não está nada bem!

— De fato. O acidente foi grave e o estado do senhor Jorge inspira cuidados — tornou o doutor Gilberto.

— Fale, doutor. Explique melhor. Queremos saber a verdade — disse Flora tentando controlar-se.

— Não dá para ignorar. O caso é delicado. Para tentar salvá-lo teremos que fazer uma cirurgia. Viemos expor a situação e pedir autorização para isso.

— Há outra saída? — indagou Flora.

— Não. A cirurgia, embora seja de risco, é uma tentativa que pode dar certo.

— O senhor garante que ele ficará bom? — indagou Miriam.

— Quem faz uma cirurgia sempre corre riscos. Não dá para garantir. Como eu disse, é apenas uma tentativa. Estamos dispostos a tentar.

Flora estava pálida, deixou-se cair na poltrona enquanto Davi lhe entregava um copo de água:

— Beba, Flora. Tenha fé. Há chance de ele se curar.

— É — disse doutor Frederico —, há chance de ficar curado.

Flora passou a mão na testa, tentando pensar melhor. Depois meneou a cabeça dizendo:

— Não sei... estou com medo. É muita responsabilidade.

— De fato — tornou doutor Frederico — mas se não fizermos nada o estado dele vai se agravar e poderá ser tarde demais.

— Os senhores têm certeza de que não há outra opção?

Foi o doutor Gilberto quem respondeu:

— Nós, juntamente com outros companheiros, analisamos o caso e fomos unânimes em confirmar nosso diagnóstico e indicar a cirurgia como única opção.

Ela deve ser feita o mais rápido possível. Porque o caso poderá agravar-se de uma hora para outra.

Flora respirou fundo, levantou-se e decidiu:

— Nesse caso, não vamos perder mais tempo. Assinaremos a autorização.

Doutor Gilberto disse sério:

— Obrigado pela confiança. Nós vamos vencer essa luta.

O doutor Frederico tirou do bolso uma folha de papel dobrado, uma caneta, e entregou-os a Flora, dizendo:

— É a autorização. Por favor, assine.

Com mãos trêmulas, Flora segurou o papel, sentou-se ao lado da mesa, ficou alguns segundos tentando conter a emoção, depois segurou a caneta e assinou.

Doutor Gilberto pegou a autorização e disse:

— Vamos levá-lo imediatamente ao centro cirúrgico e preparar tudo.

Miriam não se conteve:

— Vocês vão levá-lo sem passar aqui? Eu quero ver meu pai...

— Vocês não vão poder entrar no centro cirúrgico. Mas mandarei uma enfermeira avisá-los quando for começar a cirurgia.

Depois que os médicos saíram, Miriam abraçou a mãe, chorando:

— Por que foi acontecer isso com ele? Se ele morrer, o que será de nós? Não me conformo! Como foi acontecer essa tragédia?

As lágrimas corriam pelas faces de Flora, mas sua voz estava firme quando disse:

— Acalme-se, Miriam. Não é hora de reclamar. Temos que rezar para que dê tudo certo.

— Eu não vou rezar! Deus não evitou o acidente. Olga interveio:

— Não blasfeme, Miriam. Sua mãe tem razão. Vamos unir nossas mãos, pedir a proteção divina para que essa cirurgia tenha sucesso e Jorge se recupere.

— Isso mesmo, filha. É hora de confiar em Deus e fazer uma prece para que ele fique bom.

Miriam ficou em silêncio. Todos se sentaram, deram as mãos, e Davi, emocionado, disse:

— Vamos pensar em Jorge com saúde, muito bem e pedir a Deus que o ajude e proteja para que a cirurgia seja um sucesso.

Embora eles não pudessem ver, um casal de espíritos de semblante sereno, mãos estendidas sobre eles, orava e de seus corações raios coloridos envolviam os presentes, enquanto do alto uma luz muito branca tomava conta do local.

 

Jorge abriu os olhos, olhou em volta e não viu ninguém. Estava atordoado, nervoso. Ouvia vozes aflitas, mas não conseguia entender bem as palavras. Alguém estava chorando, reclamando. Sabia que tinha de ir a um lugar, mas não se recordava aonde. Parecia-lhe estar tendo um pesadelo.

De repente lembrou-se: estava indo para casa. Miriam estava inconsolável por culpa de Ivo. Aquele mal-agradecido! De repente um estrondo dentro de sua cabeça o fez quase perder os sentidos.

O carro! Ele tinha batido o carro! E agora, o que fazer para chegar em casa? Lembrou-se da greve e ficou nervoso.

As pessoas pensam em suas necessidades e não se importam de criar problemas para os outros que não têm nada com isso.

A cabeça doía e sentia dificuldade de respirar. O ar estava gelado e ele tremia de frio e de preocupação. Onde estava? Vultos passavam perto dele que, assustado, procurava não ser visto.

— Preciso ir para casa! Miriam precisa de mim! Pode cometer uma besteira. Por que Ivo não entende isso? Se acontecer alguma coisa com ela, ele vai me pagar...

De repente, sentiu uma sonolência muito grande, mas não dormiu, ao contrário, seu corpo todo balançava enquanto ouvia vozes, mas desta vez entendeu o que diziam:

— Está pronto. Pode começar.

— Direcione a luz! Isso. Está bom. Bisturi.

Nesse momento, Jorge quis fugir e percebeu que estava suspenso no teto, em uma sala de hospital. Embaixo, médicos estavam fazendo uma cirurgia.

Assustado, ele quis sair, ir embora, mas não conseguiu. Uma emoção muito forte o impedia de deixar o local.

Sentia-se lúcido como nunca se lembrava de haver estado. E ele ficou lá, observando. Até que um casal desconhecido aproximou-se dele. Uma mulher ainda moça, cujo rosto pareceu-lhe familiar, e um jovem de olhos penetrantes, mas sereno.

— Quem são vocês? O que está acontecendo?

— Meu nome é Ângela. Estamos aqui para ajudá-lo.

— Eu sou o Beto.

— Quem está sendo operado?

— Você não sabe? — indagou Beto. — Olhe! Jorge cambaleou e ambos o seguraram. Ele tremia e gritou emocionado:

— Sou eu! O acidente! Sou eu! Agora entendo: eu estou morto! Eu morri!

— Acalme-se. Você está fora do corpo, mas está vivo. Jorge estava apavorado.

— Eu não quero morrer! Não posso deixar minha família. O que vai ser de Miriam sem mim?

— Você está em uma encruzilhada e terá de fazer uma escolha — explicou Ângela.

— Mas antes vamos dar uma volta, para fortalecê-lo.

Eles passaram o braço na cintura de Jorge, cada um de um lado, e, naquele instante, ele sentiu que toda angústia desaparecera. Uma sensação de calma e bem-estar o invadiu. Respirou com prazer e disse:

— Eu estou bem! Fiquei curado! Posso ir para casa cuidar de minha filha!

Eles não responderam, elevaram-se no espaço e volitaram sobre a cidade. O dia estava amanhecendo e as estrelas ainda brilhavam no céu.

Jorge suspirou emocionado e disse:

— Que beleza! Se é um sonho, não quero acordar!

— Vamos voltar. É hora.

Dentro de segundos, entraram na sala de cirurgia. Os médicos conversavam:

— Fiz o que pude. Espero que funcione. Pode terminar.

— Você acha que não terá sequelas?

— Ainda não sei. Vamos ver.

Jorge observava admirado enquanto dois médicos continuavam trabalhando. Ele se esforçava para ver o que eles faziam, mas só conseguia enxergar as costas de um deles.

— Estou com medo! Não quero morrer! Quero sair daqui!

— Calma. Está tudo bem — disse Ângela. Beto passou o braço na cintura dele dizendo:

— Você não vai morrer. Ainda não é sua hora.

— Não quero ir. Miriam precisa de mim. Não posso abandoná-la.

— Você vai voltar ao seu corpo, mas antes vamos ter uma conversa.

Os dois espíritos conduziram Jorge ao jardim do hospital e Beto explicou:

— Reencarnar na Terra é um projeto de aprendizagem que seu espírito fez com orientação dos mestres superiores. Você é livre para escolher como quer viver e o sucesso da sua vida vai depender das suas escolhas.

— O que significa isso? Você fala como se eu tivesse vivido em outro lugar antes daqui.

Beto fixou-o sério e respondeu:

— Você já viveu várias encarnações na Terra, mas esqueceu o passado temporariamente. O espírito é eterno. Nós acompanhamos você há muito tempo e desejamos que, desta vez, alcance o que veio buscar.

Jorge olhou-o admirado e perguntou:

— Foi por isso que eu tive a sensação de conhecê-los?

— Foi — disse Ângela.

— Você é muito apegado a Miriam há bastante tempo e esse apego está atravancando o desenvolvimento de ambos. A morte é uma das probabilidades durante a encarnação. Quando o espírito está progredindo, seu tempo de permanência na Terra pode ser aumentado, caso contrário, será restringido. Você quase desencarnou nesse acidente por causa disso.

— Isso não é verdade! Eu faço tudo para protegê-la, para que ela seja feliz!

Ângela interveio:

— Você acredita que esteja fazendo um bem, mas, na verdade, a superproteção enfraquece, não permite que o espírito amadureça, aprisiona, cria insatisfação e infelicidade. Você está impedindo sua filha de crescer.

— Você culpa seu genro, mas quem está impedindo a felicidade dela é você. A vida vai lhe dar mais uma oportunidade de mudar, mas sua recuperação e a possibilidade de viver mais tempo vão depender de suas atitudes — reforçou Beto.

— Mas eu não acredito que meu amor por ela tenha sido a causa de ela estar infeliz.

— Posso provar. Feche os olhos e você vai rever alguns fatos. Preste atenção.

Ângela postou-se atrás de Jorge e colocou a mão espalmada sobre sua nuca enquanto Beto estendeu a sua mão sobre a testa dele.

Então Jorge começou a voltar no tempo e cenas da infância e da juventude de Miriam desfilaram diante de seus olhos. Ele não gostou do que viu. A contragosto, começou a perceber que sua interferência a deixara mais fraca e infeliz.

Chocado, ele comentou:

— Eu não sabia!

— Agora sabe. Você vai voltar ao seu corpo, mas não vai esquecer nossa conversa.

— O que posso fazer para consertar isso? Quero que Miriam seja feliz!

— Observe as coisas, sinta, você vai descobrir o caminho. Vamos, seu corpo já está no quarto. Precisa voltar.

Chegaram ao quarto onde Flora e Miriam estavam sentadas velando Jorge; Olga, Davi e Franco esperavam no corredor e conversavam sobre o caso, desejando que ele melhorasse.

Os dois espíritos levaram Jorge até o corpo adormecido sobre a cama e, vendo-o com a cabeça enfaixada, soro, aparelhos ligados em volta, ele disse assustado:

— Vou sentir dor, não quero ir.

— É sua hora. Não podemos protelar mais. É bom se lembrar de Deus, pedir a Ele que o sustente. Pode acreditar, Ele sempre responde com muito amor. Deus o abençoe.

Antes que Jorge respondesse, Beto colocou a mão na testa dele enquanto Ângela, mais atrás, orava. Imediatamente o espírito de Jorge acomodou-se no corpo e adormeceu.

Os dois espíritos ainda permaneceram no quarto até que outros dois espíritos chegaram e se aproximaram deles dizendo:

— Missão cumprida. Podem ir. Nós ficaremos auxiliando.

Os dois deixaram o hospital e logo ganharam distância e desapareceram.

Uma hora depois, Davi, Franco e Olga entraram no quarto. Miriam, recostada no sofá, demonstrava cansaço e Flora, sentada ao lado da cama, abatida, preocupada, observava seguidamente o rosto do marido, procurando descobrir algum sinal de melhora.

Os médicos haviam dito que o caso era grave, mas que a cirurgia decorrera bem. Haviam feito o possível, esperavam que ele se recuperasse. Entretanto, ainda era cedo para fazer um prognóstico.

Olga aproximou-se de Miriam dizendo baixinho:

— A enfermeira me disse que seu pai vai dormir o resto da noite. Davi vai para casa e é melhor você ir com ele para descansar um pouco. Amanhã cedo ele poderá trazê-la de volta. Eu ficarei aqui para fazer companhia à sua mãe.

— Eu quero ficar com ele.

Flora interveio:

— É melhor você ir. Conforme ele estiver amanhã, quando você vier, eu vou para casa tomar um banho, trocar de roupa. Ele vai passar alguns dias aqui e precisamos nos revezar.

— Eu gostaria de ir para minha casa! Por que Ivo não vem me buscar? O lugar dele é aqui, ao meu lado! Flora franziu o cenho e disse com voz firme:

— Você não é mais criança. Está na hora de entender e procurar cooperar. Seu pai precisa de nós! Ivo veio assim que soube, está nos ajudando. Amanhã cedo terá de ir para a loja. Você vai com Davi e volta amanhã cedo.

— Eu não quero.

Flora aproximou-se de Miriam, segurou-a pelo braço, fê-la levantar-se e disse com voz firme:

— Vá lavar esse rosto, compor-se para acompanhar seu sogro. É uma ordem.

Miriam fixou-a assustada, baixou os olhos e obedeceu. Olga abraçou Flora dizendo:

— Eu vou ficar aqui com você.

Os olhos de Flora brilharam quando ela respondeu:

— Obrigada. Em momentos como esse é que se reconhece os amigos.

Miriam voltou, havia dado um jeito nos cabelos, composto a roupa, mas seu rosto estava pálido e havia tristeza em seus olhos. Apanhou a bolsa e olhou para a mãe, aflita. Flora abraçou-a, dizendo:

— Nós precisamos ser fortes. Este momento vai passar e seu pai vai se recuperar.

Vendo que os olhos de Miriam se encheram de lágrimas e que ela ia dar vazão à sua tristeza, Flora continuou:

— Se quer que seu pai se recupere, não lamente nem reclame, isso não ajuda em nada e torna você mais fraca. O que será dele se nós ficarmos mal? Jorge sempre fez tudo por nós, e agora que ele está precisando, temos que ajudá-lo a se levantar. É o mínimo que podemos fazer por ele.

Miriam olhou-a surpreendida. Sua mãe estava mudada, parecia outra pessoa. Mas suas palavras tiveram a capacidade de fazê-la engolir o choro, levantar a cabeça e dizer:

— Eu vou, mas amanhã cedo estarei de volta. Davi abraçou Flora:

— Miriam está precisando descansar. Vou cuidar dela com carinho. Procure descansar você também. Amanhã é outro dia e tudo vai melhorar.

— Obrigada, Davi.

Depois que os dois saíram, Franco aproximou-se de Flora e disse:

— A senhora precisa refazer as energias. Quer um sanduíche, um café ou um chá?

— Obrigada, Franco. Olga já comprou algumas coisas, mas eu estou sem fome. Não dá para engolir nada. Ele olhou-a pensativo, depois respondeu:

— Sei que está difícil aceitar o que aconteceu. O sentimento da impotência é forte e desagradável. Revela nossa fragilidade. Mas, pense, dona Flora: são os desafios mais fortes que, enfrentados, nos fazem perceber nossa força. Sua atitude firme demonstra que já entendeu isso.

Flora acariciou o rosto de Franco e seus olhos estavam doces quando disse:

— Você percebeu o que estou sentindo, suas palavras me confortaram.

Franco sorriu levemente:

— Eu ainda acho que você deveria comer alguma coisa gostosa para compensar.

— Foi pensando assim que eu engordei alguns quilos — disse Olga.

— Não se preocupem. Estou bem.

— Vou tomar um café mas não demoro. Vem comigo, tia Olga?

Olga aceitou e ambos foram até a lanchonete. Ela queria saber a opinião do sobrinho sobre a situação.  

Enquanto tomavam café, ela comentou:

— Os médicos não esclareceram nada. Essa cirurgia pode deixar sequelas. O que acha?

— Vamos ver como ele vai reagir.

— É uma situação delicada. Ivo havia se separado e deve estar se sentindo culpado pelo que aconteceu.

— Ivo não suportava mais. Apesar do que houve, penso que ele não vai mais reatar o casamento.

— É isso que eu temo. Eu não queria que as coisas chegassem a esse ponto. Nós sempre fomos contra esse casamento, da maneira que foi, você sabe disso. Ivo me disse que há algum tempo não sente mais amor pela Miriam. Mas e agora? Se ele se sentir culpado vai voltar e continuar fazendo tudo que ela quer. E pior: vai continuar infeliz.

— Tenho conversado muito com ele. Está centrado no que quer, disposto a conquistar seu bem-estar e ser feliz. Sabe separar as coisas. Vai apoiar o sogro enquanto for preciso e auxiliar a família como puder, mas não vai mais abdicar de sua liberdade pessoal.

— Tomara que seja assim. Espero que Jorge se recupere e tudo volte ao normal. Ninguém merece viver infeliz.

Franco comprou um lanche para Flora e voltaram ao quarto. Jorge continuava adormecido e Flora, vendo-os, comentou:

— Acho que ele já deveria ter acordado. Estou preocupada. Será que está tudo bem?

— Ele vai demorar para acordar. O médico disse que vai mantê-lo sedado por pelo menos doze horas.

— Tem certeza?

— Tenho. Será melhor recostar-se e tentar dormir um pouco. Quando acordar, ele vai precisar dos seus cuidados.

— Eu também ouvi o médico dizer isso — aduziu Olga.

— Agora preciso ir. Mas antes gostaria de fazer uma oração em favor de Jorge. A prece acalma, conforta-nos e auxilia o doente.

Flora concordou e Franco pediu:

— Vamos ficar ao redor da cama, darmos as mãos e imaginar que Jorge está acordado, em pé, fazendo parte do nosso grupo.

As duas obedeceram e Franco fechou os olhos, pediu que pensassem em Deus e murmurou comovida prece, pedindo auxílio para Jorge e força para todos da família.

Quando ele terminou, Flora o abraçou comovida dizendo:

— Obrigada, meu filho. Suas palavras me confortaram.

Franco se despediu e as duas acomodaram-se, preparando-se para esperar os acontecimentos.

Quando Franco chegou em casa já havia amanhecido e Gisele estava na cozinha tomando café. Vendo-o entrar, perguntou:

— E então, como foi?

Franco fez um rápido relato sobre os acontecimentos e finalizou:

— As coisas ainda não estão claras. Quando olho para o rosto dele sinto um aperto no peito. Os médicos não foram muito claros. Vamos esperar para ver. Eu estava ansioso para falar com você, saber o que nossos amigos espirituais disseram sobre o caso.

Gisele fixou os olhos nos dele e disse:

— Ele está em uma encruzilhada. Tanto pode ir como ficar. Vamos ver o que a vida vai fazer.

Franco olhou-a sério:

— O que você está sentindo?

— Percebo que há muitas mudanças acontecendo. Ainda não dá para saber o resultado.

Franco ficou pensativo. Gisele continuou:

— O que quer que aconteça, estou certa de que será para melhor.

Franco sorriu levemente e respondeu:

— Os espíritos de luz sempre encontram uma forma de demonstrar que, seja qual for o resultado, acontece só o que for melhor para todos.

Gisele sorriu e comentou:

— Eles sabem que só acontece o bem, ainda que seja por linhas tortas.

— É isso o que está me preocupando.

— Sente-se. O pão está quentinho e muito gostoso. Tem também aquele bolo de que você gosta.

— Boa ideia. Vou comer e dormir. Ainda bem que hoje só tenho clientes à tarde.

Depois de comer, Franco foi descansar. Como era cedo para Gisele ir trabalhar, ela sentou-se na sala e apanhou uma revista, mas não teve tempo para folheá-la. A campainha tocou e ela foi abrir.

Ivo entrou apressado:

— Franco já saiu?

— Não. Ele passou a noite no hospital, chegou meia hora atrás, tomou café e foi dormir. É urgente? Quer que eu vá chamá-lo?

— Não. Deixe-o descansar. Daqui a pouco terei de abrir a loja. Só queria saber como estão as coisas no hospital. Não quero aparecer muito por lá para não criar tumulto e nem alimentar as expectativas da Miriam. Ele comentou alguma coisa sobre a cirurgia?

Em poucas palavras Gisele contou o que sabia e finalizou:

— Por enquanto não há nada definitivo. Os médicos fizeram o possível, mas querem ver como ele vai reagir. Ivo olhou-a sério e disse:

— Franco me disse que você, de vez em quando, tem premonições. Está desenvolvendo mediunidade. É verdade?

— Sim. Desde criança sinto a presença dos espíritos. Meus pais costumam me visitar de vez em quando.

— Você viu alguma coisa com relação ao acidente do pai da Miriam?

— Sinto que a situação dele ainda não está clara. Teremos de esperar.

— Se os espíritos não dizem nada, é preocupante. Será que ele vai morrer e eles preferem não contar?

— Morrer é natural e eles falariam. Quando um espírito reencarna na Terra, tem um prazo provável para viver aqui. Se ele estiver progredindo, aprendendo, fazendo o que programou antes de nascer, esse tempo poderá ser aumentado, caso contrário, ele poderá regressar ao astral antes do combinado.

— Minha avó sempre comentava que na Terra os bons morrem cedo enquanto os maus vivem mais.

— A providência divina protege a todos. Os bons morrem porque já cumpriram o objetivo dessa encarnação, enquanto os maus às vezes vivem um pouco mais porque são lentos, precisam de mais tempo para aprender. E há o caso de Jorge, que, no momento, está entre um plano e outro, eu diria que está no fio da navalha. Ele vai decidir se vai ou se fica.

— Como ele pode decidir, se está inconsciente no hospital?

A voz de Gisele estava mais grossa e forte quando respondeu:

— O corpo está adormecido, mas o espírito dele está lúcido. Ainda hoje ele vai decidir. Quanto a você, lembre-se de que cada um tem o direito de viver em paz e de conquistar a própria felicidade. Não se deixe mais envolver pelas ideias dos outros. Faça sempre o que o seu coração quer. Que Deus os abençoe.

Gisele se calou, enquanto Ivo a olhava emocionado. Aquele recado fora para ele. Antes que falasse, Gisele comentou:

— Quando eu desejo ajudar alguém, mas não sei como, esse amigo espiritual vem e esclarece.

— Eu estava nervoso e suas palavras me deixaram mais calmo.

- Ele só se manifestava com meus irmãos e nem sempre eu tinha consciência disso. Foi a primeira vez que conversou diretamente com outra pessoa.

— Você ficou diferente. Sua voz mudou, ficou mais grossa, tive até a sensação de que você ficou mais alta. Eu senti uma brisa fresca, agradável, passar pela minha cabeça e me emocionei.

Gisele sorriu alegre dizendo:

— É isso que eu sinto quando ele se aproxima. É uma alegria que não sei explicar. Tudo fica claro na minha cabeça e eu me sinto forte.

— Eu gostaria de entender um pouco mais do que se passou aqui.

— Vou emprestar-lhe um livro de pesquisas sobre o assunto. Você vai gostar. Tenho mais dez minutos antes de ir trabalhar, mas antes quero que tome um café e coma uma fatia do bolo que é especialidade do Carlos. Venha.

Ivo aceitou com prazer e lhe ofereceu uma carona até o trabalho.

 

A tarde estava findando, Flora levantou-se. Olhou pela fresta da cortina, onde os últimos raios de sol refletiam nos vidros da janela, e suspirou triste. Esperara durante o dia inteiro que Jorge acordasse, mas ele continuava dormindo.

O médico passara pela manhã e lhe dissera que ele estava reagindo bem e que tudo estava dentro da normalidade.

— Mas quando ele vai acordar?

— Tenha paciência. A sedação é necessária para que ele repouse e permaneça relaxado. Qualquer emoção maior poderá prejudicar sua recuperação.

Ela concordou. Mas o medo a incomodava. Jorge teria ficado com alguma sequela do acidente? Miriam folheava uma revista em silêncio e Flora sentou-se novamente ao lado da cama.

Ouviram uma leve batida na porta e Olga entrou com alguns pacotes. Deixou-os sobre o sofá, beijou Miriam, abraçou Flora e perguntou:

— Ele já acordou?

Flora suspirou:

— Ainda não. Estou preocupada.

— Mas o médico avisou que ele ficaria sedado. A porta abriu, o médico entrou e Flora levantou-se apressada:

— Doutor Gilberto! Estava esperando ansiosamente sua chegada.

O médico cumprimentou-a discretamente, aproximou-se de Jorge, examinou os aparelhos que se mantinham ligados a ele, olhou a ficha pendurada na cama, abriu levemente os olhos dele e, voltando-se para as duas que esperavam, comentou:

— Tudo está indo como o esperado.

— Quando ele vai acordar? — indagou Flora.

— A sedação está mais suave. Vamos ver. Se tudo continuar bem, pode ser que amanhã cedo ele já possa acordar.

— Não vejo a hora.

— Tenha paciência. O caso dele foi grave e delicado. Até agora estamos confiantes, mas temos que ter cuidado e fazer tudo com calma e precisão.

Doutor Gilberto consultou o relógio de pulso, olhou o receituário, acrescentou alguma coisa e depois retirou-se.

Miriam remexeu-se no sofá, foi até a janela, inquieta, e reclamou:

— Esta janela não dá para a rua. Eu queria ver se Ivo estava chegando.

Flora não respondeu. Sua cabeça estava longe. Durante a noite, embora houvesse recostado na poltrona, tentado relaxar e dormir um pouco, não conseguira. Entre o receio e a vontade de que Jorge reagisse, voltara no tempo, reavaliando os anos de convivência e sua passividade diante do apego do marido com a filha.

Ela notava os exageros dele, sentia que isso não era bom, mas não fazia nada para que ele percebesse o mal que estava causando à filha.

Percebeu o quanto gostava de contemporizar para não quebrar o próprio sossego e ter de intervir. O que ela mais gostava era de poder ler seus romances no silêncio da tarde, tirar um cochilo após o almoço, enquanto Miriam estava no colégio, e estar alegre e bem-disposta quando Jorge chegasse.

Analisando os anos de casamento de Miriam, uma sensação forte de culpa a acometeu. Sentiu que sua omissão havia impedido a filha de amadurecer, de tornar-se uma mulher forte que sabe o que quer.

Observou a inquietude de Miriam que, mesmo diante do problema do pai — que elas sequer sabiam se iria se recuperar —, só pensava na ausência do marido e na própria infelicidade.

Olhando o rosto pálido de Jorge, ouvindo sua respiração um tanto diferente do natural, ela sentiu que precisava fazer alguma coisa para mudar sua postura. Se ele morresse, ela nunca se perdoaria. Não tendo feito nada, se omitido, contribuíra para agravar a situação.

Será que se ela houvesse se posicionado, reagido, coibindo os mimos do marido, a situação não teria se modificado? Jorge era um homem inteligente, amoroso, gostava de fazer tudo direito. Amava a filha e, se entendesse seu erro, certamente teria tentado se modificar. Mas agora o mal estava feito. Era tarde para tentar fazer alguma coisa.

Flora fechou os olhos e pensou em Deus, conversou com Ele prometendo que dali para frente tudo faria para ajudar Miriam a assumir a responsabilidade pela sua vida. Mesmo que Jorge se recuperasse e tentasse continuar com as mesmas atitudes, ela continuaria nesse propósito, posicionando-se de todas as formas. Faria disso um projeto de vida.

Depois de tomar essa decisão, sentiu-se mais forte e com uma sensação de paz. Recordou-se de que abandonara a faculdade de Letras no primeiro ano para se casar e cuidar da família.

Várias vezes se arrependera de não ter terminado os estudos e se dedicado a alguma atividade. Decidiu que, quando o marido melhorasse, ela iria voltar a estudar. Talvez ingressar em uma faculdade de Psicologia. Era uma matéria da qual gostava e, fosse qual fosse a situação do marido, ela faria isso.

Miriam parou diante dela e chamou:

— Mãe, fale comigo! Você está esquisita. Está se sentindo bem?

— Estou cansada. Acho que peguei no sono. Olga aproximou-se:

— Você ficou o tempo todo nessa cadeira. Durante a noite não dormiu nada. Por que não se deita um pouco no sofá? Se Jorge acordar ou o médico voltar, eu chamo você.

— Obrigada, Olga. Eu estou bem. Dá para esperar um pouco mais.

Algumas batidas na porta e Ivo entrou. Miriam correu para ele e o abraçou dizendo emocionada:

— Finalmente você veio! Por que nos abandonou em uma hora como essa? Estamos precisando de você!

Ele desvencilhou-se dela dizendo:

— Controle-se, Miriam.

— Nós precisamos conversar.

— Não quero conversar com você agora. Se insistir, dona Flora que me perdoe, mas eu não voltarei mais a este hospital enquanto você estiver aqui.

Miriam fez cara de choro e Flora interveio:

— Cale a boca, Miriam. Olga, por favor, saia com ela. Vão dar uma volta, eu preciso conversar com Ivo a sós. Olga passou o braço no de Miriam, mas ela resistiu:

— Eu não saio daqui enquanto Ivo não me explicar por que está fazendo isso comigo.

Flora aproximou-se, segurou os braços dela com força e disse com voz firme:

— Não é hora de você fazer cena. Eu a proíbo. Respeite seu pai e controle-se. Saia com Olga, vá esfriar a cabeça, caso contrário eu a mandarei para casa e não permitirei que apareça aqui de novo. Seu pai precisa de calma e de amor. Você não vai perturbá-lo mais do que já fez. Agora vá!

Ela disse essas palavras com tanta firmeza que Miriam, assustada, não reagiu. Olga abraçou-a e levou-a embora.

Ivo olhava admirado e satisfeito. Flora estava se revelando uma pessoa forte e eficiente.

— Desculpe essa cena, Ivo. Sente-se e vamos conversar.

Ele obedeceu, olhou Jorge e perguntou:

— Como ele está?

— Na mesma. Não acordou ainda. Mas os médicos dizem que o estão sedando e logo vão deixá-lo acordar.

— Faço votos de que ele melhore.

— Obrigada por você estar cuidando da loja. Está tudo bem por lá?

— Sim. Alguns clientes souberam do acidente e nos têm visitado para mandar votos de melhora. As pessoas gostam de conversar com ele.

— É muito atencioso com os clientes e sério nos negócios.

— É verdade. Eu não tenho vindo aqui nem ligado, a senhora entende o porquê, não é?

— Você quer evitar tumultuar o ambiente. Miriam não tem noção das coisas.

— É. Mas saiba que estou à sua disposição. Tudo que precisar, é só me ligar e eu procurarei fazer o que for possível.

— Eu sei disso, meu filho. Agradeço sua boa vontade. Desde que estou aqui, tenho pensado muito e cheguei à conclusão de que eu tenho uma parcela de culpa no comportamento de minha filha. O tempo todo eu senti que o apego excessivo de Jorge, a forma como ele educou Miriam era errada, mas, por comodismo, eu nunca intervim. Para não me aborrecer, ter de discutir, me omiti. Mas estou disposta a mudar. Embora um pouco tarde, quero fazer tudo para que Miriam amadureça e se torne uma pessoa melhor.

— É bom que pense assim.

— Responda com sinceridade: você vai mesmo romper definitivamente com seu casamento?

Ivo remexeu-se na cadeira pensativo e Flora continuou:

— Desculpe tocar no assunto. Reconheço que você tem seus motivos, e tem o direito de fazer de sua vida o que quiser. Não estou julgando ninguém, só quero saber o que pretende para me posicionar daqui para frente. Estou pronta para tudo. Não sei como Jorge vai acordar, se terá sequelas, se vai ou não se recuperar, mas aconteça o que acontecer, estou disposta a encarar a situação com coragem, determinação e cuidar da minha família o melhor que puder.

Ivo sentiu que ela estava sendo sincera. Pensou um pouco e respondeu:

— Não culpo ninguém pelo fracasso do meu casamento. Meus pais me aconselharam a esperar, acabar os estudos e organizar minha vida, para depois me casar. Mas eu me deixei levar, também, pelas facilidades que me foram oferecidas e aceitei o que seu marido me ofereceu. Todos nós acreditamos estar fazendo o melhor. Mas as coisas foram acontecendo, revelando nossas fraquezas, nossa imaturidade, nos levando ao que aconteceu.

— Vocês se casaram por amor.

— É verdade. Eu amei Miriam e por ela tentei superar uma convivência difícil. Com o decorrer do tempo, fui me sentindo sufocado, sem autonomia, perdi o respeito por mim mesmo. Então o amor acabou e deu no que deu.

Flora ficou calada por alguns instantes, depois considerou:

— Avalio como se sente. Eu gostaria de ter uma posição sua definitiva, mas sinto que você, no momento, talvez ainda não tenha essa resposta. Vamos deixar o tempo responder. Contudo, seja o que for que o futuro nos traga, estou disposta a agir e ajudar Miriam a crescer, nem que para isso precise do resto de nossas vidas. O amor sem disciplina faz mal e, apesar do que fizemos, espero ter ainda tempo de auxiliá-la a encontrar a própria felicidade.

— Por enquanto só sei que preciso recuperar minha liberdade, voltar a ser eu mesmo e tentar encontrar novamente o caminho da serenidade. Suas palavras me confortaram. Continuo à sua disposição para o que precisar. Desejo de coração que seu marido se recupere o mais rápido possível e retome seus negócios. Enquanto isso, pensarei o que fazer da minha vida. Agora preciso ir. Se precisar de alguma coisa, basta ligar para a casa dos meus pais.

Flora abraçou-o com carinho, prometendo avisar se houvesse alguma mudança no estado de Jorge. Ivo deixou o quarto, preferindo ir pelo lado oposto da lanchonete para evitar um possível encontro com Miriam.

A atitude de Flora o deixara mais tranquilo quanto ao futuro e ele queria conservar a própria serenidade.

Pouco depois, Olga voltou ao quarto com Miriam, que passou os olhos pelo aposento e perguntou nervosa:

— Ivo já foi? Está vendo, Olga, o que você fez? Não me deixou voltar e eu precisava falar com ele. Flora pediu:

— Acalme-se, Miriam. Se Ivo quisesse falar com você, ele a teria procurado.

— Todos vocês estão contra o meu casamento. Só papai me entende. Meu Deus! Por que será que aconteceu essa desgraça? Se ele estivesse bem, Ivo já estaria em casa de novo e tudo estaria em paz.

— Ainda não é o momento para ter essa conversa com seu marido — tornou Flora com voz firme. — Ele ainda não quer falar com você. Não tenha pressa de tocar no assunto do seu casamento; quanto mais tempo demorar, melhor.

Miriam franziu o cenho, colocou as mãos na cintura e perguntou irritada:

— Por que está me dizendo isso? Ele precisa voltar para casa o quanto antes.

— Ele não pensa em fazer isso. É melhor não insistir. Miriam aproximou-se do pai, segurou o braço dele e disse nervosa:

— Pai, acorde! Você não pode me abandonar. Eu preciso de você! Por que está fazendo isso comigo? Flora puxou-a com força, dizendo:

— Você enlouqueceu? Quer acabar com ele? Saia daí. Controle-se! Onde já se viu?

Miriam começou a chorar convulsivamente e Flora continuou:

— Pare com isso! Se não se acalmar, não a deixarei mais ficar aqui. Você vai para casa e ficará lá até ele se recuperar. E pare de chorar. Chega de cena.

A porta abriu e o doutor Gilberto entrou acompanhado de uma enfermeira. Olhou para Flora e comentou:

— É melhor sua filha ir para casa. Ela não está bem para ficar aqui. Precisa descansar. O paciente precisa de calma.

— É o que eu estava dizendo a ela. Está exausta. É melhor ir para casa.

— Eu quero ficar com meu pai, vê-lo acordar. Doutor Gilberto tomou o pulso de Miriam, que a custo tentava dominar os soluços, e disse:

— Seu coração está acelerado. Vá para casa, tome um calmante e descanse. Só permitirei que volte aqui amanhã, se estiver se sentindo bem.

— Olga, você levaria Miriam para sua casa e cuidaria dela esta noite?

— Sim, fique tranquila, ela vai ficar bem. Nós cuidaremos dela.

Flora abraçou a filha, dizendo:

— Vá com ela e trate de se recuperar para poder voltar aqui amanhã.

— Você vai ficar sozinha?

— Estou rodeada de pessoas e ao lado de seu pai. Temos toda assistência que precisamos.

A enfermeira entregou a Olga um envelope com dois comprimidos e recomendou:

— Ela deve tomar um antes de dormir e outro pela manhã, ao acordar.

— Lembre-se de que só a deixarei ficar no quarto amanhã se estiver bem — reforçou o médico.

Elas se despediram e se foram. Vendo-se a sós com doutor Gilberto, Flora perguntou:

— Ele vai continuar sendo sedado?

— Não. Esta noite ele só vai tomar um sedativo leve e penso que amanhã cedo ele vai acordar. O doutor Frederico estará por perto se precisar de alguma coisa. Amanhã bem cedo estarei aqui.

— Como será que ele vai estar ao acordar?

— Seus sinais estão se normalizando e espero que esteja bem. Vamos ver como reage.

— Obrigada, doutor.

Ele examinou Jorge, escreveu algo na ficha e se despediu. A enfermeira ajeitou a cama e saiu. Flora ficou sozinha.

Apesar de cansada, não sentia sono. Enquanto olhava o rosto de Jorge adormecido e ouvia sua respiração compassada, Flora começou a recordar-se de quando o conhecera e de como se sentira atraída pelos olhos interessados dele, sua figura elegante, seu porte altivo, os cabelos castanhos com reflexos dourados, que ele tentava manter comportados mas que escapavam revoltos, dando a seu rosto um ar de menino.

Lembrou-se da paixão dos primeiros tempos, do casamento celebrado pela família toda, da gravidez festejada, da chegada da filha que os enchera de felicidade.

Por que as coisas tinham mudado tanto a ponto de transformar o encantamento em preocupação? Lembrou-se da alegria que sentiram com a inauguração da loja, que lhes dera uma vida mais confortável e melhor. Eles progrediram financeiramente, mas por que o bem-estar, a serenidade também não vieram?

Agora, olhando o passado, parecia-lhe que essa história não fora real e o acidente havia deixado claro que tudo fora ilusão.

Jorge dedicara-se inteiramente à loja, controlava despesas, vigiava os funcionários, atendia os clientes com presteza e honestidade. Tornara-se metódico e exigente. Só a presença da filha tinha o poder torná-lo maleável e permissivo. Ela tornara-se sua rainha, que podia tudo e todos deveriam reverenciá-la.

Flora lembrou-se de que todos os empregados em casa deveriam obedecer aos caprichos da menina, que aceitara essa posição prazerosamente.

Para Jorge, a filha era intocável. Flora, no começo, percebera os exageros dele e várias vezes tentara chamá-lo à razão. Mas esse assunto tornara-se motivo de briga, e ela, a fim de viver em paz, decidiu não intervir mais.

Flora respirou fundo, levantou, apanhou um copo de água e tomou alguns goles. Sentia que não poderia mais se omitir. Alguma coisa precisaria fazer a fim de que Miriam pudesse viver e ser uma pessoa melhor. Se ela não melhorasse, amargaria a vida sozinha porque os outros não tolerariam suas exigências descabidas.

Não se tratava apenas de Ivo, mas de uma situação ilusória que estava fazendo sofrer todos os que vivessem ao lado dela. Naquele momento, Flora teve consciência do quanto eles haviam errado por não terem lhe ensinado as regras da convivência, os valores éticos que tornam a vida mais produtiva, causam prazer e, apesar dos desafios, fazem a vida valer a pena.

Foi então que Flora sentiu brotar dentro dela uma vontade imensa de poder fazer alguma coisa para mudar essa situação. Mas como?

Num impulso, ajoelhou-se ao lado da cama, pensou em Deus e pediu ardentemente que lhe desse a oportunidade de refazer o próprio caminho.

Jorge era um homem bom, trabalhador, honrado, amoroso, mas estava equivocado. Ele estava entre a vida e a morte e ela desconhecia o futuro. Implorava a Deus que lhes desse outra oportunidade de continuarem juntos. Ela teria como objetivo de sua vida, dali para frente, com seu amor, sua dedicação, fazer com que ele entendesse o quanto estava impedindo a filha de amadurecer, de assumir a responsabilidade pela sua própria vida, e ter a dignidade de construir o próprio bem-estar.

Flora sentiu que um calor suave invadiu seu peito enquanto um sentimento de serenidade a envolveu. Ela não sabia, mas os espíritos de Ângela e Beto, mãos estendidas, oravam com ela, enquanto do alto desciam sobre eles energias multicoloridas inundando o quarto de luz.

Então aconteceu o inesperado: Jorge respirou fundo, abriu os olhos e disse com voz fraca mas audível:

— Flora, você está aí? O que aconteceu?

Flora levantou como que tocada por uma mola. Fixou o rosto pálido do marido, alisou com carinho sua testa e respondeu:

— Estou aqui, fique calmo que está tudo bem!

Jorge fechou os olhos e adormeceu de novo, mas sua respiração tornara-se mais natural e calma. Enquanto em pensamento Flora agradecia a Deus pela ajuda, apertou a campainha.

A enfermeira entrou e os olhos de Flora brilhavam quando disse alegre:

— Avise ao médico que Jorge acordou e falou comigo, me reconheceu e parece bem.

A enfermeira tomou o pulso dele e disse:

— Ele continua dormindo. A senhora tem certeza de que ele acordou mesmo?

— Tenho. Ele conversou comigo e adormeceu de novo. Pode avisar ao doutor.

Ela saiu apressada, enquanto Flora acomodou-se na poltrona ao lado da cama, sentindo intimamente a certeza de que naquele momento ela havia conquistado a primeira vitória na busca de um futuro melhor.

 

Doutor Frederico aproximou-se de Jorge, tomou-lhe o pulso durante alguns segundos, depois comentou:

— Está voltando a si. Falou alguma coisa?

— Ele disse: "Flora, você está aí? O que aconteceu?", depois dormiu de novo.

— Ainda está atordoado, mas lúcido.

— O que acha, doutor?

— Ele reagiu bem à cirurgia e penso que está se recuperando.

— Ele vai ficar bom. Tenho certeza disso.

— Vamos ver. À primeira vista, parece que sim. Vamos esperar um pouco mais, fazer alguns exames. O dia está clareando e logo o doutor Gilberto estará aqui. Até lá, ele terá recuperado a consciência e teremos condições de programar o tratamento.

O médico apanhou a ficha do paciente, fez anotações e explicou a Flora:

— Mandei aplicar um soro para repor as energias. Assim que o doutor Gilberto chegar, viremos vê-lo.

Flora acomodou-se novamente ao lado da cama, sentindo-se mais calma e confiante. Apesar de cansada, não estava com sono. Apanhou uma revista que Olga havia deixado, começou a ler mas, de vez em quando, observava o rosto de Jorge. A respiração dele estava mais natural e de vez em quando ele movia o braço onde estava o soro, querendo levar a mão ao rosto ou à cabeça, ou colocava a outra mão no curativo que envolvia sua cabeça. Ela deixou a revista de lado e ficou atenta a fim de que ele não se machucasse.

Eram sete horas da manhã quando a enfermeira trouxe a bandeja do café e colocou sobre a mesa. Flora sentiu fome e lembrou-se de que não se alimentara desde que chegara ao hospital.

Serviu-se de café com leite, passou manteiga no pão e comeu com prazer. Estava terminando quando Jorge remexeu-se, abriu os olhos e chamou:

— Flora, onde você está?

— Aqui, perto de você.

— Como está Miriam?

— Bem. Está na casa da Olga.

Jorge ficou silencioso, olhou em volta e disse:

— Este não é nosso quarto. Onde estamos?

— No hospital. Você sofreu um acidente, estamos no hospital.

Ele tentou passar a mão na testa e Flora apressou-se a dizer:

— Você bateu a cabeça e precisou enfaixar. É melhor não colocar a mão.

— Estou meio atordoado. Acho que tive um pesadelo. Não sei bem. Eu vi que estavam me operando.

— Você sonhou. Mas já passou. Está tudo bem.

A porta abriu e os dois médicos entraram e aproximaram-se de Jorge. Doutor Gilberto sorriu e comentou:

— Você acordou e está bem! Vamos examiná-lo.

— Eu estava na sala de cirurgia e vi quando vocês estavam me operando. Um de vocês disse: "Está pronto. Pode começar". E o outro respondeu: "Direcione a luz. Está bom. Bisturi".

Os dois olharam para ele assustados. Doutor Frederico tornou:

— Você estava sedado. Não pode ter visto nada.

— Mas eu vi. Sentia que estava no teto da sala e fiquei algum tempo observando. No começo não sabia que era eu que estava sendo operado. Mas depois um casal veio falar comigo e me mostrou que o operado era eu.

Flora interveio:

— Ele deve ainda estar sonolento.

Doutor Gilberto olhou-o sério e perguntou:

— Você conhecia esse casal?

— Não. Mas a presença deles me fez muito bem. Depois me levaram a um jardim bonito onde eu fui me recuperando e tudo ficou tão claro na minha cabeça... Eu nunca tinha tido algo assim. Tanto que, quando me trouxeram para este quarto e disseram que era hora de eu voltar ao meu corpo, eu não queria.

— Por quê? — indagou doutor Gilberto.

— É que o corpo estava operado, cheio de curativos, fios, e fiquei com medo. Tive medo da dor. Mas logo depois adormeci. Os senhores podem me explicar o que aconteceu comigo? Quem eram essas pessoas, que lugar era esse que me fez tanto bem? Eu gostaria de voltar lá!

— Você esteve o tempo todo anestesiado. Foi apenas um sonho. Esqueça isso. Agora que está bem, precisa cuidar da sua recuperação. Vamos fazer alguns exames, mas penso que o pior já passou — tornou doutor Frederico.

— Isso mesmo — reforçou doutor Gilberto. —Mais tarde voltaremos a esse assunto.

Enquanto os dois médicos examinavam Jorge e programavam os exames necessários, Flora observava admirada. Era estranho que o marido, mesmo anestesiado, não só soubesse que estava sendo operado, como tivesse presenciado o que se passara na sala de cirurgia.

A princípio imaginara que Jorge estava fora de si, mas ele falava com segurança e de forma coerente. Os médicos teriam mesmo dito aquelas palavras que ele dizia ter ouvido?

Sentiu vontade de lhes perguntar, mas não teve coragem. Contentou-se em sentir que o marido estava bem e em vias de recuperação.

Eram dez horas da manhã quando Miriam e Olga entraram no quarto de Jorge e depararam com a cama vazia. Miriam assustou-se:

— Onde está papai?

— Ele acordou esta madrugada, está bem e foi levado para fazer um exame. Logo mais estará de volta.

— Puxa, mãe, que susto! O médico disse quando ele vai voltar para casa?

— Não. Ele vai ficar aqui quanto for preciso e você está proibida de falar com ele sobre seu problema com Ivo. Ele precisa ficar calmo para se recuperar.

— Puxa, mãe, você não me entende. Só ele vai poder me ajudar.

— Se você fizer qualquer queixa do seu marido ou jogar em cima dele suas ameaças, não a deixarei ficar aqui. Controle-se. Jorge precisa estar em paz.

Miriam franziu o cenho, deu de ombros e sentou-se em silêncio. Olga olhou-a preocupada. Sabia que ela não iria se conter. Por isso, fixou Miriam e perguntou:

— Não seria melhor irmos embora e esperar que Jorge volte para casa? Então ele estará bem e você poderá conversar sobre seus problemas.

Miriam sequer respondeu. Flora interveio:

— A sugestão de Olga é ótima. Estou falando sério. Se você for inconveniente, eu mesma a colocarei para fora do quarto.

Passava do meio-dia quando Jorge voltou ao quarto. Ao ver a filha, emocionou-se, mas antes que Miriam o abordasse, a enfermeira pediu:

— Saiam todos que precisamos acomodar o paciente. Dona Flora pode ficar.

As duas foram esperar no corredor e Olga sugeriu que fossem à lanchonete comer alguma coisa.

— Os médicos estão no quarto e podem demorar. Você não tem se alimentado bem. Vamos comer um lanche enquanto esperamos.

Miriam olhou para a porta do quarto desanimada e concordou.

No quarto, acomodaram Jorge, levantaram um pouco a cabeceira da cama. Os médicos estavam satisfeitos porque os exames mostraram que o coágulo havia desaparecido e a cicatrização estava normal.

— Se tudo continuar assim, dentro de dois ou três dias ele poderá ter alta. Só precisa tomar os medicamentos direitinho, viver em um ambiente calmo e não fazer excessos. Relaxar, pensar em coisas agradáveis, manter alimentação saudável — explicou doutor Frederico.

— O que ele precisa agora é desfrutar de um ambiente calmo e longe das preocupações. A cirurgia foi séria, o trauma foi grande, ele está muito sensível e frágil — reforçou doutor Gilberto.

— Foi o que imaginei. Infelizmente, estamos passando por um problema difícil, que o incomoda muito. Mas ficarei atenta para que nada o aborreça.

Depois de conversar mais alguns minutos, os médicos saíram. Jorge abriu os olhos e perguntou:

— Eles já foram?

— Já. Disseram que precisa descansar.

— Eu ouvi. Estou melhor e quero saber como estão as coisas.

— Estão bem. Ivo está na loja cuidando dos negócios. E Miriam está mais calma.

— Ele já pediu perdão a ela?

— Eles vão se entender. Você não deve se preocupar com esse assunto.

— Tenho que cuidar da felicidade de minha filha. Flora fixou-o séria e respondeu:

— Quem tem de cuidar da própria felicidade é ela. Vamos deixá-los resolver suas pendências, se entender.

Jorge olhou-a pensativo e não respondeu. Ela continuou:

— Você está se recuperando, mas sua cirurgia foi delicada, seu sistema nervoso está sensível. Não pode se emocionar. Eu não vou mais me envolver nas brigas dos dois. Eles se casaram por amor e uma hora vão se entender. Eu estou disposta a respeitar a privacidade deles.

— Você não vai apoiar nossa filha?

— Aconteça o que acontecer, sempre a apoiarei. Mas a resolução terá que ser dela e dele. Estão casados há sete anos. Não são mais crianças, está na hora de eles saberem o que desejam da vida.

Jorge fechou os olhos e ficou calado. Flora, que esperava uma resposta mais firme, se surpreendeu. Ele continuou em silêncio e ela não disse mais nada.

Quando Olga e Miriam voltaram ao quarto, Jorge parecia estar dormindo. Flora fez-lhes sinal para que ficassem em silêncio.

Depois de certo tempo, ela dirigiu-se a Olga dizendo baixinho:

— Eu quero dar uma volta com Miriam, conversar com ela. Você pode ficar um pouco com Jorge?

— É bom mesmo você tomar uns ares, andar um pouco. Podem ir, eu ficarei com ele.

— Vamos, Miriam, andar um pouco.

— Mas, ainda não consegui falar com papai. Ele só dorme.

— É o que ele precisa fazer agora para se recuperar. Não está em condições de conversar e muito menos de se preocupar com seus problemas. Venha, temos muito que conversar.

Ela segurou no braço da filha e puxou-a para fora.

— Vamos até o jardim. As coisas mudaram muito e temos que conversar sobre como deverá ser nossa vida daqui para a frente.

Miriam parou dizendo:

— Por que está me dizendo isso? Papai não vai se recuperar?

— Espero que ele consiga, mas teremos de ajudá-lo. Os médicos foram taxativos. A cirurgia foi delicada, ele está fragilizado e muito sensível. É importante manter-se sereno, não se preocupar nem ficar nervoso.

— Ele não teve sequelas, teve?

— Se fizermos o tratamento direito, ele vai se recuperar. Mas demanda certo tempo e paciência.

No jardim, Flora conduziu a filha a um banco onde sentaram-se.

— Você está me deixando preocupada.

— Não posso permitir que você jogue sobre seu pai todos os seus problemas. Sabe como ele é, está sempre fazendo tudo para lhe agradar.

Miriam baixou a cabeça e disse triste:

— Ele é a única pessoa que me entende. Com quem eu vou poder desabafar e pedir ajuda?

— Você não é mais criança. É uma mulher, casada há sete anos. Tem de aprender a tomar conta da própria vida e resolver suas dificuldades no casamento diretamente com seu marido.

— Eu quero, mas ele não me entende. Não me apoia em nada. Dessa vez ele abusou. Saiu de casa e até agora não me pediu desculpas.

— Quem abusou foi você. Tem sido intolerante, exigente. Ivo está cansado. Nenhum marido tolera isso. Miriam fez menção de levantar, mas Flora a segurou.

— Você agora vai ouvir a verdade. Ivo tem se revelado um marido muito paciente. Fosse mais esquentado, já a teria abandonado há muito tempo. Você o trata como se ele fosse um nada, um boneco que está do seu lado para fazer tudo que você quer. Ele é um homem, tem preferências, sonhos, projetos de felicidade e, certamente, ao se casar com você esperava que fosse para ele a companheira de todas as horas, que o entendesse, o apoiasse e o amasse. Ele queria ser feliz em sua companhia.

Miriam a olhava assustada, os olhos cheios de lágrimas que ela deixava lavar suas faces. Flora se calou e ela continuou chorando durante alguns minutos. Depois disse com voz entrecortada:

— Eu o amo muito. Eu quero que o amor dele seja como o meu.

— Isso não é amor. Você tomou posse dele, como se ele lhe pertencesse. Mas Ivo não é um objeto, é uma pessoa, precisa respirar, escolher caminhos, experimentar, construir coisas, ser gente, viver! Ele está sufocado, quer libertar-se.

Miriam meneou a cabeça e não concordou:

— Isso não é verdade! Eu dou a ele todo meu amor. Não tenho feito outra coisa senão querer ficar com ele. Tenho o direito de cobrar que ele faça o mesmo.

— Você não quer ver a verdade. Estou sendo sincera porque desejo que vocês consigam retomar o casamento e ser felizes. Mas se continuar pensando assim, Ivo nunca mais voltará a viver com você.

— Não diga isso. Eu não vou aguentar... Se ele não voltar, não quero mais viver.

Flora olhou-a penalizada e ficou silenciosa durante alguns segundos. Depois colocou a mão no braço dela e disse:

— Você está precisando da ajuda de alguém que possa fazê-la entender as coisas de forma mais clara e lidar melhor com seus sentimentos.

— Eu só preciso que Ivo peça perdão pelo que fez e volte para casa.

— Eu prometo fazer tudo que puder para que isso aconteça, mas antes você vai me prometer uma coisa.

— O quê?

— Não pedir nada a seu pai enquanto ele não tiver se recuperado completamente. Durante este tempo, se as coisas ainda não estiverem bem, fale comigo, farei tudo para apoiá-la. Mas deixe seu pai em paz. Aconteça o que acontecer, ele precisa acreditar que você está bem.

— Não sei se serei capaz disso.

— Se ama seu pai como diz, é hora de provar. Agora enxugue seu rosto, se refaça, vamos voltar ao quarto.

Quando elas entraram no quarto, Olga lia uma revista ao lado da cama e Jorge estava recostado nos travesseiros, de olhos fechados.

- Ele está dormindo — comentou Flora.

Jorge abriu os olhos e respondeu:

— Estou acordado e com fome. Estava me lembrando daquela carne de panela com batatas que você faz!

Flora sorriu alegre e apertou a campainha. Assim que a enfermeira atendeu, ela disse:

— Ele está com fome. Desde que acordou só tomou chá com aquelas bolachinhas.

A enfermeira olhou a ficha, depois respondeu:

— Vou buscar uma refeição leve para ele. Ela saiu, Flora olhou para Olga e tornou:

— Vocês devem estar com fome. Por que não vão comer alguma coisa?

Olga deixou a revista de lado e ajuntou:

— É uma boa ideia. Estou com fome mesmo. Vamos, Miriam, faça-me companhia. Não gosto de comer sozinha.

— Estou sem fome... Eu fico com papai e a mamãe vai com você.

— Hoje você não comeu quase nada. Precisa se alimentar.

— Isso mesmo — reforçou Flora.

Ela concordou e saíram. Flora sentou-se ao lado da cama, segurou a mão de Jorge, dizendo:

— Você está bem. Logo voltaremos para casa.

— O Ivo falou como estão as coisas na loja?

— Lá está tudo bem. Ontem à noite ele veio ver como você estava e falou da loja. Ficou de passar aqui hoje, antes de ir para casa.

— Ele já voltou para casa?

— Ainda não. Penso que está esperando a poeira baixar. É bom para ambos.

— Espero que ele não insista na separação.

— Não fique imaginando coisas. Vamos olhar a situação com naturalidade e deixar que eles se entendam. É melhor assim.

Jorge ficou pensativo durante certo tempo, depois tornou:

— Quando penso nos dois, sinto um aperto no peito, tenho medo de que alguma coisa ruim nos aconteça.

— Não vai acontecer nada, você vai ver.

— É que às vezes Miriam é tão intensa... tão dramática. Eu nunca havia notado, mas hoje, quando olhava para ela, percebi o quanto é impaciente e inquieta.

— De fato, ela é assim e isso a deixa infeliz. Às vezes penso em conversar com Franco, pedir uma orientação sobre o que fazer para ajudá-la.

Flora disse isso para sentir a reação dele, porque ouvira referências boas sobre Franco e só não fora procurá-lo porque sabia que o marido não aceitaria.

— Não gosto que pessoas estranhas saibam dos nossos problemas. Eu mesmo vou observar tudo com calma e ver o que podemos fazer.

— Olga o admira muito e várias vezes me falou do sucesso profissional dele. Além disso, é muito respeitado e querido. Desde que os pais morreram, ele, sendo o mais velho, tem auxiliado os irmãos e estão levando muito bem a vida. Todos trabalham e estudam. Assim que soube do acidente, ele veio nos dar uma força. Vendo que você ainda não tinha acordado e que seu caso não estava claro, até rezou pela sua recuperação.

Jorge não respondeu, fechou os olhos e ficou calado. Flora ficou pensativa. Se fosse em outros tempos ele teria reagido de forma mais vibrante e dado opinião. Ele lhe pareceu diferente. Mas era natural que se sentisse enfraquecido depois do que passou.

Flora esperou um pouco mais e, como Jorge não voltou ao assunto, ela não insistiu.

A enfermeira trouxe a refeição, levantou um pouco mais a cama, dizendo:

— Não vou levantar muito porque pode dar tontura. É natural.

Jorge fechou os olhos e recostou-se nos travesseiros.

— Como se sente? — indagou ela.

— Um pouco tonto...

— Vamos devagar. Respire fundo, vai passar. Flora tirou a tampa do prato e disse:

— Não faça esforço. Eu mesma vou lhe dar a sopa. Está com uma cara boa...

Ela sentou-se ao lado da cama segurando o prato e perguntou:

— Como se sente?

— Um pouco melhor, mas zonzo. Não sei se vai dar para comer.

— Faça um esforço, coma pelo menos um pouco. Estou certa de que depois se sentirá muito melhor.

Jorge respirou fundo, depois concordou. Ela colocou um guardanapo no peito dele e começou a servir. Aos poucos ele foi se alimentando, enquanto Flora, satisfeita, percebia que Jorge estava reagindo melhor.

Quando Olga e Miriam voltaram ao quarto, Jorge havia tomado toda a sopa e estava comendo a sobremesa.

— Vejo que você está melhor! — comentou Olga. Miriam aproximou-se, deu um beijo na testa do pai e disse alegre:

— Que bom, pai, que você está bem!

— Com vocês me paparicando, não tem como ficar mal.

As duas acomodaram-se satisfeitas. Pouco depois doutor Gilberto entrou e sorriu bem-disposto:

— Noto que você está melhorando mais depressa do que eu esperava! Se continuar assim, logo terá alta.    

Jorge olhou-o e disse:

— Eu gostaria de saber mais sobre a minha cirurgia.

— Por que pergunta? O que importa é que deu tudo certo. Você está muito bem.

Jorge meneou a cabeça pensativo, depois disse:

— Alguma coisa aconteceu, mudou minha vida. Ainda não sei o que é, mas me sinto diferente, não sei explicar.

— Você passou por uma experiência traumática, ainda se sente fraco, é só isso. Logo tudo voltará a ser como sempre foi. Vai ver.

Jorge ficou calado e o médico tomou o pulso dele, olhou a ficha, anotou alguma coisa, depois despediu-se e saiu.

Jorge fechou os olhos e Flora aproximou-se de Miriam, dizendo baixinho:

— Seu pai está bem, agora vai dormir um pouco e   acordar melhor. Seria bom você ir até sua casa, ver como estão as coisas. A Claudete está sozinha. Assim, você descansa um pouco, se arruma e volta mais tarde para ficar mais um pouco.

Só em pensar em ir à sua casa sem Ivo Miriam sentia-se mal.

— Para minha casa eu não vou. Ivo não está lá. Olga interveio:

— Estou pensando em ir até minha casa ver como vão as coisas. Você pode ir comigo, descansar um pouco. Se quiser, eu ou Davi podemos trazê-la de volta.

— Eu não quero sair, pode ser que Ivo resolva passar aqui.

— Se ele vier será mais tarde, depois de fechar a loja. Pode ir sossegada — avaliou Flora.

Depois de alguma insistência, finalmente Miriam concordou. Elas saíram e Flora, aliviada, olhou o rosto do marido adormecido, apanhou um travesseiro, estendeu-se no sofá ao lado da cama, colocou uma coberta sobre as pernas e adormeceu.

O espírito de Ângela sorriu para Beto e considerou:

— Graças a Deus, a tempestade passou. Agora o tempo vai dizer como as coisas vão se desenrolar.

— Depois de passar por certos acontecimentos, as mudanças são inevitáveis. Vamos torcer para que eles colham os melhores resultados dessas experiências.

— Tem razão. Agora podemos ir.

Os dois, abraçados, elevaram-se, atravessaram as paredes do quarto e em segundos desapareceram rumo ao infinito.

 

Depois de uma semana da cirurgia, Jorge teve alta e foi para casa. Flora desdobrara-se para que o marido ficasse isolado dos problemas. Miriam não havia ainda conseguido que Ivo concordasse em conversar com ela sobre o futuro e continuava cercando-o para conseguir o que desejava.

Tanto Flora quanto Olga tentavam convencê-la a esperar para preservar o bem-estar de Jorge.

Apesar da recusa do marido, Miriam não desistia. Por outro lado, Ivo não gostava de ir ao hospital, não só para escapar da insistência da esposa, mas também porque não se sentia confortável na presença do sogro. Temia que, se prevalecendo da sua fraqueza, Jorge tentasse induzi-lo a voltar a viver com a filha, o que provocaria uma situação desagradável, uma vez que ele estava disposto a não retomar o casamento.

Diante daquela situação inesperada, Ivo se sentira no dever de auxiliar, voltara a trabalhar na loja fazendo o melhor que podia e, a cada dia, no fim do expediente, comparecia ao hospital para prestar contas e receber instruções, primeiro de Flora e depois do próprio Jorge.

Na noite em que ele chegou e encontrou Jorge consciente, aproximou-se da cama e disse sério:

— Vejo que o senhor está melhor e logo estará em casa. Vim para informar que na loja está tudo indo bem, fique tranquilo.

Ivo entregou a Flora um envelope, como sempre fazia desde que voltara a cuidar da loja, onde colocara um resumo do faturamento do dia, com os devidos comprovantes dos pagamentos e dos depósitos que fizera no banco.

Jorge olhou-o pensativo e respondeu:

— Obrigado, Ivo, por ter voltado ao trabalho. Sei que está cuidando de tudo como sempre.

Ivo sentiu-se um pouco incomodado ao pensar que talvez ele estivesse acreditando que sua volta seria definitiva. Mas não tocou no assunto. Não era o momento de falar nada que pudesse deixá-lo preocupado. Flora lhe pedira que não dissesse nada que pudesse contrariá-lo.

Olga tirara Miriam do quarto a fim de evitar que ela se encontrasse com o marido, sugerindo que seria melhor esperá-lo na saída, quando ele estivesse no corredor, a fim de não incomodar o pai. Ela gostou da ideia. De longe viu quando ele entrou no quarto e ficou ansiosamente esperando que ele saísse. Preocupada, Olga pediu:

— Tenha calma, Miriam. Converse com jeito. Ivo também está nervoso, não ponha mais lenha na fogueira.

Enquanto isso, no quarto, Flora conferiu o resumo dos documentos e comentou satisfeita:

— Está tudo em ordem e o movimento aumentou! Ivo olhou para Jorge e disse:

— Alguns clientes sentem sua falta e perguntam quando o senhor estará de volta.

— Entre eles eu tenho muitos amigos. Espero poder voltar logo ao trabalho.

— O senhor está bem. Agora é só uma questão de tempo. Preciso ir, amanhã é domingo, mas segunda-feira à noite estarei aqui.

Flora acompanhou-o até a porta e abraçou-o dizendo baixinho:

— Obrigada por tudo. Você não sabe o bem que está nos fazendo. Deus o abençoe.

Ele saiu, deu dois passos e Miriam apareceu diante dele, segurou seu braço dizendo nervosa:

— Agora vamos conversar.

— Não é hora. Estou cansado, quero ir para casa.

— Não o deixarei ir. Você me deve explicações. Vai me explicar direitinho porque ainda não me pediu perdão nem voltou para nossa casa.

Ele tentou desvencilhar-se dela, mas não conseguiu:

— Miriam, eu não estou com vontade de conversar sobre isso agora. Você está descontrolada e eu sem paciência para aturar suas exigências. Nossa situação está insuportável e, se insistir, ficará ainda pior. Por favor, solte o meu braço!

— Não vou soltar. Você é meu marido e me deve respeito. Tem de me explicar tudo direito.

Ele sentiu dificuldade em controlar a raiva, fixou os olhos dela e disse entre dentes:

— Está certo. Se quer saber a verdade, vou dizer: eu não a amo mais. Não suporto suas queixas infundadas, suas infantilidades, sua falta de critérios. Quero ficar longe de você. Eu nunca mais voltarei. Pode esquecer. Agora me deixe em paz. É adeus! Não me procure nunca mais!

Miriam olhou-o assustada, seu rosto cobriu-se de rubor e ela gritou irritada:

— Isso não é verdade! Você está mentindo. Quem é ela?

Olga, que observava discretamente a cena, aproximou-se e abraçou-a dizendo:

— Contenha-se, Miriam! Você está em um corredor de hospital. Já pensou se seu pai escuta isso?

Miriam estremeceu e rompeu em soluços. Ivo aproveitou para escapar e saiu quase correndo, enquanto algumas pessoas se aproximaram curiosas.

Olga arrastou Miriam para o jardim, fê-la sentar-se em um banco e esperou pacientemente que ela se acalmasse. Aos poucos, Miriam foi parando de chorar, mas Olga notou que ela não estava normal, parecia em estado de choque.

Preocupada, percebeu que Miriam estava fora de si, precisando de ajuda e atendimento profissional. Não queria levar o problema para Flora, com medo de que Jorge ouvisse e ficasse pior.

Miriam estava esquisita, depois da crise ficara com olhar perdido, apática. O que fazer para ajudá-la?

Lembrou-se das palavras de Gisele: "Quando eu não sei o que fazer, entrego a situação nas mãos de Deus. Quando eu não posso, Ele pode".

Olga abraçou-a penalizada, depois pensou em Deus, dizendo baixinho:

— Não sei o que fazer. Entrego esta situação nas mãos de Deus! Nos ilumine com sua bênção.

Abraçada a Miriam, murmurando uma prece, cabeça baixa, Olga notou que um homem havia parado diante delas. Levantou o olhar e deparou com Franco, que as observava, e não se conteve:

— Deus ouviu meu pedido! É você, Franco!

— Miriam não está bem. O que aconteceu? Em poucas palavras, Olga contou-lhe a cena de momentos antes. Franco pensou um pouco e depois sugeriu:

— Ela precisa de ajuda. Vamos entrar.

— Não quero que Flora se preocupe, por causa de Jorge.

— Tem razão. Nesse caso, vamos levá-la para minha casa. Lá poderemos ajudá-la. Meu carro está aí fora.    

Olga concordou e Miriam deixou-se conduzir sem dizer palavra.

Quando eles entraram no apartamento com Miriam, Gisele aproximou-se dizendo:

— Eu estava esperando vocês. Vamos acomodá-la no sofá.

Miriam soltou-se do braço de Olga e correu para o canto da sala. Seu rosto, antes apático, agora demonstrava medo e ela encolhia-se assustada.

Gisele aproximou-se, olhou firme nos olhos dela, segurou sua mão e disse:

— Não tenha medo. Estou aqui para protegê-la.

Você precisa descansar. Venha. Tudo vai ficar bem!

O rosto dela distendeu-se e Gisele conduziu-a até o sofá, colocou a mão na testa dela dizendo com voz calma:

— Deite-se, Miriam. Você está muito cansada, descanse, não pense em nada. É hora de ficar bem. Tudo vai passar, acredite. Dias melhores virão.

Ela deitou-se e fundo suspiro saiu do seu peito. Gisele continuou:

— Relaxe. Você precisa recuperar suas energias. Estou aqui para ajudar. Você precisa ficar bem para que possa colocar todas as coisas no devido lugar.

Miriam fixou-a admirada e disse:

— Eu conheço você, mas não sei de onde...

— Sou Ângela, somos amigas há anos, mas faz tempo que não nos vemos. Feche os olhos, relaxe, durma um pouco e acordará melhor.

Miriam estremeceu e disse nervosa:

— Eu não quero dormir. Preciso falar com Ivo. Ele precisa voltar para casa. Eu vou procurá-lo agora!    

Gisele disse com voz firme:

— Tenho acompanhado sua vida e sei tudo sobre vocês dois. Não é hora de insistir. Você está cansada de lutar, seus nervos estão em frangalhos e não está conseguindo o que deseja. Para conquistar uma vida feliz, terá que aprender a lidar com suas emoções, escolher melhor suas atitudes, saber avaliar as coisas como elas são.

— Eu não quero nada disso. Eu preciso só que Ivo volte para casa...

— Feche os olhos e venha comigo. Vou levá-la a um lugar muito bonito e você vai sentir-se melhor.

Miriam fechou os olhos e Gisele tirou a mão da testa dela dizendo:

— Agora ela vai dormir um pouco e acordar mais calma.

Olga, vendo que Miriam adormecera, não se conteve:

— O que aconteceu aqui? Gisele, sua voz estava diferente, e disse palavras estranhas. Ela não queria, mas você a fez dormir sem lhe dar nenhum calmante.

Franco interveio:

— Tia, há um bom tempo descobrimos que Gisele tem mediunidade e passamos a estudar o assunto.  

Olga sentiu um arrepio e disse assustada:

— Vocês não têm medo de lidar com espíritos? Foi Gisele quem respondeu:

— Depois que nossos pais morreram, eles começaram a aparecer em sonhos, continuaram a nos orientar. Nos aconselhavam, eu contava aos meus irmãos e nós nos sentíamos muito bem. De vez em quando, esses encontros acontecem e são muito prazerosos.

— Você acredita mesmo que eram eles? Isto é, que eles continuam vivendo no outro mundo, depois da morte?

— Sim, tia. Nosso espírito é eterno. O que morre é nosso corpo físico, mas nós temos o corpo astral, que continua vivo e com ele passamos a viver em outras dimensões do universo.

Olga ficou pensativa durante alguns segundos, depois comentou:

— Eu tinha ouvido falar sobre isso, mas nunca acreditei que fosse possível. Será que vocês criaram essa ilusão por estarem carentes e muito saudosos? Sempre foram muito unidos. Talvez não seja bom cultivar isso.

Franco sentou-se ao lado dela no sofá e respondeu:

— Não foram apenas os sonhos de Gisele que nos fizeram acreditar na eternidade do espírito. Sua sensibilidade se desenvolveu, ela começou a ver os espíritos, ouvir o que eles dizem. Para poder lidar com isso, fui a uma livraria e descobri que renomados cientistas pesquisaram o assunto e constataram essa realidade.

— Apesar disso, eu continuo tendo medo de evocar espíritos.

— Nós nunca evocamos nenhum espírito, tia. Eles me procuraram espontaneamente e quando se aproximam eu me sinto muito bem. Dá uma sensação agradável e minha mente fica muito mais lúcida — explicou Gisele.

Franco interveio:

— O perigo é que à nossa volta circulam espíritos ignorantes, ainda voltados à maldade, cujas energias ruins poderão nos envolver, causar mal-estar, intrigas, perturbações da saúde emocional e física.

— Eu não disse que é perigoso?

— Depende de como você pensa. Há a lei da afinidade. Conforme acredita, você atrai as energias que estão à sua volta. Estudar as energias nos ensina que, para manter nosso equilíbrio, temos de ficar no bem, cultivar pensamentos positivos e não entrar na maldade dos outros.

Olga olhou-o assustada e comentou:

— Pensar que estamos à mercê de espíritos maldosos que podem nos assediar sem que possamos nos defender assusta. Nunca pensei que isso fosse possível.

Franco olhou-a sério e respondeu:

— Essas coisas são naturais no mundo onde vivemos. A troca energética é uma realidade. Nós interagimos energeticamente com as pessoas o tempo todo, vivendo na Terra ou no mundo astral.

Gisele considerou:

— Nós nascemos na Terra para aprender as leis que regem a vida. Somos livres para escolher como queremos viver, mas colhemos os resultados das nossas escolhas. Assim, vamos aprendendo a viver melhor.

— Quando você começa a descobrir o propósito da vida, que dispõe das coisas e auxilia sempre o progresso de todos de maneira genial, ganha entusiasmo para vencer seus desafios, enfrentar seus medos e sente que tem o poder de criar o próprio destino. As ideias ficam mais claras, passamos a nos sentir fortes e capazes de seguir adiante, aconteça o que acontecer.

Olga ouvia com atenção e seus olhos estavam úmidos. Eles falavam com muita segurança, revelando uma confiança que ela havia muito tinha perdido. Sentiu que no ar havia alguma coisa especial. Quando Franco se calou, ela disse suavemente:

— Parece que vocês encontraram uma forma de serenidade que eu nunca tive.

Gisele abraçou-a dizendo alegre:

— Mamãe sempre diz que você é uma pessoa forte que ainda não usou todo o poder que tem. Que quando acordasse para a verdade das coisas, conquistaria tudo que veio buscar nesta vida.

Olga pensou um pouco e disse:

— Vocês são jovens, cheios de sonhos. Eu também era uma moça entusiasta, alegre, cheia de planos de progresso. Mas o tempo foi passando e eu me sinto frustrada porque as coisas nunca foram do jeito que eu gostaria. Agora já me conformei.

— Não se conforme. Reaja. Você tem muitos anos pela frente. Aproveite para retomar seus sonhos, lute por eles, tenha a ousadia de sentir o que lhe trará realização e alegria, assuma o comando do seu destino e siga adiante — sugeriu Franco.

— Ah! Seu eu pudesse! Se eu fosse livre poderia tentar, mas assumi uma série de responsabilidades de família e não posso cuidar de mim.

— Você não precisa abandonar seus compromissos nem fazer mudanças drásticas. Mas pode melhorar muito sua vida, analisando seus sentimentos, descobrindo pequenas atitudes de valorização e prazer que lhe trarão equilíbrio, discernimento e segurança nas atitudes. Você se relacionará melhor com todos e se sentirá mais feliz — tornou Gisele.

Os olhos de Olga brilharam emocionados e ela perguntou:

— Será que eu conseguiria isso?

— Estou certo que sim. Vou lhe mostrar como iniciar esse processo.

Franco foi até a estante, apanhou um livro e entregou-o a ela, dizendo:

— Leia com atenção. Tenho certeza de que encontrará as respostas que procura.

Miriam remexeu-se, suspirou, abriu os olhos, sentou-se, olhou em volta e comentou:

— A Ângela já foi embora?

Gisele colocou a mão na testa dela e respondeu:

— Já. Você está bem?

Miriam passou a mão pelos cabelos, respirou fundo e disse:

— Ainda não sei. Sinto-me diferente, um pouco aérea.

— Vai passar. Vou preparar um chá e vai sentir-se muito melhor.

— Estou em sua casa... por quê?

Franco interveio:

— Você estava indisposta e nós a trouxemos para cá.

— Eu preciso voltar ao hospital, falar com papai, pedir ajuda.

— Seu pai não está em condições. Dentro de dois ou três dias ele terá alta, irá para casa, mas os médicos querem que ele não se preocupe com nada. Você ficou muito nervosa por causa do problema dele e também precisa se acalmar. Por que não vai para sua casa descansar, refazer suas energias?

— Eu vou para casa só se Ivo for junto. Sozinha lá eu não fico!

— Você pode ir para minha casa enquanto a situação não se resolve — sugeriu Olga. — Você quer conversar com Ivo e nós poderemos pedir-lhe que aceite falar com você.

— Será que ele aceita?

— Poderemos tentar.

Com voz firme e serena, Franco objetou:

— Se deseja que ele escute o que você tem a lhe dizer, será melhor esperar um pouco mais, analisar bem como tem sido seu relacionamento durante os anos que viveram juntos e só marcar esse encontro quando já tiver controlado seu temperamento forte. Ele não quer conversar porque você só briga, exige e não o deixa se explicar.

— Ele é que está errado e me culpa por tudo.

— Já pensou que você pode estar enganada?

— Se ele me amasse, faria as coisas para me agradar.

— Você tem o direito de agir como quiser, mas se continuar como até agora, ele não voltará mais para casa. Eu sei o que estou dizendo.

— Miriam, escute os conselhos de Franco. Ele sabe o que está dizendo. Ainda é tempo de mudar, pelo menos um pouco, se deseja reconquistar Ivo.

— Franco, ele lhe disse que não me ama mais?

— Ele reclamou de suas queixas, suas desconfianças, seu ciúme.

Miriam olhou para Olga e perguntou:

— A senhora também está contra mim?

— Ao contrário. Eu gostaria muito que vocês se entendessem e fossem felizes. Mas não gosto de ver meu filho irritado, nervoso, infeliz. Ele sente-se frustrado e triste.

— Eu também me sinto assim.

— Nesse caso, trate de mudar, talvez ele ainda possa reconsiderar e voltar para casa. Ivo é sincero, trabalhador, um rapaz bom e amoroso.

— A senhora acha? — Miriam suspirou triste e continuou: — Vou me esforçar para ficar calma e esperar um pouco mais.

Gisele segurou o braço dela e tornou:

— Se não quer ficar só em casa, pode escolher passar alguns dias aqui ou na casa da tia Olga.

— Nesse caso, prefiro ficar na casa de Olga, para ficar mais perto de Ivo. Quem sabe ele aparece por lá.

— Faça como quiser — disse Franco. — Lembre-se que estamos aqui para ajudar no que precisar.

— Obrigada. Já estou me sentindo melhor. O apoio de vocês me fez bem.

Voltando-se para Olga, ela continuou:

— Se vou ficar um pouco com você, preciso ligar para Claudete. Vou precisar de algumas coisas e quero que ela as leve para sua casa.

Olga levantou-se:

— Você liga quando chegarmos em casa. Depois que elas se foram, Franco olhou para Gisele e comentou:

— Vamos ver se pelo menos ela entende melhor a situação.

— O caso não é tão simples como parece. Apesar de ela ter sido tão mimada, por trás da situação estão algumas questões mal resolvidas de outras vidas. Ainda não consegui ir fundo nisso.

— Não perguntou a Ângela?

— Não. Se houver algo, ela vai me falar quando chegar o momento de eu saber. Por enquanto, é melhor aguardar. Ela só fala quando pode.

— É. Às vezes é melhor ignorar para não interferir de forma desastrosa.

Gisele sorriu e foi para a cozinha preparar algo para comer. Logo Carlos estaria em casa. Franco apanhou um livro, abriu e mergulhou na leitura.

 

Olga entrou em casa e acomodou Miriam no quarto de hóspedes.

— Fique à vontade. Vou descer e providenciar um lanche para nós.

— Para mim não precisa. Estou sem fome. Olga olhou-a e comentou:

— Você está cansada, abatida, emagreceu. Precisa se alimentar.

— Estou cansada, tonta, meu corpo está dolorido. Acho que vou me deitar.

— Nada disso. Você vai tomar um bom banho, vestir uma roupa leve enquanto eu cuido de preparar algo para nós. Eu também não comi nada e estou me sentindo zonza. Se não quiser descer, eu trarei seu lanche. Estou certa de que depois se sentirá muito melhor.

— Está bem. Vou fazer o que me pede.

Olga foi para a cozinha, lavou as mãos, verificou o que havia na geladeira e começou a preparar alguns sanduíches.

Era tarde da noite e Davi não estava em casa. Desde o acidente com Jorge ela passara as noites no hospital e, como ele não gostava de ficar só, talvez estivesse com alguns amigos.

Como Miriam não desceu, ela arrumou os lanches e o suco de frutas na bandeja e levou para o quarto. Ela estava deitada, mas parecia mais calma, o que deixou Olga aliviada.

— Sente-se, Miriam. Vamos comer juntas.

Ela obedeceu. Olga colocou a bandeja diante dela dizendo:

— Estou com uma fome! Parece que não como há muito tempo. Você não?

— Ainda estou meio mole. Acho que tomei algum calmante, não me lembro bem.

— Você relaxou. Vai comer e dormir muito bem. Precisa recuperar seu bem-estar e ter condições de resolver todos os seus problemas. Vamos, experimente...

Miriam começou a comer lentamente. Olga fazia o mesmo enquanto a observava. Ela comeu tudo, tomou o suco e depois comentou:

— Estou me sentindo melhor.

— Que bom. Se precisar de alguma coisa, pode me chamar, estarei em meu quarto. Durma bem.

Olga beijou-a delicadamente na testa, acendeu o abajur de cabeceira, apagou a luz e se foi.

Miriam acomodou-se e sentiu sono. Bocejou e logo adormeceu.

Olga foi para o quarto, deitou-se, pouco depois a luz acendeu e ela viu Davi entrando.

— Desculpe. Pensei que você não estivesse em casa.

— Não estou dormindo. Pode acender. Chegamos há pouco. Miriam está aqui, dormindo no quarto de hóspedes.

— Miriam? Como você conseguiu esse milagre? Olga pensou um pouco, depois disse:

— Acho que Deus cooperou conosco.

— Como assim?

— A situação estava complicada, rezei e, quando acabei, Franco estava parado na minha frente. Ele sugeriu que fôssemos cuidar de Miriam no apartamento dele e lá ele conversou com ela, Gisele rezou, e as coisas se acalmaram.

— Deve ter sido coincidência. Eu nunca consegui nada rezando. De onde tirou essa ideia? Vai ver que Franco deu a ela algum calmante forte, porque para dar jeito na Miriam, só dopando...

Olga fixou-o admirada. Havia ironia na voz dele. Ela sentiu um aperto no peito e lembrou-se de que, às vezes, ele adotava esse ar maldoso e ela não se sentia bem.

— Franco não deu nenhum remédio a ela. Foi a reza de Gisele. Ela está desenvolvendo a mediunidade e o guia espiritual dela veio, acalmou Miriam na hora.

— Você quer dizer que ela está metida com espíritos?

— E está muito bem, se quer saber. Eu não sabia como fazer Miriam se acalmar, e eles conseguiram isso com naturalidade.

— Pois eu não confio nessa história. Vocês foram sugestionados.

— Pense como quiser. Estou cansada e quero dormir. Apague logo essa luz.

Davi coçou a cabeça, pegou o pijama, apagou a luz e foi para o banheiro se preparar para dormir. Pouco depois deitou-se e logo adormeceu.

Na casa tudo era silêncio, só se ouvia o tic-tac leve do relógio de cabeceira, quando os dois foram acordados pelos gritos de uma mulher.

Olga acendeu o abajur, pulou da cama e gritou:

— É a Miriam! Acorde, Davi.

Ele pulou da cama ainda atordoado, segurou o braço dela dizendo:

— Não vá! Pode ser um ladrão...

— É a Miriam, está precisando de ajuda!

Ela correu, abriu a porta do quarto da nora, acendeu a luz, viu Miriam em pé, em um canto, olhos esbugalhados, trêmula. Ela correu para Olga dizendo apavorada:

— Ele entrou em meu quarto, quis me abraçar. Chame a polícia!

Nesse momento, Davi já havia chegado e disse:

— Acalme-se, Miriam. Não tem ninguém aqui. Você teve um pesadelo!

Ela apontou para a o lado dizendo convicta:

— Olha ele aí. Está dizendo que não vai embora. Que mora aqui e não vai sair enquanto não se vingar de você!

— Ela está delirando, tendo alucinações. É melhor chamar um médico. Viu no que dá ficar lidando com espíritos?

Mal terminou a frase, Davi levou a mão ao pescoço, foi ficando com a respiração difícil e perdeu os sentidos.

Olga, apavorada, queria libertar-se do abraço de Miriam para socorrer o marido, quando ela disse:

— Ligue para Gisele. Rápido.

Olga olhou indecisa, ainda sem entender o que estava acontecendo. Muito assustada, ficou como que paralisada.

Miriam não perdeu tempo, foi ao telefone, viu o número de Franco no índice e ligou para ele, que atendeu prontamente.

— Franco, tem um espírito aqui. Ele atacou Davi, que está caído no chão. Não sabemos o que fazer.

— Reze, Miriam, com toda sua fé. Estamos indo até aí.

Miriam ajoelhou-se e começou a rezar enquanto Olga tentava fazer com que o marido melhorasse.

Os espíritos de Ângela e Beto estavam no quarto, orando com Miriam, enquanto observavam. O espírito havia tirado Davi do corpo e o acusava violentamente:

— Você vai pagar pelo que me fez! Ela é minha, vou acabar com você!

O espírito de Davi, apavorado, via seu corpo estendido no chão, sem saber o que estava acontecendo. Até que ouviu o outro dizer:

— Você vai deixar a Adélia em paz! Ela me pertence! Você a sequestrou! É a mim que ela ama! Eu estou aqui para protegê-la! Agora não vou deixá-lo mais voltar para o corpo. Sua vida acaba aqui!

Davi tentou defender-se:

— Não sei do que está falando.

— Sabe, sim. Você não merece a família que tem. Não vou permitir que você a continue enganando. Ela não merece!

Davi fixou-o com raiva e respondeu:

— Você está morto! Não pode fazer nada contra mim. Adélia já o esqueceu. É a mim que ela ama!

— Vou lhe mostrar o que posso fazer... Enfurecido, ele atirou-se sobre o espírito de Davi e os dois rolaram pelo chão.

Franco e Gisele chegaram e Olga correu para abrir a porta. Assim que entraram no quarto, Gisele abraçou Olga e pediu:

— Acalme-se, tia. Estamos protegidos, vai ficar tudo bem.

Olga tremia, enquanto Franco colocou a mão direita sobre o corpo de Davi, e começou a orar em silêncio.

Olga estava apavorada:

— Vou chamar uma ambulância. Davi precisa de atendimento médico.

— Não agora, tia. Ele está envolvido por um espírito que se considera seu adversário.

Gisele deixou Olga, levantou a cabeça, olhou para um canto do quarto e disse com voz firme:

— Deixe-o em paz. Já não basta o que você tem feito contra ele?

O espírito fixou Gisele e largou imediatamente de Davi, respondendo:

— Por que está se metendo nisso? Eu não tenho nada contra você! Ele não merece que o defenda!

— Estou pensando em você! A vingança, além de não resolver seus problemas, vai fazer com que continue aprisionado pelo passado. O tempo passou, tudo mudou, todos evoluíram, só você continua sem reconhecer os próprios erros, permanecendo no mal. Seu tempo acabou, está na hora de sair dessa ilusão, aprender a cuidar de si. Quem planta o mal colhe o mal. Você precisa fazer o bem, perdoando os que o ofenderam para que possa refazer seu caminho e a felicidade possa voltar.

Enquanto ela falava, o espírito de Davi, apavorado, deitava sobre o próprio corpo no chão querendo voltar a ele, sem conseguir.

Gisele continuou:

— Ângela está de braços abertos para auxiliá-lo a sair do inferno em que você vive e conduzi-lo a um lugar onde poderá recuperar o equilíbrio, ver as coisas mais claramente, saber como atraiu os problemas que o vitimaram. Você está cansado, precisa relaxar. Olhe para ela, sinta o que pode fazer por você.

Enquanto Beto orava, Ângela olhava para o espírito com muito amor, tanto que o rosto dele foi se suavizando, lágrimas desceram-lhe pelas faces até que ele atirou-se nos braços dela pedindo:

— Eu não aguento mais! Ajude-me a esquecer o fogo que me queima a alma!

Ângela abraçou-o com carinho enquanto Davi olhava aflito a cena. Olhou para ela e disse desesperado:

— Ajude-me! Eu não quero morrer! Eu quero voltar para o meu corpo!

— Ainda não chegou a sua hora. Você vai voltar, terá mais algum tempo para refletir, escolher melhor o seu caminho. Você já tem nível espiritual para viver melhor. Não se deixe envolver pelas ilusões do mundo para que não lhe aconteça algo pior. Acredite: o que você planta, colhe. Agora pense em Deus e peça que Ele o auxilie.

Davi uniu as mãos e rezou com sinceridade. Seu espírito retornou ao corpo.

Olga, vendo-o abrir os olhos, ia debruçar-se sobre ele, mas Franco fez um gesto para que esperasse, ajudou Davi a se levantar e, fixando seus olhos, perguntou:

— Como se sente?

— Aliviado! Tive um pesadelo terrível. Sonhei que estava sendo atacado por um gigante muito feio!    

Gisele deu a ele um copo com água:

— Beba. Acalme-se. Respire e relaxe. Tudo passou.

De fato, o rosto dele perdera a palidez e estava voltando ao natural.

Miriam observava em silêncio. Ela nunca acreditara em espíritos. Gisele olhou para ela:

— Depois quero conversar com você em particular. Olga aproximou-se do marido:

— Que susto você nos pregou! Como está se sentindo?

— Um pouco atordoado, mas sinto que vou melhorar.

— Já está bem — reforçou Franco e continuou: — o que você teve não foi um pesadelo. Há um espírito que se julga traído, está com raiva e deseja vingar-se de você. Ele foi levado, mas se ele não mudar o que sente, poderá voltar a incomodá-lo. Seria bom não facilitar. Você teve algum desentendimento com alguém?

— Não. Sou uma pessoa calma e não tenho inimigos. Você está enganado. O que tive foi apenas um pesadelo. Ainda não consigo acreditar em espíritos. Aliás, não sei por que foram incomodá-los a esta hora da noite.

Miriam não se conteve:

— Você deveria acreditar. Eu também não acreditava, mas o vi no quarto. Era um homem moreno, não muito alto, cabelos castanhos claros, estava com muita raiva. Acordei com ele passando a mão em meu braço e quase morri de medo! Não foi pesadelo, não. Foi de verdade! Só em lembrar fico toda arrepiada.

— Ele tinha uma cicatriz no braço, rosto largo e os olhos penetrantes. Eu também vi.

— Isto não pode ser verdade. Vocês estão fantasiando! Gisele fixou-o e disse com voz firme:

— Você está com medo e quer fingir que isso não aconteceu. É prudente analisar os fatos, pesquisar o assunto a fim de se proteger.

— Agora está tudo bem e podemos ir descansar — sugeriu Franco.

— Vocês podem ir. Eu quero ficar mais alguns minutos, conversar com Miriam. Não vou demorar —disse Gisele.

— Eu não quero ficar sozinha. Não vão embora! Ele pode voltar. Estou com medo!

— Acalme-se. Tudo vai ficar bem.

Franco saiu levando Olga e Davi. Gisele conduziu Miriam até uma cadeira e sentou-se ao lado dela.

— Tem certeza de que ele não vai voltar?

— Tenho, Miriam. Pelo menos por enquanto. Vamos conversar. Você é uma pessoa bondosa, sinto que em seu coração há muito amor! Você sonha em ser feliz, construir uma família onde todos se entendam, se respeitem e possam viver bem. Não é verdade?

— É isso que eu sonho. Mas as pessoas não me entendem, confundem as coisas. Quanto mais eu tento programar tudo, mais confusas elas ficam. O Ivo foi embora, não quer voltar, estou desesperada. Não entendo! Ele parecia ter tanto amor e agora está me abandonando. Se ele não voltar para casa, não vou resistir. Não posso suportar a vida sem ele.

As lágrimas rolavam em seu rosto e ela passou a mão tentando enxugar, mas elas continuavam a cair. Gisele não disse nada, deixou que ela chorasse. Aos poucos as lágrimas diminuíram e, quando ela parou de chorar, Gisele abraçou-a, alisou seus cabelos com carinho e sugeriu:

— Em vez de pensar no pior, não seria melhor você aprender como fazer com que as coisas funcionem do jeito que quer? Acontece que você não tem experiência de vida, ainda não aprendeu a agir de forma a criar as circunstâncias favoráveis para realizar seus sonhos. Não está indo para o caminho que conduz à realização.

— Você acha que estou errada?

— Eu sinto que você ainda é inexperiente, mas se quiser poderá aprender a ser mais eficiente na conquista do que deseja.

Miriam arregalou os olhos, apertou a mão que Gisele segurava dizendo eufórica:

— Você acha que eu posso?

— Claro. Você tem o poder de conduzir sua vida como quiser.

Miriam olhou-a pensativa, depois baixou os olhos e disse com voz triste:

— Por mais que eu quissesse, nunca consegui. Se ao menos meu pai estivesse melhor e pudesse me ajudar... mas ele não pode, está doente e não deve se preocupar.

Gisele olhou-a séria e disse com voz firme:

— Você não precisa de muleta! É forte o bastante para cuidar da própria vida.

— Eu nunca fiz nada sozinha!

— É por isso que você não consegue realizar o que quer.

— Eu sou uma pessoa fraca!

A voz de Gisele estava doce quando disse:

— Não. Você é muito forte. Só que não está usando a própria força. Você é uma mulher e se comporta como se fosse uma menina de dez anos. Ivo é um bom rapaz, casou-se por amor, esperava encontrar uma mulher que fosse sua companheira, que o entendesse, com a qual teria uma vida feliz. Mas se casou com uma criança que não está lhe oferecendo o que ele esperava. Durante sete anos tentou fazer com que você entendesse e mudasse, mas isso não aconteceu. Agora ele resolveu que não quer mais essa situação e prefere ficar só.

De cabeça baixa, Miriam ouvia como se estivesse vendo a própria vida pela primeira vez. Gisele continuou:

— Ele também tem seus projetos, seus sonhos de felicidade, deixou tudo para ficar com você. Não terminou os estudos, fez tudo que sua família quis, não se realizou profissionalmente, nem encontrou no amor o que desejava. Desiludido, resolveu terminar o casamento para poder viver em paz.

Gisele se calou e Miriam, de cabeça baixa, não respondeu.

— Miriam, olhe para mim. Eu gosto muito de Ivo e de você. Estou torcendo para que cada um de vocês encontre a própria felicidade. Juntos ou separados, sei que isso será possível porque as experiências vão mostrando a verdade das coisas. Mas vai depender de como cada um encara e decide a própria vida. Pense em tudo que conversamos. O que aconteceu aqui esta noite mostrou para todos nós, e principalmente para você, que nosso espírito é eterno. Que a vida é muito mais do que parece ser, que além deste mundo há outros lugares, de onde viemos e para onde voltaremos um dia. Reflita sobre o que eu disse. Agora tenho que ir. Você precisa descansar.

Gisele Ievan1ou-se e Miriam agarrou o braço dela dizendo aflita:

— Não vá embora! Eu não quero ficar aqui sozinha. Tenho medo. Fique comigo, por favor.

Gisele pensou um pouco e resolveu:

— Nesse caso, venha conosco. Poderá ficar em nossa casa o tempo que quiser. Dormirá no meu quarto comigo.

O rosto de Miriam distendeu-se e seus lábios se entreabriram em alegre sorriso.

— Isso mesmo! Obrigada! Eu vou mesmo. Perto de vocês não terei medo de nada! Graças a Deus! Pela primeira vez eu tenho uma amiga!

Gisele sorriu dizendo alegre:

— Pegue suas coisas. Franco deve estar cansado de esperar. Vamos embora.

Elas desceram de mãos dadas e Olga, fisionomia cansada e abatida, olhou-as admirada. Alguma coisa diferente havia acontecido porque Miriam parecia outra pessoa. Que milagre fora aquele?

Davi, olhos tristes, tentava ocultar a preocupação enquanto Franco falava sobre assuntos leves, tentando descontraí-los. O dia estava amanhecendo. Franco havia sugerido que fossem dormir, mas eles preferiram esperar.

Os três se despediram e, depois que eles se foram, Olga comentou aliviada:

— Ainda bem que Miriam foi com eles. Eu não aguentava mais a presença dela.

— Foi um alívio. Ivo fez bem de separar-se dela. Está tão desequilibrada que vai acabar em algum manicômio. Onde já se viu armar essa presepada no meio da noite? Acho que seus sobrinhos também têm culpa no cartório. Falam de gente morta como se fossem vivos e ela, cabeça fraca, entrou na loucura.

Olga olhou-o preocupada e disse séria:

— Não brinque com o que não conhece. O que se passou aqui esta noite não foi alucinação. Eu vi que você ficou estirado no chão, como morto. Pensei até em chamar uma ambulância. Mas eles rezaram e você acordou. Estava pálido como um defunto, mas logo sua cor voltou. Acho que é hora de você respeitar e refletir muito bem sobre o que nos aconteceu. Agora estou cansada, quero dormir e vou rezar muito pedindo a Deus que nos ajude para que isso não aconteça de novo.

Davi baixou a cabeça, não disse nada e vagarosamente acompanhou a mulher até o quarto. Ela deitou-se, rezou e dormiu logo. Davi, remoendo os acontecimentos, revirava-se na cama, sem conseguir dormir.

 

Quando eles entraram no apartamento, o dia já estava claro. Franco foi dormir e Gisele levou Miriam para o quarto, apontou uma das camas e disse:

— Eu durmo nessa — apanhou duas toalhas, colocou-as sobre a cama e continuou: — Fique à vontade, o banheiro é ao lado. Vou buscar alguma coisa para nós comermos. Se precisar de alguma come diga.

Gisele fez um chá de erva-doce, pegou um pacote de bolachas, arrumou tudo na bandeja e voltou. Miriam já havia lavado o rosto, penteado os cabelos e, quando viu Gisele, sorriu e disse:

— Obrigada. Nunca esquecerei o que está fazendo por mim. Você é uma pessoa maravilhosa! É a primeira vez que tenho uma amiga em quem confiar.

— Não se iluda com as aparências. Eu também tenho muitos pontos fracos. Posso ser muito dura quando sinto que é preciso.

Miriam sorriu, segurou a caneca de chá:

— É difícil acreditar, depois do que você fez por mim esta noite.

Gisele não respondeu, preparou-se para dormir, tomou o chá, comeu duas bolachas e deitou-se. Miriam fez o mesmo, acomodou-se também.

Mas ela estava muito emocionada para dormir e queria continuar conversando.

— A que horas você vai se levantar?

— Podemos dormir até tarde. Hoje é sábado e eu não trabalho.

— Você trabalha em quê?

— Precisamos descansar. Conversaremos quando acordamos.

- Não sei o que acontece comigo, estou sem sono.

Gisele, sentou na cama e disse com voz suave:

— Nos últimos dias você tem estado tensa. Feche os olhos e relaxe. Respire devagar. Imagine que você está sentada em um jardim muito verde, o dia está lindo, o sol claro. Uma brisa suave a envolve, os passarinhos estão cantando alegres. Sinta o perfume das flores à sua volta. Uma luz muito clara a está envolvendo e levando embora todos os seus pensamentos. Não pense em nada. Sinta esse maravilhoso lugar, sinta que um anjo muito lindo a está abraçando e dizendo: "Deus é amor. Deus ama e protege você. Confie na vida. Nós estamos com você. Abra seu coração para que possamos entrar".

Notando que Miriam estava respirando cadenciadamente, Gisele sorriu, depois considerou:

— Agora durma com os anjos, Miriam.

Em seguida, ela deitou e em poucos minutos ambas ressonavam calmamente.

Passava da uma da tarde quando Gisele acordou. Miriam não estava na cama e ela se levantou apressada. Onde teria ido?

Abriu a porta, ouviu vozes e foi até a cozinha. Miriam conversava animadamente com Carlos. Ele havia feito uma massa ao molho quatro queijos e ambos estavam comendo.

— O cheiro está bom. O Franco já foi?

— Já. Vou pôr mais um prato para você.

— Nunca comi uma massa tão boa, — comentou Miriam.

— Essa é a especialidade dele, mas há outros pratos que ele faz e são muito bons.

A conversa fluiu alegre e a certa altura Carlos se levantou:

— Está na minha hora. Preciso ir.

— Você trabalha aos sábados?

— É o dia em que o restaurante fica mais cheio. Eu gosto do movimento, de observar as pessoas saboreando a comida, apreciando nosso trabalho. Quanto mais movimento, mais eu me realizo. Fico pensando em fazer novos pratos, coisas gostosas. Depois de comer bem, as pessoas ficam mais felizes, de bem com a vida.

Miriam ouvia admirada:

— Nunca pensei que a comida fosse tudo isso.

— Quando for a um restaurante, observe e verá. Tchau.

Depois que ele se foi, Gisele começou a arrumar a cozinha e Miriam levantou se oferecendo para ajudá-la. Gisele deu um pano de prato na mão dela e disse com naturalidade.

— Eu lavo e você enxuga. Coloque sobre a mesa que eu guardo.

Gisele ligou o rádio e um samba alegre encheu o ar.

— De que músicas você gosta?

Miriam olhou-a indecisa, durante alguns segundos, depois respondeu:

— Minha vida tem estado muito ruim e não tenho vontade de ouvir música. Prefiro o silêncio.

— Você está perdendo um dos maiores prazeres da vida. A música boa toca a alma, traz alegria, bem-estar. Eu gosto de cantar, dançar. A alegria nos faz bem.

— Você é feliz. Minha vida é muito triste. Há muito não sei o que é alegria.

Gisele fechou a torneira, olhou-a séria e disse:

— Por que prefere a tristeza?

Miriam franziu a testa pensativa durante alguns segundos, depois disse:

— Você acha que é uma preferência? Meu marido não me ama mais, saiu de casa, não quer nem falar comigo. Eu o amo muito, minha vida acabou. Se ele não voltar, nem sei como me manter viva. Acha que eu prefiro isso?

Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Gisele enxugou a mão, fê-la sentar-se, acomodou-se a seu lado e disse séria:

— Vocês se casaram por amor. Ivo sonhava em ser advogado, mas abdicou do seu projeto de vida, aceitou tudo que seu pai quis, para poder ficar a seu lado, por amor. Você não pode duvidar do amor que ele sentia. O que aconteceu para que ele mudasse tanto? Por que agora ele não quer nem conversar com você? Pense nisso.

— Ele deixou de me amar.

— Se isso aconteceu, foi porque você lhe deu motivo. Ninguém muda tanto por nada. Eu poderia dizer-lhe algumas causas prováveis, mas isso seria leviandade, porque eu não tenho como avaliar o que vai dentro do coração de vocês.

Miriam segurou o braço dela e perguntou ansiosa:

— Você acha que ele não vai mais voltar pra mim? Gisele pensou um pouco e depois disse:

— Eu sinto que a história de vocês ainda não terminou. Mas vai depender de como você vai se posicionar daqui para a frente. Se continuar como sempre foi, tudo ficará como está.

— O que preciso fazer para que ele volte?

— O que eu sei é que um relacionamento só se mantém quando há confiança recíproca e respeito à liberdade de cada um.

Miriam abaixou a cabeça e permaneceu em silêncio. Gisele voltou-se para a pia e calmamente continuou lavando a louça.

Depois de alguns minutos, Miriam se levantou, apanhou o pano de prato e continuou a enxugar a louça. Em silêncio, Gisele guardou tudo e depois disse:

— Vamos nos sentar na sala. Na estante há livros muito interessantes, você gosta de ler?

— Não muito. É difícil encontrar um livro bom. Nunca consigo ir além das primeiras páginas. Prefiro um bom filme.

Gisele sorriu:

— Pois eu prefiro um bom livro. Um filme nem sempre dá lugar à fantasia. Já no livro, você pode imaginar os lugares, o rosto e os sentimentos dos personagens, viajar com a história. Pode ser uma aventura fascinante. Você descobre coisas, desenvolve sua linguagem, torna-se uma pessoa interessante, faz amigos porque tem assuntos novos para conversar.

Miriam ouvia fascinada. Quando Gisele se calou, ela comentou:

— Eu nunca pensei que um livro pudesse oferecer tantas coisas.

— Um bom livro! Porque há os que são tediosos. É preciso selecionar conforme nossos interesses. Em todas as áreas do conhecimento há livros muito bons. É só escolher e se deliciar com eles.

Miriam pensou um pouco e pediu:

— Você tem algum livro bom para eu começar a ler?

Gisele apontou a estante no canto da sala:

— Escolha você mesma. Fique à vontade. Descubra algum que lhe agrade. Há vários assuntos.

Gisele deixou Miriam folheando os livros e foi cuidar de alguns afazeres domésticos.

Flora sentiu-se aliviada quando, depois de acomodar Jorge no carro, sentou-se ao lado dele. Ligou o carro e disse alegre:

— Ainda bem que estamos voltando para casa. Ele concordou com a cabeça e perguntou:

— Miriam não veio ontem nem hoje nos ver. Está na casa da Olga?

— Não. Há dois dias está na casa de Franco.

Jorge não respondeu logo e Flora se calou. Olga lhe contara o que acontecera com Davi e ambas combinaram de não falar no assunto com Jorge para não preocupá-lo.

Ela percebia que o marido estava mais calado, não trocava ideias como antes. Conversara com o médico sobre isso, mas ele dissera que era natural depois do acidente e que ele estava muito bem.

Depois de alguns minutos, Jorge tornou:

— Ivo está cuidando da loja, Miriam na casa de Franco. Então ele ainda não voltou pra casa.

— Não. Mas sinto que Miriam está mais calma. Ontem Franco me disse que ela e Gisele estão se dando muito bem. Gisele é jovem, alegre, boa companhia. Miriam sempre foi sozinha, não teve irmãos nem amigas.

Jorge pensou um pouco e depois disse:

— Seria bom que ela ficasse mais um tempo lá. Flora surpreendeu-se. Ele sempre quis ficar o tempo todo com ela. Mas não comentou e durante o resto do trajeto não conversaram.

Ao entrar em casa, Flora disse alegre:

— Que bom estarmos novamente em casa!

— Sinto-me aliviado. Estou cansado e vou subir para descansar um pouco.

— Vou com você. Quero ver se está tudo bem. Nina aproximou-se dizendo:

— Está sim, dona Flora. Eu fiz tudo que a senhora pediu.

— Está bem. Pegue a maleta no carro e leve para o quarto, e a sacola de roupas usadas, para a lavanderia.

Enquanto Nina cumpria as ordens, os dois foram para o quarto. Flora abriu as janelas e havia um cheirinho de alfazema no ar. Jorge olhou em volta e comentou:

— É muito bom mesmo poder voltar para casa. Com carinho, ela o ajudou a vestir um pijama e acomodar-se na cama.

— Vou preparar alguma coisa para você comer.

— Não precisa. Quero dormir um pouco.

— Tome pelo menos um chá com aqueles biscoitos de que você gosta. Vou buscar.

Jorge não respondeu, fechou os olhos, tentou relaxar, não pensar em nada. Nos últimos dias, quando pensava em Miriam, sentia um aperto no peito e uma sensação desagradável. Parecia-lhe ouvir a voz que, em meio ao seu sonho, lhe dizia: "Você é apegado a Miriam há muito tempo e esse apego está atravancando o desenvolvimento de ambos. Você quase desencarnou neste acidente por causa disso". Ou então: "Você acredita que está fazendo um bem, mas na verdade a superproteção enfraquece, não permite que o espírito dela se desenvolva, amadureça".

Pensando nisso, um sentimento de culpa o incomodava e o impedia de descansar. Havia momentos em que se recordava de pequenas coisas da infância da filha, em que ele não permitira a convivência dela com outras crianças da mesma idade, pensando em protegê-la das inconveniências e dos maus hábitos.

Só ele sabia o que era bom para ela, só ele a entendia. As pessoas eram falsas, cruéis, e ele queria que ela fosse feliz a vida inteira.

Agora esses sentimentos o incomodavam, faziam com que se sentisse errado e culpado pelo desequilíbrio dela.

Descobrira seu engano. Não era Ivo o culpado pelo sofrimento dela, mas ele, o seu pai, é que não havia feito o que deveria e a transformara em uma pessoa insegura, dependente, sem vontade própria e infeliz.

Com esses pensamentos, Jorge revirou-se na cama sem conseguir adormecer. Gostaria de poder voltar atrás, mas era impossível. As coisas não podiam continuar como estavam. Ele tinha que achar um jeito de reverter a situação. Mas como? Miriam estava sofrendo.

Pensou em ter uma conversa com Ivo, pedir-lhe que voltasse para casa. Faria qualquer coisa para que ele concordasse, aceitaria qualquer condição, desde que Miriam se sentisse feliz.

Flora entrou, colocou a bandeja sobre a mesa, Jorge abriu os olhos e ela disse:

— Fiz um chá e trouxe os biscoitos de que você gosta. Também estou preparando um jantar leve, mas gostoso.

— Obrigado, Flora.

Ela aproximou-se, arrumou os travesseiros para que ele se recostasse e colocou a bandeja em seu colo:

— Esse chá vai ajudá-lo a dormir e refazer suas forças.

Ela sentou-se ao lado dele na cama. Jorge estava sem fome, mas, para não decepcioná-la, tomou o chá e comeu alguns biscoitos.

— Obrigado, Flora. Só você sabe preparar um chá do jeito que eu gosto. Estava muito bom.

Ela sorriu alegre:

— Logo você estará recuperado e tudo voltará a ser como sempre foi.

— Não, Flora. Tudo será muito melhor do que foi. Isso eu garanto.

Ela olhou-o admirada. Sentia que o marido estava diferente, mas não conseguia perceber em quê.

— Agora descanse, durma.

Fechou as janelas, correu as cortinas, saiu levando a bandeja e fechando a porta atrás de si.

Jorge sentiu-se reconfortado com o carinho dela, acomodou-se, fechou os olhos e desta vez conseguiu adormecer.

Por causa de seus afazeres, só à noite, antes do jantar, foi que Flora ligou para Gisele, que atendeu logo.

Depois dos cumprimentos e de perguntar se tudo estava bem, entregou o telefone para Miriam.

— Filha, já estamos em casa, seu pai está bem.

— Acho que vou dar um pulo até aí para vê-lo. Flora hesitou um pouco e depois disse:

— Ele chegou cansado, está dormindo um pouco. Será melhor você esperar que ele se recupere mais.

— Eu queria muito vê-lo, conversar, sinto muita saudade dele.

— Venha amanhã para o almoço. É domingo e farei uma comida especial. Convide Gisele e seus irmãos para virem também. Sou muito grata a Franco pelo apoio. Seu pai está sensibilizado com tudo que ele fez. Converse com eles e confirme se virão.

— Está bem. Eu irei com certeza. Depois eu ligo para confirmar.

— Estarei esperando. Dê um abraço em todos aí e até amanhã.

Flora desligou o telefone pensativa. Durante a conversa, Miriam não mencionara Ivo nenhuma vez e parecia calma. Era um acontecimento promissor.

Mais tarde, quando o jantar estava pronto, ela subiu ao quarto e Jorge ainda estava dormindo. la retirar-se quando ele abriu os olhos e disse:

— Fazia tempo que eu não dormia tão bem! Que horas são?

— Sete e meia e o jantar está pronto.

Ele fez menção de se levantar e ela continuou:

— Continue descansando. Eu fiz uma sopa de legumes bem cremosa para que recupere rapidamente suas energias. Vou buscar.

Quando ela voltou com a bandeja, ele já havia lavado as mãos e preferiu sentar-se diante da mesa de apoio que havia no canto do quarto. Flora, que pretendia jantar com ele, havia trazido duas tigelas de sopa, já com queijo ralado e azeite. Colocou-as na mesa e sentou-se ao lado dele.

Jorge olhou-a, e havia um brilho emocionado em seus olhos quando disse:

— Como é bom estar aqui com você! Só nós dois, como nos primeiros tempos. Eu tinha esquecido como isso é bom!

— É verdade. Isso sempre me fez falta, mas você, sempre tão ocupado com a loja, os negócios, não tinha tempo.

Jorge colocou sua mão sobre a dela, fixou-a e respondeu:

— Eu prometo a você que de hoje em diante esta será uma prioridade. Sabe, Flora, a vida é muito breve e nós não sabemos quando deveremos partir. Sinto que é preciso aproveitar e viver os bons momentos ao lado das pessoas que amamos e onde nos sentimos em paz.

Nos olhos de Flora, um brilho emocionado surgiu quando ela disse:

— Tem razão. Quando penso que você poderia não estar mais aqui...

— Mas eu estou e pode estar certa de que vou aproveitar cada momento que a vida nos der.

Tentando dissimular a emoção, Flora sugeriu:

— Agora vamos tomar a sopa antes que esfrie.

Na casa de Gisele, Miriam desligou o telefone e ficou pensativa.

— O que foi? Você ficou preocupada? Seu pai está muito bem.

— Estou com saudade de meu pai, pensava em ir até em casa vê-lo, mas mamãe não quis que eu fosse. Disse para eu ir amanhã. Pediu que convidasse todos vocês para almoçar com eles.

— Ele está se recuperando e precisa descansar.

— Ela quer evitar que eu peça a ele que resolva meu caso com Ivo. Ela está diferente, mais brava comigo. Não quer que Ivo volte para casa.

— O que ela quer é preservar a saúde de seu pai. O caso dele é delicado. Não pode se irritar nem se preocupar.

— Eu não quero fazer nada que possa causar-lhe algum mal. Mas eu preciso da ajuda dele. Sempre me apoiou e acredito que só ele sabe cuidar do meu bem-estar.

Gisele olhou-a nos olhos e disse com voz firme:

— Você não pode transferir para ele uma responsabilidade que é só sua! É você quem tem de assumir o controle de seus atos, aprender a lidar com as emoções que sente, perceber o que lhe faz sentir bem e o que a deixa mal.

— Mas eu o amo muito e ele me entende.

— Ele a ama, mas, por mais que queira, não tem como ocupar o seu lugar, fazer a sua parte. Só você tem o poder de sentir o que sua alma quer e de avaliar as coisas que lhe trazem felicidade. As pessoas não são iguais e cada uma tem sua forma de amar, de enxergar e de sentir a vida.

— Sem ele fico perdida. Nunca saberia o que fazer.

— Porque você está insegura, justamente por não tomar decisões e só fazer o que seu pai quer. Tem medo de errar e isso impede que você aprenda. Um erro ensina mais do que muitos acertos e ninguém pode aprender a viver melhor sem cometer erros.

Miriam apertou nervosamente a mão de Gisele:

— Você diz coisas que me assustam e me deixam mais perdida do que já estou.

— Às vezes é preciso se perder para poder se achar. Você não ousa fazer as coisas do seu jeito porque nem sabe qual é sua maneira verdadeira de ser. Venha, sente-se aqui, a meu lado.

Sentadas no sofá, Gisele segurou as mãos dela e continuou:

— Respire devagar, relaxe. Quando não sabemos o que fazer, é hora de nos entregarmos nas mãos de Deus. Ele tem o poder de nos inspirar e nos mostrar o que é melhor. Feche os olhos, sinta o que vai em seu coração, o quanto deseja ser feliz, amar, fazer o melhor, progredir e construir uma vida boa. Viver em um lar onde as pessoas se entendam, se respeitem, se unam, mas onde cada um possa ser o que realmente é, conservando sua individualidade. Pense em como será sua vida quando conseguir tudo isso.

À medida que Gisele falava, uma brisa suave as envolvia e Miriam aos poucos foi se acalmando, respirando com regularidade. Depois disse baixinho, como para si mesma:

— É isso que eu quero!

Depois que Gisele se calou, permaneceu durante alguns segundos segurando as mãos de Miriam que de olhos fechados, continuava em silêncio. Ela delicadamente acomodou Miriam no sofá, colocou uma almofada embaixo de sua cabeça, e depois, vendo que ela havia adormecido, fechou as cortinas da sala e saiu satisfeita.

 

Uma semana depois, Jorge desceu para o café da manhã, vestido para sair.

— Onde você vai a esta hora?

— Até a loja. Está na hora de ver como as coisas estão por lá.

— Mas Ivo esteve aqui ontem à noite, já lhe trouxe os demonstrativos do caixa, está tudo muito bem.

— Quero ver de perto. Não aguento mais ficar em casa sem fazer nada.

— É cedo para voltar ao trabalho.

— Estou me sentindo bem. Trabalhar vai me fazer bem. Não gosto de ficar parado.

— Nesse caso, vou com você.

— Para quê? Você não gosta de ficar lá.

— Quem disse isso? Eu também não gosto de ficar sozinha o dia todo.

Jorge meneou a cabeça negativamente e respondeu:

— Você sempre ficou bem sozinha. Miriam não virá aqui hoje?

— Não. Reparou como ela está melhor? Ontem quando esteve aqui não reclamou de nada, nem falou em Ivo. A melhor coisa que aconteceu foi ela passar um tempo com Gisele. Certamente Franco deve tê-la acalmado. Olga disse que é um ótimo profissional.

— É melhor assim.

Quando ele terminou de tomar o café, Flora já estava pronta, esperando por ele.

— Você vai mesmo?

— Vou.

Ele deu de ombros:

— Nesse caso, vamos logo.

Quando chegaram à loja, Jorge foi rodeado pelos funcionários, que o cumprimentaram satisfeitos. Ivo estava no escritório e foi recebê-los.

Depois de circularem um pouco, foram para o escritório, onde Ivo sentou-se ao lado de Jorge, conversando sobre o movimento e as compras que ele fizera.

Jorge aprovou tudo satisfeito e disse:

— Estou de volta, graças a Deus. Durante esses dias de ausência, andei reavaliando nossos negócios e cheguei à conclusão de que precisamos modernizar nossas atividades.

— É uma boa ideia. Os concorrentes já estão fazendo isso há algum tempo.

— Gostaria de trocar ideias com você sobre como tornar nossa loja mais bonita e atraente.

Ivo olhou-o sério e respondeu:

— Estou certo de que o senhor poderá fazer isso muito bem, mas não conte comigo. Eu pretendo ficar aqui só até o fim desta semana para auxiliá-lo a retomar as atividades. Tenho outros planos de trabalho.

Jorge fixou-o sério:

— Você não quer mais trabalhar comigo? Isso quer dizer que não vai mais voltar para casa com Miriam?    

Ivo sustentou o olhar e disse:

— O senhor já fez muito por nós. Aprendi muito durante esses anos todos que trabalhamos juntos. Mas Miriam e eu nunca fomos felizes juntos. Não vale a pena retomar um relacionamento que nunca dará certo. Eu quero viver em paz. Miriam é muito jovem, estou certo de que um dia ela vai amadurecer e reconstruir sua vida de uma forma mais positiva. Isso não impede que eu seja muito grato pelo que fez por mim e por tudo que me ensinou.

— Não faça isso. Eu preciso de você. Miriam o ama muito e vai sofrer com a separação.

— Não me peça isso. Estou no meu limite, e voltar seria muito pior. Não tenho condições emocionais. O melhor será cada um ir para o seu lado. Mas quero deixar claro que sempre estarei à sua disposição para o que precisar e espero que entenda minha posição. É minha vida e tenho o direito de escolher como desejo viver.

Jorge baixou a cabeça pensativo e não respondeu. Flora, que ouvira tudo, interveio:

— Ivo, pense um pouco mais. Reflita. Miriam está mais calma. Esteve ontem em casa e não reclamou de nada. Conversou com calma, até disse que está lendo um livro e gostando!

— Que bom! Fico feliz em saber. Mas isso não muda em nada minha decisão. Custou-me muito tomar essa atitude e não vou voltar atrás.

Flora olhou para o marido esperando que ele protestasse, insistisse, mas ele não disse nada. Depois de alguns minutos considerou:

— Espero que saiba o que está fazendo. Quanto a mim, não quero mais interferir na vida de vocês.

— Obrigado pela compreensão.

Ivo afastou-se para ir atender um cliente especial na loja e Flora aproveitou para dizer ao marido:

— Você aceitou tudo isso com calma! Já pensou o que Miriam fará quando souber?

— Sabe, Flora, eu poderia ter morrido no acidente, e Miriam teria ficado sozinha, sem condições de cuidar de si mesma. Eu não a deixei experimentar, tomar decisões, errar para aprender, enfrentar os desafios do dia a dia. Mas Deus me concedeu uma nova chance de continuar vivendo e sei que foi para eu auxiliá-la a ser forte, amadurecer, aprender a enfrentar as dificuldades e encontrar uma vida melhor. É assim que vou fazer de agora em diante. E espero que você faça o mesmo.

— Não acha que é tarde demais para tomar essa atitude? Ela vai se sentir perdida.

— Nós estaremos do lado dela para apoiá-la no que for possível. É hora de ela começar a ver a vida como é, descobrir o que realmente quer e escolher o próprio caminho.

Flora ficou pensativa durante alguns segundos, depois meneou a cabeça negativamente:

— Isso não vai dar certo. Quando ela tiver certeza de que o casamento acabou, vai dar trabalho.

Havia uma tristeza muito grande no olhar de Jorge quando ele disse:

— Estou me sentindo culpado por isso e disposto a fazer tudo que puder para consertar o meu erro. O que eu quero mesmo é libertar-me desse peso. Você me entende?

A voz de Flora estava reticente quando disse:

— Eu entendo, mas ela não vai se conformar. Como é que vamos dar essa notícia a ela?

— Pretendo dizer a verdade. Eu falhei na forma de educá-la, mas sinto que o caminho agora é agir de forma que ela comece a perceber que foram suas atitudes erradas que criaram a atual situação.

— Você a protegeu demais e agora pretende jogar sobre ela uma culpa que é sua? Isso não é justo.

— Você acha que é fácil para mim agir dessa forma? Ela vai sofrer e isso me incomoda, mas, por outro lado, agora que percebo o meu erro não tenho mais como me omitir, por mais que sofra.

Flora não respondeu. De que adiantaria? O tom de Jorge era firme e ela decidiu não insistir. Mas intimamente decidiu evitar o mais que pudesse falar com a filha sobre a decisão de Ivo.

Naquela manhã, quando Gisele se levantou, Miriam não estava no quarto. Ela se vestiu e pensou em fazer o café. Ao passar pela sala viu Miriam sentada, pensativa, próximo à janela, e disse alegre:

— Bom dia, Miriam! Você acordou cedo.

— É, não consegui dormir muito esta noite.

— Me ajude a fazer o café.

— Vá você. Não estou me sentindo bem.

Gisele puxou-a pelo braço e respondeu:

— Reaja. Não dê força aos pensamentos ruins.

— Minha vida tem sido um fracasso. Ivo não me procura, sinto medo de que ele não volte mais.

— Venha até a cozinha, quero que me fale o que está sentindo.

— Se eu falar, vou ficar pior. É melhor ficar calada. Gisele fê-la se levantar, passou o braço no dela e levou-a à cozinha.

Miriam sentou-se em um canto enquanto Gisele colocava água no fogo para o café. Depois olhou-a dizendo:

— Você pode ter seu marido de volta. Basta querer. Miriam interessou-se:

— Eu quero! Tenho feito tudo para que ele volte! Mas ele não quer. Não me ama mais.

— Não creio. Ele ficou sete anos tolerando suas reclamações. Isso não é amor?

— Mas eu reclamava porque ele foi perdendo o interesse.

— Foi justamente isso que o afastou de você. Em vez de se queixar, teria sido melhor você tentar seduzi-lo de novo, de forma a manter acesa a chama do interesse.

Miriam levantou-se olhando-a atenta, e Gisele continuou:

— Para manter um bom relacionamento é preciso certos cuidados para que, com o tempo, a rotina, os pequenos desafios do dia, a convivência não se desgaste e se torne desagradável.

— Eu penso que o amor, quando verdadeiro, é suficiente para se ser feliz.

— Vamos inverter um pouco os fatos. Se você fosse homem, como gostaria que sua companheira fosse?  

Miriam pensou um pouco e respondeu:

— Se ela fosse sincera, me amasse, eu faria tudo para satisfazer-lhe todas as vontades e fazê-la feliz.

— Ivo fez exatamente isso durante o tempo todo, mas você não ficou feliz. Percebeu isso?

Miriam não soube o que dizer. Ficou olhando, calada, sem encontrar resposta.

Gisele fez o café, dispôs as coisas na mesa. Franco apareceu na porta dizendo alegre:

— Bom dia, meninas! Que cheiro bom!

As duas o olharam, responderam o cumprimento e se acomodaram para tomar café.

— Vocês estavam conversando animadas, fiquem à vontade, continuem — disse Franco.

— Estávamos trocando algumas ideias, mais tarde poderemos continuar. Dentro de meia hora terei de sair para trabalhar — comentou Gisele.

— Eu só tenho compromisso à tarde. Miriam, se você quiser ir ver seus pais, ou ir até sua casa ver como estão as coisas, poderei levá-la — sugeriu Franco.

— Obrigada, mas não sinto vontade de ir para casa. Ivo não está lá e isso pode me deixar mais triste. Quanto a meu pai, não quero preocupá-lo. Invadi o apartamento de vocês, posso estar incomodando com meus problemas, mas peço que me deixem ficar aqui mais um pouco.

Franco colocou a mão sobre a dela:

— Você não nos incomoda, gostamos de tê-la conosco. Pode ficar morando aqui o tempo que quiser, só nos dará prazer.

— Sempre vivi sozinha com meus irmãos. Estou adorando ter uma amiga em casa — reforçou Gisele sorrindo.

Os olhos de Miriam brilharam quando disse:

— Obrigada. Vocês me fizeram pensar em muitas coisas. Aqui encontrei um pouco de paz e minha primeira amiga.

Gisele levantou dizendo alegre:

— Agora preciso ir. Carlos não está, disse que ia sair muito cedo para ir ao mercado fazer as compras para o restaurante do hotel. Franco, o almoço fica por sua conta.

— Você também cozinha? — perguntou Miriam a Franco.

— Claro. Vou fazer nosso almoço e você vai me ajudar.

— Não sei fazer nada.

— Está na hora de aprender. Vai ser divertido. Miriam meneou a cabeça insegura:

— Não sei, é melhor não confiar em mim para isso.

— Qual nada. Você vai ver como é fácil. Ainda é cedo. Mais tarde veremos.

Depois que Gisele saiu, Franco lavou a louça do café e deu o pano de prato para Miriam enxugar. Depois guardou tudo e foram para a sala.

— O que você gosta de fazer em seu tempo livre? Miriam deu de ombros:

— Não sei. Quando as coisas estavam bem, eu lia revistas de moda, mas agora nem isso me entretém.     Perdi o gosto pela vida. Se ao menos Ivo voltasse pra casa... talvez eu pudesse ser feliz.

Franco olhou-a sério:

— Você está colocando sua felicidade nas mãos de outra pessoa. Ninguém pode ser feliz fazendo isso.

— Ivo é minha vida. Sem ele nunca serei feliz.

Franco sentou-se ao lado dela no sofá:

— E se ele não quiser mais voltar?

O rosto dela contraiu-se.

- Não quero nem pensar nisso. Imagino que logo ele estará de volta e tudo será como antes.

- Você está se iludindo. Sabe que seu casamento está correndo risco de acabar, mas prefere ficar na ilusão.

- Não posso acreditar que minha vida acabou.

- O melhor seria enfrentar a verdade e fazer alguma coisa para reverter a situação.

- Mas eu estou fazendo tudo. Ele sabe que não posso viver sem ele! Quer maior prova de amor que essa?

Franco abaixou a cabeça e ficou alguns segundos em silêncio, depois fixou-a dizendo:

- Eu penso diferente. Mas respeito sua opinião. É melhor não falarmos mais no assunto.

Franco levantou, apanhou um livro na estante, foi até uma poltrona e acomodou-se para ler. Miriam olhou-o pensativa, remexeu-se um pouco no sofá e perguntou:

— Você acha que estou errada?

— Eu só disse que penso de forma diferente. Cada um é livre para pensar como quiser.

Franco abriu o livro e mergulhou na leitura.

— Mas você é um profissional e eu gostaria de saber sua opinião.

— Para quê? Você não vai entender mesmo. Já tem uma opinião formada e não quer mudar. Há algumas revistas de Gisele na estante, pode vê-las.

Miriam não disse nada, nem se moveu. Permaneceu em silêncio enquanto Franco continuava lendo calmamente.

Quinze minutos depois, Miriam levantou-se dizendo irritada:

— Você não quer conversar comigo. Acho que estou incomodando mesmo. É melhor eu ir para casa.

Franco colocou o marcador na página, fechou o livro, olhou-a nos olhos e disse sério:

— Não exagere, nem dê força para sua criança mimada. Eu não quis ofendê-la. Notei que você não quer fazer nada para mudar, crescer e encarar os desafios da sua vida. Essa é uma escolha sua e eu respeito. Você acha que não vale a pena tentar e prefere ficar do jeito que está. Vamos esquecer esse assunto e continuar bons amigos.

Miriam apertou os lábios, havia o brilho de lágrimas em seus olhos quando fixou-o dizendo:

— Por que se recusa a me ajudar? Não vê que estou perdida, com medo, sem saber como agir? Que psicólogo é você que não se importa com meu sofrimento?

Franco se levantou, abraçou-a com carinho e não disse nada. Miriam não conteve o desespero, lágrimas desceram pelo seu rosto, seu corpo foi sacudido pelos soluços.

Enquanto esperava que ela desabafasse e a crise passasse, Franco fez mentalmente uma prece pedindo inspiração divina a fim de encontrar a melhor forma de auxiliá-la.

Quando ela parou de chorar e pareceu mais calma, Franco conduziu-a ao sofá e sentou-se ao lado dela em silêncio.

Pouco depois, ela passou a mão pelos cabelos e disse um pouco envergonhada:

— Desculpe. Eu não consegui me controlar. Não deveria ter dito aquilo. Não quis ofendê-lo.

Franco sorriu levemente ao responder:

— De certa forma eu provoquei.

— Estou me sentindo sem chão. Meu pai não pode mais me ajudar e eu não sei o que fazer. Estou confusa, sofrendo muito. Tudo pra mim dá errado. Não sei fazer nada.

— Não se culpe. Seus pais fizeram tudo para você a fim de poupá-la, facilitar sua vida, não lhe deram chance de aprender como as coisas são. Eles a amam muito, mas ignoram que o amor, para fazer bem, precisa ser inteligente. Protegeram-na demais e acabaram impedindo você de experimentar as coisas, errar para aprender e descobrir sua capacidade e sua força. Para que você ia se preocupar se eles lhe davam tudo pronto?

Franco fez ligeira pausa e, observando que Miriam ouvia atentamente, continuou:

— Foi fácil acomodar-se nessa situação, mas depois do seu casamento você continuou agindo como uma criança mimada porque não tinha maturidade para comportar-se como uma mulher e assumir o comando da família. Você agiu com seu marido como fazia com seu pai. Ele esperava muito mais da mulher com a qual se casou. Ele queria a companheira, a amiga que o compreendesse e o fizesse feliz. Ele foi paciente, durante anos esperou que você amadurecesse. Por fim, cansou de esperar, de suportar suas queixas constantes, de ser infeliz e resolveu acabar com a relação. Então, aconteceu o acidente com seu pai para que vocês acordassem. A vida tirou sua muleta, afastou seu pai temporariamente para que ele refletisse sobre suas atitudes e você ficasse livre para aprender a cuidar de si mesma.

Miriam ouvia com atenção, bebendo suas palavras com interesse, e Franco prosseguiu com voz firme:

— Agora é a hora da decisão. Ou você joga fora o medo e procura conhecer o que vai dentro do seu coração, quais são suas aspirações, seus sonhos de felicidade e também seus pontos fracos e se esforça para progredir, tornar-se uma pessoa melhor, ou terá de se conformar em ser infeliz pelo resto da vida. Essa é uma escolha que só você pode fazer.

Os olhos dela brilharam quando perguntou:

— Você acredita que eu serei capaz de fazer isso?

— Acredito! Nós estamos neste mundo para aprender a desenvolver nossos potenciais e a viver melhor. Dentro de você Deus colocou tudo que precisa para crescer e enfrentar todos os desafios do amadurecimento. No momento em que você firmar o propósito de se desenvolver, ousar ser verdadeira, fazer o que sente, o que gosta, sem medo de errar, pois os erros ensinam mais do que os acertos, confiar na própria capacidade, acreditar que pode, receberá o apoio das forças positivas do universo. Mas cada vitória lhe dará a medida da sua força e tudo ficará mais fácil. A felicidade precisa ser construída a cada dia, com verdade, alegria e esforço para fazer o melhor. É preciso persistir, ousar e acreditar no próprio poder.

— Eu não sei como começar...

— O primeiro passo é cuidar de si. Colocar-se em primeiro lugar em tudo que fizer. Não para os outros, mas para si mesma. Amar seu corpo que é um aparelho inteligente e permite que você interaja com todas as coisas à sua volta e mantê-lo saudável, ágil, bonito e forte. Cuidar de seu mundo interior, analisando sentimentos, percebendo como reage diante das circunstâncias do dia a dia. O mundo tem caminhos muito interessantes, e você logo descobrirá tantas coisas novas que lhe darão prazer, que não terá mais tempo para se sentir infeliz.

— Eu gostaria de descobrir tudo isso! Será que vou conseguir?

— Basta querer.

— Eu quero! Quero muito!

— Mas para isso terá de dedicar-se exclusivamente à sua vida pessoal e esquecer o resto.

Miriam levou a mão à boca e exclamou:

— Esquecer de Ivo?

— Temporariamente. Você vai desenvolver suas capacidades, descobrir quem você é e expressar sua luz. Seu espírito é eterno e criado à semelhança de Deus. Sua essência é divina. Quando você fizer sua luz brilhar, estará pronta para ser feliz. Então, a vida realizará seus sonhos.

— O que você diz parece ser verdade. Nesse dia Ivo voltará para mim?

— Não sei. Você vai mudar e pode desejar seguir outro caminho. Tudo pode acontecer. Mas se vocês decidirem ficar juntos de novo, será para viver melhor e serem felizes.

Miriam abraçou Franco, beijou-o delicadamente na face e disse alegre:

— Obrigada por ter me mostrado que a vida pode ser bem melhor e que tenho chance de fazer isso acontecer! De hoje em diante, você é meu professor. Quero aprender tudo que puder!

— Agora vamos para a cozinha porque vou ensiná-la como fazer um almoço gostoso e nutritivo. E não me diga que não sabe como.

Satisfeito, Franco dirigiu-se à cozinha e Miriam o seguiu curiosa, pensando o que ele iria fazer de almoço.

 

Ivo entrou no escritório da loja, aproximou-se de Jorge, que analisava alguns papéis, e entregou-lhe uma pasta dizendo:

— Dentro dela o senhor encontrará o último balancete das contas da loja. Já conferi e está tudo certo.

— Obrigado.

— Faz uma semana que o senhor voltou ao trabalho, está bem e eu já posso cuidar da minha vida. Jorge fez um gesto de contrariedade:

— Eu pensei que você fosse continuar trabalhando comigo.

— Como já lhe disse, tenho outros planos, quero cuidar do meu futuro.

— O que pensa fazer?

— Tenho algumas ideias, talvez volte a estudar.

— Você não precisa disso. Tem experiência suficiente para cuidar dos nossos negócios. Eu tenho esperanças de que volte atrás e retome o casamento. Vocês são jovens e ainda podem ser felizes.

Ivo meneou a cabeça negativamente e respondeu:

— Miriam aos poucos assumirá uma postura melhor e se tornará uma boa esposa.

— O tempo passou e nós mudamos. Eu não desejo voltar ao passado. Quero cuidar de mim, seguir outro caminho.

— Não pensa na dor que ela vai sofrer com essa separação?

— Nossa situação não era real. Miriam nunca assumiu seu lugar, e eu também não. Acomodei-me diante das facilidades que o senhor nos ofereceu. Tudo começou errado e assumo a parte que me cabe. Hoje sei que vivemos uma situação fácil, onde brincamos de viver sem assumir nossos problemas e deu no que deu.

— Você está se precipitando e um dia ainda vai se arrepender. Então poderá ser tarde para voltar atrás.

— O futuro não me assusta. Não tenho medo do trabalho, sei que posso cuidar de mim. O tempo passa e dias melhores virão para todos nós. Estou certo disso. Agora preciso ir.

Jorge se levantou, fixou os olhos do genro e disse sério:

— Espero que não se arrependa dessa atitude. Ivo sustentou o olhar, estendeu-lhe a mão e respondeu:

— Nós nunca fomos grandes amigos, mas a seu lado aprendi muitas coisas e sou-lhe grato por isso. Espero que entenda minha atitude e não me queira mal.

— Eu entendo. Mas você tem o dever de procurar sua mulher e contar-lhe sua decisão, ouvir o que ela tem a lhe dizer. Se houver separação, há algumas questões legais que precisarão ser atendidas.

— Quanto a isso não se preocupe. A casa está em nome dela e eu não quero nada. Todas as coisas ficarão para ela.

— Gostaria muito que não chegassem à separação. Mas, se houver, que seja de maneira discreta.

Ivo estendeu novamente a mão e Jorge a apertou dizendo:

— Tenho esperança de que você desista dessa ideia. Ivo sorriu levemente quando disse:

— Desejo-lhe felicidades. Até um dia.

Depois virou as costas e saiu rapidamente, sentindo pesar sobre ele o olhar do sogro enquanto se afastava. Uma vez na rua, respirou fundo, sentindo o prazer da liberdade. Finalmente sentia-se livre para cuidar da própria vida.

Não tinha vontade de procurar Miriam. Ela nunca iria entender sua atitude. Era egoísta, só pensava em seu próprio bem-estar. Seria uma conversa inútil. Melhor procurar um advogado para cuidar do divórcio e deixá-lo conduzir a separação. Para isso precisaria ter dinheiro e ele ainda não estava trabalhando. Tinha algumas economias que juntara e proveria os primeiros tempos.

Decidir o que fazer, procurar trabalho, seria o primeiro passo. Não tinha pressa em resolver legalmente a ligação com a esposa. Preferia dar um tempo a fim de que ela se acostumasse com a separação e se conscientizasse de que o casamento havia mesmo acabado.

Tendo decidido isso, foi direto ao quarto do hotel, tomou um banho, abriu a janela, respirando satisfeito o ar do entardecer. Estava escurecendo e ele sentiu fome. No salão, o jantar estava sendo servido e ele comeu com apetite.

Sentia-se disposto, com vontade de conversar, trocar ideias com alguém. Ligou para Franco, mas ele estava trabalhando e não pôde atendê-lo. Então, lembrou-se de seu amigo Inácio. Encontrou o cartão, ligou e convidou-o a encontrá-lo no bar do hotel.

Meia hora depois Inácio chegou e, depois dos cumprimentos, sentaram-se para conversar. Ivo fez-lhe uma rápida descrição dos acontecimentos, que se precipitaram em razão de seu reencontro naquela noite.

Inácio ouviu atentamente e no fim perguntou:

— E agora, o que pretende fazer?

— Estou sentindo o prazer da liberdade. Pretendo trabalhar muito. Ainda não sei bem em quê.

— Gostaria de ter a sua coragem e virar a mesa. As coisas para mim também não estão dando certo.

— Você é solteiro e não tem dependentes.

— Mas minha família me cobra atitudes, não me deixam fazer o que gosto.

Ivo sorriu levemente e considerou:

— Sei o que é fazer as coisas por obrigação. Cansa, deprime e dá uma sensação de que algo está errado.

— Meu pai trabalha em uma empresa de contabilidade, minha mãe ajuda nas despesas dando aulas de inglês e eu ajudo a manter o orçamento da casa, uma vez que eles não ganham o suficiente. Minha irmã apaixonou-se e foi embora de casa com o namorado. Estão tentando construir uma família em Porto Alegre. Sobrou para mim.

Ivo pensou um pouco, depois perguntou:

— Quando eu me casei você estava apaixonado pela Marilda, uma moça linda, pensavam até em casamento. Por que não se casaram?

Pelos olhos de Inácio passou um lampejo de tristeza.

— Quando penso nisso, ainda sinto o gosto amargo da traição. Chegamos até a marcar a data do casamento, mas uma noite a surpreendi aos beijos com outro.

— É difícil entender. Ela parecia tão apaixonada!

— Quando ela estava em meus braços eu sentia que ela me queria. Nunca imaginei que pudesse me trair daquele jeito. Não suportei a cena dos dois juntos e ali mesmo acabei com o noivado. Dias depois um amigo me contou que o rapaz com quem ela se envolveu era muito rico, frequentava lugares de luxo e tudo fez para conquistá-la.

— Você acha que ela deixou-se seduzir pelo dinheiro?

— Foi o que pensei. Isso me deixou ainda pior. Eu era recém-formado, desconhecido no mercado, inexperiente e, no fundo, até entendi que ela tivesse preferido ficar com o outro.

— O que houve depois?

— Ela casou-se com ele e eu fiquei vacinado contra o casamento. Eu namoro, mas não consigo me envolver completamente. Estou sempre com um pé atrás, não confio em ninguém.

— Por isso não se casou até agora. Mas apesar da minha experiência não ter sido boa, ainda desejo encontrar uma mulher que me entenda e construir uma família.

— Que coragem! Você vai tentar de novo?

— Não agora. Mais tarde, talvez. Mas só quando eu estiver com minha situação financeira resolvida e se encontrar a mulher que eu desejo.

— Você é muito otimista.

— Hoje eu sou mais experiente. Sei o que é bom para mim e quero ser feliz.

— Eu gostaria de ser como você. De ser livre para mudar minha vida, fazer coisas que sempre quis e nunca pude. Viajar, conhecer lugares e outras culturas.

— Eu quero fazer isso mesmo. Estou pensando em viajar, mudar de cidade.

— Aonde gostaria de ir?

— Talvez vá tentar a vida no Rio de Janeiro. Tenho a sensação de que lá tudo é mais fácil.

— O Renato foi morar lá depois de formado e está se dando muito bem. Adora a cidade, as pessoas. Tem muitos amigos. Ligue pra ele que ficará muito alegre em saber disso.

— Que bom! Vai ser ótimo vê-lo. Nós três andávamos sempre juntos. Por que não vai comigo?

Os olhos de Inácio brilharam de emoção quando respondeu:

— Se eu pudesse, iria mesmo.

— O que o prende aqui? Você é livre, pode ir para onde quiser!

Inácio hesitou um pouco, mas depois respondeu:

— Meus pais se sacrificaram muito para que eu me formasse, sonhavam com a vida que eu lhes proporcionaria depois de formado. Não posso abandoná-los agora.

Ivo colocou a mão sobre o braço dele, e considerou:

— Aqui você não tem progredido, não gosta do que faz, sente-se infeliz. Por que não tenta em outro lugar? É hora de mudar, experimentar outro ambiente, conhecer pessoas novas, se dar uma chance de progredir, buscar algo melhor.

— Ah! Se eu pudesse! Seria ótimo! Quem sabe mais tarde, se aparecer uma oportunidade melhor. Não gosto do meu emprego, mas ao menos posso dar um pouco mais de conforto à minha família.

— Eu pretendo ir para o Rio amanhã mesmo procurar trabalho. Tenho algumas economias que me sustentarão até encontrar o que desejo. Preciso do telefone do Renato, quero trocar umas ideias com ele.

Depois de anotar o telefone, os dois continuaram conversando mais algum tempo. Com a promessa de Ivo sondar alguma chance de emprego para o amigo, despediram-se com o propósito de se manterem em contato.

Chegando ao hotel, Ivo reservou uma passagem de ônibus para o Rio de Janeiro para a noite seguinte. Depois fechou a conta com o hotel e preparou-se para dormir.

Deitou, mas demorou para pegar no sono. Sua vida ia mudar e ele, apesar de sentir-se livre e cheio de entusiasmo, no fundo tinha certo receio de não conseguir o que desejava.

Acordou várias vezes durante a noite, esforçando-se para acalmar a ansiedade e adormecer em paz.

Eram dez horas da manhã seguinte quando Ivo ligou para Franco, que atendeu prontamente:

— Ivo? Estava pensando em você. Não me ligou mais.

— Estive ocupado todos estes dias trabalhando na loja. Só me desliguei deles ontem à noite. Desta vez é definitivo. Vou trabalhar no Rio de Janeiro.

— Arrumou emprego lá?

— Ainda não, mas estou confiante. Tenho disposição e vontade de trabalhar. Estou ligando para me despedir. Você me ajudou muito! Eu gostaria de abraçá-lo pessoalmente, mas no momento não é possível.

— Eu entendo. Você sabe que Miriam está passando alguns dias aqui em casa e não quer encontrá-la.

— Apesar de tudo que houve entre nós, eu desejo de todo coração que ela aceite a situação, se conforme.

— Não está sendo fácil para ela, mas nós a estamos apoiando e procurando fazer com que ela aprenda a ver as coisas de uma forma melhor.

— Fico mais tranquilo sabendo que ela está aí, sob seus cuidados. Eu gostaria muito que ela aceitasse um tratamento e pudesse se equilibrar, aceitar a separação. Nós somos muito diferentes, nunca daria certo ficarmos juntos.

— Vamos ver o que é possível fazer. Você sabe, nós tentamos mostrar a verdade, mas as pessoas só aceitam quando querem. Tanto Gisele quanto Carlos têm conversado muito com ela, tentado distrai-la. Ela tem mostrado interesse em aprender coisas novas. É um bom sinal.

— Você não sabe o alívio que suas palavras me causam. Obrigado por tudo. Assim que me instalar no Rio, mandarei meu endereço.

— Boa viagem e votos de muito progresso.

Franco desligou e Miriam, que ouvira parte da conversa, apareceu na sala com o rosto cheio de lágrimas. Aproximou-se dele dizendo:

— Era o Ivo, não era? Ele não vai mais voltar pra mim... Ele não me quer mais!

Franco abraçou-a com carinho:

— Ele não disse isso.

— O que foi que ele disse? Falou em mim? Disse que não vai mais voltar pra casa?

— Nós não falamos sobre isso. Ele quis saber como você está e eu lhe disse que você tem estado mais calma e está melhorando suas atitudes.

— Não era isso que você tinha de dizer! Ele vai achar que eu aceito a separação e isso é mentira. Eu não quero me separar! Ele precisa voltar pra casa.

Corpo sacudido por soluços, Miriam agarrou-se no braço dele desesperada.

— Diga que é mentira, diga que ele vai voltar pra casa hoje!

Franco olhou-a e disse com voz firme:

— A verdade é que Ivo não quer voltar mais pra casa. Ele está se mudando da cidade.

— Eu não aceito isso! Ele tem que voltar!

— Entenda, Miriam, cada pessoa é livre para escolher como quer viver. Você não aceita a separação, mas ele não quer mais viver a seu lado por causa das brigas e do seu ciúme. Ivo só quer viver em paz. Acalme-se. Você está se machucando muito. Ele tem o direito de viver como se sente bem. Você está sendo má consigo mesma. Por que se atormenta dessa forma? Ivo não quer mais fazer sua vontade. Você precisa aceitar essa verdade. Não tem como obrigar seu marido a fazer só o que você quer. Ele tem o direito de escolher como deseja viver.

Franco conduziu-a diante do espelho que havia sobre o console da sala:

— Olhe pra você! Veja como está se maltratando. Está abatida, olhos congestionados, respiração ofegante. Se continuar assim vai acabar destruindo sua saúde. Você não é mais criança, você é uma mulher! É hora de crescer, de aprender a ser gente, de cuidar de si mesma. Você pode! Por que se rebaixa tanto diante de alguém que não quer mais ficar a seu lado? Acha que pode continuar dependente dos outros a vida toda? Você é uma mulher adulta! Assuma sua vida. Não deixe que os outros decidam por você.

As pernas dela bambearam e Franco fê-la sentar-se no sofá. Foi buscar um copo d'água, enquanto ela continuava soluçando.

— Beba e respire fundo! Vamos, tome alguns goles. Ela obedeceu e fechou os olhos. Franco sacudiu-a levemente dizendo:

— Você não vai dormir nem apagar neste momento. Preste atenção, você está tomando consciência de si mesma! Você existe, é uma mulher bonita, cheia de qualidades, de vontade de viver, de ser feliz!

Miriam fixou-o séria e Franco continuou:

— Não tenha medo, use sua força para obter o que quer. Se deseja ter seu marido de volta, terá de reconquistá-lo, e não será se humilhando, implorando que ele a ame, como se fosse um favor, ou pior, uma obrigação, que fará ele voltar para casa. Acorde, Miriam! Use seu tempo para desenvolver sua beleza, faça mais, vá além das aparências e descubra as qualidades que possui! Desenvolva seu melhor lado, aprenda a alimentar seu espírito, descubra coisas que toquem sua alma, lhe tragam alegria e prazer de viver! Esse é o caminho para expressar toda sua beleza e conquistar não só seu marido, mas a admiração de todas as pessoas que se aproximarem de você.

Os olhos de Miriam brilhavam ávidos e Franco continuou:

— Eu vejo tudo isso em você! Mas é preciso acreditar que pode e querer ir por esse caminho. Este é o momento de fazer a opção: ou você aceita que até agora não conseguiu viver feliz, reconhece que não soube lidar com os problemas e faz o propósito firme de mudar suas atitudes, assumir a responsabilidade pela sua vida, ou continuará insatisfeita, infeliz, esperando dos outros o que eles não têm para lhe dar. A escolha é sua!

— Quem me garante que tudo que você disse é verdade?

— Por que não tenta descobrir? Eu não tenho como convencê-la de nada. Essa é uma tarefa sua! Eu estou muito bem, minha vida está seguindo do jeito que eu quero. É você que está infeliz e sendo desafiada pela vida a mudar. Pense nisso.

Franco se calou, apanhou um livro na estante, deixou a sala em silêncio. Miriam ficou pensativa, fechou os olhos e começou a recordar dos primeiros tempos de namoro. Do encantamento que sentia quando Ivo se aproximava, suas mãos se tocavam, dos olhares que trocavam timidamente quando se encontravam. Da festa de aniversário quando fez dezessete anos e dançaram pela primeira vez.

Naquele tempo, tudo era alegria, o namoro, o casamento, o enlevo dos primeiros dias. As primeiras brigas, o nervosismo quando Ivo se demorava alguns minutos mais, os pensamentos de traição que fervilhavam em sua cabeça. O ciúme, a raiva por não saber o que ele estava fazendo durante o tempo em que ficava fora de casa.

Sua vida se transformara em um tormento constante. Não confiava mais no amor do marido. Uma vez fora na loja e vira Ivo atendendo uma freguesa bonita, cheia de vida. Ele sorria atencioso e solícito. Naquela noite, quando ele chegou em casa, ela estava de cama, irritada, mais exigente do que nunca. Passara o resto do tempo imaginando o que os dois conversaram. Talvez tivessem até marcado algum encontro.

Nervosa, ela abriu os olhos, respirou fundo e pensou:

"Eu não posso viver mais dessa forma. Ou eu acabo com a minha vida, ou peço ao Franco para me ensinar o que preciso fazer para me livrar desse inferno! Não dá mais para viver assim".

Levantou determinada, foi até o quarto de Franco, onde ele lia tranquilo, e disse nervosa:

— Franco, eu preciso da sua ajuda! Não aguento mais este tormento. Estou enlouquecendo! Fico imaginando Ivo me traindo com outras mulheres, feliz, enquanto eu estou vivendo este inferno! Por favor, me dê algum remédio que me faça esquecer... ter um pouco de paz!

Franco levantou, segurou a mão dela, conduziu-a para perto da cômoda sobre a qual havia um retrato de Jesus e disse sério:

— Quando não sabemos o que fazer, o melhor é entregar a situação nas mãos de Deus, porque ele sabe como nos auxiliar, inspirar e colocar cada coisa no seu lugar. Peça a Ele que a ajude a encontrar a paz. Não pense em nada. Respire com calma e confie na ajuda de Deus.

Franco ficou em silêncio e pouco depois Miriam disse:

— Estou me esforçando para não pensar, mas está difícil.

Franco colocou a mão na testa dela dizendo:

— Feche os olhos e imagine que uma luz muito branca, com fios dourados, está descendo do alto sobre nossas cabeças, nos trazendo energias de paz, equilíbrio e bem-estar. Sinta que você está cansada e deseja viver em paz, cuidar de seus sentimentos, ter equilíbrio, viver uma vida boa, cheia de alegria e luz!

Franco se calou, e Miriam continuou alguns minutos mais em silêncio. Depois abriu os olhos e disse admirada:

— Senti à minha volta uma brisa suave, como se alguém me acariciasse. Parece mágica! Sinto-me aliviada.

— Você recebeu ajuda. Agora procure não pensar mais nos problemas. Sempre que tiver um pensamento ruim, reaja, não o alimente. Procure fazer alguma coisa que a entretenha e distraia, não fale mais no assunto. Venha, quero mostrar-lhe um livro sobre meditação muito bom. Tem exercícios muito práticos e que funcionam.

Miriam acompanhou-o com interesse. Franco deu-lhe o livro e ela sentou-se curiosa, começando a ler. Franco, satisfeito, foi à cozinha fazer um café.

 

O telefone tocou e Franco atendeu prontamente. Era Jorge querendo saber notícias de Miriam.

— Faz três dias que ela não aparece, nem telefona. Flora está preocupada...

— Miriam está bem.

— É difícil de acreditar. Ivo foi embora e ela não voltou para casa. Somos gratos por tudo que vocês estão fazendo para ajudá-la, mas é hora de decidir como será daqui para a frente. Pensamos que o melhor será ela vir morar conosco.

— É preciso saber o que ela quer fazer. Para decidir, talvez precise de um pouco mais de tempo.

— Não tem outra solução. Miriam não vai querer viver sozinha naquela casa. Não tem maturidade para isso.

— Miriam está reagindo bem, estou certo de que logo chegará o momento em que ela mesma sentirá vontade de resolver esse assunto.

— Você acha mesmo? Ela nunca fez nada sozinha!

— Ela vai aprender a se cuidar. Fique tranquilo.

— Eu ficaria mais tranquilo se ela viesse logo para nossa casa. O apartamento de vocês é pequeno, ela deve estar incomodando. Vocês trabalham, são pessoas ocupadas...

— De modo algum. Nós nos revezamos e ela fica bem. Às vezes vai comigo à tarde para o consultório e fica lendo enquanto espera. Depois, Gisele passa lá e volta pra casa com ela. Nunca a deixamos sozinha.

— Ela agora depende de nós, é nossa responsabilidade cuidar dela.

— Miriam não é mais uma criança, tem condições de escolher como quer viver.

Jorge ficou em silêncio durante algum tempo, depois disse:

— Hoje Flora vai dar um pulo até aí para conversar com ela.

— Será melhor vir à noite. Ela estará em casa com Gisele.

— Está bem. Obrigado por tudo.

Franco desligou o telefone e foi ter com Miriam, que estava no quarto.

— Seu pai ligou dizendo que sua mãe virá à noite conversar com você.

Miriam fez um gesto de contrariedade e Franco fez de conta que não percebeu.

— O que ela vem fazer aqui?

— Está com saudades. Quer vê-la.

— Eu preferia que não viesse.

— Por quê?

— Vai me fazer lembrar de coisas que prefiro esquecer.

Franco fixou-a sério:

 

— Sua mãe não tem culpa pelo que aconteceu.

— Eu sei. A culpada fui eu, mas não quero que ela me lembre disso.

— Você fica com uma cara muito engraçada quando se zanga.

— E você é um bobo porque está sempre rindo de mim. Meu pai também vai vir?

— Não sei. Ele não disse. Dentro de quinze minutos iremos para o consultório. Está pronta?

— Estou. Gisele vai me encontrar lá?

Ele confirmou e ela sorriu alegre. Ele notou um certo ar de malícia e sentiu-se satisfeito, percebendo o quanto ela havia mudado nas duas semanas em que estava com eles.

Faltava pouco para as seis horas da tarde quando Gisele passou no consultório de Franco, conforme o combinado. Ela agora estava entendendo um pouco mais os problemas de Miriam. A princípio ela criticara as atitudes dela, mas Franco havia lhe explicado o porquê da imaturidade, da sua insegurança e pedira-lhe que colaborasse a fim de auxiliá-la a mudar e aprender a lidar melhor com suas emoções.

— A crítica pune ainda mais alguém que já está se sentindo infeliz. Todos nós temos pontos fracos, mas também muitas qualidades. Miriam ainda não descobriu o que possui de bom e que pode trazer-lhe uma vida melhor. É preciso agir de modo que ela descubra o próprio valor.

Gisele ficou pensativa por alguns segundos depois perguntou:

— Devo elogiá-la para que se sinta bem?

— O elogio só funciona se for verdadeiro. No caso dela é preciso mais. Ela tem de sentir que pode, que é capaz.

— Talvez seja bom eu dar-lhe pequenas tarefas e, quando ela fizer algo bom, reconhecer.

Franco sorriu satisfeito:

— Isso mesmo. Faça isso e vamos ver o que acontece.

Gisele então começou a pedir a Miriam que a auxiliasse nas pequenas tarefas do dia a dia. Por mais simples que fosse a tarefa, Gisele destacava a importância do resultado, valorizando o trabalho. Quando ela o executava bem, elogiava, quando não ficava bom, pedia-lhe que o refizesse porque sabia que ela tinha capacidade de fazê-lo muito melhor.

Aos poucos essas pequenas coisas foram despertando o interesse de Miriam. Ela começou a sentir o prazer de aprender, de ser capaz de participar.

Quando Gisele entrou, Miriam a abraçou satisfeita e pouco depois as duas saíram. A tarde estava bonita e Gisele informou:

— Vamos passar no supermercado, fazer algumas compras. Eu fiz uma lista e você vai me ajudar a escolher.

— Nós vamos demorar bastante.

— Por quê?

— Minha mãe vai me visitar esta noite, pode ser que meu pai vá junto. Não tenho vontade de vê-los.

— Eles estão preocupados com você.

— Eles querem é que eu vá morar com eles. Isso eu não quero. Vocês me deixam ficar mais algum tempo no apartamento?

— Nós temos prazer em ter sua companhia. Apesar dos meus irmãos estarem lá, eu era muito sozinha, você chegou, tem sido minha amiga e não quero que vá embora.

Os olhos de Miriam brilharam úmidos e ela sorriu emocionada.

— Sabe, Gisele, eu também nunca tive uma amiga. Com vocês me sinto segura, parece que tudo fica mais fácil.

— Então está decidido. Vamos, o ônibus está chegando.

No mercado, Gisele pegou um carrinho, segurou a lista e começaram a fazer as compras básicas do mês.     Ela havia recebido o salário. Tivera um aumento havia pouco tempo, mas mesmo assim esticava o dinheiro o mais que podia, fazendo-o render mais.

Miriam tinha dinheiro, mas os três não a deixavam pagar nada. Ela reclamava, mas eles não aceitavam. E a cada dia Miriam os admirava mais, não só pela forma como haviam assumido a própria vida, mas também pela liberdade de que desfrutavam. Certa vez surpreendeu Gisele com esta frase:

— Se eu tivesse ficado órfã como você, talvez minha vida tivesse sido diferente.

Apesar da estranheza que a frase lhe causou, Gisele entendeu o que ela quis dizer.

— Vamos passar na drogaria, ver os produtos de beleza!

Lá o movimento estava grande. Havia uma demonstradora que, vendo-as, aproximou-se oferecendo alguns produtos, para que experimentassem.

Miriam costumava ir ao salão de beleza e lá aceitava as sugestões e comprava o que indicavam. Mas ali, no meio do movimento, as duas permitiram que a moça as maquiasse e acabaram comprando diversos produtos.

Saíram da drogaria alegres, principalmente notando que chamavam a atenção dos rapazes, que se viravam para vê-las. Era a primeira vez que Miriam percebia que estava sendo admirada. Gisele ria se divertindo com o rosto corado dela e o brilho alegre de seus olhos.

— Estou com sede — disse Miriam. — Tem uma lanchonete ali, vamos beber alguma coisa. Eu pago.

— Estou cansada mesmo. Vamos nos sentar.

Elas se acomodaram e fizeram o pedido. Enquanto tomavam o refrigerante, um rapaz aproximou-se, parou diante delas e, fixando Gisele, disse sorrindo:

— Ainda bem que a encontrei. Gostou do livro? Gisele levantou os olhos e respondeu admirada:

— Muito!

— Gostaria de conversar com você. Permite? Ela sorriu, ele puxou a cadeira e se acomodou. Depois de fazer as apresentações, Gisele perguntou:

— Você vem sempre aqui?

— Hoje é meu dia de sorte. É a primeira vez que venho aqui e na chegada logo vi vocês. Moram aqui perto?

— Não. Eu trabalho a algumas quadras. Faço as compras do mês aqui porque, além de boa qualidade, os produtos são mais baratos.

Miriam percebeu que havia alguma coisa no ar, os dois se olhavam com certa emoção, e perguntou com interesse:

— Vocês são amigos há muito tempo?

— Não. Nos encontramos por acaso na livraria. Eu estava indecisa, ele indicou-me um livro, por sinal muito bom.

Gino pediu um suco e a conversa fluiu fácil. Enquanto conversavam, Gisele percebia o olhar dele como querendo desvendar seu mundo interior. Sentia que vinha dele uma energia boa, um calor suave e agradável que lhe fazia muito bem.

Falaram sobre vários assuntos, Gisele ficou sabendo que ele tinha trinta anos, trabalhava por conta própria representando algumas empresas de outros estados. Sua família morava em Minas e ele morava sozinho em São Paulo. Ela falou sobre sua vida com os irmãos e o tempo foi passando.

Gisele olhou o relógio, passava das dez e ela se levantou apressada:

— É tarde! Precisamos ir!

— É cedo! — comentou ele.

— Não. Vamos pagar a conta e ir. Meu irmão já deve estar indo para casa e eu não fiz o jantar!

Ela estendeu a mão para despedir-se, mas ele, que também se levantara, disse sério:

— A conversa foi tão agradável que esquecemos da hora. Estou me sentindo culpado. Vou levá-las em casa.

O rosto de Gisele ficou ligeiramente corado pela emoção. O interesse dele era evidente e ela sentiu uma onda de alegria invadir seu coração. Pegou as compras, Gino auxiliou-as com as sacolas, e foram caminhando para o estacionamento. Na saída, havia uma loja de flores, e Gino rapidamente parou, comprou algumas flores e ofereceu a elas com elegância.

Depois de acomodar as coisas no carro, Miriam logo entrou atrás e Gisele sentou-se ao lado dele. Estava emocionada. Naquela noite ela queria que o trânsito estivesse ruim para demorar bastante. Durante o trajeto, sentia de maneira forte a presença dele ao lado e esforçava-se para não demonstrar tanto seu interesse.

Quando chegaram, ele ofereceu-se para levar tudo até o apartamento, mas Gisele não aceitou. Não queria ainda apresentá-lo aos irmãos. Carlos devia estar na hotel, mas Franco poderia estar em casa.

Estendeu a mão, dizendo:

— Boa noite. Obrigada por tudo.

Gino apertou a mão dela e beijou-a delicadamente na face:

— Até outro dia! Nós ainda vamos nos ver muitas vezes!

Despediu-se da mesma forma de Miriam, cuja simpatia conquistou desde o primeiro instante.

Assim que as duas se viram a sós, Miriam comentou:

— Que rapaz agradável! Eu havia esquecido que existem homens assim!

Gisele olhou-a firme nos olhos e comentou:

— Você não lembra, mas Ivo também era um rapaz encantador. Eu era criança, mas lembro que ele fazia muito sucesso entre as garotas.

Uma sombra de tristeza surgiu no rosto de Miriam, que ficou pensativa durante alguns segundos, depois disse:

— Era mesmo. Como foi que tudo isso mudou?

— Seria bom você pensar sobre isso. Talvez possa entender um pouco mais o que aconteceu.

— Tenho medo de olhar e descobrir que eu nunca soube fazer nada direito.

Gisele deu de ombros e considerou:

— Não se culpe. A culpa torna as coisas muito piores do que são. Pense que você fez só o que sabia naquela época e acreditava que fosse o melhor. Ninguém erra porque quer. Você mudou e agora talvez tenha uma visão mais verdadeira dos fatos.

— Às vezes tenho vergonha das cenas ridículas que fiz. Não tenho mais vontade de me aproximar de Ivo, quero esquecer que meus pais existem.

— Isso vai passar. Se deseja errar menos, não julgue nem condene ninguém. É melhor procurar entender o que você realmente quer da vida, descobrir quais são suas prioridades para conquistar uma vida melhor e mais feliz. Isso é o que importa agora.

Miriam deu um sonoro beijo na face de Gisele, dizendo emocionada:

— Tem razão. Vou seguir seu conselho.

Franco surgiu na cozinha, onde as duas estavam arrumando as compras, e disse sorrindo:

— Estou vendo que as duas estão muito bem. Posso saber o que está acontecendo?

— Não seja curioso. São assuntos de mulher... —disse Gisele.

— Tudo que vocês pensam me interessa. Esqueceram que atendo inúmeras mulheres? O jantar vai demorar?

— Nos demoramos demais e você deve estar com fome. Vou fazer alguma coisa rápida.

Carlos surgiu na cozinha trazendo um pacote, que colocou sobre a mesa dizendo:

— Hoje deu para vir mais cedo e eu trouxe algo do restaurante do hotel para vocês! Mas vocês já devem ter jantado...

— Ainda não. Eu cheguei agora e estava pensando no que fazer para jantar... — tornou Gisele satisfeita. Carlos fez um ar profético e respondeu:

— Eu previ que vocês estavam famintos e resolvi matar o que os estava matando.

Gisele colocou a mão no braço do irmão:

— Seria bom mesmo que você se interessasse mais pela espiritualidade e estudasse o assunto.

— Estou cansado, vou tomar um banho e deitar. Bom apetite.

Ele foi se afastando e Gisele falou mais alto:

— Obrigada pela comida!

Miriam foi dispondo os pratos na mesa e pouco depois os três estavam comendo com apetite. Haviam terminado de jantar quando a campainha tocou. Miriam disse séria:

— Quem será a estas horas?

Olga e Davi estavam à porta quando Franco abriu.

— Desculpe a hora, eu queria deixar para amanhã, mas Davi estava nervoso, não se sente bem.   Precisamos de ajuda.

— Não se preocupe. Estamos acordados. Entrem, por favor.

Na cozinha, Miriam, nervosa, dizia para Gisele:

— O que eles vieram fazer aqui?

— Não se preocupe. Franco vai atendê-los e nós não precisaremos aparecer. Venha, vou lavar a louça e você enxuga.

Gisele fechou a porta da cozinha enquanto Franco acomodava os visitantes na sala de estar. Uma vez na sala, fixou o rosto de Davi e perguntou:

— O que está acontecendo?

Davi remexeu-se na poltrona e disse nervoso:

— Eu não queria vir aqui incomodá-los a esta hora. Acho melhor irmos embora.

— Do que tem medo?

— Não sei. Sinto que estou sendo perseguido. Tem alguém querendo me matar. Se eu soubesse quem é iria à polícia.

— O que mais você está sentindo?

— Falta de ar. Há momentos em que tenho a sensação de que alguém está apertando meu pescoço e não consigo respirar. Depois passa durante alguns minutos, mas volta. Temo que minha hora tenha chegado...

— Você não está doente. Está na hora de você saber: a morte não é o fim. As pessoas que morrem continuam vivendo em outras dimensões do universo e podem voltar, nos envolver com suas energias. Quando um espírito se aproxima de nós, sentimos no corpo suas energias. Os bons nos deixam bem, já os perturbados nos deixam mal. Você está sentindo as energias de alguém que já morreu.

Davi levantou-se irritado:

— Bem que eu não queria vir! Acreditar em espíritos! Que disparate. Você é psicólogo, estudou, não pode ser tão ignorante...

Franco levantou-se, colocou a mão espalmada diante da testa de Davi e disse sério:

— Não é negando que você vai se livrar dessa presença. Mas se ligando a Deus e pedindo ajuda. Vamos orar, pedir a Deus que nos cubra com seu manto de luz.

Olga, trêmula, fechou os olhos e começou a rezar. Davi franziu a testa e procurou afastar a mão de Franco dizendo irritado:

— Não quero rezar. Pare com isso!

Nesse momento, Miriam surgiu na sala, pálida, olhos esbugalhados, apontando o dedo para ele e dizendo:

— Não vou parar! Você vai me pagar por tudo que fez.

— Acalme-se. Vamos conversar — pediu Franco.

— Por que vocês o defendem? Ele não merece. É um traidor! Vou acabar com ele!

— Você não tem esse poder!

Gisele havia se postado atrás de Miriam e, com a mão na testa dela, orava em silêncio.

De repente, Miriam voltou-se para ela dizendo:

— Quem é você, que está me segurando, impedindo que eu o traga para cá?

Dessa vez quem respondeu foi Gisele:

— Você não deve ficar aqui. Não tem o direito de invadir a vida das pessoas e querer agir dessa forma. Vim buscá-lo.

— Não quero ir. Tenho que impedi-lo de envolver Adélia. Ele a roubou de mim, a mantém presa, fazendo-a sofrer. Eu prometi protegê-la. Eu a amo muito, não posso assistir ao sofrimento dela!

— Você vai embora comigo agora!

— Eu não posso! Ele a está mantendo em cárcere privado. A coitada não pode nem olhar para a rua.

— Você vai comigo agora e eu prometo que vou cuidar pessoalmente desse caso!

— Sei que você é um filho da luz e pode. Eu estou cansado, triste, sentindo que minhas forças estão se acabando. Você promete que vai ajudar Adélia?

— Prometo que vou ver o que podemos fazer. Agora, chega. Deixe Miriam em paz!

O corpo de Miriam estremeceu e ela teria caído se Gisele não a tivesse segurado. Fê-la sentar-se enquanto Franco foi buscar um copo de água.

Assustado, Davi deixou-se cair no sofá. Estava pálido e trêmulo. Rosto contraído, Olga o olhava como querendo descobrir o que havia por trás daquela situação.

Gisele segurou o copo e aproximou-o dos lábios de Miriam:

— Beba, tudo passou. Você vai ficar bem.

Miriam abriu os olhos assustada, fixando-os em Davi, depois bebeu alguns goles de água e fez menção de se levantar, mas Gisele não deixou.

— Descanse, acalme-se. Respire, não tenha medo. Está tudo bem.

Davi se levantou, rosto contraído, e disse sério:

— Vamos embora, Olga. Não tenho tempo de ficar ouvindo tantas baboseiras. Bem que eu não queria vir. Miriam levantou-se indignada:

— Não tente nos enganar! Eu bem vi o que você está fazendo a essa mulher! Ela está chorando e até pensando em acabar com a vida. Como pode ser tão mau?

Assustado, Davi encaminhou-se para a porta, mas Olga interrompeu-lhe os passos dizendo irritada:

— Você vai ter que me explicar quem é essa Adélia e o que está fazendo com ela.

Gisele abraçou Miriam, dizendo baixinho em seu ouvido:

— Cale-se. Não torne a situação pior! Acalme-se. Franco colocou a mão no braço de Olga e pediu:

— Acalme-se, tia. Deixe-o ir. Nós temos que conversar. Depois você fala com ele.

Davi saiu batendo a porta e Franco fez Olga sentar-se no sofá, acomodando-se ao lado dela.

— Venha, Miriam, vou cuidar de você—disse Gisele.

Gisele a levou para o quarto e, segurando a mão dela, pediu:

— Feche os olhos e relaxe. Imagine que uma luz muito branca e brilhante está descendo sobre nossas cabeças, nos trazendo paz, bem-estar. Vamos ficar em silêncio durante alguns segundos, respirando com calma e regularidade.

Depois de alguns instantes, Miriam abriu os olhos e perguntou:

— O que aconteceu comigo? Por que eu senti tanto ódio de Davi e disse todas aquelas coisas, mesmo contra minha vontade? Eu não queria nada daquilo.

— Quem disse aquelas palavras foi um espírito que estava muito perturbado, nervoso e com raiva de Davi. Isso quer dizer que sua sensibilidade se abriu. Você é médium. Pode ouvir, sentir, conversar com espíritos de pessoas que viveram aqui. Seus corpos morreram, mas seus espíritos continuam vivendo em outras dimensões do universo.

— Estou com medo! Não quero me envolver com a vida dos outros!

— Não precisa ter medo. Você agora precisa estudar o assunto, aprender a lidar com essas energias, para proteger-se dessas interferências. Seu espírito tem o poder de gerenciar as energias, assumir o controle dos pensamentos que surgem em sua mente, não dando importância aos que são ruins, para que desapareçam, dando força aos que são positivos para que a fortaleçam.

— Você acha que terei capacidade de fazer isso?

— Estou certa de que sim. A mediunidade bem conduzida nos liga aos espíritos iluminados que nos ensinam coisas maravilhosas que nos fortalecem e nos ajudam a evoluir. Vamos deixar Franco conversando com tia Olga e vamos cuidar de dormir.

— Estou excitada demais para dormir.

— Vamos deitar, fazer uma boa meditação e o sono virá, estou certa disso.

Enquanto isso, Franco, sentado no sofá, ao lado de Olga, procurava palavras para falar sobre o assunto. O momento era delicado e Olga, surpreendida com os acontecimentos, chocada, lhe pedia explicações.

 

Antes que Franco falasse algo, Olga disse logo: — Você pode me dizer com clareza o que aconteceu?

— O que você acha que foi?

— Não sei... Será que Miriam teve alguma alucinação e fez aquela cena? Ela sempre foi problemática...

— Miriam tem aprendido muito. Não é mais aquela moça imatura. Tem estado mais calma, mostrado interesse em aprender coisas novas, em melhorar.

— Como então você explica a cena que ela fez?

— A mediunidade dela se abriu e ela registrou a presença de um espírito. A comunicação dele foi real.

— Então as acusações que ela fez podem ser verdadeiras?

— Aí, tia, eu não saberia dizer. Há várias possibilidades que é preciso considerar.

— Por exemplo?

— Ele pode ter dito tudo isso para criar uma situação embaraçosa entre vocês, a fim de prejudicar sua relação com tio Davi.

— Por que faria uma coisa dessas?

— Esse espírito, em outras vidas, pode ter tido um relacionamento mal resolvido com Davi, ter conservado ressentimentos e tentado se vingar criando essa situação.

— Nesse caso a acusação dele seria falsa.

— Sim. O melhor é não se impressionar com o que ele disse, procurar esquecer.

— Acontece que Davi tenta se fazer de forte, mas tem se sentido muito mal. Como é que Deus permite uma coisa dessas? Não estará sendo injusto?

— Nem sempre nós entendemos os desígnios de Deus. Tudo que Ele faz é bom, mesmo quando não possamos entender.

Olga ficou calada durante alguns minutos, depois disse:

— Estou preocupada. Não sei como ajudá-lo. Às vezes, durante a noite, ele se remexe, resmunga, geme e respira com dificuldade. Então o acordo, e ele diz que teve um pesadelo. Você acha que é caso de procurar um psiquiatra?

— Não sei se seria o caso. Talvez fosse melhor procurar ajuda espiritual.

— Ele não aceita. É descrente.

— Se ele não quiser ir, vá você, para se proteger e poder auxiliá-lo de alguma forma.

— Nunca fui a um centro espírita, tenho um pouco de medo.

— Experimente. É um lugar de oração, onde as pessoas entendem do assunto e podem ensinar como lidar com as interferências dos espíritos, como no caso de tio Davi. Pode ir sem medo. Estou certo de que se sentirá aliviada.

- O que mais posso fazer?

— Não questione as palavras desse espirito; procure não dar importância a elas, para que essa energia ruim não se instale em sua mente. Quando tio Davi não estiver bem, não fique com medo; faça uma oração e entregue a situação nas mãos de Deus, porque só Ele em o poder de ajudar do jeito certo. Depois, procure levar vida normal. A fé move montanhas. Acredite.

— Será que terei essa capacidade?

— Terá, sim. Mas não deixe de pedir ajuda espiritual. Os centros espíritas prestam ajuda a milhares de Ressoas todos os dias, reequilibrando energias, prestando esclarecimentos sobre a influência dos espíritos suas intervenções em nossas vidas.

Olga se levantou, dizendo:

— Obrigada, Franco, por seus conselhos. Pena que Davi seja tão descrente. Mas vou fazer tudo como você disse.

— Faça isso, tia. Se precisar de alguma coisa, estou à sua disposição.

Olga abraçou-o com carinho, beijando-o na face, disse:

— Mais uma vez, obrigada. Desculpe o trabalho que estamos lhe dando.

Olga saiu e Franco respirou procurando relaxar. Foi para o quarto. Ele sentia que as palavras do espírito foram verdadeiras, mas ele não poderia ter dito isso à tia. Simplesmente explicara com uma situação que às vezes acontece, a fim de auxiliá-la a ficar em paz.

Preparou-se para dormir, estendeu-se na cama, mas o sono não vinha. Ele sabia que, se o que pressentia fosse verdade, as coisas acabariam sendo reveladas de fato. O momento era de tensão, como se uma bomba estivesse para estourar a qualquer momento.

Mas ele queria dormir, pois tinha muito trabalho no dia seguinte. Esforçou-se para eliminar os pensamentos negativos, lembrando-se de coisas alegres, do tempo em que seus pais estavam vivos, dos projetos que faziam para o futuro.

Naquele tempo, não entendia por que as pessoas se infelicitavam, criando tantos problemas umas para as outras, e não se conformava com isso. Sua mãe lhe dizia que elas agiam assim porque ainda não sabiam fazer melhor. Que ele não deveria julgá-las, mas confiar, porque aos poucos Deus lhes ensinaria o que precisavam aprender. Querendo entender mais sobre o comportamento humano, foi que ele decidira estudar o assunto. Lembrou-se de como o felicitaram pela escolha e celebraram o fato, e também de algumas vitórias que conquistara na carreira.

Embalado por esses momentos bons, finalmente conseguiu adormecer.

Na manhã seguinte, quando Franco se levantou, Miriam o esperava na cozinha para o café. Carlos e Gisele já haviam saído para o trabalho. Assim que o viu, Miriam disse séria:

— Franco, você precisa me ajudar. O que aconteceu ontem à noite não pode se repetir. Eu não quero.

— Nós já conversamos sobre isso. Você precisa estudar e aprender a lidar com as energias que a envolvem.

— Mas eu não sou capaz de controlar. Minha boca fala sem que eu queira.

— Você pode aprender a usar seu poder para controlar essas interferências. O corpo é seu e você tem o direito de não permitir.

— Não quero que Olga fique com raiva de mim por falar mal de Davi. Não tenho esse direito. Me sinto culpada. Franco fixou-a sério e disse com voz firme:

— As palavras saíram de sua boca, mas não foram suas. O que você sentiu quando as estava falando?

— Senti muita raiva, vontade de pular no pescoço de Davi e apertá-lo até ele não respirar mais. Fiquei com medo. Nunca pensei que eu pudesse fazer isso.

— Miriam, entenda que você foi subjugada por um espírito; esses sentimentos eram dele.

— Fiquei com tanto medo que não conseguia dormir. Gisele precisou me acalmar, rezar até eu dormir.

O telefone tocou e Franco atendeu. Depois dos cumprimentos, Flora pediu para falar com a filha, que atendeu a contragosto.

— Filha, finalmente consigo falar com você. Ontem eu liguei porque ia até aí para vê-la, mas ninguém atendeu. Seu pai está preocupado. Você não tem vindo em casa, nós não sabemos como está.

— Estou muito bem, mãe. Não se preocupem comigo.

— Você precisa tomar jeito, resolver sua vida. Sua casa está abandonada nas mãos da empregada. Ivo foi embora da cidade, não pensa em voltar. Você não pode ficar morando no apartamento dos outros. Seu pai acha que é melhor você desfazer-se da casa e vir morar aqui, conosco.

Miriam não respondeu e Flora continuou incisiva:

— É o mais certo. Você precisa tomar um rumo na vida. Não pode ficar de um lado para o outro.

Notando que Miriam empalidecera, Franco aproximou-se e passou o braço sobre os ombros dela com carinho, apoiando-a. Ela criou coragem:

 

— Mãe, eu não quero falar sobre isso agora. Por favor, deixem-me em paz. Estou cansada de viver a vida dos outros. Eu quero viver a minha vida, decidir o que farei daqui para a frente! Só vou tomar uma atitude quando sentir que está na hora.

Flora franziu a testa preocupada e Jorge, que estava ao lado dela, quis saber o que Miriam havia dito.

— Ela não quer falar sobre isso agora.

Jorge pegou o fone:

— Miriam, sua mãe ficou nervosa, você está bem? Miriam respirou fundo e respondeu:

— Sim, pai. Estou muito bem.

— Eu acho que já chega de você ficar na casa dos outros. Você tem a sua casa e a nossa para ficar. Não deve mais incomodar os outros.

A voz de Miriam estava firme quando disse:

— Eu não estou incomodando ninguém. As pessoas me receberam de braços abertos, estão me ensinando a viver e eu quero ficar com elas o mais que puder. Quando chegar a hora certa, decidirei o que fazer da minha vida. No momento, quero ficar aqui com meus amigos. Entenda isso, pai, e fiquem em paz. Agora vou desligar.

— Estamos com saudades, pelo menos venha nos visitar.

— Quando sentir vontade, irei. Diga a mamãe que está tudo bem. Fiquem com Deus.

Sem esperar resposta, Miriam desligou. Franco sorriu para ela, dizendo satisfeito:

— Você está assumindo a sua vida. Estou orgulhoso, você mudou, descobriu o seu direito de agir conforme se sente melhor.

— Precisei de muita coragem para dizer isso.

— Não há nada mais gratificante do que dirigir a própria vida. Nós temos essa capacidade. Estamos vivendo neste mundo para aprender a nos cuidar. É assim que aprenderemos a escolher melhor nossos caminhos.

Do outro lado, Jorge desligou o telefone e deixou-se cair na cadeira pensativo.

— O que deu nela? — indagou Flora, aflita. —Parece outra pessoa.

— Ela é inexperiente e acha que pode decidir a própria vida. Não podemos deixar. Ela vai quebrar a cara! Acho melhor irmos até lá para conversar.

— Não. É melhor esperar alguns dias, fazer de conta que aceitamos, depois, com jeito, conversaremos fazendo com que aceite nossa decisão.

— É... Seria bom que Franco não estivesse por perto. Porque se formou, acha que sabe tudo. Vai ver é ele quem anda metendo essas coisas na cabeça dela.

— Pode ser. Miriam é sugestionável, fraca, acredita em tudo que ele diz. Mais tarde vou conversar com Olga e me informar sobre eles.

— Faça isso. Estou ansioso para resolver isso e manter Miriam sob nossa proteção.

Passava das dez da manhã quando Franco e Miriam deixaram o apartamento e foram até a clínica. Encontraram uma cliente esperando do lado de fora.

Depois de cumprimentá-la, Franco perguntou:

— Você não quis entrar?

— Cheguei um pouco mais cedo, toquei, mas ninguém abriu.

Franco apressou-se a abrir a porta e acomodar a senhora na sala de espera.

Miriam sorriu para ela e perguntou:

— Aceita um café, uma água?

— Não, obrigada. Estou bem.

Franco interveio:

— Fique à vontade. Venha comigo, Miriam. Uma vez na sala de terapia, ele lhe disse:

— Eu gostaria que ela tivesse aceitado o café só para ver se você seria capaz de servir.

Os olhos dela brilharam alegres quando respondeu:

— Garanto que faria muito melhor do que a Elga. Ela não atende os clientes como deveria.

— Já observei isso. Ela não veio trabalhar e sequer avisou. Você acha que poderia substituí-la hoje? Sabe como proceder, fazer as anotações todas?

— Claro.

— Ótimo. Pode nos fazer esse favor?

— Com prazer. Muitas vezes fiquei observando os procedimentos e sei o que fazer.

— Nesse caso, assuma o lugar dela e, quando eu avisar, pode fazê-la entrar.

Foi com os olhos brilhantes de alegria que Miriam sentou-se no lugar da recepcionista e perguntou o nome da cliente. Abriu o fichário, apanhou a ficha dela e fez as anotações necessárias. Pouco depois, Franco chamou e Miriam levantou-se, ficando diante da cliente:

— A senhora pode entrar.

Adiantou-se e abriu a porta da sala de Franco para que ela entrasse. Depois, voltou à sua mesa e abriu as gavetas, organizando as coisas com atenção.

Para Miriam, era uma sensação nova, gratificante, que lhe dava muita satisfação. Pela primeira vez sentia-se útil, feliz por poder colaborar e retribuir o apoio e o carinho de seus novos amigos.

O dia passou rápido, e quando Gisele chegou no fim da tarde, encontrou-a em plena atividade.

— Você chegou mais cedo!

— Pelo contrário, tive um trabalho extra e saí mais tarde. Onde está Elga?

— Não veio hoje e nem avisou. Eu atendi todos os clientes, de Franco e de Ricardo.

Gisele olhou-a surpreendida. Havia um brilho diferente nos olhos dela, uma luz que ainda não vira. Abraçou-a e disse alegre:

— Que bom, Miriam. Você está descobrindo o prazer que o trabalho nos dá. Seus olhos estão brilhando!

— Estou feliz por saber que tenho capacidade para fazer coisas novas! Tentei fazer o que tenho aprendido e sinto que fiz tudo do melhor jeito — disse Miriam com lágrimas nos olhos.

O cliente estava saindo e Miriam apressou-se a atendê-lo, marcando o próximo horário. Como era dia de pagamento, recebeu o cheque, fez o recibo e assinou.

Depois que o cliente saiu, Franco aproximou-se e, depois de abraçar Gisele, perguntou a Miriam:

— E então, como foi?

— Acho que está tudo bem. Você pode conferir.

Nesse momento, Ricardo, que terminara um atendimento, aproximou-se e, depois de cumprimentar Gisele, perguntou:

— O cliente das sete ainda não chegou?

— Ele ligou avisando que surgiu um imprevisto e não poderá comparecer, mas que vai pagar a sessão mesmo assim.

Franco e Gisele se entreolharam satisfeitos.

— Nesse caso, tenho uma hora livre.

— Eu tenho mais um cliente, que já deve estar chegando — disse Franco.

— Eu estou com fome — tornou Ricardo —, e gostaria de aproveitar essa hora livre para convidar as duas para jantar.

— Eu não posso aceitar. Preciso esperar o cliente que vai chegar.

— É meu último cliente; você só anota o próximo horário e vocês duas podem ir jantar com ele.

— Isso mesmo. Eu espero.

O cliente de Franco entrou, Miriam o atendeu e o conduziu à sala de terapia. Sentia-se importante, rosto corado, olhos brilhantes e alegres.

Gisele notou que Ricardo parecia ter visto Miriam pela primeira vez. Desde que ela começara a ir com Franco para a clínica, sentava-se em um canto onde ficava lendo, folheando alguma revista e Ricardo nunca olhara muito para ela. Mas naquela noite, ao fixar os olhos nela, havia um brilho novo, algo que o fez notá-la de forma diferente.

Gisele sentiu-se feliz por ver o quanto Miriam havia crescido, descoberto outros interesses, que lhe davam mais alegria de viver.

Os três foram a um restaurante de que Ricardo gostava, próximo ao consultório. Era pequeno, mas bonito e acolhedor. As duas nunca tinham ido lá e adoraram o ambiente. Fizeram o pedido.

— É a primeira vez que jantamos juntos, e isso merece uma comemoração. Que tal um vinho?

— Eu prefiro um suco — disse Gisele.

— E você, me acompanha?

— Eu também prefiro um suco.

— Nesse caso eu as acompanho.

Vendo que Miriam sorria, ele perguntou:

— Aconteceu alguma coisa?

— Não... Eu me lembrei que uma vez, quando eu tinha treze anos, meus pais estavam tomando vinho e eu, às escondidas, quis experimentar: tomei um copo, fiquei tonta, meu pai ficou bravo, o que me valeu vários sermões. Me senti tão envergonhada que nunca mais tive coragem de repetir.

— O vinho precisa ser tomado com prazer, mas sem exagero. Um copo durante o jantar não causará mal-estar. Um dia você ainda vai experimentar, aprender como se deve tomar um vinho e saboreá-lo.

A comida foi servida e a conversa fluiu alegre. Gisele observava a amiga em silêncio, satisfeita por vê-la tão bem, conversando com naturalidade, opinando sobre os assuntos, de forma inteligente, como nunca havia feito.

O tempo foi passando, a conversa seguia agradável, até que Gisele olhou o relógio:

— É tarde. Carlos já deve estar em casa! É hora de irmos embora.

— A conversa estava boa e esquecemos da hora. Vou deixá-las em casa.

Ao chegar perto do carro, Gisele entrou atrás e Miriam, hesitando um pouco, sentou-se ao lado de Ricardo. Na porta do prédio, Gisele convidou-o para entrar, mas ele recusou.

Abraçou Gisele, beijando-a levemente na face, e fez o mesmo com Miriam. Elas entraram e logo Miriam disse nervosa:

— Eu queria ir atrás e você não deixou. Fiquei com vergonha, me senti culpada. Sou uma mulher casada. Gisele riu bem-humorada e considerou:

— Não teve nada de mais. Acho até que você gostou. Estava tão feliz durante o jantar...

Miriam ficou pensativa durante alguns segundos, depois disse:

— Estou feliz mesmo. Hoje foi meu primeiro dia de trabalho; estou certa de que fiz tudo com capricho.   Pena que amanhã Elga estará de volta e tudo voltará a ser como antes.

Gisele não respondeu. Mais tarde, sentadas frente a frente, fixou-a séria e perguntou:

— Ivo foi embora e não fala em retomar o casamento. Você já pensou o que fazer de sua vida? Miriam ficou séria, franziu o cenho e respondeu:

— Ainda não sei.

— Tem esperanças de que Ivo volte para casa? Miriam baixou a cabeça, suspirou, pensou um pouco e disse:

— Tenho receio de pensar nisso e voltar a viver aquele desespero que eu sentia. Quando penso em voltar para minha casa, sinto medo. Minha vida de casada foi tão sofrida que ainda não sei se gostaria de retomá-la.

— Você sente que ainda ama seu marido?

— Quando me lembro dos tempos de namoro, sinto saudades. Mas o casamento acabou com meus nervos.

— Você era muito jovem e inexperiente. Mas agora está mais amadurecida.

— Tenho estado melhor. Vocês me ajudaram muito, tenho me sentido mais calma, aprendido coisas novas. Hoje, por exemplo, senti-me feliz como nunca. Sei que a hora de decidir o que fazer da minha vida está chegando, mas sinto que ainda não tenho forças para encarar essa situação. Peço a você que me deixe ficar aqui mais um pouco.

— Se falei neste assunto, não foi para apressá-la a tomar decisões. Foi por estar feliz com suas mudanças, seu progresso que dia a dia está acontecendo. Nós amamos você, nos habituamos à sua companhia e não queremos que vá embora. Poderá ficar para sempre conosco que nos dará prazer. É que...

— É que? Continue.

— Você está desabrochando. Sua luz interior está surgindo com toda força. Você mudou. Esta noite, Ricardo viu seu brilho pela primeira vez e mostrou-se interessado. Sei que você sentiu a admiração dele, o que fez com que se sentisse culpada, como se estivesse traindo seu marido.

— Foi isso mesmo...

— Então eu quis saber até que ponto você ainda ama Ivo, ou se está disponível para procurar um relacionamento mais adulto e satisfatório.

— Puxa, Gisele, você me assusta. Eu ainda não sei.

— Está bem. Não se apresse. Você tem todo tempo do mundo para sentir o que quer de fato. Agora, vamos dormir. Amanhã eu acordo cedo.

Gisele apagou a luz, deitou-se e adormeceu logo. Mas Miriam estava emocionada demais para dormir.  

Ficou recordando as experiências daquele dia, desejando que Elga não voltasse, para que ela continuasse trabalhando.

 

Na manhã seguinte, Gisele e Miriam estavam tomando café quando Franco sentou-se ao lado das duas e foi logo dizendo alegre:

— Ontem à noite vocês demoraram... O jantar deve ter sido muito bom!

— Foi ótimo. Adorei aquele restaurante. Lugar agradável, comida boa — respondeu Gisele.

— Eu também gosto de ir lá.

Miriam não disse nada e Franco, fixando-a, perguntou:

— E você, o que achou?

— Gostei muito.

— Conversa agradável. O tempo passou rápido e, se eu não precisasse levantar cedo, teríamos ficado até mais tarde — completou Gisele.

— Ricardo sabe agradar quando quer. Tem excelente humor e um jeito especial para falar sobre qualquer assunto.

Miriam, rosto ligeiramente corado, tentava manter a naturalidade.

— É inteligente e observador, tem boa aparência. Quantos anos ele tem? — perguntou Gisele.

Franco pensou um pouco, depois disse:

— Talvez uns trinta e dois. Foi casado e atualmente está sozinho. Faz apenas um mês que terminou um namoro de dois anos. Você está interessada nele?

— Não. Perguntei por curiosidade. Ele é atraente, acho que não ficará sozinho por muito tempo; isso se ele não voltar com a ex.

Franco meneou a cabeça:

— Isso ele não vai fazer. Ela era muito controladora, ciumenta. Ele não aguentou e desistiu.

Miriam fixou-os séria e disse com voz ligeiramente trêmula:

— O ciúme é um veneno que espero nunca mais sentir em minha vida. Estou disposta a viver sozinha se for preciso, mas quero estar em paz. Uma experiência foi o bastante.

Franco colocou a mão sobre a dela, que estava sobre a mesa, fixou-a sério e respondeu:

— Desculpe ter tocado nesse assunto. Não tive intenção de magoá-la.

Miriam levantou o rosto e disse com firmeza:

— Não magoou. Eu quero mesmo me lembrar dos meus erros para nunca mais cometê-los de novo, ainda que para isso fique a vida inteira sozinha.

Gisele levantou-se apressada:

— Está na minha hora, não quero chegar atrasada. No fim da tarde irei à clínica para buscá-la.

Ela se foi e Miriam levantou-se na intenção de lavar a louça, mas Franco pediu:

— Deixe isso para depois. Sente-se, vamos conversar mais um pouco.

Ela obedeceu em silêncio e ele continuou:

— Eu gostei muito da forma como você atendeu nossos clientes. É inteligente, organizada, respeitosa e tem um jeito especial para conversar com as pessoas.

— Eu adorei fazer alguma coisa útil. Você acha que Elga irá trabalhar hoje? Estou rezando para que ela não apareça.

Franco riu gostosamente e tornou:

— Eu também. Você é muito melhor que ela. Quero contratá-la para ficar no lugar dela, pelo menos enquanto não decidir o que vai fazer da sua vida.

— Será que Ricardo vai concordar?

— Claro. Ele parecia muito satisfeito com sua presença, tanto que as convidou para jantar. Ele nunca convidou Gisele, mesmo a conhecendo há tempos. O que acha?

Miriam levantou e deu um sonoro beijo na testa de Franco. Em seguida respondeu:

— Maravilhoso! Vou fazer tudo direito e com muito carinho. Estou feliz! Conquistei meu primeiro emprego. Não é motivo para comemorar?

Franco sorriu satisfeito, contagiado pela alegria dela, cujos olhos brilhantes o emocionaram. O que ele mais gostava em sua profissão era ver as pessoas se transformar, sair da depressão, descobrir as próprias qualidades, aprender o lado bom das coisas, sentir o próprio poder, ter a coragem de ousar e assumir o comando da própria vida.

Miriam estava amadurecendo, e ele, por sua vez, começando a conhecer um pouco mais a essência desse espírito que durante tanto tempo havia sido impedido de se expressar. Bastará alguns pequenos toques, atenção e carinho para ela começar a desabrochar. Mais um pouco e ela estaria pronta para cuidar de si e encontrar o melhor caminho. Franco sentiu o prazer da realização.

Carlos apareceu na sala e perguntou:

- Tem café para mim?

- claro. Ainda está quente – respondeu Miriam sorrindo.

- Vocês estão radiantes. Aconteceu alguma coisa que eu não saiba?

- É que ontem foi meu primeiro dia de trabalho. Fui contratada para ficar no lugar da Elga. Estou muito feliz!

Carlos fixou-a alegre:

- Que progresso! Você está linda! Deixou de ser aquela criança chorosa e triste. Qualquer hora vou leva-la para dançar na boate do hotel. O ambiente é ótimo, você vai gostar.

- Eu gostava muito de dançar quando era adolescente, mas nunca fui a um baile. Meu pai não deixava.

- Deixe comigo. Quando algum artista famoso for se apresentar, levarei você e Gisele.

Miriam ficou alguns segundos pensativa, depois olhou para Franco, dizendo:

- Hoje, quando Gisele for me buscar, quero ir a um shopping comprar algumas coisas. Que tipo de roupa seria a mais adequada para eu ir trabalhar?

- A que você se sentir bem de usar. Estou certo de que vai saber escolher.

Carlos interveio:

- Se tiver alguma dúvida, Gisele é ótima nisso.

— É verdade, ela é muito elegante. Além disso, é bonita e tudo nela fica bem. Quando ela passa, chama atenção. Ela nota, mas nem liga.

— Você está animada! Que bom. Gostaria de ficar conversando com vocês, mas preciso ir.

Carlos saiu e Miriam começou a tirar a mesa. Franco disse com naturalidade:

— Hoje é meu dia de lavar a louça do café. Você enxuga.

— Eu gosto de lavar louça!

— Mas eu também e não abro mão disso. Amanhã é sua vez.

Depois de deixar a cozinha em ordem, Franco sentou-se na sala para ler e Miriam foi para o quarto escolher a roupa que iria vestir.

Quando ela decidiu ficar alguns dias no apartamento de Franco, ligara para Claudete pedindo-lhe que mandasse uma maleta com algumas roupas. Nada especial. Sua aparência era-lhe indiferente. Mas agora ela havia mudado.

A convivência com Gisele, a nova disposição e principalmente o emprego fizeram-na sentir-se mais importante. Além disso, também gostaria de ser admirada, como Gisele. Embora ela agisse com naturalidade, quando passava, as pessoas voltavam-se para vê-la. Nas lojas ou nos lugares aonde iam, as pessoas se aproximavam, sorriam, chegavam a conversar com ela. Miriam ficava encantada.

Na hora de escolher o que vestir, não gostou de nada. Amuada, foi ter com Franco e desabafou:

— Estou preocupada.

— Aconteceu alguma coisa?

— Percebi que minhas roupas são horríveis, fora de moda, sem graça. Em casa devo ter algo melhor. Claudete não escolheu bem.

— Isso não é verdade. Ontem você estava muito bem-vestida.

— Eu não acho.

— Nós temos tempo. Por que não vai até sua casa escolher outras?

Miriam fixou-o assustada, não respondeu logo. Depois resolveu:

— Se você não se importa, por hoje darei um jeito com o que tenho. À noite irei comprar algo melhor e Gisele poderá me ajudar.

— Você está exagerando. Suas roupas não estão ruins. Mas fico satisfeito de perceber que você agora deseja algo que a satisfaça de fato. Está com mais vontade de se cuidar, ficar mais bonita. É sinal de que está progredindo.

— Será que algum dia poderei ser como Gisele?

— Cada pessoa tem um encanto próprio, que só se manifesta quando ela é verdadeira em suas atitudes. Não age apenas para agradar os outros. Age com naturalidade, mas faz o que gosta e que lhe dá bem-estar. Assim sua alma se expressa, a luz do seu espírito se acende e atrai a admiração de todos. É a manifestação do carisma. Todos possuem essa qualidade, mas é preciso aprender a desenvolvê-la.

— Eu gostaria muito de aprender a fazer isso.

— Você já começou a ir por esse caminho. Tem amadurecido e com o tempo chegará lá. Mas o fará do seu jeito, e será o brilho de sua alma que estará envolvendo as pessoas com as quais estiver. Cuidar melhor da sua aparência é bom, mas prestar atenção no que sente, conhecer-se melhor, saber o que precisa para ser feliz e ter a ousadia de colocar esse objetivo em primeiro lugar é conquistar seu espaço. E, então, embora não lhe importe mais o que os outros pensam, terá conquistado o respeito e a atenção onde estiver. As pessoas terão prazer de ficar a seu lado.

— Ouvindo suas palavras, sinto uma vontade forte de conquistar tudo isso.

— O poder está em suas mãos. Essa conquista só você poderá fazer; se realmente quiser, estou certo de que o universo trabalhará a seu favor.

Miriam suspirou e sem dizer mais nada foi para o quarto se arrumar. A campainha tocou e Franco foi abrir: os pais de Miriam estavam na porta. Jorge foi logo dizendo:

— Bom dia. Queremos falar com Miriam.

— Bom dia. Entrem, sentem-se, vou avisá-la de que estão aqui.

— Viemos sem avisar porque está quase na hora de você ir trabalhar — justificou-se Flora.

Miriam ouvira a voz deles e aproximara-se. Os dois a fixaram apreensivos. Jorge adiantou-se, abraçou-a, dizendo emocionado:

— Viemos buscá-la. Você não pode continuar longe de nós e Franco precisa ir trabalhar. Vá pegar suas coisas e vamos para casa.

Em silêncio, Miriam abraçou a mãe, beijou-a na face, depois, fixando-os, disse com voz firme:

— Eu não vou com vocês. Quero continuar aqui. Jorge fez um gesto de contrariedade:

— Isso não está certo. Você tem família, nós vamos ampará-la como sempre fizemos.

— Eu não quero ir. Estou muito bem aqui.

— Ficará melhor em nossa casa. Entendo que não queira voltar para sua casa sem seu marido. Vamos alugá-la e resolver tudo, sem que você precise se preocupar.

Miriam fixou-os séria e respondeu:

— Eu resolvo o que fazer de minha vida. Aqui tenho aprendido muito. Ontem comecei a trabalhar e quero continuar.

— Trabalhar? Em quê? Você não precisa trabalhar. Temos o suficiente para que possa viver muito bem.

— O que você tem é seu. Ganhou trabalhando. Eu quero fazer o mesmo. Está quase na hora de irmos trabalhar, não temos muito tempo para conversar.

— Você vai trabalhar em quê? — indagou Flora admirada.

— Como recepcionista do consultório de Franco e Ricardo.

— Você não tem experiência! Depois, não precisa se sujeitar a essa função subalterna.

— Não insista, pai. Eu não vou desistir. Ontem foi meu primeiro dia e adorei! Pela primeira vez estou fazendo alguma coisa útil. Não vou parar.

Jorge voltou-se para Franco:

— Está vendo o que fez? Com que intenção a colocou para trabalhar? Não está se aproveitando da ingenuidade dela?

Miriam não deu tempo a que Franco respondesse, aproximou-se do pai e disse irritada:

— Pare com isso! Franco tem me ajudado muito! Gisele e Carlos me receberam com amor e me mostraram que eu ainda posso ser feliz. Se não fosse por eles, talvez a esta hora eu estivesse ainda mais infeliz e já tivesse feito muitas asneiras. Vocês nunca me ensinaram a viver, sempre me trataram como uma pessoa incapaz, mas eu sei que tenho qualidades, que posso assumir minha vida e cuidar do meu futuro.

Flora olhou para o marido assustada e abraçou Miriam, dizendo:

— Você está sendo ingrata. Nós a amamos muito, fizemos tudo para protegê-la.

— Não, mãe. Vocês me impediram de aprender como as coisas são. Nunca me mostraram o quanto eu estava errada em querer que meu marido me tratasse como vocês me tratavam. Ele queria uma mulher, uma esposa, e isso eu nunca soube ser para ele.

Jorge empalideceu e deixou-se cair na poltrona, passando a mão pelo rosto. Lembrou-se do acidente que sofrera, da conversa que tivera com um homem que lhe aparecera enquanto ele estava sendo operado, e a culpa reapareceu forte. Nervoso, ele segurou a cabeça entre as mãos sem encontrar palavras para responder.

Flora não se conteve:

— Está vendo o que está fazendo com seu pai? Deveria ter vergonha!

Jorge tirou as mãos do rosto e disse com voz triste:

— Ela tem razão, Flora! Eu fiz tudo errado. Quis impedir que ela sofresse, como se neste mundo fosse possível viver sem errar e aprender a verdade da vida.

Olhos marejados, ele olhou para Miriam, que na sua frente o observava surpreendida, e continuou:

— Eu estava errado. Naquela noite do acidente, enquanto estava sendo operado, aconteceu um milagre. Eu me vi no teto da sala, enquanto meu corpo anestesiado dormia, e eu ouvi o que os médicos diziam durante a cirurgia. Depois um homem se aproximou e explicou que eu estava atrapalhando seu progresso Miriam, impedindo-a de aprender a viver. Senti-me culpado e agora essa culpa está me atormentando. Filha, por favor, me perdoe.

— Eu não queria magoá-lo, papai. Você pensou estar fazendo o melhor, estou certa disso. Mas agora eu sinto que estou melhorando e peço-lhe que entenda. Eu quero ficar mais algum tempo aqui, trabalhar, aprender a tomar conta de mim. Mas o amor que nos une continuará para sempre. Vamos deixar o tempo passar. Quando chegar a hora de eu decidir o meu futuro, conversaremos.

— Volte para casa conosco e eu prometo que vou mudar e agir de forma melhor.

— Não insista, pai. Eu quero continuar aqui. Repito, quando eu sentir que é hora de mudar, voltaremos a conversar.

Jorge levantou, aproximou-se de Franco, que observara tudo em silêncio, e estendeu-lhe a mão, dizendo:

— Franco, eu estava enganado. Espero que possa me perdoar. Miriam prefere ficar com vocês, e vou respeitar sua vontade. Estou à sua disposição para o que precisar. Ficarei feliz em colaborar.

Franco apertou a mão dele em silêncio e a de Flora.

— Eu acompanho vocês até a porta — disse Miriam satisfeita por vê-los sair.

Depois que eles se foram, Miriam observou:

— Você acha que fui muito dura com eles?

— Não. Você falou o que estava sentindo e eles entenderam.

— Estou aliviada. Sinto que me livrei de um peso enorme.

— Você assumiu o controle de sua vida. Deu um grande passo. Libertou-se de fato.

— Vou acabar de me arrumar, não quero me atrasar. Ela foi para o quarto enquanto Franco, satisfeito, também foi se arrumar para irem trabalhar.

Durante o trajeto de volta para casa, Jorge dirigia o carro em silêncio. Flora sentia que ele estava triste e não sabia o que dizer para confortá-lo. A cena de momentos antes calara fundo em seu espírito. Ela percebera que o marido tinha atitudes que estavam cerceando a liberdade da filha, impedindo-a de se expressar, mas nada fizera para demovê-lo.

Lembrou-se das cenas desagradáveis do casal que tivera de socorrer, dos exageros e das exigências que Miriam fazia, querendo que o marido a tratasse como seus pais e sempre obedecesse à sua vontade, sem hesitar.

Quando o carro parou na garagem, Flora colocou a mão sobre a do marido, apertando-a com carinho. Ele fixou-a com olhos úmidos e ela disse emocionada:

— Foi bom termos percebido o quanto erramos com nossa filha, porque ainda temos tempo para mudar, apoiá-la de uma forma mais inteligente.

— Tem razão, Flora. Eu não queria que ela sofresse, mas a vida não poupa ninguém. Ainda não sei se conseguirei agir de outra forma.

— Eu também quero mudar, aprender, agir melhor. Estou pensando em pedir a Franco que me ensine. Estou certa de que ele sabe como nos ajudar.

Jorge pensou um pouco, depois considerou:

— Vou pedir a ele que me indique alguns livros sobre o assunto. O que eu mais quero é ver Miriam feliz.

— Você notou como ela está diferente? Viu como nos enfrentou? Os olhos dela brilhavam e havia alegria em seu sorriso quando falou sobre o emprego. Ela já melhorou. Nem tocou no nome do Ivo, mas agora vamos entrar, está quase na hora do almoço. Estou com fome, você não?

— Acho que eu comeria alguma coisa.

Os dois desceram do carro. Flora encaminhou-se para a cozinha, enquanto Jorge apanhou o jornal que deixara sobre a mesa, sentou-se para começar a ler, mas não o fez. As palavras de Miriam o impressionaram muito. Apesar da culpa ainda o estar incomodando, a atitude firme de Miriam fez com que ele começasse a sentir que ela não era aquela menina frágil que ele julgara, que dentro dela havia uma força que ele ainda não vira, mas que a faria alcançar o que pretendia.

Nesse momento reconheceu que, mesmo tendo convivido com ela tantos anos, não a conhecia intimamente. Havia criado em sua imaginação uma ilusão, que em vez de ajudá-la a desenvolver suas qualidades e melhorar seus pontos fracos, a impedira de errar para aprender, de se fortalecer para enfrentar com coragem os desafios de cada dia.

Apesar do amor que sentia por ela, foram pessoas estranhas que conseguiram auxiliá-la. Sentiu o gosto amargo do fracasso e pensou se teria ainda tempo de aprender.

Naquela noite, enquanto Flora dormia tranquila, ele lembrou-se do acidente, pensou:

"O que aconteceu comigo foi um milagre. Apesar de eu não merecer, Deus me mostrou o quanto eu estava enganado. Como é que eu poderia estar ali, lúcido, no meu corpo sem sentir nada, enquanto ao mesmo tempo estava anestesiado, sendo cortado pelo cirurgião?"

Emocionado, Jorge começou a rezar e pediu que Deus o auxiliasse a ser uma pessoa melhor, lhe mostrasse o que ele precisava aprender.

Nesse instante sentiu que uma brisa suave e perfumada o envolvia, como se alguém o abraçasse com amor. Então ouviu nitidamente uma voz dizer:

— Seu corpo de carne pertence ao mundo material e um dia você o abandonará na Terra. Mas continuará vivo, evoluindo em outras dimensões do universo para conquistar a sabedoria, pois seu espírito é eterno.

Naquele momento Jorge sentiu que toda inquietação havia desaparecido. Satisfeito, acomodou-se melhor e em seguida adormeceu.

 

Fazia dois meses que Miriam estava trabalhando na clínica de Franco e a cada dia procurava melhorar sua maneira de ser. Cuidava melhor da aparência, suas roupas estavam mais elegantes e ela sentia mais confiança em si. Apesar disso, ainda não havia encontrado coragem para decidir sobre seu futuro. Sempre que pensava em sua casa, sentia um aperto no peito e ia protelando.

Ela evitava visitar os pais, porque sempre que se viam eles insistiam para que ela lhes dissesse o que fazer e eles tomariam a frente sem que ela precisasse participar. Mas era exatamente essa postura que a incomodava.

Gostava de morar no apartamento com os três irmãos porque eles sequer tocavam no assunto. Sentia-se à vontade e ia ficando.

Desde que Miriam começara a trabalhar, Gisele não ia mais buscá-la porque havia vários clientes à noite e ela fazia questão de ficar até o fim. Passou a ir embora com Franco.

Aos poucos fora se familiarizando com certos clientes, mostrando-se atenciosa e solidária quando os via tristes ou nervosos, esforçando-se para deixá-los mais calmos e à vontade.

Uma noite, no carro, quando voltavam para casa, ela comentou:

— Hoje a Sueli chegou pálida, olhos vermelhos, percebi que havia chorado. Ofereci-lhe água, ela pegou o copo com mãos trêmulas. Senti uma onda de tristeza e me lembrei o quanto havia sofrido quando estava casada. Tive vontade de perguntar o que havia acontecido, mas consegui me controlar. Senti que não devia me intrometer.

— Fez bem.

— Mas eu me vi através dela. Senti que ela deve estar passando o que eu passei. Deve ser um caso parecido com o meu.

— Sua sensibilidade está desabrochando. Eu sabia que um dia isso iria acontecer.

— Como assim?

— Desde que você disse aquelas coisas para Davi.

— Não me lembro do que eu disse. Acho que foi uma alucinação.

— Não foi. Você foi envolvida por um espírito que estava com raiva dele. Chegou o momento de estudar o assunto e refletir sobre essa realidade.

— Você disse espírito, quer dizer... alguém que já morreu? Tenho medo! Não quero que isso aconteça de novo.

— A abertura da sensibilidade é natural. Todos os seres humanos a possuem e em determinada circunstância ela se manifesta. Isso acontece quando a vida deseja que a pessoa descubra que a morte do corpo não é o fim. Nós continuamos vivendo em outras dimensões do universo e aprendendo a cada dia. Essa é a finalidade da vida.

— Minha mãe sempre disse que mexer com espíritos é perigoso.

— Só é perigoso para quem desconhece o assunto ou pretende se utilizar dos espíritos perturbados para prejudicar os outros. Quem estuda e aprende a lidar com as energias que nos rodeiam, progride. Há muitos espíritos iluminados dispostos a nos inspirar a fazer coisas boas, nos ensinar a valorizar a vida e aprender com ela.

— Gisele diz coisas muito lindas. Às vezes ela parece um anjo.

— Ela tem mediunidade. Durante o sono, nossos pais têm vindo conversar com ela, nos orientar.

— Eu gostaria de ser como ela!

Franco sorriu e considerou:

— Cada um é um, mas você, se quiser, também poderá ter anjos à sua volta para inspirar e sugerir coisas boas. Mas terá de fazer a sua parte, estudar, aprender a ficar no bem, tornar-se uma pessoa mais positiva.

— Mas nem sempre consigo ser positiva.

— Quem alimenta um pensamento ruim atrai energias semelhantes e sente-se mal. Para se sentir bem é preciso evitar o negativo e ficar só no bem.

— Ainda não estou segura de que tenho essa sensibilidade.

Eles estavam entrando na garagem. Franco parou o carro, sorriu e perguntou:

— Como você acha que sentiu o problema da Sueli? Ela lhe disse alguma coisa?

— Não...

— Eis uma prova. Você captou as energias e descobriu a razão da tristeza dela.

Eles subiram ao apartamento em silêncio. Quando entraram, Carlos, que havia chegado, vendo-os perguntou:

— Gisele não veio com vocês?

Os dois o olharam admirados.

— Onde ela terá ido? — estranhou Franco.

— Deve ter encontrado alguém e ficado conversando. Eu fiz uma massa e deixei para vocês, junto com a louça para lavarem. Estou cansado e quero dormir.

Ele se afastou e os dois foram para a cozinha. O jantar ainda estava quente e a mesa, posta. O aroma aguçou a fome deles, rapidamente lavaram as mãos e sentaram-se para comer. Como sempre, o macarrão estava muito bom.

Miriam começou a lavar a louça, Franco tirou a mesa e pegou o pano de prato para enxugar. Gisele chegou, rosto corado. Vendo-os na cozinha admirou-se:

— Ainda acordados?

— Estávamos à sua espera, hoje você demorou! Miriam fitou-a e comentou:

— Seu rosto está iluminado. Deve ter tido um dia muito bom!

Gisele sorriu e disse alegre:

— Maravilhoso! Depois eu conto.

— Quer que eu esquente o jantar? — indagou Franco.

— Não, obrigada, eu já jantei. Você deve estar cansado. Pode ir descansar — disse Gisele, tirando o pano de prato das mãos dele.

— Você está é querendo me ver pelas costas. Vocês duas andam de segredinhos.

Miriam fixou-o e respondeu:

— Coisas de mulher. Nada de mais.

— Sei... Mas uma hora vou descobrir.

Depois que ele foi para o quarto, Gisele esperou que fechasse a porta e disse baixinho:

— Hoje, quando eu sai da empresa, Gino estava me esperando na porta do prédio. Ele aproximou-se e, depois dos cumprimentos, disse que queria conversar comigo. Convidou-me para jantar.

— Claro que você aceitou.

— Sim. Depois de irmos buscar o carro dele no estacionamento, fomos a um restaurante italiano nos Jardins. Eu estava nervosa, ansiosa para saber o que ele ia dizer.

— A cozinha está em ordem. Vamos conversar no quarto porque eu quero saber tudo, nos mínimos detalhes.

Uma vez no quarto, Gisele tirou os sapatos e estendeu-se na cama, enquanto Miriam fazia o mesmo.

— No carro, durante o trajeto, ele comentou:

— Desde o nosso primeiro encontro naquela livraria, tive a sensação de que a conhecia. Esforcei-me para recordar onde e quando isso havia acontecido. Não consegui, mas, apesar disso, seu rosto não me saía do pensamento. Senti vontade de voltar a vê-la, mas não sabia como encontrá-la. Voltei àquela livraria algumas vezes, esperando vê-la, mas foi em vão. Quando nos encontramos naquela lanchonete, senti-me ainda mais atraído por você. Ontem a vi saindo de um prédio, mas enquanto estacionei o carro, você entrou no ônibus e foi embora. Conversei com o porteiro e soube que você trabalha lá. Senti que não dava para esperar mais, eu queria me aproximar de você, conhecê-la melhor."

— Então eu lhe respondi:

— Fiquei feliz por você ter me procurado."

— Vocês se entenderam! Seus olhos brilham quando fala nele!

— Ele me atraiu desde o primeiro dia. Quando nos encontramos naquela lanchonete eu não queria que o tempo passasse, que ele fosse embora.

— Você está apaixonada! Desejo que nunca venha a se arrepender de viver esse momento!

Uma sombra de tristeza passou pelo rosto de Miriam. Gisele levantou-se e abraçou-a dizendo com voz suave:

— O amor aparece para nos deixar feliz e de bem com a vida. É um momento mágico, inesquecível. Gino me atrai muito. Se chegarmos a ficar juntos, tudo farei para manter acesa essa chama.

Miriam ficou pensativa, passou a mão na testa como quisesse afastar os pensamentos desagradáveis, e depois disse séria:

— Eu não estava preparada para alimentar essa chama e ainda hoje não saberia como fazê-lo. Estou certa de que você vai conseguir.

— Você mudou, amadureceu. Um dia alguém vai aparecer e você vai amar novamente, e dessa vez saberá como agir e será feliz.

— Eu nunca mais vou amar. Já decidi. Não quero voltar a sofrer nem fazer ninguém infeliz. Estou conformada em viver sozinha pelo resto da vida. O que eu quero é viver em paz.

Os olhos de Gisele brilhavam. Havia neles uma luz penetrante e profunda quando disse com voz suave:

— Nunca é muito tempo. As coisas mudam, as pessoas também. Nós escolhemos e a vida responde.

Assim, a cada dia ficamos mais experientes, aprendemos a viver, a criar uma vida mais feliz. Você amadureceu e hoje agiria de modo diferente. Saberia disciplinar suas emoções e relacionar-se melhor com as pessoas.

A voz de Gisele estava diferente, mais doce do que o habitual, e Miriam sentiu que uma brisa leve, agradável, a envolvia. Sorriu levemente e respondeu:

— Tem razão. Não sou mais a mesma. Estou recuperando minha paz, olhando as coisas de outra forma. Por isso mesmo pretendo me proteger e nunca mais voltar atrás.

Gisele olhou nos olhos dela e perguntou com voz firme:

— Se Ivo aparecesse aqui à sua procura, arrependido, pedindo perdão e querendo reatar, você o recusaria?

Miriam estremeceu e não respondeu logo. Fechou os olhos durante alguns segundos. Sua voz estava firme quando respondeu:

— Eu o recusaria. Só de pensar nessa possibilidade, senti arrepios, enjoo, minha cabeça ficou pesada. Não quero que ele volte nunca mais.

— E o amor que sentia por ele? Acabou?

— Hoje nem sei se o que eu sentia por ele era amor. Meus pais sempre me protegeram demais. Nunca me permitiram sair com amigas. Sempre que eu queria ir a algum lugar, eles me levavam. Ivo é um moço bonito, elegante, e quando se interessou por mim, fiquei fascinada. Para me namorar ele teve de pedir permissão a meu pai, e nosso namoro foi sempre em casa, na presença deles.

— Você não teve chance de conhecer outros rapazes?

— Ivo foi meu primeiro e único namorado. Eu tinha dezoito anos quando nos casamos e nenhuma experiência. Desde o começo do namoro eu tinha medo de que ele me deixasse. Me achava feia, desajeitada, enquanto ele era lindo, chamava atenção das mulheres aonde fosse. Eu não suportei o ciúme. Eu queria morrer, fiz muitas bobagens, quase enlouqueci.

Miriam sentou-se na cama, fixou os olhos de Gisele e disse com voz firme:

— Jamais quero passar por isso de novo!

— Entendo. O que precisa agora é cuidar de si com carinho, descobrir o que a faz feliz. O futuro está nas mãos de Deus e na hora certa tudo acontecerá naturalmente.

Miriam respirou fundo e considerou:

— Tem razão. Sinto que a vida pode me oferecer muitas coisas boas e desejo conquistá-las. O que eu mais quero é ser dona de mim. Não permitirei que ninguém mais comande minha vida.

Gisele levantou, abraçou a amiga com carinho e beijou-a na testa, dizendo:

— Estou certa de que você pode cuidar de si melhor do que ninguém. Durma bem e sonhe com os anjos.

— Você também. Obrigada por me escutar. As duas acomodaram-se e em seguida adormeceram.

A partir daquele dia, Gino passou a ir buscar Gisele todas as tardes, na saída do trabalho. A cada dia sentiam-se melhor juntos, conversavam com prazer e perdiam a noção do tempo.

Todavia, Gisele sentia que estava descuidando do bem-estar dos irmãos, que, embora fossem adultos, estavam habituados ao carinho e conforto que ela lhes proporcionava.

Miriam, sendo confidente da amiga, torcia para que eles fossem felizes e, quando um dos irmãos reclamava da ausência dela, fazia o que podia para substituí-la.

Uma tarde, quando Gino foi buscá-la, depois dos cumprimentos, uma vez dentro do carro, ela disse com voz firme:

— Hoje eu não posso demorar. Tenho chegado tarde em casa todas as noites e meus irmãos estão sentindo minha falta. É melhor que pelo menos duas ou três vezes por semana eu vá para casa antes deles.

— Não quero que eles fiquem com raiva de mim por isso. Hoje a deixarei em casa mais cedo, antes que cheguem.

— Ainda bem que entende!

— Vamos aproveitar o tempo que temos — tornou ele, abraçando-a e beijando-a várias vezes. Sentindo a emoção do momento, esqueceram-se de tudo.

Foi Gisele que em dado momento o afastou delicadamente, dizendo:

— Estamos na rua.

— Vamos sair daqui, ir para algum lugar onde possamos ficar juntos!

Gisele respirou fundo, tentando recuperar a calma:

— Não. Ainda é cedo para isso. Você agora vai me deixar em casa.

Ele ainda tentou continuar, mas ela foi firme:

— Vamos embora.

Gino respirou fundo e obedeceu em silêncio. Vendo-o calado, Gisele colocou a mão sobre o braço dele, dizendo com voz doce:

— Desculpe, é preciso ter calma.

— É que só de pensar que terei de deixá-la mais cedo e ficar esperando até amanhã à noite para vê-la... não pude me controlar.

Chegando na porta do prédio dela, parou o carro e, fixando-a com olhos brilhantes de emoção, disse:

— Faz pouco tempo que estamos namorando, mas sei que você é a mulher da minha vida. Quer se casar comigo?

— Eu amo você! Sonhava com o dia em que me pedisse em casamento!

Beijaram-se várias vezes. Quando se acalmaram, Gino considerou:

— Quero conversar com seus irmãos, fazer o pedido e marcar a data.

— Já?

— Sim. Não temos por que esperar. Trabalho por conta própria, não sou rico, mas tenho uma situação financeira boa para dar conforto a você e formar uma família. Por motivos alheios à minha vontade, tenho vivido sempre longe dos meus. Ter você comigo é tudo que posso desejar.

Eles continuaram conversando, fazendo planos para o futuro, e levaram um susto quando Carlos bateu no vidro do carro. Gino abriu o vidro e Carlos disse com ar preocupado:

— Gisele, você não é de ficar parada na porta de casa com desconhecidos.

Gisele, assustada, apressou-se a sair do carro. Gino fez o mesmo rapidamente, encarou-o e se apresentou:

— Meu nome é Gino Gouveia.

Gisele apressou-se a dizer:

— Este é meu irmão Carlos. Eu e Gino estamos namorando.

Carlos apertou a mão dele, dizendo:

— Agora estamos apresentados.

— Permita-me explicar. Nós não costumamos parar na rua para conversar. Eu acabei de pedi-la em casamento e ela aceitou.

— Nesse caso, vamos subir e conversar.

Mais tarde, quando Franco chegou com Miriam, encontrou os três na cozinha, conversando enquanto Gisele ajudava Carlos a fazer o jantar.

Vendo-os, Miriam sorriu satisfeita. Gisele apressou-se em fazer as apresentações e, depois dos cumprimentos, Gino disse sério:

— Eu e Gisele estamos namorando. Desejo que me conheçam melhor. Peço licença para frequentar a casa. Pretendemos nos casar.

Um brilho emocionado passou pelos olhos de Franco, que fixou os dois e perguntou:

— Desde quando estão namorando?

— Não faz muito tempo. Mas sei que é com ele que desejo me casar.

Franco fixou os olhos de Gino, estendeu-lhe a mão e disse sério:

— Nesse caso, só resta dar-lhe as boas-vindas.

Depois dos cumprimentos, Carlos abraçou a irmã, fixou Gino e comentou:

— Você aparece do nada, quer roubar nosso tesouro e eu vou ter de aceitar? Acha que está certo isso? Gino juntou-se ao abraço deles quando respondeu:

— Ao contrário, vocês é que vão ter que me aturar. Minha família mora longe, tenho estado muito solitário. Estou feliz por estar com vocês.

Miriam observava emocionada. Gisele puxou-a para perto e Franco juntou-se a eles no mesmo abraço. Carlos afastou-se um pouco e comentou:

— Vocês devem estar com fome. O jantar está quase pronto. É hora de pôr a mesa.

— Eu faço isso — ofereceu-se Miriam.

— Vou abrir aquela garrafa de vinho que ganhei na semana passada, para comemorar.

O ambiente era de alegria e Franco continuou:

— Vamos nos sentar na sala para conversar, porque desejo saber tudo que vocês dois pretendem fazer na vida.

Miriam arrumou a mesa e voltou à cozinha pensativa.

— O que foi? Você está triste?

Miriam tentou sorrir e respondeu:

— Não. Só estava pensando no que perdi.

— Sentiu saudades do Ivo?

Ela fez um gesto de contrariedade:

— Não! O que lamento é terem me roubado a chance de ter uma vida normal, de haver frequentado a sociedade, conhecido alguns rapazes, ter tido mais experiência antes de me casar.

Carlos colocou a colher que segurava no prato de apoio e disse com naturalidade:

— Não lamente o que passou. Hoje é mais experiente e pode conquistar tudo que quiser. Você é jovem, bonita, tem todo tempo do mundo para conhecer novos rapazes e encontrar alguém que a entenda, casar-se novamente e ser feliz.

— E viver aquele pesadelo de novo? Obrigada, mas eu dispenso.

— Pretende viver sozinha a vida inteira?

— Eu não sei amar. Não pretendo me casar novamente.

— Um dia você vai se sentir sozinha e procurar companhia.

— Estou pensando em voltar a estudar, fazer alguma coisa que me preencha. Quero ser uma pessoa útil, me sentir capaz.

— Isso é bom! O jantar está pronto. Já vou servi-lo. Se eu soubesse que íamos ter um convidado especial, tomar um vinho, teria trazido uma sobremesa à altura.

Carlos colocou as travessas na mesa. Todos se sentaram. Franco abriu o vinho, serviu, depois disse emocionado:

— Sinto que nossos pais estão aqui. Vieram celebrar este momento. Pedimos a Deus que nos abençoe. Que nossa união se torne eterna e possamos nos apoiar mutuamente em todos os momentos de nossas vidas.

Erguendo a taça, continuou:

— Seja bem-vindo, Gino! Que vocês dois se entendam e sejam felizes para sempre!

Depois do brinde, Gino levou a mão de Gisele aos lábios e disse emocionado:

— Sinto que agora não estou mais sozinho. Obrigado por me receber com tanto carinho.

Gisele abraçou-o e beijou-o delicadamente na face.

— Está na hora de eu arranjar uma namorada! Não dá mais para viver só! Eu queria namorar a Miriam, mas ela disse que não quer mais se casar — disse Carlos fazendo cara de choro.

— Pare com isso! — respondeu ela, batendo levemente no braço dele. — Eu vi outro dia no hotel como as garotas o tratam. Vocês precisam ver como ele é mimado! Elas ficam em volta dele o tempo todo, querendo ajudá-lo.

É melhor comer antes que esfrie — tornou Carlos, sorrindo malicioso.

A comida estava boa, o vinho também e a conversa fluiu alegre. Enquanto Carlos e Miriam cuidavam da louça, Franco sentou-se com o jovem casal e Gino falou de seus negócios e da vontade de se casar logo.

Gisele, feliz, emocionada, observava em silêncio. Ela via que os espíritos de seus pais estavam ouvindo a conversa e aprovando a união deles. Emocionada, agradecia a eles o carinho e o amor de sempre, sentindo-se apoiada e feliz.

 

No fim do expediente, Franco chamou Miriam e entregou-lhe um envelope, dizendo:

— Aqui está seu salário.

— Não precisa me pagar. Estou trabalhando porque gosto. Tenho renda, não preciso de dinheiro.

— Você trabalhou e merece receber.

— Eu adoro trabalhar com vocês. Não quero nada.

— Se não aceitar, não poderemos mais mantê-la no emprego.

— Não diga isso nem por brincadeira.

— Se quer continuar, precisa aceitar o dinheiro.

— Só se você aceitar que eu contribua com as despesas da casa. Isso também não é justo. Vocês dividem todas as despesas e não aceitam que eu pague nada. Dessa forma terei de ir embora, o que eu não quero ainda.

— Você sabe ser firme quando quer.

— Quero fazer o que é certo.

— Está bem. Concordo em dividir as despesas.

A campainha tocou com insistência e Miriam foi abrir a porta.

— Dona Eunice! O que aconteceu?

— Quero falar com Franco. Estou desesperada... Era uma mulher de meia-idade, alta, loura, rosto pálido, olhos vermelhos, aflita.

— Entre. Acalme-se, por favor.

Ela entrou e foi diretamente à sala de Franco, dizendo em lágrimas:

— Me ajude, por favor. Estou a ponto de acabar com tudo. Ele vai me pagar! Eu sabia que ele me traía, mas desta vez consegui pegá-lo!

— Acalme-se, sente-se, vamos conversar. Conte-me o que aconteceu.

Ela começou a soluçar e Franco fechou a porta. Miriam sentou-se pensativa. Decididamente, casamento não era uma coisa fácil. Ainda bem que seu casamento tinha acabado e ela estava livre para fazer o que queria e para viver melhor.

Ricardo aproximou-se e perguntou:

— Franco me disse que havia terminado. Chegou alguém?

— Uma cliente veio pedir ajuda e ele a está atendendo.

— Sei. Estou feliz por você estar aqui todos os dias nos ajudando.

— É meu primeiro emprego e me orgulho muito de estar sendo útil.

— Deve ser por isso que a cada dia você fica mais bonita. Quando a conheci, você era triste, calada, não sorria. Mudou muito. Tornou-se alegre, comunicativa, cheia de vida. Eu a admiro cada vez mais.

— Você está sendo bondoso. Ainda preciso aprender muito mais. Estou apenas me descobrindo, aprendendo como as coisas são.

— Ultimamente venho me sentindo muito só. Meu casamento esfriou e há três anos estou divorciado. Você não sente solidão?

— Não. Hoje estou livre, tenho bons amigos, quero aprender coisas novas, fazer coisas que me deem prazer.

— Sei que você se separou, mas ainda não se divorciou. Pretende retomar o casamento?

Miriam sacudiu a cabeça energicamente ao responder:

— De forma alguma! O casamento é uma prisão onde se sofre todos os dias. Nunca mais vou me casar.

— Você diz isso porque deve estar com raiva do seu marido. Mas os homens não são iguais. Você pode encontrar alguém melhor.

— Meu marido era ótimo. A culpada de tudo fui eu. Tornei a nossa vida um inferno em que quase enlouqueci. Portanto, quem não deve repetir a dose sou eu. Quero continuar livre. Amar, nunca mais.

— Essa situação não está clara. Precisamos conversar mais sobre a sua postura. Quer jantar comigo amanhã?

— Não sinto vontade de falar sobre isso. Obrigada pelo convite, mas não posso aceitar.

Ricardo olhou nos olhos dela, segurou sua mão e disse com certa emoção:

— Isso foi pretexto. Você me atrai, sinto vontade de abraçá-la, cobri-la de beijos. É tão forte que tenho medo de não poder me controlar. Isso nunca me aconteceu. Estou apaixonado por você!

Miriam, rosto corado, olhava-o surpreendida. Ela delicadamente retirou a mão que ele sustinha entre as suas e disse convicta:

— Não diga mais nada. Não creio que você me ame de verdade. Outro dia uma cliente me disse: "A solidão dói". Perguntei ao Franco o que é solidão e ele explicou: "Solidão é a distância que você está de si mesmo". A pessoa fica mais ligada às coisas de fora em vez de alimentar seu mundo interior, de fazer coisas que lhe tragam prazer, aumentem seu bem-estar. Só você poderá preencher esse vazio. Como psicólogo, deve saber disso.

Ricardo levantou a cabeça com certa altivez:

— Esqueça o que eu disse. Estava apenas testando você. Por trabalhar aqui já acha que pode aconselhar as pessoas? Essa não é sua função. Se quer aprender mesmo, por que não entra na faculdade?

— Desculpe se o ofendi. Não tive intenção. Sempre o tratei com respeito, e no trabalho tenho procurado fazer o melhor. Não sei por que quis me testar. Teria sido mais adequado perguntar e eu responderia.

— É tarde, estou cansado. Vamos esquecer este assunto.

Ele deu meia-volta e saiu. Miriam sentou-se pensativa. Sentiu um aperto no peito e pensou:

— Será que ele vai me despedir? Eu adoro trabalhar aqui. Todos os dias aprendo alguma coisa. Sou desajeitada, ele não gostou do que eu disse...

Uma onda de desânimo a "envolveu e ela sentiu-se triste. Será que um dia ela aprenderia a lidar com as pessoas?

Alguns minutos depois, Franco abriu a porta e a cliente, apesar do rosto triste, estava mais calma. Ele acompanhou-a até a saída. Depois voltou-se para Miriam e comentou:

— É tarde. Você deve estar cansada e com fome. O que aconteceu? Ficou abalada com o problema da Eunice? Miriam esboçou um sorriso:

— Ela estava descontrolada, mas eu sabia que você ia saber ajudá-la. Ela saiu mais calma.

— Ainda bem. Vou pegar uma pasta na minha sala e vamos embora.

Eles saíram e durante o trajeto Miriam quase não conversou. Chegaram ao apartamento e foram para a cozinha. Gisele tinha saído com Gino e Carlos já estava dormindo, mas havia deixado um farto lanche para ambos, arrumado na mesa da sala.

Antes de se sentarem para comer, Franco colocou a mão no braço dela, fixou-a e disse:

— Você não está bem. O que aconteceu? Ela baixou os olhos, não respondeu e Franco continuou:

— O caso de Eunice a fez lembrar do Ivo?

— Não. Eu já tirei o Ivo da minha vida. Ele não me incomoda mais.

— Quando fui para minha sala você estava exuberante, cheia de vida. Alguma coisa aconteceu que a entristeceu. O que foi?

Miriam esforçou-se para conter as lágrimas, mas elas teimaram em descer pelo seu rosto.

Franco, em silêncio, pegou um guardanapo e delicadamente enxugou o rosto dela. Depois, acomodou-a no sofá, sentou-se ao lado e disse com voz calma:

— Agora me conte o que aconteceu.

— Eu não sei lidar com as pessoas. Vocês só não me mandam embora da clínica por pena.

Franco franziu o cenho e respondeu com voz firme:

— Isso não é verdade. Você é muito mais eficiente que todas as outras que trabalharam conosco. De onde tirou isso?

Ela não respondeu e ele insistiu:

— Fale, Miriam. Não confia em mim?

Ela encarou-o e com voz trêmula relatou a conversa com Ricardo. À medida que ouvia, Franco foi ficando nervoso, custou a se controlar.

— Eu não devia ter dito aquelas palavras. Ele teve razão, eu ainda nem sei como cuidar da minha própria vida e tive a pretensão de querer ensinar alguma coisa a ele, uma pessoa formada, que tem conhecimento muito mais que eu. Ricardo ficou com raiva de mim. Estou certa de que ele vai querer me demitir.

Franco segurou a mão dela e considerou:

— Você não fez nada errado. Algumas vezes notei que ele a olhava com interesse e admiração. Nunca o abordei porque não pensei que ele pudesse ser tão indelicado. Tentou envolvê-la e, como você não aceitou, não soube se controlar.

— Eu nunca percebi nada e nem pensei que ele pudesse estar interessado em mim. Sabe que eu não pretendo me envolver com ninguém. Eu não sei amar e não quero sofrer.

Franco abraçou-a dizendo com carinho:

— Você não fez nada errado. Deu a ele uma resposta inteligente e muito bem mandada. Se Ricardo não fosse tão vaidoso, teria adorado e complementado suas palavras. Vá lavar esse rosto e vamos comer. Já viu o lanche que Carlos preparou para nós?

— Você não vai me despedir?

— Nem pense nisso. Não alimente esses pensamentos negativos porque atraem coisas ruins. Vamos pensar em coisas boas, alegres, que nos deixem bem.

Franco deu um sonoro beijo na testa dela e insistiu:

— Vá rápido!

Os olhos dela brilharam e o sorriso alegre voltou a seu rosto. Ela saiu e Franco sorriu satisfeito. Ver uma pessoa infeliz como Miriam desabrochar, mudar, amadurecer, assumir a própria vida, ao toque de seus conselhos, fazia-o sentir-se realizado.

Eles estavam terminando o lanche quando Gisele chegou e juntou-se a eles.

— É tarde! Vocês trabalharam até agora?

— Uma cliente teve um problema e me procurou na hora de virmos embora.

Pouco depois, quando estavam sozinhas no quarto, Gisele fixou-a:

— Aconteceu alguma coisa hoje que a está preocupando. O que é?

Miriam hesitou um pouco, depois contou-lhe a conversa com Ricardo. Gisele ouviu com atenção e comentou:

— Quando eu ia lá buscá-la, percebia os olhares que ele lhe dava. Como você recusou, ele se ofendeu.

— Ele sabia como eu penso. Por que fez isso comigo?

— Ricardo é muito vaidoso. Deve ter se irritado muito com sua recusa. Ele se julga um prêmio para qualquer mulher.

— Nunca notei nada. Não pretendo mesmo me envolver com ninguém. Gostaria que ele nunca tivesse dito aquelas palavras. Estou me sentindo constrangida diante dele. Receio que queira me despedir.

— A clínica é de Franco. Ele aceitou a parceria com Ricardo porque havia espaço e ajudaria nas despesas. Mas quem decide tudo lá é Franco. Fique tranquila. Está tudo bem. Vamos dormir que amanhã eu acordo cedo.

Na manhã seguinte, Gisele levantou cedo, tomando cuidado para não fazer barulho. Foi tomar banho e arrumar-se. Ao voltar para o quarto, encontrou Miriam sentada na cama.

— Fiz barulho, acordei você?

— Não. Quando levantou eu já estava acordada, pensando...

— No que aconteceu ontem?

— Não. Hoje acordei com vontade de cuidar da minha vida.

Gisele parou diante dela:

— Diga a verdade. Está preocupada com Ricardo?

— Não pretendo deixar o meu emprego. Estou com vontade de decidir o que fazer com minha casa e tudo que há dentro dela. Não quero atrasá-la, à noite conversaremos. Pensei em algumas coisas, quero sua opinião.

— Está bem. Mas desde já aviso que não quero que vá embora, a não ser que encontre alguém, ou retome a vida de casada.

— Desse mal eu não morro. Estou com algumas ideias boas.

— À noite você me conta.

Depois que Gisele saiu, Miriam sentou-se na cama e ficou pensando no assunto. Ivo disse que não queria nada do que havia na casa, embora tivesse contribuído em algumas despesas.

Nada daquela casa lhe pertencia de fato, uma vez que foram seus pais que haviam lhe dado tudo.   Mesmo depois da separação, continuavam depositando em sua conta o mesmo valor, todos os meses, como se Ivo ainda estivesse trabalhando na loja.

O que ela gostaria era de aprender uma profissão, poder trabalhar e ganhar o suficiente para se manter com conforto. Só então se sentiria uma pessoa eficiente.

Não estava em seus projetos separar-se dos três irmãos que a acolheram com tanto carinho, entre os quais se sentia segura e querida. Com o casamento, Gisele teria sua própria casa. Sabia que com o tempo cada um teria de escolher o próprio caminho, mas, apesar disso, sentia que os três continuariam unidos a ela, como irmãos.

Adorava a clareza e a postura de Gisele, sempre tão verdadeira e linda, a alegria de Carlos e o carinho que tinha com os irmãos, inclusive com ela. Franco era seu professor, sempre ensinando coisas práticas, fazendo com que ela refletisse. Respeitava sua vontade, deixava-a livre para escolher e decidir o que queria. Seu sonho era ser como eles.

Quando Franco acordou, Carlos e Miriam já estavam tomando café na sala. Sentou-se dizendo satisfeito:

— Você fez aquelas panquecas? Que delícia!

— Miriam me ajudou. Ela queria aprender e eu a ensinei.

— Quer dizer que agora ela quer cozinhar também?

— As primeiras grudaram na frigideira — disse ela.

— Mas as outras ficaram perfeitas e a massa foi você quem fez — comentou Carlos.

— Carlos me ensinou e eu mesma fiz-

— Parabéns, Carlos. Pode continuar ensinando outras especialidades a Miriam.

— Quero aprender tudo que puder para descobrir minha vocação e escolher uma profissão.

Os dois irmãos entreolharam-se admirados.

— Você é rápida! — notou Carlos.

— Você não viu nada. Agora sou outra pessoa. A culpa é de vocês, que mudaram minha vida. Franco sorriu satisfeito e comentou:

— Se todos os meus clientes aprendessem tão depressa, eu ficaria sem trabalho.

— Não pense que vão se livrar de mim. Agora terão de me aturar.

Depois do café, Miriam lavou a louça, Franco enxugou e Carlos foi para o hotel trabalhar. Franco foi ler na sala. Pouco depois Miriam surgiu toda arrumada. Vendo-a chegar, ele comentou:

— Ainda é cedo para irmos à clínica.

— Preciso sair. Mas estarei de volta a tempo.

Franco olhou-a admirado, mas não comentou. Depois que ela se foi, ele ficou pensativo. Vendo Miriam agora, ninguém suspeitaria que houvesse sido aquela mulher insatisfeita, infeliz que perturbava os outros.  

Quando Miriam tocou a campainha da casa, Claudete abriu e disse surpreendida:

— Finalmente você voltou para casa!

— Vim apenas resolver algumas coisas. Não posso demorar.

— Você está diferente! Veio sozinha?

— Sim. Não vou mais morar aqui. Estou pensando em vender a casa e comprar um apartamento.

— Foi ideia de seus pais?

— Não, minha. Tenho andado ocupada, faz alguns dias que não nos vemos.

— Eles estiveram aqui e disseram que seria melhor vender a casa. Querem que você volte a morar com eles.

Miriam não respondeu e Claudete perguntou:

— Eles sabem que você quer comprar um apartamento?

— Eu resolvi, mas ainda não lhes disse nada.

— Eles não vão gostar dessa ideia...

— Estou decidida, terão de aceitar. Amanhã mesmo vou procurar uma imobiliária e colocar a casa à venda.

— Você mudou muito mesmo. Parece outra pessoa.

— Antes eu era criança, mas agora cresci. Venha comigo, quero levar algumas coisas, e você vai me ajudar a escolher.

No quarto, Miriam abriu o armário, olhou os vestidos e comentou:

— Não estou gostando muito deles. Estão fora de moda. Vou levar apenas estes dois, o restante vou mandar embora.

— É pena! São lindos!

Miriam pegou alguns e colocou nas mãos de Claudete:

— Você gostou? São seus! Eu vou comprar outros mais modernos.

— Tem certeza de que posso ficar com eles?

— Tenho. Está ficando tarde. Tenho que ir. Assim que contratar a imobiliária, voltarei.

— O que vai fazer com o resto das coisas? Colocar em um guarda-móveis?

— Não, vou vender tudo.

— Ah!...

— Não se preocupe com seu emprego. Se não levá-la comigo, vou esperar até que arranje outro emprego decente. Fique tranquila. Vou recomendá-la. Se teve paciência de me aturar, está preparada para se dar bem em outro lugar.

Depois de escolher mais algumas coisas que lhe seriam úteis para trabalhar, pediu que Claudete chamasse um táxi. Ao despedir-se, disse séria:

— Voltarei para trazer o corretor da imobiliária, mas ligarei avisando. Obrigada por tomar conta da casa tão bem.

Assim que ela se foi, Claudete imediatamente ligou para Flora e foi logo dizendo:

— Dona Flora, Miriam acabou de sair daqui!

— Verdade? Por que não nos avisou? Nós iríamos com ela. Ela disse se vai voltar pra casa? Chorou, ficou mal?

— Calma, dona Flora. Ela estava muito bem. Estava calma, até parecia outra pessoa. Estou admirada até agora.

Flora ficou alguns segundos em silêncio, depois pediu:

— Ela pensa em voltar para casa?

— Não, senhora. Ela disse que vai vender tudo e comprar um apartamento. Não quer nada do que tem aqui.

— Meu Deus! De onde ela tirou essa ideia? Será que ela pensa em morar sozinha?

— Acho que sim.

— Jorge não vai gostar. Ela é inexperiente, precisa de proteção.

— Miriam parecia bem segura do que queria. Acho até que já aceitou a separação.

— Não acredito. Isso seria um milagre e eles quase nunca acontecem. Ainda bem que você deu notícias.   Ela não tem vindo aqui. Nós precisamos vê-la, saber o que de fato está havendo. Obrigada por ter nos informado.

Miriam entrou no apartamento segurando a mala e aproximou-se de Franco, que na cozinha havia terminado de almoçar e olhou-a surpreendido.

— Fui a minha casa pegar algumas coisas. Quero melhorar a aparência. Afinal, trata-se de uma clínica elegante.

O fato de ela ter espontaneamente ido até sua casa e enfrentado as lembranças desagradáveis sem sofrer era prova de que realmente havia superado boa parte do drama que havia criado com o afastamento de Ivo.

Franco ficou radiante, mas não comentou. Respondeu apenas:

— Você a cada dia fica mais elegante. Apresse-se. Tem quinze minutos para comer e vamos embora.

— Sim, senhor patrão. Não vou perder a hora.

Ela foi para o quarto deixar a mala, lavar as mãos, enquanto ele sentia brotar dentro de si uma onda de alegria e de confiança na vida.

 

Olga acordou no meio da noite e Davi não estava na cama. Acendeu o abajur, olhou o relógio, eram duas da manhã. Preocupada, andou pela casa à procura dele. Não o encontrou. Onde teria ido?

Nos últimos tempos ele não estava bem. Andava irritado, quase não conversava, e desaparecia no meio da noite sem dizer aonde ia. Aparecia de manhã, tomava um banho e saía para o trabalho. Várias vezes ela perguntou o que estava acontecendo e ele lhe disse que não conseguia dormir e saía para andar um pouco.

Se ela insistia, Davi informava que as coisas iam muito mal na repartição, que os colegas eram invejosos e faziam de tudo para que ele fosse dispensado ou se aposentasse antes do tempo, por incapacidade. Essa explicação não a satisfazia. Quando se casaram ele já era funcionário público de carreira e respeitado por todos.

Lembrou-se da noite em que Miriam dormira em sua casa e acordara aos gritos no meio madrugada, querendo vingar-se, acusando-o de estar maltratando uma mulher. Fora depois disso que ele começara a mudar.

Franco dissera que Miriam estava sendo dominada por um espírito que desejava vingar-se devi. Aconselhara que eles procurassem ajuda em um centro espírita. Ele não quis.

Mas ele não estava bem. Vendo-o mais magro, abatido e insone, várias vezes Olga insistira que ele fosse procurar ajuda.

— Não preciso de nada disso. Fui ao médico e ele não encontrou em mim nenhuma doença.

Preocupada, ela sentou-se na sala, disposta a não dormir e esperar que ele voltasse. Apanhou um livro, tentou ler, mas não conseguia concentrar-se no assunto. Fechou-o novamente e pensou:

"Se aquele espírito pretendia vingar-se de Davi e o estava atacando, usando seus poderes para o mal, preciso fazer alguma coisa para auxiliá-lo."

Pensou em Deus e decidiu rezar. Era uma pessoa de fé, apesar de não frequentar a igreja. Fechou os olhos e pediu a Deus que protegesse Davi. Se lhe acontecesse alguma desgraça, o que seria dela? Com o filho morando longe, o que seria de sua vida?

Por que Deus permite que uma pessoa seja atacada por um espírito do mal? Nesse momento, Olga levou um susto: viu um rosto de homem olhando-a bem de perto, dizendo alguma coisa. Ela não ouviu as palavras, mas sentiu o significado:

"— Não sou do mal. Quero libertar a mulher. Me ajude!".

A aparição foi como um flash e logo sumiu. Olga sentia arrepios e o ar lhe faltou. Com mãos trêmulas pegou um copo de água e tomou alguns goles, tentando se acalmar.

Mas os pensamentos estavam tumultuados. Será que ele dissera a verdade? Haveria mesmo essa mulher na vida de Davi?

Mesmo sem se aprofundar no assunto, ela sempre acreditou na reencarnação. Davi teria deixado algum assunto mal resolvido de outras vidas?

Sentiu que precisava saber a verdade. Ela não podia mais deixar as coisas acontecerem sem fazer nada. Seus sobrinhos eram espiritualistas, Gisele tinha mediunidade. Quando amanhecesse, iria conversar com eles.

Sentou-se novamente, mas outro pensamento começou a incomodá-la: "E se estivesse sendo traída e houvesse outra mulher na vida dele?".

Quanto mais o tempo passava, mais ela acreditava nessa hipótese. Havia anos ele costumava sair de vez em quando para encontrar os amigos e tomar uma cerveja. Ela nunca duvidou do que ele dizia, não era ciumenta e confiava nele. Estaria sendo enganada?

Esses pensamentos a incomodaram até as seis horas da manhã, quando ele chegou. Entrou procurando não fazer ruído e, vendo-a em pé na sua frente, assustou, e disse mal humorado:

— Não é cedo para estar de pé?

— Estou esperando você chegar desde as duas horas. Onde você estava?

— Caminhando por aí. Você não precisava ficar me esperando.

Fixando os olhos dele, ela respondeu:

— Eu ainda vou descobrir onde e com quem você fira até estas horas.

— Não seja implicante. Já chega os problemas que tenho. Não preciso que você comece a me vigiar.

Vou me deitar, ver se pelo menos consigo dormir até as dez. Hoje só vou trabalhar depois do meio-dia.

Davi foi para o quarto e Olga ficou um pouco mais pensando o que deveria fazer. Quando foi para o quarto, o marido já estava dormindo. Deitou-se, mas, sem sono, ficou pensando no assunto e tomou uma decisão: procuraria um detetive particular para descobrir aonde seu marido ia durante as madrugadas. Cansada, só depois de decidir isso foi que adormeceu.

De manhã, Olga fez o que planejara. Lembrou-se de uma amiga que tivera problemas com o marido, contratara um detetive muito bom e ela acompanhara o caso. Conseguiu o telefone com a amiga, foi procurá-lo no mesmo dia e o contratou.

Saiu de lá sentindo medo do que o detetive pudesse revelar. Mas do jeito que as coisas estavam, ela precisava saber a verdade, mesmo que sua vida desmoronasse.

Ela era uma mulher honesta, nunca havia traído o marido nem em pensamento, não toleraria que ele o tivesse feito. Apesar de tudo, ela confiava nele, acreditando que aquela hipótese não passasse de excesso de imaginação.

Dependendo do que o detetive descobrisse, ela iria conversar com Franco para lhe pedir ajuda espiritual. Depois do que acontecera com Miriam, naquela noite, se Davi não a estivesse traindo, ele poderia estar sendo vítima de alguma bruxaria. Franco falara em assédio de espíritos.

Apesar de não acreditar muito nessa possibilidade, estava disposta a descobrir a verdade, de qualquer jeito.

Passava das onze quando Davi se levantou. Olga estava na sala folheando uma revista quando ele passou e foi direto à copa procurar pelo café.

Ela deixou a revista e foi atrás dele. Notou logo que ele não estava bem. Rosto pálido, cenho franzido, mal respondeu o bom-dia que ela lhe deu.

— Está se sentindo bem?

— Estou. Por que pergunta? Você agora deu para me controlar. Sabe que não gosto disso.

Ela desviou o olhar e disse apenas:

— Não quero controlar ninguém. Vim para cuidar do almoço, mas você não parece bem.

— Sei cuidar de mim, não precisa se incomodar. Serviu-se de café, tomou alguns goles e voltou para o quarto sem dizer nada.

Olga sentiu um aperto desagradável no peito e pensou: "Sinto que alguma coisa ruim está acontecendo ou vai acontecer. Mas o quê? O detetive pediu uma semana para fazer a pesquisa e terei de esperar".

Voltou à sala, apanhou a revista, tentou ler mas não conseguiu.

"Estou exagerando", pensou. "Preciso me controlar." Mas o mal-estar aumentou. Sentiu enjoo, cabeça pesada, arrepios pelo corpo.

Pensou em Franco. Lembrou-se de como ele os auxiliara quando Miriam teve aquela crise e Davi ficou estirado no chão. Pegou a bolsa e decidiu procurá-lo. Naquele horário ele ainda não teria saído para trabalhar.

Tomou um táxi e depois de dez minutos tocou a campainha do apartamento de Franco. Ele abriu e logo notou que ela não estava bem.

Olga entrou nervosa e disse logo:

— Franco, desculpe vir sem avisar, não estou muito bem. Preciso da sua ajuda.

— Acalme-se, tia. Venha, vamos conversar.

Miriam surgiu na porta da sala, vendo-os, saiu discretamente. Olga olhou-a surpreendida e indagou:

— Miriam continua morando aqui?

— Sim. Ela agora está trabalhando comigo na clínica. Sente-se. Aconteceu alguma coisa?

— Davi não está bem. Anda esquisito, pálido, não conversa como antes, não se alimenta direito, sinto que tem alguma coisa o preocupando. Mas fica nervoso quando pergunto. Algumas vezes acorda durante a noite e sai. Diz que vai andar pelas ruas. A noite passada fiquei acordada esperando. Já tinha amanhecido quando ele chegou e ficou nervoso por eu estar acordada. Reclamou que estou querendo vigiá-lo. Vive irritado e quando pergunto por que, responde que não preciso me incomodar porque ele sabe cuidar de si. Estou assustada, com medo. Tenho a sensação de que a qualquer momento vai acontecer algo muito ruim e não vou poder evitar.

— Você está nervosa e imaginando o pior. Reaja. Tente se acalmar.

Franco foi buscar um copo de água e deu-o a ela:

— Beba. Respire, tente não pensar em nada. Ela obedeceu. Suas mãos tremiam e Franco colocou a mão sobre a testa dela e pediu:

— Vamos rezar e pedir ajuda aos amigos espirituais. Imagine que uma luz muito branca e brilhante desce do alto inundando essa sala, trazendo energias de esclarecimento e paz. Lembre-se de que ninguém está só. Na hora em que precisamos, seres de luz se aproximam para nos ajudar. Sinta essa brisa suave que está nos envolvendo e pense que tudo vai passar e que cada coisa está indo para seu lugar.

Nesse instante, Miriam abriu a porta e postou-se atrás de Olga, dizendo com voz suave:

— Acalme seu coração e entregue a situação nas mãos de Deus, que pode tudo. É o que você pode fazer. Cada um tem o resultado de suas escolhas. Não tema, você está protegida. Eu sou Anita, lembra-se? Aquela sua amiga gordinha que você defendia no colégio.

Olga abriu os olhos e disse admirada:

— Anita! Você está viva! É você mesmo?

— Sim. Do que se admira? Todos somos eternos. Vim para lhe dizer que estou do seu lado e vou ficar algum tempo com você. Tenho essa permissão. Desejo lhe mostrar todas as coisas boas que você ainda não percebe. Garanto que vai ficar cada dia melhor.

— É difícil acreditar!

— Acredite. Sou eu, viva e alegre como sempre fui. Não tenha medo de enfrentar os desafios da vida. Eles só aparecem quando você já tem como vencê-los. Vá em frente, faça o seu melhor. Eu a estarei apoiando sempre. Deus a abençoe.

Miriam se calou e Olga não se conteve:

— Anita! Meu Deus, é verdade mesmo? Você continua viva no outro mundo?

— Tia, ela continua viva e veio para lhe dar uma prova de que a morte é apenas uma viagem. Está mais calma, sente-se melhor?

— Sim, mas um pouco assustada... Miriam falando isso... Anita... como pode ter voltado? Eu nem sabia que ela tinha morrido. Ela deixou o colégio antes de se formar porque sua família se mudou para o sul e nunca mais tive notícias dela. Vou ver se consigo saber se isso é verdade. O que acha, Franco?

— Faça isso. Vai ser bom para você ter essa prova.

— Ela é uma mocinha gordinha, aparentando uns quinze anos, pele clara, rosto redondo, cabelos castanhos ondulados, que ela reparte do lado e do outro prende com uma fivela dourada. Tem olhos vivos e sorriso alegre — esclareceu Miriam.

— É ela! Você a viu! Como pode ser isso?

— Notei que ela é muito bem-humorada. Quando se aproximou, senti uma energia agradável e as ideias ficaram muito claras.

— As energias dela são muito elevadas. Também senti — disse Franco.

— Miriam, você está tão diferente! Parece outra pessoa. Está mais bonita, cresceu, ficou mais alta, mais elegante. O que aconteceu?

— Estou me sentindo melhor mesmo. Tenho aprendido muito. Nunca tive amigos, mas agora tenho.   Nossa convivência tem me ajudado muito. Trouxe-me prazer de viver, de trabalhar, de ser útil. Estou muito bem aqui, tão bem que já estou abusando da amizade deles.

A curiosidade de Olga cresceu, teve vontade de lhe fazer as perguntas que a estavam incomodando. Mas tinha medo de mencionar o filho, de ela ter uma recaída e voltar a ser como sempre foi. Perguntou apenas:

— Você nunca havia trabalhado... Entendi bem? Você está trabalhando?

— Sim. Sou recepcionista na clínica de Franco.

— Ah! Sei... Todos os dias?

Miriam sorriu e seus olhos tinham um brilho alegre quando respondeu:

— Sim. Estou empregada, ganho meu salário e adoro o que faço.

Olga olhou para Franco, duvidando.

— É verdade, tia. Miriam tem se revelado muito eficiente.

— Então é mesmo verdade? Ela atende os clientes, faz tudo?

— Sim. E cuida de tudo com capricho. É muito querida por todos. Alguns clientes lhe trazem chocolates, revistas e até pequenos presentes.

— Você mudou muito, e para melhor. Parabéns! Miriam ergueu a cabeça com certa altivez e respondeu:

— Pretendo mudar muito mais. É muito bom estar livre, assumir a minha vida, aprender a cuidar de mim. Não pretendo voltar atrás. O passado morreu e nunca mais quero sofrer o que sofri.

Olga levantou dizendo:

— Preciso ir. Já estou me sentindo melhor. Obrigada, Franco, por ter me ajudado. Miriam, gostei de vê-la tão bem. Vou ver se descubro notícias de Anita. Quero saber quando morreu e como. Ela era dois anc(s mais nova que eu e fomos muito amigas.

Franco a acompanhou até a porta e Olga aproveitou para perguntar:

— Tem certeza de que ela melhorou mesmo? Não estará fingindo para me impressionar?

— Acha que eu me prestaria a isso?

— Desculpe, é que a mudança foi tanta que ainda não consigo acreditar. Os pais dela têm acompanhado tudo isso?

— Não sei. Prefiro não comentar esse assunto. Quanto ao tio Davi, aconselhe-o a procurar ajuda médica. Pode estar precisando.

— Ele já foi e o médico não encontrou nenhuma doença.

— Se ao menos ele concordasse em procurar ajuda espiritual, estaria mais protegido. Em todo caso, fique atenta. Se ele continuar do jeito que está, poderá piorar. Mantenha-me informado. Se precisar de alguma coisa, me procure. Estarei à sua disposição.

Ela se foi e Franco procurou Miriam. Estava quase na hora de irem trabalhar. Encontrou-a na cozinha preparando o almoço. Carlos havia deixado algumas coisas semipreparadas para eles e ela estava finalizando.

Foi durante o trajeto que fizeram para o trabalho que eles conversaram sobre a visita de Olga.

— Você me surpreendeu quando apareceu com olhos meio parados, andando sem ver e viu nitidamente aquele espírito. Como se sentiu?

— Muito bem. Estava na cozinha quando senti que deveria entrar na sala. Tentei segurar, mas quando vi já estava lá, atrás da Olga e dando a mensagem. Terminei de ler O Livro dos Médiuns, de Kardec, e ficava imaginando o que sentiria se um espírito de luz se aproximasse. Agora sei.

— É sinal de que você melhorou o padrão de seus pensamentos a ponto de um espírito elevado poder se aproximar. Isso significa que tem progredido.

— Tenho ficado atenta e controlado meus pensamentos. Procuro não alimentar energias negativas. Não esqueço o que me ensinou: quando vier um pensamento negativo, é preciso não dar importância e mudar o foco, pensar em coisas positivas. Tenho me esforçado para fazer isso. Tenho me sentido mais forte, mais alegre.

— Quando você faz isso, abre espaço para os espíritos de luz poderem inspirá-la e protegê-la. E como você tem mediunidade, eles conseguiram dar a Olga uma prova da sobrevivência do espírito.

— A presença de Anita me fez muito bem. Enquanto ela falava, eu me sentia leve, flutuando, tinha vontade até de cantar. Será que ela voltará a me procurar? Ela veio para ajudar a Olga.

— O tempo vai mostrar. Se ela veio porque tem planos de trabalhar com você, certamente voltará.

— Será? Que bom! Eu estava bem-disposta, mas quando ela se aproximou, fui tomada de uma sensação de alegria que nunca me recordo de haver sentido.

— É bom alimentar esse sentimento procurando coisas que lhe tragam prazer e a deixem bem. Dessa forma, quando surgirem os desafios, você os enfrentará com mais coragem e os vencerá.

— Conheço minhas fraquezas e não vou entrar mais em nenhuma confusão. Quero cuidar da minha vida do meu jeito.

Franco sorriu e não respondeu. Haviam entrado no estacionamento do prédio da clínica e se apressaram a descer.

Olga chegou em casa e Davi ainda dormia. Foi para a cozinha preparar o almoço, mas não conseguia esquecer de Anita. Era difícil acreditar que alguém poderia voltar depois da morte, mas, por outro lado, como Miriam poderia saber que ela, quando adolescente, tivera essa amizade? Nunca mencionara a amiga nem mesmo com Franco, que, apesar de ser seu sobrinho, havia nascido depois que ela já estava casada.

Pensou em Anita e sentiu saudade. Tempo bom, sem preocupações, só sonhos e projetos! Quando Anita foi embora da cidade, ficou de mandar-lhe o novo endereço, mas isso nunca aconteceu. Agora queria saber a verdade sobre ela, mas como?

Sentou-se pensativa e pouco depois teve uma ideia: fechou os olhos e imaginou que Anita estava na sua frente, do jeito que a vira na despedida, e falou:

— Se foi você que voltou da morte para me ajudar, quer dizer que não esqueceu da nossa amizade. Eu quero saber por que você não mandou seu endereço, conforme o combinado. Se foi você mesma que falou comigo, me ajude a ter essa certeza.

Disse isso com tanta vontade que ouviu distintamente a voz dela dizer:

— Lembre-se de que o mais importante é fazer o que eu pedi. Entregue a situação nas mãos de Deus. É só o que pode fazer agora.

Nesse momento, Olga sentiu arrepios e levantou-se assustada. Anita estaria ali fazendo-a lembrar de suas palavras?

Tomou alguns goles de água tentando se acalmar. Sentiu medo. Sua mãe costumava dizer que só os espíritos ruins falam com as pessoas. Estaria sendo vítima do mal que estava envolvendo Davi?

O melhor era não pensar mais nisso. Assim que Davi acordasse ela insistiria para que ele fosse novamente ao médico para se cuidar.

Sentiu um cheiro de queimado e desligou o fogo. O arroz havia queimado e ela sentou-se desanimada. Olhou o relógio e achou melhor fazer o arroz novamente.

Sentia um aperto de medo no peito e um cansaço que dificultava até seus movimentos, as pernas pesadas, a cabeça doendo. Sentiu frio e foi vestir um agasalho, mas os arrepios continuavam assim mesmo.

Finalmente conseguiu terminar o almoço. Olhou o relógio e se assustou: Davi havia perdido a hora. Ele dissera que teria de entrar ao meio-dia, já passava da uma. Deveria chamá-lo?

Ele teria problemas no trabalho e ficaria furioso por ela não tê-lo acordado. Nos últimos meses ele se queixava de que o chefe da repartição o estava perseguindo. Mas ela percebia que ele ia trabalhar sem vontade e muitas vezes perdia a hora.

Decidiu não acordá-lo. Pelo menos se pouparia do nervosismo dele. Não ia adiantar nada chamá-lo, ele não iria mais mesmo.

Desalentada, sentou-se deixando que as lágrimas de tristeza lavassem seu rosto, sem coragem para fazer nada.

O espírito que atacara Davi na noite em que Miriam acordou aos gritos estava ali, abraçado a Olga dizendo com raiva:

— Ele é a causa do seu sofrimento. Vou acabar com ele de uma vez!

Mais acima, em um canto da cozinha, sem que ele pudesse vê-la, estava o espírito de Anita, a menina que havia auxiliado Olga. Observava, sem conseguir intervir para auxiliá-la porque Olga cortara a ligação que ela tentara manter.

 

Nos dias que se seguiram, Olga notou que Davi estava ficando pior. Não se alimentava como de costume, à noite tinha pesadelos. Muitas vezes, quando ela acordava, ele já havia saído. Olga ficava angustiada, perdia o sono se perguntando aonde ele teria ido. Davi só regressava com o dia claro, rosto pálido, nervoso, e reagia mal quando ela perguntava o que ele estava sentindo.

Uma madrugada, quando Olga acordou e mais uma vez a cama estava vazia, ela andou pela casa à procura dele. Mas não o encontrou e pensou que aquilo não podia continuar. Alguma coisa muito ruim estava acontecendo e ela precisava fazer alguma coisa para ajudar.

Davi não ia mais trabalhar nos horários de costume e Olga temia que ele perdesse o emprego. Como sustentar a casa se isso acontecesse?

Angustiada, decidiu que iria à repartição conversar com o chefe dele para saber.

Passava do meio-dia quando Davi chegou. Rosto pálido, cenho franzido, ar cansado.

— Davi, onde esteve até esta hora?

— Não é da sua conta.

— Sente-se, vamos conversar. Você está doente.

— Deixe-me em paz.

— Mais uma vez você perdeu a hora de ir trabalhar. Precisa tirar uma licença e cuidar da sua saúde.

— Deixe-me em paz. Quero dormir.

Ele foi para o quarto, tirou a roupa e deitou-se. Olga ficou mais nervosa e foi procurar o doutor Nelson, chefe de Davi.

Tomou um táxi até a repartição. Olga o conhecia, ele era um homem educado e sempre a tratara com atenção. Depois dos cumprimentos, ela disse séria:

— Doutor Nelson, estou muito preocupada com Davi. Ele não está bem. Anda nervoso, irritado, tem pesadelos. À noite, não dorme e, quando eu acordo, ele não está em casa. Sai e só volta com o dia claro, diz que ficou andando pelas ruas.

— Ele não está bem mesmo. Mudou muito nos últimos tempos. Já o aconselhei a ir ao médico. Ele disse que foi e o médico não encontrou nenhuma doença. Não sei mais o que fazer com ele. O diretor está pensando em dispensá-lo.

— Por favor, me ajude. Se ele perder o emprego, não teremos como nos manter.

— Tenho feito o que posso, mas a situação chegou a um ponto que não depende de mim.

— Por favor, nos ajude! Ele sempre foi cumpridor de suas funções. Está doente!

— Vou conversar com o diretor e ver se consigo uma licença para Davi.

Durante o trajeto da volta, Olga ficou pensando em tomar providências, interná-lo, mesmo contra sua vontade.

Quando entrou no quarto, Davi dormia, mas seu sono não era calmo. Sua respiração era irregular e seu corpo estremecia de vez em quando. Colocou a mão na testa dele e estava febril.

— Davi, acorde. Fale comigo.

Ele gemeu e falou algumas palavras que ela não entendeu. Assustada, ligou para o hospital que atendia os funcionários públicos e pediu ajuda.

Uma hora depois chegou a ambulância. O médico examinou-o e perguntou:

— A senhora sabe se ele tomou alguma droga? Ela contou o que estava acontecendo e finalizou:

— Ele saiu de madrugada, voltou hoje na hora do almoço e, quando eu perguntei como ele estava, ficou nervoso, foi para o quarto dormir. Mas seu sono não está normal.

— Seu pulso está acelerado, ele não parece bem. Vamos levá-lo ao hospital para fazer alguns exames.

— Vou com vocês!

Enquanto eles levavam Davi, Olga preparou algumas roupas para ele se trocar. Depois foi à garagem, pois iria ao hospital de carro. Ela não gostava de dirigir. Tirara a carta, porém raramente usava o carro, mas naquela situação achou melhor fazê-lo.

Assim que colocaram Davi no quarto do hospital, ele acordou e parecia melhor. Olhou em volta e perguntou:

— O que estou fazendo aqui?

— Você não estava bem. Chamei o médico e ele resolveu fazer alguns exames.

— Estou muito bem e não preciso de nada. Vamos embora.

O médico aproximou-se, tomou o pulso dele, depois disse:

— Está normal. Você bebeu ontem à noite ou tomou alguma droga?

— Não, doutor. Eu sofro de insônia. Acordei e fui andar um pouco. Quando cansei, fui para casa dormir.

— Diga a verdade.

— Estou dizendo a verdade.

O médico o examinou minuciosamente e disse:

— Você agora está bem. Apesar disso, seria bom evitar substâncias perigosas porque pode lhe acontecer coisa pior.

— Eu não uso substâncias perigosas. Sei cuidar de mim.

O médico o liberou e eles saíram. Davi quis dirigir o carro, e ela admirou-se porque ele, de fato, parecia ter voltado ao normal.

Durante alguns dias ele continuou bem e ela foi se acalmando. Todavia, uma noite ela acordou sobressaltada e ele não estava na cama. Era madrugada e ele havia saído novamente. Nervosa, ela perdeu o sono e ficou na sala esperando que o marido voltasse.

Passava das duas da tarde quando Davi chegou. Estava pálido, cansado, agitado.

— Onde esteve? Perdeu a hora de ir trabalhar mais uma vez! Se continuar assim, você pode perder o emprego.

— Não é da sua conta. Deixe-me em paz.

— Se você perder o emprego, como iremos nos sustentar? Vamos conversar... O que está acontecendo?

— Não se meta na minha vida. Deixe-me em paz.

Ele nem sequer a olhou. Foi para o quarto, tirou os sapatos e deitou-se sem tirar a roupa. Isso nunca havia acontecido antes. Olga ficou mais nervosa e decidiu ligar para Ivo. Ela não o via desde que ele se mudara para o Rio de janeiro.

Lá ele encontrara Renato, um colega de faculdade. Advogado formado, montara escritório na cidade e estava muito bem financeiramente. Renato ficou feliz por Ivo tê-lo procurado. Além de hospedá-lo, Renato o apresentou a alguns amigos.

Embora desejasse continuar os estudos, Ivo precisava primeiro arranjar trabalho para poder se sustentar. Decidiu procurar emprego na área de vendas. Era só o que sabia fazer.

Ele tinha boa aparência, vestia-se bem, sabia se apresentar, por isso não lhe foi difícil arranjar trabalho em uma loja de shopping que vendia móveis e objetos para casa. Na loja do sogro era ele quem arrumava as mercadorias de forma a chamar a atenção dos clientes. Era o que mais gostava de fazer.

A nova loja era linda, cheia de produtos bonitos, arranjos, objetos de arte, e Ivo adorou o novo emprego desde o primeiro dia. Estava livre, alegre, de bem com a vida e a cada dia sentia-se mais feliz por ter assumido sua liberdade.

Foi fácil para ele usar sua criatividade e arrumar as mercadorias com requinte para chamar a atenção dos clientes, principalmente das mulheres, a quem fazia sugestões inteligentes.

O dono logo percebeu o valor do novo empregado e passou a ouvir suas sugestões, encarregá-lo de organizar as vitrines. Assim, o dinheiro começou a entrar. Ele pensou em se mudar, mas o apartamento de Renato era grande e ele gostava da companhia de Ivo.

— Você quer ir embora? Por quê?

— Você me acolheu, me apoiou, e sou-lhe muito grato. Mas agora que estou trabalhando, já posso cuidar de mim.

— Gosto da sua companhia, nos damos bem. Por que não fica mais um pouco? Você junta dinheiro e compra um apartamento. Não será melhor?

— Não quero abusar.

— Você pode contribuir com as despesas da casa. Assim sobrará mais para você juntar.

Ivo pensou um pouco e respondeu:

— Sabe que tem razão? Eu gosto de ficar com você. Depois, comprar um apartamento é melhor do que pagar aluguel todos os meses.

— Faça isso. Do jeito que está tendo sucesso na loja, não vai demorar para conseguir o que quer.

Nos dias que se sucederam, Ivo pensou seriamente na conversa que tiveram. A ideia de comprar um apartamento tornou-se para ele um projeto sedutor. Conseguir comprá-lo com os proventos do seu trabalho dava-lhe o sentido da dignidade pessoal, fazendo-o sentir-se mais capaz e mais forte, com todas as possibilidades de progredir e cuidar melhor de si.

Bonito, bem-disposto, elegante e amável no trato, tornou-se atraente para as mulheres que o assediavam. Mas ele não se interessava por nenhuma. O que desejava era usufruir o prazer da liberdade, poder tomar suas decisões sem ter de dar satisfações a ninguém.

Renato apaixonou-se e começou a namorar. Feliz, sugeria que Ivo fizesse o mesmo, ao que ele respondia contente:

— É cedo para eu pensar nisso. Sou livre e não desejo me relacionar com alguém que venha me controlar e se dar o direito a exigir de mim alguma coisa.

— Nem todas as mulheres são assim — dizia Renato. — Marisa é alegre, me deixa pra cima e aceita o que posso lhe oferecer.

— Aproveite, mas saiba que elas mudam depois do casamento.

O telefone tocou e Ivo atendeu. Olga disse nervosa:

— Ivo, seu pai não está bem. Estou nervosa...

— Ele está doente?

— Ele mudou muito, está perturbado. Não sei como agir. Estou precisando de você aqui para me ajudar.

— É tão grave assim?

Olga contou-lhe o que estava acontecendo e finalizou:

— Agora ele está na cama, deitado de bruços, vestido. Parece adormecido, mas seu sono não é natural. Estremece de vez em quando, geme, não sei o que fazer. Estou angustiada. Gostaria que você viesse me ajudar.

Ivo pensou um pouco, depois disse:

— Fica difícil ir agora. Estou trabalhando muito. Assumi vários compromissos na loja. Já procurou o Franco? Ele sempre sabe o que fazer.

— Franco aconselhou Davi a procurar um psiquiatra e buscar ajuda espiritual. Ele nunca quis. Mas agora ele ficou pior e estou com medo. O caso pode ser grave. É melhor você vir.

— Está bem, mãe. Vou falar com meu chefe e ver o que posso fazer. Agora que estou bem, não queria voltar a São Paulo.

— Faça isso por mim.

Depois de prometer ligar na manhã seguinte, Olga desligou o telefone e foi para o quarto. Davi continuava do mesmo jeito. Ela aproximou-se e chamou:

— Davi, acorde. Fale comigo.

Como ele não respondeu, ela segurou os dois braços dele e sacudiu-o:

— Acorde, Davi. Você não está confortável. Precisa tirar essa roupa, acomodar-se melhor.

Num impulso, Davi se virou rapidamente, abriu os olhos, mas parecia não ver, e disse com voz rouca:

— Saia daqui. Agora quem manda sou eu. Não adianta você querer. Ele está sob meu domínio e vai pagar por tudo que me fez. Vá embora. Deixe-o em paz. Não se coloque entre nós para que não lhe aconteça algo pior. Não tenho nada contra você. Vá embora.

Olga tremia assustada. Desceu rapidamente, apanhou o telefone e ligou para o apartamento de Franco, mas ninguém atendeu. "Ele deve estar na clínica!", pensou.

Ligou para lá e Miriam atendeu dizendo o nome da clínica. Olga reconheceu a voz dela, lembrou-se de que ela sofrera uma crise por causa de Davi e sentiu medo, mas não teve outro remédio senão falar:

— Miriam, sou eu, Olga. Davi está passando mal e preciso falar com Franco.

— Vou avisá-lo.

A cliente estava saindo e Miriam avisou:

— Davi está mal e dona Olga está no telefone.

— Vou atender, pode passar.

Despediu-se da cliente e fechou a porta para atender a ligação:

— Tia Olga, fale. O que aconteceu?

Ela contou resumidamente o que acontecera e finalizou:

— Acho que ele enlouqueceu! Estou com medo. Me ajude, por favor! Estou sozinha aqui e não sei o que fazer.

— Procure se acalmar. Eu pressentia que um dia isso iria acontecer. Vamos fazer o seguinte: dentro de uma hora, buscarei Gisele no trabalho e iremos até aí.

— Você não pode vir agora? E se ele ficar pior e eu não puder controlá-lo?

— Gisele vai nos ajudar. Preciso levá-la comigo.

— Você sabe o que é que ele tem?

— Sinto que ele está sofrendo um assédio espiritual. Logo estaremos aí. Precisamos da sua fé em Deus. Enquanto espera, ore e peça a ajuda dos espíritos de luz. Eles nos auxiliarão. Eu vou desligar e fazer uma prece em favor de Davi. Confie, vai dar tudo certo.

— Vou tentar. Mas, por favor, não demore muito.

Ele desligou e foi falar com Miriam. Pediu-lhe que suspendesse os dois últimos clientes daquele dia e os avisasse. Explicou:

— Davi precisa de ajuda. Buscarei Gisele na empresa e iremos à casa dele. Pode ser que você não queira ir conosco. Eu posso deixá-la em casa antes de buscar Gisele.

Miriam ficou calada durante alguns segundos, depois sorriu e disse:

— Você está dizendo isso por causa do envolvimento com aquele espírito na casa dele. Na ocasião eu não sabia nada desse assunto. Tenho estudado, aprendido. Sei que esses espíritos, embora nos assustem e nos deixem indispostos, não podem nos fazer mal quando colocamos nossa força no bem e conservamos a calma. Eu não tenho mais medo. Quero ajudar e vou com vocês.

Franco sorriu e considerou:

— Você agora está usando sua força para manter seu bem-estar! Gostei de ver!

Quando Gisele saiu da empresa, os dois já estavam esperando e imediatamente foram à casa de Olga.    

Ao vê-los entrar, ela sentiu-se aliviada:

— Ainda bem que chegaram!

— Como estão as coisas? — indagou Franco.

— Fiz o que você pediu. Estava com muito medo, mas pensei no que você disse, pedi ajuda espiritual de coração, com tanta força, que cheguei até a sentir uma brisa suave que me acalmou. Ele se calou, fechou os olhos e não disse mais nada. Vamos subir.

Nesse momento, Davi abriu a porta do quarto e disse nervoso:

— Não vou deixar ninguém entrar aqui. Não adianta vir. O primeiro que se atrever vou atirar escada abaixo. Olga olhou assustada e Franco disse calmo:

— Você não vai fazer nada. Não tem poder contra a luz.

— Não se atreva a vir. Vou acabar com você. Gisele adiantou-se e foi subindo a escada. Franco e as outras duas a seguiram, em oração.

Davi fechou a porta para impedi-los de entrar e passou a chave. Gisele parou diante da porta e disse com voz suave:

— Você está muito cansado de tudo isso. Sofrendo por algo que já foi. Aquela situação já acabou. Adélia já se recuperou e continua amando você, esperando que melhore e possa ir encontrá-la. Mas enquanto ficar no mal, não poderá vê-la. Esqueça a vingança, perdoe para tê-la de volta!

Davi não respondeu e Gisele continuou:

— Abra a porta. Vamos conversar. Você não sabe onde ela está, mas eu sei e posso lhe dizer. Adélia ama você e nunca o esqueceu. Trago notícias dela.

Davi abriu a porta e ficou parado diante de Gisele, que colocou a mão sobre a testa dele dizendo com carinho:

— Você está cansado, tem sofrido muito, não aguenta mais resistir. Perdoe Davi. O tempo passou, tudo mudou, ele agora deseja viver em paz.

Ele afastou-se dela e disse com voz rancorosa:

— Não posso perdoar. O que ele fez não tem perdão! Vou acabar com ele.

Naquele momento, Miriam passou por todos e se colocou diante de Davi, dizendo com voz emocionada:

— Olhe para mim, Marcelo. Sou eu, Adélia. Apesar do tempo decorrido, continuo o amando. Tenho enfrentado tudo para conseguir sua libertação. Há muito eu perdoei tudo que ele fez. Antes de ele renascer, conversamos, você prometeu esquecer e perdoar. Mas não cumpriu.

Davi rompeu em soluços e o espírito de Adélia continuou:

— Enquanto você não perdoar, não poderemos ficar juntos. Pense que, naquele tempo, ele era mais primitivo e não sabia fazer melhor. Hoje ele já aprendeu e agiria de outra forma. Todos nós melhoramos e aprendemos. Só você continua parado no tempo.

Miriam abriu os braços e disse emocionada:

— Diga que o perdoa e poderemos conduzi-lo a um lugar de recuperação onde você possa melhorar. Quando isso acontecer, poderemos ficar juntos de novo, sem os problemas daqueles tempos, e conquistar a felicidade para sempre.

Davi ajoelhou-se diante dela e disse com voz embargada:

— Adélia, você veio e está linda! Davi, eu perdoo tudo! Adélia, quero esquecer o passado e seguir com você!

Gisele aproximou-se, segurou as mãos de Davi fazendo-o se levantar, depois colocou a mão na testa dele enquanto Franco com os demais formavam uma roda em volta deles. Rosto lavado em lágrimas, ele soluçava.

A voz de Gisele estava um tanto diferente quando disse:

— Essa história começou há muito tempo, na Espanha, quando Davi era um senhor feudal muito rico. Ele conheceu Adélia e se apaixonou perdidamente. Mas ela era apaixonada por Marcelo, um jovem soldado da guarda real, e casou-se com ele. Quando Davi soube, não se conformou. Uma noite, enquanto Marcelo se ausentara a serviço do rei, Davi sequestrou-a e encerrou-a em um castelo, aonde ia todas as noites. Adélia implorou que a deixasse ir, tentou de todas as formas fugir, mas não conseguiu.

Gisele fez uma ligeira pausa, depois continuou:

— Marcelo, desesperado, sabia que fora Davi quem a raptara e a mantinha presa. Tanto fez que descobriu o castelo onde ela estava e arquitetou, com dois amigos, um plano para libertá-la.

 

"Uma noite em que Davi havia se ausentado, eles foram até o castelo. Conseguiram amarrar os dois guardas e, enquanto os amigos vigiavam, Marcelo entrou e procurou por Adélia em várias salas. Chegou a uma porta cuja chave estava pendurada do lado de fora. Ele a apanhou e abriu a porta. A cena que viu o deixou revoltado.

Adélia estava deitada, pálida, havia emagrecido muito. Em sua cintura havia uma corda grossa presa à cama, cujo tamanho lhe permitia andar pelo aposento.

Vendo-o entrar, ela tentou se levantar, mas como estava muito fraca, não conseguiu.

— Adélia! Até que enfim a encontro! Vim buscá-la! Vamos embora!

— É tarde, não vou aguentar. Temo por sua vida! Vá embora antes que ele volte!

Desesperado, Marcelo tirou a espada, cortou a corda e pegou-a no colo. Ia descer as escadas quando ouviu barulho de pessoas chegando e rapidamente passou a chave na porta. Abriu a janela e, apesar de ser alta, decidiu sair por ela. Com Adélia nas costas, desceu. Estava quase no portão de saída quando deparou com Davi, que acabava de chegar. Nesse momento, Davi desceu do cavalo e atirou-se sobre Marcelo dizendo furioso:

— Ela é minha! Você não vai levá-la. Vou acabar com você!

De um soco derrubou Marcelo, depois apanhou a arma e fez mira para atirar nele, mas Adélia, que estava do lado, notou o gesto e, em um esforço desesperado, levantou-se e cobriu o corpo de Marcelo. O tiro acertou-a em cheio e o sangue jorrou de seu peito.

Desesperado, Marcelo ainda tentou socorrê-la, mas naquele instante o escudeiro de Davi que se aproximava sacou a arma e atirou nele. O corpo de Marcelo caiu sobre o de Adélia enquanto Davi chorava desesperado."

Gisele se calou enquanto os presentes, emocionados ouviam em silêncio. Ela continuou:

— Depois da morte, Adélia e Marcelo foram auxiliados por espíritos de luz e recolhidos em uma dimensão próxima à Terra. Revoltado, Marcelo só pensava em vingança. Mas a vida e o tempo ensinam.

"Ambos tiveram de reencarnar e viver toda uma vida separados, cada um em uma experiência diversa, onde não teriam contato, a fim de que pudessem atenuar as lembranças dolorosas. Depois disso, voltaram à dimensão astral, onde receberam tratamento e começaram a melhorar. Mais equilibrados, recordaram aqueles acontecimentos e sonhavam poder ficar juntos dali para a frente. Isso só lhes seria possível quando entendessem que o mal é resultado da ignorância e que a vingança, além de inútil, só traz desequilíbrio e infelicidade. Davi, com o tempo, entendeu que o amor é um sentimento que brota espontâneo e que é inútil querer forçá-lo. Mais esclarecido, arrependeu-se do que fez e procurou esquecer o passado e buscar uma vida melhor.