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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O FALCÃO E A POMBA / Bonnie Vanak
O FALCÃO E A POMBA / Bonnie Vanak

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Serie Guerreiros do Vento

Livro I

O FALCÃO E A POMBA

 

                             Argumento:

Em 1892 a americana Elizabeth Summers, acompanha seu tio em escavações arqueológicas pelo Egito em busca de uma peça muito especial, o Almah. Embora Elizabeth trabalhe fazendo pequenas valas nas escavações, o fato de ser mulher, faz com que seu tio a deixe na catalogação das peças. Como seus antepassados, o Sheik Jabari e seus guerreiros do vento, têm a missão de velar e proteger o Almah dos infiéis, em nome de sua rainha Kiya. Quando Elizabeth descobre onde está enterrado o prezado tesouro, Jabari a rapta para evitar que os de seu clã a puna por profanar suas terras e a leva para seu harém. Mesmo que pese em todos, entre Elizabeth e Jabari surge uma intensa atração. A mancha em forma de pomba sobre o corpo da jovem, confirma a Jabari que está ante a reencarnação da rainha Kiya, que, como anunciava a profecia, retornou para entregar seu amor ao chefe dos guardiões e o fazer feliz.

 

                             A lenda

As areias de Ajenatón guardam um segredo.

Nas profundidades da escura terra da antiga cidade, se acha um disco de ouro chamado o Almha. Fora construído na décima oitava dinastia egípcia, por ordem de uma das esposas do faraó, com o propósito de venerar ao deus do Sol Atón, e se converteu em um símbolo de poder e destruição.

Quando a rainha Kiya o mostrou a seu marido, o faraó Ajenatón ficou fascinado por sua beleza. Este o utilizou para atrair o povo aos templos de Atón. Ajenatón recompensou Kiya, construindo um templo para que pudesse render culto aos deuses com privacidade, seus sacerdotes e os guerreiros do vento Khamsin.

Mas a primeira esposa de Ajenatón, Nefertiti, invejava o poder de Kiya. Convenceu o faraó, de que ele também era um deus e este utilizou o Almha para que rendesse culto a ele em lugar do deus Atón.

Furiosa pelo sacrilégio de seu marido, Kiya roubou o Almha e o enterrou na areia. Encomendou aos Khamsin a tarefa de guardá-lo num lugar oculto durante toda a eternidade, consciente de que não sobreviveria muito tempo mais, à fúria de seu marido e o ciúmes de Nefertiti.

Aquela noite, Kiya se retirou para seus aposentos com seu amante, o líder dos Khamsin, com a intenção de que seus fortes braços a estreitassem uma vez mais. Com seus suaves lábios, Kiya silenciou as palavras de Ranefer que assegurava poder proteger-la da ira de Ajenatón. Ela sentiu em seu beijo uma doce tortura, que recordou a sua própria aflição.

Nefertiti não desperdiçou a oportunidade para eliminar sua rival, e convenceu Ajenatón a executar Kiya pelo roubo. Enquanto o faraó e seus guardas se aproximavam de seus aposentos, Kiya sussurrou um apaixonado adeus ao ouvido de seu amante. Observou-o desaparecer na noite, enquanto fazia a promessa de que seu espírito o esperaria ao longo dos anos, para voltar a reunir-se com ela.

O faraó ameaçou-a, tentou engana-la, mas ela permaneceu em silêncio. Quando o brilho da espada em forma de foice abateu sobre sua cabeça, inclinou-se ante sua folha rezando para que não faltasse coragem ao amante, e entregou sua vida em troca do segredo do Almha.

Os Khamsin se vingaram de Nefertiti assassinando-a, e pulverizando suas cinzas de tal modo, que sua alma não pudesse voltar para a vida depois da morte. Eles choraram a morte de sua bem amada rainha Kiya, que apesar de saber que nem sequer o ferrão da morte, a poderia separar de seu verdadeiro amor.

A lenda diz que três sinais da pomba branca que tanto Kiya apreciava, anunciaria seu encontro com o Ranefer. O líder Khamsin a desposaria e a paz e a prosperidade voltariam a reinar na tribo.

 

 

                            1892

Os descendentes dos Khamsin guardavam Ajenatón como sempre fizeram, ao lombo de seus cavalos.

Durante gerações, ninguém se atrevera a perturbar a calma da cidade. Então chegaram os ingleses. Armados com picos afiados, pás e arrogância, e os infiéis surgiram com suas teorias.

Jabari bin Tarik Hassid, Sheik dos guerreiros do vento Khamsin, estremeceu de ira e dor ao contemplar a violação da terra sagrada. Ante semelhante profanação, uma mistura de sentimentos se revolvia em seu estômago. Com cada golpe do pico, seu coração doía, como se a ponta de aço o tivesse perfurando em lugar das areias sagradas.

Ao lombo das mais formosas éguas árabes, seus guerreiros controlavam suas agitadas montarias. As diminutas borlas prateadas que decoravam a guarnição no peito dos cavalos, repicavam levemente. Seu segundo comandante fez um gesto e apontou a escavação. Jabari fechou a luneta repentinamente e fez um gesto a seus homens para que não se impacientassem.

-Não. Ainda não. Não se apressem. Esperem um pouco mais.

Respirava lentamente, esperando com isso, acalmar suas emoções. Sua mão segurava com força o cabo de marfim de sua espada.

O Sheik desembainhou sua espada e levou a mão ao coração e logo aos lábios, num ritual Khamsin de honra, antes da batalha.

Jabari sorriu e soltou um grito sonoro e ondulante. Agora. Chegara o momento de atacar.

O fato de percorrer os cinco quilômetros que separavam a aldeia do Haggi Quandil da escavação, ao lombo de um asno, Elizabeth Summers, demonstrava seu amor à arqueologia. Esfregou seu dolorido traseiro e soltou um gemido. Aquele animal não podia ir um pouco mais rápido?

Soltou as rédeas do asno. Não serve para nada. Aquele animal era mais obstinado que o tio Nahid. E cheirava mal. E não prestava.

Seus sentidos já se acostumaram com as assustadoras paisagens, os aromas e os sons do Egito. O forte odor dos corpos sem lavar. Perfumadas especiarias, o delicioso aroma de cordeiro dourando nos assadores. As vozes em árabe, o céu assombrosamente rosa ao por do sol e um calor ardente que envolvia seu corpo como se fosse uma manta.

Embora nada se comparasse com o prazer de andar por areias que ocultavam mistérios de milhares de anos de Antigüidade. Elizabeth fixou seu olhar no deserto e se perguntou! O que a aguardaria naquela escavação? Flinders Petrie descobrira a cidade antes denominada Ajenatón e agora, renomada Amarna, como sua aldeia mais próxima. Séculos de terra encobriam a história e ela ia colaborar nos descobrimentos.

Volteando o Nilo, Amarna se achava cravada em um vale de 12 quilômetros de extensão. Cinco quilômetros ao Este, abruptos precipícios de calcária, assinalavam o princípio do deserto arábico. Montanhas banhadas pelo sol e vales estendendo-se ao longo de quilômetros além dos precipícios até o mar Vermelho.

Fazia um calor abrasador. Estava até agradável, depois do frio inverno de Boston. Muito sonolenta pelo efeito do sol, Elizabeth se deixou levar por uma fantasia. Pertencia a uma antiga família real Egípcia e voltava para render culto aos deuses com seus sacerdotes no templo. Sua negra cabeleira, Lisa e desfiada, balançava-se em seus ombros, vestidos com linho. O tom cinzento perfilava seus olhos de azeviche. Suas unhas curtas e arredondadas desprendiam um doce aroma de mirra.

A fantasia se desvaneceu e Elizabeth voltou à realidade. O telegrama de tio Nahid, dizia que a equipe de arqueólogos encontrara um pavimento de gesso de uns oito metros no palácio central de Ajenatón. Flinders protegera a superfície com uma capa de tapioca e água. Tio Nahid a convencera para que o desenhasse. Se seus esboços o impressionaram. Possivelmente poderia fazer mais. Inclusive poderia contratá-la como artista para outras escavações.

Recordando o resto do telegrama do tio, Elizabeth encolheu os ombros. As regras: “Chegue a pé à escavação. Flinders não quer animais no recinto. Quando tiver que sair da obra, não monte escarranchado. Só os homens podem escavar. As mulheres não são o suficientemente fortes. E nada de palavrões. Não faça alarde de seus conhecimentos sobre a décima oitava dinastia. Só tem vinte e dois anos e alardear não fica bem. Não mencione nenhuma de suas lamentáveis atividades feministas em Boston, e, sobretudo, se comporte como uma senhorita.”

Para começar, o que levava na viagem, já tinha violado a primeira regra. Elizabeth deu uma olhada em sua saia aberta e a imprópria posição de suas pernas. O mesmo podia se dizer da segunda. A terceira estava a caminho e estava decidida a quebrar essa regra. Que as mulheres não são o suficientemente fortes para escavar? “Posso fazer qualquer coisa que um homem faça. Demonstrarei.”

Divisou do outro lado da planície um longínquo foco de atividade na escavação, algo assim, como formigas negras rondando um pedaço de bolo. Elizabeth franziu o cenho. Formigas negras? Os trabalhadores do solo levavam brancos... Não negros... E os sons que chegavam do lugar, pareciam gritos desesperados e não o ritmo compassado de picos e tochas.

Que demônios estava se passando? Uma vez no perímetro da escavação, Elizabeth puxou as rédeas do asno até detê-lo por completo. Depois de ver o caos que se estendia a sua frente, ela ficou boquiaberta. Dúzias de homens vestidos de azul anil lançando gritos aterradores envolviam o lugar.

Com os rostos ocultos atrás de véus, aqueles homens derrubavam carrinhos de mão cheios de terra e mesas repletas de objetos. Um abajur de parafina caiu ao chão, derramando o combustível na areia avermelhada. Um guerreiro ergueu sua espada e cortou em pedacinhos um recipiente de barro que continha água, estragando litros da bebida apreciada.

Os aterrados escavadores fugiam apavorados dos temíveis guerreiros do deserto. Os Khamsin.

-Salve-se quem puder! - Gritou um deles.

Com a boca seca, Elizabeth contemplava aterrorizada a cena em busca de seu tio Nahid. Seus dedos nervosos brincavam com os cachos que escaparam de seu coque, preso na nuca com alfinetes. A terra se erguia formando pequenas espirais de areia, que entravam pelo nariz e a faziam espirrar. Seu coração acelerou quando viu no chão do palácio o delicado gesso que Flinders protegera, desaparecer em uma nuvem de pó, depois que um guerreiro o pisoteou com os cascos destruidores de seu cavalo. Um homem baixo erguia eufórico no ar, uma longa espada e imitava seu companheiro.

Aquele ato de destruição deliberado e malicioso a deixou furiosa. Como se atreviam? Estavam destruindo a história! Agora o ato de desenhar o chão se fazia inútil, pois já não ficara nada dele. Sua única oportunidade de se fazer valer perante Flinders, desaparecia sob o tamborilar dos cascos do cavalo. Aquele pensamento fez com que desse um chute no asno, para que andasse. O animal zurrou em sinal de protesto, mas começou a trotar em direção ao assaltante mais alto. Elizabeth o deteve a pouca distância do pavimento e correu para o assaltante, vermelha de raiva.

-Parem! - exclamou em árabe. - Em nome de Alá! - O que estão fazendo? Estão destruindo o pavimento! - Oh, detenha-lhes!

O homem de azul deu meia volta em seu cavalo e parou frente a ela. Provavelmente, jamais ninguém, nunca, disse a ele o que deveria que fazer. Muito menos uma mulher.

Bem, pois já era hora de que alguém o fizesse.

O véu azul ocultava tudo, exceto seus olhos negros como à noite do deserto. Elizabeth retrocedeu desconcertada. Jamais havia visto semelhante olhar, intenso e penetrante. Olhou-o nos olhos durante alguns instantes e teve a sensação de que neles refletia sua própria alma.

Então viu o pavimento destruído. Profundos sulcos danificavam seu belo desenho. Elizabeth caiu de joelhos soltando um gemido.

-Oh, olhe! Estragou-o! Tudo está destruído. - Elizabeth deixou cair o gesso esfarelado entre seus dedos.

O guerreiro que empunhava a espada se inclinou para frente e apontou a ela seu comprido e temível sabre.

-Jabari, o que faremos com esta mulher? Quer que a façamos prisioneira? Ou prefere que eu feche sua boca? - O homem parecia um pouco desconcertado, mas sua voz soava ameaçadora.

-Não, Nazim! Deixe-a em paz. - Sua voz profunda e sensual, era para Elizabeth como uma carícia. Elizabeth estremeceu pela contundência da ordem, procedente de sua voz rouca. O líder. O que se fazia responsável por aquele ato selvagem. Elizabeth perdeu o controle.

-Como pôde ser capaz de algo assim? De um ato de destruição tão absurdo e sem sentido? O que têm na cabeça? Não se dão conta de que se trata do seu passado? - O árabe saía vertiginosamente de sua boca em um fluxo contínuo de palavras.

A seguir soltou um palavrão, rompendo a quarta regra de tio Nahid. Os olhos escuros do líder se abriram desmesuradamente. Suas sobrancelhas negras arquearam-se no ar, como se suas palavras o divertissem.

-Jabari, essa mulher o chamou de burro? - Disse o que se fazia chamar Nazim, em certo tom de assombro.

-Não! Chamei-o de asno. - Disse ela em inglês.

Jabari olhou-a com uma terrível expressão no olhar. Elizabeth começou a retroceder. Uns quantos guerreiros se aproximaram cavalgando, rodeando-a como lobos famintos ao redor de sua presa. De repente, se sentia muito pequena e muito sozinha.

Então olhou o pavimento devastado. Elizabeth recolheu uns fragmentos de gesso do chão. Seus olhos se encheram de lágrimas ardentes. - Como pôde fazer algo assim? Não tem nenhum direito a invadir e destruir este achado – Sussurrou - brincando com os fragmentos do chão nas palmas de suas mãos.

-Não, minha senhora, você é que está equivocada. Temos todo o direito do mundo, posto que esta é a cidade sagrada de nossos antepassados. Os invasores são vocês! - declarou Jabari com serena solenidade.

Ela ergueu o olhar para ele com dor, frustração e uma mística sensação de sobressalto. Havia algo em seu porte orgulhoso ao lombo do cavalo. O longo cabelo de ébano que caíam por suas costas, o fazia parecer o governante daquela antiga cidade. E a equipe de arqueólogos, seus súditos. Deixando tudo bem limpo como abutres devorando carniça. Sua rígida postura recordava a um rei poderoso, capaz de destruir os inimigos só com o pronunciar de uma ordem para seus homens. Molestada por sua estranha reação, Elizabeth ficou de pé e lançou os fragmentos de gesso no Sheik. Aquele gesto levantou uma nuvem de pó branca em sua roupa azul. Elizabeth levantou o queixo e aguardou sua reação.

O líder entrecerrou seus penetrantes olhos negros e fez um gesto brusco a seus homens, que deram meia volta em seus cavalos e empreenderam a marcha. O cavalo do líder soprava e dava saltos de impaciência.

Elizabeth fraquejou em sua valentia ao ver que Jabari desembainhou sua espada. Fê-la girar no ar elegantemente e logo a apontou para ela. O afiado aço encheu o ar perto de seu rosto. Ela permaneceu imóvel sem se atrever a respirar, por medo de que o fio do sabre alcançasse seu pescoço. De repente, Jabari retirou a espada e proferiu uma ameaça.

-Tome cuidado! Não sabe do que somos capazes. Eu, Jabari bin Tarik Hassid, Sheik dos grandes guerreiros do vento Khamsin, faço-a uma advertência. Abandone nossa cidade sagrada agora, ou sofrerá as conseqüências. É uma promessa.

 

-Em nome de Alá! O que significava aquilo?

Seu homem de confiança não fez mais que confirmar seu próprio desconcerto, enquanto cavalgavam pelo leito de um rio seco, atravessando os imensos precipícios de lima, onde guardavam Ajenatón. Jabari fez um gesto de negação com a cabeça. À medida que avançavam pelo uadi, deixavam para trás as formações rochosas de um cinza claro.

-Jamais vi uma mulher com semelhante caráter! Ou estupidez! Ou paixão... Fora da cama, claro. -Disse Nazim maravilhado.

Jabari se sentia furioso e desconcertado. Uma pequena mulher e com grande fogo no coração. E aqueles olhos... Azuis, como o céu do Egito, invocadores e inquietantes. Seus olhares se fundiram de tal modo, que pareceu ver no mais recôndito do seu ser. Respirou fundo para acalmar as emoções que despertaram em seu interior. Ser líder dos Khamsin exigia uma mente alerta a todo o momento. A emoção era um luxo que não podia se permitir. As emoções turvavam sua cabeça e subtraíam à força de que necessitava para o combate.

-Montada em um asno! Demonstrou coragem! Sobre tudo se tivermos em conta que os samak fugiram como ovelhas assustadas. - Nazim começou a rir dando um tapa na coxa.

Jabari sorriu atrás de seu véu para demonstrar que estava de acordo. Nazim chamava os ingleses “samak” porque eram suaves, débeis e brancos como a barriga de um pescado. Mas aquela mulher não era um pescado.

-Chamou-me de asno! - Disse Jabari, ainda assombrado. Nenhuma mulher da tribo se atreveria sequer a elevar a voz ao Sheik e nem - Digamos - A ultrajar seu nome.

-Teria o chamado de algo pior, se soubesse melhor o árabe - Disse Nazim - Pelo menos não o chamou de burro.

-Por que acha que está aqui? - perguntou o Sheik.

Nazim encolheu os ombros sob seu binish.

-Quem sabe por que esses ocidentais fazem o que fazem. Possivelmente estejam cansados de brincar na areia e querem começar seu próprio harém.

-Pensei que havia dito que os ocidentais não sabiam como fazer amor com uma mulher. Que não conheciam os segredos dos cem beijos, nem umedeciam suas mulheres com suaves azeites perfumados e nem davam rabadas como samak fora da água. - Jabari brincou.

-«Dar rabadas» é a expressão perfeita. Suas virilidades são tão brancas como suas barrigas! - disse Nazim - Renda-se.

Jabari soltou uma gargalhada sentindo seu estômago embrulhar. Uma mulher entre os infiéis invasores.

A lei era clara. A morte espreitava em forma de velozes espadas aqueles que perturbassem a calma do lugar secreto e sagrado do Almha. E eles não teriam nenhum escrúpulo na hora de infligir este castigo com suas afiadas espadas, a todos aqueles estúpidos que ousassem tentar.

Mas uma mulher... Aquilo mudava tudo. Por completo. - Acredita que abandonarão hoje o lugar? -perguntou Nazim. - Cada vez que os vejo escavar na terra, me embrulha o estômago.

Jabari detectou esperança em seus olhos âmbar e compreendeu a angústia de seu melhor amigo.

-Não, Nazim, não partirão. São muito teimosos, esses ingleses. Seria necessário algo mais que destruição, para que partam.

-Possivelmente minha espada possa convencê-los. - Disse Nazim desembainhando sua espada. A luz do sol resplandeceu no brilhante aço, enquanto ele desenhava com ela um arco no ar.

-A menos que estejam escavando perto do Almha. No momento não vai ser necessário. Nem sequer estão perto. Não quero derramar sangue em vão. - Ordenou Jabari.

Nazim embainhou sua espada e assentiu com a cabeça.

-Sobre tudo agora, que há uma mulher implicada.

Jabari fechou os olhos e recordou a imagem da mulher inglesa, que ficou gravada na cabeça. Ela era uma miragem em meio o calor e ele se sentia irremediavelmente atraído, como um louco faminto por uma romã madura. Seu vestido de renda branco e comprido, mal conseguia ocultar suas generosas curvas. Um homem podia rodear sua diminuta cintura com as mãos e estreitá-la fortemente em seus braços. O vento tinha jogado seu chapéu de palha, e apressada, segurou seus cabelos loiros como areia dourada.

Respirou fundo e relembrou a textura de sua pele, seus lábios carnudos e exuberantes, as maçãs do rosto marcadas. A elegância.

Ao abrir os olhos, Jabari reprimiu um gemido de desejo. Aquela mulher ocidental era um oásis para os olhos, mas não era só seu corpo o que o fazia desejá-la. Era a forma na qual ela havia capturado seu coração. Sua coragem era própria de uma mulher destemida, como as antigas rainhas egípcias.

Nazim interrompeu seus pensamentos com uma sonora gargalhada.

-E, além disso, ela é uma mulher pequena. E que seios. Viu-os? Enormes!

-Vi-os - Disse Jabari laconicamente - Também vi o quanto ficou desgostosa e incrédula com a devastação da arte no palácio em que viveram Nefertite e Ajenatón, e com a destruição do solo.

- É uma ofensa para nossa gente - Disse Nazim.

-Ela é estrangeira e não sabe nada a respeito da história da nossa tribo, de nosso ódio a Nefertiti e veneração à rainha Kiya.

-Nefertiti era uma mulher sedenta de poder. - Nazim tirou o véu e inclinando-se e cuspiu no chão, indignado. - Voltou a ajustar o véu no turbante.

Desta vez foi Jabari quem se pôs a rir.

-Meu amigo, se Nefertiti estivesse viva, eu a ofereceria aos ingleses como sacrifício.

-Eu ofereceria minha espada para que pudessem terminar de acabar com ela. – Os olhos de Nazim brilhavam de júbilo. - Nefertiti era muito inferior a Kiya e jamais teria que ter sido designada como primeira esposa.

Nazim, como muitos outros membros da tribo, manifestava uma inquebrável lealdade a Kiya. Ultimamente, Jabari vinha questionando a devoção a uma rainha morta há tanto tempo. Fez o juramento sagrado de que obedeceria ao mandato de Kiya e mataria todo aquele que perturbasse a calma do Almha. Mas em dias como esse, o sentido do dever o dividia em dois: O líder de seu povo e o principal protetor do Almha.

Olhou de soslaio para seu amigo.

-Nazim, você acredita na lenda, segundo a qual Kiya voltará dentre os mortos? E que com ela chegará à paz e a prosperidade?

Nazim arqueou as sobrancelhas e pequenas rugas começaram a se formar entre seus olhos.

-Acredito no poder do amor verdadeiro. Não é nele que se fundamenta nossa tribo? Amor a um único deus? E no amor de Kiya pelo Ranefer.

Jabari deu um suspiro de impaciência.

-Acredito na influência poderosa do Almha, antes de qualquer história de amor. Os Ao-Hajid conhecem sua existência. Se o encontrarem, nossos inimigos terão o poder para governar a nossa gente, porque existe a crença de que aquele que está de posse do Almha, é tão digno de adoração como um antigo deus.

-É por isso que o vigiamos Jabari. Por que cada vez que os ingleses cavam a terra, meu sangue ferve? Não estão a par do imenso poder do disco e nem do muito que sofreram nossos antepassados o guardando! Essa terra é sagrada. – Sua voz falhou, de impotência e aborrecimento.

-Ânimo, meu amigo. Eu também odeio o que estão fazendo. Possivelmente os afugentamos. Musab está com eles se fazendo passar por escavador. Ele nos informará se nosso plano funcionou.

-Do contrário, voltaremos a atacar - Disse Nazim mais calmo.

Atacar de novo com todos os problemas que assediavam a tribo? Agora que o povo enfrentava à fome, devido às más colheitas do ano passado? O peso da responsabilidade e a liderança lhe afligiam.

-Devo me reunir com os anciões, para tratar do tema da cria de cavalos para a próxima temporada e ver de que modo podemos aumentar nossos ganhos - Disse Jabari entre dentes, enquanto soltava as rédeas. Sua bela égua branca, fruto de uma boa criação, pareceu sentir o mal-estar de seu dono. O cavalo agitou a cabeça e com ela, as bolas azuis que decoravam sua focinheira.

-Tranqüilize-se, Sahar - Disse docemente dando umas palmadinhas nela. - Logo estaremos em casa.

-Casa. Leite de camêla fresco. E comida. Estou com fome e minha mãe me prometeu cuscus para o jantar.

-O cuscus de sua mãe intoxica até o excremento de um inseto.

-Que as pulgas de mil camelos infestem seu fundilho, por ter insultado a cozinha de minha mãe. - Praguejou Nazim.

-Prefiro as pulgas de mil camelos a uma só pulga dos ingleses! - Respondeu Jabari desatando a rir de ambos.

-Exceto à mulher. Não me importaria que uma de suas pulgas infestasse meu fundilho - Disse Nazim piscando um olho a seu Sheik em sinal de camaradagem.

Jabari não sorriu. Aquela manifestação de indiferente desejo o encheu de raiva. Sua notável elegância exigia respeito e não um mero inventário das partes de seu corpo, por mais sugestivas que fossem. Fez um gesto de negação com a cabeça, confuso pelo redemoinho de emoções que estava em seu interior. Por que se deixara cativar daquela maneira por uma mulher estrangeira, quando existiam tantas mulheres bonitas em sua própria gente?

Ela possuía uma coragem imprudente e agia com inteligência e segura de si mesma. - Jabari pensou nisso. - A diferença das de sua tribo, era que uma mulher assim jamais seria totalmente dócil. Seria autoritária e independente, inclusive desafiante.

E perigosa. Jabari perdeu sua mãe, quando esta reclamou sua independência. Para não ter que enfrentar outro desgosto em seu coração, o melhor para ele, seria uma mulher totalmente obediente, que deixasse ser protegida.

Ficou olhando os muros de rocha pensando no tipo de mulher de fogo que devia ser aquela beleza loira. Estremeceria de prazer se acariciasse os seus braços e percorresse seu pescoço com seus beijos? Ou lutaria como um cavalo selvagem que precisa ser domesticado? Ante aquela idéia, Jabari se alongou em sua montaria.

Quando estudava no Cairo, ouvira rumores de que na cama, as mulheres ocidentais que viviam na cidade eram tão feras, como guerreiros. Só os homens mais fortes as podiam controlar. Aquilo o deixou muito intrigado.

Começou a se mover intranqüilo na cadeira. Algo se agitou dentro de suas calças debaixo de seu binish azul, que de repente, pareciam estar muito apertados. Soltou um gemido angustiado. Quanto tempo fazia que não se permitia o prazer de estreitar uma mulher em seus braços?

Uma tosse vacilante chamou sua atenção. Nazim o olhava pensativo.

-Você está bem? Preocupado com algo?

-Estou bem - Respondeu bruscamente. - Estamos cavalgando muito lento. Vamos, devemos nos apressar.

Jabari se alegrou de que seu amigo não pudesse ler seus pensamentos. Sonhando em fazer amor com uma ocidental. Semelhantes fantasias não eram próprias de um chefe Khamsin.

À medida que se aproximavam galopando no alto do deserto, surpreendeu-se pensando nela. Estava claro que compartilhava com a inglesa o mesmo desejo de saber o que havia por debaixo da areia. De outro modo, ela não estaria ali.

Como seria na cama, semelhante espírito apaixonado?

-Elizabeth, rezei a Alá para que aparecesse sã e salva. E para que aqueles selvagens não lhe fizessem mal. E numa rara demonstração de afeto, Nahid Wilson a abraçou. Nascera no Egito onde voltara a viver, depois de receber um diploma de ciência na Universidade de Oxford. Nahid se dedicava ao estudo do Antigo Egito e trabalhava com arqueólogos, como Flinders Petrie. Eram poucas às vezes em que viajava a Boston, à exceção de uma visita recente em que foi internar sua mãe em uma instituição para tuberculosos.

Depois de soltar Elizabeth, ele alisou a barba. Nahid percorreu com olhos cansados para as ruínas do acampamento devastado apontou para os ruídos que vinham do solo.

- Ao menos Flinders fez um esboço do pavimento antes que o destroçassem! Já viu o que nós enfrentamos aqui! Deve ter muito cuidado Elizabeth, esta não é uma escavação normal e constante. Assim, Flinders não pôde esperar seus dotes artísticos.

Elizabeth decidiu deixar de lado sua decepção e se preocupar mais pelo futuro da escavação, que por seu minuto de glória.

-Tio Nahid, o que vai fazer o senhor Petrie? Não acredito que vá abandonar a escavação. Sobre tudo agora.

-Não tivemos tempo para reagir. Apareceram como que caindo do céu... Nem sequer deu tempo de pegar minha pistola. Recentemente, conheci... Um Sheik de uma tribo não muito longe daqui. Os Ao-Hajid são os piores inimigos dos Khamsin. Se contratarmos alguns para que vigiem o lugar, estaremos protegidos. Esses selvagens pensarão duas vezes antes de atacar de novo se os Ao-Hajid vigiarem a escavação! Direi ao Flinders quando chegar.

Elizabeth brincava com um cacho de seus cabelos. Em fim, conheceria o grande homem. Aquilo a intranqüilizava mais do que ter que se enfrentar com um guerreiro do deserto. Flinders ganhou a fama de ser uma pessoa austera e excêntrica, um maníaco dos detalhes. Qualquer peça devia ser catalogada, inclusive os escombros. A excentricidade vinha de seu raro comportamento. Na Giza, dez anos atrás, ele levou somente uma calça e uma camiseta rosa. Vestido assim, entrara na pirâmide.

-O senhor Petrie levou alguma... Patente? - sussurrou. Suas espessas sobrancelhas arquearam-se.

-Elizabeth!

-Mas... Você me disse que ele media o interior das pirâmides da Giza totalmente... Nu!

-Fazia calor e estava sozinho, Elizabeth. E cuide de seu vocabulário. Aí vem ele.

Para seu alívio, o distinto arqueólogo vestia a mesma roupa que seu tio. Camiseta branca com as mangas arregaçadas, calça cáqui e sapatos resistentes. A expressão de seu rosto barbudo, era inquietante e seus olhos sobressaíam de um jeito muito curioso. Percorreu o lugar com o olhar até se deter nela. Inclusive, depois que seu tio fez as apresentações pertinentes, sua expressão permaneceu inalterável.

De repente, seu olhar se deteve no asno, que andava solto mastigando os restos da comida de um escavador. Pão branco e queijo. Aqueles olhos enormes e inquietantes se destacaram ainda mais.

-É meu - Disse Elizabeth encolhendo os ombros. - Sei que disse que não queria animais na escavação, mas, estava tão entusiasmada que me neguei a andar. Não podia esperar pra chegar e ver...

-Isso? - Flinders esboçou um azedo sorriso e apontou uma mesa derrubada. - Havia muito que ver por aqui, antes deste desastre. Por sorte, imortalizei o pavimento em um papel.

-Os Khamsin não voltarão a atacar, Flinders - Assegurou Nahid. Enquanto pronunciava a frase, o arqueólogo fazia um gesto de negação com a cabeça.

-Um plano excelente Nahid. Ouvi dizer que os Khamsin são os guerreiros do vento. Ocultam seus rostos com um véu e depois atacam seus inimigos com a mesma velocidade de uma tormenta de vento, que lhes dá o nome. Por que razões estarão interessados neste lugar? Não tenho a mínima idéia.

-São uns covardes sanguinários. - Balbuciou Nahid.

-Mas tio! Não feriram ninguém. Se fossem sanguinários, por que perdoariam tantas vidas? -Elizabeth se lembrou do modo com que à espada do Sheik acariciara seu pescoço e em como estremecera.

-Eles farão! - Disse em tom alarmante! - O Sheik está esperando para atacar, e voltará. O pressinto.

-Se chama Jabari. - Disse Elizabeth pensando em voz alta - Ele me advertiu! - Falou que se não partíssemos, sofreríamos as conseqüências.

Nahid, alterado, calculava as enumeras conseqüências que os Ao-Hajid infligiram a Jabari. Jabari... Antigo nome egípcio, que significa «valente». Ela intuía que aquele Sheik era digno de seu nome.

Por que o defendia? Aquele homem destruíra tudo o que ela venerava e em seguida, a ameaçara. Atenção! Elizabeth franziu o cenho. Seria ela uma dessas mulheres românticas e ingênuas, que se sentiam atraídas por homens envoltos em uma aura de periculosidade?

Apareceu um escavador com um fragmento de cerâmica que poderia ser recuperado do desastre, fez com que Elizabeth esquecesse o Sheik. Uma fina peça de cerâmica de uma suave tonalidade rósea, cujas bordas decorativas refletiam o estilo da cerâmica arcaica grega.

-De Chipre, provavelmente! - Prova de que o Egito comercializava com outras culturas da Idade do Bronze. - Murmurou Elizabeth. Ergueu os olhos e encontrou o rosto dos dois homens. Flinders parecia intrigado. Tio Nahid... Furioso.

-Elizabeth, vem comigo - Quero falar com você.

Ela devolveu a relíquia e seguiu tio Nahid para uma das mesas que tinha sobrevivido à catástrofe. Rodeando duas caixas que utilizavam como cadeiras, indicou a Elizabeth que se sentasse em uma.

Tio Nahid franziu o cenho com fraternal desaprovação. - Elizabeth, estou muito decepcionado com você. Não a trouxe aqui, para que se gabe de seus conhecimentos. Tem que passar despercebida.

-A única coisa que eu quero, é tomar parte na escavação. – Disse, enquanto brincava com um caderno de esboços e uma pluma que estavam em cima da mesa. - Então para que estudei tanto? Além disso, quando começarmos a escavar...

Elizabeth se calou, antes que Nahid pudesse aproximar o dedo em seus lábios implorando silencio. Percorreu a jazida com o olhar. Elizabeth estudou seu rosto de expressão cândida e serena. Seus olhos escuros e cansados eram hábeis para ocultar segredos do resto da equipe de arqueólogos.

-Podemos dar graças a Alá, que os cães dos Khamsin não destruíram o palácio totalmente. E de que tampouco, agiram feito loucos, com o templo - Disse Nahid trocando de tema com magistral desenvoltura.

Elizabeth segurou a pluma, e a molhou em um tinteiro que sobrevivera à catástrofe. Começou a delinear o rosto de um faraó de cabeça ampla, lábios carnudos e olhos rasgados.

-O templo é um achado extraordinário. Podemos saber tantas coisas de sua cultura, pela forma em que construíam seus templos. Rendia culto a Atón, o deus do sol. Seus templos eram edifícios abertos ao firmamento.

-Ajenatón não foi um imperador constante. Venerava unicamente a Atón e é por isso que abandonou Tebas e se mudou para cá - Recordou Nahid. - Seus inimigos destruíram os templos de Atón e a todos da cidade depois de sua morte. Inclusive, apagaram seu nome dos documentos escritos da época. O consideravam um incrédulo.

-Incrédulo ou não, construiu uma cidade extraordinária. Imagina como devia ser na antigüidade. Nobres que viviam em casas com colunas, com cadeiras gravadas em ouro, grossos tapetes e almofadas. Sacerdotes rendendo culto a Atón em templos ao ar livre. E o mesmo Ajenatón em seu carro de guerra. - Disse Elizabeth em tom sonhador.

-Imagina a quantidade de ouro - Respondeu Nahid.

A pluma de Elizabeth se deteve e ela ergueu o olhar. Ao perceber o olhar ambicioso nos olhos de seu tio, conteve um calafrio.

-Aqui posso adquirir experiência. Poderia conseguir emprego como artista em outra expedição –falou ela - Olhando esperançosa para Nahid.

-Não conte com isso. - Sua voz continha uma ausência de compaixão. - Este é um trabalho de homens. E você é algo assim, como uma anormal.

Ela abaixou a cabeça sem poder evitar que seu lábio inferior tremesse. Sua educação acadêmica no Vassar, seu trabalho, sua luta para demonstrar sua igualdade aos estudantes masculinos. Agora, Nahid destruía suas esperanças, como se esmagasse alguns insetos. Esforçou-se para não alterar a voz.

-Cresci em escavações de todo o mundo com papai. Conheço a história egípcia bem melhor que a metade dos homens aqui. Meu árabe é melhor que o da maioria e meus desenhos excelentes. Por que não posso fazer o que mais quero?

Seu tio suspirou.

-Elizabeth, o fato de seu pai ter sido um arqueólogo, não garante a você um lugar como artista na jazida. No melhor dos casos, as condições são duras e há poucas mulheres capazes de resistir. -Nahid deu uns palmadinhas paternais em sua mão. - Seus estudos só servirão para ser bibliotecária. Esse é um trabalho adequado para uma mulher.

Bibliotecária. Toda uma vida destinada a colocar volumes poeirentos em estantes, em vez da excitação de tirar à luz, à história antiga. Elizabeth sentiu que todos seus sonhos e esperanças se desvaneciam, se convertendo em um pó tão fino, como as areias do Egito.

Nahid olhou a sua volta e baixou o tom de voz.

-Sua oportunidade chegará mais adiante. Quando encontrarmos o que viemos procurar.

Elizabeth assentiu com resignação ao mesmo tempo em que repreendia a si mesma. Devia desistir de seus sonhos e cumprir a verdadeira missão que os ocupava.

-Se o documento que encontrei é correto, Amarna é o lugar... - Disse ela.

-Shhhh - Interrompeu Nahid. Levou o dedo aos lábios.

Elizabeth se aproximou e sussurrou. - Espero que encontremos a cura para a vovó.

À diferença das outras escavações, Amarna, estava situada na metade do caminho entre a antiga capital de Tebas e sua moderna capital. No Cairo não havia tesouros de ouro, nem pedras preciosas. Pelo menos, era isso o que todos acreditavam.

Todos! Exceto Elizabeth e Nahid.

Preferia ir para o inferno, a contar que Elizabeth encontrou um fragmento de papiro escondido em um compartimento secreto na preciosa arca de mogno da avó. Um papiro muito interessante que dizia que o Almha, um disco dourado tão brilhante como o sol, achava-se enterrado em uma antiga cidade chamada Ajenatón.

Aquilo era, afinal, uma questão familiar.

 

Elizabeth empreendeu o caminho em volta do Nilo naquela mesma tarde, ansiosa por escapar de seus pensamentos atormentadores.

“Deixe de lado suas preocupações egoístas e se concentre em sua avó. Na cidade de Nova Iorque, os médicos internaram sua avó em uma instituição para tuberculosos. Nahid, irmão de sua mãe, seu único parente. Por esse fato, conseguira convencer Flinders para que Elizabeth tomasse parte na escavação. Sentiu um nó na garganta. Chorar não serviria de nada. Encontrar o Almha, sim! O papiro assegurava, que no disco se achavam gravados antigos remédios para enfermidades respiratórias.

O papiro que encontrara na arca de sua avó enquanto limpava o sótão, estava amarelado pelo passar do tempo, mas estava bem conservado. Sua avó o mantinha guardado, embrulhado em um precioso kaftan, adornado com bordados de ouro que parecia uma jóia de bodas. Elizabeth também encontrou uma algema de pele.

Ao perguntar a sua avó por aqueles objetos, a anciã se desgostou tanto, que Elizabeth jurou não voltar a mencioná-los jamais. Supôs que seu desgosto teria a ver com a tribo beduína egípcia, que a avó abandonara muitos anos atrás. Cada vez que Elizabeth perguntava por seu passado, sua avó se negava a falar.

Os objetos achados na arca demonstravam que sua avó não renunciara de todo suas lembranças beduína. Achava irônico que o Almha, oculto nas areias que sua avó abandonou, guardasse o remédio para sua enfermidade.

Uma gota de suor como se fosse uma lágrima, caiu de sua testa para o pescoço. Na beira do rio, na refrescante sombra das palmeiras, Elizabeth se sentiu melhor. Uma balsa marroquina chamou sua atenção. Aquela antiga balsa percorria serenamente as águas em seu trajeto a um lugar longínquo. O bater tranqüilo das águas na beira do rio a acalmava.

O rio exalava um perfume de terra úmida, que fez com que Elizabeth se deixasse levar pelo romantismo e molhasse os olhos com sua água. O imponente Nilo guardava mistérios em suas profundidades, que sussurravam a Elizabeth uma historia sobre rainhas e poderosos faraós, que se banharam em seu abraço aveludado. O suave vento acariciava as palmeiras. As folhas sussurravam como se tivessem decidido ficar de acordo com as águas na revelação de antigos segredos.

“Tudo o que precisa agora, é que um belo estrangeiro montado em um cavalo branco a leve a sua barraca.”-Disse a si mesma! Renda-se. Então se calou. Elizabeth não tinha a menor idéia do que acontecia entre homens e mulheres por trás das portas dos dormitórios... Ou na intimidade das barracas no deserto.

Ela pensou em Jabari, e supunha em como ele seria. Era óbvio, que era o bandido do deserto que havia conhecido antes, por sua confiança e forma de controlar o cavalo. Só em pensar em suas costas largas e seus olhos penetrantes, estremeceu. Sentiu uma estranha comichão que nunca experimentara antes, percorrer seu estômago.

Imaginou que galopava para ela, sentava-a em seu cavalo e percorriam o vasto deserto juntos. A seguir, agitou a cabeça para livrar-se da imagem e franziu o cenho.

-Ridículo! O amor é para as moças que só vivem a espera de um príncipe encantado. - Eu não serei o braço de nenhum homem – Grunhiu - Como se suas palavras pudessem romper a magia e o encanto do Nilo.

Elizabeth suspirou e voltou à cabeça, ficando cara a cara com Nahid.

-Ah! Estava aí? Hora de voltar ao trabalho.

Ela fez uma careta. A escavação e o trabalho a esperavam. Flinders a ignorara, depois de um instante e fugaz interesse. Nahid a encarregou do trabalho de catalogar os achados por sua “maestria com a pluma”.

-Estou impaciente por anotar o que os homens encontrarem.

-Sabe o quão importante é nosso trabalho - Disse Nahid em voz baixa - Se descobrir algo que possa nos informar a respeito da localização de um templo pequeno, preciso que me fale. Uma vez o tenhamos encontrado, começaremos nossa escavação secreta.

-O papiro dizia que o Almha teria sido enterrado pela Kiya em um antigo lugar de grandes celebrações. Menciona que Ajenatón ofereceu a Kiya o Marco Atón, como templo privado para render culto a Atón, mas, por que razão o enterraria ali?

-E por que razão não o enterraria ali? - Respondeu ele.

-Acredito que deve ser em outro lugar bem mais sagrado para ela, um lugar que o faraó jamais suspeitaria. Ele necessitava daquele disco e o mais provável, é que o procurasse em toda parte. «Privado do Almha, o símbolo do poder de Atón, o grande faraó perdeu influência. Há dados, que falam que os templos jaziam em vão, porque o povo deixou de render culto a Atón ou a Ajenatón» - Disse Elizabeth citando o papiro.

Nahid, protegendo os olhos, olhou para o céu.

-Encontraremos. O melhor momento para cavar é à luz da lua. Mas não podemos dizer a ninguém que estamos escavando a procura de um tesouro perdido, não é? Muito romântico para se dizer com palavras.

Elizabeth recordou a fantasia que teve antes e franziu o cenho.

-Romântico? - Não para mim. Antes preferiria dançar a dança do ventre nua em um rio repleto de crocodilos famintos.

O tesouro e o amor não importavam. A única coisa que queria, era encontrar o tratamento para salvar a vida da sua avó.

Mas não conseguia livrar-se da fantasia de que o misterioso Jabari a raptava. Afastava-a da responsabilidade, do dever, dos desgostos e das esperanças perdidas e a levava a um lugar no qual era livre para fazer o que quisesse e satisfazer todos seus desejos.

Seu sonho era uma estúpida fantasia de conto de fadas. Elizabeth não estava mais disposta a se permitir em gastar seu tempo pensando nisso. Além disso, com ela, algo assim não aconteceria jamais.

Um dia de caça excelente. Seu prezado falcão peregrino derrubou duas lebres, agora penduradas em seu cinturão. As botas de Jabari levantavam pequenas nuvens de pó na areia de pedras em seus passos pela larga fileira de barracas negras. As mulheres o saudavam com a cabeça em sinal de respeito. Os guerreiros o recebiam com gritos, mas ele apenas percebia. Pelo general, a caça esclarecia a mente, mas naquele dia não. Continuava encantado pela mulher da escavação. Perseguia seus pensamentos.

Junto à sua barraca, uma alta acácia proporcionava abundante sombra. Jabari colocou a ave em um cabide sob seus ramos. Com uma mão acariciava distraidamente o Guaxe. Aquela mulher cheia de orgulho recordava seu falcão. Ambos são espíritos independentes. O Guaxe agora era dócil, mas levara várias semanas para domesticá-lo. A ave lutara contra ele ferozmente. Suspeitava que se capturasse a mulher ocidental, reagiria do mesmo modo.

-Jabari! - Quero que falar com você!

Este pendurou a luva de couro em seu prego e olhou para Nazim de pé em atitude protetora diante de uma mulher. Ela vestia um abada negro e enquanto se inclinava perante ele, apertava a três meninos contra seu peito. A mulher abaixou a cabeça negando-se a erguer o olhar.

-Esta mulher quer perguntar algo. - Nazim olhou o menino menor e apertou a mandíbula, oculta sob a barba.

Jabari também olhou o menino e sentiu que sua boca se enchia de areia seca ao ver aquela imagem. Uns enormes olhos marrons cheios de lágrimas, se destacavam em seu rosto magro. Sua boca suja chupava seu também, imundo polegar. Jabari ficou de joelhos e tirou a manta do pequeno. Pesava como um papel. O menino ficou impassível. Acariciou as mechas do grosso cabelo negro. Seu pequenino ventre se sobressaía entre a roupa.

Mal nutrido! Havia visto os sintomas anos atrás no Cairo. Jabari ergueu o olhar e viu as fundas maçãs do rosto da mãe, o vazio do desespero em seus olhos. Finalmente levantou a cabeça.

-Senhor, venho do Haggy Quandil. Meu marido morreu e sua família me abandonou, porque não havia comida suficiente - Baixou o tom de voz - Os homens me pagavam para... Lhes agradar. Mas o ancião do povo descobriu e ameaçou me apedrejar. Ouvi falar de sua generosidade. Se quiser, compartilharei seu leito. Eu imploro! Farei qualquer coisa para salvar meus filhos.

O coração de Jabari se retorceu de dor. Tentou encontrar as palavras. Silenciosamente, tirou as lebres do cinturão e as deu à mulher. Olhou para Nazim.

-Nazim, arrume um alojamento e deixe que uma de minhas primas se ocupe deles. Eu mesmo os proporcionarei comida de meu rebanho de ovelhas e cabras e de tudo o que seja necessário. Voltou-se para a mulher e sorriu ternamente.

-Jamais terá que se submeter ao desejo de um homem para alimentar seus filhos. Acolho-te em nosso clã como uma irmã e ficará sob meu amparo. Nazim falará ao ancião da tribo. Se alguém se atrever a te tocar, terá que prestar contas a mim.

A mulher apertou as duas lebres em seu peito como se fosse o ouro dos faraós.

-Obrigado. Que Alá o abençõe senhor. - Sussurrou ela.

Enquanto observava como Nazim a levava, Jabari esfregou o queixo. A fome já começou. Primeiro, no povoado. Logo se estenderia à tribo. De repente, passou ao seu lado um grupo de meninos gritando e perseguindo um dos cães que guardava os rebanhos. Jabari os observou e seu   estômago encolheu de preocupação. Quanto tempo mais teria, para acontecer com eles também a terem aquele aspecto desesperador?

Apesar de estar sem apetite, sentou em um tapete vermelho tecido a mão diante de suas parentas, que começavam a preparar a comida. Asriyah, sua tia e suas quatro filhas, cortavam vegetais e os jogavam em uma grande panela de cobre com água fervendo em cima do fogo crepitante.

Seus movimentos ritmados acalmavam sua mente preocupada. Com vestidos azuis de mangas longas e lenços na cabeça para se protegerem do sol, moviam-se com semelhante graça, que todo gesto era uma dança. O sol poente se refletia em seus pendentes de prata que produziam um tinido com seus movimentos. As mulheres de sua tribo possuíam uma flexibilidade fluídica, semelhante a da água do rio. Apesar disso não se igualavam em elegância com a estrangeira. A contemplação de sua beleza, tinha reanimado seu espírito cansado. Jabari fechou os olhos para recordá-la.

-Vi o que acaba de fazer. Agiu muito bem querido sobrinho. Embora não temos carne para comer. A não ser que queira sacrificar uma ovelha. - Disse-lhe sua tia.

Ele abriu um olho e a encarou.

-Nos convém renunciar à carne! Comeremos o mínimo possível - Disse ele, sentindo uma necessidade instintiva de começar a racionar a comida.

Asriyah sentou no chão com um ágil movimento.

-Sempre poderíamos pedir um pouco de comida à mãe de Nazim, embora hoje esteja cozinhando cuscus e não saiu muito bom.

Jabari jogou a cabeça para trás e gargalhou. Recuperando o bom humor, esticou as pernas prazerosamente.

-Por que não se reúne com o resto dos homens enquanto preparamos a comida? Estou certa de que os Majli querem falar contigo.

-Falarei com os anciões mais tarde. - Disse com um gesto de desdém.

-Se é que estão no povoado... -Asriyah inspecionou o lugar com o olhar. Pequenas fogueiras resplandeciam onde as demais famílias preparavam a comida, frente às barracas negras de pêlo de cabra. Alguns anciões estavam sentados em círculo sob uma palmeira conversando.

Parecia que nenhum homem poderia os escutar. Seus olhos marrons envelhecidos perderam o brilho habitual e se tornaram sérios.

-Jabari! – Desculpe-me por mudar de assunto, mas as mulheres do harém querem aprender a ler. Principalmente Badra.

A paz que acabava de experimentar desapareceu. Jabari enrugou a testa e olhou sua tia nos olhos.

-Não. A palavra saiu direta e firme, tal como ele queria.

-Mas Badra quer aprender. - Farah não se importa. - Farah disse que se você casar com ela, o fato de que saiba ler pode ser útil. - Prosseguiu Asriyah em um tom de voz respeitoso.

-Jamais me casarei com uma de minhas concubinas. - A lei Khamsin estabelece que um guerreiro deva ter uma só mulher e que esta, deve ser pura. - Farah e Badra não eram virgens quando as resgatei. - Declarou Jabari - Preocupado pelo fato de que Farah continuasse acreditando na idéia de que fossem se casar.

Pensou nas mulheres que estavam sob seu amparo, que moravam vigiadas, na aldeia de Amarna. Belas e exóticas, dóceis e jamais se atrevendo a lhe pedir nada, para isso, utilizavam sua tia. A mulher ocidental não devia ser tão tímida. Supôs também, que ela recebera uma educação.

-Se a mulher que ajudou tivesse recebido algum rendimento, possivelmente seu filho não estaria tão doente. Poderia encontrar um emprego e se cuidar por si só. - Disse Asriyah brandamente.

Com razão. Por que se aferrava aos antigos costumes, quando se orgulhava de ser um homem de visão? Jabari valorizava sua educação, o que lhe proporcionou valiosas ferramentas para ajudar sua gente. Seu coração estava dividido entre as antigas tradições e os problemas do presente. Então se lembrou e olhou para sua tia.

- Não se lembra do que aconteceu a minha mãe? Se não tivesse aprendido a ler, ainda estaria aqui conosco. - A ira foi crescendo dentro dele. A dor voltou a surgir e Jabari fechou a mão até convertê-la em um punho. Os baixou bruscamente e a olhou nos olhos.

Asriyah deixou escapar um suspiro do mais profundo de seu ser.

-Não! Jamais esquecerei! Entendo a prudência de sua postura. - Ela inclinou a cabeça em sinal de respeito a suas palavras.

Preocupado pelo semblante aflito de sua tia, Jabari apertou sua mão. A queria muito.

-Confie em mim tia. É o melhor. Não podemos esperar nada de bom de mulheres que recebem uma educação. O conselho está de acordo comigo neste assunto.

Os olhos do Asriyah irradiaram esperança.

-O conselho o respeita. Valerá a sua palavra. Se trocar de opinião, eles também o farão.

-À exceção de um. E aí vem ele. Mais problemas, sem lugar a dúvidas.

Ela o olhou preocupada. – Jabari. - É tão honrado como seu pai. – Que descanse em paz. - É um destemido guerreiro e um dos líderes mais poderosos, que nossa tribo já teve. Mas só tem vinte e seis anos, e leva suas cargas com muita responsabilidade. Preocupa-me.

Ele sorriu, com intenção de tranqüilizá-la.

-Não se preocupe. Caminho com o espírito de nossos antepassados e eles me dão força e poder.

Asriyah ia abrir a boca para responder, quando uma sombra se abateu sobre eles. Jabari ergueu os olhos e encontrou com seu avô, de pé em frente a ele.

-Querido neto, deve se reunir com os Majli, para tratar um assunto de grande importância. Musab voltou. -O ancião, distinto e orgulhoso como um leão, se dirigia a ele, com palavras reverentes, como correspondia a um Sheik, mas seu tom não admitia discussão.

Jabari assentiu com a cabeça e se levantou. Despediu de sua tia e se dirigiu com seu avô para o lugar onde estavam os homens, que o esperavam de pé. O círculo havia crescido e enquanto se sentava, observou consternados os que estavam sentados. Nazim e seus comandantes. Aquela reunião informal se converteria em algo, que pressentia ser nada boa. Seu olhar se deteve em um homem que dois guerreiros apressados trouxeram. Jabari o identificou como um dos membros da tribo que se ocupava dos rebanhos.

-Este... Cão foi descoberto cavando no lugar do Almha sagrado - disse Nkosi, com os olhos escuros brilhantes de raiva. - Na tribo, todos nós conhecemos o castigo.

Um dos seus? Jabari ergueu a mão.

-Esperem. - Quero saber por que razão arriscaria sua vida. - Por que o fez?

-Eu não fiz nada - disse com uma voz queixosa - Seus homens estão equivocados. Eu só queria pô-lo a salvo dos ingleses.

Ele mentia. - Jabari soube pela forte pulsação em seu pescoço e o fato de que evitava seu olhar. -por que o protegia? Agora que os ingleses estão aqui, podemos tirar partido. Proporei ao conselho que absolva o juramento sagrado. É muito valioso para deixá-lo na areia.

Os olhos brilhantes e redondos do homem brilharam de avareza.

-Os ingleses pagarão muito por ele, eu sei, é ouro! - E mereço uma parte.

Jabari sentiu asco. Seu estômago embrulhou. Se voltou para os anciões. - Deveríamos renunciar ao nosso juramento sagrado e vender o disco?

Os Majli franziram o cenho e disseram em uníssono: - Não.

Nkosi lançou um olhar ao prisioneiro.

-Como chefe dos anciões, sou o encarregado de velar pela antiga lei que protege o Almha. Eu dito o destino daqueles que são o suficientemente idiotas para desenterrá-lo. - Voltou-se para os guerreiros que seguravam o homem – Matem. - Disse laconicamente.

Os guardas procuraram à confirmação de Jabari. O Sheik assentiu solenemente.

Enquanto o levavam, o homem deu um gemido. Jabari o observou, enquanto a repulsa invadia seu íntimo. Os ingleses haviam trazido algo mais que ferramentas com eles. Haviam trazido a cobiça, contagiando sua gente.

Quando Nkosi propôs que se retirassem à barraca cerimoniosa para celebrar uma reunião formal, o alarme de Jabari se intensificou. Dirigiram-se à pequena barraca negra e fecharam a portinhola para assegurar sua privacidade.

-Assalaamu Alaikum - Disse ele.

Enquanto os anciões lhe devolviam as saudações tradicionais de paz, Jabari se sentou no tapete. Analisou o estado de animo dos Majli. Cada ancião representava um dos doze clãs Khamsin. Apesar de que ele governava aos Khamsin, os anciões tinham grande poder de decisão. Coletivamente, podiam o excluir de seu poder e designar outro Sheik se julgassem ser o melhor para a tribo. Individualmente, se um Majli estava em desacordo, podia renunciar a seu cargo, provocando um rompimento entre os clãs e a solidariedade da tribo. A missão de Jabari, era manter a unidade e governar o seu povo.

É por isso que seu avô renunciou a ser Sheik muitos anos atrás. Nkosi esteve a ponto de dividir os clãs, depois de revelar um segredo a uma das tribos. Por isso, cedeu o poder ao pai de Jabari, assegurando-se deste modo, que o clã Hassid mantivesse a liderança. Apesar disso, os clãs o respeitavam tanto, que o escolheram como chefe dos anciões.

Os rostos dos anciões de barbas cinza, pareciam transtornados. Deu-se conta disso, quando um de seus melhores espiões sentou-se em frente a ele. As cerradas sobrancelhas do Musab arquearam-se. Todos estavam com os músculos do rosto rígidos.

-Senhor, trago más notícias. - O assalto não funcionou. - Muito ao contrário, os infiéis responderam e trouxeram guerreiros Ao-Hajid à escavação.

Ouviu-se uma forte sucessão de suspiros, como se aquele fosse o último suspiro do honrado conselho. Semelhante pensamento divertiria Jabari, se ele mesmo não estivesse tão contrariado.

-E como pôde acontecer? Os Ao-Hajid não se arriscaram a pisar neste lado do deserto, desde seu assalto a nosso acampamento o ano passado - Exclamou Nkosi- Derramamos sangue suficiente para os assustar pelo resto da vida.

-Pelo menos era nisso que acreditavam - Disse Nazim entre dentes.

-Temos sérios problemas com os selvagens ghazus, que organizam ataques contra as caravanas no sul - Acrescentou Izzah!- um de seus comandantes.

Jabari ergueu a mão.

-Todos vocês! Calem-se. - Preciso que Musab me conte exatamente o que aconteceu. - Continue! - Por que os ingleses estão escavando em nossa cidade sagrada?

Os olhos escuros de Musab revelaram um honesto desconcerto.

-Senhor, lamento ter que dizer que não sei. - Meu inglês não é suficientemente bom, para poder entender – Falhei - O guerreiro abaixou a cabeça e deixou cair os ombros em sinal de vergonha.

Jabari sentiu-se culpado. – Enviara seu melhor espião, porque entendia um pouco de inglês, a fazer o trabalho modesto de um serviçal. Musab estava treinado para informar sobre os movimentos dos acampamentos inimigos, descobrir seus pontos fracos e assaltar os grupos. Jabari o encarregara de uma missão que estava destinada ao fracasso. Não só seu inglês não era o suficientemente bom, mas também se viu obrigado a desempenhar uma tarefa que desprezavam tão profundamente. Perturbar a cidade sagrada de seus antepassados.

Jabari pôs a mão no ombro de Musab e lhe disse com firmeza. - Levante o ânimo, Musab. - Você não falhou. - Não preciso que seja o eco das palavras dos ingleses, a não ser os meus olhos - São os melhores olhos que tenho. É meu falcão do deserto que tudo vê.

O antigo guerreiro se endireitou orgulhoso.

-Há pelo menos dez guerreiros Ao-Hajid armados com rifles. Protegem os escavadores dia e noite.

Eram más notícias, porque aquilo fazia com que os assaltos noturnos se tornassem muito perigosos. Olhou para Nazim. – Rifles!! Homens de honra lutam com espadas.

-Os homens de hoje lutam com rifles - Respondeu Nazim - Nos falta munição para um ataque! Devemos comprar mais.

Jabari pensou nos problemas econômicos que perseguiam a tribo e franziu o cenho.

-Eu não gosto da idéia, mas estou de acordo. Utilizaremos os recursos da última venda das éguas. Espero poder substituí-los.

Não quis compartilhar em voz alta seu temor de que aquilo não ia ser possível. O Sheik Ao-Hajid Fareeq bin Hamid Taleq, estava assaltando caravanas e pondo barricadas nas rotas de comércio do sul que chegavam até o mar Vermelho. Jabari suspeitava que o terrorismo de Hajid possuía outro propósito. Bloquear o acesso ao acampamento do sul, dos Khamsin, onde vendiam suas éguas árabes puros sangue. Se aquela campanha continuasse, perderiam valiosos clientes. O negócio da cria de cavalos era seu meio econômico de sobrevivência.

-Enquanto isso, não vou por em perigo a nenhum de meus homens, em batalhas que não possamos ganhar. Primeiro investigaremos qual é o plano dos infiéis. Se não escavarem perto do Almha, nosso segredo estará a salvo. Ficou olhando seu avô, envelhecido pelo tempo, como uma rocha desgastada.

-Nossa principal missão é proteger o Almha.

-Devemos cumprir o juramento de sangue. Houve um tempo em que essa missão era estritamente incumbência de seu altivo pai, antes que aquela mulher diabólica, com a qual se casou, acabasse com ele e o desonrasse. - Nkosi fez o sinal contra o mal olhado.

A dor familiar e a angústia voltaram a atormentá-lo. Tarik havia sido assassinado por um soldado britânico em um assalto, apenas seis meses depois de que a mãe de Jabari o abandonou. Apenas três anos depois, Jabari recebia o encargo da responsabilidade de guiar a sua gente.

Nkosi pôs a mão afetuosamente no ombro do neto.

-Muitas responsabilidades para uma pessoa tão jovem. Tem-lhe feito muito bem. Sinto-me orgulhoso de ter o seu sangue. Sei que quando escolher uma esposa, ela será respeitada como deve ser a esposa de um Sheik. Tarik cometeu um grave engano, ao ensinar a sua mãe a ler.

Aquele comentário incomum por parte de seu avô, o fez ruborizar. Embora Nkosi fosse seu mais sábio conselheiro, cujas advertências sempre consideravam, em algumas ocasiões chocavam o neto.

-Devemos investigar qual é o plano dos ingleses. Eu sou o principal protetor do Almha e falo inglês perfeitamente. Eu espiarei os infiéis. - Lançou um olhar a Musab, sem querer menosprezá-lo - Musab continuará com seu trabalho na jazida.

Suas palavras foram recebidas com protestos. Nazim o olhou preocupado.

-Irei com você. - É muito perigoso com os Ao-Hajid lá. Não vou falhar com meu juramento de protegê-lo. - Nazim tocou a manga direita de seu binish. Um falcão, o símbolo do clã de Jabari, estava tatuado na parte superior do braço.

-Além de meu guardião, é minha mão direita. – Preciso que fique aqui para assumir o comando enquanto eu estou fora. - Respondeu Jabari.

-Senhor, não podemos nos arriscar a te perder. - Protestou um ancião.

-Devo a meu juramento. É uma questão de honra - Exclamou. Olhou seu avô, que estava com o cenho franzido.

-É meu único neto. Acredito que se trata de um risco desnecessário.

-Não tenha medo. - Tomarei as precauções necessárias. Chegarei à escavação e me oferecerei como trabalhador - Passarei tão despercebido como uma sombra – Serei o Asim - Um humilde escavador. - Jabari riu de sua posição. - Asim em árabe significa «protetor». E quem iria guardar melhor o segredo de Ajenatón do que ele?

Seu melhor amigo, lançou um olhar de cumplicidade.

-Que assim seja. Embora só haja um modo de que eu fique aqui. Vou te barbear e cortar seus cabelos, para aperfeiçoar seu disfarce.

-Cortar o cabelo? - Jabari sentiu os cachos que se penduravam em suas costas. Aquilo o preocupava mais do que tirar a barba. Seu cabelo era o mais comprido da tribo, mais que o de Nazim. Olhou-o com receio.

-Então, só até os ombros. Assim não se destacará dos outros escavadores. - Os olhos de Nazim brilhavam maliciosos.

-Só diz isso, para ganhar a aposta – Acusou e encolheu os ombros. - De verdade, importa quem tem o cabelo mais longo? Só me preocupa sua segurança.

Nkosi fez um gesto de impaciência com a mão.

-Basta de tanta tolice. Nazim tem razão. Corte o cabelo e tire a barba. Respeito sua decisão de espiar, embora eu não goste que trabalhe para os infiéis. Você é um guerreiro do vento. Semelhante trabalho está muito abaixo de você. E os britânicos são uns cães traiçoeiros e perigosos.

Aquele ancião odiava os britânicos, quase tanto, quanto os Ao-Hajid. A ira e a dor alimentavam sua ardente fúria. Em certa ocasião, Nkosi se apaixonara por uma mulher dos Ao-Hajid. Fugiram em segredo para se casarem. Mas, chegando ao Cairo, ela fugira dele para se casar com um oficial britânico.

Jabari esticou as costas. - Nada está abaixo de mim - Se me mantiver fiel ao meu juramento de sangue como guerreiro, a serviço de minha gente.

O ancião assentiu em sinal de aprovação, seus lábios estavam franzidos.

-Assim seja! - Mas tome cuidado! – Podem ser cheios de truques - Quem sabe do que são capazes esses ocidentais infiéis.

Ocidentais. Eram tantos seus problemas, que só o fato de pensar naquela mulher ocidental, lhe proporcionava uma prazerosa distração. Seu corpo umedecia de calor ao recordar suas suaves curvas. Estava realmente atendendo ao juramento de sangue para proteger o Almha? - Ou era outra razão mais profunda e passional que o empurrava à escavação?

 

Com as costas mais rígidas que um pedaço de pau, o espartilho reduzindo sua cintura a um suspiro impossível, um vestido branco de mangas longas e o comprimento decorosamente abaixo dos joelhos. Sentada à sombra da barraca, Elizabeth estava disposta a dar toda sua perícia com a pluma, por causa da arqueologia.

Um trabalhador que passava a comeu com os olhos. Percorreu seu corpo com o olhar e lhe dedicou um lascivo sorriso. Devolveu a ele um olhar gelado.

Um dia mais. Os escavadores e investigadores de campo, e guerreiros dos Ao-Hajid, que vigiavam a jazida, não inspiravam nenhum respeito. Lançavam-na olhares lascivos ou faziam comentários indulgentes. Inclusive, seu tio a impedia de fazer algo, que não fosse registrar as peças.

Sentado em frente à Elizabeth, Nahid escrevia no catálogo de campo, enquanto ditava números e amostras a ela. O catálogo, um livro com páginas sujeita as intrigas, e era um dos documentos mais importantes da jazida. Flinders, a diferença de seus antecessores, insistia em registrar cada uma das peças, independente de seu grau de importância.

Com precisão extrema, Elizabeth escrevia em tinta negra, a respeito de cada peça. Registrava o número da amostra que Nahid ia ditando, à medida que escrevia no catálogo.

Trabalharam até que Nahid fechou bruscamente o livro, e deixou escapar um suspiro de satisfação. Um dos guerreiros Ao-Hajid, com vestimenta vermelha e longa, calça folgada, se aproximou deles. Elizabeth reprimiu um calafrio. Os guerreiros Ao-Hajid, eram mais cruéis que os Khamsin, apesar de que aquele guerreiro em verdade, era mais amistoso que os outros.

Depositou uma jaula de bambu na mesa e olhou para seu tio.

-Logo será a hora da comida. Carne fresca, caçada esta manhã por um aldeão - Disse - Lançando um olhar voraz a bela pomba branca. Elizabeth quase o viu babar.

-Não. - Disse ela, levantando e pegando a jaula. Olhou em seu interior. O desafortunado pássaro arrulhava, inconsciente de seu destino fatal.

-Pagarei por ela um bom dinheiro. - Disse Elizabeth.

Olhando para ela, Nahid falou.

-Elizabeth, é só uma pomba. - Os egípcios as examinam antes de comer.

-Sei, mas esta... É preciosa. – Você já teve uma antes. – Poderíamos utilizá-la! Treina-la, para que entregue as mensagens, Isis. - Propôs um preço ao guerreiro, que por sua vez propôs outro. Pechincharam, até que ele ficou satisfeito.

Elizabeth lançou a seu tio, um olhar suplicante. Colocou a mão na jaula por entre as barras e acariciou as plumas da pomba Ele tirou o dinheiro bolso e deu ao guerreiro.

-A temperatura subiu. Por que não volta para o acampamento, descansa um pouco e leva a pomba? Não vou precisar de você até mais tarde. - Mais que uma sugestão - É uma ordem.

Ela assentiu, cheia de ressentimento, por ter que abandonar a escavação.

Enquanto andava para o sul em direção a sua cabana, veio a seu pensamento, o arrojado bandido do deserto. Que aspecto ele escondia por trás do véu? Foi se entretendo com essa possibilidade, até formar uma idéia. Elizabeth sorriu e prosseguiu seu caminho.

Umas duas horas mais tarde, Elizabeth voltou, embora sem a pomba. Desta vez, ninguém iria olhar para ela lascivamente e nem elogiar sua perícia com a pluma.

Com um turbante branco, cuja borda pendurava um véu que ocultava seu rosto e a roupa longa, exatamente igual aos homens, Elizabeth se misturou aos escavadores. Com uma enxada abandonada, uma pá e um carrinho de mão, Elizabeth deu uma rápida olhada na transitada escavação. Escolheu um lugar um pouco afastado dos outros, ao sudeste do Grande Templo, fora do muro de terrenos. O muro de barro e tijolos assinalava o princípio do templo. As capas de areia misturada com rocha constituíam todo um desafio. Sua escavação requeria grande exercício, pois cavando a terra, e ao mesmo tempo evitando com a enxada, fazer em pedacinhos algo que pudesse estar embaixo da superfície.

Isso sim, era vida. - Pó em seu cabelo, o suor entrando em seus olhos, a história em suas mãos. Começou a cantar uma canção em árabe, que sua mãe egípcia a ensinara em sua infância. Desde muito pequena, Elizabeth sonhava em visitar o Egito e desenterrar seus mistérios. O Egito era belo. Deserto inquietantemente solitário, de cor âmbar, dourado e sépio. Afiado como uma espada em seu estado de pura beleza. O eterno sol pulsando como um pretensioso selvagem, no céu azul celeste. - Frase egípcia que significava «terra do amor».

Encheu o carrinho de mão e se aproximou de uma bandeja de malha. Elizabeth utilizou uma pequena pá para descarregar seu conteúdo na bandeja. Ao peneirar a terra, não encontrou nada.

Decepcionada, repetiu o processo sem obter resultado, até que só ficou um montinho de terra no carrinho de mão. Desgostosa, respirou fundo fazendo estremecer o véu.

-De todas as jazidas e localizações, escolhi justamente uma, que era completa e total perda de tempo - Balbuciou em voz alta.

Ao inclinar o carrinho de mão, algo chamou sua atenção. Recolheu-o e foi em busca do pincel. Com supremo cuidado, limpou o objeto.

Lábios grossos e um nariz proeminente. O fragmento de uma estátua de pedra de calcária! Em suas mãos, estava nada menos, que o faraó. Em suas mãos, essas mesmas mãos que os homens acreditam que são boas só para rabiscar números, tremiam de emoção. Sentiu um nó na garganta, de alegria e seus olhos se encheram de lágrimas.

Queria sair correndo para os escarpados precipícios de calcária, que protegiam o vale e gritar aos quatro ventos seu descobrimento. Seu coração não cabia no peito, pulsava escandalosamente de felicidade.

Elizabeth virou o objeto, que segurava em sua mão esquerda. Olhou-o e deixou que a história fizesse o resto. Quase podia cheirar o azedo suor do artista, enquanto bufava, concentrado em sua tarefa de esculpir a estátua, para agradar o seu rei. Fechou os olhos e sentiu a peça em sua mão e se deixou levar no tempo e no espaço.

O faraó Ajenatón se aproximou, com uma falange de guardiões reais, nus da cintura para acima munidos de afiados sabres que o protegiam. Os lábios carnudos do rei se curvaram até formar um desumano sorriso. Destruiria a todos aqueles, que se interviesse em seu caminho, incluindo os que ousassem desenterrar o Almha, o símbolo de seu poder.

As imagens de sua própria fantasia provocaram nela um grito abafado. Abriu os olhos desmesuradamente. Cambaleava como um marinheiro bêbado, dando voltas na cobertura de um navio. Enjoada e aturdida, procurou algo em que se apoiar, para não perder o equilíbrio. Agitava os braços como uma louca, como se fosse uma máquina de moer. Feliz com a descoberta, com a peça ainda na mão, sucumbiu e caiu ao chão.

Era a terra que se movia daquele modo? Ou era ela? O que estava acontecendo? Elizabeth fechou os olhos, afetada pela sensação de ter dado muitas voltas, como se acabasse de descer de um vertiginoso carrossel. Tudo o que queria, era que aquela sensação de náusea terminasse. Com muita dificuldade, ouviu alguém sussurrar algo no alto, uma voz profunda e penetrante, que falava em árabe ao seu ouvido.

-Como agüenta um sol desses?

Uma mão calosa e ao mesmo tempo suave, a pegou afetuosamente. Piscou e abriu os olhos involuntariamente. E encontrou com um par de olhos negros e penetrantes.

Atraíra uma multidão de trabalhadores, a julgar pelo agrupamento de sandálias ao redor de sua cabeça. Mas foi seu salvador quem lhe chamou a atenção. Elizabeth ficou sem respiração e incapaz de desviar olhos daquele olhar penetrante. Examinavam-na, uns olhos cor de café, tão escuros e úmidos como a cerveja árabe. Aqueles olhos recordavam os do cavaleiro do deserto. Mas esse homem não era um Sheik, pois estava vestido como o resto de escavadores e com o cabelo bem mais curto.

Tinha um rosto de feições marcadas, e uma barba bem feita. Grossas mechas de cachos de ébano escapavam de seu turbante e caíam pelos ombros. Voltou a fechar os olhos e se perguntou - Ainda estou sonhando?

O homem tocou sua bochecha suavemente com o polegar. O leve contato em sua pele, fez com que seu coração pulsasse tão rapidamente, como alguns minutos antes. Elizabeth abriu os olhos e viu duas sobrancelhas franzidas. Ela respirava entrecortadamente embaixo do véu.

-Um escavador de olhos azuis como o céu do deserto. E com bochechas muito suaves, para ser um duro trabalhador.

Elizabeth não estava preparada para o próximo movimento daquele homem, que tocou com a mão, à veia que pulsava com força em sua garganta. Aquele estranho de pele escura tomou seu pulso, apoiando seu braço em um lugar íntimo, que jamais nenhum homem havia tocado. As sobrancelhas negras do estranho se arquearam de surpresa, quando sentiu a suavidade redonda, em lugar do firme tórax de um homem.

Droga. - Apertara o espartilho ao máximo, mas não o suficiente para achatar o que a natureza lhe presenteara.

Ela estremeceu, quando viu os olhos dele brilhando divertidos. Aqueles lábios sensuais e firmes se curvaram, até esboçar um sorriso malicioso. Descobrira seu disfarce.

Dando um suspiro de satisfação, o atraente trabalhador de campo se inclinou e tirou seu véu.

-Uma mulher. - Disfarçou-se como um homem, para trabalhar - Disse em inglês... E lançou a Elizabeth um violento olhar de desdém.

Elizabeth o observou enquanto tirava o turbante. Levantando-se e lutando contra a náusea, que ia e vinha com repugnante cheiro, e sua garganta doendo de sede. Levou as mãos à cabeça, tentando recuperar o equilíbrio. Uma mão a puxou pelas costas.

-Deite-se. - Ordenou-lhe. - Você não é tão forte, e o calor a debilitou. Apesar de falar com acento musical, seu inglês era impecável.

Outro homem compreensivo. Achava, que ela iria desaparecer por enfraquecimento.

-Estou bem! - Disse ela, deixando que a raiva alimentasse sua energia! - Não fiquei abatida pelo calor. Sou mais forte do que pareço - Disse empurrando sua mão com grosseria e impaciência.

Ele entrecerrou seus olhos negros.

-Muito forte - Disse ele pilheriando! - Devo supor que, se você é tão forte, não precise beber água - Mostrou um cantil.

Ela olhou ansiosa para o cantil e mordeu o ressecado lábio inferior. De repente, ouviu a voz de tio Nahid entre a multidão, cheio de surpresa e reprovação.

-Elizabeth, em nome de Alá. O que está fazendo?

Um repentino sentimento de culpa se apoderou dela. Elizabeth segurou a mão que seu tio estendia e deixou que a ajudasse a se levantar. O escavador se levantou ao mesmo tempo em que ela.

-Como não me deixam escavar vestida de mulher, pensei em tentar vestida de homem. - Elizabeth se ergueu orgulhosa.

O desconhecido enrugou a testa, ao ver que os escavadores se benziam contra o mal olhado e se afastavam dela.

-Deveria ter se disfarçado numa múmia, porque assim, assusta os trabalhadores - As mulheres que se vestem como homens, são como jinns! - Espíritos que vagam pelo deserto.

Aborrecida, Elizabeth ergueu o olhar para ele. Esticou o pescoço. Era bem mais alto que o resto dos escavadores. Mais alto que quase toda a equipe de arqueólogos. Sua majestosa estatura intimidava menos que sua beleza.

-Elizabeth, o que está olhando? - Grunhiu Nahid.

A dura peça arqueada de calcária em sua mão, a fez voltar à razão. Voltou-se para o tio Nahid com a intenção de suavizar sua raiva. Elizabeth abriu a mão e mostrou o fragmento.

-Olhe o que encontrei, Olhe... Ajenatón... Tem que ser ele... O mais provável é que o tivessem tentado destruir, depois de sua morte, ao mesmo tempo em que trataram de apagar as inscrições do cartucho. - Elizabeth transbordava de entusiasmo.

Seu tio agarrou o objeto de sua mão e o examinou. Um som saiu da abertura dos seus lábios. Parecendo um sorriso de aprovação. Elizabeth esperou que assim fosse.

-Um fabuloso exemplar. Flinders ficará muito satisfeito. Como o encontrou?

-Pensei que aqui no muro de terrenos, seria o lugar mais lógico para encontrar estátuas de Ajenatón, pois o faraó adorava tanto a si mesmo, como o Atón! - Elizabeth cruzou os braços satisfeita por ter sido ela, a primeira a pensar em escavar aqui e não os peritos de campo.

-Pois a verdade, é que você achou algo importante.

-Outra razão para me deixar escavar. - Sugeriu ela.

-Vestida de homem ou de mulher? - Perguntou o desconhecido.

-Touché! - Por certo... De onde saiu? Qual é seu trabalho aqui? -Perguntou ela arrogante. Por dentro se sentia envergonhada, por sua falta de modos. Mas para Elizabeth, era mais importante o mostrar quem mandava. A julgar pela forma em que o desconhecido entrecerrou os olhos, incomodou-o o fato de que ela se atrevesse a perguntar algo assim a ele. Elizabeth percebeu que aquele homem não estava acostumado às interrogações. Teve a sensação de que já haviam se encontrado antes, mas não prestou mais atenção. Ele ia responder, quando Nahid ergueu os olhos e o interrompeu.

-Asim é nosso novo supervisor de zona e tradutor! - Ele vai ser meu substituto, deste modo, poderei me concentrar no palácio! - Está bem qualificado e é muito bom com os trabalhadores. Tendo em conta, que ninguém mais fala o árabe tão bem, além de mim! - Temos muita sorte de contar com ele.

Para sua surpresa, Asim lançou um sinistro olhar de desprezo a Nahid, como se aqueles elogios não significassem nada para ele.

-E você? Quem é? E o que faz aqui? - Asim devolveu a Elizabeth essa impertinente pergunta. Com seu porte orgulhoso, ele agia como se tivesse todo o direito de perguntar. O controle ameaçava abandona-la de novo. Elizabeth ficou rígida, disposta a se impor àquele homem imponente. Sua situação era melhor que a dele.

Nahid fez um gesto com a mão e frustrou sua oportunidade para falar.

-Ela é minha sobrinha. Elizabeth Summers - Ajuda-me a registrar os achados. - As palavras de seu tio a deixaram à altura do chão. Alguém chamou seu tio e Nahid se afastou, murmurando uma desculpa.

-E que equipe vai fiscalizar? - Perguntou Elizabeth em árabe, desmentindo o que Nahid acabava de dizer. Asim a olhou pensativo.

-Esta. - Traduzirei as ordens dos diretores de campo, fiscalizarei e farei positivos, os salários desta equipe - Respondeu ele em inglês.

De repente veio à cabeça um pensamento malévolo. Em última instância, possivelmente, poderia utilizar aquele homem em seu interesse, para conseguir o que queria.

-Bem. Então levarei minha gorjeta, agora! - Disse a Assim, em inglês.

Os olhos do desconhecido se abriram de par em par e suas negras e arqueadas sobrancelhas se uniram. Pelo general, as gorjetas se pagavam ao final do dia. Ao anoitecer, ela e Nahid acendiam as lanternas e sentavam sob o toldo com os supervisores de campo, enquanto os escavadores formavam fila frente a eles. Examinavam todas as peças e registravam seu valor no caderno sob o nome da pessoa que as encontrara e a seguir pagavam os extras.

-A gorjeta. -Disse ela elevando o queixo - Você é o encarregado de pagar os trabalhadores que encontram restos por aqui. Como retribuição, quero quatro horas de escavação e adicionais pelo trabalho de catalogação. Enquanto esperava sua resposta, Elizabeth enrolou uma mecha de cabelo distraidamente no dedo indicador.

Ele não respondeu, mas a olhou com seu olhar aveludado, do mais alto de seus despenteados cabelos, até a ponta de suas sandálias. - Que grosseiro. - Ela tinha feito seus próprios cálculos.

Seu thobe azul, e sua camiseta branca sem mangas, até o joelho, deixavam vislumbrar seu corpo atlético. Os compridos cortes da lateral do thobe revelavam uma calça escura e folgada. Aquele homem tinha uma presença imponente, que o diferenciava do resto dos trabalhadores.

Asim coçou o queixo.

-Os homens não trabalharão com você. - Acham que a mulher trás má sorte. - Seu tom arrogante revelava um, «eu tampouco trabalharei com você».

Ela subiu as mangas de sua vestimenta, começando a sentir calor.

-Trabalho bem sozinha! - Assegurou. O lábio inferior de Elizabeth se destacou em sinal de protesto.

Ele fixou o olhar no suor que deslizava por suas têmporas, como um rio caudaloso.

-Não está preparada para suportar o sol do deserto.

Ela secou o suor do rosto com a manga. – Me arrumarei.

Seu tio voltou e observou com desconfiança seu intercâmbio de palavras.

-Elizabeth! - O que está fazendo?

-Pechinchando, tio Nahid. Quero escavar.

-Não. A proíbo. Já lhe disse isso antes.

-Se me proibir voltarei aqui escondida a noite, e escavarei.

Com aquela ameaça, o que na realidade estava dizendo a seu tio, era que em lugar de ajudá-lo a encontrar o Almha, escavaria sozinha. Na verdade não o faria, mas era a única carta que podia jogar com ele.

Funcionou, pois ele soltou um grunhido e olhou para Asim.

- De acordo. O sotaque é a seu encargo. Não mais de duas horas ao dia. Não quero que abuse dela.

Asim olhou para Nahid, como se fosse um mosquito rondando na conversa.

Que interessante. Aquele homem parecia aborrecido, como se Nahid tivesse posto em dúvida sua autoridade. Como se ele fosse o superior do Nahid e não ao contrário.

De repente suas feições ficaram imperturbáveis. Retesou suas costas largas, como se aquilo não o importasse absolutamente.

-Veremos. - Se você estiver à altura do trabalho, ou se acontecer de você se debilitar outra vez, como uma menininha... Caso isso ocorra, trago-a de volta a seu tio.

Dedicou-lhe um compreensivo sorriso, que parecia querer dizer: «Duvido que vá durar mais de uma hora sob o sol».

Agora não podia voltar atrás. Algo em seu interior a empurrava a querer apagar aquele sorriso de compreensão no rosto de Asim. A mostrar que uma mulher podia desempenhar qualquer trabalho, tão bem quanto um homem.

-Muito bem! - Estendeu a mão direita.

Nahid resmungou e saiu para ir embora, ao mesmo em tempo em que insistia com os escavadores para voltar ao trabalho.

Asim olhou para Elizabeth, como se ela tivesse um escorpião na mão.

-Proponho que nos demos a mão. Para fechar o trato. - Tal como faria qualquer homem em meu país. Ou teme fazer negócios com uma mulher?

Ele coçou o queixo. - Um costume britânico muito estranho. Como vou ter medo de uma simples mulher? - Respondeu.

-Eu sou americana e não britânica. - Corrigiu.

-Por isso mesmo. – Ele murmurou - Ouvi histórias sobre as mulheres americanas, que asseguram que são tão ferozes como o vento ardente do deserto. E tenho certeza de que estas histórias não são mitos... A não ser invenção.

Asim estreitou a mão de Elizabeth, envolvendo-a na sua. Seu gesto foi firme e seguro. Ela tentou retirar sua mão, mas ele a reteve por um tempo e a acariciou com o polegar. Ela reprimiu um calafrio.

-Que mão mais frágil, tão branca e delicada - Que lástima ter que se submeter à dureza do sol do deserto.

Aqueles olhos negros e líquidos, dois poços de escuridão, atravessaram os seus, no que sentiu que caía e se afogava.

-As mulheres não foram feitas para realizar trabalhos duros como se fossem animais de carga, um asno qualquer! - Alá as criou, para encher o lar com sua beleza e dar luz aos nossos olhos. Lançou-lhe um olhar de ardente paixão, dando a entender que ele estaria encantado, em ajudá-la a realizar essa parte de sua condição de mulher.

Elizabeth sentiu seus joelhos falharem, e as pernas tremiam como se fossem duas palmeiras açoitadas por um forte vento. Alegrou-se, de que o thobe ocultasse suas pernas. Seu coração pulsava mais forte, do que quando encontrou aquela peça. Um olhar sugestivo de um homem atraente e ficava tão nervosa, como uma debutante em sua primeira festa.

Era uma mulher de lógica, e conhecimento. Pelo amor de Deus. Esforçou-se por encontrar as palavras corretas em árabe, sentindo a necessidade de ficar a seu nível, apesar de seu árabe não ser tão bom como seu inglês. Elizabeth espremeu o cérebro.

-Não me julgue por meus órgãos reprodutores. Sou mais forte que o mais robusto de seus gansos. - Ela o olhou divertida.

Ele jogou a cabeça para trás e deu uma exagerada gargalhada, profunda e gutural. O travesso sorriso do homem, a deixou vislumbrar seus resplandecentes dentes brancos.

-Homarah, «Asno.» Não ganso... Está misturando partes do seu corpo, com gansos. Não chame a si mesma de ganso - É um insulto muito grave. – Corrigiu ele em inglês.

Elizabeth percebeu que estava ficando violentamente vermelha.

-Os asnos são animais muito teimosos - Eu mesmo os adestrei – Tendem a lutar um pouco, mas finalmente se submetem a minha vontade e os honro, montando neles. - O mesmo ocorre com as mulheres. Necessitam de homens que as dirijam. - Disse ele brandamente.

A atitude, e o mal entendido daquele estranho, a encheu de raiva.

-Por acaso ainda não se inteirou, de que estamos no século XIX e as mulheres já não necessitam, de que os homens às dirijam? - Elevou o queixo com justificado orgulho - Em meu país, as mulheres estão lutando pelo direito a votar. Sinto-me orgulhosa de pertencer à Associação Nacional de Mulheres Americanas Sufragistas. - Elizabeth respirou fundo. Ah! Aquele título já era um problema em inglês, por tanto, não iria abrir sua cabeça para dizê-lo em árabe.

-E agora, o que vai fazer? - Perguntou ela.

Segurando suas mãos e levando aos lábios, Asim inclinou a cabeça.

-Dou graças a Alá, de que não vivo em seu país. - Respondeu ele levantando a cabeça. Seus olhos brilhavam de agitação.

Ela apertou os dentes.

Ele respirou fundo. - Assim seja! Inshallauh! - Como estão acostumados a dizer minha gente: «Se assim quer Alá, assim será».

Elizabeth respirou tranqüila. Com um pouco de sorte, Alá estaria do seu lado. Iria precisar de toda a ajuda do mundo, para suportar o teimoso Asim. Elizabeth ganhara a primeira batalha. Mas enquanto o observava partir junto com seu tio, teve a desagradável sensação, de que aquela vitória não iria durar muito. Aquele homem não parecia estar acostumado a perder.

Aquela tarde, Jabari observava seus homens cavarem a terra no Grande Templo. Ficou de cócoras e apoiou o queixo nas mãos. Não muito longe, a equipe de escavadores cavava a areia quase em uníssono.

De repente, recordou seu encontro com Elizabeth. Quando a viu vestida como um trabalhador, deitada no chão, a confundiu com um homem desacordado pelo calor.

Ao apoiar o braço em seus seios suaves, logo que pôde, escondeu sua surpresa. Estava enfeitiçado por sua beleza, ameaçado de perder a razão. Então ela abriu a boca e ele recuperou o sentido comum. Repreendeu-se a si mesmo, por estar pensando nela. Por mais bela que fosse, Elizabeth era uma inoportuna distração. O compromisso com sua gente e o Almha, exigia toda sua atenção.

Levantou-se e inspecionou a zona. Uma sensação de desconcerto se apoderou dele. Que motivos teriam os estrangeiros para escavar o chão? Que propósito teriam?

Se conhecesse seus motivos, poderia contar com melhores meios para deter aquela intrusão. Preferia a guerra. Os infiéis foram armados com teorias e pás, algo muito afastado das armas que estava acostumado nos combates. Sentia como se estivesse enfrentando guerreiros jinns nas dunas, erguendo suas espadas aos ventos secos.

Um escavador se acercou dele, para pedir água. Jabari se aproximou com um pequeno cantil e esperou que o homem bebesse. Aqueles trabalhadores violavam tudo o que ele havia jurado proteger.

Por mais que quisesse desprezá-los por seu sacrilégio, não podia. A antiga cidade só era sagrada para os Khamsin. E o dinheiro que aqueles homens ganhavam, levava comida à mesa de suas famílias.

Os ingleses pagavam generosas gorjetas. Havia poucas oportunidades de convencê-los, para que abandonassem a escavação. A frustração se apoderou de Jabari. A vida no deserto era dura e havia poucas oportunidades para ganhar em um mês, o dinheiro que ganhavam em uma semana na escavação. Este tipo de dilema também assediava sua tribo. Os velhos métodos para a subsistência, estavam começando a ficar antiquado em uma sociedade cada vez mais avançada.

Ia deixar o cantil em uma mesa próxima, quando uma figura de branco e vermelho se aproximou. Ao-Hajid. Não se tratava do clã moderado do Farris, mas sim do Taleq, um dos clãs de pior reputação. Todos seus músculos se retesaram. Jabari se esforçou em controlar suas emoções.

- Este é um trabalho singelo para você, verdade? - Parecido o de uma mulher que observa seus filhos. - Disse o guerreiro Ao-Hajid, apoiando seu rifle no ombro e soltando uma gargalhada mordaz. As mãos de Jabari tremiam de raiva, ansioso por estar com uma espada, em lugar de um cantil. Respirou fundo e deixou a água na mesa.

Jabari fingiu um tom de voz agradável.

-O que você acha que estão procurando?

O guerreiro relaxou e afrouxou a mão que segurava o rifle. Apoiou sua bota em uma caixa e fixou seu olhar no pó, que levantavam os atarefados escavadores.

-Quem sabe? Provavelmente algo que acalme suas virilidades, pois não trouxeram mulheres. À exceção dessa garota. É estranha, essa loira.

-Jamais vi uma mulher agir assim. - Jabari se chateou de ter que estar de acordo com seu inimigo, mas o homem estava com a razão. Só em apenas pensar, na forma em que ela o desafiara, revolviam suas vísceras. Cansado das amáveis carícias de mulheres dóceis, que só procuravam o agradar na cama, Jabari descobriu que o espírito de Elizabeth, despertava seu apetite sexual. Aquilo o incomodava tanto, como se o fato estivesse plantado em seu rosto.

-Tem um espírito de luta parecido ao das deusas de ouro. Não me importaria em       compartilhar minha barraca com ela. Quando ela sentir, o que é ter um verdadeiro homem na cama esquecerá esses ingleses de pele pálida. - Disse ele desdenhosamente.

Jabari olhou de esguelha para seu inimigo, e enrugou a testa. “Sua cabeça vai rolar na areia, antes que suas mãos sujas a possam tocar, cão do deserto.” Uma possessiva e profunda raiva se apoderou dele. Seu corpo se retesou, até adotar uma postura de ataque. Levou a mão direita na cintura e só encontrou algodão. Claro, não estava armado. Que estúpido de sua parte não ter se lembrado. O guerreiro fechou os olhos desconfiados. Havia percebido seu gesto. Provavelmente o reconhecera. Jabari lamentou seu descuido, e obrigou-se a ficar calmo. Esboçou um amigável sorriso.

-É bastante bonita! Lutaria com você por ela, mas o que vou fazer? - Só estou armado de teorias e prefiro o dinheiro dos ocidentais, aos prazeres de suas mulheres.

Uma risada se acrescentou à sua sonora gargalhada. Jabari inclinou a cabeça em sinal de respeito, enquanto o guerreiro o examinava. O sorriso devia ter funcionado, pois o guerreiro Ao-Hajid acabou se afastando. Mas voltara a segurar com força o rifle, e não deixou de olhar para trás.

De seus lábios saíram um comprido e moderado assobio. Chegara muito perto. Estivera a ponto de se delatar ao inimigo. Devia aprender a controlar suas emoções. E a bela Elizabeth era a pior das ameaças, porque conseguia, com que a ira de todos, saísse à superfície. Era uma ameaça para sua segurança.

Um intrigante sorriso se desenhou em seus lábios. A deixaria escavar, e utilizaria o orgulho dela seu favor. Esgotada e deprimida, voltaria para seu tio como uma boa garota, longe de seus olhos e pensamentos.

Seu sorriso se dissipou ao recordar o espírito guerreiro daquela mulher. Não iria se render tão facilmente. Jabari endireitou as dobras do thobe. Tinha a sensação de que se enfrentasse um guerreiro Ao-Hajid, obteria uma vitória mais simples, que com a guerra que via no horizonte, com a mulher dos olhos azuis. Bem mais simples.

 

Veio escavar aqui, e assim o fez. - Asim colocou as mãos na cintura e olhou para o pequeno monte de escombros, no carrinho de mão de Elizabeth.

-Isso é o que estou fazendo? - Só estou arrumando o cabelo. - Replicou a meia voz, tremendo de cansaço.

Elizabeth retirou uma mecha de cabelo que caíra em seu rosto e controlou seu mau gênio. Depois de uma única hora de trabalho apenas, começou a sentir os efeitos do sol. O suor fazia com que seu coque grudasse ao pescoço. A blusa de algodão e a saia cáqui lavadas no dia anterior, também estavam empapadas. Mas agora não podia voltar atrás. Fingiria que o calor não lhe afetava.

Claro, que o fato de que Asim a tivesse posto para trabalhar na hora mais quente do dia, tampouco a ajudava. Juraria que o que ele na realidade pretendia, era que sucumbisse ao calor.

Seu alegre chapéu, que sempre achou tão simpático e moderno, não estava servindo para nada, sob o sol abrasador.

“Isso é o que você queria Elizabeth, então não se queixe” - Disse suas costas doloridas. Todos os seus músculos estremeceram, e se agitaram em um estranho baile de dor. Pior estavam as bolhas que se formara entre os seus dedos.

– É difícil para você? O calor diminuiu sua força. - Não precisa continuar. Deixe esse trabalho para os homens. - Asim esboçou um sorriso malicioso e perspicaz.

Ela o fulminou com o olhar. Ele permaneceu de pé como um califa, frente à valeta que ela estava cavando. Seu comprido thobe branco estava mais seco que o Saara, e seu rosto, limpo e fresco. Será que esse homem não transpira?

-Eu posso fazer esse trabalho. - Espetou colocando suas mãos trêmulas no cabo do pico.

Naquele momento, a escavação se concentrava na limpeza dos arredores do Grande Templo. Os restos do templo haviam sido esboçados. Os escavadores iam retirando os escombros, e todo aquele material, iam empilhando, para limpar qualquer fragmento ou peça, que se achasse ao nível do chão.

Elizabeth esperava que Asim a tivesse encarregado, ao templo. Em vez disso, o animal a encarregara de cavar em uma vala, que seguia o contorno dos muros exteriores. Amarna fora construída em uma superfície desértica de areia e cascalho, mas, embaixo, o terreno era pedregoso. Cavar em uma vala era como furar uma rocha.

Elizabeth pegou o pesado pico pelo cabo de madeira, e o elevou no ar para deixá-lo cair de novo. O pico golpeou contra a areia, e abriu o chão com um ruído surdo. Então pegou a pá e tirou a terra. Sentia que sua cabeça zumbia. Não podia se deixar abater. O que devia demonstrar, era o fato de que escavar ali, a faria encontrar meros restos. Agora era uma verdadeira batalha de orgulho.

Para esquecer o calor, cada vez que cravava a pá na terra, pensava que era Assim, a quem estava golpeando, eliminando aquele sorriso de superioridade em seus lábios. Aquele animal. Seu espírito era tão arenoso, como a terra que jogava no carrinho de mão. Empapada de suor, Elizabeth parecia estar a ponto de desabar sob o sol abrasador. Mas negava se render.

Jabari sentia uma mistura de admiração e raiva pela sua teimosia. Estava tão resolvida a demonstrar sua valentia, que trabalharia até cair rendida pelo cansaço. Aquela mulher recordava a si mesmo, em seu irrefreável empenho. Ambos eram capazes de tudo, para conseguir o que queriam.

Quando se inclinava acompanhando o movimento do pico, o corpo de Elizabeth cambaleava, como o de um junco. Por mais desgosto que sentisse, por perturbar a cidade sagrada de seus antepassados, teve que reconhecer que aquilo elevava seu ânimo. Estava bastante entretido observando o precioso corpo de Elizabeth em ação.

Elizabeth se inclinou e peneirou a terra para ver se havia algo interessante. Os olhos satisfeitos de Assim, percorreram as curvas de seu corpo. Seus generosos seios acentuavam sua estreita cintura.

Gotas de suor começaram a surgir em suas têmporas, embora não eram de calor. Aqueles sinuosos movimentos fizeram com que Jabari sentisse um familiar puxão sob as calças. Proferiu um palavrão em silêncio engolindo saliva, desejando que ela estivesse vestida como um homem.

Elizabeth tirou o chapéu e abanou o rosto. Suas mãos caíram de repente. Jabari percebeu seu rosto ruborizado e seu corpo tremendo. Afinal, o calor a vencera. Jabari não se sentiu vitorioso, mas alarmado. Pegou seu pequeno cantil e com um salto entrou na valeta.

-Ouça, tome isso. – Se apressou em dizer em árabe. A urgência o fez falar em sua língua materna. Abriu um frasco de pastilhas de sal, e depositou uma na palma da sua mão suja.

-Seu corpo está perdendo água. O sal permitirá reter umidade.

Ela olhou a redonda pastilha como se fosse uma serpente.

-Não precisa! - Posso suportar o calor. - Respondeu Elizabeth em árabe, devolvendo a pílula.

Ele a fulminou com o olhar. O topete daquela mulher não teria limite?

-Ouça-me! - Disse ele delicadamente em inglês, esperando poder atravessar sua espessa capa de orgulho, falando em seu idioma. – Falo com sinceridade! - Seu corpo está perdendo líquido muito rápido. Se não se refrescar e tomar água, ficará doente. - Jabari levantou a trêmula cabeça de Elizabeth com uma mão, e a olhou diretamente nos olhos, esperando que ela visse a razão refletida neles. Beba agora.

Elizabeth franziu o cenho, e abriu os lábios, provavelmente para protestar. Jabari não desperdiçou a oportunidade. Segurou sua boca firmemente com uma mão, e introduziu a pílula de sal por seus lábios abertos. Fechou-lhe a boca com os dedos.

-Engula. – Estendeu o cantil.

Seus olhos azuis se voltaram para ele, mais frios que o gelo, mas obedeceu. Ela bebeu e o devolveu. Ele o pendurou ao ombro.

-Boa garota. Agora descanse sob uma sombra.

Ela voltou a abrir a boca, mas voltou a fechar, quando viu sua expressão.

-Agora mesmo. - Disse ele severamente. Jabari saiu da vala e lhe estendeu a mão. Ela titubeou, mas, finalmente deu a mão e ele, para que pudesse sair.

Elizabeth se ergueu com mais vigor do que ele esperava, e topou contra seu peito. Em vez de se afastar, Elizabeth se apoiou nele, como se aquele movimento tivesse enfraquecido suas forças. Assustado, Jabari baixou o olhar e contemplou o ágil corpo de Elizabeth, junto ao dele. Jabari inalou o perfume de seus cabelos recém lavados, com o cheiro suave do romeiro.

Elizabeth ergueu o rosto, e ele pôde ver seus enormes olhos azuis, curiosos e inocentes, como os de uma menina. Paralisado, Jabari fixou o olhar em sua luminosa pele.

Que Alá o ajudasse! Essa mulher o irritava e o deslumbrava como nenhuma outra. Muitas mulheres se atiraram a seus pés, ou em sua cama. Cresceu considerando às mulheres um antídoto para sua virilidade. Sabia que devia escolher uma esposa logo. Era sua obrigação como chefe dos Khamsin, de gerar filhos, para que o substituísse.

Jabari considerava um caminho pelo qual teria que passar. Apesar disso, uma parte dele procurava algo mais profundo. Não queria uma mulher que o servisse com incondicional adoração, mas sim, uma que o quisesse com todo seu coração. Uma mulher de temperamento apaixonado como o dele.

Jabari acariciou seus cabelos dourados, maravilhado com sua textura sedosa. De repente compreendeu que acabava de topar com seu destino. Por alguma razão ainda desconhecida para ele, o caminho daquela mulher americana e o seu, estavam destinados a se encontrar.

Seus destinos juntos estavam começando. Mas qual seria o resultado, era uma pergunta que não poderia responder.

 

O que estava acontecendo com ela? Elizabeth tentou não se entregar a fadiga. Como podia esse homem ter tanto poder sobre ela?

Ergueu o rosto e o olhou fixamente nos olhos. Eram profundos, cativantes, e guardavam mistérios, paixões e prazeres proibidos. Pôde ver refletidos neles uma nova emoção: Preocupação. Surpreendeu a si mesma, com o olhar fixo em seus lábios insinuantes, atraentes, carnudos e sensuais. Apressou-se a tirar o olhar, fixando a seguir, na amplidão de seus braços fortes. Elizabeth se separou dele e percebeu que estava acariciando seus cabelos. O contato com sua pele a reconfortava. Ele todinho, estava impregnado com um delicioso aroma de especiarias, e sua roupa como se tivesse secada ao sol. Então, algo rígido roçou seu estômago. Parecia uma espada de aço que a pressionava. Mas ele não estava com espada...

Olhou para o lugar do objeto misterioso. Elizabeth conteve um grito de assombro. Sentiu um estranho formigamento entre suas pernas. Suas bochechas se ruborizaram. Ao levantar a vista, comprovou que ele estava igualmente vermelho. Enfurecida, Elizabeth deu um passo para trás e esteve a ponto de cair na valeta. Asim a segurou pelos braços, e a firmou.

Ela desviou o olhar do dele. O que significa essa reação? Era para ele tão surpreendente como para ela? Sentiu-se chateada por não ter nem idéia, de como seriam as relações entre homens e mulheres.

-Venha! - Descanse uns instantes à sombra, e se refresque tomando um pouco de água. - Disse como se fosse uma ordem. Asim segurou seu cotovelo e a levou para a sombra de um toldo próximo. Umas caixas rodeavam uma mesa improvisada e cheia de ferramentas e fragmentos de cerâmica. Indicou uma caixa vazia e Elizabeth se deixou cair nela.

-Beba a água!

- Elizabeth pegou o cantil que ele oferecia, e o observou enquanto se sentava em frente a ela. A quem ele recordava? - Está quente. Não há água fria?

-A água quente é melhor. Seu corpo está muito debilitado pelo calor. Se beber água fria, seu estômago se estreitará e não aceitará a água.

-Ah! - Disse enquanto bebia - Suponho que tem razão.

Ele levantou uma sobrancelha, seus olhos brilhando divertidos. - Depois de se viver uns quantos anos no deserto como um simples pastor, a gente acaba aprendendo esse tipo de coisa.

-Fala muito bem o inglês, para ser um simples pastor. - Observou. Havia alguma coisa nesse homem que não se encaixava.

Seu rosto adotou uma fugaz expressão de alarme, que desapareceu como a chuva do deserto.

-Meu pai acreditou que me seria útil, se aprendesse o inglês, por causa da ocupação britânica em nosso país.

Elizabeth teve a sensação de que ele evitava em dizer toda a verdade, ao tentar lhe mentir. Molhou os lábios e devolveu o cantil. O esgotamento produzido pela exposição ao calor, foi se dissipando e finalmente, pôde pensar com clareza. Ou era porque ele estava sentado com certa prudência e distância dela?

Elizabeth afastou a cadeira, e tirando as botas, apoiou seus pés doloridos em uma caixa menor, de frente para Asim. Ele olhou em seus pés.

-Não faça isso! - Disse com suavidade - É muito mal visto que tire os sapatos perto dos outros.

-Ah! Sinto muito. - Elizabeth baixou os pés.

Asim a olhou com total desenvoltura.

-Agora, me responda umas perguntas. De onde veio seu conhecimento sobre minha terra?

-Estudei na Universidade do Vassar! Foi lá que aprendi - Meu pai era um arqueólogo americano. Minha mãe era egípcia e eu adorava as coisas que me contava sobre sua terra natal. Queria explorá-la.

-Então por que escava? Por que não faz o que pede seu coração?

Ela o olhou com os olhos entrecerrados. - A que se refere?

-A explorar! - Disse ele pacientemente – É possível que meu inglês não seja o suficientemente bom. Explorar significa ir de um lado a outro, não?

-Ah! -Elizabeth sorriu - Sim, tem razão! Mas no meu caso, viajo para o passado. O passado do Egito.

-O passado? Como se pode viajar a outro tempo?

Em seus lábios, se abriu um sorriso, como um incêndio. Sentia uma excitação borbulhante, que experimentava sempre que falava em arqueologia. Elizabeth se sentou na caixa pequena próxima à mesa, e segurou um fragmento de cerâmica.

-Desenterrando-os. Quando escavo, deixo o passado vir à luz. Olhe esta peça. Flinders Petrie quer que tomemos nota de tudo, e de cada uma das peças que encontramos. Por quê? Porque todo descobrimento é um contato. Cada peça tem um grande valor. Com cada espécie, empreendemos uma viagem para a história do mundo antigo.

-Ah! - Agora entendo. - Disse ele, dando a impressão de justamente o contrário - E sua paixão por empreender esta viajem ao passado, foi por influência de sua mãe?

-Ela ajudava meu pai nas escavações. - Contou Elizabeth enquanto suas mãos brincavam com a peça de cerâmica.

-Entre minha gente, um pai jamais permitiria que sua filha visitasse outro país sem escolta, embora suponho, que seu pai recomendou a seu tio, a responsabilidade de te proteger.

Elizabeth notou que seu lábio inferior tremia. Inesperada emoção se apoderou dela, ao recordar de quando menina seguia a seu loiro pai de olhos azuis nas escavações, com um pequeno pincel imitando seus movimentos. Ele sempre a chamava de “minha pequena arqueóloga”.

-Está morto. - disse ela saudosa - Ele e minha mãe morreram na Inglaterra, quando eu estava com doze anos. A caverna em que estavam explorando desmoronou. - Elizabeth sentia um nó na garganta.

Jabari deu um cálido aperto de mão em Elizabeth, que estava com a sua apoiada na mesa.

-Sinto muito. - Disse ele ardentemente - Eu também perdi algumas pessoas que me eram queridas.

Seus olhos espelhavam suas palavras, pois refletiam certa angústia oculta. Durante uns instantes, permaneceram sentados sem dizer nada, deixando o silêncio da dor compartilhada, encher o espaço entre eles.

Elizabeth retirou a mão e levantou o olhar para a interminável planície desértica, que se estendia além da escavação. O crescente calor fazia com que o vento cintilasse como plumas de pó prateado, sobrevoando a terra.

-Minha mãe me ensinou a querer os desertos, muito antes de eu que pudesse pisar em um! -Elizabeth sorriu - Contou-me tantas histórias quando eu era menina! O deserto era um lugar mágico, cheio de encanto, e tão misterioso e simples, em comparação com a voracidade material da cidade. Ela estava acostumada a chamá-lo «seu lugar espiritual», porque em sua areia, podia ouvir o silêncio de sua alma.

-Sabe que quando você fala nela, seu rosto adquire uma expressão tranqüila, e seus olhos, pequenos lagos prateados pelo reflexo da luz da lua? - Ele a olhou com uma intensidade, que ela achou excitante e perturbadora ao mesmo tempo.

Desconcertada, Elizabeth balbuciou:

-Mmm... Ela... Era uma mulher excepcional.

Asim pegou o cantil e bebeu com veemência. Fascinada, Elizabeth observou seu pomo de Adão movendo-se acima e abaixo. Asim depositou o cantil na mesa, e secou a boca com a palma da mão.

-E agora? - Que imagem reflete o deserto para você? - Perguntou ele.

-É tudo o que sempre imaginei. - Uma beleza crua e honesta, que não dá e não exige nada.

Jabari pensou em suas palavras e fixou seu olhar na areia. Seus olhos perderam sua habitual intensidade e ficaram nostálgicos.

-Honesta! Sim! - Mas o deserto é bem mais do que isso. Dá vida, e a tira. Pode ser impressionantemente belo, com o pôr-do-sol vermelho, que faz o coração doer sem piedade, cruel quando fustiga a alma, e a despedaça inteira, até fazê-la chorar de dor. Em certas noites, o deserto pode chegar a ser um lugar tão solitário, que a sensação que se tem, é de que a terra foi privada de todo ser vivente, e você é o único que resta.

Havia um toque de tristeza em sua voz rouca. Elizabeth experimentou uma estranha necessidade de aliviar sua melancolia.

-Às vezes é bom aliviar nossas almas, quando elas choram de dor. - Respondeu ela calmamente. De repente, de seus olhos desapareceu todo rastro de angústia, e em seu lugar, apareceu uma dureza obsidiana.

-Com os homens não funciona assim! - Chorar é coisa de crianças e mulheres estúpidas! - As lágrimas são amostras de fraqueza! - Os homens devem ser fortes, como uma majestosa pirâmide.

O instinto de amparo de Elizabeth se desvaneceu. Uma frase empática e ele voltara a ser o homem arrogante de antes. Ela olhou-o.

-Mulheres estúpidas? - Pois eu acredito que um homem, quando é o suficientemente valente para chorar, é mais forte do que o que finge não sentir nada.

Jabari bufou zangado, e aproximou da mesa como se estivesse a ponto de saltar.

-Valente? - O que pode esperar de um homem assim? - O homem que demonstra seus medos ou chora, é um líder fraco! - Perde a razão e volta para seu povo, e a si mesmo! – É vulnerável as seus inimigos.

Dois corvos negros se aproximaram, justo quando Jabari, com a força de seu olhar, oprimia Elizabeth na cadeira.

-Um homem assim não é um guerreiro. - É melhor deixá-lo morrer no deserto, que expô-lo a semelhante vergonha. - Você é uma mulher, e não entende nada desses assuntos. Essa conversa pode inclusive, se tornar perigosa.

Elizabeth deu um passo para trás assustada. A ira de Jabari, era como um vento tempestuoso, que ameaçava levá-la com seu corpo. As mãos de Elizabeth tremiam. Ela as juntou e as escondeu em seu colo, com medo de que revelassem seu nervosismo.

Aquele homem não podia ser um humilde escavador, que contrataram como tradutor, por ser um tipo agradável. Na memória de Elizabeth, havia algo que estava tentando sair, expulsa pela imagem do porte ereto da cabeça e costas daquele homem. Estava sentado na caixa, como se ele ocupasse um trono, e ela fosse uma humilde camponesa, que se atrevera a se dirigir a ele. Repentinamente se lembrou. O guerreiro do deserto!

Elizabeth entrecerrou os olhos e o estudou com cepticismo. Percebendo, Jabari relaxou o semblante, e um sorriso encantador se desenhou em seus lábios.

-Me desculpe, por favor. - Estou muito obstinado com minhas idéias. Minha intenção não foi assustá-la. Eu não sou ninguém, para dizer estas coisas a uma senhorita - Disse ele em um tom cortês.

Aquela súbita mudança de humor foi como se voltassem a aparecer os raios do sol entre as nuvens de tormenta. Seu temperamento agressivo parecia mais honesto, do que aquela súbita cordialidade.

-Não me assustou. - Mentiu Elizabeth - Mas eu gostaria de saber por que se mostra tão intenso com esses temas. Se não o conhecesse, diria que fala da experiência de um guerreiro do deserto. Não parecem ser só idéias.

Precisava confirmar suas suspeitas. Será que Assim, é aquele cavaleiro de tez escura, chamado Jabari?

Mas naquela ocasião, Jabari soube conservar sua máscara. Encolheu os ombros com indiferença.

-Em meu país, todo homem tem um pouco de guerreiro do deserto, inclusive um humilde escavador como eu. - Disse ele, olhando à posição do sol no céu - Suas duas horas de trabalho estão a ponto de finalizar, senhorita. Se quiser receber o total da sua gorjeta, terá que voltar para seu posto.

Um homem inteligente. Resolveu o assunto com tanta maestria que... Elizabeth o observou, enquanto voltavam para a valeta. Curioso. Seus passos não eram firmes e seguros? Não se lembrava de tê-lo visto antes, andar hesitante, e arrastado.

Porque aquele homem estava jogando. E o que estava em jogo? De repente, Asim se converteu em um enigma comparável ao da Amarna. Melhor para ela. Elizabeth adorava resolver mistérios.

Idiota. Aquela mulher esteve a ponto de descobri-lo! Enganado por uma mulher! As coisas não poderiam estar piores. Enquanto se servia de água em uma tigela, sentado em cima de uma caixa fora de sua cabana de tijolo de barro, via horrorizado, que suas idéias davam voltas em sua cabeça. Contudo, a informação que descobrira com Elizabeth, fora mais útil, que o pouco que havia conseguido escutar dos ingleses às escondidas. Aprendeu mais coisas sobre a escavação em uma hora com ela, do que em um dia inteiro com eles.

Ensaboou as mãos e esfregou o rosto com mais vigor do que o necessário. Enxaguou e procurou a toalha. Alguém a pôs impetuosamente na mão. Jabari abriu os olhos e piscou ante o brilhante sorriso de Nazim.

-Agora sim! O dia não pode piorar! - Murmurou.

-Não se alegra em me ver, chefe? - Nazim estava com uma bolsa de lã pendurada em um ombro. - A indumentária habitual de um escavador. A única diferença, era que o turbante de lavanda, que cobria sua cabeça, parecia uma enorme couve-flor multicolorida.

-Comece a mentir! – Secando o rosto, Jabari fez uma careta. – A ordem que lhe dei, foi que ficasse encarregado do povo em minha ausência. - É assim que me obedece?

Os brancos e uniformes dentes de Nazim resplandeceram como diamantes na mortiça luz do sol.

-Estou obedecendo as suas ordens. - Disse-me que devia me encarregar durante o dia! - E aqui estou! - Justo no anoitecer. Acreditou que eu não viria comprovar como estava? Sou seu guardião.

Jabari jogou a toalha ao chão e fixou o olhar no chapéu de seu amigo. Apontou com a cabeça o turbante. - O que é isso?

Nazim ergueu os olhos para o céu.

-Meu disfarce. - Pensei que me ajudaria a me misturar aos ingleses. Acredito que eles gostam das cores do arco íris. Ouvi falar dos... Como se chamam? Dandis ingleses.

-Dandis? - grunhiu Jabari. - Meu amigo, o turbante está muito apertado em sua cabeça grande. Essas cores são de mulher. Parece com aquele homem afeminado, que nos comprou os cavalos no verão passado. O mesmo que piscou o olho para você.

Nazim tirou o turbante da cabeça na velocidade do raio. Olhou-o enojado.

-Disfarçado ou não, me nego a ter o aspecto de uma mulher, ou o de um homem que não gosta de mulheres. Esfregou a cabeça, arrependido.

- Amimado, Jabari riu da expressão de angústia de seu amigo. Pareceu-lhe maravilhoso poder rir, depois de um dia tão desastroso. Com um movimento de cabeça, Jabari convidou Nazim a entrar com ele na cabana.

Como supervisor de zona, conseguira tijolos de barro, para que construísse sua própria cabana. Um tapete cobria a areia, e nele se achavam esparramados travesseiros de plumas. Jabari, sem deixar de rir, e Nazim, sentaram-se no tapete frente a frente. Alegremente, o Sheik deu uma palmada no joelho de seu amigo.

-Estou quase contente de que tenha vindo. - Depois do que passei hoje, precisava rir.

-Tudo para satisfazer meu senhor. - Disse Nazim inclinando-se para frente e fingindo uma reverência.

-Primeiro as notícias. Como está tudo? E meu Ghazi? Está cuidando bem dele?

- Está tudo bem na tribo. Seu falcão... - Nazim franziu a boca -. Sabe que ele não gosta de ninguém, mais do que a você. Levei-o várias vezes para caçar, mas... - Dirigiu o olhar para sua mão direita, na qual havia uma recente cicatriz em forma de meia lua. - Acredito que sente sua falta.

-Esse é meu Ghazi - Disse Jabari orgulhoso. – Peço desculpas pelo mau comportamento do meu falcão.

-A carne que ele trouxe compensou. - Disse Nazim. A seguir abriu sua bolsa, tirou um embrulho de tecido dobrado e entregou a Jabari.

-Trouxe isso. - Asriyah acha que aqui, vai morrer de fome.

Jabari abriu o embrulho com grande entusiasmo, e encontrou um enorme bolo em seu interior. A especialidade de sua tia. Feita com milho e diminutas sementes, cozido com um pouco de mel para lhe dar doçura. Cortou um bom pedaço e o ofereceu a Nazim. O costume estabelece que primeiro se deva servir os convidados. Nazim deu um beliscão e o devolveu a Jabari.

Jabari deu um suspiro de prazer e mastigou a massa satisfeito. De repente, teve a sensação de que o dia no final, não fora tão mal.

-Asim, Diga-me. - Que tipo de tortura infligiu a esses ingleses infiéis? Tem um aposento próprio, um lugar confortável em que dormir, água fresca. Não me diga que também trazem uma dúzia de virgens a cada noite em sua casa?

-Até que implorei por misericórdia. - Respondeu Jabari. Apontou a entrada com a mão. - Se for necessário, derrubam a porta para satisfazer minhas necessidades.

Nazim riu.

-E a mulher que vimos no outro dia? Ela também satisfaz suas necessidades?

Antes que satisfazer suas necessidades, Elizabeth comeria areia. Jabari negou com a cabeça, e pegou outro pedaço de bolo.

-Essa mulher... Me tira do sério. Jamais conheci uma mulher tão teimosa. Não a entendo.

-A conheceu? - Nazim se inclinou para frente com ávido interesse.

-Eu sou seu... Como chamam?... Chefe. Está sob minhas ordens.

-E as cumpre? - Nazim abriu os olhos - Não parece ser o tipo de mulher que obedece. Qual é seu trabalho? - Cavar a terra? Nazim grunhiu - E depois me diz que sou eu, o cabeça dura. Como pode ter semelhante tesouro, trabalhando como um burro sob o sol?

-Foi ela quem quis assim. - Respondeu Jabari, soltando o ar de seu peito.

-Que pessoal mais estranho, esses ocidentais! - Nazim sacudiu a cabeça – São todas, as mulheres ocidentais que cavam a terra?

-Acredito que só ela! – Se entusiasma em encontrar coisas. Para ela, encontrar algo na areia é como encontrar jóias de valor incalculável. - Jabari sorriu. Era tão óbvio que Elizabeth se emocionasse escavando, que seria capaz de colocar objetos na areia, só para presenciar sua exultação infantil.

-E o que me diz do Almah? Esta mulher... Está... O procurando também?

Jabari franziu o cenho. Nazim tocou em um tema, que ainda era um enigma para ele.

-Não sei. – Posso somente deduzir, que nem sequer estão a par de sua existência. Desde que estou aqui, tudo o que falam é sobre o achado que supõem ser, esta cidade.

-Então por que escavam? - A perplexidade de Nazim, era visível a sua própria.

Jabari se calou, e recordou o contentamento no rosto da Elizabeth, quando falava em como a arqueologia abria uma porta ao passado.

-Possivelmente seja algo que levam em seu interior e os impulsionam a sede de conhecimentos da Antigüidade. - Nazim grunhiu - Têm uma sede estranha estes ocidentais.

-Nem a metade do estranho que esse seu turbante é, querido amigo.

-Pois é. - Reconheceu Nazim, e eles riram. Era reconfortante estar de novo entre amigos.

-Contudo, eu não gosto da idéia de deixá-lo sozinho. Tenho coisas a fazer na aldeia. Mas ficarei acampado, e afastado da escavação, mas o suficientemente perto para poder vigiar. Izzah se ocupará dos assuntos da tribo.

Jabari ia protestar, quando viu que Nazim erguia o queixo teimosamente. Como ele, Nazim se limitava a cumprir seu dever. Negar seria uma falta de respeito para com ele. - Jabari assentiu.

-Ficarei feliz com sua companhia. - Reconheceu.

-Minha companhia? Acredito que preferiria a daquela mulher - Brincou Nazim. - Unicamente pela sua inteligência, claro.

-Elizabeth é bastante inteligente e culta. Se eu conseguir surrupiar alguma informação, aprenderei mais com ela, do que espionando os ingleses às escondidas. - Disse Jabari em voz alta.

-Um bom plano! - Mas não se aproxime muito dela. Uma mulher pode ser mais perigosa que uma espada afiada. - Disse Nazim em voz baixa.

Jabari franziu o cenho.

-Você acha que meu pai criou a um idiota, Nazim? Sou totalmente capaz de dominar minhas emoções e as controlar. - Jabari se perguntou se realmente o seria.

Elizabeth deteve sua tarefa, e enxugou o suor do rosto. Contudo, o calor nesse dia estava mais suportável, possivelmente porque ela e Asim tinham chegado a um acordo amistoso.

Nenhum dos dois fez alusão à conversa do dia anterior. Em vez disso, se falaram de forma cortês e respeitosa. Curioso, não deixava de lhe fazer perguntas sobre a arqueologia e a escavação e ela estava encantava em responder.

Elizabeth fez um gesto de dor e fechou os punhos. Asim desceu na valeta de um salto, e segurou suas mãos.

-Suas mãos! - Disse ele consternado. Com supremo cuidado, envolveu as delicadas mãos dela, com as suas - Enormes. Asim virou as palmas para cima e examinou as bolhas grandes e avermelhadas.

Ela as puxou apressada. - Não dói muito.

Ele a olhou pensativo.

-Eu me encarregarei de cavar e encher o carrinho de mão, e você irá inspecionar tudo o que eu encontrar, se me explicar o que está procurando! - Quero aprender. - Ordenou.

Elizabeth estava a ponto de protestar, quando viu seu olhar de persuasão. - Assentiu.

Ele acrescentou:

-Em primeiro lugar, tenho um bálsamo para as bolhas. Se não as cuidar, infeccionarão.

Em seu interior, Elizabeth admitiu que o plano dele, seria um alívio para suas mãos doloridas, e que ao mesmo tempo, preservava seu orgulho. Semelhante consideração era algo que não esperava.

E a delicada e convencida forma com que ele aplicou o ungüento, se perguntou, que classe de homem era ele na realidade.

A equipe fez uma pausa para comer. Asim se sentou de frente a ela em uma caixa ao redor de outra caixa maior, que utilizavam como mesa, e depositou uma bolsa de pano com comida, e um pequeno pote com mel. Elizabeth estudou a comida de Asim com interesse, e suspirando, começou comer a sua. O delicioso aroma da comida de Assim, a tentava mais que sua carne enlatada.

-O que é isso? - Perguntou a Asim.

-Tameya, empanadillas de feijões fritos. Quer uma?

-Sim, obrigado! - Não vim até o Egito para comer carne enlatada! - Disse Elizabeth dando uma mordida na empanadilla que ele acabara de oferecer. - Minha avó costumava cozinhá-las. Mas estas estão bem melhor.

Ele sorriu carinhosamente, e dirigiu o olhar para o lenço que continha sua comida.

-Minha prima Layla é uma boa cozinheira. Seus olhos escuros brilhavam de curiosidade.

-Sua avó é egípcia?

-Nasceu aqui! Em algum lugar do deserto! - Mas, como ocorria com sua religião, jamais se desvinculou deste lugar. Minha avó é muçulmana. Meu tio também. Para se casar com minha mãe, meu pai teve que se converter. Converteu-se, apesar de que nunca conseguiu entender a fé. Mas certa vez, viajou com tio Nahid a Balance, durante o Haj, e jogou pedras nos três pilares que representam Satã. - Contou ela.

Asim permaneceu pensativo, com o olhar perdido no horizonte.

-Jamais fui a Balance. Meu povo tampouco. São rigorosamente muçulmanos. Praticamos muito das suas leis, mas também temos nossos próprios... Costumes religiosos, que datam de milhares de anos.

-Que curioso. - Seu povo! - Refere aos aldeões?

Jabari abriu os olhos sobressaltado, e piscou. Possivelmente por causa do sol, porque logo seu rosto adotou a expressão impassível de sempre.

-Há duas aldeias perto daqui. Haggi Quandil, perto do rio, e Amarna. Alguns de meus... Minha gente... Vive na Amarna. É uma pequena aldeia ao sul do Haggi Quandil.

-A aldeia que dá nome à escavação. - Disse Elizabeth buscando na memória. - Um aldeão da Amarna, encontrou uma tabuleta perto daqui. Eram cartas do faraó Ajenatón para outros reinos.

Um músculo esticou em seu rosto, e desviou o olhar. Sim, essa mulher. Estava escavando a procura de tijolos de barro, para utilizar como combustível, e quando os encontrou, acabou em papo de... Estrangeiro. Desta forma, removeu o passado.

-Igual a você. Você está aqui também. O que tem de mal investigar o passado? Pode aprender tanto dele.

Ele enrugou a testa em sinal de desacordo, mas sorriu em seguida.

-Possivelmente tem razão. Tenho vontade de aprender sobre esta escavação.

Elizabeth teve a sensação, de que mais uma vez ele evitava em dizer a verdade. Encolheu os ombros e continuou comendo. Entre um bocado e outro, Elizabeth desenhou as peças que encontraram. Erguendo os olhos, percebeu que Jabari olhava para uma mesa próxima, com cara de poucos amigos.

-Eu não gosto deles. - A voz de Elizabeth, desceu até se converter em um suspiro, ao se referir aos guerreiros Ao-Hajid, sentados à mesa ao redor de um bule de latão. - Desses não! - Parecem uns... Selvagens. Os outros de vermelho e branco, são mais agradáveis. Mas não estão mais aqui.

Asim permaneceu em silêncio, e continuou comendo. Seu profundo e perturbador olhar recordava o de um falcão, que uma vez vira no zoológico. Seus olhos redondos escrutinavam silenciosamente os visitantes, como se cada um deles fossem seus inimigos, e fosse cravar as garras neles a qualquer momento.

-Os Ao-Hajid têm dois clãs! - Os Farris e os Taleq. - Os Farris são os de vermelho e branco, os Taleq de vermelho e negro. Os Taleq ordenaram aos Farris que abandonassem a escavação. Acredito que os Taleq conseguiram o controle da tribo dos Farris. - Observou ele limpando a boca.

-E por que lutaram os dois clãs, se pertencem à mesma família?

-Família, sim. - Mas como toda família, os clãs às vezes brigam. É ao Sheik a quem recorrem para resolver as brigas, se é que ele se preocupa com a união de sua tribo, e de sua gente. Um bom líder, jamais tolera a crueldade por parte de sua tribo, ou de clãs maiores sobre clãs menores, para mostrar poder.

-E como sabe tanto deles? - Perguntou Elizabeth.

-É sábio, se inteirar de tudo o que acontece com quem se que trabalha – Sussurrou, com o olhar fixo nos homens que faziam fila para comer. Salpicou o pão com um pouco de mel, e ofereceu a Elizabeth. Ela negou. Asim comeu o pão. Elizabeth observou como lambia o mel de seu voluptuoso lábio superior. Era um gesto muito natural, que lhe dava um aspecto travesso. Uma estranha e sensual excitação se apoderou dela.

Asim percebeu que o observava e arqueou uma sobrancelha. Desconcertado, voltou a olhar para a mesa que os Ao-Hajid haviam abandonado, com a intenção de desviar a sua atenção.

-Eles me dão medo. - Admitiu ela tremendo.

-São simples, e não são verdadeiros guerreiros. As armas dão aos homens fracos, a ilusão do poder - Disse com autoridade. Em seguida, sua boca esboçou um sorriso.

Elizabeth sentiu que se derretia. Ele é muito atraente... E sorrindo, dava-lhe um ar malicioso.

-Vou provar o quão idiotas eles podem ser. - Disse ele, com seus olhos negros brilhando de expectativa. Pegando seu enorme fardo, levantou e levou o pote de mel com ele. Impregnou as asas das taças de lata com um pouco de mel e voltou correndo para o seu lugar.

Pouco depois os guerreiros voltaram. Elizabeth deixou escapar uma risadinha. Quando eles ergueram suas taças para beber, sentiram que não podiam liberar as mãos das taças, e suas caretas habituais, se converteram em expressões de verdadeiro assombro.

Ela soltou uma gargalhada. Jamais imaginou que Assim seria capaz de semelhante brincadeira estúpida. Ele olhou os Ao-Hajid com uma expressão de satisfação. Depois de comerem, voltaram ao trabalho. Ele desenterrou uns quantos fragmentos de cerâmica, muito interessantes. Mais tarde, sentados à mesa, ela os examinou. Com cuidado, Elizabeth tirou o pó das peças com um pincel. A vida não podia ser melhor.

-Elizabeth.

Aquela forma áspera de pronunciar seu nome cortou sua alegria, como um martelo faz com um cristal. Ergueu os olhos e encontrou seu tio que a olhava fixamente.

Nahid se inclinou e sussurrou em seu ouvido.

-Encontrei-o. O Marco Atón. Esta noite procuraremos o Almha. Espero-a em minha cabana a meia-noite.

-Estarei lá. -sussurrou ela. Nahid prosseguiu seu caminho, como que só se deteve, para ver o que Elizabeth encontrara.

Ela olhou a seu redor. Asim estava a uns vinte e cinco metros dela, mas duvidou que ele tivesse ouvido. Nessa noite, começaria a verdadeira busca.

Se Elizabeth soubesse, o que ele aprendera vivendo no deserto. Porque além de aprender a sobreviver sob duras circunstâncias, o profundo silêncio do deserto o ensinou a escutar. Podia ouvir o deslizar da areia nas dunas, a quilômetros... E os aguçados sussurros de mulheres traidoras que teciam planos.

Quanto mais a olhava, mais a raiva se apoderava dele. Jabari chegara a acreditar, que o único propósito de Elizabeth, seria desenterrar o passado do Egito. Elizabeth era a mulher mais complexa que conhecera. Encantadora, brilhante e divertida ao extremo, possuía uma capacidade de resistência que quase igualava à sua. Gostava de falar com ela. Conversar com ela, fazia com que sua solidão se tornasse suportável.

Mas afinal, ela estava demonstrando ser tão ambiciosa, como os outros escavadores. Mas na realidade, o ela que desejava, era fortuna e riqueza. Ela não venerava o passado. E permitiu que se aproveitasse dele.

Que papiro os teria informado da existência do Almha? O único exemplar existente pertencia a sua tribo. Nkosi, em uma incomum estupidez e arrebatamento, o deu de presente a sua amante e em seguida, renunciou a seu cargo de Sheik por vergonha. Como esses ocidentais o encontraram? Jabari fechou os punhos. Não importa! Ele os deteria.

Se soubessem pelo menos onde procurar. O Marco Atón se achava muito longe do Almha. Contudo, seu coração pedia vingança. O Marco Atón era o antigo templo de Kiya, no qual os Khamsin rendiam culto, a sua rainha. Para os seus, era um dos lugares mais sagrados.

Elizabeth se aproximou correndo para ele, radiante. Trazia uma pequena peça na mão e a jogou no ar para que ele pudesse examiná-la.

-Olhe. - O fragmento de um frasco de cerâmica, que provavelmente continha azeite de oliva perfumado. - Ela acariciava o exemplar carinhosamente, alheia a sua silenciosa raiva. - Quando o toco sinto-me parte de sua cultura.

Ele deu um suspiro de desdém. “Jamais fará parte de nada nosso. - Prometeu-se em silêncio. - É uma maldição para nossa gente.”

Ela levantou a vista.

-Pensei que você gostaria de ver.

Dono de grande controle, e reprimindo seu mau gênio, forçou uma resposta cortês.

-Essa peça é sua, e não minha! - Devo ir agora. - Tenho coisas a fazer com os outros escavadores e não posso perder mais tempo - Procurou as palavras adequadas – De brincar na areia contigo.

A dor que viu no olhar de Elizabeth, acalmou seu orgulho, e Jabari deu meia volta. - Fui um idiota em baixar a guarda - Elizabeth entrou galopando em sua vida e conseguiu vencer sua natural cautela com brilhante inteligência e adorável beleza. Quando começou a confiar, ela lhe deu um coice que o jogou a toda velocidade na areia.

Seu espírito reclamava por vingança, mas Jabari aplacou este desejo. Sua obrigação moral como guerreiro do vento exigia silêncio, pois sua missão em primeiro lugar era de proteger o Almha.

A vingança viria mais tarde e desse modo seria mais doce.

 

O Egito, envolto em um manto com a luz da lua, era de uma beleza misteriosa e exótica, mas Elizabeth estava muito aborrecida para apreciar. Enquanto golpeava o pico contra a terra, uma série de perguntas amontoava-se em sua cabeça.

Seu tio a levou às ruínas do Marco Atón, a poucos quilômetros da escavação. A probabilidade de que os descobrissem, era mínima. Os Ao-Hajid só patrulhavam a jazida. Ao chegarem lá, Elizabeth experimentou certo prazer. De repente, um turbado sentimento de culpa se apoderou dela, como se estivessem desenterrando algo que seria melhor deixar intacto. Nahid recolhia os escombros da vala com a pá, para utilizá-los mais tarde.

Elizabeth pensou na surpreendente mudança de humor de Asim. Ele os escutara. Mas se foi assim, por que razão um simples escavador iria se ofender tanto, por causa de uma escavação secreta? A menos que ele não seja um “simples escavador.”

Só em pensar, um calafrio percorreu suas costas. Elizabeth jogou o pico ao chão e pegando uma pá se apoiou nela.

-Elizabeth!

Sobressaltou-se ao ouvir tio Nahid sussurrar seu nome atrás dela.

--Se ficarmos parados sonhando, não encontraremos nada! Deixe de pensar na morte da bezerra! Temos que encontrar esse maldito disco e o tirar daqui às escondidas, antes que a equipe de arqueólogos chegue, assim cada segundo conta muito.

Ela deixou cair à pá, profundamente preocupada com as palavras de seu tio.

-O mais importante é achar os antigos remédios. - Verdade?

Ele não respondeu, embora emitisse um grunhido, enquanto voltava a cavar com incessante determinação. Elizabeth se perguntou o porquê da atitude desagradável de seu tio. Ultimamente, ele a incomodava. Mas era sua família e não contava com mais ninguém.

Pensou em sua avó! Uma mulher tão enigmática como seu filho. Jana abandonara sua tribo e se casara com um soldado britânico, destinado ao Cairo. Nahid e Rasha, mãe da Elizabeth, cresceram no Egito. Seu único vínculo com o deserto era a linguagem.

Enquanto secava o suor da testa, Elizabeth se deteve ao pensar na decisão de sua avó. Por que razão sua avó teria abandonado sua tribo no Egito? E se foi por amor, por que renunciara por completo a sua cultura?

-Tio Nahid! - A qual tribo pertencia vovó? - Elizabeth começou recordar o pouco que sua avó havia contado sobre os velhos tempos.

Sob a luz da lua, Elizabeth viu os olhos dilatados e a reação de surpresa de tio Nahid. Ele deixou de escavar e se apoiou na pá.

-Isso são coisas do passado! - Minha mãe jamais quis falar disso! – Sugiro que faça o mesmo. Não esqueça da razão pela qual está aqui.

-É verdade! - Devemos nos apressar em encontrar a cura para vovó.

-Há tanto em jogo - balbuciou entre dentes - Minha mãe é só uma parte disso.

As críticas palavras do tio preocupavam Elizabeth. Estava realmente interessado em encontrar a cura para salvar sua mãe? Ou pelo dinheiro, que substituiu sua intenção original de encontrar o Almha?

Não seria capaz de suportar, que a motivação principal de tio Nahid, seja a cobiça. Esse pensamento a atormentava tanto, que descartou.

O Almha estaria muito melhor enterrado sob a areia, do que em mãos de um caçador de tesouros.

Como era de se esperar, não encontraram nada. Jabari observava à garota americana e a seu ambicioso tio, enquanto escavavam durante três horas. A seguir apagaram as provas do crime.

Mesmo assim, o fato não aplacou a confusão de Jabari no dia seguinte. Pensou que conhecia melhor às pessoas. Elizabeth parecia realmente entusiasmada com o descobrimento do Antigo Egito. Como teve a coragem de abusar dos seus sentimentos daquele modo?

Enredado por esses pensamentos, Jabari empreendeu o passo pela areia pedregosa em direção ao este, pelo Wadi Abu Hasah o-Bahari, o uadi principal que partia da Amarna. O uadi, o leito de um rio seco que atravessava as montanhas, era sagrado para sua gente. Acreditavam que os espíritos de seus antepassados residiam nele.

Naquele lugar, quase que se podia escutar o murmúrio da morte.

Em todo caso, era preferível ouvir o murmúrio da morte, do que os pensamentos que assediavam sua cabeça.

O calor era tão intenso, que as emoções que estavam em seu interior transpassavam sua pele. O ar cheirava a pó e antigos desejos. Depois que tirou o véu de seu rosto, e o ocultou em seu turbante, Jabari prosseguiu andando sobre o chão pedregoso. Virou para o sul, cortou abruptamente para o norte, e ao sul outra vez. O uadi estava cheio de pedregulhos, cascalhos e rochas. Paredes de fino lodo se viam dos lados do rio.

Uns quatro quilômetros mais adiante, as paredes do cânion começavam a se estreitar. Jabari se deteve frente a uma gigantesca rocha perto da entrada do uadi real, o cânion que guardavam as tumbas reais e catacumbas secretas, nas quais seus antepassados estavam enterrados. Ficou imóvel olhando para uma rocha, no mais completo silêncio. Sozinho. Tão só. Ninguém no mundo poderia entender o peso que levava em suas costas. Não tinha ninguém com quem compartilhar suas cargas. Nem sequer seu melhor amigo e confidente, Nazim, podia compreender o monte de problemas que assediavam a tribo.

O silêncio se estendia sobre ele em forma de uma sigilosa onda. Um bater de asas rompeu o silêncio. Jabari ergueu os olhos para o céu, e viu uma pomba branca voar no alto. Deu um passo atrás maravilhado pela imagem. Seria um sinal de seus antepassados, de que seus dias de solidão estavam terminando? Esticou o pescoço e seguiu com a vista o pássaro, que virou para o oeste do Nilo, até que desapareceu. Se ajoelhou e sentou sobre as pernas. Apoiou as mãos em seu colo e fechou os olhos. Inclinou a cabeça, e com grande respeito, recitou em voz alta no antigo egípcio, as palavras que seu pai havia lhe ensinado.

-Em comemoração a vós, meus honoráveis antepassados. Que o Senhor da Eternidade cuja glória lhes foi revelada, os retenha em seu abraço para sempre. Eu compareço ante vós, um guerreiro do vento com o coração puro e o espírito forte. Prostro-me ante vós, com humildade, e lhes suplico que me orientem no caminho. Guarde meu coração do diabo. Guarde minha língua das falsidades. Renova-me com sua força ancestral. Funda-me com o deserto. Conceda-me a vitória na batalha, a honra na derrota, e a sabedoria para guiar nossa gente. Que suas memórias sagradas permaneçam sempre escritas nos quatro ventos.

Enquanto executava o arcaico ritual, uma reconfortante sensação de paz e harmonia se apoderou dele. Jabari achava consolo nas antigas tradições e costumes. O silêncio ressonava no cânion. A desolação que oprimia sua alma se desvaneceu. Estava sozinho, mas já não se sentia só. Seus antepassados o acompanhavam.

Jabari recolheu um punhado de terra e lançou ao vento. - Que Alá guie meus passos e me leve pelo caminho conforme sua vontade e não a minha.

Levantou-se de um só movimento, voltou a inclinar a cabeça e tirou o véu. Estava tranqüilo e otimista. Então o ouviu. Apenas um leve e perceptível espirro. Jabari farejou no ar.

Um delicado aroma flutuava na brisa. Apesar de tudo, não estava sozinho.

Ele não poderia vê-la. Elizabeth amaldiçoou o pó que se levantou na agitação de se ocultar de Asim. O pó entrou em seu nariz, fazendo cócegas, como um espanador de plumas. Procurou em vão conter o espirro. De nada serviu.

Não era sua intenção espiá-lo. Levara a pomba para ensiná-la a voltar sozinha à jazida. Por alguma estranha razão, Elizabeth havia se sentido obrigada a levar a pomba para aquele lugar do rio. De repente, viu que Asim se aproximava e soltou a ave. Então se escondeu na fenda de uma rocha e observou.

Ele passou o dia todo a evitando e cada vez que ela tentava lhe falar, ele se desculpava com o trabalho. Estava com um aspecto vulnerável, desamparado e seus majestosos ombros cansados, como se carregassem uma carga muito grande. Seu coração ansiava por consolá-lo. E era evidente que ficaria furioso se a encontrasse ali. De modo que permaneceu imóvel, e fascinada por aquelas palavras profundas, apesar de que não entendesse nada.

O mais provável, é que ele soube que alguém o seguira. Ainda escondida, Elizabeth o olhou. Ele permaneceu imóvel durante uns instantes, com o olhar fixo nas rochas a frente dele, e então, com um sobressalto, olhou para onde ela estava. Com o coração pulsando alarmado, e em ritmo frenético, ela se introduziu o mais que pôde na fenda. Ouviu o ruído de suas sandálias contra o chão pedregoso. E viu seu corpo alto e musculoso passar em frente a seu esconderijo.

Esperou um minuto inteiro, e se arriscou a dar uma olhada. Ele se foi.

Elizabeth saiu de seu esconderijo. O alívio fazia com que suas pernas tremessem. Aproximou-se do lugar ao qual ele fizera a oração, e disse brandamente, sentindo que devia se desculpar por perturbar a paz daquele lugar sagrado.

-Por favor! - Me perdoem por haver me intrometido. Não quero magoar ninguém.

Sentiu um repentino formigamento na palma da mão. Elizabeth sacudiu a mão no ar, e ficou olhando-a confusa. Olhou a sua volta. Por que sentia esse lugar tão familiar? Corno se já estivesse estado aqui antes? A chamada de antigas lembranças flutuava no ar, e ela estendeu as mãos, para que estas passassem através de seus dedos.

“Não é nada. Só minha imaginação.”

Finalmente se livrou daquela sensação e se afastou rapidamente do local sem, no entanto, poder se desligar totalmente da idéia de que o uadi real era de grande importância. Possivelmente de maior importância para ela, do que para Asim.

A meia-noite, os traidores voltaram a escavar.

Com a sombra da luz da lua, Jabari permaneceu oculto na areia a uns poucos metros do templo antigo. Percebeu que Elizabeth trabalhava a um ritmo menor que o de seu tio, como se seu coração estivesse resistente a realizar semelhante tarefa. De vez em quando, Nahid parava e gesticulava zangado para ela. Com os ombros cansados, Elizabeth voltava ao trabalho.

Jabari não conteve a raiva, deixando que o impregnasse até o último poro de seu ser e com o coração enegrecido, permitiu que se voltasse contra ela. Deixou que um implacável ardor o consumisse, a não ser, que viesse a se abrandar por compaixão a Elizabeth. Sentir compaixão por um inimigo, derruba qualquer homem na mesma velocidade em que uma espada corta o ar.

Jabari entreabriu os olhos. Elizabeth o estivera espiando, enquanto realizava o ritual sagrado. Sentira a sua presença, pelo seu aroma de romeiro. Mas ele decidiu ignorá-la, e a sua própria raiva. Precisava se passar por um espectro no pó do deserto.

A areia transportava os sons da terra. Jabari reclinou a cabeça e sorriu para si mesmo. Poderia dormir. Não terminariam antes de uma hora.

Segundo previu, deixaram de cavar uma hora mais tarde. Jabari levantou a cabeça e sorriu com satisfação, ao ver que Nahid voltava a testar a área furioso.

Para sua surpresa, Elizabeth não acompanhou seu tio Nahid, no caminho de volta ao acampamento. Pegou uma pequena bolsa e começou a andar em direção a ele, para o rio. Jabari a observou caminhar pelos campos cultivados e as palmeiras.

Devia averiguar o que eles tramavam. Jabari a seguiu em silêncio, como um leão segue a pista de sua presa na relva alta. Se escondeu atrás de uma alta palmeira a poucos metros do lugar em que ela estava em pé e agachando-se decidiu esperar.

O movimento imediato de Elizabeth fez com que sufocasse um grito de assombro.

Elizabeth olhou a sua volta para comprovar se alguém a estava olhando. A seguir, deixou sua bolsa no chão e começou a tirar a roupa. Primeiro a camisa suja de terra, e em seguida a saia. Ficou só com um corpete, o que pareceu ser bastante incômodo e um objeto de roupa branca parecido com um vestido. Seus compridos e esbeltos braços reluziam à luz da Lua.

Se ela tirasse mais alguma peça de roupa, seu coração saltaria do peito como uma gazela assustada. Sua consciência lhe dizia para ir embora, mas, seu instinto masculino insistia para ficar.

Elizabeth levantou o rosto para o céu e sorriu como se fosse sua amante. Seus seios subiam e desciam como se fossem ondas. Retirou os grampos do coque e seus longos cabelos loiros caíram pelas costas. Ela abaixou as mãos para o fecho do corpete. O pulso de Jabari acelerou.

Ela o desabotoou. Seus seios ficaram à mostra. Eram grandes, redondos e firmes. Imaginava-se   estendendo a mão hipnotizado, tocando-os e sentindo sua maciez e textura. As veias em suas têmporas palpitavam com força. Elizabeth tirou definitivamente o corpete, e o deixou cair ao chão. Seu pulso já estava na velocidade de um raio.

Elizabeth se livrou do resto da roupa, se desfazendo dela como se fosse uma segunda pele. Se voltou deixando a descoberto sua luminosa pele, oculta só pelo liso cabelo dourado.

Jabari a observou enquanto pegava um sabonete de sua bolsa, e entrava na água. Elizabeth mergulhou no Nilo, saindo em seguida à superfície. Pequeninas gotas de água escorriam de seus deliciosos e redondos seios, e suas sinuosas extremidades. Seu corpo cintilava como mármore à luz da lua prateada.

Como desejaria ser uma daquelas gotas, e deslizar por sua pele, saboreando sua suavidade. Incapaz de retirar o olhar, Jabari conteve a respiração. A pesar do frio da noite, o suor escorria por suas têmporas.

Com erótica lentidão, Elizabeth esfregou o braço com o sabonete deixando um rastro de bolhas na água. Desejo, ardor, e ferocidade invadiram seu interior. Desejava-a. Jamais desejara uma mulher tão ardentemente como a essa. Beijar seu belo e alvo pescoço. Prendê-la em seus braços e possuí-la.

O que estava acontecendo com ele? Muitas mulheres se despiram na frente dele, com o único objetivo. De agradá-lo, valendo-se de lentos e sensuais movimentos, criados exclusivamente para seduzi-lo. E, no entanto, o banho inocente daquela mulher americana, conseguiu excitá-lo muito mais que qualquer dança exótica efetuada em sua honra.

Continuou olhando-a absorto, enquanto ela acariciava suas formas femininas, e mergulhava na água. Novamente em pé, Elizabeth ensaboou os cabelos.

Alguns minutos mais tarde, o ódio foi se acumulando contra ela. Sentiu ânsia de ferir seu orgulho, de humilhá-la, tanto quanto ela fazia com os homens nos quais cruzava. E agora ela se encontrava em pé frente a ele, com a bela forma de seu corpo, revelando até o último recanto de sua feminilidade.

Não podia estar mais desarmado. Elizabeth só faltava priva-lo de sua espada e sua adaga. - Pensou ele.

Elizabeth voltou a mergulhar na água e saiu à superfície, como se fosse uma ninfa emergindo do meio das espumas do mar. E começou a cantar em voz baixa e sensual.

Jabari reconheceu a melodia de uma canção de berço egípcio, que sua mãe costumava cantar. Fechou os olhos e recordou o terno amor que sua mãe sempre demonstrara por ele em sua infância. Jabari sentiu no peito, uma profunda nostalgia que nunca compreenderia. O desejo e a sensação reconfortante de ser querido. Depois de ouvir Elizabeth cantando com sua doce voz, permitiu que o encantamento se aproximasse de seu coração.

Os olhos de Jabari se abriram desmesuradamente. O que estava fazendo, em nome de Alá? Suspirando por uma mulher nua, como se fosse um adolescente doente de amor. Ostentava o título de Sheik dos Khamsin. Ele, Jabari bin Tarik Hassid, descendente dos honoráveis guerreiros do vento, temido por muitos, respeitado por todos, deixava-se abrandar por uma mulher.

Jabari fez uma careta a seu membro viril, que pulsava com força sob suas calças, desejando que voltasse para seu estado normal.

«Está-me dando problemas. Não penso em te escutar» - Disse-se.

Indignado, Jabari permaneceu em pé, e lançou um último olhar a Elizabeth. Estava deitada de barriga para cima, e dava preguiçosas batidas contra a água, com suas longas pernas. Jabari, voltando às costas, entrou na noite, indo para sua cabana. O sono não ia aliviar o desassossego daquela noite. O amanhã demoraria a chegar.

Elizabeth flutuava de barriga para cima, um pouco coibida por permanecer nua ao ar livre. Queria estar com a camisa, mas não podia se banhar vestida. Além disso, à exceção da lua, ninguém mais poderia vê-la. Ficou olhando a lua de prata, que a acariciava com sua delicada luz.

Enquanto batia na água com suas longas pernas, deu uma olhada em seu corpo. Não estava de todo mal. Ventre achatado, seios um pouco grandes, mas firmes, pernas longas. Automaticamente, tocou à estranha marca de nascimento no quadril direito. Aquela mancha de cor rosa parecia uma pomba que descia a terra. Sua mãe estava sempre dizendo, que era sua marca de honra, e que marcaria seu destino.

Fechou os olhos e escutou a quietude da noite, querendo sentir na realidade, os desejos mais profundos de sua alma. Voltou o pensamento, para o momento que Asim recitou a oração no uadi. Parecia um lugar sagrado. Um lugar em que alguém podia render culto...

Elizabeth estremeceu sobre a água por semelhante pensamento. Sobressaltada, nadou até a borda e ficou em pé, respirando com dificuldade.

A excitação se apoderou dela. Sabia exatamente onde procurar o Almha. Pensou em sair correndo e contar a tio Nahid. Seus instintos a impediram. Melhor seria surpreendê-lo.

Iria fazer tudo sozinha. Na noite seguinte. Ela, Elizabeth Summers, desvendaria os segredos do tesouro que permanecia intacto, durante mais de três mil anos enterrado na areia.

Não poderia tolerar por mais tempo, que seus inimigos violassem as areias sagradas. Os Ao-Hajid deveriam partir. Na noite seguinte, Jabari convocou Nazim e Musab. Vestiam os binishes azul anil. Protegeram suas espadas em capas de aço, que estavam penduradas na cintura. Revistaram suas adagas e deixaram suas botas de pele, por cima de folgadas calças de algodão. Enrolaram um tecido azul anil em volta de suas cabeças, formando um turbante, e cobriram seus rostos com véus. Nazim e Musab pegaram seus rifles, e os carregaram no ombro. Jabari pegou uma manta, roupas de cama e uma bota de pele de cabra cheia de água, e tirou tudo para fora.

Depois de que Jabari pendurou as provisões em sua égua, afastaram-se andando junto com seus cavalos. A certa distância do acampamento detiveram-se, e os montaram. O trio cavalgou até chegar a poucos metros da escavação, onde desmontaram, voltando a caminhar em silêncio. Não viram nenhum sinal dos Ao-Hajid, Até chegarem à escavação.

«Cães preguiçosos»... Jabari pensou com desprezo. Seis homens estavam roncando, com seus rifles apoiados contra a mesa. Jabari fez um sinal a Nazim, que se apressou em tirar suas armas, e as deixar longe de seus alcances.

Continuando, o trio fez o ritual Khamsin de honra, antes da batalha. Ficaram em pé frente a frente e lançaram o grito de guerra Khamsin.

-Sou Jabari bin Tarik Hassid, Sheik dos grandes guerreiros Khamsin do vento. Não vou tolerar por mais tempo suas presenças nesta cidade sagrada. Desistam agora, ou que seus espíritos os abandonem.

   Levantaram-se sobressaltados, procurando por seus rifles, que desaparecera.

-Porcos Khamsin. Guardam uma cidade morta, e rendem culto a Kiya, uma rameira. E deixam o ouro de incalculável valor apodrecer na areia, seus cães estúpidos. - Disse um deles desdenhosamente, enquanto desembainhava sua espada.

Nazim grunhiu zangado perante semelhante insulto, mas Jabari permaneceu em silêncio. Nenhuma emoção. Esticando o corpo, adotou a postura do guerreiro e atacou. Aço contra aço. Em poucos minutos a batalha estava decidida. Jabari contemplou os corpos sem vida de seus inimigos.

-Musab e eu nos encarregaremos dos corpos - disse Nazim - Ou deveríamos deixá-los como advertência aos ingleses?

-Não. Quero que pensem que foram eles, a abandonarem o lugar. Antes de olhar à garota, devo visitar o uadi sagrado. Meu espírito está inquieto. Quando terminarem, voltem para a aldeia. Não me esperem. Esta noite quero dormir sob as estrelas.

Jabari montou em seu cavalo e partiu em direção ao uadi principal. Uma vez na entrada do cânion, divisou um movimento ao longe e se deteve. Entrecerrou os olhos. Alguém atravessava o vale correndo. E àquela hora da madrugada? Não se tratava de uma alma ingênua, isso estava claro. Deu umas palmadinhas no cavalo, e avançou alguns metros.

Quando chegou à entrada do uadi principal, Jabari desceu do cavalo, deixou as rédeas penduradas e fez um sinal a Saltar, para que não se movesse. Colando o corpo nas escarpadas paredes de rocha, confiou em sua boa visão para guiá-lo nas sombras escuras. Avançou em silencio pelo cânion, até chegar ao lugar sagrado de adoração.

Um ruído assaltou seus tímpanos. O pulso de Jabari acelerou. Alguém estava cavando na entrada do uadi real. Um dos samak descobriu o Almha.

Desembainhou a espada e a manteve no chão. Sentia grande desagrado misturado com o sabor metálico da raiva, pela tarefa que se via forçado a fazer.

Matar um homem desarmado era um ato desonroso. Mas o dever o chamava. Fizera um juramento de sangue, segundo o qual, atenderia à lei, que se conservou geração após geração. «A aquele que ousar perturbar o lugar sagrado do Almha, o vento tirará sua vida, em forma de espada afiada. »

Jabari se moveu entre as rochas com grande cuidado e presteza. Ao fazer a curva, pôde ver a rocha, na qual rendeu culto aos deuses no dia anterior.

Elizabeth cavava o pico na terra pedregosa.

Jabari quase deixou cair à espada ao chão, com a visão. - «Por favor, Alá, ela não» - Rogou. Fechou os olhos à espera de um milagre. Abriu-os. Olhando aquela figura, não havia mais a mínima possibilidade de engano. Fora testemunha de todas e cada uma de suas deliciosas e sensuais curvas na noite anterior.

Fúria, confusão, remorso e agonia, invadiram sua alma. Por mais que Elizabeth o deixasse zangado, violando os princípios que seu povo reverenciava, Jabari seria incapaz de tirar sua vida.

Mas assim ditava a lei. Jabari, como qualquer outro membro da tribo, vivia de acordo a um rigoroso código de honra. Fez um juramento sagrado. Desobedecê-lo, não só significava o exílio, mas também a desonra do nome de sua família. Se espalhasse o rumor, as demais tribos poderiam considerar os Khamsin fracos.

Jabari desenhou um arco no ar com a espada, e ouviu o ruído de seu fio contra o vento. Antecipou a manobra, com um corte repentino, sem aviso prévio. Não sentiu nada. O golpe mortal separaria seu espírito de seu corpo em um único e brusco movimento.

O pensamento de ter que usar sua espada contra o formoso pescoço feminino o horrorizou.

Teria que haver outra forma. Mas qual? Não podia deixá-la livre. Encontraria o Almha. Elizabeth então voltaria para o acampamento com seu tesouro e o venderia ao melhor pagador ignorando a perigosa e poderosa capacidade de influência sobre sua gente.

Jabari fez algo que jamais se propôs a fazer antes de matar um inimigo. Ajoelhou-se e rogou para encontrar um modo de salvar sua vida. Rogou a Alá que o concedesse sabedoria. Suplicou aos espíritos de seus antepassados que o guiassem.

Quando acreditou que não havia solução, soube o que devia fazer. Jabari ficou em pé, segurou firmemente sua espada aproximando-se de seu cavalo.

Elizabeth estava tão entusiasmada com sua visão, que cavava a um ritmo que jamais acreditou ser capaz. Alternando a pá e o pico, jogava pedras e terra com a mão direita, sinistra, combinando uma energia selvagem que não procedia só dela.

Alegando dor de cabeça, Elizabeth havia conseguido parar a escavação no templo naquela noite. Antes da meia-noite, calçou sandálias, saia, blusa e um vestido por baixo de sua indumentária habitual. O cabelo caía pelas costas. Vestiu-se tão rápido, que a blusa desabotoada deixava a descoberto seu pescoço.

Ela evitou ser vista na escavação escondendo-se nos precipícios, embora não vira nenhum guerreiro patrulhando. Sabia ser aquele um lugar sagrado, pela forma com que Asim o venerara no outro dia. Sentia que também era um lugar importante para ela. Agora entendia tudo. Com todo o seu ser. O Almha a chamava. Chamava-a do lugar em que estava enterrado. Queria poder parar e tampar os ouvidos. A música era extremamente encantadora, e suas mãos se negavam a deixar de trabalhar. A luz da lua banhava as areias rochosas. O perfume da noite e das ervas aromáticas que cresciam perto do lugar enchia seus pulmões.

Repentinamente, um som interrompeu a melodia do Almha. Um pouco parecido a um trovão enfraquecido pela na distância.

Não, não era um trovão. Eram os cascos de um cavalo golpeando contra os cascalhos e a areia endurecida. Elizabeth levantou a cabeça horrorizada.

O guerreiro do deserto dos seus sonhos se aproximava galopando para ela como uma promessa envolta nas sombras. Depois de reconhecer aquela figura alta oculta por um véu, deixou cair à pá ao chão aterrorizada. Suas pernas tremeram. Dando um passo atrás se apoiou contra a rocha. O guerreiro levantou no alto sua ameaçadora espada, que emitia um brilho prateado sob a luz da lua.

Apesar do terror que estava experimentando, Elizabeth se sentiu fascinada com a magnificência e a soberba ferocidade, própria de um antigo guerreiro. O Sheik parecia um anjo negro vingador.

Instintivamente soube que iria matá-la. Violara um lugar sagrado e ancestral. Sentiu desaparecer todo vestígio de força. Enquanto contemplava o espectro da morte se aproximando, seus olhos encheram-se de lágrimas.

Elizabeth inclinou a cabeça esperando o golpe mortal. Então, levantou os olhos para dar uma última olhada à vida. Abafou um grito de assombro quando o guerreiro agitou a espada no ar e a introduziu na bainha.

Deteve o cavalo em frente a ela e inclinando-se com um só movimento, e com a mesma facilidade com que um falcão agarra a sua presa, Jabari a levantou e a sentou na garupa do seu cavalo.

 

Estivera à beira da morte, mas continuava viva. Muito alterada para falar, Elizabeth sentiu que seu coração galopava à mesma velocidade que os cascos do cavalo.

Raiva, alívio e confusão cresciam dentro dela. O escuro anjo da morte não separou sua vida de seu corpo. Em lugar disso, levara-a com ele.

Devia estar sonhando. Elizabeth se sujeitou à elevada cavalgada, saltando acima e abaixo, conforme o passo do cavalo. Não, não estava sonhando.

O braço de Jabari rodeava sua cintura enquanto percorriam cavalgando o uadi principal. O vento golpeava contra suas panturrilhas nuas, pois o guerreiro a forçou a sentar-se escarranchada no cavalo como um homem. Podia sentir o corpo de Jabari em contato com suas costas, sólido como o mármore. Cada vez que se inclinava para dar uma sacudida às rédeas, o quente fôlego do guerreiro lhe provocava cócegas na orelha.

Estava seqüestrando-a. Com que direito o fazia?

Seu instinto a impulsionava a tentar escapar. A lógica confirmava que poderia cair e se quebrar. Ele teria que parar em algum momento.

Reduziram o passo a meio galope, deixaram para trás as elevadas paredes do cânion e entraram no vale. Elizabeth desejou ter ficado comodamente em sua áspera cabana no Haggi Quandil. Aquela aventura egípcia se converteu sem querer, em um belo pesadelo.

A pouca distância dos precipícios de lima nas planícies de areia, duas figuras de negro esperavam ao lombo de seus cavalos.

Elizabeth sentiu um temor crescente. Aquele não era um ato espontâneo.

O guerreiro se deteve e ergueu a mão para saudar, enquanto os homens inclinavam à cabeça como subordinados perante um superior.

--Musab. Nazim. Peguem à pá e o pico e cubram a terra perto do uadi real... Façam desaparecer qualquer indício de que alguém escavou lá. - Falava em árabe, num tom de voz firme e autoritário.

-Sim, senhor - disse um deles. - Quais são suas ordens? Devo os acompanhar?

-Não, Nazim. Musab, preciso que apazigúe os ânimos dos samak inventando uma história a respeito do desaparecimento de Elizabeth. Conte a eles que ela se cansou da escavação e foi passar uma temporada no Cairo. E pediu-me que fosse seu guia. E não conte nada disso à tribo.

-Cumpriremos suas ordens. - Os dois homens entraram cavalgando no cânion.

Jabari deu a volta em seu cavalo e foram para o sul.

-Meu guia! - Elizabeth se contorcia de fúria e gritava em árabe. - Eu mesma te mostrarei o caminho para o... O... Céu se não me soltar imediatamente!

Elizabeth deu uma cotovelada no estômago de Jabari, e encontrou seus sólidos músculos. Aquela besta nem sequer se alterou.

-Ao inferno! - Corrigiu ele. - O caminho ao inferno. Não posso te liberar. Seria recomendável que não se movesse durante o trajeto. Dê graças a Deus que perdoei sua vida, no momento.

-Saberei te agradecer quando tiver descido deste maldito animal. O que acredita que está fazendo? Não pode me seqüestrar!

-Ah, não? Pois é o que acabo de fazer. - Aquele tom arrogante a tirava do sério.

O guerreiro soltou as rédeas e deteve o cavalo. Pegou o queixo de Elizabeth com sua mão vigorosa e a forçou a olhá-lo de frente. Tirou o véu lentamente deixando a descoberto seu rosto belo e bem barbeado.

Elizabeth deu um grito de assombro.

- Asim! Sabia. Ela não havia ligado para seus instintos. Amaldiçoou sua ingenuidade.

Os olhos de ébano de Assim penetraram nos seus com feroz intensidade.

-Sou Jabari bin Tarik Hassid, filho de Tarik, um guerreiro honorável, assassino de traidores, descendente de nobres, Sheik dos grandes guerreiros Khamsin. Adverti-a, para que se fosse. E não o fez.

Se seu objetivo era fazê-la tremer de medo, não conseguiu. Elizabeth reagiu como se ele tivesse anunciado que vendia falsos artefatos egípcios aos souks.

-Não tenho medo de você.

-Pois deveria. - disse ele em voz baixa. - Não tenho muita consideração com aqueles que me levam a agir ao contrário.

Elizabeth sentiu a boca seca.

-O que vai fazer comigo? Cortar minha cabeça?

Jabari continuava segurando seu queixo, escrutinando-a terrivelmente com seus olhos hipnotizadores.

-Se quisesse sua cabeça, já estaria rolando pela areia - disse ele friamente. - No momento é minha prisioneira.

-Acredito que não. - Respondeu ela.

Aproveitando que ele momentaneamente soltou sua cintura, Elizabeth começou a lutar. Segurou na borda da sela com a intenção de passar uma perna por cima dos arreios e saltar.

-Não tão rápido, senhorita. - Ele a segurou de novo pela cintura, desta vez com ambas as mãos. Sentia-se como um camundongo encurralado por uma sucuri gigante.

-Se voltar a fazer isso, serei forçado a amarrar suas mãos. Fará com que a viagem seja desagradável. - Disse severamente.

-Então gritarei.

-Também estou preparado para isso.

Jabari continuou segurando-a com o braço esquerdo. Tirou um pedaço de tecido do cinturão, e fez o reluzente pedaço de seda oscilar em sua frente.

-Promete permanecer em silêncio, ou prefere que a amordace agora, me economizando o incômodo de ter que fazê-lo mais tarde?

Jabari seguia a mordaça com o olhar enquanto a fazia oscilar de um lado para outro como um pêndulo.

-Não gritarei.

-Boa garota. - Jabari voltou a guardar o tecido em seu cinturão.

-Mas o advirto... Se você acha que vai resolver isso sem que ninguém sinta minha falta, se prepare.

-Se eu fosse você, não estaria tão segura de sua posição na escavação. - Jabari a segurou contra ele, e instigou o cavalo. Cavalgaram para o sul, por um caminho próximo às paredes de lima.

-Não acredito que alguém vá sentir sua falta, exceto seu tio.

-É um mentiroso.

-Falo sinceramente. Alguém sentiu sua falta nesses últimos dias, quando trabalhávamos juntos?

Elizabeth percebeu que ele estava com a razão. Abaixou os olhos humilhada. Queria poder entrar sozinha no deserto e deixar que a areia a cobrisse por completo.

-Por que faz isso? -perguntou Elizabeth resignada.

-Você violou o chão sagrado de meus antepassados. - bramou ele.

Elizabeth engoliu saliva e passou a mão pelo pescoço de maneira protetora.

-Isso é tudo? Acreditei que planejou me matar por outra razão. Como o Almha.

Jabari soltou as rédeas e deteve o cavalo tão repentinamente, que a cabeça de Elizabeth foi para frente bruscamente.

-Quem mais sabe disso? - Jabari a sacudiu para ele, com as negras sobrancelhas unidas, formando uma expressão ameaçadora.

-Só... Ninguém - Mentiu.

-Seu tio, é obvio. Vi vocês cavando juntos.

-Nos espionou! - disse Elizabeth com a boca aberta. – Claro! - Limita-se a cumprir com seu dever. - E seu dever implica cortar cabeças? Seus olhos brilharam perigosamente.

-Sou um guerreiro Khamsin. Fiz um juramento de sangue quando cheguei à idade adulta. O de proteger o Almha, castigando com a morte os caçadores de tesouros e ladrões como você. O Almha é sagrado para minha gente.

Sentindo-se ultrajada, Elizabeth se ergueu.

-Eu não sou nenhum caçador de tesouros! - Sou uma mulher que acabou se sobressaindo no campo da arqueologia.

-Sim, você é uma mulher. - Murmurou ele.

Elizabeth não gostou da expressão no rosto de Jabari sob a luz brilhante da Lua cheia. Era... Inquietante. Sentia-se como uma gazela encurralada, e ele um leão observando-a antes de atacá-la. Um leão muito faminto.

-Ouça. - Agora o entendo. O Almha é sagrado para você. Muito bem! Prometo que não o desenterrarei. Agora já pode me soltar. - Ela cruzou os braços esperando em vão que ele caísse em si.

Como resposta, Jabari voltou a passar o braço por sua cintura, esporeou seu cavalo e começaram a galopar na noite.

Pena que Elizabeth estava cumprindo sua promessa de não gritar. Teria gostado de amordaçá-la. Cada vez que ela abria a boca, parte dele queria estrangulá-la.

Perdoara sua vida e ela reagia se zangando.

Jabari a amaldiçoava entre dentes enquanto cavalgava para o sul rodeando os precipícios para evitar a aldeia em que a equipe de arqueólogos passava a noite.

-Onde está me levando?

Ele grunhiu.

-Ao alto do precipício. Perdoei sua vida só por alguns instantes. Agora devo entregar seu corpo em sacrifício aos deuses e jogá-lo no vazio.

O grito abafado d Elizabeth, provocou a risada de Jabari. Ela o ouviu e sussurrou:

-Sua besta. Sabe qual é seu problema? Está embrutecido emocionalmente. Não tem sentimentos.

“Ah! Esta tão equivocada querida. Ao contrário. Meu problema é que tenho muitos sentimentos.” Se não fosse assim, estaria cavalgando livre como o vento em vez de estar com um belo e sensual problema agarrado a ele.

A luz da lua jogava sombras nas paredes altas. A areia cinza se projetava de forma fantasmagórica, e se estendia a frente deles por quilômetros. Inalou o perfume da pele dela em contato com a sua. O aroma do romeiro provocou nele uma sensação de enjôo, numa ardente combinação com desejo, raiva e frustração. Estava furioso com ela por o haver colocado em semelhante situação, a qual agora, teria que enfrentar. O que aconteceria quando chegassem a casa? Como poderia se explicar aos Majli?

Seqüestrar mulheres era um ato aceitável entre sua gente. O código de honra Khamsin, exigia que fossem tratadas com grande respeito. Mas não existia nenhum código de honra para o seqüestro de uma mulher ocidental que ousara perturbar o Almha. Em nome de Alá! O que vou fazer com ela?

Cavalgaram em silencio durante um tempo. Os pensamentos formavam redemoinhos em sua cabeça, como a areia que se levanta com o feroz vento Khamsin, o qual deu nome a sua tribo. Por fim, quando Elizabeth falou, Jabari levou um susto.

-Não vai me jogar do alto do precipício, vai? – Perguntou com um fio de voz.

Ele segurou mais forte seu corpo ágil, esbelto e tentador.

-Não - disse serenamente, quando percebeu o medo nas palavras de Elizabeth.

Os seios dela roçando seu braço. A sensação era inquietantemente erótica.

-Então, o que está planejado para mim?

-Não sei - respondeu sinceramente.

Ela o olhou por cima do ombro e franziu o cenho desconcertada.

-No uadi você caiu galopando sobre mim como se fosse me matar, me raptou, e agora não tem idéia do que vai fazer comigo? Parece-me um bom plano. - Disse Elizabeth arrastando as palavras.

Jabari apertou os dentes.

-Possivelmente eu a reserve para dar de presente a meu avô. E darei ordem a minha gente que a ferva em azeite e a sirva com cuscus. Meu avô prefere carne branca.

Ela pareceu ponderar a idéia.

-Só tenho uma queixa a fazer.

-Qual? - Espetou.

-Deixe o cuscus à parte. Odeio cuscus.

A contra gosto, ele sacudiu a cabeça e esboçou um sorriso. Pela graça de Alá. Essa mulher o tirava do sério e ao mesmo tempo o divertia! Por quê?

-Tem sabor de areia. É asqueroso. Experimentei em um restaurante do Cairo, antes de chegar a Amarna.

-Um restaurante - grunhiu Jabari com desdém - O cuscus de minha tia faria com que sua cara caísse de vergonha.

-Sua tia? E sua mãe? Cozinha bem?

Jabari não respondeu. Uns minutos mais tarde, Elizabeth repetiu a pergunta.

-Perdi minha mãe há muitos anos.

-Perdeu? Quer dizer, está morta?

- Para mim, sim. - Respondeu ele bruscamente.

-Como seria ela? Acredita que aprovaria o fato de que você ande pelo deserto seqüestrando mulheres?

Antigas emoções vieram à luz, como antigos demônios. Jabari fechou os olhos e pensou em sua mãe. O muito que seu pai a queria, com todo seu ser. “Não foi suficiente. Ela queria mais que uma simples vida tribal.” Jabari mordeu o lábio inferior reconhecendo a verdade. Ainda sentia sua falta.

-Não preciso do consentimento de ninguém, e muito menos, o de uma mulher. - Espetou.

-Fala como se as mulheres fossem inferiores aos homens.

-E você, em que acredita?

Elizabeth ficou rígida. Jabari sentiu como se estivesse abraçando um pau de madeira.

-As mulheres são iguais aos homens. Podemos fazer o mesmo que vocês.

-Não é certo. As mulheres servem para conceber bebês e satisfazer as necessidades dos homens na cama. - Afirmou ele entrecortadamente.

A obsessão de Elizabeth, lembrava sua mãe. Fechou os olhos, a dor e a raiva se apoderando dele ao recordar a maciez do abraço de sua mãe e seu doce sorriso.

Sua mãe partiu seu coração ao deixar seu pai e envergonhá-lo. Jabari deixou sua raiva por Elizabeth crescer dentro dele. Assustava-o a inexplicável atração que sentia por ela. Retomaria o controle.

-Se você fosse igual a um homem, então como explica o fato de que eu pude a seqüestrar? Um homem lutaria como um leão para escapar. - Desafiou Jabari.

-Se fosse um homem, não teria perdoado sua vida. Não o imagino cavalgando pelo deserto com um homem. - Respondeu ela.

Certo. Se ela fosse um homem não teria titubeado em tirar sua vida. Jabari não podia negar seus sentimentos por Elizabeth, cada vez mais intensos. Ela representava uma ameaça a seu juízo, do mesmo modo que o era na escavação. Só que agora, existe algo mais a ser descoberto pelos Ao-Hajid. Como líder dos Khamsin, sua honra e sua força estavam em jogo. - Jabari recordou, que o amor que seu pai sentia por sua mãe diminuiu sua credibilidade perante os olhos de seus homens, ao voltar do Cairo sem ela. Teria que tê-la trazido de volta, mesmo esperneando e gritando, a ter que enfrentar semelhante desgraça. - “Um homem que não pode controlar sua mulher, é um líder fraco.” Havia-lhe dito seu avô. Deveria matar Elizabeth imediatamente e parar com essa loucura. - Jabari levou a mão ao cabo espada.

Sentia-se confuso. Por falta de sono. Se conseguisse dormir, esclareceria sua mente deslumbrada. Então poderia decidir.

Pressionou os joelhos contra os flancos de Sahar para que apressasse o passo e continuaram cavalgando como sombras na noite.

Para cima e para baixo. Adiante e atrás. O balanço do cavalo efetuava em Elizabeth um movimento relaxante. Soltou uma risadinha sentindo seu corpo oscilar junto ao dele. De repente o cavalo deixou de balançar. Ouviu-o soprar ao longe. “Que estranho! Os cavalos de brinquedo não sopram.”

Estava congelada de frio. Elizabeth sacudiu seu corpo para sair do estado de atordoamento no qual se encontrava. Estava quase adormecida quando sentiu que paravam.

Ela respirou fundo, sentindo o perfume frio e úmido da água do rio. Encontravam-se ao sul da aldeia do Haggi Quandil a beira do rio Nilo. Jabari desceu do cavalo e o levou andando para uma grande rocha. Elizabeth esfregou os braços na repentina noite fria, privada do calor do corpo de Jabari.

-Por que parou? Já chegamos?

Não obteve resposta. Jabari tirou a roupa de cama do alforje. Desenrolou-a e estendeu no chão. Era suficientemente grande para abrigar duas pessoas. Elizabeth olhou a manta com certa desconfiança, e recordou o que Jabari havia dito antes.

Está muito tarde. Descansaremos aqui algumas horas. - Jabari estendeu a mão e fez um gesto para que descesse. – A ajudarei a descer.

-Já montei em cavalos antes. Não necessito de ajuda. - Disse ela enquanto passava a perna por cima da sela e descia do cavalo.

-Sente-se - Ordenou ele apontando a roupa de cama. Desatou uma bolsa do cavalo e a ofereceu. - Água.

Elizabeth deu um bom gole e a devolveu. Jabari não bebeu e voltou a pendurar a bolsa. Aquela fina manta a protegia do chão duro mais do que ela havia pensado.

A lua empalideceu no céu, mas continuava iluminando o deserto com sua luz pálida e cinza. As longínquas estrelas salpicavam o firmamento na noite com sua cintilante dança. Uma noite de lua cheia, o brilho das estrelas e ela a sós, com um atrativo guerreiro do deserto, com uma espada de aço mais ou menos de um metro de comprimento.

Elizabeth relembrou sua fantasia, de que um guerreiro a capturava. Sacudiu a cabeça. Parecia uma pequena idiota romântica! Em suas fantasias, jamais sonhara em ser prisioneira. E muito menos pelas mãos de um Sheik arrogante e orgulhoso, que se comportava como se estivesse fazendo um enorme favor em não decapitá-la. Elizabeth levou as mãos ao pescoço enquanto observava Jabari acariciando afetuosamente o focinho de seu cavalo.

O modo em que se vestia lhe dava um ar de periculosidade. A vestimenta dele, uma túnica folgada azul anil de gola alta e drapeada até altura da coxa, com duas aberturas nas laterais, e de mangas longas. Um cinturão de couro rodeava sua cintura. A espada e a adaga estavam penduradas em seu cinturão. Calçava suas botas de pele por cima da calça escura e folgada.

-Por que usa semelhante vestimenta? Ou será a roupa que sua tribo usa quando saem para seqüestrar mulheres e assaltar jazidas arqueológicas?

Jabari se voltou para ela com o cenho franzido.

-Todos os guerreiros usam o binish. São vestimentas sagradas. Às recebemos junto com os   turbantes e as espadas, quando nos iniciamos na idade adulta.

Elizabeth não pôde evitar um sorriso de superioridade perante o tom arrogante que Jabari empregou.

-E que outras coisas aprendem com a iniciação à idade adulta? - Sacrifícios de bichinhos?

Os olhos de Jabari brilharam com inesperada intensidade. Pôs a mão na adaga e lhe deu um sorriso malévolo.

-Bichinhos, não. Humanos. Americanos e britânicos igualmente. Menos os de sangue azul.

Elizabeth, não segura de que ele estava brincando, tragou saliva.

Jabari a olhou por cima do ombro.

-Preciso dar de beber a Sahar. O rio não está muito longe daqui, mas não posso a vigiar enquanto o faço. - Pegou uma bolsa de lã que estava pendurada no assento da sela do cavalo e tirou um par de cordas trançadas.

Elizabeth estremeceu quando percebeu sua intenção.

-Não fugirei. Por favor, não o faça. - Disse ela horrorizada pela idéia de ter que ser amarrada como um porco, a ponto de ser morto.

À luz da lua, Elizabeth viu certa expressão de remorso em seu rosto.

-Lamento, mas devo atá-la - Disse Jabari em voz baixa. Pegou suas mãos e as atou com uma corda. Jabari procurou seus tornozelos com o olhar, ocultos sob suas pernas cruzadas. - Estique as pernas. Devo amarrar seus tornozelos.

-Realmente, acredita que posso ir a algum lugar? - Disse mostrando seus pulsos amarrados.

-Sim - Disse ele de maneira cortante - Agora estique as pernas.

Ela ergueu o queixo teimosamente.

-Não.

Jabari deixou escapar um suspiro.

-Elizabeth, sou um homem paciente. Mas minha paciência está chegando ao limite. É tarde, e estou muito cansado. Ou estica as pernas para que eu as possa amarrar, ou tiro sua roupa... Desse modo me asseguro de que não me escapa.

Elizabeth piscou assombrada. - Não se atreveria.

-Atrevo-me. - Disse ele com voz de trovão - E se acredita em fugir para a aldeia, não é uma boa idéia. Asseguro-te de que lá, há homens menos honrados do que eu, que não duvidariam na hora de satisfazerem seus desejos com uma mulher americana nua.

Elizabeth pensou no que ele acabou de dizer e engoliu saliva. Esticou as pernas e subiu a saia. Ironicamente, Ela desejou que suas meias ocultassem sua pele nua do olhar intenso de Jabari. Com cuidado, ele amarrou seus tornozelos deixando a corda suficientemente frouxa, e fez um nó tão complicado, que Elizabeth foi incapaz de seguir com o olhar.

Ele ficou em pé e fez um gesto de aprovação com a cabeça. - Não demorarei. E foi para o cavalo.

Elizabeth estremeceu. A noite deserta caiu sobre ela com seu amargo frio. Jabari a olhou, e fazendo uma careta, tirou uma manta do assento da sela. Ficando a seu lado de cócoras, cobriu seus ombros com a manta envolvendo-a como se fosse uma capa.

-Obrigado - Sussurrou ela.

Ele assentiu abruptamente com a cabeça, deu meia volta e foi caminhando com Sahar em direção ao Nilo.

Logo que ele partiu, Elizabeth chacoalhou os ombros para tirar a manta, e começou a desatar os nós. Com a mão direita em uma posição muito incômoda, Ela conseguiu alcançar e tirar a corda que rodeava seus tornozelos. Desesperadamente, procurou com o olhar um objeto afiado com o qual pudesse cortar a corda. Uma rocha próxima chamou sua atenção. Alcançando-a, começou torpemente a serrar os nós com a parte mais afiada.

Era como tentar cortar o aço com uma faca engraxada. Mesmo assim, ela continuou. “Tente, Elizabeth. Se conseguir liberar seus tornozelos dos nós poderá correr para o acampamento, pois afinal, não está muito longe.”

O ruído de cascos cada vez mais próximos eliminou todas suas esperanças. Elizabeth jogou a pedra. Forçou seu rosto a relaxar e esboçou um sorriso encantador.

Jabari recolheu a manta do chão. Agachando-se, inspecionou a corda em volta dos seus tornozelos e a olhou, inquisitivo.

-O que esperava? - Disse ela encolhendo os ombros.

-Nada menos do que isso. - Afirmou ele. - Jabari afrouxou os nós com cuidado, e ela esticou as mãos agradecida. Começou a esfregar os pulsos quando ele fez um nó com as cordas em volta da sua cintura.

-Porque isso agora? - Disse ela apontando a corda.

Jabari respondeu com um sorriso, coisa que a tirou do sério sobre tudo, quando ele se ajoelhou aproximando-se dela. Passou o outro extremo da corda por baixo de seus braços e os uniu pela cintura.

Elizabeth colocou as mãos em seus ombros e tentou em vão se afastar dele.

-O que está fazendo?

Jabari voltou a fazer um nó complicado para atar a corda.

-Agora posso dormir. - Disse ele satisfeito.

-Vai me amarrar assim, como a um cão num poste? - Elizabeth gemeu - Será que não entende que eu também estou cansada? Que preciso dormir antes de escapar?

Ele arqueou uma sobrancelha.

-Não. Por que deveria entender? Você entenderia?

Ela admitiu a contra gosto que ele tinha razão. Ela tampouco entenderia.

Jabari desembainhou a longa espada e a afiada adaga de seu cinturão, e os deixou perto da roupa de cama. Sentando-se ao lado de Elizabeth desenrolou o turbante e soltou sua longa cabeleira. Extasiada, Elizabeth fixou o olhar na seda negra e brilhante de sua cabeleira. Perguntou-se como seria o toque de seus cachos encaracolados entre seus dedos, e contra sua pele nua.

Jabari se deitou e cobriu as pernas com a manta.

– Deite-se - Ordenou a Elizabeth.

Deitar-se? A seu lado? O medo invadiu seu corpo. Sem deixar de olhá-lo Elizabeth se perguntou o que ele queria com ela? Ouvira histórias sobre os bandidos do deserto e como tratavam às mulheres que capturavam. Elizabeth voltou a estremecer embora dessa vez não fosse de frio, e tratou de se afastar dele a toda pressa.

-O que você pensa em fazer? - Perguntou Elizabeth se amaldiçoando pela sua voz trêmula.

Ele pareceu ler seu pensamento, porque a temível expressão em seu rosto se suavizou.

-Elizabeth, não tenho a mínima intenção em abusar de seu corpo esta noite, por mais bonito que seja. Não tem nada a temer.

Ao contrário dele, temia-o como a um touro. Temia sobre tudo, os sentimentos que seu seqüestrador despertava nela.

-Não tenho medo - respondeu - Só que não tenho... Sono.

-Faça como quiser - Disse ele encolhendo os ombros - Se não quer dormir não é assunto meu. - Virando as costas para ela, Jabari se cobriu com a manta deixando Elizabeth sentada exposta ao gelado ar da noite.

Alguns minutos mais tarde, seu corpo começou a tremer de frio. Elizabeth esfregava os braços. O orgulho a impedia de se deitar ao lado de Jabari e compartilhar a manta.

Seu corpo começou a amaldiçoar seu orgulho. No vale, o vento soprava afiado como agulhas transpassando o fino tecido de sua blusa e começando a endurecer os dedos dos seus pés.

Não fazia idéia de que pudesse ser tão frio no deserto. A lembrança de sua cama macia e quente e de sua manta de pele de novilho começou a lhe martirizar.

-Elizabeth - Ao ouvir Jabari dizer seu nome, se sobressaltou.

- Não seja teimosa. Venha, deite-se e compartilhe a manta comigo antes que você morra de frio.

-Morrer de frio no deserto - Disse ela batendo os dentes como castanholas - Que forma mais irônica de morrer. Contudo, admito que prefiro isso a que me cortem a cabeça.

Jabari levantou uma parte da manta num convite tentador. Ah, como desejava acomodar-se sob seu suave calor.

-Elizabeth - Repetiu ele.

Ela se afastou um pouco dele.

Ele deu um sonoro suspiro.

-Já te disse que esta noite está a salvo. Dou-te minha palavra de guerreiro do vento. Não tenha medo.

Seus dedos gelados fizeram com que deixasse de lado seu orgulho. Elizabeth assentiu e deitou-se mais afastada dele do que a corda permitia. Jabari a cobriu com a manta.

Ela levantou a cabeça e viu que seus olhos a estudavam com paciente concentração. Seus olhos de ébano capturaram os seus enfeitiçando-a. Não havia nenhum rastro de raiva e de crueldade neles, somente uma escura agitação, como se esse homem estivesse travando uma batalha contra seus demônios ocultos. Quase contra sua vontade, Elizabeth voltou a se aproximar dele.

O que estava fazendo? Parou, e se forçou a afastar o olhar de seus olhos hipnóticos.

Elizabeth percorreu com os olhos as suaves maçãs do seu rosto terminando em seu carnudo lábio superior. Sua boca forte e sensual a convidava a se aproximar... A acariciá-lo com seus lábios e descobrir os mistérios que a aguardava nas riquezas de seu beijo.

Elizabeth se virou para o outro lado dando-lhe as costas. Que a visse bem.

Em seguida fechou os olhos e tentou relaxar, uma tarefa impossível. Inclusive, debaixo daquela grosa manta, com o corpo gelado como se fosse um pedaço de gelo sólido. Puxou o lençol e continuou tremendo.

-Qual é o problema? - Perguntou ele brandamente.

-Estou com frio – Ficou chateada ao ter que se queixar. Tremendo, se enrolou toda, no intento de sentir algum calor.

De repente, Jabari pressionou seu quente e sólido corpo contra suas costas. Quando o braço firme a pegou pela cintura puxando-a para trás, Elizabeth não podia respirar. Quanto mais Jabari se aproximava dela, mais rígidos de medo ficavam seus músculos, como um coelho acostumado a se esconder ao sentir um falcão sobrevoando em círculos.

-Elizabeth, Já disse... Não tem nada a temer. Deixe meu corpo aquecê-la. Deite-se tranqüila e durma. - Sussurrou ele com seu fôlego quente fazendo cócegas em sua orelha.

Mas ela sabia que não era Jabari que temia. Era ela própria, por causa da inexplicável reação física que sentia por esse guerreiro misterioso do deserto.

Ela fechou os olhos esperando que o sono chegasse.

Finalmente, sentiu que ela relaxou em seus braços. A respiração silenciosa e tranqüila de Elizabeth, o informou de que finalmente ela adormeceu.

Ao contrário dele. Jabari fechou os olhos procurando prender o sono escorregadio. Cada vez que tentava, via o rosto de Elizabeth. Suas longas pestanas, um enfeite para seus enormes e inquisidores olhos, a boca tão inocente e tentadora parecendo um exuberante coração. Jabari ocultou a surpresa quando Elizabeth foi se aproximando. Para ele foi um alívio quando ela acabou se voltando para o outro lado, porque não teria resistido por mais tempo a tentação de seus lábios.

Jabari prometeu que não a tocaria àquela noite mais para o seu bem do que pelo dela, precisava manter certa distância. Ele sempre cumpria com sua palavra. Sobre tudo, com seus corpos em contato como medida de amparar o frio. Jabari acreditava que o frio seria uma boa distração para a tentação de estreitá-la em seus braços. Mas havia certo músculo pulsando com força e exigindo sair. Nem todas as partes de seu corpo estavam esgotadas.

Consciente da resposta de seu corpo em contato com Elizabeth, Jabari decidiu se afastar.

O que faria com ela? Não podia levá-la para seu povo. Tampouco podiam andar pelo deserto para sempre. A única solução lógica, seria matá-la. Se houvesse algum lugar seguro no qual pudesse se esconder longe de todos os olhos até que surgisse alguma idéia. Dormindo, Elizabeth se agitava e tremia muito para seu pesar, e Jabari se aproximou. Surpreendeu-se com o fato de seus corpos se moldarem um ao outro. Seu longo cabelo loiro brilhava a luz da lua. Com cuidado, Jabari tirou alguns fios de cabelo da sobrancelha de Elizabeth.

Por que ela apareceu em sua vida? Por que o destino os fazia se encontrarem uma ou outra vez? Era óbvio que seus destinos estavam unidos. E com a força com que a estreitava em seus braços. Jabari não podia ignorar as crenças ancestrais de sua cultura. Acreditava no Kismet com a mesma convicção com que acreditava nas máquinas modernas. Como seus irmãos Khamsin, Jabari abrangia uma estranha mistura de crença em Alá, em espíritos e superstições. Estava em seu sangue e em seus ossos.

Interrompeu sua reflexão a respeito de seus destinos cruzados, quando Elizabeth suspirou e começou a se mover esfregando o corpo contra o seu. Ele grunhiu. Aquela fricção deliciosa provocou uma resposta natural. Há muito tempo não estreitava uma mulher em seus braços e não podia fazer nada a respeito. Seu corpo doía e pedia para ser aliviado. Nesse momento, desejou ter encontrado um tempinho para visitar suas concubinas antes de espionar a jazida.

Repentinamente apareceu à solução em sua frente. Seu harém. Na Amarna. Um lugar seguro, espaçoso, e estava suficientemente escondido.

Jabari olhou para Elizabeth dormindo placidamente em seus braços. Sorria. Melhor seria, deixá-la descansar por um momento. Agora ele também descansaria, pois logo estariam cavalgando para sua residência, e para as mulheres de seu harém.

 

A cabeça de Elizabeth balançava, quando o cavalo trotando percorreu a rua principal da Amarna, e seu queixo caído sobre o próprio pescoço como uma flor murcha, quando Jabari parou em frente a um espaço murado dos aldeões, rodeado por cabanas de tijolos de barro de modo protetor.

Parou em frente à entrada, uma porta enorme. Jabari desmontou, e tirando uma chave da túnica abriu a porta e puxou Elizabeth sobre o cavalo para um pátio cercado por uma construção que o protegia. Voltou a fechar a porta com a chave e soltou as rédeas do cavalo apoiando-se nele. Estendeu a mão para Elizabeth. - Vamos.

Vamos. Sente-se. Água. O comportamento tirânico dele exasperava Elizabeth. Ignorando sua mão desmontou do cavalo dando uma palmadinha no flanco. Ao perceber o sexo do cavalo, Elizabeth franziu o cenho.

-Uma égua? Não combina. Por que não monta num garanhão?

Jabari vacilou ao responder, como se estivesse revelando um segredo.

-Os Khamsin... E outras tribos do deserto não montam em garanhões, só os utilizamos para a cria. As éguas são melhores em batalha, porque não relincham para outros cavalos e não alertam o inimigo. São mais dóceis.

-E mais fáceis de dominar como você gosta. - Protestou ela. Elizabeth olhou para aquele belo animal - E vai deixá-la aqui? Não vai amarrá-la?

Jabari acariciou o focinho da égua com ternura.

-Sanar é minha querida amiga. Eu não amarro meus amigos.

-Não, você só amarra mulheres - Disse Elizabeth sem se incomodar em reprimir um bocejo. Suas pálpebras se fechavam. Jabari se converteu em uma figura imprecisa de cor azul.

Um forte braço a rodeou pela cintura sustentando-a enquanto andavam. Estava muito fatigada.

Jabari cruzou o pátio em direção ao edifício. Uma sólida porta de madeira os impedia de entrar. Ele deu uma série de golpes na porta e teve como resposta o ruído de um ferrolho ao se abrir.

A porta abriu para dentro e Elizabeth seguiu Jabari.

Um homem musculoso e de compleição forte, quase tão alto corno Jabari, fechou a porta atrás deles e correu o ferrolho.

-Bem-vindo, senhor. Ouvi seu cavalo se aproximar. – Estava com um pequeno abajur de vidro em sua mão enorme. As sombras dançavam em seu colete azul e blusão branco. Sua calça negra e folgada estava segura por um grosso cordão de couro e não escondiam suas pernas em forma de forquilhas. Elizabeth as julgou mais grosas do que sua cintura. Uma adaga e duas longas e perigosas espadas penduravam de seu cinturão. O homem estava armado até os dentes corno se estivesse esperando uma invasão. O que havia para proteger na casa vazia de Jabari? Jóias? Ouro?

O servo apenas a olhou. Sua falta de curiosidade intrigou Elizabeth. Se ela fosse serva de Jabari, e ele chegasse à metade da noite com uma mulher desconhecida ficaria olhando-a boquiaberta para não dizer mais.

Elizabeth olhou em sua volta. A tênue luz dos abajures de azeite revelava uma estadia com mosaicos de azulejos nas paredes, travesseiros de plumas em volta de mesinhas, e grossos tapetes cobriam o chão de mármore.

-Senhor, não o esperávamos. Prepararei algo para comer – O senhor quer um banho? - Dirigia-se a Jabari com grande respeito.

-No momento, só algo para beber e um pouco de frutas, Aziz - Respondeu Jabari. - Estamos bastante cansados e precisamos descansar.

-Sim senhor.

Aziz pegou o abajur para iluminar, as voltas que davam por um corredor com inúmeras portas fechadas. Elizabeth esfregou os olhos. Jabari a olhou.

-Estou seguro de que os aposentos serão de seu agrado.

Ótimo. O sono seria para esclarecer sua mente e idealizar um plano de fuga. Se não estivesse tão cansada gritaria e espernearia.

Detiveram-se no final do corredor frente a uma grande porta. O servo tirou um molho de chaves que trazia pendurado na cintura e abriu a porta. Deixou-os entrar e inclinou a cabeça.

-Bem-vindo senhor. Que a noite seja saciada com os prazeres que tanto merece. - Antes que Elizabeth tivesse tempo de pensar naquele estranho cumprimento, o homem entrou e cruzou o aposento silenciosamente. Distintos abajures estavam sobre várias mesinhas de centro e iluminavam o aposento.

Elizabeth esqueceu seu cansaço e olhou desconcertada a sua volta. Era um aposento quadrado decorado com elaboradas tapeçarias que se penduravam do teto ao chão. Tapetes persas cobriam o chão em um esbanjamento de vermelho e dourado. No aposento, se achava uma enorme cama com lençóis de seda vermelha, vários e luxuosos almofadões vermelhos e dourados. Vários almofadões bordados com fios de ouro como se fossem cadeiras sem pernas se achavam ao redor de uma longa mesa de sândalo ao centro. Sem a menor duvida, era ali que Jabari dormia. Elizabeth estava cada vez mais confusa. Será que ele espera que ela também durma ali? Com ele? Naquele momento não se sentia com forças para enfrentá-lo. Mas ele havia prometido que naquela noite não a tocaria.

Jabari a levou para as almofadas. Elizabeth se deixou cair nelas afundando-se em sua maciez e olhou para Jabari com receio. Ele permaneceu em pé orgulhoso, como um rei acomodado em seu palácio. Jamais conheceu alguém como ele, tão seguro de si mesmo, tão belo e tão impertinente. Jabari tirou suas armas, desenrolou o turbante e soltou os cabelos.

Aziz saiu para o corredor batendo nas portas e gritando - O senhor voltou!

Elizabeth pulou sobressaltada.

Ouviu o ranger de portas e duas das mais belas e exóticas mulheres, que jamais havia visto entraram aos tropeções no aposento, limpando as remelas dos olhos na frente deles. Usavam camisolas transparentes com ricos bordados em azul lavanda e verdes esmeralda. Ambas possuíam corpos formosos e longos cabelos negros que alcançavam suas cinturas.

O cansaço foi substituído pela ansiedade. Elizabeth se voltou para Jabari, que permanecia a seu lado com um sorriso de orelha a orelha.

-Badra, Farah. - Paz e prosperidade para vocês - Disse Jabari, enquanto as mulheres inclinavam suas cabeças perante ele. - Esta é Elizabeth.

Elizabeth estava com a boca aberta de assombro. Ele se voltou para ela e apontou às mulheres.

-Bem-vinda a meu harém.

Acostumado a se sentar no tapete e apoiado em uma alta pilha de almofadões, Jabari aceitou um alto copo de suco de frutas que oferecia Aziz. Pegando uma tâmara da bandeja de prata que seu servente segurava, observou a reação de Elizabeth, que ao ver as mulheres sentando-se no chão ao redor de Jabari, ficou sem fala. Farah se sentou atrás dele e Jabari não demorou a perceber suas suaves mãos começando a massagear seu pescoço.

Jabari deixou que Badra lhe tirasse as botas de pele. Elizabeth estalou a língua em sinal de desaprovação. Badra entrou no quarto de banho e voltou com uma pequena bacia de água e uma toalha. Ajoelhando-se começou a lavar seus pés.

Aziz ofereceu um copo de suco a Elizabeth. Ela sentiu todos os músculos de seu rosto esticar, desconfiada. Elizabeth olhou o copo como se houvesse veneno e rejeitou as tâmaras que ele ofereceu, embora finalmente, tomou o suco. Aziz encolheu os ombros e deixou as tâmaras na mesa.

-Deveria ter imaginado que você tem um harém - Disse ela fulminando-o com o olhar - Por que me trouxe aqui?

Jabari deixou o copo sobre a mesa e deitou-se para trás satisfeito pelo trabalho de Farah, que massageava os músculos cansados de suas costas com perícia.

-Devia ter imaginado, querida. - Respondeu ele devolvendo o olhar com um sorriso divertido - É minha prisioneira. Relaxe e desfrute. Come uma tâmara. Não está com fome?

-Não sou sua prisioneira, e não penso em ficar aqui!

-Não tem opção. - Jabari se levantou entrecerrando os olhos - Não está em situação de discutir. Ficará aqui e a tratarei bem, como as minhas concubinas.

-Suas concubinas. - Elizabeth pronunciou aquela palavra com uma careta de asco. - Suas prisioneiras. Comporta-se como um selvagem encarcerando-as.

As palavras de Elizabeth o deixou com os nervos esgotados. No fundo, sabia que Elizabeth o atacava por medo. Jabari se esforçou para adotar um tom amável.

-Minhas concubinas não são prisioneiras. Todas suas necessidades são satisfeitas. Cuido delas do mesmo modo que cuido meu povo. Elizabeth, você deve saber que seu mundo é completamente diferente do meu. Não deixe seus costumes ocidentais julgarem o que não entende.

Farah se aproximou de Jabari e acariciou suas costas com os seios, sedutoramente. Jabari sorriu, mas sem tirar os olhos de Elizabeth. Apesar da fadiga, ele percebeu uma pitada de ardente desejo, no brilho de seus olhos. Suas preciosas bochechas estavam ruborizadas de raiva, e no modo que sua respiração acelerava demonstrando suas emoções. Era tão distinta. Suas concubinas por sua vez, o adoravam com total submissão. Mas Elizabeth, Com seu espírito rebelde, despertava seu ardor. Desejava-a como jamais desejara outra mulher e aquele desejo o desonrava, pois violara o juramento de sangue por ela. A honra era tudo para Jabari. Sem honra não poderia governar como Sheik, nem sequer viver como homem, para não dizer que, além disso, ele era um guerreiro do vento.

O que diria seu avô se descobrisse que Jabari perdoou a vida dessa mulher, por desejá-la em sua cama? - Respirou fundo.

-Ora, pois são meus costumes ocidentais que me permitem julgar o que está acontecendo aqui. - Agora o compreendo. - Disse que esta noite não me violaria. – Está me reservando para outra noite. – Perdoou minha vida e me trouxe aqui só para me colocar em sua cama. - Por que me matar com a espada, se pode satisfazer suas necessidades com meu corpo? Por acaso seu juramento sagrado faz exceções, quando se trata do desejo de um homem? Não vejo nem um pouco de honra em tudo isso.

Elizabeth não poderia haver tocado em um ponto mais fraco. Jabari caiu para trás pelo impacto da verdade de suas acusações. Devolveu o golpe tentando menospreza-la tanto, como ela o menosprezou.

-As mulheres foram criadas para amar, servir o homem e conceber. O desejo de minhas concubinas é me satisfazer, e elas sentem prazer nisso. A diferença de você, é que elas sabem como ser mulher - Disse Jabari com desdém.

Elizabeth cruzou os braços e sua preciosa boquinha se apertou de raiva.

-Pelo menos, não sou rameira como elas. - Ou como qualquer mulher de sua tribo. Eu valho por mim mesma. - Disse com um gesto de desprezo.

Badra deu um salto para trás, como se Elizabeth fosse uma serpente mortal e a tivesse picado. Farah parou seu trabalho e deu um grito abafado.

A raiva foi se apoderando dele. Elizabeth sabia o muito que aquele gesto podia ofender. Controlou seu gênio e respirou fundo. Pelo canto dos olhos, viu que Aziz se aproximava a toda pressa. O servo levou a mão à adaga de prata que estava pendurada no cinturão. Jabari levantou a mão para detê-lo. Antes de destilar toda sua raiva em Elizabeth, dedicou a Farah um sorriso terno e tranqüilo.

-Estas mulheres são tão honradas como as de minha tribo. Insulta-me e também os que moram em minha casa. Não volte a me atacar com sua língua Elizabeth, ou sofrerá as conseqüências. - Falou num tom de voz tão ameaçador e grave, que só usava para intimidar os seus mais fortes guerreiros. Jamais falou assim com uma mulher, e se incomodou que tivesse sido forçado a fazê-lo.

Elizabeth levantou o queixo com orgulhosa incredulidade.

-É mesmo? Cortaria minha língua?

-Eu não - Disse Jabari em um tom de voz arrepiante. Estalou os dedos e Aziz apareceu silenciosamente por trás. - Mas ele sim.

Os olhos de Elizabeth se arregalaram ao ver a adaga de Aziz no cinturão.

-Não seria capaz. Meu tio... Te apanharia.

-Elizabeth, possivelmente devo falar mais devagar contigo, para que minhas palavras penetrem em seu cérebro. Já não está sob o amparo de seu tio. Ninguém sabe onde está.

Jabari lançou a Elizabeth, um olhar firme e penetrante no qual estava acostumado a aterrorizar todo aquele que se atrevia a enfrentá-lo.

-É minha prisioneira. Aqui não tem nenhum direito. Aprenderá a me obedecer senhorita.

O peito de Elizabeth subia e descia pela força de sua respiração. Seus olhos se converteram em dois pedaços de gelo.

-Não o farei.

Jabari se achava dividido entre o impetuoso desejo, e a irrefreável raiva que a rebeldia de Elizabeth provocava nele. Parte dele desejava que Ela o enfrentasse e exibisse o espírito apaixonado que tanto o atraía. Por outro lado, o Sheik tradicional não podia se mostrar indefeso perante uma mulher, e precisava reafirmar sua autoridade. A atitude desobediente de Elizabeth, poderia causar importantes problemas. As mulheres de sua tribo obedeciam a seus homens. Assunto resolvido. Confiavam nos homens, seguras de que um guerreiro Khamsin cuidava e protegia sua mulher a qualquer preço.

-Sim, o fará. - É minha prisioneira. - Tenho poder para fazer com você o que quiser. - Bramou Jabari.

Badra ergueu os olhos alarmados pelo tom da voz de Jabari. Abraçou-se a ele com os olhos frágeis pelo medo. Ele sorriu tranqüilizador para fazê-la saber que não estava brigando com ela, e acariciou seus cabelos num gesto afetuoso.

O rosto sujo de terra de Elizabeth ficou vermelho de raiva, por causa de um inesperado e arrebatado ciúme. Enquanto ele contemplava a cena maravilhado, Elizabeth ergueu seu copo no ar.

-Estou farta que me dê ordens. - Não tem nenhum poder sobre mim - Gritou Elizabeth derramando o conteúdo do copo no rosto de Jabari, recebendo ele e Badra, uma enjoativa chuva de cítricos. Badra gritou assustada, e escondeu o rosto tremendo e soluçando.

Aziz se dirigiu rapidamente para Elizabeth com a adaga na mão. Ninguém ousava desafiar o Sheik. A desobediência sentenciava com a pena de morte. Jabari se levantou e voltou a erguer a mão para detê-lo.

Um ódio gélido e tenebroso se apoderou dele. Naqueles dois últimos meses, Badra finalmente se abrira. O eterno terror que sentia desde que chegou ao harém, finalmente havia se desvanecido. Inclusive começara a rir, e Jabari adorava ouvir sua preciosa voz quando cantava. Havia começado a se curar das feridas do passado.

E agora, Elizabeth perturbava seu harém com discórdia e palavras e violentas atemorizando Badra outra vez.

Jabari fez um sinal a Farah para que tranqüilizasse Badra. Pegou a toalha e limpou o rosto. A seguir, volteou seu corpo como se fosse uma cobra preparada para atacar e se aproximou de Elizabeth. O rosto indignado dela se contraiu até se formar em uma horrível careta.

Em vez de solução, o harém se converteu em um problema crescente. Haveria rumores de que Jabari estava com uma nova mulher no harém e que era desobediente.

Jabari olhou para Aziz. Seu gesto inicial se converteu em uma expressão desconcertada. Aziz estava na expectativa da ação que empreenderia seu senhor, para pôr Elizabeth em seu lugar. Se não fizesse nada se espalharia o rumor de que a nova mulher de Jabari o desobedecia. Do mesmo modo que sua mãe desobedecera a seu pai. Seus homens iriam considerá-lo uma pessoa fraca. E perderia o respeito de seus guerreiros como acontecera com seu pai. Se negariam a seguir suas ordens e perderia a liderança.

Teria que castigá-la para salvar as aparências. Fazer com que engolisse seu orgulho e obrigá-la a obedecer. Igual a um potro selvagem que dava coices quando estava sendo domado, devia submetê-la a seu controle. Semelhante desafio exigia um castigo físico. Mas Jabari jamais batia em mulheres e animais.

Mas havia outro jeito de acabar com seu e fazê-la ficar completamente vulnerável. Odiava o que estava a ponto de fazer, mas não havia remédio.

-Elizabeth, você esgotou minha paciência com seu comportamento. Não penso em tolerar sua falta de educação por mais tempo. Não há mais remédio. Vou fazer o que tenho que fazer.

Jabari puxou Elizabeth pela mão e a obrigou a ficar de pé. Seus olhos espelhavam incerteza. Quando Jabari puxou sua afiada espada, Ela conteve a respiração. Os braços de Elizabeth estavam pendurados inertes, como se tivesse perdido todo controle sobre seus músculos.

Jabari introduziu o dedo médio em sua blusa aberta e o tirou de volta. Em seguida enfiou a espada na blusa e esta foi se rasgando lentamente até chegar à cintura. Logo, cortou a saia de um puxão provocando um ruído rasgado, ressoando no aposento silencioso. Ela fechou os olhos. A saia caiu ao chão deixando-a vestida unicamente com a blusa e a roupa de baixo.

Jabari a olhou durante uns instantes à espera de sua reação. Os olhos de Elizabeth o olhavam desafiantes e ergueu seu queixo. Ao que parece, não foi o suficiente. Jabari tirou a blusa de seus ombros com a espada e deixou que caísse ao chão. Elizabeth começou a tremer. Respirava entrecortadamente. Com a espada, Jabari riscou uma linha que percorreu seus seios e estômago, até chegar ao quadril. O fazia com tal cuidado, que o aço não tocava sua pele, só à roupa de baixo. Jabari retirou a roupa que cobria seu seio com uma mão, enquanto deslizava a adaga entre seus seios com a outra, prestando atenção em não tocar sua pele. O tecido branco partiu ao meio. A última peça de roupa caiu ao chão. Elizabeth ficou nua em frente a ele. Seus seios subiam e desciam ao ritmo de sua respiração acelerada, mas Jabari não se deleitou com aquela visão. Elizabeth ficou vermelha e cobriu o corpo com as mãos.

-Peça desculpa a Badra. A seguir se ajoelhe e me faça uma reverência inclinando sua cabeça até o chão - Ordenou Jabari.

Apontando o chão com a adaga, ele disse. - O lugar que te corresponde.

Para seu grande alívio, Elizabeth balbuciou uma rápida desculpa a sua concubina, ajoelhou-se e inclinou a cabeça até o chão permanecendo a seus pés.

Ele permaneceu de pé por alguns instantes olhando-a, sentindo-se mal consigo mesmo. A seguir, deu meia volta e abandonou o aposento.

Jabari a violaria. Elizabeth tremia aos pés de Jabari, consciente do que ia passar. Ele estava com a razão. Ela não possuía nenhum poder em seu harém e ele podia fazer o que quisesse.

Jabari havia mentido. A usaria para saciar seu mais sujo instinto naquela mesma noite. Por que outro motivo iria despi-la?

Elizabeth mordeu os lábios desejando que seu corpo parasse de tremer. Os olhos de Jabari se encheram de uma fúria assassina, aplacando deste modo a raiva que estava sentindo de Elizabeth. Automaticamente, Ela soube que cometeu um engano e menosprezou os limites de sua tolerância. Era um homem orgulhoso e ela o humilhou. Agora a faria pagar.

Ajoelhou-se a seus pés, sem se atrever a erguer os olhos até que ouviu a batida de uma porta. Cautelosamente, Elizabeth levantou o olhar e logo a cabeça. Estava sozinha, com exceção das duas mulheres. Reclinou-se, sentindo uma mescla de alívio e desconcerto. Não conseguia entender aquele homem. Perguntou a si mesma se alguma vez o conseguiria.

As duas mulheres olharam para Elizabeth como se ela fosse uma múmia ressuscitada dentre os mortos. Elizabeth sorriu de leve. Se fosse um cadáver voltando para a vida, as garotas não se mostrariam mais surpreendidas. Duvidava de que se atrevessem a dizer uma palavra contra Jabari. A que se chamava Badra, parara de chorar percorrendo com um curioso olhar o corpo nu de Elizabeth detendo-se em sua marca de nascimento em forma de pomba. Abriu seus preciosos olhos amendoados. Elizabeth se encolheu envergonhada e cobriu o corpo sentindo-se frágil e vulnerável.

-Levante-se. - Aziz colocou-a de pé de modo brutal e puxou-a pelo braço de tal forma, que Elizabeth gritou. Pelo seu olhar hostil, Elizabeth soube que aquele homem, não só estava indignado pelo que ela fizera, como também teria tirado sua vida prazerosamente, se Jabari não o detivesse. Sem soltar seu braço, Aziz a arrastou pelo aposento.

-Para onde está me levando? - O servo grunhiu e abriu uma porta que dava para o corredor.

Elizabeth se perguntou se Jabari teria lhe imposto um castigo mais sinistro, dando ordem a seu servente para que o fizesse mais tarde.

-Aqui é onde vai dormir. - Aziz a jogou no cômodo com um empurrão e fechou a porta. Um abajur projetava sombras no quarto, grande o bastante só para uma cama estreita, uma mesa e umas tapeçarias nas paredes. Em cima da cama havia uma camisola branca.

Alguém deu uma volta na chave do ferrolho. Prisioneira. Elizabeth viu uma pequena porta em uma das paredes e correu rapidamente para ela. Em seu interior só havia um lavabo, uma jarra e algumas toalhas. Ela sentiu que teria que ser corajosa para enfrentar aquela situação. Vestiu a camisola e se deitou na cama. Muito esgotada para pensar no que a esperava na manhã seguinte, e no resultado de suas ações, deixou-se levar pelo sono.

 

Despertou à luz do amanhecer, cujos raios de sol se filtravam pela persiana. Dois rostos a observavam com grande curiosidade.

Seu coração deu um salto e sentou-se na cama. Dispersou as mulheres que estavam a seu redor como se fossem gatos assustados. Elizabeth dormira muito mal a noite por causa de seu habitual pesadelo infantil. Sonhou que seus pais estavam em uma caverna. Voltavam-se para ela e a saudavam. Elizabeth abria a boca para adverti-los do perigo, mas eles não a ouviam. Contemplava com horror o teto da caverna descendo em cima deles e gritava.

Lembrou-se de que alguém a reconfortara na metade da noite, acariciado suas têmporas e dissipando seus temores. Devia ser parte do sonho. - Pensou.

As mulheres pareciam estar reunindo coragem. Aproximaram-se vagarosamente da cama. Uma delas estendeu a mão e tocou o rosto de Elizabeth.

-O que querem? - Perguntou Elizabeth repentinamente em árabe. Recuou para trás se esquivando dos dedos da mulher como se a queimassem.

-Jamais vi uma mulher falar com senhor assim ou se atrever a desafiá-lo. E agora você está aqui. É um jinn que vem nos perseguir?

Um espírito. Se fosse assim, poderia desaparecer e Jabari não teria nenhum poder sobre ela. Sentia vontade de rir. Mas a visível preocupação no rosto das mulheres, a fez se conter.

-Não sou nenhum jinn.

-Mas insultou o senhor. Por que falou daquele modo?

Elizabeth fixou o olhar na mulher que falava. Seu cabelo negro e grosso caía formando cachos até a cintura. Suas pálpebras estavam sombreadas. A mulher vestia uma camisola vermelha transparente e uma jaqueta de seda vermelha bordada com fio de prata. Sua exótica beleza fez Elizabeth tomar consciência do estado de abandono no qual se encontrava.

-Quem é você? Há quanto tempo está aqui?

A mulher levantou a cabeça em um sinal de orgulho.

-Meu nome é Farah. Há três anos que sirvo o senhor lealmente.

Encerrada durante três anos naquele luxuoso calabouço. Elizabeth desceu suas pernas da cama.

Farah examinou os cabelos de Elizabeth com a mão.

-São lisos e finos. O senhor não vai gostar. Ele prefere as mulheres com cabelos grosso como lã de ovelha. - Elizabeth viu em seus belos olhos, o olhar reconhecido por todas as culturas. O desprezo que uma mulher sente por uma rival.

Elizabeth tirou a mão de Farah de seus cabelos.

-Então, ele que fique com suas lãs de ovelha e deixe em paz meus finos cabelos.

As finas sobrancelhas de Farah se curvaram fazendo uma careta de surpresa.

-Você não deseja o senhor em seu leito? - É uma grande honra ser escolhida para servi-lo.

- Preferiria morrer afogada no Nilo.

-Não a entendo. – Ser tocada pelo senhor é como o toque do sol. Enche-me de ardente desejo. Quando sou escolhida para passar a noite com ele sinto-me orgulhosa. Ao deitar-me a seu lado dou graças a Alá por ter me criado mulher e feito meu corpo para servi-lo.

Olhou condescendente para Elizabeth.

-Logo verá que não é um amante como outros. – Disse Elizabeth.

-Não tenho a mínima intenção de que ele, ou outro homem qualquer, se converta em meu amante.

De repente, a compreensão refletiu no rosto de Farah. – Ah! Agora sei por que ele a trouxe aqui. É casta!

Elizabeth sentiu o rubor em suas bochechas descer para o pescoço. Cruzou os braços e levantou o queixo.

-Sou virgem - Disse com o mesmo orgulho com que afirmava suas crenças, como sufragista.

Os belos lábios de Farah desenharam um sorriso de cumplicidade.

-Não será por muito tempo.

Farah se voltou para sua companheira e iniciou uma íntima conversa sobre sexo. Farah comparou a masculinidade de Jabari com a de seu antigo raptor o Sheik Fareeq. Descreveu com riqueza de detalhes o tipo de destrezas que Jabari fazia na cama. Elizabeth sentiu suas bochechas rubras começarem a arder como se estivesse no inferno. Fazia uma vaga idéia das partes do corpo que falavam, mas seria incapaz de perguntar. Farah passou a descrever minuciosamente, sem deixar nada à imaginação. Só em apenas pensar nas palavras de Farah, Elizabeth sentia seu estômago doer. De repente, apareceu a imagem do magnífico corpo de Jabari em cima do dela.

Farah fez sinal com o polegar e o índice, uns poucos centímetros a sua direita.

-O de Fareeq é só, assim. E esboçou um sorriso travesso.

-Nosso senhor é um homem forte. O seu, é assim! E separou as mãos e as estendeu provocando a risada de Badra.

Olhou maliciosamente para rosto avermelhado de Elizabeth.

-Eu não gostaria de estar em sua pele. A primeira vez é dolorosa, mesmo os pequenos, como o do Fareeq. Mas o de nosso senhor é... Bastante... Grande.

Elizabeth engoliu saliva. Viu que Farah esboçava um sorrisinho de superioridade e entendeu que estava brincando com ela. “Sou inteligente. Se Lembrou de que recebera uma educação, e que levava vantagem dessas mulheres.”

Apoderou-se dela um sentimento de lástima por Farah.

Elizabeth se levantou da cama com toda a dignidade que foi capaz. Olhou-as com desdém.

-Grande, pequeno, e daí? - Seja qual for o tamanho, todos os homens são iguais. Pensam com a virilidade. - Eu não. - Eu tenho uma educação e dou graças a Alá por não ter que depender de um homem como se fosse um cão mendigando favores.

Em seguida entrou no banheiro fechando a porta. Ao sair, viu que Farah desaparecera, mas Badra continuava sentada em sua cama. Seus enormes olhos marrons a contemplavam admirada. Deu um tímido sorriso, que serviu para acalmar sua raiva.

Elizabeth sentou a seu lado na cama. Sentia-se sozinha. Precisava de uma amiga. Havia diferença entre a maliciosa Farah e a doce Badra. Pensou em Badra como uma possível candidata. Tocou sua mão.

-Badra, sinto muito... Por tê-la chamado daquele nome e de ter jogado o suco em cima de você. Minha intenção não era feri-la.

-Jamais vi alguém agir assim. Deve ter uma vida muito diferente para agir com tanta coragem. -Disse ela com um suspiro.

-O motor que rege minha vida não é a coragem, é liberdade. Não posso suportar que Jabari me dê ordens constantemente! E não penso ser sua prisioneira.

-Mas Jabari é doce. - Jamais dá ordens e não somos prisioneiras. Eu tenho permissão para entrar e sair quando quero. Possivelmente a trata de uma forma distinta, porque não pode controlá-la.

Elizabeth se impressionou com a perspicácia da garota.

-E jamais o fará. Vou fugir daqui. - Olhou para Badra.

Como entrou aqui? - A porta estava fechada com chave. Aquela mulher de olhos escuros procurou no bolso de sua camisola e tirou uma chave dourada.

- Jabari me permite sair desse lugar sempre que desejo. Em muitas ocasiões vou para o acampamento Khamsin. Sinto falta das mulheres da tribo, sobre tudo de sua tia.

-Só, ou acompanhada?

-Um guerreiro Khamsin que vive na Amarna me escolta e me protege. Não é seguro andar sozinha.

Elizabeth a olhou.

-Badra, por que você não parte?

-Partir? - Os olhos marrons da garota se arregalaram. - Jabari me perguntou o mesmo em uma ocasião, se queria partir. Mas para onde? Quem vai cuidar de mim? Adoro esse lugar.

Elizabeth sentiu pena de Badra. A adolescente parecia ter aceitado seu cativeiro. Possivelmente convencera a si mesma de que esse tipo de vida confortável era preferível aos terrores do desconhecido mundo exterior.

Havia alguma coisa no harém de Jabari que a intrigava. Em muitos haréns, as concubinas passavam de geração a geração. Os filhos herdavam as concubinas de seus pais. Perguntou a Badra a respeito disso.

-Não. Os Khamsin não são como o resto das tribos. Porque Ranefer, o máximo sacerdote de Kiya e fundador dos Khamsin era tão devotado à Kiya? Que fez todos seus grandes guerreiros jurarem que teriam uma só esposa e que amariam para toda a eternidade? O Sheik só pode ter concubinas enquanto não se casar. No momento em que tomar uma mulher por esposa começará os preparativos necessários para o casamento.

Elizabeth escondeu sua surpresa. Semelhante devoção à esposa não era precisamente o que esperava do povo de Jabari. Sobre tudo se tratando de homens que juravam cortar as cabeças daqueles que cavassem em busca do Almha sagrado.

-Badra, o que sabe dos Khamsin? Onde está seu acampamento? Meu tio disse que o dia que assaltaram a jazida, eles apareceram do nada.

Badra vacilou e olhou em volta temendo de que alguém as estivesse escutando.

-Os Khamsin vivem no deserto Arábico para ocultar sua tribo. Mas na Amarna também vivem alguns de seus guerreiros disfarçados. Os Khamsin os chamam sagr.

-Por que os chamam, falcões?

-O símbolo do clã de meu senhor é um falcão. Os sagr são como pássaros que vigiam a cidade de perto. Se perceberem qualquer atividade suspeita, comunicam imediatamente o acampamento. Se descobrirem alguém escavando em busca do Almha o executam. Exceto em algum caso, quando se trata de um membro da tribo. Nesse caso o infrator deve comparecer perante o Majli, o conselho dos anciões. O chefe dos anciões tem o poder de matar ou perdoar sua vida.

-A que distância está o acampamento? - Perguntou Elizabeth.

-Há umas três horas daqui. Hoje vou visitá-lo.

Badra, sua única esperança, partia. Ocorreu-lhe uma idéia. Elizabeth deu uma olhada para o diminuto aposento. Havia uma pequena mesa contra a parede onde encontrou papel e lápis. Escreveu um bilhete.

-Badra, preciso da sua ajuda. Por favor. Na frente da sua escolta invente a desculpa de que deve passar pela aldeia. Leve esse bilhete a Nahid Wilson no Haggi Quandil. Pode fazer isso?

Ela sorriu timidamente.

-Meu sagr sente devoção por mim. Espera se casar comigo, quando Jabari encontrar uma esposa. Faz qualquer coisa por mim. Mas isso... - Disse dando uma palmadinha no papel. - O que diz aí?

-Não sabe ler? - Elizabeth percebeu que seus olhos marrons se enchiam de lágrimas.

-Gostaria de aprender. - Seus soluços encheram Elizabeth de compaixão. – Jabari jamais permitirá.

Provavelmente utiliza sua ignorância para mantê-la a seu lado. - pensou ela com irritação.

-É muito cruel da parte dele.

-Oh, não! Jabari é muito bom. É contra os costumes dos Khamsin que as mulheres leiam.

Depois de ver a admiração no rosto de Badra, a raiva de Elizabeth por Jabari se suavizou.

-Posso a ensinar a ler. - Sugeriu.

Os olhos de Badra transmitiam tal excitação, que Elizabeth se sentiu culpada por ter tido sua própria educação.

-Quando voltar do acampamento assegure-se de que meu tio está cuidando da minha pomba. -Disse ela torcendo uma mecha de cabelo no dedo. - Deve ter se esquecido da Isis. Há dois dias que ninguém a alimenta. Se me ajudar, a ensinarei a ler até que eu consiga escapar deste lugar.

A esperança desapareceu do rosto radiante de Badra. Ela fez uma careta.

-Nos abandonar? E para onde irá?

-Voltarei para a jazida. E logo para casa, suponho.

-Abandonar o Egito? Mas... Mas esta terra tem tanto a oferecer. Porque alguém iria querer abandonar o Egito? – Disse Badra com os lábios tremendo.

-Na realidade não... Amo o Egito, mas... Tenho assuntos importantes para atender em casa.

Mas sim. Claro, que amava o Egito. A suntuosa aridez do deserto e sua antiga história apropriaram-se de seu coração.

-Como é a pomba? - Perguntou Badra depois que Elizabeth deu as instruções de como encontrar sua pequena cabana.

-Uma pomba branca. É muito dócil. - Elizabeth observou intrigada o misterioso sorriso que se desenhou nos lábios de Badra. - Por que pergunta?

-Por nada. - Mas o sorriso de Badra se acentuou. Ela era verdadeiramente formosa. Elizabeth contemplou admirada sua beleza exótica e suspirou.

-Já que estamos aqui, por que não começamos agora mesmo? - Elizabeth se aproximou da mesa, pegou papel e escreveu nele o nome de Badra. Durante a próxima hora, Ela ensinou Badra a escrever as letras satisfeita ao contemplar o sorriso entusiasmado da garota.

Elizabeth ouviu o ruído de uma chave no ferrolho e se apressou a esconder o lápis e o papel. Quando Aziz entrou no aposento, Badra ficou em pé e partiu. Elizabeth fez uma rápida oração para que a vontade da garota em aprender acabasse pesando mais do que sua lealdade a Jabari, e entregasse seu bilhete.

-Agora você vai se banhar e comer. O senhor ordenou assim.

Só a menção do banho, fez Elizabeth se sentir aliviada, mas seu incorrigível orgulho a fez desistir. Possivelmente permaneceria suja, e Jabari a recusaria. Mas aquele homenzarrão mantinha a mão firme em sua adaga.

Conduziu-a pelo corredor até chegar a uma porta que deixava vislumbrar uma casa retangular. A casa dava para um enorme pátio ao ar livre no qual crescia um exuberante jardim florido. Mimosas acácias e árvores frondosas sob as quais fizeram pequenos bancos de pedra. Uma piscina de mosaico se estendia da casa até o jardim. E as flores! Caules de rosas vermelhas e rosas, moitas de jasmins brancos, altas moitas de louros rosa e inclusive, pequenas violetas habitavam entre as pedras aparecendo suas tímidas e pequenas pétalas. Uma pequena fonte jorrava água no centro do pátio. Tanta opulência em metade do árido deserto fez Elizabeth contemplar semelhante maravilha com a boca aberta.

Apoiada contra um muro, havia uma banheira cheia de água, das dimensões de um sarcófago. O vapor saía da água.

- Tire a roupa e tome banho. - Disse Aziz.

Elizabeth arqueou as sobrancelhas. - Eu não me dispo na frente de homens.

Ele franziu o cenho.

-Sou o guardião do harém do senhor. Meu dever é me assegurar de que todas as mulheres são bem atendidas, e conto com a aprovação dele. – Vai se banhar imediatamente.

-Aziz. - Uma mulher alta em um vestido azul anil de manga longa se aproximou. Suas formas eram solenes e seu sorriso confortável. Pôs a mão no braço do homenzarrão. - É nova aqui. Por favor, seja paciente. Eu me ocupo dela.

-Como desejar, senhora. - Aziz fulminou Elizabeth com o olhar e deu meia volta.

-Quem é você? - Elizabeth se voltou para sua salvadora com um sorriso de gratidão.

-Sou Layla, prima de Jabari, e tomo conta deste harém. Não tenha medo. Estou aqui para me assegurar de que tudo está do seu agrado.

-Agrado? - Elizabeth franziu o cenho. - A única coisa que me agradaria, seria escapar desta prisão.

Layla a olhou surpreendida.

-Prisão? - As mulheres de Jabari são tratadas como rainhas. Basta apenas expressar, que todos os seus desejos serão atendidos.

Elizabeth conteve um azedo comentário e se deixou guiar por Layla para a banheira. Tirou a roupa afundando seu agradecido corpo no vaporoso calor e deixou que a mulher lavasse seus ombros, as costas, e ensaboasse seus cabelos. Ela a enxaguou com uma loção deliciosa com o aroma do romeiro, que ela tanto gostava.

Depois de secá-la, Layla penteou seus longos cabelos e deu um vestido comprido azul celeste, de uma malha leve e vaporosa. Elizabeth olhou para o vestido e acariciou suas belas dobras. Colocou-o contra a luz e através da gaze, viu o rosto de Layla, a olhando atentamente. Devolveu o vestido.

-Não posso usá-lo. - Se vê tudo através dele.

-Ah, sim. Já esperava por isso. - Layla saiu um instante e voltou com um belo vestido de seda azul, entregando a ela. Tão leve que parecia flutuar no ar. Elizabeth o vestiu pela cabeça. O comprimento deixava seus tornozelos nus e estava apertado em seus seios. A pesar de estar sem o espartilho, de o vestido ser na sua medida, sentia-se nua e sensual.

Sentiu-se nostálgica por causa da sua velha roupa.

-Está preciosa, querida. Meu primo ficará encantado em tomar o café da manhã contigo.

-Jabari vai comer comigo?

-Ele mesmo pediu - Respondeu Layla. - Logo que acabe o banho e se vista.

Repentinamente, Elizabeth se encantou com a idéia de poder sujar o rosto de barro. Possivelmente, se conseguisse se manter suja Jabari se afastaria dela.

-Vamos.

Pesarosa, Elizabeth seguiu Layla, saindo do quarto de banho e entrando em um corredor cheio de curvas que levava a uma outra casa que dava para o jardim.

Sentado a uma mesa repleta de frutas, Jabari examinava um documento. Trocara seu binish azul por um traje mais singelo. Uma longa túnica branca, calça branca de algodão e sandálias. Estava com um grosso cordão negro na cintura onde pendurou uma adaga com o cabo de marfim. O branco da vestimenta contrastava enormemente com sua tez morena. Jabari inundava autoridade e transmitia uma força imponente. Sem o turbante, seu longo e frisado cabelo brilhava como se ele tivesse acabado de se banhar. Elizabeth amaldiçoou por ele ser tão irresistivelmente bonito, já que despertavam nela turbulentos sentimentos. Queria odiá-lo.

De maneira involuntária, seus olhos pousaram-se em sua virilha. Graças a Deus, o objeto que Farah havia mencionado antes estava oculto. Era verdadeiramente tão grande como ela afirmava? Elizabeth sentiu suas bochechas se ruborizarem e se obrigou a desviar o olhar.

Jabari levantou o olhar, percebendo sua presença e deixou de examinar o documento para se concentrar nela que permanecia impassível. Olhava-a como se estivesse examinando um cavalo ou qualquer uma de suas posses. Posse. Aquilo voltou a encher Elizabeth de raiva ao entender que ele a considerava mais uma de suas posses.

Elizabeth permaneceu imóvel, ressabiada em se aproximar dele, receosa de suas intenções. Sentiu uma mão suave apertar seu braço. Layla esboçou um sorriso de incentivo.

-Vamos, não tenha medo. - Layla a conduziu à mesa e Elizabeth soltou sua mão.

-Obrigado, posso resolver isso sozinha. – Empertigou o corpo, levantou o queixo e se dirigiu à mesa.

Os olhos de Jabari seguiam seus movimentos.

-Obrigado, Layla - disse Jabari, olhando para Elizabeth com penetrante intensidade. - Sente-se, por favor - Disse a Elizabeth apontando o assento em frente a ele.

Elizabeth assentiu e se sentou sobre as coxas em uma das almofadas de plumas.

-Frutas? - Disse ele, oferecendo amavelmente uma cesta. Ela pegou um figo e mordeu, saboreando sua suculência. Enquanto Layla se entretinha com o café, Jabari pôs a cesta na mesa.

Layla serviu o forte café árabe do dallan em duas tacinhas. Elizabeth sorriu agradecida sorvendo um gole daquela bebida amarga saboreando seu gosto especial.

Layla saiu majestosamente da casa. Elizabeth e Jabari se olharam com receio, como dois guerreiros que se observam antes da batalha. Ao recordar o modo com que ele a humilhou na noite anterior, Elizabeth teve um acesso de fúria. “Não me vencerá” prometeu-se.

Jabari enrolou o documento e enrugou a testa, como se estivesse pensando em um grande problema. Deixou o papel em cima da mesa.

-Elizabeth, entendo que na noite passada, você estava exausta e provavelmente em estado de alvoroço. Estou disposto a assumir que seu mau comportamento foi conseqüência disso. É por isso que decidi a perdoar. Não obstante e a partir desde exato momento, espero que haja civilizadamente enquanto estiver aqui e que não volte a insultar a ninguém em minha casa.

Elizabeth, que estava comendo o figo, começou a rir.

-Civilizadamente? Não sou eu que ando pelo mundo exigindo a todos que me chamem de “senhor” ou “professor” e ameaçando cortar línguas! - Passou a mão nos cabelos. - Isso é um absurdo. Não pode estar falando sério, Jabari!

Jabari franziu a boca.

-Elizabeth, não zombe de mim - Disse ele em voz baixa - Essa é minha cultura. Essa é minha gente. Não sabe nada de nós.

Seu instinto a advertia que estava pisando em terreno perigoso. Sem ser muito diplomática, tratou de procurar palavras que expressassem seus sentimentos sem o ofender. Não encontrou nenhuma. Tudo o que a impulsionou a tomar parte de uma passeata pelo direito da mulher a votar, a levava a estar contra Jabari por ter concubinas.

-Entendo. - Acredita que tem o direito a raptar uma mulher, traze-la para seu harém e obrigá-la a proceder segundo suas leis. Faz tudo isso, protegido por um manto de “cultura” e “costumes”. Realmente sente-se muito apegado a estas antigas tradições, que são tão vantajosas para os homens e tão opressoras para as mulheres.

-Protejo o que é meu. Essas mulheres aqui, estão a salvo de todos aqueles que poderiam as magoar. - A salvo dos homens que querem abusar delas. Minhas concubinas não são prisioneiras. São elas que desejam estar aqui. São livres para partirem quando desejarem.

Ela enrugou o nariz.

-As deixaria partir?

-É obvio. Como disse, sou um homem de palavra.

-Como me disse - Disse ela com desdém. - Disse-me que não me tocaria e me arrancou a roupa como um animal.

Seus olhos negros reluziram, advertindo-a.

-Mantive minha palavra. Não a toquei... Mas tive que te dar uma lição de humildade, e pôr essa sua língua no lugar. Fui até muito indulgente, Elizabeth. Entre meu povo, quem desafiar o Sheik está sujeito à morte. O seu comportamento ontem à noite poderia ter levado Aziz a aplicar o castigo e ele estava muito resolvido a tirar sua vida.

Ao lembrar em como se acenderam os olhos do servente, e o desdém com que a tratara, Elizabeth engoliu em seco.

Jabari pareceu entender sua reação, e sussurrou.

-São minhas concubinas quem escolhem em ficar aqui sob meu amparo. São mulheres sábias e sabem que não podem ir a lugar algum sem um homem que dirija seus passos. São tão indefesas como uma pomba perseguida por um falcão.

-Se elas recebessem uma educação, se ensinadas a desfrutarem de suas liberdades e a utilizarem seus cérebros, possivelmente voariam mais velozes que um falcão. “Inclusive Badra.”

Jabari se empertigou.

-Tem razão. Mas a uma mulher não conseguiria viver longe de seu homem. Precisa dele.

-É tão irremediavelmente arcaico! De verdade! Acredita nisso? Uma mulher que recebe uma educação não precisa de homem nenhum.

Jabari olhou-a apertando a boca, para em seguida suavizar a expressão de seu rosto. Estendeu a mão pegando a de Elizabeth. Com o polegar acariciava sua pele com deliberada lentidão provocando um formigamento em sua espinha dorsal.

-Mulheres com uma educação - murmurou ele. - A escola não suga o sangue das mulheres deixando-as secas como a areia do deserto? E não cuidam dos mesmos desejos e ilusões que as demais? Suas mentes possivelmente sejam mais ágeis e inteligentes, mas seus desejos permanecem escondidos. Continuam sendo mulheres, e seus corpos ardem de oculta paixão, que só um homem pode satisfazer.

Elizabeth tentou retirar sua mão.

-Eu não. Não tenho essa necessidade. - As palavras dele zuniam em sua cabeça. Teria? Elizabeth jamais teve dúvidas sobre matrimônio e filhos. Estava muito ocupada em abrir caminho num mundo só de homens.

Jabari arqueou as sobrancelhas com incredulidade. – Ah! Você não.

-Claro que não. Os homens são como algemas nos tornozelos das mulheres.

-Isso é o que somos para você? Pobre Elizabeth, tanto tempo se negando a ser mulher...

-Eu não me nego a ser nada. Prefiro ter uma carreira e independência à paixão.

Os olhos de Jabari brilharam sensualmente.

-Ah, segundo você, para se sentir realizada, prefere viver sem paixão e escavar na terra.

-Minha paixão é minha carreira.

-E negará ao seu corpo o que ele deseja?

-Eu não tenho semelhantes impulsos. Está equivocado - Disse ela esperando com isso convence-lo, e a si mesma.

Jabari coçou o queixo e a olhou fixamente, arqueando as sobrancelhas em expressão de surpresa. Naquele instante, Elizabeth entendeu como se sentiam os insetos que havia estudado no Vassar, pregados em um tabuleiro e submetidos a um rigoroso exame.

-Por que me olha assim? -perguntou ela.

-Assim como?

-Ora... Assim! Como se estivesse saindo chifres na minha cabeça.

-Não estou olhando sua cabeça. - murmurou ele.

Elizabeth seguiu o olhar de Jabari. Estavam em seus seios, que mal o vestido conseguia ocultar. Ela se amaldiçoou por haver tirado o espartilho no acampamento para escavar. Ali ele seria muito para a liberdade das mulheres.

-Você diz que pode viver sem paixão. Mas claro, jamais a experimentou antes. Ou já? - perguntou ele atravessando-a com o olhar.

-Eu... - Elizabeth abaixou a cabeça subitamente desconcertada. - Jamais estive com um homem.

Elizabeth olhou Jabari através de suas pestanas e percebeu que seus lábios se curvaram em um sorriso sedutor. O sorriso de um lobo faminto ao descobrir uma ovelha chegando por acidente a sua guarida.

-Tenho diante de mim uma flor estranha e ainda por cima com o maior tesouro que ela tem, para oferecer a um homem - disse ele brandamente.

Ante o ronronar daquele leão sedutor, Elizabeth sentiu seu corpo arrepiar.

-Eu não sou nenhuma flor. Advirto-lhe Jabari. Sou um cacto com espinhos muito afiados.

-Os cactos não são ameaça para mim. Proporcionam suculentos refrescos. Eu adoro o desafio de ter que conquistar um externo espinhoso, para depois demonstrar a doçura que reside em seu interior. - murmurou ele.

Elizabeth baixou o olhar, aturdida e temerosa de suas intenções. Pensou de novo no que Farah havia dito, o que cortou sua respiração. Se Elizabeth o olhasse nos olhos, perderia sua alma e ele veria o reflexo do desejo nos seus que tão desesperadamente tentava ocultar.

-Elizabeth, olhe para mim. - Sua voz era como uma carícia em sua pele, como se fosse seda.

Elizabeth fixou seu olhar nas mãos de Jabari, que estavam estendidas em cima da escura mesa de madeira. Poderosas mãos cobertas por finos pêlos negros.

-Vejo em seus olhos quando me olha. Esconde muita coisa em seu interior; mas seus olhos não mentem. Seu corpo deseja o meu.

Sentiu uma enorme vontade de rir, mas só conseguiu que brotasse de seus lábios um gemido frustrado.

-Como te atreve a fazer semelhante afirmação? Suas deduções são muito arrogantes - disse Elizabeth sem levantar os olhos.

As mãos de Jabari sumiram da mesa. Elizabeth ouviu seus passos ecoando na casa. Sentiu o ar contra o rosto quando ele se sentou. Pegou em seu queixo obrigando-a a olhá-lo nos olhos. Havia milhares de histórias sobre antigas paixões e futuros desejos. Era como olhar a ardente areia e contemplar uma miragem brilhante. Jabari retirou a mão de seu rosto. Elizabeth amaldiçoou o tremor revelador de suas mãos, quando ele as segurou.

-Se eu acariciar sua pele suave... Você permaneceria impassível como um de seus preciosos artefatos? Não sentiria nada?

Sem esperar por uma resposta, Jabari acariciou a palma de sua mão provocando nela um calafrio, com a masculina aspereza de seus dedos.

Ela retirou a mão sobressaltada levantando-se a toda pressa.

-Elizabeth - disse ele lentamente - Não pode negar. Existe paixão entre nós.

-Sim! Nego. - Disse ela mentindo.

-Sua boca diz uma coisa, mas seu corpo diz outra. Se estremece quando a toco. Seu corpo me é revelador.

Virando as costas para ele, Elizabeth fixou o olhar nos belos bordados das tapeçarias nas paredes. Contou suas intrincadas espirais para ajudá-la a recuperar o controle. Elizabeth sentiu suas mãos fortes forçando-a a dar a volta e ficar frente a ele.

-Não lute contra, Elizabeth. Você será minha. - Sua profunda voz revelava um orgulho supremo. Ele está acostumado a conseguir o que quer. Nesse momento, Elizabeth soube que se conseguisse fugir do harém, Jabari a perseguiria com uma paciência infinita. Seguiria seu rastro nas tormentosas areias e a reclamaria como dele. A atitude possessiva dele fazia a segurança em si mesma oscilar.

Elizabeth soluçou em sinal de protesto, terminando por choramingar.

Posso-a ensinar tantas coisas. - Jabari baixou o tom de voz até convertê-lo em um sussurro. Segurou o rosto de Elizabeth entre as mãos. - É a mulher mais fascinante que já conheci. Meu desejo é que conheça a verdadeira paixão entre um homem e uma mulher.

O contato com a pele dele a fazia estremecer. Tudo parecia tão íntimo, possessivo e cativante. Não era isso o que Elizabeth queria. Gostaria de poder fugir, escapar daquela nova, excitante e aterradora sensação que a fazia se sentir alheia a tudo, exceto a ele.

Um braço a cingiu pela cintura, estreitando-a contra ele. Jabari suavemente deslizou seu polegar pelo rosto de Elizabeth detendo-se na parte sensível de seu pescoço. Elizabeth deu um grito abafado. Tentou se separar dele, mas se sentiu presa em seu abraço apertado. Seu coração palpitava com força irregular sentindo um ardor correr por suas veias.

-Percebe... Você não é um frio objeto de pedra que permaneceu escondida clandestinamente por milhares de anos. E nem um cacto. - Murmurou ele.

Hipnotizada pelo fulgor do desejo refletido nos olhos negros de Jabari, Elizabeth se sentiu incapaz de se mover. Os lábios dela se abriram quando Jabari se inclinou para beijá-la, apesar da lógica a mandar aproveitar a oportunidade e fugir.

Todos seus pensamentos se desvaneceram quando seus lábios se encontraram com os de Jabari. Fechando os olhos, sentiu que seu ventre tremia profundamente com uma necessidade urgente. Explorando-a, saboreou o contorno de sua boca. Jabari percorreu com a ponta da língua os lábios de Elizabeth roçando-os levemente. Introduziu a língua em sua boca intensificando o beijo. Quando suas línguas se cruzaram, Elizabeth sentiu o doce sabor das tâmaras e um ardente desejo. O beijo se tornou mais apaixonado como um redemoinho de areia que só permitia ver a ele. A boca de Jabari invadiu a sua. Quando ele se inclinou deitando-a com cuidado nos almofadões, Elizabeth perdeu completamente o controle.

Jabari estreitou seu corpo contra o de Elizabeth. Impregnada com o perfume de sândalo de dele, tentou inutilmente se libertar. Com a maciez dos travesseiros sob seu corpo, notou a urgência que ele pressionava seu corpo contra o dela. Jabari introduziu a mão quente por baixo de seu vestido acariciando suas coxas, e um calor abrasador percorreu todo seu corpo. Ela se perguntou, como se sentiria se Jabari acariciasse suas costas nua.

Liberando sua boca, Jabari passou suavemente a língua em seu pescoço fazendo Elizabeth jogar a cabeça para trás gemendo. Estava perdendo a batalha para ele. Os dentes de Jabari mordiscavam sua pele sensível alternadamente com suaves carícias. Aquela sensação a excitou ao extremo.

-Oh! Minha kalila - murmurou ele.

De repente, Elizabeth sentiu que seu corpo estava livre do peso e dos braços de Jabari. Erguendo os olhos surpresa, encontrou seu rosto furioso.

Querida? Por que a chamara assim? Tocando os lábios inchados, Elizabeth se sentou totalmente desconcertada.

Jabari fungou, com seus olhos de ébano convertidos em duas pedras de gelo sem nenhuma demonstração de afeto de sua parte. Juraria que ele estava zangado consigo mesmo. Respirando profundamente e se sentindo frágil, desenhou em seus lábios um forçado sorriso de cumplicidade.

-O me que disse ontem a noite é verdade Elizabeth. Você satisfaz minhas necessidades. Há muito tempo não experimento os prazeres do corpo de uma virgem. A reservarei. - Disse ele suave, com um brilho perigoso nos olhos.

Elizabeth ficou curiosa e impaciente para saber o que Jabari tramava.

-O que vai fazer comigo?

-Já a adverti. – Você violou o chão sagrado. Permanecerá aqui... Até que eu fale com os anciões da tribo.

-Então eles decidirão o meu destino?

Jabari coçou o queixo, como se estivesse refletindo sobre sua pergunta. Percorreu seu corpo, com o olhar imperturbável e franco.

-Se ficarem sabendo do seu sacrilégio, sim. Meu avô é o chefe dos anciões e impõe o castigo àqueles que procuram o Almha sagrado. É bem mais seguro que permaneça aqui. Elizabeth, confie em mim.

Possivelmente, o melhor que poderia fazer seria entregar sua cabeça... Ou seu corpo. Jabari era tão imprevisível como o vento do deserto. A prenderia para sempre em seu harém? Ou deixaria que os anciões a matassem?

Jabari bateu palmas e Layla entrou pela porta. Pegou o documento que permanecia em cima da mesa e desenrolou lendo atentamente uma vez mais. A despediu bruscamente.

-Acompanhe Layla. É livre para explorar os terrenos e fazer o que a agrade. Todos os seus desejos serão cumpridos.

Elizabeth vacilou sentindo-se tão indefesa como um animal enjaulado.

-Quais são seus planos? - Disse envergonhada pelo tom suplicante de sua voz.

-Isso querida, não é assunto seu. - Ficará aqui. Mais tarde, se eu a quiser em minha casa, deverá estar preparada para mim. - Jabari finalmente a olhou. Ela estremeceu com a negra paixão que viu nas profundezas de seus olhos escuros.

Elizabeth deixou que Layla a guiasse para a saída da casa. Sentiu que o fino fio de esperança havia sido cortado por sua ameaça oculta.

Jabari precisava clarear sua mente. Primeiro se reuniria com os seus para falar das atividades na escavação. Os ingleses continuavam escavando na mesma zona. Em seguida estudaria minuciosamente as contas da tribo com os anciões da aldeia. A seca neste inverno ameaçava a nova colheita a ser tão escassa como a anterior. Preocupado com esse problema, Jabari se retirou para a beira do rio precisando descansar sossegado. Ficou sentado lá por duas horas meditando. Era inútil. Cada vez que tentava alcançar o lugar sagrado, a preciosa boca de Elizabeth tomava conta de sua mente. Finalmente se deu por vencido. Sozinho, cavalgou de volta ao acampamento Khamsin, com um enxame de problemas zumbindo em sua cabeça como abelhas furiosas.

Elizabeth, Elizabeth. Desconcertante. Frustrante. Cheia de paixão e entusiasmo, forte como o sol do deserto e vulnerável como uma menina. Ela o enfurecia e o intoxicava. Horrorizado pela ternura que experimentou enquanto a beijava, não houve outro remédio do que sair. Não podia permitir que esse sentimento o debilitasse, como aconteceu com seu pai.

Jabari ensaiou mentalmente as palavras que usaria perante os Majli, para comunicá-los da notícia. Saltar se fez visível no vasto vale do acampamento Khamsin, olhou o lugar entrecerrando os olhos. Nenhum guarda cuidava da entrada norte do acampamento. Então viu uma multidão reunida, falando com grande alvoroço. Aquilo o aterrorizou. De repente, os homens perceberam sua presença e gritaram. Todos correram para ele como se fossem uma onda maciça. Desmontou do cavalo.

Jabari puxou as rédeas do cavalo e se aproximou da multidão tentando entender alguma coisa no murmúrio das vozes que o rodeava. Nazim conseguiu abrir caminho impacientemente entre os corpos de túnicas azuis. Jabari olhou em sua mão direita com o cenho franzido.

-Nazim, por que os guardas estão postos na entrada? Quem é o responsável por isso? - gritou Jabari por cima do barulho.

-Senhor, não pode acreditar no alívio que nos faz sentir com seu retorno! - A voz de Nazim cheia de urgência lhe deu o que pensar.

-O que aconteceu? - A última coisa de que precisava eram mais problemas.

-Venha a ver. A tribo não falou em outra coisa durante toda a manhã. Olhe ali junto ao Ghazi. – sussurrou.

Nazim entregou as rédeas de Saltar a um guerreiro para que a levasse. Os dois abriram caminho entre a multidão agitada. Jabari apontou sua barraca com a cabeça.

O Ghazi encontrava-se em seu lugar habitual no cabide de madeira. O medo de que alguma coisa tivesse acontecido ao falcão, seu querido amigo, se dissipou. Então a viu... À esquerda do Ghazi, sem mostrar nenhum temor perante a ave de rapina que se achava a seu lado.

Seu coração pulsava com força e sentiu a boca seca. Querido Alá, não podia ser. Mas era... Depois de tantos milênios.

-Está ali - Anunciou Nazim em tom sério. Jabari contemplava o belo pássaro. – Afinal, a pomba branca voltou a estar entre nós.

 

-Chegou voando do oeste corno estava escrito - Disse Nazim sentado no grosso tapete do rnaharama, uma dependência da barraca destinada a fins cerimoniosos e às reuniões de guerra do conselho. A voz de seu amigo se elevou à cima do murmúrio dos membros do conselho Majli, que se achavam sentados em um círculo. Os anciões convocaram uma reunião urgente para avaliar a situação. Na barraca, se respirava uma mistura de ar viciado em exaltada espera pela chegada do pássaro.

Preocupado pelo novo desenvolvimento dos acontecimentos, Jabari cravou os olhos no tapete vermelho percorrendo seus motivos com o dedo. Esperava poder fazer uma reunião em privado com os Majli. Suplicar o perdão pela vida de Elizabeth, com a desculpa de que era uma mulher simples e fazê-lo com a máxima discrição possível. Em vez disso, teria que enfrentar um conselho de raivosa energia espumando pela boca. Como iria justificar as ações de Elizabeth, se nesse exato momento, a tribo estava presenciando o designo, mostrando que a profecia estava se cumprindo? Aquele incidente mostrava de maneira muito distinta sua traição. Agora os Majli jamais perdoariam qualquer pessoa que viesse a cavar o chão em busca do Almha, não com a chegada de sua rainha anunciada pela pomba branca.

Se contasse a eles o sacrilégio de Elizabeth, Nkosi não duvidaria. A mataria. Jabari tirou Elizabeth de seus pensamentos. No momento, ela estava a salvo em seu harém, não havia necessidade de que soubessem da sua existência. Permaneceria oculta atrás dos altos muros de tijolos como se fosse um fantasma.

Concentrando sua atenção no conselho, ergueu a mão pedindo silêncio. Todos os olhos estavam postos nele.

-Quero saber tudo. Nazim... Diga-me o que aconteceu.

--Senhor. O Ghazi estava em seu cabide e eu terminava de alimentá-lo. Repentinamente, a vi. Desceu do oeste e pousou junto ao Ghazi. E ele não a atacou.

- O Ghazi compartilha o cabide com os pássaros que quer caçar - Disse Jabari. – Qual é a opinião de nossa gente a respeito?

-Acolheram a notícia com grande alegria. Dizem que a pomba branca é um sinal de que as despensas se encherão novamente nos meses de verão. Estão se preparando para as celebrações desta noite.

Essa notícia encheu Jabari de inquietação. Não poderia suportar ver sua gente sofrer. Em vez de racionarem a comida incansavelmente, os Khamsin iriam festejar. Depositavam todas suas esperanças em uma antiga lenda, e ignorando a fome que os espreitava. Franziu o cenho.

-O Egito está infestado de pombas brancas. Como saberemos que esse é o sinal?

-Nunca apareceu uma pomba branca antes nesta parte do deserto - Falou Nazim – Estamos muito longe. E há pouca comida na área, como mostra o apetite da pomba. E o outro sinal da volta de nossa rainha, seria de que a pomba viria faminta. Possivelmente ela envie o Ghazi para que nos traga comida. Ou baterá suas asas magicamente e o nosso jantar aparecerá.

- A boca de Jabari se contorceu em um sorriso forçado. Nkosi emitiu um grunhido de desagrado.

-Querido neto, por que está zombando? A profecia se cumpriu. Não é o momento para brincar. -exclamou.

Jabari se sentiu aborrecido pela reprimenda.

-Sinto muito, meu avô. Não quero faltar com o respeito. Mas estou profundamente preocupado pelo muito que isso significa para o nosso povo. Temos que estar absolutamente seguros. Preocupa-me, que o pássaro acenda falsas esperanças.

Nkosi deu umas palmadinhas com sua mão nodosa em frente a seu neto.

-É por isso que deve estudar os sinais com seu coração e não com sua cabeça. Tudo se esclarecerá, se seu coração estiver disposto a se abrir. A responsabilidade está em você querido neto, e nossa gente depende de você. Haja com sabedoria em tudo o que fizer.

Aquela crítica advertência enfureceu Jabari.

-Sempre atuo com sabedoria quando se trata do destino de nossa tribo. Estou mais preocupado por seu futuro do que por essa pomba. Nos últimos tempos nossa gente sofreu pela incompetência dos Ao-Hajid na cria de cavalos. Agora que estão bloqueando as rotas comerciais vamos sofrer ainda mais. Não temos caravanas para assaltar e conseguir provisões.

-Então está claro. É o momento certo para a volta de Kiya. Nossa gente precisa de sua visão e direção. - Afirmou Nkosi.

-Nossa gente necessita, é de soluções rápidas e concretas, e não podem depender de uma lenda. -Replicou Jabari em tom respeitoso, mas firme.

--Kiya não é uma lenda. As soluções virão com sua chegada. Está escrito que nossa rainha nos conduzirá para o futuro. Por acaso não acredita na verdadeira razão pela qual estivemos guardando o Almha durante todo um milênio? É o Sheik dos Khamsin. Por acaso esqueceu qual é o seu dever? - Rugiu Nkosi. Seus olhos relampejavam de fúria. Os onze membros restantes do conselho pareciam assombrados, inclusive Nazim, que crispou o rosto.

-Acredito na profecia e como guerreiro Khamsin, reafirmo meu juramento de proteger o Ahmha - Disse Jabari em voz baixa. Seu rosto parecia de pedra, e cravou os olhos na parede da barraca, esperando que as respostas estivessem lá gravadas. Uma raiva frustrada corroia seu interior. – Tiraria minha vida com minha própria espada, se por ventura fracassasse na hora de cumprir com meu dever. E meu principal dever é minha gente, não uma rainha da Antigüidade. Não vai haver reserva de comida suficiente para os meses de verão. Como verá meu avô, não vou ficar de braços cruzados e esperar que se cumpra uma profecia, enquanto contemplo nosso povo morrer de fome.

Jabari levantou o queixo e sustentou o olhar furioso do ancião. Se abaixasse a cabeça em sinal de respeito, perderia a credibilidade perante o conselho. Como líder, devia fazer frente a seu avô e impor sua autoridade. Não podia permitir que sua atitude de ignorância e despreocupação pelos problemas dos Khamsin influenciasse aos Majli. Jabari respirou pausadamente e manteve as mãos firmes em seus joelhos, se negando a ceder.

Alguns minutos mais tarde, Nkosi inclinou a cabeça e exalou um profundo suspiro, que penetrou fundo no coração de Jabari.

-Tem toda a razão. Qual é seu plano?

Jabari suspirou de alívio.

-Devemos encontrar fontes alternativas de ganhos para nossa tribo. A aquisição de éguas árabes por parte de lady Anne Blunt despertou o interesse por nossos cavalos na Europa. Nossas linhas de sangue foram recomendadas de cliente a cliente, e estão se mostrado bastante interessados. Escrevi carta à nossa tribo do sul propondo a venda dos cavalos Khamsin, incluindo os semeie, as famílias reais da Polônia e Alemanha.

O rosto de Nazim se contraiu de preocupação. Jabari lançou um olhar de empatia a seu melhor amigo. A tribo só vendia suas éguas, jamais seus preciosos semeie.

-Jabari, vendermos os semeie? Sabe o que isso significa?

Jabari apertou a mandíbula.

-Sim, eu sei. Começarão suas criações de semeie e terão que suportar uma dura competição. Perderemos clientes. Pior ainda, irão misturar o pedigree. Nossos cavalos têm uma têmpera elegante, de cascos velozes. Os europeus debilitarão a raça com sangue impuro. Mas não temos outra opção. Necessitamos do dinheiro imediatamente. Venderemos a um bom preço os semeie.

O coração de Jabari se encolheu de dor. Sua decisão provocou um profundo suspiro entre os presentes acompanhado por gestos de pesar. Os cavalos árabes Khamsin eram os mais puros e belos do Egito. Todos os guerreiros amavam os cavalos da tribo e os tratavam com grande afeto.

-Entretanto, nossa ameaça imediata são os Ao-Hajid. Suponho que dificultarão nossa transação. Consta-me que conhecem os planos dos europeus em adquirir nossos cavalos. Essa é a verdadeira razão por trás de sua campanha de terror no sul.

-Continuarão bloqueando as rotas comerciais e afugentando nossos clientes. - Nazim ficou furioso. Seus olhos âmbar escureceram ao desembainhar sua adaga. Cravou-a no tapete com ímpeto selvagem. - Deveríamos atacar esses cães. Meu sangue anseia por isso.

Jabari pegou a adaga do tapete e a devolveu a Nazim.

-A seu devido tempo meu amigo. Agora não é o momento.

- Encontrará as respostas, querido neto. Estou seguro disso - Disse Nkosi orgulhoso.

Jabari olhou pensativo para o murmúrio dos anciões no fundo da barraca que finalmente expressaram suas aprovações.

-Obrigado por sua confiança querido avô. Não os decepcionarei.

Nkosi levantou as sobrancelhas coçando a barba.

-Semelhante resposta não pode ser tão esquiva. Esquece-se do Almha. Nos proporcionaria lucro suficiente para alimentar o nosso povo por muitos verões.

Suas palavras provocaram um grito abafado entre os presentes. Jabari sentiu seu estômago revolvendo de raiva e dor. Como podia seu querido avô pensar em semelhante sacrilégio?

-Antes que isso aconteça, me venderia como escravo aos Ao-Hajid, do que me desfazer do Almha - Disse Jabari gélidamente.

Seu avô sorriu.

-Já sei querido neto. Só estou provando sua lealdade, como me corresponde.

-Fez muito pouco para me pôr a prova querido ancião - Grunhiu Jabari afetuosamente. - Agora vejamos a pomba. Onde está ela?

Nazim os conduziu ao cabide do Ghazi abrindo espaço entre a multidão. Jabari viu Badra ao lado de sua tia. Sorriu-lhes carinhosamente.

Resolvido a julgar a situação com total imparcialidade, Jabari se surpreendeu contemplando à pomba com a mesma solenidade dos outros. Agitada, a ave batia as asas querendo escapar. Girou a cabecinha e o olhou de frente. Acalmou-se imediatamente. Surpreso pela admiração que a bela pomba causava nele, Jabari deu um passo adiante. Ela se sentou placidamente esperando. Quando Jabari lhe acariciou o peito, agradeceu seus mimos com arrulhos de prazer. Uma imensa sensação de paz se apoderou dele. - Olhem como ela está calma com suas carícias. - É um sinal! -Disse um dos Majli sobressaltado.

-É a profecia - Gritou outro ancião. - A pomba branca amansará perante a mão forte do Sheik Khamsin, símbolo da submissão de Kiya a sua vontade. - E se emparelhará com ela, e lhe dará filhos tão fortes e cheios de vida como os ventos do deserto.

Ao lembrar a profecia, a paz de Jabari desvaneceu. Sua honra o obrigava a se casar com a rainha reencarnada. Como poderia fazê-lo, se o espírito de Elizabeth o perseguia incansavelmente? “Admita.” Não pode deixá-la escapar. - Jabari encolheu os ombros resignado. Não se preocuparia com os detalhes, pois ainda não havia provas contundentes.

-Há outros sinais. Permanecerei atento a eles. - Prometeu Jabari aos membros do conselho, que permaneciam em pé junto a ele. Olharam-no como se fosse um jinn solto de entre as areias.

Sua cabeça estava a ponto de estourar por causa dos incontáveis problemas que o assediavam, e o estranho misticismo a volta do pássaro. Muita responsabilidade. Muitos problemas. De repente, sentiu uma urgente e quase desesperada necessidade de ver Elizabeth. De que o suave tom de suas risadas aliviasse sua mente inquieta. De contemplar seus olhos cintilantes ao discutir com ela. Uma necessidade imperiosa se apoderou dele como se ela fosse um oásis e ele um homem morrendo de sede sob o sol abrasador.

A lembrança suave de seus lábios, as covinhas em seu sorriso, e o brilho de seus olhos, o reconfortava. Jabari só queria experimentar a força de seu espírito cuidadoso e imponente, e seu engenhoso desejo em lutar contra uma pedra afiada, que supunha ser, sua aguda inteligência. Unicamente, só as animadas discussões com Elizabeth poderiam aliviar a carga da responsabilidade em suas costas.

Jabari tocando o queixo olhou para os membros do conselho. Fez sinal a Nazim para que lhe trouxesse o cavalo.

-No momento não tenho respostas, mas as terei, asseguro-lhes. Não vou permitir que minha gente morra de fome e tampouco darei as costas à profecia, se por acaso efetivamente se cumprir. Agora, tenho assuntos urgentes a minha espera na Amarna. Montou Saltar e saiu galopando como um possesso aceso pela bela visão de que Elizabeth o estava esperando.

O sono a reclamava. Elizabeth dormiu profundamente. Quando se levantou, a posição do sol indicava que já estavam no meio da tarde. A fome a levou a explorar os arredores. Percorreu o caminho do intrincado labirinto à sala de banhos. No jardim, Layla se achava em agradável repouso sentada em um tapete tecendo num tear de madeira. Nua, Farah colocava vários almofadões sob uma árvore. Uma jarra de barro, copos, e um sortido cesto de frutas, estavam em uma mesinha de sândalo.

Elizabeth vermelha de vergonha se voltou para sair, mas Layla a viu.

-Por favor, Elizabeth, una-se a nós. Você deve estar faminta.

Elizabeth engoliu a saliva evitando olhar a nudez de Farah, admirada frente à mesa posta com semelhante manjar. Exceto o figo que degustara de manhã, não comera mais desde o dia anterior. Abotoou o vestido até o pescoço. Com água na boca, se serviu de vários pedaços de queijo e uma maçã. Servindo um copo do suco de cítricos de uma jarra, suspirou ao lembrar de que o jogara no rosto de Jabari.

Layla sorria de satisfação tecendo fios em cores no tear. Seu vestido azul anil parecia confortável. Elizabeth desejou que Farah fosse tão discreta quanto ela em sua vestimenta.

-Diga-me, Elizabeth - a serena voz de Layla interrompeu seus pensamentos. - O que a trouxe aqui? Você também deseja fazer parte do harém?

Elizabeth sentiu vontade de rir.

-Desejo? Não. Fui capturada à força pelo senhor.

As mãos da Layla deixaram de tecer. - Capturada? Sente saudade de Jabari.

Elizabeth contou a Layla que ele a encontrara escavando em busca do Almha. Layla franziu o cenho.

-Meu primo jamais faria mal a uma mulher. É muito delicado e amável.

Elizabeth se lembrou de como ele havia tirado sua roupa no dia anterior e estremeceu.

-Custa-me acreditar.

-Pois é a verdade. Pergunte a Farah. - Elizabeth olhou para Farah. – Ela é muito deslumbrada pelo senhor para confirmar.

Layla a olhou pensativa.

-Sabe como chegaram Farah e Badra aqui? Também as raptou?

- Não. Layla meneou a cabeça.

-Há três anos, meu primo conduziu um assalto contra os Ao-Hajid nossos inimigos. Roubaram dos Khamsin a preciosa cria de um garanhão. Fazia apenas dois meses que o pai de Jabari o Sheik, havia morrido, e Jabari partiu com seus homens com o objetivo de recuperar o cavalo e vingar a honra da tribo.

Layla olhou em direção ao sul agindo como se estivesse escutando os ensurdecedores cascos dos cavalos e vendo as espadas dos guerreiros no ar.

-Os Khamsin recuperaram o garanhão. Entre a nossa gente, é normal que em um assalto capturem mulheres. Jabari jamais o faria, para não destroçar famílias. Mas quando voltavam para casa, duas mulheres se aproximaram de Jabari suplicando refúgio.

Elizabeth se aproximou ansiosa por saber o porquê.

-Essas mulheres eram concubinas do Sheik Fareeq bin Hamid Taleq. Conseguiram escapar durante a batalha. Suplicaram misericórdia a Jabari, ele ofereceu amparo a elas, as levando para o acampamento.

-Verdade? - Elizabeth olhou para Farah e desta vez, vendo sua nudez de outro ângulo, como se estivesse vestida dignamente. - E por que o tal Fareeq não devolveu a ofensa e recuperou suas mulheres?

-Os Ao-Hajid assaltaram o acampamento, embora Fareeq não tivesse à frente. Ele teme Jabari. A reputação do meu primo como valente guerreiro é legendária entre as tribos do deserto. Os Khamsin mataram muitos Ao-Hajid e eles finalmente se retiraram. Jabari temia que voltassem a atacar, de modo que trouxe as mulheres aqui para o harém e assegurar-lhes seu amparo. Esse edifício sempre foi o harém do Sheik.

Quanto mais Elizabeth soubesse do passado de Jabari, melhor entenderia o homem que a conservava cativa.

-O pai de Jabari também sustentava um harém?

-Sim. Mas a tradição dita que o Sheik deve se casar com uma mulher pura. Pelo general, o Sheik se casaria com primas longínquas para assegurar a fidelidade familiar. Tarik se apaixonou perdidamente por uma mulher quando visitou o Cairo. Ela não pertencia a nossa tribo.

Elizabeth perguntou a Layla pelo pai de Jabari e ela franziu a boca.

-Tarik amava Jasmine. Apesar de ser da cidade se adaptou bem em nossa tribo. Até que implorou a ele que a deixasse ler. Apesar de ser contra nossas tradições, Tarik permitiu.

-Lia o tempo todo. Queimava a comida e se descuidava de suas tarefas, mas Jabari e seu pai não se importavam. Eles não queriam privá-la desse prazer que a fazia tão feliz.

-E o que aconteceu?

-Jasmine foi murchando. Para agradá-la, Tarik a levou ao Cairo em visita a seus familiares. Ela disse a ele que ficaria lá por um ano ou mais possivelmente, para continuar com sua educação. Tarik voltou sem ela. Nkosi, seu pai, ficou furioso e disse a ele, que sua mulher o havia desonrado. Tarik disse que a amava muito para obrigá-la a voltar.

-Que coisa linda ele fez por sua mulher - murmurou Elizabeth.

Os músculos do rosto de Layla se retesaram.

-Linda? Seus homens zombaram dele. Perderam o respeito por ele. Tarik não soube dominar sua mulher... Seis meses depois conduziu um perigoso assalto a uma caravana armada para demonstrar seu valor. O mataram imediatamente.

-Oh, não. Pobre Jabari - sussurrou Elizabeth.

-Se Jasmine não tivesse deixado Tarik ele estaria vivo.

- Isso é injusto - protestou Elizabeth - sua intenção era voltar. Como imaginaria que seu marido reagiria assim?

- Não deveria tê-lo abandonado. O forçou romper a tradição. As tradições jamais deveriam ser quebradas.

- Como seus homens puderam dizer que ele era um fraco? Só porque amava sua mulher? Tarik também a deixou aqui. Por isso, vejo que se tivesse havido mais homens, para quebrar a tradição, as ações de Jasmine teriam sido muito benéficas para a tribo.

-As tradições jamais deveriam ser quebradas - repetiu Layla. Parecia tão aflita, que Elizabeth desejou nunca ter entrado nesse tema. Então viu Farah deitada em cima das almofadas. Se desviasse a conversa para as concubinas, possivelmente Layla se acalmaria. Perguntou a respeito de Badra, e por que ela parecia ser tão assustada, diferente de Farah, que é mais atrevida.

Os ternos olhos de Layla se encheram de dor.

--Badra foi apanhada por Fareeq aos onze anos de idade. Era uma menina. Resistia a suas insinuações. E ele a pegava.

Horrorizada, Elizabeth não coube em seu assombro. - Pegava-a?

-Inclusive antes de submeter-se a ele. Todas as vezes que ela ia para a cama, ele estava esperando-a com a chibata. Por isso, sempre que devia comparecer perante nosso senhor começava a tremer feito um bichinho. Temia a todos os homens.

-Como ele pôde ser tão cruel?

-Fareeq é um monstro abominável, que sente prazer em espalhando a dor. Meu primo tentou apagar o grande mal que Fareeq provocou em seu jovem espírito. Jabari tratou Badra com o mais delicioso cavalheirismo. Teve todo o cuidado com ela, incentivou-a a seguir adiante. E quando ela cantou, Jabari tirou o chapéu, e ele mesmo fez uma rebarba para ela com suas próprias mãos.

Elizabeth perguntou o que era uma rebarba. Layla explicou que é instrumento parecido com o violino, feito com varetas de madeira e um único fio de crina de cavalo estendido de um lado ao outro em sua base.

-Ele jamais... Sabe, não há... - Layla sorriu com cumplicidade. - Jabari jamais a tocou. Badra é como uma irmã para ele. Farah é a única que compartilha de seu leito.

- Não o compreendo. Elizabeth se calou.

--Porque você o vê com seus olhos de ocidental e com seus costumes de ocidental. Para você ele é um bárbaro. Para nós – O sorriso de Layla era cálido e ao mesmo tempo grave – Ele é tudo, menos isso.

-Layla - disse Elizabeth procurando as palavras adequadas. O que Layla lhe contou, a fez compreender Jabari um pouco mais. Contudo, não justificava o que Jabari fazia com ela - Jabari é um homem muito bom. Com você, com seu povo. Mas isso não justifica o que tem feito comigo. Em meu país, seqüestrar uma mulher inocente é um crime.

-Ah, mas você não é tão inocente. - A doçura desapareceu de seu sorriso. Essas palavras deixaram Elizabeth inquieta.

-A que se refere?

-Você tentava roubar o Almha. O objeto mais sagrado para o nosso povo. Portanto, você é uma ladra e merece o castigo. Percebe a diferença?

O que Layla acabou de dizer era tão razoável, que Elizabeth encolheu os ombros e tentou se justificar.

-Não o estava roubando - replicou ela.

As sobrancelhas de Layla perfeitamente perfiladas se arquearam. - Então o que estava fazendo?

Elizabeth se preveniu do apuro no qual se encontrava. Para os habitantes do deserto, cavar em busca daquela peça da Antigüidade significava roubar. Por mais inocente que fosse o seu motivo, sua ação não era.

-Entendo o que falou - reconheceu Elizabeth. - Contudo, não era o Almha, que eu estava procurando. Falo sinceramente.

Layla fez uma careta.

-Do que se trata? As únicas figuras gravadas no disco são antigas receitas de remédios naturais. Vocês, acostumados à medicina moderna não precisam delas.

Elizabeth se lembrou da sua avó sozinha e possivelmente morrendo. Seus olhos encheram-se de lagrimas.

-Está equivocada - disse Elizabeth entre dentes, afastando o olhar.

O silêncio pairou uns instantes. Elizabeth ouviu o roçar de dedos nos fios, e viu que Layla voltara a seu trabalho. Esfregou os olhos levantando-os.

--Conhece a lenda do Almha e a razão pelo qual é sagrado para o nosso povo? - Elizabeth negou com a cabeça e Layla prosseguiu.

Encantada, Elizabeth escutou atentamente as histórias a respeito de Ajenatón e sua forma de adoração, a coragem da rainha Kiya que roubou o Almha e foi executada, a lealdade de Ranefer seu amante, e de como os Khamsin juraram guardar o Almha com suas vidas.

-O uadi no qual o Almha está enterrado é sagrado.

- Pelo Almha?

-Não, porque Kiya o enterrou lá. Encontrava seu amante lá para extravasarem seu amor. Aquele lugar os proporcionou grandes momentos de felicidade.

Afinal, pôde entender os papiros. Elizabeth sorriu alegremente. O lugar sagrado não era um local de culto, mas sim de amor!

-Por que sua tribo se chama Khamsin? - perguntou Elizabeth.

-Fomos uma seita secreta. Os sacerdotes guerreiros de Kiya. Chamamo-nos de... A mortal tormenta de vento, que espreita o deserto a cada primavera. Essas tormentas matam os despreparados. Nossos homens são guerreiros do vento.

Elizabeth concordou que era tudo apropriado. Lembrou-se do porte orgulhoso e imponente de Jabari.

-Encontro muito acertado - murmurou.

Elizabeth olhou ofegante para a piscina.

-Água no deserto. Como a trouxeram até aqui?

-Nosso senhor idealizou um sistema anual de irrigação para cultivo que nos fez menos dependentes das inundações anuais do Nilo. Bombeia água para irrigar os campos e encher a piscina. Os terrenos são de Jabari, e o povo da Amarna cultiva seus campos em troca de um tanto da colheita. Os plantios ajudam a sustentar a nossa gente durante os meses secos de verão. Um dos aldeões se ocupa do jardim uma vez por semana.

Elizabeth olhou para as flores e sentiu uma vontade terrível de desenhar sua beleza. Procurou papel e lápis em seus aposentos e se sentou junto à mesinha de sândalo. Mas, em vez das rosas adubadas, entre os rabiscos apareceu um homem de feições duras e penetrantes. Desenhou Jabari, com seus cabelos longos e sedosos flutuando ao vento do deserto. Estava no alto de uma rocha, como se fosse um falcão contemplando o horizonte com o olhar perdido ao longe. No fundo, as pirâmides se erguiam para o céu. Seu corpo alto estava competindo com a imponente estrutura delas, que apareciam por trás dele. Elizabeth não conseguiu capturar seus olhos. Pensou em como eram expressivos. Frios quando olhava aos Ao-Hajid, e quentes de ternura para Badra. E a ela? Como seriam seus olhos quando a olhava? O lápis deslizava pelo papel como se tivesse vida própria. Terminando, contemplou ruborizada o resultado.

Virou o caderno para baixo e se aproximou da piscina. Elizabeth se ajoelhou na borda e molhou o dedo na água.

-Vamos - animou-a Layla - É refrescante.

-Estou bem. - A última coisa que queria, seria se banhar nua e correr o risco de Jabari passar por ali em busca de diversão.

Layla pareceu ter lido sua mente.

-Jabari partiu – Precisava resolver alguns assuntos com os anciões.

-Não, não posso. - Elizabeth estava em pé quando Farah se aproximou da piscina.

-Por acaso está medo? Eu sim. Tenho medo de que seu horrível corpo de ocidental me deslumbre com sua brancura. - Farah fez uma careta de asco. - Como o senhor pode a desejar? Não tem nada a oferecer. É pequena, esquelética e a pele pálida - Disse Farah jogando Elizabeth na piscina com um empurrão.

Não era muito profunda, mas ao sair à superfície viu que Farah dando risada. Elizabeth soltava faíscas. Muito bem. Ficaria nadando. Sustentou seu vestido molhado na água, o qual exigia dela muito esforço. Não houve outro remédio, senão o de tirar o vestido. Deixou a roupa molhada na borda da piscina. Farah abandonou a casa entre risadas. Elizabeth nadou para a parte da piscina na qual pegava sol. Sua mente começou a divagar sobre os níveis de complexidade da personalidade de Jabari. Profundamente aferrado aos antigos costumes e moderno em suas medidas econômicas. Tudo naquele homem era um enigma.

Seria como desenterrar um achado arqueológico. Não deixava de encontrar novos talentos nele. A aparência de líder poderoso e arrogante sob a qual se encontrava um homem sensível cuja compaixão salvou a uma garota maltratada. O que mais poderia vir à tona?

Elizabeth adorava descobrir mistérios sob a areia. Pela primeira vez encontrara um homem tão enigmático e fascinante como os antigos segredos. Incomodava-a. Não queria se sentir atraída por ele. Consolou-se ao pensar na lenta sedução do dia anterior. Elizabeth estremeceu. Jabari era muito perigoso.

Deitou-se de barriga para cima fechando os olhos.

--Me alegro em vê-la... Enfim tão relaxada e a gosto.

-Pensei que havia partido. - Disse ela cobrindo os seios com as mãos, horrorizada por sua nudez.

-Voltei. - Ajoelhou-se na borda da piscina brincando com a mão na a água. - Por que se esconde de mim? Não tem nenhum motivo para se sentir envergonhada. De... Verdade. Deu-lhe um sorriso reconfortante. Elizabeth esperava que a olhasse com lascívia como os escavadores da jazida, que a comiam com os olhos. Em vez disso, Jabari se concentrou em seu rosto. Aquele detalhe a desconcertou.

-De minha parte... Não me sinto nada bem... Que me veja assim.

-Luta por mostrar seu valor de mulher, e não se dá conta de que a beleza com que Alá te presenteou também faz parte de ser mulher.

-Esta é a parte a qual quero que os homens respeitem. Prefiro ser admirada por minha inteligência. Tudo o que os preocupam nas mulheres, são seus corpos. Você mesmo o disse. As mulheres só servem para conceber e satisfazer os homens. Acredita que só os homens podem ser inteligentes.

Jabari se inclinou para ela com o semblante sério.

-Está muito equivocada, Elizabeth. Catalogou-me como se eu fosse uma de suas peças arqueológicas. “Espécime número um” habitante do deserto, que só considera às mulheres úteis para a procriação e o prazer. Mas isso não significa que não possa apreciar uma mulher por suas outras qualidades.

Ela o olhou confusa entrecerrando os olhos.

-Que qualidades?

Uma estranha luz brilhou nos enigmáticos olhos de Jabari.

- Elizabeth, você recebeu uma educação universitária. É uma pessoa bem mais instruída do que qualquer um dos meus próprios homens, e com uma inteligência formidável. Em minha tribo, sua mente brilhante intimidaria a maioria deles.

- E o que me diz de você? - Aquela pergunta era um verdadeiro desafio.

-Eu não sou como a maioria dos homens -- afirmou com serena segurança.

Ela afastou o olhar, invadida pela sensação de que o havia etiquetado tão injustamente, como os homens etiquetavam as mulheres.

-A diferença entre homens e mulheres deveria ser elogiada e não menosprezada - pronunciou-o. - Ambos possuem qualidades da qual o outro necessita, e isso proporciona o equilíbrio. Por isso uma tribo é equilibrada. Os homens devem proteger às mulheres. O fato é que, se uma mulher não pode contar com um homem, como isso pode ser bom? Condenada a proporcionar o alimento a seus filhos. Nesse caso, não seria melhor assumir a força do homem?

-Claro – Se apressou a dizer ela.

Jabari estava com o olhar perdido ao longe.

-As tradições são muito mais fáceis de aceitar, disso não tenho a menor duvida. Mas há gente que empaca num lugar permanecendo à margem dos avanços da sociedade - disse ele em um tom de voz tão baixo, que Elizabeth teve que se esforçar para ouvir.

Sua atitude não era arrogante ou autoritária. Simplesmente, parecia confuso, absorto em seus pensamentos como se houvesse algo que lhe preocupasse profundamente.

-Acredita que os homens e as mulheres podem ser iguais?

Aquela pergunta pareceu o fazer refletir. Jabari franziu o cenho e esfregou o queixo.

-A mulher concebe. O homem proporciona o alimento. Como podem ser iguais? E este rol é intocável. Já que está determinado pela forma em que foi criado.

Ele falava de igualdade física. Ela, de igualdade social. Achavam-se ambos de lados opostos e um enorme abismo de culturas e costumes os separavam. Jabari não a entendia.

Jabari a olhou e esboçou um cálido sorriso.

-A diferença física entre homem e mulher tem uma útil finalidade.

A enorme diferença das quais Jabari falava permaneciam ocultas por de trás de suas mãos.

-Nesse exato momento estamos em condições desiguais. - Você está vestido. Eu não. - Sinto-me... Incômoda.

Jabari refletiu por um instante. Levantando-se tirou a espada e o cinturão jogando-os ao chão. Desabotoou os botões do binish.

-O que está fazendo?

-Tirando a roupa para que se sinta mais a vontade - disse ele tirando o binish.

-Já me sinto mais cômoda! Estou lhe dizendo! Estou mais a vontade! - Gritou Elizabeth.

Jabari tirou a regata negra ficando unicamente com uma calça negra de algodão. Ele deixou cair às mãos em seus estreitos quadris. Jamais vira o peito nu de um homem. O esplendor de tanta magnificência masculina a cativou. Ombros largos e os braços musculosos. Seu ventre achatado e esticado. Seu estômago e o peito firmes e tão sólidos, que parecia esculpido em mármore dourado. Sua respiração acelerou frente à tamanha demonstração física de Jabari. Existia uma clara diferença entre um homem e uma mulher. Bela diferença. Pensou ela! Enquanto o percorria com o olhar da cintura ao vulto em sua virilha.

Jabari seguiu seu olhar. Seus olhos brilhavam. Quando Elizabeth percebeu que estava com a boca aberta de encantada fascinação, se ruborizou. Jabari soltou o cordão da cintura. Elizabeth nadou freneticamente para as escadas e saiu apressadamente da piscina e refugiou-se sob o sol. Layla a envolveu em uma enorme toalha ocultando seus seios. Sentiu-se aliviada depois que o tecido separou os olhos de Jabari do seu corpo. Ele se aproximou fazendo uma careta decepcionada.

-Você se escondeu rápido demais, como o sol se esconde atrás da lua. Meu dia escureceu, porque você se protegeu dos meus olhos. - Jabari deixou escapar um solene suspiro, como se realmente acabasse de presenciar um eclipse. Inclinou a cabeça, juntou as mãos e as levou aos lábios.

-O que está fazendo? - perguntou ela desconcertada.

-Rezando a Alá para que volte o meu sol. Ou para que caia sua toalha. - Jabari arqueando as sobrancelhas levantou os olhos através de suas negras pestanas sorrindo malicioso.

Elizabeth, levando um dedo à boca, não conseguiu conter uma risada, que finalmente brotou de seus lábios. Ele era um homem irremediavelmente arrogante e orgulhoso, mas possuía um malicioso encanto. O senso de humor de Jabari a seduzia tanto, como seu atraente semblante. À diferença entre ele e os homens que conhecia, era que Jabari a fazia apreciar sua feminilidade. O carisma dele é irresistível. Sua decisão em abandonar o harém perdeu uns bons pontos. Elizabeth ouviu seus sentimentos com absoluta franqueza. O pensamento de não voltar a vê-lo, era terrivelmente doloroso.

Essa confissão a fez interromper sua risada. O que estava fazendo? Esse homem a seqüestrara! Será que se converteria em uma tonta obediente e a mercê de seus caprichosos desejos?

Assustada, decidiu se afastar do poder magnético que Jabari exercia sobre ela. Ele estava com o cotovelo apoiado na palma da mão e tocava o queixo. Seus lábios espessos se curvaram para cima em um amplo sorriso. Elizabeth jamais o vira tão depravado. Sua intuição lhe dizia, que o verdadeiro Jabari, que se escondia do mundo exterior, estava agora em sua frente revelando uma emoção tão nua, como sua própria pele estava minutos antes.

Elizabeth estava tão cismada com o seu sorriso sedutor, que esqueceu os seus medos. A fria máscara do orgulhoso guerreiro do deserto desaparecera. À sua frente, só havia o soberano inteligente e sofisticado, que proporcionava viabilidade econômica à sua gente, e o terno amante, cujo beijo prometia noites de paixão e fiel devoção. O calor do sol se filtrou em sua pele. Elizabeth fechou os olhos e se deixou levar pelo sonho, que girava em torno de um falcão, símbolo de seu clã.

“É ele, o seu predestinado amante. Do mesmo modo que a pomba se submeteu às garras do falcão, deve se entregar a ele, porque o abraço do falcão é de eterno amor.”

As mãos de Elizabeth começaram a tremer. Gemeu presa por uma sensação desagradável de confusão e desfalecimento.

O sorriso desapareceu do rosto de Jabari e foi substituído por uma expressão de hermética preocupação. Elizabeth começou a cambalear e cair para frente e Jabari teve que sustentá-la. Ergueu-a com seus fortes e seguros braços e a levou para um dos bancos de madeira sob a sombra de uma árvore deitando-a cuidadosamente nele. Elizabeth, sentindo tontura com a falta de ar, caiu de joelhos ansiosa por respirar.

Elizabeth! - Ouviu a voz de Jabari distante, cheia de preocupação. Abraçando-a carinhosamente pela cintura, começou a niná-la. Elizabeth sacudiu a cabeça e gemeu, com os olhos cheios de lágrimas, transtornada pelo pânico. Suas mãos fortes seguraram seus ombros. - Respire fundo. - Agora.

Elizabeth obedeceu forçando seus pulmões a trabalhar lentamente. Alguns minutos mais tarde a sensação de pânico passou.

Ajoelhado em frente a ela, ouviu Jabari ordenando a trazerem água. Afastando seus cabelos do rosto aproximou uma tigela em seus lábios.

-Beba lentamente. - Disse ele inclinando a tigela.

Elizabeth tomou uns goles afastando a tigela para que Layla a pegasse.

-Já passou. Está tudo bem.

Os lábios de Elizabeth tremiam. Via-o através de uma neblina opaca

Jabari enxugou as lágrimas de seu rosto com a mão. - Deve tomar precauções e evitar o sol da tarde – lhe advertiu meigamente. Segurando o queixo de Elizabeth, tirou uma mecha de cabelos do seu rosto.

-Está frágil, e o calor é muito intenso para você - murmurou ele.

-Não é uma insolação - insistiu ela - não é. Simplesmente... Aconteceu repentinamente.

Jabari franziu o cenho e acariciou seu queixo com um dedo. - Quanto tempo faz que isso acontece?

-Não muito. Começou antes... - Elizabeth ofegou, paralisada pelo que acabara de descobrir. - De que o conhecesse. E foi piorando desde o dia em que te conheci. Olhou Jabari cheia de terror.

Afastando a mão de Jabari, ficou em pé e saiu da sombra. Suas pernas estavam fracas e começaram a tremer como as patas de um potro recém-nascido. A imponente sombra de Jabari se abateu sobre ela protegendo-a do brutal calor do sol.

O braço terno e real de Jabari a fez lembrar do sonho profético. “Do mesmo modo que a pomba se submete às garras do falcão, assim deve se entregar a ele, porque o abraço do falcão é de eterno amor.” Elizabeth se sentia totalmente impotente. Seu rosto se encheu de raiva ao perceber a ternura no olhar de Jabari. Ele a enlaçou em um protetor abraço, com a intenção de acalmá-la e reconfortá-la.

“Tudo isso é culpa sua.” Elizabeth se viu forçada a construir um muro entre os dois. Seria melhor aceitar seu antagonismo e esquecer sua atitude solícita. Aquela demonstração de afeto poderia acabar com ela e despojá-la do último resquício de liberdade.

Elizabeth decidiu se negar a si mesma aquele sonho. Jamais deveriam ser amantes. Decidiu atacá-lo, consciente de que essas palavras o deixaria zangado.

-Deve ser uma reação física a sua pessoa - disse ela bruscamente, lutando para se liberar de seu abraço - os bárbaros e presunçosos me dão asco.

A terna preocupação desapareceu do rosto de Jabari e em seu lugar apareceu a frieza impassível de sempre. Ele a abraçou fortemente por alguns instantes e a soltou.

-Não tenha medo, querida - disse ele com uma frieza que atravessou sua pele. - Desaparecerei de sua presença imediatamente. Não vai cair doente de novo.

Jabari, atacado por um arrebatamento de fúria tirou rudemente sua toalha deixando a descoberto seu corpo nu. Elizabeth conteve um grito assustado. Os olhos de Jabari cravados em seus seios nus adquiriram uma intensidade perturbadora. Ela se cobriu com as mãos, mas ele segurou fortemente seus braços conseguindo os afastar com facilidade. Outra diferença entre homens e mulheres. Ele é mais forte e poderia dominá-la, percebeu Elizabeth presa pelo pânico. Era estupidez de sua parte haver esquecido.

Os olhos de Jabari, ardentes de paixão, dizia tudo a respeito de suas intenções.

-Não se confunda. Se a desejar em minha cama, não haverá enfermidade possível que me impeça de satisfazer o meu desejo contigo.

Elizabeth ficou observando-o enquanto partia. Com os ombros muito eretos, como se o grosseiro rechaço de Elizabeth não o tivesse afetado. Seu estratagema fracassara. Conseguira aumentar a distância entre eles, mas topara de novo com seu arrogante orgulho. Elizabeth se amaldiçoou. Agora, mais do que nunca, Jabari teria razões para forçá-la a se submeter perante ele.

 

-E o que aconteceu? Farah se inclinou para frente com avidez.

Jabari parou a narração da história. Ele empurrou o prato vazio e seguiu o contorno do copo com o dedo.

-Lubrifiquei seus copos com mel e não puderam se soltar deles. Os Ao-Hajid ficaram numa fúria só. Foram vencidos pela doçura.

Farah deu uma risada de menina. Jabari também riu, mas sua mente se desviou para Elizabeth, recordando sua risada profunda e gutural. Farah estendeu a mão para ele, ao longo da mesa de sândalo.

-Quer que eu fique esta noite com você, professor?

-Não, Farah - disse ele brandamente. - Sinto muito. Você é muito bonita, mas minha mente está em outra mulher.

-Por quê? Ela é mais bonita? - Seu lábio inferior tremia.

Ele sorriu afetuosamente.

-Não é uma questão de beleza. Tem a ver com... - Jabari permaneceu pensativo. Por que desejava Elizabeth tão ardentemente? Que raio de destino era esse que o fazia violar um juramento sagrado, e causar todo tipo de problemas no harém?

Farah inclinou a cabeça e Jabari visualizou a astúcia em seus olhos.

-Ela o desafia. E você gosta.

Jabari apoiou a cabeça nos almofadões e sorriu. -Tem razão. - Admitiu ele.

-Quando fala nela fica com o mesmo olhar de quando fala em vencer os Ao-Hajid. É um forte guerreiro professor, e está resolvido a ganhar. Só que desta vez não utilizará o mel para derrotá-la.

-Está equivocada querida Farah - disse ele tamborilando com os dedos em cima da mesa. - O mel entra em meus planos do mesmo modo que venci os Ao-Hajid. Conquistarei Elizabeth com doçura.

O mel conseguiria eliminar algo mais do que o orgulho de um inimigo arrogante. Falaria a sua rosa do deserto, palavras açucaradas. Resolvido a dominar Elizabeth, optaria pela sedução. Naquela mesma noite confessaria a ela como se sentia deslumbrado por sua beleza e desse modo, conseguiria leva-la para sua cama.

 

Seu diminuto dormitório se converteu em uma cela. Elizabeth sentou na cama coberta de seda, dando distraídos beliscões na colcha. Aziz trancou a chave a porta do seu quarto. Mais tarde trouxe a comida. Guisado de cordeiro, leite de camêla e figos. Logo que pôde, conseguiu provar um bocadinho, desgostosa pelas gargalhadas de Jabari e as agudas risadinhas de Farah, ecoando no corredor. O bom humor deles ressaltava ainda mais sua solidão.

Tudo o que esperava daquela viajem pelo Egito era uma oportunidade para se por à prova como arqueóloga, e encontrar a receita para a enfermidade de sua avó. Mas nada disso deu certo.

“Fora de pequena ajuda.” O Almha escapara de suas mãos e não ganhara um pingo sequer de respeito entre seus colegas, e agora, prisioneira de um guerreiro do deserto que logo iria fazer amor com ela, ou cortar sua cabeça. Elizabeth encolheu os ombros sem saber muito bem qual das duas possibilidades a preocupava mais. Recordou o brilho predador nos olhos de Jabari quando arrancou a toalha de seu corpo. Não era uma pessoa com a qual se pudesse brincar. Ele é um guerreiro orgulhoso. Não estava acostumado com o rechaço das mulheres. O desprezo delas não o deteria. Pelo contrário, intensificaria sua determinação.

Ouviu a chave na fechadura e a porta do dormitório se abriu. Elizabeth enxugou as lágrimas e levantou os olhos. Layla entrou majestosamente no aposento com uma camisola nos braços, seguida por Farah. Os braços carregados com cestas que continham todo tipo de azeites e loções. Começou a brincar com uma mecha de seus cabelos e olhou para as mulheres como se estivessem armadas com rifles carregados.

Layla depositou a camisola na cama. Estudou Elizabeth como se fosse um objeto à venda no mercado.

-Sabe por que estamos aqui querida - disse Layla.

-Vendem cosméticos dos souks? - Elizabeth ocultou seu medo com uma piada. - Não me interessa. Podem se retirar.

-Não podemos - disse Layla amavelmente. - Devemos prepará-la para Jabari. Quer você em seu quarto esta noite.

Layla tocou os cabelos de Elizabeth e a olhou gravemente.

-À sala de banhos.

Não havia escapatória. Desesperada, Elizabeth olhou a sua volta buscando uma saída. Abriu e fechou os punhos. Poderia surpreender as duas saindo em disparada pela porta sem que elas conseguissem segura-la. Mas, Elizabeth perdeu toda a esperança quando Aziz entrou no aposento em atitude vigilante com sua habitual cara de poucos amigos. E com sua adaga.

-Vamos, senhora. – Layla, pegando a camisola saiu ao corredor, conduzindo-a a sala de banhos seguida por Farah. Lavaram seus cabelos com uma suave essência de romeiro para clareá-los e logo os secaram vigorosamente. Elizabeth se deitou em uma longa mesa perto da piscina e Layla abriu um frasco do suave azeite de romeiro. Elizabeth fechou os olhos pela agradável massagem. Quando Layla terminou, Elizabeth se voltou envergonhada por Layla ter lubrificado de azeite seus seios e o ventre. Elizabeth se esforçou para não baixar a guarda e ceder perante a luxúria e a sensualidade.

Farah entrou na sala de banhos com uma bandeja nas mãos. Ofereceu a Elizabeth uma taça. Elizabeth franziu a boca e a rechaçou com um movimento de cabeça.

-Por favor, tome. – É água com mel. Acalmará seus temores.

Elizabeth estava a ponto de dizer que não estava com medo, quando percebeu que os lábios de Farah se curvaram em um cálido sorriso. Encolhendo os ombros, Elizabeth se armou de uma pretensa coragem e tomou aquela doce beberagem. O líquido desceu por sua garganta reconfortando seu estômago. Layla secou seus cabelos com uma toalha e os penteou.

Pôs-lhe uma camisola de seda verde e azul, que em contato com sua pele era leve e delicada como a brisa. Elizabeth apalpou a seda se ruborizando. Imaginou Jabari com o olhar lascivo. Assim que entrasse em seus aposentos, tiraria seu vestido e a prenderia em suas garras, como um falcão faria com uma pomba.

E depois falariam de inocência. Suas mãos tremiam ligeiramente.

Seus olhos se encontraram com os de Farah. Para sua surpresa, a mulher lhe dedicou um sorriso penalizado. Farah apertou sua mão em um gesto conciliador.

-Na realidade, não é... Tão grande. Jabari é muito carinhoso. Não tenha medo.

Elizabeth deu um meio sorriso. Estava a ponto de sair da casa para voltar ao seu dormitório, olhou cautelosamente às dependências de Jabari, sem saber o que a aguardava naquele lugar.

Um pouco mais tarde, as sapatilhas de seda azul de Elizabeth ecoaram no corredor. Acompanhada por Layla, ela se dirigiu aos aposentos de Jabari. Segurando a camisola de seda com uma das mãos, enrolava uns fios soltos de seu cabelo com a outra. Vestia um precioso vestido em vários tons de azul e verde esmeralda, cuja saia esvoaçava quando andava. Um fino véu de gaze ocultava sua boca.

Suas entranhas começaram a dar um nó. Arrependeu-se de ter tomado água com mel, porque tal como Farah havia dito, a acalmara. Gostaria que a ponta afiada do medo a mantivesse alerta. Mas o medo voltou, assim que Layla abriu a porta do quarto de Jabari. Elizabeth refreou o impulso de sair correndo pelo corredor, mas seguiu Layla para dentro do aposento.

Apoiado em grandes almofadões no chão, Jabari se achava majestosamente sentado frente a uma mesa de sândalo repleta de frutas e queijo. Respondeu à saudação de Layla ficando em pé e cruzando os braços. Vestia uma túnica negra de mangas longas bordada com fios de ouro, que ia até os joelhos. Uma calça negra de algodão torneava suas pernas musculosas. Com o tórax firme e bem formado, seu porte era o de um rei acostumado a comandar. Não era qualquer um que se atrevia a dizer um “não” àquele homem. Elizabeth não poderia o controlar, do mesmo modo que não poderia deter uma poderosa tormenta de vento Khamsin.

Antes de sair da casa e se despedir com uma reverência, Layla apertou seu braço sorrindo ternamente. O lábio inferior de Elizabeth tremia oculto pelo véu. Seu corpo se esticou de rancor e nervosismo. Jabari violaria seu corpo. Aproveitaria-se de sua força física no mais alto de seu prazer. Uma vez satisfeito, desfaria dela amassando e jogando-a fora como uma bola de papel. Ela fervia de raiva ante a visão do que a esperava.

-Por favor, sente-se. Deve estar faminta. Aziz me disse que você nada comeu. - Jabari voltou a se sentar.

Os ruídos em seu estômago confirmaram essa tese. Com muito cuidado, Elizabeth se aproximou lentamente da mesa e se sentou em frente a ele. Jabari lhe ofereceu uma grossa fatia de queijo. Ela abriu o véu e deu uma mordida sem deixar de olhá-lo nos olhos. Enquanto Elizabeth estivesse comendo, Jabari não a atacaria. Sentia seu corpo tão rígido, como essa mesa de madeira. Ela reuniu forças e procurou engolir a ansiedade com o pedaço de queijo.

-Está muito bom - murmurou ela esperando com isso conseguir desviar a atenção para o queijo. - Você mesmo que o faz?

Seus lábios se curvaram para cima.

-Sim, tenho feito eu mesmo, é de leite fresco de cabra. Ordenhei a cabra, bati o leite e coalhei o queijo. Em seguida, assei o pão para acompanhá-lo. - Mostrando suas mãos a ela, fez uma careta de profunda tristeza. - Minhas pobrezinhas mãos. Trabalhei tanto.

Elizabeth demorou uns instantes para se dar conta de que ele estava brincando. Colocando o pedaço de queijo no prato, inclinou a cabeça e levou as mãos ao rosto.

-O que está fazendo? - Perguntou Jabari.

Elizabeth levantou a cabeça.

-Dando graças a Alá, de que ainda resta uma esperança para você. Possivelmente faz a limpeza tão bem, quanto cozinha. Talvez eu mesma o contrate.

Jabari soltou uma gargalhada deixando aparecer seus reluzentes dentes brancos. Inclinou-se para trás com as mãos na nuca. Seus olhos escuros brilhavam exultantes.

-Ora, meus talentos se limitam a cozinhar simples pratos da tribo. Desconheço seus exóticos guisados. São muitos ricos para meu paladar.

Com ávido interesse, Elizabeth se inclinou para ele. A curiosidade a fez deixar de lado o medo e a raiva. - Sua tribo é beduína?

-Compartilhamos alguns de seus costumes, como sua célebre hospitalidade. Não somos verdadeiros Beduínos, pois eles se mudam de um lugar a outro conforme a mudança da estação. Nossa tribo do sul, a que se encarrega da cria de cavalos, é mais nômade. Desde que juramos guardar o Almha, decidimos nos estabelecer em um único lugar. Isso nos trás problemas com respeito ao rebanho e as nossas reservas de comida. Assim, cultivamos cereais durante as chuvas de inverno para consumirmos no verão. Esse inverno foi muito seco e as nossas reservas de comida estão muito baixas. - Disse com um suspiro.

-De onde tiram à água? De um poço?

-Não, de uma caverna que meus antepassados descobriram há séculos, quando extraíam alabastro para os faraós. No interior da montanha, encontraram uma caverna com um manancial que jorrava água. Ocultaram a nascente e se estabeleceram no deserto.

Elizabeth encolheu os ombros. Um tanto nervosa, começou a falar rapidamente.

-Odeio cavernas e rochas.

-Ah, claro. Seus pais - murmurou Jabari.

-Estava com eles quando ocorreu o acidente e presenciei tudo. O guia me pegou e se pôs a correr. Não pude fazer nada. Depois disso, fiquei com horror a elas. É uma reação incontrolável - Divagou. Devia parecer uma idiota balbuciando. Elizabeth levantou os olhos e encontrou os de Jabari, negros e cheios de compaixão.

-Sinto muito - disse ele delicadamente - sinto o mesmo, quando imagino o rosto esfomeado de meu povo.

Mais calma pelo tom tranqüilizador de Jabari, Elizabeth o olhou.

-Vocês não contam com outros meios para aumentar seus ganhos? O que me diz da cria de cavalos?

-Está tudo bem com a cria de cavalos, mas ultimamente o trabalho está um pouco lento por várias razões. - Disse ele - sem fôlego.

-Deve ser muito frustrante ser testemunha dos abundantes salários que recebem os escavadores, enquanto sua gente enfrenta à fome.

Jabari a olhou com verdadeira admiração.

-Sim, o é. É muito observadora, Elizabeth.

-E o que me diz do algodão? Cultivam o suficiente para obter benefícios? - Elizabeth sabia que o algodão era o mais exportado do Egito. Durante a guerra civil americana, o sul dos Estados Unidos deixou de exportar algodão, permitindo que outros países se introduzissem no mercado e satisfizessem à demanda.

-Os preços diminuíram grandemente as duas últimas décadas, a partir do momento em que seu país decidiu voltar a exportar o algodão. E os impostos aumentaram. Passou a mão em seus cabelos escuros.

-O Egito tem uma enorme dívida externa. Sou consciente de que a crise econômica, de há vinte anos atrás não ajudou. Mas é por isso que vieram os britânicos. O controle estrangeiro para ajudar a pagar a dívida e fortalecer a economia. - Adicionou Elizabeth.

Jabari grunhiu.

-Agora, em vez de pagar ao Khedive, pagamos impostos aos britânicos. - Se nem sequer os bancos britânicos puderam sobreviver à crise econômica que sofre nosso país. O que vamos fazer por nós? - Diga-me, o que tem feito os britânicos para o Egito, que não pudéssemos solucionar nós mesmos?

-Não sei - disse ela sinceramente. - Mas Khedive tampouco tem feito alguma coisa para solucioná-lo. Continua exigindo recursos para seus prazeres pessoais, e levando o Egito a uma dívida cada vez mais alta.

--Não tenho respeito algum por ele, e nem a nenhum dos homens que se inclinam perante os infiéis, como se fossem deuses do ouro. Só deuses com dinheiro poderiam saldar nossas dívidas. -Jabari ergueu os olhos para o céu como se procurasse as respostas. - Alá nos mostrará o caminho. E enquanto isso, sempre poderemos assaltar uma ou duas caravanas. Capturar algumas mulheres e as utilizar como reféns em troca de comida e dinheiro.

Os olhos de Jabari brilharam maliciosamente.

-“Olhe, bárbaro, você vai me soltar agora mesmo, ouviu? Não penso em suportar suas rabugices nem um minuto mais! Onde está meu chá com bolinhos”?

Jabari imitou perfeitamente o sotaque da alta sociedade britânica. Elizabeth riu tanto, que sentiu dor em sua barriga. O senso de humor de Jabari a fascinava.

-Nada de chá. Hoje não tem bolinhos. - Tudo o que temos é queijo de cabra. E me custa muito fazê-lo. E não tem água para o chá. Isso é um deserto. - Você acha que há água no deserto? -Elizabeth imitou a voz profunda e rouca de Jabari, e seu sotaque inglês.

Ele riu entre dentes. Fez uma careta e voltou a falar em árabe.

-Agora entendo por que aprendi a linguagem dos infiéis, discutir contigo neste maldito idioma é muito mais divertido.

-Onde aprendeu a falar inglês? E não me diga que foi assaltando caravanas.

-Quando os britânicos conseguiram o poder a dez anos, meu pai acreditou que seria conveniente que eu conhecesse os costumes ocidentais. Enviou-me ao Cairo com um professor inglês com o qual fizera amizade num assalto a uma caravana. Meu pai deixou alguns deles livres e ilesos em troca de uma promessa. lições para seu filho. Vivi no Cairo por três anos com o meu melhor amigo, Nazim, e estudei a cultura ocidental entre outras coisas.

-Por quê?

-A melhor forma de derrotar o inimigo é sabendo o que pensa e conhecendo seus pontos fracos. - Manifestou Jabari.

Elizabeth refletiu. – Sim. Foi assim que me aproximei da arqueologia e a essa jazida. Meu disfarce de homem foi para conseguir minha meta. Sabia que os homens me achariam uma mulher estúpida e indefesa.

Jabari se reclinou nas almofadas apoiando a cabeça em suas mãos cruzadas atrás.

-Por certo. Você seria um guerreiro excelente, porque ambos agimos de maneira idêntica.

-Eu não estou tão segura disso. - Elizabeth sorriu e relaxou os ombros. - Eu sei como usar uma teoria, não uma espada.

-Sua melhor e mais formidável arma é a mente - respondeu Jabari. - Um exército de ovelhas dirigidas por um leão, derrotará um exército de leões dirigidos por uma ovelha e não o contrário.

-Isso é certo - exclamou Elizabeth maravilhada, refletindo sobre suas palavras. - É muito sábio! Quem o ensinou isso?

Jabari a dedicou um sorriso encantador. - Uma velha ovelha.

Elizabeth deixou escapar um suspiro de exasperação. - É um provérbio antigo.

-Veja. Há muito que aprender do passado. Essa é a razão pela qual amo a história. Tumbas antigas, cidades... Todas proporcionam grande sabedoria a respeito dos estilos de vida de nossos antepassados! - Elizabeth começou a brincar com uma mecha solta. Como o podia fazer entender?

-Mas vocês não respeitam a terra dos meus antepassados. É sagrada. Por que não deixam os mortos em paz? Por que corrompem o passado? – Jabari, se endireitou com o cenho franzido, parecendo realmente desconcertado.

-Não se trata de corromper, mas sim, preservar... No corromper, estão aqueles que roubariam as mais luxuosas tumbas em benefício próprio. Preservar, são aqueles que como eu, só desejam restaurar algo que uma vez existiu. - Jabari, sua cultura foi o berço da civilização! - Elizabeth se calou. Pensou melhor. Sorriu e se aferrou naquilo que sabia, Jabari iria entender. - Não acredita que preservar a cultura do passado é enobrecê-la, acredita? Enobrecer sua cultura seria pô-la por cima das demais, para que possamos aprendê-la. Existe maior honra, que expô-la ao mundo, em lugar de deixá-la sepultada na areia?

Ele assentiu lentamente.

-Estou começando a entendê-la. Você fala de educação. De ensinar a outros. Isso pode ser bom.

-Claro! - Apesar de que não implique em ter que aprender uma língua estrangeira, aproveitando-se do ponto fraco do inimigo.

Enquanto Jabari ria, Elizabeth acrescentou em tom zombador.

-Claro que você não tem um ponto fraco. É tão valente e forte, inclusive sabe cozinhar, além de possuir muitas outras qualidades.

Jabari parou de rir. Seus olhos adquiriram uma expressão solene.

-Tenho muitos pontos fracos e meus inimigos os conhecem muito bem. Minha vulnerabilidade é minha gente. Sou um líder e o que esperam de mim, é que me comporte como tal. Daria minha vida por meu povo. Mas isso não é suficiente. Cada vez que vejo o sofrimento deles, quando não há alimento suficiente, ou quando uma criança chora de fome... Corta-me o coração. - Disse ele com a voz invadida pela dor.

Todas as defesas de Elizabeth vieram abaixo ao contemplar a angústia no rosto de Jabari, com os lábios apertados e um tic nervoso em sua face direita. A firme determinação de Jabari se partiu. Seus olhos negros pareciam angustiados. Ao contemplar a tortura na qual Jabari se expunha ao pensar no futuro de sua tribo, um forte sentimento de ternura se apoderou de Elizabeth. Jabari se recompôs e adotou uma pose mais rígida.

-Ainda acredita que sou um bárbaro com você? – perguntou. - Ainda sente repulsa em minha presença? É por isso que me olha assim?

-Não. - Ela vacilou e estudou seu rosto. Aquela confissão a comoveu profundamente. Suas idéias preconceituosas sobre esse guerreiro do deserto se espedaçaram. Elizabeth queria o detestar para se proteger dela mesma. Mas era incapaz de fazê-lo.

Impulsionada por um sentimento que logo conseguiria entender, ela deixou a segurança da mesa que se interpunha entre eles e foi se sentar a seu lado. Quando Elizabeth segurou sua mão, ele baixou os olhos. Elizabeth apertou levemente sua mão e sorriu calorosamente.

-Você se preocupa por sua gente. Estou segura de que é um grande líder. Pelo modo com que se preocupa com eles. - Disse ela delicadamente.

-Preocupo-me... Muito. – Reconheceu, olhando-a com uma estranha intensidade.

Elizabeth intuiu que aquela afirmação tinha um duplo sentido. Desconcertada, retirou sua mão.

Ele a pegou e a examinou. Ao ver os sinais das bolhas que adquirira escavando, Jabari enrugou a testa. Seus dedos fortes acostumados a usar espadas, com maestria mortal contra o inimigo, sentiam-se reconfortados com o contato de sua pele. Quase protegidos.

-Suas mãos já não são tão suaves como quando nos conhecemos. Escavaram muito. E tudo pelo Almha sagrado. Mas você não tem o mesmo ar dos caçadores de tesouros. Alguma coisa me diz que não quer o Almha para você. Foi seu tio quem a obrigou a cavar?

Elizabeth disse que sim. Amaldiçoou a estupidez do que acabava de dizer, assim que saiu de sua boca. Mentir àquele homem podia ser mais perigoso do que desenterrar o disco sagrado. “Estúpida! Conte a verdade! Não te vai fazer mal.” Mas continuava desconfiando dele. Apesar, de que vira o seu lado afetuoso, temia que o feroz guerreiro que havia nele não se mostrasse tão pormenorizado.

-Seu tio é um homem sem escrúpulos. - Observou Jabari retirando a mão. Olhando-a, Voltou a se reclinar apoiando a cabeça em um cotovelo.

-Ele é toda a minha família. Da parte de minha avó. Não tenho a ninguém mais. - Respondeu ela. Elizabeth sempre desejara ter uma família grande.

-Ninguém mais? - Os olhos de Jabari se abriram incrédulos como se não pudesse compreender aquela revelação. O homem devia ter mais parentes do que pulgas em um camelo.

-Tenho muitos amigos. A maioria são geólogos, e um deles me ofereceu um trabalho como assistente, mas o fazia sem entusiasmo.

-Seu entusiasmo está enterrado na areia. - Seus olhos brilhavam divertidos. Por isso veio ao Egito, roubar nosso passado.

-Roubar não – protestou - jamais roubar... Elizabeth se calou.

Endireitando-se acariciou seu rosto suavemente.

-Pois você tem roubado. - Disse em voz baixa. - Roubado corações como se fossem estranhos tesouros. E agora roubará o meu e o levará como se fosse um prêmio?

Um leve sorriso se desenhou em seus lábios.

-Só se pertencer à décima oitava dinastia. - Brincou ela.

Jabari jogou a cabeça para trás rindo. Seus belos e resplandecentes dentes brancos contrastavam com sua pele morena. Era como ver um leão rugir alegremente. Totalmente encantada, Elizabeth se aproximou dando pequenas palmadinhas em seu peito com um descaramento que a surpreendeu.

-E o que tem aqui dentro? Enterrado profundamente? O que encontraria aqui, se eu pegasse minha pá e retirasse a terra?

Jabari, pegando sua mão beijou-a, cativando-a com seus deslumbrantes olhos negros cheios de ardente desejo. O coração de Elizabeth saltou.

-Houve um tempo em que esteve enterrado, mas uma bela arqueóloga chegou e o desenterrou. Está esperando seu abraço. Só assim poderá sair da tumba que o mantém prisioneiro.

Jabari enfiou a mão dentro da túnica, tirou um pedaço de papel e o desdobrou. Elizabeth suspirou ao reconhecer seu desenho. Envergonhada, afastou o olhar.

-É isso o que vê quando me olha, Elizabeth? No desenho meus olhos são muito estranhos. E você também. - Disse ele brandamente.

Elizabeth fixou o olhar no esboço. Ela desenhara a si mesma, uma figura diminuta em um vestido de seda que esvoaçava com a brisa. Com sedutor encanto e a mão estendida no ar parecia convidar o distante homem nas rochas para que se aproximasse. No desenho, os olhos de Jabari olhavam à garota fixamente. Não cuidara do escrutínio do inimigo, a ardência apaixonada de uma garota jovem. Ardia com o mistério do desconhecido, de ocultas paixões e da aceitação ao convite que ela o oferecia.

Jabari ficou em pé e a fez ficar também. O esboço caiu ao chão. O coração de Elizabeth pulsou com força. A atmosfera alegre e calma se intensificou. Perigo.

-Quero ver seu rosto. - Disse ele suavemente. Jabari retirou o véu com impaciência. Este caiu ao chão com o rumor de seda vaporosa. - Elizabeth - murmurou ele - Sabe que não a fiz vir até aqui só para conversar, por mais agradável que seja nossa conversa.

Elizabeth deu um passo para trás assustada. Ele se aproximou com um olhar de determinação em seu rosto.

Nada da amistosa camaradagem. Nesse momento, ele só pensava em uma única coisa. Exigir o que é dele. Elizabeth pensou no que Farah havia dito sobre o tamanho do seu membro e entrou pânico. Virando-se, correu para a porta. Estava fechada a chave. Girou a trava com as mãos suadas. Uma mão quente e enorme pegou a sua e a afastou vagarosamente da porta.

Elizabeth estava ofegante pelo terror e a incerteza. Fechou os punhos com tanta força que doeram seus músculos. Ela o olhou atentamente esperando a qualquer momento, que ele se jogasse sobre ela do mesmo modo que um falcão faz com sua presa. Mas seu rosto refletia uma cândida ternura.

-Não tenha medo, minha doce Elizabeth. Desde o dia em que a conheci não saiu dos meus pensamentos. Cada vez que fecho os olhos, você está lá. É a mulher mais bela que conheci em minha vida. Sua doçura me lembra uma rosa do deserto.

Ela deixou de pressionar seu corpo contra a porta, comovida por sua poética confissão de ternura. Esse é o Jabari de que Badra falava. O homem que permanecia oculto por trás de uma fria arrogância.

-Essa rosa frágil, cresce no calor do deserto. Sua beleza refresca o espírito cansado do homem. Como seu espírito faz comigo. Meu coração paralisou no primeiro dia em que a vi.

-Eu senti o mesmo. - Confessou ela olhando-o entusiasmada. - Cada vez que percebia seu olhar, acreditava que estava sonhando. E não queria despertar.

Jabari se aproximou dela. Segurou seu rosto entre suas cálidas mãos. Ergueu os olhos para o céu e se inclinou para beijar seus lábios com a maior delicadeza. O beijo foi tão vaporoso que parecia feito de ar, e de algodão doce.

-É tão bela, doce e inocente, que meu coração transborda de alegria, sempre que a tenho por perto. – Sussurrou em sua boca.

Suas palavras aliviaram sua rigidez e medo. Seus ombros relaxaram. Voltou a beijá-la, desta vez com mais ímpeto, mas com suavidade.

Elizabeth relaxou os punhos.

Ele tomou suas mãos e as sustentou no ar. Seus corpos apenas se tocaram enquanto se beijavam. Ela se aproximou um pouco, sentindo-se atraída pela riqueza de sua boca, seu delicioso sabor. Precisava explorar seus lábios. Desejava desenterrar as delícias que habitava em seu interior.

Jabari, separando-se, interrompeu o beijo e deu um passo atrás.

Elizabeth sentiu uma imensa decepção. Deu um passo à frente com um leve sorriso nos lábios. Percorreu com as mãos a grossa textura de sua túnica, até chegar a suas costas largas. Rodeou-lhe o pescoço com os braços e fechando os olhos, pressionou seus lábios contra os dele.

Beijou-o. Mordiscou-lhe os lábios acariciando-os lentamente com a língua. Jabari retirou os braços de seu pescoço e se liberou do abraço.

Uma estranha luz brilhava em seus olhos escuros. Ternura, misturada com algo mais. Seria orgulho?

-Elizabeth, Elizabeth. Quanto esperei por este momento. - Disse ele afastando os cabelos do seu rosto.

Jabari a fundiu em seu abraço estreitando-a fortemente pela cintura, devolveu o beijo. Agora, já não era algodão doce e sim, uma tormenta de areia. Um Khamsin, o quente vento do deserto, diabólico, arrasador, que dera nome a sua tribo. Pensou, enquanto a beijava.

Elizabeth se lançando em seus braços, abriu sua boca para que suas línguas se unissem em um frenético delírio. Ele era a sede, a fúria e a necessidade, acendendo nela mil tochas atingindo até o último nervo de seu corpo, exigindo que a paixão soterrada em seu interior fosse liberada.

Jabari interrompeu o beijo dando um passo para trás. Elizabeth percebeu uma faísca de satisfação que ardia em seu belo rosto.

Retrocedeu horrorizada, enquanto passava a língua em seus lábios inchados. O que acontecia com ela?

Jabari soltou uma sonora gargalhada. Ela sentiu uma fúria inesperada.

-Me enganou. - Protestou ela.

-Nada disso - disse ele brandamente. - Só permiti que você sentisse aquilo contra o qual tanto lutou. Não resista Elizabeth. Solte sua paixão.

Abriu a boca para protestar, quando Jabari voltou a se aproximar. Seus lábios a solicitavam uma vez mais. A língua de Jabari percorreu com maestria o lábio inferior de Elizabeth. Introduziu a língua em seus lábios abertos. Bebia de sua essência. De sua vida. De seu desejo por ele.

Ele percorreu suas costas com uma série de carícias. O toque em sua pele era como fogo, tão intenso como o sol, despertando nela uma sensação de urgência e ardente necessidade. Jamais um homem a havia tocado daquele modo, ou a fizera sentir sua pele ser tão sensível. Enchendo-a de prazer sensual. Elizabeth cambaleou, como se seus joelhos fossem de areia e se apoiou nele. Jabari a afastou e beijou seu pescoço, o ponto fraco de Elizabeth. O contato da boca dele naquele lugar tão sensível provocou em Elizabeth um gemido, com a deliciosa suavidade de sua língua roçando sua pele nua.

-Chegou o momento de fazê-la minha. - Sussurrou ele em seu ouvido. Voltou a beijá-la. Cada beijo era uma fogueira que se estendia por sua pele como um rastro de pólvora.

Elizabeth sentia-se incapaz de extinguir o fogo. Tentou pensar em manifestações com cartazes a favor das sufragistas. Em sua avó condenando-a com os olhos. Nada funcionava.

-Por favor. - Disse ofegante, lutando contra seu próprio desejo. O que fizera Jabari? Libertara-a dos grilhões do medo, de suas cadeias, e agora extravasara o desejo ardente que estava em seu interior.

-Não posso...

-Não resista, minha pequena rosa do deserto. Se renda a mim. Prometo ser delicado. - Disse ele em um sussurro, enquanto prendia Elizabeth com o fogo de seus beijos.

Através da fina malha da camisola, Elizabeth sentia as mãos de Jabari percorrendo seu corpo com firmes carícias. Jabari a pressionou contra seu corpo. Ela pôde sentir a dureza viril entre suas pernas. Impressionada por semelhante intimidade, consciente no que isso terminaria, Elizabeth lutou para se liberar do abraço de Jabari.

-Direito ao voto para a mulher. - Gritou golpeando-o com os punhos.

-Já demonstrou sua igualdade meu amor... Com a sua doce boca. - Disse, rindo em seu pescoço. Sua risada a enfureceu. Deixou que a raiva se apoderasse dela, para assim, conseguir controlar seu desejo.

-Lutarei contra você com todas minhas forças, Jabari. - Disse ela, apesar de seu corpo arder com a chama do desejo. - Terá que me forçar. É contra minha vontade.

-Não acredito que seja necessário. - Replicou ele, percorrendo o lóbulo de sua orelha com seus lábios, lambendo-o delicadamente.

Jabari pousou a mão possessiva em seus seios. Quando os acariciou por cima da fina malha de seu vestido, Elizabeth reprimiu um fraco gemido.

-Não costumo forçar uma mulher no que me concede por vontade própria, e você não vai ser diferente. Seu corpo treme ao meu toque. Vai suplicar que a faça minha. - Disse ele em um tom de voz profundo e convincente.

Sua independência como mulher. Finalmente, ergueu a cabeça em sinal de protesto. Arrogância masculina!

-Você é um corno! Não pode me obrigar!

Engano absoluto. Jamais provoque o orgulho de um homem. Sobre tudo se o dito orgulho vem acompanhado de quase dois metros de massa muscular.

Estava pensado nisso, quando uma massa muscular chamada Jabari, a levantou no ar e colocou nos ombros. Entre risadas divertidas, ele caminhou direto para a cama, enquanto Elizabeth cuspia alguns insultos em inglês e o esmurrava nas costas. Era como golpear um muro de tijolos. Rindo muito, ele a deitou cuidadosamente na cama.

-Uma fera selvagem! - Minha bela Elizabeth, é tão indomável como um potro Khamsin!

Enquanto se apressava em tirar a roupa, os olhos de Jabari resplandeciam como diamantes à luz do abajur. Seus cachos longos e negros lhe caíam pelas costas. Em pé, Jabari se exibia para Elizabeth com orgulho, convidando-a com o presente do seu olhar. Seu corpo magro e escultural resplandecia com o reflexo da luz. Vestia uma calça negra que aderia à suas coxas musculosas. Elizabeth se surpreendeu frente a enorme protuberância em sua calça, o que demonstrava o muito que ele a desejava.

Rápido, ela saiu da enorme cama, tratando de escapar. Jabari soltou uma gargalhada e a capturou com seu enorme abraço. Arrastou-a com o seu corpo para a cama e colocou o joelho entre suas coxas. Encaixando-se entre suas pernas a imobilizou, segurando-a fortemente pelos braços. Suas fortes e abrasadoras mãos entrelaçaram-se com as dela.

-Não acredito que vá a algum lugar, e tampouco acredito que queira. - Sussurrou, tomando a boca de Elizabeth em um beijo selvagem. Seus lábios relaxaram-se quando Jabari percorreu com a língua a carnuda curva do lábio inferior de Elizabeth. Ela se retorcia sob ele, horrorizada pela ardente chama que ele conseguira acender nela.

A pretensa aparência de integridade moral de Elizabeth se desvaneceu com um gemido de prazer. A rigidez de seu corpo desapareceu. Elizabeth respondeu às perfeitas estocadas em sua boca, da língua de Jabari. Saboreando, respirando o seu ar, seu espírito e sua paixão. Uma tormenta de fogo se apoderou dela. Mal podia respirar, por causa da selvagem intensidade da insaciável boca de Jabari. Ele interrompeu o beijo e a liberou do abraço. Olhou-a fixamente. No fundo de seu olhar, Elizabeth viu paixão. Desejava-a e sentia uma necessidade primitiva e quase selvagem de possuí-la.

Jabari arrancou sua camisola pelos ombros, rasgando o tecido de um só puxão deixando à mostra seu corpo nu. Elizabeth escondeu seus seios com as mãos. Jabari roçou sutilmente um de seus mamilos com o dedo, endurecendo-o imediatamente. Ela arqueou as costas ofegando com indescritível prazer.

Jabari deu uma gargalhada de satisfação e se deitou em cima de Elizabeth, fazendo-a sentir o peso de seu corpo. Sua respiração entrecortada provocou cálidas ondas em sua pele.

Elizabeth ofegava. Arqueando as costas deu um grito, envergonhada pela forma que Jabari controlava seus sentidos, e por causa do calor abrasador. O poder sensual dele, a afetava como um sedativo.

Jabari erguendo-se apoiou as mãos na cama e a olhou fixamente. Na ardente profundidade de seus olhos negros, pôde ver refletido seu próprio desejo.

-Diga-me Elizabeth. Preciso ouvir da sua boca que me deseja. – Diga-me ou me detenho - disse ele.

-Te... De... Te des... - O desejo e a vergonha se misturavam, lutando entre si. Sentia um resquício de moral atando sua paixão, aprisionada em um momento de dúvida. Elizabeth afastou seu olhar dos dele, cativantes, consciente de que perderia definitivamente o juízo, se continuasse olhando para ele. Jabari a segurou com as mãos forçando-a olhar em seu rosto.

- Elizabeth, Já te disse que jamais forço uma mulher. A escolha é sua. - Sussurrou ao mesmo tempo em que acariciava seu pescoço com a ponta dos dedos. Beliscou seu mamilo com deliciosa lentidão e ela deu um grito abafado de prazer.

-Elizabeth, não respondeu. - O que decide?

Ela teve que lutar com as emoções que a contradiziam. Jabari lutava com intensidade para mantê-la cativa, enquanto Elizabeth pensava em escapar, desde que ele a seqüestrara. Pensou na obstinação de Jabari em dominá-la, e no que Badra havia dito. “Eu tenho permissão para ir e vir quando quiser. Possivelmente, ele a trate de forma distinta, porque não a pode controlar.” Aí estava a chave que poderia deixá-la livre. Se for isso o que ele quer...

-Disse que suas concubinas eram livres para partir se não quisessem ficar. Se eu fizer amor com você agora, e jurar em deixar o Almha em paz, promete me deixar partir em paz? - Sussurrou ela olhando-o nos olhos.

Jabari não a havia aprisionado em seu harém. Aprisionara-a da recente descoberta de seus sentimentos para com ele. Mas ela precisava saber se se rendendo a ele, recuperaria sua liberdade. Jabari não encontrava palavras. Seus olhos adquiriram uma turbulenta e inquietante expressão quando olhou os de Elizabeth.

-Não. Não depois que fizermos amor. Se ficar livre, for realmente o que quer, a soltarei agora mesmo - disse ele. - É isso o que quer Elizabeth? Abandonar-me agora? Abrirei a porta e sairá voando livre como um pássaro. Responda-me.

-Não - disse ela em um rouco sussurro. - Não quero o abandonar agora. Você ganhou.

Jabari pareceu surpreso. Seu rosto franziu até se converter no mais terno dos sorrisos.

-Não, minha querida. Você ganhou.

Ela se colou ele como a areia aderia na pele, sentindo-se perder o controle quando a beijou. Os lábios de Elizabeth se abriram dando acesso à língua de Jabari, que provocava, lambia e procurava com profundidade sua boca. Uma forte e urgente necessidade assolou seus sentidos, como um pico golpeando a terra dura.

Parando o beijo, Jabari mordiscou seu pescoço sorvendo sua pele com suavidade. Era uma sensação tremendamente erótica e Elizabeth fechou os olhos. Elizabeth explorou as costas de Jabari, massageando seus fortes músculos e deleitando-se em sua firmeza com suavidade feminina. Elizabeth segurou suas nádegas rígidas e as ajustou firmemente contra seu ventre.

A boca de Jabari distribuiu uma chuva de beijos sobre sua pele. Ela estremeceu de prazer, quando ele segurou seus seios entre as mãos, tocando e acariciando-os enquanto a beijava apaixonadamente. Jabari a enchia de carícias e seu corpo seguia seu elaborado ritual. Doces beijos e toques em sua pele, e carícias de sua deliciosa língua. Sua boca reclamava cada centímetro dela.

O contato com a pele de Jabari, se converteu em uma ardente tortura, quando ele a percorreu com sua língua provocante. Implacável. Insaciável. Feroz na necessidade dela, exigia a ela. Seus nervos ardiam como o fogo abrasador do sol do deserto.

-O que... O que me está fazendo? - Gemeu Elizabeth mordendo os lábios.

Jabari levantou a cabeça com os olhos faiscando.

-Meus guerreiros chamam de, o segredo dos cem beijos - murmurou ele deslizando sua boca em seu ventre. - Quer que os conte?

Quando Elizabeth passou a mão em seus longos cabelos, teve a sensação de estar acariciando pura seda. Suas pálpebras se fecharam de prazer enquanto Jabari, com a boca, brindava seu corpo com toda sua magia árabe. Ele deslizou seu rosto pelo abdômen de Elizabeth com lenta tortura para aumentar seu desejo, saboreando sua essência e degustando de sua doçura. Com as mãos, Jabari massageava seu traseiro, circulando-o. Ondas e ondas de prazer foram se acumulando e avivando o fogo até convertê-lo em um inferno. Pela forma exímia com que a tocava, diria que era um homem seguro de si mesmo, reivindicando o corpo de Elizabeth com poderosa sensualidade. Vivendo e respirando, com a boca percorrendo o corpo dela com uma intensa possessividade. Seus beijos iam deixando um rastro de fogo em sua pele, enquanto ele lentamente se encaixava em seu quadril, pressionando seu ventre, e deslizando sua língua habilidosamente por sua pele nua.

Jabari se deteve de repente. Quando Jabari levantou a cabeça, Elizabeth percebeu em seus olhos, um sentimento oculto, que a assustou por sua intensidade. Confusa, ela baixou os olhos e encontrou o olhar de Jabari fixo em seu quadril. Quase podia sentir, ele queimar com os olhos sua marca de nascimento. Jabari se sentou passando o polegar pela marca.

-De onde a tirou? Quem colocou isso em você?

Elizabeth enrugou o nariz perplexa. O que estava acontecendo?

-Ninguém. É uma marca de nascimento.

Ele levantou-se ligeiro segurando-a pelos braços, e a sacudindo de tal maneira, que Elizabeth começou a gritar. Jabari a olhou com enorme frieza.

-Não minta Elizabeth, ou a mandarei a Aziz, para que desta vez, ele corte sua língua inteligente. Quem te fez essa marca?

-Já lhe disse. - É uma marca de nascimento! - Jabari, está me fazendo mal. - Por que mudara tão bruscamente? Suas mudanças de humor a aterrorizavam.

Soltando-a Jabari voltou a fixar sua atenção na marca em forma de pássaro, no quadril de Elizabeth.

-Não pode ser. - Disse Jabari aturdido. - Está aqui. A marca da pomba branca. - Esfregou o lugar com o polegar, como se pudesse a apagar com os dedos. Olhou para os cabelos de Elizabeth. Estendendo a mão, enrolou um cacho dos cabelos dela no dedo.

-“Com os raios de luz de Atón. Seus cabelos estão envoltos em raios de sol, tão brilhantes, como o mais puro ouro.” - Disse entre dentes.

-Por que está agindo assim? O que está acontecendo? - Elizabeth ficou plantada no lugar, sentindo-se vulnerável em sua nudez. O ar da noite estava frio, e o estranho comportamento de Jabari produzia calafrios em todo seu corpo.

Depois de soltar seus cabelos, Jabari sacudiu a cabeça.

-O conselho deve ser informado. Mas ainda falta uma prova a fazer. - Disse a si mesmo. Uma expressão convicta substituíra o desejo em seus olhos. Jabari, de repente, se converteu em um homem sério, decidido a enfrentar em sua vida uma definitiva decisão.

Há poucos minutos atrás, a beijava com ardente paixão representando uma séria ameaça à sua virgindade, e agora agia como um verdadeiro possesso.

Jabari ficou olhando para a parede, balançando o corpo pensativamente.

-Assim será. A profecia deu uma reviravolta por completo. Eu estava cego, mas agora estou de olhos bem abertos.

-Não compreendo. O que está havendo?

Jabari a olhou. Finalmente a enxergou, interessado na mulher e não em seu corpo. Perante o assombro de Elizabeth, atravessou o aposento, abriu um baú e tirou uma longa túnica negra. Jabari a pôs nos ombros de Elizabeth.

-Cubra-se. Agora. – Ordenou ele virando as costas.

Vestiu a enorme vestimenta sentindo-se doída e esmagada.

As mangas ficaram compridas e as teve que dobrar.

-Agora você deve ir. Layla a levará a seu dormitório. - Disse ele severamente. Jabari voltou a lhe dar as costas e foi para a porta.

Elizabeth ficou vermelha, sentindo-se humilhada. Rechaçá-la por uma simples marca de nascimento? Presa por uma sensação de confusão e desengano ao mesmo tempo, ergueu a cauda do vestido, correndo para alcançar Jabari, puxando-o pelo braço.

-Jabari, deve-me uma explicação. - Disse ela. Elizabeth mordeu os lábios. Reunindo coragem suficiente para conseguir lhe dizer essas palavras - Por que não vai mais fazer amor comigo?

Ele deu uma volta ao redor dela, como uma ave de rapina, percorrendo seu corpo com o olhar. Jabari tocou suavemente em seu quadril.

- Elizabeth, não posso te amar como gostaria. - Disse ele severamente. - É proibido... Agora. Teremos tempo, depois da cerimônia.

Cerimônia? Ele estava escondendo algo muito importante.

-Por que não se lembrou disso, antes de me seduzir?

Lástima ou desejo, que via nos olhos de Jabari? Elizabeth não podia assegurar.

- as circunstâncias mudaram entre nós. - Disse ele rotundamente.

-De que cerimônia está falando?

Quando Jabari pegou em sua mão, Elizabeth enrugou o nariz.

--A cerimônia que nos unirá como companheiros para toda a eternidade. Quando se tornar minha esposa.

 

Jabari se armou de coragem para receber sua resposta. O impacto de sua fúria. Esperou ela começar a gritar de raiva ou lhe dar alguns murros. Respirou tranqüilo.

Com o lábio inferior franzido, Elizabeth o olhou com uma estranha expressão de vazio. Começou a abrir e fechar a boca como um samak, um peixe, tentando formar palavras que não saíam de sua boca. Entrecerrou os olhos. Seus lábios tremeram. Seu corpo começou a vibrar. Preocupado, Jabari se aproximou de Elizabeth, para consolá-la, mas então, se deu conta de que ela não estava chorando.

Seu corpo tremia sim, mas era de riso. Elizabeth se retesou levando a mão à boca.

-Ma tri mô nio! - Disse acentuando cada sílaba. - De repente quer se casar.

-Não estou brincando. - Disse ele, rígido de orgulho. - Falo totalmente a sério Elizabeth. Devemos nos casar.

-Por quê? - De repente se deu um ataque de moralidade?

A paciência de Jabari começou a se esgotar. Olhou-a fixamente.

-Não compreende. As coisas mudaram entre nós, agora que sei quem você é. - Jabari contendo a raiva respirou fundo. Ninguém ria de Jabari bin Tarik Hassid. Nem mesmo Kiya se atreveria sequer, a fazê-lo.

Jabari puxou-a pela mão, e levou-a até a cama pedindo que se sentasse. Ela enxugava as lágrimas dos olhos, ainda com expressão divertida no rosto.

-Jabari, por favor, isso não tem nenhum sentido. Primeiro me diz que vai me liberar e agora quer se casar comigo.

-Vou lhe explicar isso agora. - Suspirou aliviado. Elizabeth já não ria dele. Simplesmente estava confusa. Jabari não sabia quais palavras empregar para que o entendesse. Como Elizabeth poderia compreender a seriedade do que estava a ponto de lhe dizer? Se fora educada com idéias e costumes ocidentais? Não tinha nenhum ponto em comum com seu povo e nem com seu rígido código de honra. Se pudesse derrubar a barreira entre suas culturas...

Elizabeth era meio egípcia. Certamente havia em seu sangue, o misticismo da Antigüidade e sua conexão com o passado. E estava seguro em seus desígnios, que havia um profundo significado!

-Elizabeth, com referência aos estranhos sonhos que você tem desde que nos conhecemos, poderia me dizer o que são e o que vê?

Ela franziu o cenho.

-Tem algo a ver com o que me quer dizer?

-Pode ser. Suspeito que pode ter alguma ligação.

-Era... -Seus belos olhos fitaram o vazio, como se procurando em suas lembranças. - O primeiro ocorreu na jazida, antes de te conhecer. Era como se tivesse viajado... No tempo. Como se alguém estivesse dentro de mim. - Riu para ela mesma. - Isso é ridículo.

-Continue. Quanta vezes aconteceu?

-Duas vezes mais. O outro foi aqui. - O mistério cresceu nas profundidades de seus olhos azuis. Quando o vi... No uadi principal. Toquei uma rocha próxima ao lugar em que se encontra o Almha e senti um formigamento na mão.

-Ah, sim. - Murmurou ele - não há dúvida de que encontrou o Almha. O que experimentou foi uma conexão com o passado. Uma lembrança.

-Uma lembrança? - Franziu o cenho, confusa.

Jabari vacilou e segurou sua mão, consciente de que chegou o momento de lhe dizer. Contemplou a suavidade da sua pele e a acariciou afetuosamente.

-Elizabeth, o que vou dizer é muito sério. Por favor, não se assuste. Mas é importante que saiba o que está acontecendo.

-De acordo. – Disse com confiança.

- Você teve lembranças do passado. A razão pela qual o Almha a chamou, a razão pela qual o encontrou tão rápido, é que você é sua guardiã. Você mesma o enterrou lá.

Ela mordeu os lábios.

-Como...?

Ainda segurando sua mão, a contemplou com veneração. - Sabe qual é a razão pela qual os Khamsin guardam o Almah?

Ela assentiu.

-Layla me contou a lenda.

-Não é uma lenda. Hoje, em nosso acampamento, chegou uma pomba branca, voando do oeste. É um sinal da volta de Kiya. Minha gente esteve esperando, a volta da rainha há três mil anos. E o tem feito. - Jabari levou a mão de Elizabeth aos lábios e a beijou delicadamente.

Ela abriu os olhos e ofegou.

-Não pode estar falando a sério! - Eu não sou nenhuma rainha!

Jabari olhou seu quadril e em um gesto possessivo, tocou o lugar da marca de nascimento, agora oculta.

-Você tem a marca da pomba branca. São três sinais que nos advertem sobre a volta de nossa rainha. Primeiro: - Kiya terá a marca de uma pomba branca no corpo. Segundo: - Como os raios de luz de Atón, seus cabelos serão envoltos em uma luz tão brilhante, como o mais puro ouro. Terceiro: - A pomba a reconhecerá como sua proprietária.

Jabari a estreitou-a em seus braços entusiasmado.

-É você, Elizabeth. Tem os dois, dos três sinais e devo apresentá-la perante meu povo, para que o círculo da profecia se feche com o terceiro sinal. É a reencarnação de nossa rainha e é por isso que devemos nos casar. É meu dever me emparelhar contigo. Nossos filhos guiarão a nossa gente na prosperidade.

Elizabeth retirou suas mãos e moveu a cabeça em sinal de negação, agitando de um lado a outro sua longa cabeleira loira.

-Mas Jabari, não posso acreditar nisso! Não sei nada sobre seu povo.

-Que outra coisa poderia explicar seus sonhos? Não os teve antes de chegar ao Egito.

-Não - Admitiu ela - É fantástico para ser verdade.

-Elizabeth, me diga a verdade. Faça um esforço. Deve haver alguma conexão com seu passado... Com seu destino.

Seus olhos se nublaram, como se estivesse procurando a verdade.

-Não, não, não. Sou uma cidadã americana normal e correta. Não tenho nenhum vínculo com você, nem com seu povo e com nenhuma fantasia sobre uma rainha morta!

Jabari vacilou, consciente de que devia derrubar a barreira que ela havia levantado entre ambos. Por medo ou por simples resistência.

-Por que veio até aqui? - Perguntou ele.

- Em busca do Almha. Suponho que se dá conta de que o destino a trouxe aqui, neste preciso momento de sua vida.

-Destino - disse ela entre risadas. - Há um pouco do destino. Mas vim por outras razões. Trata-se de uma coincidência. Sincronização.

-Meu povo acredita que as coincidências não existem. Só o destino. Elizabeth, você sabe que foi o destino o que a trouxe até aqui.

-É incrível. Mas se quer acreditar, acredite. - Disse ela, encolhendo os ombros. - Mas não tem nada que ver comigo. E se realmente acredita que me vou casar contigo... Está equivocado.

Jabari estava com a cabeça a ponto de estalar. Teria que convencê-la.

-Por que resiste tanto a essa idéia? É o matrimônio em si mesmo, o que a preocupa? –Perguntou lentamente.

-Possivelmente, não posso evitar que me seduza, mas se me casar estou perdida. O casamento é para as mulheres estúpidas, que se rendem aos caprichos dos homens.

Elizabeth deitou a cabeça para trás. Jabari percebeu certo tom de preocupação em sua voz.

Elizabeth acreditava que o casamento prendia às mulheres. Jabari balançou a cabeça desconcertado. Entre as mulheres de sua tribo, o matrimônio era um motivo de alegria. Não havia mulheres mais reverenciadas, do que as esposas dos guerreiros Khamsin. Lastimou por Elizabeth. Parecia tão vulnerável, e sua rebeldia lembrava a um menino assustado lutando para manter sua valentia.

Jabari finalmente se decidiu.

-Elizabeth, desejo-a como jamais desejei a nenhuma outra mulher.

Seus belos olhos azuis se entrecerraram com desconfiança. - E o que me diz de suas concubinas? E o que me diz de Farah?

Fez um gesto de desdém.

-Tenho muita consideração por Farah, não é a mesma coisa. - Você é a única mulher que desejo.

Disse em um rasgo de emoção, temeroso, esperou sua reação. Nunca se arriscou, admitindo a uma mulher que a desejava. E nunca antes, havia desejado tanto uma mulher, como desejava Elizabeth.

Ela baixou a vista e seus lábios tremeram. Um sentimento de ternura se apoderou de Jabari. Não lutou contra seus sentimentos, deixou que se expressassem, e o que fazia com ele. Jabari segurou seu rosto entre as mãos. Elizabeth estava com os seus lindos olhos azuis cheios de lágrimas e uma pingou na mão de Jabari. Profundamente preocupado, ele enxugou a lágrima com o dedo.

-Não posso me casar. Jamais me casaria com você. Não quero me casar com você. - A última frase foi pronunciada com mais ímpeto, como se ela tivesse que recorrer a todas as suas forças para dizer.

-Por quê? É porque nossas culturas são muito diferentes? - Perguntou ele, afastando o cabelo de seu rosto. Percorreu a bela curva de queixo com o polegar.

--Não. Quero dizer sim, é por que... - Respirou fundo e continuou – Você não me quer. Só me deseja.

Jabari abriu a boca para protestar, mas em seguida a fechou. Amor. Seu pai amara tanto, tão profundamente, que deixou sua esposa escapar. E aquilo o matou. O amor consumia os homens. Ele não se permitiria ser fraco.

Antes, quando Jabari disse a ela que podia sair pela porta, dizia a verdade. Estava disposto a correr o risco de perdê-la, e era um risco sublime. Levara Elizabeth às raias da paixão, mostrando a ela os prazeres que a esperavam entre seus braços. Ela se entregara tal como ele havia previsso. Mas agora era diferente. O dever o ligava a ela e havia muita coisa a considerar. Devia se casar com ela para cumprir a profecia, e restaurar a esperança em sua gente.

Sentimentos profundos e confusos ardiam furiosamente em seu peito. Sentia alguma coisa por Elizabeth. Mas seria amor? Jabari lutou com suas emoções. Tivera muitas mulheres em seu leito antes e só serviram para saciar suas necessidades físicas. Jabari se deu conta, de que se tivesse finalmente, consumado seu desejo por Elizabeth, não fosse o suficiente. Não suportava nem o simples pensamento de que ela pudesse partir. Vivera esse tempo todo enterrado em uma profunda cova, mas que finalmente, se permitira sentir o sol bater em seu rosto. Sem Elizabeth, a escuridão voltaria.

Jabari respirou fundo se relaxando. Sentia-se, como se estivesse a ponto de se jogar dos altos precipícios de Ajenatón em lima, confiando que Elizabeth o resgataria. Ele segurou seu rosto entre as mãos, roçando os lábios meigamente nos dela e sussurrou em sua boca.

-Está tão equivocada. Minha preciosa rosa do deserto, você é o que minha alma sempre esteve esperando há anos. Quero-a.

Ela levantou o olhar sobressaltado pela surpresa. Fechando os olhos, abriu os lábios e bebeu, da doçura deliciosa de sua boca. Elizabeth rodeou seu pescoço enquanto o beijava, o saboreado. Uma repente sede de paixão se apoderou dele, e Jabari intensificou o beijo, querendo possuí-la por completo. Jabari percebeu que estava perdendo o controle. Parou de beijá-la e acariciou seus cabelos, dando um beijo em seu nariz arrebitado.

Elizabeth franziu o cenho. Em seu interior, se travava uma grande batalha. Batalha essa, que sabia que Jabari iria perder.

-Mas não me diz o porquê de me querer.

-Não é verdade, eu lhe falei - disse ele.

-Não acredito. Não posso me casar com um homem que não me quer pelo que sou, e que só o faz, para cumprir uma estúpida superstição. Não posso querer um homem como você.

Aquela última frase pareceu o veredicto de uma condenação. Jogou-se no precipício, acreditando que ela o pegaria.

Mas em vez disso, estatelara-se no chão. Se Elizabeth tivesse pegado sua adaga e aberto seu coração em dois, não o tivesse ferido tanto. Uma dor física, e tão aguda, se apoderou dele. Se perguntou se seu coração, que acabara de entregar a Elizabeth, ainda pulsava em seu peito. Jabari respirou fundo enxergando-a desfocada, como se tivesse desaparecendo ao longe.

A raiva era a única defesa contra o seu rechaço. Jamais poderia fazê-la entender o muito que o feriu.

-Você casará comigo. Assumirei meu dever e a profecia se cumprirá. Não necessito de você... Amor. Seu corpo será o suficiente.

Jabari rasgou as vestimentas de Elizabeth. Percorreu com olhar impassível sua nudez, a inspecionando como se fosse um animal. Elizabeth enrubesceu.

-Parece o suficientemente forte, para me dar muitos filhos saudáveis. Provei alguns de seus prazeres e me satisfará na cama. E, além disso, é virgem. Cumpre com os requisitos de pureza, para ser a esposa de um Sheik.

Jabari separou-se dela com um empurrão e a olhou com asco.

-Amanhã partiremos para o acampamento. Se casará comigo. Voluntariamente como minha esposa. Ou como minha prisioneira. Não haverá escapatória possível.

Jabari dirigindo-se à porta abriu-a de um puxão e ordenou a Aziz que a acompanhasse a seu dormitório. Sentiu uma súbita dor e percebeu que suas unhas formavam meias luas em seus punhos fechados. Elizabeth o observava com seus lindos olhos azuis impregnados de temor. Bem. Que o temesse. Em sua alma, se desvaneceram os últimos raios de sol, dando espaço para a escura solidão. Jabari observou Elizabeth sair para corredor, enquanto a solidão invadia seu coração.

 

-Jabari, por que comparece perante nós, com uma mulher insolente que se nega a se ajoelhar? -disse um dos doze anciões, sentados em um semicírculo no luxuoso tapete vermelha.

Jabari franziu o cenho. Conteve um gesto insolente.

-Ela o fará. Elizabeth se ajoelhe. - Jabari apontou o chão da barraca. - Perante os Majli, o chão é o lugar que corresponde a uma mulher.

Os lábios de Elizabeth se sobressaíram. - Não.

-Se ajoelhe - disse ele energicamente.

-Eu não me ajoelho perante os homens. - Replicou.

O sangue de Jabari fervia de indignação.

-Elizabeth. –O nome dela saiu de seus lábios na forma de um temível rugido. Os olhos de Jabari escureceram de raiva. - Faça o que te mandei ou lamentará.

-O que mais você poderá fazer, para que eu lamente?

-Até agora, fui muito indulgente você, porque não conhece nossos costumes. Mas agora, estamos em meu acampamento. Meu território. Meu povo. Aqui, as mulheres não olham nos olhos do Sheik nem dos Majli, quando comparecem perante eles. Elas inclinam suas cabeças em sinal de humildade e se ajoelham. Eu te ensinarei o respeito. Agora, se ajoelhe.

Elizabeth respondeu, olhando Jabari nos olhos em seguida, para todos os membros do conselho de anciões. Não se ajoelharia perante eles. Jamais.

Duas fortes mãos pousaram em seus ombros. Elizabeth notou que Jabari deu um leve chute na parte posterior de seus joelhos. Automaticamente suas pernas se dobraram e caiu ao chão.

-Se não me obedecer, farei com que o faça à força.

Sem se levantar do chão, Elizabeth cruzou os braços em atitude desafiante voltando a olhar os anciões nos olhos. Eles estavam com a boca aberta de incrédulo assombro. Todos usavam binishes azuis e espadas em seus cinturões. Exalaram um sonoro suspiro de surpresa.

Elizabeth já estava cansada, de que os homens lhe dessem ordens.

-Jabari, quem é essa mulher, que demonstra não ter respeito? Por acaso é uma das ocidentais que perturba a terra dos nossos antepassados? É muito desobediente e indisciplinada. - Disse o que parecia ser o líder, de cujo turbante, saía um cacho branco.

Jabari mantinha a mão firme no ombro de Elizabeth. Inclinou a cabeça.

-Querido avô, apresento perante você, a consumação da profecia anunciada há milhares de anos. Esta é a mulher que nos prometeu. - Elizabeth Summers.

-Verdade? - Não pode estar certo! Ela não! - O avô de Jabari coçou o queixo com um gesto, que Elizabeth vira em seu neto repetidamente. - Está seguro disso?

-Estou. - Sustentou Jabari com gravidade na voz. – Ela comprova dois, dos três requisitos. -Elizabeth notou que Jabari retirava o cachecol de seda vermelha que cobria sua cabeça. Seus cabelos caíram soltos, provocando novos suspiros de surpresa.

-Os cabelos dourados de Atón. - Disse seu avô. - E?

-A marca. - Disse Jabari. - O terceiro sinal, o da pomba, ainda deve ser comprovado.

-Mostre-nos a marca. - Ordenou um membro do conselho.

-Sim - murmurou Jabari. - Elizabeth, levante-se.

De repente o chão lhe pareceu mais seguro e cômodo. - Se ajoelhe. Se levante. – Por acaso sou um boneco? Falou-me da grande hospitalidade de sua tribo, e não a vejo em lado algum.

-Elizabeth, deve mostrar ao conselho sua marca de nascimento e demonstrar sua identidade-pediu-lhe Jabari.

-Acredita realmente que vou me levantar e fazer isso? - Disse ela, inclinando a cabeça para o chão.

-O que está fazendo?

-Apresentando meus respeitos. - Disse ela com a voz amortecida pelo grosso tapete. - Decidi que sou uma mulher indigna deste conselho e que não mereço estar em pé.

Elizabeth percebeu um vislumbro de risada no tom impaciente de Jabari.

-Elizabeth, você deve entender que está perante os Majli. Se não me obedecer e mostrar a eles, que é a Kiya, podem tirar a sua vida pelo que fez.

Elizabeth sentiu o cheiro de mofo do tapete e o sabor azedo do medo. Ela sabia que Jabari estava dizendo a verdade. Contudo, despir-se na frente de um grupo de anciões... Parecia-lhe escandaloso. Antes de partir naquela mesma manhã, Layla a vestira com uma camisa bege e calças. Completou o conjunto com um kaftan de algodão de manga longa, que lhe chegava até os tornozelos. O kaftan azul, bordado com diminutas flores amarelas e verdes. Sentia-se confortável naquele traje tão peculiar, que, segundo Layla, era próprio das mulheres Khamsin.

Melhor com ele, do que sem ele.

-Pretende que me dispa na frente de todos esses homens? É para satisfazer seu desejo, ou porque querem saber que aspecto tem uma ocidental, antes de fervê-la em azeite? - Perguntou ela com o rosto enfiado no tapete.

Jabari a segurou pelos braços e a levantou segurando seu queixo com o polegar. Com um terno sorriso que acendia seus olhos, disse.

-Não sou o inimigo. Ninguém vai te envergonhar. Confie em mim. - O gesto dele a animou.

Não havia outra opção. Seu instinto a dizia que confiasse nele. Elizabeth assentiu.

-O que quer que eu faça?

Jabari estalou os dedos e uma mulher entrou na barraca com uma túnica azul. Ajoelhou-se ante o conselho, levantou-se e deu o vestido a Jabari, que por sua vez, mostrou a Elizabeth.

-Vá com minha tia Asriyah até minha barraca, tire toda a roupa e vista esta túnica. Volte em seguida.

Mais roupas. Elizabeth procurou sossegar seu estômago revolto. Fixou seu olhar no vestido que Jabari estendeu e o olhou com olhos inquisidores. Ele sorriu e acariciou levemente suas bochechas.

-Não tenha medo. Não deixarei que a façam mal. – Em seguida, retirou a mão, como se de repente, se lembrou das palavras que Elizabeth dissera na noite passada.

Elizabeth seguiu à silenciosa mulher e saiu, parando antes para calçar as sandálias de couro. Asriyah fez o mesmo. Não permitiam entrar calçado no interior das barracas.

O acampamento dos Khamsin estava situado em uma passagem estreita da planície desértica, encravado ao pé da montanha. Os meninos que brincavam de correr e gritavam, interromperam suas brincadeiras e a olharam boquiabertos. Algumas mulheres com jarros de barro a olharam com educada curiosidade. Apesar da sua ansiedade, Elizabeth devolveu o sorriso. No acampamento reinava paz e simplicidade. Uma atitude pausada e inimaginável em Boston.

Algumas palmeiras enfileiradas e uma acácia espinhosa proporcionava sombra. Perguntou a Asriyah pelas palmeiras enfileiradas.

-Há muitos anos, nosso povo cavou profundas fossas, em busca de água para nutrir as raízes dessas árvores. - Explicou-lhe.

Aproximaram-se da barraca maior, um verdadeiro palácio com várias estadias. Asriyah pediu que tirasse as sandálias, abriu a portinhola para fora e fez um gesto para que entrasse.

Elizabeth parou, impressionada. Fora da barraca de Jabari, em um cabide havia dois pássaros. Protegidos do sol por um espinheiro, os dois pássaros estavam pousados placidamente no cabide. O falcão peregrino marrom estava um tapa-olho de couro nos olhos. O outro... Isis? Elizabeth conteve a respiração. Como sua pomba chegara ali?

A respiração de Elizabeth se acelerou. Ninguém mais deveria saber, que Isis a pertencia. O povo de Jabari acreditava que seria uma pomba selvagem, chegando voando do oeste, que anunciaria a volta de sua rainha. Se Elizabeth se aproveitasse de suas superstições, os anciões a glorificariam como a reencarnação de Kiya. Uma lenda que virou realidade. Possivelmente poderia tirar algum proveito de sua nova posição.

-Que criatura mais bela. - Disse a Asriyah. - Sempre gostei muito de aves. - Elizabeth se aproximou do cabide e desatou as correias que prendiam o pássaro. Deu um passo para trás fazendo um gesto. A pomba voou para ela e pousou em sua mão estendida. Era Isis. Ela mesma a ensinara aquele movimento.

Asriyah sussurrou algo às demais mulheres que presenciava a cena. Olharam para Elizabeth como se fosse mesmo à rainha que se materializou perante elas. Elizabeth, sorrindo para si mesma, devolveu a pomba a seu lugar. Tirou as sandálias e entrou na barraca para se trocar.

Quando Elizabeth voltou à barraca dos Majli vestida com a túnica, Jabari não sorriu. Deu a volta no corpo de Elizabeth, de modo que só seu lado direito fosse visível aos Majli. Ele vacilou por um instante e levantou a túnica até a altura da coxa. Habilidosamente deixou descobertos sua perna e seu quadril direito, ocultando o resto do corpo atrás das pesadas dobras da túnica.

Os doze homens arregalaram os olhos. A seguir se levantaram e se aproximaram. Aqueles homens examinavam atentamente a marca.

-Ela tem a marca. - Disse o avô de Jabari comovido. Estendeu a mão para tocá-la. Elizabeth deu uma palmada na sua mão.

-Se me tocar, eu é que vou te marcar. - falou Elizabeth - E acredite-me, não será no quadril.

Ele afastou a mão, fulminando-a com o olhar.

-Essa mulher é muito insolente. Terá que ensinar disciplina a ela, querido neto.

-Ela tem razão, meu avô. - Respondeu Jabari soltando a túnica de Elizabeth. Seus olhos escuros ardiam, enquanto olhavam para o ancião. Ficou diante de Elizabeth, e o tom de voz dele, se converteu em um grunhido surpreendendo Elizabeth, por sua intensidade.

-Não a toque. Está claro?

Seu avô murmurou algo conformado.

A protetora reação de Jabari deixou Elizabeth perplexa. Por que a teria defendido? Na noite anterior reagiu furiosamente com as palavras que ela dissera. Sua língua afiada o feriu em seu orgulho masculino com desumana precisão. A julgar pela forma possessiva que ocultara o corpo de Elizabeth dos anciões, a Jabari, parecia desagradar a idéia de que alguém mais a tocasse, inclusive, para confirmar uma sagrada profecia.

Possivelmente a queria de verdade, como afirmara. Não havia dito só para se casar com ela. Elizabeth pegou a mão de Jabari e apertou-a em sinal de gratidão. Ele respondeu de forma fria e indiferente, afastando o olhar. Apertou a mandíbula e retirou a mão.

-Minha tia a espera lá fora. Volte com ela para minha barraca e se vista. - Ordenou-lhe.

Seu instinto estava certo. Só queria se casar com ela para cumprir com sua obrigação perante a tribo. Compreendeu com tristeza, enquanto saía da barraca seguida pela tia de Jabari. Enquanto calçava novamente as sandálias, Elizabeth olhou o acampamento. A tradição governava aquelas areias que estabeleciam seu lar. Os fios da honra e da obrigação ligavam Jabari ao seu destino perfeitamente enraizado. Ele não a queria.

A inesperada intensidade da sua declaração na noite anterior, a assustara. Jabari abrira seu coração e o mostrara com a mesma transparência com que a água se derrama na areia seca. E como areia seca, ela bebera oferecendo em troca, uma vazia amargura.

Como poderia se casar com ele, quando sua avó se consumia em uma fria instituição do outro lado do Atlântico? Como iria se converter em um boneco obediente para Jabari? Se ele pudesse entender o quanto sua liberdade era importante para ela, e que a assustava muito se casar com um homem persistente como ele. Significava perder o controle, e esquecer suas próprias necessidades, como fizera sua mãe.

Elizabeth manteve o olhar fixo no tecido azul do kaftan de Asriyah enquanto a seguia. Poderia algum dia querer Jabari? Amar um homem significava sacrificar tudo? Parecia. Quando sua mãe morreu, Elizabeth só queria liberdade, porque se dera conta, de que ser uma mulher apaixonada significava arriscar tudo, inclusive à vida. Sua mãe temia as tumbas, mas seguiu docilmente seu marido em uma e acabou perdendo a vida.

Uma vez na barraca de Jabari, Elizabeth se vestiu apressadamente e olhou o salão. A areia estava coberta pelos mesmos tapetes com motivos vermelhos e umas quantas cadeiras de madeira de montar, postas em forma de ferradura. Estava decorado sem nenhuma personalidade. Não via nada dele ali.

Sem sequer pensar, Elizabeth jogou a túnica em cima das cadeiras. Os enfeites pessoais de Jabari deviam encontrar-se em seu dormitório, e lá encontraria lápis e papel para passar uma mensagem a Isis. Não poderia confiar que Badra entregara o bilhete a tio Nahid. Ela adorava muito a Jabari, para se arriscar a lhe causar algum dano. Elizabeth teria que voltar a tentar entrar em contato com seu tio.

Uma grosa cortina de lã separava as duas estadias. Elizabeth entrou no santuário sagrado no qual Jabari dormia. O tronco de uma acácia crescia junto à parede. Uma pilha de almofadões de penugem estavam arrumados em volta de uma mesa de sândalo. Ao ver a enorme cama no canto, Elizabeth se apressou em afastar o olhar. Foi então que viu seu objetivo. Uma caixa repleta de artigos de escritório em cima de uma mesa. Ela se apressou em abri-la e encontrou papel e pluma.

Escreveu um bilhete em inglês a Nahid.

“Fui seqüestrada pelos Khamsin enquanto procurava o Almha no uadi principal na entrada do uadi real. Estou no deserto Arábico, ao sul do Haggi Quandil. Rápido.”

Colocou o bilhete no bolso de seu kaftan e saiu da barraca com ar de despreocupada indiferença.

Novamente de volta à barraca do conselho, Elizabeth observou Jabari, enquanto os Majli discutiam em voz baixa a respeito dela. Jabari estava com os ombros majestosamente erguidos. Com as pernas separadas como se fosse o capitão de um grande navio ao leme. Sentiu uma pontada de nostalgia por Boston, pelas águas frias e salgadas de seu lar. Inclusive, até o Mediterrâneo proporcionava mais consolo, do que o ar carregado daquela negra e grosa barraca. Jabari alguma vez teria viajado ao Mediterrâneo? Alguma vez teria se aproximado de sua borda para contemplar como se convertiam suas ondas em ligeira espuma? Alguma vez, ele teria posto seu ouvido em uma concha do mar para ouvir o eco dos gritos de solidão de sua própria alma?

Seu coração palpitou com força ao ver que Jabari a olhava. Toda sua atenção se concentrava em seu avô, que parecia ter chegado a uma conclusão. Por fim o ancião falou.

-Faremos a última prova, para nos assegurar de que esta mulher é a rainha Kiya. - Manifestou com grande solenidade e em um tom de voz estridente.

-E qual será o próximo passo que farão comigo? Pendurar-me pelas unhas dos pés, para ver se giro em cima delas no vento do deserto? - Elizabeth riu levemente, tentando ocultar sua ansiedade.

O avô de Jabari a olhou com os olhos desafiantes.

-Existe um antigo costume do deserto, para descobrir se as mulheres com línguas afiadas mentem. Introduzem um atiçador quente na língua, e se sua proprietária não se queimar, fica provada sua inocência.

Os lábios dela se curvaram num sorriso zombador. Elizabeth foi se encrespando. Os comentários intimidantes do ancião não a assustavam. Esquecera o medo, e o poder. Inclusive, quando estiveram a ponto de cortarem sua língua.

-Que obsessão vocês tem com línguas. - Replicou Elizabeth, apertando os punhos. - Por acaso as línguas humanas são um manjar beduíno?

Jabari se acercou dela e disse bruscamente em seu ouvido.

-Elizabeth, por favor, silêncio. Eu não disse nada a eles a respeito do seu sacrilégio. Se descobrirem agora, meu avô ordenará sua execução imediata. Os Majli não são tão indulgentes quanto eu.

Elizabeth levou as mãos ao pescoço e engoliu a saliva. Tanta conversa sobre línguas, quase a fizera perder a cabeça.

-Siga-me. - Ordenou Jabari.

Elizabeth, engolindo o orgulho o seguiu até o cabide das aves. Um grupo se aproximou. A multidão agrupada começou a murmurar com entusiasmo.

-O que se supõe que devo fazer? - Sussurrou ela. “O que tiver que fazer, faça-o bem! Como se nunca tivesse visso um pássaro em sua vida.”

-Silêncio. - Disse ele pondo o dedo nos lábios de Elizabeth. Apesar da atitude distante de Jabari, Elizabeth o toque de sua pele reconfortante. - Devemos esperar que chegue o chamán da tribo.

Um chamán? As poucas vezes que sua avó havia contado coisas da sua vida no deserto, falara dos poderosos chamanes beduínos. Extraíam azeites e essências das plantas e as utilizavam em cerimônias para clarear mente e limpar o espírito.

Se alguém precisava clarear a mente, essa era Elizabeth. A multidão se abriu respeitosamente, para que um ancião enrugado, e vestido com um binish azul, chegasse até eles, com seu grosso cajado.

Deteve-se em frente de Elizabeth e a esquadrinhou com o olhar. - Queb é cego, e nosso chamán. Perdeu muito da visão. - Contou Jabari.

Elizabeth se aproximou do chamán e pegou sua a mão. Lentamente, a levou a seu rosto deixando-o explorar seus contornos e suas curvas.

Quando ele terminou, Elizabeth beijou sua mão com grande respeito. Queb soltou um grunhido satisfeito e assentiu com a cabeça.

Elizabeth viu a expressão de surpresa no rosto de Jabari sentindo uma pontada de prazer por tê-lo flagrado com a guarda baixa.

-Agora, te se dirija para a pomba. - Disse-lhe Queb. - Veremos se te obedece como uma mulher deve obedecer a um homem.

Obedecer a um homem? Elizabeth voltou a crispar-se.

- Essa pomba pertence ao ar e não deveria estar amarrada nesse cabide. - Disse.

Amarraram a Isis ao cabide, no exato momento que Jabari também queria prender Elizabeth a ele. Ela se rebelou. Se não a libertassem, pelo menos libertaria o pássaro. Elizabeth se afastou suavemente do chamán e desatou as correias que seguravam a Isis. Não só via em Isis, sua última saída, como também queria libertá-la. Via-se refletida no cativeiro do pássaro. Elizabeth estendeu a mão a Isis, e ela pousou em seus dedos, em atitude de plena confiança.

Elizabeth sorriu triunfante ante a tribo reunida. Libertou a Isis. A pomba se elevou no céu. Quando deu a volta para seguir o vôo da pomba pelo deserto, Elizabeth sentiu que era seu próprio coração que subia. Arqueando elegantemente as asas, a pomba apanhou correntes elevadas, flutuando pelo ar.

Repentinamente, a pomba voltou com o vento, direto para o acampamento. Direto para Elizabeth. A pomba branca, liberta de seu cativeiro, havia voltado.

Desconcertada, Elizabeth sentiu as garras da pomba, quando Isis pousou em seu ombro. A multidão deixou escapar um suspiro. O pássaro não quisera abandoná-la! Isis chegou voando ao acampamento antes de Elizabeth, como se quisesse anunciar sua chegada. O estranho comportamento da pomba a assustou.

Elizabeth acariciou o peito da Isis, preocupada e confusa. Isis bateu as asas e se elevou no ar, para aterrissar nas costas de Jabari. Elizabeth ficou boquiaberta. Ele pareceu não se afetar. Ao contrário, Jabari agiu como se fosse tudo natural. A todos não foi tudo natural, pois Elizabeth ouviu gritos abafados de assombro, e comentários de admiração.

Jabari pegou a pomba e a devolveu ao cabide, junto a seu falcão. O pássaro permitiu ser atado as correias de couro. Jabari a acariciou com afeto. Isis arrulhou de prazer.

Elizabeth pensou em seu sonho. “Do mesmo modo que a pomba se submete às garras do falcão, deve se entregar a ele.” Um calafrio percorreu suas costas. Nunca acreditara em profecias antes, só em fatos científicos. Isso seria um sinal?

-É a profecia. - Gritou um homem. - A pomba pousou em seu ombro, como no dia em que encontrou refúgio na Kiya. E, olhem como a pomba está dócil com as magistrais carícias do nosso Sheik.

Magistrais carícias. Um ressentimento sufragista se depreendeu dela. Elizabeth o reprimiu violentamente. “Devo utilizá-lo em meu benefício.” quanto mais acreditassem, que a Isis era um sinal místico, mais poder ela teria.

Contudo, um sentimento de estranho misticismo a inquietava.

Seus olhos preocupados se encontraram com os de Jabari. Elizabeth detectou certo receio em seu olhar. O que faria Jabari se, se inteirasse de que queria se fazer passar pela Kiya, e todo o seu poder, para escapar? E se conseguisse? Iria Persegui-la, fazendo jus ao seu temperamento obstinado que o caracterizava, e a capturaria. Jabari jamais a deixaria escapar. E tudo por causa da honra. Seu dever como Khamsin. A honra. O dever. Elizabeth enterraria essas palavras na areia seca com o maior prazer.

É uma pomba. É mansa com todo mundo. - Declarou ela, encolhendo os ombros com fingida indiferença, como se nada importasse.

Quando terminou de pronunciar aquelas palavras, o avô de Jabari deu um passo adiante. Segurou a pomba firmemente. Isis começou a revoar freneticamente bicando sua mão.

-Com todo mundo não. - Disse Jabari ligeiramente, enquanto seu avô proferia um leve gemido e afastava sua mão ferida.

Tendo em conta o modo que os Majli me trataram, eu também teria mordido seu avô. A pomba tem bom gosto. - Disse Elizabeth.

Os lábios de Jabari se curvaram, até se formarem em uma careta.

-Ao que parece, prefere a carne vermelha. - Brincou.

Elizabeth, vendo o bom humor em seus olhos, o sorriu com cumplicidade.

-Nada de cuscus.

-Nada de cuscus. -Assentiu ele. Jabari entrelaçou sua mão com a de Elizabeth num gesto possessivo.

-Acabamos de presenciar. - Espetou o chamán com sua voz áspera. A prova final, que demonstra que é Kiya, e que voltou para nós.

Os dedos de Jabari apertaram os de Elizabeth, quando Queb deu um passo adiante e colocou suas mãos enrugadas em cima de seus dedos entrelaçados.

-Jabari bin Tarik Hassid se casará com a mulher de nome Elizabeth Kiya Summers. - Disse o chamán.

-Convenceste a nosso chamán de que é Kiya. Tomara que seja assim. - Disse seu avô com uma careta, pressionando a ferida com um lenço branco, para conter o sangue. Ergueu o lenço no alto com um sorriso de apreensão, que parecia anunciar o que a esperava no leito nupcial. - O casamento deve ser consumado na terceira noite de lua cheia.

Dentro de duas noites Elizabeth se casaria, para realizar uma antiga profecia. Ela suspirou angustiada. Dois dias. O tempo de que dispunha para planejar sua fuga.

 

Não iria ser fácil fugir. Sobre tudo, porque seu noivo a mantinha mais vigiada, do que um contrabando de ouro.

Jabari foi procurá-la a pela manhã para apresentar formalmente à sua família. Quando saíram da barraca de sua tia, seus olhos escuros estavam com uma expressão séria, e semblante áspero. Elizabeth se sentia protegida por uma capa de gelo, perturbada pelo seu iminente destino.

Uma mulher com um bebê pequeno nos braços passou por ao lado. Repentinamente o rosto de Jabari mudou. Elizabeth contemplou estupefata, Jabari se inclinar e dedicar um amplo sorriso ao menino. Em seguida, ele deu uma alegre gargalhada pegando o pequeno nos braços. Elizabeth estava com os olhos arregalados. Aquela demonstração de afeto descongelou seu estado de espírito.

-Olhe-se. - Disse Jabari ao menino, fingindo um grunhido – Você está tão grande e forte, que logo me derrotará nas batalhas.

O menino tirou o turbante de Jabari.

-Este é Kareem, meu filho. - Disse a mulher a Elizabeth, seguindo seu olhar. - Vivíamos no Haggi Quandil. Esteve a ponto de morrer de fome, mas o Sheik o salvou. E a mim também... Lá eu dormia com homens, para conseguir dinheiro, com que alimentar meus filhos. O Sheik me acolheu como uma irmã, para me livrar daquele horror. Jamais saberei como corresponder sua amabilidade.

Um grupo de meninos puxava o binish de Jabari para reclamar sua atenção. Jabari deixou Kareem no chão e começou a fazer careta. Elizabeth contemplava surpresa, Jabari correr atrás deles. Os meninos perseguiam o grande Sheik dos guerreiros Khamsin, que fingiu cair quando um deles o bateu nas costas, com um ramo de espinheiro. Jabari levou as mãos ao peito em sinal de derrota. Os meninos riam e gritavam a sua volta. Em Elizabeth despertou um sentimento de ternura para com Jabari.

-Será um bom pai. - Disse a mulher a olhando de soslaio. Em seguida chamou seu filho, que veio correndo.

Jabari ficou em pé espanando a roupa com as mãos. Aproximou-se de Elizabeth com um sorriso envergonhado.

-Minha roupa estava limpa estava esta manhã. - Disse Jabari arrependido.

O encanto infantil daquele sorriso, faria Elizabeth se afundar em um atoleiro.

-Os meninos gostam de estar com você.

Os olhos de Jabari seguiram o grupo de meninos que desapareceram entre brincadeiras.

-Eu gosto de estar com eles. - Disse ele com brandura. – Nos lembram as alegrias da vida. Minha mãe sempre dizia que um menino é um presente de Alá, que celebra o amor que sentem um homem e uma mulher...

Jabari foi afastando os olhos à medida que sua voz se apagava. Quando ele voltou a olhar para ela, uma máscara de frieza substituíra seu sorriso.

-Isso é o que ela dizia, mas meu avô fala que um Sheik precisa de filhos. - Jabari pegou sua mão. - Espera que nós os tenhamos.

O coração de Elizabeth deu um salto, mas ao ver a longa fila de parentes que a esperava, voltou a palpitar com força.

-Esta é Elizabeth Kiya Summers, minha noiva, a mulher escolhida que levará meu nome e propagará a linhagem Hassid.

Enquanto a apresentava à sua extensa família, Jabari a segurava firmemente pelas costas, que em vez de incomodá-la, a tranqüilizava. O número de parentes a afligia. Aquele homem tinha mais parentes que pulgas em um camelo.

Todos sorriam afetuosamente para ela, pegando suas mãos e pronunciando o que parecia ser um ritual de boas vindas.

--Saudações, filha do deserto. A aceitamos em nossa família. Que Alá guie seus passos e garanta a paz enquanto morar em nossas barracas.

O último a ser apresentado foi Nkosi, seu avô. Elizabeth supôs que era o mais importante. Na postura majestosa daquele ancião, recordou a autoridade e influência de seu cargo. Jabari havia dito que Nkosi liderava o conselho de anciões.

-Honorável avô, apresento Elizabeth Kiya Summers, minha noiva. A mulher que escolhi para toda a eternidade e que assegura a continuação de nosso nome sagrado em gerações vindouras.

Nkosi a olhou fixa e longamente. Ela levantou o queixo e sustentou seu olhar. Ele se voltou para um menino que trazia uma pequena almofada vermelha sobre a qual repousava uma adaga. Com o cabo, incrustados de diamantes e rubis, resplandecia ao sol. Nkosi pegou a adaga e a entregou a Jabari com uma reverência. Mas não disse uma palavra.

Elizabeth percebeu o rosto de seu noivo se esticar.

-Não disse uma palavra. Por acaso não acredita na profecia? - perguntou Jabari em voz baixa, mas em tom de aborrecimento.

-Cedo perante a vontade do povo, e pela unidade de nossa tribo. Mas essa mulher não vai trazer paz e prosperidade. Ela é insolente, e só causará o caos e confusão ao nosso povo. Lembra-me a mulher demoníaca que destruiu seu pai. Jamais a suportarei - Disse Nkosi.

O avô de Jabari não aprovava o enlace. Elizabeth olhou para o seu rosto sombrio e reprimiu um calafrio.

Seu avô não aprovava Elizabeth. Ante a idéia de que seu avô teria que se sentar ao lado dela durante a refeição, Jabari ficou tenso, rodeado de sua família mais próxima. Elizabeth observava inocentemente às mulheres, que tiravam uma grande panela de cobre da fogueira.

Elizabeth não poderia imaginar, como doeria o rechaço de Nkosi. Quando Tarik morreu, o dever de entregar a adaga nupcial sagrada a Jabari, recaiu em Nkosi, seu parente mais próximo. Nkosi não proferiu a promessa que se fazia a todas as noivas dos Sheiks khamsin, de querê-las como filhas, e as aceitar na família.

Jabari se perguntou se seu pai ainda estivesse vivo, também rechaçaria Elizabeth. Essa idéia doeu tanto, que nem sequer pôde considerá-la.

Jabari sabia que a inteligência e a rebeldia de Elizabeth preocupavam seu avô. Houve um tempo em que apoiara a idéia, de que as mulheres Khamsin recebessem uma educação. Mas mudou de idéia quando a mãe de Jabari abandonou seu pai.

Nkosi não queria a Elizabeth. Elizabeth não queria o Jabari. E ele queria aos dois. Jabari observou às mulheres servindo arroz, manteiga e mostarda em grandes pratos. Um forte sentimento de melancolia o invadiu. Se casaria com Elizabeth para concretizar a profecia. Mas sem a aprovação de Nkosi, seu povo acabaria não a aceitando como sua rainha reencarnada, ou sua esposa. Um futuro muito precário os aguardava.

Elizabeth se sentou junto a Jabari, mordendo nervosamente o lábio inferior. Jabari estava muito calado. Será que ele suspeitava que fora ela que libertou Isis?

Especulou sobre a pomba desaparecida. Ela a soltara, enquanto todos acreditavam que estava dormindo. Quando Jabari descobriu que Isis tinha desaparecido, deu-lhe um olhar inquisidor, mas não disse nada.

Jabari estava sentado em cima da perna esquerda, e apoiava o braço no joelho direito. Elizabeth olhou a sua volta cautelosamente e viu que todos faziam o mesmo. Jabari pegou o pão com a mão direita e o partiu em dois, dando uma das metades a ela. Pegou um pedaço de pão e introduziu no prato, utilizando-o como colher.

Ela seguiu seu exemplo e comeu. A comida estava deliciosa, mas a angústia que sentia, parecia uma massa seca. Mastigar se converteu em uma carga. Elizabeth levantou a vista e encontrou os olhos de Nkosi, que a olhava através de suas pálpebras cansadas. Seu olhar transmitia um profundo desagrado por ela.

Elizabeth aceitou outra fatia de pão de Jabari, que comia silenciosamente com os olhos fixos na luz. Esforçava-se por entender o homem que seria seu marido. Quanto mais considerava sua chance de escapar, mais difícil parecia. Como iria encontrar Nahid? Se quisesse escapar, a esperava três horas de deserto aberto e sem água. Sem contar, os problemas para fazer de volta o intrincado caminho que Jabari seguira para chegar ali.

Elizabeth pensou em seu destino. Nutria por Jabari, sentimentos que a perturbavam. Já não poderia viver sua vida sem ele, mas como poderia amar um homem assim? Arrogante, dominador e tão obstinado às tradições, que ela repentinamente se lembrou do modo como à capa de gelo que o protegia, caíra ao brincar com os meninos. Ou do jeito em brincara com ela em seu quarto, como se fossem amigos, antes que fossem fazer amor. Jabari falara com ela, como se dirigisse a um homem, e não a uma mulher que planejasse seduzir. Com as mulheres de seu povo era protetor e delicado, como com Badra e a mulher do Haggi Quandil. Olhou de soslaio para seu esculpido semblante. Era tão devastadoramente formoso. Para ela era como o antigo Egito. Um nobre e valente guerreiro, tão misterioso e fascinante, como as peças de arte enterradas na areia. Jabari era um espécime vivente da história da Antigüidade, com seus costumes e tradições milenares. E ela chamou uma destas crenças de “superstição absurda.” Elizabeth fez uma careta de dor.

Se ela pudesse, seria tão importante para ele, como aqueles antigos costumes. Poderia demonstrar a Jabari que o mais importante, seria ser ela, e não o que representava. Possivelmente, se aproximaria dele dando o primeiro passo, e demonstrando que se preocupava com ele.

Quando Elizabeth pousou sua mão em cima da de Jabari, viu os pêlos sedosos no dorso de sua mão, mas se mantinha fria ao seu toque. Jabari a olhou pensativo. Elizabeth rezou em silêncio, para que naquele momento, usasse as palavras adequadas.

-Sinto muito pela noite passada. Na realidade, não falei a sério... - Disse ela, mordendo o lábio inferior.

Jabari a olhou com desconfiança. Inclusive pareceu que aquela desculpa desinteressada soou superficial.

Possivelmente se, se atrevia a expor seus verdadeiros sentimentos, construiria uma pequena ponte entre o abismo que os separava. Elizabeth respirou fundo e falou em inglês.

-O que quero dizer, é que sinto muito pelo que disse a respeito da sua profecia. Assustou-me. Eu simplesmente reagi... Do jeito que sempre reajo quando estou assustada... Com raiva.

O vazio desapareceu de seus olhos, e em seu lugar apareceu uma expressão confusa.

-Por que te assusto?

Era o momento de ser sincera. Não volte atrás. Elizabeth olhou para o chão, procurando as palavras adequadas. Baixou o tom de voz até se converter em um suspiro.

-Tenho um sentimento por você, que jamais experimentei antes - respirou fundo - e isso me assusta. Por que... Como posso amar um homem, que acredita que seus costumes são mais importantes do que eu? O homem que deve me amar, tem que ser do mesmo modo que eu ame a ele e me querer pelo que sou e não pelo que represento. Uma rainha reencarnada. Deve me enxergar corno igual não fisicamente, mas socialmente. Deve existir um vínculo tão estreito entre eles, que se eu sangrasse, ele sentisse dor. E eu não iria caminhar atrás dele, e sim, junto a ele, a seu lado para sempre.

Elizabeth cravou os olhos no chão. Podia ver todos os detalhes das pedras. No silêncio que se seguiu, ela começou a contar o pulsar que palpitava em seu peito a toda velocidade. O calor subiu à sua cabeça.

Jabari retirou a mão. Elizabeth sentiu a alma nos pés. Forçou-se a levantar os olhos. Durante breves minutos, os olhos aveludados de Jabari brilharam, como se Elizabeth o tivesse lançado um desafio e ele o aceitara. Mas não demoraram em voltar a serem frios como a obsidiana.

-Fala a sério? – Sua voz profunda se espalhou como areia. Ela percebeu horrorizada que a distinta conversa a sua volta cessara. Todos os olhos se concentraram nela com ávido interesse. Sua privada confissão se fizera pública.

Sua costa se ergueu com determinação.

-Sim respondeu ela em árabe. - Falo a sério.

-Aceito suas desculpas e confio em que seu comportamento melhore. – Sua voz profunda e ensurdecedora ressonou o suficiente, para que todos a pudessem ouvir. Elizabeth seguiu a direção de seu olhar. Estavam postos em Nkosi, cuja expressão severa relaxou. Jabari sorriu. Passou-lhe outra fatia de pão. - E agora coma. Amanhã à noite vai necessitar de todas suas forças.

Jabari começou a falar com seu avô de antigas cerimônias de bodas. Um frio aterrador se apoderou dela. Jabari aceitara suas desculpas. Nada mais. No dia seguinte se uniria a um homem que se casava com ela por obrigação, perante sua tribo. A confissão que Jabari fizera a noite passada, ela imaginara. Ele usara de estratégia, para convencer que se casasse com ele. Ela abriu seu coração a Jabari e a única coisa que conseguiu, foi cair no ridículo.

Seus olhos se encheram de lágrimas, que começaram a cair no prato. Elizabeth mordeu a língua tão forte, que quase gritou de dor. Mas jamais seria um grito tão espantoso, como o grito de terrível angustia, que golpeava em sua cabeça.

-Badra, eu gostaria de falar com você.

No dia seguinte, Jabari fez um sinal a sua concubina para que se sentasse à sombra do espinheiro. Ela se sentou no tapete e o olhou com um sorriso. Desde que chegara ao acampamento, que jabari vinha se perguntando o que aconteceria com ela. Ele jamais vira Badra tão segura de si mesma e relaxada.

-Sabe que me caso com Elizabeth essa noite e devo fazer planos para seu futuro. Por isso, a respeito de Farah, prepararei para que se case com um guerreiro da tribo do star. Sua esposa morreu e há muito, anda se sentido muito sozinho. E no que diz respeito a você, Kephri deseja se casar contigo. Pediu-me formalmente sua mão.

Ela ficou rígida, como se a tivessem jogado um jarro de água fria.

-Não, Jabari. Kephri é um homem bom, mas deseja uma mulher que jamais poderá amá-lo. Jamais vou querer um homem. Não a um homem como ele. Merece algo melhor.

Jabari assentiu com a cabeça, pesaroso pela veemência de suas palavras. Já havia previsto sua reação.

-Então, se essa é sua resposta, vejo-me obrigado a cuidar de você. A aceitarei em minha família como uma irmã. A menos que queira algo mais...

Seus belos olhos escuros se acenderam e o dedicou um sorriso radiante.

-Oh, sim. Não quero partir daqui... Além disso, me afeiçoei a Elizabeth.

Jabari o concebera e se alegrou em ouvir aquela resposta.

-Muito bem. Necessitarei da sua ajuda, Badra. Como você, Elizabeth aqui é estrangeira, mas a diferença entre vocês, é que não sabe nada dos nossos costumes. Quero que seja você que se encarregue do banho de bodas, na caverna sagrada esta noite.

Badra sorriu encantada. - Asriyah já havia comentado isso. Que costume mais belo.

Jabari apoiou o queixo mão e o braço no joelho. -Sim, é. Embora, eu esteja fazendo planos para que Elizabeth se banhe em uma barraca. Não quero que se banhe na caverna.

Badra franziu a boca.

-A tradição diz, que a noiva do Sheik deve ser banhada e preparada na caverna sagrada.

-Elizabeth tem pânico às cavernas. Lembra-se de quando despertou com ela gritando no sonho? Custou-me muito a tranqüilizar. Não quero alterá-la. Montaremos a barraca perto da caverna e você se encarregará de banhá-la.

-Acredito que se devem seguir as tradições dos Khamsin. - Badra parecia preocupada.

Ele sorriu suavemente.

-Tenho poder para romper essas tradições se acredito necessário.

Ela o olhou cheia de astúcia.

-Como ensinar às mulheres a ler? Você tem poder para romper essa regra.

Jabari respirou fundo e fechou os olhos.

-Badra, já disse a você. Minha decisão é irrevogável. Não vou permitir a nenhuma outra mulher da minha tribo ou sob meu cuidado, que aprenda a ler.

-Mas eu já o estou fazendo.

As pálpebras de Jabari se abriram de repente. Olhou-a surpreso enquanto rabiscava letras na areia, com um ramo.

-Olhe! - Sei escrever meu nome. Elizabeth me ensinou.

A ira que sentiu por Elizabeth, se dissolveu ao olhar para o rosto orgulhoso e resplandecente de Badra. Olhou para as letras infantis. Seu coração lutou contra aquela nova revelação. Sua mãe abandonara o seu pai quando deixou de ser analfabeta. Mas a aprendizagem de Badra, era uma prova excelente dos benefícios em educar as mulheres. Jabari dedicara três anos para infundir paz e segurança no espírito de Badra, com apenas dezessete anos e apagar a dor em seus olhos. E em pouco tempo, Elizabeth conseguira o que ele não fora capaz, dando a ela o que tanto desejava. Ler. Por fim, Jabari conseguiu tirar um peso de cima dos ombros.

-Bem? Vai deixar-me continuar?

-Sim. Agora entendo o quanto é importante para você. Mas só se aceitar a se encarregar do banho cerimonioso de Elizabeth. É uma boa barganha. - Disse Jabari, piscando os olhos.

Ela se pôs a rir.

-Então, aceito. Trato feito.

-Bate aqui.

-O que é isso? - Badra se referia a sua mão estendida.

-Isso é como se sela um compromisso, no país de Elizabeth. - Disse ele com um sorriso de orelha a orelha. Badra enrugou o nariz.

-Costume estranho.

-Pois sim. Venha aqui e me dê um abraço.

- Badra se levantou e o abraçou. Jabari se surpreendeu maravilhado com o fato de que os espíritos das mulheres de sua vida, nunca paravam de surpreendê-lo.

Elizabeth passou o dia em companhia de Asriyah, quem não a perdia de vista um só instante, mesmo enquanto atendia a suas tarefas. De vez em quando via Jabari, mas ele adotara uma atitude de estudada indiferença, depois do gelo do meio-dia.

O banquete nupcial seria aquela mesma noite. Elizabeth conseguiu escapulir de Asriyah. Andava com passos rápidos, com a esperança de que um passeio clareasse sua mente. Assim que deu alguns passos, apareceu Nkosi.

-Suponho que não deve sair sozinha. – Advertiu ele agarrando seu braço. Nkosi olhou a sua volta - você e eu temos que conversar. - Disse ele em voz baixa.

Ela o olhou com desconfiança. E agora?

Nkosi a levou para perto das barracas. Seu negro e afiado olhar inspecionou o lugar. Quando pareceu estar seguro de que ninguém o ouviria, seus olhos intensos se concentraram em Elizabeth.

-Não acredito que seja Kiya. É uma impostora.

Elizabeth ficou tensa.

-Pense o que quiser. Dá no mesmo para mim.

Com olhos se entrecerraram penetrantes, como os de seu neto. - Fiz investigações. Sei que é a mulher que ajudava os infiéis a profanar nossas terras sagradas. Por que estava lá?

-Jabari me trouxe aqui contra minha vontade. - Espetou ela.

Nkosi grunhindo, fez um gesto no ar com a mão.

--Vi o modo como meu neto se acalma quando a olha. Isso não é bom. Ele é um guerreiro do vento, o líder de nossa tribo. O desonrará perante meus homens. Ele precisa de uma mulher que o obedeça.

Elizabeth subiu nas nuvens.

-Então encontre uma. Eu ficarei de lado desgostosa.

-Mas ele deseja a você. E meu neto é muito teimoso. - Tem um espírito incansável. Não ficará satisfeito enquanto não a tiver. - É um homem honorável que está se casando para cumprir a profecia. Mas isso não a mantém a salvo.

Elizabeth cada vez se sentia mais desolada.

-A que se refere?

Os olhos escuros de Nkosi brilhavam. Elizabeth percebeu sua cara enrugada se contrair de raiva.

-Se machucar o coração dele com seu comportamento agressivo, terá que se haver comigo. O Sheik não é o único poder nesta tribo. Possivelmente conseguiu enganar a tribo se fazendo passar por sua rainha e desse modo, subtrair poder a Jabari. Mas não me enganará jamais.

Nkosi colocou o dedo ao redor do nariz de Elizabeth como se fosse uma ponte. Aquele gesto a fez tremer de medo.

-Estarei observando-a. - Disse ele em voz baixa. Ao ver que se aproximava um grupo de mulheres, Nkosi desapareceu.

Profundamente preocupada, Elizabeth observou Nkosi indo embora furioso. Nkosi era um desses homens, que nunca desejaria ter como inimigo.

-Aí está você, Elizabeth. - Gritou Badra. Uma procissão de mulheres trazia potes, vasilhas, toalhas e objetos de roupa, e faziam sons ondulantes com a língua.

-Acreditava que o casamento não seria esta noite! - Disse Elizabeth, contemplando a procissão de mulheres.

-É, mas antes da cerimônia, deve visitar o uadi real, para render tributo aos antepassados e pedir as bênçãos de seu enlace. - Uma garota de dezessete anos sacudiu para trás uns compridos cachos escuros e lhe mostrou uma vasilha com henna. Badra sorriu em sinal de feminina camaradagem e duas covinhas coroaram suas rosadas bochechas.

Elizabeth lhe piscou os olhos.

-É isso para Jabari? E se desenharmos um sorriso no rosto? É muito sério.

Badra deixou de sorrir.

-Jabari pode ser muito difícil em algumas ocasiões. - Admitiu ela - mas tem um grande coração. É valente. Um grande líder. De todos os guerreiros Khamsin, ele é o melhor com a espada. Dizem que sua espada é a mais afiada, na hora de fazer justiça.

-Justo as qualidades que sempre procurei em um marido. As facas sempre estarão afiadas em casa. - Respondeu Elizabeth.

Badra se calou. Deteve Elizabeth com a mão e fitou-a com o olhar tão sábio, do que correspondia sua idade.

-Eu não o vejo com os meus olhos. Mas sim com o coração. É aí que se encontra o verdadeiro Jabari. - Badra deu um passo atrás e voltou a adotar a atitude formal de sempre.

-Primeiro, o banho cerimonioso. Venha comigo.

O suave vento trazia os rançosos cheiros das cabras e ovelhas que pastavam nos limites do acampamento. Os toldos das barracas se agitavam com o vento, ondeando-as como água marinha. Sentado sob a sombra de um espinheiro, Jabari falava tranqüilamente com seus homens. Um deles o acotovelou ligeiramente e virou à cabeça bruscamente olhando para ela. Jabari também a olhou. Sua expressão era ilegível. Elizabeth se aprumou e partiu adiante.

-Acreditava que os habitantes do deserto não desperdiçavam água.

-Os banhos são partes dos costumes Khamsin, e também do nosso patrimônio. Durante milênios, as noivas dos Sheiks Khamsin se banharam nesta caverna sagrada, quando chega à água com a primavera.

Elizabeth se deteve. A caverna. Sentiu que sua antiga fobia se transformava em puro terror. Suas mãos começaram a tremer violentamente. Esse é o castigo que Jabari lhe infligia, por seu mau comportamento. Ele sabia que tinha pânico às cavernas e ainda assim, a forçava em seguir as tradições de sua tribo.

-Eu não vou. Não posso. Sinto terror às cavernas - disse Elizabeth em um suspiro rouco. - Já disse isso a Jabari. Por que me obriga a isso? - As lágrimas começaram a deslizar em seu rosto.

-Elizabeth! - Badra entregou a henna à outra mulher e segurou as mãos trêmulas de Elizabeth. - Não vamos banhar você na caverna. Jabari ordenou que montassem uma barraca perto da caverna para você.

Os tremores cessaram.

-Verdade?

-Claro. Ele sabe tudo. Você falava no sonho.

Elizabeth recuperou o controle e ficou boquiaberta.

-Meu pesadelo! Havia alguém na casa.

-Claro. Ouvi seus gritos e fui correndo alertá-lo. Entrou em sua casa e a consolou. É por isso que se dispôs a tudo para que a banhemos aqui. A tradição exige que se faça na caverna sagrada, mas ele não quis fazer você passar por isso. - Badra apertou sua mão. - De verdade Elizabeth. Jabari é um homem muito atento. Preocupa-se com você. Quebrou a tradição sagrada dos Khamsin, algo nada fácil para ele.

Seus temores se esvaíram. Se Jabari não a queria, por que quebrara a tradição? Aquele homem obstinado aos costumes, como a areia na pele nua. As dúvidas a assaltavam. “Continuava sendo um homem cheio de preconceitos. Olhe para Badra. Continuava lhe negando uma educação.”

-Possivelmente, ainda haja esperança para ele, se consegue superar alguns costumes arcaicos. - murmurou ela, evitando expressar seus verdadeiros sentimentos.

-Hoje quebrou outro costume. Jabari me deu permissão para que aprenda a ler. - O rosto escuro de Badra resplandecia de alegria.

Elizabeth a olhou com os olhos arregalados pela surpresa. – Pediu a ele?

-Sim. E parecia ter tudo muito certo, como se estivesse ponderando isso há muito tempo.

Duas tradições quebradas em um dia. Um milagre. Possivelmente Jabari a queria de verdade. Elizabeth sentiu uma emoção tão intensa, que alastrou seu corpo de calor. Possivelmente, ela também o queria. E este seria o maior milagre de todos.

 

Montada ao lombo de uma bela égua branca, Elizabeth percebeu como cresceu sua inquietação ao cair da tarde. A pequena procissão para o uadi principal, estava integrados em uma guarda de honra, e dois guerreiros de Jabari, os Majli e Queb, o chamán. Elizabeth observou os intrincados motivos tatuados com henna em sua pele. O vento do deserto agitava seu véu dourado, seguro à cabeça por um arco de moedas de ouro, que decorava sua testa. Seu dote foi um presente da tribo a Jabari, como ele não tinha pai. Para Elizabeth o vestido de noiva de veludo branco, com intrincados bordados de ponto cruz e fios de ouro e vermelho, pesava-lhe tanto, como as iminentes núpcias esponsais.

Só o som dos cascos lentos e pesados do cavalo, do movimento de seu arco de moedas, dos adornos na cabeça do cavalo e o leve cantarolar do guerreiro que a ladeava à direita, acompanhava o pequeno grupo. Elizabeth respirou através do fino véu bordado com contas de ouro. Ficavam ocultos seu nariz e sua boca.

Elizabeth deu um olhar furtivo a Jabari, que cavalgava há poucos metros dela. Contemplou admirada, sua imponente presença. Seu maravilhoso turbante branco e seu binish resplandeciam a cinzenta luz da lua. O binish, aberto da cintura aos tornozelos, deixava entrever seus quadris musculosos. Calçava botas de pele, por cima de uma calça branca. Mesmo se Jabari não vestisse tão distinta vestimenta, estaria claro quem estava ao comando. Ele irradiava autoridade.

A adaga cravada em pedras se pendurava do cinturão. Sua visão fez Elizabeth tragar saliva ao se lembrar do que acontecera naquela mesma tarde. Depois do banho, as mulheres pediram detalhes a respeito de seus ciclos menstruais. Aquilo a fizera se avermelhar violentamente. Em seguida, uma mulher a deitou nua na mesa, abriu suas pernas e a tocou. Ela introduziu dois dedos no corpo de Elizabeth com um sorriso satisfeito.

-Passou na prova. Nosso Sheik se casará com uma virgem. É favorável que a cerimônia se realize agora, pois você se encontra na parte mais fértil de seu ciclo. - Declarou a mulher.

Continuando, a mesma mulher depositou a adaga encravada com pedras preciosas e uma pequena tigela em cima da mesa. Elizabeth gritou e lutou, temendo que se tratasse de um ritual Khamsin para marcar a noiva. Mas Badra dissipou seus temores.

-É costume que a noiva Khamsin se barbeie com a adaga encravada em pedras de seu marido. Eliminar os pêlos aumenta... O prazer da união. Não se preocupe, Elizabeth. Máfia é uma perita e não te fará mal. - Disse Badra.

Badra disse a verdade, Máfia o fez com exímia delicadeza. Mais tarde percebeu de que na realidade, havia sido marcada como a noiva de Jabari. Com sua adaga, eliminaram os pêlos do seu corpo. Para seu prazer.

Logo perderia sua independência. Compartilharia sua vida e seu corpo com ele. Elizabeth se forçou a superar os temores que a oprimiam, quase tanto como o kaftan. As ações de Jabari demonstravam o afeto que sentia por ela. Mas nesse momento, sua atitude era rígida e distante, como se participasse de um ato forçado.

Elizabeth se retorcia, sentindo uma dor aguda no traseiro pelo solavanco do cavalo. O guerreiro que cavalgava a seu lado percebeu seus movimentos e deixou de cantarolar.

-Logo pararemos para descansar. Se não se está acostumada a cavalgar, o caminho para nossas terras ancestrais pode lhe parecer muito comprido. - Disse ele em inglês.

Elizabeth o olhou surpreendida. O homem de barba era um pouco mais baixo do que Jabari, mas estava bem informado, era bonito e parecia ter boas maneiras.

-Fala muito bem o inglês. Todos os guerreiros de Jabari sabem inglês? - Perguntou Elizabeth em árabe.

-Aprendi o inglês quando Jabari e eu estudamos juntos no Cairo. Há muito tempo somos amigos. - Respondeu o homem em árabe, soltando as rédeas. Inclinou a cabeça em sinal de reverência. - Eu sou Nazim, mão direita de Jabari e seu guardião.

-O que é um guardião?

-Sou o protetor de Jabari. Fiz o juramento sagrado de protegê-lo com minha vida. Todos os Sheiks têm guardiões.

Elizabeth olhou a sua esquerda. Nazim seguiu seu olhar.

-Este homem tão mal-humorado a sua esquerda é Izzah, terceiro oficial ao comando.

Izzah olhou para o Nazim.

-Você fala muito, Nazim.

Nazim lhe dedicou um sorriso cheio de orgulho.

-Como pode comprovar, Izzah não é um homem de muitas palavras. É uma grande honra para mim escoltá-la, senhora. Esperamos por muitos anos, sua chegada.

O povo de Jabari acreditava realmente que era a reencarnação de sua antiga rainha. Elizabeth o olhou de soslaio. Esse guerreiro arrumado e educado, com boas maneiras, não lhe parecia o tipo de homem singelo, que se aferrava em crenças supersticiosas.

-Acredita que sou Kiya, a rainha que retornou para vocês, a poderosa mulher que reverenciam? –perguntou Elizabeth.

O rosto de Nazim adquiriu uma expressão grave e séria.

-Acredito que o destino a trouxe até nós, seja qual for o motivo. - A seguir lhe dedicou um sorriso malicioso. - E sim, acredito que é uma mulher poderosa, porque jamais vi Jabari tão encantado por uma mulher.

Elizabeth se esqueceu de seus medos e soltou uma gargalhada, que acabou fundindo-se com as sonoras gargalhadas de Nazim. Jabari, que cavalgava a frente dela, se voltou.

-Vejo-o muito animado para tão solene ocasião, Nazim. - Advertiu Jabari com um sorriso.

-Ah, senhor. Estou muito contente por ambos. Por você e por sua bela esposa. Acredito que encontrou a sua alma gêmea e isso é motivo de celebração. - Nazim voltou a sorrir e estalou a língua ao cavalo, para que acelerasse a marcha e deste modo permitir que Jabari retrocedesse e se colocasse ao lado de Elizabeth.

Depois de um breve descanso, prosseguiram por um uadi menor. Elizabeth supôs que se tratava de um atalho ao uadi principal. A luz da lua clareava as paredes do cânion causando ondulantes figuras, parecidas com águas fantasmagóricas. A fria noite do deserto penetrou em seus pés nus, calçados com sandálias. Tremendo de frio, se perguntou se seria verdadeiro que os jinns habitavam o deserto. No mínimo, naquela noite parecia.

Horas antes, quando uma mulher a massageava com um perfumado sabonete, penteava seus cabelos com romeiro e decorava suas mãos, Elizabeth sentiu uma terrível sensação de perda. Jamais voltaria a ver sua avó. Fracassara em sua missão de encontrar o remédio e sua avó morreria sozinha, de uma horrível enfermidade, internada em um frio sanatório.

Depois de um momento, desmontaram dos cavalos e todos os homens cobriram seus rostos com os véus. Elizabeth supôs que era em sinal de respeito à cerimônia que estava a ponto de começar.

-A partir daqui, vamos andando. - Anunciou Jabari. Nazim e Izzah acenderam suas tochas e ladearam Elizabeth e Jabari, que andavam um ao lado do outro. O corpo de Jabari, rígido como as paredes do cânion que os rodeava, estava majestoso e distante. Só em apenas pensar, que estava a ponto de se casar com aquela torre de rocha imparcial, seus nervos davam cambalhotas. Elizabeth desejaria romper a capa de granito que o rodeava e encontrar o homem sensível que se ocultava em seu interior.

Logo que começaram a andar, Nazim levantou a mão. Inclinou a cabeça. Elizabeth se encheu de inquietação. Qual era o problema agora?

-Alguém está escavando. - Nazim olhou para Jabari. À luz da tocha, seus olhos perderam a jovialidade e adquiriram uma expressão grave.

-Apaguem as tochas. Vocês dois, venham comigo. Elizabeth, fique aqui com o Queb e os Majli.

Jabari desembainhou sua espada. Sua folha afiada resplandeceu a luz da lua. Fez um sinal a seus guerreiros.

Quem poderia estar escavando? Poderia ser alguém da tribo efetuando preparativos para a cerimônia de tributo.

Ou alguém... Alguém que tivesse em sua posse, uma nota com a localização do Almha. Antes que os Majli pudessem detê-la, Elizabeth passou por eles e saiu em busca dos guerreiros. Ao dobrar a curva, ela esteve a ponto de dar um esbarrão com Jabari. Ele estendeu os braços e a deteve, franzindo o cenho em desaprovação.

-Falei a você que ficasse atrás. - Disse, impedindo a visão com seu corpo. – Fique aqui às minhas costas, e não se mova.

Mas Elizabeth queria ver. Levantou a vista por cima dos ombros de Jabari e deu um grito abafado de terror.

Era Nahid. Estava escavando freneticamente na areia, igual a um cão desenterrando o osso. O ajudavam, dois guerreiros Ao-Hajid, cujas armas estavam jogadas no chão. Elizabeth conteve uma risada nervosa. Nahid recebera sua mensagem. Mas em vez de resgatá-la, fora à procura do disco dourado. Amaldiçoou a si mesma por ter acreditado nele. Provavelmente, Nahid se alegrara de ter deixado o grupo de trabalhadores no deserto, e ser o único beneficiário daquele achado.

Quando Nazim e Izzah desembainharam suas espadas, Elizabeth conteve a respiração. Ficou surpresa quando seu tio deixou o pico no chão, se agachando para levantar um pesado objeto da fossa com grande dificuldade. No fim conseguiu tirá-lo e o levantou a altura de sua cintura. Os dois guerreiros que estavam com ele inclinaram à cabeça em sinal de reverência.

Era um grande círculo de ouro. Enfim o Almha.

Automaticamente, Jabari e seus guerreiros se ajoelharam e inclinaram suas cabeças até o chão em sinal de respeito, com as espadas estendidas em frente a eles. Elizabeth supôs que ela também deveria fazê-lo, mas estava transtornada. Os raios de luz piscavam e refletiam os reluzentes padrões que projetava o disco de ouro. Nahid soltou uma risada. De onde estava, Elizabeth percebeu que a avareza resplandecia em seu rosto, como uma diabólica promessa.

Antes que Elizabeth pudesse refletir sobre o engano de seu tio, Jabari e seus homens ficaram em pé de um salto. Com disposta elegância, equilibraram-se sobre os infiéis empunhando suas espadas. Suas fortes vozes retumbaram no cânion em um antigo grito de guerra. Nahid deu a volta o Almha caiu de suas mãos. O disco golpeou o chão provocando um estrondo similar ao dos batimentos do coração de Elizabeth. Os guerreiros Ao-Hajid se apressaram em procurar seus rifles, mas Jabari e Nazim agiram, antes que pudessem alcançá-los. Elizabeth mordeu o punho, estremecendo ante a visão das cabeças dos Ao-Hajid rolando pelo chão rochoso.

Jabari se voltou para Nahid e ergueu sua espada, disposto a dar o golpe mortal. Elizabeth ficou em pé de um salto.

-Não! Pare! - Gritou, esperando que seus gritos devolvessem a razão a Jabari. Elizabeth ficou diante de Nahid.

A espada de Jabari se deteve no ar, a poucos centímetros do pescoço de Elizabeth. Seus olhos se arregalaram, tomando consciência do quão perto estava de machucar Elizabeth. Depois de baixar a arma, Jabari deu um passo atrás. Nazim e Izzah seguraram o Nahid e o obrigaram a se ajoelhar.

-Ajoelhe-se para morrer; infiel. - Rugiu Nazim.

Elizabeth se afastou de seu tio e se dirigiu ao seu noivo. Seus olhos eram dois pedaços de carvão cheios de ira.

-Afaste-se, Elizabeth. Isso não é assunto seu. Este homem violou nossas terras ancestrais.

-Não é meu assunto! É meu tio! Jabari, não pode matá-lo! Por favor! - Elizabeth ignorou seu escuro e frio olhar. Ela segurou em suas vestimentas brancas.

--É a única família que tenho. Da parte de minha avó.

-Elizabeth! - Disse Jabari em um tom de voz glacial que a estremeceu. - Este homem não só faltou com o respeito a nossa tribo, mas também a você. Merece morrer.

Nahid lutava impotentemente contra os fortes guerreiros de Jabari. Seus olhos irradiavam ódio por seus captores. Ao ver Elizabeth, sua expressão se suavizou. Agitou a cabeça de um lado a outro como se lamentasse seus atos.

-Sinto muito, Elizabeth. Quando recebi seu bilhete, preferi vir em busca do Almha, antes que alguém o pudesse encontrar. Minha intenção era de te enviar ajuda logo que me fosse possível. Mas sabia que gostaria que primeiro, eu encontrasse o disco, pelo bem de minha mãe. Ela é a única que importa.

-Ele mente. - Disse Jabari inexpresivamente. Lançou um olhar de advertência a Nahid. - Está tentando a enganar para que suplique por sua vida. Venderá o disco aos caçadores de tesouros.

-Não mente! - Elizabeth levou a mão a sua cabeça dolorida massageando as têmporas. - Nahid não me obrigou a procurar o Almha. Fui eu que encontrei os papiros que falavam da sua existência.

O olhar de Jabari fez com que o terror percorresse todo seu corpo.

-Você me mentiu. – Seu tom de voz foi tão frio e insensível, que a estremeceu. - Fez-me acreditar que tudo isso fosse idéia de seu tio.

-Sim, fiz. - Elizabeth enfrentou seu olhar de aço. - Queria ganhar tempo para poder encontrá-lo eu mesma. Mas juro que não queria vendê-lo. Só precisava das receitas dos remédios antigos que estão inscritas em sua parte posterior.

-Se houvesse me dito a verdade, teria a ajudado. Não precisava ter mentido. - Disse ele, mais calmo.

-Você não mentiria para proteger alguém que ama? - Elizabeth percebeu um pouco de duvida em seu olhar e decidiu se aproveitar da sua confusão. Atirou-se em seu peito musculoso e rodeou seu pescoço com os braços. Retirou seu véu e depois o dele.

-Por favor, Jabari. Você perdoou a minha vida. Por favor, não mate o Nahid. Se sente algo por mim, não o mate! - Elizabeth pressionou seus lábios contra os de Jabari.

Jabari abaixou a vista e olhou Elizabeth, enquanto o gelo em seus olhos se esvaía. Jabari embainhou a espada e tocou seu rosto timidamente.

-Levantem-no. - Ordenou a seus homens com sua rouca voz.

Elizabeth pegou sua mão e a beijou.

-Obrigado. - Sussurrou ela enquanto o abraçava. Notou que seu corpo relaxava com o seu abraço. Seus fortes braços a rodearam, e ele apoiou o queixo sobre sua cabeça em uma perfeita união.

Elizabeth, erguendo os olhos por cima dos ombros de jabari, estremeceu ante o olhar de ira de seu avô. Nkosi tirou o véu e deu um passo adiante. Jabari o viu e soltou Elizabeth.

-Ela ousou escavar em busca de nosso Almha sagrado? E você, querido neto, em vez de matá-la salvou sua vida? Você violou nosso juramento. - Nkosi ficou vermelho de raiva.

-E agora, pensa em deixar este traidor infiel livre? Você um Sheik ou um fraco vassalo? Não é sangue de meu sangue.

A vergonha se estendeu pelo rosto de Jabari, ao mesmo tempo em que empalidecia. Elizabeth sentia vontade de golpear Nkosi no peito e sair correndo. Ele convertera o gesto de compaixão de Jabari em um ato de fraqueza extrema. Impaciente para se explicar, Elizabeth se dirigiu a Nkosi, mas Jabari a pegou pelo braço.

-Ele tem razão. Eu violei o juramento sagrado e o código de honra dos Khamsin. Como seu protetor, jurei lealdade ao Almha. E fracassei em meu dever. Não tenho honra.

A voz de Jabari, fraca pelo remorso, a perseguiu. Elizabeth queria lhe dizer que era o homem mais honrado que conhecia. Mas suas ações só o prejudicariam ainda mais. Apertou os dentes e espremeu seu cérebro em busca de respostas.

Nkosi o olhou penetrantemente.

-Só há um modo de recuperar sua honra. - Apontou Nahid, que olhava o ancião como se fosse o diabo em forma de gente. Mate-o. Agora. Demonstre sua lealdade ao Almha e a sua gente.

-Não, por favor, não. - gritou Elizabeth com o coração na mão. - Por favor, Jabari, não o mate.

-Ele violou nossas leis e desenterrou o Almha. Sinto muito Elizabeth, devo fazê-lo. - Com o rosto aflito, Jabari desembainhou a espada. Com um gesto solene, Nazim tirou a bandagem de seda da cintura e a sustentou no ar. A espada de Jabari partiu o tecido ao meio, e caiu revoando ao chão junto com as esperanças de Elizabeth.

-Ajoelhe-se, infiel. - Disse Jabari a Nahid severamente, convertendo-se novamente no feroz guerreiro que atuava sem misericórdia. - Prepara seu espírito para que abandone este planeta.

Nazim e Izzah o obrigaram a se ajoelhar de novo.

Elizabeth se deu conta do apuro no qual se achava Jabari. Por salvar sua vida, violara o juramento sagrado. Agora, para provar ao seu povo sua lealdade e força como líder, teria que matar seu tio. Elizabeth reprimiu um soluço.

Jabari ergueu a espada por cima da cabeça, enquanto seus guerreiros mantinham as mãos de Nahid estendidas. A folha girava resplandecente, enquanto Jabari a agitava no ar, seguindo o ritual. Elizabeth percebeu que seus olhos pareciam possuídos.

-Alto! - Nkosi deu um passo adiante e ergueu a mão. - Há um modo de salvar a vida do seu tio.

-Qual? - perguntou Elizabeth ansiosamente. Faria qualquer coisa para deter aquele derramamento de sangue.

-Percebi sua relutância em prosseguir este casamento.

Nkosi fez uma pausa, com seus olhos ardilosos e seu sorriso calculador.

-Se consentir em se casar com meu neto, e mudar essa forma de ser que você tem de ser, desrespeitosa, permitirei que Jabari salve a vida do seu tio. Se ajoelhe como Kiya nossa rainha, incline sua testa até o chão e diga a Jabari que se prostra perante ele para demonstrar sua obediência. Aqui, perante nós os Majli, para que todos nós possamos ser testemunhas de sua lealdade a nossa gente. Implore pela vida de seu tio. Diga a Jabari que o obedecerá totalmente.

Se ele a houvesse proposto, a enganar Nahid para que desenterrasse o Almha em seu próprio benefício, Nkosi não poderia ter tirado melhor proveito da situação. Nkosi fora testemunha do modo que Jabari se rendeu às suplica de Elizabeth. Humilhara seu neto perante os Majli. Se Elizabeth se desculpasse perante Jabari, Nkosi reafirmaria sua autoridade sobre ela. Também se asseguraria de que a lealdade dos Khamsin continuaria existindo em seu Sheik. Como político consumado, Nkosi pretendia que Kiya renunciasse toda influencia sobre Jabari, e devolvesse seu poder.

Ser uma prisioneira obediente e silenciosa, sem pensamento próprio, e sem direito a expressar suas opiniões. Elizabeth sentia uma profunda dor por perder sua liberdade, independência e sua luta em demonstrar ser igual aos homens. Respirou fundo.

Deixou-se cair de joelhos na areia rochosa. O peso de suas roupas de seda, o arco de moedas de ouro e o véu a afligiam, embora não tanto quanto aquela ação humilhante. Elizabeth se inclinou até tocar a testa no chão.

-Jabari, rendo-te honra como Sheik dos Khamsin. Eu, Kiya sua rainha, prostro-me perante você. Suplico de joelhos, pela vida de meu tio. Se o salvar, serei respeitosa e obediente. Farei tudo o que me mandar fazer, se salvar a vida de Nahid.

-Aquelas palavras a fizeram engolir lágrimas amargas. Jabari pousou suas mãos na cabeça de Elizabeth como se a estivesse benzendo.

-Levante-se, mulher. - Disse ele bruscamente. - Minha espada se manterá longe do pescoço de seu tio.

-Elizabeth levantou a cabeça, vendo que Jabari a contemplava como um governante orgulhoso que perdoava a vida de seu humilde servo. Sua honra fora restabelecida mediante aquela ação. Elizabeth se levantou com toda a dignidade de que foi capaz e olhou para Nkosi. O ancião sorria satisfeito.

Uma vez restabelecida sua honra e sua autoridade, Jabari estalou os dedos e fazendo um sinal a Nazim e Izzah.

-Voltem para acampamento com o prisioneiro, enquanto ficamos aqui rendendo comemoração a nossos antepassados.

-Um momento... - Elizabeth ia protestar quando ouviu o grunhido de Nkosi. Respirou fundo e apertou os dentes. Meu Deus! Iria ser muito difícil para ela, ser uma mulher totalmente obediente! Elizabeth inclinou a cabeça.

-Senhor, com todo o meu respeito, e como uma humilde mulher temente pela vida de seu tio, eu gostaria de perguntar, o que pensa fazer com ele?

-Perdoei sua a vida, mas permanecerá conosco como prisioneiro.

Nahid cuspiu em Jabari olhando-o com raiva.

-Se arrependerá disso, guerreiro mentiroso e covarde.

Jabari fazendo um sinal a seus guerreiros, para que amarrassem as mãos e o levassem. Elizabeth contemplou a cena angustiada. Para uma pessoa, pela qual ela acabava de se sacrificar salvando sua vida, a reação de Nahid havia sido muito hostil.

Elizabeth fixou sua atenção no Almha, que jazia na areia. Antes que Jabari pudesse detê-la, foi tocá-lo. Sua mão começou a vibrar. Elizabeth deu um grito abafado e retirou sua mão tremendo. Em seguida fez uma reverência e cruzou suas mãos no peito obedecendo a uma antiga lembrança. Que força estranha a atraíra até lá? Por que o Almha tinha tanto poder sobre ela? Elizabeth sentiu a mão de Jabari em suas costas. Lançou-o um longo e penetrante olhar.

A prudência a levou a dar um passo atrás enquanto ele se ajoelhava e beijava o disco com o maior respeito. Jabari ergueu o disco no ar. Sustentou-o por cima de sua cabeça e o grupo se ajoelhou, inclinando suas cabeças até o chão. Jabari baixou o disco. Seus olhos negros a esquadrinharam.

-Só o Sheik e os anciões da tribo têm permissão para tocar o Almha. - Disse Nkosi com voz de trovão. - Nenhuma mulher que se aprecie, merece tocar o disco sagrado.

Claro. Esquecendo o fato de que a consideravam a mesma rainha que o tinha enterrado, somente era uma pobre mulher.

Os olhos escuros e penetrantes de Jabari a olharam. Quando ele a ofereceu o Almha, Elizabeth deu um passo atrás assustada.

-Ela não é uma mulher normal e corrente, meu avô. - Declarou Jabari.

Elizabeth sustentou o Almha por seu bordo arredondado. Juntos levantaram o Almha por cima de suas cabeças à luz da lua. Ambos inclinaram suas cabeças, e Jabari começou a recitar antigos ritos tribais de reverencia aos antepassados.

 

Diferente de muitas mulheres, Elizabeth jamais sonhara com o dia do seu casamento. Mas se o tivesse feito, jamais imaginaria semelhante cerimônia, cheia de pompa e esplendor. Cestas com tâmaras doces, figos, laranjas e outras frutas expostas à disposição dos convidados. Antes degustaram um delicioso assado de cordeiro, logo que pôde Elizabeth devorou.

As parentas de Jabari, que usavam vestidos de cores vivas, como o azul, vermelha, lavanda, esmeralda e amarelo, dançavam, enquanto os homens faziam soar as darrabukas e dedilhavam as cordas das rebarbas. Os corpos graciosos das mulheres se moviam ritmicamente e se deixavam levar ao som da música. Badra explicara que a maioria das tribos do deserto seguia a tradição muçulmana, e homens e mulheres celebravam as bodas em separado.

-Mas esta não é uma tribo como a maioria. - respondera Elizabeth lhe piscando um olho.

Sentado a seu lado em frente a formidável fogueira, Jabari sorria placidamente a suas primas, que dançavam perante ele. Elizabeth acabara por se sentir envolta com as festividades.

Vários lustres dourados iluminavam o acampamento. As estrelas resplandeciam na noite negra de aveludada. Procurando encontrar alguma conexão com seu lar, Elizabeth ergueu os olhos perguntando-se se sua avó contemplava os mesmos corpos celestes que ela. Ela lamentou por ninguém estar em seu casamento representando sua família. Sua avó estava em outro país, vítima de uma enfermidade. Seu tio achava preso, e vigiado por guardas armados, longe do lugar da celebração.

Totalmente só, Elizabeth enfrentou seu destino. Convertera-se em uma esposa totalmente obediente que não se permitia expressar seus próprios pensamentos. Obrigada a obedecer a seu marido. Não sentia saudades do sorriso de Jabari, que fora mais resplandecente que a luz da lua, quando conseguiu o que queria.

Sentindo-se obrigada a dissimular, Elizabeth fingiu um sorriso para as mulheres que dançavam a sua volta. Badra havia dito que as danças contavam histórias das vitórias Khamsin, do amor e da vida tribal. Essas danças eram rituais que se transmitiram de geração a geração. As primas de Jabari rebolavam em frente a ela, enquanto os homens entoavam um canto a respeito das inundações anuais do Nilo, que voltavam a fazer os campos férteis. Elizabeth se deixou levar pelo movimento e sentiu o murmúrio das águas do Nilo, o abrasador vento do deserto contra seu rosto, e a carícia do sol em sua pele.

Quando Jabari se voltou para falar com o Nazim, Elizabeth deixou escapar um profundo suspiro.

-O que há?

-Nada. - Mentiu ela. Elizabeth pegou uma tâmara e deu uma mordida. Tirou o caroço olhando para a outra metade da tâmara.

Jabari roubou a outra metade da fruta, pondo na boca, e colocou seus em frente aos lábios de Elizabeth.

-Seus lábios se movem, mas não dizem a verdade. Você não quer estar casada.

Poderia entendê-lo algum dia? Elizabeth abriu a boca para opinar, mas a fechou. Fez uma promessa. A vida de Nahid dependia daquela promessa. Os olhos escuros de Jabari, tão expressivos no fulgor da noite, procuravam seu rosto. Ela abaixou ligeiramente a cabeça, tentando ocultar seus pensamentos do olhar inquisidor de Jabari.

-Dei-lhe minha palavra de honra e não a vou romper. - Disse Elizabeth, levantando o queixo, sentindo que seu orgulho se recuperava. - Passando por cima do fato, de que as mulheres não têm honra, claro.

Jabari pegou sua mão e a acariciou com o polegar.

-Tem tanta honra como qualquer um dos homens aqui presente, incluindo a mim. - Disse serenamente. Ela o olhou assombrada pela profundidade de sua afirmação.

Ele arqueou a sobrancelha em um gesto de cumplicidade.

-É a minha escolhida. E as mãos de minha escolhida estão geladas. O que vai dizer a essa gente? Será um sinal de que o sol do deserto abandonou o firmamento? - Jabari olhou para o céu e abriu a boca fingindo assombro. - Ah, é isso! A grande Kiya fez que o deus do sol Atón, deixasse o seu posto.

Seu irascível senso de humor a fez dar uma gargalhada.

-Não subestime o poder de uma mulher. - Disse ela em inglês.

-Esta é minha Elizabeth. - Murmurou ele em inglês. - Estava começando a me preocupar.

-Preocupá-lo eu? - Perguntou ela.

-Permanecia tão silenciosa que temi que Aziz nos tivesse seguido até aqui e que tivesse cortado sua língua, apesar de minha ordem expressa em não fazê-lo.

-Oh, mas Aziz não poderia fazê-lo. Não com seu avô no acampamento como o primeiro fila, o asseguraria semelhante privilégio.

Jabari soltou uma sonora gargalhada que chamou a atenção de todos os que os rodeavam. Ao contemplar seu contentamento, olharam-no com cara de satisfação. Os músicos deixaram de tocar e as primas de Jabari interromperam suas danças.

-Claro, que se o fizesse, você estaria encantado, porque assim não teria que voltar a escutar minha diabólica língua. - Acrescentou ela sutilmente.

Jabari deixou de rir. Pousou seu imperturbável olhar em Elizabeth, apertando a mandíbula como se tentasse dominar suas emoções. Roçou o lábio inferior de Elizabeth com o dedo.

-Equivoca-se. Jamais permitiria que Aziz cortasse essa língua diabólica que você tem. É a única que levanta meu espírito quando tudo a minha volta é frio e cinza, escuro e sem vida. - Disse ele suavemente.

Com grande destreza, Jabari alcançou uma tâmara da cesta, descaroçou-a e comeu a metade, pondo o resto na boca de Elizabeth, esfregando os lábios ligeiramente abertos.

-Está muito boa. Tentadora. - Murmurou ele em árabe. – Prove-a. Essa fruta merece ser saboreada... Lentamente.

Com perversa intensidade, os olhos de Jabari capturaram o olhar de Elizabeth submetendo-a ao abismo de desejo que se refletia neles. Totalmente cativada, Elizabeth deixou que Jabari deslizasse a fruta por seus lábios, provocando-a com sua sedosa textura. Repentinamente ele se deteve vacilante, como se esperasse um mudo convite para continuar adiante.

Aquela não era uma inocente oferenda, e sim, um gesto simbólico do noivo, que punha à prova sua disposição do que a esperava naquela noite no leito nupcial.

“Não demonstre medo nem temor, ante o mistério do desconhecido que a aguarda na barraca de Jabari. Antecipe seus passos pelo poder da sua vontade. Demonstrar que não é uma mulher tímida e que treme perante seu futuro marido.”

Elizabeth abriu a boca para que Jabari pusesse a tâmara. Acariciou a fruta delicadamente com um movimento rotatório da sua língua, roçando ligeiramente as pontas dos dedos dele. Na profundidade de suas enigmáticas íris, Elizabeth percebeu que se acendia o desejo. Os lábios de Elizabeth se fecharam em volta da tâmara e dos dedos de Jabari. Com deliciosa lentidão, sua língua fez um último gesto provocador e se retirou, forçando a saída dos dedos dele. Diminutas gotas de suor se formaram em suas têmporas. Ele a olhava mastigar e engolir com um apetite que nenhuma tâmara poderia saciar. Elizabeth sentiu o poder de sua sensualidade.

-Tenho uma língua diabólica. - Murmurou ela. Passou a língua pela boca como se quisesse saborear o doce suco da tâmara, ou dos seus lábios.

-É claro que sim. - Disse ele no maior dos sussurros. - Nenhuma dúvida a respeito.

Seus lábios se curvaram formando um delicado sorriso. Depois de refletir sobre as conseqüências de sua ação, uma impressionante sensação de poder se apoderou dela. Jabari a apresentara uma provocação e ela não só, aceitou, como correspondera em todos os sentidos. Como igual, não como uma mulher totalmente obediente.

Se Jabari realmente a quer, poderia converter seus atos fingidos em algo reais.

Em pé junto a Jabari na claridade da fogueira e com a tribo agrupada a suas costas, Elizabeth permanecia frente à Queb. Altos lustres antigos como Egito, iluminavam o ancião. Elizabeth sentiu o aroma agridoce da sálvia em uma tigela de prata aos pés do Queb, que se misturavam fortemente com o aroma de sua própria apreensão.

Queb, vestido em uma binish azul, olhava-os com seu rosto murcho sob um turbante azul marinho. O ancião segurava firmemente um cordão de ouro trançado. Badra havia dito que as bodas Khamsin, como sua própria cultura, eram uma mistura de religião muçulmana e antiga tradição tribal. Elizabeth conteve uma risada nervosa. Fazia parte da tradição, atar uma noiva contra sua vontade? Possivelmente a atavam a Jabari para se assegurarem de que não sairia por aí a procura de antigos artefatos egípcios.

Elizabeth respirou fundo, desesperada para aliviar a ansiedade que oprimia seu peito, com os ritos maritais que estava a ponto de pronunciar. As propriedades curativas da sálvia penetraram em seus pulmões. Sua cabeça dava voltas, pelo poder do incenso. Jabari permanecia ereto e orgulhoso, com o queixo alto. A luz dançava na escuridão de seus olhos, que refletiam a solenidade da cerimônia. Jabari parecia tão distante, que se esforçou para lembrar que era o mesmo que introduzira a tâmara em sua boca. Ela estendeu a mão vacilante e tocou a manga da túnica de Jabari... Retirou a mão precipitadamente, receava mostrar seu nervosismo.

Queb começou a recitar as palavras sagradas do Alcorão que os uniriam em matrimônio, para sempre. Juntos para toda a eternidade.

Elizabeth sentiu uma ponta de dúvida, que desapareceu assim que a enorme e cálida mão de Jabari envolveu sua, gelada, e a apertou firmemente voltando-se para ela com seu olhar terno. Seu corpo foi relaxando. Jabari segurou ambas as mãos, antes de começar a recitar os votos Khamsin.

-Tomo Elizabeth, a mais honrada, corno companheira de minha alma, para sempre. É minha escolhida desde o começo dos tempos. Protegerei-te e a defenderei até a morte, entregando meu amor só a você. É a imagem que devo recordar por toda a eternidade. Do mesmo modo que esta noite permanecerá como lembrança, devo aceitar o convite de sua doçura. Do mesmo modo que o tempo desliza por nossas mãos como a areia do deserto, nosso amor deve permanecer forte e feroz como o vento. Que a lua esta noite vele por nós e sele nossa união com luz prateada do seu céu infinito.

Jabari se calou e acariciou as palmas das mãos de Elizabeth com os polegares. Ela observou seus longos dedos. A força masculina, daquelas mãos, capazes de conduzir a espada com uma habilidade mortal, envolviam as suas no mais doce afago. Jamais ouvira palavras mais belas. Encantada, Elizabeth notou que a tensão de seu corpo se dissipava se rendendo à aceitação. Seus ombros relaxaram.

Todas suas emoções adquiriram vida ao contemplar o orgulhoso guerreiro do deserto. Jabari se entregava a ela por completo. Com esse casamento, Jabari corria tantos riscos como ela. Sua voz profunda e ressoante soava firme e sincera. Elizabeth ouviu sua própria voz na distância, recitando a promessa que Badra a ajudara a memorizar. Embargada pelo mistério da noite e o poder do homem que estava perante ela, disse delicadamente.

-Saudemos a lua esta noite. Protegerá-nos gentilmente e iluminará nosso amor. Jabari bin Tarik Hassid, nobre soberano dos Khamsin, o mais valente e honrado guerreiro do vento, tomo como companheiro do meu coração, no amor de nossos dias passados e para sempre. Nosso amor atravessará as nuvens do tempo como à lua atravessa a noite com sua brilhante luz.

Os olhos de Jabari brilharam com uma intensidade que refletia o resplendor da Lua. Elizabeth não pôde afastar o olhar da deslumbrante beleza de Jabari. Algo roçou sua mão. Elizabeth logo percebeu que era Queb, que atava o cordão de ouro em volta de suas mãos.

-Os uno agora, Jabari bin Tarik Hassid honrado Sheik, a você, Elizabeth Kiya Summers, nossa tão esperada rainha, para toda a eternidade. Que a união de vocês, possa dar como frutos, filhos com espíritos tão fortes como o sol do deserto e que se deixem levar pelos ventos da justiça para sempre.

Como que chamado pelo destino, o vento soprou e agitou o véu de Elizabeth, pressionando-o contra seu rosto. Ela tirou o broche que o segurava deixando que o vento o levasse para longe, na noite do deserto, com os restos da sua vida passada. Jabari segurou seu rosto com as mãos e fundiram seus lábios em um beijo, enquanto Elizabeth fechava os olhos ao passado.

 

Sua esposa. Sua companheira. A futura mãe de seus filhos. Jabari sentiu uma pontada de emoção ante este pensamento, enquanto se dirigia com Elizabeth a sua barraca. Rodeados por seus parentes, que emitiam sons ondulantes com a língua, e acompanhados pelos alegres ritmos de darrabukas. O casal de recém casados andavam escoltados por guardas que levavam tochas douradas. Jabari olhou para Elizabeth, que contemplava atemorizada a animação a sua volta. Possivelmente poderia ser pelo que estava para acontecer na barraca. Jabari estendeu a mão e pegou na de Elizabeth. Queria a tranqüilizar, fazendo-a se sentir bem, e eliminando a tensão que fazia seus rígidos ombros.

Nazim que estava atrás dele, deu-lhe uma alegre cotovelada acelerando o passo para alcançá-lo.

-Soube que encontrara seu destino no dia em que a viu no acampamento dos samak. Sabia que se casaria antes que eu. Deveria ter apostado o cavalo. - Disse ele se vangloriando.

Jabari o dedicou um afável sorriso.

-Você é o próximo. - Advertiu seu melhor amigo.

Nazim retrocedeu fingindo horror.

-E desfalcar todas as mulheres que experimentam os prazeres dos meus serviços? Preciso encontrar, é uma mulher cujos joelhos não se dobrem ante a visão do legendário guerreiro do amor - Disse estufando o peito.

-Esta mulher, talvez não exista. Assim, se você encalhar, sempre posso averiguar o paradeiro daquele homem afeminado. - Respondeu Jabari, se divertido com a expressão do rosto de seu amigo.

Elizabeth os fulminou com o olhar. Em sua bela boca se desenhou um sorriso divertido.

O que foi? Perguntou Nazim com um amplo sorriso.

-Homens. Independente da cultura são todos iguais.

Ela revirou os olhos para cima e riu.

Suas risadas encheram Jabari de uma inesperada alegria. Ao chegarem a sua barraca, Jabari deu uma amistosa palmada em Nazim em sinal de agradecimento por havê-los animado. Ele devolveu o gesto. Ficando sério, o segurou pelos ombros em um fraternal abraço.

-Que seu casamento seja repleto de alegria, e seu amor infinito como as areias do deserto. - Disse a ambos. Embora olhasse para Elizabeth.

O sorriso desapareceu de seu rosto e foi substituído por uma expressão de desconfiança, mas Elizabeth o agradeceu.

Nazim se aproximou de Jabari.

-Boa sorte. Que sua semente, se multiplique em tantos meninos como a areia. - Sussurrou a tradicional despedida e saiu.

Jabari fez um gesto de negação com a cabeça, esperando que Elizabeth não o tivesse ouvido. Tanta formalidade devia estar aumentando sua tensão.

Pararam na entrada da barraca para tirar os sapatos. Com os gritos de felicitação de sua família, e sugestões de ânimo para trazerem ao mundo um menino, Jabari abriu a portinhola da barraca. Fez uma reverência a Elizabeth, que respirou fundo esboçando um sorriso de cumplicidade. Entraram na barraca. Jabari gostava daquele sorriso. Ajustava-se a seu espírito valente.

Jabari se ajoelhou frente ao Almha, que permanecia em um altar provisório em sua barraca. Insistiu com Elizabeth a fazer o mesmo. Em seguida escoltou sua esposa para a cama no seu dormitório e desceu as cortinas. As luzes dos abajures dourados projetavam sombras nas paredes. Os olhos de Elizabeth pousaram na enorme cama no canto do dormitório. Apressou-se em afastar o olhar. Duas manchas vermelhas surgiram em suas bochechas. Elizabeth suspirou e tirou o arco deixando-o cair ao chão, provocando um ruído surdo de moedas. Passou a mão pelos cabelos.

Seus lindos cabelos loiros brilhavam como seda, com reflexo da cor do milho maduro. Jabari pensou que era a mulher mais linda já vira em sua vida e seu coração deu um salto de alegria, se realmente ela sentisse o que havia dito durante a cerimônia. Se ela o quisesse, nem que fosse só um pouco...

-Vem Elizabeth. Sente-se. - Jabari a pegou pela mão e a fez sentar-se em um grosso tapete. Em uma mesa, havia uma cesta de tâmaras, figos e granadas, junto com duas taças de prata. Jabari desenrolou o turbante fazendo uma bola com ele e o guardou no baú. Permaneceu em pé por alguns instantes observando Elizabeth, que fixara o olhar na luz do abajur, como uma mariposa em volta da luz. Jabari cruzou o aposento e sentou-se a seu lado segurando suas mãos. Beijou seus dedos. Jabari não estava muito seguro do que dizer, resistindo em abrir seu coração novamente.

A grossa cortina de seu dormitório se abriu e Queb entrou no aposento. O olhar de Elizabeth pousou no ancião chamán e seguiu seus movimentos. Queb se ajoelhou em frente a eles com uma tigela que continha um líquido amarelado.

Em silêncio, o chamán pousou suas mãos na tigela falando em voz baixa. Jabari chamou a atenção de Elizabeth e apontou o chão convidando-a a imitar o ritual. Ajoelhou-se e inclinou a cabeça até o chão. Contemplou Elizabeth aliviado, por ver que ela imitava seus movimentos. O respeito que Elizabeth mostrava pelo chamán o desconcertava, levando em conta a pouca consideração que ela demonstrara aos Majli, cujo status era maior que o daquele curandeiro.

Quando voltaram a sentar-se, Queb ergueu a tigela e derramou uma generosa porção da beberagem nas taças. Deixou a tigela no chão e ergueu as taças com gesto de reverencia formal.

-Que vossa união seja feliz e bendita, com filhos tão fortes como os ventos do deserto. E que seus corpos sejam um só, para que seus espíritos permaneçam unidos para toda a eternidade. -Ofereceu a taça com mais bebida a Elizabeth e a outra a Jabari. Queb se levantou, recolheu a tigela e os deixou a sós.

-O que é isso? - Elizabeth rompeu o silêncio e olhou a taça como se tivesse veneno. Jabari percebeu um pouco de medo em sua voz musical e admirável.

Jabari removeu sua taça.

-Um bom vinho, da adega de um rico inglês infiel que meu pai cortou a cabeça. - Jabari riu, e olhando para Elizabeth, se calou, desejando poder eliminar o temor em seus lindos olhos azul escuro.

-Jabari, não posso tomar. De verdade.

Jabari se apressou a convencê-la.

-É bom. Não te fará nenhum mal. Queb o prepara para os casais recém casados. - Jabari vacilou. - É um afrodisíaco. Uma poção amorosa destinada a eliminar as... Inibições de uma noiva nervosa.

Elizabeth ficou vermelha.

-Devo supor pela quantidade que me serviu, que nosso chamán acredita que estou paralisada de medo. - Elizabeth olhou a taça com o cenho franzido. - Você também tem que tomar?

Ele encolheu os ombros.

-É uma tradição. Meu povo sempre acreditou que o noivo, sobretudo se for o Sheik, é um homem de grande potência sexual. Claro que ninguém pode dizer o contrário, porque provavelmente, a culpa disso seja essa bebida. Meus guerreiros a chamam “seguro do amor” porque é indicada para aqueles homens preocupados com sua atuação. - Jabari piscou os olhos, divertido.

Finalmente suas palavras conseguiram tirar uma risada de Elizabeth. Ao ver que seus suaves lábios se curvavam formando um sorriso, seu coração deu um salto.

-“Seguro do amor,” que poético. - Possivelmente poderiam comercializá-lo entre os “peixes” infiéis, como seu amigo chama a equipe de arqueólogos. - Muitos pagariam bem por ele.

Jabari lhe dedicou um amplo sorriso, gratamente surpreso pelo fato de que ela reparara no nome que Nazim chamava os ingleses.

-Nazim diria que Queb não poderia fazer uma poção o suficientemente forte.

Oh, não sei não. - Murmurou ela, olhando para o interior da taça com um sorriso - possivelmente um dia, descobririam surpresos que os arqueólogos abandonaram Amarna em busca de mulheres com as quais exercitarem seu “seguro do amor,” e que a beberagem é uma arma muito mais eficaz do que a espada.

Jabari jogou a cabeça para trás e gargalhou. Por Alá, você é muito engenhosa.

-Como se chama? Tem nome? Como se faz?

-Queb o faz com uma planta que cultivamos em nosso jardim de ervas. Tritura sua semente até convertê-la em pó, e a ferve durante várias horas. Chamamos Syrian Rue. A poção sagrada de amor.

-Poção sagrada de amor -- repetiu.

-Pode ter outros efeitos. - advertiu. - A gente pode ter visões muito realistas depois de tomar essa poção.

Jabari ergue sua taça e bebeu seu conteúdo de um gole, limpando a boca com a mão e devolvendo a taça à mesa. Quando Elizabeth levantou a vista e o olhou com seus grandes e inquisidores olhos, Jabari sentiu sua respiração cortar. Estendeu a mão e tocou seu rosto maravilhado por sua suavidade. O desejo de amá-la se misturava com a urgente necessidade de estreitá-la em seus braços e afugentar seus medos.

-Confie em mim, meu amor. Não permitirei que aconteça nada de mal a você. Estarei aqui contigo todo o tempo. Tome.

Ela assentiu. Inclinou a taça e bebeu. Era de um sabor ligeiramente amargo. Elizabeth terminou de beber fazendo uma careta.

Jabari retirou a taça de suas mãos inquietas e a pôs na mesa. Entrelaçou seus dedos com os dela e acariciou suas mãos. Ela o olhava com seus incríveis olhos azuis com um ar de espera. Olhos como lagos azuis... Misturados com apreensão.

-É costume entre os Khamsin, que o Sheik pronuncie uma oração a Alá antes de consumar o casamento. - Disse ele dando a Elizabeth um suave beijo na mão.

Que Alá o ajudasse. Começaria a rezar imediatamente. Jamais uma mulher capturara o seu coração daquele modo.

Depois de efetuar a purificação necessária para a oração, Jabari se ajoelhou, inclinou-se até tocar o chão com a fronte começando a recitar a oração nupcial a Alá, com uma voz profunda e em egípcio antigo. Elizabeth imitou a posição do seu corpo, desejando entender o que dizia. Soava inquietantemente lindo e místico. Virou a cabeça para um lado para ver o homem que estava a seu lado. Seu marido. O homem com direito legal a exigir seu corpo e seu coração. Seus olhos percorreram o tamanho do seu corpo, a roupa branca que o envolvia em um ar de mistério. Seus cabelos brilhavam como o negro cetim à luz do abajur, ocultando o rosto de seu olhar. Sua voz profunda e rouca, a cativava. Uma dolorosa sensação de amor se apoderou de Elizabeth e ela estremeceu ante seu poder.

Isso é o que ela acreditou, mas alguns minutos mais tarde voltou a sentir. Era como se o mundo tivesse parado. Repentinamente, seus pés e suas mãos começaram a tremer e formigar, como se tivessem milhares de diminutas agulhas. Uma etérea debilidade se apoderou de suas extremidades. Elizabeth se sentou, esperando que aquela sensação de enjôo passasse.

Jabari terminou sua oração e se levantou. Ela imitou seus movimentos, esperando que suas pernas não falhassem.

Ele a olhou preocupado, levantou sua taça e a ofereceu.

-Você está bem? Quer água? Em algumas ocasiões, o efeito da poção pode ser poderoso, embora Queb esteja acostumado a controlar a composição por esta razão.

-Água. - Disse ela com voz rouca. Elizabeth pegou a taça, mas viu seu marido em uma imagem imprecisa, se embaralhando com as paredes da barraca.

-Elizabeth?

Ela se balançou e seus olhos ficaram brancos. A taça caiu da sua mão, enquanto desabava no chão.

-Elizabeth? Meu amor?

A voz de Jabari flutuava em uma nuvem etérea, por cima e em volta de sua cabeça. Uma voz irreal que se desvaneceu, quando uma visão a arrastou com ela. Ela se deixou levar voluntariamente, deixando que a inundasse com uma sensação sonhadora, enquanto estava deitada no chão.

A cabeça de Elizabeth dava voltas e ela gemia lastimavelmente. Ela só queria que aquele movimento parasse, mas de repente a escuridão a levou para um túnel profundo.

Devia se lembrar da receita. Armazenar aquelas palavras para a eternidade. Os guardas a seguraram pelos braços e a obrigaram a inclinar a cabeça. Pensou na dor de Ranefer. Sua vida estava a ponto de acabar, mas através dos tempos, seu amor permaneceria à espera, até que voltassem a se encontrar. Fechou os olhos e ouviu o som da espada cortando o ar... Já não voltou a ouvir, até dar seu último fôlego.

Elizabeth dava estertores, lutando para viver. Tentava pegar o ar com as mãos, e sair da escuridão que a asfixiava. Seus olhos piscaram apressadamente e moveu as mãos. Ela sentiu as seguras e fortes mãos de Jabari a rodeando, e obrigando-a a sentir a realidade física, e voltar para aquele plano existencial. Viajara aos limites do mundo espiritual e agora seu corpo a reclamava de novo.

Os lábios de Jabari em suas têmporas proporcionavam uma considerável porção de realidade. Elizabeth se incorporou, concentrou-se em sua respiração e deixou que o ar fresco enchesse seus pulmões. Deixou-se ficar aninhada no peito forte de seu marido e levantou os olhos, encontrando o olhar preocupado de Jabari.

-O que... Aconteceu?

Ele a acariciou. Sua boca se transformara em uma fina linha reta. – Você teve uma visão. Falava.

-Não me lembro. O que eu dizia?

Jabari fez uma careta de preocupação.

-Não deixava de repetir algo que parecia de vital importância. Dizia: “Devo encontrar a receita. Devo encontrar a receita para ela.”

-Por que me aconteceu isso? - Elizabeth precisava superar sua fadiga, apagar as lembranças de suas visões e fazê-las desaparecer na noite do deserto.

Jabari não respondeu. Com os ombros cansados, Elizabeth cobriu o rosto com as mãos, tentando respirar. Olhou Jabari através dos seus dedos separados. Ele recolheu a taça do chão, tirou uma bota de pele de cabra de um prego no pau da barraca e a encheu. A seguir se sentou ao lado de Elizabeth, levantou sua cabeça com uma mão e pôs a taça em seus lábios.

-Beba isso. Vai te ajudar.

Uma obstinação infantil se apoderou dela. Fechou a boca. Nada de poções de amor e bebidas místicas.

-É só água. - Jabari inclinou a taça e Elizabeth bebeu, colocando suas mãos em cima das de Jabari, que seguravam a taça. Ele era tão forte, e sólido, e ela se sentia etérea e fantasmagórica como um jinn. Jabari retirou a taça, deixou-a na mesa e segurou o rosto de Elizabeth entre suas mãos, acariciando suas bochechas com os dedos. Uma expressão de dor e arrependimento se refletiu em seu rosto.

-Sinto muito. Não era minha intenção te fazer mal. A poção devia te acalmar e afugentar seus temores. - Jabari franziu a boca.

Elizabeth apertou suas mãos.

-Me abraça. Preciso sentir seus braços em volta de mim. Sinto-me como se ainda... Não estivesse de todo aqui. Como se a escuridão quisesse me absorver de novo.

Ela se aninhou em seus braços agradecida e Jabari a abraçou. Jabari apoiou o queixo em sua cabeça e beijou seus cabelos. Ela suspirou aliviada. Não sabia por que, mas sentia a sensação de que Jabari faria de tudo para protegê-la. Se ele pudesse, teria se jogado na escuridão para mantê-la afastada do túnel que a sugara naquela visão.

Mas ele era um guerreiro. Um homem, e não um místico. Um homem muito real e poderoso. Elizabeth deslizou suas mãos por debaixo das mangas de sua vestimenta, para poder apalpar seus músculos fortes e sólidos como o mármore. Jabari deixou escapar um profundo gemido e esfregou seu rosto contra a cabeça de Elizabeth.

-Não o faça.

Elizabeth se afastou e o olhou confusa. - Por quê?

-Tenta-me muito. Posso perder o... Controle. Quero amá-la, Elizabeth, como você merece ser amada querida. - Jabari vacilou. - Mas esta noite já sofreu o suficiente. Teremos que esperar até manhã à noite.

Jabari enrugou a testa, como se repentinamente lembrasse de alguma coisa.

-Os anciões irão querer... Provas. Vou enganá-los. Um pequeno corte na mão, um lençol manchado... - Jabari tirou a adaga de sua cintura. - Será o suficiente para convencê-los.

Quando Elizabeth compreendeu no que implicavam suas palavras, sentiu um repentino calor em seu rosto. Sentiu-se subitamente envergonhada.

-Não, não será necessário. - Elizabeth o olhou sentindo-se miserável.

O dever outra vez. Jabari se sentia obrigado a consumar o matrimônio, tal como esperavam dele. O lençol manchado de sangue seria exposto aos Majli, como prova de sua união.

Jabari não a amava. Desejava-a, sim... Mas amá-la... Não. Sentiu-se como uma potranca a ponto de ser entregue a um formidável garanhão. O ato de união não teria mais emoção do que essa.

-Então que seja esta noite. Acabemos com isso de uma vez. Não importa, de qualquer modo, você não me ama. - disse Elizabeth sem ânimo, se sentindo totalmente derrotada e esgotada. - Nunca me quis. Vá em frente, reclame sua conquista. Já não me importa.

Duas mãos suaves tocaram seu rosto. Jabari a olhou nos olhos com tanta ternura, que Elizabeth piscou para se assegurar de que não voltara a ter visões.

-Elizabeth, Elizabeth, meu amor, meu único amor. Sempre a quis. Trago-a no meu coração. -Disse, rodeando sua cintura com os braços.

Ela tentou se libertar.

-Mentiroso. - Sussurrou ela, cedendo as às lágrimas, que se deslizava por seu rosto. – Disse-me que a única que queria, seria uma virgem em sua cama.

-Só disse isso, pra machucá-la. - Admitiu ele. - Queria ocultar meus sentimentos, porque você não sentia o mesmo por mim.

-De verdade? E o que me diz do meu pedido de desculpas? Confessei o que sentia por você e tudo o que fez, foi aceitar minhas desculpas e confiar que meu comportamento melhorasse.

Jabari deixou escapar um profundo suspiro.

-Deve entender que meu avô não a aceitou formalmente quando me entregou a adaga. Minha família se preveniu disso. Eles acreditam que você é muito agressiva. Para que reconhecessem como minha futura esposa, deveriam ver como se humilhava perante mim. Suas desculpas serviram para esse propósito, querida. Não estão acostumados com seu espírito orgulhoso e independente. - Disse ele, acariciando a orelha de Elizabeth com os lábios.

-Meu espírito independente. - Aquele pensamento se tornou azedo em seus lábios. - Dei minha palavra a seu avô de que me submeteria a você, me convertendo em uma esposa mecânica sem pensamentos próprios.

Jabari massageou suas costas, como se quisesse demonstrar que as células que tanto a reivindicavam, agora permaneciam adormecidas.

-Foi meu avô que a forçou a dizê-lo. Não eu. De verdade, acredita que eu iria querer uma mulher assim como esposa? Que minha doce rosa do deserto secasse e voltasse tão vazia e diminuída, como pó?

Jabari começou a rir e a estreitou fortemente.

-Meu amor, eu a adoro. - Avalio seu cérebro exatamente como seu precioso corpo. É um oásis para minha mente, minha alma, e meu coração. Para mim é a única. Sempre foi, meu amor.

Elizabeth olhou absorta para seu rosto.

-Está dizendo a verdade?

-Eu não teria quebrado nenhum costume Khamsin se não fosse. O banho sagrado, permitir a Badra que aprendesse a ler. As tradições do meu povo são sagradas para mim, mas você é mais importante.

Elizabeth inclinou a cabeça para olhá-lo. Finalmente conseguira entrar dentro dele e encontrar seu coração. Era como encontrar um tesouro enterrado nas profundidades de um terreno pedregoso. Elizabeth o olhou nos olhos e, como na primeira vez que o viu, percebeu neles o reflexo de sua própria alma. E nesse reflexo havia amor.

-Quero-a muito, minha linda Elizabeth. - Sussurrou ele, beijando sua mão.

-Eu também o quero muito, Jabari. - Sussurrou ela.

Seus olhos negros, e tão profundos como o céu na noite, capturaram os seus, impondo sua atenção. Nas profundezas desses lagos escuros resplandeciam a paixão e o desejo.

-Elizabeth, mais do que qualquer outra coisa, desejo-a fazer minha essa noite. Quero que nossos corpos e almas se unam para sempre. Mas a decisão é sua, meu amor. O que me diz?

Elizabeth percorreu o contorno de seus lábios firmes com o dedo. Ficou em pé e o puxou para que ele também ficasse. Desabotoou os diminutos botões de pérolas do seu kaftan. Deixou cair o vestido. Despiu sua roupa íntima, ficando nua em sua frente.

-Isso responde sua pergunta?

As pupilas de Jabari se dilataram. Assentiu lentamente com a cabeça. Respirava entrecortadamente. - Assim será.

Ele a levou para a cama, retirando a colcha de seda. Deitou-a nos lençóis brancos. Jabari se ajoelhou frente a ela e segurou seu rosto com ambas as mãos. Ele a olhou como se fosse um objeto muito precioso que admirava enormemente.

-Linda. Você é tão linda. - Disse com a voz rouca de paixão. Jabari se levantou e se despiu rapidamente, deixando suas vestimentas empilhadas no chão.

Elizabeth percorreu com os olhos o corpo nu de Jabari, a largura de suas costas, os músculos de seus braços, e seus estreitos quadris. Ficou sem respiração ao ver o membro viril entre suas pernas. Ao se lembrar da conversa no harém, ela ficou vermelha. “É enorme. Gigantesco. Bem desenvolvido. A partiria em dois”, pensou Elizabeth, notando que ressurgiam seus antigos temores.

-O que foi? - Perguntou Jabari.

Elizabeth engoliu a saliva.

-Acredito que... Farah tem razão.

Jabari enrugou a testa, mas logo seus olhos se encheram de compreensão.

-Ah, ouviu suas conversas. - Sorriu ele.

-Mas é muito... -Elizabeth engoliu a saliva novamente ficando multicolorida. - Muito grande! E não vejo como... - Sussurrou. A bela boca de Jabari desenhou um sorriso de orgulho. Sentou-se ao seu lado e passou as mãos por seus compridos cabelos.

-Conseguirá. Minha bela Elizabeth, não tenha medo. - Disse ele suavemente.

Os olhos de Jabari adquiriram uma terna expressão. Ele segurou seu rosto com as mãos, e roçou seus lábios delicadamente sussurrando em sua boca.

-Ofereço-te, as sete promessas de amor sagradas que todos os guerreiros Khamsin entregam a suas esposas. Prometo-te mil noites de amor tão profundo como à noite do deserto. Prometo-te uma eternidade de paixão tão brilhante como as estrelas longínquas. Prometo te amar e respeitar até meu ultimo suspiro. Prometo-te minha alma, unida à sua até o fim dos tempos. Prometo-te meu amor eterno, meu coração unido ao seu enquanto nossa carne se faz uma. Prometo-te que será minha para toda a eternidade e que nunca sairei do seu lado. Prometo-te criar nossos filhos saudáveis, fortes de espírito e de corações valentes.

Jabari a beijou, com um murmúrio em seus lábios. Por causa da sua poética confissão, Elizabeth sentiu seu coração doer de emoção.

Jabari lhe deu um suave empurrão para que deitasse na cama.

-Deite-se de barriga para baixo. - Pediu.

Ela fez o que ele pediu. Ao voltar à cabeça, Elizabeth viu que ele também se deitou na cama, depois de colocar uma pequena tigela dourada exalando uma deliciosa fragrância, em uma mesa próxima.

-Jabari, o que...

-Shh, meu amor - sussurrou ele. – Relaxe e não se mova. - Jabari afastou seu cabelo e a deitou de lado. Molhou os dedos na tigela e começou a massagear suas costas. Seus dedos peritos deslizavam por sua pele e ao mesmo tempo em que derramavam azeite quente. Elizabeth estremeceu ansiosa, sentindo a riqueza do desejo misturando-se com o grande amor que Jabari sentia por ela.

-É azeite perfumado, uma tradição em minha tribo. Azeite perfumado e temperado. - Disse ele em um sensual arrulho.

Suspirando de prazer, Elizabeth fechou os olhos pelas carícias sedutoras de suas mãos. Jabari foi descendendo as mãos. Elizabeth deu um gemido que foi crescendo em intensidade, à medida que Jabari se aproximava de suas nádegas e a inundava entre as pernas.

Depois de beijar seu traseiro, Jabari pressionou os dedos ao longo de sua coluna, para que relaxasse.

-Deite-se, querida - Sussurrou.

Suas mãos quentes deslizaram pela parte traseira de suas coxas, deixando um rastro de azeite. O corpo de Elizabeth se esticou com intenso prazer. Um fraco gemido subiu por sua garganta.

-Por favor, não vou suportar.

Jabari soltou uma profunda gargalhada.

-Ah, suportará, querida. Suportará isso e muito mais.

Aquilo e muitíssimo mais. Elizabeth nem imaginava o que a esperava nessa noite. Esse pensamento fez com que sentisse uma deliciosa sensação de antecipação sensual se apoderasse dela.

Ela se voltou seguindo as instruções de Jabari, e ele começou a massagear seu estômago com o azeite quente acima e abaixo, tentando-a com suas longas e firmes carícias. O toque em sua pele era suave e delicado, como pétalas de rosas. Jabari tocou em seus seios redondos e os massageou delicadamente, detendo-se por uns instantes para passar a língua por um mamilo, parecido com uma pérola. Outro profundo gemido de sua esposa.

Mmmm, tão tentadora. Jabari precisava saborear Elizabeth. Ele respirou fundo. Lubrificou as mãos de azeite e as deslizou pelos quadris dela, até chegar a suas coxas. Jabari separou ligeiramente suas pernas para acariciar sua carne aveludada, contemplando com insaciável avidez a doçura que o esperava na sua intimidade. Seguindo o costume, Elizabeth fora depilada durante as preparações cerimoniosas. Havia uma razão para ser, pensou Jabari sorrindo. Incrementava a sensação de prazer da mulher. E ele queria que Elizabeth experimentasse aquele êxtase em sua totalidade. Seus dedos começaram a acariciar a intimidade de Elizabeth, com pequenas e delicadas carícias feitas para excitar. Jabari ouviu Elizabeth ofegar e choramingar. Um meloso suco começou a fluir, se fazendo desnecessário o azeite. Enormemente satisfeito com a reação dela, Jabari aumentou o ritmo, introduzindo um dedo em seu interior com cuidado. Elizabeth se arqueou. Jabari franziu o cenho. O corpo de Elizabeth continuava tenso. Devia ser mais terno e delicado com ela. Prosseguiu com suas suaves carícias e introduziu outro dedo em seu estreito canal, com a intenção de alargá-lo pouco a pouco.

Mas foi inútil porque sua carne estava tensa e não cederia. Jabari suspirou profundamente. Pelo menos, estava a proporcionando um pouco de prazer. Fixou seu olhar no centro feminino de Elizabeth. Jabari voltou a sorrir.

Ela não tinha a mais remota idéia do que Jabari faria com ela. Oh, quanto prazer iria proporcioná-la. Muito, muito, lentamente, Jabari começou a mostrar a ela o segredo dos cem beijos. Começou beijando sua pele de cetim, detendo-se na marca de nascimento, e dando uma atenção especial a ela. Jabari não conseguiu segurar o apetite e antecipou impacientemente o banquete.

-Minha bela rosa do deserto, é um festim para minha boca faminta. - Sussurrou ele com a voz rouca em sua pele. – Posso devorá-la a noite toda.

Jabari ergueu um dos tornozelos de Elizabeth e percorreu sua coxa com os lábios, beijando-a delicadamente. Deteve-se entre suas pernas, tocando sua suave e rosada carne com a língua.

Ela se ergueu repentinamente.

-Jabari – gemeu. - O que é isso?

Ele levantou a cabeça, sorrindo maliciosamente pela sua reação.

-A sobremesa.

Jabari deu um suave empurrão em Elizabeth para que voltasse a se deitar. Começou a lambê-la, saboreando-a, volteando a língua em sua delicada carne, consciente de que estava provocando o maior dos prazeres. Ela começou a gemer e a estremecer. Elizabeth teve que segurar suas coxas com as mãos, pressionando-as contra a cama.

Mmmmm. Como uma suculenta tâmara. Deliciosa. Gostosa.

-Por favor, pare... Ohhhh não posso suportar.

Jabari ignorou suas apaixonadas súplicas. Elizabeth começou a agitar a pélvis, arqueando as coxas. Satisfeito com sua resposta, Jabari continuou com seu jantar. Ainda não terminara. Aliás, nem sequer começara. Não se deteria até que a ouvisse gritar seu nome. A torturaria a noite toda se fosse necessário.

Jabari passava a língua pelo corpo inteiro de Elizabeth. Como um gato em um prato de mingau. Saboreando-a. Desejando-a. Sua língua se deslizava magistralmente fazendo delicadas voltas dentro da suavidade de sua carne. A confusão de Elizabeth se converteu em puros gemidos de prazer. Suplicou a Jabari que parasse. Ela não sabia quem era, e o que queria. Ele era desumano em sua busca. Sem piedade. Um verdadeiro guerreiro Khamsin, resolvido a matá-la de puro prazer. Jabari levantou a cabeça. Ela abaixou os olhos e viu a firme determinação em seus olhos negros.

-Grite meu nome, Elizabeth. Grite-o. Quero ouvir o meu nome sair de sua boca. Só então pararei. E Jabari continuou com seu lento.

O coração de Elizabeth começou a palpitar. Seu corpo vibrava, ardia, pegando fogo, à medida que ia aumentando o desejo. Afundava suas mãos no travesseiro. Seu corpo estava tão tenso como o aço finamente temperado de sua espada. Sentia que estava a ponto de explodir em mil pedaços de tanto prazer. Quando Jabari explorou seu interior, Elizabeth gritou seu nome uma e outra vez.

Jabari se deteve, colocou-se ao lado do corpo tremendo de Elizabeth e virou-a para seus braços, acariciando suas têmporas com um beijo.

-Você me satisfaz muito minha querida. É tudo o que poderia desejar em uma mulher. Sua paixão se iguala a minha.

Jabari se posicionou em cima dela, imobilizando-a com peso. Os dedos de Jabari se introduziram em seus cabelos, tirando-os de seu rosto para que ela o olhasse. Seus olhos escureceram de ardente desejo.

Beijou-a em um ato de selvagem desespero, como se tivesse uma terrível besta em seu interior, lutando para sair. Um pouco assustada, Elizabeth tentou se afastar de Jabari o empurrando com as mãos. Ele parou imediatamente, tentando controlar a respiração.

-Me perdoe, meu amor. Havia me esquecido... De sua inocência. Prometo que serei suave.

Jabari começou a acariciá-la. Seus gestos eram suaves e firmes.

Elizabeth se aproximou dele e o estreitou em seus braços, como se temesse que fosse escapar. Jabari era muito delicado, mas sob seu controle, Elizabeth sentia sua urgente necessidade, o ardente desejo de extravasar sua tormenta de emoções.

-Jabari - sussurrou Elizabeth. - Desejo-o por inteiro. Quero que me ame com todo o seu coração. Com toda sua alma. Com todas as emoções que esconde. Deixe-me sentir seu amor.

Ele levantou a cabeça e a olhou com veemência. Aproximou seus lábios dos dela. Sua boca a reclamava com um fogo que não queimava. Ela rodeou seu pescoço com os braços, respondendo a sua própria paixão. As mãos de Jabari se perderam em seus cabelos. Ele se posicionou entre as pernas de Elizabeth.

-Abra-se para mim, meu amor, e deixe-me entrar. – Disse em um rouco sussurro.

Ela se abriu apoiando os braços em seus ombros. Seu poderoso membro se introduziu lentamente em sua feminina suavidade. Jabari penetrou um pouco mais dentro dela. Saía. E voltava a pressionar.

Havia chegado o momento de sentir o poderoso corpo de Jabari contra o seu, de se entregar completamente. Unir-se em corpo e espírito para a eternidade. Elizabeth ergueu os quadris para demonstrar sua aceitação.

-Olhe-me nos olhos meu amor. - Ordenou. Jabari deixou escapar um profundo gemido e penetrou com força em seu interior. O desejo deu lugar a uma dor abrasadora.

Jabari se deteve justo quando ela soltou um suave grito e se retorceu sob seu corpo. Ele a olhou com doce ternura. Ela viu uma pergunta naqueles dois lagos profundamente escuros.

Estava esperando-a. Queria que ela se acostumasse com o contato de sua pele.

A respiração de Elizabeth se fez mais lenta. Jabari penetrou-a com mais força e mais profundo. A magnitude de seu membro a invadiu no mais profundo de seu ser, com uma sensação estimulante. Ela o segurou e o beijou. Uma comunicação muda se estabeleceu entre eles. Pouco a pouco, Jabari começou a penetrá-la novamente. A cada nova estocada, Elizabeth movia seus quadris, volteando-os ligeiramente, gemendo e querendo extravasar aquela sensação abrasadora, como a mais antiga dança do amor. Cada célula do seu corpo pegava fogo. Elizabeth se surpreendeu gritando o nome de Jabari. Parecido com suas visões, um entristecedor enjôo se apoderou dela. Mas cada nova sensação vinha repleta de um prazer que nunca havia experimentado. À medida que Jabari a instruía na arte de amar, Elizabeth sentia que estava se convertendo em uma prisioneira da paixão. Jabari conquissou seu corpo e o encarcerou em uma cela cheia do amor que a ofertou.

-Coloque suas pernas em volta da minha cintura, querida. – Ordenou ele.

Ela obedeceu, arqueando os quadris num louco vai e vem, para encontrar-se com ele a cada investida. Jabari segurou suas mãos por cima da cabeça e entrelaçou seus fortes dedos com os seus. Sua respiração se acelerou entrecortada. Ele deixou escapar um profundo gemido ao mesmo tempo em que a penetrava com força. Seu corpo estremeceu gritando seu nome o sentindo derramar sua semente dentro dela.

Ele a beijou meigamente e se deitou a seu lado. Jabari a abraçou. Ela deitou-se de lado com o rosto contra seu peito.

-Você está bem? - Disse ele, acariciando seu rosto.

-Sim, meu esposo. - Elizabeth deu uma risada. - Você compreenderá, que não nos ensinaram nada disso no Vassar.

Ele sorriu e murmurou:

-Você é tudo o que eu esperava que fosse, meu amor. Tudo o que jamais pude sonhar.

-Você também. - Disse ela, acariciando-o.

Jabari a beijou.

-Tenho que te fazer uma coisa. Espere um momento.

Ela o observou com grande interesse Jabari, pegar uma tigela de água. Polvilhou algo em seu interior e a levou com água e um pedaço de tecido branco para a cabeceira da cama.

Elizabeth sentiu um súbito sinal de alarme. Confiava por completamente em Jabari que dirigiu seu olhar para suas pernas.

Ela o olhou com olhos inquisidores.

-O que é isso?

-Um ritual em nossa tribo, para a noite de núpcias, que todos os maridos devem seguir. - Jabari   separou cuidadosamente as pernas de Elizabeth com as mãos. Quando ele tocou suas pernas com o tecido, ela se sentiu tremendamente envergonhada. Com supremo cuidado, começou a limpar o sangue das coxas dando suaves palmadinhas com o tecido no centro de sua feminilidade.

-As ervas ajudam a aliviar a dor. - Falou Jabari. Para sua surpresa, o mal-estar que sentia entre as pernas desapareceu. Terminando sua tarefa, ele deixou todos os utensílios na mesa e voltou para a cama com ela.

Elizabeth exalou um leve suspiro e se aninhou em seus braços.

-Durma agora meu amor. - Disse ele em um sussurro e lhe deu um beijo na testa. Durma, minha bela rosa do deserto. Minha doce esposa.

Um ruído a despertou na metade da noite. Assustada, Elizabeth se sentou e estreitou o travesseiro contra o peito. A luz do abajur projetava suspeitas sombras na barraca. Elizabeth estremeceu de pavor. A seu lado, Jabari se mexeu despertando e estendeu o braço para abraçá-la. -Carinho, o que houve?

-Um grito... Ouvi algo, parecia um animal selvagem.

-Estou seguro de que é Nazim. Adora cantar à noite. - Brincou Jabari, acariciando seus cabelos.

Brincando, puxão suas orelhas. - Mas bem que parecia ser um gato.

-Ah, um caracal. Às vezes se aproximam do perímetro do acampamento. Os cães os afugentam. São gatos selvagens do deserto.

-Caracal. - Tentou dizer ela. Havia tantas coisas a aprender no mundo do seu marido.

Jabari a olhou com seus olhos negros maliciosamente.

-Elizabeth, alguma vez você já viu dois gatos se emparelhando?

-Não. - Disse ela lentamente, sem deixar de olhá-lo nos olhos. Jabari passou a mão em seus cabelos dizendo em um sensual arrulho. - Então me permita a honra de... Demonstrar-lhe.

Ele afastou os lençóis com um impaciente puxão e a deitou delicadamente de barriga para baixo, pedindo que se erguesse sobre as pernas e as mãos. Elizabeth respirou fundo, meio temerosa do que Jabari faria. Seus longos cabelos ocultavam seu rosto.

Ela sentiu todo o poder da figura musculosa de Jabari deitando-se sobre ela. Ele acariciou suas pernas e a segurou pelos quadris. Quando Jabari se inclinou por trás dela, ergueu seus cabelos e percorreu sua nuca com sua língua. Elizabeth soltou um gemido.

A língua de Jabari desenhou uma linha reta em seu pescoço. Suas mãos acariciaram seus seios esfregando suavemente os mamilos de veludo até que eles se endureceram de desejo.

-Oh, por favor... Não acredito que eu possa suportar. - gritou ela, vibrando antes do tempo.

-O, meu amor. – Ele riu, esfregando seu corpo contra o dela. - Suportará sim, e ainda falta conhecer muitos prazeres daqui para frente.

Cumpriu a ameaça. Suas mãos fortes e seguras massageavam sua feminilidade em uma série de delicadas e ligeiras carícias. Elizabeth arqueou as costas emitindo um grito abafado. Um fogo abrasador ardia em suas vísceras. O fogo que a consumia, ameaçava também envolver sua alma.

-Sim, meu amor, sim. Não o contenha, vamos, minha pequena Elizabeth, quero que seu prazer se equipare ao meu. - Disse ele em tom autoritário e profundo.

O ar acariciava sua pele, dançava a sua volta, fazendo-a sentir viva cada célula de seu corpo, vibrando com força. As chamas percorriam todos os nervos de seu corpo ardente. Gritou o nome de Jabari quando explodiu em seu interior.

Jabari deu um sorriso triunfal e beijou suas costas coberta de suor.

-Sim, meu amor, você é tudo o que esperava que fosse desde momento em que a conheci. Uma mulher sedutora e selvagem em um corpo de virgem, esperando para ser libertada. Ainda há muito mais... Devo a ensinar a verdadeira paixão entre um homem e uma mulher.

-É assim que... Um animal selvagem. O gato... Chama sua companheira. - Sussurrou em seu ouvido.

Jabari mordiscou a macia carne de seu pescoço, enlouquecendo-a. Com um grunhido que o lembrou o caracal, Jabari a penetrou inesperadamente, com selvagem abandono. De joelhos, Elizabeth se balançava para frente e para trás, enquanto o membro de Jabari se introduzia mais e mais profundamente dentro dela, reclamando até o último centímetro de seu ser. Ele a segurou pelos quadris investindo fortemente contra ela, e com tamanha intensidade, que Elizabeth estremeceu. Era uma livre e acalorada união de corpos, paixão contra paixão, nada de doces palavras de amor, nada de suaves carícias, só o desejo de um homem e uma mulher, fundindo-se em um inferno devastador.

Os gritos de Elizabeth se misturaram desta vez, com os de Jabari, perturbando a quietude da noite e do vazio deserto.

Antes do amanhecer, Elizabeth despertou. Por alguns instantes, não soube onde estava. Repentinamente sentiu os sólidos braços de seu marido, que dormia aninhado ao seu lado. Elizabeth esboçou um sorriso secreto. Era a esposa de Jabari, em todos os sentidos da palavra. Elizabeth se libertou de seu abraço e se inclinou para ele, maravilhada por sua perfeição masculina, que brilhava na luz que projetava o abajur. Suas longas e negras pestanas se sobressaiam. Em um sono profundo, seus ombros nus e dourados, arredondados pelos músculos, contrastavam com a brancura dos lençóis. Na noite anterior, as mãos de Elizabeth puderam explorar sua amplitude, passando de leve as unhas na largura de suas costas. Ao recordar sua própria sensualidade, Elizabeth avermelhou.

Elizabeth saiu da cama. O amor era uma preciosa lembrança da noite anterior. Agora havia outro assunto a resolver. Enquanto Jabari e outros dormiam, era o momento perfeito para visitar o Nahid.

Pouco depois, vestida em um kaftan azul, Elizabeth atravessou sigilosamente o acampamento. As orações começariam logo. Não demoraria muito, para que os outros se levantassem.

Seus olhos se fixaram na paisagem iluminada pelo alvorecer. As cinzas das fogueiras da noite anterior resplandeciam na areia. Foi simples encontrar a barraca. Dois guerreiros de aspecto feroz, com a mão no cabo de suas espadas, achavam-se na entrada. Ao vê-la, levantaram-se e inclinaram à cabeça.

-Meu tio. - Disse Elizabeth, com a costa ereta, esperando que seu tom de voz tivesse uma entonação solene. - Quero vê-lo.

-É obvio. - Murmurou um dos guardas. Abriu a portinhola da barraca e Elizabeth entrou. Uma vela disposta em uma mesa proporcionava uma luz trêmula. Nahid estava encolhido em um tapete desfiado, os pés e as mãos amarradas. Outra corda rodeava sua cintura, atando-o em uma estaca cravada ao chão.

Os Khamsin estavam no direito deles, em encarcerar tio Nahid, mas o fato de vê-lo preso como um animal a angustiou. Ajoelhou-se a seu lado sacudindo seu ombro. Ele sentou rapidamente, erguendo os punhos no ar disposto a atacar.

-Tio Nahid, sou eu, Elizabeth! - Sussurrou ela.

-Elizabeth, graças a Alá que é você.

Preocupada, Elizabeth observou a expressão cansada do seu tio. Pôs a mão em seu ombro.

-Encontrou o Almha, tio! O Viu! - Aquilo o animaria.

Os olhos de Nahid se abriram com interesse. - Onde está?

-Na nossa... Na barraca de Jabari. Há umas inscrições nele, mas preciso estar sozinha para decifrar os hieróglifos. -Elizabeth pensou. - Possivelmente mais tarde terei oportunidade de fazê-lo. Mas como posso enviar uma mensagem à sua avó?

-Está muito vigiada?

Ela o negou com a cabeça, esboçando um leve sorriso.

-Ninguém se atreveria a pôr os pés em nossa barraca, nem sequer para guardar o Almha. Não agora que... - Suas bochechas coraram. – Nos casamos ontem à noite. - Disse ela.

Nahid a olhou com incredulidade.

-Minhas mais sinceras condolências por ter se ligado a esse animal desumano. - Disse ele, fazendo um gesto de negação com a cabeça. - Hoje é um dia funesto. O desprezível filho de uma bodega de camêla se casa com minha única sobrinha, manchando o nome de minha família.

-Tio Nahid, meu casamento com ele salvou sua vida. E Jabari... Não é como você acredita. É sensível, considerado e amável. - Elizabeth deu um passo atrás desconcertada. - Por que o odeia tanto?

-Não é a seu marido a quem desprezo. - Nahid franziu as sobrancelhas. - É a essa raça. Os Khamsin não são dignos nem sequer de limpar a lama dos meus sapatos.

-São honrados. São habitantes do deserto, obstinados às tradições e o dever.

-São cães desumanos que só pensam em desonrar a mulheres como você. - Contraiu o rosto de raiva.

-Não concordo com você. Eu acredito que são maravilhosos.

- Não seja iludida, Elizabeth. Esquece o motivo que a trouxe para o Egito?

Os remorsos a fizeram encolher os ombros. Elizabeth negou com a cabeça.

-Não esqueci. Como poderia me esquecer da minha avó?

Nahid mostrou suas mãos, avermelhadas e em carne viva, por causa das amarras.

-Solte-me e conseguirei sua receita. - Suplicou ele.

-Sinto muito. Não posso. - Ela vacilou, percebendo um gesto de dor em seu rosto.

-Se quer ajudar minha mãe, terá que ajudar a mim primeiro.

A lealdade a Jabari contra o amor para com sua avó. O amor ganhara. Elizabeth se equilibrou sobre as amarras de Nahid. Os Intrincados nós eram muito difíceis para ela.

-Preciso de uma faca. - Em uma mesa perto da parede da barraca, havia uma tigela de frutas e uma pequena faca. Pegou-a e cortou as cordas. Nahid imediatamente arrebatou a faca das mãos de Elizabeth. Em seus olhos marrons haviam uma febril intensidade. Elizabeth sentiu seu sangue gelar.

Nahid se levantou e rodeou a cintura de Elizabeth com um braço, arrastando-a com ele. Nahid pressionou a faca levemente sobre seu pescoço.

-Agora diga aos guardas que entrem. Chame-os, não muito Alto.

Elizabeth pediu ajuda em voz baixa. Quando os dois guardas Khamsin entraram correndo na barraca, o rosto de Elizabeth se contraiu de terror, quando sentiu a espetada da faca em suas costas.

-Falei a ele do meu casamento com o Sheik, e agora quer me matar.

Os dois homens se aproximaram com cuidado, enquanto Nahid continuava pressionando a faca contra a pele de Elizabeth de tal maneira, que a ponta formava um furinho em seu pescoço. Nahid jogou sua sobrinha para os guardas. Elizabeth caiu sobre eles, os fazendo perder o equilíbrio. Eles se apressaram em apará-la e Nahid aproveitou a oportunidade para dar um chute na virilha de um deles. O guarda deu um grunhido e levou a mão na parte gravemente ferida. Nahid se voltou e apunhalou o outro em um ombro. Antes que pudessem se recuperar, Nahid os deixou sem sentidos ao golpear-lhes na cabeça. Elizabeth nunca vira seu tio, o estudioso, sempre lendo, dia e noite, atuar daquela maneira. Parecia um guerreiro.

-Leve-me ao Almha.

Seus lábios se moveram, mas não emitiram nenhum som. Elizabeth saiu da barraca. O acampamento continuava dormindo.

-Rápido. - Ordenou ele em um sussurro feroz.

Elizabeth foi correndo para a barraca de Jabari. “Por favor, tomara que ele esteja dormido!” Elizabeth abriu a portinhola e entrou silenciosamente na barraca, seguida de Nahid. O Almha permanecia no lugar de honra, no alto de um altar em uma mesa de sândalo. Duas velas, quase se apagando iluminavam o Almha sagrado. Para a surpresa de Elizabeth, Nahid a obrigou a ajoelhar-se. Ele fez o mesmo e inclinou a cabeça.

Levantou-se rapidamente e se aproximou do altar. Um brilho de triunfo se refletia em seu rosto.

-Lamento o que vou fazer, querida sobrinha. Mas o faço pelo bem de meu povo, pelo bem da gente de minha mãe, a quem abandonou faz tanto tempo. Eu, Nahid Wilson, descendente dos guerreiros Farris, reclamo o disco sagrado. O dia da vingança dos Ao-Hajid chegou ao fim. O Almha é nosso.

Sentiu um forte golpe na cabeça. A seguir a escuridão se apoderou dela e desabou ao chão.

 

Sentiu uma compressa fria na testa. O murmúrio de vozes, algumas raivosas e outras preocupadas. Um exército de cavalos cavalgavam por sua cabeça dolorida. Elizabeth fez um gesto de dor, negando-se a abrir os olhos pelo machucado em sua cabeça e em seu coração.

Que estúpida havia sido. Como pudera se deixar enganar daquele jeito pelo Nahid. As emoções a afligiam quase com a mesma intensidade que a dor na cabeça. Depois de tudo, descobrira que fazia parte de uma família. Uma cruel brincadeira do destino. Seus parentes levavam o sangue dos inimigos de seu marido.

-Elizabeth, abra os olhos.

Devia obedecer aquela voz profunda e cativante. Ao abrir suas pálpebras, viu seu marido sentado na borda da cama, com uma folgada vestimenta branca. Jabari a olhava com a boca franzida e a testa enrugada de preocupação. Ele limpava a ferida delicadamente.

-A ferida deixou de sangrar. Você está bem?

Não sabia. Ele ainda não sabia. Invadiu-a uma sensação de alívio, acalmando um pouco a dor.

-Acredito que sim. - Elizabeth levou a mão ao calombo na têmpora. Algumas parentas de Jabari, entre elas Asriyah, estavam na casa. E os homens... Nkosi. Estava com uma evidente expressão de raiva terrível, em seu rosto enrugado.

Elizabeth enrolou com um dedo tenso, uma mecha de cabelo solto. Ganhara uma família e traíra seu marido, isso nas vinte e quatro horas da suas bodas. Perguntou-se se seu casamento seria o mais curto do que se esperava. Jabari se divorciaria dela?

Deteve seu olhar nos lábios crispados de Nkosi.

Ou cortariam sua cabeça?

A suavidade da cama era bem mais tentadora e atraente, que os gestos destorcidos que a rodeavam. Mas não podia continuar se fazendo de vítima por muito tempo. Teria que ser valente e dizer a verdade. Elizabeth se sentou na cama com cuidado. Jabari deixou a compressa e segurou uma taça dourada com um misterioso líquido opaco.

-Isso aliviará sua dor de cabeça. Não se preocupe. Não a fará ter visões.

Ela pegou a taça, bebeu, e a devolveu a Jabari. Elizabeth desceu as pernas da cama, apoiando-se física e emocionalmente em Jabari.

Se todas aquelas pessoas deixassem de olhá-la. As mulheres com perplexa decepção, os homens com aberta hostilidade.

-Elizabeth, o que aconteceu? Dois dos meus guerreiros foram feridos e o Almha e Nahid desapareceram. - O tom de seu marido não era de recriminação, embora pudesse perceber um tom inquisidor em sua voz.

Ela abaixou a vista para o chão belamente atapetado.

-Nahid escapou com ele. Golpeou-me na cabeça.

Murmúrios de indignação se estenderam pela casa. Uma voz masculina gritou.

-Como pôde deixá-lo escapar com o disco sagrado?

Ela ergueu os olhos e viu a expressão zangada de Jabari, que fazia um gesto de desdém para os parentes.

- Esta não é uma sala de interrogações, e sim, meu quarto. - Todos vocês. Saiam.

-Querido neto... -Nkosi deu um passo adiante e pousou a mão no ombro de Jabari. - Nossa gente merece saber a verdade.

Jabari assentiu, com um gesto sombrio.

-Mas aqui não. Na sala do conselho. Reúna meus comandantes e os Majli.

Elizabeth apertou o braço de Jabari. Chegara o momento de dizer a verdade. Oh, como desejaria poder se sentar com ele, só os dois e tentar lhe dizer a verdade. Mas o Almha, o disco sagrado da tribo, era um assunto público. E sua explicação teria que ser pública.

Observou as pessoas saírem da casa em fila, e se alegrou por ter um pouco de privacidade. Os únicos que ficaram foram Nkosi e Asriyah. Possivelmente agora poderia dizer a Jabari. Recebeu um leve puxão no braço que a indicou o contrário. Elizabeth se voltou, dando de encontro com Asriyah.

-Jabari precisa se reunir a sós com seu avô, antes que comece a reunião. Venha comigo. Tomará o café da manhã e se arrumará em nossa barraca. - Disse Asriyah.

Elizabeth abriu a boca para protestar, mas Jabari sorriu para ela tranqüilizando-a. Nkosi não se separava de Jabari, como se temesse deixá-lo a sós com ela.

Não era o momento para protestos, nem de belas palavras para lembrá-la da paixão que haviam compartilhado há algumas horas antes. Elizabeth abandonou a barraca, atormentada pela angústia. O que aconteceria, quando Jabari se inteirasse de que se casou com um membro da tribo que mais odiava?

Na barraca da Asriyah, provou um pouco do café da manhã. Yogurt, figos e leite de camêla. Mais tarde, Elizabeth se sentou só, na sala dos Majli, perante uma fileira em forma de ferradura, de rostos acusadores. Onze membros do conselho e os comandantes de Jabari se encontravam apinhados na barraca. Nunca antes havia se sentido tão só e abandonada. Nem sequer quando seus pais morreram.

A portinhola da barraca se abriu e entrou na estadia Jabari, acompanhado por Nazim e Nkosi. Vestido com o binish azul de guerreiro, armado com a espada e a adaga na cintura, permaneceu em pé alguns instantes examinando a multidão. Com as mãos nos quadris, Jabari estufou o peito. Elizabeth contemplou maravilhada, o poder que irradiava. Seu marido, cujas mãos afetuosas percorreram totalmente seu corpo na noite anterior, o mesmo que gritara seu nome, no ponto culminante de sua paixão.

Agora, nenhum rastro de ternura em seu rosto. Com os ombros musculosos e eretos, Jabari se dispunha com confiança a dissipar a confusão, e resolvido e encontrar a verdade, nem que fosse com a precisão da folha afiada de sua espada.

Os homens ali reunidos inclinaram levemente as cabeças em sinal de respeito ao seu líder. Elizabeth apoiou suas mãos no tapete e se inclinou até tocar a cabeça no chão. Essa é a primeira vez que esse gesto de submissão não a incomodou. Desejou permanecer naquela posição para não ter que ver a cara de dolorosa decepção de Jabari, quando soubesse a verdade.

Seus passos retumbaram no tapete e Elizabeth se sentou frente a eles. Esperava que o trio começasse a interrogação, como se fossem julgar um delito. Qual não foi sua surpresa, ao ver que Jabari se colocou a sua direita e pegou sua mão e apertou. Sentou-se e colocou suas mãos em seus joelhos com as palmas para baixo. Nazim se sentou à esquerda de Elizabeth piscando os olhos   afetuosamente. Protegida pelos dois guerreiros que tanto confiava, ela confiou em si mesma.

Nkosi não lhe reservou piscadas e nem tapinhas tranqüilizadores. Ficou olhando-a com hostilidade. O ancião, chefe dos anciões se sentou em frente a ela, tão perto, que Elizabeth quase que podia contar os pêlos de sua áspera barba. O juiz da execução. Não perdeu um minuto.

-Libertou seu tio para que pudesse roubar o Almha?

Elizabeth engoliu a saliva. Para superar seus medos, concentrou-se no perfume de seu marido. Um limpo e fresco aroma de especiarias se desprendiam do seu binish. Sua presença enorme e tranqüilizadora agia como um muro protetor, diminuindo a dureza da voz irada de Nkosi.

-Libertei meu tio, mas não para roubar o Almha.

Os sussurros se alastraram pela barraca, macios como à seda. Nkosi levantou a mão calando-os imediatamente. Elizabeth viu o reflexo dos raios que irradiaram a seu neto, em sua soberba dignidade.

-Para que então?

-Preciso da receita dos antigos remédios inscritos no dorso do Almha, para um membro da minha família. - Voltou-se para Jabari, que a olhava com as sobrancelhas arqueadas. - Esta é a verdadeira razão pela qual procurei o Almha.

-Como soube de sua existência?

Elizabeth falou dos papiros que havia encontrado no baú de sua avó.

-Era beduína, de uma tribo próxima a essa, acredito. Mas abandonou a tribo há muitos anos.

Os olhos de Nkosi se arregalaram e escureceram. Seu corpo se retesou como se sentisse uma poderosa emoção.

-Que tribo? - Perguntou com voz quebrada.

Ela vacilou e abaixou os olhos, desenhando círculos na perna com o dedo. Jabari se aproximou e pediu que continuasse.

-Elizabeth, deve responder a pergunta.

Elizabeth o olhou, lamentando interiormente a gravidade do seu olhar. Ela segurou a mão dele, com a sensação de que era a última vez que sentia o contato de sua pele. Voltou a apertar a mão de Jabari a apoiando em seu joelho.

O peito de Jabari exalou um enorme suspiro.

-Ela jamais o disse. Sempre manteve segredo... Eu nunca soube até hoje, quando Nahid me disse. Devem entendê-lo... - Elizabeth esfregou o nariz.

-Mente. - Disse Nkosi. - Vejo em seu olhar.

Ela estendeu as mãos, mostrando-as com as Palmas para cima. Badra a ensinou esse gesto, que no mundo árabe significa “O que quer de mim”?

-Elizabeth, fale a verdade. - A voz de Jabari se fez mais grave.

-Que tribo? - Exigiu Nkosi.

Elizabeth olhou novamente para o tapete.

-Os Ao-Hajid.

Os que estavam ali reunidos deram um grito abafado de assombro. Tão profundo que foi um milagre não ter absorvido as paredes da barraca. Notou que Jabari retirava a mão do seu joelho e a forçava a olhá-lo nos olhos. Jabari fungou, ficou rígido e olhou para frente. Nos olhos de seu marido havia um escuro abismo.

Nkosi a apontou com um dedo tremente, com justificada exultação. Toda a imparcialidade desapareceu no momento em que ele a apontou. Um gesto tão descortês no mundo de Nkosi, como o que ela fizera a Jabari, mostrando a sola de seus sapatos. O rosto de Nkosi se contraiu de raiva. Ela se afastou para trás, tremendo de medo de sua cólera.

-Sabia que havia algo abominável nesta mulher. Fez-se passar pela nossa rainha para ganhar a nossa lealdade e roubar o Almha.

- Aquela acusação foi recebida com gritos abafados de surpresa.

Elizabeth ficou com a boca aberta em sinal de protesto.

-Como é possível? Eu ainda estou aqui! E o Almha não!

-Não teve em conta a traição de seu tio. É um Ao-Hajid, tem o coração de uma serpente. Utilizou-a... - Disse Nkosi com ironia - Do mesmo modo que você utilizou nossa gente.

-Admito. Fui uma estúpida. Mas não me fiz passar pela Kiya! Tenho a marca de nascimento.

-E a pomba? - Exigiu Nkosi.

-A pomba é meu pássaro Isis - Admitiu-a. - Mas eu...

-Utilizou o pássaro para nos enganar. Não nos disse que era um pássaro domesticado. Fez-nos acreditar que era a profecia.

-Precisava da pomba para fazê-los acreditar no que queriam, e assim poder escapar. Jamais quis me casar com seu neto. - Já lhe disse isso! Ele me forçou a fazê-lo.

Elizabeth poderia ter engolido a língua na mesma hora. Queria que a adaga de Aziz o fizesse nesse momento. Humilhara Jabari diante de seus guerreiros, declarando sua negativa em casar-se com ele. Agora pensariam que seu casamento era uma farsa. E seus votos uma mentira.

-Ela é uma maldição de mulher que não sabe qual é o seu lugar. Desonrou nosso Sheik com seu coração mentiroso. - Bramou um dos comandantes de Jabari. Outros expressaram entre dentes seu acordo.

Nazim estava com seu rosto de menino crispado de raiva. Seus olhos âmbar a olharam com expressão hostil. Insultara terrivelmente seu melhor amigo, algo que aquele guerreiro não esqueceria tão facilmente. Mas, se a reação de Nazim doeu nela, a de Jabari causou uma agonia atroz. Os olhos de seu marido estavam cheios de dor. A firmeza de sua mandíbula e a bochecha vibravam violentamente.

“Mas eu te quero, Jabari,” queria gritar. Elizabeth recordou as promessas de amor da noite anterior. Pareceu-lhe que já havia acontecido em vidas anteriores. Jabari afastou o olhar de Elizabeth. Seus olhos estavam mais frios que o metal que pendurava em sua cintura. Ela procurou as palavras para acalmá-lo uma vez mais.

-Eu jamais trairia seu povo ou o seu amor, Jabari. - Elizabeth queria muito poder romper aquele muro de pedras, que havia se erguido entre os dois.

-Já o fez. - Respondeu Nkosi. Suas palavras pareciam selar sua condenação.

Elizabeth olhou enlouquecida a sua volta. Cada rosto era um gesto de desaprovação. Culpado. Podia ver o veredicto escrito em seus rostos, como se estivesse escrito em suas testas. Sua nuca, já tensa, ergueu-se de tal modo que parecia esperar o golpe mortal. Estava com as mãos frias e suadas. Ninguém acreditava nela.

A mesma tribo que tinha batido tambores e celebrado as bodas na noite anterior, se converteu em uma força contra ela. A seus olhos, Elizabeth era o inimigo. Ela havia libertado o homem que roubara o Almha. Estava aparentada com a tribo que mais odiavam. Enganara-os deixando pensar que era sua reverenciada rainha. E pior ainda, insultara o seu querido líder, privando-o de sua honra.

Nkosi olhou para seu neto e golpeou o chão com as mãos.

-O que decidiu, querido neto? O que vai fazer com essa... Traidora? - Disse ele, apontando a adaga em seu cinturão.

Jabari desdobrou seu magnífico corpo e se levantou. Pareceu crescer e crescer até que se plantou em frente a ela. Nazim o acompanhou. Os dois homens deram um passo atrás, até estarem perfeitamente alinhados com Nkosi. Elizabeth estava sozinha.

Seu porte estava repleto de dignidade. Os olhos de Jabari queimaram os seus com um olhar penetrante. Ela estremeceu dentro do seu kaftan.

-Elizabeth, você decepcionou-me. - A partir de agora, deixará de se conhecer com o nome de Kiya, nossa rainha. Permanecerá na barraca das minhas parentes mulheres. Asriyah se ocupará de suas necessidades. É tudo o que tenho a dizer no momento.

Voltando-se imediatamente, abandonou a barraca. Nazim a olhou com uma expressão mais suave. Apontou a porta da barraca com a cabeça.

-Vamos senhora, eu a escoltarei.

Elizabeth ficou em pé, sem deixar de olhar o chão. Simplesmente, não podia suportar ver a raiva nos rostos a sua volta... Ou deixar eles contemplarem a dor no seu.

Sua bela rosa do deserto, sua esposa, era agora seu pior inimigo.

O homem ferido fora substituído pelo furioso guerreiro Sheik dos Khamsin. Jabari tropeçou em seus próprios pés quando entrou em sua barraca. Deu-se contra o pau e agarrou forte a sua apreciada vida.

Um gemido gutural surgiu do mais profundo de seu peito. Afundou-se no tapete e cobriu o rosto com as mãos.

Estava com os ombros caídos de vergonha. Seu amor por Elizabeth desonrara seu querido povo. Se não tivesse descoberto sua marca de nascimento enquanto faziam amor, nada disso teria acontecido. Seu coração o levou a desgraça. Entregara seu objeto mais sagrado a seus inimigos triunfalmente.

Sua esposa, só por uma noite. A tribo o forçaria a se divorciar dela, desterrá-la ou inclusive, algo pior. Podia perdoar sua vida, mas não poderia viver com ela. Os Khamsin a veriam como um escorpião entre eles, disposta a espicaçar de novo. Para ele, Elizabeth era tão irrecuperável como um momento de felicidade fugaz. As dúvidas surgiriam em suas cabeças. As palavras de amor de Elizabeth na noite anterior fora uma estratégia para envolver seu coração com beijos e subjugá-lo, para poder roubar o Almha. Fez em pedacinhos sua confiança nela. Pôde ouvir como uma peça se rompia claramente em duas, com a confissão que seu avô forçou de seus lábios.

Uma tosse vacilante do lado de fora o obrigou a se acalmar. Jabari respirou fundo, sentou-se com as pernas cruzadas e ficou ereto, olhando o altar vazio, um símbolo de seu coração vazio.

-Jabari, posso entrar? - Nazim parecia duvidar.

Jabari deu sua permissão. Quando seu amigo entrou e se sentou a seu lado, Jabari não ergueu o olhar.

-Por Alá, que apuro, Jabari... -Nazim suspirou, tocou o coração e a seguir os lábios, o gesto de guerreiro de honra antes da batalha.

-Não deve se apaixonar por ninguém. Ninguém o culpa. Jabari afastou o olhar do altar vazio.

-A falta é só minha. Deveria ter matado Nahid quando tive a oportunidade. Mas como se fosse uma mulher, enfraqueci. Por uma mulher, enfraqueci. Como o meu pai. - Golpeou o joelho furiosamente com o punho.

Nazim pousou a mão em sua espada.

-Pelo amor de uma mulher. Não há nada do que se sentir envergonhado. Não pode me ocultar isso, meu amigo. Eu teria feito o mesmo.

-De verdade? - Jabari olhou para ele.

-De verdade.

- Nazim voltou a tocar o coração.

- Como está minha esposa... Elizabeth?

-Calada. Retirou-se docilmente para a barraca da Asriyah. Não disse nada em sua defesa. Badra está com ela agora.

-Nada? Nada de palavras amáveis nem declarações de inocência?

-Não. Parece haver se resignado ao que tiver que acontecer.

Jabari mordeu os lábios e coçou queixo. Se Elizabeth estivesse mancomunada com os Ao Hajid, teria agitado suas maravilhosas pestanas e teria suplicado por misericórdia. Em vez disso, permanecera calada. Algo em seu interior o dizia que ela é inocente no crime de seu tio. A única coisa do que podia culpá-la, era de ter dado crédito ao Nahid. Mas agora não podia defendê-la. Maiores assuntos o reclamavam mais, do que seu casamento e o seu coração. Devia ir procurar o Almha.

Contudo, não pôde evitar dizer:

-Ela perguntou por mim?

Nazim esfregou os olhos.

-Tudo o que disse enquanto se dirigia à barraca de sua tia foi: “Pelo menos, soube o que é paixão, embora só por uma noite.” Disse em inglês, mais a ela mesma, do que a mim.

Jabari estremeceu. Afastou todos seus pensamentos sobre Elizabeth de sua mente.

-Reúna meus guerreiros em um conselho de guerra. Devemos planejar nosso ghazu cuidadosamente, para que o inimigo não suspeite nossa aproximação.

Nazim assentiu com a cabeça.

-Farei do jeito que você quer. - Apertou de novo a mão do Jabari. - Estou aqui por você, meu amigo. Sempre pode contar comigo. Confio em seu julgamento. Se fosse por mim, continuaria sendo sua esposa. Sei o muito que a quer.

Profundamente comovido, Jabari só pôde assentir. - Obrigado - Disse com voz rouca procurando ocultar suas emoções.

Quando Nazim se foi, Jabari entrou em seu quarto e se aproximou da cama. Ficou olhando os lençóis brancos, manchados de sangue, como prova de sua inocência. Manchadas com a prova de sua paixão. Fechou os olhos, recordando seus doces suspiros, seu nome em seus lábios. Seu coração se revestiu com uma capa de aço.

Jabari pegou o suave travesseiro de seda que continuava com a marca da cabeça de Elizabeth. Desprendia um leve perfume da flor do romeiro. Jabari cheirou a fragrância de sua esposa, afundou o rosto no travesseiro e deixou sair sua agonia em um gemido.

-Elizabeth, deve comer algo. Por favor.

No interior da barraca de Asriyah, Badra segurava uma tigela de figos. A fruta preferida de Elizabeth. Ela afastou a tigela. Sentia pontadas em seu estômago. A única coisa que pensava, era na expressão venenosa de Jabari. Deveria estar odiando-a por sua traição.

-Por favor, me deixem em paz. - Disse, olhando com desconfiança para Badra. - Por que não me ignora como os outros? Sou sua inimiga.

Badra deixou a fruta no chão e segurou sua mão.

-Sua linhagem de sangue não tem nenhum significado para mim. É uma mulher inteligente e afetuosa. Trouxe sorte à vida de Jabari. Jamais vi seus olhos brilhar tanto, como quando está com você. É a luz do seu coração.

-Já não sou nenhuma luz. Só trouxe escuridão a meu marido.

-Não é sua culpa. - Insistiu Badra.

-Precisava ter o conhecido melhor. Eu sentia que Nahid escondia algo.

-É um chamán? Pode ler mentes? Deve confiar no destino, em seu destino. Alá a trouxe até aqui com um motivo. Você deve acreditar nisso, apesar do que aconteceu.

-Que motivo? Eu só posso ver destruição.

A voz de Badra era serena.

-Às vezes uma coisa deve se destruir para voltar a construí-la de novo e fazê-la mais forte.

Os ombros da Elizabeth desabaram. - O que diz não tem sentido.

-Há um ditado que diz: “Pergunte antes, aos homens com experiência e não aos instruídos.” Quais são nossas experiências mais intensas de aprendizagem? Quando cometemos enganos. Proporcionam sabedoria. Não se esqueça.

Elizabeth levou as mãos em suas têmporas.

-Sim. Aprendi algo à força... Em não confiar.

-Você depositou sua confiança em seu tio, porque é de sua família. Agora deve depositar a mesma confiança em um desconhecido que a quer. Não é de seu sangue, mas Jabari é seu companheiro. E essa união sagrada não pode ser destruída.

-Só se ele o decretar. E deve fazê-lo. A tribo jamais permitirá que continuemos casados. - Essas palavras fizeram com que seu coração se contraísse. Houve um dia, em que tudo o que queria era se livrar da ameaça de se casar com Jabari sacrificando sua liberdade. Agora que a tribo a liberava para partir, descobriu que o amava muito para poder fazê-lo.

-Não julgue Jabari com tanta dureza. - Disse Badra.

Elizabeth percorreu a barraca com o olhar. Estavam sentadas no espaço aberto dela. As laterais estavam erguidas para que entrasse a brisa do deserto. Algumas das parentas de Jabari passavam, sorrindo para Badra e evitando o olhar de Elizabeth.

-Como posso me sentir segura se ninguém se digna nem sequer a me olhar? E o guarda... Não o esqueça. - Elizabeth virou a cabeça para ver o guerreiro de Jabari fazendo a guarda, com a espada em mãos.

-Jabari o pôs aqui para protegê-la, não para vigiá-la. - Disse Badra. -. Teme por sua segurança.

Uma sensação quente se apoderou dela. Ele se importava. Esse pensamento lhe deu forças para pensar. Por que Nahid levaria o Almha aos Ao-Hajid?

Elizabeth esfregava as palmas das mãos nos os joelhos.

-Badra, por que motivo os Khamsin e os Ao-Hajid são inimigos?

Badra encolheu os ombros com um suspiro.

-Uma vez perguntei a Asriyah. Ela me disse que houve um tempo em que as duas tribos conviviam pacificamente. Então os Ao-Hajid começaram a criar cavalos. Aqui, no deserto, não há suficiente erva para alimentar a todos os cavalos. Foi então que começaram os problemas.

-O dinheiro. Grande inimigo da amizade. - Murmurou Elizabeth.

-No caso de Nkosi, seu ódio surgiu por causa do amor a uma mulher que o rechaçou. Uma mulher dos Ao-Hajid, quando ele era o sheik dos Khamsin. Conheceram-se quando ele estava caçando perto de seus terrenos tribais e ela ia pegar água de um poço. Começaram a se encontrar em segredo e se converteram em amantes.

O pulso de Elizabeth começou a acelerar. O avô de Jabari tinha uma amante secreta, da tribo da sua família. -Casaram-se?

-Não. Nkosi amava a mulher com toda sua alma. Estava disposto a deixar o poder por ela. Deu de presente a ela um colar de prata como prova do seu amor. O colar tinha um pequeno pingente. Agora seu coração voltava a bater no seu ritmo habitual.

-Como se chamava essa mulher?

Quando Badra disse “Jara” Elizabeth conteve um grito abafado de assombro. A amante secreta de Nkosi era sua avó.

-Costumavam-se encontrar no lugar ao qual consumaram seu amor. Nkosi planejava se casar com ela e trazê-la para morar aqui com sua gente. Ele chegou lá na alvorada, tal como havia prometido a ela em um bilhete, mas ela nunca apareceu. Ele esperou muito. Voltou para o acampamento... Sozinho e com o coração destroçado. - Disse Badra.

-E o que aconteceu a Jana? Alguma vez souberam?

Nkosi perguntou a todas as caravanas que passavam. Ela partiu para o Cairo e se casou com um oficial britânico. - Badra franziu o cenho. – Depois disso, seu ódio para os Ao-Hajid foi aumentando.

-Não entendo. Por que ela não apareceu?

Badra franziu a boca.

-Os Ao-Hajid espalharam o rumor de que ela brincara com os seus sentimentos para o insultar, e humilhar. Ela possivelmente nunca o quis.

-Ela o queria. Porque conservou o colar que ele lhe deu de presente. Eu sei, porque essa mulher a que Nkosi tanto amou era minha avó.

Seus olhos se abriram de surpresa.

-Não pode ser.

-Oh sim, é. - Elizabeth falou do pendente que encontrou no baú de sua avó, junto às vestimentas cerimoniosas. – Guardou-as durante todo esse tempo. Devia o amar muito.

-Mas por que ela não apareceu? - Badra levou a mão ao coração. Seus os olhos se encheram de lágrimas. - Que história triste.

-Não sei. Possivelmente foi um mal-entendido.

-Possivelmente. Mas olhe que brincadeira do destino. Devolveu a sua neta aos Khamsin! As duas tribos estão destinadas a se unirem.

-Unidas. - Elizabeth suspirou. - E tudo o que tenho feito foi separá-las ainda mais. Oxalá eu nunca tivesse vindo ao Egito!

-Teria que vir Elizabeth. Eu senti. É por isso que roubei sua pomba. - Badra sorriu envergonhada.

Roubou sua pomba? Aquilo despertou suspeitas em Elizabeth.

-Trouxe a Isis ao acampamento quando deixou o harém... Então você...

-Soltei-a perto do acampamento. Sabia que estava fome e Nazim estava dando de comer ao Ghazi. E para onde vão as pombas famintas? Para a comida.

Elizabeth se animou e começou a rir do estratagema de Badra.

-E seu sagr não disse nada?

Badra esboçou um sorrisinho tímido e coquete.

Ele me prometeu que guardaria o segredo. Não queria que você partisse Elizabeth. Ao ver sua marca de nascimento na primeira noite, me ocorreu à idéia. Sabia que Jabari a levaria para a cama. Desejava-a ardentemente. Sabia que descobriria a marca de nascimento e se casaria com você para que se cumprisse à profecia.

-Se assegurando, de passagem, de que eu ficaria aqui e a ensinaria a ler. - Concluiu Elizabeth sem deixar de rir. - É muito esperta, pequena Badra! Tão calada e reservada, conspirando todo o tempo.

Badra deixou de sorrir.

-Aprendi a ser assim desde muito pequena. Fareeq abusou da minha inocência e de mim, mas não permiti que ele destruísse minha alma. É tudo o que tenho.

Elizabeth apertou a mão de Badra, maravilhada por sua força interior. Ela recuperou a sua própria.

-Posso sair dessa barraca?

-Tal como lhe disse, você não é uma prisioneira. Não obstante, será melhor que a acompanhe. Onde quer ir?

Elizabeth se pôs a pensar. Teria que descobrir os planos de Jabari e seus homens, saber quando iriam atacar.

-Badra, preciso ver meu marido. Sinto-me como se tivesse sido arrancado do meu lado. Como se tivessem arrancado parte do meu coração. - Elizabeth sentia uma verdadeira dor física no peito.

Badra assentiu.

-Ajudarei-a. A levarei até o Jabari.

Elizabeth pensou na fria escuridão de seus olhos e estremeceu.

-Não, não quero que me leve até ele. Só preciso vê-lo. Não quero que ele... Veja-me. Disse inclinando a cabeça.

-Ah... Teme o que ele possa dizer. - Badra pôs uma mão no ombro de Elizabeth e levantou o queixo com a outra. - Vamos, o encontraremos. Deve estar reunido com os guerreiros e os Majli. Mas devemos ser hábeis.

O alegre sorriso de Badra a armou de coragem. Uma vez fora da barraca, o guarda queria as acompanhar, mas Badra ergueu a mão. Fez uma cara coquete, aproximando dos olhos do guarda, o mais permitido pelo protocolo. Deixou escapar um suspiro sensual. Elizabeth a observou atônita.

-Por favor, está tudo bem. Eu ficarei com ela. Sei que é um homem corpulento e forte podendo nos proteger, mas vamos voltar em seguida.

O guarda assentiu e um estúpido sorriso apareceu em seu rosto, como se estivesse totalmente enfeitiçado pela Badra. Quando estavam o suficientemente longe dele, Elizabeth perguntou a Badra como conseguira enrolar o guarda.

-O flerte pode ser uma boa arma para uma mulher. Quando se é jovenzinha, aprende-se muito rápido que os homens alardeiam todo o poder. Mas pode-se contestar esse poder... Com suas armas de mulher.

-Isso jamais me ocorreu. - Confessou Elizabeth.

Quando o guarda as perdeu de vista, Badra trocou de direção. Suas sandálias levantavam poeira à medida que se deslizava pela parte traseira das barracas. Quando estavam chegando à barraca que Nkosi interrogou Elizabeth, Badra parou. Apontou a barraca com a cabeça.

-Ainda não estão aí dentro. Mas logo estarão.

Badra caminhou ao longo da barraca, parou e riscou um pequeno buraco à altura da cintura. -Venha aqui. - Disse ela com ar satisfeito. – Dá para ver tudo, até os pelos dos queixos. Quem me ensinou isso foi meu saqr.

- Que oportuno!

-Eu vigiarei se por acaso vier alguém.

Elizabeth se ajoelhou para olhar através do buraco. Passaram alguns minutos. Ouviram vozes em seu interior. O ruído de botas. Homens murmurando. E a profunda e imponente voz de Jabari os chamando à ordem.

Seu coração ardeu de desejo ao divisar o belo rosto de seu marido. Estava com a costa tão ereta, como o pau da barraca. Estava sentado junto a Nazim, rodeados pelo conselho e seus guerreiros. A imponente presença e estatura de Jabari possuíam uma elegância e uma autoridade, que se via à distância. Os olhos de Elizabeth estavam presos em seu jeito sério e impassível, suas mandíbulas finamente esculpidas, em seus sensuais e grossos lábios e em seu soberbo nariz reto. Na noite anterior, aqueles lábios a atormentara com os prazeres dos cem beijos. Agora, Jabari a condenara e a arrancara do lado dele. Elizabeth desviou o olhar para os dedos compridos e finos, apoiados em seu joelho. Como era possível, que na noite anterior, aquelas mesmas mãos arderam em sua pele nua? Como podia ser aquele homem, o primeiro a possuir o seu corpo, pudesse se sentar ali, impenetrável e afastado dela, como se milhares de quilômetros os separassem?

Não devia deixar que as emoções dominassem seu julgamento. Devia ouvir com a cabeça. Ouviria seu coração mais tarde. Elizabeth se desfez de todo pensamento quando Jabari começou a falar.

-Atacaremos depois de amanhã.

Os doze anciões expressaram sua satisfação, enquanto os guerreiros fixavam seu olhar em Jabari.

-Qual é o plano, senhor?

-O inimigo esperam que os atacaremos. Os Ao-Hajid estão debilitados pelos constantes assaltos às caravanas. Atacaremos no momento em que são mais vulneráveis: À noite.

Jabari se voltou para um homem a sua direita.

-Ahmed, o que pode nos contar sobre o inimigo? O que descobriu?

-Os Ao-Hajid não constituem uma frente unida. Os dois Majli que representam o clã Farris, fizeram uma chamada para escolher um novo sheik, mas Fareeq se nega a abandonar o poder. Acha-se fortalecido pelos guerreiros Taleq, que superam em número os Majli.

O clã Farris! Seu tio disse que era descendente dos guerreiros Farris. Elizabeth experimentou uma súbita esperança. Observou quando Jabari inclinou a cabeça, como se essas notícias proporcionassem um novo e valioso ponto de vista.

-Uma tribo dividida se faz muito fraca.

-Os Farris não lutarão se os atacarem. - Disse Ahmed.

Jabari fez um gesto cortante com a mão.

-Não importa. São inimigos. Se levantarem as armas, perderão suas vidas. Se necessário, eu também perderei a minha. Morreria satisfeito por ter a honra de recuperar o Almha sagrado.

Os murmúrios de aprovação se propagaram pela barraca. Todos, menos Nazim, que franziu o cenho e olhou para o sheik.

-Jabari, semelhante discurso me lembra o de seu pai, antes de assaltar a caravana e perder a vida. Recuperaremos o Almha, mas para isso não será necessário perder a sua.

As palavras que seu marido pronunciou a seguir gelaram seu sangue.

-O que é a vida, a não ser uma fase de nossa existência? Se meu destino é render meu espírito, assim o farei. No mínimo, morrerei como um homem, honrando a minha tribo.

Ao ouvir essas palavras e o tom de voz sem vida de Jabari, o medo queimou a garganta de Elizabeth. Era como se já estivesse morto. O suor empapou sua roupa, só em apenas pensar, em sua vida sem ele. O homem que reivindicara seu corpo, e seu coração. Elizabeth estremeceu ante o gesto desumano de Jabari. Não ia poupar vidas. Incluindo a sua.

-Eu gostaria de escutar suas opiniões. O que têm a dizer; os meus guerreiros?

Seus comandantes permaneceram calados. Nazim falou em seguida.

-O acampamento dos Ao-Hajid fica a muitas horas daqui ao sul. Se seguirmos os uadis em vez da rota direta, levará mais tempo, mas nos concederá o fator surpresa. Atacaremos à noite, enquanto dormem. - Declarou com firme convicção.

-Para ver cair o inimigo em nossa frente. Esperei tanto pelo dia da vingança. - Nkosi exclamou.

Elizabeth sabia que a verdadeira razão de Nkosi não era o Almha. Devia ter amado muito a sua avó.

-Querido avô, não vamos em busca de vingança. Nosso dever como guerreiros Khamsin, e nosso antigo juramento, é o Almha sagrado. Se não reclamarmos, como ficará nossa honra? Seríamos como um cordeiro balindo na noite, fraco e sem orgulho, e o inimigo nos matariam rapidamente. Ergueremos nossas armas e lutaremos pela honra e a glória dos Khamsin!

Nkosi assentiu, com um gesto sério.

-Sem honra não somos nada. As cerimônias de guerra terão lugar amanhã à noite.

Nkosi olhou para o seu neto.

-Nunca antes tivemos que reclamar o Almha. Semelhante batalha exige do sheik, que demonstre sua lealdade e valentia antes da batalha. Devemos conduzir a cerimônia da tatuagem sagrada.

Aquela notícia provocou apenas um visível estremecimento em Jabari.

-Seguindo a vontade dos nossos antepassados, assim será.

Jabari levantou seu musculoso corpo, erguendo o punho no ar com os olhos brilhantes.

-Quem cavalgará comigo? Quem está disposto a morrer como um homem, um verdadeiro guerreiro do vento?

A barraca estalou em ovações e seus comandantes se levantaram unindo-se a sua líder. Os Majli também se levantaram. Irradiavam uma aura de carisma tão grande, que transpassava as grosas paredes da barraca. Seus guerreiros o adoravam. Seguiriam seu líder a qualquer lugar, inclusive, ao inferno.

Elizabeth se sentiu como se fosse espectadora de uma ilusão representada em um cenário, em que os atores se levantavam, inclinavam e recebiam os aplausos. A atmosfera ameaçadora parecia tão real que se entrasse naquela barraca, os homens se desvaneceriam em uma névoa azul. Elizabeth se levantou e fez um sinal a Badra com a cabeça para que se fossem. As duas mulheres avançaram sigilosamente até chegar à barraca. Quando se sentaram no chão, Elizabeth sentia seu pensamento andar rápido.

-Vão entrar em guerra, depois de amanhã.

Badra suspirou.

-Vai ser uma pequena batalha, você vai ser. Asriyah me contou o que acontecerá. Os Khamsin jamais tiveram que reclamar o Almha. Os homens se manterão, além das mulheres. Cobrirão suas cabeças em sinal de respeito às antigas tradições. Com espírito fraternal, acamparão longe daqui. A cerimônia começará ao anoitecer com cantos e danças, e decorarão seus corpos com símbolos sagrados.

-Que tipo de ritual é esse?

-Nenhuma mulher os conhece. Seria uma tremenda desonra.

-Possivelmente poderia vê-los sem ser vista. - Elizabeth ergueu o cabelo em um coque na nuca. A expressão de horror no rosto de Badra a fez parar.

-Elizabeth! Não deve nem sequer pensar em algo assim! Se a descobrem... Sobre tudo agora... A matariam. - É muito perigoso.

Elizabeth fez um gesto.

-Não tenho nada a perder. Tenho que encontrar o modo de falar com Jabari e detê-lo. Está disposto a sacrificar a vida dele. Não posso permitir

-Não pode impedir que um guerreiro Khamsin entre em batalha. - Declarou Badra. - É como tentar deter o vento.

-Devo tentar. Por meu próprio bem. Sou a culpada do Almha ter sido roubado. Devo assumir a responsabilidade das minhas ações. Desonrei Jabari, e agora ele fala em entrar em batalha levianamente, como um homem que perdeu toda a esperança. Disse que o desfalquei. Acredita que menti para roubar o Almha. Acredita que não o amo. - Sua voz se quebrou de emoção. - Mas eu o amo. E não posso permitir que isso aconteça.

Badra a contemplou admirada. Passou a mão por seus cachos escuros.

-Tem um espírito tão forte. Não sinto ciúme por Jabari a ter escolhido. Algum dia eu gostaria de ter sua coragem.

-Nesse momento não me sinto muito valente. -Confessou Elizabeth. - Só desesperada. Devo fazer Jabari saber o muito que o amo.

Elizabeth refletiu durante alguns instantes e seus olhos se iluminaram.

-Embora deva reconhecer que pode ser muito interessante, ser testemunha dos rituais só para homens. Muito mais que demonstrar ser a favor dos direitos das mulheres. Será algo que poderei contar aos meus netos algum dia.

-Isso se conseguir sair viva do local. - Disse Badra em tom pesaroso.

 

Se a encontrassem aqui, a matariam. Elizabeth estava segura disso.

Os guerreiros do vento Khamsin a aterrorizaram com suas magníficas e mortais demonstrações de força. Nus da cintura para acima e com a cabeça descoberta, os guerreiros simulavam duelos com as espadas. As chamas de uma fogueira crepitante se erguiam para o céu formando imensos arcos de fumaça negra. Gritos selvagens de fúria retumbavam no ar enquanto aço golpeava contra aço. De sua posição estratégica na barraca de Jabari, Elizabeth estremeceu dentro de seu kaftan, com aquele imponente espetáculo. Aqueles homens eram selvagens em sua graça primitiva. Em seus rostos refletiam uma fúria desumana, de uma poderosa tormenta de vento do deserto.

Realmente, aquele não era lugar para uma mulher. Muito menos para aquela que a tribo detestava tanto. Elizabeth estava pensando em sair, como havia entrado se deslizando pela parte traseira da barraca, quando viu Jabari. Ao mesmo tempo, os homens deixaram de lutar e abriram espaço a Jabari e Nazim, fingindo lutarem.

Os cabelos negros de Jabari voavam no ar quando ele saltava para frente a uma velocidade e precisão explosivas. Seus esculturais músculos formavam ondulações como água dourada, com o ruído de fundo do aço das espadas. Com seu cinzelado rosto recortado contra o fogo resplandecente, Jabari lutava com uma força desumana.

Nazim se defendia com fúria. Sua expressão amigável se evaporou. Seus lábios acostumados a sorrir expressavam ferocidade. Elizabeth ficou olhando-os boquiaberta. Dois gatos selvagens engalfinhados em uma tremenda briga. Ela tapou os ouvidos, como se com isso, pudesse evitar entrar neles a violência. A graciosidade e a agilidade dos movimentos de tigre de Nazim se igualavam a de Jabari. Mas Jabari rugia totalmente implacável. Para Elizabeth, ele recordava um majestoso leão determinado a se fazer respeitar. Lutou como se o dominasse uma força interior repleta de poderosa energia.

Com um só movimento, Jabari derrubou Nazim ao chão. Os homens irromperam em uma ovação ondulante, elogiando a surpreendente destreza de seu Sheik.

-Se fosse Fareeq, já estaria morto. - Disse Nazim, cheio de admiração.

-Sua espada é de longe, muito veloz e implacável para ser comparada com a desse filho de uma cadela do deserto. - Respondeu Jabari. - Sou muito agradecido ao juramento sagrado que você fez de guardar minha vida. É um rival muito feroz para ser meu inimigo.

Nazim sorriu e apertou o braço de Jabari. Dirigiram-se para o fogo. Os guerreiros se sentaram em círculo sobre a areia, e fizeram soar ritmos em seus darrabukas. As chamas da fogueira acariciavam a noite enquanto sinistros cantos de guerra enchiam o espaço.

-Adiante, derramemos o sangue do nosso inimigo. Ala é grande e nos conduzirá à vitória. Acompanhem-me, homens de honra.

Ao final de cada estribilho, os guerreiros levantavam suas espadas e as abriam no céu noturno, lançando arrepiantes gritos de guerra e ondulando suas vozes habituadas ao som, até as converter em um grito de guerra Khamsin.

Repentinamente o canto e os golpes de tambor cessaram. O silêncio a estremeceu. Os homens formaram duas longas fileiras, criando com seus corpos um corredor que conduzia à barraca de Jabari. Alarmada, Elizabeth retrocedeu esperando que sua sombra não revelasse sua presença.

Como uma fênix surdindo das chamas, Jabari apareceu em frente à fogueira. Com passos firmes e seguros, Jabari percorreu o túnel humano precedido por Nazim e Izzah. Jabari estendeu suas mãos frente a ele com as palmas para baixo. A pequena procissão seguia direto para a barraca de Jabari.

Elizabeth percorreu a habitação com o olhar rapidamente. Havia várias cadeiras de couro de camelo, um saco de dormir e alguns mapas e outros documentos esparramados por ela. “Serei apanhada. Nenhum lugar onde me esconder.”

Os dois comandantes que estavam à frente, levavam tochas na mão esquerda e espadas na direita. Pararam a poucos metros da barraca. Nazim fixou sua tocha na areia e se levantou. Sua cara de menino adquirira um ar sinistro à luz resplandecente da fogueira. Linhas negras do Kohl desenhavam padrões rituais em suas bochechas como se fosse uma estranha tatuagem. Pinturas de guerra. Izzah fez o mesmo e ambos ficaram em silêncio esperando. Jabari passou pelo meio deles e se deteve.

Seu rosto reluzia com cerimoniosas tatuagens negras. Seus olhos brilhavam com ardente intensidade. Elizabeth se arrepiou.

Um grupo de homens, o mesmo que a condenara naquele mesmo dia, e os Majli rodeavam seu marido, formando um semicírculo. Nazim e Izzah levantaram suas espadas e formaram um arco com as pontas de suas armas sobre Jabari. A seguir Nkosi, com vestimenta azul e o rosto sem decorar, deu um passo adiante e levantou no ar uma faca sinistra, cujo fio afiado resplandecia como prata.

O avô de Jabari parou frente a seu neto e segurou a faca com ambas as mãos em cima de sua cabeça, como se fosse oferecê-la ao céu noturno como sacrifício primitivo.

-É um homem? É o guerreiro de seus antepassados? O que me diz? Está disposto a ser marcado com o sinal do Almha para demonstrar seu valor como verdadeiro Sheik Khamsin?

-Estou. - Respondeu Jabari com voz grave.

Jabari pôs as mãos nos quadris, estufou o peito e enrijeceu seus largos e musculosos ombros, molhados com uma fina capa de suor. À luz da tocha, seu peito nu resplandecia como mármore, que acabara de ser polido. Nkosi aproximou a espada da pele nua de seu neto.

Elizabeth tapou a boca para conter um grito abafado de horror. O agradável perfume do romeiro que ela aplicara nas bochechas, seios e mãos, contrastava enormemente com o ritual de masculinidade que se realizava a uns poucos metros dali. Jabari grunhiu apertando os lábios.

Depois do que para Elizabeth pareceu uma eternidade, Nkosi terminou, limpou a adaga com um pano limpo e deu um passo para trás. Nazim e Izzah baixaram suas espadas. Ambos se aproximaram de Jabari e se ajoelharam perante ele, inclinando as cabeças. Depois levantaram as espadas no ar com um grito.

-Um verdadeiro Khamsin derramou seu sangue pela nossa causa! - Que sua coragem nos conceda rapidez, e que nossas espadas possa abater os nossos inimigos! Elogiemos sua força e morte aos Ao-Hajid.

Uma ovação foi se alastrando no túnel de homens, à medida que eles levantavam suas espadas em uníssono e lançavam um aterrador grito de guerra.

Os gritos e o solene ritual fizeram com que um calafrio sobrenatural percorresse suas costas. Aquilo era real. Aqueles homens estavam dispostos a lutar e matar em nome da honra. Será que a vida de Jabari acabaria com uma estocada da espada de um Ao-Hajid, membro de sua própria família?

As mãos de Elizabeth começaram a tremer incontroladamente. Soluços começaram a subir pela sua garganta, só com a simples idéia de ter que viver sem ele. Vazia. Morta como as areias que tanto ansiara escavar.

Em seu empenho por pesquisar o passado, Elizabeth se esquecera de todas as coisas boas que o presente oferecia. A vida do homem que amava, estava frente a ela.

O coração de Jabari continuava pulsando em seu interior. Elizabeth teria que encontrar uma maneira de parar aquilo. Estava se iniciando uma grande guerra entre as duas tribos inimigas. Elizabeth sabia que Jabari se sacrificaria para devolver a honra a sua tribo. E ela fora a culpada... Deixara Nahid fugir com o Almha. Tudo por sua culpa. Deveria haver alguma coisa que pudesse fazer para salvar a situação. Mas qual?

Vá para o sul. Roube o Almha de Nahid. Utilize seus encantos de mulher. Lembre-se do que disse Badra. Ela era membro do clã Farris. Daria um jeito de recuperar o Almha. Inclusive, arriscando sua própria vida.

O pequeno grupo voltou a se aproximar da fogueira, enquanto o resto dos homens se dispersavam. Menos Jabari, que foi direto para sua barraca. Elizabeth ficou em pé apressadamente e se escondeu entre as cadeiras, esperando que as sombras a cobrissem. Ela esperou e o viu entrar na barraca com uma tocha. Fixou-a no chão e atravessou a habitação, passando em sua frente. Seus olhos tão negros e ferozes resplandeciam como as tatuagens em suas angulosas bochechas. Jabari se agachou, introduziu a mão em uma bolsa de pele de cabra e pegou uma toalha. Fascinada, Elizabeth observou como a resplandecente luz das tochas projetava ondulantes sombras nos músculos que se estendiam em suas costas nuas. Esse homem era seu marido, um arrojado guerreiro do deserto cujo corpo parecia ter sido talhado no bronze.

Nesse momento, Elizabeth sentiu seu coração saltar frente à tamanha beleza e virilidade. Estava segura de que se Jabari fosse enfrentar os demônios do inferno, eles correriam.

De repente Jabari voltou seu poderoso corpo para o lugar no qual ela se escondia. Jabari inclinou a cabeça parecendo querer ouvir algum som. Elizabeth se acocorou na rígida cadeira de madeira.

-Elizabeth?

Ela não fez o menor ruído, nem sequer se atreveu a respirar.

-Elizabeth? Sei que está aqui. Cheira a romeiro. Apareça. - Ordenou ele com voz serena, mas decisiva.

Ela deu um passo à frente fazendo-se visível no círculo de luz que projetava da tocha, prendendo a respiração, esperando que seu plano funcionasse. Badra dissera que a defesa das mulheres eram a astúcia e seus encantos. Elizabeth não sabia como ser encantadora ou ardilosa, mas possuía duas armas físicas formidáveis. Naquela noite planejava tirar o máximo proveito de ambas.

Elizabeth tirou o folgado kaftan pela cabeça e o deixou cair ao chão. O vestido de cor safira brilhava como uma magnífica jóia na tênue luz. Seu decote mal conseguia ocultar seus seios do olhar de surpresa de Jabari.

Jabari tocou à tatuagem ensangüentada em suas costas. Ele a cobriu, como se o olhar de Elizabeth profanasse sua marca de honra.

-Não pode ficar aqui e nem presenciar as cerimônias sagradas. Saia, antes que eu descarregue a minha raiva em você, não penso em tolerar sua falta de respeito. – Advirto-a, Elizabeth.

Ao ouvir sua voz profunda, Elizabeth sentiu seu sangue gelar nas veias.

Elizabeth estremeceu, mas soube se manter firme.

-Badra me disse que as mulheres não podem presenciar essas cerimônias. Mas eu queria vê-lo. -Respondeu Elizabeth com voz rouca.

Não havia nenhuma demonstração de simpatia daquela rocha de granito. Com os braços cruzados, ele permanecia em pé com o olhar fixo nela e o rosto esculpido em gelo.

-Precisava vê-lo, Jabari. Não pude esperar mais. Por favor, me ouça. Eu não o enganei para roubar o Almha. Eu o amo, Jabari. Há muito que sei disso, mas resistia.

Jabari fez um súbito gesto de desdém e limpou o tórax com a toalha. Ao jogar a toalha, seus largos ombros se flexionaram. O feroz guerreiro do deserto a olhava fixamente.

-Por que devo acreditar em você? Se seu tio não a tivesse traído, teria desaparecido na noite.

“Me abandonado.” Elizabeth ouviu aquelas palavras não pronunciadas como se realmente as houvesse dito. Estavam flutuando no ar, golpeando-a com a força da sua dor.

Na profundidade gelada daqueles belos olhos, via sombras invocadoras e inquietantes. Sua respiração se transformou em um soluço.

-Por que eu seria tão idiota me arriscando a vir aqui, sabendo do perigoso que corro? - Sussurrou ela. - Não posso suportar a idéia de perder você. Se o perder, perco também minha força. O meu eu, está misturado com o seu e não se pode separar, a menos que o seu se vá para sempre.

O gelo negro de seus olhos começou a derreter e Elizabeth se armou de coragem para continuar.

-Não abandonarei. Sou uma mulher sedenta de seu amor. Não conseguiria ficar longe de você. Quero-o, muito meu amado.

Elizabeth estendeu a mão e segurou em seus dedos. Esfregou-os suavemente em seu rosto, consciente de que seu perfume de mulher se impregnaria na mão do seu guerreiro.

Seus rígidos ombros relaxaram-se. As pupilas negras se dilataram. Seus lábios franzidos se suavizaram sensualmente e sua boca se abriu ligeiramente. Com os olhos fechados, Jabari levou a mão de Elizabeth a seu rosto para cheirar sua fragrância. O burro acabou de dar uma mordida na cenoura. Jabari desceu as mãos e começou a percorrer o contorno de sua camisola. Elizabeth estremecia de desejo enquanto ele acariciava seus seios com sedutora lentidão.

Repentinamente retirou as mãos como se houvesse tocado no ferrão de um escorpião.

-Elizabeth. - Disse em um rouco sussurro. - Parta. Não posso te tocar. Amanhã entraremos em batalha.

Ela pegou na mão de Jabari em atitude suplicante.

-Por favor. Não vá. Não devem lutar contra os Ao-Hajid.

Ele a segurou pelos braços e se inclinou sobre ela até imobilizá-la no chão com a força de seu olhar penetrante.

-Por que não? É outra súplica para salvar a vida do seu tio, aquele rato imundo?

-Jabari. - Elizabeth fraquejou pela força dos seus olhos frios. Reuniu forças e continuou. - Jabari, por que iria querer salvá-lo, se ele me traiu? Por favor, escute. Posso convencer Nahid para que devolva o Almha. Acredite em mim, eu não sabia que Nahid pertencia aos Ao-Hajid, até que roubou o Almha. Seu clã é o Farris, o mesmo que se opõe ao Sheik Ao-Hajid.

Os lábios de Jabari se curvaram.

-E como sabe que o clã Farris se opõe ao Sheik? Vejo que esteve escutando às escondidas.

Ela deu um passo para trás, afastando-se da súbita atitude hostil de Jabari.

-Só fiz isso, para encontrar uma forma de ajudá-lo.

-Me ajudar? - Repetiu ele. A incredulidade em sua voz a irritou.

-Sim, o fato de que tenho seios, não significa que não tenho cérebro.

Elizabeth mordeu sua língua ofensiva. Essa atitude não combinava com uma mulher encantadora.

Respirou fundo.

-Jabari, farei qualquer coisa para ajudá-lo. Por favor, não haja como se fosse um objeto qualquer, uma pedra sem sentimentos. - Elizabeth pegou a mão dele e a colocou em seu peito.

-Pode sentir como pulsa meu coração? Pulsa de amor por você meu esposo, meu único amor. -Disse ela suavemente, olhando-o nos olhos. - Seus homens dizem que sou uma maldição e que tenho um coração mentiroso. Se for preciso, sairei lá fora e direi a seus homens que vou reclamar o Almha. Farei, porque o quero com toda minha alma. E se me matarem por violar as sagradas cerimônias, pelo menos vou morrer de amor por você.

A mesma rocha impassível, o mesmo olhar frio de incredulidade quando retirou a mão. Muito bem Suas palavras não serviram para nada. Elizabeth disfarçou seus temores. Mostraria a ele. Ela se voltou e se dirigiu à porta da barraca com as costas bem retas e o queixo erguido. Os homens de Jabari a odiavam. Seriam capazes de matá-la pelo que fizera a seu querido líder.

Alcançou a portinhola da barraca para abri-la. Elizabeth fez uma oração em pensamente pedindo coragem e engoliu a saliva. Levantou a portinhola e piscou contendo as lágrimas.

As mãos fortes e cálidas de Jabari a seguraram pelos ombros, afastando-a da porta, e forçando-a a olhar para ele de frente. Acariciou o canto do seu olho com o polegar seguindo o rastro de uma lágrima com toda a delicadeza.

-Eu sou uma mulher simples e não sei nada a respeito das coisas inteligentes como a batalha ou a honra e a coragem dos homens. Tudo o que sei é que te amo. - Sussurrou ela entrecortadamente.

-Você é tudo, menos uma mulher simples. Justamente o contrário. - Respondeu ele com voz rouca. – Com você a meu lado, poderia derrotar a mil inimigos. Tem mais coragem do que o mais valente dos meus guerreiros.

Elizabeth levantou a cabeça e se atreveu a por as mãos nos antebraços de Jabari, e começou a percorrer seus esculturais músculos. Com um gemido, Jabari abaixou a cabeça, e seus longos e escuros cabelos ocultavam seu belo rosto. Jabari roçou os lábios de Elizabeth com os seus, ao mesmo tempo em que rodeava sua cintura com os braços.

-Amo-o, meu esposo. - Sussurrou ela em sua boca, segurando-o pela nuca. – Mesmo que não me quisesse ao seu lado, continuaria o amando. Fiz uma promessa. É o companheiro do meu coração, o amor dos meus dias passados e futuros.

-E você é a minha escolhida. Protegerei-a e a defenderei até o último dos meus dias, dedicando meu amor só a você. - Respondeu Jabari brandamente.

Quando ele a beijou, todas as suas torturas desapareceram com tal intensidade que se apoiou nele para se manter em pé.

O rangido da portinhola da barraca os separou rapidamente. A cabeça de Jabari se voltou para a porta e Nkosi entrou na barraca como um vendaval. O rosto enrugado e esgotado de Nkosi se contraiu de raiva ao ver Elizabeth. Ele atravessou a habitação e levantou o punho como se quisesse golpeá-la.

Jabari imediatamente ficou diante dela.

-Deixe-a em paz. - Disse ele com um grunhido grave e ameaçador.

Elizabeth o olhava por cima do braço de Jabari. O ancião começou a tremer com o rosto vermelho.

-Ousou profanar nossos sagrados rituais de masculinidade. Por isso será castigada.

Jabari estendeu os braços como se quisesse levantar uma barricada entre sua esposa e a ameaça, mas Elizabeth saiu detrás de seu marido.

Nkosi grunhiu.

-Vejo que ela esteve te abrandando com seu choro. Cuidado, querido neto. A principal arma das mulheres são as lágrimas. Não confie nelas.

-Não tenho mais medo de você. - Declarou Elizabeth enxugando-as lágrimas. - Vim dizer a Jabari que o amo. E nada conseguirá apagá-lo do meu coração. Não importa o que me faça, sempre amarei Jabari. - Sempre.

Elizabeth sustentou o olhar de Nkosi com firmeza. A tensão que estava no ar se dissipou com o sorriso que apareceu nos lábios enrugados de Nkosi.

-Seu espírito é valente e decidido. O coração de um guerreiro oculto, depois da suavidade de uma mulher. Recorda-me... Tanto a alguém que conheci. - Disse ele brandamente.

Para surpresa de Elizabeth, seu rosto adquiriu uma expressão de dor. O feroz ancião parecia estar lutando contra emoções muito intensas. A seguir recuperou o domínio de si mesmo e recuperou seu porte arrogante.

Nkosi deu um passo atrás e baixou o punho. Exalou um suspiro.

-Então se despeça dele. Rápido. – E vá, antes que alguém mais possa a ver. Eu... Esquece. Nunca estive aqui.

Ao se voltar para sair, olhou por cima do ombro e baixou o tom de voz até se converter em um sussurro profético.

-Mas a faço saber o seguinte. - Meu neto entra em batalha amanhã à noite porque você pôs o Almha em mãos inimigas. Se o sangue dele se derramar, a culpa cairá em cima de você.

Jabari recolheu o kaftan de Elizabeth assim que Nkosi saiu da barraca. Entregou a ela sem a olhar.

-Elizabeth, volte para a barraca das mulheres. Faça o que falei.

Ela assentiu tristemente. Ao passar a seu lado, Jabari a segurou pelo braço. Depois de tocar sua mão com os lábios, Jabari a olhou e com os olhos embaçados pela emoção, disse.

-Não vai dar um beijo de despedida em um guerreiro que parte para a batalha? A um marido... Que a quer com toda sua alma?

Elizabeth levantou a cabeça e correu para ele. Seus lábios eram firmes, ferozes e tentadores. Um desejo abrasador e urgente se estendeu em seu interior. Notou a mesma emoção em seu marido, quando a segurou pela cintura, fundindo-a em um intenso abraço, como se não quisesse deixar que se fosse.

Finalmente a soltou, dando um pequeno beijo em sua boca. A seguida saiu da barraca sem olhar para trás. Elizabeth mordeu o lábio e pegou o kaftan. Sentia uma estranha umidade no corpo.

Ela olhou a camisola e estremeceu. Seu abraço apaixonado deixara estampado em sua pele nua à tatuagem de Jabari. A advertência de Nkosi era correta. Seu sangue se derramara em cima dela.

Procurou a toalha que Jabari havia jogado ao chão, fazendo uma careta enquanto limpava o sangue. Não voltaria a acontecer.

Tenho o poder para evitar outro derramamento de sangue e deter as armas. Elizabeth percorreu a habitação com o olhar. Os mapas.

Dando uma rápida olhada, percebeu que em um deles havia marcas que indicavam vários desvios e trilhas, e uma rota para chegar ao acampamento dos Ao-Hajid. Guardou-os em seu corpete, vestiu o kaftan e saiu silenciosamente pela parte traseira da barraca. Precisava trocar de roupa, de um cavalo selado, algumas provisões e muita oração. E um véu. As mulheres Khamsin não deviam usá-lo, mas não sabia nada dos costumes dos Ao-Hajid. O melhor seria ser o mais humilde possível.

Com um pouco de sorte, chegaria ao acampamento dos Ao-Hajid antes do amanhecer.

 

-Ela se foi!

Jabari levantou os olhos do mapa, profundamente irritado pelo timbre agudo do grito da mulher. A raiva se transformou em surpresa ao ver Badra entrando a toda pressa na barraca e fazer uma rápida reverência aos comandantes ali reunidos. Depois de conseguir abrir caminho entre os homens, Badra finalmente chegou até Jabari e se ajoelhou frente a ele.

-Badra, o que está fazendo aqui? Que seja por um bom motivo. - Advertiu Jabari. Para Badra se atrever, e correr o risco de estar ali, requeria uma coragem tremenda. Ou uma horrível motivação...

Permanecia a seus pés como uma massa inerte, como se temesse se move. A tensão enrijeceu seus ombros. O ritual da limpeza da tatuagem, pelo qual se desencarnava o espírito, não surtira efeito. Na noite anterior não parara de dar voltas na cama. O perfume de romeiro de Elizabeth impregnara a barraca e o açoitou em sonhos, anulando a sede de sangue que necessitava para a batalha.

-Badra. - Disse Jabari com delicadeza. - O que aconteceu?

-Jabari, por favor, me perdoe por interrompê-los, mas há algo que deve saber. - Suplicou Badra, levantando os olhos para ele. Engoliu em seco, seus olhos marrons se enchendo de preocupação. - Elizabeth fugiu.

Aquelas palavras o deixaram sem fala, Jabari sentiu que seu sangue gelava nas veias. O mapa caiu das suas mãos.

-Quando descobriu?

-Esta manhã. Acreditei que ainda estava dormindo... Mas era um fardo de roupa sob os lençóis. Então fui comprovar os cavalos. Sua égua branca desapareceu.

Ao olhar para o monte de mapas esparramados no chão, Jabari se deu conta de que faltava um. Elizabeth fora resgatar o Almha. As imagens de Elizabeth sozinha no deserto, cavalgando para os mesmos homens cujas vidas Jabari iria tirar, afligiram seu coração. “Não deixe as emoções bloquearem seu julgamento! Isso não a salvará.”

-Elizabeth leva um dia de vantagem e o mais provável é que já tenha chegado ao acampamento. - Disse Jabari. - Por mais rápido que cavalguemos, não conseguiremos alcançá-la.

-Ela voltou para inimigo. Para os seus. - Por que deveríamos nos preocupar com o que acontecer a essa mulher? - Grunhiu alguém.

A voz de Jabari se converteu em um murmúrio ameaçador. - Essa mulher é minha esposa. Não esqueçam.

Seus sentimentos por Elizabeth fizeram com que todas suas emoções saíssem à superfície. Jabari olhou para Nazim, que mantinha uma expressão neutra.

-Se prepararmos o ataque, a cavalo, e deixarmos os camelos para trás... Chegaremos antes ao acampamento.

-As éguas estariam esgotadas e seriam incapazes de responder na batalha. - Respondeu Nazim em um tom imperturbável.

As palavras de seu segundo comandante o ajudaram a entender o quão inútil seria a possibilidade de sair atrás dela. A tensão que o fazia enrugar a testa, refletia sua própria agitação interior.

Izzah, sentado a seu lado, pediu a palavra.

-Senhor, falo com o máximo respeito. Partir agora seria imprudente. Devemos atacar à noite. Nossa missão consiste em recuperar o Almha sagrado. Não podemos mudar nossos planos por causa de uma mulher.

-Sobre tudo, se trata de uma traidora. - Resmungou outro guerreiro.

-Não é uma traidora. - Espetou Jabari. - Elizabeth não nos enganou. Há alguém mais que acredita como eu?

-Eu - Disse Nazim em voz baixa. Ninguém mais respondeu.

Os músculos do peito de Jabari se esticaram ao perceber os olhares hostis de seus homens. Para eles, Elizabeth era o inimigo. Jabari queria sair correndo, selar a Sahar e atravessar galopando o deserto em busca de sua esposa. Mas era o chefe dos Khamsin, em pé de guerra com a família de Elizabeth. E sua responsabilidade como Sheik prejudicava suas necessidades pessoais. Como Sheik, seus homens vinham primeiro. Jabari olhou para Nkosi e ele fez um sinal para que saísse.

Uma vez fora, Nkosi se parou a certa distância da barraca. Jamais vira seu majestoso avô tão agitado. Tinha os olhos frágeis e o olhar perdido no horizonte. Por fim falou.

-Jabari, não cometa o mesmo engano que eu anos atrás. Vá e resgate a sua esposa. Se a ama, faça o que seja necessário.

Assombrado, Jabari não fez outra coisa senão olhá-lo. Nkosi prosseguiu, depois de respirar fundo.

-Em todos esses anos, apesar do afeto que sinto por minha esposa, não consegui esquecê-la. Nem o amor que compartilhamos. Deveria ter ido atrás dela. Deveria ter dirigido os ghazu contra os Ao-Hajid, mas meu estúpido orgulho me levou a acreditar que ela havia mudado de opinião e já não me queria. Sua neta tem seu mesmo espírito, seu fogo, seu amor à vida. - Nkosi levantou os olhos. - Sua esposa, Elizabeth.

Jabari ficou boquiaberto. A única coisa que podia fazer, era olhá-lo incrédulo.

-Como soube?

-Os papiros que ela encontrou. Eu os dava a Jana. É a única que pode explicar por que Elizabeth os encontrou. No momento em que confessou que sua avó era uma beduína dos Ao-Hajid, eu soube.

Jabari observou o orgulhoso ancião, lutando para controlar suas emoções.

-Pense com o coração, Jabari. Vale a pena renunciar a ser Sheik pelo amor de uma mulher? Um dia eu acreditei que sim.

Nkosi se voltou fazendo um gesto com a mão.

-Agora, volte para seus homens. Saberá o que fazer. Confio em seu julgamento, querido neto.

Dividido entre o desejo de consolar seu avô e a responsabilidade de atender seus assuntos, Jabari contemplou Nkosi se afastar. Profundamente preocupado, entrou na barraca. Voltou a se sentar e olhou para seus homens, que aguardavam sua decisão.

Jabari falou alto, apesar de conhecer a resposta antes de abrir a boca e seus lábios formularam a pergunta.

-Além de Nazim, quem vai comigo agora, resgatá-la?

Em pé, Jabari observou o silêncio que se fez presente. No fundo do seu coração, sabia o que deveria fazer. Sua alma partiu ao considerar sua próxima ação. Ele apontou Nazim.

Seu segundo comandante o olhou preocupado.

Jabari desembainhou sua espada da cintura, olhando-a por alguns instantes, acariciando com cuidado sua folha afiada. A espada de seu pai passara de geração a geração de Sheiks. Mais que uma arma, a espada simbolizava poder e autoridade. Durante gerações, sua família governara a tribo dos Khamsin.

Até agora. Jabari fechou os olhos, sentindo que seu coração em pedacinhos pelo peso da sua decisão. Mas não podia deixar Elizabeth nas mãos dos Ao-Hajid nem um minuto mais.

-Sou o Sheik dos Khamsin e jurei respeitar e defender a honra de minha gente e protege-los de todo o perigo. Também jurei proteger a minha esposa. Se ninguém me acompanhar, vou sozinho resgatá-la. Não o faço como Sheik, e tampouco deixar minha gente sem líder. Assim, darei o comando da tribo a você Nazim.

Murmúrios de surpresa se estenderam pela barraca. Badra o olhou com os olhos muito abertos. Jabari entregou o cabo de marfim de sua espada a seu amigo. Nazim ficou olhando para o cabo. Mas não o aceitou.

-Senhor. Eu não posso. Não vou aceitar. – O senhor deve fazê-lo.

-Jabari, vão o assassinar! Que bem você poderá fazer a Elizabeth? - Grunhiu Nazim frustrado e aborrecido.

-Não tenho outra opção. Fiz uma promessa solene de que a protegeria. Cada minuto que ela ficar nas mãos deles, é uma ameaça. Ela é minha amada e devo resgatá-la.

-Arriscaria sua vida e abandonaria seu cargo como Sheik por uma mulher? - Disse Izzah, olhando-o incrédulo.

-Se esse fosse o desejo do meu coração, sim. - Respondeu Jabari serenamente.

-A vida de uma mulher não vale a vida de um Sheik. As mulheres são inferiores. - Gritou outro.

-A vida de uma mulher vale a vida de um Sheik. Há mulheres em nossa tribo que valem tanto quanto muitos guerreiros. Elizabeth tem mais coragem, do que muita gente que conheço. Arriscando sua vida para recuperar o disco sagrado, apesar de que não ser vinculada à honra como nós. E falo que isso não a faz inferior a um homem. Ao contrário, a faz superior a todos os homens que estão aqui.

Nazim o olhou com o cenho franzido. Voltou-se e ficou frente a eles e lançou-os um olhar de desdém.

-Não pode me passar o comando Jabari. Eu vou contigo. - Tem razão, senhor. A vida de uma mulher vale a vida de um Sheik. E minha vida também. - Olhou para os outros comandantes.

Todos se puseram em pé ao mesmo tempo.

-Respeitamos sua decisão, senhor. Cavalgaremos com você. Jabari bin Tarik Hassid é nosso único comandante. - Disse um de seus guerreiros.

Ele transbordava gratidão por todos os poros da pele. Jabari os saudou com um ligeiro movimento de cabeça e embainhou sua espada. A intensidade do momento, a fidelidade de seus guerreiros e a inquebrável lealdade de Nazim o encheram de orgulho. Sentiu que seu coração iria explodir.

-Além disso - disse Nazim, com seu sorriso habitual. - Nunca gostei dessa sua espada. Tem uma fendazinha no fio.

Jabari sorriu e deu uma palmadinha no ombro de seu amigo. - Preparem os cavalos e os camelos. Partiremos em breve.

Elizabeth olhou o interior da barraca com o coração pulsando com mais força do que os cascos de um cavalo golpeando as areias rochosas. Estava sozinha no acampamento inimigo, e ao mesmo tempo era sua família. Dúvida, confusão e ansiedade lutavam em seu interior. Elizabeth respirou fundo. É a esposa de um guerreiro. Como Jabari agiria? Mostraria medo? Permitiria que esses homens o intimidassem? Acredito que não.

Chegara ao acampamento pouco depois do amanhecer, exausta, sem defesa, e com o cavalo esgotado, morto de sede. Dois homens se aproximaram vestidos com túnicas pretas e vermelhas, apontando para ela suas longas espadas.

A nobre idéia de devolver o Almha aos Khamsin foi diminuindo ao ver as formidáveis armas dos Ao-Hajid. Seus encantos de mulher pouco fariam contra o aço sólido.

Depois de falar com eles algumas palavras em árabe, pediu hospitalidade e falou de seu tio Nahid pedindo para vê-lo. Eles a escoltaram até o acampamento. Dúzias de barracas se espalhavam sobre a areia. Os guerreiros a levaram a barraca maior, a do Sheik, supôs ela.

Agora se achava sentada em um tapete gasto. O suor caía pela fronte enquanto se perguntava da imprudente ação que acabara de cometer. Eram de sua família, mas nem sequer os conhecia.

Olhou para a portinhola da barraca ao ouvir um rangido. Elizabeth se pôs ereta, ajustou seu véu azul ao nariz e ocultou suas trêmulas mãos sob as mangas do kaftan.

Acontecesse o que acontecesse, não deveria mostrar seu medo.

-Elizabeth! O que está fazendo aqui?

-Tio Nahid! - Uma sensação de alívio se apoderou do seu corpo. - Já deve saber por que estou aqui. Vim buscar o Almha.

Vestido com um thobe vermelho e um turbante branco, parecia um verdadeiro habitante do deserto. A expressão de irritada de seu rosto, não acalmou sua preocupação. Nahid se sentou no chão junto a ela.

-O Sheik Fareeq a chamou para esta barraca. Duvido que seja para celebrar um reencontro familiar. Onde estão os Khamsin?

-No acampamento. Eu vim sozinha. Não preciso da intervenção deles. E reze para que possamos deter essa guerra antes que comece.

-Não pode. - Respondeu ele arrogantemente. - Os Ao-Hajid estão preparados para o ataque.

-Me responda a uma pergunta. - Por que o roubou?

Nahid pareceu murchar e encolheu os ombros. Ocultou o rosto entre as mãos.

-Em todos esses anos vivendo no Egito, sempre quis competir com os Ao-Hajid. Ao voltar de Oxford, entrei em contato com nosso clã. Apesar de eles me aceitarem, nosso Sheik não. Passei os últimos vinte anos tentando conquistá-lo. Então, Flinders me contratou para a escavação da Amarna. E você me enviou um telegrama dizendo que encontrara os papiros. O disse ao Fareeq. Ele me disse que se trouxesse a ele o Almha, como prova de minha fidelidade, os Ao-Hajid me acolheriam de novo em sua tribo.

Seu coração se encolheu de compaixão pelo menino que foi seu tio, um menino que sempre lutara para ser aceito em sua tribo.

-Por isso os contratou para proteger a jazida.

-Sim. A princípio contratei guerreiros do nosso próprio clã, mas os guerreiros do Fareeq acabaram por jogá-los. Eles são os que ostentam poder na tribo. Trata-se de uma situação perigosa, Elizabeth. Sobre tudo agora que está aqui. Fareeq odeia os Khamsin. O ódio corre por suas veias.

-Sei da aventura de vovó com Nkosi.

O rosto de Nahid se encheu de ira.

-Nkosi a enviou uma mensagem para que se encontrassem a meia-noite. Ele nunca se apresentou.

Havia algo que não se encaixava.

-Eu entendi que deviam se encontrar ao amanhecer, e não a meia-noite.

Nahid suspirou profundamente.

-Um grupo de guerreiros foi procurar minha mãe para trazê-la de volta à tribo. Ela se casaria com o pai do Sheik. Ele descobriu o adultério e a ameaçou de morte. Ela fugiu para o Cairo em uma caravana.

A compaixão de Elizabeth por seu tio se transformou em verdadeiro pânico. Não sabia que sua avó estava prometida ao pai do Sheik. Seu kaftan estava empapado de suor e pequenas gotinhas se deslizavam pelas costas.

-Tio Nahid, temos um problema. Eu não sabia que a vovó era a prometida do Sheik! Ela era a amante de Nkosi e isso a converte em...

-Uma adultera. -Nahid não a olhava. - De acordo com suas leis, o Sheik poderia tê-la executado. Não a perdoaram. Sua família não esqueceu semelhante insulto.

Elizabeth engoliu em seco, esforçando-se para pensar.

-Devemos arquitetar um plano. Os Khamsin estão a caminho, resolvidos a resgatar o Almha.

-Nossa única esperança, é que nosso clã se oponha ao Sheik.

Elizabeth conteve um calafrio.

-Se lutarem contra o Sheik, ao lado dos Khamsin...

Nahid levantou os olhos.

-Possivelmente exista uma maneira. Os guerreiros do Taleq assassinaram dois Majli que representavam nosso clã para evitar que escolhessem um novo Sheik. Agora ninguém se atreve a dizer o que pensa.

-Nahid, deve organizar aqueles que se opõem a Fareeq, fugir e avisar os Khamsin. Deve corrigir sua falta.

Seu antigo antagonismo ressurgiu e Nahid arfou.

-Minha lealdade deve ser com os Ao-Hajid. Não posso renegar minha gente.

-Não está renegando... - Elizabeth interrompeu a frase ao ouvir vozes fora da barraca. Ela colocou suas mãos em seu regaço em atitude total. Um homem de compleição forte e robusta, vestido em uma calça folgada, uma capa branca e longa, camisa kamis e um kaffayh de quadros na cabeça entrou com arrogância na barraca, seguido de vários homens armados. Fareeq bin Hamid Talib. Elizabeth e Nahid inclinaram à cabeça.

Elizabeth supôs que seria um homem maior, rondando pelos sessenta, com papada e uma barriga enorme. Ela se surpreendeu comparando a flacidez dele com o corpo musculoso e firme de Jabari. O Sheik parecia tão frágil como o pudin de tapioca. Mas as pequenas esferas amareladas que eram seus olhos, transbordavam maldade. Desprendia um aroma mofo e podre, misturado com tabaco rançoso, leite de camêla azedo e suor. Ela ficou surpresa ao olhar fixamente as manchas circulares em sua manga direita. Iogurte e suco de tâmara. Podia se dizer que ele tomara o café da manhã pelas roupas.

O Sheik não respondeu com nenhuma saudação, simplesmente soltou um grunhido ao sentar-se no chão em cima de uma ampla almofada. Elizabeth se perguntou por que se incomodava em pôr um almofadão, se seu gordo traseiro o protegia de sobra do chão duro.

-Outro membro do clã Farris voltou para o nosso seio. Mulher, não esbanje seu tempo com reverencias formais, especialmente sendo a esposa de um nosso inimigo. - Disse Fareeq.

Elizabeth ficou boquiaberta de surpresa.

-Como soube de minhas bodas? - Elizabeth o olhou com certo receio.

Ele soltou uma risada maligna que crispou os nervos de Elizabeth, como se esfregassem papel lixa contra uma piçarra.

-Seu tio me deu amavelmente a informação de que o marido de sua sobrinha planejava atacar minha gente para reclamar o Almha.

Nahid teve a delicadeza de adotar um semblante envergonhado, enquanto Elizabeth o lançava um olhar de ódio.

-Que homem estúpido. Nahid pensou que poderia ganhar meu favor, nos entregando o Almha e compartilhando informações. Mas eu não faço pactos com cães Farris.

Fareeq lançou um olhar lascivo para Elizabeth e piscando um olho para ela.

-Mas seu corpo me parece ser muito apetitoso e possivelmente tenha piedade de você, se me agradar na cama. Se me suplicar isso agora mesmo, possivelmente possa perdoá-la. Suplique-me, neta da cadela, que desonrou minha família.

Elizabeth recuou sentindo asco. Chamar uma mulher de cadela ocasionava em um grave insulto em árabe. Pelo desdém no rosto de Fareeq, Elizabeth percebeu que ele era consciente de que ela sabia. Mas o fato de sugerir que poderiam deitar-se juntos era muito mais grave.

Uma língua púrpura apareceu na boca de Fareeq e se deslizou por seu lábio inferior. Elizabeth fez uma cara de nojo por trás do véu. Aquelas dobras de carne em sua barriga enorme, suas mãos gordas tocando-a... Elizabeth pensou no quão delicado fora Jabari fazendo amor, delicado com sua inocência e ao mesmo tempo apaixonado.

Sua antiga rebeldia despertou. Resolvida a demonstrar para a esse homem que não era uma mulher que se acovardava perante ele, fez o impensável.

Com um gesto tranqüilo, Elizabeth tirou o véu e o jogou no chão da barraca. Um grunhido coletivo se estendeu entre os homens do Sheik, mas ela se concentrou na reação de Fareeq. Seus olhos cruéis e fundos transbordavam ira. Deus. Não suportaria mais insulto algum por nenhum momento mais. Recordou o que Farah havia dito.

-Uma antiga concubina sua me falou que seu membro, ou deveria dizer da falta dele? - Disse Elizabeth com o polegar e o índice bem alto, separados uns poucos centímetros. - Prefiro comer cocô de camelo, a dormir contigo, seu porco asqueroso. - Disse ela.

Os olhos de Fareeq se converteram em duas fendas.

-Você tem a mesma insolência que sua avó. Ela viria a ser a esposa do meu pai. Mas como uma mulher, fraca e desavergonhada, se atreveu a rir da minha família cometendo adultério com o inimigo.

-Você o chama assim, mas eu o chamo de amor. Estou segura de que a intenção de minha avó não foi desonrar o seu pai. - Disse Elizabeth.

-Amor! - Pronunciou a palavra como se cuspisse um caroço de azeitona. - E o que tem a ver o amor com o matrimônio? Jana desonrou o meu pai. Se não tivesse conseguido escapulir de suas garras, ele a teria decapitado.

-Graças a Alá, que ela pôde escapar. E se não o tivesse feito, melhor seria estar morta do que nas mãos de semelhante besta.

Fareeq se agitou com uma fúria assassina, fazendo vibrar as dobras de graxa de seu estômago como se fosse gelatina. Nahid pousou sua mão com prudência no braço de Elizabeth.

-Elizabeth, quer que ele nos mate? - Disse-a entre dentes, em inglês.

Fareeq sorriu como se fosse um gato roliço que acabara de engolir um canário como aperitivo, e agora contemplava seus irmãos como comida.

-Para mim, dá no mesmo. - Respondeu ela em árabe. – Ele já sabia o que fazer comigo no momento em que entrou.

-Oh, você tem razão, neta desprezível de uma rameira traiçoeira. Você caiu como uma patinha em minha armadilha. - Esfregou suas mãos gordas. - Ter a minha disposição o filho dessa rameira já é vingança suficiente. Mas ter aqui à neta, outra cadela desprezível, esposa de meu inimigo, e indefesa a meus pés, é bem melhor. Alá me deu um estranho presente.

Seu rosto se contraiu em um sorriso que o fez parecer ainda mais feio do que com a cara anterior. Seus olhos redondos brilhavam com malevolência.

-Hoje meu pai vai ser vingado por sua desgraça. A neta da infiel Jana Farris sofrerá o castigo do qual escapou sua avó.

A seguir estalou os dedos e chamou seus homens.

-Levem para a barraca de sua família. Vigiem-na de perto. Vai ser castigada. Trinta chicotadas. E quando os Khamsin atacarem, a vingança será minha.

A risada sinistra dele colocou as garras do terror em seus nervos destroçados.

-Um pequeno agrado para seu marido. Entrará cavalgando em nosso campo, e quando o fizer, o receberemos com a visão de sua bela esposa... Enquanto minha espada corta sua cabeça.

 

Incapaz de protegê-la, os recém descobertos parentes de Elizabeth se sentaram com ela na barraca em silencioso absoluto, enquanto os guardas Ao-Hajid vigiavam a entrada. Elizabeth sorriu para a dúzia de mulheres que a saudaram e renderam seus respeitos.

A portinhola da barraca se abriu e uma mulher entrou. Baixa e bem corpulenta, vestia um grosseiro abbaya negro e um grosso véu. Elizabeth ficou olhando-a. Seria ela sua prima?

-Que a paz a acompanhe. - Disse Elizabeth, estendendo as mãos.

-E a você também, querida sobrinha.

Elizabeth deu um grito abafado ao ver que Nahid retirou o véu. Seus parentes puseram-se a rir com a sua reação.

-Foi idéia das mulheres. - Disse Nahid, sorrindo e ocultando seu rosto atrás do grosso véu uma vez mais. - Como me vê?

-Definitivamente tentador. - Disse Elizabeth com um sorriso, tentando se animar fazendo brincadeiras. - Se mover bem seus quadris, possivelmente Fareeq queira levá-la para sua barraca.

-Morreria antes. - Disse Nahid.

Elizabeth sorriu e ficando séria em seguida, se lembrou do destino que a aguardava nas mãos de Fareeq. Nahid a tocou na mão.

-Não se preocupe. Já falei com os guerreiros do nosso clã e estão de acordo em lutar junto aos Khamsin. Sairei do acampamento com a desculpa de que vou procurar água fresca e irei ao encontro de Jabari. Não posso salvá-la sozinho. Espero que ele possa nos ajudar.

Elizabeth assentiu, sentindo uma súbita esperança. Se alguém podia resgatá-la, esse alguém seria um guerreiro do vento Khamsin. Mas não um guerreiro qualquer. Um, com o coração valente e verdadeiro. E esperar que ainda pulsasse de amor por ela.

Fizera um trajeto muito duro ao lombo dos dromedários e agora finalmente chegaram a seu destino.

A dois quilômetros do acampamento inimigo, em um atalho oculto em uma das curvas de um uadi, os guerreiros Khamsin desmontavam de seus cavalos e davam de beber a seus animais. Depois de amarrar os camelos, ocuparam-se dos cavalos que levavam a carga da batalha.

Enfeitada com os adornos de batalha, Sahar saltou e agitou a cabeça. As borlas de cor dourada, vermelha e azul de sua brida de seda, dançavam ao som de seus movimentos. As borlas e diminutos círculos prateados parecidos com o sol, decoravam o peitilho, que estava bordado com trabalhosos fios de ouro formando intrincados desenhos. Uma sudadera de seda azul incrustada em prata segurava a cela com amplos estribos.

Centenas de cavalos de guerreiros Khamsin, iguais a sahar, bufavam de impaciência. Jabari comprovou a amarração de sua espada e adaga na cintura. Cobriu o rosto com o véu, deixando unicamente os olhos a descoberto. A seguir ficou de cócoras e começou a golpear a darrabuka, criando um palpitante ritmo de guerra destinado a chamar seu cavalo para o seu lado. Sahar saltou e levantou as patas dianteiras. Com os instrumentos, os Khamsin geravam uma série de ritmos misteriosos e inquietantes que excitavam a sede de sangue necessário para empreenderem a batalha.

Jabari chamou Nazim e Izzah, e o trio partiu com a missão de vigiar o acampamento inimigo. Em vez de fazer em deserto aberto, cavalgaram beirando às montanhas. Assim que começaram a cavalgar, Jabari levantou a mão para que se parassem. Desmontaram. Jabari tirou uma luneta de seu binish.

Uma nuvem de pó ao longe foi tomando forma à medida que se aproximava o ruído de cascos. Jabari entrecerrou os olhos e guardou a luneta em seu binish, Desembainhou a espada e a segurou no alto, pronto para atacar. O solitário cavaleiro se aproximou e parou. Uma mulher vestida com um negro e grosso abbaya desmontou do cavalo.

Jogou-se na areia, prostrando-se perante ele e tirou o véu. Jabari esteve a ponto de derrubar a espada de pura estupefação.

-Meu senhor, prostro-me perante você para implorar clemência. - Suplicou Nahid.

Desconcertado, Jabari agitou a cabeça. O tio de Elizabeth vestido de mulher. Recordou que a primeira vez que vira sua esposa, vestia-se de homem. Será que todos os membros do clã Farris se vestiam como o sexo oposto? Seria um estranho ritual?

-Levante-se, homem, e tire esse traje ridículo.

Nahid ficou em pé e tirou a abbaya, deixando a descoberto uma calça folgada e uma camisa kamis. - Fareeq planeja assassinar Elizabeth.

Jabari levantou sua espada e apontou para o peito de Nahid.

-Espero que esse não seja outro de seus truques porque se for, não terei misericórdia em acabar com sua vida agora mesmo.

Os olhos escuros de pálpebras cansadas de Nahid começaram a se mover de um lado a outro quando Nazim e Izzah se colocaram em volta de Jabari formando um semicírculo.

-Juro que é verdade, não arriscaria minha vida por uma artimanha. Fareeq vai se vingar com o sangue de Elizabeth pelo crime que cometeu sua avó.

Jabari estudou seu rosto, ocultando sua crescente ansiedade. - Continue.

A urgência deu um ar de arrogância ao tom de voz de Nahid.

-Meu clã votou por derrubar a Fareeq, mas os guerreiros do Taleq superaram em número nossos homens e protegeram o Sheik. Meus parentes não podem salvar Elizabeth. Fareeq a golpeará e a executará hoje, no momento em que atacarem.

Só de apenas pensar, que aquele cão abominável poderia pôr a mão em sua esposa, uma ira possessiva se apoderou de Jabari. Com um grunhido, ele girou a espada no ar, regozijando-se com a idéia de separar a cabeça de Fareeq do seu corpo.

-Não o fará. - Eu posso evitar.