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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Fator Hades / Robert Ludlum
O Fator Hades / Robert Ludlum

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Fator Hades

                      

19:14h, sexta-feira, 10 de outubro

Boston, Massachusetts

Mario Dublin andava, trôpego, pela rua movimentada do centro da cidade, segurando com força uma nota de um dólar na mão trêmula. Com a determinação de quem sabia exatamente para onde ia, o pária sem-teto cambaleava pela via pública e batia na cabeça com a mão que não estava apertando o dólar. Entrou numa drogaria de preços reduzidos com cartazes de descontos especiais colados nas duas vitrines.

Tremendo, estendeu a mão que segurava o dólar para o balconista.

—     Advil. Aspirina é um veneno pro meu estômago. Preciso de Advil.

O balconista franziu os lábios para o homem com uma barba de muitos dias, vestindo o que sobrara de um uniforme do exército esfarrapado. Mas não deixava de ser um freguês. Esticou o braço para uma prateleira de analgésicos e apanhou a caixa menor de Advil.

—     Precisa de mais três dólares para levar este remédio.

Dublin jogou a nota no balcão e tentou pegar a caixa.

O balconista recuou, tirando a caixa do alcance da mão do homem.

—     Você me ouviu, companheiro. Mais três dólares. Senão, nada feito.

—     Só tenho um dólar... e minha cabeça está estourando.

Com surpreendente agilidade, Dublin esticou o braço por cima do balcão e arrancou a caixinha da mão do balconista.

O rapaz tentou recuperá-la, mas Dublin segurou-a com força. Lutaram, derrubando um jarro de balas e amassando um display de vitaminas.

—     Largue-o, Eddie — gritou o dono da drogaria do fundo da loja, pegando o telefone. — Deixe que ele fique com a caixa!

Enquanto o homem discava, o balconista soltou o arruaceiro.

Dublin rasgou freneticamente o papelão selado, arrancou a tampa de segurança do vidro de qualquer maneira e despejou os comprimidos na mão. Jogou alguns na boca, engasgando-se ao tentar engolir todos de uma vez, e deixando cair outros no chão. Debilitado, não suportando a dor, finalmente desabou, pressionando as têmporas com os dedos e soluçando.

Pouco depois um carro-patrulha encostou em frente à loja. O dono da drogaria acenou para que os guardas entrassem. Apontou para Mario Dublin encolhido no chão e gritou:

—     Levem esse vagabundo fedorento daqui! Vejam só o prejuízo que ele me deu. Vou apresentar queixa por agressão e roubo!

Os policiais sacaram seus cassetetes. Observaram o pequeno estrago e os comprimidos espalhados pelo chão, mas também sentiram cheiro de álcool.

O mais moço ajudou Dublin a se levantar.

—     Ok, Mario, vamos dar um passeio.

O segundo patrulheiro segurou o outro braço de Dublin. Levaram o bêbado, que não ofereceu resistência, para o carro-patrulha. Mas, enquanto o segundo guarda abria a porta, o mais moço empurrou a cabeça de Dublin para forçá-lo a entrar.

Dublin gritou e reagiu violentamente, desvencilhando-se da mão na sua cabeça latejante.

—     Segure-o, Manny! — berrou o guarda mais moço.

Manny tentou imobilizá-lo, mas o bêbado se soltou. O guarda moço atracou-se com ele. O mais velho desceu o cassetete e obrigou Dublin a abaixar a cabeça. Seu corpo tremeu, e ele rolou na calçada.

Os dois policiais ficaram lívidos, olhando um para o outro.

Manny protestou.

—     Eu não bati com força.

O mais moço se curvou para levantar Dublin.

—     Meu Deus, ele está pegando fogo!

—     Ponha-o no carro!

Pegaram o ofegante Dublin e o enfiaram no banco traseiro. Manny ligou a sirene e arrancou em disparada pelas ruas da noite. Assim que frearam o carro na entrada da Enfermaria de Emergência, Manny abriu a porta e saiu correndo pelo hospital adentro, pedindo ajuda em altos brados.

O outro guarda contornou o carro para abrir a porta de Dublin.

Quando os médicos e as enfermeiras chegaram com uma maca, o guarda mais jovem parecia paralisado, olhando fixamente para o assento traseiro, onde Mario Dublin jazia inconsciente numa poça de sangue que pingava para o chão.

O médico respirou fundo. Entrou no carro, tomou o pulso, auscultou o pobre-diabo e saiu, balançando a cabeça.

—     Ele está morto.

—     Não pode ser! — disse o guarda mais velho, erguendo a voz. — Nós mal tocamos no filho da puta! Vê lá se vão querer botar a culpa na gente!

 

Pelo fato de a polícia estar envolvida, somente quatro horas mais tarde o médico legista começou a se preparar para a autópsia de Mario Dublin, endereço desconhecido, no necrotério localizado no porão do hospital.

As portas duplas do necrotério foram abertas de par em par.

—     Walter! Não abra o homem!

O Dr. Walter Pecjic ergueu os olhos.

—     Qual é o problema, Andy?

—     Talvez não seja nada — disse o Dr. Andrew Wilks nervosamente —, mas todo aquele sangue no banco do carro me deixa com uma pulga atrás da orelha. Uma síndrome respiratória aguda não provocaria tanto sangue na boca. Só vi tamanha sangueira numa febre hemorrágica que ajudei a tratar quando servi na Força de Paz na África. Esse cara tinha uma carteira de Veterano de Guerra inválido. Talvez tenha estado baseado na Somália ou em outro lugar da África,

O Dr. Pecjic olhou para o cadáver do homem que estava prestes a abrir e repôs o bisturi na bandeja de instrumentos.

—     Talvez seja melhor falarmos com o diretor.

—     E ligue, também, para Doenças Infecciosas — disse o Dr. Wilks.

O Dr. Pecjic anuiu com um gesto de cabeça.

 

19:55h

Atlanta, Geórgia

Espremido no auditório do colégio, o público constituído de pais e amigos fez silêncio. No palco iluminado, uma graciosa adolescente estava de pé na frente de um cenário que pretendia reproduzir o restaurante da peça de William Inge Bus Stop. Seus movimentos eram canhestros, e suas palavras, normalmente soltas e espontâneas, soavam duras, emperradas.

Nada d isso, entretanto, incomodava a robusta matrona na primeira fila. Ela usava um vestido cinza-prateado do tipo que a mãe da noiva escolheria para uma cerimônia formal de casamento, coroado por uma grinalda de rosas. A senhora abriu um largo sorriso para a garota em cena, e, quando o ato terminou sob discretos aplausos, suas palmas entusiásticas ressoaram na platéia.

No final da peça, ela aplaudiu de pé. Dirigiu-se apressadamente para a porta dos bastidores, a fim de esperar a filha enquanto os artistas amadores saíam em pequenos grupos para se encontrarem com os pais, namorados e namoradas. Era a última apresentação da peça escolar anual, e estavam todos exultantes com o sucesso alcançado, aguardando ansiosamente o início da festa do elenco, que entraria pela noite adentro.

—Que pena que seu pai não tenha podido vir para vê-la esta noite, Billie Jo — disse a mãe orgulhosa quando a beldade colegial entrou no carro.

—     Também senti muito, mamãe. Vamos pra casa.

—     Pra casa? — A matrona mostrou-se confusa.

—     Só preciso descansar um pouco. Depois mudarei de roupa para a festa, está bem?

—Você parece não estar se sentindo bem — disse a mãe, entrando com o carro no fluxo do trânsito. Billie Jo vinha fungando e tossindo havia mais de uma semana, mas tinha insistido em participar da representação de qualquer maneira.

—     É só um resfriado, mamãe — disse a garota, irritada.

Ao chegarem em casa, ela estava esfregando os olhos e gemendo. Suas faces estavam rubras de febre. Apavorada, a mãe abriu a porta da frente e correu para discar 911. O policial disse a ela que deixasse a menina no carro, mantendo-a agasalhada e em repouso. Os paramédicos chegaram em três minutos.

Na ambulância, enquanto a sirene abria caminho pelas ruas de Atlanta, a garota gemia e se contorcia na maca, sentindo falta de ar. A mãe enxugou o rosto esfogueado da filha e rompeu em lágrimas de desespero.

Na Enfermaria de Emergência do hospital, uma enfermeira apertou a mão da mãe aflita.

—     Faremos tudo o que for necessário, Sra. Pickett. Tenho certeza de que ela logo ficará boa.

Duas horas depois, jorrou sangue da boca de Billie Jo Pickett, e ela morreu.

 

17:12h

Forte Irwin, Barstow, Califórnia

O árido alto da Califórnia no começo de outubro era tão incerto e instável quanto as ordens de um novo segundo-tenente no comando de seu primeiro pelotão. Aquele dia em particular tinha sido claro, ensolarado, e, quando Phyllis Anderson começou a preparar o jantar na cozinha de sua agradável casa de dois andares, sentia-se otimista. Tinha sido um dia quente e seu marido, Keith, dera um bom cochilo. Ele vinha combatendo um forte resfriado havia duas semanas, e ela esperava que o sol e o tempo mais seco acabassem com ele de uma vez.

Do lado de fora das janelas da cozinha, os borrifadores de água trabalhavam nos grandes espaços sombreados da tarde. Os canteiros vicejavam com flores de final de verão que desafiavam a aspereza selvagem das iúcas, dos creosotos e dos cactos que medravam entre as rochas negras do deserto bege.

Phyllis cantarolava enquanto colocava o macarrão no forno de microondas. Ficou esperando ouvir os passos do marido descendo a escada. O major estava de serviço naquela noite. Mas o que ouviu foi um fragor, parecendo um tropel, que só podia ser coisa de Keith Jr., descendo os degraus aos trambolhões, excitado com a perspectiva do filme a que ela prometera levar ambos os filhos enquanto o pai deles estivesse trabalhando. Afinal, era uma noite de sexta-feira. Ela gritou:

—     Jay, Jay, pare com isso!

Mas não era Keith Jr. Seu marido, vestindo parcialmente um uniforme de operações de camuflagem no deserto, entrou cambalean¬te na cozinha. Suava profusamente, e suas mãos comprimiam a cabeça como se quisesse impedir que ela explodisse.

Ele disse, ofegante:

—     ... hospital... socorro....

Diante de seus olhos atônitos, o major caiu no chão da cozinha, com o peito arfante, lutando para respirar.

Chocada, Phyllis a princípio ficou olhando, paralisada, mas logo reagiu com a agilidade e decisão de uma mulher de soldado. Saiu correndo da cozinha. Sem bater, abriu impetuosamente a porta lateral da casa vizinha e irrompeu na cozinha.

O capitão Paul Novak e sua mulher, Judy, ficaram boquiabertos.

—     Phyllis? — Novak levantou-se. — O que foi que aconteceu?

A mulher do major não desperdiçou palavras.

—     Paul, preciso de sua ajuda. Judy, venha, por favor, ficar de olho nas crianças. Depressa!

Ela girou os calcanhares e correu. O capitão Novak e sua mulher seguiram logo atrás dela. Quando recebe ordens para entrar em ação, um soldado aprende a não fazer perguntas. Diante do quadro com que depararam na cozinha da casa dos Andersons, os Novaks se deram conta instantaneamente do que se passava.

—     Nove-um-um? — Judy fez menção de pegar o telefone.

—     Não há tempo — disse Novak.

—     Nosso carro! — gritou Phyllis.

Judy Novak subiu a escada correndo, dirigindo-se aos quartos das crianças, onde elas estavam se aprontando para o grande programa com a mãe. Phyllis Anderson e Novak ergueram o ofegante major. Escorria-lhe sangue do nariz. Ele estava semi-inconsciente, gemendo, não conseguindo falar. Carregando-o apoiado nos ombros, os dois atravessaram o gramado apressadamente em direção ao carro.

Novak assumiu o volante, e Phyllis acomodou-se ao lado do marido. Reprimindo os soluços, ela repousou a cabeça do major no seu ombro e o aconchegou contra o peito. Os olhos dele olharam para ela em desespero, refletindo sua ânsia de ar. Novak entrou na base a toda velocidade, buzinando alucinadamente. O tráfego se dividiu, como uma companhia de infantaria ao deixar passar os tanques. Quando chegaram ao Weed Army Community Hospital, o Major Keith Anderson estava inconsciente.

Três horas depois estava morto.

No Estado da Califórnia, em casos de morte súbita, de causa desconhecida, a autópsia é indispensável. Devido às circunstâncias inusitadas da morte, o corpo do major foi removido para o necrotério.

Mas, assim que o patologista do exército abriu a cavidade torácica, uma grande quantidade de sangue jorrou, espirrando nele.

Seu rosto ficou branco como giz. Ele se aprumou, descalçou as luvas de borracha e retirou-se às pressas da câmara de autópsias, dirigindo-se para o seu gabinete.

Pegou o telefone.

— Liguem-me com o Pentágono. Imediatamente! Prioridade absoluta!

 

14:55h, domingo, 12 de outubro

Londres, Inglaterra

Um chuva fria de outono caía em Knightsbridge onde Brompton Road corta Sloan Street. A fila ininterrupta de carros buzinando, táxis e ônibus vermelhos de dois andares virou rumo à zona sul e prosseguiu lentamente na direção de Sloan Square e Chelsea. Nem a chuva nem o fato de os escritórios comerciais e as repartições públicas estarem fechados durante o fim de semana diminuíam o engarrafamento. A economia mundial ia bem, as lojas estavam cheias, e o New Labor não estava balançando o barco de ninguém. Agora os turistas vinham a Londres em todas as épocas do ano, e o trânsito naquela tarde de domingo continuava avançando a passo de lesma.

Impaciente, o tenente-coronel do Exército dos Estados Unidos Jonathan ("Jon") Smith, do Corpo Médico, desceu do moroso ônibus 19 duas ruas antes do seu destino. A chuva estava finalmente estiando. Ele deu alguns passos rápidos ao lado do ônibus na calçada molhada e depois se adiantou, deixando o ônibus para trás.

Homem alto, esguio, atlético, com pouco mais de quarenta anos, Smith tinha cabelos escuros penteados para trás e um rosto altivo. Seus olhos azul-marinho observavam simultaneamente os veículos e os pedestres. Não havia nada de especial nele ao caminhar com seu paletó de tweed, calças de algodão e capa de chuva. Contudo, algumas mulheres viravam-se para olhá-lo, e ele ocasionalmente notava e sorria, mas seguia em frente.

Ele saiu da garoa em Wilbraham Place e entrou no elegante Wilbraham Hotel, onde costumava se hospedar toda vez que o USAMRIID o enviava a uma conferência médica em Londres. Subiu de dois em dois os degraus da escada do venerável hotel, remexeu suas malas à procura dos relatórios sobre um surto de febre alta ocorrido entre tropas americanas estacionadas em Manila. Tinha prometido mostrá-lo ao Dr. Chandra Uttan, da divisão de doenças viróticas da Organização Mundial de Saúde.

Finalmente encontrou os relatórios debaixo de roupas sujas jogadas na mala maior. Suspirou e sorriu — nunca perdera os hábitos desleixados adquiridos nos anos de trabalho de campo, vivendo precariamente em barracas enquanto pesquisava as causas de um surto epidêmico atrás do outro.

Ao descer apressado para voltar à conferência de epidemiologia da OMS, o funcionário da recepção o chamou.

—     Coronel, chegou uma carta para o senhor. Está escrito "Urgente" no envelope.

—     Uma carta? — Quem remeteria uma carta para ele ali? Olhou o relógio de pulso, que não só lhe indicou a hora como o lembrou do dia. — Num domingo!

—     Foi entregue em mãos.

Subitamente preocupado, Smith pegou o envelope e o abriu. Era apenas uma folha de papel branco, sem cabeçalho ou endereço do remetente.

Smithy,

Encontre-me no parque Rock Creek, na área destinada aos piqueniques Pierce Mill, segunda-feira à meia-noite. Urgente. Não diga a ninguém.

B.

 

O peito de Smith se contraiu. Só havia uma pessoa que o chamava de Smithy — Bill Griffin. Conhecera Bill no terceiro ano da escola primária Hoover em Council Bluffs, Iowa. Logo se tornaram amigos e fizeram juntos o curso secundário e o universitário na Universidade de Iowa e, mais tarde, de pós-graduação na UCLA. Somente depois de Smith se formar em medicina e Bill em psicologia tomaram rumos diferentes. Ambos tinham realizado seus sonhos de infância, entrando para as forças armadas, tendo Bill se engajado no serviço de inteligência. Não se viam fazia mais de dez anos, mas sempre se mantiveram em contato mesmo nas missões e postos mais distantes em que serviram.

Franzindo o cenho, Smith permaneceu imóvel no imponente saguão e releu mais uma vez as palavras enigmáticas.

—     Algum problema, senhor? — perguntou o recepcionista polidamente.

Smith olhou à sua volta.

—     Não. Nada importante. Bem, preciso ir andando para não perder o próximo seminário.

Enfiou o bilhete no bolso da capa e enfrentou a tarde chuvosa. Como Bill soubera que ele estava em Londres? Naquele hotel isolado? E por que todo aquele mistério de capa e espada, aponto de Bill chamá-lo pelo apelido de garoto?

Nenhum endereço ou número de telefone.

Somente uma inicial para identificar o remetente.

Por que meia-noite?

Smith gostava de se ter na conta de um homem simples, mas sabia que a verdade estava longe disso. Sua carreira mostrava a realidade. Tinha sido médico militar em unidades MASH e agora era um cientista dedicado a pesquisas. Durante certo tempo também trabalhara no serviço de inteligência. E comandara tropas num dado momento. Sua constante agitação estava de tal forma entranhada na sua maneira de ser que ele nem a notava.

Não obstante, no ano anterior descobrira uma felicidade que dera um sentido à sua vida, uma concentração que nunca experimentara. Não só considerava seu trabalho no USAMRIID desafiador e excitante, como o celibatário convicto estava amando. Realmente apaixonado. Nada daquela sucessão inconseqüente de mulheres entrando e saindo de sua vida, como se estivessem numa porta giratória. Sophia Russell era tudo para ele —- colega, colaboradora e uma estonteante beldade loura.

Havia momentos em que ele desviava os olhos de seu m icroscópio eletrônico só para admirá-la. Como era possível toda aquela frágil beleza esconder tanta inteligência e uma determinação de aço? Era o que não cessava de se perguntar. Só de pensar nela sentiu ainda mais sua falta. Deveria pegar o avião em Heathrow na manhã seguinte, o que lhe daria tempo para ir até Maryland e tomar o café da manhã com Sophia antes de irem para o laboratório.

Mas agora recebera aquele bilhete perturbador de Bill Griffin.

Todos os seus alarmes internos dispararam. Mas, ao mesmo tempo, era uma oportunidade. Ele sorriu para si mesmo. Aparente¬mente sua agitação ainda não tinha sido completamente domada.

Ao acenar para um táxi, decidiu-se.

Transferiria a passagem de avião para segunda-feira à noite e iria se encontrar com Bill à meia-noite. Era uma amizade de uma vida inteira, não poderia agir de outra maneira. Isso significava que só reassumiria seu trabalho na terça-feira, com um dia de atraso, o que deixaria Kielburger, o general que dirigia o USAMRIID, possesso. Para dizer o mínimo, o general achava Smith e o seu modo independente de agir, como se estivesse numa operação de campo, irritantes.

Não havia problema. Smith compensaria o atraso.

Bem cedo, na manhã da véspera, ele tinha telefonado para Sophia só para ouvir sua voz. Mas a conversa foi cortada por uma chamada urgente. Ela recebeu instruções para ir ao laboratório imediatamente, a fim de identificar um vírus da Califórnia. Sophia poderia ter de trabalhar as próximas dezesseis ou vinte e quatro horas ininterruptamente. Na verdade, era capaz de ter de ficar no laboratório até tão tarde da noite que nem estaria acordada na manhã do dia seguinte, quando ele planejava tomar café com ela. Smith suspirou, desapontado. A única coisa boa é que ela estaria muito ocupada para se preocupar com ele.

Ele poderia muito bem deixar um recado na secretária eletrônica, avisando que chegaria com um dia de atraso e que ela não se preocupasse. Ela poderia mencionar ou não ao general Kielburger o recado que recebera.

Mas havia um lado positivo nisso tudo. Em vez de deixar Londres na manhã seguinte, ele embarcaria num vôo noturno. Umas poucas horas de diferença, mas um mundo para ele: Tom Sheringham chefiava a equipe do Estabelecimento de Pesquisa Microbiológica do Reino Unido, que estava trabalhando numa vacina potencial contra todos os hantavírus. Naquela noite ele poderia não só assistir à apresentação de Tom como tentaria arrastá-lo para uns drinques ou um jantar depois da palestra, quando faria com que ele lhe adiantasse detalhes que ainda não podia tornar públicos, e quem sabe receberia um convite para visitar Porton Down no dia seguinte, antes de embarcar no seu vôo noturno.

Sacudindo a cabeça para si mesmo e quase sorrindo, Smith saltou uma poça d'água e abriu a porta traseira de um táxi, um dos caracte¬rísticos besouros pretos londrinos, que parara no meio da rua. Deu ao motorista o endereço da conferência da OMS.

Mas ao se acomodar no banco de trás seu sorriso desapareceu. Tirou do bolso o bilhete de Bill Griffin e o leu mais uma vez, esperando encontrar alguma pista para o que não entendera. O que mais o intrigava era o que não estava dito. O sulco entre suas sobrancelhas se acentuou. Passou em revista os últimos anos, tentando imaginar o que poderia ter acontecido para que Bill de repente o contatasse daquela maneira.

Se ele estivesse querendo alguma ajuda científica ou qualquer tipo de assistência do USAMRIID, teria acionado os canais competentes do governo. Bill era agora um agente especial do FBI, e se orgulhava disso. Como qualquer agente, poderia requisitar os serviços de Smith ao diretor do USAMRIID.

Por outro lado, se se tratasse de um assunto meramente pessoal, não havia necessidade daquele clima de mistério. Bastaria deixar um simples recado na recepção do hotel com o número do seu telefone para que ele, Smith, pudesse chamá-lo de volta.

No táxi, transido de frio, Smith ergueu os ombros, contrafeito, por baixo de sua capa. O encontro era não só oficioso como secreto. Muito secreto. O que significava que Bill estava agindo à revelia do FBI, do USAMRIID, de todas as entidades governamentais... aparentemente com a intenção de envolvê-lo em algo clandestino.

 

9:57h, domingo, 12 de outubro

Forte Detrick, Maryland

Situado em Frederick, uma cidadezinha cercada peio verde das montanhas de Maryland ocidental, o Forte Detrick era a sede do Instituto de Pesquisas Médicas sobre Doenças Infecciosas do Exército dos Estados Unidos. Conhecido por USAMRIID, ou simplesmente como o Instituto, tinha sido o estopim de um violento protesto na década de 1960, quando funcionava como fábrica do governo que produzia e testava armas químicas e biológicas. Quando o presidente Nixon decretou o fim desses programas em 1969, o USAMRIID desapareceu do foco das atenções para se tornar um centro dedicado à ciência e à cura de enfermidades.

E então veio 1989. O altamente transmissível vírus Ebola parecera ter contaminado macacos agonizantes numa unidade de quarentena de primatas em Reston, na Virgínia. Os médicos e veterinários do USAMRIID, tanto militares quanto civis, foram convocados para conter o que poderia degenerar numa trágica epidemia, uma hecatombe para a humanidade.

Mas, melhor do que sustar a epidemia, eles descobriram que o vírus Reston era geneticamente um milímetro diferente das variedades extremamente letais do Ebola do Zaire e do Ebola do Sudão. E o mais importante: provaram que o vírus era inofensivo para os seres humanos. A sensacional descoberta alçou os cientistas do USAMRIID às manchetes de todos os jornais da nação. De repente, o Forte Detrick voltou a mobilizar a imaginação das pessoas, mas dessa vez como a mais importante entidade militar de pesquisa médica.

No seu gabinete no USAMRIID, a Dra. Sophia Russell estava pensando se a fama que cercava os cientistas do Instituto realmente se justificava, rogando a Deus que a inspirasse, enquanto aguardava impacientemente que seu telefone tocasse para entrar em contato com um homem que poderia ter algumas respostas para ajudar a resolver uma crise que ela receava pudesse precipitar uma grave epidemia.

Sophia era uma cientista Ph.D., com pós-graduação em biologia celular e molecular. Era uma peça relevante na engrenagem mundial acionada pela morte do major Keith Anderson. Estava no USAMRIID havia quatro anos, e, como os cientistas em 1989, estava participando de uma emergência médica envolvendo um vírus desconhecido. Ela e seus companheiros, entretanto, estavam numa posição muito mais precária: o vírus em questão era fatal para os seres humanos. Fizera três vítimas—o major do exército e dois civis —, todas aparentemente mortas abruptamente de uma síndrome de insuficiência respiratória aguda, ARDS, no intervalo de poucas horas.

Não foi a simultaneidade das mortes ou a ARDS em si o que causara espécie ao USAMRIID; milhões de criaturas morrem de ARDS todos os anos em todo o planeta. Mas não pessoas jovens. Não pessoas saudáveis. Não indivíduos sem antecedentes de problemas respiratórios ou de outros fatores que pudessem contribuir para o distúrbio, e não com violentas dores de cabeça e cavidades torácicas cheias de sangue.

Os três casos fatais ocorridos no mesmo dia apresentavam sintomas idênticos, cada um numa região diferente do país — o major na Califórnia, uma adolescente na Geórgia e um sem-teto em Massachusetts.

O diretor do USAMRIID—general-de-brigada Calvin Kielburger — relutava em declarar uma prontidão mundial baseada em três casos que tinham sido submetidos à análise do Instituto apenas na véspera. Não queria causar pânico ou parecer um alarmista pusilânime. E principalmente não lhe agradava nada ter de compartilhar créditos com outros laboratórios Nível Quatro, especialmente o maior rival do USAMRIID, o Centro de Controle de Enfermidades de Atlanta.

Enquanto isso, a tensão no USAMRIID era palpável, e Sophia, chefiando uma equipe de cientistas, continuava trabalhando.

Ela havia recebido as primeiras amostras de sangue às 3h de sábado e imediatamente dirigira-se ao seu laboratório Nível Quatro para começar a testá-lo. No pequeno vestiário, tirou as roupas, o relógio, e o anel que Smith lhe dera quando concordara em casar com ele. Fez uma breve pausa para sorrir para o anel e pensar em Jon. O rosto bonito dele espocou na sua mente — os traços quase de índio americano, com os zigomas altos, mas olhos escuros. Aqueles olhos a tinham intrigado desde o princípio, e às vezes ela imaginava como seria divertido mergulhar nas suas profundezas. Amava a maneira felina como ele se movia, como um autêntico animal selvagem domesticado apenas por opção. Mais do que tudo, porém, ela simplesmente, irrevogavelmente, apaixonadamente o amava.

Tivera de interromper a conversa telefônica com seu amado para vir correndo para o laboratório.

—     Querido, tenho de ir. Era do laboratório na outra linha. Uma emergência.

—À esta hora? Não podiam esperar o sol nascer? Você precisa descansar.

Ela deu uma risadinha.

—     Você me ligou. Eu estava descansando, na verdade dormindo, quando o telefone tocou.

—     Eu sabia que você ia querer falar comigo. Você não consegue me resistir.

Ela riu.

—     Absolutamente certo. Estou sempre pronta para falar com você a qualquer hora do dia ou da noite. Sinto cada minuto de sua ausência, com você aí em Londres. Fico feliz por ter me tirado de um sono profundo para que eu pudesse lhe dizer isso.

Foi a vez de ele rir.

—     Eu também te amo, querida.

Ela suspirou no vestiário do USAMRIID. Fechou os olhos. Depois tirou Jon da cabeça. O trabalho a chamava. Uma emergência.

Vestiu rapidamente seu uniforme cirúrgico verde esterilizado. Descalça, pelejou para abrir a porta de acesso ao laboratório Nível Dois de Segurança Biológica devido à pressão negativa que mantinha os agentes contaminadores dentro dos níveis Dois, Três e Quatro. Finalmente, do lado de dentro, ela passou pelo túnel de um chuveiro seco e entrou num banheiro onde havia meias brancas limpas.

De meias calçadas, ela se dirigiu apressadamente para a área de procedimentos Nível Três. Enfiou luvas cirúrgicas de látex e apertou os punhos para que aderissem bem à pele. Fez a mesma coisa com as meias e as pernas das calças do uniforme. Isto feito, envergou sua indumentária espacial biológica, personalizada, de plástico azul brilhante, que cheirava a balde de plástico. Verificou cuidadosamente se havia alguma perfuração. Colocou o capacete de plástico flexível na cabeça, fechou o zíper de plástico, assegurando a perfeita vedação da roupa e do capacete, e puxou da parede um tubo de ar amarelo.

Ligou o tubo no seu uniforme. Com um leve chiado, o ar foi inflando a bojuda indumentária espacial. Quase terminada a operação, ela desconectou o tubo de ar e passou pesadamente por uma porta de aço inoxidável para o compartimento pressurizado do Nível Quatro, provido de pequenos chuveiros para a ducha de descontaminação com água e produtos químicos.

Por fim, abriu a porta para o Nível Quatro. A Zona Quente.

Agora não tinha como apressar as coisas. A cada passo que dava na cautelosa cadeia de camadas de proteção, ela precisava ter mais cuidado. Sua única arma era locomover-se eficientemente. Quanto mais eficiente fosse, mais velocidade poderia adquirir. Por isso, em vez de andar afobadamente com as pesadas botas amarelas, erguia cuidadosamente um pé, calculava com perícia o ângulo certo, e o deslizava. Depois fazia a mesma coisa com o outro pé.

Avançava gingando o mais depressa que podia por estreitos corredores revestidos de tijolos refratários a caminho do seu laboratório. Lá chegando, calçou um terceiro par de luvas de látex, removeu cuidadosamente as amostras de sangue e de tecido do contêiner refrigerado e pôs-se a trabalhar, isolando o vírus.

Durante as vinte e seis horas seguintes, ela esqueceu de comer e dormir. Viveu dentro do laboratório o tempo todo, estudando o vírus com o microscópio eletrônico. Para sua surpresa, ela e sua equipe descartaram a possibilidade de se tratar do Ebola, do Marburg ou de qualquer outro filovírus. Apresentava a forma arredondada e peluda da maioria dos vírus. Tendo-o visto, e dada a morte ocasionada por ARDS, seu primeiro pensamento foi que se tratava de um hantavírus como o que matara os jovens atletas da reserva Navajo em 1993. O USAMRIID era perito em hantavírus. Uma de suas lendas, Karl Johnson, tinha sido o descobridor do primeiro hantavírus a ser isolado e identificado, nos anos 70.

Com isso em mente, ela utilizou a técnica imunológica para examinar o vírus desconhecido, recorrendo ao banco de amostras de sangue do USAMRUD de vítimas de vários hantavírus colhidas em diversas partes do mundo. Intrigada, processou uma reação em cadeia polimérica para obter um pouco de seqüência de DNA do vírus. Ele não se parecia com nenhum hantavírus conhecido, mas para futura referência ela esboçou um mapa de restrição preliminar. Foi quando desejou mais ardentemente que Jon estivesse com ela, e não distante, na conferência da OMS em Londres.

Frustrada por ainda não ter uma resposta definitiva, retirou-se, contrariada, do laboratório. Já dispensara sua equipe, mandando-a para casa, para recuperar algumas horas de sono. Submeteu-se à rotina de saída, despindo a indumentária espacial, passando por todos os procedimentos de descontaminação e vestindo novamente as roupas civis.

Depois de um cochilo on-site — isso era tudo de que precisava, disse a si mesma com convicção —, foi para seu gabinete conferir as anotações que fizera sobre os testes. Quando os outros integrantes da equipe acordaram, mandou-os de volta para seus laboratórios.

Sua cabeça doía, e sua garganta estava seca. Apanhou uma garrafa d'água no mini-refrigerador e voltou para sua escrivaninha. Três fotografias emolduradas estavam penduradas na parede. Tomou um gole d'água e inclinou-se para frente para contemplá-las, como uma mariposa atraída pela luz irresistível. Uma das fotos mostrava Jon e ela em trajes de banho no último verão em Barbados. Como tinham se divertido em suas primeiras e únicas férias juntos! A segunda era de Jon em uniforme de gala no dia em que fora promovido a tenente-coronel. A última era um flagrante de um capitão mais jovem de cabelos pretos, rosto sujo e penetrantes olhos azuis, num uniforme de campanha empoeirado do lado de fora de uma barraca do Quinto Regimento MASH em algum lugar do deserto iraquiano.

Sentindo falta dele, precisando dele ao seu lado no laboratório, ela estendeu a mão a fim de pegar o telefone e ligar para ele em Londres — mas desistiu. O general o havia enviado a Londres. Para o general, tudo tinha de ser feito rigorosamente de acordo com o regulamento, todas as missões tinham de ser cumpridas até o fim. Nem um dia a mais nem um dia a menos. Jon só chegaria dentro de muitas horas. Deu-se conta, depois, de que provavelmente estaria voando naquele momento, e de que ela não estaria em casa à sua espera. Tratou de superar o desapontamento.

Ela se devotara à ciência, e em algum ponto de percurso fora bafejada pela sorte. Nunca pensara em casar. Amar, talvez. Mas casar? Estava fora de suas cogitações. Qual é o homem que aceita uma mulher obcecada pelo seu trabalho? Mas Jon compreendia seu fascínio pela ciência. Na verdade, entusiasmava-o saber que ela era capaz de olhar uma célula e discuti-la minuciosamente, com propriedade e brilhantismo. De sua parte, ela achava que a inesgotável curiosidade dele era extremamente estimulante. Como duas crianças numa festa de jardim-de-infância, sentiram-se atraídos por suas afinidades. Eram o que se poderia chamar de almas gêmeas, não só profissionalmente como espiritualmente. Ambos era dedicados, compassivos, e amavam a vida tanto quanto um ao outro.

Jamais conhecera tamanha felicidade, e devia isso a Jon.

Com um movimento de cabeça brusco, impaciente, virou-se para o computador, a fim de examinar as notas que tomara no laboratório e ver se tinha deixado escapar alguma coisa. Não encontrou nada significativo.

Então, à medida que chegavam mais dados da seqüência de DNA, e ela continuava revendo mentalmente todos os dados clínicos obtidos sobre o vírus, teve uma estranha intuição.

Era capaz de jurar que já tinha visto o vírus — ou outro agente patogênico incrivelmente semelhante — em algum lugar.

Fez um grande esforço de memória, vasculhou o passado.

Não lhe ocorreu nada de especial. Finalmente, leu o relatório de um dos integrantes de sua equipe que levantava a hipótese de o novo vírus poder se relacionar com a Machupo, uma das primeiras febres hemorrágicas descobertas, mais uma vez por Karl Johnson.

A África não lhe dizia nada. Mas a Bolívia...?

O Peru!

A viagem de campo que fizera quando era estudante de antropologia, e...

Victor Tremont.

Sim, esse era seu nome. Um biólogo que também fora ao Peru colher plantas medicinais... qual era mesmo a companhia? Um grande laboratório farmacêutico... Blanchard Pharmaceuticals!

Voltou para o computador e acessou a Internet rapidamente, procurando o nome Blanchard. Achou-o quase imediatamente. Ficava situado em Long Lake, Nova York. E Victor Tremont era agora presidente e diretor-executivo de operações. Ela pegou o telefone e discou o número.

Era uma manhã de domingo, mas as grandes corporações às vezes deixavam seus circuitos telefônicos abertos durante todo o fim de semana para eventuais chamadas importantes. A Blanchard adotava essa norma. Uma voz humana respondeu, e, quando Sophia pediu para falar com Victor Tremont, a voz disse que aguardasse. Ela tamborilou os dedos 110 tampo da mesa, tentando controlar a preocupada impaciência.

Finalmente, uma série de cliques e silêncios do outro lado da linha foi interrompida por outra voz humana. Dessa vez era uma voz neutra, sem tonalidade.

—     Pode me dizer seu nome e sobre o que deseja falar com o Dr. Tremont?

—     Sophia Russell. Diga a ele que é sobre uma viagem ao Peru em que nos conhecemos.

—     Um momento, por favor. — Mais silêncio. Depois: — O Sr. Tremont vai atendê-la.

—     Sra... Russell? — Obviamente ele estava conferindo o nome escrito num bloco. — Em que posso servi-la? — Sua voz era baixa e agradável, mas enérgica. Um homem claramente acostumado a dar ordens.

Ela disse suavemente.

—Na verdade, agora é Dra. Russell. Não se lembra do meu nome, Dr. Tremont?

—     Confesso que não, mas mencionou o Peru, e me lembro muito bem do Peru. Foi há uns doze ou treze anos, não é mesmo? — Ele estava admitindo identificar a referência ao Peru, evitando, porém, se comprometer, caso se tratasse de um pedido de emprego ou se fosse apenas um trote.

—     Treze, e me lembro perfeitamente do senhor. — Ela estava tentando conduzir a conversa com habilidade. — O que me interessa particularmente é aquela época que passamos às margens do rio Caraibo. Eu fazia parte de um grupo de estudantes de antropologia de Syracuse, numa expedição de campo, enquanto o senhor estava colhendo materiais medicinais. Estou telefonando para lhe perguntar sobre um vírus que descobriu entre os habitantes daquelas tribos remotas, os nativos conhecidos como Tribo de Sangue de Macaco.

No seu amplo escritório de quina no outro lado da linha, Victor Tremont sentiu um tremor de medo, que logo dominou. Girou a cadeira de sua escrivaninha para admirar o lago que cintilava como mercúrio à luz branda do início da manhã. Do outro lado do espelho d'água, ao longe, estendia-se uma densa floresta de pinheiros que subia pela encosta das montanhas.

Incomodado por ela o ter surpreendido com aquela lembrança potencialmente devastadora, Tremont continuou a girar na cadeira. Manteve um tom de voz amistoso.

—Agora estou começando ame lembrar. A jovem loura empolgada pela ciência. Afinal, tornou-se uma antropóloga?

—     Não. Acabei fazendo pós-graduação em biologia celular e molecular. E por esse motivo que estou precisando de sua ajuda. Trabalho no Centro de Doenças Infecciosas do Forte Detrick. Estamos pesquisando um vírus que se parece muito com o do Peru — um tipo desconhecido que provoca dores de cabeça, febre e uma síndrome de falência respiratória aguda capaz de matar pessoas aparentemente saudáveis e produzir uma violenta hemorragia nos pulmões. Esses sintomas lhe dizem alguma coisa, Dr. Tremont?

—     Me chame de Victor, e creio que me lembro do seu nome. Susan... Sally... ou algo parecido...?

—     Sophia.

—     E claro. Sophia Russell. Forte Detrick — disse ele, como se estivesse anotando. — Folgo em saber que não abandonou a ciência. Às vezes lamento ter trocado o laboratório pelo gabinete da presidên¬cia. Mas isso são águas passadas — disse, rindo.

—     Lembra-se do vírus? — perguntou ela.

—Não. Não posso dizer que me lembre. Fui para o setor de vendas e mais tarde para a administração pouco depois dessa viagem ao Peru, e talvez seja por isso que não me recorde do episódio. Como lhe disse, faz tanto tempo... Mas, pelo que me lembro de minha biologia molecular, o cenário que está sugerindo parece-me improvável. Deve estar pensando numa série de vírus diferentes de que ouvimos falar nessa viagem. Aliás, vírus é o que não faltava. Lembro-me bem disso.

Ela apertou o fone contra o ouvido, frustrada.

—     Não, tenho certeza de que havia um agente isolado, contraído no contato com a Tribo de Sangue de Macaco. Na ocasião, não dei muita importância. Mas, naquele tempo, nem sonhava em seguir biologia, muito menos celular e molecular. Contudo, as circunstâncias insólitas da ocorrência ficaram registradas.

—     Tribo de Sangue de Macaco? Que coisa mais bizarra! Tenho certeza de que me lembraria de uma tribo com um nome tão estranho.

Sua voz denotava ansiedade, urgência.

—     Dr. Tremont, ouça. Por favor. Trata-se de uma questão vital. Crítica. Acabamos de receber três casos de um vírus que me lembra o do Peru. Aqueles nativos tinham uma cura que funcionava em quase oitenta por cento dos casos. Bebiam o sangue de determinado macaco. Pelo que me recordo, foi isso que o deixou assombrado.

—     E ainda me deixaria perplexo, não tenha dúvida. — A precisão dos detalhes com que evocava o incidente chegava a ser irritante. — índios primitivos que possuíam uma cura para um vírus fatal? Mas isso é fantástico, não sei de nada a respeito — mentiu ele matreiramente. — Pela maneira como descreve, estou certo de que me recordaria. O que é que seus colegas dizem? Com certeza alguns deles também participaram da expedição ao Peru.

Ela suspirou.

—     Quis conferir primeiro com o senhor. Chega de tantos alarmes falsos, e para mim também se passou muito tempo desde o Peru. Mas se o senhor não se lembra... — disse, num fio de voz. Estava profundamente decepcionada. — Não tenho dúvida de que havia um vírus. Talvez entre em contato com as autoridades sanitárias do Peru. Devem ter algum registro de curas inusitadas ocorridas entre os índios.

Victor Tremont ergueu ligeiramente o tom de voz.

—     Isso talvez não seja necessário. Tenho um diário das viagens que fiz naquela época. Apontamentos sobre plantas, minerais, produtos farmacêuticos em potencial. E possível que também tenha registrado a presença de algum vírus.

Sophia vibrou com a revelação.

—Apreciaria muito se desse uma olhada nesses seus apontamentos. Urgentemente.

Tremont sorriu, vitorioso. Conquistara-a.

—     O diário está guardado em algum lugar da minha casa. Provavelmente no sótão, ou no porão. Terei de procurar. Voltarei a contatá-la amanhã.

-—Ficarei lhe devendo essa, Victor. Talvez o mundo também. Por favor, não deixe de me telefonar amanhã à primeira hora. Não faz idéia de como pode ser importante. — Ela deu a ele o número do seu telefone.

—     Oh, creio que sei o que representa-—assegurou-lhe Tremont. — Amanhã de manhã impreterivelmente.

Ele girou mais uma vez a cadeira para contemplar o lago cintilante e as montanhas, que de repente pareciam ter-se aproximado ameaçadoramente. Levantou-se e foi até a janela. Era um homem alto, de compleição mediana, com um rosto em que a natureza operara uma generosa transformação. A despeito do nariz desproporcional, das orelhas de abano e das faces encovadas da adolescência, ele se tornara um homem bem-apessoado. Estaria agora com cinqüenta e poucos anos, e suas feições tinham desabrochado. Seu rosto tornara-se aquilino, suave, aristocrático. O nariz ficara no tamanho certo — reto e altivo —, um complemento adequado para sua fisionomia muito inglesa. Com sua pele bronzeada e os vastos cabelos grisalhos, ele chamava atenção onde quer que estivesse. Mas ele sabia que não era seu ar distinto e atraente que as pessoas achavam tão sedutor. Era a sua autoconfiança. Ele irradiava poder, e pessoas menos seguras achavam isso fascinante.

Não obstante o que dissera a Sophia Russell, Victor Tremont não moveu uma palha no sentido de procurar o diário que mencionara na sua luxuosa residência. Permaneceu contemplando as montanhas e aliviando a tensão. Estava irritado... e contrariado.

Sophia Russell. Meu Deus, Sophia Russell.

Quem poderia imaginar. Ele nem reconhecera seu nome inicialmente. Para dizer a verdade, não se recordava de nenhum nome daquele grupelho insignificante de estudantes. E duvidava que alguém se lembrasse do seu. Mas Sophia Russell se lembrara. Que cérebro privilegiado aquele para reter semelhantes detalhes! Obviamente, o trivial era muito importante para ela. Ele sacudiu a cabeça, profundamente contrariado. Mas, na verdade, ela não chegava a ser um problema. Era, de fato, apenas uma contrariedade. Contudo, exigia atenção. Abriu a gaveta secreta de sua escrivaninha, tirou um telefone celular e digitou um número.

Uma voz sem emoção, com um leve sotaque, atendeu.

—     Sim?

—     Preciso falar com você—ordenou Victor Tremont. —No meu escritório. Dentro de dez minutos. — Ele desligou, repôs o celular na gaveta secreta e trancou-a. Em seguida pegou o telefone convencional do seu escritório. — Muriel? Ligue-me com o general Gaspar em Washington.

 

9:14, segunda-feira, 13 de outubro

Forte Detrick, Maryland

Quando os funcionários chegaram ao USAMRIID naquela manhã de segunda-feira, a notícia logo se espalhou pelos edifícios do campus sobre os esforços infrutíferos desenvolvidos durante o fim de semana para identificar e encontrar um meio de conter um novo vírus mortífero. A imprensa ainda não farejara a história, e a diretoria baixara rigorosas instruções para que todos se conservassem calados em relação à mídia. Ninguém devia falar com um repórter, e somente os que trabalhavam nos laboratórios eram mantidos a par da angustiante busca.

Enquanto isso, as atividades normais não podiam parar. Havia formulários por preencher, equipamentos por conservar, telefonemas por responder. No escritório da sargento-ajudante, o Especialista de Nível Quatro Hideo Takeda estava no seu cubículo, separando correspondência, quando abriu um envelope com aspecto oficial, ostentando o logotipo do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Depois de ler e reler a carta, ele se debruçou sobre a divisória entre

O      seu cubículo e o da Especialista de Nível Cinco Sandra Quinn, sua colega. Ele confidenciou num sorriso excitado:

—     E a minha transferência para Okinawa.

—     Você está brincando.

—Já tínhamos perdido a esperança. — Ele sorriu. Sua namorada, Miko, estava baseada em Okinawa.

—     E melhor comunicar à chefe imediatamente — aconselhou Sandra. — Isso significa ter de ensinar a um novo auxiliar como lidar com os professores desligados que temos aqui. Ela vai ficar chateada.

Todo o mundo já está meio enlouquecido hoje com essa nova crise, você não acha?

—     Quero mais é que ela se dane — praguejou jovialmente o Especialista Takeda.

—     Não no meu pior pesadelo. — A sargento-ajudante Helen Daugherty surgiu na porta de seu escritório. — Podia fazer a gentileza de chegar até aqui, Especialista Takeda? — disse ela com exagerada delicadeza. — Ou prefere que eu o deixe sem sentidos primeiro?

Uma loura imponente com mais de um metro e oitenta, com ombros contrastando com suas curvas provocantes, olhou para baixo com o seu melhor sorriso de piranha para o pequenino Takeda, que media pouco mais de um metro e sessenta. O auxiliar saiu prontamente do seu cubículo, não escondendo um medo nervoso que não era totalmente destituído de fundamento. Com Daugherty, como costuma acontecer com qualquer bom sargento-ajudante, nunca se está inteira¬mente seguro do que poderá acontecer.

—     Feche a porta, Takeda. E sente-se.

O especialista cumpriu a ordem.

Daugherty olhou para ele com um olhar de verruma.

—     Há quanto tempo sabia da possibilidade de sua transferência, Hideo?

—     Fui surpreendido com a notícia esta manhã. Quero dizer, acabei de abrir a carta.

—     E nós a tínhamos requerido fazia muito tempo. Quase dois anos, não é mesmo?

—Um ano e meio, pelo menos. Logo depois da licença que passei lá. Veja bem, sargento, se precisar que eu fique mais um pouco, eu...

Daugherty sacudiu a cabeça.

—Não acredito que eu pudesse fazer isso mesmo que quisesse — disse ela, apontando o dedo para um memorando que estava em cima de sua mesa. — Recebi este e-mail do Ministério da Guerra mais ou menos ao mesmo tempo que você deve ter aberto sua carta. Parece que sua substituta já está a caminho. Está vindo do Comando da Inteligência em Kosovo, nada mais, nada menos. Ela já devia estar a bordo de um avião antes mesmo de a carta ter chegado aqui. — A expressão de Daugherty era pensativa.

—     Está me dizendo que ela chegará ainda hoje?

Daugherty olhou para o relógio de sua escrivaninha.

—     Dentro de umas duas horas, para falar com mais exatidão.

—     Que rapidez!

—     De fato — concordou Daugherty -—, um tanto repentino. Cancelaram até ordens de viagem para lhe dar prioridade. Você tem um dia para desocupar sua mesa e deixar suas instalações. Deverá tomar um avião amanhã de manhã.

—     Um dia?

—     E bom não perder tempo. E boa sorte, Hideo. Apreciei ter trabalhado com você. Darei boas referências a seu respeito.

—     Muito obrigado, sargento.

Ainda um pouco atordoado, Takeda deixou a sargento-ajudante Daugherty contemplando o memorando. Estava rolando um lápis entre as mãos e fitando o espaço enquanto ele esvaziava suas gavetas entusiasticamente. Reprimiu um grito de vitória. Não estava apenas cansado de estar longe de Miko, estava especialmente cansado de viver na panela de pressão que era o USAMRIID.

Tinha enfrentado outras emergências ali, mas essa nova estava deixando todo o mundo preocupado, assustado, melhor dizendo. Estava feliz por cair fora.

Três horas mais tarde, a Especialista de Nível Quatro Adele Schweik estava em posição de sentido no mesmo escritório diante da sargento-ajudante Daugherty. Era uma morena miúda de cabelos quase pretos, com uma postura rígida e olhos cinzentos alertas. Seu uniforme era impecável, ostentando duas fileiras de fitas de condecoração, indicando que servira em muitos países e participara de diversas campanhas. Havia condecorações até da Guerra da Bósnia.

—     À vontade, Especialista.

Schweik relaxou a posição de sentido.

—     Obrigada, sargento-ajudante.

Daugherty leu os documentos de transferência sem erguer os olhos.

—     Foi tudo muito rápido, não foi?

—Pedi que me transferissem para a área do D.C. há alguns meses. Razões pessoais. Meu coronel me informou que se verificara uma vaga em Detrick, e eu me candidatei imediatamente.

Daugherty olhou para ela.

—     Um pouco superqualificada, não acha? Este é um posto remoto. Um comando secundário sem muitas atribuições, que nunca é enviado para operações ultramarinas.

—     Só sei que é Detrick. Nem sei a que unidade pertence.

—     Oh! — Daugherty ergueu uma sobrancelha loura. Aquela Schweik tinha um ar muito frio, muito seguro. — Bem, somos o USAMRIID: U.S. Army Medical Research Institute for Infectious Diseases. Pesquisa científica. Todos os nossos oficiais são médicos, veterinários, ou especialistas em algum ramo da medicina. Temos até civis. Não há armas, treinamento, sonhos de glória.

Schweik sorriu.

—     Pelo que está me dizendo, parece ser um ambiente pacífico. Uma mudança saudável depois de Kosovo. Por outro lado, ouvi dizer que o USAMRIID ocupa uma posição de vanguarda na investigação de doenças letais da Zona Quente. Ao que tudo indica, deve ser muito excitante trabalhar aqui.

A sargento-ajudante empinou a cabeça.

—     É uma atividade para médicos. Nós cuidamos apenas da rotina burocrática. Mantemos a máquina funcionando. No último fim de semana houve uma emergência. Não faça perguntas. Não é de sua conta. E, se algum jornalista entrar em contato com você, encaminhe-o ao setor de relações públicas. Isto é uma ordem. Ok, aquele ali é o seu cubículo, ao lado do de Quinn. Apresente-se a ela. Instale-se, e Quinn a ajudará até você adquirir prática do serviço.

Schweik perfilou-se, assumindo posição de sentido.

—     Obrigada, sargento-ajudante.

Daugherty rolou seu lápis novamente, estudando a porta que acabara de fechar atrás da nova auxiliar. Daugherty suspirou. Ela não se convencera totalmente. Embora houvesse muita burocracia, havia momentos como aquele em que as decisões do alto comando do exército não faziam o menor sentido. Ela deu de ombros. Já vira coisas mais estranhas do que uma súbita substituição de pessoal, que, ao fim e ao cabo, deixara ambas as partes satisfeitas. Ligou o interfone para Quinn, pediu uma xícara de café e tratou de tirar da cabeça a última crise de laboratório e a insólita transferência de pessoal. Tinha mais o que fazer.

As 17:32h, a sargento-ajudante Daugherty fechou à chave a porta do seu escritório, preparando-se para ir embora, deixando-o vazio. Mas o escritório não estava vazio.

A nova auxiliar Schweik disse:

—     Gostaria de ficar e aprender o mais que puder, se não houver inconveniente.

—     Tudo bem. Avisarei o segurança. Você tem uma chave do escritório? Ótimo. Feche tudo quando terminar. Não ficará sozinha. Esse novo vírus está deixando os médicos malucos. Calculo que alguns deles passarão a noite toda no campus. Se isso se prolongar por muito tempo, vão ficar intratáveis. Eles não gostam de vírus misteriosos que matam pessoas.

-—Foi o que ouvi dizer. — A moreninha de olhar esperto acenou com a cabeça e sorriu. — Não disse? O que não falta é ação e excitação em Forte Detrick.

Daugherty riu.

—     Dou a mão à palmatória — disse ela, e se retirou.

Sentada à sua mesa no escritório silencioso, a Especialista Schweik leu memorandos e fez anotações por mais meia hora até se certificar de que nem a sargento-ajudante nem o segurança viriam checá-la. Abriu então a maleta de executivo que havia trazido durante seu primeiro intervalo para o café. Quando chegara à Base Aérea Andrews naquela manhã, a maleta estava à sua espera no carro que lhe havia sido designado.

Retirou da maleta um diagrama esquemático das instalações telefônicas do edifício do USAMRIID. A caixa principal ficava no porão e continha conexões com todas as extensões internas e linhas particulares externas. Estudou-o demoradamente para memorizar sua posição. Colocou o diagrama de volta na maleta, fechou-a e passou para o corredor, carregando-a.

Com uma inocente curiosidade estampada no rosto, ela olhou cuidadosamente em volta.

O guarda do lado de dentro da entrada da frente estava lendo. Schweik precisava passar por ele. Respirou fundo, mantendo a calma, e deslizou silenciosamente pelo corredor de trás em direção à entrada do porão.

Ela esperou. Nenhum movimento ou ruído do guarda. Embora o edifício fosse considerado de segurança máxima, a proteção era menos para manter as pessoas de fora do que para proteger o público de toxinas, vírus, bactérias letais e outros materiais científicos que eram estudados no USAMRIID. Embora o guarda fosse bem treinado, faltava-lhe o perfil alerta de uma sentinela defendendo um laboratório onde armas de guerra secretas eram criadas.

Aliviada por ele permanecer entretido com a leitura do seu livro, ela experimentou a pesada porta de metal. Estava trancada. Retirou um molho de chaves da maleta. A terceira chave abriu a porta do porão. Desceu a escada sem fazer barulho e foi dar numa dependência com grandes máquinas que aqueciam e refrigeravam o edifício, forneciam ar esterilizado e pressão negativa para os laboratórios, operavam o potente sistema exaustor e supriam água e soluções químicas para as duchas de descontaminação, provendo todas as demais necessidades de manutenção do complexo médico.

Ela estava suando quando localizou a caixa principal. Pôs a maleta no chão e retirou dela uma caixa menor de ferramentas, cabos, cone¬xões com códigos coloridos, medidores, interruptores, dispositivos de escuta e miniaturas de gravadores.

Era noite, e o porão estava silencioso, ouvindo-se apenas o ruído ocasional produzido por um dos tubos ou condutores. Não obstante, ela aguçou os ouvidos para ter certeza de que não havia ninguém por perto. Uma energia nervosa arrepiava sua pele. Cautelosamente ela estudou as paredes cinzentas. Finalmente abriu a caixa principal e começou a mexer no emaranhado de conexões.

Duas horas depois, de volta ao seu cubículo, ela checou seu telefone, conectou um dispositivo de alto-falante/fone de ouvido nele, e ouviu.

—     ... Sim, receio que terei de ficar aqui pelo menos mais duas horas. Sinto muito, querida, mas não há outro jeito. Esse vírus é uma ameaça. A equipe toda está atrás dele. Ok, tentarei chegar antes de as crianças irem para a cama.

Satisfeita por constatar que seu equipamento de escuta e rastreamento estava funcionando a contento, ela desligou e discou uma linha externa. A voz do homem que a contatara na noite anterior e lhe dera instruções atendeu:

—     Sim?

Ela respondeu:

—     A instalação está pronta. Estou conectada com o gravador para ouvir todas as chamadas telefônicas, e tenho uma linha no meu aparelho que me permite alertá-lo sobre qualquer elemento dos escritórios em que você estiver interessado. Ela me conectará com a derivação para interceptar as chamadas.

—     Você não foi vista por ninguém? Ninguém suspeita de você?

Ela se orgulhava do seu ouvido apurado para identificar vozes e conhecia os principais idiomas e alguns menos importantes. Aquela voz era educada, e seu inglês era bom, mas não era perfeito. Um padrão de fala não-inglês com um ligeiro sotaque do Oriente Médio. Não era de Israel, do Irã ou da Turquia. Possivelmente da Síria ou do Líbano, mais provavelmente da Jordânia ou do Iraque.

Ela arquivou a informação para futura referência.

—     E claro que não — disse ela.

—     Muito bem, mantenha-se alerta em relação a qualquer novidade que diga respeito ao vírus que estão estudando. Monitorize todas as chamadas dos gabinetes da Dra. Russell, do tenente-coronel Smith e do general Kielburger.

Aquela tarefa não podia se prolongar por muito tempo, ou poderia se tornar muito arriscada. Provavelmente nunca descobririam o cadáver da verdadeira Especialista Adele Schweik. Ela não tinha parentes conhecidos e possuía muito poucos amigos fora do exército. Fora escolhida por essas razões.

Mas Schweik tinha um pressentimento de que a sargento-ajudante Daugherty estava desconfiada e ficara vagamente perturbada com a sua chegada. Uma investigação acurada poderia expô-la.

—     Quanto tempo vou permanecer aqui?

—     Até não precisarmos mais de você.

O ruído de ligação soou no seu ouvido. Ela desligou o aparelho e debruçou-se sobre a mesa para continuar enfronhando-se na rotina e nas necessidades do escritório da sargento-ajudante. Também ouviu conversas ao vivo nos dois sentidos, de fora para dentro e de dentro para fora do edifício, e monitorizou a luz do telefone de mesa que a alertava para as chamadas do laboratório da Dra. Russell. Por um momento ficou curiosa, querendo saber o que havia de tão importante sobre a doutora. Depois afastou o pensamento. Havia certas coisas que era perigoso saber.

 

Meia-noite

Washington, D.C.

O magnífico parque Rock Creek de Washington era um enclave selvagem no coração da cidade. Das margens do rio Potomac, perto do Centro Kennedy, ele serpenteava para o norte, onde se expandia numa larga faixa florestal na zona oeste da cidade. Bosque natural, abundava em trilhas para caminhadas, ciclovias, pistas para hipismo, áreas reservadas para piqueniques e sítios históricos. Pierce Mill, onde a Tilden Street cruzava com a Beach Drive, era um desses marcos históricos. Velho moinho de cereais, datava de antes da Guerra Civil, quando uma fileira desses moinhos margeava o riacho. Agora era um museu administrado pelo National Park Service, e, ao luar, um artefato fantasmagórico de um tempo remoto.

À noroeste do moinho, onde a mata era densa sob a copa de árvores altas, Bill Griffin esperava, segurando pela correia um dobermann indócil. Embora a noite estivesse fria, Griffin suava. Seu olhar cauteloso vigiava o moinho e a área de piqueniques. O cão de pêlo liso farejava o ar, e suas orelhas eretas giravam, procurando localizar a fonte de seu desassossego.

À direita, na direção geral do moinho, alguém se aproximou. O cachorro captara o som quase inaudível de folhas de outono sendo esmagadas por pisadas cautelosas, antes que Griffin pudesse percebê-las. Mas tão logo as ouviu, soltou o animal. O cachorro permaneceu obedientemente sentado, com os músculos retesados, ansioso.

Griffin fez um sinal com a mão, silenciosamente.

Como um fantasma negro, o dobermann deu um salto e rodeou a área destinada aos piqueniques, invisível nas trevas da noite.

Griffin reprimiu estoicamente a vontade de fumar um cigarro. Seus nervos estavam à flor da pele. Atrás dele alguma coisa pequena e arisca farfalhou no meio do mato. Em algum lugar do parque uma coruja piou. Ele ignorou os ruídos e dominou os nervos. Tinha sido muito bem treinado, era um profissional completo. Manteve-se atento, vigilante, imóvel. Respirava suavemente para evitar que seu bafo esbranquiçado revelasse sua presença no ar frio da noite. E embora conservasse o ânimo forte, sob controle, era um homem tenso, preocupado.

Mesmo quando, finalmente, o tenente-coronel Jonathan Smith atravessou correndo a clareira iluminada pelo luar prateado, Griffin permaneceu imóvel. O dobermann se embarafustou mato adentro nos fundos da área dos piqueniques. Mas Griffin sabia que ele estava lá.

Jon Smith hesitou na trilha. Chamou num sussurro rouco:

—     Bill? — Na sombra das árvores, Griffin continuava concentrando toda sua atenção nas trevas da noite. Ouvia o ruído abafado do tráfego na estrada próxima e o burburinho nervoso da cidade mais longe. Não havia nada de inusitado. Mais ninguém se encontrava naquele trecho da compacta reserva florestal. Ele esperou que o cachorro lhe provasse o contrário, mas o animal tinha retomado sua ronda, aparentemente também satisfeito.

Griffin suspirou. Avançou na direção da orla da área dos piqueniques, onde a luz da lua era detida pelas sombras. Sua voz quebrou o silêncio, soando baixa e premente.

—     Smith. Aqui.

Jon Smith virou-se. Estava nervoso. Tudo o que conseguiu ver foi uma vaga silhueta acenando com a mão à luz da lua. Encaminhou-se na sua direção, sentindo-se exposto e vulnerável, embora não soubesse exatamente a quê.

—     Bill? — rosnou. — É você?

—     O policial trapalhão — disse Griffin galhofeiramente, voltando a se embrenhar nas sombras.

Smith foi ao encontro dele. Piscou os olhos, procurando ajustá-los rapidamente à escuridão. Finalmente conseguiu distinguir seu velho amigo, que sorria para ele. Bill Griffin conservara o mesmo rosto redondo de feições suaves de que Smith se lembrava, embora pareces¬se estar uns cinco quilos mais magro. Suas faces estavam mais fundas, e seus ombros pareciam mais pesados, uma vez que seu tronco e sua cintura estavam mais delgados. Os cabelos castanhos, lisos e desalinhados, ostentavam um corte médio, não chegando a bater-lhe nos ombros. Era uns cinco centímetros mais baixo do que o metro e oitenta e três de Smith — um homem bem-proporcionado, compacto, de aparência vigorosa.

Mas Smith também já vira Bill Griffin se fazer passar por um homem neutro, realmente comum, como se tivesse acabado de largar o trabalho numa fábrica montando computadores ou como se estivesse a caminho da lanchonete local de que era o melhor fazedor de hambúrgueres. Sua aparência simples, despretensiosa, tinha lhe sido de grande valia no serviço de inteligência e nas operações secretas do FBI, porque debaixo daquele exterior afável, bonachão, havia uma mente sagaz e uma vontade férrea.

Para Smith, seu amigo sempre parecera um camaleão, mas não naquela noite. Naquela noite, Smith olhara para ele e vira a estrela do time de futebol de Iowa, um homem de opiniões arraigadas. Ele amadurecera e se tornara honesto, decente, destemido. O verdadeiro Bill Griffin.

Griffin estendeu a mão.

—     Olá, Smith. Que bom vê-lo depois de tanto tempo. Já era hora de nos reencontrarmos. Quando foi a última vez? No Hotel Drake, em Des Moines?

—     Foi. Muito chope, muita cerveja Potosi. — Mas Jon Smith não sorriu da lembrança dos bons tempos ao apertar a mão de Griffin. — Esta é uma maneira insólita de nos revermos. Em que foi que você se meteu? Pelo visto, parece que é encrenca da grossa.

—     Digamos que sim. — Griffin sacudiu a cabeça, ainda falando em voz baixa. — Mas deixe isso para lá por enquanto. Como vai você, Smith?

—     Vou bem — respondeu Smith, impaciente. — Mas é de você que estávamos falando. Como soube que eu estava em Londres? — E emendou, sorrindo: — Esqueça. Pergunta idiota, não é mesmo? Você sempre soube das coisas. Mas que diabo...

—     Ouvi dizer que você vai casar. Encontrou finalmente alguém capaz de domar o caubói? Resolveu assentar acampamento num bairro residencial, criar filhos, e aparar o gramado?

—     Isso jamais acontecerá. — Smith sorriu. — Sophia também tem um pouco o espírito de caubói. E uma caçadora de vírus.

—     E. Faz sentido. Pode até dar certo. — Griffin acenou com a cabeça e desviou os olhos tão inquietos e perturbados quanto o invisível dobermann. Como se a noite pudesse, de um momento para outro, irromper em chamas à volta deles. — Afinal, como é que o pessoal está se saindo com o vírus?

—     Que vírus? Trabalhamos com tantos em Detrick.

O olhar de Bill Griffin ainda perscrutava o luar e as trevas como o artilheiro de um tanque à procura de um alvo. Ignorou o suor que se acumulava debaixo de suas roupas.

—     O que foi incumbido de investigar no sábado.

Smith mostrou-se perplexo.

—Estive em Londres desde terça-feira passada. Você devia saber disso. — Ele praguejou em voz alta. — Que diabo. Deve ter sido a "emergência" para a qual Sophia foi convocada quando estávamos falando. Tive de voltar... — Ele fez uma pausa e franziu as sobrancelhas. — Como é que você sabe que Detrick está às voltas com um novo vírus? E com isso que tem a ver toda essa encenação? Você imaginou que me disseram tudo o que se sabe sobre ele enquanto estive fora, e agora está querendo que eu lhe dê o serviço?

O rosto de Griffin não revelou nada enquanto ele continuava sondando a noite atentamente.

-— Calma, Jon.

—     Calma? — Smith estava incrédulo. — O FBI está tão interessado nesse vírus que mandaram você para ver se conseguia arrancar alguma coisa de mim, não é verdade? Isso é de uma estupidez atroz. Era muito mais fácil o seu chefe ligar diretamente para o meu. E assim que essas coisas são conduzidas normalmente.

Griffin finalmente olhou para Smith.

—     Não trabalho mais para o FBI.

—     Você não...? — Smith olhou para os olhos parados do amigo, mas não havia nada neles. Os olhos de Bill Griffin, como o resto de seu rosto, tinham ficado vazios, inexpressivos. O velho Bill Griffin desaparecera, e Smith sentiu uma dor repentina na boca do estômago. Foi tomado então de um acesso de cólera, extravasando ruidosamente toda sua formação de militar e de caçador de vírus. — O que é que esse vírus tem de tão especial? E para que você quer obter informações? Algum tablóide sensacionalista está por trás disso?

—     Não estou a serviço de nenhum jornal ou revista.

—     Uma comissão parlamentar de inquérito, quem sabe? Claro, nada melhor para uma CPI que esteja a fim de cortar o orçamento destinado à ciência do que usar um ex-agente do FBI! — Smith respirou fundo. Não estava reconhecendo aquele homem que julgara ser seu melhor amigo. Alguma coisa tinha mudado Bill Griffin, e ele não estava revelando o menor indício do que pudesse ser. Parecia estar querendo usar a amizade deles para servir a seus misteriosos propósitos. Smith sacudiu a cabeça. —Não, Bill, não me diga para quem ou com que objetivos você está trabalhando. Na verdade, não interessa. Se você está querendo saber alguma coisa sobre qualquer vírus, utilize os canais do exército. E não me procure mais a não ser unicamente na condição de meu amigo. — Dizendo isso, ele se afastou, não escondendo sua mágoa.

—     Espere aí, Smith. Precisamos conversar.

—     Vá-se foder, Bill. — Jon Smith continuou caminhando na direção do luar.

Griffin deu um assobio baixo.

Subitamente um dobermann enorme pulou adiante de Jon Smith. Rosnando, o animal virou-se para atacá-lo de frente. Smith gelou. O cão, plantado nas quatro patas, ergueu o focinho e voltou a rosnar longa e ameaçadoramente. Seus dentes afilados brilhavam úmidos de saliva, tão aguçados que seriam capazes de estraçalhar o pescoço de um homem com uma única dentada.

O coração de Smith batia descompassadamente. Ele olhou para o cachorro sem se mexer.

-— Desculpe. — A voz de Griffin atrás dele soou com uma entonação quase triste. — Mas você perguntou se havia alguma confusão séria. Há, sim — mas não para mim.

Enquanto o cachorro continuava rosnando assustadoramente, Smith manteve-se imóvel, exceto seu rosto. Sorriu com sarcasmo e disse:

—Não vai me dizer que estou metido em algum tipo de problema. Dê-me uma dica.

—     Sim. -— Griffin acenou com a cabeça. — E exatamente isso o que estou querendo lhe dizer, Smith. Não foi por outro motivo que marquei este encontro com você. Mas é tudo o que posso lhe dizer. Você está correndo perigo. Sério perigo. Trate de cair fora da cidade o mais depressa possível, não perca tempo. Não volte ao seu laboratório. Pegue um avião e...

—     O que é que está dizendo? Sabe muito bem que eu jamais faria uma coisa dessas. Imagine só, abandonar meu trabalho! Que absurdo! O que foi que deu em você, Bill?

Griffin ignorou o que ele disse.

—     Ouça o que estou lhe dizendo! Ligue para Detrick e diga ao general que está precisando de umas férias. Férias longas. Fora do país. Faça isso o quanto antes e vá para o mais longe possível. Esta noite!

—     Isso não vai adiantar nada. Diga-me o que há de tão especial com esse vírus. Qual é o perigo de que estou ameaçado? Se quer que eu aja, preciso ao menos saber por quê.

—     Pelo amor de Deus, Smith! — exclamou Griffin, começando a perder a paciência. — Estou tentando ajudar. Vá embora, cara. Já! Leve a Sophia com você.

Antes que ele terminasse de falar, o dobermann levantou abruptamente as patas dianteiras do chão, rodopiou e deu um salto, indo cair noventa graus ao sul. Seus olhos apontavam para os fundos do parque.

Griffin disse suavemente:

—     Visitantes, garoto? — Fez um sinal com a mão, e o cachorro disparou na direção das árvores. Griffin virou-se para Smith e explodiu: — Caiafora daqui, Jon. Suma. Agora! — Ele correu atrás do dobermann, uma sombra rasteira movendo-se com incrível velocidade.

Homem e cachorro desapareceram por entre as árvores do parque envolto nas trevas.

Smith ficou atordoado momentaneamente. Seria por ele que Bill temia, ou seria por si mesmo? Ou por ambos? Parecia que seu velho amigo correra um grande risco para alertá-lo e pedir-lhe para fazer o que nenhum dos dois jamais tinha considerado — abandonar seu trabalho, abrir mão de sua confiabilidade.

Para chegar àquele ponto, Bill devia ter sido seriamente acuado.

Em nome de Deus, em que Bill Griffin poderia estar envolvido?

Um arrepio percorreu a espinha de Smith, suas têmporas começaram a latejar. Bill estava certo. Ele corria perigo, pelo menos ali naquele parque sinistro. Como um manto há muito esquecido, velhos hábitos se reativaram. Seus sentidos se aguçaram, e ele observou minuciosamente as árvores e o mato rasteiro.

Percorreu a orla das árvores escuras enquanto sua mente não cessava de trabalhar. Chegara à conclusão de que Bill o tinha localizado através dos canais do FBI, mas ele não pertencia mais aos quadros do Bureau.

A hospedagem de Smith no Wilbraham Hotel só era do conhecimento de sua noiva, de seu chefe e do funcionário que cuidara dos preparativos de sua viagem no Forte Detrick. Não havia a mais remota possibilidade de nenhum deles ter revelado seu paradeiro a um estranho, por mais convincente que ele pudesse ser.

Portanto, como Bill — que dizia ter deixado o serviço público — tinha conseguido saber onde ele estava hospedado em Londres?

Uma limusine preta com os faróis apagados escondia-se na sombra do velho moinho perto da entrada da Tilden Street para o parque Rock Creek. Sozinho no banco de trás estava Nadal al-Hassan, um homem alto de rosto trigueiro tão fino e atilado quanto o gume de um machado. Estava ouvindo seu subordinado, Steve Maddux, que se inclinara para dentro da janela do carro, reportando-se ao seu chefe.

Maddux estivera correndo, seu rosto estava vermelho e suado.

—     Se Bill Griffin estiver neste parque, Sr. al-Hassan, ele é um maldito fantasma. Só vi o médico do exército dando uma caminhada. Ele estava ofegante, procurando recuperar o fôlego.

Dentro do luxuoso automóvel, as feições do homem alto ostentavam cicatrizes profundas, marcas inconfundíveis de um sobrevivente da outrora temível varíola. Seus olhos pretos eram soturnos, frios, inexpressivos.

—     Já lhe disse, Maddux, está proibido de blasfemar enquanto estiver à meu serviço.

—     Desculpe, está certo? Jesus Cris...

Como o bote de uma cobra, o braço do homem alto avançou e seus dedos compridos apertaram a garganta de Maddux.

Maddux ficou lívido de medo, e emitiu sons engasgados ao mastigar as palavras. Mesmo assim, as sílabas não pronunciadas pairaram na escuridão silenciosa. Finalmente, a mão na sua garganta afrouxou a pressão. O suor escorria da testa de Maddux.

Os olhos dentro do carro luziam como espelhos, superfícies impenetráveis, que ninguém conseguia desvendar. A voz era enganadoramente calma.

—     Você quer morrer tão cedo?

—     Ei — disse o homem apavorado, rouquenho —, não sou muçulmano. O que há de errado em...

—     Todos os profetas são sagrados. Abraão, Moisés, Jesus. Todos eles!

—     Ok. Ok! Quer dizer, Jes... — Maddux tremeu enquanto a mão apertava sua garganta. -— Como é que eu podia saber disso?

Os dedos continuaram apertando mais um pouco. Depois o homem alto afrouxou-os e recolheu o braço.

—     Você talvez tenha razão. Eu espero demais de americanos estúpidos. Mas agora você já sabe e não fará mais. — Sem dúvida, não se tratava de uma pergunta.

Ofegante, Maddux balbuciou:

—     Certamente, certamente, Sr. al-Hassan, está bem.

O homem de rosto afilado, al-Hassan, examinou Maddux com seus olhos frios, espelhados.

—     Mas Jon Smith estava lá. — Oculto na penumbra do assento traseiro, o muçulmano falava em voz baixa, como se estivesse monologando. — Nosso homem em Londres descobriu que Smith trocou seu vôo e passou o dia todo fora de Londres. Foi visto em Dulles, mas, em vez de ir para Maryland, veio para cá. Ao mesmo tempo, nosso estimado colega saiu furtivamente do nosso hotel, e eu o segui até esta vizinhança, mas ele me escapou. Você não conseguiu encontrá-lo no parque, não acha que é uma estranha coincidência? Por que esse associado da Dra. Russell estaria aqui a não ser para se encontrar com o Sr. Griffin?

Maddux não disse palavra. Aprendera que a maioria das perguntas do seu chefe eram pronunciadas em voz alta para alguma parte invisível dele mesmo. Nervosamente, deixou o silêncio se prolongar. Em volta da limusine e dos dois homens, o parque agreste parecia respirar com vida própria.

De repente, al-Hassan sacudiu os ombros.

—Talvez eu esteja enganado. Talvez seja uma simples coincidência, e Griffin não tenha nada que ver com o fato de o coronel Jonathan Smith estar aqui. Na verdade, acho que isso não tem maior importância. Outros se ocuparão do coronel Smith, não é mesmo?

—     Certamente — disse Maddux, acenando com a cabeça enfaticamente. — Ele não tem como escapar de Washington.

 

1:34h, terça-feira, 14 de outubro

Forte Detrick, Maryland

No seu gabinete de trabalho, Sophia Russell acendeu a lâmpada de sua escrivaninha e atirou-se na cadeira, exausta e frustrada. Victor Tremont naquela manhã informara que não havia nada em seus diários sobre a expedição ao Peru mencionando o estranho vírus que ela havia descrito ou sobre a Tribo de Sangue de Macaco. Tremont era sua melhor pista externa, e estava profundamente decepcionada por ele não ter podido ajudá-la.

Embora ela e o resto da equipe da microbiologia de Detrick continuassem a trabalhar ininterruptamente dia e noite, não tinham feito nenhum progresso para sustar a ameaça que o vírus representava. No microscópio eletrônico o novo vírus mostrava a mesma forma globular com filamentos capilares de algumas de suas proteínas, muito semelhantes ao vírus da gripe. Mas aquele vírus era muito mais simples do que qualquer mutação da gripe e muito mais mortífero.

Depois de não terem conseguido encontrar um similar entre os hantavírus, rechecaram o Marburg, o Lassa e o Ebola, embora esses vírus mortíferos correlatos não apresentassem semelhanças microscó¬picas com o vírus desconhecido. Checaram todas as outras febres hemorrágicas conhecidas. Tentaram a febre tifóide, a peste bubônica, a peste pneumônica, a meningite e a tularemia.

Nada deu certo, e naquela tarde ela finalmente insistira com o general Kielburger para que ele revelasse a existência do vírus e solicitasse a ajuda do CDC e de outros laboratórios mundiais de Nível Quatro. Ele ainda se mostrava relutante, alegando que até então só tinham sido constatados três casos. Mas, ao mesmo tempo, o vírus parecia ser totalmente desconhecido e altamente letal, e, se ele não tomasse medidas adequadas e irrompesse uma epidemia, seria responsabilizado. Resmungando, finalmente aquiesceu e enviou memorandos minuciosamente explicativos e amostras de sangue para o CDC, a Divisão Patogênica Especial da OMS, Porton Down no Reino Unido, a Universidade de Anvers na Bélgica, o Instituto Bernard Nocht da Alemanha, o laboratório patogênico especial do Instituto Pasteur na França e todos os demais centros de pesquisas Nível Quatro do mundo.

Estavam começando a chegar os primeiros relatórios dos outros laboratórios da Zona Quente. Todos eram unânimes em concordar que o vírus parecia um hantavírus, mas não batia com coisa alguma em nenhum de seus bancos de dados. Todos os relatórios do CDC e dos laboratórios estrangeiros não registravam qualquer progresso. Todos continham apenas hipóteses aleatórias, quando não totalmente desinformadas.

No seu escritório, cansada até a medula, Sophia inclinou-se para trás na cadeira de sua escrivaninha e massageou as têmporas, tentando repelir uma dor de cabeça. Olhou seu relógio e ficou chocada ao se dar conta da hora. Santo Deus, eram quase duas horas da manhã!

Rugas de preocupação vincaram-lhe a testa. Onde estaria Jon? Se tivesse chegado na noite anterior conforme previsto, teria passado o dia no laboratório. Devido à sua frenética agenda de trabalho, não tinha pensado muito na ausência dele. Agora, apesar do cansaço, da enxaqueca e de sua crescente preocupação com Jon, não pôde reprimir um sorriso. Tinha um noivo de quarenta e um anos que ainda conservava toda a curiosidade e a impulsividade de um jovem de vinte anos. Bastava acenar-lhe com um mistério médico, e Jon disparava como um cavalo de corrida puro-sangue. Com certeza tinha descoberto algo fascinante que o detivera.

Contudo, poderia ter telefonado. Dentro em pouco completaria um dia inteiro de atraso.

Kielburger talvez o tivesse enviado numa missão secreta, e Jon não tivesse podido ligar. Caso o general o tivesse realmente incumbido de uma tarefa sigilosa, ela e o resto da equipe logo saberiam, assim que o general pudesse anunciá-la.

Ficou pensando sentada na cadeira. A equipe científica estava varando a noite, até mesmo o general, que não perdia uma oportunidade de se fazer notar numa posição que contasse pontos para ele.

Repentinamente furiosa e ansiosa com a falta de notícias de Jon, ela se levantou impetuosamente e se dirigiu ao gabinete dele.

O general-de-brigada Calvin Kielburger, Ph.D., era um desses homens corpulentos que falam alto e não têm muita coisa na cabeça, que o exército adorava promover ao posto de coronel e depois congelá-los. Esses homens às vezes são durões e invariavelmente mesquinhos, além de medíocres, e destituídos de tato, de diplomacia. A tendência era serem chamados de Touro ou Bode. Às vezes oficiais com esses apelidos atingiam altas patentes, mas eram homens tacanhos, truculentos, com enormes mandíbulas.

Tendo conseguido uma estrela mais do que poderia razoavelmente esperar, o general-de-brigada Kielburger abandonara a pesquisa médica na vã ilusão de chegar a general de quatro estrelas com comando de tropa. Mas, para comandar exércitos, o estado-maior exigia oficiais habilidosos capazes de conviver em harmonia com os necessários contingentes civis. Kielburger estava tão preocupado em se promover que não percebera que a melhor estratégia era agir com inteligência e tato. Como resultado de sua inabilidade, estava agora empacado, administrando um bando irreverente de cientistas militares e civis, a maioria dos quais era em princípio refratária à rigidez da autoridade militar, particularmente quando emanava de oficiais pouco dotados intelectualmente e bombásticos como Kielburger.

Do grupo rebelde, o tenente-coronel Jon Smith seria provavelmente o mais irreverente, o mais incontrolável, o mais irritante. Por isso, diante da pergunta de Sophia, Kielburger esbravejou:

—     Não designei o coronel Smith para nenhuma missão confidencial. Se tivesse de incumbir alguém de uma tarefa delicada, ele seria o último em quem pensaria, exatamente por causa de insubordinações como esta!

Sophia estava tão gelada quanto Kielburger estava colérico.

—Jon é incapaz de cometer uma insubordinação deliberadamente.

—     Ele está atrasado um dia, quando sabe muito bem que precisamos dele aqui.

—     A menos que o senhor tenha telefonado para ele, como é que poderia saber que estamos precisando dele? — retrucou Sophia. — Mesmo eu não sabia como a situação era grave até começar a examinar o vírus. Depois estive ocupada o tempo todo no laboratório. Trabalhando. Estou certa de que o senhor se lembra de como é o quadro nessas ocasiões. — A verdade era que ela duvidava que ele tivesse qualquer recordação das pressões e da excitação do trabalho num laboratório, porque ouvira dizer que mesmo naqueles dias críticos ele preferia despachar papéis e criticar as notas de outros cientistas. Ela insistiu. — Jon deve ter um motivo para ter-se atrasado. Ou alguma coisa fora do seu controle o está detendo.

—     Como, por exemplo, doutora?

—     Se eu soubesse não estaria tomando seu precioso tempo. Nem perdendo o meu. Mas ele não costuma se atrasar sem me avisar.

O rosto florido de Kielburger abriu-se num sorriso de escárnio.

—     Pois eu diria que isso é típico dele. Ele é um pirata insaciável, sempre à procura de alguma arca de ouro, e não vai mudar nunca. Acredite no que estou lhe dizendo, certamente ele descobriu um problema ou um tratamento médico interessante, ou ambas as coisas, e acabou perdendo o avião. Enfrente a realidade, Russell, ele tem um espírito aventureiro, irrequieto, e depois que tiver se casado com ele vai ter que conviver com isso. Não invejo a sua sorte.

Sophia apertou os lábios, reprimindo um forte impulso de dizer ao general exatamente o que pensava dele.

Ele devolveu o olhar desafiador da doutora, despindo-a mentalmente. Sempre gostara de louras. O modo como ela prendia o cabelo num rabo-de-cavalo era sexy. Imaginou se seria loura em todas as partes do corpo.

Não tendo ela respondido, ele prosseguiu num diapasão mais conciliatório.

—     Não se preocupe, Dra. Russell. Ele vai aparecer a qualquer momento. Pelo menos é o que espero, porque precisamos da colaboração de todos que possam nos ajudar a identificar esse vírus. Suponho que não tenha nada a reportar.

Sophia sacudiu a cabeça.

—     Para ser franca, estou exaurida, totalmente sem idéias, como toda a equipe. Os outros laboratórios também estão lutando. Ainda é cedo, mas tudo o que temos conseguido até agora se resume em resultados negativos e meras suposições.

Kielburger bateu no tampo da mesa, frustrado. Ele era um general, e por isso se sentia na obrigação de fazer alguma coisa.

—     Confirma que se trata de um vírus totalmente desconhecido, que nunca foi detectado?

—     Sempre há um primeiro a ser descoberto.

Kielburger gemeu. Isso podia destruir qualquer chance que tivesse de sair do gueto médico e ascender à linha do comando.

Sophia o estava estudando.

—     Posso fazer uma sugestão, general?

—     Por que não? — disse Kielburger num tom amargo.

—     As três vítimas confirmadas até agora foram contaminadas geograficamente muito distantes uma da outra. Por outro lado, duas são mais ou menos da mesma idade, enquanto a outra é muito mais moça. Duas são do sexo masculino; a terceira é uma mulher. Uma estava em serviço ativo, a outra era um veterano de guerra, e a última um civil. Como contraíram o vírus? Qual foi o foco? Ele tinha que estar incubado em algum lugar. As chances são astronômicas contra três surtos do mesmo vírus desconhecido terem ocorrido em vinte e quatro horas em pontos distantes, milhares de milhas uns dos outros.

Como de hábito, o general não entendeu nada.

—     Aonde está querendo chegar?

-— A menos que comecem a se registrar novos casos numa das três localidades, teremos de descobrir a conexão entre as ocorrências já verificadas. Precisamos começar a investigar os antecedentes de cada uma das vítimas. Por exemplo, todos talvez tenham estado no mesmo quarto de um hotel de Milwaukee há seis meses. Talvez as três vítimas tivessem contraído o vírus nessa ocasião. — Ela fez uma pausa. — Ao mesmo tempo, temos de vasculhar os registros médicos nas três áreas à procura de sintomas de infecções que possam ter produzido anticorpos.

Era pelo menos uma medida positiva, e daria a impressão de que Kielburger estava realmente atuando com firmeza e descortino.

—Darei instruções à equipe para começar imediatamente a tomar as providências necessárias. Quero que a senhora e o coronel Smith voem para a Califórnia amanhã bem cedo para conversar com as pessoas que conheceram de perto o major Anderson. Fui claro?

—     Perfeitamente, general.

—     Muito bem. Avise-me quando Smith se dignar a voltar ao trabalho. Vou arrancar o couro dele.

Tão irritada que nem pôde apreciar o espetáculo de Kielburger representando sua concepção hollywoodiana de um intrépido e resoluto herói americano, Sophia retirou-se indignada do gabinete do general.

No corredor, olhou para o relógio de parede: 1:56h. Foi assaltada por um novo tipo de preocupação. Teria acontecido alguma coisa com Jon? Onde é que ele estava?

 

2:05h

Washington, D.C.

Enquanto dirigia seu pequeno Triumph pela madrugada da cidade, Jon Smith meditava sobre o que Bill Griffin lhe dissera, tentando compreender as insinuações, as palavras não pronunciadas.

Bill dissera que tinha deixado o FBI. Voluntariamente ou por ordens superiores?

De uma forma ou de outra, Bill estava ligado a um novo vírus enviado por alguma unidade das forças armadas ao USAMRIID para ser devidamente analisado. Provavelmente para que o laboratório o identificasse e sugerisse o melhor método de tratamento. Para Smith, mera rotina — uma das tarefas vitais para as quais o Instituto, que funcionava no Forte Detrick, havia sido criado.

Entretanto, Bill Griffin afirmara que Smith estava correndo perigo.

Seu dobermann amestrado dizia mais sobre o estado de espírito de Griffin do que qualquer das palavras que ele pronunciara. Obviamente Griffin estava convencido de que havia perigo, e não apenas para Jon — para ele também.

Depois do encontro que tinham tido, Jon percorreu cuidadosamente as alamedas escuras do parque, parando amiúde para se esconder atrás das árvores e se certificar de que não estava sendo seguido. Quando finalmente alcançou seu Triumph 1968 restaurado, olhou cautelosamente em volta antes de entrar no carro e, em seguida, deixou o parque pelo lado sul, afastando-se de Maryland e de sua cidade, o contrário do que um perseguidor esperaria que ele fizesse. Apesar da hora tardia, o trânsito estava moderado. Somente no meio da madru¬gada, lá pelas 4h, a metrópole trepidante começou a dar mostras de cansaço, e suas principais artérias se esvaziaram. A princípio ele pensara que um carro o estava seguindo. Por isso, fez curvas, aumentou e diminuiu a velocidade, tomou o rumo de Dupont Circle e Foggy

Bottom e depois retomou a direção norte. Levou mais de uma hora rodando de um lado para outro da c idade, mas agora estava certo de que ninguém o seguia.

Não obstante, olhando cuidadosamente, rumou para o sul, dobrando dessa vez na Wisconsin Avenue. O trânsito nessa artéria estava muito diluído, e os postes de iluminação pública formavam círculos de luz na escuridão da noite. Suspirou, fatigado. Mais que tudo, ansiava por ver Sophia. Talvez já fosse suficientemente seguro para ir ter com ela. Cruzaria o Potomac e tomaria a George Washington Parkway no sentido da 495 Norte — rumando finalmente para Maryland. Para Sophia. Sorriu só de pensar nela. Quanto mais tempo ficava longe dela mais aumentavam as saudades. Não via a hora de apertá-la nos seus braços. Estava dirigindo cansado, passando pela longa sucessão de butiques, livrarias, restaurantes, bares e clubes elegantes de Georgetown, quando um gigantesco caminhão resfolegante surgiu na pista esquerda ao lado do seu carrinho esporte.

Era um caminhão de transporte de carga de seis rodas, igual aos que circulam pelo anel viário interestadual em torno de todas as cidades da costa do Atlântico à do Pacífico. No começo Smith se perguntou o que um caminhão de entregas estaria fazendo ali, uma vez que as lojas e restaurantes só abririam suas portas dentro de três ou quatro horas. O curioso era que o caminhão não exibia, nem na sua cabine nem no espaço destinado à carga, o nome de uma companhia, um endereço, um logotipo, número de telefone ou qualquer marca que o identificasse.

Pensando carinhosamente em Sophia, Smith não atribuiu maior importância ao estranho anonimato do caminhão. Todavia, os insólitos acontecimentos da noite tinham ativado o senso extremamente aguçado de perigo que desenvolvera durante anos de prática da medicina e de comando nas linhas de frente, onde a doença esperava para atacar escondida em cada choupana, em cada moita. Ou talvez algum movimento, ação ou ruído dentro do caminhão tivesse despertado sua atenção.

Fosse o que fosse, numa fração de segundo, antes de o gigantesco caminhão dar uma guinada para fechar o frágil carro esporte de Smith, ele pressentiu a intenção maldosa da manobra.

A adrenalina sacudiu-o. Sua garganta se apertou. Avaliou a situação instantaneamente. Quando o caminhão virou na sua direção, ele deu uma guinada no volante para a direita. Seu carro derrapou e bateu no meio-fio, subindo a calçada deserta. Ele não estava dirigindo a grande velocidade—apenas cinqüenta quilômetros por hora —, mas dirigir em cima de uma calçada, mesmo numa calçada larga como aquela, a cinqüenta quilômetros era insanidade total.

Enquanto o caminhão resfolegava ao seu lado, ele lutava para controlar o carro. Com batidas estrondosas, derrubou uma caixa do correio e uma lixeira e arrancou o tampo de uma mesa do seu pedestal. Adernou em frente às portas fechadas, silenciosas, de lojas, bares e clubes. Vitrines às escuras sucediam-se relampejando como olhos cegos piscando para ele. Suando abundantemente, olhou à esquerda. O caminhão imenso continuava emparelhado com ele, esperando a oportunidade de fechá-lo novamente e imprensá-lo contra a fachada de um prédio. Fez uma oração silenciosa, agradecendo a Deus por não haver pessoas andando na calçada.

Desviando de latas de lixo, ele viu o vidro da janela lateral da cabine do caminhão ser subitamente abaixado. O cano de uma arma apontou diretamente para ele. Ficou momentaneamente apavorado. Acuado na calçada, com o caminhão bloqueando a avenida, não podia se esconder nem se evadir. E estava desarmado. Quaisquer que tivessem sido os planos anteriores dos pistoleiros, agora estavam decididos a atirar para matar.

Smith pisou no freio e deu uma guindada brusca, dificultando a pontaria do atirador na cabine do caminhão, que agora tinha de disparar contra um alvo que mudara abruptamente de posição.

O suor porejava na testa de Smith. Sentiu então, por um instante, um fio de esperança. A sua frente havia um cruzamento. Suas mãos estavam brancas de tanto apertar o volante quando ele acelerou o Triumph para alcançar o cruzamento.

No exato momento em que pisou no acelerador, a arma disparou do caminhão. O estampido foi explosivo, mas o tiro saiu muito atrasado. A bala passou por cima da traseira do Triumph e atingiu uma vitrine. Smith respirou aliviado quando os estilhaços de vidro espalharam-se no ar. Escapara por um triz.

Olhou outra vez, cautelosamente, para o cano da arma quando ela apontou na janela aberta do caminhão. Felizmente estava chegando à interseção das duas ruas. Um banco situava-se numa das esquinas, enquanto lojas de varejo ocupavam as outras três.

E então não teve mais tempo. O cruzamento despontou imediatamente à sua frente, e essa poderia ser sua única chance. Respirou fundo. Medindo a distância cautelosamente, deu uma freada violenta. Enquanto o Triumph estremecia, ele girou agilmente o volante para a direita. Teve apenas poucos segundos para checar o caminhão enquanto o bravo carrinho esporte se desviava e enveredava pela rua transversal. Mas nesses breves instantes viu o que esperava que acontecesse. Vítima de sua própria velocidade, o caminhão passou como uma bala pela avenida afora, perdendo-se de vista.

Exultante, afundou o pé no acelerador, freou novamente e dobrou outra esquina, entrando dessa vez numa rua arborizada. Continuou avançando, virando esquinas e olhando o tempo todo pelo espelho retrovisor, embora soubesse que o caminhão não poderia ter feito uma curva fechada a despeito de o trânsito estar minguado àquela hora da madrugada.

Ofegante, ele finalmente parou o carro debaixo de uma frondosa magnólia numa escura rua residencial onde BMWs, Mercedes e outros artefatos dos ricos indicavam que aquela era uma das vizinhanças mais prósperas e exclusivas de Georgetown. Tirou as mãos do volante e olhou-as. Elas estavam tremendo, mas não de medo. Fazia muito tempo que não passava por momentos tão angustiantes — uma tensão constante que não previra nem desejara. Jogou a cabeça para trás e fechou os olhos. Respirou fundo, assombrado como sempre com a rapidez com que tudo podia mudar de uma hora para outra. Não gostava de confronto, violência.

Contudo, compreendia a necessidade de assumir posições, de se envolver em situações muitas vezes perigosas na defesa de suas convicções. Chegara a pensar que seu envolvimento com Sophia acabara com uma certa sedução que o perigo exercera sobre ele no passado, fazendo-o sentir-se vibrante, ativamente vivo.

Por outro lado, naquela altura dos acontecimentos, não tinha outra alternativa.

Os sicários do caminhão que tinham tentado matá-lo certamente faziam parte do complô contra o qual Bill Griffin procurara adverti-lo. Todas as perguntas sobre as quais vinha matutando desde o encontro que tinham tido à meia-noite lhe voltaram à mente.

O que havia de tão especial com aquele vírus?

O que é que Bill estava escondendo?

Engrenou o carro cautelosamente e desceu a rua. Não tinha respostas, mas talvez Sophia as tivesse. Ao pensar nisso, sentiu uma dor no peito. Sua boca ficou seca. Um pânico percorreu-lhe as veias.

Se estavam querendo matá-lo, também poderiam estar querendo eliminá-la.

Olhou o relógio: 2:32h.

Tinha de ligar para ela, preveni-la, mas deixara seu telefone celular em casa. Não achara necessário levá-lo em sua viagem a Londres. Tinha, portanto, de achar um telefone público imediatamente. Seria mais fácil encontrar um na Wisconsin Avenue, mas não queria se expor, se arriscar a ser novamente atacado pelo caminhão.

Precisava chegar ao Forte Detrick. Agora!

Pisou fundo no acelerador, dirigindo o carro para a O Street. As árvores altas iam ficando para trás, meras sombras engolidas pela velocidade vertiginosa. Velhas casas vitorianas com suas volutas trabalhadas e telhados pontudos debruçavam-se sobre as calçadas como mansões mal-assombradas. Pouco mais adiante, ilhas de luz prateada iluminavam um cruzamento. Subitamente surgiu à sua frente o feixe luminoso dos faróis dianteiros de um carro, clareando a noite escura. O carro aproximava-se do mesmo cruzamento para o qual o Triumph de Smith avançava, mas na direção contrária e duas vezes mais veloz.

Smith praguejou e checou a faixa de cruzamento de pedestres. Agasalhado até as orelhas para se proteger do ar frio da noite, um notívago solitário desceu da calçada. Cambaleando e cantando desafinadamente, muito uísque consumido, o homem avançou em ziguezague para a outra calçada, balançando os braços como um soldado de brinquedo. O peito de Smith se contraiu. O bêbado estava caminhando desatentamente; sem poder evitar o atropelamento, Smith viu o pára- lama do carro atingir o homem, que voou para trás de braços abertos. Smith prendeu a respiração sem se dar conta. Antes que o pau-d'água aterrissasse na sarjeta, Smith afundou o pé no freio. O atropelador involuntário ficou sem ação por um instante, como que paralisado pelo inesperado da ocorrência, e depois avançou, desaparecendo na curva da esquina.

Assim que o Triumph parou, Smith pulou do carro e correu para o homem caído no meio da rua. Todos os ruídos noturnos tinham cessado. A escuridão era densa por trás da iluminação artificial do cruzamento. Ficou de cócoras para examinar os ferimentos da vítima do acidente enquanto outro carro se aproximava. Ouviu o ranger de freios atrás dele quando o carro parou ao seu lado.

Aliviado, Smith levantou a cabeça e fez um aceno com a mão, pedindo ajuda. Dois homens desceram prontamente do carro e correram na sua direção. Enquanto isso, percebeu movimentos do homem ferido.

Olhou fixamente para ele.

—     Como está se sentindo? — E gelou, estupefato.

A "vítima" não só o estava avaliando com olhos abertos e sóbrios, como apontava para ele o cano de uma pistola Glock sem i-automática, dotada de silenciador.

—     Caramba, você é um cara duro de matar! Afinal, que diabo de médico é você?

 

2:37h

Washington, D.C.

Uma parte de Jon Smith já pertencia ao passado, à Bósnia, aos seus dias de agente secreto na Alemanha Oriental, antes da queda do Muro. Sombras, reminiscências, sonhos frustrados, pequenas vitórias e a perene inquietação. Tudo o que julgara ter deixado para trás.

Quando os dois estranhos sacaram suas armas e correram para ele, sob a profusa iluminação do cruzamento, Smith agarrou o pulso e o braço do pistoleiro a seus pés. Antes que o homem pudesse reagir, Smith apertou-os e puxou-os, sentindo os tendões e as articulações fazerem exatamente o que ele queria.

O cotovelo do homem estalou. Ele gritou de dor, e seu rosto ficou lívido, desfigurado. Ao perder os sentidos, sua pistola Glock caiu no chão. Tudo isso aconteceu em segundos. Smith sorriu vitoriosamente. Mas, pelo menos, não tivera de matar o homem. Num movimento coordenado, apanhou a arma, rolou o corpo e pôs-se de joelhos com a pistola engatilhada. Atirou. O silenciador abafou o estampido do disparo.

Um dos dois homens correndo na sua direção caiu de cabeça no chão frio, contorcendo-se de dor. Enquanto o homem comprimia a coxa onde a bala de Smith penetrara, o segundo homem atirou-se no chão ao lado do parceiro. Deitado de barriga para baixo, levantou a cabeça como se estivesse numa galeria de tiro e Smith fosse um alvo fixo. Ledo engano. Smith sabia perfeitamente o que o homem ia fazer. Desviou agilmente o corpo, e o disparo abafado do seu atacante passou raspando pela sua têmpora.

Agora não lhe restava outra opção. Antes que o homem pudesse atirar novamente ou abaixar a cabeça, Smith disparou uma segunda vez. A bala explodiu no olho direito do atacante, deixando uma cratera negra. Jorrou sangue, e o homem caiu de frente no chão, inerte. Smith achou que não poderia deixar de estar morto.

Com as têmporas latejando, ele se ergueu de um salto e avançou cautelosamente para eles. Não tinha querido matar o homem, e estava contrafeito por ter sido forçado a fazê-lo. A sua volta, o ar parecia ainda estar vibrando dos disparos. Lançou um rápido olhar para a rua. Nenhuma luz se acendeu. A hora avançada e os tiros abafados pelo silenciador tinham mantido a emboscada secreta.

Arrancou uma Beretta do exército da mão do homem que atingira no olho e, sem alimentar grandes esperanças, checou seus sinais vitais. Estava realmente morto. Sacudiu a cabeça, aborrecido e arrependido, afastando as duas armas do alcance dos homens abatidos. O de cotovelo quebrado continuava desacordado, enquanto o baleado na coxa rogava pragas e olhava fixamente para Smith.

Smith o ignorou. Correu de volta para o seu Triumph. Nesse momento, o silêncio da noite foi quebrado pelo ronco de um grande caminhão se aproximando. Smith rodopiou. O possante caminhão de seis rodas sem nenhum sinal que o identificasse avançava velozmente na direção do cruzamento. De algum modo, os matadores o tinham achado novamente.

Como?

Em combate, há uma hora para lutar e resistir, e outra para bater em retirada. Smith pensou em Sophia e passou voando por uma fileira de casas vitorianas próximas da calçada. Em algum quintal um cachorro solitário latiu, e logo se ouviu outro latido de resposta. Os latidos dos animais ecoaram pela vizinhança. Ao cessarem, Smith ocultou-se nas sombras de uma residência vitoriana de três andares, com torres, cúpulas e uma grande varanda. Estava pelo menos a uns duzentos metros do cruzamento. Agachado, olhou para trás e estudou o cenário. Memorizou a posição dos carros estacionados e se concentrou no caminhão, que parara. Um sujeito baixo, troncudo, saltou da cabine e curvou-se sobre os três homens feridos. Smith não o reconheceu, mas identificou o caminhão.

O homem acenou com as mãos, pedindo ajuda urgente. Outros dois homens desceram do caminhão e correram para remover os atacantes abatidos, enquanto o terceiro homem levantava a porta traseira do caminhão. Seis homens sentados no interior do caminhão puseram as cabeças para fora a fim de examinar a noite quando a porta traseira foi aberta. Mesmo à luz caprichosa do luar, Smith pôde ver o rosto do sujeito retaco, brilhar de suor enquanto dava ordens.

Os dois homens feridos e o cadáver foram colocados no carro que parara em frente a Smith. O homem ao volante arrancou bruscamente, rumando para o norte. Em seguida o grande caminhão de entregas também partiu, dirigindo-se para o sul no sentido do rio, enquanto o líder do grupo mandou seus homens descerem aos pares, sem dúvida para procurar Jon Smith. Com sorte, todos achavam que um cientista sedentário quarentão não era páreo para nenhum deles, a despeito dos comentários dos dois camaradas sobreviventes. Ele não passava de uma bichona enrustida saída de uma torre de marfim, envergando um uniforme militar gentilmente cedido, que tivera sorte — outros já tinham cometido esse erro de julgamento a respeito de Smith.

Ele ficou ouvindo do seu esconderijo até dois homens chegarem perto. Teria de neutralizar a dupla de algum modo. Mexeu-se e se deixou cair na escuridão, fazendo barulho de propósito para que eles ouvissem. Os dois morderam a isca, e abriu-se um largo espaço entre a dupla que o procurava e o resto do grupo. Com os nervos pegando fogo, atravessou jardins envoltos nas trevas, olhando para todos os lados. Quatro quarteirões adiante do cruzamento, encontrou uma combinação que poderia dar certo. Uma mansão branca de estilo colonial erguia-se no fundo escuro de uma alameda, e ao lado havia um caramanchão, quase invisível na camuflagem da noite e das árvores frondosas e moitas compactas que cercavam a propriedade.

Ele tossiu e arrastou os pés no cascalho da alameda para ter certeza de que ouviriam e pensariam que ele estava indo se esconder na mansão. Penetrou então no caramanchão isolado. Não se equivocara — através dos painéis de treliça tinha uma vista desobstruída da propriedade. Depositou a Glock e a Beretta em cima de um banco. Não planejava usá-las a não ser como uma forma de intimidação. Aquele trabalho tinha de ser executado em silêncio e com rapidez.

Passou-se um longo minuto.

Teriam por acaso adivinhado o que ele estava fazendo e chamado o resto do bando? Estariam naquele momento fechando o cerco para atacá-lo por trás? Passou a mão na testa para remover o suor. Seu coração parecia prestes a estourar.

Dois minutos... três minutos.

Uma sombra emergiu das árvores e correu para o lado esquerdo da mansão.

Em seguida um segundo vulto correu para o lado direito.

Smith suspirou. Assassinos, civis e militares, eram geralmente previsíveis. Dotados de pouca imaginação, suas idéias táticas eram rudimentares — a investida frontal do touro, ou a ingênua artimanha de um jogador de futebol colegial, olhando sempre para o lado oposto da direção em que pretendia lançar a bola.

Os dois aproximando-se num movimento de pinça, protegidos pela escuridão da noite, eram melhores do que a maioria, mas, assim como o general Custer na batalha de Big Horn ou Lorde Chelmsford em Isandhlwana contra os zulus, tinham-lhe feito o favor de dividir suas forças, permitindo que ele enfrentasse um de cada vez. Esperara que o fizessem.

O mais audacioso contornou o lado direito da casa, esgueirando-se entre ela e o caramanchão. Era a oportunidade que Smith aguardava. Enquanto o homem continuava avançando, Smith movimentou-se furtivamente pela retaguarda. Pisou num galho seco. O estalido foi suave, mas suficientemente alto para alertar o atacante. Smith achou que seu coração ia parar. O homem rodou os calcanhares de pistola em riste para atirar.

Smith reagiu instantaneamente. Um violento soco de direita na garganta do homem paralisou-lhe as cordas vocais, um golpe com a perna direita derrubou-o silenciosamente.

Smith voltou a se esconder no caramanchão.

Um... dois minutos.

O mais cauteloso da dupla materializou-se numa pequena clareira enluarada entre o caramanchão e o homem caído no chão. Ele tivera a inspiração de seguir à distância o companheiro. Mas sua imaginação não foi muito além disso, e ele correu para se ajoelhar ao lado do comparsa abatido.

— Jerry? Jesus Cristo, o que... — Smith desferiu um golpe certeiro na cabeça abaixada com a coronha da Beretta de que se apropriara.

Smith arrastou os dois homens desfalecidos para o caramanchão. Ofegante, ficou agachado ao lado deles, ouvindo a noite. O único barulho característico vinha de um carro distante, dirigindo-se para o sul. Aliviado, saiu do caramanchão e embarafustou-se pelas sombras de casas e árvores, voltando ao caminho por onde tinha vindo. Ao se aproximar do cruzamento onde fora agredido, diminuiu o passo e ficou ouvindo novamente. O único som audível continuava sendo o que parecia ser o mesmo carro rumando para a direção oposta, dessa vez para o norte.

De quatro, com uma pistola em cada mão, rastejou para um jardim dando para o cruzamento. A posição dos carros estacionados não tinha se alterado dos dois lados da rua, e seu Triumph ainda estava encostado no meio-fio onde o deixara para ir socorrer a vítima fictícia. Não havia ninguém à vista.

Era muito pouco provável que o caminhão, depois de tê-lo encontrado a primeira vez na Wisconsin Avenue, voltasse a encontrá-lo ali. Ninguém tem tanta sorte. Entretanto, o caminhão, o carro e o "bêbado" sem dúvida faziam parte de um esquema cujo objetivo era matá-lo.

Deviam ter sabido exatamente onde ele se encontrava.

Esperou que a lua baixasse. A noite ficou mais escura, uma coruja piou no meio das árvores, e o carro distante continuou a se dirigir para o sul, depois para o norte, e novamente para o sul, aproximando-se lentamente do cruzamento.

Satisfeito por não haver ninguém espreitando, Smith levantou-se e correu para o seu Triumph. Pegou uma pequena lanterna de mão no porta-luvas e enfiou-se por baixo da traseira do carro. E lá estava ele. Total falta de imaginação, de originalidade. A luz de sua lanterna revelou um transmissor pouco maior do que a unha de seu polegar preso ao chassi do carro por um poderoso ímã. O mostrador de leitura provavelmente estava no caminhão ou com o chefe do grupo.

Ele apagou a lanterna, colocou-a no bolso e removeu o dispositivo de rastreamento. Admirou a criatividade que produzira uma engenhoca tão delicada. Ao sair de baixo do Triumph, notou que o carro que vinha monitorando estava quase no cruzamento. Ajoelhou-se ao lado do Triumph e ficou observando. O carro estava avançando lentamente enquanto o motorista, com o vidro abaixado, jogava jornais pela janela nos gramados e entradas de garagem das casas da vizinhança.

O motorista fez uma curva em U.

Smith levantou-se e assobiou. Quando o carro diminuiu a marcha no cruzamento, ele correu para a janela aberta.

— Posso comprar um jornal?

—     Claro. Tenho alguns exemplares extras.

Smith enfiou a mão no bolso à procura de moedas. Deixou cair uma no chão. Abaixou-se para apanhá-la, e com um sorriso frio plantou o micro-transmissor no chassi do carro.

Aprumando-se, pegou o jornal e acenou com a cabeça.

—     Obrigado.

O carro do entregador de jornais seguiu em frente, e Smith pulou para dentro do Triumph. Arrancou, esperando que seu estratagema mantivesse os agressores ocupados o tempo necessário para alcançar Sophia. Mas, se os ataques fizessem parte do que Bill Griffin o prevenira, então eles sabiam quem ele era e onde encontrá-lo. E onde encontrar Sophia.

 

4:07h

Forte Detrick, Maryland

O relatório do Instituto Príncipe Leopoldo de Medicina Tropical da Bélgica foi o terceiro que, depois de mergulhar novamente no trabalho, Sophia leu, o último cientista a permanecer no laboratório. Estava muito preocupada para conseguir conciliar o sono. Se o maldito general estivesse certo quando dissera que Jon provavelmente se teria deixado empolgar por alguma novidade médica, ela ficaria furiosa. Não obstante, esperava que Kielburger tivesse razão, pois isso significaria que não tinha motivo para ficar preocupada.

Continuava estudando os últimos relatórios, mas somente depois de ler o do laboratório Príncipe Leopoldo finalmente alguma coisa parecia oferecer esperança. O Dr. René Giscours lembrava-se de um relatório de campo que tinha lido havia alguns anos, quando estagiava num hospital em plena selva amazônica boliviana. Na época ele se preocupara, tendo combatido o que parecia ser um novo surto da febre machupo, não muito distante da cidade ribeirinha San Joaquin, onde Karl Johnson, Kuns e MacKenzie tinham descoberto o vírus mortífero, muitos anos antes. Ele não tivera tempo nem mesmo para averiguar um boato não confirmado que se originara no interior do Peru, limitando-se por isso a fazer uma simples anotação, esquecendo-se do assunto.

Mas o novo vírus tinha espicaçado sua memória. Dera uma busca nos seus papéis e encontrara a anotação original, mas não o relatório propriamente dito. Contudo, a anotação que fizera na ocasião enfatizava uma aparente combinação de sintomas de hantavírus e de febre hemorrágica, assim como se referia a algumas conotações com macacos.

Sophia sentiu-se tomada de uma tensão ansiosa, uma necessidade de justificação. Depois de Victor Tremont não ter podido ajudá-la, passou a duvidar de si mesma. Agora o relatório de Giscours confirmava suas recordações. Que tipo de contato o USAMRIID possuiria lá? Se estivesse certa, não tinham ocorrido maiores nem mesmo menores surtos desse vírus desde então, o que significava que ainda devia continuar confinado a uma faixa estreita no coração da selva, numa região remota do Peru.

Ela descreveu no seu diário a impressão que o relatório do Príncipe Leopoldo lhe causara, e resumiu o que lembrava do estranho vírus e de suas duas conversas com Victor Tremont, uma vez que agora poderiam ser relevantes. Também registrou algumas especulações sobre a possibilidade de um vírus peruano ter sido transmitido para além das fronteiras da selva amazônica.

Enquanto estava escrevendo, ouviu a porta do seu escritório abrir. Quem...? Seu coração se alvoroçou, enchendo-se de esperança.

Excitada, girou sua cadeira.

— Jon? Querido, onde foi...?

No instante antes de sua cabeça explodir de dor excruciante e ver uma profusão de cores, ela percebeu de relance quatro homens à sua volta. Nenhum deles era Jon. Depois sobreveio a escuridão total.

Nadal al-Hassan, disfarçado da cabeça aos pés num uniforme de laboratorista, revistou metodicamente a escrivaninha da cientista. Leu de cabo a rabo cada documento, relatório, memorando, bloco de anotações. Estudou todas as pastas de arquivo. A tarefa implicava grave transgressão, embora ele estivesse protegido com luvas cirúrgicas. Sabia que semelhantes blasfêmias modernas ocorriam no seu próprio país, assim como em muitas outras nações islâmicas e até mesmo árabes, mas não fazia segredo de sua aversão. Permitir que mulheres estudassem e trabalhassem lado a lado com homens não era apenas uma heresia, profanava a dignidade dos homens e a castidade das mulheres. Tocar naquilo em que a mulher havia tocado lhe desagradava.

Mas a busca era necessária. Por isso, conduziu-a meticulosamente, não deixando nada por examinar. Achou os dois devastadores documentos quase simultaneamente. Um era o único relatório aberto em cima de sua mesa — do Instituto Príncipe Leopoldo, assinado por um tal de Dr. René Giscours. O outro era o seu registro manuscrito de cada ligação telefônica feita para fora, que aparentemente o diretor do USAMRIID exigia que o corpo de funcionários, sem exceção, fizesse mensalmente.

Depois encontrou o diário de Sophia com suas reflexões sobre o relatório belga. Felizmente, elas enchiam uma página inteira, de cima a baixo. Retirou de uma pequena caixa de couro um estilete de desenhista de gume afiado. Com cuidado e delicadeza recortou a página. Verificou o corte para se certificar de que ficara imperceptível, e guardou a página extraída do diário num bolso do uniforme. Depois disso não encontrou mais nada importante.

Seus três homens, envergando uniformes idênticos, estavam terminando a busca nos arquivos de aço.

Um deles disse:

—     Achei um novo memorando na pasta sobre o Peru.

Outro disse:

—     Duas velhas pastas falavam de coisas na América do Sul.

O terceiro limitou-se a sacudir a cabeça.

—     Leram todos os documentos? — indagou al-Hassan. — Pasta por pasta do arquivo? Vasculharam as gavetas?

—     Fizemos exatamente como o senhor mandou.

—     Olharam embaixo de tudo? Atrás de todos os móveis?

—     É claro, não somos estúpidos.

Al-Hassan tinha sérias dúvidas a esse respeito. Achava quase todos os ocidentais preguiçosos e incompetentes. Mas, a julgar pela desordem em que tinham deixado o escritório, concluiu que daquela vez pareciam ter dado conta do recado satisfatoriamente.

—     Muito bem. Vocês agora vão ter de eliminar qualquer vestígio de que foi feita uma busca. Tudo tem de ficar rigorosamente como estava.

Enquanto resmungavam e voltavam ao trabalho, al-Hassan calçou um segundo par de luvas brancas, mais espessas. Apanhou um pequeno recipiente metálico refrigerado numa caixa de couro, soltou um selo de pressão e retirou uma ampola de vidro. Removeu cuidadosamente uma seringa hipodérmica da caixa, abasteceu-a com o líquido da ampola e injetou-o na veia do calcanhar esquerdo de Sophia.

Ela se agitou e gemeu com a picada da agulha.

Os três homens ouviram. Viraram-se para olhar, e seus rostos empalideceram.

— Completem suas tarefas — disse al-Hassan asperamente.

Os homens baixaram os olhos. Enquanto terminavam de pôr o escritório novamente em ordem, al-Hassan colocou a seringa usada num recipiente de plástico, lacrou-o e recolocou-o na caixa de couro. Seus homens avisaram que tinham terminado a arrumação. Al-Hassan inspecionou o escritório mais uma vez. Dando-se por satisfeito, ordenou que se retirassem. Deu uma derradeira olhada na agora imóvel Sophia e viu o suor porejando no seu rosto. Quando ela gemeu, ele sorriu e se retirou, acompanhando os outros.

 

4:14h

Thurmont, Maryland

Um vento leve soprava através das moitas e das árvores, levando o mau cheiro de maçãs que apodreciam no chão. A casa de três andares de Jon Smith era uma construção com vigamento de madeira situada na encosta da montanha Catoctin. O lugar estava escuro, não havia sequer uma luz na varanda para saudar sua volta, o que o fez pensar que Sophia devia estar no laboratório. Tinha de se certificar.

Estava a um quarteirão de distância, agachado e oculto, observando sua casa, o jardim e a rua. Percebeu sinais reveladores. Uma pessoa vigiando atrás da velha macieira engrossava o tronco da árvore. Um pouco mais acima no quarteirão, quase escondido por dois altos carvalhos, o capô de um Mercedes projetava-se da entrada da garagem de vizinhos que Smith sabia que só possuíam um Buick 2000 Le Sabre, que ficava sempre dentro da garagem.

Considerando a rapidez com que tinha coberto o percurso de Georgetown até sua casa, cortando a via expressa e as ruas quase desertas, não era possível que a dupla que o esperava tivesse chegado primeiro. Isso queria dizer que só podia se tratar de uma segunda dupla de vigilantes, o que o deixou alarmado.

O que estava na sua frente podia ver o acesso à garagem. Provavelmente, também haveria um homem nos fundos, cobrindo a retaguarda da casa e da garagem. Mas Smith não via razão para que desperdiçassem um homem ao lado da garagem, afastada da casa.

Sentiu o familiar friozinho de medo na barriga que todo soldado conhece, mas também um afluxo quente de adrenalina. Esgueirou-se por uma alameda e correu pelos fundos das casas, ultrapassando sua rua. Depois, correu de volta, fora da vista de seus perseguidores.

Começando a suar novamente, avançou por uma aléia de figueiras na direção da lateral de sua garagem e rastejou os últimos cinco metros.

Ficou escutando. Não havia qualquer ruído atrás da casa. Ergueu-se para esquadrinhar o interior da garagem.

E suspirou aliviado. Estava vazia. O velho Dodge verde de Sophia estava ausente. Ela deveria estar no Forte Detrick. Caso realmente estivesse, não teria recebido seu recado, e isso explicava o fato de não haver nenhuma luz acesa na varanda. Respirou fundo, sentindo-se melhor instantaneamente.

Refazendo seu caminho, correu para o Triumph e se dirigiu a um telefone público quatrocentos metros adiante. Mal conseguia conter a ansiedade para ouvir sua voz. Discou o número do seu escritório. Depois de tocar quatro vezes, a secretária eletrônica atendeu. "Estou fora do meu escritório ou no laboratório. Por favor, deixe seu recado. Retornarei a chamada o mais rápido possível. Obrigada."

O som claro de sua voz firme provocou-lhe uma dor aguda e outra sensação, que não sabia explicar. Solidão?

Discou novamente. A voz que atendeu não podia ser mais profissional, o que era reconfortante, tendo em vista particularmente as circunstâncias.

—     Exército dos Estados Unidos. Forte Detrick. Segurança.

—     Aqui é o tenente-coronel Jonathan Smith, do USAMRIID.

—     Identidade da base, coronel?

Ele deu o número.

Fez-se uma pausa.

—     Obrigado, coronel. Em que podemos servi-lo?

—     Ligue-me com a mesa do USAMRIID.

Clique, bips, e uma nova voz.

—     USAMRIID. Segurança. Grasso falando.

—     Grasso, Jon Smith. Ouça...

—     Oi, coronel, já está de volta? Tudo bem? A Dra. Russell tem perguntado...

—     Tudo bem, Grasso. E com a Dra. Russell que quero falar. Ela não está atendendo seu telefone. Sabe me dizer onde ela está?

—     O nome dela consta da lista do pessoal da noite que me deram quando cheguei e não a vi sair.

—     A que horas você chegou?

—     Meia-noite. É provável que ela esteja no laboratório e por isso não está ouvindo o telefone tocar.

Smith consultou seu relógio: 4:42h

—     Poderia dar um pulo até lá e verificar?

—     Claro, coronel. Chamo o senhor de volta.

Smith deu-lhe o número do telefone. Cada segundo parecia um minuto, e a cada minuto tornava-se mais difícil respirar. A noite fria parecia sufocante. A cabine telefônica o asfixiava.

Quando finalmente o telefone tocou, ele quase deu um pulo.

—     Pronto?

—Ela não está lá, coronel. Tanto o escritório quanto o laboratório estão fechados.

—     Algum sinal de irregularidade?

—Não, senhor. Está tudo em ordem. — Grasso pareceu um pouco defensivo. — Não sei como não a vi passar. E possível que tenha utilizado uma das outras saídas. O senhor pode checar com a guarda do portão.

—     Obrigado, Grasso. Quer me transferir, por favor?

—     Num minuto, doutor.

Uma voz diferente e sonolenta atendeu:

—     Forte Detrick. Portão. Schroeder.

—     Aqui fala o tenente-coronel Jonathan Smith, do USAMRJID. Viu a Dra. Russell deixar a base esta noite, Schroeder?

—     Não sei, coronel. Não conheço a Dra. Russell. Tente o cara de serviço no USAMRIID.

Smith praguejou em voz baixa. Os guardas da segurança civil estavam sempre mudando e trabalhavam mais horas seguidas do que os MPs. Era sabido que muitos cochilavam na guarita do portão. A barreira detinha qualquer carro que tentasse entrar, e, se não o fizesse, o barulho certamente os despertaria. Mas não havia barreira para deter os carros que saíam.

Ele desligou. Possivelmente ela estaria muito cansada para dirigir até Thurmont, o que significava que poderia ter ido para seu antigo apartamento no condomínio de Frederick, que tinha vendido, mas do qual ainda não se mudara definitivamente. Poderia telefonar para o condomínio, mas isso não adiantaria grande coisa. Quando viravam a noite trabalhando, sempre desligavam a campainha do telefone para poder dormir mais algumas horas.

Enquanto dirigia o carro, sua mente conjeturava. Sem dúvida, ela estava tão cansada que saíra do laboratório por uma das portas laterais, não querendo se encontrar com ninguém. Era lógico, era o que teria feito. O guarda do portão não a vira, provavelmente porque estava dormindo. Ela teria ido para o seu condomínio. Ele se deitaria de mansinho ao lado dela. Ela sentiria sua presença sem acordar. Sorriria dormindo, murmuraria qualquer coisa e se aconchegaria a ele. Seu corpo quente se encostaria nele. Ele sorriria, beijaria de leve seu ombro, e a contemplaria dormindo antes de também pegar no sono. Ele...

Poucos guias de turismo mencionavam o Forte Detrick como uma das atrações da histórica cidade de Frederick. Cercado por uma corrente de ferro e com um posto de guarda na entrada, Detrick era uma base do exército de segurança média, construída no meio de uma área residencial. O condomínio de Sophia ficava a cinco quarteirões de distância. Smith estacionou o carro e não viu sinais de alguém vigiando. Desceu do Triumph, fechou a porta suavemente e ficou escutando. Ouviu pessoas tossindo, uma risada ocasional ou uma voz mais alta de alguém que se excedera na bebida. Um carro solitário guinchando numa curva. O pulsar constante dos meandros da cidade.

Mas nenhum som ou movimento inusitado que pudesse ser considerado ameaçador.

Usou sua chave para abrir a portaria do edifício de três andares e atravessou o piso de cerâmica coberto por uma passadeira até os elevadores. Estava tudo vazio àquela hora.

No terceiro andar, com a Glockem punho, saltou cautelosamente. Seus passos ecoaram no corredor como se estivesse penetrando na câmara vazia de uma antiga tumba. Quando chegou à porta do apartamento, escutou novamente. Não ouviu nada no lado de dentro. Girou a chave, as engrenagens da fechadura soaram em sua mente como uma ruidosa explosão. Abriu a porta silenciosamente e caiu estatelado no assoalho acarpetado.

O apartamento estava escuro. Nada se mexeu. Sua mão sentiu uma camada de poeira cobrindo o tampo da mesa lateral perto da porta.

Ele se levantou e tateou pelo living imerso na escuridão, encaminhando-se para o pequeno corredor que conduzia aos quartos de dormir. Ambos estavam vazios, as camas arrumadas, sem indícios de que tivessem sido usadas. A cozinha tampouco revelava sinais de que alguém tivesse feito uma refeição ou sequer preparado uma xícara de café. A pia estava seca. A geladeira estava silenciosa, desligada havia muitas semanas.

Ela não tinha estado ali.

Atordoado, Smith voltou para o living, andando como um robô. Acendeu as luzes. Procurou vestígios de um ataque, um ferimento ou mesmo uma busca.

Nada. O apartamento estava na mesma perfeita ordem, intacto, como uma peça exposta num museu.

Se a tivessem matado ou seqüestrado, não tinha sido ali.

Ela não estava no laboratório. Não estava na casa em Thurmont. Não estava ali. E ele não tinha indicações de que alguma coisa lhe tivesse acontecido em qualquer um desses lugares.

Conscientizou-se de que precisava de ajuda.

A primeira providência a ser tomada era ligar para a base e comunicar seu desaparecimento. Depois notificar a polícia. O FBI. Pegou o celular para ligar para Detrick.

Sua mão ficou parada no ar, congelada. Do lado de fora, no corredor, passos ecoaram.

Apagou as luzes e colocou o telefone na mesa. Agachou-se atrás do sofá, com a Glock apontada para a porta.

Alguém se aproximava cambaleando do apartamento de Sophia, esbarrando nas paredes, caminhando aos arrancos. Quem sabe um bêbado voltando trôpego para casa?

Os passos pararam, seguindo-se uma forte batida na porta de Sophia. A respiração era ofegante. Uma chave procurava penosamen¬te o buraco da fechadura.

Ele retesou os músculos. A porta foi aberta violentamente.

Sophia oscilou r.o feixe de luz. Suas roupas estavam rasgadas e sujas como se tivesse rastejado numa sarjeta.

Smith deu um salto para frente.

—     Sophia!

Ela entrou vacilante, e ele a segurou antes que caísse. Ela ofegava, lutando para respirar. Seu rosto ardia de febre.

Seus olhos pretos olharam para ele, tentaram sorrir.

—     Você... voltou, querido. Onde... onde é que estava?

—     Lamento muito, Sophia. Demorei-me mais um dia, queria...

Ela estendeu a mão para interrompê-lo. Sua voz soou delirante.

—     ... no laboratório... no laboratório... alguém... me atacou...

Disse isso e caiu nos braços dele, desmaiada. Sua pele estava

pastosa, lívida. Duas manchas febris lhe reluziam nas faces. Seu rosto bonito estava desfigurado pela dor. Ela estava passando muito mal. O que acontecera com ela? O estado em que se encontrava não podia ter sido provocado simplesmente por exaustão.

—     Soph? Soph? Oh, meu Deus, Soph?

Não houve resposta. Ela estava com o corpo flácido, desfalecida.

Abalado e horrorizado, ele assumiu sua condição de médico. Sabia o que tinha de fazer. Deitou-a no sofá. Pegou o celular e discou 911 enquanto lhe tomava o pulso e checava a respiração. O pulso estava fraco e acelerado. Ela respirava com dificuldade. Continuava ardendo em febre. Sintomas de uma crise respiratória aguda acompanhada de febre.

Gritou no telefone:

—     Crise respiratória aguda. Dr. Jonathan Smith falando, droga. Venham pra cá voando!

A van sem qualquer sinal de identificação estava quase invisível debaixo de uma árvore na rua do apartamento de Sophia. A fraca iluminação da rua dava aos ocupantes da van exatamente o que eles queriam — escuridão e camuflagem. Da penumbra no interior do veículo, Bill Griffin observava a van paramédica, piscando suas luzes azul e vermelha em frente ao edifício de apartamentos de três andares que refulgia com todas as janelas iluminadas do outro lado da rua.

Nada! al-Hassan falou do banco do motorista:

—Não devíamos ter deixado a Dra. Russell sair do seu laboratório sozinha. Ela talvez nunca tivesse chegado até aqui.

—     Mas o fato é que ela fez as duas coisas. — O rosto redondo de Griffin estava neutro. Na escuridão, seu cabelo castanho, de comprimento médio, parecia preto. Seus ombros largos e corpo musculoso davam a impressão de estar relaxados. Este era um homem diferente, mais duro e frio do que o que encontrara seu amigo Jon Smith, algumas horas antes no parque Rock Creek, em Washington.

Al-Hassan disse:

—     Fiz com a mulher o que me mandaram fazer. Foi a única maneira de cumprir minha tarefa sem levantar suspeitas.

O silêncio de Griffin abafou seu tormento interior. O súbito e imprevisto envolvimento de Jon era algo que ele jamais poderia ter imaginado. Tentara preveni-lo, masal-Hassan tinha mandado Maddux atrás de Jon em Washington antes que ele tivesse uma chance de pensar em fugir. Isso teria mostrado a Jon que a advertência que lhe tinha feito era procedente, mas, com o ataque à mulher, ele não recuaria. Como poderia salvar o velho amigo agora?

Ele e al-Hassan estavam esperando que os outros localizassem Smith novamente quando a ligação de seu espião infiltrado no USAMRIID, a falsa cientista Adele Schweik, tocou no telefone celular de al-Hassan. O sensor de rastreamento que ela plantara no escritório e no laboratório de Sophia Russell se tinha extinguido, e, quando ativara a câmera de vídeo oculta, vira Sophia saindo cambaleante de seu escritório. Ela correu para o Forte Detrick, mas, quando chegou lá, Russell tinha desaparecido.

—     Ela não poderia dirigir naquelas condições — disse Schweik a al-Hassan —, e por isso chequei o arquivo dela. Ela possui um apartamento num condomínio perto do forte.

Eles tinham se dirigido diretamente para o edifício, mas ao chegarem lá já encontraram os paramédicos e todo o edifício acordado com o tumulto. Não podiam entrar no edifício sem chamar atenção.

Bill Griffin disse:

—     Se ela abrir o bico e contar muita coisa a Smith, o chefe não vai gostar nada. E veja isto.

Quatro paramédicos empurrando uma maca entraram no edifício. Jon Smith caminhava ao lado da maca e segurava a mão da mulher, inclinando-se para falar com ela. Parecia completamente alheio a tudo. Falava sem parar.

Al-Hassan praguejou em árabe.

—     Devíamos saber da existência do apartamento no condomínio.

Griffin teve de correr o risco de fazer com que o árabe o odiasse ainda mais, com a esperança de induzi-lo a cometer um erro.

—     Mas nós não sabíamos, e agora eles estão conversando. Ela está viva. Você pisou na bola, al-Hassan. Vão lhe arrancar o couro por causa disso. E agora o que fazemos?

Nadal al-Hassan falou moderadamente.

—     Vamos segui-los até o hospital e depois a mataremos. E a ele também. — Disse isso e virou-se para observar Griffin atentamente.

Griffin sabia que al-Hassan estava atento às suas mínimas reações, aos mais imperceptíveis sinais de desconforto com a idéia de matar Jon. Um ligeiro sufoco, um vacilo, um tremor microscópico.

Griffin manteve-se impassível e acenou com a cabeça para a van. Sua expressão fisionômica conservou-se glacial.

—     Se necessário, talvez também tenhamos de matá-los. E possível que a tenham ouvido dizer alguma coisa. Espero que esteja preparado para isso. Não vai amarelar nessa altura dos acontecimentos, não é mesmo?

Al-Hassan conteve sua cólera.

—     Não tinha pensado nos paramédicos. Naturalmente, se for necessário, também os mataremos. — Seus olhos se apertaram. Fez uma pausa e acrescentou: — E possível que Jon Smith esteja falando com um cadáver. O amor torna idiotas mesmo os homens mais inteligentes. Vejamos se ela morre por sua própria conta. Se tal acontecer, teremos de eliminar somente Jon Smith, o que torna as coisas mais fáceis, não é verdade?

 

5:52h

Frederick, Maryland

Sophia estava deitada no leito da UTI, lutando para respirar mesmo sob a tenda do oxigênio. Ligada a todas as máquinas que se possam imaginarem um moderno hospital, ela era mantida cativa de aparelhos insensíveis a quem ela era ou ao que houvesse de errado com ela. Smith segurava-lhe a mão febril e tinha vontade de gritar para as máquinas: "Ela é Sophia Russell. Nós conversamos, rimos e trabalhamos juntos. Fazemos amor. Vivemos. Vamos nos casar nesta primavera. Ela vai ficar boa, e nos casaremos daqui a poucos meses. Vamos viver juntos até ficarmos velhinhos, de cabelos brancos, e ainda apaixonados um pelo outro”.

Ele se inclinou e disse com voz firme:

— Você vai ficar boa, Soph, minha querida. — Como dissera vezes sem conta a jovens soldados estropiados numa unidade MASH em alguma linha de frente, procurou encorajá-la. —Você vai ficar boa em pouco tempo. Vai poder se levantar e andar e se sentirá muito melhor. — Expulsava o medo e a preocupação de suas palavras. Tinha de levantar o moral da tropa, incutir-lhe esperança. Mas aquela era Sophia, e ele tinha de lutar com mais denodo do que jamais lutara em toda a sua vida para esconder seu desespero. — Agüente firme, querida. Por favor, querida — sussurrou ele. — Não entregue os pontos.

Quando estava lúcida, ela tentava sorrir para ele, lutando desesperadamente para conseguir respirar. Apertou a mão dele debilmente. A febre e o esforço para respirar a estavam exaurindo.

Ela tentou sorrir.

—... onde... onde... você...

Carinhosamente, ele colocou o dedo nos lábios dela.

—Não tente falar. Você precisa poupar todas as forças para ficar boa. Durma, querida. Procure descansar, minha linda querida.

Seus olhos se fecharam como se fossem as cortinas de um palco, caindo no fim do espetáculo. Ela parecia estar se concentrando, mobilizando toda a energia interna para combater o que quer que a estivesse minando. Ele estudou a pele translúcida, a estrutura óssea perfeita, a curva graciosa de suas sobrancelhas. Seu rosto irradiava um tipo de beleza refinada que, de certo modo, se tornava ainda mais atraente pela inteligência que abrigava. Mas agora a febre lhe destruíra o encanto, acentuando-lhe a magreza e a fragilidade contra os lençóis brancos do hospital. Sua pele estava quase transparente. Seu rosto febril tinha um brilho que o assustava.

Um fio de sangue escorreu-lhe da narina esquerda.

Surpreso, Smith enxugou-o com um pano e chamou a enfermeira.

—     Acabe com esse sangramento.

A enfermeira apanhou a caixa de gaze.

—     A pobrezinha deve ter rompido um vaso capilar no nariz.

Smith não respondeu. Atravessou o quarto atravancado de máquinas e com luzes piscando em direção ao canto onde o Dr. Josiah Withers, especialista de doenças pulmonares do hospital, o Dr. Eric Mukogawa, interno do Forte Detrick, e o capitão Donald Gherini, o melhor virologista do USAMRIID, estavam conferenciando em voz baixa. Olharam para Smith quando ele se aproximou, não escondendo a preocupação estampada nos seus rostos.

—     Então?

—     Apelamos para todos os antibióticos imagináveis que poderiam ajudar — disse-lhe o Dr. Withers. — Mas parece tratar-se de um vírus, Dr. Smith. Todos os nossos esforços para debelar os sintomas foram inúteis. Ela não reagiu a coisa alguma.

Smith blasfemou.

—     Descubram alguma coisa. Pelo menos a estabilizem.

—     Jon. — O capitão Gherini pôs a mão no ombro de Smith. — Parece ser o vírus que remeteram para o laboratório no último fim de semana. Todos os laboratórios de Nível Quatro do mundo o estão examinando, e até agora não temos a menor idéia do que seja ou de como tratá-lo. Parece ser um hantavírus, mas não é. Pelo menos não se parece com nenhum hantavírus que conhecemos. — Ele fez uma careta e sacudiu a cabeça, pesaroso. — Ela deve ter sido contaminada de alguma forma...

Smith olhou fixamente para Gherini.

—     Está dizendo que é possível que ela tenha cometido algum erro no laboratório, Don? Na Zona Quente? Totalmente impossível! Ela é extremamente cuidadosa e competente para ter cometido um erro desses!

O interno da base disse com serenidade:

—     Estamos fazendo tudo o que podemos, coronel.

—     Então façam mais! Façam melhor! Descubram alguma coisa, pelo amor de Deus!

—     Doutores! Coronel!

A enfermeira estava ao lado do leito de Sophia na UTI. A doutora sacudiu o corpo abruptamente num espasmo angustiante, como se tentasse aspirar um pouco de ar num longo sorvo.

Smith empurrou os colegas e correu.

—     Sophia!

Quando ele chegou perto dela, ela tentou sorrir.

Segurou-lhe a mão.

—     Querida?

Seus olhos se fecharam, e sua mão ficou flácida.

—     Não! — bradou ele.

Ela jazia na cama como se estivesse muito fatigada de uma longa jornada. Seu peito parou de ofegar. Depois de sua longa batalha, entre acessos de sufocamento e arquejos desesperados, fez-se um silêncio súbito e irrevogável. E, antes mesmo que isso pudesse ser constatado, uma golfada de sangue jorrou-lhe do nariz e da boca.

Horrorizado, incrédulo, Smith ergueu bruscamente a cabeça para checar o monitor. Uma linha verde ininterrupta atravessava a tela. Uma linha reta, uniforme. Sem vida.

—     Eletrodos! — berrou ele.

A enfermeira reprimiu um soluço e foi apanhar o aparelho para tentar o ressuscitamento com a aplicação de choques elétricos.

Ele procurou evitar o pânico. Lembrou-se dos muitos corpos feridos, mutilados em sangrentas escaramuças, de que tinha tratado mundo afora. Era um médico experiente. Salvara vidas. Esse era o seu trabalho. O que melhor sabia fazer. Ia salvar a vida de Sophia. Tinha certeza de que era capaz de fazê-lo.

Sem desviar os olhos do monitor, começou o tratamento de choque. O corpo de Sophia curvou-se silenciosamente e caiu para trás.

—     Novamente!

Tentou cinco vezes, aumentando o choque a cada tentativa. Por duas vezes pensou tê-la ressuscitado. Tinha quase certeza de que ela respondera pelo menos uma vez. Não podia estar morta. Era impossível.

O capitão Gherini tocou-lhe no ombro.

—     Jon?

—     Não!

Aplicou-lhe mais um choque. Os monitores permaneceram imóveis. Não podia deixar de ser um engano. Um pesadelo, certamente. Devia estar dormindo e tendo um pesadelo. Sophia estava viva. Cheia de vitalidade. Bela como um dia de verão. E deliciosamente provocante. Ele adorava a maneira como o excitava.

—     Mais uma vez!

O especialista em doenças pulmonares, Dr. Withers, passou o braço em volta dos ombros de Smith.

—     Jon, desista dos choques.

Smith olhou para ele.

—     O quê?

Mas finalmente largou os eletrodos, e Withers ordenou à enfermeira que os recolhesse.

O interno, Dr. Mukogawa, disse:

—     Sinto muito, Jon. Todos nós. Isso é horrível. Inacreditável. — Dirigindo-se aos outros, acrescentou: — Vamos deixá-lo a sós. Ele vai precisar de algum tempo só para a sua dor.

Todos se retiraram. A cortina foi fechada em torno do leito de Sophia, e o coração de Smith foi varrido por um vendaval de dor e desolação. Seu corpo todo estremeceu. Caiu de joelhos e pressionou a testa contra o braço inerte de Sophia. Ainda estava quente. Queria se convencer de que ela estava viva. Queria que ela se mexesse se levantasse e risse, e lhe dissesse que tudo não passara de uma piada de mau gosto.

Uma lágrima rolou pelo seu rosto. Enxugou-a, irritado. Removeu a tenda de oxigênio para que pudesse vê-la realmente. Ela ainda parecia tão viva, com a pele rosada e úmida. Sentou-se ao seu lado na beira da cama. Tomou-lhe as duas mãos e apertou-as nas suas. Beijou- lhe os dedos.

Lembro-me de quando a vi pela primeira vez. Oh, você era tão encantadora. E passou uma descompostura em regra neste pobre pesquisador porque interpretara errado a lâmina. Você é uma grande cientista, Sophia. A melhor amiga que já tive. E a única mulher que amei...

Sentou-se e conversou com eia em pensamento. Extravasou todo o seu amor. Às vezes lhe apertava as mãos como fazia quando iam ao cinema. A certa altura olhou para baixo e viu que suas lágrimas haviam molhado o lençol. Passou-se muito tempo antes que, finalmente, dissesse:

—     Adeus, minha querida.

Na sala de espera do hospital, terminara a longa e lenta noite, mas o alvoroço da manhã ainda não começara. Sozinho, entorpecido, devastado, Smith estava largado numa poltrona.

No primeiro dia em que Sophia entrou no laboratório do USAMRIID, ela começou a falar antes que ele desviasse os olhos do microscópio.

—     A Randi o odeia — disse-lhe ela. — Não sei por quê. Até admiro a maneira como você aceitou a culpa pelo mal que lhe possa ter feito, lamentando sinceramente o que aconteceu. Ficou claro que você estava sendo honesto, que também estava sofrendo.

Ele se virou, deu uma olhada e soube novamente por que se empenhara com seus superiores para trazê-la ao Forte Detrick. Vira-a pela primeira vez no laboratório do NIH, onde ela chamara a atenção de um pesquisador negligente, e ficara impressionado ao encontrá-la novamente na casa da irmã dela. Esses dois encontros tinham sido suficientes para que soubesse que gostaria de tê-la ao seu lado. Ficara sentado sob o olhar hostil de Randi admirando Sophia. Seus cabelos cor de milho, longos e sedosos, eram presos num rabo-de-cavalo. E ela ostentava uma silhueta esbelta, curvilínea.

Percebera o interesse dele. Naquele primeiro dia no laboratório do USAMRIID, ela foi logo dizendo:

—     Fico com aquele banco vazio ali adiante. E, se deixar de ficar olhando para mim, poderei começara trabalhar. Todos dizem que você é um excelente médico de combate. Respeito muito isso. Mas sou uma cientista, o que você jamais conseguirá ser, e é bom ir se acostumando com a idéia desde já.

—     Eu me lembrarei disso.

Ela o olhou diretamente nos olhos.

—     E mantenha seu pinto dentro das calças até segunda ordem.

Ele acenou com a cabeça, sorriu e disse:

—     Posso esperar.

A sala de espera do hospital era uma ilha fora do tempo. Na sua mente, o mundo ficava em algum lugar remoto. Lembranças malucas embaralhavam-se na sua cabeça. Ele parecia estar fora de controle. Teria de cancelar o casamento. Cancelar tudo. O bufê, a limusine e...

Meu Deus, o que é que estava fazendo?

Sacudiu a cabeça violentamente. Tentou focalizar sua mente. Estava no hospital.

A luz róseo-dourada da alvorada refletia-se nos edifícios do outro lado da rua. Teria de guardar novamente seu uniforme de gala num saco com bolinhas de naftalina.

Onde é que ela havia estado nas últimas semanas? Ele deveria ter estado com ela. Não deveria nunca ter arranjado para ela aquele emprego no USAMRIID.

Quantas pessoas eles tinham convidado para o casamento? Teria de escrever para cada uma delas. Pessoalmente. Dizer-lhes que ela havia partido... para muito longe...

Ele a matara. Sua querida Sophia. Induzira o USAMRIID a fazer-lhe uma proposta tentadora, irrecusável. Ela aceitara o emprego em Detrick, e ele fora o responsável pela sua morte. Soube que a queria para ele assim que pôs os olhos nela na casa de Randi. Quando tentou dizer a Randi o quanto sentia que seu noivo tivesse morrido, ela ainda estava muito revoltada para lhe dar ouvidos. Mas Sophia compreendera. Percebeu isso nos olhos dela — aqueles olhos negros tão intensos, luminosos, vivos...

Teria de comunicar à família dela. Mas ela não tinha família. Somente Randi. Teria de dizer a Randi.

Virou-se bruscamente para procurar um telefone público, e a Somália acudiu-lhe à mente num lampejo. Havia sido designado para um navio-transporte numa invasão menor destinada a restabelecer a ordem e proteger nossos cidadãos num país dilacerado pela guerra entre dois déspotas militares que tinham dividido Mogadishu e o campo. Fora convocado para tratar de um major acometido de uma febre numa região insalubre do deserto. Exausto, depois de um plantão de doze horas, diagnosticara a febre como malária, mas depois se verificou que se tratava de febre Lassa, muito menos conhecida e muito mais mortífera. O major morreu antes que o diagnóstico pudesse ser corrigido e iniciado um tratamento adequado.

O exército o eximiu de imperícia. Fora um equívoco que muitos médicos mais experientes — pouco familiarizados com virologia — tinham cometido antes e continuariam cometendo, e a febre Lassa geralmente matava mesmo com o melhor tratamento. Não tinha cura. Mas reconhecia que tinha sido arrogante, tão auto-suficiente que só pedira ajuda quando era tarde demais. Sentiu-se culpado. A tal ponto que pressionara o exército para transferi-lo para o Forte Detrick, a fim de se tornar profundo conhecedor de virologia e microbiologia.

Uma vez lá, depois de compreender a raridade da febre Lassa comparada com a malária, finalmente admitiu que seu erro tinha sido um risco a que está sujeita a medicina de campo em lugares distantes e desprovidos de recursos. Mas o major era noivo de Randi Russell, e ela nunca perdoara Smith, nunca deixara de responsabilizá-lo pela morte do noivo. Agora teria de lhe comunicar que matara outra pessoa que ela amava.

Jogou-se no sofá.

Sophia. Soph. Ele a matara. Querida Sophia. Iam se casar na primavera, mas ela estava morta. Nunca devia tê-la trazido para Detrick. Nunca!

— Coronel Smith?

Smith ouviu a voz como se ela viesse do fundo lodoso de uma lagoa sob toneladas de água. Viu um vulto. Depois um rosto. Aflorando na superfície para refulgir na luz forte.

—     Smith? Você está bem? — O general-de-brigada Kielburger debruçou-se sobre ele.

De repente teve um estalo que o deixou gelado até a medula. Sophia estava morta.

Aprumou-se no sofá.

—     Tenho de estar lá para acompanhar a autópsia! Se...

—     Relaxe. Ainda não começaram.

Smith olhou ferozmente.

—Que diabo! Porque não me informaram sobre esse novo vírus? O senhor sabia muito bem onde eu estava.

—Não fale comigo nesse tom de voz, coronel. Não o contatamos inicialmente porque o assunto não parecia urgente — um único soldado na Califórnia. Quando os outros dois casos chegaram ao nosso conhecimento, o senhor estava sendo esperado de volta dentro de pouco mais de um dia. Se tivesse regressado conforme as ordens que recebeu, teria sido informado. E talvez...

O estômago de Smith contraiu-se num enorme punho, e suas mãos fizeram o mesmo. Estaria Kielburger insinuando que poderia ter salvo Sophia se estivesse presente? Voltou a se recostar no sofá. Não precisava que o general fizesse o que já vinha fazendo consigo mesmo. Sentado na sala de espera enquanto o dia raiava, não fazia outra coisa senão se culpar.

Levantou-se abruptamente.

— Preciso dar um telefonema.

Encaminhou-se para o telefone perto dos elevadores e discou para a casa de Randi Russell. Depois de tocar duas vezes, a secretária eletrônica atendeu, e ele ouviu sua voz precisa, objetiva. "Randi Russell. Não posso falar agora. Depois de ouvir o bip deixe o recado... Obrigada."

Aquele "obrigada" foi pronunciado com evidente má vontade, como se uma voz interior lhe tivesse dito que não fosse tão profissional o tempo todo. Mas Randi era assim.

Discou para o escritório dela no Instituto de Investigação de Relações Exteriores, um think tank internacional. A mensagem foi ainda mais seca. "Russell. Deixe recado." Dessa vez não houve "obrigada" nem mesmo como reflexão posterior.

Melindrado, pensou em deixar um recado no mesmo estilo. "Smith. Más notícias. Sophia morreu. Sinto muito."

Mas limitou-se a desligar. Não se sentiu capaz de deixar um recado lacônico comunicando uma morte. Continuaria tentando encontrá-la, por mais que isso pudesse lhe doer. Se não conseguisse falar com ela até o dia seguinte, diria ao chefe dela o que tinha acontecido e pediria que Randi lhe telefonasse. O que mais poderia fazer?

Randi sempre fora um contato difíci1, freqüentemente ausente em longas viagens de trabalho. Via Sophia raramente. Depois que ele e Sophia passaram a manter um relacionamento íntimo, Randi telefonava muito pouco para a irmã e nunca aparecia.

De volta à sala de espera, encontrou Kielburger balançando impacientemente a perna de uma calça de uniforme impecavelmente vincada e uma bota reluzente.

Smith sentou-se numa cadeira ao lado do general.

—     Fale-me desse vírus. Onde foi que surgiu? É de que tipo? E outro vírus hemorrágico como o Machupo?

—     A resposta é ao mesmo tempo sim e não para todas as suas perguntas — disse Kielburger. — O major Keith Anderson morreu sexta-feira à noite no Forte Irwin de uma síndrome respiratória aguda, mas não foi como nenhuma das ARDS que já vimos. Houve uma hemorragia maciça dos pulmões e foi encontrado sangue na cavidade torácica. O Pentágono nos alertou, e recebemos amostras de sangue e de tecido no sábado de manhã. Nessa altura, duas outras mortes tinham ocorrido em Atlanta e Boston. Você não estava aqui; por isso coloquei a Dra. Russell à frente das investigações, e a equipe passou a trabalhar dia e noite. Quando elaboramos o mapa de restrição do DNA, verificamos que ele era diferente de qualquer outro vírus conhecido. Não reagiu a nenhuma das amostras de anticorpos que possuímos para testar qualquer tipo de vírus. Resolvi então mobilizar o CDC e outros laboratórios de Nível Quatro em escala mundial, mas tudo continua negativo. É um vírus novo, e é mortífero.

No corredor, o Dr. Lutfallah, patologista do hospital, passou com dois serventes empurrando uma maca coberta com um lençol. Ele acenou com a cabeça para Smith.

O general continuou falando.

—     O que quero que faça é...

Smith ignorou o que ele disse. O que tinha a fazer era mais importante do que qualquer coisa que Kielburger pudesse querer. Deu um pulo e acompanhou o séquito para as salas de autópsia.

O servente Emiliano Coronado deu uma escapulida para a área de serviço do hospital para fumar um cigarro. Orgulhoso da bravura e fama de seu distante antepassado, ele se postou empertigado e, na sua imaginação, ficou contemplando a vastidão do Colorado quatro séculos atrás, buscando as Cidades de Ouro.

Uma dor súbita traspassou-lhe a garganta. Seu cigarro caiu da boca, e sua visão de glória mergulhou no lixo acumulado na área escura. A lâmina de uma faca cortara levemente seu pescoço, de onde escorria um filete de sangue. A lâmina aprofundou o corte.

—     Nenhum pio — disse a voz atrás dele.

Apavorado, Emiliano gemeu.

—     Fale-me da Dra. Russell. — Nadal al-Hassan pressionou a lâmina com mais força como estimulante. — Ela está viva?

Coronado tentou engolir.

—     Ela morreu.

—     O que foi que ela disse antes de morrer?

—     Nada... ela não disse nada a ninguém.

A faca penetrou mais fundo.

—     Tem certeza? Não disse nada ao noivo dela, o coronel Smith? Não me parece possível.

Emiliano estava desesperado.

—     Ela estava inconsciente. Como é que podia falar?

—     Está certo.

A faca completou seu trabalho, e Emiliano Coronado tombou desfalecido enquanto seu sangue empapava o lixo que cobria o local sombrio.

Al-Hassan olhou cuidadosamente em volta. Deixou a área e contornou o quarteirão, encaminhando-se para onde a van o esperava.

—     E então? — perguntou Bill Griffin quando al-Hassan subiu no veículo.

—     De acordo com o servente, ela não disse nada.

—     Então é possível que Smith não saiba de coisa alguma. Talvez tenha sido bom que Maddux não o tivesse encontrado em Washington. Dois homicídios no USAMRIID aumentariam o risco de alguém ficar com a pulga atrás da orelha.

—     Preferia que Maddux o tivesse matado. Assim não estaríamos perdendo tempo com essa discussão agora.

—     Mas Maddux não o matou, e podemos repensar a necessidade de fazê-lo.

—     Não podemos ter certeza de que ela não falou nada no seu apartamento no condomínio.

—     Podemos, sim. Ela permaneceu inconsciente o tempo todo.

—     Ela não estava inconsciente quando entrou no seu edifício — ponderou al-Hassan. —Nosso chefe não vai gostar da possibilidade que ela mencionou sobre o Peru.

Griffin rebateu.

—     Sou obrigado a repetir, al-Hassan, muitas mortes inexplicáveis podem despertar suspeitas. Especialmente se Smith comentou com alguém os ataques que sofreu. O chefe poderá gostar ainda menos disso.

Al-Hassan hesitou. Não confiava em Griffin, mas o ex-agente do FBI podia ter razão.

—     Então, temos de deixar que ele decida qual é o curso de ação de que gosta menos.

Bill Griffin sentiu um peso sair de suas costas. Não totalmente, porque conhecia Smith. Se Jon por acaso suspeitasse de que a morte de Sophia não tinha sido acidental, ele jamais recuaria. Contudo, Bill esperava que o cabeça-dura acreditasse que ela cometera um engano no laboratório, e que os ataques de que ele fora vítima não tinham relação com a sua morte. Quando os ataques cessassem, ele desistiria. Então Smith estaria fora de perigo, e Griffin podia deixar de se preocupar.

Na sala de autópsia revestida de azulejos e aço inoxidável, no porão do hospital de Frederick, Smith ergueu os olhos quando o patologista Lutfallah deixou a mesa de dissecção. O ar estava frio e impregnado com o forte odor de formol. Os dois homens estavam completamente protegidos com uniformes verdes.

Lutfallah sacudiu a cabeça.

—Deixo essa parte para vocês, Einsteins de Detrick. Os pulmões e mais quase nada... mas não é pneumonia, tuberculose ou qualquer outra coisa que já tenha visto. Fulminante e devastadora.

Smith meneou a cabeça. Com uma força de vontade sobre- humana, afastou da mente a pessoa que estava deitada na mesa de aço inoxidável com suas canaletas e declives para aparar o sangue. Ele e Lutfallah começaram a lúgubre tarefa de recolher amostras de tecido e de sangue.

Somente depois de a autópsia ter terminado e Smith ter tirado o gorro e a máscara verdes, as luvas e o avental, e ter-se sentado sozinho num banco comprido fora da sala de autópsia, é que ele se permitiu chorar a morte de Sophia novamente.

Esperara muito tempo. Permitira que sua busca frenética de conhecimentos médicos e científicos ao redor do globo o mantivesse ausente com grande freqüência. Estava mentindo para si mesmo quando dizia que, com o aparecimento de Sophia em sua vida, deixara de ser um caubói errante. Não era verdade. Mesmo depois de tê-la pedido em casamento, deixara-a para dar prosseguimento às suas buscas e andanças. E agora não podia recuperar esse tempo perdido.

A dor de tê-la perdido era mais forte do que qualquer dor física que já tivesse sentido. Num pungente esforço de compreensão, tentou aceitar o fato de que nunca mais estariam juntos novamente. Inclinou- se para frente e segurou a face com as duas mãos. Culpa. Luto. Soluçou convulsivamente. Ela se fora inapelavelmente, e ele não conseguia pensar em outra coisa senão que ansiava mais que tudo tê-la em seus braços mais uma vez.

 

9:18h

Bethesda, Maryland

A maioria das pessoas pensam no mastodôntico Instituto Nacional de Saúde como uma entidade única, o que está longe de corresponder à verdade. Instalado em mais de trezentos luxuriantes acres em Bethesda, a apenas dezesseis quilômetros da cúpula do Capitólio, o NIH consiste em vinte e quatro institutos, centros e divisões separados que empre¬gam dezesseis mil pessoas. Desse total, um impressionante efetivo de seis mil funcionários é integrado por Ph.Ds. E uma concentração dos mais avançados diplomas num só local, ultrapassando a da maioria das universidades e de alguns estados.

Lily Lowenstein, RRL, estava pensando nisso tudo ao contemplar a vista pelas janelas do seu escritório no último andar de um dos setenta e cinco edifícios do campus. Dirigiu o olhar para os canteiros floridos, os gramados a perder de vista, os estacionamentos cercados de árvores e as estruturas das amplas dependências onde tantas pessoas altamente qualificadas e inteligentes trabalhavam.

Estava procurando uma resposta onde não havia nenhuma.

Na qualidade de diretora da Federal Resource Medicai Clearing House — FRMC, era excepcionalmente dotada, bem-treinada, e atingira o topo de sua profissão. Sozinha em seu escritório, ela olhava para o imponente e conceituado NIH, mas, na verdade, não estava vendo as pessoas, os edifícios ou qualquer outra coisa. Na realidade, o que olhava e o que estava pensando era em seu problema. Um problema que fora crescendo quase imperceptivelmente ao longo de muitos anos até aniquilá-la sob o seu peso descomunal.

Lily era uma jogadora compulsiva. Não fazia diferença a espécie de jogo; era viciada em todas as modalidades. No princípio, passava suas férias em Las Vegas. Mais tarde, depois de ser designada para o seu primeiro emprego em Washington, passou a freqüentar Atlantic City porque podia chegar às mesas de jogo mais depressa. Era capaz de passar os fins de semana jogando em Atlantic City, ou um dia de folga ou até mesmo uma só noite, enquanto sua compulsão aumentava de acordo com o tamanho de suas dívidas.

Se tivesse ficado nisso—visitas a cassinos, uma ida ocasional aos hipódromos de Pimlico e Arlington—talvez tivesse permanecido um vício menor. Teria sido pernicioso, dilapidando seu bom salário, causando desavenças com sua família quando cancelava visitas e deixava de enviar presentes de aniversário ou de Natal para seus sobrinhos. Teria reduzido o número de seus amigos, mas nunca teria se transformado no monstro com que agora se confrontava.

Fazia apostas por telefone com bookmakers, apostava em bares com outros agenciadores de jogo e, finalmente, fazia empréstimos com indivíduos que emprestavam dinheiro a criaturas frenéticas, desesperadas, como era o seu caso. Devia mais de cinqüenta mil dólares, e um homem que não declinara seu nome havia telefonado para lhe dizer que tinha adquirido todas as suas dívidas e queria discutir a forma de pagamento. Sentiu um arrepio na espinha. Sua mão tremeu como se sofresse de paralisia. O homem foi polido, mas havia uma ameaça implícita nas suas palavras. Deveria encontrá-lo pontualmente às nove e meia num bar no centro de Bethesda que ela conhecia muito bem.

Apavorada, tentara imaginar o que fazer. Não tinha ilusões. Podia, naturalmente, procurar a polícia, mas então tudo viria à tona. Perderia o emprego e poderia ser presa porque, inevitavelmente, tinha feito umas contas de chegar na compra do material de escritório e embolsado a diferença. Chegara até a se apropriar de pequenas quantias da caixinha de despesas diárias. Era a isso que a compulsão pelo jogo levava.

Não contava mais com amigos ou parentes dispostos a lhe emprestar dinheiro, mesmo sabendo das sérias dificuldades por que ela passava. Um de seus dois carros, o Beemer, tinha sido retomado por falta de pagamento das prestações, e sua casa estava hipotecada pelo limite máximo. Não tinha mais marido. A mensalidade do colégio do filho estava atrasada. Não possuía títulos ou ações, nem imóveis. Ninguém a ajudaria mais. Nem mesmo um agiota.

Tampouco podia fugir. Seu único meio de subsistência era seu emprego. Sem ele não tinha nada. Não era nada.

Do compartimento em que estava sentado no fundo do bar, Bill Griffin viu quando a mulher entrou. Ela era mais ou menos o que ele esperava. De meia-idade, classe média, ligeiramente afetada, indefinível. Um pouco alta. Talvez um metro e setenta e cinco. Alguns quilos mais pesada. Cabelos e olhos castanhos, rosto com feitio de coração, queixo pequeno. Suas roupas denotavam inadmissível desleixo. Seu costume estava bastante surrado, não condizendo com o status de diretora de uma grande entidade governamental. Seus cabelos malcuidados revelavam as raízes brancas. O retrato vivo de uma jogadora.

Mas também exibia uma certa altivez ao transpor a porta, esperando que alguém fosse ao seu encontro, numa atitude típica de burocrata de nível médio.

Griffin a deixou cozinhando em fogo lento.

Finalmente, ele saiu do seu compartimento, fez-se notar e acenou com a cabeça. Ela caminhou com passo firme na direção dele.

—     Ms. Lowenstein — disse ele.

Lily sacudiu a cabeça, procurando controlar sua apreensão.

—     E o senhor é...?

—     Isso não tem importância. Sente-se.

Ela sentou-se, nervosa e constrangida, optando pelo ataque.

—     Como soube de minhas dívidas?

Bill Griffin esboçou um sorriso.

—     A senhora realmente não se importa com esses detalhes, não é mesmo, Ms. Lowenstein? Quem sou eu, como tive acesso às suas dívidas, como as comprei. Nada disso tem a menor importância, certo? — Ele olhou para suas faces e lábios trêmulos. Reagindo ao seu olhar inquiridor, ela endureceu as feições. Ele sorriu internamente. Ela estava aterrorizada, o que a tornava extremamente vulnerável. — Conheço suas dificuldades. — Ele percebeu quando os olhos castanhos da mulher se desviaram, desconfortáveis. — Estou aqui para propor-lhe uma maneira de sair do embaraço em que se encontra.

Ela sorriu desdenhosamente.

—     Que embaraço?

Nenhum jogador se preocupa muito em simplesmente liquidar uma dívida. O jogo é uma compulsão, uma doença. Uma dívida representa um contratempo e um perigo, mas seu impacto é pequeno até que os hipódromos, os bookmakers, os exploradores de qualquer jogo de azar começam a negar-lhe crédito, só aceitando suas apostas em dinheiro vivo. Griffin sabia que Lily fazia malabarismos diariamente para poder apostar míseros cinco dólares nos cavalos.

Por isso ofereceu-lhe o osso que faria abanar o rabo de qualquer cachorro faminto.

—     Poderá partir novamente da estaca zero. Limpo suas dívidas. Ninguém ficará sabendo, e lhe darei o suficiente para recomeçar. Que tal?

—     Recomeçar da estaca zero? — O rosto de Lily Lowenstein adquiriu subitamente novas cores. Por um momento, seus olhos brilharam de incitamento. Mas logo suas sobrancelhas se franziram. Estava enrascada, mas não era idiota. — Depende do que tiver que fazer em troca, não é mesmo?

Nos seus dias de agente da inteligência militar, Griffin tinha sido um dos melhores recrutadores de aliados atrás da Cortina de Ferro. Seduzia-os acenando com vantagens pessoais, princípios morais, a legitimidade da causa até eles se comprometerem. E quando não cumpriam o combinado, e isso sempre acontecia mais cedo ou mais tarde, recolhia a cenoura, apertava os parafusos, pressionava. Não era a faceta do seu trabalho de que mais gostava, mas era muito bom nisso, e chegara a hora de pressionar aquela mulher.

—Não, de modo algum. —A voz dele baixou trinta graus. —Não depende de nada. Não poderá me pagar de volta nem pode se expor. Se acha que pode fazer uma coisa ou outra, levante-se e vá embora. Não me faça perder tempo.

Lily ficou vermelha, colérica.

—     Escute aqui, seu... arrogante.

—     Eu sei — interrompeu-a Griffin. — É duro. Pensa que é a chefe, certo? Engana-se, sou eu quem dá as cartas agora. Posso fazer com que a ponham no olho da rua amanhã, sem a menor chance de conseguir outro emprego. Não no governo, não em Washington, e provavelmente em mais lugar nenhum.

O estômago de Lily virou pedra. Depois virou mingau. Começou a chorar. Não, não choraria. Nunca chorava. Ela era a chefe. Ela...

—     Ok — disse Griffin. — Chore à vontade. Ponha as mágoas pra fora. Sei que é duro e vai ficar mais duro ainda. Não tenha pressa.

Quanto mais ele falava demonstrando compaixão, mais Lily se debulhava em lágrimas. Com os olhos marejados, ela o viu se inclinar para trás, relaxado. Ele acenou com a mão para a garçonete, apontando para seu copo. Ele não apontou para Lily nem perguntou o que ela queria. Não se tratava de um encontro social, mas sim de negócios. Quem quer que ele fosse, ela se deu conta de repente, não era ele quem a estava chantageando, era apenas um intermediário. Executando uma tarefa. Indiferente. Nada de pessoal.

Quando a garçonete trouxe a cerveja que ele pedira, Lily virou o rosto, com vergonha de ser vista com os olhos vermelhos e chorando. Nunca tivera de enfrentar uma situação semelhante, lidar com um indivíduo como aquele e sentia-se terrivelmente desamparada.

Griffin tomou um gole de cerveja. Chegara o momento de acenar com a cenoura.

—     Tudo bem, está se sentindo melhor? Talvez isto ajude. Procure pensar da seguinte maneira: O golpe de misericórdia ia ser desferido qualquer dia desses. Da forma que lhe estou propondo, você acaba de uma vez com seu sofrimento, limpa a pedra e ainda recebe um dinheiro extra, digamos cinqüenta mil, para recomeçar. Tudo isso em troca apenas de umas poucas horas de seu tempo. Provavelmente até menos, se for tão eficiente no seu trabalho como acredito que seja. Então, o que me diz? A coisa não é tão feia como parece, não acha?

Limpar a pedra... cinqüenta mil... As palavras explodiram na sua cabeça como um raio de sol. Recomeçar. Acabar com o pesadelo. E dinheiro na mão. Poderia recomeçar. Conseguir ajuda. Iniciar uma terapia. Oh, aquela situação não se repetiria. Nunca mais!

Ela bateu de leve nos olhos. De repente teve vontade de beijar aquele homem, de abraçá-lo:

—     O que quer que eu faça?

—     Assim é que se fala, direto ao assunto, sem rodeios — disse Griffin, aprovando a difícil decisão. — Sabia que era esperta, e vou precisar de uma pessoa esperta para a missão de que vou incumbi-la.

—     Dispenso os elogios. Pelo menos, por enquanto.

Griffin riu.

—     Espirituosa, também. Recuperou o ânimo, certo? Que diabo, ninguém vai se machucar. Basta eliminar algumas anotações. E depois poderá ir para casa, livre de suas angústias.

Anotações? Eliminar? Algumas anotações! Nunca. Controlou sua tremedeira. O que é que poderia esperar? Para o que mais precisariam dela? Ela era uma bibliotecária, classificadora de documentos. Chefe da Carteira de Compensação Federal de Recursos Médicos.

Griffin a encarou fixamente. Aquele era o momento crítico. O primeiro choque de um novo cúmplice ao tomar conhecimento do que ele ou ela teria efetivamente de fazer. Trair seu país? Trair seu patrão? Trair sua família? Trair uma confiança? Fosse o que fosse. E, enquanto a olhava, viu o momento passar. O fim da batalha interna. Ela tomara uma decisão.

Ele acenou com a cabeça.

—     Ok, esta é a parte ruim. O resto é só ir no embalo. Eis o que queremos. Existe um relatório encaminhado ao Forte Detrick, ao CDC e provavelmente a muitos outros lugares no exterior que precisamos riscar dos arquivos. Eliminar, apagar. Todas as cópias. Como se nunca tivessem existido. A mesma coisa com quaisquer relatórios da Organização Mundial de Saúde sobre surtos de vírus e/ou curas no Iraque nos últimos dois anos. Isso e mais todos os apontamentos sobre determinadas ligações telefônicas. Pode fazer isso?

Ela ainda estava muito chocada para poder responder à pergunta. Mas acenou com a cabeça.

—     Mas há uma outra condição. Tudo isso tem de ser feito até o meio-dia.

— Meio-dia? Agora? Durante o expediente? Mas como...?

—     Isso é problema seu.

Tudo o que ela pôde fazer foi acenar com a cabeça novamente.

—     Muito bem. — Griffin sorriu. — E agora, o que me diz de um bom drinque?

 

13:33h

Forte Detrick, Maryland

Smith trabalhava febrilmente no laboratório de Nível Quatro, lutando para vencer a fadiga. Como Sophia morrera? Com a advertência de Bill Griffin zumbindo nos seus ouvidos, e considerando os ataques letais de que fora vítima em Washington, não podia acreditar que sua morte tivesse sido acidental. Não havia dúvida, entretanto, quanto à causa de sua morte — síndrome de falência respiratória aguda provocada por um vírus mortífero.

No hospital, os médicos o tinham aconselhado a ir para casa, tentar dormir um pouco. O general lhe ordenara obedecer à recomendação dos médicos. Ele não dissera nada e, em vez de seguir as instruções recebidas, dirigiu-se diretamente para o portão principal do Forte Detrick. O guarda bateu continência, visivelmente pesaroso, quando ele passou. Estacionou o carro na vaga habitual perto do edifício monolítico de tijolos amarelos e concreto do USAMRIID. Possantes exaustores instalados no terraço do edifício expeliam continuamente uma corrente de ar filtrado dos laboratórios de Nível Três e Quatro.

Andando em transe, num misto de dor e exaustão, carregando os recipientes refrigerados contendo amostras de sangue e de tecido da autópsia, Smith exibiu seu distintivo de identificação de segurança ao guarda na guarita, que acenou com a cabeça com ar compungido. Continuou perambulando automaticamente. Os corredores assumiam dimensões de longos desfiladeiros num sonho nebuloso, labirintos flutuantes de curvas, portas e janelas de vidro grosso nos laboratórios de contenção. Ele passou pelo escritório de Sophia e deu uma olhada.

Sentiu um caroço na garganta. Engoliu em seco e apertou o passo na direção da ante-sala de descontaminação do laboratório de Nível Quatro, onde vestiu suas roupas refratárias.

Manipulando tecido e sangue de Sophia, trabalhou sozinho no laboratório da Zona Quente, contrariando advertências, ordens e instruções de procedimento seguro. Repetiu todos os exames laboratoriais a que submetera as amostras das outras três vítimas — isolando o vírus, analisando-o no microscópio eletrônico e testando-o contra os espécimes congelados do banco do USAMRIID de vítimas anteriores de vários vírus procedentes do mundo inteiro. O vírus que matara Sophia não reagiu a nenhum deles. Ainda realizou outra análise seqüencial de reação em cadeia de DNA para identificar o novo vírus, e esboçou um mapa restritivo preliminar. Em seguida transmitiu esses dados para o computador do seu escritório e, depois de uma ducha de descontaminação de sete minutos, despiu suas roupas espaciais.

Novamente vestido, correu para seu escritório, onde checou seus dados com os de Sophia. Por fim, sentou-se e ficou olhando para o espaço. O vírus que matara Sophia não coincidia com nenhum de que já ouvira falar ou tinha visto. Uma ou outra semelhança aqui e ali, mas sempre com um vírus conhecido diferente.

Só se assemelhava ao vírus desconhecido que ela estava pesquisando, tentando identificá-lo.

Embora obcecado com a morte de Sophia, sentia-se horrorizado com a ameaça potencial que o novo vírus mortífero representava para a humanidade. Quatro vítimas podiam ser só o começo.

Como Sophia o contraíra?

Se tivesse ocorrido um acidente no qual ela pudesse ter tido qualquer contato com o novo vírus, teria comunicado instantaneamente. Não só esta era uma norma rigorosa, como deixar de cumpri-la era atestado de completa insanidade mental. Os agentes patogênicos numa Zona Quente eram letais. Não havia vacina nem cura, mas um pronto tratamento para ativar a resistência do corpo e assegurar as melhores condições de saúde possíveis, paralelamente a procedimentos médicos normais contra a ação de qualquer vírus, salvara muita gente que certamente teria morrido caso não tivesse sido submetida ao tratamento.

Detrick possuía um hospital de biocontenção onde sabiam tudo o que era possível saber sobre o tratamento de vítimas. Se alguém a tivesse podido salvar, teria sido um desses médicos, e ela sabia disso.

Acima de tudo, era uma cientista. Se tivesse pensado que havia a mais remota possibilidade de ter contraído o vírus, ela teria feito questão de que tudo que lhe tivesse acontecido fosse devidamente registrado e analisado para ser incorporado à massa de conhecimento e eventualmente salvar outras vidas.

Ela teria comunicado o que quer que fosse, por mais insignificante que pudesse parecer.

Na sua imaginação, ele ouviu a voz ofegante de sua amada... lab... alguém... golpeou...

As palavras angustiadas não tinham significado grande coisa para ele no fragor do momento, mas agora elas reverberavam na sua mente. Alguém teria entrado no seu laboratório e a atacado da mesma forma que acontecera com ele?

Galvanizado, releu suas anotações, memorandos e relatórios, em busca de alguma pista, de algum indício do que realmente teria acontecido.

E viu o número na sua cuidadosa caligrafia no alto da penúltima página do seu diário. Seu livro de anotações diárias detalhava o trabalho cotidiano realizado com o vírus desconhecido. O número do registro era PRL-53-99.

Ele entendeu a anotação. "PRL" referia-se ao Instituto Príncipe Leopoldo da Bélgica. Não havia nada de especial sobre isso, era simplesmente sua maneira de identificar um relatório de outro pesquisador que usara no seu trabalho. O número se referia a uma experiência específica ou linha de raciocínio ou a uma cronologia. O que era importante a respeito dessa referência e desse número era que ela sempre — sempre — os anotava no final dos seus relatórios.

No final.

A anotação fora feita no alto de uma página — no início de um comentário a propósito da singularidade de três vítimas, separadas geograficamente por muitas milhas de distância, e totalmente distintas em termos de circunstâncias, idade, sexo, experiência de vida, terem morrido do mesmo vírus, ao mesmo tempo, e ninguém mais nas imediações sequer tê-lo contraído.

O comentário não mencionava outros relatórios. Portanto, o número que constava no diário estava no lugar errado.

Ele examinou minuciosamente as duas últimas páginas, abrindo bem as folhas para poder observar a calha onde o papel era colado na lombada do livro. Sua lupa não revelou nada.

Raciocinou rapidamente e levou o diário aberto para o microscópio que usava nas dissecções. Posicionou a calha exposta do livro debaixo das lentes e olhou pelo visor binocular. Deslizou a lombada de um lado para outro sob as lentes do visor.

Respirou fundo quando notou... um corte quase tão preciso e delicado quanto o de um bisturi a laser. Mas, embora muito bem-feito, não era suficientemente bom para ocultar a verdade do potente microscópio. Apareceu o corte ligeiramente dentado de uma lâmina.

Uma página tinha sido cuidadosamente suprimida.

O general-de-brigada Calvin Kielburger estava postado na soleira da porta aberta do escritório de Smith. Com as mãos apertadas nas costas, as pernas separadas, o rosto carnudo com uma expressão severa, ele parecia com o general Patton no alto de um tanque nas Ardennes conclamando à luta o Quarto Regimento Blindado.

—Eu lhe dei ordens para que fosse para casa, coronel Smith. Seu esforço isolado por mais compreensível que seja não vai adiantar nada. Precisamos de uma equipe completa e altamente capacitada para levar a bom termo esta investigação. Especialmente sem podermos contar com a Dra. Russell.

Smith não ergueu a cabeça.

—     Alguém arrancou uma página do diário dela.

—     Vá para casa, coronel.

Agora Smith levantou a cabeça.

—     Não ouviu o que disse? Está faltando uma página do último trabalho que ela fez. Por quê?

—     Provavelmente ela a removeu porque não a queria.

—     Nada disso. O senhor esqueceu tudo o que aprendeu sobre ciência desde que adquiriu essa estrela? Ninguém destrói uma anotação de pesquisa. Posso lhe assegurar que o que foi cortado tinha a ver com algum relatório do Instituto Príncipe Leopoldo da Bélgica que ela lera. Não encontrei nenhuma cópia desse relatório nos seus papéis.

—     Provavelmente estará no banco de dados do computador.

—     E exatamente onde vou procurar.

—Terá de fazer isso mais tarde. Primeiro, quero que descanse um pouco, e depois preciso que vá à Califórnia substituindo a Dra. Russell. E indispensável conversar com a família, amigos e com qualquer pessoa que tenha conhecido o major Anderson.

—     Negativo. Mande outra pessoa. — Teve vontade de contar a Kielburger os ataques que sofrera em Washington. Isso talvez ajudasse a fazer o general acreditar que tinha que continuar tentando descobrir como Sophia contraíra o vírus. Mas Kielburger ia querer saber o que ele tinha ido fazer em Washington quando deveria ter regressado para Detrick, o que o obrigaria a revelar o seu encontro secreto com Bill Griffin. Não podia expor um velho amigo enquanto não soubesse mais. Isso significava que teria que convencer o general a permitir que ele prosseguisse com suas sindicâncias.

—     Há alguma coisa errada com a morte de Sophia, tenho certeza. Vou descobrir o que é.

O general exaltou-se.

—Não à custa do exército. Temos um problema muito maior do que a morte de um membro de nossa equipe, coronel, não importa quem tenha sido.

Smith deu um pulo de sua cadeira como um garanhão atacado por uma cascavel.

—     Então, considere-me fora do exército.

Por um momento, Kielburger olhou ferozmente com as mãos fechadas nos quadris. Seu rosto ficou vermelho como um pimentão, e esteve a ponto de dizer a Smith que fosse em frente e pedisse baixa. Estava cheio de suas insubordinações.

Mas reconsiderou. Poderia prejudicar sua folha de serviços—um oficial superior incapaz de obter lealdade de suas tropas. Não era o momento de pôr cobro à arrogância e à insubordinação de Smith.

Fez um esforço para controlar-se, mostrar-se relaxado.

—     Tudo bem. Creio que, dadas as circunstâncias, não posso recriminar sua atitude. Tem minha autorização para continuar trabalhando no caso da Dra. Russell. Mandarei outro oficial à Califórnia.

 

14:02h

Bethesda, Maryland

Embora tivesse se apressado, Lily Lowenstein levou toda a manhã fazendo o que o homem sem nome lhe ordenara. Agora, estava terminando um almoço comemorativo no seu restaurante favorito no centro de Bethesda. Do outro lado da janela, os arranha-céus, lembrando-lhe uma mini-Dallas, refletiam o sol radioso de outubro enquanto ela tomava seu segundo daiquiri.

Surpreendentemente, acessar a rede internacional computadorizada da OMS fora a mais simples de suas tarefas. Ninguém julgara necessário proteger com dispositivos de segurança rigorosos uma rede de informação científica e humanitária. Por conseguinte, tinha sido brincadeira de criança apagar todos os vestígios de uma série de relatórios dos arquivos da OMS referentes a vítimas e sobreviventes de dois surtos viróticos de pequenas proporções, ocorridos nas cidades de Bagdá e Basra.

O sistema de computação iraquiano estava desatualizado cinco anos, e por isso penetrar na rede e remover os originais dos relatórios na fonte foi tão fácil. Estranhamente, Lily descobriu que a maior parte das informações originais do Iraque já tinha sido apagada pelo regime de Saddam Hussein. Sem dúvida, com o objetivo de ocultar qualquer fraqueza ou necessidade.

Eliminar o relatório belga de todos os arquivos eletrônicos do computador principal do FRMC, dos bancos de dados do USAMRIID e do CDC e de todos os bancos de dados espalhados pelo mundo exigiu mais tempo. A tarefa mais difícil, entretanto, foi apagar a referência do catálogo telefônico do Forte Detrick. Foi obrigada a cobrar a retribuição de favores prestados a funcionários graduados da companhia telefônica.

Curiosa, tentara compreender a razão por trás dos pedidos do chantagista, mas não parecia haver correlação entre os itens que apagara, exceto o fato de a maioria dizer respeito a um determinado vírus. Havia centenas de outros relatórios de pesquisas voando de um lado para o outro nos circuitos eletrônicos entre uma dúzia de instituições científicas de Nível Quatro pelo mundo afora, mas seu misterioso chantagista não se interessara por eles.

O que quer que fosse que ele desejasse, sua parte fora completada com êxito. Não tinha sido descoberta, não deixara vestígios comprometedores e, muito em breve, estaria livre de seus problemas financeiros para sempre. Com cinqüenta mil dólares em dinheiro vivo na mão, poderia ir a Las Vegas ou Atlantic City e recuperar tudo que havia perdido. Com um sorriso despreocupado, decidiu sem hesitação que começaria apostando mil dólares no Capitais para ganhar naquela noite.

Quase riu alto ao sair do restaurante e dobrar a esquina na direção do bar onde seu bookmaker preferido fazia ponto. Uma forte premonição lhe dizia que não poderia perder. Nem agora nem nunca mais.

Mesmo quando ouviu gritos atrás dela, o chiado de uma freada brusca e o ruído surdo da colisão de metais, virou-se e viu uma grande van preta derrapando na calçada diretamente na sua direção, manteve o sorriso largo estampado no rosto. O sorriso não se apagou nem quando o veículo a atingiu e deu uma guinada para o leito da rua, deixando-a morta na calçada.

 

15:16h

Forte Detrick, Maryland

Smith afastou-se da tela do computador. Havia cinco relatórios do Instituto Príncipe Leopoldo, mas nenhum deles tinha chegado na véspera ou naquela manhã, e todos só davam conta de mais insucesso nas tentativas de classificar o vírus desconhecido.

Tinha que haver um relatório contendo novas informações—pelo menos um fato suficientemente importante para inspirar alguma nova linha de investigação a Sophia, que certamente a descrevera numa nota de página inteira na noite anterior. Mas ele havia checado os bancos de dados de Detrick e do CDC, e acessado o supercomputador do exército para vasculhar todos os outros laboratórios de Nível Quatro do mundo, incluindo o próprio Príncipe Leopoldo.

Não havia nada.

Frustrado, ficou olhando para a tela que se negava a cooperar. Das duas uma: ou Sophia cometera um engano, registrando o código errado na sua designação, e o relatório nunca existira, ou....

Ou ele tinha sido apagado em todos os bancos de dados do mundo, até na sua própria fonte.

Era difícil imaginar uma coisa dessas. Não era impossível, mas custava acreditar que alguém se desse a todo esse trabalho por causa de um vírus quando era do interesse geral investigá-lo. Smith sacudiu a cabeça, tentando afastar a idéia de que pudesse haver alguma coisa de suma importância na página que faltava, mas não conseguiu. A página tinha sido arrancada.

E por alguém que entrara e saíra da base sem ser visto. Ou teria sido?

Pegou novamente o telefone para saber quem mais estivera no laboratório na noite anterior, mas, depois de falar com toda a equipe e com o sargento-ajudante Daugherty, não estava mais perto de uma resposta. Todo o pessoal de Daugtherty tinha ido para casa às seis da manhã, e a equipe científica permanecera até as duas da tarde, incluindo Kielburger. Depois disso, Sophia tinha ficado sozinha.

No turno da noite, Grasso não tinha visto nada, nem mesmo quando Sophia fora embora, como Smith já sabia. No portão, os guardas juraram que não tinham visto ninguém depois das duas horas da manhã, mas obviamente não a tinham visto sair cambaleando. Portanto, o relatório deles não era confiável. Além do mais, duvidava que uma pessoa capaz de subtrair uma página sem deixar vestígios perceptíveis a olho nu tivesse chamado atenção ao entrar ou sair. Smith encontrava-se num beco sem saída. Então, na sua mente, ouviu Sophia ofegar. Fechou os olhos e viu novamente seu belo rosto, desfigurado pela dor cruciante. Caindo nos seus braços, lutando para respirar, conseguindo apenas balbuciar:

—... lab... alguém... golpeou...

 

17:27h

Necrotério, Frederick, Maryland

O Dr. Lutfallah estava aborrecido.

—     Não sei o que mais podemos achar, coronel. A autópsia foi clara. Não deixou dúvidas. Não acha que devia procurar relaxar? Não sei como consegue manter-se de pé. Precisa dormir um pouco.

—     Só dormirei quando souber o que aconteceu com ela—rebateu Smith. — E não questionando o que a matou, apenas como a matou.

O patologista concordara relutantemente em se encontrar com Smith mais uma vez na sala de autópsias do hospital. Não ficara nada contente por ter s ido obrigado a deixar um magnífico martíni Tanqueray.

—     Como? — Lutfallah ergueu as sobrancelhas. Isso era demais. Não disfarçou o sarcasmo de sua voz. — Diria que foi da maneira costumeira como qualquer vírus letal mata.

Smith ignorou a tirada. Estava debruçado sobre a mesa, lutando para não desmoronar novamente diante de sua exuberante Sophia tão pálida e inerme.

—     Cada polegada, doutor. Examine-a polegada por polegada. Procure qualquer coisa que tenhamos deixado passar, algo fora do comum. Qualquer coisa.

Ainda irritado, Lutfallah começou a procurar. Os dois médicos trabalharam em silêncio durante uma hora. Lutfallah estava começando a protestar novamente quando exclamou abafadamente por trás de sua máscara cirúrgica:

—     O que é isto!?

Smith perguntou num sobressalto:

—     O quê? O que foi que encontrou? Mostre-me!

Mas foi Lutfallah quem não respondeu dessa vez. Ele estava examinando o tornozelo esquerdo de Sophia. Quando falou foi para fazer uma pergunta.

—     A Dra. Russell era diabética?

—     Não. O que foi que descobriu?

—     Qualquer outro medicamento intravenoso?

—     Não.

Lutfallah sacudiu a cabeça. Olhou para cima.

—     Consumia drogas, coronel?

—     Está se referindo a narcóticos? Nem pensar.

—     Então, dê uma olhada aqui.

Smith juntou-se ao patologista, que estava de pé do lado esquerdo de Sophia. Os dois se debruçaram sobre o tornozelo. A marca era quase invisível — uma vermelhidão e uma inflamação tão pequena que ninguém percebera, ou talvez não estivessem ali antes, uma manifestação tardia do vírus.

No centro da vermelhidão havia uma pequena marca de agulha de uma injeção, tão bem aplicada quanto a perícia com que a página tinha sido removida do livro de apontamentos.

Smith empertigou-se abruptamente, tomado de um acesso de fúria. Cerrou as mãos com força, que ficaram com os dedos exangues, enquanto suas têmporas latejavam aceleradamente. Suspeitara. Agora tinha certeza.

Sophia fora assassinada.

 

20:16h

Forte Detrick, Maryland

Jon Smith entrou tempestuosamente no seu escritório e encaminhou-se para sua escrivaninha, mas não se sentou. Não podia. Pôs-se a andar de um lado para outro como um animal encurralado. A despeito do tumulto que devastava seu corpo, sua mente estava afiada como um diamante. Para ele, agora, não obstante as necessidades do mundo... só havia um objetivo, uma única prioridade — encontrar o assassino de Sophia.

Era preciso raciocinar, portanto. Ela deveria ter descoberto alguma coisa tão perigosa que tivera de ser morta, e todas as provas físicas do que havia descoberto ou deduzido, eliminadas. Então, o que mais os pesquisadores faziam numa investigação de âmbito mundial? Conversavam, trocavam opiniões.

Pegou o telefone novamente.

—     Ligue-me com o comandante da segurança da base.

Tamborilou o tampo da mesa com os dedos nervosos, como se

estivesse conclamando com um tambor o décimo oitavo e o décimo nono regimentos para a batalha.

—     Dingman falando. Em que posso servi-lo, coronel?

—     Você mantém um registro das ligações telefônicas, recebidas e feitas para fora?

—     Não especificamente, mas podemos identificar quem tenha feito uma chamada para a base ou quem tenha ligado da base para algum lugar. Posso saber no que está particularmente interessado?

—     Em todas as chamadas feitas pela Dra. Sophia Russell desde sábado passado. Nas que ela recebeu também.

—     O senhor tem autorização, coronel?

—     Peça ao general Kielburger.

—     Eu chamarei de volta, senhor.

Quinze minutos depois, Dingman voltou a ligar com uma relação das ligações recebidas e feitas por Sophia. Eram poucas, uma vez que ela e toda a equipe tinham estado enfurnados nos seus gabinetes e laboratórios pesquisando o vírus. Cinco para fora, três para o estrangeiro, e apenas quatro recebidas. Todas se referiam a discussões sobre o que não fora encontrado, tentativas frustradas.

Desapontado, Smith recostou-se na cadeira — e em seguida saiu apressadamente do escritório. Atravessou o corredor, dirigindo-se impetuosamente para o gabinete de Sophia, onde remexeu em tudo o que estava em cima da mesa. Revistou as gavetas. Não se enganara, o caderno em que eram anotados os telefonemas mensais, que Kielburger exigia que todos mantivessem religiosamente, também tinha desaparecido.

Voltou correndo para seu escritório e fez outra ligação.

—     Sra. Carter? Sophia entregou sua relação de telefonemas de outubro? Não? Tem certeza? Obrigado.

Também tinham levado seu caderno de ligações telefônicas. Os assassinos. Por quê? Porque havia uma ligação que revelava o que estavam tentando ocultar. Fora apagada juntamente com o relatório do Príncipe Leopoldo. Eles eram poderosos e astuciosos, e ele esbarrara numa muralha aparentemente impenetrável ao tentar descobrir o que Sophia tinha feito ou sabia, para levar alguém a pensar que ela precisava ser eliminada.

Teria de encontrar a resposta de outra maneira — analisar a história das vítimas. Alguma coisa deveriam ter em comum antes de morrerem, algo tragicamente letal.

Discou outra vez.

—     Jon Smith, Sra. Curtis. O general está no seu gabinete?

—     Está, sim, coronel. Um momentinho.—A Sra. Melanie Curtis era do Mississippi e gostava dele. Mas naquela noite ele não estava a fim de galanteios ingênuos.

—     Obrigado.

—     General Kielburger falando.

—     O senhor ainda quer que eu vá à Califórnia amanhã?

—     O que o fez mudar de idéia?

—     Talvez tenha visto a luz. O perigo maior deve ser prioritário.

—Certamente—respondeu Kielburger, incrédulo. — Ok, soldado. Partirá de avião de Andrews amanhã às oito horas. Esteja no meu gabinete às sete, e lhe darei as instruções.

 

17:04h

Adirondack Park, Nova York

Ao contrário do que supõe a maioria das pessoas, dois terços de Nova York não são apenas arranha-céus, linhas de metrô congestionadas e impiedosos centros de transações financeiras. Enquanto Victor Tremont, diretor executivo de operações da Blanchard Pharmaceuticals, olhava da mesa do seu escritório, no vasto Parque Estadual de Adirondack, na direção oeste, na sua mente podia ver o mapa: estendendo-se de Vermont a leste, perto do Lago Ontário a oeste, o Canadá ao norte, logo acima de Albany ao sul, cerca de seis milhões de acres de luxuriantes terras públicas e privadas iam das margens de rios caudalosos e da orla de milhares de lagos até quarenta e seis picos agrestes, dominando do alto de mais de quatro mil pés as planícies de Adirondack.

Tremont sabia tudo isso porque possuíao tipo demente abrangente capaz de apreender, armazenar e usar automaticamente fatos importantes. O Parque de Adirondack era vital para ele não só porque era um deslumbrante bosque silvestre, como pelo fato de ser esparsamente povoado. Uma das histórias que ele gostava de contar aos seus convidados em torno da lareira tinha como protagonista um figurão da receita estadual que comprara uma casa de verão nas vizinhanças. Quando o novo morador achou que estava sendo taxado exorbitantemente, resolveu investigar. Para sua surpresa — e nesse ponto Tremont tinha um frouxo de riso — o homem descobriu que vários funcionários da coletoria de impostos estavam envolvidos num acintoso esquema de corrupção. Indignado, conseguiu indiciar os servidores desonestos, mas não chegou a ser constituído um júri. Qual a razão? Havia tão poucos residentes no município que todos ou estavam implicados na falcatrua ou eram ligados por vínculos de parentesco a alguém que estivesse.

Tremont sorriu. O isolamento e a corrupção que campeava naquela região remota tornavam perfeito o seu paraíso florestal. Havia dez anos ele transferira a sede da Blanchard Pharmaceuticals para um complexo de edifícios de tijolos vermelhos que mandara construir na floresta perto da aldeia Long Lake. Ao mesmo tempo, erguera sua residência principal num recanto estrategicamente escolhido, próximo de Lake Magua.

Naquele cair de tarde, quando o sol — fulgurante bola alaranjada — se punha por trás de pinheiros e árvores de madeira de lei, Tremont encontrava-se na varanda coberta do primeiro andar de sua rústica moradia. Contemplava o jogo de luzes cambiantes do crepúsculo radioso contra o contorno acidentado das montanhas e sorvia, embevecido, a abundância, o poder e o prazer que os seus domínios, o seu estilo de vida, lhe proporcionavam.

Sua casa situava-se numa área que fizera parte de um dos grandes núcleos residenciais ali fundados pelos abastados por volta do fim do século dezenove. Fora construída com o mesmo revestimento externo de troncos e casca de árvores da cabana de caça de Great Camp Sagamore, na vizinha Lake Raquette. Seu espaçoso esconderijo era a única estrutura remanescente dos velhos tempos. Encoberto pela copa de árvores frondosas e isolado do lago por uma densa floresta, era quase invisível aos olhos dos forasteiros. Tremont o planejara daquela maneira, permitindo que a vegetação crescesse e se espalhasse selvagemente. Na estrada, não havia nenhuma indicação de endereço e, no lago, nenhum cais que revelasse sua presença. Tampouco existia, nem era desejado, qualquer acesso público ou particular. Somente Victor Tremont, alguns colaboradores de confiança do seu Projeto Hades, e os cientistas e técnicos fiéis que trabalhavam no laboratório de alta tecnologia do segundo andar tinham conhecimento de sua existência.

Enquanto isso, o sol de outubro baixava gradativamente, e o ar frio da noite que se aproximava crestava as faces de Tremont e penetrava no seu paletó e nas suas calças. Entretanto, ele não parecia ter pressa para entrar. Saboreava as baforadas de um grosso charuto e o gosto do Langavulin de cinqüenta anos que bebia em pequenos goles. A bebida aquecia seu sangue e banhava sua garganta com uma quentura agra¬dável. O Langavulin era provavelmente o melhor uísque do mundo, mas seu acentuado sabor de fumaça de turfa e seu corpo incrivelmente dosado eram pouco conhecidos fora da Escócia. Isso acontecia porque Tremont comprava toda a produção anual diretamente da destilaria em Islay.

Mas, ao contemplar os últimos raios dourados do pôr-do-sol de sua varanda, foi a natureza agreste mais do que o uísque que fez aflorar um sorriso aos seus lábios aristocráticos. O velho lago ficava a pequena distância de canoa da superpovoada Raquette. Os esguios pinheiros balançavam suavemente, e seu penetrante perfume enchia o ar. À distância, o pico descoberto de 5.344 pés do Monte Marcy brilhava como um dedo apontando para Deus.

Tremont sentia-se atraído pelas montanhas desde quando era um adolescente rebelde em Syracuse. Seu pai, professor de economia da universidade no alto da montanha, não conseguira domá-lo então, dá mesma forma que o medíocre presidente do conselho diretor da Blanchard não o controlava agora. Mas ambos não se cansavam de doutrinar sobre o que não podia ser feito, repetindo insistentemente que ninguém podia fazer tudo o que desejava. Ele jamais aceitara essa mentalidade estreita. Que outra limitação poderia existir além da imaginação de cada um? De suas aptidões? De sua audácia? O próprio Projeto Hades era um exemplo. Se tivessem sabido no começo o que ele vislumbrava, ambos certamente lhe teriam dito que era inviável. Ninguém poderia levá-lo a cabo.

Riu com desdém intimamente. Os dois eram homens bitolados, tacanhos. Dentro de poucas semanas, o projeto seria coroado do mais completo sucesso. Depois, haveria décadas de lucros fabulosos.

Talvez fosse porque aquela era a fase final do Hades, mas o fato é que se surpreendera ocasionalmente divagando, sonhando acordado, pensando no seu pai falecido há muito tempo. De uma maneira estranha, seu pai fora o único homem que respeitara. O velho não compreendera o filho único, mas nunca lhe faltara com seu apoio. Quando era adolescente, Tremont ficara fascinado pelo filme Jeremiah Johnson. Vira-o dezenas de vezes. Então, na calada de um inverno glacial, resolvera partir para as montanhas, decidido a viver da terra tal como Johnson fizera. Colhendo frutos silvestres e cavando raízes. Abatendo sua própria caça. Combatendo os índios. Enfrentando a fúria dos elementos numa heróica aventura que poucos teriam coragem ou imaginação para tentar.

Mas a experiência deixara um saldo muito pouco honroso. Matara dois cervos fora da temporada de caça com o Remington 30.30 de seu pai, alvejara e quase matara dois excursionistas por engano, intoxicara-se seriamente comendo frutos venenosos e, por pouco, não morrera congelado. Felizmente, ao dar falta do rifle e da mochila, e graças às suas constantes referências ao filme, seu pai adivinhou para onde ele tinha ido. Quando o guarda florestal quis suspender a busca, o professor se empenhou com todas as pessoas influentes que conhecia nos meios acadêmicos e políticos. O resultado foi que, embora resmungando, o serviço de buscas continuou a procurá-lo e eventualmente o encontrou inanimado, com o corpo todo ferido pelo frio, numa grota na encosta nevada do Marcy.

A despeito de tudo, ele a considerava uma das experiências mais importantes de sua vida. O fracasso na montanha lhe ensinara que a natureza era impiedosa, indiferente e hostil à humanidade. Também descobrira que o desafio físico pouco lhe dizia; era muito precário, perdia-se o entusiasmo muito facilmente. Mas sua grande lição, sua grande revelação, fora a descoberta do motivo que levara Johnson a explorar as montanhas. Na época, pensara que tinha sido para desafiar a natureza, combater os índios, um repto para provar sua virilidade. Errado. Fora para ganhar dinheiro. Os montanheses eram caçadores de peles, e tudo o que faziam e sofriam tinha um único objetivo — enriquecer.

Nunca se esquecera disso. O arrojo e a objetividade de propósitos tinham moldado sua vida.

Enquanto esses pensamentos espocavam na sua mente na varanda rústica, deu-se conta de que gostaria que seu pai estivesse ali para presenciar a conclusão do Hades. Ele finalmente seria forçado a reconhecer que um homem pode fazer o que quiser e bem entender desde que seja suficientemente esperto e tenaz. Seu pai se orgulharia dele? Provavelmente não. Deixou escapar uma risada. Azar do velho. Sua mãe, sim, certamente ficaria orgulhosa, mas isso era irrelevante. As mulheres não contavam.

Ficou alerta abruptamente. Empinou a cabeça e ficou ouvindo. O barulho característico dos rotores de um helicóptero aumentou de intensidade. Tremont matou o resto do seu uísque de um trago, depositou o charuto num grande cinzeiro para que ele morresse de morte natural, e entrou no enorme living de pé-direito alto e vigas de madeira no teto. Cabeças de animais empalhadas, troféus de caça, olhavam com seus olhos de vidro do alto das paredes de troncos de árvores. Móveis de madeira e couro da região, assentados em cima de tapetes tecidos à mão, cercavam a grande lareira. Tremont passou pelas labaredas crepitantes e avançou para o fundo da sala, para perto da cozinha, de onde vinha o aroma de biscoitos de polvilho.

Finalmente, saiu pelo outro lado da casa para o lusco-fusco do ameno anoitecer. O helicóptero, um Helibus Bell S-92C, estava pousando numa clareira uns cem metros adiante.

Os quatro homens que desembarcaram teriam quarenta e poucos, cinqüenta anos, como o próprio Tremont. Diferentemente de Tremont, que estava vestido informalmente, com uma camisa cor de estanho, uma jaqueta safári, e tinha um chapéu de caçador pendurado pela alça nas costas, eles envergavam ternos caros, feitos sob medida. Eram homens de aparência refinada, maneiras sofisticadas da privilegiada classe de empresários.

Enquanto os rotores roncavam, Tremont cumprimentou um por um com um largo sorriso nos lábios e um forte aperto de mão de velhos amigos. O co-piloto saltou do helicóptero para descarregar a bagagem. Tremont fez um gesto com a mão, apontando para a casa, e virou-se para conduzir os visitantes.

Pouco depois de o Helibus ter levantado vôo no crepúsculo, um helicóptero menor, um Jet Ranger III 206B, baixou na clareira. Dois homens muito diferentes dos ocupantes do primeiro helicóptero desceram. Vestiam ternos comuns para os quais ninguém olharia duas vezes. O homem alto, moreno, de terno azul-marinho, tinha marcas de varíola no rosto, pálpebras pesadas e um nariz adunco, recurvado como uma cimitarra. O homem de rosto redondo, afável, espadaúdo e cabelos castanhos escorridos, usava um terno cinza-escuro. Nenhum dos dois trazia bagagem. Não era apenas o fato de vestirem roupas comuns e não terem bagagem que os tornava diferentes. Havia algo na maneira como se locomoviam... uma postura ensaiada, predatória, que quem estivesse afeito a esse tipo de coisas reconheceria como perigosa.

A dupla curvou-se para passar por baixo dos rotores do Jet Ranger e seguir os outros visitantes em direção à casa.

Embora Victor Tremont não olhasse para trás, os quatro homens notaram os recém-chegados. Entreolharam-se pouco à vontade, como se já os tivessem visto.

Nadal al-Hassan e Bill Griffin não demonstraram qualquer reação nem à indiferença de Tremont nem ao nervosismo dos outros quatro. Silenciosamente, seus olhares abarcaram tudo à sua volta, e entraram na casa por uma porta diferente.

Na grande mesa de banquete norueguesa, Victor Tremont e seus quatro hóspedes regalaram-se com um festim gastronômico que poderia ter vindo da própria Valhalla —confit de pato selvagem com cogumelos shitaki, endívias belgas cozidas, batatas dauphin ao molho Rhone Hermitage. Corados e saciados, os homens acomodaram-se em confortáveis poltronas no vasto living. Deleitavam-se com conhaque Remy Martin Cordon Bleu e charutos cubanos feitos exclusivamente para Tremont. Depois de instalados em volta do fogo acolhedor da lareira, Tremont concluiu seu relatório de posição do projeto que consumira suas imaginações, esperanças e vidas durante os últimos doze anos.

— ... sempre admitimos a hipótese de que a mutação ocorreria com cidadãos americanos até um ano após ter ocorrido com cidadãos não-americanos. Por uma questão de condições de saúde de um modo geral, nutrição, aptidão e genética. Bem...

Tremont fez uma pausa para emprestar mais ênfase às suas palavras e para observar suas fisionomias. Todos eles estavam ligados a ele desde o começo — um ano depois de ter regressado do Peru com o estranho vírus e o sangue do macaco. Lá estava George Hyem, à sua extrema direita, como se fosse o artilheiro de um bombardeiro. Alto e vermelho, naqueles dias era um jovem contador que percebera o potencial financeiro imediatamente. Agora, era contador-chefe da Blanchard, embora praticamente só trabalhasse para Tremont. Ao seu lado, estava Xavier Becker, começando a engordar, um gênio da computação que tinha encurtado de cinco anos as pesquisas sobre o comportamento do vírus e o aperfeiçoamento do soro. Do lado oposto a Tremont estava sentado Adam Cain, virologista pós-graduado que tinha compulsado os números de George e decidira que seu futuro estava na Blanchard e com Tremont, em vez do CDC. Encontrara uma maneira de isolar o vírus letal e mantê-lo estável até uma semana. Do outro lado de Becker estava o chefe de segurança da Blanchard, Jack McGraw, que protegera todos eles desde o início.

Seus quatro associados clandestinos estavam prontos para colher os dividendos.

Tremont deu outra cadência à pausa.

—     O vírus apareceu aqui nos Estados Unidos. Brevemente vai irromper no mundo inteiro. Num país atrás do outro. Um surto epidêmico. A imprensa ainda não sabe de nada, mas logo saberá. Não há como detê-la ou o vírus. Só restará aos governos pagar o nosso preço.

Os quatro homens sorriram, com grandes cifrões estampados nos olhos. Mas eles também transmitiam algo mais — triunfo, orgulho, antecipação e avidez. Já eram bem-sucedidos profissionalmente. Agora também o seriam financeiramente, ficariam extremamente ricos, atingiriam o pináculo do sonho americano.

Tremont disse:

—     George?

George recompôs abruptamente sua expressão fisionômica. Ele parecia triste, desanimado.

—     A projeção dos lucros para os acionistas estará pronta a qualquer momento. — Ele hesitou — Receio que seja menos do que esperávamos. Talvez apenas cinco... seis na melhor das hipóteses... bilhões de dólares. — E riu desbragadamente de sua piada.

Xavier Becker, franzindo o cenho severamente diante da leviandade de George, não esperou que lhe perguntassem.

—     E o que me diz da auditoria secreta que descobri?

—     Jack disse que somente Haldane a viu, de fato. — Tremont acrescentou: — Eu cuido dele antes do jantar do conselho na reunião anual. O que mais, Xavier? — Mercer Haldane era o presidente do conselho diretor da Blanchard Pharmaceuticals.

—     Manipulei os registros do computador para mostrar que estamos trabalhando no coquetel de anticorpos que forma nosso soro há dez anos, aperfeiçoando-o desde que obtivemos a patente, e que concluímos nossos testes finais e o submetemos à aprovação da FDA. Os dados também revelam nossos custos astronômicos. — A voz de Xavier deixava transparecer sua excitação. — A produção de doses já é de muitos milhões e continua subindo.

—     Mesmo que desconfiem, nunca encontrarão qualquer rasto. — Jack McGraw, o chefe de segurança, esfregou as mãos de contentamento.

—     Diga-nos apenas quando devemos entrar em ação! — pediu George.

Tremont sorriu e levantou a mão.

—Não se afobe, temos tudo devidamente cronometrado, avançaremos dependendo da rapidez com que percebam que estão a braços com uma epidemia. Cuidarei de Haldane antes da reunião do conselho.

Os cinco homens continuaram bebendo, vislumbrando seus futuros mais brilhantes a cada segundo.

Então Tremont depositou seu conhaque na mesa. Sua fisionomia adquiriu uma expressão severa. Ergueu novamente a mão, pedindo silêncio.

—     Infelizmente nos confrontamos com uma situação que pode se transformar num problema mais grave do que a auditoria. A dimensão do perigo, se é que de fato há algum perigo devido, digamos, a algumas medidas que fomos forçados a tomar, ainda não podemos precisar. Mas estejam certos de que estamos atentos e de que a situação está sendo avaliada com todo o cuidado.

Jack McGraw franziu as sobrancelhas.

—     Que tipo de problema, Victor? Por que não fui avisado?

Tremont olhou-o diretamente nos olhos.

—     Porque não quero que a Blanchard tenha a mais remota ligação com o projeto. — No princípio, Tremont supôs que Jack pudesse ficar enciumado com a intromissão nas suas atribuições, mas no fim era ele quem tomava todas as decisões na área de segurança. — Quanto ao problema, foi simplesmente uma dessas coisas que ninguém pode prever. Quando estive no Peru, na expedição em que achei o vírus e o soro potencial, fiquei conhecendo um grupo de jovens estudantes numa viagem de campo. Além das amabilidades de praxe, não nos demos muito importância porque estávamos interessados em estudos diferentes. — Ele sacudiu a cabeça, como que espantado. — Mas há três dias recebi um telefonema. Quando a pessoa declinou seu nome, lembrei-me vagamente de uma estudante que demonstrara interesse pelo meu trabalho. Ela se tornara bióloga celular e molecular. O problema era que agora pertencia aos quadros do USAMR1ID, que está investigando as primeiras mortes. Como esperávamos, ainda não conseguiram identificar o vírus. Mas a peculiar coincidência de sintomas trouxe subitamente aquela viagem ao Peru de volta à sua mente. Lembrou-se do meu nome. E me telefonou.

—     Caramba! — exclamou George, ficando lívido seu rosto habitualmente vermelho.

—     Ela associou o vírus a você? — perguntou Jack McGraw.

—     A nós! — corrigiu Xavier.

Tremont deu de ombros.

—Neguei tudo. Convencia-a de que estava enganada, garanti-lhe que o vírus não existia. Depois, dei instruções a Nadal al-Hassan e seus comparsas para que a eliminassem.

Houve uma descontração geral no gigantesco living. Suspiros de alívio à medida que a tensão foi cedendo. Tinham trabalhado arduamente durante mais de uma década, tinham posto em risco suas profissões e meios de subsistência ao apostarem naquele jogo visionário e não tinham intenção de deixar escapar a fortuna que agora estava ao seu alcance.

—     Infelizmente — prosseguiu Tremont — não fomos bem-sucedidos quando tentamos fazer a mesma coisa com seu noivo e colega de pesquisas. Ele conseguiu fugir, e é possível que ela tenha tido tempo de falar com ele antes de morrer.

Jack McGraw compreendeu.

—     E por isso que al-Hassan está aqui. Sabia que havia alguma coisa esquisita.

Tremont sacudiu a cabeça.

—     Não dê mais importância ao fato do que ele tem. Chamei al-Hassan simplesmente para que ele nos informe em que pé está o assunto. Embora eu seja quem tem mais a perder, estamos todos no mesmo barco.

O silêncio no recinto era mais alto do que qualquer ruído.

Xavier quebrou-o.

—     Ok. Ouçamos o que ele tem a nos dizer.

O fogo na lareira estava reduzido a algumas brasas e uma ou outra chama tremeluzente. Tremont encaminhou-se para um dos lados da lareira de pedra. Apertou um botão oculto no consolo esculpido. Primeiro al-Hassan e depois Bill Griffin entraram na sala cavernosa.

Al-Hassan foi ao encontro de Victor Tremont postado na frente da lareira. Griffin permaneceu discretamente no fundo do living. Al-Hassan narrou detalhes do telefonema de Sophia Russell para Tremont, da sua morte, da maneira como removera tudo que pudesse associar o vírus ao Projeto Hades. Descreveu as reações de Jonathan Smith. Pormenorizou a chantagem que Griffin fizera com Lily Lowenstein e a subseqüente eliminação de todos os indícios eletrônicos.

—     Não restou nada que possa nos ligar a Russell ou ao vírus — concluiu al-Hassan —, a menos que ela tenha dito alguma coisa ao coronel Smith.

Jack McGraw rosnou:

—     A ressalva é muito tranqüilizadora!

—     Concordo plenamente — disse al-Hassan. — Alguma coisa deve ter feito com que Smith desconfiasse que a morte da doutora não fora acidental. Ele vem dedicando todo seu tempo a investigar, relegando seu trabalho científico sobre o vírus a um segundo plano.

—Ele pode nos achar? — perguntou o contador George nervosamente.

—     Qualquer um é capaz de achar quem quer que seja desde que procure com determinação e astúcia. E por isso que, na minha opinião, temos de eliminá-lo.

Victor Tremont fez um gesto com a cabeça na direção do fundo da sala.

—     Mas você não está de acordo, não é Griffin?

Todos se voltaram para ver o ex-agente do FBI, que estava encostado numa parede atrás deles. Bill Griffin estava pensando em Jon Smith. Fizera o possível e o impossível para prevenir o amigo. Usara suas antigas credenciais do FBI para saber através do escritório de Jon que ele se ausentara da cidade, e depois de checar diversas fontes acabara descobrindo qual era a conferência de que ele estava participando. Daí foi fácil saber onde estava hospedado em Londres.

Ao encarar os cinco cidadãos com seu olhar perspicaz, fez o que tinha que fazer para se preservar e, ao mesmo tempo, desviar a pressão de Jon. Ergueu os ombros esquivamente.

—     Smith vem se empenhando tanto em descobrir o que aconteceu com a mulher, que acredito que ela não deve ter tido oportunidade de lhe revelar nada sobre o Peru ou sobre nós. Do contrário, muito provavelmente estaria aqui agora, batendo na porta para falar com o senhor, Dr. Tremont. Mas nosso informante no USAMRIID diz que Smith parou de investigar a morte dela e está novamente se concentrando no estudo do vírus com a equipe. Ele está até voando amanhã para a Califórnia, a fim de fazer as entrevistas rotineiras com a família e os amigos do major Anderson.

Tremont sacudiu a cabeça pensativamente.

—     Nadal?

-—Nosso contato em Detrick diz que o general Kielburger deu ordens para que Smith fosse à Califórnia, mas que ele se recusou — informou al-Hassan. -— Mais tarde ele se ofereceu voluntariamente para ir, e, a meu ver, isso muda as coisas de figura. Acredito que ele esteja querendo apurar na Califórnia pormenores do que desconfia.

Griffin disse:

—     Ele é médico, por isso esteve presente à autópsia. Nada de extraordinário. Não encontraram nada. Não havia nada suspeito. Você fez um bom trabalho.

—Mas não sabemos o que Smith possa ter encontrado na autópsia — disse al-Hassan.

Griffin fez uma careta.

—     Na dúvida, o melhor é acabar com ele. Isso resolve um problema. Mas, por outro lado, a cada novo crime aumenta o perigo de perguntas comprometedoras e possíveis pistas. Especialmente no caso da morte do noivo e colega de pesquisa da Dra. Russell. E principalmente se ele já comentou com o general Kielburger os ataques que sofreu em Washington.

—     Se esperarmos muito, talvez se torne tarde demais — insistiu al-Hassan.

O silêncio na sala parecia ser suficientemente pesado para esmagar a própria casa. Os conspiradores se entreolharam e convergiram seus olhares ansiosos para seu aristocrático líder — Victor Tremont.

Com a testa franzida, ele andava devagar de um lado para outro na frente da lareira.

Por fim decidiu-se.

—     Griffin pode ter razão. E melhor não arriscarmos outra morte envolvendo o pessoal de Detrick.

Entreolharam-se novamente. Dessa vez concordaram com um aceno de cabeça. Nadal al-Hassan registrou o voto silencioso, depois desviou os olhos para Bill Griffin, que se ocultava no fundo escuro da sala.

—     Muito bem — disse Tremont, sorrindo —, isso está resolvido. Acho bom dormirmos um pouco. Com as decisões finais, amanhã será um dia exaustivo. Apertou a mão de cada um dos homens calorosamente, o anfitrião e líder impecável, quando eles se retiraram do imponente living.

Al-Hassan e Griffin foram os últimos a sair.

Antes, porém, Victor Tremont fez um sinal para que se aproximassem.

—     Sigam Smith de perto. Não quero que ele dê um passo sem que vocês saibam quando, para onde e até que ponto chegou. — Olhou para as brasas quase extintas na lareira como se fossem oráculos do futuro. Subitamente ergueu a cabeça. Al-Hassan e Griffin já estavam virando as costas para se retirar quando ele os chamou de volta.

Ao chegarem perto dele, disse num tom de voz baixo e enérgico:

—     Não me interpretem mal, cavalheiros. Se o Dr. Smith criar qualquer problema, naturalmente terá de ser expurgado. A vida é um permanente equilíbrio de forças, entre o risco e a segurança, a vitória e a derrota. O que poderíamos perder em conseqüência de algumas perguntas bem formuladas e respostas pouco convincentes sobre as coincidências de sua morte e a de sua noiva seria sem dúvida mais desastroso do que impedi-lo de revelaras circunstâncias que cercaram a morte de sua companheira.

—     Se é que ele continua realmente fuçando.

Tremont fixou o olhar analítico em Griffin.

—     Tem razão, se ele estiver. Sua tarefa é precisamente descobrir isso. — Sua voz tornou-se fria abruptamente, assumindo o tom de um aviso-ameaça. — Não me decepcione.

 

10:12h, quarta-feira, 15 de outubro

Forte Irwin, Barstow, Califórnia

O transporte C-130 da Base Aérea de Andrews aterrissou no Aeroporto Logístico do Sul da Califórnia, perto de Victorville, às 10:12h de uma manhã quente, ventosa. Uma viatura da polícia militar aguardava Smith na pista.

—     Bem-vindo à Califórnia, senhor. — O motorista cumprimentou Smith, pegando sua mala e mantendo aberta a porta do veículo.

—     Obrigado, sargento. Estamos indo para Irwin?

—     Para o heliporto, senhor. Um helicóptero de Irwin está à sua espera.

O motorista ergueu a mala de Smith e acomodou-a na traseira, assumindo o volante e manobrando no piso de betume. Smith agüentou firme os sacolejos do grande veículo de combate no percurso esburacado até chegarem ao helicóptero-ambulância que exibia o logotipo do 11º Regimento Blindado de Cavalaria — um garanhão preto com as patas dianteiras levantadas contra um fundo diagonal vermelho e branco. Os rotores do aparelho já estavam girando, prontos para a decolagem.

Um homem mais velho, ostentando a folha dourada de major e o emblema hipocrático, avançou por baixo das compridas pás dos rotores. Esticou a mão e disse em voz alta:

—     Dr. Max Behrens. Do Hospital Weed do Exército.

Um recruta apanhou a mala de Smith, e eles embarcaram no helicóptero-ambulância, cuja fuselagem tremia com a vibração dos rotores. A aeronave alçou vôo e descaiu abruptamente num ângulo fechado, varando o céu do deserto. Smith olhou para baixo ao sobrevoarem estradas de duas pistas e prédios de pequenas cidades. Logo passaram a seguir o traçado da Interestadual 15 de quatro pistas.

O Dr. Behrens inclinou-se para Smith e gritou contra o vento e o barulho:

—     Observamos de perto todas as unidades de base, e não foram constatados outros casos de contaminação do vírus.

Smith perguntou, erguendo o tom de voz para se fazer ouvir:

—     A Sra. Anderson e os outros estão prontos para falar comigo?

—     Sim, senhor. Parentes, amigos, todos os que precisar ouvir. O coronel da OPFOR deu ordens para que o senhor seja atendido em tudo o que desejar, e gostaria de lhe falar, caso julgue que isso possa ajudar.

—     OPFOR?

Behrens sorriu.

—     Desculpe, esqueci-me de que o senhor está em Detrick há pouco tempo. É como é designada a nossa missão — Força de Oposição. O 11º de Cavalaria faz as vezes de inimigo para todos os regimentos e brigadas que passam por aqui para treinamento de campo. Submetemos a tropa a duros exercícios e combates simulados. Eles sofrem um bocado nas nossas mãos. E divertido e saem daqui melhores soldados.

O helicóptero executou um vôo rasante sobre uma rodovia de quatro pistas e penetrou mais fundo no deserto pedregoso até Smith avistar uma estrada, um painel de BOAS-VINDAS e, no topo de uma colina, pedras empilhadas pintadas com logotipos coloridos e insígnias de unidades que tinham estado baseadas ali ou passado por Irwin ao longo dos anos.

Deixaram para trás filas de veículos que se deslocavam velozmente, levantando nuvens de poeira. Era surpreendente como os veículos americanos visualmente modificados pareciam com os BMP-2s, BRDM-2s, e os tanques T-80 da divisão blindada da infantaria mecanizada russa. O helicóptero arremessou na direção do posto principal e pousou no solo do deserto no meio de uma nuvem de areia. Uma comissão de recepção estava à espera, e Smith pensou no que o fizera se abalar até ali.

Phyllis Anderson era uma mulher alta e um pouco pesada, dando a impressão de ter passado a vida inteira fazendo refeições transitórias em incontáveis bases militares. Seu rosto cheio estava contraído quando se sentaram em caixotes de mudança no living silencioso da casa aprazível. Tinha o olhar assustado que Smith vira estampado vezes sem conta nos rostos de viúvas do exército relativamente jovens. O que ela iria fazer agora? Vivera toda a vida de casada de acampamento em acampamento, de um forte para outro, morando em alojamentos nas bases e em cidades próximas que nunca eram sua verdadeira casa. Nunca tivera um canto que pudesse chamar de lar.

—     As crianças? — disse ela, respondendo a uma pergunta de Smith. — Despachei-as para a casa de meus pais. Ainda são muito pequenas para saber de qualquer coisa. — Ela olhou para os caixotes cheios. — Vou ter com elas dentro de poucos dias. Temos de procurar uma casa. Numa cidade pequena. Perto de Erie, na Pensilvânia. Terei de arranjar um emprego. Não sei o que posso fazer...

Ela começou a divagar, a fugir do tema central, do que realmente lhe interessava saber, e Smith recriminou-se por ser forçado a interrogá-la objetivamente.

—     O major já tinha ficado doente antes?

Ela acenou com a cabeça.

—     Às vezes tinha uma febre repentina, durante algumas horas, mas logo passava. Uma vez chegou a durar vinte e quatro horas. Os médicos se preocuparam, mas não conseguiram encontrar um motivo, e ele acabava sempre melhorando sem maiores problemas. Mas há algumas semanas pegou um resfriado forte. Quis que ele pedisse uns dias de licença para tratamento médico, mas isso era impensável para Keith. Dizia que as guerras e os conflitos armados não cessavam por causa de um resfriado. O coronel sempre diz que Keith pode resistir mais do que qualquer um no campo. — Ela baixou os olhos para o colo, onde suas mãos torciam um pedaço de pano. — Podia.

—     Há alguma coisa que possa me dizer que esteja relacionada de certa forma com a causa da morte de seu marido?

Ele percebeu quando ela se perturbou ao ouvir a palavra, mas não havia outra maneira de formular a pergunta.

—     Não. — Ela ergueu os olhos. Eles refletiam a mesma dor que ele sentia, e teve de se conter para não deixar que transparecesse nos seus próprios olhos. — Foi tudo tão rápido. Parecia ter melhorado do resfriado. Deu uma boa cochilada à tarde. E quando acordou estava agonizando. — Ela mordeu o lábio inferior para reprimir um soluço.

Por sua vez, ele sentiu os olhos se umedecerem. Esticou o braço e apertou-lhe carinhosamente a mão.

—     Sinto muito. Sei como é difícil para a senhora.

—     Será que sabe mesmo? — Sua voz era de desamparo, mas também continha uma pergunta. Ambos sabiam que não poderiam trazer o marido dela de volta, mas quem sabe ele possuía uma poção mágica capaz de pôr fim ao infinito padecimento que a consumia?

—     Sei — respondeu ele serenamente. — O vírus também matou minha noiva.

Ela olhou para ele fixamente, chocada. Duas lágrimas escorreram pelas suas faces.

—     É horrível, não é?

Ele pigarreou. Seu peito ardia, e tinha a sensação de que seu estômago acabara de ser invadido por uma betoneira.

—     E horrível — concordou ele. — Acha que pode prosseguir? Quero saber tudo sobre o vírus e impedir que ele mate mais alguém.

Na sua mente, ela continuava sendo a esposa de um soldado, e a ação era sempre o melhor remédio.

—     O que mais quer saber?

—O major Anderson esteve em Atlanta ou Boston recentemente?

—Não acredito que ele tenha estado alguma vez em Boston, e não estivemos mais em Atlanta desde que saímos de Bragg há muitos anos.

—     Onde mais o major serviu além do Forte Bragg?

—     Deixe-me ver... — Ela mencionou um chorrilho de bases que cobriam o país do Kentucky à Califórnia. — A Alemanha também, naturalmente, quando Keith serviu no Terceiro Regimento Blindado.

—     Quando foi isso?—A febre hemorrágica Marburg, uma prima próxima do Ebola, tinha sido detectada pela primeira vez na Alemanha.

—     Oh, de 1989 a 1991.

—     No Terceiro Regimento Blindado? Depois ele foi para a campanha da Tempestade no Deserto?

—     Foi.

—     Esteve em mais algum lugar no exterior?

—     Na Somália.

Era onde Smith tivera o primeiro encontro fatal com a febre Lassa. Tinha sido uma operação de menores proporções, mas teria ele sabido de tudo que realmente acontecera lá? A eclosão de um vírus desconhecido sempre era possível no coração da selva, nos desertos e nas montanhas daquele continente desafortunado.

Smith continuou pressionando.

—     Ele comentou alguma coisa sobre a Somália? Adoeceu lá? Mesmo brevemente? Teve uma daquelas febres repentinas e passageiras? Dores de cabeça?

Ela sacudiu a cabeça.

—     Não que me recorde.

—Ele ficou doente alguma vez durante a Tempestade no Deserto?

—     Não.

—     Foi exposto a agentes químicos ou biológicos?

—Não creio que tenha sido. Mas me lembro de ele ter dito que os médicos o tinham enviado para uma unidade MASH para extrair um pequeno estilhaço de granada, e alguém teria dito que o MASH poderia estar exposto a germes de guerra. Todos os que passaram por lá foram vacinados.

Smith teve um frêmito, mas não deixou que sua voz denunciasse seu excitamento.

—     Incluindo o major?

Ela esboçou um sorriso.

—Ele disse que foi a pior vacina que já lhe tinham aplicado. Doeu muito.

—     Lembra-se, por acaso, do número da unidade do MASH?

—     Não, sinto muito.

Pouco depois disso ele deu a entrevista por encerrada. Permaneceram calados na varanda tranqüila. Havia um certo conforto nas interações com a vida cotidiana.

Mas, quando ele começava a se retirar da varanda, ela perguntou com a voz cansada:

—     O senhor é o último, coronel? Creio que já disse tudo o que sei.

Ele se voltou.

—     Mais alguém a procurou para lhe fazer perguntas sobre o major?

—     O major Behrens do Weed, o coronel, o patologista de Los Angeles e uns médicos do governo, horrorosos, que estiveram aqui no sábado, fazendo uma porção de perguntas terríveis. Queriam saber quais tinham sido os sintomas do pobre Keith, quanto tempo ele so¬brevivera, qual era a aparência dele no... — Ela estremeceu, revoltada.

—  Sábado passado? — perguntou Smith, intrigado. Que médico funcionário público procuraria alguém num sábado? Tanto Detrick quanto o CDC mal tinham iniciado suas investigações sobre o vírus. Disseram para quem trabalhavam?

  • Não. Disseram apenas que eram médicos do governo.

    Ele agradeceu novamente e se retirou. Caminhando sob o sol causticante e o vento áspero, dirigiu-se ao local da próxima entrevista, pensando no que acabara de descobrir. Teria o major Anderson contraído o vírus no Iraque ou ele lhe teria sido inoculado lá e permanecido latente durante os dez anos seguintes, manifestando-se esporadicamente na forma de febres inexplicáveis, e finalmente eclodindo no que parecia ser apenas um forte resfriado... e provocando sua morte?

    Não conhecia nenhum vírus que agisse daquela maneira. Mas, por outro lado, nenhum vírus conhecido agira como o vírus da AIDS, até explodir no coração da África e se espalhar pelo mundo afora.

    E quem eram os "médicos do governo" que tinham procurado Phyllis Anderson antes que alguém fora do CDC e do Forte Detrick tivesse tomado conhecimento da existência de um novo vírus?

     

20:22h

Lake Magua, Nova York

O senador Benjamin Sloat passou a mão na cabeça calva e tomou outro gole do precioso escocês de Victor Tremont. Ele e Tremont estavam sentados no solário escuro que dava para um deck debruçado sobre o gramado verdejante. Enquanto tinham estado conversando, uma corça de olhos grandes passara tranqüilamente em frente ao deck como se ele lhe pertencesse, e Victor Tremont simplesmente sorriu. O senador Sloat desistira havia muito tempo de tentar compreender Tremont, mas também não precisava. Tremont representava contatos importan­tes e polpudas contribuições para campanhas eleitorais, além de um bom naco das ações da Blanchard Pharmaceuticals uma combina­ção irresistível numa época em que as campanhas políticas exigiam muito dinheiro.

O senador resmungou.

  • Que diabo, Victor, por que você não me falou antes? Eu podia ter tirado esse Smith do nosso caminho. Tê-lo despachado juntamente com a mulher para o estrangeiro. E agora não teríamos que estar encobrindo um homicídio e ter um farejador nos nossos calcanhares.

    De sua poltrona, Tremont fez um gesto com seu charuto.

  • O telefonema dela foi um choque tão grande que não me ocorreu outra coisa senão eliminá-la sumariamente. Só agora é que ficamos sabendo o quanto ela e Smith estavam perto de descobrir a verdade.

    Sloat tomou um gole, pensativo.

  • Não podemos simplesmente ignorá-lo? A mulher logo será enterrada e esquecida, e, ao que parece, Smith ainda não sabe muita coisa. Talvez toda essa onda não dê em nada.

  • Está disposto a correr o risco? — Tremont estudou o suarento presidente da Comissão das Forças Armadas do Senado. — Dentro em pouco o mundo vai ficar em polvorosa, e nós seremos os paladinos que resgataremos a humanidade. A não ser que alguém tropece em algo incriminador e sopre o apito contra nós.

    Meio escondido nas sombras bruxuleantes da extremidade mais afastada do solário, Nadal al-Hassan advertiu:

    —O Dr. Smith está no Forte Irwin neste momento. E possível que ouça falar nos "médicos do governo".

    Tremont contemplou a cinza grossa do seu charuto.

  • Smith já percorreu um bom caminho. Não o suficiente para representar qualquer ameaça, mas o bastante para chamar nossa atenção. Se chegar mais perto, Nadal o eliminará sem despertar suspeitas contra nós ou a morte de Sophia Russell. Um método de extermínio muito diferente. Um acidente trágico. Certo, Nadal?

  • Suicídio — disse o árabe do canto onde estava. — Ele está obviamente transtornado com a morte da Dra. Russell.

  • Pode ser uma boa idéia se nos cercarmos de todas as precau­ções e concebermos um plano à prova de qualquer risco. — Tremont concordou. — Enquanto isso, senador, bloqueie a investigação dele. Mantenha-o afastado do laboratório. Providencie seu remanejamento. Qualquer coisa.

  • Falarei com o general Salonen. Ele indicará o homem certo — decidiu Sloat. — Precisamos conservar o vírus bem protegido. É extremamente sensível. Smith não passa de um médico, um amador, e essa é uma tarefa que requer profissionais.

  • Uma preocupação louvável e perfeitamente plausível.

    Sloat terminou seu uísque excepcional, estalou os beiços, sacudiu a cabeça em sinal de aprovação e se levantou.

  • Ligarei imediatamente para Salonen. Mas não daqui. É melhor falar de um telefone público na aldeia.

    Tremont continuou fumando depois de o senador ter saído. Falou sem olhar para Nadal al-Hassan.

  • Devíamos ter eliminado Smith há mais tempo. Você tinha razão. Griffin estava errado.

  • Talvez. Ou quem sabe, do seu ponto de vista, talvez ele estivesse certo?

    Tremont virou-se abruptamente.

  • Como assim?

  • Tenho me perguntado como o Dr. Smith podia estar tão alerta em relação aos nossos primeiros ataques. Por que estava no parque, altas horas da noite, distante de sua casa em Thurmont? Por que logo desconfiou de um crime?

    Tremont estudou o árabe.

  • Acha que Griffin o avisou? Por quê? Afinal, Griffin tem tanto a perder quanto qualquer um de nós se nossos planos forem descober­tos. Ele parou, pensativamente. A menos que continue traba­lhando para o FBI!

  • Não. Chequei cuidadosamente e sei que Griffin age indepen­dentemente, não mantém mais nenhum vínculo. Tenho certeza. Mas talvez ele e o Dr. Smith tenham tido algum tipo de relacionamento no passado. Meu pessoal está investigando.

    Victor Tremont, que conservara o cenho franzido o tempo todo, de repente sorriu. Disse a al-Hassan:

    Há uma solução. Uma solução elegante. Continue averiguando o passado dos dois homens, mas ao mesmo tempo diga ao seu comparsa, o Sr. Griffin, que mudei de idéia. Quero que ele procure pessoalmente o coronel Smith... e o elimine. Sim, mate-o rapidamen­te. Acenou com a cabeça friamente e sorriu outra vez. Assim, ficaremos sabendo a quem o Sr. Griffin é realmente leal.

 

9:14h, quinta-feira, 16 de outubro

Forte Detrick, Maryland

Suas restantes entrevistas no Forte Irwin, na véspera, não tinham acrescentado nada ao que ele apurara com Phyllis Anderson. Depois da última entrevista, Smith voou a noite toda de Victorville, dormindo a maior parte da viagem. De Andrews, foi diretamente de carro para o Forte Detrick. Os relatórios da outra família e entrevistas feitas por outros integrantes da equipe já tinham chegado. Davam conta de que o sem-teto de Boston e o pai falecido da garota de Atlanta também tinham estado no exército durante a Guerra do Golfo. Ele exam inou as folhas de serviços dos três soldados.

O sargento Harold Pickett servira no Batalhão de Infantaria 1-502, da Segunda Brigada da 101ª Divisão de Ataque Aéreo, que participara da ofensiva conhecida como Tempestade no Deserto. Fora ferido e tratado na 167ª Unidade do MASH. O Especialista de Nível Quatro Mario Dublin tinha sido ordenança na 167º Unidade do MASH. Não havia assentamentos de que o então tenente Keith Anderson tivesse sido tratado na 167ª, mas unidades do Terceiro Regimento Blindado tinham estado na fronteira Iraque-Kuwait perto da 167ª.

As revelações fizeram Smith pegar novamente o telefone. Discou para Atlanta.

  • Sra. Pickett? Desculpe por telefonar tão cedo. Sou o tenente-coronel Jonathan Smith, do Instituto de Pesquisas Médicas de Doen­ças Infecciosas do Exército dos Estados Unidos. Posso lhe fazer algumas perguntas?

    A mulher do outro lado da linha quase teve um ataque histérico.

  • Basta. Pelo amor de Deus, coronel. Vocês não...

    Smith insistiu.

  • Sei que é muito difícil para a senhora, Sra. Pickett, mas estamos tentando evitar que outras jovens como sua filha possam ter o mesmo fim trágico que ela teve.

  • Por favor...

  • Duas perguntas.

    Quando o silêncio se prolongou, ele julgou que ela tivesse abandonado o telefone. Mas sua voz se fez ouvir novamente, baixa e contrariada.

  • Pergunte de uma vez o que quer saber.

    Alguma vez sua filha sofreu algum acidente grave que exigisse uma transfusão de sangue, e seu marido doou o sangue?

    O silêncio, agora, irradiava medo.

  • Como... o senhor soube?

  • Só podia ter sido dessa maneira. Uma última pergunta. A senhora foi procurada, sábado passado, por médicos do governo que queriam lhe fazer perguntas sobre a morte de sua filha?

    Quase a ouviu acenar com a cabeça.

  • É claro que me procuraram. Fiquei chocada com as perguntas que me fizeram. Pareciam devoradores de cadáveres. Desliguei o telefone na cara deles.

  • Não mencionaram nenhuma outra credencial além de se identificarem vagamente como "médicos do governo"?

    Não. Espero que o senhor ponha esses necrófilos no olho da rua.

    A ligação foi interrompida bruscamente, mas ele já colhera os dados de que precisava.

    Era quase certo que os três soldados tinham sido inoculados contra "possíveis agentes de contaminação numa guerra bacteriológica" na mesma unidade do MASH na fronteira do Iraque com o Kuwait dez anos atrás.

    Smith ligou para a extensão do general-de-brigada Kielburger para lhe falar das entrevistas.

  • Tempestade no Deserto? quase chiou Kielburger, apavora­do. Tem certeza do que está me dizendo, Smith? Certeza absoluta?

  • Tanta certeza quanto de qualquer outra coisa neste momento.

  • Maldição! Isso vai explodir como uma bomba no Pentágono depois de todas as dores de cabeça médicas e ações judiciais por causa da síndrome da Guerra do Golfo. Não fale com ninguém até que eu tenha checado isso com o Pentágono. Nem uma palavra. Está compre­endendo?

    Smith desligou o telefone, enojado. Mais uma vez, prevaleciam os interesses políticos.

    Resolveu ir almoçar para poder pensar melhor e concluiu que a primeira coisa a ser feita era localizar os indivíduos que se intitulavam "médicos do governo". Obviamente tinham recebido ordens de al­guém para fazer aquelas ligações. Mas quem teria sido?

    Quatro longas horas perdidas depois, era Smith quem estava a ponto de explodir ao repetir no bocal do telefone:

  • ... Sim, médicos que ligaram para o Forte Irwin, para a Califórnia, para Atlanta, e provavelmente para Boston. Fizeram perguntas desrespeitosas sobre as mortes das vítimas do vírus. As famílias ficaram indignadas, e eu também estou começando a ficar pê da vida!

  • Estou apenas cumprindo minha obrigação, Dr. Smith. A mulher do outro lado da linha estava irritada. Nosso diretor foi atropelado e morto por um motorista que fugiu, num acidente ontem, e estamos com falta de pessoal. Diga-me seu nome e o de sua companhia novamente.

    Ele respirou fundo.

    Smith, tenente-coronel Jonathan Smith, do Instituto de Pesqui­sas Médicas de Doenças Infecciosas do Exército dos Estados Unidos, no Forte Detrick.

    Fez-se silêncio. Ela devia estar anotando o nome dele e o de sua "companhia". Voltou a falar.

  • Um momento, por favor.

    Ele estava cuspindo fogo. Há quatro horas vinha enfrentando a mesma burocracia infernal. Somente o CDC confirmara que não tinha telefonado para as famílias. Do gabinete do cirurgião geral, disseram- lhe para fazer seu pedido por escrito. Os vários departamentos doNIH tentados o encaminharam à seção de informações gerais, e o homem que o atendeu lhe disse que tinham recebido instruções taxativas para não discutir nada que estivesse relacionado com aquelas mortes. Por mais que explicasse que ele era um pesquisador do governo que já estava investigando aquelas mortes, não chegou a lugar algum.

    Quando não logrou êxito nem na Marinha nem na Força Aérea e tampouco nos Serviços de Saúde e Assistência Social, convenceu-se de que seus esforços estavam sendo deliberadamente obstruídos. Sua última chance era a Carteira de Compensação de Recursos Médicos Federais FRMC do NIH. Depois disso não lhe restavam mais opções.

  • Diretor em exercício Aronson do FRMC falando. Em que posso ajudá-lo, coronel?

    Ele tentou falar com calma.

  • Agradeço-lhe a gentileza de me atender. Ao que tudo indica, há um grupo de médicos interessados no vírus que está sendo estudado no Forte Irwin em Atlanta, e...

  • Deixe-me poupar seu tempo, coronel. Todas as informações sobre o incidente virótico ocorrido no Forte Irwin foram classificadas. O senhor terá de se dirigir aos canais competentes.

    Smith finalmente explodiu.

  • O vírus está em meu poder. Estou trabalhando com ele! O USAMRIID é a informação. Tudo o que quero é...

    O ruído de discar zumbiu no seu ouvido.

    Que diabo estava acontecendo? Parecia que algum idiota colocara uma tampa em cima de tudo que tivesse qualquer coisa a ver com o vírus. Nenhuma informação podia ser dada sem ter sido previamente liberada. Mas por quem? E por quê?

    Abriu a porta violentamente, atravessou o corredor, furioso, passando por Melanie Curtis como um raio e encaminhou-se direta­mente ao gabinete de Kielburger.

    Afinal, o que é que está acontecendo, general? Tento descobrir quem mandou esses "médicos do governo" telefonarem para Irwin e Atlanta, e todo o mundo grita nos meus ouvidos que se trata de um segredo absoluto e ninguém fala.

    Kielburger inclinou-se para trás na cadeira de sua escrivaninha e entrelaçou os dedos grossos sobre o peito robusto.

  • Está fora de nossas mãos, Smith. Toda a investigação. Fomos considerados topsecret. Compete-nos pesquisar e depois nos reportar­mos ao cirurgião geral, à inteligência militar, e ao Conselho Nacional de Segurança. Ponto final. Acabou-se nossa função de detetive.

  • Nesta investigação temos realmente de fazer o papel de detetives.

  • Diga isso ao Pentágono.

    Num lampejo de compreensão, as três frustrantes últimas horas de repente faziam sentido. Não podia ser meramente burocracia. Havia muito mais do que isso por trás de tantos obstáculos. Muitas reparti­ções governamentais estavam envolvidas. Não era lógico. Não se tirava sem mais nem menos uma investigação das mãos de quem sabia o que estava acontecendo. Principalmente uma investigação científi­ca. Se houvesse outras equipes de "médicos do governo", não havia razão para ocultar isso dele ou de quem quer que fosse no US AMRIID.

    A menos que não fossem médicos do governo coisa nenhuma.

  • Escute aqui, general. Acho que...

    O general o interrompeu visivelmente irritado.

  • Ficou surdo, coronel? Não sabe mais o que significa uma ordem? Nós fomos relegados a um segundo plano, estritamente científico. Os profissionais é que vão investigar a morte da Dra. Russell daqui por diante. Sugiro que volte para seu laboratório e se concentre no vírus.

    Smith respirou fundo. Agora estava não apenas furioso, como assustado.

  • Alguma coisa está completamente errada nisso tudo. Ou alguém muito poderoso está manipulando o exército, ou é o próprio exército. Querem parar a investigação. Estão obstruindo o acesso a toda e qualquer informação sobre o vírus e vão acabar matando muita gente.

    —Ficou maluco? Você ainda pertence ao exército. E essas foram ordens superiores expressas.

    Os olhos de Smith faiscaram. Passara o dia todo procurando sufocar sua dor. Toda vez que o rosto fulgurante de Sophia surgia na sua mente, tentava bani-lo. Às vezes via alguns objetos que tinham pertencido a ela — sua caneta preferida, as fotografias na parede do seu escritório, o pequeno frasco de perfume que conservava em cima de sua mesa — e começava a se desintegrar. Tinha vontade de jogar-se de joelhos no chão e uivar para as forças invisíveis que haviam roubado Sophia, sentia ganas de matá-las.

    Smith rosnou.

  • Demito-me. O senhor receberá a papelada esta tarde.

    Foi a vez de Kielburger perder as estribeiras.

  • Você não pode se demitir no meio de uma crise infernal como esta. Farei você comparecer perante uma corte marcial!

    Ok. Tenho direito a um mês de férias vencidas. Vou requerê-las.

  • Como se atreve a falar em férias, licença, ou seja lá o que for? Esteja no seu escritório amanhã ou será considerado desertor.

    Os dois homens encararam-se, furibundos, sobre a escrivaninha de Kielburger, por alguns segundos. Finalmente Smith resolveu sentar-se.

  • Eles a assassinaram, Kielburger. Eles mataram minha Sophia.

  • Assassinaram? — perguntou Kielburger, incrédulo. — Isso é ridículo. O laudo da autópsia foi claro. Ela morreu em conseqüência da contaminação do vírus.

  • É claro que foi o vírus que a matou, mas ela não o contraiu acidentalmente. Não percebemos a princípio, talvez porque a verme­lhidão só apareceu depois de algumas horas. Mas quando olhamos uma segunda vez, localizamos a marca de agulha no seu tornozelo. Eles injetaram o vírus.

  • Uma marca de agulha no tornozelo? — Kielburger franziu as sobrancelhas, preocupado. — Tem certeza de que ela não estava...

    Os olhos de Smith eram duas coruscantes ágatas azuis.

  • Não havia nenhum motivo para uma injeção, a não ser para inocular-lhe o vírus.

  • Pelo amor de Deus, Smith, por quê? Não faz sentido.

  • Faz se o senhor se lembrar da página arrancada do diário dela. Ela sabia — ou suspeitava — de alguma coisa que eles não queriam que ela soubesse. Por isso suprimiram suas anotações, roubaram seu caderno de telefones e a mataram.

  • Quem são eles?

  • Ainda não sei, mas vou descobrir.

  • Smith, você está transtornado. Posso compreender, mas um novo vírus ameaça o mundo. Pode irromper uma epidemia.

    —Não tenho muita certeza disso. Foram registrados três casos em locais muito distantes um do outro que não infectaram mais ninguém nas suas respectivas áreas. Já ouviu falar de uma epidemia virótica na qual somente uma pessoa numa determinada área foi infectada?

    Kielburger considerou a pergunta.

  • Não, não posso dizer que tenha, mas...

    —Nem o senhor nem ninguém mais — disse-lhe Smith enfatica­mente. — Ainda existem vírus desconhecidos, e a natureza nos confunde a toda hora. Mas se o vírus é tão mortífero quanto parece, por que não se verificaram mais casos em cada uma das três áreas? Na melhor das hipóteses, isso leva a crer que ele não é muito contagioso. Os parentes e os vizinhos não o contraíram. Ninguém nos hospitais foi infectado. Nem mesmo o patologista, que teve seu avental salpicado de sangue. A única pessoa de quem podemos ter certeza de que o pegou de alguém foi a jovem Pickett de Atlanta, que recebeu uma transfusão de sangue do pai há alguns anos. Isso indica dois fatos. Primeiro, o vírus, assim como o da AIDS, parece existir em estado latente no organismo de uma vítima durante anos, e subitamente torna-se viru­lento. Segundo, parece ser necessária uma injeção diretamente na corrente sangüínea para que ocorra uma infecção, seja no estado latente ou no virulento. De qualquer forma, uma epidemia me parece remota.

  • Gostaria que você tivesse razão — disse Kielburger, fazendo uma careta. — Mas infelizmente está redondamente enganado. Já foram detectados outros casos. Há gente infectada e morrendo. Esse vírus maluco parece não ser altamente contagioso como sói acontecer, mas continua se alastrando.

  • E quais são as notícias que chegam do sul da Califórnia, de Atlanta, de Boston?

    —Nenhuma incidência nesses lugares. Está grassando em outras partes do mundo: Europa, América do Sul, Ásia.

    Smith sacudiu a cabeça.

  • Então, continua tudo errado. — Fez uma pausa. — Eles assassinaram Sophia. Compreende o que isso significa?

  • Bem, eu...

    Smith levantou-se e debruçou-se sobre a mesa.

  • Significa que alguém conserva esse vírus numa proveta. Um vírus desconhecido, mortífero, que ninguém foi capaz de classificar ou determinar sua origem. Mas alguém sabe o que esse vírus é, e de onde ele provém, porque esse alguém o possui.

    O rosto fornido do general ficou apoplético.

  • Possui? Mas...

    Smith deu um soco na mesa.

  • Estamos lidando com indivíduos que inocularam o vírus em outras pessoas! Entre elas, Sophia. Estão querendo usá-lo como uma arma.

  • Meu Deus! —- Kielburger olhou-o, não querendo acreditar no que ouvia. — Por quê?

  • Por que e quem, isso é o que temos de descobrir!

    O corpanzil de Kielburger tremeu de cima a baixo com o choque do que Smith lhe dissera. Levantou-se abruptamente, seu rosto habi­tualmente florido ficou branco como jamais estivera.

  • Vou ligar para o Pentágono. Ponha no papel o que acabou de me dizer e o que pretende fazer daqui em diante.

  • Preciso ir a Washington.

    —Está certo. Vá aonde precisar. Eu lhe darei credenciais oficiais.

  • Sim, senhor. — Smith recuou, aliviado e ao mesmo tempo admirado por ter finalmente conseguido penetrar na cabeça dura de Kielburger. Talvez o general não fosse tão intransigente e estúpido como pensava. Por um momento quase sentiu afeição pelo homem irritante.

    Ao cruzar a porta, ouviu Kielburger pegar o telefone.

  • Ligue-me com o cirurgião geral e o Pentágono. Sim, os dois. Não, tanto faz qual seja o primeiro.

    A especialista de Nível Quatro Adele Schweik apertou o botão de interceptação do seu telefone, ouvindo cautelosamente do seu cubícu­lo os menores ruídos que a sargento-ajudante Daugherty fazia no seu escritório. Finalmente mentiu com firmeza no fone do seu aparelho:

  • Gabinete do cirurgião geral Oxnard. Não, general Kielburger, o cirurgião geral não está no escritório. Direi a ele para lhe telefonar assim que voltar.

    Schweik olhou em volta. Felizmente, Sandra Quinn estava ocupa­da no seu cubículo, e a sargento-ajudante estava no seu escritório. O gabinete de Kielburger estava chamando novamente. Schweik aten­deu com uma voz diferente:

  • Pentágono. Um momento, por favor.

    Discou rapidamente o número que consultou numa lista guardada na gaveta de cima de sua escrivaninha.

  • General Caspar, por favor. Sim, o general Kielburger está chamando com urgência do USAMRIID. — Ela o tirou da espera, voltou para sua própria linha e discou novamente. Falou em voz baixa, mas rapidamente, desligou outra vez e retomou o seu trabalho.

     

17:50h

Thurmont, Maryland

Smith acabou de fazer as malas na casa vazia no sopé da montanha Catoctin. Sentia-se ligeiramente indisposto, o que não o surpreendia. Sophia estava em toda parte, da água engarrafada na cozinha ao seu perfume na cama que tinham compartilhado. Confrangia seu coração. O vazio da casa ecoava nos seus ouvidos. A casa era um túmulo, o sepulcro de suas esperanças, impregnado dos sonhos e do riso de Sophia. Não podia ficar ali. Nunca mais poderia morar ali.

Não naquela casa, não naquele condomínio. Não conseguia pensar em lugar algum do mundo onde quisesse ficar. Sabia que teria que resolver isso eventualmente, mas não agora. Ainda não. Primeiro, tinha que achar seus assassinos. Esmagá-los. Reduzi-los a uma massa informe de sangue, ossos e tecido.

No seu escritório, depois deter deixado Kielburger, Smith redigiu seus relatórios e fez suas anotações, imprimiu-os, e foi para sua casa, dando uma volta maior, olhando sempre para trás. Não notou ninguém seguindo-o até a casa assobradada onde vivera com Sophia durante tantos meses. Quando terminou de fazer a mala com o necessário para passar uma semana fora com qualquer tempo, carregou sua Beretta de serviço, pegou seu passaporte, cadernos de endereços e o celular, vestiu o uniforme e ficou esperando a ligação de Kielburger com as instruções do Pentágono.

Mas Kielburger não ligou.

Estava ficando escuro ao dirigir seu carro, às 18h, para o Forte Detrick. Melanie Curtis não estava na sua mesa de secretária, e quando checou o escritório do general ele também estava vazio, mas nenhuma das salas parecia ter sido arrumada ao fim do expediente. Muito estranho. Olhou seu relógio: 18:27h. Deviam ter ido tomar um café. Mas os dois ao mesmo tempo!?

Nenhum dos dois estava na cantina.

O escritório de Kielburger continuava vazio.

A única explicação que Smith encontrou foi a hipótese de o Pentágono ter convocado Kielburger a comparecer pessoalmente a Washington e ele ter levado Melanie.

Mas Kielburger não teria ligado para ele a fim de avisá-lo?

Não. Caso o Pentágono lhe tivesse dado ordens para não fazê-lo.

Inquieto, sem falar com ninguém, voltou para o seu surrado Triumph. Iria a Washington com ou sem permissão do Pentágono. Não iria passar outra noite na casa de Thurmont. Ligou a ignição do carro e passou pelo portão. Não viu ninguém em atitude suspeita, vigiando do lado de fora, mas, por via das dúvidas, resolveu dar umas voltas durante quase uma hora antes de tomar a I-270 e rumar para o sul, em direção à capital. Sua mente vagava pelo passado, pelos momentos felizes que passara com Sophia. Estava começando a sentir um certo consolo ao se recordar dos bons tempos. Deus sabia que isso era tudo o que lhe restava.

Tivera uma boa noite de sono em três dias e queria ter certeza de que ninguém estava no seu encalço. Por isso parou abruptamente no acostamento em Gaithersburg e olhou a saída para ver se estava sendo seguido. Não viu ninguém. Satisfeito, tocou para o Holiday Inn e registrou-se com um nome falso. Bebeu duas cervejas no bar do hotel, jantou no próprio hotel e voltou para seu quarto para assistir a um pouco de televisão antes de ligar para o escritório e para a casa de Kielburger. Os telefones continuavam não respondendo.

De repente deu um pulo na poltrona, chocado com o que acabara de ouvir. Era o terceiro tópico do noticiário nacional da CNN: A Casa Branca comunicou a morte trágica do general-de-brigada Calvin Kielburger, comandante-médico do Instituto de Pesquisas Médicas de Doenças Infecciosas, no Forte Detrich, em Maryland. O general e sua secretária foram encontrados mortos em suas residências, apa­rentemente vítimas de um vírus desconhecido que já matou quatro pessoas nos Estados Unidos, incluindo uma pesquisadora do Forte Detrick. A Casa Branca enfatiza que essas mortes lamentáveis são ocorrências isoladas, não constituindo perigo público no momento.

Perplexo, Smith cotejou rapidamente os fatos com o que já sabia. Nem Kielburger nem Melanie Curtis tinham trabalhado na Zona Quente, lidando diretamente com o vírus. Não havia a mais remota possibilidade de terem sido contaminados. Não se tratava de acidente ou de propagação natural do vírus. Tratava-se de crime... mais dois crimes de morte! O general fora impedido de ir ao Pentágono, e o cirurgião geral e Melanie Curtis tinham sido impedidos, por sua vez, de tornar públicas as intenções do general.

E o que acontecera com o top secretque todos que trabalhavam com o vírus supostamente deviam manter? Agora a nação sabia. Alguém em algum lugar tinha feito uma completa reversão. Mas por quê?

"... com relação às mortes trágicas ocorridas no Forte Detrick, o exército está solicitando a todas as polícias locais a busca e captura do tenente-coronel Jonathan Smith, que foi declarado ausente do Forte Detrick sem autorização. "

Ele ficou gelado diante do aparelho de televisão do hotel. Por um momento teve a nítida impressão de que as paredes do quarto estavam se fechando em torno dele. Sacudiu a cabeça, tinha que analisar os acontecimentos com muita serenidade e clareza. O inimigo que assassinara Sophia, o general e Melanie Curtis era extremamente poderoso. Certamente estavam à sua procura e agora a polícia também estava atrás dele.

Só contava consigo mesmo.

 

9:30h, sexta-feira, 17 de outubro

Casa Branca, Washington, D.C.

O presidente Samuel Adams Castilla fora eleito havia três anos e já estava em campanha para seu segundo mandato. Era uma manhã fresca, cinzenta, na capital, e ele esperara um bom comparecimento a um café da manhã do Hotel Mayflower para arrecadação de fundos, mas fora obrigado a cancelá-lo devido àquela reunião de emergência.

Visivelmente aborrecido e preocupado, levantou-se da pesada mesa de pinho que usava como escrivaninha no seu Gabinete Oval e dirigiu-se para a poltrona de couro ao lado da lareira, onde estavam todos reunidos. Como acontecia com todos os chefes de governo, o Gabinete Oval refletia os gostos e preferências do presidente Castilla. Nada de decorações sofisticadas da Costa Leste para ele. Comprara sua mobília rústica de fazenda do sudoeste da residência do governa­dor de Santa Fé, e um artista de Albuquerque combinara as cortinas navajo vermelhas e amarelas com o tapete amarelo tecido com o emblema presidencial azul, vasos, cestas e panos de encosto nas poltronas que faziam daquele o Gabinete Oval mais autenticamente americano da história.

Está certo disse ele. A CNN diz que já temos seis mortes provocadas por esse vírus. Digam-me qual é a real gravidade da situação e quais as medidas a serem tomadas.

Sentados à volta de uma mesa de centro simples, os homens e as mulheres exibiam semblantes austeros porém cauteosamente otimistas. O cirurgião geral Jesse Oxnard, sentado ao lado da secretária de Saúde e Assistência Social, foi o primeiro a responder.

-Até agora foram registradas quinze mortes ocasionadas por um vírus desconhecido que foi diagnosticado no último fim de semana.

Isto, aqui na América, naturalmente. Soubemos recentemente que há seis casos com três sobreviventes, o que, pelo menos, nos deixa um pouco esperançosos.

O chefe do Estado-Maior, Charles Ouray, acrescentou:

  • Relatórios da Organização Mundial de Saúde revelam que dez ou doze mil pessoas no exterior contraíram o vírus. Milhares morreram.

  • Nada que exija medidas de emergência especiais de nossa parte, eu diria — disse o chefe dos Estados-Maiores Conjuntos, almirante Stevens Brose. Ele estava inclinado sobre o console da lareira sob uma grande paisagem das Montanhas Rochosas, de autoria de Bierstadt.

  • Mas um vírus pode se propagar com a velocidade de um fogo-fátuo — enfatizou a secretária de Saúde e Assistência Social, Nancy Petrelli. — Não vejo como, em sã consciência, possamos esperar que o CDC ou o Forte Detrick sugiram contramedidas. Precisamos sensi­bilizar a iniciativa privada e convocar todas as empresas médicas e farmacêuticas, pedindo-lhes orientação e ajuda. — Ela olhou firme­mente para o presidente. — A situação tende a piorar, Excelência. Posso lhe assegurar.

    Quando alguns dos presentes começaram a protestar, o presidente os cortou.

  • Quais são exatamente os detalhes que conhecemos até agora sobre esse vírus?

    O cirurgião geral Oxnard fez uma careta.

  • Ele é de um tipo nunca visto, segundo afirmam Detrick e o CDC. Ainda não sabemos como é transmitido. Ao que parece, é altamente letal, uma vez que três pessoas que trabalhavam com ele em Detrick morreram, embora a taxa de mortalidade dos seis primeiros casos constatados seja apenas de cinqüenta por cento.

  • Três em seis casos já implicam algo suficientemente letal para mim — disse o presidente seriamente. — Os senhores me dizem que recentemente também perdemos três cientistas do Forte Detrick. Quem são eles?

    —Um deles foi o comandante-médico, general-de-brigada Calvin Kielburger.

  • Santo Deus! — O presidente sacudiu a cabeça, penalizado. — Lembro-me dele. Tivemos oportunidade de conversar logo depois que tomei posse. Isso é trágico.

    O almirante Brose concordou agourentamente.

    —O incidente revelou a gravidade da situação. Declarei o assunto de máxima confidencialidade depois das primeiras quatro mortes porque meu executivo, o general Caspar, informou que muitos ama­dores estavam tumultuando uma situação que poderia se tornar crítica. Fiquei preocupado com uma súbita eclosão de pânico generalizado. — Ele fez uma pausa para avaliar o efeito causado por suas palavras, esperando a confirmação do acerto de sua decisão. Todos aprovaram- na com um aceno de cabeça, inclusive o presidente. O general suspirou, aliviado. — Mas a polícia foi chamada às casas do general Kielburger e de sua secretária quando foram descobertos mortos. O hospital reconheceu o mesmo vírus que tinha matado o primeiro cientista do USAMRIID. Não foi possível abafar a ocorrência. A imprensa, fatalmente, tomou conhecimento e explorou o sensacionalismo da situação, mas agora sabe que só obterá qualquer informação através do Pentágono. Ponto final.

  • Parece-me uma boa medida — concordou Nancy Petrelli, a secretária de Saúde e Assistência Social. — Consta que um cientista se ausentou de Detrick sem autorização, o que também me deixa preocupada.

  • Ele está desaparecido? Sabe por quê?

    —Não, senhor — admitiu Jesse Oxnard. — Mas as circunstâncias são suspeitas.

  • Ele desapareceu pouco antes de Kielburger e sua secretária terem morrido — explicou o chefe dos Estados-Maiores Conjuntos. — O exército, o FBI e a polícia local foram alertados. Vão encontrá-lo a qualquer momento. Por enquanto estamos dizendo que é para ser interrogado.

    O presidente acenou com a cabeça.

  • Parece-me razoável. E concordo com Nancy. Vejamos o que a iniciativa privada pode oferecer. Enquanto isso, mantenham-me informado. Um vírus mortífero do qual não se sabe nada me deixa muito preocupado. Estou certo de que todos compartilham da minha preocupação.

 

9:22h

Washington, D.C.

A vizinhança multiétnica de Adams-Morgan forma um bairro anima­do de restaurantes em terraços descortinando vistas abrangentes da cidade. Suas principais artérias — Columbia Road e rua Dezoito — oferecem um festivopot-pourri de cafés de calçada, bares e clubes de bairro, livrarias e sebos, lojas de discos, brechós e butiques lançadoras de modas. Recém-chegados com seus trajes exóticos da Guatemala e El Salvador, daColômbiae do Equador, da Jamaicae do Haiti, dos dois Congos, do Camboja e do Vietnã acrescentam um alegre colorido a uma vizinhança pitoresca por natureza.

Numa mesa de fundos de um café da rua Dezoito, onde as canecas de café ostentavam marcas circulares parecendo tão antigas que bem poderiam estar ali desde os dias em que os índios palmilhavam as trilhas locais, o Agente Especial Lon Forbes, do FBI, esperava que o tenente-coronel Jonathan Smith chegasse objetivamente ao ponto. Conhecia poucos detalhes pessoais sobre Smith exceto que ele se dizia amigo de Bill Griffin, o que deixava Forbes não só interessado, como cauteloso.

Já que não tivera tempo de checar os antecedentes de Smith além de descobrir que ele trabalhava no Forte Detrick como pesquisador científico, o Agente Forbes sugeriu que se encontrassem naquele café pouco elegante. Chegara cedo e ficara observando, do outro lado da rua, transeuntes retardatários à procura de um lugar onde tomar o café da manhã.

No seu uniforme verde-pardacento de oficial, o tenente-coronel parou para lançar um rápido olhar periférico pelas imediações, checou da porta o interior, e finalmente entrou. O agente do FBI notou o físico imponente do homem, que passava uma impressão de força reprimida. Pelo menos à primeira vista, Smith não parecia nem agia como um solene cientista egresso do recluso campo de biologia celular e molecular.

Smith tomou café, comentou o calor fora de época, perguntou se Forbes queria algum doce; Forbes declinou, batendo de leve o pé debaixo da mesa minúscula. As feições do coronel eram bem-proporcionadas e fortes, denotando vagamente uma ascendência de índio americano, e seus cabelos pretos e lisos eram penteados para trás. Tinha olhos azul-marinho que pareciam impregnados de uma certa obscuridade que nada tinha a ver com sua cor escura. Forbes pressentia violência prestes a explodir. Aquele oficial não estava apenas impaciente, estava tenso como uma mola de aço.

  • Preciso entrar em contato com Bill urgentemente — decidiu-se Smith finalmente a falar.

  • Por quê?

    Smith ponderou sobre se era sensato responder e concluiu que teria que se arriscar a revelar alguma coisa do que sabia. Afinal, fora ali para pedir ajuda.

  • Há alguns dias Bill me contatou, promoveu um encontro secreto no parque Rock Creek e me advertiu de que eu poderia estar correndo perigo. Estou em perigo e preciso saber mais sobre o que ele sabia então e o que sabe agora.

  • É perfeitamente lógico. Posso saber de que perigo se trata?

  • Alguém quer me matar.

  • E você não sabe quem é?

  • Em poucas palavras, não, não sei.

    Forbes olhou em torno das mesas vazias.

    —As circunstâncias, o que chamamos de ambientação do perigo, você não está disposto a revelar detalhes, não é mesmo?

  • Agora não. Só preciso encontrar Bill.

  • O Bureau é muito grande. Por que eu?

    —Lembro-me de B ill dizer que você era o único amigo com quem contava lá. Em todo caso, o único em quem confiava. Sabia que você ficaria incondicionalmente ao lado dele, mesmo quando a sorte fosse adversa.

    O que era verdade, Forbes bem o sabia, e marcava mais um ponto para Smith. Bill só diria isso a outra pessoa em quem confiasse plenamente.

  • Ok. Agora me fale de você e Bill.

    Smith descreveu a infância dos dois juntos, o colégio e a univer­sidade, enquanto Forbes ouvia, comparando com o que Bill lhe havia contado e o que ficara sabendo através da ficha funcional, que estudara depois que Griffin desaparecera. Tudo parecia conferir.

    Forbes tomou mais um gole de café. Inclinou-se para frente e contemplou suas mãos segurando a caneca. Seu tom de voz era baixo e sério.

    Bill salvou minha vida. Não apenas uma vez, mas duas. Éramos companheiros de trabalho e amigos e muito mais. Muito, muito mais que isso. Ele ergueu a cabeça e olhou para Smith. Certo?

    Enquanto Forbes olhava para ele, Smith tentou ver por trás dos seus olhos. Havia um mundo de significados e interpretações naquela palavra isolada seguida de um ponto de interrogação. Significaria por acaso que eram tão íntimos, tão ligados um ao outro, que havia coisas entre ele e Bill que o Bureau desconhecia? Regras infringidas em cumplicidade? Coberturas que se tinham dado reciprocamente? Leis que tinham violado? Fazíamos coisas, certo? Não faça perguntas. Não entremos em detalhes. Digamos apenas que, quando se trata de Griffin, podem contar comigo para ajudar. Também se pode contar com você?

    Smith tentou:

  • Sabe onde ele está?

  • Não.

  • Pode entrar em contato com ele?

  • Talvez. Forbes bebia o café mais como uma maneira de encher o tempo do que propriamente porque quisesse. Ele não pertence mais ao Bureau. Creio que não sabia disso.

  • Sabia, sim. Ele me disse quando nos encontramos. O que não sei é se devia acreditar nele. Ele podia estar trabalhando secretamente.

  • Não, ele não está trabalhando sob disfarce. Forbes hesitou. Finalmente continuou. Ele veio da inteligência do exército, conhe­cida pela sua liberdade de ação, e o Bureau tem regras inflexíveis. Regras para tudo. Perguntas para cada passo que você dá, apesar dos bons resultados. Uma papelada inferna! a ser preenchida para as menores coisas. Bill era muito independente. A iniciativa própria não era vista com bons olhos pelos chefões. Quanto mais a iniciativa secreta. O Bureau gosta que seus agentes reportem em triplicata cada suspiro que dão. Bill jamais poderia aceitar isso.

    Smith sorriu.

  • Decididamente esse nunca foi o seu estilo.

    —Meteu-se em encrencas. Insubordinação. Não era talhado para trabalhar em equipe. Muitas vezes também fui acusado dessas coisas. Mas Bill foi mais longe. Desobedeceu a regras e enveredou por atalhos, e nem sempre prestava conta de suas ações ou de suas despesas. Foi acusado de malversação de fundos. Quando fazia acordos para encerrar um caso, o Bureau muitas vezes se recusava a honrar os que envolviam marginais particularmente famigerados. Tornaram as coisas muito difíceis para Bill, e ele finalmente ficou desgostoso.

  • Pediu demissão?

    Forbes enfiou a mão no bolso para apanhar um lenço. Smith viu a grande Browing de 10mm no seu coldre de ombro. O Bureau ainda acreditava que seus agentes é que deviam portar as armas maiores. Forbes enxugou o rosto. Estava visivelmente preocupado. Não com ele. Mas com Bill Griffin.

  • Não exatamente — disse ele. Ele conhecera alguém num caso de fraude de impostos, alguém com muito dinheiro e poder. Nunca cheguei a saber quem era. Bill começou a faltar às reuniões, nunca era visto no Hoover Building entre uma missão e outra. Quando era enviado para trabalhar num escritório de campo, às vezes passava dias seguidos sem aparecer. Fracassou numa investigação, e sinais de alto padrão de vida não condizentes com seus vencimentos tornaram- se indisfarçáveis muita grana rolando, a história de sempre. O diretor reuniu provas de que Bill estava fazendo horas extras para o sujeito da fraude tributária, e o que ele vinha fazendo passava da conta intimidação, abuso de autoridade para dobrar indivíduos, esse tipo de coisas. No Bureau, se você trabalha para o Bureau, você representa o Bureau. Ponto final. Foi despedido e foi trabalhar para alguém. Tive a impressão de que era o cara da evasão de impostos para quem já vinha prestando serviços. Forbes sacudiu a cabeça, pesarosamente. Não o vejo há mais de um ano.

    Smith tentou olhar a rua pela parede envidraçada, mas havia muitos cartazes colados no vidro sujo.

  • Posso compreender suas razões para se sentir frustrado, desgostoso. Mas ir trabalhar para um sujeito como esse! Intimidar pessoas? Isso não condiz com Bill.

  • Chame do que quiser: desgosto, desilusão, princípios traídos. Forbes deu de ombros. Pela sua óptica, ninguém estava realmen­te interessado em fazerjustiça no Bureau. O que importava eracumprir o regulamento. A lei. E, naturalmente, também deveria querer dinhei­ro e poder. Ninguém vira a casaca de repente, como um crente que perdeu a fé.

  • E você acha que está tudo bem?

    Não é uma questão de achar que está ou não está bem. É o que Bill quer, e eu não questiono sua decisão. Para mim ele continua sendo um cara legal.

    Smith considerou tudo o que acabara de ouvir. A situação em que se encontrava era semelhante à que fora a de Bill. Em vez de Bureau, era o exército que o estava traindo, e qual era a distância que o separava da ilegalidade, o que o distinguia de um malfeitor? Estava sendo acusado de ter se ausentado sem autorização, era um foragido da lei. Quem era ele, portanto, parajulgar Bill? Aquele homem do FBI era um amigo mais fiel do velho amigo de Smith do que ele próprio?

    As ações e atitudes morais nem sempre são tão absolutas quanto gostaríamos de pensar que fossem.

  • Não sabe onde ele está. Ou onde se encontra o homem com quem ou para quem trabalha.

    Forbes disse:

  • Não sei onde ele está, e nem mesmo sei se ele ainda trabalha para o mesmo sujeito. E só um palpite, na verdade nunca soube quem era o cara.

  • Mas pode entrar em contato com Bill?

    Forbes piscou os olhos devagar.

  • Digamos que posso. O que quer que eu diga a ele?

    Smith já tinha pensado nisso.

  • Que eu segui o conselho dele. Que sobrevivi, mas que eles assassinaram Sophia. Que sei que eles têm o vírus. Mas não sei o que estão planejando, e que preciso falar com ele.

    Forbes estudou o atlético soldado-cientista. O FBI tinha sido informado da preocupante situação provocada pelo vírus desconheci­do, e até da morte da Dra. Sophia Russell. Um memorando do exército também tinhachegado naquela manhã, declarando Smith AWOL uma ameaça para a integridade da investigação, cujos fatos tinham sido classificados como top secret pela Casa Branca. O memorando pedia ao Bureau para procurar Smith e, se o encontrasse, para devolvê-lo ao Forte Detrick devidamente escoltado.

    Mas toda uma existência aprendendo a julgar pessoas, às vezes numa fração de segundo em que sua vida dependia do resultado, tornara Forbes seguro de sua capacidade de avaliação. Smith não era o inimigo. Se alguma coisa ameaçava a integridade da investigação era a ordem paranóica que afastara os investigadores científicos do campo. O Pentágono não queria mais manchetes sobre agentes de guerra bacteriológica e a possível exposição de nossos soldados durante a Tempestade no Deserto. Como de hábito, estava tirando seus sedentários traseiros da reta.

    — Se conseguir contatá-lo, darei o seu recado, coronel. — Forbes levantou-se. — Uma sugestão. Tenha cuidado com o que fala, e proteja sua retaguarda, seja o que for que planeja fazer. Há uma ordem de prisão contra o senhor, considerado desertor e foragido. Não tente entrar em contato comigo novamente.

    O peito de Smith se contraiu quando ele ouviu a notícia. Não ficou surpreso, mas a confirmação ainda era um choque. Sentiu-se traído e violentado, mas era o diapasão desde que voltara de Londres. Primei­ro, perdera Sophia e agora estava perdendo sua profissão, sua carreira. Sentia a garganta engasgada com vidro moído.

    Enquanto o homem do FBI encaminhava-se para a porta, Smith lançou um olhar ao redor do café com seus esparsos clientes debruçados sobre seus exóticos cafés e chás. Olhou para a saída ainda a tempo de ver Forbes cruzar a porta e sondar a rua movimentada com seu olho experiente. Logo desapareceu, evolou-se como a fumaça do seu café quente. Smith deixou o dinheiro em cima da mesa e saiu furtivamente pela porta dos fundos. Não viu ninguém suspeito nem sedãs pretos estacionados com figuras sinistras no seu interior. Com o pulso acelerado, afastou-se energicamente na direção da distante estação de metrô Woodley.

 

10:03h

Washington, D.C.

Em Dupont Circle, Smith deixou o metrô. O sol da manhã refletia seus raios fulgurantes e quentes sobre o intenso trânsito que circulava em torno do parque. Olhou com naturalidade à sua volta e começou a andar, infiltrando-se na multidão de homens de negócios e funcioná­rios públicos que se deslocava nos dois sentidos da calçada. Seu olhar desviava-se constantemente ao percorrer o labirinto de ruas que abrigavam cafés, bares, livrarias e butiques. As lojas aqui eram mais sofisticadas do que as de Adams-Morgan, e, embora fosse outubro, os turistas puxavam suas carteiras aqui e ali para fazer compras.

Muitas vezes, ao examinar fisionomias, tinha a agridoce impres­são de déjà vu, e por breves e excitantes momentos parecia que vislumbrara o luminoso semblante de Sophia...

Ela não estava morta.

Estava viva e radiosa. Alguns passos à sua frente.

Uma sedutora morena caminhava com o mesmo balanço sexy. Teve de refrear a vontade de andar mais depressa e virar-se para olhá-la. Uma loura tinha os longos cabelos lisos puxados para trás e presos num rabo-de-cavalo idêntico ao que Sophia usava para mantê-los afastados do rosto quando trabalhava. E quando uma mulher passou, deixando um rasto de perfume muito parecido com o de Sophia, seu estômago deu voltas de angústia.

Tinha de superar aquela obsessão, disse a si mesmo severamente.

Tinha muito que fazer. Tarefas cruciais a serem cumpridas, que trariam alguma luz à morte trágica de Sophia.

Deu um profundo suspiro e olhou cautelosamente em volta para verse estava sendo seguido. Subiu a avenida Massachusetts no sentido de Sheraton Cirele e Embassy Row. A meio caminho de Sheraton, fez uma última manobra para despistar qualquer possível esquema de vigilância. Entrou furtivamente numa galeria de arte que acabara de inaugurar uma exposição com obras da Coleção Phillips. Atravessou apressadamente amplos salões exibindo notáveis Renoirs e Cézannes, provocantes Rothkos e O' Keeffes, e escapuliu por uma porta lateral de incêndio. Parou, apoiou-se no edifício e sondou os pedestres e automó­veis que passavam.

Finalmente deu-se por satisfeito. Ninguém o vigiava. Se acaso alguém o estivesse perseguindo, homem ou mulher, ficara para trás. Voltou rapidamente para a avenida Massachusetts e o seu Triumph estacionado numa rua transversal.

Depois de ter ouvido na noite anterior o noticiário televisivo, dando conta da morte de Kielburger e de Melanie Curtis e da acusação de foragido que pesava contra ele, intensificara essas manobras evasivas. Antes do raiar do dia acordara em Gaithersburg, despertado pelo alarme interno de que são dotados todos os cirurgiões de combate no campo. Estava banhado em suor depois de uma noite sonhando com Sophia. Obrigou-se a tomar um café da manhã reforçado e estudou o trânsito matinal que começava a se avolumar na estrada e o tráfego dos helicópteros que o monitoravam. Tomou banho de chuveiro, barbeou-se e, determinado, botou o pé na estrada às sete.

Havia ligado parao agente especial Forbes de um telefone público e cruzara o Potomac, entrando em Washington. Dera umas voltas antes de estacionar o Triumph na Embassy Row e pegar o metrô para ir ao encontro de Forbes.

Na volta, ao retomar o Triumph, dirigira-se tranqüilamente a uma rua residencial movimentada entre Dupont e Washington Circles onde uma tabuleta ostensiva assinalava a entrada de um estreito acesso de veículos, ladeado por uma cerca viva alta e malcuidada: PROPRIEDA­DE PARTICULAR —MANTENHA DISTÂNCIA! Embaixo da tabuleta maior havia outras menores: ENTRADA PROIBIDA. VENDEDORES, COBRADORES, PEDINTES, SUMAM!

Smith não tomou conhecimento das tabuletas e penetrou na entrada de carros. Escondido atrás da cerca viva, havia um pequeno bangalô branco de madeira. Estacionou diante de um muro de tijolos que conduzia à porta da frente.

Assim que pôs o pé no chão, uma voz mecânica advertiu: "Pare! Declare seu nome e o objetivo de sua visita. Se não o fizer em cinco segundos, serão tomadas medidas defensivas." A voz cava parecia emanar do céu com uma autoridade divina.

Smith sorriu. O dono do bangalô era um gênio eletrônico, e a superfície da entrada de carros estava minada com uma série de armadilhas que variavam de uma nuvem de gás lacrimogêneo a um spray sulfuroso que impregnava as vítimas com um fedor insuportá­vel. O proprietário o velho amigo de Smith, Marty Zellerbach tinha sido intimado algumas vezes no passado a comparecer perante os tribunais, respondendo a processos instaurados por irados vendedo­res, aferidores de relógios de luz, gás e água, carteiros e entregadores.

Mas Marty possuía dois diplomas de Ph.D. e sempre depunha de maneira conciliadora e responsável, conquanto um tanto ingênua. O fato de ser extremamente rico e assessorado pelos melhores advoga­dos obviamente ajudava. Seus argumentos eram candentes, convin­centes. Suas vítimas não podiam alegar que não tinham visto seus avisos. Sabiam que estavam invadindo uma propriedade particular. Tinham sido solicitadas a cumprir uma exigência de identificação perfeitamente razoável para um deficiente físico que vivia sozinho. Tinham sido prevenidas.

Seus métodos insólitos de segurança, embora irritantes, não chegavam a ser letais, nem mesmo seriamente danosos. Sempre ganhara as ações movidas contra ele, e depois de alguns incidentes a polícia desistiu de registrar as ocorrências e passou a aconselhar os queixosos a pleitearem acordos financeiros e deixarem de perturbar o excêntrico ermitão.

  • Até comigo, Marty disse Smith, achando graça —, é o seu velho camarada, Jonathan Smith.

    Houve uma hesitação de surpresa. Logo em seguida:

  • Aproxime-se da porta da frente usando o caminho de tijolos. Não pise fora dele para não ativar as medidas defensivas. A voz afetada subitamente cedeu lugar a palavras denotando preocupação. Cuidado, Jon. Não quero que você acabe fedendo como um gambá.

    Smith tomou o caminho que Marty descreveu. Raios laser invisíveis varriam toda a propriedade. Um passo em falso fora do caminho, ou uma intrusão indevida poderiam precipitar sabe-se lá o quê.

    Ele subiu os degraus da entrada coberta.

  • Prenda os cachorros, Marty. Cheguei. Abra a porta.

    De algum lugar do interior da casa veio a voz persuasiva:

  • Você tem de seguir as regras, Jon. Ponha-se na frente da porta. Abra a caixa à direita e coloque sua mão esquerda no vidro.

  • Oh, por favor — disse Smith sorrindo.

    Um par de ominosas chapas metálicas cobrindo a porta abriu-se, revelando tubulações que poderiam conter qualquer coisa, desde pistolas de tinta até lançadores de foguetes. Marty sempre demonstra­ra uma alegria infantil por idéias e brincadeiras que a maioria das pessoas esquece na adolescência. Mas Smith postou-se esportivamente na frente da porta, abriu a caixa de metal, e pousou a mão na placa de vidro. Conhecia a rotina: uma câmera de vídeo batia uma foto digital do seu rosto, e instantaneamente o supercomputador de Marty converteria as medidas faciais numa série de valores numéricos. Ao mesmo tempo, a placa de vidro registrava a impressão palmar de Smith. Depois o computador comparava os dados coletados com os códigos de barra que mantinha arquivados de todas as pessoas que Marty conhecia.

    Uma voz cavernosa anunciou:

  • Você é o tenente-coronel Jonathan Smith. Portanto, pode entrar.

  • Obrigado, Marty — disse ele secamente. — Há muito tempo que vinha querendo saber quem eu era.

  • Muito engraçado, Jon.

    Seguiu-se uma série de ruídos de engrenagens e a porta de madeira coberta com as chapas metálicas abriu-se, deslizando num trilho rangente. Manutenção não era uma das prioridades de Marty, mas a teatralidade era. Smith deu um passo à frente, entrando num vestíbulo tradicional exceto por um imponente detalhe — seu avanço foi interrompido por uma gaiola de metal. Enquanto a porta da frente se fechava automaticamente atrás dele, Smith viu-se cercado por grades semelhantes às de um cárcere.

    —Oi, Jon — saudou-o a voz alta, arrastada, precisa de Marty, vin­do de trás do vestíbulo. Quando a porta da gaiola se abriu, Marty apareceu na soleira de uma porta lateral. — Entre, por favor. — Seus olhos brilhavam travessamente.

    Era um homem pequeno, rotundo, que andava com dificuldade, como se realmente nunca tivesse aprendido a movimentar as pernas. Smith seguiu-o até uma enorme sala cercada de computadores na mais completa desordem e negligência. Um formidável mainframe Cray e todos os tipos possíveis e imagináveis de equipamento cobriam uma parede inteira e grande parte do chão, e os poucos móveis existentes mais pareciam refugos do Exército da Salvação. Grades de aço protegiam as janelas recobertas com cortinas.

    A mão direita de Marty permaneceu frouxa, inanimada, enquanto ele cumprimentava Smith com a esquerda, e seus olhos verdes, vivos, desviavam-se para a parede com o equipamento de computadorização à esquerda.

  • Fazia muito tempo, Marty. Que bom ver você — disse Smith.

  • Obrigado. O mesmo digo eu. — Ele sorriu timidamente, e seus olhos verdes registraram um esfuziante contato, que logo se dispersou.

  • Tem seguido seu tratamento, Marty?

  • Oh, sim — disse ele, não parecendo muito feliz. — Sente-se, Jon. Quer um pouco de café com biscoitos?

    Martin Joseph Zellerbach — doutor em Filosofia e Letras — fora paciente do tio Ted de Smith, psiquiatra clínico, desde os tempos em que Smith e Marty eram colegas de colégio. Muito mais ajustado e socialmente amadurecido, Smith acolhera Marty sob suas asas, protegendo-o das maldosas provocações das outras crianças e até mesmo de alguns professores. Marty não tinha nada de estúpido ou retardado. Muito pelo contrário, revelara-se superdotado desde os cinco anos, e Smith sempre o achara muito engraçado, bom e intelectualmente estimulante. Com os anos, Marty tornara-se ainda mais inteligente — e mais arredio. No colégio, destacava-se nas rodas acadêmicas, mas não se interessava por outras pessoas e em manter relações com os colegas — tão importantes na puberdade e na adolescência.

    Demonstrava uma curiosidade obsessiva pelos assuntos mais inusitados e gostava de dissertar sobre eles. Sabia todas as respostas na maioria dos cursos que freqüentava. Por isso, para aliviar seu tédio, quebrava a monotonia das aulas com suas delirantes fantasias e manias. Ninguém podia acreditar que alguém tão superiormente dotado quanto Marty não estivesse sendo intencionalmente rude ou criando casos, o que levava seus professores a enviá-lo com freqüência à presença do diretor. Anos mais tarde, Smith teve que brigar com garotos enraivecidos que achavam que Marty os provocava e às suas namoradas.

    Todo esse estranho comportamento resultava da síndrome de Asperger, um distúrbio raro na ponta menos crítica do espectro do autismo. Rotulado na infância de todas as maneiras, desde "traços de autismo" a desequilíbrio obsessivo-compulsivo e autismo de alto grau, Marty finalmente foi diagnosticado corretamente pelo tio de Smith. Os sintomas básicos de Marty eram obsessões devastadoras, alto coeficiente de inteligência, total inaptidão social e de comunica­ção e talento fora do comum numa área específica — eletrônica.

    Nas manifestações mais amenas, os portadores do mal de Asperger eram freqüentemente descritos como indivíduos "ativos mas esquisi­tos" ou "autistas excêntricos". Mas o caso de Marty era um pouco mais grave, e, a despeito das tentativas dos especialistas para o socializa­rem, com exceção de duas breves idas a um tribunal há muito tempo, ele não se ausentara do seu bangalô — que criara cuidadosa e carinhosamente em parte como um paraíso eletrônico e em parte como um refúgio para suas excentricidades em mais de quinze anos.

    Não havia cura, e o único alívio para pessoas como Marty eram os medicamentos, geralmente estimulantes do sistema nervoso central como Adderall, Ritalin, Cylert, ou o novo que Marty tomava Mideral. Como nos casos de esquizofrenia, os remédios permitiam a Marty funcionar com ambos os pés firmemente plantados no chão. Moderavam suas fantasias, entusiasmos e obsessões. Embora os detestasse, tomava-os quando sabia que tinha que desempenhar ativi­dades "normais" tais como pagar contas ou quando sua disfunção ameaçava deixá-lo completamente fora de controle.

    Mas uma vez medicado, Marty achava tudo monótono e distante, perdendo grande parte de sua genialidade e criatividade. Por isso, adotara entusiasticamente o novo medicamento que agia rapidamente, acalmando-o como quase todos os outros faziam, mas cujo efeito durava apenas seis horas no máximo, o que significava que devia tomar uma dose com mais freqüência. Vivendo segregado no seu bangalô, ele podia ficar mais tempo sem tomar seus remédios do que a maioria dos portadores da síndrome de Asperger.

    Se se precisasse de um gênio da computação para fazer trabalhos criativos, talvez ilegais, a pessoa indicada era sem sombra de dúvida Marty Zellerbach, deixando os remédios de lado. Cabia a você mantê-lo nos trilhos e saber quando era chegado o momento de trazê-lo de volta à terra caso ele ameaçasse entrar em órbita.

    O que era, em última análise, a razão de Smith ali se encontrar.

  • Marty, preciso de sua ajuda.

  • Claro, Jon. Marty sorriu, com uma caneca manchada na mão. Está quase na hora de tomar uma nova dose do remédio. Não vou tomar.

  • Esperava que você dissesse isso. Smith explicou sobre o relatório do Instituto Príncipe Leopoldo da Bélgica que parecia não existir. Sobre os telefonemas que Sophia poderia ter dado ou recebido e o desaparecimento do livro de anotações. Sobre sua necessidade de obter informações a respeito do vírus desconhecido em qualquer parte do mundo. Mais duas ou três coisas. Quero saber onde encontrar Bill Griffin. Você certamente se lembradele do colégio.Finalmen­te descreveu sua descoberta das três vítimas do vírus na Guerra do Golfo e na unidade do MASH.Veja se consegue localizar qualquer coisa sobre o vírus no Iraque nos últimos dez anos.

    Marty largou sua caneca de café e partiu direto para o mainframe, exibindo um sorriso entusiástico.

  • Vou usar meus novos programas.

    Smith se levantou.

  • Voltarei dentro de mais ou menos uma hora.

  • Tudo bem. Marty esfregou as mãos. Vai ser divertido.

    Smith deixou-o trabalhando, com os dedos emperrados, desajei­tado, no teclado. O efeito do remédio logo cessaria, e então, Smith sabia, os dedos e o cérebro voariam até quase decolarem da terra, e Marty teria de tomar seu Mideral novamente.

    Na rua, Smith encaminhou-se apressadamente para o seu Triumph. Enquanto o trânsito escoava lenta e ruidosamente, ele não notou um helicóptero parar no ar e depois seguir, descrevendo uma ampla curva até emparelhar com o carro dele, que rumava para a avenida Massachusetts.

    O barulho dos rotores e o vento através da janela aberta do Bell JetRanger faziam o aparelho vibrar. Nadal al-Hassan encostou a boca no microfone.

  • Maddux? Smith visitou um bangalô perto de Dupont Circle. Ele localizou o bangalô num mapa da cidade e descreveu a entrada de veículos oculta e a cerca viva alta. Descubra quem mora nessa casa e o que Smith foi fazer lá.

    Desligou o microfone e olhou para baixo, para o velho e clássico Triumph que se dirigia para Georgetown. Pela primeira vez, al-Hassan sentiu-se inquieto. Não era certamente um estado de espírito que comunicaria a Tremont, mas que o faria não perder Smith de vista. Mesmo que se pudesse confiar nele, Bill Griffin não bastava para pôr fim à ameaça.

 

10:34h

Washington, D.C.

Bill fora casado por pouco tempo, e Smith estivera com a mulher dele duas vezes antes de o casal resolver se casar. Nas duas ocasiões tinham passado uma noite alegre, percorrendo os bares barulhentos de Nova York que Bill freqüentava quando estava no exército. Naquele tempo, Bill sentia-se bem nesses bares agitados, talvez porque passava a vida em lugares remotos, em terras estrangeiras, onde cada passo podia ser o último e cada ruído um inimigo. Smith não sabia quase nada sobre a mulher ou o casamento, exceto que durara menos de dois anos. Ouvira dizer que ela ainda morava no mesmo apartamento de Georgetown em que vivera com Bill. Se Bill estivesse correndo perigo, era possível que tivesse se refugiado ali, onde poucas pessoas pensariam em procurá-lo.

Era uma possibilidade duvidosa, mas afora Marty, tinha poucas opções.

Quando chegou ao edifício dela, usou o telefone celular para chamá-la.

Ela atendeu pronta e eficientemente.

—- Marjorie Griffin.

  • Sra. Griffin, talvez não se lembre de mim, sou Jonathan Smith, amigo de Bill.

  • E claro que me lembro, capitão Smith. Ou agora seria major ou coronel?

  • Não sei exatamente o que sou, e de qualquer maneira não tem importância, mas até ontem era tenente-coronel. Vejo que conservou o nome de casada.

  • Eu amava Bill, coronel. Pena que ele amasse seu trabalho mais do que a mim. Mas é evidente que não ligou para mim para saber do meu casamento ou do meu divórcio. Está à procura do Bill, certo?

    Ele procurou ser cauteloso.

  • Bem...

  • Não se acanhe. Ele me disse que possivelmente você tele­fonaria.

  • Tem visto ele?

    Houve uma pausa.

  • Onde está?

  • Em frente ao seu edifício. O Triumph.

  • Vou descer.

    Na grande sala caótica, atravancada com terminais de computadores, monitores, painéis e circuitos, Marty Zellerbach inclinou-se para frente, tentando se concentrar. Pilhas de folhas impressas amontoavam-se ao lado de sua cadeira. Um rádio-receptor emitia estática enquanto escutava os guinchos e bips de transmissões de dados. As cortinas estavam fechadas e o ar fresco e seco tornavam o ambiente quase claustrofóbico, o que era bom para o equipamento e para Marty. Ele estava sorrindo. Usara os códigos de Smith para se conectar com o sistema de computação do US AMRIID e acessar o provedor. Agora é que as coisas iam começar a acontecer para valer. Sentiu uma profunda emoção ao percorrer os vários catálogos até achar a senha do arquivo do administrador do sistema. Esboçou um sorriso de escárnio. Os dados estavam embaralhados.

    Mudou o quadro e achou o arquivo que revelava que o provedor do USAMRIID usava o sistema Popcorn — um dos mais recentes sistemas criptográficos. Acenou com a cabeça, satisfeito. Era um software de primeira, o que significava que o laboratório estava em boas mãos.

    Só que não contavam com Marty Zellerbach. Usando um progra­ma que inventara, configurou seu computador para procurar a senha, misturando cada palavra do Webster's Unabridgede os diálogos dos quatro filmes Guerra nas estrelas, da série de televisão Jornada nas estrelas e de Flying Circus, do grupo Monty Python, com todas as novelas de J. R. R. Tolkien — todas favoritas dos cibernautas.

    Marty deu um pulo da cadeira e pôs-se a andar de um lado para outro com as mãos nas costas, com seu jeito canhestro de se movimen­tar como se a sala fosse o convés de um navio corsário em alto-mar, e ele fosse o capitão. Seu programaera incrivelmente rápido. Contudo, como qualquer mortal, tinha que esperar. Hoje em dia, os melhores piratas são capazes de escamotear a maioria das senhas, penetrar até nos computadores do Pentágono e fugir como bandoleiros do Velho Oeste pelas vastas pradarias da Internet. Por essa razão, grandes corporações e órgãos governamentais aumentam e aperfeiçoam inces­santemente seus dispositivos de segurança. Para furar essas barreiras Marty produzia seus próprios programas e criava seus próprios scanners para detectar falhas e fraquezas do sistema e penetrar onde outros não conseguiam.

    De repente ouviu seu computador emitir o som da campainha do velho programa de televisão Leave It to Beaver — ding-dong-ding. Contendo o riso, ele correu de volta para sua cadeira, girou-a para ficar de frente para o monitor e exultou. A senha era sua. Não era das mais imaginosas Betazóide, tirada do nome dos nativos extra-sensíveis do planeta de Jornada nas estrelas chamado Beta. Não tivera que recorrer ao seu rastreador de senhas mais sofisticado, dotado de um dispositivo baseado em números fortuitos, que evitava todas as palavras reais. Com a senha do arquivo do administrador do sistema, ele adquiriu não só o PI Protocolo da Internetinterno do sistema, como o endereço. Agora estava de posse da planta da rede de computação do USAMRIID e logo teria acesso a todos os arquivos e poderia trocar, apagar e rastrear todos os dados. Era Deus.

    Para ele, o que Jon Smith pedira não era brincadeira de criança, mas também não significava que teria que galgar o monte Everest. Rapidamente Marty escaneou todas as mensagens no e-mail do Instituto Príncipe Leopoldo, mas todas se limitavam a relatar o insucesso das tentativas de classificar o novo vírus. Não era bem o que Jon queria ouvir. Para a maioria das pessoas, caso houvesse mais alguma informação do laboratório, certamente teria sido apagada, destruída. Os pesquisadores desistiriam.

    Marty, porém, não desistia facilmente. Acionou outro programa de busca para exam inar os espaços e brechas entre os dados. À medida que o sistema era alimentado com mais dados, os novos substituíam os velhos, e uma vez substituídos, supostamente tornavam-se irrecuperáveis. Quando seu programa não encontrou mais vestígios de qualquer outro e-mail do laboratório belga, Marty chegou à conclusão de que fora isso que provavelmente acontecera naquele caso.

    Jogou a cabeça para trás e esticou os braços para o alto. O efeito sedativo do seu remédio cessara. Um frêmito percorreu-lhe o corpo quando seu cérebro pareceu adquirir a clareza de um diamante. Baixou os olhos e viu seus dedos voando sobre o teclado numa corrida desenfreada para poderem acompanhar a velocidade do seu raciocí­nio. Instruiu seu programaparafazerumabuscadiferente, concentran­do-se dessa vez em fragmentos do nome, endereços de e-mails e outros detalhes identificadores. Com inacreditável velocidade, o programa procurou... e apareceram dois pequenos segmentos do nome do laboratório Inst opold.

    Com um grito incontido, ele seguiu as pegadas do e-mail vestígios de dados e números, quase um rastro perfumado para Marty da Carteira de Compensação de Recursos Médicos Federais do Instituto Nacional de Saúde e de um terminal acessado somente com a senha da diretora, Lily Lowenstein. Daí, seguiu penosamente as pegadas até chegar ao Instituto Príncipe Leopoldo.

    Seus olhos verdes faiscaram quando ele berrou:

    E agora: sua besta apocalíptica! Era uma referência a Lewis Carroll e ao monstro mítico de "Através do espelho". Escondido num arquivo-reserva do sistema de linguagem do instituto ele localizara uma cópia do relatório.

    O relatório tinha sido enviado por e-mail pelo Instituto Príncipe Leopoldo de Medicina Tropical para todos os laboratórios de Nível Quatro do mundo. Após uma rápida checada, era evidente que Jon poderia achá-lo útil. Foi cerrando o cenho à medida que suas suspeitas aumentavam. Alguém o tinha apagado não só no seu site original, no computador central do Instituto Príncipe Leopoldo, como no endereço dos vários destinatários. Ou, supostamente, era isso o que teria acontecido. E isso era o que o operador médio, o hacker comum, e até mesmo a maioria dos técnicos em segurança eletrônica teriam achado.

    Mas não Marty Zellerbach. Costumava ser procurado por outros gênios cibernéticos em busca de soluções para problemas inéditos e para insights sobre o que nunca tinha sido feito. Não possuía outros títulos além dos seus Ph.Ds. em física quântica e matemática e literatura e só trabalhava para si mesmo. Como uma baleia encalhada na praia, no mundo físico ele se debatia e ofegava e inspirava piedade e escárnio, mas nas profundezas eletrônicas do oceano cibernético, ele evoluía suave e poderoso. Lá ele era rei Netuno e simples mortais rendiam-lhe homenagem.

    Rindo de contentamento, ele fez um floreio com o dedo como se fora um espadachim e pôs-se de pé. Apertou o comando de impressão. Enquanto fazia uma pirueta desajeitada, a máquina cuspiu o relatório. Não havianada mais gratificante para Marty do que fazer alguma coisa que ninguém mais era capaz de fazer. Era uma pequena recompensa por uma vida solitária, e nos seus momentos de recolhimento ele ocasionalmente considerava isso.

    Mas no fundo... a verdade era que ele olhava com superioridade para os medíocres, levando suas vidinhas bitoladas e mantendo espúrios relacionamentos. Uau! A despeito de sua síndrome de Asperger, de sua permanente dependência de medicamentos, estima­va que nos últimos quinze anos de raras escapadas para além das paredes de seu bangalô, tivera mais relacionamentos do que a maioria das pessoas durante toda uma vida. O que era, em nome de Deus, que os idiotas da periferia pensavam que ele fizera durante todo esse tempo? Para que achavam existia o e-mail? Pobres imbecis!

    Apanhando o relatório, agitou-o no ar como se fosse a cabeça decepada de um inimigo.

    Vírus monstruosos, ninguém pode derrotar o paladino. Eu sou o Paladino! A vitória me pertence.

    Meia hora depois, pegadas do mesmo terminal da CCRMF conduziram-no à antiquada rede eletrônica do governo iraquiano e a uma série de relatórios de um ano atrás sobre um surto de ARDS. Também os imprimiu e continuou surfando pelo sistema cibernético iraquiano à procura de relatórios de qualquer coisa parecida com o vírus desde a Tempestade no Deserto.

    As anotações dos telefonemas de Sophia Russell constituíam um desafio mais sério. Não encontrara vestígios de um invasor na rede telefônica de Frederick. Caso tivesse havido um registro de uma ligação de Sophia Russell para fora, ele teria sido apagado dentro da companhia, e todos os vestígios removidos.

    Todas as tentativas para localizar Bill Griffin através de contatos universitários, médicos, sociais ou qualquer outro vínculo pessoal ou público com o seu passado resultaram invariavelmente na mesma resposta: endereço desconhecido. Marty resolveu então mergulhar no sistema do FBI, onde já penetrara tantas vezes que seu computador quase podia funcionar sozinho. O tempo de que dispunha para tentar localizá-lo era limitado, porque seu Sistema de Detecção de Invasores era dos melhores. Surfou o suficiente para ver que a folha de serviços de Griffin mostrava que ele tinha sido desligado do Bureau. Se havia algum acordo secreto, Marty não encontrou nenhum relatórios clandestinos, comprovantes de pagamento, senhas, nada que indi­casse que ele pudesse estar trabalhando secretamente. Entretanto, a ficha continha uma anotação: o endereço de Griffin que constava não era mais válido, o Bureau não possuía seu endereço atual, e era preciso tê-lo.

    Caramba! Griffin era realmente um fenômeno. Nem mesmo o FBI sabia onde ele estava.

    Muito mais intransponível do que os entraves do FBI e seu SDI era o sistema de inteligência do exército. Quando Marty conseguiu furar o bloqueio, teve de entrar no sistema, ler a ficha pessoal e se retirar rapidamente. Não descobriu o endereço atual de Griffin. Marty coçou a cabeça e comprimiu os lábios. Pareceu-lhe que seu amigo não só tinha querido sumir,como o fizera com extrema competência. Chocante.

    O feito merecia respeito. Embora pessoalmente Marty nunca tivesse gostado de Griffin, tinha que lhe tirar o chapéu. Por isso, recostou-se na cadeira, cruzou os braços e sorriu, não tocando no computador durante agoniados trinta segundos. Era sua maneira de reconhecer o mérito do cara.

    Então, com um meneio reverencioso, abriu uma ficha especial­mente para Bill Griffin. Não estava acostumado a sofrer revezes no mundo cibernético, o que o incomodava e inspirava ao mesmo tempo. Era forçado a admitir que Bill Griffin o tinha derrotado. Mas aquilo não era o fim. Era somente o começo! Não havia nada mais delicioso do que um novo desafio, sobretudo de um adversário da categoria que Bill Griffin estava demonstrando possuir. Por isso, Marty sorriu. Coçou o queixo e condicionou seu cérebro para se lançar na estratos­fera. Para encontrar uma solução na sua prodigiosa imaginação. Era o que fazia quando não estava sob o efeito de seus remédios alçava vôo.

    Mas assim que uma idéia começou a ganhar consistência, deu um pulo, sobressaltado. Seu computador transmitia um som agudo e irradiava uma ofuscante luz vermelha:

    INVASORES! INVASORES! INVASORES!

    Mais excitado do que nervoso, Marty apertou uma tecla. Poderia ser divertido. A tela revelou:

    LOCAIS A e X

    Ele apertou ansiosamente um botão, e dois monitores de alta resolução ganharam vida no alto da parede. No local A, que ficava atrás do bangalô, dois homens pelejavam para passar pela compacta sebe. Mas a cerca viva era muito espessa para ser penetrada e muito alta para ser transposta. Marty vaiava as tentativas frustradas dos dois indivíduos.

    Mas o local X era outra história. Ele engoliu em seco e ficou observando atentamente. Uma van cinzenta sem sinais de identifica­ção estava estacionada na entrada de carros oculta. Dois sujeitos musculosos desceram do veículo, ambos empunhando pistolas semi­automáticas de grosso calibre, e passaram a sondar a propriedade. Com um solavanco de terror, o cérebro-enciclopédia de Marty iden­tificou uma arma como uma antiga Colt .45 1911, e a outra como uma Browning de 10mm do tipo usado atualmente pelo FBI. Aqueles invasores não seriam facilmente escorraçados.

    O corpo retaco e rotundo de Marty estremeceu. Odiava estranhos e violência de qualquer tipo. Sua cara redonda, lustrosa e excitada segundos antes, agora estava pálida e trêmula. Ele estudou a tela enquanto a voz mecânica ameaçava os homens no jardim da frente.

    Tal como suspeitara, eles decidiram não tomar conhecimento das advertências. Correram para os degraus de entrada da casa um assalto!

    Num instante, a disposição de Marty melhorou. Pelo menos poderia se divertir um pouco. Estalou os dedos e deu pulos na cadeira quando seu sistema automático de segurança soltou uma nuvem de gás lacrimogêneo. Os dois homens puseram as mãos nos rostos. Pularam para trás, tossindo e praguejando.

    Marty riu.

    Da próxima vez, ouça quando alguém der a você um bom conselho.

    Nos fundos, a segunda parelha de intrusos empilhara latas de lixo do quintal do vizinho para passar por cima da sebe. Marty não tirou os olhos deles. No momento certo... quando estavam quase alcançando o topo da cerca... ele apertou uma tecla.

    Uma barragem de balas de borracha maciça derrubou-os. Eles caíram de costas no chão do jardim do vizinho.

    Marty nem teve tempo de rir, porque os dois que estavam na frente tinham se recuperado o suficiente para alcançar a porta de entrada, tropeçando pela densa nuvem de gás.

    — Ah, a pièce de résistance! — anunciou Marty.

    Aplaudiu nervosamente quando uma saraivada de maças dispara­das de vigias acima da porta atingiu em cheio os homens, que recuaram atordoados, aos gritos. O mais baixo e troncudo, que parecia ser o chefe do bando, numa guinada cambaleante tentou segurar a maçaneta da porta.

    Marty inclinou-se para frente. A maçaneta reservava uma surpre­sa para o assaltante: deu um choque na mão do sujeito, que gritou e deu um pulo para trás.

    Marty cantarolou, empolgado, e rodopiou na sua cadeira para checar a outra dupla. Os dois que estavam no quintal dos fundos mostravam uma certa engenhosidade. Empurravam o carro deles através da cerca viva e avançavam, rastejando por baixo da varredura de raios laser.

    Marty sorriu ao pensar no que os aguardava: dispositivos de atordoamento instalados nas outras portas e janelas, e gaiolas que os capturariam se eles entrassem nelas.

    Mas todas as defesas, por mais diabólicas que pudessem ser, não eram letais. Marty era um homem visceralmente contra a violência que nunca tivera motivos para temer um perigo mais sério. Seu esquema de segurançavisavaosgrafiteiros, invasores e importunadores de um modo geral — era mais para manter à distância estranhos que pudessem perturbar sua paz. Construíra, inventara, comprara e mon­tara um jogo infantil inspirado nas histórias em quadrinhos e romances de capa e espada com passagens subterrâneas secretas para assegurar as fugas.

    Mas a verdade era que nenhum de seus engenhosos estratagemas era capaz de deter assassinos realmente dispostos a agir num mundo real. Um medo viscoso se entranhou no seu peito. Seu coração começou a bater descompassadamente. Mas ser gênio tinha suas vantagens. Ele havia concebido um plano há doze anos precisamente para esse tipo de emergência. Pegou o controle remoto e as folhas impressas para o Jon, e correu para o banheiro. Apertou um botão do controle remoto e a banheira ergueu-se do chão, recuando contra a parede. Outro toque no controle e a porta de um alçapão se abriu embaixo da banheira. Com o peito confrangido pelo medo, ele desceu a escada, atravessando o porão da casa e indo ter num túnel bem iluminado. Com dois toques no controle remoto, a porta do alçapão se fechou em cima dele, fora de sua vista, e a banheira voltou para o seu lugar.

    Marty respirou fundo, aliviado. Com seu andar arrastado, sinuo­so, ele avançou aos trancos e barrancos na direção de outro alçapão em cima de sua cabeça.

    Segundos depois emergiu num bangalô quase idêntico que tam­bém possuía na rua dos fundos. Este estava vazio e não sofrera nenhuma modificação. Era uma casa deserta, exibindo no jardim uma eterna tabuleta onde se lia A VENDA, e sem nada no seu interior a não ser um telefone. Atrás dele, do outro lado da sebe que separava os bangalôs, ouviu os invasores rogando pragas e gemendo de dor. Mas também ouviu o barulho denunciador de vidros estilhaçados, e se deu conta de que logo eles estariam dentro de sua casa, procurando a passagem secreta por onde fugira.

    Aterrorizado, pegou o telefone e discou.

 

11:07h

Washington, D.C.

A Universidade de Washington foi fundada pelos jesuítas em 1789, a primeira universidade católica romana dos Estados Unidos. Belos edifícios dos séculos dezoito e dezenove erguiam-se no meio de árvores frondosas e alamedas calçadas com pedras, testemunhos de uma época em que a ciência pouco sabia sobre vírus, mas em que a educação começava a ser vista como uma solução para os violentos problemas da sociedade moderna. Olhando pela janela da sala de repouso dos professores, Smith pensou nisso ao admirar o velho campus arborizado.

  • Então você faz parte do corpo docente daqui? disse ele.

  • Professora-adjunta de história. Marjorie Griffin encolheu os ombros melancolicamente. Suponho que Bill nunca lhe tenha dito o que eu fazia. Estava na Universidade de Nova York quando nos conhecemos. Depois vim para cá.

  • Ele não costumava falar muito sobre sua vida particular admitiu Smith. Comentava mais sobre o trabalho e o passado que compartilhamos. Os velhos tempos.

    Ela misturou seu chá distraidamente.

  • As poucas vezes que nos vimos recentemente não chegaram a ser encontros na verdade. Alguma coisa aconteceu com Bill nos últimos anos. Ele se tornou caladão, ensimesmado.

  • Quando foi que vocês estiveram juntos pela última vez, Marjorie?

  • Duas vezes nos últimos dias. Terça-feira de manhã ele apare­ceu aqui em casa. E depois ontem à noite. Ela tomou um gole de chá. Estava nervoso, irritado. Parecia preocupado com você. Assim que entrou, a primeira coisa que fez foi chegar até a janela da frente e olhar a rua. Perguntei-lhe se estava procurando alguma coisa, mas ele não respondeu. Em vez disso, sugeriu uma xícarade chá. Tinha trazido uns croissants da padaria francesa da rua M.

    Uma visita não planejada, ditada por um impulso de momento. Por quê?

    Marjorie Griffin não respondeu na hora. Suas feições se anuvia­ram ao contemplar pela janela o desfile de alunos na alameda de pedra.

  • Talvez estivesse acertando as contas. Embora me recuse a admitir que ele estivesse querendo dizer adeus, no fundo talvez fosse isso. Ela ergueu os olhos, perscrutando a mente de Smith. Pensei que você pudesse saber.

    Ela era, Smith quase teve um choque ao se dar conta, uma mulher bonita. Certamente não como Sophia. Uma beleza calma. Uma certa serenidade inata e inerente à sua profissão. Não exatamente passiva, mas tampouco excessivamente exuberante. Tinha olhos cinza-escuros, grandes, e cabelos pretos presos num coque à francesa. Um estilo simples, descontraído. Maçãs do rosto salientes e um perfil bem delineado do maxilar. Um corpo nas medidas certas: nem gordo nem magro. Smith sentiu uma súbita e perturbadora atração, que não passou de um inesperado e indesejado lampejo, seguido imediatamen­te da dor profunda de uma punhalada de tristeza. Uma pulsação de angústia provocada pela imagem de Sophia rediviva.

  • Há dois dias, agora quase três — disse-lhe ele. Bill me avisou que eu estava correndo perigo. — Descreveu-lhe o encontro secreto no parque Rock Creek, os ataques de que fora vítima, o vírus e a morte de Sophia. Alguém possui o vírus vivo, Marjorie, e matou Sophia, Kielburger e sua secretária com ele.

  • Santo Deus! Seu belo rosto alterou-se, estampando uma expressão de horror.

    Não sei quem é ou qual sejam suas intenções, só sei dizer que vem impedindo de todas as maneiras que eu descubra a verdade. Bill está trabalhando com ou para esse bando de celerados.

    Ela cobriu a boca com a mão.

  • Não, não diga uma coisa dessas. Isso não é possível!

  • Se não fosse assim, como é que ele poderia saber do perigo que eu corria e ter me procurado para me prevenir? O que estou tentando tirar a limpo é se ele está infiltrado no grupo, agindo secretamente, ou se aderiu às forças do mal. — Ele hesitou antes de finalizar. — O melhor amigo dele no FBI me disse que ele não foi incumbido de uma missão secreta.

  • Lonny Forbes. Sempre gostei do Lonny. — Ela comprimiu os lábios e sacudiu a cabeça, compungida. — Bill está mais duro, mais cínico. Nas duas vezes em que o vi, alguma coisa realmente o perturbava. Pareceu-me que era algo de que não se sentia orgulhoso, mas que não deixaria de fazer pelo fato do mundo ser como é. — Ergueu a xícara de chá, que estava vazia, e ficou olhando fixamente para o fundo. —Naturalmente, estou apenas fazendo suposições sobre ele. Não me casarei mais. Saio de vez em quando com um homem bom, mas as coisas nunca irão além disso. Bill foi o grande amor de minha vida. Mas sua paixão sempre foi seu trabalho, e, de certo modo, ele agora se sente traído. Pode-se dizer que perdeu a fé.

    Smith compreendeu.

    —Num mundo destituído de valores a não ser o do dinheiro, ele quer o seu quinhão. Tem acontecido com outros. Cientistas que se vendem muito caro. Fixam um preço alto para erradicar doenças, curar males, salvar vidas. Total e abjeta inconsciência.

  • Mas ele não podia traí-lo — disse Marjorie. — Por isso está dilacerado pelo conflito.

  • Ele já me traiu. Sophia está morta.

    Quando ela abriu a boca para protestar, o celular de Smith tocou. Cabeças molestadas se voltaram no salão de estar dos professores.

    Smith tirou o telefone do bolso.

  • Sim?

    Era Marty, cuja voz soou excitada e apavorada.

  • Jon, sempre afirmei que o mundo não é lugar seguro. — Fez uma pausa e suspirou. — Agora mesmo estou vivendo essa dolorosa realidade. Na própria carne. Estou cercado por um bando de invasores. São pelo menos quatro. Estão dentro da minha casa. Se me acharem, vão me matar. Essa é a sua área de especialização. Você precisa me salvar!

    Mantendo a voz baixa, Smith perguntou:

  • Onde é que você está?

    —Na minha outra casa. — Ele deu o endereço. De repente sua voz sumiu, tremendo de pavor. — Depressa!

  • Estou a caminho.

    Smith se desculpou com Marjorie Griffin, rabiscou o número do seu telefone num pedaço de papel e pediu-lhe que 1igasse para ele caso Bill aparecesse novamente. Deixou o salão apressadamente.

    Ao passar de carro pela casa de Marty, Smith viu uma van cinza estacionada na entrada de veículos. Não parecia haver ninguém dentro dela, e a sebe alta e as cortinas fechadas escondiam o interior da casa. Vistoriou tudo ao redor e não viu nada suspeito. Havia os ruídos habituais do trânsito intenso. Smith manteve-se alerta enquanto dava a volta no quarteirão, e finalmente embicou o carro na entrada da garagem de um bangalô diretamente atrás do bangalô de Marty. No gramado da frente via-se uma placa enferrujada, anunciando que a casa estava à venda.

    Na janela da frente da casa, percebia-se um vulto, que de repente transformou-se no rosto assustado de Marty pouco acima do peitoril.

    Smith correu para a porta de entrada.

    Marty abriu-a, apertando contra o peito um maço de folhas de papel e um controle remoto.

    Entre logo. Depressa. Se você fosse a Florence Nightingale, a essa hora eu já estava morto. Por que demorou tanto?

  • Se eu fosse a Florence Nightingale, não estaria aqui. Estaría­mos em séculos diferentes. Smith trancou a porta e sondou a sala vazia enquanto Marty checava a janela da frente. — Conte-me tudo o que aconteceu.

    Marty abaixou a persiana da janela e descreveu os quatro estra­nhos, suas armas e suas tentativas de penetrar no bangalô. Enquanto isso, Smith percorria os aposentos da casa, verificando as fechaduras das portas e das janelas, com Marty nos seus calcanhares. As cortinas estavam fechadas, e os cômodos na penumbra, vendo-se apenas frestas deixando entrar réstias de sol e partículas de poeira flutuando no ar. O lugar estava vazio, e tão seguro quanto qualquer outra casa comum poderia estar. O que não era lá essas coisas.

    Finalmente Marty terminou seu relato com um corolário de especulações.

  • Você está certo disse Smith sem demonstrar excessiva preocupação para não apavorar ainda mais o amigo —, daqui a pouco eles vão começar a fuçar as casas da vizinhança.

  • Excelente. Era tudo o que eu queria ouvir. Marty sorriu debilmente. O sorriso saiu como uma careta macabra, mas foi uma tentativa válida.

    Smith apertou o ombro de Marty, procurando falar com tranqüi­lidade.

  • Como foi que eles nos descobriram? Você falou com alguém?

  • De jeito nenhum.

  • Então devem ter me seguido, mas não vejo como. Passou rapidamente em revista todas as precauções que tomara para evitar ser seguido desde que deixara Frederick.Só se dessa vez colocaram um transmissor no Triumph.

    Disse isso quando ouviu um barulho que se superpunha aos ruídos ambientais da cidade. A princípio não conseguiu localizá-lo. Mas logo matou a charada, descobriu como o tinham seguido. Sua garganta apertou. Encaminhou-se rapidamente para a janela da frente, levantou a persiana e olhou para cima.

  • Droga! exclamou, dando um soco na parede.

    Marty também olhou para o céu, para o helicóptero que voava baixo, ao sul, aproximando-se em linha reta dos dois bangalôs. Enquanto eles olhavam, o aparelho deu uma queda de asa, descreven­do uma ampla curva ao norte, e voltando a sobrevoar a casa onde ele e Marty estavam escondidos. Smith lembrou-se de ter ouvido um helicóptero antes, quando deixara a casa de Marty.

    Praguejou e esmurrou a parede novamente. O Triumph era a resposta. Sabia que os tinha desnorteado antes de sair da interestadual em Gaithersburg eles não poderiam ter grampeado o Triumph então. Mas quantos Triumphs 61 restaurados embora um pouco amassados da noite anterior poderiam existir naquela área. Não muitos, e provavelmente nenhum outro na rodovia interestadual ligando Frederick a Washington às primeiras horas daquela manhã. Um dos helicópteros que vira quando tomava o café da manhã em Gaithersburg e que pensara que estava monitorando o tráfego podia muito bem ser uma coisa inteiramente diferente. Não exigiu grande esforço de imaginação. Tudo o que tiveram de fazer foi deduzir que ele iria para Washington e ficar de olho num Triumph na rodovia interes­tadual. Qualquer dúvida, bastava conferir o número da placa.

    Peguem-no em Gaithersburg. Sigam-no até Washington.

    Seu Triumph o tinha denunciado. Merda!

    A voz de Marty soou enérgica.

    Ok, Jon. Não temos tempo para ficar ouvindo suas imprecações. Além disso, pode deixar que eu mesmo me encarrego de fazer meus buracos nas paredes. Diga-me o que está pensando. Talvez possa ajudar.

  • Não há tempo. Não foi você mesmo quem disse que essa é minha área de especialização? Você costumava ter um carro. Ainda o tem? — Ele julgara erroneamente que o Triumph lhe daria segurança. Agora era a vez de seus inimigos acharem que podiam confiar no carrinho esporte para seguir seu itinerário. Todo o mundo dá suas mancadas.

    Marty acenou com a cabeça.

  • Guardo-o numa garagem perto da avenida Massachusetts. Mas, Jon, você sabe que não saio com ele há muito tempo. — Ele passou para a sala ao lado e olhou nervosamente pela janela. Continu­ava carregando seu controle remoto e o maço de folhas amassadas de papel como se fossem um amuleto contra o perigo.

  • Mas agora vai sair — disse Smith com firmeza.—Vamos sair daqui pela porta da frente, e...

  • J-J-Jon! Olhe! — Marty apontou o controle remoto para a janela de trás.

    Instantaneamente Smith pôs-se ao lado dele, de Beretta em punho. Dois dos estranhos tinham atravessado a sebe e agora se encaminhavam para o bangalô onde Marty e Smith estavam escondi­dos. Os homens avançavam cautelosamente abaixados, com a preci­são de atacantes. E estavam armados. O pulso de Smith estava acelerado. Ao seu lado, Marty estava rígido de medo. Ele colocou a mão no ombro de Marty e apertou-o ao se agachar ao lado da janela.

    Deixou os dois chegarem a menos de cinco metros. Levantou ligeiramente a janela, mirou cuidadosamente e disparou a Beretta nas pernas de cada um dos homens. Seu cérebro podia estar um pouco enferrujado depois de tantos anos de inatividade, mas sua memória muscular superou a ferrugem tão suavemente quanto uma máquina bem lubrificada.

    A dupla foi atirada para frente, batendo com a cara no chão, gemendo de dor e do choque. Enquanto rastejavam, buscando proteção atrás de duas árvores, Smith correu para o living.

  • Venha, Marty.

    Marty o seguiu de perto, e ambos olharam para fora pela janela. Como Smith receara, a segunda dupla estava na frente da casa. Um deles era o mesmo sujeito troncudo que comandara a cilada de dois dias antes em Georgetown. Tinham ouvido os disparos, e o troncudo jogara-se na grama e sacara uma Glock do paletó. A reação do outro homem se deu com trinta segundos de atraso. Ele ainda estava de pé no caminho de tijolos, com sua velha Colt .45 do exército semi- apontada para a casa.

    Smith errou a pontaria, não atingindo a perna do assaltante. Mas antes que ele recuasse, procurando refúgio na segurança da rua, o segundo tiro de Smith tirou sangue de seu ombro e o derrubou.

    Marty olhava, preocupado.

  • Na mosca, Jon.

    Smith raciocinou rapidamente. Seus disparos inesperados tinham colocado fora de ação dois homens que estavam nos fundos da casa. Mas na frente, no jardim, o líder não fora ferido, e o segundo homem fora atingido apenas de raspão. Teriam mais cuidado agora que sabiam que enfrentariam uma barragem de fogo, mas não iriam embora.

    E o helicóptero certamente pediria reforços.

    Com a voz tensa, Smith perguntou:

  • Também se tem acesso ao seu túnel por este lado?

    Marty olhou para cima e acenou com a cabeça afirmativamente.

  • E claro, Jon. Não seria lógico se não tivesse.

  • Então, vamos em frente!

    No quarto de dormir, Marty apertou um botão do seu controle remoto. A cama retrátil ergueu-se silenciosamente, revelando o alça­pão. Outro comando eletrônico o abriu.

  • Siga-me. Segurando firmemente seus papéis e o controle, Marty enfiou-se no poço iluminado dotado de uma escada que, passando pelo porão, prosseguiaaté o piso de concreto do túnel. Assim que chegou no fundo do poço, saiu da frente da escada para deixar o caminho livre.

    Segundos depois, os pés de Smith tocaram o piso ao lado dele.

  • Impressionante, Marty!

  • Útil, também. Apertou outro botão do seu controle remoto. — Isto fecha o alçapão e coloca tudo de volta nos seus devidos lugares.

    Os dois avançaram rapidamente pelo túnel iluminado adentro. Finalmente chegaram na outra extremidade, e Smith fez questão de subir na frente. Ao emergir no pequeno banheiro do bangalô de Marty, teve um choque. Um quinto homem estava cruzando o corredor na direção do living.

    O pulso de Smith acelerou. Ficou ouvindo e percebeu que o homem estava se encaminhando para o banheiro.

    Voltou a se esconder no alçapão.

    — Feche-o!

    Com o rosto redondo ansioso, Marty fechou eletronicamente a entrada do alçapão e abaixou a banheira. Segundos após, os dois ouviram o homem entrar no banheiro e logo em seguida o ruído de um jato de urina caindo no vaso.

    Smith disse baixinho a Marty o que queria que ele fizesse.

 

Cora a Beretta engatilhada, Smith subiu para esperar no último degrau da escada de metal. Respirou fundo quando o trinco do alçapão se destravou, mas a laje permaneceu no lugar sob o peso da banheira. Ao apontar sua Beretta, a banheira girou para cima e recuou contra a parede. O alçapão se abriu, e todo o banheiro e mais uma parte do corredor e do living ficaram à vista. Smith reprimiu um sorriso sarcástico. A situação era melhor do que esperava.

O homem que urinava no vaso à sua frente estava de costas, de queixo caído. Olhando pelo espelho, viraabanheira erguer-se do chão, levitando atrás dele, como se fosse uma assombração. O sujeito não estava apenas boquiaberto, estava completamente exposto. Não tivera tempo nem de fechar o zíper da braguilha da calça.

Mas era um profissional. Por isso, com a braguilha aberta, pegou sua arma, que deixara em cima da caixa de descarga do vaso sanitário e rodopiou.

  • Bons reflexos, mas não suficientemente rápidos. — Com um galeio vigoroso, Smith desferiu uma coronhada com sua Beretta no joelho do indivíduo. Chegou a ouvir o osso estalar. O pistoleiro caiu no chão, gemendo e apertando o joelho. Sua arma foi parar longe, perto da porta.

    Smith deu um pulo da abertura do alçapão, se contorceu para se apossar da arma, e pegou o walkie-talkieem cima da caixa de descarga do vaso sanitário. Agora o homem não podia atirar nem pedir socorro.

  • Ei! — gritou o sujeito. A dor expandia seu rosto estreito. Tentou levantar-se, mas o joelho contundido causava-lhe intensa dor, e ele caiu para trás.

  • Meu Deus! — exclamou Marty ao sair do alçapão com dificuldade. Desviou-se do homem caído no chão e avançou apressa­damente para o corredor.

    Smith seguiu-o, trancando a porta do banheiro.

    Marty disse, admirado:

  • Você não atirou nele!

    Smith empurrou Marty para frente.

  • Eu o aleijei. Foi o suficiente. Ele vai ter de se submeter a umas três ou quatro operações para consertar aquele joelho. Do jeito que ele está, não poderá nos importunar nem ir a parte alguma. Anda, Marty, temos de nos mexer.

    Ao cruzarem o escritório de Marty, entulhado de computadores, ele parou um momento com um ar de desalento. Suspirou e depois seguiu Smith até a gaiola da porta da frente, que estava escancarada.

    Smith abriu a porta da rua e deu uma rápida espiada. A van cinzenta continuava na entrada de veículos. Teve vontade de fazer uma ligação direta, habilidade que aprendera com Bill Griffin quando era adolescente, mas o helicóptero não parava de sobrevoar os bangalôs de um lado para outro.

  • Marty, vamos até a avenida Massachussets apanhar seu carro. Pegue os seus remédios.

    Não gosto disso. Marty arrastou-se até sua mesa, pegou um pequeno estojo de couro preto, e voltou para perto de Smith na porta da frente. Não gosto nem um pouco disso disse ele, com um arrepio de nojo. O mundo está cheio de estranhos!

    Smith ignorou suas lamúrias. Marty tinha medo de pessoas que não conhecia, mas Jon achava que ele tinha medo mesmo era de morrer.

  • Fique perto dos edifícios, ande sempre procurando a proteção das árvores ou de qualquer coisa que possa escondê-lo. Não corra isso chamaria atenção. Com sorte, o helicóptero lá em cima não conseguirá nos localizar. Caso consiga, teremos que despistá-lo quan­do chegarmos ao seu carro. Como precaução, vou tentar inutilizar o equipamento da van que está lá fora.

    Marty subitamente levantou um dedo. Sorrindo de orelha a orelha.

  • Posso manuseá-lo!

  • Daqui? Como?

  • Fritarei o computador deles.

    Smith nunca duvidou da competência de Marty em assuntos eletrônicos.

  • Ok. Quero ver como é que você vai fazer isso.

    Marty resgatou do caos de suas gavetas um estojo de couro mais ou menos do tamanho de uma câmera grande. Focalizou uma brecha na porta da frente da van. Levantou a tampa do estojo, girou alguns ponteiros e apertou um botão.

  • Isso deve ser suficiente.

    Smith observava, desconfiado.

  • Não vi acontecer nada.

    Nem podia. Usei o TED para destruir o computador instalado no veículo que controla as funções do aparelho.

  • Que diabo de negócio é esse?

  • TED quer dizer Dispositivo Eletromagnético Transitório. Funciona através de FR — freqüência radiofônica. Pense em algo parecido com eletricidade estática, só que muito mais forte. Eu mesmo construí esse dispositivo e o dotei de mais potência do que a usual. Mas os russos vendem um com potência industrial. Vem numa pasta de couro e custa em torno de cem mil dólares.

    Jon ficou impressionado.

  • Traga só esse negócio disse ele, pondo o pé do lado de fora. Vamos embora.

    Marty ficou parado na soleira da porta da frente. Ficou olhando, estonteado, o céu azul, a grama verde e o movimento do trânsito. Parecia deslumbrado.

  • Fazia muito tempo murmurou ele com um ligeiro estreme­cimento.

  • Não tenha medo, você é perfeitamente capaz — encorajou-o Smith.

    Marty engoliu a saliva e acenou com a cabeça.

  • Ok. Estou pronto.

    Com Smith na frente, eles deram uma corrida da varanda, seguin­do a sebe alta até onde ela se juntava à cerca viva lateral. Jon avançou e Marty o seguiu de perto. Na rua, ele deu um passo à frente e enlaçou o braço de Marty com o seu. Eram dois amigosjoviais caminhando em direção à avenida dois quarteirões acima.

    Atrás deles, o helicóptero sobrevoava insistentemente os dois bangalôs. A movimentada avenida Massachusetts estava pouco adian­te. Uma vez lá, Smith esperava que pudessem desaparecer no meio da multidão que desfilava diante da magnificência de Embassy Row e de outros edifícios históricos e instituições famosas no trecho entre Dupont e Sheridan Circles.

    Mas não foram bem-sucedidos no seu intento. Assim que alcan­çaram o segundo quarteirão, o helicóptero roncou mais perto. Smith olhou para trás, por cima do ombro. O helicóptero estava avançando na direção deles.

  • Meu Deus! Marty também o tinha visto.

  • Mais depressa! ordenou Smith.

    Desceram a rua transversal correndo com o helicóptero sempre atrás deles, voando tão baixo que seu bojo quase roçava o topo das árvores. O ar deslocado pelas poderosas pás do aparelho ameaçava derrubá-los. Tiros começaram a ser disparados do helicóptero. Marty deu um grito assustado. As balas ricocheteavam no chão, levantando terra e concreto em torno deles, e zuniam no ar.

    Smith segurou o braço dele e gritou:

  • Continue correndo!

    Prosseguiram penosamente, Marty deslocando-se como uma mistura de robô com boneca de pano. O helicóptero passou em vôo rasante, tombando para o lado para fazer a curva.

  • Mais depressa. Suando profusamente, Smith puxou o braço de Marty.

    O helicóptero completara a manobra e estava de volta.

    Mas então Smith exultou.

  • Vai ser tarde demais! Eles correram para a avenida Massachussets e infiltraram-se na multidão. Era uma tarde de sexta- feira, e as pessoas estavam voltando de almoços prolongados, fazendo planos para o fim de semana, e cuidando de seus compromissos.

  • Oh, oh reclamou Marty de Smith, mas continuou andando. Sua cabeça redonda rodopiava, e seus olhos saltavam das órbitas quando se misturou com os transeuntes.

  • Você está indo muito bem — assegurou-lhe Smith. Sei que é duro, mas aqui estamos mais seguros momentaneamente. Onde está seu carro?

    Ofegando nervosamente, Marty disse:

  • Na próxima rua transversal.

    Smith olhou para o helicóptero, que dera a volta e pairava sobre a multidão, evoluindo lentamente, tentando localizá-los. Observou

Marty com seu blusão habitual por cima de uma camisa azul e calças folgadas.

  • Tire o blusão e amarre-o na cintura.

  • Está bem. Mas de pouco vai adiantar. Eles podem nos identi­ficar e atirar contra nós.

  • Ficaremos invisíveis. Ele estava mentindo, mas dadas as circunstâncias pareceu-lhe a melhor atitude a ser tomada. Escondendo sua preocupação, ele desabotoou a camisa do seu uniforme e a despiu sem interromper a caminhada. Embrulhou-a com o casquete de sua guarnição e pôs a trouxa debaixo do braço. Não era grande coisa como disfarce, mas para olhos que procuravam do alto de um helicóptero duas pessoas no meio da multidão, talvez fosse o suficiente.

    Andaram mais um quarteirão, com o helicóptero apertando o cerco. Smith olhou para Marty, cujo rosto redondo e suarento estava em frangalhos. Mesmo assim ele esboçou um sorriso forçado. Smith sorriu de volta, contendo sua tensão.

    O helicóptero estava mais perto, praticamente em cima deles.

    Marty gritou, excitado:

  • E aqui! Estou reconhecendo a rua. Dobre a esquina.

    Smith vigiava o helicóptero.

  • Ainda não. Faça de conta que está amarrando o sapato. Marty ficou de cócoras e mexeu no cordão do seu tênis. Smith curvou-se e bateu na barra das calças como se a tivesse sujado. As pessoas passavam apressadas num vaivém incessante. Algumas lançavam olhares de censura por eles estarem impedindo a circulação dos pedestres.

    O helicóptero passou.

  • Agora. Smith investiu contra a multidão, abrindo caminho para Marty. Menos de quatro metros adiante, entraram numa rua transversal estreita que parecia uma travessa. Marty o conduziu a um prédio de três andares de tijolos amarelos com uma grande porta de garagem. Havia um quiosque de atendimento, mas nenhum carro estava entrando ou saindo. Smith não gostou do amplo terraço do prédio. Poderia servir de pouso para o helicóptero.

    Marty apresentou seus documentos de identidade e de proprieda­de a um recepcionista admirado, que certamente nunca tinha posto os olhos no dono do veículo em questão.

  • Por quanto tempo pretende mantê-lo fora, Sr. Zellerbach?

    Ainda não temos certeza respondeu Smith, poupando Marty de falar com um estranho.

    O recepcionista examinou mais uma vez a documentação e os conduziu ao segundo andar, onde estavam estacionados diversos carros protegidos com capas de lona.

    Quando ele retirou a capa do penúltimo da fila, Smith deparou com um suntuoso Rolls-Royce.

  • De meu pai. Marty sorriu timidamente.

    Era um Silver Cloud de trinta anos, tão reluzente quanto no dia em que saiu das mãos dos artífices havia muito esquecidos que o tinham construído. Quando o recepcionista ligou a ignição e o tirou cuidado­samente da vaga, seu motor Rolls-Royce original rodou tão macio que Smith ficou na dúvida se ele estava realmente funcionando. Nenhum chiado, nenhum rangido, nenhuma batida ou chocalhada.

    Aí está ele, Sr. Zellerbachdisse orgulhosamente o recepcio­nista. O nosso bonitão. O melhor carro da casa. Alegro-me por ver que finalmente ele vai sair da sua reclusão.

    Smith pegou as chaves e disse a Marty para sentar-se no banco de trás. Não vestiu novamente a camisa do seu uniforme, mas enfiou o casquete na cabeça para ficar mais parecido com um chofer. Sentado atrás do volante, estudou o painel de instrumentos e os botões incrustados na madeira polida e examinou os controles. Reverenciosamente, engrenou a alavanca de câmbio e manobrou a elegante máquina, conduzindo-a para a rua. Quase que em qualquer parte do país o Rolls-Royce sem dúvida chamaria tanta atenção quanto o seu Triumph. Mas não em Nova York, Los Angeles ou Washington. Ali, na capital, era apenas mais um carro luxuoso transportando um embaixador, um dignitário estrangeiro, uma autoridade importante ou algum alto executivo do mundo dos negócios.

  • Gosta dele, Jon? perguntou Marty do banco traseiro.

  • É uma maravilha! Parece que estamos voando num tapete mágico!

  • Foi por isso que resolvi conservá-lo. Marty deu um sorriso satisfeito e se aconchegou no assento confortável como um gato bem nutrido e lânguido. Ajeitou seus papéis e o estojo de remédios ao seu lado e observou: Sabe, Jon? Aquele cara que ficou lá no banheiro vai dar o serviço aos outros sobre a minha passagem secreta, mas eles nunca vão descobrir como é que ela funciona. Dizendo isso, ele ergueu o controle remoto com um floreio elaborado. — Pronto! Agora estão fodidos e mal pagos!

    Smith riu e olhou pelo retrovisor. O helicóptero voava em círcu­los, parecendo desorientado, a um quarteirão de distância. Enveredou com a grande máquina pela avenida Massachusetts. Dentro do Silver Cloud não se ouvia o menor ruído apesar do trânsito intenso.

    Ele perguntou:

  • Essas impressões aí ao seu lado são o resultado do que você andou apurando?

  • São. Tenho boas e más notícias.

    Marty descreveu sua busca cibernética ao passarem por Dupont Circle, atravessando a cidade e rumando para a 1-95 e o Anel Rodo­viário. Enquanto Marty falava, Smith permanecia tenso e atento a qualquer eventual seguidor. Tinha a constante preocupação de que pudessem ser atacados novamente de qualquer ponto e a qualquer momento.

    Depois olhou para Marty pelo espelho retrovisor com uma expressão de assombro estampada no rosto.

  • Você realmente conseguiu encontrar o relatório do Príncipe Leopoldo?

    Marty confirmou com um gesto de cabeça.

  • E relatórios do Iraque sobre vírus.

  • E de fato assombroso. Muito obrigado. Descobriu alguma coisa sobre os apontamentos telefônicos de Bill Griffin e de Sophia?

  • Nada feito. Sinto muito, Jon. Tentei de todas as maneiras.

  • Não tenho dúvida. E melhor ler o que você conseguiu reunir.

    Estavam se aproximando da avenida Connecticut no prolonga­mento do parque Rock Creek em Maryland. Smith tomou a saída, entrou no parque, e parou o Rolls-Royce num prado cercado de árvores frondosas. Quando Marty lhe entregou as duas folhas impressas, ele disse:

    —Elas foram apagadas pela diretora da Carteira de Compensação de Recursos Médicos Federais do Instituto Nacional de Saúde.

  • O próprio governo! — praguejou Smith, indignado. — E inconcebível. Alguém no governo ou no exército está por trás do que está acontecendo, ou as pessoas que estão envolvidas têm mais poder do que eu pensava.

  • Isso me deixa apavorado, Jon — disse Marty.

    Também meapavora. Temos de descobrir o quanto antesquem é que está armando toda essa trama diabólica.

    Leu murmurando o primeiro relatório do Instituto Príncipe Leopoldo.

    O Dr. René Giscours descrevia um relatório de campo que tinha visto ao passar alguns meses num hospital na selva amazônica da Bolívia há muitos anos. Ele estava combatendo o que parecia ser um novo surto epidêmico de febre Machupo e não tivera tempo para pensar num boato não-confirmado procedendo do distante Peru. Mas o novo vírus sacudira sua memória, levando-o a mexer nos seus papéis e encontrar sua anotação original. Suas observações na época enfatizavam uma inusitada combinação de hantavírus e sintomas de febre hemorrágica com alguma ligação com macacos.

    Smith refletiu sobre o que acabara de ler. O que teria levado Sophia a se interessar pelo assunto? Havia poucos fatos, apenas a menção de uma vaga lembrança de um comentário ouvido na selva. Teria sido a referência à febre Machupo? Mas Giscours não estabele­cera nenhuma ligação direta, não insinuara a possibilidade de existir um elo, e os anticorpos da Machupo não tinham provocado nenhuma reação no vírus desconhecido. Sugeria apenas que o vírus desconhe­cido existia efetivamente na natureza. Mas isso os pesquisadores certamente presumiriam. Talvez tivesse sido a referência à Bolívia. Quem sabe ao Peru. Mas por quê?

  • Alguma revelação importante? quis saber Marty, ansioso para colaborar.

  • Ainda não sei. Deixe-me ler o resto.

    Havia mais três relatórios todos do Gabinete do Ministro da Saúde do Iraque. Os dois primeiros se referiam a três casos fatais de ARDS ocorridos há um ano na área de Bagdá, inicialmente não explicados mas posteriormente atribuídosa um hantavírus encontrado em ratos do deserto que haviam migrado para a cidade devido à falta de comida nos campos. O terceiro aludia a mais três outros casos de ARDS constatados em Basra em que as vítimas tinham sobrevivido. Todos três em Basra. Smith sentiu um arrepio. Exatamente o mesmo número de mortos e sobreviventes, fazendo supor que se tratasse de um teste controlado. As três vítimas americanas também seriam parte de alguma experiência?

    Também havia a ligação das três primeiras vítimas americanas com a Tempestade no Deserto.

    Ele sentiu uma espécie de acomodação no peito, como se final­mente tivesse adquirido uma noção de rumo mais clara. Tinha que ir ao Iraque. Precisava descobrir quem tinha morrido, quem tinha sobrevivido... e por quê.

  • Marty, estamos indo para a Califórnia. Há um homem lá que poderá nos ajudar.

  • Não ando de avião.

  • Vai passar a andar.

  • Mas Jon... Marty protestou.

  • Não adianta, Marty. Não tem escapatória, você agora está colado em mim. Além do mais, no fundo, você sabe que adora fazer umas coisas amalucadas. Pois considere esta uma das mais malucas que você já fez.

  • Não acredito que pensar positivamente seja bastante neste caso. De repente, eu posso fundir a cuca. Não que eu queira, compre­enda. Mas até Alexandre, o Grande, teve suas crises.

  • Ele sofria de epilepsia. Você padece da síndrome de Asperger, mas dispõe de medicamentos para controlá-la.

    Marty ficou gelado.

  • Surgiu um probleminha. Estou sem meus remédios.

  • Não trouxe sua caixa?

  • É claro que trouxe, mas só tenho mais uma dose.

  • Conseguiremos mais na Califórnia. Enquanto Marty fazia uma careta, Smith ligou o Rolls e arrancou para a Interestadual. Vamos precisar de dinheiro. O exército, o FBI, provavelmente a polícia e os caras que têm o vírus estão todos monitorando minhas contas bancárias, cartões de crédito, o diabo. Não monitorarão seus recursos por enquanto.

  • Você tem razão. Como valorizo minha vida, suponho que te­nho de embarcar nessa. Pelo menos temporariamente. Tudo bem, con­sidere como um donativo. Acha que cinqüenta mil dólares bastarão?

    Smith ficou atordoado com a menção da elevada quantia. Mas, pensando bem, concluiu que dinheiro não significava nada para Marty.

  • Cinqüenta mil estão de bom tamanho.

    Lutando contra o barulho dos rotores e o vento sibilante, Nadal al-Hassan gritou no telefone:

  • Perdemos os dois de vista. Ele usava óculos escuros que pareciam absorver a luz solar como buracos negros.

    No seu escritório perto do Lago Adirondack, Victor Tremont praguejou.

    Quem é esse Martin Zellerbach? Por que Smith foi procurá-lo?

    Al-Hassan pôs a mão em concha no ouvido para ouvir melhor.

    Vou descobrir. E o exército e o FBI? O que é que estão fazendo?

  • Smith é considerado oficialmente um desertor e está implicado nas mortes de Kielburger e da mulher, sua secretária, porque foi a última pessoa que os viu com vida. Tanto a polícia quanto o exército estão à procura dele. O ronco distante do helicóptero no seu ouvido deu-lhe vontade de gritar, como se estivesse lá ao lado de al-Hassan. Jack McGraw está controlando a situação através de sua fonte no Bureau.

    —Ótimo. A casa de Zellerbach ésuperequipada com computado­res de última geração. E possível que tenha sido por causa disso que Smith foi procurá-lo. Talvez pudéssemos descobrir o que ele está querendo saber, anal isando o que esse tal de Zel lerbach estava fazendo quando chegamos na casa dele.

  • Vou mandar o Xavier a Washington. Mande o seu pessoal vigiar os hospitais onde todas as vítimas foram tratadas, especialmente os três sobreviventes. Até agora o governo não divulgou os casos não-fatais, mas logo o fará. Quando Smith ouvirfalardeles, provavelmente tentará entrar em contato com os sobreviventes.

  • Já tomei providências a esse respeito.

  • Muito bom, Nadal. Onde está o Bill Griffin?

  • Não sei dizer. Ele não se apresentou a mim hoje.

  • Ache-o.

 

19:14h

Cidade de Nova York

Mercer Haldane, presidente do conselho diretor da Blanchard Pharmaceuticals, Inc., mal conseguiu esboçar um sorriso quando a Sra. Pendragon trouxe a agenda para a reunião do conselho no dia seguinte. Mesmo assim, deu-lhe seu cordial boa-noite costumeiro. Sentindo-se novamente seguro, sozinho, permaneceu sentado, remo­endo seus pensamentos, envergando sua casaca. Naquela noite reali­zava-se um dos jantares trimestrais do conselho, e ele se defrontava com um enorme problema que tinha que ser resolvido antes.

Haldane orgulhava-se da Blanchard, tanto de sua história quanto de seu futuro. Era uma velha companhia, fundada por Ezra e Elijah Blanchard numa garagem em Buffalo, em 1884, para fabricar sabone­te e creme facial de acordo com as receitas originais da mãe deles. De propriedade e dirigida por um ou outro membro da família Blanchard, ela prosperava e se expandira, criando uma linha de produtos de fermentação. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Blanchard foi uma das poucas indústrias selecionadas para produzir penicilina, o que a elevara à categoria de companhia farmacêutica. Depois da guerra, a companhia cresceu rapidamente e abriu seu capital com grande fanfarra nos anos 60. Vinte anos mais tarde, no início da década de 1980, o último descendente dos Blanchards entregou a direção da companhia a Mercer Haldane. Como executivo chefe, Haldane condu­ziu os destinos da Blanchard até 1990. Há dez anos, ele também assumira a presidência do conselho. A companhia agora era dele.

Até dois dias atrás, o futuro da Blanchard parecia tão róseo quanto seu passado. Victor Tremont fora uma descoberta sua — um brilhante bioquímico com grande potencial executivo e vocação criativa. Haldane moldara Victor lenta e pacientemente, familiarizando-o com todos os estágios operacionais da companhia. Estava preparando Victor para sucedê-lo oportunamente. Na verdade, há quatro anos Haldane o promovera a executivo chefe de operações COO, embora continuasse retendo o controle efetivo da companhia. Sabia que Victor não se conformava com essa 1imitação de seus poderes, ansiando por assumir a real direção da companhia, mas Haldane considerava isso um bônus. Todo homem à altura de sua reputação sonha comandar seu próprio espetáculo, e um homem ambicioso cuida de manter sua agressividade competitiva a fim de alcançar seus objetivos.

Naquela noite, Mercer Haldane era quem se mostrava ansioso.

Há um ano, um novo auditor apontara uma prestação de contas suspeita com relação a investimentos na área de pesquisa e desenvol­vimento. O auditor estava preocupado, até mesmo nervoso. Era impossível acompanhar a aplicação dos recursos alocados a um projeto até sua conclusão. Haldane considerou a preocupação do homem nada mais que falta de familiaridade com a complexidade do setor de R&D da indústria farmacêutica. Mas Haldane também era um executivo cauteloso. Porisso, contratou uma Firma de auditoria de fora para examinar a questão mais profundamente.

O resultado foi alarmante. Haldane tinha recebido o relatório dois dias antes. Num intrincado cipoal de pequenas, quase imperceptíveis irregularidades estouros de verbas, déficits, transferência de pa­péis, empréstimos, custos excessivos de suprimentos e reparos, perdas atribuídas a furtos, derramamentos e vazamentos faltava quase um bilhão de dólares do orçamento total de R&D num período de dez anos. Um bilhão de dólares! Além disso, uma importância semelhante parecia ter sido aplicada num programa fantasma de R&D de que Haldane nunca ouvira falar. A trilha da papelada era excessivamente complexa, e os auditores admitiam não ter absoluta certeza quanto à procedência de suas suspeitas. Por outro lado, declararam estar con­vencidos de que era imprescindível obter permissão para continuar suas investigações.

Haldane agradeceu, e disse a eles que se mantivessem em contato, e pensou imediatamente em Tremont. Não acreditava nem por um segundo que um bilhão de dólares pudessem sumir como resultado de pequenas falcatruas, ou que Victor fosse capaz de se apropriar ilicita­mente de importância tão vultosa. Mas era possível que seu ambicioso e descontente herdeiro presuntivo tivesse autorizado um projeto de pesquisas sigiloso, ocultando-o do seu conhecimento. Sim, acreditava nessa hipótese.

Não tomou nenhuma medida imediata. Victor e ele iriam se encontrar no seu escritório de Nova York antes do jantar que ele oferecia aos membros do conselho diretor ao ensejo da assembléia trimestral. Iria confrontar Victor com o que soubera e exigir uma explicação. De uma maneira ou de outra, descobriria se de fato existia algum programa secreto. Se existisse, teria que demitir Victor. Mas talvez valesse a pena aproveitar o projeto. Caso não houvesse nenhum programa, e Victor não pudesse explicar o bilhão perdido, ele o demitiria no ato.

Haldane suspirou. Seria uma decisão trágica para Victor, mas ao mesmo tempo sentia uma ânsia tão grande que seu sangue parecia circular mais depressa. Estava chegando a uma idade avançada, mas ainda apreciava um bom confronto. Especialmente quando sabia que sairia vencedor.

Ao ouvir o barulho do seu elevador privativo subindo, atravessou o luxuoso escritório com vista para o sul da cidade, para a Battery e a baía. Serviu uma dose do seu melhor conhaque e voltou para sua escrivaninha. Abriu uma caixa de charutos, escolheu um, acendeu-o, e deu a primeira longa e saborosa baforada quando o elevador parou e Victor Tremont saltou, devidamente encasacado.

Haldane virou a cabeça.

  • Boa noite, Victor. Sirva-se de conhaque.

    Tremont olhou para ele, sentado atrás de sua enorme escrivani­nha, fumando seu charuto.

  • Você está muito solene esta noite, Mercer. Algum problema?

  • Pegue seu conhaque e vamos discuti-lo.

    Tremont serviu-se de uma dose do excelente brandyenvelhecido, apanhou um charuto, e sentou-se numa confortável poltrona de couro de frente para Haldane, e cruzou as pernas.

    Ele sorriu.

  • Então não percamos nosso valioso tempo. Ainda tenho de apa­nhar uma senhora para o jantar. O que foi que fiz de errado dessa vez?

    Haldane se eriçou. Estava sendo desafiado. Resolveu adotar uma atitude rude e colocar Victor no seu lugar.

  • Parece que temos um rombo de um bilhão de dólares. O que foi que você fez, Victor? Roubou-o ou desviou-o para algum esquema de sua predileção?

    Tremont tomou um gole do conhaque, virou o charuto para examinar a cinza e acenou com a cabeça, como se estivesse esperando a pergunta. Seu rosto fino, aristocrático, estava sombreado pela luz do abajur.

    A auditoria secreta. Penseique provavelmente seriaisso. Bem, a resposta simples é não... sim. Não roubei o dinheiro. De fato, des­viei-o para um projeto pessoal.

    Haldane controlou sua cólera.

  • Há quanto tempo isso vem acontecendo?

    Oh, eu d iria há dez anos aproximadamente. Poucos anos depois daquela expedição ao Peru, quando eu trabalhava no laboratório de pesquisas principal. Lembra-se?

  • Uma década! Impossível! Não pode ter me enganado durante tanto tempo. O que realmente...

  • Mas consegui, sim. Naturalmente, não estava sozinho. Reuni um grupo dentro da companhia. Os melhores profissionais de que dispúnhamos. Eles perceberam os bilhões que se poderia ganhar com o meu projeto, e toparam aparada. Um pouco de contabilidade criativa aqui, ajuda da segurança ali, alguns cientistas de primeira, meu laboratório particular fora da empresa, muita dedicação, alguma cooperação do governo federal e do exército, e voilà o Projeto Hades. Concebido, planejado, desenvolvido, e pronto para ser executado. Victor Tremont sorriu, vitorioso, novamente, agitando o charuto como se fosse uma vara de condão. Dentro de poucas semanas meses no máximo minha equipe e a Blanchard vão poder faturar bilhões. Possivelmente centenas de bilhões. Todo mun­do vai ficar rico eu, minha equipe, o conselho diretor, os acionis­tas... e, naturalmente, você.

    Haldane ficou com o charuto parado no ar.

  • Você está completamente louco.

    Tremont riu.

  • Longe disso. Sou apenas um homem de negócios que sabe das coisas e vislumbrou uma oportunidade fabulosa de lucro.

  • Está louco e com um pé na cadeia retrucou Haldane.

    Tremont levantou a mão.

  • Acalme-se, Mercer. Não quer saber em que consiste o Projeto Hades? Por que ele vai nos tornar podres de rico, incluindo você, apesar de sua ingratidão?

    Mercer Haldane hesitou. Tremont estava confessando ter lançado mão de fundos da companhia para financiar pesquisas secretas. Ele tinha que ser afastado sumariamente e provavelmente processado. Mas tinha que convir que ele era um químico competente, e legalmente o projeto pertencia à Blanchard. Talvez gerasse realmente um grande lucro. Afinal, como presidente do conselho e executivo-chefe, era seu dever proteger e garantir o resultado final da companhia.

    Por isso, Haldane empinou a cabeça branca e disse:

    —Não vejo como isso possa modificar alguma coisa, Victor, mas vamos lá, diga-me em que consiste seu golpe brilhante.

  • Quando você me mandou ao Peru há treze anos, descobri um vírus estranho numa região remota. Era mortífero, fatal na maioria dos casos. Mas uma tribo de índios tinha encontrado a cura. Bebiam o sangue de uma determinada espécie de macaco que também era portadora da doença. Fiquei intrigado e resolvi trazer o vírus colhido em vítimas e sangue de vários macacos. O que descobri foi surpreen­dente, mas de certo modo lógico.

    Haldane ouviu atentamente, sem despregar os olhos dele.

  • Continue.

    Victor Tremont sorveu um longo trago do conhaque, estalou os lábios de prazer e sorriu por cima do cálice para o seu patrão.

  • Os macacos estavam infectados com o mesmo vírus que atacara os índios. E um vírus muito estranho, que permanece em estado latente durante anos no organismo do portador, mais ou menos como o vírus da Aids. Talvez um pouco de febre, algumas dores de cabeça, outros pequenos distúrbios súbitos e passageiros, mas nada letal até que, ao que parece espontaneamente, ele se modifica, apresen­tando sintomas de um resfriado forte ou de uma gripe amena durante cerca de duas semanas, e então se torna letal tanto para os seres humanos quanto para os macacos. Entretanto — e isso é fundamental — ele se manifesta mais cedo e com muito menos virulência nos macacos. Muitos macacos sobrevivem e seu sangue é rico em anticorpos neutralizantes do vírus modificado. Acredito que os índios tenham aprendido isso empiricamente, e toda vez que ficavam doentes toma- varri o sangue e ficavam curados. Na maioria dos casos, se tomassem o tipo certo de sangue de macaco, bem entendido.

    Tremont inclinou-se para frente.

  • A beleza dessa simbiose é que por mais que o vírus se modifique, a modificação sempre aparece primeiro nos macacos, o que significa que os anticorpos estão sempre disponíveis para qual­quer mutação. Não é um estranho fenômeno da natureza?

  • Realmente assombroso — disse Haldane secamente. — Mas não vejo nenhuma possibilidade de lucro nessa sua singular história. O vírus existe em outro lugar onde não exista cura natural?

  • Em mais nenhum outro lugar, tanto quanto pudemos averiguar. Essa é a chave do Projeto Hades.

  • Esclareça minha ignorância, por favor. Mal posso esperar.

    Tremont riu.

  • Sarcasmo? Um passo de cada vez, Mercer. — Ele se levantou e foi até o bar. Serviu-se novamente do precioso conhaque do chairman da companhia. Voltou a se sentar e cruzou as pernas. —Naturalmente, não podíamos importar milhões de macacos e matá-los para recolher seu sangue. Sem mencionar que nem todos os macacos possuem os anticorpos, e que o sangue se deterioraria rapidamente. Por isso, primeiro tivemos de isolar o vírus e os anticorpos no sangue. Depois tivemos que estabelecer métodos de produção em grande escala e providenciar um espectro suficientemente amplo para acomodar algumas mutações espontâneas no decorrer do tempo.

  • Suponho que vá me dizer que fez tudo isso.

  • Perfeitamente. Isolamos o vírus e fomos capazes de iniciar a produção no primeiro ano. O resto exigiu prazos variados e somente no ano passado finalizamos o anti-soro recombinante. Agora temos milhões de unidades prontas para embarque. O soro foi patenteado como uma cura para o vírus do macaco, sem fazer alusão ao vírus humano, naturalmente. Sua ocorrência vai parecer obra do acaso — uma fatalidade. Nossos custos foram inflacionados e bem tabulados, o que nos permitirá cobrar um preço mais alto do público, e já requeremos a aprovação da FDA.

    Haldane ouviu tudo, incrédulo.

  • Você ainda não obteve a aprovação da FDA?

  • Quando a epidemia irromper, nós a obteremos instantaneamente.

  • Quando irromper? Foi a vez de Haldane sorrir com escárnio. Que epidemia? Está medizendo que não há epidemiado vírus para que seu soro possa ser usado? Meu Deus, Victor...

    Tremont sorriu.

  • Haverá.

    Haldane perguntou, pasmado:

  • Haverá!?

  • Houve seis casos recentes nos Estados Unidos, três dos quais curamos sigilosamente com o nosso soro. Mais casos estão sendo reportados aqui. E as mortes no exterior já somam mais de mil. Dentro de poucos dias o mundo vai tomar conhecimento da ameaça que paira no ar. Não vai ser nada bonito.

    Mercer Haldane permaneceu sentado, paralisado, na sua escriva­ninha. Esqueceu o conhaque, e o charuto caíra do cinzeiro e estava queimando o tampo da mesa. Tremont esperava, o sorriso nunca abandonando seu rosto de feições suaves. Seus cabelos grisalhos e sua pele bronzeada brilhavam à luz do abajur. Quando Haldane finalmente falou, sua rigidez era penosa de se ver, até mesmo para Tremont.

    Mas sua voz estava controlada.

  • Há uma parte desse esquema que você está omitindo deliberadamente.

  • Provavelmente disse Tremont.

  • O que é?

  • E a parte de que você não vai gostar.

    Haldane refletiu por um momento.

    Não, não vai dar certo. Você vai parar na cadeia, Victor. Nunca mais vai poder trabalhar.

    Acho que mereço algum crédito. De mais a mais, você está tão comprometido quanto eu.

    Haldane ergueu as sobrancelhas brancas numa reação de surpresa.

  • Não, não há a menor...

    Tremont disfarçou o sorriso.

  • Para dizer a verdade, você está mais implicado do que eu. Minha retaguarda está devidamente coberta. Cada autorização, cada requisição, cada despesa foi aprovada e assinada por você. Tudo o que fizemos tem sua chancela, sua autorização por escrito. A maior parte é rigorosamente autêntica, porque quando você fica irritado, assina qualquer coisa só para se ver livre do papel. Eu punha a papelada em cima da sua mesa, você tacava seu jamegão e me enxotava da sala como se eu fosse um colegial. O resto são falsificações que ninguém perceberá. Um dos meus homens é um exímio falsário.

    Como um velho leão cauteloso, Haldane reprimiu sua indignação diante da constatação das tramóias de Tremont. Preferiu estudar seu protegido com a possível serenidade, avaliando o potencial do que ele lhe revelara. Malgrado a natural má vontade, Haldane era forçado a concordar que os lucros poderiam ser astronômicos, e ele saberia assegurar seu quinhão. Ao mesmo tempo, procurou detectar uma fa­lha, um erro que pudesse determinar o fracasso e a ruína de todos eles.

    Descobriu-o.

    — O governo vai querer produzir em massa a sua cura. Doá-la ao mundo. Para isso a confiscará de você, alegando o superior interesse nacional.

    Tremont sacudiu a cabeça.

    —Não. Ele não poderá produzir o soro a menos que forneçamos os detalhes, e ninguém mais dispõe de facilidades de produção prontas para serem acionadas. Não tentará confiscá-la, fique certo. Primeiro, porque teremos à mão uma quantidade suficiente para atacar o problema prontamente. Segundo, porque nenhum governo americano nos negaria um lucro razoável. Esse é o nome do jogo que pregamos para o mundo, não é verdade? Esta é uma sociedade capitalista, e estamos simplesmente pondo em prática os princípios do capitalismo. Ademais, é inegável que estamos trabalhando dia e noite para salvar a humanidade. Portanto, fazemos jus a uma recompensa. Naturalmen­te, como disse, inflacionamos nossos custos de pesquisa e produção, mas ninguém fará uma análise mais aprofundada. Os lucros serão extraordinários.

    Haldane fez uma careta.

    —Quer dizer então que vai haver uma epidemia. Creio que a única coisa boa em tudo isso é o fato de você possuir a cura. Taivez não se percam muitas vidas.

    Tremont notou o cinismo que Haldane usou para se convencer a capitular. Como sempre, Tremont previra corretamente a reação de Haldane. Olhou demoradamente à volta do gabinete do presidente do conselhodiretorcoinose estivesse procurando memorizar cada detalhe.

    Voltou a concentrar sua atenção no seu ex-mentor, e seu rosto refletiu uma expressão fria e distante.

  • Mas, para que tudo dê certo, preciso assumir o comando da companhia. Por isso, na reunião do conselho amanhã, você vai transferir a direção da empresa para mim. Eu passarei a ser o CEO, presidente do comitê executivo, com pleno e total controle. Você pode continuar como presidente do conselho administrativo, se quiser. Poderá até ter mais contato com as operações diárias do que qualquer outro membro do conselho diretor. Mas dentro de um ano se aposen­tará com uma bonificação extremamente generosa e uma pensão vitalícia, e eu assumirei também a presidência do conselho diretor.

    Haldane ficou estupefato. O combativo velho leão estava tremen­do nas bases. Não previra aquela situação e estava chocado. Subesti­mara Tremont.

  • E se eu me recusar?

  • Não poderá. A patente está em nome do meu grupo, sendo eu o principal acionista, e a Blanchard licenciada mediante uma apreci­ável gratificação percentual. A propósito, você aprovou essas condi­ções há alguns anos. Por conseguinte, é perfeitamente legal. Mas não se preocupe. Haverá bastante para a Blanchard e um grande bônus para você. O conselho e os acionistas ficarão extáticos com os lucros, sem falar da espetacular jogada de relações públicas. Seremos heróicos cavaleiros andantes que salvarão a humanidade de um desastre apocalíptico pior do que a Peste Negra.

  • Você tem repetido o tempo todo que vou ganhar muito dinheiro. Dentro ou fora da companhia. Não vejo razão para deixá-la. Continuarei dirigindo-a e garantirei o seu direito de ser financeira­mente recompensado.

    Tremont sorriu à socapa, deleitando-se com a visão de ser um salvador e ao mesmo tempo amealhar uma fortuna digna de Midas. Depois olhou implacavelmente para Haldane.

  • O Projeto Hades será o mais retumbante sucesso em toda a história da Blanchard. Mas embora no papel você tenha aprovado tudo, na realidade não sabe nada sobre ele. Se tentasse assumir a direção, na melhor das hipóteses iria parecer um idiota. Na pior, revelaria sua incompetência. Todos suspeitariam que você estava tentando se arrogar o mérito do meu trabalho. Nessa altura, eu poderia fazer com que o conselho e os acionistas o destituíssem em cinco minutos.

    Haldane respirou fundo. No mais terrível de seus pesadelos jamais esperaria que isso pudesse acontecer. Tornara-se prisioneiro dos acontecimentos e perdera o controle. Não conseguia pensar em nada para dizer. Tremont estava certo. Só um imbecil insistiria em lutar naquelas circunstâncias. O melhor era aceitar as regras do jogo e se retirar de cena com os bolsos cheios. Assim que se decidiu a adotar essa atitude, sentiu-se melhor. Não refeito, apenas melhor.

    Ele encolheu os ombros.

  • Muito bem, então vamos para o nosso jantar.

    Tremont riu.

    -— Este é o Mercer que conheço. Anime-se. Você vai ficar rico e famoso.

  • Já sou rico. E jamais fiz a mínima questão de ser famoso.

    Você acabará se acostumando. E vai gostar. Pense em todos osex-presidentes com quem vai poder jogar golfe.

 

16:21h

São Francisco, Califórnia

Usando o cartão de crédito de Marty Zellerbach, Smith e Marty chegaram num jato fretado ao Aeroporto Internacional de São Fran­cisco no fim da tarde de sexta-feira. Preocupado com a necessidade de Marty renovar seus remédios, Smith alugou imediatamente um carro, rumou para o centro da cidade e achou uma farmácia. O farmacêutico ligou para a casa do médico de Marty em Washington, pedindo sua autorização para aviar a receita, mas o médico insistiu em falar diretamente com Marty. Enquanto Marty falava, Smith escutava numa extensão.

O médico parecia tenso e constrangido, fazendo perguntas irrelevantes. Finalmente quis saber se o coronel Smith estava com Marty.

Movido por uma súbita descarga de adrenalina, Smith arrancou o fone da mão de Marty e desligou os dois aparelhos.

Enquanto o farmacêutico olhava, espantado, detrás do balcão envidraçado, Smith explicou a Marty em voz baixa:

  • Seu médico está tentando retê-lo aqui. Provavelmente para dar tempo ao FBI ou à inteligência do exército de chegarem para me prender. Ou quem sabe os pistoleiros que nos atacaram no bangalô, e sabemos muito bem o que eles fariam.

    Marty arregalou os olhos, alarmado.

  • O farmacêutico deu o nome e o endereço da farmácia. Agora meu médico também ficou sabendo.

  • Certo. Ele e quem quer que estivesse ouvindo a conversa com o médico do outro lado da linha. Vamos cair fora daqui.

    Os dois desapareceram rapidamente. O efeito do remédio de Marty estava começando a se di1uir, e era preciso guardar a última dose para a manhã seguinte e a longa viagem que teriam que enfrentar. Marty resmungou e ficou perto de Smith. Encheu o tempo comprando roupas e outras necessidades e jantou de má vontade num restaurante italiano em North Beach de que Smith se lembrou, dos velhos tempos em que servira em Presídio, quando a cidade era uma ativa base do exército. Mas o gênio cibernético estava ficando cada vez mais agitado e falastrão.

    Ao cair da noite instalaram-se num quarto do Mission Inn, no fim da rua com o mesmo nome. O forte nevoeiro se enroscava pelos pitorescos postes de iluminação, subindo acima das janelas de sacada.

    Marty não notou nada do charme das redondezas nem das vanta­gens do pequeno hotel.

  • Você não pode, em sã consciência, pretender me sujeitar à tortura medieval desta cela, Jon. Pelo amor de Deus, quem seria idiota a ponto de dormir numa masmorra infame como esta? — O quarto tinha cheiro de mofo, da umidade do nevoeiro. — Vamos para o Stanford Court. Pelo menos é apresentável e decentemente habitável. — Tratava-se de um dos lendários grandes hotéis de São Francisco.

    Smith ficou pasmado.

  • Você já se hospedou lá?

  • Oh, milhares de vezes! — disse Marty com exagerado entusi­asmo, sinal de que estava começando a entrar em órbita. — Era lá que meu pai reservava uma suíte quando me levava com ele a São Francisco. Eu ficava encantado. Costumava brincar de esconder com os mensageiros do hotel no imenso vestíbulo.

    —E todos sabiam que era lá que você se hospedava habitualmente quando vinha a São Francisco?

  • Naturalmente.

    —Então, vá para lá, se não se incomoda que nossos violentos ami­gos o encontrem.

    Marty imediatamente deu meia-volta.

    —Meu Deus! Você tem razão. Nesta altura, eles devem estar aqui em São Francisco. E você acha que estamos mais seguros nesta espelunca?

  • A idéia é precisamente esta. Fica fora de mão, e estamos registrados com nomes falsos. Só vamos passar uma noite aqui.

  • Não vou conseguir pregar o olho. — Marty recusou-se taxativamente a se despir para se deitar. — Podemos ser atacados de um momento para outro. Não vou querer ser visto correndo pela rua de camisolão com esses energúmenos ou o FBI nos meus calcanhares.

  • Você precisa de uma boa noite de sono. A viagem, amanhã, vai ser longa e cansativa.

    Marty não lhe deu ouvidos, e enquanto Smith se barbeava e escovava os dentes, ele enganchou o espaldar de uma cadeira na maçaneta da única porta. Depois amassou um jornal, folha por folha, e espalhou-as na frente da porta. — Pronto. Agora quero ver quem vai poder entrar neste quarto sorrateiramente. Vi isso num filme. O detetive também deixava sua pistola na mesinha-de-cabeceira, ao alcance de sua mão, para poder empunhá-la rapidamente. Faça a mesma coisa com sua Beretta, Jon, certo?

  • Se isso faz você se sentir melhor, tudo bem. — Smith saiu do banheiro, enxugando o rosto. — Vamos nos deitar e tratar de dormir.

    Quando Smith se enfiou por baixo dos lençóis, Marty deitou-se, vestido, na outra cama de solteiro. Ficou olhando para o teto, com os olhos escancarados. Inopinadamente, voltou-se para Smith e per­guntou:

  • Por que estamos na Califórnia?

    Smith apagou a luz do abajur da mesa-de-cabeceira.

  • Para encontrar um homem que pode nos ajudar. Ele mora nas Sierras perto de Yosemite.

  • Está certo. As Sierras, território modoc! Você conhece a história do Capitão Jack e dos Leitos da Lava? Ele foi brilhante líder modoc, e essa tribo foi assentada na mesma reserva de seus arquiinimigos — os klamaths. — Na penumbra do quarto, Marty embarcou num de seus devaneios delirantes, de que era fértil sua mente excitada, incontrolável. — No fim, os modocs mataram alguns brancos. Por isso, o exército foi atrás deles com seus canhões. Talvez uns dez deles contra um regimento inteiro. E...

    Ele relatou com riqueza de detalhes a injustiça cometida covarde­mente pelo exército contra o bravo e inocente líder dos modocs. Depois disso descreveu a saga do Cacique Joseph e do seu lugar- tenente Nez Percé em Washington e Idaho e de sua desesperada arremetida para a liberdade, enfrentando a metade do exército dos Estados Unidos. Antes de acabar de recitar o emocionante discurso final de Joseph, virou bruscamente a cabeça na direção da porta.

  • Eles estão no corredor! Estou ouvindo! Pegue sua arma, Jon.

    Smith pulou da cama, pegou a Beretta e tentou avançar sem fazer barulho por entre as folhas de jornal amarrotadas, o que obviamente era impossível. Ficou escutando atrás da porta, com o coração aos pulos.

    Escutou durante cinco minutos.

  • Não estou ouvindo nada. Tem certeza de que ouviu alguma coisa, Marty?

    Absoluta. Agitou as mãos no ar. Estava sentado empertigado, com as costas rígidas, o rosto redondo trêmulo.

    Smith se agachou, tentando aliviar o corpo cansado. Continuou escutando por mais meia hora. Rumores de gente entrando e saindo do lado de fora. Vozes de pessoas conversando e uma ou outra risada ocasional. Finalmente sacudiu a cabeça.

  • Nada. Procure dormir um pouco. Voltou para sua cama, chutando as folhas de jornal barulhentas.

    Encabulado, Marty ficou momentaneamente calado. Dez minu­tos depois, começou entusiasticamente a história cronológica de cada guerra com os índios desde a do rei Philip nos seiscentos.

    Então ouviu passos novamente.

    Há alguém na porta, Jon! Atire! Atire! Antes que eles derrubem a porta. Atire neles!

    Jon correu até a porta, mas não ouviu o menor ruído. Foi a gota d'água para Smith. Marty ia passar a noite toda inventando perigos inexistentes e contando mais histórias sobre os primórdios da Améri­ca. Ele estava atingindo uma velocidade vertiginosa, e quanto mais tempo ficasse sem tomar seus medicamentos, pior seria para ambos.

    Smith levantou-se novamente.

  • Ok, Marty, é melhor você tomar sua última dose. Ele sorriu gentilmente. Temos de ter fé, acreditar que conseguiremos lhe arranjar mais remédios quando chegarmos à casa de Peter Howell amanhã. Até lá, você tem que dormir, e eu também.

    A mente de Marty zumbia e cintilava. Palavras e imagens embaralhavam-se com incrível velocidade. Ouvia a voz de Jon como se ele estivesse a uma grande distância, quase como se um continente os separasse. Viu então seu velho amigo e o sorriso. Jon queria que ele tomasse seu remédio, mas ele resistia obstinadamente, tudo dentro dele se opunha visceralmente. Execrava a idéia de ter que deixar aquele mundo emocionante onde a vida acontecia vertiginosamente e com grande dramaticidade.

  • Marty, tome seu remédio. Ao lado dele, Jon segurava um copo d'água numa das mãos e a repudiada pílula na outra.

    —Prefiro atravessar o céu estrelado montado num camelo e beber limonada azul. Você também não preferiria? Não gostaria de ouvir fadas diáfanas tocando harpas douradas? Não preferiria conversar com Newton e Galileu?

  • Marty? Está me ouvindo? Por favor, tome seu remédio.

    Marty olhou para Smith, que agora estava agachado diante delecom o rosto sério e preocupado. Gostava de Jon por inúmeras razões, nenhuma relevante no momento.

    Jon disse, tentando persuadi-lo:

  • Sei que confia em mim, Marty. Tem de acreditar quando lhe digo que o deixamos ficar muito tempo sem tomar seus remédios. Agora é hora de voltar a tomá-los.

    Num arroubo, Marty falou atropeladamente, externando tudo o que lhe ia na alma.

  • Não gosto dessas pílulas. Quando sou obrigado a tomá-las, deixo de ser eu. Sinto-me fora do meu mundo, não consigo pensar porque o meu verdadeiro "eu" deixa de existir, e, conseqüentemente, é incapaz de pensar.

    -— Sei que é muito difícil disse Smith, demonstrando compre­ensão e simpatia. Mas não queremos que você cruze a linha. Quando deixa de tomá-las por muito tempo, você age de uma maneira estranha, fica meio biruta.

    Marty sacudiu a cabeça, zangado.

  • Tentaram me ensinar a ser "normal" como as outras pessoas, como se ensina alguém a tocar piano! A memorizar a normalidade! "Olhe o interlocutor no olho, mas não olhe para ele insistentemente, fixamente." "Estenda a mão quando for um homem, mas deixe que uma mulher estenda a sua primeiro." Imbecilidades! Li sobre um cara que disse a coisa certa: "Podemos aprender a fingir que agimos como qualquer outra pessoa, mas no fundo não sabemos bem por que ou para quê." É isso aí. Realmente não consigo entender a razão, Jon. Simples­mente não quero ser normal!

  • Eu também não quero que você seja "normal". Gosto de você como você é, da sua rebeldia e do seu brilhantismo. Sem isso você não seria o Marty que eu conheço. Mas temos que zelar pelo seu equilíbrio, para que você não se perca na estratosfera e não possamos trazê-lo de volta. Depois de chegarmos à casa de Peter amanhã, você poderá dispensar as pílulas novamente por algum tempo.

    Marty ficou parado, olhando vagamente. Sua mente fazia mala­barismos com números e algoritmos. Por mais que ansiasse pela total liberdade de seus pensamentos, sabia que Jon estava certo. Ainda mantinha um certo controle, embora precariamente. Não queria correr o risco de ultrapassar o limite.

    Marty suspirou.

  • Jon, você é mesmo um campeão. Peço-lhe desculpas. Dê-me essa maldita pílula.

    Vinte e cinco minutos depois, os dois homens dormiam a sono solto.

     

12:06, sábado, 18 de outubro

Aeroporto Internacional de São Francisco

Nadal al-Hassan desceu do DC-10 procedente de Nova York e dirigiu-se para o portão de desembarque principal. O homem gordo com um terno surrado que o cumprimentou nunca o tinha visto, mas não havia outro passageiro no vôo de Nova York que correspondesse à descrição que lhe tinham feito.

  • Sr. al-Hassan?

    Al-Hassan olhou para o homem de aspecto desagradável com repugnância.

  • E da agência de detetives?

  • Acertou.

  • O que tem a reportar?

  • O FBI localizou o farmacêutico antes de nós, mas de qualquer forma tudo o que o cara sabe é que eram dois e quando foram embora tomaram um táxi. Estamos checando as empresas de táxis, e a polícia local e o FBI estão fazendo o mesmo. Hotéis, motéis, pensões, locadoras de carro e também outras farmácias. Até agora nada, mas a polícia e o FBI não se saíram melhor do que nós.

  • Estarei no Hotel Monaco, perto da Union Square. Ligue-me assim que souber de alguma coisa.

  • Quer que chequemos durante a noite toda?

  • Até que alguém consiga achá-los, vocês ou a polícia.

    O homem desmazelado encolheu os ombros.

  • O senhor é quem manda, o dinheiro é seu.

    Al-Hassan pegou um táxi e mandou tocar para o hotel recente­mente reformado no centro de São Francisco, com seu pequeno foyer e elegante salão de jantar, tudo finamente decorado para criar um ambiente parecido com o de uma cidade continental nos anos 20. Logo que ficou sozinho no seu quarto, telefonou para Nova York e relatou tudo o que o homem desleixado lhe contara.

  • Ele não pode usar recursos do exército. Estamos vigiando todos os amigos de Smith e Zellerbach e todas as pessoas ligadas às vítimas do vírus — disse al-Hassan.

  • Contrate outra agência de detetives se for o caso — ordenou Victor Tremont do quarto do seu hotel em Nova York. — O Xavier descobriu o que esse tal de Zellerbach estava fazendo para ele. — Relacionou o que tinha sido achado nos arquivos do computador de Marty. — Aparentemente, Zellerbach descobriu o memorando de Giscours e localizou relatórios sobre o vírus no Iraque. Smith prova­velmente deduziu que temos o vírus, e agora está querendo saber o que vamos fazer com ele. Ele não é mais um mero empecilho aos nossos objetivos, é uma ameaça concreta e perigosa!

    A voz de al-Hassan deixou entrever uma promessa.

  • Mas não por muito tempo.

  • Mantenha-se em contato com Xavier. Esse tal de Zellerbach tentou rastrear o telefonema da Dra. Russell para mim. Esperamos que ele tente novamente. Xavier está monitorizando o computador de Zellerbach. Se ele usá-lo, Xavier tentará mantê-lo on-line o tempo suficiente para que nossa polícia local em Long Lake inicie uma busca telefônica.

  • Telefonarei para Washington e darei a ele o número do meu celular.

  • Já localizou o Bill Griffin?

    Al-Hassan ficou calado, embaraçado.

  • Ele não entrou em contato com ninguém desde que o incum­bimos de matar o Smith.

    A voz de Tremont estalou como um chicote.

    —Você ainda não sabe onde ele se meteu? E inacreditável! Como é que você pode perder contato com um de seus próprios homens?

    Al-Hassan manteve a voz baixa, respeitosamente. Victor Tremont era um dos poucos gentios neste país sem deus que ele respeitava, e Tremont estava coberto de razão. Ele devia ter ficado mais atento às manobras do ex-agente do FBI.

  • Estamos trabalhando com afinco para achar o Griffin. E uma questão de honra para mim achá-lo o mais rapidamente possível.

    Tremont manteve-se em silêncio, procurando se acalmar. Final­mente disse:

  • O Xavier me disse que Martin Zellerbach também andou procurando o endereço mais recente de Griffin, obviamente para Smith. Como você sugeriu, há uma conexão em algum lugar. Agora temos a prova.

  • É curioso que Bill Griffin não tenha tentado contatar ou se aproximar de Jon Smith. Por outro lado, Smith visitou a ex-mulher de Griffin em Georgetown.

    Tremont considerou.

  • Talvez Griffin esteja agindo para os dois lados. Bill Griffin poderá se revelar nosso inimigo mais perigoso, ou nossa arma mais útil. Ache-o.

     

    7:00h

    São Francisco — Mission District

    Marty e Smith levantaram-se cedo e deixaram o motel às sete horas da manhã. Às oito, já tinham atravessado a reluzente baía de São Francisco e estavam rumando para o leste pela I-580. Depois de Lathrop, passaram para a 99 e a 120, prosseguindo para o sul através das férteis áreas cultivadas, na direção de Merced, onde pararam para tomar um café da manhã tardio. Retomaram imediatamente o rumo leste, seguindo diretamente para Yosemite pela 140. O dia estava fresco e ensolarado. Marty permanecia calmo, e quando atingiram mais altitude o céu adquiriu uma tonalidade azul translúcida.

    Continuaram subindo resolutamente na direção do pico Mid Pines, a três mil pés de altitude, alcançando as corredeiras do rio Merced, e entraram no parque nacional em El Portal. Marty olhava o tempo todo pela janela do carro. Quando atingiram dois mil pés, sempre seguindo o leito do impetuoso rio, e entraram no famoso parque, seus olhos continuaram bebendo avidamente a deslumbrante paisagem montanhosa.

  • Acho que estava precisando sair do meu mundo recluso sentenciou ele. Indescritivelmente maravilhoso!

  • E pouca gente para interferir com a vista.

  • Jon, você me conhece bem demais.

    Passaram pela altíssima queda d'água Véu de Noiva, ornada com sua própria grinalda de névoa, e pelos escarpados penhascos de El Capitan. Ao longe, a cumeeira da lendária Half-Dome e as cachoeiras de Yosemite. Tomaram a bifurcação norte da estrada do vale e conti­nuaram pela Big Oak Fiat Road até sua junção com a Tioga Road, que permanecia fechada a qualquer tipo de tráfego de novembro a maio e muitas vezes até junho devido à sua grande altitude. Prosseguiram para o leste, atravessando trechos cobertos de neve, descortinando o grandioso cenário dos picos nevados das indomáveis Sierras. Finalmen­te desceram a encosta leste de terras mais secas e menos luxuriantes.

    Ao descerem, Marty começou a cantar velhas canções de caubói. O efeito dos remédios começava a se dissipar. Alguns minutos antes da Tioga Road chegar à rodovia 395 e à cidade de Lee Vining, Smith enveredou por uma estreita estrada de terra. A estrada, quase uma trilha, era ladeada por extensos pastos em declive cobertos pela relva crestada e demarcados com arame farpado, separando as proprieda­des. Vacas e cavalos pastavam debaixo de árvores cujas silhuetas escuras destacavam-se do fundo de veludo dourado das montanhas.

    Smith dirigiu o carro por estonteantes estradas em ziguezague, cruzando diversos arroios com suas pontes de madeira rangente, e foi parar na beira de uma ravina profunda, cortada por um largo riacho. Uma estreita ponte de aço para pedestres ligava as margens da ravina, conduzindo a uma clareira e a uma cabana de madeira escondida entre esguios pinheiros e cedros odoríferos. O cume nevado a treze mil pés de altitude do Monte Dana erguia-se como uma sentinela à distância.

    Quando Smith estacionou, Marty continuou a dar asas à imagina­ção, estimulada pela notável variedade de cenários do oceano às montanhas e às pradarias. Mas se deu conta de que deviam estar perto do seu destino, e ele deveria ficar ali, dormir ali, talvez viver ali durante algum tempo.

    Sm ith deu a volta e abriu a porta dele, e ele desceu com relutância. Recuou da ponte para pedestres, que balançava ligeiramente ao vento. A ravina que ela atravessava mergulhava abruptamente uns trinta pés.

  • Não coloco um dedo do pé nesse troço de jeito nenhum — anunciou ele peremptoriamente.

  • É só não olhar para baixo. Vamos nessa — disse Smith, empurrando-o.

    Marty foi se arrastando, segurando os corrimões durante toda a travessia.

  • Afinal, o que é que viemos fazer neste fim de mundo? Só existe aquele barracão decrépito ali adiante.

    Ao começarem a percorrer o caminho de terra até a cabana, Jon disse:

  • Nosso homem mora ali.

    Marty parou.

    —Isso aí é que é o nosso destino? Não ficarei nem cinco minutos numa coisa dessas — tão primitiva. Duvido que tenha água encanada. Certamente não tem eletricidade, o que significa que também não tem computador. Tenho de ter um computador!

  • Mas também não tem pistoleiros — argumentou Smith —, e não julgue um livro pela sua capa.

    Marty riu desdenhosamente..

  • Isso é um lugar-comum manjadíssimo.

  • Vamos, rapaz, mexa-se.

    Quando chegaram aos pinheiros, mergulharam na sombra proje­tada pelos grossos galhos da copa das árvores. O aroma de pinho perfumava o ar. Adiante, atrás das árvores altas, a construção rústica permanecia silenciosa. Cada vez que olhava, Marty sacudia a cabeça, desanimado.

    De repente um rosnado agudo fez-se ouvir, deixando-os gelados, paralisados.

    Um puma de porte avantajado saltou de uma árvore e agachou-se dez pés à frente deles. Sua cauda comprida açoitou o ar, e seus olhos amarelos faiscaram.

  • Jon! — gritou Marty, apavorado, virando-se para correr.

    Smith segurou-o pelo braço.

  • Espere.

    Uma voz com sotaque britânico falou de algum lugar oculto.

  • Fiquem parados aí onde estão, cavalheiros. Não apontem uma arma, e ele não os molestará. E talvez eu tampouco.

 

13:47h

Perto de Lee Vining High Sierras, Califórnia

Da varanda de telhado baixo da cabana, um homem esguio, de compleição média, saiu da sombra segurando um rifle automático inglês Enfield. Suas palavras foram dirigidas a Smith, mas seu olhar se fixou em Marty Zellerbach.

Você não me disse que traria alguém com você, Jon. Não gosto de surpresas.

Marty sussurrou:

  • Por mim, vou embora agora mesmo, Jon. Smith ignorou o que ele disse. Peter Howell não era Marty Zellerbach. Suas defesas eram letais, e era melhor levá-las a sério. Smith falou tranqüilamente com o homem do rifle.

  • Mande seu gato se retirar e abaixe a arma. Conheço Marty há mais tempo do que conheço você, e no momento estou precisando de vocês dois.

  • Mas eu não o conheço disse o homem empertigado no mesmo tom sereno. Aí é que está o problema. Você está querendo me dizer que sabe tudo sobre ele e que ele é uma pessoa confiável?

  • Ninguém mais do que ele, Peter.

    Howell estudou Marty por um longo minuto com seus olhos azuis claros, frios, límpidos e tão penetrantes quanto um aparelho de raios X. Finalmente emitiu um som áspero, algo entre um silvo e um pigarro.

  • Ouish, Stanley. Seja um gato educado e se retire.

    O puma virou-se e afastou-se sem fazer barulho, olhando ocasio­nalmente para trás como se esperasse ser chamado para atacar.

    O homem elegante baixou seu rifle.

    Os olhos de Marty reluziram, olhando o grande felino se recolher obedientemente.

  • Nunca ouvi falar que um leão da montanha tivesse sido domado. Como foi que conseguiu? Ele tem até um nome! Que coisa mais espetacular! Sabia que reis africanos costumam treinar leopardos para a caça? E na índia treinam panteras...

    Howell o interrompeu.

  • É melhor conversarmos dentro de casa. Nunca se sabe quem poderá estar escutando. — Ele deu um passo para o lado, segurando seu rifle, afastando-se do caminho para que os outros o precedessem em direção à cabana. Quando Smith passou por ele, o inglês ergueu a sobrancelha e fez um movimento com a cabeça, apontando para as costas de Marty. Smith respondeu com um aceno afirmativo.

    Por dentro, a cabana era maior do que parecia pelo lado de fora e sua aparência rústica fazia crer. Entraram num living bem mobiliado sem nada que lembrasse uma cabana típica do oeste, a não ser sua enorme lareira de pedra. Os móveis eram confortáveis, no estilo inglês de casa de campo, em que peças antigas misturavam-se com poltronas de couro de clubes masculinos e lembranças militares de quase todas as guerras do século vinte. Os espaços não ocupados nas paredes por armas, bandeiras de regimentos, e fotos emolduradas de soldados exibiam telas de grandes proporções de pintores expressionistas abstratos — de Kooning, Newman e Rothko. Originais que valiam uma fortuna.

    A sala ocupava toda a largura da cabana, mas uma ala que não se via da fachada avançava pelos fundos, à esquerda, até o pinheiral. A cabana tinha a forma de L, a maior parte da área construída concentran­do-se no pé do L. A primeira porta do corredor atrás do living dava para um estúdio com um moderno computador.

    Marty soltou um grito de alegria. Peter Howell olhou-o, espanta­do, quando ele correu para o computador completamente fora de si, alheio a tudo e a todos.

    Howell perguntou fleumaticamente:

  • O que foi que deu nele?

  • Ele sofre da síndrome de Asperger — explicou Smith. — E um gênio, especialmente em eletrônica, mas conviver com outras pessoas é um suplício para ele.

  • Ele está fora do efeito sedativo de seus remédios?

    Smith acenou com a cabeça.

  • Tivemos de sair de Washington apressadamente. Dê-me um minuto, depois conversaremos.

    Sem dizer uma palavra, Howell voltou ao living. Smith juntou-se a Marty no computador.

    Marty olhou para ele com ar de censura.

  • Por que você não me disse que ele tinha um gerador?

  • O puma nos deixou fora do ar, e acabei me esquecendo de mencionar.

    Marty acenou com a cabeça, concordando.

  • O Stan é um leão da montanha. Sabia que na China treinam tigres siberianos para...

    —Falemos dessas coisas depois. — Smith não estava tão confian­te quanto à segurança deles como havia dito a Marty. — Você podia tentar descobrir novamente se Sophia fez ou recebeu chamadas telefônicas especiais? E também localizar Bill Griffin?

    —Era precisamente o que pretendia fazer. Só preciso me conectar com o meu mainframe e acessar meu software. Se o equipamento do seu amigo não for tão primitivo quanto o local que ele escolheu para morar, dentro de poucos minutos estarei botando para quebrar.

    —Ninguém melhor do que você para isso — disse Smith, dando um tapinha no ombro dele e se afastando enquanto, debruçado sobre o teclado, ele penetrava cada vez mais fundo no mundo cibernético que conhecia como ninguém.

    Marty se perguntou como uma maquineta daquelas podia ter tanta força. Mas isso era de somenos. O que importava era que as coisas estavam começando a engrenar.

    Smith encontrou Peter Howell sentado diante da lareira, limpando uma metralhadora de mão de metal preto. Ao seu lado, o fogo crepita­va, cuspindo labaredas alaranjadas. Não fora a arma militar nas mãos do inglês, dir-se-ia uma cena de paz no recesso do lar.

    Howell falou sem desviar os olhos do que estava fazendo.

  • Sente-se. Essa velha poltrona de couro é confortável. Resolvi comprá-la do meu clube quando percebi que correria perigo permane­cendo no meu país, e que talvez fosse mais sensato construir um abrigo onde fosse menos conhecido e pudesse proteger melhor minha reta­guarda.

    Com um pouco menos de um metro e oitenta e cinco, Howell era uma figura esbelta, elegante, na sua camisa de flanela de xadrez azul-esverdeada e calças cáqui do exército britânico enfiadas em botas de combate pretas. Seu rosto estreito tinha a cor e a textura de couro curtido em muitos anos de exposição ao vento e ao sol. Era sulcado por linhas tão profundas que seus olhos pareciam afundados em ravinas. Os olhos eram vivos mas reservados. Seus fartos cabelos pretos estavam quase totalmente cinzentos, e suas mãos pareciam duas garras bronzeadas.

  • Fale-me sobre esse seu amigo... Marty.

    Jon Smith afundou na poltrona e tocou nos pontos principais da infância que ele e Marty tinham passado juntos, das dificuldades da adolescência de Marty, e a descoberta de que era portador da síndrome de Asperger.

  • A doença mudou tudo para ele. Os remédios lhe deram uma relativa independência. Com eles, pôde acompanhar as aulas depois batalhar para conquistar dois diplomas de Ph.D. Quando medicado, ele pode fazer as coisas chatas e elementares necessárias para a sobrevivência. Troca as lâmpadas queimadas, lava sua roupa e cozi­nha. É claro que, com o dinheiro que tem, poderia contratar emprega­dos para fazerem essas coisas, mas a presença de pessoas estranhas o deixa nervoso. Já que é obrigado a seguir a rotina dos remédios, por que também não cuidar das outras coisas do dia-a-dia?

    —Não posso censurá-lo. Você disse que o efeito do remédio que ele toma está se desvanecendo?

    —Disse. Uma maneira de se perceber é quando ele começa a falar hiperbolicamente, como você ouviu. Ele discursa, se empolga, e raramente dorme, levando todo o mundo à loucura. Se fica muito tempo sem tomar a medicação, é capaz de se refugiar no reino da fantasia e ficar tão fora de controle que se torna perigoso para os outros e para si mesmo.

    Howell sacudiu a cabeça.

  • Tenho pena do seu amigo, não me interprete mal.

    Smith sorriu discretamente.

  • Mas também há o outro lado da moeda. Marty tem pena de você. Na verdade, ele tem pena de nós porque jamais poderemos saber o que ele sabe. Somos incapazes de conceptualizar o que ele compre­ende. E uma pena para todos nós que ele tenha se isolado para se concentrar exclusivamente nos seus interesses cibernéticos, embora, pelo que sei, em virtude do que ele faz, experts em computação do mundo inteiro o consultem com freqüência. Mas nunca pessoalmente. Sempre através de e-mails.

    Howell continuou limpando sua arma uma MP-5 Heckler & Koch tão mortífera quanto sua aparência. Ele disse:

  • Mas se ele age mecânica e lentamente quando está sob o efeito dos medicamentos e fica meio lelé quando o efeito passa, como é que consegue realizar alguma coisa?

  • Este é o truque. Ele aprendeu a se deixar transportar para além do estágio em que os remédios agem, mas não exatamente para o estado em que entra em órbita. Ele fica algumas horas por dia nessa condição intermediária, e esse é o seu estado de graça. Novas idéias o arrebatam com a velocidade de um relâmpago. Ele fica afiado, incisivo, rápido, e meio fora de controle a cada minuto.

    O rosto vincado de Howell desviou-se da arma. Seus olhos pálidos piscaram.

    Quer dizer então que ele é imbatível com computadores? Bem, se é assim, é outra coisa. Dizendo isso, ele voltou a se ocupar com sua submetralhadora H&K. Tinha sido a arma preferida do Serviço Aéreo Britânico Especial há alguns anos e talvez ainda fosse.

  • Você sempre limpa suas armas quando recebe visitantes? Smith fechou osolhos, descansando da longa viagem de São Francisco.

    Howell replicou com certo desdém:

  • Você por acaso leu The White Company, de Doyle? Um livro muito bom. Muito mais interessante para mim quando era garoto do que Sherlock Holmes. E estranho. O menino é o pai do homem esse tipo de enfoque. Ele pareceu pensar por um momento em meninos e homens antes de continuar. Seja como for, há um velho arqueiro no livro Black Simon. Uma manhã, o herói da história pergunta a ele por que estava afiando uma espada, uma vez que a companhia não esperava nenhuma ação, Black Simon conta a ele que tinha sonhado com uma vaca vermelha nas noites que antecederam as grandes batalhas de Crecy e Poitiers, e na noite anterior sonhara novamente com uma vaca vermelha. Por isso, estava se preparando. Naturalmen­te, mais tarde naquele dia, tal como Simon esperava, os espanhóis atacaram.

    Smith sorriu e abriu os olhos.

    Moral da história: quando eu apareço, é bom se preparar porque aí vem confusão.

    O rosto curtido de Howell sorriu.

  • É mais ou menos isso.

  • Como de costume, está certo. Preciso de ajuda, e provavelmente ela implicará perigo.

  • Para que mais serve uma velha alma penada e rato do deserto?

    Smith o conhecera no Desert Shield quando o hospital passava osdias se preparando e aguardando uma ação que nunca chegava. Mas chegou para Peter Howell. Ou, para ser mais preciso, Peter e o SAS foram ao seu encontro. Peter nunca dissera exatamente como tinha sido, mas uma noite ele apareceu no hospital como um fantasma saído da areia. Alguns médicos juraram ter ouvido um helicóptero ou um pequeno veículo nas imediações do deserto naquela noite, mas nin­guém tinha certeza. Como tinha chegado ou quem o trouxera perma­neceu um mistério.

    Smith percebeu de pronto que o paciente desconhecido usando um uniforme de campanha britânico sem indicação de posto ou unidade tinha sido mordido por um réptil venenoso. Salvara a vida de Peter com um tratamento imediato. Nos dias que se seguiram, enquan­to Peter convalescia, tiveram oportunidade de se conhecer melhor e passaram a se respeitar mutuamente. Foi quando Smith ficou sabendo que ele se chamava major Peter Howell, do Serviço Aéreo Britânico Especial, e que participara de uma missão secreta no Iraque. Isso foi tudo o que Peter revelou. Uma vez que era obviamente muito velho para ser um patrulheiro normal do SAS, a história evidentemente não fora toda contada, e só anos mais tarde é que Smith ficou sabendo do resto, mas mesmo assim ela permaneceu nebulosa.

    Em poucas palavras, Peter era um desses ingleses inquietos e audazes que pipocaram em tudo quanto foi conflito dos dois últimos séculos, pequenos ou grandes, de um lado ou de outro. Educado em Cambridge e Sandhurst, lingüista e aventureiro, ele se engajara no SAS durante a Guerra do Vietnã. Quando a ação esmoreceu, alistou- se voluntariamente na MI6 e na inteligência estrangeira. Desde então trabalhara para um e para outro desses órgãos de espionagem, depen­dendo de as guerras serem quentes ou frias, e às vezes ambas as coisas simultaneamente. Até ter passado da idade para uma, ou ter sobrevi­vido à sua utilidade para a outra.

    Agora gozava uma merecida aposentadoria na remota e escassa­mente habitada encosta oriental das Sierras. Ou pelo menos assim parecia. Smith suspeitava que aquela aposentadoria fosse tão nebulosa quanto o resto de sua vida.

    Considerado desertor, Smith precisava do tipo deajudaque o SAS e a MI6 podiam dar.

  • Tenho de entrar no Iraque, Peter. Secretamente, mas contando com contatos.

    Howell começou a remontar a H&K.

  • Isso não é perigoso, meu jovem. É suicídio. Nada feito. Nem mesmo para um ianque ou um britânico. Não da maneira como as coisas andam por lá nestes dias. Impossível.

  • Eles mataram Sophia. Tem de ser possível.

    Howell emitiu um som muito parecido com o que fizera ao chamar Stan o leão da montanha.

  • Acha que basta assobiar, não é? Incomoda-se de me explicar essa história de estar sendo acusado de desertor?

  • Está sabendo que estou sendo procurado como foragido?

  • Procuro me manter informado. Eu mesmo fui tido como desertor algumas vezes. Geralmente há uma boa história por trás dessas acusações.

    Smith relatou-lhe tudo o que havia acontecido desde a morte do major Anderson no Forte Irwin.

  • Eles são poderosos, Peter, seja lá quem forem. São capazes de manipular o exército, o FBI, a polícia, e talvez até todo o governo. O que quer que estejam planejando, aparentemente justifica matar pessoas. Tenho que descobrir o que representam e por que mataram Sophia.

    Limpa, lubrificada e remontada sua submetralhadora, Howell estendeu a mão para uma tabaqueira. Encheu seu cachimbo. Do fundo da casa vinham os gritos entusiasmados de Marty operando o computador.

    Depois de acender o cachimbo e soprar lentamente uma baforada, Howell murmurou:

  • De posse desse vírus, para o qual não há cura nem vacina conhecida, eles podem fazer do planeta um refém. Só pode ser alguém como o Saddam ou o Khadafi. Ou quem sabe a China.

  • Ou o Paquistão, a índia, qualquer país mais fraco do que o Ocidente. — Smith fez uma pausa. — Ou talvez nenhum país. E possível que o dinheiro seja a única mola por trás de tudo isso, Peter.

    Peter pensou no que seu amigo acabara de ponderar enquanto o aroma agradável do fumo do seu cachimbo perfumava a sala.

  • Ajudá-lo a entrar no Iraque pode me custar mais do que minha vida, Jon. O preço poderá ser a exposição de toda uma rede clandes­tina. A oposição a Saddam Hussein é fraca no Iraque, mas existe. Enquanto ela ganha tempo, minha gente e a sua estão lá para ajudá-la a se fortalecer. Se eu pedir, eles o ajudarão a entrar no país, mas não comprometerão sua rede subterrânea. Se você se deparar com dificul­dades sérias, terá que se safar por sua conta. O embargo imposto pelos Estados Unidos está destruindo a vida de todo o mundo menos a de Saddam e de sua gangue. Está matando crianças. Você não poderá contar com muita coisa do movimento de resistência e menos ainda do povo iraquiano.

    Smith sentiu um aperto no peito. Mesmo assim encolheu os ombros.

  • É um risco que tenho de correr.

    Howell deu uma baforada no seu cachimbo.

  • Então, tenho de começar a me mexer. Procurarei obter toda proteção possível. Gostaria de poder ir com você, mas seria uma ameaça desnecessária. Sou muito conhecido no Iraque.

    —É melhor eu ir sozinho. Ademais, tenho uma incumbência para você aqui.

    Os olhos de Howell brilharam.

    —O que é? Diga-me. Estava começando a ficar entediado. Dar de comer ao Stanley, convenhamos, tem suas limitações como forma de excitação.

  • Outra coisa — acrescentou Smith. Marty precisa renovar seu estoque de remédios, ou daqui a pouco será inútil. Posso lhe dar os vidros vazios, mas não podemos entrar em contato com o médico dele em Washington.

    Howell pegou os frascos e desapareceu no corredor, passando pela porta do quarto em que Marty delirava, empolgado. Smith estava sentado sozinho, ouvindo os brados de Marty. Do lado de fora, o vento soprava suavemente por entre os majestosos pinheiros. Era um som repousante, como se a terra estivesse respirando. Ele relaxava na poltrona, procurando desligar-se da dor que a lembrança de Sophia lhe causava e da preocupação e tensão com o resultado de sua busca no Iraque, e se sobreviveria a ela. Se alguém era capaz de viabilizar sua entrada naquele país brutalizado, esse alguém era sem dúvida Peter. Tinha certeza de que encontraria respostas em algum lugar se não entre os que tinham sido vitimados pelo vírus no ano passado, entre os que tinham sobrevivido.

     

17:05h

Washington, D.C.

No único e espaçoso quarto do caótico bangalô de Marty Zellerbach, nas imediações de Dupont Circle, o técnico em informática Xavier Becker observava, fascinado, Zellerbach acessar seu grande mainframe Cray de algum remoto PC, sondando os computadores da companhia telefônica com a delicada mestria de um cirurgião.

Xavier nunca vira nada parecido com o software de busca e invasão que Zellerbach criara. A beleza e a graça do trabalho do homem quase o faziam esquecer o motivo de estar ali.

Era tudo o que podia fazer para se manter um passo à frente de Zellerbach enquanto ele tentava entrar à distância num labirinto de falsos resultados positivos, retendo-o on-linepara dar tempo à polícia de Long Lake de localizar Zellerbach através do dédalo de relés espalhados pelo mundo afora. Xavier suava abundantemente, preocu­pado com a possibilidade de Zellerbach mudar a seqüência das linhas do relê, o que significava que o perderiam. Mas Zellerbach não mudou a seqüência. Xavier não podia compreender o descuido de um gênio como aquele. Era como se Zel lerbach tivesse estabelecido seu sistema de relés para esconder sua localização porque sabia que era a coisa certa a ser feita, não porque ligasse para as razões subjacentes porventura existentes. Por isso, nunca pensara em mudar novamente a trilha.

Uma voz tensa anunciou nos seus fones de ouvido:

Mais alguns minutos. Segure o homem, Xavier.

Jack McGraw, em Long Lake, soou como se estivesse suando tanto quanto Xavier. Duas vezes antes quase tinham pego Zellerbach, quando Xaviero mantivera dando voltas com dados forjados enquanto ele tentava localizar Bill Griffin e novamente quando acessou o computador do USAMRIID para checar o progresso das pesquisas com o vírus desconhecido. Nas duas ocasiões Zellerbach tinha se movimentado muito depressa para Xavier poder pegá-lo. Mas não dessa vez. Talvez os dados falsos de Xavier tivessem melhorado, ou talvez Zellerbach estivesse ficando cansado e perdendo sua capacida­de de concentração. Fosse o que fosse, mais alguns minutos e...

  • Peguei-o! —Jack McGraw gritou, exultante. — Ele está on­line nos arredores de uma cidadezinha da Califórnia chamada Lee Vining. Al-Hassan está perto de Yosemite. Estamos avisando-o agora.

    Xavier desligou. Não compartilhava do júbilo do chefe da segu­rança ao ver Zellerbach continuando a seguir a pista falsa que ele esperava que conduzisse ao telefonema que a Dra. Russell dera para Tremont. A criatividade de Zellerbach era bela demais para ser sabotada por sua própria negligência. Fazia Xavier sentir-se triste e confuso. Parecia que Zellerbach se deixara arrebatar pelo seu entusi­asmo, por uma espécie de ingênua ignorância da existência dos Xavier Beckers e Victor Tremonts deste mundo.

     

14:42h

Perto de Lee Vining

High Sierras, Califórnia

Smith entrou no quarto onde estava instalado o computador, e a frustração de Marty saudou-o como uma explosão atômica.

  • Droga, droga, droga! Onde é que você se meteu, enganadora quimera?Ninguém ousa derrotar Marty Zellerbach, está me ouvindo? Oh, eu sei que estás aí! Vá-se foder, dane-se e...

  • Mart? — Smith nunca o ouvira praguejar com tamanha veemência e se expressar com tanta virulência verbal. Devia ser outro sintoma de que estava começando a extrapolar os limites do tolerável. — Mart! Pare com isso. O que é que está acontecendo?

    Marty continuou a praguejar com palavras de baixo calão. Batia no console do computador, sem se dar conta de que Smith estava falando com ele, nem mesmo da sua presença.

  • Mart!Smith segurou-o pelos ombros.

    Marty rodopiou como um animal selvagem, arreganhando os dentes. E finalmente viu Smith. Subitamente, desmoronou sobre si mesmo, caindo, inerme, na sua cadeira. Olhou para cima angustiado.

  • Nada! Nada! Não encontrei nada. Absolutamente nada!

    —Tudo bem, Marty—disse Smith conciliatoriamente. — O que foi que você não encontrou? O endereço de Bill Griffin?

  • Nem um vestígio. E eu estava tão perto, Jon. Depois nada. O telefone também tocou. Eu estava no meu computador, usando meu próprio software. Mais um passo, e ele estaria lá. Tenho certeza. Tão perto...

  • Sabíamos que era um tiro no escuro. E o vírus? Alguma novidade do Forte Detrick?

  • Oh, isso? Consegui em poucos minutos. Oficialmente, agora são quinze mortes e três casos de sobrevivência aqui na América.

    Smith perguntou pressurosamente:

  • Mais mortes? Onde? E os sobreviventes? Como? Que tipo de tratamento?

    -—Não obtive detalhes. Tive que furar um novo tipo de barreira de segurança para levantar os dados que consegui reunir. O Pentágono mantém todos os seus dados debaixo da mais estrita segurança, menos para mim... naturalmente. —Ele deu um risinho abafado. — Nenhuma informação para o público exceto pelos canais militares.

    —E por isso que não ouvimos falar dos sobreviventes. Você seria capaz de localizá-los?

  • Não ouvi um sussurro sequer sobre quem eles são, ou onde possam se encontrar. Sinto muito, Jon.

  • Não estariam no Forte Detrick ou no Pentágono?

  • Não, não. Em nenhum desses lugares. E terrível. Acho que esses bandidos do Pentágono estão mantendo as informações fora do sistema!

    Smith pensou rapidamente. Seu primeiro impulso tinha sido procurar os sobreviventes e tentar se aproximar o mais possível para poder entrevistá-los. Parecia ser o caminho mais fácil e mais direto.

    A razão que levara o governo a sonegar as informações provavel­mente fora para evitar o pânico — procedimento operacional padrão —, e a situação parecia ser muito mais grave do que apenas as quinze mortes divulgadas. Cientistas deviam estar examinando exaustiva­mente os três sobreviventes à procura de respostas antes de se pronunciarem. O que significava que todos os possíveis recursos humanos e tecnológicos de segurança tinham sido mobilizados.

    Ele suspirou, frustrado. Nem ele nem mesmo Peter Howell jamais conseguiriam transpor essa formidável barreira.

    Além do mais, os sobreviventes seriam as primeiras pessoas que a inteligência do exército, o FBI, e os assassinos esperariam que ele procurasse. Estariam à sua espera. Ele não teria a menor chance. Os únicos sobreviventes que ele teria alguma possibilidade de contatar encontravam-se no Iraque. Aquele país fechado não estaria à sua espera, e não contava com a mágica da tecnologia do governo dos Estados Unidos. Sua melhor e mais rápida opção para descobrir o que se escondia por trás de toda aquela trama era ir lá.

    Marty estava dizendo excitadamente:

  • Diabo! Quase que te peguei! Mais um minuto...

    Smith saiu de seus devaneios e surpreendeu-o gritando e esmurrando o console, debruçado sobre a tela como um caçador que vê sua presa escapar-lhe poucos metros à sua frente.

    O medo comprimiu o peito de Smith. De repente, a mecânica do que Marty estava fazendo adquiriu um terrível sentido. Ele perguntou do chofre:

  • Há quanto tempo você está ligado com o seu computador em Washington?

    Howell apareceu no umbral da porta. Seu corpo esguio e muscu­loso estava rígido.

  • Ele está on-line através do seu próprio computador?

    —Há quanto tempo, Mart? — repetiu Smith, visivelmente tenso.

    Marty saiu do seu transe emocional. Piscou os olhos e checou a hora na tela.

  • Uma hora, talvez duas. Mas está tudo bem. Estou usando uma série de relés no mundo inteiro, exatamente como deve ser feito. Além disso, é o meu próprio computador. Eu...

    Smith interrompeu-o, não contendo sua irritação.

  • Eles sabem onde o seu computador está! Você não percebe? Neste preciso momento, eles podem estar no seu bangalô, operando seu computador, e o confundindo com pistas falsas. A busca na companhia telefônica foi sua primeira entrada no sistema?

  • Que merda, não. Localizei uma trilha completamente nova. Também achei um novo acesso para Griffin, mas que não levou a lugar nenhum. O da companhia telefônica abre novas avenidas. Sei que posso...

    A voz de Peter Howell soou enérgica.

  • Eles têm conexões na Califórnia?

  • Aposto a fazenda que têm — disse-lhe Smith.

  • Os remédios dele estão a caminho. Howell rodou os calcanhares. Os seus pistoleiros podem rastrear a linha telefônica para Lee Vining e para o meu nome. Não o verdadeiro, naturalmente. Terão que localizar a cabana, chegar até aqui, descobrir a estrada e nos achar. Numa hora eu diria, na pior das hipóteses. Com sorte, duas. Seria prudente darmos o fora em menos de uma.

 

18:51h

Cidade de Nova York

Victor Tremont ajustou seu smoking e ajeitou o laço da gravata no espelho da suíte do Waldorf-Astoria. Atrás dele, nua na cama desar­rumada, Mercedes O'Hara se espreguiçou voluptuosamente. Era uma mulher bonita — toda curvas, exuberante, e uma pele dourada.

Fixou os olhos negros na imagem dele refletida no espelho.

—Não gosto de ficar pendurada num cabide de closetjunto com as roupas até você decidir que devo ser usada novamente, Victor.

Tremont ferveu no espelho. Nem paciente nem reservada, a mulher alta de cabelos ruivos caindo-lhe sobre os seios, tinha sido um equívoco. Raramente Victor cometia um erro de julgamento como aquele. Na verdade, só se lembrava de uma única outra vez. A mulher se suicidara quando ele disse que jamais casaria com ela.

  • Tenho um compromisso, Mercedes. Iremos jantar quando eu voltar. A mesa está reservada no Le Cheval, seu favorito. Se não quiser assim, então é melhor ir embora.

    Mercedes não cometeria um ato tresloucado. A chilena era proprietária de grandes vinhedos e de uma vinícola mundialmente renomada no vale Maipo, tinha assento no conselho diretor de duas companhias de mineração e no parlamento chileno, participara do gabinete ministerial do governo do seu país e voltaria a participar. Mas, como todas as mulheres, exigia que ele lhe dispensasse muito tempo, e mais cedo ou mais tarde insistiria em casamento. Ninguém compreendia que ele não desejasse ou necessitasse de uma compa­nheira.

  • Então? — Ela continuou a olhar de onde estava reclinada na cama. — Nenhuma promessa? As mulheres são todas iguais. Não passamos de uma inconveniência. Victor só é capaz de amar Victor.

    Tremont sentiu-se profundamente irritado.

  • Não diria...

  • Não interrompeu ela —, isso exigiria que você compreen­desse. Ela se sentou na cama, pôs as longas pernas para fora e se levantou. Acho que me cansei do senhor, Dr. Tremont.

    Ele parou de arrumar a gravata e olhou, incrédulo, quando ela apanhou suas roupas e se vestiu sem voltar a olhar para ele. Ele foi acometido de um acesso inopinado de raiva. Quem é que ela pensava que era? Que petulância intolerável! Procurou se controlar com grande esforço. Voltou a ajeitar a gravata e sorriu para ela no espelho.

    Não seja ridícula, minha querida. Vá tomar um coquetel. Ponha aquele vestido verde que a deixa deslumbrante. Encontro-me com você no Le Cheval dentro de uma hora. Duas no máximo.

    Vestindo um conjunto preto Armani que fazia seus cabelos ruivos flamejar, ela riu.

  • Você me dá pena, Victor. E um perfeito idiota.

    Antes que ele pudesse responder, ela se retirou do quarto de dormir, ainda rindo.

    Ele ouviu quando ela bateu a porta da suíte.

    Uma onda de ódio o invadiu como uma avalanche, e ele se sentiu verdadeiramente abalado. Deu dois passos rápidos na direção da porta aberta do quarto. Ninguém ria impunemente de Victor Tremont. Ninguém! Uma mulher. Seria capaz de... de...

    Seu rosto ardia como se estivesse com febre. Pôs os punhos fechados nos quadris como se ainda fosse um colegial.

    Depois deu uma gargalhada curta, nervosa. Que diabo ele estava fazendo? Aquela mulher cretina que se danasse.

    Ela lhe poupara o tédio de corrigir seu engano. Chegara a pensar que a chilena fosse inteligente, mas, no fundo, nenhuma era. Com alívio, viu que daquela vez não haveria cenas dramáticas e lacrimosas de abandono. Não teria de lhe dar presentes caros de despedida. Ela saía de cena com as mãos abanando. Quem é que era idiota?

    Com um sorriso vitorioso, voltou para o espelho, acabou de ajeitar a gravata, esticou o smoking, admirou sua imagem mais uma vez, satisfeito, e virou-se para deixar o quarto e dirigir-se ao seu encontro.

    Antes de chegar à porta, seu celular tocou. Esperava que fosse al-Hassan com notícias de Jon Smith e Marty Zellerbach.

  • E então?

    A voz do árabe soou confiante.

  • Zellerbach se conectou com seu computador para continuar rastreando o telefonema da Dra. Russell para o senhor. Xavier o reteve o tempo suficiente para que McGraw pudesse localizá-lo em Lee Vining, na Califórnia. — A pausa que se seguiu foi obviamente de satisfação. — Estou falando de lá agora.

  • Em nome de Deus, onde é que fica Lee Vining?

  • Na encosta oriental de Sierra Nevada, perto do Parque Nacio­nal de Yosemite.

  • Como foi que você conseguiu chegar a um lugar como esse?

  • O FBI achou o motel onde eles passaram a noite e localizou a agência em que eles alugaram um carro. Smith pediu um mapa do norte da Califórnia e perguntou se uma estrada que cortava o Parque de Yosemite estava aberta. Fomos para o parque e quando McGraw entrou em contato conosco, continuamos em direção a Lee Vining. Eles estão no número de telefone de um homem chamado Nicholas Romanov, obviamente um nome falso. Estamos indo para lá.

    Tremont respirou fundo, satisfeito.

  • Bom trabalho. Mais alguma coisa? — Finalmente, a canseira com o tenente-coronel Jon Smith estava acabando.

    A voz do árabe assumiu um tom mais baixo — confidencial. Suas palavras transbordavam de orgulho.

    —Sim, tenho outras notícias. Notícias muito boas de que o senhor vai gostar e não gostar. Minha investigação sobre Smith demonstrou que esse Marty Zellerbach é um velho amigo dos tempos de colégio — e Bill Griffin também é.

    Tremont resmungou:

  • Então, Griffin realmente preveniu Smith no encontro no parque Rock Creek!

  • E sem dúvida não tem a menor intenção de matar Smith. Mas talvez ele não esteja nos traindo premeditadamente.

  • Você acha que ele ainda quer o dinheiro?

  • Não vejo nada que indique o contrário.

    Tremont acenou com a cabeça, refletindo.

  • Então, talvez possamos usá-lo em nosso benefício. Está certo, cuide de Jon Smith e de todos que estejam do lado dele. — Um plano começava a se formar na sua cabeça. Sim, ele sabia exatamente o que fazer. — Eu me encarrego de Griffin.

     

19:52h

Thurmont, Maryland

Bill Griffin esboçou um sorriso. O caminhão branco de entrega de pizzas passou pela casa de três andares de Jon Smith três vezes nas duas últimas horas. Ele estava dentro da casa escura desde as 6:00 da tarde, depois de ter interrompido sua vigilância durante o dia todo do Forte Detrick. A primeira vez que vira o caminhão da pizzaria passar em frente à casa de Jon, tivera sua atenção despertada. Seria o próprio Jon, checando se a casa estava segura, não estava sendo vigiada? A segunda vez, ele estava munido de seus binóculos de visão noturna e viu que o motorista não era Jon. Na terceira vez, não teve dúvida: era um dos homens de al-Hassan à procura de Jon e quem sabe também o estivesse procurando?

Griffin sabia que o árabe desconfiava desde o episódio do parque Rock Creek, mas al-Hassan não imaginaria que Griffin pudesse estar esperando dentro da casa. Griffin havia tomado todas as precauções para não deixar qualquer indício de que estava ali. Guardara o carro na garagem de uma casa desocupada, três quarteirões adiante, e entrara na casa de Jon forçando a fechadura da porta dos fundos. Uma vez que Jon não havia voltado nem para Detrick nem para Thurmont, Griffin estava começando a pensar que não viria. Al-Hassan já o teria matado? Não, do contrário o árabe não mandaria seus homens procurarem por Jon ou por ele.

Avançou rapidamente no escuro em direção ao estúdio. Assim que o computador começou a funcionar, introduziu a senha e o código criptográfico para acessar seu web site. Imediatamente viu a mensa­gem do seu velho colega do FBI, Lon Forbes:

 

O coronel Jonathan Smith está tentando localizá-lo. Ele também contatou Marjorie pelo mesmo motivo. O FBI, a polícia, e o exército estão no encalço de Smith, que está sendo considerado desertor e é procurado para prestar depoimento sobre dois casos de morte. Avise-me se quiser falar com ele.

 

Griffin pensou, e depois checou se havia mais alguma coisa. Dessa vez localizou a pista de alguém que havia invadido o site, o que poderia significar que uma terceira pessoa estaria à sua procura. Não havia nada no web site que pudesse revelar a um eventual hacker onde ele se encontrava. Contudo, a existência de um terceiro pirata deixava-o inquieto.

Retirou-se do sistema, desligou o computador e encaminhou-se para a porta dos fundos. Quando se certificou de que não havia n inguém vigiando os fundos da casa, mergulhou na escuridão da noite.

 

20:06h

Cidade de Nova York

As quatro pessoas reunidas numa sala privativa do Harvard Club na rua Quarenta e Dois estavam visivelmente nervosas. Conheciam-se há muitos anos, ocasionalmente tinham estado em lados opostos defen­dendo interesses conflitantes, mas agora compartilhavam a mesma atração por dinheiro, poder, e uma visão do futuro que chamavam de "olhar esclarecido" os reunira naquela sala.

O mais moço dos quatro, o general-de-divisão Nelson Caspar, oficial-executivo do Chefe dos Estados-Maiores Conjuntos, conversa­va em voz baixa com o senador Ben Sloat, visitante assíduo de Victor Tremontem sua isolada propriedade de Adirondack. O general Caspar olhava a todo instante para a porta da sala. Nancy Petrelli, secretária de Saúde e Assistência Social, andava de um lado para outro perto das janelas com seu elegante conjunto de malha creme. O general refor­mado Einar Salonen, principal lobista do complexo militar-industrial americano, estava sentado numa poltrona com um livro na mão mas na realidade não o estava lendo. Nem o general Caspar nem o general Salonen usavam seus uniformes, preferindo envergar ternos simples porém caros para aquela reunião secreta.

Suas cabeças voltaram-se quase que em uníssono quando a porta se abriu.

Victor Tremont entrou apressadamente.

  • Perdoem-me, senhores e senhora disse ele, fazendo uma mesura especial para a secretária de SAS —, mas fui retido por um assunto concernente ao nosso problema com o coronel Smith, que, tenho a satisfação de comunicar, está prestes a ser resolvido.

    Um murmúrio de alívio espalhou-se pela saia.

  • Como foi a reunião do conselho da Blanchard? rosnou o general Caspar. Era a pergunta que estava na mente de todos.

    Tremont estava empoleirado no braço de um sofá de couro, muito elegante no seu smoking. Irradiava segurança e parecia exercer sobre seus quatro convidados a atração de um ímã. Ergueu seu queixo aristocrático e disse com um largo sorriso:

  • Tenho agora o firme controle de toda a companhia.

    A voz do general Salonen foi a que se fez ouvir mais alto.

  • Parabéns!

  • Grande notícia, Victor concordou o senador Sloat. Isso nos coloca numa posição de comando absoluto.

    A secretária Petrelli admitiu:

    Confesso que não tinha certeza de que seria capaz de conseguir.

  • Pois eu não tinha a menor dúvida disse o general Caspar, sorrindo. O Victor sempre vence.

    Tremont riu novamente.

  • Obrigado. Muito obrigado pelo voto de confiança. Mas devo admitir que concordo com o general Caspar.

    Todos riram, incluindo Nancy Petrelli, embora seu riso não fosse dos mais entusiásticos. Ela foi direto ao ponto crítico.

  • Revelou ao conselho todos os detalhes?

  • Tintim por tintim. Tremont cruzou os braços, sorriu, e esperou a reação, provocando-os.

    A tensão na sala ficou elétrica. Os olhares gerais estavam crava­dos nele.

  • E então? perguntou Nancy Petrelli finalmente.

    O que foi que o maldito conselho disse?quis saber o general Salonen.

    Victor Tremont rasgou um largo sorriso.

  • Aderiram ao Projeto Hades como um cachorro pula em cima de um osso. Ele olhou em torno da sala para os rostos aliviados. — Podiam-se veros cifrões brilhando nos olhos de todos. Tive a impres­são de estar em Las Vegas diante de uma fileira de caça-níqueis.

  • Não demonstraram apreensão ou escrúpulo? perguntou o senador Sloat. Não teremos que nos preocupar com retratações? Dores de consciência?

    Tremont sacudiu a cabeça.

  • Lembre-se de que escolhemos todos eles a dedo. Consultamos nossas fontes para podermos selecionar em função de seus anteceden­tes, interesses e tolerância a riscos. Seu maior problema tinha sido conseguir que Haldane aprovasse seus nomes, a fim de serem subme­tidos e aprovados pelo conselho à medida que seus velhos membros se aposentassem ao término de seus mandatos. Naturalmente, a questão agora é sabermos se fizemos as escolhas certas.

  • É óbvio que fizemos disse o senador Sloat com convicção.

  • Exatamente — disse Tremont. Oh, eles ficaram meio apavorados quando mencionei a possibilidade de ocorrerem mortes caso o nosso soro não seja aplicado imediatamente, e as baixas inevitáveis em escala mundial antes do seu uso em seres humanos ser aprovado. Mas expliquei que, por outro lado, o vírus não é cem por cento fatal sem tratamento, e eles estimaram que as mortes não passarão de um milhão no mundo inteiro se o governo aceitar nosso soro sem perda de tempo.

    Nancy Petrelli, sempre pessimista, disse:

  • E se o governo não concordar em pagar o nosso preço?

    Um silêncio pesado abateu-se como uma mortalha sobre a peque­na sala. Todos desviaram os olhares desconfortavelmente da secretá­ria de Saúde. Era uma pergunta que afligia a todos.

    Ah, é claro disse Tremont —, sabíamos que havia esse risco desde o início. Foi o jogo que tivemos que bancar para ganharmos os bilhões que vamos faturar. Mas duvido que o nosso governo ou qualquer outro governo encontre outra alternativa. Se não comprarem o soro, muitos de seus cidadãos morrerão em toda parte. Esta é a resposta pura e simples.

    O general Caspar acenou com a cabeça apreciativamente.

  • Quem ousa, vence.

  • Ah, sim. O lema do SAS. —- Tremont retribuiu o aceno do general e acrescentou secamente:

    Mas me apraz pensar que corremos nossos riscos com os olhos voltados para recompensas muito mais relevantes do que um punhado de medalhas e um tapinha nas costas dado pela rainha.

    Tremont balançou a perna, observando os quatro se debatendo com a magnitude do desafio. A consciência torna todos nós covardes. As palavras de Shakespeare, dizendo mais ou menos isso, ecoaram na sua mente. Mas invoque sua coragem ao máximo, e não falharemos. Mas não foi coragem nem Shakespeare que os levaram a aceitar o risco de uma hecatombe em potencial. Não no começo do século vinte e um. Foi o poder e a riqueza.

    O general Salonen disse rudemente:

  • Mas nenhum de nós ou de nossos familiares morrerá. Nós temos o soro.

    Todos tinham pensado nisso, mas só Salonen tivera a franqueza ou a insensibilidade de dizê-lo. Tremont continuou esperando.

    —Quanto tempo ainda até começar? — perguntou Nancy Petrelli.

    Tremont considerou a pergunta.

  • Diria que dentro de três ou quatro dias a realidade de uma epidemia em grande escala atingirá a consciência global como um relâmpago.

    Houve um murmúrio geral. Era difícil dizer se de piedade ou de cobiça.

  • Quando isso acontecer — continuou Tremont —, quero que cada um dos senhores enfatize o perigo que a epidemia representa para a humanidade. Apertem os botões do pânico. Anunciaremos, então, o nosso soro, o antídoto para a calamidade.

    —E acorreremos pressurosamente para resgatar a humanidade — disse o general Caspar com uma risada grosseira.

    Todas as dúvidas porventura existentes se dissiparam quando os quatro conspiradores compartilharam a mesma visão do objetivo com que sonhavam havia tanto tempo. Estava muito perto de ser alcançado. Não mais do que o outro lado do horizonte. Por um momento, qualquer receio de uma oposição, de uma possível traição de Bill Griffin, ou da obstinada investigação de Jonathan Smith eclipsou-se de suas mentes.

  • Que beleza! — exclamou alguém em voz alta.

 

15:15h

High Sierras, Califórnia

Oh, olhe só! — gritou Marty. — Que beleza! — Ele parou abruptamente no corredor, virou-se, e seu corpo desajeitado precipi­tou-se aos trancos na direção de uma sala escura, cavernosa, nos fundos do refúgio de Peter Howell na Sierra. Ele olhou, fascinado, para a parede oposta, com os olhos verdes brilhando.

No alto da parede, uns três metros acima do chão, mapas eletrô­nicos transparentes cintilavam. Cada nação era iluminada com uma cor diferente. Pequenas lâmpadas piscavam continuamente através dos mapas. Fileiras de luzes multicoloridas chamejavam depois de cada nome num painel fixado na parede ao lado dos mapas. Abaixo de tudo isso, a última palavra em equipamento de computação enchia a parede. No centro da sala, via-se uma poltrona de comando de couro e aço. De cada lado, um grande globo e um arquivo de aço.

Smith estudou os mapas — Iraque, Irã, Turquia e partes dos três países que formavam a terra histórica dos curdos. Havia também mapas de Timor Leste, Colômbia, Afeganistão, sul do México, Guatemala, El Salvador, Israel e Ruanda. Pontos nevrálgicos de conflitos tribais, rivalidades étnicas, revolução agrária, militância religiosa, levantes populares.

  • Sua sala de controle? — perguntou Jon a Peter.

    —Certo — assentiu Peter com um gesto de cabeça.—E bom para me manter ocupado.

    Era mais do que um cidadão particular devia — ou podia — ter. Obviamente, Peter Howell continuava trabalhando para alguém.

    Marty correu para a instalação de computadores.

  • Notei que seu PC era muito potente para ser um equipamento comum. Ele deve estar ligado a este Golias. É magnífico! Gostaria de ter mapas como esses no meu bangalô. Monitora atividades nesses países, não é? Está diretamente ligado com centros em cada um deles? Precisa me mostrar o que está fazendo no momento. Como os mapas são interligados. Como...

  • Agora não, Marty. Jon procurou ser paciente. — Estamos indo embora. Evacuando o local, lembra-se?

    Marty ficou desapontado.

  • O que é tão importante para nos obrigar a ir embora? Quero ficar aqui para sempre. — A expressão de tristeza se dissipou instan­taneamente. Seu rosto redondo se iluminou como os mapas na parede. — E isso o que vou fazer! Este lugar é perfeito. O mundo inteiro virá a mim. Nunca terei que sair daqui ou...

  • Estamos indo embora agora mesmo — Jon disse com firmeza, puxando-o pelo braço em direção à porta. — Você podia nos ajudar a colocar a bagagem no carro, tá legal?

  • Já que estamos aqui, deixem-me apanhar meus arquivos. — Peter pegou uma pilha de pastas de arquivo que estava em cima do gabinete móvel. Ao cruzar a porta, ele apertou um botão na esquadria. Jon ouviu um ligeiro clique. — Vocês dois peguem as provisões que quiserem na cozinha, o suficiente para um ou dois dias. Vamos precisar de armas, munição e de uísque, naturalmente.

    Jon acenou com a cabeça.

  • Também temos alguma coisa no nosso carro. Só quero ver como é que vamos carregar isso tudo!

  • Ah, confie em mim.

    Uma voz cantarolando baixinho veio da sala de controle. Marty se desvencilhara de Jon e estava sentado na poltrona de comando de Peter em frente ao console que ocupava toda a extensão da parede. Ele estava excitado, agitando-se de um lado para outro, sem tirar os olhos das luzes cambiantes dos mapas transparentes na parede. Estava come­çando a compreender o que eles significavam, como se interligavam. Era intrigante. Quase conseguia sentir a pulsação das luz e sem sintonia com seu cérebro.

    Jon tocou no ombro dele.

  • Marty?

  • Não! — Ele rodopiou na poltrona como se tivesse sido mordido. —Ninguém vai me tirar daqui! Nunca! Nunca! Nun...

    Jon tentou segurá-lo enquanto ele escoiceava e se contorcia.

  • Ele precisa voltar a tomar seus remédios imediatamente — disse ele a Peter.

    Enraivecido, Marty dava socos no ar, esbravejando incoerências. Jon desistiu e o abraçou com força, levantando-o do chão e o afastando do console enquanto ele continuava a espernear e a berrar.

    Peter franziu o cenho.

  • Não temos tempo para essas coisas. — Dizendo isso, ele deu um passo à frente e desferiu um murro no queixo de Marty.

    Marty arregalou os olhos e desabou nos braços de Jon, desmaiado.

    Peter voltou para o corredor.

  • Traga-o.

    Jon suspirou. Pressentia que Marty e Peter não iam se dar bem. Ergueu Marty, que tinha uma expressão de paz estampada no rosto redondo, jogou-o no ombro e seguiu o ex-integrante do SAS e agente do MI6 pela porta dos fundos da cozinha, que dava para a garagem.

    Uma van rural de tamanho médio estava estacionada à espera deles.

  • Há uma outra estrada — deu-se conta Jon. — Naturalmente, tinha de haver. Você não ia morar num lugar onde pudesse ser encurralado.

  • Claro. Nunca dependa de uma única saída. — E uma estrada de terra. Não consta do mapa, não é bem conservada, mas quebra o galho. Enfurne o Marty na van.

    Jon depositou Marty num dos três beliches superpostos na trasei­ra. O resto do interior da van era o usual — cozinha, nicho para as refeições, banheiro, tudo em miniatura, exceto o living, que era o coração do veículo. Era uma versão compacta do centro de cartografia e informática da casa, completo com mapas de parede, console e luzes coloridas que se acenderam enquanto Jon observava.

  • Estou recarregando as baterias — disse Peter quando Jon voltou para a garagem. O inglês tinha ligado a van à corrente da casa.

    Levaram uma hora carregando a van com comida, uísque, armas e munição. Enquanto Jon abastecia o veículo, Peter sumiu momenta­neamente para tomar as últimas deliberações. Finalmente Marty gemeu no beliche, deixando cair pesadamente um dos braços. Ao mesmo tempo, Jon ouviu o motor de um avião que se aproximava voando baixo.

    Ele sacou sua Beretta e correu para dentro da casa.

    -— Relaxe — disse-lhe Peter.

    Saíram paraa frente da casa e sondaram o céu das montanhas. Um monomotor Cessna sobrevoou a cabana em vôo rasante. Um pequeno tubo de aço foi jogado do avião na clareira. Peter foi apanhá-lo.

  • Os remédios do seu amigo.

    Dentro da van, Jon fez Marty sentar-se no beliche, deu-lhe um comprimido com um copo d'água e ficou observando enquanto ele tomava o remédio, resmungando o tempo todo. Depois voltou a se deitar sem dizer uma palavra e ficou olhando para o teto da van. Raramente ele falava de sua doença, mas às vezes Jon o surpreendia num momento de total alheamento como aquele, olhando parao vazio, como se estivesse imaginando o que as outras pessoas sentiam e pensavam, como seria realmente uma "vida normal".

    Peter enfiou a cabeça na porta da van. Sua fisionom ia estava tensa, preocupada.

  • Temos visitas.

  • Fique calado, Marty. Jon bateu de leve no ombro do amigo e correu para a garagem.

    Um par de binóculos pendia do pescoço de Peter. Ele segurava sua metralhadora MP5 H&K numa das mãos, e com a outra atirou para Jon um letal rifle Enfield. Seu rosto atilado, permanentemente bronzeado, irradiava um estranho brilho interior, como que revelando quem ele realmente era do que realmente gostava, o que fazia seu sangue correr mais depressa nas veias como se tivesse subitamente ganhado vida.

    Jon respirou fundo e sentiu o alvoroço de excitação e medo que costumava acometê-lo. Talvez os matadores de aluguel tivessem chegado. E ele estava pronto para enfrentá-los. Na verdade, ansioso.

    Com Peter na frente, atravessaram curvados o interior da casa em direção à varanda. Esconderam-se atrás da sebe que a contornava enquanto observavam a ponte de aço para pedestres, cruzando a ravina profunda, e os cinco indivíduos que, do outro lado, examinavam o carro de aluguel de Jon.

    Peter olhava com o binóculo.

  • Três são auxiliares do xerife do condado. Dois estão usando ternos escuros e chapéus e parecem estar comandando a expedição.

  • Não parecem ser os pistoleiros que estão atrás de nós. Jon pegou os binóculos e focalizou-os. Três eram definitivamente poli­ciais uniformizados, e os outros dois davam as ordens. Os dois de terno e chapéu estavam um pouco afastados, falando um com o outro como se os policiais não estivessem presentes. Um deles apontou para a cabana.

  • FBIimaginou Jon.Eles não vão avançar atirando. Afinal, sou apenas um desertor.

    A menos que estejam mancomunados com os seus perseguido­res, ou que a situação tenha se modificado. O melhor é não facilitar­mos. Façamos alguma coisa que dê a eles o que pensar.

    Peter deixou Jon e desapareceu no interior da casa, Jon continuou a focalizar os homens do FBI, que estavam dando instruções aos policiais para se manterem na retaguarda enquanto eles tomavam a dianteira. Os cinco sacaram suas armas e, com os agentes do FBI sempre na frente, aproximaram-se da ponte. O primeiro homem do FBI carregava um megafone.

    Os cinco homens estavam a poucos passos da ponte quando estancaram abruptamente, alarmados. Jon pestanejou, ele próprio perplexo. Um segundo antes a ponte estava no lugar. No segundo seguinte, tinha desaparecido num golpe de mágica.

    Ouviu-se um estrondo metálico eumanuvem de poeira pardacenta subiu do fundo da ravina.

    Os invasores ficaram boquiabertos. Olharam para baixo, depois para cima e para os lados. Os três policiais se aproximaram cautelo­samente. Com o binóculo, Jon pôde vê-los nitidamente sorrindo e olhando para o fundo da ravina com um ar de aprovação. Em seguida puseram-se a rir abertamente, gozando, sem dúvida, a peça pregada nos homens do FBI.

    Peter voltou e se agachou de novo ao lado de Jon.

  • Então, gostou da pequena surpresa que reservei para eles?

  • Claro que sim. Mas o que foi exatamente que aconteceu?

    Prestidigitação eletrônica. A ponte tem umas dobradiças muitoresistentes do lado de cá. Quando aciono um dispositivo que a prende do outro lado, ela se solta e se precipita na ravina. Bate na ribanceira e fica dependurada no espaço. É uma trabalheira dos diabos colocá-la devolta no lugar, mas tem um pessoal em Lee Viningque faz isso para mim quando é preciso. Ele se levantou. Em todo caso, isso deverá detê-los pelo menos mais uma meia hora. A descida e a subida das bordas da ravina são penosas e tomam tempo. Vamos embora.

    Jon sorriu ao atravessar a casa, encaminhando-se para a garagem, onde Marty estava sentado nos degraus da porta da van, parecendo cansado e arrependido.

  • Oi, Jon. Dei muita alteração, causei algum problema? disse ele, articulando as palavras morosamente.

  • Você foi brilhante como sempre, mas vamos ter de levantar acampamento novamente. O FBI nos descobriu. Estão com o nosso carro, e temos que cair fora rapidamente.

  • O que é que posso fazer?

  • Entre e espere.

    Jon recuou e desapareceu de novo. Encontrou o inglês sentado de pernas cruzadas no chão coberto de agulhas de pinheiro embaixo das árvores. Raios de sol se infiltravam por entre os galhos dos pinheiros, desenhando formas intrincadas no inglês e no dourado leão da mon­tanha sentado nos quartos traseiros, na frente dele.

    Peter falava carinhosamente.

  • Sinto muito, Stanley, mas estou novamente de partida. Sei que é uma chateação, mas é inevitável. O jeito é você voltar para a patroa e se defender sozinho por uns tempos. Tome conta da fortaleza até eu voltar, e fique certo que voltarei num piscar de olhos.

    O grande e solene felino, com a cauda em repouso, mantinha os olhos amarelos fixados em Peter. Jon chegou a ter a impressão de que o animal compreendia as palavras de seu amo. O que quer que fosse palavras, tom de voz ou linguagem corporal o fato é que o puma aproximou-se vagarosamente, esticou o pescoço e roçou gentilmente o focinho no nariz de Peter.

  • Adeus, meu rapaz disse Peter, retribuindo o afago.

    Ele se levantou. Trocaram um olhar, e o gato do mato virou as costas e deu um salto gracioso na direção das árvores. Peter foi ao encontro de Jon.

  • Ele vai ficar bem? indagou Jon. E capaz de sobreviver sozinho?

  • O Stan é amestrado apenas parcialmente, Jon. Não é inteira­mente domado. Aliás, tenho minhas dúvidas se algum felino desse porte chega a ser completamente domado, mas isso já é uma outra história. Stanley é capaz de me tolerar e defender a cabana, mas, na verdade, ele leva uma espécie de vida dupla. Possui seu território próprio, caça normalmente, se acasala e gera leõezinhos, mas por alguma razão me aceitou e meus domínios como parte de sua responsabilidade. Come a comida que dou a ele mais como compensação pelo tempo roubado à caça, não porque precise dela. Ele vai ficar muito bem.

  • Ele não vai atacar aqueles tiras lá do outro lado?

  • Só se eu mandar. Do contrário, evitará seres humanos, como, de resto, qualquer leão a menos que seja atacado. Mas ele protegerá o lugar contra outros animais — ursos, por exemplo, que o destruiriam. — De repente ele levantou a cabeça e aguçou os ouvidos. — São eles! Estão na ravina e começam a subir a ribanceira. É hora de darmos o fora.

    Momentos depois, devidamente abastecida e carregada eletricamente, a VR iniciou a descida da montanha por entre pinheiros e cedros imponentes e um ou outro carvalho negro. Atrás deles, ecoou uma série de explosões abafadas dentro da cabana.

  • Jon! O que é isso? — Marty girou a cabeça bruscamente.

  • Eles estão dentro da casa! — exclamou Jon. — Miseráveis!

  • Dificilmente — aparteou Peter, tranquilizando-os. — Apenas um pequeno dispositivo de autodestruição. Não podíamos entregar- lhes de bandeja a sala de controle e informática, não é mesmo? Tudo que está lá dentro será destruído, mas o resto da casa permanecerá incólume. Bem bolado, não acham? Obra de um velho sapador que conheço, atualmente dedicado à engenharia eletrônica.

    Com o inverno atrasado nas Sierras, trechos cobertos de neve das primeiras nevascas reluziam nos pequenos vãos entre as árvores. Pedregulhos e sulcos no leito da estrada provocados por chuvas passadas sacudiam violentamente a van. Estavam mantendo uma boa velocidade média enquanto chocalhavam por estradas íngremes e ziguezagueantes.

    Segurando-se como podia, Jon perguntou:

  • Você providenciou minha ida ao Iraque?

    Peter enfiou a mão no bolso da jaqueta que usava por cima de uma camisa de flanela. Entregou a Jon um envelope.

  • O printout está aí dentro. Siga as instruções ao pé da letra, ou a viagem acabará muito antes do que você possa imaginar. Ao pé da letra.

  • Compreendo.

    Peter olhou de soslaio.

  • Ouvi dizer que havia uma tarefa para mim.

  • E eu, Jon? — perguntou Marty da traseira do veículo.

  • Vocês sabem o que temos de fazer — disse Jon aos dois. — Descobrir de onde vem o vírus, como tratá-lo, quem o contraiu, o que eles planejam fazer com ele, e quem matou Sophia.

  • E como detê-los — acrescentou Peter gravemente.

  • Especialmente como detê-los. — Jon segurou-se firmemente quando uma cratera na estrada desalojou-os de seus assentos, sacudindo-os até os ossos. — Todos os Laboratórios Bioquímicos de Níveis Três e Quatro estão trabalhando febrilmente para descobrir o trata­mento. Portanto, essa área está bem coberta. Mas ainda restam muitas perguntas sem respostas. Na verdade, todas elas podem ser resumidas numa única pergunta: Quem possui o vírus? Porém, informações sobre qualquer uma das outras podem levar à resposta final. Estou contando com o Iraque como a melhor fonte para descobrir de onde ele vem e o que estão planejando fazer com ele.

  • E a resposta sobre quem matou Sophia também poderá esclarecer o resto — disse Peter. — Essa, sem dúvida, será minha missão, certo?

  • Sua e de Marty. — Jon olhou para trás. — Continue rastreando telefonemas e tentando localizar Bill Griffin. Mas jogo rápido dessa vez. Não fique toda vida na mesma linha. Mude constantemente de percursos. Essas são duas missões muito importantes.

    A culpa estava estampada no rosto de Marty.

  • Sinto muito, Jon.

  • Eu sei. — Jon fez uma pausa. — Temos de encontrar uma maneira de nos mantermos em contato.

    —A Internet—disse Marty prontamente. — Mas não através dos e-mailshabituais.

  • Está certo — disse Peter. — Mas talvez haja algum lugar onde possamos deixar uma mensagem.

    Jon sorriu.

  • Eu sei onde: bem debaixo do nariz deles, mas onde nunca a verão. Podemos usar o web site da síndrome de Asperger.

    Marty sacudiu a cabeça entusiasticamente.

  • Grande sacada, Jon. Perfeita.

    Continuaram discutindo o web site e que tipo de mensagem em código poderiam deixar nele quando Peter gritou inesperadamente:

  • Apertem os cintos! Fantasmas pela proa!

    A van deu uma guinada tão violenta para a direita que ficou momentaneamente equilibradasomente sobre duas rodas. Uma rajada de balas vindo da floresta varreu a estrada. Vidros e cromados da traseira da van voaram para todos os lados. Marty gritou.

  • Mart? Jon olhou para trás.

    Marty estava encolhido no chão da sacolejante van, apertando a perna esquerda e tentando não ser jogado de um lado para outro como um saco de farinha. Um saco de farinha ensangüentado. Jon percebeu uma mancha de sangue que se alastrava pela perna esquerda da calça de Marty, mas ele sorriu debilmente e disse com voz trêmula:

  • Estou bem, Jon.

  • Pegue uma toalha gritou Jon para trás —, dobre-a e aperte- a com força contra o ferimento. Se o sangramento não parar, grite.

    Ele tinha de ficar na cabine do motorista, ao lado de Peter, onde pudesse usar o rifle Enfield caso algum dos atacantes tentasse inter­ceptá-los.

    Peter estava muito ocupado para poder usar uma arma, segurando firmemente o volante e mantendo frios os olhos pálidos. O veículo saiu brusca e repentinamente do leito da estrada, enveredando pela mata, sem bater, milagrosamente, em nenhuma árvore, enquanto Peter o dirigia com a perícia e precisão de um astronauta atracando sua nave numa estação espacial. Duas vezes ele mergulhou o pesado transporte em riachos, levantando cortinas de água e tangenciando perigosamen­te pedras escondidas abaixo da superfície.

    Na estrada, dois homens correram com seus rifles nas mãos, tentando alvejar a VR, mas as imprevisíveis guinadas constantes e os pinotes do veículo frustravam seus propósitos. Esquivavam-se de galhos e saltavam sobre pedras. Atrás deles, uma grande van cinzenta batalhava para conseguir dar a volta na estrada estreita e aderir à perseguição.

    Quando os perseguidores estavam bem distanciados, Jon avistou uma ravina profunda diretamente na frente deles.

  • Peter! Cuidado!

  • Já vi! Peter pisou abruptamente no freio, e a van derrapou, descrevendo uma meia curva. A pesada viatura quase capotou, conti­nuando a deslizar no terreno lamacento, bateu de lado em dois gigantescos blocos de pedra e finalmente parou a poucos metros da beira da ravina.

    Na estrada, os perseguidores, embora ainda longe, estavam se aproximando novamente. A distância, a van cinzenta estava quase conseguindo completar a volta.

    A tensão na VR era grande. Jon lançou um olhar para o fundo da ravina e enxugou o suor do rosto.

    —Segurem-se que lá vamos nós. Peter ligou o motor e o grande veículo arrancou paralelamente à ravina e diretamente de volta à estrada.

    Jon olhou para os dois atacantes que estavam tentando encurtar o caminho da estrada, correndo por entre as árvores.

  • Eles estão chegando perto.

    Peter olhou rapidamente para os homens que corriam. A ravina desviou-se subitamente numa curva fechada e ele tirou a VR do meio das árvores, voltando para a estrada. Com um sorriso de alívio, manobrou o veículo e arrancou pela estrada de terra, levantando nuvens de poeira.

    Uma rajada final foi disparada, e as balas partindo de trás das árvores passavam zunindo pela van em fuga. Jon respirou fundo e relaxou a pressão com que segurava sua arma. Checou o retrovisor lateral: um terceiro homem juntara-se aos dois primeiros, e os três mostravam-se irritados e frustrados, com suas armas pendendo das mãos desoladamente no meio da estrada de terra.

    Jon reconheceu o homem atarracado, troncudo, que se juntara aos dois primeiros.

  • São eles disse ele com raiva. Os caras que vêm tentando me matar. Olhando para Peter, acrescentou: Haverá outros escondidos em algum lugar.

  • Certamente. Peter estudou a estrada rústica enquanto o veículo continuava a corcovear. Estratégia de evasão, eu diria. Conhecimento do terreno. Confiar que o inimigo superestime o elemento surpresa.

    Jon foi ter com Marty, segurando-se em tudo ao seu alcance. Mas dessa vez Marty estava certo o ferimento na sua perna esquerda era superficial. Jon aplicou-lhe um antibiótico e protegeu-o com uma atadura. Uma das janelas da van tinha sido totalmente destruída e a lataria lateral apresentava três perfurações de balas, mas nada havia penetrado, e nada importante tinha sido danificado, especialmente no computador que fazia parte do equipamento padrão de Peter.

    Ele se juntou novamente a Peter na frente, e cinco minutos depois ouviu o barulho de trânsito.

  • O que é que você acha? disse ele, sondando a estrada de terra, que se confundia com as árvores. Será que estarão à nossa espera no entroncamento com a rodovia principal?

  • Ou quem sabe até antes. Mas vamos desapontá-los. Peter sorriu o seu sorriso enigmático.

    Pouco adiante havia um caminho, saindo da estrada à esquerda. Ainda mais estreito do que a estrada de terra em que estavam, mais profundamente sulcado, era apenas algumas polegadas mais largo do que a van. Mas era uma estrada, não uma simples trilha.

    Peter explicou.

  • É um caminho usado para combater incêndios. A floresta está cheia deles. Não são assinalados em nenhum mapa, a não ser nos do serviço florestal e do corpo de bombeiros distrital.

  • Vamos percorrê-lo? perguntou Jon.

  • É o percurso panorâmico. Com um sorriso irônico, Peter desviou a VR para ele.

    Galhos dos pinheiros roçavam nas laterais do veículo, arranhando-as. O barulho contínuo era irritante, semelhante ao de unhas resvalando na superfície de um quadro-negro. Quinze minutos depois, quando Jon estava começando a pensar que ia enlouquecer, ele avistou o fim da estrada.

  • Acabou? perguntou ele, esperançoso, a Peter.

    O quê? Terminar esta encantadora excursão?Peter embicou a van noutra estrada de incêndio. Agora estamos descendo, notou? Não vai demorar muito ele disse jovialmente. — Agüente firme, companheiro.

    A nova estrada de incêndio era igualmente apertada. Galhos pendentes continuavam a arranhar as laterais da VR enquanto ela avançava. Jon fechou os olhos e suspirou, procurando proteger a pele. Felizmente Marty não estava reclamando. Mas estava sob o efeito de seus remédios. Graças a Deus por pelo menos isso.

    Quando finalmente atingiram a rodovia principal. Jon se aprumou no banco dianteiro e ficou alerta. Peter parou a VR embaixo das árvores, na orla da floresta. O ruído enervante dos galhos roçando na lataria do veículo cessara, e somente o barulho do motor e do tráfego na rodovia perturbava a paz da floresta.

    Jon olhou em volta.

  • Algum sinal deles? — O tráfego na ampla rodovia de duas pistas na frente deles era mais intenso do que tinham previsto. — Esta não é a 120.

  • É a US395. A maior nestas bandas. Está de bom tamanho. Está vendo alguém vigiando?

    Jon checou nos dois sentidos.

  • Ninguém.

  • Ótimo. Também não estou vendo. Que direção tomamos?

  • Qual das duas nos leva mais depressa a São Francisco?

  • Para a direita, rumo à 120, atravessando o Parque Yosemite.

  • Então, tomemos a direita, na direção da 120.

    Peter piscou os olhos.

  • Não lhe parece um tanto impertinente?

    —Voltar pelo mesmo caminho que viemos deve ser a última coisa que eles esperariam que fizéssemos, e, por outro lado, todas as VRs se parecem umas com as outras.

    — A não ser que eles tenham anotado o número de nossa placa.

  • Arranque as placas.

  • Certo. Devia ter pensado nisso há mais tempo. — Peter tirou do porta-luvas uma chave de parafuso e duas placas de Montana e desceu da van.

    Jon empunhou a Beretta e o acompanhou. Ficou montando guarda enquanto Peter retirava a placa e a substituía pela de Montana. No silêncio da floresta, pássaros gorjeavam, e insetos zumbiam.

    Minutos depois, os dois voltaram para a van.

    Marty estava sentado em frente ao computador. Olhou para cima.

  • Tudo bem?

  • Tudo — tranqüilizou-o Jon.

    Peter engrenou a primeira e disse entusiasticamente:

  • Vamos cutucar a onça com vara curta!

    Aproou o veículo na rodovia e tomou o rumo sul. Quando o cruzamento com a 120 despontou na sua frente, enveredou por ela sem hesitação, voltando a galgar a montanha. Quatrocentos metros adiante passaram por duas vans estacionadas à margem da floresta, uma de cada lado da estrada de terra que ia dar nos fundos da propriedade de Peter.

    Numa das vans, um homem alto, com marcas de varíola no rosto, olhos escuros encovados e vestindo um terno preto, falava num walkie-talkie. Parecia agitado, olhando para a encosta da montanha com um ar frustrado. Mal olhou para a van danificada, com placas de Montana, que subia a estrada na direção de Yosemite.

    — Árabe — disse Peter. — Parece perigoso.

    —Concordo plenamente. — Jon observava atentamente o tráfego da rodovia. Sua voz era grave. — Esperemos que eu consiga encontrar algumas respostas no Iraque, e que vocês possam localizar Bill Griffin e descobrir alguma coisa sobre a morte de Sophia. Aqueles telefone­mas que foram apagados podem ser a chave do enigma.

    Continuaram avançando. Peter ligou o rádio, que transmitia monotonamente notícias de um outro mundo, enquanto a escuridão que se aproximava estendia suas agourentas sombras sobre os picos nevados das Sierras cujos contornos se avistavam à distância.

 

20h, terça-feira, 21 de outubro

Casa Branca, Washington, D.C.

Como uma acusação, a primeira página do Washington Postgritava em cima da grande mesa oval da Sala do Gabinete onde o presidente o deixara. Embora nenhum dos solenes chefes de gabinete sentados em torno da mesa reluzente e nenhum dos assistentes que cobriam as paredes olhasse para o jornal com sua manchete em letras garrafais, todos estavam penosamente cientes de sua perturbadora presença. Ao acordarem na manhã daquele dia, tinham encontrado seus exem­plares nas soleiras de suas portas, assim como centenas de milhões de americanos tinham sido surpreendidos com manchetes igualmente sinistras, alarmantes. Durante todo o dia, a notícia fora maciçamente divulgada pelo rádio. Na televisão, praticamente não se discutia outra coisa.

Havia dias, cientistas e militares vinham mantendo o presidente e o primeiro escalão do governo informados, mas somente agora, quando o chamado mundo civilizado parecia ter entrado em erupção com o impacto da notícia, a opinião pública se conscientizava da gravidade da ameaça de uma epidemia de conseqüências imprevisíveis.

 

EPIDEMIA MORTÍFERA PROVOCADA POR UM VÍRUS DESCONHECIDO VARRE O GLOBO

 

Na sala lotada, o secretário de estado Norman Knight ajustou os óculos de aros metálicos no nariz comprido. Falou num tom de voz comedido.

—Vinte e sete nações anunciaram casos fatais atribuídos ao vírus, perfazendo um total até agora de mais de meio milhão de mortes.

Todos os casos começaram com sintomas de um forte resfriado ou gripe amena durante cerca de duas semanas, transformando-se subi­tamente numa síndrome de insuficiência respiratória aguda seguida de morte em poucas horas, até menos. Ele suspirou visivelmente angustiado. Quarenta e duas nações estão reportando casos súbitos do que parece ser um ligeiro resfriado. Ainda não sabemos se também se trata do vírus. Mal começou a ser feita a contagem dessas vítimas, mas já chegam a muitos milhões.

Os números do secretário foram recebidos com um silêncio de perplexidade. A sala abarrotada pareceu ficar subitamente paralisada.

O olhar penetrante do presidente Samuel Adams Castilla percor­reu lentamente as fisionomias de todos os membros do seu gabinete. Tentava devassar suas mentes. Precisava saber com quem podia contar, quem seria capaz de se manter firme e contribuir com conhe­cimento, sabedoria e vontade de agir. Quem se deixaria dominar pelo pânico. Quem ficaria paralisado pelo choque. O conhecimento isola­damente, sem a vontade de agir, é impotente. A vontade de agir sem o conhecimento é cega e imprudente. E aqueles que não pudessem oferecer nem uma coisa nem outra teriam que ser sumariamente afastados.

Finalmente ele falou com moderação.

Certo, Norman. Quantos casos fatais confirmados nos Estados Unidos?

O rosto comprido do secretário de estado era emoldurado por uma vasta cabeleira branca.

Além dos nove casos registrados no início da semana passada, o CDC anunciou mais cerca de cinqüenta mortes e pelo menos mil casos com sintomas de resfriado que estão sendo testados neste momento contra o novo vírus.

Ao que parece, ainda não fomos atingidos em proporções alarmantes disse o almirante Stevens Brose, chefe dos Estados-Maiores Conjuntos, mostrando-se cautelosamente esperançoso.

Excessivamente cauteloso e esperançoso, refletiu o presidente Castilla. Eraestranho, mas tinha observado que os militares geralmen­te eram os menos propensos a agir no ato. Mas era forçoso reconhecer que, mais do que a maioria das pessoas, tinham presenciado as desastrosas conseqüências de ações precipitadas, mal concebidas.

  • Isso é só por enquanto — salientou ominosamente Nancy Petrelli, secretária da Saúde e Assistência Social. — Não quer dizer que não possamos ser devastados amanhã.

  • Não, suponho que não — concordou o presidente, um tanto surpreso com o tom negativo de sua secretária da Saúde. Sempre a considerara uma pessoa otimista. Seria provavelmente uma medida do terror que o vírus estava instilando nos indivíduos e nos governos. Só isso enfatizava a necessidade de ação imediata — uma ação ponderada e significativa, decerto, mas alguma ação para amenizar a sensação de pânico que poderia se apossar de todos.

    Dirigindo-se ao cirurgião geral, ele disse:

  • Alguma novidade sobre onde as vítimas dos seis casos originais contraíram o vírus, Jesse?

  • Afora o fato de todas elas terem participado da operação Tempestade no Deserto ou terem tido contato com alguém que tenha participado, nem o CDC nem o USAMRIID conseguiram descobrir qualquer coisa.

  • E no exterior?

  • A mesma coisa — admitiu o cirurgião geral Jesse Oxnard. — Todos os cientistas se confessam perplexos. Conseguem vê-lo nos seus microscópios eletrônicos, mas a informação seqüencial do DNA até agora não ofereceu nenhuma pista útil. Não se parece exatamente com nenhum vírus conhecido, e por isso eles só podem especular sobre a maneira de lidar com ele. Não fazem idéia de onde ele veio e de nada que seja capaz de curá-lo ou deter sua disseminação. Tudo o que podem sugerir são métodos usuais de tratamento de febres viróticas em geral e esperar que a taxa de mortalidade não seja maior do que os cinqüenta por cento que tivemos nos primeiros seis casos.

  • Pelo menos isso é alguma coisa — concluiu o presidente. —- Podemos mobilizar todos os recursos médicos disponíveis nos países industrialmente desenvolvidos e distribuí-los para o mundo inteiro. E fazer a mesma coisa com os medicamentos, é claro. Tudo o que as pessoas precisarem ou pensarem que precisam. — O presidente acenou com a cabeça para Anson McCoy, secretário de Defesa. — Coloque as forças armadas à disposição de Jesse, Anse. Tudo — transportes, tropas, navios, o que for necessário.

  • Perfeitamente — concordou Anson McCoy.

  • Dentro de limites razoáveis, excelênciaressalvou o almirante Brose. Algumas nações poderiam tentar se aproveitar da situação se pusermos muitos recursos nisso. Poderemos ficar vulnerá­veis a ataques armados.

  • Da maneira como o vírus poderá se alastrar, Stevens disse secamente o presidente —, talvez não reste muita coisa para ser atacada ou defendida em parte alguma. Vivemos numa época em que é preciso reformular a maneira de pensarmos. As velhas respostas não funcionam mais. Lincoln disse algo parecido numa crise ocorrida há muito tempo, e é provável que estejamos nos aproximando do mesmo tipo de crise neste momento. Kenny eNorman vêm tentando nos dizer isso há anos. Não é verdade, Kenny?

    O secretário do Interior Kenneth Dahlberg confirmou com um aceno de cabeça.

  • Aquecimento global. Degradação ambiental. Destruição de florestas tropicais. Migração de áreas rurais em todo o Terceiro Mundo. Explosão demográfica. Tudo isso provoca o surgimento de novas doenças em todos os quadrantes, acarretando muitas mortes. Essa epidemia pode ser apenas a ponta do iceberg.

    O que significa que temos que investir tudo o que for necessário para detê-la — disse o presidente. Viu pelo canto dos olhos Nancy Petrelli abrir a boca como se fosse fazer alguma objeção. — E não me venha dizer o quanto isso vai custar, Nancy. Nesta altura, não tem importância.

  • Concordo, excelência. Ia apenas apresentar uma idéia.

  • Muito bem. O presidente tentou controlar sua impaciência. Na sua mente, ele estava tomando embalo para agir. — Diga-nos qual foi a idéia que lhe ocorreu.

    Não concordo com a afirmação de que todos os cientistas estão perplexos, não têm nada a sugerir. Há menos de uma hora meu escritório recebeu um telefonema do Dr. Victor Tremont, presidente do conselho e diretor-executivo da Blanchard Pharmaceuticals. Ele declarou que não podia ter absoluta certeza de nunca o ter testado contra o novo vírus, mas que a descrição que tinha ouvido do vírus e dos seus sintomas se parece muito com o vírus de um macaco com o qual sua companhia vem trabalhando há alguns anos. Ela fez uma pausa de efeito. Eles desenvolveram um soro que o cura na maioria das vezes.

    Houve um momento de estupefação, seguido de uma explosão de excitação numa cacofonia de vozes conflitantes. Bombardearam a secretária de Saúde e Assistência Social com todo tipo de perguntas. Alguns não acreditavam na possibilidade. Outros exultavam com a perspectiva de cura.

    Finalmente, o presidente deu um soco na mesa.

  • Contenham-se, que diabo! Calem a boca! Todos!

    O salão do gabinete quase vibrou com o silêncio abrupto. O presidente olhou penetrantemente para cada um, dando um tempo para oambiente se acalmar. A tensão era palpável, e o tique-taque do relógio no console da lareira parecia fazer mais barulho do que um trovão.

    Finalmente, o presidente Castilla voltou a olhar duramente para a secretária de SAS.

  • Repita o que acabou de nos dizer objetivamente, com menos palavras, Nancy. Alguém acha que tem a cura para essa coisa? Onde? Como?

    Nancy Petrelli olhou com indisfarçável animosidade para seus colegas de gabinete e demais consultores e assessores, todos eles prontos para cair no seu pescoço novamente.

  • Como disse, excelência, o nome dele é Victor Tremont. É diretor-executivo e presidente do conselho administrativo daBlanchard Pharmaceuticals, uma grande companhia biomédica internacional. Ele disse que uma equipe da Blanchard desenvolveu uma cura para um vírus encontrado em macacos da América do Sul. Os testes realizados com animais foram altamente positivos, foi concedida uma patente para uso veterinário, e tudo está sendo revisto pela FDA.

    O cirurgião geral Oxnard franziu as sobrancelhas.

  • Está dizendo que ainda não foi aprovada pela FDA nem para animais?

  • Ou testada em seres humanos? perguntou o secretário de Defesa McCoy.

  • Não disse a secretária de SAS —, eles não pretendem usar o soro em seres humanos. O Dr. Tremont acredita que esse vírus desconhecido possa ser o mesmo vírus encontrado em macacos que tenha sido contraído por humanos, e eu diria considerando as circunstâncias que seríamos idiotas se não o investigássemos em profundidade.

  • Por que alguém desenvolveria uma cura para um vírus que dá em macacos? — quis saber o secretário de Comércio.

  • Para aprender a combater os vírus em geral. Para desenvolver técnicas de produção em massa para o futuro — Nancy Petrelli esclareceu. — Acabaram de ouvir Ken e Norman dizer que os vírus emergentes constituem um perigo para o mundo, tendo em vista o amplo acesso ao que até pouco tempo era considerado como áreas remotas. O vírus dos macacos de hoje pode ser a epidemia humana de amanhã. Acredito que todos nós, hoje em dia, admitimos isso sem maiores controvérsias. Talvez devêssemos considerar a possibilidade de uma cura do vírus que ataca os macacos também poder curar seres humanos.

    O burburinho irrompeu novamente.

  • E muito perigoso.

  • Acho que Nancy tem razão. Não temos outra escolha.

  • A FDA não vai autorizar nunca.

  • O que temos a perder?

  • Muita coisa. Poderia ser pior do que a doença.

  • Não acham um tanto estranho? A cura de uma doença desco­nhecida cair do céu assim sem mais nem menos, como um autêntico milagre?

  • Você há de convir, Sam, que obviamente eles estão trabalhan­do nisso há anos.

  • A pesquisa pura quase nunca tem uma aplicação prática no início, mas, pelo que vejo, de repente passou a ter.

    O vozerio continuou até o presidente mandar todos se calarem novamente.

    —Está bem! Está bem! O assunto será exaustivamente discutido. Estou pronto a ouvir qualquer tipo de objeção. Mas agora quero que Nancy e Jesse procurem a Blanchard Pharmaceuticals e apurem essa história nos mínimos detalhes. Estamos com um desastre que não tem tamanho em nossas mãos, e certamente não queremos que ele se torne ainda maior. Ao mesmo tempo, um milagre não seria nada ruim nesta altura. Tenhamos fé. Esperemos que esse tal de Dr. Tremont saiba realmente o que está dizendo. Façamos mais do que isso. Rezemos para que ele esteja certo antes que metade da humanidade seja dizimada. — Ele se levantou. — E isso aí. Todos nós sabemos o que temos que fazer. Mãos à obra.

    Ele se retirou do salão com uma postura muito mais positiva e digna do que sentia no íntimo. Tinha filhos pequenos e também estava assustado.

    No banco traseiro à prova de som de sua limusine preta, Nancy Petrelli falava no seu celular.

  • Esperei até que a situação parecesse a mais desesperadora possível, como você sugeriu, Victor. Quando percebi que todos estavam prontos a admitir que tudo o que podiam fazer era aleatório e paliativo, soltei a bomba. Houve muito ranger de dentes, mas no fim diria que a posição do presidente é, basicamente, aceitar todo tipo de ajuda que puder obter.

  • Muito bem. Uma atitude inteligente. — Tremont sorriu no seu escritório nas distantes montanhas Adirondacks, debruçado sobre o plácido e bucólico lago.—Quais são as medidas imediatas que o Cas­tilla pretende tomar?

  • Ele mandou que eu e o cirurgião geral fôssemos conversar com você e depois nos reportássemos a ele.

  • Melhor do que eu esperava. Montaremos um show de ciência e humildade para o Oxnard.

  • Tenha cuidado, Victor. O Oxnard e mais alguns estão com a pulga atrás da orelha. Como o presidente só está interessado em alguma coisa positiva, eles se limitarão a resmungar, mas qualquer passo em falso que os leve a suspeitar de que possa haver algo errado, e eles pularão no seu pescoço.

  • Eles não encontrarão nada suspeito. Confie em mim, Nancy.

  • E o nosso coronel Jon Smith? Ele é carta fora do baralho?

  • Pode ter certeza que sim.

  • Assim espero, Victor. Espero realmente que você esteja certo.

    Ela desligou e se recostou no confortável assento da limusine

    preta, tamborilando com as unhas bem cuidadas o braço estofado do banco. Estava excitada e ao mesmo tempo com medo. Excitada porque ludo parecia correr exatamente como tinha sido planejado, e com medo de que alguma coisa... algum detalhe insignificante que tives­sem esquecido, ignorado ou não tivessem resolvido... pudesse pôr tudo a perder.

    No seu escritório, Victor Tremont olhou para as sombras distantes das altaneiras Adirondacks. Tinha tranqüilizado Nancy Petrelli, mas estava tendo mais dificuldade em tranqüilizar a si próprio. Depois de al-Hassan ter deixado escapar Smith e seus dois amigos nas Sierras, os três tinham desaparecido. O que esperava era que eles tivessem se refugiado e não constituíssem mais uma ameaça tivessem sumido de circulação, temendo por suas vidas.

    Mas Tremont não podia se permitir qualquer risco. Além do mais, ajulgar pelas informações que colhera sobre Smith, parecia-lhe óbvio que Smith não era dos que desistem facilmente. Tremont continuaria mantendo um forte esquema de vigilância sobre ele. As chances de Smith causar danos, ou mesmo de sobreviver, nãoeram boas. Tremont sacudiu a cabeça. Sentiu um momentâneo arrepio. Uma chance má para um homem como Smith não era a mesma coisa do que nenhuma chance.

 

8:02h, quarta-feira, 22 de outubro

Bagdá, Iraque

Considerada outrora o berço da civilização, a cidade de Bagdá esten­dia-se numa planície árida entre os rios Tigre e Eufrates. Uma metrópole de contrastes, parecia tremular à luz da manhã. Do alto de cúpulas e minaretes, muezins entoavam seus lamentos sobre os telhados da exótica cidade, conclamando os fiéis para as orações. Mulheres vestidas com longas abayasdeslizavam como pirâmides negras pelas ruelas do velho suq em direção aos modernos arranha-céus envidraçados da cidade nova.

Essa antiga cidade envolta em mitos e lendas foi invadida muitas vezes através de milênios — por hititas e árabes, mongóis e ingleses — e sobrevivera e triunfara a cada tentativa de domínio. Mas depois de uma década de sanções econômicas impostas pelos Estados Uni­dos, essa longahistória parecia irrelevante. A vida na miserável Bagdá de Saddam Hussein era uma batalha cotidiana para satisfazer as necessidades básicas — alimentos, água potável e medicamentos. Veículos arrastavam-se pelos bulevares orlados de palmeiras. O smog empestava o ar doce do deserto.

Jon Smith meditava sobre tudo isso enquanto o táxi o conduzia pelas ruas da cidade cinzenta. Ao descer e pagar ao motorista, olhou cautelosamente à sua volta, para o que já fora um bairro valorizado. Ninguém parecia muito curioso. Mas era preciso levar em conta que estava trajado como um funcionário das Nações Unidas, ostentando uma braçadeira oficial e um crachá de identidade pregado na sua jaqueta. Por outro lado, a presença de táxis era comum naquela cidade triste, exibindo cicatrizes de guerra. Dirigir um táxi era uma das poucas ocupações que a maioria dos iraquianos de classe média já estava acostumada a exercer. Ainda possuíam pelo menos um carro de família em condições de funcionar, e Saddam Hussein mantivera baixo o preço da gasolina, menos de dez centavos americanos o litro.

Quando o motorista arrancou, Smith vistoriou a rua novamente e se dirigiu para o que tinha sido a embaixada americana. As janelas estavam com as persianas abaixadas, e o estado do prédio e do terreno à sua volta era deplorável. Um ar de abandono pairava sobre a antiga sede diplomática, mas Jon seguiu em frente resolutamente. Tocou a campainha.

Os Estados Unidos ainda mantinham um representante em Bagdá, mas ele era polonês. Em 1991, no final da Guerra do Golfo, a Polônia assumiu o controle da embaixada americana na P Street Northwest. Desde então, mesmo quando bombas e mísseis americanos caíam sobre a cidade, diplomatas poloneses permaneceram na embaixada, representando não só os interesses de seu país no Iraque, como os da América. No grande prédio da embaixada, os poloneses cuidavam de assuntos referentes a passaportes, mantinham contatos com a mídia local e eventualmente transmitiam confidencialmente mensagens entre Washington e Bagdá. Como em todas as guerras, havia ocasiões em que os inimigos tinham necessidade de se comunicar, única razão pela qual Saddam Hussein tolerava os poloneses. A qualquer momen­to, o temperamental Hussein podia mudar de idéia e mandar prender todos eles.

A porta da frente da embaixada se abriu, deixando ver um homem corpulento com um nariz arrebitado, cabelos grisalhos abundantes, e sobrancelhas cerradas, acentuando olhos castanhos inteligentes.

Ele correspondia à descrição que Peter tinha feito a Jon.

  • Jerzy Domalewski?

  • Ele mesmo. Você deve ser o amigo de Peter. A porta abriu-se um pouco mais, e o diplomata olhou para o americano alto com um olhar perquiridor. Aparentando quarenta e poucos anos, usava um terno marrom que sobrava no seu corpo, parecendo ter espichado depois de muitas lavagens. Seu inglês tinha forte sotaque polonês. Entre. Não vale a pena nos expormos além da conta. Fechou a porta atrás de Jon e o conduziu a um amplo escritório, atravessando um vestíbulo de mármore. Tem certeza de que ninguém o seguiu? Gostou do jeito de olhar, direto e inquiridor, do estrangeiro de olhosazul-escuros e da impressão de vigor físico que ele irradiava. Ele iria precisar de ambos os atributos na perigosa Bagdá.

    Smith percebeu instantaneamente o sopro do medo pairando no ar.

  • A MI6 sabe o que está fazendo. Não vou importuná-lo relatando-lhe a rota sinuosa que usaram para me introduzir neste país.

  • Muito bem. Não se dê a esse trabalho. — Domalewski acenou com a cabeça ao fechar a porta do seu escritório. — Há segredos que ninguém deve conhecer. Nem mesmo eu — ele disse, com um pequeno sorriso enviesado. — Sente-se. Deve estar cansado. Esta poltrona é confortável, ainda tem molas. — Enquanto Jon se sentava, o diplomata avançou até a janela, entreabriu a persiana e olhou para a rua. — Temos que ser muito cautelosos.

    Jon cruzou as pernas. Domalewski tinha razão: Ele estava cansa­do. Mas sentia ao mesmo tempo uma necessidade compulsiva de prosseguir com sua investigação. O belo rosto de Sophia e a agonia de sua morte o assombravam.

    Há três dias, chegara ao aeroporto Heathrow de Londres às primeiras horas da manhã, usando trajes civis que comprara em São Francisco. Era o começo de um longo e estafante périplo. No aeropor­to, um agente da MI6 o introduzira sorrateiramente numa ambulância militar que o levara para uma base da RAF em North Anglia. Daí ele foi transportado e apanhado por um anônimo e taciturno cabo do SAS, vestindo um albornoz beduíno e falando árabe fluentemente.

  • Vista isso — disse ele, jogando para Jon roupas idênticas às suas. — Vamos nos aproveitar de um acordo anterior à guerra muito pouco conhecido. — Ele estava se referindo à Zona Neutra entre o Iraque e a Arábia Saudita, que as duas nações ainda mantinham, a fim de que seus beduínos nômades pudessem continuar percorrendo suas rotas de comércio históricas.

    Debaixo dos trajes sufocantes, Jon e o cabo foram levados de um acampamento beduíno a outro pelo movimento subterrâneo iraquiano até aqui, nos subúrbios de Bagdá, onde o cabo o surpreendeu com documentos de identidade falsos, dinares iraquianos, roupas ociden­tais, e um distintivo e uma braçadeira identificando-o como funcioná­rio das NU de Belize. O codinome de Jon era Mark Bonnet.

    Elesacud iu a cabeça, impressionado com a meticulosidade da MI6.

  • Você estava escondendo o jogo.

  • De jeito nenhum — disse o cabo, indignado. —Não sabia se o senhor iria conseguir chegar ao fim da prova. Não tinha sentido desperdiçar bons documentos de identidade com um cadáver. Se viro conversa-fiada do Peter Howell novamente, diga-lhe que ele está devendo uma fábula a todos nós.

    Agora, Jon estava sentado confortavelmente na ex-embaixada americana, vestido como um típico funcionário das Nações Unidas, com suas calças cáqui, camisa de mangas curtas, jaqueta com zíper, e exibindo os importantíssimos distintivo e braçadeira daquela entida­de. Tinha dinheiro e outros documentos de identidade no bolso.

  • Não leve nossas precauções como uma atitude pessoal — estava dizendo Domalewski enquanto continuava a estudar a rua. — Não pode nos censurar por não estarmos particularmente entusiasma­dos com a missão de ajudá-lo.

  • Compreendo perfeitamente, mas esteja certo de que este poderá ser o risco mais decisivo que já assumiu.

    Domalewski sacudiu sua desgrenhada cabeça.

    Peter salientou isso na sua mensagem .Ele também me deu uma lista de médicos e hospitais que você quer visitar. — O polonês deu as costas para a janela e ergueu as espessas sobrancelhas. Analisou novamente o americano. Seu velho amigo Peter Howell lhe dissera que aquele homem era médico. Mas ele seria capaz de se defender se a violência explodisse? Verdade seja dita, do seu rosto decidido aos ombros largos e cintura fina, ele mais parecia um atirador de elite do que um doutorem medicina. Domalewski considerava-se bom julgador de pessoas, e por tudo que lhe era dado observar naquele agente secreto americano, talvez Peter estivesse realmente certo.

    Jon perguntou:

  • Você providenciou os encontros?

  • Naturalmente. Eu mesmo o levarei a alguns, mas terá de se virar sozinho quanto a outros. — A voz do diplomata assumiu um tom de advertência. — Mas lembre-se de que suas credenciais das Nações Unidas serão inúteis se cair nas mãos do governo. Este é um Estado policial. Muitos cidadãos andam armados, e qualquer um pode ser um espião. A polícia especial de Hussein — a Guarda Republicana — é tão brutal e poderosa quanto a SS e a Gestapo combinadas. Está sempre farejando inimigos do estado, dissidentes, ou simplesmente indivídu­os com os quais não vai com a cara.

  • Sei que está em toda parte, nas situações aparentemente as mais inesperadas.

  • Ah, então conhece alguma coisa sobre o Iraque.

  • Um pouco — anuiu Smith com um gesto de cabeça, taciturnamente.

    Domalewski empinou a cabeça, continuando a avaliar o america­no. Foi até sua mesa e abriu uma das gavetas.

  • Às vezes o maior perigo é a própria arbitrariedade dominante. Aqui, a violência irrompe numa batida de coração, freqüentemente sem nenhuma razão lógica. Peter disse que você devia ter uma coisa destas.

    Ele disse isso e sentou-se numa poltronaao lado de Jon, estenden­do a mão que segurava outra Beretta do exército dos Estados Unidos.

    Smith pegou-a pressurosamente.

  • Ele pensa em tudo.

    —Como meu pai e eu tivemos oportunidade de verificar no nosso tempo.

  • Quer dizer então que trabalhou com ele antes.

  • Mais de uma vez. Razão por que estou prestando a ele o favor de o ajudar.

    Ele já se perguntara por que Domalewski concordara em colaborar.

  • Obrigado a vocês dois.

  • Espero que você ainda nos agradeça amanhã ou depois de amanhã. Peter me disse que você sabe usar a Beretta. Não hesite em usá-la quando for necessário. Mas lembre-se de que qualquer estran­geiro flagrado com uma arma será preso.

  • Agradeço o aviso, mas pretendo evitar que isso aconteça.

  • Ótimo. Ouviu falar no Centro de Detenção Judicial?

  • Não.

    Domalewski baixou o tom de voz, e suas palavras foram pronun­ciadas impregnadas de horror.

  • Somente há pouco tempo foi confirmada sua existência. Tem seis andares construídos subterraneamente. Imagine só — sem janelas para que ninguém possa ver o que se passa lá dentro, sem paredes exter­nas para que os gritos dos torturados não sejam ouvidos e para que não haja esperança de fuga A inteligência militar iraquiana construiu-o sob o hospital perto do acampamento militar al-Rachid ao sul daqui, Dizem que Qusai, o filho demente de Saddam, supervisionou o projeto e a construção pessoalmente. Militares e funcionários civis caídos em desgraça têm um pavimento inteiro de câmaras de tortura e execução reservado para eles. Outros prisioneiros podem ser confinados num andar onde não existem oficialmente. Nem os seus nomes podem ser pronunciados. Essas pobres criaturas simplesmente desaparecem. Não há hipótese de serem resgatadas. Mas para mim, a pior dependên­cia do edifício subterrâneo — a mais tenebrosa e de certo modo a mais selvagem... é a que fica no fundo do poço. Lá, Saddam mantém não só masmorras como inacreditáveis cinqüenta e duas forcas.

    Jon reprimiu um arrepio.

  • Meu Deus, cinqüenta e duas forcas!? Execuções em massa. Será que ele enforca cinqüenta e dois de cada vez? O lugar parece uma sucursal do inferno! O homem é um animal!

  • Exatamente. Lembre-se, é preferível fazer uso da arma a se deixar ser pilhado com ela. Há sempre uma chance de escapar no meio da confusão. — Ele hesitou, apertou as mãos e olhou para Jon, a preocupação estampada no olhar tenso. — Você é um agente secreto oficioso, desprotegido. Não tenha dúvida de que o prenderão e, se tiver sorte, será executado rapidamente.

  • Compreendo.

    —Se quiser prosseguir, tem muito chão para percorrer ainda hoje. Temos que partir imediatamente.

    Por um breve e alucinógeno momento, Smith viu na sua mente o rosto torturado de Sophia enquanto ela lutava para sobreviver. O suor luzidio nas suas faces esfogueadas... seus sedosos cabelos emaranha­dos... seus dedos trêmulos procurando desesperadamente a garganta enquanto ela tentava respirar. Sua dor era excruciante.

    Enquanto estudava o rosto grave de Domalewski, no que ele realmente pensava era na única mulher que amara verdadeiramente e na sua terrível, inexplicável, desnecessária, criminosa morte. Por Sophia, ele era capaz de enfrentar qualquer coisa. Até mesmo o Iraque e Saddam Hussein.

    Ele se levantou.

  • Vamos.

 

10:05h

Bagdá

Sozinho no banco traseiro da limusine em funcionamento da embai­xada americana, Jon olhou para o torvelinho da cidade em permanente ebulição e notou com desagrado uma característica constante — a enxurrada de fotografias de Saddam Hussein. De gigantescos painéis e cartazes que cobriam paredes inteiras a retratos emoldurados nas vitrinas de lojas imundas, Hussein, com seu grosso bigode preto e sorriso em que sobravam dentes, estava em toda parte. Embalando uma criança. Encarando desafiadoramente o novo presidente da América. Liderando uma reunião familiar ou um grupo de homens de negócios. Batendo continência orgulhosamente à tropa marchando com passo de ganso.

Naquela que fora um dia lendária terra de saber e cultura, o regime despótico de Hussein estava mais forte do que nunca. Ele transformara o estado de beligerância de sua nação na base do seu poder autocrático, e a miséria do seu povo em motivo de orgulho patriótico. Enquanto responsabilizava o embargo das Nações Unidas — al-hissar — pela morte por inanição de milhões de seus compatriotas, ele e sua privilegiada entourage ficavam, desavergonhadamente, cada vez mais cevados e ricos.

A repugnância de Jonathan atingiu o auge quando ele chegou ao elegante bairro de Jadiriya, onde muitos dos cortesãos e sicofantas de Hussein, e os negocistas e aproveitadores de todas as guerras, tinham se instalado suntuosamente. Com Domalewski ao volante, passaram por opulentas mansões, cafés chiques e butiques sofisticadas. Relu­zentes Mercedes, BMWs e Ferraris alinhavam-se junto ao meio-fio das calçadas. Criados de libré montavam guarda a restaurantes lu­xuosos. A pobreza tinha sido banida, imperava a cobiça humana.

Smith sacudiu a cabeça.

  • Isso é criminoso.

    Domalewski estava impecavelmente vestido com dólmã e quepe de chofer.

  • Considerando a aparência do resto de Bagdá, entrar em Jadiriya é semelhante a aterrissar noutro planeta. Um planeta muito rico. Como é que essa gente consegue viver em paz com suas consciências, de maneira tão ostensivamente egoísta!

  • É de uma insensibilidade abjeta!

    —Concordo plenamente. — O diplomata polonês parou a limusine em frente a um prédio simpático de telhas azuis. — É aqui. — Com o motor ligado, ele olhou para trás. Seu rosto estava solene e ansioso. — Ficarei esperando. A menos, é claro, que você saia correndo lá de dentro com os Guardas Republicanos nos seus calcanhares. Isso não chega a me preocupar, você compreende. Contudo, se esse infeliz contratempo ocorrer, por favor, não se sinta ofendido se vir apenas a fumaça do cano de descarga deste veículo.

    Smith sorriu discretamente.

  • Compreendo.

    O prédio gracioso abrigava o consultório do Dr. Hussein Kamil, conceituado médico local. Smith desceu do carro e enfrentou a cálida manhã ensolarada. Olhou cautelosamente em volta e avançou a passos largos por uma alameda ladeada de tamareiras, em direção à porta de madeira entalhada. No lado de dentro, a sala de espera estava fresca e vazia. Smith registrou os finos tapetes, cortinas e móveis estofados. Estudou as portas fechadas, imaginando até que ponto estaria seguro ali e se encontraria as respostas que procurava. A despeito da aparente prosperidade do médico, ele não deveria ir tão bem quanto se poderia supor. O isolamento econômico do Iraque se evidenciava em peque­nos detalhes. As cortinas estavam desbotadas e os estofados visivel­mente gastos. As revistas nas mesinhas laterais eram de cinco e dez anos atrás.

    Uma das portas se abriu, e o médico apareceu. Era um homem de estatura média, de pouco mais de cinqüenta anos, pele morena e olhos nervosos, fulgurantes. Usava um jaleco branco e calças cinza bem passadas. Estava sozinho. Não havia enfermeira nem recepcionista.

    Era óbvio que havia marcado a visita de Smith para uma hora em que não houvesse ninguém para testemunhá-la.

  • Dr. Kamil. Jon se apresentou com o nome falso da identi­dade que lhe fora fornecida pelas NU — Mark Bonnet.

    O médico inclinou a cabeça polidamente, mas sua voz soou baixa, constrangida.

    —Está com seus documentos bonafide? — Falava um inglês com sotaque britânico da classe alta.

    Jon entregou-lhe os papéis com a identidade forjada pelas NU O Dr. Kamil tinha sido informado que Jon fazia parte de uma equipe internacional que estava investigando um novo vírus. O médico o conduziu à sala de exames, onde estudou as credenciais tão demorada e cuidadosamente quanto se estivesse analisando sintomas de câncer.

    Enquanto esperava, Jon olhou ao redor — paredes brancas, equipamento cromado, duas banquetas de madeira, e uma mesa pintada de branco com um pequeno vaso de cerâmica contendo lápis. O equipamento médico acusava anos de uso sem reposição. Tudo estava limpo e brilhando, mas havia prateleiras vazias onde normal­mente deveria haver tubos de ensaio. O pano branco que cobria a mesa de exames era muito fino e deixava ver pequenos buracos. Parte do equipamento era francamente obsoleto. Esse não deveria ser o único problema com que aquele médico, a rigor todos os médicos do Iraque, se confrontavam. Domalewski lhe dissera que muitos tinham cursado as melhores escolas de medicina do mundo e continuavam a fazer excelentes diagnósticos, mas seus pacientes tinham que providenciar por sua conta os remédios que eles prescreviam. Os medicamentos eram obtidos em grande parte no mercado negro, mas a moeda corrente não era o dinar. Só dólares americanos eram aceitos. Até mesmo a elite tinha problemas, embora estivesse disposta a pagar quantias astronômicas.

    Finalmente o médico devolveu a papelada. Não convidou Jon a se sentar, e ele tampouco tomou a iniciativa de fazê-lo. Mantiveram-se de pé no meio da sala despojada e desgastada — dois estranhos desconfiando um do outro.

    O médico disse:

  • O que deseja saber exatamente?

    —O senhor concordou em me receber, doutor. Portanto, presumo que saiba o que pretende dizer.

    O médico não fez caso da tirada um tanto ferina.

  • Nunca se é demasiado cauteloso. Estou muito próximo do nosso grande líder. Muitos membros do Conselho Revolucionário são meus clientes.

    Jon olhou-o penetrantemente. Ele parecia um homem que oculta­va um segredo. A questão era saber se Jon descobriria um meio de convencê-lo a revelá-lo.

  • Ainda assim, diria que alguma coisa o preocupa, Dr. Kamil. Talvez um assunto de natureza médica. Estou certo de que não tem nada a ver com Saddam ou a guerra. Por conseguinte, não devemos correr nenhum perigo se discutirmos isso por um momento. Quem sabe — disse ele cautelosamente — não serão as mortes causadas por um vírus desconhecido?

    O Dr. Kamil mordeu o lábio superior. Seus olhos de ébano traíram-lhe o embaraço. Ele olhou em torno com um olhar súplice, como se temesse que as próprias paredes pudessem traí-lo. Mas tam­bém era um homem educado. Por isso, suspirou e admitiu:

  • Há um ano tratei de um paciente que morreu subitamente de uma síndrome de falência respiratória aguda com hemorragia pulmo­nar. Ele contraíra o que parecia ser um forte resfriado antes da ARDS.

    Jon conteve seu alvoroço. Eram os mesmos sintomas apresenta­dos pelas vítimas nos Estados Unidos.

  • Ele era um veterano da Tempestade no Deserto?

    Os olhos do médico irradiaram medo.

  • Não diga uma coisa dessas — sussurrou. — Ele teve a honra de combater com a Guarda Republicana durante a Gloriosa Guerra de Unificação.

  • Alguma possibilidade de a morte dele ter resultado de agentes biológicos bélicos? Sabemos que Saddam os possuía.

  • Isso é mentira! Nosso grande líder jamais permitiria o uso desse tipo de armas. Se houve alguma, foi trazida pelo inimigo.

  • Quer dizer então que a morte de seu paciente poderia ter sido causada por agentes biológicos do inimigo?

  • Não. De modo algum.

  • Mas seu paciente foi infectado em algum momento durante a guerra?

    O médico acenou com a cabeça. Seu rosto trigueiro demonstrava ansiedade.

  • Ele era um velho amigo da família. Eu o submeti a um check-up físico completo anual, durante toda sua vida. Os cuidados com a saúde nunca são demasiados num país subdesenvolvido como o nosso. — Os olhos amedrontados varreram a sala; ele havia insultado sua pátria. — Pouco depois que retomou sua vida normal ele começou a apresentar muitos sintomas de pequenas infecções que não respondi­am a tratamentos convencionais mas que, de qualquer maneira, acabavam desaparecendo. Com o correr do tempo, ele teve febres com temperaturas elevadas e registrou breves episódios com característi­cas de resfriados corriqueiros. Contraiu, então, uma gripe galopante e morreu abruptamente.

  • Ocorreram outras mortes no Iraque provocadas pelo vírus?

  • Sim. Mais duas aqui em Bagdá.

  • Também eram veteranos de guerra?

  • Foi o que me disseram.

  • Alguém se recuperou?

    O Dr. Kamil cruzou os braços e sacudiu a cabeça, acabrunhado.

  • Ouvi rumores. — Ele não olhou para Jon. — Mas, na minha opinião, esses pacientes simplesmente sobreviveram à ARDS. Só o vírus da raiva não tratada mata cem por cento. Nem mesmo o Ebola.

  • Quantos sobreviveram?

  • Três.

    Três e mais três novamente. As provas estavam se acumulando, e Jon procurou reprimir tanto sua excitação quanto seu horror. Ele estava obtendo informações que apontavam cada vez mais para uma experiência em que seres humanos estavam sendo usados como cobaias.

  • Onde estão os sobreviventes?

    Diante da pergunta, o médico, assustado, deu um passo atrás.

  • Basta! Não quero que o senhor vá a mais lugar algum, levantando dados sobre sobreviventes que de certa forma possam estar ligados a mim. — Ele escancarou a porta da sala de exames e apontou para outra porta no lado oposto do corredor. — Tenha a bondade de se retirar!

    Jon não se mexeu.

  • Não sei o que foi, mas alguma coisa fez com que quisesse me contar, doutor. E certamente não foi a morte de três homens.

    Por um momento pareceu que o médico ia explodir de sua pele.

  • Nem mais uma palavra! Nada! Saia daqui! Não acredito que seja de Belize ou das NU! — Elevando o tom de voz, ele acrescentou: — Um telefonema para as autoridades e...

    A tensão de Jon subiu às nuvens. O médico apavorado parecia que ia realmente explodir, e Jon não podia se arriscar a ser envolvido nas conseqüências. Esgueirou-se por uma porta lateral e saiu num beco. Aliviado, percebeu que a limusine da embaixada ainda estava à sua espera.

    No seu consultório, o Dr. Hussein Kamil tremia de medo e raiva. Estava furioso por ter se deixado enredar naquela situação, e receava ser apanhado. Ao mesmo tempo, a embaraçosa situação oferecia uma oportunidade, se ele ousasse aproveitá-la.

    Baixou a cabeça, cruzou os braços e procurou se acalmar. Tinha uma família numerosa para sustentar, e seu país estava se desintegran­do. Tinha que pensar no futuro. Estava cansado de ser pobre numa terra onde se podia ficar rico.

    Finalmente pegou o telefone. Mas não foi para as autoridades que ele ligou.

    Respirou fundo.

  • Sim, sou o Dr. Kamil. O senhor me contatou recentemente sobre um certo indivíduo. — Ele firmou a voz. — Ele acabou de sair do meu escritório. Tem credenciais de funcionário das NU de Belize. O nome é Mark Bonnet. Mas tenho certeza de que se trata do homem sobre o qual me alertou. Sim, o vírus da Gloriosa Guerra de Unifica­ção... Foi precisamente sobre isso que ele perguntou. Não, ele não disse para onde ia. Mas estava muito interessado nos sobreviventes. Naturalmente. Fico-lhe muito grato. Espero receber o dinheiro e os antibióticos amanhã.

    Colocou o fone no gancho e deixou-se afundar na sua poltrona. Suspirou e se sentiu melhor. Tão melhor que se permitiu esboçar um sorriso. O risco era grande, mas a recompensa, com sorte, era mais do que compensadora. Com aquele telefonema, estava prestes a se tornar uma raridade em Bagdá: teria um valioso suprimento particular de antibióticos.

    Esfregou as mãos. Uma onda de otimismo percorreu suas veias.

    Os ricos rastejariam a seus pés quando eles ou seus filhos ficassem doentes. Encheriam seus bolsos de dinheiro. Não de dinares, que não valiam nada naquela bendita terra em que estava aprisionado desde que os malditos americanos começaram sua guerra e decretaram o embargo. Não, os clientes abonados o remunerariam regiamente com dólares americanos. Em pouco tempo teria juntado recursos mais do que suficientes para garantir a fuga de sua família e um recomeço de vida em algum lugar seguro. Em qualquer outro lugar.

 

19:01h

Bagdá

A noite caía lentamente sobre a exótica Bagdá. Uma mulher coberta da cabeça aos pés com uma indefectível abaya caminhava apressada­mente como uma aranha negra por baixo de balcões e andares mais altos que se projetavam das fachadas sobre a rua estreita calçada com pedras. Nos verões escaldantes de Bagdá, essas protuberâncias do casario proporcionavam sombra nos bairros mais antigos da cidade. Mas agora era uma noite fresca de outono, e era possível ver uma nesga de céu estrelado no alto da viela.

A mulher olhou para cima somente uma vez, de tal forma estava concentrada nas duas missões que lhe tinham sido confiadas. Parecia ser idosa. Estava muito curvada, provavelmente não só devido à idade como à desnutrição e carregava uma bolsa de lona de ginásio surrada. Além da abaya preta, ela usava umpushi branco tradicional que velava quase todo o seu rosto, revelando apenas seus olhos negros, que não estavam nem deprimidos nem ociosos.

Ela passou celeremente por janelas de sacadas guarnecidas com gelosias — mashrabiyah que permitiam ver a rua mas não o interior das casas. Finalmente chegou a uma rua ventosa de tráfego intenso, iluminada por antigos lampiões públicos e reverberando com o burburinho de vozescomerciantes que tentavam desesperadamen­te vender suas escassas mercadorias, consumidores potenciais com os dinares contados parasuamiserável subsistência, e crianças descalças correndo e gritando. Ninguém lhe lançou mais do que um olhar superficial. O lugar regurgitava de gente, num assomo final de energia quando a hora tradicional de fechamento das lojas 20h se aproximava.

De repente despontou um trio dos temidos Guardas Republicanos de Hussein, com seus uniformes verde-escuros e cartucheiras de couro característicos. Ela ficou tensa quando eles se acercaram. À sua esquerda, no meio de barracas fumegando no ar fresco da noite, estava um lavrador apregoando suas frutas frescas colhidas no campo. Uma pequena multidão se reunira, brigando para ver quem podia comprar e a que preço. Instantaneamente ela sacou dinheiro de sua volumosa indumentária, infiltrou-se na multidão e acrescentou sua voz à das pessoas que disputavam a mercadoria do lavrador.

Seu coração batia aceleradamente enquanto estudava os muscu­losos guardas pelo canto dos olhos.

Os três homens pararam para observar. Um deles fez um comen­tário e o outro respondeu, seguros de si sob a proteção de suas armas e bem alimentada existência. Puseram-se a rir e a zombar.

A mulher suava, implorando ao lavrador que lhe vendesse uma fruta. Em torno dela, outros iraquianos olhavam nervosamente por cima de seus ombros. Enquanto a maioria prosseguia com seu clamor, alguns se retiravam furtivamente.

Foi quando os guardas escolheram sua vítima. Um padeiro com os braços carregados de pães e o rosto escondido por trás deles, recuara e estava contornando a aglomeração. A mulher não o reconheceu.

Olhando ameaçadoramente, o trio cercou o padeiro, empunhando suas pistolas. Um deles derrubou os pães. Outro deu uma coronhada no rosto do padeiro em pânico.

Uma arma estava escondida na bolsa de lona da mulher. Todas as fibras do seu corpo tiveram vontade de apanhar a arma e matar os guardas brutais. Oculto pelo seu pushi, seu rosto corou de raiva. Ela mordeu o lábio. Queria agir desesperadamente.

Mas tinha uma missão a cumprir. Não podia se fazer notada.

Um silêncio abrupto abateu-se sobre a rua movimentada. Quando o padeiro caiu no chão, as pessoas desviaram seus olhares e trataram de se afastar. Boa coisa não estava reservada a quem chamasse a atenção dos truculentos guardas. Sangue escorreu do rosto do homem prostrado no meio da rua, e ele gritou. Enojada, a mulher viu dois dos guardas pegá-lo pelos braços e arrastá-lo. Ele tinha sido preso, ou talvez estivesse apenas sendo atormentado. Era imprevisível. Sua família apelaria para qualquer influência que porventura tivesse para tentar soltá-lo.

Passou-se um longo minuto. Como acalmaria antes de uma súbita tempestade no deserto, o ar noturno parecia pesado e agourento. Não era grande consolo saber que os guardas voláteis tinham escolhido outra pessoa. Da próxima vez podia ser você.

Mas a vida continuou. A algazarra voltou a dominar a rua ventosa. As pessoas reapareceram. O lavrador pegou o dinheiro na palma da mão da mulher e deu-lhe uma laranja em troca. Com um calafrio, ela jogou a laranja ao lado da arma no fundo de sua bolsa de lona e se afastou apressadamente, olhando, apreensiva, à sua volta enquanto em sua mente continuava vendo o rosto aterrorizado do pobre padeiro.

Finalmente dobrou na Sadoun Street, uma artéria comercial com edifícios mais altos do que todos os minaretes da margem esquerda do Tigre. Mas esse amplo bulevar agora só exibia poucos artigos de primeira linha e contava com menos compradores ainda com poder aquisitivo para adquiri-los. Naturalmente, os turistas não iam mais a Bagdá. Razão pela qual, quando finalmente entrou no moderno King Sargon Hotel, encontrou-o desoladoramente vazio. O outrora magnífico vestíbulo com seus mármores e cromados fora projetado por arquitetos ocidentais para combinar a cultura das antigas dinastias com as mais avançadas conveniências do mundo ocidental. Agora, na semi-escuridão de uma iluminação deficiente, estava não só mal conservado como deserto.

O mensageiro alto de grandes olhos escuros e bigode à Saddam sussurrou, irritado, para o recepcionista entediado:

  • O que foi que o grande líder fez pela gente, Rashid? Diga-me como foi que o gênio de Tikrit destruiu os demônios estrangeiros e tornou-nos a todos ricos. Tão ricos, na verdade, que tudo o que consegui com meu diploma de curso superior foi este uniforme de mensageiro—disse ele batendo no peito, indignado—, num hotel que vive às moscas, e meus filhos terão muita sorte se viverem o suficiente para não terem futuro!

    O recepcionista respondeu, deprimido:

  • Sobreviveremos, Balshazar. Sempre conseguimos, e afinal Saddam não viverá para sempre.

    De repente deram com a velha curvada na frente deles. Ela chegara silenciosamente, como uma baforada de fumaça, e por um momento o encarregado da recepção sentiu-se desorientado. Como não percebera antes sua presença? Olhou-a fixamente, captando um olhar de relance de seus sagazes olhos pretos acima dopushi.Rapidamente ela baixou seu olhar, como sempre fazia diante de homens que não eram o seu marido.

    Ele franziu as sobrancelhas.

    Ela falou com voz humilde e amedrontada em árabe perfeito.

  • Mil perdões. Mandaram-me apanhar o serviço de costura para Sundus.

    O som do medo transmitido pela voz da velha mulher fez o recepcionista recuperar seu ar arrogante, de superioridade. Virando a cabeça na direção de uma porta atrás dele, declarou autoritariamente:

  • Não devia estar aqui no saguão. Na próxima vez, dê a volta e se dirija ao almoxarifado, nos fundos. Lá é que é o seu lugar.

    Pedindo muitas desculpas, ela abaixou a cabeça humildemente e, ao passar pelo mensageiro com diploma de curso superior chamado Balshazar, introduziu subrepticiamente um papel dobrado no bolso do uniforme surrado.

    Não demonstrando ter-se dado conta da manobra, o mensageiro perguntou ao desdenhoso recepcionista:

  • O que ficou resolvido a respeito do horário da eletricidade? Quando devemos desligá-la amanhã? — Instintivamente, ele pôs a mão em cima do bolso para protegê-lo.

    Ao desaparecer pela porta de serviço, a mulher ouviu os dois homens retomarem a conversa. Suspirou, intimamente aliviada. Con­cluíra com êxito sua primeira missão. Mas o perigo estava longe de ter terminado. Ainda restava uma incumbência mais decisiva a ser cumprida.

 

19:44h

Bagdá

Um vento cortante do deserto varreu a Bagdá noturna, mandando para casa os compradores de Sheik Omar Street. Um aroma pronunciado de incenso e especiarias impregnava o ar. O céu estava escuro e a temperatura em declínio. A mulher curvada, com sua abaya preta e pushiencobrindo-lhe o rosto, que levara a mensagem ao King Sargon Hotel, abria caminho por entre pedestres e quiosques de madeira compensada onde peças usadas e a engenhosidade iraquiana para consertos floresciam. Naqueles dias, muitos dos representantes da outrora próspera classe média exploravam esses toscos quiosques onde se vendia de tudo — de ervas e comidas quentes a encanamentos hidráulicos.

À medida que a mulher se aproximava de seu destino, mostrava-se mais apreensiva. Ao chegar bem perto, seu coração disparou. Não podia acreditar no que seus olhos estavam vendo.

A multidão tendo se dispersado, ele se destacava mais do que em outras circunstâncias. Alto, esguio e atlético, ele era o único norte-europeu na rua. Tinha os mesmos olhos azul-escuros, cabelos pretos retintos, e traços fisionômicos marcantes de que se lembrava dolorosa e raivosamente. Vestia casualmente um blusão e calças marrons. E a despeito da braçadeira que ostentava, ela sabia que ele não pertencia aos quadros das NU.

Ela o teria estudado e analisado dissimuladamente se ele fosse um europeu qualquer, uma visão pouco comum no Iraque daqueles dias. Mas aquele homem não era qualquer um, e por um breve instante ela ficou paralisada diante da oficina. Mas logo se refez e entrou rapida­mente. Mesmo o mais experiente dos observadores não teria percebi­do nada de anormal nas suas maneiras, a não ser uma ligeira hesitação. Seu choque, entretanto, era profundo.

O que é que ele estava fazendo em Bagdá? Ele era a última pessoa que esperava ou desejava ver: o tenente-coronel médico Jonathan Smith.

Tenso, Jon inspecionou a rua de quiosques de madeira compensada e pequenas oficinas de consertos. Passara o dia todo entrando e saindo de consultórios e almoxarifados, de clínicas e hospitais, falando com médicos e enfermeiras que não conseguiam disfarçar seu nervosismo, e ex-estudantes de medicina do tempo da guerra. Muitos confirmaram ter havido seis vítimas de ARDS no ano anterior com os sintomas do vírus mortífero que Jon estava investigando. Mas nenhum deles foi capaz de adiantar qualquer coisa sobre os sobreviventes.

Ao caminhar com passadas largas, procurava afastar a sensação de que estava sendo vigiado. Examinou minuciosamente a rua mal iluminada, com seus bazares desbotados e homens vestidos com largos camisolões — gallabiyyas — sentados em torno de mesas dilapidadas, bebendo chá quente e fumando narguilés. Esforçava-se para se mostrar á vontade, mas aquela zona da velha Bagdá parecia um lugar estranho para encontrar o Dr. Radah Mahuk, mundialmente famoso pediatra e cirurgião.

Todavia, as instruções de Domalewski tinham sido específicas.

Jon estava ficando desesperado. O conceituado pediatra era sua última esperança naquele dia, e permanecer em Bagdá outras vinte e quatro horas aumentaria consideravelmente o perigo a que estava se expondo. Qualquer uma de suas fontes poderia delatá-lo à Guarda Republicana. Por outro lado, o próximo informante poderia ser o que lhe diria onde o vírus havia se originado e qual o degenerado que in­fectara os iraquianos e Sophia.

Com os nervos à flor da pele, ele se deteve em frente a uma oficina onde pneus carecas balançavam pendurados em correntes de cada lado da porta baixa e escura. Aquela tenebrosa oficina de borracheiro era o local que Domalewski lhe dissera para procurar. Segundo o diplomata, pertencia a um ex-empresário de Bagdá amargurado porque sua companhia em franca expansão fora arruinada pelas guerras desneces­sárias de Saddam Hussein.

A aparência miserável da loja não contribuiu em nada para aliviar as suspeitas de Jon. Consultou o relógio. Estava na hora aprazada. Deu uma última olhada em volta e entrou.

Um homem baixo, calvo, de pele grosseira e o infalível bigode preto, grosso, estava atrás de um balcão, lendo um pedaço de papel. Seus dedos grossos estavam sujos de alcatrão. Perto, uma mulher vestindo os tradicionais trajes pretos fundamentalistas fazia compras.

  • Ghassan? —- perguntou Jon ao homem.

    —Não está aqui—respondeu o iraquiano indiferentemente, num inglês com forte sotaque, mas o olhar que lançou para Jon foi significativamente sagaz.

Jon baixou o tom de voz e olhou para trás, para a mulher que se aproximara, aparentemente para examinar um tipo diferente de pneu.

—Preciso falar com ele. Farouk al-Dubq me disse que ele tem um novo Pirelli. — Era a senha que Domalewski transmitira a Jon. Não devia causar estranheza porque a companhia de Ghassan na Rashid Street, nos bons tempos, se especializara na comercialização das mais famosas marcas de pneus do mundo, e todos sabiam que ele era um connoisseur.

Ghassan ergueu as sobrancelhas em sinal de aprovação. Sorriu discretamente, amassou o pedaço de papel com suas mãos calejadas e disse jovialmente num inglês muito melhor:

  • Ah, Pirelli. Uma excelente marca de pneus. Acompanhe-me até os fundos. — Mas, ao se virar para mostrar o caminho a Jon, murmurou alguma coisa em árabe.

    De repente, os cabelos da nuca de Jon se eriçaram. Ele girou o corpo a tempo de ver a mulher com a comprida abayapreta esgueirar- se como uma sombra pela porta da frente.

    Ele franziu o cenho. Algo lhe disse que havia alguma coisa errada.

  • Quem...? — começou ele a dizer.

    Mas Ghassan o interrompeu abruptamente:

  • Apresse-se, por favor. Por aqui.

    Atravessaram correndo uma porta protegida por uma cortina grossa e foram dar num depósito cavernoso entulhado de pneus usados que quase obstruíam a entrada dos fundos. Uma das pilhas chegava até o teto. Na pilha mais baixa, perto do centro do depósito, estava sentada uma mulher de meia-idade embalando um bebê. Suas faces e sua testa eram sulcadas de rugas. Focalizou com curiosidade seus olhos de carvão em Jon. Usava um vestido estampado comprido e um casaco de malha preto. Um capuz branco cobria-lhe a cabeça e ocultava parcialmente seu pescoço. Mas o olhar de Jon fixou-se no rosto úmido, febril, do bebê. Quando a criança choramingou, ele se aproximou pressurosamente. Ela estava obviamente doente, e o espírito médico de Jon o compelia a socorrê-la, embora pudesse ser uma armadilha.

    Ghassan falou com a mulher em árabe muito rápido, mas Jon ouviu seu nome falso ser pronunciado. Com um ar preocupado, a mulher parecia fazer perguntas. Antes que Jon pudesse pegar a criança para examiná-la, ouviu-se um violento estrondo na frente da loja. Alguém abrira a porta com um pontapé. Ele gelou, tenso. O chão rangeu com fortes pisadas de botas e uma voz esbravejou em árabe.

    Jon sentiu uma fisgada de adrenalina. Eles tinham sido traídos! Ele sacou sua Beretta e girou o corpo bruscamente.

    Simultaneamente, Ghassan desentocou um velho rifle de comba­te AK-47 de um monte de pneus velhos Goodyear e disse asperamente:

    Guardas Republicanos! Ele manejou o AK-47 com tal destreza que Jon não teve dúvida de que aquela não era a primeira vez que usava o poderoso rifle de combate para se defender ou à sua loja.

    No exato momento em que Jon fez menção de se precipitar na direção do barulho, Ghassan correu na sua frente para bloquear-lhe a passagem. Distilando ódio, Ghassan virou a cabeça para trás, para a mulher com a criança doente no colo.

    —Tire-as daqui. Deixe o resto por minha conta. Isto me compete.

    O iraquiano decidido não esperou para ver o que Jon faria. Avançou resolutamente para apassagem em arco, enfiou o cano do seu AK-47 na cortina e abriu fogo com uma série de disparos curtos.

    O barulho foi ensurdecedor. A madeira compensada tremeu.

    Atrás de Smith, a mulher rezava em voz alta, o bebê gritava.

    De Beretta em punho, Jon correu por entre pilhas de pneus na direção delas. A mulher já se pusera de pé com o bebê nos braços e correra para a porta dos fundos. Súbito, uma rajada de fogo automática irrompeu da frente da loja. Ghassan recuou e pulou para trás de uma pilha de pneus. Sangue escorria de um ferimento no seu braço. Jon puxou a mulher e a criança para trás de outra pilha de pneus. As balas disparadas contra o depósito produziam um ruído surdo ao atingirem os pneus. Pedaços de borracha explodiam no ar.

    Atrás de sua pilha de pneus, Ghassan murmurava excitadamente suas orações.

  • Alá é grande. Alá é justo. Alá é misericordioso. Alá é...

    Outra rajada de violento fogo automático varreu o depósito depneus. A mulher deitou-se sobre a criança para protegê-la, e Jon curvou-se sobre as duas enquanto balas perdidas explodiam garrafas e frascos nas prateleiras. Porcas e parafusos de contêineres voavam como estilhaços de granada. Em algum lugar a descarga de um vaso sanitário velho jorrou espontaneamente.

    Jon já tinha visto aquilo a estúpida crença de soldados mal treinados de que o poder de fogo bruto é capaz de subjugar qualquer oposição. A verdade é que causará muito pouco dano a um alvo entrincheirado ou sob forte proteção. Durante todo o episódio a voz arrebatada de Ghassan continuou a rezar. Quando o fogo irrompeu, Jon ficou de cócoras e olhou, preocupado, para a mulher, cujo rosto estava lívido de medo. Smith afagou-lhe o braço, não podendo se expressar na sua língua para encorajá-la. O bebê chorou, reclamando sua atenção. Ela procurou acalmá-lo, acariciando-o e ninando-o.

    O silêncio se fez abruptamente. Por alguma razão os Guardas Republicanos cessaram o fogo. Mas logo Jon descobriu por quê. Suas pesadas botas ressoaram na passagem em arco. Eles iam invadir o depósito.

  • Alá seja louvado! Ghassan saltou destemidamente de trás de sua pilha de pneus. Tinha um sorriso ensandecido estampado no rosto, e seus olhos pretos estavam em brasa. Antes que Jon pudesse detê-lo, ele investiu contra a passagem com seu AK-47 cuspindo fogo.

    Gritos e grunhidos vindos do outro lado da cortina ecoaram na loja. Rumores desencontrados de gente excitada procurando proteção. Depois um súbito silêncio.

    Jon hesitou. Ele devia tirar a mulher e a criança dali, mas talvez...

    Mas, ao invés, agachou-se e correu para a passagem em arco.

    Outra violenta rajada irrompeu por trás da cortina.

    Jon jogou-se no chão e rastejou. Quando chegou na cortina a barragem de fogo cessou. Prendeu a respiração e olhou furtivamente por baixo da pesada cortina de contas. Ao fazê-lo, um rifle isolado, como uma voz perdida na solidão do deserto, desfechou outra sarai­vada de balas. Ghassan se entrincheirara atrás do balcão da loja, e mantinha os Guardas Republicanos à distância. Smith admirou a bravura do iraquiano.

    Depois viu os Guardas rastejando pela loja para se posicionarem na retaguarda de Ghassan. Eram muitos. O heróico combatente do movimento subterrâneo iraquiano não poderia resistir por muito tempo. Jon queria desesperadamente ajudá-lo. Talvez os dois pudes­sem ao menos ganhar tempo para permitir que todos fugissem.

    Ouviu então os veículos na rua estreita.

    Estavam chegando reforços. Seriasuicídio tentar opor resistência.

    Olhou para trás, para onde estava a mulher, observando-o atenta­mente. Ela segurava o bebê, ansiosa, parecendo esperar a decisão que ele tomaria. Ghassan lhe pedira para salvá-la. Ele estava sacrificando sua vida não apenas para defender seu negócio, como para ter certeza de que ela e a criança teriam uma chance de escapar. Ademais, Jon tinha uma missão a cumprir que poderia salvar milhões de pessoas de uma morte horrível. Suspirou ao aceitar o fato de que não poderia salvar Ghassan.

    Tomada a decisão, ele não esperou. Enquanto os estampidos ensurdecedores dos disparos continuavam, Jon abriu a porta dos fundos com um safanão. Os gritos dos feridos na parte da frente ecoaram pela loja perfurada de balas. Sorriu animadoramente para a mulher, pegou-lhe a mão e olhou para uma viela escura e tão estreita e profunda que até mesmo o vento dispunha de pouco espaço para soprar. Empurrou a mulher pelas costas e se esgueiraram para a travessa. Segurando a criança num dos braços, ela o seguiu, passando a correr por duas portas à esquerda. Súbito, estancaram aterrorizados.

    Veículos militares frearam ruidosamente nos dois lados da viela. Soldados pularam de seus assentos e avançaram na direção deles. Estavam encurralados. Tinham caído na armadilha dos Guardas Re­publicanos.

 

1:04h, quarta-feira, 22 de outubro

Frederick, Maryland

A Especialista de Nível Quatro Adele Schweik acordou abruptamente. Encostado no seu ouvido, tocara o agudo, irritante alarme do sensor que plantara no escritório de Sophia Russell no USAMRIID, a quase um quilômetro de distância. Instantaneamente despertada, ela desli­gou o incômodo ruído, pulou da cama e ativou a câmera de vídeo que também instalara no distante escritório.

Na penumbra do seu quarto de dormir, sentou-se à sua mesa e ficou observando o monitor até que uma figura vestida de preto apareceu no gabinete da doutora. Ele — ou ela — parecia um invasor alienígena, mas se deslocava com a fluidez de um felino, e uma precisão de movimentos que deixava patente já ter invadido outros edifícios de segurança máxima. A figura envergava uma carapuça anti-luminosa com respiradouro e um colete preto à prova de balas. O colete era o que havia de mais moderno em matéria de proteção — resistia às balas da maioria das pistolas e submetralhadoras.

Tão alerta na sua camisola de dormir quanto no seu uniforme diurno, ela permaneceu na frente da tela brilhante o tempo necessário para se certificar das intenções do invasor: ele estava dando uma busca completa no escritório da Dra. Sophia Russell. Impulsionada por uma súbita descarga de adrenalina na corrente sangüínea, ela arrancou a camisola, vestiu o uniforme de camuflagem e correu para o seu carro.

Numa VR às escuras, a um quarteirão da entrada do Forte Detrick, Marty Zellerbach olhava desanimadamente para a tela do seu compu­tador. Seu rosto transmitia preocupação, e seu corpo flácido estava largado, entregue a um desespero exagerado. Tomara seu Mideral havia muitas horas, e enquanto seu efeito se diluía ele terminara um brilhante programa para mudar automaticamente rotas de relés, impedindo que suas pegadas eletrônicas fossem novamente rastreadas.

Mas essa façanha não contribuía em nada para o sucesso de seus dois principais objetivos: os outros telefonemas de Sophia Russell, se de fato existiam, continuavam teimosamente apagados, e o paradeiro de Bill Griffin permanecia uma incógnita.

Ele precisava encontrar uma solução criativa, um desafio que ele enfrentaria com prazer em outras circunstâncias. Mas agora estava ansioso. O tempo era curto, e a verdade era que vinha se dedicando exaustivamente a ambos os problemas há muitos dias e ainda não obtivera qualquer pista sobre nenhum dos dois. Além disso, estava preocupado com Jon, que decidira se embrenhar no Iraque e não dera mais sinal de vida. E por mais que não confiasse nas pessoas de um modo geral não tinha o menor desejo de ver milhões de seus semelhantes sucumbirem, o que aconteceria inevitavelmente se o vírus continuasse a se propagar de maneira devastadora.

Ele passara toda a sua vida evitando momentos como aquele. Seu bem administrado auto-interesse acabara de colidir com seu mais profundo e obscuro segredo.

Ninguém sabia que ele tinha um lado altruísta. Nunca o deixara transparecer e certamente jamais o admitiria, mas a verdade era que pensava com ternura nos bebês e velhos rabugentos, e admirava as pessoas que se dedicavam a obras de caridade sem receberem qualquer tipo de remuneração. Também doava a renda anual de suas aplicações financeiras num fundo de investimento a diversas causas filantrópicas espalhadas pelo mundo. Ganhava mais do que o suficiente para cobrir as despesas com sua subsistência, solucionando problemas cibernéticos para particulares, companhias e o governo, e sempre contara com uma confortável poupança, de onde sacara cinqüenta mil dólares para Jon.

Suspirou. Sentia a tensão nervosa que lhe dizia estar chegando a hora de tomar outro comprimido. Mas no íntimo o que mais desejava era mergulhar no desconhecido onde poderia assumir sua verdadeira identidade liberada e excitante. Enquanto pensava nisso, cores vivas espocaram no horizonte, e o mundo pareceu se expandir em ondas de possibilidades cada vez maiores.

Era um daqueles momentos férteis em que ele se sentia à beira de perder o controle e tinha todas as razões para isso. Precisava engendrar uma maneira de checar os registros dos telefonemas que Sophia Russell teria dado, e urgia encontrar Bill Griffin.

Aquela era a hora!

Aliviado, inclinou-se para trás, fechou os olhos e lançou-se, feliz, no mundo estrelado de sua imaginação.

Então, parecendo vir do além, uma voz fria o trouxe de volta à realidade.

  • Se eu fosse o inimigo, você era um homem morto.

    Marty deu um pulo e gritou:

  • Peter! Seu idiota! Você podia realmente ter me matado de susto, entrando sorrateiramente dessa maneira!

  • Sentado aí que nem um patinho, você é um alvo vulnerável — disse Peter Howell, sacudindo a cabeça morosamente. —Precisa ficar mais alerta, Marty Zellerbach.—Ele estava reclinado numa espregui­çadeira ainda vestido com seu uniforme todo preto de comando antiterrorista do SAS. Sua carapuça antiflashcinzenta repousava no seu colo. Voltara de sua missão malograda ao USAMRIID e entrara na van sem agitar o ar.

    Marty estava muito irritado para brincar de espião. Ansiava para que sua provação terminasse e pudesse voltar para seu pacato bangalô onde o acontecimento mais maçante do dia era a chegada do correio.

  • A porta estava fechada, seu debilóide — disse ele com escárnio. — Você não passa de um reles arrombador.

  • Um arrombador fora de série. — Peter acenou com a cabeça, ignorando o olhar desolado de Marty. — Se eu fosse um gatunozinho qualquer, não estaríamos aqui batendo esse papo.

    Depois deterem deixado Jon Smith no Aeroporto Internacional de São Francisco, eles tinham se revezado na direção da VR, dormindo e comendo no próprio veículo para ganhar tempo. Peter dirigira a maior parte do percurso e se encarregara das compras para evitar as reclamações de Marty. Além disso, ainda tivera de ensinar Marty a dirigir novamente, uma atribuição para acabar com a paciência da mais tolerante das criaturas. Mesmo agora, ao olhar para o gênio eletrônico, perguntava-se por que o adiposo homenzinho se arrogava ares de superioridade sendo tão incompetente nas pequenas tarefas do dia-a-dia. Além do mais, como era cansativo!

    Marty resmungou.

  • Rogo aos céus para que você tenha obtido melhores resultados do que eu.

  • Infelizmente não. — O rosto curtido de Peter fez uma careta. — Não encontrei nada relevante. — Ao chegarem a Maryland, ele decidira que a melhor coisa a fazer seria começar do princípio, pelo laboratório e o escritório de Sophia, para se certificar de que Jon não deixara escapar nada. Por isso estacionara a van onde ela estava agora, vestira seu equipamento de comando do SAS e se infiltrara furtiva­mente no Forte Detrick. Suspirou e disse: — Marty, meu rapaz, receio que tenhamos de nos valer de suas excepcionais habilidades eletrôni­cas para remexer o passado da pobre senhora. Acred ita que poderia ter acesso ao seu arquivo pessoal aqui no Forte Detrick?

    Marty se iluminou. Ergueu as mãos acima da cabeça e estalou os dedos como se fossem castanholas.

  • É só pedir! — Movendo-se com incrível agilidade, apertou teclas, consultou o monitor, e minutos depois se recostou na cadeira, cruzou os braços e abriu um sorriso triunfante para Peter.—Tam-tam- tam-tam! Ei-lo! Arquivo pessoal de Sophia Lilian Russell, Ph.D.

    Peter vinha observando na sombra, mostrando-se preocupado assim que Marty começou a falar com pontos de exclamação. Atraves­sou discretamente o espaço operacional da van e debruçou-se sobre o computador.

    Disse pausadamente:

    —Jon acha que há alguma coisa no relatório apagado do Instituto Príncipe Leopoldo que você recuperou que Soph ia considerava impor­tante. É por isso que o relatório foi apagado e a página com os comentários dela foi cortada do seu diário. — Ele olhou fundo nos brilhantes olhos verdes de Marty. — Precisamos encontrar qualquer coisa que se encaixe nesse relatório.

    Marty quicou na sua cadeira.

  • Não há problema! Imprimirei o arquivo inteiro. — Uma energia elétrica parecia emanar dos seus poros, e um sorriso de auto- satisfação estampou-se no seu rosto. — Consegui! Consegui!

    Peter apertou-lhe o ombro com a mão.

  • E melhor tomar seu comprimido de Mideral, também. Sinto muito. Sei que você não é fanático por ele. Mas é preciso. O que vamos fazer é uma tarefa enfadonha para nossos cérebros superdotados. Você, pelo menos, pode medicar o seu.

    Com o arquivo de Sophia na frente deles, Peter leu em voz alta o relatório do Instituto Príncipe Leopoldo enquanto Marty o checava contra o arquivo pessoal. Marty esmiuçava meticulosamente linha por linha, ao mesmo tempo que Peter lia e relia o relatório. O Mideral era um remédio maravilhoso, e seu efeito imediato moderara a velocidade da fala de Marty e permitira que ele se mantivesse tranqüilamente sentado durante a tarefa estafante. Ele estava se comportando como um gentleman refinado, embora obviamente deprimido.

    A alvorada se aproximava, e eles ainda não tinham encontrado o elo entre as atividades passadas de Sophia e seu atual envolvimento com o USAMRIID.

  • Certo — admitiu Peter. — Dê um passo atrás. Onde foi que ela fez seu curso de pós-graduação?

    Marty retrocedeu o arquivo.

  • Universidade da Califórnia.

  • Qual delas?

    Se Marty não tivesse tomado seu remédio, certamente teria erguido as mãos para os céus, desesperado com a desinformação de Peter. Mas limitou-se a sacudir a cabeça, penalizado com a sua alienação.

  • De Berkeley, naturalmente.

  • Ah, sim. E depois dizem que nós britânicos é que somos esnobes! Você é capaz de forçar a entrada nessa augusta instituição, ou será que vamos ter que fazer novamente todo o percurso de volta para a Costa Leste?

    Marty ergueu as sobrancelhas, chocado com a mesquinharia de Peter. Com voz comedida, irritantemente pausada, ele perguntou:

  • Diga-me uma coisa, Peter, será que antipatizamos tanto um com o outro quando não estou sob o efeito de meus medicamentos?

  • Para ser sincero, sim, meu jovem.

    Marty baixou a cabeça com dignidade.

  • Era o que eu imaginava. — Sentou-se na frente do seu computador, e dez minutos depois um traslado das atividades acadê­micas de Sophia em Berkeley estava nas suas mãos.

    Peter leu em voz alta o relatório do Instituto Príncipe Leopoldo novamente.

    Marty checou o traslado.

  • Não há nomes que se casem. Nenhum trabalho de campo é mencionado. Todo o programa que ela seguiu foi inteiramente voltado para a genética humana, não para a virologia. Recostou-se na cadeira e o traslado escorregou dos seus joelhos. Não adianta. É um caso perdido.

    Tolice. Como nós britânicos dizemos: "Ainda não começamos a lutar."

    Marty franziu o cenho.

  • Quem disse isso foi John Paul Jones contra os ingleses.

  • Ah, mas tecnicamente ele ainda era inglês quando disse isso! Marty deu um sorriso atravessado.

  • Você ainda vive no tempo das colônias?

  • Sempre detestei ter de abrir mão de um bom investimento. Muito bem, vamos ao que interessa: onde foi que ela fez o curso de medicina?

    -— Princeton.

  • Entre na rede.

    Mas o traslado de seus estudos médicos revelou um currículo muito extenso, destituído de detalhes que pudessem ser úteis. Ela havia pesquisado basicamente as mutações genéticas que, entre outros fenômenos, é responsável pela ausência de cauda dos gatos manx. Marty ponderou:

  • Ela participou de extensas viagens de campo. Isso poderia serútil.

  • Concordo. Há alguma menção a um professor-orientador?

  • Ao Dr. Benjamin Liu. Professor emérito. Ele ainda dá cursos ocasionalmente e vive em Princeton.

  • Certo disse Peter. Pode ser uma boa pista. E para lá que vamos.

     

8:14h

Princeton, Nova Jersey

O sol iluminava as cores outonais das árvores e arbustos enquanto Peter e Marty rodavam rumo ao norte. Revezando-se no volante para dormirem, cruzaram a Delaware Memorial Bridge ao sul de Wilmington, atravessaram o Trevo de Jersey, passando ao largo das borbulhantes metrópoles de Filadélfia e Trenton. Quando entraram em Princeton, o sol brilhava e as folhas ostentavam vibrantes tonali­dades de vermelho, ouro e tangerina.

Era uma cidade antiga. Princeton, cenário de batalhas durante a Guerra Revolucionária, quando os ingleses dela fizeram seu quartel- general. Ainda conservava suas ruas com três aléias de árvores e prados verdejantes, suas velhas casas e os prédios clássicos da univer­sidade. Tudo isso envolto numa atmosfera elegante e tranqüila, propícia ao estudo e a um estilo de vida confortável. A famosa universidade e a histórica cidade eram simbióticas, uma não era inteiramente bem-sucedida sem a outra.

O Dr. Benjamin Liu morava numa rua transversal densamente arborizada com bordos cujas folhas rubras pareciam arder em chamas. A aprazível construção de madeira de três andares tinha uma cor que não era nem marrom-escuro nem cinza-escuro — uma pátina natural adquirida em muitos anos de exposição à inclemência dos elementos.

O próprio Dr. Liu tinha o rosto curtido pelo tempo. Fugindo da imagem tradicional de um aristocrata chinês, ele era alto e musculoso, com os olhos e o bigode branco de pontas caídas de um ascético mandarim, mas o queixo proeminente e as faces coradas eram de um pescador de baleias da Nova Inglaterra. Era um belo exemplo da mistura das raças chinesa e caucasiana, e as paredes de seu estúdio ajudavam a explicar por quê. Lá estavam pendurados dois retratos que pareciam ser de seus pais. Um deles era de uma mulher loura, alta, atlética, usando um boné de iatista e segurando uma vara de pesca, enquanto o outro mostrava um distinto cavalheiro envergando os trajes tradicionais de um mandarim chinês sentado na proa de um navio. Peixes empalhados cobriam a parede num dos lados da fotogra­fia, o outro era decorado com comendas chinesas históricas e insígnias hierárquicas.

O Dr. Liu acabara de tomar o seu café da manhã. Convidou-os a se sentarem no seu estúdio.

— Em que posso ajudá-los? Falaram-me no telefone de Sophia Russell. Lembro-me muito bem dela. Uma excelente aluna. Sem falar na sua beleza. Pela primeira vez na minha vida, confesso que cheguei a admitir que seria capaz de me deixar enredar num desses casos episódicos entre professor e aluna. — Sentou-se numa bergère e perguntou: — E como vai ela?

Sob o efeito sedativo de seus medicamentos, Marty começou a articular uma de suas lentas e metódicas respostas.

  • Bem, Sophia Russell está...

    Peter não conteve a impaciência.

  • Tudo bem, Marty. Deixe isso comigo. — Olhou firmemente para o professor aposentado e disse: — Ela está morta, Dr. Liu. Perdoe-me a rudeza, mas viemos aqui esperando que o senhor possa nos ajudar. Ela foi vitimada pelo novo vírus.

  • Morta? — O Dr. Liu mostrou-se chocado. — Quando? Quero dizer, é possível? — Ele olhou de Peter para Marty e de volta para Peter. Sacudiu a cabeça, a princípio devagar, e depois vigorosamente.

  • Mas ela era tão... jovem. — Ele hesitou, como se estivesse vendo a vital idade de Sophia. Então assimilou o resto do que Peter havia dito.

  • O novo vírus? É um desastre global! Tenho netos e estou apavora­do. Ele pode dizimar metade da espécie humana. O que estamos fazendo para impedir essa tragédia? Alguém pode me dizer?

    Peter procurou tranqüilizá-lo.

  • Todo o mundo está trabalhando ininterruptamente dia e noite, professor. Era o que Dra. Russell estava pesquisando.

  • Pesquisando? Quer dizer então que foi por isso que ela pegou o vírus?

  • Talvez. E uma das coisas que estamos tentando apurar.

    As rugas no rosto do professor se acentuaram.

    —Não faço idéia de como possa ajudá-los, mas tentarei. Digam- me o que desejam saber.

    Peter entregou o relatório de uma página ao professor.

  • E do Instituto Príncipe Leopoldo de Doenças Tropicais. Tenha a bondade de lê-lo e nos dizer se há nele alguma coisa que se encaixe nos estudos da Dra. Russell em Princeton. Aulas, viagens de campo, pesquisas, amigos, qualquer coisa que lhe possa ocorrer.

    O professor Liu assentiu com um aceno de cabeça. Leu o relatório devagar. Interrompeu a leitura diversas vezes para pensar e fazer um esforço de memória. Um velho carrilhão no console da lareira bateu solenemente. Ele leu o relatório novamente. E o releu mais uma vez.

    Finalmente, sacudiu a cabeça.

    —Não vejo nada aqui que me dê a impressão de se relacionar com o trabalho ou os estudos de Sophia. Ela se concentrou em genética e, tanto quanto saiba, nunca fez uma viagem de campo a qualquer lugar da América do Sul. Por sua vez, Giscours não estudou em Princeton, e Sophia tampouco estudou na Europa. Não vejo, portanto, como possam ter se encontrado. Ele comprimiu os lábios e passou os olhos no relatório mais uma vez. Levantou a cabeça.Mas, pensando bem, estou me lembrando... sim, de uma viagem. Quando ela estava terminando o curso. Mas não por causa de vírus. Ele hesitou. E apenas algo que ela mencionou de passagem numa reunião informal. Ele suspirou. Não seria capaz de lhe dizer mais do que isso.

    Marty estivera ouvindo atentamente. Mesmo quando estava sob o efeito dos seus medicamentos e sua mente estava acorrentada, ele ainda era mais perspicaz do que noventa por cento da raça humana. O que aumentava sua pendenga com Peter Howell. Por isso, só para provocá-lo, mostrar que era capaz de raciocinar com pertinência, perguntou rapidamente:

  • Onde é que ela estava no último ano do curso de medicina?

    O professor olhou para ele.

  • Syracuse. Mas não estava estudando biologia então. Por conseguinte, não vejo como essa viagem possa estar relacionada com Giscours e seu relatório.

    Peter abriu a boca para falar, mas foi atropelado por Marty.

    Alguma coisa tem de estar relacionada. Ele sentiu um súbito calafrio e olhou para Peter.

    Peter fez uma careta de concordância.

  • E nossa última chance.

    A Especialista de Nível Quatro Adele Schweik, sentada no seu pe­queno Honda, vigiava a casa. O homem pesadão, Maddux, estava sentado ao lado dela, no banco do carona. Ela havia visto o invasor todo vestido de preto sair do Forte Detrick e entrar na VR estacionada um quarteirão mais adiante, e os seguira até Princeton. Agora precisava voltar para o seu posto no USAMRIID.

    Disse a Maddux:

  • E aquela van ali na frente. Ele parece perigoso e age perigosa­mente. Tenha cuidado. Ele está com um outro homem, mas esse não lhe dará trabalho. Você poderá pegá-los quando eles saírem.

  • Você se reportou ao Sr. al-Hassan?

  • Não houve tempo. Maddux acenou com a cabeça.

  • Tudo bem, pode ir. Eu assumo o controle da operação.

    Ele desceu do carro e correu para a sua van. Adele Schweik passou em disparada com seu minúsculo Honda sem sequer lançar um último olhar para ele ou para a VR.

 

9:14h

Long Lake Village, Nova York

O ar da montanha Adirondack soprava doce e fresco, e o sol naquela manhã projetava longas e úmidas sombras dos altos pinheiros sobre as extensas instalações do complexo industrial da Blanchard Pharmaceuticals. No interior da sede de tijolos, o cirurgião geral Jesse Oxnard estava deveras impressionado. Ele e a secretária de Saúde e Assistência Social Nancy Petrelli tinham acabado de dar um giro pelos laboratórios e pavilhões de produção da Blanchard ciceroneados pessoalmente por Victor Tremont. O cirurgião geral conhecia a companhia, naturalmente, mas ele sempre fizera questão de manter uma imagem discreta, e ele não fazia idéia de sua exata dimensão ou de sua presença no contexto mundial.

Os dois representantes do governo foram apresentados aos funcio­nários do primeiro escalão da empresa durante um intervalo para o café e depois voltaram a se reunir com Tremont no seu espaçoso escritório decorado no estilo rústico do campo, com algumas paredes de toros de madeira. Amplas janelas descortinavam o Iago da floresta que dava nome à cidade. As duas autoridades acomodaram-se em poltronas de couro ao lado da lareira de Tremont onde a lenha crepitava e criava um ambiente acolhedor, e passaram a ouvir atenta­mente Tremont descrever com entusiasmo aorigem do promissor soro experimental.

—... nosso pessoal da área de microbiologia me procurou com a proposta há mais de uma década, porque na época eu era responsável pela divisão de P&D. Os cientistas previam que uma gama cada vez maior de doenças emergiria à medida que as nações do Terceiro Mundo se tornassem mais acessíveis, e suas populações se expandissem. Em outras palavras, menos localidades permaneceriam suficien­temente remotas para confinar às suas fronteiras eventuais surtos epidêmicos. O mundo industrial não teria defesas contra as pragas, que poderiam ser mais devastadoras do que a AIDS. Meu pessoal acredi­tava que nos familiarizando com as mais obscuras poderíamos não só prestar uma valiosa contribuição à ciência como desenvolver soros para doenças até então incuráveis. Um dos vírus em que concentraram sua atenção era fatal para uma determinada espécie de macaco que era um parente genético muito próximo dos seres humanos. Criamos um coquetel anti-soro contra o vírus em questão, e desenvolvemos simul­taneamente a biotecnologia necessária para produzir os anticorpos a granel, como um estudo de viabilidade de técnicas de produção em massa para o futuro. — Ele olhou gravemente para os dois. — E o estudo de que lhe falei pelo telefone, secretária Petrelli. Agora esse estudo talvez possa ser útil ao mundo. Espero sinceramente que sim.

Jesse Oxnard não estava muito seguro. Era um homem corpulento com uma papada pronunciada e um bigode espesso. Franziu as sobrancelhas e disse:

— Mas esse experimento... esse soro... ainda está essencialmente numa fase de pesquisas. Não é verdade?

Um sorriso compreensivo iluminou o rosto bronzeado, aristocrá­tico, de Tremont. O brilho das labaredas da lareira refletiu-se nos seus cabelos grisalhos quando ele sacudiu a cabeça.

—Já passamos da fase de testes com animais e com primatas. Na verdade, tivemos oportunidades de mostrar que o soro cura efetiva­mente o vírus em macacos afetados. E, como disse, com um interesse puramente científico, criamos recursos e técnicas para produzi-lo em grande escala. Na realidade, temos milhões de doses à mão. Foi isso que nos levou a registrar uma patente e requerer à FDA sua aprovação para uso veterinário.

Nancy Petrelli observava o efeito que tudo aquilo estava causando no cirurgião geral, e, ao mesmo tempo, se maravilhava com a mestria com que Victor Tremont narrava a história forjada. Estava quase acreditando no relato fantasioso. O que a alertava para jamais baixar a guarda quando lidasse com Victor. Nunca tivera a ingenuidade de acreditar que ele fosse seu amigo. No começo ele precisara do seu investimento inicial, depois de sua influência como congressista e mais tarde secretária de saúde. Tinha plena consciência de que o relacionamento deles não passava de uma troca de interesses.

Nancy era realista. Usava o cabelo prateado curto e vestia-se com a discreta feminilidade de uma executiva eficiente, geralmente com conjuntos de malha St. John. Jamais jogava, a não ser que as probabi­lidades lhe fossem francamente favoráveis. Estava apoiando Victor Tremont e seu golpe audacioso e diabólico porque acreditava que ele sairia vencedor. Também estava ciente de que seus crimes seriam enquadrados como extermínio em massa se ele fosse apanhado. Tinha decidido, portanto, manter-se acima de qualquer suspeita de que pu­desse saber o que estava realmente fazendo. Ao mesmo tempo, espe­rava sinceramente que ele triunfasse e a fizesse uma mulher muito rica.

Tanto em seu próprio benefício quanto no de Oxnard, ela disse:

  • Macacos não são seres humanos, Dr. Tremont.

    Victor lançou-lhe um olhar irônico e concordou.

  • Não há a menor dúvida. Mas, neste caso, eles são genética e fisiologicamente muito parecidos.

  • Deixe-me ver se estou compreendendo bem. — O cirurgião geral Oxnard cofiou o bigode. — O senhor não pode ter absoluta certeza de que o soro será capaz de curar pessoas.

    Tremont respondeu solenemente:

  • E claro que não. Só poderemos saber quando ele for de fato testado em seres humanos. Mas, considerando a situação, creio que precisamos experimentar.

    O cirurgião geral franziu o cenho.

  • Este é um grande obstáculo. Na verdade, é perfeitamente possível que venhamos a descobrir que o soro é nocivo ao gênero humano.

    Tremont entrelaçou os dedos e olhou para suas mãos. Quando olhou para cima, disse prudentemente:

  • Uma coisa parece quase certa: milhões de criaturas morrerão se não encontrarmos uma cura para esse vírus horrível. — Ele sacudiu a cabeça como se estivesse lutando com a maior das hesitações. — Não pense o senhor que não venho me questionando exatamente sobre esse problema. Foi por isso que relutei muito antes de vir a público. Tinha que me sentir bem com a minha consciência, ter certeza de que estava agindo corretamente. Mas a resposta é sim. Estou convencido de que há uma chance muito grande de nosso soro curar essa terrível epide­mia. Mas como posso garantir que ele não venha causar um sofrimento ainda maior até ser testado?

    Os três consideraram silenciosamente o dilema. Jesse Oxnard sabia que não podia recomendar o uso do soro de Tremont sem submetê-lo previamente a exaustivos testes, mas ao mesmo tempo reconhecia que uma decisão favorável seria considerada uma prova de coragem e decisão se realmente salvasse milhões de pessoas no mundo inteiro da morte certa.

    Nancy Petrelli continuava a se preocupar consigo mesma. Sabia que o soro daria certo, mas aprendera a duras penas a nunca tomar partido numa controvérsia política. Adotaria uma postura solidamente cautelosa e ficaria do lado da minoria que, no fim, tinha certeza, seria anulada em favor de Victor.

    Enquanto isso, Victor Tremont se preocupava com Jon Smith e seus dois amigos. Não tinha notícias deles através de al-Hassan desde o fiasco nas Sierras. Essa constatação trouxe-o de volta ao presente. Estava arquitetando um gesto nobre que esperava que convencesse o cirurgião geral e, por intermédio dele, o presidente Castilla. Mas tinha que agir no momento certo.

    Ao olhar para Petrelli e Oxnard com suas fisionomias carregadas, entregues a profundas elucubrações, intuiu que tinha chegado o momento.

    Era preciso quebrar o impasse. Se não conseguisse convencer o cirurgião geral Oxnard, era possível que tudo por que se tinha empe­nhado duramente durante os últimos doze anos estivesse perdido.

    Mas reagiu intimamente. Não se deixaria abater. Não podia, não seria derrotado.

    — A única maneira de termos certeza é testá-lo em seres huma­nos. — inclinou-se na direção dos dois e disse com voz resoluta e grave: — Isolamos pequenas quantidades do vírus letal do macaco. Ele é instável, mas pode ser conservado durante mais ou menos uma semana. — Ele hesitou como se estivesse se debatendo intimamente com uma grande questão moral. — Só há um meio de proceder. E, por favor, não tentem me impedir; há muitas vidas em jogo. Temos de pensar no bem maior, não apenas no que arriscamos como indivíduos. — Fez outra pausa estudada e respirou fundo. — Injetarei o vírus do macaco em mim...

    O cirurgião geral Oxnard vacilou.

  • O senhor sabe que isso é impossível.

    Tremont levantou a mão.

    —Não, não. Por favor, deixe-me terminar. Injetarei o vírus e em seguida tomarei o soro. O vírus do macaco pode não ser exatamente o mesmo que está se alastrando, mas acredito que seja muito seme­lhante e nos permitirá observar quaisquer efeitos colaterais adversos quando eu tomar o soro. Então finalmente saberemos.

  • Isso é um absurdo! — exclamou Nancy Petrelli, bancando a advogada do diabo. — O senhor sabe muito bem que não podemos permitir que faça uma coisa dessas.

    Jesse Oxnard hesitou.

  • Está mesmo disposto a fazer isso?

  • Absolutamente. — Tremont acenou com a cabeça vigorosa­mente. — Se for a única maneira de convencer a todos que o nosso soro pode pôr fim ao que está se tornando rapidamente uma epidemia de proporções e conseqüências imprevisíveis.

  • Mas... — começou Nancy Petrelli a representar sua farsa de oposição.

    O cirurgião geral sacudiu a cabeça.

  • Não cabe a nós decidir, Nancy. Tremont está propondo uma medida de ordem prática mas ao mesmo tempo extremamente gene­rosa e humanitária. O mínimo que podemos fazer é respeitá-la e submeter sua sugestão ao presidente.

    Petrelli franziu as sobrancelhas.

  • Mas, veja bem, Jesse, não temos nenhuma garantia de que os dois vírus e o soro interagirão da mesma maneira no corpo humano. — Ela percebeu quando Tremont olhou para ela com a fisionomia fechada, curioso, como se estivesse duvidando de que tivesse ouvido corretamente. — Se o Dr. Tremont está decidido a servir de cobaia para nós, ele deve ser infectado com o vírus verdadeiro. Ou, pelo menos, deveríamos testar os dois vírus para ver se de fato são idênticos.

    Tremont estava se roendo por dentro. Que diabo ela estava fazendo? Sabia perfeitamente que o soro não era cem por cento eficaz — nenhum soro ou vacina era. Ele tinha essa contingência bem coberta, mas ela não sabia disso. Exteriormente, ele continuou a concordar.

  • A secretária tem razão, naturalmente. Seria o ideal. Mas o tempo indispensável para comparar os vírus acarretaria um atraso desnecessário. Eu lhes afianço que estou inabalavelmente decidido a ser infectado pelo vírus real. Nosso soro o curará. Tenho absoluta certeza.

  • Não. — O cirurgião geral deu um tapa no joelho, não concor­dando. — Está fora de cogitação. Não podemos deixar que o senhor faça isso. Mas as famílias das vítimas estão implorando para serem ajudadas. Portanto, faz mais sentido perguntar a elas se deixariam que seus parentes contaminados experimentassem o soro. Dessa maneira, saberíamos o que precisamos saber e também salvaríamos uma vida condenada. Enquanto isso, darei instruções para que Detrick e o CDC comparem os vírus.

    Petrelli objetou.

  • A FDA jamais aprovará.

    Oxnard retrucou:

  • Aprovará se o presidente mandar.

  • O diretor provavelmente se demitirá primeiro.

  • É possível. Mas, se o presidente quiser que o soro seja testado, ele será.

    Nancy Petrelli pareceu refletir sobre isso.

  • Continuo contra o uso do soro sem a série costumeira de testes rigorosos. Entretanto, se prevalecer essa idéia, realmente faz mais sentido tentar salvar alguém que já esteja infectado.

    O cirurgião geral levantou-se.

  • Podemos ligar para o presidente agora mesmo e apresentar-lhe as duas sugestões. — Voltando-se para Victor Tremont, perguntou: — Onde podemos telefonar em particular?

    —Tenho uma linha privada na sala de reuniões. Por aquela porta, por favor — disse Tremont, apontando com a cabeça uma porta na parede direita do seu escritório.

  • Nancy? — chamou Jesse Oxnard.

  • Você faz a ligação. Não há necessidade de nós dois falarmos. Diga a ele que estou de acordo com o que ficar decidido.

    Enquanto o cirurgião geral se retirava e fechava a porta, Victor Tremont rodou na sua cadeira giratória e sorriu friamente para a secretária de Saúde e Assistência Social.

  • Livrando a cara à minha custa, Nancy?

  • Não, apenas pintando um quadro negativo para que Jesse tire suas próprias conclusões—retrucou Nancy Petrelli.—Concordamos que eu carregaria nas tintas, para que ele pudesse ver o lado positivo, as vantagens.

    Tremont não deixou que seu tom de voz traísse sua indignação.

  • E tenho de admitir que se saiu muito bem, mas, convenhamos, o que realmente lhe interessava era se proteger.

    Petrelli fez-lhe uma reverência.

  • Aprendi com um mestre.

  • Obrigado, mas demonstrou uma chocante falta de confiança em mim.

    Ela concedeu-lhe um sorriso lacônico.

  • Não, somente nos caprichos da sorte. Até hoje ninguém encontrou uma maneira de sobrepujar a imprevisibilidade da sorte.

    Tremont meneou a cabeça, curvando-se à evidência da observação.

    —Tem toda a razão. Estamos fazendo o melhor que podemos, não concorda? Pensamos em todas as possíveis contingências. Por exem­plo, insistiria para que conduzíssemos os testes, e lhe asseguro que o vírus seria inofensivo antes de atingir meu organismo. Mas sempre há um resquício de improbabilidade, não é mesmo? Um risco para mim, em última análise.

    Nancy Petrelli nunca veio a saber até onde a discussão poderia tê- los levado. Naquele momento a porta da sala de reuniões se abriu e o cirurgião geral Oxnard entrou, um homem do tamanho de um urso com um largo sorriso de alívio estampado no rosto.

  • O presidente vai falar com a FDA, mas devemos começar imediatamente a procurar voluntários entre as vítimas. O presidente mostrou-se otimista. De uma forma ou de outra, vamos testar o soro e acabar com esse maldito vírus.

    Victor Tremont deu uma longa e ruidosa gargalhada. Sim! Ele tinha conseguido. Iam todos ficar ricos, e era só o começo. Sentado atrás de sua escrivaninha, dava gostosas baforadas no seu legítimo cubano, bebia o uísque especialmente engarrafado para ele e se regozijava intimamente numa comemoração particular, antegozando seu triunfo. Súbito, o celular tocou na última gaveta da sua mesa. Abriu a gaveta bruscamente e pegou o telefone.

  • Nadal?

    Houve uma pequena demora, comum nas ligações sem fio a longa distância. Mas logo ouviu uma voz exultante.

  • Localizamos o Jon Smith.

    Decididamente, aquele era o seu dia!

  • Onde?

  • No Iraque.

    Tremont foi tomado de uma dúvida momentânea.

  • Como foi que ele conseguiu entrar no Iraque?

    Talveztenha sido aquele inglês misterioso das Sierras. Não foi possível apurar qualquer coisa sobre ele. Nem ao menos se sabe se Howell é um nome mais verdadeiro do que Romanov. Isso me leva a acreditar que ele deve ter muito boas razões para que não se saiba qual é sua legítima identidade.

    Tremont acenou com a cabeça, contrariado.

  • Provavelmente pertence à MI6. Como foi que localizou o Smith?

    Através de um dos meus contatos: um certo Dr. Kamil. Presumi que Smith tentaria investigar os casos que testamos, e por isso preveni todos os médicos que conhecia. Não há muitos ainda em atividade na Bagdá dos dias de hoje. Kamil informou que Smith também está querendo se avistar com os sobreviventes.

  • Filho da mãe! Não podemos permitir que ele faça isso em hipótese alguma.

  • Não se preocupe. Mesmo que ele consiga, não tem importân­cia. Não sairá vivo do Iraque.

  • Mas o fato é que ele conseguiu entrar.

  • Mas então ele não tinha a polícia de Saddam e os Guardas Republicanos no seu encalço. Assim que souberem que o intrujão americano está lá, lacrarão suas fronteiras e moverão uma caçada implacável contra ele. Se não o matarem, nós o faremos.

  • Veja lá, ó Nadal, se não falha dessa vezrosnou Tremont. E o que me diz do Bill Griffin? Onde é que ele está?

    Já se sentindo humilhado com a irritação de Tremont, o rosto de al-Hassan ficou ainda mais petrificado.

  • Estamos vigiando todos os lugares onde Jon Smith esteve, mas Griffin parece ter sumido da face da terra.

— Que maravilha! — Num acesso de cólera, apertou o botão, desligou o telefone celular e ficou olhando para o vazio, incapaz de ver o que quer que fosse.

Mas os sucessos do dia trouxeram de volta uma sensação de euforia, restituindo-lhe o sorriso. Independentemente do que Jon Smith pudesse ter descoberto no Iraque, e a despeito de Griffin, o Projeto Hades estava indo de vento em popa, seguindo rigorosamente o que fora planejado. Tomou um gole de uísque e seu sorriso se expandiu. Agora, até o presidente estava a bordo.

 

10:02h, Forte Irwin

Barstow, Califórnia

O homem seguira a picape Toyota alugada de Bill Griffin desde Forte Irwin. Mantivera-se a uma distância segura, nem muito perto nem muito longe, na estrada de pista dupla e depois na Interestadual 15. Estava esperando que ele se detivesse mais demoradamente em algum lugar. Um lugar para onde Griffin estivesse voltando e fosse pernoitar. Griffin sabia que o homem o seguiria até Los Angeles se necessário, até ter certeza de que ele permaneceria num lugar o tempo suficiente para chegarem reforços.

Por trás das cortinas do quarto do motel de Barstow, Griffin viu o homem descer do seu Land Rover e se encaminhar para a portaria do motel. Era um tipo comum com um terno marrom indefinível e uma camisa de colarinho aberto. Griffin nunca o tinha visto. Ficaria surpreso se tivesse. Contudo, reconheceu o volume quase impercep­tível de uma pistola debaixo do paletó do homem. O desconhecido iria checar se Griffin — ou qualquer que fosse o nome que o ocupante do quarto 107 estivesse usando — ia passar a noite ali. Depois era só dar seu telefonema.

Griffin pegou uma das toalhas de banho do motel. Levantou a janela de guilhotina dos fundos, pulou para fora, circundou os quartos e posicionou-se numa ponte de onde podia ver a portaria. Seu perse­guidor estava exibindo algum distintivo ou documento de identidade falso ao empregado do motel. O rapaz consultou rapidamente o livro de registro de hóspedes, sacudiu a cabeça e virou-se para que seu inquiridor pudesse vê-lo.

Griffin encaminhou-se para o Land Rover do homem e entrou sorrateiramente no veículo. Agachou-se na parte de trás e ficou esperando. Passos apressados aproximaram-se do Land Rover, e a porta da frente foi aberta abruptamente.

Quando foi fechada corn força, Griffin levantou-se com uma Walther PPK de ó.35mm dotada de silenciador na mão direita, e a toalha de banho na outra.

O homem estava discando o telefone do carro.

Num movimento único, Griffin enrolou a toalha na cabeça do homem e atirou uma vez. A cabeça do pistoleiro tombou para trás. Griffin conteve com a toalha grande parte do sangue e da massa encefálica. Abaixou tranqüilamente ocorpo flácido. Suando abundan­temente, saiu do carro, empurrou o corpo para o assento do carona e assumiu o volante do Land Rover.

Enterrou o corpo do seu perseguidor anônimo no meio do deserto alguns quilômetros adiante. Depois voltou para Barstow e abandonou o carro trancado numa rua transversal. Cansado e irritado, dirigiu-se para o seu motel, pagou a conta e foi embora, rumando para a Interestadual 15. Em Forte Irwin ficou sabendo que Jon Smith se interessara pelos "cientistas do governo" de Tremont e pelo tempo de serviço que o major Anderson prestara no Iraque durante a Tempestade no Deserto. Quando alcançou a Interestadual 15, aproou a picape na direção de Los Angeles e seu aeroporto internacional. Tinha de tomar decisões, e o melhor lugar para isso era a Costa Leste.

 

20:02h

Bagdá

A mulher curvada vestida com a abaya preta estava a um quarteirão de distância da loj a de pneus usados quando ouviu a primeira fuzilaria. Parou perto de um velho sentado de pernas cruzadas na rua, com a mão estendida, pedindo esmolas. Olhou para ele com olhos vazios, enquan­to seu cérebro lhe assegurava que não precisava voltar à loja para saber o que a fuzilaria significava.

Mas então ouviu novamente uma rajada de balas.

Quando deixara a loja, tinha cumprido sua tarefa. Certificara-se que o médico americano em missão secreta estabelecera contato. Nesse ponto, retirara-se, como se esperava que fizesse. Um ataque armado não fazia parte do plano. Tampouco o homem que se revelou ser o médico clandestino. Ela estava tensa. Podia ser muitas coisas, mas certamente não era descuidada com as ordens que recebia. Orgulhava-se muito do seu trabalho. Era extremamente responsável e inteiramente confiável.

Olhou mais uma vez para o mendigo. Deixou cair alguma moeda na mão dele. Com a comprida abaya esvoaçando em torno de suas pernas, ela se encaminhou o mais rapidamente que seu corpo vergado lhe permitia para a loja de pneus usados.

Na ruela de Bagdá, as sombras escuras eram a única proteção para Smith, a mulher e o bebê. Ele os puxou para o barracão, que os impedia de serem vistos facilmente. O tiroteio abafava os ruídos normais da cidade, mas mesmo assim Jon se mantinha alerta, com os ouvidos aguçados. Através da semi-escuridão, estudou ambas as extremidades da estreita via pública. Mal conseguiu distinguir o que parecia ser uma dúzia de Guardas Republicanos. Eles estavam se aproximando cui­dadosamente, com suas armas em riste. Os matadores de escol de Saddam Hussein avançavam com precisão e astúcia.

Ainda assim, ele sorriu para a mulher, procurando tranqüilizá-la quando ela olhou ansiosamente para ele sob a luz da lua.

Já volto sussurrou ele. Sabia que ela não compreenderia, mas talvez o som de uma voz humana a ajudasse a manter seu equilíbrio enquanto apertava protetoramente o bebê contra seu peito.

Com as têmporas latejando, Jon rolou para a esquerda e puxou o ferrolho da primeira porta. Trancada. Depois a segunda. Igualmente trancada.

Os Guardas Republicanos estavam cada vez mais perto.

Ele inverteu o rumo e deslizou sorrateiramente, passando pela mulher. Tentou uma terceira porta. Também fechada.

Frustrado e preocupado, ele a puxou da loja de pneus para a porta do prédio vizinho e empurrou seu braço até ela se agachar ao lado dele, na junção da parede com as pedras da viela. Queria diminuir o alvo para o inimigo. Não via outra alternativa ia ter de abrir caminho à bala.

Com o peito retesado, sacou sua Beretta e continuou observando as sombras que se aproximavam cautelosamente. O suor se acumulava por baixo de suas roupas apesar do ar fresco da noite. O tiroteio no interior da loja de pneus parara. Por um momento pensou em Ghassan e esperou que ele tivesse sobrevivido; depois afastou da mente qualquer pensamento, concentrando-se no perigo que a ruela oferecia.

O único som era das passadas ritmadas dos soldados se aproximando inexoravelmente. Ele respirou fundo, procurando </