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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O FILHO DA SERPENTE ALADA / Mervyn Eagle
O FILHO DA SERPENTE ALADA / Mervyn Eagle

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O FILHO DA SERPENTE ALADA

 

A autora afirma que a civilização chamada Tolteca foi ape­nas uma remanescência degenerada da verdadeira cultura Tolteca, que alcançou seu apogeu há muitas centenas de milhares de anos. O mesmo é verdadeiro com os maias, incas e astecas, todos eles com raízes na civilização Atlante, que atingiu a glória e a subseqüente destruição há mais de 400 mil anos. A civilização atlante era muito similar à nossa, surpreendentemente, e as causas que levaram à sua queda estão hoje tão ativas em nossa civilização moderna quanto estiveram naquele remoto passado primordial.

Por trás de grandes construções, igrejas, quartéis e imensas indústrias da maior parte das cidades modernas distinguem-se nítidos os pensamentos-formas de outras construções há muito transformadas em pó, que ali estiveram uma vez e ali estão de novo, tendo-se projetado, às vezes no mesmo lugar, induzindo seus construtores a reconstruí-las de acordo com padrões há muito esquecidos, se bem que ainda claramente perceptíveis no mundo invisível.

O mesmo acontece com pessoas, governos, raças, movimentos coletivos, grupos, revoluções e guerras. Há, por assim dizer, uma espé­cie de "reencarnação" ou reincorporação de eventos, assim como de pessoas e coisas, uma por vezes causando a outra.

Todos os atos, uma vez executados, todos os pensamentos uma vez pensados compelem-nos a repeti-los, estabelecendo um hábito.

Os primeiros pensamentos-formas por nós criados na Atlântida tinham um poder muito maior que qualquer coisa chamada à existência desde então pela mente humana; esses pensamentos-formas adiantam-se a cada vez que desejamos fazer algo diferente, original, algo não atado ao passado ou ao futuro, a ações ou sensações passadas ou futu­ras, por mais gloriosas que sejam.

Nosso pensamento, nossa cultura, nossa educação, sentimentos, hábitos, nosso modo de governar, nossos divertimentos estão se tornan­do mais e mais coletivos, massificados e controlados... e é justo nesse aspecto que a nociva influência de nosso passado atlante mais se faz sentir, compelindo-nos a seguir certos caminhos predeterminados.

Essa influência trabalha em especial a partir e sobre o subcons­ciente — o nosso próprio, o de nossos líderes, religiosos e governantes —, sendo percebida de forma clara na criação de movimentos de mas­sas, em todas as coisas feitas e construídas coletivamente — tudo pelo assim chamado bem coletivo, pois o que foi criado em Aztlan assim o foi, mal existindo então a linha divisória entre o individual e o coletivo, ainda menos que agora.

O subconsciente é o passado esquecido, ignorado, e quanto mais fundo o sondamos, tanto mais perto chegamos de pensamentos-formas e hábitos extremamente antigos e incrivelmente poderosos. Os líderes, cientistas, idealistas, políticos e ditadores da época atual acabam invari­avelmente por se encontrar face a face com essas formas e quase sempre saúdam esses fantasmas do passado como guias e seres inspiracionais, mensageiros divinos, deuses, mestres ou coisas semelhantes, ao invés de conhecê-los pelo que são na verdade e assim libertar-se de sua influ­ência.

Se já não é muito fácil nos elevarmos acima, ou melhor, reabsorvermos as limitações (pensamentos-formas) por nós criadas durante nossa vida presente, uma época que ainda podemos relembrar e investi­gar, imagine-se como deve ser muito mais difícil fazer o mesmo com impulsos e hábitos que têm suas raízes num passado remoto, a ponto de estarmos inteiramente inconscientes das mesmas.

O subconsciente é como um filme de nosso passado, do passado de toda a humanidade desde o momento de sua aparição nesta Terra. E através da "liberação" desse filme, deixando-o assomar à superfície de nosso ser e dando-nos conta de sua tremenda significação seremos ca­pazes, finalmente, de morrer a todos os nossos hábitos e memórias anti­gos.

O que chamamos História é apenas uma imagem fiel da manifes­tação do subconsciente coletivo, repetindo incessantemente tudo o que já foi pensado, sentido e feito antes, impedindo-nos de criar o novo.

 


Estivera seco por muito tempo — um tempo longo demais —, por muitos meses cansativos. A poeira vermelha havia coberto indistin­tamente amigos e inimigos, sufocando as gargantas dos combatentes, tingindo rostos suados, irritando olhos cansados, cobrindo ferimentos abertos, alimentos e homens tombados.

Mas agora — um sinal, um sinal certo, gritaram alguns, agora que a grande batalha terminara e um novo rei havia tomado o lugar do antigo, agora que o Exército Rebelde marchava pelas largas alamedas da Cidade, agora que as pessoas estavam voltando às suas casas, hesitantemente, mas ainda assim, voltando, agora começara a chover.

Um sinal seguro clamavam alguns — de felicidade duradoura, de prosperidade por acontecer, de paz e bem-estar sob o novo governante. É certo que as pilhagens ainda estavam em curso aqui e ali e as casas — tão bonitas e imponentes — ainda queimavam. E que nos arrebaldes da cidade, os rebeldes e alguns membros desgarrados do Exército Legalista ainda se engalfinhavam em esporádicas escaramuças. Mas o pior havia passado e acabado. E começara a chover.

Era muito óbvio para todos que por um longo tempo ainda não se poderia contar mais com autoridades. Os que estavam no poder, ontem, haviam fugido, e quem podia ter certeza sobre o futuro? Era melhor aquietar-se por algum tempo e observar as coisas. Apenas o camponês, vendo as gotas claras e limpas encharcarem sua terra quente, sentindo o vento úmido chicoteando seu rosto e olhando nos longos e faiscantes olhos do trovão, apenas o camponês podia estar certo, certo do despertar da semente para o abraço úmido da terra escura, certo do crescimento dos brotos verdes e novos nos dias por vir.

O novo governante? O que se sabia dele? Os rumores eram inú­meros e contraditórios como sempre — e, no fim, ficava-se tão cansado de rumores... Um grande estadista, general brilhante e devotadíssimo sumo sacerdote, premiando generosamente os fiéis e obedientes admi­ravam alguns. Homem cruel, pessoa intolerante, perversa e desumana, perseguidor incansável de seus adversários, suspiravam outros.

Já o velho rei Rahazz, o antigo soberano..., mas era inútil recordar o que havia passado, o que havia ou não havia sido o homem que naque­le exato momento estava fugindo para salvar a vida, se já não estivesse morto. Havia perdido a batalha e ponto final. A vida continuava, era preciso comer e trabalhar. Melhor olhar em direção ao futuro, seguir seu próprio arbítrio e ajustar-se. Ajustar-se, adaptar-se e assim sobreviver.

Quando os soldados vinham saquear a casa do camponês ele nem sequer se dava o trabalho de contar quantas vezes isso havia acontecido antes, este sempre se escondia. É claro que não eram todos maus, alguns até eram decentes, em especial os camponeses ou filhos de camponeses. Estes costumavam tentar — sempre — evitar o solo recém-arado e em geral envergonhavam-se quando os outros vasculhavam sua casa à pro­cura de bens e alimentos.

O camponês via tudo aquilo de onde se escondia, sem desperdi­çar energia para enfurecer-se, não desejando de modo algum fazer uma exibição de valentia e indignação de si mesmo. Mesmo aqueles porta­dores de violência e destruição tinham de deixá-lo em paz no final. Ti­nham de fazê-lo se queriam continuar comendo. E mais tarde, inspecio­nando a casa quase vazia, sempre ficava contente ao descobrir que não haviam — nenhum deles até agora — descoberto as preciosas sementes e as gordas batatas castanho-avermelhadas prontas para o plantio. En­quanto o rico grão estava ali e sua terra continuava sendo sua terra, nada mais importava. A semente era a renovação, a vida eterna, a terra era vida e permanência — tudo o mais passaria por fim.

Quando soube que a guerra havia terminado, sido travada a últi­ma batalha — coisa que sentiu muito antes de ser informado a respeito —, nem sequer continuou prestando atenção aos grupos de soldados cansados que passavam. Ao menos não enquanto os via cambaleando em direção à capital... e a maior parte se dirigia para lá. Havia chovido e a terra estava esperando. Isto era mais urgente que a guerra.

Assim, quando um grupo de derrotados, numa retirada rápida e silenciosa em direção às montanhas do norte, surgiu de repente ao cre­púsculo, não encontrou tempo para se esconder. Ficou parado com ar miserável enquanto se aproximavam, dizendo-lhes:

— É inútil, senhores, muitos outros já estiveram aqui antes de vocês.

Sem responder, o comandante deu a seus homens ordens de vas­culharem a casa e fez sinal ao camponês para que o seguisse. Dentro, quando as lâmpadas foram acesas, a claridade revelou com nitidez o ar faminto dos rostos magros, o duro cansaço em olhos irritados. O co­mandante estava seriamente ferido, um horrível corte desde o pulso ao longo de todo o antebraço, coberto apenas em parte por uma bandagem ensangüentada.

Um cavalheiro idoso em roupas civis, de maneiras suaves e a quem demonstravam muito respeito, estava com eles, notou o camponês, en­quanto a outra metade de sua mente mantinha-se acompanhando ansio­sa os soldados que revistavam a casa. E desta vez encontravam seus grãos e suas lindas batatas. Com alegria chamaram o oficial para que viesse ver o feliz achado.

Quando o homem voltou, as mãos cheias do rico milho amarelo, para mostrar ao homem quieto, o camponês perdeu o controle.

Não, senhor, não o milho... não as batatas — gritou, precipitando-se para o homem. — Como posso plantar sem elas?

O comandante ferido agarrou sua garganta com a mão sã e rugiu:

Não ouse! Fique satisfeito por não o matarmos por esconder o alimento de nós. Homem, não comemos há três dias!

Então, aí estava, pensou o camponês. Haviam chegado mesmo a isso. Mesmo o grão lhe seria tirado agora. Aquilo e suas maravilhosas batatas. E, sim, talvez até sua vida.

Deixe-o, Zenhar — disse o velho atrás dele, numa voz cansa­da. — E não toque nas sementes. Isso, ao menos, deve-se deixar para ele.

O camponês achou que nunca mais veria o desespero e a fome crua e selvagem que viu então nos olhos azuis que fixavam o mais ve­lho. E, no entanto, sem dizer nada, o comandante soltou-o e abriu as mãos, deixando o milho escorrer para o chão.

"Ele tem muita autoridade", pensou o camponês, imaginando se aquela autoridade seria suficiente para dominar a fome daqueles ho­mens violentos.

Perdemos a guerra, meu rapaz. E preciso perder também a honra?

Ríspida e rápida veio a resposta:

Já não perdemos muito dela, do modo como invadimos esta

casa?

Até hoje sempre pagamos pelo que tomamos. Mas essas sementes não podem ser pagas com ouro.

Curioso, esquecido do medo, o camponês perguntou:

E fazendeiro também, senhor?

Isso fui... até bem pouco tempo atrás — o sorriso não mostra­va amargura ou frustração. —Todo o Aztlan foi meu para lavrar, até há bem pouco tempo.

Depois que partiram, o camponês ergueu-se muito devagar do local onde se deixara cair de joelhos sobre o milho duro espalhado. Embora fosse para com sua terra a única lealdade que conhecia, a gran­deza humana merecia uma reverência, mesmo num soberano derrotado.

 

"...então a Quarta Raça cresceu com orgulho. 'Somos os Reis', diziam, 'somos os Deuses'..."

(Do Livro de Dzyan)

 

Quando Vanzaj viu seu perseguidor despencar para dentro do rio aos uivos, não desperdiçou mais nenhum instante, fugiu, após uma rápida espiada por sobre o ombro para entrever seus inimigos que corri­am com os braços oscilando, gritando com selvageria. Eram oito contra um, e todos armados — uma desvantagem grande demais para seu gos­to. Assim, continuou fugindo, com esperança de ser mais rápido. Quan­do notou que seus gritos estavam ficando mais afastados, olhou para trás mais uma vez e caiu numa valeta.

Torcera o tornozelo. Seus perseguidores, notando o esforço, to­maram novo fôlego e dobraram o empenho.

Amaldiçoando-se, Vanzaj continuou aos tropeções. Alcançou as primeiras casas da cidade e, através de uma cerca viva alta e espessa, rodeando um jardim semelhante a um parque, notou a cintilação de algo muito conhecido.

Com o impulso da última energia, desapareceu através do portão prateado, coberto de hera.

Deve estar escondido em algum lugar por aqui — disse um dos homens que o perseguiam, ofegando e apontando para o objeto cin­tilante pousado sobre o gramado. — Vamos dar uma olhada.

Os outros, com as armas em punho, correram para o pequeno aparelho semelhante a um bote.

Olhando para o interior do aparelho, aquele que falara deixou esca­par um grito de espanto. E dirigindo o olhar para as amplas janelas abertas da bela mansão semi-oculta por um grupo de altos pinheiros, recuou. Seu amigo espiou por sobre seu ombro, e perguntou com surpresa:

Qual é o problema? Do que está com medo? E apenas uma moça adormecida. Quem sabe, talvez seja até mesmo uma cúmplice daquele sujeito. Vamos acordá-la. Talvez esteja apenas fingindo dor­mir... Vamos tratar de lhe fazer umas perguntinhas.

Mas o primeiro homem empurrou-o para trás, com irritação:

Idiota! Você não a conhece? É a filha de Tchamar. Você não pensaria em interrogar a filha do Primeiro Ministro, pensaria? É aqui que ela mora. Ela jamais sonharia em ajudar um rebelde. E provável que tenha escapado pela cerca viva e ganhou a estrada enquanto viemos procurá-lo aqui.

Seu companheiro, empalidecera à menção do nome de Tchamar. Vanzaj, erguendo-se ligeiro de onde estivem escondido, alcançou o apa­relho com alguns largos passos. Levantando o domo transparente, sal­tou rápida e agilmente para dentro, procurando pelos controles. A força liberada ergueu a nave para o ar em poucos segundos. Os soldados, alertados pelo barulho, voltaram-se no mesmo instante, tentando alcançá-lo com grandes saltos. O que vinha na frente tocou o aparelho num esforço desesperado, mas não conseguiu agarrar-se por questão de cen­tímetros e caiu para trás, praguejando.

Ao alcançar uma altitude mais segura, Vanzaj inclinou-se e viu todos correndo exasperados de um lado para outro, sacudindo os pu­nhos e berrando obscenidades.

Sorriu e suspirou com alívio. Ainda sorrindo, fixou a atenção no manejo do aparelho, perguntando-se o que fazer e para onde dirigir-se.

Uma voz calma ouviu-se atrás dele:

"Estamos sendo seguidos".

A nave, de súbito deixada a si mesma, deu um mergulho inespe­rado. Vanzaj voltou-se num repente e engasgou. Ela estava sentada com as costas eretas e parecia muito divertida. Era jovem e também bastante adorável, com uma massa de cabelo castanho-avermelhado caindo até a cintura e uma pele macia e clara.

Bem?! Como vai você? — continuou ela, sorrindo. — Seria demais perguntar por que me raptou? E em minha própria nave? Estou certa de que não nos encontramos antes, ou estarei enganada?

Olhando-o intrigada, pensou nos rapazes que conhecia e nos pou­cos entre eles que seriam capazes de um feito semelhante a esse. Deixou os olhos percorrerem o rosto aberto e honesto, o corpo forte e bem pro­porcionado e as mãos muito hábeis. Então concluiu, pensativa:

...E acho que isso é uma pena. Devíamos ter-nos conhecido há muito tempo...

Finalmente Vanzaj conseguiu balbuciar algo coerente:

Raptada? Eu não... não tinha a menor intenção de fazê-lo. Nem sequer a havia notado. Por que eu deveria querer raptar alguém?

Alguma coisa dura atingiu o veículo[1] com muita força, quase fa­zendo com que este emborcasse. A moça gritou e Vanzaj fez o aparelho recuperar o equilíbrio com certa dificuldade.

É outra nave! — avisou ela. — Tenha cuidado ou acertarão da próxima vez!

Mas não houve segundo ataque. O inimigo, pilotando um apare­lho muito maior, foi avisado que a filha de Tchamar se encontrava com o fugitivo.

Estão voltando — comentou a moça.

Viram o piloto descrever uma curva e pousar em seguida.

Mas por quê? — Vanzaj estava intrigado. — Por que, em nome do céu, estão voltando agora que quase me haviam agarrado? Isto não faz sentido... — Lembrou-se de que a garota quase havia encontrado a morte por sua causa e continuou: — Vou voltar agora. Na verdade não tenho o direito de arrastá-la comigo, pondo sua vida em perigo.

Ela o estava observando.

Quanta galanteria e quanta tolice de sua parte. Isso significaria o seu fim, não é? Não, não irei voltar, é melhor pensarmos em outra coisa.

Vanzaj, não sabendo o que dizer, ficou em silêncio depois disso. Notara que o pequeno veículo fora danificado pelo ataque e estava fi­cando pesado em suas mãos. Talvez irrompera um vazamento numa das tubulações — estava puxando para baixo e para a esquerda agora. Deci­diu procurar por um lugar adequado para aterrissar.

Sobrevoaram por algum tempo um terreno montanhoso e densa­mente coberto de floresta. Encontrou, por fim uma pequena clareira oblonga, rodeada de altas árvores. Baixou com lentidão, tentando man­ter o aparelho nivelado, até que pousaram sobre o chão seco, com ape­nas um leve solavanco.

Depois de ajudá-la a desembarcar e quando se encontravam para­dos lado a lado, disse:

Realmente, sinto muito. Não a havia notado... estava ocupado demais fugindo de um destino muito desagradável... — interrompeu-se, não sabendo o que mais dizer, bem consciente da proximidade dela.

A jovem encolheu os ombros.

Bem, não há nada a fazer, de qualquer modo. Melhor esque­cermos e nos tornarmos amigos — estendeu-lhe a mão. — Meu nome é Lyanta.

O meu é Vanzaj — ele pareceu aliviado, depois franziu a testa novamente: — A nave está avariada e não posso consertá-la aqui.

Imaginava isso. Nesse caso, será melhor começarmos a andar para encontrarmos refúgio. E, enquanto isso, poderá contar-me por que estava sendo seguido pela metade do exército.

Pura coincidência — ele amarrou a cara. — Nem sequer fui heróico. Aconteceu-me por acaso entreouvir uma conversação numa taberna. Alguns sacerdotes estavam discutindo um plano para destruir os últimos remanescentes dos homens de Rahazz em seu esconderijo nas montanhas. Tribos pequenas, mas fortes e muito rebeldes estão protegendo-o, como todos sabem. Eles construíram um belo templo e a influ­ência que está emanando daquele lugar é tal que o Rei deseja destruí-los a todos de um só golpe: o templo, Rahazz e as tribos.

Quando ouvi até esse ponto, percebi que estava me inteirando de segredos muito perigosos, tentei safar-me o mais discretamente pos­sível. Ao que parece, não consegui ser tão discreto assim, uma vez que me viram e enviaram alguns soldados atrás de mim. Torci o tornozelo e depois descobri seu aparelho.

Mas por que não lhes esclareceu que o segredo estaria seguro com você, um leal seguidor do Rei?

Ele hesitou, lançou-lhe um rápido olhar de esguelha, antes de re­plicar:

Eh... bem, não houve tempo para isso. Eles não deram oportu­nidade de me explicar. E se não acreditassem em mim? Quanto a ser leal... afinal, durante o reinado de Rahazz as coisas eram bastante dife­rentes, as pessoas eram mais felizes e não estavam tão assustadas como estão agora... — interrompeu-se ao notar a crescente irritação dela, e então concluiu: — Mas isso não nos diz respeito. Vamos tentar encon­trar um lugar para passar a noite.

Continuaram caminhando em silêncio, a jovem mais irritada do que aparentava, mergulhada em seus próprios pensamentos.

"Liberdade! Felicidade! Que bobagens ele esteve falando... e que pena um rapaz tão atraente e simpático ser tão tolo. Mesmo sendo ver­dade que muita coisa mudou desde que o antigo rei foi derrotado, e nem tudo para melhor. Agora mesmo papai mandou fazer uma estátua de si mesmo em escala natural e emprega uma porção de sacerdotes para venerá-la. Mas qual é o mal? Muitos de meus amigos estão fazendo o mesmo — algo que era proibido durante o reinado de Rahazz, exata­mente como eram proibidos os sacrifícios humanos e de animais. Eu, entretanto, nunca mandei fazer uma estátua de mim mesma porque al­gum senso do ridículo sempre impediu que o fizesse. Afinal, é bastante idiota adorar-se a si mesmo, não é?"

"Ela não me aprova", pensou Vanzaj, "e é muito desejável, com esses olhos enormes e pestanudos, esses lábios vermelhos e cheios e essas pernas longas e esguias. Seria muito excitante beijá-la."

Caminhavam por um bom tempo, quando Vanzaj se deteve:

É inútil, a floresta ainda continua densa... nenhum sinal de qualquer ser vivo. Peço desculpas mais uma vez, mas não tenho idéia de como podemos sair daqui, a não ser por pura sorte. E você?

Ela olhou ao redor.

Também não tenho a menor idéia. E está escurecendo... A melhor coisa será regressarmos até a nave e nos acomodarmos ali.

Entretanto, não encontraram a nave. E continuaram perambulando, sem direção, ora tentando um caminho, ora outro, exaustos e famintos. Vanzaj mancava e tinha de morder os lábios por causa da dor sempre crescente no tornozelo.

Então uma tempestade irrompeu e foram fustigados por um vento frio e ululante, a chuva chicoteando-os no rosto, os relâmpagos clarean­do o cenário. Pesados galhos eram quebrados das árvores altas, desa­bando e impedindo-lhes o progresso várias vezes, de modo que tinham de voltar atrás e tentar outro caminho.

Viram a floresta se tornar menos densa quando a tormenta estava no auge da fúria. Vanzaj apontou para algo cintilando entre as árvores, parecendo ser uma construção.

Era um templo. Por algum tempo ficaram parados à margem da floresta, a chuva encharcando-os, olhando para o alto edifício de cor laranja plantado no meio da clareira. Então Vanzaj segurou a mão da moça e juntos correram na direção do mesmo.

Quando se achavam no pórtico, fora do alcance da tempestade e da chuva, Vanzaj observou:

Sei onde estamos. Este templo era muito usado durante o rei­nado de Rahazz, mas desde então foi abandonado. Na verdade estamos com sorte.

Entraram. Da escuridão total que os rodeava ouviu-se um uivo prolongado. Lyanta agarrou a mão dele de novo, ele riu.

Não é nada. Apenas o vento lá fora.

Ela sentiu o seu braço rodeando-a e sorriu para si mesma.

Temos sorte de que este templo não tenha sido usado para outro tipo de adorações — disse, aconchegando-se mais, estimulada pelo contato. Esse era realmente um rapaz muito simpático. E, bocejando: — Estou tão cansada... vou dormir aí no chão.

Ele a sentiu encostar-se pesadamente de encontro a si e pouco depois adormeceu também, o queixo mergulhado na massa de cabelo castanho, ambos os braços a rodeando.

Num pequeno aposento do palácio, mobiliado com luxo, Tchamar inclinou-se ainda mais para o pequeno espelho metálico sobre a mesa de mármore. Riu, satisfeito.

Parece que eles não têm idéia de onde estão na verdade — disse —, não sabem que lemos usado aquele templo com regularidade após a queda de Rahazz.

O Rei olhou por sobre seu ombro para o espelho.

Melhor destruí-lo agora que está adormecido e mais vulnerá­vel — aconselhou.

Mas Tchamar sacudiu a cabeça.

Primeiro tenho de prevenir minha filha para que deixe o tem­plo antes que seja tarde demais e, além disso, assim não dá tanta satisfa­ção. Gostaria de vê-lo acordado, lutando e implorando pela vida.

E se sua filha não quiser deixá-lo?

Não tenho receios quanto a isso... eu a conheço... com certeza o abandonará para salvar-se.

Em seu sono Lyanta encontrou-se face a face com o pai.

-— Deixe o templo imediatamente — disse-lhe ele —, saia agora! Tenho de matar seu companheiro e com esse propósito irei invocar as influências já presentes aí. Vá embora.

Ela começou a protestar, queria detê-lo, mas ele se desvaneceu, deixando-a sozinha. Abriu os olhos. Em meio à escuridão, começou a sacudir Vanzaj com vigor, chamando-o repetidas vezes.

Ainda semi-adormecido, ele a ouviu dizer:

Depressa, Vanzaj. Não há tempo a perder... temos de sair daqui antes que seja tarde demais. Depressa.

Sair daqui? — ele se levantou de um salto para o lado dela, completamente desperto agora. — O que quer dizer? Aqui estamos a sal­vo, talvez este seja o único lugar onde possamos estar a salvo... — tentou ver o rosto dela no escuro: — Qual é o problema? O que aconteceu?

Ela apertou ainda mais o seu braço, tentando arrastá-lo à força:

Escute. Encontrei meu pai em sonho. Ele me avisou para sair daqui... Queria destruir você porque sabe demais.

Ele a puxou com ambas as mãos de encontro a si, procurando mais uma vez ver seu rosto:

Seu pai? Não compreendo... quem...?

Tchamar, o Sacerdote. Deve ter ouvido falar nele. Venha, ve­nha depressa.

Ele permaneceu imóvel, deixando os braços caírem ao longo do corpo.

Meu Deus... Tchamar. E você é sua filha. Agora compreendo por que os soldados recuaram de forma tão inesperada... deviam saber — com um risinho amargo, deu um passo atrás, para fora do alcance dela. Suponho que seu pai tenha lhe ordenado para tirar-me daqui... de modo que eu caia como um patinho na armadilha que na certa armou para mim lá fora.

Ela não respondeu. Pareceu-lhe que estava ouvindo alguma coi­sa. Então sua voz se elevou, carregada de urgência:

Isso não é verdade. Eu nunca faria tal coisa, mesmo sendo sua filha. Por favor, acredite em mim. Então não está sentindo nada? Não sente que não estamos mais sozinhos?

Ele notou a mudança que ocorrera na escuridão ao redor de am­bos. O templo, vazio quando haviam entrado, estava cheio de presença agora. Uma presença sinistra, invisível, fechava-se silenciosa sobre eles, vinda de todos os lados.

Sem dizer nada, ele agarrou a mão dela outra vez, começando a correr para a entrada. Se não tivesse sido tão confiante, confiante de­mais, não teriam ficado por tanto tempo no templo. Muito melhor teria sido ficarem lá fora, na chuva e na tempestade.

Chocaram-se contra algo duro, mantendo-se em pé com dificul­dade.

E uma parede, sussurrou ela. — Perdemos o caminho. Este deve ser o Salão dos Ritos. Oh, Deus, isto é mesmo terrível.

Gelados de medo, voltaram para trás, apenas para serem atirados ao chão com grande força, após terem dado apenas alguns passos.

Mas isso não é possível — ele estava atônito. — Não havia parede aqui quando passamos.

Não é uma parede — replicou ela em voz apagada. — É um círculo mágico que ele traçou ao redor de nós para evitar que escape­mos. É inútil tentar passar. Acho que fomos apanhados.

Ele foi sarcástico:

Maravilhoso o pai que você tem. Um perfeito cavalheiro, de fato — então se calou, forçando os olhos para ver o que estava aconte­cendo.

E gradualmente o negrume deu lugar a um brilho opaco, avermelhado, no qual podiam discernir formas se movendo. Eram seres com horríveis malformações. Criaturas com apenas uma boca verme­lha, escancarada, sem dentes, sem olhos, orelhas ou nariz avançavam para eles. Grandes vermes castanho-avermelhados deslizavam lentos em sua direção, deixando uma trilha viscosa. Massas cinzentas disfor­mes moviam-se mirando-os com olhos vazios e maldosos.

Como seriam capazes de escapar a esses horrores, invocados pe­los ritos aqui celebrados desde a queda de Rahazz? Era óbvio que fora necessário apenas um pequeno esforço da parte de Tchamar para dar nova vida a essas criações malévolas.

Lyanta gemeu baixinho, as unhas se cravando com força na carne do braço dele. Como de longe, ouviu-a dizendo:

— Se apenas conseguíssemos sair. Eles não suportam a luz, e o alvorecer deve estar despontando agora.

Uma leve esperança invadiu o coração de Vanzaj. Era verdade, essas presenças não suportavam a luz do sol. E este templo não fora originalmente construído para adorar o Sol, Senhor supremo de toda a criação? Então em algum lugar os construtores deviam ter incorporado um mecanismo para abrir o teto e deixar o sol entrar.

Virou-se e correu até a parede contra a qual se haviam chocado pela primeira vez. Atrás deles, ouviu os monstros começarem a persegui-los com sons abafados e borbulhantes. Alcançou a parede e seus dedos começaram a procurar sobre a superfície lisa e polida.

Ele sentiu algo frio e indizível deslizando por sua perna acima. Olhando para baixo, deu com dois olhos fixos e maldosos. Chutou com repulsa, sacudindo a perna, atirando a coisa para longe num arco amplo. Por um momento as imundas criaturas pareceram hesitar, depois reco­meçaram a aproximar-se deles.

Por toda parte a parede tinha a mesma suave uniformidade. Nada que desse esperança a seus dedos em frenética procura. Talvez o meca­nismo se encontrasse em alguma parte de outro salão... Talvez este não fosse o grande Salão dos Ritos, como haviam pensado.

Um odor sufocante de morte e sangue invadiu-lhes as narinas. Lyanta gritou numa voz aguda, inumana. Duas das criaturas haviam-na alcançado e estavam subindo por suas pernas. Queria ajudá-la, mas sen­tiu algo deslizando por sua própria coxa, e uma boca viscosa e repelente começando a sugar. Naquele mesmo instante uma das informes massas cinzentas deu um salto e pousou em sua cabeça, envolvendo-lhe o pescoço.

Lutou, enchendo-se de extrema repugnância, puxando com uma das mãos a massa molhada ao redor de seu pescoço, que começara a sufocá-lo. Sentiu os joelhos dobrarem.

E então os dedos de sua mão esquerda, ainda deslizando desesperadamente pela parede, tocaram em algo.

Houve um som de pedra deslizando sobre pedra e, resplandecen­tes e ofuscantes, os raios do sol nascente precipitaram-se para dentro do salão, acabando de imediato com toda a obscuridade.

As criaturas malévolas caíram onde estavam, enrugando e desmanchando-se até o nada completo.

Por longos momentos permaneceram imóveis, as mãos cobrindo os olhos para protegê-los da luz. Vanzaj, destapando os seus primeiro, viu que estavam sozinhos no gigantesco salão. Com um grito de alegria, abraçou a moça, que estava reclinada de encontro à parede, num torpor incrédulo.

Salvos. Estamos salvos agora Lyanta, exclamou ele, radiante.

Ela assentiu e então estremeceu.

Aquelas criaturas. Ugh... Vamos sair daqui depressa. Não me sentirei segura enquanto não estivermos lá fora.

Não terminara sequer de falar quando ouviram um estrondo amea­çador. Estarrecidos, olharam um para o outro e depois ao redor. Lyanta gritou:

Olhe, olhe ali. O templo está caindo sobre nós.

Nas paredes da gigantesca construção, firmes e uniformes apenas um instante atrás, viram agora numerosas fendas e rachaduras, algumas grandes e escancaradas.

Quando começaram a correr, o chão se ergueu em ondas, fazen­do-os perderem o equilíbrio. Caíram um sobre o outro. Um ruído trovejante estava agora em toda parte. Pequenas pedras, entulho e detri­tos começaram a chover sobre eles. Agarrados um ao outro olhavam, paralisados de medo, para as paredes que agora oscilavam loucamente. Lyanta cerrou os olhos, mas Vanzaj continuou olhando, fascinado. O suor frio o cobria e a língua lhe secara contra o palato.

As tremendas massas de pedra desabariam em seguida e os esma­gariam sem piedade. Tchamar vencera, afinal.

Então uma voz clara e penetrante pronunciou algo num tom de comando. O que a voz havia dito, Vanzaj não compreendera, mas dei­xou de sentir medo. Ficou estranhamente calmo.

As fendas escancaradas desapareceram de imediato. O chão ficou imóvel e o grande e pesado edifício voltou a ser o que fora por longo tempo: imóvel, sólido, indestrutível.

Lentamente os dois se ergueram e caminharam através dos am­plos salões até se encontrarem fora, onde a luz era suave e dourada.

 

Lyanta avistou-o primeiro. Parado à margem da clareira, era óbvio que já se encontrava ali por algum tempo, examinando-os com curiosidade. Estava ensopado. A água escorria da túnica amarela curta e cintilava na pelagem dourado-e-negro do cão que se achava a seu lado.

Meu nome é Ruan — disse ele após cruzar a clareira. E acres­centou inesperadamente: — Nos dias de hoje é preciso ter muita cora­gem para fazer frente aos poderes das Trevas. Admiro-os. Apenas não consigo compreender, na verdade, por que a filha de Tchamar...

O quê? — interrompeu-o Vanzaj, excitado. — Como sabia o que estava acontecendo no interior do templo?

Ruan sorriu:

Mas isso foi fácil. Templos firmes, bem construídos, não começam a desmoronar sem mais nem menos, sem qualquer causa visí­vel. Assim, era claro que alguém em seu interior devia ser destruído. Decidi interferir.

A garota olhou-o surpresa.

— Você interferiu? Mas como isso é possível? Exceto pelo Rei, ninguém em Aztlan é mais poderoso que meu pai.

De minha parte agradeço a todos os céus que afinal alguém tenha-se mostrado mais poderoso que seu querido pai — disse Vanzaj secamente. E, para Ruan: — Como poderei lhe agradecer?

O outro encolheu os ombros:

Não foi nada. Apenas uma questão de um pouco mais de conhecimento. E um excesso de autoconfiança por parte de Tchamar. Aliás, ele desperdiçou muita energia onde apenas um pouco dela teria sido mais eficiente. Mas temos de nos apressar, tenho absoluta certeza de que irão enviar soldados atrás de nós. Não posso acompanhá-los, não ainda, mas vou mostrar-lhes o caminho para o esconderijo nas monta­nhas. O esconderijo de Rahazz. Ali vocês estarão bem seguros.

Para o norte? Para o esconderijo de Rahazz? Lyanta mostrou- se realmente irritada. Território rebelde? Não, ali eu não irei... Vou vol­tar à capital.

Território rebelde, sim, e por que não? — Ruan parecia diver­tido com o protesto dela. — Você estará muito mais segura ali... longe do amor de seu pai.

Ela deixou pender a cabeça, ainda mais irritada. Por certo ele tinha razão. Não tinha escolha..., mas o que os rebeldes lhe fariam, sa­bendo quem era?

Lendo seus pensamentos, Ruan disse:

Não se preocupe. Verá que conosco as coisas são totalmente diferentes.

Ao examinar a figura prostrada sobre o divã, os olhos de Yahali estavam, como sempre, vazios de expressão.

O que havia acontecido? O que ou quem causara a derrota de Tchamar? Apenas ele, o próprio Yahali, tinha mais poder que esse ho­mem.

Endireitando o corpo, deixou o olhar viajar por todos os objetos no aposento. Tchamar havia sido completamente vencido. Isso estava muito claro. Mas por quem? É claro que havia um, e apenas um..., mas não era provável que Rahazz se tivesse ocupado desse caso.

Disse então ao criado à entrada:

Quero ser prevenido logo que seu amo acordar. Ninguém mais deve ser admitido... isso poderia custar-lhe a vida.

Já era noite quando por fim chegou-lhe a mensagem de que Tchamar recuperara a consciência. Quando o Rei entrou no aposento, o Sacerdote começou a falar imediatamente, a voz rouca de fúria:

Temos de encontrar aquele homem. O homem que ousou deter-me. O templo já estava desmoronando... Então ele comandou... co­mandou que eu parasse. Lutei contra ele, fiz tudo que podia, mas era muito forte... Tive de recuar..., além disso, o amanhecer havia rompido, eu estava em desvantagem. Quem é esse homem? Temos de encontrá-lo... — deteve-se, tremendo como se com febre, o rosto lívido de raiva.

Yahali observava-o, com frieza.

Se você quer seguir o caminho perigoso até o fim, Tchamar, terá de aprender a controlar suas emoções... permanecer frio e vazio de sentimentos.

Voltando as costas, saiu do aposento, deixando o outro só com seu orgulho ferido. Em seus próprios aposentos, caminhou direto a uma mesa esculpida com requinte, sobre a qual havia um prato fundo de prata, cheio de água límpida. Concentrou-se.

Nada aconteceu de início — então viu como o líquido começou a cobrir-se com uma chama branca, clara, que foi se tornando progressi­vamente mais brilhante até que a água passou a brilhar com tal intensi­dade que não mais conseguiu ficar olhando.

Sorrindo, levantou-se. Havia esperado por algo semelhante a isso — no entanto não tentou romper a barreira protetora. Havia outro plano em sua mente.

Escolha vinte de seus melhores homens e duas das naves mais rápidas -— disse pouco depois ao capitão de sua Guarda, Zoar. — Co­nhece o templo de Nerzam? Em suas vizinhanças você irá encontrar três pessoas, uma jovem e dois homens. Ela é a filha de Tchamar. Prenda-os e traga-os até aqui. Vivos.

Zoar fez uma saudação e partiu. Algum tempo depois duas naves reais podiam ser vistas voando silenciosas por sobre a cidade, dirigindo-se para o norte.

"Os prisioneiros, Majestade."

Yahali foi arrancado de um sonho de poder e glória. Vira a si mesmo erguendo-se até os mais altos picos de um mundo em adoração, governando sozinho, invencível.

Zoar estava parado junto à porta, a cabeça envolta em ataduras, o braço direito pendendo inútil junto ao corpo.

Aproximou-se mancando, mantendo-se ereto com dificuldade. Atrás dele, entre três de seus homens, vinham Vanzaj e Lyanta.

Yahali mal os olhou.

E o outro?

Com a mão esquerda, Zoar limpou do rosto o filete de sangue que vinha se filtrando por entre as ataduras.

Escapou. Encontramos os três no sopé das montanhas. Leva­mos um bom tempo para dominá-los... os dois homens são lutadores habilidosos. Nunca vi ninguém manejar uma espada como o que esca­pou — mesmo com a dor e o cansaço evidentes, os olhos do capitão brilhavam de entusiasmo.

Yahali não ficou impressionado.

E, no entanto, fugiu... não ficou para salvar seus amigos. Diga- me, ele usou algum outro meio que não o físico, durante a luta, para defender-se?

Não usou. E o cão que estava com ele era um animal de verda­de... não era uma imitação — Zoar cambaleou um pouco, seu rosto se tornara cinzento. Agarrou-se à borda da mesa para apoiar-se.

O Rei dispensou-o com um gesto da cabeça.

Você pode ir. Cuide bem dos prisioneiros.... Responsabilizo-o pessoalmente por eles.

Ficando a sós, permaneceu parado por algum tempo, pensando no que acabara de ouvir. Então encolheu os ombros. Na certa se engana­ra. Aquele homem desconhecido devia ter conseguido derrotar Tchamar apenas por causa da falta de cuidado e do orgulho desmedido deste últi­mo, e não por causa de sua própria superioridade.

Seus pensamentos começaram a vaguear. Dentro de um mês ha­veria uma celebração no templo, uma cerimônia gloriosa. E com essa finalidade havia encomendado a confecção de uma estátua do Senhor das Trevas.

Ainda não conhecera o escultor, que insistira em extremo segre­do e reclusão até que terminasse o trabalho. Havia vindo das colônias distantes. Mas Yahali dera minuciosos detalhes quanto a como o deus deveria ser representado: uma figura brutal, meio humana, meio animal, cruel e apaixonada. O tipo de Senhor que seu povo conhecia bem e podia compreender.

Zoar mexia-se inquieto na cama. Ao anoitecer fora acometido por febre alta, com calafrios que faziam seus dentes bater, embora a noite estivesse quente. Os ferimentos doíam terrivelmente.

Afinal, enfiando a cabeça dolorida nos braços, conseguira ador­mecer, exausto.

Sonhou que alguém havia entrado em seu quarto e se achava pa­rado junto à cama. O instinto lhe disse que esse alguém era um inimigo e fez um débil esforço para alcançar as armas.

Seja justo — murmurou, estremecendo e tentando ver o rosto do outro. — Se deseja lutar, vamos esperar até que eu esteja melhor. Que orgulho pode sentir um guerreiro derrotando um inimigo prostrado?

Ouviu um riso suave, e o visitante dizendo:

Fique bem quieto, capitão. Não há necessidade de lutar agora.

Dedos fortes começaram então a afrouxar as ataduras e limpar

seus ferimentos. Um bálsamo refrescante foi aplicado, ataduras novas colocadas e então sentiu os mesmos dedos longos, magnéticos, tocarem sua cabeça, acariciando-a com suavidade.

Relaxou por completo.

Foi um sonho estranho. Mas quando acordou, dois dias depois, após um sono profundo e reconfortante, e viu as ataduras limpas, e sen­tiu o peculiar odor aromático do bálsamo, decidiu não contar a ninguém a respeito desse "sonho".

"Não compreendo por que ele nos deixou", repetia Lyanta, talvez pela vigésima vez, com tristeza, a cabeça entre as mãos. Vanzaj podia ver a linha suave e jovem de seu pescoço e queixo à meia-luz da prisão. "Por que fez isso? Se tivesse ficado, talvez tivéssemos vencido."

Vanzaj balançou a cabeça.

Afinal, nada significávamos para ele. Por que deveria se preo­cupar?

Por quê? Se tivesse ficado... talvez... não estivéssemos aqui

agora.

Vanzaj voltou a balançar a cabeça, não querendo mostrar seu pró­prio desapontamento por ver Ruan desaparecer para dentro da mata, o cão em seus calcanhares.

Por que deveria arriscar a vida por nós?

Então por que nos ajudou a sair do templo? Não tinha nenhu­ma razão para fazer isso.

Vanzaj suspirou. Após um longo silêncio, disse:

Não sei. Mas gostaria de saber que destino nos aguarda. Quer dizer: conheço o meu, irão matar-me, não há dúvida quanto a isso. Mas, e você? O que irá acontecer com você?

Lyanta manteve-se em silêncio. Sabia que, como filha de Tchamar, estava em certa segurança, assim como sabia qual seria o destino de seu companheiro. Na noite seguinte haveria importantes celebrações no imenso templo. Pela primeira vez o povo iria ver, revelada em todo seu esplendor, a imagem do Senhor das Trevas. Muito sangue humano seria derramado, lavando a estátua e o chão do templo. E entreouvira os guardas comentando que Vanzaj poderia ser uma das vítimas.

Escondeu o rosto entre as mãos, procurando pensar. O que sentia por Vanzaj não era mera atração física. Linda e rica, filha de um dos homens mais poderosos do país, estava acostumada à admiração de muitos homens. Mas nenhum deles jamais conseguira reter sua atenção por muito tempo. Divertira-se com vários, e a morte de qualquer deles nos altares de Aztlan não a tocaria por mais que um instante.

Agora era diferente, embora não soubesse por quê. Mas os ritos sangrentos que até aquele momento vira apenas como costumes religio­sos, os quais não lhe interessavam em nada, agora, de repente, pareci­am-lhe cruéis e terríveis, porque aquele homem estaria entre as vítimas.

Mentalmente viu Yahali erguendo a longa adaga, as pedrarias cintilando sob as luzes, viu o rosto repugnante da deidade (sempre conside­rara repugnantes as imagens do deus), que logo estaria molhado, salpi­cado de sangue de seu companheiro.

Seria inútil apelar para Yahali ou pedir a seu pai que interferisse. Tchamar nunca fora mais que um boneco, um fantoche nas mãos do Rei. Nenhuma ajuda poderia vir dele.

Tenho uma mensagem para o escultor. O Rei deseja saber se a estátua está pronta, disse Zoar a Tchamar.

Seus aposentos ficam ali — Tchamar apontou para o final do longo e amplo corredor. — Mas tome cuidado, seu cão é perigoso e não permite que ninguém se aproxime do dono.

Irritante, aquela mania dos ricos de se protegerem com aquelas máquinas que pareciam animais, mas que não sangravam, pensou Zoar.

Graças ao tratamento que havia recebido das mãos de seu inimi­go, ele estava inteiramente curado. No refeitório dos oficiais isso fora considerado um milagre — seus ferimentos haviam sido sérios, sua cura considerada uma questão de muitos meses.

Com boa disposição, o capitão caminhou pelo corredor até che­gar a uma pesada porta, meio aberta.

No momento seguinte estava prostrado no solo, pesadas patas sobre o peito, dentes brancos agarrando-lhe o ombro. Ouviu alguém dar um comando incisivo e o animal soltou-o.

Levantou-se rápido, com palavras irritadas nos lábios para dirigir ao proprietário do cão. Ao invés disso, sua mão voou para o cinturão. O jovem sorridente que o encarava não se moveu. Ao seu lado, o cão con­tinuava rosnando, mostrando os dentes.

Então é você... — exclamou Zoar. — Que arrogância o traz para cá, para a Cidade dos Rios, a você que é inimigo do governo legal de Aztlan?

Com efeito, sou um inimigo de seu governo. Legal hoje, ilegal ontem e talvez, quem sabe, ilegal novamente amanhã? — Ruan enco­lheu os ombros. — Se é uma luta que deseja, tolice completa de sua parte... o cão o mataria mesmo se eu não o fizesse.

Zoar encarou-o, intrigado. Onde havia ouvido aquela mesma voz? Por que aquele tom era tão familiar? Quando...?

Então se lembrou e, perplexo, a mão ainda pousada no punho da espada, perguntou:

Então, aquele era você, também? Mas por que... por que se deu ao trabalho de vir ao meu quarto, expondo-se, para curar meus ferimentos... os ferimentos de um inimigo?

Por que, afinal, fui eu quem lhe infligiu aqueles ferimentos e me senti arrependido, de algum modo, ao ver o estado em que se encon­trava. Por que não deixa suas armas descansarem, ao menos por en­quanto, capitão?

O aposento era grande e amplo, uma cama posta num canto. Uma mesa baixa, com uma pesada jarra de prata e uma caneca. Em outro canto, notou Zoar, localizada de modo a receber luz favorável, uma es­tátua, alta, imponente, mas coberta com um pano. No chão havia gran­des blocos de ouro.[2]

Zoar encarou o inimigo.

Se deseja matar-me, por que não agora?

Ruan riu.

Não há nada mais distante de minha mente. Além disso, você luta bem e tal idéia poderia custar-me a vida — ele hesitou. —Ao con­trário, gostaria que me ajudasse.

Ajudasse?

Sim. Diga-me, o que significa para você ser capitão da Guarda Real?

Exatamente isso, estrangeiro. Yahali é meu Rei. Está à frente do governo legal. Sou o capitão de sua guarda. Não sei o que tem em mente..., mas não sou um traidor.

Ruan suspirou.

Gostaria que não falasse tanto sobre legalidade. Mas... o fato é que desejo libertar meus amigos, o casal que você prendeu outro dia. E para isso preciso de sua ajuda...

Antes que o indignado Zoar pudesse protestar, ele ergueu a mão:

Não. Não diga nada. Sei que esta é uma proposta ilegal... Sei que não é um traidor, mas não lhe peço que traia seu Rei. Não irei tocar em um fio sequer de seu cabelo. Apenas peço-lhe que me ajude a liber­tar duas de suas muitas vítimas que nem são de tanta importância assim.

Zoar não respondeu. Na verdade, os prisioneiros não eram muito importantes, embora Yahali o tivesse responsabilizado pessoalmente por eles. Por outro lado, tinha razões para se sentir agradecido a esse escul­tor.

Agradecido. Naturalmente. Agora percebia por que o outro fizera o que fizera. Ergueu os olhos, com uma expressão rancorosa:

Então foi isso. Você é idêntico a todo o resto. Agora sei por que veio a meu quarto cuidar de meus ferimentos. A compaixão não tinha nada a ver com aquilo, não é mesmo? Por todo o tempo seu plano foi exigir minha ajuda em troca de seus serviços, não é assim?

Mesmo antes que Zoar acabasse de falar, Ruan ficou muito páli­do. Caminhou para a porta, escancarando-a por inteiro.

Vá embora logo, capitão — sua voz estava baixa e furiosa. — Conte ao seu patrão tudo a respeito de quem encontrou aqui... sobre o que lhe pedi. Conte-lhe tudo. Não irei impedi-lo. Mas vá. Vá agora!

Os olhos cinza-escuros estavam em brasa, os nós dos dedos da mão, que agarrava o cinturão, brancos.

Quando Zoar alcançou o final do corredor deserto, deteve-se e olhou para trás. Não havia ninguém à vista. Virou-se e retornou. Pela segunda vez naquele dia junto àquela pesada porta, bateu. Bateu com força, impaciente.

A tarde estava muito avançada quando deixou pela segunda vez o alojamento do escultor. Dissera, encarando Ruan face a face à entrada, os rostos de ambos tensos e muito controlados:

Voltei para desculpar-me, estrangeiro... embora as desculpas nunca sejam fáceis para mim.

Diante daquilo Ruan rira.

Meu Deus! Parece que ambos somos possuídos por um orgu­lho muito grande, capitão Zoar. Nunca saberá quão perigosamente perto esteve da morte há poucos momentos. Mas fico feliz por ter voltado... é um homem muito corajoso, também.

No dia seguinte, Zoar enviou um mensageiro com más notícias. Os prisioneiros haviam sido removidos e levados ao templo, onde todos os guardas eram sacerdotes. Nem mesmo o capitão da Guarda Real ti­nha liberdade de entrar ali sem permissão pessoal de Yahali. Ruan esta­va parado junto à janela quando a notícia chegou.

Ali se estendia ela, cidade altaneira, reservada, adorável. Cidade das Águas, dos Portões de Ouro, o coração do poderoso Aztlan. Suas muitas construções coloridas erguiam-se orgulhosas, seus incontáveis rios e canais eram largos, verdes e frescos. E no meio dela, numa alta elevação, encontrava-se o palácio de Yahali, as torres tocando um céu banhado pelo crepúsculo.

Eras antes, durante o longo reinado da dinastia Tolteca, houvera felicidade, liberdade e riso por trás dos sete portões de ouro... e por todo o Aztlan. Mas aquilo fora muito tempo antes.

Agora o mal reinava supremo em Aztlan. A escuridão havia afas­tado a luz.

Luz e sombra, bem e mal, virtude e vício — por que esses pares eram sempre inseparáveis? Por que um lado nunca podia existir sem o outro pairando ao fundo?

E no meio, o homem, hesitando, eternamente inseguro, ora atraí­do para um lado, ora para outro, sempre lutando, sempre procurando pela resposta última, absoluta. Sempre tentando encontrar o caminho da certeza absoluta.

Residiria a resposta, então, em escolher? Ou haveria algum outro caminho, uma estrada desconhecida, levando à luz que sempre é, a luz que não projeta sombras?

 

Ele estava a um lado do altar, fortemente amarrado, bem diante da imagem do Senhor, ainda coberta de pano. Era tudo um horrível pe­sadelo para o qual Lyanta sabia não haver despertar.

Via-o lutando com as cordas, desesperadamente. Yahali estava parado ali perto, rodeado por seus sacerdotes, vestindo uma túnica púrpura. Sua voz profunda e melodiosa se elevara numa entonação monótona, assustadora, e, lenta, uma nuvem começara a se formar acima do templo, uma névoa escura, impenetrável, pairando acima da multidão.

Ela sabia o que aconteceria em seguida: a orgia que se seguia à morte, depois que Yahali cravasse a faca no corpo de Vanzaj, arrancando-lhe o coração e oferecendo-o ao seu Senhor Supremo.

Certas partes do corpo seriam usadas para preparar uma beberagem que os sacerdotes iriam distribuir com liberalidade entre a população. E quando o rito alcançasse o clímax, as pessoas cairiam inconscientes e de seus corpos profundamente drogados se ergueriam criaturas ferozes, cheias de luxúria e sede de sangue, que sairiam à noite para rondar as mais escuras.

Não iria demorar muito agora. Yahali voltara-se e estava parado de frente para o prisioneiro. Seus olhos escuros cravaram-se nos de Vanzaj até o jovem sentir que, aos poucos, todo o poder de sua vontade, toda a sua força para resistir começaram a escoar-se como sangue de uma ferida mortal.

Os olhos de Yahali eram grandes lagos, escuros e profundos, cujas águas o atraíam para baixo, até o fundo.

Vanzaj parou de tentar libertar-se. Sua impotência era total agora. O Rei fez um sinal, um sacerdote se aproximou e cortou-lhe as amarras.

Em desespero, Lyanta viu que ele não movia um músculo; estava ali parado, forte, bonito e rígido como uma estátua.

Yahali apanhou o punhal no altar, aproximando-se de sua vítima. Com os olhos enviou um sinal a Tchamar e aguardou, o braço pronto para golpear. Tchamar, com um movimento rápido, puxou o tecido dou­rado que cobria a face do Senhor.

Por um longo momento fez-se o mais profundo silêncio no templo então um murmúrio de grande temor percorreu a multidão. E Yahali, erguendo o olhar para o rosto desvendado, ficou rígido, a mão apertando-se convulsivamente ao redor do cabo cravejado do punhal sacrifical.

Como aquele homem ousara fazer isso?!

Uma face poderosa, cheia de majestade olhava para ele: um rosto tomado de orgulho sombrio e triste, e desespero ilimitado. Ali não havia a crueldade selvagem, a luxúria, nem a paixão diabólica. Ali estava o próprio Senhor da Destruição, o Grande Adversário. Aquele que está postado do lado esquerdo do caminho que leva à fonte de todas as coi­sas.

A multidão, cheia de espanto e temor, recuou silenciosa diante daquela face arrogante e desdenhosa. A voz de Tchamar quebrou o si­lêncio:

Mas isso é uma vergonha! O escultor ignorou por completo suas instruções, Majestade!

Foi o que fez. Faça com que o prendam e o tragam cá em seguida — ordenou Yahali. — Quem é esse que ousa agir desse modo? Você não lhe deu instruções detalhadas, por escrito?

Assim fiz, Majestade — respondeu Tchamar. — Irei buscá-lo já.

Yahali olhou outra vez para a estátua. Sim, como ousara?..., mas também, como soubera? Por um momento, esqueceu sua raiva. Por que essa extrema tristeza, essa completa desolação? Voltou-se para Tchamar:

Prenda-o. Se não conseguir explicar-se, ele servirá esta noite como sacrifício a esse deus estranho que criou.

E quanto a esse daí? — o sacerdote apontava Vanzaj.

Yahali sacudiu a cabeça com impaciência:

Ele não é de nenhuma importância. Leve-o embora. Que mi­nha guarda o execute ao amanhecer. E leve a moça também. Para ela tenho outros planos.

Aproximava-se da meia-noite quando Tchamar voltou. Muitas vítimas haviam sido mortas — os ritos haviam continuado —, embora Yahali ordenasse que não fossem oferecidas à estátua do Senhor. Estava esperando pelo escultor.

Houve uma comoção entre o povo. Homens e mulheres abriram caminho para uma dúzia de soldados. No meio deles caminhava Zoar, capitão da Guarda Real, amarrado. Suas roupas estavam rasgadas e desgrenhadas. Tchamar vinha um pouco mais atrás. Mas o escultor não se avistava em parte alguma.

A pergunta nos olhos do Rei, Tchamar respondeu:

Ele escapou, com ajuda deste traidor miserável, que deixou os outros partirem livres também. Não suspeitávamos de nada. Eu lhe entre­guei os prisioneiros e fui pessoalmente prender o escultor. Mas não o encontramos: seu aposento estava vazio. Ninguém o havia visto. Quando afinal decidi voltar, um soldado chegou correndo, contando-nos que Zoar deixara minha filha e seu amante partirem. Eles roubaram uma nave e se foram. Apenas o capitão ficou para trás. Mandei que fosse preso.

O escultor possui um cão?

O sacerdote assentiu:

Sim. Um animal enorme, meio lobo.

Yahali compreendeu logo. Agora estava seguro... seguro do que havia começado a suspeitar quando vira Zoar entrar no templo como prisioneiro.

Quando o enviei ao escultor com minha mensagem, a quem encontrou ali, capitão?

Zoar olhou para ele, sem demonstrar medo, nem um pouco incli­nado a mentir.

Tem razão, Majestade: o escultor e o homem que desejava que eu prendesse são uma única e mesma pessoa. Não sou um traidor; nunca pensei em quebrar meu juramento ao Rei de Aztlan. Mas havia um débi­to de gratidão a ser saldado.

Yahali franziu as sobrancelhas:

Gratidão?

Sim. Ele veio ao meu quarto à noite e cuidou de meus ferimentos. Eu estava muito debilitado.

O Rei olhou-o de cima abaixo com atenção. Lembrava-se terem-lhe dito que a condição do capitão era crítica e que seriam necessários meses para que se recuperasse. E, no entanto, ali estava, completamente curado. Quem era esse estranho que possuía poderes tão extraordinários?

Pela segunda vez sentiu uma súbita curiosidade tomar o lugar de sua raiva. Esfregou a testa com os dedos longos e magros, tentando lem­brar-se. Lembrar-se? O que era que havia esquecido... o que lhe parecia familiar cada vez que ouvia alguém mencionar-lhe esse misterioso ini­migo? Mas a recordação não veio e o povo estava esperando pela continuação do serviço.

Quando viu os olhos de Yahali se voltando para ele novamente, Zoar soube o que devia esperar. Não havia traço de piedade ou compai­xão naquele rosto duro.

Pagou seu débito a um rebelde, capitão... e agora irá pagar seu débito para com seu Rei. Pagará com a vida. Mas não aqui e nem ago­ra... — e, voltando-se para os soldados: — Levem-no à Morada dos Morcegos; a morte no altar seria suave demais para ele.

E, enquanto Zoar ia sendo levado, o Sumo Sacerdote de Aztlan voltou o rosto para o melancólico deus de ouro e ergueu as mãos para o alto. Mesmo seus sacerdotes se encolheram diante do brilho fanático de seus olhos. E ouviram-no entonar as primeiras palavras de uma invoca­ção sombria que nunca haviam ouvido antes. Yahali sentiu a si mesmo crescendo até elevar-se muito acima da multidão assustada e as dobras de seu manto púrpuro encheram o templo.

Ah! Agora lhes mostraria quem era. Esta era a sua noite... esta noite o mundo iria conhecê-lo... seu povo rejubilar-se-ia e seus inimigos se encolheriam de medo.

E naquela noite todos os poderes das Trevas foram deixados à solta. Coisas selvagens, rastejantes e brutais, maldosas e inomináveis, espalhando o terror e o medo por toda parte, abafaram toda a luz até que apenas a escuridão mais profunda permaneceu.

Enquanto isso o Adversário Eterno assistia, silencioso, alheio em sua majestade avassaladora e extrema. Nas chamas vermelho douradas da luxúria e da crueldade, seus olhos pareciam cheios de um desprezo infinito.

 

Não podemos descansar um pouco por aqui? Acha provável que nos alcancem? perguntou Lyanta.

Ruan viu que ela estava pálida e que os ombros de seu amigo estavam encurvados. Parou.

Eles não nos alcançarão mais agora. Desculpem-me, mas a noite passada, ouvi algo na cidade, algo muito importante. Isso me fez esquecer do que vocês acabam de passar.

No dia anterior eles haviam sido forçados a pousar quando a nave enguiçou perto do sopé das montanhas. Desde então haviam caminhado sem descanso, e agora era já quase meio-dia.

Encontraram um lugar fresco junto a um riozinho estreito, porém profundo, à sombra de árvores antigas. Ruan dividiu as frutas e o pão de milho que trazia, não esquecendo de seu cão. Lyanta deitou-se sobre a grama, a cabeça sobre o braço, tentando dormir.

Os outros continuavam conversando.

O que foi que ouviu na cidade, Ruan? — perguntou Vanzaj.

Há uma conspiração em curso para assassinar Rahazz e seus amigos mais próximos. Espiões conseguiram insinuar-se nas montanhas e amanhã o Rei e seus seguidores mais leais serão mortos. Tenho de preveni-los, mas como? Tinha esperanças de chegar a tempo, com a nave, mas agora...

Vanzaj estava intrigado.

Mas Rahazz é um Escolhido... deve ter recursos poderosos à disposição. Com certeza já está sabendo da trama.

Ruan negou com a cabeça.

Não, isso não é muito provável. Em primeiro lugar, sei que está ocupado com um plano cuja preparação lhe absorve toda a atenção. Pois, apesar de todos os seus esforços, a influência de Yahali está se disseminando e se aproxima o tempo em que Rahazz e seus amigos não estarão mais seguros... nem mesmo nas montanhas.

E mesmo que Rahazz seja um iniciado... Yahali também o é. Muitos como ele ocuparam o trono de Aztlan no passado, mas nunca houve alguém tão poderoso, tão perigoso e tão sábio.

Mas você não pode usar seus poderes e avisá-lo por meio do pensamento? Isso não seria tão difícil para você, não?

Normalmente seria até mesmo bem fácil. Mas Yahali criou um círculo ao redor da cidade e seus arredores, visando prevenir o envio de tais mensagens. De fora para dentro não seria muito difícil penetrar, mas não o contrário. Já tentei e falhei. Além disso, quanto mais tempo permanecia na capital, tanto menos era capaz de atravessar o círculo. A atmosfera vinha minando minhas forças mais do que julgara possível. Não é fácil derrotar um inimigo poderoso como Yahali em seu próprio território.

Lyanta acordou quando o sol já estava baixo. Acenderam uma fogueira para se aquecerem contra o frio do vento da montanha. Então comeram o restante dos alimentos e ficaram sentados olhando silencio­sos para as chamas.

Quando a lua surgiu Ruan levantou-se:

Todos os anos, nesta época, há uma reunião entre os Grandes Seres, aqueles que protegem a Quarta Raça. Tentarei fazer contato com eles esta noite, quando estiverem reunidos no templo. É a última chance.

Ele se deitou então, chamando o cão com um assobio e embrulhando-se no manto.

Tzal parecia inquieto e continuou a perambular por entre as árvo­res, ganindo baixo.

Qual é o problema? — perguntou interessado Vanzaj que o estivera observando. — Parece que está querendo uma companheira.

Possivelmente — os pensamentos de Ruan estavam longe, com os amigos que queria salvar antes do amanhecer.

Por fim Tzal veio com relutância e também se deitou, a grande cabeça pousada sobre a mão do dono. Continuou a ganir, suavemente, no fundo da garganta.

Ninguém acordou no meio da noite quando o grande animal se levantou e desapareceu por entre as árvores adormecidas. Ouvia agora, com nitidez, embora muito ao longe, o suave uivo, melodioso e enfeitiçante, chamado tentador de uma fêmea solitária.

E enquanto corria, distanciando-se cada vez mais em direção ao lugar em que um grupo de homens silenciosos se achava à sua espera, seu dono fazia um último esforço para vencer a barreira protetora de Yahali.

Um último e desesperado esforço, porque amanhã seria tarde de­mais... Amanhã ao meio-dia estariam todos mortos.

Seu corpo achava-se deitado na grama, respirando com suavida­de, mas ele próprio estava em pé junto à borda do círculo, empenhado numa luta sombria com os horríveis guardiões do Sumo Sacerdote, que tentavam fazê-lo voltar atrás.

Finalmente recuaram e então permaneceu o último obstáculo, a própria barreira, uma parede alta, espessa e negra.

Ruan hesitou e se deteve — e no mesmo instante viu a parede tornar-se mais alta, mais maciça, mais ameaçadora.

Avistou os rostos de muitos velhos amigos, rostos bem conheci­dos, nunca esquecidos. Suspirou. Havia passado muito tempo desde que os vira pela última vez. Após a noite em que perdera sua amada havia deixado Aztlan e peregrinara por muitos anos em terras estrangeiras. No curto espaço de tempo desde sua volta vivera principalmente na capital, rodeado por estranhos e inimigos.

Viu o rosto de Zenhar, que fora seu companheiro de infância e que era agora um dos principais auxiliares do Rei. Ali estava também o semblante quieto e sábio do próprio Rei... E havia muitos outros, sorrin­do-lhe calorosos. E todos seriam massacrados se não fosse bem sucedi­do.

Devolveu-lhes o sorriso, o coração cheio de saudade. Então seu olhar percorreu rápido a muralha negra. Sabia que havia apenas um ca­minho: para diante, diretamente através dela... E desta vez não iria fa­lhar. Chegaria a tempo.

A muralha ondulou e ficou transparente. Podia avistar os contor­nos enevoados das montanhas à luz branca do luar.

Pela fração de um instante, Ruan abandonara por completo sua própria personalidade, perdera sua identidade em seu desejo de salvar os amigos. E, ao fazê-lo, se tornara invulnerável. Ele não sentiu medo. Nada, ninguém podia barrar seu caminho. Como se pode lutar contra o que tem menos substância que a mais leve das plumas, o que está sendo impelido pelos ventos fortes do amor?

Havia uma tênue radiância a leste quando Ruan deteve-se à entra­da de um pequeno templo branco, construído em meio a majestosos pinheiros. O templo achava-se nos limites da cidade — a pequena cida­de montanhesa para onde Rahazz havia fugido após sua derrota, anos antes.

Parado junto a uma pesada coluna revestida de ouro, Ruan pôde ouvir algo do que estava sendo dito no interior:

"...seus serviçais e auxiliares do Fogo, Terra, Água e Ar serão marcados e destituídos de poderes, de modo a se tornarem incapazes de prevenir seus senhores..."

Não continuou ouvindo, nem tentou entrar. A essa reunião não linha o direito de estar presente. Formou em sua mente a mensagem para Rahazz.

"O perigo ameaça! Amanhã tentarão assassiná-lo e à maioria de seus auxiliares. Há traidores mesmo entre amigos muito próximos. Cui­dado!"

Sentiu no mesmo instante que a mensagem havia sido com­preendida e recebeu a resposta:

"Obrigado. Mas, diga-me, não estou certo... Poderá ser..."

Antes que pudesse responder ouviu o grito. Era um grito terrível, o berro de um ser humano em total desespero, tão repleto de horror e dor que sua compaixão fê-lo esquecer tudo o mais.

Instantaneamente sentiu-se transportado na direção daquele gri­to... O templo e as árvores desapareceram... Mas então sentiu algo segurando-o, puxando-o de volta para seu corpo.

Abrindo os olhos viu Vanzaj parado ao seu lado, chamando-o pelo nome, o rosto preocupado: Ruan levantou-se de um salto, olhou rápido ao redor e descobriu a razão.

É o cão, não é? Tzal desapareceu.

Sim — disse Vanzaj preocupado. —Achamos melhor acordá-lo. Ele pode ter encontrado alguma fêmea.

Nos ouvidos de Ruan ainda ressoava o grito que escutara antes de acordar. E, por alguma razão incompreensível, associava aquele grito ao desaparecimento do cão.

Receio que seja obra de nossos inimigos. Querem que eu saia à sua procura.

Mas vamos procurá-lo de qualquer maneira — sugeriu Lyanta.

O sol estava bem alto quando desistiram dos assobios e chama­dos infrutíferos. Não havia qualquer sinal de Tzal.

Ruan apontou então para uma trilha íngreme que se perdia em muitas curvas.

Sigam aquele caminho até alcançarem o meu pessoal — disse. — Não há por onde errar e nem mais qualquer perigo. Eu volto daqui.

Vai voltar? disse Vanzaj com indignação. — Nesse caso, iremos também.

Não. Será muito melhor se não forem. Isto é algo que terei de fazer sozinho. Além disso, conheço a região muito melhor que vocês dois — e contou-lhes sobre o grito que havia ouvido durante o sono.

Quando se foi, Vanzaj disse, aborrecido:

Então ele pensa que deixarei que enfrente isso sozinho? Vamos esperar aqui até que tome uma boa dianteira e depois vamos atrás dele — olhou para a moça, que assentiu.

 

Eles foram presos e todos confessaram integralmente. Yahali lhes havia prometido grandes riquezas e favores invejáveis caso se tor­nassem traidores.

O jovem líder estivem ocupado limpando a espada ensangüenta­da quando viu seu Rei se aproximar. Saudou-o e colocou a arma de lado.

Um deles atacou-me pelas costas e consegui feri-lo. Pertence a minha própria tribo, um homem que jamais imaginei capaz de traição.

Amanhã falarei com eles eu mesmo — disse Rahazz, vendo os últimos prisioneiros serem levados. — Foi um bom trabalho, Zenhar.

Zenhar encolheu os ombros quadrados.

Não foi difícil, depois do aviso que recebemos. Tem idéia de quem enviou a mensagem, senhor?

O Rei meneou a cabeça devagar, pensativo.

Não... Não tenho a menor idéia. Quer dizer... por um momento pensei... — interrompeu-se e depois acrescentou: — Mas, não, isso não poderia ser.

Zenhar olhou-o com curiosidade: o rosto digno com suas maçãs altas, o afilado nariz aquilino, os olhos, claros e serenos. Como o Rei não continuasse, perguntou:

Alguém que tenha conhecido?

-— Não estou certo. Estava apenas me perguntando... — pela se­gunda vez Rahazz não terminou a sentença. O jovem comandante espe­rou um pouco, mas como o Rei continuasse em silêncio, levantou-se, saudando mais uma vez.

Preciso ir, agora. Deve ter sido alguém muito poderoso. De outro modo jamais teria conseguido vencer a barreira. Gostaria de conhecê-lo.

"Não creio que ele venha." O sucessor de Zoar estava muito duvi­doso. "Seria pura loucura cair numa armadilha tão óbvia."

Virá. Não há a menor dúvida, quanto a isso — respondeu Tchamar. — É claro que se dará conta de que preparamos esta armadi­lha para ele... mas virá para salvar seu cão. Conheci muitos de sua espé­cie. São todos iguais, prontos a mergulhar de cabeça em todos tipos de perigos para salvar outros.

Até mesmo cães?

Até mesmo cães.

Os dois homens estavam parados próximo à entrada de uma enor­me caverna, numa planície nua e desolada, repleta de rochas, com ar­bustos baixos.

O capitão olhou para a figura humana prostrada perto de sua bo­ca escancarada... e estremeceu.

Afinal, havia servido sob Zoar por muitos anos, e esta era uma maneira horrível de morrer, embora seu antigo chefe com efeito me­recesse a morte.

Por que não deixou que morresse na caverna? — perguntou.

Como ele conseguiu sair de novo?

Creio que encontrou a passagem para fora por acaso — respon­deu Tchamar. — Não há necessidade de forçá-lo a entrar outra vez. Não viverá por muito mais tempo.

Escolhi trinta de meus melhores homens, como me ordenou - disse o capitão. — Embora na verdade me pareça um exagero.

Ao contrário, é efetivamente necessário. Aquele homem sozi­nho, capitão, é mais perigoso que dez de seus melhores homens juntos, incluindo você.

O capitão, incrédulo, suprimiu um risinho preconceituoso. Que covardes eram esses sacerdotes!

Mas por que toda essa confusão de atrair o cachorro para lon­ge dele? Não seria mais fácil atacá-lo e prendê-lo de uma vez?

Não. Eles haviam alcançado o sopé das montanhas. Estavam praticamente a salvo. E você sabe que aquelas montanhas estão enxameando de rebeldes de Zenhar. Além disso... quero minha vingança pela derrota que sofri em suas mãos. Por isso vou fazê-lo sentir o sabor das cavernas antes, e depois, quando já estiver todo quebrado, seu próprio cão irá destruí-lo.

Com um sorriso selvagem, o sacerdote apontou para sua esquer­da, de onde vinha um rosnado feroz.

Quando chegou o cão? — perguntou o capitão.

Nós o trouxemos para cá numa nave, ao amanhecer. Espera­mos por ele na floresta de Dahzen. Lutou como um demônio e quase matou meu criado, de modo que tivemos de espancá-lo até a inconsciência.

E fará o que espera que faça?

Disso estou certo. Eleja está completamente sob minha influên­cia... está enfurecido como um cachorro louco.

E quando espera seu dono?

— Talvez amanhã ã noite. De qualquer modo, deve instruir seus homens para que se escondam amanhã pela manhã. Ele não deve encontrar ninguém por aqui.

Aproximaram-se do grupo de soldados, parados ociosamente ali perto, tentando proteger-se do sol abrasante. Ninguém prestava qual­quer atenção a Zoar, caído junto à entrada da caverna.

O antigo capitão da Guarda de Yahali havia cessado seus gemidos e jazia imóvel, indiferente ao calor cáustico. Vez por outra seu corpo se contraía em espasmos violentos e convulsivos.

A nave chocou-se duramente contra uma rocha, girou duas vezes sobre si mesma e então cravou o nariz prateado na areia quente.

Ruan, que batera com a cabeça de encontro aos painéis, atordoa­do e sem fôlego, permaneceu deitado por um longo tempo antes de, bem devagar, colocar-se em pé.

Havia encontrado o pequeno aparelho pela manhã, exatamente como Vanzaj e Lyanta o haviam abandonado meses antes. Submetera-o a um exame minucioso, com resultados satisfatórios. Embora estivesse danificado, como Vanzaj lhe contara, mesmo assim o veículo seria ca­paz de levá-lo até bem mais perto de seu objetivo.

Não hesitara quanto ao seu destino. O instinto, um instinto infalí­vel, ao qual seguia naturalmente como a uma informação segura, assim indicara. Durante o vôo ouvira ainda uma vez aquele grito, mais débil agora, e mais resignado, pois a pessoa que o emitira havia perdido qual­quer esperança.

A planície era seca, quente, rochosa, marcada apenas aqui e ali por empoeiradas árvores anãs. Bem ao sul viu algo, que era prova­velmente a orla de uma floresta, e para o lado leste pôde discernir, a considerável distância, o que parecia a entrada de uma caverna. Aquele era o lugar onde muitos rebeldes eram executados: a Morada dos Mor­cegos.

Decidiu alcançar as cavernas através da floresta. Embora exigis­se mais tempo, isso era mais seguro. Sem dúvida os soldados estavam escondidos em algum lugar... talvez não o esperassem tão cedo.

Desde que pousara havia sentido o perigo por toda parte. Era uma sensação sinistra que o fazia estremecer mesmo ao sol abrasador daque­le dia. Utilizando-se de cada pequeno arbusto espinhoso e cada rocha escaldante para manter-se coberto, alcançou por fim um bosque de ár­vores retorcidas.

A partir dali as cavernas eram muito mais próximas e diretamen­te opostas.

Nada se movia. Sentiu outra vez aquele frio arrepiante subindo por seu corpo.

Agachou-se. Músculos e nervos tensos, olhos e ouvidos apurados ao limite, manteve-se nessa posição por longo tempo,

Nada aconteceu. Nada se moveu. A planície estava quieta, deso­lada, infernalmente quente.

Ouviu então de novo aquele grito, agora não mais que um gemi­do. Ouvi-o com os ouvidos físicos.

Ergueu-se cauteloso, olhando atento em todas as direções antes cie começar a busca entre as incontáveis rochas.

Encontrou afinal a forma encolhida, jazendo semi-recostada de encontro a um rochedo alto, um pouco atrás da caverna. Após lançar um último olhar ao redor, alcançou o local numa corrida agachada.

Ajoelhou-se ao lado do corpo e deitou-o de costas. Não reconhe­ceu imediatamente o antigo capitão da Guarda Real, mas quando isso se deu, seus lábios se apertaram numa linha fina e rígida.

Aquele rosto voltado para o seu. A expressão vazia e vidrada do olhar, as marcas profundas da dor ao redor dos olhos. Onde estaria o orgulho, a dignidade que tanto apreciara em Zoar?

Notou que o corpo estava coberto de muitos ferimentos, alguns deles causados pela sucção de grandes morcegos. O braço esquerdo es­tava quebrado.

Ruan ergueu o capitão em seus braços. Não foi tarefa fácil no calor tórrido sobre as areias escaldantes, mas por fim pôde baixar Zoar num lugar à sombra.

Arrancando longas tiras de sua túnica limpou os ferimentos o melhor que pôde. Do largo cinturão retirou um frasco dourado, cheio de um líquido estimulante, do qual despejou entre os lábios de Zoar.

Quando por fim o capitão abriu os olhos, não reconheceu Ruan.

Você viu Tcoabal? — sussurrou, com um risinho idiota. — Tcoabal, o Senhor dos Morcegos? — Estremeceu ante a súbita lem­brança: — Não o viu? Vivi com ele e seus súditos por eras e eras... Tcoabal... — sua voz se extinguiu.

Zoar — disse Ruan, forçando o outro a olhá-lo. — Não sabe quem sou eu? Sou seu amigo, o escultor.

Mas o capitão sacudiu a cabeça.

Não o conheço, senhor. Onde está Tcoabal? Ele eu conheço. Pertenço apenas a ele. — Zoar riu outra vez aquele riso idiota, tentou livrar-se das mãos de Ruan, mas voltou a cair, inconsciente.

O sol era um fogo vermelho e baixo a oeste quando Ruan se le­vantou com um suspiro profundo e desalentado. Sua testa estava cober­ta de suor, os olhos fatigados. Apenas por uma vez Zoar parecera reconhecê-lo, e isso somente por um instante.

Conhecia apenas um homem capaz de curar a mente de Zoar... se a cura ainda fosse possível. Mas essa pessoa estava longe, ao norte, e pai a ali chegar em tempo de salvar o capitão teria de partir sem demora.

Mas se o fizesse, o que iria acontecer a Tzal?

Assim, estava ali parado, vacilando, olhando para o pobre Zoar, quando alguém lhe golpeou a cabeça com força e eficiência.

Nem viu o rosto de seus atacantes. Sem emitir um único som, caiu sobre a grama seca, amarelada do bosque.

 

Temos de ir encontrar Ruan, disse Lyanta. — Tenho uni pressentimento de que ele precisa de nossa ajuda.

Vanzaj, a cabeça em seu colo, assentiu e puxou-a para si, buscan­do uma vez mais seus lábios.

Levantou-se com relutância, estendendo a mão para ajudar a jo­vem.

Estou muito desolado por interromper, mas preciso de uma informação urgente — a voz era jovem e alegre, e seu dono achava-se parado no centro de um grupo de guerreiros, todos armados até os den­tes.

Sua túnica curta era coberta por uma armadura de finas placas de prata, trabalhadas com arte, indicando um alto posto militar. De seus ombros pendia um manto de pesada seda azul e uma faixa de prata cingindo-lhe a cabeça deixava claro que tinha sangue nobre. Os olhos muito azuis, as feições cinzeladas. Uma das sobrancelhas era um tanto repuxada para cima, efeito causado por uma fina cicatriz que, começando no canto do olho, perdia-se na espessa massa de cabelo negro sob a faixa cintilante. Em seus braços muito bronzeados e musculosos, nota­vam-se largos e pesados braceletes de prata, um dos quais, o do braço esquerdo, cobria em parte uma cicatriz profunda, estendendo-se do pul­so ao ombro.

"Um importante chefe montanhês", pensou Vanzaj. "Graças a Deus... Agora podemos ajudar Ruan com muito mais eficiência."

Deu um passo para diante, as mãos estendidas, quando um dos homens, que estivera observando Lyanta com atenção desde o momento em que lhe pusera os olhos, disse algo ao comandante em voz baixa.

—Ah! Percebo — a amabilidade desvaneceu-se do rosto e da voz do jovem. Emitiu uma ordem breve: — Prendam-nos. Na certa são espi­ões... e já estou farto de espiões e traidores nos últimos dias.

Antes que se dessem conta do que estava acontecendo, os homens haviam rodeado a ambos.

O que significa isso? — exclamou Vanzaj, indignado. —Você está errado! Não somos inimigos. Somos amigos, e se você é do norte contamos encontrar um amigo em você também.

Receio que seja engano seu, senhor — veio a fria resposta. — Eu não o conheço, mas pensaria mais que uma vez antes de aceitar a filha de Tchamar como amiga.

Lyanta ficou rubra de raiva. Que tolo impertinente! Como ousava?

Bem, se não acredita que somos amigos, seria melhor tomar cuidado — retorquiu com arrogância. — Não esqueça de que estão no território de Yahali e que afinal vocês não passam de rebeldes.

Diante disso, Zenhar sentou-se sobre um tronco caído, rindo bai­xinho. Ao seu redor os homens dobravam-se de riso.

Território de Yahali! Já estou tremendo de medo, como vê. Mas vamos prendê-los da mesma forma, não importa a quem pertença este território. Amarrem-nos.

Vanzaj pensou depressa. Como poderia ser capaz de ajudar Ruan se esse montanhês impertinente se recusava a acreditar neles? Com um movimento brusco, empurrou para os lados os homens que o cercavam.

De um salto, Vanzaj colocou-se diante de Zenhar, ainda sentado.

Ouça — disse com urgência na voz. — Não é tanto o meu destino que me preocupa, mas o de um amigo de vocês. Ele nos deixou ontem. Mas agora está em perigo em alguma parte e se não nos deixar partir, ele irá morrer.

De seu tronco, Zenhar examinou-o de alto a baixo. Esse homem parecia de fato honesto e preocupado. Mas, por outro lado, nos últimos tempos a honestidade podia ser extremamente convincente e desapontadoramente superficial, ele sabia. Abanou a cabeça:

Lamento. Não acredito em você...

Vanzaj cerrou e decerrou os punhos. Como gostaria de socar aquele rosto arrogante! Controlou-se. Não iria ajudar Ruan fazendo algo tão irrefletido.

Zenhar, adivinhando seus pensamentos, estreitou os olhos, mas não se levantou. A primeira vista esse homem tinha coragem. Avaliando-o, notou os ombros largos, a leveza com que se postava sobre os pés, os músculos rijos. Vanzaj tentou outra vez, desesperançado.

Precisa acreditar em mim! E se eu lhe contar que esse meu amigo tentou enviar-lhes uma mensagem esses dias, para preveni-los sobre certa conspiração? Estou dizendo a verdade.

Dessa vez Zenhar levantou-se num instante. Conspiração! Isto ao menos não poderia ser mentira. E se esse homem estivesse dizendo a verdade, afinal, e eles abandonassem o amigo que os havia prevenido?

Deu ordens a seus homens que desamarrassem a moça. Voltando-se para Vanzaj, observou:

Você disse a única coisa que poderia ter dito para me fazer mudar de idéia, ao menos para conceder-lhe o benefício da dúvida. Nós vamos à procura de seu amigo. Mas possam os poderes das trevas protegê-lo se mentiu para mim.

Esfregando os pulsos, Lyanta disse, preocupada:

Não há tempo a perder. Ele está em grande perigo. Está... nas cavernas de Tcoabal.

Mas como sabe? Ele próprio não sabia onde ir quando nos deixou — disse Vanzaj, surpreso.

Ela olhou zombeteira na direção de Zenhar.

Simplesmente sei, é tudo. Ser filha de Tchamar tem suas utili­dades, mesmo havendo algumas pessoas que não me consideram digna de sua inestimável amizade.

Suponho ter merecido isso — comentou Zenhar. Mas temos de nos apressar. As naves ficaram ao sul desta floresta.

Com o pé calçado de sandália, o sacerdote tocou o homem inconsciente que jazia diante de si. O gesto foi ofensivo, por sua indife­rença e rancor.

Ruan havia sido deitado sobre seu próprio manto, e, em sua cabe­ça, uma mancha escura aumentava aos poucos, sujando o tecido.

Quando recuperou os sentidos, a meia-noite estava próxima. Abrin­do os olhos, descobriu que não conseguia ver com clareza, a princípio, gradualmente a visão melhorou e o primeiro rosto que reconheceu à luz bruxuleante dos archotes foi o de Tchamar, magro e de lábios estreitos. Ele falava a um soldado.

Virando devagar a cabeça para o lado, viu Zoar a pouca distância, aparentemente ainda inconsciente.

Um vento frio assobiava por entre as rochas escarpadas e a boca escura das cavernas. Várias fogueiras haviam sido acesas e os soldados se agachavam ao redor, aquecendo-se. Contou cerca de trinta homens, todos armados. Não teria a menor chance numa luta.

De algum lugar atrás dele, de dentro da noite, chegavam-lhe sel­vagens uivos rosnados e ganidos estranhos, Não percebeu de imediato que estava ouvindo a voz de Tzal, o grande cão, e quando se deu conta do fato, não compreendeu. O que havia sido feito ao cão... e por quê? Qual era a intenção de Tchamar?

A voz baixa de seu inimigo, ali próximo, interrompeu seus pensa­mentos:

No final das contas você não era tão poderoso quanto parecia. Em realidade, foi muito fácil levá-lo a fazer o que eu desejava. E desta vez não terá como escapar.

"Não sei quem é você e porque insiste em interferir nos negócios tios outros, mas o seu fim está muito próximo agora. Jamais em minha vida fui derrotado duas vezes pelo mesmo homem."

Chamou três soldados que forçaram o prisioneiro a se levantar e o levaram até a entrada da maior caverna. Dali ele viu outros dois, arras­tando Zoar.

Tchamar disse, triunfante:

Desta vez não cometerei nenhum engano. Em muito pouco tempo, não restará nada desse seu orgulho insolente. Irá implorar por misericórdia de joelhos... o Senhor Tcoabal sabe exatamente como lidar com sua arrogância. Olhe para o que sobrou de seu amigo, o capitão.

Ruan não respondeu, mas sentiu-se gelar. Gemendo interiormen­te, havia notado que justo naquele momento os olhos de Zoar estavam pousados em seu rosto em evidente reconhecimento, e até mesmo a som­bra de um sorriso.

Por que seu amigo escolhera aquele momento para recuperar a consciência? Teria sido muito melhor para ele continuar inconsciente.

Sabia, embora Tchamar não o soubesse, que os tormentos da ca­verna iriam afetá-lo muito pouco. Mas sabia também que Zoar sucum­biria quando forçado a enfrentá-los pela segunda vez.

Dois soldados colocaram o capitão outra vez em pé, pretendendo empurrá-lo para dentro da caverna. Zoar, em plena consciência agora, dando-se conta do que estava por acontecer, retrocedeu horrorizado, lu­tando com desespero.

—Afinal sou um soldado. Tenho direito à morte de um soldado... o direito a uma morte honrosa - disse ao capitão, seu antigo subordinado.

Mas Tchamar riu:

O único direito que tem é o direito à morte de um traidor, à morte de um rebelde, desonrosa e miserável.

Quando atiraram seu amigo para dentro da caverna, Ruan saltou sobre os soldados, num ataque tão rápido e inesperado que conseguiu derrubar três deles antes que o dominassem de novo, após uma luta cur­ta e violenta.

Amarrado desta vez, atiraram-no aos pés de Tchamar.

Isso serve apenas para apressar seu fim, seu tolo — sibilou o sacerdote. E, dirigindo-se aos homens: — Atirem-no para dentro da ca­verna, também. Vigiem atentamente para que não possam mais sair. Se tentarem, firam-nos e façam-nos voltar, mas não os matem.

Os soldados deram alguns passos na direção do prisioneiro — e então estacaram e ficaram olhando, bocas abertas, olhos repentinamen­te arregalados de medo, fixos em algo que apenas eles conseguiam ver.

O capitão, irritado com a demora, aproximou-se para ver qual a sua causa.

E ele também se deteve e recuou, tomado de temor.

A Serpente Emplumada! O Sinal da Serpente!

O silêncio seguiu-se àquelas exclamações. Um silêncio tão pro­fundo que se podia ouvir o farfalhar das asas dos morcegos e gritos lúgubres vindos do reino de Tcoabal, mesclados com os gemidos horro­rizados de Zoar, enfrentando pela segunda vez as torturas das cavernas.

Na luta, as roupas de Ruan haviam sido arrancadas de seu corpo e, através dos farrapos, todos eles podiam ver agora aquele símbolo estranho.

Ao redor da cintura, dando a volta aos quadris, a cabeça levantada exatamente sobre seu plexo solar, estava tatuada uma serpente alada.

O Sinal da Serpente! O rosto de Tchamar contorceu-se de ódio. Aquele símbolo... O único símbolo respeitado — senão temido pelo próprio Rei! E esse homem era um deles... um dos membros da odiosa Irmandade.

O capitão foi o primeiro a falar, mal conseguindo conter o júbilo que sentia ao ver o desconforto de Tchamar. Não gostava de sacerdotes, eram todos covardes, não tinham idéia do que fosse uma luta leal, eram sempre cheios de truques e intrigas.

Sabe o que isso significa, não é mesmo? E uma Ordem muito poderosa e é inútil fazê-lo entrar na caverna. Aqueles que usam o Sinal da Serpente triunfaram sobre os morcegos. E uma de suas iniciações mais elementares. Por que não executá-lo aqui e agora, de um modo simples e eficiente, o modo dos soldados? Se apenas der a ordem...

Tchamar fez um gesto selvagem.

Não! Ele não será executado do seu modo. E mesmo se fosse o cabeça da Ordem em pessoa, iria morrer do modo que desejo que morra. Amanhã, ao amanhecer.

 

Quando Ruan reviu seu cão, soube o que lhe estava reservado. Sentado, apoiado a uma pedra, fora tão bem amarrado que mal podia se mover. A cabeça doía-lhe muito e as cordas enterravam-se cruelmente em sua carne.

À apenas alguns passos de distância dois soldados continham o cão e somente com muita dificuldade conseguiam evitar que se soltasse.

Tzal havia sido transformado de um ser vivo e inteligente num instrumento de destruição que rugia, rosnava e urrava — o instrumento de Tchamar.

Seus olhos estavam enlouquecidos e injetados de sangue; espuma escorria de sua boca e seus terríveis e afiados dentes brancos mostra­vam-se por entre os beiços arreganhados.

Os pensamentos de Ruan recuaram até o tempo em que recebera o pequeno filhote dourado e negro como presente de um estranho, numa terra estrangeira.

Estivera banhando-se no rio e acabava de sair da água quando viu o homem se aproximando. Para sua surpresa, o viajante o cumprimentá-la em seu próprio idioma:

Anda muito só, atlante?

Com efeito, andava muito só — saudoso de seu país, saudoso da jovem que amara e perdera, saudoso dos amigos que haviam lutado a seu lado durante a última batalha contra os exércitos de Yahali.

Tenho estado muito só — admitira —, mas como adivinhou que sou atlante?

O outro apontara a serpente que rodeava seus quadris.

Conheço o sinal. Não resta dúvida de que tudo vem de sua terra, todo o conhecimento que temos por aqui. A Irmandade é vasta. Também pertenço a ela.

Os olhos do homem eram de um estranho amarelo-dourado e extremamente oblíquos, a pele muito negra e suave.

Então sentaram-se lado a lado e Ruan falara. Como havia falado! Sobre sua terra e seu povo, sobre Yahali e a última e decisiva batalha. Sobre Sheon-La... muito sobre Sheon-La e a última vez em que a vira, encarando Yahali diante do altar. Sobre Zenhar, com quem estivera lu­tando lado a lado naquele último dia... no dia em que souberam que a batalha estava irremediavelmente perdida.

Contou sobre como Zenhar bradara: "Quantas vezes são agora que você salvou minha vida, Ruan?" E sobre como ele próprio respon­dera: "E você alguma vez contou quantas vezes salvou a minha, idiota?"

O homem negro limitara-se a ouvir. E quando se separaram, to­cara com leveza a testa de Ruan com os dedos, dizendo:

Nós saudamos assim em minha terra, atlante... e aqui tem algo para torná-lo um pouco menos só — e colocou o filhote fofo e sonolento nos braços de Ruan.

Agora ouviu Tchamar dizendo:

Você e seus amigos são tão convencidos do poder do amor... tão convencidos de que este sempre conquista o ódio, sempre desvanece as trevas. Mas olhe agora para o seu cão, escultor... ainda está tão seguro disso?

Olhe para seu cão! Veja como só lhe foi deixado um único pen­samento agora: destruir você. Observe bem, escultor, e aprenda que nada é importante: nem o amor, nem o ódio. Importante é o poder de usá-los como melhor nos convém. Olhe bem... vou ordenar-lhes que o soltem.

Tzal sentiu caírem as correias. Estava livre para fazer o que lhe agradasse. Livre para vingar-se — para matar aquela criatura odiosa sentada tão quieta à sua frente.

O que aconteceu em seguida se deu tão depressa que tudo estava acabado e feito antes que eles sequer se dessem conta de que havia co­meçado.

O enorme cão agachou-se para o salto. Seu pêlo brilhava inten­samente ao sol.

Quando saltou, pareceu ficar suspenso no ar, por apenas uma fra­ção de segundo.

E Ruan, assistindo, impedido de se mover, entreabriu os lábios sussurrando algo.

E o fez de forma tão suave que não pôde sequer ouvir a própria voz, pensando mesmo que devia ter sussurrado apenas na imaginação.

Tzal!

Nessa palavra concentrava-se todo amor que sentia pelo esplên­dido animal, e a mesma soou como soa o vento nas alturas, suspirando entre as copas das árvores. Tão suave que os homens sequer percebe­ram.

No momento seguinte a besta cairia sobre seu dono e o rasgaria com os dentes.

Tzal!

Pareceu então como se o cão recuasse, ainda no meio de seu sal­to. Ouviu com clareza o que os outros não conseguiram ouvir — aquela voz tão sua conhecida.

Ficou confuso. Conhecia aquela voz. Em algum lugar do passa­do, há muito tempo, quando o mundo não fora ainda povoado de inimi­gos que tinham de ser destruídos, aquela voz estivera junto dele sempre.

E no breve instante antes de alcançar aquele inimigo, Tzal lutou com a estranha loucura que o possuía, combateu as sombras escuras que o rodeavam, estimulando-o a matar seu dono.

E seu grande e valente coração venceu a batalha.

Ruan sentiu o poderoso corpo cair sobre si com um terrível ba­que, cortando-lhe o fôlego. Sua cabeça bateu de encontro à rocha e a dor aguda quase fê-lo perder a consciência. Mas nenhuma presa branca ras­gou-lhe a carne como estivera esperando. Ao invés disso havia um leve e feliz resfolegar de alívio e um focinho macio de encontro ao seu rosto.

Um reconhecimento deliciado via-se agora nos olhos castanho-dourados, que apenas um pouco antes haviam estado olhando-o com um frenesi de loucura. A velha expressão de inteligência voltara.

Ruan quis acariciar o cão, mas as cordas impediram-no de fazê- lo, lembrando-lhe ao mesmo tempo que ainda estava em perigo.

Erguendo a cabeça de novo, lentamente, Tzal viu uma nuvem de névoa se formando diante de seus olhos, uma nuvem que se tornava mais e mais espessa. Quase não podia mais enxergar.

Aqueles olhos. De que o lembravam aqueles olhos? Via-os níti­dos: olhos negros, malignos, olhando-o com fúria. Fúria e algo mais, uma força estranha que conhecia e temia.

Aqueles olhos eram malignos. Olhos que devia destruir antes de descansar. Eles haviam tentado forçá-lo a fazer... fazer o quê? Sacudiu a grande cabeça algumas vezes, tentando afugentar aquela névoa estra­nha.

Tarde demais Tchamar percebeu o que significava para ele o olhar estranho e fixo do cão. Tarde demais voltou-se para fugir, gritando pelos soldados, tateando frenético as roupas à procura de sua adaga.

Demasiadamente tarde... pois o destino foi mais rápido.

O cão-lobo não emitiu um único som, não latiu, nem rosnou. Nada. Em silêncio atacou o sacerdote, homem e cão caindo juntos.

As garras poderosas rasgaram o peito do inimigo, em silêncio... Os dentes brancos, afiados e fortes cravaram-se silenciosos em sua gar­ganta.

Em completo silêncio ele matou Tchamar, o sacerdote, antes que os soldados pudessem interferir. Um estremecimento sacudiu o corpo de Tchamar... a mão que estivera tentando em vão agarrar a garganta de Tzal afrouxou. A cabeça pendeu lentamente para um lado, os olhos fi­xos com expressão horrorizada no horizonte distante.

E Tzal também estendeu as patas, imóvel. Sua bela cabeça encos­tou-se no corpo do homem que acabara de matar.

Quando os soldados chegaram correndo estava tudo acabado. O capitão, que chegou à frente dos outros, ajoelhou-se rápido para exami­nar o sacerdote.

É inútil. Está morto e por sua própria culpa. Devia ter-me ouvi­do — apontou para Ruan: — Mas podemos proporcionar-lhe compa­nhia. Matem-no agora, e rápido.

Antes que os outros pudessem obedecer, a planície estava fervilhando de soldados estranhos, berrando. Homens bronzeados das mon­tanhas.

Impotente por causa de suas amarras, Ruan teve de contentar-se em assistir, à distância. Os homens de Yahali, percebendo estar em infe­rioridade numérica, tentavam fugir à luta para alcançar suas naves.

Então Ruan viu Vanzaj e a moça se aproximarem. Eles cortaram as cordas que o amarravam.

Lyanta olhou por longo tempo para o corpo do pai, alívio e triste­za misturando-se na expressão de seu rosto

Nunca houve muito amor entre nós — disse. Ele nunca teve tempo para mim. Eu o admirava à distância, por causa de seu poder, sua posição. E ele me admirava pela maneira como eu usava minha beleza para conseguir as coisas que desejava. E isso era tudo.

Ruan estivera examinando o cão com cuidado. Este estava incons­ciente e muito fraco, mas seu coração ainda batia. Então, lembrando-se de Zoar, Ruan levantou-se de um salto e entrou na caverna. Saiu arrastando o ex-capitão pelos ombros. Zoar entrara num coma profundo.

A moça tomou Ruan pela mão:

Olhe, os soldados de Yahali fugiram e os outros estão voltan­do. Venha, vou apresentá-lo ao comandante deles.

Zenhar e seus ruidosos rebeldes pararam de perseguir os inimi­gos e estavam voltando.

Ruan foi ao encontro deles, porém num passo lento. Sua cabeça doía tanto que mal conseguia manter os olhos abertos.

Cobrindo a distância que ainda o separava dos outros, Zenhar pra­guejou contra o sol, agora brilhando diretamente em seus olhos. Estava mais que curioso para conhecer o homem que salvou e que vinha deva­gar em sua direção. Protegendo os olhos com a mão, para ver melhor, parou de modo tão inesperado e abrupto que o soldado que vinha atrás, tentando evitar chocar-se com ele, perdeu o equilíbrio e caiu.

Antes que seus subordinados pudessem refletir sobre o compor­tamento peculiar do comandante, Zenhar começou a correr como um louco.

Toda dignidade esquecida, ele correu, berrando algo que ninguém, de início, conseguia compreender.

Ruan! Ruan!

Ao ouvir aquela voz Ruan esqueceu sua dor de cabeça e sua fra­queza, começando a correr também, deixando os outros para trás, com­pletamente perplexos.

Haviam sido amigos desde a infância e nada, jamais, fora capaz de perturbar essa amizade. Há muito tempo, numa outra vida, uma vida louca, aventurosa e curta, haviam cruzado os mares juntos. E através das eras reencontraram-se seguidas vezes, renovando sempre os laços que os mantinham próximos.

Ruan! — disse Zenhar depois de terem se abraçado — Então era você o tempo todo. Se não nos tivesse avisado naquela noite, não estaria me vendo aqui agora. Onde esteve durante todos esses anos?

Olhando para o rosto do amigo, os alegres olhos azuis, as feições bonitas e bem talhadas, Ruan riu, feliz:

Zenhar! Você não sabe como é bom vê-lo após todo esse tem­po. Como senti falta de vocês todos. Estive muito longe... e quando afinal estava por chegar em casa tudo isso aconteceu.

Graças a Deus! Imagine o que teria acontecido se eu não tives­se confiado em seus amigos — Zenhar empalideceu ante o pensamento, e estremeceu.

Eles parecem se conhecer — observou Lyanta secamente, olhando para os dois amigos que riam, tagarelavam e davam palmadas nas costas um do outro: — E pensar na dificuldade que tivemos para convencer esse teimoso comandante rebelde, e como ele se recusava a acreditar... — não terminou a frase, agarrando o braço de Vanzaj e apertando-o com muita força.

Olhe — disse ela, excitadamente. — Olhe, os soldados. O que estão fazendo, em nome dos céus?

Vanzaj, olhando, reteve o fôlego.

Os homens de Zenhar haviam agora alcançado o pequeno grupo, justo no momento em que Zenhar soltava a mão de seu amigo.

E o tenente Dizan, o mesmo que reconhera Lyanta ao primeiro olhar, ao vê-la no sopé das montanhas, não precisou agora de mais que um relance para reconhecer a figura alta ao lado de seu comandante. Seu cabelo negro, os olhos cinzentos, a boca sensível.

Gritou alguma coisa: um grito selvagem, alegre, ininteligível, ele­vando a espada no ar.

E todos eles, seguindo seu exemplo, sacaram das armas e se ajoelharam. E ali, naquela planície desolada, as espadas cintilando de encontro ao céu quente e azul, saudaram o jovem desgrenhado, com suas roupas esfarrapadas e ensangüentadas com a saudação que poderia ser feita apenas perante o Rei Rahazz e seu sucessor: a Saudação Real.

— O Príncipe Ruan voltou — disse Dizan com simplicidade.

 

Você acha que ele escapará desta?, perguntou Ruan, com an­siedade.

Juntos, estavam colocando o corpo inerte de Tzal, sobre uma maca improvisada.

Naturalmente — repondeu Zenhar. — Se alguém pode curá-lo, é seu pai. Você deveria saber isso.

Você continua o mesmo velho otimista — riu Ruan. Espero que esteja certo. Quanto a Zoar...

Ruan viu o ex-capitão sendo levado para uma das naves, ainda inconsciente. Quis aproximar-se, mas uma onda de tontura o invadiu. A terra girou; o sol, inesperadamente, soltou-se do céu e caiu com a velo­cidade de um raio. Levou a mão à cabeça enfaixada.

Eu já estava me perguntando quanto tempo ele iria agüentar ainda — observou Zenhar, lacônico, amparando o amigo em seus bra­ços. E olhando do cão para Zoar: — Realmente, é mais que tempo para que o Rei intervenha.

Ruan achava-se estendido no chão da nave. Sua inconsciência havia durado apenas alguns minutos.

Lyanta, lembrando-se outra vez de que estavam voando em dire­ção ao reduto rebelde, considerado por ela mesma, até bem pouco tem­po antes, um perigoso ninho de traidores. Como seria recebida ali?

Aconchegou-se um pouco mais a Vanzaj. Ele correspondeu de imediato, entrelaçando os dedos morenos e firmes com os dela, colo­cando o outro braço ao seu redor.

Estamos quase chegando, agora? — perguntou ela.

-— Sim — respondeu Zenhar, que pilotava o aparelho. Não notou que há pouco estávamos sobrevoando a floresta de Iavak?

Iavak — disse Ruan com suavidade. Foi ali que Sheon-La...

Não terminou a sentença, não viu como Zenhar se voltou em seu assento, dando-lhe um rápido olhar perscrutador. Contou-lhes então so­bre aquela noite terrível.

Eles não terminaram a cerimônia naquela noite. A confusão mostrava que o sacerdote e o povo haviam fugido em desordem. Mas não consegui encontrar Sheon-La. Eu estava certo de que ela devia estar morta em algum lugar, um pensamento que se transformou em certeza quando uma das pessoas presentes à cerimônia, e a quem encontrei morrendo entre os arbustos, contou-me que havia visto dois sacerdotes arrastando-a para a floresta. Mas não consegui encontrar o corpo.

Duas semanas depois deixei Aztlan. Por quê? Não sei... creio que principalmente por estar farto de tudo. Farto de mim mesmo, e em espe­cial, de minha inutilidade, do modo como falhei quando ela mais preci­sou de mim... Eu que estava tão seguro de mim mesmo, de meu conhe­cimento, de meus poderes... e que fora impotente nas mãos de Yahali. Nunca mais a vi, sequer em meus sonhos.

A voz de Zenhar fez-se ouvir, afetuosa:

Seus amigos o estavam esperando. Por que não voltou para nós Ruan? Por que não veio para casa, nas montanhas?

Eu não queria... Suponho que pela mesma razão. Queria estar só... Queria descobrir tudo por mim mesmo, longe da influência que moldou minha juventude. Por isso parti e fiquei só durante sete anos... Meu Deus, como me senti só durante todos esses anos.

Sem interromper, Yahali ouviu o relato, sobre as ocorrências nas imediações das cavernas. As janelas do palácio estavam abertas para deixar entrar a brisa fresca que descia das colinas.

O Rei, sentado em silêncio junto à janela, olhando para sua cida­de, aparentemente distraído, mas sem perder uma única palavra do que dizia o oficial.

E quem eram aqueles soldados estranhos? Gente das monta­nhas? Você pode descrever seu comandante?

Jovem, não muito alto, olhos azuis. Armadura, faixa de prata na cabeça, cicatrizes na testa e no braço esquerdo.

Naturalmente. Zenhar e seus homens. Quanto descaramento. Ninguém ousaria aventurar-se tão longe dentro de meu território. E pa­receu reconhecer o prisioneiro?

Sim. Abraçaram-se como se fossem velhos amigos... isso eu vi antes de embarcar em minha nave. Vi ainda, os homens se ajoelharem e prestarem a saudação...

A saudação?

A saudação dos Toltecas, senhor. A Saudação Real.

Desta vez Yahali voltou-se rápido, os olhos faiscando.

A Saudação Real? Tem certeza?

Absoluta.

Então só podia ser o filho de Rahazz. E isso explica tudo: o mistério do escultor, o sinal da Serpente, os poderes excepcionais que aquele jovem possui e que custaram a vida de Tchamar.

Quando o capitão partiu, Yahali permaneceu longo tempo senta­do, absorto em profundos pensamentos.

E mais uma vez perguntou-se por que, a cada vez que lhe falavam a respeito de Ruan, tinha a sensação de que havia algo que esquecera, algo que precisava recordar.

Mas o que havia para recordar? Recuando profundamente no pas­sado, reviveu com nitidez os acontecimentos mais importantes de mui­tas vidas anteriores — como se tivessem ocorrido há pouco tempo.

Porém nada encontrou para explicar sua sensação. Por que esse homem insistia em cruzar repetidamente seu caminho?

Quando as naves foram chegando, uma velha que aguardava na multidão apontou para o brasão de Zenhar: duas espadas cruzadas, azul sobre campo prateado.

Vejam, é o nosso comandante. Quem estará trazendo consigo?

Então, respeitoso, o povo abriu passagem para uma figura grisa­lha e ereta, trajada de branco.

O Rei... é o Rei! — murmuravam excitados. — Alguém muito importante deve estar chegando para que o Rei venha recebê-lo em pes­soa.

Os aparelhos pousaram. Zenhar dirigiu-se direto a Rahazz, que aguardava e o recebeu com um aperto de mão, enquanto seus olhos pro­curaram, por sobre os ombros robustos do comandante, a figura esguia que saltava da nave.

Vim para dar as boas-vindas a meu filho. Obrigado por trazê-lo para casa, Zenhar.

E o povo, atônito, viu um jovem de roupas em farrapos, aproximar-se do Rei em poucas passadas. Quando o reconheceram, o júbilo foi tanto que mesmo o rugido do Rio Zen, precipitando-se de altas ro­chas para um poço negro e profundo nas proximidades, foi totalmente abafado.

E estes são meus amigos — disse Ruan apresentando Vanzaj e a moça. — Sem a ajuda deles eu não estaria aqui.

Mesmo sem essa recomendação eles são bem-vindos - obser­vou seu pai, notando a apreensão no rosto de Lyanta. E, tomando caloro­samente a mão dela entre as suas, acrescentou: — Espero que breve se sinta em casa aqui, criança.

Ela olhou para o rosto suave e calmo, e deixou escapar um suspi­ro de alívio. Como pudera recear... o que esse homem poderia fazer-lhe ?

Bem mais tarde, pai e filho encontravam-se lado a lado num es­paçoso aposento de janelas amplas, todas voltadas para leste, e cujas paredes eram pintadas de um amarelo suave. Num divã baixo jazia Tzal, imóvel como estivera desde que desabara sobre o corpo sem vida de Tchamar. Num canto da sala, um belo fogo crepitava na lareira.

O capitão tem uma mente forte; reagiu muito mais depressa do que imaginei — observou Rahazz. — Está fora de perigo e o seu cérebro inteiramente são e equilibrado de novo.

E Tzal? — perguntou Ruan ansioso.

Isso irá exigir mais tempo. Seu espírito já está muito distante e seu corpo fragilizado.

O Rei e seu filho trabalharam a noite toda para salvar a vida do grande cão.

Por fim, pouco antes do amanhecer, Rahazz saiu de junto do ani­mal:

Fiz tudo que poderia fazer. Só o que nos resta é esperar. Dei ordens para que a Melodia da Primavera seja tocada ao nascer do sol.

A melodia era como uma criatura que tivesse estado imersa em sonhos e agora redespertava e avançava com dedos macios, insistentes e radiantes sobre os brotos verdes, atraindo a força da vida. Era algo vivo, um ser que se insinuava através do aposento até o divã onde jazia o animal e que impunha suas mãos magnéticas sobre o corpo quase sem vida.

Aquele estranho ser melodioso parecia vir dançando diretamente do coração da própria criação, e era o mesmo ser que faz a seiva verde elevar-se poderosa nos troncos das grandes árvores, a mesma presença que atraía as jovens plantas através da terra em direção ao sol, a mesma também que faz uma jovem estremecer sob as mãos acariciantes de seu amante e atrai, irresistível, uma nova vida do útero escuro da mãe para a luz do dia.

E Ruan, sentado na beira do divã, ouvia embevecido, emociona­do, sentindo a vida dentro de si agitar-se e acelerar-se como não ocorria há muito tempo. Era bom estar em casa, no meio de seu próprio povo, sua própria espécie!

Ao seu lado ouviu-se um profundo suspiro e em seguida uma pata peluda pousou sobre sua mão.

O cão tentou mover a cabeça um pouco, suspirou outra vez e aba­nou lenta, mas distintamente, a cauda espessa.

Rahazz sorriu satisfeito.

Ele reagiu. Está tudo bem, agora.

Quando o cão mergulhou num sono pesado e saudável eles deixa­ram o aposento para juntar-se aos outros, para o desjejum. Ao entrarem, Zenhar estava falando sobre um movimento secreto cujo principal obje­tivo era restaurar um governo justo e pacífico no país.

É apenas um pequeno grupo — dizia Zenhar —, e somente agora entraram em contato conosco. Mas temos esperança de que o mo­vimento cresça em força e possamos libertar nossa terra de Yahali e seu reinado maligno.

O Rei ouviu em silêncio durante algum tempo, depois comentou:

Você deve ter notado, Zenhar, que Yahali está agora mais po­deroso que nunca. São poucas as pessoas que se colocam, na realidade, contra ele e seu governo... Quanto aos sacrifícios sangrentos, vá e con­verse com as pessoas por ali e irá encontrar poucas que ficam mesmo indignadas, poucas que realmente se importam. A pregação de Yahali de que esse tipo de sacrifícios não apenas é necessário, mas também essen­cial para a felicidade do povo, e que a própria existência de Aztlan seria ameaçada se fossem extintos, já lançou raízes muito profundas.

Ruan ficou surpreso com o comentário do pai.

Está sugerindo então pai, que a nossa luta é inútil, que seria melhor desistirmos e deixarmos tudo nas mãos deles?

O Rei viu o fogo nos olhos do filho, ouviu a indignação apaixona- da em sua voz e também notou a expressão de perplexidade que surgiu no rosto de Zenhar.

Ah, vocês, guerreiros! disse, com um leve sorriso. — E claro, que não estou dizendo que devem parar de lutar... Vão em frente, lutem arduamente e bem, e mesmo quando estiverem seguros de estar perden­do, devem continuar... desde que sua causa seja justa. Ninguém pode dizer de antemão quando uma batalha será perdida. E mesmo depois que tenha sido perdida, devem continuar, em algum outro tempo, algum outro lugar, e mesmo em algum outro mundo ou em alguma outra vida.

Eles estavam descansando sobre a grama alta embaixo das árvo­res. Nas proximidades o rio formava um lago profundo e tranqüilo, cer­cado de rochas cobertas de samambaias que mesmo ali, longe das im­pressionantes quedas das cachoeiras, eram banhadas de espuma.

Ruan estava deitado de costas, semi-adormecido, o grande cão atravessado sobre os joelhos, já restabelecido. Zoar sentara-se perto da água, magro e abatido, os olhos morosos e sombrios, o único que não parecia fazer parte do grupo.

Pouco mais para um lado, a mão no queixo, Zenhar o observava. Estivera examinando-o por algum tempo, carrancudo, como se tivesse de tomar uma decisão e relutasse em fazê-lo.

Sentiu o pé de Ruan tocá-lo de leve:

Vá até ele... Devia tê-lo feito há uma semana. Qual é o proble­ma com você? Não vê como ele está infeliz?

Escute, Ruan, eu não estou certo... — começou, fechando ain­da mais a carranca, mas Ruan interveio.

Está se levando a sério demais, hoje em dia. É desejo expresso de meu pai... você sabe disso. E é também uma ordem de seu Rei... Sabe disso também, não é mesmo?

O jovem comandante levantou-se relutante e dirigiu-se para o lu­gar onde o ex-capitão estava sentado, quieto e sozinho. Sentou-se a seu lado.

Recebi uma ordem, há uma semana, de meu Rei, capitão — começou. — Uma ordem a respeito de sua pessoa. Deveria ter falado com você antes... mas... não estava seguro... — e aí calou-se.

Quieto, Zoar voltou o rosto magro para ele:

Por que insiste em dirigir-se a mim usando a patente militar? Não sou mais capitão.

Zenhar ignorou o comentário, rebatendo:

Por muitos anos foi capitão da guarda de Yahali... O Rei Rahazz lhe oferece agora um novo posto aqui, como chefe de sua guarda pes­soal. Terá a patente de coronel... e assim ficará inferior, em termos mili­tares, apenas a mim.

Uma luz se acendeu nos olhos de Zoar, desaparecendo logo em seguida.

E por que não me disse antes? Por que esperou por tanto tem­po?

Os olhos azuis de Zenhar estavam desconcertantemente francos e diretos.

Por que não sei se seria prudente. Não sei se podemos confiar em você.

Zoar ficou mais pálido do que já estava diante desse comentário rude e conteve-se com dificuldade. Numa voz muito suave, respondeu:

Comandante Zenhar, isto é um insulto, terrível e deliberado. Se não fosse um hóspede em sua casa e não lhe estivesse devendo a vida, ao menos em parte, iria exigir-lhe satisfação imediata.

Fez um movimento para levantar-se, mas Zenhar agarrou seu pul­so, evitando que o fizesse.

Não houve intenção de ofensa. Mas deve compreender. Rahazz é meu Rei... e sou seu mais próximo conselheiro, seu chefe de Estado Maior. Além disso, é um homem a quem admiro e amo, sendo pai de meu melhor amigo. Foi apenas a preocupação por seu bem-estar que me levou a falar-lhe como falei.

Zoar inclinou a cabeça:

Servi a Yahali porque prestei juramento e esse era meu dever. Mas ao Rei Rahazz... e como gostaria de não ter conhecido nenhum outro... eu teria servido com o maior prazer e de todo o coração. Além disso, você parece ter esquecido que ele também é o pai do homem que salvou a minha vida uma vez e tentou salvá-la pela segunda vez, quase à custa de sua própria? — Entretanto, ficaria muito agradecido se me ar­ranjasse um guia esta noite.

Um guia? Para levá-lo aonde?

Para o lugar de onde vim. Vou voltar... é melhor morrer nas cavernas, do que não merecer a confiança dos amigos.

Mas Zenhar se levantou exibindo um grande sorriso no rosto bonito. Colocou as mãos nos ombros do outro.

Vou guiá-lo pessoalmente... para o quartel, coronel, e apresentá-lo aos homens que ficarão sob seu comando daqui por diante.

 

Dhar era uma cidade-guarnição típica. O enorme quartel cor de tijolo dominava seu centro como a vida e os modos dos soldados dominavam o centro da cidade e os arrebaldes. Por toda parte homens trajados com a túnica cinza e o cinturão vermelho do exército de Aztlan caminhavam ou marchavam pelos caminhos largos de pavimento ma­cio, seus braceletes e tornozeleiras proclamando a patente. O soldado comum usava um simples capacete prateado e braceletes sem adornos, um em cada braço. Quanto mais alto o posto, mais elaborado era o orna­mento da cabeça, mais pesados, largos e numerosos os braceletes e tornozeleiras.

Os oficiais de patente mais alta tinham direito a braceletes de ouro, seus cinturões eram ornados com ouro e incrustações de pedrarias, mas apenas o Rei tinha direito de usar um elmo de ouro com um sol nascente no centro, o mesmo símbolo que se repetia em ouro puro nas tachadas da interminável seqüência de quartéis. Cada raio do sol era revestido de diamantes e em ocasiões muito especiais o Rei usava os ornamentos dos braços e das pernas elaborados em delgadas placas de ouro, cobrindo do pulso ao cotovelo e do tornozelo ao joelho.

O homem que estivera parado ali, à beira da avenida principal de Dhar, à sombra de uma grande construção, não tinha nada a fazer. Permanecera ali por um bom tempo, um dos pés descansando sobre uma pedra.

Era baixo, bastante magro, de estrutura insignificante, e usava uma túnica velha de amarelo desbotado, como notou Vanzaj, no lado oposto da avenida.

"Magro, baixo, ombros encurvados, beirando a meia idade", pon­derou, "mas assim mesmo aposto que seus pés são muito rápidos e nem de longe é fraco como parece. Pergunto-me onde foi arranjar essas per­nas fortes e musculosas".

Chegara a Dhar naquele mesmo dia e decidira examinar o ambi­ente em que se encontrava antes de dar início à sua tarefa difícil e peri­gosa. Pareceu-lhe que aquele homem não seria avesso a dois dedos de prosa e que poderia dar-lhe algumas informações úteis.

Caminhando despreocupado, atravessou a rua e se deteve perto do homem trajado de amarelo. Depois de algum silêncio, puxou conver­sa.

-— Com eleito, esta cidade é próspera e animada, e seus habitan­tes parecem felizes e satisfeitos, não concorda? Disse-o num tom casu­al, e o outro apressou-se em concordar. Mas ao mesmo tempo, seus rápidos olhinhos negros se voltavam na direção de um punhado de pri­sioneiros exaustos, cambaleando entre um grupo de soldados. O ho­mem soube que eram rebeldes destinados à Morada dos Morcegos e se perguntou se o jovem estrangeiro os teria notado.

Nunca estive aqui antes — recomeçou Vanzaj — e ainda me sinto um pouco perdido.

O outro sorriu, um sorriso amigável.

Logo irá sentir-se em casa por aqui. É uma cidade alegre e selvagem, e sua vida noturna é muito conhecida, senão notória.

— Não poderia contar-me um pouco mais? Gostaria de conhe­cer tudo. É possível que fique aqui por algum tempo.

O homem observou que Vanzaj tinha dificuldade em manter os olhos afastados dos prisioneiros cercados pela escolta. Baixou o olhar e traçou, com a ponta da sandália, alguma figura imaginária sobre a pedra lisa, para só depois responder:

Sim, posso contar-lhe tudo que há para saber a respeito de Dhar... mas gostaria de dar-lhe um conselho antes. Não sou espião. Nada tenho a ver com qualquer dos lados. Mas tenha muito cuidado, seja você quem for. Eles não perdem muito tempo com inimigos do governo nesta cidade.

Vanzaj não demonstrou qualquer surpresa, embora estivesse fi­cando tenso. A percepção desse homem era muito aguçada ou teria ele próprio se mostrado tão perigosamente transparente? Abriu a boca para protestar, mas então uma voz disse junto ao seu ouvido, quase num rosnado:

Quem? Quem é um inimigo do governo, Nebazz?

Desta vez Vanzaj teve dificuldade em controlar-se. Como estivera de costas para a rua, não havia visto ou pressentido a aproximação de quem falara.

Mas o homem, agora parado bem à seu lado, nem sequer o olhou. Toda sua atenção estava no homenzinho, que não havia mudado em nada a postura indiferente e que o olhava com um sorrizinho cínico. Ele sus­pirou:

Continua tirando conclusões precipitadas, Bäar. Eu não estava falando de ninguém em particular. Apenas comentei com este jovem aqui sobre o destino de todos os inimigos do Rei. Por que sempre cai sobre mim, meu amigo?

O olhar que Bäar lhe dirigiu era cheio de desagrado e desconfian­ça.

Porque você é neutro demais, casual demais em relação a cer­tas coisas. Tem muito dinheiro e ainda mais influência na alta roda, mas não se importa com nenhum lado... se mantém distante de ambos, distan­te demais, acho eu. E, no entanto, todos sabem que não é um covarde e nunca foi. Para mim, isso é suspeito.

Então pensa — respondeu Nehazz devagar —, que a minha assim chamada neutralidade não passa de uma máscara?

Bäar balançou a cabeça:

Não. Ainda não. Mas poderia com facilidade se tornar uma... um dia.

Este é sem dúvida um bom começo para uma palestra sobre neutralidade, meu amigo. Não sabia que você tinha esse talento. Mas suas conclusões à meu respeito estão erradas. Acontece que simples­mente não estou interessado. Tudo é muito desimportante e aborrecido para mim.

Até o dia em que, por uma ou outra razão, você ficará interes­sado.

Significando o quê?

Significando que já é fácil ver que lado escolherá então.

Enquanto essa discussão se desenrolava, Vanzaj teve oportunida­de suficiente para estudar o recém-chegado. Era um homem alto, de corpo maciço, com mãos fortes e quadradas, ombros largos e um queixo poderoso e proeminente. Entretanto, a sua aparência taurina como um todo formava um impressionante contraste com um par de olhos estra­nhos, de um verde-marinho claro. Ele parecia olhar através das pessoas, de um modo realmente desconcertante. Seu cabelo era escuro, salpica­do de cinzento. O largo cinturão que usava era ornamentado com jóias e o seu cimo, assim como os braceletes e tornozeleiras, repetiam o mes­mo emblema: o de uma águia em vôo, as asas estendidas e ornadas com diamantes de uma rara coloração azul. Os olhos do pássaro eram rubis vermelho-sangue.

"Um oficial da Força Aérea", pensou Vanzaj, "e a julgar por todos esses esplêndidos ornamentos, é no mínimo um coronel".

Você parece ter talentos psicológicos — disse Nehazz, mostrando agora alguma irritação. — Mas não receie. Esse dia nunca chegará. Está desperdiçando o seu tempo e essa conversa é aborrecida para mim.

Observaram Bäar girar sobre os calcanhares e desaparecer com passo decidido por entre a multidão.

Ele não gosta de você, não é?

Ele me odeia. E você acaba de ouvir por quê. E um homem estranho, um lobo solitário, absorvido em sua carreira... seus talentos militares são consideráveis, conforme ouvi. Pertence a uma família rica. Nos últimos tempos tenho ouvido rumores... e não há rumores que eu não ouça... de que ele se apaixonou por uma linda jovem, suspeita de pertencer à oposição.

Ele sabe disso?

-— Se sabe, estou certo de que não acredita. Ela apareceu aqui em Dhar de repente, ninguém sabe de onde. Tem muitos amigos, mas ne­nhum deles, com exceção de Bäar, é conhecido por sua lealdade a Yahali. Está louco e desesperadamente apaixonado por ela.

Sabe que ele estava certo? — Vanzaj viu os olhos negros e inteligentes focalizarem de repente o seu rosto". — Certo? Dizendo o que disse sobre minha neutralidade?

Exato. Por que outro motivo não me denunciou agora mesmo? Teria sido o seu dever.

Isso teria provado que eu pertenço a eles, não é assim?

E agora, o que você provou na verdade?

Nehazz riu.

Você também, hem? Mas está errado. Eu não o denunciei por que não tenho uma única prova contra você e porque não gosto de agra­dar a Bäar. Razões puramente pessoais.

Tomou Vanzaj pelo braço e começou a conduzi-lo na mesma di­reção que Bäar havia tomado. Havia um sorriso cálido em seu rosto, em lugar do cinismo entediado que havia mostrado durante toda a conversa com o aeronauta.

Por que não vem comigo jantar em minha casa? Eu lhe conta­rei o que deseja saber sobre a cidade. Dizem, e com razão, que sou o maior mexeriqueiro de Dhar. Mas devem admitir também que eu nunca distorço os fatos.

Bäar observava alguns homens jogarem numa taberna do outro lado da rua, enquanto bebia uma caneca solitária de forte vinho. Das janelas viu ambos passarem, conversando animados, mas voltou a cabe­ça na direção dos jogadores outra vez, num movimento curto e impaci­ente. Não queria pensar mais em Nehazz: um inútil, bom para nada. Ao invés disso queria pensar nela, com quem tinha um encontro esta noite e que vinha aparecendo em seus sonhos.

Logo que conhecera a moça foi tocado de imediato por sua bele­za selvagem e sua extraordinária tranqüilidade. Levara-a a muitas festas e comemorações, mas ela sempre parecera um pouco deslocada no meio do mundanismo e da sofisticação, observando em silêncio, não fazendo nunca, na verdade, parte da alegria. Assim ele passara a levá-la em sua nave em muitos longos vôos e em caminhadas através da cidade e para fora, ao campo, falando sem parar sobre si mesmo, como fazem os homens que estão apaixonados. Silenciosa, ela ouvia, com apenas algum ligeiro comentário aqui e ali.

Tarde daquela noite estava parado junto a ela diante de uma taberna, logo à saída de Dhar. Do interior chegavam música, gritos e explosões de riso, e podia se distinguir a voz de uma moça iniciando uma canção num soprano alto e claro.

A jovem ouvia, chocada, não acreditando realmente no que escutava. Sem dúvida não podia ser... com certeza estava enganada...

Era o Canto do Sol, a mais sagrada das canções, tornada irreconhecível, cantada de um modo indecente, obsceno e brutal. Mas era o Canto. Através das amplas janelas abertas podiam ver a moça passar girando, cada movimento de seu corpo, um convite inconfundível.

Na última vez em que ouvira aquela canção, há muito, há tanto tempo atrás, a mesma era cantada numa voz profunda pelo sacerdote que celebrava. E daquela vez, ele estivera parado ao seu lado. Como se sentira orgulhosa então, como se sentira feliz, protegida e segura de que lodo o bem que estava provando jamais chegaria ao fim.

Mas isso fora há tanto tempo, um pouco antes da última grande batalha. E desde então seu orgulho e felicidade se haviam perdido, exatamente como aquela última grande batalha fora perdida pelos soldados de Rahazz.

Bäar, que estivera observando-a com atenção, sentiu quão longe ela estava naquele momento, viu seus olhos se encherem de tristeza. Segurou-a, brusco e impaciente, pelo cotovelo.

— Sheon-La! Não adianta. Ele nunca voltou... deve estar morto. Muitos foram mortos na última guerra e os corpos nunca encontrados ou identificados — ele sentiu toda a restrição à qual se havia forçado de modo tão desesperado durante as últimas semanas quebrar-se e cair desfeita em mil pedaços. Nunca se acostumara a esperar. Fora acostumado a dar ordens e a punir aqueles que não obedeciam com rapidez e preci­são.

Apertando-lhe os braços, puxou-a para perto, rude e imperiosamente, e começou a beijá-la. Sentiu-a ofegar quando o pesado bracelete de ouro se comprimiu contra seu corpo, cortando-lhe a carne, mas não se importou. Havia esperado tempo demais. Não iria continuar esperan­do. Ela tentou desviar a cabeça, mas os lábios dele, cálidos e exigentes, não deixaram os dela até que perdeu o fôlego e sentiu-se desejando que ele não parasse mais, mas fosse em frente sempre e sempre. De modo que fosse capaz de esquecer. De modo que não tivesse que pensar nos perigos que vinha enfrentando quase todos os dias. De modo que não pensasse nos passos firmes e ameaçadores da polícia secreta de Yahali, no súbito desaparecimento de amigos, que encontravam a morte nos altares do país.

Nos braços desse homem não teria de temer qualquer dessas coi­sas, ele estava a salvo do outro lado, o lado triunfante e seguro, e iria protegê-la de torturadores, sacerdotes e executores cruéis.

"Oh! Não ter mais de temer a coisa alguma, nunca mais sentir-se assustada." Abandonou-se suavemente de encontro a ele, sentindo seu corpo responder de imediato, enquanto o tempo todo, a boca dele jamais deixava a sua.

Ela fechou os olhos. Sem dúvida ele tinha razão. O outro jamais voltaria. Por que não deveria gozar deste momento, agora? Era um ho­mem simpático, limpo e honesto...

E estava tão cansada de sempre dizer "não".

Quando por fim Bäar levantou a cabeça, olhou para seu rosto por um longo tempo, deliciado e incrédulo.

Afinal você correspondeu! Jamais pensei — ele se deteve e, ainda segurando-a por um dos cotovelos, retirou o bracelete de um de seus largos pulsos, colocando-o no braço dela.

Houvera, muito tempo antes, outro homem e outro bracelete. Aquele outro era tão largo e ricamente decorado quanto este, mas em lugar da águia da Força Aérea, mostrava uma serpente emplumada, lin­damente cinzelada.

Ele tinha os olhos cinza-escuros e ombros largos, e havia empur­rado a peça de ouro pelo seu braço acima até que quase atingisse o ombro, enquanto ambos riam alegres. Sua mão hesitara por um instante sobre seu ombro nu e então deslizara acariciante por seu pescoço. Com a outra puxara-a de encontro a si, com um fogo escuro nos olhos.

Ela era muito jovem e ficara espantada com seu ardor. Havia ten­tado empurrá-lo a princípio, com pouco sucesso, mas por fim afastara os lábios e colocara uma mão restritiva sobre a sua boca, mão que ele começara a beijar em seguida. Havia-lhe dito de modo inquisitivo: — Você é tão diferente do que eu esperava. Disseram-me que os que per­tencem à Ordem tinham muito pouco tempo para coisas tão baixas quanto o sexo.

O quê? — ele a olhara por um momento, atônita, depois rira até que as lágrimas brotassem em seus olhos. — Baixas? Meu Deus, quem foi que disse tal coisa? Esta é a melhor que eu ouvi em anos.

Pensara por um instante enquanto os braços dele a envolviam ou­tra vez.

Foi um sacerdote ou algo assim... Esqueci seu nome.

Ele cruzara seus dois braços em suas costas, segurando-os com uma das mãos enquanto acariciava seu cabelo com a outra.

Bem, fosse quem fosse, era um tolo ou um hipócrita... Como seu cabelo é macio, querida, e sua pele... vou lhe mostrar agora mesmo como ele estava errado...

Quando a apresentara à seu pai, repetira a observação dela, sor­rindo.

E isso que pensam de nós, pai, lá fora.

Olhando do Sumo Sacerdote para seu filho, vendo-os trocarem olhares de divertido espanto, ela explicara:

Mas foi um de vocês. Um sacerdote. Ele me disse que aqueles que estão aspirando a uma vida mais elevada, mais espiritual, teriam de desarraigar o sexo ou ao menos ignorá-lo, esquecer dele. Disse que era uma força baixa e maligna.

Desarraigar? Ignorar? Esquecer...? Mas nós, da Serpente Emplumada, temos de lidar particularmente com forças desse tipo, for­ças que não são produzidas por nós mesmos, mas que nos chegam de fontes poderosas, aterrorizantes e fogosas. Que tolo cego! E ele era um de nós, criança? E ele não sabia então que nenhuma espécie de vida, seja espiritual, seja material, é possível sem esse fogo primordial... que, quando é expressado através de nossos corpos, chamamos sexo? A Cri­ação não poderia existir sem ele. Na verdade eu não sabia que fosse possível em nossas fileiras uma ignorância tão completa e idiota.

Como aqueles dias haviam sido felizes, sentia-se tão jovem e ra­diante. E como se sentia cansada e desanimada agora.

A voz de Bäar chegou até ela, a mão dele apertando-lhe o braço:

Sheon-La, você não está ouvindo... Estava lhe dizendo que deveria ser mais cuidadosa na escolha de seus amigos. As pessoas com quem está vivendo estão no topo da lista de suspeitos e podem se tornar perigosas para você também.

Ela pensou: "Perigosas para mim? E em que altura da lista estaria eu, se apenas soubessem que estive noiva do filho do Rei rebelde?" Em voz alta, disse:

São os meus melhores amigos, Bäar. Quando estive muito doen­te e sozinha, eles me receberam, demonstrando-me a maior gentileza.

Mas você não precisa mais deles, querida. Irei cuidar de você agora e é necessário deixá-los. Deixe o círculo em que tem vivido até agora e venha para o meu, para mim.

E se eu não fosse capaz de me importar muito com seu círculo, Bäar? E se, talvez por razões que você nunca seria capaz de compreen­der, eu odiasse os seus amigos?

Ele tomou seu rosto entre as mãos, forçando-a a olhar para si.

O que está tentando dizer-me? Que razões?

A cautela recomendou-lhe então que ficasse quieta. Tentou afas­tar suas mãos, mas viu os estranhos olhos verdes ficarem irritados, sen­tiu os dedos se apertarem, machucando a pele de seus maxilares.

Deixou os braços caírem ao lado do corpo, os olhos bem abertos, negros e muito graves.

Você mal me conhece. Talvez fosse você quem devesse ser cuidadoso na escolha de seus... amigos...

Amigos! — resmungou ele. — Onde arranjou a idéia de que eu desejava a sua amizade? Quero muito mais de você do que isso... que lindos olhos você tem, meu amor... E também não me importo nem um pouco com seu passado.

Ele apertou as mãos enormes ao redor de sua garganta e então, afastando-as, começou a acariciar seus ombros e braços, forçando sua cabeça para trás até que perdesse o equilíbrio e tivesse de agarrar-se a ele para não cair. E beijou-a novamente e mais uma vez.

Depois ouviu-o rir zombeteiro, murmurando: —Amizade!... Não quero ser seu amigo. Quero ser seu amante e seu marido, e isso tão logo quanto possível...

E enquanto seus lábios seguiam lenta e demoradamente o suave desenho vermelho de sua boca, de um canto a outro, seus dedos encontraram um seio, tocaram-no de leve, com surpreendente gentileza, depois se fecharam ao seu redor.

Ela começou a tremer. Era-lhe suficiente saber que quebrara suas defesas e que o resto seria apenas uma questão de tempo... tempo e insistência. O lado estratégico da arte do amor era muito semelhante ao da gueixa, refletiu, enquanto dizia em voz alta:

Está vendo, querida? É isso que quero dizer. E não ouse ser minha amiga... Jamais.

Dois dias depois ele partiu para o norte, numa missão especial. Relatórios haviam chegado dali informando que bandos de rebeldes es­tavam penetrando cada vez mais na região do sopé das montanhas, ata­cando forças policiais locais e patrulhas do exército, roubando armas e alimentos dos armazéns do exército e empurrando as pequenas unida­des defensoras cada vez mais para o sul.

 

Alcançaram a primeira cidadezinha, local de muitas escaramuças, rapidamente. Na pista de pouso Bäar foi recebido pelo coman­dante militar e, de forma automática, começara a interrogar o homem sobre a situação, mas descobriu que tinha dificuldade de concentrar-se nas respostas.

Desde que deixara Dhar, não fora capaz de afastar a imagem da moça de sua mente. Ao beijá-la em despedida, lhe pedira mais uma vez para abandonar seus amigos. Enquanto o fazia tivera uma sensação de­sesperada e urgente de que tinha de convencê-la antes de partir, porque de outra maneira seria tarde demais.

Ela o olhara com firmeza:

— Não, Bäar. É simplesmente impossível. Você não sabe o que está pedindo.

Pelo modo como o dissera, pelo modo como sua voz soara, ele havia detectado algo que o deixou de imediato muito preocupado e o fez sentir ainda mais a urgência de convencê-la. Estava consciente do peri­go e percebeu com clareza que ela tinha razão: na verdade não a conhe­cia muito bem. Suspeitou então que não era apenas uma questão de lealdade para com os amigos, mas que algo muito mais importante esta­va em jogo.

Entretanto, não conseguiu comovê-la e ela devolveu seu beijo de uma maneira gentil, mas fraternal, como se jamais tivesse estado em seus braços, jamais tivesse sentido qualquer paixão por ele. Em seu ca­minho para a nave havia refletido secamente que deveria ter-se lembra­do em tempo que, na guerra e no amor, uma das regras era nunca subestimar o inimigo, em especial se esse inimigo fosse uma mulher.

Enquanto os dias passavam ele ia ficando mais e mais inquieto. As coisas que tinham de ser feitas o eram rápida e eficientemente, mas de um modo mecânico.

Para aliviar essa perturbadora inquietação começou a sair em pa­trulhas com seus homens, patrulhas que com freqüência os levavam a aventurar-se muito para dentro do território proibido e selvagemente belo de Zenhar. Atravessavam riachos, escalavam, ofegantes e suados, rochedos nus; passavam através de profundas e escuras gargantas, e du­rante todo o tempo não encontravam um único rebelde. Na verdade não encontraram ninguém.

Certa manhã Bäar despertou muito cedo. Uma névoa cobria os soldados adormecidos e um dos guardas aquecia-se junto a uma foguei­ra recém-acesa. Bäar se aproximou, conversou um pouco com o homem e tomou a bebida quente que lhe foi oferecida.

Depois disse que iria sair sozinho... eles não deveriam segui-lo.

Mas se lhe acontecer alguma coisa, senhor?

Fez um gesto impaciente.

Nada irá acontecer... e de qualquer modo seria inútil tentar localizar-me se algo acontecer. Não temos chegado a resultado algum... não fomos capazes de encontrar sequer um guia confiável em todas es­sas aldeias. É inútil continuar assim. Apenas os rebeldes conhecem os caminhos por aqui.

O homem assentiu e viu-o afastar-se — uma figura alta, pesada, desaparecendo rapidamente na névoa espessa. Afinal não era preocupação sua se um ou outro oficial imbecil insistia em cometer suicídio.

Foi horas depois que Bäar deu com a trilha escondida, por puro acidente. Ele nunca a teria encontrado num dia claro. Era uma trilha lar­ga, muito usada, e levava para baixo, passando por uma profunda gar­ganta e depois subindo de novo para o topo de uma montanha que, em contraste com os vales cobertos de nuvens, estava exposta ao sol pleno. Estimou que a montanha se encontrava a seis horas de caminhada.

Por um momento pensou em voltar e buscar seus homens, mas então decidiu-se pelo contrário. Ia antes fazer um reconhecimento pes­soalmente.

Quando desceu através da garganta, a neblina se tornou mais es­pessa. Agora não podia ver mais que alguns passos adiante, mas, o que era pior, a brancura macia e silenciosa por toda parte dava-lhe uma falsa sensação de segurança. Caminhou devagar para diante, os pensamentos vagando de volta a Sheon-La e a como ela lhe aparecera naquele último dia. Naquela ocasião sentira-se tão consciente do perigo que teve de controlar-se para não olhar ao redor em busca do inimigo. No entanto estiveram a sós, juntos.

E tão absorvido se encontrava em seus pensamentos que caminhou, calma, esquecida e despreocupadamente para a emboscada que os homens de Zenhar haviam armado para ele. Quando viu as formas silenciosas emergindo da neblina, rodeando-o sem ruído, já era tarde demais.

Bäar girou rápido puxando a espada, mas um braço forte e efici­ente rodeou seu ombro e uma perna fê-lo tropeçar e perder o equilíbrio. Por um instante, reluzindo diante de seus olhos, viu o símbolo intrincadamente trabalhado do bracelete do homem. Seu atacante retirou o braço e girou-o de modo que se enfrentariam.

Ah! Um coronel. Por falar nisso, o que está fazendo tão longe de seus homens, senhor?

Observou a aparência do outro num relance: cabeça orgulhosa, corpo musculoso e bem treinado, olhos grandes, cinzentos e oblíquos, que o avaliavam. Um segundo relance revelou a presença de cerca de vinte e cinco montanheses armados, vestidos apenas de tangas. Ficou parado sem se mover, furioso com a própria estupidez, esperando pelo que sabia inevitável, sem esperar clemência.

Então, como ninguém fizesse um movimento, talvez por desejarem divertir-se à sua custa, disse zombeteiro:

O que estão esperando, você e seus bravos guerreiros? Ou re­ceia não ter homens suficientes para matar um oficial do Rei?

O que lhe aconteceu depois, ali no canyon quieto e distante, co­mo leve de encarar uma situação que nunca havia enfrentado antes, tudo isso ele se lembrou duas semanas depois, quando se encontrava diante de seu chefe, o comandante da poderosa Força Aérea de Aztlan. Percebeu então que agora estava diante da pior crise em toda a sua vida como militar.

Sheon-La fora presa após uma tentativa bem-sucedida de libertar cinqüenta prisioneiros rebeldes da prisão principal de Dhar. Assim que aterrissara, Bäar havia sido convocado ao quartel-general.

O brigadeiro estivera olhando para um mapa da parte do extremo sul das montanhas de Zenhar, gravado numa chapa de fino ouro. Não ergueu os olhos assim que Bäar entrou e, quando o fez, os olhinhos ge­ralmente penetrantes, sob as espessas sobrancelhas, estavam velados como se desejasse testá-lo primeiro.

Vejo que soube da notícia... por isso que o chamei de volta tão cedo. Diga-me antes, o que ela significa para você? Apenas alguém com quem dormir?

Bäar sentou-se lentamente, sem dar uma resposta direta. — Viu- a, senhor?

Sim. Falei com ela

E... — os olhos verdes estavam agora um pouco irônicos, mas o brigadeiro balançou a cabeça.

Não, Bäar — sua voz estava tensa, como se muito dependesse do modo como Bäar iria responder. —Você deve relatar-me a sua posi­ção, sem evasões.

Bäar cobriu o rosto com as mãos, levantou a cabeça e disse em voz rouca:

Eu a amo. Quero casar-me com ela. Ela significa tudo no mundo para mim.

Seria sua imaginação ou viu satisfação e alívio surgirem nos olhos de seu superior? Qual era o significado dessa convocação? Onde estava desejando chegar? Então disse, pensando em voz alta:

Mas, as coisas podem não ser tão ruins, senhor! Talvez alguns espiões rebeldes mentirosos tenham tentado safar-se de dificuldades for­necendo nomes? É verdade que ela era hóspede de pessoas que estavam sendo vigiadas por nosso pessoal, mas...

O brigadeiro, ao último comentário de Bäar, deteve-se, respon­dendo ríspido:

Não se iluda... é muito pior que isso. Ela confessou inteiramente, apenas insiste que ela e os homens mortos durante a rebelião foram as únicas pessoas envolvidas, que não havia outros por trás; isso é absurdo.

Esse tinha sido o perigo que a ameaçava. Mas por que, por que ela tivera de confessar? Talvez eles ainda não dispusessem de provas, talvez tudo não passasse de meras suspeitas. Talvez ele pudesse tirá-la daquilo... tinha muita influência, conhecimentos poderosos em postos elevados... Disse em voz alta:

Mas por que ela confessou? Por quê?

Porque deseja morrer. Está cansada de tudo isso... deseja colocar um ponto final nisso — disse o brigadeiro, olhando com simpatia para o subordinado, que estremeceu diante de suas palavras. — É claro que isso deve feri-lo... ver que ela sequer estava interessada em manter-se viva por sua causa.

Mas como descobriu? Está certo de que ela esteve falando bobagens, contando mentiras grandiosas para fazer-se interessante, para atrair a atenção? Muitas pessoas são assim... — disse esperançosamente, perguntando-se até onde o chefe estaria disposto a ajudá-lo, disposto a fingir que acreditava na inocência de Sheon-La, disposto até a mentir por ele, talvez. Por que, senão com tal propósito, estava se comportando dessa maneira?

Mas o brigadeiro balançou a cabeça, sorrindo um pouco:

Isso é infantil, não é? Mais do que isso, é impossível. Infelizmente há algumas provas muito comprometedoras — apanhou um objeto cintilante de cima da mesa e levantou-o: — Olhe. Isto foi encontrado após o ataque, perto do portão principal da prisão. E perten­ce a ela: embora tenha sido presa, a princípio, apenas sob suspeitas, admitiu logo que era seu. O homem que o deu a ela, de quem era noiva, foi morto em batalha cerca de sete anos atrás — colocou o objeto no colo de Bäar, continuando: — Entretanto recusou-se absolutamente a contar quem foi. Mas olhe por si mesmo... a que tipo de homem um objeto assim iria pertencer?

Apanhando-o, Bäar viu que era ura bracelete masculino de ouro, de muitos quilates, ornado por uma serpente emplumada coberta com pedras vermelhas. A serpente, as asas estendidas, tinha dois rubis por olhos. Revirou a jóia várias vezes, tentando reunir os pensamentos. Onde havia visto o mesmo ornamento antes, e em que ocasião? Ouviu o brigadeiro dizer:

Não conhece o seu significado? A princípio pensei num sacerdote, os sacerdotes da ordem proibida usavam esse símbolo...

Mas Bäar comentou:

Não, este não é um bracelete de sacerdote. Nenhum usa pedras vermelhas. Teria usado diamantes. Sem dúvida é um bracelete de guerreiro. Mas não posso imaginar quem poderia usar... — parou de falar.

Como vinda de grande distância, ouviu a voz de seu chefe, mas não compreendeu a palavra, tão abafada e fraca soava. Além disso, não estava interessado; havia algo que precisava lembrar.

E num relâmpago viu-se de volta àquela ravina misteriosa, gelada e desconhecida, onde a névoa estava começando a clarear e os inimigos o haviam rodeado.

Alguém tinha o braço ao redor de seu pescoço... um braço envolvido por um bracelete. Viu mais uma vez as gemas brilharem, sentiu a mesma curiosidade ao notar o símbolo incomum. E ouviu seu proprietário dizer em tom divertido:

E evidente que suas idéias à nosso respeito estão todas erradas, coronel, o que não me surpreende considerando o homem por quem está lutando. Sim, nós matamos, nós certamente matamos, mas apenas numa luta leal. E nunca assassinamos prisioneiros.

"Aquele bracelete era decorado com uma serpente alada.. Aquele bracelete era idêntico ao que tinha agora nas mãos.

Incrédulo, olhara primeiro para seu captor, e depois para os sol­dados que esperavam em silêncio:

Suponho que isso é dito para enganar-me e facilitar sua tarefa ainda mais... matar-me sem ter de enfrentar qualquer resistência. Que coragem devem possuir, todos vocês, rebeldes, assaltantes e vagabundos que são.

Pelo canto dos olhos viu alguns dos homens se mexerem em óbvia indignação, mas o jovem que o encarava demonstrou apenas uma leve surpresa. Encarando-o por um momento, o rosto novamente impassível e inescrutável, havia ordenado:

Voltem ao acampamento, todos vocês! Relatem ao comandan­te Zenhar o que aconteceu aqui e ouçam com atenção: vocês não devem voltar antes do anoitecer. Está compreendido? — E, quando os homens começaram a se afastar: — Esperem. Deixem as armas do prisioneiro... — Ele desafivelou o cinturão: — Levem todas as minhas armas com vocês.

Um tenente, ao ouvir a ordem parara, consternado, e girara de imediato nos calcanhares, enquanto seus homens estacavam, entreolhando-se e murmurando chocados, incrédulos.

Príncipe, não pode fazer isso. Nunca se deve confiar nos ho­mens de Yahali. Sua vida é valiosa demais para ser arriscada dessa ma­neira. E quando o tiver reconhecido... Estou certo de que Zenhar irá culpar-me até a morte, se algo lhe acontecer. E seu pai...

Mas Ruan, brusco, o interrompera:

Volte, Dizan. Nada irá acontecer comigo. Sei o que estou fa­zendo.

A névoa se dissipara por completo e o sol estava penetrando no canyon, iluminando suas profundezas e secando as samambaias e trepa­deiras molhadas agarradas às escarpas quase verticais.

Quando o último dos homens havia subido a trilha íngreme, desa­parecendo de sua vista na floresta, Ruan apontara para as armas que Dizan jogara contra a vontade aos pés de Bäar.

Perscrutando o rosto de seu inimigo atentamente, para descobrir o que havia por trás desse truque, porque não tinha nenhuma dúvida de que era um truque, Bäar havia se inclinado e apanhado as armas uma por uma, dizendo baixinho que não tinha nada a perder e enquanto ten­tasse descobrir de que modo afinal eles queriam que encontrasse a mor­te, iria procurar tirar o máximo de vantagem de sua posição por ora melhorada:

Então? Mas está tão errado, Príncipe... uma vez que foi assim que o tenente o chamou, o tenente que estava temeroso de que eu o reconhecesse. Foi realmente muito tolo em assumir esse risco; ou pen­sava que eu não iria ver através de suas maquinações?

E, rindo com sarcasmo, pusera calmamente a espada de encontro ao peito do outro. Ruan, sentindo a ponta cortar sua carne, apenas se afastara um pouco, encostando-se contra uma árvore imediatamente atrás de si.

E ele, Bäar, havia pensado: "Quem é esse homem? Ele não demonstra medo... absolutamente nenhum medo. E com certeza está cons­ciente do fato de que, embora seja evidente que seus homens irão voltar assim que possível por outro caminho, terei tempo de sobra para matá-lo antes que eles matem a mim. Ou há alguma outra armadilha escondi­da, uma armadilha que não posso ver?" E dissera, aumentando a pressão de sua espada muito de leve:

Uma vez que parece ser mesmo uma pessoa importante, estou certo de que matando-o prestaria um grande serviço ao meu país e ao meu rei. E quando seus homens voltarem para cá dentro em pouco...

Mas Ruan havia interrompido:

Por que continua pensando que isto é uma armadilha, coronel? Não há nenhuma armadilha. Meus homens não estarão de volta antes da noite.

Ele rira alto então, um riso curto, duro e desdenhoso, pressionando sua espada, esperando que os rebeldes viessem correndo da selva a qualquer momento agora.

Mas nada acontecera. Tudo continuava muito quieto, apenas o ruído leve de um riacho próximo, o grito agudo de um pássaro, o farfalhar de algum animal selvagem na grama molhada e áspera.

Seu inimigo havia colocado uma das mãos contra a lâmina afiada, empurrando-a ligeiramente para o lado, de modo que pudesse voltar-se um pouco, cortando os dedos nesse ato. Com a outra mão apontara para o Norte.

Dê uma boa olhada, coronel.

E, olhando, vira-os com nitidez: pequenas figuras subindo para aquele pico de montanha ensolarado.

E quando ficou totalmente consciente de que ninguém estava escondido por perto para matá-lo, que esse homem extraordinário pretendia realmente fazer o que dissera e apenas isso, perguntara mais uma vez a si mesmo: "Quem é ele?" E então um pensamento tentador surgiu em sua mente aliviada. "As cartas estão todas em suas mãos ago­ra, Bäar. Por que não tirar o máximo delas? Lembra-se de que seu chefe está por se aposentar? Lembra-se que você é o seguinte na fila das pro­moções, com apenas um outro colega? Então pense no que o Rei iria dizer se você matasse ou trouxesse esse homem consigo triunfalmente, como prisioneiro. Triunfalmente? Bem, ao menos haveria talvez muito triunfo, mesmo que apenas na aparência. Ou talvez matar seria mais seguro? E óbvio que ele é muito importante.. Naturalmente seria mais um ato de um covarde... Ainda assim... esse homem é um inimigo do governo, é um rebelde. Por que se preocupa? E você seria honrado, Bäar! Como você seria honrado!

Em sua mente via com clareza o rosto escuro do Rei Yahali, ouvia a voz fascinante a elogiá-lo, notava a inveja nos sorrisos dos colegas, congratulando-o.

Pequenas gotas de suor se formaram em sua testa e vira, perplexo, como sua espada tremia. E enquanto seus lábios se afinavam e endu­reciam, pensara: "Faça-o! Por que não deveria? Você deve fazê-lo... Os seus colegas oficiais não hesitariam em fazer exatamente o mesmo, sem pensar duas vezes. Isto é guerra. Essas pessoas são rebeldes, escória, boas para a destruição. Pelo que está esperando?"

Então, com uma selvagem exclamação de desgosto, havia afastado a espada atirando-a para longe de si num arco amplo, com tanta violência que esta cravara na terra encharcada e se mantivera em pé, oscilando. E voltando-se para Ruan, os olhos sombrios, a mão ainda tremendo:

Por que fez isso? Que direito tinha de testar-me dessa maneira? Merece ser morto pela arrogância que demonstrou submetendo-me a essa tentação!

Seu oponente balançara a cabeça:

Está subestimando a si mesmo, coronel. Nunca teria feito o que para muitos outros teria sido a única coisa óbvia a fazer. De outro modo eu nunca sonharia em me entregar às suas mãos.

E ele, ainda zangado, porque percebia como estivera próximo de fazer aquela coisa imperdoável:

Como podia estar tão seguro... e ainda assim, por que o fez?

Ruan, ainda apoiado na árvore, encolhera os ombros:

Eu o fiz num impulso. O fiz porque você tem a honra escrita no rosto e senti que isso não era apenas algo superficial. Sabia que nun­ca se dobraria à pequenez e ao assassinato — e continuara, apontando para uma rocha larga e chata: —Vamos nos sentar e conversar. Quando conheço um homem como você entre os inimigos sempre lamento esta guerra, porque ela me limita na escolha de meus amigos. E, rindo: — Não fique tão espantado. Nunca sentiu a mesma coisa?

Ele, mistificado, não respondera.

Com certeza deve haver vários entre seus colegas oficiais que são mais inimigos seus do que jamais virei a ser, mesmo se tivéssemos de matar um ao outro algum dia...

E ele, mais uma vez, havia pensado: "Quem é esse homem? Sem dúvida há oficiais que nunca poderia chamar de amigos, que estão sempre fazendo intrigas, e conspirando para prejudicar minha carreira e assu­mir meu lugar".

Hesitando, sentara-se também, percebendo, chocado, que no momento em que começou a falar, já estava se desculpando por lutar do lado do Rei Yahali, tão grande fora a impressão que esse estranho lhe havia causado.

Nasci e fui criado nas colônias... eles nunca se envolveram muito na luta pelo poder entre Yahali e Rahazz, como sabe. Dois anos depois que a guerra terminou, fui transferido para Dhar...

 

O brigadeiro falava, e ele via bem claro agora:

Que diabo lhe aconteceu, Bäar? Você parece diferente, mudado, depois que voltou.

Hem? — disse ele, ainda meio atordoado, respondendo então à pergunta com outra pergunta, enquanto continuava revirando o bracelete entre os dedos: — Quantos homens teriam o direito de usar isto, senhor? — ainda alimentava uma pequena esperança.

Muito poucos. Em realidade, apenas dois. E com certeza não era o pai...

O pai?

Seu chefe franziu a testa, surpreso:

Quer dizer então que não sabe realmente? Eu o soube do momento em que me trouxeram o bracelete. As únicas duas pessoas em Aztlan que têm o direito de usar isto são o Rei Rahazz e seu filho.

Seguiu-se um silêncio longo durante o qual Bäar permaneceu sen­tado olhando para o chão com expressão infeliz e desanimada. Natural­mente. O tenente não havia dito: "Príncipe... não pode fazer isso... se o tiver reconhecido..."?

O brigadeiro não fez quaisquer comentários, mas continuou observando-o calma e curiosamente, perguntando-se o que se passava na cabeça desse homem, um oficial brilhante, mas também um tanto inflexível, rígido e severo demais. Essa, ao menos, era sua impressão até aquele dia. Agora já não estava tão seguro. Parecia tê-lo julgado mal... seria seu amor pela moça que o havia mudado de modo tão impressionante?

Por fim Bäar rompeu o silêncio com um suspiro, perguntando:

Posso vê-la, senhor?

Ele assentiu.

Eu lhe darei um passe, mas tenha cuidado com o que faz. Eles já farejaram alguma coisa.

Bäar pôs-se de pé num instante.

O quê! A polícia secreta? Não! Com certeza isso não é da conta deles, podemos manter isso entre nós. A polícia da Força Aérea é capaz de tratar disso!

Abrindo os braços, as palmas para cima num gesto de resignação, o outro replicou:

Isso foi o que lhes disse também. Deixei claro que a moça era apenas alguém sem importância, uma prostituta comum de oficiais...

Bäar tentou não estremecer.

E...?

Não ficaram convencidos São como cães, você sabe. Farejaram um cheiro forte e estavam excitados. Assim, insistiram em vê-la. E, lógico, eu não podia recusar. Isso teria tornado a coisa ainda mais suspeita. Fui com eles à prisão.

E...?

O brigadeiro sorriu secamente:

Bem, o que espera? Depois que a viram e conversaram com ela, todos muito polidos, como sempre são na superfície, saímos. Então disseram que estavam mesmo surpresos e deliciados por descobrir que as prostitutas dos oficiais da Força Aérea eram tão... hum... diferentes do tipo costumeiro.

Foi tudo que disseram?

Infelizmente não. Fizeram-me um ultimato. Deram-me uma semana para resolver o caso e, se a essa altura eu não tiver resolvido tudo, irão assumir.

Graças a Deus! Uma semana é mais que suficiente. Dentro de uma semana terei o caso resolvido para eles, os odiosos sádicos. Vou mostrar a eles!

Caminhando para a porta, voltou-se de repente para o superior:

Estou muito agradecido, senhor — e, hesitando, examinando interrogativamente o rosto do outro: -— Posso perguntar por que está se arriscando tanto? Eu... para mim... o caso é diferente. Eu amo a moça. Mas por que o senhor? Com certeza não é por mim... ou a conhecia antes?

O rosto do brigadeiro se tornara sombrio e seus olhos vaguearam até o mapa sobre a mesa. Então falou, e Bäar teve dificuldade em entender as palavras, que vinham através de dentes cerrados, num murmúrio feroz:

Não me agradeça! Não, eu não a conhecia antes. Estou fazen­do isso por mim mesmo... para salvar o que ainda sobra de meu auto- respeito, para me sentir um pouco menos envergonhado.

Envergonhado? Com o que, senhor? E um dos homens mais respeitados da base. Eu, pessoalmente, sempre o admirei por sua inte­gridade, sua competência. Nunca tive superior mais capaz, mais justo.

Integridade! Respeito! Ah... mas não pode saber, coronel. Como poderia? Nasceu e foi criado nas colônias, longe de tudo isto. Além disso, é muito mais jovem. Quando a sua carreira mal se iniciava, tudo já estava terminado.

Ele levantou o rosto agora, os olhos ardentes, a voz baixa e deses­perada:

Não, você não poderia saber como era servir a ele. Lutar por ele. Não sabe como me senti quando vi esse bracelete... Reconheci a Serpente Emplumada. Depois de anos! Você não sabe... Como pode­ria?... O que esse símbolo significou para mim no passado. Como ele representava a verdade e a sabedoria, a coragem, a compaixão. A verda­deira grandeza, verdadeira realeza, verdadeira dignidade. Ali... Naque­les tempos eu sabia, uma pessoa sabia o que era lutar por algo em que podia acreditar de todo coração, sem vergonha, sem dúvidas — balan­çou a cabeça com tristeza. — Servi-lo era a maior honra que uma pessoa podia encontrar sobre a Terra. Eu sabia... e sabendo, escolhi servir o outro quando a guerra foi perdida. Tinha muitas posses então... tenho muito mais agora. Yahali foi generoso nas recompensas. Naquela época eu não desejava tornar-me um rebelde desabrigado e pobre. E assim convenci a mim mesmo de que havia na verdade muito pouca diferença entre um soberano e outro. E quando os soldados... nossos soldados, aqueles que lutavam pela Serpente, foram derrotados, quando aqueles meus rapazes que não haviam morrido se encaminharam para suas na­ves e as levaram para lugares seguros ou as destruíram, então... eu, Bäar, eu permaneci e ofereci meus serviços ao outro.

As últimas palavras desse desabafo foram pronunciadas com ódio, como se estivesse falando sobre algo indizível.

Permaneceram olhando um para o outro durante algum tempo, o rosto de Bäar demonstrando perplexidade, mas os olhos verdes muito iluminados e claros, e as feições do brigadeiro pálidas, atormentadas, as espessas sobrancelhas negras contraídas. Então Bäar saudou:

Obrigado por contar-me isso. E estranho como no curso de apenas alguns dias um ponto de vista fixo pode mudar por completo.

Ela estava em pé no canto mais afastado da cela e não se moveu quando a porta foi aberta pelo guarda. Bäar notou como ela colocou as palmas de encontro à parede procurando apoio, mas não se mexeu quan­do entrou.

Rápido, mandou o guarda embora, ordenando que fechasse a por­ta atrás de si. E notou que ao ouvir sua voz ela se moveu apenas um pouco, deu um passo hesitante em sua direção, saindo das sombras, e então parou de novo, indecisa.

Ao clarão das lâmpadas, viu seus olhos incertos e assustados. En­tão ouviu sua voz, rouca, porém distinta:

Olá... Bäar.

Em poucos passos resolutos ele cruzou a cela e a tomou nos braços, sentiu-a agarrando-se a ele de modo febril, escutou-a murmurar:

Oh, Bäar. Lamento tanto. Como eu lamento.

Nada perguntou, sabendo de imediato o que ela queria dizer, sabendo que lamentava tê-lo julgado erroneamente. Que quando o viu entrando não tivera certeza se ele vinha como amigo ou como inimigo. Abraçando-a com força, ouviu-a dizer:

E apenas porque todo esse tempo tive de ser tão cuidadosa, nunca confiar em ninguém, nunca acreditar por inteiro nas pessoas. Isso se tornou um hábito... e então, quando o conheci, não conseguia mais sentir a diferença. Vi tantos amigos leais fugirem e traírem seus camara­das ao primeiro sinal de perigo para si próprios. E afinal, você era... você parecia tanto pertencer ao outro lado. Lamento. Deveria ter sabido.

Ele disse:

Como você poderia saber? Nem eu sabia até há pouco tempo.

Tentou soltar-se, desejando olhá-la no rosto, mas ela não o deixou.

Não. Só quero que me abrace um pouco mais. Apenas um pouquinho para me sentir segura... e junto com você. Tenho me sentido tão horrivelmente assustada e isolada todos esses dias...

Ela sentiu seus braços se firmarem mais uma vez, num abraço que era ao mesmo tempo ferozmente protetor e terno, sentiu a força cálida de seu corpo, e de repente percebeu, maravilhada, a mesma coisa que Ruan havia visto quando conhecera Bäar.

"A integridade quieta, essa força de rocha é real", pensou. "Nenhuma barganha é possível sob quaisquer circunstâncias com o senso de honra, de lealdade deste homem." Por que não havia notado isso antes? Ele nunca negociaria com sua consciência... mesmo sabendo que caminhava direto para o desastre.

E Bäar, sentindo que nunca antes haviam estado tão próximos quanto agora, enterrou uma das mãos nas mechas espessas e macias de seu cabelo, praguejando em voz baixa. Se nunca tivesse se afastado na­quela manhã enevoada, vindo a conhecer o outro... Se jamais tivesse colocado os olhos naquele maldito bracelete!

Ouviu os passos do guarda se aproximando e com gentileza pu­xou sua cabeça para trás, pelos cabelos, para poder olhá-la. Que se da­nasse tudo. Por que havia conhecido aquele outro?

Ouça bem, querida. Tenho um plano para tirá-la dessa confu­são, mas precisa fazer exatamente como digo...

Quando terminou, ela disse:

E depois, Bäar? Que será de sua carreira? Sei quanto o serviço significa para você.

Minha carreira? — ele sorriu e encolheu os ombros. — Há cerca de uma semana arruinei minha carreira por minha livre e espon­tânea vontade, e de modo inteiramente consciente. Você não teve nada a ver com isso.

E seu coração disse: "A sua carreira não foi a única coisa arruina­da. Aquele encontro estranho e inesperado nas montanhas, conseguiu arruinar também qualquer chance de felicidade futura para você com essa moça."

Ele suspirou e beijou as mãos e os olhos dela, e depois, de leve, sua boca.

Anime-se. Vou ajudá-la a sair disso. Enquanto estiver nas mãos da Força Aérea tudo é bastante simples.

Uma vez fora dos portões da prisão, caminhando em direção ao centro da cidade, teve a sensação de que alguém o seguia, o observava, mas controlou-se e não olhou para trás. Pouco depois, sentiu alguém tocar seu braço e viu, caminhando bem junto a si, um homem pálido, alto com a testa larga, vestido de modo muito discreto. O homem diri­giu-se a ele com voz suave e controlada:

Coronel? Sua entrevista, espero, rendeu bons frutos? Quero dizer... também para nós? Ou sua visita foi apenas por prazer?

Desnecessário perguntar o que ele tinha com isso... óbvio que era um deles. Um agente secreto.

Por um curto momento forçou-se a suprimir a raiva que sentiu crescer dentro de si. Então respondeu, em tom agradável e suave:

Bem... como sabe, às vezes é melhor combinar ambos, o pra­zer e os negócios? Devo dizer... desta vez ela colaborou bastante. Den­tro de uns dias é provável que eu tenha alguma boa notícia para vocês, rapazes... Talvez alguns nomes em postos elevados...

O outro pareceu satisfeito.

Obrigado, coronel. Espero que seja bem sucedido. E, a propó­sito, houve um rumor, algo sobre uma jóia que foi encontrada... uma jóia de desenho incomum?

"Raios partam esse homem", pensou Bäar, furioso, mas riu de um modo que esperava ser jovial e bastante estúpido:

Vejo que ouviu sobre isso também, hem? Entretanto não é apenas uma jóia... havia várias. Com efeito, ela tem mesmo uma cole­ção de anéis, colares e braceletes presenteados por seus muitos aman­tes. Tem um dos meus, também, você sabe. Mas até onde eu saiba, ne­nhum deles é muito extraordinário.

Inclinou a cabeça amistosamente para o homem e afastou-se, misturando-se à multidão. O outro não o seguiu, mas ficou por algum tempo, pensativo.

Parecia estar tudo muito chato e desinteressante. Um caso corri­queiro. Ainda assim... a moça na verdade não parecia se encaixar. Ou seria apenas o fato de ter sido treinado para suspeitar demais de tudo e de todos?

Mas por que então, até aquele momento, eles não haviam sido capazes de localizar sequer um oficial que confessasse ter sido seu aman­te? No entanto a maioria deles a conhecia, a admirava, e todos haviam dito que vinha sendo a garota de Bäar durante um bom tempo.

E se tivessem mentido... por que o teriam feito? Caso contrário, por que ela o faria? Toda uma coleção de jóias? Aquele coronel não estaria exagerando?

"Um cavalheiro deseja vê-lo, senhor."

Nehazz, que estivera parado no meio da sala, levantou os olhos com impaciência:

Alguém que eu conheça?

Nunca esteve aqui antes, senhor. É um oficial.

Faça-o entrar — deixou-se afundar numa cadeira baixa e tra­balhada, e apanhou do chão uma antiga guitarra, construída em madeira vermelho-escura.

Mas ao invés de tocar ficou olhando com mau humor para as cordas silenciosas. Poucos minutos antes Vanzaj havia estado com ele e a visita o deixara inquieto e irritado. Tiveram mesmo uma discussão. O jovem cabeça-quente queria sua ajuda para libertar certa moça rebelde, mas quando se recusara terminantemente, o rapaz ficara zangado. En­tão, quando ele próprio retorquira que era sua vida, sua maneira de pen­sar, e tudo o mais, por favor, vá para o inferno, Vanzaj de repente ficara calmo de novo, se desculpara e partira. Do que gostara ainda menos e o deixara inquieto e insatisfeito com o rumo geral das coisas.

Coronel Bäar, senhor.

Ficou tão atônito quando viu o grande oficial parado no umbral que conseguiu apenas continuar sentado, de boca aberta. O que teria acontecido ao homem? Parecia mais magro e seus olhos estavam opa­cos.

Levantando-se devagar, sem esconder o espanto, disse:

Certamente isto é uma surpresa, coronel. A que devo a honra? Talvez tenha vindo afinal para prender-me por atos secretos e rebeldes?

Por favor... — Bäar fez um gesto cansado com a mão — posso imaginar que esteja surpreso. Mas não vamos desperdiçar o seu e o meu tempo com esse tipo de discussão.

Balançou a cabeça ao convite silencioso de Nehazz para sentar- se, depois continuou:

Nunca fomos amigos. No entanto é a única pessoa que será capaz de fazer o que deve ser feito, e que não posso fazer pessoalmente — tirando do cinturão um ornamento cravejado de pedrarias, exibiu-o:

Já viu isto antes?

Nehazz olhou por algum tempo, depois assobiou.

Onde o arranjou?

Não importa. Conhece...?

Claro que sim. Tão bem quanto você. Apenas a realeza usa esse símbolo, em tempo de guerra. Isso pode ter pertencido apenas ao legítimo sucessor do trono Tolteca.

Isso mesmo. E quero que o devolva a ele.

Oh? — Nehazz, atônito, olhou para o rosto do outro, mas não fez qualquer comentário. Com os dedos finos começou a tocar as cordas de sua guitarra tirando uma melodia monótona. Teria ouvido mesmo o que ouviu? E após alguns momentos de silêncio, disse lentamente: — Mas eu pensava que o jovem morreu anos atrás...

Não. Ele está vivo... e não importa como sei — a voz de Bäar estava cortante e peremptória. — Vim vê-lo porque conhece todo mundo. Decerto que há... certos canais. Mesmo que não os conheça, para você é fácil descobrir sem se expor. E quando o devolver, há uma mensagem verbal para acompanhá-lo.

Os dedos de Nehazz, agarrando as cordas, falharam, provocando um som horrivelmente desafinado. Colocou o instrumento no chão com cuidado e levantou-se.

A mensagem é a seguinte: "A moça ainda está viva." — Que moça? — perguntou Nehazz, mais para si mesmo do que a Bäar.

Não. Quanto menos souber, melhor para você — disse Bäar.

Ele irá compreender. O resto é com ele.

E se me recusar? — agora Nehazz era ele próprio de novo, alerta. Mas sabia que jamais iria recusar, uma vez que sua curiosida­de havia sido levada a um ponto quase insuportável.

Por que deveria? — o oficial pareceu genuinamente perplexo, como se tivesse pedido uma coisa muito comum. — Há muito pouco perigo para você... e trata-se de um assunto puramente pessoal entre mim e o proprietário do bracelete — fez uma pausa, um pequeno movimento com a cabeça, e então disse: — Estou muito agradecido, Nehazz. Eu o faria eu mesmo, se pudesse... Mas, para mim, o tempo está se esgotando. Adeus.

Meu Deus — disse Nehazz, olhando da porta fechada para a mesa onde a Serpente Emplumada faiscava e cintilava na luz. E repetiu:

Meu Deus... como ele sabia que eu iria aceitar?

 

No caminho para a nave o agente fez a pergunta sem rodeios:

Que tipo de bracelete perdeu, na noite em que você e seus amigos atacaram a prisão?

A moça voltou a cabeça em sua direção, surpresa:

Mas o brigadeiro deve ter-lhe contado. Ou não o fez? — pensou um pouco, depois encolheu os ombros. — Não me lembro... mas penso que era o que me foi dado por um oficial da infantaria, alguns anos atrás. Um camarada simpático e muito generoso.

Seu nome?

Ela mencionou um nome atlante comum, acrescentando: — ...e ouvi dizer que ele foi transferido para as colônias. — Claro. Transferido. Que beleza! — a entonação foi sarcástica, mas não a pressionou mais. As peças se encaixavam tão bem que estava inclinado a acreditar que todos estavam mentindo juntos, o brigadeiro incluído.

Por algum tempo ficou estudando-a pelo canto dos olhos: um perfil fino, reservado, cílios longos e pesados, uma boca doce. E nada no jovem rosto a demonstrar sequer a mais leve aspereza, o que afinal se poderia esperar diante da vida desregrada que ela admitira ter levado. E então pensou ter detectado algo mais, um leve traço de uma qualidade que não conseguia definir, mas que conhecia bem demais, por experiência. Era uma espécie de propósito que sempre havia encontrado naqueles mais dedicados à causa rebelde. Essa moça tinha-o, embora mascarado com habilidade... ou estaria apenas sendo tolamente suspeito?

De qualquer modo, o caso estaria fora de suas mãos em muito pouco tempo agora. E seus amigos na capital eram com efeito espe­cialistas em arrancar a verdade, mesmo dos rebeldes mais obstinados. Ainda assim, seria interessante saber se tinha razão.

Quando subiram no veículo vermelho, o piloto lhe disse:

Tenho ordens de ir primeiro a Poraj, para apanhar uns prisioneiros ali. Como sabe, é fora de nossa rota e irá custar-nos mais duas horas pelo menos.

Ele assentiu.

Está tudo bem. Vai aterrissar na pista principal?

O piloto balançou a cabeça:

Não, numa menor, na maioria das vezes deserta e de pouco uso. E um pouco afastada da cidade, mas é próxima da prisão... e você sabe que o governo não gosta que as pessoas saibam que ainda há pu­nhados de rebeldes por aí. Isso poderia dar-lhes idéias.

Entrou na nave após uma olhada curiosa na direção de Sheon-La e sentou-se.

A pista de pouso estava localizada na parte oeste de Poraj, uma cidade extensa, movimentada, de mercadores e artesãos. Havia um co­mércio intenso e animado com todas as partes do reino e em todas as épocas do ano navios vindos do mundo inteiro coloriam o bonito porto natural. Quando o aparelho tocou o solo não havia ninguém à vista. A ordem de passar por Poraj havia vindo do próprio Bäar.

O homem grande havia estado esperando por algum tempo, meio oculto atrás das árvores que rodeavam o campo, e quando viu que a nave pousara, começou a caminhar casualmente em sua direção. Vendo os passageiros desembarcarem, contou: a jovem, dois soldados e também aquele agente do governo, e, além disso, é lógico, o piloto. Não pensara que o homem da segurança iria vir também. Este se tornaria o maior obstáculo quando se tratasse de acreditar em sua história bastante fraca.

Cumprimentou o piloto que, após reconhecê-lo, saudou-o.

Houve uma mensagem... receio que o grupo que está esperan­do somente possa vir amanhã. Aconselham-no a passar a noite na cida­de.

Houve um silêncio. O piloto não demonstrou surpresa, os solda­dos claramente não estavam interessados.

Mas o homem ao lado de Sheon-La ficou desconfiado.

E veio pessoalmente para nos dizer isso, coronel? Quanta cor­tesia de sua parte, e desnecessária. Por que não mandou um mensageiro de posto mais baixo? E por que veio tão armado? Há alguma guerra em curso?

"É claro", pensou Bäar, "isso era de se esperar. Por que não pen­sei em alguma desculpa melhor?" Mas, ao invés de responder, cami­nhou na direção do piloto que estava se afastando despreocupado do pequeno grupo.

A voz do agente o deteve:

Talvez seja melhor voltarmos a Dhar agora e virmos buscar os prisioneiros amanhã.

Como quiser — respondeu Bäar em tom despreocupado, sa­bendo que esse era um risco que não podia correr. De volta a Dhar o homem podia descobrir que não houvera qualquer ordem de voar a Poraj. Tinha de ser aqui e agora.

Alcançou o piloto e começou a falar com ele em voz baixa: — Há alguns lugares muito simpáticos nesta cidade, capitão, lugares onde po­deria divertir-se. Por que não vai até lá? A quatrocentos metros daqui irá encontrar todo o transporte que precisar.

O piloto olhou para o superior com um sorriso enigmático. Não era bobo, e o amor desse homem por Sheon-La mais a prisão desta algumas semanas antes eram ainda tema de conversas no refeitório dos oficiais.

E embora nunca tivesse conhecido a jovem em pessoa, havia per­cebido logo que Bäar evitara cuidadosamente olhar a prisioneira. Muito estranho, considerando que ela era de uma beleza deslumbrante.

Baixinho, muito baixinho, respondeu:

Isso é uma ordem, senhor?

Bäar encarou-o de frente agora, a boca firme, mas com um apelo inconfundível nos olhos.

É.

Assim pensei — assentiu o capitão, e continuou no mesmo tom velado: — Precisa de alguma ajuda, senhor? Há três deles, como sabe...

Obrigado, mas não quero que ninguém se arrisque. Esse assunto é inteiramente meu. Darei um jeito... e muito obrigado.

O piloto saudou, girou sobre si mesmo e partiu, num passo fácil e gingado.

Espere aí! Onde pensa que vai? Você terá de conduzir-nos de volta a Dhar agora mesmo — a voz do agente era cortante, de comando, mas inconfundivelmente ansiosa.

O piloto se deteve e, fazendo meia-volta, encarou o homem zan­gado que vinha correndo em sua direção. Zombeteira e insolentemente, replicou:

Você dando-me ordens? Estou mesmo perplexo, amigo. Eu recebo ordens apenas de meus superiores e, definitivamente, não é um deles.

No momento seguinte havia desaparecido entre as árvores que rodeavam a pista, deixando o outro sem fala.

Por um longo tempo ela iria lembrar a tarde passada no campo de pouso estreito e mal cuidado, onde a grama havia crescido alta e selva­gem e sobre o qual as montanhas se inclinavam, os cumes escarpados e ameaçadores.

Por um longo tempo iria se lembrar do rosto de Bäar, voltado para ela com o sorriso rápido e tranqüilizador, o cabelo agitado pelo vento, as feições iluminadas pela luz suave e profunda do sol poente; lembraria do movimento de seus ombros poderosos quando se virou, rápido, para se defender do ataque dos soldados.

Um deles saiu voando por cima da cabeça de Bäar, atingindo o nariz da nave vermelha com um baque surdo. Caiu na grama e não se levantou.

O outro tinha a arma meio sacada quando o coronel acertou-o no queixo com o punho esquerdo, e então atirou-se sobre o homem com todo o seu peso e ambos estatelaram no chão.

O agente secreto sacara sua faca, longa, fina e de aspecto vicioso, e começara a se aproximar dos homens que lutavam, quando a moça estendeu a perna e fê-lo tropeçar.

Ele caiu estendido, a faca foi chutada de sua mão. E então ela estava sentada sobre a sua cabeça, encostando a ponta de sua própria arma de encontro ao seu pescoço, ouvindo a torrente de obscenidades abafadas que ele soltava contra a terra poeirenta.

— Eu devia matá-lo — disse-lhe Sheon-La —, mas o fato é que não gosto de matar, mesmo a vermes como você. No entanto... aconse­lho-o a manter a cabeça quieta... mantenha-a muito quieta. Também suas mãos... sim, assim mesmo.. . Ele não era um homem forte, fisicamente, e, além disso, já sentira como a ponta da faca cortava sua pele. Assim, por enquanto, decidiu manter-se quieto.

Ela não viu o movimento atrás da nave, atenta em vigiar seu ini­migo, inquieta porque sabia que deveria liquidá-lo.

Uma hora antes da partida da nave, Nehazz havia descoberto so­bre o transporte de Sheon-La para a capital e sobre a parada planejada em Poraj. Deixando uma mensagem apressada para Vanzaj, ele próprio e, como disse a si mesmo, apenas por pura curiosidade —, havia aluga­do uma nave e voado a Poraj. No campo de pouso grande, no centro da cidade, descobria, após discretas perguntas aqui e ali, que nenhuma outra nave de Dhar havia pousado naquele dia, nem era esperada.

Depois disso não precisava de muito tempo para deduzir as coisas. Era óbvio que se tratava de obra de Bäar... e tinha a sorte de saber sobre a existência da pista de pouso nos arredores da cidade. Enquanto se dirigia para lá perguntou a si mesmo se Vanzaj teria recebido sua mensagem em tempo e se seria esperto o bastante para saber onde encontrá-lo. Assim, não esperou, e chegou a tempo de ver um dos solda­dos, aquele que desfalecera após a colisão com a nave, quase alcançan­do um Bäar desprevenido, arma na mão.

Quando Bäar ouviu o grito de aviso de Nehazz girou rápido, desviando-se pelo lado no mesmo movimento, mas não com rapidez suficiente, recebendo a faca do guarda em cheio no peito.

Nehazz, correndo a toda velocidade agora, viu pelo canto do olho o homem sobre cuja cabeça a moça estivera sentada, jogar Sheon-La para o lado. Agora também estava correndo na direção do lugar onde Bäar estava num corpo a corpo com seu atacante.

Então aqui está o adeus definitivo à neutralidade — disse Nehazz em voz alta para o mundo em geral, perguntando-se ao mesmo tempo por que havia vindo armado se realmente desejava permanecer um mero observador.

Era rápido e seguro com suas pernas finas, musculosas, e seu bra­ço não tinha perdido muito de sua força desde os dias em que vencia muitas disputas esportivas. Notando agora que o agente secreto se ocu­pava mais uma vez com a moça e assim não constituía um perigo imedi­ato, agarrou o soldado sobre Bäar pelo cabelo longo e deu-lhe um puxão hábil e maldoso. O homem berrou, saltando de cima de um Bäar visivel­mente enfraquecido, e voltou-se surpreso, para enfrentar esse novo peri­go. Apoiando-se num cotovelo, Bäar tentou levantar-se, sentiu-se tonto, e havia grandes nuvens negras embaçando sua visão e um sabor morno na boca. Vagamente ouviu a moça gritar de fúria e angústia quando foi derrubada pela segunda vez e viu com uma sensação de horror o seu inimigo saltar na direção de Bäar já ferido.

Bäar recebeu o impacto total do corpo do homem. Houve uma dor lancinante em seu peito, mas ainda mais lancinante foi o pensamen­to de que esta luta ele tinha de vencer a qualquer custo. Esse homem tinha de ser morto antes que sua força se esvaísse, ou a jovem estaria perdida.

E apesar das nuvens negras estarem redemoinhando, sua raiva e seu desespero levaram-no a fazer as coisas certas. Conseguiu ter o pes­coço do homem na curva do braço e, apesar de mal poder ver qualquer coisa, confiou no instinto de seus dedos para orientar sua força. Apertou sem piedade até que seus músculos pareceram se partir e o sangue jorrar de sua ferida, cobrindo a ambos, sua vontade forçando o corpo a fazer o que queria. Sentiu os movimentos convulsivos do homem, sentiu-o cra­vando as unhas em seu braço, chutando o ar e a terra. Uma dor insistente fê-lo ofegar, mas não cedeu. Quanto tempo o inimigo ainda iria resistir?

"Obedeça-me, corpo", pensou, "obedeça-me apenas um pouco mais e então você poderá descansar para sempre". Então uma voz mas­culina disse:

Basta agora... relaxe... você pode soltá-lo. Ele não ficará mais morto do que está.

Então sua vista clareou e viu o rosto magro inclinado ansiosamente sobre si. Alguma coisa era muito engraçada, pensou. Mas o que era? Lembrou-se e sorriu para os irrequietos olhinhos escuros:

Está vendo, Nehazz? Eu não estava certo em desconfiar de você? Olhe de que lado você lutou hoje!

Quando Nehazz lhe sorriu de volta, lembrou-se de mais alguma coisa:

No meu cinturão. Retire-a depressa. É a chave da casa do bri­gadeiro em Poraj. Na estrada para Dhar... a estrada antiga. Está deserta. Esconda a si mesmo e à moça ali e vá ao norte o mais rápido que puder.

Ficou em silêncio, sentindo-se muito cansado e desgastado. En­tão esse era o fim, o fim de um guerreiro. Como era bom deitar-se e saber que ela estava segura, e como era bom e estranho saber que Nehazz estava ali para fazer o resto. Fechou os olhos. Quando os abriu de novo, o rosto dela estava ali, e ela chorava, e seus lábios baixaram muito suavemente sobre os seus. Ela murmurou:

Bäar, meu amor...

E ele suspirou:

Oh, garota dos olhos grandes e do espírito fogoso! Eu a amo muito... — e então, rapidamente, antes que as nuvens se fechassem de vez, fez a pergunta que estivera em seu coração desde que soube a quem pertencia o bracelete. Diga-me... Se... ele voltasse agora, neste momen­to.... Qual de nós escolheria?

Ela não hesitou sequer por um segundo.

Você ainda não sabe? Se eu tivesse de escolher entre vocês dois? — começou a afastar o cabelo dele da testa encharcada e sua voz ficou muito clara e terna: — Quem mais poderia ser senão você? E sempre, e novamente você?

"Pergunto-me se ela está sendo sincera, pensou Nehazz. Mas, a luz gloriosa naqueles olhos verdes, a felicidade naquela boca severa!"

E Bäar ergueu a mão direita, admirando-se vagamente diante de seu estranho peso e acariciou o rosto de Sheon-La com os dedos man­chados pelo próprio sangue.

Ela colocou os lábios em seu cabelo, muito de leve, tomando cui­dado para não incomodá-lo com seu peso, sussurrando algo que por algum tempo conseguiu manter a escuridão afastada de seus olhos.

Pouco depois disso veio a quietude da morte.

Ao seu lado, ouviu o homenzinho dizer... de onde havia vindo e quem seria?

Ele era uma pessoa muito especial, não é?

"O vento está frio... não percebi antes o quanto", pensou ela. "E como está tranqüilo e suave o brilho vermelho do sol sobre o seu rosto."

Disso também iria se lembrar por longo tempo.

 

Como Bäar havia indicado, a casa do brigadeiro ficava na antiga estrada de Dhar a Poraj. Uma mansão imponente, estava quase com­pletamente escondida da vista por uma vasta selva de altos arbustos e grossas árvores antigas. Aqui e ali, entre o capim alto, punhados coloridos de flores, sobreviventes do que fora antes um jardim lindo e bem cuidado, lutavam desesperadamente pela vida.

Bäar, com sua costumeira meticulosidade, havia deixado a casa bem estocada de alimentos e outros suprimentos, de modo que não havia necessidade de saírem. Ousavam aparecer apenas à noite, para um passeio pelo extenso jardim.

Várias vezes Nehazz esteve a ponto de revelar à jovem o que o aeronauta lhe havia contado sobre o bracelete. Antes de tudo queria estar certo de algumas coisas, até ali não muito claras. E desejava honrar o homem morto seguindo seu pedido tão literalmente quanto possível.

Antes de partir para Poraj fizera contatos prometedores, e fixara a data para um encontro na movimentada cidade. Assim, na quinta noite após a fuga, enquanto a jovem estava dormindo, ele saiu, para a estrada deserta, dirigindo-se ao encontro.

Localizou numa taverna o homem que lhe havia sido descrito, um indivíduo quieto, franzino, com o rosto cansado e uma voz macia e murmurante.

Escolheu uma mesa num canto, à sombra da grande porta, e pediu vinho para ambos. Nenhum dos outros freqüentadores parecia interes­sado nele ou em seu companheiro. Então começou:

Recebeu minha mensagem? Pode identificar-se?

O outro mal moveu os lábios:

E você, pode? Foi-me dado a entender que você era de fora... mas que havia uma importante mensagem pessoal para alguém.

É verdade. Para ser transmitida pessoalmente por mim. Como e onde posso encontrar a pessoa em questão?

Mas o homem sorriu de leve, balançando a cabeça.

Você não me satisfez. Poderia ser uma armadilha. Nesse caso eu já me comprometi. Com certeza não pretendo trair também o seu paradeiro.

Poderia ser uma armadilha — concordou Nehazz. — Mas tal­vez isto sirva? — colocou o bracelete sobre a palma de sua mão, que estivera oculta sob o tampo da mesa.

Inclinando um pouco a cabeça, o homem viu a serpente incrusta­da de jóias e de repente ficou muito quieto, com as mãos imóveis sobre a mesa. Tomou um longo gole de vinho antes de olhar para Nehazz.

Ainda poderia ser uma armadilha. Talvez o bracelete tenha sido roubado, ou perdido por ele.

Nehazz não respondeu, ficou apenas olhando-o firme, esperando. Então o outro pareceu chegar a uma decisão abrupta.

Há uma grande feira se realizando aqui, inaugurada ontem. Depois de amanhã à noite, ele estará lá. O resto é com você. E obrigado pela bebida.

O homem se levantou e se foi sem desperdiçar tempo em cum­primentos, deixando Nehazz com o problema de como descobrir en­tre os milhares de visitantes da feira a pessoa pela qual estava procuran­do.

As construções onde a feira —um evento anual — estava sendo realizado não eram mais do que galpões altos, espaçosos e abertos. Os pisos e os pilares eram construídos de mármore brilhante de incontáveis tonalidades diferentes e os tetos eram móveis, de modo que o ar livre poderia ser admitido ou não à vontade.

Naquela noite a torrente de visitantes parecia interminável e, co­mo o mármore, suas peles surgiam numa impressionante variedade de tons, dentre os quais o moreno-dourado da raça atlante predominava.

Mais tarde ninguém soube dizer com precisão em que momento o murmúrio de vozes numa das enormes construções começou a dimi­nuir e quando as pessoas ali presentes haviam parado para reunir-se e ouvir.

Todos concordavam, porém, que era muito além de meia-noite quando naquele determinado pavilhão um jovem saltou sobre um grande baú revestido de prata, trabalhado em mil detalhes, com vários símbolos, um tipo de trabalho famoso numa pequena cidade bem ao sul.

A multidão esperou curiosa, querendo saber que mercadorias esse homem tinha para vender e de que maneira iria convencê-los a comprar coisas perfeitamente sem valor por preços ridiculamente altos.

Esperavam que tivesse uma técnica especial e interessante que valesse a pena observar e na certa o grande cão-lobo deitado a seus pés, era parte do jogo. Os vendedores de drogas milagrosas e poções amoro­sas eram muitos e alguns deles tinham métodos muito convincentes.

Desde cedo naquela noite, Nehazz estivera perambulando pelos pavilhões, alerta para cada evento ou rosto incomum, mostrando um interesse especial pelos robustos mercadores montanheses, em suas rou­pas coloridas, sorrindo, pelo seu óbvio desprezo pelos moradores das terras baixas.

"Talvez alguns deles pertençam a tribos rebeldes", pensou. "Tal­vez mesmo estejam aqui por algum outro propósito que não comerciar. Se ao menos eu soubesse as diferenças entre eles, poderia chegar a des­cobrir onde encontrá-lo."

Era mais de meia-noite quando, bocejando abertamente, notou como na construção mais ao sul uma multidão estava se formando. Pôde ver a figura de um homem elevando-se acima dos outros, mas estava longe demais para ver suas feições.

"Eu poderia muito bem ouvir esse aí, antes de ir embora", pensou, suspirando. "Talvez isso me ajude a me manter acordado. De qualquer modo, esta noite foi desperdiçada."

Começou a abrir caminho através da multidão, os pensamentos agora concentrados no problema de como alcançar a segurança das montanhas sem um guia confiável.

"Vou esperar e ver como esse homem vende seja o que for que tem para vender e então irei para casa", jurou a si mesmo. "É inútil ficar mais tempo. E antes de partir tentarei fazer amizade com aquela gente das montanhas e lhes pedirei sem rodeios que me indiquem um guia. Por que não?"

Pisando repetidas vezes em pés e murmurando desculpas auto­máticas, deteve-se apenas quando atingiu a primeira fila. Cruzando os braços sobre o peito, ergueu o olhar com um sorriso sonolento e abor­recido. Primeiro notou o cão dourado e então, espantado e plenamente desperto, avaliou seu dono com um relance dos olhinhos vivos. E prendeu o fôlego.

"Se esse daí tem algo para vender", pensou, "eu sou o rei de Aztlan. Ou terá a nossa nobreza atual caído tão baixo que seus membros devem submeter-se a isso para ganhar dinheiro?"

O que viu foi um corpo ereto, vestido numa tanga vermelha apertada e uma túnica amarela de mangas curtas, acinturada, deixando ex­postas as pernas longas e esplendidamente musculosas.

Viu também o rosto ardente, bronzeado ao extremo, o que só po­dia ser por causa de meses de contínua exposição ao sol das grandes altitudes; um nariz fino e reto, maçãs altas e olhos escuros e indagadores.

Olhando para os outros, notou uma ligeira curiosidade na maioria dos rostos, aborrecimento em outros, mas, também uma crescente perplexidade nas expressões de alguns dos homens e mulheres mais bem vestidos.

Quando o jovem ergueu ligeiramente o braço direito para silenciar a multidão murmurante, viu nítida a parte onde seu antebraço tinha a pele bem mais clara que o restante.

"Justo a largura de um bracelete de guerreiro", pensou Nehazz olhando logo para o outro braço, esperando ver a mesma faixa larga, denunciadora, de pele moreno-clara.

Mas não havia qualquer sinal de uso recente de bracelete. O braço esquerdo do homem, desde a bainha da manga até as pontas dos dedos, estava inteiro e uniformemente bronzeado.

Nehazz exalou um suspiro bastante satisfeito, e então, apalpando o cinturão, sentiu sua satisfação transformar-se em desânimo. Havia esquecido de trazer o bracelete.

Povo de Aztlan! É tempo de agir... Não, não estou falando para aqueles que, drogados pelo poder e cegos pelo brilho das riquezas e da posição não mais discernem entre a justiça e a injustiça, a verdade, a falsidade, não para aqueles cuja voracidade é tanta que estão dispostos a seguir qualquer caminho que leve à sua satisfação...

"Estive equivocado", pensou Nehazz. "Este jovem tem algo a vender afinal... embora receio que vá encontrar poucos compradores."

...mas estou falando àqueles que, por muito tempo, têm ficado, inquietos e infelizes, por causa daquilo que está acontecendo em seu país... mas que não ousam agir, ainda não ousam agir, não desejando colocar em perigo suas vidas e as de seus entes queridos.

"E estou falando também para aqueles que até agora têm sido capazes de viver suas vidas em relativa segurança porque... até agora... a polícia impiedosa e os falsos sacerdotes de Yahali os têm deixado em paz. Aqueles que, temerosos de perder mesmo a pouca segurança que têm, não se atrevem a se levantar contra a crueldade e o terror...

"...Sim, e estou falando para aqueles que estão se esforçando a fechar os olhos porque abri-los iria tornar a vida insuportável, abri-los iria forçá-los a ver a injustiça reinar, o horror crescendo, a violência infligida em nome de um governante frio e inescrupuloso...

"...Aqueles que em confronto com sua própria consciência, que lhes grita que ajam, não o ousam, uma vez que agir iria levá-los ao sofrimento, exílio, tortura e morte. Para todos esses estou falando... para você, você e você!

"Filhos deste grande país... filhos de meu país, meu Aztlan, olhem ao redor de si..."

"Será possível que eu esteja mesmo excitado?" ponderou Nehazz, aturdido. "Eu, o cínico, o cético, o intelectual aborrecido? Que eu esteja de fato louco e completamente excitado até o cerne por tudo isso?"

Um homem tentando sair da multidão deu-lhe um encontrão. Viu um rosto esperto, uma boca fina e zangada, demonstrando determina­ção.

Reconheceu logo o outro pelo que era: um agente do governo a caminho de avisar os soldados. "Ah, filho de Rahazz, é melhor você luminar seu discurso, e rápido", pensou.

- Povo de Atzlan... o que foi feito da compaixão, da bondade e da compreensão? E da sabedoria pela qual nosso país já foi famoso em todo o mundo? E dos ensinamentos dos Seres Sábios, filhos da Serpente, que confiaram à nossa raça os gloriosos segredos? Vocês esqueceram? É possível que vocês... que nós... esquecemos?

Uma comoção atrás de Ruan atraiu a atenção de Nehazz. Uma dúzia de homens da montanha estavam parados formando um cerrado semicírculo atrás do orador. Ruan ouviu os ruídos e os murmúrios, mas não se virou. Sabia que os homens de Zenhar haviam chegado.

Exasperado, seu amigo exclamara: — Falar ao povo na Feira de Poraj! Em público! Homem, você deve estar insano. E para quê? Supo­nho que você esteja esperando que ao final de seu maravilhoso discurso eles irão todos reunir-se ao seu redor, para aplaudir loucamente e mar­char na direção da capital, seu número aumentando, aumentando e aumentando pelo caminho? E que irão assaltar o palácio... não importam aqueles poucos soldados piolhentos... expulsar Yahali, e viveremos felizes para sempre depois?

Rira com gosto diante dessa imagem. — Certo, não há ninguém como você, Zenhar. Mas, não estou supondo nada desse tipo e...

Nesse ponto Zenhar havia começado a gritar com ele: — Mas por que, por que e por que você quer fazê-lo, então? Não é apenas que não vão escutá-lo. Estarão muito mais inclinados a linchá-lo ali mesmo, ape­nas para mostrar àquele rei imprestável que súditos leais eles são.

Ele percebeu como seu amigo estava preocupado, ainda mais por­que ele próprio não poderia acompanhá-lo. O Rei necessitava dele numa missão urgente, cuja importância ambos conheciam.

— Sei disso... ainda assim preciso mostrar a eles... àqueles que estão do nosso lado. Preciso dizer-lhes que não estão tão desesperadamente sozinhos como pensam, que ainda têm amigos, aliados, pessoas que sentem como eles... e, mais que isso, que estão preparadas para enfrentar qualquer perigo para prová-lo.

Zenhar acalmou-se. — Mandarei meus melhores homens com você... e se deixarem que alguma coisa lhe aconteça... —, estava fican­do furioso de novo, — mandarei cortar suas gargantas.

E, para os doze homens que selecionou mais tarde, comandados por Dizan, repetiu isso de forma menos brutal.

Dizan havia assentido logo. — Certo. Se algo acontecer ao Prín­cipe, nenhum de nós voltará para relatá-lo. Sua morte será nossa morte.

Eles chegaram à feira um pouco mais tarde que Ruan, tendo-se escondido na vizinhança até aquele momento. Uma vez que pertenciam aos homens mais confiáveis de Zenhar, todos tinham desempenhado papéis ativos e variados nos incontáveis ataques às guarnições do norte. Aqui, na Feira, fervilhando de visitantes de todas as partes do país, havia o perigo real de serem reconhecidos.

Um espectador, irritado pela maneira rude pela qual estava sendo empurrado para o lado, levantou a cabeça e abriu a boca para protestar. O rosto moreno e os olhos carrancudos que o examinavam fizeram-no mudar de idéia, engolir em seco e afastar-se apressado.

...e quanto à Verdade? Acima de tudo, meu povo... e quanto à Verdade? A única Verdade que resiste através das eras, a de que o ho­mem é Um, que a Humanidade não passa de Um Ser, embora suas for­mas sejam múltiplas? E que, portanto, aquele que sacrifica, mata e inva­lida seus irmãos nos altares de deuses, não importa quão elevados, por propósitos não importa quão nobres, não sacrifica senão a si mesmo? Pois não está assim preparando para si mesmo, em futuros próximos ou distantes, o mesmo destino cruel, uma vez que ele e seus irmãos são Um e nunca podem ser separados?

Quando Nehazz, na beira da multidão, viu o agente voltar, avançando devagar entre o povo, um sorriso satisfeito no rosto, soube que não havia tempo a perder. O primeiro grito do homem do serviço secreto encontrou-o já no ponto mais estratégico da Feira — de onde as luzes eram controladas.[3]

Um traidor... Um rebelde! — gritou o homem. — Derrubem- no! Não o deixem fugir! Matem-no!

De imediato o grito foi ecoado pela multidão, contente por alguém ter tomado a iniciativa, ter-lhes indicado a maneira mais segura de escaparem ao perigo e à perplexidade. Os que se achavam à frente avançaram para o orador, tentando agarrá-lo pelas pernas... mas apenas para recuar, apressados, caindo uns sobre os outros, diante dos dentes arreganhados de um furioso Tzal.

Os soldados alertados pelo agente estavam agora chegando de todos os lados, apertando o círculo ao redor de Ruan que, com um asso­bio para o cão, saltou para trás, para o meio de seus amigos.

—Abaixo todos os traidores e inimigos de Aztlan — gritou Nehazz com todas as forças, a mão voando para o interruptor.

No instante anterior ao estabelecimento da mais completa e ines­perada escuridão, viu como um dos montanheses o observava com interesse e curiosidade.

Depois disso, a confusão foi indescritível.

Nehazz tentou achar o caminho na direção de Ruan e seus homens, praguejando e guinchando tão forte como o resto, embora com os ouvidos alertas para sons reveladores. Em certo momento, a cauda peluda do cão roçou em suas pernas, seguida por um rosnado baixo e um grito de dor.

"Um cão muito ocupado", pensou Nehazz, sorrindo, tentando manter-se na trilha de Tzal.

Uma vez fora, onde a lua crescente proporcionava uma luz incerta, correu atrás do que pensava serem os homens que procurava. "Se eu os perder agora, nunca os encontrarei de novo", pensou, notando com desagrado que já não era tão bom em corrida quanto havia sido outrora.

E quando alcançou o grupo que estava perseguindo, descobriu serem soldados de Yahali, olhando-o com desconfiança. Ofegando, disse:

Tentei alcançá-los... vi aquele homem com o cachorro... correr naquela direção... — e apontou ao acaso, uma vez que de qualquer for­ma não tinha a menor idéia da direção.

Recomeçou a correr, agora mais atento a alcançar o esconderijo do que a encontrar os rebeldes. Logo iriam começar uma busca minucio­sa pela cidade, em seus arredores imediatos. A casa do brigadeiro deixara de ser segura.

Estava perto da casa, agora. Havia apenas um rio estreito a atra­vessar, e depois disso um campo, e estaria no terreno logo atrás da man­são abandonada. E então chocou-se contra algo ou alguém, não soube o que, abraçou a pessoa ou objeto para evitar a queda e sentiu-se atirado com violência ao solo.

Alguém praguejou:

Saia de meu caminho, seu idiota desajeitado.

Havia homens parados por toda a parte, formas silenciosas emergindo das sombras. Sem fôlego, levantou-se, devagar, tentando pensar. Estavam todos armados... soldados tão perto do esconderijo? Se encontrassem a moça.

"A única coisa a fazer agora é correr de novo, mas desta vez na direção oposta, para afastá-los da pista", pensou. Mais tarde sempre poderia explicar que imaginara serem bandidos e ficara assustado. Po­deria dar uma dúzia de explicações, era muito bom nisso.

Mas não avançou mais que alguns metros antes que o agarrassem. Seus braços foram forçados para trás e foi arrastado para um lado da estrada, onde havia outros parados. Mais adiante, um pouco escondido pela sombra de uma grande árvore, avistou o cão, imóvel ao lado de seu dono.

Suspirando com imenso alívio contou-lhes que era também um fugitivo e sobre a jovem escondida na casa e seus esforços para encon­trar alguém que os guiasse para lugar seguro.

Dizan estava cético e sarcástico:

É engraçado — observou — como as pessoas viram rebeldes exatamente ao nos encontrarem. E uma espécie de magia que possuí­mos, parece.

Nehazz não disse nada. O homem estava certo.

Suspirando, pensou na mensagem de Bäar. Mas ninguém iria acre­ditar nele agora. E não tinha o bracelete consigo.

Por que não vão até a casa para verem por si mesmos? — E, a propósito, é um bom lugar para todos se esconderem...

Um dos homens que o seguravam girou-o de repente e olhou para seu rosto, dando um grunhido satisfeito.

Penso que talvez esteja dizendo a verdade, tenente — disse ele. — Estive observando este homem desde o princípio. Foi ele que desligou as luzes.

Dizan, preocupado porque as coisas estavam saindo pior do que havia esperado, assentiu:

Tudo bem. Mostre o caminho. De qualquer modo, se isto for uma armadilha, você será o primeiro a morrer.

Mas embora o tenente e seu prisioneiro se adiantassem, os homens não os seguiram, ficando a olhá-los, incrédulos e chocados. Dizan, já uma dúzia de passos silenciosos e impacientes à frente, olhou para trás, mal-humorado, sibilando uma ordem, quando notou a incompreen­sível demora dos outros.

Então ele próprio estacou, lembrando-se de algo. Quando girou sobre os calcanhares, refazendo lentamente seus passos, Nehazz pôde ver, mesmo à luz fraca da lua, que havia ficado pálido e parecia muito envergonhado. Parado diante de Ruan, toda a sua impaciente arrogância desvanecida, disse humildemente:

Desculpe-me, Príncipe. Quem sou eu para dizer o que deve ser feito ou não, uma vez que está presente? Como foi que pude... — com isto, se calou.

Mas Ruan, com um gesto, dispensou-o de maiores explicações.

Compreendo perfeitamente, tenente. O comandante Zenhar encarregou-o de proteger-me. Assim, a responsabilidade é inteiramente sua, e as ordens devem ser suas, também. Quanto a este homem... — fez um sinal com a cabeça na direção de Nehazz —, não há traição nele...Hum... ao menos não agora — e dirigindo um rápido sorriso a Nehazz: Ele é um de nós, embora apenas há poucas semanas, e ainda está atordoado por seu novo papel. Você pode confiar nele.

Como sombras fantasmagóricas, eles deslizaram pelos campos arados atrás da Feira.

Quando por fim, os contornos da grande casa foram vistos atra­vés da mata que a rodeava, Dizan parou:

- Penso que seria melhor que esperasse aqui, Príncipe. Nós ire­mos ver se tudo está em ordem lá dentro. Deve ser protegido acima de Ilido.

Ruan, sorrindo de leve, não protestou.

Mais tarde não saberia o que o fizera escolher aquela direção, nem por que havia começado a caminhar, ao invés de esperá-los ali. Mas, além de uma forte urgência de ficar só um pouco, havia algo mais, algo indefinível.

Sob os seus pés a trilha era musgosa e macia, e havia um odor de flores silvestres. As árvores, paradas e amigáveis, estavam filtrando miríades de feixes enevoados de luz bruxuleante, cujos padrões muda­vam a cada hálito do vento.

Houvera pouca reação naquela noite, pensou, apenas agora admitindo francamente a si mesmo que ficara desapontado. As pessoas havi­am parecido mais atônitas do que ansiosas por suas palavras, e quando os soldados vieram... rápido demais... não hesitaram em dar aquele gri­lo selvagem reclamando sangue, o grito da multidão assassina.

Mas o que, então, esperara? E os poucos que haviam sentido algo não iriam mostrar seus sentimentos naquele lugar público. E, no entanto...

...— mas eu conheço você. Eu os vi a levá-la... os soldados... depois da grande batalha.

A voz, uma voz masculina, zombeteira e maliciosa, cortando seus pensamentos, fê-lo estacar de imediato. Ao seu lado, o cão se agachou, rosnando.

Acalmando-o com a mão, manteve-se imóvel, parado à margem de uma clareira em cujo centro se via um pequeno lago. O lago era ali­mentado pelo riacho que haviam atravessado antes naquela noite.

A voz, continuando, vinha do outro lado da clareira.

— Todos os seus parentes haviam sido mortos e você estava intei­ramente só naquela casa...

Mantendo-se na sombra, cauteloso, Ruan começou a arrastar-se devagar ao redor do espaço gramado aberto, guiado por aquela voz de­sagradável, que falava com firmeza.

Quando afinal viu seu dono, estava apenas a poucos metros, com­pletamente escondido pelas árvores e pelo capim que chegava à cintura. Quando parou e se abaixou, o cão fez o mesmo, sem qualquer ruído. Eram duas pessoas, via agora. O homem estava de frente para ele, mas a jovem voltava-lhe as costas e, além disso, estava semi-encoberta pelos galhos de espessa folhagem.

Começou a arrastar-se para ainda mais perto. Essa devia ser a moça sobre quem Nehazz estivera falando. E o homem? Nehazz não dissera nada sobre o homem. Por um instante, pensou em revelar-se a eles, mas o homem obviamente não era amigo e poderia haver mais de sua espécie nas imediações. E não desejava causar problemas desneces­sários ao já super preocupado Dizan.

...que sorte extraordinária! Quando descobrimos o corpo de seu amante e os dos outros naquele campo de pouso, ficamos todos no escuro. Interrogar o piloto não ajudou em nada. Como o chefe ficou furioso!... Recebemos ordens especiais... — ele balançou a cabeça — estão procurando você por todo Aztlan, mas parecia não haver esperan­ça. E então, passar por esta casa hoje, pura sorte, eu não estava procu­rando por ninguém. E vi você. É claro, fiquei curioso. O que uma moça estaria fazendo aqui, sozinha, no jardim de uma casa abandonada, a essa hora da noite? Então comecei a segui-la, com esperanças, no mínimo, de uma aventura agradável.

Alguma coisa em Ruan estava profundamente inquieta. "Gosta­ria de ver o rosto dela", pensou. "Como gostaria de ver seu rosto. Por que ela não diz nada? Por que se mantém tão quieta?"

Esticou o pescoço para vê-la melhor, mas ele via apenas a espes­sa massa de cabelo negro, a curva de um ombro jovem.

Você não se lembra da noite após a grande batalha? Não se lembra do que fizeram a você? Você não pareceu gostar muito, não é mesmo? — ele riu alto: — Oh, sim. Tenho absoluta certeza de que é a mesma moça. Não se lembra? Eu fui um deles...

"Estranho", pensou Sheon-La, "mas eu não sinto mais nada" nem mesmo repulsa, ao lembrar-me." E então, tinham-na violentado... Ti­nham usado seu corpo para satisfazer sua fome masculina. E daí?

"Ela sequer reage", pensou Ruan, notando o cansaço e o desâni­mo no modo como estava parada, ouvindo resignada, o inimigo.

O agente disse:

Então agora você pensa que nada mais pode feri-la? Não tem medo de morrer, talvez até dê boas-vindas à morte, não é assim? Mas está tão errada, minha querida. Não tem idéia de como a vida pode ser insuportavelmente longa, mesmo uns poucos segundos antes da morte, quando nossos especialistas, meus colegas, começam a trabalhar...

Ele esperou um pouco para deixar as palavras penetrarem, mas como não houvesse a mínima reação, mudou abrupto de tática e de tom:

Mas por que deixar seu lindo corpo ser estragado por eles? — agora a voz estava suave. — Por que não me contar tudo que sabe... e então eu poderia decidir deixá-la ir em paz? Pois o que é uma moça diante da força e do poder de Aztlan?

Deu um passo em sua direção:

Por que não começar agora, por exemplo? Qual é a verdade sobre aquele bracelete que perdeu perto da prisão? Se soubesse como estão todos morrendo de vontade de saber sobre aquele bracelete mis­terioso...

No meio do capim, a mão de Ruan apertou a pele do cão. Algo que não ousava dar nome estava nascendo nele. Uma esperança louca, embora impossível, incrível e insuportável.

De repente a moça riu alto. "Oh, eu irei contar-lhe", pensou. "Isto ao menos posso contar sem ferir ninguém. Oh, sim, irei contar-lhe. Vou atirar a verdade em seu rosto repulsivo."

Ruan viu-a voltar-se ligeiramente. Algo cintilou contra o céu pá­lido, iluminado pela lua, quando ela, ainda rindo, levantou o braço:

Olhe com atenção... este é o bracelete! Este mesmo!

Uma voz clara, baixa, com a qual sonhara durante anos. Enter­rando os dedos ainda mais no pêlo sedoso do cão, Ruan sentiu a gargan­ta se apertando. Não podia ser... Afinal a voz não havia sido mais que um sussurro... e sussurrando todas as vozes parecem iguais. E então seus olhos captaram a cintilação da jóia ao luar e não precisou de um segundo olhar para reconhecer o símbolo.

Com um grito rouco pôs-se de pé, justo quando ela dizia, zombeteira:

Está silencioso, senhor? Devo descrever-lhe o desenho?

Sheon-La viu o ornamento de ouro passar voando junto dela, antes que o significado das palavras lhe chegasse. Ouviu um grito estranho começando num semi-murmúrio, mas terminando num grito rouco de júbilo.

Deixe-me dizê-lo por você, meu amor? E uma serpente, uma Serpente Alada. Eu sei, eu sei. Porque tenho o seu par. AQUI! — e ati­rando o pesado bracelete contra o espião petrificado, acertou-o entre os olhos.

O homem caiu em silêncio e Ruan não lhe deu tempo de levantar- se de novo. Então, depois que terminou, levantou-se lentamente, e len­tamente também se voltou, os joelhos sentindo fraqueza e tremor, te­mendo pelo que seus olhos poderiam ver, temendo que seu anseio inten­so tivesse enganado sua mente.

"Agora descobrirei que ela é outra pessoa", pensou. "Quando olhar de perto, será uma estranha, alguém que de alguma maneira conseguiu ficar com o bracelete após a morte dela e o usou como talismã."

A jovem ficou rígida, num descrédito total e atordoado quando reconheceu a cabeça escura e a postura dos ombros enquanto ele lidava com o agente. Viu-o levantar-se junto ao corpo de seu inimigo, depois inclinar-se para apanhar o bracelete que havia atirado contra o homem. Tentou mover-se, mas não pôde, tentou falar e não encontrou som.

Ele ergueu o olhar para ela num apelo desesperado. Não era uma estranha.

Ruan sentiu-se começar a tremer, incontrolavelmente, como se de febre, ouviu a si mesmo... era sua própria voz que saía naquele sus­surro coaxante?

Então eu disse a ele por você, minha Sheon-La. Quem, depois de você, poderia ter-lhe contado melhor sobre o bracelete e sua história, do que eu?

Ela viu-o endireitar o corpo e avançar lentamente em sua direção, muito ereto agora, as pernas firmes, viu os longos dedos de ambas as mãos agarrarem com força o bracelete. Quando a alcançou, ele tomou seu braço esquerdo, inteiramente incapaz de evitar que os dedos tremes­sem, e começou a empurrar a jóia pelo braço acima até que esta quase alcançasse o ombro despido. E como havia acontecido naquela outra vez, suas mãos subitamente agarraram-na pelos ombros e então seus braços se fecharam ao seu redor num abraço feroz.

Ela sentiu longos e entrecortados suspiros sacudirem o corpo ten­so, sentiu-se tremendo tanto que teve de agarrar-se com força para não cair, a cabeça enevoada e estranhamente leve.

Você cheira a luar e a capim silvestre, meu amor, mas o luar tem um cheiro frio e distante, e o seu é muito próximo e cálido. É possí­vel que você esteja tão perto agora... tão perto? — ele enterrou o rosto em seu cabelo — Ah, como demorou, como demorou, meu amor.

Lembrando-se, ela se afastou um pouco.

Ruan, você ouviu o que aquele homem disse? Tudo?

Ele olhou para ela, intrigado, depois assentiu.

Oh, sim, ouvi tudo — e vendo a pergunta em seus olhos, acres­centou: — E você o amou muito?

Sheon-La pensou em Bäar morto num pequeno campo de pouso empoeirado e em sua própria solidão desesperada ao vê-lo daquele jei­to. Pensou na mão quadrada, manchada de sangue acariciando seu ros­to, naquela força honesta, aquela integridade tranqüila.

Sentiu os braços de Ruan apertarem-na com compreensão. Junto ao seu ouvido, ele sussurrou:

Não é preciso contar-me. Você o amou, posso senti-lo. Ele deve ter mesmo sido uma pessoa especial, para ser capaz de fazê-la amá-lo.

Quando se deu conta da suprema arrogância daquele comentário, ela esqueceu de imediato tudo sobre Bäar e a tristeza do passado. Come­çou a rir de modo incontrolável.

Isso, senhor, para alguém que pertence a um dos mais altos graus da Ordem da Serpente, é uma coisa muito pouco humilde a dizer.

Ele juntou-se ao riso despreocupado e tolo dela ao perceber o que suas palavras implicavam, sentindo-se alegre e indiferente a qualquer coisa a não ser essa jovem em seus braços. Fascinado, notou como pe­quenas manchas de luz dançavam em seu rosto levantado, e no cabelo escuro, a cada vez que movia a cabeça. E quando um pequeno retângulo de prata, torto e alegre veio pousar sobre seus lábios, ele se inclinou com súbita paixão, esmagando aquela boca jovem e doce com a sua, silenciando abruptamente o riso feliz e borbulhante. Levantou-a nos bra­ços:

-—Vamos procurar um lugar onde fiquemos a sós. Gente demais aqui.

Gente? — ela olhou ao redor, espantada. — Não vejo ninguém.

Ele sorriu. Como era macio o seu cabelo e como era excitante o contato de seu corpo.

Eles estão aqui, sim. Na orla desta clareira. Você não se lembra de Dizan? Um dos melhores homens de Zenhar?

Dizan, Zenhar... — repetiu ela. — Como será bom encontrá-los a todos, Ruan.

Ele deu um largo sorriso:

Mas certamente não agora, meu amor...

Carregou-a para onde as sombras de um bosque escureciam a grama, além do lago, onde a terra úmida tinha um cheiro suave e fresco. Quando a depôs no chão, as folhas caídas farfalharam e a asa de uma mariposa espantada tocou a face dela. Quando a beijou dessa vez, seus lábios estavam impacientes, persistentes e dispostos a não abandonar os dela, enquanto mantinha sua cabeça presa firmemente entre ambas as mãos.

Ela sentiu a longa e rígida extensão de seu corpo contra o dela, as mãos em sua pele, descendo do pescoço para os seios, afastando o teci­do de seda antes de começarem a busca lenta e ansiosa.

Um grilo, saltando junto dela, veio pousar sobre o cabelo de Ruan, e então perdeu-se na noite branca e quieta.

Ao lado de Dizan, Nehazz disse:

Teremos de perturbá-los, tenente. Se o inimigo...

Mas o outro fê-lo calar-se, sibilando com desdém:

Dane-se o inimigo e danem-se os riscos que estamos correndo por sua causa; e dane-se o dever de um príncipe de salvar sua preciosa pele em benefício de pessoas que não o querem e não o merecem, de qualquer maneira! Que vá tudo para o inferno!

Por sobre o ombro deu ordens rápidas. Seus homens haviam vol­tado após levar o agente inconsciente para a casa, onde o deixaram, fortemente amarrado. Espalharam-se num amplo círculo de vigilância ao redor daquele imponente grupo de árvores.

Dizan voltou-se novamente para Nehazz que, surpreso, notou que seu rosto estava agora relaxado e havia perdido toda a tensão anterior.

Cuidaremos para que não seja perturbado. Vamos deixá-lo es­quecer tudo esta noite. Esta cansativa guerra sem fim, seu sangue real, seus inimigos, o caminho árduo e perigoso que está destinado a percor­rer como um dos Escolhidos, todo este país maldito, tudo — colocou a mão no braço de Nehazz. — Esta noite, vamos deixar que seja apenas um homem. Gloriosa e esplendidamente, apenas e simplesmente um homem.

 

Foi durante uma reunião de todos os oficiais do comando que o brigadeiro recebeu uma mensagem: o chefe da Polícia Secreta de Poraj queria falar-lhe, estava esperando-o numa sala contígua.

Perguntou-se rápido o que queriam consigo desta vez. Poucas semanas antes haviam vindo notificá-lo da morte de Bäar e da fuga da jovem, tendo-lhe solicitado que os acompanhasse para identificar Bäar.

Ou era isso que diziam. Tinham entrado em contato consigo de imediato, naquele mesmo dia fatídico, e ele havia voado com eles a Poraj, até um pequeno campo de pouso, a poucos quilômetros da cida­de. Havia insistido em voar sozinho, pilotando sua própria nave, desa­companhado. Não estava nem um pouco ansioso por esquivar-se de to­dos os tipos de perguntas, da espécie que sabia que fariam.

Não haviam removido os corpos ainda. Bäar jazia um pouco afastado dos outros, coberto por um manto verde. Sentiu que o manto teria sido posto ali por amigos, talvez mesmo pela própria moça... estava certo de que nenhum inimigo teria pensado num gesto tão impulsivo e gentil.

Deveria ter-nos deixado ocupar-nos do caso desde o início, brigadeiro. Agora veja o que aconteceu por causa de sua obstinação.

Fingindo concordar, disse:

Vocês sabem que normalmente a polícia da Força Aérea está apta a resolver esse tipo de problema. Já fizeram isso antes. Eles são bons...

Tão bons que atrapalharam por completo este trabalho.

Ele encolheu os ombros.

Suponho que tenham subestimado o amor dele pela espiã...

Levantou um canto do manto verde, descobrindo o rosto e o peito de Bäar. Desejou que o homem ainda estivesse vivo, que abrisse os olhos de modo que pudessem conversar sobre o que havia acontecido, até mesmo rir juntos. Sentia-se rodeado por inimigos que iriam atacá-lo imediatamente se soubessem o que estava se passando dentro de sua cabeça. Uma ansiedade desesperada começou a tomar conta de si; como teria gostado de ir para onde a moça devia estar, a moça e o outro, o homem chamado Nehazz.

Quando lhe perguntaram sobre Nehazz, não precisara mentir, co­nhecia o homem apenas ligeiramente, havia-o encontrado cm uma ou duas ocasiões, eventos sociais. E isso era tudo.

Mas ele ajudara Bäar nos últimos momentos da luta. Assim con­tou um dos soldados, aquele que havia sobrevivido.

Ele não escutara muito bem, deixara seus pensamentos deriva­rem enquanto olhava o rosto imóvel de Bäar, notando a horrível ferida em seu peito. E o agente de segurança, jazendo um pouco mais adiante com o pescoço quebrado. Quebrado por Bäar, ele sabia.

Como é que nunca suspeitou dele?

O quê? — olhou para o interlocutor, sem vontade de voltar àquela tagarelice tola. Então encolheu os ombros: — Nunca sonhei que ele estivesse do outro lado... — respondeu devagar. —Ainda não consi­go acreditar.

Então fora até ali que seu amor pela jovem o havia trazido. Até esse campo de pouso. Para o final de uma carreira promissora. Para uma morte sangrenta.

"Que esplêndido. Que maravilhoso" pensou "e, no entanto, nunca foi um revolucionário. Apenas seguiu até o final seu coração e seu senso de justiça".

Ou talvez essa fosse a definição correta de um verdadeiro revolu­cionário. Alguém que seguia seu coração e seu senso de justiça até o final.

Enquanto que ele... o brigadeiro estremeceu inconscientemente, um fato logo notado pelos olhos agudos que o observavam. Havia luta­do por Rahazz, e depois que tudo fora perdido, trocara sua honra, renun­ciara a seu coração por um par de títulos, possessões e confortos torpes.

-— Não está bem, brigadeiro? — a pergunta veio num tom áspero, mais como uma acusação. Ele endireitou os ombros, anuindo ligei­ramente:

Sim. Fiquei chocado com o destino de um dos meus mais fiéis oficiais. Revoltante.

Havia girado sobre os calcanhares e partido, o primeiro a alcan­çar as naves. Como era fácil, fingir, ser hipócrita. E como era cansativo.

E agora, quando afinal entrou na sala onde era esperado, sabia que eles, furiosos por causa da demora, não tinham como não se sentir impressionados por sua postura, militar e arrogante, seguro de si mes­mo e de sua posição.

E em poucas palavras que deviam soar acusadoras, suspeitosas, mas que saíam num tom respeitoso, de desculpas mesmo, eles lhe con­taram o que havia acontecido em sua casa de campo. Sobre o agente que havia conseguido atrair a atenção de passantes e que contara uma histó­ria incrível, muito difícil de acreditar, sobre certo bracelete.

O brigadeiro manteve-se alheio e desinteressado.

O caseiro estava de licença para visitar os pais. Com efeito, ainda não regressou — disse. — O coronel Bäar com certeza sabia da existência da casa. E por que não deveria? Não era segredo. Espero que esses bandidos não tenham danificado a propriedade.

Ele os acompanhou à casa, que estava fervilhando de homens da segurança e soldados. E de novo sentiu uma tristeza por encontrar-se no meio de inimigos, sem ninguém por perto em quem confiar, com quem sentar-se para conversar com uma caneca de vinho e partilhar de um pouco de riso. Mas junto com a tristeza veio uma espécie de felicidade... porque as coisas haviam saído como desejara. Exceto pela morte de Bäar. Simulou raiva:

-— Como ousaram invadir a minha casa assim -— e voltando-se rápido para os homens da segurança -—, e como foi que vocês não sou­beram a respeito deles antes de ser tarde demais?

Riu interiormente ao ver seus rostos espantados, que apenas um pouco antes haviam-no olhado com suspeita e desconfiança. O chefe começou até mesmo a gaguejar, tentando encontrar as palavras certas para explicar, para refutar o ataque. Mas ele o interrompeu imediata­mente:

Isto é seu trabalho, não é? — perguntou. — Todos estavam procurando pela moça e aquele homem, qual era mesmo seu nome... Nehazz?... Vocês todos haviam sido alertados. E, no entanto, bem em­baixo de seus narizes... — ele se deteve, com ar de desagrado, mostran­do claramente que o fracasso da Polícia da Força Aérea não era nada comparado ao deles. — Bem, sempre que precisarem de mim, cavalhei­ros, vocês sabem onde encontrar-me.

Eles o viram sair pela porta e embarcar na pequena nave no corpo tia qual se via a águia castanho-avermelhada com seus olhos de gemas azuis. Não podiam saber que ele fora incapaz de permanecer por mais tempo na mansão onde vivera com sua mulher e filhas durante anos antes e depois de ter-se alinhado a Yahali. Fora contra a vontade dela, e eles haviam tido longas e apaixonadas discussões sobre o assunto. Mes­mo depois que ele havia jurado lealdade ao novo imperador, ela tentara convencê-lo a abandonar tudo e fugir consigo para as montanhas do norte.

Como ele recusasse, ela havia começado a organizar os mais sel­vagens e originais tipos de festas, recepções e bailes, e mesmo, eventos esportivos, convidando a todos que conhecia. Mesmo o Rei, sempre convidado, veio uma ou duas vezes festejar com eles. Sua mulher sem­pre havia sido a alma daquelas festas, estimulando todos os convidados à serem felizes, se divertir e relaxar. Ávida era maravilhosa. E ele havia odiado tudo aquilo.

Até que um dia, depois que ambas as filhas se casaram, indo viver longe, nas províncias do sul, ele, ao chegar em casa, havia encontrado seu bilhete: "Lamento. Não posso suportar mais. Toda a sorte do mun­do".

Ela não havia assinado. Abaixo da mensagem, desenhara uma bandeira, o pavilhão vermelho e dourado da dinastia Tolteca, com um sol radiante no centro.

Havia destruído o bilhete. Aos amigos dissera que ela o havia deixado porque não conseguiam mais conviver. Que o amor havia che­gado ao fim. Que ela havia ido morar com uma de suas filhas, no sul. Que era melhor que as coisas fossem assim. Nunca a havia visto nova­mente. Mais tarde deixara a casa e comprara outra, perto da grande base militar, em Dhar.

Ao chegar à base, encontrou um homem esperando por ele, um coronel que conhecia apenas ligeiramente, mas que era considerado muito capaz e ambicioso.

Agora esse coronel havia encontrado um mapa, um mapa indi­cando uma das fortalezas mais inacessíveis de Zenhar... por que diabos aqueles camaradas haviam cometido um engano tão estúpido?... e dese­java ação. Estava muito ansioso, esse homem, ansioso por sair, destruir os rebeldes e conquistar os louros para si.

Uma vez que encontrou o mapa, coronel — disse ele —, penso que e justo que prepare o plano. Que acha disso?

Percebeu contentamento e surpresa nos olhos do subordinado — seu visível esforço para modificar a não muito lisonjeira opinião que tinha do superior. Os mais ambiciosos eram aqueles que menos sabiam julgar os outros.

Muito bem, obrigado, senhor. Farei isso e terei o plano pronto pela manhã.

O plano, teve de admitir, estava perfeito. Esse homem iria longe, seus talentos militares eram de fato acima da média. Não como haviam sido os de Bäar. Esse oficial nunca teria que lutar contra sua própria compaixão, senso de justiça, honra. Essas eram características que não possuía.

Reviu o plano, com cuidado, dando-se conta de todos os seus detalhes. Perfeito demais. Zenhar, alheio ao perigo, seguro demais da inacessibilidade de suas amadas montanhas, não seria capaz de reagir em tempo. A fortaleza seria varrida... abrindo caminho ao coração das terras rebeldes.

O homem diante dele moveu-se ligeiramente, a custo, contendo sua ansiedade. O brigadeiro levantou os olhos com um sorriso:

Posso congratulá-lo, coronel? Fez um trabalho esplêndido. Entretanto há alguns detalhes que eu gostaria de estudar com mais cui­dado, antes de entregar o plano à infantaria, durante o fim de semana. E então entraremos em ação imediatamente.

Enquanto via o outro afastar-se orgulhoso, fez alguns cálculos rápidos. Três dias eram tudo o que precisava. Conhecia todos os contá-los e estava perfeitamente consciente do fato de que, se houvesse desejado, poderia ter destruído essa fortaleza-chave há muito tempo.

Insinuando-se através dos subúrbios escuros naquela mesma noi­te, alcançou uma estrada estreita nos arredores da cidade. Precisaria da maior parte da noite para alcançar seu destino a pé. Essa maneira de viajar iria atrair muito menos atenção do que o uso de qualquer tipo de transporte.

Caminhou num passo enérgico, firme, sem parar em qualquer ponto do caminho. Era quase meia-noite quando alcançou o lugar, a cabana de um camponês numa encosta, quase escondida pelos altos ar­bustos perfumados, que proporcionava a principal fonte de alimento para o gado.

Passou-se algum tempo antes que atendessem às suas batidas in­sistentes. Quando a porta se abriu, avançou ligeiro, fechando-a com as costas. Enquanto falava, rápida e urgentemente, alguém segurava uma lâmpada com a mão firme, bem na altura em que a luz incidia em cheio em seu rosto, evitando que visse qualquer coisa.

Quem devo dizer que enviou a mensagem?

Ele balançou a cabeça.

Não importa. Eu...

O homem que segurava a lâmpada deu um rápido passo para di­ante e retirou o capuz que cobria o rosto do brigadeiro. Este não se encolheu nem reagiu, apenas fechou os olhos involuntariamente por causa da luz.

Ouviu um grunhido e algumas palavras sussurradas, confirman­do sua suspeita de que havia várias pessoas naquela casa.

Depois de deixá-los verem seu rosto por alguns momentos, desli­zou para o lado, puxando de novo o capuz para sobre os olhos, conscien­te dos círculos em seus dedos onde haviam estado seus anéis, as faixas largas deixadas pelos braceletes que havia retirado, sua largura revelan­do sua patente. Virando-se para uma ligeira saudação, segurou o manto junto ao corpo e retirou-se da casa num segundo, esperando que o retivessem. Mas a porta se fechou com suavidade atrás de si. Pelas estrelas, supôs que fosse apenas um pouco depois da meia-noite. Decidiu não descansar, mas regressar em seguida.

Não viu a sombra que se movia atrás de si, entrando e saindo dos arbustos... ou talvez não tenha se importado. Quando a madrugada rom­peu, já havia alcançado os arredores da cidade, e misturou-se às multi­dões matinais a caminho do trabalho ou voltando da diversão. Muito atrás, um homem movia-se no mesmo passo enérgico que ele, tomando o cuidado de não alcançá-lo.

A mensagem alcançou Zenhar na noite seguinte. Os olhos ainda cheios de sono, formulou automaticamente suas perguntas, ouvindo en­tão em silêncio, enquanto o homem que seguira o brigadeiro à sua casa descrevia a imponente mansão, os guardas da Força Aérea postados nos portões, apresentando armas quando o homem do manto escuro passou por eles, recebendo sua saudação.

Esperara até que o homem que seguia, saísse uma hora depois, em uniforme completo, usando anéis e braceletes.

Havia poucas dúvidas na mente de Zenhar. Os esboços do plano, preparado contra ele e descrito em rápidas palavras pelo brigadeiro, eram claros demais. Então Vrina não esquecera o passado e devia ter estado ao menos em parte ao lado deles por algum tempo. De outra maneira, como poderia saber do contato que havia procurado, sem jamais ter re­velado seu segredo?

— Iremos evacuar a fortaleza já — ordenou, sua mente já pen­sando na emboscada que iria preparar para os soldados de Yahali.

 

Eram dois dias depois da Feira. Em todos os pavilhões hordas de trabalhadores estavam desmantelando febrilmente os estandes, empacotando objetos valiosos, colocando-os em pequenos e compactos transportes à espera do lado de fora, os quais, uma vez cheios, partiam rápida e silenciosamente dirigindo-se para seus vários destinos.

Dois soldados de licença estavam parados assistindo com ar de preguiça e enfado. Um era um típico atlante, os olhos oblíquos, cabelo liso e escuro cobrindo-lhe as orelhas, de constituição robusta. Mas o outro mostrava traços de uma raça tão diferente que os passantes, notando-o, se detinham com freqüência para dar uma segunda olhada, im­pressionados. Ele não parecia consciente do interesse que suas feições despertavam, ou talvez não se importasse.

Estavam comendo grandes pedaços de pão com queijo que havi­am trazido, numa casa de comidas ao ar livre, acompanhados por um bom vinho tinto. Via-se um pote de mel na mesa entre eles, para adoçar o vinho.

Desh disse a seu amigo:

Este mel me lembra minha mãe.

O outro olhou-o, surpreso:

Sua mãe?

Desh assentiu, desejava conversar, o vinho fazia-o sentir-se cálido por dentro e leve.

Sim. Você sabe que tenho a aparência tão diferente por causa de minha mãe... Minha pele azulada, minhas mãos, minhas orelhas, tudo, veio dela.

Seu amigo olhou para aquelas mãos que há muito haviam deixa­do de interessá-lo. Eram pontudas e entre os dedos havia uma espécie de membrana, até a metade de sua extensão. Não precisava olhar para os pés de Desh, calçados com as sandálias vermelhas do exército, para saber que eram normais como os seus próprios. A cabeça também, exceto pela pele azulada e as orelhas pontudas, meio ocultas sob o cabelo negro encaracolado, não era muito diferente de muitas outras. Caman pensou que talvez estivesse acostumado àquilo, uma vez que se conheciam há algum tempo e porque as aparências sempre significaram muito pouco para ele.

Minha mãe era como este mel... doce, bonita e muito gentil com todos os seres vivos... humanos, animais e plantas. Morreu quando eu tinha cinco anos, mas lembro-me muito bem dela. Morreu, penso eu, porque não suportava viver tão longe de seu próprio povo, embora amasse meu pai e ele a adorasse.

Após sua morte nós, meu pai e eu, íamos com freqüência visi­tar minha avó nas montanhas. Foi minha avó quem me contou uma por­ção de histórias sobre seu povo, o povo de minha mãe. Eu sabia que mi­nha avó vivia sozinha para tornar mais fáceis as visitas de sua filha, pois sua tribo vivia na parte mais alta das montanhas, um platô fustigado pelos ventos, praticamente inacessível, como ela dizia. Nunca estive lá.

Para o norte, onde Zenhar... — Caman interrompeu-se espan­tado, mas Desh permaneceu imperturbável.

Exato, mas ainda mais alto. E eles se mantêm muito isolados, por causa de sua diferença. Duvido que tenham mais que um contato casual com as outras tribos, leais a Rahazz. São muito tímidos e orgu­lhosos e, além disso, seus corpos... às vezes ficam invisíveis.

O quê?

Sim, é que seus corpos são feitos de uma substância mais leve, menos material, embora saibam como densificar-se quando necessário. Foi assim que minha mãe e meu pai puderam amar-se e eu nasci. Não tenho esse poder, infelizmente. Meu corpo é sólido como o de meu pai — riu ele. Ficar invisível em certos momentos bem que seria muito conveniente...

Uma voz alta se fez ouvir:

E por isso que este país está se degenerando. Essa mistura de raças será o fim de Aztlan, eu lhes digo. Olhem só para aquele sujeito sentado ali... ali adiante. Aquele azul! E além do mais, soldado. Revol­tante!

Caman enrijeceu, mas seu amigo continuou falando. Não teria ouvido?

Esse tipo de gente é bom apenas para os grandes ritos.

Estão degradando a nossa raça. Esses traços inferiores estão mi­nando nossa força, nosso intelecto, enfraquecendo as linhas sangüíneas puras.

A mão de Caman procurou instintivamente o cinturão. Mas havia deixado as armas no quartel, estavam de licença, não quisera andar ar­mado. Em seguida o homem falou diretamente com ele:

O senhor... que vergonha... o senhor, um atlante sangue-puro deveria ser cuidadoso com suas companhias...

Caman levantou-se devagar, as mãos se abrindo e fechando. O ho­mem era tão alto quanto ele próprio, mais ou menos da mesma idade, a calvície avançando, suas roupas muito bem cortadas, indicando riqueza.

Olhando-o direto no rosto, Caman disse pausadamente:

Peço-lhe perdão, senhor... o que estava dizendo agora mesmo sobre o irmão de minha esposa?

Quando pronunciou a última palavra, sentiu que Desh também se havia levantado e se achava ao seu lado.

Houve um súbito silêncio ao redor. Mesmo os trabalhadores pró­ximos haviam parado de fazer seus ruídos habituais e olhavam agora com as bocas abertas para o pequeno grupo:

Penso, senhor — continuou Caman ainda mais devagar —, que talvez na verdade não tenha compreendido o que quis dizer... em­bora deva admitir que suas palavras nítidas se ouviam de longe.

O homem que estava ficando calvo não respondeu logo. A amea­ça no tom de Caman era inconfundível... "O irmão de minha esposa", havia dito? Mesmo sabendo que estava certo, deveria ter mantido a boca fechada, essa escória era boa apenas para os ritos nos templos de Aztlan. Sua raça deveria ser exterminada por completo, de modo a não contami­nar a pura raça atlante. Mas não desejava uma confrontação pública, não ali, não naquele momento. Isso poderia tornar-se desagradável para ele. Eles eram soldados e todos sabiam que o Rei tinha alta estima pelas Forças Armadas, muito mais do que pelo clero.

Desejava responder em desafio, mas ao invés disso balbuciou algo inaudível, evitando os olhos de Caman, e em seguida partiu em passos rápidos até perdê-los de vista. Afastou-se resmungando consigo mes­mo:

Que revoltante! O governo deveria tomar medidas para pôr um fim a toda miscigenação. A mistura de raças retarda o progresso.

Atrás, os dois amigos ficaram olhando para ele antes de sentar-se e continuar a refeição. Então Desh olhou para o outro com um grande sorriso:

Você sabe que esta é a primeira vez que soube que tinha uma irmã? Por que não me contou antes?

Com isso, ambos começaram a rir divertidos, quase se engasgan­do com seu vinho, atraindo olhares curiosos dos homens próximos, que haviam recomeçado o trabalho, desapontados com o final pacífico da discussão.

Vários dias mais tarde Yahali recebeu uma petição assinada por centenas de cidadãos importantes, solicitando respeitosamente uma inter­ferência rigorosa nas relações sexuais entre as diferentes raças. Havia uma menção especial àquela "ridícula raça de pele azulada", considera­da pelos solicitantes como tendo uma influência degradante em "nossas orgulhosas linhas sangüíneas atlantes".

Depois de ler tudo, o Rei baixou devagar as várias páginas de papel amarelo quase transparente, coberto por aquela extensa petição que não o havia impressionado em absoluto, e até mesmo o aborre­cera.

Conhecia todos os argumentos usados pelos racistas e embora estivesse consciente das vantagens desse tipo de perseguição, não era assim que desejava o poder. O poder pelo qual ansiava era sobre as men­tes dos homens, seus pensamentos, emoções, não importando suas apa­rências.

Mesmo assim, tinha de admitir que a perseguição lhe traria víti­mas fáceis, essenciais à prática dos Grandes Ritos. Entretanto também poderia trazer inquietação, pois sabia que a pureza da raça atlante não era mais que uma ilusão tola daqueles idiotas. Não sabiam como seu próprio sangue era completamente misturado? E que já o estivera por centenas e milhares de anos?

Ainda assim, continuou pensando enquanto brincava com a peti­ção, o povo-elfo era muito diferente. Talvez se pudesse limitar a perse­guição apenas a eles e seus descendentes.

O povo-elfo, ou povo-abelha. A história antiga, muito antiga, en­sinava que haviam acompanhado as abelhas, enviadas do Planeta Gen­til, o planeta Vênus, para ajudar a propagar a fertilidade das plantas e das árvores por toda a Terra, e abastecer os humanos de mel.

A criação de abelhas ainda era sua principal fonte de sustento e, com apenas algumas exceções, tinham o monopólio absoluto do mel.

Não, não seria sábio persegui-los, seria mesmo estúpido... entre­tanto, algumas palavras para desencorajar relações sexuais entre eles e outras raças, com certeza tranqüilizariam as mentes estúpidas e estreitas dos solicitantes.

Yahali remexeu-se desconfortável em sua cadeira, deixando cair as páginas uma por uma no chão, onde ficaram espalhadas em desor­dem. Sabia que esse desconforto era devido ao povo-elfo e às coisas associadas com ele, coisas históricas.

Eles haviam vindo, os Senhores da Chama, para ensinar agricul­tura, artes e ofícios, às raças que então povoavam o planeta, e o povo-abelha viera com eles.

Haviam ensinado outras coisas também, isso fora registrado por muitos historiadores confiáveis durante um período inacreditavelmente longo de tempo. Trouxeram uma espécie de religião... Haviam ensinado que toda a vida era Una, a individualidade uma coisa passageira, uma máscara, um vestuário, e o que havia por dentro era parte de uma Vida Única partilhada com todos os outros seres.

Uma religião estranha, que ele não aprovava, embora a História não pudesse ser ignorada, mesmo por ele, e eles haviam sido instrutores e guias para toda a humanidade. Sua grandeza, sabedoria e poder não podiam ser negados. E até os dias atuais, Rahazz e seu povo, ao contrá­rio dele, os reverenciavam.

Por que esse desconforto?... Ou seria por que estava sentindo uma espécie de medo? No entanto achava que eles apenas podiam ter estado enganando o povo, com qual propósito não sabia. Um com todos os outros seres... A dor que outro sentia ele não sentia, os gritos das vítimas sacrificadas ao Sol não eram seus, eram delas. Cada qual era totalmente separado de todos os outros e cada qual envolvido em sua luta eterna pelas vantagens pessoais e pelo poder. Que estupidez enganar as pesso­as com frases e idéias falsas sobre a Unidade de toda a vida, sobre amor, compaixão, piedade.

E, no entanto, esses seres haviam estado incontestavelmente adian­tados em relação à humanidade terrestre, haviam sido Instrutores, Mes­tres, seja o que for... Como então podiam ter cometido erros tão grossei­ros, sempre negando a eterna separatividade de todos os seres vivos?

Por que seus seguidores atuais não conseguiam compreender que os sacrifícios ao Sol, o grande Coração do sistema solar, eram absolu­tamente essenciais ao equilíbrio do planeta, que o derramamento de san­gue, as mortes, eram inevitáveis? Que quando os corações eram incine­rados, a forma exterior destruída, a energia contida iria retornar à sua origem, devolvendo o que havia sido emprestado do Sol durante suas vidas ao proprietário legítimo?

O Coração Solar enchia constantemente o sistema solar pulsante, tornando possível a vida na terra. Como os planetas projetavam energia para os outros órgãos do corpo humano, fígado, pulmões, baço, intesti­nos, a energia em si mesma também viera do Sol.

Sem dúvida ao final de uma vida longa ou curta a energia contida pelo coração humano iria retornar de qualquer maneira à sua origem: devolvia essa energia pouco a pouco durante o curso da vida. Mas os sacrifícios eram com freqüência necessários para reforçar o Poder Solar de um modo mais rápido.

Em especial durante a Lua Cheia. Quando o Sol estava em seu ponto mais fraco, debilitado pela Lua e sua história passada, os bilhões e bilhões de anos em que a humanidade se desenvolveu no antigo plane­ta, jovem então, mãe da Terra, um planeta agora morto e em desintegra­ção, absorvendo muito da energia solar durante seu período cheio. Em tais e outras ocasiões, os sacrifícios eram uma necessidade para ajudar a fortificar o Coração Solar.

As feias estátuas zombando da multidão nos templos nada tinham a ver com o propósito real dos ritos, apenas mandara confeccioná-las para aterrorizar o povo, para que ninguém pensasse nos sacrifícios como revoltantes e injustos, como sabia que muitos pensavam.

Temendo a ira do deus-demônio, até agora ninguém havia protes­tado. Mesmo quando as vítimas não eram escolhidas entre os inimigos, ou prisioneiros políticos, ou mesmo criminosos, mas entre homens ou mulheres saudáveis e leais. Esses eram os sacrifícios que impressiona­vam alguns e perturbavam ou mesmo irritavam outros, ele sabia.

Os corações eram incinerados para libertar a energia mais rapi­damente, mas o sangue e a carne eram distribuídos pela multidão já enlouquecida pelo medo e pelo ritmo mesmérico dos tambores e das flautas. As orgias que se seguiam eram necessárias para mantê-los pri­sioneiros, prisioneiros astrais de sua própria luxúria, do frenesi, do medo hipnótico. Não se devia deixá-los pensar ou sentir, pois a reação seria inevitável.

O longo reinado da dinastia Tolteca, precedendo a sua e da qual Rahazz era o último soberano, havia, infelizmente, os tornado vulnerá­veis a outros tipos de sensações, como a piedade, compaixão, a suavida­de e certo horror a infligir dor aos seus semelhantes, levando-os tão longe que mesmo as necessidades urgentes do Coração Solar, que clava vida a todos, eram negadas.

A Ordem da Serpente Alada, os Irmãos do Fogo, servidores do Ser Flamejante. Era assim que chamavam a si mesmos, sempre atrapa­lhando seu caminho com idéias que sabia falsas, mas muito poderosas e que, portanto, lhe provocavam temor. Uma irmandade falsa, conferindo valor a meras ilusões, formas passageiras de vida.

Apenas o Sol era eterno... Mais uma vez Yahali remexeu-se com desconforto... No entanto, eles também veneravam o Sol, eles também usavam o maravilhoso símbolo no centro de seus estandartes vermelhos e dourados.

Quando venceu a guerra, não havia sido necessário sequer mudar o símbolo nas mansões oficiais, edifícios do governo e quartéis, e a entrada do Tribunal de Justiça.

No entanto, durante seus ritos, eles não matavam ou criticavam qualquer coisa viva. Ao invés disso ofereciam seus próprios corações ao Sol, ou o que chamavam sua essência espiritual, ofereciam todas suas capacidades que não poderiam suportar o fogo solar, sua pureza, para serem destruídas e queimadas a menos que cinzas durante o ato simbó­lico. Um ato místico de purificação.

Mas não viram a necessidade urgente do sacrifício do coração físico de carne e sangue, eram cegos a isso.

Seus ritos, era preciso admitir, tinham enorme poder mágico. Acompanhados por danças, cantos e música de címbalos, tambores e vários tipos de flautas, evocavam grandes presenças, seres fáceis de se­rem vistos por aqueles que ainda não tinham perdido o poder de ver e, de qualquer modo, muito fáceis de serem sentidos.

Quando era um garotinho de cerca de dez anos, filho do governa­dor de uma das províncias do sul, durante o reinado do pai de Rahazz, havia testemunhado muitas vezes tais atos religiosos e vira aqueles se­res pairando sobre e ao redor do templo e do lado de fora, entre as árvo­res, dançando e misturando-se à multidão.

Anos depois, com apenas dezoito, ficara consciente de sua pró­pria missão no mundo, para a qual seria necessário que reinasse como o único Emissário do Sol, o elo direto com Aquilo, sem o que nenhuma vida poderia possivelmente existir sobre a Terra e outras partes do siste­ma solar.

Tarde daquela noite Desh e Caman perambulavam perto da belíssima área do templo, longe da vida noturna de Poraj, que acabavam de deixar. O único som era o murmúrio do córrego, atravessando o ter­reno, ladeado por arbustos aromáticos. Embora o lugar, com seus terra­ços floridos baixando até a estrada entre Dhar e Poraj, estivesse aberto ao público e o próprio templo estivesse construído a quase um quilôme­tro dos portões principais, dificilmente as pessoas vinham visitá-lo por­que influências malignas estavam prontas a saltar sobre os desavisados. Havia sido diferente, antes que Yahali se apoderasse do trono de Aztlan. Naquela época o parque era o local favorito de encontros para namora­dos e as crianças brincavam ali durante o dia.

Caman sentou-se ao lado de Desh, num banco de madeira, perto do riacho.

Fizeram tudo que se esperava de um soldado durante a licença. Haviam entrado e saído de vários bordéis, se divertiram com algumas garotas e conversaram um bocado de bobagens com outras. Haviam dançado, bebido e comido bastante, e agora seus estômagos estavam forrados de comida, as cabeças pesadas por causa do azedo vinho de milho. E agora a vida era um negócio muito doentio.

Oh, meu Deus — disse Caman, levantando-se e correndo para os arbustos próximos, de flores brancas, já vomitando pelo caminho.

Vomitou até que seu estômago ficasse vazio, então tirou as rou­pas para aliviar-se também de outro modo. Através de olhos embaçados viu Desh fazendo o mesmo um pouco mais longe. Lavaram-se no riacho e depois, estendendo-se na grama baixa e fresca, dormiram.

Foi Caman quem sacudiu o amigo.

Acorde. Alguma coisa está acontecendo.

Imediatamente alerta, o treinamento assumindo o comando de modo automático, Desh comprimiu-se contra o solo ao ver uma figura deslizar silenciosa na direção do templo.

Agachados seguiram a pessoa, escondendo-se atrás de cada can­teiro de flores, das belas esculturas trabalhadas em pedras preciosas ou semipreciosas, ametistas, esmeraldas, cristais.

Quando o homem chegou ao templo, deteve-se, retirou algo de uma sacola que carregava e começou a escrever ou pintar alguma coisa na parede branca à sua frente.

Desh cutucou o amigo:

Você pode ver o que ele está escrevendo?

Não, temos de chegar mais perto. Vamos — foi a resposta sussurrada.

Quando estavam a cerca de vinte metros do homem, esconderam-se atrás da última estátua. Esta representava um casal num apertado abraço, feitos do mais puro cristal de rocha, cinzelados de tal modo que cada raio de luz que recebia era refletido mil vezes, transformando a estátua numa imensa lâmpada de cristal cintilante.

Agora era fácil ler as palavras pintadas em letras grandes e ver­melhas sobre a parede do templo.

E mesmo um rebelde — sussurrou Desh.

E sem esperar, saltou sobre a figura que acabava de completar sua tarefa. Houve uma luta breve e então torceu os braços do homem atrás das costas e Caman, num gesto rápido, retirou o capuz que cobria sua cabeça.

Lábios vermelhos cheios, uma massa de cabelo escuro e um par de olhos desafiadores.

Desh assobiou.

Uma moça. Uma moça rebelde. Oh, não!

Lyanta olhou para eles com mais desdenho que de costume.

É melhor que vocês me deixem em paz. Não estou sozinha. Meus amigos estarão aqui a qualquer momento.

Seus amigos? — Caman sequer se deu o trabalho de olhar ao redor. — E que me diz de nossos amigos? Estão espalhados por toda parte. Temos apenas de assobiar e virão todos correndo.

Escondendo-se atrás de uma estátua de ametista representando a Árvore da Vida, Vanzaj escutava, enquanto se preparava para o ataque.

Agora sério, Caman disse:

—Temos de entregá-la à polícia. E melhor irmos andando. Notan­do a hesitação de seu amigo, acrescentou: — Vamos! Você conhece a lei. Lembra-se de nosso juramento?

-— Nosso juramento. Sim. Lembro-me muito bem. A lei. Diga- me, você ajudou a fazer essa lei?

Caman olhou o outro com expressão intrigada:

O quê? Não, é claro que não. Você quer dizer...

Quero dizer que há leis que não deveriam ser levadas a sério, em especial quando vão de encontro aos nossos sentimentos e não têm nosso consentimento... Desh se interrompeu, dando uma risada inespe­rada.

Percebo... — uma risada subiu pela garganta de Caman tam­bém. Após ter-se livrado do excesso de comida e vinho sentia-se muito leve e dono do mundo.

Que diabo, Desh estava certo. Por que deveria sentir-se obrigado a entregar à polícia qualquer pessoa suspeita de subversão? Ponderou por alto o significado da palavra. Eles eram guerreiros, não policiais. E sabia que essa jovem não teria qualquer chance. Para ela seria a morte certa. Eles eram muito severos com mulheres rebeldes sob o governo de Yahali, a lei sendo explícita sobre esse ponto em particular:

"As mulheres dão à luz às crianças, elas dirigem as mentes da futura raça. Mulheres com tendências subversivas não devem ser pou­padas. O rápido extermínio é o único meio de evitar problemas futuros para o..."

Extermínio rápido. Desh afrouxou os dedos que seguravam os braços de Lyanta. Por que se sentia tão maravilhosamente irresponsá­vel, tão livre?

Foi nesse momento que Vanzaj apareceu, saindo detrás da Arvore da Vida de ametista, os braços cruzados sobre o peito. Não compreendia muito bem o que estava se passando. Entretanto, era óbvio que esses dois camaradas não estavam de modo algum ansiosos por cumprir seu dever de soldados. Poderia ser fácil convencê-los. Quando Desh o viu aparecer, soltou os braços de Lyanta e, esfregando as mãos, comentou:

Bem, parece que aí está um dos amigos que você mencionou. Penso que agora deveríamos ter uma conversa, todos nós. O que acham?

Caman, ainda atordoado por aquela maravilhosa sensação de liber­dade, assentiu de modo vigoroso:

Mas é claro. Vamos conversar, fazer amizade e celebrar. Perguntando-se vagamente o que deveriam celebrar, começou a remexer em seu cinturão, procurando alguma coisa.

Mas Desh antecipou-se, estendendo a mão aberta.

Aqui está. Temos a ocasião correta. Quando alguém faz novas amizades ou encontra as antigas, deve sempre celebrar, rejubilar-se — olhando ao redor, estremeceu. — Mas não aqui. Meu pai estava certo. Este lugar está pesado de maldade. Vamos descer até perto dos portões, onde as flores noturnas estão perfumadas.

Dando exemplo, desceu pela trilha, seguido pelos outros, até che­garem aos portões. Ali sentaram-se, pernas cruzadas. Desh apanhou seu tubo de prata, que encheu com uma eiva seca, com cheiro de capim e ervas silvestres.

Fumaram em silêncio, o aroma da fumaça misturando-se com o perfume intenso das flores próximas. Vanzaj disse, retendo a fumaça por tanto tempo quanto podia, antes de exalar:

Mas vocês fumam? Pensei que os soldados estivessem proibi­dos...

Desh assentiu:

Bem, estão... mais ou menos. Não é coisa bem vista. Dizem que nos deixa menos agressivos. E temos de estar sempre prontos a matar, mutilar e derramar muito sangue. Rios de sangue — ele riu, di­vertido. — Eles preferem que fiquemos bêbados com aquele horrível vinho de milho. — Ugh... coisa horrorosti quando você toma demais. Não é tão ruim quando você sabe controlar.

 

NÃO TEMAM. O REI É HUMANO, NÃO DIVINO.

ESPEREM PELO SINAL E TENHAM FÉ...

Essas eram as palavras escritas pelos muros de muitas construções oficiais e templos por todo o país.

Foi na véspera do Festival de Poraj que Yahali em pessoa leu es­sas palavras escritas em berrantes letras vermelhas sobre os muros do Grande Templo, mas os sacerdotes que leram o aviso junto com ele não o ouviram pronunciar uma única palavra. De volta ao palácio ordenou que sua guarda pessoal fosse dobrada daquele momento em diante. Mas apenas como precaução, porque não achava que tentariam atacá-lo pessoalmente. E também não temia que fossem capazes de provar sua vulnerabilidade de qualquer outra maneira. E ainda existia a possibili­dade de o desafio ser apenas um blefe.

Os principais eventos do Festival de Poraj eram uma luta de cães entre cães que não eram cães e a conquista das águas. O Zen era o maior rio de Aztlan, crescendo cada vez mais ao longo de seu curso pelo acrés­cimo de muitos tributários, grandes ou pequenos, e jamais até então alguém havia conseguido conquistá-lo naquele trecho particular de seu trajeto, embora todos os anos muitos homens e mulheres o tentassem. Alguns desistiam na metade, afortunados por alcançar a margem, incó­lumes, mas muitos tinham de pagar caro por sua coragem, às vezes até com a vida.

Situada a cerca de 15 quilômetros fora da cidade, a planície onde o festival anual acontecia tinha como limite natural as curvas tortuosas do grande rio formando o trecho mais perigoso de seu curso.

Cachoeiras, corredeiras, redemoinhos, viciosas rochas pontiagu­das à espera exatamente abaixo da superfície, invisíveis nas correntes espumantes, seguidas logo depois por remansos que pareciam profun­dos e tranqüilos, escondendo perto do fundo fortes correntes que agar­ravam os menos cuidadosos para atirá-los contra as rochas, impossíveis de evitar mesmo para os mais fortes nadadores.

E então, o rio decidia acalmar-se e continuava sua via sonolento, serenamente, através das terras baixas, passando por muitas cidades, grandes e pequenas, até alcançar o mar.

Na parte sul da planície, num pequeno platô voltado para o norte, erguia-se um palácio de cor alaranjada, rodeado por uma ampla varan­da, as colunas cobertas por uma profusão de hera, florescendo nessa época do ano, com flores azuis.

Era ali que Rahazz e sua família costumavam passar o verão e também muitos dias das outras estações, e era ali que, naquele amplo terraço, Yahali e sua corte, formada pelos dez mais notáveis de Aztlan, assistiam aos eventos esportivos todos os anos.

As grandes arquibancadas, rodeando a planície, ficavam cheias de espectadores despreocupados. Entre os eventos, as tendas móveis de co­midas e bebidas armadas atrás das arquibancadas eram praticamente as­saltadas pelos famintos e pelos glutões, que devoravam panquecas quen­tes e apimentadas, todos os tipos de doces feitos de milho e trigo, sopas e pão crocante de centeio, recheado de carne, além de uma infindável variedade de bebidas para satisfazer qualquer paladar: leite, chocolate e chá servidos em canecas de cerâmica, vinho e aguardente de uvas, e a bebida ainda mais forte, chamada taisha feita do melhor milho.

Uma luta corporal, sem armas, entre um campeão atlante e um estrangeiro de um país vizinho, acabava de terminar com a vitória do primeiro. Agora que o burburinho e os gritos haviam diminuído um pou­co, a próxima disputa estava sendo anunciada: a luta contra o rio.

As águas do Zen, prosseguindo em seu curso eterno, brilhando à luz intensa do sol, ignoravam por completo seu importante papel no evento seguinte.

Yahali, que com seus aguçados olhos negros não necessitava do instrumento para enxergar à distância, ao contrário de muitos dos mem­bros da corte que o rodeava, observou o primeiro participante subir pe­las rochas até chegar à pequena plataforma lá no alto. Suspirou:

É fácil demais. Nenhum desses jovens tolos irá vencer. Isto está ficando mesmo monótono.

Um general sentado próximo dele, comandante das Forças Terres­tres, respondeu surpreso:

O público não parece pensar isso, considerando o entusiasmo geral.

Isso é porque eles não sabem que esses rapazes e moças irão perder de qualquer maneira. E impossível vencer.

Mas todos eles são nadadores extremamente hábeis.

Não é a única condição. Há uma outra ainda mais importante. Há certas leis...

O general decidiu não insistir no assunto. Naquele momento os espectadores haviam ficado muito silenciosos. O primeiro participante, lá no alto, na plataforma, estava esperando pelo sinal do líder esportivo.

Quando mergulhou, ouviu-se apenas um "Oh!", seguido por um silêncio tenso na multidão. O homem conseguiu passar em segurança pelo turbilhão da cachoeira e a excitação cresceu quando, reaparecendo, alcançou a primeira das corredeiras. Várias vezes sua cabeça emergiu em busca de ar, mas a cada vez ficava claro que tinha mais dificuldade em manter-se na superfície, lutando desesperado para respirar.

Então, desaparecendo de novo e permanecendo submerso por um tempo considerável, ele emergiu afinal, debatendo-se com um dos braços, tentando alcançar a margem. A sorte estava com ele; um espectador parado na água rasa conseguiu segurar sua mão e puxou-o para terra firme.

O brigadeiro Vrina estava sentado na outra ponta do terraço, ao lado de um velho sacerdote bastante gentil e míope, apaixonado por esportes. Vrina sabia que esse sacerdote participava muito raramente dos ritos, sempre alegando doença ou fraqueza geral para não fazê-lo. Embora se encontrassem poucas vezes, Vrina o apreciava, sentia-se relaxado em sua presença e chegava a baixar a guarda, coisa que era raro fazer.

De onde estava sentado, Vrina podia ver a suave inclinação ascendente de suas terras, o rio formando uma divisão natural com o terreno no qual o palácio de verão estava localizado. Bem abaixo do palácio estavam armadas muitas tendas coloridas e plataformas com camarotes onde oficiais do governo — não os dez principais, mas também não os de baixa classe—, se haviam acomodado com suas famílias.

As terras do brigadeiro Vrina estendiam-se até tão longe quanto alguém podia avistar — muitos milhares de acres de solo bem cuidado, fértil, produzindo o melhor milho de Aztlan. Mais para o alto, o pomar, e, para o oeste, campos de trigo de inverno e outros grãos apropriados à estação, enquanto ainda mais alto se podia avistar a linha escura da floresta virgem, onde sua propriedade fundia-se com as terras tribais, o lar daquele guerreiro entre guerreiros, Zenhar.

Conhecia-os tão bem a todos — Rahazz e sua rainha, Ruan e seus irmãos, quatro deles, todos mortos agora. Em dias passados suas famílias se haviam misturado livremente, as crianças brincando sempre juntas, sempre inventando excursões para o território desconhecido, preocupando e às vezes até mesmo alarmando suas mães.

Às vezes fora necessário enviar patrulhas à procura delas, apenas para encontrá-las todas embaladas, felizes, sujas e pesadamente ador­mecidas no coração da floresta, ou sobre a margem do Zen ou um de seus muitos tributários. E Ruan protestava:

Oh, mas não era necessário, realmente não era; nós estávamos muito bem, sabemos que seguindo o rio ao final chegaremos em casa. Não havia necessidade de se preocupar.

E Zenhar resmungando:

Ah, não, mas eu estou morrendo de fome. Ruan disse que todos devíamos ser como sacerdotes e sacerdotisas, fazendo jejum, bebendo apenas água. E bufava mais uma vez: Eu não quero fazer jejum. Estou faminto.

E suas garotinhas, correndo para ele, que numa das poucas oca­siões em que começara a se preocupar de verdade resolvera acompa­nhar a patrulha ao lado da mulher, Litosê.

Mas Ruan disse que iríamos fazer uma jangada, papai, e que iríamos descer o Zen — disseram-lhe animadas as meninas.

E ele dissera a Ruan:

Uma jangada? Mas com o quê? Vocês trouxeram facas ou algo parecido, uma machadinha? E mesmo assim... todas essas corredeiras... sabem como lidar com elas? São muito perigosas...

O garoto deixara pender a cabeça, depois olhara-o com seriedade:

Mas eu nado muito bem, tio, teríamos dado um jeito.

Então o pequeno Zenhar havia afastado o amigo com o cotovelo,

mostrando uma excelente faca, muito afiada:

E nós temos uma faca. Olhe, eu não esqueci. Nunca me esque­ço de trazer uma faca...

Além disso, tio, quando uma pessoa precisa passar pela Iniciação, precisa fazer todas essas coisas. A gente não deve ter medo, jamais — ele olhara para Vrina, orgulhoso, mas então explodira de repente em lágrimas, correndo para os braços abertos da mulher de Vri­na, que já esperava por ele.

Vrina sabia que desde a morte de sua mãe e o massacre de seus irmãos, Ruan tinha essas crises de choro nos momentos mais inespera­dos e apenas Litosê era capaz de acalmá-lo, beijando-o e abraçando-o, apertando-o fortemente nos braços, por muito tempo.

Vrina deteve seus pensamentos, forçando-se a prestar atenção aos acontecimentos embaixo. Se havia uma coisa que não desejava relembrar era a maneira pela qual a Rainha e quatro de seus filhos morreram. Ruan tinha três anos quando foi deixado sozinho, com apenas um Rahazz sombrio e muito entristecido para cuidar dele.

Quando tinha aquelas crises de choro, dizia sempre, soluçando, ter visto sua mãe e seus irmãos, estes últimos espremidos entre muitas outras crianças, sua mãe atirando-se, aos berros, contra um homem terrível com algo semelhante a uma adaga na mão. E então seu pai atacando, comandando muitos soldados, e as crianças jazendo imóveis, o sangue se escoando, seus pequenos peitos rasgados.

Pronto, pronto, meu pequeno Iniciado — consolava-o Litosê.

Agora esqueça, esqueça tudo isso.

 

A multidão começou a rugir. Outra candidata, desta vez uma moça muito jovem e magra, achava-se sobre a alta plataforma rochosa. Até aquele momento nenhum dos competidores havia passado pelo teste, tendo dois se afogado e dois outros sido arrastados para fora da água, com vários ossos quebrados e muito machucados.

No início pareceu que a moça iria conseguir. Após mergulhar, aflorou duas vezes no turbilhão das corredeiras, chegando mesmo até bem mais adiante que seu predecessor. Ali o rio largo, profundo e aparentemente tranqüilo tinha perigosas correntes no fundo, que devi­am ser evitadas, sua profundidade exata pré-calculada pela ambiciosa nadadora.

Durante longos minutos a jovem não apareceu de novo. Os observadores de ambos os lados do rio, especialmente escolhidos para salvar os participantes quando ficasse claro que necessitavam, viram seu cor­po passar flutuando. Sabendo que naquele ponto a corrente iria chegar muito perto, um deles fez sinal ao outro, dez metros abaixo, que de pronto puxou-a para fora antes que se afogasse. Levaram-na embora, o corpo mole, aparentemente sem vida.

O último participante subia agora para a plataforma. Era alto, muito bronzeado e usava apenas uma tanga vermelha. Como os outros, tinha o corpo todo pintado com estranhas figuras, todas simbolizando espíritos aquáticos e criaturas do rio, seres de espuma destinados a vencer as entidades malignas que povoavam o Zen.

Esse homem em particular havia pintado a cintura mais do que os outros com figuras parecidas com grossas cobras aquáticas, misturan­do-se ao vermelho da tanga. Seu rosto estava oculto por uma máscara de tinta em tons de verde, azul, branco e negro, representando as feições de um dos mais temidos espíritos da água, aquele que controla as correntes subaquáticas.

O sacerdote junto a Vrina, inclinando-se para diante, para ver melhor através de um poderoso binóculo, comentou:

- Você percebeu o modo como ele caminhava? Aquele é um Tolteca, sem dúvida.

Vários dos outros também eram Toltecas — respondeu Vrina, não muito interessado. — Não consigo ver muita diferença.

Hum — fez o sacerdote, balançando a cabeça, como se em dúvida. — Não sei, mas me parece... — interrompeu-se subitamente.

O brigadeiro Vrina, agora surpreso pelo tom de voz do outro, exa­minou com mais cuidado a figura sobre a plataforma. Em sua mente uma voz infantil disse: "Mas você sabe que sou um ótimo nadador, tio."

A rainha, ela própria uma nadadora fabulosa, havia levado o pe­queno Ruan para o rio antes mesmo que soubesse andar. Começando em pequenos lagos rasos e tranqüilos, ele perdera aos poucos o medo da água e passava os longos dias quentes com sua mãe e seus irmãos entran­do e saindo do rio, ocasionalmente acompanhado pelo pai.

Após a tragédia, Ruan voltara sempre que podia para continuar suas sessões de natação, vez por outra acompanhado por Zenhar e pelas filhas de Vrina, mas em geral sozinho, sempre escapando do alcance das várias babás designadas para cuidar dele.

Uma vez Rahazz havia encontrado o palácio em polvorosa por­que o príncipe, então com sete anos, não havia voltado de um passeio não permitido pela floresta. Quando Rahazz o encontrou, estava ador­mecido à margem do rio e, abrindo os olhos, dissera:

Papai, não há mais necessidade de se preocupar. Todo o perigo se acabou para mim — acomodou-se no colo do pai, abraçando-o. — Realmente, ela me disse que agora eu sabia de tudo a respeito da água.

Ela? Quem, ela? -— perguntou-lhe Rahazz, franzindo a testa.

A mulher. A mulher do Zen, é claro. Hoje quase me afoguei e fiquei em pânico. Então ela me segurou e me puxou para a pedra, esta pedra onde estamos sentados agora, e ensinou-me a lei.

Rahazz não disse nada, apenas continuou a escutar.

A lei das águas, pai! Na água, uma pessoa deve ser como a água, fluida, maleável, não resistindo nunca. A água nunca resiste, nunca luta contra nada, disse a mulher do Zen, apenas continua fluindo. Um nadador deve fazer o mesmo, disse ela. Nadamos muito, juntos. Não posso explicar todas as coisas que me mostrou, mas não fiquei com medo de nada, simplesmente não conseguia ficar com medo. Ela me ajudou a fazer coisas que nunca pensaria possíveis, coisas perigosas, e, no entanto, não eram perigosas, porque eu sabia. Eu conhecia a lei. Nunca me senti tão leve antes, tão ágil. Antes, houve muitas vezes em que lutei contra a água, quando estava assustado, mas agora sei fazer melhor. A gente precisa saber, simplesmente saber como. É mesmo simples. Acre­dita em mim, papai?

Claro que acredito em você. Mas vamos para casa agora, filho, você está tremendo.

Segurando a mão de Ruan, o garotinho tagarelando sem parar até chegarem ao palácio, Rahazz caminhou, imerso em pensamentos. Sete anos era uma idade importante, um ponto de virada. Ainda assim, ele parecia tão jovem... aquela voz límpida do garotinho... e agora aquele encontro com a mulher do Zen.

Naquela noite deu ordens de que dali por diante ninguém precisaria acompanhar seu filho quando este fosse nadar: — Não é necessário. Sei que ele estará bem e na melhor companhia.

 

No exato momento em que as águas do rio se fecharam sobre ele, Ruan sentiu-a de imediato ao seu lado. Mas desta vez não o estava ajudando, apenas observando e mostrando-lhe que estava próxima.

Naquela vez, aos sete anos, quando quase se afogara e fora salvo pela mulher do Zen, esta havia aberto certos centros de força em seu corpo.

"... deste modo, sempre que você entrar na água, se tornará Invulnerável. Nenhuma rocha será capaz de feri-lo, nenhuma corrente será forte demais. Lembre-se, a água não é ferida pelas rochas ou pelas margens de terra de ambos os lados, nem pelo fundo que a limita. Ela simplesmente continua fluindo, nada a fere, nada pode retê-la para sem­pre. Quando chega o tempo, ela se liberta e continua fluindo. Seja a água você mesmo."

Depois de passar pelas corredeiras, encarando as pontas afiadas das rochas, ele sabia que era impossível ser ferido por elas, ela o dissera. E no momento exato em que foi lançado contra as rochas, sentiu-se ficar fluido, transformar-se em água. Seu corpo foi arremessado contra aque­las pontas espetadas para cima e para os lados, mas seu corpo fluiu acima e ao lado delas, ao redor de cada obstáculo, apenas para encontrar outro logo à frente, fazer a mesma coisa e continuar em seu caminho.

Sabia que não devia permanecer por tempo demais sob a água. Seu corpo precisava respirar. Assim, emergiu um pouco além do ponto que a moça antes dele havia alcançado, respirou profundamente e mer­gulhou outra vez, até conseguir ver o fundo e tocá-lo com as mãos. Aqui embaixo a corrente diminuía sua força, apenas empurrando-o com sua­vidade para diante.

Durante longos minutos manteve-se nadando ao longo do fundo. Logo a corrente começou a ficar mais forte, precipitando-se para diante com força cada vez maior, até que avistou as últimas rochas, colocadas tão perto umas das outras que seria impossível passar sem tocar qual­quer uma delas. Suas bordas eram afiadas e ameaçadoras, e a velocida­de do rio se multiplicava de repente por cem.

Sentiu fortemente a presença da mulher do Zen, observando-o, quase tocando-o, mas não era necessário. Havia se transformado em água, tornando-se a correnteza selvagem e branca do Zen. Sentiu-se passar junto às rochas. Algo sólido roçou em seu braço esquerdo que, como o outro, mantinha junto ao corpo, mas foi apenas um contato leve e não sentiu qualquer dor. E então estava livre e fluindo para diante.

Agora era mais que tempo de dar ao corpo o que este merecia. Tempo de respirar. Aqui o rio ficava calmo e muito fundo. Projetando-se para cima, atingiu a superfície, inalando o ar em golfadas fortes e profundas.

Quando sua cabeça reapareceu à superfície, um ruído selvagem e infernal fez-se ouvir na multidão, que o aclamava, batia palmas, gritan­do, assobiando e uivando, louca de excitação.

O velho sacerdote sentado ao lado de Vrina levantou-se, gritando e agitando os braços, e o resto dos ocupantes do terraço real seguiu seu exemplo.

Ele conseguiu! Ele o fez! Ele conseguiu! gritava o sacerdote, entusiasmado.

Apenas o Rei permanecia sentado, os olhos não se afastando do homem que continuava nadando, enquanto pensava: "Ele conhece a Lei. Deve ser um Irmão."

Seguiram-se ainda alguns momentos de suspense para os espec­tadores, mas Ruan sabia que tudo havia terminado e, após alcançar a grossa corda estendida por sobre o rio, para indicar o final da corrida, nadou em direção à margem, enquanto os oficiais do esporte já se acha­vam à sua espera, as mãos estendidas.

Yahali tentou ver seu rosto, mas a água não havia conseguido lavar a tinta que o cobria.

De atrás das arquibancadas chegava um latido excitado seguido por um comando em voz alta. E aí Vanzaj se esparramou no chão segu­rando metade da correia de couro que prendia Tzal. Desde a tribuna real pôde-se ver um cão preto e dourado saltando para a água, meio ganindo, meio latindo, seguido por uma multidão excitada, que corria para en­contrar o campeão.

Yahali voltou-se, chamando alguns soldados. Apontando para a multidão, ordenou:

Digam àquele homem que se apresente a mim. Se não estiver disposto, usem a força, mas não o firam. Em voz alta, meio para si mes­mo, disse: — Penso que é um Irmão de um país estrangeiro, mas sinto que já o encontrei em algum lugar, antes.

Homens com faixas verdes nos braços começaram os preparati­vos para o evento seguinte, considerado o mais importante de todos. Ruan conseguiu afinal livrar-se da multidão de admiradores e estava agora fugindo, com Tzal em seus calcanhares. Desapareceu em uma das tendas armadas atrás das arquibancadas para acomodar os participantes e seus auxiliares.

Todos eles, competidores e ajudantes, estavam pesadamente pintados de todas as cores possíveis, como era costume, de modo que ninguém soubesse quem era seu adversário, tornando a ocasião mais interessante por causa das estranhas máscaras usadas por eles, uma combinação de símbolos escolhidos e mesmo inventados pelos vários grupos.

Foi formidável — disse Vanzaj entusiasmado, abraçando Ruan - de tirar o fôlego. Gritamos até ficar roucos.

De fora ouviu-se o som das trompas de chifre e o ruído da multi­dão nas tribunas diminuiu.

- Começou — disse Ruan, aparentemente despreocupado, mas Sheon-La viu a dúvida em seus olhos. Colocou a mão em seu braço.

- Está certo de que vai fazê-lo? — disse em tom sério. — Você sabe que, se falhar, Tzal irá pagar o preço, não você. Isso não é justo.

Ele olhou para o cão-lobo aos seus pés e hesitou.

- Mas todo o Aztlan está esperando pelo sinal — respondeu por fim. - Tenho de mostrar-lhes que seu soberano não é um semideus, mas apenas um ser humano. Que ele, também, pode perder.

- E se você falhar?

- Não, não falharei — Ruan sacudiu a cabeça, tomando cuidado para não demonstrar a dúvida que sentia no coração. — Eu vencerei.

- Mas Tzal vai se assustar quando perceber que tipo de adversário deve enfrentar. E se se recusar a lutar? Ele poderia até mesmo fugir.

- Não. Ele lutará, com certeza. Cuidarei disso... Não irá perceber que o inimigo não é um cão como ele mesmo.

Agora Ruan se ajoelhou junto ao cão, segurando a grande cabeça com as mãos. A moça não tentou mais convencê-lo. Sabendo que precisava ficar sozinho para fazer o que era necessário, deixou a tenda.

 

E, enquanto do lado de fora o barulho aumentava novamente, indicando que a primeira luta começara, Ruan contou a Tzal a história di sua raça. Sua voz era sonhadora e suave, mas seus olhos mantiveram os do cão prisioneiros e seus dedos longos e esguios acariciavam a cabeça de Tizal num movimento rítmico e insistente.

- Cão dos Cães... Supercão, cujos ancestrais vieram à terra vindos do espaço além das estrelas, trazendo a semente do amor para ser espalhada entre a humanidade, escuta...

Ele se interrompeu e então, balançando a cabeça de Tzal em seus braços, de um lado para outro, começou a cantar. Era um canto muito baixo, mal audível a ouvidos humanos, uma mistura de latidos e uivos, estranhamente melodioso de um modo sobrenatural, encantando o cão, que tentava enterrar o focinho ainda mais profundamente nos braços de Ruan.

 

As lutas de cães eram o clímax do Festival de Poraj todos os anos. De todas as partes do país, e mesmo de nações vizinhas e colônias distantes de Aztlan, vinham feiticeiros e magos para se encontrar, para permitir que os produtos de suas vontades e mentes competissem uns com os outros. Na verdade não eram os cães, mas seus criadores que dessa maneira, lutavam uns contra os outros, batalhas de extremo poder.

E todos os anos era o imperador de Aztlan que vencia a luta final. Era sempre o seu cão que permanecia imbatível no campo.

Embora se conhecessem, os proprietários dos cães não eram amigos. Amizade era um sentimento que não conheciam, sendo escravos de suas ambições e da luta pelo poder. Os mais fracos passavam as vidas conspirando e preparando armadilhas para os outros, enquanto os mais sábios mantinham-se friamente alheios a qualquer tipo de contato íntimo com seus camaradas.

- Olhe, o tempo está mudando — exclamou Vanzaj, surpreso, quando nuvens espessas e escuras, vindas como de lugar nenhum, começaram a colocar-se diante do sol, formando um estranho contraste com o resto do céu, ainda de um azul claro e brilhante.

Aquelas nuvens nada têm a ver com o tempo — disse Nehazz, todo pintado. — Você nunca participou antes desse Festival? — quando Vanzaj balançou a cabeça, continuou explicando: — Esses cães, que não são cães, não suportam o contato direto com a luz do sol. E aí que entram as nuvens. Para o nosso clero é uma coisa sem importância criá-las.

— Oh, sim, agora me lembro de ter ouvido a respeito. Esqueci por um momento que não estamos lidando com cães verdadeiros neste caso.

Eles são criados mentalmente por seus possuidores disse Sheon-La. — Mas não há dúvida de que são de carne e osso. O que falta aqui é o princípio superior, com o qual, nenhum sacerdote ou feiticeiro e nem mesmo Yahali têm o poder de imbuí-los.

— Então, na realidade, é uma luta entre seus donos.

- Exato, é de fato uma luta pelo poder. E, é claro, Yahali sempre vence. Mas todos os anos eles tentam de novo, procurando derrubá-lo.

Algumas lutas duravam apenas poucos minutos, terminavam antes mesmo de começar; outras levavam algum tempo para serem decidi­das. Cada feiticeiro tinha seus próprios seguidores, aclamando-o durante a luta, apostando, algumas vezes com tremendas desvantagens.

Mas afinal a última luta terminou. Na arena via-se triunfante uma criatura grande, totalmente negra, da forma de cão-lobo, com olhos ver­melhos e malignos, não focalizados em qualquer coisa externa, objeto, homem ou besta, mas internamente: um elemental aprisionado na for­ma de um cão. O corpo de seu adversário jazia a seus pés, grotescamen­te deformado.

O homem de vermelho, coordenador do Festival, adiantou-se, a mão levantada, solicitando silêncio. E como era repetido todos os anos, porque a tradição o exigia, ele pronunciou as palavras que anunciavam o encerramento do Festival.

Saudações ao vencedor. Se existir alguém desejando desafiá- lo, que se adiante agora.

Aceito o desafio... — bradou Vanzaj, com Tzal ao seu lado. — Que haja uma luta final. Desafio o vencedor.

O apresentador levantou os olhos, mas quando viu Tzal, a expres­são de indiferença desapareceu:

Mas você deve estar louco! Este é um cão de verdade — e ao ver que Vanzaj permanecia em silêncio, continuou: — E seu direito. Não posso recusar. Mas deixe lhe prever que o senhor irá perder um animal esplêndido.

Vanzaj não reagiu. Inclinando-se, retirou a correia que prendia Tzal, girou nos calcanhares e se afastou sem uma palavra.

No campo, no meio daquela imensa sombra escura lançada sobre a terra pelas nuvens, os dois animais se enfrentaram, um absolutamente quieto, os olhos vermelhos brilhando, sem qualquer sinal de medo, o outro, o pelame cintilando, os beiços arreganhados pondo à mostra os aguçados cientes brancos.

Quando viram que o desafiante era um cão verdadeiro, os espec­tadores perceberam que algo extraordinário estava acontecendo. Havia algo mais por trás dessa luta à primeira vista desigual, na qual todas as desvantagens pareciam estar ao lado daquele magnífico desafiante negro-dourado.

Mas... ele vencerá? — perguntou Vanzaj a Nehazz.

Vencerá, se continuar pensando que o outro cão é apenas um cão como ele mesmo. Se Ruan tiver feito bem seu trabalho. Em qual­quer caso, ele cuidará para que nada aconteça a Tzal, não se preocupe.

Tzal, impaciente, atacou antes... sem compreender a estranha imobilidade do inimigo. Com um rosnado, atirou-se contra o outro, mas errou, suas mandíbulas se fechando sobre o nada, sentindo ao mesmo tempo os dentes aguçados em seu pescoço, arrancando chumaços de pêlo.

Como um relâmpago, voltou-se de novo, apenas para ver o adversário parado ali, imóvel, olhando-o sem, no entanto, olhar para coisa alguma.

— Se ele é real, por que não está com medo? — perguntou de si para si o velho sacerdote ao lado de Vrina.

Mas ele não podia ouvir a melodia que Tzal escutava em suas orelhas pontudas, mantendo o medo à distância, assim como não podia ouvir a ressonância de sonho daquelas palavras mágicas:

"Cão entre os Cães... Supercão. Ouça e não tenha medo..."

"Não tenha medo." E assim ele continuou, quase sempre errando a garganta do outro, ferindo-o apenas superficialmente enquanto ele mesmo já estava sangrando por vários ferimentos infligidos quando menos esperava.

No entanto não recuava, embora estivesse intrigado pelo fato de o outro cão nunca parecer deixar o lugar onde estivera parado, com sua Incrível rapidez. Mesmo assim, após algum tempo começou a vacilar, porque não conseguia compreender a estranheza do seu adversário. Por que ele nem sequer rosnava ou gania, como deveria, como faria qual­quer cão? Por que esses olhos vermelhos nem sequer uma vez olhavam pura ele, e, no entanto, nunca erravam durante esses ataques incrivelmen­te rápidos?

"Cão entre os Cães... Supercão. Não tenha medo..." Mas agora ele o ouvia vindo de longe, não mais de dentro de si, mas de fora, como se o canto estivesse desaparecendo lentamente e se visse de súbito deixado a sós num grande campo que não conhecia, enfrentando um adversário cujos movimentos não conseguia adivinhar.

Ruan, concentrado na luta com toda a intensidade, percebeu agora que era tempo de interferir. Viu Tzal vacilar, viu a perplexidade aparecer em seus olhos. Yahali estava começando a vencer, sua criatura iria inalar Tzal que, diante dos olhos da multidão silenciosa, começou a recuar, embora só um pouco. Mas isso era o suficiente.

Yahali está vencendo — disse Lyanta, agarrando com força os braços de Vanzaj. — Oh, não, agora ele deve fugir. Fuja. Para o diabo com a honra, Tzal. Fuja, por favor, fuja. Vamos cuidar para que eles não o agarrem.

- Que pena! Ele está ficando com medo agora. Creio que já não vai demorar muito. E como sempre, Yahali vence — olhando para além de Vrina, para onde o imperador estava sentado, o velho sacerdote viu-o ereto, rígido, as mãos agarrando os braços da poltrona, os olhos fixos na cena lá embaixo.

Quando Ruan tomou consciência de que o desenlace da luta de­pendia agora somente dele, sentiu-se entrar em pânico. Um suor frio brotou em sua testa e sua capacidade de concentração, normalmente enorme, abandonou-o. Pensamentos caóticos começaram a girar em seu cérebro.

Tinha apenas de dissolver as nuvens negras que pairavam sobre o campo. Isso colocaria um ponto final na luta de imediato. Conhecia a magia, os sons suficientemente fortes para desfazer mais do que uma simples nuvem. Seu treinamento havia sido longo e meticuloso. Duran­te alguns poucos e terríveis segundos permaneceu num espaço aberto entre duas arquibancadas, as mãos cerradas em punhos, tentando reunir os pensamentos. E, em seu nervosismo, produziu os sons bem conheci­dos duas vezes.

Mas o que esperava não aconteceu. Em vão esperou, e lhe pare­ceu que a grande sombra negra tapando o sol ficara ainda mais negra.

No meio do campo se achava Tzal, que agora não recuara, mas também deixara de atacar, apenas esperando, rosnando para a morte que se aproximava dele com movimentos inaudíveis, os beiços arreganha- dos até onde os longos dentes pontudos desapareciam nas gengivas ver­melhas. Olhando com desespero, Ruan viu a cena diante de si desvane­cer-se e dar lugar à uma outra.

Uma planície desolada e rochosa. Ele próprio seguramente amar­rado, encostado a uma rocha, revivendo aqueles momentos infindáveis em que Tzal, furioso, a baba se espalhando em todas as direções, se havia atirado sobre ele para matar. Sentiu o pesado corpo do cão, a dor aguda em sua cabeça, ao bater com violência contra a pedra.

E o focinho frio de Tzal contra seu rosto, e seu suspiro profundo e satisfeito.

Ruan sorriu, esquecido do povo nas arquibancadas. Relaxara, sor­riu novamente, aquelas nuvens nada eram para ele. Ainda sorrindo, emi­tiu os sons, agora pela terceira vez, mas agora com o coração e não com a mente, como fizera antes.

O resultado foi surpreendente. Um facho brilhante de raios de sol atravessou a sombra escura que de negra se tornou cinzenta, depois bran­ca, desvanecendo totalmente por fim, deixando o campo, de repente, exposto ao clarão intenso do sol da tarde.

A Coisa que se parecia tanto a um cão, encolheu por dentro, co­meçando a formar uma bola, como se algo a tivesse cortado ao com­prido, enquanto Tzal, com um latido triunfante, saltou para ela, não er­rando desta vez a principal artéria de sua garganta, os dentes se cravan­do enquanto o sangue começava a correr, vermelho-escuro e espesso. Quando a soltou, a criatura caiu sobre um lado, emitindo algo como um suspiro, o único som que fizera durante a luta, um som abafado em sua garganta. E ali ficou jazendo num monte amarrotado e enrugado.

Ninguém aplaudiu. Nas arquibancadas havia um silêncio atônito, os espectadores, olhos arregalados, vendo o incrível acontecimento di­ante de si. A criatura do Sumo Sacerdote vencida por um cão comum, ele próprio derrotado por quem?

Não podia ser verdade. Isso nunca havia acontecido antes. Jamais poderia ter acontecido. E então todos os olhos se voltaram para a tribuna real, onde se achava Yahali, as mãos ainda agarrando os braços da pol­trona, olhos fechados, pendendo frouxamente para um lado.

O Rei desmaiando, talvez mesmo morrendo. O invencível, aque­le que jamais falhava. E então, ninguém soube como começou, um sus­surro percorreu a multidão, crescendo cada vez mais, como ondas ro­lando em direção à costa, seu ruído crescendo até se desfazer na areia.

O Sinal. E o Sinal! Eles mantiveram a palavra. É o Sinal!

Alguns começavam a deixar as arquibancadas, logo seguidos por outros, até que todos desceram para o campo, para dar uma olhada mais de perto no animal derrotado. Na confusão geral ninguém prestou aten­ção ao vencedor, que havia corrido para onde seu dono o esperava, atrás das arquibancadas.

Ruan, depois de acariciar e conversar com o cão, examinou as feridas, que já haviam parado de sangrar, e aplicou um bálsamo. Então se voltou, sabendo que era mais que tempo de deixar o lugar. Entrando na tenda, consultou os outros quanto ao que devia ser feito, encontran­do, ao sair, dois soldados curiosos. Olhando-o, um deles disse:

Uma solicitação do Rei, senhor. Deve apresentar-se na tribuna real de imediato. Sua Majestade está esperando.

Ruan retribuiu a saudação.

Sinto-me muito honrado... — seus olhos voltaram-se rápidos para o palácio, notando a comoção na tribuna.

Poderia ser feito, pensou. Ninguém estava prestando atenção a coisa alguma a não ser ao Rei, que estava semi-deitado em sua cadeira, na certa inconsciente, como podia ver dali.

Vamos, então — disse, colocando as mãos nos ombros dos dois homens, caminhando entre eles. — É verdade que não tenho muito tempo, mas é claro que a solicitação do Rei não pode ser ignorada — continuou tagarelando, sentindo Tzal em seus calcanhares o tempo todo até que terminaram de cruzar o espaço aberto separando-os do palácio e alcançaram a escadaria que levava direto ao terraço.

Ali se deteve:

Está certo agora. Irei sozinho daqui por diante — em alguns saltos estava no terraço, mas ao invés de dirigir-se para onde o Rei esta­va, rodeado pelo que parecia uma hoste de médicos proeminentes, cor­reu para o outro lado, entrando no edifício pelos fundos. Apenas o velho sacerdote, que estava de partida, viu-o passar e entrar no palácio.

No interior deste, Ruan correu através das grandes salas de tetos altos, que conhecia tão bem—, agora completamente vazias, abando­nadas. Chegando ao que fora antes a sala de jantar, ouviu atrás de si o ruído de madeira estraçalhada e o som de vozes altas e excitadas. Então já estavam atrás dele. Mas sabendo o que procurava, sem demonstrar qualquer vacilação, correu para a parede que tinha diante de si.

Quando a guarda pessoal de Yahali se precipitou para dentro da sala de jantar, momentos depois, encontrou o lugar vazio. Nenhum sinal de seu homem. Um minucioso exame daquele aposento em especial, como também do resto da construção, não trouxe quaisquer resultados. Mais tarde, ao fazer seu relatório ao Rei, que havia recuperado a consci­ência, o comandante da guarda disse:

Mais cedo ou mais tarde ele terá de aparecer, senhor. Meus homens estão esperando por ele dentro e fora.

Mas Yahali balançou a cabeça:

É inútil. E melhor chamar seus homens de volta. Sem dúvida o palácio tem entradas secretas, e quem poderia conhecê-las melhor do que o filho de Rahazz? O lugar foi construído por seu pai.

Com efeito, Ruan não teve qualquer dificuldade para encontrar o caminho na confusão de corredores e aposentos construídos sob o palá­cio, onde havia brincado com tanta freqüência quando era criança. A mais ampla e longa das passagens, sabia, levava direto à propriedade de Vrina, passando por sob o rio. Antigamente todas as passagens e aposentos eram iluminados, mas as fontes de energia estavam há muito tempo desativadas. No entanto, embora não tivesse estado ali por anos, encontrou o caminho, no escuro, com tanta facilidade como se tudo tivesse acontecido ontem.

Você está certa de que ele escapou como disse? — perguntou Nehazz, preocupado, à Sheon-La, observando as pessoas que deixavam o campo, passando pelos amplos portões abertos, por onde momentos antes o Rei havia passado.

Sheon-La viu a nave real elevar-se, o sol dourado cintilando na fuselagem.

Sem dúvida, tenho certeza — respondeu. — Costumávamos brincar naquelas passagens subterrâneas, quando crianças — sorriu ela, relembrando. — Uma de nossas brincadeiras favoritas era fazer de con­ta que éramos discípulos passando por todos os tipos de testes horríveis, e tínhamos de ficar um bocado de tempo no escuro para aprender a controlar o elemento terra, para nos acostumarmos às trevas, a nos sentirmos fechados, sem ver nenhuma luz. Nossa imaginação era muito viva e quase sempre ameaçava nos levar consigo. Não era nada divertido, posso dizer.

E, com certeza, era Ruan que passava por esses testes com distinção...

Para sua surpresa, ela balançou a cabeça, rindo.

Não, de modo algum. Ruan era sempre o primeiro a acender as luzes, inventando centenas de desculpas, não querendo demonstrar que estava simplesmente assustado. Mais tarde, depois dos seus treinamentos no templo, confessou que esse teste havia sido o mais difícil para ele.

 

O Brigadeiro Vrina esperou até que todos tivessem partido. Apenas os restaurantes atrás das arquibancadas estavam sendo desmon­tados agora, após terem servido os últimos clientes. Havia dito ao piloto de sua nave privada para voltar à base, pois decidira ficar alguns dias em sua propriedade. Seu administrador ficaria surpreso, pois não estivera no local durante mais de um ano. Cruzou o rio a pé e caminhou os qua­tro quilômetros até a casa.

Desde que se juntara a Yahali estivera ali apenas uma vez, depois que sua mulher o deixou. Seu administrador era um dos melhores, ten­do-o acompanhado por anos. A propriedade continuava produzindo gene­rosas colheitas de milho e trigo de inverno, colheitas muito acima da média, assim como as de seu pomar, as dos acres plantados de batatas-doces, aquelas de sabor especial. Seu gado, vacas e cabras, era saudável, e o leite e queijo muito apreciados por compradores ávidos.

Naquela única vez dormira apenas por uma noite na casa, uma casa que fora tão cheia de risos, divertimento, vozes de crianças e das canções de Litosê. Era construída de pedras esbranquiçadas de sua pró­pria pedreira e o telhado cuidadosamente formado de telhas transparen­tes, de um material semelhante a vidro, de várias cores, que deixavam a luz penetrar em diversos ângulos, tornando possível a Litosê cultivar as flores que amava, mesmo dentro da casa.

Quando alguém sentia necessidade de afastar o sol por algum tempo, tinha apenas de puxar uma alavanca para que um domo construído de material azul-escuro baixasse sobre o aposento.

Após aquela noite solitária passada na casa vazia, olhando para as paredes ornadas de alegres tapeçarias, o chão forrado de esteiras de bam­bu, as janelas com vidros tão coloridos quanto o teto, tudo mantido escrupulosamente limpo pelos criados que insistia em manter pagando um generoso salário, não havia mais voltado. Uma vez por mês o admi­nistrador o procurava com um relatório detalhado, para receber as ordens, que eram poucas e se tornavam ainda mais escassas com os anos.

Uma parte da propriedade, situada ao norte, consistia de floresta virgem, terraços cobertos de arvoredo que escalavam montanhas cada vez mais íngremes, que ele jamais sequer visitara. Essa parte lhe havia sido dada por Yahali depois que suas tropas haviam praticamente varri­do as tribos a quem pertencia a terra, expulsando aqueles que haviam permanecido vivos.

Vrina se perguntava com freqüência por que os homens de Zenhar jamais haviam invadido sua propriedade, nem saqueado a casa ou rou­bado, mesmo só como ato de vingança.

Zenhar certa vez explicara a razão a Dizan:

Você sabe, eu não posso. Eu visitava com freqüência aquele lugar. Como éramos felizes, nós crianças... Ruan o chamava de tio, tio Vrina... sim, eu sei que ele optou por Yahali. Traição, você diz? Mas ele nunca agiu contra nós... lutou até o último momento e depois partiu. Não conseguia suportar as conseqüências da derrota, a perda da pro­priedade, do status. O status sempre significou muito para Vrina. Ele não teve participação nos massacres das tribos... apenas aconteceu que essas terras tribais se limitavam com as suas e que Yahali as ofereceu a ele.

Dizan assentira pensativamente:

Sim, percebo. Então não devemos...?

Não — interrompera Zenhar, enfático. — Não, você deve deixá-lo em paz... além disso, seu administrador vem tentando entrar em contato conosco nos últimos tempos, não sei porque, mas posso imaginar. Não é por ordem de Vrina, é livre iniciativa do administrador... Talvez algo de bom acabe acontecendo por aquele lado.

Dizan erguera os olhos, surpreso:

Seu administrador? Espere um momento... Um viúvo, não é? Um filho, o único, no exército. Sua mãe pertencia ao povo dos elfos.

Zenhar confirmara:

Sim, cerca de 15 anos mais novo que eu. Lembro-me dele como um bebê engraçado, de pele azul, orelhas pontudas e os dedos unidos por membranas... sempre sorrindo.

O crepúsculo baixava quando Vrina alcançou a casa. Não queria perturbar o administrador, que vivia mais adiante, numa sólida casa em companhia de um par de caseiros responsável pelos cuidados com o jardim e a residência.

Entrou pela porta dianteira e se deteve. Da sala principal filtra­vam-se um raio de luz e o som de vozes e risos. Alguém dizia:

Ponha mais lenha no fogo. Está frio aqui.

Vrina franziu a testa. Por que o administrador desejaria acender um fogo a essa hora na casa vazia, e não em sua própria?

Caminhando sem ruído, entrou na sala de estar. Uma garota aquecia as mãos junto ao fogo, um cão adormecido a seus pés. Ao seu lado, Vrina avistou um jovem cuja postura parecia familiar, acariciando-lhe os cabelos, as costas voltadas para o brigadeiro, tentando com a outra mão trazer as mãos da moça aos lábios.

Havia outros na sala, mas não teve tempo de observar tudo, por­que o cão, despertando, o primeiro a vê-lo, avançou com um latido alto, tendo sido logo seguido pelo jovem, que lhe ordenou que ficasse quieto.

O brigadeiro mal prestou atenção ao cão que, antes de alcançá-lo, foi detido por seu dono. Agora estavam um diante do outro, apenas alguns passos os separando, boquiabertos, perplexos.

Vrina sequer sentiu medo como deveria, considerando as cir­cunstâncias. Ficou apenas olhando.

Tio Vrina — disse Ruan, os olhos arregalados. Soltando então o cão, e, adiantando-se de um salto, abraçou o brigadeiro. Desfazendo o abraço, agarrou os braços de Vrina com força. — Não posso acreditar.

O filho de Rahazz — disse Vrina, lágrimas enchendo os olhos, sentindo como a cálida atmosfera dos dias de outrora invadia o aposento. — Foi por isso que senti de repente necessidade de vir aqui outra vez. Que bom encontrá-lo... e em minha própria casa, meu hóspede! — ele se virou para esconder as lágrimas que insistiam em correr, enquanto uma alegria incontrolável começava a tomar conta de si.

Vinho... devemos tomar vinho e conversar... então reconheceu a jovem que estava parada junto ao fogo: — Sheon-La... a garota de Bäar — uma ruga se formou entre seus olhos.

Da escuridão por trás dele, o administrador disse:

Já trouxe o vinho, senhor. O melhor de sua adega. Quando o vi aproximando-se da casa, soube que era realmente uma ocasião... estava certo de que ficaria feliz ao ver seus hóspedes.

Sheon-La respondeu:

Sim, brigadeiro Vrina. A garota de Bäar. Mas, por favor, sente- se e lhe contarei o que aconteceu, como ele morreu. Ele me disse que o ajudou. Sinto-me muito agradecida...

Vrina sorriu consigo mesmo, ao notar a preocupação com que Ruan olhava para a moça. "Ah, você pode ser um Filho da Serpente plenamente iniciado, mas agora está simplesmente com ciúmes, algo que não aprendeu a superar ainda, meu rapaz", pensou enquanto se sen­tava.

Por fim — como estava feliz! — afastou os pensamentos sobre sua mulher e filhas para onde o entristecessem menos. Estava entre amigos, afinal, e podia conversar sem medo tomando uma caneca de vinho, poderia liberar-se como não pudera fazer durante anos.

Conversaram, riram e beberam, o Brigadeiro mais do que devia, ficando com o rosto vermelho, mas ainda assim conseguindo manter a compostura. Então chegou a hora de partirem para casa. Vrina levantou- se também. Despediram-se, entre abraços, um tanto chocados pela cons­ciência da realidade. Os dias de outrora haviam passado, a bela casa ficaria vazia de novo, como estivera por longo tempo.

Ruan, já fora da casa, voltou-se para dizer o que desejara dizer durante toda a noite, sem conseguir reunir a coragem necessária.

Tio? Por que não vem conosco? Por favor, venha! Tia Litosê disse-me que algum dia iria compreender... e ela se sente só. Deixou de cantar.

Ele ficou parado, um olhar triste.

Eu compreendo, sim... já há algum tempo. Mas a hora ainda não chegou. Como eu gostaria que tivesse chegado! — baixou os olhos com resignação. — Dê minhas recomendações... não, o que estou dizendo... Dê um grande abraço àquele seu pai e diga-lhe... — inter­rompeu-se abruptamente — Não, não lhe diga nada... Quanto a ela, mi­nha Litosê, diga-lhe que estou muito mais solitário que ela, que ao me­nos está entre amigos. E... — seus olhos se umedeceram mais uma vez — que desde que ela partiu, nunca fui capaz de fazer amor com qual­quer outra mulher. O sexo ficou insípido e sem sentido sem ela.

Ruan hesitou, desejando dizer algo, mas, desistindo, segurou os antebraços do brigadeiro com ambas as mãos, firme, calorosamente, antes de seguir os outros que já desapareciam na noite.

 

O Brigadeiro não dormiu naquela noite, ficando a vagar durante horas por sua propriedade, seguindo caminhos que esquecera exis­tirem, através do pomar, sem sequer tocar os frutos maduros, cami­nhando pelos campos de trigo em flor.

Sentou-se afinal onde o Zen formava um lago tranqüilo e profundo. O amanhecer encontrou-o ali, o rosto escondido nas mãos. O encontro inesperado na casa rompera um dique que havia construído cuidadosa­mente em seu coração ao longo de todos esses anos. Um dique que agora desabara por completo, sem possibilidades de reparos, liberando as águas da vida.

O administrador, pai de Desh, trouxe-lhe um manto:

Deve estar sentindo muito frio, senhor. Permita-me. E em mi­nha casa o fogo está aceso e o desjejum pronto. Não quer tomar café conosco?

 

Rahazz e Zenhar estavam sentados nos degraus mais baixos do templo, de onde podiam ver o platô abaixo, casas maiores e menores aqui e ali, rodeadas por jardins carregados de flores, que se misturavam livremente com altos arbustos. Em alguns dos jardins haviam pequenas estátuas de jade, cristal, ametista, representando espíritos da natureza das formas mais estranhas.

No extremo sul da cidadezinha, uma trilha estreita descia, uma trilha que, após escalar íngremes gargantas, baixava para a floresta es­pessa, horas e horas de caminhada enérgica, tornando-se mais estreita à medida que se aproximava das terras tribais onde Zenhar havia nascido, em grande parte desocupadas agora.

Em vários pontos estratégicos Zenhar tinha postos de vigia permanentes, todos eles guarnecidos por homens que perderam tudo que possuíam, inclusive parentes e amigos, durante o massacre final. Homens afiados de visão e audição, e amargos de coração. Na cida­dezinha a vida continuava como de costume. Muitas crianças correndo e gritando, brincando, rindo e querelando. Rahazz estivera observando- as por um longo tempo.

Está preocupado. Posso senti-lo — comentou Zenhar. — Qual é o problema?

Você está vendo todas essas crianças? — suspirou Rahazz. — Muito em breve teremos de tirá-las daqui. Muito em breve.

Tirá-las daqui? Mas como, para onde e por quê?

Esta é exatamente a questão. Para onde não é difícil. Permane­ce o como, que será muito difícil, senão impossível.

Percebo. Isso deixa o porquê.

— As coisas estão chegando a um fim, Zenhar. A paz é apenas aparente. Os planos finais de Yahali estão prontos para serem executados. E assim...

E assim lutaremos e...

E o quê? Somos muito poucos em número e armas. Não have­rá nenhum e...

Mas Ruan está tentando provocar uma revolta no meio do povo. Parece que está começando a ter algum sucesso. Não tem confiança nele?

Rahazz nada disse por um longo tempo. Seu olhar estava fixo num grupo de crianças pequenas que tentavam subir nos primeiros degraus da escadaria do templo.

Não é que eu não tenha confiança. Essa coisa é muito maior. Mas quem sabe? Talvez meu filho consiga sucesso onde parece im­possível. Mas olhe de novo para essas crianças. Quantas são... quantas precisaremos tirar daqui quando Ruan falhar, quando o pior ficar pior ainda?

Cerca de duzentas, talvez um pouco menos.

Calcule trezentas. Todos os dias pequenos grupos estão chegando... homens, mulheres, crianças... fugindo do território de Yahali. Até o dia final haverá pelo menos trezentas. Além de suas mães... aque­las que não são mulheres guerreiras. E as grávidas, e também as avós... Mas talvez você esteja certo e eu pessimista demais, e nada do que temo venha a acontecer. Se apenas eles não estivessem tão seguros, tão terrível e inapelavelmente seguros disso... — ele se interrompeu, mantendo-se em silêncio por longos minutos. Por fim, Zenhar não conseguiu suportar mais a tensão.

Eles? Quem? E do que eles estão tão certos"?

Eles... o Conselho da Serpente, da Serpente Alada. Eles esta­vam tristes, mas muito seguros. Não viam qualquer esperança.

O Conselho da Serpente Alada? — Zenhar sentiu um frio no estômago. Ouvir o verdadeiro nome da Ordem ser mencionado, pro­vocava sempre o mesmo efeito sobre ele, mas continuou perguntando: — E o Chefe, aquele que é o Primogênito da Serpente, também não viu esperanças?

Não, não viu. Então você se lembra dele? Você era muito jo­vem quando ele apareceu em nosso meio pela última vez.

Mas me lembro muito bem. Ele me impressionou tanto... disse Zenhar, relembrando. -— Fiquei totalmente fascinado. E, no entanto, era tão simples, estava usando as roupas mais simples, mesmo naquele momento. O que me impressionou ainda mais.

Porque você viu o que ele era na realidade. Ele não gosta de andar regiamente trajado. Apenas o faz em ocasiões muito especiais.

Agora Zenhar olhou direto para o Rei, com expressão suplicante. Sua curiosidade sempre o vencia.

O que significa ser "o Primogênito da Serpente", como dizem? Quem é ele na verdade?

Significa que não nasceu de modo usual... — Rahazz se inter­rompeu, aparentemente não encontrando palavras. — Não de homem e mulher. Não da maneira como todos nós nascemos. Mas é difícil para eu explicar como. Veja... é como o Sol. O Sol emite raios o tempo todo. Esses raios são como seus filhos... claro que isto é uma explicação muito simplista, mas ainda assim serve... eles não são "nascidos". Foi isso que aconteceu com ele, ele foi como que, emanado por um certo Ser, um Ser planetário, assim como os raios são emitidos pelo Sol.

Rahazz levantou-se e começou a descer os últimos degraus, mas Zenhar o reteve:

Não me contou o que o Conselho decidiu.

O Rei baixou os olhos, para o rosto enérgico e aberto, a cicatriz semi-oculta pelo espesso cabelo negro.

Você não gostaria de ouvir o que decidiram, nem sobre seu papel na execução da decisão, que será bastante grande. E quando sou­ber, gostará ainda menos. Mas enfim, até eles cometem enganos. Espero que desta vez isso tenha acontecido. Mas se não for assim, quando tudo ficar claro, você será o primeiro a saber.

Zenhar, levantando-se agora e seguindo o Rei, viu que uma multidão estava se juntando embaixo, ao redor de um homem que chegara correndo pela trilha da floresta.

O príncipe Ruan chegou — disse ele, ofegando. — Eles estão bem. E ele venceu a disputa, derrotou Yahali!

Rahazz viu como uma mulher alta saiu de uma das casas, o cabe­lo castanho mesclado de fios grisalhos, rugas ao redor dos olhos azuis. Ela subiu devagar para onde o pequeno grupo conversava, mas não disse nada, simplesmente permaneceu olhando em silêncio.

Foi Ruan quem a notou primeiro. Em poucos passos aproximou- se dela e abraçou-a com firmeza, como ela fazia quando ele, um menininho, era atormentado por suas próprias visões.

Lamento, tia Litosê... pedi-lhe que viesse conosco, mas ele não quis. Disse que o tempo ainda não chegara.

Litosê assentiu:

Era isso que eu imaginava, embora sentisse uma pequena esperança... — ela se deteve, sorrindo. — Mas ele me deu uma mensa­gem para você, uma mensagem muito pessoal — disse Ruan, repetindo as palavras de Vrina e abraçando-a outra vez quando ela começou a chorar incontrolavelmente, descansando a cabeça em seu ombro, solu­çando como ele com tanta freqüência soluçara em seus braços quando pequeno.

Naqueles dias terríveis, pensou Rahazz, observando, ela havia sido de certa forma a única a defender a rainha quando esta passou por um julgamento após a morte, provando ser amiga verdadeira. Os outros do Conselho, seus irmãos, não demonstraram muito calor e compreensão quando as coisas chegaram àquele ponto.

"Naquela época", pensou Rahazz, "fui forçado a deixar a pessoa que mais amava no mundo seguir sozinha e sem ajuda o caminho que havia escolhido e eu não podia fazer nada para tornar essa estrada me­nos terrível, não podia sequer estar ali para lhe mostrar que não estava tão só como havia pensado, nem tão esquecida. Não podia estar ali até que tudo tivesse passado e a encruzilhada fatídica ficado para trás."

Apenas alguns meses depois do acontecido todos se reuniram, porque assim estava determinado nas regras de sua Ordem.

Reuniram-se no lugar de costume, perto da nascente do Zen, onde, no alto das montanhas, este começava seu curso em golfadas espuman­tes vindas debaixo de pedras negras e árvores antigas.

Era um lugar que o Rei amava e onde costumava ir sozinho quan­do a solidão era necessária e os problemas graves. E ela também amara muito o lugar.

Naquela ocasião, como em muitas anteriores, estava cheio de sacerdotes e outros filhos e filhas da Serpente, a maioria conversando excitadamente, todos tensos e cheios de importância, uma vez que nunca antes haviam sido convocados a decidir sobre um assunto tão sério.

"Conversa, conversa e conversa", pensava Rahazz. "Realmente, conversa demais. Mas então, estou inclinado a favor dela, e, dane-se tudo, como poderia ser de outra forma?"

Deixava que os murmúrios e tagarelices passassem por ele, como a rocha negra sobre a qual estava sentado deixava as águas passarem. Sem ouvir coisa alguma conscientemente, sabia pelos olhares lançados em sua direção que estavam falando a respeito dela... coisas que acha­vam que ele poderia não gostar de ouvir.

Conhecia tudo de cor. Cada coisinha que estava sendo dita e pudesse ser dita por alguém, todos os argumentos. Embora fosse estranho que poucos deles tentassem dizer algo a favor da rainha sem um rosário de "mas" e "se".

Entretanto, embora sua mente concordasse com os outros, seu coração se rebelava e as palavras que sabia que deveria pronunciar como Sumo Sacerdote e Rei não lhe chegavam aos lábios.

Eles começaram a ficar inquietos diante de seu silêncio, sentado ali, sem olhá-los, embrulhado em seu manto vermelho-escuro, estreme­cendo por causa do frio do entardecer... ou por causa daquele outro frio que tentava congelar seu coração, o frio do dever severo e gélido.

"Muitos meses se passaram", pensou. "Meses em que quase nun­ca estive sozinho para confrontar a realidade, sem tempo para derramar lágrimas sobre essa realidade na confusão e caos das lutas, contra-ata­ques e punições, e por fim da restauração da ordem no país conturbado. Agora eu gostaria de estar sozinho, soluçar, chorar livremente, mas ain­da assim não tenho permissão. Pois esta é uma assembléia oficial da Ordem e no final eu... meu Deus, que ridículo... eu devo me pronunciar sobre sua conduta. Não como seu amante, seu companheiro e marido, não como o pai de seus filhos, mas como seu Chefe. Pois ela era tam­bém uma filha da Serpente Alada e, de acordo com as regras, seu erro foi grave."

Ah, sim, sabia de tudo isso. Não havia necessidade de ser lembra­do das regras severas, uma vez que ela lançara todas aquelas regras aos ventos como se nada significassem, uma vez que havia quebrado todos os votos que jurara manter. Não havia necessidade de lhe contar qual era a penalidade última para esse tipo de comportamento, uma penalidade que teria de ser cumprida através de muitas vidas solitárias.

Sabia tudo de cor. No entanto por que então seu coração estava numa fúria tão tempestuosa, protestando tão selvagemente, por que não se permitia dizer aquelas palavras finais, cerrando seus lábios diante dos olhares interrogativos de seus irmãos?

Não viu o pequeno Ruan chegando, não o viu parar com ar perdi­do à beira da água, olhando com incerteza e súplica para o pai, tão triste e sombrio em seu manto vermelho.

O menininho conhecia todas aquelas pessoas que sempre foram amigas para ele. No entanto, sentia algo diferente no ar agora. Não era apenas o fato da perda de sua mãe, sua mãe que depois de ter sempre estado ali com ele, havia desaparecido de repente para um lugar qual­quer que eles chamavam "morte" e que o havia deixado sem ninguém para brincar, pois levara consigo seus quatro irmãos.

Ele os invejava vaga e tristemente. Na certa ela o considerara pe­queno demais para acompanhá-la em sua viagem. Mas por que seu pai não fora também? Será que ela voltaria logo?

E ali estava seu pai agora, quieto, pálido e de algum modo até mesmo zangado, sentado ali, sem perceber ninguém.

Mas antes que suas lágrimas começassem a rolar, os passos de alguém chegaram por trás, um par de mãos o levantou bem alto e uma voz que conhecia disse algo tão tolo em seus ouvidos que fê-lo esquecer que ia chorar. Sentiu-se feliz de repente.

— Ela devia ter percebido que Yahali a estava enganando... De­via. Mas... e se ele não pretendesse iludi-la? E se ele tivesse mantido sua palavra, meus amigos?

Essas palavras, de todo inesperadas, e a mão em seu ombro, fize­ram Rahazz erguer os olhos espantado. Os olhos daquele a quem todos obedeciam, aquele que era chamado "O Primogênito da Serpente", fita­vam os seus com piedade.

Por que tenta com tanto empenho silenciar esse coração indig­nado, meu pobre irmão? Com certeza este é um momento em que mes­mo o Sumo Sacerdote de Aztlan não deveria ser chamado para presidir o julgamento. Permita-me tomar seu lugar desta vez.

Sentou-se com as pernas cruzadas no meio deles, sobre uma ro­cha lisa e chata, o garotinho em seu colo olhando para a solene reunião de pessoas.

"Ele realmente se veste com simplicidade demais", pensaram al­guns, olhando para suas roupas gastas. "E também se comporta de modo simples demais. Isso não parece adequado. Alguém de tão exaltada po­sição deveria mostrar com mais clareza seu esplendor, em especial numa grande ocasião como esta. Ele... sim, ele parece positivamente insignifi­cante."

E vocês chegaram a uma conclusão final?

Havia uns poucos, agora que hesitavam, não mais tão seguros, de seu senso de justiça, ou talvez apenas temerosos da opinião do grande homem, que poderia rebaixá-los diante dos outros. Por fim um deles disse:

Sim. Achamos que sim. Ao menos... a maioria de nós...

Outro:

Todos conhecemos a Lei. Com certeza não há alternativa... ou há?

Outro ainda:

Existe outra solução? Os regulamentos são claros.

Rahazz fez um movimento involuntário e violento, como se dese­jando silenciar o orador, mas reprimiu-se com igual violência.

Afinal... ela expulsou a si mesma, não é verdade?... fazendo o que fez?... Ela rompeu todos os laços conosco... com a Ordem.

Outro movimento abrupto de Rahazz, desta vez irreprimido. E sua voz, zangada, repleta de paixão:

Nós? Por que tentar falar pelos outros? Eu não sei de nenhum laço rompido ente ela e mim. Nenhuma relação de amor verdadeiro pode ser cortada desse modo.

Bem. Não há dúvida de que ela quebrou algumas regras, e estava bastante consciente, não é verdade? — ele, que era o Chefe, falou devagar, curvando o braço para acomodar melhor a criança quase ador­mecida. No entanto, como seu Rei e Sumo Sacerdote afirmou, não é possível romper laços de amor desse modo.

Ela era... é... uma filha da Serpente Alada. Usava o Sinal em seu corpo. Era completamente Iniciada.

No entanto, rompeu os votos, suas solenes promessas...

Ela refutou abertamente a Serpente, difamou tudo que é mais sagrado. Em público. Repetiu todas as horríveis mentiras que Yahali a fez repetir sobre nossa, sua Ordem. Mentiu, deliberada. Vilipendiou a si mesma, a nós, seus irmãos, e a você, o Primogênito. Ouviu o que disse a seu respeito?... Sabe disso? Todos estávamos ali. Nós ouvimos!

Não era possível que ele estivesse escondendo um sorriso. Não, deviam ter sido as sombras brincando em seu rosto. Como poderia al­guém sorrir, sabendo o que ela havia dito a seu respeito?

Sim. Ouvi. Acusou-me de coisas horrorosas. Contudo, foi um esforço de salvar muitas crianças da tortura, da morte horrível.

Admitido. No entanto as leis são claras. Devo repetir o que to­dos conhecemos tão bem? "Sob nenhuma circunstância devo trair esta confiança, trair estes votos sagrados. Nem tortura, nem tentação..."

Mas nada dito sobre a tortura de crianças pequenas... — Essas palavras, ditas por Litosê, esposa de Vrina, que havia sido sua melhor amiga, de algum modo se perderam na acalorada discussão que se se­guiu. — Não adianta repetir. Eu não me atreveria. Mas me pergunto o que teria feito em seu lugar. Deixá-los morrer, sabendo que estava limpa e pura, só para manter os votos?

"Ela os havia visto ali amarrados", pensou Rahazz, "o mais velho com não mais de doze anos, os mais novos aprendendo a andar".

E, ela havia pedido num sussurro:

Yahali! Nem você pode ser tão cruel. Deixe-os ir... eu lhe im­ploro.

A voz de Yahali, gehula, cortante:

Deixarei, Rainha... sob uma condição. Renuncie à Serpente. Publicamente. Agora. Diante de seu povo. Diga-lhes que sua Irmandade não passa de uma conspiração para entregar o povo às mãos do inimigo. Que tudo que a Serpente ensina são mentiras. Que os irmãos desejam torná-los todos escravos... Que vocês, sacerdotes, são libertinos debo­chados, não passam de hipócritas vorazes e luxuriosos.

Isso e muitas mentiras vergonhosas mais. Ela ficara mortalmente pálida, mas apenas por um instante... Então, com um olhar desesperado para o lastimável grupo de crianças comprimidas umas contra as ou­tras, um pavor indizível nos olhos:

—Se eu o fizer, irá deixá-los partir? A todos eles, em segurança, para casa?

Deixarei. Uma escolta os levará.

Então ela, que era a Rainha, lhes dissera. Numa voz clara e firme, embora tremendo incontrolavelmente, ela lhes dissera. Ás mentiras vergonhosas e sujas, as coisas vis, arrastando na lama tudo o que jura­ra manter sagrado, puro. Nenhuma vez sua voz havia falhado, ouvida pela multidão, boquiaberta, até o lugar onde, na sombra, Rahazz espe­rava seus próprios soldados chegarem para começar o ataque.

O Rei estremeceu mais uma vez em seu manto, perdido em me­ditação, não percebendo os olhos atentos sobre si, relembrando seu choque e incredulidade ao ouvir aquelas palavras inacreditáveis.

E ficara muito mais chocado quando ela terminou e Yahali, diante de seus próprios olhos, ordenou que as crianças fossem mortas ali mesmo, os pequenos corações arrancados dos corpos ainda estre­mecendo.

Então o ataque começara, ele se precipitara para diante, vendo- a saltar na direção de Yahali num esforço para deter o massacre, berrando continuamente. Ela havia mesmo conseguido arrancar a adaga sacrificial da mão de alguém, antes de atirar-se sobre Yahali:

Não! Não, não, não, não, NÃO! Você prometeu. Deixe-os ir. Oh, meu Deus, NÃO!

Conseguira ferir Yahali antes que ele a lançasse de volta para os braços dos guardas, ela também ferida.

Depois disso havia apenas a memória da confusão selvagem de homens lutando, corpos de crianças jazendo imóveis e mutilados, algumas sendo salvas, Yahali e alguns sacerdotes escapando. E da multidão, fugindo em pânico ululante da ira dos soldados do Rei, enlouquecidos por causa do que havia sido feito às crianças. Tudo isso e a Rainha tentando reviver os pobres corpos, seu próprio corpo magro devastado por meses de prisão e tortura.

E quando ele a tomara nos braços, ela apenas dissera:

Oh, Rahazz. Por que não pôde chegar antes? Por que demorou tanto? Se apenas pudéssemos ter salvo a todos. Se apenas...

Ele nada dissera, uma vez que nada havia para dizer... Somente a embalara nos braços. Qualquer esforço para acalmá-la teria sido inútil, com o cheiro de sangue ainda nas narinas, os ecos dos lamentos agoniados nos ouvidos. E enquanto a abraçava, ele sentira que a vida estava deixando lentamente seu corpo.

"É muito fácil ler os pensamentos de todos eles", pensou o Primo­gênito, "tão fácil como se eles estivessem discutindo em voz alta".

Litosê, a mulher que fora a melhor amiga da Rainha:

"Em nome do céu, que mais ela poderia ter feito? Afinal ninguém foi ferido, na realidade, por causa da assim chamada "confissão"... Mas naturalmente ela deveria saber que Yahali não iria manter a palavra. Ela deveria... muito fácil dizer isso... mas, em nome de Deus, como ela poderia estar segura? Como? Quanto estardalhaço todos eles estão fazendo... Eu não acho que teria coragem de fazer o que ela fez... mas não foi a única coisa a fazer que realmente tinha sentido, naquelas circunstâncias?"

Litosê sentiu os olhos do Primogênito sobre si, assustou-se, corou e baixou os seus. Mas ele não pareceu estar zangado consigo, embo­ra fosse óbvio que havia lido seus pensamentos.

"Bem... aconteceu, afinal. Sempre pensei que havia algo estranho nela... e a influência que tinha sobre o Rei nem sempre era boa, também, embora na verdade ninguém poderia dizer que ela estivesse mal intenci­onada. Ela era assim mesmo, embora para uma Rainha Tolteca e Filha da Serpente, ela realmente, bem..."

Percebendo esses e outros pensamentos, o Chefe não teve dificuldade em formar um quadro das várias opiniões com as imagens que passavam por ele em relâmpagos, uma delas evocada por um sacerdote sentado ao seu lado.

O sacerdote vira um templo e crianças brincando, divertindo-se deliciadas, fingindo serem sacerdotes e sacerdotisas, cantando cânticos sagrados, imitando os rituais. Depois o mesmo templo com muito lixo espalhado, uma pequena sandália rasgada, um piso de cristal imaculado agora sujo por pequenos pés enlameados. Numa outra imagem, o sacer­dote queixando-se a Rahazz:

— Coisas sagradas são sagradas. As crianças não deviam ter permissão para brincar em lugares santos, deviam ser mais respeito­sas. E deixaram o local numa sujeira total.

O sorriso dela:

—Eu lhes direi para limparem. Isso é seu dever.

O sacerdote, tentando ignorá-la, olhando para o Rei:

—Mas essa não é a questão. Os Servidores da Serpente reúnem-se ali. Elas não deveriam ter permissão!

Novamente o sorriso dela.

-—A Serpente é Vida. A Vida é sagrada, meu amigo. Como no mundo, seria possível para o Ser Alado ser profanado por brincadeiras inocentes?

Um olhar do pensador para Rahazz, e outra imagem:

"O homem é, na realidade, fraco. Naturalmente, ela era sua mu­lher. Mas seu principal dever é o de Sumo Sacerdote da Ordem... seja qual for o preço. Engraçado que estou percebendo agora que ele é fraco. Uma pena. Deveríamos ter um Rei diferente..."

E Litosê:

"Graças a Deus não sou Rei nem Sumo Sacerdote. Que terrível ter de fazer o que ele deve fazer, condenar sua própria mulher, sua ama­da... Que criatura adorável, alegre e gentil ela era. O que será que o Chefe vai dizer e o que estará pensando neste momento? Como tudo isso o afeta? Foi muito considerado, muito gentil de sua parte assumir. Mas não direi nem mais uma palavra... nenhuma... Parece que eles estão ouvindo apenas as próprias vozes.."

Se ela errou, errou por causa de uma compaixão grande demais, por causa de ternura demais, um desejo grande demais de proteger e defender.

A voz, as palavras claramente enunciadas, foram ouvidas por to­dos e abafaram de imediato os murmúrios. Todos olharam para o Primogênito em suas roupas simples, comandando sua atenção de um modo natural, inevitável, embora não pudessem dizer o que havia nele que tornava as coisas assim.

Mas... terá ela errado, meus irmãos? E se o fez... qual deveria ser sua punição? Qual a punição para o amor, a piedade, a compaixão?

Há momentos em que mesmo a Serpente considera adequado sus­pender o julgamento... Momentos em que leis mais altas do que as da nossa Ordem... e não duvidem por um único momento que estas exis­tem... entram em ação, paralisando as mais baixas, que até aquele mo­mento eram as únicas que conhecíamos.

Todos pertencemos à mesma Ordem... sim, e ela não pareceu se preocupar muito com as regras, não é verdade?

Mas talvez ela conhecesse a existência da outra Ordem, uma Or­dem mais abrangente, mais sublime, menos terrena. Talvez ao fazer o que fez, ela tenha quebrado certos laços, embora ao fazê-lo tenha tecido alguns outros, quem sabe muito mais importantes e duráveis do que os que conhecíamos até agora, meus irmãos.

 

Naquela noite Rahazz e seis sacerdotes subiram a escadaria do templo para uma jornada de trabalho árduo.

Na realidade muito cansativo e sério, eles o chamavam jocosamente entre si "a fabricação de ilusões", sendo a ilusão fabricada, nesse caso, um fortalecimento semanal de um falso cenário, que se estendia sobre o templo, casas, terraços de plantio e outros acidentes geográficos presentes, para evitar qualquer tipo de identificação.

A ilusão havia sido criada pouco depois de terem se instalado neste lugar determinado nas montanhas, e era tão perfeita que até agora nenhuma nave inimiga, em reconhecimento pela região, fora jamais capaz de detectar qualquer coisa a não ser a densa floresta, entrecortada pelo brilho do rio Zen, apressando-se na direção do mar desde um lugar invi­sível, muito mais elevado.

O próprio rio não era uma ilusão: aparecendo nos fundos da cena, atravessava a planície com suas casas e outras construções, seus jardins e trilhas estreitas, rodeando a pista de pouso, onde apenas uma ou duas naves se viam normalmente. As outras estavam estacionadas num abrigo subterrâneo, pequeno, mas resistente, como a ponte que cruzava o Zen um pouco mais abaixo.

A falsa imagem de uma floresta de vários tipos de árvores e arbustos era baseada na vista real e viva do rio. Era fácil projetar uma imagem parada, porém, muito mais difícil, embora essencial, dar uma ilusão de vida, de crescimento da floresta.

Ao reforçar o cenário todas as semanas eles tomavam o cuidado de introduzir pequenas modificações: os arbustos, depois de algum tempo, ficavam mais altos, em especial se havia chovido muito, as folhas perdiam a cor de acordo com a estação, as árvores explodiam em flores, como as árvores da floresta real. Bagas e outros frutos apareciam na época certa e sempre havia o rio, muito vivo, que podia ser visto fluindo em meio a um trecho de grama, bosques de árvores verdadeiras capazes de satisfa­zer até ao mais experiente e suspeitoso piloto.

Com freqüência um toque extra de realidade era acrescentado à ilusão, quando revoadas de pássaros subiam dos jardins, das ruas e das árvores reais, para circular sobre a área e pousar de novo, ou voar para longe. Do céu parecia que eles haviam vindo do coração da floresta virgem, quando na verdade vinham das árvores que alinhavam as ruas estreitas e os jardins tornados invisíveis pelo trabalho dos sacerdotes.

A atuação da equipe tinha de ser perfeita, Rahazz sabia. Juntos conseguiam criar uma ilusão maravilhosa, para a qual cada um contribuía com suas especialidades (havia três sacerdotisas entre eles). Um deles era muito bom em projetar árvores, completas até nos mínimos detalhes. A especialidade de outro era encaixar a imagem na coisa real, um detalhe muito importante. Outro ainda encarregava-se do cuidado especial de carregar as árvores com flores, algumas ainda em botão, outras já abertas, e frutos, amadurecendo, maduros, e ou ainda muito verdes, de acordo com a época do ano, completando detalhes esquecidos.

Apenas o Rei, entretanto, era capaz, em dias especiais, perigosos, quando mais de uma nave inimiga vinha sobrevoar aquela região em particular, de proporcionar uma sensação de movimento, o vento in­clinando as copas das árvores como fazia com as da floresta real. Era sua também a tarefa de coordenar todas aquelas imagens, vivas ou não, e cuidar para que tudo fosse como devia ser.

 

Desde o festival de Poraj a notícia se espalhava por todo Aztlan: "eles" haviam prometido e mantido a promessa. O primeiro sinal havia sido dado quando o cão do rei acabara destruído por um cão desconhecido, verdadeiro.

E desde o festival outras coisas começaram a acontecer. Às vezes no meio de uma reunião de pessoas celebrando este ou aquele fato im­portante, às vezes nos mercados, nas saunas, durante eventos esporti­vos, em festas elegantes nas grandes mansões e mesmo nas Casas de Imagens.

Embora a qualidade das histórias exibidas naquelas casas de ima­gens houvesse degenerado mais e mais ao correr dos anos, seu nível técnico era surpreendente, sua perfeição simplesmente avassaladora, como se os produtores de imagens, numa espécie de desespero, tives­sem decidido concentrar-se na beleza superficial das imagens, no exte­rior, uma vez que não podiam mostrar a verdade, o interior, que lhes havia sido proibido.

Proibido não era a palavra certa. Desde a derrota de Rahazz nun­ca havia sido decretada qualquer lei a respeito de quais tópicos eram proibidos ou de como deveriam ser apresentados ou abordados.

Assim, teoricamente, os artistas, os autores e todas as pessoas ne­cessárias para produzir uma boa história eram efetivamente livres para criar como lhes agradasse. Teoricamente. Nenhum censor ficava vigiando ao lado, ninguém lhes dizia se o que estavam fazendo estava certo ou não. Eram cuidadosamente deixados a sós com seus sonhos mais loucos.

Mas quando o resultado de tanta liberdade era afinal mostrado nas casas de imagens por todo o país, e sucedia ser encontrado o menor detalhe que não agradasse ao Rei e seus Ministros da educação, os ato­res, escritores, produtores e outros envolvidos desapareciam nos cárce­res do Império, para nunca mais reaparecer.

Depois que isso aconteceu algumas vezes ninguém mais se aven­turou a sentir-se livre para criar diferentemente, ousadamente. Gradual­mente uma autocensura sombria e férrea se estabelecera naqueles círcu­los e, gradualmente também, a qualidade das histórias em imagens ha­via decaído, até alcançar os níveis mais baixos de insipidez e idiotice.

No entanto, as casas de imagens estavam sempre cheias e os pro­dutores não perdiam dinheiro. Isso acontecia porque existia uma crença geral de que aqueles que adquiriam o costume de não freqüentar as ca­sas de imagens seriam denunciados por agentes da polícia e sofreriam o destino comum a todos os adversários do regime. Assim, ninguém se importava, o dinheiro continuava rolando e estava claro que os altares de Yahali continuavam exigindo vítimas.

Assim mesmo, após o Festival de Poraj passou a acontecer que durante os espetáculos de imagens alguém sentia um toque ligeiro no braço e ouvia algumas palavras sussurradas em voz baixa:

— Na lua cheia. O Vale da Luz.

Nunca se conseguia ver o rosto de quem havia sussurrado, e tam­bém ninguém desejava vê-lo. As pessoas não sabiam como seu desagra­do com o regime era conhecido pelos oponentes deste e em geral passa­vam vários dias tensas de pavor, quase em pânico, pensando que a men­sagem poderia ser uma armadilha, que suspeitas de traição, estivessem sendo testadas desse modo.

Mas logo o medo passava, uma vez que nada mais acontecia e vários amigos comentavam entre si que também haviam sido procurados e recebido a mensagem.

Podia ser verdade então que as coisas estavam começando a mu­dar e que, na realidade, desde os acontecimentos do Festival de Poraj, o fim de Yahali poderia estar mesmo próximo. No entanto as pessoas temiam admitir esse tipo de pensamento, mesmo quando sozinhas.

O fim de Yahali. Isso parecia impossível. Aztlan era tão enorme, estendendo-se aos rincões mais distantes da Terra com apenas uma ou outra pequena região de nações ainda não engolidas

E quem iria provocar esse fim? Os pequenos e bravos grupos das montanhas com seu Rei já envelhecendo? Seu filho? Mesmo ele, o que poderia fazer sem o apoio de um exército numeroso e bem-treinado? Zenhar era um grande comandante, mas o número de seus guerreiros tribais era insignificante. Ainda não haviam sido varridos de vez apenas por causa dos esconderijos nos quais se entrincheiravam.

E então, em mais um momento de dúvida, lembravam-se das palavras sussurradas: "Na lua cheia. O Vale da Luz." E em centenas de lugares, casas de bebidas, lojas, e sim, mesmo nos templos durante os rituais, era possível que alguém sentisse um toque no ombro, uma mão segurando-o levemente pelo braço de modo a não atrair suspeitas no meio da multidão, um rosto desconhecido semi-oculto nas sombras e um erguer de sobrancelhas. E sempre as mesmas palavras: "Na lua cheia. O Vale da Luz."

 

Sheon-La havia insistido em participar também da tarefa dos mensageiros:

— Conheço todos os contatos e eles me conhecem. Não há necessidade sequer de ficar incógnita, especialmente se me mantiver afastada de Dliar.

Mas quando Lyanta disse que desejava ir também, todos votaram contra:

Conhecem-na bem demais na capital e nas outras cidades. A linda filha de Tchamar, que foi presa e depois libertada com a ajuda dos rebeldes, desaparecendo após deixar seu pai morto... Um capitão da guarda voltando para contar algumas histórias jamais ouvidas. Você já se expôs demais pichando paredes de templos. Portanto agora devia deixar isso de lado.

Mas Sheon-La também está correndo um grande risco — pro­testou Lyanta:

Não, não estou — Sheon-La sacudiu a cabeça, enfática. — Nunca fui a filha de alguém importante, como você. Sou praticamente desconhecida fora de Dhar... E, além disso, tenho acesso a muitos contatos subversivos. Você não tem. Eles poderiam mesmo desacreditar de você lembrando-se de quem era seu pai.

Estavam na casa de Litosê, bebendo e comendo, os homens com os braços ao redor das moças, a mão de Ruan descansando leve sobre um dos seios de Sheon-La, excitando-a.

Ela tentou afastar-se, mas ele não permitiu.

-— Ruan, pare com isso! Não posso pensar com clareza quando você faz isso.

Ele riu, abraçando-a com mais força.

-— Mas é exatamente esse o ponto... não quero que você pense com clareza. Não quero que saia daqui e corra todos esses riscos...

-— O que ele quer dizer é que não deseja vê-la entrar numa confu­são e arranjar algum outro camarada para livrá-la da mesma — comentou Vanzaj com um sorriso. — Ele está apenas com ciúmes ao pensar na possibilidade. Pensei que isso fosse contra as regras da Ordem.

Sheon-La reclinou-se contra Ruan, puxando seus braços ao redor de si, enquanto ele respondia a Vanzaj:

E é... mas é uma das mais difíceis de seguir.

Os agentes de Yahali, sabendo de tudo sobre as mensagens, escreviam longos relatórios a seus chefes, mas nunca conseguiam colo­car as mãos nos mensageiros.

As ordens de Yahali haviam sido claras:

Não prendam ninguém. Deixem-nos agir como lhes agradar. Apenas observem. Relatem tudo com detalhes. Mas não prendam nin­guém.

Os chefes de sua polícia haviam ficado atônitos e o demonstra­ram:

Senhor... eu não compreendo. Não prender ninguém? Mas isso é perigoso. E se...

Eu não me importo com o "se". Essas são as minhas ordens, para serem executadas exatamente como desejo. Está claro?

Todos abaixavam a cabeça, diziam que estava muito claro e parti­am, realmente atordoados. O que ele teria em mente? Qual poderia ser a sua estratégia? Não pensava que tanta gente se reunindo no Vale da Luz seria perigoso? Mas, então, na certa ele queria agarrar todos ao mesmo tempo, de modo que ninguém fosse capaz de escapar. Com certeza ha­veria muitos, uma grande quantidade de corações para fortalecer o Co­ração Solar.

No entanto, o desfiladeiro que constituía o único acesso ao Vale da Luz, seria sem dúvida guarnecido pelos homens de Zenhar. Como então Yahali seria capaz de prender as pessoas presentes à reunião? E se todas essas pessoas comparecessem armadas? Armadas e decididas a enfrentar os soldados, soldados em qualquer caso incapazes de tomar o desfiladeiro sem sofrer pesadas perdas, se conseguissem tomá-lo!

Haviam demasiadas dúvidas, mas certamente o Rei havia pensa­do num plano que não conseguiam antever, um plano que apenas pode­ria ser criado por aquela mente fantástica.

Quando todos partiram, Yahali levantou-se e se aproximou de uma das grandes janelas da sala. A noite apenas começava e no céu a lua estava branca e muito fina.

"Ela não chegou sequer ao quarto crescente", pensou. "Ainda há muito tempo para fazer o que deve ser feito."

Todos eles haviam ficado realmente estupefatos com suas ordens, não sabendo o que ele sabia, e já desde algum tempo. Após alguns mo­mentos de indecisão, subiu as escadas até a torre redonda que coroava o palácio, coberta por um domo de cristal, removível. Nas paredes da sala pendiam grandes mapas dourados dos céus meridionais e setentrionais, e no meio estavam instalados vários poderosos telescópios.

Sentou-se a uma mesa coberta de outros mapas, inclinou a cabeça sobre eles, já perdido em complicados cálculos, os ardentes olhos ne­gros observando os símbolos que tinha diante de si sobre o metal preci­oso. Ao redor, o mundo cessava de existir; durante essas horas, ouvia as vozes dos astros, decifrando suas mensagens.

Por fim levantou-se e desceu para os jardins, onde ficou perambulando até o amanhecer. Os guardas, vendo-o passar tantas vezes, es­pecularam sobre o olhar fixo de sua magra face escura. Era óbvio que o Rei estava distante, onde ninguém seria capaz de segui-lo.

Com efeito, naquela noite a mensagem dos astros havia se torna­do clara para Yahali... sabia agora que o caminho para as alturas estonteantes do poder estavam abertos. Sim, agora mesmo a divindade estava ao alcance e ninguém no mundo seria capaz de detê-lo. Não agora. Não mais. Rahazz, Ruan e mesmo aquela figura misteriosa chamada “Primogênito da Serpente" não tinham mais importância, pequenas cria­turas insignificantes desvanecendo-se num passado distante. Havia ven­cido.

Na verdade, houvera também uma outra voz, diminuta e insisten­te, quase perdida entre todas aquelas, outras profetizando glórias indizíveis. A essa voz também ouvira e compreendera, mas não chegou a se preocupar.

Caos? Desastres por todo o país... a morte de milhões não causada por mãos humanas?

O Rei encolheu os ombros. Comparada àquele outro coro planetário, contando sobre poder além da imaginação, conquistas indes­critíveis, a pequena voz era nada, embora tivesse de admitir que essa nota particular de discórdia era poderosa e muito respeitada pelos astrólogos.

Catástrofes? Desastres? Isso sempre estava ocorrendo aqui e ali, causando mortes.

Aztlan era enorme e erupções inesperadas, inundações, terremo­tos, súbitas tempestades e terríveis ciclones aconteciam às vezes, até simultaneamente em vários lugares. Essas coisas eram normais e deviam ser esperadas. Algumas partes do país eram mais vulneráveis a certos tipos de desastres, pensou. Assim, obedecendo àquela pequena e desagradável voz planetária como devia, iria enviar avisos aos gover­nadores das províncias em questão. Prevenidos de antemão, seriam ca­pazes de tomar todas as medidas necessárias para manter a calamidade sob controle, limitando a perda de vidas humanas e propriedades a um mínimo.

Em qualquer caso, esses desastres não iriam afetá-lo, ao menos duramente. Seu destino individual nada tinha a ver com elas, sabia... Mas, como Rei, deveria fazer tudo ao seu alcance para evitar sofrimento desnecessário para seu povo.

Sheon-La acabara de passar sua mensagem a um vendedor de rua que conhecia muito bem quando ouviu os gritos:

— Mas aquela é a garota atrás da qual estamos há meses, a moça cio bracelete. Vamos agarrá-la.

Viu o agente correndo em sua direção, seguido por três outros, um deles soldado, o resto da multidão olhando, bastante intrigada, mas sem saber o porquê de toda a excitação.

Passando através das várias fileiras de barracas no mercado, mer­gulhando numa estreita rua lateral, continuou correndo apenas para des­cobrir que a rua terminava abruptamente diante de um alto muro de pedra. Olhou para trás. Seus perseguidores acabavam de aparecer, o sol­dado correndo muito à frente dos outros. Mesmo naquele momento ela ficou intrigada com o homem, ele parecia tão diferente. Algo a ver com suas orelhas... E quando ele a alcançou, agarrando seu braço, ela viu as membranas entre os dedos.

Ficou ainda mais surpresa quando o ouviu dizer por entre os den­tes:

Que coisa mais estúpida... Você deveria ter feito algo melhor que escolher uma rua sem saída... qualquer outra, menos essa — e antes que pudesse responder: — Diga-me: a quem quer que avise sobre sua prisão? Sou um amigo.

Tudo se passou em alguns segundos e sua hesitação foi breve. Ruan devia ser avisado. Esse jovem era um soldado, não pertencia à polícia. Ela lhe deu o nome de Beres, o administrador de Vrina. Quando os outros os alcançaram, agradeceram ao soldado-elfo por ajudá-los e ela foi levada.

 

Desh foi deixado para trás na rua estreita e escura, ainda tonto com o que acabara de ouvir, olhando para o grupo até não haver mais nada para olhar.

Beres! O administrador de Vrina. Seu próprio pai. Não podia ser! Então era nisso que o velho estava envolvido quando o visitara um mês antes, achando-o ainda mais taciturno e reticente do que de costume. Suas perguntas haviam recebido respostas evasivas como:

Não, meu rapaz, não é nada, apenas solidão. Mas isso faz parte da vida de um viúvo. Realmente não, apenas negócios. Nos últimos tem­pos o preço das colheitas...

Mas Desh não ficara convencido. Algo estava diferente, podia senti-lo, e as respostas de seu pai eram simplesmente sem sentido.

Quando se despediu, o pai o havia abraçado demonstrando preo­cupação real e dissera:

Cuide de si, Desh. Os tempos estão negros e ficando ainda mais negros.

Ele demonstrara surpresa.

Mas eu estou no Exército, pai, lembra-se? Nada irá acontecer comigo. Não há nenhuma guerra exceto as escaramuças costumeiras com os soldados rebeldes.

Seu pai havia assentido:

Mas é justo isso que me preocupa. Você estar no exército, quero dizer. Gosta dessa vida?

Pensara por um momento, tentando descobrir no rosto do pai o motivo verdadeiro da pergunta.

Bem, em geral é uma vida fácil, embora com freqüência seja muito tediosa. Por que pergunta? Eles pagam bem e até agora consegui evitar matar e ser morto.

Beres rira:

Meu filho, um soldado que não gosta de matar... eles sabem disso? Isso aparece?

Eles? Oh, percebo, os oficiais. Não, não sabem. Meu problema é que não consigo me tornar agressivo o suficiente para atacar cama­radas que não conheço. Simplesmente não consigo. Outro de meus pro­blemas é que acho a vida do Exército excitante apenas quando estão se preparando para uma batalha. Então todo o aborrecimento se vai e o fascínio se estabelece. Você não tem idéia, todos ficam excitados, nervosos, e cada um pensa em si como um herói. Mas apenas antes.

Mas o que acha ser tão fácil em sua profissão?

O fato de eu não precisar pensar. Simplesmente sigo as ordens, você nem sequer sabe de onde elas vêm, há sempre alguém de posto mais alto dando ordens a alguém de posto mais baixo, e recebendo-as de alguém ainda mais alto. A responsabilidade está fora. Somos treinados para não pensar e com freqüência isso é um alívio. Temos de ouvir a todos os tipos de lavagem cerebral e, uma vez que não se espera que pensemos, é bastante fácil engolir tudo. E na verdade um alívio deixar que os outros pensem por você. Ao menos, eu achava isso até algum tempo atrás. E então, de repente, quando esqueci de não pensar, todos os tipos de coisas estranhas começaram a acontecer.

Ele se lembrou da súbita mudança na expressão do rosto do pai, o interesse crescendo em seus olhos.

O que aconteceu?

Nada, em realidade — ele hesitou —, ou tudo. Comecei a me comportar bastante contrariamente às regras, a toda aquela falação que eles costumam despejar sobre nós. Isso fez com que me sentisse mara­vilhosamente bem e me preocupou ao mesmo tempo. Depois entrei em pânico. O que aconteceria se eu continuasse por esse caminho?

Não respondera quando seu pai perguntou sobre antes do "depois", alegando que já era tarde, tinha de voltar para apresentar-se. Sua licença havia terminado. O pai não o pressionara, mas parecera ficar bem-humorado, abraçando-o de novo, com calor, demonstrando muita afeição e, sim, alívio.

Alívio? Sim, aquela era a palavra, e agora sabia por quê. Portanto agora tinha de prevenir Beres, seu próprio pai, um rebelde. E ele no Exército Real, tendo ultimamente todos os tipos de idéias que não deve­ria ter. Tentou lembrar-se do que estavam sempre dizendo naquelas pa­lestras. E quanto a seu juramento? De acordo com os livros, agora deve­ria parar de pensar, seguir ordens sempre. Por que se havia alistado se não acreditava na glória das Forças Armadas? Oh, para o diabo com tudo. A moça apenas dera o próprio nome e o de Beres. E assim, havia acontecido pela segunda vez. Naturalmente, poderia ignorar tudo, vol­tar ao quartel. Isso na certa seria a melhor coisa.

Naquela noite mesmo pediu uma licença extra para visitar o pai que havia adoecido de repente, explicou.

 

O agente secreto que prendera Sheon-La teve de enfrentar uma curta e violenta discussão com seu chefe.

Por que ignorou as ordens do Rei? Você sabe que estamos proibidos de prender qualquer pessoa antes da lua cheia. Estou surpreso com sua falta de disciplina e...

-— Mas estivemos à caça dela por vários meses! Sua prisão não tem nada a ver com a divulgação daquela maldita mensagem e também acho que o Rei... — nesse ponto o agente se detivera, espantado, exata­mente a tempo de se colocar em guarda.

O chefe da Polícia Secreta de Poraj examinou-o de alto a baixo, com frieza:

Por que parou agora? Essa conversa está ficando bastante inte­ressante.

Seu subordinado estava furioso, mas procurou não demonstrá-lo. Estivera tentando encontrar a moça durante todo esse tempo na esperan­ça de que algum golpe de sorte a colocasse em suas mãos. E agora que havia acontecido, tinha de deixá-la ir. Se apenas pudesse mantê-la por um dia ou dois, para atrair seu amante, o proprietário do bracelete... O filho de Rahazz por certo viria em seu resgate e, quando o fizesse, a armadilha estaria preparada. O sucessor de Tchamar, ficaria muito feliz em cooperar. O Rei estava fora da capital, visitando as províncias do norte, onde alguma espécie de rebelião havia começado nos quartéis. Talvez seu chefe... Ele olhou para o outro:

Lamento, senhor, naturalmente está certo. Mas não haveria uma possibilidade de mantê-la por apenas dois dias? — explicou seu plano com detalhes e notou que este agradava ao homem.

Ótimo! Isso faz sentido, mas lembre-se que ela não deve sofrer qualquer espécie de dano. E depois, deve deixá-la partir.

E o Príncipe?

Ah! Isto é mesmo outro assunto. Se você for bem-sucedido, iremos mantê-lo detido até o regresso do Rei.

 

Quando Desh chegou à casa, encontrou o pai tratando de uma cabra que acabara de dar à luz. Impaciente, entrou no estábulo, sem fôlego, pois correra sem parar os últimos três quilômetros.

Pai... — calou-se, olhando para o homem ao lado de Beres, que sorria para ele.

Olá, Desh. Não se lembra de mim?

Sem dúvida se lembrava. Tinha apenas dois ou três anos na época em que o homem que se achava diante de si teria talvez... calculou com rapidez... uns dezenove. Tinha-o carregado para todos os lados para ver os animais, levara-o ao pomar para comer as frutas suculentas, contara-lhe histórias sobre heróis esplêndidos lutando contra reis maldosos.

Sim, eu me lembro — respondeu, realmente atônito.

Lembro-me de ter ficado em pé sobre seus ombros para alcan­çar as frutas mais maduras. E agora estou aqui para...

— Para contar-me que ela foi presa — disse Ruan, terminando a sentença por ele. — Não é verdade? Cheguei ontem, sabendo que iria encontrá-lo aqui.

Sentaram-se sobre a palha, Beres observando, o rosto iluminado, enquanto acariciava a cabra que ainda sofria, balindo mansamente.

Quando Desh terminou sua história, disse, remexendo no cinturão:

Príncipe Ruan... não sei se aprova, mas esta é uma ocasião especial para mim, muito especial. Não desejaria fumar comigo?

Dando um puxão final, retirou seu tubo de prata de fumar juntamente com um saquinho bordado, mas antes que conseguisse fazer algo, Ruan retirou os objetos de sua mão.

Permita-me... — olhou por alguns momentos para o tubo, estudando seus ornatos. — Um belo trabalho. Sei onde os fazem. Uma aldeia, não muito longe daqui, não é verdade? — depois, aspirando o aroma do conteúdo da bolsinha, sorriu: — Uma excelente variedade. Eles cultivam esse tipo apenas nas províncias do leste. Quando meu pai ainda estava no poder, eu ia até lá com freqüência — parou de falar por alguns instantes, colocando as ervas no tubo, depois continuou: — As plantações estão todas divididas em pequenos lotes, cada qual cuidado por apenas um homem ou mulher. Em cada lote se produz uma qualida­de diferente, em aroma e sabor. Tudo depende do proprietário do lote, a única pessoa que cuida das plantas, pois nenhum outro tem permissão sequer para tocar os arbustos pertencentes a ele. Alguns se especializam até em plantar de acordo com a posição dos planetas, dedicando as ervas a um espírito planetário em particular.

Ruan acendeu o tubo de prata e inalou profundamente, retendo a fumaça o mais que podia, oferecendo depois o tubo a Beres, que se aproximara e, bastante desajeitado, seguiu seu exemplo, desculpando- se.

Sinto muito, Príncipe. Não estou acostumado a fazer isso.

Nem eu, Beres. A erva não deve ser desperdiçada, destinando- se ao uso apenas em ocasiões especiais, como seu filho acaba de dizer.

Quando Desh inalou a fumaça, viu que suas mãos, segurando o tubo, estavam tremendo. Não havia caminho de volta agora. Estava fu­mando com o filho de Rahazz depois de ter passado a mensagem de uma moça rebelde a seu próprio pai, um rebelde também. E ninguém o havia forçado. A escolha fora dele mesmo. Talvez não devesse ter co­meçado a sentir e pensar por si mesmo naquela noite em que ele e Caman haviam surpreendido Lyanta. Talvez... Olhou rapidamente para Ruan que o estava observando, notou. Por que se sentia tão exaltado?

Ofereceu o tubo a Ruan, para outra rodada, imaginando se o que estava sentindo agora não seria responsabilidade verdadeira, não aquela que lhe era imposta pelos outros, no Exército. Fizera uma escolha e se sentia feliz por isso. E ainda mais feliz porque era a mesma escolha que seu pai havia feito.

Escolha? Mas aquilo não havia vindo naturalmente, como o fluir de um rio, como uma onda que se segue a outra? A escolha implicava algo deliberado, bastante separado e abrupto, enquanto sua ação não podia ser considerada exatamente assim...

Talvez tudo tivesse começado muito tempo atrás, no momento em que seu pai apaixonara-se por sua mãe, antes de seu nascimento, ou a partir de sua admiração infantil pelos rapazes e moças que o haviam levado em freqüentes caminhadas pela propriedade de Vrina e haviam brincado e rido consigo. Lembrou-se das coisas que seu pai lhe havia dito quando eles não mais voltaram. Lembrou-se de Zenhar e Ruan em seus esplêndidos uniformes Toltecas, seus capacetes brilhantes, os ma­ravilhosos braceletes e tornozeleiras. Lembrou-se de suas armas, das pequenas e compactas naves prateadas que pilotavam.

Eles precisam ir. Há uma guerra em curso — dissera seu pai.

Mas estarão de volta em breve.

E não haviam voltado, entretanto, e soubera que o monarca gentil que havia visto muitas vezes no palácio de verão, do outro lado do rio, havia sido derrotado e fugira. Um outro tomara seu lugar.

Como uma onda seguindo a outra. Não era a verdadeira razão de ter-se juntado ao Exército aquela última e esplêndida visão dos jovens guerreiros, abraçando-o, dizendo-lhe adeus e que se comportasse?

E quando afinal entrara para o Exército, tudo fora tão diferente do que havia esperado.

Mas suas primeiras dúvidas verdadeiras surgiram quando foi cha­mado para participar da última "limpeza" das terras tribais, ao norte da propriedade de Vrina, quando havia visto os corpos mutilados de ho­mens, mulheres e crianças, já em putrefação, espalhados pelas aldeias abandonadas. Não haviam encontrado sequer um ser vivo, receberam ordens de empilhar os mortos e queimar tudo. O fedor havia sido insuportável, espalhando-se mesmo até a casa de seu pai, muito abaixo.

Finalmente, havia reunido coragem suficiente para perguntar ao capitão:

Mas por que isso foi feito? Essas terras tribais pertencem a eles, não é verdade, senhor?

O capitão lhe lançara um olhar rápido e aguçado:

Ordens do Rei. Era necessário, eles eram uma ameaça a nosso país, a nosso bem-estar, à paz de Aztlan. Todos pertenciam à tribo de Zenhar.

Desejara perguntar mais, por que mulheres e crianças foram mas­sacradas e por que nenhum dos homens mortos trazia armas. Em sua cabeça, em sua mente horrorizada, uma palavra se impunha com insis­tência, excluindo todas as outras: covardia.

Covardia! Um soldado nunca devia ser um covarde, disseram-lhe inúmeras vezes naquelas intermináveis palestras. Mas o que era isso senão pura e óbvia covardia, a matança de homens desarmados, mulhe­res e crianças?

O modo pelo qual seus colegas soldados o olhavam, todos eles exceto o bem-humorado e compreensivo Caman, quando enunciou seus pensamentos em voz alta, preveniu-o, para que se mantivesse em silêncio.

Zenhar. Aquela era a terra de Zenhar, Zenhar, o rapaz alegre, im­petuoso, que lhe havia ensinado que um soldado deve sempre cuidar bem de suas armas, limpá-las, afiá-las e lubrificá-las, mesmo se a "arma" em questão nada mais fosse que uma pequena e muito insignificante Faca de cozinha.

Mais tarde, no caminho de volta para o quartel, seu capitão lhe explicara por que as coisas haviam sido feitas daquela maneira. Falou sobre os incontáveis inimigos do Império, os rebeldes, sempre atacando-os de surpresa. A obstinação e a hostilidade das tribos montanhesas. E sobre os deveres de um soldado.

Durante a conversação assentira várias vezes, mas em sua mente os corpos imóveis das mulheres, crianças e homens desarmados per­maneceram muito vividos, obliterando todas as outras imagens durante o longo discurso, mais um sermão que uma conversa. Por fim, agrade­cera ao oficial (afinal era gentil por parte do homem dar-se todo aquele trabalho para convencer um mero soldado) dizendo que compreendia e concordava.

Perguntou-se se havia sido por causa de suas afirmações que o capitão nunca mais o incluíra em batalhas verdadeiras, sempre inven­tando para ele e Caman tarefas mais pacíficas, longe, na retaguarda.

 

Sheon-La foi levada para dentro do templo por dois guardas, que então deixaram-na a sós com o sacerdote e o agente de segurança. O primeiro iria oficiar a cerimônia. Sobre o altar ela viu a vítima, um ho­mem inconsciente, já sangrando de muitos ferimentos, gemendo vez por outra. Ferimentos infligidos por tortura, conforme sabia. O agente lhe contara como, onde e porquê, estendendo-se até aos menores detalhes.

Do lado de fora, uma tempestade estava em curso chicoteando as árvores, casas e campos, mantendo as pessoas trancadas, de modo que ninguém notou o pedestre solitário em seu manto ensopado, mantendo- se junto às fachadas das casas altas, onde as sombras eram mais pronun­ciadas. O portão do terreno do templo estava aberto. Ruan não ficou surpreso por nenhum guarda se adiantar para detê-lo. Estava claro que eles sabiam que viria, embora se perguntasse o que estariam esperando dele. Ainda assim, tinha um vago palpite e por isso viera preparado.

Não se sentia preocupado sobre o destino de Sheon-La: sabia que Yahali havia dado ordens para não prenderem ninguém antes da passa­gem da lua cheia.

Você pensa que ele não virá — disse o sacerdote, zombando.

Mas virá. Espere e veja por si mesma.

Sheon-La olhou-o com desprezo:

Está subestimando-o — disse —, essa armadilha é imbecil demais. Além disso, todo mundo sabe que por enquanto ninguém deve ser preso.

Desejava nunca ter enviado aquela mensagem a Beres. O que queria que ele fizesse? E onde estava Yahali? Teriam a coragem de igno­rar as ordens do Rei?

Mas o Rei está muito longe, você não sabia? — disse o agente, lendo seus pensamentos. — E quando voltar, não irá se preocupar com a morte de uma prisioneira. Uma morte acidental, uma prisioneira que ficou em pânico quando a estávamos libertando. Pareceu-nos que não acreditou em sua própria sorte, imaginou que estávamos fingindo e que­ríamos matá-la. Por isso começou a correr. Ficamos todos tão surpresos, espantados. Por que deveria correr? Tínhamos acabado de libertá-la. Mas ela continuou correndo e nós atrás dela para explicar, para acalmá-la, pois afinal as ordens do Rei haviam sido explícitas. Mas então ela caiu, ferindo a cabeça numa pedra. E morreu. Um acidente muito infe­liz. Mas nada pudemos fazer a respeito.

Sheon-La manteve-se em silêncio. Então Yahali estava fora. No­vamente desejou não ter pedido àquele soldado elfo para avisar Beres. Como de longe, ouviu o agente dizer:

Então eu estava certo. Ele veio, afinal.

E ouviu também a voz de Ruan, fria, controlada.

Sim — e dirigindo-se ao sacerdote: — Seus olhos ainda estão bons, Däat. Sou eu.

Estava parado junto à porta, o manto encharcado e enlameado, a cabeça erguida.

Däat riu baixinho:

Na verdade não pensei que viesse, embora ele — indicou o agente com um movimento da cabeça —, estivesse certo de que viria. Ainda não compreendo. Você é o último da linha dos Toltecas. Por que deveria arriscar-se por uma mulher? Você pode conseguir qualquer mu­lher que deseje. Há tantas, e a maioria, lindas. Você a ama? Apenas um sentimento, fugidio e ilusório como todos os sentimentos. Você devia saber! Não é um iniciado? Uma pessoa ama profundamente hoje e es­quece esse amor amanhã ou no dia seguinte. Sentimentos, pensamentos, lealdade para com amigos e parentes... Qual o valor da amizade? E tudo coisa do momento, passa rápido.

Ruan assentiu, como concordando:

Mas é claro. Sendo quem é, jamais seria capaz de compreen­der. Não vou desperdiçar palavras para fazê-lo ver. Não há qualquer esperança — e então: — Você tem ordens de não prender ninguém antes da lua cheia. Portanto seria melhor obedecer a seu Rei e deixar a moça partir.

Oh, não! Estou certo de que o Rei Yahali irá compreender, ficará mesmo satisfeito quando em lugar de um joão-ninguém insigni­ficante eu lhe entregar o filho de Rahazz. Além disso, vou deixá-la partir com uma condição, apenas. Que você, aqui e agora, oficie em meu lugar como meu substituto, para invocar aqueles poderes que você e os de sua espécie dizem ser do Mal, embora eu não saiba por que pensam assim.

"Então era isso que ele queria", pensou Ruan, olhando ao redor do templo, para onde uma luz avermelhada iluminava fracamente a fi­gura que gemia sobre o altar. Com um rápido movimento de ombros deixou cair o manto molhado sobre o piso de cristal do templo. Sob o manto, sua túnica bordada a ouro estava seca.

Däat ficou olhando surpreso para as roupas, o largo cinturão cravejado de diamantes, os braceletes mostrando uma serpente alada com olhos de diamante. "Roupas sacerdotais", pensou. Então ele viera preparado. Então sabia o tempo todo o que lhe seria proposto. Däat co­meçou a transpirar. Olhou para a porta do templo, agora fechada. Lem­brou-se de ter dito aos guardas para se manterem afastados até que cha­masse. Ter-se-ia mostrado confiante demais? Vendo o olhar intrigado do agente deduziu que aquele homem também estava surpreso e insegu­ro. Então ouviu Ruan dizer.

O que está esperando? Estou pronto.

"Meus olhos estão doendo", pensou Däat. "São os diamantes da­quele cinturão infernal. É a sua luz. Não devo olhá-los diretamente." Com um esforço, levantou os olhos para o rosto inescrutável diante de si. Era sua imaginação ou havia ouvido uma risadinha abafada vinda da moça?

Estendeu a mão para o manto púrpura sobre o altar.

Vista isso, Príncipe. Esse manto pertence a Yahali, Sumo Sa­cerdote de Aztlan. Irá ajudá-lo em sua tarefa, estou certo disso.

Sem qualquer palavra Ruan embrulhou-se no manto. Mas quan­do as dobras assentaram pesadamente sobre seus ombros, soube que a vestimenta iria tornar sua tarefa ainda mais difícil. Pois a peça trazia uma sensação sombria de desalento, de carga; era como se ele ouvisse fracos gritos desesperados. Seu coração apertou-se com uma dor física cortante, insuportável.

E por um momento sentiu um desejo quase incontrolável de apa­nhar a adaga sacrificial e cravá-la no coração do homem inconsciente deitado sobre o altar. Apenas por uma fração de segundo, mas o sufici­ente para que se desse conta dos perigos do jogo do qual estava partici­pando.

Deve apenas repetir o que eu estiver dizendo, Príncipe. Faça como faço. Será fácil.

De início eram apenas palavras, meio cantadas, meio faladas. Depois vieram os sons de uma cadência definida de sete batidas, acom­panhada por um pequeno tambor de ressonância inesperadamente forte e profunda, provocando os ecos mais estranhos, reverberando no espaço acústico do templo até formar um eco septuplicado, acompanhando e antecipando-se ao som original que o causava até que ficou difícil distinguir o que era o que, os sons e os ecos fundindo-se numa vibração atordoante, penetrando fundo nos corpos dos presentes.

Ruan, tomando a adaga cravejada nas mãos, abriu os lábios, repe­lindo o canto de Däat. A moça estava parada quieta junto ao altar, a cabeça inclinada. O homem sobre o mesmo parara de gemer, a inconsciência abrira caminho para a morte. "Graças a Deus ele está morto", pensou ela, "e o que Ruan fará agora? O que terá em mente? Sei que está preparando algo, mas o quê?"

Foi então que notou a diferença no ritmo, tom e intensidade com os quais ele repetia os sons cantados de modo suave pelo sacerdote.

"E fácil perceber que ele não está acostumado a esse tipo de ceri­mônia", pensou Däat, enquanto continuava cantando de maneira auto­mática. "Vindo dele, soa tão diferente, a batida é diferente também. E os sons... não, os sons são os mesmos, mas o que ele está pensando ao pronunciá-los deste modo? Parece que perderam seu poder."

Começou a sentir que algo estava mesmo errado quando o ritmo que batia no pequeno tambor que pegara do altar começou a mudar. Isso acontecera de forma quase imperceptível de início, de modo que mal estava consciente do fato. Mas depois de um longo tempo a sucessão de batidas, a ênfase e o agrupamento das notas ficaram tão diferentes que era impossível ignorá-lo.

Däat, espantado, tentou voltar ao ritmo original, pensando que a mudança era devida à sua própria negligência, a um lapso momentâ­neo... O ritual jamais devia ser executado automaticamente... Mas des­cobriu que não conseguia, que suas mãos estavam se movendo por von­tade própria, acompanhando o canto.

Acompanhando o canto? Tentou deter-se, mas não conseguiu. Era impossível. E o cântico, que devia ser uma imitação exata do seu, estava agora totalmente diferente. Mas como?

Escutou atento, apenas batendo o tambor agora, ouvindo a ma­neira como Ruan estava executando a cerimônia, sem compreender.

Outra força estava se fazendo presente, reunindo-se lenta, como nuvens reunindo-se antes de uma tempestade, uma força que manipula­va a música e a batida, tornando-se cada vez mais forte.

O canto parecia distorcido, tudo estava diferente. Dáat ficou mui­to silencioso, as mãos sobre o tambor batendo contra sua vontade, no medo desconhecido agarrando-o. Isso não podia ser verdade, devia ser sua imaginação. Logo os mensageiros enviados pelo Destruidor iriam começar a povoar o templo para fazer o que lhes era solicitado.

Ruan teve uma horrível sensação de que estava a ponto de des­maiar. Diante de si cresciam a imagem do Destruidor, orgulhoso e som­brio, os olhos chamejantes, e os rostos distorcidos e bestiais de seus seguidores, numa fila interminável. Fechou os olhos, oscilando um pou­co, sentindo gotas de suor formando-se em sua testa e sob os braços. Mas então, recuperando-se, com todo o poder que possuía naquele mo­mento, expulsou as imagens ameaçadoras de sua mente, fazendo-as abri­rem espaço para outras.

E os sons passaram a vir sem dificuldade, sem qualquer hesitação, no ritmo poderoso e concentrado acompanhado pelas batidas do pequeno tambor nas mãos do desesperado Däat, os olhos esbugalhados, num tom que parecia encher o templo com irresistível vibração, leve e, no entanto, extremamente poderosa.

Quando Sheon-La compreendeu o que Ruan estava fazendo, fi­cou parada, sem fôlego, ainda mais imóvel que antes, os olhos fixos nele com o pesado manto de Yahali, diante do altar baixo e negro.

Däat estava agora suando por todos os poros. Qual era o proble­ma? O momento supremo estava de fato próximo, mas algo estava fal­tando. Algo essencial. Nenhum seguidor do Destruidor se havia mani­festado até agora. Por que tinha aquela lúgubre sensação de perigo e por que sua mão não conseguia parar de bater aquele tambor infernal?

Sensação de perigo... e então soube por que os mesmos sons pro­nunciados por ele eram tão diferentes vindos do filho de Rahazz. Agora soube por que o canto cantado por Ruan soava totalmente desconhecido para ele, o ritmo estranho. Por que, em lugar da imagem do Grande Destruidor, uma outra figura havia insistido em insinuar-se em sua mente durante a cerimônia, uma figura flamejante, radiante, tão plena de luz que ele, contra a vontade, fechara os olhos como fizera diante da radiância dos diamantes.

Tentou gritar, chamar os guardas, o agente, qualquer pessoa ca­paz de ajudar. Pensou em atirar-se sobre a moça e matá-la. Amarrada que estava, isso não seria difícil, mas foi incapaz de mover-se, paralisa­do pelo medo.

Ruan parou, voltando-se, sem praticar os atos finais do ritual, não desejando terminar. Não seria necessário e por certo significaria um tre­mendo desperdício de energia. As duas forças iriam agora neutralizar-se uma à outra. E quando parou, Däat também parou de bater o tambor.

Enquanto os últimos ecos ainda povoavam o templo, sorriu de leve ao ver o estado em que Däat se encontrava, mas Sheon-La notou como estava pálido e como seu cabelo negro estava empapado de suor.

— Fique onde está, sacerdote, disse Ruan, a voz cansada —, você cometeu um engano imperdoável. Você esqueceu... ou talvez nunca sou­be... que a forma é necessária para fazer um todo perfeito, mas nunca essencial em seu estado puramente físico. Há estados mais sutis por trás das formas mais grosseiras e outros ainda mais sutis por trás daqueles.

"Yahali", pensou Däat, sua mente agora num pânico total, "vou chamá-lo. Tenho autorização para chamá-lo em necessidade extrema. Nunca o fiz antes, mas agora..."

Ruan leu em seus olhos o que pretendia fazer e agiu rápido. Não iria terminar. Havia outros meios, mais simples. O agente estava caído no chão, inconsciente. A cerimônia havia sido demais para ele.

Rápido e ágil como um tigre apesar do pesado manto, saltou para o sacerdote, antes que este pudesse entrar em contato com Yahali. Atirar fora o manto e cortar as cordas que prendiam Sheon-La, com a adaga sacrificial, foi trabalho de poucos segundos. Juntos correram para a sa­ída, fechando a pesada porta atrás de si, e deslocaram-se com rapidez para os portões. Estava chovendo pesadamente e não havia guardas à vista.

Poucos dias antes da lua cheia, Beres recebeu uma carta de Ruan, trazida por Nehazz, que rumava para o Vale da Luz.

...naquele dia, Beres, em que nos encontramos no estábulo, você, seu filho e eu, não tive tempo de contar-lhe o que lhe escrevo agora. Portanto, aí vai: Dentro de poucas semanas, o Rei (que também aconte­ce ser meu pai) irá falar a todos os que vivem em nosso esconderijo nas montanhas e que se mantiveram leais a ele. Mas sua mensagem também está destinada àqueles que, embora vivendo fora, sempre estiveram ao seu lado em seus corações. Ele irá revelar seus planos concernentes à nossa emigração para outro país, onde, longe da degeneração de Aztlan, ele irá, talvez, estabelecer-se em paz.

Gostaria que você viesse para cá, e se possível seu filho também, para um pequeno descanso, para respirar, junto com o ar puro da mon­tanha, também algo da beleza e sabedoria que reinam neste povoado fundado por um homem que, ao menos assim penso (mas naturalmente, como seu filho, estou inclinado à seu favor), foi talvez o maior rei que já governou Aztlan.

Estou contando com você... Não se preocupe com o trabalho, Um amigo meu o assumirá durante sua estadia conosco e tomará conta das plantações e dos animais.

Poucos meses atrás tive uma longa conversa com meu pai sobre o crescente poder da oposição, o descontentamento cada vez maior do povo, e lhe pedi para adiar a emigração, se possível por alguns meses, talvez um ano. Disse-lhe que achava ser praticamente certo que dentro de poucos meses nosso povo seria livre de novo e a emigração desne­cessária.

Vou lhe contar o que ele disse, como reagiu ao meu entusiasmo. Estávamos parados lado a lado na torre do palácio. Longe, muito lon­ge, eu podia avistar uma linha estreita intensamente azul: o mar.

Não sei, Beres, se você conhece este lugar, não sei se você conhe­ce a vista que há daqui de nosso belo país, sua e minha terra natal. Soprava um vento frio e aos últimos raios do sol poente o cabelo de meu pai brilhava como prata. Eu ainda podia escutar em meus ouvidos a minha própria voz, tão confiante, tão ardente. Olhei para Rahazz, o rosto calmo e sábio cheio de rugas, com os olhos tão incrivelmente jo­vens que mais uma vez, como tantas outras, me senti surpreendido por eles.

"E quando você dará o sinal para a revolução, Ruan?" perguntou ele, depois de um longo silêncio sem responder à minha pergunta quanto ao que pensava a respeito de nosso movimento.

Por que perguntava? O que queria dizer? Eu não disse nada por algum tempo, estava confuso e a dúvida que sentia havia tanto tempo agora me avassalava. Talvez ele temesse que as coisas saíssem de outro modo, que não conseguíssemos vencer? Talvez soubesse mais do que eu?

Justiça! Era por isso que esses homens e mulheres haviam aderi­do à nossa causa, espontaneamente, ou teriam um outro motivo, mais poderoso? Liberdade! Parado ali naquela torre enquanto as primeiras estrelas apareciam, parecia impossível para mim, mesmo ridículo, que alguém no mundo escolhesse algo diferente da liberdade, a liberdade que é a verdadeira herança de nossa Raça. Mas talvez eu, você e os outros estejamos cometendo um engano em pensar que a humanidade é menos cega do que é... ou talvez seja que nós somos cegos e persegui­mos ilusões. É possível que eles sejam apenas realistas vendo as coisas como são.

Apenas mais alguns dias e nosso povo terá de escolher, no Vale da Luz, seja o que for que na verdade quer e que é seu por direito.

Até agora eu pensava saber qual seria a escolha, mas não estou mais seguro de nossa vitória.

Aztlan! Nas eras por vir, algum dia o mundo irá ouvir com admi­ração a história de nossa civilização inigualável, de sua glória sem limites.

Irá então esse mesmo mundo contar também, com respeito, como esse povo, certa vez, colocado diante de uma escolha difícil, teve a co­ragem de escolher sabiamente e bem?

Desde aquela conversa com meu pai, meses atrás, não fui capaz de responder a essa questão, como pensava ser antes. Apenas sei, como descobri então, que tenho de ir em frente, e fazendo o que já tenho feito por bastante tempo.

Não sei o que irá acontecer no Vale da Luz. Até este momento nenhuma visão me revelou o resultado daquela reunião. Muitas pessoas já foram para lá e outras mais ainda estão se encaminhando naquela direção. A princípio, apenas alguns ousaram, mas então mais e mais se juntaram, esquecendo os temores. Na entrada do desfiladeiro, vigiado pelos homens de Zenhar, todos são revistados em busca de armas, mas tenho notícia de que até agora não encontraram nenhuma, um bom si­nal. Também parece que o Rei deu ordens especiais: a polícia e os sol­dados devem deixar os viajantes seguirem sem perturbá-los. Aquilo está começando a parecer uma peregrinação...

 

Desh e Caman estavam de serviço no centro de Dhar, próximo a uma praça pequena, mas muito movimentada, rodeada de casas de co­mércio e de refeições. Haviam recebido ordens para não interferir nas brigas, discussões e disputas, a não ser que fosse absolutamente neces­sário, mas para ficarem muito atentos a quaisquer fatos subversivos que estivessem acontecendo.

Mas aqui também não deviam interferir, apenas observar, ouvir e anotar o que estivesse sendo dito, por quem, e em especial como o povo reagia. Mais tarde deveriam entregar relatórios detalhados, não deixan­do fora coisa alguma que considerassem importante.

Fazia horas agora que haviam estado caminhando para cima e para baixo pelas ruas que atravessavam e rodeavam a praça. "Isto está me aborrecendo até a morte", dissera Desh; agora estavam sentados na calçada diante de uma pequena taberna alegremente iluminada e aco­lhedora, cheia de freqüentadores embriagados e semi-embriagados com suas garotas.

Olhando para eles, Desh pensou na palestra que tiveram de su­portar — suportar era a palavra certa, pensou irritado — sobre raça e relações sexuais.

O oficial que proferira a palestra, ou conversa, ou fosse como fosse que a chamassem, havia falado de puras e menos puras, inferiores e superiores, e que aqueles que eram verdadeiros atlantes deviam tomar cuidado com as companhias em que andavam, especialmente compa­nhias femininas. Era óbvio que todos os soldados, todos os que perten­ciam às Forças Armadas, eram puros, de outro modo não seriam solda­dos. Tão simples assim!

Quando as coisas chegaram a esse ponto, Desh olhara intrigado para as membranas de suas mãos. De repente sua pele parecera acusadoramente azul comparada com o castanho-avermelhado dos outros. Não havia ouvido com muita atenção até que o palestrante chegasse a essa parte de seu discurso, mas Caman, enrijecendo ao seu lado e deixando escapar um resmungo indignado, o trouxera de volta à realidade.

— Não importa com quem vocês durmam — continuou zumbin­do o oficial, porém tomem cuidado com os eventuais resultados. Crian­ças mestiças não devem nascer. E devem tomar cuidados especiais para evitar contatos sexuais com o povo elfo. Nossos cientistas, homens mui­to renomados, sérios e conscienciosos, depois de exaustivas pesquisas, chegaram à conclusão de que uma mistura dessas duas raças levará sem dúvida ao nascimento de crianças inferiores.

Naquele momento Caman erguera a voz:

Senhor — disse muito respeitoso, mas com uma nota irritada —, posso fazer uma pergunta? — e quando o orador assentira: — Com­preendo, então, que ninguém pertencente às Forças Armadas é conside­rado inferior, não foi isso que disse?

O rosto do oficial ficou bastante vermelho. "Ele está mesmo in­dignado", notou Desh, divertido, "com a possibilidade de qualquer um que pertença ao Exército ser considerado inferior".

E claro, compreendeu perfeitamente, meu rapaz. É isso mes­mo, isso mesmo. Nossos guerreiros são parte da elite, descendentes di­retos de nosso puro tronco atlante. Temos de manter isso em mente, sempre.

Desh quase se engasgou. Não devia rir, realmente não devia, mas era possível que o próprio homem estivesse acreditando em todo aquele lixo?

Alguns poucos como ele estavam sentados na fileira em frente e viu-os olhando um para o outro, bastante surpresos. Então, por sobre os ombros, espiaram-no furtivos para ver como estava reagindo. Sentiu-os inseguros e confusos: então eram o resultado inferior da mistura de duas raças, mas o fato de estarem no Exército os tornava superiores, por sua vez...

Então, senhor — continuara insistindo Caman, olhando direto para os seus colegas azuis sentados aqui e ali na audiência —, sermos soldados nos torna puros mesmo se... mas aqui o oficial interrompeu-o rapidamente:

Foi o que eu disse, meu rapaz. Você compreendeu bem, você tem uma mente ágil. E esse é o fim da conversa — com isso desceu da plataforma de onde estivera proferindo sua palestra, enquanto os ho­mens se levantavam respeitosamente esperando que saísse da sala.

E agora estavam sentados na calçada; sentar-se era permitido em serviço desde que não se freqüentasse as tabernas. Em especial, era pre­ciso abster-se de beber.

Caman estivera monossilábico desde o final daquela palestra. "Engraçado", pensou Desh, "ele parece mais zangado do que eu. Era eu quem devia estar preocupado com minha pele azul, minhas orelhas pontudas." Conhecia pessoas que haviam se submetido a operações nas mãos e nos pés, mas que não tinham tido sucesso em eliminar o tom azul de suas peles. Por isso haviam inventado que aquela cor era devido à descoloração, algo errado com a pigmentação e que no final, depois de muitos anos de tratamento, o castanho-avermelhado natural iria voltar, embora muito lentamente. Não deviam permanecer ao luar, contudo, pois era devido a isso que haviam se tornado tão azuis.

Ao se lembrar disso, Desh começou a rir consigo mesmo e, depois que contou a Caman sobre o que estava pensando, seu amigo se juntara a ele no riso até que ambos ficassem com os olhos marejados de lágrimas.

Estava escuro agora e algumas garotas, todas definitivamente atlantes puras, notou Desh, saíram da taberna, procurando clientes. Uma delas se encaminhou para ele, mas, olhando melhor, recuou depressa. Seria possível que mesmo as prostitutas haviam sido prevenidas para não se ligarem ao povo elfo?

Ao pensar a respeito, descobriu que nunca havia visto uma mulher-elfo pura (a palavra estava começando a soar odiosa em seus ouvi­dos) se prostituindo, na certa porque elas não tinham necessidade de vender seus corpos para poderem comer. Ao passar fome podiam voltar naturalmente ao seio de seu povo onde seriam recebidas de braços aber­tos pela comunidade. Os elfos, sabia, tinham suas próprias posses individuais, como roupa, casas e outros objetos, mas o alimento plantado e o mel colhido pertenciam a todos e ninguém jamais passava fome entre eles.

Devia ter sido a polícia quem prevenira as prostitutas, pensou, era possível que tivessem assistido a alguma palestra também, todas as ga­rotas reunidas diante de um oficial de polícia sendo informadas sobre quem era inferior é quem era superior, e se por acaso tivessem de ter um bebê, nunca deveriam tê-lo de um homem-elfo. Mas de que modo seria possível para uma prostituta saber quem era o pai de seu bebê antes que fosse tarde demais?

Estava discutindo o assunto com Caman quando foram mais uma vez abordados por uma das garotas, que se dirigiu a Desh e lançou os braços ao seu redor, à primeira vista não se preocupando nem um pouco com sua aparência não-atlante.

Ele se levantou, a moça pendurada em seu pescoço e dizendo entre beijos:

— Uma vez que você é um soldado — e deu uma risadinha —você é puro, pois ninguém que pertença ao Exército pode ser impuro — ela puxou sua cabeça e beijou-o, entreabrindo os lábios para ele, o corpo colado ao seu, fazendo-o arrepiar-se todo.

Ele retirou os braços dela do pescoço. Com efeito, ela estava bem informada:

Lamento boneca, mas estamos em serviço. Nada feito esta noite.

Agora os lábios dela roçaram leves sua orelha, e ele pôde ouvir as palavras murmuradas:

Na lua cheia. Vale da Luz.

E depois ela desapareceu, perdida na confusão de gente ao redor.

Começaram a caminhar através da praça outra vez. Aquela hora da noite havia muitas pessoas por ali, algumas sozinhas, outras em grupos e vários casais sentados pelos bancos, esquecidos do que os rodeava.

Nunca foram capazes de se lembrar como tudo começou. No meio de toda a aparência casual, pequenos grupos começaram a formar-se aqui e ali, discutindo os eventos do dia, os amigos cumprimentando-se ruidosamente.

Sob as poucas lâmpadas, os grupos engrossaram e as vozes, de início bastante altas, ficaram mais baixas. Caman viu alguns homens emergirem do nada e caminharem lentamente até atingir o maior dos grupos que se formava no meio da praça, sem participar, apenas ouvin­do. "Espiões do governo", pensou, "o que será que acham de tão interes­sante?" Daquela distância não podiam ouvir o que estava sendo dito, de modo que também começaram a caminhar na direção do grupo, que já estava atraindo a atenção de muitos passantes curiosos.

Quando chegaram mais perto, viram um dos agentes vindo em sua direção.

Algo está acontecendo aqui. Observem com atenção e não se afastem muito.

Deram-nos ordens para apenas observar e de modo algum in­terferir — disse Desh, surpreso. — Quais foram as suas ordens?

O agente suspirou.

As mesmas. Por um momento esqueci. Era mais fácil antes. E me pergunto o que eles têm em mente.

Não "eles" — corrigiu Caman em tom seco —, "ele". As ordens vieram direto do Rei.

Sim, eu sei. E naturalmente está deixando as coisas correrem porque deseja apanhá-los a todos de uma vez. E então será um inferno.

Caman concordou.

Ele sabe o que está fazendo. Toda a diversão virá mais tarde, é claro.

Parado no meio do grupo que estava atraindo tanta atenção, um homem falava, excitado.

Eu sei. Ouvi um deles explicando tudo há uns dias. Dizem que era o filho de Rahazz, mas eu não podia ter certeza. Nenhum de nós jamais o havia visto antes.

Vários homens e mulheres estavam agora se aproximando do grupo central. "Oh, como se pode ficar conspícuo", pensou Desh. Se todos eram agentes do governo e policiais à paisana, como se podia saber que os outros também não eram? Mas o público não parecia se importar, embora com certeza estivesse consciente de sua presença. O Rei não havia proibido qualquer prisão até a lua cheia?

Você o ouviu falar? Quando falou, eu soube que estava certo, estou cansado da repressão, as pessoas estão sendo presas, torturadas e mortas apenas porque não concordam com a injustiça, a opressão. Sem um julgamento, sem um defensor para representá-las diante das cortes.

- O que aconteceu à justiça?

Outro disse, concordando:

Dizem que o poder do Rei está diminuindo. Os Toltecas estão ganhando influência no país. A oposição está ficando mais forte. E lem­bra-se do sinal? O Festival de Poraj, o animal do rei batido por um cão comum, verdadeiro, vivo?

E quanto àquela mensagem? — era uma mulher que falava agora. — Todos sabem a respeito da mensagem e muitos já estão a ca­minho do vale.

E o Rei proibiu qualquer prisão até lá. Por quê? Isso não signi­fica que ele quer ganhar nossa simpatia? Quer mostrar que não é tão desumano como todos pensamos?

Nesse ponto uma voz feminina, duvidosa, disse:

Mas o que não sabemos... poderia ser uma armadilha, não é mesmo? Nesse caso, que Deus nos ajude a todos!

E quanto aos sacrifícios no templo? Os sacrifícios ao Sol? Eles nunca aconteciam quando Rahazz ainda governava. Antigamente nenhum sangue era derramado nos altares, fosse de homem ou animal.

Nesse ponto fez-se um silêncio súbito, todos os olhos voltados para o orador, embora ninguém concordasse ou discordasse às claras.

A religião era realmente outro assunto. Aqui era preciso evitar pisar em terreno sagrado. Os sacerdotes não haviam explicado repetidas vezes sobre a necessidade de sacrifícios de vidas humanas ao Coração Solar? Que as vidas de animais não eram suficientes? Que esses sacri­fícios eram em benefício de toda a raça humana, que iriam fortificar o Sol e assim a todos os seres humanos, contribuindo para torná-los mais saudáveis, mais fortes?

Mas durante o reinado Tolteca qualquer tipo de sacrifício havia sido proibido. Teria sido por isso que a dinastia perdera a guerra?

Ninguém prestou qualquer atenção a um pequeno transporte, compacto, negro, detendo-se silencioso à entrada de uma rua lateral.

Dois homens desembarcaram, um deles muito alto, o segundo mais bai­xo. Ambos vestiam mantos escuros sobre as roupas. Aproximaram-se devagar da multidão, que estava ficando cada vez maior e, mais excita­da, esgueirando-se por entre as fileiras de pessoas, o mais baixo um pouco atrás do outro, até se encontrarem a poucos passos do orador principal.

... governante cruel e desumano. Foi ele que ordenou o massa­cre das tribos, não poupando ninguém; foi ele que decretou a lei de que não seria necessário um julgamento justo para um rebelde.

Os dois homens que haviam acabado de chegar, decidiram agora afastar-se um pouco da multidão, parando diante de Desh e Caman. O mais baixo deu um suspiro de alívio.

Aqui é melhor. Se alguma coisa acontecer, esses dois podem ajudar-nos — disse, fazendo um gesto na direção dos soldados.

O homem alto assentiu, observando:

Está muito assustado, capitão? Não irá acontecer nada comigo.

O capitão protestou, indignado:

Estou aqui para protegê-lo. Uma multidão que escapa ao con­trole pode ficar muito perigosa. Por que não quis trazer o resto da guar­da? E se o reconhecerem?

Não podia importar-me menos. Não tenho medo dessa gentalha miserável, capitão. Mas, se você tem, está livre para ir embora.

Essa discussão travou-se num sussurro abafado, mas Desh, o ombro quase tocando o do capitão, ouviu e admirou-se. Deu uma rápida olhada para os dois. O que queriam dizer? Por que o medo? O capitão, ofendido, não disse mais nada.

... revolução! Talvez mesmo as forças armadas se juntem a nós se... — o resto das palavras foi abafado por um aplauso desencadeado pela palavra "revolução".

O capitão sibilou:

Quer que os faça prender, Sire? Isso fará com que todos se calem.

Não! Que memória curta você tem... Lembra-se de minhas ordens?

Engolindo em seco, Desh deu um passo involuntário para trás. Yahali, acompanhado pelo capitão de sua guarda! Olhou ao redor, dese­jando estar longe, notando que Caman não havia ouvido, estava seguin­do com grande interesse cada palavra dita pelos oradores.

Aos poucos os homens e mulheres na praça ficaram mais e mais excitados, acusando amargamente seu Rei, chamando-o dos piores no­mes, todo o temor esquecido. Muitos fregueses das casas de bebidas ao redor, começaram agora a aproximar-se, aplaudindo e brincando com os outros, embora sem saber exatamente por quê. Para suas mentes semi-embriagadas, atordoadas, era suficiente participar de algo que parecia valer a pena, embora não tivessem a menor idéia do motivo.

 

Foi quando a excitação atingiu o auge, todos aplaudindo e gritando, um orador tentando falar mais alto que os outros, que uma gata cinzenta se aventurou a atravessar a praça, carregando na boca um gatinho preto.

Opa, o que temos aqui? — um dos homens, um dos primeiros que haviam gritado "Abaixo Yahali!", bradou: —Vejam só o que temos aqui!

Rugindo de riso, inclinou-se e agarrou a gata pelo pescoço. E então, voltando-se para os outros, teve uma idéia brilhante. Seus olhos faiscavam:

Olhem — disse, sacudindo a gata —, olhem, este é Yahali e nós vamos sacrificá-lo! Vamos matá-lo como ele mata os outros!

Foi saudado por aplausos selvagens. De todos os lados as pessoas se lançavam para diante, excitadas, ansiosas por não perder nada do espetáculo. Nenhum protesto foi ouvido. Ágata tentou livrar-se, deses­perada, deixando cair o gatinho em seus esforços para desvencilhar-se da mão que a segurava. Alguém agarrou-o, rindo alto:

O grande é Yahali e o menor é aquele sacerdote, Däat. Vamos acabar com ambos... Para o altar! — e em poucos momentos um altar estava pronto, improvisado com o emprego de pedras e de mantos.

Primeiro Däat — gritavam. — Primeiro o sacerdote. Depois o Rei. O Rei por último!

Um homem, segurando o gatinho preto pela pele do pescoço, deu um passo à frente para colocar o animalzinho sobre o altar. Este permaneceu ali, tremendo, incapaz de reagir, paralisado pelo medo, miando por sua mãe.

Todos estavam tentando passar à frente uns dos outros, empur­rando, acotovelando-se, esticando os pescoços.

Yahali, mais alto que a maioria, viu o ódio misturado com a delí­cia naquelas centenas de olhos. Sabia que aos olhos dos espectadores boquiabertos, os dois animais haviam sido transformados nele próprio e em Däat. Uma expressão de satisfação triunfante espalhou-se lentamen­te por seu rosto.

A voz do homem diante do altar se fez ouvir, clara:

Primeiro, arrancaremos os olhos, os olhos do tirano. Mas não muito depressa, vamos devagar. Para que ele possa sentir o que suas vítimas sentem. Primeiro, um olho... depois, o outro... Muito, muito devagar...

Ele riu enquanto pronunciava as últimas palavras. Não era um riso agradável. O gatinho preto tentou escapulir. Com os olhos ainda azulados pela pouca idade, olhou para a multidão que barrava seu caminho para a liberdade. Miou mais uma vez.

De início a gata cinzenta apenas sentira medo. À total falta de misericórdia que conhecera durante toda a sua vida, desde que havia nascido numa valeta suja, sempre reagira com medo. E com um desejo avassalador de escapar de tudo que a ligava de modo inseparável ao seu pior inimigo: o homem.

Era uma gata suja, muito insignificante, uma orelha rasgada, uma ferida semi-aberta na cabeça. Ninguém no mundo esperava que ela se comportasse como uma supergata. E em condições normais ela teria agido simplesmente como eles esperavam: como uma pobre besta, suja e covarde.

Assim, ninguém estava preparado para o que aconteceu. Algo pre­to e macio que lhe pertencia estava em perigo e chamando por ela. Era seu papel proteger seu filhote.

Uma fúria selvagem, um relâmpago cinzento, atirou-se contra o homem junto ao altar, uma criatura perigosa, de olhos verdes, que abriu profundos arranhões sangrentos em seu rosto.

O homem deixou escapar a faca, berrando de dor e fúria, caindo para trás. Mas quando a gata atacou pela segunda vez, estava preparado. Recuperando-se, conseguiu segurá-la. Praguejando, manteve-a à distância do braço até que alguém a apanhou. Ele se inclinou sobre o gatinho, a faca pronta, o silêncio ao seu redor ainda maior.

-— Não! Não! — em meio ao silêncio, a voz feminina, aguada, foi ouvida por todos. — Soltem-nos! Eles não são Yahali. Eles não são nada além do que são. São apenas gatos. Eles também querem viver. Deixem- nos em paz!

Abrindo caminho a cotoveladas ela alcançou rápida a primeira fileira de espectadores e agarrou o braço do homem quando este estava prestes a baixar a faca.

— Você não se envergonha? — ela desviou a faca, no momento exato, a força de seu braço muito maior do que alguém poderia esperar de uma mulher tão delgada.

Tlatli, a vidente, estava voltando para sua aldeia, depois de ter sido consultada por um aristocrata muito rico, membro da corte de Yahali. Era o tipo de cliente que detestava, tudo que desejava saber era se a sua última mulher voltaria para ele, se tinha outro e se retornaria se lhe desse muito mais dinheiro e jóias do que já dera. Não desejando desper­diçar mais dinheiro com a mulher se não tivesse certeza de que ela vol­taria, mandara buscar Tlatli. Seu último amor voltaria novamente aos seus braços?

Ela lhe dissera sem rodeios que a mulher não voltaria, que já havia descartado o homem com quem o havia "traído" por um outro, como ela havia "traído" tantos antes dele, sempre à procura de quem lhe proporcionasse mais.

E que seria melhor que cuidasse de sua saúde e esquecesse as mulheres por algum tempo, acrescentara, ao notar a grande mancha negro-esverdeada estagnada em sua aura ao nível dos rins e a cinza-escura na altura do fígado. Quanto aos seus órgãos sexuais, ou melhor, à área da aura que os rodeava, estava numa total e preguiçosa miséria castanho-avermelhada.

O medo havia aparecido de imediato nos olhos dele. De que estava sofrendo e que remédio deveria tomar? Mas não, sempre cuidara muito bem de seu corpo, alguém deveria estar desejando sua queda e contratara um feiticeiro para destruí-lo, invejoso de sua capacidade no amor, sua influência sobre o Rei (que existia apenas em sua imaginação).

Ela lhe havia dito que ele próprio era seu pior inimigo e que sua maneira de viver, comendo quantidades demasiadas de alimento muito gorduroso, abusando no consumo de bebidas fortes, substituindo fe­brilmente uma mulher por outra em sua cama no esforço de provar sua virilidade, a qual, quando jovem, havia sido fabulosa, estava acabando com ele. Nenhum feiticeiro era responsável. Havia-lhe prescrito uma dieta rigorosa de grãos, muitas frutas e legumes, nenhuma comida gor­durosa, nada de bebidas alcoólicas, pouca carne e apenas duas refeições por dia. E longas caminhadas diárias.

Ele anotara tudo com seus dedos gordos numa folha de papel ama­relado fino, mas ela sabia que tentaria seguir a dieta no máximo por dois dias, voltando depois ao seu modo de vida alegre, dissipado e doentio, certo de que ela não passava de mais uma charlatã atrás de seu dinheiro em troca de nada. Entretanto, fora cuidadosa pedindo o pagamento adian­tado, com o que, embora relutante, ele terminara por concordar.

Como despedida, dissera-lhe por sobre o ombro que ele estaria morto em breve se não seguisse o seu conselho, que seus rins e fígado já se achavam num estado lastimável. E lógico, ele não acreditara. Nunca acreditavam, preferindo pensar que eram vítimas inocentes de um inimigo maligno.

E agora estava indo para casa, a criança em seu útero mexendo-se continuamente, desde que descera do transporte público perto da praça, decidindo de repente que gostaria de caminhar até em casa o resto dos trinta quilômetros. Caminhar não era problema para ela e seria muito bom para a criança também.

Estava ansiosa por alcançar a aldeia, mesmo sabendo que apenas uma casa vazia estava à sua espera. Desde que perdera o marido, um bêbado imprestável, não conhecera ninguém interessante ou excitante o bastante com quem partilhar sua cama. Mas a aldeia era tranqüila e muito bonita, e ela era respeitada ali por sua profissão. Foi quando, atravessan­do apressada a praça, ouviu os gritos e risos: "Este é Däat! Arranquem-lhe os olhos, depois arrancaremos o coração, como é o costume". E outras vozes: "Não é assim que se faz. Você é desajeitado. Dê-me o gato. Vou lhe mostrar como é..."

Num vislumbre percebeu o que estava acontecendo. O homem com a faca segurando o gatinho no alto e o outro agarrando uma gata cinzenta que tentava desesperada e inutilmente libertar-se. "Mãe e fi­lhote", pensou. "Vou me tornar mãe também, mas meu filho ainda está dentro de mim. O dela já está fora e ela está desesperada para protegê-lo."

O que fez foi inteiramente por impulso: correu para o homem com a faca e desviou seu braço, protestando.

Ele olhou-a com descrédito: uma mulher grávida, magra, grandes olhos de gazela, cabelo negro e brilhante. Não podia ter sido sua mão que desviara seu braço. Parecia muito frágil.

A multidão começou a gritar, com impaciência. Por que aquela demora? O que estava acontecendo?

Vá em frente. Vamos acabar com isso! Matem os tiranos! O que estão esperando?

Tlatli protestou novamente:

Não! São apenas gatos. Vocês não devem... mas suas palavras se perderam entre os gritos e o ruído.

Pior. O homem segurando o gatinho examinou-a, e então, com uma expressão irritada espalhando-se pelo rosto, berrou para os especta­dores:

Estão vendo o que ela está fazendo? Está interferindo com nossa liberdade, com nossos direitos. Aquele homem não disse que de­víamos libertar-nos, que tínhamos o direito de sermos nós mesmos, es­colhermos por nós mesmos. E isso que faremos. Vamos sacrificar os tiranos aqui e agora!

Não! — interferiu Tlatli outra vez, tentando tirar o gatinho dele. — Dê-me o gatinho. Você não tem o direito... apenas para ser em­purrada para o lado com tal violência que tropeçou e perdeu o equilí­brio, caindo no meio da multidão que havia recomeçado a avançar.

Tentando levantar-se, caiu outra vez, sentindo alguém pisar em sua mão, que recolheu antes que outros a pisassem também, tentando proteger a barriga, gritando com todas as forças, pedindo-lhes para te­rem cuidado e a ajudarem.

Alguém a suspendeu pelo braço, praguejando com irritação, e outro, segurando-a pelos sovacos, alçou seu corpo, colocando-a em pé de novo. Quem? Dois soldados, um de cada lado, estavam protegendo-a com seus corpos, gritando com as pessoas ao seu redor, abrindo cami­nho agressivamente com os ombros e as ancas. As pessoas, mais acal­madas com aquela explosão de raiva, continuaram pressionando, porém com menos intensidade.

O homem, que segurava a gata cinzenta, mostrava-a agora para todos:

Vamos acabar com os dois de uma vez só! Por que perder tempo? — e puxou do cinturão uma pequena faca, de aspecto perigoso, muito afiada.

Parem com isso! — exclamou uma voz fria e zangada.

Parem com isso já, seus tolos estúpidos e loucos. O que pensam que estão fazendo?

Parar com isso? O que está querendo dizer? — disse o homem que havia empurrado Tlatli, olhando intrigado.

Tragam esses gatos aqui — disse o outro, em voz alta e autoritá­ria, abrindo caminho através da multidão.

O quê? Não vou fazer isso! Quem é você para interferir desse modo? Não ouviu o discurso hoje, aqui neste mesmo lugar? Não ouviu aquele homem falando contra o tirano? Ele disse, eu me lembro de qua­se todas as palavras, ele falou tão bem... nós temos o direito de viver do modo que queremos, de ser livres. Quem é você? O carrasco de Yahali?

Uma lufada de vento, chegando do mar, derrubou o capuz que estivera cobrindo a cabeça do recém-chegado, fazendo com que o sacer­dote e o torturador de mentira ofegassem.

Mas foi a você que ouvimos hoje! Foi você que falou de liber­dade, justiça e direitos para todos nós. E agora quer que poupemos os tiranos?

A gata cinzenta rosnava e arranhava a mão do homem, o gatinho estava muito quieto, apenas os olhos demonstravam o medo que sentia.

Os olhos de Ruan cravaram-se nos do homem.

Sim, aquele era eu. E agora, dê-me os gatos.

Os dois homens hesitaram sem compreender, atônitos. Mas o tom de voz de Ruan e a raiva em seus olhos fizeram-nos obedecer. Sem mais palavra, entregaram os gatos, que Ruan aninhou nos braços, onde se comprimiram contra seu peito, sem tentar fugir. A gata cinzenta come­çou logo a lamber o filhote.

Quando Ruan havia compreendido o que estavam por fazer, a certeza exaltada que sentira durante a última semana abandonara-o de repente, deixando em seu lugar apenas dúvida e fúria.

Haviam-no ouvido falar naquela manhã. Poucos momentos antes estavam falando sobre a revolução, sobre a liberdade, contra a tirania insofrível, a crueldade, sobre seus direitos como seres humanos.

Mas ali estavam, ansiosos por torturar e matar animais inocentes como substitutos do Rei e de seus sacerdotes.

A multidão, perplexa com a súbita virada dos acontecimentos, a segunda interferência em sua diversão, voltara a murmurar, um murmúrio que se avolumou quando as pessoas começaram a apertar por todos os lados o círculo ao redor do estrangeiro alto.

O que ele está pretendendo? O que está fazendo com os gatos? Será possível...? Não é o mesmo homem que esta manhã falou com tanta convicção sobre justiça e liberdade? E não quer que façamos a nosso modo, que nos divirtamos apenas um pouquinho? Então sua conversa sobre liberdade é apenas conversa, senhor? Talvez esteja representando outro tirano, querendo tomar o lugar de Yahali? Não dêem ouvidos a ele! Tirem os animais dele. Vamos acabar com tudo isso de uma vez.

Outra voz se elevou:

Não, deixem que se explique. Vamos ouvir o que tem a dizer.

Ruan ficou em silêncio, olhando para os rostos expectantes, os

olhos ansiosos voltados em sua direção. "Explicar, devo explicar", pen­sou. Explicar o quê? Seria possível que eles não compreendiam, que nenhum deles, com exceção apenas daquela mulher, quase pisoteada até a morte, havia sentido a piedade, a indignação e a raiva que ele sentira? "Somos todos seres humanos juntos, eles e eu... Como é possível que exista tal abismo entre nós?" A expressão dos olhos deles era de espan­to, perplexidade, não tinham a menor idéia de por que ele tirara os gatos de suas mãos. Sentiu a si mesmo se acalmando, a fúria dando lugar ao espanto, ao descrédito e, por fim, à tristeza. Sentiu-se vazio, impotente. Sua explicação, qualquer explicação, seria em vão. Eles não iriam, não poderiam compreender. A vida, o sofrimento dos gatos nada significa­vam para eles, como suas vidas nada significavam para seu Rei e seus sacerdotes. A sensibilidade estava completamente ausente, não havia nada capaz de lhes abrir os olhos, de fazê-los ver o que estavam por cometer.

Compaixão, liberdade, piedade apenas adquiriam valor aos olhos dessa gente quando aplicadas a eles próprios e suas famílias. Aplicados aos outros, esses valores não significavam absolutamente nada. Desde que as coisas más fossem mantidas afastadas de suas portas, de suas vidas individuais, não lhes importava o que acontecesse a seus vizinhos. Como seria capaz de explicar o que sentira em relação aos gatos?

Assim, compreendendo, continuou olhando para eles, os animais nos braços, incapaz de dizer qualquer coisa, sentindo-se cansado.

Quando afinal falou, sua voz não estava zangada, nem fria.

Explicar? — encolheu os ombros. — Querem dizer que nin­guém pensou sequer por um instante nos gatos? Eles também têm direito à vida e à felicidade, exatamente como todos os outros seres vivos.

Um silêncio curto e surpreso. Depois, alguém falou:

Esses gatos? Mas eles são apenas animais! O que quer dizer, senhor?

E outros:

Está querendo dizer que eles também têm direitos? Mas suas vidas não valem nada, com certeza. O que quer dizer, na verdade?

Ele abriu os lábios para tentar explicar o que era para ele tão simples, tão natural quanto respirar. Mas as palavras não vieram, de que adiantava falar? Sentiu como Tlatli, ao seu lado, tomou-lhe suavemente os gatos, ouviu-a sussurrar:

Tomarei conta deles.

Outra voz, uma voz profunda, melodiosa, plena de zombaria, disse:

Mas é possível que não tenham compreendido o Príncipe? Eu mesmo não o acho tão difícil.

Aquela voz! Um choque percorreu a multidão, um medo terrível tomando conta de todos. Aquela voz tão conhecida! O Rei ali, entre eles. Talvez tivesse estado ali por bastante tempo, ouvindo o que disseram. Meu Deus, o que haviam mesmo dito? E quem era esse a quem ele chamara Príncipe?

O primeiro desejo da maioria deles foi fugir, sair dali o mais rápi­do possível, cada qual tentando recordar o que havia dito a seu respeito, lembrando-se com clareza que tudo era alta traição. Queriam fugir, mas seus pés permaneciam arraigados ao solo, mantendo-os ali, o suor frio brotando de todos os poros.

Mas o Rei não prestou qualquer atenção aos homens e mulheres acovardados que o rodeavam. Via apenas aquele único homem, parado, ereto como uma lâmina, no meio da praça semi-iluminada.

Seus olhos se encontraram, os cinza-escuros ainda demonstrando tristeza, e os negros como carvão, profundos poços imóveis. Yahali viu que o jovem arrogante que o havia enfrentado muitos anos antes muda­ra. Durante aquele encontro na Floresta de Iavak, quando Ruan tentara salvar Sheon-La, Yahali vira de imediato os pontos fracos em sua arma­dura espiritual. Mas agora... "Com certeza você amadureceu filho de Rahazz", pensou.

É mesmo uma surpresa, Príncipe — disse em voz alta. — Lem­bra-se de nosso último encontro?

Lembro-me. E fui derrotado aquela vez — respondeu Ruan, um semi-sorriso nos lábios.

Eu sempre venço — a voz grave estava muito segura, muito calma. — Nunca falho.

Ou melhor — interrompeu Ruan, ignorando suas palavras: — Ambos fomos derrotados aquela vez. Os poderes que evocou eram como nada contra a Luz que não respondeu ao meu apelo desesperado. E outra pessoa, que nunca recebeu qualquer treinamento, nem era Iniciada de qualquer espécie, invocou a Luz e obteve resposta.

Enquanto falava, Ruan sentiu uma imagem esquecida colocar-se à frente de todas as imagens que sua mente abrigava. Aquela memória veio de um passado distante e, embora se anunciasse com insistência, não se tornava clara, permanecendo vaga, os contornos indistintos.

E Yahali também tomou consciência de algo que relacionava am­bos, amarrava-os um ao outro.

Ruan viu uma planície verde sob um sol quente, sentiu uma brisa suave agitando-lhe o cabelo. Tentou ver mais, mas a imagem se desva­neceu, desaparecendo, e o presente voltou a ser o agora. Para sua sur­presa, ouviu a própria voz.

Mas não se lembra daquele outro encontro, ó Rei? Muito tem­po se passou desde então.

Yahali permaneceu rígido. Seus olhos não deixavam o rosto de Ruan e ele se inclinou para diante, uma ruga na testa, tentando lembrar- se.

Mas quero avisar a ambos — disse Ruan de uma maneira es­tranha, e automática, parecendo repetir as palavras de um outro —, te­nham cuidado, porque um laço desse tipo é muito forte, difícil de desfa­zer, e o caráter de ambos é muito diferente. Estão seguros do passo que querem dar, vocês dois?

Yahali pôde se ouvir respirando pesadamente. Essas palavras, onde e quando as havia ouvido, por que sentia que eram importantes para ele, ou haviam sido outrora? Um aviso despercebido?

Mas não teve tempo de pensar mais a respeito porque de súbito Ruan se dirigiu à multidão:

—Atlantes! Não era vosso desejo ainda há pouco colocar as mãos sobre aquele que é a causa de vosso sofrimento, vossa miséria? Não queríeis matá-lo? Se é assim, ei-lo aqui! Há apenas um homem para defendê-lo e vós sois muitos. O que estais esperando?

Yahali endireitou o corpo, pareceu que se elevava acima de todos, seu olhar duro, frio e desdenhoso fixo nas pessoas diante de si. Sabia que eles tinham um único desejo naquele momento: desaparecer da pra­ça, de sua presença.

Sim... O que estais esperando, meu povo, meus súditos fiéis? Por que não seguis o conselho do Príncipe? Não éreis vós quem deseja­va cegar-me, arrancar-me o coração ainda há poucos momentos? Bem, aqui estou eu, à vossa disposição, eu, vosso Soberano, o Sumo Sacerdo­te de vosso país.

Ninguém se mexeu. Nenhum deles sequer olhou em sua direção, todas as cabeças estavam baixas. Ninguém ergueu a voz para encorajai-os outros. Ficaram parados, olhando para o chão, e estavam assustados.

Então, abruptamente, o tom da voz de Yahali mudou, tornando-se cortante, feroz e sibilante:

Vão! Vão imediatamente! Agora! Não tentem se esconder... meus homens irão encontrá-los, não há um rosto entre vocês que irei esquecer. Vão para casa e esperem pela punição que merecem. A puni­ção por alta traição.

Então se foram. Um por um, sem ousar sequer levantar os olhos para a figura imperiosa e triunfante do senhor de seus destinos, foram se afastando, silenciosos.

Por fim apenas três permaneceram: Yahali, Ruan e o capitão da guarda, este último agradecendo aos seus astros por não ter havido ne­cessidade de provar sua coragem contra centenas.

Agora diga-me, Príncipe, quem venceu desta vez?

Você, ó Rei — respondeu Ruan. — Você venceu, pois o medo é um poderoso aliado e a sua fama é conhecida. Mas agora, devo partir

- sem o menor sinal de zombaria, inclinou-se, saudou e então disse, depois de endireitar o corpo:

Esta saudação não é para o assassino impiedoso, para o Sumo Sacerdote egoísta e cruel deste país, mas para o Rei de Aztlan. Porque, até que o tempo demonstre o contrário, isso sem dúvida você é!

Até nosso próximo encontro — disse Yahali —, até o encontro último e final.

Que assim seja — Ruan voltou-se e desapareceu nas sombras escuras de uma ruela estreita.

Mas por que não o prendemos? — perguntou o capitão. —Por que não acabamos com ele de uma vez por todas? Havia vários agentes à paisana presentes aqui. A um sinal meu eles poderiam ter convocado a guarda.

Prendê-lo? Isso não teria sido tão fácil. Antes que os soldados chegassem, ele teria liquidado você. E você se esqueceu novamente de minhas ordens?

Ele teria liquidado comigo? Não há dúvida que esse fracote afeminado não é páreo para mim.

Yahali olhou-o de alto a baixo, zombeteiro. O homem irritava-o com freqüência. O antigo capitão de sua guarda, Zoar, fora diferente: inteligente e honesto. Este era apenas estúpido e presunçoso.

Fracote afeminado, capitão? Por certo não podemos estar fa­lando sobre o mesmo homem.

O capitão fez um gesto de indescritível desprezo.

O modo como ele ficou comovido por aqueles gatos. Eu não ficaria surpreso se ele explodisse em lágrimas. Provavelmente ter-se-ia rendido sem resistência. Mas, quem é ele, Sire... ouvi-o chamá-lo de Príncipe?

Oh, ninguém... um mero fracote afeminado — veio a resposta seca. — E também um grande guerreiro, um dos melhores do país. O último descendente da dinastia Tolteca.

O capitão precisou de todo o caminho de volta ao palácio para digerir essa informação incrível. Então, quando entrou com o transporte através dos altos portões, disse afinal:

Príncipe Ruan? Mas eu não compreendo... poucos guerreiros são como ele. Então por que esse sentimentalismo com os gatos?

 

Desh e Caman haviam escoltado Tlatli até estarem longe da mul­tidão e chegaram a uma estrada que se afastava da cidade.

Não podemos ir mais longe — disse Desh —, já estamos fora da área que devíamos estar patrulhando. Tem certeza de que ficará bem?

Tlatli assentiu. Soltou os gatos, observou-os correndo através de um trecho limpo do campo, o gatinho saltando ao redor da mãe.

E melhor vocês ficarem longe dos humanos — disse-lhes ela —, eles não merecem confiança.

Agradecendo aos soldados, ela se afastou apressada, caminhando com passo firme e decidido. Os dois homens voltaram ao dever sem demonstrar muita pressa. Viram uma moça vir correndo da direção opos­ta; esta tropeçou e teria caído se Caman não a tivesse amparado. Reconhecendo-a de imediato, Desh disse:

Ei, o que você está fazendo aqui? A noite mal começou ainda e os seus fregueses devem estar esperando-a com impaciência, tenho certeza.

Era a garota que o havia beijado antes naquela noite, passando- lhe a mensagem. Reconhecendo-o também, ela respondeu, sem de­monstrar muita simpatia:

Fregueses? Não se preocupe com meus fregueses, senhor. Nunca dormiu com uma prostituta? — e sem esperar pela resposta: — Por que todos parecem pensar que há uma diferença moral entre os ho­mens que gastam o seu ouro para pagar por sexo e as mulheres que compram? São exatamente a mesma coisa, você sabe. Aquelas garotas não são melhores nem piores do que os homens com quem se deitam.

'"Aquelas" garotas, não "nós" garotas, notou ele. "Então ela não é uma delas, estava apenas fingindo."

Não me importa o que você é — disse —, mas gostaria de conhecê-la melhor. Que acha disso?

Ela olhou-o, erguendo as sobrancelhas, zombando:

Talvez um dia desses, hem? Como disse antes, você está de serviço e eu também. Que tal nos encontrarmos no Vale da Luz, depois de amanhã?

Ela soprou-lhes um beijo e recomeçou a correr. "Está de serviço", pensou ele, "muitas outras mensagens a passar, aposto. Mas como poderei encontrá-la, a não ser que me designem para lá?"

Chamou por ela:

Espere, por favor. Não devia andar sozinha a essa hora da noite. Devia saber disso!

Ela parou de correr e esperou até que ele a alcançasse:

Não se preocupe, soldado. Sou uma mulher guerreira. Gostaria de me pôr à prova?

Ele segurou seus braços inesperadamente e beijou-a, soltando-a de novo antes que pudesse reagir.

— Não, não gostaria. Não desse modo. Mas estou morrendo de vontade de pô-la à prova de outra maneira, muito mais deliciosa.

 

Os relatórios que chegavam dos agentes rebeldes infiltrados por todo o país nas Forças Armadas eram mais ou menos os mesmos. Poucos pareciam dispostos a arriscar suas carreiras, senão suas vidas, e aderir à causa rebelde. O Rei era conhecido por conceder favores espe­ciais aos militares, os salários eram altos mesmo para os de patente mais baixa e nem o clero desfrutava da atenção real dispensada às For­ças Armadas.

Não obstante, muitos soldados e oficiais, e até mesmo unidades inteiras, admitiam que, em caso de guerra civil, teriam relutância em apontar suas armas contra parentes e amigos, e que fariam tudo para evitar enfrentá-los em combates de fato.

Recebendo ele próprio os mensageiros, ouvindo-os um por um, Ruan foi ficando cada vez mais quieto.

Eu devia ter ouvido meu pai — comentou. Não haverá nenhu­ma revolução sem que ao menos a maior parte dos militares coopere, seja recusando-se a lutar, seja aderindo abertamente à nossa causa. As poucas unidades com que podemos contar serão massacradas pelos que permanecem leais a Yahali... são muito pequenas em número — enco­lheu os ombros. — Bem, não há como voltar atrás, agora. Já fui longe demais.

Mas, com todas as pessoas reunidas ali — disse Nehazz, consternado —, se falharmos, com certeza haverá um banho de sangue. E seria fácil para as naves inimigas liquidarem todos amanhã pela manhã.

Ruan sacudiu a cabeça.

Não. Tenho notícias de que tio Vrina convenceu o Rei de que não seria aconselhável enviar as naves para atacar a multidão. Na certa haverá parentes, amigos e mesmo colegas dos pilotos em meio a ela. Yahali sabe perfeitamente que muitas das pessoas reunidas aqui vieram por curiosidade ou mesmo à procura de diversão e excitação. Uma matança por atacado poderia conseguir mudar os pensamentos de muitos membros das Forças Armadas até agora leais a seu Rei. Além disso, Yahali tem medo deste lugar.

Medo? Aquele homem com medo? Não posso acreditar.

Mas é verdade. Depois que venceu a guerra, veio até aqui para lazer a mesma coisa que fez com todos os templos e, por alguma razão, falhou.

Então é verdade — perguntou Lyanta — que ele nem mesmo conseguiu entrar no templo?

Não, isso não é verdade. Ele entrou... mas fracassou ao tentar convertê-lo numa Casa do Mal. Desde então, deixou o lugar em paz. Penso que foi por isso que concordou tão prontamente com a proposta de Vrina de não atacar as pessoas que estão aqui.

Estavam sentados ao redor de uma fogueira acesa no início da noite; atrás deles erguia-se o Templo de Ametista, brilhando suave ao luar, um brilho que podia ser visto muito além dos limites do vale. Ar­maram suas camas fora, com vários cobertores tecidos a mão esten­didos um sobre o outro. A noite estava muito seca e fria.

Mais abaixo, no vale, o murmúrio das pessoas podia ser ouvido e o clarão de muitas fogueiras era visível por toda parte. Havia o som de risos, música e bater de palmas. Estavam felizes ali embaixo, sentindo-se protegidos contra qualquer mal que pudesse cair sobre eles. A atmos­fera do Vale da Luz e a certeza de que os homens de Zenhar estavam guardando o desfiladeiro, a única saída para o mundo exterior, deixa­vam-nos alegres e despreocupados.

Por um longo tempo o grupo permaneceu sentado em silêncio ao redor da fogueira, até que o sono os venceu e adormeceram.

Era quase o alvorecer quando Sheon-La sentiu Ruan se mexer ao seu lado e ouviu-o dizer claramente.

Amor, meu amor. Abrace-me, abrace-me forte, está tão escuro aqui.

Ela o sentiu procurando-a por sob o cobertor que estavam parti­lhando. Sentou-se imediatamente, encostando a cabeça dele de encon­tro ao seio. Ele tremia todo, mas seus olhos estavam fortemente cerra­dos.

Ele quer que eu diga a ele, mas eu... então eles queimam, quei­mam até o fim, meu Deus, a dor é terrível... — seus braços apertaram-se convulsivos ao redor dela, mas seus olhos continuavam fechados.

Ela não disse nada. Acordá-lo para contar-lhe? Apenas um pesa­delo, disse a si mesma, sabendo perfeitamente bem que ele estava tendo uma visão. Vinha tendo-as com freqüência, e nos últimos dias não havi­am sido tranqüilizadoras.

Agora ele começava a murmurar, estendendo-se todo sobre o cobertor verde. Este havia sido tecido por sua mãe: crianças vermelhas e pequenos animais cor-de-rosa correndo sobre o verde.

Ela começou a acariciá-lo, as longas e duras linhas de seu corpo nu, começando por sua cabeça, passando pelos ombros e descendo até os pés. Sentiu que ele havia acordado, mas não desejava abrir os olhos, um meio-sorriso brincando nos lábios. Parecia mais relaxado agora. "Como é belo o corpo de um homem", pensou. "As linhas esguias, as cadeiras estreitas e, especialmente neste corpo, nenhum grama de gordu­ra onde não devia haver."

Deixou uma das mãos descansar do lado interno de sua coxa. O meio-sorriso de seus lábios abriu-se num sorriso largo. Ele sentou-se, os olhos ainda fechados, mas muito acordado agora, e puxou-a para si. E disse, como respondendo aos seus pensamentos:

Não, o corpo de mulher é muito mais adorável, mais delicioso, lia tantas curvas, todas macias e misteriosas, aqui... aqui... aqui. Tão boas de se tocar... — suas mãos começaram a passear por seu pescoço, ombros e seios, e então mais lentamente, desceram pelas ancas, barriga e finalmente as coxas, a visão ruim completamente esquecida.

Naquele dia o sol despertou-os cedo, um brilho vermelho no leste. Vanzaj foi o primeiro a levantar-se para ordenhar as cabras que pertenciam ao caseiro do templo. O velho havia sido designado por Rahazz quando ainda jovem e desde então nunca deixara o lugar. Yahali não o havia mandado embora e nem sequer pensara colocar um substituto.

"Ele é um tirano, impiedoso, cruel, mas é sábio também," pensou Vanzaj enquanto ordenhava uma cabra indignada, segura por seu pro­prietário. "Ele não desperdiça energia em coisas sem importância."

Beberam o leite e comeram o pão com queijo de cabra. O pão estava fresco, ainda quente.

Comam, senhores e senhoras —, disse o homem, o pão acaba de sair do forno e há mais quando quiserem.

No vale, as pessoas estavam se mexendo, preparando desjejum em seus fogões solares ou em pequenas fogueiras, banhando-se nos muitos riachos que recortavam a área.

Durante a parte final daquele dia, Ruan ficou sentado com as per­nas cruzadas diante do altar no pequeno templo de ametista, esvaziando a mente para deixar a verdade entrar, preparando-se para o encontro daquela noite, quando a lua cheia estaria em Escorpião.

Após o desjejum, ele e os outros caminharam entre as pessoas reunidas no vale, conversando, rindo e dançando com elas. Não havia se preocupado em revelar ou esconder a identidade, saíra em roupas sim­ples como as que todos estavam usando, conversara da maneira que es­tavam acostumados a conversar. E embora ninguém o tivesse reconheci­do de fato, notara olhares intrigados e interrogativos. Descobrira que eles tinham apenas vagas noções sobre o que aconteceria se a revolta contra Yahali falhasse. Poucos deles estavam ali como resultado de sua própria decisão individual, no mínimo estavam esperando ser liderados por ele, seu pai, Zenhar ou alguém que lhes dissesse o que fazer e como fazê-lo. Até agora tinham seguido Yahali, tinham-no ouvido, obedecido às cegas, mas agora estavam dispostos a seguir outro, que parecesse prometer mais, que aos seus olhos parecesse menos ameaçador, mais compassivo, seguir este outro por muitas razões, a maioria delas não clara para eles próprios.

Enquanto conversava, pensara no incidente dos gatos, perguntando-se quantos deles teriam a mesma reação que os sacerdotes e torturadores de mentira naquela praça da cidade. Não se sentia exaltado nem triste; sentia-se vazio de emoção. Não havia mais nada que pudesse fa­zer, exceto esperar e ver o que aconteceria.

"Nem você nem eu vencemos aquela noite, ó Rei," havia dito a Yahali, "Outra pessoa, que nunca recebeu qualquer treinamento, nem era iniciada de qualquer espécie, invocou a Luz e obteve resposta."

"Não sei o que aconteceu exatamente, Ruan", havia respondido Sheon-La à sua pergunta, "mas, seja o que for, eu não tinha consciência. Quero dizer, não pedi por ajuda. Estava olhando com um medo entor­pecido para os sacerdotes e Yahali, agrupados ao redor do altar".

"Eles haviam arrastado uma jovem até ali. Ela devia estar grávida de uns sete meses. Implorava que a deixassem, dizendo que não perten­cia ao inimigo, nem era uma mulher guerreira e que estava com criança. Eles apenas riam dela".

"Grávida? Mas isso é esplêndido. Assim teremos dois corações a oferecer ao nosso Senhor, o Sol", disse um deles. "Antes iremos cortar o pestinha para fora de você, depois o coração dele, e finalmente o seu. O que acha disso?"

"E assim, trocando pilhérias, eles a haviam arrastado até muito perto do altar, onde ficou parada tentando proteger a barriga, num gesto fútil que os fazia rir mais ainda", terminara ela, estremecendo e, de re­pente, ficara muito quieta.

Por fim Ruan havia dito, afastando o cabelo de seu rosto.

"E então o que houve?"

Ela olhara para diante, fixamente, como se não compreendendo o que estava vendo.

"Não sei na verdade. Apenas me lembro que fiquei furiosa. Aque­las bestas e o olhar desesperado no semblante daquela mulher, encolhendo-se diante deles, já semi-hipnotizada, mas ainda consciente e ten­tando fugir. E eu... eu de repente decidi que não importava o que acontecesse comigo, tentaria salvar a mulher e a sua criança ainda não nascida, eles não me haviam amarrado, mas, mesmo se o tivessem feito, seria como nada e assim eu me atirei sobre eles, é estranho que não estivesse assustada, sentia-me fria e mesmo calma. Juro que não me lembro como o fiz, mas subitamente a faca estava em minhas mãos e as cordas que a amarravam, cortadas. Eles ficaram parados, espantados, tudo se passou em poucos segundos, eu gritando para a mulher para que fugisse. Ela não vacilou, levantou-se e estava fora do alcance deles num instante, desaparecendo por entre as árvores".

"Os soldados, eu sabia, estavam longe. Tinham medo daquele lu­gar, alguns sacerdotes também, a Floresta de Iavak é um lugar maligno. Não foram atrás dela, tinham as mãos ocupadas comigo. Um deles ha­via me agarrado pelos cabelos, mas consegui soltar-me. Então outro segurou-me, berrando: 'Assim você simplesmente apressou seu próprio fim, sua puta'... e então aconteceu."

Ruan ficara esperando que ela continuasse a história, lembrando- se de como estivera escondido nas proximidades, de como havia dito as palavras que apenas podiam ser ditas nos momentos mais apavorantes... e de como nada acontecera. Absolutamente nada. Havia lutado para le­vantar-se, sentira as nuvens sombrias e pesadas pairando sobre a cena, pesando sobre ele, imobilizando-o até que mal pudesse mover-se. Meio levantado, caíra de novo, soluçando, seu peso triplicado. Com um esfor­ço final levantara-se, cambaleando, apenas para cair mais uma vez, os membros pesados como chumbo.

"Mas então aconteceu, Ruan", continuara a voz doce ao seu lado, c ele sentira sua mão acariciá-lo, suave, "Qual é o problema? Você não se sente bem? Então houve a luz, uma luz cegante... você não se lembra? Você estava ali, também. E com a luz veio uma brisa suave e fresca".

"Mas eles, os sacerdotes, reagiram como se atingidos por um fura­cão selvagem... Eu estava tão surpresa que tive de fechar os olhos por causa da luz, era forte demais. E os vi cobrirem os olhos, uivando, tentando correr, mas sendo arrastados como se fossem simples palha na­quele furacão, sendo atirados contra as árvores, esmagados contra o chão enquanto eu estava ali parada, firme, no meio de uma brisa refrescante e suave".

"Então fugi, mas o furacão não me atingiu. Ouvi as árvores caí­rem por trás de mim, mas não parei para ver..."

Ruan recuperara a consciência muitas horas mais tarde, encontrando o lugar totalmente deserto, os corpos de vários sacerdotes jazen­do imóveis, alguns deles embaixo de pesados pedaços do altar destroça­do, totalmente destruído por árvores gigantes, com troncos de ao menos dois metros de diâmetro. A última coisa que notou antes de desmaiar novamente foi que não havia qualquer traço, fosse de Yahali, fosse de Sheon-La.

"Mas o que aconteceu de fato, Ruan? Eu não invoquei os poderes. Nunca fui ensinada como fazê-lo. Mesmo agora não saberia. Nem se­quer sonhei em invocá-los. Havia desistido de tudo, sabia que ia morrer, estava preparada para...".

"Sim", interveio Ruan. "E também estava preparada para salvar a vida daquela mulher grávida. Você não pronunciou quaisquer palavras mágicas, não tinha anos de extenuante treinamento em que se apoiar, não tinha qualquer idéia do que dizer ou de como agir. Para você nenhu­ma palavra era necessária, nenhum canto mágico, nenhum incenso, nada dessa espécie. Ao sentir-se como se sentiu, fazer o que fez, você os invocou sem chamá-los conscientemente, e dessa vez eles responde­ram."

Mas responderam com disposição, espontâneos, não invocados por palavras, ou submetendo-se a uma grande energia vital, não dobra­dos pelo poder, mas atraídos naturalmente por um coração ardente e compassivo, o seu, minha Sheon-La, que me ensinou a lição de minha vida na mais escura das noites, quando pensei tê-la perdido para sem­pre."

"Eu pensava amá-la, estava certo de que nenhum amor era maior que o meu... No entanto, quando invoquei os poderes da Luz, certo de ser bem sucedido... afinal, não era eu um Iniciado, não estava trajando a Serpente, eu, um Filho da Serpente Alada?..."

"Aquele momento era uma batalha entre mim e Yahali. Eu não me preocupei sequer um instante com você, porque estava seguro de que iria vencer! Eu era o maior, não era necessário preocupar-me com você, com sua proteção."

"Meu Deus, Sheon-La... e então, quando me dei conta do que estava acontecendo, quando percebi que não seria capaz de salvá-la, naquele momento vi a mim mesmo como realmente era, e não foi uma imagem lisonjeira."

 

No Vale da Luz, o templo de ametista elevava-se luminosamente adorável ao luar branco e silencioso. Nos degraus inferiores, apenas um pouco acima da terra gramada do vale, achavam-se os líderes da revolta, conversando entre si. Dentro de meia hora a Lua, no signo de Escorpião, estaria exatamente oposta ao Sol.

Na Cidade dos Portões de Ouro, capital do país, o povo estava celebrando a lua cheia, dançando desvairado pelas ruas, enchendo as casas de bebidas e de comidas, e apinhando as praças públicas. No Grande Templo, Yahali estava oficiando os rituais da lua cheia, como era costu­me a cada vinte e oito dias, oferecendo corações humanos para fortificar o Coração Solar.

O capitão da guarda do Rei tentou mais uma vez convencer Yahali:

Senhor, sua vida está em risco, é pura loucura ir até lá! E se o matarem?

Mas Yahali, apressando-se em direção à pequena nave estaciona­da junto aos portões do palácio, com o oficial protestando em seus cal­canhares, não respondeu. Antes de embarcar, perguntou:

Você transmitiu minhas ordens?

Sim. Mais ou menos uma hora depois de partirmos, essas uni­dades vão seguir-nos até o Vale da Luz. Mas, desculpe-me senhor, mes­mo assim será impossível tomar aquele desfiladeiro.

E quem disse que é minha intenção tomar o desfiladeiro? — rebateu frio, a voz grave. — Não devia chegar às suas conclusões com tanta precipitação.

Mais tarde, Ruan não conseguiria se lembrar do que havia dito naquele discurso, pouco depois do crepúsculo. Havia tentado memori­zar as palavras, soubera exatamente o que dizer até que se viu parado diante da multidão que o olhava com tanta expectativa. Então, outras palavras, que ele não pretendera dizer de modo algum, vieram espontâ­neas, não sabia de onde.

Mas soube, quando os aplausos explodiram, quando o aclama­ram com gritos ensurdecedores, que reverberavam até os cantos mais distantes do vale, que havia feito um último apelo apaixonado, um apelo nos corações de todos eles, porque agora sabia o que iria acontecer e por quê.

Em vão tentou afastar aquela sensação de desastre iminente. Por que havia começado a duvidar da sinceridade, da força dos homens e mulheres presentes? Já não tinham todos escolhido, dedicando-se à causa, enfrentando graves perigos ao fazê-lo? Por que essa dúvida estranha?

Seus amigos, sabia, não partilhavam de suas dúvidas, pareciam seguros do sucesso, apenas esperando que a revolta se iniciasse e se espalhasse pelo país, tomasse conta das Forças Armadas e colocasse Rahazz de volta sobre o trono que perdera.

Nunca o ouvi falar desse modo antes — disse Vanzaj.

Sinto que em pouco tempo nossos sacerdotes irão retornar para oficiarem em nossos templos.

Um soldado chegou abrindo caminho por entre a multidão, dirigindo-se direto a Ruan:

Príncipe, dois homens estão pedindo que os deixemos passar na entrada do vale. De acordo com suas ordens, desde uma hora atrás ninguém devia ser admitido a não ser que conhecesse a senha, mas eles insistem, não querem ir embora. Exigem que os deixemos passar.

Exigem? — Ruan franziu a testa. — Não, é impossível. Se estiverem causando problemas retenha-os até o final da reunião e de­pois solte-os.

Mas o soldado continuou parado, hesitando, e então disse, diante do olhar interrogativo de Ruan:

Não sei, mas sinto que um deles realmente tem algo importan­te a dizer, embora esteja claro que não é um de nós. Estranho, mas ele estava tão seguro de si... ficou insistindo. Disse que estava sendo espe­rado aqui.

Esperado? — De novo Ruan franziu a testa. — Bem... — Pa­rou abruptamente ao ver um grupo de pessoas se aproximando: dois homens em roupas escuras, escoltados por soldados muito armados. Um desses últimos, separando-se dos outros, correu em sua direção.

Eles insistiram em ser trazidos para cá, Príncipe — disse, desculpando-se. —Assim, pensei que talvez algo importante estivesse em jogo e não tive certeza do que fazer. De qualquer modo são apenas dois, não podem causar muito dano... portanto, trouxe-os para cá.

O grupo deteve-se a apenas alguns passos da escadaria do templo, os soldados olhando interrogativamente.

Mas Ruan não respondeu. Imóvel, olhou para o mais alto dos dois recém-chegados, cujo rosto estava praticamente invisível sob o ca­puz.

As pessoas começaram a murmurar com impaciência, depois fi­caram em silêncio de novo, por se tornarem gradualmente conscientes de uma atmosfera de tensão.

— Então nos encontramos mais uma vez, Príncipe — disse a voz melodiosa, e apenas os da frente ouviram as palavras, sem reconhecer a voz. Não podiam ver o homem que falara, rodeado que estava pelos soldados de Zenhar.

Não por medo ou choque, Ruan continuou quieto. Mas porque naquele momento, não mais se encontrava no Vale da Luz. Yahali cap­tou o olhar distante naqueles olhos cinza-escuros, olhos que não pareci­am vê-lo. Dando um passo para diante, abriu a boca para dizer algo sarcástico, mas nenhum som se ouviu.

Porque ele, também, viu o passado se tornar presente e o presente, inexistente. O tempo havia perdido o seu significado e mesmo Yahali, Rei de Aztlan, ainda não havia nascido, assim como Ruan, filho de Rahazz, era ainda uma forma vaga e desfocada, num futuro distante.

Quantos anos? Milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares? Mesmo Aztlan ainda era um grande país por vir, jovem, vigoro­so e cheio de possibilidades. Um país imenso, pouco explorado, povoa­do por uma nação crescente de homens e mulheres, nação jovem como a própria terra, e cheia de promessas.

E ambos, o não-Yahali e o não-Ruan ainda eram jovens de alma naquele presente distante, dedicando muitos pensamentos para coisas como lutar, namorar, comer e beber, levando a vida despreocupada e superficialmente. Inútil chamá-los por seus nomes futuros, tão futuros, porque então Ruan não era Ruan ainda e nem Yahali tinha muito a ver com o futuro Sumo Sacerdote e sua paixão sombria pelo poder.

Entretanto, e isto é verdade, cada um deles já trazia a semente do que seria milhares de anos depois. Um deles, magro e escuro, com um intenso sonho de poder, a realizar-se muito mais tarde, já mostrando seu primeiro sinal de vida, suas primeiras tênues indicações de crueldade e frieza, diferentes da crueldade impensada de seu companheiro.

Em seu amigo, embora Ruan ainda não estivesse formado, ainda assim havia alguns sinais do que se tornaria, aparecendo nas expressões de seus olhos, suavizando as feições guerreiras de outro modo cruas, e lia maneira como cuidava de seu cavalo, explodindo em fúria quando os outros maltratavam os deles. Mas esses sinais eram ainda muito leves, ambos não passavam de jovens despreocupados, e sem pensamentos, prontos para qualquer coisa que a vida trouxesse.

Uma brisa suave, soprando sobre uma planície quente e verde. Estavam parados diante de um altar tosco de madeira, olhando para um terceiro homem, de feições sérias.

"Mas devo avisar a ambos", dizia esse terceiro homem, seguran­do uma faca brilhante na mão direita, aviso-vos porque tal laço tem muita força e será difícil desfazê-lo, e vossos traços de caráter são muito diferentes. Estais certos, vós dois?"

Eles riram alegres diante disso, não dando importância às pala­vras. Então se abraçaram dizendo que insistiam em ir até o fim, com certeza. Como ele podia fazer tal pergunta? Seriam amigos para sem­pre, não havia dúvida. E mais uma vez explicaram àquele sacerdo­te pessimista que sua amizade iria resistir, que estavam muito seguros disso.

O sacerdote encolheu os ombros. Então, aproximando-se, execu­tou a cerimônia curta, simples. Quando terminou, os amigos abraça­ram-se, de novo, rindo. E o que era magro e escuro disse:

"Nosso sangue está misturado agora, misturado para sempre. Vo­cê é eu e eu sou você, para sempre um em sangue. E assim, sempre voltaremos a nos encontrar."

Mas quando se voltaram para ir embora, o sacerdote chamou-os de volta:

"Esse foi vosso desejo", disse com severidade, "e talvez nunca vos arrependais dele, mas talvez chegue um tempo em que ireis desejar nunca terdes feito um juramento de sangue. Então, quando estiverdes frente a frente, completos estranhos, lembrai-vos que apenas uma coisa será capaz de romper o laço que vos ata. Então vossa camaradagem será como nada e cada um estará livre do outro."

Ruan fez um movimento como para se aproximar de Yahali. Mi­lhares de anos desvaneceram-se num segundo. O futuro tornara-se o presente.

Estava parado na escadaria do templo do Vale da Luz e os olhos da multidão cravavam-se nele, cheios de perplexidade. Diante de si via um soldado alto, de olhos negros, um camarada de muitas vidas. Esten­deu as mãos, murmurando:

Irmão...

Mas então, o que era verdade e o que não era, qual era a diferença entre o que estava acontecendo e o que havia acontecido? Quem era aquele homem parado em silêncio, o sorriso cheio de desdém, e quem era o outro parado atrás dele, uma forma menos sólida, um homem mais jovem, estendendo as mãos... ambos com um sorriso de boas-vindas no rosto?

Finalmente... disse Yahali e, enquanto falava, a forma por trás dele começou a perder substância e cor até tornar-se apenas um borrão.

— Finalmente sei por que sempre nos encontramos um ao outro, por que nossos caminhos estão cruzados cio modo que estão e... — ele se deteve, vacilando, uma espécie de perplexidade no olhar, vendo com clareza o amigo que havia sido seu irmão de sangue por tantas vidas, esquecendo-se por um instante do inimigo... inimigo?... que se colocava entre ele e suas ambições.

E seu olhar endureceu outra vez enquanto Ruan dizia:

O que, ó Rei, está buscando aqui? Você, que é das Trevas, não tem lugar no Vale da Luz.

Não sabe, Príncipe? — Yahali riu suavemente. — Vim para encontrar meu povo. Meu lugar, como sempre, é com meu povo. Neste momento e aqui neste vale, também.

Está enganado. Ninguém aqui pertence a seu povo.

Yahali não respondeu. E antes que alguém pudesse evitar, estava parado ao lado de Ruan nos degraus do templo. Com um movimento rápido, retirou seu longo manto, mostrando à multidão perplexa o que havia por baixo, as esplêndidas roupas reais em dourado e negro.

Por trás dele ouviu-se um grito de surpresa e raiva.

Ao perceberem quem estava parado diante deles, um profundo silêncio substituiu cada murmúrio. Olhando para aquela forma tão co­nhecida, todos se mantiveram quietos. Qual era o significado de tudo aquilo?

Não temam — ouviu-se a voz de Ruan. — Isto não significa que nossa causa está perdida. Mas ele, que agora está parado aqui ao meu lado, insistindo em que é o soberano de vocês, me diz que estão esperando por ele. É verdade o que diz? É por ele, então, que estiveram esperando?

E no silêncio, notando quantos estavam atemorizados pela figura de Yahali em suas roupas maravilhosas, comparando-o desfavoravelmente ao seu soberano, Ruan suspirou e encolheu os ombros. "Se é isso que vocês precisam, por que não?" pensou, "então serei tão infantil quanto todos. Vou mostrar-lhes o esplendor real". Assim, lento, retirou o manto escuro, revelando o que havia por baixo: a túnica vermelha, bordada com os emblemas da dinastia, o largo cinturão de ouro incrustado de rubis, os braceletes pesados de pedras preciosas, as tornozeleiras de ouro. Muitos prenderam a respiração e o silêncio geral aumentou ainda mais.

Nenhuma resposta se ouviu, nem mesmo o menor som. Alguns queriam gritar num furioso protesto, queriam gritar: "Matem-no! Pe­guem-no! Abaixo Yahali!". Mas as palavras não vieram; exceto por um ou dois brados fracos, logo abafados, nada foi ouvido.

E ao olhar para aquela forma escura e silenciosa, as imagens vieram a eles, imagens ligadas em definitivo ao domínio de Yahali.

Prisões que raramente voltavam a abrir suas portas para aqueles que nelas entravam; altares sangrentos em templos majestosos; perse­guições implacáveis aos adversários, massacres, torturas capazes de destruir mesmo os mais fortes e os mais leais; a Morada dos Morcegos, a Floresta de Iavak.

Então todos se perguntaram:

"O que acontecerá comigo se essa revolução falhar? Nunca mais encontrarei um lugar para me esconder, para descansar. Nunca mais es­tarei a salvo. Não importa onde; ele me viu, ele sabe, ele jamais esque­ce. E sua vingança é sem limites. Serei caçado por toda a terra e morre­rei de fome ou me apanharão e me matarão. Valerá a revolução pelo sofrimento, pelo risco da tortura e da eliminação?"

Era preciso admitir, o rei era generoso com aqueles leais a ele, com os que o aclamavam, os que o serviam bem. Para esses ele dava em abundância, distribuindo com generosidade possessões e dinheiro.

Seria já tarde demais para jurar fidelidade? Talvez não. E se se demonstrasse obediência, aqui e agora?

No fim, as únicas coisas importantes eram alimento, trabalho e lazer. Os ideais eram inúteis, comparados a isso. Não tinham substân­cia. E afinal era compreensível que o Rei tentasse acabar com os que não concordavam com ele, que estavam contra ele.

O significado de justiça, liberdade? Palavras de pompa inútil quan­do a Polícia Secreta batia à sua porta, trazendo nas mãos o temido man­dado.

Ruan era um pouco mais alto que o Rei, mas este último parecia mais impressionante em suas roupas, sua postura arrogante comparada com a leveza, a gentileza irradiada por Ruan. Dizan, ao lado deles, viu a tudo com clareza. Colocando a mão sobre o braço de Ruan disse:

Príncipe, temos de matá-lo ou tirá-lo daqui. Nosso povo já está enfraquecendo por causa dele. Não percebe?

Ruan sacudiu a cabeça:

Se estão enfraquecendo não é por causa dele Dizan, mas por causa do Yahali em seus corações. O externo não significa nada agora — e, antes que Dizan pudesse replicar: — Avise aos outros para ficarem preparados para o pior. Mande uma palavra também aos que estão guar­dando a entrada secreta— Dizan assentiu rápido e desapareceu. Alguns homens e mulheres, temerosos de chegarem tarde demais, agora, ergue­ram as vozes:

Vida longa para o Rei! Vida longa para o Rei Yahali! Como se estivessem apenas esperando por aqueles primeiros gritos, os outros tam­bém explodiram numa confusão louca e desenfreada de vozes:

O Rei! O Rei! Honra ao Rei! Abaixo com os traidores!

Os líderes que se achavam na escadaria ficaram sem fala, olhan­do perplexos para a massa ululante, incapazes de acreditar no que estava acontecendo. Correndo para Ruan, formaram um círculo excitado ao seu redor. Nesse meio tempo, os homens de Zenhar, furiosos, se haviam precipitado escada acima para apanhar Yahali.

Não quero acreditar... isto não está acontecendo, na realidade, disse Lyanta, indignada. — Logo irão recuperar a razão. Devem estar loucos.

Mas Ruan balançou a cabeça:

Não... eles acabam de recuperar a razão. Justo agora. Finalmente — comentou com tristeza. E enquanto o alarido crescia, Yahali, cercado pelos soldados, parecia calmo e triunfante.

Devemos matá-lo, Príncipe? — gritou o capitão, acima do tu­multo, mas Ruan fez gesto que não.

Agora que o momento temido estava acontecendo não sentia qual­quer amargura ao olhar para os rostos zangados, para os punhos cerra­dos sacudidos em sua direção. Por ter lido seus pensamentos, sentindo o que eles sentiram, como se esses sentimentos, esses pensamentos fos­sem seus. Durante um curto momento havia sido um deles, um com eles em seu egoísmo e pavor.

E agora? Desejara mostrar-lhes seus sentimentos. Esse era seu povo. Desejara mostrar-lhes sua crença na justiça e na compaixão, na compreensão, na beleza e na irmandade de todos os seres vivos. Tivera esperanças de que eles compreendessem. Mas não haviam compre­endido.

Príncipe — era um dos homens que guardavam o desfiladeiro —, as tropas inimigas estão se preparando para um ataque.

Por quanto tempo vocês serão capazes de retê-los? perguntou Ruan, pensando rápido.

O tempo suficiente para que todos deixemos o vale e nos po­nhamos a salvo. E ainda mais — replicou o homem com presteza. — Quais as ordens?

Antes que Ruan pudesse responder, houve uma comoção logo abaixo: gritos zangados, o som de armas sendo puxadas, insultos e berros de dor. Uma centena de homens e mulheres, alguns deles trazendo cri­anças pela mão, outros aninhando-as nos braços, abriam caminho atra­vés da multidão compacta. Um dos homens, com uma espada curta, obviamente o único entre eles que estava armado, inclinou-se para Ruan. Seus olhos brilhavam intensamente de indignação:

Príncipe, queremos dizer que não vamos mais suportar o tira­no. Não sei por que os outros mudaram de idéia tão rápido, mas estamos aqui para ficar ao lado de vocês e permaneceremos fiéis a nós mesmos, não importa o que aconteça.

Antes que terminasse, sua voz foi abafada por gritos de raiva. Muitas pessoas tentaram alcançar o pequeno grupo, ameaçando-o, os punhos cerrados, os olhos zangados. Mas antes que a luta, aparente­mente inevitável, pudesse acontecer, soldados rebeldes, aparecendo como de lugar nenhum, cerraram fileiras atrás do porta-voz e de seu grupo.

Está vendo? Desta vez a vitória é minha — disse a voz profun­da e melodiosa. — É melhor que você se renda. O jogo está perdido para vocês e, embora seja verdade que meus homens não serão capazes de tomar o desfiladeiro, uma palavra minha e os milhares reunidos aqui atacarão os soldados de Zenhar pela retaguarda. É verdade que estão desarmados, muitos deles morrerão, mas com certeza seus soldados te­rão de se ocupar com eles enquanto minhas tropas os atacam pela fren­te.

Talvez seja assim, — respondeu Ruan, fazendo um gesto rápi­do para os soldados que protegiam o grupo que acabara de jurar lealda­de.

Com satisfação, notou que estes o compreenderam de imediato, começando a afastar o grupo da multidão. —Talvez seja assim, ó Rei, mas você não porá suas mãos em mim — e apontando por sobre o om­bro: — Você venceu, mas não há nada que possa fazer para evitar que eu parta. Deve reconhecer que não há nada que possa fazer para evitar isso.

Viu como os soldados, após falarem às pressas com o líder do grupo, mantendo o resto da multidão à distância, agora o apressavam pelas escadas atrás do templo de ametista em direção ao outro desfila­deiro, que levava diretamente ao território de Rahazz, também guarda­do pelos homens de Zenhar. Quando sumiram de vista, Ruan voltou-se para Yahali:

Estou preparado para me render sob uma única condição. Ca­da pessoa presente aqui será livre para voltar para casa, ou para onde desejar ir... e, sem dúvida, aqueles que desejarem juntar-se a nós, serão livres para fazê-lo. Isso você não poderá evitar. Meus soldados os leva­rão em segurança. Mas os outros... os que desejarem voltar para casa não serão presos, mortos ou molestados, de qualquer outro modo, seja agora, seja no futuro.

Yahali não mostrou qualquer emoção ouvindo as exigências de Ruan. Seria esse homem, então, como sua mãe, a Rainha, seria com efeito tão ingênuo que...

Mas a voz de Ruan interrompeu seus pensamentos:

Não, não sou como ela: você não vai me enganar como a enga­nou.

Concedido — disse Yahali. — Será como você diz.

Rápido demais, ó Rei. Sua resposta veio rápida demais, disse Ruan, lendo os pensamentos ocultos atrás dos olhos sombrios. Deu um passo à frente. — Não. Não peço a palavra de Yahali, Rei de Aztlan, Sumo Sacerdote das Trevas. Peço a palavra de um guerreiro, o irmão de sangue que ainda vive dentro de você, aquele que você ainda não foi realmente capaz de eliminar, não importa quanto tentasse. Lembra-se de como nosso sangue se misturou naquela vez? Eu não temo que traia sua palavra porque não pode. Porque sabe que a irmandade de sangue é ainda muito mais forte do que pensava. Não é verdade?

Yahali assentiu devagar, olhando profundamente para dentro de si, surpreso pelo que viu, não gostando do que viu, mas admitindo que, por mais que desejasse, não seria capaz de quebrar a palavra dada, da maneira que Ruan exigia. Como Sumo Sacerdote e Rei de Aztlan era livre para conspirar, manipular e trair, centenas de vezes se assim o de­sejasse. Mas o irmão de sangue ainda vivo dentro de si, infelizmente ainda muito vivo dentro de si, nunca seria capaz de quebrar a palavra uma vez comprometida.

Suspirou profundamente e então disse:

-— Percebo. Sabe o que isso significa para você? — Seus olhos não deixaram o rosto do outro sequer por um instante. — Sabe que dessa maneira estará renovando um laço que deveria ser quebrado agora e aqui? Que durante muitas vidas pela frente você e eu estaremos acorrentados um ao outro, não ligados, mas verdadeiramente acorren­tados, ó Príncipe? Sentir-se-á sempre atrapalhado, frustrado em seus esforços para alcançar aquelas alturas estonteantes sobre as quais você e os seus semelhantes sempre falam.

Eu sei. E o mesmo acontecerá com você... irmão, disse Ruan com simplicidade, sem ironia, apenas mencionando um fato óbvio. — Agora dê-me a sua palavra, a palavra de um irmão de sangue.

Está dada. Cada um e todos aqui presentes podem ir onde de­sejarem, sem serem molestados, agora ou no futuro.

Era típico dos amigos de Ruan, agora rodeando-o novamente, que nenhum deles tentasse fazê-lo desistir. Compreendiam que para ele não havia outra saída. Apenas Nehazz disse:

Mas por que esse sacrifício? Eles não valem isso. Estão do outro lado; jamais levantarão um dedo por nossa causa.

Mas não estariam aqui se eu não tivesse inventado essa revolu­ção, chamando-os, pedindo-lhes que viessem e se juntassem a nós — a resposta foi dada com um sorriso amargo. — Devo ao menos tentar corrigir meu erro.

O Rei voltou-se para encarar novamente a multidão:

O Príncipe e eu chegamos a uma decisão. Ninguém presente aqui será perseguido, preso ou molestado de qualquer maneira. Todos estão livres para ir onde desejarem.

Ninguém disse nada. Alguns já começavam a mover-se na dire­ção do desfiladeiro, outros permaneciam parados, como se em dúvida, mas a maioria começou a seguir a primeira leva. Daqui e dali, entretan­to, homens e mulheres abandonavam os outros e se encaminhavam para a escadaria do templo. Não diziam nada sobre lealdade e tirania, apenas começaram a subir as escadas, um após o outro, ao todo talvez uns qua­renta homens e mulheres. Ruan também subiu as escadas, para desapa­recer dentro do templo. Ali vestiu roupas mais simples, pedindo a Nehazz para levar as vestimentas reais de volta para casa.

Elas apenas iriam me atrapalhar — disse.

Nós iremos safá-lo desta — disse Sheon-La, tomando seu ros­to entre as mãos. Espere até que Zenhar saiba disso.

Lado a lado desceram as escadas, o homem mais jovem e o mais velho, observados por todos, mas nenhum dos milhares que se dirigiam para o desfiladeiro pareceu dar atenção ao fato, embora não fosse difícil adivinhar o que estava acontecendo.

Eles estão deixando-o ir — disse Vanzaj —, simplesmente assim, sem qualquer preocupação. Saberão eles o que fizeram esta noi­te?

Os homens de Zenhar saudaram o filho de seu Rei com muito respeito. Para o outro homem, ao seu lado, apenas olharam ameaçadoramente.

Dessa maneira, naquela noite, no coração do povo de Aztlan, o Senhor das Trevas reinou supremo.

 

Foram os pescadores que de início espalharam a história so­bre o estranho aparecimento, visto com freqüência após o fracasso da revolução.

Mas aqueles que lidam diariamente com o mar e seus mistérios são supersticiosos, ou assim considerados, de modo que muitas vezes suas histórias são vistas como desprovidas de verdade.

Eu não o vi apenas uma vez — disse um velho, ao ser perguntado, enquanto consertava a rede diante de sua casa. — Outros vi­ram-no também, mas riram de mim quando eu disse que era o próprio mar que víamos e que, por alguma razão que não compreendemos, tinha prazer em mostrar-se para nós. Naquele dia, o sol estivera oculto atrás de nuvens cinzentas — continuou, enquanto olhava distraído para as brilhantes ondas azuis — e a água também estava cinzenta, cinzenta como as nuvens.

E ele, o mar, aparecendo daquela maneira, ou talvez fosse ela, ou talvez ambos, era difícil dizer, tinha algo que parecia um rosto, suas feições eram humanas, mas os olhos, esses não eram humanos de manei­ra alguma. Eram azuis, ou negros, dependendo da cor das ondas e dos céus, muito negros quando as ondas estavam altas, escuras e mostrando cristas de espuma. E não eram humanos.

Ele não permaneceu ali por muito tempo, erguendo-se muito acima das ondas, olhando para o norte, para o norte onde estão as mon­tanhas. Era como se estivesse esperando, esperando algo, talvez um si­nal, uma indicação ou mensagem.

Naquele dia eu o vi pela primeira vez, porque outras vezes o vi de novo, mas naquele dia seus olhos estavam cinzentos, murmurou o velho. Vieram aqui muitas pessoas que ouviram a respeito, desejando ver por si mesmas. Nunca o viram. Como poderiam? Elas não pertenci­am ao mar, como nós, nada sabem sobre seus mistérios, vêem apenas um imenso espaço de água, movido pelo vento. Não podem ver nada mais.

Essa era a história contada pelos pescadores, uma história repeti­da por toda a costa, porém muito mais comum num ponto onde uma longa laguna entrava terra adentro, perto da Morada dos Morcegos. Mas, naturalmente, isso era fácil de ser explicado: perto daquele lugar assus­tador rumores como esse brotavam rápidos, crescendo a alturas maravi­lhosas e incríveis.

Mas eu o vi várias vezes — disse o velho pescador. Estava esperando por uma mensagem.

Sei onde irão executá-lo, disse Zenhar. —A ele e a vinte outros condenados por atos subversivos. Existe certo lugar na floresta de Iavak...

Iavak? — exclamou Nehazz, atônito. — Mas ele é um Inicia­do. As forças malignas de Iavak não serão capazes de derrotá-lo. Nesse caso você apenas terá de tirá-lo dali, depois que ele vencer, apenas terá de liquidar os guardas...

Mas Zenhar olhou para as mãos, com ar miserável:

Não, isso nada tem a ver com forças ocultas, com magia, receio... Quer dizer, não da maneira que você pensa. O lugar em questão está cheio de cobras, as cobras mais perigosas e venenosas entre todas. Quase todas as cobras evitam os seres humanos, atacando apenas quan­do se sentem ameaçadas, como a maioria dos animais. Mas essa espécie ataca a todos e a tudo que aparece em seu caminho. São absolutamente letais.

Mas você tem certeza de que Ruan não será capaz de escapar delas? — perguntou Vanzaj, hesitante. — Ele teve um treinamento es­pecial.

Não sei. Não estou certo — respondeu Zenhar. — Mas penso que mesmo para ele será difícil. Elas poderiam picá-lo mesmo antes que ele saiba o que terá de enfrentar.

Disse-o com calma, mas os outros viram como suas mãos agarravam a borda da mesa junto à qual estava parado, como os nós de seus dedos estavam brancos.

A lua já estava em sua fase escura quando um grupo de prisioneiros foi visto sendo levado para fora dos Portões de Ouro, para o local onde seriam executados. Eram cerca de vinte homens e mulheres, todos condenados por tomarem parte em ações contra o governo. A uma boa distância, eram seguidos por um segundo grupo, muito menor, com cin­co soldados fortemente armados, escoltando no meio deles um jovem de olhos cinzentos.

Nenhum de seus colegas prisioneiros sabia quem era ou por que estava sendo mantido separado deles, e por que seria morto. Intrigavam-nos também o fato de suas mãos estarem atadas atrás das costas e os guardas se manterem tão exageradamente próximos dele durante todo o tempo.

Ruan não sabia o que Yahali tinha em mente, mas sabia que o caminho por onde estavam indo levava à Floresta de Iavak; logo pude­ram ver as formas lúgubres das primeiras árvores emergindo à distân­cia.

O sol se havia posto e os soldados acenderam suas tochas. Os prisioneiros que até então haviam nutrido uma leve esperança de achar um modo de escapar sabiam agora que essa esperança fora vã.

Sua sorte fora lançada e começaram a imaginar com desespero que tipo diabólico de fim os aguardaria.

Já haviam penetrado floresta adentro quando os guardas afinal se detiveram, e na escuridão sombria os prisioneiros viram que estavam à beira de uma profunda ravina. Mas não tiveram tempo de ver mais, por­que agora receberam ordens de descer. Alguns, que hesitavam, eram empurrados para baixo sem piedade.

Ruan era o último. Na escuridão quase total, cada vez mais afas­tado da luz das tochas, as mãos amarradas às costas, sua descida não foi nada fácil. Por toda volta ouvia gritos de medo e de dor. Durante a últi­ma parte da descida, Ruan perdeu o equilíbrio depois de ter torcido o tornozelo num tronco caído.

Rolando pela ribanceira abaixo, sem ser capaz de evitar arbustos, tocos de árvores e pedras, continuou rolando até bater com a cabeça contra uma pedra e perder a consciência.

Quando abriu os olhos, não conseguiu ver nada, apenas ouviu as vozes angustiadas dos outros nas proximidades.

Aos poucos se acostumou com a escuridão e observou que esta­vam numa espécie de cavidade profunda, larga e gramada, um buraco imenso, rodeado por altas margens gramadas. O buraco parecia tão lar­go quanto era comprido e havia árvores espalhadas aqui e ali por entre a grama alta.

Tentou levantar-se quando sentiu uma mão tocando seu ombro e ajudando-o.

Você é o homem que estava tão bem guardado, não é? — disse o homem, enquanto desatava os nós de Ruan. — Nos perguntávamos o que havia acontecido a você e por que está aqui.

Eu pertencia à oposição — explicou ele — e o Rei me odeia por razões pessoais.

Ao menos devíamos tentar morrer com dignidade, disse o ho­mem. — Vamos nos reunir aos outros. Melhor ficarmos juntos até o fim.

Mantiveram-se juntos, sentindo calor e certa segurança na proxi­midade um do outro, perguntando a si mesmos como encontrariam a morte, sendo óbvio que este era o lugar da execução. De muito acima ouviam, vozes e risos: os guardas, ali para prevenir que escapassem.

Um som leve, indefinível, foi ouvido, seguido de um farfalhar rastejante.

— O que é isso? — sussurrou alguém, estremecendo, que é isso?

Ruan mal ouvia. Perguntou a si mesmo por que exatamente na­quele momento seus pensamentos começaram a vaguear de repente, não obstante seus esforços para mantê-los enfocados no perigo iminente que os aguardava.

Estava parado a uma pequena distância do grupo, embora não soubesse porque se havia afastado, indo encostar-se a uma árvore, ainda um pouco tonto depois da queda.

O farfalhar misterioso repetiu-se, mas estaria agora vindo de ou­tra direção ou de vários lugares ao mesmo tempo?

"Tenho de manter meus pensamentos reunidos", ponderou, "tal­vez ainda haja uma maneira de salvar-nos a todos. Mas preciso concen­trar-me. Por que de repente tenho tanta dificuldade em me concentrar?" Seus pensamentos continuaram vagueando para suas muitas viagens e as coisas que havia visto depois da derrota na guerra.

Sorriu consigo mesmo, perdido nas memórias. Houvera o velho... Com um choque retornou à realidade. Os outros estavam olhando para diante, os olhos arregalados, mudos de horror.

À apenas alguns passos, formas escuras moviam-se silenciosas. Dos arbustos baixos, do capim alto e denso emergiram corpos suaves, deslizantes e frios, e as vítimas mortalmente aterrorizadas, olharam para os olhos impassíveis e imóveis de inúmeras cobras.

Gritos abafados eram ouvidos, queriam correr para trás e escalar as paredes íngremes do buraco, antes morrer nas mãos dos soldados do que esse horror.

Escapar era impossível. O desfiladeiro todo estava farfalhando com as cobras.

"Uma execução digna de Yahali", pensou Ruan, sentindo o deses­pero mudo dos outros. Não se sentia aterrorizado ou tomado pelo pavor, estava apenas penalizado por causa deles. Sentia-se mesmo distraído.

Ainda estava parado junto à árvore, imóvel; sequer pensara em escapar. Embora não houvesse lua, podia ver o suficiente para reconhe­cer as cobras como pertencendo a uma espécie perigosa ao extremo, cuja picada era inevitavelmente letal após algumas horas de dor excruciante.

As cobras deslizaram para mais perto, silenciosas. Lá no alto, as vozes dos guardas. E a luz das tochas, muito fraca, iluminava o buraco.

Alguns dos prisioneiros soluçavam, tomados de histeria, outros apenas olhavam, como que hipnotizados pelas cobras, que haviam ago­ra erguido as cabeças e a parte dianteira dos corpos, ondulando, como se executando uma dança sinistra.

Aquele velho... Ruan sorriu consigo mesmo enquanto olhava dis­traído para uma grande cobra que emergiu diante de si. O velho havia sido atacado por bandidos e Ruan os pusera a correr, depois o homem o convidara a acompanhá-lo à sua casa. "Estou agradecido", dissera. "Por favor, seja meu hóspede".

A cobra grande, notou, ainda muito distraído, havia desapare­cido de repente.

Eu vivo na floresta dissera o velho, e Ruan o acompanhara.

Entraram numa caverna alta, suavemente iluminada.

Esta é minha casa, estrangeiro. Seja bem-vindo.

Como sabe que sou um estrangeiro? — perguntara Ruan sur­preso, ao entrar. Mas seu anfitrião não respondera.

Houve então um farfalhar vindo aparentemente de todos os lados da sala mobiliada e, por instinto, dera um passo para trás ao notar que o lugar estava cheio de cobras.

Uma serpente com olhos amarelos brilhantes deslizou até o ve­lho, subiu por sua perna e enrolou-se, confortável, ao redor de seu pes­coço. Outra, negra, com círculos vermelho-sangue ao redor dos olhos, emergiu do escuro, logo encontrando um lugar para descansar nos tor­nozelos do velho.

Você as hipnotiza? perguntou Ruan, mas seu anfitrião balançou a cabeça.

Não, não. Não há necessidade. Não para mim.

Após comerem uma refeição simples e bem preparada, o velho, que estivera observando Ruan o tempo todo, disse:

Você não parece ter medo delas.

— Não, não tenho. Por que teria? — e então, rindo: — Desde que me ignorem.

Perguntou-me se as hipnotizava. Mas não o faço. Apenas gos­to delas e as compreendo. Mas há poucos como eu.

Na manhã seguinte caminhou por algum tempo com Ruan antes de se despedir.

Naturalmente, a maioria de nós detesta cobras — disse —, mas eu tenho pena delas.

Pena? Eu pensaria que são bastante capazes de cuidar de si mesmas, então por que pena?

O velho permaneceu quieto, olhando para ele com seus brilhantes olhos negros:

Não sabe, Príncipe? Você que carrega o sinal da Serpente Ala­da?

Ruan não respondeu, surpreso. Como o outro sabia a respeito da tatuagem? E por que o "Príncipe"?

O velho balançou a cabeça.

Você não é um de nós. Poucos são... Mas você usa o Sinal e é por isso que vou lhe contar o que deve saber. Não sou um encantador de serpentes, não as doméstico, nem as domino, nem as temo. Sinto-me um de sua espécie, às vezes sinto-me como uma cobra. Eu não as odeio. E quantos existem que têm pena de cobras?

Ele se encontrava agora numa ravina escura e ampla, ainda tonto de sua queda. Diante dele a grande cabeça duma cobra gigantesca ondu­lava vagarosa de um lado para outro, à apenas alguns centímetros de seu rosto.

A cabeça de uma cobra ou talvez a cabeça de... A cabeça de quem? Já havia visto aqueles olhos intensos e brilhantes.

O velho se aproximou dele.

Lembra-se de mim? Uma vez salvou minha vida, mas essa não é a razão de minha presença aqui. Você não é um de nós, mas assim mesmo recebi ordens de ajudá-lo.

O velho achava-se agora ao seu lado, encarando as cobras. Em seus olhos havia um brilho estranho.

Certa vez, quando foi meu hóspede, não pareceu temer ou se importar com a criatura mais temida, mais odiada por todos. Para você, mesmo o ser mais baixo, o mais temido, ainda é merecedor de respeito, de consideração, porque também é parte da vida. Por causa disso nenhu­ma delas pode feri-lo e por causa disso também estou aqui, eu que sou mais cobra do que homem, que tenho pena dessas criaturas aterrorizantes para o homem e para as bestas também.

A voz se calou e à toda volta os sons leves e farfalhantes, o sibilar baixo também havia parado; as cobras não estavam mais se movendo.

Os prisioneiros, prendendo a respiração, viram que todos aqueles olhos frios e sem expressão estavam fixos em Ruan e no outro homem perto dele, um homem que não haviam visto antes.

Ouçam, cobras. Ouçam bem! Ouçam a lenda da Serpente Ala­da. Irmãos, pelo que estão procurando? O que é que tentam encontrar, éon após éon, deslizando sem descanso sobre a Terra, o que vocês têm esperança de encontrar na escuridão refrescante das rochas, dos arbus­tos verdes, nas areias quentes do deserto?

As cobras não se moviam. Nenhuma delas prestava mais qualquer atenção aos prisioneiros boquiabertos.

Ouçam a Lenda da Cobra que Encontrou; ouçam a Lenda da Serpente Alada. Vocês se lembram, Seres Sem Asas? Lembrem-se do dia em que sua busca começou — a voz estava mais baixa agora, parecia a ponto de sumir, mas, continuando, exprimiu compreensão, a compre­ensão de alguém que sabe. — Eu sou a Serpente Alada, o Ser cuja busca terminou, o Segredo do Mundo. Meu coração sangra por minha raça, tentando em vão encontrar na escuridão da terra o ouro dos astros e a radiância do sol.

Vocês perderam suas asas quando o mundo nasceu... mas o tempo é intemporal e vocês voltarão a ganhar o tesouro se o seu desejo for suficientemente grande e fizer com que percam seu peso. Caso con­trário, estão condenados a buscar pela eternidade, ao invés de acabar aqui e agora com a luta inútil, iniciada milhares de ciclos atrás.

O tempo não passa de uma ilusão, a maior de todas. Vocês jamais perderam as asas, elas ainda estão com vocês. Foram vocês que se esqueceram de como usá-las, escolhendo em lugar disso tornar-se prisioneiras da densidade.

O homem ao lado de Ruan deu agora alguns passos para diante, até se encontrar no meio das cobras, sussurrando para elas numa voz ainda mais baixa, até que ficou impossível ouvir qualquer coisa. Então começou a se afastar e elas o seguiram uma a uma. E, enquanto se afas­tava, de repente desapareceu, desvaneceu-se.

E onde estivera parado alguns momentos antes viam-se agora os anéis brilhantes de uma enorme cobra escura, a cabeça elevando-se alto, acima das outras ao seu redor.

Os prisioneiros ainda se apertavam uns contra os outros, forçan­do os olhos, temendo que as cobras retomassem, que tudo não passasse de um truque preparado por seus executores, apenas esperando que rela­xassem para administrar o golpe final e fatal.

Mas então ouviram-se ruídos fortes chegando do alto, viram to­chas tremeluzindo breve e se apagando, ouviram berros que soavam como gritos de batalha e, afinal, os sons inconfundíveis de uma luta.

Amigos! Aqueles devem ser amigos — gritou um deles. — Estão atacando os guardas. Vamos subir e ajudá-los!

Tão rápido quanto possível, escalaram as encostas íngremes de ravina, agarrando-se a tufos de capim, arbustos baixos e galhos, em qual­quer coisa sobre a qual pudessem colocar as mãos, um ajudando o outro.

Quando suas cabeças apareceram na borda, os soldados de Zenhar já estavam ocupados amarrando os guardas que não haviam sido mor­tos.

Sheon-La foi a primeira a abraçar Ruan, não querendo soltá-lo, dizendo:

Íamos descer e enfrentar as cobras, mesmo se isso significasse a morte certa para todos nós.

Então sentiu uma mão em seu braço e ouviu Zenhar dizendo:

Tenha dó, agora é minha vez, ele é meu melhor amigo! — e, dirigindo-se a Ruan: — O que aconteceu? Mas nós teríamos descido de qualquer modo, como disse Sheon-La.

Ruan contou-lhe tudo, acrescentando:

Sem vocês teríamos sido mortos de qualquer maneira, pelos guardas. Não havia chance de escapar deles. Agora vamos sair daqui, antes que amanheça. Como conseguiram chegar?

Haviam se aproximado dos outros prisioneiros, parados num gru­po, falando todos ao mesmo tempo, ainda não acreditando que estavam salvos.

Naves. Viemos usando naves — respondeu Zenhar. — Você sabe que temos apenas algumas, mas para essa ocasião pensei que de­viam ser usadas... Eu sabia a respeito dos outros, há lugar para todos nós.

Ruan riu.

Você sempre foi um otimista incorrigível — disse, dando uma palmada nas costas do amigo.

Os vinte prisioneiros tão miraculosamente salvos embarcaram nas naves um por um, tagarelando alegres, ainda não acreditando deveras em sua boa sorte, enquanto a leste um suave brilho avermelhado rompia através das últimas sombras da noite.

Zenhar, o primeiro a decolar, com Ruan e Sheon-La a bordo, apon­tou o nariz redondo de seu aparelho para o norte.

Meses se passaram, meses que levaram Yahali aos pináculos do poder, meses em que seus sonhos mais loucos foram realizados. A opo­sição fora destruída por completo e muitos agentes secretos estavam agora procurando outro trabalho, sentindo-se bastante aborrecidos com a falta de alguma atividade interessante. O serviço, outrora cheio de excitação, agora se tornara uma repetitiva questão de rotina e burocracia. Os poucos casos que ocorriam eram sempre desprezíveis e insigni­ficantes.

Os muitos templos espalhados pelo país estavam agora sempre cheios: ninguém mais ousava não participar dos sombrios rituais, e Aztlan, outrora famosa e admirada pela sabedoria de seus governantes e seus cidadãos pacíficos, era agora odiada e temida por países vizinhos e distantes por causa de sua intolerância e brutalidade.

Nas montanhas as chuvas haviam vindo c passado. As trilhas que, por serem íngremes e estreitas, atravessando gargantas profundas, esti­veram enlameadas, escorregadias e mesmo perigosas durante semanas, tornando-se praticamente intransitáveis, estavam de novo secas e o sol brilhava todos os dias sobre o pequeno povoado, escondido dos olhos atentos dos pilotos inimigos pela magia de seus sacerdotes.

Durante a última semana, duas videntes haviam estado ocupadas comunicando-se com outras, residentes num pequeno vilarejo da costa, a cerca de oitenta quilômetros de distância. O vilarejo, constituído de pescadores e suas famílias, era encravado entre duas altas cadeias de montanhas cujas extremidades caíam abruptas no mar, formando ali tam­bém, de ambos os lados, altas paredes nuas de rochedos escorregadios e batidos pela espuma, estendendo-se até longe dentro da água.

Desde que a guerra fora perdida, os homens e mulheres daquele lugar haviam continuado leais a Rahazz, sua lealdade reforçada pelo fato de que se sentiam muito seguros e protegidos contra qualquer ata­que de surpresa. E embora pouco depois de sua vitória Yahali tivesse enviado tropas para investigar a veracidade de certos rumores que circu­lavam na capital, os soldados tiveram de enfrentar enormes dificuldades para alcançar o lugar, apenas para concluir que não havia nada de erra­do. Ninguém conseguiu descobrir que muitos dos homens e mulheres que viviam ali eram na verdade hábeis guerreiros além de pescadores, tão experientes em consertar redes e navegar em seus barcos como no manejo das armas.

Haviam recebido instruções para começar a carregar os primei­ros navios com alimentos: batatas, peixes, frutas e algas, tudo desidratado —, suficiente para ao menos trezentas pessoas durante um mês, no mínimo, senão mais —, tinham de ser embalados e estocados nos pro­fundos porões, assim como um amplo suprimento de água para a pri­meira semana. Depois disso, o filtro solar, uma pequena máquina para dessalinizar a água do mar, seria posto em operação.

Havia sete navios ancorados nas baías de duas ilhas, a cerca de quatro horas de barco do continente. Haviam sido abandonados anos antes, após sofrerem pesados danos durante um terrível temporal que durara semanas. O próspero armador a quem pertenciam, preferira cons­truir outros, com equipamentos mais modernos, do que gastar seu di­nheiro nesses cargueiros já antiquados, dando-os, por isso, como total­mente perdidos, não se preocupando sequer em tentar vendê-los.

Quando, com o correr dos anos, os ataques inimigos foram se tornando cada vez mais concentrados e eficientes, Rahazz enviara vári­os especialistas à aldeia da costa e, após longas reuniões com o prefeito e o conselho da aldeia, a restauração dos navios começara.

Por fora, nada podia ser detectado, as "Sete Irmãs", como eram conhecidas, continuavam com a aparência que haviam exibido desde após a tempestade: apenas restos deteriorados do que haviam sido ou­trora cargueiros resistentes, orgulhosos, de alto-mar, agora condenados a apodrecer lentamente, vítimas fáceis do sol, da água salgada e dos ventos implacáveis.

Mas uma vez dentro dos mesmos, a imagem mudava por comple­to, assumindo um aspecto surpreendentemente diferente. Uma equipe pequena de operários de extrema competência, especializada em repa­ros, trabalhava febrilmente, alguns martelando e serrando, outros lim­pando os destroços, lavando, esfregando, pintando, ajustando beliches, raspando a sujeira e a ferrugem. As máquinas, movidas a energia solar e construídas de material à prova de água marinha, apresentavam-se ain­da num estado superior às expectativas, necessitando um mínimo de atenção. Se alguma coisa ocorresse mal com elas, tinham a bordo velas novas e resistentes, pois as antigas haviam apodrecido.

Cada navio poderia transportar com facilidade trezentos passa­geiros e a tribulação.

Mas somos muito mais que isso — comentara Lyanta.

Rahazz a olhara, bastante triste.

Sim, somos muito mais, mas muitos de nós guerreiros e guer­reiras, irão morrer, é inevitável. Não irá demorar para que Yahali come­ce o ataque e temos de manter seus soldados afastados, para dar tempo aos outros para que fujam.

Ela assentira.

Vi-os treinando. Acha que eu poderia ser uma guerreira? Te­nho um corpo forte, não sou uma mulher fraca...

O Rei fizera um gesto:

Sim. Apresente-se a Dizan. Ele irá alistá-la e providenciará para que comece a treinar: — O último navio irá esperar até o momento derradeiro pelos guerreiros sobreviventes e possivelmente feridos, para que embarquem.

Não será muito perigoso? Lembro-me de que antes de me jun­tar a vocês a Força Aérea era muito poderosa. Nós temos apenas algu­mas naves. Eles têm tantas... Assim que ele souber do que está aconte­cendo irá enviá-las para a praia, para evitar que embarquemos.

Você está certa — disse Rahazz, mas não pareceu perturbado. — Mas isso não irá acontecer, já cuidei do assunto. E se chegar a esse ponto, não terão muitas naves para nos aborrecer, posso assegurar-lhe.

Quando Rahazz disse a Zenhar o que se esperava dele, o coman­dante do que restara do Exército Tolteca lembrou-se do que ouvira quando o Rei lhe explicara sobre a decisão do Conselho:

"Você não gostaria de ouvir o que eles decidiram e sobre seu pa­pel na execução da decisão, que será bastante grande. Mas mesmo eles cometem enganos..."

Assim agora tudo se tornara claro, e o Conselho não havia errado, e também, sem nenhuma dúvida, ele não gostou da parte que lhe estava destinada e do que estavam esperando dele.

 

Os primeiros a partir foram as crianças. A trilha que tinham de seguir, conhecida apenas dos poucos guias que as dirigiam, homens das tribos que viviam nas partes mais remotas das montanhas. Primeiro de­viam ir as crianças... assim o Rei ordenara. Elas eram as sementes preci­osas a serem salvas a qualquer preço, o núcleo da nova raça. Primeiro as crianças e as mulheres grávidas, e as mães das crianças que eram pou­cas, pois grande parte havia ficado órfã durante a guerra.

Assim, foram na frente, pequenos seres gorduchos e sorridentes, inconscientes de qualquer coisa a não ser as inúmeras pequenas delícias da vida, outros maiores, mais magros, um tanto espantados, e adoles­centes magros, um pouco tristes por terem de partir, mas excitados ao extremo por causa da magnífica aventura que os esperava.

Havia muitas trilhas a atravessar, desfiladeiros de paredes íngre­mes, escarpadas, de cujos lados a montanha nua caía diretamente para profundezas escuras e perdidas na neblina. Ventos gelados, uivantes, de grande força, com freqüência obrigavam os homens a carregar a maio­ria das crianças e avançar cada um amarrado ao da frente até que o abrigo fosse alcançado.

E depois desciam outra vez em direção às selvas cerradas, infes­tadas de insetos, onde postos militares isolados mantinham vigilância constante sobre a única trilha que o ser humano poderia seguir.

Mas esses guias não eram humanos, não sempre, não totalmen­te... E assim sendo, mantinham, ou melhor, fizeram sua própria trilha.

Os melhores guerreiros foram com eles, alguns, pais eles própri­os, outros recém-casados e o restante solteiros, jovens possuídos por uma dedicação ardente e incomum, e uma compreensão feliz e natural dos pequenos.

Evitem a luta, não importa o que aconteça. Evitem todo e qual­quer confronto. Sejam silenciosos como as nuvens e invisíveis como a lua em sua fase escura. E possa a Serpente Alada protegê-los sempre!

Assim o Rei falara, ao mais valoroso e dedicado de seus homens, aquele que iria comandar o grupo. E depois:

Não fique tão preocupado! Sei que a sua maior vontade é ficar ao lado de meu filho em sua última missão. Eu sei. Mas é impossível.

Zenhar havia caído de joelhos, implorando:

Deixe que outro vá e leve as crianças. Deixe que eu...

Impossível. Apenas você será capaz de realizar essa tarefa. Ninguém, a não ser você, está preparado para levá-los daqui e embarcá- los em segurança nos navios. Ninguém melhor que você...

Mas...

Há ocasiões em que o homem deve seguir o caminho inteiro sozinho... até o fim inevitável. Esta é uma ocasião assim para ele.

Um protesto:

E quem irá ajudá-lo se seu próprio pai e o seu melhor amigo desistem? Quem? Qual é o valor da amizade se o amigo deve ser deixa­do sozinho para enfrentar sua luta mais amarga?

"O cabelo já não é tão negro", pensou o Rei, surpreso. "É possí­vel que mesmo Zenhar esteja envelhecendo? Então eu devo estar fican­do muito, muito velho mesmo. Por quantos anos esta luta tem persistido interminavelmente? Quantos anos, se agora mesmo Zenhar está come­çando a perder sua juventude, ele, sempre tão ardente, ansioso e cheio de entusiasmo? Ah! Mas ele continua assim! O fogo ainda está ali. O cabelo pode estar embranquecendo, mas, o fogo não diminuiu. E por causa desse fogo ele terá sucesso. Terá sucesso onde outros falhariam sem chance e sem culpa. E depois, tudo terá de certa forma terminado. Como estou satisfeito por esses tempos de ódio, sangue e maquinações estarem finalmente chegando a um fim. Ultimamente descobri que pre­ciso forçar-me para me interessar pelos muitos truques de Yahali. Na verdade, estou ficando muito velho."

Com um choque, Zenhar deu-se conta do cansaço no rosto magro e enrugado, dos ombros caídos, da voz sem ânimo.

Abruptamente, levantou-se, não desejando mostrar as lágrimas que sentia, lágrimas de tristeza e raiva profunda e inútil.

Por que, pensou, ao saudar silencioso e girar depressa sobre si mesmo, por que tinham de perder essa guerra? Nunca existira um ho­mem mais merecedor do que esse de sentar-se num trono. Por que não lhe era permitido vencer? Os tolos estúpidos. Os perversos, os idiotas cegos e egoístas. Os...

O calor de seus pensamentos não manifestados, permanecendo depois que partiu, fez Rahazz sorrir. Como era bom sentir o calor amo­roso de um ser humano, pensou, e em especial quando o dever da pessoa foi permanecer exposta sempre e sempre às lufadas geladas do ódio, àquele frio que petrifica o coração e traz desespero.

Rahazz encontrou o filho no salão vazio do templo, encostado ao largo peitoril da janela. De muito abaixo chegava o rumor do exército, que esperava que lhe anunciassem quem seria seu comandante, uma vez que sabiam que Zenhar havia sido designado para uma outra tarefa, mui­to importante.

O Rei não falou, para não revelar sua presença, mas manteve-se quieto, apenas observando, até que por fim Ruan se levantou, e virou-se para o pai. Seu rosto estava pálido, o suor brilhando na testa.

Não me pergunta — sussurrou rouco —, por que estou desse jeito, pai? — colocou mais uma vez a mão sobre os olhos, tremendo. — Tive uma visão, uma visão horrível e assustadora de algumas coisas que irão se passar, que não podem ser evitadas. E tenho medo! — fez um ligeiro movimento com a cabeça. — Não, não é a batalha, o sangue, a dor, a possibilidade de ser ferido ou aleijado que a guerra traz. Não é isso...

Ele se interrompeu. Rahazz disse:

Eu sei. E que você viu o que iria acontecer depois. Sei, porque também o vi — ficou em silêncio outra vez, sem oferecer qualquer con­solo, sem tentar insinuar qualquer saída fácil, real ou imaginária, sem mostrar a seu filho qualquer modo possível de escapar do terror que o possuía. Ao invés, disse: — E sua decisão? Eles estão esperando lá fora. Esta noite Zenhar está partindo com as crianças. Os primeiros navios estão prontos.

E Ruan sussurrou:

Devo ir. Naturalmente, irei... Sim, e isso é o pior. Irei e, durante lodo o tempo, irei pensar no que vai acontecer comigo depois, e sentirei medo.

Então, do altar, Rahazz apanhou a capa, um tecido de amarelo chamejante, que caía em graciosas dobras de seda. Sobre a seda estava bordada uma serpente emplumada cor de cobre polido escuro.

Ruan deu um passo atrás, olhando com descrédito ao se dar conta do que o pai estava por fazer. Rápidos, seus olhos saltaram da capa para o elmo que se achava sobre o altar. Era de ouro escuro, de tom acobreado: uma imponente cabeça de serpente, fundida com grande arte. Ofegou.

Mas essas não são as vestimentas de guerra, as roupas de um príncipe Tolteca em batalha... essas...

Não — interrompeu Rahazz. — Esses são os trajes cerimoni­ais de um Grande Protetor... de um Ser Flamejante.

Ruan recuou ainda mais, até encontrar-se de costas contra a parede.

Mas isso é um sacrilégio. Esses trajes são vestidos apenas na mais sagrada das ocasiões. Você deve estar louco!

O Rei não replicou. Ao invés disso, começou a colocar a capa nos ombros do filho. Mas quando se dirigiu para o altar, para apanhar o elmo, Ruan colocou as mãos na frente de si, protestando com veemên­cia.

Não, não! Eu não sou digno. Não sou digno, estou dizendo! Você deve estar completamente insano, pai...

Com calma, Rahazz ajustou a brilhante cabeça de serpente sobre aquela outra cabeça, escura e resistente, depois colocou as mãos firme­mente sobre os ombros do filho, olhando para o rosto perplexo.

Não... o Chefe em pessoa deu-me ordens expressas para fazer isto... — ele sorriu. — Então deve ser ele quem está louco.

O quê? —A voz de Ruan era um soluço de total incredulidade, os olhos cinzas olhando para o pai. — Mas não sou nada... as inúmeras vezes que falhei, minha covardia, meu desejo sempre repetido de esca­par de tudo isso... Eu não sou digno, ele não sabe? — tocou o elmo com admiração. Uma pessoa precisa ser muito forte para usar isto, para me­recer usar isto. Muito compassiva. Não sou nada disso... Isto é pesado demais para mim, pesado demais!

Ele ficou em silêncio outra vez, depois olhou para o pai que ficara observando-o, sorrindo levemente.

De repente, Ruan riu, um pequeno riso bastante impotente, suspi­rou, e então encolheu os ombros.

Quando o viram descendo os muitos degraus, souberam que era seu Príncipe vindo para liderá-los na batalha, e começaram a aplaudir, porque isso provava que ele não considerava sua vida sagrada demais para ser arriscada junto com a deles.

Foi apenas quando havia descido a metade daquela altura eston­teante que começaram a apertar os olhos contra a luz para ver melhor, caindo então num silêncio respeitoso. Aquilo não era o vermelho e dou­rado da dinastia. Aquilo, era...?

Zenhar, que se achava parado, atormentado, junto à multidão, seu coração numa fúria tempestuosa por não lhe ter sido permitido ficar para trás, foi o primeiro a cair de joelhos. Por sobre a multidão silen­ciosa, a sua voz soou forte e clara:

Olhem, guerreiros. E a Serpente em pessoa que irá liderá-los dessa vez. O Ser Alado enviou um Mensageiro Flamejante! Honrai-o!

E Zenhar pensou, os punhos cerrados enquanto eles aplaudiam, sem inclinar a cabeça como os demais e fazendo um rápido escrutínio da aparência do amigo: "Essas são vestes de sacrifício... as vestes nas quais um Grande Protetor se oferece a si mesmo, a sua própria vida, a serviço dos inocentes, dos jovens, dos fracos. Que inferno, eu não tenho permissão de estar ao seu lado. Ele deve passar por tudo isso sozinho".

Por algum tempo já eles haviam tentado penetrar a barreira colo­cada por Rahazz para evitar que qualquer notícia vazasse. Os videntes a serviço das Forças Armadas não haviam sido capazes de ver mais que uma confusão de imagens: soldados, casas, plantações nos campos, ca­deias de montanhas, todas as imagens provavelmente sendo projetadas por suas próprias mentes, incapazes de captar o que na realidade estava se passando.

Eram muito bem treinados, o Rei sabia, a maioria mulheres. Mas um após o outro haviam falhado.

Yahali tinha consciência do fato de que, para ultrapassar essa bar­reira especial, o vidente tinha de possuir um certo grau de pureza, de inocência e mesmo bondade, qualidades muito raras de encontrar na­queles dias. A barreira de Rahazz era daquele tipo.

Por fim chamaram uma jovem de uma pequena aldeia bastante afastada. Ela nunca trabalhara para o exército ou qualquer outra institui­ção oficial, não pertencia a qualquer organização reconhecida de videntes, mas sua fama era tal que não tiveram dúvidas em convocá-la.

Quando Tlatli abriu a porta para seus visitantes e ouviu o que Imitam a dizer, replicou:

Está certo... estarei lá depois de amanhã.

Mas o mais velho dos dois homens enviados para buscá-la, aba­nara a cabeça:

-— Lamento, senhora, mas o Rei deu ordens expressas para que a escoltemos. O assunto é muito urgente. Esperaremos até que prepare sua mala. Sua estadia por certo será longa.

Longa? — Perguntou, imediatamente em guarda, tensa. — Como assim?

Procurou dentro de si possíveis comentários desagradáveis em lugares ou momentos errados, que pudessem ter ofendido o Rei ou al­gum alto dignatário. Mas não conseguiu se lembrar de nenhum. Sempre linha grande cuidado em não se envolver com essas coisas. Estava contente, como sempre estivera, em levar sua vida nas proximidades da aldeia, cuidando de suas flores e ervas, estas últimas em faixas pratea­das entre as flores coloridas, algumas delas subindo pela treliça de ma­deira da cerca baixa que separava seu jardim da rua e dos campos circundantes.

Ainda assim, nunca se podia saber, pensou, indecisa, seu olhar indo pousar no transporte cinzento do Exército parado junto ao portão.

Um dos dois homens disse:

Não é preciso se preocupar, senhora, somos militares, ligados ao Corpo de Videntes. Estamos seguindo o curso básico de Vidência, de cinco anos. Mas somos apenas principiantes.

Devem estar enganados — disse aliviada. — Eu nunca segui nenhum curso, deve haver homens e mulheres no Corpo de Videntes muito mais qualificados do que eu. Eu sou principalmente autodidata, ainda bastante crua. Seria incapaz de ajudá-los, receio. O Rei...

Não, senhora, o Rei sabe que não seguiu nenhum treinamento. Ainda assim insiste em que venha. Não tem idéia de como é famosa. E quanto aos videntes do Exército..., esse é exatamente o ponto. Surgiu um grave problema no Quartel General e até agora nenhum vidente foi capaz de resolvê-lo. E o tempo é curto.

Tlatli sentiu-se logo relaxada e, ao mesmo tempo, preocupada. Então, eles necessitavam mesmo de suas habilidades profissionais. Mas para o que precisavam delas? Pensou rápido. Havia rumores insistentes sobre o encontro final entre Yahali e Rahazz, e ela desejava manter-se neutra a todo custo, manter-se alheia e cuidar de sua própria vida.

Está certo, então. Dêem-me tempo para mudar de roupa e apa­nhar algumas coisas — resolveu.

Apareceu quinze minutos depois, numa bata solta, lilás, calçando botas altas e macias, uma bolsa bordada pendendo do ombro.

Estou pronta.

As pessoas presentes na Casa da Vidência, oficiais e sacerdotes, não ficaram impressionadas com sua aparência. Muito simples, pensa­ram, pobremente vestida. Se era tão famosa, por que parecia tão pobre? Ou talvez fosse avarenta? Essa era também a opinião das outras viden­tes em suas roupas bonitas, suas jóias cintilantes (algumas delas neces­sárias durante o trabalho, pois eram conhecidas por facilitar sua tarefa), ciumentas da possibilidade de ela ser bem-sucedida onde haviam fra­cassado.

Tlatli estava grávida de mais de oito meses e, exceto seus olhos grandes de gazela, com efeito parecia bastante insignificante.

A Casa da Vidência erguia-se na periferia de uma pequena aldeia, bem guardada por encontrar-se perto do território de Zenhar.

Concentrou-se logo, após sentar-se, desejando ver-se livre daqui­lo o mais breve possível e, onde os outros haviam feito os maiores esfor­ços para penetrar a barreira, durante muitos dias, sem conseguir, ela sentiu-se apenas um pouco impedida por um instante e depois atraves­sou com facilidade.

A criança em seu útero se mexeu. Sentiu-a claramente excitada, de uma maneira feliz e sonolenta. Desde o início ela soubera o que a criança sentia, suas pequenas alegrias, pequenas tristezas e, sim, tam­bém os momentos de ansiosa excitação, ao saber que se aproximava de uma grande aventura: o nascimento.

Enquanto começava a descrever automaticamente o que via, sen­tiu os oficiais se aproximando para não perder nenhuma palavra do que estava dizendo, alguns deles anotando tudo. E a criança também estava ficando mais alerta. Estaria desejando nascer? Não, nada disso, não ain­da... mas então, o quê?

Avistou o esconderijo nas montanhas, o quartel general de Rahazz. O Templo de Ouro. O milho crescendo alto nos campos, casas, muitos soldados preparando-se para a guerra.

Abruptamente calou-se, abrindo os olhos, que sempre costumava fechar para concentrar-se melhor. Desculpou-se, murmurando algo so­bre estar cansada e então fechou de novo os olhos.

A cena diante dela era espantosamente clara: as crianças, o que havia acontecido às crianças, onde estavam? Não continuou relatando, apenas permaneceu quieta, olhando sem dizer coisa alguma. Sentiu-os esperando, numa grande expectativa, até mesmo excitados.

Nada de crianças, bebês ou adolescentes; nada de mulheres exceto por um destacamento de guerreiras sendo treinadas. Um ar geral de aban­dono, de evacuação. Parou de ver quando uma voz baixa e profunda disse a seu lado:

Vá em frente. Ficou difícil? Para o que estão se preparando, além da guerra?

Ela não voltou a cabeça. A voz do Rei. Instantaneamente, bloqueou os pensamentos. O que ele iria ver ou sentir seriam pensamentos luteis de mulher, sobre como ficara irritada ao ver as outras moças em suas roupas maravilhosas, sobre como a pobreza a cansava... e pensa­mentos sobre seu filho, pensamentos de mãe. Uma confusão de mexeri­cos de aldeia, o que haviam dito após a morte de seu marido e assim por diante.

Havia se treinado durante muitos anos, um caso raro. Era preciso saber como evitar que os outros vissem o que não desejava revelar. Sem­pre que necessário. Olhou para o Rei.

Sinto muito... a viagem foi longa. Gostaria de me alimentar um pouco, por favor.

O alimento veio em seguida, sendo-lhe servido com todas as honras devidas a alguém de sua profissão. Sentiu os olhares invejosos que lhe lançavam as outras videntes. Enquanto comia, sentiu uma pequena agitação dentro de si. O bebê... não entendia... desejava ganhar tempo. Por quê? Comeu muito devagar, sentindo-se tensa.

Por que esse súbito pânico, essa relutância em continuar? Não havia nenhum problema. Apenas tinha de relatar o que via.

O Rei notou como ela evitava a carne suculenta que havia sido posta em seu prato por sua ordem, comendo apenas legumes, frutas e bebendo água, ignorando o vinho. Essa mulher era vegetariana havia algum tempo, concluiu, pois ordenara que trouxessem a carne para testá-la. Naturalmente, era uma das coisas essenciais da profissão, aquela di­eta. Os videntes deviam evitar comer "coisas que sangravam". Mas pelo modo como ela sequer olhara para a carne, demonstrara que era vege­tariana havia um bom tempo. Os outros, ele sabia, apenas se abstinham durante alguns dias, quando havia a perspectiva de um trabalho impor­tante, o que com freqüência fazia com que falhassem quando algo ur­gente e inesperado se apresentava, sem dar-lhes tempo para aqueles dias de preparação.

Então a reconheceu. Sem dúvida, essa era a mulher que havia salvo os gatos naquela noite. Ótimo, quanto maior sua sensibilidade, maior seu poder para penetrar naquela barreira especial.

Ela voltou para a cadeira. Pediu que os outros se mantivessem um pouco afastados, que mantivessem certa distância, para que as imagens viessem mais claras. Sabia que desta vez estava apenas protelando, mas também que uma das regras de sua profissão rezava que nenhuma influ­ência externa deveria intervir no processo de ver.

Mesmo Yahali se afastou.

Então viu as crianças. Mas desta vez não começou a falar em seguida, fingindo ainda estar se preparando para a concentração. O suor começou a se formar em sua testa, sentia as axilas úmidas e quentes.

As crianças estavam acampadas todas juntas numa planície gra­mada a menos de dez quilômetros do quartel general do inimigo. As crianças, suas mães, suas avós e outras mulheres. Quantas? Talvez tre­zentas, ou mais ainda, e parecia que outras estavam chegando. E cerca de oitenta homens escoltando-as, oitenta ou mais. E dois, não, três guias montanheses. Homens, não, esses mal podiam ser chamados homens, eram mais como elfos, meio caminhando, meio voando. Criaturas sim­páticas, estranhas e simpáticas. Sentiu-se logo em contato com eles.

Um dos homens-elfos, sentindo o contato, parou o que estava fa­zendo, ficando muito alerta. Soube que ele estava vendo-a também, sen­tiu seu súbito alarme e observou seus movimentos rápidos de pássaro, indo na direção de alguém que não podia ver. Sua voz aguda, semelhan­te ao som de uma flauta, ouviu claramente, chamava:

— Comandante!

Agora seus olhos apreenderam a cena inteira. A pessoa chamada, uma figura forte, bronzeada, de olhos azuis, semi-envolta numa capa azul-escura, cabelo escuro, salpicado de cinza, largos braceletes de pra­ta nos braços, ouvindo as palavras do guia, uma súbita ruga de preocu­pação formando-se na testa. Soube para onde estavam indo, com aque­las e muitas outras crianças que se juntariam a eles pelo caminho. Para a costa. Para partir do país. Tropeçara no que era a missão mais secreta de todas — o êxodo das crianças.

Viu tudo isso em apenas alguns momentos, mas seus lábios, pro­curando formar as primeiras palavras, estavam secos e não emitiram nenhum som. Pediu um copo d'água. E então, quando começou a falar, dentro de si a criança gargalhou.

A criança gargalhou efetivamente. Não havia outra palavra para isso. Uma gargalhada alegre, como a de alguém chegando em casa de­pois de uma viagem muito cansativa.

"Em casa? Meu Deus, não! Meu bebê, minha criança, não, não... Eles estão tão longe... como poderei chegar em tempo? E eles estão, seguindo adiante... eu... nunca, não!"

E então sentiu-se sacudida com violência e estava ali. Não ape­nas vendo, estava ali. Os guias, vendo-a, olharam-na perplexos e então o homem de capa azul-escura viu-a também, olhando com aquela mes­ma ruga preocupada na testa, sem compreender.

Em seu útero, a criança estava delirante de felicidade. Estendeu as mãos, desejando explicar:

"Sinto muito, é a criança, vocês sabem. Ela é muito forte. Não desejava me intrometer, mas..."

Abriu os olhos. Eles a haviam deitado num sofá confortável em outra sala, estavam massageando suas mãos, pés e cabeça. O médico do Rei estava ele próprio atendendo-a, e o fazendo com muita competên­cia.

Ela se desculpou:

Sinto muito. Isso nunca aconteceu antes comigo — mas não se referia ao desmaio... nunca havia sido arrancada de seu corpo desse modo abrupto, contra a própria vontade.

E o esforço — disse o médico —, o esforço de atravessar a barreira deixou-a exausta. Deve descansar um pouco.

Mas, sem pensar, sentindo-se apressada, ela disse, erguendo-se:

Não, estou bem. Vou terminar o trabalho agora. Não há neces­sidade de descansar mais. Realmente.

De volta à outra sala, concentrada, toda a cena diante dos olhos, soube com precisão o que dizer. Começou a falar.

Impressionante... Estão cuidando dos campos. Crianças brin­cam por toda parte, há um serviço sendo realizado no templo. Posso ouvir música. E, lógico, muitas conversas sobre a guerra, soldados sen­do treinados, mais homens chegando de toda parte, de todas as tribos. (Não havia necessidade de mentir aqui, era de conhecimento geral que todas as tribos das montanhas se haviam reunido ao redor de Rahazz, jurando lealdade.) Está frio, mas nas casas as lareiras estão acesas. As mulheres estão ocupadas em seus jardins ou campos, e cuidando dos bebês. Vejo muitas crianças, uma grande quantidade de crianças.

Assim ela mentiu, continuou mentindo, descrevendo detalhes, ti­pos de uniformes, as condições do tempo... e enquanto mentia empurra­va a verdade que havia visto para os mais profundos e escuros recessos de sua mente.

Eles lhe deram dinheiro, jóias, as outras videntes observaram com desdenhosa inveja. O médico ordenou um descanso de três dias, achando-a bastante fraca.

Depois disso precisaremos mais uma vez de seus serviços — disse o chefe do Estado-Maior. Dessa vez teremos uma sessão de vidência coletiva.

Ela não demonstrou o choque que sentiu.

Vidência coletiva?

Sim, uma vez que seus colegas não são capazes de penetrar a barreira de força, sua tarefa será apenas retransmitir as imagens que estiver recebendo, no momento exato em que as receber. Não haverá necessidade de que descreva nada, apenas continue vendo e eles se sin­tonizarão. Ela assentiu:

Excelente.

No quarto que lhe designaram, contou logo o dinheiro. As jóias, muito valiosas, poderiam ser trocadas por alimento, alojamento e rou­pas quentes, que não havia trazido.

Dissera-lhes que para estar mais bem preparada para a vidência coletiva iria jejuar por dois dias, pedindo-lhes para não a incomodarem e trazerem leite somente na noite do terceiro dia. Com sorte, não desco­bririam seu desaparecimento antes disso.

Não queria pensar no modo como esses guerreiros, responsáveis pelas crianças, iriam recebê-la. Mesmo se algo lhe acontecesse ou a rejeitassem, não fariam nada contra sua criança, iriam levá-la consigo, disso estava certa, para onde quer que estivessem se dirigindo. E calcu­lou que os alcançaria apenas após ter dado à luz.

Escreveu um bilhete muito policio, desculpando-se com o chefe do Estado-Maior: "Não posso ficar, senhor. Desculpe-me. Meu bebê deve nascer a qualquer momento e, de acordo com a tradição familiar, devo dar à luz sozinha, na floresta. Depois disso, voltarei e reassumirei o trabalho".

Seu quarto tinha grandes janelas em arco, abertas agora para o sol poente, e o som da floresta estava muito próximo. As Casas de Vidência eram sempre localizadas em lugares como aquele, graças a Deus. Quan­do tudo ficou quieto, as luzes apagadas, esgueirou-se pela janela. Foi fácil distrair os soldados próximos atirando uma pedrinha na direção oposta. Silenciosamente, desapareceu entre as árvores, uma figura pequena, sem ter sido percebida. Os guardas retomaram suas monótonas caminhadas para um lado e para outro logo em seguida.

Embora estivesse acostumada a caminhar, a subida permanente e sem tréguas era cansativa, teve de admitir, o bebê pesado dentro de si, as costas doendo. As primeiras aldeias que alcançou estavam aban­donadas. "Eles também estão partindo", pensou, "todos parecem estar partindo".

Então, depois de muitas horas extenuantes, no sétimo dia após ter deixado a Casa da Vidência, chegou a uma aldeia que ainda apresentava sinais de vida. O ar se havia tornado mais rarefeito nos últimos dias, e as noites mais frias. Convidaram-na a sentar-se junto ao fogo, onde muitos homens e mulheres haviam reunido o conselho da aldeia.

Vocês também estão de partida? — perguntou, após notar que não havia crianças na aldeia, apenas adultos.

Uma das mulheres, adivinhando o que ela observara, explicou:

As crianças partiram. Mas nós vamos nos juntar a Rahazz. Ele precisa de homens e mulheres capazes de lutar, para deter o inimigo até que todos tenham partido.

Ela assentiu. Então, tomando das jóias, ofereceu-as em troca de comida e roupas quentes para ela e o bebê.

Eles dispensaram as jóias.

Não, que faríamos com isso? Na batalha? Mas temos algumas roupas e cobertores para você. E comida também. Não, por favor, não insista. Estamos todos juntos nisso. Fique conosco esta noite. Amanhã poderemos acompanhá-la durante uma parte do caminho. Mas, se dese­ja alcançar as crianças, deve se apressar.

Ela acordou pouco depois da meia-noite, decidindo não esperar por eles, justificando sua decisão aos sentinelas, despediu-se com um caloroso aperto de mão e então se foi.

Nos últimos — dois, três, quatro? — quilômetros, muito íngre­mes, praticamente se arrastou, um tamborilar contínuo nos ouvidos, os olhos embaçados de fadiga, não sentindo mais as pernas.

Havia chovido e estava ensopada de suor e água da chuva, mal sentindo o frio do ar cada vez mais rarefeito da montanha. Talvez não chegasse em tempo, mas a criança estava apressando-a para seguir adi­ante. A criança parecia saber melhor do que ela própria. Apressava-a: "Não pare, vá em frente, nós chegaremos, mas não pare".

Então chegou a um ponto em que o caminho se alargava, forman­do uma espécie de precária clareira. Passava de meio-dia e o sol saíra. Percebeu que não poderia continuar. Não importava o que acontecesse, ela iria, iria.... estranho, a criança estava muito quieta agora. Havia pa­rado de apressá-la.

Sentou-se, retirou a capa, estendendo-a no solo da floresta com as últimas forças, e agora a dor que havia ignorado por todo o tempo durante a subida chegou em ondas fortes e constantes. Começou a regu­lar instintivamente a respiração como vira tantos animais fazerem, du­rante ocasiões semelhantes. Então havia perdido, não iria alcançá-los em tempo. Que pena! O bebê estivera tão determinado a alcançá-los...

Mas então parou de pensar, precisando de toda a energia para concentrar-se, as dores não podiam mais ser ignoradas, logo a criança teria nascido.

Um dos guias encontrou-a desse modo, a criança estendida sobre sua barriga, já procurando o seio, o cordão umbilical ainda preso à placenta. Ele se inclinou e, com habilidade, cortou o cordão com ajuda de uma pequena faca que trazia, retirando a placenta e enterrando-a sob alguns arbustos próximos.

Afastando o cabelo de seu rosto, reconheceu-a logo: a mulher que havia visto fora do corpo, no acampamento, dias atrás. Uma das videntes de Yahali, aquela que fora capaz de atravessar a barreira de força.

Levantou-se espantado, correndo até o acampamento para cha­mar Zenhar. Essa mulher era perigosa, na certa fora enviada para preparar-lhes alguma armadilha. Permitir que se juntasse a eles poderia ser o fim para todos. Era óbvio que se tratava de uma espiã.

Acompanhado por um Zenhar surpreso, voltou meia hora depois, conversando excitado durante todo o caminho em sua voz aguda, seme­lhante ao som de uma flauta.

Zenhar olhou-a. Cabelo emaranhado, roupas ensangüentadas, o bebê já sugando gulosamente seu seio. Ela abriu os olhos, olhou-o por alguns segundos, depois estremeceu e fechou-os de novo.

"Está com medo de que a deixemos aqui", pensou Zenhar. A voz do guia ouviu-se ao seu lado:

— Ela é um deles. Vi-a na Casa da Vidência; sacerdotes, milita­res, até o Rei, todos estavam ali. Ela foi a única capaz de atravessar a barreira. Viu-a também, não é verdade? Deve estar aqui numa missão especial.

Ela ouviu tudo, mas como de muito longe... queria protestar, ex­plicar. Havia sido chamada sequer sabia para o quê. Não revelara o se­gredo, mentira. Estava aqui apenas porque o bebê desejara nascer aqui, desejara juntar-se a eles. Como isso iria soar-lhes absurdo... melhor fi­car quieta.

Não podemos levá-la... deixe-a... vamos levar apenas o bebê — disse o guia.

Suas mãos pontudas estenderam-se e retiraram o bebê do seio da mãe, com suavidade, mas ainda assim a criança começou logo a chorar.

Zenhar permaneceu imóvel. O guia já havia se afastado vários passos, subindo a trilha naquele seu estranho andar de ave, a criança nos braços. Zenhar resmungou com irritação. Esses camaradas, eles pen­savam que sabiam tudo. Retirou seu manto, inclinou-se e envolveu-a, erguendo-a um pouco para fazê-lo, sentindo como estava fria. Levantou-a nos braços. Ela sentiu o calor da vestimenta, tentou abrir os olhos, disse algo sobre o sangue estar estragando o manto.

Quando alcançou o guia, viu as rugas na testa do elfo, ouviu-o dizendo:

Comandante Zenhar, não devia...

Mas Zenhar passou por ele, a moça em seus braços dizendo:

Ele tem razão. Não tenho o direito de estar aqui. Vi para eles, mas eu não... Quando vi todos vocês, as crianças, as mães, eu menti. Não contei nada. Eu compreendo. Ponha-me no chão, peço apenas que cuide bem do bebê, ele queria tanto juntar-se a vocês. Acredita em mim, não é verdade?

Zenhar resmungou e fez um "shhh", não dando qualquer atenção a expressão de desalento no rosto do guia.

No acampamento improvisaram uma cama para ela, algumas das mulheres lavaram-na e arranjaram-lhe roupas limpas. Então Zenhar re­apareceu com o bebê. Inclinou-se e disse, com um sorriso no rosto:

Não consigo vê-la como inimiga, de maneira alguma... aqui está o seu bebê.

O último passo a atravessar antes da descida final para a praia era o mais perigoso. Ali, oculto entre as tendas, naturais ou abertas pelo homem, estava instalado um bem-treinado destacamento de guerreiros veteranos que até então nunca haviam deixado se enganar. Nenhum ini­migo jamais conseguira passar por eles. Era impossível fazê-lo.

"E nós, todos nós", pensava Zenhar, "temos de passar ali sem sermos vistos". Estava acocorado, desenhando figuras bobas com um graveto num trecho limpo do chão. "Como se quer que eu saiba? Estou encarregado. Rahazz pensa que posso fazer milagres. Uma ova que pos­so, sou exatamente tão estúpido como qualquer outro. O paço todo está sendo vigiado dia e noite e mesmo esses camaradas de pele azul afirma­ram que não temos a menor chance de passar... mesmo eles parecem perplexos. Então como fico? O que foi mesmo que Rahazz disse? 'Você é o único capaz de executar essa tarefa. Somente você.' Ah! que boba­gem. Eu não tenho a mínima... Que diabo posso fazer? Meu Deus, todas essas crianças serão simplesmente massacradas. E as mulheres? Pior ainda para elas do que para os homens, são consideradas mais perigosas por engravidarem. Não haverá clemência para elas."

Tlatli, amamentando seu bebê à pequena distância, não precisou ouvir as últimas palavras, ditas com angústia em voz alta. Estivera len­do seus pensamentos como se fossem dela mesma.

Nada disse, entretanto. Levantando-se, afastou-se do acampamento até estar fora da visão. Zenhar, vendo-a afastar-se, sentiu-se ainda mais desesperado. Por que não a haviam deixado em paz, a ela e à sua crian­ça? Talvez dessa forma ela tivesse uma chance, quando agora seria a morte certa para ela também.

 

Tlatli achou fácil entrar em contato com a guarnição. Não tão fácil, entretanto, insinuar-se na mente obstinada de seu comandante, ou completamente imerso nos problemas da guerra, ou preocupado com a falta de mulheres. Seus homens vinham se tornando irritados, inquietos, briguentos e muito aborrecidos.

Mas, afinal, conseguiu penetrar. A imagem que projetou em sua mente era de si própria, o chefe do Estado-Maior atrás de si. Yahali um pouco mais afastado. A visão do Rei, ele se assustou. No fundo, ela projetou vislumbres das videntes, lindas e jovens.

Assegurou-se de que a imagem se delineasse com nitidez em sua mente, então transmitiu outra: "Leve seus homens para lá, é uma or­dem!" Projetou então a imagem de outro paço, a dois dias de marcha: "0 Rei precisa de você ali, um ataque inimigo é iminente. Isso não deve acontecer, você precisa reforçar o destacamento".

Sentindo uma súbita desconfiança, fê-lo ver a imagem completa de uma das videntes, uma garota sensual, macia, os seios mal ocultos sob a túnica de seda, uma perna bem torneada. A desconfiança desa­pareceu. Então, junto com a imagem da guarnição para onde desejava que fossem, projetou, uma outra, da aldeia próxima. Garotas caminhan­do pelas ruas, uma fileira de casas bem cuidadas com jardins coloridos. Viu-o sorrir: casas de prazer, aquela aldeia ele conhecia muito bem, linha uma reputação famosa. Como seus homens iriam adorar a mudan­ça de rotina!

Enquanto estava ocupada, sentiu alguém por trás de si. "O guia, ele ainda não confia em mim, pensa que estou aqui para comunicar-me com o inimigo."

Sem se voltar, estendeu o braço para trás, segurando o dele e co­locando sua mão no próprio ombro. Sendo um homem-elfo, ele seria suficientemente sensível para sintonizar o que estava acontecendo. Sentiu-o ficar muito aberto, muito alerta, e logo ele pôde ver o que ela fazia. Uma imagem do comandante inimigo absorvido nas visões que ela o fizera ver e que o guia, também, viu com muita clareza, captando a mensagem que ela enviava.

Depois cortou o contato. Isso era suficiente, agora teriam apenasdle esperar para ver o que aconteceria. O guia não disse palavra, apenas lançou-lhe um olhar curioso, talvez ainda desconfiado.

Chegou ao acampamento muito mais tarde, vendo que havia um conselho reunido. Na manhã seguinte, os guias trouxeram notícias es­tranhas e felizes. O destacamento estava se afastando, já deixando o paço. Apenas uma pequena unidade havia ficado para trás, para guardar a guarnição. Cerca de trinta homens ao todo, bem entrincheirados.

Zenhar veio para agradecer-lhe, o guia havia lhe contado. Ela sus­pirou.

Infelizmente ele demonstrou ser um ótimo soldado — disse, falando do comandante. — Deixou aqueles homens atrás de si. O que vai fazer agora? Arriscar um ataque?

Naquele momento, o guia passou por eles abrindo caminho entre as árvores e Zenhar disse:

Não sei o que ele tem em mente, mas ele diz que sabe como manejar esses homens. Amanhã, poucas horas depois do amanhecer, tentaremos passar, se tudo sair de acordo com o plano.

Estavam parados muito perto um do outro. Ela sentiu sua proxi­midade, o braço dele roçando no seu, quando ele virou-a para si, bus­cando seus lábios, acariciando seu cabelo.

Sei que é muito cedo para esse tipo de coisa, Tlatli — disse. — Muito cedo depois do bebê. Mas esperarei — beijou-a mais uma vez. — Quero-a muito, mas posso esperar.

Ele sabia onde estavam as abelhas, sabia sem ter aprendido, era um instinto que todos eles possuíam, alguns mais, outros menos. Assim, depois de passar por Zenhar e aquela jovem que julgara tão mal, dirigiu- se para lá, para o fundo da floresta, onde havia muitas colméias no alto das árvores. Não havia necessidade de se aproximar, subir nas árvores para chegar às copas que recebiam a luz do sol durante o dia todo e os raios suaves do Planeta Gentil durante a noite toda.

Sentou-se numa clareira, rodeado, como sabia, por muitas nações. Aquele fora um dia claro, ensolarado, mas agora era a tarde e em breve o crepúsculo estaria se estabelecendo e as últimas abelhas chega­riam zumbindo às suas colméias cheias de mel e pólen.

Ele começou a zunir, primeiro de forma quase inaudível, mas gra­dualmente mais alto, até que o ar ficou cheio do zunido de um enxame de abelhas. Pouco depois o zunido decresceu em intensidade até ficar inaudível outra vez, ouvido apenas pelas abelhas. Então ele parou e ape­nas continuou sentado, esperando, para começar de novo após um inter­valo de profundo silêncio.

Isso repetiu-se por sete vezes. Ainda estava claro, de modo que pôde vê-las chegando, senti-las voando perto, pousar em seus braços, sua cabeça, depois se afastarem de novo, zumbindo o tempo todo.

Por fim levantou-se e começou a dançar. Dançando formou oitos e ovais, nunca em ângulos agudos, num deslizar suave no qual o seu passo normal, estranho e semelhante ao de uma ave, ajudava bastante. E sempre aqueles oitos, primeiro pequenos, depois maiores e maiores até cobrirem toda a clareira, acompanhados pelo zunido agudo e misterioso que emitia.

Dançando, reforçou o contato com os povos que outrora, milhões de anos atrás, haviam vindo do Planeta Gentil. Estava escuro quando parou de dançar, mas continuou o zunido alto. Nenhuma abelha estava à vista agora, mas sabia, que estavam esperando, ouvindo, esperando pelo que tinha a dizer.

Embora estivesse acostumado a isso desde criança, como todos os de seu povo, não sabia como a comunicação era estabelecida. A ca­dência do zumbido crescia e diminuía outra vez, o ritmo mudando todo o tempo, de modo imperceptível, porém mudando. Nunca sabia de ante­mão como fazê-lo, mas de algum modo sempre acabava fazendo direi­to, disso estava certo.

A resposta veio, por vezes expressa apenas em silêncio, outras vezes num zumbido muito baixo, que teria sido inaudível a ouvidos humanos. Mas não sendo totalmente humano, ele ouviu.

"Por que deveríamos? Deixe-os em paz. Eles ali, nós aqui..."

"A necessidade é grande, muitas vidas dependem de sua ajuda."

"Haverá muitas mortes. Dos nossos. Por que deveríamos nos preocupar? Aqui estamos seguras."

O zumbido ficou mais rápido agora, mais urgente. Sentiu que estava perdendo terreno, nunca acontecera assim com ele, mas também nunca pedira por esse tipo de ajuda, de sacrifício.

Então mudou subitamente de tom, seu zunido soando mais como uma canção agora, os tons agudos se tornando mais baixos, muito bai­xos e graves. Estava cantando uma história sem palavras:

Sobre os tempos em que súbitas geadas haviam ameaçado as na­ções, matando suas larvas ainda sem asas, sobre ventos furiosos derru­bando árvores, deixando-as impotentes, chuvas pesadas inundando suas colméias.

Sobre os tempos em que ele e seu povo as haviam ajudado, bus­cando para elas, com cuidado extremo, outros lugares onde as futuras abelhas estariam aquecidas e protegidas, salvando tanto mel quanto pos­sível, descobrindo novos lares onde futuros ventos e águas não as alcan­çassem.

E sobre os tempos em que as encontraram amontoadas perto de suas antigas colméias, quando homens, não do povo-elfo, haviam che­gado e em seus esforços para alcançar o mel, furiosos por causa dos ferrões, as abelhas não desejando cooperar, haviam passado a atear fogo às colméias, sempre que as encontravam, numa ira sem sentido. E como, naqueles tempos, ele e outros homens e mulheres-elfo as haviam ajudado, salvo o que havia sido deixado das abelhas jovens, recolhendo abe­lhas aturdidas e feridas espalhadas pelo solo da floresta, nutrindo-as para revivê-las, descobrindo ou construindo colméias para o resto da colônia, procurando por rainhas que possivelmente pudessem ter esca­pado à destruição.

Depois disso, ficou sentado o resto da noite, pensativo, lembran­do as antigas lendas que seu povo conhecia sobre sua vinda do Planeta Gentil, junto com as abelhas. Milhões e milhões de anos antes.

Quando o dia chegou e os primeiros raios do sol começaram a infiltrar-se na floresta, ainda estava ali sentado, esperando. Era cedo para que as abelhas saíssem, de modo que continuou esperando, o sol, aos poucos, tocando sua cabeça, seu cabelo acobreado. Estendeu as mãos para aquecê-las quando os primeiros raios, passando através da folha­gem, alcançaram o solo da floresta. As membranas, entre seus dedos, ficaram quase transparentes sob a luz suave, a pele se iluminando com um brilho azulado.

Então elas saíram. Um pequeno grupo de operárias, aparecendo das muitas colméias ocultas por toda parte. Voaram em sua direção, zumbindo forte e excitadas, praticamente se detendo em pleno ar. Cada grupo por sua vez começou a dançar.

Olhando-as pensou que elas dançavam muito melhor que ele, era preciso ter asas para dançar bem, não havia dúvida. A dança das criatu­ras presas à terra, mesmo quando no máximo da perfeição, nunca era mais que um esforço desesperado para elevar-se no ar.

Enquanto as abelhas dançavam, os raios do sol, ficando mais for­tes, douravam seus corpos, tornando suas asas invisíveis, imprimindo milhares de cores aos seus olhos multifacetados.

Observando-as, ele se perguntou por que as pessoas falavam. Dançar e cantar era suficiente, era tudo que era realmente necessário. Cada pequeno som dos zumbidos era dividido no que parecia uma infi­nidade de outros sons, estes subdivididos em outros ainda e assim por diante. Cada qual, com um significado diferente. Por que falar? Por que as palavras, desafinadas, que dificilmente resultavam em comunicação e quase sempre em confusão e desentendimento?

Quando a dança terminou, ele se levantou devagar, um sorriso nos lábios. Iria à procura de Zenhar agora, para contar-lhe as boas-no­vas. As abelhas haviam concordado, iriam esperar pelo sinal para ini­ciarem sua parte na tarefa.

As abelhas começaram cedo. Vieram de todos os lados, saindo de rachaduras, debaixo das pedras, assim como de cima, mal propiciando aos guerreiros tempo de se darem conta do que estava acontecendo, ferroando em toda parte que alcançavam, perseguindo implacáveis o inimigo até os pontos mais interiores da guarnição, dentro de salas e salões bem-defendidos, absolutamente invulneráveis contra qualquer ataque. Mas as abelhas entravam, seu zumbido zangado elevando-se a um rugido ensurdecedor dentro da fortaleza, sem hesitar, às centenas de milhares, ferroando a todos, sempre que conseguiam. O chão, dentro e fora, em breve estava coberto de abelhas mortas e agonizantes, o ar cheio de gritos e berros desesperados dos homens, correndo sem direção, al­guns seminus, não tendo tido tempo de se vestirem.

As crianças, desta vez lideradas pelos dois guias-elfos, espalharam-se por uma área bastante grande, esperando, bem escondidas, pelo sinal para iniciar a marcha, rodeadas por Zenhar e seus homens.

Alguns soldados, ferroados por milhares de abelhas, estavam ca­ídos ou arrastando-se na trilha que passava pela fortaleza.

Então um dos homens, durante uma trégua no ataque, que logo seria seguido por outro ainda mais agressivo, se lembrou. Enquanto ten­tava retirar algumas abelhas do cabelo, berrou com todas as forças:

— Homens! Para as cachoeiras, lá embaixo, lá na garganta. É nossa única chance — e começou a deslizar pela trilha íngreme de onde, muito embaixo, podia ser vista a cintilação de água.

Todos ouviram. Aqueles que ainda podiam mover-se, seguiram- no, meio correndo, meio se arrastando, rastejando, respirando ofegantes, alguns deles de quatro. Os mais desesperados simplesmente atiravam-se pela encosta abaixo, rolando sobre tocos de árvores, pedras e arbustos espinhosos até chegarem no lugar onde uma queda d'água for­mava um poço profundo entre margens cobertas de musgo. Ali saltavam, rolavam, caíam ou se empurravam para a água, esquecidos de como era fria.

As abelhas não podiam alcançá-los, mas continuaram chegando de todos os lados e assim que alguém ousava levantar a cabeça acima da água por mais que alguns segundos, era atacado. Um homem, já meio morto, afogou-se, outros apenas sobreviveram por terem conseguido encontrar águas mais rasas, onde podiam ficar de pé e afundar as cabe­ças quando o inimigo atacava, a dor das ferroadas temporariamente ali­viada pela água gelada.

Um dos soldados, estirado quase morto perto da margem, sem forças para arrastar-se, viu e ouviu as crianças passarem, as vozes jo­vens e claras, os tons agudos de flauta dos guias, mas pensou que estava sonhando ou delirando. Crianças aqui em cima? Primeiro as abelhas e agora isso... Tentou levantar-se, chegando afinal à beira da garganta. Muito abaixo avistou a água, ouviu os gritos dos companheiros. Antes de rolar para baixo, olhou para trás e, espantado, viu uma criança peque­na passando, olhando-o nos olhos.

Aquilo não podia ser verdade. Fechou os olhos e começou a rolar.

A descida não foi fácil porque a chuva começou a cair vigorosa e várias crianças foram acometidas de febre.

Havia ainda, no mínimo, três dias de caminhada até a praia, mas por causa das crianças doentes e das mais novas, tiveram de parar com freqüência para descansar. A reação se fazia sentir. As semanas longas e cansativas durante as quais estiveram avançando através da selva, a ten­são constante, a falta de conforto, o exercício exaustivo e as lágrimas estavam agora começando a aparecer nos jovens rostos cansados.

Os homens eram incansáveis, Zenhar havia escolhido bem. Sem­pre contando boas histórias, tolas e alegres, sempre bem-dispostos, en­frentando com naturalidade mesmo as situações mais perigosas. Assis­tidos pelas mulheres, construíam abrigos contra o vento e a chuva, de modo que, ao menos à noite, todos pudessem dormir aquecidos em ca­mas improvisadas. Reuniam lenha, preparando algum alimento, ou be­bida quente ao menos uma vez por dia.

Zenhar dividiu a coluna em duas, enviando as crianças mais for­tes e as mulheres na frente, escoltadas por metade de seus homens. Es­tava ficando preocupado com o atraso; aquele comandante da fortaleza enganado por Tlatli poderia começar a alimentar suspeitas e decidir en­viar alguns homens de volta para saber se tudo estava correndo bem.

Quando falou disso com Tlatli, ela disse, calmamente:

Foi exatamente o que ele fez. Ele é muito eficiente. Vi-o falan­do agora mesmo... — e, respondendo à pergunta em seus olhos: — En­viou quinze homens de volta ao paço. Vi-os conversando com os sobre­viventes. Sete dos que deixou para trás morreram envenenados ou afo­gados e o resto se encontra num estado deplorável.

Mas podiam falar. Disseram que não havia razão para que as abe­lhas os tivessem atacado, ninguém havia perturbado, por acidente, uma colméia ou tentado roubar mel. Achavam que tudo se parecia demasia­do a um assalto planejado. Para quê? Não sabiam, não conseguiam pen­sar em qualquer razão, exceto... Mas o camarada com certeza estava delirando, havia morrido pouco depois...

Você quer dizer — disse Zenhar com incredulidade —, que os ouviu falando todas essas coisas?

Não — riu ela —, li seus pensamentos. E aquele rapaz ouviu vozes de crianças, viu-as passando, efetivamente as viu. E também ou­viu outras vozes, muito agudas, como tons de flauta.

O tenente que havia ouvido os sobreviventes balançou a cabeça.

"Crianças aqui? Coitado. E sons de flauta?" Aí ele empalideceu de repente e, sem dizer palavra, se levantou e começou a procurar algo no terreno perto da fortaleza, seus homens observando-o atônitos.

"Uma voz de flauta", o soldado tinha dito, "como o tom de uma flauta".

Um homem-elfo. Um guia! Agora o súbito ataque das abelhas começava a fazer sentido. O povo-elfo ou povo-abelha. Mesmo assim, crianças? Para o quê, de onde haviam vindo e para onde estariam indo?

Não encontrou nada, nem mesmo a mais leve das pegadas, mas o solo era rochoso e havia chovido com bastante intensidade após o ata­que. Até que, descendo a trilha, que levava à costa por algumas centenas de metros, encontrou a boneca. Uma boneca de criança, toscamente con­feccionada, suja, feita de panos coloridos, os olhos bordados, o cabelo feito de lã preta.

Apanhou a boneca de onde estava caída, semi-oculta por folhas molhadas e olhou-a por um longo tempo, mexendo em suas pernas, bra­ços, vestido. Lentamente voltou, mas após juntar-se de novo aos seus homens na borda da encosta, deu ordens rápidas.

Rahazz está evacuando seu povo — disse. — Estão levando as crianças embora.

Sabendo que seria inútil seguir Zenhar, que, estava convencido disso agora, por certo estaria acompanhado de um forte destacamento de guerreiros, enviou dois homens com o relatório ao Quartel General, calculando que passariam pela barreira de força em poucos dias e então poderiam enviar as mensagens necessárias da Casa de Vidência mais próxima.

Mas os mensageiros não chegaram até muito mais tarde. Um de­les caiu e quebrou a perna, seu companheiro buscou ajuda do povo-elfo numa aldeia próxima. Foram muito gentis e prestativos, tratando do homem ferido com cuidado, enquanto ele continuou sozinho. Mas, por alguma razão misteriosa, perdeu todo o senso de direção, começando a andar em amplos círculos, até encontrar um daqueles camaradas azuis que o levou de volta para casa. Finalmente. Mas então duas semanas se haviam passado.

Foi logo levado à presença do chefe do Estado-Maior. Estavam todos ali, os oficiais superiores e mesmo Yahali, olhando com expectati­va quando entrou.

Sem dizer palavra, exibiu a boneca, e só então começou a falar. Ninguém o interrompeu, seguindo o exemplo do Rei.

Por fim Yahali assentiu, enquanto examinava a boneca por todos os lados, ao ouvir mentalmente a voz de Tlatli: "Não, não. Entregue-os para mim. São apenas gatos. Deixe-os ir!" E como ela fora hábil em evitar que sua mente invadisse a dela durante a vidência.

Ela viu as crianças a caminho — disse, constatando o fato. — Poderia ter revelado outras coisas, acho. Mas ela, que se arriscou por meros gatos não vacilaria em mentir a respeito das crianças. Então, voltando-se em fúria para o capitão do Corpo de Videntes, também presen­te, disse:

Todos vocês ficarão confinados em seus alojamentos por três semanas e não receberão qualquer pagamento durante esse período.

E, voltando-se para Vrina:

Eles devem ter navios esperando ao longo da costa. Envie suas naves imediatamente à procura deles. Mas não os destrua antes que embarquem, apenas depois que tiverem partido. Começaremos o ataque a Rahazz amanhã cedo ao invés de dentro de duas semanas. Suas naves também devem atacar os soldados, sempre que visíveis. Há, certos luga­res que precisam atravessar, onde serão alvo fácil para as naves — pu­xou um mapa, traçando algumas linhas, circulando alguns pontos. — Enquanto estiverem lutando na floresta, as naves são inúteis, mas assim que saírem, e eles precisam sair, você irá atacar.

Vrina assentiu.

Isso acontecerá mais ou menos três semanas depois que nosso ataque tiver começado — disse —, se eles forem capazes de resistir por tanto tempo.

Eles não esperam que comecemos a atacar a partir de amanhã — disse o Rei. —Talvez a vanguarda seja capaz de evitar que as crian­ças embarquem. As marés estão à nosso favor. Não irão embarcar du­rante os próximos dez dias. Depois disso as marés mudarão. Quero surpreendê-los enquanto ainda estiverem no porto.

 

À meio caminho da praia as crianças foram recebidas por homens e mulheres da aldeia que abrigava as "Sete Irmãs".

Trouxeram roupas secas, bebidas quentes e braços fortes para substituir os braços cansados de carregar os pequenos e doentes por muitos quilômetros. Já estava escuro quando alcançaram a aldeia, onde todos encontraram camas e comida preparada. As crianças doentes foram bem cobertas para que transpirassem, receberam remédios amargos para engolir. Os adultos cansados foram massageados e os pés feridos foram lavados e medicados.

Todos nós iremos com vocês — disse uma das mulheres a Zenhar. — Parte de nós constitui a tripulação das "irmãs" e os outros são passageiros. Irá ficar apenas um pequeno contingente para receber os que embarcarão nos outros navios.

Zenhar ficou até tarde daquela noite conversando com o alcaide, pedindo-lhe que apressasse o carregamento das provisões, mas o ho­mem levou-o para fora para mostrar-lhe as furiosas massas de águas negras explodindo contra a praia e explicando, como Yahali havia dito:

Teremos de esperar ao menos por mais dez dias. Com sorte, talvez nove. Nenhuma possibilidade de embarcar até então. Mas tere­mos homens vigiando constantemente. Ninguém irá surpreender-nos. Além disso, eles não sabem, mesmo se souberem algo sobre o embar­que, onde, nesta extensa costa, o mesmo irá acontecer. Pelo que podem imaginar, poderá acontecer em vários lugares ao mesmo tempo.

Depois de banhar e alimentar seu bebê, Tlatli deixou-o profun­damente adormecido numa cama quente, num aposento grande, cheio de muitas outras crianças e mães, algumas já dormindo, outras con­versando entre si.

Caminhando ao longo da costa, sentia agora como estava cansada após os longos dias de tensão física e emocional. Sua casa, com seu amado jardim, parecia infinitamente distante, perdida para sempre, sa­bia. E embora tivesse sido o bebê que a impelira a juntar-se às crianças, sabia também que nunca teria sido capaz de revelar o que havia visto naquele dia, o êxodo das crianças, quando todos aqueles homens, com a respiração contida, esperavam por suas palavras. Lembrou-se do Rei junto a seu ombro dizendo: "Vá em frente. Ficou difícil?" E os olhos perspicazes e penetrantes cravados nos seus. Estremeceu. Se ele tivesse visto através dela naquele momento! E se os seus soldados ainda os alcançassem, agora que tinham de esperar que o tempo mudasse? O que fariam com seu bebê? Será...?

Uma mão ao redor de seu pescoço e a voz de Zenhar, acariciante, cálida:

Tlatli... enfim a encontrei. Estive procurando por você por toda parte.

Ela sentou-se, na areia, puxando-o para seu lado:

Sente-se. Quero senti-lo perto. Estou com medo do que pode acontecer se os soldados de Yahali chegarem antes de partirmos.

Sim, Eu sei. Também estou com medo!

Com suavidade, ele colocou as mãos sob a camisa que ela vestia por cima da calça curta, movendo-as devagar, detendo-se, sentindo seus seios cheios de leite. Então sua mão direita começou a massageá-la. Ela sentiu um alívio imediato e disse, admirada:

Oh, que bom! Isso dá uma sensação maravilhosa. Como sabia que estava doendo ali?

Ele continuou, massageando com perícia profissional:

Ora, então não a vi carregando a criança e a bolsa o tempo todo? Era fácil descobrir onde você estava forçando os músculos. En­tenda, sou um lutador, tenho sido isso durante toda a minha vida. Como todos nós, sei como depois da batalha uma pessoa se sente dolorida, tensa, às vezes com dores infernais. Sabemos tudo sobre massagens. Precisamos saber! Você nunca viu os rapazes treinando?

—Vi. Assisti sessões de massagem também. Parece-me, apenas, que aqueles massagistas aplicavam sua arte com muito mais vigor, para não dizer brutalidade.

Ele riu.

-— É verdade. Mas não posso massageá-la como se fosse um ho­mem, Tlatli. Você é macia demais. Preciso ser cuidadoso.

Ele a puxou, abraçando-a com firmeza, mantendo-a junto de si, mas sem qualquer tentativa de aproximação sexual. Ela ergueu o braço, acompanhando com o dedo a linha irregular da cicatriz até sob o cabelo, beijando-a lentamente e fazendo o mesmo com a de seu braço.

Conte-me onde arranjou essas marcas.

Ele a abraçou com mais força ainda, depois deitou a cabeça em seu colo, olhando-a nos grandes olhos que lhe sorriam. Suspirou:

Vou lhe contar, mas apenas porque por enquanto estou proibido de fazer amor com você.

 

Todas as noites agora o Brigadeiro tinha esse pesadelo. Sem­pre o mesmo pesadelo, e sempre acordava aterrorizado, o coração ba­tendo forte, seus próprios gritos ecoando no quarto. Era verdade que seu sono era vez por outra assombrado por sonhos ruins, desde que se ven­dera a Yahali, mas apenas ocasionalmente, e era fácil colocá-los de lado e esquecê-los.

Agora, entretanto, o pesadelo voltava noite após noite, sempre o mesmo pesadelo, desde que as tropas de Yahali haviam começado seu avanço implacável para o norte. Vislumbres de uma batalha, sempre a mesma batalha, no mesmo espaço amplo e aberto de campo. As duas forças num combate feroz e mortal. E, ah, como via com clareza a diferença em número e armamentos, e com que clareza via também o poderio esmagador das tropas de Yahali, em número infinitamente superior ao do inimigo.

E as naves... suas naves, as naves que mal podiam ser ouvidas quando voando sozinhas, mas que voando juntas produziam uma trepi­dação vibrante e abafada. Suas naves derrubando as do inimigo e depois exterminando as tropas terrestres. Um massacre.

Em seu pesadelo sabia com exatidão onde estava localizado aquele trecho particular de campo. Pois Yahali havia dito, apontando para deter­minado ponto do mapa dourado: "Olhe, ali está o lugar onde eles terão de encontrar-nos em espaço aberto. Antes disso é inútil, a selva é densa demais. As naves são inúteis ali. Mas naquele trecho particular acaba­remos com eles".

As coisas haviam ficado tão ruins, o pesadelo tão insistente que linha medo de ir dormir, ficava sentado por horas a fio, sozinho, ou em uma ou outra taverna ou cantina de oficiais, com os colegas, indo para casa apenas pouco antes do raiar do dia.

Depois de muitas noites passadas desse modo, ficara por fim tão exausto e atordoado que caiu sobre a cama e adormeceu logo em segui­da.

Então sonhou mais uma vez, mas sabia que este não era um sonho como os outros. Era como uma visão. Sabia agora que nada havia a lazer, não para ele. Algumas das naves tinham de ser desviadas, envia­das a outra parte, em alguma missão falsa, para longe do verdadeiro campo de batalha. E outras teriam de ser destruídas para que Rahazz ganhasse tempo. Os esconderijos das montanhas onde haviam vivido até agora haviam sido inacessíveis às naves inimigas durante todos aque­les anos. Mas agora Rahazz e seu povo estavam deixando o país e um ataque aéreo seria fácil demais.

Por um momento fugidio, Vrina viu um rosto diante de si, saben­do mais uma vez que não estava sonhando. Estava vendo. Viu o rosto claramente delineado, o cabelo prateado, as sobrancelhas escuras, as maçãs altas e a pele profundamente enrugada. Era um rosto do passado, um passado que tentara esquecer durante anos que parecia não se passar nunca.

O rosto de Rahazz, sabia. Não uma lembrança, uma imagem, um sonho, mas uma visão. Como acontecera recuperar parte de sua clarividência natural, com a qual nascera, como tantos outros, mas a qual parecia tê-lo abandonado de algum modo, não sabia por que nem quan­do?

Então, foi capaz de ver como antes. Havia um meio-sorriso nos lábios de Rahazz e uma mensagem se formou na cabeça de Vrina:

"Sua ajuda seria muito apreciada, poderia salvar muitas vidas."

Ele encolhia os ombros, olhando suplicante para Rahazz.

"O preço que paguei foi alto demais pelo que recebi em troca. Sabe, nunca tive oportunidade de contar-lhe. Estou profundamente en­vergonhado."

"Eu sei. Isso não importa. Nada importa. Esqueça!" e, quando uma pergunta começou a se formar em sua cabeça: "Não, nenhum de seus homens irá perder a vida por causa disso. Apenas as naves..."

"Mas eu sou o comandante. E terei de trair a todos?"

"Ninguém será ferido. Apenas enganado."

"Percebo. E as naves? Como Aztlan irá defender-se contra ataques de inimigos vindos pelo ar?"

"Eles construirão outras, muitas outras. Se tiverem tempo... E aquelas que forem desviadas para o sul permanecerão intactas. Vou enviar-lhe ajuda para trabalho. Fique aguardando."

Ele assentiu. E observou:

"Você não mudou..."

"Ah, mas eu mudei, sim", Rahazz sorriu. "Estou velho agora, e muito cansado."

E então ele se foi e o quarto estava vazio, enquanto alguém batia à porta.

O subcomandante entrou e Vrina começou logo a dar ordens, rís­pida e curtamente, mal consciente do que estava dizendo, embora sou­besse que o plano era perfeito e que ninguém teria qualquer suspeita, nem mesmo o Rei.

Perfeito para Rahazz. Para compensar a traição do passado tinha de passar por cima do juramento mais uma vez, desta vez traindo Yahali. Uma admiração aguda tomou conta de si. Era por isso que havia traído Rahazz? Apenas para estar em condições de ajudá-lo agora, quando es­te precisava de ajuda tão desesperadamente?

O brigadeiro Vrina estremeceu. De repente teve uma sensação de que todos eles, Rahazz, Yahali, ele próprio e todos os outros, estavam sendo manipulados por forças desconhecidas. Rahazz saberia disso? Teria ele, Vrina, sido habilmente manipulado, obrigado a abandonar a Serpente quando não importava mais se ficasse ou partisse? Apenas para ser útil, muito mais útil, agora? Amigos, inimigos, tudo controlado pelas mesmas forças, com que propósito, não sabia. Talvez tudo não passasse de um jogo, como um jogo de bola, nada sério. Apenas, para as peças usadas por essas forças, para os fantoches, aquilo não era um jogo, era algo mortalmente sério, suas próprias vidas envolvidas.

De novo o brigadeiro estremeceu.

Então vieram os dias da grande batalha. Aquela batalha que fez os céus sacudirem, as estrelas tremerem e a terra morrer de mil mortes. Aquela batalha cujo eco até hoje se ouve através de eras incontáveis, confundindo aqueles que esqueceram.

Não foi uma batalha para conquistar um reino terreno, uma vez que esse reino havia sido perdido para além de qualquer esperança.

Não foi uma batalha para conquistar ou mesmo manter um lugar para viver, um país próprio, uma vez que todos sabiam que Aztlan ja­mais voltaria a ser deles.

Foi uma batalha para proteger as sementes adormecidas; para pro­teger as plantas jovens e cheias de promessas, que tinham de ser levadas à segurança, os brotos ternos da Nova Raça, provenientes da antiga, outrora tão gloriosa.

Essas jovens sementes tinham de ser levadas e plantadas outra vez, longe, muito longe, em um solo novo, nu e virgem, antes que o furacão devastador as esmagasse.

Foi uma batalha para ganhar tempo.

Por isso lutaram, por isso derramaram seu sangue, entregaram suas vidas; por isso apenas se agarravam, ofegantes, tropeçando, suspi­rando, mas tenaz e implacavelmente, a cada centímetro quadrado da terra vermelha seca, a cada trecho de campo verde e fresco.

Por essa razão o Ser Dourado, a Serpente Radiante, enviou todos seus colaboradores para deter o assalto feroz, para enfrentar as hordas trovejantes do Ser Escuro, o Príncipe Sombrio.

Para isso lutaram naqueles vales antigos, há muito agora cobertos pelas ondas de muitos mares silenciosos de águas escuras e mudas.

Para isso morreram, gritaram, cambalearam naquelas cristas, à sombra de picos escarpados que desde muito perderam a água de seus flancos e hoje erguem-se desolados e nus, como se erguiam outrora co­bertos por majestosas florestas.

Quatro semanas, ele sabia, eram necessárias. Quatro semanas para deter o poderio incrível do exército de Yahali, aquele muro im­placável e invulnerável de propósito férreo.

Quando, ao fim de um dia sem fim, durante o qual haviam en­frentado o inimigo avassalador como nunca o haviam feito antes, duran­te o qual lutaram com tudo que tinham, deram tudo o que tinham para dar, quando ao final daquele dia olhara para baixo, de seu elevado es­conderijo, para onde Yahali se reagrupava, ele gritou em desespero por­que viu que as perdas que haviam infligido a um custo tão terrível para si próprios já estavam sendo substituídas, novos soldados chegando, substituições descansadas.

As suas próprias reservas, definitivamente as últimas, haviam chegado mais cedo naquele dia, um pequeno grupo compacto de montanheses treinados, a flor das forças de Zenhar sob o comando de Dizan. Eram dolorosamente poucos.

Não, não, não, e NÃO! — soluçou Ruan, caindo de joelhos. — Não agora... desse modo não podemos continuar... como podemos con­tinuar assim?

Ainda faltavam duas semanas das quatro. Duas semanas inter­mináveis antes que os outros estivessem a salvo e sua missão cumprida. Duas semanas antes que pudessem relaxar e Dormir!

E, contra o céu resplandecente ele gritou essas palavras, os pu­nhos cerrados, o suor cobrindo o corpo, o rosto sujo de pó e sangue:

Duas semanas! Duas semanas. Duas semanas!

Tirou o elmo para deixar que o vento refrescasse sua cabeça, ati­rou a capa para o lado, uma chama esfarrapada, e puxou a túnica. Ten­tando levantar-se, sentiu as pernas tremerem de exaustão. Há quanto tempo não dormia? Quantos, meu Deus, quantos de seus camaradas haviam conseguido dormir apenas na morte?

E contra o céu indiferente ele lançou o seu selvagem desafio:

Por que eu? Por que fui escolhido para realizar essa tarefa sem esperança? Eu não sou digno, não sou digno! Sou apenas um covarde, um fraco, um pobre tolo. Não posso continuar desse modo. Eu desisto... desisto, desisto!

Então, como suas pernas não conseguissem mais mantê-lo em pé, deixou-se cair, a visão embaçada pela fadiga, a terra cálida recebendo-o em silêncio, compreensivamente, mantendo-o contra o seio escuro, puxando-o suave e terna para as profundezas tranqüilizadores do sono.

Ele é de todo incansável, eu lhe digo — haviam contado a Dizan quando este chegou. — Ele simplesmente parece não precisar de sono ou descanso como nós, e sempre que vê um oficial no fim da resis­tência, manda o homem ir descansar um pouco, assumindo ele mesmo. E sempre que o desastre ameaça... e você sabe que o único desastre verdadeiro que nos pode ocorrer é que eles consigam atravessar nossas linhas e alcançar a costa antes do tempo necessário... sempre que estamos fraquejando ele está ali e, por alguma magia, apenas por vê-lo, os solda­dos acorrem, a confiança retorna e o inimigo é detido, às vezes até mes­mo forçado a retirar-se por algum tempo.

Quando Dizan subiu o morro para se apresentar, chegou em tem­po de entreouvir o protesto desesperado e os soluços de seu comandan­te, em tempo de vê-lo cambalear e então cair, os braços estendidos, ador­mecido antes mesmo que toda a extensão de seu corpo seminu alcanças­se o solo.

Oh, Ser Flamejante — murmurou Dizan, apanhando a capa de seda e cobrindo o homem adormecido com ela. — Certa vez montei guarda quando você passava por momentos muito mais felizes. Esta noite também, parece, a vigília será minha.

Os homens e mulheres enviados por Rahazz foram recebidos por Beres, que os alojou temporariamente na grande casa vazia. Ali recebe­ram seus uniformes da Força Aérea, providenciados por Vrina.

Depois que Rahazz se comunicara astralmente consigo, o briga­deiro mandara logo buscar seu administrador. Beres ouvira-o sem emi­tir quaisquer comentários, apenas assentindo vez por outra. Por fim dis­sera:

E o senhor, brigadeiro? Quando tudo isso houver passado, o que irá fazer?

Talvez eu seja capaz de chegar à costa em tempo. Tentarei reunir-me a Rahazz. Em qualquer caso reservarei transporte para levar os rapazes e moças depois da destruição das naves. E quanto a você, Beres?

Beres se levantara.

Vou encontrar meu filho hoje. O que irei fazer irá depender dele.

Vrina dissera:

Percebo. Você ficará agradavelmente surpreso, acho. Ontem estive em sua unidade para solicitar que me emprestasse dois homens para uma tarefa especial. Disse que gostaria de escolhê-los eu mesmo. Escolhi dois homens, Caman e Desh. Bastante ao acaso, é claro. Sim­plesmente por acaso pensei que esses dois poderiam servir a meu pro­pósito. Falei com eles a noite passada. Sabem o que se espera deles.

Desh encontrou a moça outra vez na propriedade de Vrina, onde todos se haviam reunido para receber as últimas instruções.

Parece que sempre nos encontramos quando estamos em serviço, não é mesmo? — comentou ela ao vê-lo parado junto ao pai

Mas desta vez estamos no mesmo serviço — respondeu ele. — E mais tarde iremos embora juntos.

Ela concordou, assentindo.

Sim. Se houver um depois... Não vai ser muito fácil ir embora.

Desde que decidira fazer o que Rahazz desejava dele, parecia que nunca mais estava sozinho, pensou Vrina. Agora, estava sempre caminhando no meio de vários amigos, pessoas que conhecera, algumas mortas ou desaparecidas, mas outras, sabia, ainda vivas. E vez por outra via também outros ao seu lado, que estava certo de não conhecer, de nunca ter visto antes, mas via-os com nitidez, mesmo que por poucos instantes: seus rostos, roupas, o modo como caminhavam. Alguns eram atlantes, como ele próprio, outros pertenciam a nações negras de além-oceano e alguns eram elfos, aqueles camaradas estranhos, de pele azul. Os anos de solidão se haviam desvanecido, estava outra vez com seu próprio povo, fazendo o que devia fazer.

As naves que seriam usadas para a destruição final e inevitável das tropas de Rahazz estavam sendo aprontadas, as últimas verificações feitas. Estavam todas alinhadas, lado a lado, cerca de uma centena de­las, o sol dourado nas asas.

Do outro lado do enorme campo de pouso, outra centena de naves encontrava-se pronta para decolar no dia seguinte. Estas eram as que seriam enviadas para o sul, para defender as fronteiras do país contra um ataque de surpresa de outro inimigo, existente apenas na imagina­ção do brigadeiro. Iriam partir no momento exato, de modo que, na confusão que se seguiria ninguém teria tempo de verificar as mensagens que estariam chegando, informando sobre uma súbita invasão do país por uma nação, não exatamente vassala, mas até então considerada bas­tante relutante em enfrentar o poderio de seu vizinho gigantesco.

A operação em si transcorreu sem incidentes, sem que o inimigo notasse qualquer coisa errada. Trabalharam febrilmente durante toda a noite, mas exceto por eles, o grande campo de pouso permanecia quieto. Nada se movia. Os soldados de ronda, olhando com atenção à procura de qualquer coisa suspeita, definitivamente não pertenciam à Força Aé­rea de Aztlan.

E no dia seguinte tudo estaria como antes e, lá fora, as naves cintilantes tão prontas para o vôo como haviam estado sempre, prontas para o ataque ao que restava das forças de Rahazz, quando estas final­mente tivessem saído para o campo aberto numa certa planície, antes da descida final para a praia.

Foi quando Vrina contou seus ajudantes pela última vez que des­cobriu que havia um a mais entre eles. Devagar, sem alarmar ninguém, começou a contar outra vez, passando por cada homem ou mulher, pa­rando para uma rápida conversa em voz baixa, até que chegou ao últi­mo, que estava debruçado sobre uma das naves, dando seus toques fi­nais de destruição.

Vrina disse:

Ei, você! Precisa de ajuda?

O outro pareceu bastante relutante em responder, levantando num vagar a cabeça, mas quando chamou mais uma vez, pedindo identifica­ção, a mulher, agora via que era uma mulher, ergueu-se por inteiro e esperou com calma que chegasse mais perto.

Lamento, senhor, não me identifiquei antes. Cheguei tarde e não pude encontrá-lo, de modo que decidi começar a trabalhar antes e me apresentar depois.

O quê? Não... não... — disse Vrina, num sussurro rouco. — Não. Não pode ser você... Litosê?

Ela não respondeu, ficou esperando que chegasse mais perto e em seguida estava em seus braços.

Ficaram parados por algum tempo, presos num abraço ardente, em silêncio, até que ele disse olhando com preocupação para seu rosto:

Mas você quer dizer... você é uma deles. Foi Rahazz...?

Não. Eu mesma me apresentei para o trabalho. Não queria partir com os navios sem você. Teríamos de ser nós dois juntos, para ficar ou para partir.

Ficar significará a morte, uma morte muito dolorosa, depois tio que foi feito aqui. Sabe disso?

Sem dúvida -— ela tomou seu rosto entre as mãos. — Deixe- me dar uma olhada em você. Oh, mas você está maravilhoso à luz das estrelas, querido. Muito bonito.

Apenas à luz das estrelas — replicou Vrina com sobriedade — A luz do dia sou apenas um velho triste.

Ela esfregou o nariz de encontro ao seu.

E eu, apenas uma velha triste. Velha triste encontra velho tris­te.

Ele riu.

Soa muito melancólico dito assim. Mas vamos subir nesta nave — estendeu a mão. Sentaram-se juntos sobre o cobertor que ele retirou debaixo do assento do piloto.

Você sabe que nossas filhas também estão partindo? — disse Litosê.

Não, mas imaginei que havia algo quando recebi cartas de ambas tão estranhas.

Sim. Elas chegaram em tempo de seguir com as crianças. Seus maridos ficaram com nossos soldados.

Quando começaram a se beijar e as mãos dele, deslizando pelo pescoço e ombros dela, estavam por tocar seus seios, Litosê se afastou inesperadamente.

Não, Vrina, espere um momento... eu...

O quê? — perguntou ele, espantado e depois alarmado. — Você não gosta que a toque, que a sinta? Há algum outro?

Não, não, é claro que não. Estaria aqui se houvesse? Apenas... bem, é que não quero desapontá-lo. Quero fazer amor com você, queri­do, mas você poderia sentir... bem... é melhor deixar para lá — e obser­vando seu olhar intrigado: — Melhor ser mais direta. Vrina, não sou mais jovem, meu rosto tem muitas rugas e meus seios... Toda a maciez se foi, todo o frescor.

Vrina suspirou aliviado, tomando-a nos braços, ainda incrédulo, mas firme:

Mulher, você pensa que me abstive por tanto tempo de sexo porque ansiava por seios firmes e rijos, pele macia e juventude? Tudo isso eu tinha à minha disposição a qualquer e todo momento. Mas eu não o queria, queria você, Litosê. Queria apenas você, com rugas e tudo. Além disso... — ele tomou ambas as mãos dela nas suas e, colocando-as sob a roupa, moveu-as por seu peito e estômago. — Sente, querida? Sente como está minha barriga? Está gorda, por causa de excesso de boa comida e bebida, exercício de menos e muita ociosidade física. Lembra- se de como você apreciava e tinha orgulho de meu estômago magro e chato? Sinta-o agora, está macio e gordo. Você sempre disse que eu não tinha uma barriga e sim um buraco rígido. Mas agora no lugar do buraco tenho uma saliência. Está sentindo?

Olharam um para o outro por algum tempo e então relaxaram, a tensão do encontro inesperado depois de anos de separação cedeu de repente e ficaram à vontade juntos, rindo e chorando incontrolavelmente ao mesmo tempo, desejando falar sobre mil coisas e, no entanto, perma­necendo mudos em palavras, falavam com as mãos, olhos e lábios, sen­tindo, acariciando, excitando-se a cada carícia, descobrindo a pele um do outro salgada onde as lágrimas haviam caído.

 

Eles pararam de lutar quando o vento, abrindo brechas na chu­va e na névoa, permitiu-lhes ver que os navios estavam a salvo e não podiam mais ser alcançados. Os danos causados à frota de Yahali pelos voluntários, o último ato do brigadeiro, que havia praticamente parali­sado a poderosa Força Aérea sob seu comando, haviam cuidado disso.

Assim, Ruan parou de lutar e ficou à espera, rodeado pelos pou­cos que se haviam recusado a deixá-lo, sua fadiga temporariamente ate­nuada pela chuva.

Quando os alcançaram, ele não se encolheu nem recuou das mãos que arrancaram seu manto, agora não mais que um trapo molhado, quando por ordem de Yahali eles arrancaram o elmo de sua cabeça, destruindo a ambos.

Vê, Príncipe, como é fácil dar um fim a essas coisas?

Ele estava despido, a não ser pela curta tanga azul escura, os olhos turvos e vermelhos, o cansaço avassalador voltando aos ombros. A chu­va corria por seu rosto e corpo, lavando a lama e o sangue em riachos castanho-avermelhados.

Oh, Rei, será também fácil destruir o que há por trás desses símbolos?

Quando o levaram, Ruan olhou para trás mais uma vez. Para cap­tar um vislumbre de coisas irrevogavelmente passadas? Para buscar ros­tos que não se achavam mais ali para retribuir seu sorriso? Para ver uma bandeira sendo cortada e rasgada em frangalhos por uma espada hostil?

Eles logo o separaram dos outros e durante semanas foi deixado em isolamento total antes de colocarem mãos à obra.

Quando Yahali apareceu, viu de imediato que, a devastação que aparecia no rosto à sua frente, era apenas física. O homem continuava sendo o que fora antes, o mesmo que havia conquistado o Zen, salvo os gatos, o mesmo que havia parado nos degraus do templo do Vale da luz, barganhado sua vida pelas vidas de outros. A devastação era apenas apa­rente até aí.

Está destinado a morrer dentro de poucos dias, Príncipe, mas estou aqui para dizer-lhe que há modos de salvar sua vida e a vida da mulher que ama.

Ruan manteve-se em silêncio. De fora ouviam-se os uivos de um cão, um som triste e solitário.

Ouça com atenção, Príncipe. Não peço muito. Apenas algumas palavras, uma explicação. Nada imoral, apenas fatos, fatos científi­cos.

Como Ruan se recusasse a responder, o Rei voltou-se e deixou a cela:

Pense a respeito, Filho da Serpente. Estarei de volta amanhã.

No dia seguinte levaram-no para o pavimento superior, para um quarto grande e vazio, e o amarraram a um banco de madeira.

Os homens que se puseram a trabalhar nele não eram torturadores comuns. Estavam usando garbo sacerdotal, notou. Aquilo estava des­tinado a ser uma espécie de ritual e aqueles eram profissionais, especia­listas no tratamento do tipo certo de vítima. Yahali mantinha-se de pé, imóvel, observando enquanto faziam o que lhes fora ordenado, os braços cruzados sobre o peito. Seus olhos não deixavam o rosto pálido sob as luzes brilhantes.

Tentem tudo. Tudo! — sibilou. — Mas não o matem. Ele deve ser mantido vivo a qualquer custo.

A princípio Ruan conseguiu não sentir as dores terríveis, aplican­do seu treinamento, seu conhecimento. Mas à medida que o tempo pas­sava e as torturas se tornavam mais e mais refinadas e diabólicas, aos poucos começou a dar-se conta de que estava perdendo terreno. Mais uma vez, como tantas antes, não seria capaz de resistir a esse homem, mais uma vez era o inferior, o mais fraco.

Através do quieto escudo de meditação que construíra ao redor de si para afastar a dor, penetrava agora uma presença insistente, es­trangeira, um ponto inflexível e inabalável de vontade, tentando perfu­rar sua consciência. As vontades se chocaram... Lutaram, inflexíveis.

E no final ele perdeu. Estava outra vez consciente de seu corpo, consciente de... Aaaah! Aquele primeiro grito de dor depois de uma hora de silêncio obstinado trouxe uma expressão de incrível triunfo ao rosto de Yahali. Mas ele não parou. Impiedoso, forçou ainda mais a resistên­cia de Ruan, que enfraquecia, até que os gemidos selvagens e contínuos de sua vítima se tornaram ecos que soavam e ressoavam na abóbada. Entretanto ele não falava. Nenhuma resposta às perguntas:

Mash-mak — disse Yahali, por fim, fazendo sinal aos torturadores para que se afastassem. — Por que é que perdemos o poder de gerá-la, se por centenas de anos foi de uso comum?

Ruan abriu os olhos, buracos profundos num rosto cinzento, e olhou para Yahali. Sua voz estava fraca:

Uso errado do poder, ó Rei, leva à perda do poder...

Yahali riu com desdém e impaciência.

Bobagem. Não sou criança. Você está apenas evitando o assunto. É sobre ciência e fatos científicos que estou falando. Além disso, não o desejo para o bem de meu povo, para destruir e controlar seus inimigos? Por gerações nós, de nossa raça, possuímos esse poder. Meus antepassados o conheciam e manejavam até que, pouco a pouco, seus descendentes o perderam. Não eram homens melhores do que eu!

A taça está cheia até a borda, o último limite foi alcançado. Mandaram parar.

Procure não fugir à questão. Estou falando sobre fatos, Príncipe.

Yahali chegou muito perto agora, inclinando o rosto sobre o de Ruan.

Outrora fomos irmãos de sangue... você não gostaria de refor­çar o laço outra vez, o laço que agora está quase inteiramente desfeito? Aquele laço antigo? Em público irei honrá-lo como meu irmão. Todas as glórias que são minhas serão suas também. O comando supremo do exército, riquezas, casas, terras, tudo o que quiser eu lhe darei. Tudo! Você não gostaria de ser o Sumo Sacerdote de Aztlan, administrar os assuntos religiosos da maneira que lhe agradar? Tudo o que está em meu poder, um poder imenso será seu. Seus amigos partilharão de tudo, a moça que ama será a principal dama do país e estará sempre à seu lado. E se você escolhesse deixar Aztlan e juntar-se a seus amigos, seria livre para fazê-lo. Apenas me conte, irmão, dê-me o conhecimento de Mash-mak... o poder de reduzir um exército inteiro a cinzas em poucos segundos. Em benefício do seu e do meu povo, pelo nosso povo.

Ruan abriu a boca para falar, para dizer que não tinha o conhe­cimento secreto que podia desencadear o terrível poder. Que nunca estivera de posse do mesmo e, dessa forma... Mas embora, abrisse a boca, as palavras não vieram porque soube de repente que o que era verdade antes agora se tornara uma mentira. Que aquele conhecimento era seu. Que ele sabia!

Sentiu o suor cobrindo seu corpo, sentiu uma agonia selvagem e terrível que não conhecera antes. Não houvera perigo de contar um se­gredo que não conhecia, mesmo sob o pior tipo de torturas.

Mas agora que sabia, seria capaz de resistir? E pior... valeria a pena resistir? Poderia salvar sua garota, seus amigos. E como Sumo Sacerdote de Aztlan...

Vi os trajes que usava, Príncipe. Você nunca poderá negar seu conhecimento. Os trajes de um Grande Protetor, alguém que deve co­nhecer o Segredo. E você irá contar-me.

"Ele não está mentindo, prometendo-me estas coisas maravi­lhosas", pensou Ruan. "Está mortalmente sério. Irá manter sua promes­sa. Se apenas..."

Teve uma sensação como se a serpente ao redor de seus quadris tivesse assumido vida, queimando, cauterizando, erguendo a cabeça flamejante, comprimindo-se contra sua carne e ateando fogo ao seu corpo inteiro.

Seria aquela a sua própria voz, carregada de desespero e resignação?

Perdoe-me... irmão, mas está pedindo a única coisa que não tenho permissão de lhe dar.

Ao final nem sequer gemia. Sentiu-se carregado por