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O FILHO DE BEN HUR / Roger Bourgeon
O FILHO DE BEN HUR / Roger Bourgeon

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O FILHO DE BEN HUR

 

Em 1880, um general americano, Lewis Wallace, publica um volumoso romance. Ben Hur. O seu êxito é conhecido: o livro, depois o teatro, o cinema, mais recentemente a rádio e o circo, consagraram-no no mundo inteiro.

Qual a maior razão deste êxito? Procurei-a, analisando as quinhentas páginas desse grosso volume. É a personalidade do herói? A sorte injusta de que primeiro é vítima? As suas questões com o Romano Messala? O facto dele pertencer a esse povo judeu submetido por Roma de César Augusto, depois de Tibério? A glória que alcança com a famosa corrida de carros? O seu amor pela jovem Ester? Os infortúnios de sua mãe e de sua irmã Tirzah? Mesmo reunidas como são por Lewis Wallace, estas peripécias não poderiam, em meu entender, fazer de Ben Hur outra coisa mais do que um herói simpático. A sua fama não teria ultrapassado a do d’Artagnan de Dumas ou a do Fracasse de Teófilo Gautier, fama geralmente limitada pelas margens de um só continente. Então, porquê este êxito, do qual se pode dizer que foi e que ficou mundial?

É que Ben Hur não é a história de um homem, de uma família, de uma casta. É, através disto, a história de um povo e, ainda mais, a história de uma época cuja recordação ainda impressiona o mundo perto de 2000 anos mais tarde. O segredo - aliás confessado por Wallace - é o facto de Ben Hur ser contemporâneo de Jesus, testemunha dos Seus dias terrestres e da Sua morte no Gólgota.

Crente, ateu, ou simplesmente indiferente, nos velhos países, não conheço um homem que não saiba quem foi Jesus e que não conheça o essencial dos seus ensinamentos. Isso é que conta, isso, primeiro, e para muitos somente isso.

A última página de Ben Hur de Wallace remata com a morte de Jesus, com o grande vácuo que a terrível imagem do suplício da Cruz deixa no coração e no espírito daqueles que se aproximaram de Cristo nos caminhos da Galileia ou nas ruelas de Jerusalém. Nesse momento, o herói imaginário, colocado por Wallace num quadro real, onde tudo é minuciosamente estudado e fielmente reconstituído, o herói conta pouco mais de trinta anos, a idade de Jesus, e o livro fecha.

Quis reabri-lo por dois motivos. O primeiro é que tenho vontade de viver em espírito com os que ficaram vivos depois do drama, de fazer parte, em suma, durante longos meses, desses primeiros cristãos que, ao perderem o seu Mestre, poderiam - e os seus inimigos assim o imaginaram - perder a sua esperança e a sua fé, e não a perderam. No meio do terror das prisões, das deportações e das torturas, pelo contrário, encontraram-na mais forte e mais admirável, mais absoluta e mais indiscutível. Sim, esses tiveram, talvez, a parte mais pesada, mais terrível, porque estiveram - é essa a ordem das coisas humanas - expostos à fadiga, decerto à tentação, embora menos os Apóstolos, os que conheceram Jesus e guardavam por conforto a recordação das horas passadas junto d’Ele, do que os outros, os que, vindo depois, já não ouviram senão as palavras narradas, os testemunhos indirectos, os que já não viam nada de concreto, de real, de humano.

Jean Cocteau disse-me um dia: «Viva o tempo das catacumbas!” Creio que ele tinha razão: o tempo do sofrimento, das hesitações que dilaceram a alma, e também o tempo da esperança, da fé tão viva que triunfa do corpo, das suas misérias e das suas dores.

Foram sem dúvida os maiores esses cristãos das primeiras idades que refaziam os gestos de Cristo, vivendo-os, neles se integrando inteiramente e de que nós - ai! - estamos tão longe com as nossas preces aprendidas, as nossas missas de costume e os nossos pensamentos distraídos, enquanto diante de nós, a alguns metros, entretanto se renova o Mistério. Como estavam perto d’Ele, tão simples e tão entusiastas como as testemunhas da Sua vida, e no entanto tão tentados como nós, tão divididos entre os prazeres da vida real e as Promessas da Vida eterna!... .

E o segundo motivo é que à força de o «frequentar», à força de lhe pôr na boca, por necessidades da Rádio e do Circo, palavras que são as de um homem, tomei por Ben Hur uma estranha afeição. Tive vontade de saber o que ele se tornaria depois de passada a idade em que Lewis Wallace fixa o termo das suas aventuras.

Daí, este Filho de Ben Hur, que tomou por modelo a honestidade de um Wallace no que se refere à moldura e ao afecto que ele criou para o seu herói.

Mas antes de começar a narrativa das suas aventuras preciso de voltar atrás, ainda por um instante.

No momento em que Jesus entra na vida humana na gruta de Belém, nasceu em Jerusalém um rapaz, filho do príncipe Hur.

Chegado à idade adulta, o jovem Ben Hur encontra um amigo de infância, o Romano Messala - mas um é Judeu, oprimido, o outro é Romano, é o opressor. Entre eles será a guerra, e, da parte de Messala, o ódio.

Tomando por pretexto um acidente ocorrido ao novo Procurador romano da Judeia, Valério Gratus, Messala manda prender a mãe de Ben Hur e sua irmã Tirzah, lançá-las numa masmorra e envia Ben Hur para as galés por toda a vida.

Na galé «Astrea», onde rema há três anos, Ben Hur tem por chefe o tribuno Quintus Arrius, um homem duro, mas de coração acessível à piedade. Em luta com os piratas gregos, a galé soçobra. Ben Hur pôde salvar o tribuno da morte.

De regresso a Roma, fará este de Ben Hur seu filho adoptivo e legar-lhe-á todos os seus bens.

Feito cidadão romano, Ben Hur, de volta à Palestina, procura o rastro de sua mãe e sua irmã. Primeiro, encontra o velho Simónides, antigo intendente dos príncipes de Hur, que também sofrera o ódio de Messala. Enamorou-se de sua filha, a doce Ester. Fazendo-se amigo do xeque Ilderim, consegue Ben Hur que ele lhe empreste os cavalos necessários para a corrida de carros onde conta defrontar

Messala. Apesar de numerosas oposições, triunfará publicamente do seu inimigo.

Entretanto, a mãe e a irmã de Ben Hur são postas em liberdade por Pôncio Pilatos, novo Procurador de Roma na Judeia, mas uma enfermidade terrível as corrói: a lepra.

Ben Hur foi testemunha dos milagres de Jesus de Nazaré. Segue-lhe fervorosamente os passos e será testemunha do prodígio que curará os seus.

A família está reunida. Ben Hur vai desposar Ester, quando os sacerdotes judeus se apoderam de Jesus, que viera pela Páscoa a Jerusalém, e o condenam à crucificação.

Também disso foi Ben Hur testemunha, e é no dia seguinrte ao da morte de Cristo que nós devemos, para melhor compreensão da narrativa, entrar no palácio dos Hur.

 

«EIS QUE ESTOU ENTRE VÓS...»

O dia seguinte à morte de Jesus de Nazaré era simultaneamente véspera da Páscoa judaica e dia de Sabbat. De regresso ao palácio de seus pais, Ben Hur não pudera conciliar o sono durante a noite. De cada vez que seus olhos se fecharam, tornaram a ver aquela cruz erguida diante de um céu de tormenta. Por várias vezes, deixara a sombra fresca do quarto e, no terraço, volvera-se para o Gólgota: as cruzes tinham desaparecido...

Ao crepúsculo, grupos, que passavam pelas ruas estreitas, tinham repetido a novidade: um Judeu rico, chamado José, da cidade de Arimateia, saía do palácio de Pôncio Pilatos. Conseguira que lhe entregassem o corpo do Nazareno e mandara-o depor, envolto num sudário, num túmulo novo situado no sopé do próprio monte do Crânio.

À inquietação que agitara Jerusalém nos últimos instantes do crucificado, aos estranhos acontecimentos que acompanharam a sua morte - túmulos destruídos, o véu do templo rasgado, relâmpagos e trovões - sucedera um silêncio pesado, opressivo, um silêncio que tivera como que uma densidade, feita de milhares de respirações suspensas, noite em que os sentidos de toda a gente estavam alerta, como na expectativa de novos sinais, em que o esposo e a esposa ficam lado a lado, grandes olhos abertos na escuridão, cada um imóvel como se o outro dormisse; e poucas palavras foram ditas e bem pouco repousaram.

Por fim, a aurora erguera-se por sobre a cidade santa, semelhante a todas as auroras da Primavera de Israel, com a sua frescura e o seu céu cor de malva a mudar suavemente para rosa.

Ali estava Amrah, a fiel Amrah, quando Ben Hur desceu, a sentir na epiderme aquelas picadinhas e na boca aquele amargo sabor que experimentam todos os que dormiram mal. Apenas tomou uma pinga de leite.

- Onde vais tão cedo, senhor? - perguntou Amrah.

- A casa de Simónides. Não acordes minha mãe nem Tirzah, deixa-as repousar; eu volto ainda de manhã.

As ruas estavam desertas, ainda cheias de sombras, protegidas pelas altas paredes dos primeiros raios do sol. Ben Hur caminhava a passo rápido. Atingiu a grande praça. No adro do Templo - cuja reconstrução começada nos dias do rei Herodes ainda não acabara estavam dois homens sentados nos degraus de pedra. Á chegada de Ben Hur levantaram-se e Ben Hur reconheceu dois servidores de Simónides, os habituais portadores da liteira que servia para os passeios de Ester.

- Vossa ama está no Templo? - indagou Ben Hur.

- Não, senhor - respondeu um dos homens. - Mas nosso amo Simónides está lá.

- Simónides? Mas ele nunca sai!

- Com efeito, há meses que não o fazia, excepto para ver a tua corrida contra Messala. Mas, ainda agora, ordenou que o trouxessem aqui. Está no Templo e Malluch encontra-se com ele.

Ben Hur agradeceu com um movimento de cabeça e entrou no santuário. Estava tudo escuro e deserto ainda. No entanto, ao avançar, Ben Hur avistou um vulto atarracado a um canto de galeria e reconheceu Malluch. Aproximou-se rapidamente.

- Simónides?

- Está junto do sumo sacerdote Caifás - Malluch falava em voz muito baixa, sua boca colada ao ouvido de Ben Hur - mandou que o depusessem lá e Caifás acaba de chegar.

Ambos se inclinaram. Ardiam archotes na vasta nave. Reconheceram Caifás já paramentado para o Sabbat, tiara na cabeça, diante do pequeno vulto de Simónides, mergulhado no seu cadeirão, e ouviram a voz do grão-sacerdote a falar ao cego:

- Porque é que mandaste que te trouxessem aqui, Simónides? É preciso que o caso seja muito importante.

Simónides ergueu os olhos mortos para quem lhe falava.

- É importante, realmente.

Nunca Ben Hur ouvira assim a voz do ancião. Era rouca e como que inumana, repercutida pelas altas colunas e pelas pesadas paredes do Templo. Nunca vira tão-pouco aquele rosto. Habitualmente, as faces macilentas de Simónides iluminavam-se com um sorriso, a indulgência emprestava àquele semblante magro, privado do brilho do olhar, uma grande doçura. Nada disso, nessa manhã...

- Caifás - disse Simónides. - Sabes o que acabas de fazer?

- Acabo de fazer justiça!

- Acabas de fazer derramar o sangue mais precioso.

- Mandei punir um usurpador.

- Cala-te, Caifás! Nada conseguiu abrir-te os olhos? Nada pôde comover-te? Nem as palavras que Ele disse nem os milagres que Ele operou? Que podias tu censurar a esse homem? O próprio Pilatos, Pilatos que nos detesta, reconheceu que Ele era justo; e tu, tu o guardião da nossa crença, enviaste-O ao suplício!

- Ele disse que era Filho de Deus. Blasfemou, insultou o nome do Senhor.

- Caifás, há milhares de anos os Profetas anunciaram a vinda do Messias; não leste os seus escritos?

- Tem havido tantos falsos salvadores, este não era senão mais um!

- Admitindo isso - e a voz de Simónides sempre tão nítida tomava cada vez mais amplitude - admitindo isso, nunca este fez mal algum e tu fizeste correr o sangue de um inocente.

- Não podia admitir que a Lei fosse escarnecida; assim era preciso para a paz de Israel.

- A paz de Israel - Simónides endireitara-se de repente - foi para sempre destruída por tuas mãos; agora, não haverá mais paz para Israel!... Acredita, Caif ás, num homem que já não vê senão dentro dele próprio. Aquele que ontem estava na cruz era o Filho de Deus. Era o Messias cuja vinda estava anunciada e tu não quiseste reconhecê-lo, e Jerusalém contigo não o quis reconhecer. No entanto, tudo provava a sua verdade... Nem uma palavra dos Profetas foi desmentida, operaram-se dezenas de milagres e tu, tu recusaste a evidência... e tu sabes bem porquê, Caifás! Esta vinda perturbava os teus hábitos, alarmava o teu orgulho. Com Ele vivo, tu já não eras o Sumo Sacerdote, já não eras o único detentor da Velha Lei. Foi o teu orgulho, Caifás, quem o condenou, foi o teu orgulho, a tua sede de poder, o teu gosto das honras que fazem com que os Judeus hoje rejeitem a mão de Deus. Estás amaldiçoado para sempre!

Precisamente neste instante ouviu-se um surdo rumor que parecia rolar do fundo da terra.

- Como ontem - murmurou o Sumo Sacerdote - como ontem, a terra treme...

- Se é o dia de juízo que chega - disse simplesmente Simónides - não terás esperado muito tempo pelo teu castigo.

Um servidor entrou, açodado.

- Senhor! O véu do templo rasgou-se outra vez. Então, Ben Hur e Malluch viram um espectáculo inaudito: viram o orgulhoso Caifás lançar-se de face contra o solo, depois, levantando o rosto aterrado:

- Grande Deus! Protege teus filhos, protege a tua Jerusalém!

Ergueu-se então a voz de Simónides:

- Que ela seja antes engolida pelas cinzas! Ah! Jerusalém, cidade pérfida, cidade que não quis ouvir! Foi-te dado o Salvador e eis que tu O mataste como o ser mais desprezível. Jerusalém, digo-te eu, não haverá mais através dos tempos senão dor para ti, dor e lágrimas... Conservarás a cabeça curvada, a tua terra será repartida, as tuas casas invadidas, nunca mais tornarás a encontrar glória. Rende as tuas graças, Jerusalém, rende as tuas graças ao teu Pontífice!... Ele que se abata agora ao pé dos altares!... E tu, povo judeu, não terás bastante vida em todas as tuas gerações para expiar o crime deste dia!

Jamais Ben Hur deveria esquecer o rosto de Simónides no momento em que assim profetizava.

Passou mais um dia. Estava-se no primeiro da semana. Ao fim da manhã, Ben Hur dirigiu-se a casa de Simónides. Sentada junto do cadeirão de seu pai, Ester cosia as pesadas pregas de um vestido, mas estava pouco atenta ao seu trabalho. Pousou o tecido no chão perto dela e disse, como se falasse com ela própria:

- Dois dias decorreram sobre a hora abominável e nada sucedeu.

- Que queres tu que suceda, Ester? - indagou Ben Hur, brandamente - A esperança foi-nos oferecida e nós repelimo-la. Nada mais pode suceder.

- Acredita-lo, realmente, Ben Hur? - perguntou Simónides - Tenho pensado em tudo o que se desenrolou aqui, reli as páginas dos Profetas. Todos anunciaram que os homens do seu tempo não reconheceriam o Messias como tal, mas todos disseram também que Ele viveria eternamente, apesar da sua morte.

Ben Hur tentava seguir o pensamento do velho, mas a última frase pareceu-lhe tão pouco lógica que disse:

- Vejamos, Simónides, será possível?

Sempre no mesmo tom monocórdico, Simónides prosseguiu:

- Talvez quisessem dizer que, depois d’Ele morto, sobreviria o que Ele ensinou... Ora, que ensinou Ele? Disse que todos nós devíamos viver para os nossos irmãos e não apenas para nós próprios, trouxe uma mensagem que é a da Paz, a da Esperança, também, pois afirmou que ninguém estava perdido e que um pecador podia atingir o céu, na condição de se arrepender. Serão precisos anos certamente para conhecer todas as suas Palavras, porque foram pronunciadas aos quatro ventos dos caminhos e perante as gentes mais diversas... Tu bem o sabes, Ben Hur! Aqueles que como nós foram testemunhas, mesmo de um pequeno número dos seus actos, esses, presentemente, já não poderão viver absolutamente da mesma maneira. No que Ele ensinou, tudo é amor. Haverá homens para tomar à sua conta o que Ele disse e para seguir a sua Lei.

- Quero ser um dos primeiros desses homens!

O compromisso surpreendeu o próprio Ben Hur.

Pronunciara-o quase inadvertidamente.

- Então, Ben Hur - disse Simónides lentamente - conhecerás a cisão entre a religião de teus Pais e a que tu crês agora. Porque é assim, fica sabendo, que se criam as novas igrejas: sobre as ruínas das antigas.

- Contudo - disse Ben Hur - não hesitarei. Simónides e tu, Ester, há uma coisa que nunca souberam e que devo agora dizer-vos. Quando fui condenado por Messala, amarraram-me à cauda de um cavalo e os guardas romanos obrigaram-me a marchar debaixo de sol pelo caminho dos galés. Por fim, quase caía a cada passo, já não lutava, esperava, desejava a morte como libertação... Foi então que chegámos a uma aldeia de Nazaré, e aí, o único que teve um gesto para comigo foi um jovem da minha idade, e disse-me uma mulher que ele era filho do carpinteiro de Nazaré.

- Era Ele! - disse Ester, quase sem voz.

- Sim, era Ele, Jesus de Nazaré, e o seu olhar nas piores provações nunca me abandonou... Foi nele que tornei a pensar, foi a sua recordação que me manteve quando remava nas galeras. Esse olhar! Tinha uma força e uma doçura que não existem em nenhum olhar humano... Nunca se viu bondade semelhante num rosto... Nunca houve tanta esperança num simples gesto que Ele esboçou.

Ester levantou-se lentamente e veio até Ben Hur. Ajoelhou-se diante dele, depois, pousou brandamente as mãos nas suas e assim ficaram durante muito tempo, rostos frente a frente, recortados pela luz viva num céu de um profundo azul da Judeia.

Passos de um homem que se aproximava quebraram o encanto. Ester levantou-se, quando o homem dizia, dirigindo-se a Simónides:

- Está ali a mãe do senhor Ben Hur.

- Porque não a mandaste entrar imediatamente?

A mão de Simónides ergueu-se, seca e descarnada, e logo o servidor se afastou da porta.

Ben Hur surpreendeu-se ao ver sua mãe. Em algumas horas apenas, parecia ela ter anulado dez anos da sua vida. Sua tez achava-se mais viva, seus olhos brilhavam. Não fez qualquer reparo no gesto que Simónides esboçava, apontando uma cadeira, e, quando falou, fê-lo com uma rapidez, um alvoroço que Ben Hur nunca lhe conhecera.

- Alegrai-vos - disse ela - porque lhes trago uma grande nova. Há alguns minutos que toda a gente a repete em Jerusalém. Ao alvorecer, três mulheres, Maria de Magdala, Maria, mãe de Iago, e Salomé dirigiram-se com perfumes ao túmulo onde sepultaram Jesus depois da sua morte. Queriam perfumar o corpo, como manda o costume, e diziam pelo caminho: «a pedra que fecha o túmulo é pesada, encontraremos alguém bastante forte capaz de a arredar?» Mas, quando se aproximaram, viram que a pedra rolara para o lado. Então, entraram e encontraram um jovem de grande beleza, envergando uma túnica branca, que lhes disse: «Não temais; procurais Jesus de Nazaré que foi crucificado, eis o lugar onde o depuseram, mas já não está aqui, ressuscitou de entre os mortos. Ide dizer aos seus discípulos que Ele os precedeu na Galileia. É lá que O vereis, tal como Ele o disse».

Simónides, ocultando o rosto nas mãos, disse:

- Ele prometeu na sua Cruz: «Eu sou a Ressurreição e a Vida».

- Mas tem-se a prova disso? - inquiriu Ben Hur.

- Logo que soube a notícia, meu filho, fui ao túmulo...

- E depois?

- Estava realmente vazio, e a pedra rolara para o lado.

- Seus inimigos dirão que foram os seus discípulos que retiraram o corpo para fazer crer numa ressurreição.

A mãe de Ben Hur pousou a mão no ombro do filho.

- Por mim, não o duvido; relembro os nossos corpos arruinados pela lepra. Quem nos poderia curar, a Tirzah e a mim, com uma só palavra, a não ser um enviado de Deus?

- Não - disse Simónides - nenhum de nós o pode duvidar.

- Ben Hur - ajuntou Ester, com gravidade - doravante, passaremos a viver sob a sua única Lei.

- Sim, digo-te eu, filho de Hur, quando caminhavam muito tristes e desalentados pela estrada de Emaús, dois de nós foram alcançados por um homem que prosseguiu o caminho com eles. Não conheciam aquele homem; foi só quando entraram na casa onde eram esperados, só quando o viram partir o pão e benzê-lo como Jesus o fizera na nossa última refeição com Ele, que compreenderam que era o Senhor... Sim, filho de Hur, digo-te eu, o Senhor ressuscitou!...

O homem que se encontrava diante de Ben Hur era alto e robusto. Ben Hur reparou nas suas mãos calosas, mãos de trabalhadores, mãos de pescadores habituadas a puxar as redes na margem do lago de Tiberíade. Ben Hur já o encontrara no tempo em que seguia o Nazareno nos caminhos da Galileia. Era sempre o mesmo vulto, a mesma simplicidade de palavras, mas a expressão já não era a mesma. Em poucos dias, o rosto de Simão cavara-se, sulcado de rugas. Principalmente, os olhos tinham mudado. Dir-se-ia olharem para além das coisas humanas, cheios de uma paz maior.

Por um momento, Ben Hur reviu, debruçado para ele, o rosto do filho do carpinteiro de Nazaré, no caminho dos galés, a mesma doçura um pouco triste, o mesmo brilho,. «Como pode um homem - pensou Ben Hur - transformar-se até este ponto?»

Cada palavra de Simão pescador esclarecia-o um pouco mais.

- No Cenáculo, naquele compartimento abobadado que tu conheces, perto do Túmulo de David, apareceu-nos quando estávamos reunidos para a refeição: vi seus pés e suas mãos perfurados pelos pregos, o seu flanco rasgado pela lança do Romano... Não era um espírito nem um fantasma, mas sim Ele, no seu corpo, tal como foi sepultado na noite do Gólgota.

Simão falava suavemente, como que maravilhado pelo que revia.

- Em seguida, apareceu-nos no topo do monte das Oliveiras e disse-nos: «Todo o poder me foi dado no Céu e na Terra. Ide, pois, e ensinai todas as nações, baptizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a guardar todos os meus mandamentos. Por mim, não vos deixarei órfãos, mas eis que permaneço convosco, dia a dia, até à consumação dos séculos».

Houve uma pausa. Ouviam-se os ruídos da rua pela larga janela aberta sobre a cidade. Ben Hur olhava Simão pescador. De súbito, abeirou-se dele e tomou-lhe as mãos.

- Simão, podes contar comigo em todas as circunstâncias.

- Não me chames assim, filho de Hur - disse o pescador - Ordenou-me o Senhor que tomasse o nome de Pedro.

- Está bem, mas como vais proceder para ensinar todos os que vivem no mundo? Em que língua lhes falarás?

- Não sei - disse Simão - mas devemos acreditá-lo. O Senhor providenciará.

- Os meus barcos pertencem-te, Pedro, quando os desejares. Partem quase todas as semanas para a Grécia e para Chipre, para Rodes e para a Itália. Tu e os teus companheiros serão benvindos a bordo.

- Obrigado! Aproveitá-los-emos certamente, mas, por agora, não deixaremos Jerusalém. A sorte indicou Matias para substituir entre nós Judas, o traidor. Não nos separaremos senão depois do Pentecostes.

Dito isto, Pedro levantou-se e dirigiu-se para a porta. Ben Hur alcançou-o, pousando-lhe a mão no braço:

- Pedro, deves tomar cuidado. Os sacerdotes e os anciães do Templo vão mandá-los vigiar a todos, sei isso por Simónides e por alguns dos seus amigos.

Nada tentem que possa dar pretexto a apoderarem-se de vós. Vê o que fizeram ao Nazareno! Pedro olhou-o e disse:

- Julgas que não sabemos o que nos ameaça? Tenho muita coisa de que me fazer perdoar para não dar com alegria a minha vida por Ele. Tu decerto não o sabes - e sua voz baixou, como que envergonhada - mas, na manhã da Sua morte, eu, que lhe jurara segui-lo por toda a parte, reneguei-o por três vezes.

- Renegaste-o? Tu?

- Sim! Três vezes, digo-te eu; e, tal como Ele mo anunciara na véspera à noite, o galo cantou... Fugi então para os campos e chorei. Não te apoquentes, pois, muito comigo, caro Ben Hur, não te preocupes com os meus dias... Deus quer impor-me uma morte terrível, o que não será bastante para expiar as minhas faltas.

- Pedro - disse Ben Hur, em voz baixa - já vi alguns homens diante da morte. Quando ela chega, são geralmente bastante fortes. Não pensam senão num fim honroso, porque aceitaram a ideia de que é preciso partir... Mas quando a morte ainda não é senão um vago receio, um perigo impreciso, poucos conheço que façam boa figura. Pedro, se queres ser fiel a teu Mestre, creio que é preciso obedecer-lhe e pensar primeiro na missão que Ele vos confiou, a ti e aos teus companheiros. Como podereis divulgar por toda a parte a Sua Palavra se, antes de abrirdes a boca, provocásseis, com a vossa imprudência, a irritação da gente do Templo? Se morrêsseis, quem poderia ser suas testemunhas?

- Tens razão, Ben Hur. É preciso que se faça primeiro como Ele o disse. Talvez isso resgate o que me quer impor.

- Não o duvides! O Sumo Sacerdote, Pôncio Pilatos, os Anciães e os Romanos, todos são contra vós - e Ben Hur acalorou-se ao falar - não vos arrisqueis inutilmente. Criai amigos em todos os meios, mas não os comprometais visitando-os em pleno dia, porque, se os outros quisessem, destruiriam tudo de um só golpe. Esta casa é tua, Pedro, e desejaria acolher-te a qualquer hora do dia. No entanto, sei que não o devo fazer... Malluch ficará em contacto contigo; tudo o que necessitardes, dinheiro ou barcos, encontrá-lo-eis em minha casa, mas, para que vos sejam fornecidos, é preciso que todos ignorem que estou convosco...

E como Simão Pedro erguesse para ele um olhar de espanto:

- Não é cobardia, bem o sabes, Pedro. Se fosse preciso desembainhar a espada e partir para o combate, seria o primeiro, mas, visto que não é dessa forma que a sua Lei deve ser divulgada, urge que nos defendamos dos nossos inimigos de outra maneira que não seja a guerra.

- Conheço a tua coragem, Ben Hur, e é porque te conheço que me admiro... Como é que tu, que tanto tens arriscado, que te viam sempre de espada na mão, te tornaste tão prudente?

- Desde que O conheci já não posso bater-me da mesma maneira; aliás, de que serviria uma arma nesta luta que empreendemos? Olha, Pedro, estive em contacto com pessoas muito poderosas e de quase todos os géneros de poder. Sei como pensam Caifás e Pilatos, e os íntimos do Imperador de Roma. Sei como eles procedem quando alguma ideia ameaça contrariar a razão do Estado. Qualquer que seja a ajuda que o Senhor te possa dar, Pedro, pensa que a tua empresa é humana e que vai desencadear a cólera de muitos. Por isso deves acautelar-te por causa d’Ele.

Pedro olhou Ben Hur longamente, depois pronunciou:

- A Paz seja contigo, Ben Hur!

- Pedro! Se algum dia hesitares em chamar-me por causa do que acabo de dizer-te, não te esqueças de que devo a Jesus mais do que a vida!

Passaram os dias. Era a estação mais suave da Judeia, aquela em que a Primavera perfuma de flores cada terraço e até as esquinas frescas das pequenas ruas. O céu. de um azul profundo, ’fica ainda mais leve.

Em volta da cidade, nas encostas que sobem até ela, ainda há arbustos e tufos de erva por entre as pedras ocres. Predomina o verde. O sol muito forte do Estio e a poeira trazida pelos ventos ainda não espalharam toda aquela camada cinzenta que virá a cobrir, dentro de alguns meses, toda a paisagem. Ester amava aquela suavidade do ar. No jardim interior da vasta casa que habitava com seu pai quedava-se horas sem enfado, debruçada sobre algum trabalho de tapeçaria ou então sobre as rosas ou o granate das suas flores.

Todas as manhãs, ainda deitada, ouvia abrir-se a pesada porta que dava para a rua e sabia que estava próximo o instante em que Ben-Hur chegaria. Muitas vezes, levantava-se e, oculta atrás do reposteiro que dava para o pátio interior, via-o entrar. Ele tinha sempre um olhar para aquele quarto que Ester ocupava e, por vezes, julgando não ser visto por ninguém, enviava a esse quarto um beijo na ponta dos dedos. Olhava aquele rosto moreno, imberbe ao contrário dos de Jerusalém, aquele vulto a um tempo robusto e elegante, as ancas estreitas, os ombros musculosos sob a curta túnica. O coração de Ester batia mais depressa, arrependia-se um pouco de ter surpreendido aquele gesto: confessar-lhe-ia um dia aquela inocente bisbilhotice que cometia agora todas as manhãs? A imagem de Ben Hur, o brilho dos seus olhos, o som da sua voz ocupavam todos os pensamentos de Ester; ela sentia-se feliz em verificá-lo. Bem sabia, na sua instintiva sabedoria, que aquele período de expectativa seria o mais doce, o mais comovente da sua vida e, no entanto, muitas vezes desejava que ele terminasse, tinha pressa de pertencer a Ben Hur, de ser totalmente dele. Nenhum remorso maculava aquele desejo.

Em sua volta, não estavam todos de acordo? Simónides dava todos os dias graças ao céu por permitir a união do seu sangue ao do seu amo. A mãe de Ben Hur tinha para Ester todas as delicadezas e Tirzah falava com ela tão livremente e tão ternamente como o poderia fazer com uma irmã do mesmo seio.

Ben Hur fechava-se com Simónides toda a manhã. Trabalhavam em comum, discutiam a marcha de tal navio, a carga de outro, uma mercadoria que esperava num porto ou as receitas realizadas pelos seus escritórios.

Em dez anos, Simónides, à semelhança do pai de Ben Hur, estendera através de todos os Estados do Mediterrâneo uma série de linhas de trocas comerciais. Os entrepostos de catorze portos ostentavam a marca dos Hur. Em quarenta e dois navios, os quarenta e dois capitães mais experimentados de Israel transportavam cargas preciosas sob o estandarte amarelo, insígnia da companhia.

Após a refeição, para a qual muitas vezes a mãe de Ben Hur e Tirzah se reuniam em casa de Simónides, Ben Hur descia aos limites da cidade até os entrepostos; conversava com os expedidores, verificava as mercadorias, vigiava a carga e a descarga. Mais de sessenta homens trabalhavam ali permanentemente, sem contar com os carregadores eventuais que se contratavam por uns dias ou umas horas para assegurar uma remessa importante.

Ben Hur gostava de deambular por aqueles vastos entrepostos, gostava de encontrar os que o serviam, com o simples respeito devido ao amo. O príncipe tagarelava muitas vezes com um ou com outro, interrogando-o sobre o seu trabalho, sobre os seus filhos. Geralmente, o homem respondia com franqueza, não hesitava por vezes em fazer a sua crítica sobre questões de pormenor, dando as suas sugestões como só as sabem e podem dar os velhos operários, fiéis à casa que os emprega até o ponto de a considerarem como uma segunda família.

Ben Hur também gostava do cheiro dos grandes barracões cobertos, cheiro feito de tudo o que ali estava armazenado, onde dominavam as especiarias e a madeira fresca. Reencontrava impressões de infância: quando, muito pequeno, se suspendia pelos dois braços ao pescoço de seu pai, era o mesmo aroma, (a um tempo pesado e fresco, que respirava junto do seu peito. Recordando estas coisas, sucedia o príncipe deter-se numa das coxias marginadas de pilhas de madeira, de sacos e caixotes, e fechar os olhos por um instante.

À tarde, Ester via, na hora suave que precede a noite, o vulto de Ben Hur voltar para casa. Os únicos desgostos de Ester provinham das viagens que Ben Hur realizava frequentemente a Cesareia ou a outro porto de Israel. Partia sempre por três ou quatro dias, seguido do fiel Malluch e de alguns servidores.

Agora, dizia-se «servidor», tanto em casa de Simónides como no palácio dos Hur, porque os dois homens haviam resolvido restituir à liberdade cada um dos seus escravos. Nenhum deles, aliás, deixara o seu respectivo amo, apesar de terem possibilidade de o fazer em qualquer momento.

Enquanto Simónides dirigiu sozinho a empresa, o chefe parecia aos seus homens um ser misterioso. As ordens não lhes chegavam senão indirectamente. Praticamente, o cego nunca abandonava a sua pesada casa. Mas depois de Ben Hur vir, o negócio para o qual trabalhavam tomara bruscamente realidade e ao mesmo tempo um rosto. A bondade do príncipe, as provações que suportara, a coragem, o eco do triunfo na corrida dos carros, a popularidade de que desfrutava desde os seus conflitos com os Romanos, tudo isso criava para eles, em volta de Ben Hur, uma espécie de auréola. Nunca tivera necessidade de elevar a voz ou de ameaçar para ser obedecido. Bastava-lhe enunciar um desejo para que se realizassem, no tempo requerido, os mais duros trabalhos.

Todas as noites, ao serão, Ester e Ben Hur reuniam-se, e a jovem tinha a impressão de que aguardara essa hora durante todo um longo dia.

Depois, o jovem príncipe retirava-se através da noite para o seu palácio. Assim decorriam, um tanto monótonos, depois de tantos combates, lutas e angústias, os dias daqueles que tinham sofrido e lutado juntos.

Essa noite, Ben Hur, meio estendido sobre um muro de pedra no terraço superior da casa de Simónides, contemplava a noite. Perto dele, Ester, iluminada pela chama de uma candeia de azeite, fiava a lã.

- Parto amanhã, como sabes - disse Ben Hur - Um dos nossos barcos larga de Cesareia para Óstia e preciso de confiar ao capitão mensagens para alguns amigos que ainda tenho em Roma.

- Eu sei - pronunciou Ester.

Ben Hur olhou-a e sentiu-se invadido por uma grande ternura. A boca entreaberta ainda era a da infância, o aveludado da carne também, tomando mais relevo assim, à contraluz da candeia; mas os olhos como que se velavam ao pronunciar-se a palavra «partida»...

- De cada vez que tenho de te deixar, Ester, mais dificilmente suporto a nossa separação.

- Julgas - disse Ester brandamente - que não se passa o mesmo comigo? - Pousando a roca, aproximou-se de Ben Hur e, junto deste, prosseguiu - Tu ainda tens, para distraíres os teus pensamentos, esse movimento em tua volta, ordens a dar, preocupações que o trabalho impõe; mas para uma rapariga raro é que seu espírito verdadeiramente se distraia. As ocupações caseiras não exigem grande atenção.

- Ester! - excepto nos primeiros encontros, raramente Ben Hur se sentia tão comovido - Ester, queres que nos casemos depressa?

Seus rostos estavam agora muito perto um do outro.

- Ben Hur - e Ester não baixava os olhos - digo-te sem vergonha, não desejo senão uma coisa: ser inteiramente tua, o mais depressa possível...

Apertados um contra o outro, mais não ouviam, a dominar os ruídos da noite, do que o bater dos seus corações.

Por muito tempo permaneceram assim, imóveis. Depois, Ben Hur, pousando suavemente as suas mãos nos ombros de Ester, afastou a jovem e disse:

- Casamo-nos, Ester! No meu regresso!

Erguia-se o dia sobre Jerusalém quando Ben Hur ouvindo na ruela, diante da porta do palácio, ruído de cascos e relinchos de cavalos, soube que Malluch acabava de chegar, seguido de alguns dos seus companheiros. Soara a hora de partir para Cesareia.

No pátio empedrado, já Adim, o jovem palafreneiro. trazia pela brida um dos maravilhosos cavalos brancos que o xeque Ilderim oferecera a Ben Hur; dois outros servidores abriam a pesada porta do palácio. Lá fora, Malluch e os companheiros tinham-se apeado para esperar o seu chefe. Tornavam, a montar, quando outros ruídos de cavalos soaram na rua.

- Uma escolta romana, senhor! - disse Malluch.

- A esta hora? E neste bairro?

Ben Hur ouviu chamar pelo seu nome e logo reconheceu, à frente dos cavaleiros que acabavam de aparecer - couraças, elmos de prata e longas capas vermelhas - o simpático rosto do jovem Drusus.

- Estavas de abalada? - indagou Drusus ao aproximar-se.

- Sim, vamos a Cesareia.

- Peço-te que me perdoes, caro Ben Hur - disse Drusus - mas tenho de pedir-te que retardes a viagem. Pôncio Pilatos espera-te no palácio.

- Tão cedo?!

- Sim. - Aproximou-se de Ben Hur, para não ser ouvido pelos outros - Creio que prefere que poucas pessoas saibam, que te chamou.

- Ainda algum aborrecimento?

- Em verdade - replicou Drusus - julgo que os aborrecimentos sejam mais para ele.

- Drusus, supões que a audiência seja demorada e me obrigue a ficar por cá todo o dia?

- Não, certamente que não. Será coisa de uma hora, talvez; o governador deseja ver-te antes de chegarem ao palácio os que vêm fazer pedidos e mesmo os familiares. A tua escolta que te acompanhe e te espere com os meus homens no posto da guarda, e, logo que te despaches de Pilatos, poderás seguir o caminho de Cesareia.

Os dois grupos de homens dirigiram-se juntos para o palácio. Ben Hur e Drusus à frente, cavaleiros romanos e judeus à retaguarda, a certa distância.

- Então - indagou Drusus, mantendo o cavalo a passo - retornas à tua actividade no comércio?

- É o que tu vês.

- E o sonho de te fazeres soldado, abandonaste-o definitivamente?

- Simónides envelheceu bastante, a sua enfermidade estorva-o muito, minha mãe e minha irmã voltaram ao seu palácio. É, pois, necessário continuar o que meu pai organizou.

- Não sentes a falta de Roma?

- A minha pátria é aqui - respondeu Ben Hur. E é justo, Drusus, que tu sejas um dos primeiros a sabê-lo: tenciono desposar Ester, filha de Simónides, no meu regresso de Cesareia.

- Tens bom gosto - disse Drusus - É muito bonita e as suas virtudes são conhecidas de todos em Jerusalém. Desejo-te todas as felicidades possíveis.

- E tu, Drusus - perguntou Ben Hur - pensas em ficar muito tempo aqui, na guarnição?

- Como sabes, isso não depende de mim. De um dia para o outro, posso ser nomeado para Antioquia ou para o Norte de África, assim como para Foceia na Gália ou para as fronteiras da Germânia, para qualquer parte onde estejam as legiões de Roma. Também posso voltar à Itália, isso depende do capricho de um chefe ou de uma mudança de oficiais. De qualquer maneira, terei pena de deixar este país.

- Sinceramente? Contudo, os Hebreus não manifestam nenhuma simpatia pelos soldados de Roma...

- É verdade, mas não são só eles. Por toda a parte onde soldados estrangeiros se instalem, os naturais do país nunca gostam deles... sobretudo se não desejaram a sua vinda.

- Sentes isso, realmente?

- Julgas que não vejo os homens voltarem-se e as mulheres chamarem os filhos para casa, quando passo à frente de alguma das nossas tropas? Julgas que não sentimos por todos os lados, e até nas tabernas, que somos tolerados e não admitidos? Tu és, sem dúvida, o único dos nobres de Jerusalém que recebe oficiais de Roma em sua casa. E no entanto, lutaste duramente contra nós.

- Há anos, sim, mas hoje compreendi a inutilidade dessas lutas. Acabam sempre em sangue que corre e tenho cada vez mais horror a isso.

- Estás a envelhecer, caro Ben Hur - comentou Drusus, a rir.

- Sim - anuiu Ben Hur, lentamente - deves ter razão! Envelheci! Mas não pode ser este companheiro envelhecido a única pessoa que te liga a este país, Drusus!

- Porquê? Levaria muitas recordações de cá; tu e os teus constituem a sua maior parte; além disso, Ben Hur, a ti posso dizer-to, porque em Roma, quando estávamos juntos, não tínhamos segredos um para o outro, o que recentemente se passou aqui, impressionou-me vivamente!

- Que é que se passou?

- Sim, tu sabe-lo melhor do que eu, esse homem que crucificaram há um mês... Tenho a certeza de que compreendes a minha turbação. Subi ao Gólgota no dia em que o mataram. Nenhum de nós se sentia orgulhoso. Sabes o que são os padres judeus que impuseram a sua condenação a Pôncio Pilatos. Por nosso lado, todos nós pensávamos que esse homem não merecia semelhante sorte...

Houve uma pausa bastante longa.

- Ben Hur - disse ainda Drusus - eu vi-o morrer. Nunca um condenado se comportou como ele... Ben Hur, se tudo o que ele disse é verdade, se ele é realmente alguma coisa mais do que um iluminado, um sonhador... Tu, que és judeu, qual é o teu pensamento?

- Drusus, chegamos ao palácio. Vai a minha casa uma destas noites, terei muito prazer em falar contigo.

Transpuseram a poterna que separava da praça o palácio do governador onde estava Pôncio Pilatos. Drusus não disse mais nada, admirado da reserva de Ben Hur.

As duas escoltas detiveram-se diante do edifício da guarda e todos se apearam. Precedendo Ben Hur, Drusus atravessou o pátio, direito à porta do palácio.

- Anuncia ao governador a chegada do senhor Ben Hur - disse ele ao intendente.

O homem inclinou-se.

- O governador deu as suas ordens. Que o senhor Ben Hur entre, logo que chegue...

Como Drusus esboçasse um movimento, o homem ajuntou:

- Só.

- Então, até já, Ben Hur - disse Drusus - espero-te à poterna.

Seguindo o intendente, Ben -Hur atravessou os aposentos do governador, uma vasta sala de recepção, um pátio interior onde os leitos baixos dos ágapes cercavam uma fonte de cerâmica com um perpétuo repuxo de água, mais uma sala, por fim, atrás de um reposteiro, uma espécie de gabinete, pequeno compartimento iluminado por uma única fresta na parede, e onde ainda ardia um pesado archote num tripé de bronze.

- Entra, Ben Hur.

Ben Hur viu Pôncio Pilatos, sentado numa cadeira curul, a indicar-lhe com a mão outro assento diante dele.

- A paz seja contigo, Pilatos.

- Os deuses te protejam.

Os dois homens observavam-se e Ben-Hur notou em Pilatos o mesmo nervosismo que lhe descobrira quando o encontrara à sua chegada à Judeia, na ocasião em que acabava de ser nomeado governador. Bastante magro, com a face amarelada que muitas vezes adquirem as pessoas de climas temperados quando vêm para países mais quentes, lábios incessantemente em movimento, Pilatos, toga branca com larga barra malva, esfregava as mãos uma na outra, agitava-se na cadeira, parecia prestes a falar, depois continha-se, mascarando o seu embaraço com um sorriso contrafeito.

- Mandaste-me chamar, senhor? - disse Bem Hur.

- Sim, tomei essa liberdade. Ben Hur, este país é decididamente estranho. Sabes os esforços que tenho realizado para emendar os... digamos «erros» cometidos pelo meu antecessor, Valério Gratus. A libertação de tua mãe e tua irmã constituem uma prova... A propósito, como vão elas?

- Muito melhor, obrigado.

- Disseram-me que se curaram. No entanto, que eu saiba, a lepra não se cura... Sabes quanto lamentei a miséria que elas sofreram. É preciso - ajuntou Pilatos, de olhos semicerrados, a espreitar a reacção de Ben Hur - que tenham escolhido um mago muito poderoso para se encontrarem saradas.

Ben Hur ficou silencioso e Pôncio Pilatos insistiu:

- Não é verdade?

- Graças a Deus - proferiu Ben Hur - esqueceram os maus anos que viveram e - acentuando o resto da frase - e eu também ...

- Vamos, vamos, tudo está bem - as mãos de Pilatos agitaram-se ainda mais vivamente - Sim - soltou um suspiro demasiado profundo para ser natural - sim, este país é realmente estranho. Faço o que posso e, no entanto, toda a gente me detesta... Oh! Sim, sim! Não protestes - Ben Hur não fizera qualquer gesto - sinto-o bem e, contudo, tento satisfazer toda a gente... O Templo pede-me a vida de um homem, recuso-me a tomar posição e depois diz-se na cidade que eu, Pilatos, e Roma comigo, mandámos matar um inocente. Uns homens pregam de casa em casa uma nova doutrina, são Judeus, e os sacerdotes judeus que no entanto dizem a mesma coisa, embora por outros termos, detestam-nos e pedem-me todos os dias que intervenha contra eles. Entretanto, os cegos desatam a ver e os leprosos curam-se... Dize-me, que devo pensar de tudo isto?

Ben Hur respondeu com um gesto vago.

- Se me confio a ti, filho de Hur, é porque sei que viveste em Roma, que ali contas com poderosos amigos, que podes compreender o assombro de um homem que chega de Itália, desembarcando neste país... Podes então, sem dúvida, guiar-me, informar-me. Tenho necessidade de saber o que pensam as pessoas cultas e razoáveis daqui, de contrário, como poderei governar?

Ben Hur saiu, por fim, da sua reserva:

- Senhor, não me meto nas intrigas da política, só o comércio ocupa o meu tempo e estou muito menos informado do que tu acerca do que se faz e se diz em Jerusalém. Receio não te servir de grande auxílio.

- Recusas-te, pois, a ajudar-me?

- Que ajuda te posso eu dar?

- Podes guiar-me em relação aos pensamentos do teu povo.

- Já to tinha dito, Pilatos, creio que o método brutal não convém à gente de Israel. Tão-pouco a demasiada fraqueza os comove... Mas entre a força e o deixar andar há um meio termo. Os governadores romanos foram sempre ou demasiado duros ou demasiado brandos. Só a posição moderada é aconselhável, mesmo e principalmente se for a mais delicada.

- A prudência, sempre a prudência; mas tu eras menos prudente outrora, Ben Hur!

- Outrora tinha os meus a salvar, a minha honra a defender... Hoje, o meu objectivo está alcançado, sou um simples cidadão de Jerusalém, comerciante de seu estado.

- E o comércio ocupa todas as tuas horas?

- Todas as que não são consagradas nem a Deus, nem à família.

- Está bem - disse Pilatos - desejo-te todas as prosperidades possíveis.

- O teu favor lisonjeia-me.

Pôncio Pilatos levantara-se e Ben Hur imitara-o. Quando este, depois de o saudar, se encaminhava para a porta, Pilatos disse brandamente, como se falasse com ele próprio:

- Roma não pode admitir, num Estado que ela domina, ver-se as pessoas dilacerar-se umas às outras. Será preciso tomar providências de ordem. Desgraçado aquele que for apanhado no clã dos perturbadores. Quem quer que seja, pagá-lo-á caro.

Depois, de súbito, como se notasse bruscamente que não estava só:

- Perdoa-me, Ben Hur, não te cumprimentei... O meu pensamento anda tão ocupado... Os deuses te protejam!

Quando Ben Hur saiu do palácio teve de piscar os olhos perante o sol já muito vivo. Drusus veio ao seu encontro.

- Que te queria ele?

- Não o consigo saber. Maneja a brandura e a ameaça, acha que governar este país é impossível e dois segundos depois afirma uma vontade que parece inabalável... Continua a parecer-se com o que eu conhecia dele.

- É assim com todos - disse Drusus - mesmo connosco. É um inquieto permanente, faz a ele próprio constantes interrogações. Quando tudo corre mal, diz que o perseguem. Quando tudo vai bem, cria incidentes para poder lamentar-se de ser contrariado. Valério Gratus era um bruto, mas, pelo menos, sabia o que queria... Vamos, boa viagem, Ben Hur, e que o teu barco saúde por mim as costas de Itália.

No momento em que Ben Hur, seguido dos seus, passava à porta que, de Jerusalém, se abre para o Norte, deteve-se bruscamente. A um sinal seu, Malluch aproxima-se.

- Malluch - disse Ben Hur - não me acompanhes. Receio qualquer coisa, não sei dizer precisamente o que seja, mas é preciso vigiar. Volta para o palácio e se ocorrer algum acontecimento que te pareça importante, envia-me imediatamente um correio a Cesareia. Vai, Malluch!

O fiel Malluch regressou à cidade.

Havia dois dias que Ben Hur se encontrava em Cesareia. A instalação outrora empreendida por seu pai e continuada por Simónides já era notável, mas Ben Hur ainda a melhorara. O largo caminho que lá conduzia era percorrido por longas filas de mulas e de asnos carregados de caixas e fardos, por cavalos atrelados a pesadas carroças.

Todas as mercadorias eram carregadas por grupos de homens e repartidas pelos entrepostos, segundo o seu destino. Havia amontoados de carga para Roma, outros para Atenas, outros ainda para Antioquia, para Chipre e Rodes e até para a longínqua Marselha.

Os barcos atracavam mesmo ao longo dos armazéns cobertos, diante das mercadorias que esperavam embarque. Assim se evitava aos homens a maior parte dos esforços.

Uma embarcação pertencente a Roma, pesada e ventruda, servida por uma tripulação de dezoito marinheiros, acabava o seu carregamento quando Ben Hur chegou. O príncipe verificara a carga, dera ao capitão as suas ordens para a viagem, revira ainda a organização dos entrepostos. Depois de o navio largar por um mar admirável, Ben Hur preparava-se para regressar a Jerusalém.

- Tornas a partir esta noite, senhor? - inquiriu o chefe dos entrepostos.

- Penso que sim.

- A estrada é longa - disse o homem - mesmo indo depressa. Ser-te-ão, pelo menos, precisas quatro vigílias da noite. Não chegarás antes de amanhã de dia. Tu e os teus farão assim a pior parte do percurso durante a noite. A estrada não é nada segura. Andarias melhor, senhor, em descansar aqui e partir muito cedo amanhã, de manhã.

Ben Hur sentia que o homem tinha razão, mas, desde que chegara a Cesareia, uma grande inquietação se apoderara dele. Não podia afastar do pensamento aquele encontro que Pôncio Pilatos lhe impusera. Com que objectivo exacto? O governador romano conhecia-o muito bem para saber que nunca ele, Ben Hur, aceitaria ser entre os Judeus um observador ao serviço de Roma. Tão-pouco fora para lhe confessar os seus estados de alma que Pilatos o mandara ir ao palácio, recatado de todo o testemunho... E porquê aquela insistência acerca da cura de sua mãe ej de Tirzah? Quanto mais reflectia, mais Ben Hur verificava que não podia sossegar senão depois de achar-se em Jerusalém. Apressou, pois, o regresso, e, ao fim da tarde, seus companheiros e ele abandonaram o porto. Deixando o mar à sua direita, subiram para as colinas da Judeia.

Noite alta, atingiram meio caminho e penetraram no pequeno burgo de Antipátride. Era a paragem habitual e Ben Hur deteve-se na estalagem para alimentar a sua gente e obter cavalos frescos.

A cidade estava totalmente adormecida quando o pequeno grupo se apeou no local, perto do poço. Já um dos servidores batia grandes pancadas à porta da estalagem, mas, ao contrário do costume, em que o estalajadeiro chegava logo às primeiras chamadas, de lampião na mão, foi preciso insistir por muito tempo para que, finalmente, de ambos os lados da pesada porta se estabelecesse o diálogo. E só quando ouviu a própria voz de Ben Hur o estalajadeiro se decidiu a abrir a porta. E ainda o fez com infinitas precauções, como homem cheio de medo.

- Que significa isto, Elzedech? Não nos ouviste?

- Sim, meu senhor - respondeu o homem - mas o dia esteve muito perturbado... Uns homens andaram rondando os jardins da periferia da cidade; ainda os viram esta noite a vaguear por aí e as suas caras não eram nada tranquilizadoras.

- Perguntaram alguma coisa?

- Nada, a ninguém, pelo menos que eu saiba.

- Conhece-los? Sabes quem são?

- Não, mal os vi, mas parece que têm mais o ar de salteadores de estrada que de pessoas tementes a Deus.

- Então, toda a gente se barricou esta noite? perguntou Ben Hur, sorrindo.

- É que nós estamos muito mal defendidos por aqui.

Ben Hur não deixou o homenzinho explicar-se longamente.

- Os cavalos estão na estrebaria?

- E à tua disposição, senhor, como de costume.

A muda dos animais fez-se rapidamente.

- Tenciona regressar agora a Jerusalém? - indagou Elzedech.

- Porque não?

- Mas, senhor, se encontrar esses bandidos, eles são mais de uma dezena, e os senhores são cinco ao todo.

- Um para dois - disse Ben Hur - a proporção é boa. Trata bem os cavalos, Elzedech, e até à nossa próxima passagem!

O estalajadeiro ainda permanecia todo assustado no limiar da porta e já os cavalos, lançados a galope, passavam as derradeiras casas do burgo. Ao atingirem pleno campo, Ben Hur fez um sinal e a cavalgada deteve-se.

- Jovens - disse Ben Hur - o que Elzedech nos contou pode ser uma história de aldeia, mas também pode ser mais sério. Verifiquem as vossas armas, é mais prudente.

Ele próprio moveu na bainha o gládio curto que nunca o deixava fora de sua casa ou de uma casa amiga.

- Se por acaso formos atacados - disse ainda o príncipe - agrupemo-nos imediatamente, costas com costas. O único perigo neste género de questões é que o inimigo nos rodeie. Na expectativa, galopemos perto uns dos outros... Vamos!

Foram assim durante muito tempo e mergulharam numa espécie de vale, marginado de um lado e de outro de bosques sombrios de sobreiros e de pinheiros mansos. Ben Hur ia acautelado.

 

A ESTRADA DE ANTIPÁTRIDE

MAL ele pensara «lugar ideal para uma emboscada», quando, bruscamente, alguns passos adiante, viu três sombras deslizar pelo declive para o meio do caminho. Um olhar à retaguarda: outras sombras também tinham surgido.

Os cavalos empinaram-se e, obedecendo às ordens de Ben Hur, os cavaleiros agruparam-se, formando um círculo. As sombras tardaram um tanto, hesitando, ao que parece, em aproximar-se. De súbito, Ben Hur ouviu um grito:

- É aquele!... Aqui!

Um homem saltou para o príncipe, arrastando os outros. Gládio erguido, Ben Hur debruçou-se e abateu bruscamente a sua arma. Ouviu-se um tinido de ferro. O homem, destramente, protegia o rosto com uma espécie de escudo redondo, e, ágil, esquivou-se para o lado.

Ben Hur apenas teve tempo de avistar um outro adversário que, passando para a sua direita, se esforçava por lhe agarrar a perna. O gládio tornou a abater-se. Desta vez não havia escudo. O estalido foi de ossos que se quebram e o grito estrangulou-se na garganta do homem.

Entretanto, em volta de Ben Hur generalizara-se o combate. Não havia cavaleiro que não tivesse de resistir aos assaltos de um ou dois bandidos. Não eram senão respirações precipitadas, grandes golpes desferidos na sombra, faíscas de ferro contra ferro.

O cavalo mais perto de Ben Hur soltou um relincho de animal ferido. Tentou por um instante manter o equilíbrio, depois vacilou, esventrado, arrastando com ele o seu cavaleiro.

Ben Hur compreendeu que os bandidos atacavam o peito dos animais, a fim de desmontar os seus adversários. Gritou:

- Apeiem-se todos e deixem ir os cavalos!

Dando o exemplo, saltou da sela, caiu a pouca distância do homem que ferira o animal e que, de punhal em punho, procurava agora, na sombra, a garganta do cavaleiro.

Surpreendido, o homem voltou-se. A mão de Ben Hur apertou-lhe o pulso, o homem lançou-se para a frente - o jovem sentiu uma sacudidela no braço direito, o que segurava o gládio... Ao mesmo tempo, a face barbuda, a dois dedos da sua, foi como que tomada de surpresa. A boca abriu-se, soltando uma espécie de estertor, os olhos tornaram-se vítreos e o homem escorregou com todo o seu peso aos pés de Ben Hur. No movimento que fizera para ele, o miserável cravara-se no gládio curto que o príncipe mantinha em defesa na sua frente.

Ben Hur detestava matar, mas nem sequer tivera tempo de pensar. Perto dele, agora que os cavalos largados pelos cavaleiros fugiam em desordem pela estrada, soou um grito e o príncipe viu um dos seus servidores, rosto inundado de sangue, a tentar proteger-se de um dos bandidos, armado, esse, com uma espada. O gládio de Ben Hur partiu com uma precisão temível e o crânio do homem da espada abriu-se sob o golpe como uma melancia que estala.

Apanhando a espada, Ben Hur segurou-a na mão esquerda. Até então, mais não fizera do que defender-se ou defender os seus. Bruscamente, foi tomado de uma espécie de frenesi, e lançou-se na confusão, batendo para a direita e para a esquerda, e fazendo nas fileiras dos atacantes uma terrível carnificina. Em poucos instantes, foi a debandada para os que ficaram de pé. Três fugiram, perseguidos pelos servidores do príncipe. Ben Hur, voltando-se, viu um, o homem do escudo, que procurava confundir-se com a sombra das árvores.

Em três saltos, alcançou-o. Desarmado, o homem levantou o escudo, mas uma espadeirada fê-lo voar a alguns metros com um barulho de ferragem. Encostado a uma árvore, o homem arquejava. Brilhava-lhe o suor no rosto. Ben Hur encostou-lhe a ponta do gládio ao peito.

- Senhor! - bradou o homem - Piedade! - Depois, balbuciando - Pelo amor que consagras ao Nazareno, poupa-me!

A cólera de Ben Hur esmoreceu de súbito, ou antes, tomou outra direcção. Aquela palavra chocara-o. Num instante, tornou a ver o rosto de Jesus de Nazaré e soube que não poderia, com essa recordação, matar a sangue-frio o homem desarmado que estava na sua frente. Ao mesmo tempo, pensava: «Como sabe ele que pertenço à nova religião? Tenho-me sempre escondido até agora... Quem lho disse?»

À exaltação do combate sucedeu nele a fria lucidez.

- Porque me falas do Nazareno? - indagou, com calma.

- Porque - disse o homem precipitadamente - porque sei que o serves.

- Quem to disse? Qual a razão deste assalto? Quem és tu? E quem te enviou?

- Senhor! - gemeu o homem.

- Escuta - disse Ben Hur, de súbito (lançou a espada para trás das costas e, com a mão esquerda livre, agarrou o fato do homem e ergueu de repente para ele aquele rosto desfigurado pelo terror) - Nada tens a perder... Se te recusas a falar, rasgo-te a garganta...

- E se eu falar - disse o homem - perdoas-me?

Uma voz disse, junto de Ben Hur:

- Mas eu conheço-o. É Mosché, anda sempre junto do Templo em busca de alguma tarefa torpe.

- Junto do Templo - disse Ben Hur (a sua voz mais surda era glacial) - E então?

- Então, senhor, foi alguém muito ligado ao Templo que me disse para reunir homens decididos e vir aqui... Também me disse que era preciso que tu não voltasses vivo a Jerusalém.

- Esse homem actuava sob uma ordem. Ordem de quem?

- Não sei...

- Sim? Não fazes a menor ideia? Bem, como não te resolves: Vamos! O que me dizes não tem o menor interesse.

A lâmina do gládio tocava a garganta de Mosché.

- Não! - bradou este - Não! - Depois, num sopro - Foi à ordem de Caifás...

- Como te chega a memória! Mas como sabem eles que sirvo o Nazareno?

O homem baixou os olhos.

- Mandam seguir constantemente aqueles que estavam com ele. Viram Simão, o pescador, entrar em tua casa.

- É isso uma razão suficiente? Porque não se apoderaram de Simão?

- Porque... porque têm medo. Diz-se que os discípulos fazem milagres... Têm então medo de lhes tocar, não tome o povo partido por eles.

- Qual é o seu plano?

- Atacar todos os que ajudam os discípulos... Pensam que assim ninguém mais quererá vê-los, que ficarão isolados e desanimarão.

- Estás encarregado dos atentados?

- Eu, não - disse Mosché - mas sei que ontem um tal Daan devia encarregar-se do velho Simónides.

- Miseráveis! - exclamou Ben Hur.

- Senhor! - gemeu o homem - Eu disse tudo. Poupa-me.

Ben Hur largou-o.

- Foge... Vai! Porque esperas?

- Senhor! - lamuriou Mosché - Se voltar a Jerusalém, são eles que me matam por ter falhado no que devia ter realizado.

- Que me importa! - replicou Ben Hur.

Quando o homem, cambaleante, se afastava, chamou-o subitamente:

- Espera... Sabes bem o que devia fazer de ti. Não o pude, justamente por causa do Nazareno... Não te matei, que era o que faria de melhor. Escuta, vai para Cesareia, apresenta-te ao chefe do nosso entreposto e dize-lhe da minha parte que te embarque em um dos nossos barcos para a Grécia. Aí, encontrarás comunidades judaicas, não estarás só, e assim os do Templo já não te encontrarão.

- Senhor - pronunciou o homem (e havia na sua voz uma imensa surpresa) - Senhor, se me fazes isso, passarei doravante a ser da tua devoção...

- Está bem. Vai-te!

O homem olhou-o longamente.

- Senhor Ben Hur - disse ele (sua voz tornou-se de súbito grave e calma) - onde quer que eu esteja e queiras tu o que quiseres, não terás senão de dizer uma palavra para que eu te obedeça...

Em seguida, rodou sobre os tacões e, caminhando como um sonâmbulo, tomou o caminho que conduz ao mar.

- É meter o verme no fruto - resmungou o servidor de Ben Hur que reconhecera Mosché.

- Assim o julgas? - disse o príncipe - Veremos...

Ben Hur aproximou-se do pequeno grupo: dois dos servidores seguravam aquele que fora ferido nas primeiras fases do combate.

- Grave? - indagou Ben Hur.

- Não, senhor, um golpe na cabeça, o osso não foi atingido. Só perdeu muito sangue...

- Não agarrámos os outros? - perguntou o príncipe.

- Sim, os três. Está o caso arrumado.

Ben Hur compreendeu, pelo tom em que o homem falava, que ele não tivera a sua brandura.

Quando se esforçavam por reagrupar os quatro cavalos que restavam, ouviram o rumor de um galope no caminho dos lados de Jerusalém.

- Mais alguma coisa! - disse um dos homens. Mas o que estava mais longe bradou:

- É Malluch!

Malluch! Ben Hur pensou bruscamente nas palavras de Mosché: «Alguém, um tal Daan, devia ocupar-se de Simónides...» E Ester? E sua mãe e Tirzah? Para que Malluch viesse ao seu encontro, era preciso que um acontecimento grave se tivesse produzido!

- Que sucedeu? - perguntou Malluch - Foram assaltados?

- Enviados de Caifás - explicou um dos servidores - que vieram dar-nos as boas-vindas.

- Não perderam o seu tempo - comentou Malluch, simplesmente.

- Simónides! - Ben Hur pronunciara este nome quase brutalmente.

Malluch sorriu.

- Sossega... Tentaram ontem à noite!

- Um chamado Daan?

- Como sabes isso, senhor?... Aliás, pouco importa .., Desse, nem Simónides nem ninguém tem mais nada a recear.

- Está, pois, salvo!... E Ester?

- Passa tão bem quanto possível e tudo se prepara para o vosso casamento.

- E a mãe?... E Tirzah?

- É da parte delas que venho falar-te - respondeu Malluch, subitamente grave. E vendo a fisionomia do Príncipe mudar - Acalma-te, estão de perfeita saúde... e em liberdade.

- Vem cá, Malluch, conta-me o que se passou. No entanto, espera um momento!... Vós dois - disse ele, apontando dois servidores - montem a cavalo e conduzam o ferido a Antipátride. Confiem-no a Elzedech. Que o conserve e trate na sua estalagem. Depois, voltem a reunir-se connosco e continuaremos para Jerusalém. Ah! Sirvam-se do cavalo de Malluch para levar o ferido e troquem-no por um cavalo fresco na hospedaria. Agora, Malluch, fala!

- No dia seguinte à tua partida - contou Malluch - eis que Pôncio Pilatos, que raramente deixa o seu palácio ou a torre Antónia, sentiu necessidade de tomar ar. A sua liteira era escoltada por toda uma coorte romana e, facto curioso, o seu passeio arrastou-o para o teu palácio.

- Para o meu palácio?

- Sim... Chegado aí, sentiu necessidade de desentorpecer as pernas. Desceu da liteira, caminhou ao longo dos seus muros e como notasse flores muito belas, transpôs a entrada, quis ver mais e desejou ver a tua casa.

- Que quer isso dizer?

- Pôncio Pilatos entrou, pois, recebido por tua mãe, que lhe mostrou os jardins, as flores que ele queria ver. Depois, convidou-o (não podia proceder de outra maneira) a tomar um refresco... Então, ele tagarelou... Disse do seu desgosto pelo tratamento que Valério Gratius lhes tinha feito sofrer, a ela e a Tirzah, também da sua alegria por vê-las curadas... Falou da sua própria saúde, dizendo que era bastante precária devido a todas as suas preocupações (parece que estás a ouvi-lo dizer isto), e não poderiam elas, com a sua grande bondade, indicar-lhes o nome do mago que as curara?

- Aí está a razão!

- Exactamente! Conheces a sinceridade, a franqueza com que tua mãe fala.

- E disse-lho?

- Contou-lhe toda a sua cura e nem sequer lhe ocultou o seu reconhecimento pelo Nazareno, o seu amor pela Sua Memória, e o respeito que tinha por tudo o que Ele dissera...

- Soube assim em poucos instantes...

- O que tiveste tanto trabalho em ocultar na véspera. Sim. meu senhor!

- Mas, como soube ele que eu estava longe de Jerusalém?

- Como sabes, ele tem artes de fazer falar as pessoas, conversou a teu respeito com Drusus, perguntando como iam os teus negócios e se viajavas muito. O outro não viu mal em dizer-lhe que estavas em Cesareia.

- Muito bem! - disse Ben Hur - Aí está, pelo menos, uma situação clara! Os fariseus e a gente do Templo sabem em que eu creio e por isso querem mandar-me assassinar. Pilatos também sabe agora que sou partidário de Jesus.

- E sem dúvida mandará arremessar-te para uma prisão...

- Para isso precisará de uma razão válida.

- Encontrá-la-á.

- Assim o julgas? Não te esqueças, Malluch, de que sou cidadão romano e que só os tribunais de Roma são competentes para me julgar. Será preciso que Pilatos possa provar contra mim alguma coisa de grave para me fazer conduzir a Itália entre dois guardas...

- Um crime, por exemplo - lembrou Malluch, e olhava os corpos dos bandidos atravessados no caminho.

- Por exemplo - repetiu Ben Hur. Após uns instantes de silêncio, ajuntou - Creio que fiz bem em mandar esse Mosché para o diabo, algures; se tivesse regressado a Jerusalém e falasse, Pôncio Pilatos acharia o seu pretexto. Em todo o caso, uma coisa é certa: agora, torna-se inútil ocultar os nossos sentimentos...

Como os dois servidores regressaram com um cavalo fresco para Malluch, retomaram todos o caminho de Jerusalém.

Estava próximo o dia do casamento de Ester e Ben Hur. Quando o príncipe regressou a Jerusalém, ficou surpreendido de encontrar o pátio interior do palácio cheio de cavalos, de asnos e de liteiras pousadas no solo. Das cozinhas vinha o ruído de vozes de numerosos criados. Nos aposentos do terraço, ao cimo da escada, uma vintena de pessoas, primos, primas, tios e tias, já estavam reunidos em volta da mãe de Ben Hur e de Tirzah. Depois de cumprimentar cada um, Ben Hur, abstendo-se de falar do atentado da estrada de Antipátride, pretextou a fadiga da viagem para se retirar. Ouviu pela noite adiante o grupo dos parentes tagarelar nas salas do palácio, mas não tentou compreender uma frase precisa daquele murmúrio de vozes. Tudo o que não fosse Ester achava-se agora longe do seu espírito.

De Ester conhecia ao mesmo tempo a suavidade, a grande ternura e a coragem indomável que mantinha diante do perigo. Sabia que era pura e inteiramente devotada à sua pessoa, que a sua honestidade não tinha mácula e o seu sentimento do dever não fraquejava. No entanto, interrogava-se: chegaria a torná-la perfeitamente feliz? Ben Hur já não era uma criança. Sabia que uma mulher não pode satisfazer-se com uma presença, mesmo a mais atenciosa. Ora, Ester, casando com aquele que amava com uma afeição exclusiva, sem dúvida esperava dessa união uma mudança completa da sua vida. Bem depressa ela se aperceberia de que o casamento não consagra apenas os laços do espírito e do coração.

Qual seria o comportamento de Ester perante essa união? E qual seria o comportamento dele, Ben Hur? Encontrariam um no outro uma total comunhão ou, dentro de dez anos, seriam semelhantes àqueles esposos, como Ben Hur conhecia, que só o hábito e a preocupação das conveniências conservam unidos em aparência? Bastava, porém, a Ben Hur tornar a ver o rosto e o sorriso de Ester, os olhos de Ester, para que todos os seus receios desaparecessem e saboreasse plenamente aquelas horas que ainda o separavam dela.

De manhã, a família reunida dirigiu-se para casa de Simónides. Simónides e Ester não tinham mais parentes. Apenas estavam presentes alguns criados com o fiel Malluch à frente, e foi a este que Ben Hur se dirigiu primeiro.

- Não me esqueço, meu caro Malluch, de que é a ti que Ester e eu devemos ter-nos encontrado. Fica, pois, connosco neste dia, tu mais do que qualquer outro.

Malluch, olhos brilhantes de lágrimas, não pôde responder uma única palavra. O rabino entrou. O rabino Samuel era um homem justo e muito instruído nas coisas da Lei. Segundo o costume judaico, exercia um ofício manual: era tamanqueiro e pai e avô de numerosos filhos e netos.

Vestido de preto, colocou-se debaixo de um pálio erguido no meio da vasta sala e, voltando-se para Ben Hur, disse:

- Vá, meu filho.

- Simónides - pronunciou Ben Hur, segundo, a fórmula então em uso - vim a tua casa para que me pudesses dar em casamento a tua filha Ester. Com tua autorização, ela será minha esposa e eu serei seu marido a contar de hoje e para sempre...

- Ben Hur - replicou Simónides - abençoado sejas pelas alegrias que me deste e por aquelas que me dás hoje. Ester, eis o teu senhor, sei que ele será primeiro teu amigo.

Depois, fez um sinal ao rabino e este, colocando os jovens, um de cada seu lado, começou a oração:

Senhor, protege estes dois e conserva-os unidos para tua maior glória. Faze com Que eles fiquem fiéis aos teus mandamentos. Faze, Yahvé nosso Deus, com que honrem seus pais e mães, conforme tu o ordenaste. Faze com que eles sejam felizes sobre a terra que lhes dás, que nenhum deles mate ou cometa adultério, que nenhum roube nem levante contra o seu próximo falsos testemunhos. Que não deseje o esposo ou esposa do próximo. Que não inveje a casa do seu vizinho, nem o seu campo, nem o seu escravo, nem a sua criada, nem o seu boi, nem o seu asno, nem nada que lhe pertença.

Abençoa pois a sua união, Yahvé nosso Deus, e que eles permaneçam fiéis para tua maior glória.

Ben Hur, erguendo os olhos, viu na pequena multidão de parentes e de amidos o pescador Simão-Pedro. De mãos postas, também ele orava em voz baixa e Ben Hur sabia que ele se volvia para aquela Presença, ainda tão próxima, que era a de Jesus.

O grande pátio do palácio dos Hur estava essa noite iluminado por centenas de tigelinhas cheias de azeite em que ardia uma mecha. Os servidores tinham-nas disposto ao longo das balaustradas e cornichas, nos parapeitos das janelas, a fim de sublinhar cada pormenor da arquitectura.

Todo um lado do pátio, o que dava para as cozinhas, estava ocupado por uma mesa enorme. Aí, ao abrigo de um vasto toldo azul, decorria a refeição das bodas.

Na outra parte do pátio, ranchos de mancebos e raparigas, havia horas que formavam os círculos e as figuras das tradicionais danças judaicas.

- Vai ser assim durante três dias - disse Simónides a Ben Hur - Durante três dias, estas danças, estes cantos e estes ágapes expulsarão toda a intimidade da tua casa. Suponho que isso não vos encantará muito, a Ester e a ti.

- É verdade... Pensei de início em levar Ester para Cesareia, mas o facto de abandonar Jerusalém não seria mal interpretado pelos nossos parentes?

- Também eu - disse Simónides, a sorrir - pensei numa coisa. Talvez o saibas, há anos já, adquiri uma casa nos subúrbios... É uma moradia calma, cercada de um grande jardim, no limite extremo dos lugares habitados, no caminho que leva a Emaús. Julgo que Amrah e Tirzah souberam do meu projecto: há dias que elas para lá se dirigem acompanhadas de servidores e tenho a impressão de que encontrareis ali, a um tempo, o sossego e uma casa bem organizada... Podíeis ir para lá já esta noite...

- Caro Simónides - perguntou Ben Hur - como arranjas tempo para pensar em pormenores como esses?

- Pormenores? Não são pormenores casar uma filha! Vamos, meus filhos, boa noite! Que a noite vos seja doce.

Foi, pois, para a casa dos subúrbios que Ben Hur e Ester se dirigiram a cavalo na noite de núpcias. O sol já desaparecera no ocaso, havia algumas horas. Surpreendeu-se Ben Hur de ver aquela casa, que ele julgava deserta, cheia de luzes acesas. Empurrou a porta e afastou-se para deixar entrar Ester. Soltou um grito de alegria: na antecâmara, Amrah inclinava-se numa vénia. Cercavam-na três outras mulheres da casa dos Hur. Enquanto levavam sua ama para lhe mostrar as transformações realizadas em cada compartimento, Ben Hur ouviu vozes que vinham do subsolo. A casa estava construída num declive e, entrando-se por um rés-do-chão pela frente, encontrava-se num primeiro andar no lado das traseiras, e instalara-se uma grande cozinha na parte baixa. Ben Hur desceu sem ruído a escada de pedra que conduzia a esse compartimento e deteve-se atrás de uma porta. Os ruídos tornavam-se cada vez mais nítidos, provocados por vozes de homens que tagarelavam e riam. O Príncipe empurrou bruscamente a porta e descobriu Malluch e quatro dos seus homens abancados a uma mesa posta e ornamentada com numerosos canjirões de vinho.

- Julgava esta casa desocupada - disse Ben Hur.

- Perdão, senhor, mas Simónides deu ordens formais - respondeu Malluch, levantando-se - Devemos ficar junto de ti e velar pela segurança de vós ambos. Simónides continua a recear um golpe dos nossos inimigos e devemos confessar que esta moradia isolada é para eles bem tentadora. É verdade - ajuntou Malluch, baixando a voz - que Simónides nos recomendou que fôssemos discretos.

Rindo-se, Ben Hur pegou num copo e bebeu com eles, depois ficou combinado que os homens se instalariam num pequeno pavilhão, ao fundo do jardim. Dois deles, por turnos, efectuariam rondas ao longo dos muros, pelo menos durante a noite.

- Boa noite, senhor - disse Malluch - e que nada vos inquiete a Ester e a ti.

Ao sair, o príncipe encontrou a antecâmara deserta. A luz vinha de um único aposento ao fundo da casa. Aí encontrou Ester, que Amrah deixava.

Os cabelos soltos, caídos pelos ombros, o longo vestido leve que envergava e que lhe modelava as formas, as luzes que iluminavam o aposento faziam de Ester uma figura quase irreal, e Ben Hur julgou-a mais bela do que nunca.

- Sabes o que eu dizia a Amrah? - proferiu Ester, brandamente - Dizia-lhe que desejava que este momento em que te esperava durasse todo o tempo da minha vida.

- Tens medo de que eu esteja ao pé de ti?

- Não, bem o sabes. Mas a hora mais doce é aquela em que se esperam os passos de quem se ama... Ben Hur, já em Roma, no instante em que te vi, desejei pertencer-te, e foi-nos preciso aguardar alguns anos. Devo fazer-te uma confidência: de cada vez que vinhas ver meu pai, espreitava-te detrás das cortinas. Todas as manhãs te via entrar no pátio.

- Agora, Ester, não terás mais necessidade de te dissimulares.

- Acreditas que um amor nascido no sofrimento seja mais forte do que qualquer outro?

- Não sei, mas há uma coisa de que tenho a certeza desde que te conheço. Nunca mais pude aproximar-me de uma mulher, nem sequer ter algum pensamento para outra. É preciso que sejas muito forte, Ester, para assim apagares outro desejo.

- Ben Hur - confessou Ester - junto de ti não tenho mais pudor nem constrangimento. Quero que sejas completamente feliz.

- Não creio que possa haver crime na união de dois seres que se escolheram livremente, que se uniram perante Deus - disse Ben Hur - Mas, confesso-te, desde há uns dias, apesar da alegria que experimento, receio certas horas...

- Quais?

- Aquelas em que deverei deixar-te, pelo meu trabalho, pela nossa Fé. Também eu, Ester, de todo o meu coração, do fundo de minha alma, desejo a tua completa felicidade; mas, por vezes, pergunto a mim mesmo se a ideia que disto formam as mulheres tem em conta as próprias circunstâncias da vida.

- Que queres dizer?

- Sim! Uma mulher que ama quer que aquele que escolheu esteja sempre junto dela e lhe consagre todo o seu tempo... E pensei que...

- Ben Hur - disse Ester, sorrindo - julgas-me assim tão fútil e tão egoísta? Esperei-te durante anos. Suceda o que suceder, esperar-te-ei sempre... Não penses mais nisso; esta noite, afasta tudo o que não seja nós dois. O amanhã virá bem depressa. Agora, temos o direito de pensar só em nós...

Essa noite, Ben Hur viu a sem-razão dos seus receios e soube que Ester não viveria senão nele e ele nela. até o último alento de sua vida.

Ali permaneceram oito dias, rodeados de Amrah, de Malluch e dos seus homens, quase sem os verem, tanta a discrição que estes imprimiam ao seu serviço. Depois, tiveram de voltar a Jerusalém e retomar, após aquelas horas de ventura tranquila, as apoquentações daqueles perturbados tempos.

- Para que serve dissimular as nossas crenças? - disse Ben Hur a Simónides - Além de haver nisso uma parte de cobardia, seria inútil ocultar os nossos pensamentos, visto que toda a gente os conhece, quer no Templo quer no palácio de Pilatos.

Assim, Ben Hur e os seus recebiam abertamente aqueles que tinham sido os Apóstolos de Jesus. Muitas vezes, à noite, reuniam-se em casa de Simónides e procedia-se à partilha do pão, tal como o Mestre fizera na véspera da Páscoa, na presença dos Doze: «De cada vez que fizerdes isto, fá-lo-eis em minha memória...» A maior parte das vezes, Pedro repetia estas Palavras e todos, revendo na memória o vulto, o rosto e o olhar de Jesus, retiravam-se confortados.

No entanto, Malluch velava. Inúmeras vezes algumas sombras tinham seguido os Apóstolos até casa de Simónides ou até o palácio dos Hur. Por diversas vezes, na terra mole do pequeno jardim, cercado de um alto muro, se notaram pegadas que não eram dos familiares da casa.

Todas as vezes que os construtores da nova fé chegavam a casa do velho mercador, Malluch e os seus homens deslizavam na sombra do jardim e vigiavam.

Aquela noite, a sua expectativa foi de curta duração e quando Pedro, rodeado de Simónides, de Ester, da mãe de Ben Hur, de Tirzah e de alguns amigos de confiança, recordava o que vira nos caminhos da Judeia, Malluch deslizou até a cadeira onde Ben Hur escutava. Notando-o, o príncipe compreendeu que alguma coisa sucedera e, levantando-se discretamente, seguiu Malluch até o corredor.

- Estão aí - disse o servidor - São dois, transpuseram o muro e, pelo jardim, aproximam-se da casa. Querem certamente ouvir o que se diz aqui.

- Está bem! - disse Ben Hur.

Saíram do peristilo tão silenciosamente quanto possível e, dando volta a uma parte da casa, acharam-se na esquina que dava para o jardim. A noite estava muito sombria e, de início, não viram senão o habitual. No entanto, um movimento que se fez nuns arbustos alertou Ben Hur; aliás, no mesmo instante a mão de Malluch pousava no antebraço do príncipe, prova de que também ele notara alguma coisa de anormal. Decorreu um lapso bastante longo; no local onde se encontravam, Ben Hur e Malluch ouviam o murmúrio de vozes calmas dentro de casa. Levantara-se um vento leve que imprimia a cada árvore, a cada arbusto, a cada tufo de flores e de folhas, um brando balanceio.

Notaram mais um deslizar na folhagem. Com certeza, alguém se aproximava das janelas. Ben Hur e Malluch ficaram perfeitamente imóveis e, à força de perscrutar a obscuridade, avistaram o vulto do homem: curvado, mantinha-se no limite da parte plantada.

Separava-o da casa a largura de uma álea. Como o vento arredasse as nuvens, o luar espalhou-se rapidamente pelo jardim. O homem surgiu então e Ben Hur viu-lhe as feições. Não lhe recordaram ninguém conhecido. No momento em que o luar ia atingir a esquina de onde espreitava, o príncipe avançou bruscamente um passo para o homem; este recuou vivamente, mas, de um salto, já Malluch se encontrava atrás dele.

Ouviu-se ao mesmo tempo, no fundo do jardim, na ruela, o ruído de um galope e de folhas agitadas, e a voz de um servidor dos Hur a dizer:

- Passou o muro!...

Voltou o silêncio ao jardim, mas um silêncio carregado de ameaças. Ben Hur observava o homem que tinha na sua frente. De baixa estatura, ostentava um rosto alterado, apaixonado. Teria trinta ou trinta e cinco anos, idade aproximada da de Ben Hur. À surpresa do primeiro momento não sucedera o medo nas suas feições, mas antes uma fria determinação; e o olhar pousado em Ben Hur era como que de desafio.

- Quem te mandou? - inquiriu Ben Hur.

- Julgas que não posso guiar-me sozinho? - respondeu o homem.

- Fazes espionagem por conta própria?

- Gosto de conhecer certos usos...

- Os homens que seguem a Lei de Jesus interessam-te especialmente?

- Tu o disseste!

- Surpreendo-te de noite em minha casa... Sabes a que te arriscas?

- Podes bater, estou pronto.

- Nunca matei senão homens que tivessem armas na mão contra mim...

- Não tenho armas - replicou o homem - e, mesmo que as possuísse, não me seriam de qualquer utilidade. Nunca manejei uma espada.

As réplicas encadeavam-se, breves, na noite. Dos três homens nenhum se movia.

- Tens-nos então um grande ódio? - indagou Ben Hur.

- Odeio tudo o que possa enfraquecer a grandeza de Israel.

- Não sabes que tudo o que é grande em Israel provém de Deus?

- Sim, de um só Deus e não de um falso profeta.

- Conheceste o Nazareno?

- Nunca o vi; há dez dias ainda eu estava nos territórios gregos...

- E pretendes julgar o que ignoras?

- Julgo segundo a minha consciência.

- A consciência de um homem é muito fraca para julgar tais acontecimentos.

Houve uma pausa. A sombra de Malluch continuava atrás do homem.

- Como te chamas? - indagou Ben Hur.

- Saul de Tarso.

- Não são sentimentos amistosos que te impelem a seguir os apóstolos do Nazareno?

- Evidentemente! Já te disse que não posso tolerar os que dividem Israel!

- E ninguém te enviou aqui?

- Pela Lei to juro...

- Vens aqui sem armas - disse Ben Hur, após um curto silêncio - e não és um ladrão. Aliás, o que procuras não está escondido. Faço votos para que o descubras num dia próximo... Entretanto, segue o meu conselho: não tornes a aparecer mais neste jardim, porque dessa vez não atingirás vivo o lugar onde te encontras!

O homem não pareceu nem comovido nem grato, pelo contrário, fixando o príncipe nos olhos, declarou:

- Se um dia estiveres em meu poder, Ben Hur, fica sabendo que não terei a tua bondade.

- Ou a minha fraqueza, não é verdade? - ajuntou Ben Hur - Matar, a sangue-frio, alguém que nada quer compreender, nada acrescentaria à minha glória... Vai! Apesar da tua insolência, desejo que Deus te ilumine.

E quando o homem abria de novo a boca:

- Vai-te!

A palavra estalou secamente. Saul sentiu sem dúvida que a paciência do príncipe atingia o seu termo, porque, sem nada mais ajuntar, voltou-se. Achou-se diante de Malluch...

- Sai pela porta - resmungou Malluch - Ficarás com a ilusão de ser um homem honesto.

E agarrando-o brutalmente por um braço, arrastou-o para diante da casa.

Ben Hur ouviu o bater da pesada porta. Ainda estava imóvel quando Malluch regressou.

- Andei mal, não é verdade, Malluch?

- À primeira vista, sim, meu senhor. Mas, apesar da tua pouca idade, tenho muitas vezes aprendido a ser prudente a teu lado... Este homem tem uma certa coragem e creio que não é um desses famélicos, como Mosché, que os homens do Templo empregam em torpes tarefas.

- Alguma coisa me diz - pronunciou Ben Hur, como se falasse com ele próprio - que tornaremos a ver este Saul de Tarso.

Quando tornou à sala, o Apóstolo Pedro dizia, citando as Palavras de Jesus: «Quanto a vós que me escutais, eu vo-lo digo, amai os vossos inimigos, fazei o bem a quem vos odiar, abençoai os que vos amaldiçoarem, orai por aqueles que vos caluniarem... e sereis filhos do Todo Poderoso.»

Ben Hur ficou sabendo que procedera como devia proceder.

Tinha chegado o tempo do Pentecostes. Nesse dia celebrava-se o Dom da Lei que fora feito a Moisés no 50º dia após a milagrosa saída do Egipto do povo judeu... A essa recordação juntava-se o símbolo da «Festa das Primícias».

Desd manhã, dirigia-se cada um ao Templo, levando este os primeiros frutos dos seus campos, aqueles dois pães fermentados, feitos de flores de frumento, que se ofereciam ao Senhor como promessas da nova colheita.

Uma imensa multidão desfilava, desde o alvorecer, para o Santo dos Santos. Com o calor do meio-dia, aquela massa afrouxou pouco a pouco, depois dispersou-se e a calma voltou às ruas, uma calma semelhante à dos dias de Sabbat, em que cada um, metido em sua casa, consagra a Deus em família.

Ben Hur regressava ao seu palácio, vindo de casa de Simónides. Quisera vir a pé, sem escolta, nesse dia de festa. Viu de súbito pessoas a correr, interpelando-se e gritando. Iam na direcção da casa do Cenáculo, muito perto do túmulo de David, e Ben Hur sabia que os Apóstolos estavam ali reunidos. Receou uma nova patifaria dos padres ou dos escribas e pensou que o povo se amotinava contra os servidores de Jesus. Lançou-se em corrida e aproximou-se da casa. A estreita ruela estava cheia, bem como a pequena praça onde se abria a porta baixa, mas a turba não tinha ar hostil. Alguns, reconhecendo o príncipe Hur, saudaram-no e, afastando os outros, deram-lhe lugar. Aproximou-se da casa, de cabeça erguida para ver melhor. Um homem disse-lhe:

- Eles falam e aqueles homens, que são estrangeiros, todos os compreendem!

E uma mulher:

- Parece que estavam reunidos naquela casa e eis que sopra um vento e ouve-se muito barulho e aparecem línguas de fogo sobre cada um deles, e eis que eles começam a falar!

A mulher continuava o seu discurso, enquanto Ben Hur atingia o limiar da casa. Então, viu Pedro e os onze Apóstolos a falarem entre grupos, e, com efeito, cada um deles parecia ser compreendido por pessoas que falavam uma linguagem diferente, a língua dos Partas e dos Medas, dos Elamitas e dos Mesopotâmios, da Judeia, da Capadócia, de Ponto, da Ásia, da Frígia, da Panfília e do Egipto, da Líbia Cirenaica, da Creta e da Arábia, e todos os estrangeiros vindos de Jerusalém pelo Pentecostes se admiravam, ao mesmo tempo que os Romanos de passagem, de ouvir falar as suas línguas por simples operários da Galileia.

No entanto, um homem gritou de entre a multidão:

- Estão bêbedos, digo-vos eu, beberam a mais, estão embriagados!

Então, Pedro fez sinal de que queria falar. Logo se estabeleceu um silêncio nas primeiras filas, que ganhou toda a assembleia, e, como faria uma vaga ao embater no declive de uma praia, espalhou-se até o fundo da ruela.

- Judeus - disse Pedro - e vós todos que vos encontrais em Jerusalém, tenho uma coisa a dar-vos a conhecer. Apurai o ouvido às minhas palavras. Estes homens não estão bêbedos como julgais. Mas eis o que foi dito pelo profeta Joel: «Sucederá nos últimos dias, disse Deus, que eu espalharei o meu Espírito por toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões e vossos velhos, sonhos. Sim, pelos meus servidores e servidoras, nesses dias, espalharei o meu Espírito, e eles profetizarão. Realizarei prodígios em cima, no céu, e sinais em baixo, na terra, sangue, fogo, uma nuvem de fumo. O sol mudar-se-á em trevas e a lua em sangue, antes de que venha o dia do Senhor, grande e glorioso. E quem quer que evoque o nome do Senhor será salvo.»

«Judeus, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, esse homem que Deus acreditou junto de vós para os milagres, os prodígios e os sinais operados por Ele no meio de vós, como o sabeis, esse homem que vos foi entregue, segundo os desígnios e a presciência de Deus, vós o atastes à cruz e o fizestes morrer pela mão dos ímpios. Mas Deus ressuscitou-o, desatando os laços da morte, porque não era possível que ficasse em seu poder, tendo David dito a seu respeito: «Eu tinha o Senhor sempre presente diante de mim; encontra-se à minha direita para eu não tergiversar. É por isso que meu coração rejubila, minha língua está cheia de alegria, e a minha carne repousa na esperança, porque não deixareis que a minha alma seja abandonada ao desespero e não permitireis que o vosso santo veja a corrupção. Vós me fizestes conhecer o caminho da vida, e encher-me de alegria com a vossa presença.» Meus irmãos, que me seja permitido dizer-vos com toda a liberdade, o patriarca David morreu e foi sepultado, e o seu túmulo está hoje aqui junto de nós. Como ele era profeta e sabia que Deus lhe prometera por juramento fazer sentar um dos seus filhos no seu trono, foi nesta previsão que ele falou na Ressurreição de Cristo, dizendo que Ele não seria abandonado e que a Sua carne não conheceria a corrupção. É este Jesus que Deus ressuscitou, e nós somos testemunhas disso. Uma vez elevado à direita de Deus e posto por seu Pai na posse do Espírito Santo, objecto da sua promessa, é Ele o autor destas efusões que estais a ver e a ouvir. Que não é David quem subiu ao céu, é ele em pessoa quem o diz; «O Senhor disse ao meu Senhor: sentai-vos à minha direita até que eu faça de vossos inimigos o escabelo de vossos pés. Que toda a casa de Israel o saiba.» Não há, pois, que duvidar, Deus fez Senhor e Cristo este Jesus que vós crucificastes.»

Ben Hur voltou-se para a esquerda e viu que muitos estavam comovidos. Brilhavam lágrimas nos olhos. A voz de um velho ergueu-se acima do surdo rumor:

- E nós, irmãos, que devemos fazer?

Pedro respondeu:

- Fazei penitência e que cada um de vós receba o baptismo em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados. Recebereis então os dons do Espírito Santo. Porque a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos aqueles que, ao longe, escutam o apelo do Senhor, nosso Deus.

Quando Ben Hur se afastava lentamente, empurrado pelo fluxo e refluxo da multidão, uns levados para os Apóstolos, outros retirando-se a comentar o que acabavam de ver, ainda ouviu a voz de Pedro:

- Salvai-vos desta geração perversa!

Ben Hur retomou o caminho do seu palácio. Sua mãe, a quem contou, assim como a Ester e a Tirzah, os factos de que acabava de ser testemunha, disse apenas:

- Bem disse Jesus aos Apóstolos: «Ide e ensinai todas as nações...» Como poderiam eles fazê-lo, se não fossem ouvidos em todas as línguas dos homens? O Mestre proporcionou-lhes hoje os meios de seguirem o Seu Mandamento - E ajuntou - Gerações e gerações nos hão-de invejar por tudo o que presenciamos aqui.

 

O CAMINHO DE DAMASCO

BEN HUR conversava com Simónides, certa tarde de Junho. Era pesado o calor e violento o sol nas colinas rochosas de Jerusalém. O povo procurava refúgio nas ruas estreitas da velha cidade, as pessoas deslocavam-se lentamente ao longo dos altos muros e, de cada vez que deixavam a sombra, marchavam mais depressa para atravessar as placas de sol das praças e das encruzilhadas.

- A saúde de minha mãe inquieta-me - disse Ben Hur - Sofre de vertigens e de umas poucas de perturbações. Tu conheces, caro Simónides, a sua coragem e a sua actividade. Há uns dias que não a reconheço. Fica prostrada horas inteiras, não sai e não abandona o seu quarto senão para as refeições. E, mesmo durante estas, permanece distante e como que ausente entre nós.

- Um homem muito sabedor na arte da medicina aliviou-me bastante - disse Simónides - Soube acalmar-me as dores depois das torturas que me aplicaram os Romanos... Se quiseres, mando-o lá para a ver.

- Manda-o, por favor, mas receio que o mal não esteja apenas no seu corpo.

- Também o julgo: há dias, veio fazer-me uma visita. Os velhos têm certas afinidades, de melhor vontade trocam confidências entre eles do que com os mais jovens, mesmo que estes lhes sejam muito queridos. Com a idade, vem sempre o receio de incomodar, de maçar, de ser um encargo e uma preocupação.

- Que te disse ela?

- Oh! Nada de preciso. Não sabe ela própria definir a angústia que a sufoca, mas é mulher, Ben Hur, e sente melhor do que nós a aproximação dos perigos imprecisos. Experimenta receios que não pode concretizar. Embora lho tivesses ocultado, soube da emboscada da estrada de Antipátride, sabe-te ameaçado, conhece os teus sentimentos pela nova igreja e que, ao mesmo tempo, te expõem ao ódio dos Romanos e ao dos sacerdotes do Templo.

- Condena-os em seu coração?

- Bem sabes que não! Receia por ti, por Ester, mas aplaude-vos.

- Minha mãe nunca me aconselharia a ir contra a minha consciência.

- Certamente, mas sofre com tudo isto... A morte de Jesus, depois de a ter curado, já a afectara terrivelmente e teme para ti e para os teus amigos uma sorte semelhante. Foi ela quem mo disse...

- Obrigado, Simónides. Manda-lhe esse médico de que falaste; quanto ao resto, reflectirei na melhor maneira de acalmar os seus alarmes.

Entrou um servidor que estava às ordens de Ben Hur. Aproximando-se, debruçou-se para o jovem.

- Fala alto - ordenou Ben Hur - Simónides deve ouvir tudo.

- Senhor! - disse o homem - Está ali Estêvão, suplica-te que o recebas, tem um ar de homem consternado...

- Manda-o entrar para aqui - ordenou Ben Hur.

- Estêvão é aquele jovem que seguiu muitas vezes os doze? - inquiriu Simónides.

- Sim, é um homem santo e de firme piedade.

Estêvão entrou na sala; de facto, parecia preso de grande comoção.

- Senhor - disse ele, de um fôlego - prenderam Pedro e João.

- Porquê?

- Curaram um coxo, um mendigo que se encontrava perto da Porta Bela do Templo, e como o povo se aglomerasse, Pedro explicou que fora por intercessão de Jesus junto de Deus Seu Pai que o coxo se curara.

- Quem os prendeu? - perguntou Simónides.

- Eram numerosos: padres, gente da seita dos Saduceus, com o sacerdote guardião do Templo à sua frente...

- Se os prenderam assim - observou Simónides - é porque tencionam levá-los perante os chefes, os escribas e os anciães. Vou fazer-me transportar a essa reunião, tenho direito de lá entrar e ninguém ousará expulsar-me.

- Imaginas que poderás, sozinho, desviá-los da sua cólera? - perguntou Ben Hur.

- Hei-de precisar de um outro apoio... Estêvão, esforça-te por saber a que horas devem comparecer, e tu e teus amigos espalhem a notícia entre o povo... Pedro e João contam muitas simpatias. Se Ben Hur quiser, aparece no meio da multidão e proclama bem alto os seus sentimentos. Nós todos talvez logremos impressioná-los suficientemente, para que renunciem a toda a violência.

- Mandarão chamar os Romanos - objectou Estêvão

- A torre Antónia está muito perto do Templo e a legião intervirá para evitar uma manifestação nas ruas.

- Dos Romanos encarrego-me eu! - declarou Ben Hur - Vá, Estêvão, faze como Simónides te disse e confiemos na protecção de Deus.

Quando, no dia seguinte, os anciães e os escribas se aproximaram do Templo, para responder à convocação do sumo sacerdote Caifás, ao abeirarem-se do Lugar Santo, tiveram de atravessar fileiras de uma multidão inquieta. No momento em que a sessão devia começar, fizeram-se ouvir aclamações: saudavam Simónides, que, transportado na sua cadeira por quatro servidores, se dirigia ao Templo.

Sem fazerem caso dos olhares que neles se fixavam, os quatro portadores franquearam o primeiro recinto e penetraram na sala onde habitualmente se reunia o Sinédrio. As conversas que os padres e os escribas mantinham entre eles cessaram de repente, quando a estranha equipagem entrou. Impassível, Simónides esboçou um sinal, e os seus portadores pousaram a cadeira e desapareceram. Anás, Caifás, João, Alexandre e todos os membros da família pontifical estavam ali. Tinham assistido, como os outros, a esta entrada de Simónides e, por muito surpreendidos que estivessem, não fizeram nem um movimento.

- Simónides - disse Anás, por fim, no silêncio - há muito tempo que não assistias a uma assembleia dos Anciães.

- Há muito tempo, realmente - confirmou Simónides.

A um gesto de Anás, todos tomaram o seu lugar.

- Chefes do povo e Anciães - proferiu Caifás - todos conheceis o motivo desta reunião. Sabeis o que se passou ontem no próprio seio do Templo e o Sumo Sacerdote deseja, primeiro que tudo, conhecer o vosso sentir.

Um rumor de aprovação encheu a sala, mas a voz alta e forte de Simónides fê-la calar de súbito.

- Primeiro, é preciso ouvir os que foram presos!

- É justo - concordou Anás - Mandem buscar os dois homens.

Quando os guardas desapareciam, ouviu-se, vindo de fora, apesar da espessura das paredes, um surdo clamor, um brado que chegou até a assembleia: «Libertai-os!» Pedro e João entraram cercados de soldados. Colocaram-se a um lado da sala, quando Caifás falou:

-Por que poder e em nome de quem fizestes aquilo?

Pedro voltou-se então para a assembleia; não havia nenhum temor nos seus olhos e a alguns pareceu como que possuído de uma força sobrenatural:

- Chefes do povo e Anciães, visto que, hoje por ocasião de um benefício concedido a um enfermo, nos interrogam para saber por que meio foi curado, ficai-o sabendo bem, vós todos e todo o povo de Israel, foi em nome de Jesus Cristo de Nazaré, que vós crucificastes e que Deus ressuscitou dos mortos; foi por Ele que esse homem se apresenta curado perante vós. É Ele a pedra que, rejeitada por vós, construtores, se tornou pedra basilar.

«E a salvação não se encontra em nenhum outro; porque não há no céu nenhum outro nome dado aos homens, por quem devamos ser salvos.»

- Mandai-os sair - disse Anás.

O rumor que se ouvia agora na sala parecia mais de surpresa que de hostilidade.

- Que vamos fazer destes homens? - perguntou o Sumo Sacerdote à assembleia.

Foi só a voz de Simónides que respondeu:

- O homem que foi curado está aqui perto de mim. Podemos negar a sua cura? Que estes homens fizeram o milagre, é coisa evidente para todos os habitantes de Jerusalém...

Na pausa que se seguiu às palavras de Simónides ouviu-se o rumor mais vivo da multidão no exterior. Aquela turba depressa engrossara e os seus gritos tornavam-se cada vez mais frequentes. Os guardas do Templo, em linha, pouco a pouco empurrados por ela, tiveram de subir os degraus de pedra e mantinham-se agora, cotovelo com cotovelo, diante da porta que conduzia ao Sinédrio.

De repente, vozes desataram a bradar:

- Os Romanos! Os Romanos!

Quase a seguir, viu-se uma fila de soldados que vinham a correr, mas numa ordem perfeita, da fortaleza Antónia próxima do Templo, couraças rutilantes, elmos ornados de plumas vermelhas, lanças em riste. Eram precedidos de um oficial de grande capa púrpura.

À sua passagem, a turba afastava-se, começava a dispersar, pois todos sabiam como as repressões romanas eram rudes para os movimentos populares. No momento em que o oficial, à cabeça da coluna, atingia o pórtico, e em que o padre guardião do Templo avançava para ele, um homem saiu da multidão. Esse homem era Ben Hur.

- Deus te dê a paz, Drusus - disse ele.

Drusus. sem fazer caso do guardião do Templo, voltou-se para o príncipe e, abraçando-o, disse-lhe bem alto para ser ouvido pelo maior número:

- Eu te saúdo, príncipe de Hur. Há aqui alguma celebração?

- É esta gente que se manifesta - dissse o guardião do Templo - Tentam impor uma decisão ao Conselho dos Anciães.

- Palavra - disse Drusus, continuando a falar alto

- não compreendo nada de todas estas reuniões, mas o que sei é que é preciso, como tu dizes, que acabem depressa. Tenho de me encontrar, dentro em pouco, com os meus homens no outro extremo da cidade...

- Queres dizer - murmurou o padre - que nos deixas sós perante esta multidão?

- Que receias deles? Não são da tua raça? Vamos, acabai depressa com os vossos assuntos. Já o disse, o serviço chama-nos a outro lugar.

O padre desapareceu no interior do Templo. Correu ao longo dos corredores entre altas pilhas de madeira de cedro e alcançou o Sumo Sacerdote no momento em que este se levantava diante do Sinédrio. Anás escutou o que o guardião do Templo lhe disse ao ouvido e teve em seguida de falar muito alto para cobrir o rumor da turba que, lá fora, se refizera.

- Para impedir que o boato desse pretenso milagre se divulgue mais pelo povo, proibimos severamente esses homens de falar doravante em nome seja do que for.

O resto decorreu muito depressa. Pedro e João foram chamados e Anás proibiu-os de falar ou de ensinar em nome de Jesus. Ao que eles responderam:

- Julgai vós próprios se é justo perante Deus obedecer-vos mais do que a Deus, pois não poderemos deixar de dizer o que vimos e ouvimos.

- Basta! - bradou Anás - Afastai-vos e ficai sabendo que incorrereis nas mais graves penas se voltardes a pregar assim entre o povo. Ide! Sois livres... Mas ficai-o sabendo bem...

O resto perdeu-se na balbúrdia, vozearia da multidão no exterior, e exclamações dos Anciães e dos escribas, discutindo entre eles a decisão dos Grandes Sacerdotes.

No pórtico, um imenso clamor saudou a saída de Pedro e João, reconduzidos pelos guardas.

- Agora, Ben Hur - disse Drusus - leva-os depressa contigo e essa gente que se disperse.

- É já - respondeu Ben Hur - e fica sabendo, Drusus, que nenhum de nós esquecerá o que acabas de fazer.

Depois, voltando-se para a turba e confirmando a libertação dos dois Apóstolos, conseguiu logo que cada um regressasse a sua casa.

A Simónides, que, transportado pelos seus servidores, saía nesse momento do Sinédrio, disse:

- Graças aos teus planos, Simónides, tudo decorreu como esperávamos.

- Hoje, sim - concordou o cego - mas, acredita, meu filho, haverá uma próxima vez...

Estavam reunidos na sala comum da casa de Simónides a mãe de Ben Hur, Ester, Tirzah, Ben Hur e o dono da casa.

- Se desejei ver-vos todos - disse a mãe de Ben Hur - e ouvir o teu conselho, Simónides, é porque ocorrem na nossa família dois acontecimentos que devem ser conhecidos de todos... Primeiro. Ester anunciou-me que esperava um filho e com isso nos devemos todos regozijar.

Ben Hur ouviu sem surpresa sua mãe dar aquela novidade. Na antevéspera, Ester comunicara-lho e Ben Hur, ao ouvir aquelas palavras, experimentou a mesma sensação de calor no rosto, de bola na garganta e de ardor nos olhos que tivera dois dias antes. Fervorosamente, depois, pediu ao Senhor que, em primeiro lugar, viesse um filho à casa dos Hur. E enquanto Simónides, olhos mortos cheios de lágrimas, permanecia abraçado à filha e louvava a Deus, invadia-o uma onda de ternura por Ester.

Após dois meses, a sua união era perfeita. Seus corações como seus sentidos estavam encantados um pelo outro, o seu amor era total e totalmente confiante. Ben Hur, a quem os sofrimentos e os combates haviam endurecido, tinha receio, ao sabê-lo, de já não encontrar a doçura de palavras e de gestos que convém à mulher amada, mas a felicidade que lia, a cada hora, nos olhos de Ester tranquilizaram-no depois.

- Há um outro facto que deveis conhecer - disse sua mãe - e sobre o qual é necessária a vossa opinião. Vem cá, Tirzah.

Tirzah levantou-se e Ben Hur, observando-a melhor que de costume, achou-a muito bela, alta e bem lançada, com seus longos cabelos castanhos a emoldurarem-lhe o rosto muito puro, a tez a um tempo mate e suavemente colorida, olhos esplêndidos, graça e elegância em toda a sua pessoa.

- Fala, Tirzah!

- Ben Hur - disse Tirzah - conheces o jovem Drusus?

- Conheço. Acompanhou-me em Roma e foi um perfeito camarada; vejo-o várias vezss; ainda, recentemente, prontificou-se a proteger à sua maneira os discípulos de Cristo. É nobre e recto, creio eu.

- Eu também o vi - declarou Tirzah - Vi-o talvez mais vezes do que julgais, e confesso que tive nisso muito prazer. A sua brandura, a tolerância que revela em todas as suas atitudes, a sua beleza, a sua delicadeza, tudo isso me impressionou... Aceitei de início encontrá-lo como um amigo, mas agora já sei: amo Drusus e quero casar com ele!

- Desposar um Romano! - exclamou Ben Hur, levantando-se.

- Tu próprio dizes que ele é digno de estima!

- Sem dúvida, mas é um Romano, Tirzah! Deus sabe como desejo a tua felicidade e como estou disposto a tudo para que a possas gozar, mas não a isso. Um Romano! Vais misturar o sangue dos príncipes de Jerusalém com o de um ocupante? Atraiçoas o teu Deus, tua família?

- Em que é que os atraiçoo? Ben Hur, respeito em ti a memória de nosso pai e amo-te profundamente, bem o sabes, mas tu também amas. Se alguém se erguesse entre ti e Ester, não atenderias esse alguém. Pois bem, eu amo Drusus e sou por ele amada. Quero pertencer-lhe...

- Nunca! Nunca desposarás um estrangeiro, um dos que escarnecem de Israel, um desses ladrões, um desses homens que não vivem senão para a guerra - viera falar muito perto da jovem e segurava-lhe os pulsos - mas pensa, Tirzah, em todos os sofrimentos que experimentámos por causa deles! Revê-te ao lado de nossa mãe na prisão de Antónia, revê-me nas galés!

- Conheceste outros homens além deste: um deles adoptou-te como filho, deu-te a liberdade e enriqueceu-te, permitiu que te encontrássemos. Contudo, também era um Romano.

- Não! Opor-me-ei com todas as minhas forças!

Ben Hur deixou os pulsos de sua irmã. Quedou-se um momento silencioso, faces crispadas, olhos no chão, depois, voltando-se para sua mãe:

- Também tu, mãe, te opões, não é verdade?

Antes de que ela respondesse, ergueu-se uma voz do outro extremo do aposento:

- E pretendes tu, Ben Hur, seguir a Lei de Jesus? - Era Simónides quem falava - Que disse Ele? Que todos os homens são irmãos, que não há diferença entre eles, que as raças, que a fortuna devem ceder perante esta fraternidade. Pensa nisto, Ben Hur: recusando-te a ouvir Tirzah, atraiçoas a sua memória. Drusus é um homem antes de ser um Romano, pouco importa que seja circunciso ou não. Só as suas qualidades de homem devem contar para ti. Se havia barreiras entre vós, outrora, o Nazareno anulou-as, ao morrer na cruz. Perante Ele, Ben Hur, és semelhante a Drusus e não tens o direito de o repelir.

Ben Hur voltou-se para sua mãe e esta disse:

- Simónides é o mais sensato de nós todos!

E como consultasse Ester com o olhar, esta murmurou:

- Creio, Ben Hur, que meu pai tem razão.

- Crês! Um casamento não se faz assim. Que dirão as pessoas de Jerusalém quando souberem que uma das suas filhas casou com um Romano?

- Que te importa a opinião alheia - disse Simónides - Fizeste caso dela quando defendias a tua honra?

- Lutando contra esse projecto, ainda defendo a minha honra, a honra do meu nome!

- O que é o nome que tu usas? - redarguiu o velho - Ainda atribuis importância à classe em que Deus nos faz nascer? Recorda-te: «Bem-aventurados os pobres em espírito...» e aquela outra frase: «É mais difícil um rico entrar no Reino dos Céus do que um calabre passar pelo buraco de uma agulha». Observa o espírito de Drusus, sonda o seu coração, julga em consciência se ele poderá ser um bom marido para Tirzah, isso é teu dever, e isso somente! Mas não deves fazer intervir na tua decisão motivos de raça ou de nascimento.

Ben Hur permaneceu muito tempo silencioso. Por fim, fitando Tirzah, perguntou:

- Que Deus venera Drusus?

Tirzah respondeu:

- Encontra-se numa grande indecisão de espírito a tal respeito. Também foi testemunha da morte de Jesus e isso impressionou-o; disse-mo várias vezes.

- Tirzah, tens a certeza do teu amor?

- Tanta certeza como a de que amas Ester e Ester te ama, a ti!

- Falarei com Drusus esta noite - declarou Ben Hur - Entretanto, fica com nossa mãe, Tirzah, e roga a Deus que nos esclareça a todos.

Drusus veio à noite ao palácio dos Hur. Logo que foi cumprimentada, Ester retirou-se e Ben Hur contou francamente ao jovem Romano a conversa dessa manhã. Não omitiu coisa alguma, nem a sua primeira reacção, nem as palavras de Simónides.

- Bem sabes, Ben Hur, que pertenço a uma família nobre de Roma - disse Drusus - Conheces suficientemente os nossos costumes para saber que, também para os meus parentes, isto seria um casamento desigual. Ao que parece, desposar uma Judia não é digno de um Romano; mas não me importa, Escolhi, mesmo que isso me custe ser banido dos meus. escolhi Tirzah.

- Raciocinemos um pouco - disse Ben Hur - e, primeiro, senta-te, Drusus. Como chegaram a esse ponto, tu e ela?

- Como nasce um amor? Sabe-lo tu, Ben Hur? Uma vez, vim aqui procurar-te, tu não estavas. Tirzah recebeu-me, conversámos. Depois, voltei várias vezes.

Ben Hur pousou a mão no braço do Romano.

- Não tinham a sensação de que procediam mal?

- Porquê? Falávamos de tudo, de ti, principalmente, depois do estado do país, da vida aqui e da que eu levava em Roma. Vossos hábitos são diferentes dos nossos, eu sei. Para os Judeus, começa-se a proceder mal desde o momento em que se olhe com prazer para uma pessoa do sexo oposto. Se é isso, então sim! Procedemos mal um e outro; porque, quanto mais nos víamos, mais prazer tínhamos em nos ver. Um dia, ousámos dizê-lo... No dia seguinte, Tirzah confessava-o a sua mãe. Esta preferiu falar-te de tudo antes de que eu te falasse. É bem simples! Mas, agora, a ideia de perder Tirzah, de não a ver mais, de um dia regressar a Roma sem ela, é pior para mim do que pensar na morte. Podes opor-te à nossa união. Ben Hur, tens esse direito e sabes que vos estimo muito a vós três para vos arrancar Tirzah à força, mas, se assim o fizeres, Ben Hur, matas-me e creio que a matas, também.

- Tirzah não pode abandonar o Deus dos seus antepassados, compreende-o bem, Drusus.

- Quem fala nisso? Devo confessar-te uma coisa, Ben Hur. Convivi longamente, em segredo, com Simão pescador, esse que passou a chamar-se Pedro, e, ontem, ele baptizou-me. Também escolhi viver segundo os mandamentos de Jesus.

- É verdade?

- Pergunta-o a Pedro!

- Drusus, abraça-me, és dos nossos agora. Ah! Que alívio experimento e como agradeço a Deus o ter-te iluminado.

- Já constituímos um certo número os legionários que escolhemos a nova Lei...

- No entanto, tendes os vossos deuses...

- Bem sabes que já ninguém acredita muito nesses deuses que não exigem senão sacrifícios, cujos nomes encobrem tantas acções desumanas; e, depois, as divindades de Roma não trazem esperança, não delegaram, neste mundo, num homem que se possa ouvir e ver como nós vimos Jesus de Nazaré.

- Querido Drusus! - disse Ben Hur. Depois, como que assaltado por uma suspeita - Sinceramente, não fizeste isso só para te aproximares de Tirzah? Essa nova fé é bem sincera?

(Já lamentava ter deixado escapar esta pergunta, no próprio momento em que a formulava).

- Não! -exclamou Drusus - Conheci, como tu, o Nazareno e bem senti que ele não podia ser, somente, como nós. Pedro repetiu-me as suas palavras. Eu era então apenas um homem só no meio dos outros... Agora, tenho a impressão de que nunca mais estarei só.

- Malluch! - chamou Ben Hur - Vai procurar Tirzah e dize-lhe que venha ter connosco.

E quando ela apareceu, a um tempo afoita e trémula:

- Sossega, Tirzah! Podes desposar Drusus. Mas fazei ainda melhor: abandonai este país. Sim, Drusus, isto parecer-te-á cruel para com Tirzah... Acredita que não tenho vontade de ver partir minha irmã, de a sentir transviada sob um céu que não é o dela... mas o que há pouco me disseste acerca dos velhos deuses de Roma chocou-me... Ora, que desejou Ele? Conhecermos as Suas Palavras. Ele quer que sejam levadas o mais longe possível e pelo maior número possível de homens. É esse, pressinto-o, o destino de vós ambos. Sim, uma vez unidos, ide para Roma na primeira ocasião e, aí, fazei como Ele pediu, dizei por toda a parte o que vistes, mostrai com o vosso exemplo que Ele nos deu a todos novas razões de viver e de ter esperança... Drusus, até agora considerava-te como um amigo, doravante és meu irmão. Tirzah, podes desposá-lo sem vergonha.

O casamento manteve-se secreto para que a Comunidade de Jerusalém não formulasse perguntas. Alguns dias depois, Drusus obteve do Tribuno a sua transferência de posto no exército e uma nova comissão em Roma nas Legiões Imperiais. Deixou Jerusalém e aguardou em Cesareia durante dois dias. Ben Hur, por seu lado, conduziu Tirzah até o porto. Drusus e ela encontraram-se a bordo de um dos navios dos Hur que partia para a Itália. À parte um desmaio que teve ao despedir-se de sua mãe, Tirzah não experimentou nenhuma comoção ao abandonar o seu país e o céu de Israel. Assim, Ben Hur observou que o seu amor e a sua fé eram bastante fortes para desafiar as distâncias e até as recordações. Regressando só a Jerusalém, tão-pouco sentia o menor desgosto.

Malluch certamente espreitava o regresso do príncipe, porque mal Ben Hur pôs pé em terra, já o velho servidor se encontrava a seu lado.

- Triste notícia, senhor!

- Uma desgraça! Em nossa casa? Em casa de Simónides?

- Não, aqui... Trata-se de Estêvão.

- Estêvão?

- Sim, o amigo dos Discípulos, conhecia-lo bem...

- Sem dúvida! Que lhe sucedeu?

- É a primeira vítima da nova religião!

- Atreveram-se a matá-lo?

- E publicamente.

- Atreveram-se... - repetiu Ben Hur, no tom de quem se recusa a acreditar. Depois, tomando o braço de Malluch - Vem! Entremos! - E quando penetraram na sala grande - Publicamente, dizes tu?

- Primeiro, arrastaram-no perante o Sinédrio.

- De que o acusaram?

- Muito simplesmente, de ter pregado a palavra de Jesus.

- Quem estava lá?

- Não sei. mas eram pouco numerosos. Sem dúvida, o desaire que sofreram com Pedro e João incitou-os a serem mais discretos.

- E que se passou?

- Intimaram Estêvão a renegar o que dissera, a afirmar que tudo aquilo não passava de loucura.

- Recusou-se, com certeza?

- Com o ardor que deves adivinhar!

- E depois?

- Depois, lançaram-no cá para fora e os homens a seu soldo delapidaram-no no adro do Templo.

- Mancharam a moradia de Deus?

- As primeiras pedras derrubaram Estêvão por terra. Por várias vezes se soergueu. Uma pedra atingiu-o numa têmpora, tornou a cair... Disseram-me testemunhas que as suas últimas palavras foram para perdoar aos seus verdugos.

- Miseráveis!

- Entre os que lá se encontravam e se regozijaram, estava esse Saul de Tarso que surpreendemos aqui, uma noite; segurava as roupas dos que delapidaram Estêvão e encorajou-os a agredir.

- Esta morte - disse Ben Hur - constitui um sério aviso. É a primeira vez que os padres condenam um homem por ele propagar o Ensinamento de Cristo; não ficarão por aqui!

Era essa a opinião de Simónides, que Ben Hur viu uns instantes mais tarde.

- Meu filho - disse ainda o cego - sabes que por mim nada receio, os meus dias estão contados e a morte tornou-se-me familiar. Mas penso em Ester e nessa criança que traz no seio, na tua mãe, também, cuja saúde é cada vez mais alarmante, porque a atormenta a inquietação por todos vós... Também penso em ti, Ben Hur: o teu destino não é perecer assassinado à esquina de uma rua, deves servir para outra coisa. E eis, também, no que pensei. Possuo, como sabes, visto que foi lá que nos encontrámos pela primeira vez, uma casa em Cesareia. Aí, os homens do Templo não poderão perseguir-te, tanto mais que o teu título de cidadão de Roma te dá o direito à protecção das Legiões e que Pilatos reside em Cesareia com o exército. Estamos nos dias muito quentes de Jerusalém, demasiado sufocantes para Ester. O clima de Cesareia é constantemente temperado pelo ar do mar. Vigiaremos melhor o comércio do porto do que desta cidade interior. Assim, não terás de deixar os teus por vários dias, como o fazes agora. A prudência manda-nos partir e estabelecermo-nos aí.

- Tens razão, Simónides. Dá, pois, ordens nesse sentido, e eu farei o mesmo em minha casa. Partiremos dentro de dois dias e ficaremos por lá, pelo menos, a estação de Verão. Depois, veremos.

Assim, uma longa fila de cavalos e de animais de carga meteu-se a caminho do mar dois dias depois, ao amanhecer. Na sua liteira, a mãe de Ben Hur, a cada passo que a afastava de Jerusalém, sentia que as suas angústias se acalmavam.

O mesmo sucedia com Ester, que começava a descobrir no seu seio os primeiros movimentos da vida.

Aquela noite, anunciou-se a chegada do diácono Filipe.

- Recebê-lo-ei de boa vontade - declarou Ben Hur - Diz-se que fez muitos milagres na Samaria, que curou paralíticos e expulsou espíritos impuros do corpo de possessos.

- Senta-o à nossa mesa - propôs Ester - mas pedir-lhe-ei licença para me retirar cedo. Estou fatigada esta noite.

Filipe entrou, guiado por Malluch. Era um homem ainda jovem, muito magro, rosto macilento; mas suas feições eram de grande beleza.

- A alegria de Cristo seja na tua casa, príncipe - disse Filipe.

- Toma um lugar, caro Filipe, e partilha da nossa refeição; fica, Malluch, jantas connosco.

Chegaram então os servidores trazendo a cadeira de Simónides e o velho apertou longamente as mãos do diácono entre as suas.

- Que novidades trazes, Filipe? - perguntou o príncipe.

- Não conheço senão as que me deram pelo caminho. Sabes que já não é possível a nenhum de nós entrar em Jerusalém sem se ocultar.

- Sim. A morte de Estêvão não lhes bastou. Disseram-me que de dia para dia as perseguições se tornam mais duras.

- São feitas principalmente por um juiz grego - disse Filipe - um chamado Saul de Tarso.

- Esse - resmungou Malluch, com a boca cheia - se me tivesses escutado certa noite...

- Conhecem-no? - perguntou Filipe.

- Sim! Surpreendemo-lo uma noite, Malluch e eu - respondeu Ben Hur - Que faz ele, então?

- Conseguiu captar a confiança dos homens do Templo, percorre a cidade à frente de homens de armas, e pode dizer-se que ele devasta a Igreja. Visita todas as casas que se supõe adeptas das nossas ideias, apodera-se dos homens, das mulheres e até das crianças e lança-as na prisão.

- Restará ainda uma Comunidade na Cidade Santa? - perguntou Simónides.

- Praticamente, não. A maior parte dos fiéis fugiu, foram para a Judeia ou para a Samaria. Foi o que eu tive de fazer.

- Ficarás nesta casa o tempo que te aprouver, Filipe - declarou Ben Hur.

- Desejaria aqui ficar por muito tempo, mas tenho de vos deixar logo que terminemos a nossa oração em comum.

- Porquê, tão depressa?

- Caro príncipe, não sei se já tentaste fazer compreender o que nós cremos a certos homens. É preciso muito tempo e todo o dia passado com bons amigos, com os fiéis do Nazareno, é um dia perdido para a Fé.

- Perdido?

- Sim! É um dia de pregação a menos, e talvez por nos concedermos o conforto de um bom leito, o agrado de uma boa mesa, algumas almas nunca verão a luz. É preciso caminhar, é a Lei, caminhar sem cessar e falar-lhes, e explicar-lhes, e narrar-lhes. Nada nos pode distrair: a vida de um homem é coisa breve e é preciso que, à hora da nossa morte, tenhamos a certeza de que outros continuarão.

- Aumentas com certeza a turbação de meu esposo - disse Ester - Ben Hur nunca está satisfeito com a sua acção.

- É verdade, Ester! Confesso que, comparado com Filipe, o que faço é bem pouca coisa.

- Não julgues isso, príncipe - disse o diácono - Cada um faz o que pode. Não sou mais do que um homem só que percorre a pé sempre as mesmas terras. Ando à roda. O teu papel é bem diferente. É graças aos teus barcos que alguns de nós partem para outras terras a fim de levarem a Palavra, e o teu exemplo é útil. Que impressão pode causar num homem do povo o facto de um Filipe, que ninguém conhece, adorar Jesus? Pelo contrário, que um príncipe de Hur tenha desposado esta crença, isso impressiona e perturba; e é de grande auxílio para nós. Não leves, pois, a mal que te deixe tão depressa. Agradeço-te. Graças a ti, pude passar uma hora aprazível no meio de amigos. Aliás - acrescentou Filipe, olhando Ester - sinto que deveis viver as próximas horas estritamente em família.

Aproximou-se da jovem e disse:

- Abençoo de antemão essa nova existência. Ela estará inteiramente ao serviço do Senhor, e digo-te, Ester, essa pequena boca que dentro em pouco lançará o primeiro grito, dirá e redirá a Grande Mensagem durante todo o tempo que Deus lhe der de vida. Boa noite a todos... Quando estiverdes em família, sede felizes sem remorso, mas rogai algumas vezes por aquele que vai sozinho pelos caminhos.

Essa noite, Ben Hur ouviu um débil gemido à sua beira.

- Que há, Ester?

- Lamento despertar-te, mas julgo que se aproxima a hora. Sinto as dores cada vez mais fortes.

- Vou chamar Amrah - disse o príncipe.

E esta, por seu turno, correu ao aposento da mãe de Ben Hur. Em breve, toda a casa era agitada pelas corridas de criadas de quarto e servidores, gente acorrendo de todos os lados, trazendo bacias de água quente, roupas. Amrah imprimiu ordem a estes movimentos e a casa recaiu em relativo silêncio. Chegaram matronas para prestar auxílio, depois um médico grego que Malluch fora buscar à cidade. No meio desta agitação, Ben Hur, sucessivamente arredado pelas mulheres do quarto que partilhava com Ester, depois das antecâmaras, depois dos próprios corredores, acabou por procurar refúgio nos aposentos de Simónides, onde não brilhava luz alguma. O príncipe sentou-se num baú e ali ficou, imóvel na sombra, a orar por Ester. O estreito compartimento não era iluminado senão por um reflexo de luar. De súbito, Ben Hur ouviu um ligeiro ruído que vinha do quarto do cego. Pareceu-lhe passos incertos a dirigirem-se para a porta. A aldraba levantou-se e o batente abriu-se. Ben Hur viu então Simónides, mãos crispadas nas umbreiras da porta; imóvel, escutava... Sem dúvida, pelo eco dos passos, pelo ruído das vozes na casa, adivinhava o que ocorria. Ali permaneceu muito tempo; depois, dando meia volta em movimentos desajeitados de enfermo, tornou a entrar no quarto. Ben Hur levantou-se mansamente; pela porta que ficara aberta, viu o velho cair de joelhos e sentiu-se tomado de uma grande piedade, pois sabia quanto as pernas alquebradas de Simónides dificilmente o suportavam. Debruçou-se um pouco mais para o compartimento. Simónides, julgando-se só, rezava em voz alta e Ben Hur, alvoroçado e contrafeito ao mesmo tempo, escutava, sem se atrever a manifestar a sua presença.

- Senhor - dizia Simónides - Oh! Senhor! Sempre Te honrei, toda a minha vida segui o caminho que Tu traçaste e eis que, no fim dos meus dias, entro em luta contra aqueles que Te servem. Eis que começo a detestar aqueles que foram designados para aplicar a Tua Lei neste mundo. Deus de Israel! Onde está a Verdade? Com o Nazareno? Com aqueles que dizem que Ele é um falso profeta? Senhor, creio que a Tua Verdade está no amor; que ela está com os que perdoam, que não está com os que matam ou que prendem, não com o orgulhoso, mas sim com o modesto. Senhor, creio que Jesus disse a verdade, que Ele é Teu Filho, incarnado nesta terra para melhor amar os homens, os pobres homens que nós somos, e se a minha crença não é justa... então, Senhor, julga o meu coração... e perdoa-me.

«Senhor - disse ainda Simónides - nunca desejei, creio eu, nada para mim. No meio das torturas, nunca Te chamei em meu socorro, nunca supliquei a Tua graça senão para minha filha. Ainda esta noite Te suplico: protege-a, Senhor! Ajuda-a nas suas dores. Que a felicidade de ser mãe sobrepasse o seu sofrimento. Protege-os, Senhor, aos dois que eu amo, a ela e ao seu Ben Hur; já bastante penaram, já deram bastante sofrimento nos dias da sua vida. Até se unirem, não tiveram, cada um por seu lado, senão sobressaltos e receios. Concede-lhes a paz, Senhor! Faze nascer com felicidade essa vida que eles esperam. Oh! Leva a minha, Senhor, porque lhes é inútil agora e aquela que esperam lhes é preciosa... Que este meu velho alento proclame até o fim a Tua grandeza, a Tua Bondade, Deus de Israel, até o fim...»

Encostado à porta, Ben Hur permanecia imóvel e as lágrimas corriam-lhe dos olhos. De súbito, soou um grande grito na casa e Ben Hur soube que a vida lá entrara com esse grito. Simónides pareceu tomado de uma espécie de transe, tentando levantar-se, e clamava:

- É um filho! Obrigado, Senhor!... Ben Hur! É um filho! Ben Hur! Ben Hur!

Conseguiu pôr-se de pé, deu alguns passos para a porta e teria caído se Ben Hur, avançando, o não recebesse nos braços. Segurou aquele pobre corpo alquebrado, arruinado, com infinito respeito primeiro, depois, apertando-o contra o peito, disse:

- Pai! Pai! Como o sabes? Como o sabes tu?

- Vi-o - respondeu Simónides - vi-o em espírito, é um filho... Deus atendeu-nos. Tem o teu rosto e terá as tuas virtudes.

Nesse momento, ouviram-se ruídos de vozes que vinham do aposento do príncipe ao mesmo tempo que corriam luzes e Amrah exclamava:

- Senhor! Senhor Ben Hur! Venha depressa! É um filho! Um filho!

- Pai! - disse Ben Hur.

- Pôr-lhe-ás o nome de Filipe - aconselhou Simónides - em recordação das palavras do diácono - E ajuntou - Ben Hur, guia-me até junto dela...

Ben Hur hesitou um instante, procurando servidores com os olhos, mas estava cada um atarefado algures, na casa. Então, inclinando-se, pegou no velho como o faria a uma criança, e pareceu-lhe estranhamente leve. Transportando-o assim nos seus braços, encaminhou-se para a luz.

Entrou no quarto. Algumas mulheres apressaram-se a pôr perto do leito uma cadeira, na qual, auxiliadas por Ben Hur, instalaram o ancião.

Ben Hur observou Ester. Seu rosto abatido parecia enriquecido por uma grande alegria; junto dela, uma criancinha deitada agitava-se em sobressalto. A jovem pegou no filho e estendeu-o para seu pai; a mão do cego afagou docemente a cabecita, palpando-lhe o rosto, e a criança deteve-se de chorar ao contacto daquela mão. Amrah pegou-lhe e depô-lo nos joelhos de Simónides.

- Serás grande - dizia o velho - serás o maior e mais corajoso, e honrarás o Senhor teu Deus.

A claridade dos archotes iluminava a fronte de Ester, onde se colavam madeixas de seus cabelos castanhos; voltada para Ben Hur, sorria-lhe e, pela primeira vez, o príncipe julgou descobrir naquele sorriso um vestígio de orgulho.

- Ben Hur - disse ela brandamente - se quiseres, chamar-lhe-emos Filipe.

Fronte encostada à mão de Ester, Ben Hur chorava.

Decorreram alguns meses após o nascimento do pequeno Filipe, quando, certo dia, um homem se apresentou na casa do porto e pediu para falar a Ben Hur, dizendo que vinha de Jerusalém.

Levado à presença do príncipe, saudou-o e esperou.

- Podes falar sem receio - disse Ben Hur - este é Malluch, meu servidor e meu amigo.

- Senhor, foi Pedro quem me enviou.

- Sê bem-vindo, se falas em seu nome.

- Eis o que ele me disse: «Vai a Cesareia e, aí, procura o príncipe Hur; dize-lhe que Saul de Tarso, que ele conhece, persuadiu os sacerdotes do Templo a darem-lhe um mandato para Damasco, a fim de, naquela cidade, poder, ele, Saul, procurar os membros da Nova Igreja e, depois de os descobrir, prendê-los e levá-los para Jerusalém.» Saul vai, pois, partir para Damasco e Pedro suplica-te, senhor, se puderes, que envies alguém a Damasco avisar os nossos.

- Está bem - disse Malluch - mas quem nos prova que és mesmo enviado de Pedro?

- Pedro disse: «Se ele duvidar de onde vens, lembra ao senhor Ben Hur que me disse um dia em sua casa e sem testemunhas, ao falar de Jesus de Nazaré: Lembra-te de que lhe devo mais do que a vida.»

- Está bem - pronunciou Ben Hur - repousa aqui o tempo que quiseres, depois volta para Pedro e dize-lhe que irei eu mesmo a Damasco e que todos os membros da nossa comunidade serão avisados antes de Saul chegar. Malluch, os meus cavalos, uma escolta; partiremos dentro de uma hora.

Caminhando para o Norte, ao lado do Mediterrâneo, o pequeno grupo de cavaleiros, que Ben Hur conduzia, alcançou Sidón, depois, obliquando para o Oriente, embrenhou-se nas terras áridas, na direcção de Damasco. Quatro dias mais tarde, a marchas forçadas, atingiram a cidade. O primeiro cuidado de Ben Hur foi indagar no posto da guarda romana da porta de Boulos, voltada ao caminho de Jerusalém, se não tinham chegado viajantes desta cidade nos últimos dois ou três dias.

Depois de ir informar-se junto dos colegas, o legionário voltou.

- Não, senhor, todas as entradas são notadas. Ninguém disse vir de Jerusalém, há seis dias.

Ben Hur dirigiu-se em seguida a casa de Ananias, homem muito sensato e discípulo da nova religião; nem ele tão-pouco soubera qualquer coisa.

- Ananias - disse Ben Hur - avisa todos os nossos irmãos desta cidade: um tal Saul de Tarso está a caminho para vos perseguir. Não sei se a sua escolta é numerosa, mas penso que será preciso combater. Aliás, estou aqui para isso.

Declinando a hospitalidade de Ananias, Ben Hur preferiu arranjar alojamento perto da porta Sul e colocou permanentemente dois dos seus homens sobre os muros da cerca a fim de avisarem logo que alguém chegasse pela porta de Jerusalém.

O dia imediato decorreu sem alarme. Caía a noite quando Ben Hur, acompanhado de Malluch, partiu para as muralhas. Caminhavam pelas estreitas ruas de Damasco, constantemente atropelados, empurrados por uma turba ruidosa, heterogénea; o regador público atravessava-a com seu odre de pele de cabra e os mercadores de tapetes amaldiçoavam-no por cada gota lançada sobre as suas mercadorias. Vendedores de pãezinhos, de babuchas, de objectos de toda a espécie expostos sobre um pano em plena poeira, cozinheiros enxovalhados que ofereciam em altos brados leite quente e o tradicional «tessié» onde, no molho gorduroso e leite coalhado, flutuavam chícharos e bocados de pão grelhado, tudo temperado de especiarias e azeite; negociantes de tâmaras e de queijos, tudo isso, cheio de cor, de gritos, de aromas pesados, assombrava e divertia Ben Hur e Malluch, habituados às turbas sombrias e quase silenciosas da Palestina.

Atingiram a porta de Boulos e saíram da cidade. Aí cessava todo o movimento. Só um pequeno rancho escutava, sentado em círculo à sombra das muralhas morenas e douradas, as melopeias de um narrador de histórias. Do lado do palmar e do campo deserto, além, uns camponeses, seguindo um asno, vinham para a cidade.

- Ainda não há nada esta tarde - disse Malluch - Pergunto a mim próprio se esse homem teria falado verdade e se toda aquela fábula não se destinava a atirar-nos para fora da Judeia.

- Não, o homem recordou-me palavras exactas que eu dissera a Pedro. Só eu e ele as conhecíamos. Não, Saul foi menos rápido do que nós, eis tudo.

Quando voltavam à sentinela romana que, lança em punho, fazia guarda à porta, viram, por uma ameia das muralhas, dois dos seus companheiros fazendo sinais para apontarem alguma coisa, ao longe, nos campos. Subindo rapidamente os degraus de pedra das escadas interiores, foram juntar-se-lhes.

- Senhor - disse o primeiro dos vigias - eis um pequeno rancho que vem de Jerusalém...

O sol poente à sua esquerda recortava realmente vultos no caminho do palmar, vultos de homens e de cavalos. À frente, vinham dois cavaleiros que se voltavam frequentemente para os seus companheiros; depois, outros três cavaleiros.

- É ele, Saul! - disse Malluch - Está entre outros dois!

- Reparai! - disse BenHur - É curioso, não parece ele próprio guiar o seu cavalo; é o homem da direita quem segura as rédeas.

Com efeito, um dos companheiros de Saul puxava o cavalo para o seu lado, como os dois cavaleiros que fechavam a marcha o faziam com duas montadas carregadas de bagagens.

- Talvez fossem assaltados no trajecto. Há salteadores na estrada; talvez esteja ferido.

- Não. Vede, está direito na sua sela; como vem pálido... Vamos ver mais de perto.

Tornaram a descer as escadas e alcançaram a porta no momento em que o pequeno grupo lá chegava. O soldado romano perguntou:

- De onde vindes?

- De Jerusalém - respondeu um dos companheiros de Saul.

Então, Ben Hur avançou e chamando de parte um dos outros homens, perguntou:

- Que tem o vosso companheiro? Parece doente.

- Cegou no caminho, ao aproximar-se daqui.

- Cego? Olhou demasiado para o sol?

- Não! Seguia na nossa frente, quando caiu do cavalo. Quando estava estendido no chão, ouvimos como que um ruído de voz e ele, sim, ele tinha o ar de quem sente medo ao olhar para a frente. No entanto, não estava ali ninguém e ao levantar-se já não via. Depois, não proferiu mais palavra, e recusou a água que se lhe ofereceu.

- Eu também sou Judeu - declarou Ben Hur - Venham à estalagem, nós trataremos dele.

- Não - disse Saul, de súbito - para a estalagem, não. Conduzam-me à sinagoga, é tudo o que vos peço.

As ruas desobstruíam-se com a noite. As lâmpadas de azeite começavam a alumiar cada loja. Sempre andando, Ben Hur observava Saul. Notava-se uma transformação profunda no seu rosto. Aquela arrogância, aquela segurança que Ben Hur lha vira no jardim da Simónides tinham dado lugar a uma impressão de sofrimento quase insuportável.

Ben Hur ajudou Saul a apear-se do cavalo e conduziu-o pelo braço até o interior da casa das orações. Aí, Saul ajoelhou-se e quedou-se imóvel. Apenas seus lábios se agitavam dèbilmente.

Um dos Judeus da escolta perguntou a meia voz a Ben Hur:

- Conheces algum mago que o possa tratar?

- Ninguém - respondeu Saul, sempre imóvel - Deixai-me!

- Senhor, pelo menos, come qualquer coisa connosco.

- Nada. Deixai-me! Por piedade, deixai-me!

Com um sinal, Ben Hur chamou os outros a um canto da sala. Cochichando, combinaram que os companheiros de Saul fossem para a estalagem, guiados pelos dois vigias do príncipe, e que ele, Ben Hur, com Malluch, ficassem junto de Saul.

Assim, Ben Hur obtinha um duplo objectivo: saber de Saul o que realmente lhe acontecera, afastar dele os seus amigos e, deste modo, reduzir a nada a sua acção.

Depois de os outros partirem, Malluch segredou a Ben Hur:

- Parece-me uma história hábil. Faz isto para nos enganar! Saul devia saber que era esperado aqui, e não somente por amigos.

- Não o creio - disse Ben Hur - Pouco lidei com ele, mas creio tê-lo observado. É um homem duro, mas corajoso. Não recorreria a semelhante armadilha. E por que razão? Conta aqui com o apoio de nove ou dez Judeus. Não tem senão que apresentar as cartas do Sumo Sacerdote e ordenar... Não! Olha para ele! Passou-se alguma coisa. Está realmente cego.

- Vamos ver bem - disse Malluch - Não se mexa, senhor!

Sem rumor, colocou-se diante de Saul sempre em oração, desembainhou o curto gládio e avançou a mão armada até a garganta de Saul. Este, grandes olhos abertos, não fez um único movimento. A ponta do gládio estava quase a roçar-lhe a garganta, e ele, imperturbável, com a mesma expressão de sofrimento no semblante, continuava imóvel. Malluch recuou e veio juntar-se a Ben Hur.

- Está realmente cego, ou então possui uns nervos a toda a prova!

- Fica perto dele. Enviar-te-ei dois homens - disse Ben, Hur em voz baixa - Vou passar por casa de Ananias e informá-lo.

Quando Ananias viu entrar Ben Hur, levantou-se e disse:

- Sei o que me vais dizer, senhor! Saul encontra-se aí e está cego.

- Quem to disse?

- Senta-te, Ben Hur. Sei que temes a Deus. Eis o que me sucedeu, escuta e ajuíza. Ainda agora, neste mesmo compartimento, tive uma visão. O Senhor chamou-me e eu disse-lhe: «Aqui me tens, Senhor!» Então o Senhor disse-me: «Levanta-te e vai à rua direita, procura a casa de Judas, onde um chamado Saul de Tarso está em oração», e eu disse: «Senhor, tenho ouvido falar muito desse homem,» e de todo o mal que fez aos Santos de Jerusalém e sei que os Grandes Padres lhe deram aqui plenos poderes para pôr a ferros todos os que invoquem o Teu nome...» Então, o Senhor respondeu: «Vai, e porque ele é um vaso de minha eleição que levará o meu nome perante as nações, os reis e os filhos de Israel, vou mostrar-lhe tudo o que precisará de sofrer pelo meu nome.» Ben Hur, eu ia partir agora.

- Vamos!

Na casa da oração encontraram Saul sempre imóvel. Ananias, avançando para ele, disse-lhe somente: «Sou Ananias». Saul levantou-se.

- Escuta, Ananias, eu vinha na estrada de Damasco e perto desta cidade, quando se fez uma luz brilhante no céu. Caí então por terra e ouvi uma voz que dizia: «Saul, Saul, porque me persegues?» Perguntei: «Quem és tu, Senhor?» E a voz disse: «Sou Jesus que tu persegues... Levanta-te, entra na cidade e ser-te-á dito «o que deves fazer». Depois, deixei de ver... Ainda agora, aqui mesmo, soube no meu espírito que tu virias.

- Sim - disse Ananias - sim, irmão. É o Senhor que me envia, foi Jesus quem te apareceu no caminho que seguias para que recobres a vista e sejas cheio do Espírito Santo.

Logo Saul levou a mão ao rosto e, retirando-a, olhou para todos. Abeirou-se do príncipe e disse:

- Ben Hur, sê testemunha, tu que eu ultrajei, sê o primeiro a perdoar-me. Doravante, sou dos vossos e repetirei por toda a parte as palavras de Jesus! Não chegará toda a minha vida para expiar as minhas crueldades.

Tranquilizado acerca da sorte dos membros da Igreja de Damasco, Ben Hur partiu para Cesareia no dia seguinte. Nesse momento, Saul de Tarso, tendo recebido de Ananias o baptismo e tomado o nome de Paulo, começou a pregar perante o povo, com uma coragem intrépida e uma paixão impressionante.

Mais tarde, soube Ben Hur que os Judeus tradicionalistas decidiram condená-lo à morte. Mandaram guardar todas as portas da cidade para o prender, mas os discípulos de Damasco puderam ajudá-lo a escapar-se. descendo-o de noite, num cesto, pela muralha, Tudo isto soube Ben Hur da boca do próprio Paulo quando, depois de se ter reunido aos Apóstolos em Jerusalém, foi perseguido pelos mesmos que ajudara outrora. Teve de ocultar-se então em Cesareia e por isso viera a casa de Ben Hur. Conversando durante algumas horas com Paulo, Ben Hur pensou que ele seria a maior força da Igreja de Cristo.

 

Roma

Bem Hur ainda foi testemunha, directa ou indirecta, de inúmeras acções milagrosas. Viu Pedro, em Cesareia, anunciar junto de Cornélio que o Resgate não se oferecia apenas aos Judeus e que o Espírito Santo podia iluminar também os homens de outras nações. Viu, depois do martírio de Iago, irmão de João, ordenado por Herodes Agripa, o mesmo Herodes, em trajo de gala, atingido pela mão de Deus quando recebia os embaixadores de Tiro e de Sidónia, contorcer-se e expirar, roído de vermes, nos degraus do seu trono. Soube que Paulo levara, com Barnabé, a palavra a Icónio e a Listra, a Antioquia e aos habitantes da Panfília, a Chipre e à Sicília, à Frígia e à Macedónia, a Atenas e a Corinto, a Éfeso e a toda a Grécia.

Soube também, por cartas de Tirzah e de Drusus, que os «cristãos» - pois tal era o nome que tinham adoptado - eram numerosos em Roma e até na Gália.

Assim, apenas alguns anos após a morte de Jesus, a Sua Igreja tornava-se uma força e a Sua Palavra repetia-se em todos os países conhecidos.

As vidas dos homens são assim; atravessadas por grandes crises, profundas perturbações que parecem, tão grande é a sua intensidade, durar anos, quando afinal não abrangem senão algumas semanas. Em seguida, essas vidas tornam-se calmas e sossegadas. O tempo, então, já não parece contar-se pela mesma medida e os anos decorrem sem que deles se fixem recordações precisas. Assim foi a vida de Ben Hur entre a idade de trinta e três anos e a de cinquenta e cinco: vinte e dois anos durante os quais mais dois filhos vieram ao lar, duas filhas que se chamavam Maria e Salomé, ao mesmo tempo que, em Roma, no lar de Tirzah e de Drusus, nasciam, primeiro, uma filha, Paulina, depois, um rapaz, João.

Simónides atingia agora noventa anos. Seu espírito ficara assombrosamente vivo, sua memória prodigiosa. Amava profundamente Filipe, o filho mais velho de Ben Hur. que completava então vinte anos. Era um jovem de rosto delicado, grandes olhos negros numa tez mate. Muito criança ainda, já manifestava gosto pelos exercícios físicos e, em homem, assombrava seus camaradas com a sua força tranquila. Muito respeitoso de tudo o que se relacionava com seus pais, Filipe não era, porém, isento de defeitos: os que habitualmente se encontram num jovem belo e rico. Tinha tendência de espírito para querer entender de tudo, tomar, mal um problema se lhe apresentava, soluções definitivas. A sua ousadia e a sua coragem atingiam a temeridade. Era tão franco nas suas simpatias como nas antipatias. Para ele, o mundo dividia-se em dois grupos: de um lado os bons, do outro os maus. Assim, sucedia-lhe depositar inteira confiança num celerado, ao mesmo tempo que recusava a sua amizade a um homem sincero mas de aspecto pouco aliciante.

Ben Hur reconhecia isso, mas era cheio de indulgência por seu filho, pensando que esses defeitos eram inerentes à idade do jovem. Simónides, esse, reconhecia em Filipe o que tão fortemente o afeiçoava a Ben Hur. Existia entre o velho e Filipe uma estranha cumplicidade. Simónides gostava de iniciar o mancebo nos segredos do comércio e detinha-o por vezes durante horas a trabalhar com ele.

- Olha - dizia essa noite Simónides a Filipe - o meu único desgosto, nestes últimos vinte anos, foi o ter visto desaparecer tua avó, mãe de teu pai; era uma mulher notável.

- Tu disseste-me - lembrou Filipe - que os mortos não o eram senão por uns tempos e que todos se reencontrariam no dia do juízo.

- É verdade - confirmou Simónides - Isso, porém, não logra anular o desgosto. A esperança e mesmo a certeza não suprimem a dureza das separações terrestres. Era uma nobre senhora.

- Sabes o que tem meu pai neste momento? Parece preocupado, de há uns meses a esta parte... Não me atrevi a perguntar-lhe porquê.

- É Tirzah que o inquieta, e os teus primos, em Roma.

- Minha tia? Não é feliz? Meus pais dizem sempre bem de seu esposo Drusus. Dizem que é um homem recto e muito bom, que a soube cumular de afeição...

- Sim! O verme não está entre eles, mas talvez em volta deles. Pelos nossos navegadores que frequentam a Itália, soube teu pai ruins boatos. Diz-se por lá, depois da morte do imperador Cláudio, que tolerava os cristãos, que o novo Augusto, um tal Nero. os detesta, e que devemos recear por eles. Ora, Tirzah, Drusus e seus filhos são cristãos como nós. A sua situação torna-os notados em Roma. É isso, creio eu, o que inquieta teu pai. Há uns meses que não recebe notícias de sua parte e...

Entrou Ben Hur, nesse momento.

- Faláveis de Roma? - indagou ele.

Ben Hur mudara naqueles vinte anos, mas ficara assombrosamente esbelto e direito, embora seu semblante se sulcasse de rugas e seus cabelos tivessem embranquecido. Aproximou-se do filho e fitou-o. Gostava de descobrir nele a sua própria imagem aos vinte anos... Os seus vinte anos! Como foram menos felizes do que estes! Aos vinte anos, remava ele nas galés, persuadido de que não lhe restavam senão alguns meses de vida. Aos seus vinte anos, salvava o tribuno Quintus Arrius e tornava-se herdeiro de uma das mais belas fortunas de Roma. Fora-o nos termos da Lei.

- Roma! Está a chegar de lá um dos nossos navios, vi as suas cores à entrada do porto; manobra neste momento para atracar. Talvez traga notícias. Devias ir ver, Filipe!

O jovem saiu.

- Caro Simónides - disse Ben Hur - não devias tomar mais cuidado com o teu repouso? Ainda trabalhas dias inteiros... O tempo dos esforços passou.

- Não! É uma alegria para mim estar com teu filho... Por vezes, ao ouvir a sua voz, parece-me que vou encontrar-te, quando me falavas pela primeira vez de Ester, aqui mesmo... Tem a tua coragem, a tua paciência, também. Não lhe falta ainda senão a tua prudência, mas ela vem, bem o sabes, sempre bastante cedo. Acabo de completar com ele aquele trabalho que empreendera: o inventário de todos os bens dos Hur. Descansa, mesmo quando deixares totalmente os negócios, podereis viver como homens ricos, tu e os teus, até a terceira geração. Tem corrido tudo tão bem nestes últimos anos, nenhum naufrágio, nenhum desastre!... O Senhor é verdadeiramente muito bondoso connosco e pergunto a mim próprio se...

Interrompeu-se, por ouvir passos a correr no terraço, e depois a voz de Filipe:

- Pai! Pai! Aí estão eles!

- Quem está aí?

- Tirzah e Drusus, Paulina e João!

- Quem? - exclamou Ben Hur.

Mas já Tirzah entrara e se lhe lançava nos braços...

Ester acorreu, seguida de suas duas filhas; não houve no aposento senão exclamações, gritos, perguntas, ruído de beijos. Por fim, tomou cada um o seu lugar e, enquanto os servidores traziam refrescos, pôde Ben Hur ouvir Drusus.

- Perdoa, Ben Hur, entrámos a bordo do teu barco como fugitivos, ocultando-nos. Há dois anos que Nero ocupa o trono, procura todos os meios para destruir os cristãos.

- São numerosos em Roma?

- Muito numerosos... Alguns milhares, com certeza!

- Como se divulgou assim a nossa crença? - perguntou Simónides.

- As ideias andam depressa em Roma. Foi por Óstia, uma porta aberta para o mar e para o Oriente, que navegadores levaram testemunhos. E, depois, nestes últimos tempos houve muito movimento no exército. Regressaram numerosos legionários que serviram neste país. A pátria nem sempre lhes dispensou o acolhimento que esperavam; então, reflectiram, compararam a vida em Roma, que é toda exterior, com o que viram aqui. Assim, pouco a pouco, a ideia ganhou adeptos, sobretudo entre os pobres, entre os escravos, enfim, entre todos aqueles que não têm esperança neste mundo e a quem a Palavra de Jesus traz uma, imensa. É estranho, aliás; apesar das perseguições, ou talvez por causa delas, o nosso número aumenta sem cessar. Digo-te que, há uns meses, somos obrigados a ocultar-nos.

- Já não vos podeis reunir?

- Somente em pequenos grupos para não dar nas vistas... Por isso, também, é impossível encontrarmo-nos em nossas casas.

- Então, onde celebrais os ofícios?

- Olha: verificámos que Nero nada mais respeita senão a moradia dos mortos, essas galerias onde se fazem os enterros. É aí que nos reunimos.

- Nas catacumbas?

- Sim, de noite.

- Aí, não vos perseguem?

- Ainda não.

- As perseguições são graves?

- Ainda não há mortes, mas sente-se um ódio temível na corte de Nero. Tudo o que é cristão é expulso dos postos importantes, os nossos antigos amigos fogem de nós como se tivéssemos peste... É preciso, pois, dissimular. Se me tivessem dito, Ben Hur, que o facto de crer em Jesus nos obrigaria a viver como uma seita secreta, com esconderijos, palavras de senha para nos reconhecermos, o receio sempre em nossa volta...

- Os vossos abrigos subterrâneos são desconhecidos?

- Assim o creio, mas são pouco numerosos. É preciso criar outros.

- Quem vos impede?

- Vais rir-te, Ben Hur: a falta de dinheiro! Já to disse, há muitos pobres entre nós e os ricos são vigiados, ou, pelo menos, assim o julgam... Nenhum se atreve a dispor da sua fortuna para comprar terras e aí perfurar o solo.

- Tu, Simónides - disse Ben Hur - procuravas saber porque nos permitira Deus acumular tantas riquezas?

- Sim - respondeu Simónides - É possível que fosse para esse fim.

- Escuta, Drusus, estás ameaçado em Roma? Sabem que és cristão?

- Se não tivesse a certeza disso, não teria tomado a decisão de partir com os meus.

- O teu posto no exército?

- Tribuno! Mas, pouco a pouco, retiraram-me toda a possibilidade de comandar. Sei que sou incessantemente espionado.

- Que tencionas fazer? Ficar por aqui?

- Não! Abandonar os nossos no momento em que estão ameaçados, seria uma cobardia. Não! Vim pedir-te ajuda, Ben Hur.

- Sob que forma?

- És cidadão romano?

- Sem dúvida!

- A tua propriedade na Via Ápia está livre? Não se encontra guardada por um dos teus intendentes?

- Sim, e a casa que Quintus Arrius me legou em Pompeia, e a de óstia, também.

- Se regressares a Roma, quem desconfiará de ti? És Judeu, portanto, para a gente de Nero, és contrário a Cristo, achas-te entre os seus perseguidores.

- Eles pensam assim?

- Pensam! Muito poucos Judeus romanos se tornaram cristãos, e à parte o Apóstolo Paulo, quase não vimos mais nenhum. Mesmo Paulo, para os Romanos, é de origem grega.

- Depois?

- És rico, podes ajudar-nos, sem despertares alarme, podes, nas tuas terras e noutras que comprares, mandar abrir galerias onde sepultemos os nossos mortos e onde nos reuniremos. Entre nós há também nobres famílias muito abastadas. E quando Nero tiver passado - porque passará, e depressa - seus excessos conduzirão à revolta, não tenhamos dúvida. Então, todos te devolveremos o dinheiro que dispenderes.

- O dinheiro pouco importa. O teu plano é audacioso, Drusus. No entanto, não podemos ir todos para Roma. Proponho, e isso custa-me muito, que Ester e Tirzah fiquem aqui junto de Simónides, com nossas três filhas. De início, partiremos só tu, teu filho, Filipe e eu. Para não seres reconhecido, passarás por meu servidor. João já esteve na corte de Nero?

- Não! Faz os seus estudos em Roma, mas desde o princípio das buscas que não sai; aliás, não conta senão quinze anos e, nesta idade, um rapaz muda muito.

- Bem, passará por meu segundo filho. Partiremos quando te aprouver, Drusus.

- Ben Hur! - exclamou Ester.

- Eu sei, Ester. O que peço é doloroso para ti, para Tirzah e para nós todos... Mas, se há alguma coisa a tentar, deve-se fazer. Não podemos ir contra a vontade de Deus. É também o que pensas, Simónides?

- Não tornarei a ver nenhum de vós - disse o velho - mas morrerei contente sabendo o que empreendestes. Filipe, João - prosseguiu ele - vinde ambos esta noite falar comigo... Dir-vos-ei o que o filho de Hur fez há trinta anos e, sabendo isso, não experimentareis receios a seu respeito.

Decorridos alguns dias, o mesmo navio que trouxera Drusus e os seus tornava a largar para Itália. Desta vez, levava a bordo, Ben Hur e seu filho Filipe, Drusus e seu filho João, bem como o fiel Malluch que não quisera abandonar o seu amo. De pé no cais, Ester e Tirzah, rodeadas de suas filhas, viam, de lágrimas nos olhos, as velas subirem aos mastros. No momento em que, largadas as amarras, o barco se afastava do cais, Filipe, erguendo os olhos para a casa onde nascera, viu numa das varandas um pequeno vulto, o de Simónides... Voltou-se então para os seus companheiros e disse:

- Connosco, esse Nero, quem quer que ele seja, não tem senão que recear pela sua vida!

- Toma cuidado, imperador! - exclamou Ben Hur, a rir - Olha que vai aqui o filho de Ben Hur!

 

Os ventos foram propícios e, doze dias depois, o gajeiro assinalou a aproximação das costas de Itália. Logo os cinco envergaram as roupas que tinham preparado: Ben Hur tornou-se um Romano enriquecido em terras remotas, mãos carregadas de anéis, colares ao pescoço, toga ornada de um bordado exótico. Não rapara a sua curta barba a fim de bem marcar hábitos de vida diferentes dos de Roma. Vestindo longas túnicas de vivos bordados de ouro e de prata, levantadas as golas e punhos guarnecidos de pedras coloridas. Filipe e João podiam muito bem passar por filhos de um rico senhor, criados nos costumes do Oriente.

Malluch, rosto severo, trazia um fato feito de couro, mas igualmente ornado de placas de prata, de forma a evocar algum antigo militar promovido a guarda de corpo.

Por último, Drusus, que devia passar mais despercebido, deixara crescer a barba. Envergava uma túnica castanha muito simples, bastante comprida, como os intendentes nas terras de África.

- Tens de esquecer a tua atitude de tribuno - disse Ben Hur - Meu pobre Drusus, vais ver-te obrigado a curvar a espinha.

- Diante de um amo como tu - replicou Drusus - julgo que o conseguirei muito bem.

Quando as costas se aproximavam, costas planas e baixas na região de óstia, sentaram-se no convés. Ben Hur olhava seus companheiros: por Malluch não receava, estava acostumado a partilhar dos seus perigos... Por Drusus, tão-pouco: era um soldado e esta aventura não seria para ele mais arriscada do que uma campanha guerreira. Mas aqueles dois jovens, a que perigos não iriam expor-se? Sobretudo. João inquietava-o; não tinha mais de quinze anos, e eis que lhe pediam que temperasse o ardor da sua idade, soubesse ser ardiloso, dissimular... E se fossem presos, que sorte lhes estaria reservada?

Ben Hur reviu mentalmente os rostos perturbados de Ester e de Tirzah no porto de Cesareia. Com sua sensibilidade de mães, tinham sentido tudo aquilo antes dele, desde o primeiro instante. Agora, era demasiado tarde para recuar. Ben Hur disse:

- Saibamos todos uma coisa. Não é somente o nosso destino que podemos comprometer com uma tagarelice ou uma inadvertência, é o de toda uma comunidade. Se suceder a um de nós ser preso, nada deve dizer acerca do nosso verdadeiro parentesco, do que sabe a respeito dos outros, nem da maneira como veio para aqui; e, isto, mesmo sob tortura. Cada um de nós deve tomá-lo como um compromisso formal. Juremo-lo.

As mãos estenderam-se.

- Capitão - ordenou Ben Hur - atracarás somente o tempo para o desembarque. Nenhum dos teus homens deve trocar uma palavra sequer com as pessoas do cais. Logo que deixarmos o navio, retomarás o largo e que cada um se esqueça do que veio fazer aqui e até da nossa presença. Tenho a tua palavra?

- Tens a minha palavra, senhor - replicou o navegante - Nada temas desta tripulação. Bem sabes que todos te são dedicados até à morte.

Algumas horas depois, achava-se o barco no porto e Ben Hur, mal desembarcou, viu que já manobrava para se afastar.

Às portas fortificadas do porto velavam legionários sob o comando de um oficial.

- Quem sois? - indagou o homem.

- Sou o filho de Quintus Arrius, antigo tribuno da frota - respondeu Ben Hur, mostrando pergaminhos - Estes são meus dois filhos, e aqueles dois meus servidores.

- Teu pai era um nobre Romano - disse o homem, percorrendo os pergaminhos - Ainda se fala dele em todo o Mediterrâneo. Mas desde então não voltaste mais ao país?

- Há quase trinta anos - declarou Ben Hur.

- Vais encontrar rudes mudanças - disse o oficial e, baixando a voz - o tempo dos homens de honra como Arrius morreu. Agora, por toda a parte, é corrupção e porcaria... Quem não paga ou não se enlameia, não sobe de posto. Vamos! Que os deuses te protejam! Tu, pelo menos, se isto te enojar, sempre poderás reembarcar. Deixai passar, vós, deixai passar o nobre Arrius!

Em óstia facilmente encontraram cavalos e em breve galopavam pela larga estrada de lajes que conduzia à cidade. Ben Hur era sensível à calma arrumação desta campina romana, e não a revia sem nostalgia. Fora ali que se detivera, uma noite, com Quintus Arrius; era junto daquele cipreste que ele vinha, depois das horas de treino no circo, sonhar com o doce rosto de Ester.

E eis que a pouca distância das muralhas ocres da cidade, avistava a sua casa, aquela onde Quintus morrera e da qual depois não quis separar-se. Uma fileira de árvores, pinheiros e ciprestes marginava o caminho, depois, atrás dos muros bastante altos com duas portas, achava-se a vivenda, de aspecto assaz pesado, mas aberta para um átrio muito belo de flores e de tanques de águas frescas.

Entrando em casa, Ben Hur viu que nada mudara, mas que, pelo contrário, se encontrava escrupulosamente conservada. Já o intendente se inclinava diante dele. Uma geração, porém, passara e o homem era filho daquele que Ben Hur conhecera.

Depois de o ter felicitado e lhe ter agradecido o cuidado que tivera, Ben Hur disse-lhe:

- Tenciono agora fixar-me aqui. Quero que meus filhos sejam educados na tradição de Roma, mas ficarei ora numa vivenda, ora noutra. A de Óstia e a de Pompeia estarão em tão bom estado como esta?

- Não sei, senhor, mas duvido. Não havia intendente nessas casas, apenas um casal de criados. Duvido que se atrevessem a ordenar trabalhos.

- Vais então partir para óstia e mandar fazer o que for preciso. Depois do que irás a Pompeia fazer o mesmo. Esperas-me lá, no Sul, pois tenciono lá ir dentro em pouco. Não poupes nada, sê tão hábil e engenhoso como o foste aqui. E para que tudo fique bem, leva os escravos que aqui tens, porque eu arranjarei facilmente outros em Roma.

Assim se desembaraça Ben Hur de testomunhas que poderiam ser incomodativas. Arranjara as coisas de maneira que o intendente e os seus escravos partiam no dia seguinte para o Sul e não iam a Roma, onde um ou outro poderia dar à língua.

Depois deles partirem, Ben Hur disse aos quatro companheiros:

- Agora, escutai-me. O jogo é demasiado perigoso; nenhum de vós se deve mostrar sem meu assentimento. Esta manhã, vou só com Malluch à cidade, pois convém que eu faça a minha entrada com brilho, será a melhor maneira de desviar toda a suspeita. Drusus, peço que ninguém se mexa aqui antes do meu regresso.

- Está bem, serás obedecido - disse Drusus.

Dirigiram-se ambos às portas da cidade e aí tomaram uma liteira.

- Conduz-me ao Circo Maximus! - ordenou ele aos portadores.

- Hoje não há jogos no Circo - observou um deles.

- Pouco importa! Vai onde eu te disse.

Mandou deter a liteira a pouca distância do Circo, e Malluch e o amo continuaram o seu caminho a pé.

- Lembras-te de Thord, o Nórdico? - perguntou Ben Hur.

- Aquele que, por um triz, não te mandou para o Outro Mundo, por ordem de Messala?

- Exactamente! Dei-lhe nessa época uma boa quantia para fazer acreditar que ele triunfara. Deve ter comprado uma taberna perto do Circo, e é isso que eu procuro.

Todo um pequeno mundo de artífices, de taberneiros, de mercadores de toda a espécie se aglomerava nas lojas de madeira em volta do Grande Circo e não era fácil encontrar um nome entre aquelas tabuletas.

- Conheces um homem chamado Thord? - perguntou Ben Hur a um velho tamanqueiro.

O homem levantou o nariz da sola que cosia:

- Thord? O Nórdico? Certamente que conheço! Era o melhor gladiador do seu tempo! Ah! Viste-o no Circo, como eu, derrubando seis adversários de um só golpe?

- Não tem uma taberna perto daqui?

- Tem! Exactamente! Além atrás, a cem passos daqui, tem a marca da sua mão na tabuleta e, pelos deuses! é tão grande como a pata de um urso.

A entrada era baixa e estreita, mas a taberna assaz espaçosa, com suas mesas de madeira todas enodoadas de espesso vinho tinto entornado; uma enorme massa achava-se instalada ao fundo, numa cadeira, cotovelos fincados num balcão talhado em pedra, de onde sobressaíam os bicos das ânforas.

- Eu te saúdo, Thord! - disse Ben Hur, sentando-se perto da massa - Disseste-me um dia: «Se passares pelo Circo Maximus, entra na minha casa, e haverá sempre um copo de vinho para ti!»

A massa moveu-se, espreguiçou-se e dela saiu um riso enorme, o riso prodigioso de Thord.

- Por todos os deuses! É o filho de Arrius! Ah! Ah! Ah! O meu melhor aluno, aquele que quase deu lições ao seu velho mestre em Jerusalém! Ah! Flúvia! Chega cá, miúdo do diabo!

E quando entrava um rapaz esgalgado de uma quinzena de anos mais ou menos, a massa disse, soberba:

- Flúvia, meu escravo. Vamos, enche as taças para estes nobres senhores e toma cuidado não esqueças o teu amo.

E o riso repetiu-se.

Ben Hur deixou passar o ciclone, o acesso de alegria de Thord; depois disse:

- Thord, como está Roma desde que a não vejo?

- Sempre a mesma - disse Thord e, continuando a rir, ajuntou - É sempre o lugar onde a gente se diverte - Mas, bruscamente, o seu riso cessou - Não, filho de Arrius! - disse ele - Roma já não é a mesma. Vai-te embora, Flúvia, e não escutes às portas como de costume, se não arranco-te as orelhas. Não, Roma está podre, Roma está nas mãos de um louco, de um filho ilegítimo, do monstro que essa velha rameira Agripina pôs neste mundo. Ela conseguiu casar com o imperador Cláudio e, depois, sabes o que fez? Logrou que Cláudio deserdasse Britânico, seu próprio filho, um bom rapaz, em benefício do rebento dela. Desde que é imperador, o outro, o Nero, repudiou a mulher, suprimiu Britânico, e estoirou com a pele da velha garça de sua mãe. Ah! - gemeu Thord - Roma vive na podridão e eu envelheço e já não rio senão por hábito.

- Escuta, Thord. Conheces alguém da intimidade de Nero?

- Oh! Alguém! Há uma porção de «alguéns»; ele tem uma corte faustuosa e todos o exalçam e o adulam. Chamam-lhe divindade e extasiam-se quando aquele histrião declama seus versos; porque ele também faz versos.

- Mas alguém a quem me possas enviar?

- Alguém a quem eu... Ah, espera! - E o riso de Thord recomeçou - Lembras-te de Petrónio, aquele homenzinho sempre janota, perfumado e tudo. Não tomava lições no teu tempo?

- Petrónio?... Sim, talvez. Esse nome recorda-me qualquer coisa.

- Às vezes vem por aqui, quando esse grande senhor tem vontade de se acanalhar! É agora o árbitro das elegâncias e toda a gente, em Roma, copia a maneira como ele dobra a toga, ou como põe uma coroa. Podes visitá-lo, mora numa casa muito bonita ao fim do Vicus Apollinis, um pouco à parte, como convém a um ser delicado.

- Receber-me-á?

- Porque não? Tu és filho de Arrius e ele de um simples oficial de coortes. Vai vê-lo, dize-lhe que fui eu quem te deu a morada.

- Obrigado, Thord, voltarei a visitar-te.

- Quando quiseres, filho de Arrius! Aqui, estás em tua casa!

O riso de Thord seguiu-os por muito tempo, na rua.

 

Thord falara verdade: a casa de Petrónio era esplêndida. Separada dos muros da rua por canteiros de flores, era uma moradia de colunas, toda guarnecida de diferentes mármores de veios delicados, desde os rosas suaves aos cinzentos profundos.

O átrio era vasto, pavimentado de mosaicos em que grinaldas de flores emolduravam figuras de mulher. O intendente que recebeu Ben Hur fê-lo entrar num compartimento bastante baixo cujas frestas deitavam para um jardim gracioso e admiravelmente tratado. Entre as rosas trepadeiras espreitavam manchas brancas de estátuas do tamanho de uma criança de dez anos, representando deuses e deusas.

O intendente voltou e disse:

- Meu amo está nos banhos, propõe-te que vás até lá.

Por uma enfiada de peristilos que davam para os jardins, Ben Hur seguiu o homem até diante de um reposteiro de tecido precioso. Numa espécie de piscina feita de finas pedras juntas, azul e ouro, um homem, braços e pernas abertas, deixava-se flutuar à tona de água. Só as rugas do rosto, sob os cabelos castanhos, indicavam que ele atingira o meio século. Seu corpo ficara ágil e liso. Em volta, seis jovens escravas aguardavam a saída do amo.

Ao ver Ben Hur, o homem, num movimento lesto, saltou para o rebordo; as escravas lançaram-lhe pelos ombros uma espécie de hábito de capucho branco, bordado de trancelim azul-pálido.

- O meu intendente disse-me que és o filho de Arrius, o tribuno. Sê bem-vindo!

- Talvez te lembres de mim, Petrónio; jogámos outrora nos exercícios corporais com Thord, o Nórdico!

- Teu nome é-me familiar. Quanto ao rosto! Passaram tantos anos! Mas, visto sermos velhos camaradas, comportemo-nos como tal.

Caminhando pelo jardim inundado de sol, Ben Hur resumiu a Petrónio a sua estada em Israel, depois abordou o objecto da sua visita.

- Saudar o imperador - disse Petrónio - é esse o teu desejo? Em verdade, não é difícil de satisfazer; desde que o lisonjeiem, Nero recebe toda a gente. Mas, permite-me uma pergunta: estás bem provido de dinheiros?

- O bastante para o tempo que minha vida durar e para que meus filhos e netos façam o mesmo.

- Então, que vais tu procurar junto de Nero? Só um miserável lucra em frequentar a sua corte. É preciso que tenha fome, ou grande sede de honrarias, para se aproximar desse histrião.

- A minha intenção não é frequentar a sua corte, mas somente ir à sua presença, como convém a todo o nobre Romano que regressa ao seu país.

- Com certeza! É diferente! Pois bem, caro Arrius. trata de estar à décima hora (1) no palácio; lá estarei também e conduzir-te-ei à presença do monstro.

 

Nota 1: - Para nós, às 16 horas. O dia em Roma dividia-se em doze horas, desde o nascer ao pôr do sol. Estas horas eram, pois, irregulares, visto que a duração variava segundo as estações do ano.

 

- Compreendo a boa vontade da tua gentileza, Petrónio. Permites-me uma pergunta?

- Tudo é permitido a quem se encontra sob o meu tecto!

- Porque é que tu, que tanto aborreces esse homem, fazes parte dos que não o deixam?

- Porque me corrompi e perverti com ele, e porque não se torna a subir o declive! Ao princípio, ele não era mau, mas o poder deu-lhe volta à cabeça e, como fiz parte dos seus primeiros companheiros, um só dia de ausência no palácio equivaleria para mim à morte. É um comediante que necessita de todo o seu público... Por isso, Arrius, acredita-me: nunca te tornes frequentador habitual de tão mau teatro; ficarias a querer-me muito mal!

A meio da tarde, Ben Hur, com grande estadão, seguido de Filipe e de João, todos soberbamente trajados, e de Malluch transportando uma pesada caixa, apresentou-se no palácio.

Um guarda conduziu-os por largas escadas até a grande sala de mármore onde esperavam os que solicitavam audiência. Encontravam-se ali uns trinta homens, a maior parte divididos em pequenos grupos que cavaqueavam. Petrónio deixou aqueles com quem estava e, supremamente elegante nos seus gestos e em toda a sua pessoa, dirigiu-se a Ben Hur.

- Permite, nobre Petrónio, que te apresente os meus dois filhos.

- São muito belos - disse Petrónio - e a sua mocidade agradará aqui.

Houve um movimento ao fundo da sala, os guardas alinharam-se e Nero apareceu. Bastante baixo, pernas curtas, peito largo e pesado, corpo muito gordo, apresentava um rosto de manchas vermelhas, tez doentia. Seus olhos globosos de míope eram de um azul-metálico, quase incomodativos; uma cabeleira a atirar para o ruivo, penteada em caracóis, suportava uma fina coroa de ouro ornada de pérolas, com aparências de diadema feminino.

O imperador marchava a passo lento e largo, como marcham os trágicos no palco; aliás, a púrpura assumia nele o aspecto de um disfarce, de tal modo o seu rosto era vulgar. As mãos saudaram aqui e acolá, voluntariamente moles e abandonadas. Nero tomou lugar no seu trono.

- Tigelino - disse Nero - fala-me desta boa gente!

O comediante Nero não era favorecido pelo tom da voz: naturalmente aguda, ele esforçava-se por educá-la, a fim de a tornar mais máscula e por isso empregava as sílabas em tonalidades baixas, mas, quase a cada palavra, ressurgia o tom gritante.

Tigelino inclinou-se e começou a declinar os nomes e os títulos. Cada pessoa nomeada vinha ajoelhar-se diante do trono e fazia em algumas palavras o seu requerimento; com um gesto, Nero decidia.

- Sim, este terá o comando desejado...

- Não, aquele não poderá desposar tal jovem...

- A pensão de um tal será aumentada...

- As terras daquele ser-lhe-ão entregues por metade...

À retaguarda de Tigelino. dois escribas registavam as decisões do imperador.

Ben Hur sabia quem era aquele Tigelino: um antigo escravo liberto, elevado por Nero à categoria de conselheiro. Era um ser velhaco que participara de todos os assassínios do regime recente e que lisonjeava sem rebuço os mais baixos instintos de seu amo. Ambicioso e arrivista, gostava, seguro da impunidade, de rebaixar e insultar os mais nobres Romanos e de fazer-lhes pagar caro a sua antiga condição de escravo.

Depois de Tigelino, Petrónio aproximou-se do trono; o seu porte era perfeito e todos os seus movimentos de uma graça comedida.

- Divindade - pronunciou ele - eu não tenho senão um homem a apresentar-te. Este nada mais solicita senão a glória de te conhecer. Eis Quintus Arrius, o filho do Duúnviro que outrora comandou todas as frotas dos teus antepassados. Viveu trinta anos em terra estrangeira e regressou hoje a Roma.

- Tu não dizes toda a verdade, Petrónio - observou Tigelino - O homem que aqui está não é senão o filho adoptivo de Quintus Arrius. Em verdade, até direi que é um Judeu de Jerusalém.

- É verdade - disse Ben Hur - nasci príncipe de Israel da casa dos Hur, mas, por mercê do imperador Tibério tornei-me filho de Arrius e nobre de Roma.

- É uma história apaixonante - comentou Nero, bocejando.

- Permite, grande imperador, que a minha dedicação deponha a teus pés estes modestos presentes. Que sejam para ti como que o símbolo da dedicação que teus súbditos de terras distantes têm pela tua Grandeza.

A um sinal de Ben Hur, Malluch depôs na base do trono a caixa de cedro ornada de pedras. Abriu-lhe a tampa e dela jorrou uma cintilação de ouro; anéis, braceletes, colares, tão belos que um longo murmúrio percorreu a sala. Nero, todo debruçado, contemplava aqueles tesouros com a cobiça de uma criança grande que descobre novos brinquedos. Ben Hur, afastando com mão negligente aqueles objectos preciosos, tirou do fundo uma longa caixa de ouro, admiravelmente ornada de diamantes e safiras. Uma amestista brilhava no centro e era tão bela que Nero - para quem a amestista era a pedra preferida - estendeu as mãos para o objecto.

Com uma vénia, Bem Hur entregou a caixa ao imperador.

- O que é isto? Nunca vi uma forma semelhante...

- Isto, senhor, é um estojo precioso e muito antigo no qual os da minha raça guardavam outrora os rolos da Lei.

- Para que pode servir? - perguntou Nero.

- Nós sabemos em Israel que o glorioso imperador de Roma reúne às suas qualidades de chefe um maravilhoso talento de poeta. A fama dos versos que compões chegou até nós e eu pensei que, embora indigno de escritos tão perfeitos, este modesto escrínio poderia talvez guardar os que te custaram menos talento!

- Admirável! - Nero levantou-se - Admirável! Vem cá, digno Arrius, para que eu te abrace... Assim tu conheças meus versos, e a terra da Judeia os repita! Oh! Fortuna! Oh, dia abençoado pelos deuses este em que sei que a fama de um pobre poeta foi assim levada por sobre os mares! Graças te sejam dadas, caro Arrius. as musas te coroem; quero tornar a ver-te. Vem amanhã à noite à festa que eu dou, ver-me-ás tirar da tua caixa versos que são para mim aqueles a que atribuo maior valor... E quem são estes? - indagou ele, apontando Filipe e João.

- Os meus dois filhos, senhor, que não desejam senão servir-te.

- Traze amanhã o mais velho contigo, o mais novo ainda é demasiado jovem, conto convosco... Sim, caro Arrius, amanhã avaliarás, ao escutar os meus poemas, o reconhecimento do teu imperador!

E saiu, num largo movimento de toga, levando apertada contra ele a caixa de ametista.

Petrónio olhou Ben Hur por um instante, sem poder ocultar um ar de desgosto. Aquele servilismo chocara-o e ele mostrava-o. Sem dizer palavra, rodou sobre os tacões e saiu por uma porta baixa.

Em contrapartida, Tigelino desceu do trono e aproximou-se de Ben Hur.

- Príncipe - disse ele - podes conceder-me uns minutos de atenção?

- Estou à tua disposição, poderoso Tigelino - respondeu Ben Hur.

- Vamos para local sossegado...

- Vós - disse Ben Hur, dirigindo-se aos dois jovens e a Malluch - esperai-me à porta do palácio.

- Nada disso - opôs Tigelino - Adamus! - Um jovem muito empoado, muito gracioso, avançou - Conduz estes jovens pelo palácio, mostra-lhes as suas maravilhas... Estrangeiros, sentir-se-ão felizes em ver assim a glória de um regime. Depois, trá-los aqui para se juntarem a seu pai.

- Senta-te, príncipe. És Judeu, bem o sei. Oh! Não tenho nada contra eles. A Lei fez-te Romano, mas sei que as pessoas da tua raça ficam afeiçoadas à sua origem... Que idade tens, príncipe?

- Mais de cinquenta anos!

- Muito bem; foste então testemunha em Israel do aparecimento dessa nova seita religiosa, a dos cristãos. São numerosos no teu país?

- Não - respondeu Ben Hur. E não mentia, ao falar assim - Os padres do Templo ergueram-se logo contra eles e destruíram-nos quase à nascença.

- Julgo-os mais fortes aqui... Imiscuem-se em tudo e criticam o regime. Em nome de não sei que regra de moral, de honestidade, permitem-se a crítica e vão contra os desígnios do imperador. Conheces alguns?

- Cheguei ontem a Roma...

- Mas que pensas deles?

- Já to disse, os padres judeus combateram-nos.

- Queres dizer que não os trazes no coração. Escuta, é possível que alguns tomem contacto contigo e tentem converter-te. Sobretudo, hão-de procurar saber por uma testemunha o que foi o início da sua Igreja em Israel. Não os afastes, escuta-os e finge compreendê-los...

- Mas tu pedes-me, Tigelino, que me associe aos inimigos do imperador?

- É ele mesmo quem o deseja. Ele to confirmará.

Se pudesses penetrar um pouco os seus segredos, saber quem são os chefes, onde se reúnem, prestarias ao Império um assinalado serviço e assegurarias a fortuna dos teus. Lembra-te, príncipe de Hur: servirias ao mesmo tempo o teu Deus, visto que eles se levantam contra a sua Lei. Encontrar-me-ás sempre que quiseres. Quando eu estiver ausente do palácio, o jovem Adamus, que tu viste, sabe sempre onde me encontro. Pensa, peço-te, caro Arrius, que tens nas tuas mãos o favor de Nero!

Reunidos na vivenda da Via Ápia, Drusus, Filipe, João e Malluch escutavam a narrativa de Ben Hur.

- Tive hoje de representar e dissimular como nunca o fiz na minha vida - disse o príncipe - mas, agora, estamos dentro da praça. Se pequei, tomo sobre mim essas ofensas ao Senhor; se puder, pela mesma forma, ajudar a Sua Igreja na sua luta, creio que serei perdoado... Mas é duro falar contra o nosso coração.

- Pai - observou Filipe - não haverá alguma coisa de mais grave? Não é um crime contra a Lei oferecer a um pagão um objecto sagrado?

- Queres falar da caixa? Tranquiliza-te, Filipe, aquela nunca conteve os rolos da Lei. Aquela caixa nunca foi sagrada. Sabes que temos hábeis artífices em Israel. Ouvi falar da inclinação de Nero para o ofício de poeta e mandei fazer aquele escrínio expressamente para o adular. Concordo que tudo isto não é glorioso... Mas que meio temos nós de proteger os nossos? Não o conseguiremos de gládio na mão contra as Legiões de Roma. E então? A única maneira é parecer fazer o jogo dos nossos inimigos e saber por eles próprios o que preparam contra a Igreja.

- Pai! - objectou Filipe - Perdoa, mas teremos nós o direito de seguir semelhante via? A glória de Cristo acomoda-se a caminhos tortuosos? Viemos aqui para nos bater e não para espionar! Pedro ou Paulo nunca se dissimularam. Proclamaram sempre bem alto a sua Fé.

- Pedro, Paulo e os Apóstolos são santos; ai! eu, não. Compreendo o teu sentir, Filipe. Na tua idade, sem dúvida, eu teria reagido de outra maneira, mas, com toda a comunidade ameaçada, é preciso defensores. Foi para isso que vim aqui, a teu pedido, Drusus... Agora, que já cá estou, com o risco de me perder, hei-de salvar os nossos.

No dia seguinte, de manhã, Ben Hur disse a Drusus:

- Não podemos permanecer sós, nesta vivenda, sem criados. Precisamos de constituir um lar. Que se pensaria de um Romano rico que vivesse em semelhante retiro? Mas precisamos de pessoal de confiança. Como sabes, um segredo depressa se devassa. Basta escutarem umas palavras para tudo descobrirem. O ideal seria ter cristãos connosco, mas é preciso termos a certeza da sua fé. Haverá algum meio?

- Sim, há um: o problema já foi encarado, como deves calcular. No mercado de escravos de Roma há um homem chamado Gestão. Grego de origem, foi convertido em Antioquia por Paulo de Tarso. É fiel e podemos confiar nele. Fez-se negociante de escravos só para poder proteger os cristãos e colocar em casa de famílias amigas pessoas que partilhem da mesma Fé. Este negócio talvez não esteja muito de harmonia com a Lei, mas tudo o que ele ganha reverte para a Comunidade.

- Onde se oculta ele?

- Não se oculta, vende no maior mercado de escravos de Roma.

- Mas, então, toda a gente pode fornecer-se dele?

- Tem uma espécie de habilidade espantosa. A quem não é seu conhecido, propõe preços tais que ninguém suporta; em contrapartida, com os da seita, porta-se de outra maneira.

- Comprar-lhe vários escravos não chamará as atenções?

- Sim. mas ele arranjará certamente uma solução. Escuta, sei onde mora, se quiseres irei à noite a sua casa...

- À noite? Seria o melhor meio de se tornar notado. Não, é preciso procurá-lo em pleno dia, e num lugar público. Ele não vai aos banhos?

- Vai! Deve mesmo lá estar a esta hora; às termas de Apolo, numa ruela perto de Via Triunfal.

- Então, vai lá com Malluch. Quem poderia reconhecer, sob as roupas de escravo que tu usas, um tribuno das legiões? E entende-te com ele.

Uma hora depois, dois homens de modesta aparência entravam nos banhos de Apolo. Era um estabelecimento frequentado por artífices e pessoas de mediana condição. Através da bruma que se levantava das piscinas, Drusus viu logo aquele que procurava. Era homem de uns sessenta anos, de bastante corpulência, tez corada e que lhe dava o aspecto de ser dado aos prazeres da mesa.

- Eu te saúdo, Gestão - disse Drusus, aproximando-se dele.

Gestão olhou Drusus; nenhum sinal de inteligência apareceu no seu olhar.

- Eu te saúdo - disse ele.

Olhou sucessivamente para aquele que se lhe dirigira, depois para Malluch e, como homem que não conhece quem lhe fala, voltou-se para o outro lado.

- Gestão - disse Drusus a meia-voz, fitando a água a seus pés - não me reconheces? Observa-me bem e tenta ver-me sem barba na cara - e como Gestão se voltasse, recomendou - Mas fá-lo discretamente!

Gestão, estendido à beira da piscina, rolou lentamente para um lado e para o outro, como pessoa que se detém e saboreia o banho de vapor.

- Vendo bem aquele que me fala - disse ele, entre dentes - poderia muito bem ser um certo soldado.

- Tu o disseste!

- Um homem que deixou Roma, há uns meses.

- Exacto!

- Que queres, Drusus?

Drusus disse-lhe rapidamente o que procurava, evitando, porém, pronunciar palavras demasiado precisas, para o caso de fragmentos da conversa serem ouvidos.

- Está bem - disse Gestão - vai ao mercado dentro de duas horas, terei lá escravos de todas as idades, todos de confiança. Examiná-los-ás como se procurasses um só. Àqueles a quem mandares abrir a boca, como para lhes contares os dentes, serão os que tu queres. Depois, retiras-te, como se não tivesses encontrado o que desejavas; os que tiveres assinalado, vendê-los-ei a outros mercadores na hora seguinte... Pouco tempo depois, voltarás e encontrarás todos os que tiveres visto, mas algures... Compreendes?

- Preciso de dez ou doze, pelo menos, raparigas e rapazes... Não me recordarei dos seus rostos...

- Terão na mão direita um ferro muito ferrugento e nesse ferro está gravado o número VIII. Não há engano possível.

- Está bem - disse Drusus - Até logo!

O mercado de escravos estendia-se por uma vasta praça. Várias centenas de homens, de mulheres e até de crianças estavam reunidos em pequenos ranchos. Eram «coisas» sem valor humano, seres que cada um procurava para seu serviço ou seu prazer. Os compradores manuseavam-nos, examinavam-nos, voltavam-nos com a mesma displicência que poderiam demonstrar por um objecto qualquer no escaparate de um estabelecimento.

Aliás, nem revolta havia nos interessados. Sentia-se que a maior parte, nascidos escravos, se tinham separado de sua mãe na mais tenra idade e passaram pelas casas de vários senhores, antes de serem mais uma vez levados à venda pública.

- Evidentemente - disse Ben Hur a Malluch - o caso é diferente para os cativos que as legiões de Roma trouxeram de países distantes. Muitos deles eram livres, antes da chegada das coortes.

Mas mesmo esses já não reagiam. O trajecto fora tão doloroso, em fileiras sob o chicote ou aglomerados às dezenas no porão dos navios, que ficavam para ali, sentados no chão, não se levantando senão por ordem dos mercadores para serem examinados pelos clientes.

Em sua maioria, vestidos de andrajos, aguardavam muitas horas ao sol, levados à noite para o armazém do negociante, se acaso não foram vendidos durante o dia.

- Drusus deu-te alguma ideia dos preços atribuídos aqui?

- Gestão falou-nos nisso. As tarifas variam segundo a idade e a força do escravo. Uma criança de doze anos vale aqui entre 3.000 a 4.000 sestércios (1). Uma jovem custa de 5.000 a 7.000 (2); uma velha ou um homem idoso, de 1.000 a 2.000 (3). Um homem na força da vida representa 5.000 a 20.000 (4). Os homens muito fortes ou muito inteligentes não têm preço.

 

Nota 1: - 600 a 800 francos franceses.

Nota 2: - 1.000 a 1.400 francos franceses.

Nota 3: - 200 a 400 francos franceses.

Nota 4: - 1.000 a 4.000 francos franceses.

 

Foi no meio da multidão que passeava e discutia em torno dos grupos humanos reservados a cada mercador que Ben Hur e Malluch viram chegar a sétima hora (1). Drusus ficara na vivenda da Via Ápia, porque seria pouco prudente, apesar da modificação da sua aparência, que ele aparecesse num lugar muito frequentado.

 

Nota 1: - A sétima hora começava ao meio-dia.

 

Detendo-se junto de um mercador, depois junto de outro, Ben Hur e Malluch examinavam certos escravos, escutando os preços e as explicações, em seguida passavam adiante, como pessoas que têm dificuldade em fixar a sua escolha.

De grupo em grupo, progrediam regularmente para o recanto onde Gestão aguardava. Perto dele, achavam-se uns quarenta homens e mulheres, e o coração de Ben Hur oprimiu-se ao pensar que todos serviam Cristo.

Chegados aí, Ben Hur e Malluch procederam da mesma maneira que diante dos outros grupos. Reconhecendo Malluch, Gestão acorreu, começando a descrição minuciosa de cada escravo, gabando a força de um, a paciência de outro, a gentileza de um terceiro.

Conforme se combinara, primeiro, Ben Hur mandou abrir a boca a três sólidos rapazes, homens de vinte a vinte e cinco anos, poderosa musculatura, que Gestão não hesitou em despir para melhor os fazer valer. Depois, escolheu dois homens assaz idosos, dos quais Gestão gabava as qualidades de jardineiros.

Duas cozinheiras foram igualmente designadas pelo mesmo processo, mulheres quarentonas que se deixaram examinar sem reacção.

Gestão, aliás, levava a sua habilidade muito longe e precavia-se contra qualquer má surpresa, não metendo nenhum dos escravos na confidência. Assegurou-se, por uma série de provas só dele conhecidas, de que eram bem cristãos, mas eles ignoravam totalmente qual era a sua crença, e se os destinavam a amos crentes ou pagãos.

Assim, nenhum sinal de conivência se podia trocar e ninguém podia desconfiar de Gestão ou adivinhar o seu método.

Desta maneira, sete escravos foram escolhidos por Ben Hur. Considerou que seria bom que a sua casa não fosse apenas constituída por velhos e mancebos. Ninguém compreenderia, nessa época de perversão de costumes em que o deboche campeava por toda a parte, que um Romano rico não se rodeasse de algumas raparigas. Nisso também era preciso despistar. Ben Hur deteve-se diante de uma jovem soberba, uma morena de olhos admiráveis, corpo são e bem proporcionado.

- Abre a boca - ordenou ele. Depois, como se não estivesse convencido, passou a outra, uma Grega, de perfil regular, e cujos olhos fatigados inquietaram Ben Hur.

Gestão disse então:

- Tenho aí uma, senhor, que te agradará com certeza, mas não te oculto que tem má aparência. Foi sovada pelo seu antigo amo e precisará de uns dias para se recompor.

Ben Hur debruçou-se para uma forma alongada, tapada por uma coberta de cor berrante. Gestão afastou o tecido, descobrindo-lhe a face. A jovem piscou os olhos à luz viva, e Ben Hur reconheceu pela forma do rosto uma jovem judia. Gestão prosseguiu:

- Sim, recusou-se ao seu amo, então ele chicoteou-a antes de a vender; aliás, fez mal... fez mal porque perdeu muito... Os ferimentos não são profundos, mas em todo o caso...

Gestão descobriu o dorso da jovem, zebrado de traços sangrentos; ela estremeceu ao contacto da mão de Ben Hur.

- Levanta a cabeça - disse ele - abre a boca...

A voz era muito suave, mas a rapariga ocultou o rosto nos braços cruzados. Então, Ben Hur inclinou-se e tornou a dizer brandamente em aramaico, a língua popular da Judeia: «Abre a boca». Surpreendida, a escrava ergueu os olhos para Ben Hur; ele leu tanta angústia naquele olhar que não pôde reter um doce movimento da sua mão para a fronte da jovem. Baixando os olhos, ela entreabriu os lábios.

- Isso basta - disse Ben Hur.

- Interessa-te? - perguntou Gestão - Cedo-ta por um preço honesto, porque não te poderá servir senão daqui a alguns dias... Leva-a, posso deixar-ta por 2.000 sestércios.

Ben Hur compreendeu por que motivo o homem insistiu assim. Nunca outro negociante aceitaria semelhante mercadoria e Gestão não poderia colocar a jovem em outro vendedor, como projectara fazer com os outros.

- Fico com ela - declarou Ben Hur - Manda-a conduzir a minha casa; o meu intendente dir-te-á onde moro.

E, debruçando-se para a jovem, murmurou em aramaico, quase ao seu ouvido: «Nada receies».

No momento em que Ben Hur ia deixar o posto de Gestão, ouviu um soluço; viu então uma rapariga muito nova, quase uma criança, que chorava, com o rosto oculto nas mãos.

Era loira e franzina, pele dourada e quando, reprimindo as lágrimas, volveu o olhar para Ben Hur, o príncipe viu dois olhos azuis, quase verdes, muito puros, que suplicavam.

- Que tem esta? - indagou ele.

Foi a jovem Judia quem respondeu:

- Senhor, estava comigo há dois anos.

- Quanto queres por esta? - perguntou Ben Hur.

Gestão atirou uma cifra. Fazendo o jogo, Malluch intrometeu-se, discutindo moeda por moeda. Por fim, Ben Hur, cortando a discussão, ordenou:

- Mandas esta com a outra.

A jovem loura caiu de joelhos e, agarrando um pano da toga de Ben Hur, beijou-lho.

- Vamos! Está bem! - disse Ben Hur, afectando rudeza - Nada de pieguices comigo.

Por aquela forma, Ben Hur e Malluch ainda visitaram alguns postos de venda, depois abandonaram o mercado, enquanto Gestão, conduzindo um a um os escravos escolhidos, começava a vendê-los aos seus confrades.

Uma hora mais tarde, Ben Hur e Malluch voltaram e encontraram, graças ao ferro marcado com o número VIII, nos diversos mercadores, os escravos que tinham visto junto de Gestão.

- Malluch - disse Ben Hur - toma cuidado ao conduzir esta gente. Quanto a mim, volto para casa. Aluga portadores para levar a jovem Judia.

Deste modo, pouco antes da noite, formou-se uma pequena fila. À cabeça ia Malluch, depois os escravos válidos, por fim dois homens transportando a liteira da jovem Judia. Malluch soubera que ela se chamava Raquel.

Era longo o caminho para atingir a Porta de óstia. Em breve, os escravos começaram a falar uns com os outros. Malluch esforçava-se por nada perder do que eles diziam.

- O patrão não tem mau aspecto - disse primeiro um dos jardineiros - Cá por mim digo-vos que, em casa deste homem, não seremos infelizes.

Malluch, sem se voltar, adivinhou quem falava. Era um homem baixo, um pouco arredondado, face corada guarnecida de um bigode, um tanto à maneira da gente da Gália. Esse homem, logo nos preparativos da partida, principiara por desagradar a Malluch. Sempre em movimento, parecia querer meter-se em tudo e dar a sua opinião sobre todas as coisas.

- Um tagarela, e nada mais! - pensou Malluch.

- Senhor! - exclamou uma das cozinheiras - Faze com que encontremos finalmente um pouco de paz!

- Quem invocas tu assim? - indagou o jardineiro.

- Eu? - replicou a mulher - Ninguém!

- Tu dizes «Senhor» - repisou o homem. - A quem te diriges?

- A ninguém... asseguro-te!

De súbito, uma voz ardente, a voz de uma jovem, desatou a gritar:

- Para que te ocultas? És cristã como eu, eis tudo. Estou farta de me ocultar, de não poder bradar o que sei. Sou cristã, ficai contentes e matai-me, se quiserdes, pouco me importa!

Correu para diante de Malluch.

- Ouviste? - gritou ela, agarrando-se ao seu braço - Sou cristã. É por isso que ando em bolandas, porque não quero admitir que o meu amo se sirva de mim como das outras... Antes me matem!

A fileira deteve-se. Malluch viu o rosto da jovem inundado de lágrimas. Era uma bela criatura, da qual Gestão dissera que vinha de Tessália.

- Já chega! - pronunciou Malluch, friamente - Cala-te e volta para o teu lugar!

E como a jovem se quedasse, arquejante, diante dele, ajuntou baixinho:

- Em nome do que acabas de afirmar, faze o que eu te digo.

De cabeça baixa, a escrava retomou lentamente o seu lugar.

- Vamos! - ordenou Malluch - A caminho!

Retomaram a marcha, mas agora falavam todos

ao mesmo tempo. Malluch ouvia frases confusas.

- Também eu sou cristã, mais vale que todos o saibam.

- E eu também!

- Escutai! - era a voz do jardineiro tagarela - O curioso é que somos todos cristãos... Não foi só por acaso que nos reunimos. Tu também serves Cristo? E tu?... Então, eu vos digo: foi uma habilidade de Gestão. Já me tinham dito que existia um mercador de escravos que reunia todos os da religião. Pois bem, é ele! Não vos fez uma porção de perguntas? Então, é bem ele! Também parece que só os revende a...

- Silêncio! - bradou Malluch. Voltara-se de repente e todos viram a cólera no seu rosto - Nem uma palavra, ouvis? Nem uma palavra! O primeiro que falar será chicoteado à chegada, compreendido?

O resto do caminho percorreu-se sem que nenhum descerrasse os dentes. Ao passar o pórtico, Malluch ordenou a uma das cozinheiras:

- Tu! Toma conta da pequena da liteira, trata-a e põe-na depressa a pé.

Pagou aos portadores e mandou-os embora antes de prosseguir:

- Agora, vinde comigo, vou mostrar o trabalho de cada um. Dir-me-eis os nomes e quem sois, e esta noite apresentar-vos-ei ao patrão. O patrão tem dois filhos, é um Romano rico que viveu muito tempo no Oriente e há aqui dois intendentes. Eu sou um deles.

Sobreviera a noite. Malluch, falando diante de Ben Hur, Drusus, Filipe e João, mandou comparecer os escravos.

- Eis aqui - disse ele - os nossos três homens fortes: primeiro, Benex, Gaulês. Foi aprisionado pelos Romanos, é um soldado. Anjune, esse, é de Chipre, nascido escravo, mas serviu um bom amo que lhe ensinou o ofício das airmas. Narmus foi gladiador e é muito hábil com o gládio curto. Experimentei-o. Eis agora: Parinus e Glocea, um Romano e outro nascido em Rodes, cinquenta e cinco e cinquenta e oito anos; ocupar-se-ão do jardim. Quanto às mulheres: mandei para as cozinhas Morea e Gallander. Uma é da Grécia, a outra da Germânia. Não sabem a sua idade com exactidão, mas ultrapassaram os quarenta e vereis à mesa que elas fazem bons pratos. Agora, para o serviço dos quartos e roupas, eis Monime, de Tessália, vinte e dois anos, uma bela estátua que fala, anda e borda muito bem. E depois a Judia Raquel, dezassete anos, cujo estado conheceis, e esta pequena Gaulesa, Aclis, que só tem quinze anos. Aqui tendes, senhor, o vosso pessoal.

Enquanto Malluch falava, Ben Hur não cessara de observar os seus companheiros e mais especialmente seu filho e seu sobrinho. Se Filipe não acusara nenhuma reacção, João, em contrapartida, ao ver a jovem Aclis, corara, depois sorrira-lhe, e Ben Hur tinha a certeza de que a pequena o notara.

Tendo vivido ambos num mundo tão pervertido, como poderiam eles resistir aos desejos nascentes?

Ben Hur decidiu:

- Aclis ficará especialmente ao meu serviço. Monime ocupar-se-á dos meus dois filhos. Quanto a Raquel, quando estiver restabelecida, ficará ao serviço dos meus dois intendentes. Agora, escutai-me bem todos...

Ben Hur hesitara na conduta a seguir perante este novo pessoal. Devia ocultarr-lhes tudo? Assim o pensara, primeiro, mas a cena do trajecto relatada por Malluch fizera-o mudar de ideias. Os escravos, ao descobrir a verdade, ainda haviam de admirar-se mais do que já o estavam. Não se correria o risco de falarem lá fora, para saberem mais alguma coisa e não chamariam a atenção sobre a casa? Ben Hur decidiu por fim informá-los, sem contudo lhes revelar a identidade de Drusus e de João, os únicos que, a bem dizer, correriam mais perigo imediato.

- Encontrai-vos aqui numa casa amiga - disse Ben Hur - Não procureis saber porquê nem como cá viestes parar. Todos vós sois cristãos e estais em casa de cristãos. Quer dizer que fareis o vosso serviço no espírito de Jesus. Quer dizer também que nunca mais sereis sovados, nem submetidos a violências. Podeis considerar-vos como seres livres, somente guiados pela vossa consciência. Mas isto implica outras obrigações! Deveis jurar-me que jamais falareis às pessoas estranhas do que virdes aqui, quaisquer que elas sejam. Bem sabeis que toda a comunidade está ameaçada. Basta uma tagarelice para levar todos à prisão e talvez à morte. Também vos digo, se um dentre vós trair ou simplesmente falar, matá-lo-ei por minhas mãos para salvar todos os outros. Compreendeis todos?

Os escravos entreolharam-se durante o discurso de Ben Hur, decerto não ousando acreditar no que ouviam; depois, as duas cozinheiras começaram a chorar e, quando Ben Hur terminou, Monime aproximou-se dele e, ajoelhando, pegou na fímbria da sua toga para a beijar.

- Não, Monime - disse Ben Hur - Só o Senhor e seus Apóstolos merecem semelhante homenagem. Quanto a mim, não passo de um ser humano como vós, que diligencia não pecar.

- Senhor! - disse Benex, o Gaulês - Podes contar com cada um de nós, para tudo que for preciso.

Anjune e Narmus aprovaram. Quanto a Parinius, o jardineiro de cara redonda, volvendo-se para os seus companheiros, disse-lhes:

- Bem vedes que eu tinha razão! Foi Gestão que nos colocou aqui; já o fez muitas vezes!

- Parinius! - advertiu Malluch - Tu falas de mais, já o tinha notado ainda agora no mercado e durante o caminho. Ouviste bem o que disse o patrão? É preciso ter conta na língua. Todos podem ser ameaçados pelas tagarelices de um ou outro.

- Parinius compreendeu certamente - disse Ben Hur - Agora, ide todos em paz!

 

TIGELINO

O dia imediato era a data em que Ben Hur e Filipe estavam convidados para a festa no palácio. Na liteira que os conduzia, transportada pelos três antigos soldados aos quais Malluch se juntara, Ben Hur dizia a seu filho:

- Filipe, é possível que o que vais ver revolte a tua consciência. Não o deixes transparecer. Esta noite devemos ser bobos entre os bobos, é a nossa única maneira de iludir o adversário. Mantém-te reservado, mas não julgues pelas aparências. Aliás, o teu papel é bastante fácil: és um jovem estrangeiro que descobre Roma. Deixa falar à tua volta e escuta, mas não tomes partido. É esse o preço da paz de todos os nossos amigos.

O palácio estava ornamentado para a festa, quando eles chegaram. Havia guardas postados em cada degrau, ardiam milhares de archotes entre as colunas. Uma turba considerável, que Ben Hur julgou muito misturada, invadira a sala dos festins. Ali estavam notáveis de Roma, oficiais, nobres Romanos de porte altivo, mas também histriões, gladiadores e condutores de carros; cantores, malabaristas, ilusionistas e muitas mulheres, cujo pó ocre espalhado no rosto e brilho de jóias revelavam suficientemente que a sua ocupação não era a de respeitáveis mães de família.

Tigelino recebia. Colocou Ben Hur perto dele, a dois lugares do tálamo dourado que devia receber o imperador, e confiou Filipe ao seu confidente habitual, Adamus, que arrastou o jovem para uma mesa do extremo, onde já se encontravam alguns mancebos e raparigas.

A entrada de Nero pouco se fez esperar. Chegou, vestido com uma túnica curta, carregada de ouro e de pedrarias cor de ametista, reservada só para ele, e logo o festim principiou.

No meio das mesas alinhadas em U, por três lados, começou o desfile das iguarias mais raras, dos vinhos mais preciosos, uma variadade de caça, de veados, de peixes, de animais assados inteiros, de doçarias, de frutas. Os pratos eram colocados nas mesas, e os convivas, estendidos em banquetas baixas, apoiados no cotovelo, tiravam com as mãos os bocados que apeteciam, a maior parte a ressumar molho; aliás, alguns convivas limpavam-se à sua túnica.

Filipe, habituado às refeições judaicas, frugais, em que cada um se esforçava por ser sóbrio, via com olhos assustados o que se passava em sua volta. À sua esquerda estava uma mulher jovem muito pintada, sempre voltada para um moço oficial das legiões estendido junto dela. À sua direita achava-se uma jovem que pareceu a Filipe muito atemorizada. Contrariamente à maior parte das outras mulheres, não tirara o seu manto, comia pouco, de olhos descidos sobre o seu prato, e não respondia senão por monossílabos ao conviva colocado à sua direita, um homem obeso muito feio e já razoavelmente embriagado.

No rumor geral, Filipe não entendia o que ele lhe dizia, mas adivinhava, pelo rubor que empurpurava as faces da jovem, que devia tratar-se de cumprimentos pouco delicados. Frequentemente, a rapariga volvia o rosto para as mesas próximas do imperador, procurando alguém. Seguindo esse olhar, Filipe viu que se tratava de um homem idoso, general das legiões, segundo a sua couraça dourada, e que lhe parecia bastante alheio àquela festa.

Filipe olhava seu pai, as mais das vezes de conversa com Tigelino, muitas mesmo com o imperador. Este, tez avermelhada» fazia honra aos pratos e bebia muito. Por momentos, através da pedra-lente, que tinha entre os dedos, observava os convivas com seus olhos míopes. Quando se traziam outros pratos, os malabaristas começaram as suas sortes, depois os músicos, todo um mundo bizarro que circulava diante das mesas; alguns, apimentando as suas exibições com gestos, provocavam o riso de uma boa parte da assistência.

O vizinho da jovem perto de Filipe, verificando sem dúvida que seus esforços não resultavam, levantou-se e foi instalar-se junto de uma beldade mais ácida.

Um grande silêncio estabeleceu-se então na sala, porque o imperador, depois de ter resistido por pró-forma aos pedidos de Tigelino e dos seus favoritos, levantou-se.

- Vai declamar os seus versos - disse a companheira do oficial, à esquerda de Filipe - Lucius, pelo menos, finge que escutas, de contrário, adeus promoção.

- Amigos! - pronunciou Nero - Eis um belo presente como há muito tempo não recebia. Esta caixa continha a Lei do deus dos Judeus. Ofereceram-na ontem ao mais pobre poeta de Roma, para nela guardar os seus versos.

Um concerto de louvores ecoou na sala. Ouvia-se:

- O maior poeta de Roma!

- Do mundo!

- Ela é indigna de ti, César!

- O teu talento!

- É que as tuas palavras são as de um deus!

Nero escutou, embevecido, aquelas vozes laudatórias, depois, modestamente, fez um pequeno sinal com as mãos nédias, para reclamar silêncio, e disse:

- Estes versos, Quintus Arrius, dedico-tos a ti... Que eles sejam as tuas boas-vindas a Roma!

Todos olharam para Ben Hur que, desempenhando o seu papel com perfeição, se inclinava, parecendo confuso, para os convivas de um e outro lado e, debruçando-se para Tigelino, disse-lhe algumas palavras que pareceram encantá-lo, também. Filipe notou que Petrónio observava a cena com olhar glacial.

À maneira de um trágico, Nero debitou uns versos repletos de símbolos incompreensíveis, onde se tratava da sombra, dos mortos, da pestilência das ruas de Roma, de casas leprosas sobre as quais se ergueria um sol vermelho. Suspendia por momentos o seu fôlego para ouvir as exclamações de louvor que estralejavam a cada estrofe. Por fim, sentou-se por entre uma trovoada de aclamações. Junto de Ben Hur, parecendo no auge do prazer, Tigelino levantou-se e disse:

- Todos nós devíamos beijar a mão que escreveu esses versos admiráveis, o estilete que os traçou, a boca que os declamou; por mim, beijo esta taça que, só porque os ouviu, se transformou de objecto inerte em alguma coisa repleta de espírito.

Entraram umas bailarinas que, ao som agudo das flautas, se misturaram com os convivas. Alguns convidados, abatidos pela embriaguez, rolaram dos coxins colocados nos leitos para o solo, e ali ficavam, ressonando ou vomitando.

A jovem perto de Filipe, cada vez mais aterrada, viu-se em breve cercada por três jovens ébrios.

- Vamos, pequena, deves estar cheia de calor! - disse um deles.

- É muito tímida!

- Pobre pequena, depressa perderá a sua reserva!

- Ainda esta noite!

- Basta! - bradou Filipe, bruscamente de pé - Deixai esta jovem!

- Que é que isso te pode interessar? - disse um dos ébrios, já ameaçador.

- É minha noiva...

- Oh! Oh! - riu um dos rapazes.

Mas outro, que conservara maior sangue-frio, observou:

- Já viram noivos permanecerem tão longe um do outro?

- Há algum amuo entre eles...

- É preciso reconciliá-los!

- Vamos, pequena, continuas a amá-lo? Vá, responde!

- Sim - conseguiu a jovem pronunciar.

- E tu?

- Sem dúvida!

- Então, beijem-se! Se não, pelos deuses! substituo o teu noivo.

Filipe volveu-se para a jovem e viu os seus olhos cheios de pavor.

- Vamos! - disse um dos homens, empurrando Filipe - Vamos!

A cólera empolgou Filipe bruscamente. Num movimento de mão, arredou o mais próximo. O homem recuou, suas pernas embateram na mesa baixa e desabou em cima dela, empurrando os pratos, derrubando os copos.

Furiosos, os outros dois ébrios precipitaram-se sobre Filipe. A desordem não durou senão uns instantes, tão grande era a cólera do jovem e tão pouco sólidas as pernas dos assaltantes. Acharam-se derrubados entre os restos do festim, aliás sem que ninguém desse atenção àquela cena.

Então, Filipe pegou na mão da jovem e fugiu com ela, perseguido pelas injúrias dos outros. Detiveram-se sob as colunas, quando tiveram a certeza de que não eram seguidos.

Uma sentinela, saindo da sombra, indicou-lhes uma pequena sala onde apenas ardiam alguns archotes. Nem Filipe nem a jovem se atreveram a lá entrar. Filipe conduziu a sua companheira para um canto onde ninguém se encontrava. Notou então que a mão da jovem ficara na sua e uma onda de calor subiu-lhe ao rosto. Fê-la sentar-se nos coxins e sentou-se ele a seus pés.

- Suplico-te que me perdoes - disse Filipe - mas não havia realmente outra saída, a não ser arriscarmo-nos a uma batalha geral.

- Oh, não! - proferiu vivamente a jovem, e ajuntou - Meu pai está gravemente ameaçado pelos homens do imperador; foi por isso que quis que viéssemos a esta festa. Se houvesse escândalo por minha causa, seria terrível para ele.

- Porque é que o ameaçam? - indagou Filipe.

- Não sei com exactidão. Aqui, anda cada um mais ou menos ameaçado. Em favor hoje, pode amanhã cair em desgraça.

Passaram pelo vestíbulo uns homens a gritar.

- Vão recomeçar - disse a jovem.

Como os homens entrassem no aposento, ela estendeu-se nos coxins e disse:

- Pousa a tua cabeça aqui, julgar-nos-ão adormecidos.

Filipe colocou o seu rosto perto do da jovem. Sentia na fronte a sua respiração quente. Fechou os olhos. Permaneceram assim muito tempo, sem bulir nem dizer palavra, muito depois dos bêbedos, que brincavam aos faunos de sala em sala, se terem afastado.

Filipe abriu os olhos. Via muito próximo o perfil da jovem, a sua fronte muito pura, a raiz muito pálida dos seus cabelos louros, a penugem leve das suas faces. Ela também abriu os olhos e voltou-se para Filipe. Estavam tão perto um do outro que seus lábios roçaram num movimento que ela fez.

Filipe contemplava ardentemente o azul profundo dos olhos, imensos por estarem tão próximos. Ela voltou-se suavemente, A jovem não envergava mais do que uma túnica curta de delicados fios de prata. Pela respiração rápida que lhe agitava o seio juvenil, viu Filipe que também ela era presa de uma grande turbação.

- Como te chamas? - perguntou-lhe docemente.

- Albina.

- Albina - disse Filipe - não sei o que se passa comigo.

- Nem eu.

E esboçou um breve sorriso, como que a troçar dela própria.

Bruscamente, o entusiasmo de Filipe empolgou-o. Seu rosto ergueu-se acima do da jovem:

- Albina... Hei-de tornar a ver-te, não é verdade?

- Não - e ela ergueu a mão que pusera entre a boca do jovem e a sua - Não, não é preciso. Vou perder-te...

- Como poderia perder-me de uma jovem como tu? Albina, julgo que te amo...

- Oh! Não digas isso. Suplico-te, não digas isso... Não te faças como os outros.

- Os outros não pensam senão no seu prazer, mas, para mim, Albina, não se trata disso... Amo-te, compreendes? Amo-te verdadeiramente... Suplico-te que nos tornemos a encontrar!

- Mas, eu não te posso amar...

- Porquê? Quem to impede? Estás comprometida com outro?

- Não! Eu...

- O quê?

- Meu pai...

- Teu pai pode ouvir-me, irei procurá-lo... Minha família é respeitável e rica...

- Oh! Tenho que te dizer... Acima de mim, existe uma coisa que me obriga a não te amar - e, como se confessasse um segredo terrível -Sou cristã!

- É verdade? - exclamou Filipe, louco de felicidade

- Oh, Albina, Albina! Eu também o SOU!

- Ah! - exclamou ela, ao mesmo tempo que as lágrimas lhe saltavam dos olhos - Então, estamos salvos!

Filipe beijou delirantemente a palma da mão de Albina, apertada contra a sua boca. Depois, ergueu-se brandamente.

- Vamos - disse ele - apesar de tudo o que vemos aqui, bem sabes que não há felicidade possível para nós senão no casamento.

- Bem o sei, mas não se pode pensar numa ligação com um simples encontro - E acrescentou - Nem sequer sei o teu nome.

- Chamo-me Filipe - declarou ele - e sou filho do príncipe de Hur, de Jerusalém, que também é cidadão romano, sob o nome de Quintus Arrius.

- Meu pai já me falou nesse nome. Também ele é tribuno, comanda as legiões de Espanha, o seu nome é Alemius.

- Falarei com Alemius - disse Filipe.

- Eu própria lhe falarei, porque tem toda a minha confiança e a minha ternura. É um pai muito bondoso.

Nesse momento, ouviu-se o barulho da multidão que saía da sala do banquete. A noite já se aclarava sobre Roma.

- Temos de nos separar! - disse Albina.

- Albina, hei-de tornar a ver-te muito em breve, não é verdade?

- Ver-nos-emos, se nossos pais o quiserem - respondeu Albina - Confia-te ao teu, como eu o farei ao meu, e deixa-o decidir. Mas podes ter a certeza de uma coisa, Filipe, nunca estive tão perto de um rapaz como estive perto de ti...

- Albina - suplicou Filipe - mas eu amo-te!

- Não sejas louco - replicou Albina, brandamente - Não fales ainda de amor entre nós. Sabes se amanhã não verás outra que tenha para ti mais encantos?

- Juro-te...

- Oh, não jures! Queres ser como todos esses que, só porque cedem aos seus desejos, nunca atingirão o amor? Preciso de ver claro dentro de mim, de ficar só... e de pensar em ti. E tu também. Mas – acrescentou (e Filipe viu que ela ainda estava muito perto da infância nesta frase) - Filipe, tu agradas-me muito.

Fugiu-lhe, misturando-se com os casais, mais ou menos cambaleantes, que saíam do festim.

Filipe, porém, não via as imagens libertinas que o cercavam, não via as mulheres levadas por seus companheiros, as túnicas enxovalhadas, os grupos de ébrios empilhados uns sobre os outros, as faces lívidas que a barba sombreava, as olheiras profundas, os olhares vagos, as quedas lamentáveis dos que tinham bebido em excesso e comido de mais. Filipe não via senão o vulto ligeiro de Albina a correr, e esse vulto apagava todo o resto. Viu-a reunir-se ao oficial que ela olhara muitas vezes durante o repasto. Agarrou-se ao seu braço e começou a falar-lhe ao ouvido, enquanto se encaminhavam para o pátio onde as liteiras aguardavam.

- Então, Filipe? - proferiu uma voz atrás dele - Que aborrecimento, não é verdade?

- Aborrecimento? Oh, não sei, meu pai!

- Como? Não sabes?

- Não vi nada, ou quase nada.

- Não viste nada?

- Pai! - disse Filipe de súbito, voltando-se para Ben Hur - É preciso que o saibas imediatamente: encontrei uma jovem, a mais bela, a mais doce, chama-se Albina e ama-me!

- Já... - disse Ben Hur, simplesmente.

Essa mesma manhã, Ben Hur dirigiu-se a casa de Alemius. Introduziram-no junto de um homem alto, robusto, de feições bem marcadas, cabelos grisalhos quase rapados, um soldado e ao mesmo tempo um nobre de Roma, cioso do seu nome e da sua categoria.

- Vejo - disse o tribuno, ao acolher o visitante - que teu filho não perdeu mais tempo do que minha filha.

- Não é só esse o objectivo da minha visita - declarou Ben Hur - Em dias menos perigosos, eu aguardaria até ver se os seus sentimentos resistiam ao tempo, antes de te visitar. Mas não estamos em anos felizes. Escuta, Alemius, sei da tua coragem, mas também sei o que ontem me disse Tigelino, julgando-me do seu partido. Nero está decidido, vai intensificar a luta contra os cristãos...

- Porquê? Somos inofensivos para ele!

- Mas o povo desconfia de nós. Esta seita, com suas reuniões secretas, assusta-o um pouco. Por outro lado, o reinado de Nero decorre mal, a fome ameaça, o Estado não se aguenta, não há nenhum ministro competente. Tudo se compra e se vende, só o pobre nada pode. O povo começa a resmungar. Nero sabe-o... Haverá alguma coisa de mais fácil do que acusar os cristãos de culpados de todos os males do Império? Eis o plano deles: verificar, primeiro, que nobres Romanos são cristãos, desacreditá-los no espírito do público, fazer crer que delapidaram os dinheiros do Estado, desorganizaram o exército e os negócios, à ordem da sua seita. Assim, desviar-se-á a tempestade contra eles. Algumas boas execuções públicas, uns infelizes sacrificados no circo para contentar a populaça, e Nero ganha alguns meses durante os quais as pessoas pensarão em coisa diferente de torná-lo responsável da sua desgraça.

- É ignóbil! - exclamou Alemius.

- Ah! Tigelino não é um néscio. É um monstro e os monstros são sempre inteligentes. Ora, Alemius, tu estás na lista simplesmente porque és um dos mais conhecidos entre os chefes militares... Contigo, Aulus Domitius, o senador Malone e muitos outros de quem infelizmente não sei os nomes. Aos que conheço, anda a minha gente a avisá-los desde manhã cedo. Escolhi vir eu próprio advertir-te porque desde esta noite, estamos talvez um pouco mais próximos um do outro.

- Que desejas que eu faça? Julgas que vou curvar-me diante de um louco e um histrião? Ou veriam o nobre Alemius fugir como um miserável? Que exemplo para Roma! Bem o sabes, príncipe, há entre nós uma tradição de coragem, um sentido de grandeza, e isso não pode ceder perante vagas ameaças... Não. não posso abandonar tudo assim!

- Mais vale abandonar casa e bens do que a vida... Mas, por agora, escuta: deixa a tua vivenda e vai viver no meio dos teus homens no acampamento dos legionários de Espanha, às portas da cidade. Não há nisso nenhum sinal de desânimo ou abandono. Um tribuno escolher encontrar-se mais perto dos seus oficiais, pelo contrário, é uma honra. O nome dos Alemius em nada ficará diminuído, e ali serás inabordável. Tigelino nunca ousará mandar prender-te no meio dos teus soldados. O risco seria muito grande. Quanto à tua filha...

- Por minha filha não receies, vou enviá-la para casa de amigos dedicados que tenho em õstia, na residência de verão do senador Glocus. Aí, estará em segurança.

- Glocus não é cristão?

- Não, que eu saiba!

- É preciso ter a certeza, digo-to eu. Não possuo todos os nomes, mas era preciso...

- Não! Não há nada a temer. Aliás, são talvez precauções excessivamente fortes. No entanto, estou-te grato pelo que acabas de fazer, Arrius.

- O meu verdadeiro nome é Ben Hur e sou Judeu!

- Eu sei.

- O que faço, fá-lo-ias tu também pelo mais humilde dos nossos irmãos, não é verdade? Deus te guarde, Alemius, e não deixes que as tuas legiões se dispersem. Nada nos diz que não tenhamos de contar com elas, um dia.

No dia seguinte, nada ocorreu em Roma. Ben Hur receou que Tigelino o tivesse propositadamente enganado e procurasse saber se alguns dos que citara teriam deixado a sua residência habitual. Malluch e os seus homens procederam a um rápido inquérito, mas nenhum soldado se apresentara nos diversos domicílios.

No palácio, soube Ben Hur que o imperador resolvera bruscamente partir para Nápoles, a fim de fazer ouvir os seus poemas aos povos do Sul. O seu séquito incluía, além de Octávia, sua esposa, Tigelino e seus favoritos, umas duas mil pessoas, cortesãos, cortesãs, guardas e escravos.

Disto concluíram Ben Hur e Drusus que o começo da luta fora adiado para mais tarde e que era preciso aproveitarem essa demora para se organizarem.

- Poderás fornecer-me grupos de trabalhadores capazes de reconstruir aqui uma nova moradia?

- Quantos homens? - perguntou Gestão.

O mercador de escravos achava-se diante do príncipe, no átrio da casa da Via de óstia.

- Uma dezena de pedreiros, quatro marmoristas, três pintores e quarenta trabalhadores...

- Quarenta trabalhadores? - repetiu Gestão - Mas porquê, tão grande número?

- Talvez porque esta vivenda deva ter alicerces muito profundos!

- Estou a perceber - disse Gestão, depois de ter reflectido - Será, pois, necessário estar seguro da parte dos cavadores?

- De todos, mas certamente ainda mais dos que cavem a terra.

- Está bem - disse Gestão - farei o impossível por andar depressa.

A partida de Nero e dos seus cortesãos trouxe aos cristãos de Roma uma trégua nos seus receios... Como sempre sucede nestes casos, muitos deixaram de tomar as mais elementares precauções e Ben Hur não via sem inquietação os mais zelosos descobrirem-se um pouco mais todos os dias. O próprio Alemius, após alguns dias passados no meio das legiões ibéricas acampadas às portas de Roma, regressara à sua residência habitual. Só sua filha Albina permanecia afastada, mas seu pai pensava cada vez mais em mandá-la voltar para seu lado.

Enfim, tudo decorria como se, passado o alarme, o perigo estivesse afastado para a comunidade cristã.

Nessa noite, Ben Hur trabalhava com Drusus nos planos da nova moradia, cujos trabalhos tinham começado. Em verdade, os dois homens interessavam-se muito pouco pela forma ou pela decoração da vivenda. Estas não passavam de um pretexto; a maior parte dos operários ocupava-se em perfurar sob os seus alicerces múltiplas galerias de complicados meandros, espécie de labirinto entrecortado de salas e cavernas, onde os cristãos poderiam refugiar-se para o culto, quando viesse a perseguição que Ben Hur e Drusus calculavam próxima.

- Tens confiança no arquitecto? - indagou Ben Hur.

- Absoluta! É filho de um escravo liberto por meu pai, e um dos primeiros que converti no meu primeiro regresso de Jerusalém. Tem-nos feito tudo há vinte anos e o seu zelo é grande.

- Não há receio algum por esse lado?

- Nenhum!

- Somos, pois, três a conhecer em pormenor as catacumbas: tu, ele e eu; mas tem-se mudado suficientemente o lugar dos operários?

- Absolutamente. Nunca algum deles vai até o fim de uma galeria ou de uma parte de labirinto. De oito em oito dias, mais ou menos, mudam de trabalho.

- É preciso estar precavido - disse Ben Hur - Se um dia os homens de Nero descobrirem o nosso segredo e se apresentarem à entrada dos nossos subterrâneos, não devem encontrar senão um vago túnel logo interrompido... Não devem suspeitar de que as galerias prosseguem durante léguas debaixo da terra. É preciso que julguem que se trata de um desses cemitérios debaixo das casas, como possuem quase todas as nobres famílias romanas.

- Julgá-lo-ão forçosamente, de tal maneira o trabalho é bem feito, de tal maneira os esconderijos são engenhosos.

- Acreditá-lo-ão, a não ser que alguém possa falar. É isso que precisamos de evitar a todo o custo.

- Sinceramente, caro Ben Hur, creio que todas as precauções estão tomadas. Não há senão uma coisa que me aborrece.

- O que é?

- O procedimento do jardineiro Parinius... Malluch tinha razão, o homem mete-se sempre nas coisas que lhe não dizem respeito. Por várias vezes o encontrei a rondar os subterrâneos e a cavaquear com os operários...

- Põe-no a trabalhar na outra parte do jardim.

- É a mesma coisa - disse Drusus - aquele homem é sempre demasiado curioso!

O escravo Benex entrou e anunciou:

- Está ali um homem que quer ver-te.

- O seu nome?

- Não mo quis dizer, Senhor. Disse apenas que te recordarias da estrada de Damasco.

Ben Hur e Drusus trocaram um olhar.

- Manda-o entrar e deixa-nos sós!

- Caro Paulo - disse Ben Hur, quando o homem entrou - receámos para ti os maiores perigos. Constava que foras preso na Palestina.

- É verdade - respondeu Paulo - mas obtive de Herodes Agripa ser julgado em Roma como cidadão deste país. Uns soldados trouxeram-me até cá... Em verdade, esses homens não tinham muita pressa e eu pude visitar quase todas as nossas comunidades ao longo do nosso trajecto. O que vi, Ben Hur, é bem reconfortante.

- A Palavra de Jesus divulga-se realmente como se diz?

- Está presente em toda a Grécia, e nas Ilhas, e em Rodes e em Chipre. Os nossos convertidos ardem em zelo, é mesmo preciso moderá-los um pouco.

- Moderá-los?

- Sim. O seu amor é tão profundo, tão grande a sua veneração pelos Actos de Jesus... Acabam por inventar o que nunca aconteceu, julgo eu. Na Grécia, ouvi contar toda a infância do Nazareno, quando ele próprio nada disse a esse respeito. Narraram-me pretensos milagres, que ele teria realizado quando tinha sete ou oito anos.

- Pedro, que viveu junto dele nunca os contou?

- Nem nenhum dos Doze. É preciso, pois, lutar, explicar, enfim, mostrar que a verdade é bastante bela sem que seja necessário acrescentar seja o que for.

- Estás há muito tempo em Roma, Paulo?

- Só desde a sexta hora de hoje. Desembarcámos em óstia, ao romper do dia.

- Que impressão tens tu da comunidade romana?

- Muito fraca ainda. Só tomei contacto com alguns e quis ver-te com urgência. Amanhã, uma grande parte dos fiéis reúne-se em casa de Alemius, o tribuno. Não sei mais nada!

- Em casa de Alemius? - estranhou Drusus - Mas isso é uma loucura! Ben Hur preveniu-o, ele está vigiado!

- A reunião realiza-se à noite - disse Paulo,

- A noite nada esconderá - replicou Ben Hur - Tenho a certeza de que a casa de Alemius está constantemente vigiada. Os homens de Nero, amanhã, estarão informados.

- Temo que seja demasiado tarde para recuar. As mensagens já foram levadas através de toda a cidade.

- Então - disse Ben Hur - nada mais nos resta senão rezar para que a hora ainda não tenha chegado.

O príncipe explicou longamente a Paulo tudo o que soubera. Depois de uma longa pausa, ajuntou:

- Por vezes, sinto-me bem triste, Paulo, quando vejo os nossos irmãos tão descuidados, tão imprudentes... E depois há outra coisa: para conhecer os planos dos outros, preciso de representar muito, de misturar-me com eles, ser testemunha das suas orgias, aparentar achar-me do seu lado. Paulo, com tudo isto, estarei a perder a minha alma?

- Não o creio - disse Paulo - O Senhor conhece o fundo do teu coração e tem em conta o risco que corres por nossos irmãos. Não encontras prazer em tudo isso?

- Prazer? Não encontro senão desgosto.

- Então, fica em paz - disse Paulo - Até amanhã, à noite.

No dia imediato, desde o cair da noite, sombras embuçadas apressavam o passo para casa de Alemius. Umas, solitárias, a maior parte em pequenos grupos. Ben Hur quisera que se vigiassem as imediações da vivenda. Malluch com Benex, Drusus tendo junto dele o cipriota Anjune, João e Narmus, e Ben Hur com seu filho Filipe tinham-se dissimulado em vários pontos. O único objectivo era saber se outros homens espionavam, enviados por Tigelino ou seus sequazes.

Quando já não se apresentavam mais cristãos, os oito homens encontraram-se num ponto combinado.

- Nada?

- Não. Nada de anormal!

- Por nossos lados tão-pouco.

- Não fiquemos aqui - disse Ben Hur - Se nenhum espião estava cá fora a espreitar, podem alguns ter deslizado entre os fiéis. Depois de entrarmos, separemo-nos. Cada um de nós observará entre os grupos vizinhos; deve ser fácil saber, pela atitude que eles tomarem, se alguns são estranhos à nossa religião.

- Podemos encontrar catecúmenos que venham pela primeira vez - observou Drusus.

- É verdade, mas então alguém os terá trazido. Isso poder-se-á verificar... Vamos!

Entraram em casa. O intendente de Alemius saudou profundamente o príncipe, e os oito homens avançaram para um grande vestíbulo interior de onde vinha um soturno murmúrio de vozes. A primeira parte do ofício divino começara, a que reunia todos os assistentes: a missa das catacumbas. A segunda parte, que incluía a consagração e a Comunhão pelo pão e pelo vinho, reservada só aos fiéis, seguir-se-ia em outro local.

Ben Hur, misturando-se com uns duzentos assistentes do primeiro ofício, pensava que os observadores, se acaso ali tinham penetrado, não podiam estar senão entre os catecúmenos, porque os cristãos consagrados conheciam-se uns aos outros.

Paulo ia usar da palavra, quando Ben Hur deslizou discretamente para as últimas filas. Estabelecera-se um silêncio total.

- Irmãos - disse Paulo - começo por dar graças ao meu Deus em Jesus Cristo por vossa Fé ser célebre no mundo inteiro. Quero que o saibais, Irmãos, propus-me muitas vezes vir visitar-vos e estou pronto a anunciar-vos o Evangelho, a vós que estais em Roma. Chego numa ocasião em que os perigos parecem acumular-se sobre vossas cabeças, mas, suceda o que suceder nesta terra, se Deus estiver por nós, quem será contra nós? Ele, que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por nós todos, como, com ele, nos não daria todas as coisas? Quem ousaria lutar contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenaria? É Jesus Cristo morto, que mais é, o resuscitado, quem está sentado à direita de Deus e que intercede em nosso favor. Quem nos poderia separar da caridade de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, o gládio? Segundo o que está escrito: «Por vossa causa, somos expostos à morte todo o longo dia, tratam-nos como anhos no açougue. Mas, com todas estas provações, alcançamos uma fulgurante vitória para a causa de Aquele que nos amou. Porque estou persuadido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderosos, nem a altura, nem a profundidade, nem uma criatura qualquer poderão separar-nos do amor de Deus em Jesus Cristo, Nosso Senhor.»

Enquanto o Apóstolo falava, Ben Hur percorria com a vista a assembleia dos fiéis. Ficou surpreendido com a fixidez dos olhos de Filipe. Depressa compreendeu o motivo. A alguns passos dele, perto de Alemius, achava-se uma jovem e Ben Hur reconheceu Albina, pelas frequentes descrições de seu filho.

- Mais uma imprudência - pensou o príncipe.

De súbito, sentiu que alguém puxava o pano da sua toga e uma voz murmurou-lhe quase ao ouvido:

- Se prezas a vida, sai discretamente.

Uma pressão mais forte puxou-o para a retaguarda.

- Vem por aqui, senhor, vem...

Ben Hur recuou dois passos e viu Malluch... Fez-lhe um leve sinal com as pálpebras e notou que o servidor compreendera e se preparava para o seguir.

O reposteiro que dissimulava a porta recaiu e Ben Hur voltou-se para o homem que o puxara para fora.

- Estou à espera - disse ele.

Já Malluch, pesado e maciço, se lhes juntara.

- Senhor - perguntou o homem - não me reconheces?

Ben Hur examinou-o. Era bastante baixo, rosto glabro.

- Quanto a mim - disse o homem - não esqueci o caminho de Antipátride.

- Ah! Mosché! - exclamou Ben Hur - Não esperava encontrar-te em Roma.

- A maneira como para cá vim levaria muito tempo a contar-te. Fica sabendo somente uma coisa: quando me concedeste a vida, eu disse-te que ela te pertencia. Hoje, estás ameaçado, senhor!

- Ameaçado?

- Estão aí quatro homens a espionar.

- Tinha a certeza disso, mas como o sabes tu?

- Senhor, sou eu quem os comanda.

- Ficaste fiel a ti próprio?

- Tigelino paga-me abundantemente.

- Onde estão esses homens? - perguntou Malluch - Aponta-mos e tudo se resolverá depressa...

- Um momento!

Ben Hur reflectiu, depois disse lentamente:

- Que informações deveis levar?

- Devemos descrever a Tigelino a maneira como decorre o ofício.

- É tudo? Nada de nomes de pessoas presentes?

- Nomes? Como queres que os saibamos? Nenhum de nós quatro conhece Roma.

- Então, qual é o objectivo de Tigelino?

- Quer saber o que fazem os cristãos durante as suas reuniões, eis tudo. E também como se pode cá entrar sem ser surpreendido, o que é preciso dizer e fazer para se ter o ar de pertencer à comunidade.,

- Ah! Agora... compreendo melhor. É a primeira parte do plano. Bem, Mosché, agradeço-te. Vê bem com os teus olhos e relata a Tigelino estritamente o que viste, sem nada omitir, excepto, evidentemente, o nosso encontro.

- Tu mandas, senhor...

- Dize-lhe como as coisas se passam, é claro. Se esse homem é curioso, é preciso satisfazê-lo. Mas, cuidado, Mosché, eu também sou curioso, gosto muito de saber o que se passa no outro lado, e se não posso, como Tigelino, servir-me do tesouro público para pagar informações, também sei recompensar os serviços que me prestam.

- Terás um relatório todos os dias, senhor - prometeu Mosché.

- Não é preciso tanto. Avisa-me só de alguma coisa importante que se prepare ou que ameace os nossos. Agora, vai-te, Mosché. Pata me encontrares, dirige-te a casa de Thord, o Nórdico, uma taberna perto do Grande Circo, e combina com ele o meu encontro.

- Senhor, serás servido.

Discretamente, Mosché tornou a entrar na sala onde decorria o ofício.

- Já sei o que vais dizer, Malluch. É uma loucura deixar ir este homem. Mais valeria apanhá-lo com os seus quatro companheiros e arranjar as coisas de maneira que não falassem mais. Além de o homicídio nos ser proibido, em que é que isso nos beneficiaria?

«Tigelino mandaria outros espiões e nada nos diz que os desmascararíamos tão facilmente. Pensa bem: se Mosché quisesse trair-nos, porque havia de tentar falar-me? Não fomos nós que o reconhecemos, e, se assim fosse, ele dir-nos-ia que se fizera cristão depois de o termos poupado em Antipátride, e não duvidaríamos da sua palavra. Não, se fez isto é porque foi sincero e dois olhos bem abertos podem ser-nos úteis junto de Tigelino.

- É possível - resmungou Malluch - mas, senhor, à força de seres demasiado confiante, acabarás um dia por te enganar.

- Vamos orar, Malluch.

Durante o resto da noite, Ben Hur expulsou do seu espírito tudo o que o apartasse do Senhor, e a alvorada viu-o sair de casa de Alemius perfeitamente reconfortado.

Decorrido algum tempo, o escravo Benex, que passava duas vezes por dia na taberna de Thord, o Nórdico, por ordem de Ben Hur, voltou com uma mensagem.

Ben Hur abriu-a diante de Drusus.

- É de Mosché. Escreveu-a em hebraico, é mais seguro, sem dúvida: «Venerado amo. Reuni-me em Nápoles à corte do imperador. Passam-se aqui coisas estranhas, tão terríveis que não se podem confiar ao correio, por muita confiança que eu deposite no portador. Tigelino tem-te em alta estima, e acolher-te-á aqui da melhor vontade, tenho a certeza, embora o soubesse de maneira indirecta. Se resolveres vir, um homem de confiança aguardar-te-á dia e noite à porta do lado de Roma. Acredita na minha fidelidade. O que se recorda do caminho de Antipátride.»

- Não será uma cilada? - perguntou Drusus.

- Não o creio. Pessoas como Mosché talvez não tenham escrúpulos, mas não têm senão uma palavra. Drusus, é preferível que eu parta ao fim da noite. Levo Malluch e Narmus. Tu continua a vigiar os trabalhos aqui. As nossas catacumbas avançam?

- Sim, os homens que Gestão nos enviou põem grande zelo no trabalho.

- Está bem, mas continua a desconfiar de tudo. Se vir por lá motivo de alarme, aviso-te imediatamente. Boa noite!

Foram precisos dois dias de marcha forçada para atingir Nápoles. Caía a noite, quando os três homens chegaram às portas da cidade. Mal passaram o posto da guarda, saiu uma sombra do desvão de uma porta.

- Conheces Antipátride? - perguntou uma voz.

- Conheço essa cidade e um certo Mosché, também - respondeu Ben Hur.

- Está bem - disse o homem - Segue-me.

Rapidamente atingiram um recanto afastado do porto de Nápoles. Estava ali atracado um barco, no qual o homem os mandou entrar, depois de confiar os cavalos a um escravo.

- Onde vamos nós? - perguntou Ben Hur.

O homem respondeu em voz baixa:

- Mosché é prudente, senhor. Achou melhor passar a noite na ilha de Capri. É lá que ele nos espera.

A travessia durou menos de uma véspera (1), porque o vento era fraco. Ben Hur admirava aquela baía vastíssima. O luar recortava-lhe a forma. As colinas que a marginavam apareciam ao longe, afogadas numa espécie de bruma.

 

Nota 1: - Isto é, cerca de duas horas. Em Roma, a noite dividia-se em quatro vésperas, e estas vésperas variavam evidentemente de duração, consoante o tamanho da noite nas diferentes estações do ano.

 

- Amanhã, o dia deve estar quente - disse o marinheiro que dirigia a manobra.

Um clarão avermelhado surgia por vezes no topo de um monte, à esquerda da cidade, e espalhava-se pela água em torno do barco.

- O Vesúvio - disse o marinheiro - é uma montanha que está sempre a fumegar. De tempos a tempos, cospe fogo. Dizem os sábios, por aqui, que será causadora de uma grande desgraça.

Uma massa rochosa apareceu nos reflexos do luar, à proa da embarcação.

- Eis Capri, e além, à direita, é a outra grande ilha, a de Iscia.

Ben Hur, como todos os que viviam sob a águia de Roma, conhecia Capri de nome. Todos souberam das cenas escandalosas que ali se desenrolaram no tempo do imperador Tibério. Este, que reinava durante a mocidade do príncipe, escolhera para retiro aquela ilha afortunada.

O mar calmo, como que domado ao peso dos reflexos de prata, a noite recamada de estrelas, a brandura do vento, o perfume de flores que vinha agora de Capri, tudo, em volta de Ben Hur, oferecia um espectáculo de paz. Só os clarões vermelhos do Vesúvio, imprimiam um sinal inquietante em toda aquela harmonia perfeita.

Por caminhos pedregosos que subiam entre sebes de flores, Ben Hur, Malluch e Narmus, seguindo a guia, alcançaram uma vivenda discreta, escondida sob loureiros. Aí os aguardava Mosché.

- Sim, senhor - dizia o Judeu - a corte assistiu ao crime mais horrível que se pode cometer. Nero mandou assassinar Octávia, sua esposa; além disso, tramam-se aqui as coisas mais atrozes contra os cristãos, tenho a certeza. O próprio Tigelino está amedrontado; arranjou o pretexto de uma doença na cabeça para fugir do palácio de Nápoles. Diz que está mais seguro nesta ilha e é aqui que ele passa as suas noites. Queres vê-lo?

- Julgas que ele me receberá?

- Sim, tem curiosidade de saber tudo o que se passa em Roma, e Adamus, o seu escravo liberto, disse-me que ele se admirava de não ter notícias tuas. Ambos ignoram que nos conhecemos, evidentemente.

Podes ir sem receio. A esta hora, Tigelino não dorme. Ou conspira ou entrega-se à orgia. Está na antiga vivenda de Tibério, a pouco tempo daqui, no alto da ilha.

 

Quando Ben Hur se aproximou do topo rochoso onde se erguia a vivenda, viu elmos brilhando ao luar. Propositadamente, provocou bastante ruído ao aproximar-se, fazendo rolar calhaus com os pés e tossindo, como pessoa doente da garganta.

- Quem vem lá? - perguntou uma voz.

- Vai chamar Adamus - disse Ben Hur.

- Quem és tu?

- Dize-lhe que é o senhor Ben Hur que o procura.

- Vou mandá-lo prevenir - disse o homem - mas tenho de pedir-te que esperes aqui.

A demora foi breve. O guarda que estava à entrada da vivenda voltou em seguida, acompanhado de Adamus.

- Louvados sejam os deuses que te trazem por cá! - exclamou Adamus - Tigelino chama-te a todos os ecos, desde ontem. Vem, segue-me!

Em cada um dos compartimentos, pavimentados de mármore, que se seguiam ao vestíbulo, guardas armados faziam sentinela, e Ben Hur mediu por este aparato de força o medo de ministro de Nero. Ecos de lira e risos abafados vinham de trás de um reposteiro.

- Vou anunciar-te - disse Adamus.

Ben Hur ouviu um murmúrio na sala e a voz de Tigelino.

- Que entre depressa!

Vasos de cobre, cheios de azeite, iluminavam a sala, coxins e leitos baixos, a mesa ainda toda guarnecida e uma dezena de convivas aturdidos.

- Vão-se embora! - gritou-lhes Tigelino.

Enquanto eles saíam como um rebanho assustado:

- Perdoa-me, Ben Hur, se te recebo tão mal; eu devia juntar-te aos nossos prazeres. Depois, quando quiseres, tirarás uma justa desforra, mas, primeiro, quero falar contigo a sós.

Ben Hur tomou lugar num leito baixo, perto de Tigelino. Este estendeu-lhe um copo cheio de vinho, mas, antes de Ben Hur, molhou, ele próprio os lábios.

- Sim, estas precauções tornaram-se necessárias. Todos o fazem agora na corte, antes de obsequiar um amigo. Então, que soubeste tu?

- Pouca coisa, na verdade - disse Ben Hur - Roma está calma. De tempos a tempos, ouvem-se nos bairros populares gritos hostis ao imperador, mas não mais que de costume.

- E os cristãos?

- Desconfiados - disse Ben Hur - No entanto, pude meter-me entre eles e assistir a uma das suas cerimónias.

- Aonde?

Ben Hur, sabendo que Mosché fizera a Tigelino um relato, em forma, da noite em casa de Alemius, nada arriscava ao responder:

- Em casa de Alemius.

- Traidor, bem o suspeitava. Quem estava lá?

- Vários homens conhecidos em Roma.

Ben Hur, tranquilamente, citou aqueles que Tigelino sabia pertencerem à religião de Cristo e que, a um sinal seu, desapareceriam da vida pública ao menor alarme.

- Sempre os mesmos - disse o ministro - É tudo?

- Muitos escravos, também, e gente da plebe.

- Sim! Os nomes desses pouco interessam. E no decurso das cerimónias fazem realmente sacrifícios humanos? Sempre matam crianças para lhes beberem o sangue, como consta?

- Não! Não assisti a nada disso. Escutam narrativas da vida de Cristo, depois rezam, por fim, comem pão e bebem vinho, tal como o fez, dizem eles, Jesus, nas derradeiras horas da sua vida.

- Então, parecem inofensivos?

- Absolutamente!

- Sem defesa?

- Não querem defender-se. A sua crença proíbe-os de causarem a morte.

- Bem! Tanto pior para eles - disse Tigelino - e tanto melhor para nós, talvez... Escuta, Ben Hur, eu julgara em certo momento que o imperador atingira o cúmulo da crueldade, mas enganava-me. Há três dias, coroou as suas façanhas. Mandou assassinar sua mulher Octávia e, talvez o não saibas, mandou levar a cabeça cortada à sua nova favorita, a Popeia. Agora, fala constantemente de Agripina, sua mãe, que foi uma das suas primeiras vítimas, há cinco anos. Recorda que era a terceira vez que tentava fazê-la perecer, que experimentara um mecanismo complicado que, fazendo descer o tecto do quarto onde ela se alojava, tê-la-ia esmagado no seu leito. Depois, mandou-a embarcar num navio preparado, cujo fundo devia soltar-se em pleno mar, e que ele a acompanhara até o porto, beijando-lhe o peito, ao separar-se dela, para melhor a tranquilizar. O fundo cedeu realmente, a galera afundou-se, mas Agripina salvou-se a nado. Toda a noite, Nero aguardara o resultado do desastre. Quando um escravo liberto de Agripina, Agerinus, veio dizer-lhe que sua mãe se salvara, o imperador atirou um punhal para junto dele, depois desatou a bradar por socorro, afirmando que Agerinus o quisera assassinar por ordem de Agripina. Oh, que bom comediante! Por fim, mandou matar Agripina e ordenou que se dissesse que ela se suicidara, ao ver que a sua tentativa de assassínio se descobrira. Poupo-te os pormenores que se seguiram: o filho perante o corpo da mãe, palpando-lhe os membros e criticando isto ou aquilo. Foi a primeira vez que tive vontade de vomitar. Depois de Britanicus, seu irmão, depois de Agripina sua mãe, depois de Séneca e Burrhus, que foram seus mestres, é a vez de Octávia, sua esposa. Doravante, quem nos garante a vida? Mata, não importa quem, só por prazer.

- Tigelino - disse Ben Hur - ele estima-te, ele deposita em ti a sua confiança...

- Até quando? Basta que ele queira desempenhar um papel, o de senhor traído pelo seu servidor, o do amigo que vê perecer o amigo e, de um momento para o outro, passo achar-me a ferros. É preciso, a todo o custo, mudar o rumo do seu ódio.

- O rumo do seu ódio?

- Sim, sim, encontrar um pretexto, um alimento... Creio tê-lo encontrado!

Tigelino fechou os olhos por um instante:

- Olha, Ben Hur, para que ele não tenha mais vontade, por uns tempos, de sacrificar homens, é preciso descobrir outra coisa mais vasta para lhe propor.

- E... essa coisa?

- É Roma!

- Roma?

- Sim, ele odeia Roma, apesar do palácio faustuoso onde vive, das casas douradas, dos prados e dos bosques interiores, das salas preciosas, das flores, das madeiras esculpidas e das estátuas de mármore. Apesar desse luxo insensato, detesta aquela cidade, acha-a feia, mal construída, critica as suas avenidas muito estreitas, torce o nariz à pestilência das suas ruelas. Confesso-te, para me precaver, incitei-o a isso: vai destruir Roma.

- Mas a reacção do povo, já pensaste nisso, Tigelino? Se as tropas de Nero puserem cerco à sua própria cidade?

- Também não se trata de tropas. Aquilo deve ser um acidente. Compreendes, Ben Hur? Um cataclismo, para que nisso se veja a mão dos deuses e não a mão dos homens.

- Se, no entanto, alguns virem uma acção humana?

- Então - replicou Tigelino - será preciso descobrir responsáveis. O povo gosta de que lhe apontem responsáveis. Compreendes, agora, porque me interesso pelos cristãos?

Ben Hur ficou silencioso, esmagado pela amplidão do crime que se preparava. Podia, pois, um homem ser até esse ponto a incarnação do mal? Era preciso que ele fosse possesso do demónio. O príncipe reflectia rapidamente. Abater Tigelino naquele instante? Mas a casa estava recheada de guardas. Ben Hur nunca poderia sair dali vivo; e, mesmo morto Tigelino, a ideia estava no cérebro de Nero. O desaparecimento do ministro não impediria o monstro de desencadear a catástrofe. Entretanto, em Roma, toda a comunidade cristã seria a presa mais fácil. Prender-se-iam pessoas às centenas, massacrá-las-iam e ninguém saberia de onde vinham os golpes, nem como evitá-los.

Em suma: a razão, a lógica, a própria caridade ordenavam a Ben Hur que não reagisse. Mordeu os lábios até fazer sangue, mas, quando Tigelino se voltou para ele, conseguiu sorrir.

- Quais são, pois, as tuas ideias a meu respeito, Tigelino?

- O único desejo que tenho é que continues a frequentar essa gente e me dês o maior número de nomes possível.

- Quer dizer que desejas ver-me regressar a Roma?

- Com certeza!

- Mas - objectou Ben Hur, desempenhando o seu papel - depois do que me disseste, não poderei dormir descansado.

- A tua vivenda é na estrada de óstia, creio eu?

- É.

- Então, sossega; aí, nada tens a temer. É mais para o centro da cidade, e nos bairros pobres, que a coisa há-de suceder. Aliás, se quiseres, posso mandar guardar a tua casa por legionários. Assim, se houver desordem, os teus bens serão protegidos.

- Ficar-te-ei muito grato - disse Ben Hur.

- Então, vai! E quando vires chegar os soldados, pensa que o acontecimento não tardará. Deixa-te ficar então com os teus dentro da tua casa.

- Tigelino - disse Ben Hur brandamente - sabes que as pessoas da minha raça crêem num Deus único e que pode ser terrível quando castiga. Ora, tenho pena, confesso-te, de ver um homem como tu chegar a sugerir semelhantes crimes. Não pensas que a tua inteligência poderia aplicar-se a objectivos mais nobres?

- Não te tornes outra vez Judeu, Ben Hur, os teus sermões não servirão de nada. Estou apanhado na rede. Sou eu ou Roma, e eu não quero morrer. Os deuses não passam de imagens de pedra; que é que existe depois de nós? Nada! A vida não é senão uma passagem e esta passagem conduz ao nada. Cada dia, cada hora, são preciosos. Nada tem valor senão o tempo que vivo... Quero, pois, viver, e é tudo!

- Tigelino...

- Está bem - interrompeu o ministro - não tenho um instante a perder para te ouvir falar do teu Deus. Adamus! Dize aos convivas que voltem. Tu és meu hóspede, Ben Hur. Fica comigo se quiseres.. a não ser que prefiras reembarcar e tomar o caminho de Roma?

- Prefiro-o, realmente - respondeu Ben Hur - Tigelino, apesar de tudo, desejo que a paz seja contigo.

- Deseja-me antes o prazer e a vida!

 

OS TRÊS CAMINHOS DE ÓSTIA

NO barco que os levava para Nápoles, Ben Hur reflectia. Agora, só havia uma coisa importante: que a comunidade cristã fosse prevenida do que se preparava. As personagens de quem Ben Hur teve de confirmar os nomes deviam deixar imediatamente os seus domicílios e procurar asilo em lugares afastados, os cristãos deviam abster-se de qualquer reunião durante uns dias. Para isso, o que era preciso? Que os três homens regressassem a Roma tão depressa quanto possível. Mas era necessário pensar em tudo. Um acidente, um ataque de bandidos no caminho, e já o alerta não se daria. Era preciso evitar esse risco.

Ben Hur confiou os seus pensamentos aos seus dois companheiros.

- Senhor - disse Malluch - não há senão uma solução: seguirmos os três para Roma por caminhos diferentes. Seria realmente necessário que o Senhor nos abandonasse para que nenhum de nós atingisse a cidade a tempo.

- Tens razão - concordou Ben Hur - Narmus, tu segues ao longo da costa. Tu, Malluch, pela estrada mais directa, e eu vou tentar outra coisa.

Dirigiu-se ao chefe dos marinheiros.

- Quanto pedes tu para me levares a Óstia?

- A Óstia! - repetiu o homem - São-nos precisos, pelo menos, dois dias e duas noites, e outro tanto para a volta, na condição de os ventos serem propícios.

- Quanto?

- Eu não faria isso por menos de vinte mil sestércios.

- Vinte e cinco mil, e largamos esta noite.

Os três homens separaram-se no porto de Nápoles, e enquanto Ben Hur ficava a bordo do barco, Malluch e Narmus, retomando os seus cavalos, partiram para Roma, cada um pelo seu caminho.

Malluch deixara a cidade pela estrada do interior, aquela pela qual os três homens tinham vindo e que passa por Cápua e Sâmnio. Rompia a aurora. Malluch, voltando-se, já não viu as muralhas de Nápoles. Até a hora quente do meio-dia, galopou sem encontrar viajantes, cruzando-se apenas com alguns camponeses e alcançando algumas carroças. Passando por uma estalagem à entrada de uma aldeia, achou prudente tomar uma refeição e deixar descansar o cavalo. O estalajadeiro apresentou-lhe peixe, propôs-lhe ovos, carne cozida com alhos e um caldo de farinha, tudo regado de vinho de Falerno de reflexos rosados.

Malluch encontrava-se ali havia Uma hora, quando ouviu relinchos de cavalos e ruído de vozes no pátio. Malluch reconheceu a voz do estalajadeiro.

- Viajantes? Sim, senhor, um somente. Não, não sei de onde vem, não reparei, talvez da estrada de Roma... Pode ser...

Houve mais ruídos, exclamações, pragas, em seguida entraram cinco homens na sala. Malluch reconheceu legionários da guarda do imperador. Tirando os elmos, sentaram-se pesadamente nos bancos de madeira. Um deles, de couraça ornada de enfeites de prata, fez um sinal aos companheiros e, voltando-se para Malluch, que comia sozinho na sombra:

- Vens de Roma?

- Não - respondeu Malluch, pensando que talvez os soldados, em certo momento, o pudessem ter visto cavalgar à sua frente - Não, venho de Pompeia.

- Não passaste por Nápoles?

- Passei - disse Malluch.

- Quando saíste da cidade?

- Oh! Ainda era noite quando passei as portas.

- Não viste outros homens no caminho?

- Homens, como?

- Homens como tu e eu... Viajantes a cavalo.

- Não. Não encontrei senão camponeses.

- Tens a certeza?

- Absoluta.

- De toda a maneira - prosseguiu o oficial - não podes continuar o teu caminho.

- Então, porquê?

- Ordem do imperador. Ninguém deve atingir Roma, partindo de Nápoles.

- Mas, quem trata dos meus negócios?

O homem não respondeu e, encolhendo os ombros, voltou-se para os seus companheiros. Juntou-se a estes para partilhar de um presunto que o estalajadeiro acabava de trazer.

Malluch reflectiu rapidamente. Procurar fugir, enquanto os soldados comiam, seria loucura. Os cinco, montados em cavalos frescos, depressa o apanhariam, a ele, cuja montada já acusava fadiga ao chegarem à estalagem. Não! Mais valia representar de infeliz mercador que um negócio chamava a Roma. Levantou-se e, aproximando-se dos soldados, perguntou:

- Senhor, julga que isso será demorado?

- Demorado o quê? - indagou o oficial.

- A proibição de ir a Roma.

- Quem o pode saber? Nós, não. A nossa única missão é deter todo o viajante nesta estrada e depois avisar as guarnições de todos os postos de muda, para que estabeleçam barreiras ao longo de todo o caminho.

- Então, será preciso ficar aqui?

- Aqui ou algures - replicou o oficial - À tua vontade. De qualquer forma, não poderás ultrapassar a próxima localidade.

Malluch voltou a sentar-se à mesa. Enquanto pagava ao estalajadeiro e os soldados continuavam a comer, tirou rapidamente as suas conclusões: se Nero mandara interditar aquela estrada, iguais precauções deviam ter sido tomadas em todos os caminhos que partissem de Nápoles. Narmus, como ele, seria alcançado. Se, por outro lado, foram dadas ordens semelhantes à frota, as rápidas galeras depressa alcançariam o barco em que Ben Hur partira e obrigá-lo-iam a arrepiar caminho. Era, pois, necessário que ele, Malluch, passasse a todo o custo. Partir à frente dos soldados? Nunca lho permitiriam! Mas, com eles... Porque não? Perguntou em voz alta ao estalajadeiro, para ser ouvido pelos legionários:

- Como se chama a próxima aldeia no caminho de Roma?

- Frascati - respondeu o homem.

- Existe por lá uma boa estalagem?

- Sim, senhor! «O Tridente do Tritão». Sublemus Notrus, o dono, um mestre cozinheiro, é meu velho amigo.

- Julgas que terei lugar em sua casa?

- Nesta época, com certeza!

- Obrigado - disse Malluch. Depois, volvendo-se para os soldados - Podem permitir-me que vá até essa aldeia? A ter que esperar uns dias, talvez ali possa fazer algum negócio; não posso permanecer sem trabalhar. Irei na vossa companhia, se for possível.

- Assim, podes - respondeu o oficial - Vai buscar o teu cavalo e despacha-te, porque nós vamos partir.

À entrada do pequeno burgo, algumas crianças, e mulheres também, acorreram logo que viram as couraças dos legionários.

- Onde está o oficial da guarda daqui? - perguntou o chefe da patrulha.

- O posto é além, à direita - informou uma mulher.

- E a estalagem do «Tritão»? - indagou Malluch.

- Mais adiante - respondeu a mulher - na estrada imperial, quase à saída da povoação.

- Então, vou para lá - disse Malluch, num ar resignado - Quereis vir comigo, beber um copo de vinho?

- Não há tempo - disse o legionário - Agradeço, da mesma maneira.

- Boa viagem! - exclamou Malluch.

Respondeu-lhe um vago resmungar, ao mesmo tempo que os legionários retomavam a marcha. Malluch seguiu-os com a vista, viu-os voltar à direita, conforme aconselhara. Pensou que talvez fosse aquela a sua probabilidade. Incitou o cavalo, alcançou a estalagem, saltou em terra, correu para o palafreneiro.

- Quinhentos sestércios por um cavalo fresco! - exclamou ele.

- Quinhentos? - disse o homem - Tenho um, senhor... Dá-me o teu...

- Não! - replicou Malluch - O meu, deixa-o diante da estalagem durante algum tempo. Depois, recolhe-o. Onde está o cavalo fresco?

- Aqui.

Malluch entrou rapidamente na estrebaria, atirou uma bolsa ao homem e saltou para cima do animal. E partiu a toda a brida» a caminho de Roma.

- Deve ser preciso algum tempo aos soldados para explicarem aos seus camaradas que devem estabelecer uma barragem. Talvez mudem de cavalos, isso tomar-lhes-á tempo. Tenho um pouco de avanço sobre eles.

Com efeito, longos momentos decorreram antes de que os legionários, deixando o burgo, passassem, por seu turno, diante da estalagem. Reconhecendo o cavalo de Malluch, preso pela brida à porta, o oficial pensou que ainda havia quem tivesse a sorte de se instalar num quarto fresco, em vez de percorrer as estradas debaixo de sol.

Entretanto, Malluch tinha outras inquietações. Amaldiçoava o palafreneiro que lhe fornecera o cavalo. A desventurada alimária começara a coxear e este defeito acentuava-se a cada passo.

Compreendeu Malluch que seria forçosamente alcançado. De facto, os legionários aproximavam-se e lançaram as suas montadas a galope, ao avistarem o fugitivo. Malluch incitava o seu cavalo o mais que podia, mas o oficial, galopando à frente dos seus homens, alcançou-o rapidamente. Em breve se encontrava a alguns côvados.

- Detém-te! Alto! - gritou o soldado.

Malluch desembainhou o gládio curto que nunca o abandonava e, quando o homem chegou a seu lado, estendeu bruscamente o braço. O gládio feriu justamente sob a couraça, na coxa nua do homem. O oficial soltou um grito, estendeu as mãos para diante, depois, vencido pela dor, oscilou. Malluch, com um empurrão, atirou-o para a esquerda e o legionário rolou no caminho. Malluch reteve pela brida a montada do Romano, e, reunindo todas as suas forças, conseguiu saltar em plena velocidade de um cavalo para o outro. Surpreendido, o cavalo do legionário empinou-se um instante, mas Malluch dominou-o com mão firme e, esporeando-o, impulsionou-o para a frente.

Voltando-se, viu o animal que acabava de abandonar abater-se na estrada e o grupo de legionários que, apeados, rodeavam o seu chefe caído.

Rapidamente, dois deles tornaram a montar e lançaram-se em perseguição de Malluch.

Narmus, esse cavalgara primeiro rapidamente pela estrada costeira. Passara a pequena cidade de Àncio, quando ouviu ao longe, à sua retaguarda, um ruído de galope. Viu reflexos de couraças a brilhar ao sol. Apressadamente, tomou pela esquerda um pequeno caminho que conduzia à praia. Apeou-se e, levando o cavalo, ocultou-se num pinhal. A galopada tornava-se cada vez mais precisa e Narmus viu passar na sua frente cinco legionários, capas flutuando ao vento da corrida. Narmus esperou então que o rumor se afastasse, e retomou o seu caminho.

À hora mais quente, viu diante dele as casas ocres de uma pequena aldeia de pescadores. Tudo ali parecia tranquilo: barcos no porto, homens deitados à sombra perto da água. Uma rua bastante estreita atravessava a povoação, formando um cotovelo. Entrando bastante depressa nessa ruela, Narmus viu uma criança que, na soleira de uma porta, o olhava com olhos assustados. Quase ao voltar à direita, Narmus avistou bruscamente a barragem: quatro legionários, lanças em riste, escudos a protegê-los. Narmus puxou as rédeas com toda a sua força, o cavalo ergueu-se sobre as pernas traseiras e Narmus, com risco de lhe rasgar a boca, fê-lo redopiar e, esporeando-o, obrigou-o a retomar a corrida. Abriram-se então umas portas, diante das quais passara um momento antes. Dois Romanos saíram de uma casa à direita, e outros dois da esquerda. Metido na ruela estreita, Narmus hesitou. Puxou as rédeas, endireitou-se, relinchando. De súbito, Narmus viu uma rede de pesca enrolada à porta de uma das casas. O antigo gladiador despertou nele. Debruçando-se sobre o pescoço do cavalo, deitou a mão à rede. Para qual dos grupos iria ele? Os quatro da retaguarda pareciam menos resolutos, mas, se escapasse da aldeia para o lado de Nápoles, teria de atravessá-la de novo, enquanto que a estrada de Roma, aberta na sua frente, era a salvação.

Narmus deteve o cavalo e saltou para o chão. Tomando o animal pela brida, encaminhou-se para a barragem romana. Diante dele, os homens baixaram os escudos e ergueram as lanças. Tudo se passou então com muita rapidez.

Narmus fustigou o seu cavalo na garupa, o animal saltou sobre os soldados, atropelando-os, e correndo para o campo. Ao mesmo tempo, voou a rede, arremesada por mão certeira. Narmus não esquecera as lições dos seus amos, porque a arma preferida dos gladiadores era muitas vezes este acessório. Mais uma vez a rede fazia a sua tarefa. Narmus viu os Romanos debaterem-se nas malhas, mais embaraçados a cada movimento que faziam. Então, abalou para o campo. Corria, persuadido de que estava, fora de alcance, de que ia agarrar o seu cavalo e continuar o seu caminho. O coração pulsava-lhe fortemente. Um legionário, que dormitava num terraço da povoação, ouvindo os gritos dos companheiros, debruçou-se e viu aquele homem a correr. Tranquilamente, pegou no arco que tinha a seu lado, esticou-o, visando à vontade o dorso do fugitivo, A flecha partiu, zumbindo.

Narmus sentiu um choque. Embalado, ainda deu alguns passos. Passou-lhe um clarão diante dos olhos. Penetrou nele uma viva dor, e a sua última visão foi a de um céu vermelho a oscilar.

- Atirem-me essa carcaça para o campo - ordenou o chefe dos legionários.

 

De pé, no convés, junto do patrão do barco, Ben Hur olhava a costa, que não passava de uma linha sombria à sua direita. Até ali, a navegação não tivera história, a não ser que o patrão, se queixava incessantemente da falta de vento. Decorrera um dia inteiro, e, com efeito, a Ben Hur afigurava-se que a linha da costa não bolira desde manhã.

- Enfim - suspirou o marinheiro - pode ser que à noite tenhamos brisa...

Veio brisa, realmente, mas que, em lugar de provocar um sorriso aos marinheiros, lhes causou inquietação. Uma longa mancha escura que barrava todo o horizonte do lado do largo avançava, ao mesmo tempo que o vento refrescava.

- Senhor - disse o capitão - É preferível procurar refúgio em algum pequeno porto. Está a aproximar-se uma tempestade, e eu conheço-a bem.

- Tenho de chegar a Óstia o mais depressa possível!

- Se continuarmos debaixo deste vento, não tardaremos em chegar ao fundo, em vez de chegar a óstia.

- Mantém o rumo, não me importo de correr o risco.

- Mas eu não o corro; desejo conduzir-te, alugar-te o meu barco, mas não arriscar a pele. Quer concordes, quer não, vou rumar a terra.

- E eu não te deixo - declarou Ben Hur.

Já agarrava a barra do leme, quando sentiu uma mão abater-se sobre o seu pulso. Voltou-se: os quatro homens da tripulação ali estavam, tão imóveis quanto lhes permitia um mar cada vez mais agitado.

- Mais devagar, senhor; aqui não há senão um patrão, que comanda no mar.

Ben Hur viu no rosto daqueles homens que toda a discussão era inútil. Largou o leme e voltou-lhes as costas.

O barco virou logo a proa à costa. Entretanto, o vento aumentava constantemente de violência, as vagas tornavam-se cada vez mais altas. Rajadas houve que obrigaram os homens a dobrar-se. Massas de água passavam por cima da amurada. Crispado na cana da leme, o piloto bradava:

- Amarrem-se! Amarrem-se ao mastro!

O barco rolava agora de um bordo para o outro, relâmpagos deslumbrantes cruzavam o céu cada vez mais negro. Choques violentos que pareciam vir do fundo atiravam os homens ao convés e as massas de água enrodilhavam-nos. De súbito, uma vaga enorme ergueu-se à popa, Ben Hur viu a sua massa glauca, debruada de espuma, levantar-se acima do capitão e abater-se com um barulho terrível. Quando Ben Hur distinguiu de novo o convés, a cana do leme fora arrancada e o capitão desaparecera.

- Amainem as velas! - bradou Ben Hur - Todos para o mastro!

Quase no mesmo instante, ouviu-se um estalido violento. Rasgada, a vela voou em farrapos. O caos atingira o auge; os uivos do vento, o ruído de madeiras quebradas, o embate das ondas, o prolongado ronco do trovão, tudo se confundia. Quando o príncipe, rastejando, tentava aproximar-se do centro do barco, o mastro quebrou-se pela base e mergulhou, arrastando os aparelhos de bordo. Ben Hur viu o crânio de um dos marinheiros estoirar ao choque da prancha de madeira.

O barco corria agora num universo infernal, direito aos rochedos da costa. A proa foi de súbito levantada e recaiu, ao mesmo tempo que uma vaga enorme vinha sobre o barco. Ben Hur fez o sinal da cruz.

- Senhor! - pensou ele - Faze, pelo menos, com que um dos outros dois chegue ao seu destino!

A vaga submergiu-o de um golpe.

Drusus já não podia ocultar a sua inquietação. Havia cinco dias que Ben Hur, Malluch e Narmus tinham partido para Nápoles e nenhuma notícia deles chegara à vivenda da estrada de óstia. Mas o tempo decorrido perturbava menos Drusus do que uma surda inquietação que não o abandonava, desde a sua partida. Tentara de início dissimular aquela sensação aos olhos de Filipe e de João, mas agora já não podia mais.

- Vejamos, tio - disse Filipe - eles são três, com meu pai e Malluch, que enfrentaram outros perigos em Israel...

- Sem dúvida, mas eram perigos francos, que se defrontavam à ponta de espada. Aquela corte de Nero é mais perigosa do que uma coorte. Tudo ali está envenenado, comidas, vinhos e o próprio ar que se respira. Não ficarei descansado enquanto não souber o que lá se passou.

No fundo do jardim achavam-se duas sombras perto uma da outra, duas sombras quase infantis, a de João, filho de Drusus, e a da pequena escrava Aclis. Ambos sabiam que encontrarem-se assim, em segredo, era um pecado contra a Lei, mas nem um nem outro pudera resistir muito tempo. Cada olhar que trocaram, cada passo que fizera com que se cruzassem, conduzia-os irresistivelmente àquele momento que um e outro aguardavam, aguardavam e temiam ao mesmo tempo.

Primeiro, João murmurara a Aclis, ao cruzar-se com ela no átrio:

- Esta noite, ao fundo do jardim, perto do muro alto.

Fugira sem esperar resposta. Teria Aclis compreendido? Mesmo que o tivesse ouvido, iria ela?

Durante todo o resto do dia, João apostara contra o seu desejo, pensando que ela não iria, procedendo como todas as crianças que não se atrevem a esperar uma alegria demasiado grande.

Sabia sem dúvida que aquele encontro clandestino era censurável, que proceder assim com uma pequena escrava era indigno do nome que usava, mas cada assalto dos seus bons sentimentos era por assim dizer repelido pela imagem frágil de Aclis, pela pureza e pelo brilho dos seus olhos.

Agora, mergulhados na sombra, contemplavam-se frente a frente, não ousando um gesto, uma palavra, e ambos desejariam que aquele instante durasse toda a sua vida.

Uma pesada massa caiu perto deles. Aclis soltou um débil grito e lançou-se nos braços de João. O jovem avançou um passo para o vulto caído. Debruçou-se e, de repente, pronunciou baixinho:

- Malluch! É Malluch... Deve ter saltado por cima do muro!

- Está ferido? - indagou a jovem.

João ajoelhara-se junto do intendente. Ajudado por Aclis, conseguiu voltá-lo sobre o dorso e passou-lhe a mão pela fronte.

- Está molhado!

- Talvez seja sangue - disse a jovem.

- Vai prevenir meu pai, depressa!

- Assim, ele saberá que estávamos juntos...

- Não importa! Vai depressa!

Houve logo agitação na vivenda. Acorreram luzes. Drusus precipitou-se para João. Vinha Filipe com ele, assim como dois escravos empunhando archotes.

- Saltou por cima do muro - informou João - Caiu aqui!

- Por cima do muro? Então, era perseguido - deduziu Drusus - Apagai os archotes, depressa, e calai-vos. Agora, ajudai-me, rápido!...

Os vultos debruçaram-se e o grupo, transportando Malluch, dirigiu-se para casa. Os escravos estenderam o intendente em cima de um leito baixo na sala grande.

- Ide às portas! Vede se lá está alguém...

Monime e Aclis entravam, trazendo bacias de água e ligaduras. Malluch abriu os olhos.

- Malluch! - pronunciou Filipe docemente - Malluch! Que sucedeu?

Em voz débil, Malluch transmitiu a mensagem de alerta de Ben Hur, e fechou os olhos.

- E meu pai? - perguntou Filipe - E Narmus?

- Veio cada um por um caminho diferente...

- Mas tu estás ferido?

- Não. Vim a galope. Estiveram quase a agarrar-me. O cavalo morreu esta manhã. Depois corri, avancei, escondendo-me... Não me seguiram. Despachem-se. Nosso amo disse: «Sem perda de tempo». Avisai os que estão ameaçados... A hora aproxima-se.

A cabeça de Malluch tornou a cair nas almofadas.

- Deixemo-lo repousar... - disse Drusus - Todos o ouviram? Tu, Filipe, corre a casa de Aulus Domitius. Tu, João, a casa do senador Malone. Tu, Benex, à do tribuno Solenius, e tu, Anjune, à de Drabona. Quanto a mim, vou a casa de Alemius. Sossega, Malluch, tudo se cumprirá.

O alarme correu de rua em rua, de porta em porta, de casa em casa. Partindo de um homem, estendera-se a cada lar da cidade onde vivesse um cristão. Bem poucos o escutaram:

- Um dos nossos que se assusta!

- Quem sabe se não é uma provocação do próprio Nero?

- Que mal fizemos nós?

- Deixar a minha casa? Nunca!

Muitas vezes, os mensageiros foram acolhidos com frases semelhantes. No entanto, algumas pessoas mais ao corrente dos usos da corte, que conheciam a loucura sanguinária do imperador, tomaram a advertência a sério e afastaram-se da cidade. Alemius foi para o acampamento das legiões, mas Albina, pensando que por ela nada havia a temer, talvez também para ficar mais perto de Filipe, não abandonou a vivenda de seu pai.

Só meia centena de cristãos aproveitara do Asilo que Drusus lhe oferecera. Sabendo por Malluch que a casa dos Hur seria protegida pela tropa, Drusus pensara que nenhum outro asilo seria mais inviolável. Para os subterrâneos recentemente escavados vieram desde a primeira noite de alarme algumas famílias demasiado pobres para conseguirem por seus próprios esforços um abrigo seguro.

Na segunda noite que se seguiu ao regresso de Malluch, uns vinte legionários, sob o comando de um oficial, foram tomar posições nas proximidades da vivenda da estrada de óstia. Entretanto, nenhuma notícia chegara de Ben Hur e de Narmus.

Na noite de 18 para 19 de Julho do ano 64, um homem de cabelo grisalho caminhava pela estrada que vem da costa para a capital.

Seu vulto aparentava desleixo. Envergava roupas descuidadas, apoiava-se num bordão e, no entanto, a sua marcha era rápida. Percorria a Via Triunfal, feita de pesadas lajes, outrora marcadas pelo regresso das legiões vitoriosas quando, na véspera do triunfo, elas subiam de óstia para o Capitólio, carregadas de riquezas conquistadas no Oriente. Era uma noite de calor; vultos esguios de ciprestes e os mais pesados de pinheiros mansos povoavam aquela estrada de pedra. Ao aproximar-se da cidade, o homem deteve-se de repente. Imóvel, observava. Um clarão erguera-se sobre uma das colinas de Roma, depois, um segundo, um terceiro e ainda outro...

O céu, por pontos isolados, primeiro, tornara-se vermelho. Então, o homem retomou a marcha ainda mais rápida, e não podia desviar o olhar para outro lado que não fosse o do fogo, que ainda não era acompanhado de qualquer ruído, e daquelas chamas que de súbito subiam no silêncio sobre Roma adormecida.

Um pouco antes das muralhas da cidade, o homem atingiu um alto muro que marginava a estrada. O seu avanço tornou-se prudente. Viu soldados aglomerados diante de uma grande porta e que, também eles, contemplavam a cidade.

Então, o homem voltou atrás. Tornejando a esquina do muro para os campos, atingiu uma pequena porta dissimulada e tirou uma chave da sua túnica. A porta abriu-se com um rangido. O homem avançava agora por uma álea. Entre duas sebes de folhagem, diante de uma vivenda branca, junto das colunas de um pórtico, viu vários vultos que, sem um movimento, contemplavam as labaredas a subir ao céu.

Avançou para eles. Nenhum se voltou. Pareciam fascinados pelo espectáculo. Pousou a mão no ombro de um jovem. Este voltou-se de súbito.

- Filipe! - disse Ben Hur - Malluch e Narmus chegaram a tempo?

- Pai! Sim, pai, há dois dias que Malluch cá está e tudo se fez como tu disseste.

Então Filipe, ao clarão do incêndio que avolumava, de minuto a minuto, viu lágrimas rolarem pelo rosto de Ben Hur e ouviu a sua voz dizer:

- Obrigado, Senhor,..

Drusus, Malluch, Filipe e João depressa vieram a saber o que se passara. Despedaçado pela tempestade o barco que o trazia, contra os rochedos da costa, Ben Hur, meio aturdido, conseguira nadar até terra. Aí, açoitado pelo vento, chamara em vão. Todos os marinheiros tinham desaparecido. Percorreu então a praia para o lado norte, em busca de uma aldeia. Avistou, finalmente, uma luz numa espécie de barraca, abalada a cada instante pelo vento e pelo estrondo do mar.

Ali encontrou uma família pobre e pôde reconfortar-se e saber onde estava. Soube que se encontrava a dois dias de marcha ao Sul de Óstia e logo tornou a partir. Marchou todo o dia e uma parte da noite. Quando atingiu Óstia, soube que a estrada de Roma e a de Nápoles estavam guardadas militarmente e que ninguém tinha licença de passar. Então, pelos campos, pelos bosques, contornou a cidade. Chegou, finalmente, às portas de Roma.

- Senhor - disse Malluch, quando Ben Hur concluiu a sua narrativa - o Céu inspirou-te bem quando ordenaste a cada um que tomasse por caminho diferente. Graças a Ele, toda a gente está abrigada.

- Ai! - exclamou Drusus - Toda a gente, não!

E contou a Ben Hur como a maior parte dos cristãos reagira ao aviso dos acontecimentos ameaçadores.

- Alguns milhares ainda estão na cidade!

- Aclis! - chamou Ben Hur - Prepara-me rapidamente um banho e roupas limpas. Todos aqueles cujos nomes te dei estão ao abrigo?

- Esses, sim - respondeu Drusus.

Enquanto Ben Hur se vestia, ouvia-se ao longe o som das trompas que soavam em Roma. Eram os vigias dos vários bairros que lançavam o alarme de cada vez que um incêndio - e eram frequentes naquela cidade superpovoada - deflagrava em qualquer parte.

Ben Hur mandou abrir o portal e saiu diante dos soldados. Dirigiu-se ao oficial.

- Quais são as tuas ordens?

- Guardar esta vivenda, senhor, no caso de haver algum motim.

- Bem.

Como o oficial, voltou-se para a cidade. Os ciprestes e os teixos que orlavam os muros da cerca recortavam-se cada vez mais nitidamente num céu vermelho.

O sinistro parecia ter atingido todos os bairros de Roma. Enormes rolos de fumo dominavam as chamas e o vento que se levantava empurrava-os agora para o Sul. Saíam cavaleiros da cidade.

- Onde ides? - indagou o oficial.

- Para Nápoles - respondeu um dos homens - Prevenir o imperador.

- Onde começou o fogo?

- Julga-se que no bairro do Grande Circo, mas há outros focos - e ajuntou, esporeando o cavalo - Acautelai-vos, o pânico começa!

- No Grande Circo? - disse o oficial - Então, não me admira que esteja a arder tão bem. Está cheio de pequenas lojas de madeira, mercadores de azeite, de tecidos. Tudo isso deve incendiar-se facilmente.

- Escuta - pediu Ben Hur.

Ouvia-se agora um rumor surdo. Com o ronco do incêndio misturavam-se vozes agudas. O fumo tornava-se cada vez mais pesado, ocultando totalmente as labaredas por momentos; depois, estas, activadas pelo vento, retomavam força e altura, perfurando a nuvem estendida por sobre as Sete Colinas. Já, sob o arco da porta de Óstia, surgiam vultos deformados pelos sacos, fardos de todos os feitios; aquela turba engrossava de sejgundo para segundo. O grande êxodo de Roma principiava.

- Cerrar fileiras! - ordenou o oficial - Colocai-vos todos diante do portal da casa!

- Entrai antes! - disse Ben Hur - Deixai algumas sentinelas da parte de fora, porque a multidão torna-se muito densa, e acaba por varrer-vos.

- Obrigado!

Soube-se, mais do que se viu, que a alvorada surgira sobre aquela paisagem de fim do mundo. A massa de fumo era enorme. O azul do céu permaneceu oculto por ela, o cinzento estendia-se por sobre todo o campo, semelhante a uma imensa nuvem de tormenta. Caíam cinzas sobre todas as coisas e os homens limpavam constantemente o rosto enegrecido.

O ronco terrificante que vinha de Roma não fizera senão aumentar. Distinguiam-se ruídos de desabamentos, o rumor de milhares de brados feitos de medo e de pavor e gritos de pessoas que se procuravam. Agora, atropelavam-se, esmagavam-se na porta de óstia: uma interminável coorte de homens, de mulheres, de crianças tentava fugir da cidade, e o escoamento fazia-se tanto menos facilmente quanto cada um se esforçava por transportar o que se podia salvar.

Era uma confusão de carroças puxadas por animais e por homens. Aquela multidão firmava-se em fardos caídos no chão, tentava levantar-se, escorregava, por vezes empurrada pela onda humana. De vez em quando, a liteira de um nobre procurava romper caminho. Inconscientemente, os fugitivos, na sua miséria e no seu pavor, volviam-se para tudo que parecia mais estável, menos miserável.

Passada a goela da porta e chegada ao campo, a onda afrouxava, concedendo-se uma pausa. Viam-se mulheres a correr, chamando, procurando uma criança perdida. Muitas vezes, aqueles brados transformavam-se em urros, depois em soluços, porque ninguém lhes respondia. Milhares de grupos acampavam agora nos dois lados da Via Triunfal e algumas pessoas ficavam ali, aturdidas, a olhar para a sua frente com olhos vazios.

Quando Ben Hur viu aquele espectáculo, seu coração encheu-se de piedade. Reuniu os servidores, os soldados, chamou os operários que trabalhavam na nova casa e, juntando víveres disponíveis, mandou-os levar aos refugiados sentados perto dos muros. Ele próprio os ajudou.

Deambulava por entre caras enegrecidas, onde os traços das lágrimas por vezes abriram longos sulcos brancos. Por vinte vezes, escutou o mesmo relato:

- Dormíamos. Alguém gritou!

- O pequeno! O pequeno! Perdeu-se... Quando me voltei para o Capitólio, já ali não estava.

- Acabou tudo... Os deuses são testemunhas. Vi a minha casa abater.

- Nada resta do Transtever.

- O bairro do Grande Circo está completamente arrasado...

- Abriram-se as jaulas, as feras andam à solta na cidade...

- Há milhares de mortos...

E depois, consoante as pessoas se recompunham, reflectiam, um boato começou a circular:

- Um simples incêndio, não é possível, não pode fazer tanto estrago!

- Um fogo não alastra desta maneira!

- Vi criados a correr com archotes, digo-vos eu, vi-os com os meus olhos!

- Foi ele! Foi Nero! Foi ele quem incendiou Roma!

Começaram a ouvir-se clamores:

- Morra Nero!

- Morra Aenobarbo!

- Matricida! Assassino!

Depressa, os membros da casa do príncipe regressaram de mãos vazias ao portal. Alguns refugiados tentaram segui-los, houve embates com os soldados que guardavam a porta, encontrões, invectivas; foi preciso a autoridade de Ben Hur impor a calma.

- Que procuram aqui? - perguntou ele - A casa está cheia. No campo estais mais seguros do que na vivenda. Ali não pode o fogo atingir-vos.

No entanto, deixou entrar uns feridos, alguns deles horrivelmente queimados, que pais ou amigos conseguiram arrastar até fora da cidade, algumas mulheres, também, e crianças perdidas.

Um barulho violento ouviu-se no exterior: tinidos de armas, entrechoques metálicos, gritos dos guardas chamando os camaradas para reforço. Ben Hur tornou a sair com o oficial. Um gigante cujos cabelos brancos contrastavam com a pele trigueira, erguia ao alto nas suas mãos um legionário que se debatia.

- Thord! - gritou Ben Hur.

O gigante voltou-se, deixou cair o soldado num grande ruído de couraça e soltou uma risada enorme.

- É um doido! - exclamou o oficial.

- Não! - respondeu Ben Hur - É Thord, o Nórdico... Entra, Thord, tu e os teus!

Em volta, a turba começou a murmurar. Interrompeu-se de súbito quando Thord, que já não ria, se voltou para ela. Cinco gladiadores, seguindo Thord, cruzaram o pórtico.

- Estou contente, Thord, por teres conseguido salvar-te - disse Ben Hur - Então, o incêndio deflagrou perto da tua casa?

- Tu o disseste! - respondeu Thord, sacudindo-se - E, acredita, não se ateou sozinho.

- Também o julgas?

- Ora, vamos! Um incêndio não se acende ao mesmo tempo em três colinas separadas por bairros inteiros, simultaneamente no Circo e no Capitólio, no Martius e no Castrense, no Esquilino e no Fórum. Mais um crime, eis tudo! Ah! Ben Hur! Não correrás mais em quadriga no Circo Maximus, a não ser sobre cinzas.

- Aqui, estás em tua casa, Thord!

- É justo! - disse o Nórdico - Porque em minha casa também estás na tua, e bem sabes que podes pedir tudo, que tudo farei por ti. Tão facilmente como mandares dar-me, a mim, alguma coisa de beber.

E a sua risada estalou de novo, sonora, fazendo volver todas as cabeças.

Trouxeram a Thord um jarro de vinho. Ofereceu coisa de dois copos aos seus companheiros, depois, num longo trago, esvaziou alguns sextários que ele continha (1).

 

Nota 1:- O sextário equivalia a 0,547 de litro.

 

- Ah! Agora, é preciso repousar.

Estendeu-se sobre a sua capa, junto do tronco de um pinheiro manso. Alguns instantes depois, ressonava tão alto que o ruído cobria o do incêndio.

À noite, o incêndio continuava.

- Pai - disse Filipe - vou entrar em Roma.

- Em Roma? Mas é impossível. Vê essa multidão que foge sem cessar, nunca lá chegarás. E por que motivo hás-de ir a Roma?

- Albina está sozinha. O pai, o tribuno Alemius, encontra-se no meio das suas legiões no outro lado da cidade.

- Talvez ela se lhe fosse juntar.

- Como o teria ela feito? O acampamento fica do lado do sol levante e a vivenda de Alemius no do poente. Não pôde atravessar a cidade. Eu vou lá!

- Quem te diz que o pai a não procurou ou mandou legionários buscá-la?

- E quem me diz que ela não está só e em aflição? Pai, eu posso chegar até lá.

- Por que caminho?

- Seguindo as muralhas pelos caminhos de ronda, as sentinelas deixar-me-ão passar certamente. Há tanta confusão... Posso subir até a porta Tiburtina. A sua vivenda não fica muito longe daí.

- É uma loucura. Arriscas-te cem vezes a morrer, quando decerto ela já está a salvo...

- Não arrisco senão o que desejaria arriscar!

- Ordeno-te que não vás!

- Nem mesmo tu me poderás impedir!

- Filipe!

- Pai! Se minha mãe, no tempo em que ela era tua noiva, estivesse em perigo, que farias tu?

- Vai! - disse Ben Hur - Tens razão. Que o Senhor te proteja!

Filipe, dirigindo-se contra a corrente da turba, ao longo da Via de óstia, atingiu, não sem custo, as muralhas. Depois da estreita porta, tomou pela escada de pedra que permite o acesso ao caminho de ronda, mas a densidade dos que saíam de Roma era tal, e tal o seu pavor, que não se podia pensar em atravessá-los sob esse arco que normalmente dá passagem a seis pessoas lado a lado.

Encostado à pedra dos muros, Filipe olhava aqueles rostos apavorados que desfilavam na sua frente. Surgiu uma carroça. Suas rodas roçavam pelas pessoas de ambos os lados. Um homem, que acabava de ser empurrado, desatou a gritar injúrias. Fustigou violentamente o cavalo; este, espantado, relinchou, ergueu-se sobre as patas traseiras. As rédeas cederam, a carroça voltou-se precisamente ao meio da porta, enquanto o animal se escapava para os campos. Houve um concerto de gritos, de imprecações. Pessoas empurradas gritavam, entaladas contra a carroça, mas este incidente interrompeu o êxodo por momentos. Filipe correu para diante do veículo, firmou-se sobre os corpos irrequietos, rolou por cima deles, rastejou por sobre as cabeças, os braços e as pernas misturados, e atingiu por fim o outro lado das muralhas. A visão que teve ia ficar-lhe gravada na memória.

A rua direita, que seguia para o Grande Circo, estava negra de multidão; uma turba enlouquecida que bramia, que se esmagava. Atrás dessa massa de rostos deformados pelo medo, aproximava-se uma verdadeira cortina de chamas. Tinha-se a cada instante a sensação de que o fogo vinha alcançar a turba.

Filipe rolou para um lado da corrente, embateu nos degraus de pedra, agarrou-se a uma argola presa na parede e, por fim, elevou-se acima da balbúrdia. Galgou rapidamente os degraus e atingiu o caminho de ronda.

Nem uma sentinela à vista. Os soldados fugiram certamente para o campo. Correndo sobre as muralhas, Filipe via à sua esquerda os calmos jardins das vivendas ainda poupadas pelas chamas. No segundo plano, casas apertadas umas contra as outras dos bairros mais populares. Passo a passo, o fogo avançava para ali, e encontrava presa fácil naquelas ruelas, marginadas, em sua maior parte, de cabanas de madeira, sem separação entre elas.

O centro da cidade, através da cortina de fumo espesso, acre, sufocante, mais não parecia do que um imenso braseiro.

Diante dele, numa espécie de crepúsculo estendido sobre todas as coisas, entre o sol e Roma, Filipe avistou um grupo de homens e mulheres aglomerados em cima da muralha. Aproximando-se, viu que se tratava de fugitivos; desistindo de passar a porta, tinham trepado até as fortificações e, munidos de uma corda, tentavam deixar-se escorregar para fora.

Ao chegar àquele local, Filipe ouviu um grito e um homem dizer junto dele:

- Foi Prescellia. Largou a corda e caiu...

Filipe ultrapassou o grupo, transpôs a porta Ardeantina, que lhe pareceu um pouco menos obstruída, mas, depois do grande cotovelo que os muros faziam, viu a multidão aglomerada junto da porta Ápia. Aí, o pânico atingira o auge. Já não eram gritos, mas urros que dominavam tudo. As pessoas matavam-se, estrangulavam-se para atingirem a saída da cidade, algumas mulheres procuravam proteger seus filhos, elevando-os nos braços, acima de suas cabeças, mas eram-lhes arrancados, atirados por cima da multidão, arremessados a sangrar para as soleiras das casas.

O fogo rondava muito perto. Dizimava as Termas de Severo. Filipe viu nitidamente brandões acesos, lançados sobre a multidão. Viu pessoas com as roupas a arder e que, apertadas ombro com ombro contra os seus vizinhos, propagavam o incêndio, como archotes vivos.

O alto muro das Termas oscilou de súbito e um enorme pano de pedras desmoronou-se sobre a multidão. Angustiado, Filipe voltou o rosto.

No lado dos campos, a onda afrouxava, dividia-se, estendia-se pelos terrenos já cheios até perder de vista; tinham-se recomposto alguns grupos, deitados no chão ou sentados ao pé das árvores.

As muralhas endireitavam agora ao Norte, e era sempre o mesmo espectáculo desolador. Entre a porta Metróvia e a porta Asinaria, as labaredas quase atingiam a muralha de cintura; algumas famílias que tentavam escapar-se pelos jardins, fora das vias de acesso, ficavam encerradas entre os muros de pedra e o muro de fogo que se aproximava. Um homem chamou Filipe, lá de baixo.

- Por piedade! Agarre! Agarre!

Procurava lançar-lhe uma corda, mas suas mãos trémulas não podiam arremessá-la bastante alto. Por três vezes, a corda tornou a cair.

À quarta tentativa, sem atingir o alto do muro, ficou presa numa saliência da pedra. Filipe, debruçando-se, viu duas mulheres e quatro crianças que, junto do homem, o olhavam com os olhos enormes.

- Esperai! - gritou-lhes.

Galgou o parapeito e empreendeu descer, pedra por pedra, agarrado de mãos e pés, pernas coladas à muralha. O suor inundara-lhe todo o corpo e sentia o bafo quente do incêndio, a cada golpe de vento.

Já Filipe se amaldiçoava por não ter podido resistir àqueles olhos suplicantes. Ao menor movimento em falso, cairia no meio do grupo. A quem prestaria ele serviço? Filipe pensou um instante em seu pai, visionou-o nas galeras, naquele combate que tantas vezes lhe contara. Então, num supremo esforço, alcançou a corda.

Pelo mesmo caminho, muito lentamente, com a ponta da corda entre os dentes, tornou a subir. Pousou, enfim, os pés no parapeito. Amarrou rapidamente a corda e gritou para o homem:

- Sobe!

Em baixo, o homem impeliu uma mulher para o muro. Filipe bradou:

- Não! Ela, não! Ela nunca poderá subir. Tu primeiro, depois, puxa-los um a um.

O homem decidiu-se. As chamas, cada vez mais próximas, projectavam a sua sombra na muralha. Por fim, mãos esfoladas, joelhos em sangue, atingiu o cimo. Filipe ajudou-o a pular para o caminho de ronda.

- Tu, agora! - gritou ele para a mulher. Mas ela apontava para o filho mais pequeno.

- Amarra-o! - bradou o jovem.

Ela atou os pulsos da criança, que, calada, olhava para cima.

Então Filipe, sem se preocupar mais com o homem que gemia junto dele, puxou a corda com toda a sua força, e o pequeno atingiu o topo.

Filipe já não sentia mais as mãos, dilaceradas pelos toros da corda, quando assim içou sucessivamente as três outras crianças e duas mulheres. Por fim, surgiu a última cabeça à altura do parapeito.

- Pronto! - disse ele - Agora, deita a corda para o outro lado, basta que se deixem escorregar para o campo. Boa sorte!

- Jovem - indagou o pai - como te chamas?

- Filipe!

- O meu nome é Marcelo. Sou guarda das prisões municipais. Se um dia precisares da minha vida, pede-ma. Ela pertence-te.

- Salva-a, primeiro! - replicou Filipe.

- Não te esqueças! Marcelo!

- Marcelo! - repetiu Filipe - Recordar-me-ei.

E retomou a sua corrida ao longo das muralhas. Assim alcançou o anfiteatro Castrense, cujas bancadas estavam ligadas à muralha. Por essas bancadas escapavam-se muitos agora para o caminho de ronda. Filipe rompeu passagem entre eles, enquanto em baixo, nas jaulas do circo, se ouviam os rugidos das feras assustadas com a aproximação do incêndio. Por fim, Filipe achou-se à porta Tiburtina. Estava relativamente desobstruída e o jovem não teve mais trabalho do que descer os degraus e entrar na cidade.

Por pequenos atalhos que ele conhecia e que serpenteavam entre os parques das vivendas daquele bairro aprazível, correu para a moradia de Alemius. Dali, o fogo parecia mais distante; não ultrapassara o bairro populoso do Lamiani.

Filipe avistou, por cima do muro, a vivenda intacta. A porta abriu-se ao primeiro empurrão. Na álea que lhe ficava em frente, viu o jovem um vulto que lhe estendia os braços.

Albina ignorava a gravidade do incêndio. O bairro onde vivia não fora atingido e poucos refugiados o tinham cruzado.

- Tu não podes ficar assim - disse a jovem.

Olhava Filipe, o seu rosto enegrecido pela fuligem, os cabelos chamuscados, as mãos e as pernas ensanguentadas, as roupas em farrapos.

- Toma um banho e come alguma coisa.

- Não, Albina, é preciso partir. O fogo pode atacar os parques, em volta, de um momento para o outro. Não fiques aqui, vem para casa de meu pai. Acha-se fora da cidade, e ali estarás a salvo.

- Mas, esta vivenda? Não a posso abandonar.

- Que importa! Se visses o que se passa na cidade, o facto de deixar a vivenda deserta contaria muito pouco a teus olhos. Fujamos, Albina, peço-te.

- Não antes de teres repousado um pouco. Por enquanto, ainda não arriscamos nada - E chamou para dentro de casa - Dolina! Hatlés!

Acorreram duas escravas.

- Dolina, leva o príncipe de Hur aos banhos. Tu, Hatlés, procura roupas de meu pai e traze uma túnica e uma toga. Anda, Filipe, vou dar as ordens para a nossa partida e depois irei ter contigo.

Filipe seguiu a escrava, que já cruzava as lajes dos vestíbulos. Na sala de mármore branco que servia para as abluções, mergulhou com alegria numa água clara e perfumada.

Como o drama de Roma lhe parecia longe, agora... No entanto, pelas frestas abertas para o jardim, via-se aquela nuvem acinzentada que continuava a empanar o céu.

Teve de fazer um esforço sobre ele próprio para sair da piscina. Esperava-o a escrava Hatlés, uma Grega robusta. Estendeu Filipe numa espécie de mesa forrada de tecido e começou a massajá-lo. Filipe abandonava-se, quase dormindo. A voz de Albina arrancou-o àquela sonolência.

- Deixa-nos, Hatlés.

A jovem sentou-se a um canto da mesa, debruçou-se para Filipe e pousou docemente os seus lábios nos do rapaz. Quedaram-se assim, por muito tempo, imóveis. Depois, Albina ergueu-se e disse:

- Agora, é preciso partir!

Hatlés voltou ao compartimento.

- Hatlés - perguntou ainda a jovem - reflectiste bem. queres ficar aqui?

- Sim, minha senhora. Não julgo que o fogo atinja os jardins. Velarei pela vivenda. Se pressentíssemos perigo próximo, partiríamos com os escravos e iríamos ter onde nos disseste.

Foi então que, só com Filipe, Albina abandonou a casa de seu pai. A fim de evitar à jovem os espectáculos atrozes de que fora testemunha, Filipe fê-la sair da cidade pela porta Tiburtina por onde a onda se escoava bastante calmamente; depois empreendeu um largo desvio pelos campos.

Durante horas, por caminhos de ciprestes, de oliveiras e de pinheiros, contornaram a cidade, atravessando centenas de acampamentos improvisados, saltando por cima de corpos estendidos, no meio das lamentações da multidão e das imprecações das pessoas que bramavam contra Nero.

Alcançaram finalmente a Via Ápia e depois, pelos campos, chegaram à vivenda de Ben Hur, onde entraram por uma pequena porta, praticada nos altos muros, nas traseiras da casa.

 

- Sê bem-vinda, Albina - disse Ben Hur - Sinto-me feliz por estares entre nós; feliz e aliviado.

- Príncipe, tu e Filipe inquietaram-se demasiado. Tudo estava sossegado no nosso bairro.

- Era menos o risco do fogo que eu receava por ti do que o que pode suceder depois!

- Que pode acontecer?

- Teu pai certamente já te falou nisso. Nero fará recair sobre os cristãos todo o horror deste incêndio.

- Francamente, não acredito nisso, e tenciono regressar a casa, logo que o fogo se extinga.

- É nosso dever impedir-to. Acredita-me, Albina, não tentes voltar para casa de teu pai! Tenho a certeza de que ele será procurado, perseguido e, se tu estiveres na sua moradia, os homens de Tigelino apoderar-se-ão de ti. Aqui, está tudo à tua disposição. Aclis ocupar-se-á particularmente da tua pessoa.

- Oh! Não duvido da excelência do vosso acolhimento. Mas toda esta multidão, confesso-te, assusta-me.

- Esta multidão é formada por cristãos, Albina - elucidou Ben Hur, brandamente.

E, aproximando-se dela, o príncipe acrescentou:

- Sei do vosso amor, o de Filipe e o teu. E aprovo-o, tal como teu pai. Mas deveis esquecer-vos de vós próprios. Toda esta pobre gente precisa de nós. Quando tudo estiver mais calmo, então sentir-me-ei mais feliz em ver-vos reunidos.

 

E ROMA ARDEU DURANTE SEIS DIAS

O oficial das legiões encarregado da protecção da moradia dos Hur chamava-se Regelius; em poucas horas, soubera tornar-se estimado. Parecia corajoso e recto, e também se compadecia das grandes misérias dos refugiados. Com alguns dos seus homens, ajudara a socorrê-los, e a dedicação que lhes consagrava levava-o a circular por todos os compartimentos públicos da casa.

Assim, achou-se de chofre perante Drusus. Este empalideceu. Conhecia Regelius. Estava este sob as suas ordens na ocasião em que, tribuno de Roma, se evadira do exército para escapar às perseguições que atingiam os cristãos. Regelius não poderia ignorá-lo.

Por seu lado, o oficial olhava Drusus com uma espécie de estupefacção, sinal de que reconhecera o seu antigo chefe.

- Não procures mais quem eu sou - disse Drusus - Sabe-lo muito bem.

- Com esse vestuário...

- Só assim pude regressar a Roma. Regelius, tens a minha vida nas tuas mãos. Podes denunciar-me. Não te peço senão uma coisa: procede de maneira que não me prendam nesta casa. O príncipe de Hur não sabe quem sou. Acolheu-me por pura bondade, seria injusto que ele se inquietasse só pela sua caridade.

- Tribuno! Tu foste sempre justo com todos nós, nunca nos expuseste inutilmente nas guerras. Quem tem razão? Quem não a tem? Ninguém sabe coisa alguma no regime de podridão em que vivemos. Assim, sossega, nada tens a recear da minha parte.

- E os que estão sob as tuas ordens?

- Nenhum fazia parte das coortes, portanto, nunca nenhum se aproximou do tribuno Drusus.

- Obrigado, Regelius. No entanto, faze o que achares ser de teu dever.

- Onde está o dever? E onde está a honra?

Passaram três dias e três noites desde o início do incêndio, e as chamas, bairro por bairro, continuavam a devorar a cidade. O pânico acalmara. Roma esvaziara-se de todos os que não pereceram; centenas de milhares de homens, de mulheres e crianças acampavam em volta, nos campos. Ao seu abatimento sucedera o furor. Este explodira, quando Nero, precedido de seus corredores, de suas coortes, da sua corte, avançou pela Via Ápia.

As fileiras dos legionários, os pesados carros repletos de riquezas, as liteiras onde se ocultavam os cortesãos ou se escondiam as cortesãs desfilaram entre alas de punhos cerrados, de rostos crispados. Entretanto, Nero, pálido, rodeado pela sua guarda pessoal, chegou às portas da cidade.

No dia seguinte, quarto dia do incêndio, novo boato correu entre a multidão. Vira-se o monstro, envergando um trajo teatral, a contemplar o espectáculo da cidade incendiada do alto da torre de Mecenas. Tocara lira e, improvisando, compusera uma canção na qual celebrava a beleza do espectáculo.

Entre os refugiados, famintos, privados de tudo, a maior parte dos quais perdera casas e bens, aquela notícia agravou a cólera. Passaram a atacar todos aqueles que, vestidos com algum luxo, podiam pertencer à corte.

Alguns senadores foram apanhados no meio da onda e delapidados. Patrulhas de legionários tiveram de carregar sobre a turba para se desembaraçarem. Entretanto, foram tomadas providências de ordem pelos íntimos do imperador. Os ladrões que, até então, penetravam impunemente na cidade e saíam ajoujados com o fruto das suas pilhagens, foram caçados pelos postos da guarda restabelecidos às portas. Para esses que eram detidos, nem explicação, nem tribunal. Assim que os apanhavam, os soldados abatiam-nos. Nesta repressão houve erros terríveis, e muitos desventurados que, cheios de desgosto, entravam de novo na cidade para recuperarem os seus próprios bens, ao tentarem sair, caíam sob as lanças ou os gládios das legiões.

Aquela noite, Anjune, o escravo Cipriota de Ben Hur, chegou assustado.

- Senhor, vi uma assembleia de cristãos a cantarem hinos e a rezarem em voz alta na Via Cornélia.

- Insensatos! Onde estão eles?

- Nas pedreiras que se encontram perto do circo Gau, fora da cidade.

- É preciso lá ir - disse Filipe - e já!

Ben Hur, acompanhado de seu filho e de Malluch, partiu imediatamente através dos campos. Caíra a noite e fogueiras surgiam um pouco por toda a parte, alumiando os grupos de refugiados. Para atingir a parte oeste do campo era necessário atravessar o Tibre. Os três homens acharam facilmente quem os passasse. Algum tempo depois, no meio daquele terreno povoado de centenas de milhares de sombras, aproximaram-se do circo Gau, o único de Roma que se situava fora das muralhas.

Ali se encontravam em exploração pedreiras a céu aberto. Avançando entre massas brancas, no carreiro deserto onde em regra se talhavam e cortavam os blocos, Ben Hur e seus dois companheiros avistaram um clarão. Agora, ouviam nitidamente o eco da voz que cantava, depois notaram que o clarão era constituído por pequenas luzes que centenas de pessoas tinham na mão. Aquela multidão reunira-se na parte mais baixa das pedreiras, ao pé de uma espécie de falésia cavada na rocha. Diante da turba, encontrava-se um homem que Ben Hur reconheceu logo como sendo Lino, um diácono, amigo de Paulo de Tarso e do apóstolo Pedro.

Dele se aproximou Ben Hur rapidamente. Os assistentes hesitaram um instante. O cântico enfraqueceu, depois vozes decididas retomaram-no. Ben Hur fez um gesto com os dois braços. Lino ergueu a mão, e fez-se silêncio.

- Irmãos - pronunciou Ben Hur - semelhante reunião, que pode ser observada por todos, é uma loucura no nosso tempo.

- Irmão - respondeu uma voz - louvar o Senhor e ouvirmos juntos a Palavra de Jesus nunca é loucura.

- Escutai! Escuta, tu que falas, e persuadi-vos disto: amanhã, Nero vai tornar a nossa seita responsável pelo incêndio de Roma. A sua polícia há semanas já que penetrou nas nossas assembleias. A maior parte dos nomes dos notáveis que servem Cristo já é do seu conhecimento. Mas não serão somente os notáveis que ele prenderá: todos, sim, todos vós sereis perseguidos. E é este o momento que escolheis para vos reunir publicamente?

- Ele o disse! - bradou uma voz.

- Eu sei - proferiu Ben Hur - o que foi pronunciado nos caminhos da Judeia, fui testemunha, e o respeito por essas Palavras não está aqui em causa; mas o que também foi dito é que Elas devem ser transmitidas a todos os homens! Como o serão, se aqueles que as detêm forem dispersos e massacrados? Já vi em Jerusalém a luta que se travou entre os sacerdotes judeus e os defensores da nova religião. E conheço o seu resultado: agora que o cristianismo aqui se expande sem cessar, está praticamente reduzido a nada na terra que lhe foi berço. Tomar precauções não é negar a nossa Fé e nada nem ninguém terá poder para nos impedir de viver como cristãos; mas outra coisa é fazer manifestações aos olhos de todos em tempos tão perigosos. Acreditai-me, agrupai-vos em assembleias menos ostensivas, em lugares recatados, não aceitai entre vós os que não vos oferecerem confiança, de contrário sereis instrumentos da vossa própria perdição.

O homem que falara aproximou-se de Ben Hur:

- Príncipe, os teus sentimentos são bem conhecidos e sei que não procuras aqui senão proteger todos os nossos irmãos; mas, qualquer que seja o perigo, a Verdade deve brilhar aos olhos do mundo e o reino de Cristo não se acomoda à dissimulação.

- Quem fala aqui em dissimulação? Custa-me recordar isto, mas fui dos primeiros em Israel a ajudar a Verdade a brilhar!

- Não tomes a mal o que Sonius disse - era Lino quem falava agora - Ele sabe da tua generosidade e da tua coragem, mas sem dúvida pensa que os teus receios podem ser mal fundados.

- São bem fundados, asseguro-vos!

- Nada nem ninguém poderá fazer calar as nossas vozes! - bradou Sonius. E todos pareciam apoiá-lo.

- Lino - disse Ben Hur - tu, que és prudente, fá-los compreender a razão.

- Caro príncipe - o diácono interrogava com o olhar a multidão dos fiéis - todos os nossos irmãos são livres e únicos juízes no segredo das suas almas. Por mim, qualquer que seja a sua decisão, devo ficar à sua cabeça.

- Está bem! - disse Ben Hur - Não soube, com certeza, fazer-me entender. Faço votos por que os carrascos de Nero vos não façam arrepender muito.

O cântico recomeçou mais ardente do que nunca. Ao abandonar a pedreira, Ben Hur, com as lágrimas nos olhos, disse a Malluch:

- É a primeira vez que falho.

- São neófitos - replicou Malluch - Não sabem o que é ser perseguido e aprisionado. Só algumas famílias ricas, como a de Drusus, o foram aqui. Os outros não vêem senão através do entusiasmo da sua Fé.

- Não sei se os devemos invejar - disse Ben Hur - mas caminhamos para dias de grande piedade.

Detendo-se, ainda disse a seu filho:

- Escuta bem, Filipe, é esta a última vez por muito tempo que ouves celebrar o nome de Jesus, ao ar livre, nos arredores de Roma.

Roma ardeu durante seis dias e seis noites. Durante seis dias e seis noites, as labaredas correram sem que nada se lhes opusesse. Quando, por fim, se resolveu cortar o incêndio, privando-o de alimento e se arrasou uma larga faixa de terra, o desastre surgiu em toda a sua amplitude. De catorze regiões de Roma, quatro foram consumidas até o chão. Sete outras não mostravam mais do que empenas enegrecidas e casas desmoronadas. Só três se encontravam quase incólumes, uma delas onde se erguia a vivenda de Alemius e Albina.

Imensos tesouros estavam reduzidos a cinzas. Todos os objectos, móveis, obras de arte que, durante séculos de expansão romana, as legiões tinham trazido da Grécia e do Oriente, desapareceram em fumo. Filipe, que foi um dos primeiros a penetrar em Roma na companhia do oficial Regelius e de alguns soldados, sentiu primeiro uma imensa estupefacção: onde se elevavam palácios, estendia-se apenas um campo de ruínas enegrecidas. Monumentos levantados no tempo da criação de Roma, deles não restavam senão algumas colunas recortadas num céu azul. Naquele caos produziam-se desmoronamentos frequentes, massas de pedras minadas pelo fogo abatiam-se, esmagando por vezes os primeiros salvadores, quase todos soldados, que tinham entrado na cidade. O silêncio era total. No que uma semana antes era uma ruela animada, a pequena tropa descobria formas encarquilhadas, vultos humanos calcinados, reduzidos pelas chamas a estaturas infantis. Um cheiro acre flutuava nos bairros destruídos e em certos locais atingia uma intensidade insuportável.

Achavam-se sepultados debaixo dos edifícios em ruínas milhares de cadáveres. O centro, principalmente, fora o mais atingido. O templo de Júpiter e o da Lua, a capela de Vesta, o santuário de Hércules estavam em escombros.

Os jardins imperiais foram poupados, mas o verde sombrio das suas árvores soberbas tomara em certos locais tons ruços. A terra encarquilhada recordava o infernal calor do braseiro; alguns Romanos, que tomaram por milagre o terem escapado às chamas ou à asfixia, deambulavam, aturdidos, naquela paisagem desoladora.

Filipe e seus companheiros cruzaram-se com longas filas, que entravam na cidade, de escravos enquadrados por legionários. Pá e enxada ao ombro, iam iniciar as primeiras desobstruções. Nero mandara anunciar que comboios de abastecimentos vinham a caminho da capital, que as distribuições gratuitas far-se-iam permanentemente.

Os arautos anunciavam ainda que os jardins do imperador seriam abertos aos sinistrados e que estes ali poderiam achar asilo, assim como no Campo de Março. Estas providências, anunciadas com grande barulho, exagerou-as o povo com os seus próprios desejos. As vítimas iam ser indemnizadas, as casas seriam reconstruídas gratuitamente...

E a multidão, que seis dias antes insultava o imperador, amaldiçoando o seu nome e o dos seus validos, por uma daquelas volta-face que lhe são habituais, já começava a exalçar a sua bondade e as suas virtudes.

Aliás, divulgavam-se hábeis boatos: o imperador estava muito abatido; conhecia os culpados, os que tinham provocado o sinistro, e castigá-los-ia com o mais terrível dos rigores.

As equipas de desaterro, às quais se juntavam a armada e o exército, iam primeiro ocupar-se dos circos. O imperador ordenara grandes festas para celebrar o fim da grande miséria, para honrar os deuses que tinham permitido que o sinistro terminasse.

Ben Hur mantinha-se, hora a hora, informado acerca do que se dizia nos acampamentos de refugiados. Muitos, aliás, sem aguardarem a reconstrução, regressavam à cidade, aproveitando a hospitalidade que lhes era oferecida nos edifícios públicos. A vivenda da Via de óstia despejou-se também e o oficial Regelius foi despedir-se do príncipe.

- Toma esta bolsa - disse Ben Hur - e divide-a pelos teus homens. Deram provas de grande paciência e de muita coragem, quero que se lhes agradeça.

- Senhor - replicou Regelius - não aceito este dinheiro senão para eles. Para mim, fui demasiado feliz em viver sob o teu tecto, para esperar alguma coisa mais do que isso.

- Que tem, então, esta casa para te ter agradado tanto?

- Toda a tua gente foi muito bondosa comigo. No decurso das campanhas encontramos muito mais desprezo do que simpatia. O soldado receia nunca ser estimado. Asseguro-te, senhor, que invejo a brandura que reina na tua casa.

- Podes voltar quando quiseres, Regelius, serás sempre bem-vindo.

- Senhor - disse ainda o oficial - a tua indulgência permitir-me-á, talvez, que te faça uma pergunta.

- Dize.

- Aceitarias tu, eventualmente, vender-me uma das tuas escravas?

- Qual?

- Monime, a de Tessália.

- Que queres fazer dela?

- Desejaria libertá-la e fazê-la minha mulher.

- Já lho disseste?

- Sim, senhor.

- Conheces os seus sentimentos?

- Ela não os demonstrou, senhor, por palavras, mas julgo depreender que não se opõe.

- Vou reflectir. Volta por cá amanhã, se puderes. Talvez já possa dar-te uma resposta. Agora, vai, os teus homens esperam-te.

- Que os deuses te guardem.

- A paz seja contigo...

De olhos baixos, Monime estava diante do príncipe.

- Assim falou Regelius - disse Ben Hur - Que pensas a este respeito, Monime?

- É verdade que ele me disse isso. Também é verdade que não lhe respondi.

- Mas, a mim, deves dizê-lo, Monime. Tens vontade de servir aquele soldado?

- Tenho, sim, senhor. O seu porte, a sua gentileza agradam-me.

- Pensaste bem?...

- Pensei que era tua escrava, senhor, e que podias fazer de mim tudo o que quisesses. Foi por isso que não lhe respondi.

- Não se trata disso. Pensaste que eras cristã?

- Sim, senhor, mas Jesus não me proíbe de ter esposo.

- Sem dúvida, no entanto, Regelius venera os falsos deuses!

- Não tem grande fé; disse-me que qualquer que seja a minha religião, a respeitará.

- E é o suficiente?

- E, senhor, porque não há-de ele tornar-se cristão? Se ainda o não é, será talvez por ignorar tudo da Lei de Cristo. Se nos amarmos bastante, talvez venha a ser dos nossos.

- Assim o desejo, Monime. Mas não esqueças uma coisa: ninguém deve saber que esta casa abriga cristãos. Recordar-te-ás disso?

- Sim, senhor!

- Segundo a lei romana, como ainda agora o disseste, tenho sobre ti todos os direitos. Não usarei senão de um: o de um pai sobre sua filha. Imponho-te um período de espera. Nesse meio tempo, poderás ver Regelius, assim certificar-se-ão ambos se vossos sentimentos são bastante fortes para durar a vida inteira. Mas, não te esqueças, Monime: quando falares com ele, deves ignorar tudo o que viste e ouviste aqui.

- Juro-o, meu senhor!

- Regelius - disse Ben Hur, no dia seguinte, ao oficial - aqui não há escravos, mas apenas servidores. Monime é livre perante mim, podes vê-la e falar-lhe. Quando ambos estiverem bem confiantes um no outro, eu próprio a libertarei perante a lei. Poderás então tomá-la por tua mulher.

- Senhor, não esperava tanto da tua generosidade. Sem dúvida, o Deus que serves te incita à bondade, mas...

- Como sabes tu, Regelius, que Deus é aqui venerado?

- É segredo? Se o é, perdoa-me...

- Monime falou-te nisso?

- Nunca, senhor. De facto, interroguei-a, mas ela arranjou sempre uma saída falsa...

- Então, quem?

- Parinius, o velho jardineiro.

- Parinius? Que te disse ele?

- Que tu próprio foras testemunha da vida de um tal Jesus de Nazaré, que todos aqui eram cristãos e que fora um mercador de escravos chamado Gestão quem se encarregara de constituir a tua casa. Ofendi-te, acreditando-o?

- Não, não, Regelius... Sossega... E foi Parinius quem te contou isso?

- Sim! Trata-se de alguma fábula?

- Não, Regelius, não é uma fábula, mas desejava que isso ficasse em segredo. Vais ouvir dizer muito mal dos cristãos, nestes tempos mais próximos. Tentar-se-á mesmo fazer-te acreditar que foram eles que lançaram fogo a Roma. Lembra-te do que viste aqui e vê se esta casa é uma caverna de criminosos. Lembra-te, sobretudo, de que entre esses cristãos se encontra Monime... Se a amas, como dizes, não lhe repitas nada do que sabes.

- Senhor, tens a minha palavra!

- Isto tinha de acabar assim - dizia Malluch - Nunca devíamos ter conservado esse tagarela ao nosso serviço.

- E se não fosse apenas um linguareiro? - perguntou Drusus.

- Quanto a mim, a minha opinião está formada - Era Filipe quem falava agora, no decurso deste estranho conselho de guerra - Este Parinius traiu-nos, e não há senão uma maneira de o deter.

- Qual? - indagou Ben Hur.

- Matá-lo... Sim, eu sei, é horrível, mas cada um dos que entram aqui foi formalmente prevenido por ti, pai. Foste bem claro: uma só palavra indiscreta é a morte.

- Partilho da opinião de Filipe - declarou Drusus - É impossível fazer correr semelhante risco a toda a nossa comunidade. Tenho a certeza de que Parinius conhece tudo, mesmo o essencial dos subterrâneos. Matá-lo-ei por minhas mãos.

- Deixa isso a meu cuidado - disse Malluch.

- Todos vós fostes atacados de loucura! - Ben Hur levantara-se e andava de um lado para o outro - Não sabeis o que estais dizendo. Não se executa assim um homem, não se suprime a vida que Deus criou... Não, é impossível... Parinius não é um traidor, mas apenas um tagarela. Bebe, e quando absorve vinho em demasia, fala sem raciocinar. Que arriscamos nós em conservá-lo aqui? Os soldados, agora, já nos deixaram, estamos em família. A quem pode ele falar, que não saiba já o que ele sabe? Não, uma execução é odiosa e inútil.

- No entanto ...

- Não, Drusus. Proíbo esse crime na minha casa. Mandai vigiar Parinius, evitai que ele saia, estou de acordo. Quanto ao resto, oponho-me - e, como Malluch quisesse falar, ajuntou - A minha decisão é definitiva.

- Está bem, pai - disse Filipe - As tuas ordens serão cumpridas, mas se acontecer alguma coisa...

- Nada sucederá, pelo menos, por causa desse infeliz.

- Mesmo que esse infeliz, como tu dizes, divulgue todos os nossos segredos, saiba nomes, a maneira como nos comunicamos de noite, mesmo que acabe por saber quem são realmente Drusus e João, mesmo que saiba que Albina é filha de um homem perseguido...

- Não saberá nada disso; e, mesmo que o saiba, procedamos simplesmente de maneira que ele não possa levar esses segredos para o exterior. Vamos, isto bastará!

- É como o caso de Regelius - disse Malluch – É evidentemente um rapaz honesto. Isso não impede que admitir um Romano idólatra numa casa cristã constitua neste momento um erro. É meter o lobo no redil.

- Por Regelius tomo eu a responsabilidade, Malluch - declarou Drusus - Ele reconheceu-me, poderia perder-me com uma palavra, e não o fez. Que melhor prova poderíamos ter da sua boa fé?

- Meu tio tem razão - disse Filipe.

- Então, enganei-me uma vez mais... - respondeu Malluch.

- Vamos, caro Malluch - disse Ben Hur - Rezemos todos para que Deus proteja a nossa casa e inspire mais prudência a Parinius.

A vida em Roma retomava pouco a pouco o seu curso. O espectro da fome afastava-se. Numerosos comboios de reabastecimento, navios carregados de vitualhas chegavam. Já os principais bairros estavam desobstruídos e os arquitectos acabavam os planos que deviam fazer de Roma uma cidade triunfal, consagrada à glória de Nero.

Tigelino, que Ben Hur tornara a visitar no palácio, mostrara-lhe com orgulho os desenhos acumulados no seu gabinete. Quanto ao resto, e principalmente sobre os cristãos, fora tão discreto que Ben Hur experimentara alguma inquietação e redobrara, depois, de precauções.

No regresso do palácio, viu o príncipe um grupo importante de cavaleiros que estacionavam diante da portada. Por isso, em vez de tomar pela Via de óstia, deu volta aos muros e preferiu entrar em sua casa pela porta discreta.

Dirigiu-se para a vivenda e ali, nas traseiras, encontrou Gláucia, o jardineiro.

- Quem são aqueles soldados que estão diante da porta?

- É a escolta do tribuno Alemius, senhor. Está em tua casa, espera-te.

Alemius estava realmente na sala de visitas, em companhia de sua filha Albina e de Filipe.

- Sê bem-vindo, tribuno! - disse o príncipe.

- Vim dizer-te adeus - declarou Alemius.

- Adeus?

- Sim! Chegou hoje ordem para as legiões ibéricas voltarem a Espanha. Não sei se se trata de uma manobra normal, se de uma forma de afastamento. De qualquer modo, sou obrigado a obedecer.

- Porquê, essa decisão de afastamento?

- Porque Nero sabe que os nossos legionários murmuram contra ele. Uma parte do exército de Espanha às portas de Roma pode ser decisiva em caso de golpe de Estado. A mesma providência se tomou quanto às legiões da Gália. Seu chefe, Júlio Vindex, não oculta que Roma deve desembaraçar-se de um matricida e todos sabem que ele próprio espreita o poder. Enfim, tinha de agradecer-te, príncipe, o acolhimento que dispensaste à minha filha.

- Esse acolhimento era natural, Alemius. Aliás, estou contente por terem sido vãos os receios de Filipe e por tua residência estar intacta.

- Albina suplica-me que a deixe aqui - disse Alemius - Não posso, evidentemente, levá-la para Espanha na minha comitiva, mas pensei em enviá-la para óstia, para casa daqueles amigos onde ela já encontrou asilo.

- Albina - declarou Ben Hur - é bem-vinda nesta casa. Pode cá ficar o tempo que quiser. Creio que estará em segurança, mas tu és seu pai e só tu decides.

- Se ela pretende ficar em Roma, não me oporei.

- No entanto, Alemius, julgo que será prudente tu preveni-la... Em minha opinião, ela não deve tentar voltar sozinha à tua casa. Aqui, a sua presença é ignorada, mas em tua casa já não é o mesmo.

- Albina é do meu sangue, príncipe. É Romana, detesta o constrangimento. Poderiam chamar orgulho a este amor à liberdade, a esta sede de independência que as velhas famílias de Roma trazem no sangue.

- Em tempos menos perigosos seriam atitudes nobres; mas, neste regime, não podem senão provocar perigos.

- Os imperadores passam, príncipe, o espírito de Roma sobreviverá.

- Não o duvido. Só gostaria, para meu descanso, de que tua filha sobrevivesse ao mesmo tempo que ele.

- Ouviste, Albina? Como o príncipe, também eu desejo que sejas extremamente prudente. Se a vida aqui te pesa, di-lo, poderás ir livremente para Óstia, ou algures, para casa de outros amigos nossos.

- A vida não me pode pesar, pai, tanto mais que estou ao lado de Filipe - respondeu Albina.

- Então, adeus, minha filha, adeus, Filipe. Dar-vos-ei notícias frequentes.

Alemius aproximou-se de Ben Hur e, falando baixo, de maneira a não ser ouvido pelos jovens, perguntou:

- Príncipe, tens a sensação de que eles se amam, realmente?

- Creio que sim.

- Não receias alguma loucura da sua parte?

- Qual? Prometeram-se livremente um ao outro. Nem tu nem eu contrariamos o seu amor. Sabem somente que, no actual estado de coisas, não podem pensar, por agora, em constituir família. Julgo-os bastante sensatos, bastante respeitosos da nossa religião e deles próprios para se munirem de paciência.

- Era o que eu também pensava, mas gosto de te ouvir a confirmação. Adeus, príncipe, confio-te Albina, sabes que ela é a minha filha única e tudo o que me resta no mundo.

- Até breve, tribuno - disse Ben Hur - A propósito, manda-me um mensageiro todas as semanas. Assim, terás notícias de tua filha; escolhe-o discreto e de confiança, para saberes por mim o que se passa em Roma. Julgo saber que o teu chefe, Galba, o cônsul das Espanhas, que também detesta Nero, terá prazer em que tu também o possas informar.

- Estás ao corrente de muitas coisas, príncipe - comentou Alemius.

- Tenho o dever de o estar.

Ninguém soube exactamente quando e como a palavra «cristãos» foi pronunciada, e por quem. Uma manhã, grupos de soldados partiram da caserna Pretoriana para todos os bairros da cidade. Duas horas depois, as conversas em todos os lugares públicos, banhos, mercados ou nos corredores do Senado, incidiam sobre o mesmo assunto: descobriram-se os incendiários, eram os cristãos, que obedeciam às ordens da sua seita. E narravam-se (aliás, os mais prolixos eram os que ouviam o nome de «cristão» pela primeira vez) os horrores de que se tinham tornado culpados os membros da nova igreja: reuniam-se de noite, estrangulavam crianças e bebiam-lhes o sangue. O seu objectivo era destruir tudo, e primeiro o império de Roma, para substituírem o regime dos imperadores pelo de um Deus vindo de Israel.

As testemunhas das detenções da manhã, pelo menos as que queriam ser objectivas, perguntavam como pessoas aparentemente tão pacíficas poderiam cometer tais atrocidades.

Os legionários, guiados por denunciantes a soldo de Tigelino, tinham-se dirigido directamente a certas casas. Tinham-se apoderado dos moradores, homens, mulheres e crianças do sexo masculino. Viram-se sair pessoas ainda aturdidas pelo sono, impelidas pelas lanças dos soldados, mais não levando senão uma pobre bagagem. Reuniram-nas em cortejo e levaram-nas para as prisões. Na maior parte, tratava-se de gente pobre, pequenos artífices, alguns escravos libertos, muitos escravos, também. Havia entre eles Romanos, mas também Gregos e Gauleses.

Ben Hur foi avisado logo das primeiras capturas. Os seus escravos tinham tecido pacientemente uma rede de informadores, e era difícil que alguma coisa se passasse em Roma, a propósito de cristãos, sem que a notícia chegasse muito em breve à vivenda da Via de óstia.

Hora a hora, outros pormenores chegaram: tinham-se apresentado secções de legionários em casa de altas personalidades. Na de Aulus Domitius e na do senador Malone, na moradia do tribuno Solenius e de Drabona. Não encontraram, evidentemente, os donos da casa, avisados por gente do príncipe, ainda antes do incêndio. Então, caíram sobre os escravos e despejaram as moradias de todos os seus servidores.

Hatlés, escravo do tribuno Alemius, também veio fazer o seu relato. Respondera ao centurião que se apresentara em sua casa, que Alemius partira de Roma para as Espanhas, à ordem do imperador.

O oficial insistira, mas um homem magro, de baixa estatura, que o acompanhava, falara-lhe ao ouvido e ele retirara-se. Filipe disse então a Albina:

- Vês, as precauções de meu pai não eram vãs. Se te tivessem encontrado em casa, ter-te-iam levado. Também seria prudente que teus escravos deixassem a casa e viessem juntar-se contigo aqui.

- Porquê, senhor? - perguntou Hatlés - Podiam ter-nos detido a todos, esta manhã, e não o fizeram...

- Sim - disse Filipe - Por que razão vos pouparam, quando por toda a parte levaram os servidores? Não falaram de Albina?

- Não, senhor, absolutamente nada!

- Filipe - disse Albina - sou da opinião de Hatlés. Se eles não insistiram, para que havia a nossa gente de fugir? Seria confessar que tinham alguma coisa a temer. Não, eles não devem voltar.

- Assim o desejo - disse Filipe - Hatlés, tens a certeza de que ninguém te seguiu?

- Não notei coisa alguma.

- Por prudência, fica aí. Não sairás senão à noite. Por Regelius, que veio fazer uma visita, como

quase todos os dias, à sua noiva Monime, soube-se ao fim do dia a cifra aproximada dos cristãos detidos. A rede de Tigelino parecia fraca: foram presas duas ou três centenas de pessoas, quando o número de cristãos em Roma se contava por milhares.

Ben Hur, Drusus e Filipe calcularam, pois, que os alarmes repetidos que lançaram tinham sido escutados pela maior parte dos membros da comunidade; verificaram que nenhum dos membros importantes da Igreja fora preso. Todos os da casa se reuniram em seguida e oraram por aqueles que foram lançados à prisão.

O guarda Marcelo praguejava contra a época, contra os cristãos e contra o imperador. Terminado o incêndio, voltara a Roma, com sua mulher, sua irmã e seus quatro filhos. Encontrara, à guisa de casa, quatro paredes calcinadas. Felizmente, a prisão estava quase vazia e Marcelo pôde, entendendo-se com outros guardas mais felizes do que ele, ocupando algumas horas do seu serviço, dedicar-se à reconstrução dos muros.

O trabalho avançava, pudera obter um empréstimo que lhe permitira comprar os materiais, e eis que surge aquela história dos cristãos! Levaram-nos para ali, para a sua prisão! Duplicara-se a guarda. Já não podia limitar-se a algumas horas de presença. Adeus, trabalho da casa, e por quanto tempo? Aliás, o pessoal nunca seria suficiente para algumas centenas de presos, e todos os homens válidos estavam ocupados nos trabalhos de construção. Era, pois, necessário passar noites e dias sem ser rendido, e isso com o calor pesado, um tanto húmido, daquele Verão que não queria acabar.

Assim pensava Marcelo, essa noite, ao terminar a ronda.

A lanterna que trazia na mão projectava nas paredes uma sombra exagerada. O andar claudicante de Marcelo tornava-se formidável, o seu vulto curto e redondo parecia enorme.

A sombra de Marcelo dir-se-ia um gordo insecto marchando de pedra em pedra.

Deteve-se um instante, pousou a sua lanterna, limpou a fronte a um pano duvidoso, recolheu do nariz proeminente uma última gota, depois, fungando fortemente, retomou a marcha.

Com sua cara de perpétuo embriagado com vinho de Cacique, Marcelo voltou para o corpo da guarda.

- Marcelo - disse um dos legionários - tens uma visita!

- Uma visita?

- Sim, espera-te um homem lá fora. Bem sabes que é proibido deixar entrar alguém, desde esta manhã.

- Sim - respondeu Marcelo - Sei isso muito bem.

O porteiro abriu-lhe a porta, e ele viu na sombra um vulto que o esperava.

- Eu te saúdo, Marcelo - disse Filipe.

Marcelo levantou a lanterna.

- Não me reconheces?

- Ah, és tu? Mesmo que vivesse mil anos, recordar-me-ia sempre.

- A tua família está bem?

- Graças a ti, estão todos de boa saúde. Ah, Filipe, como estou contente de te ver! Dize que precisas de mim e ver-me-ás ainda mais contente.

- É um pouco isso. Olha, procuro trabalho.

- Trabalho?

- Sim! O entreposto onde trabalhava foi destruído pelo incêndio, não estará reconstruído antes de alguns meses. Então, esta manhã, quando soube que tinham prendido pessoas, disse comigo que talvez precisassem de pessoal nas prisões.

- Cais como sopa no mel - disse Marcelo, muito jovial - A verdade é que não chegamos para as encomendas. Escuta, Filipe, volta amanhã de manhã, que eu apresento-te ao intendente. Insistirei para que te admita. Escuta, digo que somos primos. De acordo?

- De acordo, Marcelo!

- Pronto! Até amanhã! Tenho de ir agora para dentro. Ah! Talvez precises de dinheiro?

- Não, obrigado, o meu quarto está pago adiantado e ainda tenho uns sestércios. Até amanhã!

O intendente estava preocupado com o número de novos presos que lhe traziam. Escutou sem grande atenção a arenga de Marcelo a recomendar o primo e, voltando-se para Filipe:

- Onde nasceste?

- Em Cesareia, Israel.

- És Judeu?

- Sim, senhor. Mas sou cidadão romano.

- Ah! Bem. Já trabalhaste em alguma prisão?

- Não, senhor, mas sei escrever, contar e manusear os livros. Trabalhava num entreposto e anotava a conta das entradas e das saídas das mercadorias.

- Está bem. Aqui também a mercadoria entra, mas sai menos vezes. Marcelo disse-te as condições?

- Convêm-me, senhor.

- Bom, então escreves o teu nome nas tábuas e podes começar imediatamente. Marcelo que te informe.

- Muito obrigado.

- Ah! Marcelo, o senhor Tigelino deve vir daqui a pouco. Não te esqueças de que ele é o conselheiro preferido do imperador. Creio que deseja conversar com alguns presos.

Filipe saiu do posto da guarda. Sorridente, confidenciou à sentinela:

- Fui admitido. Vou buscar os meus pertences e volto já.

- Bem! - disse o homem, abrindo a porta - Não sei se te habituarás aqui. Até já.

Na loja reconstruída à pressa por Thord, o Nórdico, Filipe encontrou Malluch sentado ao fundo, na sombra.

- Pronto! - disse, sentando-se junto dele.

- Belo trabalho! Aqui estão as roupas que pediste.

- Escuta, Malluch, ser-me-á certamente difícil voltar a casa, o trajecto é longo e não posso arriscar-me a tornar-me notado. De cada vez que tiver alguma coisa de interessante a comunicar-vos, venho aqui. Arranja as coisas de maneira que eu encontre aqui sempre um dos nossos.

- Já se passou alguma coisa?

- Nada, mas anuncia-se a visita de Tigelino.

- Isso não é nada bom para os nossos irmãos!

- Bem o receio. Volto para lá. Até breve, Malluch.

- Até breve. Ah, Filipe - ajuntou Malluch no momento em que o jovem se levantava - como eu lamento já não ter a tua idade!

- Sossega, Malluch. Eu lamento não ter a tua experiência.

Ao regressar à prisão, Filipe pensava: «Tigelino não me viu senão uma vez, e foi no palácio do imperador... Julgo que não poderá reconhecer-me. O meu vestuário está bem longe de ser o mesmo».

Por prudência, ao cruzar a pesada porta, Filipe despenteou o cabelo. Isso e a barba que não rapava havia dois dias contribuíram sem dúvida para não despertar recordações precisas em Tigelino. Aliás, o ministro devia ter outras preocupações na cabeça.

Estacionava uma escolta no pátio; diante dela marchavam alguns pretorianos, com grandes efeitos de capas. Filipe entrou no corpo da guarda. Tigelino estava aí sentado, muito à vontade. Junto dele, achava-se o seu escravo liberto, Adamus. Este permanecera muito tempo na companhia de Filipe, quando lhe mostrou, aliás com excessiva graciosidade, as belezas do palácio. O jovem hesitou um instante, mas era demasiado tarde para recuar. Deslizou para o compartimento e colocou-se num canto sombrio.

- Então, não há aqui sala de torturas? - dizia Tigelino.

- Não, senhor - respondeu Marcelo - Nunca houve interrogatório.

- Bem, tê-lo-emos!... Têm um compartimento livre?

- A sala dos guardas...

- É grande?

- Bastante, senhor!

- Iremos para a sala dos guardas! Ao princípio da tarde, hão-de trazer o material para o instalar. Mandarei também os verdugos. O vosso único trabalho consistirá em ir buscar os presos à sua cela e levá-los à sala. Tendes um guarda seguro para isso?

- Senhor, precisamente o meu primo que...

- Está bem - cortou Tigelino, que nem sequer concedeu um olhar ao jovem.

Levantando-se, perguntou ainda:

- Como estão os presos?

- Muito brandos, senhor, muito brandos. Passam o tempo a recitar orações e a cantar salmos.

- Logo cantarão de outra maneira.

O ministro saiu, seguido de Adamus. Filipe ouviu-o dizer lá fora ao seu companheiro:

- Adamus, hás-de mandar aqui Mosché, ele é que há-de obter as confissões. E tu manténs-me informado do que se disser de mais interessante.

- Não gosto disto - confessou um pouco mais tarde Marcelo a Filipe - Quero ser guarda de prisão, mas carrasco não me convém.

- Não te apoquentes, Marcelo - respondeu Filipe - eu encarrego-me disso.

Os carrascos chegaram à hora prevista. Descarregaram de uma carroça estranhos instrumentos: cadeirões de ferro, braseiros, chicotes de longas correias, algumas das quais rematadas em bolas de chumbo, garrotes, mesas munidas de rodas ou de mandíbulas de aço, e instalaram todo este material na sala dos guardas.

Depois, acenderam fogueiras, tossindo e escarrando por causa do fumo, que não encontrava saída e redemoinhava naquela espécie de cave. Entretanto, outros, auxiliados por ganchos fixos na parede, colocavam argolas e cadeias. Por fim, chegou Mosché. Pediu uma mesa, em cima da qual pousou papéis e apetrechos de escrita.

Filipe sabia por seu pai quem era Mosché, mas nunca o encontrara. Aliás, o homem não prestava a menor atenção aos que ali estavam. Sentado à sua mesa, disse apenas, depois de ter examinado as suas listas:

- Chamem o Gaulês Serte, da casa de Aulus Domitius.

Filipe desempenhou então o sinistro papel que as circunstâncias o obrigavam a realizar: o do homem que vai buscar os presos e os conduz à tortura. Chegou à primeira das enxovias onde se tinham encerrado os cristãos. Abrindo o pequeno postigo praticado no pesado batente, viu um grupo ajoelhado e ouviu uma voz que dizia:

- Que o Deus da misericórdia nos perdoe os nossos erros e nos conduza à vida eterna!

- Há aqui alguém chamado Serte, da casa de Domitius? - perguntou Filipe.

- Não! - respondeu um homem muito calmo - Está na cela a seguir.

Filipe tornou a fechar o postigo. Não reconhecera a sua própria voz, de tal maneira ela estava alterada. Limpou o suor que lhe perlava a fronte e fez a mesma chamada na porta seguinte.

- Estou aqui - respondeu um rapaz novo e louro, que se levantou.

Atravessou as fileiras dos seus companheiros ajoelhados.

- Sê forte, Serte - disse um velho - Rezaremos por ti sem cessar.

Filipe abriu a porta e o jovem saiu.

- Que me querem? - indagou ele.

- Vem - disse Filipe e, tomando-o pelo braço, debruçou-se para ele - Suceda o que suceder, fica sabendo que tens aqui amigos.

O Gaulês lançou-lhe um olhar de espanto, mas Filipe empurrou-o com brandura na sua frente. Assim chegaram à sala dos guardas. Ao ver todos aqueles instrumentos e os vultos dos verdugos ao clarão dos braseiros, o jovem Serte deteve-se um instante.

- Senhor... - murmurou ele.

Já um dos ajudantes avançava ao seu encontro.

- Espera! - ordenou Mosché - Anda cá, meu rapaz. Escuta, Serte! Tu vês isto tudo; não tenho nenhuma vontade de mandar trabalhar estes homens inutilmente, e tu podes poupar muitos aborrecimentos. Não quero saber senão duas coisas: onde está o teu amo e os nomes das pessoas que viste nas cerimónias cristãs em tua casa. Evidentemente, não conheces todas, mas... consultou os seus apontamentos - há oito anos que estás em casa de Domitius, e é impossível que não tenhas já visto algumas. Vamos, rapaz, estas duas informações e deixo-te ir embora.

- Não sei onde está o meu amo - respondeu o Gaulês - e nunca vi cerimónias em sua casa!

- Vamos lá! Para que serve essa cantiga? - Mosché tornou a mergulhar o nariz nas listas - Houve pelo menos uma no sétimo dia antes dos idos de Março, e outra no nono antes dos idos de Junho (1) e ainda outra na véspera do incêndio.

 

Nota 1: - Ou seja a 8 de Março e a 6 de Junho; em Roma calculava-se o lugar dos dias em relação ao meio do mês.

 

- É possível - disse Serte - Eu não estava lá e não soube de nada.

- Ah, não estavas! Então, como explicas que eu te tivesse visto?

- Tu?

- Sim, eu! E nas duas últimas vezes foste tu quem assistiu ao diácono! Então, ousas dizer que não estavas lá?

- Não tenho nada a dizer!

- Olha, tanto pior para ti. Se mudares de opinião, manda-me chamar.

- Vamos soltar-lhe a língua, não te dê cuidado - declarou o que parecia chefe dos verdugos - Vá! Tira-me essa farpela, para estares mais à vontade. Principiai pelos chicotes - ordenou ele aos outros.

- Guarda! - chamou Mosché - Vai-me buscar uma tal Célia, também da casa de Domitius. Fá-la esperar atrás da porta e - ajuntou ele - não feches completamente o batente para ela ouvir o que se passa aqui. Isso ajudá-la-á a reflectir.

Filipe deixou a sala no momento em que se amarrava o Gaulês, de braços erguidos, a uma alta coluna. Mal chegara ao corredor, ouviu o primeiro zumbido dos chicotes. Encontrou a mulher chamada Célia na terceira enxovia.

- Segue-me - disse ele.

- Vão interrogar-me, não é verdade?

- Sim - respondeu Filipe, com um nó na garganta.

- Que perguntam eles?

- Vão perguntar-te onde está teu amo e quem assistia às últimas cerimónias.

- Senhor! - disse a mulher, a meia voz - Dá-me forças...

- Escuta - murmurou Filipe - conta que Domitius te disse que partia para a sua casa de Nápoles. Sobre os que estavam presentes, dá os nomes de Malone, de Solenius e de Drabona. Não arriscas nada, porque eles fugiram.

- Mas porquê?

- Não tentes compreender, faz o que te digo. Assim, pelo menos, ganharás tempo. Eles já têm estes nomes.

- Julgas isso?

- Por Cristo! - exclamou Filipe - Faze o que te digo.

- É aqui? - perguntou a mulher, ao chegar perto da porta.

- Sim. Tens de esperar cá fora.

- Porquê?

Nesse momento, um grito horrível, inumano, veio da sala. Quase em seguida, chegou-lhes um cheiro a carne queimada. Célia tapou os ouvidos com as mãos.

- Célia - insistiu Filipe - faz como eu te disse.

Ouviram a voz de Mosché:

- Isso vai! Basta por hoje. Amanhã, veremos se este jovem é mais falador. Até lá, terá tempo de reflectir. Guarda!

Filipe entrou. Viu o corpo do Gaulês caído de rosto no chão, diante da cadeira de ferro, levada ao rubro pelo fogo, onde ainda se colavam farrapos de pele.

- Tens uma cela vazia? - perguntou Mosché.

- Tenho - respondeu Filipe, lívido.

- Fecha-o lá... Deixa-o completamente só. Ah! Manda entrar essa encantadora pessoa. Vem cá, não tenhas medo. Basta falar, para evitar aborrecimentos; como vês, este é muito pouco falador. Então? Que tens tu a dizer-me? Vejamos, pensa bem.

Filipe não ouviu o resto. Arrastava pelas lajes o corpo de Serte, o Gaulês. Encostou-o à parede, para poder abrir a porta da cela, depois, retomou o seu fardo e estendeu-o no chão. O rosto do jovem estava cor de cera, as narinas afiladas. Filipe pegou na bilha de água que estava a um canto. O seu primeiro impulso foi reanimar o mártir, mas pensou que seria tornar a mergulhá-lo mais cedo no sofrimento e limitou-se a pousar a vasilha a seu lado. Depois, reprimindo uma terrível vontade de vomitar, um suor frio por todo o corpo, regressou à sala dos guardas. Ao entrar, experimentou uma sensação de alívio; Célia continuava de pé diante da mesa de Mosché, e este dizia:

- Então, está combinado, confio em ti, reúne as tuas recordações, fala com os teus amigos, dá-me outros nomes amanhã e evitarás que estes jovens se ocupem de ti. Senão, se não tiveres nada de novo a dizer-me, tanto pior... Vamos, até amanhã! Leva-a à sua cela - disse ele, dirigindo-se a Filipe.

Nesse instante, dois homens entraram no aposento, conduzidos por Marcelo.

- Eu te saúdo, Mosché - disse um deles - Fomos mandados por Adamus para te ajudar.

- Ah! Está muito bem - replicou Mosché - Ocupai-vos dessa gente e de trazê-la, porque o guarda que aí está não chega. E, depois, não é ofício para este rapaz, vede como está pálido!

Os outros riram ruidosamente.

- Vá, meu rapaz, leva essa mulher e volta depois, para indicares o caminho aos nossos amigos.

Filipe levou rapidamente a mulher.

- Como vês, escapaste por hoje. Escuta - disse ele muito à pressa - combina com os nossos irmãos na tua cela para inventarem nomes, quaisquer que sejam. Durante o tempo que devem gastar a verificar, pode passar-se muita coisa... E não desespereis.

Quando voltou à sala, foi para ouvir Mosché dizer:

- Mostra a estes bons rapazes onde são as celas e depois entrega-lhes as chaves. Eles saberão fazer o trabalho sozinhos. Ide! Trazei-me o velho Oronte, ainda da casa de Domitius.

Foi da segunda cela que respondeu uma voz. Os dois homens enviados por Adamus sorriram, ao ver Bair um velho curvado pela idade e encarregaram-se de o fazer avançar depressa, a soco e pontapé. O pobre homem já tinha o rosto em sangue quando chegou diante de Mosché.

Filipe, angustiado, esmagado por todas aquelas crueldades, voltou lentamente para o pátio. Entrou no posto e abateu-se numa cadeira, cabeça entre as mãos, sem poder ocultar as lágrimas.

- Ah, Filipe! - disse Marcelo - se eu soubesse, asseguro-te que não teria proporcionado a tua entrada para aqui. Fazer-te ver estes horrores é agradecer-te mal o ter-nos salvo.

- Não o lamentes. Não és o responsável, e depois, à noite, quando eles se retirarem, talvez possamos levar Um pouco de alívio a essa pobre gente.

Mas eles não se retiraram. Renderam simplesmente o turno. Outros carrascos substituíram os primeiros. Mosché cedeu o lugar a outro escriba que parecia ainda mais cruel do que ele. Toda a noite, na prisão, ecoaram os gritos dos supliciados.

Ao levar um pouco de alimento que se concedia aos presos, Filipe viu um espectáculo lamentável: os válidos tinham instalado, tão bem quanto possível, os seus companheiros trazidos do interrogatório.

Todos os instrumentos de tortura parecia terem sido utilizados. Às marcas dos chicotes, às queimaduras, juntavam-se agora membros quebrados, unhas arrancadas.

Os olhares volviam-se para Filipe e este não viu ódio algum nos seus olhos. Um homem robusto, que parecia ser chefe da primeira cela, aproximou-se dele, quando depunha as bilhas de água a um canto, e murmurou:

- Sabemos por alguns o que tu tentaste fazer. Abençoado sejas, mas não te exponhas.

Na enxovia seguinte, o jovem tornou a ver Célia, e esta disse-lhe, baixinho:

- Pode-se falar através das paredes. Todos sabem que estás connosco. Dize-lhes o que é preciso fazer, ninguém te trairá.

- Escuta - disse Filipe - pede a todos que regressarem que digam se foram obrigados a pronunciar nomes verídicos. Se eu o souber depressa, talvez tenha tempo do mandar prevenir essas pessoas. E, então, elas poderão escapar-se.

Quando, uma hora depois, voltou para trazer água, Célia entregou-lhe um bocado de papel dobrado.

- Avisa-os, se puderes!

- Vou fazer isso.

- Obrigada! - disse uma jovem deitada no chão - Se soubesses, tenho tantos remorsos, mas não pude... Nãopude...

Célia correu para a jovem e abafou-lhe os soluços nas suas mãos.

- Vai depressa! - recomendou ela a Filipe.

- Estou farto - declarou o jovem a Marcelo, ao regressar - e não há aqui nada que comer...

- Não há grande coisa... Mas tens o direito de ir tomar a tua refeição lá fora, se quiseres.

- Palavra que vou! Tu ficas?

- Se quiseres.

- Tenho para uma hora ou mais... Depois, rendo-te e poderás dar um salto a tua casa.

- Boa ideia! - aprovou Marcelo - Vai depressa!

Era uma recomendação supérflua. Filipe correu de um fôlego à taberna de Thord. Estava lá Malluch imóvel a um canto, e a lista dos cristãos denunciados passou da mão de Filipe para a sua.

- Não há tempo de avisar os outros na vivenda - disse Malluch - Quantos nomes? Oito! Eles indicaram os bairros, eu mesmo vou lá.

- Arranja-te de maneira que eu encontre sempre um correio aqui. Tenho medo de que em breve haja outros nomes.

- Isso está previsto, mesmo em plena noite – disse Malluch - Thord está informado. Passas pela porta das traseiras. Encontrarás sempre alguém.

No dia seguinte, foi uma longa lista que Célia lhe entregou: os cristãos, por sugestão de Sostrus, o homem de alta estatura que falara com Filipe na primeira cela, resolveram anotar todos os nomes que conheciam e que se arriscavam a trair sob os efeitos da tortura.

Assim iam para o interrogatório de consciência tranquila, sabendo que, se deixassem escapar um nome, o seu possuidor estaria fora de alcance. Anjune, que recebeu de Filipe o precioso papel, regressou a toda a pressa à vivenda da Via de Óstia. Ben Hur e Drusus resolveram mobilizar toda a asa para dar o alarme aos interessados.

 

A PRIMEIRA PERSEGUIÇÃO

ACLIS corria mais do que andava para o Transtevero; de nove famílias, de que soubera os nomes e os bairros, já prevenira oito. Era sempre o mesmo espectáculo: pessoas apavoradas, mulheres em lágrimas, mas que depressa se recompunham, carregavam alguns pertences num saco e reuniam os filhos à pressa. Aos que não tinham asilo seguro, Aclis indicava um local preciso onde deviam achar-se à meia-noite. Ben Hur decidira utilizar como refúgio as catacumbas escavadas sob a sua própria casa e Malluch devia esperar os fugitivos no lugar indicado e conduzi-los.

A última família da lista de Aclis era a de um tal Rastrus, na periferia do bairro popular do Transtevero. A jovem encontrou facilmente a casa. Bateu à porta.

- Entre - disse uma voz de homem.

Aclis empurrou a porta.

- Boa tarde - disse a voz.

Aclis, aterrorizada, viu dois homens sentados à mesa de família. Atrás deles brilhavam couraças de soldados.

Aclis tentou desviar as suspeitas.

- Procuro um homem chamado Rastrus; não mora aqui?

- Mora!

- És tu?

- Talvez!

- É para lhe dizer que a roupa que mandou lavar não pôde ficar pronta esta noite. Que passe por lá amanhã - disse Aclis, voltando-se para a saída.

Uma mão agarrou-a brutalmente por um pulso.

- Não está mal essa história da roupa - disse o homem - mas não me convence. Rastrus é cristão, não sabias? Ah, não?! Tem graça! Prenderam-no há meia hora com toda a família. Está bem! Vais fazer-lhe companhia. Veremos se vieste por causa da roupa. Vamos! Enjaulem-na!

Os legionários apoderaram-se dela.

- Mas eu não fiz nada, garanto-lhes - gritava Aclis.

- Veremos! Veremos! Vamos, depressa! Podem apresentar-se outros!

Dois legionários levaram então Aclis para o bairro da prisão. Eram dois homens pouco faladores que pareciam bastante constrangidos por terem de escoltar uma rapariga.

Depois de uma longa marcha através da cidade, chegaram ao seu destino. Marcelo veio abrir.

- Para juntar aos cristãos!

- Mais uma! - suspirou Marcelo - Vamos, anda por aqui, minha filha.

E levou-a para a primeira cela.

O que ali viu, ao entrar, fez com que Aclis caísse de joelhos e pensasse: «Nunca, nunca mais tornarei a ver João».

 

Mais uma vez, Filipe voltou à prisão. Caíra a noite e, quando já se aproximava da pesada porta, uma sombra saltou para ele.

- Salva-a! Oh, salva-a, Filipe! Suplico-te! Filipe ficou estupefacto, ao reconhecer a voz de

João, seu primo, filho de Drusus.

- Mas quem?

- Aclis! Prenderam-na! Está aí!

- Aclis? Mas é impossível!

- Asseguro-te, a velha Morea viu-a levada por soldados; seguiu-os e viu-os entrar para aqui. Oh! Filipe! Filipe! Vão matá-la! Filipe, por piedade, eu amo-a. Oh, Filipe!

Filipe segurou o primo pelos ombros.

- João - disse ele - meu pequeno João, farei tudo o que puder. Volta para a vivenda, arranja um disfarce, não importa de quê, roupas de homem, e regressa. Vês aquela casa em ruínas, ali, defronte? Espera-me aí. Juro-te que, se puder, dou fuga a Aclis...

- Mas é preciso que possas! Vão torturá-la, e eu não quero!

O jovem mal podia falar, seu rosto estava inundado de lágrimas.

- João, não a salvaremos se não fores senhor de ti - disse Filipe - Faz exactamente o que te digo. Não mostres impaciência. Nunca venhas ao meu encontro, se me vires sair. Eu é que irei procurar-te. Compreendeste?

- Sim, Filipe, juro-to!

- Podes fazer com que tudo se malogre, ou tudo resulte... Vai depressa!

- Não trouxeram mais? - perguntou Filipe no tom de rotina, ao entrar no posto.

- Sim, um pouco mais - respondeu Marcelo - Alguns homens, dois ou três velhos, e uma pequena. Faz pena, uma bela rapariga loura de olhos verdes... verdadeiramente bonita!

- Ah!

- Não teve sorte, coitada. Mal a conduzi à primeira cela, dois outros trouxeram um; então, para evitarem abrir uma nova porta, levaram-na logo para a casa dos guardas.

Filipe sentiu o sangue afluir-lhe bruscamente ao coração.

- Bem - disse ele, esforçando-se por nada deixar transparecer - vou dar uma volta lá por baixo.

- Sim! É preciso dar-lhes mais água! Muito a consomem eles!

Filipe desceu rapidamente os degraus. Aproximou-se da sala onde se faziam os interrogatórios. Ouviu um grito, depois um longo suspiro e a voz de Mosché:

- Tem tão pouco de faladora como de bonita, esta pequena... É pena! Vamos! Voltem a trazer-ma amanhã.

A porta abriu-se. Os dois esbirros de Tigelino apareceram, trazendo Aclis. Filipe viu, à luz do archote que alumiava o corredor, o seu corpo juvenil inteiramente despido, os longos cabelos louros a emoldurar-lhe o rosto. Seus olhos estavam fechados.

- Estais loucos! - exclamou Filipe - Que acabais de fazer?

- Que há? - perguntou um dos homens.

- Levaram esta rapariga ao interrogatório?

- Está-se a ver - disse o outro.

- Mas esta não é cristã. Prenderam-na quando roubava um escaparate de fazendas. Pertence-nos a nós, e não a vós.

- No entanto, o teu colega levava-a para as celas das cristãs, quando nos ocupávamos delas!

- Bem, é porque se enganou, com certeza. Foi a mim que os vigias a entregaram, por furto, não por crime. É preciso metê-la em outra cela. Olha, vou fechá-la aqui.

E Filipe abriu rapidamente outra porta.

- É preciso mais atenção - disse o esbirro.

- Com toda esta gente que chega, anda-se com a cabeça um pouco desnorteada - respondeu Filipe.

- O que se segue! - bradou Mosché na sala dos guardas.

Os dois homens depuseram Aclis no chão da cela e partiram rapidamente. Filipe fechou a porta. Instantes depois já estava junto de Marcelo.

- Marcelo - perguntou ele - porque é que levaram a jovem loura para as celas das cristãs?

- Mas - estranhou Marcelo - porque ma trouxeram como cristã!

- Não! - opôs Filipe, com firmeza - Trouxeram-ta porque ela cometeu um furto numa loja.

- Mas...

- Sim! E isto é tão verdade como eu ter-te encontrado no caminho de ronda de Roma! - disse Filipe.

- Ah! Bom, bom! - respondeu Marcelo, desconcertado; depois, julgando compreender e piscando um olho

- Ah! Estou a ver, a pequena agrada-te!

- Porque não?

- Está bem. Uma a mais ou a menos, se isso te pode dar prazer, estou de acordo!

- Vamos, Marcelo, são horas de te recolheres, fico de vela sozinho esta noite. Bem mereces passar uma noite com tua mulher.

- Não me falta vontade. Ela já deve ter-se esquecido de que tem marido.

Filipe cruzou-se no corredor com os dois esbirros que prosseguiam incansavelmente no seu trabalho.

- Ouve lá - disse um dos homens - a pequena de ainda agora...

- Sim?

- Ela vai falar?

- Vai ser interrogada por um juiz por causa do roubo? - ajuntou o outro.

- Com certeza!

- Então, é capaz de dizer que nos ocupámos um pouco dela, e isso vai dar sarilho. Tigelino fica furioso e a gente arrisca a pele nesta aventura.

- É verdade! - disse Filipe - E eu também arrisco o meu lugar - Reflectiu um instante - Só vejo uma solução.

- Qual?

- Fazê-la sair daqui!

- Estás doido! Ainda falará mais!

- Espera! Fazê-la sair daqui de certa maneira...

- Como?

- Os desastres sucedem, às vezes, nas prisões...

- Queres dizer que...

- Exactamente!

- Sim - admitiu o esbirro - é talvez uma ideia; cá por mim confesso que não me agrada muito...

- Não te apoquentes, isso é comigo. Que é que tu queres? Que ela não diga nada? Está bem. Então, deixa-me cá proceder como entender!

- Mas este rapaz é terrível! - disse um dos homens para o seu companheiro.

- Não! - replicou Filipe - Não sou como vós, não gosto de histórias no meu trabalho, eis tudo; portanto, não se ocupem de nada... Simplesmente, logo, quando os outros vierem render-vos, eu saio com um saco. Não vos admireis.

- Bom! Mas escuta bem, se um dia se ouvir falar do que se passou, respondes por mim com a tua cabeça?

- Com certeza! - respondeu Filipe - Com a minha cabeça!

Filipe entrou na cela onde jazia Aclis. Debruçou-se para ela. Profundos vergões sangrentos marcavam-lhe o dorso e o peito juvenil. Filipe, pegando-lhe na mão, viu que tinham começado a arrancar-lhe as unhas. Deitou um pouco de água na palma da mão e fê-la correr pela fronte da jovem.

- Aclis! Aclis! - clamou brandamente - Aclis! Olha para mim! Não grites, olha para mim!

Os olhos verdes abriram-se, e o terror ainda neles se reflectia. Fixaram-se no jovem.

- Senhor! Oh, senhor! - exclamou Aclis.

- Escuta, Aclis, não tentes compreender. Escuta bem! Vou meter-te num saco, não te mexas absolutamente nada, compreendes? Como se estivesses morta. Percebes bem?

- Percebo...

- João espera-te muito perto daqui.

- João! Oh, João!

E os olhos de Aclis encheram-se de lágrimas.

- Aclis, tu não confessaste nada?

- Nada. Disse que fora a casa de Rastrus, por causa das roupas que ainda não estavam prontas.

- Não deste nenhum nome, nenhuma morada?

- Nenhuma!

- Julgas que poderás andar daqui a pouco?

- Com João poderei tudo!

- Está bem. Chegou o momento agora. Não faças mais movimentos. Mantém-te hirta como se... Enfim, compreendes?

- Eu já vi mortos.

Filipe ajudou-a a meter-se no saco, fechou-o e pondo ao ombro o corpo assim oculto, saiu da cela. Subiu rapidamente à prisão, pousou o saco em cima de uma mesa e, debruçando-se, murmurou:

- Ouças o que ouvires, não te mexas.

Pouco tempo depois, chegaram os carrascos e os esbirros da rendição.

- Salve! - disse um, passando à frente.

- Salve! - respondeu Filipe.

- Que é isso? - perguntou o homem.

- Acidente - respondeu Filipe, simplesmente.

- Ah! Ah! Estou a ver. Acidente! Ah! Ah!

Filipe foi até o limiar da porta. A equipa rendida saía dos subterrâneos. Primeiro, Mosché que saía à pressa com os seus documentos, depois os verdugos e seus ajudantes, por fim, os dois homens de Tigelino.

- Esperai um instante - disse Filipe.

- Porquê?

- É só o tempo de tratar de uma coisa que nos diz respeito.

Filipe pegou no saco e pô-lo ao ombro.

- Onde vais?

- Não me demoro, mas preciso de que fique alguém de guarda. Não se mexam daqui!

- Mas onde vais metê-la?

- Não é difícil, está por aqui tudo cheio de ruínas... Até já!

- Bem! - disse um dos esbirros ao outro - Este tipo sabe o que quer.

Filipe atravessou a ruela e entrou na casa em ruínas. Soltou um ligeiro assobio. De um salto, João estava junto dele.

- Meu Deus! - exclamou o jovem, ao ver o saco.

- Não tenhas medo, está salva!

Pousou o saco suavemente de pé, desatou o laço que o fechava.

- João! - exclamou Aclis.

- Asseguro-te - disse Filipe, ao cabo de um instante - que se te vissem com um saco nos braços, tornavas-te suspeito. Trouxeste as roupas de homem?

- Estão aqui!

- Então, dá-mas... E volta-te.

Filipe ajudou a jovem a vestir-se. Meteu-lhe os cabelos numa espécie de boina que encontrou no embrulho.

- Foi uma mulher que preparou isto?

- Foi Monime - respondeu João.

- Pensou em tudo. Pronto! Agora, meninos, um conselho: saiam pelas traseiras, pelos jardins, e evitem alguma patrulha, porque estas aventuras não sucedem senão uma vez.

- Senhor! - disse Aclis - Ainda voltas para lá?

- Assim é preciso.

- Ah, João, se soubesses o que toda aquela pobre gente sofre!...

- É precisamente deles que me vou ocupar. Até breve, Aclis. João, ela foi muito corajosa. Ama-a, ampara-a, mas não a apertes com muita força...

- Porquê?

- Ela to dirá.

- Senhor - perguntou Aclis - posso beijar-te?

- Sim, pequena - respondeu Filipe, e murmurou-lhe ao ouvido - Dize a Albina que a amo e que penso nela constantemente. Agora, safai-vos e rogai por todos os que aqui estão!

 

O Outono chegou a Roma. Milhares de homens, marinheiros, galerianos, desembarcados de propósito, escravos vindos de todos os horizontes, continuavam a desobstruir a cidade. Pouco a pouco as paredes tornavam a erguer-se. Nero dera ordem para que um dos primeiros monumentos a reconstruir fosse o Grande Circo; era ali que se fariam as festas da Primavera que deviam ver a punição dos culpados, ao mesmo tempo que lhe permitiriam exibir-se nos seus papéis preferidos, os de cantor e de poeta.

Na véspera, um servidor de Tigelino viera trazer uma carta a Ben Hur. O ministro esperava o príncipe, a meio da manhã, no Palácio Novo. Enquanto se prosseguia na reedificação da Casa Dourada de Nero, o imperador e a sua corte tinham-se instalado no Pequeno Palácio dos jardins Severianos, a Oeste da cidade.

Drusus mostrava-se inquieto com aquela convocação.

- E se Tigelino soubesse alguma coisa das tuas crenças? - perguntou ele a Ben Hur - Se fosse apenas uma habilidade para te mandar prender?

- Se assim fosse, teria aqui mandado um centurião e alguns homens, em vez do portador de uma carta.

Contudo, Drusus obteve que Ben Hur consentisse em ser seguido a distância por Malluch, Anjune e Benex, que se postariam perto das portas do palácio e que, em caso de detenção do príncipe, poderiam seguir os seus guardas e saber onde o conduziam.

Chegando de liteira, como convinha a uma personagem de qualidade, Ben Hur foi quase em seguida recebido por Adamus e introduzido junto de Tigelino.

- O imperador está descontente - disse o ministro, logo de entrada - Apesar de todos os nossos esforços, não pudemos capturar senão um reduzido número de cristãos. Todos aqueles de que nos indicaste os nomes, todos os que uma outra fonte igualmente segura me indicou - (Ben Hur pensou que se trataria de Mosché) - aliás, os mesmos, ou quase, desapareceram como por encanto. Submetemos a questão a uns duzentos miseráveis que os nossos homens prenderam, e produziu-se o mesmo fenómeno. De cada vez, ou quase, que um nome sai de uma boca, o interessado deve ser misteriosamente prevenido, porque desaparece antes da chegada dos legionários.

- Senhor - disse Ben Hur - temos de acreditar que esses cristãos se encontram bem organizados e que funciona entre eles um sistema de alarme que nós desconhecemos.

- Contudo, não dispõem do poder de se prevenirem uns aos outros à distância...

Este gracejo do ministro impressionou Ben Hur: um sistema para se prevenirem à distância, eis o que seria muito útil. Era preciso pensar nisso.

- De qualquer modo - prosseguiu Tigelino – necessitamos de mudar de método. Estás em boas relações com os notáveis da colónia judaica em Roma, não é verdade?

- Praticamente, não conheço nenhum. Vim de Jerusalém, como sabes, mas encontrei aqui muito mais amigos da mocidade romanos que judeus!

- Sim! Sim! É pena... Mas pouco importa. Sabes que se deram movimentos sediciosos na Judeia?

- Sediciosos?

- Sim, os Hebreus levantam a cabeça. Houve lutas com as nossas tropas. O procurador da Judeia, Jessius Florus, reprimiu o movimento, é claro, mas isto pode ser um pretexto. Os notáveis judeus de Roma estão aí, na sala contígua. Não te admires de nada do que vais ouvir e não consideres que o que vou dizer te vise pessoalmente... Eis o decreto assinado pelo imperador que te isenta de toda a contribuição.

- Senhor! - disse Ben Hur, inclinando-se.

- Bem te devo isto. Mas gostaria de dever-te ainda mais, a propósito dos cristãos. Vamos!

Passaram à sala imediata, vasta e luminosa, onde se encontravam uns trinta homens, uns vestidos à moda romana, outros fiéis às labitas, aos penteados atados e aos papelotes de seus pais. Todos os maiores negociantes, os mais importantes, os que reinavam no comércio do ouro e das pedrarias, das moedas e dos tecidos, estavam ali reunidos.

- Judeus de Roma - disse Tigelino, com a sua arrogância habitual - o imperador sabe dos lucros descarados que fazeis aqui e como a vossa raça industriosa espreme a nossa bela Itália.

Houve um movimento de protesto entre as togas e as labitas, movimento que Tigelino deteve com um sinal da sua mão.

- Em sua grande bondade, o imperador consente em que continueis o vosso comércio e tolera até que, deixando de sacrificar aos nossos deuses e à pessoa divinizada do imperador, continueis a honrar o vosso.

Mas vós conheceis os responsáveis do incêndio que destruiu a nossa cidade... Vós sabeis que ele foi ateado pelos cristãos, os membros dessa nova seita vinda do país da Judeia, ou seja, do vosso país. O imperador, na sua justiça, quer punir os culpados, mas é preciso descobri-los. Eles ocultam-se no povo, não é possível que a maior parte dentre vós, Judeus, não tenha contacto com eles, porque são Judeus que os orientam. Portanto, eis o que se decidiu: ou a vossa comunidade me entrega os culpados, ou sois vós, com vossos dinheiros, quem pagará ao Império as despesas da reconstrução de Roma. A quanto isso subirá, não sei, mas do que tenho a certeza é de que não serão bastantes todas as vossas fortunas reunidas para saldar o preço deste crime. Tenho dito, em nome do imperador, e vós tendes oito dias para proceder.

E como um dos membros mais veneráveis da assembleia avançasse para responder, Tigelino ajuntou:

- Nem uma palavra mais! O que eu quero agora são os nomes! Ide!

Apareceram guardas que empurraram o grupo para a porta.

- Assim - disse Tigelino - por intermédio deles, apanhá-los-ei.

 

Ben Hur esperava no primeiro subterrâneo das catacumbas que mandara construir debaixo da sua vivenda. Mais abaixo, ao fim de longas escadas, achavam-se reunidas centenas de cristãos. Ali viviam aqueles a quem o príncipe dera refúgio para os poupar à prisão e aos suplícios. Os criados da casa abasteciam-nos, graças às carroças que vinham todos os dias, antes da alvorada, da campina romana, conduzidas por homens de confiança.

O próprio príncipe visitava esses infelizes. Participava com eles do sacrifício da missa, que alguns padres vinham celebrar nas galerias subterrâneas. À noite, subiam por turnos a respirar o ar puro do jardim cercado de altos muros.

Mas a inacção começava a pesar-lhes. A sensação de clausura irritava-os. Ben Hur revia a cena da véspera, quando, como todos os dias, viera passar algum tempo entre eles. O acolhimento que lhe fizeram fora muito diferente do costumado. Alguns homens não se levantaram à sua aproximação. Umas mulheres voltaram-lhe as costas. Por fim, uma delas usou da palavra:

- Senhor, não podemos permanecer mais aqui.

- É verdade - confirmou um dos homens - deixa-nos ir embora!

- Mas para onde? - inquiriu Ben Hur.

- Não importa para onde! - bradou um jovem - Mais vale morrer ao ar livre do que rebentar neste buraco.

- Não fazemos tudo o que podemos para que nada vos falte?

- Príncipe - disse um velho, levantando-se - já ficaste durante dias na noite de um subterrâneo?

- Num subterrâneo não, mas já estive preso a um banco nas galeras de Roma. Era uma espécie de cripta, também, uma cripta em movimento, porque estava o mar por debaixo, com clamores, chicotadas, cheiro a suor, a sangue e a morte. Aí permaneci durante três anos.

Fez-se silêncio. A mulher que falara primeiro, prosseguiu em tom mais moderado:

- Senhor! Compreendes a nossa inquietação. Que se passa em Roma? Onde estão as nossas casas, os nossos bens? Que é feito de nossas famílias?

- Subi, se quiserdes, sois livres - disse Ben Hur. Ide para vossas casas, lá encontrareis os legionários que vos esperam, porque cada uma se transformou numa armadilha. Deixai esta prisão, como dizeis. Eles vos arranjarão outra sem esperança. No fim, há. a tortura e a morte. Vereis que as prisões do imperador de Roma são mais perfeitas que a do príncipe de Hur. Ide! O primeiro que queira partir que suba as escadas!

- Oh! Estou farta! Estou farta!

Uma mulher começara de súbito em clamores. Suas companheiras correram para ela, e o incidente não teve seguimento; mas, desde então, Ben Hur receava por todos eles. Sabia agora que alguns, no zelo da sua fé, não hesitariam em proclamar a sua crença nos lugares públicos e em perecer alegremente pelo reino de Cristo. Foi preciso que Filipe viesse contar-lhes o que via todos os dias na prisão, para os incitar a uma relativa prudência.

Ben Hur esperava. Por muito tempo orara diante da imagem da cruz. Anjune desceu os degraus.

- Senhor, eis Paulo de Tarso.

- O Senhor seja contigo, Ben Hur - disse Paulo.

Outros vultos acorriam lá fora; notoriamente, um, o de um homem corcovado de barba branca, que o diácono Lino e o jovem Sonius acompanhavam, os mesmos que tinham presidido à reunião da pedreira, nos dias do grande incêndio; e esse homem era Pedro, apóstolo de Jesus e chefe supremo da Igreja de Cristo. Filipe depressa se lhes juntou, depois, Drusus e João, vindo de casa.

- Como vai Aclis? - perguntou Filipe a seu primo, ao vê-lo descer.

- Está salva, graças a ti, Filipe. Nunca o esquecerei - e ajuntou - Albina espera-te depois da nossa reunião.

Ben Hur explicou a cena da manhã em casa de Tigelino. Lino usou da palavra em primeiro lugar:

- Não posso acreditar que, por algumas moedas de ouro, os Judeus de Roma vendam seus irmãos ou aqueles que lhes indicaram.

- Sê menos confiado - disse Paulo de Tarso – e fica sabendo que não se trata somente de uma questão de ouro. Ai, eu sei-o! Persegui os cristãos em Jerusalém e não o fazia por dinheiro, mas por convicção. Os Judeus que ficam agarrados à antiga lei detestam tudo o que se relacione com Jesus. Não terão nenhuma piedade!

- Que aconselhas, Ben Hur? - perguntou Pedro, tomando a palavra pela primeira vez.

- Redobrar de vigilância - respondeu o príncipe - anular todas as reuniões que pudessem estar previstas e dar como senha a todos os nossos irmãos, que, se forem presos, ponham um pano preto numa janela de suas casas. Ao vê-lo, todos aqueles que eles conhecem devem desaparecer da cidade. Acudiu-me esta ideia, hoje de manhã, quando Tigelino falava.

- Eis o procedimento digno de um contista grego - disse Sonius - Todas essas precauções são pouco razoáveis! Aliás, os nossos irmãos raras relações têm com a comunidade judaica daqui. Constituem um número muito reduzido os que são conhecidos por ela.

- Está bem! - respondeu o príncipe - Mas supõe que eles conhecem por acaso um dos nossos locais de reunião? Que bela pesca para a polícia de Tigelino!

- Ele deu-lhes oito dias - acrescentou Sonius - Não há perigo iminente. Em todo o caso, recuso-me a desaconselhar a cerimónia prevista para amanhã.

- Cuidado! - disse Paulo - Corres um grande risco!

- Conheço mal Roma - interveio Pedro - acabo de chegar; mas conheço Ben Hur, sempre se conduziu como um perfeito discípulo e como um homem muito sensato. Lino, tu és o mestre aqui, dispões desta comunidade, nada quero proibir-te, não devo intervir senão no capítulo da fé. No entanto, posso aconselhar-te: sou da opinião do príncipe. A Lei de Cristo não se divulgará sem grandes dramas e sem profundas dores, Ele próprio no-lo disse em vida, mas tão-pouco se divulgará sem grande paciência.

Lino falou, por fim:

- Ouvi o príncipe, sabemos que a sua sensatez é grande, mas é geralmente grata a homens da nossa idade. Sonius, mais jovem, é mais entusiasta e compreendo-o bem. Esconder-se sempre acabará por matar a fé nos mais débeis. Não estamos nós seguros de nós próprios? Seguros da verdade? Então, que temos a recear? Esta vida não é senão uma passagem, e o céu aguarda aqueles que morrerem por fazer triunfar a Lei do amor. Sepultada, oculta, a nossa Igreja, aqui, depressa desaparecerá. Sei as razões do príncipe e conheço o que ele fez pelos nossos irmãos, mas estas precauções talvez sejam excessivas. Entretanto, creio que é preciso segui-las em parte. Eu anularia as outras cerimónias previstas para depois da de amanhã e até sabermos o que os Judeus irão fazer.

Pedro levantou-se e disse:

- Lino, creio que cedes mais à juventude de Sonius do que a um raciocínio lógico.

- É porque Sonius, Venerando Padre, fala como a grande maioria dos que formam a Igreja de Roma. São jovens, ardentes, profundamente sinceros, a maior parte não compreenderia que tudo fosse anulado, quando nada afirma que se arriscam a uma surpresa. Não acreditas, Venerando Padre, e tu, Paulo, que existe um entusiasmo da Fé e que reduzi-lo é alterar um pouco essa Fé?

- Está bem. É possível que não se deva proceder em Roma como procederíamos na Judeia - disse Pedro - Oremos todos para que o Espírito ilumine cada um no seu dever.

- Albina - disse Filipe, alguns minutos mais tarde, à sua prometida - não vás à cerimónia de amanhã e que ninguém daqui lá se dirija. Meu pai tem razão. Lino está desorientado pelo entusiasmo de jovens, como Sonius.

- Filipe, pergunto a mim mesma se Sonius realmente errou. Esta vida assim ainda vai durar muito tempo? Tremo por ti a cada segundo. Sei o que lá fazes, a pequena Aclis contou-mo. Corres riscos enormes. Tinha tanta vontade de que ficasses junto de mim, que, enfim, pudéssemos estar sós! Não temos direito às mesmas alegrias dos outros?

- Albina, é a primeira vez que te oiço falar assim...

- Estou desanimada. Há dias em que desejaria que partíssemos os dois. Se os cristãos de Roma não querem ser cautelosos, de que servem os vossos esforços? Os homens de Tigelino acabarão por descobrir-te. E depois? Oh, Filipe, pensa bem, ficaremos separados antes de nos termos unido!

- O que me dizes causa-me um grande desgosto. Somos jovens, e este estado de coisas não há-de durar tanto tempo. Olha o meu pai: deixou minha mãe e minhas irmãs. Olha Drusus: fez o mesmo; e pensa em todas essas pobres pessoas que sofrem.

- Esta noite - disse Albina - não penso senão em ti e em mim!

- Albina, foi isso que Ele te ensinou?

- Pareço-te egoísta, bem sei, e orgulhosa; o teu pai já mo fez sentir...

- O meu pai?

- Oh! De maneira gentil, com todas as precauções possíveis. Teu pai fala habilmente, mas a sua eterna prudência choca-me, enerva-me. Pergunto a mim própria se ele pôde ser um homem de acção como consta!

- Duvidas? Se ele estivesse só, só como o estava na nossa idade, ele não se embaraçaria em precauções, seguiria a direito, e o mais depressa possível; mas tem a seu cargo todas as nossas almas. Esta prudência que tu lhe censuras, impõe-na a ele próprio sem cessar e mina-o como um mal obscuro.

- Teu pai! Os cristãos! Roma! Oh! Filipe, não posso ouvir mais essas palavras... Partamos, fujamos; meu pai tem amigos, receber-nos-ão, conduzir-nos-ão, enfim, a uma vida suportável.

- Albina - disse Filipe, e o seu olhar era glacial - já ouvi demasiado, esta noite, da tua boca. O que te posso dizer não te serve de nada. Fica, pois, diante de ti própria, interroga-te, vê onde está o teu dever... O meu está traçado.

E saiu de casa, deixando Albina interdita. Durante todo o tempo em que caminhou para a prisão, Filipe dirigiu a ele mesmo amargas censuras. Sentia quanto fora duro para com Albina. Aquela firmeza aparente não era decerto a prova de amor que uma noiva pode esperar.

Foi neste estado de extrema lassidão que ele chegou à cadeia. Marcelo correu para ele:

- Até que, enfim, foram-se embora!

- Quem?

- Os verdugos e os homens de Tigelino!

- E os presos?

- Continuam aí. Acaba de chegar um centurião com legionários. Acamparam em baixo e guardam os corredores, mas, como te digo, os outros voaram! Levaram a porcaria do material.

- Renunciaram, sem dúvida. Sabes para onde foram?

- Não! Eles próprios não sabiam nada. Enfim, vamos poder dormir descansados. O nosso único trabalho, agora, é levar pão e água aos presos. Do resto encarregam-se os legionários. Se quiseres o dia de amanhã para teu repouso, folgo eu no dia a seguir.

- Combinado!

- O que me dizes, Filipe, confirma-me no que eu pensava - dizia Ben Hur - Se Tigelino renunciou a atormentar os cristãos já presos é porque tem melhor para fazer, é porque espera alguma coisa...

À tarde, ao cair da noite, Monime aproximou-se de Ben Hur:

- Senhor - disse ela - eis um bilhete que Regelius me mandou trazer há pouco.

Ben Hur leu estas linhas, garatujadas à pressa: «Não nos podemos ver esta noite... Por nada deste mundo deixes a casa de teu amo.»

- É bem dele?

- Sim, senhor, é a sua letra!

- Segue o seu conselho, Monime. Não saias esta noite.

- Há, porém, uma grande cerimónia à beira do Tibre, perto da porta Flamínia...

- Sobretudo, não vás lá!... Malluch!

- Senhor!

- Fecha todas as portas. Não quero que ninguém saia esta noite de casa, nem que ninguém entre.

- Pai - disse Filipe - em todo o caso, não seria preciso que, pelo menos, um de nós lá fosse?

- Ninguém.

- Mas, pai, pode-se observar sem ser visto. Conheço uma estalagem no interior da cidade, na Via Flamínia. Daí pode-se vigiar, pelo menos, o movimento da rua. Bem sabes que não procurarei o perigo!

- Ah! - exclamou o príncipe - Que lástima é envelhecer; isso era o que eu próprio devia fazer!

- Que importa, pai! - replicou Filipe - Visto que é um Hur que o pode fazer!

- Vai então, Filipe, mas pensa bem que, se não voltares, é a minha sentença de morte que assinas.

Pelas pequenas ruas que se entrecruzavam por detrás do Campo de Marte, avançou Filipe prudentemente. A noite cerrara-se agora. Atingiu a Via Flamínia sem notar nada de anormal. No entanto, teve uma surpresa: a taberna que ele conhecia e que pertencia a um tal Partus, amigo e discípulo de Thord, o Nórdico, estava fechada. Nenhuma luz. Filipe empurrou uma pequena porta, penetrou num jardim.

- Quem vem lá? - perguntou uma voz.

- És tu, Partus?

- Quem és tu?

- Sou Filipe. Não me reconheces a voz?

- Sim, agora reconheço - disse o gladiador, saindo da sombra.

- Que significa isto? Vão os teus negócios tão bem que fechas a porta à hora de beber?

- Fala mais baixo... Não sei o que se trama no bairro. Ainda agora, vieram uns vigias: ordem de fechar, de apagar a luz, de não sair à rua.

- E tu não espreitaste pelas janelas?

- Por quem me tomas tu? Com certeza que espreitei!

- E então?

- Vi, primeiro, soldados, muitos legionários. Não marchavam em grupo, mas em duas filas ao longo das casas. Saíram para o campo.

- E depois?

- E, depois, nada, a não ser pessoas que também iam para o Tibre, pequenos ranchos de pessoas.

- Tens um terraço, um canto de onde se possa ver a campina?

- Na estalagem, não; mas, se quiseres, pode-se subir aos telhados. O vizinho, esse, tem um terraço encostado às muralhas. Há uma pequena abertura de pedra e daí podem ver-se os campos na margem do Tibre.

- Mas, o vizinho?

- Esse? Oh, é um poltrão! Os vigias vieram procurá-lo como a mim. Mesmo que oiça barulho, não sai; tem muito medo!

Os dois homens treparam aos telhados, alcançaram o terraço e aproximaram-se da estreita seteira. Filipe viu, bastante longe, no campo, clarões e reconheceu as velas que os cristãos seguravam para celebrar o ofício. Em volta desssa zona de luz tudo parecia tranquilo. No entanto, Filipe perscrutava com o olhar cada moita. Partus tomou-lhe bruscamente a mão e murmurou:

- Olha: ao pé da oliveira, à direita!

Filipe, primeiro, nada viu, depois, um brilho metálico; por fim, distinguiu formas curvadas e, habituando-se à noite, descobriu que atrás de cada grupo de árvores, de oliveiras ou de pinheiros, pequenas patrulhas de soldados se mantinham imóveis.

Justamente nesse momento, chegou-lhes o eco longínquo de um cântico. Correu uma sombra para a porta Flamínia. Nada boliu de novo, depois um rumor subiu da cidade.

- Cavalos! - disse Partus.

A galopada aproximou-se e, de chofre, desembocou da porta um forte esquadrão de cavaleiros armados, alguns trazendo archotes. Filipe reconheceu o próprio Tigelino, cercado de tribunos e centuriões. A este sinal, outros archotes se acenderam por toda a parte no campo. Filipe viu os soldados levantarem-se e avançarem, a descoberto. Era agora um verdadeiro semicírculo de archotes que se apertava em volta da cerimónia cristã. O clarão que marcava o seu lugar vacilou e apagou-se por partes. Ouviram-se gritos de alerta e ordens dos oficiais das legiões. O círculo dos archotes estava agora completamente fechado, e centenas de pequenos pontos luminosos agitavam-se em todos os sentidos. Decorreu bastante tempo, depois os archotes formaram duas linhas paralelas e engrossaram, voltando para a cidade.

Filipe mediu a amplidão do desastre.

À cabeça da coluna vinham legionários a cavalo, depois Tigelino a rir e a falar muito alto, cercado do seu estado-maior. Atrás de uma dupla frente de soldados avançava uma multidão, no meio de lamentações, de estalidos de chicote. Multidão comprimida por duas linhas de legionários e de portadores de archotes; velhos caíam por vezes no meio daquele rebanho e as lançadas e as chicotadas forçavam-nos a levantar-se. Crianças a chorar, homens acabrunhados, mulheres de olhos erguidos para o céu: a imagem miserável do êxodo.

O desenvolvimento da operação organizada por Tigelino não era difícil de reconstituir. Descoberto o local da reunião, sem dúvida graças aos Judeus receosos pelos seus bens, as tropas tomaram posição em volta; deixaram passar tranquilamente os cristãos, depois fecharam-nos naquela espécie de laço.

O lamentável desfile perpassou diante dos dois homens dissimulados atrás dos espessos muros. Filipe calculou em vários milhares o número dos prisioneiros. Desta vez, Tigelino devia triunfar. Por fim, apareceram à retaguarda legionários e cavaleiros. A noite e o silêncio dominaram de novo a campina.

- Vês - disse Partus - bem suspeitava eu de que se tramava alguma coisa... Já sabes o que querias saber?

- Ai, sim! Obrigado, Partus. Evidentemente, não me viste esta noite e eu não te vi a ti.

- Evidentemente - disse Partus - Esta noite, cada um de nós dormia em sua casa.

No dia seguinte de manhã, Thord abriu, como de costume, a sua taberna. Quedou-se um momento a espreguiçar-se diante da porta, saboreando a doçura do sol nascente, enquanto em redor se elevavam os pregões dos pequenos ofícios de rua.

Quando regressava à sala baixa, um vulto recortou-se no rectângulo luminoso da porta.

- Olha, o Partus! Salve! - exclamou Thord, e soltou a sua enorme risada. Mas Partus não o imitou e Thord interrompeu-se - Tens apoquentações, meu pequeno Partus?

- Eu, não - respondeu Partus, em voz baixa - Mas os teus amigos, com certeza.

- Os meus amigos?

- Sim!

E Partus contou a Thord a cena da noite anterior. Quando terminou, o punho de Thord descarregou-se em cima da mesa, à qual ambos se tinham sentado, e Partus ouviu nitidamente estalar a madeira que se tinha fendido.

- Foi preciso - disse Thord sombriamente - foi preciso que alguém os tivesse vendido!

E agora, silencioso, sem se ocupar mais do seu amigo, dirigiu-se à sala das traseiras e começou a rolar as pipas cheias só com uma mão.

Decorreu algum tempo. Três outros gladiadores vieram juntar-se a Partus. A um sinal deste, mostrando que o dono da loja, essa manhã, não estava em disposição acolhedora, eles próprios encheram as suas ânforas de vinho e saborearam lentamente o líquido, falando a meia-voz.

- Saúde a todos! - gritou uma voz.

Os quatro gladiadores levantaram a cabeça e viram entrar um homenzinho que, sem cerimónia, se acomodou à sua mesa.

- Quem és tu? - perguntou Partus.

- Psiu!

- Psiu, quê?

- Eu sou aquele que sabe e que não deve falar... Aquele que se debruça para a terra e que nada deve ler nela.

- Que se debruça para a terra? - disse um dos gladiadores, franzindo a testa.

- Sim! Para tudo vos dizer, sou jardineiro; mas nada mais vos digo, senão que sirvo um senhor rico que veio há pouco do Oriente. Pronto! Pode-se beber aqui alguma coisa?

- Há vinho lá atrás; faze como nós, serve-te.

- Ah! - disse o homenzinho - Então, temos aqui liberdade? É bem o único lugar em Roma onde ela existe - voltava, com o pichel cheio - Conheço pessoas que não quiseram dar ouvidos ao meu amo e que devem chorar a sua liberdade, esta manhã.

- De quem falas tu? - perguntou Partus.

- Como? Não o sabeis? Decididamente, as novidades não andam depressa em Roma. Não sabeis o que se passou esta noite, perto de Flamínia? Pois, bem. Foram presos, durante uma cerimónia, cerca de três mil cristãos. Ah! O golpe estava bem preparado. Só umas dezenas de jovens conseguiu escapar-se, atirando-se ao Tibre! Nadaram até a outra margem, julgavam-se no fim dos seus trabalhos. Pois, não estavam. Foram quase todos apanhados por legionários em patrulha.

- E... que é que fizeram a essa gente? - perguntou Partus.

- Encurralaram-nos junto do Grande Circo. Estão guardados por homens das coortes especiais... Fui lá ainda agora: é impossível aproximar-se.

- Mas como sabes tudo isso? - estranhou um dos gladiadores.

- Ah! É segredo!

- Talvez lá estivesses?...

- Eu? Oh, não! Não sou doido. O patrão proibiu-nos.

Desde o começo deste diálogo cessara todo o ruído na sala interior. Thord, silencioso, tinha voltado. De súbito, sua voz ergueu-se na sombra, atrás do homem:

- Como sabia teu amo que essa cerimónia devia realizar-se?

O tom de Thord era tão suave, o timbre da sua voz tão doce que os gladiadores, surpreendidos, entreolharam-se.

O homenzinho, esse, nada admirado, empertigou-se.

- Ah! Isso surpreende-vos! É que meu amo sabe muitas coisas, e eu também sei algumas. Mas, se quiserem obrigar-me a dizê-las, sou mudo.

- E é bonito, o sítio onde ele mora? - indagou Thord.

- É sobretudo sossegado, perto da porta de Óstia, fora da cidade. É a paz!

- Um bom lugar para se esconder.

- É verdade!

O homenzinho aproximou a cabeça da dos gladiadores, inclinados para os cangirões de vinho.

- É tão bom que há pessoas que se escondem lá... E se as quiserem descobrir, bem podem procurar... E não em cima, creiam, talvez por debaixo, e mesmo assim é preciso conhecer o local como eu o conheço.

- Tudo isso é muito interessante - disse Thord. Pois é verdade, percebe-se que este bom homem sabe do que fala. Anda cá, quero obsequiar-te. Vem por aqui, vais provar de um dos meus melhores tonéis...

E apontou-lhe a porta da sala interior. Enquanto o homenzinho, todo contente, se dirigia para Thord, este disse aos gladiadores:

- Não se mexam daí, já venho!

E como Partus esboçasse um movimento:

- Já disse: não se mexam!

O homenzinho pareceu hesitar um instante, mas o sorriso de Thord inspirava-lhe confiança, o enorme braço apontava-lhe o caminho e, passando à frente do gigante, baixou a cabeça para transpor a pequena porta.

A mão de Thord abateu-se então como uma acha sobre a nuca nutrida. Houve um baque mole e o homenzinho, dobrando os joelhos, quedou-se imóvel, de nariz contra as lajes de pedra.

- Agora, meus amigos, um serviço e um conselho - disse Thord, terrivelmente calmo - O serviço: pegar naquele tipo por debaixo dos braços, como se ele estivesse bêbedo, levá-lo a rir como bons bebedores para um local tranquilo, perto do Tibre, arranjar-lhe uma boa pedra para o ajudar a descer e deixá-lo cair à água. Compreendido? Agora, um conselho: esquecei tudo o que ouvistes da sua boca, será mais prudente para vós, meus rapazes...

E Thord riu-se, mas Partus, que o conhecia bem, sentiu que aquele riso era estranho, como que forçado.

O grupo partiu como ele desejara. Thord chamou um dos seus vizinhos, um negociante de legumes que de boa vontade lhe prestava serviços:

- Guarda-me a taberna, Trocalino, que eu não me demoro!

Como uma enorme máquina que nada pode deter, já Thord avançava para a porta de Óstia.

 

A NOITE MAIS COMPRIDA

SIM, filho de Hur - dizia Thord ao príncipe - era o teu jardineiro.

- Parinus! É impossível!

- Reconheci-o... Bem o vi aqui, com o nariz sempre metido em toda a parte, durante o grande incêndio.

- Thord diz a verdade - Drusus juntava-se-lhes - Parinus saiu esta manhã muito cedo. Depois, ninguém mais o viu por aqui.

- Já to disse - insistiu Thord - Não há engano!

- Nesse caso - e a voz de Ben Hur parecia ainda recusar a evidência - tendes razão... Parinus atraiçoava-nos...

- Atraiçoava-nos não é talvez a palavra exacta - emendou Drusus - Digamos: falava de mais.

- Quem fala de mais depressa pode vir a denunciar segredos - disse Filipe, que desde o princípio se mantivera calado - Atribuíamos aos mercadores judeus a catástrofe de ontem à noite, mas não temos nenhuma prova. Nada nos diz que não seja Parinus o culpado. Nada nos diz tão-pouco que não foi ele quem informou os que avisaram Tigelino.

- Seria preciso poder verificar tudo isso - disse Ben Hur - Thord, eu não posso aplaudir a tua justiça! Além disso, condenar alguém sem ouvir a sua defesa é um crime, nenhum de nós pode saber exactamente o que Parinus fez.

- Isso é muito bonito! - explodiu Thord - Esperava felicitações e tu, muito estupidamente, acusas-me! Escuta, meu rapaz. Se o teu Parinus tivesse falado diante de outros que não fossem amigos fixes, queres saber o que se passaria agora? Pois bem. o príncipe de Hur estaria a ferros e todos os que aqui estão. O vosso esconderijo seria descoberto, as vossas catacumbas invadidas... Era isso que tu querias?

- Compreende, Thord! Visto que, devido a ti, o segredo não foi devassado, teria preferido que trouxesses Parinus aqui e que o pudéssemos interrogar!

- Isso era para tu lhe encontrares desculpas, e perdoares-lhe, e ele recomeçar amanhã. Rapaz, mudaste muito, desde que te conheci. Tu eras a valentia em pessoa e o perigo, e eis-te agora a conduzires-te como uma mulher velha.

- Thord! - disse Ben Hur secamente - Proíbo-te de falares assim. Uma coisa é combater no circo por si só, para salvar a sua pele, outra velar por milhares de pessoas ameaçadas. Repito-o, foste demasiado rápido. Nenhum homem detém sozinho a justiça. Nenhum tem o direito de vida ou de morte sobre o seu semelhante; mas a coisa está feita, nenhum de nós tem o poder de voltar atrás.

- Pai - disse Filipe - Parinus decerto sabia bem o que o esperava, ou então era preciso que fosse totalmente inconsciente. Logo no primeiro dia, preveniste os que entraram aqui a que se arriscavam, se tivessem a infelicidade de ser muito faladores. Sou de opinião de que não se lhes deve ocultar a morte de Parinus. É preciso que todos saibam que a justiça do amo é implacável quando se trata do interesse da comunidade.

- Filipe tem razão - interveio Drusus - Ao menos, que esta morte sirva de alguma coisa.

- Rendo-me às vossas razões - disse Ben Hur, gravemente - mas estou cheio de tristeza.

No dia seguinte, Filipe e João, indo ao centro da cidade, viram em todas as praças ajuntamentos de povo em volta de arautos a cavalo.

Desenrolando longos papiros, um dos soldados começou a ler diante deles, quando se aproximavam do Grande Circo.

- A toda a gente de Roma! - declamava o homem

- Eu, Nero, pelos deuses imperador e divindade, faço saber que começarão dentro em breve as maiores festas alguma vez oferecidas no Império. Nos jardins vaticanos, no circo que aí está construído, todos poderão ver as mais belas festividades que Roma conheceu. Aí, ao mesmo tempo que o povo se divertirá, serão punidos os responsáveis do incêndio desta cidade e da grande miséria pública que se lhe seguiu. Assim fala Nero, senhor do Império romano e de todo o mundo do Ocidente.

As festas decorreriam, pois, nos jardins vaticanos, a Oeste da cidade. O circo de Nero seria o fulcro, mas numerosos divertimentos aguardavam a populaça de Roma nos próprios jardins (1)

 

Nota 1: - O circo de Nero achava-se no local onde hoje se encontra São Pedro de Roma.

 

Na véspera da abertura das festas, Filipe, de serviço na prisão, viu chegar uma coorte de legionários. À sua cabeça marchava um centurião chamado Vinício, de quem Drusus, que o tivera sob as suas ordens, recordava muitas vezes a crueldade.

- Manda vir todos os presos para o pátio! - bradou o centurião.

Os soldados lançaram-se precipitadamente pelas escadas abaixo. Abriram-se as portas das celas, os seus ocupantes foram arremessados para os corredores a soco e pontapé, e assim trazidos para a luz. Reunida assim aquela mísera coorte, o centurião passeou por entre as suas fileiras. Escolhia homens bastante jovens.

- Tu, para aqui... Tu também... E tu...

Depois repetiu a mesma cena com as mulheres mais belas, e as raparigas.

Estavam agora separados três grupos. Algumas mulheres queriam conservar os filhos junto delas, mas foram-lhes arrebatados entre gritos e lágrimas.

- Em marcha!

No momento em que as portas se abriam, Célia, uma das ocupantes da segunda cela, veio junto de Filipe e disse:

- Abençoado sejas pelo bem que nos fizeste.

O centurião voltou-se:

- Fizeste-lhes algum bem, realmente? Quem protege esta gente é do seu partido! Pois bem, visto que gostas tanto deles, segue-os! Prendam-no!

- Mas, senhor - gritou Marcelo - é o meu primo! É guarda na prisão, não o podes deter!

- Sim? - replicou Venício - Queres vir, também?

- Centurião - disse Filipe, já agarrado por dois soldados - ultrapassas os teus direitos. A lei...

- A lei, por agora, sou eu quem, a faz... Vamos!

Filipe foi reunir-se ao grupo dos jovens e levado

com eles.

- Marcelo! - gritou ele - Previne em casa de Thord, o Nórdico!

Não soube se o guarda o chegou a ouvir.

Os três grupos avançavam dificilmente pelas ruas obstruídas.

- Incendiários! Eis os cristãos!

Os gritos e as injúrias corriam de porta em porta,

Por várias vezes, tiveram os legionários de carregar sobre a multidão, que se aglomerava, atirando pedras, bradando insultos. Tiveram de dominar um açougueiro, que se precipitara de faca do ofício em punho.

Chegaram, finalmente, às portas dos jardins vaticanos. Os mais fracos foram abandonados em volta deles. Mandaram entrar as mulheres jovens por uma porta e os homens por outra. No momento em que Filipe passava diante de Vinício, este disse:

- Fica de parte, reservo-te alguma coisa de especial.

Dois soldados impeliram o jovem para uma grande sala, que Filipe reconheceu como sendo a dos gladiadores. Duas cadeias pendiam das argolas. Fixaram-lhas nos pulsos e ali ficou, de braços esticados acima da cabeça, impossibilitado de fazer um movimento.

Logo começaram os sinistros preparativos. Trouxeram para o compartimento uma porção de peles de animais; peles de urso, de leão, de tigre, de lobo. Sapateiros e alfaiates, requisitados na cidade para o efeito, entraram.

- Ide cosê-los nas peles - ordenou o centurião - e depressa. É preciso que esteja tudo pronto ao alvorecer!

Trouxeram os presos mais válidos. Começaram a coser as peles em volta dos seus corpos. Pouco depois, mandaram entrar as mulheres e as raparigas. Para elas, trouxeram trajes obtidos nos guarda-roupas dos teatros: túnicas gregas, vestidos vaporosos, e vestiram-nas de maneira a evocar personagens mitológicas.

Tigelino apareceu cerca da meia-noite, contemplou aquele imenso camarim de artistas trágicos onde se preparavam várias centenas de pessoas para o suplício, pareceu satisfeito e retirou-se.

À noite, para aqueles que estavam prontos, passou-se em orações. Quando a aurora esbranquiçou a abertura das frestas, mandaram sair, um a um, os cristãos cosidos nas peles de animais.

- Já caçaste? - perguntava, a rir, um centurião - Hoje, és tu a presa. Trata de correr depressa!

Ouviram-se passos rápidos e gritos. Foi nesse momento que Ben Hur, prevenido por Thord, que Marcelo avisara pessoalmente, deu entrada nos jardins.

O primeiro espectáculo que viu foi o de um homem que corria desajeitadamente, metido numa pele de leão. Os jovens da corte de Nero perseguiam-no, atirando-lhe dardos; um deles atingiu o homem, que rolou por terra. O jovem lançou-se sobre ele. de punhal em punho, e agrediu por várias vezes a pele, que Se tingiu de sangue.

- Venci o leão! - gritou o rapaz, em voz de falsete - É o segundo; quem faz melhor?

Ben Hur encaminhou-se para Tigelino.

- Ah! Caro Ben Hur - disse o ministro - chegas na melhor hora. Queres participar da caçada ou fazes como eu: preferes ver correr a mocidade?

Ben Hur estava numa tortura. Naqueles vultos curvados que fugiam agora em desordem pelos jardins, cobertos pelo seu mísero disfarce, não se encontraria Filipe?

- Tenho um pedido a formular-te, Tigelino - disse Ben Hur.

- Sim? De que se trata?

- Um dos teus centuriões chamado Vinício prendeu, com desprezo por todo o direito, uma pessoa da minha casa.

- Realmente? - disse Tigelino - Tu assombras-me. Vão chamar Vinício.

Adamus correu à prisão. Entretanto, continuava a carnificina nos jardins. Não era senão brados, gritos de angústia, estertores dos que acabavam, de mistura com as gargalhadas dos assassinos.

Um desgraçado, a pele de urso com que o mascararam descosida e pendente, correu para Tigelino e Ben Hur. Um jovem, de rosto gasto pelos prazeres, todo ofegante, o pó que embelezava o rosto sulcado de suor, perseguia-o, de gládio na mão. O perseguido abateu-se aos pés do príncipe. O outro alcançou-o de um salto, já de arma levantada.

Ben Hur não pôde conter-se, sua mão agarrou o pulso do cortesão. Este, muito admirado, balbuciou:

- Que me queres? Queres impedir-me de matar a minha fera? Mas deixa-me, deixa-me... Dize-lhe que me deixe, Tigelino.

Imóvel, de olhos semicerrados, o ministro contemplava a cena. Ben Hur apertou com mais força, o outro largou o gládio e começou a gemer.

- Fazes-me doer! Deixa-me!

- Então! - gritou Tigelino, de súbito - Não está aqui mais nenhum caçador e deixam a presa escapar-se!

Uma dezena de cortesãos correu para o desgraçado, ainda estendido aos pés do ministro. Num abrir e fechar de olhos, as lâminas perfuraram a pele, fazendo esguichar o sangue.

Ben Hur tornara-se lívido. Não dominou mais a sua força, sua mão torceu bruscamente o pulso do homem que segurava, o osso estalou e o efeminado começou a soltar uivos lamentáveis. O príncipe largou-o, mas a sua mão agora livre abateu-se sobre a boca do choramigas, esmagando-lhe os lábios e quebrando-lhe os dentes.

O cortesão fugia, quando o centurião Vinício se aproximou do pequeno grupo e saudou, com a mão esquerda no peito.

- Vinício - disse Tigelino - o senhor Ben Hur que aqui está, e que me parece esta manhã muito belicoso, queixa-se de que tu prendeste alguém de sua casa.

- É impossível, senhor - respondeu o centurião. Há dois dias que não faço senão despejar as prisões dos cristãos que lá estavam. Não prendi uma única pessoa cá fora.

- Foi justamente numa prisão que prendeste aquele que eu procuro - disse Ben Hur - Trata-se de um jovem guarda que...

- Ah! Já sei! - exclamou Vinício - É aquele a quem os cristãos agradeceram por ele os ter ajudado.

- Ajudado? - estranhou Tigelino, olhando Ben Hur com um sorriso muito pouco amistoso.

- Sim, senhor, ajudado. Eles próprios o disseram.

- Ah! Lamento, príncipe - disse Tigelino - mas não posso conceder perdão aos que se tornam cúmplices de incendiários. O Imperador censurar-me-ia.

Produziu-se alvoroço na grande álea e Nero em pessoa apareceu em trajo de caçador, escoltado de oficiais e cortesãos. Ben Hur aproveitou a confusão que reinava para deslizar até a porta de onde saíram as vítimas da caça. Um legionário postou-se na sua frente.

- Lamento, senhor, mas não se pode entrar!

- No entanto - objectou o príncipe - bem vês que ainda há pouco falava com o ministro!

- É possível, mas a ordem é formal. Entrada proibida.

Ben Hur voltou para o grupo que rodeava o imperador. De garganta apertada, saudou o tirano.

- Ah! Eis o homem da caixa preciosa, o homem que dizia gostar da minha voz. Pensava que irias ouvir-me a Nápoles - disse Nero - Não apareceste é porque não aprecias a arte vocal tanto como dizeis!

E passou adiante.

O grupo de cortesãos afastou-se de Ben Hur como de um pestífero. Uma tal observação da parte do imperador equivalia habitualmente a uma sentença de morte.

Ben Hur dirigiu-se rapidamente para as dependências do circo.

- Senhor... - pronunciou uma voz profunda

- Ah! Thord! Sabes alguma coisa?

- Sei! O teu filho está lá em baixo. Por agora ainda não lhe fizeram nada, mas creio que esta noite...

- Que vai suceder?

- Não sei exactamente, mas foram convocados todos os gladiadores de Roma, mesmo os velhos como eu, e a multidão começa a chegar ao circo. Escuta! De toda a maneira, com alguns camaradas, vamos vigiar o teu filho. Seremos os primeiros avisados e, se houver alguma coisa a fazer, conta comigo!

Thord já não ria. Pousou a sua mão enorme no ombro do príncipe e disse:

- Já te livraste de complicações maiores, e teu filho sai a ti. Não percas a confiança.

A caçada trágica acabou muito depressa e Nero lamentou que as vítimas, subalimentadas ou torturadas, não tivessem oferecido bastante resistência para animar o jogo. No entanto, certos caçadores gabavam-se de terem perseguido as suas «feras» durante várias léguas antes de as atingir e aquela corte, composta em grande parte de invertidos, como era a de Nero, perorava e papagueava em volta das mesas postas à pressa nos jardins, a fim de se recomporem antes do espectáculo da tarde.

Este começou muito cedo. As trombetas anunciaram o princípio dos jogos e, perante um circo repleto, onde setenta e cinco mil espectadores se comprimiam, veio um arauto anunciar cenas mitológicas animadas.

As mais escabrosas, que rematavam sempre pela morte da heroína, representaram-se assim perante um público que, primeiro, manifestou ruidosamente o seu prazer, depois começou a protestar, porque aquelas sequências eram demasiado longas ou porque apareciam muito poucas personagens.

Lívido, Ben Hur via perecer, uma a uma, as jovens cristãs presas.

Todas iam para o suplício com uma grande coragem e a maior parte rezava em voz alta, enquanto os seus comparsas, os mais grosseiros histriões de Roma, figuravam perante elas de deuses e deusas, de imperadores e de heróis antigos.

Uma única cristã dominou com sua voz a dos comediantes. Dirigindo-se a Nero, molemente estirado num leito baixo na tribuna de honra, bradou-lhe:

- Demónio! Todo este sangue recairá sobre a tua cabeça!

- Ah! Que engraçada! - disse o imperador - Deixai-a continuar!

- Nero! - gritou ainda a mulher - Pensa nas cinzas de tua mãe. Que elas te persigam durante todas as tuas noites!

Nero parou de rir e fez sinal para acabarem rapidamente com a mulher. Os carrascos, abreviando a cena, degolaram-na imediatamente. Terminaram, enfim, aqueles espectáculos horríveis, que tinham durado várias horas e em que foram vítimas dezenas de cristãs. Vieram criados limpar a pista, espalhar areia sobre as poças de sangue, e Ben Hur, com um nó na garganta, viu entrar Filipe.

Este, seguro por quatro soldados, foi estendido no solo. Nos seus punhos e tornozelos havia cadeias de ferro. Trouxeram quatro cavalos robustos. A multidão desatou aos vivas. O esquartejamento de um homem era um espectáculo bastante raro e muitas vezes os cavalos precisavam de um longo momento, puxando cada um em sua direcção, para arrancar os membros ao condenado.

- Não te mexas - disse uma voz muito perto de Ben Hur, quando este ia saltar - Thord trata do caso!

Malluch, vindo junto de seu amo, apertara-lhe o braço na sua mão possante. Os olhos escancarados pela angústia, Ben Hur sentia a loucura apoderar-se dele. Que viera fazer a Roma? Sacrificar seu filho por insensatos que não escutavam nenhum dos seus conselhos? Que pensaria Ester, quando soubesse a verdade? Ele, Ben Hur, fora, pois, incapaz de proteger seu filho e vira-o morrer na sua presença, sem reagir?

Com um grito de animal mal ferido, Ben Hur lançou-se bruscamente contra Malluch, ocultando a cabeça no ombro do seu velho companheiro. Começaram então os gritos dos palafreneiros e as chicotadas destinadas a impulsionar os cavalos...

- Ele resiste, senhor! - disse Malluch - Resiste bem.

Músculos contraídos, tal como Thord lhe recomendara em voz baixa, Filipe resistia realmente com toda a sua força ao movimento dos cavalos. E a turba gritava, aplaudia, uns encorajavam o supliciado, outros incitavam os animais. Faziam apostas sobre o tempo que estes levariam a esquartejar o homem.

O suor inundava Filipe. Um véu vermelho perpassava diante dos seus olhos. Seus músculos já não obedeciam, punhaladas perfuravam-lhe os braços, as coxas. Sentia que a morte estava próxima. Bruscamente, a tensão insuportável afrouxou. Os palafreneiros, desesperando certamente de conseguir os seus fins ao primeiro impulso, concederam um tempo de repouso aos cavalos. Um longo clamor deflagrou de todos os lados. A multidão injuriava os verdugos. Os gritos agudos das mulheres dominavam o tumulto. Filipe procurava desesperadamente com o olhar uma ajuda em sua volta. Nenhum vestígio de Thord e de seus companheiros. Então, o jovem ergueu os olhos e começou, a orar. As imagens baralhavam-se no seu espírito. Os rostos de todos aqueles que ele amava perpassaram no azul do céu. O pânico dominou-o. Conteve-se, para não gritar.

O chefe dos palafreneiros fez um sinal. Estalaram de novo os chicotes, os animais retesaram os jarretes. Sem que a sua consciência interviesse, Filipe contraiu os músculos. A dor, vindo do ventre e dos ombros, convergiu sobre o seu coração. Esticado o corpo até estalar, perdeu bruscamente toda a esperança. Sua cabeça caiu para trás, balouçada ao ritmo do esforço dos cavalos.

Ninguém então compreendeu bem o que se passava. Houve um momento de confusão total. As trombetas começaram a tocar, ouviam-se brados, um imenso clamor subiu do público. Quarenta pares de gladiadores invadiram a pista, cercando os cavalos.

Enquanto todos estes que tinham vindo do exterior começavam a lutar entre eles, Thord e três dos seus companheiros lançaram-se sobre os criados dos cavalos.

- Mas, que estão eles a fazer? Que fazem eles? É muito cedo para os gladiadores! - gritava Vinício, à entrada da pista.

Não pôde dizer mais nada. Sentiu de súbito uma coisa muito fria no dorso, depois recuou como um ébrio e foi retirado dos olhares do público.

- Escondam essa porcaria - disse um gladiador, tirando do corpo do centurião uma lâmina longa e fina que, penetrando em despeito da couraça, lhe atingira o coração.

Uns ajudantes pegaram no cadáver e, abrindo um alçapão, arremessaram-no para um subterrâneo, onde se esmagou com um ruído surdo.

Entretanto, na maior confusão, os combates dos gladiadores prosseguiam em todos os pontos da arena. Thord e os seus companheiros desligaram rapidamente três dos cavalos e Filipe, meio inconsciente, ouviu gritar-lhe ao ouvido:

- Deixa-te ir! Deixa-te escorregar de costas!

O cavalo, ao qual o tinham atado, levou-o a galope. À saída da pista, no corredor de altas abóbadas que serviam de saída ao circo, destacaram-se dois homens e levaram-no rapidamente para uma das câmaras reservadas aos gladiadores. Depuseram-no sobre uma bancada e taparam-no com um cobertor.

- Não te mexas - disse um deles - Finge-te morto!

Na pista, os gladiadores acabavam a sua exibição.

Em grupo compacto, retiraram pela entrada da arena. Logo desceram as grades diante desta e abriram uns alçapões no solo, pelos quais deviam entrar os cristãos destinados a serem entregues às feras.

Os infelizes subiam os degraus, piscavam os olhos à luz viva e, compreendendo a sua sorte, ajoelhavam na areia e, a orar, esperavam a morte.

Ben Hur, seguido de Malluch, corria agora pelos corredores do circo. Assim, juntou-se ao grupo dos gladiadores.

- Tudo vai bem - disse Thord, ao vê-lo.

E Ben Hur soube que ele falava verdade quando ouviu o colosso soltar a sua grande risada.

Pelo clamor que veio do anfiteatro, todos souberam que as feras acabavam de ser lançadas sobre os cristãos.

Ben Hur e Malluch persignaram-se. Thord disse apenas:

- No dia em que Nero ali estiver, no meio do circo, por sua vez podes ter a certeza de que será menos corajoso do que eles - e gritou - Vamos, rapazes! Quantos feridos há entre vós?

- Cinco! - informou um deles.

- Seis! - rectificou Thord - Então, ajudai-os a sair e voltemos para nossas casas.

E fez um rápido sinal a Ben Hur, a Malluch e aos seus três companheiros inseparáveis.

Dirigiram-se rapidamente para onde Filipe os esperava, esforçando-se por permanecer imóvel, apesar do atroz sofrimento que sentia em cada um dos seus membros.

Apoderaram-se dele, enfiaram-lhe à pressa as caneleiras, a meia-couraça e o capacete de um gladiador e, amparando-o como a um camarada ferido, juntaram-se aos outros. Os guardas, habituados às saídas barulhentas que os gladiadores sempre faziam no fim dos espectáculos e conhecendo também o seu temperamento belicoso, afastaram-se para os deixar passar.

- Tens uma liteira em qualquer parte? - perguntou Thord a Ben Hur, que marchava perto dele.

- Está ali a minha!

- Óptimo. Ao voltar a primeira esquina, mete-se o rapaz dentro dela e tu leva-lo. Asseguro-te que ninguém sabe quem ele é.

Enquanto no circo, numa orgia de sangue e de clamores, pereciam centenas de homens e crianças sob as garras e as mandíbulas das feras, Filipe regressava à casa da Via de Óstia, e aos beijos de Albina.

Um médico grego, cristão, que encontrara refúgio nas catacumbas da vivenda, examinou logo o jovem. Pôde sossegar todos; os músculos foram estirados, mas maçagens regulares bastariam para os levar ao seu lugar.

Não se produzira nenhuma ruptura; a coragem, a força de Filipe e, sobretudo, a entrada precipitada de Thord e seus amigos tinham-no salvo da mais terrível das mortes.

Quando todos estavam reunidos em volta de Filipe, entrou Lino no aposento. Estava lívido, e as lágrimas corriam-lhe pelo rosto.

- Ah! príncipe, que loucura não te termos dado ouvidos! O que se passa neste momento nos jardins vaticanos ultrapassa em horror tudo quanto se pode imaginar. Eu vi, senhor, oh! vi as áleas iluminadas por altos archotes e esses archotes são cristãos atados a postes, com o corpo untado de pez e de resina. Ardem vivos, digo-vos eu, enquanto Nero passeia através da turba em trajo dourado de cocheiro. Conduz uma equipagem de quatro cavalos brancos, e os jardins estão cheios de gritos, de ulos de agonia e de fumo, e esse fumo provém da carne dos nossos irmãos! Oh, aqueles rostos! E aqueles olhos! Ah! Jesus, Jesus! Será possível?

- A vingança de Deus há-de ser terrível - disse Ben Hur.

- E já começa, príncipe. Quando Nero chegava ao fim da álea dos archotes, houve um relâmpago e um estrondo de trovão terrível. Os cavalos empinaram-se, o carro voltou-se, Nero foi arremessado ao chão, rolou ao pé dos espectadores. No entanto, sou disso testemunha, brilhavam estrelas por toda a parte e não havia nem uma nuvem no céu. Muitos Romanos viram no facto um mau presságio. Dizem que o reinado do tirano vai acabar... Mas ele continua, príncipe! Toda esta noite, ainda, vão morrer irmãos.

- De que maneira? - inquiriu Ben Hur.

- Nos jardins, fechados, vão mandar sair os que restam, trezentos ou quatrocentos, talvez, depois, durante a noite, vão soltar os animais ferozes. Nero disse, a rir, que perdoaria aos que ainda estivessem vivos ao romper do dia.

- Trezentos ou quatrocentos? - perguntou Filipe, soerguido no seu leito.

- Foi o número que me disseram.

- E concede-lhes perdão?

- Bela promessa, todos terão perecido até o romper do dia...

- Excepto se nós lá formos!

- Quem?

- Escutai-me todos! Escuta, pai! Enquanto me guardavam, antes do circo, examinei bem o local. Pela sala onde me encerraram, pode-se chegar facilmente aos jardins. Passamos por lá...

- Nunca vos deixariam chegar até aí - disse Lino.

- Porque não? - perguntou Thord - A esta hora todos os guardas devem estar mais ou menos bêbedos. Como gladiadores, temos probabilidades de passar... Diremos que somos beluários. Podemos tentar, pelo menos.

- Está dito! Quem vem? - perguntou Filipe.

- Filipe, não penses nisso! - interveio Albina - No estado em que tu estás?

- Qual estado? Nada como um pouco de exercício para levar os músculos ao seu lugar! Não é verdade, Thord?

- Ah! Príncipe! - exclamou Thord - Parece-se contigo, o rapaz!

Ben Hur, embora medindo a loucura da empresa, sentiu-se empolgar pelo entusiasmo do filho. Ouviu-se ele próprio perguntar:

- Quem vai?

- Eu! - exclamaram ao mesmo tempo Malluch, Drusus e João.

- E eu também! Visto que se trata de matar, aqui estou. Vindes, meus rapazes?

Os três gladiadores que haviam acompanhado Thord ainda não tinham tido tempo de responder, já ele concluía:

- Pronto! Cavalos e a caminho!

Benex e Anjune chegaram, trazendo armas e juntaram-se espontaneamente ao pequeno grupo.

- Eu vou convosco - declarou Lino. E como Filipe, já de pé, esboçasse um gesto, o diácono acrescentou - Não matarei ninguém, sou incapaz disso, mas poderei ao menos levar a consolação àqueles nossos irmãos que venham a morrer.

Foi assim que, a meio da noite, um grupo de doze homens, cujas couraças brilhavam, se apresentou diante do posto da guarda, às portas vaticanas.

- Salve! - disse Thord - Não há maneira de se estar sossegado em Roma! Mal a gente se deita, logo se levanta… Agora, é preciso empurrar as feras para o seu serviço! Decididamente, tem de se fazer todos os ofícios!

- Ah! És tu, o Nórdico? - disse o chefe do posto - Quem te enviou?

- Não sei nada, o correio que foi à taberna falou de Tigelino.

- Ah! Óptimo - disse o homem. E, voltando-se para os seus guardas - Deixai passar esta boa gente! Conheces o caminho, Thord?

- Não tenhas medo, rapaz!

Resmungando, o gigante tomou a cabeça do pequeno rancho.

A sala onde Filipe passara uma noite terrível estava deserta. Só alguns archotes fixos na parede ardiam ainda. Iluminavam arcas abertas, mantos e túnicas atirados para cima de bancos, a maior parte manchados de sangue. Filipe avançou para a porta que dava para os jardins. Entreabriu-a e, a meia voz, comentou para os outros o que via.

- Já não há luz nas áleas. Não há senão muito longe, nos terraços do palácio... Há multidão nesse local. O imperador deve ver o espectáculo lá de cima e deixaram andar o povo em volta dele, com certeza.

- Mas, nos bosques? - indagou Ben Hur.

- Não distingo nada. Devem ter deixado tudo à mistura, feras e vítimas.

- Bem - disse Thord - Separemo-nos em pequenos grupos, dois a dois, e isto vai. Tu, príncipe, vai com Malluch! Tu, João, com teu pai, Drusus. Eu fico com Filipe. Benex e Anjune, vão juntos. Bom! Vós dois, lembrai-vos de que sois gladiadores da escola de Thord! Quanto a ti, Norius, fica junto de Lino. Limitas-te a protegê-lo, em caso de necessidade. Agora, escutai todos: a primeira dificuldade é não ser visto. As couraças brilham ao luar, portanto, ficai sempre a coberto das árvores. O trabalho: reunir o maior número possível de cristãos, fazê-los subir às árvores. A não ser as panteras, os animais não podem saltar para os ramos. Por isso, matar primeiro aquelas. Logo que desponte a alvorada, vinde para aqui. Lino, tu podes abençoar-nos, precisa-se disso.

E, sendo o primeiro a descobrir-se, Thord, que nunca ninguém vira inclinar-se perante alguém, pôs um joelho em terra.

Lino traçou o sinal da cruz na fronte de cada um. Filipe entreabriu a porta.

- Há uma grande mancha de luar mesmo em frente.

- Então, depressa - sussurrou Thord - Dois a dois, vamos!

Por seis vezes, correram sombras na luz, entre a porta e as primeiras árvores do bosque.

Filipe e Thord, de gládio em punho, avançavam, afastando os ramos. Um grito soou muito perto deles, uma forma passou a roçá-los.

Filipe reconheceu o vulto de uma mulher que fugia, e logo a seguir ouviu a queda de um corpo pesado e o jovem viu dois olhos verdes a brilhar.

- Um tigre!

Já a fera se contraía para saltar outra vez. A mulher, incapaz de correr, encostara-se a um tronco. De mãos juntas, fechara os olhos.

No momento em que o tigre se distendia, Filipe correu para ela, sua mão direita ergueu-se brandindo o gládio. Sentiu um choque, firmou o punho, a arma foi arrastada para diante, o tigre batera-lhe com o ventre descoberto. Filipe empurrou a lâmina em sentido contrário, sentiu um líquido quente inundar-lhe o braço. A fera abateu-se sobre ele; de um salto, o jovem lançara-se para o lado. De ventre aberto, o tigre agitava desesperadamente as patas, procurando uma presa com as garras.

Thord já passava a retaguarda e, de um só golpe, abria-lhe a goela.

- Um belo golpe - disse o gigante - mas raramente resulta.

Já Filipe pegava na mão da jovem.

- Sobe aí, depressa!

Mas a cristã, meio desmaiada, não era capaz de reagir.

Thord tomou-a nos seus braços possantes e içou-a.

- Agarra-te aos ramos baixos... Reanima-te, vamos!

Espera agora, não tardaremos em arranjar-te companhia.

Nesse momento, ergueu-se um bramido de uma moita. Já Thord fazia frente. Viu o leão demasiado tarde: impossível esquivar-se. Enfrentou-o. A fera empinou-se procurando a garganta do homem. Thord sentiu no rosto o bafo do animal. As garras, felizmente, não se prenderam às dragonas de aço que o gladiador trazia.

De um só golpe, o gládio de Thord penetrou-lhe no peito, e o Nórdico revolveu-o, procurando o coração. Viu, muito perto dos seus, os olhos do leão tornarem-se vítreos, e a massa abateu-se a seus pés.

Já Filipe regressava, guiando três cristãos. Sem tomar fôlego, Thord ajudou-o a içá-los à árvore.

Foi só quando esta manobra acabou que Filipe viu o leão estendido.

- Mais um? - disse ele.

- Sim - respondeu Thord simplesmente - Espero que os outros tenham tido tanta sorte como nós.

 

O vulto de Lino vergava ao peso de Norius. O metal da couraça do gladiador feria os ombros do diácono. Mesmo assim, avançava de dentes cerrados.

No entanto, tudo começara bem para eles. Já tinham juntado mais de uma dezena de cristãos, já Lino pudera assistir a dois infelizes caídos sob as garras dos animais ferozes.

Quando um tigre fêmea saltou, agarrou-se aos ombros de Norius e, de uma só dentada, arrancou-lhe metade do rosto. Escorrendo sangue, Norius, contudo, travara um temível duelo com a fera; duelo muito breve, ao cabo do qual os dois combatentes rolaram por terra.

Quando o diácono viu o animal sem vida, precipitou-se para Norius. O gladiador tentava levantar-se.

Aproximando-se para o ajudar, Lino viu o horrendo ferimento. Pôs então Norius aos ombros, fez sinal ao grupo de cristãos para o seguir, e encaminhou-se para o compartimento de onde, pouco antes, saíra o seu rancho.

A porta abriu-se facilmente. Lino depôs o seu fardo e mandou entrar os outros.

- Não façam barulho - sussurrou ele - Há guardas do outro lado.

Debruçou-se para Norius. O gladiador ainda respirava. Com uma ponta do seu manto, Lino limpou-lhe a parte intacta do rosto.

- Lino - disse a boca sanguinolenta - dá-me o baptismo!

No meio de seus irmãos ajoelhados, Lino, alvoroçado, pronunciou a fórmula que, cinquenta anos antes, João Baptista usara nas margens do Jordão.

A mão de Norius crispou-se no braço do diácono.

- Tu verás - disse-lhe Lino, docemente - verás o Céu aberto.

A mão descontraiu-se lentamente. Lino estendeu um manto sobre a sua face dilacerada. Depois, dando por um sinal ordem aos outros para ali ficarem, voltou sozinho para os jardins.

O grupo que Ben Hur conduzia aumentava de minuto para minuto. O príncipe e Malluch tinham-se dirigido à parte mais afastada do bosque. Desde que os tinham impelido para os jardins, ali se refugiara o maior número de cristãos. As feras, já repletas pelos massacres da tarde, ainda os não tinham procurado, mas o objectivo do príncipe era exactamente o que Lino conseguira, e vinha para pôr os cristãos a salvo na sala que dava para os jardins. Alguns homens amparavam mulheres e raparigas. Os velhos tinham dificuldade em segui-los. Ben Hur vinha à frente, Malluch fechava a marcha, como aquele, de arma em punho.

Aquilo produziu-se no meio da fila. Ben Hur e Malluch ouviram um grito, um ruído de folhas agitadas, e saltaram ao mesmo tempo. A pantera deixara-se cair de um ramo sobre um dos pares. Agarrada ao dorso da mulher, com uma só dentada, quebrara-lhe a nuca. Voltava-se agora contra o homem que desajeitadamente, armado de um cacete, tentava bater-lhe.

Ben Hur e Malluch chegaram para ver o homem escorregar da boca aberta e a pantera pular para o mato. Explodiram gritos e lamentos entre o grupo; já ninguém queria avançar; foi preciso que o príncipe e o seu intendente os empurrassem para que a marcha prosseguisse. Por fim, avistaram a pesada construção de pedra e puderam lá meter a sua gente.

Agora, estava ali reunido um bom meio cento de cristãos. Dois jovens aguardavam junto do cadáver de Norius. Apoderaram-se das suas armas e disseram ao príncipe:

- Nós vamos convosco!

- Está bem - respondeu Ben Hur - procurem reunir o maior número possível de pessoas.

Quando saíam juntos, viram chegar outro grupo, guiado pelos dois gladiadores, companheiros de Thord. Um deles tinha as mãos crispadas sobre o ventre e o sangue corria-lhe entre os dedos juntos.

- Fica aí - disse Ben Hur.

- Por quem me tomas tu? - replicou o outro - É apenas um arranhão, como outros que já vi no circo! Um bom emplastro em cima e não se pensa mais nisto.

Benex e Anjune tinham adoptado outra táctica. Quebrando ramos, arancando arbustos, levantaram uma espécie de barragem circular, no meio da qual colocaram os cristãos que puderam reunir. Já umas vinte pessoas - mulheres, em sua maioria - ali se encontravam, quando se ouviram gritos. Anjune tinha-se afastado para o bosque e só Benex estava armado; correu para o local de onde vinha o ruído. Viu uma massa sombria pendurada na confusão dos ramos. Um tigre enorme olhava para o meio do grupo dos cristãos, apertados uns contra os outros.

Benex hesitou um instante sobre o partido que havia de tomar, depois, de arma erguida, pulou em frente; o salto que deu colocou-o quase às cavalitas do animal, mas o tigre voltou-se, e o gládio de Benex, em lugar de atingir a cabeça da fera pela retaguarda, mais não fez do que arrancar-lhe uma orelha.

Benex tentou desembaraçar-se, mas já as garras se lhe enterravam na carne; houve nas ramagens um redemoinhar confuso. O Gaulês agredia tanto quanto podia, mas nenhum dos seus golpes atingia o tigre em ponto vital. De súbito, o gládio escapou-se das mãos de Benex, a goela do tigre procurava-lhe a garganta; com seu braço revestido de ferro, tentou esboçar uma defesa. As mandíbulas da fera rangeram no metal. Um dos cativos, porém, vira cair o gládio; apanhou-o e, bruscamente, atingiu a fera em pleno peito. O tigre afrouxou o terrível abraço e rolou junto da trincheira de ramagens. Os cristãos arrastaram então Benex para o meio deles. O Gaulês não perdera os sentidos, apesar dos ferimentos que o tigre lhe fizera. Tentou pôr-se de pé, mas o sangue jorrava-lhe do peito, das coxas, de um dos braços. Tornou a cair.

Nesse momento, Anjune trazia para o círculo protegido um novo grupo de cristãos.

Drusus e seu filho João avançavam na obscuridade. À frente, Drusus tropeçou em qualquer coisa, no chão; baixou-se e distinguiu um corpo, mas tão dilacerado, tão esfrangalhado que não se lhe podia atribuir nem idade nem sexo. A pouca distância dali, João recuou também, horrorizado; um cadáver de mulher estava atravessado no caminho, com a cabeça separada do tronco.

Continuando a avançar, mergulhavam cada vez um pouco mais no horror.

- Foi para aqui - murmurou Drusus a João - que os infelizes devem ter sido empurrados primeiro. Duvido de que encontremos gente viva.

Alguma coisa mexeu perto deles no mato e João viu um vulto fugir.

- Espera - chamou ele em voz surda - espera! Mas a forma corria agora e João, sem reflectir, lançou-se em sua perseguição.

Bruscamente, o jovem deteve-se. Chegara ao extremo limite dos bosques. Diante dele, o prado em declive suave que vinha terminar ao pé do muro dos terraços onde se encontrava o imperador. João ficou ali, na sombra, com o coração em sobressalto; o prado era iluminado pelos últimos raios do luar; piscando olhos, o jovem avistou alguns corpos estendidos, mas o que ele via, principalmente, ao clarão dos archotes, era o grupo de cortesãos em volta da cadeira de Nero.

João sentiu-se repentinamente empolgado pelo desejo de se aproximar para ouvir, ao menos, alguma coisa. Suspeitariam eles do que se passava nos jardins? Não haveria conveniência em certificar-se de que a presença dos falsos beluários não fora descoberta?

Percorrendo o pequeno bosque, sempre ao abrigo das folhagens, João conseguiu aproximar-se da esquina dos muros. Colou-se à sombra destes e, junto das pedras, avançou brandamente ao longo da fachada até debaixo do sítio onde se encontravam o imperador e a sua gente.

- Que peste de noite esta! - disse uma voz - Prometem-nos uma bela carnificina e não se vê senão algumas feras a correr.

- Decididamente - disse um outro - os cristãos são pessoas sem espírito. Não têm sequer o bom gosto de vir morrer diante do seu imperador.

- Tendes razão, meus amigos, isto falhou! Mas, quê, nem tudo pode resultar! Entremos para jantar!

- Que se deve fazer aos que se encontrarem, divindade? - perguntou alguém.

- Se restarem alguns, façam um comboio e deportem-nos para a Grécia, para os lados de Corinto. Tenho lá um projecto, aquele canal que desejava ver abrir... Terão aí um emprego útil!

- Os teus desejos serão executados, divindade disse a voz - Logo, ao nascer do sol, tomarão o caminho de Nápoles.

João sabia o bastante; afastou-se pelo mesmo caminho, tornou a entrar no bosque e, vendo que o céu empalidecia, dirigiu-se para o local por onde tinham entrado nos jardins. Encontrou vários cristãos errantes, reuniu-os e, sem ser inquietado por qualquer fera, atingiu o seu destino, muito admirado de não ter encontrado dificuldades mais sérias.

Por três vezes, a hiena voltou ao assalto, por três vezes se sumiu no mato. Os infelizes que Drusus agrupara adoeciam de terror. Aquela fera perseguia-os como uma maldição. Esfacelara um ombro a um homem que, depois, avançava segurando o seu membro morto e perdendo sangue; arrancara uma criança aos braços da mãe e levara na boca o corpito esbracejantce; por fim, atacara um velho que, por felicidade, não fora senão muito ligeiramente arranhado.

Drusus espreitava o regresso da hiena e admirava-se de encontrar naquele jogo um prazer quase tão excitante como no decurso de outras batalhas que já travara. Era a mesma expectativa crispada, como a que se apoderava das patrulhas lançadas no interior de um país inimigo, quando ninguém sabe de onde virá o perigo nem como se apresentará.

Drusus comandara tantos pequenos punhados de homens, nas espessas florestas da Germânia, nos desertos de África ou nos pequenos bosques verdejantes da Gália, que reencontrava facilmente os gestos, as prudências, as astúcias de quem está alerta enquanto marcha.

Drusus acabava de implorar:

- Faze, Senhor, com que ela venha ao meu encontro!

Seus votos realizaram-se quando menos o esperava; um rápido frémito das ervas, e a hiena estava na sua frente. O grupo, à retaguarda, deteve-se, mudo, e Drusus, sorrindo, contemplava o inimigo.

Contraída sobre ela própria, prestes a saltar, a fera repugnante, de cheiro fétido, fitava o homem.

Quando ela saltou, por fim, Drusus ergueu o escudo que tinha no braço esquerdo. O animal chocou contra aquela parede lisa, procurou agarrar-se, escorregou e caiu.

O gládio esperava a sua passagem, rasgou o pêlo a todo o comprimento por um flanco, e foi um farrapo sangrento que rolou aos pés do antigo centurião.

Então, Drusus voltou-se para os companheiros e disse:

- Não tarda a alvorada e o fim dos nossos sustos…

O cortejo apressou-se. O homem do ombro arrancado caiu perto da hiena e ali morreu, misturando o seu sangue com o do animal.

Filipe e Thord tinham-se perdido de vista, ocupados em reagrupar os cristãos; separaram-se e não se encontraram mais.

Guiando o seu grupo, Filipe chegara perto de uma clareira; um rapazito que seguia a seu lado, garoto de uma dúzia de anos, de cara esperta, gritara de súbito, estendendo o braço:

- Olha! Ali!

Filipe distinguiu, primeiro, uma massa movediça na superfície desobstruída e, a poucos passos, uma forma branca como que amarrada a uma árvore.

- É um touro - disse o rapaz.

O animal, enorme, cabeça baixa, raspava a terra, esticando em todos os sentidos as patas anteriores.

A forma branca era a de uma mulher, cujas feições não podia distinguir, atada à árvore.

Filipe limitou-se a dizer ao rapaz, entregando-lhe o gládio:

- Segura isso!

E, lentamente, avançou para o luar que invadia a clareira.

O touro sentiu aquela presença estranha; ergueu a cabeça e, desviando-se da árvore, investiu contra Filipe. Este deu um salto de flanco, e o animal passou à sua direita, rasgando com um chifre uma prega da sua túnica.

Bruscamente, a fera deteve-se; as patas de novo rasparam o solo, mas desta vez Filipe não a deixou tomar balanço; de um salto estava na frente dela, quando se lançava para diante.

Suas mãos puderam agarrar-lhe os chifres e seu peito encostou-se à cabeça do animal.

Surpreendido, o touro sacudiu a cabeça. Filipe viu-se constrangido a acompanhar aquele movimento, mas não largou a presa.

Contraindo os músculos, dentes cerrados, Filipe procurava, por um esforço lento, inclinar a cabeça do touro. Lembrava-se das lições de Thord: a única maneira de dominar um touro é torcer-lhe a cabeça; tem-se então probabilidades de quebrar-lhe as vértebras. O animal sentiu esse movimento de torsão que o homem procurava impor-lhe. As pernas dianteiras retesaram-se, as patas cravaram-se no solo, mas, pouco a pouco, Filipe conseguira completar o seu movimento. A sua mão direita impeliu o chifre esquerdo, e o seu punho esquerdo tentava levantar-lhe o direito.

A fera soprava, roncava, e os cristãos aglomerados no limite do arvoredo assistiam, de olhos alucinados, àquela luta gigantesca entre duas sombras.

Por fim, Filipe julgou sentir a resistência do animal diminuir; reunindo toda a sua energia, fez com os braços o movimento de um homem que volta uma roda. Ouviu nitidamente alguma coisa que estalava, e o touro, de chofre, abateu-se sobre as patas traseiras. O seu impulso para diante cessou, e Filipe já não tinha nas mãos mais do que uns chifres sem força. Largou a presa e recuou um passo. O touro deitado, cabeça baixa, continuava a respirar ruidosamente. Fios de baba escorriam-lhe da boca aberta, o lombo sombrio agitava-se em tremores, mas as patas, recolhidas sob o corpo, já não se moviam.

Filipe voltou-se. O rapazito a quem confiara o gládio estava a seu lado e, sem uma palavra, olhos fitos no animal, estendeu-lhe a arma.

Filipe aceitou-lha, aproximou-se do flanco do touro e com um golpe preciso mergulhou-lhe a lâmina na espinha. Jorrou uma onda de sangue, o animal enrodilhou-se e Filipe limpou o gládio no pêlo. Os cristãos já corriam para a mulher amarrada à árvore, desatavam os laços e o vulto sumiu-se no grupo tão rapidamente que Filipe nem sequer lhe viu o rosto.

- Depressa! - disse ele - Sigam-me todos!

Assim, o filho de Ben Hur conduziu o seu grupo para o abrigo da sala.

Já lá estavam quase todos; só faltavam Lino, Ben Hur, Malluch e Thord, naturalmente.

Ouviu-se ruído da parte de fora e Filipe viu entrar seu pai, a face aberta por uma cutilada, Malluch a coxear e uns trinta homens e mulheres de aspecto desvairado.

Depois, chegou Lino, conduzindo outros cristãos.

- À parte a morte de Norius e os graves ferimentos de Benex que Anjune pôde trazer até aqui, podemos dizer que a Providência nos protegeu - disse Ben Hur.

- Benex há-de viver - disse uma voz - Os seus ferimentos sangraram muito, mas não têm nada de grave. Alguém contou quantos refugiados se encontram aqui?

- Somos trezentos e dois, senhor - disse um dos cristãos.

- Quantos éreis vós ao princípio da noite? - perguntou Malluch.

- Quinhentos, mais ou menos!

- Salvou-se mais de metade. Foi um enorme esforço - disse Lino - Príncipe, a nossa comunidade nunca te será suficientemente reconhecida.

- É a Filipe que se deve agradecer - respondeu Ben Hur - e a Thord.

- Deus queira que se possa agradecer a Thord - acrescentou Filipe.

Pela primeira vez, Thord receava um combate. Sozinho num canto do bosque, quebrado o gládio e agora inútil, sangrando do couro cabeludo até as pernas, o Nórdico esperava o embate; na sua frente, erguia-se nas patas traseiras um urso tão grande como ele, de presas rebrilhantes, garras estendidas. Havia muito tempo que se batiam um contra o outro, mas Thord não pudera aplicar o bom golpe que conseguisse abater a fera; ele acabava de escolher.

Ele, Thord, o Nórdico, o melhor gladiador de Roma, encontrava finalmente um adversário à sua altura. Não fugiria à sua frente. Estava decidido. Enfrentá-lo-ia.

O urso compreenderia inconscientemente a grandeza do momento? Avançou pesadamente, erguido nas patas traseiras, para o homem desarmado.

Thord abriu os braços, e num só impulso ambos tomaram contacto, as patas da fera sobre os ombros do homem. Este procurava desviar o rosto para evitar as mordeduras.

Seus braços, à altura dos rins do urso, estenderam-se, suas mãos juntaram-se e Thord, reunindo todas as suas forças, começou a apertar o urso contra o seu peito robusto. Ninguém viu os dois gigantes imóveis nas derradeiras sombras da noite. Permaneceram assim por muito tempo, o rosnar do urso misturado com a respiração do homem. Por fim, houve um ruído surdo como que de coisa que se parte; Thord viu a cabeça do urso oscilar, e sentiu o seu peso abandonar-se contra ele; afrouxou, então, o seu abraço e a fera, com a coluna vertebral quebrada, caiu a seus pés.

Thord soltou um grande suspiro de alívio, e as feras que ainda deambulavam pelo bosque, e as sentinelas de guarda às portas, e os beluários, que se preparavam para recolher os cristãos ainda vivos, ouviram um barulho que lhes era desconhecido, a enorme risada de Thord que subia nos ares até a aurora.

 

O ENCONTRO DE SICÍLIA

ATÉ que enfim, Thord! Chegas finalmente! - exclamou Ben Hur, ao ver surgir o gladiador - Que vamos fazer?

- Sair... Sim! Lá para fora! Ficai aí juntos, diante da sala. Toda a gente, excepto nós. Os beluários não tardam, para vos levar.

«Nós ficamos aqui, saímos ao mesmo tempo que os guardas das feras. Ninguém se admirará de nos ver sair, visto que nos viram entrar. Vamos! Fazei como eu disse!»

Os trezentos cristãos saíram, pois, para diante da sala. Realmente, os criados juntaram-se-lhes em breve e levaram-nos.

- Pobres infelizes - disse Ben Hur - Que vão agora fazer deles?

- Sei eu - disse João.

E contou o que ouvira junto do terraço do imperador.

- Dentro de duas horas na estrada de Nápoles? - perguntou Filipe.

- Deveis ter compreendido - observou Thord - Sabeis o que nos resta fazer. Sim! Não nos podemos ter batido como o fizemos esta noite, salvando essas pessoas, para as deixar levar para a deportação. Que fazer? A escolta não será importante, uma dezena de homens, o máximo. Só para mim, quero quatro. Vós todos chegareis bem para seis. Depois dos ursos, os legionários! Ah! Começo a retomar gosto pela vida! E Thord, altivamente, foi até a porta que dava para o pátio, escancarou-a, passou diante do corpo da guarda e, rindo, disse ao chefe do posto:

- Então? A noite foi boa?

- E para ti? - replicou o homem - Ah, mas dize lá - e apontava Benex, que amparava Anjune e João, e o gladiador ferido - houve desgaste!

- Com as feras, sim, meu rapaz! Vá, tudo para a cama! Espero que desta vez nos deixarão dormir!

- Tendes sorte! - disse o soldado - Para nós, missão especial! Temos de escoltar esta gente até Nápoles!

- Ah! - resmungou Thord - Vais a Nápoles? Está bem, boa viagem!

- É impossível - dizia Ben Hur.

Estavam todos de regresso à casa da Via de óstia.

- O teu plano é inaplicável, Thord.

- Inaplicável? - exclamou o Nórdico - Os dez que nós somos não chegaremos para derrotar esses patifes?

- Não quero dizer inaplicável no aspecto prático, meu caro Thord. mas no aspecto humano.

- Mas, pai - disse Filipe - não os vais deixar partir para o canal de Corinto! No estado em que estão, nunca poderão lá chegar vivos. E aqueles que resistirem, bem o sabes, em poucos dias de trabalhos forçados acabarão por morrer.

- Compreende-me, Filipe. Desejo, como tu, salvar essa gente, mas não quero o que Thord me propõe: fazer correr de novo sangue. Ora, não é isso o que tu queres, massacrar a escolta?

- Evidentemente!

- Muito bem! Resultado: dez legionários abatidos, e mais uma ocasião para Nero denunciar o perigo cristão, apresentando-nos como assassinos e de temível crueldade. Outro resultado ainda: admitindo que tudo corra bem, eis-nos, à hora do meio-dia, com trezentos cristãos para ocultar nas estradas mais frequentadas, a algumas léguas de Roma!

- Então, que fazer? - perguntou Filipe.

- Malluch, não está um dos nossos navios em Nápoles, neste momento?

- Está. Deve ter fundeado ontem.

- Quem é o capitão?

- Abraão, o mesmo que nos trouxe para cá.

- É, pois, um homem de muita confiança... Bem, manda selar cavalos; partimos, tu e eu.

- Mas, pai! - exclamou Filipe.

- Eu sei, Filipe, perguntas a ti próprio o que vamos fazer a Nápoles, e de toda a maneira desejarias estar connosco... Sobre o segundo ponto, é preferível que fiques aqui a tratares-te e a recompores-te. Eu e Malluch vamo-nos ocupar dos cristãos e fazer o que pudermos por eles. Enfim, Filipe, sossega e tu também, Thord, não haverá batalha e não correremos risco... Vamos, Malluch!

Depois dos dois homens saírem, Filipe disse em voz alta:

- Não compreendo nada disto; e tu, Thord?

- Não percebo grande coisa, mas, em todo o caso, tenho a impressão de que o velho Ben Hur despertou, que se prepara para um golpe à sua maneira. É que eu conheço-o… Bem! Visto que estamos sem trabalho, Filipe, manda dar-me alguma coisa de beber, estou a rebentar de sede.

- Trazes um escrito para me entregar?

- Não - respondeu o outro, um pouco desconcertado - Não me deram nada, disseram-me somente que viesse a Nápoles e arranjasse embarque para a Grécia.

- Entretanto, chegou um correio de Roma - disse o centurião - Pedia-se um barco e uma guarda; tenho uns vinte homens. Ah! Mas aborrece-me que não tenhas nenhum documento. Quem me certifica do número que recebeste e do número que entregas, e mesmo que são estes que tenho de embarcar?

- Escuta, é fácil - disse o homem, já inquieto com a ideia de perder tão bela ocasião de descarregar para cima de outros os trezentos presos - Trata-se de cristãos!

- Que devem ir para Corinto?

- Exactamente. Sim, sim, são todos estes, podes ter a certeza. Quanto ao número, trezentos e dois, asseguro-te, sob minha palavra... Não tenho culpa de que não me tivessem dado coisa nenhuma!

- Como é o teu nome?

- Cavinius!... … Da 21.ª legião!

- Entra a bordo, vais assinar um escrito em como me entregaste o que devias.

- Se assim o queres... Olha, centurião, POSSO mandá-los subir?

- Não te vou mandar voltar a Roma com eles... Está dito, que embarquem!

No mesmo dia, o navio largou de Nápoles, saudado com gratidão pela escolta romana. Mal saiu da baía, os cristãos foram agrupados no convés. O centurião esperava-os, de pé, numa pequena ponte, junto do homem do leme.

- Escutai todos! - disse ele - E regozijai-vos! Aqui já não são prisioneiros. Os soldados romanos que vos cercam nunca serviram Nero e é a primeira vez que envergam este trajo. Usámos este disfarce para vos subtrair à sorte que vos esperava. Este barco pertence ao príncipe de Hur, bem conhecido de vós todos. Foi ele e o seu intendente Malluch quem tudo organizou. Levamos realmente o rumo da Grécia, mas não é para vos conduzir aos trabalhos forçados. O canal de Corinto há-de abrir-se sem vós! Tenho ordem oe príncipe para vos desembarcar em Rodes. É uma ilha abençoada onde vive uma importante comunidade cristã. Aí, estareis a salvo. O príncipe de Hur compromete-se por minha boca a repatriar-vos, logo que os cristãos deixem de ser perseguidos em Roma...

Explodiu um longo clamor de alegria quando o falso centurião se calou, depois elevou-se uma fervorosa oração no barco que alcançava o alto mar.

Entretanto, Ben Hur e Malluch, que, de longe, tinham assistido à feliz largada, regressavam a Roma, ao galope dos seus cavalos.

A desordem era tal na administração romana que ninguém no palácio de Nero soube que o comboio de cristãos nunca atingira Corinto.

Contudo, a grande família cristã de Roma levou longos meses a refazer-se daquela terrível jornada de massacres. Lino, milagrosamente escapo, estava, essa noite, diante de Ben Hur.

- Príncipe, a minha vida nunca será bastante longa para me resgatar da minha cegueira... Se eu te tivesse escutado, nunca teríamos conhecido aquelas horas. Mais de três mil dos nossos teriam escapado. Tu e os teus não teriam corrido tantos perigos para salvar os que podiam ser salvos.

- De nada serve lamentar o passado - disse Ben Hur - O que importa é o futuro da comunidade. E onde está ela?

- É curioso - observou Lino - muitos novos adeptos procuram vir até nós. A atitude dos nossos irmãos, tão dignos no momento do martírio, a alegria que alguns pareciam experimentar ao morrer, impressionaram aqui muitas pessoas. Os velhos deuses de Roma já não são temidos nem respeitados e muitos espíritos se interrogam acerca desse Deus dos cristãos, que faz com que a morte já não seja temível para os que têm fé, n’Ele. Todos os dias, como sabes, há capturas. Crucificam-se, degolam-se aqueles que são presos e, no entanto, nunca recebemos tantos nas catacumbas. Foi preciso arranjar um sinal de reunião. O sinal do Peixe (1). Os nossos irmãos traçam esse sinal para se fazerem reconhecer.

 

Nota 1: - Com efeito, os cristãos adoptaram como sinal de reunião a imagem de um peixe, que se encontra nas catacumbas e por toda a parte por onde passaram. Trata-se simplesmente das iniciais da frase «Iesus Kristos THeiou Uios (Filho de Deus) Sautêr (salvador) que formam a palavra «IKTHUS», que em grego significa Peixe

 

- É uma precaução sensata - disse Ben Hur - mas insuficiente. É preciso mandar abandonar a cidade aos mais vulneráveis dentre nós.

- É o que se faz! O apóstolo Pedro deixou-nos esta manhã. Partiu para Óstia. Paulo oculta-se num refúgio seguro.

- Por seu lado, Nero vai embarcar para a Grécia. Se os boatos forem verdadeiros, bem poderia ter alguma surpresa do lado das legiões da Gália e da Espanha. Sim, Lino, creio que já passámos o pior.

Drusus entrou como um furacão.

- Ben Hur! Acabam de prender Pedro!

- Pedro? - estranhou Lino - Mas ele abandonara Roma!

- Abandonara Roma? Com certeza que não! Foi preso em pleno centro da cidade. Pregava quase sem se ocultar.

Um dos íntimos de Lino surgiu em breve e pôde contar ao pequeno grupo aterrado a incrível notícia.

- Sim. realmente. Pedro abandonara a cidade, mas, ao caminhar pela estrada de óstia, o velho viu Jesus aparecer-lhe. «Quo vadis, Domine?», teria Pedro perguntado («Onde vais, Senhor?») E a aparição respondeu-lhe: «Vou a Roma que tu abandonas, a fim de ali ser crucificado pela segunda vez!»

«Então, Pedro voltou para a cidade, sem se dissimular, compreendendo que o desejo do Senhor era que ele fosse oferecido como vítima a esta cidade.

- Já não sei o que pensar - disse Ben Hur - É, pois, preciso sangue e mártires. Então, és tu quem tem razão, Lino, e Sonius também!

- Quem pode dizer que tem ou não razão? - disse Drusus - Os caminhos que o Senhor nos escolhe escapam ao nosso entendimento. As suas vias são impenetráveis. Que seja feita a sua vontade, aqui na terra como no céu, é tudo o que temos a dizer.

O apóstolo Pedro foi crucificado em Roma alguns dias depois. Pediu ao carrasco que o fizesse sofrer a sua pena atando-o à cruz de cabeça para baixo, porque o velho apóstolo achava-se indigno de morrer da mesma maneira que morrera Jesus (1). Pouco tempo depois, Paulo foi preso por sua vez. Como era cidadão romano, decapitaram-no. Onde a sua cabeça caiu, diz-se que jorrou uma fonte milagrosa.

 

Nota 1: - O corpo de S. Pedro, sem dúvida martirizado no circo de Nero, foi, segundo toda a verosimilhança, sepultado muito perto dali. Foi nesse local que se construíram as basílicas vaticanas e foi sob os alicerces da actual São Pedro de Poma que se encontrou, há poucos anos, um túmulo que é certamente o do Apóstolo.

 

Entretanto, o número de cristãos aumentava incessantemente em Roma e Lino foi proclamado papa, senhor da Igreja, e o primeiro sucessor de São Pedro.

Nero saíra de Roma para a Grécia, a fim de fazer ouvir a sua voz «ao povo mais musical e mais artista do universo, e para que na terra de Apolo ecoasse o seu triunfo».

As perseguições continuavam, mas o amo estava ausente e, com ele, o cruel Tigelino. Os funcionários abstinham-se de um zelo excessivo.

Filipe estava agora quase restabelecido e a casa da Via de óstia ficara para os cristãos o mais seguro dos asilos.

Foi aí que, uma manhã, chegou um correio do porto de Óstia.

- Uma carta ditada por Simónides - disse Ben Hur.

Querido filho - dizia o velho - graças ao Senhor, tua família e a de Drusus passam muito bem em Cesareia, mas os acontecimentos que se verificam neste momento em Jerusalém são inquietantes. Por mim, desejo ardentemente poder falar contigo antes de deixar este mundo, o que não deve tardar, pois sabes a minha muita idade e todas as manhãs me admiro de Deus me deixar cá em baixo por mais um dia. Vem, pois, se puderes, à terra dos teus avoengos.

Simónides.

Vinha outra carta pelo mesmo correio; era de Ester. Explicava a seu marido que suas duas filhas e a de Drusus eram procuradas por jovens de família respeitável e que parecia necessário que Ben Hur e Drusus fossem a Cesareia para ouvirem o seu pedido e dizerem se consentiam nos casamentos. E Ester terminava assim:

Se o serviço do Senhor to permitir, querido Ben Hur, volta para junto de nós. Cada minuto longe de ti é mortal para aquela que nunca deixou de te amar tão ardentemente como no primeiro dia. Tua, Ester.

Consultado, Drusus depressa decidiu sobre o que tinha a fazer.

- Meu caro Ben Hur, explica a Tirzah e à minha filha que neste momento me é impossível deixar Roma. Tudo se agita na corte e no exército, na ausência do imperador. As mortes de que Nero se tornou culpado, a de Séneca, a de Petrónio, a de tantos generais e senadores célebres, o desastre acontecido a Popeia e que provocou o seu desaparecimento, tudo isso constitui outras tantas acusações contra ele. Vindex, na Gália, Galba em Espanha, como sabes, não aguardam senão um sinal para se revoltarem. Por Alemius, que me escreveu de Espanha, sei que não devo abandonar Roma, mas preparar-me para me colocar de novo à frente de uma legião. É talvez para nós a oportunidade de nos desembaraçarmos desse monstro que nos governa há mais de doze anos. Não posso eximir-me ao que considero meu dever, meu dever de soldado e de Romano. Mas tu, Ben Hur, nada te retém aqui por agora. Vai a Cesareia, resolve o melhor possível os assuntos das nossas famílias. Minha filha obedecer-te-á como a mim próprio. Porque não levas Filipe e a sua noiva Albina? João ficaria aqui, comigo.

Albina recusou-se a abandonar Roma na ausência de seu pai, apesar do desejo que tinha de seguir Filipe. Também considerava de seu dever não deixar a Itália.

Vendo o desgosto que seria para Filipe o separar-se de sua noiva, decidiu Ben Hur, por fim, partir só com Malluch. Os dois homens apanharam um dos navios da Companhia dos Hur em Óstia e embarcaram para a Judeia.

- Os ventos são propícios - disse o mestre do barco - Se continuarem a soprar assim de noroeste, não gastaremos mais de sete a oito dias para atingir Cesareia.

- Malluch - disse Ben Hur, no momento em que o navio percorria as costas de Itália, com rumo ao Estreito de Sicília - Malluch. eu parto pouco tranquilo.

- Que receias de Filipe?

- Dele, nada, mas receio a impaciência da pequena Albina. Adapta-se mal à vida de clausura que observamos em nossa casa. É uma jovem habituada a Roma, às visitas, aos encontros de amigos. Ora, seu pai é duas vezes suspeito, por ser cristão, evidentemente, mas também por pertencer aos exércitos de Galba. Tigelino não pode ignorar que o cônsul das Espanhas prepara a queda do imperador! Uma imprudência, uma saída do seu refúgio, bastará para perder Albina.

- Senhor, Filipe saberá contê-la!

- Deus o queira!

- Ah! Esses jovens já são maiores. Não hão-de ter sempre junto deles um pai como tu. Na sua idade, senhor, estavas só...

- Tinha-te a ti, meu caro Malluch. Tinha os conselhos de Simónides. É verdade que nunca os seguia. Oh! Tens razão, a mocidade deve viver por ela e não é certamente torná-la muito forte protegê-la sem cessar contra ela própria. Mais vale que aprenda a lutar, mesmo à sua custa!

- Viremos decerto encontrar João casado!

- Assim o crês?

- Sim! Ele e a pequena Aclis adoram-se; e Drusus cederá certamente muito depressa. É muito boa rapariga e muito linda. Também demonstrou ser corajosa. Sabe-se alguma coisa da sua origem?

- Falei nisso a Gestão. Nada sabe, a não ser que é Gaulesa, mas veio para Roma como escrava ainda criança. Já não tinha pais. Ela própria não se recorda de nada. No entanto, o porte, a graça, militam em seu favor. Tenho a sensação de que não provém de uma família vulgar. Aliás, isso pouco importa.

- Julgas isso? Se o reinado de Nero acabar e Drusus retomar o comando, os amigos hão-de aconselhar para seu filho um partido rico. Hão-de querer casar João com uma jovem patrícia de Roma e, nesse caso, a pequena Aclis depressa será esquecida.

- Esqueces-te de que Drusus é cristão, Malluch.

- Não me esqueço nada. Mas sei que os homens são assim. O sofrimento e o medo os reúne; a glória e a fortuna os afasta, e depressa retomam os hábitos da sua casta. Aconselhei João a casar com Aclis o mais depressa possível!

- Ah, sim?

- Sim! Creio que é a única maneira que eles têm de passar a sua vida juntos.

- Não sabia, Malluch, que essas questões te preocupavam.

- Bem sabes, senhor, que tudo que vos toca de perto me preocupa.

- É verdade, caro Malluch!

- Aproximamo-nos do estreito - anunciou o capitão - Em seguida, faço rumo a Creta?

- Não sei onde está Nero presentemente. Não me convém fundear ao lado das suas galés num porto. Podes evitar essa escala e singrar directamente para Cesareia?

- Com este tempo, muito facilmente, senhor!

- Então, vamo-nos embora!

- Timoneiro, depois do estreito, rumo directo à Judeia!

Na sexta tarde de navegação, quando o navio de Ben Hur acabava de passar ao largo de Creta, o gajeiro, que velava no mastro grande, anunciou:

- Numerosos barcos na nossa rota!

Com efeito, em breve se avistaram da ponte umas vinte velas à esquerda.

- É uma frota de guerra, com certeza - disse o capitão.

- Sim - confirmou Ben Hur - é uma frota romana. Há capacetes dourados no topo dos mastros.

Os vultos surgiram mais nítidos e os homens viram distintamente três filas de remos.

- Triremes! Deve tratar-se de alguma personagem importante - disse Malluch.

- Em todo o caso, observam péssima ordem de marcha - respondeu o príncipe - Repara, capitão, naquela que vem à frente, está quase bordo a bordo com a outra, à esquerda. Na velocidade em que vêm, aquilo não é razoável.

As galés aproximavam-se cada vez mais.

- Vira o leme a estibordo - ordenou o capitão ao timoneiro - aquela gente vem abalroar-nos!

Nesse preciso instante, o pessoal da galé almirante viu sem dúvida a pequena embarcação e a pesada massa desviou-se bruscamente para a esquerda. Ouviu-se um estalido violento e um concerto de gritos elevou-se acima das ondas. Os remos deixaram de bater e caíram na água. As duas galés da frota romana abalroaram em plena marcha. Viram-se homens a correr nas cobertas, na maior confusão. A galé almirante, bruscamente detida no seu impulso, parou, enquanto a outra continuava avançando. O seu bordo roçara a proa arrancada da que ostentava a flâmula grande. Por fim, desembaraçou-se e Ben Hur viu os estragos na primeira.

- Vão afundar-se! - bradou ele - Preparai-vos para o salvamento. Aproxima-te deles, capitão!

Pela larga brecha aberta na proa, a água entrava a jorros no barco romano; começaram a saltar para a água homens desvairados. Um pequeno barco, descido à pressa à água, voltou-se ainda antes de atingir o mar. O navio inclinava-se cada vez mais para a frente. Ouviam-se gritos dos galerianos presos por cadeias aos seus bancos e que viam a água subir até eles.

Oficiais, que se reconheciam pelas suas grandes capas vermelhas, juntaram-se no convés do lado da embarcação de Ben Hur. Este aproximava-se, e já os marinheiros atiravam fateixas e cabos que os náufragos disputavam. Depressa, o grupo de oficiais chegou ao alcance de voz. A galé continuava a afundar-se de proa. Era evidente que desapareceria dentro em pouco.

- Saltai! - gritou Ben Hur - Saltai!

E mostrou as cordas que se preparava para lhes arremessar. Os oficiais decidiram-se. Atiraram-se à água, um a um. Ben Hur e os seus homens viram-nos aproximar-se no momento em que a galé, erguendo a popa para o céu já cor de malva, desapareceu num enorme redemoinho.

Ben Hur avistou então um rosto crispado. Era o de um homem já idoso e Ben Hur julgou bruscamente tornar a ver Quintus Arrius prestes a afogar-se durante o combate naval em que o príncipe, então galeriano, o salvara. Era a mesma face violácea, a mesma boca desesperadamente aberta, os mesmos olhos a saltar das órbitas. Ben Hur ergueu-se sobre a amurada e saltou para o mar. Nadou rapidamente até o homem; teve de mergulhar por duas vezes para descobrir a sua sombra na água; tornou a subir, por fim, segurando na mão o manto do oficial. Malluch lançou-lhe uma corda, Ben Hur agarrou-a com a mão livre. Instantes depois, ambos içaram o homem prostrado para bordo. Neste meio tempo, as outras galés, remos ao alto, tinham parado. Pequenos barcos, que se tinham afastado delas, depressa se encontraram em volta do navio mercante. O oficial da frota, lívido, trémulo, subiu a bordo.

- Onde está o cônsul? - perguntou ele - Está salvo?

O homem que Ben Hur salvara, e que tinham estendido ao pé do mastro, soergueu-se sobre um cotovelo e disse:

- Estou aqui!

- Louvados sejam os deuses! - disse o tribuno das galés - Vós, aí, ajudai o cônsul a embarcar numa canoa.

- Isso, não! - opôs aquele a quem chamavam cônsul - As tuas galés são muito mal dirigidas, e parece-me que estes homens são melhores marinheiros do que tu. Regressa a bordo e fecha-te num canto, Lusius, passa o comando ao teu segundo, que talvez seja mais competente. Cá por mim, quero continuar a viagem neste barco.

- Mas, senhor, é menos rápido do que as vossas galés!

- Talvez, mas parece mais seguro! Quanto às galés, que afrouxem o andamento. Os homens que remem mais lentamente, eis tudo... sentir-se-ão mais felizes com isso! Ide! - disse ele ainda - Ide-vos embora e deixai-me!

Houve murmúrios, tentativas de exortação para persuadir o cônsul a juntar-se à sua esquadra, mas embateram sempre na sua recusa. Foi, pois, com aquele estranho passageiro a bordo que se acenderam as lanternas e que, seguido de dezanove galés armadas para a guerra, o pequeno navio de Ben Hur retomou a sua rota.

Ben Hur observava o seu novo passageiro. Era um homem de mediana estatura, de um físico assaz banal. Parecia ser pouco mais ou menos da idade do príncipe.

O seu rosto era esquisito. As feições pareciam fixas numa espécie de crispação. No entanto, essa rigidez era desmentida pela doçura um pouco irónica do olhar e pela muito grande urbanidade que o homem imprimia à sua palavra.

- Manda a delicadeza apresentar-me - disse o cônsul - Sou Vespasiano, da família Flávia.

- Sou Judeu, cidadão Romano e príncipe de Hur - disse Ben Hur.

- Já ouvi o teu nome. Meu filho Tito serviu sob as ordens de um dos teus parentes, creio eu, o tribuno Drusus!

- Com efeito, é marido de minha irmã. Deixou o serviço.

- Quê! Ele também? É curioso o número de pessoas que abandonam o serviço neste momento, e é curioso também o número daqueles que, tendo deixado o serviço, deixam ao mesmo tempo a vida. Isto tinha de me acontecer. Parece que o meu grande crime foi adormecer quando Nero cantava. Isso desagradou-lhe. Preferi abrigar-me numa casa discreta das ilhas gregas, mas este reinado é muito estranho e tudo é inesperado. Há três dias, vejo chegar uma numerosa escolta. Disse para comigo: «Vespasiano, eis a hora de ser digno», e já perguntava a mim mesmo com que molho o lobisomem me comeria. Nada disso! Nero mandava-me buscar para me entregar o consulado da África.

- Da África?

- Sim, todo o exército do Oriente; houve incidentes, ao que parece, em Jerusalém. Os teus correligionários revoltaram-se, o tribuno Gestius Florus foi massacrado, as tropas do cônsul da Síria, Gestius Gallus, foram mesmo repelidas e como Nero mandou assassinar, há semanas, o seu único bom general, o bravo Corbulon, esqueceu-se de que eu adormecia aos seus cânticos e até me concedeu a honra de me dar esta frota tão incomodativa como perigosa.

- O que me dizes, Vespasiano, enche-me de inquietação. Eu volto a Cesareia para ver os meus.

- A Cesareia? Oh! Nada têm a recear, a guarnição romana aguentou-se; é aí, aliás, que vamos desembarcar.

- Mas tens contigo um exército poderoso?

- Sê-lo-á quando meu filho Tito e eu nos reunirmos. Partiu por seu lado para avançar com as tropas da Síria. Ao todo, ao exército actual da Judeia vão juntar-se duas legiões, oito alas de cavalaria e uma dezena de coortes.

- Mas como sucedeu essa revolta?

- Ah, príncipe, pedes-me demasiado! Não conheço nada das circunstâncias e sei apenas os resultados.

- Partilharás da nossa refeição, cônsul? - perguntou Malluch.

- Com alegria, palavra, se teu amo me convidar.

- És bem-vindo, senhor.

- Menos do que tu o foste, ainda agora, asseguro-te. Parece muito desagradável morrer afogado.

Sentaram-se ao abrigo de um toldo e o repasto principiou.

- Vens de Roma, príncipe?

- Partimos há seis dias.

- Como estavam as coisas por lá?

- Podes imaginá-las facilmente. Respira-se, porque Nero está na Grécia, mas teme-se o seu regresso. O descontentamento lavra por toda a parte, nas famílias nobres dizimadas pela matança, e no povo oprimido pelo imposto.

- Sim, sim, eu sei!

- Diz-se que Vindex na Gália e Galba em Espanha poderão entender-se para imporem uma solução militar.

- Ah! Vindex é corajoso mas pouco prático. Quanto a Galba, não desejo para os Romanos semelhante amo. Só o dinheiro o interessa... Aliás, a mim, também o dinheiro me seduz bastante. Mas, dize-me, que história é essa dos cristãos que me contaram?

- É um problema muito especial e confesso-te que não posso falar nele com calma.

- Ah! Livra-te tu de não me falares dele. Na Grécia, soube o que julgo de essencial na sua doutrina. É muito belo, muito generoso, demasiado sem dúvida para o governo dos homens.

- Mais de três mil cristãos foram ultimamente massacrados em Roma. Foram para o suplício a cantar.

- Uma maneira como qualquer outra de cobrar coragem, não?

- Creio que não! Eles sabem, vê tu, que há outra coisa depois desta vida terrestre e que um dia, tal como o fez Jesus, cada um ressuscitará dentre os mortos.

- E tu acreditas, Ben Hur?

- Sim, acredito, tenho a certeza!

- Olha bem para mim!

Vespasiano contemplou o príncipe, por um momento, e concluiu depois:

- Tens o ar de um homem razoável e honesto... Invejo-te.

Na manhã seguinte, quando se aproximava das Costas da Judeia, o cônsul condescendeu em regressar a uma das galés imperiais.

- Vamos tornar a ver Cesareia, não é verdade, príncipe de Hur? Não hesites, peço-te, em confiar-me tudo o que possa apoquentar-te. Sou-te devedor de muito, se acaso a vida de um cônsul de Roma vale alguma coisa nos tempos em que estamos.

«Seriamente, terei prazer e, com certeza, proveito em tornar a ver-te. És judeu, amas o teu país, é justo; e eu detesto fazer correr sangue inutilmente. Talvez possamos encontrar alguma solução razoável, sem ser por meio de guerras e combates.

- Vespasiano - replicou Ben Hur - para isso, podes contar comigo, absolutamente.

De tarde, chegaram à vista de Cesareia. Vespasiano teve a elegância de mandar alinhar as galés e deixar entrar primairo, no porto, o navio que o recolhera. Uma multidão considerável guarnecia os molhes, mas o capitão, singrando ao longo dos cais, foi deter-se no porto comercial, diante da casa de Simónides. Ben Hur, olhos embaciados, via precisarem-se aqueles muros ocres, aquele pequeno terraço protegido por uma lona de largas riscas de cores: era ali que ele encontrava Ester, ali que muitas vezes à noite, com Simónides e o mago Baltasar, conversavam acerca daquele Nazareno que fazia milagres, desde Nazaré a Tiberíade.

De súbito, Ben Hur ergueu os braços; no terraço acabava de aparecer um vulto ao sol poente: era o de Ester.

Ben Hur não reconheceu logo suas filhas. Deixara crianças e eram jovens que o cercavam. Maria, a mais velha, de tez muito morena e cabelos castanhos, lembrava Ester quando era nova. Salomé, mais pequena, menos sorridente, feições delicadamente desenhadas, lembrava a Ben Hur, simultaneamente, a tenacidade de sua mãe e a prudência de Simónides. Este esperava à porta da casa; tinham-no trazido até ali e, na sua cadeira que ele não podia abandonar, espreitava com seus olhos mortos o barco que se aproximava.

Quando Ben Hur se ajoelhou diante dele, a mão do cego pousou na sua cabeça e Simónides disse, em voz estrangulada:

- Sejas louvado, Senhor, por toda esta felicidade que me dás. Oh, meu Ben Hur, nem podes saber como é grande a minha alegria. Sonhei tanto com este instante e tive tanto medo de não viver neste mundo... Mas vai, não quero ser egoísta, vai, falaremos amanhã.

- Mas, pai. asseguro-te que...

- Não! Tuas filhas e tua mulher estão muito mais impacientes do que o velho que eu sou. Vai, sei agora que estás aqui, ouvirei os teus passos na casa, o eco da tua voz. Mais não é preciso para que me sinta em paz.

- Malluch está aí, pai - disse Ben Hur.

- Oh! Fizeste bem em trazê-lo. Aproxima-te, meu caro Malluch... Abraça-me. Tu, meu pobre Malluch, tu não tens mulher nem filhos a visitar... Então, vem comigo, contar-me-ás o que por lá se passou e será como se meus olhos o tivessem visto!

- Ester! - disse Ben Hur, quando se recolheram ao seu quarto - Ester, tu deves julgar-me mal. Uma ausência tão prolongada e notícias tão irregulares!

- Sei o que fazias em Roma - respondeu Ester - Tão-pouco alguma vez te julguei; esperei-te simplesmente, pedi todos os dias ao Senhor que te protegesse e te trouxesse aqui. Sonhei contigo, Ben Hur, constantemente e de todas as maneiras. Assim, estavas aqui, à mesma.. Oh! E não sei mais. Não sinto vontade de te contar tudo isso esta noite; tenho vontade, sim, de estar contigo, e é tudo.

No dia seguinte, ao alvorecer, chegaram Tirzah e sua filha Paulina. Tinham passado uns dias no campo, em casa de um parente, e bastara um correio anunciar-lhes a chegada de Ben Hur para elas logo correrem a Cesareia.

- Porque não veio Drusus? Porquê? - repetia Tirzah.

Ben Hur explicou detidamente a sua irmã os motivos que levaram seu esposo a não deixar Roma, mas sentiu que todas essas belas razões não comoviam Tirzah.

Apresentaram ao príncipe os pretendentes das três jovens. Ben Hur dispensou particular atenção à escolha feita por Paulina. Drusus dera-lhe a liberdade de ajuizar sozinho e ficaria desolado, caso surgisse alguma dúvida, se tivesse de opor-se aos desejos de sua sobrinha.

Depois de ter visto Cardius e de conversar com ele, ficou perfeitamente sossegado.

Cardius era belo, rosto aberto e espírito agradável. Centurião, pertencia a uma respeitável família de Roma. Pensou Ben Hur que este partido não desagradaria a Drusus e o jovem retirou-se cheio de esperança.

A filha mais velha do príncipe, Maria, falou longamente a seu pai acerca de Samuel, que considerava seu noivo. Era judeu. Órfão muito novo, tomara a seu cargo as ocupações do seu progenitor. Ben Hur conhecera muito bem Samuel, pai, que construía barcos nos estaleiros de Cesareia; todas as embarcações da Companhia dos Hur foram feitas na sua casa. Ben Hur, na visita que fez à casa dos Samuel, depressa compreendeu que as mesmas qualidades de coragem, de paciência e de gosto pelo belo trabalho que apreciara no pai se continuavam no filho, e aprovou plenamente a escolha de Maria.

Quanto a Salomé, visava menos alto na escala social e pediu simplesmente a seu pai que a deixasse desposar o grego Athenógenes, empregado no escritório de Simónides. Este, consultado, declarou a Ben Hur que o rapaz, apesar de ser muito novo, possuía notáveis qualidades para o comércio.

- Será capaz de em pouco tempo - ajuntou ele - dirigir o nosso negócio sozinho. É ao mesmo tempo prudente e ambicioso, muito circunspecto e muito empreendedor, como é necessário nesta profissão. Olha, ele tem uma espécie de presciência do que é preciso fazer e não fazer; com ele, terás a certeza de que a tua frota continuará a arvorar o pavilhão em todo o Mediterrâneo.

Os três jovens pertenciam à comunidade cristã de Cesareia. Não se levantava qualquer problema de religião. Ben Hur não teve senão que louvar a sensatez de Ester e de Tirzah por terem sabido orientar suas filhas.

Havia sorrisos em todos os rostos em casa de Simónides, quando Vespasiano ali se apresentou. Aliás, veio sem escolta, como um simples visitante.

- Sinto-me apoquentado - disse o cônsul - por vir perturbar expansões familiares, mas tenho grande necessidade de ti, caro Ben Hur!

- Poderias mandar-me chamar ao palácio, Vespasiano!

- Não, venho pedir um conselho. É, pois, a mim que compete deslocar-me. Permites que mande entrar um homem que me acompanha?

- Procede como te aprouver.

O que entrou inclinou-se perante o príncipe.

- Senhor - declarou ele - meu pai conheceu-te bem. Sou filho de Anás, grande sacerdote de Jerusalém, e meu nome é Simeão.

- Realmente, conheço muito bem Anás - disse Ben Hur - Está em Jerusalém neste momento?

- Este rapaz vai explicar-te o que sucedeu - interveio Vespasiano.

- Um momento - pediu o príncipe - Se devemos falar do que se passou nestes últimos anos em Israel, desejaria que o fizéssemos diante de Simónides, meu sogro. É o homem mais sensato que conheço e relacionou-se com todos os teus, Simeão, há três gerações.

Foi, pois, diante de Simónides, Ben Hur e Vespasiano que o jovem falou:

- Primeiro, perdoa-me, príncipe, se ofendo as convicções que sei serem as tuas, mas o cônsul deseja que te seja feito um relato fiel.

- Prossegue e não receies que me ofenda.

- Quando deixaste o país, príncipe, sabes que numerosas seitas se levantavam contra os cristãos. Aliás, lutaste contra elas. Já os espíritos estavam extremamente tensos, os Fariseus tinham-se tornado Zelotas e alguns não queriam reconhecer outra autoridade senão a de Deus. Contra a opinião de meu pai e de meu avô, que o precedera no pontificado, criara-se uma seita, a dos Sicários. Absolutamente fanáticos, não hesitaram em servir-se do bordão e depois do punhal. Atacavam os cristãos, sem dúvida, mas também os pagãos, os Samaritanos, os Judeus da aristocracia. Foi pouco mais ou menos nesse momento que se divulgou uma profecia.

- Sim - interveio Simónides - ela chegou atrasada umas décadas. Anunciava que um homem da nossa raça ia dominar o mundo.

- Mas isso está em todos os livros dos profetas - disse Ben Hur.

- Sem dúvida - concordou o velho - Aliás, lembra-te de como, no momento da vinda de Jesus, analisámos juntos todos os livros. Tu também acreditavas que esse Messias deveria ser um amo real, um rei reinando no mundo.

- Foi Baltasar que primeiro nos abriu os olhos para a verdade do reino. Lembro-me da noite em que ele nos disse aqui: «Não é sobre os corpos e sobre os reinos que ele reinará, mas sobre as almas e os corações». Simónides tem razão e, como sabes, Simeão, esta profecia não era nova.

- Talvez, mas fez com que as violências redobrassem. Então, meu pai tentou pôr-lhes termo. E como consegui-lo senão destruindo os cristãos? Fora a sua crença que semeara a discórdia na nossa religião. Se eles desaparecessem, restabelecer-se-ia a unidade.

- E foi, Simeão, quando soube que Anás, teu pai mandara sacrificar Iago, apóstolo de Jesus.

- Sim, é uma história bastante triste. Primeiro, quis obrigá-lo a abjurar, forçá-lo a dizer que não adorava senão um só Deus, o dos nossos pais...

- E que ele renegasse Jesus?

- Iago recusou-se. Então, quiseram fazê-lo subir ao cimo do Templo, continuou a recusar-se...

- E atiraram-no dali abaixo - ajuntou Simónides - E como não morreu, a turba delapidou-o, e como ele não reagisse, foi um apisoador quem o acabou com grandes pancadas de maça. Poderás admirar-te, Simeão, de que todo esse sangue recaia na cabeça de teu pai?

- A execução era ilegal, é certo; mas meu pai foi ultrapassado pela violência da turba. Em consequência disso, depuseram-no do seu pontificado.

- Em seguida - prosseguiu Simónides - vieram os procuradores Albino e Gessius Florus. Estes, devemos dizê-lo, com a sua brutalidade, com a necessidade que tinham de adquirir cada vez mais dinheiro, portanto, de perseguir cada vez mais o nosso povo, provocaram o irreparável. Jerusalém revoltou-se, a batalha foi dura, a torre Antónia ardeu e o palácio de Herodes com ela. Os defensores romanos foram massacrados. Teu pai, Anás, e o grão-sacerdote que lhe sucedeu foram mortos pelos Zelotas. Por toda a parte, a desordem e o terror. Herodes Agripa II tentou enviar tropas, estas foram batidas. Os revoltosos estão encerrados em Jerusalém, cunham moeda com a inscrição: Ano 1.º da Liberdade, e quem não é seu amigo, morre. Eis no que estamos.

- Sim - disse Vespasiano - eis no que estamos! Agora, dize-me tu, Ben Hur, que é preciso fazer? Será necessário batermo-nos? Pode-se tentar discutir com essa gente?

- Nenhuma discussão é possível com fanáticos como aqueles - disse Simeão.

- Quem os comanda? - indagou Ben Hur.

- Julga-se que são dois: um tal João de Giscala e um outro, chamado Simão Bar Giora.

- E então? - perguntou Vespasiano.

- É sempre preciso regular os diferendos em paz - disse simplesmente Ben Hur - Essa, Simeão, é a grande lição, aquela que teu avô e teu pai não quiseram ouvir. Para se saber se se pode chegar a um acordo, só há uma solução: Ir falar com esses homens.

- Disseram-me que um Romano nunca atingirá as portas de Jerusalém - disse Vespasiano - que será massacrado muito antes, sem que possa fazer-se ouvir.

- No estado em que os espíritos se encontram, pode ter a certeza disso, senhor - concordou Simeão.

- Com efeito, um Romano decerto não entrará na Cidade Santa - disse Ben Hur - Vespasiano, eu sou judeu, não tenho nenhuma vergonha disso, pelo contrário. Tenho grande orgulho de ter nascido no seio de uma raça que é eleita de Deus, na qual Ele preferiu fazer nascer o seu Filho. Como Judeu, e sabendo o que sei do procedimento das legiões neste país, até hoje, deveria apoiar a luta dos meus e não pensar senão numa coisa: matar o maior número possível de Romanos... Era exactamente o que teria pensado e feito antes...

- Antes de quê?

- Sim, antes d’Ele, antes de ouvir a Palavra do Nazareno... Agora, já não posso raciocinar e proceder da mesma maneira. O Amor que Ele revelou aos homens é universal. Dirige-se a todos, quer sejam Judeus, quer Romanos, Gregos ou Persas. Se se quiser viver segundo a sua Lei, já não se deve ser apenas judeu ou apenas romano, ou somente grego ou somente persa. É preciso tentar compreender e amar todos os outros homens; e que melhor maneira de os amar do que impedi-los de se matarem uns aos outros? Assim, Vespasiano, não procures mais. Sou eu quem vai falar aos revoltosos. Amanhã, parto com Malluch para Jerusalém.

- Vão matar-te, príncipe! - exclamou Simeão.

- E depois? Não passa de um risco. As tropas romanas estão a chegar com reforços, Jerusalém destruída e milhares de cadáveres? Vale bem a pena arriscar a vida por isso!

- Ben Hur - disse Vespasiano, levantando-se - Se um dia eu reinar em Roma, serás meu ministro. Há apenas uma coisa: é que não tenho nenhuma probabilidade de reinar em Roma!

- Julgas isso? - murmurou Simónides.

 

E LEVANTAR-SE-ÂO FALSOS PROFETAS...

BEN HUR e Malluch deixaram o porto de Cesareia, ao romper da manhã, pela pista de sudeste. Os dois homens não falavam; tomava-os uma comoção que nenhum deles confessava ao outro. Aquelas paisagens familiares, que tantas vezes haviam percorrido antes da sua partida para Roma, recordavam-lhes tantas horas difíceis ou felizes!

«Novas provações começam para o nosso povo» pensava Ben Hur.

O príncipe não pesara os riscos da empresa. Se houvesse a mínima probabilidade de evitar a guerra no seu país, devia aproveitá-la. Era tudo.

Passaram uma barragem romana, apenas a algumas léguas de Cesareia.

- Somos os últimos no trajecto - disse o oficial que a comandava - Depois, não há mais tropas. Não respondo pelo que vos possa suceder!

- Não te preocupes - disse o príncipe - Os nossos mandatos estão em ordem. Fizeste o teu dever.

Sob o calor que aumentava, o campo estava deserto. Não se viam, como era costume, grupos de camponeses nos campos, aldeões caminhando atrás dos seus jumentos pela estrada. As aldeias brancas e poeirentas que atravessavam pareciam vazias, mas as gelosias de madeira fechadas das casas indicavam que as pessoas se entrincheiravam lá dentro, ameaçadas pelos bandos irregulares Judeus e pelas patrulhas de Roma.

- Olha - disse Malluch - Fogo numa colina, à direita.

Ben Hur viu realmente um fio de fumo que subia do topo de uma massa de rochas.

- Outro, além!

Por várias vezes, avistaram fogos, que pareciam precedê-los.

- Vigias - disse Ben Hur - Sem dúvida, dão sinal da nossa ida... Não tardaremos a vê-los.

Foi um pouco antes de Antipátride, numa volta do caminho, que de facto os encontraram. Uns trinta homens vestidos de túnicas escuras barravam o trajecto. Detendo o seu cavalo, Ben Hur voltou-se. Formara-se outro grupo atrás deles, saindo das ravinas e das moitas; o perfeito tipo da emboscada.

Ben Hur indagou:

- Quem é o chefe, aqui?

Manifestou-se uma certa hesitação na turba. Aparentemente, aqueles homens esperavam interrogar e não ser interrogados.

- Sou eu! - disse, por fim, um homem.

- Chamo-me Ben Hur e sou príncipe de Jerusalém. O meu companheiro é Malluch, vamos para a Cidade Santa. Quero encontrar-me com João de Giscala e Simão Bar Giora. Podes mandar-me guiar até eles?

O que dissera ser o chefe hesitou; era evidente que nenhuma ordem lhe fora dada para responder a uma pergunta daquela espécie. Um dos homens mais velhos que ali se encontrava avançou e disse:

- A Paz do Senhor seja contigo, Ben Hur. Conhecia o teu nome, e as tuas façanhas são célebres aqui. Queres apear-te e partilhar connosco o pão e o vinho?

- Da melhor vontade! A Paz de Deus seja com vós todos!

Os dois companheiros aproximaram-se do grupo e sentaram-se nos rochedos à sombra dos pinheiros.

- Então? Que podes tu resolver? - indagou o príncipe.

- Não tenho poderes para te mandar acompanhar à Cidade Santa - respondeu o chefe - Devo somente deter todos os que circulam por aqui e não são dos nossos.

- Envia um correio a João e a Simão. Ele que lhes diga que o príncipe de Hur quer encontrar-se com ambos. Esperamos aqui, convosco, a sua resposta.

- Falaste sensatamente - disse o velho - Faze o que o príncipe te pede, Aphnet. Assim, respeitas as ordens.

Foi preciso esperar todo esse dia, depois toda a noite e ainda metade do dia seguinte. Durante essa demora forçada, Ben Hur, falando com aqueles homens da sua raça, descobriu facilmente os seus rancores. Odiavam os Romanos que tinham pilhado, roubado, expoliado, sem vergonha, o seu país; isso sabia-o Ben Hur. Também sabia, por tê-lo experimentado à sua custa durante toda a sua mocidade, que Roma não enviava um escol de soldados nas legiões de África.

Se os cônsules fundavam cidades, mandavam abrir estradas, saneavam regiões, tornavam férteis territórios inteiros, os seus homens, na maior parte das vezes entregues a eles próprios, abusavam da força das suas armas contra uma população que nenhuma lei protegia.

Mas o príncipe julgou igualmente sentir nos seus interlocutores uma surda inquietação. A campanha de libertação fora triunfal. Em poucos meses, foram os Romanos expulsos de toda a Judeia. Suas guarnições repelidas para Cesareia não tentaram mais incursões, mas o boato dos preparativos que Roma fazia em todos os Estados vizinhos inquietava os revoltosos. Esta guerra espalhava sobre todo o país uma atmosfera pesada, sufocante. Já não chegavam mais caravanas dos outros países; em Jerusalém começavam a faltar os alimentos. A Judeia já não vivia senão dela própria e sob a ameaça de formidáveis massas de homens armados nas suas fronteiras. Alguns revoltosos queriam voltar para suas casas, julgando a guerra terminada, outros esperavam os últimos combates e receavam-nos ao mesmo tempo. Nada era mais doloroso para aqueles grupos isolados do que aquela trégua, quando todos desejavam acção.

O correio chegou, finalmente. Trazia uma carta assinada por João de Giscala. Não trazia senão duas linhas:

O príncipe de Hur pode continuar, acompanhado, o seu caminho até Jerusalém.

O chefe, então, escolheu dois homens que partiram com Ben Hur e Malluch. Na manhã seguinte, entravam em Jerusalém. Ben Hur avistou logo as ruínas enegrecidas da torre Antónia que o fogo consumira. Viu também no vestuário dos homens da rua, no seu andar, que a miséria e o medo se tinham instalado na Cidade Santa. Menos discussões no cruzamento das vielas, menos animação nas ruas. Os mercadores já não apregoavam atrás dos escaparates desguarnecidos. As pessoas passavam depressa e sumiam-se na sombra das velhas casas.

- Quem te enviou, príncipe?

Dois homens aguardavam Ben Hur numa sala baixa do que se salvara do antigo palácio de Herodes; viam-se armas em redor, a guarda estava mal equipada, os homens descompostos como o são os combatentes de todas as guerras civis.

«Burgueses ou pobres diabos que brincam aos soldados» - pensou Ben Hur.

João de Giscala era um homem em plena força da vida. Quarenta anos talvez… Um pouco cheio, seu rosto no entanto era viril, e o seu olhar decidido.

Simão Bar Giora, mais idoso, mais franzino, mais reflectido sem dúvida, mantinha-se ligeiramente atrás do seu companheiro; o rosto emoldurava-se em longos cabelos anelados e a barba era a de um rabino. Ben Hur pensou que ele representava o elemento religioso ortodoxo da revolução.

- Ninguém me enviou - declarou Ben Hur - a não ser a minha consciência e o amor que tenho ao meu país.

- Senta-te - disse João de Giscala - e dize. Ben Hur recordou rapidamente quem era e o que

sofrera com os seus pela Judeia. Depois disse da sua estada em Roma, do desprezo que sentia por Nero e pela sua corte, do encontro que tivera com o cônsul Vespasiano e o que este homem lhe confidenciara.

- Roma de Nero está podre, reconheço-o - prosseguiu Ben Hur - Em breve, o tirano se afundará, mas Roma não deixará de ser uma potência. Tomarão o seu governo outros senhores e tudo leva a crer que serão militares. Não se deve, pois, esperar que aquele país abandone as suas conquistas ou aligeire a sua opressão sobre as terras que domina.

- Que importa tudo isso! - observou Simão.

- Importa muito. Actualmente, Vespasiano reúne todas as legiões de África. Por Damasco, por Alexandria, convergem tropas para a Judeia. São numerosas, muito aguerridas e bem armadas. Comanda-as o jovem Tito, o próprio filho de Vespasiano. Diz-se que é muito valente. Se recusardes todo o contacto, essas tropas lançar-se-ão sobre este país e seria preciso estar louco para julgar que podereis repelir os seus assaltos. Se, pelo contrário, aceitardes conversar com Vespasiano, é possível que ainda se salve alguma coisa. O cônsul prefere a paz à guerra, e também detesta Nero. É quase certo que aceitará conceder-nos antigas liberdades. Voltarão a riqueza e a calma.

- Ao preço da submissão. Não queremos calma e riqueza, fica-o sabendo, príncipe! Do que precisamos é da vitória, da liberdade total, dos Romanos fora do nosso território. Do que precisamos, para sermos dignos do Deus que nos julga, é do triunfo dos Judeus. Roma é que é o povo eleito? Aliás, compreendo-te mal, Ben Hur. Durante toda a tua mocidade, lutaste contra os Romanos, e eis-te agora a querer conciliação...

- Depois da minha mocidade, alguma coisa interveio, alguém que fez com que já não possa matar nem ver matar, alguém que me fez compreender que essas lutas entre homens não trazem senão miséria e lágrimas e que as vitórias das armas são efémeras.

- Queres falar de Jesus de Nazaré? - perguntou Simão.

- Sim, d’Ele!

- Não era mais do que um iluminado, um falso profeta, um pobre homem que se julgou o Messias, o enviado de Deus.

- Conheceste-o?

- Não! Eu era muito criança quando o crucificaram.

- Devíeis tê-lo visto, vós ambos, devíeis tê-lo ouvido; é provável que não falásseis assim.

- Tudo isso é palavreado - cortou João - Se o herói que tu foste, Ben Hur, já não é capaz senão de pregar a renúncia, se já não sabes aconselhar senão a que se verguem diante dos vencedores, é inútil prosseguir.

- Que procurais então?

- Já to disse, a liberdade e o triunfo dos Judeus sobre toda a terra como Deus nos ordenou!

- E se eu vos disser que esse triunfo se aproxima, acreditais?

- De que maneira?

- Escutai com atenção. Em Roma, neste momento, há dezenas de milhares de homens e de mulheres de todas as classes que outrora adoravam ídolos. Hoje, oram a Deus, como nós. Em nome de Jesus, renunciam a toda a violência, penetram em todas as classes e minam aquela velha sociedade romana que já não tem ideal. E acontece a mesma coisa em muitas das cidades da Itália e na Gália, e na Germânia, e nas Espanhas, também. E, mais perto de nós, em Antioquia e em Éfeso, na Coríntia e em Atenas, em Cartago e na Alexandria. O que os Judeus não puderam obter no tempo do rei David, nos limites do seu país, eis que a imagem de um crucificado obtém em todo o Mundo. Esse domínio judeu que vós esperais como eu, segundo os profetas, não é, asseguro-vos, o das armas e das legiões. É o que trará o amor de um mesmo Deus, deste Deus que se manifestou ao nosso povo. A salvação vem dos Judeus, isto também o Nazareno o disse. Recusando-vos a abrir os olhos, obstinando-vos em combates fratricidas, obtereis um único resultado: esta nova religião escapará ao vosso povo, outros a tornarão sua e a Judeia apagar-se-á. Esta cidade não será mais do que a cidade das ruínas, o nosso povo dispersar-se-á, e da mansão dos mortos medireis eternamente a loucura que tereis cometido nesta vida. É isso que procurais?

- Com a idade, tornaste-te ingénuo, caro príncipe - disse João de Giscala - As quimeras, que te insinuou nos ouvidos esse pobre Nazareno, seduziram-te. Mas, neste momento, não farás o jogo de um cônsul romano a quem a paz muito conviria? Sim! Nós repelimos as legiões e os soldados mostram-se renitentes em vir bater-se aqui. O imperador Nero ameaça o teu Vespasiano, e este pensa: «Arranjaria bem os meus negócios se fizesse a economia de uma campanha». E tu, tu corres em seu socorro, vens até nós sem saberes se te escutaremos ou se te matamos. Sim, és muito ingénuo!

- Noutros tempos - disse Ben Hur, tornando-se lívido - far-te-ia engolir essas palavras e nem mesmo dez legiões teriam poder para mo impedir. Hoje, agradeço à idade não mo permitir. Teria demasiado medo de quebrar o juramento que fiz de nunca mais combater pelas armas.

Simão Bar Giora retomou a palavra:

- Príncipe, nunca nos poderemos entender. Tu partes de um princípio falso, de um enfraquecimento, de um afrouxamento da nossa Fé. Essa doutrina, que consiste em não se bater, é louca; permitirá sempre aos piores triunfar, e veremos os bárbaros invadir as nossas terras e destruir o que gerações levaram séculos a construir. Este mundo não é ideal, bem o sabes. À espera de que os rebanhos de cordeiros triunfem, em Roma ou algures, só pela sua virtude, sobre os falsos deuses, chegará o Dia de Juízo sem que tenhamos ganho uma única terra. Obter para este país por obscuros tratados meias-liberdades que, dentro de dois anos, serão todas violadas pelo Romano, este teu sonho é também insensato! Príncipe, vieste aqui como homem livre e sem armas. Regressarás como homem livre, mas desde o momento em que chegares a Cesareia, terás de fazer a tua escolha. Ou estarás connosco e serás digno de ser judeu, ou serás contra nós e deixarás de ser filho de Israel.

- Nunca serei nem pró nem contra vós - declarou Ben Hur - Não defenderei senão a paz.

- Isso seria demasiado fácil - disse João de Giscala - Quem não é por nós é contra nós!

- Saul de Tarso era como tu, João - replicou Ben Hur - Vi-o perseguir os cristãos e contribuir para a sua morte. E depois, um dia, na estrada de Damasco, encontrou Deus frente a frente. Tornou-se Paulo, e tem evangelizado cidades e províncias.

- E morreu decapitado em Roma! Sim, eu sei! Não tenho vontade de o imitar, evidentemente!

- Falta-te humildade, João. Deus queira que um dia não chores sobre Jerusalém destruída!

- Quando isso acontecesse, restariam as montanhas e as colinas da Judeia. Combateremos nas montanhas e nas colinas e nos desertos, e Deus estará a nosso lado, porque Deus não mudou desde que criou o seu povo. São as pessoas como tu que tentam mudar a sua Lei. Adeus, príncipe! Dize a Vespasiano que, se quiser ver os Judeus, os Judeus esperam-no em Jerusalém!

- Quanto a isso, que fiquem descansados: irei! Vespasiano fechou assim o relato que Ben Hur acabava de lhe fazer, ao regressar a Cesareia.

- Está bem, agradeço-te, príncipe. Sei que fizeste tudo o que estava ao teu alcance. Meu filho Tito deve chegar amanhã. Gostaria que o conhecesses; sê, pois, dos nossos no banquete que dou em sua honra.

Os principais notáveis de Cesareia estavam reunidos na grande sala do palácio dos Cônsules, quando as trombetas anunciaram a entrada do jovem Tito na cidade. Entre eles, achavam-se Ben Hur, sua esposa Ester e sua irmã Tirzah. Vespasiano recebera-os como amigos de longa data e colocara-os perto do seu cadeirão mais alto em que se instalara. Os legionários formaram em duas filas, as portas abriram-se de par em par e Tito apareceu.

Houve um movimento por toda a assistência, tão grande era a sua beleza. Sua estatura não era muito alta, mas havia em toda a sua pessoa uma tal graça, em seu rosto uma tal radiação que, de cada vez que aparecia, as simpatias ofereciam-se-lhe, particularmente as das mulheres.

Junto de Tito, aproximava-se uma jovem, muito bela, também, mas de tipo nitidamente semita. Depois de abraçar seu progenitor, Tito declarou:

- Pai, eis a princesa Berenice, filha de Herodes Agripa. Traz-te os votos e a amizade de seu pai!

Vespasiano pareceu admirado. Foi preciso alterar o arrumo da mesa central, a fim de arranjar lugar para Berenice, cuja presença, pelo que se via, não estava prevista. Ficou sentada ao lado de Ben Hur e em breve não falaram senão das desgraças de sua pátria comum. Tito, colocado do outro lado da jovem princesa, mostrou de início um certo despeito, depois aderiu à conversa e soube de Ben Hur a tentativa que ele fizera em Jerusalém e os resultados negativos da sua embaixada.

- Sereis realmente obrigados a combater? - perguntou a princesa.

- Ai, querida Berenice! Não vejo meio de proceder de maneira diferente. Roma não pode tolerar ser assim desfeiteada.

- Mais sangue e lágrimas - disse Berenice - Cada geração terá, pois, a sua parte e terei de ver-te, Tito, lutar contra os da minha raça!

- Contra alguns somente - replicou Tito - Teu pai e teus amigos não estão nesse número. O príncipe de Hur tão-pouco. Acaba de demonstrá-lo.

- É tão fácil ser de um partido ou de outro - disse Ben Hur - é tão fácil combater, e arriscar a vida não é nada quando se tem a sensação de defender ou de servir o país! Ai! Ouvem-se sempre histórias de guerreiros, mas nunca se escuta o homem que se lança entre as armas e que grita, proclamando a vanidade dos combates, a loucura dos massacres, a fragilidade das vitórias e o pouco caso que o universo inteiro, na sua marcha eterna, faz da glória deste ou daquele homem.

No momento em que Ben Hur se despedia de Berenice, esta disse-lhe:

- Príncipe, sei que és um homem sensato e bondoso. Gostaria de tornar a ver-te, de falar ainda com alguém que me escutasse como amigo. Aceitas que eu vá fazer-te uma visita?

- Serás bem-vinda.

- Príncipe, logo que vi Tito, soube que o amava; levara até aqui uma vida aprazível junto de meu pai e nunca experimentara desejo algum por um homem. E eis que ele chega, e que a minha vida se transforma!

Ben Hur contemplava Berenice. O que se dizia da sua beleza, da sua graça, estava abaixo da verdade. O príncipe, desde que ela entrara em sua casa, sentira que ela procurara um apoio, que tinha necessidade de confiar-se a um homem da sua raça.

- Não é um crime - perguntou a jovem - amar um Romano?

- Assim o julguei outrora - respondeu Ben Hur até que minha irmã Tirzah desposou um tribuno de Roma. Tito conhece-o bem, aliás. Diz-se talvez que eu era cristão. Para mim, já não pode haver mais diferenças entre os homens.

- Só o conheço há quinze dias e já não posso pensar em viver sem ele.

- Mas quais são os seus sentimentos?

- Diz que são semelhantes aos meus. Até diz que ainda são mais fortes, mas não o creio. Exerce a sua missão, mas cada momento que o serviço o deixa livre, passa-o junto de mim. Ah, príncipe! Não sei se deva gritar a minha alegria ou se deva esperar somente desgosto. Amo um homem que se prepara para degolar os meus irmãos, e não posso deixar de

o amar.

- Talvez seja pelo amor que se impeçam as degolações.

- Assim o crês? Se nos uníssemos, segui-lo-ia para Roma. Não serei infeliz nessa cidade?

- Tirzah foi para lá com Drusus e, até fugirem por causa das perseguições de Nero, creio que ela foi muito feliz. É-se sempre feliz junto de quem se ama.

- És o único deste país que não me censura!

- Sou o único que to diz, eis tudo. Princesa, certifica-te primeiro de que este Tito te dá o que lhe dás, porque o amor é uma troca e se um oferece menos do que o outro, quebra-se o equilíbrio.

- E se me certificar disso?

- Então, desposa-o!

- Mas Deus não me julgará?

- Deus julga-nos a todos; mas, escuta, creio que julga com muito mais indulgência os que sabem amar.

- Mesmo os que amam um inimigo da sua raça?

- Jesus veio ao mundo para nos dizer que não havia inimigos da raça, que não havia senão homens que entendiam a Lei de Deus e outros que não a queriam entender. Ele mostrou-a. O valor dos homens não se mede pelo facto de serem circuncisos ou não, mede-se apenas pelo respeito que testemunham por Deus e pela afeição que dedicam uns aos outros. Em cada um dos outros existe, justamente, a ideia de Deus.

- Como tudo isso é complicado - exclamou Berenice - e como eu era mais feliz antes de amar Tito!

- Feliz? Queres dizer tranquila, queres dizer sossegada.

- Sim, é isso!

- Pois. bem, vou fazer-te uma confissão, Berenice. Também eu era mais tranquilo e mais sossegado e não me propunha estes problemas antes de conhecer Jesus de Nazaré. Isso, agora, já não existe e, no entanto, se soubesses como sou feliz porque O conheci!

Ben Hur encontrava muitas vezes a jovem Berenice no palácio de Vespasiano. Também teve ensejo de conversar com Tito e sentiu-se impressionado pela sua grande nobreza, pela sua genuína bondade, por seu espírito de decisão e por uma prudência que não era para a sua idade. Tito fora educado na corte de Roma. Fora companheiro de infância de Britanicus, herdeiro legítimo do imperador Cláudio, e do seu meio-irmão Nero. Falava no doce Britanicus com lágrimas nos olhos e evocava muitas vezes a cena terrível do banquete em que Nero o mandara envenenar pela água que bebia. E Ben Hur, notando por toda a parte tanto ódio acumulado contra o tirano, pensou mais do que nunca que estava próxima a hora em que veria o fim do histrião.

Entretanto, os preparativos dos exércitos romanos terminavam. As legiões achavam-se reunidas no Egipto, na Síria e em Cesareia. Uma manhã, Vespasiano perguntou ao príncipe:

- Nenhum sinal da parte dos insurrectos?

- Não, nada recebi de Jerusalém.

- Então, está dito, príncipe. Sei que o teu desgosto será grande, mas não posso decidir de outra maneira; aliás, manter o mal para o curar não é bom método. Mais vale um cutelo bem afiado para o cortar! Dentro de dois dias, os exércitos iniciarão a marcha.

Na manhã em que os estandartes se ergueram diante das legiões, em que as trombetas soaram em Cesareia, em que as coortes arrancaram para Jerusalém, Malluch, sendo o primeiro a entrar no quarto de Simónides, admirou-se do silêncio que ali encontrou. Aproximando-se do leito, viu que o ancião estava morto. Então, Malluch ajoelhou-se diante de seu amo e chorou longamente.

Ben Hur recordou-se das palavras que ouvira Simónides pronunciar quando o deixava, na véspera à noite:

- Deus permitiu que te tornasse a ver; portanto, tudo está bem. Amanhã, os Romanos marcham para a Cidade Santa. Reduzi-la-ão a cinzas, como Jesus predisse. Se o Senhor for misericordioso, não permitirá que eu veja isso nesta terra...

Vespasiano foi um dos primeiros a vir ver os despojos de Simónides. Chegou em companhia de seu filho Tito e da jovem Berenice.

- Este homem era um justo - disse ele, ao sair do quarto - Segundo as vossas crenças, encontra-se em paz e nada agora o pode perturbar.

Enquanto Tito e Berenice conversavam com Ester, Tirzah e suas filhas, Vespasiano deu alguns passos com Ben Hur no jardim interior.

- Não recebes notícias de Roma há muito tempo, príncipe?

- Ainda ontem Drusus me mandou uma mensagem. Diz que Vindex, na Gália, se levantou em armas contra Nero.

- Isso concorda com o que soube por meu lado, mas não tenho a menor confiança em Vindex. Os seus Gauleses podem abandoná-lo tão depressa como se lhe juntaram. Só a posição de Galba, nas Espanhas, me parece decisiva.

- O tribuno Alemius faz chegar um correio à minha vivenda de Roma, uma vez por semana, mas Drusus nada me disse do que continha, desta vez.

- Pelo que sei, Galba, primeiro, teria prometido uma ajuda a Vindex, mas desde que o tribuno das Gálias entrou em rebelião, Galba ter-se-ia tornado muito mais prudente, e as suas tropas continuariam a obedecer a Roma.

- Para que encorajou primeiro Vindex?

- Quem o sabe? Talvez porque sinta que ainda não soou a hora, talvez porque vise o poder na sucessão de Nero e não experimente a menor vontade de o dever a Vindex.

- Mas a ti, Vespasiano?

- A mim? Oh! A experiência tornou-me prudente. Deixo os lobos devorarem-se uns aos outros, estou aqui para uma missão bem definida, combater essa rebelião judaica. Nada me desviará dela, nem por um instante sequer. Ver-nos-emos amiudadas vezes?

- Não sei. A morte de Simónides altera muitas das minhas coisas. Bem sabes, Vespasiano, o objectivo que pretendo atingir: quero ajudar os meus irmãos em toda a parte que possa. Aqui, na Judeia, praticamente, já não há comunidades cristãs. Dispersaram-se nos primeiros anos. Quanto mais penso nisto, mais me persuado de que é em Roma que tudo se decidirá.

- Pensas lá voltar?

- Sim, desde esta manhã! As nossas filhas vão casar-se nestes próximos dias, terão aqui o seu lar, a sua vida... Minha irmã Tirzah tem grande empenho em reunir-se a Drusus. Com ela e com minha esposa, penso em reembarcar para a Itália.

- Porque não deixas passar aqui a tempestade? Em Cesareia, junto de nós, nada tens a recear. Em Roma, se fores descoberto, deves temer tudo da parte de Nero e de Tigelino.

- É talvez porque há qualquer coisa a recear que desejo voltar a Roma!

- Caro Ben Hur! As pessoas daqui contaram-me toda a tua história. Está escrito que não mudarás e que os perigos continuarão a atrair-te.

Cruzando o jardim, Tito encaminhou-se rapidamente para eles.

- Más notícias? - perguntou Vespasiano.

- Bastante! De início, as nossas tropas avançaram pelas planícies rapidamente, mas os relatórios assinalam por toda a parte forte resistência nas regiões montanhosas. Em certos sítios, as legiões são duramente maltratadas.

- Temos de seguir para a batalha. Tornarei a ver-te, Ben Hur, antes de partires?

- Não sei.

- Que sejas feliz no teu caminho, e talvez até breve!

- Até breve, em Roma!

- Em Roma! Creio bem que não tens pressa de me veres lá!

- Salve, príncipe - disse Tito - Leva toda a minha amizade a Drusus e aconselha-o a ser mais desconfiado do que nunca.

Quando Vespasiano o deixou, já Ben Hur tomara a sua decisão. Logo que as cerimónias de casamento terminassem, partiria para Roma.

Roma assistia ao mesmo tempo ao regresso do seu imperador. Sabendo da revolta das legiões gaulesas, Nero, primeiro, ficou aterrado, mas, perante a calma que Galba mantinha em Espanha, depressa se refez. Ao receio sucedeu nele o furor. Para lhe agradar, foi preciso que Tigelino encontrasse numerosos responsáveis e pusesse a descoberto novas conjuras. Mal o soberano voltou, os jardins de Nero, fora dos muros de Roma, foram teatro de cenas horríveis. Torturou-se grande número de altos personagens, de senadores, de oficiais, mesmo de mulheres de alta estirpe e obtiveram-se assim «confissões» que permitiram novas capturas.

Tigelino passava os dias a ditar cartas que o imperador assinava com deleite e que ordenavam aos Romanos de maior relevo que pusessem eles próprios fim aos seus dias, para evitarem a vergonha de uma execução pública. Tigelino aperfeiçoara uma técnica que se revelava muito eficaz. Ao mesmo tempo que essa carta era expedida, o mensageiro aconselhava discretamente o condenado a deixar em testamento um importante legado ao ministro. «Caso contrário, ajuntava ele, teus bens poderiam ser confiscados como os de um criminoso e teus filhos privados de toda a herança». Deste modo, o antigo escravo liberto arredondava a sua fortuna, pelo que o ódio acumulado sobre Nero também se derramava sobre o ministro.

Pelo oficial Regelius, seguia Drusus todos estes acontecimentos. Soube assim que Tigelino preparava novas prisões nos meios cristãos.

«Felizmente, poucos encontrará» - pensou Drusus.

No entanto, encontrou alguns que foram guarnecer de novo as prisões próximas dos circos.

Nesse momento, chegou a Roma a notícia da morte de Vindex, abatido pelas legiões que ficaram fiéis a Roma. Trasbordante de alegria, Nero ordenou grandes festas para celebrar aquela vitória. De novo, as feras foram largadas contra ranchos de cristãos, as cruzes e as fogueiras se ergueram na areia dos anfiteatros, e a lista dos mártires cresceu.

Foi por essa mesma época que Ben Hur, acompanhado de Ester, de Tirzah e Malluch, desembarcou em Óstia. Precisamente quando os quatro viajantes tomavam o caminho de Roma, um homem apresentou-se em casa dos Hur.

- Quero falar ao intendente principal - disse ele a Anjune, que o recebeu.

- Quem te envia.

O homem inclinou-se para o ouvido do Cipriota.

- Está bem. Espera aqui.

Anjune cruzou toda uma parte da casa.

- Senhor - disse ele a Drusus - está ali um enviado de Alemius; vem de Espanha.

- Que entre depressa!

- Senhor - disse o homem - eis o que o tribuno me encarregou de te repetir: «A morte de Vindex fez com que Galba tomasse a sua decisão. Levanta-se abertamente contra Nero, os seus oficiais e os nobres de Espanha vão proclamá-lo imperador de Roma. Vai marchar em seguida sobre a Itália. Avisa todos os nossos amigos para que também eles estejam prontos. É preciso que a revolta do Senado, dos patrícios e dos generais estale ao mesmo tempo que Galba se aproxime de Roma. Assim, Nero não poderá nem ser defendido nem fugir». Alemius - ajuntou o homem - saúda-te e pede-te para mais do que nunca velar por sua filha, porque é evidente que, logo que seja advertido, Nero quererá apoderar-se de reféns, mandando prender todos os parentes dos oficiais ao serviço em Espanha às ordens de Galba.

- Bem - disse Drusus - repousa nesta casa e torna a partir consoante as ordens que recebeste. Monime! Pede a Albina que venha cá.

A escrava de Tessália não reapareceu senão passado um longo momento.

- Albina não está no seu aposento, senhor. O velho Glocea viu-a sair ainda agora pela porta das traseiras.

- Onde terá ela ido? Talvez Filipe o saiba!

- Ela não me disse nada - declarou o jovem - Que razões teria para sair assim, sem prevenir?

- É porque sabe que nem tu nem eu lho permitiríamos.

Monime entrou então em companhia da Judia Raquel.

- Eu sei onde está Albina, senhor - declarou ela.

- Onde?

- Ela precisava de uns vestidos que não pôde trazer. E disse-me: «Sê discreta, vou à vivenda de meu pai, um dos nossos escravos ajudar-me-á a trazer um baú».

- Desgraçada! - exclamou Drusus.

- Porque te apoquentas, tio? - perguntou Filipe - A vivenda de Alemius não está vigiada há muito tempo, verificámo-lo por várias vezes.

- Até hoje, sem dúvida, mas desde ainda agora...

- e Drusus, depois de pôr rapidamente o jovem ao corrente da mensagem do tribuno, ajuntou - Tigelino já está informado, tenho a certeza... A sua polícia é bem feita e os seus agentes do exército de Espanha devem ter cavalgado tão depressa como o correio de Alemius.

- Vou imediatamente à vivenda - disse Filipe.

- Espera, leva contigo Benex e Anjune e sede prudentes quando lá chegarem. Raquel - ajuntou Drusus - pede ao Senhor que Filipe possa chegar a tempo... Se suceder alguma coisa a Albina, só tu és a responsável.

- Mas, senhor - disse a jovem judia - mais não fiz senão obedecer-lhe!

- Só um manda aqui, e que não arrisca a vida de ninguém por futilidades.

Os três homens atravessaram a cidade à pressa, misturados com a multidão. Não afrouxaram a marcha senão à chegada do bairro sossegado do Mecenato. Aí, começava a zona dos parques e das veredas serpenteando entre muros de vivendas ricas.

Tudo parecia tranquilo. Não notavam nenhuma guarda, nenhum vulto de soldados. Meteram-se por um pequeno caminho de terra que conduzia à entrada da vivenda de Alemius. Benex deteve-se e, debruçando-se para o solo, disse:

- Vejam! Passaram por aqui numerosos cavalos e as marcas na terra são muito frescas. Dirigiram-se para a casa e regressaram por aqui.

O portal estava entreaberto. Filipe, colando-se ao batente de madeira, arriscou um olhar para a casa: nenhum sinal de vida.

- Vinde - sussurrou ele.

Passaram rapidamente o portal, acocoraram-se atrás das moitas.

- Nada se move - disse Anjune.

- Guardai-me os dois - disse Filipe - Vou tentar ver no interior.

A porta de bronze também estava entreaberta. O jovem empurrou-a com um pontapé e, costas contra a parede, esperou, de gládio curto bem seguro na mão. A porta embateu na parede interior, mas nada aconteceu, a não ser o eco repercutido pelo choque. Filipe arriscou-se então a entrar. A sala de lajes de mármore estava deserta. No entanto, o jovem reparou num véu de seda azul-pálido caído no meio do aposento.

Pegou no tecido e reconheceu logo o perfume de Albina. Penetrou em todos os aposentos. Nenhum sinal de vida, mas grande desordem por toda a parte: baús abertos, roupas espalhadas, móveis quebrados, estátuas derrubadas. Sabia que se desenrolara ali um drama. Passou diante da porta que conduzia à piscina e ao átrio. Deteve-se de chofre. Parecia-lhe ouvir um débil rumor, como que um gemido. Os mosaicos que formavam a banheira pareciam desertos. O jovem avançou, o gemido chegava-lhe cada vez mais nítido. Olhou para a água e teve de encostar-se a uma coluna, ao descobrir o que lhe inspirava horror. Quatro corpos, os dos escravos da casa, flutuavam, roupas enfoladas; e a água estava vermelha de sangue.

Nos degraus que desciam para o banho estava uma velha toda contorcida. Era ela quem gemia. Filipe correu a soerguê-la, puxou-a para o solo e, debruçando-se, interrogou-a:

- Que se passou? Dize depressa! Onde está Albina? Suplico-te!

A velha abriu os olhos, já a morte lhe velava o olhar.

- Suplico-te, onde está Albina?

Ao falar, cobria-lhe com um pano do vestido a chaga que a velha tinha no pescoço.

- Levaram-na... - disse, a custo, a anciã.

- Quem?

- Os... soldados!...

- Não disseram nada? Para onde? À ordem de quem? Não ouviste nada?

- Havia um - conseguiu a velha sussurrar - Eles chamaram-lhe... Mosché... e... ele disse...

- O quê? Que disse ele? Depressa!

- Tigelino... vai ficar contente!

- Tigelino!

Filipe ergueu os olhos. O corpo da mulher tornou-se de súbito mais pesado nos seus braços, a cabeça tombou-lhe. Filipe tapou-lhe o rosto com o vestido e saiu a cambalear como um ébrio.

- Então? - indagou Anjune.

- Demasiado tarde! - Filipe admirava-se de ouvir a sua própria voz responder - Levaram-na à ordem de Tigelino. Foi Mosché.

- Então, não há senão um meio - disse Anjune - Procurar Mosché e obrigá-lo a falar.

Filipe tomou bruscamente consciência da situação.

- Tens razão, Anjune. Mosché vive no palácio Aureliano, mesmo ao lado dos aposentos de Tigelino. É preciso que ele saia um momento, e não tem motivo para desconfiar. Vamos depressa! Benex! Vai contar tudo a Drusus, e vai lá ter connosco.

- Ao palácio?

- À porta Aurélia, não há outra maneira de entrar na cidade, e Mosché há-de lá passar forçosamente. É aí que o vamos esperar.

Albina nem sequer chegou a coordenar os pensamentos. Aproximara-se normalmente da vivenda de seu pai, encontrara o portal aberto, como muitas vezes sucedia durante o dia, entrara sem nada ver de anormal no lado do jardim que conduzia à casa, empurrara a porta de bronze...

- Bom dia! - dissera uma voz.

Já ela recuava e se voltava para a álea... Viu dois soldados de lança em riste diante do portal. Quis escapar-se para a direita, apareceu outro guarda à esquina da vivenda; da esquerda saiu mais um legionário. O que falara, um homenzinho de barba curta, já se aproximara e agarrara-a por um pulso.

- Entra. Não estás na tua casa?

- Sem dúvida, mas vós, que fazeis aqui?

Viu os cinco escravos da casa a um canto da sala de visitas, apertados uns contra os outros, sob a vigilância de três legionários.

- Senta-te - disse o homenzinho.

- Que quereis?

- Nada. Somente apresentar-te alguém que deseja encontrar-te.

- Quem é?

- Um homem poderoso.

Ruído de cadeiras derrubadas, móveis partidos chegou dos aposentos interiores. Entrou um homem de espada em punho.

- Mosché - disse ele - nada de interessante!

- Era de esperar - respondeu Mosché - O importante é que esta se encontre aqui. Tigelino vai ficar contente! Vá, Rufo, faze a estes o que deves fazer!

- Que lhe quereis? - indagou Albina, levantando-se.

- O que não é da tua conta - e voltando-se para Rufo - Faze isso rápido, tenho pressa!

Os escravos foram empurrados pelos soldados. Pouco depois, Albina ouviu gritos pavorosos.

- Vamos agora! - disse o homem a quem chamavam Mosché.

Tinham trazido cavalos para o jardim. Rufo juntou-se ao pequeno grupo.

- Leva-a contigo - ordenou Mosché - e não a deixes fugir!

- Não tenhas receio!

Montou, dois soldados levantaram Albina e colocaram-na diante dele.

- Vem, minha bela - disse o homem - e não tenhas medo de cair, eu seguro-te bem!

Albina esperava ser levada para a prisão. Foi para a porta Aurélia que a sua escolta a conduziu. Reconheceu o palácio onde residia o imperador durante a reconstrução da Casa Dourada.

Entraram num pátio interior. Aí, Mosché saltou do cavalo e estendeu os braços a Albina para a ajudar a descer.

- Segue-me.

Dois guardas colocaram-se atrás dela. Mosché percorreu vários corredores, abriu uma porta baixa:

- Entra!

Albina viu um aposento de paredes nuas, mas de chão guarnecido de tapetes e leitos baixos como os que servem para as refeições; esta sala nada tinha de comum, com uma cela de prisão, exceptuando a abertura alta que fazia as vezes de janela e estava defendida por varões.

- Podes sentar-te - disse Mosché. E fechou a pesada porta.

Decorreram horas e Albina permanecia só. Que loucura! Por causa de umas ninharias, lançar-se assim no covil do lobo. Pensou em Filipe e seus olhos encheram-se de lágrimas.

À tarde, a porta abriu-se. Apareceu, primeiro, um guarda, trazendo dois archotes, depois Mosché, em seguida um homem magro e alto em quem ela reconheceu Tigelino, pelas descrições de Filipe.

- Senhor, eis a filha de Alemius - disse Mosché.

- Ah! - Tigelino observou-a com seus olhos frios

- É muito linda! O seu nome?

- Albina!

- Escuta, Albina, não temos tempo a perder. Teu pai Alemius traiu em Espanha. Isso não deve admirar-te, certamente. Estavas, com certeza, informada da conjura. Mosché, que aqui está, vai fazer-te algumas perguntas. Aconselho-te a responderes sem hesitar, senão há meios que talvez te desagradem. Se responderes bem, depressa e certo, a clemência do imperador poupar-te-á. Boa sorte, Mosché!

Saiu.

- Albina - disse Mosché - só quero saber isto: quando recebeste notícias de teu pai? Onde estão as suas cartas? Onde te ocultas tu desde que ele está em Espanha? Mandou-te correios por outras pessoas e por quem? Estás pronta a responder?

- Não sei nada - declarou Albina - Meu pai não me escreve desde que está em Espanha.

- É falso! - replicou Mosché tranquilamente - Tenho provas disso. Eis uma das suas cartas que foi interceptada; não contém, aliás, nada de interessante, a não ser palavras de um pai estremoso. Não brinq’uemos, pois! Falas ou não falas?

- Não tenho nada a dizer-te - respondeu Albina.

- Escuta bem, Albina, porque tenho pena da tua mocidade. Há neste mesmo edifício uma sala cujas paredes abafam todos os gritos. Está apetrechada com chicotes, placas de metal aquecidas ao rubro, tornos que quebram os ossos, cordas que esticam as articulações, unhas de ferro que rasgam as carnes... Vou deixar-te reflectir até que este archote, que está bem encerado, se apague. Se então não estiveres decidida, tornaremos a encontrar-nos, e tanto pior para ti!

Com os olhos naquela chama que baixava cada vez mais, Albina nada mais quis do que orar. Orar para ter forças para nada dizer, para não trair Filipe e seu pai, para morrer como cristã. Quando a chama se apagou, o homem que ficara de guarda à porta entrou e disse:

- Vem por aqui!

Quando a empurraram para a sala dos suplícios, Albina fechou os olhos. Ouviu a voz de Mosché:

- Então, estás decidida?

Ela disse que não com a cabeça. Sentiu mãos a arrancarem-lhe as vestes, outras a agarrarem-lhe os pulsos, sentiu contra o dorso o frio de uma coluna, os laços que lhe feriam os braços…

- Por onde começar? - indagou uma voz.

- Não há tempo a perder - resmungou Mosché - Pelos chicotes de chumbo, e prepara as placas aquecidas, para o caso de isso não bastar.

Albina cerrou os dentes e esforçou-se por conservar os olhos fechados. Ouviu o assobio da correia e uma dor intolerável tomou-lhe os ombros quando o chicote a fustigou.

- Alto! - ordenou uma voz.

Ela abriu os olhos. Estava Tigelino na sua frente, a contemplá-la de uma maneira infinitamente mais interessada do que do seu primeiro encontro.

- Ela não sabe nada, não é verdade? - disse o ministro - Seu pai nada lhe confiou?

- É o que ela pretende - respondeu Mosché.

- Chama um guarda, manda-a conduzir ao aposento onde estava ainda agora, eu próprio me ocuparei dela!

Entraram dois soldados, enquanto os carrascos soltavam Albina. Segurando-a cada um por um braço, conduziram-na à cela. Estenderam-na num leito, ao qual a amarraram. Um oficial apareceu na moldura da porta e Albina reconheceu Regelius, o noivo de Monime.

Levou ele rapidamente um dedo aos lábios, suas pálpebras baixaram-se por duas vezes, e desapareceu.

O oficial saiu do palácio por uma pequena porta e encaminhou-se à pressa para a cidade. A noite cerrara-se totalmente. Quando atravessava a zona de sombra ao longo do corpo da guarda da porta Aurélia, ouviu que o chamavam.

- Filipe! - exclamou Regelius - Ia a tua casa!

- Ela está lá, não é verdade?

- Está! Mosché ia submetê-la a perguntas, quando Tigelino chegou e a mandou levar para um quarto.

- Oh! Obrigado.

- Não te regozijes tão cedo. Se Tigelino se ocupa dela pessoalmente é porque procura saber alguma coisa ou simplesmente porque... enfim, a deseja.

- Monstro!

- Sabe-lo tão bem como eu. O que posso prometer-te é avisar-te, se se passar alguma coisa de inquietante.

- Nós ficamos aqui.

- Está bem. Espero que não tenham notado a minha ausência. Volto para lá.

- Compreendo - disse Tigelino - compreendo muito bem! Teu pai não se arriscou a informar-te dos seus projectos. Nesse período, estavas numa família amiga e receavas arranjar aborrecimentos aos teus hóspedes, compreendo muito bem, e só eu o posso compreender. Aliás, seria desolador estragar este lindo corpo. Escuta, querida Albina, o que te proponho.

Regelius escutava, de ouvido colado à porta, desde que Tigelino, vindo só, entrara no aposento. O rosto do oficial empalideceu com o que ouvia. O suor perlava-lhe a fronte. Permaneceu assim por muito tempo. Bruscamente, recuou, a porta acabava de abrir-se. Tigelino, voltando-se para o interior, disse:

- Reflecte! Tens até amanhã, ao alvorecer!

Voltou-se para o oficial:

- Vai buscar uma manta, lança-a por cima dela. Regelius correu ao posto da guarda; ao regressar, encontrou Tigelino na sombra do corredor, a contemplar o vulto de Albina estendido no leito.

Regelius entrou e debruçou-se para ela. Piscou ligeiramente as pálpebras.

- Dá-me de beber - disse Albina.

Regelius voltou-se para a sombra do corredor.

- Dá-lhe - disse a voz de Tigelino - e... desata-lhe as mãos.

Regelius pegou num copo, encheu-o de água e colocou-o à cabeceira do leito; enquanto desatava as cordas dos pulsos de Albina, conseguiu sussurrar entre dentes:

- Filipe prevenido...

Endireitou-se, estendeu o copo à jovem e saiu.

Quando fechava a porta, ouviram-se passos no corredor.

- Quem é? - perguntou Tigelino.

- É a rendição da guarda, senhor. Há alguma ordem especial?

- Sim - disse o ministro - Que o teu camarada a vigie toda a noite. Não tenho nenhuma vontade de que ela tente prejudicar-se. Seria pena...

Regelius transmitiu a ordem, passou pelo corpo da guarda e saiu do palácio. Encaminhou-se directamente para o recanto onde Filipe o esperava.

- Regelius! Dize depressa!

- É bem o que eu receava - disse Regelius - Tigelino ficou impressionado com a beleza de Albina, quer que ela consinta em pertencer-lhe. Falou-lhe durante perto de meia hora. Disse-lhe que só o prazer vale neste mundo, que não há Deus nem castigo eterno, que ela não devia preocupar-se com essas superstições, que faria dela uma rainha e, como ela continuasse a recusar...

- E depois?

- Afirmou-lhe que, se amanhã, ao alvorecer, não revelasse sentimentos mais doces, entregá-la-ia aos soldados.

- Está perdida...

- Receio-o bem! - disse Regelius - Mosché deve ir agora buscar uma dezena de homens à Caserna Pretoriana.

- Mosché deve...? Então, talvez ainda haja alguma coisa a tentar!

 

QUE GRANDE ARTISTA VAI PERECER!

NASCIA o sol quando Mosché entrou no quarto de Tigelino. Regelius estava atrás dele.

- Senhor - disse Mosché - fiz-me acompanhar por este homem, porque as ruas não são seguras durante a noite.

- Continuas poltrão, Mosché? - disse o ministro, a rir - Os homens já chegaram?

- Seguem-nos.

- Ide! Já vou ter convosco.

A noite, para Albina, fora povoada de pesadelos. Por várias vezes, tivera vontade de gritar, de chamar e não encontrava um pouco de calma senão na oração. No encadeamento das horas, a paz estabeleceu-se no seu espírito. Só o pensamento de Filipe e de seu pai continuava a perturbá-la.

Mosché entrou primeiro, depois Tigelino, Regelius seguiu-os. Colocou-se logo atrás de Mosché.

- Reflectiste, Albina? - indagou o ministro.

- Reflecti. Faze de mim o que quiseres. Assim, só tu serás responsável perante Deus do que me suceder. Por mim, já escolhi. Nunca te pertencerei de minha vontade.

- Tanto pior para ti! Mosché, manda entrar esses homens.

Dez legionários entraram no quarto e os olhos de Albina abriram-se desmedidamente, quando viu os seus rostos. O último fechara a porta atrás dele.

- Nunca vos fizeram semelhante oferta! - disse o ministro - Pois bem, sou eu quem vo-la faz. Esta rapariga pertence-vos!

- Não, Tigelino - respondeu um dos homens - Tu é que nos pertences.

Tigelino esboçou um movimento na direcção da porta, mas depressa foi cercado, dominado.

- Matais-me - disse o ministro - mas não saireis daqui vivos. Adamus vigia no corredor.

- Aquele pequeno peralvilho que estava ao canto - disse um dos soldados - Era demasiado curioso, fazia muitas perguntas. Tive de me desembaraçar dele. Levou tempo a chegar ao fundo do buraco onde o lancei, mas, asseguro-te, já não sente mais nada.

Albina reconheceu o riso e a corpulência de Thord, o Nórdico. Já um dos homens se debruçava para ela e a envolvia na manta.

- Filipe! - exclamou ela - Oh! Filipe! E Anjune! E Benex! Vós todos aqui!

- Sim - disse Filipe - com os amigos de Thord.

- Depressa! - exclamou Regelius.

Filipe aproximou-se de Tigelino:

- Escuta, Tigelino, a tua única oportunidade consiste em nos obedecer. Vais caminhar diante de nós. Passas pelo corpo da guarda e sais do palácio. Nós, atrás de ti, levamos Albina. Ninguém te fará perguntas; aqui, és o amo e senhor. Mas, se tentares alertar os teus homens, de qualquer maneira que seja, esta adaga entrar-te-á no corpo antes de que alguém possa intervir. Compreendeste bem? Regelius, continua a tomar conta de Mosché.

O grupo saiu do palácio. À cabeça marchava Tigelino, muito pálido. Duas liteiras aguardavam. Colocaram Albina numa, Tigelino e Mosché noutra; os outros montaram a cavalo e partiram a galope para o sul da cidade.

Pouco tempo depois, entravam na vivenda dos Hur.

- Bem realizado - disse Tigelino.

O ministro estava estendido sobre uns coxins e Filipe não podia deixar de admirar a fleuma de que dava provas.

- Como fizeram isto?

- Foi fácil - respondeu Filipe - Regelius mantinha-nos ao corrente dos teus monstruosos projectos. Esperámos Mosché quando ele ia para a caserna, obrigámo-lo a ir à tua presença e a dizer-te que tudo corria bem.

- Esse Mosché é um bonito traidor.

- É preciso dizer-se em sua defesa que Regelius não o deixava e que tinha um gládio afiado encostado ao dorso, constantemente.

- Agora, compreendo. Descobriste, realmente, uma das únicas maneiras de convencer Mosché.

- Vestimo-nos de soldados; recrutar amigos sinceros para completar a acção não era difícil.

- Se fordes presos, sabeis quanto isto vos custará?

- Tu respondes por nós, Tigelino.

- Como? Um cadáver nunca respondeu por ninguém!

- Julgas que vamos executar-te a sangue-frio? Não, Tigelino. A nossa religião, esse cristianismo que tu detestas, proíbe-nos de fazer correr sangue. Viverás, Tigelino, viverás aqui, bem escondido e bem guardado, e se por infelicidade nos descobrirem, bem! poder-se-á negociar. Um ministro por uma casa cristã: a proporção é honesta.

Enquanto Filipe falava, Tigelino reflectia rapidamente. Sua vida estava garantida, nem esperava tanto de início. Por outro lado, pressentia quanto o reinado de Nero se tornava frágil. Estar afastado da aproximação da catástrofe era talvez uma boa maneira de salvar a própria pele. Tigelino perguntava a ele mesmo, por um instante, se não existia realmente, como algumas pessoas pretendiam, um poder superior que regula o destino dos homens.

- Mas, quem organizou tudo isto? - perguntou ele, por fim - Quem é o dono da casa?

Um reposteiro afastou-se e um homem entrou.

- Eu - disse Ben Hur.

 

príncipe chegara à noite à sua vivenda, e Drusus logo o informara da prisão de Albina. Depois, chegaram notícias da porta Aurélia e foi ali, naquela casa calma, que tudo se preparou, se organizou. Malluch foi à procura de Thord. Benex arranjou o equipamento dos soldados. Por fim, ao alvorecer, tudo estava realizado. Tirzah podia, enfim, juntar-se a Drusus e Ester conhecer essa Albina cuja teimosia infantil por pouco não deitara a perder toda a pequena comunidade.

- Tenho vergonha - dizia Albina a Ester, Ben Hur e Filipe - tenho vergonha da minha futilidade, vergonha de não vos ter obedecido rigorosamente, e, mais ainda, tenho vergonha de todos os meus pensamentos, enquanto aqui estive. Sentia um tal desejo de viver normalmente, de retomar a existência fácil que meu pai até aqui me permitira levar, que acabei por detestar tudo o que nos impedia de nos unirmos, Filipe e eu, tudo que nos obrigava a escondermo-nos, confesso-o! Odiei estes cristãos que tu ocultas, príncipe. Não sei se Deus alguma vez me perdoará!

- Minha filha - disse Ben Hur - permite-me que te chame assim, toda a falta, todo o erro pode ser perdoado por Deus; bem sabes que a sua misericórdia é infinita. A tua punição já a viveste.

- Albina, isso é bem verdade! - disse Ester - O que sofreste durante essa tarde e essa noite deve ter sido atroz.

- Compreendo agora que era necessário. Lá é que compreendi as angústias dos nossos irmãos presos. Só lá descobri as razões que nos levam a amá-los e a sacrificar muito para lhes evitar a prisão. Filipe, é preciso que o saibas, a Albina que recuperas já não é a mesma, já não é a jovem egoísta sempre satisfeita com ela própria e que exige sempre mais; aprendi mais nestas horas do que em vinte anos de vida!

- Assim - disse Ester - Deus envia-nos provações que têm todas um sentido.

- Ben Hur - interrompeu Drusus, que entrava nesse momento - que se vai fazer de Mosché?

- Manda-o entrar - respondeu o príncipe - Quero falar-lhe na vossa presença!

O homem que entrou instantes depois perdera todo o aprumo. Pálido e agitado por tremores, era visível que esperava ouvir pronunciar contra ele uma condenação sem apelo.

- Mosché, aproxima-te! - ordenou o príncipe. Eis-te, pois, no estado em que já uma vez te vi na estrada de Antipátride; nesse tempo, eu era jovem, em plena excitação da luta. Vês hoje a minha calma? Procuro em vão o rubor no teu rosto. Mosché, primeiro, acuso-te de não teres mantido a promessa que me fizeste em casa de Alemius: ficara combinado que me trarias ao corrente de tudo o que se passasse em casa de Tigelino. Desde o princípio da perseguição que nada fizeste nesse sentido. Reconhece-lo?

- Isto é, senhor - chegou a articular Mosché - asseguro-te que não era fácil e...

- Não procures justificações. Reconhece-lo?

- Sim, senhor, mas...

- Acuso-te ainda mais, Mosché, de te teres tornado cúmplice de Tigelino em todas as tarefas vis, acuso-te de torturas e sevícias na pessoa de dezenas de cristãos, notoriamente em Aclis, e de tentativa semelhante em Albina. Reconhece-lo?

- Por piedade, senhor!

Gotas de suor perlavam o rosto do miserável.

- Reconhece-lo?

- Ai, sim, senhor!

- Sabes o que mereces por tudo isto, Mosché?

- Escuta, senhor, por piedade!

Mosché falava agora precipitadamente, caindo de joelhos aos pés do príncipe:

- Não podia proceder de outra maneira, Tigelino tinha-me nas mãos, mandar-me-ia degolar se não cumprisse as suas ordens. Não passei de um instrumento, bem sabes que não tenho ódio aos cristãos, procedi por medo...

- E por gosto do ouro!

- É verdade, senhor, por gosto do ouro!

- Mosché, basta-me fazer um sinal para dez punhais caírem em cima de ti. Mas isso seria demasiado fácil. Em todo o homem, mesmo o mais pervertido, há uma possibilidade de resgate. Vais ficar nesta casa e nunca mais sairás.

- Oh! Senhor! Ah, príncipe! Tu poupas-me? É verdade? Ah, que Deus te abençoe para todo o sempre! Verás, serei o mais humilde e o mais dedicado dos teus servidores!

- Dos meus escravos, queres tu dizer. Aboli essa condição nesta casa, só para ti a restabeleço. Se me faltares uma só vez, Mosché, esta mesma mão, que te perdoou duas vezes, não te poupará, asseguro-te, e matar-te-ei com a mesma calma com que hoje te deixo viver.

- Mosché - interveio Drusus - pede ao céu que nos conserve o príncipe de Hur. No seu lugar, nenhum de nós te teria poupado.

Nesse dia, a sessão do Senado foi uma das mais tempestuosas de toda a história de Roma. Corriam boatos:

- Tigelino desapareceu!

- Galba fez-se proclamar imperador. Marcha sobre Itália!

Os senadores, que tanto sofreram com a loucura de Nero, que tiveram de lhe suportar todas as humilhações, mesmo as mais insensatas, ainda não se atreviam a exteriorizar a sua alegria.

Mas em breve os oradores, cuja maior parte tivera parentes massacrados à ordem de Nero, se encorajaram. À noite, o Senado votou a demissão de Nero. Na Caserna Pretoriana, os generais, depois de demoradamente reunidos, passavam à acção.

Drusus, envergando de novo a sua armadura branca e ouro, juntou-se aos seus antigos oficiais, aclamado pelos soldados.

O povo de Roma ainda ignorava tudo, mas enviados do Senado e das tropas iam nas horas seguintes alertar todos os bairros. A polícia de Nero, sem o seu chefe Tigelino, tornava-se bruscamente impotente. Aliás, alguns dos seus membros tentaram o mais cedo possível entrar em contacto com os conjurados para não incorrerem na justiça dos novos senhores.

Soube-se, pelos raros servidores que lhe ficaram fiéis, o que tinham sido aquelas horas para Nero.

O primeiro sinal de desafecto surgiu ao imperador à hora do almoço. Um servidor, entrando, entregou-lhe uma carta. Nero envelhecera em alguns meses. Já fios grisalhos apareciam entre os seus cabelos ruivos. A gordura que lhe alargava o rosto era cada vez maior, e aquela massa oscilante, que fazia do seu pescoço uma coisa informe, juntando-lhe as faces aos ombros, acentuava a sua tez amarelada e doentia.

Nero leu umas linhas escritas no bilhete. O sangue pareceu fugir-lhe do rosto. Chamou com um gesto o seu escravo liberto Sporus. Este Sporus, aliás, era como que a viva imagem dos costumes dissolutos de Nero; apaixonado por este efebo, o imperador mandara-o operar pelos seus cirurgiões de maneira a dar-lhe uma aparência feminina. E Nero chegara ao ponto de exigir que o matrimónio os unisse; e a cerimónia celebrara-se, juntando mais um escândalo a outros escândalos.

- Os exércitos juntaram-se à rebelião. Mesmo aqui, em Roma, a guarda pretoriana já não é de confiança. Sporus! Chama os servidores mais fiéis. Que partam imediatamente para óstia. Escreve, escreve depressa! Ordem do Imperador: Que toda a frota esteja pronta a aparelhar! Ide! Que partam, sem perda de um instante!

Nero bebeu um longo trago de vinho, e de súbito a cólera sucedeu-lhe ao abatimento. Num movimento, derrubou a mesa, agarrou os copos e arremessou-os ao chão.

- Hão-de pagá-las! Hão-de pagá-las! Todos! Todos! Hei-de estoirá-los como cães! Ah! Vais ver, Sporus, que suplícios inventarei para eles! Os próprios deuses nunca tiveram a imaginação que eu vou ter. Sporus! Corre a casa de Locusta! Que te dê o veneno que ela tem. Traze-mo! Mete-o nesta caixa de ouro!

Enquanto o secretário se afastava, o imperador, bruscamente, desatou a soluçar.

- Será, pois, preciso que o melhor actor destes tempos desapareça? Será, pois, necessário que eles arranquem esta voz a esta garganta? Oh! não. não! Não quero! Vão buscar o tribuno de guarda! Ide!

O oficial, ao entrar no aposento do imperador, seguido de um dos seus centuriões, não viu nenhum sinal da crise que vergava Nero. Inclinou-se diante do homem de aparência muito calma, muito à-vontade, que lhe disse:

- Tribuno, reúne os teus oficiais, partimos para óstia!

- É que, senhor...

- É o quê?...

- Receio muito que os oficiais se recusem a essa viagem.

- Que dizes? Recusem? Recusar é palavra que se empregue diante de Nero? Escuta, tribuno, ou eles obedecem, ou mato-os por minha mão!

- Antes de falares em matar, senhor - replicou o homem -. pensa primeiro na tua própria vida!

- A minha vida! A minha vida! Querem então a minha vida? Acredita-lo realmente? Levantar a mão para o seu imperador? Não o ousariam! Eu lhes direi. Vamos, uma toga preta, dêem-me uma toga preta, quero ir ao Senado! Eu lhes explicarei, eu lhes direi: «Nobres senadores, aqui está o vosso imperador, que se vos entrega, que se vos confia em pessoa, vede a imagem de Roma de luto, vede as lágrimas correr pelas minhas faces. Ah! Errei, confesso-o, e não escutei os vossos conselhos sensatos - (que eles nunca me deram, os miseráveis! Não importa!) - Sim, doravante ouvirei os vossos conselhos! Deixo-vos! Vede, o vosso imperador humilha-se! Uma prefeitura, uma pequena prefeitura, a do Egipto, pronto, e abandono Roma!» Sim, poderei comovê-los... Vamos.

- Não penses nisso, senhor. Não poderás chegar ao Fórum sem que te façam em bocados.

- Então, que devo fazer? Esconder-me? Ocultas-me em tua casa, tribuno?

O homem voltou a cara.

- E tu, centurião? Queres esconder-me?

O centurião imitou o seu chefe.

- Todos me abandonam! Cobri-vos de ouro e abandonais-me! Está bem! Vereis como um imperador sabe morrer! Ide buscar Spiculus, a sua espada é segura, não falha!

- Spiculus não está em casa - disse um servidor.

- Então - gemeu Nero - já não tenho amigo nem inimigo...

Assim decorreu o dia, as exclamações e as promessas de vingança alternando-se com gritos de medo e lágrimas.

- Que vais tu fazer?

- Vou para a caserna.

Um a um, os guardas desertaram do palácio. Quando, a meio da noite, o imperador acordou, admirado do brusco silêncio, a sua voz soou estranhamente, de sala às escuras em sala às escuras.

- Está aí alguém? Aí, nessa sala, bem vos vejo, não procureis ocultar-vos! Bem vos vejo! Vinde! Aproximai-vos! Nada receeis do vosso imperador, do vosso pai! Ah!

Um escravo liberto chamado Phaon acorreu ao grito terrível.

- Não te aproximes! Olha para ali, é ela! Sim, é ela! É Agripina, minha mãe! Oh! Tanta vez te vi nos meus sonhos! Já sabia que estarias cá nos derradeiros instantes; vens desfrutar o espectáculo... Vens matar mais uma vez... matar teu filho, depois teu esposo! Depois teu pai! Vai-te! Vai-te! Quero acabar sozinho!

- Senhor - disse Phaon - não fiques neste palácio deserto, segue-me!

- Onde me levas?

- Para a minha casa, fora da cidade. Aí, estarás seguro. Não te demores mais. Eles esperam pelo dia para invadir o palácio, os cavalos estão lá em baixo... Vens ou não?

- É assim que se fala ao amo?

- Faze o que quiseres, eu vou-me embora.

- Não, Phaon, não! Não me abandones tu também. Vês? Estou calmo. Vou contigo! Um manto! Aquele pequeno, de lã castanha... É o que melhor convém. Ah! Um véu para tapar a cara! Assim, não me reconhecerão!

- Vamos! - disse o escravo liberto.

Os cavalos galopavam através da cidade. A casa de Phaon ficava fora das muralhas de cintura, entre a Via Salária e a Via Nomentana. Era, pois, necessário atravessar Roma inteira. Ao passarem junto da caserna da guarda pretoriana, Nero e Phaon, a quem se tinham juntado Sporus e três outros, viram os clarões de numerosos archotes e ouviram gritos; um correio a cavalo que se cruzou com eles, bradou:

- Nero foi destituído! Galba acaba de chegar! Aclamaram-no imperador!

O pátio da caserna pretoriana estava repleto de uniformes, de togas de senadores, de vestidos de mulheres, também, curiosas de assistir sem perigo a uma revolução.

Alemius, ao saltar do cavalo, viu primeiro Drusus.

- Caro Drusus, como vai minha filha?

- Graças a Deus, está de boa saúde, mas as suas provações foram duras; depois te contarei.

- E Filipe? E Ben Hur?

- Estão aí.

Com efeito, Ben Hur assistia àquela balbúrdia, e seus olhos pareciam indiferentes. Filipe, pelo contrário, dir-se-ia conquistado por aquela atmosfera que se assemelhava, pelo menos na ordem, à de uma véspera de batalha.

Alemius apertou as mãos do príncipe e abraçou Filipe.

- Louvado seja o Senhor, caro Ben Hur. Soube de tudo o que esse monstro fez. Ides ser todos vingados!

- Que significa vingados? - perguntou Ben Hur docemente - É uma palavra que todo o cristão deve riscar do seu vocabulário.

- Enfim, Nero não pode viver depois do que ordenou!

- Não nos compete a nós julgá-lo! Aliás, o que é Nero? Nero sozinho não é nada! E já não é mais nada! Filipe! Filipe! Leva contigo alguns cavaleiros e procura o imperador! Trá-lo aqui, vivo!

- Procurais Nero? - indagou um soldado que chegava - Não vale a pena ir ao palácio. Partiu há questão de uma hora. Fugiu para o Norte.

- Ben Hur tem razão - disse Alemius - Vai, Filipe! É preciso impedi-lo de escapar-se!

Nero não pensava nada em escapar-se. Teve de rastejar, passar por buracos de vedações, tomar por azinhagas, para atingir uma espécie de retiro, na habitação de Phaon.

- Meus amigos, abram uma cova! - disse ele - Sim, abram uma cova à medida do meu corpo. Ah! Que artista vai perecer comigo! Quem vem lá? Quem vem lá?

Um correio era a causa desta nova angústia. Trazia uma carta a Phaon.

- Que diz ela? Que diz ela? - perguntou o imperador.

- Nada de bom, senhor.

- Mas o que é? Mostra! Ah! Escutai todos! O Senado declara Nero inimigo público. «É preciso procurar Nero para o punir, segundo os costumes dos nossos antepassados». Que costume é esse, Phaon? Não, Sporus, sabes tu?

- Sim. Despe-se o condenado, mete-se-lhe a cabeça numa forquilha e espanca-se, a varadas, até morrer.

- Não me farão isso! Não poderão! Sporus, punhais, dá-me punhais... Não terão esse prazer... Olhai bem! Sporus, começa as lamentações. Bem vejo, julgais-me mal, achais o meu procedimento indigno, tendes razão! É desonesto! É indigno de Nero! É verdade, é indigno! Ah! Algum de vós não quererá dar-me o exemplo de um bom sacrifício? Quererá alguém mostrar-me o caminho? Sporus, morre comigo, por amor de mim!

E como Sporus recuasse:

- É preciso sangue-frio, sim, sangue-frio em semelhantes momentos. Mas que miséria cortar a vida de tão grande artista!

Ouviu-se lá fora o ruído de um galopar.

- Ei-los! - disse Phaon.

Num movimento brusco, Epafrodita, antigo juiz relator, empurrou a mão de Nero, que encostara a ponta do punhal à garganta. Houve uma espécie de gluglu. Nero, olhos fora das órbitas, quedou-se um instante de pé. O sangue esguichou em golfadas para a sua túnica. Caiu de joelhos. Ninguém teve um gesto para o amparar, e rolou para o lado.

Filipe entrou, seguido de alguns oficiais. Num relance, viu o quadro: aquele miserável caído, com a garganta aberta. Era então aquele o temível imperador?

Filipe debruçou-se para Nero. Os olhos azuis, globulosos, já perdiam o seu brilho. Por um sentimento de piedade, Filipe pegou no seu manto e aplicou-o sobre a ferida.

- Demasiado tarde - gemeu Nero. E ajuntou:

- Eis a verdadeira fidelidade...

A cabeça tombou-lhe para o lado.

- Senhor - ousou, finalmente, Sporus dizer - ele obrigou-nos a prometer não deixarmos ninguém dispor da sua cabeça e queimar o seu corpo inteiro.

- Quem desejaria esta cabeça? - pronunciou Filipe - Procedei, pois, como prometestes.

Uma voz proclamou:

- Morreu Nero! Servius Galba é imperador de Roma.

 

Quando, um pouco mais tarde, Drusus pôde voltar

por umas horas à vivenda da Via de Óstia, viu sair uma longa fila de homens, mulheres e crianças que, saudando Ben Hur, de pé, sob o alpendre, tomavam o caminho da cidade.

Tão vivo era ainda o receio do uniforme das legiões que, quando Drusus, com sua couraça dourada se aproximava, a maior parte daquela gente deteve-se por um momento. Reconhecendo aquele que se fizera passar por intendente do príncipe de Hur, vieram cumprimentá-lo por seu turno.

- Senhor - disse uma mulher - sem o príncipe e sem ti, estaríamos mortos. Abençoados sejais cem vezes!

- Nunca vos poderemos pagar o que fizestes por nós! - disse um homem.

Drusus apeou-se no pátio interior. Ben Hur esperava-o no alto dos cinco degraus de mármore.

- Partem todos? - perguntou o tribuno.

- Acham que o alarme passou - respondeu Ben Hur - Querem voltar a suas casas, retomar a sua vida. O subterrâneo está agora deserto. Não restam senão os túmulos dos mortos. Recomendei a cada um que não revelasse a existência destas catacumbas. Espero que mantenham a palavra. Para maior segurança, mandarei murar a actual entrada e abriremos outro acesso secreto.

- Achas necessárias essas precauções?

- Quem nos diz que elas não deverão ainda servir como lugar de asilo para os cristãos?

- Oh, Ben Hur! Nero está morto e bem morto!

- Sem dúvida, mas não creio que os anos que vêm sejam feitos somente de calma e paz.

- Os cristãos, pelo menos, nada têm a temer de Galba!

- É possível, mas Galba é um velho. Quem lhe sucederá? Para mais, nada nos garante que ele tenha o arcaboiço de um imperador. Roma tem conhecido tantos senhores! E num país em que o assassínio político se tornou uma instituição, tudo se pode recear.

- Que homem sensato teria interesse em atacar os cristãos?

- Pergunta-o a Tigelino. É um monstro, mas um ser inteligente. Poderá explicar-te muitas coisas

- Continuas a mantê-lo prisioneiro?

- Se não tivesse ficado aqui, certamente teria sido despedaçado pela turba. Não tem ilusões a esse respeito; é, pois, mais meu protegido que meu prisioneiro.

- Deverá ser entregue à justiça do imperador. Opões-te a isso?

- Em virtude de que lei me poderei opor? Aliás, ele próprio não tentará fugir. Julgo-o demasiado hábil para não saber enfrentar Galba. A sua defesa está pronta: pretenderá que obedeceu constrangido a Nero, que, graças a nós, teve a felicidade de escapar ao jugo do imperador, que, antes, tudo fazia para se opor aos projectos criminosos do tirano em relação às mais nobres famílias de Roma; e, para tudo coroar, colocará, à disposição do novo imperador, uma pequena parte da imensa fortuna que acumulou. O Tesouro está vazio. Galba tem grande necessidade de dinheiro. Verás Tigelino desembaraçar-se, ou eu me engano muito no capítulo dos homens.

- No entanto, em boa justiça...

- A justiça, Drusus! Como se ela pertencesse a este mundo! É mais tarde e mais alto que Tigelino deverá prestar contas, e lá, para ser perdoado, creio que lhe será mais difícil.

- Mas que dizias tu que ele pensa dos cristãos?

- Ele sabe melhor do que nós como está o império. Este Estado não se apoia agora senão na força, no dinheiro e no prazer. Onde estão as antigas virtudes dos primitivos Romanos? As riquezas acumuladas por todas as conquistas fizeram com que perdessem todo o espírito de trabalho e de esforço. Esta Sociedade já não conta senão com as armas dos soldados e o trabalho dos escravos. Ora, que prega a nossa religião? Diz que todos os homens são iguais perante Deus. Não deve, pois, haver neste mundo nem escravo nem senhor; incita ao desprezo pelas riquezas, aconselha a afastar-se dos prazeres mundanos. Julgas que a sociedade Romana não reagirá contra isto? Até o presente, os cristãos constituem uma pequena parte no império, mas os nossos adeptos, podes crer, encontrar-se-ão com melhor vontade entre os humildes, entre os escravos… É por eles o começo da libertação. Se o seu número aumentar, depressa será em Roma o princípio de uma revolução. Assim como viste os Judeus de Jerusalém defender contra Cristo as suas prerrogativas, o poder estabelecido e os hábitos criados, assim verás o império defender-se contra esta Revolução da Cruz. Haverá dias sangrentos e anos terríveis. Eis o que penso e o que Tigelino pensa também.

- Meu caro Ben Hur, preocupas-te demasiado com o futuro. Pensa antes no presente. Olha. a nossa família está finalmente reunida, os nossos amigos já não são ameaçados. Retoma cada um a liberdade de viver como entende.

- Mas eu não oculto, Drusus, a alegria que experimento.

- Tirzah falou-te?

- Sim, disse a Ester e a mim quanto gostaria de voltar à nossa antiga moradia agora que já não tendes mais receio.

- Vês nisso uma ofensa?

- De modo nenhum. É justo que desejeis retomar o que durante cerca de vinte anos constituiu a moldura da vossa vida.

- Galba gostaria de conhecer-te.

- Sim? Em que poderei ser-lhe útil?

- Sabe o que indirectamente fizeste por ele, ao combateres Nero, e julgo-o susceptível de reconhecimento.

Servius Galba, como cônsul habituado a honrarias, depressa se adaptava às funções supremas. Sua estatura meã, suas mãos e pés deformados pelo reumatismo, ao ponto de não poder segurar um bilhete nem suportar o calçado, sem dúvida nada acrescentavam ao aprumo do novo imperador. Mas, sob a cabeça calva, os olhos azuis-escuros eram cheios de malícia, acima da púrpura.

- És de Jerusalém, príncipe - disse ele a Ben Hur - Sei que a tua delicadeza, também a fortuna que possuis, a religião que serves te impedem de receber de mim a menor recompensa.

Como Ben Hur esboçasse um gesto, Galba, cuja reputação de avareza era tão proverbial como a da sua guloseima, ajuntou muito depressa:

- Assim, não insisto nesse ponto. Seria agradecer-te muito mal impor-te uma contrariedade. Alemius, meu fiel amigo, disse-me que sua filha Albina vos devia a vida, a ti e a teu filho. Disse-me também que os dois jovens se tinham mutuamente prometido. Não me oporei a essa união. Pelo contrário, quero oferecer a esses jovens...

Abriu uma pausa e os familiares que o cercavam arrebitaram a orelha, tanto a palavra «oferecer» era rara na boca do antigo cônsul das Espanhas. Este acrescentou tranquilamente:

-.. todos os meus votos pessoais de felicidade. Se, por outro lado, caro príncipe, teu filho pretende qualquer lugar no Estado onde possa servir o seu imperador com a fogosidade que empregou na defesa dos seus amigos, fica sabendo que basta que Alemius ou tu próprio mo comuniquem. Mas não é este apenas o objecto da nossa conversa... Deixem-nos sós! Estavas em Jerusalém, há pouco tempo - prosseguiu o imperador, logo que os deixaram sozinhos.

- Sim, senhor.

- Soube por Alemius da tua amizade com Vespasiano e da embaixada que aceitaste junto dos Judeus rebeldes.

- E do seu malogro, decerto, senhor.

- Sim! Como Vespasiano, como tu, também o lamento. As guerras custam tão caro! Mas, enfim, visto que não há forma de as fazer de outra maneira!

- Acredita que foi com a morte na alma que Vespasiano se decidiu a atacar.

- Eu sei... Ele tinha as suas razões. Recebeste novidades de lá?

- De minhas filhas e de meus genros. Mas elas são quase exclusivamente caseiras.

- Aquilo vai mal para nós. A resistência daqueles Judeus é rude. Não se pode atingir Jerusalém, bandos guardam todas as montanhas, as nossas tropas não puderam progredir. Riem-se de Roma no teu país, príncipe!

- Roma desprezou-o durante tanto tempo!

- Oh, eu sei! Mas os teus compatriotas são loucos. Leva-se-lhes a paz e é quando escolhem a guerra.

- Senhor, tentei mostrar-lhes isso.

- Sim, Vespasiano assim o afirmou e eu acredito-o. Onde tu falhaste ninguém triunfaria. Tito, o filho, reclama reforços. Seria preciso levantar um exército, empenhar-se numa campanha, tudo isso é demasiado caro por agora. Tem Roma de reerguer-se, primeiro; e sofreu de mais com esse insensato que era Nero. É preciso consertar os muros da caserna, Ben Hur, as cavalariças sê-lo-ão um pouco mais tarde.

Houve uma pausa.

- Senhor! - pronunciou Ben Hur, inclinando-se para se despedir.

- Espera, príncipe! És muito escutado nos meios cristãos?

- Sou cristão, eis tudo o que posso dizer.

- Que pensam aqueles que os orientam? Não tomaram ódio ao poder?

- Não pode haver ódio neles, senhor; de contrário, não seriam cristãos!

- O ódio existe no coração de todos os homens, mas é verdade que aqueles que verdadeiramente sofreram são mais inclinados que os outros a esquecer, talvez porque eles próprios sabem onde conduz o ódio. No entanto, leva-lhes um conselho de minha parte.

- Sou todo ouvidos, senhor.

- Que celebrem em paz o seu culto, mas que não se metam na vida romana. Que saibam ser tão discretos como eu serei tolerante. Que sacrifiquem ao deus da sua escolha, mas que respeitem o poder do imperador.

- Jesus de Nazaré não falou de modo diferente. Ele disse: «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus!»

- Realmente? Se eu tivesse conhecido esse homem e ele me tivesse dito essas palavras, não o teria mandado para o patíbulo. Pois bem, príncipe, estou-te grato pelo que me disseste. Conto com a tua autoridade e a tua prudência para que a calma reine em todos os espíritos.

 

Vivenda de Drusus e de Tirzah, deixada ao abandono durante mais de dez anos, mas que felizmente não fora entregue à pilhagem, foi reparada em pouco tempo. Achava-se na colina Hortulorum e de seu maravilhoso terraço dominava toda a cidade. Dali, do meio dos eucaliptos, dos loureiros, abria-se sobre Roma uma perspectiva admirável em que se conjugavam as massas douradas e brancas das casas, os verdes sombrios dos pinheiros e dos ciprestes. A primeira refeição que se tomou na vivenda restaurada reuniu Ben Hur, Ester, Drusus e Tirzah.

- Creio que o outro dia tinhas razão, Ben Hur. O reinado de Galba parece-me pouco seguro.

- Sim?

- Sim. Conheces Otão?

- Muito pouco.

- No entanto, sabes que ele pertence a uma grande família. Seu pai já era muito estimado de Tibério. Ele próprio governou Portugal (1). Auxiliou tanto Galba que se esperava, normalmente, que este o nomeasse seu herdeiro.

 

Nota 1: - Certamente, por comodidade e para mais fácil compreensão do leitor do nosso tempo, o Autor empregou a palavra Portugal para designar a velha Lusitânia. Como se sabe, Portugal, com este nome e como Estado independente, só surgiria mais de um milénio depois da época em que decorre a acção deste romance.

- N. do T.

 

- E não o é?

- Não! Galba escolheu para isso o jovem Pison. Otão está despeitado e medita a sua vingança.

- Drusus, acabas de ser nomeado tribuno das coortes de Roma, tens a categoria de prefeito, incumbe-te uma parte da ordem pública. Tens de defender Galba.

- Não o julgo nada defensável. Mandarei matar homens inutilmente e perderei o meu crédito.

- No entanto, é simplesmente o teu dever.

- Não me parece de meu dever arriscar-me a fazer massacres por uma causa perdida.

- Então, trairás aquele que depositou em ti a sua confiança?

- Digamos que serei obrigado a adaptar-me às circunstâncias.

- A fórmula é bonita! Drusus, começas a compreender quanto o poder envilece?

- Que diz Alemius de tudo isto? - indagou Ester, para quebrar o tom difícil que a conversa tomava.

- Está como eu - respondeu Drusus - Deve-se ser prudente. Ele também é um soldado e não um político. Compreendo a tua reacção, Ben Hur, tudo deveria ser simples: serve-se o amo e não se formulam perguntas.

Mas é Roma que servimos primeiro, e se Roma muda de amo, mudaremos com ela. Os tempos são feitos assim.

- Servis Roma, é certo, e pensais nas vossas honras, e nos vossos proveitos. Contanto que se conserve a situação ou que se melhore, tudo vai bem.

- Coloca-te no meu lugar!

- Recuso colocar-me. Prefiro ser livre. Alemius e tu dispõem de bastantes bens para não continuarem a desempenhar um papel que vos desagrada. Quem vos impede de abandoná-lo e de vos tornardes, como eu, um simples cidadão?

- E quem nos substituiria? Homens certamente menos probos do que nós, cujas necessidades seriam maiores e que delapidariam tranquilamente os dinheiros públicos... Abandonar, nestas condições, não seria antes uma forma de cobardia?

- Talvez - disse Ben Hur - Em todo o caso, perdoa se te fiz sofrer.

- Tu, Ben Hur - disse Drusus - és o único homem de quem posso ouvir tudo.

- Quando casam Albina e Filipe? - perguntou Tirzah.

- Ainda não se fixou a data - respondeu Ester Aliás, Ben Hur gostaria de que Filipe tivesse uma situação antes de criar família.

- Pelo menos, desejaria que ele tivesse escolhido a sua carreira - disse o príncipe.

- Posso dizer-te qual a que ele tem vontade de seguir. Fez-me muitas vezes essa confidência. Aliás, bem o sabes, quer ser soldado.

- Na sua idade, tive o mesmo sonho.

- Então, não podes opor-te à sua glória.

- Não nos poderemos tornar ilustres senão matando outros homens?

- Devemos manter uma categoria, Ben Hur. Não quero desgostar-te, mas as regras aqui são diferentes das de Israel. Lá, admite-se que um príncipe comande, como tu o fazias, frotas comerciais; mas, aqui, só o ofício das armas pode dar lustre a uma grande família.

- O teu João será também oficial?

- Com certeza. Aliás, ele deseja-o... E partirá muito em breve para o acampamento!

- Ainda é muito novo - observou Ester.

- Sem dúvida, mas ele inquieta-me!

- Porquê? Foi de uma grande coragem durante tudo o que acabámos de viver. Já está bem maduro, e não se entregará àquelas loucuras que cometem muitas vezes os rapazes da sua idade.

- Meteu-se-lhe em cabeça uma outra loucura.

- Queres referir-te à pequena Aclis?

- Naturalmente!

- Bem sabias que se sentiam atraídos um pelo outro. E isso não parecia chocar-te até o presente!

- Estávamos encerrados numa fortaleza, estávamos proscritos, vivíamos uns em cima dos outros. Tinham o prazer de estar juntos. A sua atitude nada tinha de criminoso.

- E hoje?

- Ben Hur, pensa bem! Aclis é uma escrava e João é filho de um tribuno. Usa um grande nome de Roma. Seria uma loucura. E todos os nossos amigos se ririam de nós.

- Não dizes nada, Tirzah? - perguntou Ben Hur.

- Ai! - suspirou Tirzah - Aclis é muito meiga e João ama-a.

- Ama-a! Ama-a! - exaltou-se Drusus - Ama-a como companheira de folguedos, como uma pequena escrava. É bonita, terna, admira-o, isso basta, mas João ainda é uma criança. Esquecê-la-á!

- E ela?

- Ela! Não posso sacrificar a honra de uma família ao capricho de uma rapariga, ou mesmo do seu amor!

- Eu disse a mesma coisa, Drusus, quando requestavas Tirzah, e, no entanto, sois um do outro.

- Não podes comparar. Eu levei um nome a Tirzah, uma reputação.

- Eras romano e, para os Judeus, uma sua filha desposar um ocupante, um homem sem Deus, era mais grave do que teu filho desposar uma jovem que, pelo menos, partilha da mesma crença.

- Basta! - exclamou Drusus - É impossível. João casará com uma patrícia romana de minha escolha e bem é preciso que se satisfaça!

- Ah, Drusus! - suspirou Ben Hur - Éramos mais felizes no tempo das proscrições. Pelo menos, não obedecíamos senão a nós próprios e não éramos obrigados a fazer alguma coisa que fosse mal!

- Talvez tenhas razão - disse Drusus - mas já não estamos no tempo das proscrições.

- Senhor! - disse, de manhã, Malluch, ao entrar no quarto de Ben Hur - O imperador Galba foi assassinado.

- À ordem de Otão?

- Sim! Sentiu-se ameaçado, fechou-se no Palatium, mas vieram pessoas trazer-lhe notícias falsas espalhadas pelos conjurados. Diziam que a revolta se gorara, que Otão fora morto. Galba acreditou, saiu e os assassinos liquidaram-no.

- Otão é, pois, o imperador?

- O Senado dispõe-se a proclamá-lo.

- Sabes onde estava Drusus nessa altura?

- Passei por sua casa, não a tinha abandonado.

- Temos então de nos tornar cobardes? Ah, Malluch! Ainda não nos estamos a bater nos caminhos da Galileia!

- Senhor, Drusus e Alemius também te recomendam que vás amanhã apresentar os teus cumprimentos ao novo César.

- É então preciso contemporizar ainda mais... Irei, pelos nossos irmãos.

Ester respeitava o silêncio de seu esposo. Sabia quanto este homem, habituado à acção, sofria com aqueles compromissos que era preciso suportar. Cada dia, ou quase, conduzia ao que ele considerava uma nova renúncia. Assim lho dissera.

- Sinto-me por vezes a invejar os que morreram no circo pela nossa Fé. Pelo menos, esses, partiram de alma pura. Como estamos sós, Ester! Pergunto a mim próprio se tudo isto foi verdade, se realmente O vimos, se O ouvimos nas estradas da Judeia. Como é difícil viver sob a Sua Lei, sem que Ele aí esteja para nos mostrar o caminho.

Depois da refeição, Ben Hur experimentou bruscamente a necessidade de mergulhar em outro mundo: aquele que fora tão cheio de angústia e de esperança, também... Os operários acabavam de vedar a antiga entrada das catacumbas. Perfuraram um novo acesso. Uma pequena coluna girando sobre ela própria, no átrio da vivenda, arrastava uma parede de mármore que disfarçava a entrada. Só os membros da casa conheciam o segredo e Ben Hur sabia que eles não o revelariam a ninguém. O príncipe fez mover o mecanismo e desceu os degraus para o subterrâneo. Este estendia-se por longa distância e era constituído por corredores em linha quebrada, quartos alveolados onde já se tinham colocado os corpos dos cristãos entregues ao martírio.

De onde em onde, ardia uma lamparina de azeite. O velho jardineiro Glocea e o escravo Morea velavam por que nunca se apagassem.

Ben Hur seguia por esses corredores sombrios. Uns meses antes, centenas de famílias acolhiam-se ali. Agora, estava tudo deserto e o príncipe pensava que já chegara o tempo das recordações. Continuando a avançar, deteve-se novamente. Ouvia agora distintamente suspiros e gemidos, como se alguém chorasse. Avançando mais, viu um vulto branco estendido nas lajes de pedra de um dos compartimentos. Debruçou-se e reconheceu Aclis, pelos cabelos louros que flutuavam.

- Aclis! - exclamou Ben Hur - Quem te autorizou a desceres aqui?

A jovem teve um movimento brusco, ergueu para ele um rosto sulcado de lágrimas. Ao reconhecer o príncipe, baixou os olhos, levantou-se e, de cabeça vergada, disse:

- Senhor, porque...

- Porque vieste para aqui?

Sem responder, levou as palmas das mãos aos olhos.

- Eu sei porque aqui estás, Aclis - disse Ben Hur brandamente - Viste João?

A voz da jovem Gaulesa soou, sufocada:

- Sim, senhor...

- Que te disse ele?

Aclis olhou-o de novo e Ben Hur sentiu-se comovido pela dor que leu no seu olhar.

- Disse-me que o pai queria que ele partisse, que devia desposar uma Romana, que não nos veríamos mais. Oh! Senhor, será isso possível?

- E é possível para ele? Disse-o? Responde! Porque não queres falar?

- Pediu-me que jurasse que não falaria!

- São juras de crianças, e eu tenho o direito de saber. Não ignoras que gosto de João. e que também gosto de ti, Aclis.

- Disse-me que ia obedecer, disse-me que ia partir para o acampamento e que no primeiro assalto... Oh!... deixar-se-ia morrer!

- Então, e tu?

- Eu, também queria morrer. Pensei que ninguém viria aqui durante alguns dias e que, nesse momento, tudo teria acabado.

- Aclis, vós ambos sois dois inocentes. Primeiro, ninguém tem o direito de dispor da sua pessoa. Só Deus o pode fazer, como sabes. Seria demasiado fácil, quando as nossas horas fossem demasiado pesadas, cortar uma vida e achar logo a bem-aventurança eterna. As provações são mais ou menos cruéis, para todos os homens, mas todos devem suportá-las, e é segundo o seu comportamento que o céu se abre ou não.

- Senhor! Perdoa-me, mas, sem ele, não poderei...

- Aclis, tu conheces-me. Olha para mim. Bem sabes que não te enganarei. Ajudar-vos-ei a ambos, tanto quanto puder. Enquanto eu proceder, ficareis fiéis em espírito um ao outro. Falarei com João, dir-lhe-ei o que te disse a ti, e ele nada fará para deixar este mundo, acredita. Por teu lado, promete-me que saberás esperar. Prometes-me, Aclis? Responde!

- Prometo, sim, senhor!

 

O EREMITA DE BAUX

SEM dizer palavra, Malluch escutava o relato que o príncipe lhe fizera da cena do subterrâneo.

- Eis o que prometi - disse Ben Hur - mas, em verdade, não sei como manter a promessa. Drusus nunca quererá deixar-se enternecer. A glória do nome passa agora à frente dos impulsos do coração. E eu coloco-me no seu lugar. É difícil que seja de outro modo.

- E - perguntou Malluch - se essa pequena não fosse uma escrava, seria diferente?

- Escrava nada quer dizer. Segundo a lei, posso amanhã libertá-la, isso não impede que ela permaneça uma filha sem pais e da classe mais baixa. Devíamos ter-te escutado, Malluch, quando nos dizias que os casássemos o mais depressa possível, durante as perseguições. Drusus não teria resistido.

- De qualquer maneira é demasiado tarde. De onde veio Aclis? Ela sabe-o?

- É Gaulesa, mas chegou a Roma muito criança, como escrava.

- Permites-me que a interrogue?

- Tens necessidade da minha autorização, Malluch? Faze o que julgares melhor pelos dois.

Nessa noite, Malluch ficou muito tempo junto de Aclis, depois chamou Benex para o pé deles. No dia seguinte disse a Ben Hur:

- Aclis não tem nenhuma recordação da sua tenra infância. Sabe apenas por uma velha que estava com ela, e que depois morreu, que provinha de uma cidade chamada Aries, na Gália meridional.

- Porquê todas essas pesquisas?

- Porque Benex, que é Gaulês também, está, como eu, impressionado com uma coisa: Aclis, pelo seu aprumo, pela sua beleza invulgar, não tem o ar de uma filha de escravo. Se tivéssemos quaisquer indícios sobre a sua família e que estes fossem bons, haveria mais probabilidade de convencer Drusus.

- Como obtê-los, senão indo ao local?

- É exactamente o que eu te queria propor, Ben Hur.

- Uma expedição à Gália, na tua idade, meu caro Malluch?

- Porque não? Com Benex, que conhece o país e a língua, tenho algumas probabilidades de êxito. Aries, segundo ele me diz, não é assim tão longe. Segue-se pela costa para o Norte, e basta uma dezena de dias a cavalo. Falaste com João?

- Falei. Prometeu-me ser prudente. Deposita confiança em mim e em ti. também. Vai dar lições de armas com Thord, antes de partir para o acampamento. Malluch, tens mais uma vez razão. Mais vale uma viagem, mesmo inútil, do que nada tentar. Leva Benex contigo e parte quando achares conveniente.

Alguns dias depois, Alemius fez-se anunciar em casa de Ben Hur. A fortuna do tribuno aumentava consideràvelmente depois da morte de Nero. Sem dúvida, os costumes austeros de Alemius não mudaram. Não se viam, na sua vivenda recuperada, aquelas reuniões licenciosas que quase todos os grandes de Roma organizavam em suas moradias; mas, nomeado prefeito do império, frequentava a Corte e a Sociedade mais do que outrora. Não se deslocava senão em soberba equipagem precedida de porta-estandartes e seguida de uma trintena de cavaleiros.

- Eu te saúdo, príncipe! - disse ele, ao entrar no peristilo onde Ben Hur o aguardava.

- Deus seja contigo, Alemius!

- Há já uns dias que desejava fazer-te esta visita. Os deveres do meu cargo têm-mo impedido. Certamente me perdoarás.

Ben Hur esboçou um movimento com a mão.

- Adivinhas o objectivo da minha visita, trata-se dos nossos dois filhos.

- Se a impaciência de tua filha é tão grande como a de Filipe, creio, realmente, que é tempo. Eis-te caído em graça, Alemius, e o teu cargo é importante. A nossa religião já não corre perigo, pelo menos, de momento. Por mim, não vejo nada que se oponha à sua união. O seu amor resistiu bem às desordens e, dizem eles, não fez senão aumentar. Parece-me que é tempo de os casar…

- Sabes, príncipe, o respeito que tenho por ti. Estou em dívida para contigo, como todos os cristãos de Roma. Teu filho deu provas das maiores virtudes, e sentir-me-ei feliz por ele entrar na minha casa. No entanto...

- No entanto?

- No entanto, pensa bem: Filipe vai tornar-se, pelo seu casamento, o filho único de uma das mais nobres famílias de Roma, visto que Albina é minha única herdeira. Ora, os Alemius tiveram sempre a glória na sua casa.

- Que queres dizer com isso?

- Que a Filipe não falta senão ser soldado para desposar Albina. É a regra, bem sabes, entre os nobres de Roma.

- Eis-nos no caso. Um homem, em vossa opinião, não pode tornar-se um homem se não usar uma couraça.

- Não pode ser um nobre senão nessa condição.

- Não há nobreza em outras actividades? Um jurista, um homem de leis, um pensador, um hábil negociante não podem ser bem nascidos? Por mim, Alemius, prefiro um muito bom artífice a um mau capitão.

- É possível e compreendo-te, mas a lei, desde há séculos, assim o quer em Roma. Chegado à idade madura, pode-se abandonar o exército, obter um posto de governo, entrar para o Senado, mas isto é impossível se as armas não fizeram já a sua glória.

- Impões essa condição formal para o seu casamento?

- Sou a isso obrigado.

- Dize-me, Alemius, tiveste na mão, como eu, os Evangelhos, o de Mateus, o de Marcos e o de Lucas. Leste aquela palavra do Senhor: «Não matarás». Como pensas tu conciliar este mandamento com a profissão de guerreiro?

- Houve soldados em todos os tempos. Não podes comparar um legionário com um assassino que mata de propósito deliberado. A palavra de Jesus aplica-se, tenho a certeza disso, a este somente. Defender a pátria não pode ser um crime.

- Muito haveria a dizer sobre a defesa da pátria, e há muito tempo que Roma não é ameaçada. Em verdade, é ela quem leva a guerra a todas as costas do Mediterrâneo, para fazer reinar as águias sobre novos Estados.

- É preciso ver ainda o que Roma leva aos seus novos Estados. Da barbária em que se encontravam, fá-los passar a uma vida mais ampla, mais humana.

- Não é essa a questão. A pergunta é esta: à parte o facto de ser obrigado a defender a sua família, a sua aldeia, a sua terra, um cristão pode escolher livremente usar armas, visto saber que um dia, forçosamente, deverá servir-se delas contra outros homens?

- A isso respondo sim, sem hesitação.

- Tens a sorte de poderes ser assim tão formal, Alemius!

- Devo concluir que impedirás teu filho de entrar no exército?

- Filipe tem liberdade de escolha... Ou melhor, tinha...

- Que é que o retém agora?

- Tu próprio. Não dás a tua filha senão a um oficial. Não é bem esse o teu propósito?

- Sem dúvida!

- Se Filipe ama Albina como o diz, e creio que isso é verdade, deverá, pois, sujeitar-se à tua vontade, ou destruir a felicidade de ambos. É isto liberdade de escolha?

- Não pode ser de outra maneira.

- Está bem! Falarei com meu filho, mas, Alemius, medes bem o fosso que existe entre nós e os verdadeiros cristãos?

Filipe achava-se diante de Ben Hur e Ester. Ao falar, o jovem animara-se, e Ester, contemplando-o, não podia desviar o pensamento de um outro vulto, tão semelhante, o de Ben Hur na mesma idade.

- Pai, suplico-te, não te oponhas. Compreendo os teus escrúpulos, mas asseguro-te que não os partilho. Não pode haver desonra no ofício de soldado. Meu tio Drusus deslustrou-se? Tu próprio não concedeste a mão de minha irmã a um centurião? Os Estados que se prolongam nas fronteiras de Roma ainda são bárbaros. Nenhum conhece Cristo e a sua Lei. Tu mesmo o dizias há pouco, que foi pelas legiões que o pensamento cristão se expandiu, no espaço da vida de um homem. Comprometo-me diante de ti a nunca atacar seres sem defesa, a nunca participar de pilhagens e de assassínios. Deixa-me ser soldado.

- Filipe - disse Ester suavemente - supondo que nunca tivesses encontrado Albina, farias hoje o mesmo pedido?

- Honestamente, julgo que sim. Que mais apaixonante ocupação se pode ter na minha idade? Tenho sede de perigos, de riscos, não quero levar uma vida excessivamente sedentária, demasiado fácil. Tu mesmo, pai, não experimentaste na minha idade idêntica necessidade?

- Experimentei-a tão bem que, mais novo do que tu alguns anos, supliquei de minha mãe que me deixasse partir para um acampamento romano.

- E ela opôs-se?

- Não! Mas, nesse tempo, ainda pouco ou nada sabíamos das ordens de Deus. Seguíamos as leis dos nossos antepassados, é certo, mas, no decurso dos séculos, elas tornaram-se menos claras. Pouco a pouco, os homens tinham-nas limado, adaptado às suas necessidades, às necessidades da sua vida. Mas agora pensa, Filipe, pensa que nós O vimos, tua mãe e eu, e que nos aproximámos d’Ele. Veio para que este mundo fosse um pouco menos cruel, um pouco menos brutal; já não é uma Lei velha e mumificada que nos guia, é uma palavra ainda fresca, nova e tão verdadeira, tão evidente, que, ao evocá-la, não posso impedir que os meus olhos se encham de lágrimas.

- Pai, os homens hão-de continuar a empreender guerras...

- Assim o receio.

- Nesse caso, não vale mais que existam cristãos nas fileiras dos guerreiros? Ao menos, poderão atenuar o horror.

- Mais uma vez, a Palavra de Deus será adulterada porque nos convém, e acharemos boa desculpa para a nossa consciência, porque o faremos por «bem fazer»... Oh! Eu sei...

- Mas, pai, algum de nós segue a Palavra à risca? É mesmo possível aplicá-la? Qual de nós obedece ao que Jesus disse um dia: «Vende tudo o que tens, dá-o aos pobres... e segue-me!»

- Tens razão, Filipe! Ai, nenhum de nós segue totalmente a Sua Palavra e é isso o que me desespera. Se nós, que O vimos, não podemos fazer o que Ele pediu, o que não será pelos séculos adiante, quando nada mais restar d’Ele senão uma recordação e escritos? Filipe, julgar-me-ás fraco, mas o meu amor por ti é que é demasiado grande. Reza, pois, o mais que puderes, procura a verdade. Amanhã, dir-me-ás a tua decisão. Qualquer que seja, aprová-la-ei.

- Pois já falei a meu filho - dizia Ben Hur a Alemius - Como vês, não te oculto nada. E esta manhã disse-me ele: «Reflecti bem, quero ser soldado». Sè-lo-á, portanto.

- Nada terás a lamentar com essa escolha, caro Ben Hur. Sabes o favor de que desfruto aqui, graças a Deus. Alguns meses de acampamento para teoria militar e, fazendo o seu valor o principal, a sua coragem, a sua força, intercederão por ele, muito em breve terá um comando. Farei com que o nomeiem para aqui, em Roma. Assim os nossos filhos ficarão perto de nós!

- Alemius, visto ele ter escolhido essa carreira, peço-te que penses no nome que usa, e no teu também! Sobretudo, que não seja daqueles oficiais que ganham sem risco o seu lugar, que não devem senão a poderosas protecções a sua promoção, o que faz com que sejam desprezados pelos seus homens. Não! Teria vergonha disso e tu também! Pelo contrário, que se exponha e que conquiste a dedicação dos homens que comandar e o respeito daqueles que tiver de combater. Escuta! Sabes que o acaso me fez conhecer Vespasiano, bem como seu filho Tito. Apesar dos seus esforços, tiveram de empenhar-se em combates na Judeia. O meu povo sofre, Alemius; e este povo é também o de Filipe. É para lá que ele deve ir, é lá que ele deve, depois das batalhas, evitar o caos, as vinganças e as pilhagens. É essa, aliás, a sua vontade formal.

- Pensaste em Albina?

- Pensaste que a mulher de um soldado não pode apreciar seu marido, senão quando o sabe em perigo?

- Tens razão, príncipe. O meu amor por ela incitava-me a excessiva moleza. Está bem, vamos casá-los, depois partirá para Cesareia sob as ordens de Vespasiano.

- Se Albina desejar acompanhá-lo, a minha casa do porto ficará à sua disposição.

- Albina procederá como todas as verdadeiras Romanas. Aguardará seu marido aqui e desejará somente que ele regresse vencedor.

- Está bem, Alemius. Para quando fixaremos o casamento?

- Para te dizer a verdade, gostaria de que esperássemos uns dias. Preparam-se ainda graves acontecimentos.

- Julgas que a revolta da Germânia já ameace o imperador? Ainda mal chegou ao trono!

- Justamente! Os exércitos do Norte elegeram um imperador, Vitélio, antigo cônsul de África. Recusam-se a admitir a proclamação de Otão. É a guerra inevitável. Otão parte amanhã, à cabeça de numerosas tropas, mas quem poderá prever para que lado penderá a vitória? Esperemos mais uns dias, mas Filipe que venha amanhã ao exercício pretoriano. Assim, o seu treino não sofrerá mais atraso.

Filipe e João encontraram-se no dia seguinte em armas. A situação de suas famílias fez com que lhes poupassem todos os pequenos aborrecimentos da vida militar. Um dos primeiros mestres que encontraram soltou, ao reconhecê-los, uma espécie de rugido, seguido de uma enorme gargalhada.

- Thord! - exclamou João - Thord, o Nórdico!

- Sim! - disse Thord, rindo à farta - Espantoso; hem? Encontrar o velho Thord a ensinar os jovens oficiais! Na verdade, teu pai foi bem gentil, João. Mandou-me nomear para aqui, porque fui o melhor gladiador de Roma. É a minha reforma!

- E a tua loja? - perguntou Filipe.

- Ah! Vendi-a! Definhava-se lá dentro, fazia-me velho antes da idade. É que, jovens, eu só tenho setenta e cinco anos, e tinha a impressão de já ter ultrapassado os cem! Sentado todo o dia junto dos cascos, enferruja-se. Ah! Ah! Eu vos digo, o homem precisa de vinho, mas precisa sobretudo de exercício. Vamos, vinde! Vou ensinar-lhes um golpe terrível! Foi o que outrora ensinei a teu pai, Filipe. Mata o seu homem a cada ataque. Reparai bem!

Ao cabo de duas horas de exercício, os dois primos, encharcados em suor, pernas bambas, cabeça oca, tiveram de confessar-se vencidos. Thord, esse enorme e jovial Thord, não acusava nenhuma fadiga.

- Ide - disse ele - Abanquemos agora. Depois disto, é preciso comer e beber!

E não parando de rir senão para deglutir, fez desfilar pela sua mesa uma quantidade enorme de alimentos.

- E Malluch? - perguntou ele, por fim - Nunca mais o vi. Onde está esse velho patife?

- Partiu com Benex - respondeu João - e por minha causa.

O jovem contou rapidamente a Thord os seus amores contrariados com Aclis, e a resolução que Malluch tomara de ir pesquisar na região de Aries as origens da pequena escrava.

- Aclis - disse Thord - Aclis, aquela lourinha, de olhos azuis?

- Mandou ontem uma mensagem. Ainda não encontrou nada.

- E nada encontrará, digo-te eu, levando por companheiro um burro surrado como Benex, um bom bruto, sim, capaz de desembaraçar-se de três tipos só com um tabefe, mas nada na cabeça... Ah! Ah! Escuta, pequeno, vais avisar imediatamente Malluch. Dize-lhe que o velho Thord o saúda e dize-lhe que vá procurar da minha parte um antigo aluno meu, chamado Galfon. Aquilo, sim, é um homem! E manhoso! É chefe dos gladiadores nas arenas de Aries. Ele conhece toda a gente. Se ele não conseguir encontrar os pais de Aclis, é porque estão nos infernos e ninguém lá pode ir.

- Galfon! - repetiu João.

- Sim, Galfon, não há que errar. Malluch verá: é um jovem, mas tem uma cabeça que vale pelas de três velhos.

- Que idade tem ele? - perguntou Filipe.

- Oh! Pelo menos, uns cinco anos mais novo do que eu... Uns setenta.

- E dizes tu que é um jovem! - exclamou João, a rir à gargalhada.

- Sim, meu homenzinho... E anda cá, para eu te ensinar um golpe, vais ver o que é o punho de um velho! Ah! Ah!

João jurou essa noite nunca mais se rir da idade de Thord, o Nórdico.

A prudência de Alemius viu-se justificada. O imperador Otão, batido pelas tropas da Germânia, suicidou-se e Roma não tardou em saber que tinha um novo amo, Vitélio, e que este, cruzando triunfalmente a Gália, em breve faria a sua entrada, ao som da trombeta, na cidade das Sete Colinas.

O casamento de Filipe com Albina foi marcado para o dia seguinte ao desta cerimónia.

Foi na vivenda de Ben Hur que o matrimónio se celebrou. A jovem teve empenho em que lhes fosse lançada a bênção no mesmo local onde, no meio de centenas de cristãos, conhecera horas simultaneamente tão angustiosas e tão exultantes, nas catacumbas abertas pouco tempo antes das perseguições de Nero.

Ao aprovar este desejo de sua filha, Alemius dissera:

- É impossível convidar para uma cerimónia cristã as altas personalidades romanas. Ignorá-las completamente seria também um grave erro.

- Unamos então os nossos filhos em dois lugares diferentes - propôs Ester - Que Lino os abençoe nas catacumbas, reuni depois os vossos amigos romanos na noite do casamento, na vossa vivenda.

Esta solução pareceu a mais sensata. Ninguém se admiraria de que um aparente acto religioso presidisse ao matrimónio. Inúmeros Romanos havia muitos anos que não conservavam senão alguns ritos das antigas crenças; e a velha religião de Roma, com seus numerosos deuses, já não tinha nada de vivo; não se manifestava, por vezes, senão como recordação de tempos idos.

De manhã, só os cristãos foram, pois, convidados para a vivenda da Via de Óstia. Reuniram-se numa das vastas salas das catacumbas. Lino, sucessor de Pedro à cabeça da Igreja cristã de Roma, cercado de diáconos, acolheu os noivos: Filipe, fardado de centurião das legiões de África em que acabava de ser colocado, Albina, vestida cor de açafrão, levava sobre os cabelos louros o véu cor de laranja das jovens esposas.

Já existia o hábito da troca do sim para os cônjuges que se comprometiam a consagrar-se mutuamente a vida inteira.

Lino recordou a Palavra de Jesus, que, interrogado pelos Fariseus sobre a possibilidade que havia de se repudiar ou não uma esposa, dissera: «O que Deus uniu, o homem não desunirá.» Depois, falou nos seguintes termos:

- Meus queridos filhos, meus queridos irmãos, eis que por uma dessas estranhas reviravoltas de que só Deus detém o segredo, nos encontramos livremente reunidos neste sombrio lugar onde, ainda há uns meses, nos dissimulávamos na angústia.

«Eis que viestes, sem terdes de vos esconder pelas ruas da cidade. É livremente, também, que voltareis a vossas casas e retomareis as horas de uma vida normal.

«Mas bem sei que não podeis percorrer de novo estas galerias e estas salas sem serdes tomados por uma grande tristeza e também por uma grande esperança.

«Aqui, muitos dentre vós chegaram aterrados, perseguidos pelos guardas de Nero, destinados aos piores suplícios, se vos descobrissem. Aqui, vivemos juntos, espreitando e orando, ajudando-nos uns aos outros na nossa mágoa.

«Não nos chegavam aqui senão os mais tristes ecos, lembrai-vos, meus irmãos: um tal fora capturado, um tal sofrera torturas, um outro morrera no circo. Mas, nas narrativas desses mártires, recordai-vos também que descobrimos, de cada vez, a infinita misericórdia de Deus. Um homem que conhecêramos pouco firme na sua fé, pouco ousado nos movimentos da sua vida, eis que sabíamos que se igualava aos maiores na coragem e no estoicismo da sua morte. Uma mulher que não nos parecia seguir os preceitos de Cristo senão por uma espécie de hábito ou para não contrariar o pensamento de seu marido ou de seu filho, eis que se transforma, diante das feras, numa cristã ardente e que parecia ver, nos derradeiros instantes da sua vida, a Glória de Deus na sua frente.

«Lembrai-vos, pois, de como estes exemplos nos exaltavam, como mesmo alguns de vós, desprezando toda a prudência, desejáveis sair destes lugares e correr ao suplício, a fim de ali receber a recompensa prometida aos justos. Eu próprio, confesso-o, ignorando o alcance das medidas terríveis que se preparavam contra os cristãos, recusando-me a encará-las em todo o seu horror, resisti mais de uma vez aos sensatos conselhos do príncipe de Hur. Apesar deles, apesar dos avisos do apóstolo Paulo, mantive essa infeliz reunião às portas da cidade e assim lancei na prisão milhares dos nossos. Quererá Deus perdoar-me, se vós, meus irmãos, pela vossa confiança, parecestes absolver-me?

«Se recordo, num dia que todos desejamos infinitamente feliz, esses dias terríveis, é sobretudo para encontrarmos um sentido nesta nova reunião. Hoje, todos estamos solidários com estes dois jovens que escolheram caminhar juntos na vida. Fazem-no eles somente pelo prazer de serem dois? Pela alegria de viver sob o mesmo tecto, de partilhar o mesmo leito durante esta vida mortal? Qual será então o significado dos nossos votos e das nossas orações? Que importância tem o contentamento ou a provação durante a breve passagem pela terra, comparados com os séculos e os milénios que abarcam o céu e os mundos?

«Não, se estamos aqui reunidos em volta destes dois jovens é porque sentimos que eles desposam no seu coração aquele sentimento de que Jesus foi o mais vivo exemplo, o amor.

«Amai-vos, Filipe e Albina, amai-vos um ao outro e amai todos os outros, porque é Jesus que encontrareis através daquele para o qual vos volvereis. Pensai na Palavra que Ele disse, há trinta anos: «Tenho fome e vós dais-me de comer, tenho sede e vós dais-me de beber, tenho frio e dais-me de vestir, estive doente e vós ajudastes-me, estive preso e vós visitastes-me»... E os justos dirão: «Quando, Senhor, fizemos isso por Ti?» E Ele: «Em verdade vos digo, cada vez que fizestes isso ao mais pequeno dentre vossos irmãos, foi a mim que o fizestes.»

«Assim, em cada um de nós, está Deus. É isso mesmo o essencial do que Jesus nos revelou, é nisso que a nova Lei traz uma revolução à antiga regra dos Judeus.

«Esta solidariedade total, este amor sem egoísmo, sentimo-lo nós nos dias de medo e de luto, entre estas paredes, mas sentimo-lo ainda tão forte? Tão total?

«Esta pergunta formulo-a com tristeza, porque, ai, como vós, posso responder-lhe. A resposta é negativa, como o sabeis. A vida retomou-nos, há as necessidades de uma profissão, as preocupações de uma família, os cuidados de uma glória terrestre, da categoria a manter, da sociedade a satisfazer.

«Qual dentre nós, aqui, neste dia, se pode afirmar tão profundamente certo do espírito de renúncia como o estava há menos de um ano?

«É preciso que as grandes ameaças e os grandes cataclismos se abatam sobre os homens para os ligar entre eles, para esquecerem os seus interesses, as suas paixões e as suas ambições, para que, enfim, se fundam numa só massa que é amor.

«Assim, vemos que tudo o que se relaciona com o mundo nos afasta uns dos outros e nos afasta também de Deus.

«Filipe, e tu, Albina, não desvieis os vossos olhares um do outro. Que a classe, o desejo de brilhar, a sede de êxito, os prazeres exteriores vos não tolhem.

«Vê em Filipe, Albina, o próprio rosto de Jesus, e contempla para sempre, Albina, em Filipe, o perfeito amor e a infinita misericórdia de Deus. Amen!»

Cada um dos que escutavam Lino sabia que ele dizia a verdade. Iam sair para o claro sol. O tempo das catacumbas passara.

Entre as cabeças baixas, Ben Hur viu principalmente duas, afastadas uma da outra, a de João e a de Aclis; soube que aquela atitude ocultava as suas lágrimas e orou com todas as suas forças para que também eles se unissem em breve.

Malluch e Benex já havia muitos dias que estavam em Aries. Nas primeiras horas da sua estada, a sorte parecera ser-lhes propícia.

Encontraram facilmente abrigo numa estalagem das portas da cidade e, durante as primeiras refeições que ali tomaram, travaram conhecimento com um homem da região que se propusera guiá-los.

- Se essa pequena, de quem procurais os pais, é cristã - disse ele, com a saborosa pronúncia que tanto assombrava os dois homens vindos de Roma - é entre os cristãos que é preciso procurar.

- Não obrigatoriamente - objectou Malluch - Aclis tornou-se cristã em Roma, quando era escrava. Nada diz que seus pais tenham praticado a mesma religião.

- É verdade! Mas meditemos um pouco. Do que precisais é conhecer as pessoas aqui, o mais possível... E quem se interessará pela vossa história, senão os que crêem como vós? Os outros, sabem, pouco se importam.

- Mas tu conheces cristãos?

- Conheço! Não em Aries mas mais longe, ao Sul. há uma aldeia. Diz-se que chegou lá uma grande Santa do país de Jesus... Morreu há pouco. As pessoas que a conheceram fizeram-se todas cristãs; devíeis ir lá vê-las.

Malluch e Benex seguiram o conselho. No dia seguinte, à hora merediana, entraram num pequeno burgo construído num vale dominado por uma cadeia de pequenas montanhas de rochas cinzentas e amarelas.

Depois de algumas pesquisas, encontraram um homem que anuiu em guiá-los; deixando os cavalos, tiveram de subir no seu encalço por sendeiros rochosos até uma espécie de gruta cavada na colina.

- É aqui - disse o homem - o lugar onde a santa Maria Madalena foi sepultada.

- Santa Maria Madalena, a pecadora? - perguntou Malluch.

- Sim, ela disse muitas vezes que fora uma mulher de má vida, antes de encontrar Jesus.

- Mas como veio ela parar aqui?

- De barco, certamente, do país da Judeia.

- Sozinha?

- Não; acompanhavam-na outras pessoas; mas não sei mais pormenores. Eu mal a conheci, era muito pequeno quando ela morreu. Os antigos depuseram-na aqui e depois tornou-se hábito vir ouvir missa sobre o seu túmulo.

Pelos cristãos da aldeia, Malluch e Benex penetraram nas pequenas comunidades, que começavam a ser numerosas na região. Mas, a todas as pessoas que interrogavam acerca da presença, uns dezoito anos antes, de uma criança chamada Aclis, não obtinham nenhuma resposta satisfatória.

Entretanto, Malluch, circulando por toda a região, através de bosques de carvalhos, de caminhos de oliveiras, de colinas de vinhas, sentia-se invadido por uma grande doçura. Muitas vezes, em certa paisagem, neste recanto de céu, naquela aldeia suspensa, encontrava imagens muito parecidas com as da Judeia. Mas as informações que conseguia recolher respeitantes a Aclis eram sempre decepcionanttes.

Os dias decorriam, pois, em vãs diligências. Os dois homens estavam prestes a renunciar.

Uma noite, ao cabo de um dia pesado e quente, o enviado de João, portador da mensagem de Thord, o Nórdico, atingiu Aries. Teve a boa sorte de depressa descobrir a estalagem das portas da cidade.

- Fica connosco - disse Malluch ao homem – Talvez tenhas novidades mais reconfortantes a levar a teu amo, porque até aqui nada encontrámos.

Galfon era tão magro e baixo quanto Thord era enorme e alto. Era tão sinistro quanto o seu antigo mestre era risonho. Assim como se falava em Roma do riso de Thord como de coisa fora do comum, assim se devia falar em Aries do rosto comprido e triste de Galfon.

«Como poderia este homem tornar-se gladiador?» - pensava Malluch quando, à sua pergunta, um criado lhe mostrou o vulto mesquinho do gladiador, no meio da arena. Malluch em breve o compreendeu, ao examinar o homem que prosseguia na sua sessão de trabalho com os seus discípulos. Desequilibrado por ele, um grande latagão foi morder a areia. Outro foi-lhe arremessado para cima. Um terceiro achou-se sentado naquele molho humano, mesmo antes de poder tentar o menor movimento de defesa.

- É hábil - disse Malluch a Benex - A própria fraqueza o ajuda. Vê! Desliza como uma serpente junto do adversário. Eu nunca vi praticar uma tal forma de luta.

- Está bem, meus rapazes!

A voz era delicada, de uma velada doçura. O tom era de uma grande tristeza e foi sem um sorriso, limpando as mãos, que Galfon se aproximou dos que o procuravam.

- É Thord quem vos envia? Falai!

- Sim - disse Malluch - E Thord disse-nos ter grande confiança em ti! Que tu conheces aqui toda a gente e que...

- Thord é demasiado bom! Que procurais?

- O rasto de uma pequena escrava gaulesa, levada daqui pelos Romanos quando era recém-nascida!

- O seu nome?

- É conhecida pelo nome de Aclis!

- A sua idade?

- Tem dezoito anos.

- Que idade tinha quando a levaram?

- Bem! Alguns meses, um ano talvez... São bem magros estes dados, não é verdade?

- Voltem por cá amanhã.

- Mas...

- Amanhã, à mesma hora, aqui. Boa noite.

E Galfon, sempre tão acabrunhado, deixou os seus interlocutores e retirou-se no seu passo certo.

- Ou este homem troça de nós - disse Malluch - ou é muito forte!

Saíram da pequena praça atravancada de mercadores, para a qual se abria a porta das Arenas. Era um formigueiro de multidão, de cores sobre um fundo de gritos agudos. Nunca, nem mesmo em Roma, vira Malluch pessoas tão expansivas, tão ruidosas.

- O Sul da Gália é assim - disse Benex - tão agitado quanto o Norte é calmo.

No dia seguinte, Malluch e os companheiros entraram nas Arenas à hora prefixa. Como na véspera, Galfon acabou a sua lição, recompensou os seus discípulos com o seu «está bem, meus rapazes», e aproximou-se dos três homens.

- Dirijam-se a Baux da Provença - aconselhou ele

- É perto daqui. Lá encontrarão um eremita chamado Nalès. Ele poderá informá-los.

E retirou-se.

Era tão grande a impaciência de Malluch que conseguiu descobrir um homem que anuiu a conduzi-los a essa região de Baux. No seu encalço, embrenharam-se numa campina que, de verde que era às portas da cidade, se tornava cada vez mais árida.

Chegaram diante de enormes blocos de rochedos cinzentos e meteram-se por uma senda estreita que subia através daquele caos. Nem um vestígio de vegetação, mas montões de rochas desmoronadas que tomavam, sob o céu de tormenta daquele fim de tarde, estranhas colorações. Os primeiros relâmpagos sobressaltaram os cavalos no momento em que chegavam a uma espécie de planalto, dominado por uma falésia, também esta constituída por blocos de rochas cinzentas. A chuva começou a cair de repente, brutal, enquanto os ecos do trovão se repercutiam pelos desfiladeiros.

- Como podem homens habitar aqui! - gritou Benex sob a tempestade.

O guia voltou para ele o rosto embiocado. Fios de água corriam-lhe pelas faces.

- Não há mais ninguém senão um eremita no seu buraco, lá em cima.

Ardia um lume na gruta; lume de silvas que desprendia mais fumo acre do que calor. Malluch, primeiro, não viu senão um vulto agachado. Uma labareda mais alta mostrou-lhe por fim o rosto brunido e barbudo de um homem que lhe pareceu muito velho.

- És Nalès? - perguntou ele.

- Sou! - respondeu o homem.

Com um gesto, convidou-os a aproximarem-se. Malluch abaixou-se junto do fogo e começou a contar a história de Aclis e as razões que o levavam a procurar seus pais.

Nalès guardou silêncio durante muito tempo; depois disse:

- Sinto-me feliz com o que me dizes acerca dessa criança, da sua beleza, da sua brandura. Conheci-a, é certo, quando ela ainda não andava e usava realmente o nome de Aclis. Vais tornar a vê-la?

- Logo que me tenhas dito o que sabes, partirei para junto dela.

- És romano?

- Sou judeu - disse Malluch.

- E tu?

- Sou gaulês - respondeu Benex.

- Então, ide dizer a essa pequena Aclis: «Cresce em paz, mas não te lembres de dar a tua confiança a um Romano, porque encontrarás, como tua mãe encontrou, a maior das desgraças no fim do teu caminho». Escutai: Eu conheci a mãe de Aclis. Era a rapariga mais bela desta região. Admiravam-se de ela ter os cabelos louros, quando todas as nossas mulheres aqui são morenas, mas não havia homem que não desse tudo para se tornar seu amante. Ela nada queria ouvir. Foi preciso que um dia um diabo de um Romano viesse da Bretanha com a sua escolta. Os seus soldados diziam que ele era grande, nobre no seu país e que regressava vitorioso de uma campanha. Soube agradar à rapariga. No entanto, ele não era nem muito jovem nem muito belo, mas era risonho e bonachão apesar do seu rosto severo. Partiu, ao fim de poucas semanas. No ano seguinte, nasceu Aclis. Sua mãe, que toda a gente agora apontava a dedo, refugiava-se perto daqui, numa choupana da planície. Um dia, vieram Romanos a cavalo, ouvi gritos daqui. Quando cheguei lá abaixo, a choupana estava vazia. Soube mais tarde que os soldados tinham levado a criança. A mãe, essa, gritava e bradava nos rochedos. Durante dias, gritou e chamou por toda a parte, por esse mesmo nome que dissestes: Aclis! Aclis! Muito mais tarde, pastores que passavam encontraram-na ao pé da grande fraga que vedes lá em baixo. Não se sabe se caiu ou se se atirou cá de cima. E eis tudo.

- Mas esse Romano - disse Malluch - não sabes o seu nome?

- Não o disseram nessa época. Era um grande chefe, com certeza, a avaliar pela sua couraça dourada. Tinha o ar de comandar todo um exército. Esse exército regressava da Bretanha, é certo, e dirigia-se a Roma.

- Qual era o seu aspecto?

- Já to disse, sempre de bom humor e muito amável com as pessoas, atarracado de estatura, sólido, rosto de um homem que parece estar sempre a fazer um esforço. Dizia-se também que era viúvo e que tinha dois filhos em Roma. Não sei mais nada.

- Há mais pessoas aqui que nos possam informar de mais alguma coisa?

- Não, realmente. Não há quem conheça esta história melhor do que eu.

- A mãe de Aclis não tinha nenhum parente?

- Disse-me sempre que era só!

- Nalès - disse Malluch, levantando-se - o que nos contaste talvez seja muito precioso. Aceita esta bolsa.

- Que farei eu do dinheiro?

- Queres uma roupa? Uma arma?

- Que faria eu de uma arma? Obrigado. E quando vires Aclis, dize-lhe que há em qualquer parte um homem muito velho que por ela se volta para o céu, e rochedos que repetem o seu nome.

Os três homens desceram quando as nuvens da tormenta se dirigiam para o mar. A noite caía e pairava um cheiro a um tempo pesado e fresco na senda que descia para o vale.

- Não sabemos muito mais - resmungou Benex. Deve ter havido oficiais romanos que passaram por aqui! De modo que este pobre homem pode muito bem ter tomado um centurião por um general.

- Uma coisa importa - disse Malluch - O pai de Aclis era um Romano e não era um escravo.

- Quanto a pensar em encontrá-lo!

- Quem sabe?

 

- Malluch, se isso me fosse contado por outro e Hão por ti, diria tratar-se de uma linda fábula, mas sem nenhuma aparência de verdade.

Drusus passeava para trás e para diante numa das galerias da casa dos Hur. Com Ben Hur, Ester, Tirzah, Filipe, Albina e João, escutara, sem um reparo, o relato de Malluch.

- Nenhuma aparência de verdade porquê? - disse João - Essa história é tão banal!

- E chega ao desfecho desejado, não é verdade? Mais uma vez te digo, se a minha confiança em ti não fosse tão grande... Aliás, isso não modifica o problema. Disse-o e repito-o: João não pode desposar senão uma jovem nobre de Roma. Uma bastarda, mesmo Romana, não é uma jovem nobre.

- Drusus - disse Ben Hur - observei Aclis e João separadamente e posso dizer-te que eles se amam profundamente e que tu não tens o direito de ir contra a sua vontade.

- Não tenho o direito?

- Não, tu não tens o direito de ir contra o amor.

- O amor! Mas João não conhece nada da vida! Desde que ele tenha respirado um pouco fora da nossa casa, da nossa família, não pensará mais nessa pequena Gaulesa.

- Pai, suplico-te! - exclamou João - Pensa um pouco no que dizes. Não quererás fazer da minha vida qualquer coisa de miserável. Deixa-me livre. Não me imponhas um casamento que me cause horror!

- Não lho peças por agora - ajuntou Ben Hur - Ei-lo jovem oficial. Deixa-o partir, encontrar outros homens, aprender a disciplina dos acampamentos. Dentro de um ano, falareis novamente de tudo isto.

- Ben Hur tem razão - disse Tirzah - Deixa João reflectir e aprofundar os seus sentimentos.

- Por meu lado - disse Ester - conservarei Aclis junto de nós, João. Não lhe alimentarei nenhuma ilusão, mas defendê-la-ei dela própria.

- É sensato o que dizeis - proferiu Drusus - João, faz-te um homem, um soldado. Quando voltares, tenho a certeza de que terás mudado de opinião e agradecer-me-ás então a minha dureza.

«Quem viver verá, pensou Malluch, afastando-se. Estou pronto a apostar mil ases contra um sestércio em como o pequeno casará com Aclis».

No dia seguinte, os dois primos deixaram Roma, com destinos diferentes. João partiu para as legiões da Germânia, Filipe embarcou em óstia para Cesareia, onde ia juntar-se ao estado-maior de Vespasiano e de Tito. Na véspera, Filipe pediu um favor a seu pai

- Sim, julgo poder responder por ele, deixa-me guiá-lo.

- Queres que Mosché te acompanhe?

- Ele também o deseja. Mosché já não é o mesmo homem. Começou a prestar-me pequenos serviços, parece-me agora mais dedicado. Quando soube da minha partida, vi-o chorar e suas lágrimas não eram fingidas. Suplicou-me que o deixasse ir também.

- Sobretudo, Mosché conhece admiravelmente o país e pode ser-te útil; mas tens a certeza de que não será para ele uma maneira de se nos escapar? Receio muito que, mal desembarque, desapareça, ou vá levar aos de Jerusalém os segredos que possa surpreender no acampamento romano.

- Francamente, não o creio. Ainda nada me confessou, mas vi-o por vezes perturbado por ocasião das cerimónias cristãs. Tenho realmente a sensação de que nasceu nele um outro homem.

- Deus te oiça! Enfim, faze o que quiseres.

Foi assim que ficou decidido que Mosché acompanharia Filipe na terra da Judeia.

Como Filipe, antes da sua partida, exprimisse a Albina o desejo de ir cumprimentar seu pai, Alemius, a jovem anunciou-lhe:

- Foi ontem chamado com urgência. Deve estar a caminho; preveniu por um correio de que não poderia estar de volta antes de dois ou três dias.

Ao encaminhar-se para o barco que o esperava no porto, Filipe só levava na memória os olhos inundados de lágrimas, da sua jovem esposa. Foi pois sem excessivo entusiasmo que ele cumprimentou o capitão do barco, um navio da Companhia dos Hur, que hasteava a flâmula amarela no mastro grande.

- Senhor - disse o homem - não é senão com grande alegria que te vejo aqui, filho do nosso amo. Ocuparás o beliche da popa, se quiseres.

E como Filipe já se dirigia para lá, seguido de Mosché, que levava as bagagens, o homem acrescentou:

- Perdão, ainda não está pronto. Fomos prevenidos tão tarde...

E voltou-se para comandar a manobra da largada. O navio afastou-se de óstia, mas, contra o costume, tomou um rumo bastante perto da costa, em lugar de se fazer ao largo.

Filipe fez este reparo, mas o caso pareceu-lhe tão pouco importante que não disse nada. Sentiu desejo de estar só e dirigiu-se para a popa. No momento em que chegava à porta de madeira do beliche, esta abriu-se e o jovem, estupefacto, viu sair seu sogro Alemius.

- Admiras-te, caro Filipe - disse o prefeito - mas precisava de falar-te sem testemunhas. Aguardar-te aqui pareceu-me a única solução.

- Trata-se de Albina, pai?

- Não! Albina não é para aqui chamada. Até ignora onde estou. Não! Trata-se de Vespasiano. Escuta, vais contar-lhe rigorosamente isto da minha parte: «Roma está fatigada desta sucessão de imperadores, todos mais fracos uns do que os outros. Em menos de um ano, passaram três depois de Nero. Todos os nobres, todas as tropas, o próprio Senado, desejam um homem mais sensato que ponha a casa em ordem. Mais de metade são favoráveis ao nome de Vespasiano. Ele que me mande dizer somente se está pronto a assumir o Império, só o boato da sua candidatura fará desmoronar o trono de Vitélio». Compreendeste bem?

- Isso é bastante claro, parece-me, mas permites-me uma pergunta? Porque é esta má-vontade da tua parte contra Vitélio?

- Porque este homem é louco, meu filho, e, se não o metermos na ordem, tornar-se-á tão perigoso, tão cruel como o foi Nero. Que pensas tu de um imperador de Roma, tão cruel que o viram devorar as entranhas das vítimas no próprio altar, durante os sacrifícios? Que pensas de um imperador que envia para o suplício não importa quem e não importa por quê? Tens vontade de tornar a ver os circos cheios de pobres pessoas que se lançam às feras? Quem garante os cristãos perante tal demente? Acredita-me, para Roma, para os nossos irmãos, para nós todos, é preciso que esse homem desapareça. Conto contigo, Filipe, para disto persuadir Vespasiano - e volvendo-se para o capitão, disse: - Patrão, terminei!

O homem afrouxou logo o andamento do navio. Desceram uma embarcação que devia conduzir Alemius a uma praia deserta da costa.

- Mas como vais arranjar-te, depois de desembarcado? - perguntou Filipe.

- Uns homens de confiança seguiram-nos pela margem e têm cavalos. Até breve, caro Filipe. Para ti, patrão, esta bolsa.

- Nenhum dos que estão aqui a aceitará - respondeu o capitão - Recebi do príncipe de Hur, meu amo, ordem para vos obedecer em tudo. Cumpri-a, e mais nada.

- Ah! - suspirou Alemius - Se todos, em Roma, fossem como este homem, não teríamos tantas preocupações!

Filipe viu a embarcação atingir a costa. Alemius desceu, uns homens apareceram na praia, dirigindo-se para ele. Quando a embarcação voltava, já os vultos tinham desaparecido da praia.

- Içai as velas! - gritou o capitão.

Em Cesareia, Vespasiano acolheu com muita amizade o filho de Ben Hur. Recebido por ele em presença de várias dezenas de oficiais, Filipe nada pôde dizer acerca da missão que Alemius lhe confiara.

- Filipe - disse o cônsul - doravante, pertencerás à casa militar de meu filho Tito. Mas, antes de entrares em serviço, concedo-te alguns dias de licença. Sei que deves visitar aqui tuas irmãs, que são casadas, e tua prima, que se tornou esposa de um dos nossos oficiais. Abandono-te, pois, às alegrias da família - e como Filipe parecia hesitar em retirar-se, ajuntou - Aproveita, entretanto, este ócio agradável para me fazeres uma visita. Vem amanhã à noite jantar comigo. Gostaria de ouvir-te falar de teu pai, por quem tenho infinita estima.

Só dois guardas estavam presentes na sala do palácio onde Filipe foi introduzido no dia seguinte; e desapareceram logo que Vespasiano e Tito deram entrada.

Uns escravos trouxeram os pratos e, a um sinal, saíram também.

- Agora - disse Vespasiano, a sorrir - podes falar; porque tenho a sensação de que tens a dizer-me alguma coisa que não deve ser repetida.

Filipe ficou surpreendido de ter sido tão facilmente adivinhado. Transmitiu então ao cônsul as palavras de Alemius.

- Acerca disso qual é a opinião de teu pai? - perguntou Vespasiano.

- Não lha pude ouvir, senhor. Não vi Alemius senão no alto mar, quando deixava a Itália.

- É pena, gostaria de conhecer o seu pensamento.

Em tua opinião, preferirá ele ver um imperador cruel desaparecer ou ver atear-se a guerra civil?

- Pai - interveio Tito - Filipe já o disse: poucos Romanos haverá que defendam Vitélio.

- É verdade - confirmou Filipe - todos ou quase todos estão do teu lado.

- Sim! Até o dia em que se diga a um Rufo qualquer: Todos estarão do teu lado, Rufo, e não há quem defenda Vespasiano. O poder gasta os homens e cobre-os de gordura, e sempre se acaba por detsstar o amo que se escolheu.

- Ninguém detestou Augusto! - exclamou Tito.

- Julgas então que teu pai vale um Augusto?

E como os dois jovens protestassem:

- Meus filhos, não sejamos cegos. Não tenho ambições, e um imperador deve forçosamente ser ambicioso, pelo menos para o seu povo. Amo a paz, e o governo é uma coleira. Aspiro a ser amado, e seria inevitavelmente odiado. Que tenho eu então a ver com a púrpura? Deixai-a, pois, a outros, que pelo menos, façam dela melhor uso.

- Senhor - objectou Filipe - pensa nos que te sucederão. Tens filhos.

- Ah! Começas bem a tua carreira de cortesão, meu rapaz, se já lisonjeias assim o general que vais servir. Realmente, tens razão. Os louros ficariam bem a Tito - e ajuntou negligentemente - Mas conheces o seu irmão?

- Domiciano? Não, nunca o encontrei.