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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O FILHO DE LADY SARAH / Gayle Wilson
O FILHO DE LADY SARAH / Gayle Wilson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O FILHO DE LADY SARAH

 

Irlanda,1809

Nunca tinha visto ninguém morrer, pensou lady Sarah Spenser enquanto contemplava, quase sem ver, a débil respiração da sua irmã. O peito de Amelia subia e descia de forma quase imperceptível.

Sarah tinha perdido a sua mãe quando era criança, mas aquela morte tinha ficado gravada na sua mente como meros sussurros das criadas, uma experiência vaga e distante que não tinha compreendido até muito tempo depois.

Naquela altura, sabia que a sua mãe estava ausente, é claro, mas pensava que teria ido com o seu pai a Londres. Pensava que maman voltaria para casa dali a pouco, como noutras ocasiões. Sorrindo, a sua lindíssima mãe francesa entraria no quarto ou na sala de aula, com os braços cheios de presentes e a cabeça adornada com um novo e elegante chapéu adquirido na loja mais luxuosa de Londres. Quando Sarah por fim compreendeu que maman não voltaria nunca mais, a dor da sua ausência já era familiar e tolerável.

 

Não tinha a certeza de que a morte de Amelia o fosse, e mesmo assim, viu-se obrigada a aceitar que não podia fazer nada pela sua irmã. David tinha-a finalmente escutado e tinha mandado chamar um médico. Embora o homem tivesse salvo a criança, limitou-se a mover a cabeça, em resposta às repetidas súplicas de Sarah para que parasse a perda de sangue imparável.

Tanto sangue, pensou. Mais do que o corpo gracioso e esbelto da sua irmã poderia ter no seu interior. Uma vez que os seus olhos inexperientes e desacostumados tinham aceite, finalmente, que Amelia não poderia sobreviver àquela noite, Sarah tinha recordado tudo o que as duas irmãs tinham partilhado ao longo dos anos. Gargalhadas e lágrimas e milhares de segredos sussurrados. A paixão do primeiro amor. Os sonhos do futuro.

As duas meninas, órfãs de mãe, deixadas aos cuidados de um pai cada vez mais frio e distante, tinham aprendido a consolar-se mutuamente. Sarah, dois anos mais velha, sempre tinha tentado cuidar de Amelia. Só tinha falhado uma vez e a morte solitária da sua irmã era o resultado daquele fracasso.

Tão branca e fria", pensou Sarah, acolhendo os seus magros dedos nas suas mãos, tentando inconscientemente transmitir-lhe o seu calor e mantê-la afastada da morte um pouco mais. O mesmo que Sarah e a enfermeira, que David tinha chamado, tinham tentado fazer antes: aquecer o recém-nascido para o manter vivo. Naquele momento, parecia destinada a perder as duas batalhas.

- Não te zangues comigo, Sarah.

Aquele sussurro tirou-a dos seus pensamentos desconsolados. Levantou rapidamente os olhos da mão da sua irmã para contemplar o seu rosto pálido. Os olhos de Amelia, que desde a sua infância tinham cintilado com uma alegria incrível, apareciam enormes e sombrios nas suas conchas afundadas e as suas pálpebras tinham a cor amarelada dos velhos cheios de rugas.

- Nunca poderia zangar-me contigo, querida - respondeu Sarah, em voz baixa. Forçou um sorriso, suspeitando que a sua irmã a conhecia demasiado bem para se deixar enganar.

- Vou morrer; não vou? - perguntou Amelia, numa voz tão fraca que Sarah teve que aguçar o ouvido para entendê-la. As suas palavras pareciam vazias de toda a emoção, expressavam apenas uma mera necessidade de saber.

Com a garganta demasiado fechada para falar, Sarah limitou-se a assentir. Já era demasiado tarde para mentiras e enganos, já tinha havido demasiados. E Amelia merecia a oportunidade de fazer as pazes com o Pai Celestial.

Claro que pouco o tinha contrariado durante os seus curtos dezasseis anos. O seu único pecado tinha sido amar David Osborne o suficiente para lhe dar um filho fora do casamento e ser bastante jovem e vulnerável para sucumbir às suas maquinações e adulações desumanas.

- Pobre papá - sussurrou Amelia.

Uma lágrima rolou pela extremidade do seu olho. Deixou um rasto pelo seu rosto e descansou sobre a fronha branca da almofada. Quase não havia diferença com a cor da sua tez.

Sarah secou a sua lágrima com o polegar, apercebendo-se uma vez mais do frio excessivo da sua pele.

- Não chores - sussurrou.

- Como está o meu bebé?

- Adormecido - respondeu Sarah, perguntando-se se seria verdade. Embora o recém-nascido tivesse atravessado o véu do qual a sua irmã se aproximava, não fazia sentido angustiar Amelia com aquela notícia.

Sarah e a enfermeira alternaram, embalando-o nos braços, tentando aquecer o corpo frágil com o seu. A enfermeira tinha conseguido repreender o senhor da casa com vigor suficiente para que lhes trouxesse um balde de carvão para o fogo, de modo que os aposentos que David tinha alugado tivessem, pelo menos, um mínimo de calor. Mas isso não bastava para que o menino reagisse, nem para afastar o fôlego frio da morte do leito da sua irmã.

- David? - sussurrou Amelia, escrutinando o rosto de Sarah.

Fora", pensou Sarah com amargura, recordando a única palavra que David lhe tinha dito quando Sarah se atreveu a perguntar-Lhe onde ia. Tinha- Lhe suplicado que ficasse, mas as suas súplicas não tinham tido efeito. Apesar do que sentia por ele, a sua mente tentava formular uma desculpa para o seu comportamento inadmissível.

Por que não outra mentira? ", pensou, contemplando os olhos suplicantes da sua irmã. O que podia importar? Osborne não tinha feito outra coisa senão mentir desde que o tinham conhecido. Desde que Amelia o tinha conhecido, corrigiu-se e o tinha apresentado a Sarah. Um encontro fatal.

A linhagem dos Spenser tinha recaído unicamente em mulheres, na última geração, e não havia nem sequer um primo afastado que pudesse reclamar as vastas posses do seu pai. Sabia-se há muito tempo que Sarah e Amelia seriam as herdeiras, e como o seu pai se tinha casado numa idade tardia e já tinha quase setenta anos, não podiam demorar muito a receber o seu legado.

Portanto, o atraente e encantador ex-oficial irlandês tinha cortejado primeiro Sarah. Ao ver que o seu coração estava comprometido de maneira irrevogável, tinha centrado os seus cuidados em Amelia, que nem sequer era uma debutante. Apesar das suas escassas possibilidades, David tinha levado Mellie consigo antes que Sarah ou o seu pai tivessem oportunidade de imaginar o que estava a fazer, ou impedir o acontecido.

Afinal de contas, Amelia não tinha mentido uma única vez na sua curta vida. Pelo menos, isso teria jurado Sarah antes da sua irmã planear fugir e casar-se com um aventureiro irlandês que tinha o dobro da sua idade. Amelia tinha deixado uma nota, de letra grande e ainda sem personalidade, um vestígio da formação que tão recentemente tinha concluído, na cabeceira da sua cama.

O marquês de Brynmoor; perseguindo-os até à exaustão, tinha tentado detê-los, mas Osborne era demasiado astuto para se deixar apanhar por um pai enfurecido. Em vez de seguir a estrada do Norte para Gretna, o casal tinha fugido para a costa para entrar num navio rumo à Irlanda. E tinham desaparecido.

Sarah sentiu então como o seu mundo se desmoronava e a estabilidade que tinha conhecido se desvanecia em apenas um instante. Na consequência da fuga de Amelia, o indignado marquês de Brynmoor tinha declarado ao mundo que a sua filha mais nova tinha morrido. Tinha até celebrado o seu funeral e tinha mandado enterrar um caixão vazio no panteão familiar.

Atónita pela raiva injustificada do seu pai e a sua estranha reacção, Sarah tentou dizer ao clérigo que a sua irmã não tinha morrido. A única coisa que conseguiu foi que o ministro de Deus lhe assegurasse que Amelia continuava viva em Cristo e que a veria no céu.

Justin, a única pessoa em quem teria confiado aquele segredo, estava demasiado longe para ajudá-la, lutando com Wellington em Espanha. E pôr por escrito os sórdidos detalhes da sua situação familiar parecia-lhe impossível, mesmo depois de receber a carta de condolências de Justin. O seu irmão Robert tinha-lhe escrito a contar-lhe sobre a morte de Amelia. Quando Sarah recebeu a resposta do seu noivo, vinda da Península, já tinha decidido que tinha perdido a sua irmã para sempre.

Apenas dois meses depois, Sarah tinha recebido a missiva quase frenética de Amelia a suplicar-lhe que fosse vê-la. Sarah nem sequer pensou duas vezes e respondeu àquela súplica. Para ir ver a sua irmã, viu-se, no entanto, obrigada a mentir ao seu pai pela primeira vez na sua vida.

Tinha inventado uma conhecida da sua mãe, uma irlandesa doente, que a tinha convidado a passar uma temporada na sua casa. O seu pai, que cada dia estava mais sumido na loucura, aceitou a história sem discussões.

Quando Sarah se apresentou em Dublin e soube que Osborne nem sequer tinha casado com a sua irmã, compreendeu que não podia deixar que Amelia desse à luz um bebé, sozinha. Nem mesmo quando teve que recusar Osborne depois de uma renovada tentativa de sedução. Assim era o homem que tinha levado a sua irmã à morte.

- David saiu para comprar mais carvão para o lume - disse Sarah por fim, mentindo sem o menor indício de remorso. Estava a ficar uma perita, pensou, portanto, completou a sua patranha sem hesitação. - Tinha medo que o bebé não ti vesse calor suficiente.

Os olhos febris da sua irmã cravaram-se em Sarah, querendo acreditar nela. Querendo ainda acreditar no homem a quem tinha entregue tudo, incluindo a sua vida.

- Cuida dele - pediu-lhe Amelia.

De Osborne? ", pensou Sarah com incredulidade, e depois compreendeu o que a sua irmã estava a pedir- lhe. Mellie queria que Sarah lhe prometesse que cuidaria do seu filho, aquele pedaço enrugado de humanidade cuja vida parecia tão precária como a da sua mãe.

- Fá-lo-ei - jurou em voz baixa.

- Não digas... - Amelia não pôde continuar, fechou os olhos e a sua respiração fraquejou. Em seguida, voltou a abrir as pálpebras lentamente, e os seus olhos de cor azul escura cobraram mais vida do que a que tinham reflectido em várias horas. - Não digas a ninguém - suplicou Amelia. - Nem sequer ao papá. Não poderia suportar que soubessem o que fiz.

- Não o direi - prometeu Sarah em seguida, apertando os dedos gelados entre os seus. Mas não albergavam força suficiente para que Amelia respondesse. Outra lágrima deslizou fracamente pelo caminho que a primeira tinha esboçado.

- Pensarão tão mal de mim - sussurrou a sua irmã.

- Não, querida, ninguém pensará nunca mal de ti. Não o consentirei - jurou Sarah com ferocidade. - Ninguém saberá, nunca.

Amelia olhou novamente para ela, avaliando a sinceridade daquela promessa fervente.

- Jura sobre a sepultura de maman - pediu-lhe. - Jura que nunca ninguém saberá o que fiz.

- Juro - disse Sarah, sem lhe soltar os dedos, que pareciam cada vez mais frios. Mais inertes.

- Sobre a sepultura da mamã - exigiu Amelia, e a sua vivacidade de adolescente reflectiu-se nos seus olhos demasiado brilhantes. Por um momento, pareceram vibrar com a mesma vida e promessa de sempre.

O que importava, pensou Sarah, que promessas pudesse fazer para suavizar aquela transição. Nunca trairia a confiança de Amelia. Nunca faria correr rumores sobre a sua irmã, nem destruiria o bom-nome da sua familia. Era um pedido simples, portanto, inspirou fundo e deu a Amelia o juramento que desejava.

- Juro sobre a sepultura de maman.

Amelia assentiu com um movimento de cabeça quase imperceptível. Depois fechou os olhos... e não voltou a abri-los.

- Porque não posso levá-lo comigo - disse David. As suas agradáveis feições nem sequer se alteraram de irritação enquanto repetia a sua negativa, imune aos argumentos de Sarah.

- É o teu filho - afirmou Sarah, aninhando o infante contra a suavidade dos seus seios, mais segura naquele papel maternal que há duas semanas, quando tinha nascido. - Não pretenderás abandonar o teu próprio filho.

Baixou os olhos para o minúsculo rosto, tranquilo pelo sono. Talvez tivesse perdido a batalha de salvar Amelia, mas o bebé da sua irmã tinha-se agarrado à sua vida frágil com mais tenacidade.

- Tu podes cuidar dele - sugeriu David com fluidez, esboçando um sorriso com os seus lábios bem formados. - Vais fazê-lo muito melhor do que eu, Sarah.

- Não posso levá-lo para casa - insistiu Sarah. - Não sabes...

- Infelizmente - interrompeu Osborne, - eu sei. Sei em que estado se encontra o teu pai, querida. O suficiente para te assegurar que não penso pôr os pés na sua mansão è apresentar-lhe o seu neto. Por muito que eu gostasse de ver a sua cara se o fizesse - acrescentou, e o seu sorriso alargou-se com aquele pensamento.

- Mas o que vou fazer? - perguntou Sarah.

Voltou a contemplar o rosto da criança, que era bonito quando não estava avermelhado ou contraído pelo choro. Aos seus dezoito anos, Sarah tinha muito pouca experiência com crianças e demasiada com os ataques de raiva e loucura do seu pai. Também lhe custava imaginar aparecer na sua casa com o filho ilegítimo de Amelia nos braços.

- Logo te ocorrerá alguma coisa, tenho a certeza - disse David. - Confio em ti e sei que Amelia faria o mesmo. Na verdade, estou con vencido de que teria preferido deixar o seu filho nas tuas mãos do que nas minhas, muito menos competentes.

Sarah inspirou fundo e o movimento fez com que o menino se mexesse. Baixou a cabeça a tempo de ver como abria os olhos. Eram tão azuis como os de Amelia. Como os seus. Aquele tom marinho era o selo dos Spenser, como podia comprovar-se na galeria de retratos de Longford. O bebé bocejou e os seus minúsculos lábios abriram-se para revelar umas gengivas rosadas. Parecia estar a olhar para o seu rosto, como se estivesse interessado nela. Como se quisesse comunicar com ela.

Para lhe dizer que David tinha razão, que Amelia teria preferido deixar o seu filho nas mãos inexperientes de Sarah que ao cuidado irresponsável e dissoluto do seu pai? Um pai que tinha demonstrado não ser capaz de se preocupar com nada que não fosse o seu próprio prazer.

Depois de estragar a vida de Amelia, David tinha-a tratado cruelmente, pelo menos durante as últimas semanas da sua gravidez difícil, quando Sarah tinha estado com eles. E também não se tinha preocupado com a sua morte. Sarah tinha tratado de tudo para o funeral, embora David tivesse chamado um sacerdote ao saber que Amelia tinha morrido. Dado que a sua irmã não tinha sido católica, aquele episódio parecia deslocado.

Tão deslocado como aquele bebé seria em Longford, pensou Sarah. No entanto, não tinha outra escolha senão levá- lo consigo. Tinha prometido à sua irmã moribunda que cuidaria dele e tinha-o jurado sobre a sepultura da sua mãe.

Sarah não tinha imaginado como a sua vida ia mudar com aquela simples promessa. E quando, por fim, soube, foi demasiado tarde para voltar atrás.

 

Inglaterra,1813

Depois de fazer uma primeira inspecção à sua herança, o novo conde de Wynfield cedeu a um arrebatamento de desespero fora do comum. Deixou-se cair na poltrona, atrás da enorme escrivaninha do seu pai e enterroú a cabeça nas mãos.

Os que tinham servido no exército sob as ordens de Justin Tolbert ter-se-iam surpreendido com aquele gesto. Os seus homens tinham sido apenas testemunhas da sua coragem e fortaleza em numerosas batalhas, sobretudo quando o seu regimento tinha todas as condições para perder.

Então não era o conde de Wynfield, mas o coronel Justin Tolbert. O título e a herança que lhe correspondiam naquele momento tinham pertencido ao seu irmão, durante os seus anos no exército. Uma herança que se esfumou nas mãos do seu irmão, excepto o título que Justin nunca tinha esperado nem desejado ostentar.

Os campos antes cultivados da fazenda familiar estavam abandonados. As casas dos agricultores estavam em tal estado de ruína que não só seria custoso mas perigoso repará-las. O cenário lúgubre que o conselheiro do seu pai Lhe tinha pintado em Londres não se aproximava da realidade que lhe tinha dado as boas-vindas de volta ao seu lar:

Que boas-vindas", pensou com amargura. Que inferno,". Tinha acabado de chegar quando recebeu a terrível notícia da morte de Robert, seguida da brutal análise da sua ruína financeira.

Justin tinha sonhado regressar ao seu exuberante canto da Inglaterra. Aquele sonho tinha-o animado durante as privações da longa guèrra que os britânicos tinham levado contra o imperador. Durante as noites na sua tenda, tinha evocado as mesmas paisagens que tinha visitado naquele dia, agora terrenos baldios pelo descuido e a má administração.

Primeiro, tinha sido o descuido do seu pai do qual, até certo ponto, tinha estado consciente durante a sua adolescência, embora a sua mente juvenil não imaginasse as consequências. Depois da morte do velho conde, o seu irmão Robert não só tinha herdado o título do seu pai, como também as suas fraquezas: o gosto excessivo pela bebida e por apostas desmesuradas e estúpidas nos estabelecimentos de jogo de Londres.

Em menos de dois anos, depois de herdar o título, Robert tinha morrido vítima de um duelo absurdo incitado pelo álcool. Tinha sido uma questão de honra", embora nenhum dos amigos de Robert pudesse recordar que insulto a tinha originado. O que recordavam, e com horror, era que o oponente, menos ébrio, do seu irmão tinha conseguido disparar-lhe uma bala no coração.

Aquele tinha sido o primeiro golpe duro após o seu regresso. O segundo, descobrir que a sua propriedade, Wynfield Park, que tinha estado na sua família durante mais de duzentos anos, estava tão hipotecada que não valia um tostão. E embora o trabalho físico de restauração não parecesse tão vasto e inabordável, não tinha recursos para realizar as melhorias. Nem ninguém que quisesse dar-lhe um crédito para resolver o seu património. Já lhe tinham explicado tudo aquilo em Londres, mas não tinha acreditado to talmente até ter visto aquela devastação com os seus próprios olhos...

- Digo ao cozinheiro que atrase o jantar, milorde?

Ao ouvir a voz do seu mordomo, Justin levantou a cabeça. Os seus olhos cor de avelã contemplaram a figura que estava na soleira da porta. A soleira de uma porta que oxalá se tivesse 18

lembrado de fechar, pensou com amargura. A última coisa que desejava era que corressem rumores de que estava abatido devido à sua situação. Manter as aparências tinha sido uma das principais preocupações do seu pai e Justin supunha que tinha herdado aquele princípio.

- Só o tempo de me mudar - respondeu.

- Muito bem, milorde - entoou o idoso com solenidade, e começou a afastar-se. No entanto, pareceu surgir-lhe outro pensamento, porque se virou e olhou para Justin com um brilho especulativo no seu olhar - Se me permitir o atrevimento... - introduziu como prefácio. Como Justin não Lhe negou a permissão de expressar a sua opinião, continuou. - Talvez o senhor prefira jantar aqui. Com frequência servia o jantar ao seu fa lecido pai nesta mesma divisão... quando o conde não desejava a cerimónia de uma refeição formal.

O mordomo não desviou o olhar do seu rosto. Justin não detectou pena nos seus olhos nem na sua voz, embora soubesse que Blevins tinha consciência do que tinha descoberto na sua inspecção. Inclusive talvez soubesse também como lhe doía muito a perna.

 

Era estranho que um membro que já não estava presente pudesse causar- lhe tanta dor. O coto da amputação, que terminava um pouco mais abaixo da barriga da perna, ainda não se tinha acostumado à base e arnês de couro do novo pé que o sapateiro de Londres tinha fabricado para ele. Era um apêndice que, pelo menos, lhe daria mobilidade, embora pouca comodidade.

Os movimentos mais simples, os que antes realizava de forma natural e inconsciente, não só eram dolorosos, como também arriscados. Justin tinha-se dito, com a mesma obstinação que o tinha aguentado durante cinco longos anos de guerra, que com o tempo se acostumaria ao desconforto. E se não se acostumasse, preferia morrer antes que alguém soubesse. E esse álguém incluía Blevins.

- Só o tempo de me mudar - repetiu, conferindo um laivo de frieza às suas palavras suaves.

- Estarei pronto para jantar em menos de uma hora. Na sala de jantar. Obrigado, Blevins.

Os olhos do idoso sustentaram o seu olhar uma fracção de segundo mais, a prerrogativa de um valioso criado da família. A sua voz não reflectiu a mínima contrariedade quando assentiu perante aquelas instruções.

- Muito bem, milorde - disse-lhe. Virou-se e saiu do escritório em silêncio, como tinha en trado.

Nas costas do mordomo, Wynfield fez uma careta de desgosto. Tinha sido grosseiro com um idoso que só pensava no seu bem. Talvez se parecesse mais com o seu pai do que tinha imaginado.

Apoiando as duas mãos na escrivaninha, Justin levantou-se da poltrona. A dor no coto, ainda por cicatrizar, que o pesado pé artificial tinha posto em carne viva, era um aviso do número de vezes que tinha descido da carruagem em resposta a uma súplica de algum dos seus arrendatários.

Tinha sido uma petição para que visse uma goteira de um telhado ou um poço fedorento. Ou um convite para que comentasse sobre um novo bezerro ou inclusive um bebé. Nada que não pudesse ter esperado até outro dia, mas Justin não se negou. Aquela era a sua obrigação, ocupar-se do bem- estar das pessoas que viviam nas suas terras. E face ao que qualquer um pudesse dizer dele, pensou Justin com expressão lúgubre, nunca poderiam acusá-lo de fugir às suas responsabilidades. Nem sequer às mais desagradáveis.

Como vestir-se para um jantar que comeria sozinho, quando o que realmente queria fazer era tirar aquele artefacto que o torturava e dei tar-se na cama até que a dor diminuísse e pudesse dormir.

- Grande idiota - murmurou, em voz suficientemente baixa para que o seu comentário recriminatório não pudesse chegar aos ouvidos de nenhum criado que estivesse a rondar pelo corredor. Fechou os olhos antes de dar um passo. Quando apoiou o peso do seu corpo no pé que lhe tinham fabricado em Londres, a dor pareceu-lhe tão intolerável como tinha previsto.

Orgulhoso incorrigível - sussurrou o conde de Wynfield e, com a mesma coragem que o tinha distinguido na Península, afastou-se a coxear para o seu quarto.

- Wynfield voltou.

 

Lady Sarah Spenser levantou os olhos da pequena cabeça de caracóis que as suas mãos enluvadas tinham guiado ao descer os degraus da igreja. Levava o livro de orações na outra mão, mas, de contrário, teria cedido à tentação de uni-las para dissimular o seu tremor repentino.

Em troca, optou por acariciar suavemente os caracóis de Drew antes de levantar a cabeça. Nos olhos de lady Fortley havia um brilho de satisfação maliciosa que certamente se devia à sua súbita palidez. Aparentemente, a velha bisbilhoteira tinha visto reflectido no seu rosto a reacção que esperava pela notícia.

- Ah, sim? - limitou-se a dizer Sarah. - Não sabia.

Baixou os olhos e aumentou a pressão na cabeça de Andrew. O menino obedeceu e desceu outro dos amplos degraus. Exactamente quando Sarah se dispunha a segui-lo, lady Fortley acrescentou:

- Tão tragicamente mudado, é claro. Pobre homem - Sarah voltou a contemplar o rosto da sua torturadora. - Claro que talvez também não te tenha informado - continuou lady Fortley, sorrindo com melosa amabilidade.

Uma amabilidade claramente falsa, reconheceu Sarah com irritação. No entanto, sentia-se tão incapaz de fugir daquela conversa como de atirar Andrew pelas escadas. Ou de atirar lady Fortley, que, Deus a perdoasse, não lhe parecia uma acção de todo isenta de prazer.

- Mudado em que sentido? - perguntou, agradecendo pela serenidade da sua voz. O coração batia-lhe tão violentamente que se perguntava se o camafeu da sua mãe não estaria a vibrar sobre o seu peito.

- Gravemente ferido. Não sabia?

Por que o haveria de saber? Tinha quebrado todos os laços com Justin Tolbert há mais de quatro anos. Pouco depois de voltar para a Inglaterra com Andrew e de começarem a correr rumores.

- Não sei como resolverá as coisas - continuou lady Fortley, abanando a cabeça. - Fortley diz que só veio para vender a sua propriedade, embora não imagine quem vai querer comprá-la. Está em ruínas. E, conforme parece, está tudo hipotecado, até ao último tijolo.

Sarah continuou a contemplar o rosto de lady Fortley, mas a sua mente levou o seu próprio rumo. Cuidar de Andrew e do seu pai e das suas propriedades tinha-lhe deixado muito pouco tempo para a vida social, mesmo se o distrito lhe tivesse oferecido essa possibilidade. Tinha-se apenas dado conta de que Wynfield Park estava a decair.

- Talvez, por fim, vejamos alguém no banco dos Wynfield no próximo domingo - disse Sarah. Olhou para lady Fortley um momento mais e, em seguida, tocando de novo nos caracóis de Andrew, conduziu-o pelos degraus restantes para a carruagem do seu pai. Enquanto caminhava, Andrew correu diante dela, livre de qualquer restrição sobre o seu comportamento ao abandonar a multidão que se congregava diante da igreja.

Frases soltas ressoavam na cabeça de Sarah. Tão tragicamente mudado, é claro. Pobre homem. Gravemente ferido. Só veio para vender a sua propriedade.

 

Justin, pensou, sentindo a ameaça de umas lágrimas não desejadas. O homem que Sarah Spenser tinha amado mais do que à sua própria vida e de quem se tinha privado, como se tinha privado de qualquer outro prazer durante os últimos quatro anos. Sarah tinha-se negado a tudo, salvo a cumprir com o seu dever e guardar a promessa que tinha feito à sua irmã moribunda.

Nada tinha mudado, disse Sarah, limpando com fúria uma lágrima que tinha escapado pelo seu rosto, antes que alguém a visse. Nada tinha mudado porque nada poderia mudar. Tal como as restantes realidades desagradáveis que tinha enfrentado ultimamente, com o tempo também superaria aquela. Justin estava tão longe do seu alcance como nos anos em que tinha lutado com Wellington, portanto, não fazia sentido chorar por ele como uma tola apaixonada.

Mesmo assim, o seu coração continuava a sussurrar o seu nome. Justin. Justin tinha voltado.

Enquanto cavalgava pela vasta extensão de bosque na parte oriental da sua propriedade, o conde de Wynfield não sentia sequer vestígios do desespero da semana anterior. Pelo contrário, experimentou uma sensação vertiginosa de liberdade no momento em que subiu à sela e fincou os calcanhares nos flancos de Estrela. A obediência instantânea do animal perante as suas ordens tácitas era reconfortante e, enquanto atravessavam o terreno escarpado, a confiança de Justin cresceu.

Montado sobre o cavalo, o seu corpo não o traía com a sua falta de jeito ainda pouco familiar. E se Estrela estava consciente de alguma mudança na técnica do seu amo, não o revelava. Parecia gostar tanto do galope como ele.

Estava quase a chegar a uma clareira, no coração do bosque, uma clareira da qual não se lembrava, quando ouviu gritos. Vozes de crianças, reconheceu, e reduziu o passo. Ao princípio, pareceram-Lhe normais e reconfortantes. Afinal de contas, Robert e ele fugiam com frequência para brincar com os filhos dos camponeses naquele mesmo bosque, que unia as terras de Wynfield com as de Longford.

A primeira criança entrou na clareira, seguida, a curta distância, por um grupo de meninos. Es tavam tão absortos na sua brincadeira que não se aperceberam da presença do cavaleiro. Enquanto os observava, sentindo-se velho e melancólico, Justin deu-se conta de que o que estava a desenvolver-se perante os seus olhos não era uma brincadeira. Uma variedade de projécteis, rochas, raízes e paus caíam sobre o pequeno que ia à frente. Um dos seus perseguidores mais altos atirou-lhe com uma pedra que o atingiu na parte de trás da cabeça.

Embora quase o tivessem alcançado, a vítima virou-se e começou a recolher os projécteis, atirando-os aos seus torturadores. Os seus tiros eram curtos e inúteis, mas o seu espírito era digno de admiração, pensou Justin. No entanto, os outros não pareciam sentir-se admirados.

- Cerquem-no - gritou o rapaz que tinha atirado a pedra.

Como tropas bem adestradas, os seus seguidores rodearam a vítima ainda em atitude de desafio.

O rapaz que dava as ordens saiu do círculo e deu um passo para ele.

 

- Agora verás o que é bom, bastardo - disse-lhe. Basta", pensou Justin, sobretudo dada a disparidade de tamanho entre os dois. Fincou os calcanhares nos flancos de Estrela e carregou contra os meninos. Os rapazes congregados em círculo dispersaram-se ao ouvi-lo. Os dois do centro levantaram os olhos com perplexidade quando Justin puxou as rédeas antes que Estrela os pisasse.

- Basta! - disse Justin. Não elevou a voz mas utilizou o mesmo tom de comando que tinha empregue em incontáveis campos de batalha. Justin sabia que Estrela e ele pareciam tão ameaçadores como São Jorge equilibrando-se sobre o dragão com a lança na mão. - O que se passa aqui?

Com olhos muito abertos pela surpresa ou a admiração, os meninos ficaram em silêncio por um instante. O mais alto dos dois tinha recuado, afastando-se do cavalo, mas o pequeno mal se mexeu.

- Isto não lhe diz respeito - respondeu o rapaz alto em tom beligerante, tentando recuperar a sua fanfarronice e o respeito dos seus amigos.

O primeiro-oficial", pensou Justin com regozijo, embora não se reflectisse na sua expressão. O seu rosto era tão grave como se estivesse a enfrentar um inimigo.

- Dado que estás nas minhas terras, penso que tudo o que acontece nelas me diz respeito - fez uma pausa para que pudesse assimilar a informação e depois apresentou-se. - Sou Wynfield.

Os olhos do líder abriram-se ainda mais. Naquela ocasião escrutinou o seu rosto e passeou o olhar com admiração pela pele brilhante de Estrela antes de pousá-lo na bota direita de Justin, a que escondia o pé artificial.

- Quem quer que seja - disse o rapaz, fazendo uma careta de desprezo, - certamente não é o conde.

Justin hesitou só por um segundo antes de dar a volta à sua vara e dar uma chicotada à bota bri lhante. O ruído que a madeira fez foi tão sólido como se tivesse batido numa porta. Claramente, não havia carne lá dentro.

Ouviram-se exclamações e maldições entre os marotos que o rodeavam. Depois de oferecer aquela prova irrefutável da sua identidade, Justin fixou os olhos no menino que tinha duvidado da sua palavra.

- Adivinha outra vez - sugeriu então com suavidade.

- Não estamos a fazer nada de mal - assegurou o rapaz.

Wynfield estudou o seu rosto, de tez tão imunda como os nódulos dos seus punhos. Os seus traços pálidos e cansados recordavam-lhe os rapazes da povoação, com quem tinha brincado há quase um quarto de século. Tinham-se mostrado quase sempre respeitosos com as posições elevadas de Robert e dele, mas, de vez em quando, surgia um atrevido como aquele, geralmente o mais inteligente do grupo.

- Sempre que não lutares com justiça estarás a fazer algo de errado - recriminou-o Justin. Parece-me que tens demasiada vantagem.

 

Deliberadamente, desviou o olhar para o menino pequeno. Justin tinha falado em voz baixa, mas assegurou-se de que as suas palavras se pro pagavam pela clareira até aos rostos manchados que apareciam atrás das árvores circundantes. Apesar da sua fuga inicial para se livrarem do avanço de Estrela, os outros meninos não tinham escapado, mais intrigados que assustados pela sua intervenção.

- Pequeno bastardo! - gritou com desprezo o rapaz que Justin tinha tomado por líder. Depois cuspiu para o chão, e a saliva caiu junto às botas do menino. O gesto, assim como a sua voz, revelavam um desprezo absoluto. Demasiado desprezo para um rapaz tão pequeno.

Justin contemplou o rosto do alvo de tanto ódio. O menino observava o seu salvador, ignorando os outros. A sua pele fina estava avermelhada no lugar onde o tinham atingido, mas não dava sinais de ter chorado.

- Agora já não te vão fazer mal - tranquilizou-o Wynfield.

- Não me fizeram mal - respondeu o menino. A sua voz vibrava com desafio e aquela emoção era evidente até nos contornos do seu rosto infantil e do seu queixo levantado. Foi então que justin se deu conta de que a sua roupa era muito diferente da dos outros rapazes.

Não se tratava do filho de um agricultor, nem dos habitantes da povoação mais próxima, pensou Justin, estudando o casaco curto, de botões a condizer, com umas calças de lã. As botas que calçava estavam brilhantes e eram de boa qualidade. O que significava que...

Justin inspirou fundo e o sangue palpitou-lhe nos ouvidos de forma ensurdecedora porque sabia o que significava... o menino naquele lugar em concreto. E só tinha que fixar- se no rosto do rapaz e nos seus olhos de cor azul-marinho para comprovar que estava certo.

- Vão para casa - ordenou sem levantar a voz nem afastar os olhos do rosto do pequeno. - Está na hora de se irem embora.

O menino que acabava de salvar deu um passo em frente, fazendo intenção de ir com os outros.

- Tu não - pediu-lhe Justin. Surpreendido, o pequeno olhou para ele com incredulidade.

- Senhor? - perguntou o menino.

- Como te chamas? - inquiriu Wynfield, obedecendo a um impulso masoquista. Como vestir-se para jantar. Vagamente, apercebeu-se de que os outros meninos estavam a obedecer à sua ordem e entravam no bosque.

- Andrew - respondeu.

Andrew, quê? quis perguntar Justin, mas deteve-se. Seria importante quem Sarah tinha escolhido para seu substituto? Era uma velha ferida e deveria estar já cicatrizada. Tinha tido anos para superar a traição de Sarah Spenser, anos nos quais não tinha sido celibatário. Por isso mesmo, não compreendia por que razão saber que aquele era o filho de Sarah, Lhe estava a produzir aquele efeito.

- Mas todos me chamam Drew - acrescentou o rapaz, com os seus olhos azuis ainda postos no rosto de Wynfield.

Não restava dúvida de que se tratava de um Spenser, os traços eram demasiado familiares. Afinal de contas, tinha crescido com Sarah e Amelia e tinha-as visto mudar, quase imperceptivelmente, ao longo dos anos.

 

Então, uma noite de Maio, tinha visto aquele mesmo cenário de traços no outro extremo de um salão de baile e tinha-os reconhecido imediatamente. E, por estranho que parecesse, na primeira temporada de Sarah Spenser em Londres, tinha-se apaixonado loucamente pela jovem que tinha conhecido na sua infância.

Uma jovem que, apesar de todas as promessas

e planos que tinham feito, se tinha apaixonado por outro homem apenas um ano depois de o destinarem a Espanha. A carta de Sarah tinha sido bastante clara naquele sentido, e da Península Ibérica não tinha tido oportunidade de fazê- la mudar de ideias. Mesmo se estivesse na Inglaterra, reconheceu Justin, o seu orgulho ter-lhe-ia impedido de suplicar a Sarah para que não quebrasse o compromisso, apesar do muito que a tinha amado.

Tinha-a amado. As palavras ressoaram na sua cabeça. Tinha-a amado, reconheceu, tanto quanto era capaz de amar naquela época. E se não tivesse ido para Espanha, aquele filho poderia ter sido dele.

- Sou Wynfield - disse em voz baixa, pergun tando-se se o rapaz teria ouvido o seu nome

unido ao de Sarah.

- Já o disse antes - respondeu Andrew.

- Sim - Justin cedeu ao sorriso que tinha reprimido antes. O seu efeito foi imediato e visível no menino que relaxou os ombros.

- Fez mesmo tudo o que dizem? - perguntou o rapaz, com os olhos iluminados, que não ti nham estado assim durante o encontro com os outros rapazes.

- Como não sei o que dizem - respondeu Justin,não saberia responder-te.

- Que matou mil franceses. Que atravessou a cavalo as suas defesas. Que quebrou as suas formações para que Wellington pudesse ganhar. É esse o seu corcel?

Justin riu perante aquela corrente de palavras.

- As façanhas dos soldados são sempre exageradas - disse-lhe. - Assim as histórias são mais interessantes.

- Mas é verdade que lhe cortaram a perna? perguntou o menino, fixando o olhar na bota alta de montar que escondia o defeito. - Ouvi Sarah e a senhora Simkins falar sobre isso.

Quando o silêncio que se seguiu ao seu comentário se prolongou, o menino levantou os seus olhos azuis para os de Justin. Wynfield não sabia o que reflectia o seu rosto, mas aquelas palavras simples tinham tido mais efeito nele que o desejado.

A ideia de que Sarah tivesse comentado a sua amputação com a sua governanta era tão cruel e dolorosa como o coto. Demorou um momento a captar o significado completo daquela frase. O menino referiu-se a ela como Sarah.

Poderia ter-se enganado? perguntou-se Justin, estudando novamente os traços Spenser presentes em miniatura no seu rosto infantil. Amelia tinha morrido pouco depois de ele partir para a Península, portanto... Se aquele não era o filho de Sarah, pensou Justin, quem era?

- Sarah? - inquiriu com cautela.

- A minha maman - de repente, o rapaz abriu os olhos. - Vou chegar tarde - declarou, com preendendo naquele momento o castigo que enfrentaria.

Justin recordou as vezes que tinha regressado a sua casa vindo daqueles bosques, consciente de que o seu tutor lhe exigiria que explicasse cada minuto da sua demora. Embora não pudesse imaginar Sarah a açoitar o rapaz, a angústia no seu olhar foi suficiente para se oferecer para o salvar pela segunda vez.

- Vou ajudar-te a atravessar o riacho - ofereceu-se, e estendeu-lhe a mão. O menino hesitou por um momento antes de pôr os seus pequenos dedos sobre a sua pele queimada pelo sol. Justin puxou-o e subiu-o facilmente para a sela.

Depois, dirigiu Estrela para o riacho estreito que separava as duas propriedades. Sentia uma certa satisfação pelo pequeno corpo quente que segurava, firmemente sentado na sela à sua frente. O filho de Sarah", pensou e, novamente, surpreendeu-se pela sensação de perda que aquela compreensão suscitava.

 

- E depois bateu na sua perna de madeira com a sua vara - contou Andrew, e a sua história exaltada apenas se via interrompida ocasional mente por uma exclamação de dor ou um movimento de cabeça; enquanto Sarah tentava tratar dos seus arranhões e feridas. - Assim - declarou, batendo com o punho na mesa, onde Sarah tinha disposto os seus medicamentos, para reproduzir o som da vara do conde.

- Andrew - repreendeu-o, sentindo uma ligeira náusea no estômago que não tinha nada a ver com as feridas de batalha que estava a tratar. Dava graças a Deus por não serem mais que uns arranhões, é claro, e por Andrew Lhe ter dito a verdade sobre a sua origem. Embora suspeitasse há algum tempo que era alvo da crueldade dos rapazes da povoação, o menino nunca o tinha reconhecido. Naquele dia, a notícia da intervenção de Justin tinha vencido a sua reticência ao contar o acontecido.

Wynfield, corrigiu-se. Tinha decidido que utilizar o seu título em vez do nome pelo qual o tinha chamado durante toda a sua vida ajudá-la-ia a não pensar nele. Demasiado, depois do seu regresso. "Só veio para vender a sua propriedade", tinha declarado lady Fortley, e certamente tinha razão. Por que razão Justin, ou qualquer outro, quereria ficar num lugar onde atormentavam as crianças pelos pecados dos adultos? ", pensou com amargura, aplicando com demasiada energia o desinfectante sobre um pequeno corte na testa de Andrew.

- Ai! - queixou-se o rapaz, afastando-se.

- Desculpa - sussurrou, e beijou os seus caracóis dourados.

O menino assentiu e depois voltou a confiar-se aos seus cuidados. Estava mais que acostumado a que Sarah o tratasse, porque nunca tinha tido uma ama. Sarah tinha-se deleitado a cuidar dele pessoalmente e isso tinha estabelecido uma relação mais íntima.

- Tinhas que ter visto como corriam - continuou Andrew, momentos depois. Quando Sarah olhou para ele, os seus olhos reflectiam a satisfação de ver fugir os seus inimigos. - Tinham medo do seu corcel de guerra - acrescentou,mas eu não. Eu não tinha medo, Sarah. Até montei com ele. E perguntei-lhe sobre a guerra.

- Talvez não devesses tê-lo feito - sugeriu Sarah, em voz baixa. Gravemente ferido" ressoou na sua cabeça.

- Sarah? - Andrew questionou o silêncio que se produziu. Ou talvez estivesse a questionar o fácto de, com as mãos entrelaçadas no colo, Sarah ter deixado de lhe limpar as feridas.

- Penso que sobreviverás - disse-lhe, contemplando os olhos azuis cheios de preocupação.

- Ficas triste ao pensar na guerra? - perguntou o menino.

- Sim - reconheceu. - E talvez o conde também.

- Ele não estava triste - afirmou Andrew. Bang, bang, bang! - exclamou com os olhos iluminados enquanto batia na mesa com o punho, como o conde tinha feito com a sua perna. - Não estava nada triste com a guerra.

Sarah esboçou um sorriso involuntário. Fosse qual fosse o efeito que a sua mutilação tivesse tido em Justin, aos olhos de Andrew, era uma personagem grandiosa. E certamente, assim tinham pensado os outros rapazes, pensou, a jul gar pelo entusiasmo irrefreável de Andrew pelo novo conde.

- Agradeceste-Lhe por intervir a teu favor?

- Não me lembro - confessou Andrew, e a sua testa enrugou-se ao tentar pensar.

- Então assegura-te de que o fazes da próxima vez que o vires - disse Sarah, enquanto recolhia os seus materiais.

- Virá à missa no domingo? - perguntou Andrew, abrindo os olhos com esperança. - Não sei - respondeu Sarah. Perguntava-se o mesmo desde que lady Fortley lhe tinha dado a notícia sobre o regresso do conde, mas tinha tentado diminuir a expectativa que sentia perante a perspectiva de voltar a ver Justin. Já bastava que Andrew o idolatrasse, mas ela...

As crianças necessitavam de um modelo a seguir, um homem valente a quem admirar. Andrew não tinha conhecido ninguém assim, e considerar o conde de Wynfield como o seu herói pessoal era inofensivo. E, certamente Andrew não voltaria a encontrar o seu vizinho durante a sua breve estadia no distrito. E ela também não, é claro, para bem da sua páz mental.

Apesar das esperanças de Andrew, o conde não foi à igreja no domingo seguinte. O menino desanimou-se momentaneamente ao ver o banco dos Wynfield vazio. Embora Sarah tivesse mais prática em esconder a sua decepção, reconheceu que a sua foi igualmente poderosa, embora não tão visível como a de Andrew.

Na segunda-feira seguinte, pela manhã, numa tentativa para escapar à dor daquela decepção, que pareceu persistir no seu espírito durante todo o domingo, resolveu levar a cabo tarefas acumuladas. Foi uma ironia que uma delas fosse ao encontro do que, tolamente, ansiava.

Levantou-se cedo, naquela manhã, para fazer as visitas, começando pelo seu pai idoso e com os camponeses doentes e terminando, no meio da manhã, na propriedade dos Wynfield. Os Randolph, uma das famílias de agricultores do conde, acabavam de ter um bebé. Como era o seu décimo terceiro filho em menos de dez anos, Sarah não sabia se o considerariam uma bênção.

 

Levava consigo vitela assada, um queijo grande e duas fornadas de pão daquela mesma manhã para a mãe. Deixaria que fosse Meg Randolph a decidir se os presentes eram de felicitação ou de condolências.

Enquanto conduzia a sua carruagem até à porta principal, o som de um martelo no interior da casa perturbava a quietude campestre mais que os gritinhos dos numerosos filhos dos Randolph que, na sua maioria, estavam a brincar no jardim.

Sarah sentia uma curiosidade natural por aquele ruído, dado que nunca tinha visto Jed Randolph a pregar um prego em todos os anos que vivia ali. Claro que, como a casa corria o perigo de se desmoronar com a primeira rajada de Inverno, talvez tivesse decidido que, se não fizesse nenhuma reparação, ninguém o faria. Ou talvez tivesse medo de que o novo conde o expulsasse das suas terras por ser um patife.

Quando Sarah entrou na casa, seguindo o convite tímido da filha mais velha,ergueu o rosto para contemplar a obra de Jed. Mas,quem empunhava o martelo,compreendeu em seguida,contendo o fôlego, não era um Randolph,nem nenhum dos vizinhos. No entanto,o homem que colocava uma liga de metal no tecto,para sustentar uma viga partida,estava vestido com a mesma simplicidade que qualquer um deles.

Arregaçou as mangas da camisa,mostrando uns pulsos ágeis,uns antebraços musculados e umas mãos morenas e bem formadas. O fato, apesar da sua simplicidade,era de linho e de um corte excelente e as calças suficientemente elegantes para delinear as coxas fortes de um cavaleiro e as suas ancas estreitas. As suas botas eram altas e brilhantes.

- Lady Sarah! - exclamou Meg Randolph, com a voz cheia de prazer genuíno. Tinha aparecido à porta do único quarto da casa. – Seja bem-vinda,milady - acrescentou,apercebendo-se da cesta que trazia no braço.

Ao ouvir o seu nome,Sarah desviou o olhar das costas atraentes de Justin para contemplar a sua anfitriã. Sorriu a modo de saudação e em seguida, negando-se a reprimir-se pelo bom-senso ou cortesia, voltou a presentear os seus olhos com a sua figura. Mas o conde de Wynfield já tinha virado a cabeça para a porta.

A luz que entrava bastou para iluminar os seus traços e revelar como Justin Tolbert tinha mudado. Estava cinco anos mais velho, mas a maturidade que se gravou no seu rosto atraente era mais prolongada. O seu rosto estava tão moreno como as suas mãos, embora tivessem passado várias semanas desde que tinha abandonado o sol ibérico que tinha forjado aquela mudança. Também tinha aclarado o seu cabelo castanho, que além disso, notou com surpresa, evidenciava cabelos brancos nas têmporas.

As pequenas rugas que irradiavam dos seus olhos também eram novas. Até os seus olhos tinham mudado, pensou Sarah. Na cor não, mas... talvez no que tinham visto? Ou no que tinham suportado.

- Sarah? - disse-lhe, com olhos tão interrogantes como a sua voz.

- Bem-vindo a casa - limitou-se a responder. Aos seus ouvidos, a voz parecia carregada de emoção.

Os olhos cor de avelã não se alteraram, como se a sua saudação não fosse nada de extraordinário.

- Obrigado - respondeu Justin.

Os seus lábios esboçaram um dos seus sorrisos, antigamente tão familiares. E o coração rebelde de Sarah, contra todas as restrições sobre como devia comportar-se, começou a bater mais forte.

- Já estava na altura, diria eu - acrescentou, ampliando o seu sorriso.

- Já estava na altura - agonizou, perguntando-se se se daria conta do efeito que tinha nela.

Mas Justin virou-se e apontou para o seu tra balho. A liga de metal que tinha colocado não tinha endireitado completamente a viga, mas para isso teria que levantar o telhado e substituí-la por outra.

- É um começo - disse-lhe, olhando para ela outra vez. Na sua voz detectava-se o orgulho inequívoco por aquele trabalho simples, e Sarah perguntou-se quantos condes ingleses reparavam pessoalmente as casas dos seus camponeses. - É a única coisa que posso permitir-me - acrescentou Justin, sorrindo outra vez, troçando abertamente da sua maltratada situação financeira. Como imagino que ouviste.

Não tinha a certeza de como responder à sua sinceridade. Justin saberia que estava a mentir se negasse conhecer o estado das suas finanças e, no entanto, era a última pessoa no mundo capaz de ceder a intrigas. Já tinha suportado muitas sobre ela para considerá-las um passatempo inofensivo.

- Sinto muito o que aconteceu com Robertlamentou. - Sei que eram muito unidos.

Justin assentiu, apertando os lábios.

- Obrigado - agradeceu em voz baixa. E parecia que não tinham mais nada para dizer um ao outro. Naquele silêncio repentino e desconfortável, Sarah ouviu pela primeira vez o pranto da recém-nascida que tinha ido visitar.

- Viste a bebé? - perguntou. O novo nascimento seria um tema tranquilo, inclusive entre eles os dois.

- As marteladas não a incomodam - respondeu Justin, sorrindo.

- Imagino que não - corroborou Sarah, devolvendo o sorriso.

O encontro, depois do primeiro momento de surpresa, estava a ser menos difícil do que receava. O que tinha existido entre o conde de Wynfield e lady Sarah Spenser, há uns anos, tinha passado à história, pelo menos, na opinião de Justin. O conde dava a impressão de estar a conversar com um membro qualquer da nobreza local.

- Como está o teu pai? - perguntou Justin. Sarah pensou se conheceria o verdadeiro estado do seu pai e, depois, decidiu que, se soubesse, não teria cometido a grosseria de lhe perguntar. Quase ninguém se interessava pelo marquês de Brynmoor ultimamente.

- Muito bem - respondeu. E era verdade. A doença que afligia o seu pai não tinha diminuído a sua saúde. Nem a sua força.

Meg Randolph entrou na divisão naquele momento,com a bebé nos braços. Como todos os filhos dos Randolph, estava coroado por uma penugem cor-de-laranja que aparecia por debaixo da sua touca branca. Cedo adquiriria as sardas a condizer que adornavam os seus irmãos. Sem pedir permissão,Meg mudou a bebé,que ainda tinha o rosto manchado de lágrimas,para a cesta que levava.

- Estamos-lhe muito agradecidos,milady disse ela. - Deus sabe como nos vem ajudar. compreendendo tardiamente que o seu comentário podia implicar uma certa crítica para o conde, Meg olhou para ele em seguida,procurando algum indício de ofensa. Mas Justin não parecia sentir-se ofendido,pensou Sarah,levantando os olhos da menina.

Wynfield estava a sorrir e os seus olhos de avelã,com longas pestanas,contemplavam com benignidade a bebé.

- É linda,senhora Randolph - elogiou-a o conde. - Mas penso que ainda não recebeu o seu presente de baptismo - Justin colocou a mão no bolso das suas calças e tirou um punhado de pequenas moedas. O total não era muito, adivinhou Sarah, mas mesmo assim, era um bonito gesto que aliviaria os rigores do Inverno iminente.

Meg deixou a cesta de Sarah sobre a mesa e recuperou a sua filha.

- Nenhum dos meus filhos recebeu alguma vez um presente de baptismo - sussurrou a Sarah. claro que a critica não era dirigida ao actual conde. Pecados do pai,", pensou ela. Em seguida, Meg atravessou a divisão com a bebé ao colo para aceitar as moedas. - O senhor é um bom homem, milorde - disse em voz baixa. Mas apesar da sua tentativa de discrição, o seu elogio chegou aos ouvidos de Sarah, que viu como corava.

- O poço dos Wheeler está entupido - declarou Justin em vez de responder ao elogio de Meg. - Prometi tentar descobrir porquê. Da próxima vez que tiver algum problema, não hesite em mandar chamar-me.

- Estamos bem agora, milorde. Não teria mandado chamá-lo, mas as últimas chuvas ensoparam as camas dos mais pequenos. E sabia que, assim que chegasse o Inverno... - Meg encolheu os ombros.

- Fez o que devia - tranquilizou-a o conde. Lamento que tivesse que esperar tanto por estas reparações.

- O senhor estava a cumprir com o seu dever para com o rei e a pátria. As coisas mudarão, mi lorde, agora que voltou - declarou Meg, e, novamente, o silêncio prolongou-se de maneira desconfortável.

- Acompanho-te à porta - sugeriu Sarah, quebrando-o deliberadamente. Suspeitava que, com poço entupido ou não, Justin estaria ansioso por escapar às crianças e à gratidão e a qualquer con versa sobre os seus planos para a sua propriedade na falência.

Justin voltou a sorrir e coxeou para a porta de saída. O seu passo era irregular e o seu corpo alto e direito torcia-se um pouco ao andar. Sarah pensou que deveria ser doloroso e terrivelmente incómodo, sobretudo ao pensar na graciosidade de movimentos que sempre tinha associado a Justin.

De repente, Sarah recordou vividamente a noite em que tinha dançado com ele pela pri meira vez. O salão de baile londrino transbordava de convidados e o calor era asfixiante. Justin vestia uniforme. O fato do seu regimento realçava a perfeição do seu corpo e o seu rosto ainda juvenil. Sarah pensou então que não havia homem mais elegante em todo o salão. Aceitou a sua mão com agrado e, quando soaram as primeiras notas, deixou-se levar nos seus braços. Os seus passos encaixavam na perfeição, quase sem pensar. E dançaram juntos como se tivessem sido criados apenas para isso...

Nunca mais voltariam a dançar, compreendeu. Ergueu o olhar, mas teve que pestanejar para dissipar as lágrimas repentinas que molharam os seus olhos. Então, apercebeu-se que Justin estava à sua espera, junto à porta, olhando para ela. Virou-se para a soleira e indicou-lhe com a mão que o precedésse. O seu perfil apareceu iluminado pelo sol e Sarah viu que tinha os lábios apertados e a expressão tensa.

Envergonhada pelas suas lágrimas, Sarah atravessou a soleira e saiu, dando graças a Deus pela pausa concedida por aqueles incríveis olhos cor de avelã que viam demasiado. Não parou até chegar à carruagem, onde esperou que Justin lhe desse a mão e lhe passasse as rédeas do pónei. Quando o fez, com os seus longos dedos morenos firmes sob a pressão vacilante dos seus, Sarah olhou para ele.

- Queria agradecer-te por teres salvo Andrew na semana passada. Suspeitava já há algum tempo que os rapazes o intimidavam, mas ele não me dizia nada.

- Estava a defender-se como podia. Não é nenhum chorão - declarou Justin, sorrindo.

Fosse o que fosse que tinha lido no seu rosto há um momento, quando a tinha visto reagir à sua ferida, já se tinha dissipado.

- Oxalá o fosse - respondeu Sarah.

- Os valentões deleitam-se com a covardia das suas vítimas. Andrew sabia o que fazia, mas faltava-lhe técnica - explicou-lhe. - E tamanho. Embora isso chegue com o tempo - acrescentou.

Fez-se outro silêncio. Talvez esperasse que fizesse algum comentário sobre o pai de Andrew e o que podia esperar-se sobre o seu tamanho no futuro. Mas Sarah não podia fazer nenhum.

- Em qualquer caso - respondeu,- agradeço-te muito pelo que fizeste. E Andrew também.

- Faria o mesmo por qualquer criança. Reagi à injustiça da luta.

- Não sabias... - hesitou. Apesar de o distrito ter decidido há algum tempo qual era a verdade sobre a maternidade de Andrew,que Sarah tinha apresentado como seu filho adoptivo,não via forma de formular a pergunta.

- Que era teu? - concluiu por ela. - Até ter olhado para o seu rosto,não. Depois,não tive a menor dúvida - o seu sorriso era tão natural como aquele que tinha esboçado a Meg Randolph. E igualmente impessoal.

- Não - disse em voz baixa. - Suponho que não.

Sarah olhou para ele um momento mais,mas não leu nele nada mais que uma antiga amizade.

Depois pegou nas rédeas do pónei e deixou o novo conde de Wynfield de pé, no caminho.

Sarah não compreendia as emoções que perturbavam a sua paz interior naquela noite. Embora não tivesse alterado a sua rotina naquele dia, depois do seu encontro com o novo conde, tinha-se sentido embargada por uma insatisfação imprópria nela. Uma sensação de profunda infelicidade com a sua vida, sensação essa que não reconhecia há anos. Porque, pensou, deixando a sua costura no regaço, que sentido teria reconhecê- la?

Andrew já tinha jantado e estava deitado. Até o seu pai estáva a dormir. Ou pelo menos, o seu criado não tinha aparecido para lhe pedir ajuda para tranquilizar o marquês. Normalmente, aquela era a sua hora favorita do dia, quando já não havia trabalho e na casa reinava o silêncio e a tranquilidade.

Mas Sarah não compreendia porque; de repente, se sentia tão... inquieta. Tão insatisfeita com as suas circunstâncias. Desgostada consigo mesma, renunciou à costura e deixou a peça sobre a mesa contígua à sua cadeira. Levantou-se e esticou-se como um gato. Os seus olhos desviaram-se para o reflexo daquele movimento no espelho, que estava por cima da lareira. Aproximou-se e contemplou a mulher do reflexo. Só então compreendeu quanto tempo tinha passado desde a última vez que tinha estudado com atenção o seu aspecto.

Também não a tranquilizava fazê-lo naquele momento. Se tinha notado como Justin tinha mudado com os anos, o mesmo podia dizer-se dela. Estava demasiado magra, reconheceu, tocando nas maçãs do rosto com os dedos de ambas as mãos. Parecia cansada. E havia umas leves rugas na sua testa que não tinha notado nunca.

Certamente eram o resultado de a franzir com perplexidade. Tinha tido muitos motivos de preocupação desde que o seu pai tinha ficado demasiado incapacitado para se ocupar dos assuntos da propriedade e desde que ela tinha assumido aquela responsabilidade. E o peso daquela carga estava evidente no seu rosto.

E no meu cabelo, pensou com desolação, levando a mão a uma madeixa encaracolada que tinha escapado ao coque escuro com que o tinha apanhado. Era um penteado adequado à vida no campo, muito mais prático que os suaves caracóis à volta do rosto, embora soubesse qual era a última moda. Assim tinham voltado as filhas dos Simonson, depois de passar a temporada em Londres.

O coque era muito mais prático, disse para si de novo, remetendo a madeixa errante. Mas não tão favorecedor, reconheceu. O estilo tinha conseguido suavizar os rostos compridos das irmãs Simonson, e também suavizaria o seu rosto magro. E nenhuma das duas jovens tinha o cabelo da cor do trigo amadurecido. Assim o tinha descrito Justin há mais de seis anos, quando se tinham apaixonado.

 

Apaixonaram-se, pensou, evocando aquela longínqua temporada em Londres. E o seu amor por Justin tinha-a impedido de o arrastar para o mesmo escândalo que tinha manchado o seu nome e a tinha convertido numa vítima da sua própria sociedade. Um escândalo que não tinha sido provocado por ela, mas para o qual não tinha defesa alguma, se não quisesse destruir a reputação da sua falecida irmã e quebrar a promessa que tinha feito a Amelia no seu leito de morte. Portanto, Justin Tolbert estava fora da sua vida para sempre.

Qualquer dia, alguém do distrito seria suficientemente cruel para lhe repetir a explicação do nascimento de Andrew, há muito tempo decidida entre todos. E então, aqueles lindos olhos castanhos já não teriam nada para lhe oferecer. Nem sequer amizade.

- Pensei em organizar algum acto socialdisse o conde de Wynfield ao seu mordomo naquela noite, durante o jantar. - Oúvi dizer que a minha mãe oferecia sempre algum tipo de entretenimento para os vizinhos no final de cada Verão.

- É verdade, milorde - corroborou Blevins, colocando uma terrina de sopa diante do novo conde.

- Preferiria que a casa e os jardins estivessem em melhor estado, mas as pessoas mostraram-se compreensivas. Pelo menos, as pessoas a quem não devemos dinheiro - acrescentou Justin.

O rosto de Blevins manteve-se inexpressivo, como correspondia ao seu cargo. No entanto, Justin torceu os lábios. A colher de sopa que levou à boca ocultou o seu regozijo.

Ninguém fazia menção às dívidas conhecidas por todos, pelo menos, à sua frente. Era quase como se se tratasse de um escândalo secreto. Um escândalo, pensou, recordando de novo o verdadeiro propósito pelo qual tinha tocado naquele assunto.

- Suponho que haverá uma lista de convidados nalgum lado - continuou. - Uma lista com os nomes dos vizinhos que a minha mãe estava acostumada a convidar. Chattington e a sua esposa, é claro. Lorde e lady Fortley, receio bem. Brynmoor. E devemos acrescentar lady Sarah e quem quer que seja o seu marido.

Sarah, como filha de um marquês, teria mantido o seu título apesar de se ter casado.

Se não estivesse a observar o rosto de Blevins, Justin teria perdido a sua reacção. O mordomo pestanejou e ergueu os olhos rapidamente para o rosto de Justin, baixando-os com a mesma rapidez.

- Não tenho a certeza de ter ouvido o seu nome - urgiu-o o conde com suavidade, observando abertamente o idoso naquela ocasião.

Quando o mordomo voltou a olhar para ele, não mostrou qualquer intenção de ocultar o que reflectiam os seus olhos. Olhou para Justin durante uns segundos antes de dizer:

- Lady Sarah Spenser não se casou, milorde. Voltou a baixar os olhos, e sem o mais leve indício, com os seus movimentos estudados, co briu a terrina com a tampa e afastou-se da mesa.

- Enviuvou? - perguntou Justin, mas já tinha visto a resposta no rosto de Blevins.

- Não, milorde - respondeu o mordomo, no seu tom sem inflexão alguma. - Não enviuvou. Lady Sarah, conforme sei, continua solteira.

Até Justin poder ficar sozinho nos seus aposentos, naquela noite, não se tinha concedido a oportunidade de meditar no que tinha descoberto. Então, já tinha recordado o desprezo com que o líder do pequeno bando de valentões tinha cuspido para o menino chamado Andrew e o epíteto que tinha usado.

Bastardo. Naquele momento, Justin tinha pensado que a palavra indicava apenas um desprezo verbal em consonância com o gesto, mas aparentemente, tinha sido uma acusação literal.

Mesmo assim, não entendia porquê. As jovens bem nascidas da sua classe não tinham filhos fora do casamento. Conhecendo o marquês como conhecia, Justin pensou que seria inconcebível que a filha de Brynmoor tivesse dado à luz a um filho ilegítimo. Fosse qual fosse o homem responsável por seduzir uma das suas filhas, tê-lo-ia obrigado a casar-se com ela assim que tivesse descoberto a gravidez.

Mas se não se tratava do filho de Sarah, então quem era o menino que a chamava de maman? Um menino cujo rosto era o reflexo fiel do da sua amada e noiva.

Fosse qual fosse a verdade, pensou Justin, soltando o arnês de couro do seu pé artificial, não lhe dizia respeito. Já tinha muitos problemas para resolver para prestar atenção aos de uma mulher que, há mais de quatro anos, lhe tinha deixado muito claro o que sentia por ele.

 

Depois do seu encontro em casa dos Randolph, Sarah viu o conde de Wynfield em várias ocasiões durante as semanas seguintes. Nunca esteve suficientemente perto para falar com ele, ou para que lhe dirigisse a palavra. E, era melhor assim, disse para si com determinação.

Numa daquelas ocasiões, Justin estava de pé no centro da praça da povoação a falar com lorde Fortley. Naquele dia tinha-se vestido como correspondia à sua linhagem e, portanto, parecia-se muito mais com o Justin que recordava. Não levantou os olhos quando ela passou ao seu lado na carruagem fechada do seu pai.

No entanto, Sarah foi incapaz de afastar os olhos dele e esticou o pescoço na sua tentativa de prolongar o mais possível aquele contacto visual. E quando já não podia vê-lo, sentiu-se invadida pela mesma sensação de perda e insatisfação que tinha experimentado depois do seu encontro anterior.

Para piorar a situação, onde quer que fosse, corriam rumores sobre o novo conde. Falava-se do que pretendia fazer para salvar a sua propriedade, do que estava a fazer pelos seus arrendatários. Aparentemente, a casa dos Randolph não era a única que tinha recebido a atenção pessoal de Wynfield. E, apesar da grande consideração que a sua disposição a trabalhar para melhorar as condições dos seus camponeses lhe estava a dar no distrito, todos sabiam que os seus esforços eram insuficientes e tardios.

Também havia rumores de que os credores do conde estavam a assediá- lo, exigindo o pagamento das velhas dívidas. No entanto, dizia-se que restavam muito poucas coisas para vender.

 

O seu pai e o seu irmão já se tinham encarregado de o fazer, portanto, era apenas uma questão de tempo até que aquelas terras, que tinham pertencido à família Wynfield durante mais de dois séculos, acabassem nas mãos de outra pessoa. Alguém de fora, opinavam os bisbilhoteiros. Talvez inclusive um dos ricos mercadores que tinham aparecido com a guerra.

Para Sarah, era difícil imaginar Wynfield Park em posse de alguém que não fosse da família, nem sequer do distrito. No entanto, como outros, não via nenhuma solução para Justin. Aparentemente, ter servido o seu país corajosamente, durante tantos anos, não carecia de valor monetário, nem sequer para conter os credores durante um intervalo adequado depois da morte do seu irmão.

Sarah gostaria de acreditar que a sua indignação perante aquela injustiça era o que tinha engendrado a ideia que, uma vez na sua mente, cresceu tão depressa que dominava todas as suas horas de insónia. No entanto, sabia que aquela ideia nascia de algo mais que do ultraje moral, sobretudo quando ouvia outras intrigas da nobreza local. Havia herdeiras ricas em Londres, diziam, com fortuna suficiente para salvar as terras de Wynfield e que ficariam encantadas de se casar com o conde.

- Da sua classe, não, claro - tinha dito lady Fortley, arqueando uma sobrancelha. Todos compreendiam que nenhum membro da nobreza permitiria que a sua filha se casasse com um homem arruinado. Pelo menos, nenhum que albergasse a esperança de um casamento decente. A única esperança de Wynfield naquela altura, tinha sugerido lady Fortley, achava-se entre as londrinas. Estariam ansiosas por unir-se a ùm conde, embora estivesse coxo e arruinado.

Ao ouvir aquelas palavras cruéis, Sarah tinha tido que lutar para manter a compostura, mas conseguiu descer os degraus da igreja sem mur murar nenhuma réplica. Só quando se sentou na carruagem compreendeu que o que lady Fortley tinha dito não era, afinal de contas, tão ultrajante.

- Sarah - chamou-a Andrew num tom de lástima, puxando-lhe o cotovelo. Sarah fixou o olhar no seu rosto, ainda imaginando Justin nas garras de uma ambiciosa herdeira burguesa que o afundaria na desgraça. - Será que virá alguma vez à igreja? - perguntou Andrew.

Não era preciso perguntar- lhe a quem se referia. Andrew parecia igualmente obcecado, como ela, com o novo conde. Em mais de uma ocasião, tinha-o ouvido a brincar, dando ordens e desfilando pelo seu quarto como imaginava que o faria o seu herói. E, sem a sua permissão, Drew tinha atravessado os bosques em mais de uma ocasião para visitar Wynfield Park. Sarah tinha-o proibido categoricamente que tentasse ver o conde outra vez daquela forma. Feliz mente, Wynfield não estava na sua propriedade durante as excursões de Andrew. Na sua busca incansável por encontrar um meio de salvar a sua herança, estava poucas vezes nas suas terras.

- Talvez não.

- Então alguém deveria dizer-lhe que irá para o inferno - sugeriu com um tom de indignação.

Apesar da gravidade da expressão do menino, Sarah riu-se. Não tinha a certeza da pureza das intenções de Andrew para salvar Wynfield da perdição. Como também não podia ter a certeza da pureza das suas, reconheceu.

- Mesmo assim, não penso que devas ser tu a dizer-lho - disse-lhe.

- Quero vê-lo outra vez. Quero perguntar-lhe algumas coisas - comentou o menino, com decepção na voz. - Pensei que, como é nosso vizinho, o veria com mais frequência, mas.

Sarah tinha-se perguntado se Justin estava a fugir deles deliberadamente. Se era assim, pensava saber porquê. Andrew podia agradecer às Fortley do mundo pela sua malícia.

- Eu sei - respondeu-lhe com suavidade. - Tenho a certeza de que o verás muito em breve - acrescentou, levantando o seu queixo trémulo com o dedo indicador e o polegar e sorrindo para o rapaz com determinação. - Não quero que chores.

- Os soldados não choram - afirmou Andrew, pestanejando com força.

- Não, suponho que não - corroborou Sarah.

- Pelo menos, não onde alguém os possa ver.

- Ele nunca choraria - afirmoá Andrew com convicção.

Nisso tinha razão, pensou Sarah. Mas dada a situação que enfrentava, talvez Justin Tolbert sentisse vontade de o fazer.

- Isto é tudo? - perguntou o conde de Wynfeld, tocando no maço de documentos que estava sobre a mesa, diante dele.

- Tudo o que até agora nos apresentaram - respondeu Drayton Langley. - Poderia haver outros credores que ainda não tiveram notícia da morte do seu irmão. É perfeitamente possível que enviem as suas contas nos próximos seis meses, mas penso que este é o grosso das dívidas. Claro que somadas às do seu pai... - encolheu os ombros - Tentei advertir o seu irmão, milorde.

- Tenho a certeza que sim - afirmou Wynfield, deslizando o dedo pelo bordo do grosso maço de notas que Robert tinha assinado. - E que percentagem do total das dívidas podemos pagar, senhor Langley?

- Eu diria que... menos de sessenta por cento, milorde.

- Raios - respondeu Justin em voz baixa.

- Isto é - continuou o banqueiro, num tom neutro, - se vender tudo o que resta. Cavalos, carruagens, baixela, retratos e móveis. A mansão e a terra. E é claro, isso depende da sua capacidade para encontrar um comprador, ou compradores, para tudo isso. Receio que nada será vendido pelo seu valor, devido à sua situação económica actual e o seu avançado estado de deterioração.

- Mas isso é o que me aconselha? Que venda tudo?

O banqueiro levantou as duas mãos antes de as apoiar de novo sobre a sua ampla barriga. Os seus olhos, quase compassivos, pousaram-se no rosto do conde.

- Se me permitir o atrevimento, milorde... começou Langley. Justin levantou os olhos e surpreendeu um brilho de especulação naqueles olhos frios e escuros.

- Conhece demasiado bem o estado das minhas contas para estar com cerimónias, Langley. Se tiver mais alguma coisa a dizer-me, ficarei encantado por ouvi-lo.

O homem franziu os seus grossos lábios, quase como se sentisse vergonha em falar. Justin perguntou-se que notícia pensava que podia ser pior que a que acabava de lhe dar.

- Houve uma oferta - declarou em voz baixa.

- Uma oferta - repetiu Justin, tomando cuidado em controlar a voz, apesar das náuseas que atacavam o seu estômago: Tinha comparecido àquela reunião esperando o pior e isso era exactamente o que tinha recebido. Portanto, fosse qual fosse aquela oferta, devia considerá- la. Para comprar as propriedades?

- Não, milorde - respondeu Langley.

- Então... que tipo de oferta?

Novamente, o banqueiro hesitou, estudando o rosto de Justin.

- Uma oferta de casamento, milorde. Justin examinou a palavra, tentando compreen der o que Lhe estava a sugerir. Os cavalheiros faziam ofertas de casamento, não as recebiam.

- De casamento? - repetiu com cautela. E então, de repente, compreendeu o que o banqueiro queria dizer. Afinal de contas, lorde Fortley já lhe tinha sugerido aquela possibilidade. Que procurasse uma herdeira rica com uma certa propensão para as doenças ou para a obesidade e se casasse com ela o mais depressa possível. O casamento como um acordo de negócios.

Aceitar aquele tipo de oferta podia ser uma solução, mas não era o que o conde tinha imaginado para ele. De repente, na sua mente surgiu a imagem de Sarah na noite do Verão em que se declarou. Aquela longínqua tarde parecia um sonho, distante e romântico. E impossível. Mas grande parte do futuro que tinha antecipado para ele estava a ser impossív el de concretizar, e em nada parecido com as suas expectativas.

- É uma oferta generosa, milorde - acrescentou Langley, - com a qual poderia satisfazer todas as suas obrigações.

- Uma oferta para saldar as minhas dívidas - disse Justin com crueldade. Langley inclinou a cabeça, entrelaçou os dedos sobre o seu estômago e escrutinou Justin com olhos entreabertos.

- É uma proposta honrada - tentou convencê-lo.

- Honrada para quem? - perguntou o conde com amargura.

- As duas partes beneficiam do acordo - sugeriu Langley. - Ocorre com mais frequência do que as pessoas imaginam.

- A compra de um título - disse Justin.

-A compra de um marido, neste caso, penso eu - clarificou Langley. Justin abriu os olhos com surpresa.

- A compra de um marido... - hesitou, meditando naquela selecção de palavras.

- Não penso que a parte interessada queira o seu título, milorde, por mais antigo e respeitável que seja.

Justin contemplou o rosto do homem, consciente de que lhe estava a ocultar algo. Algo que, sem dúvida, Langley pensava decisivo para a sua aceitação ou recusa. E como a aceitação de Justin seria benéfica para o banqueiro...

- Quem é? - perguntou Justin, com franqueza.

De novo o banqueiro franziu os lábios e, quando falou, as palavras que brotaram deles eram as últimas que Wynfield esperava ouvir.

- Lady Sarah Spenser, milorde. A única filha do marquês de Brynmoor. E a sua herdeira.

Que arrogante, disse uma e outra vez o conde de Wynfield, enquanto as rodas da sua carruagem devoravam a distância que o separava da propriedade que estava prestes a perder para sempre.

O vento levá-la-ia por culpa da má administração do seu pai e do seu irmão. E pelo seu estúpido orgulho. Porque a mulher que tinha amado tinha escolhido amar outro homem. Alguém tão pouco merecedor do seu presente que a tinha abandonado para que desse à luz o seu bastardo fora do casamento. Portanto Justin, levado pela sua arrogância, obstinado ao seu ódio e amargura contra Sarah pela sua traição, em vez de aceitar a sua oferta, a solução de todos os seus problemas, tinha declinado. Uma relação sexual ilícita da qual nunca teria acreditado ser capaz. E apesar de ter afirmado sempre que a tinha amado de verdade, tinha optado por recusá-la e satisfazer o seu velho desejo de vingança, negando a possibilidade de redimir a sua herança e a guardar para os seus filhos.

Os seus filhos", pensou, recordando por alguma razão os olhos enormes do bebé dos Randolph e os do pequeno de Sarah. Certamente, nunca teria tido filhos, disse para si, embora tivesse aceite a oferta. Porque o que Sarah tinha sugerido era um casamento de conveniência. Langley tinha sido muito claro nesse ponto. Seria um acordo de negócios, de benefício mútuo para ambas as partes.

- O marquês de Brynmoor já não pode ocupar-se pessoalmente da sua propriedade - tinha dito Langley e, com aquelas palavras, Justin tinha

recordado a expressão de Sarah ao perguntar-lhe pelo seupai. - Portanto, a responsabilidade recaiu sobre a sua filha. Apesar dos conselhos profissionais que recebe, sente que os interesses de Brynmoor não estão a ser tão bem administrados como o marquês desejaria. Ou como ela deseja. Como as suas duas propriedades confinam e como se acha em condições de lhe oferecer a ajuda económica de que necessita: - o banqueiro tinha feito uma pausa, erguendo as sobrancelhas a modo de pergunta.

Justin tinha escutado o resto, é claro, em deferência a Sarah e ao seu conselheiro, mas a sua mente não tinha albergado nenhuma dúvida sobre qual seria a sua resposta. Que arrogante", pensou de novo.

No entanto, sabia que não poderia viver sob o mesmo tecto com Sarah Spenser e o filho que tinha tido com outro homem. E aquela tinha sido uma das exigências que Sarah tinha expresso, em troca de pagar as suas dívidas, que vivessem os três juntos em Longford. Impossível.

Pela janela da carruagem, os seus amados campos e bosques estendiam-se como um panorama, desdobrando-se perante os seus olhos, enquanto o carro se desviava da estrada pública para aceder ao caminho privado que conduzia à sua propriedade. Conhecia cada centímetro daquela terra, como conhecia cada canto da velha casa.

Robert e ele tinham brincado em todas as suas curvas, do desvão até às largas passagens subterrâneas. A sua casa, a sua terra. E, a não ser que ideasse uma solução viável para o problema que tinha estado a tentar resolver incansavelmente desde que tinha abandonado o exército por inva lidez, ia acabar por perdê-las.

Que arrogante", pensou outra vez. Naquela ocasião, foi o rosto de Sarah que emergiu na sua mente, bloqueando a vista da sua propriedade. E Justin não viu mais nada até que o motorista deteve a carruagem diante de Wynfield Park.

- Recusada - repetiu Sarah fracamente. Deixou-se cair na cadeira atrás da escrivaninha, no escritório do seu pai, agarrando com demasiada força os braços esculpidos do assento. Os seus olhos não abandonaram nem sequer por um instante o rosto do senhor Samúels.

Pensou estar preparada para a resposta de Justin, mas por alguma absurda razão, não esperava uma negativa. Tinha imaginado muitas reacções, desde gratidão a que ficasse zangado, a uma aceitação a contragosto, mas não se tinha preparado para uma recusa terminante à oferta económica que aquele casamento lhe ofereceria.

- O conde deseja que lhe expresse a sua gratidão, mas lamento informá-la de que... não pode aceitar a sua amável oferta.

-Entendo - respondeu Sarah, tentando recuperar os pedaços dispersos do seu orgulho. - O que fará então? - perguntou, porque, apesar de tudo, queria sabê-lo.

- Imagino que venderá tudo. Pagará o que puder e irá viver para o continente, talvez. Lá a vida é mais barata que na Inglaterra.

Sarah assentiu, mas a sua decepção era tão grande que quase não podia formular as frases de cortesia que Lhe permitiriam findar aquela do lorosa reunião.

- Desejava tratar de algum outro tema, milady? - perguntou finalmente o seu conselheiro, ao ver que não fazia nenhum comentário sobre a sua análise dos planos do conde.

- Obrigada, não, senhor Samuels - conseguiu responder. - Penso que será tudo por hoje.

Samuels assentiu e já ia a caminho da porta, quando Sarah o deteve. Não poderia suportar, compreendeu de repente, que a sua oferta fosse do domínio público. E motivo de troça.

- Senhor Samuels, quero que entenda que Lhe pedi que sugerisse um casamento de conveniência ao conde porque as nossas famílias foram amigas e vizinhas durante séculos, e porque pensei que seria uma tragédia que Wynfield perdesse tudo... - hesitou, observando os olhos de Samuels para ver se acreditava nela. - Mas... pe- dir-lhe-ia que não comentasse o que tratámos fora desta sala. Não é assunto de ninguém e tenho a certeza de que estará de acordo comigo.

- Pode ficar tranquila a esse respeito, milady. A discrição é um requisito indispensável na minha profissão. Não ouvirá nenhum comentário sobre este assunto, a não ser que o conde em pessoa resolva torná-lo público - advertiu-lhe.

A advertência estava patente também no seu olhar e ela assentiu, dando-lhe permissão para ir-se embora. Quando o seu conselheiro fechou a porta, Sarah não se levantou da cadeira. Pensou naquele aviso e perguntou-se se Justin comentaria sobre o que tinha feito. Se o fizesse, poderia imaginar o que diria toda a gente. Automaticamente, Sarah levou uns dedos gelados ao rubor que se intensificava no seu rosto.

E o que importava o que dissessem os outros? perguntou-se. Não podia estar mais separada da sociedade do que já estava. Além disso, sabia que Wynfield era demasiado cavalheiro para traí-la. Talvez não quisesse casar-se com ela e, pensando bem, podia compreender as suas ra zões, mas Justin nunca tentaria humilhá-la, di vulgando a sua proposta de casamento.

Só que saberia sempre que tinha feito aquela oferta. A única humilhação que sofreria por aquela recusa seria a que acabava de sofrer. Mas, decidiu, era humilhação suficiente.

- Estava com esperança que estivesse em casa - disse Andrew, com a voz cheia de regozijo. Justin levantou os olhos com surpresa e viu os mesmos olhos azuis-escuros nos quais tinha pensado com frequência nos últimos cinco dias. O menino estava sentado perto do curral, observando como Wynfield avaliava os cavalos que ia enviar a Tattersall's na semana seguinte.

O conde tinha-se sentido perturbado com o seu primeiro encontro com o filho de Sarah. Tinha sentido ciúmes do homem que tinha conquistado o seu coração e daquele rapaz, que devia ter sido dele. Uma vez conhecida a verdade, aquelas emoções intensificaram-se e eram ainda mais desprezíveis.

- Como está a sua perna de madeira? - perguntou-lhe o menino com educação, baixando os olhos para as calças que tinha vestidas. Apesar do nó de emoções, Justin riu-se.

- Continua a ser de madeira - respondeu com facilidade.

- Prende-a à perna? - perguntou Andrew. Para segurá-la?

Depois de trocarem algumas saudações, por estranhos que fossem, o menino sentia que tinha obtido o estatuto de um convidado legítimo. Resolveu reunir-se ao conde no curral.

Por alguma razão, o interesse do menino e a sua investigação do mundo divertiam-no e intri gavam-no. Se o que Justin tinha visto naquele dia, no bosque, era alguma indicação, o pequeno tinha muito poucos amigos ou companheiros de brincadeiras da sua idade. Estava a crescer numa casa de adultos, o que possivelmente explicava a maturidade da sua conversa.

Pondo-se em bicos de pés, Andrew esticou o braço para tocar no focinho da égua. Como não estava acostumada a crianças, o animal moveu a cabeça e relinchou, provocando umas gargalhadas infantis, mas nenhum indício de medo.

- Gostas de cavalos? - perguntou o conde, observando como aqueles dedos ansiosos voltavam a erguer-se.

- Eu gosto do pónei de Sarah - disse o menino.

- Monta-lo?

- Às vezes - respondeu Drew.

Entretanto, a égua já tinha decidido que o menino era inofensivo. Apertou o focinho contra a mão de Andrew e o menino voltou a rir-se, com mais suavidade naquela ocasião, mas com deleite sincero e espontâneo.

- Monto o pónei quando Sarah tem tempo para me ajudar - acrescentou.

- E o teu avô? - perguntou o conde com suavidade.

A mão que acariciava a égua ficou imóvel. O menino virou-se apenas para olhar para ele. Os seus olhos azuis já não irradiavam alegria, mas reflectiam a mesma emoção de quando tinha estado na clareira do bosque, só e sem amigos, rodeado por um círculo de agressores. Ao vê-lo, Justin teria dado tudo para poder retirar a pergunta.

- Refere-se a Beynmoor? - perguntou o rapaz. Subjugado pela altivez sombria e amadurecida daquele olhar azul e frio, Justin assentiu. - Não gosta de mim - disse Andrew. - Não quer ensinar-me nada. Mantenho-me afastado dele.

Que inferno devia ser para um menino como aquele, pensou Justin. Viver na mesma casa com um idoso louco que o detestava. A mesma casa, recordou, em que Sarah tinha querido introduzir a sua presença. E talvez aquela fosse a razão, compreendeu Justin. Por causa daquele rapaz, o seu filho. Uma vítima da sua própria sociedade. Desprezado pelo seu avô por um pecado que não tinha cometido.

- Chorou quando lhe cortaram a perna? - perguntou o rapaz.

A sinceridade da pergunta era súrpreendente, dada a reticência de outros em falar da amputação. Quase ninguém tinha mencionado a perda da sua perna desde o seu regresso, pelo menos diante dele, corrigiu-se, consciente de como fun cionavam as más-línguas do distrito.

- Não me lembro - reconheceu, tentando lembrar-se da operação. Aquelas lembranças pareciam ocultas por uma nebulosa de imagens conflituosas. - Adormeceram-me com conhaque e láudano - contou-lhe, contemplando aqueles olhos que devoravam todas as suas palavras. Sei que gritei muito - acrescentou, aliviando o tom da conversa.

- Porque lhe doía?

Wynfield assentiu, sentindo um nó na garganta.

- Eu gritei quando Sarah me limpou os cortes com desinfectante - disse Drew, em tom de consolo.

- Penso que gritar é permitido - respondeu Justin em voz baixa.

- Sobretudo se lhe cortassem a perna - respondeu Andrew com gentileza, desviando a sua atenção para a égua:

O tema tinha ficado resolvido para sua satis fação. E, afinal de contas, concedeu Justin, não havia muito mais a dizer a esse respeito.

- Mas ele não se importou, Sarah! - protestou Andrew. - Juro-te que não: Subiu-me à égua que vai vender em Tattersall's e deixou-me montá-la. Não se importou que fosse visitá-lo.

- E tu também não - disse Sarah, dando a volta ao seu argumento. Falou com mais brusquidão e irritação que de costume com Andrew. Da última vez que tinha ido a Wynfield Park sem a sua permissão tinha-o advertido do que aconteceria se voltasse a desobedecê-la. - Não ouviste o que te disse tanta vez.

- É nosso vizinho - alegou Drew em voz muito baixa.

- Não tinhas permissão para ir, Andrew, e nada do que disseres poderá alterar esse facto.

A cabeça de caracóis caiu para a frente. Nem tanto, suspeitou Sarah, pelo remorso, mas antecipando o castigo com que o tinha ameaçado. Um castigo que teria que administrar. Compreendeu, sem saber o que fazer a esse respeito, que aquela aventura tinha adquirido proporções exageradas. Afinal de contas, Drew tinha voltado para casa e tinha confessado a transgressão, demasiado contente pelo êxito daquela incursão para lha ocultar. Sempre tinha sido um menino sincero.

- Não se importou - repetiu Andrew, em tom suplicante daquela vez.

- Bom, eu importo-me - insistiu Sarah. - Deves aprender que não podes continuar a desobedecer-me porque te convém. Os soldados que desobedecem às ordens são castigados.

Dado o presente fascínio de Drew com tudo o que estivesse relacionado com o exército e, sobretudo, com um ex-soldado em particular, pensou que aquele argumento teria mais peso que a sua preocupação por não o encontrár em casa.

- Vais açoitar-me? - perguntou o menino. Como açoitam os soldados?

Sarah sentiu náuseas na garganta perante a imagem, mas não se distanciava tanto do castigo com que o tinha ameaçado, uma sugestão da governanta. A senhora Simkins tinha criado cinco filhos robustos e tinha dito que aquela era a forma como se castigava os meninos da idade de Andrew.

Sarah contemplou o bastão que descansava sobre a mesa raiada da sala de aula, uma lembrança da infância do seu pai, certamente. Nunca se tinha esforçado muito para disciplinar Amelia e Sarah. Uma palavra áspera do seu pai, um sobrolho do seu rosto iracundo e corado, bastavam para imobilizá-las de medo.

Andrew não era assim, tinha um temperamento muito diferente. E, é claro, o sangue do seu pai corria pelas suas veias, como o de Amelia. Aquele era o medo mais terrível de Sarah, não poder controlar as tendências que Andrew podia ter herdado do seu caprichoso pai. Por isso, Amelia tinha-o confiado a ela. Era parte da responsabilidade que Sarah tinha assumido com a promessa que tinha feito à sua irmã, no seu leito de morte.

- É um bastão e não um chicote - disse, com o coração encolhido.

- Não vou chorar - respondeu Andrew, com olhar desafiante. - Não vais conseguir fazer-me chorar, Sarah. Talvez grite - disse, com a voz im pregnada de medo, pela primeira vez, = mas não vou chorar. Ele não chorou, nem sequer quando lhe cortaram a perna.

Justin, pensou Sarah. Aparentemente, tinham falado da sua amputação durante o seu encontro daquele dia. Ela tinha advertido Drew de que não falasse com o conde sobre a guerra ou sobre a sua ferida. Parecia que nada do que lhe dizia tinha algum efeito nele, compreendeu com desespero. Como as súplicas que tinha feito a David Osborne há quatro anos, inúteis.

- Deita-te sobre a mesa - ordenou-lhe, com o peito cheio de desagrado pelo que tinha que fazer. Nunca tinha batido a Andrew, mas a senhora Simkins tinha-a avisado de que estava a consentir demasiado e que ele estava a acostumar-se a levar a sua avante. E quando fosse para a escola, tinha-lhe dito a governanta, ou quando Sarah contratasse um tutor...

Será o menino a sofrer então, pela sua falta de comportamento, milady. O melhor será discipliná-lo a partir de agora. Será melhor para ele, verá".

Tremendo, Drew inclinou-se para diante, mostrando-lhe o seu pequeno traseiro, que continuava coberto com as calças manchadas de lama, que tinha vestido para visitar Wynfield. Sarah não suportava a ideia de usar o magro bastão para magoar a pele pálida dos seus glúteos nus. Aquilo já seria bastante duro.

Inspirou profundamente, levantou o braço e bateu-lhe com o bastão. E depois outra vez, ganhando coragem para completar o seu dever, recordando o rosto malicioso e sorridente de David Osborne. Quando terminou, Andrew tinha cumprido a sua promessa. Como o seu herói, ele também se tinha negado a chorar, nem sequer depois de Sarah lhe administrar os três açoites. Uma vez a sós no seu quarto, Sarah descobriu que não era tão valente como Drew. Nem como o conde. Também reconheceu que por muito que detestasse castigar o filho da sua irmã, algumas das lágrimas que derramou depois eram o resultado de outro evento ocorrido naquele dia. Um evento muito diferente do castigo de Andrew.

Em parte, tinha chorado por uma oferta valorosa, uma tentativa desesperada de aproveitar a sua última oportunidade de ser feliz. Uma oferta que tinha sido recusada com a mesma rapidez, recordou com amargura, destruindo toda a esperança de felicidade.

 

Quando Sarah despertou na manhã seguinte, ainda não tinha amanhecido. Tinha passado uma noite inquieta, cheia de pesadelos. Recordou as vívidas imagens de guerra que a tinham acossado, de cirurgiões militares com aventais manchados de sangue e instrumentos horríveis nas mãos. E por cima de todas elas, o rosto de Drew a controlar as lágrimas que tinham brilhado nos seus olhos enquanto o castigava.

Mas nem sequer acordada podia dissipar a sensação de desespero produzida por aqueles sonhos. Pior ainda, experimentou um profundo pesar e teve o presságio de que os acontecimentos do dia anterior tinham marcado uma mudança na sua relação com Drew. O menino estava a crescer, isso era inegável. Mas estaria a afastar-se dela também?

Empurrou os lençóis para um lado e pôs os seus pés nus no chão. Sem se incomodar em agasalhar-se com o xaile que estava aos pés da cama, atravessou o quarto e abriu a porta que dava para o corredor. Andrew dormia no andar de cima, é claro. Com frequência tinha percorrido aquele trajecto em silêncio, subindo em bicos de pés as escadas de serviço do final do corredor para ver como estava.

Abriu a porta com suavidade, encolhendo-se um pouco pelo ruído que fez. O quarto conti nuava às escuras, com as cortinas puxadas nas janelas altas. Aproximou- se da cama, enquanto as suas pupilas se adaptavam à penumbra, e viu que estava vazia. No entanto, demorou a compreender o que isso significava. Parecia-lhe impossível que Andrew não estivesse ali. Não podia ter ido. a parte alguma.

- Andrew? - chamou-o em voz baixa, enquanto passeava o olhar por cada canto, perguntando-se se o menino estaria a brincar às escondidas. Ou talvez tivesse ouvido a porta e estava agora a tentar castigá-la pelo ocorrido no dia anterior. - Drew? - chamou-o em voz mais alta. Responde-me, Drew - ordenou-lhe, embora o seu coração já tivesse aceite o que a sua mente negava. Andrew não estava.

Deslizou a mão pelos lençóis enrugados e surpreendeu-se ao senti-los frios. Andrew tinha saído há já algum tempo, onde quer que estvesse.

Os seus olhos descobriram a sua camisa de dormir ao pé da cama. Em seguida, procurou com frenesi a fileira de ganchos da parede. Como tinha temido, a roupa que tinha vestido no dia anterior não estava ali.

Tinha fugido, pensou, e o seu coração começou a palpitar com força. Andrew tinha fugido porque ela o tinha castigado. E soube, sem o menor indício de dúvida, para onde tinha ido.

O conde de Wynfield abriu a porta do estábulo de Estrela e entrou. O cavalo cabeceou suavemente contra o seu peito, saudando o seu amo de uma forma consagrada.

Afinal de contas, tinham sido conpanheiros durante muitos anos e em circunstâncias difíceis. E, no entanto, na noite anterior tinha acrescentado o nome do animal à lista que tinha enviado ao conhecido mercado de cavalos londrino. Estrela seria bem vendida.

Quando tudo tivesse terminado e a propriedade estivesse vendida, Justin não teria meios para manter o animal. Nem sequer para se manter a si próprio, reconheceu, apertando os lábios. Embora estivesse disposto a prescindir de muitas coisas para pagar as dívidas da família na medida do possível, não queria que Estrela passasse fome.

Poucas decisões nas últimas semanas tinham sido tão dolorosas, mas sabia que estava a fazer o melhor para Estrela. E nada menos do que merecia pela sua velha lealdade.

Justin baixou a cabeça e, fechando os olhos, apoiou a testa sobre o focinho do animal, cedendo de novo à crescente sensação de perda contra a qual lutava cada dia: Automaticamente, acariciou com a mão o pescoço brilhante e poderoso do animal.

- Estás a chorar? - perguntou uma pequena voz.

Perplexo, o conde levantou a cabeça e surpreendeu os olhos grandes de Andrew Spenser que olhava para ele do chão do estábulo de Estrela. O menino estava aninhado na palha, comodamente enroscado na escuridão, quase sob os cascos do cavalo.

Sem afastar a mão do focinho de Estrela para a tranquilizar, Justin inclinou-se e levantou o menino pelo colarinho do seu casaco. Deu um passo atrás e, tão rapidamente quanto pôde, sem assustar o animal, tirou o menino do compartimento do animal. Em seguida, fechou a porta para impedir que Estrela se reunisse a eles. O cavalo abanou a cabeça curiosamente e relinchou em protesto pelo abandono.

Só quando Drew ficou a salvo daqueles poderosos cascos, Justin se lembrou de respirar. Mais assustado que zangado, deixou o menino no chão com mais força do que a necessária, ainda segurando-o pelo casaco.

- O que raios estavas a fazer ali dentro? - inquiriu.

- Dormia - disse Drew, abrindo muito os olhos pelo tom da sua pergunta e pela sua linguagem.

- O que fazes aqui? - insistiu o conde.

- Fugi.

- Fugiste? - repetiu Justin com incredulidade.

- De casa?

- Posso ajudá-lo a cuidar dos cavalos - ofereceu-se o rapaz com voz esperançada.

- Sarah sabe que estás aqui?

- Não - respondeu Drew, desviando o olhar.

- Sabes que vai ficar muito preocupada quando descobrir que te foste embora? - perguntou o conde, soltando finalmente o seu casaco.

- Não me importa - replicou o menino com amargura.

Ao ouvir o seu tom, Justin hesitou e examinou a sua figura suja. Drew levava a mesma roupa que no dia anterior, mas as roupas estavam enrugadas e cobertas de palha e lama da noite que tinha passado no estábulo.

Justin começou a inclinar-se com a intenção de ficar à sua altura, mas em seguida compreendeu que não lhe seria possível, dada a natureza inflexível do seu tornozelo direito. Portanto, levantou-o e colocou-o sobre uma sela de montar que alguém tinha deixado sobre uma das cercas. O deleite relampejou nos olhos azuis que, apenas há um momento, estavam cheios de irritação e tristeza.

- Por que não te importas com o facto da tua maman estar preocupada contigo? - perguntou Justin em voz baixa. Justin manteve a mão na cintura do menino, para o caso de perder o equilíbrio, mas Drew agarrava-se à sela com as coxas, como lhe tinha ensinado no dia anterior.

- Não quer que venha ver-te - disse Andrew. Os seus olhos cravaram-se no rosto do conde como se procurasse uma explicação para aquela proibição ridícula. Havia várias, supôs Justin, mas nenhuma que pudesse oferecer a um menino de quatro anos.

- Mas vieste, não foi? Ontem e depois à noite. E sem a sua permissão - disse Justin.

- Não entendo por que Sarah não quer que te veja. Disse-lhe que tu não te importavas. Não te importas se vier ver-te, pois não? - perguntou Drew, albergando esperanças novamente.

- Essa não é a questão - respondeu Justin. - A questão é...

Fez uma pausa, perguntando-se por que razão Sarah teria ditado aquela restrição. Afinal de contas, se tivesse aceite a sua oferta de casamento, Andrew e ele teriam melhorado a sua relação. Ou talvez, como a tinha recusado, Sarah estivesse a tentar proteger o seu filho. Era evi dente que o menino se tinha apegado a ele- e, dadas as circunstâncias, não podia permitir que aquele apego se intensificasse.

- A questão é... - continuou Justin, fugindo habilmente à verdadeira razão, - que deves fazer o que a tua mãe te diz para fazeres. Os soldados obedecem às ordens, embora não as entendam.

- Isso foi o que ela disse - admitiu o rapaz.

- Disse porque é verdade - o rapaz assentiu, mas os seus olhos estavam brilhantes. - Queres que te leve a casa montado na Estrela? - perguntou Justin.

- Não penso voltar para casa nunca maisdisse Drew com obstinação. O queixo minúsculo ergueu-se com rebeldia.

- Os meninos têm de estar em casa, com as suas mães - disse Justin.

- A tua mãe açoitava-te?

Justin riu, e compreendeu que não o devia ter feito. A pergunta tinha sido séria.

- Se me açoitava? - repetiu.

- Bem... se te batia com uma vara - o rapaz reviu com cautela a sua versão do castigo de Sarah.

Por fim, Justin começava a compreender o que tinha impulsionado Andrew a fugir de casa.

Conhecendo Sarah como a conhecia, sabia que era perfeitamente possível que tivesse castigado o menino fisicamente pela primeira vez. E detestava ser a causa daquela rixa. Detestava que Drew tivesse reagido daquela forma. Sem dúvida receberia numerosos açoites quando fosse para a escola. Talvez precisasse de o entender.

- Na verdade, o meu pai açoitava-me com frequência, se a memória não me falha - admitiu Justin, quase regozijando-se ao recordar as torpes tentativas de castigo do seu afável pai. - Embora não com tanta frequência quanto o meu tutor e, depois, o director da escola.

- Não chorei - disse Andrew. - Porque tu não choraste. Os soldados não choram - repetiu as palavras.

- Alguns sim - disse o conde de Wynfield, estudando o rasto inequívoco de lágrimas pelas suas maçãs do rosto redondas. - Às vezes... todos choramos.

O silêncio prolongou-se. Lentamente, o menino exalou um suspiro. Depois, surpreendentemente, baixou os seus dedos pequenos e sujos para o rosto de Justin, oferecendo-lhe uma carícia tão subtil como o amanhecer. Pousou-os apenas um momento e em seguida continuou a alisar o couro da sela.

- Se não pensas voltar para casa, Andrew disse Sarah em voz baixa. - Sentir-me-ei muito sozinha.

A sua voz ressoou atrás de si e Justin preparoú-se para a encarar. Ergueu os olhos para o rapaz e viu que Drew estava a contemplar a sua mãe como se quisesse correr para ela e sentir-se a salvo nos seus braços. A sua zanga tinha sido tão efémera como o consolo tácito que acabava de oferecer a Justin.

- Sei que estás muito zangado comigo - continuou Sarah. Aproximou- se, e Justin sabia que não podia demorar mais uma resposta. Voltou-se e procurou o rosto de Sarah com o olhar.

A pele delicada sob os seus olhos estava escura e a sua expressão cheia de ansiedade. Perguntou-se fugazmente se se devia à resposta da sua oferta do dia anterior.

Mas não, Sarah tinha os seus próprios problemas além dos que espreitavam o seu passado em comum. Ou o seu presente. E Justin certamente estava a pensar que o que ele dizia ou fazia a influenciava mais do que era de esperar.

Ao aperceber-se do silêncio prolongado de Andrew, os olhos do conde deixaram de contemplar o rosto de Sarah e procuraram o do menino. Drew estava a olhar para ele, em vez da sua mãe, e não sabia porquê.

- A tua mãe falou contigo - resmungou com suavidade.

- Vai bater-me outra vez? - perguntou Drew. Justin controlou a urgência de sorrir.

- Não, não vai bater-te - respondeu Sarah com decisão. - Mas vai levar-te para casa. Não penso que ontem à noite tenhas dormido muito melhor do que eu.

- Dormi com Estrela - disse Andrew, e os seus olhos brilharam com deleite ao transmitir aquele notável feito.

Sarah olhou para Justin como se procurasse a sua confirmação e depois viu o enorme cavalo. que continuava com a cabeça levantada, como se ouvisse a conversa. Engoliu em seco e apertou os lábios antes de abri-los para dizer com serenidade:

- Então suponho que cheirarás a cavalo. Andrew cheirou a manga do seu casaco, que certamente não voltaria a ser a mesma, pensou Justin.

- Sim - respondeu com orgulho. - Cheiro como um cavalo.

- Não deves orgulhar-te disso - sugeriu Justin. Levantou o menino da sela e deixou-o no chão. - Não é uma fragrância que os cavalheiros devam ter na presença das damas - acrescentou, sacudindo a palha e a porcaria das roupas de Drew com as mãos.

- Por que não? - perguntou o menino.

- Porque pode ofendê-las.

As pequenas mãos uniram-se às suas numa tentativa de tirar as manchas da roupa.

- Por que iria ofendê-las? Não gostam de cavalos? - perguntou Andrew, levantando os olhos para o rosto de Justin.

- Só para montá-los, não para cheirá-los. Renunciando à tarefa de pô- lo apresentável, Justin colocou uma mão nas suas costas e empurrou-o para a sua mãe. Ao mesmo tempo, voltou a contemplar o rosto de Sarah. Já não era o rosto oval jovem e liso que recordava. Tinha mudado tanto quanto ele, compreendeu pela primeira vez.

Com o ímpeto do empurrão de Justin, Andrew caminhou lentamente até ficar a poucos passos da sua mãe. Então, aproximou-se mais ainda dela; atirando-se para as suas saias e rodeando as suas pernas com os braços. Sarah rodeou-lhe a cabeça com a mão, apertando-o contra ela.

- Obrigada - disse com suavidade, levantando o olhar dos caracóis revoltos para o rosto de Justin.

Justin moveu a cabeça, recusando a sua gratidão, mas não disse nada. Não pôde, porque, de repente, as lembranças de um tempo longínquo, que tinham significado muito um para o outro, elevaram-se entre eles, tão nítidas e intensas como o aroma do Outono no ar da manhã.

Sarah pôs a mão no ombro do seu filho e conduziu-o para fora do estábulo. Atrás deles, o pó que Justin tinha sacudido do casaco de Andrew dançava no ar, brilhando nos raios de luz. O estábulo desapareceu no silêncio e, sem eles, parecia incrivelmente solitário.

- Lady Sarah Spenser veio visitá-lo, milorde - anunciou Blevins. Não havia rasto de surpresa ou desaprovação na voz do mordomo. Estava desprovida de qualquer inflexão, e o seu rosto parecia perfeitamente composto.

Justin tinha a certeza de que não podia dizer o mesmo dos seus próprios traços.

- Fá-la entrar, Blevins - disse finalmente. Tinha demorado demasiado tempo a pronunciar as palavras, mas quando o fez, agradou-lhe ver que a sua voz parecia serena. Não reflectia nem um pouco do caos que a notícia da visita tinha criado nele.

- Muito bem, milorde.

 

Mesmo quando o mordomo desapareceu pela porta do escritório do seu pai, o conde manteve o olhar fixo na soleira, deixando que os seus pensamentos se acelerassem.

Tinham passado três dias desde que tinha encontrado Andrew a dormir nos estábulos e, durante aquele tempo, não tinha tido notícia de nenhum deles. Enquanto trabalhava com os cavalos, preparando-os para a venda emTattersall's, tinha esperado ver Andrew aparecer, a qualquer momento. Mas não tinha sido assim, de modo que o que Sarah queria dizer-lhe...

Deu-se conta de que estava de pé na soleira da porta. Os seus olhos tinham menos olheiras do que na última vez que a tinha visto, mas podia ser efeito da luz.

- Posso entrar? - perguntou.

Justin inclinou a cabeça, concedendo a sua permissão sem falar. Sarah hesitou um momento antes de atravessar a divisão e sentar-se na cadeira diante da sua secretária. O seu cabelo, apenas um pouco mais escuro de como o recordava, rodeava o seu rosto com caracóis muito favorecedores. E havia mais cor no seu rosto, embora não soubesse se era pelo ar do exterior ou pela tensão daquele encontro.

- Penso que podemos prescindir das formali dades entre nós - começou a dizer em voz baixa. i Deliberadamente, Justin sorriu com ar trocista. E Sarah sabia. O facto de estar a troçar da sua síntese suavizada do que havia entre eles ficou reflectido nos seus olhos azuis.

- Fiz-te uma oferta - continuou com tenacidade, corando. - E tu recusaste.

Justin não disse nada, mas os seus olhos, cruelmente inexpressivos, continuaram fixos no

seu rosto.

- O que é preciso fazer para que a aceites? perguntou.

Justin não esperava aquilo. Algo sobre Andrew, talvez. Ou uma oferta para comprar parte da terra que se via obrigado a vender e que, afinal de contas, fazia fronteira com a de Brynmoor.

- A tua oferta foi extremamente generosa - disse-lhe. - E explícita. A minha recusa não tem nada a ver com os seus termos.

- Mas sim comigo - sugeriu Sarah. Como era a verdade, Justin não se incomodou em negá-lo.

- E com Andrew? - inquiriu.

Justin levantou uma sobrancelha.

- Tem ou não tem a ver com Andrew? - repetiu Sarah.

- Andrew não tem nada a ver com isto.

- Precisa... - hesitou, ia expressar o óbvio.

- De uma influência masculina que não seja a de Brynmoor? - terminou por sua vez.

- Sim.

- Então, sugiro que peças ajuda ao seu pai.

- Não é o tipo de influência que desejaria para Andrew - respondeu-Lhe.

- Não posso fazer nada para mudar isso, Sarah. Como também não posso aceitar a tua oferta - repetiu com voz deliberadamente decidida. E tão inequívoca como a carta que Lhe tinha enviado numa ocasião.

- Por que não? - perguntou, olhando para ele nos olhos sem hesitar.

- Se não entendes por que não posso casar-me contigo, então penso que não há nada que possa dizer para te fazer entender isso.

- Tenho um filho que necessita dos conselhos de um homem. Andrew escuta-te, respeita-te.

- Está ávido de afecto - disse Justin, subtraindo importância às suas palavras, apesar da desconfortável reacção do seu estômago:

- Ávido de afecto masculino - corroborou. Andrew provavelmente não se importa de quem seja. Eu, sim - acrescentou de forma quase im perceptível.

Justin levantou os olhos ao ouvir aquilo. Deixou a pena que os seus dedos tinham encontrado sobre o doloroso resumo dos bens restantes da sua propriedade, que tinha estado a completar antes da interrupção de Blevins.

- Não, Sarah - disse em voz baixa.

Sarah inspirou fundo, com os olhos ainda fixos no seu rosto.

- Andrew necessita que o ensinem a comportar-se como um cavalheiro e que o aceitem como tal. Não há ninguém mais admirado e respeitado neste distrito que tu, sobretudo agora. Se alguém pode fazer algo por Andrew, esse alguém és tu. que achas que posso fazer? - perguntou. - Além de ensiná-lo a comportar-se civilizadamente. Podes contratar um tutor para isso. Acredita que não te sairá tão caro.

Por alguma razão, a pena estava de novo nos seus dedos. Zangado, atirou-a sobre a mesa, levantou- se e coxeou até à janela. Quando se voltou, esperou ver a mesma repulsa e pena nos olhos de Sarah que havia surpreendido numa ocasião. No entanto, continuava a olhar para ele com expressão esperançada.

- Não posso ser um pai para Andrew, Sarah. Talvez não possa deixar nada aos meus filhos, mas quero tê-los - reconheceu com amargura.

As pupilas de Sarah dilataram-se e, só então, Justin compreendeu como tinha interpretado as suas palavras.

- Não posso casar-me contigo - insistiu com mordacidade. - Não posso mudar a situação de Andrew. Isto é um sonho que criaste porque não queres vê-lo sofrer.

Sarah assentiu, com os olhos grandes e sombrios banhados de lágrimas.

- Não quero vê-lo sofrer - repetiu, reconhecendo-o. - A culpa não é dele.

Nem minha, quis dizer Justin. Não tenho culpa do que aconteceu há quatro anos. Não posso mudar nada. E não deverias pedir-me que o fizesse.

- Não se pode voltar atrás - disse, no entanto.

- Não te peço isso. O que houve entre nós... a sua voz tremeu e uma lágrima escorregou lentamente pelo rosto que tinha empalidecido.

Apesar do que aconteceu, Andrew não deveria suportar todo o peso.

Os pecados do pai", pensou Justin. Era incontornável. Ele tinha passado cinco anos a lutar honestamente pelo seu país e tinha-lhe custado mais do que estava disposto a reconhecer. Mesmo assim, via-se obrigado a pagar pelos pecados do seu pai. Assim era o mundo.

 

- Podes conservar tudo isto disse Sarah. Não tens por que mudar nada. Nem perder nada. Podes mantê-lo tal como está.

Era tentador, sobretudo dado o conteúdo da lista que estava sobre a mesa. Tudo o que possuía estava nela, dos diamantes da sua avó, um legado para a sua filha não nascida, até Estrela, a amada égua a quem devia a vida.

- Conservá-lo para quem? - perguntou em voz baixa e observou como a cor voltava a tingir a sua pele de alabastro.

Permaneceram em silêncio durante longos instantes. O suficiente para que sentisse o tiquetaque do relógio que marcava o passar do tempo. Como o tinha feito naquele escritório durante mais de um século.

- Se... - começou a dizer Sarah em apenas um sussurro. Interrompeu- se, engoliu em seco e, fortalecendo o seu tom de voz, prosseguiu. - Se isso é o que queres... Se essa for a tua condição...

Justin riu, compreendendo, embora ela não o fizesse, que não estava em situação de impor condições. Aquele casamento era, simplesmente, impossível. Não podia viver com Sarah e com o seu filho, nem sequer para salvar uma herança que amava.

Só quando viu a mudança no seu rosto, compreendeu a crueldade inconsciente da sua gargalhada e como Sarah a tinha interpretado. Só quando se levantou e correu às cegas para a porta, tropeçando na cadeira em que tinha estado sentada, compreendeu o que pensava.

- Sarah - chamou-a, compreendendo a gravidade do seu engano. - É demasiado tarde, Sarah. Não vês? Não entendes que é demasiado tarde?

Já se tinha ido embora. A última palavra ressoou na divisão, que parecia tão vazia naquele momento como os estábulos na manhã em que Andrew e ela se foram embora. "Demasiado tarde. Demasiado tarde para tudo".

 

- Milorde! Milorde!

Os gritos perturbaram a quietude da tarde. O conde e um criado dos estábulos estavam a falar sobre os cavalos que iriam para Londres no dia seguinte. Justin queria que chegassem uns dias antes do leilão para que recuperassem por completo da viagem e estivessem em excelentes condições no momento da venda.

Os dois homens levantaram os olhos e viram o filho mais velho de Meg Randolph, Tom, a correr colina abaixo para os estábulos. Tinha a cara pálida sob as sardas.

- Depressa, milorde - gritou, agitando os braços por cima da cabeça. - A mamã diz que deve vir depressa.

- Sela o cavalo - ordenou Justin sem virar a cabeça, enquanto coxeava o mais rapidamente possível para o rapaz.

Quando se encontraram, o filho de Meg estava quase sem fôlego. Inclinou-se para a frente, apoiando as mãos nos joelhos, mas foi capaz de transmitir a súplica de Meg.

- O rapaz Spenser - conseguiu dizer, respirando para os seus pulmões ávidos.

- Andrew? - inquiriu Justin, e o rapaz assentiu.

 

Ao ouvir a palavra Spenser, Justin tinha ficado sem fôlego. Esperou com impaciência o resto da mensagem e, finalmente, apertou o filho de Meg e sacudiu-o.

- O que se passa com ele? - inquiriu.

- Apanharam-no - ofegou Tom. - Os rapazes da povoação. A minha mãe disse que o senhor quereria saber.

- Onde estão?

- Apanharam-no quando cruzava o riacho. A mamã diz que certamente se dirigia para aqui" disse Tom.

Sem dúvida, Meg estava certa. Afinal de contas, Justin esperava a chegada de Drew quase diariamente, confiando, no entanto, que não voltasse a desobedecer a Sarah. Como aparentemente tinha feito naquele dia.

Naquele momento, o criado aproximou-se com Estrela. Sem hesitar, receando pela mensagem de Meg e, com o que tinha presenciado há uns dias, no bosque, o conde subiu para a sela.

- Diz à tua mãe que lhe estou muito agradecido - gritou ao rapaz antes de fincar os calcanhares nos flancos de égua.

Inclinando-se sobre o pescoço do cavalo, Justin deu rédea livre a Estrela para que cavalgasse pelo campo, pelas colinas e as pradarias que separavam a mansão dos bosques. Apesar da advertência de Meg, não sabia se chegaria a tempo de evitar que os rapazes da povoação se vingassem do menino, que numa ocasião tinha resgatado das suas garras. Tinham escolhido Andrew como a sua vítima e ele tinha interferido. Certamente tinham estado à espreita, esperando outra oportunidade. Os ódios inexplicáveis da infância com frequência apoiavam-se unicamente no facto de alguém ser diferente. E Andrew era diferente, disso não havia dúvida.

Drew tinha nascido, pelo menos, aos seus olhos, com dois estigmas dos quais nunca poderia livrar-se. Primeiro, não era um deles e, segundo, tinham-no designado como o filho bastardo de um nobre. Aquelas diferenças separavam-no de forma irrevogável de outros rapazes e colocavam-no numa posição extremamente vulnerável:

Justin viu-se obrigado a abrandar ao entrar no bosque, que estava enganadoramente tranquilo. Aguçou o ouvido para detectar qualquer som que o ajudasse a encontrar o grupo de rapazes. No entanto, já quase tinha chegado à clareira quando se apercebeu do ruído que estavam a fazer.

Estavam muito mais calados que no primeiro dia. Estavam a bater na cabeça e nos ombros de Andrew com um ritmo que parecia obstinado, quase mecânico. Naquela ocasião, Justin compreendeu, com o coração na garganta, que o pequeno não oferecia resistência. Andrew jazia imóvel no chão.

O conde aproximou-se com menos cautela que no seu anterior encontro. Esporeou Estrela para entrar no círculo, que se quebrou e dispersou tão rapidamente como da primeira vez. Naquela ocasião, Justin desceu do cavalo quase antes que a fuga temerosa dos rapazes Lhe desse espaço para desmontar.

O mesmo que tinha levantado Drew pelo colarinho do seu casaco para afastá-lo do perigo nos estábulos, ergueu o rapaz que estava a bater no mais pequeno. Lutando por controlar a sua fúria, Justin afastou-o, de um puxão, do menino inconsciente. A cabeça cambaleou para trás e esteve prestes a cair.

 

Justin deixou-o partir, centrando a sua atenção unicamente na figura imóvel que jazia no chão. Caiu de joelhos junto a Andrew e os seus dedos encontraram rapidamente o pulso forte e tranquilizador no delicado pescoço.

Então, lembrou-se de respirar, compreendendo, pelo menos intelectualmente, que o seu terror tinha sido desproporcionado em relação ao perigo que o menino corria. Fechou os olhos e a sua reza muda e rápida de agradecimento estava cheia de ardor.

- Andrew - disse em voz baixa, tomando o rosto pálido entre os seus dedos. A pele do menino era tão branca como a da sua mãe, pensou de forma irrelevante, e o seu queixo tão frágil como os ossos de um pássaro. Demasiado frágil. - Drew - sussurrou, deslizando o polegar pela sua boca aberta. Os lábios estavam flácidos e pálidos, mas enquanto olhava para ele, os olhos azuis abriram-se. Depois, maravilhado, as pupilas dilataram-se ao olhar para ele.

- Não te foste embora - disse Andrew.

- Não me fui embora - corroborou Justin, sentindo que a garganta lhe doía pelo que havia naqueles olhos.

- Disseram que ias para Londres:

- Para ficar, não. Só para vender os cavalos.

O olhar do menino desviou-se para o cavalo exausto, que esperava pacientemente onde o conde o tinha deixado, ao saltar precipitadamente da sela.

- Estrela, não - suplicou Drew. - A tua égua, não.

Justin nada podia dizer para aliviar o horror genuíno daquele pensamento, claramente reflectido nos olhos do menino. Afinal de contas, Justin sentia o mesmo. No entanto, era um adulto e tinha sido a sua escolha. Não só com Estrela, mas também com Sarah e o seu filho. E tinha formulado a sua recusa com os olhos bem abertos perante as consequências.

- Consegues sentar-te se te ajudar? - perguntou o conde, em vez de reconhecer, pelo menos naquele momento, que o nome de Estrela estava incluído na lista de cavalos para Tattersall's.

- Acho que tenho a cabeça partida - disse Andrew, tentando endireitar-se e tocando nela ao mesmo tempo. Doeu-lhe o suficiente para fazer uma careta.

- Atingiram-te com uma pedra - disse o conde, e afastou o pedregulho ofensivo. O seu coração agitado começou a recuperar o seu ritmo normal ao compreender que o menino estava relativamente ileso. Tinha vários galos e feridas e até um corte no queixo, além do golpe na cabeça que o tinha deixado inconsciente por uns momentos.

- Milorde!

Justin e Andrew levantaram os olhos ao ouvir a voz de Meg Randolph. Aproximava-se a correr pelo bosque, com uma vassoura na mão, levantando com a outra as saias. Tinha o rosto rechonchudo vermelho pelo esforço.

Meg só parou quando chegou junto a eles.

- Pobre cordeirinho - disse para Andrew.

- Tenho a cabeça partida - declarou Andrew, que começava a gostar de tanta atenção.

- O que estavas a fazer com aqueles rufiões, querido? - perguntou Meg. Levantou as saias e caiu de joelhos com um suspiro, junto ao conde. O aroma a pão fresco e a lavanda seca rodeava-a, juntamente com um odor menos agradável a transpiração e sabão.

- Dirigia-me para ver o conde - disse Andrew, com um toque de orgulho na voz. - Tinha ouvido dizer que se ia embora.

- Que se ia embora? - repetiu Meg, desviando o olhar para Justin. - Caramba, acabou de regressar a casa. E tem assuntos para tratar aqui. Como te ocorreu pensar que se ia embora?

Um silêncio tenso surgiu, enquanto dois pares de olhos contemplavam Wynfield, esperando pela negativa que, sem faltar à sua honra, não podia dar-lhes. Nem a Andrew, que necessitava desesperadamente da sua atenção e da sua amizade, nem a Meg, que queria aquilo de que os arrendatários se viam privados há tanto tempo. Precisavam de um conde para pôr o bem da sua gente e das suas terras à frente das suas preocupações egoístas.

- Não pensa ir-se embora, pois não, milorde?

- perguntou Meg enquanto o silêncio se prolongava. - Acaba de regressar a casa - disse novamente. - Não estará a pensar em ir-se embora outra vez.

- Para Londres - disse Justin, sem olhar para Meg. Continuava a ver aqueles olhos azuis que, de repente, se encheram de esperança. - Mas só por uns dias.

- Vês? - respondeu Meg com brusquidão, olhando para o rapaz. - Agora vamos levantar-te para ver as tuas feridas.

Com a ajuda da senhora Randolph, Justin pôs Andrew em pé. Meg apalpou o galo no cocuruto do pequeno com mãos suaves mas peritas.

- Tão grande como um ovo de ganso - declarou, sorrindo para o rapaz quando terminou a sua inspecção, consciente de que o consideraria uma honra. - Diz a lady Sarah que te prepare um bom cataplasma de vinagre e a dor passará - prometeu-lhe. Em seguida, talvez a pensar na reacção de Sarah perante o ocorrido, começou a alisar a roupa do menino, tentando apagar as provas do seu contacto com o chão.

- A senhora Simkins escova- as - tranquilizou-a Andrew, tocando na cabeça com cautela, mais uma vez, como se quisesse assegurar-se de que ainda lhe doía. A julgar pela sua expressão, assim era.

- É claro - corroborou Meg, sacudindo-lhe as fibras de erva e umas quantas folhas da parte de trás do casaco. - Vão ficar como novas num abrir e fechar de olhos. Levar-te-ia comigo para casa e fá-lo-ia eu mesma, mas suponho que lady Sarahvai querer que voltes para Longford imediatamente. Sabia que vinhas ver o conde, querido? - perguntou, levantando fugazmente os olhos para Wynfield antes de olhar outra vez para Andrew.

- Não estava a fugir - disse Drew. - Só queria despedir-me. Porque se ia embora - acrescentou, olhando para Justin. - Mas não vai, pois não? perguntou outra vez.

- É claro que não - disse Meg, abandonando as suas tentativas de limpar a roupa de Drew. Quer que o leve a sua casa, milorde?

Andrew aproximou-se de Winfield e introduziu os dedos na sua mão. Apesar da sua decisão racional de cortar qualquer tentativa de tornar mais íntima a sua relação, para o bem de Andrew, não pôde evitar fechar a mão à volta dos seus dedos quentes.

- Estrela pode levar-nos aos dois - disse Drew em voz baixa.

Justin olhou para o rosto magoado que olhava para ele com tanta expectativa. Teria que explicar-lhe qual era a situação, mas talvez não fosse o momento para dizer a verdade. Nem para fazê-lo raciocinar.

- Suponho que sim - corroborou. Os olhos azuis iluminaram-se e os lábios do menino formaram um sorriso. Um sorriso que se parecia demasiado com o de Sarah, pensou o conde. Desviou o olhar e centrou-o no rosto sardento de Meg. - Obrigado - agradeceu-lhe.

- São um grupo perigoso - respondeu em tom grave. - Disse aos meus rapazes que vigiassem Andrew, mas... - hesitou, olhou para Andrew antes de voltar a olhar para Justin. - Se não houver ninguém por perto, da próxima vez que o apanharem. - advertiu-o. O conde assentiu. - Será melhor explicar a situação a lady Sarah - acrescentou. - Para que esteja atenta.

O conde assentiu novamente, mas sabia como isso seria difícil. O teu filho está em perigo por causa de algo que fizeste há mais de quatro anos. Troçam dele e batem-lhe porque é um bastardo, portanto, deves vigiá-lo mais de perto". Não era uma advertência que uma mãe receberia com agrado e, naquele caso, Justin era o pior mensageiro para lha dar.

Ainda com Andrew pela mão, coxeou pesadamente para o cavalo, que tinha recuperado um pouco a forma. Um descanso viria bem aos dois, disse-se, tentando não pensar na dor crescente que sentia no coto da sua perna direita. Mas teria tempo para descansar, depois de completar aquela desagradável tarefa. Bem sabia que, muito em breve, a única coisa que teria seria tempo.

Andrew subia os degraus largos da entrada depois do criado o ter ajudado a descer do cavalo. Justin seguia-o mais lentamente. Cada passo era uma agonia crescente.

Sabia, é claro, o que tinha acontecido. Tinha feito recair demasiado peso na incisão recém-cicatrizada ao ver o corpo, aparentemente sem vida, de Andrew e saltar do seu cavalo para interromper a luta. Tinha-o feito sem pensar na sua ferida, sem se lembrar, nem por um momento, da sua perna. Naquele momento, no entanto, cada passo era um brutal aviso.

- Quem é o senhor?

Ao ouvir a pergunta, Justin levantou os olhos da sua cautelosa manobra para subir os degraus e viu o marquês de Brynmoor de pé; na soleira da sua mansão. O idoso contemplava, com os olhos semiabertos, o rosto de Justin, tentando talvez distingui-lo com maior nitidez. O seu cabelo, que tinha ficado completamente branco, flutuava à volta da sua cabeça em madeixas desordenadas.

No entanto, surpreendentemente, dadas as mudanças operadas nele e em Sarah no mesmo intervalo de tempo, Brynmoor parecia ter envelhecido muito pouco, embora a sua cintura, antes magra,se tivesse expandido e a elegante perfeição que sempre marcava o seu aspecto tivesse desaparecido.

As suas roupas eram tão finas e luxuosas como sempre,mas usava-as com um descuido nada característico do dandi que Justin conhecera. Inclusive,havia uma mancha de comida no seu lenço e o casaco não se moldava na perfeição sobre o seu tronco mais largo.

- Sou Wynfield - limitou-se a dizer Justin, perguntando-se se o idoso se lembraria dele,enquanto se submetia ao seu escrutínio.

- O senhor não é Wynfield - declarou finalmente o marquês. - Parece-se com ele,mas conheço bem o conde.

Andrew tinha-se afastado do idoso,embora, de momento,Brynmoor não tivesse incluído o menino no seu comentário grosseiro. Finalmente,movendo-se lentamente para trás,Andrew aproximou-se do conde. Apertou-se contra a sua perna,contemplando com cautela o rosto do seu avô.

- Penso que conheceu o meu pai - explicou-lhe Justin,pondo as mãos sobre os ombros de Andrew. Deu-lhe um suave apertão,tentando dar-lhe coragem.

- Filho dele? - perguntou o marquês. Os seus olhos gastos,que antigamente tinham sido do mesmo azul Spenser que os do menino,tinham observado aquele gesto protector.

- O filho de lady Sarah - disse o conde.

- Sarah não tem filhos.

Justin não disse nada, mas sentiu como o menino se apertava ainda mais contra ele.

- Lady Sarah está em casa? - perguntou Justin.

As sobrancelhas do marquês, que eram muito mais escuras que o cabelo que emoldurava a sua cabeça, ergueram-se. A sua boca assumiu uma careta quase lasciva.

- É um pretendente? - disse, conferindo à palavra uma conotação sexual de que carecia normalmente.

- Não, um visitante - corrigiu-o o conde com suavidade. Inconscientemente, a sua voz tornou-se distante embora educada, como teria feito o seu pai ao enfrentar alguém que despertava a sua desaprovação.

- A minha filha está morta - disse o marquês bruscamente.

De repente, recuou para o vestíbulo e fechou a porta na cara do conde. Perplexo pelo seu estranho comportamento e pela sua brusquidão, Justin hesitou. Notou como Andrew virava a cabeça contra a sua coxa e soube que estava a olhar para ele. Sorrindo, desviou os olhos da porta que parecia vibrar ainda pela força do marquês e olhou para o rapaz.

- Vai-se embora daqui a pouco e, depois, poderemos entrar. Não deves ter medo - disse Drew. - Não te fará mal, está apenas confuso.

A observação era sem dúvida uma repetição de algo que lhe tinham dito. Justin quase podia ouvir a voz serena de Sarah no seu tom infantil.

- Eu sei - respondeu-lhe. - Conheço-o há muito tempo.

- A filha dele morreu e está desequilibrado - continuou Andrew.

Novamente, as frases maduras que tinha aprendido de cor. Justin perguntou-se se o menino entendia o que lhe tinham dito. O que repetia como um papagaio contradizia a sua reacção física para com o seu avô.

- Entramos? - perguntou Justin.

- Penso que Sarah vai zangar-se comigo - disse Drew em voz baixa.

- De certeza.

- Mas vens comigo? - perguntou Andrew. Uma conversa difícil, pensou o conde, mas inevitável. Era demasiado tarde para abandonar Andrew. Iriam juntos até ao fim e, quando se assegurasse que Sarah compreendia o que estava a acontecer, começaria a soltar os pequenos dedos que já rodeavam o seu coração:

Tinha-se humilhado, nem mais nem menos, reconheceu Sarah pela enésima vez. E mesmo assim, não tinha conseguido nada, nem para Andrew ou Justin, nem para si. O conde de Wynfield tinha deixado bem claro que não tinha intenção de aceitar a sua proposta, fossem quais fossem os termos do seu enlace.

Enlace. Que imagem mais apropriada, pensou com amargura. Tinha oferecido o seu património e o seu corpo a Jústin Tolbert e ele tinha recusado tudo. Não só os tinha recusado, recordou, mas também se tinha rido da ideia de que ela pudesse ser a mãe dos seus filhos.

Tinha feito uma figura ridícula. Mas tinha demorado dois dias a reconhecer que o que na verdade a tinha impulsionado a ver Wynfield ti nham sido as suas próprias necessidades, tão urgentes e básicas como respirar. E outros dois dias a admitir que tinha recebido exactamente o que merecia... o desprezo de Justin pela sua manipulação. Tinha-a visto além da sua generosidade", como se ela mesma fosse tão transparente como o vidro.

- Parti a cabeça - disse Andrew.

Levantou os olhos dos livros de contas que fingia rever, enquanto aquelas intermináveis recriminações voavam pela sua mente. Fosse qual fosse a veracidade da afirmação de Drew, pensou ao contemplar com horror o seu rosto, estava, sem dúvida, ferido.

- Andrew - sussurrou.

Levantou-se e rodeou a secretária do seu pai. Tinha quase chegado junto ao rapaz quando se apercebeu de que não estava sozinho. O conde de Wynfield estava em pé na soleira da porta, atrás dele. As sombras do corredor tinham-no escondido. Embora não houvesse marcas no seu rosto, estava tão pálido e rígido como o do menino.

- Penso que as suas feridas não são tão graves - tranquilizou-a Justin.

O tom era deliberadamente frívolo, certamente para benefício de Andrew, mas não gostou da tensão do seu rosto nem do seu olhar. Observou-o durante um momento, mas Justin não disse mais nada. Nem lhe ofereceu nenhuma outra explicação.

Finalmente, seguiu o seu primeiro instinto e caiu de joelhos sobre o grosso tapete oriental diante do menino. Tocou no corte do queixo de Andrew e deslizou uns dedos trémulos pela ferida que tinha sob o olho.

- O que aconteceu? - perguntou.

- Atingiram-me com uma pedra - disse Drew. Pegou na mão de Sarah e guiou-a ao alto da sua cabeça, sobre o galo. - É tão grande como um ovo de ganso? - perguntou.

Era óbvio que esperava uma confirmação, portanto confirmou-o.

- Talvez - disse-lhe. - E atingiram-te com uma pedra? - perguntou com cautela, sabendo que aquilo não explicava as feridas do seu rosto.

- Ao cair - disse o menino. - A senhora amávél disse que tinhas que me pôr um... - hesitou, procurando a palavra que faltava e olhou para o conde em busca de ajuda.

- Um cataplasma de vinagre - disse Wynfield, olhando para Sarah.

- Tirará toda a dor - acrescentou Andrew, com segurança. - Temos uma. dessas coisas de vinagre?

- Suponho que sim - disse Sarah, sem afastar os olhos de Justin.

O conde tinha os lábios apertados. Sarah já tinha visto aquela expressão antes e pressagiava más notícias. Com aquele mesmo semblante lhe tinha anunciado que o tinham mandado para Espanha. O ocorrido não era tão simples como parecia.

- Mas ainda não me explicaste o que te aconteceu na cara - comentou, olhando para Andrew outra vez. O menino levantou os olhos para o conde e fez-se uma silenciosa comunicação masculina entre eles. Drew inspirou fundo, descendo os seus pequenos ombros quase em sinal de rendição.

- Aqueles rapazes - contou-lhe. - Os da povoação.

- Bateram-te? - perguntou Sarah.

- O mais velho. Não gosta de mim.

- Fizeste-lhe alguma coisa, Drew? - perguntou Sarah. O menino abanou a cabeça. - Insultaste-o?

De novo, negou-o lentamente.

- Então, talvez tenha inveja porque tens mais do que ele. Mais vantagens. Às vezes, as pessoas que têm pouco sentem-se assim em relação às pessoas mais afortunadas - sugeriu. Drew assentiu.

- Achas que a senhora Simkins poderá encarregar-se do cataplasma? - perguntou o conde. Surpreendida, Sarah olhou para ele. - Temos que falar - aconselhou-a com brusquidão. E sem Andrew, compreendeu Sarah.

- Vou levá-lo à cozinha - disse-lhe.

Justin assentiu e o seu rosto continuava a oferecer a mesma expressão lúgubre que ao princípio do seu encontro. Sem dúvida, tinha acontecido alguma coisa que, no seu ver, ela devia saber. Algo que Andrew tinha dito ou feito para provocar o ataque do rapaz? perguntou-se. Sarah levantou-se e guiou Andrew com a mão.

- Ai! - queixou-se o menino, afastando-se dos seus dedos. - Esqueceste-te que tenho a cabeça partida? - acusou-a.

- Lamento muito, Drew. Vamos pedir à senhora Simkins que te cure. Queres esperar aqui?

- perguntou ao conde, conduzindo o menino para o corredor.

Justin assentiu, mas não se moveu quando passaram ao seu lado, com Andrew a saltar à sua frente, praticamente recuperado depois daquela dúra prova. Sarah esperava ter metade da força que o rapaz tinha para conseguir suportar o que a esperava no regresso.

 

O conde de Wynfield encostou-se no marco da soleira onde estava. Passeou o olhar pelo escritório onde Sarah tinha estado a trabalhar. Era estranho imaginá-la naquele ambiente. Sempre tinha associado Sarah a vestidos de musselina e a trajes de baile, não a livros de contas e manchas de tinta nos dedos. Claro que, se realmente administrava as propriedades do seu pai, eram uma parte essencial na sua vida naquele momento.

E Longford parecia prosperar sob a sua supervisão. Tudo o que tinha visto enquanto levava Andrew a casa parecia próspero e bem cuidado, contrastando com os seus próprios bens, reconheceu. A julgar pelo seu encontro com o pobre rynmoor, aquilo era fruto da gestão de Sarah.

- Querias falar comigo?

Sarah tinha parado atrás dele no corredor, talvez à espera que entrasse no escritório. Surpreendeu-se ao resistir àquela ideia. Para começar, não queria mover-se. A agonia da sua perna tinha remetido a uma dor afiada e não queria intensificá-la. Necessitava de toda a sua astúcia para fazer compreender a Sarah o que estava a acontecer, sem a insultar directamente. Também não queria sentar-se diante da secretária. Aquela proximidade também seria dolorosa, embora por outras razões completamente diferentes.

- Sobre Andrew - disse, voltando-se para ela.

- Será melhor que falemos aqui dentro.

Os seus olhos pareciam muito luminosos na penumbra do corredor.

- Muito bem - concordou Sarah.

Justin desviou-se e ela entrou. Não Lhe tocou ao passar ao seu lado, mas, de repente, percebeu um evocador aroma a água de rosas no ar. Caminhou até à escrivaninha e permaneceu de pé atrás dela. Justin não se mexeu de onde estava. Sarah esperou um momento, imaginando que entraria no escritório, mas ao ver que não se movia, falou por fim.

- Há mais alguma coisa que Andrew não me disse - sugeriu.

- Receio bem que sim.

Sarah sentou-se e olhou para ele nos olhos.

- Então por que não mo contas? Não há dúvida de que foi por isso que vieste.

Justin perguntou-se se aquilo era verdade. Meg poderia ter levado Andrew a casa e ele não tinha por que ter agradado o menino, levando-o pessoalmente.

- Acredito que o teu filho corre perigo - declarou. Sarah não respondeu em seguida, mas ergueu o queixo ligeiramente, como fazia Drew quando se sentia desafiado.

- Pelas crianças da povoação? - perguntou mas voltou a falar antes que pudesse responder à sua pergunta. - São crianças, não entendem.

- Entendem perfeitamente. Penso que esse é o problema - comentou Justin. - Alguém se incomodou em explicar-lhes claramente as circuns tâncias do nascimento de Drew.

Sarah abriu muito os olhos, mas fechou-os logo de seguida. No entanto, foi apenas por um momento. Quando voltou a abri-los, pareciam serenos e confiantes.

- Achas que o estão a castigar pelas circunstâncias do seu nascimento?

- Por que não é da sua classe - disse Justin. Pelo seu tamanho, talvez. A diferença entre a sua roupa e as deles. Mas, acima de tudo, porque ouviram falar sobre a sua ascendência.

Sarah apertou os lábios.

- E o que sugeres que faça? - perguntou-Lhe.

- Que chame o juiz? Que envie Drew para um colégio? Que o faça prisioneiro? Que o açoite se voltar a abandonar a casa?

Havia um rasto de amargura nas suas perguntas. E Justin não tinha as respostas, é claro, portanto, permaneceu em silêncio.

- Andrew é uma vítima - disse Sarah, deliberadamente. - Nunca será nada mais que uma vítima a não ser que alguém... alguém, que não seja eu ou o meu pai, intervenha neste assunto. Posso protegê-lo fisicamente, talvez, mas não está em meu poder mudar a sua situação.

Mas estava em seu poder. Justin compreendeu plenamente o que estava a tentar dizer-lhe. Sarah pensava que ele tinha poder para mudar a vida de Drew. Para protegê-lo, não só daquelas crianças, mas do resto do mundo. Inclusive para fortalecê-lo contra o desprezo de Brynmoor. Para moldar o menino, que tanto ansiava ser moldado, e fazer dele um homem.

E, ao mesmo tempo, tinha o poder para pôr fim à sua dolorosa situação pessoal. A única coisa que tinha que dizer era que viveria ali, em Longford, e que partilharia o mesmo tecto com a mulher que tinha amado no passado. E com o seu filho bastardo. Um filho nascido de outro homem. Um homem por quem se tinha apaixonado tão rapidamente que os sentimentos de Justin para com ela tinhám deixado de ser importantes.

Uma escolha simples. Salvar Drew, salvar o seu património, restaurar o sobrenome da sua família. E a única coisa a que tinha que renunciar era ao seu orgulho... e a um velho sonho de Verão sobre como seria a sua vida com aquela mulher.

Mas claro, a sua vida já tinha mudado tanto que era irreconhecível. Já não era, nem voltaria a ser, o homem que tinha embarcado para a Península há cinco anos. Diariamente a sua condição, a dor e a impossibilidade de forçar o seu corpo além de certos limites recordavam- lhe como era diferente daquele homem.

Os velhos sonhos tinham ficado reduzidos a cinzas. No entanto, ainda podia salvar alguma coisa das chamas da guerra. A sua terra e a sua gente que, como Meg Randolph, dependiam dele para que tudo corresse bem. E a vida de uma criança inocente que, confiante, lhe tinha dado a sua pequena mão.

Nunca teria Sarah. Nada na sua atitude indicava que ainda sentisse algo por ele... se é que alguma vez o tinha sentido. De certeza que tinha dito que dormiria com ele se ele lhe pedisse. Por sacrifício ou por dever. ou pelo bem de Andrew, mais do que pelo seu. Claro que, sabendo isso, era uma exigência que nunca faria.

- Redijam os documentos necessáriosdisse-lhe com aspereza. - Será melhor que apresses as coisas, antes que encerrem o teu noivo na prisão. E não percas Drew de vista - ordenou, em tom mais apropriado para o campo de batalha que para um acordo matrimonial.

- Então... - a voz de Sarah falhou, e olhou para ele estupefacta.

- Fizeste um mau acordo, Sarah, mas se precisas de o ouvir, então, sim. Encarrega-te de o dizer a Drew.

E sem acrescentar palavra, o conde de Wynfield separou-se da soleira e desapareceu nas sombras do corredor, deixando lady Sarah Spenser boquiaberta de perplexidade.

Tem cuidado com o que pedes, costumavam dizer, porque pode tornar-se realidade. E, pensou Sarah, apesar de tudo, das palavras ásperas com as quais tinham respondido às suas orações, o seu sonho acabava de se tornar realidade.

 

- Mantém a esquerda em cima - indicou-lhe o conde de Wynfield, e o ar frio dos últimos dias de Novembro propagou a sua voz. - E mantém o queixo baixo.

Obedientemente, Andrew baixou o queixo e ergueu a esquerda. Os seus pés dançavam e os seus punhos minúsculos batiam no ar enquanto se virava para o conde, que se movia mais lentamente.

- Assim - declarou Justin.

Pôs a sua mão no ombro de Drew, apoiando nele parte do seu peso. Satisfeito, o menino reduziu o passo, para acompanhar o homem que adorava.

Regressavam dos estábulos. Sarah tinha ouvido as suas vozes pela janela do seu escritório que, apesar do frio, tinha aberto à espera da sua chegada. E, ao escutá-los, Sarah tinha-se levantado da secretária para olhar para eles.

Justin tinha proibido Andrew de abandonar Longford sem a sua permissão, uma restrição que, Sarah sabia, o menino tinha obedecido. Claro que já não havia motivos para atravessar os bosques nos quais tinha sido atacado, pois o objecto da sua procura já não estava lá, mas em Longford.

Sarah contemplou a aliança na sua mão esquerda. Perguntou-se quantas pessoas saberiam que o seu casamento era uma farsa. A sua criada, sem dúvida. E Peters, o criado do conde. Se eles sabiam, todos os outros criados também conheceriam o seu segredo. E não podia fazer nada quanto àquela intriga da criadagem, por mais humilhante que fosse.

Quando voltou a olhar pela janela, os dois tinham desaparecido. Andrew passaria certamente pelo escritório para visitá-la, mas a imagem que tinha visto do seu marido seria possivelmente a única daquele dia, se mantivessem o padrão normal da sua relação.

Assim que tinham feito os votos de matrimónio, Sarah tinha autorizado o senhor Samuels a dar ao conde qualquer soma que ele lhe pedisse. Não queria que Justin tivesse que lhe pedir dinheiro directamente. Nem pelo que necessitava para saldar as suas dívidas, nem pelo que tinha começado a investir na sua propriedade, há tanto tempo descuidada.

Embora dormisse em Longford, segundo os termos do seu acordo, passava quase todos os dias em Wynfield Park, onde trabalhava de sol a sol. As melhorias que tinha feito eram notáveis, e só porque dedicava tantas horas e energia à tarefa é que tinha obtido uma mudança tão sur preendente em tão pouco tempo. E uma vez mais, o seu nome estava em todas as bocas do distrito.

 

Não partilhavam as refeições, nem as conversas, nem nada. Só o seu amor mútuo por Andrew. Sarah pensava que devia sentir-se agradecida por terem isso em comum. Esse tinha sido o propósito daquele acordo. À margem do que Justin pudesse sentir por ela, a sua atitude não tinha mudado para com o pequeno, que considerava, sem a menor dúvida, seu filho.

Quando Sarah tinha jurado a Amelia que manteria em segredo os detalhes do nascimento de Andrew, tinha-lhe parecido uma promessa simples. Não tinha pensado duas vezes. Mas, naquele momento, por muito que o lamentasse, estava presa àquela promessa.

Uma prisão tão absurda, mas prisão de todas as formas, pensou, inspirando profundamente. Tinha lutado com a sua consciência, desejando desesperadamente poder dizer a Justin a verdade. Tinha pensado que Mellie não lhe pediria que guardasse o segredo do seu próprio marido.

Aquilo ia contra todos os preceitos morais que lhe tinham ensinado.

Como quebrar um juramento, reconheceu. Sobretudo à sua irmã moribunda e sobre a sepultura da sua mãe. Além disso, por que ia Justin acreditar nela, embora lhe dissesse a verdade? Segundo todos pensavam, Amelia tinha morrido meses antes do nascimento de Andrew. Não a desprezaria ainda mais por tentar, aparentemente, descarregar os seus pecados na sua falecida irmã?

Moveu levemente a cabeça. Voltava a sentir-se afligida pelo dilema moral das suas circunstâncias. Era a esposa de Justin, algo que tinha desejado ser desde que se via como gente. Desde que tinha tido consciência do que implicava ser uma esposa. E no entanto, não o era, pelo menos, no que importava realmente. E, a não ser que Justin descobrisse a verdade sobre Andrew, sabia que nunca o seria.

- Estive a aprender a amassá-los - anunciou Andrew enquanto entrava a correr na divisão, in troduzindo a frescura do ar exterior. - Wynfield está a ensinar-me.

Utilizar o título de Justin para referir-se a ele era um acordo ao qual tinham chegado juntos, pensou Sarah. No entanto, não a tinham consultado sobre como devia Drew chamar o conde.

- Estava a ver-te da janela - confessou.

- Viste a minha esquerda? - perguntou Andrew.

Parou junto à mesa e tinha pegado na lupa que Sarah utilizava para decifrar a letra, quase ininteligível, do anterior secretário. Estava acostumada a comparar o progresso das suas terras com os registos passados e tinha tido motivos para se alegrar. Pelo menos, até à repentina e severa perda de recursos causada pelo seu casamento.

- É boa - elogiou-o Sarah, sorrindo. - Com quem pensas usá-la?

- Usei-a com o criado dos estábulos - contou Andrew. - Quando treinávamos.

- Quando treinavam?

- Fingíamos lutar - explicou-lhe Andrew. - É o que Wynfield fazia com o cavalheiro Jackson em Londres.

Afinal de contas, pensou Sarah, interpretando o seu tom de voz, ela era apenas uma rapariga e não era de esperar que soubesse daqueles assuntos tão importantes. Ocultou o seu sorriso, observando como contemplava diferentes objectos da secretária através da lupa.

- Wynfield amassava-os a todos - disse Andrew, apaixonado pelo termo que, sem dúvida alguma, acabava de aprender.

- E costumavam amassá-lo mais vezes a ele. Ao ouvir aquela voz grave, Sarah levantou os olhos com surpresa. E, como da primeira vez que o tinha visto, em casa de Meg, o seu coração reagiu de uma forma altamente inapropriada.

Afinal de contas, aquele era o seu marido. Há quase dois meses. Que tinha visto talvez uma dúzia de vezes em todo aquele tempo e de quem não poderia desviar o olhar; mesmo que a sua vida dependesse disso.

- Isso é mentira - acusou- o Andrew, com os olhos brilhantes, como sempre que falava do seu herói.

- Andrew - resmungou Sarah.

- Mas não é verdade, Sarah. Foste um bom pugilista, não foste? - inquiriu Andrew. - Quero dizer, antes de te cortarem a perna.

Naquela ocasião, Sarah não se atreveu a abrir a boca.

- Não tão bom como Jackson - disse o conde com fluidez. - Nem como alguns dos que treinavam com ele.

Olhou para Sarah e ela perguntou-se o que leria no seu rosto. Comoção pela franqueza de Andrew sobre a perda da sua perna? Preocupação pela sua saúde de uma esposa que não tinha direito a expressar aquela preocupação. Tinham um acordo, nada mais. Só tinha que olhar e escutar o deleitádo Drew para saber que Justin estava a cumprir a sua parte.

O menino acompanhava o conde para quase todo o lado, até nos longos dias que passava em Wynfield. E Justin tinha o cuidado de levar Drew quando visitava os seus arrendatários e os de Sarah. Os dois sabiam que aquilo, com o tempo, daria o fruto que os dois desejavam: a aceitação do distrito, por pior que fosse, porque o seú amado conde aceitava o menino.

- Amanhã parto para Londres - disse Justin. Tenho assuntos a tratar com os meus banqueiros que não posso continuar a adiar.

Sarah assentiu, compreendendo que não procurava a sua permissão, estava apenas a informá-la.

- Podia ir contigo e fazer-te companhia - sugeriu Andrew. - Assim não estarás sozinho. Nunca estive em Londres.

O conde sorriu-lhe.

- Já falámos sobre isso, Drew. Noutra ocasião. Noutra viagem.

- Estiveste alguma vez em Londres, Sarah? perguntou o menino.

- Sim - respondeu em voz baixa.

De repente, a sua cabeça encheu-se com as imagens da última vez que tinha estado em Londres. Justin, incrivelmente elegante com o seu uniforme. Um salão de baile lotado de gente. Uma proposta de casamento. Que diferentes eram aquelas lembranças da dolorosa situação em que se encontravam.

- Foi há muito tempo - disse-lhe.

Levantou os olhos para o seu marido, mas assim que o fez, contemplando o seu rosto durante apenas um segundo, Justin virou-se e saiu para o corredor. Sarah pensou ouvir uma breve exclamação quando se foi embora, mas o som foi tão fugaz que não tinha a certeza, nem sequer quando mais tarde reviveu a cena vezes sem conta. Depois ouviu como se afastavam os seus passos irregulares.

 

Olhou para Andrew, que estava a colocar a sua lupa sobre os papéis da mesa. Pelo menos, a ausência de Justin permitir-lhe-ia passar mais tempo com Dréw. Não a incomodava que gostasse tanto dos seus momentos com o conde, é claro, mas tinha sentido a sua falta. Talvez sentisse falta de ser também o centro do seu mundo. O seu pequeno mundo, naquele momento, partilhado com um homem que parecia um enigma. E muito mais distante do que antes, mesmo vivendo sob o mesmo tecto.

Os dias da ausência do conde passáram-se lentamente. Na primeira semana, Sarah e Andrew restabeleceram a sua velha camaradagem. No entanto; não havia dúvida de que o menino sentia a falta de Justin.

Drew conversava constantemente sobre Wynfield, relatando cada momento que tinham passado juntos e ideando coisas que pensava sugerir-lhe quando o seu herói regressasse. Como não lhes tinha dado nenhuma estimativa de quando seria, os dias passavam, longos e vazios para os dois. Sarah não se tinha apercebido de como eram importantes as imagens fugazes e ocasionais que captava do seu marido.

- Quando voltará? - perguntou Andrew, num tom aborrecido, quando já tinham passado dez dias sem ter notícias do conde.

- Quando tratar dos seus assuntos, suponho - respondeu-lhe Sarah, contemplando a paisagem banhada pela chuva daquele dia frio de Dezembro. Perguntou-se se Justin se arriscaria a viajar naquelas condições. E se o fizesse, se não passaria muito frio. Estaria a trabalhar tão arduamente na capital como ali?

Sabia que tinha começado numerosos projectos em Wynfield, antes da sua partida, apesar das inclemências do tempo. Claro que, se estivessem dispostos a gastar bastante dinheiro, havia trabalhadores no distrito capazes de enfrentar o Inverno mais rigoroso se fossem bem pagos. As melhorias que estava a fazer na sua propriedade estavam a causar um ressurgimento da economia local. Certamente era mais um motivo para a sua popularidade, pensou Sarah. Os seus lábios esboçaram um sorriso pela ironia. Embora Wynfield estivesse a usar o seu dinheiro, isso não tinha contribuído em nada para melhorar a sua aceitação no distrito. E, sinceramente, não se importava.

- Poderíamos escrever- lhe - sugeriu Andrew.

- Penso que não lhe disse o que queria para o Natal.

- Espero bem que não o faças - disse Sarah. Os meninos que não fazem mais do que pedir presentes de Natal não os recebem.

- Mas como saberá o que quero se não lhe disser? - perguntou Andrew.

- Seja o que for que receberes do conde, deves estar agradecido - disse Sarah.

- Claro que estarei - respondeu Andrew. Mas não penso que haja algo de errado em dar-lhe uma pista do que quero.

- Podes dar-ma a mim - sugeriu, sorrindo perante a sua irrefutável lógica.

- E contar-Lhe-ás? Escreverás para Londres?

- Talvez.

- Só queres saber para seres tu a dar-me o presente.

Sarah riu-se.

- E qual é o problema?

- Mas isto é algo especial e só Wynfield pode dar-mo - insistiu Andrew.

- Entendo.

- Espero que não esteJas: - Andrew fez uma pausa, procurando a palavra correcta.

- Decepcionada? - sugeriu Sarah.

- Ciumenta - respondeu Andrew.

- Ciumenta? - repetiu com perplexidade. E então compreendeu que, em parte, sentia inveja da relação tão próxima de Andrew com o conde. Mas não pelo que Andrew receava.

- Por gostar tanto de estar com ele - explicou-lhe Andrew. - Gosto de ti da mesma forma, Sarah. Não tens que ter medo por isso.

- Não, querido - disse Sarah, contemplando os seus olhos azuis ansiosos. - Não tenho medo.

- É que estou a crescer, sabes - Sarah assentiu, sentindo-se incapaz de falar. - E. e nunca tinha tido um pai.

- Wynfield não é teu pai, Drew - disse em voz baixa e o seu coração contraiu-se de amor por ele.

- Eu sei. Já falámos disso.

Sarah perguntou-se como teria sido aquela conversa, tendo em conta a tendência de Andrew de dizer o que pensava sem rodeios.

- Mas... - hesitou novamente, e o seu pequeno rosto continuava sério. - Ele é o mais próximo que estarei de um pai, suponho - concluiu com tristeza.

Sarah não podia alegar nada a esse respeito. Afinal de contas, aquilo era, em parte, o que tinha pensado obter com a sua oferta. Pôs a sua mão na cabeça de Drew e aproximou-o para lhe dar um beijo nos caracóis. O menino permitiu-lhe a carícia e depois, endireitando-se, separou-se dela.

- Já não sou uma criança, Sarah - disse- lhe.

- Eu sei - corroborou.

De novo, contemplou a paisagem fria e desolada e perguntou-se, com o mesmo desejo de Andrew, quando regressaria o conde.

- Caramba, Sarah! - falou- lhe uma voz agradável. - Estás a trabalhar muito cedo. E com que vontade!

Era uma voz e um sotaque que Sarah teria reconhecido em qualquer parte. Levantou os olhos, abertos de incredulidade. David Osborne, sorridente, estava de pé na porta aberta do seu escritório.

Tinha uma capa que deixava ver um casaco de cor verde-garrafa e um colete que cobria com elegância uma cintura ainda esbelta. O seu lenço estava engomado e tão alto, que quase Lhe roçava o queixo perfeitamente barbeado. Até os seus olhos lhe sorriam, como se realmente se alegrasse por vê-la outra vez.

- O que estás a fazer aqui? - perguntou, sentindo um estremecimento de terror por todo o seu corpo: Todas as lembranças daqueles dias terriveis na Irlanda surgiram de repente na sua cabeça.

- É essa a forma que tens de saudar o teu querido irmão? - brincou, com genuíno regozijo no olhar.

- Não és meu irmão, nem sequer querido - contrariou Sarah.

- Mas sou o pai do teu... filho adoptivo, não é assim?

 

Sarah sabia que a incerteza da sua voz era tão falsa como o seu sorriso. Tão falsa como tudo nele. Inconscientemente, comparou-o com outro sorriso masculino e, como lhe tinha ocorrido, da primeira vez que a apresentaram a Osborne, não lhe agradou.

- Um filho adoptivo um pouco incomodado. Sobretudo agora - acrescentou em voz baixa. Apesar da sua suavidade, havia um toque de ma lícia no seu tom.

- Não sei a que te referes - disse Sarah. Perguntou-se se teria tido notícias do seu casamento e se tramava alguma maldade, - O que estás a fazer aqui? - perguntou-lhe outra vez.

- Estamos em tempos difíceis, Sarah. Se as pessoas não podem contar com a familia quando estão em apuros, então, em quem podem confiar?

- Tu não tens família aqui - disse-lhe friamente.

- Tenho um filho - replicou. - Ou esqueceste-te oportunamente daquela. verdade entre todas as tuas mentiras?

- Muito pelo contrário, diria eu - respondeu Sarah, mas já sabia do que se tratava. O que sempre ti nha acontecido com Osborne. Era tenaz na busca dos seus objectivos, e um deles sempre tinha sido o dinheiro dos Spenser. Por isso tinha-a cortejado primeiro a ela e, em seguida, Amelia.

Mas David tinha aprendido a recear a ira de Brynmoor e por isso não tinha reclamado nada ao marquês, mesmo depois de lhe roubar a sua filha. O seu plano original tinha ficado reduzido a cinzas quando o marquês anunciou a morte de Mellie. Talvez houvesse algum sentido na sua loucura, afinal de contas.

- Tu tens tanto, Sarah, e eu tão pouco. Só as doces lembranças do amor da tua irmã. E um filho que nunca vejo. Um menino que nem sequer me conhece. Muito poucos lucros... e de pouco valor prático - acrescentou, sorrindo. - Por isso devo ajoelhar-me aos teus pés e suplicar a tua mercê.

- Não - disse Sarah.

- Não terás gasto tudo, pois não, irmã? - perguntou Osborne, sorrindo outra vez, nada desolado pela sua negativa. - Claro que tens um novo marido. E muito caro, ouvi dizer. Por isso é que hesitas?

- O meu marido - disse Sarah, sentindo como começava a ficar irritada, - não te diz respeito.

- Sempre que a fortuna do marquês o possa sustentar.

Sarah apertou os lábios para travar a explicação que ansiava dar- lhe. Não tinha nada a ver com ele o facto do seu marido necessitar da sua herança. Ou se ela a estava a gastar de maneira prematura.

- O teu pai sabe o que estás a fazer com o seu dinheiro? - perguntou Osborne. - Comprar um marido, quero dizer. Juro-te, querida, eu teria sido muito mais barato.

- Não tenho dúvidas - comentou, e depois compreendeu que acabava de reconhecer que ele tinha razão: que o seu casamento tinha sido caro. Só que não estava interessada naquele acordo, é claro.

- Desde que o teu marido não leve o que corresponde ao meu filho - disse o irlandês, ainda sorridente. - Suponho que não posso queixar-me da tua. fraqueza.

Havia tantas coisas implícitas naquela conclusão que Sarah ficou momentaneamente sem fala.

- A minha fraqueza? - repetiu, incrédula. Aquela era a acusação que mais lhe doía. Mas a sugestão de Osborne, de que estava a comprar um marido às custas de Drew, era igualmente ridícula. Como a implicação de David estar preocupado com o seu filho.

- Perdoa-me se estou enganado, mas trata-se do mesmo homem por quem estavas tão loucamente apaixonada quando nos conhecemos, não é assim? Claro que agora tem um título. É muito melhor do que um soldado humilde. Parabéns, Sarah! Conseguiste o que querias.

Naquela ocasião, Sarah mordeu a língua. Quanto antes terminasse aquela conversa, melhor. Embora agradecesse o facto de David ter escolhido aquele momento, em que Justin estava ausente, para fazer a sua aparição.

Então, pensando como isso seria conveniente para ele, perguntou-se se não saberia que o conde estava em Londres. Afinal de contas, os David Osborne do mundo gostavam poucas vezes de tratar com alguém como Wynfield, que seria difícil de enrolar ou intimidar.

- O rapaz... não se interpõe entre vós? - perguntou David.

- Entre nós?

- Como acabaste de contrair matrimónio... Pensei que talvez quisesses que o levasse comigo.

As palavras soavam casuais, quase espontâneas. E ao ouvi-las, Sarah sentiu que o seu sangue gelava nas veias e todo o seu corpo se imo bilizava com aquela ameaça.

- O que queres dizer com isso? - sussurrou.

- Bem, simplesmente, que carregaste com o peso de criar o meu filho durante mais de quatro anos. E agora, tendo em conta como as tuas circunstâncias mudaram.

Deixou que as palavras ficassem suspensas no ar. Sarah tentou adivinhar a que propósito vinha aquela sugestão. David nunca tinha professado o menor interesse pelo bem-estar de Andrew, e muito menos o desejo de assumir a responsabilidade de criar o seu filho.

- Não - disse em voz baixa.

- E se insistir? - perguntou-lhe numa voz igualmente suave, mantendo o sorriso nos seus lábios enquanto olhava para ela.

- Não tens direito a insistir. Tu não te preocupas com Andrew - acusou-o. - Nunca te preocupaste.

- Todos os pais se preocupam com os seus filhos. Pelo menos, será difícil para ti convencer os outros do contrário. E Andrew é, que eu saiba

- disse quase com regozijo na voz, - o meu único filho.

- Não podes prová-lo.

- Ah, Sarah, és tão ardilosa. Seria difícil demonstrar quem são os seus pais depois de tanto tempo. Subretudo, tendo em conta o que sugeriste ao longo dos anos para explicar o seu nascimento. Ou, melhor dizendo, para explicar por que alguém como tu voltaria para casa, depois de uma ausência prolongada, com um bebé. Correram muitos rumores, imagino.

- Em nenhum deles mencionavam o teu nome

- afirrmou. - Nem o de Amelia.

Aquele era o único pensamento que a tinha consolado durante o remoinho de intrigas que a tinham envolvido. Os rumores tinham-na acusado a ela como pecadora e não à sua irmã que, é claro, toda a gente acreditava morta e enterrada, meses antes do nascimento do bebé.

- Mas tu e eu sabemos a verdade - insistiu Osborne.

- Uma verdade que jamais poderás provar.

- Referes-te a prová-lo, por exemplo, perante um tribunal? - perguntou com inocência. - Suponho que para isso necessitaria de algum tipo de documento - sugeriu.

Tinha razão, compreendeu Sarah com alívio. Para reclamar Drew legalmente, David necessitaria de algum documento que o relacionasse com o menino. De contrário, lutaria com ele até à morte, utilizando as velhas intrigas em seu próprio benefício. O seu coração, que se tinha paralisado ao ouvir a menção dos tribunais, voltou a bater com força.

- Mas eu tenho um documento, é claro acrescentou David. Levou a mão ao bolso da sua capa e tirou um papel. - O sacerdote que baptizou o bebé e assistíu Amelia no seu leito de morte teve a amabilidade de o procurar. Não te lembras? Como seu parente mais próximo e como testemunha de ambos os acontecimentos, tu também o assinaste.

Sarah sentiu-se dominada pelo medo. Efectivamente, tinha assinado um documento. David tinha-lhe dito que era necessário para enterrar Amelia. Sarah, destroçada pela morte da sua irmã e muito mais preocupada em manter a criança viva, não se tinha preocupado com qual quer requisito legal ou religioso. Tinha assinado o que David lhe tinha posto sobre a mesa, agradecendo o facto de, por fim, se ter ocupado de alguma coisa.

- Está tudo aqui - mostrou-Lhe. - Lê-o se quiseres. Ou é o teu marido que se ocupa agora dos teus assuntos?

Sarah levantou-se, com os joelhos trémulos, e estendeu a mão para que lhe entregasse o papel. Osborne riu-se.

- Disse para o leres, querida, não para ficares com ele. Receio que não o trates com o cuidado que ele merece.

Hesitou, não querendo aproximar-se mais dele, mas seria uma estúpida se acreditasse na sua palavra do que estava escrito naquele papel. Talvez tivesse deixado que David a enganasse ao assiná-lo, há quatro anos, mas já não era a mesma pessoa de então. Tinha mais experiência em questões de negócios, para começar. E havia alguns homens dignos da sua palavra. Mas outros...

David Osborne fazia parte, definitivamente, da segunda categoria. Tremendo de fúria, rodeou a secretária e aproximou-se da soleira da porta, onde o homem estava. No mesmo lugar onde Justin lhe tinha dito que ia partir para Londres.

- Está bem - aceitou. Osborne desdobrou a folha que tinha tirado do seu bolso e segurou-a para a sua inspecção. Era exactamente o que tinha dito, um documento que registava o baptismo de um menino. Andrew David Osborne. Filho de.

Inspirou. Os nomes escritos no papel eram bastante claros. Filho de Amelia Spenser e David Osborne. E ao pé, com a mesma clareza, estava a sua própria assinatura, tão cuidadosamente caligrafada como num exercício de escola.

- Tu não queres Andrew - disse Sarah.

- Essa não é a questão, querida. A questão é que tu queres. É assim que se fazem os acordos, Sarah. Quando uma parte deseja muito alguma coisa, o suficiente para pagar um preço por ela.

- E qual é o preço?

Fosse qual fosse, sabia que teria que pagá-lo. E, em seguida, ao recordar o dinheiro que tinha autorizado a sair das suas contas, nas últimas semanas, perguntou-se se poderia pagá-lo.

- Ainda não me decidi - avisou-a com um tom quase jocoso. - Mas fá-lo-ei muito em breve, prometo-te. Estaremos em contacto um com o outro. Não duvides, Sarah.

E sem dizer mais uma palavra, virou-se e desapareceu no corredor, nas sombras onde tinha visto o seu marido pela última vez. Sarah não podia deixar de pensar nas palavras de David: Estaremos em contacto um com o outro".

 

- Falta muito? - perguntou Andrew. Desde que tinham saído de Longford, fazia a mesma pergunta em intervalos de quinze minutos.

Não podia estar mais ansioso que ela por chegar a Londres, pensou Sarah. Depois da confrontação com Osborne, tinha decidido levar Andrew para o mais longe possível de Longford. Para um lugar onde o seu pai não o pudesse encontrar.

Aquele tinha sido o seu primeiro instinto. O segundo, procurar a protecção de Wynfield. Aquela viagem satisfazia os dois. Não se tinha questionado por que motivo tinha tanta certeza que Justin poderia manter Drew a salvo. Simplesmente porque era Justin, pensou: E porque o amante da sua irmã não era um rival para ele.

Sarah tinha compreendido a ironia. Se Osborne levasse adiante a sua ameaça de ir para os tribunais, Justin saberia finalmente que ela não o tinha traído. Talvez então, a fria indiferença que se reflectia nos seus olhos quando olhava para ela, desaparecesse. E Sarah desejava que isso acontecesse mais do que nada no mundo. Além de Drew.

Inspirou profundamente e sorriu para o pequeno, apesar da sua angústia. Não devia percebê-la. Apertou-o contra si e cobriu-o com a manta que tinha no colo.

- Chegaremos daqui a pouco - respondeu-lhe.

- Estás cansado?

- Só quero vê-lo - disse Drew.

- Eu sei - sussurrou Sarah, beijando a pequena cabeça que se apoiava no seu ombro. - Eu sei.

E ela também. Queria contar a Justin toda a história sórdida. Confessar as mentiras que continha a carta que lhe tinha escrito há quatro anos. Revelar-lhe a promessa que tinha feito à sua irmã e que a tinha impulsionado a escrevê-la.

Não o digas a ninguém, nem sequer ao papá. Não poderia suportar que soubessem o que fiz". Pobre Amelia. Se David levasse a cabo a sua ameaça, tudo seria revelado, e da pior maneira possível. Mancharia para sempre o nome de Amelia e o escândalo público de um julgamento perseguiria Drew para o resto da sua vida.

E Sarah não sabia como responderiam os júízes às reivindicações de um neto ilegítimo. Os direitos dos descendentes masculinos sempre se consideravam de maior peso que os das mulheres. A única razão pela qual Amelia e ela iam herdar as propriedades do seu pai era porque não tinham nenhum parente varão que pudesse reclamá-la. Talvez, aos olhos da lei, Andrew tivesse o mesmo direito que elas à sua herança.

Sarah jamais negaria a Drew o seu legado, é claro, mas se o seu pai morresse antes de Andrew alcançar a maioridade, o que parecia muito provável, então David Osborne deteria todo o controlo sobre o dinheiro do seu filho. E pior ainda, para consegui-lo, também tentaria controlar o menino.

Sarah não se importava com o dinheiro, embora soubesse o que aconteceria se caísse nas mãos de Osborne. Mas preocupava-se em não perder o pequeno que tinha sido dela desde as primeiras horas de vida.

Todas as consequências possíveis da ameaça de David deram voltas vertiginosamente na sua cabeça. Se Osborne contasse a verdade sobre o Drew nos tribunais, talvez Sarah conseguisse recuperar o amor que Justin tinha sentido por ela. Mas poderia perder Drew, pensou com desespero.

- Falta muito? - perguntou Drew.

- Pelo menos, uma hora, penso eu. Queres que te conte uma história?

- De militares - pediu-Lhe.

- Não conheço histórias de soldados - respondeu Sarah com sinceridade.

- Ele sim.

Só havia um ele" no pequeno mundo de Andrew. O homem que ocupava o centro do seu universo. Tinha sido Sarah, em pessoa, a encarregar-se de o colocar ali. Como ia permitir que o arrancassem de si? Mas se a verdade fosse revelada.

Deliberadamente, resolveu não voltar a pensar nisso. Em troca, apertou o pequeno corpo contra si, apoiou o queixo na sua cabeça e con templou a paisagem desolada através dos vidros da carruagem.

Tinham tido sorte de que as estradas estivessem geladas mas sem neve. E, perante a possibilidade de um nevão, o seu motorista tinha-lhe sabiamente desaconselhado a fazer aquela viagem. Mas Sarah quereria estar com Justin se aquela tempestade desabasse sobre as suas cabeças. Não falava da tempestade de neve, é claro, que nem sequer tinha influenciado a sua decisão. Estava muito mais preocupada com a tempestade que Osborne ameaçava fazer desabar sobre todos eles.

- Então, podes contar-me uma história de outro tipo - concedeu Andrew. - Mas que=seja emocionante, Sarah. Já não sou um bebé.

Quando era um bebé, pensou, tinha sido seu, posto ao seu cuidado pela sua irmã moribunda.

- Está bem - acedeu, tentando pensar num conto bastante sangrento para cativar a sua atenção até chegarem à casa londrina do seu pai. Era uma vez - começou a dizer, e não deixou de falar até que Andrew baixou a cabeça, sumido no sonho, contra o seu peito. Depois, uma vez mais, todas as possibilidades do que aconteceria se Osborne levasse a cabo a sua ameaça correram livremente pela sua cabeça.

 

A sua intenção era ir para a casa do seu pai e, é claro, não esperava que Justin estivesse lá. Ter- se-ia acomodado na sua própria residência da cidade. No entanto, quando chegaram a Londres, percebeu que nem ela nem Drew se sentiriam satisfeitos até o verem. Por isso, tinha feito aquela viagem tão precipitada e, talvez, tão tola.

Não tinha avisado Justin da sua chegada e não tinha a certeza de como a receberia. Mas, afinal de contas, disse para si, era a esposa do conde de Wynfield. Tinha todo o direito a bater à sua porta e procurar protecção para a noite. Não se tinha incomodado em enviar alguém à frente para que avisasse os empregados da residência londrina do seu pai da sua chegada, portanto, lá também não a esperavam. Simplesmente, fazia mais sentido ir para casa de Justin, onde a casa já estava preparada.

No entanto, quando o carro parou diante da entrada principal, Sarah teve a impressão de que a mansão estava vazia. Passou algum tempo até abrirem a porta, apesar do seu motorista bater incessantemente. Fosse qual fosse o diálogo entre o seu criado e o lacaio que respondeu, o motorista finalmente regressou para ajudá-la a sair.

Quando entrou na casa, Sarah compreendeu que, embora o conde estivesse em Londres há quase duas semanas, não tinha recebido ninguém, apesar de a temporada estar aberta. Os móveis das salas formais estavam cobertos com as suas capas de Inverno e estava tanto frio na casa que podia ver a sua respiração.

Drew procurou calor entre as suas saias enquanto permaneciam de pé no amplo vestíbulo, esperando que o mordomo de Wynfield aparecesse. O motorista assegurou-lhe que o tinham ido chamar, mas à medida que passavam os minutos, Sarah perguntou-se se teria cometido um terrivel erro ao aparecer ali.

Ouviu uns passos longínquos e rápidos e finalmente o mordomo do conde apareceu no outro extremo do vestíbulo, onde Sarah e Andrew o esperavam. Era óbvio que se tinha vestido precipitadamente, já que ainda estava a ajustar as roupas. Que estavam muito necessitadas de arranjo, pensou Sarah quando conseguiu ver, à luz do candeeiro, em que estado estava o seu velho casaco preto.

Claro que, dada a má fortuna da família Wynfield nos últimos anos, não a surpreendia. Os projectos mais recentes do seu marido tinham-se centrado na sua casa de campo e nos seus agricultores.

- Sou a condessa de Wynfield - anunciou, e compreendeu que era a primeira vez que tinha tido oportunidade de usar o seu título.

- Milady - o mordomo quase gaguejou a sua resposta.

- O conde encontra-se aqui, imagino. O homem pareceu não saber como responder, e durante vários segundos não o fez.

- Saiu para jantar? - inquiriu Sarah finalmente.

- O conde espera-a, milady?

Sarah sabia que o pai e o irmão de Justin tinham deixado que as suas propriedades caíssem na ruína, mas aparentemente, também não sabiam como ensinar os seus criados.

- Tenho a certeza de que isso não lhe diz respeito - declarou em voz baixa, conferindo à sua voz a medida justa de censura.

Notou como Drew tremia. E afinal de contas, era, como tinha afirmado, a condessa de Wynfield. Por pior que estivesse aquela mansão, ela e os seus habitantes eram da sua responsabilidade.

- Se o conde estiver aqui - continuou, - desejo que me leve em seguida junto dele. Depois encarregue-se de preparar uns quartos contíguos para o meu filho adoptivo e para mim. Assegure-se de acender a lareira e de que os lençóis das camas estejam limpos e quentes - acrescentou, observando como o mordomo abria os olhos, espantado. - Poderá encarregar-se de levar a nossa bagagem para os quartos quando estiverem preparados. E que alguém se ocupe dos cavalos, por favor. Fizemos uma viagem muito longa.

Aparentemente, aquele era um tom ao qual o mordomo estava acostumado. Pareceu querer dizer algo, dar alguma desculpa pelo seu comportamento, talvez, mas decidiu sabiamente que talvez o melhor fosse fazer o que lhe tinham dito.

- Se tiver a amabilidade de me seguir, milady. Sarah pôs a mão sobre o ombro de Andrew, dirigindo o menino exausto: O candeeiro que o mordomo levava oscilou diante deles, praticamente a única luz da casa. A escada central, lindíssima, mal se distinguia enquanto o seguiam, embora houvesse claridade suficiente para ver as manchas e sinais de desgaste do seu tapete puído.

Subiram um lance e depois outro antes que o mordomo os conduzisse por um corredor escuro.

Naquele piso a única coisa que podia haver eram aposentos,pensou Sarah. Não acreditava que o homem tivesse entendido mal as suas instruções, deliberadamente ou não. Tinha-lhe pedido claramente que a levasse ao conde.

No momento em que ia protestar,o mordomo levantou a mão para bater a uma porta. Abriu-se antes que pudesse executar a acção e,na soleira, apareceu a figura do criado de Justin. Era evidente que Peters saía naquele instante do quarto, mas ao ver os hóspedes inesperados do conde parou,boquiaberto.

O mordomo levou o punho lentamente até às costas. Depois de um segundo ou dois,o criado fechou a porta atrás de si. Permaneceu diante dela,com uma atitude quase protectora.

- Milady - cumprimentou Peters. Não parecia tanto uma saudação como úma expressão de surpresa. Ou uma pergunta,talvez.

- Eu gostaria de ver o conde - disse Sarah com voz serena,decidida a manter a compostura apesar daquela exibição masculina de hostilidade.

Em seguida,pela primeira vez,ocorreu-lhe pensar por que se surpreendiam tanto ao vê-la e por que o criado estava diante dos aposentos de Justin,como que a impedir a sua passagem.

Teria Justin ido a Londres expressamente para visitar a sua... Visitar uma... Não pôde completar os seus pensamentos,porque não sabia que termos devia usar. Sabia que o seu pai tinha tido uma amante. Inclusive tinha-Lhe mencionado o seu nome numa ocasião, num dos seus discursos desconexos.

 

Justin, que tinha vivido durante vários anos fora do país, tinha passado alguns dias, talvez semanas, em Londres antes de regressar a Wynfield. Talvez tivesse renovado uma velha... amizade na capital. Ou tivesse encontrado uma nova. Em qualquer caso, não daria as boas-vindas a Sarah, na sua casa, naquela noite. Nem ele nem os seus fiéis criados.

A agonia da imagem de Justin com outra mulher atrás da porta foi mais poderosa que a vergonha que a dominou. Não estranhava que esti vessem a bloquear a entrada do seu quarto.

Estava a expor-se ao ridículo ao ir ali. Ao correr em busca de Justin, ao primeiro sintoma de problemas. Apesar do que sentia por ele, o conde não lhe tinha feito nenhuma promessa sobre o seu comportamento privado. E, ingenuamente, Sarah nunca tinha considerado a possibilidade de Justin procurar os seus prazeres carnais fora do casamento.

- O conde espera-a; milady? - perguntou o criado quando recuperou finalmente a compostura.

- Não - sussurrou Sarah, sem corrigir a sua impertinência.

- O que se passa? - perguntou Andrew. Sarah olhou para ele, agradecendo aquela desculpa para não ter que enfrentar os dois homens que protegiam a intimidade do conde. Drew contemplava-a com ansiedade reflectida nos seus olhos de um azul profundo. O seu rosto tornou-se impreciso de repente, quando umas lágrimas inesperadas lhe nublaram os olhos. Sarah pestanejou e inspirou fundo.

- Temos de ir para casa do meu paidisse-Lhe. - Aqui não nos esperam.

Nem nos dão as boas- vindas".

Drew abriu os olhos com surpresa.

- Wynfield não está aqui? - perguntou - Disseste que sim - tinha elevado a voz. As lágrimas afloraram aos seus olhos, produto da fadiga e da terrível decepção depois da sua longa viagem. Tinhas-me prometido, Sarah - acusou-a. - Prometeste-me que poderia ver Wynfield:

- Que raios se passa aí fora?

A voz irada pertencia a Justin. Como no caso de David Osborne, Sarah teria reconhecido o seu timbre em qualquer parte. Levantou os olhos e viu como a porta se abria atrás do criado, deixando ver o pequeno quarto.

Pelo menos, havia luz, pensou. E calor. Podia sentir o calor da lareira estendendo-se pelo corredor gelado onde estavam ela e Drew. Peters tinha-se virado ao ouvir a voz do seu senhor e depois, inclinando-se ligeiramente, afastou-se para um lado, abrindo caminho ao homem que tinha aberto a porta. Para surpresa de Sarah, Justin estava apoiado numa muleta e as chamas do fogo atrás de si perfilavam cruelmente a razão. A perna da calça direita das suas calças caía em linha recta, claramente vazia por baixo do joelho. E Sarah voltou a sentir a ardência das lágrimas.

- Wynfield - disse Drew com alvoroço. Ao ver Sarah e Andrew no corredor, Justin abriu muito os olhos, como tinha feito o seu criado. No entanto, o efeito foi muito mais agradável. Pelo menos, mais agradável para a sua sensibilidade. Claro que já não o via há muito tempo. Tinham passado tantos dias sem poder olhar para o seu marido às escondidas...

- Sarah? - perguntou, com a voz impregnada da mesma incredulidade que no dia do seu encontro na casa de Meg Rndolph. O coração, uma vez mais, bateu desmesuradamente.

Deu-se conta de que Drew se separava dela para se agarrar ao seu amado Wynfield. O conde cambaleou, mas graças aos seus reflexos e ao apoio da muleta, conseguiu recuperar o equilíbrio. Rodeou a cabeça do pequeno com a sua mão livre e apertou-o contra a sua perna sã.

No entanto, não afastou o olhar do rosto de Sarah. Não o tinha feito desde que Peters se tinha afastado, descobrindo a sua presença. Depois de um silêncio longo e tenso, perguntou com suavidade:

- O que se passa?

Santo Deus, como ansiava contar-lhe! As palavras tremeram na sua língua, exigindo libertação. Tinha ido até ali à procura do seu amparo e o instinto tinha sido tão poderoso perante a ameaça de David Osborne que o seu bom-senso, normalmente confiável, não tinha sido capaz de dominá-la.

Mas claro, não podia contar-lhe nada do que realmente acontecera. Não havia maneira de explicar o que Osborne tinha dito sem revelar a relação do irlandês com Drew. E os detalhes do nascimento do menino que tanto tempo tinha mantido em segredo.

- Andrew sentia a tua falta - explicou. E eu também. Preciso tanto de estar contigo. Preciso de saber que estás por perto".

Aquelas palavras, tão verdadeiras como as outras, não foram pronunciadas. Sarah permaneceu na soleira, observando-o. Depois, a voz de Andrew irrompeu no silêncio reflexivo que se prolongou entre eles.

- Já é quase Natal - declarou.

Justin olhou para ele, graças a Deus concentrando-se no rosto do menino em vez de no seu.

- E vieste até aqui só para me desejar Feliz Natal? - disse o conde num tom alegre, sorrindo para Drew.

- Não - respondeu Andrew, rindo.

- Para me trazer presentes? - brincou Justin, despenteando o cabelo curto do rapaz com uma mão grande e morena.

Andrew voltou a olhar para Sarah, com as sobrancelhas levantadas, numa expressão interrogante.

- Viemos às compras - declarou Sarah. Poderia ter sido a desculpa perfeita para a sua chegada imprevista, dado que só faltavam duas semanas para o Natal, não fosse a envergadura da viagem naquela época do ano. O conde voltou a olhar para ela e ao ver perplexidade nos seus olhos, Sarah corou.

- Compras? - repetiu com cautela.

- As lojas aqui são muito melhores que na povoação - explicou-lhe.

- É claro - afirmou Justin.

Surgiu outro silêncio. Felizmente, Andrew, que parecia não reparar no desconforto entre os dois adultos da sua vida, voltou a quebrá-lo.

- No teu quarto está calor - disse-lhe.

- Gostarias de entrar? - convidou-o o conde, sorrindo para o menino. Em seguida, voltando-se lentamente, utilizou a muleta para regressar à sua secretária, que estava colocada perto da lareira. Era óbvio que tinha estado ali sentado, antes da sua chegada. Quando se sentou na cadeira, apoiou a muleta contra o bordo da mesa.

- O que é isso? - perguntou Andrew. Tinha seguido o seu herói e estava a contemplar os pa péis espalhados sobre a secretária. Até de onde Sarah estava, podia ver que eram desenhos.

- Planos - explicou o conde em voz baixa.

- De quê? - perguntou Drew.

- De coisas que talvez nunca se tornem realidade - disse Justin, sorrindo. Colocou o rapaz sobre o seu colo e aproximou o primeiro desenho para examiná-lo com ele. Os criados do conde tinham desaparecido na escuridão atrás de Sarah, mas ela continuava junto à porta, sentindo-se ignorada. Afastada do laço que Justin e Andrew tinham formado. Um vínculo que tinha desejado para Andrew, embora...

- Aqui dentro está calor, Sarah - sugeriu Justin - E vai continuar a estar se fechares a porta.

Levantou os olhos da contemplação ausente dos seus planos e surpreendeu-o a olhar para ela. E nos seus olhos viu algo que não pensava voltar a ver. Boas-vindas, não, talvez, isso fosse pedir demasiado. Mas... aceitação. Aceitação do seu direito de estar ali.

"Aqui dentro está calor" tinha sido um convite. E Sarah, atraída, como uma traça solitária à chama do afecto crescente entre Justin e Drew, entrou no quarto do seu marido.

Justin sabia que aquela viagem imprevista era algo mais que uma expedição de compras. Tinha quase a certeza de que Sarah tinha inventado aquela desculpa enquanto esperava, indecisa, diante da porta do seu quarto. E a indecisão não era algo que associasse com a mulher em que se tinha convertido.

Estava surpreendido com os seus lucros em Longford. Ao contrário de Wynfield, tudo na sua propriedade funcionava perfeitamente, da leitaria até à quinta. E era próspero. Os seus arrendatários estavam bem cuidados e os seus livros de contas coincidiam. Não se atrevia a perguntar se continuavam a coincidir, sobretudo tendo em conta as quantidades que tinha extraído das suas contas nos últimos meses.

Mais do que na verdade tinha necessitado, reconheceu. Tinha-a advertido de que o seu acordo lhe sairia caro e supunha que tinha estado decidido a demonstrar-lhe isso mesmo.

No entanto, Sarah não se queixou como, à medida que as somas aumentavam, Justin tinha esperado. Quase parecia que esperava que ela o fizesse, para poder atirar-lhe à cara o seu protesto, mas Sarah não tinha renegado o seu acordo, nem sequer tinha proferido uma só palavra de protesto. O senhor Samuels também não o tinha feito, mas Justin tinha visto o assombro reflectido nos seus olhos, em mais de uma ocasião, pelas somas que pedia. E, ao princípio, a sua intenção tinha sido assombrá-lo.

Também tinha querido, é claro, que o Inverno não surpreendesse os seus camponeses sem comida ou protecção adequadas, e alguns dos projectos que tinha ordenado em Wynfield Park tinham sido necessários para que não se fosse literalmente abaixo. Mas quando chegasse a Primavéra.

- O que são? - perguntou Sarah.

 

Levantou os olhos e surpreendeu-a de pé junto à sua cadeira, contemplando os desenhos.

Os dias e as noites passados em Londres tinham sido longos... e muito vazios. Vazios por mais de uma razão, reconheceu ao perceber a fragrância feminina de água de rosas. Uma fragrância demasiado evocadora de um antigo Verão naquela mesma cidade.

- Coisas que espero levar a cabo na Primavera - explicou-lhe. - Uns novos métodos de agricultura sobre os quais tenho lido. Não só quero restaurar Wynfield Park, como quero convertê-lo em muito mais do que era - e reparar a fortuna e o bom-nome da sua família. E saldar a dívida que tinha com Sarah.

Sarah estava a olhar para ele, observando-o enquanto falava. E Justin compreendeu que certamente o que tinha dito lhe parecia uma lou cura. Os cavalheiros, sobretudo os que estavam sem dinheiro, não se preocupavam em planear canais de irrigação e de drenagem para os seus prados.

No entanto, não tinha tido outra coisa com que empregar o tempo. O médico tinha-lhe receitado descanso para que a ferida que se tinha aberto dois meses antes ao saltar de Estrela, curasse o suficiente para poder utilizar de novo o pé artificial.

- Mas não vais restaurar esta casa? - perguntou Sarah.

Justin não tinha a certeza do que queria dizer. Ou por que se preocupava. Afinal de contas, se queria ir a Londres, sempre tinha a casa do seu pai, muito mais elegante do que aquela. Até a sua localização no coração de Mayfair era muito mais desejável.

- Não penso que necessitemos de duas residências em Londres. E os preços do mercado imobiliário aqui são muito bons, apesar da economia.

Pela primeira vez desde que tinha aberto a porta e visto Andrew e Sarah juntos no corredor, os seus lábios descontraíram e quase pareciam esboçar um sorriso.

- Talvez fossem melhores com... uma nova decoração.

- Uma decoração completamente nova, diria eu - disse Justin. Claro que isso requereria mais dinheiro. A sua irritação inicial para com a ideia de Sarah, para com a sensação de estar a ser comprado, tinha regressado. Já tinha decidido vender a casa tal como estava e utilizar os lucros para saldar em parte a dívida para com ela.

- Já que estou aqui... - disse com hesitação.

- Perdão?

- A não ser que tenhas especial interesse em escolher tecidos e alcatifas.

- Estás a oferecer-te... - fez uma pausa, sem saber exactamente o que estava a sugerir.

- Para me encarregar da casa. Penso que se lhe devolvermos o seu antigo esplendor aumentará o seu valor quando a puseres no mercado. É uma boa estratégia de negócios.

- E as compras?

- Não penso que ocupem todo o meu tempodeclarou, sorrindo-lhe pela primeira vez.

 

Era quase o sorriso que recordava e algo se agitou no seu peito em resposta. Mas entãocom preendeu que o que havia no sorriso e nos olhos de Sarah não poderia ser o mesmo. Nenhum dos dois era o mesmo.

Ele era um mutilado que dependia da caridade de Sarah. E ela era a mulher que o tinha recusado antes de se achar naquela situação. Não restava nada da relação que tinham tido. A única coisa que havia entre eles era um acordo de negócios.

Disso se tratava a sua oferta. Sarah era bastante ardilosa para saber que com poucos gastos para fins estéticos, o valor da casa cresceria quando a pusesse à venda. E quanto antes se vendesse, mais depressa recuperaria o seu dinheiro. Não devia tirar mais conclusões da sua sugestão. Nem da sua chegada à sua casa com expressão assustada.

Assustada. Isso era o que tinha visto nos seus olhos: medo. Mas se Sarah estava a fugir de algo, ele seria a última pessoa a quem recorreria. Por que ia querer a sua protecção, ou acreditar que ele podia protegê-la? Não podia, é claro. Nunca mais.

- Penso que adormeceu - disse Sarah em voz baixa.

Inclinou-se junto à sua cadeira para contemplar o rosto do menino que tinha ao seu colo. Justin não se deu conta de que, enquanto falavam, Drew tinha descido a cabeça até apoiá-la sobre o seu ombro.

Sarah ergueu os olhos daquele pequeno semblante aprazível para olhar para ele, sorridente. E Justin controlou a atracção daquele sorriso. Controlou a emoção que gerava e impediu o desejo de o devolver.

Não se permitiria a nenhuma fantasia romântica sobre a presença de Sarah ali. Nenhuma fan tasia sobre o que pensava que diziam os seus olhos. Não podia permitir- se. Já tinha muitos problemas sem imaginar que uma mulher, que não o tinha desejado quando estava forte e inteiro, pudesse estar interessada nele naquele momento.

- Terás que o levar - disse-lhe com brusquidão.

Sarah abriu os olhos com surpresa. Pela aspereza da sua voz, ou ao compreender que ele não podia levar o rapaz para a cama?

- É claro - respondeu, mas não se moveu. Olhou para ele. - Sentes-te bem, Justin? - inquiriu em voz baixa.

A pergunta atravessou a couraça que o seu orgulho tinha criado quando Sarah o tinha visto pela primeira vez, de pé na soleira, tal como era. Meio homem.

E um chorão por culpa disso, resmungou com fúria. Desde o começo, tinha resolvido não ceder à auto-compaixão.

- Claro que sim - respondeu-lhe.

O seu tom voltou a ser demìasiado áspero. Duro e frio. Embora tivesse reparado na forma como Sarah se tinha encolhido ligeiramente, não disse nada para suavizar o seu efeito. Preferia que pensasse que era um patife a um covarde.

Sarah não se moveu, pelo menos, até Justin levantar Andrew bruscamente. Então pegou no menino e, apoiando-se com uma mão na sua ca deira, endireitou-se.

Permaneceu de pé junto a ele por um momento, ainda olhando para ele. Depois, sem dizer uma palavra, virou-se, atravessou a divisão e saiu pela porta.

 

Justin apertou os lábios, reprimindo a urgência de a chamar e desculpar-se. Sarah tinha-se preocupado com a sua saúde, uma preocupação muito natural, e em troca ele tinha-se comportado com rudeza. Se continuasse a tratá-la daquela forma, nunca lhe confiaria o verdadeiro motivo da sua visita.

Pelo menos, estavam ali, sob a sua protecção. E enquanto tivesse vida, por muito desajeitado que fosse aquele corpo, faria exactamente isso. Protegê-los-ia, nem que para isso tivesse que perder a vida, jurou com ferocidade. Mas negou a urgência de investigar em profundidade a ra zão pela qual estava tão seguro. E tão endiabradamente entregue a isso.

Justin não tratou de muitas das coisas que tinha para fazer durante as duas semanas seguintes, salvo contemplar como Sarah transformava a casa. A mudança mais imediata foi a conduta da criadagem. por mais estranho que parecesse, apesar de Sarah estar a fazê-los trabalhar mais do que eles estavam habituados há anos, os criados pareciam ter em alta consideração a sua nova condessa.

Devido à sua obstinada determinação em não exibir a sua incapacidade mais do que o estritamente necessário, Justin comia as refeições nos seus aposentos. No entanto, a tentação de reunir-se a Drew e Sarah durante o jantar quase bastava para tirá-lo do seu exílio auto-imposto. Sobretudo quando se sentava solitário junto à lareira. Os planos agrícolas que o tinham ocupado durante semanas estavam quase esquecidos e imaginava os dois juntos na sala de jantar.

No entanto, não lhe faltava companhia durante o dia. Andrew passava quase todo o tempo nos seus aposentos, salvo quando saía às compras com Sarah. Regressava daquelas expedições transbordante de excitação, com o rosto corado pelo frio e os olhos cintilantes.

Foi depois de uma daquelas saídas que Justin se deu conta de que o Natal estava próximo e que Drew esperaria sem dúvida um presente da sua parte. Podia encarregar um dos criados para que comprasse algo para o rapaz, mas parecia-lhe demasiado impessoal... e insatisfatório.

A única pessoa que podia saber o que Andrew queria de verdade era Sarah, mas Justin não lhe tinha dirigido a palavra desde a noite da sua chegada. Ao recordar a sua brusca reacção à sua preocupação naquela noite, não se surpreendia que estivesse a fugir dele. Sabia que dependia dele dar o passo seguinte. E emendar o seu comportamento.

Decidiu tomar cuidado com o seu aspecto, coisa que já não fazia há meses. No entanto, depois de olhar-se uma vez ao espelho do seu quarto, não voltou a fazê-lo. Vaidade, reconheceu, e não permitiu que os seus olhos voltassem a pousar-se no seu reflexo.

Desceu com cautela a majestosa escada. Da sua posição, podia ver quase todas as salas formais e, pela primeira vez, deu-se conta das mudanças operadas por Sarah desde a sua chegada.

Quase parecia a mansão que recordava da sua infância.

A velha casa resplandecia. A madeira e o cobre refulgiam, cada mesa abrilhantada com uma capa fresca de cera e o aroma a essência de limão impregnava o ar. Em todas as salas ardia um bom fogo e os incontáveis vidros dos candelabros venezianos cintilavam à luz.

 

Sentia-se afligido pela generosidade de Sarah, sobretudo pelo dinheiro que tinha gasto em Wynfield Park e nos seus arrendatários. Naquele momento, o conde compreendeu que estava ainda mais em dívida com a sua esposa. Não só a um nível económico, mas pessoal.

- Justin?

Sarah estava de pé na soleira do grande salão. Atrás de si trabalhava um grupo de criadas. Sem dúvida tinha estado a dirigir as suas tarefas antes de ouvir o passo inconfundível de Justin na entrada.

Usava um vestido simples de lã cinzenta, muito apropriado para as tarefas da casa. O seu cabelo loiro, excepto pelos caracóis que acariciavam a sua testa e o seu rosto, estava coberto com uma touca. Era a primeira vez que a via daquela maneira, pensou Justin, e inconscientemente sorriu perante a tentativa de Sarah de assumir o ar adequado de matrona.

Mas era apenas uma tentativa, pensou. Por alguma razão, parecia mais jovem com a touca, embora o efeito devesse ser contrário. Talvez se devesse ao rubor do seu rosto e ao brilho de excitação nos seus olhos, um brilho muito parecido com o de Drew.

Aquela era a Sarah que recordava, compreendeu de repente. Exactamente como tinha imaginado durante aqueles meses solitários em Espanha, antes de receber a carta que tinha desfeito os seus projectos de vida em comum.

Deliberadamente, Justin desviou o olhar do seu rosto, fingindo contemplar as mudanças visíveis à sua volta.

- Um excelente trabalho, Sarah - elogiou finalmente. - Nunca pensei que a casa pudesse recuperar o seu antigo esplendor.

Voltou a olhar para ela a tempo de ver como o rubor das sùas maçãs do rosto se intensificava. Como consequência do seu elogio, pensou. E tinha havido muito poucos elogios, disse para si, depois do muito que Sarah fazia por ele.

Tinha estado demasiado absorto na sua própria dor. Não só a física, embora tivesse sido bastante aguda. Tinha sentido demasiado orgulho para reconhecer o que aquele casamento significava para ele em termos financeiros. E, pensou, demasiada amargura por Sarah se ter apaixonado loucamente por outro homem, há cinco anos.

- É uma casa lindíssima - declarou Sarah.

- Agora é - respondeu Justin com suavidade. Graças a ti.

- Tinha pensado... - começou a dizer, olhando para ele. - Quero dizer, esperava que, se não te importares, é claro... Drew e eu pudéssemos passar aqui o Natal. As estradas estarão intransitáveis nesta altura. Tivemos sorte na nossa viagem para a capital, mas pode ser que o regresso não seja tão fácil.

- Esta casa é tua, Sarah. Sobretudo agora...

Fez uma pausa, novamente fascinado pelo efeito das suas palavras. Sarah inspirou fundo e os seus seios ergueram-se sob o corpete justo de lã. E, por incrível que parecesse, o seu corpo reagiu àquele pequeno movimento com uma erecção imediata que, conforme receava, era perceptível. De novo, desviou o olhar do seu rosto.

- Tenho que te pedir um favor - disse-Lhe, recordando a sua missão.

- Perguntava-me o que teria tirado o lobo da sua toca.

Voltou a olhar para ela. Estava a brincar, compreendeu, ao ver o leve esgar dos seus lábios. No entanto, aproximava-se bastante da verdade. Tinha-se retirado para os seus aposentos como um idoso inválido. E não o era. Talvez os seus movimentos fossem torpes, mas já não estava doente. A inflamação do coto tinha desaparecido por completo e sentia-se muito melhor. Suficientemente forte para não incomodar os seus criados fazendo-os levar-lhe a comida ao seu quarto.

- Será mais um urso com uma garra ferida, diria eu - respondeu. - Poderás perdoar o meu comportamento na noite da tua chegada?

- Perdoar-te?

- Fui grosseiro. E não te dei as boas-vindas.

- Estava a invadir a tua privacidade - respondeu Sarah. - Se alguém necessita de pedir perdão... começou a desculpar-se.

- Vais contar-me a verdadeira razão da tua visita? - perguntou.

Os seus olhos abriram-se com surpresa, mas logo de seguida tentou ocultar aquela expressão desviando o olhar. Justin soube pela sua reacção que as suas suspeitas estavam certas.

- Não sei a que te referes - respondeu Sarah, erguendo ligeiramente o queixo.

- O teu pai fez alguma coisa a Drew?

- Não - negou em seguida. - É claro que não. Brynmoor nunca faria mal a Drew.

- Andrew não tem tanta certeza disso.

- Eu sei - reconheceu. - Mas...

Inspirou outra vez e Justin manteve os olhos fixos no seu rosto, recordando o efeito que o leve movimento dos seus seios lhe tinha produ zido. Não podia permitir-se apaixonar-se outra vez por Sarah Spenser. Não lhe agradaria.

- Ainda não confias em mim, Sarah? - perguntou em voz baixa. - Juro-te que sei guardar uma confidência.

- Não tenho a menor dúvida disso - disse-lhe, e fez uma pausa. - Mas não tenho nenhuma confidência a fazer. Mencionaste um favor?

Não fazia sentido insistir, tendo em conta a determinação de Sarah. Não podia obrigá-la a confessar-lhe por que tinha fugido.

- Trata-se de Andrew. Vai sem dúvida esperar que lhe ofereça um presente, mas não me ocorre nada de que possa gostar. Receio que ir às compras. - hesitou, imaginando as ruas naquela época do ano, lotadas de gente, apesar do frio.

- Seria difícil para ti - concluiu Sarah por ele. O seu olhar era tão sereno como a sua voz. Não havia um rasto de piedade pela impossibilidade de Justin se aventurar pelas lojas. Simplesmente tinha declarado aquele facto.

- Sim - respondeu o conde.

- E queres que eu o compre por ti.

- Importas-te?

- É claro que não - disse- Lhe. - Diz-me o que tens em mente.

Quase contra a sua vontade, os seus lábios formaram um sorriso.

- Esperava que tivesses algo a sugerir-me - reconheceu.

- Havia algo... - começou a dizer, depois moveu a cabeça. - Mas receio que Drew não tenha chegado a dizer-me. Algo que só Wynfield podia dar-lhe. Penso que foi o que disse.

- Algo que só eu podia dar-lhe?

Sarah assentiu.

- Não te mencionou nada?

- Não - respondeu Justin, tentando recordar alguma insinuação de Drew.

- A subtileza não é o seu forte - sugeriu Sarah. - Suspeito que se tocares no assunto...

- Não resistirá à oportunidade de me dizer.

- Certamente, não - corroborou Sarah - Drew adora-te, deves sabê-lo - acrescentou.

- Drew tinha uma grande necessidade de atenção masculina que os dois já reconhecemos - disse Justin. - E um fascínio grotesco pelas partes do meu corpo que perdi, assim como uma curiosidade natural sobre o meu percalço.

Sarah não disse nada por um momento, mas o seu olhar era sombrio, os seus lábios rígidos.

- Lamento - disse finalmente. - Falarei com ele.

- Não, Sarah. Céus, não queria dizer isso. A franqueza de Andrew é melhor que a alternativa.

Justin não tinha tido intenção de sugerir que devia castigar Drew pela sua curiosidade natural, mas as suas palavras tinham albergado um rasto de amargura.

- A alternativa?

- Fingir que nada mudou - disse finalmente.

- Que... é imperceptível.

- Ou sem importância - continuou Sarah. Fez-se de novo silêncio. Justin tinha revelado demasiadas coisas, tinha dito demasiado, e Sarah era mais ardilosa do que pensava.

- É claro que não tem importância - declarou, animando o tom, detestando a auto-compaixão que detectava em si mesmo. - Afinal de contas, sobrevivi. Acredita em mim, agradeço ter sobrevivido.

- Acredita em mim - respondeu Sarah em voz baixa. - Eu também agradeço por teres sobrevivido.

Olhou para ele durante apenas mais um segundo e depois virou-se e desapareceu no salão. Justin ouviu como conduzia as criadas nas suas tarefas, num tom muito diferente da suave afirmação que acabava de expressar. Eu também agradeço por teres sobrevivido".

Talvez se sentisse agradecida para o bem de Drew? ", pensou. Mas mais tarde, a sós no seu quarto, ao recordar o que os seus olhos tinham reflectido fugazmente, perguntou-se se a sua preocupação por Drew tinha realmente algo a ver com o que tinha dito.

Nem Andrew nem Sarah o tinha urgido a reunir-se a eles na Véspera de Natal. No entanto, ele tinha pedido ao seu criado que descobrisse a que horas se serviria o jantar, mesmo antes de tomar uma decisão. Quando se decidiu, vestiu-se com o mesmo cuidado que tinha tido na manhã em que tinha saído em busca de Sarah para lhe perguntar sobre um presente para Andrew. E naquela ocasião resistiu a olhar-se ao espelho de corpo inteiro do seu quarto:

Apesar de ter proporcionado a Drew muitas oportunidades para que pedisse o seu presente, continuava sem saber a que se tinha referido ao mencionar algo que só Wynfield lhe podia dar. Esgotado o tempo, Justin tinha enviado um criado às lojas. Os doces e o brinquedo mecânico com que tinha voltado pareciam-lhe pouca coisa, mas, a não ser que pedisse um empréstimo à sua esposa, teriam que servir.

Ao descer as escadas, ouviu a gargalhada de Andrew. Certamente estavam a entreter-se com jogos de mesa antes do jantar, uma tradição da Véspera de Natal. Aquela era uma das poucas ocasiões do ano em que as crianças participavam de diversões normalmente reservadas aos adultos.

Atraído pelos risos de Drew, Justin atravessou o vestíbulo e parou na soleira do salão. Não se tinha enganado. Estavam absortos num animado jogo de palitos, com as suas cabeças loiras muito juntas. Enquanto os observava, a gargalhada de Sarah uniu-se à do seu filho, enchendo a divisão com uma alegria há muito tempo esquecida naquela casa.

Como se tivesse notado a sua presença, Sarah dirigiu os olhos repentinamente para a soleira da porta e viu o seu rosto. As suas gargalhadas extinguiram-se e as suas pupilas dilataram-se de assombro. O que Justin viu neles, no entanto, não foi recusa.

Antes que pudesse analisá-lo por completo, Drew gritou:

- Wynfield!

Correu para a soleira e Justin preparou-se para a investida. No entanto, naquela ocasião o menino parou e pegou na sua mão para conduzi-lo para a mesa de jogos.

- Não quero incomodar - disse Justin a Sarah.

- Na tua própria casa? - inquiriu, sorrindo-lhe.

- Eu diria que não. Ficamos muito contentes por te juntares a nós. Feliz Natal.

- Obrigado - respondeu em voz baixa.

- Ganhei a Sarah - anunciou Drew.

- E sem piedade - reconheceu Sarah alegremente. - Gostarias de pôr à prova a tua destreza?

- Sou um rival temível - disse o conde a Andrew enquanto se sentava numa das cadeiras que rodeavam a mesa. - Vamos lá.

O serão passou-se numa sucessão de manjares deliciosos, jogos e gargalhadas. À medida que passavam as horas, a tensão existente entre ele e Sarah pareceu dissipar-se. Era demasiado fácil recordar outros serões como aquele, nos quais olhava para ele com olhos sorridentes. E demasiado fácil esquecer o que os tinha separado.

Não teria que ter sido assim. Não com Drew como aviso constante. Mas o menino tinha ganho o seu próprio lugar no coração de Justin e já não era simplesmente o símbolo da infidelidade da sua mãe.

- O que fazemos agora? - perguntou Drew quando terminaram um animado jogo de adivinhas.

- Talvez devêssemos pensar em ir para a cama

- disse Sarah. - Pelo menos, tu - corrigiu-se, olhando para o conde.

 

O rubor que repentinamente tingiu o seu rosto não tinha nada a ver com o frio. No entanto, a sua gargalhada ainda estava presente nos seus olhos azuis como a noite. Talvez fosse efeito da luz das velas, pensou Justin, ou um reflexo do seu vestido de cetim cor de safira.

Sarah não tinha touca naquela noite, notou com regozijo. Tinha adornado o cabelo com um simples gancho de diamantes e safiras que refulgia cada vez que voltava a cabeça. E nunca tinha estado tão bonita.

Ao dar-se conta de que continuava a olhar para ela, virou a cabeça como se procurasse a garrafa de vinho do Porto que estava sobre a bandeja. Ainda não o tinha provado. Se Sarah o provasse iria subir-lhe à cabeça. Seria melhor que ele a limpasse com um bom gole.

Afinal de contas, já tinha cometido o mesmo erro numa ocasião, o erro de acreditar que o que via nos olhos de Sarah Spenser era um reflexo do que sentia por ela. Naquela noite as suas emoções não eram mais que o produto da sua solidão e isolamento.

Não o surpreendia a sua forte reacção física à beleza de Sarah. Há meses que não estava com uma mulher. Antes mesmo de ser ferido.

Apesar da sua invalidez e da sua contrariedade natural a expor o seu corpo aleijado a qualquer pessoa, e muito menos à frágil sensibilidade de uma mulher, os seus desejos e necessidades físicas não tinham desaparecido. E, devido à pro longada abstinência, tinham-se agudizado. E continuariam a agudizar-se, pensou, bebendo um longo gole de vinho, se passasse mais tempo com a sua esposa.

A sua esposa. Uma esposa a quem não tinha tocado durante as longas semanas de casamento. Nem sequer lhe tinha roçado os dedos, salvo acidentalmente, talvez.

Observou as suas mãos naquele momento, enquanto cortava o pudim de Natal, pondo uma fatia num prato para Andrew e outra para ele, certamente. Realizava aquela simples tarefa com a mesma graça e economia de movimentos com que escrevia nos livros de contas do seu pai ou alisava o cabelo de Andrew.

Tinha observado o seu diálogo fácil naquela noite. Drew, encostado sobre o seu joelho, escutava cada palavra que ela dizia. Sarah com a mão à volta do rosto de Drew. E Justin envergonhava-se de reconhecer que tinha sentido ciúmes do seu afecto sincero. Os mesmos ciúmes que o tinham impulsionado a sair do seu quarto solitário, esperando pela sua aceitação.

Uma aceitação do que era e tinha deixado de ser. A de Sarah parecia tão genuína como a de Drew. Nenhuma vez lhe tinha recordado, com palavras ou feitos, a dívida que tinha para com ela. Nem tinha insinuado que o considerava menos homem que o Justin de há cinco anos.

- Boa noite; querido Wynfield - despediu-se Drew. - Feliz Natal.

Justin levantou os olhos do seu copo vazio e surpreendeu o menino de pé, junto à sua cadeira. Sem pensar, inclinou-se para a frente e apertou-o contra ele.

- Feliz Natal, Drew - sussurrou.

 

O menino permaneceu contra o seu peito por um momento, feliz, antes de recuar para olhar para ele.

- Tenho um presente para ti - revelou-lhe. Fi-lo eu mesmo.

- A sério? - disse Justin, sorrindo.

- Tens... - Drew fez uma pausa, lançando olhares nervosos a Sárah, consciente de que a pergunta que queria formular estava proibida. Quero dizer... - começou de novo, em voz muito mais baixa. Hesitou novamente.

- Se tenho um presente para ti? - perguntou-lhe o conde. Drew assentiu. - Um pequeno presente - confessou Justin. - Não sabia o que querias exactamente.

- Sarah diz que não se deve dizer o que queremos. Não sei como as pessoas vão saber se não lhe dissermos - disse Drew, num tom razoável.

- Eu também não - corroborou Justin, sorrindo.

- Fiz um marcador para os teus livros - sussurrou Drew. - Só to poderei dar amanhã.

- Tenho a certeza que é uma obra de arte - disse o conde, quase com a mesma suavidade.

- Assim saberás sempre onde paraste a leitura.

- Justin assentiu, sentindo um nó na garganta. Foi Sarah quem o sugeriu - confessou Andrew. Mas fui eu que o fiz. E desenhei a Estrela. Pensei que gostarias porque tenho a certeza de que sentes a sua falta.

- Será a minha posse mais apreciada - disse Justin.

- Foste tu que fizeste o meu presente?

- Não... todos - reconheceu, recordando o brinquedo e os doces escolhidos pelo seu criado. Justin sabia no fundo do seu coração que não era aquilo que lhe deveria dar, mas não tinha adivinhado porquê. Agora já sabia.

- Tenho a certeza de que são maravilhosos, de qualquer forma - continuou Andrew para reconfortá-lo. - E tens algo para Sarah? Brynmoor não se lembra do Natal, sabes? Ela apenas recebe o que eu lhe dou. E as felicitações dos criados, é claro.

Justin deu-se conta de que não tinha pensado em comprar um presente para Sara. Eram adultos e havia demasiadas coisas entre eles. Demasiada dor e sentimentos que Drew não compreendia.

- Significaria mais se tu mesmo o tivesses feito

- aconselhou-Lhe Drew. - Sarah adora presentes pessoais porque levam uma parte de ti neles.

Justin assentiu, mas, por alguma razão, as palavras do menino tinham feito estremecer a sua consciência.

Realmente, Sarah não tinha ninguém. Um pai louco que não sabia em que ano nem em que dia vivia. Um filho demasiado jovem para compreender as relações intrincadas dos adultos que o rodeavam. E um marido que não se tinha lembrado de lhe fazer um presente de Natal, nem sequer pelo que tinha feito por ele.

- Está na hora de te ires deitar, Drew - disse Sarah em voz baixa.

Os dois levantaram os olhos, sobressaltados pela sua voz, e viram que estava de pé, junto à cadeira. de Justin.

- Vou levar-te para cima e acomodar-te - disse-lhe. - E quando acordares, será Natal.

Estava a sorrir para o pequeno, evitando conscientemente os seus olhos, pensou Justin.

 

- Boa noite - disse a Drew. Incapaz de resistir, Justin aproximou os dedos do rosto redondo do menino, provocando um sorriso. Depois, Andrew pegou na mão da sua mãe e saiu com ela do salão. Justin podia ouvir os comentários de Drew enquanto subiam as escadas.

Serviu-se de outro copo de Porto da garrafa que o mordomo tinha deixado junto à sua cadeira. Um vinho forte e uma noite inquieta, ou pensamentos de Sarah a dar voltas à sua cabeça durante toda a noite. Dadas aquelas opções, aproximou o copo dos seus lábios e esvaziou-o de um só gole, como uma dose de remédio. Talvez o fosse. Pelo menos, preventivo.

Justin não podia tirar as palavras de Drew da cabeça, nem as imagens que tinham evocado. Sarah sozinha. Racionalmente, não sabia por que devia sentir pena de Sarah Spenser. Era uma das herdeiras mais ricas da Inglaterra e podia comprar o que quisesse ou necessitasse.

E consciente como estava das circunstâncias do conde melhor do que ninguém, salvo o seu conselheiro, não esperaria nenhum presente dele. Sarah não se sentiria decepcionada. Compreendia os limites da sua relação tanto quanto ele. Drew, no entanto...

Drew sentir-se-ia decepcionado, reconheceu. Por Sarah, evidentemente, e decepcionado com ele. Justin sabia, e perturbava-o ainda mais pensar nos anos em que Sarah não tinha tido ninguém que lhe fizesse um presente de Natal.

Ela tinha-o querido assim, disse para si com amargura. Mas depois do serão que acabavam de desfrutar, a lembrança da sua infidelidade parecia vazia, sem força. E, por alguma razão, não era uma desculpa suficientemente boa para justificar o seu descuido. No entanto, era demasiado tarde para corrigi-lo.

Sarah adora presentes pessoais porque levam uma parte de ti neles. Talvez fosse demasiado tarde para lhe fazer o seu próprio presente, mas naquela casa havia coisas que tinham uma parte dele. Pelo menos, uma parte do que Justin tinha sido, uma criança como Drew.

Levantou-se, colocou a muleta sob o braço e atravessou a divisão. Quando abriu a porta, o vestíbulo estava escuro. Até os criados se tinham já deitado. Começou a caminhar para as escadas de trás. Eram estreitas e altas, e movia-se nelas com mais dificuldade, mas também tinha menos possibilidades de se encontrar com alguém. Tinha-se afastado apenas uns passos pelo corredor quando compreendeu que estava junto à porta do quarto da sua mãe. Um quarto onde não tinha entrádo desde a sua morte, há mais de dez anos.

Obedecendo ao mesmo impulso que o tinha tirado do seu quarto, pôs a mão na maçaneta e rodou-a. Esperava que estivesse fechada à chave, mas não foi assim. Ao abrir a porta, o toucador da sua mãe apareceu perante os seus olhos, aparentemente intacto.

Até cheirava a ela, e os leves aromas despertaram lembranças da sua infância. Algumas vezes tinha tido permissão para ver como se vestia para um baile, e a sua criada penteava-lhe o cabelo e ajudava-a a escolher uma tiara da delicada caixa onde os guardava.

E quando se virava para procurar a sua aprovação, Justin pensava sempre que era a criatura mais linda de toda a existência: Inspirou profundamente e quase pôde sentir a sua presença nas suaves essências de pós e de lavanda. Era quase como se o seu fantasma estivesse ali.

Sorriu pela sua estupidez. Demasiado Porto, pensou, aproximando-se do toucador. Ali não haveria nada mais que bagatelas, sem dúvida.

Robert ou o seu pai, teriam vendido tudo o que tivesse de valor. Acendeu as velas que havia junto ao espelho e abriu a gaveta, procurando entre os adornos de bijutaria. Um alfinete de cerâmica que tinha usado numa ocasião para assistir a um baile de máscaras. Uns ganchos de marfim, que ficavam lindos no cabelo escuro da sua mãe, mas que não serviriam para Sarah. E um colar de pérolas pequenas e irregulares.

A sua mão hesitoú e depois pegou nelas. As pérolas brilharam suavemente à luz, mais cinzentas que brancas. Tinha-as comprado à sua mãe, no dia do seu aniversário, recordou com certa surpresa, pela nitidez daquela parte do seu passado.

Deveria ter mais uns anos que Drew e tinha-as comprado a um homem com o seu próprio dinheiro. O colar tinha-lhe parecido a jóia mais linda que tinha alguma vez visto, sobretudo quando a sua mãe o tinha posto à volta do seu pescoço branco esbelto. Tinha ido ao seu quarto, na noite seguinte, mostrar-lho. Estava vestida para um jantar e tinha posto as suas pérolas.

Naquele momento, compreendeu que certamente as teria tirado ao sair do seu quarto. No entanto, Justin tinha a certeza que as valorizava tanto como o conjunto de diamantes e rubis que o seu pai Lhe tinha também oferecido pelo seu aniversário. Tinha-as usado com orgulho no jantar e tinha sido a mulher mais linda daquele serão.

Sorrindo por aquela lembrança, Justin deixou que o colar voltasse para a gaveta. Depois, os seus dedos hesitaram novamente e recuperou as contas pequenas e irregulares com um rápido puxão. Segurou o colar na palma da sua mão por um momento e em seguida guardou-o no bolso do colete.

Voltou a atravessar a divisão, fechando a porta com cuidado ao sair. Encerrando lembranças que não eram infelizes, simplesmente descoloridas, como um querido tecido muito usado e apreciado. Apesar dos problemas financeiros que o seu pai tinha enfrentado, e naquele momento Justin sabia que tinham sido graves, Robert e ele tinham sido imunes aos seus efeitos graças ao amor da sua mãe.

Sarah tentava proteger Drew da mesma forma. Das intrigas. De descobrir a verdade sobre o seu nascimento. E não podia negar a Drew o que ele mesmo tinha desfrutado, uma infância tão livre de preocupações quanto os adultos da sua vida tinham podido oferecer-lhe.

Ao pensar em Drew, recordou os motivos daquela incursão. Sem dúvida encontraria algo apropriado para dar ao menino nos quartos do último andar, na creche e na sala de aula. Um livro que o tinha encantado quando era pequeno, pelo menos.

Justin não soube se se tinha distraído devido à escuridão ou à sua pressa, mas quando a ponta da muleta escorregou de um dos degraus, não pôde fazer nada para deter a sua queda. Só tinha subido um terço das escadas, por isso, não se tinha ferido gravemente. Só umas quantas nódoas negras... e um duro golpe no seu orgulho.

Acabou deitado ao pé das escadas, apoiado nelas de cintura para cima. A muleta tinha caído ruidosamente e estava sobre o chão de madeira, fora do seu alcance.

- Raios - sussurrou, mais zangado que ferido.

- Magoaste-te?

O sussurro foi tão inesperado que se inclinou para a frente, com as mãos num dos degraus, antes de responder.

- Só no meu orgulho - respondeu com sinceridade.

Sarah aproximou-se pelo corredor e deixou o candelabro que levava sobre uma mesa baixa. Depois, agachou-se junto a ele. À luz trémula das velas, quase não podia distinguir os contornos do seu rosto. Esperava que a visão dela também não fosse melhor.

- O que aconteceu? - perguntou Sarah. Desviou o olhar para o alto da escada antes de voltar a fixar-se nele. Já a via melhor. Tinha o rosto sereno; e não se ofereceu para ajudá-lo a levantar-se, pelo que lheh estava eternamente agradecido.

- Acabei o vinho do Porto - disse-lhe, e observou como curvava os lábios.

- Estás ébrio - sugeriu, sorrindo.

A sua voz, assim como o seu sorriso, continham uma nota de alívio. Talvez por não estar ferido ou por não se ter refugiado na mesma indelicadeza com a qual tinha reagido quando ela tinha demonstrado preocupação pela sua saúde.

- Um pouco - mentiu.

- Mas o que fazias aqui? - inquiriu, voltando a olhar para cima.

- Procurava mais vinho do Porto? - sugeriu. Naquela ocasião, Sarah riu-se, e o robusto nó de mortificação que lhe tinha oprimido o peito desde que tinha ouvido a sua voz desfez-se. Pelo menos, ainda a fazia rir. E talvez nunca suspeitasse como era humilhante para ele que o visse assim.

- Normalmente, chamam-se os criados quando precisamos de alguma coisa - disse-Lhe num tom vivo. - És o conde. E penso que até a esta hora acudiriam a um pedido teu.

- Prefiro andar pela casa sem que ninguém me veja - respondeu Justin. - Assim há menos intrigas, tu sabes - e compreendeu, ao ver a sua expressão, que tinha escolhido a palavra errada. Errada pelo menos para aquela mulher. O mexerico era um tema cruel e doloroso para ela, não objecto de brincadeira.

- Os teus criados estão bem adestrados para isso - disse-lhe.

Levantou-se com movimentos graciosos apesar da volumosa camisa de dormir que tinha vestida. Era de gola alta e mangas compridas, para se proteger do frio, embora suficientemente fina para que, à contraluz, Justin conseguisse distinguir o contorno do seu corpo. Continuava a ser tão esbelto como o de uma rapariga, apesar de ter dado à luz um filho.

De novo, o seu corpo reagiu com uma erecção imediata. Aborrecido pela sua falta de controlo, também ele se levantou, apoiando-se na parede com uma mão.

 

Sarah inclinou-se e recuperou a muleta do chão. Aproximou-se para lhe dar e Justin hesitou um momento, procurando nos seus olhos algum rasto de pena. Ao não encontrá-lo, pegou na muleta; colocando-a sob o braço antes de separar a mão da parede. Em seguida, quase por vontade própria, aquela mesma mão fechou-se em torno do antebraço de Sarah.

Sarah contemplou os seus dedos, morenos em contraste com o branco da sua roupa. Lentamente, levantou os olhos. Estavam muito abertos e escuros, mas continuava sem haver repulsa neles. Nem pena. Nada do que tinha esperado ver se alguma vez se atrevesse a tocar outra vez naquela mulher.

Puxou-a, e Sarah deu o passo necessário para que a sua boca pudesse descer sobre a sua. E não houve hesitação na sua resposta.

Justin apercebeu-se que, no fundo, sabia que voltaria a beijar Sarah. Sempre tinha sabido. E que seria o mesmo. Que desencadearia uma onda de fogo por todo o seu corpo, como da primeira vez que a tinha beijado, às escondidas, e quase com o mesmo temor que naquele instante.

Os lábios de Sarah tremeram sob os seus, tão suaves e inexplorados. Antes, com as restrições da sua idade e posição, aquele toque de lábios teria sido suficiente. Teria que ser suficiente. No entanto, agora não...

Ele atravessou a frágil barreira com a sua língua, exigindo acesso e resposta. E finalmente obteve-a. A sua boca abriu-se, exalando o seu doce fôlego, ao mesmo tempo que aceitava a invasão da sua língua. E conquistou-a. Sarah era uma mulher, a sua esposa, e não uma jovem inexperiente.

Soltou a mão do seu braço e deslizou-a pelas suas costas para a apertar com mais firmeza contra si. O seu corpo era dócil, fundia-se com o seu, dava as boas-vindas às suas carícias. Ao dar-se conta, aprofundou o beijo, recorrendo a toda a experiência adquirida durante longos anos, desde que tinha beijado Sarah Spenser pela primeira vez.

Então tinha tremido nos seus braços, como naquele momento. Tinha respondido ao seu beijo, movendo a boca com avidez contra a sua. Tão ansiosa por ele, parecia, como ele por ela.

Podia sentir os seus seios, com os seus pequenos mamilos endurecidos pelo frio ou pelo desejo, contra o seu peito. Deslizou a mão ainda máis para baixo, rodeando a suavidade dos seus glúteos, apertando-a contra a sua erecção. Desejando-a tão desesperadamente que quase estava louco de necessidade. De amor...

Sarah abriu a boca e proferiu uma exclamação. Afastou-se, e o impulso quase o fez perder o equilíbrio. Quando Justin abriu os olhos, Sarah estava a olhar para ele. Com as pupilas dilatadas, como se estivesse emocionada. Levou os dedos aos lábios, que estavam cheios, como se os tivesse beijado bem. E assim tinha sido, reconheceu.

- O que se passa? - perguntou-lhe em voz baixa.

Tinha gostado. Era suficientemente experiente para sabê-lo. Não era há assim tanto tempo celibatário para não conseguir reconhecer a natureza da sua reacção. O corpo de Sarah tinha reagido intensamente ao beijo e à sua proximidade, como ele. E de repente...

- Não - disse ela.

Cruzou os braços a modo de escudo sobre os seus seios, esfregando as mangas da camisa de dormir com as mãos, como se tivesse frio. Estava a tremer, compreendeu Justin, e o seu corpo

estremecia com tanta força como se estivesse a delirar.

- Sarah? - inquiriu. Deu um passo para ela e a sua muleta ressoou sobre o chão de madeira. Um ruído demasiado brusco entre os seus sussurros.

Sarah não lhe respondeu. Virou-se e afastou-se a correr, deixando ver uns tornozelos esbeltos sob a prega da sua camisa de dormir. Fechou com força a porta do seu quarto e o ruído perturbou a quietude da casa.

E Justin voltou a ficar só, no corredor. Por um momento, pensou que aquilo não tinha acontecido, que Sarah não tinha estado ali, que tinha sonhado.

Mas não tinha sonhado. A dor do seu sexo confirmava que a mulher que tinha abraçado não tinha sido fruto da sua imaginação. Tinha sido real e complacente, até que, de repente...

Ficou um momento de pé, tentando compreender o que tinha acontecido. E não pôde. Finalmente, virou-se e, com mais cuidado naquela ocasião, subiu os degraus estreitos das escadas de serviço, desaparecendo na escuridão fria e solitária.

 

- Tenho que voltar para Longford - disse Sarah.

Tinha o rosto composto, mas demasiado tenso, quase angustiado. E os seus olhos azuis estavam fechados.

- No dia de Natal? - perguntou Justin com incredulidade.

Apesar de se ter recriminado na noite anterior pelo que tinha acontecido, a decepção formou um nó no seu estômago. Continuava sem entender por que Sarah se tinha ido embora a correr, mas não tinha conseguido esquecer como tinha reagido ao seu beijo. Tinha esperado poder passar o dia com ela e com Andrew. Naquele momento, era evidente que a sua fuga não tinha terminado no seu quarto.

- O meu pai... - Sarah interrompeu-se, quase como se a sua garganta a impedisse de pronunciar as palavras. Fechou os lábios, mordendo fugazmente o inferior antes de continuar a falar. Há momentos em que está mais confuso do que o normal. Às vezes até fica violento.

- De certeza que pode esperar que...

- Não - interrompeu-o. - Os criados não podem controlá-lo quando fica assim. Mandaram-me chamar, mas só recebi a sua mensagem esta manhã.

- Se pudesse esperar uns dias... - começou a dizer.

- Receio que nem sequer umas horas. Tenho que partir para Longford agora mesmo se quero chegar antes do anoitecer.

Justin não podia dizer se Sarah lamentava ou não aquele imprevisto. Já se tinha virado para a porta do seu quarto quando lhe perguntou:

- E Drew?

A pergunta deteve-a e não respondeu durante um longo momento, nem sequer quando virou o rosto para ele. A sua hesitação reforçou a suspeita de que a razão da sua viagem a Londres, em pleno Inverno, e com a ameaça de uma tempestade de neve, tinha tido algo a ver com o menino. Teria tido outro encontro mais perigoso com os rapazes da povoação? Se tinha acontecido, não o tinha mencionado durante todos os dias que tinham passado juntos.

- É Natal - recordou-lhe, esperando minar a sua determinação.

- Sugeres que deixe Drew aqui?

Não tinha querido sugerir isso, mas deu-se conta de que não havia motivos para não o fazer. Drew não se importaria. Tinha medo do marquês, embora não quisesse reconhecê-lo. E era Natal.

- Por que não? - perguntou Justin. Sarah continuava a olhar para ele como se tentasse decidir-se. - Levá-lo-ei para casa quando voltar. Ou...

- naquela ocasião foi ele quem hesitou, perguntando-se se tudo voltaria a ser como dantes em Longford. Se continuariam distanciados e alienados como, recordou, ele mesmo tinha querido.

- Ou podes voltar para cá quando tiveres resolvido o problema do teu pai.

Não soube o que o tinha impulsionado a fazer aquela sugestão. Uma tendência para o masoquismo, talvez. Claro que, depois do que tinha acontecido na noite anterior, viver com Sarah sob o mesmo tecto, fosse qual fosse, ia ser muito mais difícil.

- Voltarás logo para Longford? - perguntou.

Quando o médico me der permissão", pensou Justin. Mas era incapaz de reconhecê-lo. Não queria evocar coisas nas quais não queria pensar. Nem queria que Sarah pensasse nelas, sobretudo depois do seu beijo da noite anterior.

- O quanto antes - prometeu-lhe. - Por que não deixas que Andrew fique aqui comigo?

- Tens a certeza?

- Penso que seria o melhor para todos. Sarah assentiu a contragosto. Sabia que Justin

tinha razão, mas o conde também compreendia a falta que iria sentir de Drew. Como ele, se Sarah levasse o rapaz com ela para Longford. A casa enorme parecer-lhe-ia mais fria e solitária que antes da sua chegada.

- Então... não voltarei para Londres - disse Sarah. - Não há motivos para fazê-lo. A casa

está preparada, poderás pô- la no mercado quando desejares. E em Longford há sempre tantas coisas para fazer... - deixou a frase inacabada, sem afastar os olhos do seu rosto.

- Eu cuidarei de Andrew - prometeu-lhe, sabendo que isso era o que queria que fizesse. Era a razão pela qual tinha levado o menino para Londres.

Finalmente, Sarah assentiu. Justin tentou ver nos seus olhos a mulher que, tão fugazmente, tinha apertado nos seus braços, mas só viu ansiedade neles.

Deslizou a mão no bolso do seu casaco e tirou o presente que tinha embrulhado ao regressar ao seu quarto na noite anterior. Não com papel de seda e um laço, como os presentes que o seu criado tinha comprado para Andrew. Justin ti nha-se limitado a colocar o colar de pérolas de imitação, que certamente pareceriam ainda mais falsas à luz sóbria do dia; sobre uma folha de papel branco que tinha retorcido nos extremos. Depois tinha escrito o nome de Sarah nela. Parecia ridículo sobre a palma da sua mão. Sarah contemplou-o por um momento antes de olhar para ele nos olhos.

- Feliz Natal,Sarah - felicitou-a em voz baixa e viu como as lágrimas brilhavam nos seus olhos. - Não é grande coisa - advertiu-a,compreendendo com pesar como o seu presente era insignificante na verdade. Devia ter bebido mais Porto do que pensava para imaginar que Sarah, ou qualquer mulher,poderia querer aquilo. Eram da minha mãe - confessou-lhe,tentando pensar numa explicação lógica para o seu presente,receando,de repente,que pudesse parecer-Lhe ofensivo. - Comprei-as para ela quando tinha a idade de Drew. Pensei... - interrompeu-se, porque na verdade não podia explicar-Lhe o que tinha pensado ao escolher as pérolas de entre as bagatelas que ainda restavam da sua mãe.

Sarah voltou a olhar para o embrulho. Lentamente,tirou-o da palma da sua mão,mas não fez intenção de desenroscar os extremos do papel e ver o que Lhe tinha dado. Quando voltou a olhar para ele,tinha os olhos muito mais abertos do que dantes e já não havia lágrimas neles.

- Não tenho nada para ti - disse-lhe.

Justin sorriu,pensando no muito que já lhe tinha dado, reconhecendo instintivamente que nenhum dos dois queria recordar aquela dívida.

- Não esperava nada - tranquilizou-a. Sarah voltou a assentir e depois, quase como na noite anterior, virou-se e saiu do seu quarto, fechando a porta com suavidade ao sair.

- A tua primeira vara? - perguntou Drew. Os seus olhos brilhavam desde que o tinha convidado a entrar no seu quarto. Como na noite anterior tinha encontrado o presente perfeito para ele, estava impaciente por lho dar. Naquele momento, soube que tinha sido a escolha ideal.

Drew tinha-lhe dito que às vezes tinha permissão de Sarah para montar o seu pónei. Pela forma como tratava Estrela, percebia que gostava de cavalos e já era bastante crescido para aprender a montar. Justin lembrava-se quando Robert e ele passeavam satisfeitos, com os grandes cavalos, à volta do curral com eles, trotando sobre os seus lombos.

- E mostras-me como usá-la? - pediu Drew. Aquilo era parte do presente, é claro. A promessa de ensinar Andrew a montar.

Algo que realmente lhe agradava.

- Ou a não usá-la - corrigiu. - Quando entenderes o teu cavalo e ele te entender a ti, terás menos oportunidades para usar a vara. Será apenas um objecto que os cavalheiros usam.

Drew assentiu e voltou a olhar para a vara em mimiatura. Justin tinha-se esquecido da sua existência, mas ao vê-la na noite anterior, sobre a sua antiga cama na creche, tinha sabido que era perfeita para os seus propósitos.

- Obrigado - agradeceu Andrew, olhando para ele outra vez.

- Não tens de quê - respondeu o conde em voz baixa.

 

Levou a vara consigo, é claro, pegando com cuidado na mão esquerda antes de virar a maçaneta para sair do quarto. Atrás de si, Justin esboçou um sorriso. Pelo menos tinha acertado com ele, pensou, recordando os olhos de Sarah ao levantar o rosto do embrulho ridículo que Lhe tinha entregue.

- Vou recompensar-te, Sarah - sussurrou, com os olhos fixos no fogo. - Algum dia, juro-te que vou recompensar-te.

Durante todo o trajecto de volta a Longford, Sarah não deixou de pensar em Justin. No momento em que estavam prestes a recuperar parte do que tinha havido entre eles, a sua amizade - pelo menos, viu-se obrigada a partir.

E ele tinha duvidado dos seus motivos. Tinha-o lido claramente, naquela manhã, nos seus olhos. Claro que, depois do que tinha acontecido na noite anterior, por que não ia acreditar que estava a fugir dele?

Justin tinha-a beijado e a sua reacção tinha sido de pânico. E nem sequer podia explicar porquê. A sensação do seu corpo contra o seu, tão incrivelmente duro? Ou a sua mão nas suas ancas, empurrando-a para um contacto mais íntimo com ele.

Sarah tinha consciência do que acontecia. Apesar da sua virgindade, não era uma estúpida. E tinha vivido demasiados anos no campo para continuar a ser inocente sobre o que acontecia entre um homem e uma mulher.

Mas era óbvio que Justin não a tomava pela inocente que era na verdade. Conhecer algo inte lectualmente, de forma abstracta, era muito diferente da experiência física propriamente dita. E o que tinha acontecido na noite anterior tinha sido muito físico. E assustador, como tudo o que era desconhecido.

Mesmo assim, não compreendia por que tinha medo de Justin. Nunca lhe tinha feito mal e nunca lhe faria, mas, por mais excitante que tivesse sido, sentia falta de algo no seu encontro amoroso. Tinha sido demasiado repentino. E tinha-se sentido pressionada, como se Justin esperasse algo demasiado depressa.

Claro que não era culpa de Justin, reconheceu. Sarah era a sua esposa e não lhe tinha dado motivos para pensar que não receberia com agrádo as suas carícias. Fá-lo-ia. Céus, claro que o faria. Mas... aparentemente, Justin esperava que ela soubesse muito mais sobre o que aconteceria entre eles.

Se o seu casamento se consumasse... e naquele momento parecia inevitável dada a forçosa proximidade e o desejo óbvio de Justin de uma relação física, então a verdade sobre o nascimento de Andrew seria revelada. Para Sarah seria uma bênção, é claro, porque aconteceria de uma forma que não poderia considerar uma ruptura do seu juramento.

Então, por que tinha fugido? Voltou a olhar para o colar de pérolas. Estava no seu colo, sobre o papel que tinha o seu nome escrito. Tinha estado ali durante toda a viagem.

Tocou numa das pequenas contas irregulares com o dedo. Sorriu, recordando o que Justin lhe tinha dito. Tinha a idade de Drew quando as tinha escolhido para a sua mãe. E queria que ela ficasse com elas.

Não tinha a certeza do seu significado. Talvez apenas que Justin estava embriagado na noite anterior. Tinha-o confessado abertamente e ela tinha notado o vinho nos seus lábios.

Teria sido aquela a explicação do beijo e não a crescente proximidade que tinha imaginado durante o serão? Nem o perdão pelo que Justin pensava que ela tinha feito. Nem amor... nem sequer afeição. Tinha sido simplesmente o efeito de vinho em demasia?

Levantou os olhos das pérolas e olhou pela janela da carruagem, calculando a sua localização. Estaria em casa em menos de uma hora. De volta aos mesmos problemas que tinham ocupado os seus pensamentos e energias ao longo dos anos, desde que tinha quebrado o seu compromisso com Justin Tolbert. Preocupações com o seu pai, com Longford e Drew. E, naquele momento, com David Osborne.

Se o dinheiro era a única coisa que impediria David de ir aos tribunais e ganhar a custódia de Drew, então, dar-lhe-ia dinheiro. O que pedisse, pensou com ferocidade. Mas nunca, nunca daria Drew.

Sarah bateu à porta do quarto do seu pai, co lando a orelha à madeira sólida. Não se ouvia nada. E embora tivesse esperado, totalmente imóvel, não houve resposta. Perguntou-se se o seu pai teria finalmente adormecido, esgotado pelo que, segundo a mensagem de Dawson, o seu criado, tinham sido três dias de delírios e desvarios.

- Papá - chamou-o, mas também não houve resposta. Pegou na chave que a senhora Simkins lhe tinha dado, agarrou na maçaneta e rezou uma oração silenciosa antes de abrir a porta.

O quarto estava às escuras e em silêncio. Não havia velas, nem candeeiros. A tendência do seu pai de atirar objectos impedia-o. Sarah reuniu toda a coragem de que era capaz e atravessou a porta, fechando- a atrás de si.

Permaneceu de pé um momento, deixando que os seus olhos se adaptassem à penumbra. Distinguiu a cama alta e antiga, com as suas cortinas. E a escrivaninha e a cadeira do seu pai, próximas das janelas.

- Papá - voltou a chamá-lo.

Sabia que a sua voz não o despertaria mesmo que estivesse a dormir. O sono esgotado no qual caía depois de um daqueles ataques era tão pro fundo como um coma. Parecia não perceber os

ruídos ou a luz à sua volta. Numa ocasião, depois de um ataque violento, tinha dormido durante três dias e tinha acordado dócil, quase como uma criança.

Caminhou para a janela com a intenção de correr as cortinas para se assegurar de que o seu pai se encontrava bem. Enquanto se movia, partes de vidros ou porcelana rangiam sob os seus pés. No caminho, tropeçou com um objecto que não tinha visto e que não pôde identificar

Quando chegou às janelas,hesitou apenas um momento antes de levantar a mão e correr o tecido.

A luz ténue do entardecer entrou no quarto devastado. Não restava nada sobre as superfícies das mesas ou cómodas. Todos os objectos tinham sido atirados ao chão. Havia uma bandeja de comida derrubada,certamente deixada ali desde a última vez que Dawson tinha tentado dar de comer ao seu pai. Havia roupas espalhadas por toda a divisão, algumas delas cortadas ou rasgadas: Consciente da força inaudita que tinha o seu pai em momentos como aquele,não duvidou do que tinha acontecido.

Fortalecendo-se,caminhou para a cama alta.

Esperava encontrar o seu pai ali,a dormir,mas não foi assim. A cama parecia a única peça intacta do quarto,com a sua colcha de damasco totalmente lisa no meio do caos.

- Onde está esse bastardo filho da mãe?

Sarah sobressaltou-se ao ouvir a pergunta. Virou-se e viu o seu pai a emergir do canto mais escuro do quarto,com os seus olhos azuis,analisando-a sob as suas grossas sobrancelhas. Tinha o rosto contraído e saliva no canto do lábio.

Drew? pensou. Meu Deus,refere-se a Drew".

- Não está aqui - respondeu,tentando manter a voz calma. - Aqui não há ninguém mais do que eu, papá. Sou Sarah. Vim cuidar de ti.

A única coisa que sentia era terror e aquilo afligiu-a. Queria fazer o mesmo que na noite anterior, fugir de algo que não entendia. De algo que a assustáva e confundia. De algo desconhecido.

Mas aquele era o seu pai, que a tinha amado tanto a ela como à sua mãe. Tinha-a amado tanto que, depois da sua morte, nunca mais tinha sido o mesmo. O homem que Amelia e Sarah tinham adorado em pequenas tinha desaparecido.

- Vou matá-lo - disse o idoso. - Juro sobre a sepultura da tua mãe que o pisarei como o filho bastardo que é.

- Não está aqui, papá - repetiu Sarah em voz baixa, dando um passo para ele. - Não há mais ninguém aqui. Por que não deixas que te ajude a levar-te para a cama? Deves estar cansado.

- Não me enganes com as tuas palavras doces - disse. - Não voltarás a enganar-me outra vez.

- Papá - sussurrou Sarah, olhando para ele, tentando descobrir algo no seu olhar. - Sou eu. Não há mais ninguém aqui. Se te deitares, cha marei Dawson. Ele encarregar-se-á de tudo - prometeu. - Ele cuidará de tudo.

Brynmoor inclinou a cabeça, como se avaliasse o seu tom. Sarah fez um esforço por se manter imóvel. Estava suficientemente perto para perceber o seu odor corporal. O odor de um corpo velho e sujo misturado de forma nauseabunda com o aroma do perfúme que pôs, dos dias que passava na corte, quando tinha sido um dos favoritos do antigo rei.

- Não estás cansado? - perguntou-lhe. - Não dormes há tantos dias. Dawson disse-me. A tua cama está aqui.

Virou-se, e os olhos do seu pai seguiram o seu movimento. Realmente a cama oferecia um aspecto tentador. E depois de se deitar, adormeceria. Acontecia sempre o mesmo.

- Anda para a cama, papá, está na hora de descansar - sussurrou-lhe, e estendeu-lhe a mão. Quase como se não pudesse resistir ao convite, o seu pai pôs os seus dedos de veias marcadas sobre a sua mão. Estava a tremer, compreendeu Sarah, e ela não.

 

Já não tinha medo dele. Era ela quem detinha o controlo. Era a mãe que persuadia a criança cansada e insistia para que descansasse. Fechou os dedos à volta da sua mão e puxou-o. Brynmoor arrastou os pés para ela e para a cama.

Sarah desejou poder dar- lhe um banho e vestir-Lhe a sua camisa de dormir, mas não importava. Dormiria e, durante o seu sono, os criados limpariam os destroços que tinha causado. Com a mão que tinha livre, abriu a cama. Obedientemente, o idoso subiu o primeiro dos dois degraus que estavam junto à cama. Meteu-se debaixo dos lençóis que Sarah tinha levantado e depois deixou- se tapar.

Sarah deslizou os dedos pelo seu cabelo despenteado, alisando-lho. Quase estavam tão compridos como os de Drew, pensou, porque o menino detestava ter que cortar o cabelo e ela não o forçava.

- Frio - sussurrou Brynmoor, tremendo dos pés à cabeça.

- Eu sei - disse Sarah. - Sei que tens frio. Dawson vai acender a lareira enquanto dormes. Fecha os olhos papá e quando acordares estará quente - prometeu-lhe.

Brynmoor contemplava o seu rosto com o olhar perdido como o do bebé de Meg Randolph. Sarah sorriu-lhe, perguntando-se se a reconheceria al guma vez. Se voltaria a pronunciar o seu nome.

- Agora dorme - sussurrou.

- Boa menina - balbuciou o seu pai. Lentamente, fechou as pálpebras enquanto ela continuava a alisar-lhe o cabèlo. Abriu os olhos mais uma ou duas vezes, olhando para ela por um momento, antes que os fechasse de todo, ocultando o vazio que reflectiam os seus olhos de um azul desbotado.

Sarah inclinou-se e beijou-o na testa. Brynmoor moveu uma mão sob os lençóis, tentando tirá-los. Deu-lhe uma palmadinha no ombro torpemente e, quando Sarah levantou a cabeça para ver o seu rosto, tinha aberto outra vez os olhos.

Os seus dedos, frios e trémulos, acariciaram-lhe o rosto.

- És uma boa menina, Mellie - disse claramente.

Mellie. Assim tinha o seu pai chamado a Amelia quando era menina. A sua dóce Mellie. E tinha-o sido. A sua filha mais nova. A favorita.

Sarah cobriu-lhe a mão com a sua por um momento e depois voltou a colocar-lhe o braço sob os lençóis. Tinha fechado os olhos outra vez e pareciam afundados sob a pele descolorida e fina das suas pálpebras.

Esperou durante um longo tempo junto à sua cama, vigiando-o até que a última fresta de luz desapareceu do céu. Em seguida, tensa pelo frio e pela viagem longa, endireitou-se.

Não voltou a cabeça para olhar para o idoso que antes tinha sido o seu pai. Atravessou a divisão cheia de cacos e abriu a porta, inspirando profundamente antes de a fechar à chave e descer em busca de Dawson.

 

- Sarah! - gritou Drew. - Já chegámos, Sarah! Estamos em casa!

Entrou a correr no escritório quase antes que se extinguisse o som das suas palavras. Sarah apenas teve tempo de contornar a sua secretária antes que aparecesse na soleira. De repente, estàva nos seus braços, o pequeno corpo contra o seu, como se se tivessem passado meses e não dias desde a última vez que o tinha visto.

 

Sarah abraçou-o com ferocidade e depois afastou-o, pondo-lhe as mãos nos ombros para olhar para ele. Tinha o rosto vermelho pelo frio e os olhos brilhantes e claros. E felizes, compreendeu. Incrivelmente felizes. Sarah tirou-Lhe o gorro e deslizou os dedos pelos caracóis desordenados sentindo a ardência das lágrimas. Abraçou-o com força outra vez para as ocultar.

- Estás muito contente por me veres? - perguntou.

- Mais do que imaginas - respondeu com sinceridade.

- Wynfield disse que ficarias feliz. Disse que me abraçarias com todas as tuas forças, e é verdade.

Drew resistiu um pouco e ela soltou-o,deixando que desse um passo atrás.

- Cresceste meio metro - elogiou Sarah.

Realmente parecia mais alto. E mais velho.

Claro que podia dever-se ao facto de o ter constantemente ao seu lado,o que não lhe dava oportunidade de ver como crescia. Nem sequer quando já não sou uma criança,tinham sido as palavras mais frequentes em todos os seus comentários.

- Olha - disse Drew,ignorando o seu elogio hiperbólico sobre o seu tamanho como demasiado ridículo para replicar. Mostrou-lhe uma pequena vara de couro com o punho gasto. – Era de Wynfield - explicou-lhe atrapalhadamente pela emoção. - A sua primeira vara e deu-ma como presente de Natal.

Levantou os olhos do seu tesouro,muito abertos pela incredulidade,esperando uma resposta de semelhante assombro. Sarah não o teria decepcionado por nada deste mundo.

- A sua primeira vara? - perguntou em tom devidamente maravilhado. Drew,assentiu com solenidade. - Meu Deus - sussurrou.

Esticou o braço e tocou no seu punho suave, deslizando os dedos com admiração pela sua superfície.

- É exactamente do meu tamanho - explicou Drew.

- Parece que sim - corroborou Sarah.

- Tenho muita sorte, Sarah. Não é verdade?

A pergunta quase se perdeu. Tinha estado a aguçar o ouvido, desde a entrada súbita e precipitada de Drew, ao perceber o ruído de uns passos irregulares que, naquele momento, se aproximavam pelo corredor. Levantou os olhos da vara e por cima da cabeça de Drew para centrá-los na soleira. De novo, o seu coração começou a bater desmedidamente e sentiu uma onda de calor húmido na parte inferior do seu corpo.

E então, Wynfield apareceu na soleira da porta, com os seus ombros largos, enchendo-a quase por inteiro. Os seus olhos castanhos procuraram o seu rosto logo de imediato. Como Drew, tinha o rosto corado. Tirou o chapéu, que segurava numa mão, e o seu grosso cabelo castanho estava quase tão despenteado como o de Drew.

 

- Olá, Sarah - cumprimentou-a em voz baixa. Controlou a urgência de se atirar para os seus braços com o mesmo ímpeto de Drew e de lhe dizer como tinha sentido a sua falta e como tinha desejado ouvir pronunciar o seu nome. Limitou-se a perguntar:

- Fizeram uma boa viagem?

Justin assentiu, quase imperceptivelmente, apertando um pouco os lábios antes de responder.

- Tendo em conta a estação.

- Aqui neva há três dias - respondeu Sarah. Deu-se conta de que continuava de joelhos e apoiou-se no chão para se levantar. Os joelhos tremeram-lhe enquanto voltava a colocar-se atrás da mesa e se sentava na sua cadeira.

- Então, pergunto-me como terão progredido os trabalhos em Wynfield Park - disse num tom prático.

- Receio que não tenha tido tempo de averiguá-lo - reconheceu. E era verdade. Tinha estado muito ocupada.

Justin baixou os olhos para Drew, que estava a dar palmadinhas na esquina da secretária com o laço da vara, apreciando o estalo. Em seguida voltou a olhar para Sarah.

- Como está o teu pai? - inquiriu, expressando com os olhos uma desculpa por não o ter perguntado antes.

- Muito melhor, obrigada. Costuma recuperar durante um tempo depois de...

- Fico contente - disse Justin.

Depois surgiu um breve silêncio, interrompido unicamente pelos estalos da pequena vara. Sarah queria perguntar-lhe se se encontrava bem, mas era óbvio que tinha muito melhor aspecto. Tinha averiguado, por alguns comentários dos criados do conde, que tinha ido a Londres em busca de tratamento médico. Não sabia em que tinha consistido, mas tinha deduzido que talvez fosse por isso que não tinha usado o pé artificial durante a sua estadia na cidade.

Naquele momento, tinha-o posto, portanto, raciocinou Sarah, devia sentir-se melhor. Resistiu à tentação de deslizar o olhar pela linha recta da sua perna das calças e concentrou-se na cor do seu rosto. Estava melhor. Ou no facto de já não estar tão magro. Parecia-se muito mais com o homem que tinha sido antes de partir para Espanha. O seu Justin, pensou, o seu amado Justin.

- Penso que irei comprovar os seus progressos - anunciou.

Os seus. progressos? Os trabalhadores de Wynfeld Park, recordou.

- Claro - respondeu Sarah.

- Posso ir contigo? - inquiriu Drew.

- Desta vez, não - respondeu o conde, sorrindo. As suas palavras quase se ocultaram com o protesto de Sarah.

- Mas, acabaste de chegar - disse ao menino.

- Não estivemos a sós nem um momento. Não era o que tinha pretendido dizer. As suas palavras pareceram implicar que não lhe agradava a presença de Justin e, era o mais oposto à verdade. E ao seu coração. Até os olhos de Drew se dilataram ao ouvi-la.

- Outro dia, Drew - prometeu Justin em voz baixa.

 

Antes que Sarah pudesse formular um protesto ou uma desculpa, Justin já se tinha virado. A soleira ficou repentinamente vazia e escutou os seus passos a afastar-se pelo corredor. A expectativa que tinha agitado o seu coração trans formou-se em frustração.

- Não te agrada Wynfield? - perguntou Drew.

- Não queres que esteja connosco?

Fez um esforço para olhar para Drew em vez de olhar para a soleira por onde Justin tinha desaparecido. O rosto ardia-lhe com pesar e vergonha.

- É claro que sim - tranquilizou-o.

Drew examinou o seu rosto, procurando uma confirmação. Não estranhava o seu cepticismo, dáda a sua infeliz escolha de palavras. E se Drew punha em dúvida os seus sentimentos, o que devia pensar Justin?

- Fico muito contente por terem voltado. Tive muitas saudades dos dois.

- Vai ensinar-me a montar.

- Imaginava que o faria - disse Sarah, sorrindo.

"E vai ensinar-te todas as coisas que deves saber. Coisas que te converterão no mesmo tipo de homem que ele é. E se nada beneficiar com este casamento...

Interrompeu aquele pensamento, uma possibilidade que não queria reconhecer. Tendo em conta os impedimentos do espectro da sua antiga relação, era uma clara possibilidade.

Se nada mais beneficiasse com aquele casamento, obrigou-se a concluir, então o lugar que Wynfield tinha ocupado na vida de Drew bastava para compensar o seu investimento. Todos os seus investimentos.

- Olá!

Andrew levantou os olhos ao ouvir a voz do desconhecido. Estava a agitar a vara contra a cerca do curral, esperando Wynfield. Já estava a entardecer naquele curto dia de Inverno, mas o conde tentava sempre regressar a Longford antes do anoitecer, já que não gostava de montar Estrela às escuras pelo bosque.

Um bom cavaleiro sempre protege os seus cavalos, tinha-Lhe dito. Drew tinha a certeza, portanto, de que Wynfield regressaria cedo. Poderiam voltar juntos para casa e perguntar-lhe-ia quando começariam as suas aulas de equitação. Desejava que o conde viesse rapidamente, porque estava a tremer de frio apesar de ter o seu casaco mais grosso. Então, o desconhecido tinha-lhe falado.

- Olá - respondeu Drew.

O homem estava apoiado sobre a parede de um estábulo. Não era um criado, as suas roupas eram demasiado elegantes. Pareciam inclusive mais elegantes que as de Wynfield, que era um conde.

- Tu és o Andrew? - perguntou o homem. Os seus olhos sorriam, como os seus lábios. Drew devolveu-lhe o sorriso, agradado pela forma como a sua pele se enrugava à volta dos seus olhos. Eram de cor azul escura, como os seus. E como os de Sarah.

- Eu sou Andrew - corroborou. - Drew, se o preferir.

- Prefiro muito mais.

O estranho afastou-se da parede e começou a caminhar na direcção da criança. Era tão alto como Wynfield; pensou Drew, mas... mais encorpado. Mais corpulento, corrigiu-se, observando como o homem avançava pela erva gelada. Não coxeava como o conde, claro. Talvez isso significasse que não tinha sido soldado.

- Como se chama? - perguntou Drew, deixando por um momento de agitar a sua vara.

- David.

- Como na Bíblia? - perguntou Drew. David riu. O som da sua gargalhada era tão agradável como o seu sorriso. Drew deu-se conta de que nem Sarah nem Wynfield riam muito. Na Véspera de Natal, sim, mas naquele dia não. Naquele dia...

- Receio que justamente como na BIblia - o homem estava de pé ao seu lado, com a mão estendida e a palma para cima. - É uma boa vara. Posso vê-la?

Embora o seu presente ainda fosse muito novo e especial, dado que tinha pertencido ao conde, as boas maneiras de Drew conseguiram superar momentaneamente o seu apego pela sua posse. Deixou a vara sobre a palma da mão e observou, fascinado, como os olhos do desconhecido voltavam a sorrir-Lhe antes de examiná-la.

- Uma vara muito boa - disse finalmente. Eu tive uma muito parecida quando fui para a Índia com o exército.

- Índia! - sussurrou Drew.

- Foi há muito tempo - explicou David. Gostarias de saber coisas sobre a Índia?

- E sobre o exército! - exclamou Drew com os olhos muito abertos.

Sarah tinha-lhe dito que não falasse com WVynfeld sobre a guerra porque receava que isso o entristecesse, mas era óbvio que aquele cavalheiro não se importava de falar sobre as suas experiências militares. Os seus olhos continuavam a sorrir-lhe.

- E sobre o exército, é claro - corroborou David facilmente, devolvendo-lhe a vara. Os pequenos dedos enluvados de Drew fecharam-se sobre o punho, contemplando o rosto do seu novo amigo. Outro soldado", pensou com excitação.

- Conhece Wynfield? - perguntou-Lhe.

- O conde? Penso que não tive esse prazer. É teu amigo?

Drew assentiu e virou a cabeça, esperando ver Estrela a qualquer momento com Wynfield sobre o lombo. No entanto, o caminho que partia do bosque estava muito escuro. E continuava vazio.

- Poderíamos falar noutro lugar? - perguntou David. - Aqui fora está um pouco frio. Embora não tanto como nas montanhas do Tibete. Lá é que faz frio. Claro que era o contraste com o ca lor o que o tornava pior, suponho. Na Índia faz um calor horrível durante o Verão. Caramba, lembro-me de uma campanha... - David hesitou na sua reminiscência, dirigindo o seu olhar para os estábulos.

Os criados dos estábulos estariam ali, Drew sabia, esperando, como ele, o regresso de Wynfeld.

- Está calor nos estábulos - sugeriu Drew. Há sempre lume aceso no compartimento dos cavalos.

David voltou a pousar o olhar no seu rosto.

- Então deverias estar lá dentro. Ou em casa disse-Lhe. - Fiz-te ficar aqui fora mais tempo do que o necessário. Receio que Sarah não me vá perdoar por isso.

 

- Sarah sabe que venho para aqui - disse Drew. David riu-se.

- A fugir das suas saias? Muito bem! Por alguma razão, Drew sentiu-se ferido pela sua gargalhada, apesar do elogio que lhe deu. Fazia com que parecesse ainda uma criança, como se continuasse a agarrar-se a ela como estava acostumado a fazer dantes.

- Não preciso de fugir! - protestou Drew. - Venho aqui todas as tardes esperar Wynfield.

- Então estás à espera do conde? Será melhor que não te afaste do teu dever - disse David. Sorrindo, juntou os calcanhares e fez-lhe uma elegante saudação. - Falaremos outro dia quando não estiveres tão ocupado.

- Ia falar-me sobre a Índia - recordou-lhe Drew.

- E falarei, mas... - os lábios bem formados franziram-se um pouco. - Esta noite não. Tu esperas pelo conde se for esse o teu desejo. Eu conto-te as minhas histórias noutro dia.

- Quando? - perguntou Drew.

- Amanhã à tarde? - sugeriu o seu novo amigo.

- Se estiveres livre - Drew assentiú ansiosamente, com os olhos brilhantes. - Há braseiros na estufa - acrescentou David. - Ali não passaremos frio. Sabes onde é?

- Junto à barraca do jardineiro.

- Devia imaginar que um rapaz como tu conheceria todos os recantos deste lugar - disse-lhe.

- Espero-te amanhã às quatro na estufa. Se vieres, contar-te-ei tudo o que sei sobre essa campanha, além de outras coisas que tu gostarias de saber sobre a Índia.

- Está bem - aceitou Drew.

Os dedos longos de David introduziram-se no bolso do seu colete. Tirou um relógio e soltou-o da sua corrente.

- Sabes ver as horas, Drew? - perguntou-lhe.

- É claro. Já não sou uma criança, sabe?

- Não, não és - corroborou David em seguida. - Com isto, saberás exactamente quando ir ao nosso encontro.

Estendeu-lhe o relógio, mas Drew não esticou a mão. Nunca tinha tido um relógio, embora soubesse ver as horas. Sarah tinha-lhe ensinado.

- Vês esta marca? - perguntou David, inclinando-se para lhe mostrar uma pequena ruga no metal. - É a marca de uma bala - disse-lhe em voz baixa, com a voz quase tão impregnada de assombro como a de Drew. - Este relógio salvou-me a vida. Portanto, como poderás imaginar, é uma das minhas posses mais apreciadas. Cuida bem dele, Andrew. Mas claro, tenho a certeza que o farás. Afinal de contas, já não és uma criança.

-Incapaz de resistir, Drew pegou no relógio de bolso da mão do estranho antes de olhar para o homem que lhe tinha confiado o objecto que lhe

tinha salvo a vida. David continuava a sorrir, inclusive com os olhos.

- Até amanhã - recordou-lhe. - Um encontro - secreto. Um encontro só entre tu e eu. Não o vamos contar a ninguém, nem sequer a Sarah. Parece-te bem, Andrew, que seja o nosso segredo?

 

Drew assentiu, escutando distraidamente, com os olhos postos de novo no tesouro que lhe tinham confiado. Deixou a vara no alto da cerca e, segurando o relógio com cuidado na mão direita, deslizou o polegar da sua esquerda lentamente pela marca.

A marca de uma bala", pensou. E teria um nencontro secreto, como os soldados. Imaginou os batalhões vestidos de vermelho diante do inimigo. Quase podia sentir o rufar dos tambores e ver os estandartes ondeando no ar tórrido e poeirento da Índia. David, o seu novo amigo, tinha estado lá; e estava disposto a contar-lhe tudo.

Quando Drew voltou a levantar os olhos, deu-se conta de que era quase de noite e de que a pradaria do estábulo estava vazia. O estranho tinha-se ido embora, como se tivesse desaparecido entre as sombras.

David tinha razão, pensou, tremendo outra vez. Estava muito frio ali fora. E não havia luz suficiente para examinar o relógio e a marca dei xada pela bala.

Regressaria a Longford, decidiu. Também poderia esperar por Wynfield lá. Daquela forma, Sarah não se preocuparia se o procurasse para o jantar.

Desejou poder falar com alguém sobre o relógio, poder mostrar-lho a Sarah. Ou melhor ainda, a Wynfield, que, sem dúvida, reconheceria que se tratava de um relógio militar. Mas não podia fazê-lo, claro, tinha jurado guardar segredo. Um segredo militar. Como o encontro do dia seguinte, no qual David lhe contaria tudo sobre a Índia.

Andrew começou a atravessar o curral, mas antes de chegar à porta, já estava a correr, com o relógio cuidadosamente protegido na mão direita. A vara que Wynfield lhe tinha dado no Natal, que com tanto entusiasmo tinha mostrado a Sarah no dia anterior, jazia esquecida no alto da cerca.

Sarah tinha esperado alguma notícia de David Osbome desde o seu regresso a Longford. Até tinha perguntado ao senhor Samuels quanto capital havia disponível, prevendo a sua visita. E tinha-se assustado ao ouvir a resposta. Estava ao corrente das quantidades de dinheiro retiradas por Justin, mas não se deu conta do pouco que ficava nas contas.

À medida que passavam os dias sem receber notícias de Osborne, a sensação de medo e receio começou a diminuir. Tanto que, quando Sarah recebeu a sua carta, duas semanas depois de Drew e Justin regressarem de Londres, quase foi uma comoção voltar a saber dele. Supôs que o passar do tempo a tinha arrastado para uma falsa sensação de segurança. Isso e o facto de Justin estar de volta.

Não havia mais exigências na carta do que um encontro que não devia ser em Longford mas no bosque que percorria o limite oriental do terreno.

Havia uma pequena clareira do outro lado do riacho onde, conforme lhe tinha confiado Amelia numa ocasião, David e ela se encontravam nas semanas prévias à sua fuga.

 

Sarah compreendia por que razão Osborne não queria arriscar-se a tropeçar em Justin. No entanto, não gostava muito da ideia de se reunir com ele num lugar tão isolado. Claro que não via como podia evitá-lo, dado que David não lhe tinha dado nenhuma indicação sobre o seu paradeiro ou a forma de contactar com ele. A sua mensagem dava por feito que faria o que lhe dizia.

E teria que fazê-lo, não tinha escolha. Iria ao encontro e escutaria as suas exigências e depois teria que encontrar uma forma de lhe dar o que quisesse. Estava desesperada por expulsar das suas vidas a ameaça que David Osborne representava. Pelo menos, até à próxima vez que ficasse sem dinheiro, pensou com amargura. E talvez então.

Ergueu os olhos da carta e pousou-os na soleira do seu escritório. Recordava Justin ali de pé, olhando para ela fixamente. Talvez quando Osborne voltasse para receber outro pagamento, tivesse alguém ao seu lado que pudesse pôr fim àquela chantagem.

Sarah atou o capuz da sua capa de lã à volta do rosto,tentando proteger o pescoço e a cara do vento gelado. David estava atrasado e as sombras do bosque abanavam em seu redor. Ao princípio pensou em ir a cavalo ao seu encontro e, naquele momento,à medida que a luz começava a diminuir,desejou tê-lo feito.

Tinha metido uns quantos mantimentos da cozinha numa cesta de vime e tinha dito à senhora Simkins que ia visitar um dos seus arrendatários mais idosos. Se a governanta tinha achado estranho que fizesse uma visita de caridade àquela hora tão tardia,graças a Deus,tinha mantido a boca fechada.

Sarah tinha deixado a pesada cesta no chão enquanto esperava. Cruzou os braços sobre o peito, com os ombros cansados sob a capa. Os seus olhos escrutinaram o bosque em redor da clareira. Estava impaciente por acabar com aquilo. Impaciente por descobrir as turvas intenções de David Osborne.

- Ah, Sarah. Devia ter imaginado que serias pontual.

Era como se, ao pensar nele, o tivesse conjurado. Virou-se na direcção da sua voz e surpreendeu-o apoiado contra o tronco de um carvalho, com as mãos na cintura e com os tornozelos graciosamente cruzados.

Uma pose certamente praticada, pensou com cinismo. Mesmo assim, tinha que reconhecer que estava elegante. Não estranhava que tivesse podido seduzir a sua irmã. Era atraente e demasiado organizado... e interessado unicamente em si mesmo, recordou.

- O que queres? - desafiou-o, mantendo a voz tão frigida como o ar de Janeiro.

- Já sabes o que quero, Sarah. Penso que fui muito claro no nosso encontro anterior. Quero o neu filho.

- Não estás interessado em Andrew. Nunca estiveste.

- Não te precipites a julgar-me, Sarah. O que te faz pensar que não albergo sentimentos para com o rapaz?

- Talvez porque não quiseste saber nada dele desde que nasceu - a réplica era deliberadamente mordaz, embora não tivesse levantado a voz.

- Estou disposto a emendar a minha incons ciência. Deverias aplaudir-me, diria eu, dado que te dedicaste a criticar tão livremente a minha relação anterior com Drew.

- Não tiveste nenhuma relação anterior com ele - disse Sarah.

- Agora pretendo corrigi-lo - replicou Osborne com fluidez.

- Quanto?

- Quanto? - repetiu Osborne,como se não fizesse ideia do que Sarah estava a dizer.

- Para que te vás embora. Para que deixes Drew em paz. Quanto dinheiro é preciso para que nos deixes em paz?

- Sarah - disse David,num tom cheio de perplexidade e desolação,claramente fingidos. Os seus olhos reflectiam regozijo. - Pensei que te agradaria o meu desejo de conhecer o meu filho.

- Porquê? - perguntou. - Não és o tipo de homem que quero que o meu filho conheça. Nem sequer quereria que conhecesse a tua existência.

- Suponho que preferes a adoração que sente pelo conde.

- Por Wynfield? Sim,prefiro. E é oportuno, porque Drew adora-o mesmo.

David sorriu.

- Que pena então, que o conde não seja o pai de Andrew. E não o é, Sarah. Não pretenderás negar isso?

Sarah hesitou, consciente de que não podia. David tinha provas da sua paternidade. E os tribunais ver-se-iam obrigados a considerá-las.

- Tu não queres estar preso a uma criança - afirmou. - Por que não me dizes o que queres? Assim poderemos pôr fim a esta farsa.

David riu-se e o som vibrou no ar, crispando-lhe os nervos. De repente, afastou-se da árvore e com algumas passadas largas, colocou-se frente a ela.

- Não podes permitir-te que me zangue, Sarah - disse-lhe. - Desta vez eu tenho-vos todos apanhados. E não há ninguém que possa impedir-me de fazer o que quiser convosco. Nem o teu pai demente nem o teu marido tão nobremente mutilado.

Sarah apertou os lábios para conter a réplica que queria dar. Olhou para ele, tentando com todas as suas forças não reflectir o medo que sentia.

- Diz-me o que queres - pediu outra vez.

- Algo que quis há mais de cinco anos. Como Sarah tinha apenas pensado em dinheiro, o seu movimento tomou-a de surpresa. David deu um passo adiante e rodeou-lhe as costas com o braço para apertá-la bruscamente contra ele. Com a outra mão segurou-a pela nuca, imobilizando-a.

Ao princípio, a surpresa impediu-a de reagir e quando compreendeu o que pretendia, já era de masiado tarde para resistir. Os seus braços tinham ficado aprisionados entre as dobras da sua capa e o tórax robusto de David e quando baixou a cabeça, viu que ainda estava a sorrir.

Os lábios de David capturaram os seus. Sarah tentou afastá-lo com as palmas das mãos, mas não tinha força sufiçiente e David limitou-se a aumentar a pressão da sua boca, obrigando-a a atirar a cabeça para trás até que lhe caiu o capuz.

 

O sopro do ar frio gelou-a, parecia que al guém lhe tinha atirado um balde de água gelada. Incitou-a a resistir com mais frenesi. Finalmente, conseguiu tirar as mãos das dobras da sua capa e começou a dar-lhe murros na cara e na cabeça.

Finalmente, David soltou-a e ergueu o braço para se proteger dos murros. Tinha os olhos brilhantes de regozijo, mas tinha-se visto obrigado a recuar.

- Não mudaste nada, Sarah - disse, rindo-se da sua indignação. - Continuas igualmente inocente.

Corando, com a mão na garganta, Sarah percebeu como mudava a sua expressão. Mas nunca ninguém tinha acusado Osborne de falta de astúcia Nem de não conhecer as mulheres.

- Céus - continuou. - Continuas a ser inocente, não é?

Sarah quis bater-lhe outra vez; apagar aquele sorriso sagaz do seu rosto, destruir as palavras que pareciam ter ficado suspensas entre eles. - E pergunto-me porquê - acrescentou num tom reflexivo. Quase parecia que se preocupava. Como se realmente quisesse sabê-lo. - Quanto queres? - perguntou-lhe Sarah. Estava a ofegar como se tivesse estado a correr, mas era da fúria.

- Por que razão o teu marido não te beija, Sarah? Que tipo de casamento tens com o teu conde galante, querida?

Sarah não sabia o que dizer. Mais tarde compreenderia a gravidade do seu erro, mas o desconcerto impedia-a de dar alguma explicação. E ao ver que não respondia, David tirou as suas próprias conclusões.

- Por isso estavas disposta a reunir-te aqui comigo. És o tipo de mulher que precisa de ser beijada, muito e com frequência. O tipo de mulher apaixonada que a pobre e frágil Amelia, por muito que o tentasse, nunca pôde ser.

- Não fales da minha irmã - avisou-o.

- Tens razão - disse em tom complacente. Tu és muito mais interessante. Sempre o foste. Mas estavas tão apaixonada pelo teu soldado...

Interrompeu-se, estudando o seu rosto, que estava rígido não só do frio e da irritação, mas também dos seus esforços por não revelar os seus sentimentos. David usaria qualquer arma que lhe desse.

- E continuas a estar - continuou numa voz impregnada de surpresa eespeculação. - E no entanto, por alguma razão... - de repente, a perplexidade do seu rosto limpou-se e voltou a rir-se num tom trocista. - Não lhe disseste – revelando a sua conclusão. - Como toda a gente, pensa que Drew é o teu querido e pequeno bastardo. E não o desmentiste porque não queres manchar o precioso nome de Amelia. Meu Deus, dás-te conta de como isto é divertido?

- Basta! - gritou Sarah com voz dura e fria. - E levado pela sua legítima nobreza, Wynfield não quer tocar- te porque pensa que já foste usada. Merecem-se um ao outro. Os dois são demasiado virtuosos para o seu próprio bem - acusou-a, rindo-se outra vez. - E por isso estás tão ávida de carícias.

- Das tuas não! - clarificou, sem se incomodar em negar o resto.

- Porque o teu amado pensa que és uma... - continuou, ignorando o seu insulto. Naquele momento, Sarah odiou Osborn quase tanto como o tinha odiado quando tinha abandonado Andrew na Irlanda. Quase como quando Amelia tinha morrido sozinha, salvo pela sua presença.

- A minha vadia - acrescentou em voz baixa. Algo estava a acontecer, uma ideia estava a formar-se no seu cérebro, mas Sarah não sabia o que era. A única coisa que sabia era que o seu instinto não se tinha enganado. Não devia ter ido ao encontro de David Osborne. Tinha sido uma estúpida ao expor-se daquela forma ao seu poder.

- Então eu tinha razão - insistiu. - É verdade que compraste um marido. Mas não conseguiste o que esperavas, pois não, Sarah? Deves estar muito decepcionada.

De novo a sua voz reflectia um genuíno regozijo.

- É a última vez que te pergunto - avisou Sarah. - Quanto é preciso para que te vás embora?

- E é uma pena que tudo isto se estrague. Levantou a mão e com um longo dedo enluvado em suave pele de bezerro, riscou uma linha pelo seu rosto, da extremidade do olho até ao canto dos seus lábios e, depois, lentamente pelo seu lábio inferior. Sarah apanhou a sua mão com intenção de empurrá-la, mas David era demasiado forte para ela. Fechou os dedos em torno dos seus e levou-os aos lábios. Beijou-Lhe o dorso da mão e em seguida, sorrindo, soltou-a.

- Entrarei em contacto contigo, doce Sarah - prometeu-lhe em voz baixa. - Asseguro-te de que entrarei em contacto.

David virou-se e atravessou a clareira, desaparecendo na mesma escuridão de onde se tinha materializado. Atrás de si, Sarah respirou tremulamente. Estava tão furiosa que todo o seu corpo tremia. De novo, tinha-a vencido. Apesar do seu ultimato, não tinha feito nenhum progresso nas suas tentativas de se livrar de David Osborne.

Tinha voltado de Londres há quase duas semanas, pensou Justin, enquanto conduzia Estrela ao entardecer pelos bosques que uniam as duas propriedades e, em todo esse tempo, quase não tinha visto Sarah.

Tinha respeitado os termos do seu acordo, regressando a Longford cada tarde. No entanto, durante as breves horas de luz dos dias de Inverno, tinha-se entregue às reformas que estavam a acontecer na sua propriedade. Enquanto fiscalizava as obras, não tinha que pensar no seu casamento. Nem em Sarah.

Continuava sem entender o que tinha acontecido em Londres naquela noite. Teria apostado a sua vida pelo que tinha visto nos olhos de Sarah, um momento antes de a beijar. Teria jurado sobre a sua alma imortal que ela tinha desejado aquele beijo.

Tinha apostado, reconheceu tristemente, que no momento em que os seus lábios se fecharam sobre os seus, no momento em que ela se entregou nos seus braços, tinha perdido.

Tinha-se apaixonado por Sarah Spenser uma vez e ela tinha-o traído. Portanto, tinha aceite casar-se com ela com os olhos abertos, achando que o que queria dele era exactamente o que tinha combinado: que guiasse Andrew e favorecesse a sua aceitação na sociedade. Nada mais.

Depois, quando tinha feito a sua aparição em Londres, tinha acreditado que Sarah desejava algo mais. Algo relacionado com as emoções que há anos tinham surgido com tanta força entre eles. Apesar de saber que já numa ocasião tienha preferido outro homem, Justin tinha caído na mesma armadilha. A armadilha de pensar que Sarah Spenser sentia algo por ele. E aparentemente, tinha voltado a enganar-se.

De repente, percebeu vozes distantes. As palavras eram confusas, mas o tom era suficientemente alto para se propagar pelo ar frio. Puxou as rédeas para abrandar Estrela e perguntou-se se os rapazes da povoação se teriam aventurado de novo pelo bosque.

Pelo menos, Drew não estaria por ali, pensou com alívio. Em seguida compreendeu, com imensa surpresa, que também já não via muito o rapaz. Em Londres tinham estádo juntos quase constantemente, mas desde o seu regresso a Longford, Drew parecia ter encontrado outras ocupações.

Nem sequer lhe tinha perguntado sobre as au las de equitação que com tanta ânsia queria começar. E já não esperava nos estábulos todas as tardes pelo seu regresso. Perdido nas suas próprias perplexidades sobre a sua relação com Sarah, Justin não tinha questionado a ausência do pequeno.

Aproximou-se a cavalo para ver parte da clareira, através das frestas que deixavam os troncos altos e direitos das árvores nuas. Deteve o seu cavalo e entreabriu os olhos para a luz de crescente para identificar a fonte daquelas vozes.

Tratava-se de uma mulher, e não dos rapazes da povoação, pensou enquanto aproximava Estrela com cuidado, embora continuassem ocultos pelas árvores. Tinha uma capa que dissimulava a sua figura, mas o capuz tinha caído para trás. Inclusive na penumbra pôde distinguir que tinha. cabelo loiro. E o contorno familiar do seu perfil clássico.

A primeira coisa em que pensou foi que Sarah e Drew tinham saído para esperar por si. Mas depois, ao ver a outra figura, por uma fresta do matagal que o separava da clareira, compreendeu que a pessoa que estava com Sarah não era Drew.

Justin desmontou com movimentos furtivos, mais por instinto que por premeditação. Deixou Estrela atrás e aproximou-se do casal, que parecia absorvido na conversa. As suas vozes tinham ficádo reduzidas a sussurros e não podia distinguir o que diziam.

Justin não reconheceu o acompanhante de Sarah, nem sequer quando estava suficientemente perto para vislumbrar os seus traços. Enquanto os observava, o desconhecido acariciou o rosto de Sarah, deslizando um dedo lentamente pelo seu rosto e depois pelos seus lábios, um gesto de evidente ternura.

Sarah apanhou os dedos dele com os seus, e o homem levou-os unidos aos lábios, dando-lhe um beijo no dorso da mão. Em seguida, virou-se e desapareceu no bosque em sombras.

Sarah ficou perfeitamente imóvel por um momento, com o olhar fixo no lugar por onde tinha desaparecido o seu acompanhante. Justin também não se moveu... quase não respirou enquanto a repulsa cobrava forma no seu estômago.

Incapaz de continuar a olhar mais, fechou os olhos, controlando uma onda de desolação e de desespero mais intenso que qualquer outra que tivesse conhecido.

 

Quando Sarah regressou a casa, ainda estava a tremer. Não sabia se era pelos rescaldos da sua fúria ou pelo frio. Qualquer das duas teria sido desculpa suficiente.

Encarregou um criado que notificasse a senhora Simkins da sua chegada e foi refugiar-se nos seus aposentos para analisar o que tinha acontecido. Tinha subestimado penosamente a sua capacidade de conduzir Osborne e, como resultado, David tinha adivinhado aspectos muito íntimos do seu casamento. Sarah não duvidava de que utilizaria aquelas revelações da forma que melhor o pudesse beneficiar. David Osborn não se importaria com quem fosse prejudicado desde que conseguisse o que queria.

Sobressaltou-se ao ouvir que batiam à porta. Talvez fosse Drew, querendo contar- Lhe aventuras daquele dia. Mas já não o fazia há dias.

Sem dúvida, estaria a fazer aquelas revelações a Justin. Ela adorava como tinham estreitado os seus laços desde que tinham ficado juntos em Londres, mas sentia falta do pequeno. Sentia falta da cumplicidade que sempre tinham tido.

Quando abriu a porta, a senhora ìmkins passeou o olhar pelo quarto antes de dirigir-se a Sarah.

- Então o pequeno não está consigo, miladydeclarou.

- Drew? - inquiriu Sarah. A sua pulsação acelerou-se e deixou-se dominar pela angústia ao ver a expressão da sua governanta.

- Não veio jantar - disse a senhora Simkins. - E não está na creche. Pensei que poderia estar aqui - a governanta passeou novamente o olhar pelo quarto, como se esperasse ter-se enganado na sua primeira inspecção.

- Deve estar com o conde - sugeriu Sarah. Drew sempre esperava Wynfield e, embora fosse mais tarde que a hora a que Justin estava acostumado a regressar...

- O conde também não voltou - a governanta destruiu aquela possibilidade reconfortante. Perguntei ao seu criado antes de vir vê-la.

Sarah olhou para o relógio do suporte da lareira. Eram seis e meia, mas já tinha escurecido há mais de uma hora. E conhecia os costumes de Justin tão bem como a senhora Simkins.

- Mandou alguém procurá-lo aos estábulos? Talvez o tenham retido lá e Drew esteja à sua espera.

- Ocorreu-me perguntar primeiro se estava consigo. Posso enviar um criado aos estábulos.

Sarah pegou na capa que estava no encosto da cadeira onde a tinha deixado ao entrar.

- Irei eu mesma. Certamente encontrá-lo-ei pelo caminho - disse num tom tranquilizador, embora o seu coração continuasse a palpitar descontroladamente. - Por favor, não se preocupe, senhora Simkins. E prometo- lhe que falarei com Drew sobre o seu atraso.

- Não ralhe com o menino por mim, milady. O seu jantar pode esperar. É que está uma noite tão fria... - as palavras da governanta ficaram suspensas no ar, a sua preocupação evidente nos seus olhos escuros.

- Não viram o rapaz,milady - disse o criado dos estábulos,depois de interrogar os seus rapazes. - Nem o rapaz nem o conde estiveram aqui esta tarde.

- Então vou precisar da carruagem para ir a Wynfield Park - declarou. - Não se preocupe, Riley. Tenho a certeza que Andrew está com o senhor.

De novo surpreendeu-se ao tranquilizar outros quando a sua inclinação era deixar-se levar pelo pânico. No entanto, recordou todas as vezes que Drew tinha cruzado os limites da propriedade sem a sua permissão. Era evidente que o tinha feito outra vez. Certamente porque Justin se tinha atrasado e Andrew tinha começado a preocupar-se.

- Procurem na propriedade, Riley - ordenou Sarah. - Só para termos a certeza. E faça-o saber a Wynfield se o encontrarem:

Não podia culpar Sarah por ter sido um estúpido, concluiu o conde de Wynfield finalmente. Tinha demorado duas horas e vários copos para chegar àquela conclusão. Estava satisfeito, não só porque era precisa, mas eminentemente razoável. Afinal de contas, sabia perfeitamente como era Sarah Spenser. O que lhe tinha feito há cinco anos era prova suficiente.

E desde o começo tinha-lhe dito exactamente o que desejava daquele casamento. Tinha sido uma oferta estritamente de negócios. Faz com que o meu filho seja aceite na sociedade, ensina-o a ser um cavalheiro, e pagarei as tuas dívidas".

Qualquer um o teria entendido assim, pensou Justin enquanto se servia de outro copo - o excelente conhaque francês do seu pai. Estava tão encantado com aquela mulher que estava disposto a perdoar-Lhe as suas indiscrições passadas. Disposto a fazer seu o seu filho bastardo. Disposto a despir a sua alma... e o seu corpo,pensou Justin com amargura... para o seu regozijo.

E,sem dúvida,Sarah ter-se-ia regozijado ao ver como o tinha conquistado. E assim era. Tinha estado a suspirar por Sarah como um adolescente apaixonado,enquanto que ela já tinha seleccionado o seu próximo amante.

Baixou o copo vazio e colocou-o com cuidado sobre a mesa,ao seu lado. Com cuidado porque nem a sua mão nem a mesa pareciam firmes. Só se tinha entregue à bebida duas vezes nos últimos seis meses e não tinha demorado para se recordar do que era estar embriagado. Ébrio,como tinha dito Sarah. Só que agora,estava mesmo.

No entanto,não tinha obtido o que queria.

Ainda não tinha destruído a sua capacidade de pensar,ou de recordar. As imagens da clareira, tão vívidas e dolorosas como há umas horas, continuavam na sua cabeça. O homem beijando o dorso da mão de Sarah,acariciando o seu rosto com um dedo longo e enluvado. Tocando em Sarah como se tivesse esse direito. Na sua Sarah.

Salvo que nunca o tinha sido,claro. Nunca tinha sido a sua Sarah. A ideia de que sentia algo por ele era a sua própria fantasia,o seu equívoco.

Não o tinha amado,nem há cinco anos nem...

A ideia foi repentina, erguendo-se na sua consciência nublada pelo álcool. No entanto, quanto mais a considerava, mais sentido tinha. Tinha suposto que durante a sua ausência, Sarah poderia ter encontrado um novo objecto para os seus afectos, mas parecia-lhe muito mais provável que o homem da clareira e o homem a quem Sarah se tinha entregue há cinco anos fossem a mesma pessoa.

O pai de Andrew? Justin recriou os traços do desconhecido, que quase não tinha conseguido discernir ao entardecer. E depois, com a mesma deliberação, destruiu-os. Andrew era um Spenser da cabeça aos pés. Parecia-se muito mais com Sarah do que com o estranho. E não havia forma de provar a teoria de Justin.

Talvez essa fosse a razão pela qual não tinha visto Andrew com frequência nas últimas duas semanas. Talvez Drew estivesse ocupado a criar laços com o seu verdadeiro pai... e Sarah também, pensou ao recordar a cena da clareira. Rodeou o pescoço da garrafa com a mão e serviu-se de outra dose de conhaque no copo. Em Londres tinha bebido o Porto porque a sua cabeça se encheu com pensamentos de fazer amor com Sarah. E naquela noite...

Seria melhor não pensar nas razões pelas quais estava a beber naquela noite. Era melhor não pensar absolutamente. Com aquele objectivo, o conde de Wynfield aproximou o copo dos lábios e depois, fechando os olhos às imagens que não deixavam de torturá-lo, esvaziou o seu conteúdo.

Na casa reinava tanta escuridão que Sarah perguntou-se se Justin teria despachado os seus criados enquanto as reformas durassem. Finalmente, alguém abriu a porta e outra pessoa correu para chamar Blevins. Sarah permaneceu no vestíbulo, como Drew e ela tinham esperado juntos na entrada da residência londrina do conde. Parecia destinada a bater às portas do conde, pedindo para ser recebida.

- Lady Wynfield - disse Blevins. Sarah levantou os olhos e viu o idoso a observá-la do extremo oposto do vestíbulo.

- Estou à procura do meu filho adoptivo, Blevins - explicou-lhe. - Penso que veio ver o conde.

- Receio que a devem ter informado mal, milady. Não houve nenhuma visita esta tarde. Salvo a sua, é claro.

- Andrew não está aqui? - perguntou. Todas as palavras de consolo que tinha empregue começaram a perder força.

- Receio que não, milady.

- Então eu gostaria de ver o conde - anunciou-lhe.

- Penso que o senhor... está indisposto. A resposta do mordomo parecia carregada de genuíno pesar. No entanto, Sarah começava a sentir- se como em Londres: deslocada e recusada. Talvez devesse recorrer à mesma solução.

- Receio que devo insistir para que me leve ao meu marido - declarou em voz baixa.

Blevins estudou-a um momento antes de inclinar a cabeça.

- Se tiver a amabilidade de me acompanhar, milady - disse-lhe.

Blevins tinha-a conduzido à biblioteca, compreendeu Sarah. A sala estava iluminada por uma única vela, que se erguia sobre uma mesa junto a uma poltrona gasta. Os dois móveis estavam colocados de forma acolhedora diante do fogo, mas a lareira estava vazia, salvo por um monte de cinzas cinzentas e frias.

 

Passeou o olhar pela divisão, que parecia estar igualmente vazia. Já se estava a virar para perguntar a Blevins por que a tinha levado ali, quando o mordomo saiu para o corredor e fechou a porta atrás de si. Sarah exalou o ar que tinha inspirado e de novo contemplou a divisão, escrutinando as sombras com mais atenção. - Justin? - chamou-o em voz baixa:

Era uma pergunta, porque já tinha decidido que Blevins devia ter cometido um erro. Acabava de colocar os dedos na maçaneta da porta quando uma mão emergiu da escuridão e a agarrou pelo pulso. Segurando-a com força, Justin puxou-a para a aproximar dele. Surpreendida pela sua conduta tão fora do comum, Sarah tentou soltar-se. Justin fez mais força.

- O que fazes aqui? - perguntou em voz muito baixa.

Estava tão perto que podia cheirá-lo. Um aroma composto de amido e couro e sabão de sândalo que sempre usava. Completamente masculino e tentador,sobretudo para ela. E impregnando aquelas fragrâncias havia um rasto de conhaque. Justin tinha estado a beber e certamente era a isso que Blevins se tinha referido ao dizer que estava indisposto".

- Suponho que,na verdade,não importa por que vieste - continuou antes que tivesse tempo de formular uma resposta. - Renunciei a entender os teus porquês. São demasiado obscuros e intrincados. Talvez esse tenha sido sempre o problema entre nós.

- O problema? - sussurrou.

Tinha os olhos escuros,contornados pelas pestanas longas e grossas. No entanto,quando seus olhos se adaptaram à penumbra do quarto, distinguiu melhor os seus traços. O seu sorriso era tão trocista como o de David... uma expressão que nunca tinha visto no seu rosto. E sentiu medo.

- Nunca entendi o que querias de mim - confessou-lhe. Sarah moveu a cabeça, sem compreender do que estava a falar. Olhou para ele, receosa do que havia nos olhos dele, mas imobilizada pela emoção profunda das suas palavras.

- Mas se isto é o que queres, Sarah... se isto for o que sempre quiseste...

Inclinou-se tanto que sentia o seu fôlego sobre o seu rosto. E o aroma de conhaque era excitante, como o toque da sua mão, com os seus dedos fortes e ligeiramente calosos em torno da sua cintura, em atitude possessiva. Nunca tinha visto Justin assim. Sempre tinha sido o cavalheiro perfeito, saLvo naquela noite em Londres. Tinha fugido dele naquela ocasião e tinha-o lamentado depois.

- Nesse caso, não vejo por que não posso ser tão complacente como qualquer outro homem - concluiu com suavidade.

 

Sarah não recordava com exactidão o que tinha dito antes mas aquelas palavras pareciam fora de contexto e o seu tom quase acusatório. Justin segurou no seu outro pulso e empurrou-a contra a porta. Continuava a olhar para ela com intensidade, quase desafiando-a a resistir. Mas não desejava resistir, só de deixar que aquilo seguisse o seu curso, como com frequência tinha desejado que acontecesse naquela noite em Londres.

Depois,começou a descer a cabeça e com o primeiro roçar dos seus lábios no seu pescoço, Sarah perdeu toda a sensação de inquietação. Fechou os olhos e atirou a cabeça para trás, apoiando-a na porta. Respirava com agitação.

Justin deslizou a língua languidamente pela pele suave sob o seu queixo e pela sua garganta até que encontrou a barreira da gola alta da sua capa. Soltou o seu pulso direito e,com uma mão, desfez o laço,abrindo a capa com os dedos. Sarah lançou uma exclamação quando Lhe tocou na pele com o polegar,deslizando-o pelo decote do seu vestido. Tinha a mão quente em contraste com o frio da sua pele e os seus movimentos eram deliberados.

Sarah afundou a mão livre no seu cabelo. Era como seda e frisava-se em torno dos seus dedos como o cabelo de Drew. Tão quente e vivo como a boca de Justin,que tinha retomado a lenta carícia do seu polegar.

- É isto que queres? - sussurrou. Tinha os lábios tão perto que as palavras deixaram um rasto de humidade na sua pele. Não podia responder; perdida como estava na onda de sensações. Responde-me; Sarah - exigiu-lhe. - É isto que queres de mim?

- Sim - sussurrou,compreendendo que assim era. O medo que tinha sentido em Londres tinha desaparecido, afogado por aquele desejo intenso. Necessitava das carícias de Justin como tinha necessitado da sua força.

A sua boca já tinha descido para o espaço entre os seus seios. Nenhum homem a tinha tocado assim. Tremiam-lhe os joelhos e um fogo abrasador propagava-se pelo seu corpo, acendendo terminações nervosas que tinham permanecido adormecidas durante toda a sua vida. Até aquele momento. Até às carícias de Justin.

Justin encontrou o seu seio com a mão e fechou-a em torno da sua redondez. A firmeza dos seus dedos parecia quase tão erótica como as carícias da sua língua. Com atrevimento, Sarah pousou a mão na sua camisa e o tecido engomado foi ligeiramente abrasivo sob as pontas sensíveis dos seus dedos. Moveu-os sobre os contornos firmes do seu tórax, reconhecendo a sua força em contraste com o seu próprio corpo. Os seus dedos exploraram até encontrarem. o pequeno relevo do seu mamilo.

Ouviu como continha o fôlego. Gostou de ouvi-lo, portanto, continuou a mover os dedos, sentindo como o mamilo se endurecia sob as suas carícias.

Justin soltou a sua outra mão com a mesma brusquidão com que a tinha agarrado. Antes que Sarah pudesse compreender o que se passava, Justin recuou, separando o seu tórax ao mesmo tempo que com as ancas a empurrava contra a parede, aprisionando-a com a mesma eficácia que antes. Despiu a camisa pela cabeça com um movimento rápido e fluido antes de a deixar cair ao chão.

Depois pegou nas mãos dela e colocou-as sobre o seu peito,incitando a exploração que Sarah tinha considerado tão atrevida. Queria que ela lhe tocasse e isso parecia-lhe quase tão excitante como o movimento dos seus lábios sobre a sua pele nua.

Sarah obedeceu e as suas palmas moveram-se lentamente pela superfície felpuda do seu tórax.

Justin tinha o rosto tenso,quase contraído,e os olhos fechados. Tinha atirado a cabeça para trás e respirava com irregularidade.

O mesmo que tinha acontecido em Londres e a tinha feito fugir estava a acontecer outra vez.

Mas naquela ocasião não sentia medo. Justin desejava-a,apesar do que pensava sobre Drew, pelo que toda a gente lhe tinha dito. Apesar das intrigas e das mentiras,continuava a desejá-la.

Só faltava um pequeno passo para o que ela queria. Para a relação com que sempre tinha sonhado. Sabia que finalmente conseguiria que Justin a amasse,porque ela o amava profundamente.

Inclinou-se para a frente e beijou a pele suave do seu ombro antes de deslizar a língua pelo osso. Com mais atrevimento, os seus lábios pousaram-se na base do seu pescoço, e também o acariciou.

Em resposta, Justin afastou o tecido do seu corpete cruzado. Os seus dedos começaram a deslizar-se pela abertura que tinha criado, acari ciando a pele nua e altamente sensível do seu seio. E então, de repente, hesitou.

Sarah demorou um momento a compreender porquê, ao dar-se conta de que tinha fechado a mão à volta do colar de pérolas que lhe tinha dado como presente de Natal. Sentiu como se afastava dela e, quando olhou para ele, surpreendeu-o a contemplar fixamente o colar sem valor que levava junto ao seu coração desde o seu regresso a Longford. O silêncio prolongou-se e expandiu-se até que, finalmente, o quebrou.

- Quem é, Sarah? - perguntou em voz baixa, demasiado baixa. E os seus olhos, frios e imensamente distantes, apesar da proximidade dos seus corpos, pousaram-se finalmente no seu olhar. Esperava uma resposta.

- Quem é... quem? - respondeu com hesitação.

- O homem da clareira - clarificou, dando um passo para trás sem soltar as pérolas.

O coração dela parou. Sinceramente, não imaginava do que podia estar a falar. Tinha afastado o problema que Osborne representava dos seus sentimentos por Justin durante tanto tempo que não tinha acreditado que houvesse alguma relação entre eles. Mas é claro que havia, sempre tinha havido. E Justin tinha-os visto juntos.

- Chama-se David Osborne - disse em voz baixa,olhando para ele com valentia.

Tinha mentido a Justin numa ocasião. Tinha-lhe mentido para o libertar do escândalo que tinha partido o seu coração e manchado a sua reputação. Tinha-lhe mentido porque o amava demasiado para o prender a um compromisso que o faria cair na mesma desgraça.

- O pai de Drew? - perguntou Justin.

Uma pergunta simples,que requeria uma única palavra como resposta. A verdade ou outra mentira? No entanto,não chegou a tomar aquela decisão porque finalmente, finalmente recordou o que fazia ali.

- Onde está Drew? - perguntou-lhe.

Não era o que Justin tinha esperado e Sarah reconheceu a confusão nos seus olhos. O que significava que Blevins tinha razão. Andrew não estava ali e Justin também desconhecia o seu paradeiro.

- Drew? - repetiu.

- Não está em Longford.

- De que diabos estás a falar?

- Não está lá. Vim aqui porque pensei que estaria contigo. Pensei que tinha estado à tua espera e ao ver que não voltavas para casa. Por que não voltaste para casa?

Assim que pronunciou aquelas palavras, compreendeu-o. Justin estava a fazer exactamente isso quando a tinha visto com David. Sarah não sabia que costumava atravessar a cavalo o bosque em vez de ir pela estrada que ligava as duas propriedades.

- Para casa, Sarah? - perguntou Justin com amargura.

- O que viste... não é o que estás a pensar.

- Então diz-me o que é - sugeriu com frieza. Mas antes que o fizesse, Justin soltou o colar e recuou um passo. Inclinou-se e apanhou a camisa que tinha deixado cair. Depois virou-se e caminhou para a lareira. Sarah observou como apoiava as mãos no suporte, agarrando-se a ele, ainda com a camisa numa das mãos. Em seguida baixou a cabeça, como se estivesse a contemplar umas chamas inexistentes.

- Se Drew não está aqui... - começou a dizer.

- Talvez esteja com o seu pai - respondeu Justin com mordacidade. E com as suas palavras, encaixaram todas as peças.

- Oh, meu Deus - disse Sarah em voz baixa. Justin virou-se ao ouvi-la e viu como os seus olhos reflectiam o medo que sem dúvida estava patente nos seus. David tinha-lhe dito que queria Drew e não tinha acreditado nele. Mas se Drew não estava em Longford e também não estava ali...

- Achas que está com ele? - perguntou Justin.

- Com Osborne?

Lentamente,assentiu.

- Disse que queria Drew. Eu não acreditei porque... porque nunca se preocupou com Drew.

Penso que descobriu que o meu pai estava doente e pensou que era a sua oportunidade de me chantagear.

- Estiveste a dar-lhe dinheiro? - inquiriu Justin com incredulidade.

- Pensava fazê-lo. Disse que Drew tinha direito a uma parte da sua herança por ser neto de Brynmoor. Ameaçou-me de levar o caso aos tribunais. Eu sabia que se fizesse isso,o escândalo seria ainda maior. Ou,pelo menos,reavivaria o antigo. E Drew...

- Seria o centro das atenções - terminou por ela.

Mas não era só isso,pensou Sarah. David mostraria o documento do sacerdote perante os juízes e a reputação de Amelia ficaria destruída.

Mas,pior ainda,também destruiria qualquer direito de tutela de Sarah sobre Drew. Mesmo que David não se conseguisse apoderar do dinheiro do seu pai,continuaria com Drew.

- Os juízes não lhe darão a herança – disse Justin depois de um momento.

- Como podes ter tanta certeza?

- Porque só se concedem direitos aos filhos ilegítimos se estiverem legalmente reconhecidos. O teu pai nunca reconheceu Drew.

Não era úma pergunta. Sabia tão bem como ela que o orgulho de Brynmoor não lhe permitiria reconhecer o seu neto bastardo, nem sequer se tivesse estado mentálmente em condições de o fazer. Ignoraria a sua existência, como tinha enterrado a filha que o tinha envergonhado antes de morrer.

- David tem provas - disse Sarah com hesitação, consciente de que estava perto de quebrar o seu juramento.

- Que tipo de provas?

- Algo que eu assinei. Atestando... a paternidade de David.

O olhar de Justin voltou a endurecer-se, ainda fixo no seu rosto.

- Osborne só vai poder usar essa prova para conseguir a herança depois da morte de Brynmoor. E só se tu reconheceres o rapaz como teu herdeiro.

- Então, por que levou Drew?

- Que melhor forma de se assegurar de que Lhe darás o que quer? - perguntou Justin em voz baixa.

Justin estava convencido que David estava alojado no distrito, em algum lugar suficientemente perto para ir e vir de Longford. Porque, ao interrogar os criados dos estábulos, tinha descoberto que Osborne tinha estado ali algumas vezes,

A primeira vez,com Drew. E ninguém tinha informado Sarah. Ou o conde. Era um erro que nenhum dos seus criados voltaria a cometer, pensou Sarah. A fúria com que Justin tratou com os criados era outro aspecto do seu carácter que nunca tinha visto antes. Quando ordenou que tirassem a carruagem,apercebeu-se das recordações que traziam aqueles preparativos frenéticos... A noite terrível em que o seu pai tinha descoberto a fuga de Amelia e tinha ido atrás dela. O fôlego dos cavalos,ao misturar-se com o ar frio, também tinha sido visível então, erguendo-se denso e branco à luz fantasmagórica dos candeeiros.

- Eu acompanho-te - tinha dito então. O seu pai tinha-a ignorado,estalando o chicote sobre os lombos dos seus cavalos como única resposta.

Justin contemplou-a durante um longo momento enquanto Sarah permanecia de pé junto à carruagem,murmurando as mesmas palavras que tinha pronunciado naquela noite longínqua.

- Viajarei mais depressa sem ti - disse-lhe.

- Por favor,Justin - suplicou. - Não me importa o que pensas sobre mim,mas deixa-me acompanhar-te,por favor.

- E se estiveres enganada?

- Sobre David?

- Talvez Drew tenha adormecido nalgum lado.

- Se acreditasses nisso, estarias a procurá-lo aqui.

- Deixo isso contigo e com os criados - disse Justin.

- E se levou Drew?

- Não - tranquilizou-a Justin. - Não é isso que ele quer. Tu mesma o disseste.

- E se estiver enganada a esse respeito? - perguntou. - Por favor, leva-me contigo. Não suporto estar aqui, à espera, sem saber de nada.

Justin estudou o seu rosto durante um longo momento e depois estendeu-lhe a mão. Sarah sentiu como o seu coração batia de alívio e gratidão. Pôs os seus dedos sobre os dele e sentiu como os apertava com firmeza.

- Se os encontrarmos... Quando os encontrarmos - corrigiu, - eu ocupo-me de Osborne, entendido?

Justin não lhe deu escolha. A contragosto, Sarah assentiu e ele ajudou-a a subir para a carruagem. Antes mesmo de ter tempo de se acomodar junto a ele, Justin estalou o chicote fazendo com que os cavalos se lançassem para a escuridão.

Encontraram Osborne na terçeira estalagem que visitaram. Tê-lo-iam encontrádo antes, se as duas propriedades não tivessem estado tão próximas de várias estradas frequentadas.

Justin foi tão persuasivo com os estalajadeiros como com os criados de Longford. Responderam às suas perguntas sem hesitação,lendo com precisão o que havia nos seus olhos. Não toleraria nenhuma tolice,e eles sabiam-no. Um domínio que sem dúvida tinha aprendido durante os anos que tinha servido como oficial às ordens de Wellington.

- Está aqui - disse Justin.

Sarah tinha-o seguido para o interior do estabelecimento e esperava junto à lareira da sala, já que o criado que lhes tinha aberto a porta tinha ido despertar o estalajadeiro. Tinha acontecido o mesmo nas duas pousadas anteriores.

- Drew está com ele? - perguntou.

- O estalajadeiro não viu Osborne esta noite, portanto,não pôde confirmar se havia alguém com ele quando voltou.

- Então... - começou a dizer Sarah.

- Uma das criadas levou-lhe o jantar ao seu quarto. Pediu vinho quente e um copo de cidra.

Cidra para Drew,compreendeu Sarah.

- Quero ir contigo - disse-Lhe. - Quero vê-lo.

- Mandei vir alguém para reavivar o fogo.

Trarei Drew para aqui.

- E se David não o permitir? - perguntou.

Sarah observou o movimento subtil e lento dos lábios de Justin. Demorou vários segundos a dar-se conta de que o que estáva a ver era um sorriso. Uma expressão que tanto a cativava, embora apenas a tivesse visto depois do seu regresso. Aquele sorriso era diferente, tão frio como as suas perguntas aos criados. E tão duro como os seus olhos quando lhe tinha pedido que lhe falasse de David.

- Se Drew quiser voltar para casa, Sarah - disse com suavidade, olhando para ela, - então, trá-lo-ei.

- Se quiser voltar para casa? - repetiu:

- Osborne é o seu pai.

- Mas Drew conheceu-o agora.

- Drew está ávido de atenção masculina. Quem poderia proporcioná-la tão bem como o seu próprio pai?

Tu, pensou, como sempre. No entanto, não o disse, porque a situação já era bastante dolorosa. Se Drew optasse por ficar com David, seria uma recusa tão forte ao vínculo que tinha criado com Justin como aos seus sentimentos para com ela.

Mas Drew não faria isso, disse-se. Adorava Justin e amava-a a ela. Não havia nada, nem ninguém, pensou com ferocidade, nem sequer o en cantador David Osborne, que pudesse quebrar os laços que havia entre eles.

- Vai querer voltar para casa - disse-lhe.

Justin apertou os lábios e olhou para ela. Finalmente, assentiu.

- Então, eu trarei o rapaz - prometeu-lhe.

- Não quero problemas - sussurrou o estalajadeiro ao apontar para a porta. - Dirijo um estabelecimento respeitável e não quero que perturbem os meus hóspedes.

- Eu também não - disse Justin.

Quantos menos rumores corressem sobre os acontecimentos daquela noite,melhor,pensou.

Não tinha podido evitar interrogar os criados em Longford,mas para eles Osborne era,na verdade,um desconhecido. Não tinham forma de relacionar Osborne com o velho escândalo.

Sarah tinha vivido com os seus segredos duYránte tanto tempo que faziam parte dela e ele...

ele tinha-a estado a proteger. E a proteger Drew; é claro. Faria o mesmo pelas reputações do seu pai ou do seu irmão. Sarah era a sua esposa e os votos que tinha jurado naquele casamento de conveniência incluíam o de amá-la e de protegê-la.

Perguntou-se quão disposto estaria a respeitar aquele juramento se a sua mão não tivesse roçado o colar de pérolas deformadas. Quando apareceu em sua casa,naquela noite,a última coisa em que tinha pensado era protegê-la.

Sentia-se preparado para reclamar o que era dele... pelo menos, legalmente, fossem quais fossem as circunstâncias, se Sarah não o evitasse. No entanto, estava de pé diante da porta do homem que a tinha afastado do seu lado, prestes a exigir-lhe que devolvesse o filho ilegítimo de Sarah. Apesar do que Lhe tinha dito, Justin sabia que não tinha nenhuma vantagem sobre o pai de Andrew. Havia apenas a convicção de Sarah de que Osborne na verdade não amava Drew e que ele, embora não fosse pai do rapaz, o amava muito.

- Pode ir - disse ao estalajadeiro, sem sequer olhar para ele. Em seguida, sem ver se lhe tinha obedecido, ergueu o punho e bateu na pesada porta de carvalho que o separava de David Osborne. E do filho de Sarah.

 

Os traços do homem que abriu a porta eram ainda mais agradáveis do que tinham parecido à luz ténue da clareira. Sobretudo quando sorriu.

- Que honra mais inesperada! - disse David Osborne.

- Inesperada? - inquiriu Justin.

O seu sorriso ampliou-se.

- Esperava Sarah; é claro. Devo confessar que a sua chegada é uma surpresa. Gostaria de entrar; milorde? - David deu um passo atrás, olhando para o quarto.

Não era o melhor aposento da estalagem, decidiu Justin, mas o fogo ardia com força. Os restos do jantar que Osborne tinha pedido estavam estendidos sobre uma mesa diante da lareira e na bandeja viu a garrafa com o vinho quente que tinha pedido. Um pequeno vulto perturbava a superfície lisa da cama, visível no canto mais escuro da divisão.

- Podemos falar no corredor - sugeriu Justin.

- Seja o que for que tenha para me dizer - disse David com olhar de regozijo, - pode dizê-lo diante do meu filho. Não é uma criança, sabe?

A frase trocista perturbou-o. Justin tinha ouvido Drew afirmar aquilo dúzias de vezes, sobretudo, sobre o que Sarah fazia ou dizia. Ou sobre algo que o tinha proibido fazer.

Certamente, Osborne tinha utilizado o desejo de Drew de parecer mais maduro do que era para levar a cabo o seu plano. A sua brincadeira era quase uma forma de admiti-lo. E uma advertência de que, no pouco tempo que estivera com Drew, tinha conseguido compreendê-lo.

Justin atravessou, a contragosto, a soleira e aproximou-se da lareira a coxear. Virou-se para a porta e surpreendeu Osborne olhando fixamente para o seu pé direito, artificial. Lentamente, ergueu os seus olhos azuis até ao rosto de Justin. O mesmo sorriso trocista aparecia nos lábios de Osborne.

Demasiado óbvio, bastardo, pensou Justin, quase regozijado pela clara tentativa de desestabilizá-lo. Surpreendeu-lhe o facto de quase não ter feito efeito. E aquele erro de julgamento fez com que Osborne lhe parecesse muito menos preparado do que Justin tinha pensádo.

- Na batalha de Vitória - explicou comodamente, olhando para Osborne. - Já que mostra tanta curiosidade.

- Drew contou-me tudo - disse David. Ouvi dizer que se comportou como um herói.

Os meus parabéns,junto com a gratidão de toda uma nação,é claro - o seu olhar era tão sarcástico como a sua voz. Ignorando aquela provocação,Justin fez-lhe a pergunta que o tinha levado até lá.

- O que é que queres?

- Quero o meu filho. E a herança que lhe corresponde legitimamente,nada mais.

- A sua herança, Que o senhor pretende controlar no seu nome.

- É claro. Brynmoor já não está em condições de administrar os seus bens. Sarah tenta,mas duvido que os tribunais a considerem uma administradora adequada para propriedades tão vastas e diversas.

- Sarah conta com a ajuda de um conselheiro competente - disse Justin.

- E acaba de adquirir um marido – sugeriu David,sorrindo. - Cujas necessidades,se permite recordá-lo,supuseram um grave buraco nos seus recursos. Ou devo dizer nos recursos de seu pai?

O conde meditou naquele argumento.

- E é possível que os tribunais considerem que o marido de Sarah ponha os interesses de Drew à frente dos seus - explicou Justin. - Quer dizer, da sua. legítima herança.

- Tinha ouvido dizer que era ardiloso - reconheceu David num tom adulador.

- Quer Drew porque quer controlar a fortuna de Brynmoor.

- A herança do meu filho - corrigiu-o Osborne, ainda a sorrir.

- O seu filho. É claro, pode prová-lo.

- Disse a Sarah que podia. Mostrei-lhe o documento. Que leva a sua própria assinatura, por certo.

- Suponho que não me quererá mostrar o dito documento.

Osborne estudou-o por um momento. Franziu os lábios e depois disse:

- Sarah pode atestar a validez da minha reivindicação.

- Os tribunais exigirão algo mais que a sua palavra.

- Estou disposto a permitir que os tribunais se pronunciem a esse respeito - declarou Osborne. A questão é se Sarah está disposta ou não. - Estão a discutir sobre o quê? - perguntou Drew.

O conde desviou rapidamente o olhar para a cama. Drew estava a endireitar-se e o seu pequeno rosto parecia pálido em contraste com a parede escura do fundo.

- Lamento muito, Drew. Não queríamos acordar-te - desculpou-se Justin.

- O que estás a fazer aqui, Wynfield? - perguntou Andrew em voz baixa.

O pequeno parecia mais dócil do que nunca desde que Justin o conhecia. Talvez fosse porque acabava de despertar de um sonho profundo ou por alguma outra razão.

Sentiria falta da sua mãe? Estaria arrependido do que tinha feito? Drew não estava acostumado a enganar-se ao julgar as pessoas e talvez tivesse começado a ter dúvidas sobre o seu pai.

- Sentes-te bem? - perguntou o conde. No en tanto, tinha voltado a pousar os olhos no rosto de Osborne. Apercebeu-se de que David nem sequer se tinha virado para a cama ao ouvir Andrew e também não olhava para o seu filho naquele momento.

- Estou bem - disse Drew. - Não sou uma criança, sabes?

A afirmação carecia da segurança habitual, como se a repetisse mais por costume do que por certeza.

- Eu sei - respondeu Justin.

- Estavas à minha procura? - perguntou Drew num tom quase esperançado.

- Sarah estava preocupada, não sabia onde estavas. Pensei que tínhamos combinado que não voltarias a fugir.

- Eu não fugi - defendeu-se Drew com um tom de indignação.

- Mas não disseste a ninguém para onde ias. Isso é o mesmo que fugir, fossem quais fossem as tuas intenções.

- Ele disse que ia dizer a Sarah.

Ele. Osborne, compreendeu Justin, sentindo uma fúria enorme.

- Não disse - respondeu Justin. - Sarah desconhecia por completo o teu paradeiro. Está muito preocupada.

- Disseste que enviarias uma mensagem a Sarah - acusou-o Drew. - Disseste que a avisarias do nosso paradeiro.

- Ainda não a recebeu, é só isso - respondeu David com serenidade. - As mensagens costumam chegar com atraso.

Não havia sentimento de culpa na sua voz, nem pesar pela preocupação que tinha causado. Justin acreditava que essa tinha sido a sua intenção: avisar Sarah sobre o que poderia acontecer se não Lhe desse o que queria.

- Sarah está lá em baixo, Drew. Está à tua espera para te levar para casa - informou-o Justin.

- Para Longford. Para a tua cama.

Houve um longo silêncio. Atrás de si, o conde podia ouvir o crepitar do fogo. No entanto, a pequena figura do outro extremo da divisão não emitiu nenhum som.

- Não queres ir para casa? - perguntou Justin.

- Vou para a Índia - disse o menino. - Mandaram o meu pai para lá. Na Índia há tigres.

Justin inspirou profundamente. Pelo menos, tinha-lhe respondido àquela pergunta. No entanto, acabava de abrir-se uma armadilha aos seus pés. Teria que ter muito cuidado com a sua maneira de proceder a partir de então.

- Viste algum tigre alguma vez, Wynfield? perguntou Drew.

- Não - respondeu Justin em voz baixa.

- Eu também não, mas vou ver. Podes vir connosco, se quiseres - ofereceu com magnanimidade.

Justin podia imaginar a reacção de Osborne se aceitasse aquela oferta. É claro, não tinha intenção nenhuma de ir para algum lado com Osborne. Nem de permitir que Drew se fosse embora com ele.

- E Sarah? - perguntou Justin - A Índia fica muito, muito longe daqui. Sei que Sarah iria sentir a tua falta se fosses para tão longe. Suponho que tu também sentirias falta dela.

De novo, Andrew permaneceu em silêncio durante algum tempo. Depois virou-se para Osborne.

- Sarah poderia vir connosco? - perguntou. Osborne riu-se e virou-se para olhar para seu filho pela primeira vez.

- Posso tentar tratar... desse assunto. Por que não perguntas ao conde se ele pode? - sugeriu com malícia, voltando a fixar os olhos no rosto de Wynfield.

- Sarah não pode ir para a Índia, Drew - explicou Justin. - Tem de cuidar de Brynmoor e de tudo o que acontece em Longford. Tu sabes disso.

- Está a portar-se muito mal, milorde - disse Osborne em tom deliberadamente baixo para que não chegasse aos ouvidos do rapaz. - Se o senhor não a deseja...

Ao ouvir aquelas palavras incisivas, Justin sentiu uma onda de fúria por todo o seu corpo. Só havia uma forma de Osborne conhecer a natureza da sua relação com Sarah. Sarah em pessoa devia ter-lho contado.

- Se Sarah não pode acompanhar-nos, então talvez... - Drew deixou a frase no ar.

Justin compreendeu que receava a brincadeira de Osborne. E que não estava ansioso por deixar o único lar que tinha conhecido. Nem as pessoas que o amavam e aceitavam pelo que era. Um menino pequeno que tentava adquirir as qualidades que tinha aprendido a admirar: valentia, honra, sinceridade. Nenhuma das quais parecia estar na posse do seu pai.

- Deixa que te leve até Sarah, Drew - urgiu-o Justin.

- Penso que será o melhor - acedeu Drew, com voz vacilante e muito baixa. - Posso ir contigo para a Índia noutra ocasião - sugeriu ao seu pai. - Mas penso que será melhor voltar para casa com Sarah esta noite.

Osborne fez uma careta.

- Falaremos amanhã,Andrew - falou com paciência. - Agora tens que ir dormir. Amanhã verás tudo com outros olhos. E poderei contar-te mais coisas sobre o que veremos na Índia.

- Mas... Sarah está à minha espera – disse Drew.

- Sarah... - começou a dizer David,com o tom de irritação evidente na voz,antes que fizesse um esforço quase visível para dissimulá-lo.

- Não estás a cargo de Sarah,Drew. Estás ao meu. Eu sou a única pessoa que decide sobre o que podes ou não fazer. E não vais regressar a Longford esta noite.

- Mas...

- Sem responder! - ordenou-lhe Osborne. Nunca serás um homem se deixares que uma mulher te governe.

- Vamos,Drew - incitou-o Justin em voz baixa,decidindo que aquela resistência já se tinha prolongado o suficiente. - O teu pai poderá vir a Longford amanhã se quiser falar contigo.

Mas esta noite... - Justin não se mexeu perante a súbita fúria nos olhos de Osborne. - Esta noite vou levar-te para casa.

- Não comece algo que não pode terminar, milorde - avisou-o David. Tinha controlado a sua fúria, novamente, substituindo-a pela sua brincadeira habitual.

- Vamos, Drew - disse Justin sem levantar a voz e começou a dirigir- se para a cama.

 

O pequeno já estava a levantar-se dos lençóis amachucados. Tinha vestido úma das camisas de Osborne, com os punhos arregaçados, embora os pulsos magros do menino quase não ficassem visíveis.

De repente, Osborne moveu-se, interpondo-se no caminho de Justin.

- Estou a avisá-lo - ameaçou-o, elevando os punhos.

Justin riu-se. Não pôde evitá-lo. Aparentemente, o melodrama era o forte de Osborne.

- Assustado, milorde? - desafiou-o Osborne.

- Chateado - clarificou Justin sucintamente. Depois o seu tom endureceu-se. - Não seja estúpido, Osborne. Não há um modo mais fácil de fazer com que os juízes caiam sobre as nossas cabeças.

- Não me oponho a isso. Afinal de contas, estou no meu direito. O senhor está a tentar roubar-me o meu filho.

- Que também é filho de Sarah Spenser - disse Justin. - E a influência de Brynmoor é suficientemente ampla neste distrito para pôr em dúvida a sua reivindicação, face ao que diga esse papel. E se gastasse umas quantas libras nos lugares adequados, descobriria algumas coisas do seu passado que não lhe agradaria que chegassem aos ouvidos das autoridades.

- Chantagem, milorde? - respondeu Osborne num tom de brincadeira, mas ficou preocupado com a demora da sua resposta. Começou a pensar na validade daquela ameaça.

- Por que não? É o mesmo que o senhor está a tentar fazer.

Enquanto falava, Justin tinha dado outro passo para Drew, que estava de pé junto à cama. Parecia perdido e um pouco desolado naquela camisa tão grande que lhe caía aos pés.

Em resposta ao avanço do conde, Osborne lançou o seu punho direito. Justin moveu a cabeça e o murro silvou de forma inofensiva junto ao seu ouvido. Acabava de reagir por instinto, ou talvez por uma lembrança inconsciente das longas horas passadas sob a excelente tutela do cavalheiro Jackson.

- Continua chateado? - perguntou Osborne em voz baixa, sorrindo. Ergueu os punhos diante do queixo, como se estivesse num ringue. - Ou já não gosta de pugilismo? - continuou com sarcasmo. - Andrew diz que era muito bom. Há muitos anos, claro.

- Meu Deus! - respondeu Justin, com a voz cheia de autêntico regozijo. - Está a propor que lutemos? Pelo controlo do rapaz? Ou para mostrar a Drew quem dos dois é mais homem, talvez?

De novo, lançou um murro. O conde afastou a cabeça, mas não suficientemente rápido. Os nódulos de Osborne roçaram-lhe a maçã do rosto, deixando uma marca vermelha na sua pele. De repente, os olhos cor de avelã já não reflectiam nem aborrecimento nem regozijo.

- Estou disposto a deixar que Drew faça essa avaliação - disse Osborne. - O senhor não? Afinal de contas, milorde, você é o herói. Pelo menos, aos olhos de Drew.

- Não precisas de lutar, Wynfield - interveio Drew. - Não importa. Eu sei... - interrompeu-se, com demasiada brusquidão.

- O que é que sabes, Drew? - perguntou Osborne. Continuava com os punhos levantados, disposto a dar o murro seguinte.

- Que não seria justo - completou o menino quase num sussurro.

- E por que não? - perguntou Osborne. - Por que é que não seria justo que Wynfield lutasse comigo?

 

Não tinha afastado os olhos do rosto de Justin e continuava a sorrir. Gozando o momento. No entanto, Drew não disse nada, negando-se a explicar o que tinha querido dizer apesar do seu pai o estar a incitar. Claro que era evidente,tão evidente quanto a falta de preocupação de Osborne quanto à justiça daquela discussão.

Quando Osborne tentou o seu murro seguinte Justin estava mais do que disposto a responder.

Era como se toda a raiva e frustração que tinha reprimido durante os últimos seis meses estivessem,por fim,a emergir à superfície,dirigida ao rosto que estava à frente dele.

O conde sempre tinha tido bom olho e o seu punho direito encontrou o queixo de Osborne ali onde o dirigiu. Osborne atirou a cabeça para trás com o impacto e Justin sentiu uma grande satisfação ao ver a surpresa nos olhos do seu oponente.

Sobretudo porque reforçou aquele primeiro murro com a sua esquerda. De novo voltou a acertar. E pela primeira vez,Wynfield fez uma careta de prazer.

- O que estão a fazer?

As palavras estavam impregnadas de medo.

Justin virou a cabeça,reagindo automaticamente ao som da voz de Sarah. Ela e o estalajadeiro estavam de pé na soleira,a olhar para eles.

O seu olhar devia tê-lo posto de sobreaviso.

As suas pupilas dilataram-se bruscamente, e Justin não compreendeu porquê até que sentiu o punho de Osborne na têmpora. Cambaleou.

caiu sobre a mesa que estava diante dalareira.

Pondo as mãos para trás, Justin apoiou-se a tempo. A mesa inclinou-se sob o seu peso e algumas peças de louça caíram para o chão e partirám-se.

- Alto aí - gritou o estalajadeiro. - Já lhes disse que dirijo um estabelecimento respeitável.

Sabiamente, Osborne tinha ignorado tudo salvo o seu oponente. Equilibrou-se sobre Justin, dando-Lhe murros para aproveitar a vantagem. O conde manteve as mãos levantadas e o queixo baixo, protegendo-se o melhor que pôde, concentrando-se em manter o equilíbrio enquanto cambaleava para trás. Estava decidido a não deixar que Osborne o derrotasse. Pelo menos, não diante de Drew e de Sarah. Tinha que pôr fim àquela discussão o mais depressa possível.

Renunciando à sua postura defensiva, e sofrendo por isso, afundou o seu punho direito, com o peso de todo o seu corpo, no queixo do seu oponente. O impacto fez com que Osborne atirasse a cabeça para trás e, quando a endireitou, todo o regozijo tinha desaparecido dos seus olhos azuis. Estavam cheios de raiva e ávidos de sangue.

De repente, Osborne a tirou o pé e introduziu-o deliberadamente entre as suas pernas. Justin cambaleou e esticou a mão para a parede, tentando desesperadamente não cair, mas um novo murro de Osborne no pescoço fê-lo cair ao chão.

Assim que o fez,David deu-lhe um pontapé no ombro. Justin rodou,tentando afastar-se do golpe desonesto,mas estava demasiado perto do fogo,que continuava a arder com vivacidade na lareira. Tentou endireitar-se,pelo menos de gatas,mas David voltou a dar-lhe um pontapé,nas costelas daquela vez,pondo fim àquele incipiente esforço.

- Pára! - gritou Drew,e atravessou o quarto a correr. Agarrou Osborne pelo braço,tentando afastá-lo. Furioso pela interrupção,David empurrou o rapaz para se desembaraçar dele. Em seguida,voltou a flectir a perna, apontando, naquela ocasião,para a cabeça de Justin.

Andrew atirou-se sobre o seu pai,rodeando-lhe a coxa com os braços. Osborne virou-se para ele, tentando afastá-lo. E naquela fracção de segundo,Justin deu-se conta de que a sua concentração estava posta em Andrew e não nele. Adestrado por anos de guerra a aproveitar qualquer fraqueza exibida pelo inimigo,Justin pôs-se de joelhos e agarrou na grossa garrafa que estava na lareira. Ao elevá-la sobre a sua cabeça,deuconta de que Sarah estava a correr para eles, tentando proteger Drew.

David tinha conseguido afastar o rapaz e virava-se novamente para ele. Na curva máxima do arco, a garrafa chocou com o queixo de Osborne. O vinho derramou-se e caiu sobre eles como uma cascata quente e púrpura.

Osborne caiu como se tivesse sido decapitado e aterrou aos pés de Drew. A sua cabeça ricocheteou sobre o chão de madeira e depois ficou imóvel.

- Mataste-o! - afirmou Drew num sussurro com olhos muito abertos pelo horror. - Mataste o meu pai!

Todos ficaram paralisados pela acusação de Drew. Ninguém se mexeu até que Sarah se pôs de joelhos e procurou o pulso no pescoço de David. Em seguida, aproximou o ouvido da sua boca.

- Está a respirar! - anunciou com a voz cheia de alívio. Endireitou- se e voltou-se para olhar para Justin nos olhos.

Só com aquele olhar Justin deu-se conta de que continuava de gatas, balançando-se como um animal ferido. Endireitou o tronco e, sem a olhar, apoiou a mão no suporte da lareira para se levantar.

Podia sentir o sangue a cair-lhe do seu nariz. Até podia saboreá-lo, um sabor acre no fundo da sua garganta. Secou-se com o punho da camisa e, em vez de olhar para Sarah ou para Drew, olhou para as manchas de sangue e vinho que ensopavam a sua roupa.

- Leva o teu filho - ordenou-lhe. Depois, passando por cima das pernas de Osborne, passou ao lado do estalajadeiro e aproximou-se da porta a coxear.

- Quem vai pagar tudo isto? - disse o homem.

- Isso era o que eu gostaria de saber. Não pode entrar num estabelecimento honrado e partir coisas sem as pagar!

- Eu pago - disse Sarah.

Justin deu-se conta de que estava a chorar.

Voltou-se ao chegar à porta,apoiando-se no marco. Sarah e Drew continuavam ajoelhados ao lado do corpo de Osborne. Drew tinha uma das suas pequenas mãos à volta do rosto do seu pai.

- Vou buscar os cavalos - informou-a Justin, sentindo-se doente. - Estejam lá em baixo daqui a cinco minutos.

Sarah desviou o olhar do rosto zangado do estalajadeiro e,sem dizer uma palavra,assentiu.

Justin sabia que ainda olhava para ele enquanto saía,a coxear,pela porta do quarto,mas não voltou a cabeça.

 

O conde de Wynfield tinha-se sentado diante do fogo, nos seus aposentos, quase imóvel desde que tinham regressado a Longford. Tinha tirado o casaco, mas continuava com a mesma camisa com que tinha lutado contra Osborne, com a manga manchada de sangue e vinho.

De vez em quando sentia um calafrio, mas mal se dava conta de que estava frio, não se apercebendo da dor no seu corpo ferido. A lembrança daqueles dois pares de olhos da mesma cor olhando para ele estupefactos, ao lado do corpo inconsciente de David Osborne, era tão poderosa que amortecia qualquer sensação física.

Tinha ordenado ao seu criado que se retirasse. Alguém tinha batido à sua porta minutos depois, mas não tinha respondido. No dia seguinte teria que enfrentar o que tinha acontecido. A sua façanha daquela noite não tinha servido para nada, salvo para criar um olhar acusador nos olhos de Drew.

Naquele momento, bateram à sua porta com muita suavidade e, embora não tivesse dado a sua permissão, a porta abriu-se finalmente. Virou a cabeça e viu Sarah de pé, à porta.

- Posso entrar? - perguntou.

Desviou o olhar e fixou-o nas chamas. Justin não queria ver Sarah naquela noite. Tinha-lhe passado o efeito do conhaque, que o tinha dei xado com dor de cabeça e um gosto amargo na boca. Claro que também podia dever-se à aversão que tinha por si próprio naquele momento. Ouviu como fechava a porta. Conhecendo Sarah como conhecia, soube que não ficaria de pé, na soleira da porta. Mesmo assim, continuou sem olhar para ela. Não queria ver o que havia nos seus olhos.

Quando sentiu os dedos dela no seu queixo, não resistiu à pressão. Levantou os olhos, expondo o seu rosto dolorido à luz das chamas. Viu como as pupilas dela se dilatavam, como tinha acontecido quando Osborne lhe tinha dado o murro à traição, e imaginou que aspecto devia ter.

- Drew? - perguntou.

- Por fim, adormeceu - respondeu Sarah, sem afastar os olhos dele. Depois, inclinou-se, mo vendo-se muito lentamente, dando-lhe a oportunidade de virar a cabeça. Como não o fez, os lábios dela entraram em contacto com os seus. Sarah não fez nenhuma pressão sobre os seus lábios arroxeados e o seu beijo foi tão etéreo como a névoa que tinham atravessado de regresso a Longford. Quando levantou a cabeça, Justin olhou para ela com uma expressão intrigada.

- Obrigada - agradeceu com suavidade. Justin riu-se, o som era apenas um sussurro.

- Porquê? - perguntou com palavras tão amargas como a sua gargalhada.

- Por encontrares Drew. Por trazê-lo para casa.

- Foi pior a emenda que o soneto, Sarah, e tu sabes disso. A nossa situação com Osborne piorou. E, certamente, a minha relação com Drew também.

Sarah hesitou um momento e depois deslizou as pontas dos seus dedos pelos nós dos dedos inflamados e com cortes. Quando finalmente levantou os olhos, disse:

- Não tenho tanta certeza disso. David sempre teve controlo sobre esta situação porque é o pai de Drew. E sempre foi ambicioso e ignóbil e nunca se preocupou com as pessoas, quem usava ou quem feria para conseguir os seus fins. Nada do que tu fizeste hóje altera esse facto, e não acredito que nada possa mudá-lo, nunca. E aconteça o que acontecer - continuou Sarah ainda em voz baixa, mas cheia de instinto maternal, - não permitirei que David fique com Drew. Não posso, sabendo como é.

O que devia significar, pensou Justin, que o que numa altura tinha sentido por ele se tinha desvanecido. Sarah tinha- lhe dito que o que tinha visto na clareira não era o que pensava ser. E o seu comportamento naquela noite parecia confirmá-lo.

- Quanto podes oferecer- lhe? - perguntou.

Tinha chegado à mesma conclusão que Sarah, que a única forma de se livrar de Osborne, além de matá-lo, seria suborná-lo.

Sarah soltou-lhe a mão e entrelaçou as suas, firmemente, no colo.

- Sarah? - urgiu-a depois de vários segundos de silêncio.

- Enquanto o meu pai for vivo, não posso vender Longford nem nenhum dos edifícios anexos, nem sequer os móveis. Não me pertencem.

Não tenho a certeza de quanto David pedirá, mas receio que... - falhou-lhe a voz, mas Justin sabia

muito bem o que receava. Afinal de contas, Osborne tinha-lho recordado. Justin tinha esvaziado as suas contas para salvar as suas terras e o nome da sua família. Para salvar Wynfield Park, a sua herança. - Talvez me deixe enviar-lhe o dinheiro - disse Sarah, olhando para ele nos olhos para ver neles confirmada aquela esperança. Poderia pedir ao senhor Samuels que arranjasse maneira de transferir recursos para o banco de David a intervalos regulares.

- Chantagem a prazo - respondeu Justin num tom trocista. - Achas que aceitará?

O seu sentimento de frustração cresceu ao dar-se conta de que quase não tinham escolha. E embora Osborne aceitasse aquela duvidosa premissa, seriam seus reféns para o resto das suas vidas.

 

- Tentarei persuadi-lo. Farei o que for possível para imPedir que leve Andrew - declarou Sarah ignorando o seu tom de voz. - Sempre receei ver algum rasgo de David em Drew. Mas não se parece em nada com ele, e tu sabes disso. Já conheces Drew. é a coragem e a sinceridade personificadas. E sente um amor e preocupação genuínos pelos outros. Mas se cair nas mãos do seu pai... moveu a cabeça, sem afastar os olhos dele. - Não posso permiti-lo. Nun ca o permitirei.

- Se sabias como era Osborne... - começou a dizer, formulando a pergunta que o tinha perseguido desde o começo e que nascia do seu pro fundo desespero.

- Não - sussurrou, tapando-lhe os lábios com a mão para deter as palavras. - Por favor, não me perguntes isso.

Justin fechou os lábios para reprimir a necessidade de verter a sua amargura. A necessidade de lhe dizer o que a sua traição tinha significado para ele. Sobretudo o que significava naquele momento nas vidas de todos. Mas culpar Sarah não serviria de nada.

- Então diz-me por que estavas a usar as pérolas - quis saber.

Sarah abriu os olhos com surpresa antes de os desviar,aparentemente para contemplar os seus dedos entrelaçados. Quando levantou a cabeça, estava a esboçar o mais pequeno dos sorrisos.

- Porque mas tinhas dado - limitou-se a responder.

Era a verdade. Justin podia lê-lo nos seus olhos e na sua voz. Havia coisas que Sarah estava decidida a não lhe dizer,a não lhe explicar.

No entanto,não podia duvidar das suas últimas palavras.

- E isso significava alguma coisa para ti? - perguntou. - O presente que te dei?

- Significava - confessou com os olhos limpos e abertos,olhando para ele fixamente,- que, por fim,podia ter esperanças.

- Esperanças?

- De que algum dia... poderias perdoar-me.

O seu coração hesitou e deixou de respirar enquanto o vazio do silêncio os rodeava. Aquelas palavras suaves reverberaram uma e outra vez naquele vazio.

- E queres... o meu perdão? - perguntou.

- Quero o que tive uma vez - respondeu Sarah.

Voltava a sorrir e o movimento dos seus lábios era tão docemente familiar que atravessou a amargura com que Justin tinha envolvido o coração após a sua traição. Uma amargura que tinha negado durante anos e que se viu obrigado a confrontar ao voltar a ver Sarah Spenser.

- E o que é? - perguntou num sussurro.

- Quero que me ames - respondeu.

De novo o silêncio cresceu e expandiu-se. Sarah esperou, contemplando o seu rosto com olhos serenos.

Nenhuma explicação, nenhuma desculpa. Nada, salvo uma verdade tão evidente que não podia pô-la em dúvida. Quero que me ames". A sua garganta fechou-se; tensa de dor pelo que sentia por ela. O que sempre tinha sentido. Os olhos arderam-lhe com lágrimas que nunca tinha derramado, nem uma só vez face aos horrores dos últimos seis meses. Reprimiu-as naquele momento, mas Sarah soube.

 

Lentamente, Justin ergueu as suas mãos. Estavam rígidas e os dedos inchados doeram-lhe ao mover-se. Tomou o seu rosto e aproximou-o dele. Baixou os lábios e Sarah abriu os seus, recebendo-o, respondendo sem hesitação à invasão da sua língua.

Sarah estendeu as mãos, acariciando os seus ombros e depois o seu peito. Justin queria senti-las sobre a sua pele. Queria que lhe tocasse como o tinha feito antes, como se ainda encontrasse o seu corpo desejável. Quero que me ames... "

Manteve as palavras na mente, evitando toda

a dúvida. Negando o medo da sua possível reacção ao ver a sua ferida. O fogo estava a extinguir-se e na escuridão...

Finalmente, Sarah levantou a cabeça, quebrando o contacto ardente dos seus lábios. Justin abriu os olhos a tempo de ver como se levantava.

Deu dois passos para trás,de costas para o fogo, e depois estendeu a mão a modo de convite. E para aceitá-la, Justin só tinha que levantar-se, percorrer a distância que os separava e tomar aquela mão.

Quero que me ames". Não havia vinho que Lhe desse coragem,nem escuridão suficiente que ocultasse a imperfeição do seu corpo... nem amargura que a separasse dela como um escudo.

Só a sua mão,estendida para ele.

Com a coragem de que se valeu durante tanto tempo,o conde de Wynfield endireitou-se na cadeira e,coxeando,deu os dois passos que o separavam da sua esposa. Deu-lhe a mão e,quando Sarah lhe sorriu,todo o medo que o seu coração tinha derreteu-se como a magra camada de gelo matutino na superfície de um lago.

Virou-se e conduziu-a à cama alta em que tinha dormido sozinho durante o seu casamento.

onde sabia que nunca voltaria a estar sozinho.

Despiu a camisa manchada de sangue, tirando-a por cima da cabeça. Pô-la no pé da cama e depois hesitou, procurando o olhar de Sarah na penumbra demasiado silenciosa do quarto.

Sarah tinha estado a observá-lo. De repente, apróximou-se e deslizou o olhar pelas suas feridas, do seu peito e estômago. Aproximou os lá bios de cada marca, beijando os pontos nos quais David o tinha atingido. E quando terminou, levantou a cabeça, sorrindo-lhe outra vez. Jústin continuou sem se mexer.

Certamente compreendia o seu temor. Sem dúvida, Sarah também se estava a preparar, disposta a ocultar o horror que sentiria quando tirasse o resto da roupa.

- Fiz de criada para o meu pai em mais de uma ocasião - disse-lhe. - Queres que te ajude a tirar as botas?

O seu tom era casual, deliberadamente alegre. Justin inspirou e perguntou-se se Sarah teria coragem suficiente. Se ele mesmo o teria.

- Sarah - começou com suavidade, nada mais. Tinha apertado os lábios, para que tudo o que lhe queria dizer não pudesse escapar. E nunca seria capaz de dizer-lhe, sabia, a não ser que superassem aquela situação. O seu medo e o horror de Sarah. Ou a sua piedáde.

- Não te preocupes - tranquilizou-o Sarah, sorrindo. - Não sou como Drew. Não me fascinam as partes do teu corpo que perdeste. Confesso que me interessam muito mais... - hesitou, levantando um pouco o queixo antes de terminar - interessam muito mais as partes que conservas. Queria que se sentisse cómodo, que soubesse que para ela não era importante. No entanto, a sua amabilidade não podia destruir a sensação de pavor. Talvez, nada pudesse.

- E que partes são essas? - obrigou-se a perguntar, controlando a voz, num tom tão desenvolto como o seu.

- Todas as restantes, suponho - disse com um brilho malicioso nos olhos.

- Nunca tinha tido uma mulher como criada de quarto.

- Então - respondeu Sarah num murmúrio, - não sabes o que perdeste.

Sarah olhou para ele e não viu nos seus olhos o receio que Justin sentia. Nem o medo. Só o mesmo amor que tinha visto neles quando lhe tinha estendido a mão junto à lareira. E confiando naquele amor, Justin sentou-se na beira da cama e esticou a perna esquerda.

Colocando-se sobre o seu tornozelo, Sarah tirou a bota exactamente como o seu criado teria feito. Aparentemente, a sua garantia de ter ajudado a despir o seu pai não tinha sido a mentira piedosa que Justin tinha interpretado.

- E agora, a direita - sugeriu em voz alegre. Justin preparou-se e endireitou o joelho, oferecendo-Lhe a outra bota. Quando a tirou, Justin levantou-se e, sem ter tempo para pensar, começou a desabotoar as calças. Sarah tinha os olhos fixos nos seus dedos e observava os seus movimentos em vez do seu rosto.

Finalmente, desembaraçou-se das suas calças e permaneceu de pé diante dèla, vestido unicamente com as cuecas que lhe chegavam até ao joelho. Sarah fixou os olhos no que tinha ficado exposto ao tirar as calças, o pé e o tornozelo habilmente esculpidos e o arnês de couro que os unia à sua perna. Justin conteve o fôlego durante uma eternidade antes que Sarah voltasse a olhar para ele nos olhos.

- Como funciona? - perguntou.

Não pôde ler nada salvo curiosidade na pergunta e, mais importante ainda, nos seus olhos. Simples curiosidade, tão natural como a que Drew tinha exibido desde o começo.

Portanto, Justin começou a respirar. Uma inspiração lenta e logo outra. Até que, finalmente, recuperou o ar suficiente para formular uma resposta.

- Não tão bem como desejaria - disse com sinceridade, enlaçando a voz com humor trémulo.

- Ensina-me - pediu-lhe ela, ainda a olhar para ele. Justin permaneceu imóvel durante um longo momento, mas Sarah não afastou os olhos.

E a sua expressão também não mudou.

- Sim, és como Drew - comentou finalmente. A brincadeira era uma ponte, uma conspiração conjunta criada para salvar as questões das quais não podiam falar. Justin sentou-se sobre a cama e, embora os dedos lhe tremessem, apressando-se a realizar a tarefa já familiar, soltou o arnês que segurava o pé artificial e deixou o artefacto no chão.

Sarah desceu os olhos, mas ele não quis contemplar o coto avermelhado. A sua torpeza estava claramente impressa na sua mente, portanto, sabia perfeitamente o que Sarah estava a ver.

Quando Sarah voltou a olhar para ele, sorriu-lhe. E a sua expressão não tinha mudado. Justin esperava repulsa ou, talvez, porque era Sarah, piedade. Mas o azul sereno dos seus olhos permanecia imperturbável.

Então tocou-lhe. A mão que com frequência tinha visto a acariciar os caracóis de Drew roçou, com o mesmo amor e com paixão, ço a pele avermelhada que os cirurgiões tinham estirado e cosido para cobrir o extremo do osso que tinham serrado. Os seus dedos deslizaram com ternura pelos pontos que as longas horas de uso do pé artificial, naquele dia, tinham deixado mais ferido.

- Disse a Drew que não falasse contigo sobre isto - sussurrou, olhando para ele outra vez. Lamento tê-lo feito. Agora sei que estava enganada. Isto é uma parte de ti - continuou. – Sempre será parte de ti e não há razão para não falar disso. Ou para não deixar que Drew te faça perguntas. Nunca te incomodaram.

- Nunca me incomodaram as perguntas de Drew. Mas tinha medo do que tu poderias pensar - reconheceu. - De como te sentirias. Ou talvez de como eu me sentiria.

- E como te sentes? - perguntou Sarah.

- Igual - respondeu com suavidade, e surpreendeu-se ao reconhecer a verdade da sua resposta.

Graças a Sarah, deu-se conta de que era o mesmo homem por quem ela se tinha apaixonado. Tanto se estivesse cansado sobre uma escada ou a cambalear, tentando evitar os punhos castigadores de David Osborne. Aos seus olhos, era o mesmo homem que tinha amado durante tanto tempo. Continuava a ser o mesmo.

E ela para ele também. Tinha dado à luz o filho de outro homem, mas compreendeu naquele momento que, na verdade, não se importava. Continuava a ser Sarah, era dele e, apesar do tortuoso atalho que os tinha reunido naquela noite, sempre o tinha sido.

- Ama-me - sussurrou Sarah, talvez vendo nos seus olhos o que acabava de compreender.

Justin estendeu-Lhe a mão e ela tocou-lhe. Permaneceu de pé diante dele por um momento, e depois começou a soltar o corpete do vestido com os dedos. Justin sentiu como o seu coração batia desmesuradamente e o sangue que tinha impulsionado responsavelmente pelas suas veias amontoava-se, ardente e pesado, no seu sexo.

Sarah desceu uma manga do vestido, expondo à penumbra a pele de marfim do seu ombro, dourada pelo resplendor do fogo. Em seguida, desceu a outra manga e puxou os braços. Com uma mão segurou no vestido sobre o seu peito por um longo momento, olhando para Justin nos olhos.

 

Finalmente soltou-o e deslizou a roupa para baixo, à volta das suas ancas, até que caiu aos seus pés. Seguiu-Lhe a combinação, uma pequena coroa de renda branca sobre a lã. Afastou-se e in clinou-se graciosamente, pelo menos aos seus olhos, para tirar os sapatos e as meias de seda. Quando se endireitou, voltou a olhar para ele.

Não levantou as mãos para cobrir a pequena perfeição dos seus seios. Permaneceu recta e alta, quase com orgulho. O fogo realçava as suas curvas e obscurecia lugares secretos que final mente... finalmente, poderia conhecer.

Apesar do que pensava sobre a sua relação com Osborne, Justin não teve pressa. Foi tão paciente como sempre era com Drew, pensou. Os seus dedos não se moviam com urgência e tocava- lhe como se fosse delicada, frágil e imensamente valiosa.

As suas mãos fortes e calosas moveram-se tão destramente por zonas do seu corpo que nunca considerava desejáveis, provocando por todo o seu ser sensações com as quais nem sequer tinha sonhado.

Desde o começo, apesar dos nervos, não lhe negou nada. Não sabia para onde a levava e se tinha conhecimento sobre o que aconteceria. Também não tinha expectativas, só o seu amor por Justin e a sua confiança inquebrável nele.

Com infinita paciência e indisputável destreza, Justin começou a acariciar o seu corpo inexperiente, arrancando respostas que a fizeram sussurrar o seu nome na escuridão. Os seus lábios na sua garganta, os seus dedos a deslizar pelos mamilos pequenos e duros dos seus seios, a sua língua... a sua língua explorando-a de formas que desencadearam um rio de necessidade e desejo por todo o seu corpo.

Enquanto a acariciava, Sarah deslizou os dedos pelo pêlo encaracolado do seu tórax, respirando com irregularidade, com a pele húmida e corada. De vez em quando, cravava-lhe as unhas na pele, incapaz de suportar o prazer doce e incontrolado que produziam as carícias de Justin. Às vezes pensava que se lhe voltasse a tocar, estalaria em mil pedaços e cada um deles suplicaria de novo as suas carícias.

Quando começou a tremer, a erupção interna do seu corpo foi totalmente inesperada. Não tinha mais guia que o seu amor. O calor da necessidade deu lugar a uma repentina cascata de fluido. Involuntariamente, arqueou as ancas e agarrou-se aos ombros de Justin enquanto ele começava a mover-se sobre ela.

De repente, sentiu como os seus seios se esmagavam sob a parede firme do seu tórax. Sentiu a aspereza do pêlo que cobria as suas fortes coxas, que tremiam sobre a suavidade das suas. Justin segurou a sua cabeça com ambas as mãos, obrigando-a a olhar para ele. E o que leu no seu rosto fez com que arqueasse novamente as ancas, pondo-as em contacto directo com a sua erecção firme.

Abriu os olhos com surpresa quando Justin começou a entrar nela, movendo as ancas ao compasso das suas. A carne uniu-se à carne, procurando a posição mais íntima, tentando preencher o desenho perfeito que a natureza tinha criado para homem e mulher.

Ofegou e atirou a cabeça para trás à medida que a pressão aumentava. Mais que pressão: Quis dizer-lhe que a estava a magoar, mas as palavras não cobraram forma nos seus lábios. Depois, com mais força naquela ocasião, Justin penetrou no calor e na humidade que com tanto esmero tinha suscitado.

 

Sarah observou os seus olhos quando Justin, com a mente drogada pela paixão, o compreendeu. As suas pupilas dilataram-se rapidamente e depois fecharam-se enquanto trespassava a barreira que não tinha esperado encontrar. Ao fazê-lo, a sua semente ardente verteu-se no seu corpo. Atirou a cabeça para trás e o seu corpo estremeceu-se com o mesmo êxtase que antes tinha criado no seu.

Sarah abraçou-o, sem compreender nada, salvo que a amava. Abraçou-o até que as convulsões do seu corpo abrandaram, e permaneceu deitado sobre os seus seios, como um nadador exausto que se aventurou demasiado num oceano desconhecido e tinha regressado com muita dificuldade à margem.

Então apoiou-se nos cotovelos e olhou para ela. Passeou o olhar pelos seus traços, estudando-os durante um longo tempo em silêncio. Um silêncio demasiado longo... e temível.

- Por que não me disseste? - perguntou. Queria dizer-lhe naquele mesmo instante, sobretudo ao ouvir o que havia na sua voz, mas tinha dado a sua palavra, o seu juramento mais solene e nem sequer aquele...

- Não posso - sussurrou. - Por favor, não me faças perguntas.

Levantou a cabeça para beijar os seus lábios, tentando suavizar a sua negativa. Ou talvez para lhe fazer saber, sem palavras, o muito que sempre o tinha amado. inclusive quando tinha escrito aquela carta há quatro anos.

- Drew não é teu filho - declarou; sem questioná-lo.

- Não - sussurrou.

- Mas David Osborne é o seu pai?

- Sim - respondeu.

- E não vais dizer-me...

- Não posso - interrompeu-o. - Por favor,não me faças mais perguntas,Justin. Eu peço-te.

Todas as perguntas que lhe tinha proibido formular reflectiram-se nos seus olhos. No entanto, as explicações eram limitadas,e talvez descobrisse a correcta ao fim de algum tempo,embora o funeral prematuro de Amelia debilitasse aquela possibilidade.

- Não te preocupaste com isso esta noite disse com suavidade,lutando contra a dureza da sua expressão. - Por que ias preocupar-te agora?

- Se Osborne recorrer aos tribunais... - começou a dizer,compreendendo o que implicava o facto de Sarah não ser,na verdade,a mãe de drew.

- Vamos ultrapassá-lo juntos. Tu e eu e Drew.

Não levará Drew a não ser que consiga o dinheiro do meu pai. Isso é o que quer na verdade,

E o meu pai nunca reconhecerá Drew como herdeiro,não pode. Portanto,só teremos que suportar as intrigas mais um tempo e depois...

As suas palavras ficaram suspensas no ar. Justin tinha a expressão tão fria como quando tinha agredido David com a garrafa. Sarah não sabia se a sua fúria era dirigida a Osborne, à possibilidade de um novo escândalo ou a ela.

 

- O que se passa? - sussurrou. Deslizou os dedos pelo seu rosto marcado pela barba incipiente. - Não importa. Nada importa, salvo nós. Tu e eu. E Drew. O resto, não importa.

Finalmente, a pouco e pouco, Justin relaxou os lábios. Baixou a cabeça e beijou o pequeno pulso que estava ao lado do seu pescoço. Sarah fechou os olhos, sentindo como a espiral de calor voltava a crescer no centro do seu corpo.

Aconteça o que acontecer", pensou. Foi quase o seu último pensamento coerente, porque Justin tinha começado a mover outra vez as ancas, de forma lenta e poderosa. Aconteça o que acontecer, vamos ultrapassá-lo juntos, meu amor. Aconteça o que acontecer.

 

Ao amanhecer do dia seguinte, o conde de Wynfield tinha terminado as mensagens que mandaria enviar logo que os criados dessem sinais de vida. Também tinha completado os documentos, deslizando a pena pela folha à luz de uma vela, no quarto em que a sua esposa ainda dormia.

Quando dobrou as mensagens e pôs o seu selo sobre a cera quente, pô- las de parte e aproximou-se da cama que tinham partilhado, pela primeira vez, na noite anterior. Uma cama que tinha deixado há mais de duas horas para se vestir a toda a pressa porque, de repente, tinha compreendido o que devia fazer. E assim que tomou a dcisão, sentiu-se ansioso por pô-la em prática. E não se arrependia, pensou olhando para

Sarah. Em seguida, os seus olhos viram as manchas de sangue dos lençóis revoltos. Claro que não necessitava daquela prova. Até aquela noite, em que a tinha despojado da sua virgindade, Sarah tinha-se mantido tão intacta como quando Jústin tinha partido para Espanha. Pura e sem mancha, como o seu amor por ele. Portanto, não ficaria de braços cruzados ao ver como Osborne arrastava o seu nome pela lama outra vez.

Algum dia, talvez estivesse disposta a revelar-lhe o segredo do nascimento de Drew, de lhe explicar por que o tinha mantido durante tanto tempo. Algum dia, mas de momento...

No momento, Justin ainda tinha outro assunto por resolver. Outra questão a ultrapassar, como ele e Sarah tinham feito naquela noite. Porque havia outra pessoa implicada nos seus planos: o filho de Sarah.

Que não era, na realidade, seu filho. Pelo menos, segundo as normas pelas quais se regia o mundo. Mas sim pelo amor que partilhavam, pelas horas que Sarah tinha dedicado ao seu cuidado e a sua interminável preocupação com a sua felicidade. Segundo aquelas normas, Drew era filho de Sarah.

E dele. Aquela compreensão foi uma surpresa, mas em seguida deu-se conta da sua verdade. Osborne queria utilizar Drew para o seu próprio benefício. Justin, como Sarah, só desejava amá-lo.

E sentir-se querido. Tinha acreditado consegui-lo em Londres, mas depois, absorto nas complicações da sua relação com Sarah, tinha deixado que o seu vínculo com Drew se debilitasse pela sua falta de atenção. O pai de Drew tinha aproveitado aquela brecha, que nunca teria existido se Justin tivesse tratado a adoração do menino com o respeito que merecia. Não o tinha feito e teria que pagar por essa falha. Outro problema para enfrentar. Outro dever para cumprir.

Mas nem todos os deveres eram desagradáveis, pensou com um sorriso, e inclinou-se para beijar o ombro nu da sua esposa. Sarah mexeu-se e entreabriu os lábios. Esta noite", prometeu-lhe Justin em silêncio, esboçando outro sorriso, e, em seguida, afastou-se da cama e saiu do quarto.

Entrou no quarto de Drew tão silenciosamente como tinha saído do seu e encontrou o menino a dormir. Depois dos acontecimentos da tarde anterior, não lhe surpreendia que não o tivesse ouvido entrar. Decidiu não despertá-lo e permaneceu de pé a contemplar a criança, sentindo a mesma onda de amor que, momentos antes, tinha sentido ao olhar para Sarah.

Um objecto da mesa-de- cabeceira captou sua atenção. Era um relógio de bolso que reflectia a luz que começava a filtrar-se pelas janelas estreitas. Justin pegou no objecto, perguntando-se distraidamente se seria do avô, dada a sua antiguidade.

- Essa marca, a do lado esquerdo, é a marca de uma bala - interrompeu Drew.

Justin ergueu o olhar e surpreendeu Drew a observá-lo da cama, apoiado sobre o cotovelo.

- A marca de uma bala? - repetiu Justin, num tom duvidoso. Voltou a examinar o estojo que tinha na palma da mão. Deu-Lhe a volta, mas não havia marca na superfície que pudesse dever-se a um disparo.

- Salvou a vida do meu pai - contou-lhe Drew.

- Entendo - respondeu Justin, e assim era. Uma das histórias coloridas de Osborne. E Justin tinha quase a certeza de que não era mais do que isso, uma história. Claro que a sua veracidade não era relevante, mas sim a reacção de Drew. Justin voltou a deixar o relógio sobre a mesa sem permitir que o seu cepticismo se reflectisse no seu semblante.

- Para ele é muito especial - disse o pequeno.

E significou muito para ti quando to deu.

- Sim - respondeu num sussurro, quase com hesitação, embora o seu olhar parecesse tão limpo e aberto como o de Sarah, horas antes.

- Por isso é que decidiste ir com ele?

- É o meu pai - afirmou Drew, ainda num sussurro. - Sempre quis ter um pai, sabes?

Justin assentiu, compreendendo que se tivesse sido mais complacente, talvez tivesse satisfeito aquele desejo. Se tivesse sido assim, quando Osborne apareceu, com o seu encanto e os seus contos de façanhas, não teria conseguido seduzir Drew tão facilmente, nem o teria afastado dos que verdadeiramente o amavam.

- Eu sei - respondeu Justin.

- Pensei que talvez... - a voz infantil quebrou-se, mas Drew continuou a olhar para ele.

- Pensaste em quê, Drew?

- Quando te casaste com Sarah, pensei que talvez quisesses ser o meu pai. Mas como não quiseste...

- O que te fez pensar que não quis? - interrompeu-o Justin num tom mais brusco do que o intencionado.

- Nunca me disseste. Confiava que mo dissesses no Natal. Teria sido como Sarah diz que devem ser os presentes.

Uma parte de ti neles,. Recordou o que Drew tinha dito e compreendeu que, afinal de contas, não o tinha entendido.

- Mas não chegaste a dizê- lo - continuou Drew.

- E suponho que agora seja demasiado tarde - respondeu Justin em voz baixa.

Os olhos azuis, tão parecidos com os de Sarah, consideraram a pergunta: E depois nublaram-se de ansiedade.

- Tenho um pai, um pai de verdade - respondeu

num murmúrio.

Justin assentiu, reconhecendo a verdade que nenhum dos dois podia mudar, por muito tentador que pudesse parecer tentá-lo.

Lamento ter lutado com o teu pai, Drew. O que fizemos... o que fiz foi errado. Os cavalheiros não resolvem as suas disputas a lutar.

- Por que lhe bateste com a garrafa? - perguntou Drew. - Porque essa não é a maneira como um cavalheiro luta?

- Sim - reconheceu Justin. Não podia criticar Osborne diante de Drew, face ao que David pudesse fazer. Não podia mencionar que os cavalheiros não davam pontapés aos seus oponentes quando estavam no chão, nem os faziam tropeçar. Mas também não se desculpou pelo seu próprio comportamento. - Essa é uma das razões.

- Ele também não lutou de forma justa - afirmou Drew.

Talvez as semanas que tinha passado com o filho de Sarah não tivessem sido em vão, pensou Justin com alívio. Aparentemente, algumas daquelas lições tinham tido efeito.

- Como com os meninos da povoação - continuou Drew. - O meu pai não deveria ter-te feito lutar. Era... injusto.

- Por causa da minha perna - disse Justin num tom quase desprovido de emoção. Quase. Porque Drew tinha baixado os olhos, talvez envergonhado pelo que o seu pai tinha feito, e não disse nada.

Drew só estava a repetir as lições sobre o jogo justo que ele mesmo lhe tinha inculcado. E repetia-os com a compreensão pouco racional de um menino de quatro anos. E se Justin não a corrigisse, Osborne apareceria perante Drew tão culpado como ele mesmo se sentia. No entanto, Justin não podia permiti-lo.

- Nunca quis que isso supusesse uma diferença para ele declarou.

- Então não foi errado que te obrigasse a lutar?

- Os cavalheiros não resolvem os seus assuntos a lutar - repetiu Justin, - mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Os olhos azuis reflectiram perplexidade.

- Então.

- Não importa, Drew - terminou o conde em voz baixa. - Não vim para falar do que aconteceu ontem à noite.

O menino assentiu, sem afastar o olhar do rosto de Justin.

- No Natal errei - confessou-lhe. - Pensei compreender o que Sarah dizia sobre os presen tes, mas não foi assim. Dei-te algo meu, uma das minhas posses preferidas durante a minha infância. Pensei que era um presente de verdade, mas agora compreendo que o que realmente querias era o meu amor. Já to tinha dado, mas tinha-me esquecido de algo muito importante.

- O quê? - perguntou Drew, olhando para ele fixamente.

- Esqueci-me de te dizer que te amo muito. E às vezes, esse é o presente mais importante. Dizê-lo em voz alta. Mesmo que penses que a outra pessoa o entende.

Drew inspirou fundo e os seus ombros estreitos ergueram-se.

- E é verdade? - perguntou. - Amas-me?

- Mais do que poderás chegar a saber - confessou Justin. - Até ao dia que tu também tiveres um filho.

- Mas... eu não sou o teu filho verdadeiro.

- Talvez não - corroborou o conde, - mas eu gostaria de ser o teu pai verdadeiro - Drew assentiu com olhos muito abertos. - Porque te amo muito - acrescentou Justin. - E há muito tempo. E aconteça o que acontecer, quero que me prometas que vais sempre recordá-lo. Juras, Drew?

- Juro - disse o menino.

Justin sorriu e depois, virando-se, coxeou até à porta. Antes de sair parou e voltou a cabeça para o menino, que continuava a olhar para ele da sua cama.

- E Drew... - disse em voz baixa, sorrindo-Lhe outra vez. - Feliz Natal.

- A escritura de Wynfeld Park, que está sem impostos e livre de dívidas - disse Justin, enquanto deixava o papel sobre a mesa. - A escritura da minha casa de Londres - Justin mostrou outra folha. - O nosso acordo incluirá todo o seu conteúdo. No entanto, há umas quantas lembranças familiares assinaladas nesta lista... - colocou uma terceira folha sobre as restantes -... que não carecem de valor monetário mas que, com a sua permissão, eu gostaria de conservar, junto com os meus animais pessoais. Com excepção disso, é tudo seu. Tudo o que possuo. Segundo as condições expostas, claro está.

O conde de Wynfield levantou os olhos do maço de documentos e pousou-o aos olhos de David Osborne. Num olho, pelo menos. O outro estava tão inflamado que não podia abri-lo. Por alguma razão, Justin tinha gostado de ver a cara de Osborne, tão marcada pelo seu encontro da noite anterior, como a sua.

- E a única coisa que quer em troca é o documento que Sarah assinou na Irlanda? - perguntou David:

- E a sua declaração de que Drew não é seu filho.

- Drew é meu filho - afirmou Osborne.

- Se quer o rapaz. - Justin deixou a fras inacabada de propósito. Tinha-Lhe exposto muito claramente as alternativas que tinha.

Podia ficar com Drew e reclamar nos tribunais o direito do menino à fortuna do avô.

No entanto, embora ganhasse o reconhecimento de Drew como neto ilegítimo do marquês, certamente não conseguiria nada em troca. Brynmoor estava incapacitado para nomear Drew como seu herdeiro e Sarah, que ainda não tinha herdado e isso não aconteceria até que Brynmoor morresse,não tinha nada.

Ou,se assim o preferisse,Osborne podia ficár com todas as propriedades de Justin,que estavam,graças a Sarah,livres de dívidas e em melhor estado que quando o conde tinha tomado posse delas. Justin tinha concordado vender as duas propriedades imediatamente e dar o dinheiro a Osborne. A única coisa que tinha que fazer em troca era entregar o documento assinado por Sarah,do nascimento de Drew,e negar por escrito qualquer direito paterno sobre Andrew.

- Poderia viver como um rei na Irlanda - continuou Justin em voz baixa. - Ou,pelo menos, como um príncipe - acrescentou quando o olho aberto de Osborne se fixou nele.

Estava a considerar a proposta,compreendeu Justin com alívio. David começou a franzir os lábios,mas fez uma careta,sem dúvida sentindo a dor de uma nódoa negra ao longo do seu queixo.

- O que ganha com isto? - perguntou Osborne.

- Certamente, nada que você possa compreender - respondeu Justim.

- A minha compreensão é tão boa como o de qualquer outra pessoa.

-Aparentemente... sobre isto não.

- Faz isto para impedir que leve Drew?

- O senhor não quer Drew, nunca quis, portanto não deveria importar-se com os meus motivos. Eu não questionei os seus.

- Quando um homem faz algo que não entendo, sinto receio. É uma artimanha de Sarah?

- Sarah não tem nada a ver com a minha oferta. É algo entre mim e o senhor. Ou a aceita, ou não aceita.

- Que oferta?

Sarah estava de pé na porta do escritório onde Wynfield tinha decidido levar a cabo a reunião porque estava afastado do resto da casa. Aparentemente, não estava suficientemente afastado, pensou com desagrado.

Sarah atravessou a divisão e parou num extremo da secretária, onde Justin tinha desdobrado os seus documentos. Olhou para eles e compreendeu rapidamente o que eram.

- O que estás a fazer? - perguntou com assombro.

A Comprar Drew. As palavras formaram-se na mente de Justin porque eram a essência daquele acordo. Mas não podia pronunciá-las, porque não conhecia o seu oponente suficientemente

bem para saber que efeito lhe produziriam.

Só sabia o que Sarah lhe tinha dito, que Osbórne não queria Drew, que queria dinheiro. E isso era exactamente o que lhe estava a oferecer. Uma fortuna.

- Estou a tentar chegar a um acordo com o senhor Osborne.

- Que tipo de acordo? - perguntou Sarah. Voltou a baixar os olhos para os papéis, lendo rapidamente todos eles.

Justin esperou que terminasse e depois disse:

- Um acordo no qual renuncia a todos os seus direitos sobre Andrew. Agora e no futuro.

- Em troca disto? - perguntou em voz baixa. Tudo o que não tinha dito reflectiu-se nos seus olhos e Justin sorriu-lhe.

- Uma troca justa, diria eu.

- Justin - sussurrou Sarah, mas não era um protesto.

- Senhor Osborne? - disse Justin,desviando o seu olhar de Sarah para pousá-lo no rosto magoado que estava à sua frente.

Sem dizer uma palavra,Osborne pegou na pena que estava junto ao tinteiro e molhou a ponta. Escreveu o seu nome ao pé do acordo e empurrou a folha para Justin com a mão. Quase com o mesmo movimento,fez intenção de pegar nas escrituras. O conde pôs a mão sobre elas.

- O senhor Samuels acedeu levá-lo a si e aos documentos para Londres - declarou Justin. Finalizada a transacção, escoltá-lo-á ao seu navio e, nesse momento, entregar-lhe-á a quantia total.

David olhou para ele nos olhos, durante um longo momento. Depois assentiu e deu um passo atrás, afastando-se da secretária.

- Quando partimos?

- Quando estiver pronto. A não ser, claro está, que deseje despedir-se de Andrew - Justin tinha reflectido muito tempo sobre se devia ou não fazer aquela oferta, perguntando-se se não seria melhor que Osborne desaparecesse para sempre da vida de Andrew. Ou deveria conceder-lhes um momento juntos? Finalmente, tinha decidido deixá-lo nas mãos de Osborne.

- Não penso que seja necessário - respondeu Osborne, sem pesar no olhar, talvez até regozijado pelo sentimentalismo que tinha impulsionado aquela oferta. - Dado que já não é meu filho.

- O senhor Samuels está à sua espera no salão - informou-o Justin. - Pensei que seria melhor que não tomasse parte nas negociações.

- Então espero que não se incomode por desejar o bom dia, milorde. É uma viagem muito longa e, como pode imaginar, estou ansioso por partir - desviou o olhar do rosto de Justin e procurou o de Sarah. - Sempre pensei que eras uma mulher extraordinária - disse em voz baixa. Mas até hoje não tinha compreendido como eras extraordinária.

Por um momento, aquele encanto inegável voltava a aflorar, tanto nos olhos de Osborne como na sua voz, grave e melodiosa pelo seu sotaque irlandês.

- Acredito que se esqueceu de uma coisa - interrompeu Justin, controlando uns ciúmes claramente absurdos, tendo em conta o que tinha acontecido entre Sarah e ele na noite anterior.

- Ah, sim! - disse Osborne. Sorrindo, introduziu a mão no bolso e tirou uma folha de papel. Estendeu-a ao conde.

- Sarah - chamou Justin em voz baixa. Quando ela olhou para ele, apontou para o documento com a cabeça. - Importas-te de verificar se aquele é o papel que assinaste?

Sarah hesitou por um momento e depois fechou os dedos em torno da folha. Os dois homens observaram-na enquanto a abria.

- É sim. É a folha que assinei - declarou, olhando para o seu marido.

- E só havia uma folha? - perguntou.

- Só uma - corroborou em voz baixa.

- Então, podes atirá-la ao fogo – sugeriu Wynfield.

Sarah não lhe obedeceu. Olhou para ele enquanto se prolongava o silêncio entre eles, um silêncio que David Osborne quebrou por fim.

- E talvez te tenhas casado com um homem suficientemente extraordinário para ser digno de ti - continuou com suavidade. - Espero-o no salão, milorde - virou-se e saiu pèla porta do escritório, deixando outro silêncio, algo diferente, após a sua saída.

- Porquê? - perguntou Sarah quando o viu desaparecer, estendendo-Lhe o papel que David lhe tinha dado.

- Porquê não importa - respondeu Justin.

- Deste a tua herança por um menino... - a sua voz quebrou-se por um momento, mas controlou a emoção e continuou. - Por um menino que não pode significar nada para ti. Que não é teu filho, nem sequer meu. Sabes disso e no entanto... nem sequer queres saber quem é.

- Sei quem é - respondeu Justin. - É teu filho. E meu, Sarah. Seja qual for o segredo do seu nascimento, podes levá-lo para a sepultura se quiseres, porque eu não me importo.

Olhou para o seu marido durante um longo momento e, em seguida, aproximou-se do fogo e deixou cair nas chamas o documento pelo qual o seu marido tinha entregue a sua fortuna, o documento que teria limpo o seu nome do escândalo. Já tinha começado a enegrecer-se e a fumegar quando ouviram os primeiros gritos, longínquos e indistintos, até que duas palavras familiares ressoaram com clareza.

- Bastardo filho da mãe!

- Drew! - exclamou Sarah, e pôs-se a correr pela porta por onde David Osborne acabava de desaparecer.

- Sabia que o estavas a esconder! - acusou-a Brynmoor com olhos sombrios, cheios de astúcia feroz, olhando para ela fugazmente quando entrou a correr no salão.

Sarah passeou os olhos pela divisão, procurando Drew com frenesi. O senhor Samuels tinha-se encostado na parede junto à lareira, mas o marquês não se fixava nele. Toda a sua atenção estava posta na outra pessoa que havia na divisão, no homem que tinha manchado a honra da sua filha mais nova há mais de cinco anos.

A ponta da espada que empunhava tocava na garganta de Osborne e um pouco de sangue já tinha manchado o seu lenço branco de pescoço. David não se moveu. Só o seu olhar reagiu à entrada de Sarah, suplicando-lhe ajuda.

Ouviu Justin entrar no salão, poucos segundos depois, e ficou feliz por estar entre ele e o seu pai. Entre Justin e a ameaça da espada, que esgrimia como se não tivesse esquecido nada do que o seu professor de esgrima lhe tinha ensinado, quando era pequeno.

- Papá - chamou-o, lutando por controlar o tremor da sua voz. Acabava de compreender que David era o que tinha provocado os seus delírios no Natal. Osborne, que devia ter visto na propriedade, era o bastardo filho da mãe" que o seu pai tinha estado a procurar, e não Drew.

- Tenho-o aqui, Mellie. Não voltará a fazer-te mal, nem a ti nem a nenhuma outra mulher inocente - prometeu Brynmoor num tom triunfante. Aparentemente, a ofensa continuava a magoá-lo na sua loucura, já que não recordava nada mais, nem sequer o seu nome.

 

- Eu sou a Sarah, papá - disse em voz baixa.

- Aquele homem nunca me fez mal. Estás enganado, estás a cometer um terrível engano.

Deu um passo para ele. O chão rangeu sob o seu peso e Osborne abriu os olhos com horror. De repente, o fluxo de sangue cresceu, fluindo mais depressa.

- Não - ordenou-lhe Justin atrás de si. Sarah já tinha parado, consciente de que algo que pudesse desgostar o seu pai poderia causar a morte de David. Nunca tinha acreditado que Brynmoor fosse capaz de ferir alguém, nem sequer nos seus momentos de delírio, mas era evidente que se tinha enganado.

- Eu vou detê-lo, senhor - ofereceu-se Justin levantando a voz. Ressoava com a autoridade que tinha aprendido num campo de batalha longínquo, pensou Sarah. E aproximou-se com segurança, enquanto falava. - Terei que chamar o juiz, é claro. Vou prendê-lo na despensa até que chegue.

- Não te conheço - declarou Brynmoor, olhando alternativamente para Osborne e para o conde.

- Eu sou Wynfield - respondeu Justin. - Vim ajudá-lo - continuou com voz serena mas decidida. Brynmoor parecia confundido com a sua segurança. - Se me entregar a espada, senhor, eu mesmo o deterei.

Estava suficientemente perto para tocar no marquês e mesmo assim, por incrível que parecesse, Brynmoor continuava sem cravar a sua espada. Sarah queria fechar os olhos, apagar a imagem, mas não pôde. Por mais horrorizada que estivesse pelo que se estava a passar, sentia ainda mais pavor pelo que podia acontecer. Era possível que Brynmoor, ofuscado pela interferência, atacasse Justin com a espada.

- Entregue-me a espada - ordenou-lhe Justin.

- Tire-o de cima de mim - suplicou Osborne. Foi um engano. Fez com que o idoso voltasse a fixar-se nele e na sua ofensa.

- O filho da mãe sabe falar! - declarou Brynmoor com malícia. - Que palavras sussurraste à minha filha; chacal? O que lhe disseste para que abandonasse a casa do seu pai? – o rosto de Osborne estava desprovido de cor e a ponta da espada desaparecia no fluxo de sangue.

- Está morta, sabes? - sussurrou o idoso. - En terrei a tua rameira. Enterrei-a onde não a pudesses encontrar.

- Eu não...

Osborne foi apenas capaz de pronunciar aquelas duas palavras. O marquês flectiu o cotovelo, retirando a espada para a afundar de forma letal e definitiva e Justin equilibrou-se sobre ele com os braços estendidos.

Os dois caíram ao chão e a ponta da espada de Brynmoor deixou um rasto púrpura pelo pescoço de Osborne. Um arranhão, a julgar pela rapidez com que Osborne se afastou da parede e levou as mãos à garganta.

As maldições iradas de Brynmoor ressoaram por toda a divisão. Levado pela fúria, conseguiu desembaraçar-se de Justin e levantou-se com a agilidade de um homem muito mais jovem. Atacou o conde, que continuava no chão, fazendo um gesto com a espada que fez com que o coração de Sarah se paralisasse. Em seguida, com olhos de assassino e o rosto arroxeado de sangue, virou-se em busca da sua vítima original.

Osborne compreendeu com atraso que estav em perigo e tentou subir pelo sofá que impedia sua fuga. O marquês de Brynmoor dobrou o cotovelo, preparando-se para afundar a sua espada nas costas da sua vítima, mas antes que pudesse completar o movimento; Justin alcançou-o.

Agarrou no casaco do idoso, a única coisa que teve tempo de fazer, puxando-o para trás, impedindo que a arma acertasse no seu alvo. Brynmoor virou-se, empunhando a espada. Bateu ao conde no rosto com o punho e Justin cambaleou para trás e perdeu o equilíbrio. Com ambas as mãos na arma, o marquês levantou a espada por cima da sua cabeça, dispondo-se a cravá-la no homem indefeso que estava aos seus pés.

- Papá! - gritou Sarah, e a sua voz ressoou pelas paredes.

O grito paralisou o marquês. As suas mãos hesitaram no alto e olhou para ela nos olhos. De repente, as suas pupilas dilataram-se e começou a abrir e a fechar a boca espasmodicamente, como um peixe moribundo: A espada caiu das suas mãos sem força, cravando-se no grosso tapete oriental e Brynmoor levou as palmas das mãos às têmporas. Com os olhos fechados e o rosto distorcido pela agonia, o idoso caiu de joelhos e depois, como uma árvore abatida, desabou sobre o tapete.

 

Justin não soube com certeza quanto tempo tinha dormido quando abriu os olhos, mas a luz era ténue e as sombras prolongadas nos cantos do quarto. Voltou a cabeça para o lado,sobre a àlmofada e viu Sarah a ler,numa cadeira junto à cama. Não disse nada,limitou-se a contemplá-la durante algum tempo,pensando nos anos desperdiçados. E em todos os que,cheios de promessas,os aguardavam.

Finalmente,Sarah levantou a cabeça e,ao dar-se conta de que estava acordado,sorriu-lhe.

Ofereceu-lhe a mão e Justin pegou nela e levou-a aos lábios para lhe dar um beijo.

- Onde está Drew? - perguntou.

- A jantar,mas virá visitar-te antes de ir para a cama. Ele também está convencido de que vai perder-te.

- Também? - inquiriu Justin.

- David partiu esta tarde - explicou Sarah. A sua voz reflectia um sentimento que não compreendeu. Pesar? Porque Drew estava triste? No entanto, os dois tinham querido que Osborne se fosse embora. David tinha renunciado aos seus direitos sobre Drew e estava longe das suas vidas para sempre. Como Brynmoor, que também não era uma ameaça para ninguém.

- Lamento muito o que aconteceu ao teu paidisse-lhe.

- Talvez... talvez seja melhor assim. Talvez Drew tivesse direito a ter medo dele.

- Não penso que teria feito mal a Drew. Penso que, por alguma razão, durante todos estes anos nunca se esqueceu do que Osborne tinha feito a Amelia.

- Já sabes - sussurrou Sarah.

- Que Drew é filho de Mellie? - perguntou Justin. - Eu sei.

O idoso tinha falado o suficiente para deduzi-lo. Justin não compreendia toda a história, é claro, mas na sua mente não tinha duvidado sobre a parte essencial do mistério. Nem sobre os motivos que tinham impulsionado Sarah a guardar aquele segredo. Afinal de contas, sempre tinha protegido Amelia, pelo menos, depois da morte da sua mãe.

O silêncio prolongou-se entre eles, mas não era desconfortável. Parecia que, depois de uma viagem longa e arriscada, os dois estavam em paz. Juntos, por fim, e tudo o que os tinha separado tinha deixado de ter importância. O quarto estava quase às escuras quando Sarah voltou a falar.

- Tenho uma coisa para ti - interrompeu o silêncio.

- Para mim?

- Um presente de Natal fora de prazo, suponho. Não cheguei a dar-te nada.

Justin sorriu.

- Não esperava que o fizesses.

- Eu sei - sussurrou, - mas... Não são as pérolas da tua mãe, nada tão valioso, mas penso que vais gostar de o ter, de todas as formas - inclinou-se para acender o candeeiro da mesa e depois colocou um pacote que tinha no seu colo sobre a cama.

- O que é? - perguntou Justin.

Tocou no papel que embrulhava a caixa e depois abriu-a com dedos trémulos. Ao fazê-lo, compreendeu que era o documento que Osborne tinha assinado a renunciar a sua paternidade sobre Drew. Justin olhou para Sarah com os olhos intrigados.

- Olha para o resto - pediu-lhe.

Pôs de parte a primeira folha e abriu a segunda. Por um momento, o seu cérebro não compreendeu o que estava a ver.

- É a escritura de Wynfield Park - declarou, e olhou outra vez para Sarah.

- E a outra é a da casa de Londres.

- Não percebo - respondeu Justin, voltando a deslizar o olhar pelos papéis que representavam todo o seu património, túdo o que restava da sua família.

- David disse que era a única coisa nobre que tinha feito na sua vida. E não queria que tu deitasses tudo a perder. Se realmente querias renunciar à tua herança... - a sua voz quebrou-se e, ao olhar para ela, Justin compreendeu que tinha os olhos cheios de lágrimas. - Se realmente quisesses, podias dá-la a Drew.

- Porquê? - perguntou Justin, revendo mentalmente tudo o que pensava saber sobre David Osborne.

- Talvez pelo que fizeste hoje. Arriscaste a tua própria vida para salvar a sua, inclusive depois do que tinha feito. Talvez por fim compreendesse... - voltou a hesitar e, quando prosseguiu, foi para dizer algo diferente. - Disse que eras um homem extraordinário. E és. Muito melhor homem do que David pode alguma vez chegar a ser. Muito melhor pai para Drew. Talvez... talvez ele mesmo o tenha compreendido.

- Achas que se foi embora para sempre?

- Não tem motivos para voltar. Não pode reclamar nada, nem prejudicar-nos de alguma forma.

- E Drew?

- O seu pai foi para a Índia, que está muito, muito longe - disse, sorrindo para Justin, repetindo o que Lhe tinha dito o menino na estalagem. - E talvez algum dia, quando Drew for mais velho.

A porta abriu-se e os dois viram Drew.

- Posso entrár? - perguntou.

- Ficaria muito triste se não o fizesses - disse Justin. - Estava ansioso por te ver.

- E eu por te ver a ti - respondeu Drew, atravessando o quarto para ficar de pé junto à cadeira de Sarah. Observou com atenção o rosto de Justin e depois suspirou profundamente.

- Continuo aqui - declarou o conde em voz baixa, vendo claramente o alívio reflectido naqueles olhos azuis. - Não me amassam com facilidade.

Drew inclinou-se sobre a cama alta e apoiou os braços cruzados sobre o colchão, apoiando o queixo nos braços.

- Queres que te conte uma história? - perguntou.

Justin controlou a urgência de sorrir e olhou para Sarah por cima da pequena cabeça frisada.

- Eu adoraria.

- O meu pai contou-me algumas histórias sobre a Índia. Queres ouvir uma?

- Se quiseres.

Drew hesitou e depois exalou outro suspiro profundo.

- Penso que não voltarei a vê-lo durante algum tempo - disse em voz baixa. - Talvez só quando for mais velho.

- Talvez tenhas razão - concordou Justin. Afinal de contas, a Índia fica muito longe.

- Achas... - começou a dizer Drew e depois fez uma pausa para procurar Sarah com o olhar.

- Se for para presente de Natal, podes dizer a outra pessoa o que queres?

- Penso que sim. Se for algo muito importante - acrescentou.

- Ou algo que desejas muito? - sugeriu Drew. Quando Sarah lhe deu permissão com uma inclinação de cabeça, o pequeno desviou rapidamente o olhar para Justin e depois voltou a dirigi-lo para Sarah. - Chamaste o Brynmoor de papá - declarou.

- Era meu pai - explicou Sarah. - E quando a minha irmã e eu éramos pequenas, mais ou menos da tua idade, pensei que era o melhor pai do mundo.

- E amava-lo muito.

- Amava-o muito - disse Sarah.

- Porque era o teu pai verdadeiro? - perguntou Drew.

- Porque me amava - clarificou. - É a única coisa que importa, Drew. A única coisa que é realmente importante.

- Então... - o menino voltou o rosto para o homem que os estava a observar. - Então eu gos taria que fosses o meu pai. É o que mais desejo no mundo.

- E eu também - respondeu o conde Wynfield com suavidade. - Também é o meu maior desejo.

- E agora - disse Drew contente, aliviado por ter resolvido a questão. - Agora vou falar-te de tigres.

 

                                                                                Gayle Wilson  

 

                      

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